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  • SCRIPTORES RERVM LUSITANARVM (série a) HISTÓRIA DO Descobrimento & Conquista da Índia pelos Portugueses POR FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA LIVROS VII, VIII F. IX NOVA EDIÇÃO CONFORME A EDIÇÃO PRINCEPS REVISTA E ANOTADA POR P. M. LARANJO COELHO Da Academia das Ciências de Lisboa COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE ig33
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  • HISTÓRIA DO DESCOBRIMENTO & CONQUISTA DA INDIA PELOS PORTUGUESES
  • SCRIPTORES RERVM LUSITANARVM (série a) HISTORIA DO Descobrimento & Conquista da Índia pelos Portugueses POR FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA LIVROS VII, VIII E IX NOVA EDIÇÃO CONFORME A EDIÇÃO PR1NCEPS REVISTA E ANOTADA POR P. M. LARANJO COELHO 11» Academia das Ciências de Lisboa COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE ig33
  • COMPRA 238791 Desta edição tiraram-se 160 exemplares de papel de linho numerados c rubricados
  • PREÂMBULO Com a publicação dêste volume conclui-se a 3.1 edição, conforme a edição Princeps, da História do Descobrimento e Conquista da índia pelos Portugueses, por Fernão Lopes de Castanheda, uma das jnais beneméritas iniciativas da série de publicações com que, sôb o título de: — Scriptores Rerum Lusitanarvm — ,a administração da Imprensa da Universidade de Coimbra vem enriquecendo a bi¬ bliografia nacional. Iniciou a revisão desta obra Pedro de Azevedo que, na introdução do primeiro volume, coligiu um pecúlio de infor¬ mações e notícias recolhidas das várias fontes, quer impressas, quer manuscritas, onde se podem encontrar os poucos elementos conhe¬ cidos e até ao presente descobertos acêrca da vida, da família e da obra do famoso cronista da História do Descobrimento e Con¬ quista da índia pelos Portuguêses. Infeli\mente, a pouco mais de meio da sua tarefa, o labor de Pedro de Açevedo foi brusca e ines¬ peradamente interrompido pelo ataque que o prostrou fechando-lhe para sempre os olhos que, com tanto proveito da investigação histó¬ rica, por largos e fecundos anos se haviam demorado na atenta e paciente leitura dos velhos códices e amarelecidos pergaminhos do nosso primeiro arquivo. Mercê do benévolo convite do administrador daquela imprensa, o erudito professor sr. Dr. Joaquim de Carvalho, fomos, mais uma ve\, investidos na desvanecida honra de continuar o interrompido encargo que havia sido cometido a Pedro de A\evedo, encargo que finali\a agora com a grata satisfação de podermos pu¬ blicar, juntamente com os últimos livros da história de Castanheda que formam êste volume, alguns capítulos do manuscrito do livro IX,
  • VI Preâmbulo cuja existência, até há pouco, completamente se desconhecia. Ê, pois, o aparecimento e a inserção neste volume dos trinta e um ca¬ pítulos do ressuscitado e interessante manuscrito o motivo que jus¬ tifica e torna necessário êste pequeno preâmbulo. Sabia-se, seja-nos licito recordar aqui, que Fernão Lopes de Castanheda escrevera a sua história dividida em de\ livros, conforme èle próprio di{ no prólogo do livro primeiro: « acabey de compoer esta história, que reparti em de\ livros », declaração também con¬ firmada não sómente pelos conhecidos diferes do privilégio de D. João III de 14 de Junho de i55a: «me éuiou diçer que êle tinha feyto deç livros da história da índia», como também pelo que os filhos do cronista igualmente afirmam no prólogo do livro oitavo dirigido a el-rei D. Sebastião. Conhecidas são também as causas que motivaram as queixas levadas perante os monarcas, D. João III e a rainha sua mulher, por certos fidalgos que se julgaram atingidos e agravados pela se¬ vera imparcialidade e rude franqueia das apreciações do honesto e desinteressado cronista ao narrar, principalmente, alguns episódios do cêrco de Diu; estas causas explicativas da má vontade contra o cronista e que Teófilo Braga(1) filia em duas ordens de influências: « a inveja dos eruditos seus contemporâneos em virtude da impor¬ tância e grande êxito da sua obra e a recta imparcialidade dos seus juí{Os » já, aliás, haviam sido divulgadas pelos cronistas Diogo do Couto, na década IV, livro v e por uma nota autógrafa de Damião de Goes de que nos dá noticia D. Pedro Salvà y Mallem no vo¬ lume 2.0 do seu catálogo, páginas 614, na seguinte informação ali contida: « He descrito esta obra (de Castanheda) lan circunstanciadamente porque es raríssimo encontrar los ejemplares completos y en buen estado; el mio es magnifico, y adernas de tener dos firmas autógra- fas de Castaneda en el libro primero y en el quinto, lleua al fim del octavo la seguiente interesante nota manuscrita, original del celebre Damian de Goes; « Hos otros livros não saon acabados (1) História da Literatura Portuguesa — Renascença, pág. 6^5.
  • Preâmbulo VII d’imprimir porq não quer a Raynha nossa snora si Io fochem mandar se hã a V S 111. D. de Goes». Desconhecia-se, porém, até há pouco, o paradeiro dos últimos livros que Castanheda escrevera como complemento da sua obra, ou de parte deles, livros sôbre os quais os inimigos do consciencioso e probo cronista haviam feito desencadear a severa interdição da Rai¬ nha D. Catarina, rigorosamente mantida ainda mesmo depois da sua abdicação em 1S62. Era, pois, um motivo de interessada inter¬ rogação para todos os investigadores e biógrafos de Castanheda e conseqUentemente uma fonte de inexplicadas conjecturas 0 destino quefôra dado aos livros desaparecidos da História da índia, inte¬ resse aliás justificado pela importância da obra e pelo êxito consi¬ derável que ela despertou entre nacionais e estranjeiros, como o provam as inúmeras traduções que, em várias línguas, da famosa história se conhecem. Grande e justificado foi, por isso, o nosso alvoroço ao recebermos do rev. Padre G. Schurhammer, a quem a historiografia portuguesa já deve alguns valiosos estudos, a assegurada promessa de nos fa¬ cilitar, neste volume, a publicação do interessante manuscrito de Castanheda que se havia descoberto. Entretanto eram os seus trinta e um capítulos publicados pelo Padre C. Wessels. S. J., do Canisius-College, Nijmegen, na Ho¬ landa, JQ2Q, editados por Martinus Nijhoff, na Haia, Lange Voor- hout (1), opúsculo que aquele nosso erudito consócio se apressou a mandar-nos, juntamente com as provas fotográficas do valioso autó¬ grafo do cronista. Da noticia que acêrca do aparecimento do referido manuscrito nos fornece 0 breve prefácio que precede éste opús¬ culo chegamos ao conhecimento da maneira como puderam salvar-se da ruína êsses capítulos do livro IX da história de Castanheda, graças aos bons serviços, ao provado interesse e admiração do pa¬ dre italiano, Giovano Pietro Maffei, pela obra admirável reali\ada pelos portugueses nessas tão misteriosas e « desvayradas » terras (1) Een en Derlig Hoo/dstukken Vil Hei Verloren Gegane Livro IX Van Lopes de Castanheda’s « Historia do Descobrimento e Conquista da índia pelos Portugueses •>.
  • VIII Preâmbulo do remoto Oriente. Merece, pois, êste notável erudito, cuja memória tão ligada assim fica ao nome de Castanheda, que, nestas breves linhas, lhe avivemos alguns dos mais salientes traços da sua biogra¬ fia, o que já tivemos ensejo de fa\er noutro lugar (i). Natural da velha e pitoresca cidade alpina de Bergamo, oulrora pertencente à poderosa república de Vene\a, onde nascera no ano de i533, vão encontrá-lo os seus biógrafos aos trinta anos, i563, regendo com notável proficiência a cadeira de eloquência, em Gé¬ nova, elevando-o, pouco depois, o seu crescente prestigio às impor¬ tantes funções de secretário desta então florescente república. Em 26 de Agosto de i566 entra 0 Padre Maffei na Companhia de Jesus, em Roma, da qual foi um dos mais doutos e prestigiosos filiados do seu tempo. A obra que colocou a sua individualidade num lugar de saliente relevo na erudição do século XVI e a que lhe grangeou fama universal, ao ponto de ter tido diversas reimpressões e tradu¬ ções, apareceu em Dilligen, em com o titulo seguinte: « Rerum a Societate Iesu in Oriente gestarum ad annum usque á Deipara Virgine mdlviii, commentarius Emanuelis Acostae Lu- sitani Recognitus et latinitate donatus». Accessere de Iaponieis rebus Epistolarum Iibri mi, item recogniti, et in latinum ex His¬ pânico sermone conversi. Dilingue MDLXXI. A Portugal, onde a influência e 0 grande desenvolvimento dos estudos humanísticos da Itália se fizera já sentir por intermédio dos professores que D. João 111 convidara para a regência de algumas cadeiras na Universidade de Coimbra, chega também 0 eco da re¬ putação feita em volta do nome do insigne e afamado latinista. A convite do Cardial D. Henrique chega Maffei ao nosso país nos últimos dias de Outubro de iSjg com 0 encargo de escrever em latim a história do descobrimento e colonização das índias Orientais pelos portugueses, especialmente na parte respeitante à divulgação do catolicismo naquelas longínquas regiões. A morte, pouco depois, do Cardial rei D. Henrique não interrompe a missão de Maffei (1) História da Literatura Portuguesa Ilustrada, dirigida por Albino Forjaz de Sampaio, vol. ni. pág. 14.
  • Preâmbulo IX pois que o seu sucessor D. Filipe I não somente a confirma, em 3i de Janeiro de i58o, como também dá novos estímulos e incitamentos ao douto humanista para a continuar, autorizando, ao mesmo tempo, o Dr. António Pinheiro e o guarda-mór da Torre do Tombo, An¬ tónio de Castilho, a facilitarem tôdas as investigações necessárias ao bom resultado dessa incumbência nos arquivos do Estado. Com efeito, cm cumprimento da missão em que é investido, começa Maffei por investigar e coligir, primeiramente nos arquivos dos colégios da Companhia de Jesus, de Coimbra, Lisboa e Évora, os indispen¬ sáveis e necessários materiais para elaborar a obra em projecto, tarefa a que dedicadamente se entrega e na qual teve como auxiliar o seu compatriota Pedro Lombardo e os portugueses Gaspar Gon¬ çalves e João Rebelo. Tem èste ultimo a primafia sôbre todos os outros auxiliares e colaboradores de Maffei pois foi João Rebelo quem, durante o espaço de sete anos, proveitosamente o auxiliou na cópia da maior parte dos documentos dos nossos arquivos, no extracto de várias cartas e papéis que formam o valioso espólio li¬ terário que o insigne latinista legou à Companhia de Jesus, muitos dos quais têm para nós particular interêsse (i). Foi, pois, neste espólio, no recheio de tão curiosos e interessantes manuscritos legados por Maffei à Companhia em que havia profes¬ sado que puderam descobrir-se os trinta e um capítulos do livro nono da história da índia, de Castanheda, que nesta edição, com a devida vénia, se reproduzem. Em todos os passos dêsses capítulos, no desenrolar dos sucessos que ali se narram, no rigor com que se testemunha a sua acção e veracidade, enfim através de tôdas essas páginas que tivemos a boa fortuna de poder juntar a èste volume facilmente reconhecerá o lei¬ tor o espírito de Castanheda, a sua firme e bem temperada pena, (i) G. Schurhammer S. J. — Historical Research inlo the Life of Francis Xavier in the Sixleenth Century, in Revista de História, vol. ia.°, pág 192, artigo extraído e mais completo na edição original alemã publicada sôb o titulo seguinte: Xaverius forschung im 16. Jahrhundcrt, in Zeitschri/l fiir Missionstvissenschaft, MUnster 12 (1922), 129-165. B
  • X Preâmbulo 110 conjunto de predicados que merecidamente o enfileiram ao lado dos nossos melhores cronistas e historiadores, na galeria dos grandes e insignes portugueses que ilustraram o século XV1. P. M. LARANJO COELHO.
  • LIVRO SÉTIMO Tomo IV i
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  • PROLOGO yO SEYTIMO LIVRO DA HISTORIA DO DESCOBRI- mento & conquiíta da índia pelos Portuguefes dirigido ao muyto alto & muyto poderofo Rey dom Ioão ho Terceiro deite nome noffo Senhor, Rey de Portugal & dos Algarues, daquem & da¬ lém mar em África, fenhor de Guiné & da conquiíta, nauegação & comercio de Ethiopia, Arabia, Perfia & da índia. Por Fernão lope^ de CaJIanheda. SEntença he de Tulio nas fuas tufculanas, muyto alto & muyto pode¬ rofo Rey noffo fenhor q a horra cria as artes & defejofos da gloria da virtude, nos acendemos pera a ganhar. Senteça verdadeiramete muyto digna de fer notada principalmente dos príncipes & dos fenhores: porque fe eles não fauorecerem com horras & merces as boas coufas que feus vaffalos fazem, affi nas armas, como nas letras: como em qualquer outro genero de officios virtuofos com que a repubrica he iluítrada, não auerâ nhúa peffoa que fe de a eles, nem os figa. E porq nos tempos an¬ tigos, as façanhas nas armas, a fciencia das letras, os fingulares enge¬ nhos nas artes macanicas: fe eltimarão tanto dos principes & das repu- bricas em que fe fazião, & fe galardoauão muyto be: Ouue antre os Gregos, & antre os Romãos, & ãtre os Barbaros tantos & tão fingulares capitães: tão esforçados caualeyros, tão excelentes fabios & letrados de tanta erudição, & ofticiaes tão perfeytos em todas as artes macanicas, como largaméte contão as hiftorias antigas & modernas, com que deixo dalegar por breuidade. E defpois que efte fauor de hõrras & merces ceifou de fe fazer antreftas nações, aos que forão excelentes nas artes que digo fe forão elas perdendo, que nem ouue mais capitães, nem caua¬ leyros, & falecerão os fabios & letrados: nem ouue mais officiaes que nas artes macanicas fe prezaffem de terem as perfeições que os antigos teuerão. E conhecendo V. A. ifto Principe prudentiílimo, defejando den- nobrecer feus reynos & fenhorios, trabalha tanto com fua fuprema libe¬ ralidade de fazer merces aos homes que em todas as artes que digo fam
  • 4 Prologo fingulares, pelo que muytos trabalhão por ho ferem nelas: & por iíTo tem V. A. tanta copia deles, não fomente feus naturais mas eftrangeiros, que de muyto longe correm à fama de fuas merces grandiffimas. O que tam¬ bém me deu animo pera fair cõ a moftra de meu engenho, & trazer coele a luz: coufa de tanto feruiço de V. A. & honrra de feus reynos como he efta hiftoria do defcobriméto & conquifta da índia pelos Pojtuguefes. Coufa de tanta admiração & tão digna de fe pubricar, que quãdo a Ray- nha nolTa fenhora vio ho primeyro liuro, dilTe a dona Maria de noronha que lho deu. Que coufa tamanha como aquela, mais cedo fe ouuera de pubricar, & não ouuera deitar eicondida tanto tempo, & de fer auida por muyto miraculofa nos reynos eftrangeiros: he impreffa parte dela em Frãça & fe imprime em Italia: polo que mereço merce pois fuy ho pri¬ meyro Português que tomey tão honrrada emprefa, & lhe dey fim tanto a minha cufta como noífo ienhor Deos he teftemunha: que por fua infi¬ nita mifericordia tenha por bem de alongar por muytos ãnos a vida de V. A. com acrecentamento de feu real eftado pera que fauoreça com merces a feus vaffalos, com que os prouoque a fazerem coufas porque mereção fempre de ferem tão nomeados polo mundo como fam.
  • HO SEPTIMO LI U RO DA HISTORIA DO DESCOBRIMENTO & CONQUISTA DA INDIA PELOS PORTUGUESES: Em que fe conlé o que eles fizerão gouernandoa Lopo vaz de fam payo, por mãdado do muy alto & muyto poderofo rey dõ Ioão noffo fenhor, ho terceyro deite nome. Feyto per Fernâo lope^ de Cajianheda. GAPITOLO .1. De como foy aberta a terceyra Joceffam em que hia Lopo Va\ de fam Payo. ENterrado dom Anriq de menefes, ajútarãfe todos os capitães, fidal¬ gos, & peíloas principais na igreja de Cananor, com Afonfo mexia védor da fazenda, que hi acertou deitar: & ho licenciado Ioão de foíro ouuidor géral da índia, pera abriré a fegunda fubceflao da gouer- nança da índia, que logo Afonfo mexia abrio perante todos. Em que fe achou q focedia Pero mazcarenhas que eítaua por capitão de Malaca donde não podia vir fe não dali a onze mezes por amor da moução. Com o que todos ficarão cõfufos por a índia ter neceffidade de gouernador, affi por ei rey de Calicut eftar de guerra, & tambe el rey de Cãbaya: como por efperaré por rumes no Mayo 1'eguinte, ou em Setébro. E como Afõfo mexia praticafie cõ algús que enlegerião por gouernador em aufen- cia de Pero mazcarenhas: difTe Ioão de foyro q eítaua na pratica, que fe poderã faber quê era ho da terceira fubcelfam: q effe pois el rey con- confiaua dele a gouernãça da índia, a gouernaria melhor q outré, & a elfe deuião denleger q a gouernaffe em aufencia de Pero mazcarenhas. O q logo contrariou dõ Vafco deça reprouando muyto tal parecer: porq
  • 6 Hifloria da índia ho da terceira fubceífam na ora q fofle recebido por gouernador, pofto que ate a vinda de Pero mazcarenhas ficaua igoal coele ê todos os feus poderes, affi na juftiça, como na fazêda, do q fe na índia feguiria grade diuifam: por o que não fe deuia dabrir a terceira nem el rey ho auia dauer por bê. E tambê o que fofle nela defpois q teueííe pofle da gouer- naça, a não quereria alargar a Pero mazcarenhas & feria muyto grãde reuolta. E defte parecer forão algús fidalgos. E pore Afonfo mexia ho não quis tomar: dizendo que pera fe efcufarê todos aqueles inconueniê- tes juraria o q foffe na terceira fubceffam nos fanctos euãgelhos, & aíli aflinaria hú auto q diflo faria: que tanto que Pero mazcarenhas ehegafle á índia lhe alargaria a gouernança. E ele mefmo Afofo mexia, & todos os capitães & fidalgos da índia jurarião tambê que ho farião fazer, & coiffo ficaria a coufa fegura. O que a todos pareceo bem, & aíli ho jura¬ rão & aflinarão em hú auto q diffo fez Vicête pegado q era fecretairo, & aflinado ho auto, Afonfo mexia abrio a terceira fubcefão em que fe achou que fucedia Lopo vaz de fam Payo capitão de Cochim. E fabido que ele auia de gouernar ate a vinda de Pero mazcarenhas de Malaca, tornou Afonfo mexia a jurar que vindo. Pero mazcarenhas de Malaca faria que logo lhe Lopo vaz de fão Payo entregafle a gouernãça da índia, & ho mefmo tornarão a jurar os outros todos: & affi ho aflinarão em outro auto que Vicête pegado tornou a fazer deftes juramentos, aos tres dias de feuereiro de mil & quinhêtos & viite feis. Ifto feyto partirão fe todos pera Cochim onde Afonfo mexia entregou a gouernãça da índia a Lopo vaz de fão Payo pera q a gouernafe ate a vinda de Pero mazcarenhas de Malaca, jurãdo primeyro ele Lopo vaz de fão Payo de ho fazer affi, & affinãdo em hú auto q diflo fez Vicente pegado, q tambê foy aflinado per Afonfo mexia, & per todos os capitães & fidalgos q fe ali acharão & pelo ouuidor geral. CAPITOLO .II. De como Lopo va\ de fão Payo desbaratou hiia armada de mouros de Calicut no rio de Bacanor. ENtregue Lopo vaz de fão Payo da gouernança da índia defpachou pera Bêgala Ruy vaz pereira & deu a capitania do feu galeão a Manuel de brito & affi mãdou lorge cabral por capitão mór de cer¬ tos paraós as ilhas de Maldiua pera fazer prefas, que também fe partio logo. E eftes defpachados, fezfe Lopo vaz preftes pera ir correr a cofta do Malabar, porque foubefle el rey de Calicut que pofto que dõ Anrrique era falecido q auia quê lhe auia de dar que fazer, & partio fe de Cochim
  • Livro VII, Capitolo II 7 a feis dias de feuereiro & foy na galé baftarda de q era capitão dõ Vafco de lima & forão capitães das velas groflas a fora os dos catures & bar- gantls Diogo da filueira, dom Afonfo de menefes, Manuel de brito, Ma¬ nuel de macedo, Antonio da filua, Anrriq de macedo, Diogo de mezquita & Lopo de mezquita. E de Cochim foy ho gouernador corredo a cofta ate Cananor íê achar nenhú paraó de Calicut, porq os mais como diffe eftauão dentro no rio de Bacanor, & algús outros por effes rios q não oufauão de fair. E eftando Lopo vaz em Cananor tomando mantimétos, lhe foy dada húa carta de dom Iorge telo que acodiffe, porq os paraós q ali eftauão fe qrião partir, & ele com a géte q tinha não era poderofo pera lhes impidir a partida, por os mouros q eftauão neles feré doze mil, & vedo Lopo vaz a grofla géte que os mouros erão, mãdou logo chamar Chriftouão de foufa & Antonio da filueira q eftauão em Goa pera que fe ajuntaffem coele com a mais gente q podeífé leuar: por ele ter pouca pera hú feyto tão importante como aquele, & porque auia ainda de fazer algúa detéça por amor dos mãtimentos que tomaua, mandou a Manuel de brito que fe foffe étretanto ajútar com dom Iorge telo. E tomados os mantimentos, Lopo vaz de fam Payo fe partio pera ho rio de Bacanor: onde chegado foube como os mouros eftauã grãdemente fortalecidos, não fométe de muyta artelharia em eftancias ao longo do rio, mas cõ eftaca- das dum cabo & do outro cõ que eftreitarão tanto ho rio que a noffa frota não podia ir fe nã a fio: & de húas eftacadas ás outras eftauã dados ca¬ bos por debaixo dagoa pera que os noífos nauios écalhaífem neles & não podeffem paliar. E cõ tudo Lopo vaz determinou de pelejar com os mou¬ ros & queimarlhe os paraós & não efperar por Chriftouão de foufa nem por Antonio da filueira fe tardaffem: & pera pelejar côm as eftancias dos mouros mãdou armar quatro bateis de mãtas que tirauão fenhos tiros groflos pera irem diãte, & apos eles as outras velas. E vendo que não chegauão Chriftouão de foufa nem Antonio da filueira não quis mais efpe¬ rar, porque não pareceífe aos mouros que lhes auia medo: & determi- nãdo de os cometer fez alardo de fua gente, que achou ferem fetecentos & tantos homens. E chamãdo a confelho pera confultar cõ os capitães & outras peífoas ho modo de que cometeria os Imigos foy muyto contra¬ riado dos mais que não pelejafle com os mouros, alegando que pera a grande força de gente & dartelharia que eles tinhão tinha ele muyto pouca: & que não fe auia dauenturar ho gouernador da índia em coufa tã perigofa. E os mais dos que ifto dizião era por quererem mal a Lopo vaz & terem enueja de gouernar a índia, q cuydou cada hú deles de ho enlegerem pera a gouernar em aufécia de Pero mazcarenhas, & por ifto lhe eftoruauão que não fizefle hú feyto tão famofo como aquele feria porq 4
  • 8 Hijloria da índia perdeífe aquela horra. E entédedo ele fuas tenções por faber quanto lhes pefaua de ele gouernar a índia, difle que ficaííe a coufa afli indetermi¬ nada ate ir ver ho rio, & ho defembarcadoiro, q vio na madrugada feguinte cõ a claridade da lúa indo em hú catur, & em outros dous Ma¬ nuel de brito, & Payo rodriguez daraujo que efcolheo pera iffo por ferem muyto esforçados. E os mouros que virão os catures tirauãlhes com a artelharia das eílãcias: & erão os pelouros tantos q fe os catures não forão bé cofidos com terra não poderão efcapar de ferem arrombados & mortos quãtos yão dentro. E com tudo paliarão muyto grande perigo: mas né por iífo Lopo vaz de fam Payo nã deixou de ver toda a força que os mouros tinhão: & de volta lhes mãdou cortar os cabos que tinhão de húas eítacadas ás outras pera defempidir ho caminho, & forão corta¬ dos per homés que ho fizerão de mergulho. E feyto iíto tornoufe á frota, onde deu conta diífo aos capitães & fidalgos fazendolhe a vitoria muy facil fe cometelfem os immigos: & os mais forão do parecer que tinhão dãtes q não fe pelejaffe. E como os deíle parecer erão mais que os que dizião que pelejaffe não oufaua Lopo vaz de dar remate a efles confelhos, & dilatauaho ate a vida de Chriftouão de foufa & Dãtonio da filueira, cujos pareceres cria que ferião q pelejaffe, & afli ho diíferão defpois que chegarão: do que Lopo vaz ficou muyto contête porque tinha por muy certo auer vitoria dos immigos. E ordenada a maneira de q os auia de cometer, ao outro dia que forão vinte cinco de Feuereiro em rompendo ho dia abalou pelo rio acima com fua géte que ferião mil homés, & forão nefta ordem os quatro bateis de mantas na diãteira, & no primeyro ya Manuel de brito, no fegundo Payo rodriguez daraujo: & defpois os ba¬ teis com bargantls & catures a fio, & no derradeiro Lopo vaz com a bã- deira real, todos toldados & embandeirados, & fenhas peças dartelharia nas proas & berços polos bordos, rompendo a boga arrancada pelo rio acima cõ grande arroido de gritas & tãger de trombetas: & começando de defcobrir as eítancias dos immigos começarão eles de tirar com feus tiros, & chouião os pelouros de feré muyto bafios, pelo que os Portu- guefes forão cõ muyto grande perigo & trabalho ate chegarem defronte da tranqueira principal, õdc Manuel de brito, Payo rodrigvez & os outros da dianteira defembarcarão com efpãtofa briga, por os immigos traba¬ lharem quanto podião por lhes tolher a defembarcação cõ bombardadas, efplgardadas & frechadas. E rompendo os Portuguefes por antrelas com esforço fobre natural abalrroarão com a tranqueira, de que com ajuda de noffo fenhor fizerão fugir os Imigos poflo que fe defendião marauilhola- mente. Desbaratada a tranqueira, defembarcou Lopo vaz cõ a bandeira real pera recolher os Portuguefes por não faquearem ho lugar que era
  • Livro VII, Capitolo III 9 del rey de Narfinga amigo del Rey de Portugal, & por iffo não queria que lhe fizefTem nhú agrauo, & també porq ho ele não fizeffe aos Portu- guefes que eftauão em Bifnegar. E recolhidos os Portuguefes, mandou Lopo vaz queimar os paraós dos Imigos que todos arderão, & aíli húa cafa dalmazem que eftaua chea defpeciaria & droga pera carrega dos pa¬ raós : & em quanto fe queimaua forão embarcadas oytêta peças dartelha- ria que fe tomarão na trãqueira, & as mais delas de metal. E efta muyto grande vitoria alcãçou Lopo vaz fem lhe mataré mais que quatro Portu¬ guefes & forão feridos cento, & dos Imigos forão mortos muytos fegundo fe foube pelo grande prãto que por eles foy feyto ê Calicut: cujo rey fin- tio muyto a queima daqueles paraós pola grande perda que recebeo em fuas rendas & com quebra de feu eftado. CAPITOLO .III. De como Francifco de fá fe partio pera ir a çúda, & de como dom Iorge de menefes foy por capitão de Maluco. REcolhido Lopo vaz de iam Payo, partio fe pera Goa: & entrãdo pelo rio de Pangim, Francifco de fá que eftaua por capitão^de Goa lhe mandou per muytas vezes requerer que não paffaffe dali que ho nã auia de recolher na cidade, por quãto não era gouernador da índia fe não Pero mazcarenhas q era por el Rey que podia dar a gouernança da índia, & ele era feyto polos homés que a não podião dar, & por iffo lhe nã auia dobedecer. E a Camara de Goa ajudaua também Francifco de fá a fazer eftes requerimentos, mas Lopo vaz nã deu por eles & paífou auãte ate furgir diante do cais da cidade õde fe paffou hú grãde pedaço em requerimentos q Lopo vaz mandou fazer a Frãcifco de fá fobre lhe abrir as portas da cidade que eftauão fechadas. E Frãcifco de fá com lhe parecer que tinha por íi a camara da cidade infiftia e não abrir: & por derradeiro mãdou abrir as portas por amor de Chriftouão de foula que interueo niffo. E entrado Lopo vaz na cidade tirou a capitania da fortar leza a Frãcifco de fá & deu a Antonio da filueira de menefes que tinha cafado per palauras de futuro con» húa fua filha, & a Francifco de fá mandou ho pera Malaca pera dahi ir fazer húa fortaleza a çúda que he antre a ilha de çamatra, & a da Iaoa, cujo rey por fe recear doutro feu vezinho lhe tomar ho reyno mandara pedir ao gouernador dom Duarte que mandaffe lá fazer húa fortaleza: & q lhe daria muyta pimenta & mais barata que em CochI. E porque el Rey de Portugal fe receaua que os Caftelhanos foffem tomar aqla terra fabendo a muyta pimenta que auia Tono IV
  • 10 Hijloria da índia nela mandaua ali fazer fortaleza: a cuja capitania & cargo de a fazer deu a Frãcifco de faá por fer hú fidalgo de muyto feruiço. E fabendo Lopo vaz que ele tinha eíte cargo ho defpachou, & deulhe trezêtos homes q pera efte feyto erão neceííarios, q forão embarcados em hú galeão & duas galeotas: & afli defpachou pera capitão de Maluco a dõ Iorge de mene¬ ies filho de do Rodrigo de menefes a quem dom Anrrique de menefís fendo gouernador dera efta capitania, & deulhe cê homes que foliem coele em dous nauios: & a capitania mór do mar de Maluco deu a Simão de foufa gaiuão filho de Duarte galuão, & dõ lorge auia dir debaixo da capi¬ tania de Frãcifco de fá ate Malaca pera onde partirão em Março. E no mefmo mes defpachou também Lopo vaz a Martim afonfo de melo jufarte por capitão mór de feys velas pera ir fazer prefas ás ilhas de Maldiua, onde andando Martim afonfo topou com húa nao de rumes cj yão de Te- naçarim pera Iudá & leuauão muyta riqueza, & os rumes ferião trezen¬ tos homés. E Marti afonfo poílo que não leuaua mais que ate cincoenta, com quanto vio q os rumes erão muytos aferrou coeles com ho feu nauio fomente, & como os rumes lhe tinhão muyta auantagem no numero efteue dous dias aferrado coeles fem os poder entrar pelejãdo muy brauamente. E nelte tempo forão mortos muytos dos rumes & dos nolfos algús que entrarão a nao no cabo deftes dous dias, & acabarão de matar todos os rumes, & tomarão a nao q leuou a goa onde foy inuernar. CAPITOLO .1111. De como Lopo vaç de fam payo cócertou Raix xarafo cõ Diogo de melo capitã dor mui. ATras fica dito como dõ Anriq de menefes por qixumes delrey dor- muz & de Raix xarafo efcreuera a Diogo de melo q fe temperaffe em não dar caufa a q lhe fizeffem mais queixume dele. E parece q não dando Diogo de melo por eftas cartas ou por rezão pera iffo (como he mais de crer) prédeo Raix xarafo & tratauao tão afperamente, q deu matéria q em hús Porquês q algús praguentos fizerão na índia fizefé hú que dezia. Porq diogo de melo, xarafo dame dinheiro, Porq ele diz velo velo, não fejas meu carniceiro. E fabédo Lopo vaz efta coufa como ya: & també por lhe Diogo de melo mandar pedir q ho fofte fazer amigo cõ Raix xarafo antes de vir Pero mazcarenhas: determinou lopo vaz de ir lá, porq como conhecia pero mazcarenhas por ifento fabia q fedo gouer¬ nador q auia de caftigar rigurofamente a Diogo de melo fe ho achaffe cul¬ pado, & por fer feu parente determinou de lhe ir acodir. E poendo em
  • Livro VII, Capitolo V n confelho fua ida a Ormuz, foylhe muyto cõtrariada: dizédo todos, q ainda q fua ida lá fora neceffaria a ouuera de deixar por el rey de Calicut eftar de guerra, & por auer nouas de rumes: quanto mais não auendo nhúa neceffidade de ir a Ormuz, & auedo tãtas pera ficar na índia. E cÕ todas eftas rezões não quis fe não ir, & pera refiftir a armada de Calicut dei¬ xou por capitão mór da cofta do Malabar Antonio de Miranda dazeuedo cÕ toda a armada de remo. E na fim de Março fe partio pera Ormuz indo na galé baftarda cÕ domVafco de lima, & não leuou em fua com¬ panhia mais de quatro nauios grofios de q erão capitães dõ Afonfo de menefes, Diogo da filueira, Manuel de brito & Manuel de macedo. E na traueífa do golfão teue grandes calmarias com q fe deteue muyto & lhe morreo muyta géte, & defpois de muyto trabalho & fadiga foy aferrar a outra cofta no porto de Calayate, cujo Xeque eftaua leuantado contra os Portuguefes por mandado del rey Dormuz & de Raix xarafo polas aue- xações que recebião de Diogo de melo. E ho Xeq tornou a fer amigo dos Portuguefes por lhe Lopo vaz de fã Payo aftirmar q não ya a Or¬ muz fe não a defagrauar el rey Dormuz & a Raix xarafo fe eftauã agra- uados, & pera caftigar Diogo de melo fe ho merecelfe. E aífi como tor¬ nou efte Xeq a amizade dos Portuguefes, afli tornou ho de Mazcate: & Ido caminho Dormuz achou na agoada de teiue Francifco de mendoça hú dos capitães da cõferua Deitor da filueira, q com tépo fe apartara dele & foy ali ter, & hi achou hua nao de mouros q tornou q defpois foy ven¬ dida por mil pardaos. E dali profleguio pera Ormuz, onde chegado man¬ dou logo foltar Raix xarafo, & lhe difle q nã ya a outra coufa fe não pera ho fazer amigo com Diogo de melo: q fe tinha dele algús agrauos q requereffe fua juftiça & q lha faria ainda q era feu parente. E Raix xarafo como foube efte parentelco defconfiou de lhe Lopo vaz fazer juf¬ tiça, & dilfe q não queria nada q lhe perdoaua, & ho mefmo fez el rey Dormuz auifado por Raix xarafo, & afli ficarã amigos cõtra fua võtade. E Lopo vaz reprédeo Diogo de melo porq ho achou culpado, & afli ficou inuernando em Ormuz. CAPITOLO .V. De como Eytor da Jtlueira do porto de Maçua mandou chamar dom Ro¬ drigo de lima, & fe foy a Ormu\. EItor da filueira q per mãdado de dõ Anrrique de menefes ho fora efperar ao cabo de Goardafum vendo que fe paflaua ho tépo de fua chegada foyfe a Maçua, & chegãdo aa ilha de Dalaca ho primeyro Dabril, efcreueo logo a dõ Rodrigo de lima fazendolhe faber como eftaua
  • 12 Hiftoría da índia em Maçua pedindolhe que foffe logo coele, & mãdou efta carta ao çoltão Darquico q lha mandaffe. E ele lha mãdou ao lugar de Barua õde ja eftaua cõ ho Barnegais, & bé triíle cõ todos os de fua companhia por teré por noua q a Índia era perdida & os Portuguefes todos mortos. E efta carta Deytor da íilueira lhe foy dada na fegunda oytaua de Pafcoa a noyte: & logo dom Rodrigo efcreueo ao embaixador do prefte que era ido a hús lugares feus q fe partifle pera Maçuá ondeftaua a armada dos Portuguefes: & a fegúda feyra defpois da pafcoela fe partio dõ Rodrigo & foy coele ho Barnegais pera ho entregar a Eytor da íilueira, & leuaua dous mil homés de mulas & algús em caualos & feyfcétos de pé, & por amor da muyta gente gaftou aqla fomana toda é quinze legoas q auia de Barua a Maçua, õde chegados entregou ho Barnegais dõ Rodrigo de lima & os de fua companhia a Eytor da íilueira com grande prazer, & mãdou- lhes dar cincoéta vacas, & muytos carneiros, & galinhas, & muyto pef- cado: & defpois chegou ho embaixador q ho prefte mandaua a Portugal. E embarcado Eytor da íilueira fe partio aos vintoyto Dabril, & foy fazer agoada á ilha de Camarão ho primeyro de Mayo, & eftãdo hi ho padre Francifco aluarez q tinha aflinada a coua em q fora enterrado ho corpo de Duarte galuão quãdo ali faleceo vindo Lopo foarez de Iudá defenter- rou fua offada pera a leuar á índia, & ifto fecretaméte fem ho faber mais q Gafpar de fá feytor da armada, & ambos leuarão a offada ao galeão fam Lião em q yão, & tédoa metida acodio vento a popa cõ q fe Eytor da íilueira partio, & diífe Gafpar de fá a Francifco aluarez, q afíi como Duarte galuão fora bõ homem & acabara feus dias em feruiço de Deos, afíi lhes daua Deos bõ tépo por ele. E aos dez de Mayo q a armada era auãte Dadé & entrada no golfão q lhe fazia rofto ho inuerno da índia, fe começou húa muyto grãde tormêta de vento cõ que a fegúda noyte cõ ho grande efcuro q fazia fe efpalhou a frota & fe perderão hús dos outros cõ grandiflimo trabalho dos corpos é daré á bomba pera efgotaré a muyta agoa q lhes entraua, & perigo das vidas do mar q os comia. E coefte téporal foy forçado a Eytor da íilueira arribar á coíta da índia õde fe achou fó na enfeada de Cãbaya: & por ler ja inuerno & nã ter õde fe acolher tornou a arribar ao golfão cõ a mefma tormêta, andando fempre ás voltas q nã podia nauegar doutro modo, & nelas fe lhe gaftou todo ho Mayo & fete dias de Iunho, & porq os mantimétos q leuaua nã erão pera tanto tépo foranfelhe acabando, principalméte a agoa de q fe lhe foy a mayor parte cõ ho trabalhar do nauio na tormêta, & chegou a fer tão pouca q andou a géte tres dias fem comer nada por não terem q beber. E nefte tépo Eytor da íilueira por dar exéplo aos outros foy ho primeyro q deixou de beber, & algúa pouca dagoa que leuaua na fua camara a
  • Livro VII, Capitolo V i3 daua por fua mão aos doétes q auia algús q adoecião cÕ fome & fede, q ele esforçaua cõ muyto boas palauras: & porq nã fofpeitaífem q bibia na fua camara nunca quis entrar nela nefte tempo, & agafalhaualfe na tolda: o q daua muyto esforço a todos pera fofrer tamanha fadiga, a q aprouue a noíTo fenhor de dar remedio cõ auerem vifta de Mazcate a fete de Iu- nho hú dia a tarde, em q ateli né fãos né doentes não tinhão bibido por de todo não auer agoa no nauio. E andando ás voltas pera tomar porto q não podião tomar por lhes ho veto fer cotrairo acodirãlhe duas fuftas dos noffos q ali andauão darmada que derão agoa, & leuarão ho galeão á toa ao porto de Mazcate: & tomados ali mantimétos fe partio Eytor da filueira pera Ormuz õde eftauão os capitães de fua armada q chega¬ rão xxviii. de Mayo. E chegado Eytor da filueira a Ormuz, dom Rodrigo deu a Lopo vaz húa carta q leuaua do Prefte pera Diogo lopez de fiqueira, & húa roupa de feda cõ doze grãdes chapas douro de martelo, & ele lhe fez merce em nome del Rey de Portugal de duzétos pardaos, & també ao embaixador do Prefte doutros duzétos, & mandou logo tirar a mõte os nauios da armada Deytor da filueira por teré necefiidade de corregi- méto pola torméta paffada, & mandou pagar foldo a fua géte porq não tinha q gaftar por as prefas q não fizera no eftreito. E concertados os nauios, mandou na entrada Dagofto Eytor da filueira q foffe á põta de Diu efperar as naos q folfé do mar roxo pera Cãbaya, & mandou coele Manuel de brito & Manuel de macedo nos feus galeões, & cõ quatro ga¬ leões & duas carauelas fe partio pera a põta de Diu quafi na fim Dagofto, & ele & os capitães da fua armada tomarão hi por força tres naos de mouros de Meca q yão pera Diu em q fe fizerão tão boas prefas que def- pois de védida a fazéda q fe tomou nelas mõtoufe no quinto del Rey fefieta mil pardaos pagas as partes a fora os catiuos que forão muytos. E porq defpois da tomada deftas naos não paífarão mais outras, partiofe Eytor da filueira pera Chaul, õde achou Lopo vaz de fam Payo q auia pouco q chegara Dormuz q fez muyta hõrra a Eitor da filueira polas pre¬ fas & muytos catiuos q trazia de q as galés & nauios da armada fe po¬ dião bé fornecer. E foy acerto q hú foldado natural de Vifeu vio ãtreftes catiuos q eftauão prefos hú judeu velho q moraua no reyno de Fartaque por Õde paffãdo ele cõ outros portuguefes pera Ormuz, q fe perderão na cofta do mefmo reyno & yão muyto pobres: aqle judeu velho q eftaua prefo os agafalhou é fua cafa, & lhes deu cõ q fe veftiílé & defpefa pera ho caminho. E lembrado efte foldado defte bem q lhe fizera, pedio a Lopo vaz que lhe fizeífe merce dele, cõtandolhe a caufa porq lho pedia: & ele lha fez louuandolhe muyto a lébraça q tinha do bé que recebera. E defpois ho foldado ãdou coele pedindo aos outros foldados dizédo a
  • Hiftoria da índia 14 todos ho bem q lhe fizera, & ajútoulhe cTcoéta pardaos: & quãdo os mou¬ ros & outros judeus fouberã ifto dizião pubricaméte q outro bé não era agardecido fenão o q fe fazia aos Portuguefes, & por iffo lhes auião de fazer bé quãdo os achaffem é fuas terras. CAPITOLO .VI. De como temêdofe Meliq faca capitão de Diu del rey de Cãbaya deter¬ minou de dar fortaleza aos Portuguefes. HO quarto rey de Cãbaya q ouue nome çoltão madofar teue hú filho q foy ho primeyro a q chamou Badur, que fendo moço man- daua matar por lhe dizeré os feus feiticeiros q defpois de homé auia de dar muyta opprefla ao reyno & ho auia de deftruir por fer muyto mao. E fendo Badur auifado difto fugio & foyfe pelo mudo em trajos de jogue com q andou por diuerfos reynos & quafi q foube as lingoas de todos por fer muyto curiofo de laber as coufas eftrãgeiras & muy ége- nhofo, & indo ter á cidade de Chitor no reyno de Sãga (q como diffe confina cõ ho de Cãbaya) foube como feu pay era falecido, & afli hú feu filho q por feu faleciméto lhe fucedera no reyno, & q os fenhores de C㬠baya leuãtarão por rey outro feu irmão. E determinãdo dauer por efta via ho reyno q era feu de dereyto, defcobriofe á raynha CremetI (q eftaua viuua & gouernaua o reyno por ho príncipe fer ainda menino) pedídolhe ajuda & fauor pera cobrar feu eftado: o q ela deu de boa votade, & fez cÕ el rey do Mãdou feu vezinho fenhor muy poderofo q també lha deffe: & cõ efta grande ajuda cobrou ele ho reyno em q matou feu irmão é húa batalha defpois dalgúas q ouuerão ambos. E fédo çoltão Badur pacifico rey de Cãbaya começou de fe querer vlgar dalgús fenhores do reyno q feguirão cõtrele a parte de feu irmão, & ãtreftes foy Meliq faca filho de Meliquiaz, q era capitão de Dio, & receado ele q el rey lho tomaffe, de¬ terminou de fe fauorecer cõ os Portuguefes, & porq lhe parecia q não auia gouernador na índia por fer ainda é Ormuz efcreueo a Chriftouão de foufa q lhe mãdafle hú homé muyto hõrrado, que lhe queria dar cõta dú cafo de muyta importãcia, pera o que lhe era necefiario fauor do go¬ uernador & não quis efcreuer o q era por não fer delcuberto: & por Lopo vaz eftar é Chaul foylhe dada efta carta, & pola imizade q fabia q auia antre Meliq & el rey de Cambaya lhe pareceo q por neceftidade fe lhe queria encomédar, & ele quifera fer o q fora a verfe cõ Meliq, mas foy por todos cõtrariado em confelho, dizendo q não era bé que ho go¬ uernador da índia foífe a coufa incerta: & acordarão q fofle Eytor da
  • Livro VII, Capitolo VII i5 íilueira cõ a armada cõ q partira Dormuz, & ele foy cõtête & fe partio logo. CAPITOLO .VII. Do confelho q Hagamahmut deu a Meliq fobre defpejar Diu: & como lho tomou. CHegado Eytor da íilueira ao porto de Diu Meliq fe vio logo coele & lhe contou toda a Imizade q auia antrele & el Rey de Cam- baya de quê fe não auia de fiar pofto que r^cõciliaffem, porq não goardaua a ninguê lua palaura: & por ifto queria por fe vinga»* dar a for¬ taleza de Diu a el Rey de Portugal pera ter feu fauor & ajuda quãdo lhe foífe necelfaria, porem que auia de leuar toda a artelharia & munições que tinha em Diu pera Iaqte húa ilha nos Rezbutos Õde queria fazer fua morada por fe fegurar del rey de Cãbaya, & q lhe auião de dar ametade do q rendeffe a alfandega de Diu. E algúas vezes q Meliq fe vio com Eitor da filueira teue coele efta pratica fé auer mais effeyto, porq mou¬ ros núca acabão de fe determinar porq de feu natural fã defcofiados: & efte tinha algú receyo q defpois q teuefle Diu nã lhe dariã nada, & fazia- lho ter Hagamahmut aqle mouro feu parente de q faley atras que eítaua coele, a quê pefaua tanto de dar Diu aos noffos q defejaua de ho matar, & como não podia diffimulaua coele & dizialhe q fazia muyto bê de dar Diu aos Portuguefes por fe fegurar del rey de Cãbaya, porê q fegurança teria ele de lhe darê ametade do q rendeífe a alfandega de Diu defpois q ho teueífem, & q lhe parecia q eftando eles no porto de Diu não fe deuia de ir pera Iaquete: porq como os Portuguefes nã erão íeus amigos por natureza fe não por intereffe quê lhes tolheria q ao embarcar de fua peffoa, molheres & thefouro q era grande ho não tomaffem cõ tudo, pera q eftãdo em feu poder lhe alargaffe ho thefouro & o que lhes pedia da rêda de Diu. E como Meliq era defconfiado & andalfe tão cheo de medo fezlho muyto grande efta duuida de Hagamahmut q era feu parête & amigo, & de quê confiaua q fe doeria de fua vida & hõrra, & por iífo o que lhe diflê fez nele tamanha imprefla q fofpeitou que aquilo poderia afli fer, & começou de fe ãtreter em fua ida, & pregútou a Hagamahmut o q faria: & ele por lhe nã fair de todo da vontade q fabia q era dar Diu, diffelhe q afli ho deuia de fazer pera fe fegurar dePrey^de Cambaya. E pera fegurança dos Portuguefes q não fizeíTem o que receaua não fe deuia dembarcar coeles no porto: & deuia de dizer a Eytor da filueira que fe tornaífe a Chaul fingindo algúas caufas pera iflo, & defpois de partido fe embarcaria muyto a feu faluo & fe iria, & ele ficaria em Diu
  • Hijloria da índia 16 pera ho étregar a Eytor da filueira q logo mandaria chamar defpois de fua partida. E não fendo Meliq tão recatado como lhe era neceffario teue por muyto bÕ ho confelho de Hagamahmut q lho não daua a outro fim fe não pera que os Portuguefes não ouueífem Diu, que determinaua de partido Melique ho entregar a el rey de Cambaya pera fe congraçar coele: & começando a embarcação de Melique de fe dilatar, ya Haga¬ mahmut cõ recados a Eytor da filueira ao feu galeão dizendolhe da parte de Melique que fentia aluoroço nos moradores de Diu por verem a noífa frota no porto & começarem de fentir q lhe queria dar Diu, & que re- ceaua de fe leuantarem contrele, por i(fo q deuia tornarfe a Chaul pera com fua ida fe afleífegar a cidade, & aífeflegada tornaria. E parecendo a Eytor da filueira que aquilo era arrependerfe Melique mandoulhe dizer q do aluoroço da cidade lhe nã deffe nada, porque como a fortaleza eftaua da banda do mar podia embarcar fe húa noyte fecretaméte, & em íe embarcando fe meteria ele dentro na fortaleza, & como foífe nela lhe daria pouco polos aluoroços da cidade. Ao que Melique refpondeo por confelho de Hagamahmut que ele não fe auia dir de Diu fem leuar toda fua fazenda & artelharia o que não fe podia embarcar fe não por efpaço de dias, & em quanto fe embarcafle feria fua ida defcuberta o que ele não queria, por iífo lhe parecia que fe deuia de tornar a Chaul & ele embarcaria fua fazenda mais diffimuladaméte & fem fofpeita da géte q afieífegaria cÕ fua ida: & tédo tudo preftes ho mãdaria chamar, & aífi fe faria melhor & mais a faluo de todos. E defconfiãdo Eytor da filueira da verdade de Meliq por eíles recados, por faber a verdade da fofpeita q tinha de lhe não dar Diu, banqueteaua Hagamahmut & outros mouros que yão coele, & mandaualhes dar muyto vinho duuas pera que os em- bebedaífe, por lhe parecer que bêbados lhe dirião a determinação de Me¬ liq. E Hagamahmut como era prudéte étédiao & faziafe muyto bêbado: & porque fe Eytor da filueira foffe dizialhe que Meliq nã lhe auia de dar fortaleza em Diu, & q ho tinha ali pera alfentar bé fuas coufas cõ el rey de Cãbãya cõ quê ãdaua tratãdo amizade.
  • Livro VI, Capitolo VIII *7 CAPITOLO .VIII. De como Eytor da. filneira fe tornou a Chaul, & do mais q fe\ Lopo va\ de fã Papo. Eifto creo Eytor da filueira q feria aíli porq fegúdo ho feruor q vira é Melique pera defpejar Diu pareceolhe que ao outro dia ho def- pejaria, & vendo a dilação que punha, teue por certo que fe arre¬ pendia da primeyra determinaçã: & aíTi ho efcreueo a Lopo vaz pedindo- lhe que determinaffe o que faria, porque lhe parecia que fua eítada era fem proueito. Vifta por Lopo vaz efta carta, moftrouha em cõfelho em que lhe foy dito por algús que ninguém podia melhor determinar o que Eytor da filueira faria naquele negocio que ele mefmo pois lá eftaua & via o que palfaua, de q podia determinar o que feria melhor: porque de- terminarfe coeles que não tinhão experiencia do que la ya era fazer coufa ás efcuras: & que podião com fua determinação deitar de todo a perder aquele negocio de que a el rey de Portugal refultaua tanta honrra & tanto proueito, por iffo que Eytor da filueira ho determinafie & aífi ho fizeífe. Outros diíferão q pois ele era tão froxo que eltando la & vendo o que palfaua não fabia determinar o que faria, & ho mãdaua pregútar a quem ho não via, que não era bem deixar coufa de tanta importância em fua determinação, & que fe mãdaífe homem que ho loubeffe fazer. E como os pareceres erão differétes, & quafi tantos dúa parte como da ou¬ tra, lãçoufe Lopo vaz da que dizião que Eytor da filueira determinalfe o que lhe pareceífe, porq lhe pareceo que naquilo lhe fazia fauor porq de- fejaua de ho ter de fua mão, fem mais atentar quanto melhor fora mãdar outro porque não fizera o que fez Eytor da filueira, a quem efcreueo o que determinara no confelho. E como a coufa ficou em feu parecer, & ele efteueífe enfadado deitar ali vendo como Melique iníiftia que foffe a Chaul, & crendo que ho fazia por não comprir o que tinha prometido fe foy fem mais cofiderar, que alfi como podia fer que Melique mentia alfi também falaria verdade. E que ho medo que tinha del rey de Cam- baya lhe reprefentaria mil inconuenientes pera fazer hua coufa tamanha como deixar Diu & dalo aos Portuguefes. E partido foy ter a Chaul õde deu conta a Lopo vaz do que palfaua é Diu: & não atentando mais Lopo vaz naquele negocio não tornou a mandar logo Eytor da filueira a Diu ou outro com húa inftrução do que auia de fazer, ãtes ordenou de ho mandar ao éltreito a fazer prefas & que partiria dali, porque em quanto fe apercebelfe pera a partida fe Melique mandalfe recado pera dar a for- Toao IV 3
  • i8 Hijloria da Índia taleza acodiffe logo. E ifto fe aflentou em confelho, & porq as nouas da vinda dos rumes aa índia fe começauão dauiuar por certas, pareceo bem a Lopo vaz efcreuelas a el Rey de Portugal, & q as leuafle Francifco de mendoça no feu nauio, por quem lhe também efcreueo a abertura da fua fubceffam pola aufencia de Pero mazcarenhas, & como gouernaua a ín¬ dia: & porque podeffe vir gente na armada do anno feguinte defpachou logo Francifco de mendoça q partio na entrada Doutubro porque chegalfe a Portugal antes que a armada partiífe: & també defpachou pera Mo- çambiq a Nuno vaz de caftelo branco capitão & feytor do nauio do trato de Cãbaya pera çofala, a q mandou q deíTe auifo em Moçãbiq da vinda dos rumes porq fe hi foliem ter q efteueffé apercebidos. E eftas nouas dos rumes efcreueo lopo vaz a Goa & a todas as outras fortalezas, ro¬ gando aos calados q quifeflem feruir a el rey de Portugal em certas cou- fas que lhes nomeou q era neceffarias por amor da vinda dos rumes pera o q não auia dinheiro ao prefente. O que eles fizerão de muyto boa von¬ tade, & em Cochim começarão logo hú galeão & húa carauela, & húa gale: & de renouar a fortaleza que eftaua dãneficada: & em Cananor fe abrio húa caua muyto alta que cingiffe a fortaleza, & em Goa hú lanço de chapa no muro & hú galeão, & húa carauela, & húa gale, & em Chaul outra gale, & mandou també Lopo vaz Fernão de morais a Or- muz com poluora & outras coufas neceffarias pera defenfam da fortaleza. E feyto tudo ifto partiofe pera Dabul pera ho deftruir por eftar aleuan- tado, & pofto que eftaua affentado em cofelho q Eitor da filueira ficaífe é Chaul, & dali fe partiífe pera ho eftreito, porque fe Melique mandaffe recado lhe acodiffe: lopo vaz ho leuou cofigo com toda a armada pera ho mãdar de Goa, fendolhe requerido por todos os fidalgos que ho não leuafle porque fe não perdeífe Diu por ele ali não eftar fe Melique mã- dalfe recado pera ho entregar, & nã quis fe não leualo, & ifto a reque- riméto Deitor da filueira, porque ouue por afronta ficar em Chaul com Chriftouão de foufa que daua mefa a todos os fidalgos que ali inuerna- rão que erão muytos, & afli a outra muyta gente que todos folgauão def- tar em Chaul por Chriftouão de foufa fer muyto largo de codição & apra- ziuel. E porque Eitor da filueira não auia dandar tão acõpanhado como ele, por não poder fazer o que ele fazia não quis ficar em Chaul, & fez com Lopo vaz que ho leuafle a Goa: o q foy a final caufa de fe defta vez não auer Diu.
  • Livro VI, Capitolo X *9 CAPITOLO .IX. De como lio Tanadar de Dabul pedio pa\ a Lopo va\ de fam Payo. DE Chaul fe foy Lopo vaz de fam Payo a Dabul com determinaçã de o deftruir porque ho tanadar recolhia ali mouros de Meca, & confentia que carregaífem fuas naos, & trazia algúas fuftas dar- mada auédo paz ãtre el Rey de Portugal & ho Hidalcão. E entrando pola barra dentro cÕ a gente preftes pera defembarcar, fayo ho Tanadar a recebelo em húa almadia, porq não era aquele contra quem ya Lopo vaz, fe não outro q lhe fucedera no officio que defejaua de conferuar a paz q eftaua alfentada, & por ifto fayo a receber a Lopo vaz & defcul- poufelhe da culpa que teuera feu anteceflor pedindolhe q lhe confirmafie a paz que eftaua adernada com os noffos, & que faria quanto quifelfe. E ele lha cõfirmou com cõdição que lhe entregafle as fuftas com fua arte- lharia, que logo entregou, & húa nao de Meca que eftaua carregada de pimenta, & que não acolheria mais outras no feu porto. E ifto feyto par- tiofe Lopo vaz pera Goa. CAPITOLO .X. Do q acõteceo a Antonio galuão capitão de húa das naos da carga ate chegar á índia. NEste ãno de mil & cccccxxvi. partirão de Portugal pera a índia quatro naos fem capitão mór de que forão capitães Frãcifco da- nhaia, Trilião vaz da veiga, Antonio dabreu que leuaua a capita¬ nia mór do mar de Malaca, & Antonio galuão filho de Duarte galuão, que partio derradeiro de todos a dezafeys de Mayo: que nuca ateli par¬ tira nao tã tarde. E chegando á cofta de Guiné andou nela corenta dias hora na volta do mar hora na da terra fem poderem fair dali fora: por¬ que como aqui correm as agoas em demafia pera terra cÕ a enchente da maré por muyto que de noyte fe alargauão pera ho mar não podia fer tanto que quãdo amanhecia não fe achaífem pegados cõ terra, porque não podião romper a grande força dagoa. E como Antonio galuão enten- defle algúa coufa da pilotagem, dizia muytas vezes ao piloto q foliem na volta do mar pois tinha vento, que pofto q foffe efcaífo que quanto mais fe empegalfem lhes alargaria. E ho piloto não queria dando fuas rezões q Antonio galuão recebia cõtra fua võtade por lhe não pareceré boas,
  • 20 Hifloria da índia mas não lhe queria tomar feu ofíicio de mandar a via. E andado neíle trabalho foy ter coele hú nauio que ya da ilha de fam Thome pera Por¬ tugal, & fabendo que a nao ya pera a índia lhe diflerão dele que fe tor- naffem pera Portugal porque ja não tinhão tempo pera irem á índia aquele ãno por fer na fim de Iunho, & q eítauão ainda na paragem do cabo do monte: com o que a gente da nao ficou confufa & aluoroçada pera requerer ao capitão que fe tornaflem, afli por fer tarde, como por a nao pender muyto & fer temerofa de vela: porem Antonio* galuão os alfelfegou esforçando os que efperaua em noflo fenhor de paliar aquele anno a índia. E vendo ho piloto & meftre do nauio como querião proífe- guir fua viagem, diflerão ao piloto da nao que porque não fe alargaua da terra & fazia ho caminho pera ho cabo de fanto Agoftinho, porque aqla era a verdadeira nauegação, pelo que ele pedio perdão a Antonio galuão de não querer tomar feu cõfelho que então aprouou por bõ: & dali por diãte fe fez na volta do mar, & quis noífo fenhor que lhes alar¬ gou fempre ho vento & fizerão coele feu dereito caminho, & porem dando ás velas quando as outras amainão q affi era necefTario por fer muyto tarde. E porque a géte fe agaftaua com andarem tanto, Antonio galuão polos animar & tirar ho medo que tinhão mandaua fempre ter pão & vinho fobre cuberta pera que comedem & bebefiem, & a tambor & pan¬ deiros pera tangeré & cantarem: porque doutra maneira morrerão todos de pafmo. E como Antonio galuão vio ho erro q ho piloto fizera em não fe empegar da coda de Guiné nã defcanfou mais fobrele & tomou antre fi cuidado da via & de cartear: & era tão certo niffo que fazendofe ho piloto & outros cõ as ilhas de Trilião da cunha paliadas, fempre perfiou que nã & no proprio põto q difle q as auiã de ver as virão, do q ho pi¬ loto & os outros fe elpantarão muyto. E nauegando com muyto trabalho fe poferão é altura de trinta & noue graos, & dali começarã a deminuir & por fe fazeré com ho cabo dobrado no mes de fetébro em q ouuerão deitar na índia, pareceo ao piloto que ja aquele ãno não poderião ir a ela, ainda q Antonio galuão qria ir por fora, do que fe ho piloto agaftaua tanto, q diífe á gente que os qria leuar a perder, porque os vetos auião ja de fer leuantes, & as agoas corrião muyto naquele tempo pera ho eftreito de Meca, onde os auião de lançar como ja lançarão outras naos, & efte auia de fer ho derradeiro remedio quãdo os deos quifeffe faluar milagrofaméte: mas que ho mais certo era q antre moução & moução que era ho mes doutubro & de fetébro auião dachar tãta calmaria naquele golfão q auiã de morrer de fome & de fede, & ifto quãdo efcapaffé dos muytos baixos & ilhas & raftinguas q auia nele. E coeftas rezoes & com outras prouocou quafi todos a que fizeílem por força ir Antonio galuão
  • Livro VII, Capitolo X 21 por détro quãdo não quifefle por fua võtade, & primeyro ho piloto é nome de todos lhe fez húa fala em que lhe daua todas as rezões que digo & outras muytas pera não ir por fora fe não por dentro, & inuernar em Moçãbiq. Ao q Antonio galuão refpondeo que não auia dir fe não por fora, & q efperaua em noflò fnor de pafTar aquele ãno á índia, rogãdo muyto a todos que lhes parecefle bem ho q dizia, & infiftindo nifto cha¬ mou ho piloto ao meftre, q auia nome Efteuão dias pera q ho ajudaffe contra o capitão poys todos erão da lua parte, ao que ele refpõdeo que nuca deos quifefle q folie cõtra tal peffoa, quãto mais fendo feu capitão, a que era obrigado dobedecer, & coifto ficou a coufa afli. E cõ tudo tendo o piloto os mais da fua parte determinou de leuar a nao a Moçãbique mandando gouernar pera lá, ho q fabédo Antonio galuão mandou logo gouernar pera onde queria, pelo que ho piloto lhe emcãpou a nao, & fez fazer hú auto de como lhe o capitão tomaua ho feu officio & qria meter a nao no fundo reqrédolhe da parte delrey q lhe deixafle fazer feu cami¬ nho & como Antonio galuão vifle q ho melhor era ir por fora não quis fe não fazer ho que lhe parecia bem: & difle q ele mãdaria a via: & porq lhe não mudafle a derrota tinha de noite & de dia húa agulha na fua carnara em q via pera onde gouernauão, & encomédáuafe a noflo fnor mandando dizer mifla todos os dias, & á noite a Saluè & as ladaynhas & rogaua a noflo fnor q lhe valefie. E era tam deuoto, q quebrãdolhe ho garoupez cõ húa toruoada nã quis q fe concertaffe ao outro dia por fer dia fando, né ao outro q era domlgo, cõ quãto o meftre fe queixaua q perdião viagé fem a ceuadeira, & todauia não quis Antonio galuão q fe corregefle ho garoupez por fere os dias q erão, ho que parece que foy permiflão diuina porq fe andarão naqles dous dias tato quãto o meftre quifera ouuerão dir varar por cima dos baixos dos abrolhos que eftão em dezafete graos da bãda do norte, & fedo perto da linha começoulhe da- doecer algúa gente q ele fez curar cõ tanta diligencia q lhe nã morreo nlgué, ho q foy muyto defpantar, porq ali morre fépre muytos. E defpois q ho piloto vio quã bõ confelho fora ho Dantonio galuão em ir por fora, & q efperaua de fer muy cedo cõ a cofta da índia pediolhe perdão dos reqrimétos q lhe fizera, louuãdoho do melhor piloto do mundo: & indo ja perto da cofta da índia acharâofe antre as ilhas de Maldiua, & como fã todas rafas com a agoa & né ho piloto né nenhú dos que yão na nao forão ali núca ficarão muyto agaftados: & mais porque vião hús baixos por proa q arrebétauão em frol, ho q vifto por Antonio galuão fe fobio a gauea com ho meftre, (porq ho piloto defacoroçoou) pera defcobrir de lá a terra & por onde auião dir, & afli chegou aos baixos q conheceo que erão de pedra viua, pelo q lhe pareceo que ao lõgo deles auia de fer
  • 22 Hifioria da Índia alcantilado, & mandou fazer caminho ao derredor deles, & em fe poendo ho foi mãdou tirar algús tiros pera q acodiffe géte de terra fe a ouueífe, de q foubelfe Õde era. E logo fayo de húa ilha húa almadia bé efquipada em q ya hú velho com quinze ou vinte homés que chegado abordo da nao entrou dentro, & dele foube Antonio galuão q era fiíor daqla ilha q auia nome Gãfar húa das de Maldiua & que ya bem nauegado: & foy coele ate.ho outro dia em amanhecédo que fayo dantre as ilhas, & pofto q ho meftre & piloto cõfelhauã a Antonio galuão q não deixafe ir os das ilhas ate ho poerem na cofta da índia não quis dizédo q afora não fazer ho q deuia ficaria a géte tam efcandalizada que ainda q viífem outra nao nã lhe acoderiã & a deixarião dar á cofta, & galardoãdolhes a boa obra q lhe fizerão os deixou ir, & partidos daqui hú domígo na fim doutubro é amanhecédo ouuerão vifta de doze velas & arribãdo a elas virão terra & ao longo dela húa grãde armada q com ho terrenho fe fazia na volta do mar, & das doze velas q parecerão primeiro, & nelte tempo foy conhecida a terra q erão as ferras de Calicut: & a armada era de Ma- labares, & as doze velas cuidauão ferem de rumes que era a própria moução pera virem, & os nofios eftauão ja preftes pera pelejar que em amanhecendo fe apercebeo Antonio galuão, & niílo húa das doze velas chegou á nao, & conhecédo que era dos nolfos faluouos com húa grande grita, & entrarão algús na nao que difiérão a Antonio galuão como eftaua defronte de Calicut que eftaua de guerra & de lá era a armada que vião, & que ho tempo os lançara ali vindo pera Cochim das ilhas de Maldiua com fazenda pera a feitoria, pedindolhe que os leuafle em fua conferua porque não tinhão artelharia, & ele ho fez afli & a armada de Calicut não oufou de os cometer, cuvdando que todos erão darmada & forãole meter no porto, & Antonio galuão furgio defronte por lhe fer ho vento contrairo pera Cochim, pera onde queria ir, não temendo ho perigo que era eftar tão perto dos immigos, & ali pedirão muyto todos os da nao a Antonio galuão que pois ho vento era a popa pera Cananor & pera Goa que foliem lá & que farião muyto proueito em véder hi fuas mercadorias, porq védendoas em Cochim como era ho derradeiro porto auião de fazer barato delas. E efcufandofe Antonio galuão defta ida por recear que não tornafle a Portugal no ãno feguinte por quão tarde era, lhe difiérão que iflo querião eles, porque como a nao era grande & não tinha na índia Õde inuernar irião a Ormuz em que farião muyto proueito dobrãdo fua fazéda, & quando tornaflem feria mais cedo & poderião empregar de va¬ gar: & como ifto era perda del rey não quis Antonio galuão q fe fizefle, & acodindolhe tempo foyfe a Cochim onde achou as outras naos que aquele anno partirão de Portugal.
  • Livro VII, Capitolo XI 23 CAPITOLO .XI. De como el rey de Portugal mandou que Logo va\ de fam Payo fojje guernador. E chegados a Cochim Francifco danhaya & Triftão vaz da veiga q erão capitães de duas naos derão a Afofo mexia vedor da fazéda duas vias de cartas q lhe leuauão del Rey de Portugal, & neftas achou ele dous maços de fubceífôes da gouernança da índia por faleci- méto de dom Anrrique de menefes. E pera faber como aquilo era leo húa de duas cartas que lhe el Rey efcreuia que dizia. «Afonfo mexia, eu el Rey vos enuio muyto faudar. Per duas vias vos enuio nefta armada que noffo fenhor leue a faluaméto dous facos de cartas & defpachos das coufas deffas partes que ouue por meu feruiço q agora foffem, & leua hú dos facos Triftão vaz daueiga & outro Francifco danhaya: tomay as cartas que vão pera vos & as do capitão mór lhe day & affi todas as outras ás peffoas a que vão, & não fique nhúa que não feja dada, & aquelas que efteueré fora donde vos efteuerdes mandaylhas dar & vão a todo bõ recado. E nefta armada me enuiay hú rol de como forão dadas aquelas que deites ás peffoas onde vos eftais, & ho modo que teueftes em enuiar as outras q vão pera as peíloas que efteueré fora, & tomay difto bõ cuydado, porq ho ey por muyto meu feruiço feré da¬ das todas as ditas cartas: as prouifões q vão das fubceffões da capitania mór, téde naqla boa goarda & fegredo q cumpre a meu feruiço como de vos confio. Scripta em Almeirim a vinte dias de Março Pero dalcaçoua carneyro a fez de mil & quinhetos & vinte feys: &’ das outras prouifões q ja la tédes não fe ha dufar, & as tereis é boa goarda & mas trareis quando é bora vierdes, el rey.» A outra carta era do teor deita, fe não q não tinha eita partícula derradeira. E viftas pelo védor da fazenda, pegoufe a eita partícula derradeira que das prouifões das fubcefões q eitauã na índia nã fe auia dufar: & por iffo determinou dabrir eitas q yão de nouo, & dizédo q era húa coufa que cumpria muyto ao feruiço del Rey, fez ajútar na fé de Cochim dom Vafco deça capitão da fortaleza, ho licenceado Ioão do foiro ouuidor geral da índia, Ioã rabelo feytor de Cochim, Duarte teixeira tefourevro das mercadorias, com outros officiaes da fazeda & da juitiça, & afli os capitães da armada de Portugal & ou¬ tros fidalgos & caualeyros da índia. E juntos todos lhes leo aquelas duas cartas que lhe el Rey efcriuia: & defpois lhes diffe que é húa delas pa¬ recia bem claramete não querer el Rey que fe vfaife das fubceffões que
  • 24 HiJIoria da Índia eítauão na índia fe não daquelas que ali mandaua, & que derogaua as que erão abertas, pelo que queria abrir as outras, & ver quem el Rey mandaua que folie gouernador pera ho auerê por effe. Ao que dom Vafco deça, diffe que por dizer na fua carta que das prouiíoes que eítauão na índia não fe vfara, não fe entendia que fe vfaffe das q yão polto que as da índia foflem abertas: porque fe el Rey aquilo quifera que afli ho de¬ clarara, & que efcreuera parecendolhe que as fubceflões que eítauão na índia não erão abertas, mas fendo ho como auia de mandar que fe não vlaífe delas & ficar em tamanha obrigação como ficaua aos q daua a go- uernãça da índia & lha tiraua fem nhúa caufa pelo que mãdaua ter em muyto grande fegredo as fubceflões, & pois el Rey não mandaua, que pofto que foflem abertas as q eítauão na índia, que 1'e abriflem as q m㬠daua de nouo que lhe requeria da parte del Rey que as não abrifle, & não deffe caufa a auer divifões na índia, que eítaua claro auer antre Pero mazcarenhas cuja era a gouernança de dereyto: & aquele que fe achaffe na noua fubceflam cuja a gouernança não era, pois el Rey não mãdaua que lha deffem: & fe ele queria feruir fua alteza, que lhe tornafle a man¬ dar a noua fubceflam cõ declaração do porque a nã abrira. E deite pa¬ recer de dõ Vafco forão muytos, & outros com ho védor da fazenda que fe abriífe a noua fubceífam. E ele diffe a dom Vafco & aos outros que de ler mal ou bem abrirfe a noua fubceífam, que ele daria conta de como ho fizera, & q a auia dabrir: & afli ho fez contra vontade da mayor parte dos q ali eítauão. GAPITOLO .XII. De como lopo va\ de fam payo foy declarado por gouernador. ABerta a noua fubceflão Fernão nunez efcriuão da fazenda a leo em alta voz, dizendo «Eu el Rey faço faber a todos os meus capitães & alcaydes mores das minhas fortalezas da índia, capitães das naos, nauios das ar¬ madas que nas ditas partes ãdão, feytores & elcriuães de minhas feyto- rias, capitães de naos, nauios q vão pera vir cõ a carrega pera eftes rey- nos, fidalgos, caualeyros, & géte darmas q nas ditas partes andarê & a todas quaes quer óutras peffoas & officiaes da juítiça & fazéda a q elte meu aluara for moítrado, q pela muyta confiança que tenho de Lopo vaz de lam payo fidalgo de minha cala, que nas coufas de q ho encarregar me fabera bé feruir: me apraz que fendo calo que faleça do Anrrique de menefes, q ora he meu capitã mór & gouernador das ditas partes da ín¬ dia q nolfo Senhor não mãde, lubceda & entre na dita crpitania mór &
  • Livro VII, Capitolo XII 25 & gouernança, ho dito Lopo vaz pera nela me feruir, cõ aquele poder, jurdição & alçada que tinha dada ao dito dom Anrrique de menefes, & me apraz que aja em cada hú ãno em quanto me feruir na dita capitania mór & gouernança, dez mil cruzados .f. cinco mil em dinheiro, & os ou¬ tros cinco mil em pimeta comprada do feu dinheiro ao partido do meyo, tomado & nomeando feu rifco nas naos & nauios q nomear que vieré para eftes reynos, fegundo ordenãça dos partidos do meyo. E entrado afli ho dito Lopo vaz na dita capitania mór & gouernança da índia, en¬ trará na capitania mór do mar que ele tem, Antonio de miranda daze- uedo, com ho ordenado que coela tinha ho dito Lopo vaz de fam payo, & no cargo que ele ao tal tempo teuer, prouerá ho dito capitão mór ate eu prouer: & não eftãdo na índia ho dito Lopo vaz ao tempo do faleci¬ mento do dito dom Anrrique, por fer vindo pera eftes reynos ou fendo falecido, ou falecedo defpois détrar & fuceder na dita capitania mór & gouernança, é qualquer deftes cafos entrara por capitão mór & gouerna- dor Pero mazcarenhas que eftá por capitão de Malaca: & auera ho dito Pero mazcarenhas, os ditos dez mil cruzados, de feu ordenado de capi¬ tão mór & gouernador, daquela maneyra que os ordeno ao dito Lopo vaz, & etrará Pero de faria na capitania de Malaca, õde o dito Pero mazcarenhas eftá & auerá ho ordenado da capitania de Malaca. E eftãdo ele por capitão é Goa prouera ho dito meu capitão mór na dita capita¬ nia, a peíiba que lhe parecer que pertence mais a meu feruiço ate eu prouer, & auerá ho ordenado da dita capitania. E porem volo notefico afli, & vos mando a todos em geral & a cada hú em efpicial, que vindo ho dito cafo fe cumpra, & goarde inteyramente efte meu aluara como nele he conteúdo, & a qualqr dos fobreditos que entrar na dita gouer- nãça obedeçaeis, & cumpraes feus requerimentos & mandados, afli como ho fazies ao dito dom Anrriq, & como fois obrigados de fazer ao dito meu capitão mór & gouernador, & em todo ho deixai vfar, do poder, jur- deção, & alçada, que ao dito dom Anrrique tinha dada por minha carta, fem duuida nem embargo algú que a elo ponhaeis, & mando ao meu ve¬ dor da fazenda que em cada hú anno em quanto me fervir na dita capi¬ tania mór & gouernança, lhe mande pagar os ditos dez mil cruzados na maneyra fobre dita. Feyto em Almeirim, á quatro dias Dabril, lorge Ro- driguez ho fez, de mil & quinhentos & vinte feys. E eftes dez mil cruza¬ dos que ordeno que ajão os fobreditos por anno, fera naquele proprio modo, forma & maneyra q os tenho dados ao dito dõ Anrrique, & ho ordenado de Antonio de miranda dazeuedo entrando na capitania mór do mar ferão dous mil cruzados por anno .f. mil em dinheiro & mil em pimenta no modo fobredito de como a ha dauer ho dito dom Anrrique, Tono tv *
  • 2Ô Hijloria da índia poíto que diga q ha dauer ho ordenado de Lopo vaz. EI rey. Lido efte aluara, foy feyto hú auto por Fernão nunez efcriuão da fazêda da aber¬ tura daquela fubceffam, q foy affinado pelos mais dos que ali eftauão, porem a mais da gête afli altos como baixos eftranhauão muyto abrirfe aqla obcefTam, & dizião q ho vedor da fazêda fizera húa coufa muyto errada & roubaua fua hõrra a Pero mazcarenhas que por dereyto era verdadeyro gouernador, & que Lopo vaz de fam Payo não faria bem da- ceitar a gouernança que não era fua: & que vindo Pero mazcarenhas efperauão que ouueffe na índia grande reuolta por ter nela muyto mais valia q Lopo vaz de fam Payo. E bê parece que adiuinhando el Rey de Portugal eftas reuoltas q fe poderião feguir, como foube per Krãcifco de mendoça que dõ Anrrique de menefes era falecido & lhe fubcedera Pero mazcarenhas por cuja aufencia Lopo vaz de fam Payo gouernaua a índia, por atalhar ás diuifões que poderia auer mãdou logo Pedreanes frãces em hú nauio cõ recado q auia Pero mazcarenhas por verdadeyro gouer¬ nador : & efte fe perdeo na ilha de fam Lourenço & não ouue effeyto o que el rey quifera. E declarado Lopo vaz de fam Payo por gouernador, & auêdo ho védor da fazêda por effe, defpachou logo dom Anrrique deça que lhe leualfe a Goa (onde lhe pareceo q ho achaffe) a fubceífam, & por ele efcreueo húa carta á camara de Goa em que lhefcreueo o que fizera pera q foubeffe q Lopo vaz de fam Payo era gouernador & o teueffe por effe: & fabendo hú Thome pirez capitão dú catur efta noua, partio logo de Goa ê bufca de Lopo vaz pera lhe dar efta noua & ganhar as aluifaras & achou ho em Dabul de caminho pera Goa. E fabida a noua pola armada, os mais dela eftranharão muyto o que fizera ho védor da fazêda, porque todos querião antes que Pero mazcarenhas foffe gouerna¬ dor q Lopo vaz de fam Payo que continuando dali -fua viagem chegou a Goa, onde fendo recebido como gouernador deu a capitania mór do mar a Antonio de miranda dazeuedo & a de Goa a Pero de faria. E deixãdo em Goa a Eytor da filueira pera que foffe ao eftreito, fe partio pera Co- chim. CAPITOLO .XIII. De como Hagamahmut fe leuantou com Diu, & ho deu a elrey de Cam- baya. PArtido Eytor da filueira de Diu defelperado de fe fazer fortaleza, Melique faca q falaua verdade & efperaua de comprir o que pro¬ metera, começou logo de ho defpejar, & mandou fua artelharia a Iaquete pera onde determinaua de fe ir. E Hagamahmut a quê pefaua
  • Livro VII, Capitolo XIII 27 tanto como difle de Meliq dar Diu aos Portuguefes, & trazia grade dili- gécia polo eftoruar, leuãtoufe hum dia cõ a cidade por el rey de Cãbaya, fendo Meliq em húa fua quinta duas legoas de Diu: do q a géte foy cÕ- tete por lhe pefar muyto de fe ele ir dali cÕ Meliq: & leuãtada a cidade logo Hagamahmut ho fez faber a el rey de Cambaya, mãdandolhe dizer o q Meliq determinaua, & pedindolhe a capitania dela, & q lhe mãdaffe gete. E el rey fabendo efte recado partio logo pera Diu. E fabedo Meliq o q Hagamahmut tinha feyto, conheceo então a falfidade do confelho q lhe dera em fazer ir Eytor da filueira pera Chaul, Õde cuydãdo q ainda eftaua Lopo vaz de fam Payo lhe mãdou dizer o q paffaua, pedindolhe q lhe acodiffe, porque efperaria ate fua vinda. E Chriftouão de foufa por não ter armada q lhe mãdaffe, mãdou efte recado a Goa q foy dado a Eytor da filueira, por ho gouernador fer partido pera Cochim: & Eytor da filueira como ho foube partiofe logo pera Chaul indo coele muytos fidalgos & outra gente, mas fua ida foy fora de tepo & fem proueito por não eftar em Chaul quãdo Meliq mãdou ho recado q fe hi efteuera ainda ie poderá auer Diu, a q primeiro q chegaffe a Chaul chegou el rey de Cambaya cõ grade poder de gete, & Meliq efcaffaméte pode auer húa fufta em q fugio pera Iaqte. E tudo ifto fe fabia em Chaul quando che¬ gou Eytor da filueira, q do mar mãdou dizer a Chriftouão de foufa q fe tinha algú recado de Diu q lho mãdaffe. E ele relpõdeo q aqla fortaleza era del Rey de Portugal, & fe a ele tinha por effa q fofle lá & faberia ho recado, & fe affentaria o q deuião de fazer, & 1'e não q fe fofle em bora. E parecédo a Eytor da filueira q por capitão mor daqla armada lhe deuia Chriftouão de foufa de mãdar ho recado, infiftia q lho mãdaffe & não qria lá ir, & també por recear q como lá fofle lhe tomaffe a armada & man¬ dar outré a Diu. E dãdolhe Francifco de loufa tauares palaura de não fe fazer tal fe foy á fortaleza, & é cõfelho lhe difle Chriftouão de foufa o q paffaua em Diu q era efcufado ir lá: pelo q fe affetou q não fofle & tor- nafle a dar conta diffo ao gouernador, & não fofle ao eftreito, por fer certo q çoleimão raix per mãdado do turco paffaua á índia cõ húa grãde armada de turcos & q eftaua na ilha de Camarão fazedo húa fortaleza, & ho mefmo efcreueo Chriftouão de fouía ao gouernador por Eytor da filueira, q afletado ifto fe partio logo pera Goa onde não achãdo ainda ho gouernador fe partio pera Cochim.
  • Hijloria da índia 28 CAPITOLO .XIIII. Do grade aluoroço q auia na gele da índia, di\êdo q Logo va\ nã era gouernador. PArtido ho gouernador Lopo vaz de fam Payo da cidade de Goa, chegou a Cochim, õde ho védor da fazenda era também capitão, q na armada do anno prefente lhe mãdara el Rey de Portugal prouifam pera ho fer juntamente com védor da fazéda. E fabédo que Lopo vaz de fam Payo era chegado ho recebeo com muyta feita & ho tornou com todos a jurar & obedecer por gouernador da índia: & como em Co¬ chim eftaua juta a mayor parte da gente dela, & os mais erão afeyçoa- dos a Pero mazcarenhas & defejauão que ele gouernaífe vendo q fe fazia ho contrairo pubricaméte, eftranhauão muyto o que ho védor da fazenda fizera em abrir a noua fubceífam de Lopo vaz de lam Payo defpois de Pero mazcarenhas fer jurado & obedecido por gouernador, & chamado pera gouernar, & que lhe roubaua fua honrra & juftiça. E era a onião que fazião fobrifto muyto grande, & auia bandos antre os da parte de Pero mazcarenhas, & os do gouernador, & perfiauão com muyto perigo fobre qual era gouernador por dereyto auendo palauras hús com os ou¬ tros & defafios & pelejas: & era a reuolta tamanha fobrifto em Cochim que nã fe ouuia nunca outra coufa, & pera mais ajuda chegou na fegunda oytaua do Natal hú jungo a Cochim que deu noua que Pero mazcarenhas ficaua embarcado & partira pera a índia, q agrauou mais nos de fua valia o que lhe ho védor da fazéda fizera. E ho gouernador como foube a noua da vinda de Pero mazcarenhas, porque ele foubeífe primeyro que che- gaffe a Cochim q não era gouernador, & não fizeífe aluoroço mãdou ho terlado de fua fubceífam, & ho do auto que fe fez quãdo foy jurado & obedecido por gouernador a Anrriq figueira feytor & alcayde mór de Cou- lão com hú regimento que tanto que Pero mazcarenhas chegaífe ao porto lhe foílé moftrar ao mar ho terlado da fubceífam & do auto, & fe ho ouueffe por bõ lhe fizeífe muyto gafalhado, & doutra maneyra que ho não acolheífe na fortaleza. Partido efte recado pera Coulão, porque ho gouer¬ nador fabia que fe dizia pubricamente que ele tomaua por força a gouer- nança a Pero mazcarenhas pera dar a entéder a todos que não era aíli por confelho do védor da fazenda mandou ao derradeyro dia de Dezem¬ bro chamar a fua cafa Baftião de foufa, Felipe de crafto, Antonio galuão, Francifco danhaya & Trilião vaz da veiga capitães das naos da armada q auia de tornar pera Portugal, que parecia q por efla caufa podião dizer
  • Livro VII, Capitolo XII1I *9 fé affeição o que lhes naqle cafo pareceffe, & perante Antonio rico que aquele anno fora de Portugal por fecretario diffe o que fe dizia por parte de Pero mazcarenhas contra a fua fubceflam. E por ele não fazer juftiça dos que tão oufadaméte dizião mal dele, & queria ver fe por bem fe que- rião enmendar, que lhes pedia como a fidalgos que tinhão tanta rezão de falar verdade que liureméte lhes difTeíTem com juraméto dos fantos. euãgelhos o q lhes parecia da fua fubceflam, & fe étédião q por virtude dela era gouernador: & logo ho fecretario lha leo. E lida, como quer q ho gouernador lhes pregútou fimprezmete o q lhes parecia de fua fub¬ ceflam, & fe o fazia gouernador: afli fimprezmente diíferão todos & cada hú por fi, que tinhão por coula muyto clara ele fer gouernador por fua fubceífam, & que afli o queria el Rey, & afli ho jurarão que lhes pare¬ cia. E Triftão vaz acrecentou mais, dizendo que por fe euitarem coufas que ferião deferuiço de Deos & del Rey, ele gouernador ho deuia de fer, & também por eftar em pofle da gouernança: & quanto a fe ele ou Pero mazcarenhas ho deuião de ler por juftiça, era neceflario ver todas as pro- uifoes pafladas & por as não ter viftas ho deixaua de dizer. E a ifto fe calou ho gouernador, & diffe que aflinafle o q diífera, porq de tudo An¬ tonio rico fez hú auto q ele & os outros aflinarã. E a mefma pregúta, & polas mefmas palauras fez ho gouernador a hú Frey Ioão Daro da ordem de fam Domingos homem letrado, que por mandado del Rey de Portu¬ gal fora pregar á índia, que jurou ao gouernador q ho era por dereyto por virtude da fua prouifam: & pera fer mais notorio a todos ho diria na pregação q auia de fazer no dia feguinte q era da Circuncifam de noflo fenhor, & no cabo da pregação diffe as murmurações que auia contra ho gouernador por parte de Pero mazcarenhas eftranhandoho muyto, por¬ que Lopo vaz de fam Payo era verdadeyro gouernador, dando pera ifib as melhores rezões que pode, & affirmando que afli ho fuftétaria em Pa¬ ris & em Salamanca & em Portugal pera ondeftaua embarcado, pelo que fe deuia de crer que falaua verdade pois nã tinha neceflidade do gouer¬ nador, de qué não era tamanho amigo como de Pero mazcarenhas: po¬ rem que auia de dizer verdade, & requereo ao gouernador da parte de Deos que lhe lébraífe bé que tinha nas mãos húa coufa de tanta impor¬ tância & de tãto pefo como era a gouernança da índia: & que pois el Rey de Portugal a confiaua dele, que lhe requeria da fua parte que cafti- gafle grauiflimamente qué fizefle aluoroços ou mouefle duuidas na fua prouifam, & que os degradaffe de CochI fe foífe neceflario. E ho gouer¬ nador ho fez afli, & degradou logo a hum Simão tofcano que fora criado ■de Pero mazcarenhas, porq era ho principal que affirmaua que Pero maz- earenhas era gouernador, & q ho gouernador lhe roubaua fua juftiça: &
  • 3o Hijioria da índia afli degradou pera Chaul a Vicente pegado polo mefmo cafo & aquiria muytos q tiuefle fua voz. E durando eftas reuoltas que de cada vez erão mayores forão acabadas de defpachar as naos da carrega que auião dir pera Portugal de que forão capitães Baftião de foufa, Frãcifco danhaya, Triftão vaz da veiga & Antonio galuão, q partidos de Cananor feguirão fua viagem pera Portugal, leuando Antonio galuão a offada de feu pay Duarte galuão: q ho clérigo Frãcifco aluarez trouuera á índia de Cama¬ rão vldo do Prefte: & Antonio galuão a leuou muyto fecretaméte na nao por a gente do mar ter q fe perderá a nao em q for morto. E eftas naos chegarão todas a Portugal a faluamento. CAPITOLO .XV. De como Chrijlouão de foufa capitão de Chaul determinou q Lopo va\ de fam payo não era gouernador. VIcente pegado que foy degradado pera Chaul pelo gouernador, def- pois que foy lá por fe vingar dele, difle a Chriftouão de foufa que era verdade que ho gouernador & ho védor da fazéda eftauão con¬ certados de não darem a gouernança a Pero mazcarenhas, affirmãdo que Lopo vaz de fam Payo era verdadeyro gouernador & não ele: & que afli ho mandaua el Rey de Portugal em húa prouifam que dizia, que em cafo que Pero mazcarenhas efteueffe por gouernador ho deixaífe de fer, & ho foffe Lopo vaz de fam Payo, & moftroulhe ho feriado da carta do védor da fazenda: em que el Rey dizia que das fubceffões q eftauão na Índia não fe vfaffe: & afli ho terlado da fubceflam de Lopo vaz de fam Payo que viera de nouo. E parecédo a Chriftouão de foufa que ho védor da fazenda fizera o que não diuia em abrir a noua fubceflam: pois Pero maz¬ carenhas eftaua declarado, obedecido & jurado por gouernador, & q el Rey na partícula da carta a q fe ho védor da fazéda pegaua não mãdaua, que pofto que Pero mazcarenhas foffe gouernador fe abriffe a noua fub- ceffam: pareceolhe muyto mal fer Lopo vaz de fam Payo gouernador, & muyto peor a determinação com que Vicente pegado lhe dizia que eftauão ele & ho védor da fazenda, & que feria forçado auer na índia diuifam que feria coufa muyto perjudicial, por fer certo eftar Çoleymão raix em Camarão com a armada do Turco pera paffar á índia, & que auia de fer na moução de Mayo ou de Setembro. E pera faber que meyo nifto toma¬ ria, .ajuntou a confelho ho alcayde mór, feytor & outros officiaes da for¬ taleza com muytos fidalgos que eftauão coele: & Vicéte pegado difle a todos o q differa a ele fó. E lidos os terlados da carta do védor da fazenda,
  • Livro VII, Capitolo XVI Sr & da prouifam do gouernador: propos Chriftouão de foufa ho cafo, & todos differão que lhes parecia o que diffe que parecia a ele, & q Lopo vaz de fam Payo não tinha nhum dereyto na gouernança polas rezões declaradas: mas porque fe efcufaffe diuifam antre duas tais peflòas, & os males q fe dela feguirião, era neceftario que fe pofeffem em juftiça pera fe julgar por dereyto & nã por armas de qual deles era a gouernança: & que ifto deuia defcreuer logo a Lopo vaz de fam Payo, defenganando ho que não auia dobedecer por gouernador a quem ifto refufaffe antes auia de fer contrele: & que mandaffe efta carta a Francifco de foufa taua- res que a deífe a Lopo vaz de fam Payo. E como efte era ho mefmo pa¬ recer de Chriftouão de foufa, efcreueo a carta & mandou a a Francifco de foufa que a deu ao gouernador em Goa como direy a deante. CAPITOLO .XVI. Do juramento q ho gouernador fe\ em Cochim. TEndo ho gouernador por muyto certo eflaré os rumes em Canarã fazédo húa fortaleza pera defpois de feyta paliarem á índia, deter¬ minou de os ir bufcar & pelejar coeles: & porque fabia que ãda- uão muytos Portuguefes em Choramãdel, efcreueo a Ambrofio do rego que lá era feytor & alcayde mór que lhes diffeffe da fua parte q logo fopena de tredores fe foffem a Cochim porque compria aífi a feruiço del Rey, & que perdoaua aos q foífem obrigados á juftiça quaefquer culpas que teueffem: porem como ho eles não tinhão por verdadeyro gouerna¬ dor não lhe obedecerão, & tambe em Cochim muytos não fe querião em¬ barcar pera ir coele, dizendo pubricamete que fingia ir ao eftreyto por não eftar em Cochim na chegada de Pero mazcarenhas por nã fe poer coele Pero mazcarenhas em dereyto fobre a gouernança, & por ifto não auião dir coele nem obedecer a feus mandados. E diziafe ifto tão folta- méte, & punhafe tãto por obra que fe embarcauão muyto poucos. E que¬ rendo ho gouernador atalhar ao caftigo q ifto merecia, & fazer notorio a todos q partia com tenção de ir pelejar com os rumes: hú domingo eftãdo á miffa em ho facerdote leuantãdo a hoftia difte em voz que po- deffe fer ouuido. Eu juro naquela hoftia confagrada em que eftá ho ver¬ dadeyro corpo de noffo fenhor Iefu Chrifto que me parto com tenção de ir bufcar os rumes & pelejar coeles, & pera lhes toruar que não paftem á índia. E por efta fer minha determinação, mando a todo homem Por¬ tuguês tirando aos fronteiros da fortaleza que fe embarquem comigo, & quem ho não fizer fayba certo que fera graueméte caftigado. E coefte
  • 32 Hijloria da índia juraméto & amoeftação que ele fez fe embarcou a gente toda crendo q auia dir pelejar com os rumes: & antes de fe embarcar deu hú regimento a Afonfo mexia em que lhe mandaua que não recebeífe a Pero mazcare- nhas como a gouernador, antes fe quifefle defembarcar em Cochim como gouernador lho defendeífe por armas. E coefte regiméto lhe deu húa carta para ele de grandes confolações fobre a mudança q el Rey fizera de ho fazer fegúdo fendo primeyro. E feita efta diligécia fe partio de Cochim é Ianeyro de mil & quinhentos & vinte fete: & chegando a Cananor deu a dõ Simão de menefes ho mefmo regimento q deixara a Afonfo mexia, & hi deixou por capitão mór de certos bargantins a hú fidalgo chamado Iorge.de foufa pera que goardafle a cofta de Calicut: & ho primeyro de Feuereyro fe partio pera Goa, & em baticalá achou Eytor da filueira que lhe diffe o que fizera em Diu. E a certeza que Chriftouão de foufa tinha da eftada dos rumes em Camarão, & como por feu conlelho & requeri¬ mentos não partira pera ho eftreyto: & dali efcreueo o gouernador a Chriftouão de foufa ho fundamento que leuaua dir pelejar cõ os rumes, pedindolhe que lhe mandaífe a armada que teuefle & a gete que lhe fobe- jaffe da ordenada á fortaleza. E partindo daqui pera Goa achou no cami¬ nho Fernão de morais que vinha Dormuz, de cujo rey lhe deu cartas, & do capitão da fortaleza, & do feytor: em que lhe fazião queixume de Raix xarafo de coufas que tinha cometidas contra ho feruiço del rey Dor¬ muz que por iffo ho prédera, pedindolhe todos tres que logo mandaffe por ele, porque em quanto efteueffe em Ormuz fempre auia de fazer mal¬ dades. CAPITOLO .XVII. De como fe ajfentou que ho gouernador não foffe a Camarão. CHegado ho gouernador a Goa, jútos todos os capitães & fidalgos prlcipais da armada no mofteiro de fam Francifco com os meftres & pilotos dela lhe propos a eftada dos rumes é Camarão, & como queria ir pelejar coeles. O que todos ouuerão por muyto efcufado por quã pouca gente tinha, & que feria muyto grande doudice ir cometer húa tão poderofa armada como os rumes tinhão eftando eles em terra, & acordoufe que ho gouernador inuernalfe em Goa, & que vindo no verão feguinte armada de Portugal teria mais gete & poderia ir efperar os ru¬ mes aa ponta de Diu onde os tomaria trabalhados da viagem & com a artelharia abatida pola paífagem do golfão: & defta maneyra com ajuda de noffo fenhor os desbarataria de todo. E de tudo ifto fez ho fecretario hú auto que todos aflinarão. E fabendo a gente comum como ho gouer-
  • Livro VII, Capitolo XVIII 33 nador não auia dir bufcar os rumes, logo começou de dizer que eífa fora fempre fua determinação pofto que jurara ho contrairo, que bem fabião que não deitara aquela fama fe não por fugir de Pero mazcarenhas pera não fe poer coele em dereyto, & dizião outras muytas coufas em defprezo do gouernador, porque verdadeyramente crião que ho não era fe não Pero mazcarenhas. E defenganado ho gouernador que não auia dir a Ca¬ marão, mandou Manuel de macedo a Ormuz pera que trouxeffe Raix xarafo prefo a Goa pera fer caíligado fe ho merecefie, & mãdoulhe que tornaffe a inuernar a Goa, & mandou logo ao capitão moor do mar que fe foffe ate Cochim leuãdo grãde vigia fobre não errar Pero mazcarenhas, & q achando ho lhe diífeífe da fua parte que fe folfe inuernar a Cananor ou a Cochim, porq affi cumpria a feruiço del rey feu fenhor: & quando não quifeífe fe não ir a Goa que tornaffe coele ate a barra, donde ho não deixaria paífar ate lhe não fazer faber como ali eítaua, & deulhe húa carta pera Pero mazcarenhas que fe quifeífe tornar a Malaca que lhe da¬ ria mayor ordenado do q tinha a capitania. E a caufa porq ho gouernador receaua que Pero mazcarenhas foffe a Goa, era porque vendo ho a gente comum & muytos fidalgos q erão da fua banda aueria aluoroço & fe faria diuifam, & ho farião poer em dereyto com Pero mazcarenhas, & não queria eftar neífa auentura. CAPITOLO .XVIII. De como foy morto Gafpar machado, & outros Portuguefes. PAssádose eftas coufas na índia, Pero mafcarenhas q eítaua por ca¬ pitão de Malaca, mandou é Ianeiro deite anno de vinte feys hú nauio pera a índia, a cujo capitão não foube ho nome. E foy em fua companhia hõ Gafpar machado, q ya em hú feu jungo cÕ fua fazenda q era muyta, & nauegando por fua viagem forão ter ao cabo de Como- rim, onde tomarã Patemarcar hú valete mouro, q ãdaua por capitão mór de húa armada del rey de Calicut de cincoenta & dous paraós: & ya caminho de Ceilão a fazer guerra a el Rey, por fer amigo dos Portu¬ guefes: & quis noffo Senhor q ho mar andaífe picado, & fizeífe grãde marulho, pera os Portuguefes q yão no nauio & no júgo efcapare a Pate¬ marcar, q fe os aferrara os tomara, & ele bem os quifera aferrar mas não oufou, porq cõ a muralhada não fe lhe desfizeffem os paraós cõ ho nauio, & cõ ho jungo q erão ma)'ores, & mais fortes que os paraós, & por iffo não oufou daferrar coeles, & cõ tudo poffe de balrrauento deles, & tiroulheá muytas bombardadas, com q lhes ferio, & matou muytos ho- Tomo IV 5
  • 34 Hijloria da índia mcs, & antreles foy Gafpar machado, & afaz teuerão que fazer os outros em fe acolher: & forãofe a Cochim, onde acharão falecido a do Anrrique de menefes. CAPITOLO .XIX. De como Pero mafcarenhas foube que era gouernador da índia, & do quefe\. IOrge cabral que foy por capitão mór de certas furtas ás ilhas de Mal- diua, vendo como Pero mazcarenhas era gouernador, determinou de lhe ir dar efta noua a Malaca cõ fundamento q lhe daria a fua va¬ gante, da capitania de Malaca por aluiffaras da noua q lhe leuaua. E adernado ifto cofigo, partiofe pera Malaca na furta em q andaua: & deu a noua a Pero mafcarenhas q era gouernador da índia, per falecimento de dom Anrriq de menefes. E Pero mafcarenhas lhe prometeo a capita¬ nia de Malaca quãdo fe foífe pera a índia: & da hi a algús dias, foy cer- teficado de todo q era gouernador da índia, per Antonio da filua de menefes, que lhe deu a carta Dafonfo mexia, em q lhe dizia que era go¬ uernador, & ho mandaua chamar: & ho auto q foy feyto de fua fubcef- fão: o q tudo vifto pelo alcaide mór, feytor, & officiais da fortaleza, & afli por outras pefToas honrradas q eftauão nela, foy Pero mafcarenhas obedecido por gouernador da índia. E ifto feyto fezfe preftes pera fe par¬ tir pera a índia c Agofto, cõ tenção defperar ho leuãte na ilha de Pulo- puar, q he é Setembro, q fe chama a moução peqna, cõ que fe iria pera a índia. E antes q partiffe deu a capitania a Iorge cabral. Ho q Aires da cunha quifera impedir: dizédo q a capitania pertécia a ele, por fer capi¬ tão mór do mar, porq quando Afonfo dalbuquerq ganhara Malaca que le fora pera a índia, deixara: que falecendo Ruy de brito q ficaua por ca¬ pitão da fortaleza, fucedeffe na capitania Fernão perez dandrade, q era capitão mór do mar, & defpois paflara el rey dõ Manuel hú aluara, q eftaua na feytoria: que nas coufas de Malaca fe goardaflem os regimétos q Afonfo dalbuquerq hi deixara, & afli fe goardara na deferença q Nuno vaz pereyra teuera cõ Antonio pacheco, fobre a capitania, por morte de Iorge de brito, como difle no liuro Quarto: & por iffo q a ele Aires da cunha pertencia a capitania da fortaleza, & não a Iorge cabral, fazendo fobrifto reqrimentos a Pero mafcarenhas q lha deffe. Ao que refpondeo, q tudo quãto Aires da cunha dizia era afli, fe a capitania vagara por fua morte, mas q vagaua por entrar na gouernãça da índia, & por fer gouer¬ nador, era fua a dada daqla vagante, & a podia dar a quem quifefle, & por iflo a daua a Iorge cabral, afli por aluiífara das nouas q lhe leuara,
  • Livro VII, Capitolo XX 35 como por fer hú fidalgo de muyto mereciméto por íua linhajem, & por muytos feruiços q tinha feytos a el rey. E com tudo Aires da cunha pro- teílou de Pero mafcarenhas lhe pagar a fua culta ho ordenado da capita¬ nia. E queredo Pero mafcarenhas partir cõ a determinação q digo: os pilotos lhe reqrerão q não partifTe, porque não auia de poder ir a índia naqla rnoução, mas não quis deixar dir: & partiofe é hú nauio caminho da ilha de Pulopuluar, Õde eftãdo furto, lhe deu tão brauo téporal de veto, q ho malto do nauio quebrou por tres lugares, & eíteue muyto perto de fe perder, & efcapãdo Pero mafcarenhas delta borrifcada, tor- noufe a Malaca pera fe aparelhar q nã podia adi profeguir fua viagem, & é Malaca achou Francifco de fá cÕ a armada q leuaua pera ir fazer a fortaleza é çunda: & coele ya dõ Iorge de menefes por capitã de Maluco, per prouifão de dom Anrrique de menefes, q lhe Pero mafcarenhas con¬ firmou, & lhe deu outro nauio que foffe em fua cõpanhia, afora ho em q ya: a cujo capitão nã foube ho nome: & afli lhe deu mais géte da q leuaua, & munições & mandoulhe que folie pola via de Borneo, pera fe defcobrir aqla nauegação pera Maluco, q era mais curta que pela via de Banda, & dãdolhe regimeto do q auia de fazer, partiofe dom lorge cami¬ nho de Borneo: & porq Simão de foufa galuão, que ya por capitã mór do mar de Maluco, foube q Pero mafcarenhas determinaua, de ir fobre Bintã pera ho tomar: & foube quã pouca coufa era a capitania mor do mar de Maluco: & quão pouco podia nela feruir a el Rey de Portugal, que era pera o q a ele pedira: nã quis ir a Maluco: & ficou ê Malaca pera fe achar na emprefa de Bintão: que tinha q auia de fer húa coufa de muyta honrra & fama, a q era muyto inclinado. CAPITOLO .XX. Em q fe efcreue ho fitio & a fortaleza da ilha de Bintão. VEndo Pero mazcarenhas que lhe era forçado efperar a rnoução grande pera a índia: & achandofe com a gente que Francifco de fá leuara, determinou de ver fe podia coela tomar Bintão q tata guerra fazia a Malaca. E alternado em confelho que ho fizeffe, partiofe com húa armada de dezanoue velas .f. hú galeão pequeno, húa galé, qua¬ tro nauios redondos, dous bargãtins, dous bateis de matas, quatro lãcha- ras & cinco calaluzes: & a fora Aluaro de brito que era capitão da galé em que ya Pero mazcarenhas, forão capitães Frãcifco de fá, Aires da cunha, Antonio de brito, Duarte coelho, Fernão lerrão Deuora, Simão de foufa galuão, Ioão pacheco: & aos outros não foube os nomes. Irião
  • 36 Hijioria da índia nefta armada trezetos Portuguefes & feyfcétos Malayos, de que yão por capitães dous mouros honrrados, hú chamado Sanaya raja, o outro Tuã mafamede. E coefta armada fe partio pera a ilha de Bintão que na lin- goa Malaya quer dizer eítrela: & por iffo el rey de Bintão tinha por titulo muyto hõrrado chamarfe rey da eftrela. Iaz efta ilha feflenta legoas de Malaca auante do eftreito de Cincapura pegada com a terra firme, que hú eftreito rio que fe vay meter no mar aparta dela, ao longo defte rio hú pedaço da foz dele eílã fituada húa boa pouoação chamada Bintão pouoada de mouros Malayos, onde ho rey que foy de Malaca fe recolheo defpois que per Antonio correa foy lançado do pagode como difle no liuro quinto & a tomou ao fenhor dela q era feu vaflalo: & defpois que el rey que foy de Malaca fe apofibu dela, a fortificou grandemente pera fe de¬ fender dos Portuguefes com receo que tinha de irem fobrele. E a maneyra da fua fortaleza foy efta, c húa baya pequena onde fe ho rio mete que he ho porto da cidade: fez ao longo dú canal que fe ali faz em voltas húa eftacada pera ficar tão eftreito q húa gale não podeffe virar nele. E efta eftacada era de paos muyto groffos metidos em olhos de grãdes mós: & defpois de metidos deitauão as mós no mar, & que fe yão ao fúdo, & eles ficauão pera cima fora dagoa em boa altura, & doutros paos tão groffos como maftos de nauios q naquela terra fe chamão paos ferros mandou fazer húa tranqueira entulhada que cercaua a pouoação em re- dodo com feus baluartes dos mefmos paos també entulhados, & com fuas portas que fe fechauão & abrião, & em húa pote que atraueffaua ho rio pera feruentia da ilha & da terra firme eftauão dous baluartes na entrada & faida dela: & nelas & na tranqueira auia trezetos tiros dartelharia. Efta tranqueira que cercaua a pouoação tinha em lugar de caua tres or- des de eftrepes com as põtas heruadas & poftos é reues hús pera qué quifeífe entrar, & outros pera qué quifeffe fair. Efta pouoação era fundada em terra deuafla & apaulada, & por iffo todas as cafas eftauão fobre efteos de pao aleuantadas da terra & feruianfe por pontes ou minhotei- ras, faluo as del rey, que eftauão fobre hú oiteyro da banda do fertão. CAPITOLO .XXI. De como Pero ma\carenhas foy fobre a ilha de Bintã. Enauegando Pero mazcarenhas pera efta ilha, paffou muito grãde trabalho no caminho por fer muyto roim, & todo per canaeis q fe fazião antre hú grande arcepelago dilhas, & chegado cõ toda a frota, furgio de fora da barra, & dahi madou fondar ho canal da baia per
  • Livro VII, Capitolo XXII 37 onde auia détrar, & foiho fondar Duarte coelho, q lhe diíTe, que era ípof- fiuel poder entrar a nofla frota fem arrãcaré primeyro a eftacada: & mais delembarcando diante da tranqira, nã efcaparia nhú dos Portuguefes viuo, fegúdo a muyta foma dartelharia q tinha, & a fora iffo nã fe poderia etrar por fer muito alta. E fabido por Pero mazcarenhas efte perigo, determi¬ nou détrar pela ponte por onde fe feruião pera a terra firme, onde não auia tãta artelharia, & pera fegurar efta ponte, & poder melhor etrar por ela: determinou de a mandar abalrroar por hú dos nauios redondos, & coele mãdaria arrancar a eftacada, pera entrar toda a frota: & porq ifto era coufa de muyto perigo, efcolheo pera ho fazer hú Fernão ferrão Deuora q tinha por esforçado, & era capitão dú dos nauios como difle, a q fez cincoéta Portuguefes pera ho ajudaré a efte feyto: & fortalecido ho nauio de largas & fortes arrombadas, q podefle refiftir aos tiros dos Imigos, & afli de boa artelharia: étrou na baia indo atoado a dous cala- luzes porque folie bem pelo meo do canal, & ali começarão os q yão no nauio darrancar as eftacadas, no q paífarão tamanho trabalho camanho nã fe pode Imaginar, trabalhando continuamete no cabreftante, cõ que arrãcauão as eftacas a força de peitos, & de braços, cofpindo muytas vezes fangue cõ ho trabalho, & como as eftacas erã muytas, & a detença muyto grande em as arrancar, furdião tã pouco, q ao mais que ãdauão cada dia, era ho cõpriméto de húa corda defparto, & coefte vagar gaita¬ rão oyto dias em chegaré defrõte da trãqueira, donde as bobardadas logo forão tantas que era medo ouuilas, quanto mais velas: & daneficarão ho nauio de modo, q fe não forão as arrombadas fora todo arrombado & metido no fundo. E andando os Portuguefes nefta fadiga, apareceo húa armada ao mar q ya demandar a barra de Bintão. CAPITOLO .XXII. De como foy desbaratada a armada que el rey de Pão mandaua em focorro del Rey de Bintão. EL rey de Bintão como vio a frota de Pero mazcarenhas, & tinha dele noticia que era muyto caualeiro & determinado, temédo de fe ver em afronta, mandou muy depreda pedir focorro a el rey de Pão feu genrro & vezinho, que lho mandou logo de trinta & tres lancharas em que irião bem dous mil homés & muytos mantimentos. E efta era a ar¬ mada que pareceo ao mar: & porque Pero mazcarenhas fe receou que chegada efta failfe a del rey de Bintão & tomaffem a fua no meyo & lhe deífem fadiga, não quis efperar que chegaífe: & determinando de ir pe-
  • 38 Hijloria da índia lejar coei a no mar leuando parte da fua meteofe em hú balanço, & cor- redo toda a frota difle fua determinação aos capitães, que lhe pedirão muyto que não tomalfe aquele trabalho de que ho eles efcufarião, & que ficaífe em goarda do porto porque aífi feria melhor. E fazédo feu rogo mandou quatro lancharas & clco calaluzes {a cujos capitães nã foube os nomes) que foliem pelejar com a frota del rey de Pão, & mandou por feu capitão mór Duarte coelho: & tendo andada húa legoa donde ficaua Pero mazcarenhas chegarão a tiro de berço da armada dos immigos a que começarão de tirar com fua artelharia, & eles com medo dela os me¬ ter no fundo fugirão logo leuãdo a proa em húa ilha que eítaua dali legoa & mea ate onde lhe os Portuguefes derão caça, matandolhe muytos com a artelharia, & de vinte tres lancharas que chegarão primeyro toda a géte faltou em terra & fugio pola ilha & as lancharas forão tomadas pelos Portuguefes, as outras dez não podendo aferrar a ilha paífarão auante & acolhiãfe: o q vedo Duarte coelho porque não efcapaífem, faltou com algús dos que yão coele em hú balanço da fua lãchara, & a força de remo deu apos eles, tirandolhes com hú meyo berço que ho balanço leuaua por proa, & nhum dos outros capitães ho feguio por eftare todos ocupados em tomar as lancharas que digo. E vedo os mouros ir ho balanço fó vira¬ rão a ele indo obra de húa legoa auante da ilha: & ele com quãto vio quãtos erão os que voltauão fobrele, não deixou de ir por diante, & vendo os mouros fua oufadia teueranfe, & ele também fe teue porque lhe pare- ceo doudice cometer tantos cõ tão poucos como leuaua fe não quando não podeífe fazer mais. E tornãdo os mouros a ir parele, ya pareles: & de- tendofe detinhafe: & iflo fizerão por tantas vezes q fobreueo a noyte, de que a eftas horas era muyto perto, & os mouros fizerãfe na volta do mar, & Duarte coelho fe tornou pera os outros capitães & forãfe todos pera Pero mazcarenhas com as lãcharas que tomarão aos mouros carregadas de mantimétos: com que ele folgou muyto & teueo por pronoftico da vito¬ ria que auia dauer del rey de Bintão, & adi ho dilfe a todos esforçãdo os pera a peleja. CAPITOLO .XXIII. De como Fernão ferrão pelejou com Laqueximena. DEsbaratada eíla armada, tornarão os do nauio de Fernão ferrão a feu trabalho, darrancaré as muytas & muyto grandes eftacas que eítauão metidas pelo canal por onde auião dir á pote: em que fe virão em tamanho perigo & leuarão trabalho immenfo quanto não fe pode cotar, porque hús tinhão os peitos abertos das barras do cabreftãte, ou-
  • Livro VII, Capitolo XX11I 39 tros tinhão os braços moidos de tapar os muytos rombos que a artelharia dos immigos fazia no nauio, que não ceffaua de tirar de dia nem de noyte com que ho esburacaua todo, & era nele a agoa tanta com toda a dili¬ gencia q os Portuguefes fazião pola efgotar, que quafi fe yão ao fundo. E coeíta tamanha fadiga que lhes durou quinze dias, quis noflo fenhor q venceífe feu trabalho a força dos immigos, & chegarão á pote dãdo húa grãde grita & aferrarão coela. O que fabido por el rey agaftoufe tanto que deshonrraua os feus de muy afperas palauras, pelo que algús inten¬ tarão de fazer dar ho nauio á cofta, & como foy noyte na vazãte da maré lhe cortarão as amarras de mergulho: & íinildo os Portuguefes que ca- çaua acodirão logo & furgirão outras ancoras que tinhão a pique, & for¬ rarão as amarras de cadeas de ferro por lhas não cortarem. E vendo os mouros que não podião fazer nada fe tornarão muyto enuergonhados: & el rey mãdou então a Laqueximena que com quinhentos homês em Õze lancharas que tinha varadas foífe pelejar com Fernão ferrão & ho tomafle, cuydando que a muyta artelharia da tranqueyra impediria aos outros na- uios que lhe não acodiífem, & mandou que tiraffem roda viua, & entre tanto Laqximena foy aferrar ho nauio de Ferrão ferrão que bem traba¬ lhou por não fer aferrado defparando aífaz de bombardadas: porem como as lãcharas erão muytas nã fe pode tolher a algúas que ho não abalr- roaffem por proa & logo faltarão muytos mouros dentro, & apos eftes aferrarão outros & écherão ho nauio, & outros que não podião entrar tirauão de fora muytas frechadas: & os que eftauão no nauio como erão muytos apertarão tão rijo com os Portuguefes que por mais esforçada- méte que pelejauão os leuarão ate ho conues: & aqui foy a peleja muy braua & Fernão ferrão foy derribado com muytas feridas, poré era tão esforçado que fe leuãtou logo & tornou a pelejar com muyto esforço. E com tudo os feus eftauão tão feridos que não podião efcapar fe a efte tempo não fobreuierão Pero mazcarenhas & Duarte coelho cõ algús Por¬ tuguefes, que ouuindo as primeyras bombardadas do nauio acodirão logo em hú balanço por efcaparem da artelharia que tiraua da tranqueyra. E chegãdo ás lancharas, porque lhe elas impedião q não entrafTem no na¬ uio deitarãlhes détro panelas de poluora com que começarão darder, & os Imigos por não fe queymarem hús fe deitauão ao mar, outros fazião afaftar as lancharas & defabafarão ho nauio & fugirão: o que os mouros que eftauão détro não fintirão cõ ho arroido da peleja. E defabafado ho nauio, entrarão Pero mazcarenhas & Duarte coelho com os que yão coe- les, & ajudarão Fernão ferrão também que nhú dos mouros efcapou de morte, fe dos Portuguefes morrer nhum pofto que todos eftauão muyto feridos, pelo que Pero mazcarenhas quifera q fe forao pera os curarem,
  • 40 Hijloria da índia & q iriao outros em feu lugar: & eles não quiferão, dizendo que em quanto teueflem vida não fe auião de tirar dali: o que lhes agardeceo muyto & louuou feu esforço, & curados todos fe tornou aa frota. CAPITOLO .XXIIII. De como Pero mazcarenhas tomou a cidade de Bintão. VEndo Pero mazcarenhas a grãde oufadia dos mouros em lhe que- reré tomar ho nauio a fua vifta, ouue medo que lhe queymaífem a frota com balfas de fogo, & por iffo não quis mais dilatar de cometer a cidade, & affentou de fer pola ponte como tinha determinado, mas porque os mouros terião diffo receo por amor do nauio q eftaua pe¬ gado coela, & poerião nela toda a força de fua defenfam: determinou de lhes fazer crer que auia dentrar pela trãqueira, Õde mandou húa noyte fazer húa eftãcia de pipas & ceftos de campo cheos de terra em que man¬ dou affeftar tres berços, & affi mãdou fazer com enxadas húa larga eftrada. E Laqximena que eftaua por capitão na tranqueyra ho mandou logo dizer a el rey, & q lhe mandaífe mais gente. E ele ho fez afli, & muytos mou¬ ros q eftauão em outras partes fe paífarão pera ali cuydando que por aquele lugar auião os Portuguefes de cometer a entrada, & era ho aluo- roço muy grãde antreles credo que ao outro dia auião de fer mortos todos os Portuguefes. E como foy noyte Pero mazcarenhas mãdou a Sanaya raja q defembarcaffe cõ os piães Malayos & fe pofefle detrás da eftãcia das pipas, & afli corêta Portuguefes: & mãdoulhes que teueflem teto q 5 vedo fogo em qualquer dos baluartes da pote, pofefle fogo aos berços & tangefie as trobetas, & defle grãdes gritas como q defembarcauão pera cometer a trãqueira. E deixãdo a frota ondeftaua por não fer fentido fe embarcou nos balãcos & mãchuas, & defembarcou be pera baixo na terra firme que ficaria húa legoa da pote, pera õde tomou ho caminho q fez cõ trabalho grandiflimo & perigo, & por milagre de noflo fenhor não fe perderão todos, porq yão por vafa em q atolauão ate a cinta & ate de¬ baixo dos braços, & por antre húas aruores q chamão mãgues q deitão as raizes pera cima & ficão como os pés das mefmas aruores, & como era efcuro marrauão coeles, & fe não fora ho esforço que lhes noflo fenor daua efte trabalho abaftaua pera os debilitar tanto que não ficarão pera fazerem coufa q preftafle, porq yão todos élameados, molhados & qbrã- tados. E com tudo chegarão á ponte húa hora antemanhaã & tão esfor¬ çados & inteiros como então fe leuantarão da cama, & acharão Fernão ferrão preftes com fua gente com muytas panelas de poluora, com q logo
  • Livro VII, Capitolo XXIIII 4* poferão ho fogo a hú baluarte que eftaua na entrada da ponte em vindo da ilha, & nele eftaua por capitão hú mouro chamado Tuão raja, & ho baluarte era de madeira & entulhado & pegando ho fogo na madeyra começou logo darder. E a ifto acordarão os mouros q eftauão nele, que cuydando que Pero mazcarenhas auia de cometer pola trãqueyra eftauão muy defcuydados de cometer por ali, & por ifto & por eftarem defuela- dos de vigiare toda a noyte adormecerão: & acordados com ho arroido do fogo fayranfe do baluarte por não arderem nele, & acodirão a hú pof- tigo com q fe a pote fechaua, cujas portas os portuguefes tinhão acerca arrobadas & qbradas de todo, remeterá ao poftigo Ayres da cunha & Ioão pacheco & étrarão em q pes aos mouros que lhes refiftião braua- mente, mas eles matando algús dos dianteiros entrarão detro, & a pos eles quantos eftauão fora: & como os mouros virão entrar os primeyros defmayarão logo, & fugirão hús pera as cafas del rey outros pera a tran¬ queira ondeftaua Laqueximena, a quem Sanaya raja em vedo ho fogo no baluarte da ponte deu logo rebate pela ordem que lhe Pero mazcarenhas mãdou. Laqueximena eftaua tão confiado em lhe parecer que era impof- fiuel entrarem os Portuguefes por ali que não fe aluoraçou nada com o q Sanaya fez, & eftaua muy feguro, fe não quando algús que fugião do baluarte da ponte forão dar coele, fugindo dos Portuguefes que yão a pos eles, então lhes acodio Laqueximena com fua géte: porem os Portu¬ guefes yão tão defnodados & com tão brauo impeto. E os mouros ficarão tão efpantados de os verem détro na cidade, que não dando por Laque¬ ximena fugirão pera as cafas del rey & os Portuguefes apos eles matando & ferindo muytos. E el rey eftando muyto fora de lhe parecer que a cidade fe podia entrar eftaua deshonrrando algús que lhe affirmauão que era entrada, & mandauaos que foffem goardar a tranqueira: & nifto co¬ meçou denxergar os feus que yão fugindo, & então creo que entrarão a cidade, & tendo efcaífamente tempo pera caualgar em hú alifante fugio ficando fua cafa afli como a tinha, & os Portuguefes yão tão defejofos de ho tomarem que derão a pos ele: o que ele fintindo fe deceo & embra- nhoufe no mato que era muy efpeflo, & por ifto os Portuguefes ho não quiferão bufcar, & foranfe em bufca de Pero mazcarenhas que acharão pelejando com hú capitão chamado Laxa raja que le defendia com paf- fante de mil mouros ao derredor dú baluarte ondeftaua de que os mais morrerão & ele fugio ferido de duas efpingardadas: & afli forão outros muytos mortos & feridos ate as dez horas do dia em que íe acabou efte feyto, q foy hú dos marauilhofos que os Portuguefes fizerão naquelas partes de q aprouue a noITo fenhor que não morreo nhú fomente forão feridos algús. Tomo IV 6
  • 42 Hifioria da Índia CAPITOLO .XXV. Do q fe\ Pero mazcarenhas defpois de tomada a cidade. TOmada a cidade logo tres mercadores eftrangeiros & ricos que hi morauão fe forão a Pero mazcarenhas a pedirlhe q lhes fizelTe merce das fazédas pois erão eftrãngeiros. O q Pero mazcarenhas fez de boa võtade com cõdição que lhe auião de dar mantimentos os dias que ali efteuefle, pelo q derão arrefens: & delpois mandou Pero mazca¬ renhas faquear a cidade em que fe ouue muy rico defpojo principalmente nas cafas del rey: & aílx forã achadas trezentas peças dartelharia, & muy- tas delas que forão tomadas aos Portuguefes. E roubada a cidade foy poílo ho fogo ás traqueyras & baluartes q durou tres dias & tudo ardeo de maneyra que ate os paos que eftauão metidos debaixo do chão arde¬ rão: & Pero mazcarenhas eftaua tão magoado do muyto mal que os mou¬ ros defta terra tinhão feyto aos Portuguefes, que não fe aiiendo por vin¬ gado do que lhes fez, & também pera ver fe podia tomar el rey que fabia que eftaua na ilha mãdou fazer nela muytas entradas a feus capitães, principalmente por el rey de Linga grãde amigo dos Portuguefes que vinha pera ho ajudar com húa armada de dezoyto lancharas & calaluzes: & efte porque não pode fer na tomada da cidade ajudaua aos Portugue¬ fes a correr a ilha, em que ainda forão mortos muytos mouros & catiuos dous mil: & ifto foy feyto em quinze dias q Pero mazcarenhas efteue na cidade defpois que a tomou. E vendo el rey ho dãno que fe fazia em fua gente, & fe ali mais efteuefle que ficaria fem nhúa foyfe pera hú lugar chamado Vgétana onde defpois morreo. E efpalhada a noua como Pero mazcarenhas tomara Bintão & era el rey fugido foy ter ao q era dantes fenhor de Bintão que moraua na terra firme, pera onde fe fora defpois que lhe el rey de Malaca tomou aquela ilha, & fabendo como Pero maz¬ carenhas a ganhara por força, pareceolhe que dele a tornaria a cobrar cÕ fe fazer vaflalo del rey de Portugal, logo lhe foy falar com fua licença, & fizerão pazes com condição que ho fenhor de Bintão não fizefle nela nhúa fortaleza, nem auia de ter armada, & quando algue lhe fizefle guerra que ho defendeflem os Portuguefes: & dali por diante foy muyto grande feu amigo. E ifto feyto defpachou a Francifco de fá que fofle a çunda a fazer fortaleza & deulhe trezentos Portuguefes que fe embarcarão em fete nauios, de cujos capitães não foube mais nomes que ho de Francifco de faa & de Duarte coelho que leuaua a alcaydaria mór da fortaleza fe fe fizefle. E partido Francifco de fá, partiofe Pero mazcarenhas pera Malaca,
  • Livro VII, Capitolo XXVI 43 onde lhe foy feyto muy foléne recebimento, affi polos Portuguefes como pelos da terra porque todos ganhauão muyto na deftruição del rey de Bintão com que fe liurarão das grandes guerras que tinhão affi coele como com outros reys que ho ajudauão que vedo ho deftruido os mais fizerão paz com Pero mazcarenhas, & dali por diante foy Malaca muyto enno- brecida & abaftada de mercadorias & mantimentos. CAPITOLO .XXVI. De como Francifco de fá foy a çutida, & do que lhe aconteceo. PArtido Fracifco de fá pera çúda deulhe hú tamanho téporal de veto q os nauios da armada fe efpalharão, & Fracifco de fá & outros tres capitães forã cada hú por leu cabo, & Duarte coelho q ya em húa nao arribou Ido é fua companhia húa galé & hú bargãtim, & forão ter á barra de çúda q he húa cidade q eílá no cabo da ilha de çamatra ao logo de hú braço de mar q aparta a ilha de çamatra da ilha da Iaoa a mayor. E ao derrador delta cidade ha muyto grãde forna de piméta tão boa como a do Malabar: he terra frefca & baltada de mãtimétos, he pouoada de mouros, & té rey fobre fi q tãbé he mouro: & a elte tépo q ali chegou Duarte coelho não era ja feitor da cidade ho rey q queria dar fortaleza fe não aqle cÕ qué tinha guerra q lha tomou por força, & pera fe acabar de todo dapoffar dela eltaua nela, & tinha muyta géte de guerra: & era Imigo dos Portuguefes, porq fabia q ho rey a qué tomara a cidade os mãdara chamar é fua ajuda & lhes qria dar fortaleza. E quando Duarte coelho ali chegou cõ o téporal q digo, deu aa cofta ho bargãtim q ya é fua cõpanhia, & faluaranfe em terra trinta Portuguefes q yão nele, q forã logo tomados polos mouros & degolados porq os tinhão por Imigos, & a nao de Duarte coelho & a galé tãbé fe ouuerão de per¬ der, fe os noífo fenhor não faluara. E védo Duarte coelho o q fora feyto aos do bargãtim vio q a terra eílaua de guerra, & achãdofe.fem Frãcifco de fa vio q era tépo perdido eftar ali mais & foyfe como ho tempo abo¬ nançou: & defta ida de Duarte coelho, & do q ja el rey fabia do outro feu anteceífor q tinha dada palaura de dar fortaleza aos Portuguefes, ouue ele medo q tornaffé cõ grãde armada, & por iffo ajútou mais géte da que tinha & fortaleceofe ho mais q pode. E eftando affi tornou Fr㬠cifco de fá cõ toda a fua armada q andou ajútando por effes portos da ilha da Iaoa Õde foy ter, & partio da cidade de Panaruca: & chegado a çunda mãdou cometer a el rey q lhe deixaífe fazer fortaleza como dei- xaua feu anteceífor: & lobre ele nã querer defembarçou Frãcifco de fa
  • 44 Hiftoria da índia cõ fua géte pera ho fazer por força: & como os mouros erão muytos & eftauão be fortalecidos deféderão a defembarcação aos Portuguefes, ma¬ tando algús deles. E Francifco de fáte vendo que não podia defembarcar fe recolheo a fua armada. E conhecédo q có a pouca géte q tinha nã po¬ dia fazer nada tornoufe pera Malaca, õde ja não achou Pero mazcarenhas q era partido pera a índia, & por iífo não pode auer mais géte pera tor¬ nar a çunda né Iorge cabral lha pode dar, afíi por ter pouca como por mãdar naqle tépo Gõçalo gomez dazeuedo cõ focorro a Maluco como direy a diate: & por ifto não pode Francifco de fá tornar mais a çunda, & fe foy defpois pera a índia. CAPITOLO .XXVII. De como Pero mazcarenhas chegou a Cochim, & querido defembarcar lhe rejtjlio ho vedor da fazenda. VInda a moução em q fe podia ir pera a índia, partiofe Pero maz¬ carenhas cõ tres galeões carregados da fazéda del Rey & da fua, & de caminho paliou por Coulão, Õde foy recebido do feytor & alcayde mór Anrriq figueira como gouernador (pollo q tinha regiméto em cõtrairo de Lopo vaz de fam Payo) & cõtoulhe tudo o q paliara na índia defpois de fer chamado pera a gouernar: do q ele ficou alfaz da- gaftado, & confelhoufe do q faria cõ hú Simão caeiro q como gouernador fizera feu ouuidor géral & cõ hú Lançarote de feixas a q pelo mefmo modo dera officio de fecretario. E eftes lhe confelharão q fe foffe a CochI & vfaffe de muyto rigor cõ Afonfo mexia, porq abrira a noua fubcelfam, porq ele tinha toda a culpa é a abrir: poré que defcanfalfe q pofto q folie aberta lhe não perjudicaua ao dereyto q tinha na gouernãça por a fua fubcelfam fer primeyro aberta. E parecédolhe bé eíte confelho, partiofe pera CochI õde chegou ho derradeyro de Feuereyro. Afonfo mexia q tinha fobrele fuas efpias fabédo como era chegado, lhe mãdou logo noti¬ ficar polos juyzes de CochI, & por Duarte teixeira tefoureyro das merca¬ dorias, & por Manuel lobato efcriuão da feytoria ho terlado da noua fub- ceflam de Lopo vaz de fam Payo, ho regiméto q linha dele pera ho não receber como a gouernador, & lhe requerelfe da parte del Rey q obede- ceffe ao gouernador pois ho era por aqla prouifam. Ao q Pero mazcare¬ nhas refpõdeo cõ muyta cólera q aqla prouifam não era affinada por el Rey, & por iífo não era obrigado a conhecela por fua: & q Afonfo me¬ xia como feu Imigo a poderia fazer, & por ella caufa lhe nã auia dobe- decer principalméte por eftar é poífe da gouernãça q ho mefmo Afonfo
  • Livro VII, Capitolo XXVII 45 mexia lhe dera & q eles merecia mui grade caftigado pois fabedo q era gouernador oufauão de lhe fazer tais requerimétos. E Simão caeiro como ouuidor geral lho eftranhou muyto dizendo que aquilo era cafo de trei- ção, & por feu cõfeiho ouue Pero mazcarenhas os juyzes por priuados dos ofticios & que fopena de perdimentos das fazendas não faylfem de cafa defpois que foífem em Cochim, & mandoulhes tomar abito & ton- fura, & fazer auto de fua prifam pera defpois proceder contreles: & coeíla repolta os mandou, Duarte teixeira & Manuel lobato ficarão prefos cÕ ferros no nauio porque infiftirão mais no requerimento chamando go¬ uernador a Lopo vaz de fam Payo. O que fabido por Afonfo mexia, lhe mandou requerer da parte del Rey que lhe foltafle os prefos que erão officiaes de fua fazenda que fe podia perder por fua prifam tornandolhe a requerer q obedeceffe á prouifam do gouernador de que tinha regimento q ho não recebeíTe em terra por nenhúa via & lhe refiftilfe com armas o que auia de fazer, & que fe quifeffe algúa coufa que fe folfe a Goa & hi acharia ho gouernador, o que fe ele fizera fora liure da muyta deshonrra q lhe foy feyta, & fuas coufas fe fizerão melhor, mas não teue quem ho acõfelhafTe, porq Simão caeiro & Lãçarote de feixas cõ quãto vião ho rigor em q fe Afonfo mexia punha, & ho grande poder q tinha por feus officios, & quão pouco Pero mazcarenhas, acõfelhauãlhe q leuaífe tudo a força de braço, & que defembarcafle, porque como folfe em terra feria gouernador: & como ele era muyto bÕ caualeyro & tinha animo pera tudo parecialhe que tudo podia leuar auante, & por ilfo refpondeo ao vé- dor da fazenda q ao outro dia lhe refpõderia c terra porq era quafi noyte. E temendofe q Pero mazcarenhas defembarcafle de noyte & entrafle na cidade por fer rafa, chamou todo ho pouo de Cochim a repiq de fino: & cõ quãto a muitos parecia mal tomarfe a gouernãça a Pero mazcare¬ nhas, pelo q deuião á obediecia portuguefa q nã difputa fe os mandados de feu rey ou dos q eftão em feu lugar fam juftos ou injuftos, acodirão logo todos poftos é armas pera fazerê o que lhes Afonfo mexia mãdafle: & ele lhes notificou o q paflaua cõ Pero mazcarenhas, q não qria fe não defembarcar cõtra o regimeto do gouernador: pelo q lhes requeria da fua parte q tãto mõtaua como da del Rey pois tinha fuas vezes q lhe ajudafle a cõprir ho feu regiméto q era defender cõ armas a defembarcação a Pero mazcarenhas & lhe ajudafle a goardar a praya aqla noyte. E eles ho fizerão de boa võtade, & a praya fe goardou cõ tãta diligêcia como q fe goardara de Imigos, & toda a noyte Afonfo mexia gaílou em mãdar reqrimétos a Pero mazcareuhas q não defembarcafle, & que fe folfe a Goa & lá reqrefle fua juftiça: & ele refpõdeo a todos que em terra lhe refpõderia, & ao derradeyro acrecétou mais q não aueria é Afonfo mexia
  • 46 Hijloria da índia tão pouca humanidade, q como a Chriftão q erão ele & os de fua copa- nhia os não deixaífe defembar pera ouuiré milfa. E fendo ele defenganado q né pera iffo, nã quis fe nã defembarcar porq tinha inteligécia cõ algús da cidade q defembarcaíie coaqla cor, & como folie em terra fe leuãta- rião coele obedecédoo por gouernador, & préderião Afonfo mexia: o q não podião fazer fé ele defembarcar, & ifto fez a Pero mazcarenhas iníif- tir em fair em terra & não fe ir a Goa, & tãbem auer por grande afronta ter Afonfo mexia oufadia pera lhe dizer q por armas lhe defenderia a de- fembarcação, fedo ele húa peíToa tão principal na índia, & tido por muyto esforçado pelos muytos feytos em armas q fizera. E como ele não queria começar brigas com Afonfo mexia, & parecendolhe q defembarcãdo de- farmado as não queria coele, & tãbem de confiado que não oufaria de as cometer, & que os requerimentos paliados forão mais pera ho efpãtar, que pera ho executar, cometeo a defembarcação, indo cõ toda fua gente em dous bateis, & leuãdo ouuidor & meirinho com varas, & atfi ele como todos os outros, tão defarmados, que ate efpadas não leuauão. E vendo Afonfo mexia, q não qria fe não defembarcar, defendeolhe como a Imigo, fazendo meter pola agoa os queftauão coele, & mãdãdolhes q ferilfem a Pero mazcarenhas, & aos de fua cõpanhia, como a Imigos, & aífi ho fize- rão: bradãdo Pero mazcarenhas & os feus que ho não fizeífé, porq erão Chriftãos, & não querião guerra fe não paz, & como pacíficos yão fem armas: & requerendolhes da parte de Deos & dei rey q efteueífem que¬ dos ho que eles não fazião nem podião fazer, porque Afonfo mexia os nã deixaua, & andaua ãtreles fobre hú caualo acubertado armado, bradãdo que os matalfem como a immigos, pois defobedecião aos mãdados de léu rey, & eles ho fazião aífi que os de Pero mafcarenhas não tinhão cõ q fe defender. A gente da terra que faio toda a ver ifto eftaua muyto efpan- tada, & alfi era pera efpantar ver Portuguefes fazer coufa tão fea, & mais em terra de feus Imigos: porq não poderão eles fazer mais mal aos do mar do q lhes fazião os da terra, & conhecédo Pero mazcarenhas quã mao cõfelho fora ir defarmado pois defembarcaua: & vendo que não po¬ dia defembarcar recolheofe, indo bem efpancado, & ferido em hú braço, & alfi hú feu paréte chamado Iorge mazcarenhas foy ferido de húa chu¬ çada, & outros muytos, & todos efpãcados & pifados, & defpois q Pero mazcarenhas foy no feu galeão mandou fazer hú auto do q lhe Afonfo mexia fizera fedo gouernador da índia: & a ele, & a todos os moradores de Cochim mandou apregoar por tredóres, ameaçãdoos q lho auiã de pagar fe gouernaífe a índia.
  • Livro VII, Capitolo XXVIII 47 CAPITOLO .XXVIII. De como não podendo Pero mazcarenhas defembarcar em Cananor fe par tio pera Goa. REcolhido Pero mazcarenhas aos galeões não defiftio Afonfo mexia de goardar a praia, é quãto Pero mazcarenhas efteue no porto, receado q le metefle é CochI & logo efcreueo ao gouernador o q tinha feyto a Pero mazcarenhas, mãdandolhe todos os reqrimétos q lhe fizera fobre q nã defébarcafie & ifto lhe mandou por Aires da cunha, q tãbem leuou carta de Pero mazcarenhas pera ho gouernador é q lhe efcreuia o q lhe fora feyto per Afonfo mexia, & por iífo fe qria ir ver coele, & o mefmo efcreueo a muytos fidalgos qftauã c Goa, pedldolhes q determinaífem fe auia de fer Lopo vaz de fam payo gouernador ou ele, porq nã qria fe não juftiça. E partido Ayres da cunha coeftes papeis man¬ dou Afonfo mexia requerer a Pero mazcarenhas q lhe mandafle entregar os galeões que trazia pera os mãdar correger & lhe entregaífe a fazenda del Rey, & pera ir a Goa le la quifefie ir lhe daria húa carauela. Do que Pero mazcarenhas foy contente, porq defpois que arrefeceo da furia que lhe caufou a injuria que recebera, lembroufe das que forão feytas a Afonfo dalbuquerque (a quem defejaua de feguir) é outro tal cafo como aqle, & por iffo determinou de não fazer nada por força fe não por juftiça & coefta determinação não quis reter os galeões porque não parecelfe que fe queria fazer forte neles, & entregouos com a fazenda que tinhão, & mudoufe pera a carauela com fuà fazéda & criados. E coefta mudança os mais dos que vinhão nos galeões fe forão a terra por não caberem na carauela, & polo verem coaqle determinação: & algús deites forão prefos por mandado do vedor da fazéda, & antreles foy Iorge mazcarenhas eftando ferido da chuçada que diífe, & aíli ferido como eftaua ho man¬ dou leuar prefo a fortaleza de Coulão, como a quem fizera grãde crime: fendo ele peífoa que tinha bem feruido el Rey, & fidalgo de fua cafa. E Pero mazcarenhas defpois que fe mudou a carauela, partiofe pera Cana¬ nor a efperar hi ho recado de Goa, porq dom Simão de menefes capitão da fortaleza era feu amigo, mas achou a coula muy defuiada do que cuy- daua, porque fabendo dom Simão q eftaua no porto lhe mandou logo dizer, q lhe pefaua muyto de fua vinda fer em tal tempo: que lhe não podia fazer nenhú feruiço fendo muyto grande feu feruidor, porque tinha mandado do gouernador Lopo vaz dfe fam Payo a quem toda a gente da índia tinha por gouernador, que chegando ele aquela fortaleza fe quifefie
  • 48 Hiftoria da Índia ir a ela como hú fidalgo tão horrado & de tanto merecimento como ho feu que ho recebefle com toda a honrra & cortefia q fofle poífiuel: mas que fe fofle com nome de gouernador que lho não confentifle, & ele polo que deuia a fua lealdade não podia fazer outra coufa fe não obedecerlhe como a pefloa del Rey de Portugal q reprefentaua. Ào que Pero mazca- renhas refpõdeo que não queria fe não que comprifie com fua lealdade, & que não queria dele mais que hú catur em q fofle a Goa pera ir ainda mais rafo que na carauela & com menos fofpeita de querer por força auer a gouernança que não queria fe não por juftiça. O que lhe dõ Si- mão louuou muyto, & lhe mandou dar ho catur em que não quis leuar mais gente a fora os remeyros q Simão caeiro & Lançarote de feixas & dous moços que ho feruiflem, & com quanto lhe veo á memória ir fe a Chaul pera Chriftouão de foufa que tinha por amigo, & dahi fazer fuas coufas, não foy por recear que fizefle como dom Simão, & mais pola fama que auia que era grãde amigo de Lopo vaz de fam Payo, & por ifto não quis lá ir & partiofe pera Goa parecédolhe q ho gouernador fe queria poer coele em juftiça, & quando não q os fidalgos que eftauão coele lho farião fazer. E poédofe ho cafo em dereyto a gouernãça feria fua por lhe dizer Simão caeiro que ho muyto que tinha nela lha daua. CAPITOLO .XXIX. De como lio gouernador foube o que Afonfo mexia fe\ a Pero mascare- nhas. AYres da cunha q leuaua os recados de pero mazcarenhas & do vé- dor da fazeda pera ho gouernador chegou a Goa a quatro dias de março, & deulhe os papeis que leuaua, & viftos por ele, & fabendo por Ayres da cunha o q fizera a Pero mazcarenhas ouuefle por feguro na gouernança. E dando conta diflo a Eytor da filueira & a Pero de faria & a algús fidalgos de que fe fiaua, lhe confelharão que por nhú modo confentifle que Pero mazcarenhas fofle a Goa, porq íegúdo a géte eftaua defcõtete da abertura da noua prouifam, & tinha que lhe fora tomada a gouernança que vendo ho em Goa fe leuãtarião coele, por iflo que ho não cõfentifle entrar nela: o que pareceo bem ao gouernador, & efcreueo logo ao capitão mór do mar que por fer grande inconueniéte ao feruiço del Rey feu fenhor ir Pero mazcarenhas a Goa como lhe dizião os fidalgos que eftauão nela, lhe mandaua que fizefle de maneyra que topafle Pero mazcarenhas & lhe requerefle da fua parte que fe fofle aa fortaleza de Cananor dode não fayria fem feu mandado, & não lhe querendo obede-
  • Livro VII, Capitolo XXX 49 cer lho faria fazer por força, & prefo ho entregaria a dom Simão de me¬ neies de que cobraria conhecimento de como ho recebia, & quando fe Pero mazcarenhas defendefle ho metefle no fundo fe folfe neceffario, fazendolhe primeyro todos os requerimentos & proteftações q cumprif- fem, & efcreueo húa carta a Pero mazcarenhas dandolhe toda a culpa do que lhe fora feyto pois não quifera obedecer a feu regimento que lhe ho védor da fazéda mãdara noteficar, & por iffo não tinha rezão de caftigar ninguém do que lhe peíaua muyto, & quanto a verfe coele & com os fidalgos que eftauão em Goa erão todos dacordo que ho não fizeffe polo auerem por verdadeyro gouernador, & mais que daria fua ida grande toruação a fe fazer o que era neceífario pera ho recebimento dos rumes q efperauão: & por iffo lhe pedia muyto de fua parte & reqria da del Rey feu fenhor que fe foffe a fortaleza de Cananor como ho capitão mór do mar lhe diria, & dahi mandaffe requerer o que quifeffe. Coeftas car¬ tas defpedio logo Ayres da cunha a quem pola noua que lhe dera, & por lho ho védor da fazenda pedir deu a feytoria & alcaydaria mór de Cou- lão & a tirou a Anrriq figueira que a tinha por el Rey, dizendo que fizera treição é receber Pero mazcarenhas por gouernador. Partido Ayres da cunha coeftas cartas deu as ao capitão mór do mar, que nunca pode topar com Pero mazcarenhas, & por iffo não ouue effeyto o que ho gouernador mandaua. CAPITOLO .XXX. De como ho gouernador mandou q fojfe prefo Pero mazcarenhas. COmo quer que a mayor parte da gente q eftaua em Goa adi altos como baixos foffem de parecer que a gouernança era de Pero maz¬ carenhas fabendo que era na índia, & que auia de ir a Goa aluo- raçaranfe muyto per a fua vinda, & dizião pubricamente que ele era go¬ uernador & não Lopo vaz de fam Payo, & q vindo ele ho ajudarião a íelo, & logo fe começarão bandos antreles, & os que tinhão q ho gouer¬ nador ho era, & a cada canto auia ajuntamentos & perfias dús com ou¬ tros fobre cuja era a gouernança, & auia grande aluoroço & vnião pola cidade. E fabendo ho ho gouernador, diffe ho a feus amigos pedldolhes confelho: & eles lho derão q deuia de mandar goardar ambas as barras de Goa, porque hi era mais certo tomarfe Pero mazcarenhas q no mar Õde ho capitão mór do mar ho poderia errar, & mãdaffe q ali foffe tomada a menagé a Pero mazcarenhas, que fe foffe á fortaleza de Cananor donde não fayria fem feu mandado, & não querendo dar a menagem que foffe prefo em ferros, & afli ho leuaffem a Cananor. E ho principal defte con- Tomo IV 7
  • 5o Hijloria da Índia felho foy Eytor da filueira a quem ho gouernador daua mil pardaos dor- denado defpois que Antonio de miranda feruio de capitão mór do mar, & ifto por ho ter de fua parte por fer peíToa de credito & ter muytos parentes q ho gouernador cuydaua que ferião de fua valia por fua parte: & porque Pero mazcarenhas & os de fua parte cuydaffem que era afli, cometeo a Eytor da filueira que ho foífe prender: do que ele fe efcufou porque lhe parecia be prenderfe pera ho aconfelhar mas na pera fer ho executor, porque fabia quãto todos os fidalgos da índia lho eftranharião. E vendo ho gouernador que fe efcufaua mandou a Simão de melo feu fobrinho & a Antonio da filueira de meneies feu genrro que foffem com grande armada goardar ambas as barras de Goa & prendeffem Pero mazcarenhas não queTendo dar a menagem, & que Simão de melo ho leuaffe a Cananor & ho entregaria a dom Simão prefo em ferros de quê cobraria conheciméto de como ho recebia, & que afli ho etregaria quãdo lho ho gouernador mandalfe, & eles fe partirão pera as barras a noue de Março com tamanha armada & chea de tanta gente como fe fopão efperar os rumes, o que aluoroçou mais os da parte de Pero mazcare¬ nhas & dizião que bé moftraua ho gouernador q queria gouernar por força pois não queria q Pero mazcarenhas folie a Goa por não fe poer coele em dereyto, & fe teuera por certo telo na gouernança q lhe não dera nada de ir a Goa, & q pofto que ho mandalfe prender q a gouer¬ nança auia de fer fua, & diziãno de noyte em lugar que ho ouuia, & ele dilfimulaua por não auer moor aluoroço: & porem era tamanho q não podia fer mayor, & algús fe yão aqueixar do que ho gouernador fazia ao goardião de fam Francifco de Goa que era homem letrado, dizendolhe que polo que deuia a feu habito lhe deuia deftranhar o que fazia a Pero maz¬ carenhas, & ele refpõdia que não auia que eftranhar porque fazia juftiça: & que refponderia mais largaméte no cabo da pregação que auia de pre¬ gar ho domingo fegulte, & dilfe ifto ao gouernador pedindolhe a fua pro- uifã pera a ler no púlpito, & prouar por ela que ele erà verdadeyro gouernador, & ele lhe rogou muyto que ho fizeffe. E eftãdo ho gouerna¬ dor prefente com muytos capitães & fidalgos, leo no cabo da pregação em alta voz a prouifam per q Lopo vaz de fam Payo era gouernador. E defpois q prouou por muytas rezões que ele era verdadeyro gouernador (o q ningué negaua fe a fubceífam de Pero mazcarenhas não fora aberta primeyro) dilfe ho porq fazia aquela declaração, & que dizia a todas as pelfoas que dizião que ho gouernador torrçaua por força a gouernança a Pero mazcarenhas q vilfem bem o que fazião, porque afora lhe aífacarem hú grande falfo teftemunho cometião treição contra ei Rey coufa muyto auorrecida ãtre os Portuguefes pola muyto grande lealdade de que fem-
  • Livro VII, Capitolo XXX 5i pre vfarao fobre as outras nações: & pofto q ele era Caítelhano não auia vergonha de ho confeffar, mas que a auião dauer os que lhe fazião dizer aquilo, & que duuidauão em coufa tão clara como era fer Lopo vaz de fam Payo gouernador por dereyto & não por força: & que bé fabião todos quão pouco paretefco tinha coele né com Pero mazcarenhas, & quão pouca neceffidade tinha deles nem doutra nenhúa pefloa deite mundo, & que ainda que lhe algús aífacauão que ele não falaua verdade, o q fe ele fazia prouueífe a Deos eterno que no inferno foffe confundido, & lhe tiraffe logo a fala fe ele dizia fe não o que entendia, & affi ho juraua polo deos q aquela manhaã teuera nas mãos, & por tãto requeria da parte do Sanéto padre ao vigairo geral que hi eítaua que palTaffe húa carta def- comunhão em que ouueffe por efcomungados a todos os q diffeffem que ho gouernador ho não era por dereyto, & pagaífem dez marcos de prata pera a fé & não podeffem fer abfolutos fe não polo bifpo do Funchal, & reqria ao ouuidor geral & a todos os fidalgos q oulhaffem por tamanha coufa como aquela era, & que foubeffem todos que as goardas que ho gouernador punha nas barras não era por fe temer da vinda de Pero mazcarenhas fe não por não auer aluoroços: & cuydando que ficauão todos cretes coeíta fala q Lopo vaz de fam Payo era gouernador por de¬ reyto caloufe, & logo Pero de faria capitão de Goa lhe pedio a fubceffam & a beijou & pos na cabeça, dizendo que a obedecia, & pregútãdo a todos fe fazião outro tanto differão que fi, & do que ho goardião dilfe, & diíto mandou fazer hú auto pera fua fegurança, & fe aproueitar dele quando foífe tempo, & por feu mandado foy ho ouuidor geral polas calas deífes fidalgos q fe acharão na pregação, & ho affinarão por amor que differão q obedecião á prouifão que ho goardião lera, & os que affinarão, forão Pero de faria, ho feytor Miguel do vale, Eytor da íilueira, Fran- cifco de foufa tauares, Gonçalo dffoufa, Ruy gomez dagrã, dom Iorge de craílo, Manuel de brito, dõ Antonio da filueira, Vafco da cunha, Diogo da filueira, dõ Afonfo de menefes, Geronimo de foufa, Anrriq de macedo, Iohane mêdez de macedo, Diogo de macedo, Manuel de carualhal, Anto¬ nio médez de brito, Frãcifco da filua, Pero defcouar, & dõ Vafco de lima, & Iorge de lima, porq não quiferão affinar foram prefos fobre fuas menagés, & affi porq moltrarão fer da parte de Pero mazcarenhas, & ao outro dia foi elte auto affinado pelos que eftauã nas barras, que forão Antonio da filueira, Simão de melo, dom Iorge de noronha, Iorge de melo, dõ Iohão lobo, dom Anrrique déça, Iohão pereyra, Francifco cor- rea, Antonio caldeira, Gomez de fouto maior, Lopo correia, Francifco de brito, Payo rolz daraujo, Gracia de melo, Antonio mendez de vafconce- los, Nuro pereyra, Frãcifco ferreira, Gafpar da filua, Fernão de moraeis,
  • Hijloria da índia 52 Fernão rolz barba. E aífi foy affinado polo capita mór do mar, que che¬ gou a eíte tempo, & pelos capitães q yão coele. CAPITOLO .XXXI. De como Pero mazcarenhas foy prefo em ferros. NAuegando Pero mazcarenhas pera Goa, topou cõ Goçalo gomez dazeuedo, hú fidalgo de q foube a armada q ho ellaua efperando pera ho prenderem por mandado do gouernador. E como ele ya poíto em fofrer tudo ho que lhe fizeflem, & não fazer mais que requerer fua juíliça, não lhe deu nada & paffou auante, & tãbé por não ter onde fe ir: & defpois de fapartar de Gõçalo gomez chegou á barra de Pangim aos dezafeis de Março. E tanto que foy viíto lhe faio hú bargantim tirã- dolhe bombardadas por alto pera q amainaífe como amainou, & depois de fer leuado a Antonio da filueira & lhe não querer dar menagem de fe ir meter na fortaleza de Cananor & não fair fem mandado do gouerna¬ dor, lhe foy deitado hú grilhão. E entregue a Simão de melo ho leuou a Cananor, & forão prefos Simão caeiro, & Lãçarote de feixas, & leuados ao tronco de Goa, onde forão bem carregados de ferro. E entregue Pero mazcarenhas a do Simão de menefes, por Simão de melo cobrou dele hú conhecimêto de como ho recebera, & que aífi ho entregaria quando lho pediflem, & coele fe tornou ao gouernador, q fe ouue por feguro com a prifão de Pero mazcarenhas, & aífi ho ficou: porq coela fe aífefegarã todos os aluoroços que auia, & ninguém falou mais e Pero mazcarenhas, temendo que lhe não fizeífem como a ele, & mais perderão a efperança de fe reftaurar. E neíle tempo Francifco de foufa tauares q tinha a carta de Chriftouão de foufa, que com os de Chaul fe acordou q efcreueffe ao gouernador, lha deu, cuja fultancia era efpãtarfe muyto dele, efperandofe por Rumes cada dia, que trazião tamanho poder como ele fabia: & fendo ho dos noffos tã pouco querelo ainda deminuir, cõ ho diuidir em duas partes & fazer diuifão, que é todas as partes era a mais abominauel coufa que podia fer, quãto mais na índia, & naquele tepo, que fe lhe parecia que a gouernãça era fua, que fe pofeífe em juíliça cõ Pero mazcarenhas quando vieífe de Malaca, & nã quifeffe que fe determinaffe por armas como parecia que queria, & qué teueffe dereito eífe fofle gouernador, por¬ que ele não queria que ho foífe hú mais que ho outro, né lhe queria que fe pofeífe em dereito, fe não por não auer diuifão na índia: & q aífi lho pedia muyto & requeria da parte del rey: certeficandolhe que não auia dobedecer, fe não a quem fe pofeífe em dereito. Viíla eíla carta pelo go-
  • Livro VII, Capitolo XXXI 53 uernador, achoufe muyto falteado, por fer Chriftouão de foufa ho princi¬ pal capitão de toda a índia, & que tinha a raayor parte da gente dela de fua parte, por dar muyto mayor mefa que todos os daquele tempo, & muyto mais abaftada & melhores igoarias, & daua dinheiro a muytos que ho não tinhã, & fer de muyto folgar, & muy familiar com todos, polo que continuaméte inuernauã é Chaul mais fidalgos & gete que é ou¬ tra parte, & por iífo ho gouernador ficou afaz agaftado, em lhe parecer q lhe não obedeceria pois nã fe determinara cõ Pero mazcarenhas fe não por força, & ifto lhe fez crer que nã era ainda pacifico na gouernança, & não moftrou efta carta fe não aos que tinha por amigos, que ficarão coela abalados, por fer Chriftouão de foufa a peífoa q era, & confelharão ao gouernador q lhe mãdalfe notificar a prifão de Pero mazcarenhas, & como fe fizera fem nenhúa diuifão, que fora aprouada polo capitão mor do mar, & polo capitão de Cananor, & por todos os capitães & fidalgos da índia, & ho obedecião todos por gouernador, pedindolhe que pois nã auia diuifão, que obedeceífe, & efcreuefle húa carta a Pero mazcarenhas, como auia a fua prifão por boa, & lhe confelhafle que defiftiffe de pre¬ tender a gouernãça. E fabido ifto por Criftouão de foufa como quer q não pretendia nefte cafo mais que nã auer diuifão, folgou muyto de a coufa fe fazer tão pacificamete: & deu por ifto muytas graças a noffo fenhor, mas não que lhe deixafie de parecer muyto mal a prifão de Pero mazcarenhas, & muyto peor não lhe darem a gouernança, que lhe pare¬ cia fer fua por dereito, & que pelo que deuia ao feruiço del rey, & a obri¬ gação que tinha de fua menagem & fidalguia, q deuia dobedecer por go¬ uernador a Pero mazcarenhas, & não a Lopo vaz de fam payo, mas poendo diante que fazendoò afíi fe renouaria a diuifão que eftaua apagada, & que fe desfaria ho corpo da gente da índia, que fe podia conferuar, cõ auer por boa a prifão de Pero mazcarenhas, & atalhaua aos que erão da fua parte, vendo q ele era da do gouernador, ho feriã també, & eftãdo todos juntos & cõformes os ajudaria noffo fenhor, & lhes daria vitoria dos Rumes, q não vindo na moução de Mayo eftaua certo virem na de Sete- bro, & achando diuidida a gente da índia, feria muy leue coufa ganha- rêna, com não efcapar nhú dos noffos, & por ifto lhe pareceo bé com co- felho dos principaeis que eftauão coele, que não fomente fcreuefte ao gouernador, que ho obedecia por efle, & auia a prifão de Pero mazcare¬ nhas por boa, mas tãbe a toda a índia: & fcreuefte a Pero mazcarenhas cõforme ao que lhe ho gouernador rogaua, & a quem fcreueo efta carta. «Senhor por efte parfio ouue húa carta de V. S. é q me largaméte da conta do negocio dãtrele, & Pero mazcarenhas, muyto folgara de o faber primeyro, porque dera antes meu parecer fe afeiçã, como V. S. de
  • S4 Hijloria da índia mim cré & efpera. E quanto fenhor ao que diz que todos obedecerão a fua prouifão, eu tãbé digo q lhe obedeço, no alto, & no baixo, como a gouernador que he por prouifão del rey noíTo fenhor, & fei certo feio V; S. por morte de dõ Anrriq de menefes q Deos perdoe. E quãto ao que he paliado fobrefte cafo, me pareceo efcufado meu parecer, por ho negocio ter ja fim Deos feja louuado, tão fem aluoroço & fem diuifão, ho q fempre pedi a noflb fenhor, & eftaua afaz confiado q fe faria bé polo V. S. ter ãtre as mãos & pois eftá feyto tanto é concordia & paz, não falo niffo. A carta pera Pero mazcarenhas vai aberta, pera fe lhe parecer bem mãdarlha, fe não faça ho que quifer. Beijo as mãos de V. S. de Chaul a vlte cinco de Março. Criftouão de foufa. E a de Pero mazcarenhas dizia. «Senhor fuy emformado do fenhor Lopo vaz, de todo ho cafo dãtre vos & ele, & affi vi fuas prouifões & os pareceres deffes fenhores que fe acharão em Cochim, & certo tudo foy feyto por feu eltilo, & como eflas coufas eftem é pontos de dereito, q muvto bé fabem algús dos queftauão prefentes, não vos pareça fenhor ho contrairo, 1'e não q por todos, affi lei¬ gos como por eífes dous frades q ho deuê detender, & fer fem fofpeita por feus hábitos, & mais afirmandoo cõ juraméto, forão fuas prouifões auidas por boas: & certo a meu ver, a vontade de Sualteza era feio per falecimento de dõ Anrrique: & de todas as outras coufas, eu não fuy en¬ formado fe não a tépo q tudo eftaua feyto, por iffo foy efcufado meu pa¬ recer, & pois tudo efta pacifico, auei vofa prifão em paciência, porque certo foy neceffaria, affi polo q vos cúpre, como por euitar algúas fofpei- tas domes que defejão diuifões, ho q pera ho tempo em q eílamos fora tão danofo, q muyto melhor fora ferdes ambos mórtos: Quifuos fenhor fcreuer efta, pofto q de vos não tenha recebida nhúa defpois de vofla vinda, pera nela vos pedir por merce como acima digo ajais padecia com voffas coufas, & queirais fazer efte feruiço a fualteza, de vos não lembrar¬ des agora de voffa honrra, por não vingardes vofla prifão, coufa tãto cõtra feu feruiço, & certo recebereis affinada merce de tão notauel feruiço, & não demouão voffo bõ confelho, algúas cartas de fidalgos da índia, por¬ que certo quê vos ho contrairo aconfelhar fera voffo inimigo, & não de- feja de voffas coufas ferem feytas a voffa hõrra como eu. Veja fenhor ho q de ml mãda nefta terra & faloei, não tocando neftes negocios (por ja teré fim) como feu feruidor & amigo que fou de muytos dias. Beijo fnor voffas mãos, de Chaul. Criftouão de foufa. E affi eícreueo a dom Simão de menefes & a outros muytos fidalgos do que ho gouernador ficou muyto contente parecendolhe que ho tinha da fua parte, & Pero mazcarenhas também ficou fatisfeyto quando vio a
  • Livro VII, Capitolo XXXII 55 fua carta, porque entendeo nela que não auia fua prifam por boa fe não pola pacificação da índia & por fe efcufarem diuifões, & teue efperança de lhe parecer ainda bem poerfe ho gouernador coele em dereyto fobre a gouernãça fe ho dom Simão foltaffe, em que ja começaua dentender que ho faria, por lhe ter prometido que como foffe inuerno lhe tiraria os ferros, pedindolhe perdão de lhos não tirar mais cedo por recear que ho gouernador ho foubeffe. E ifto deu oufadia a Pero mazcarenhas a mãdar hú requerimeto ao gouernador per hú Dinis camelo tabalião pubrico de Cananor, cuja fuftancia foy que ho gouernador fe pofeífe coele 5 juftiça & não leuafle ao cabo a força q lhe fazia tomandolhe a gouernança q lhe el Rey dera proteftando por todas as perdas & dãnos que difTo recebeíle, & requerendolhe também q foltaífe a Simão caeiro & a Lançarote de feixas pera requererem fua juftiça pois os tinha prefos fem ferem culpa¬ dos. E dado efte requerimento ao gouernador, ele ho rompeo acabando de ho ler: pelo q Dinis camelo não oufou defperar a repofta & fugio pera Cananor. E logo nefta conjunção indo ho gouernador á fortaleza paffando por diãte da porta do troco Simão caeiro & Lançarote de feixas lhe requererão a grandes brados que os mandaífe foltar pera requererem a juftiça do gouernador Pero mazcarenhas, & por ilfo os mandou carre¬ gar de ferro mais do que eftauão, & defendeo fob graues penas que nin¬ guém fobrefte cafo de Pero mazcarenhas lhe delfe mais requerimentos fe não ao fecretario porque ele refponderia, & mandou apregoar q 1'opena de morte ninguém foffe oufado de nomear por gouernador a Pero maz¬ carenhas: que fabendo como ho gouernador rompera ho feu requerimento a Dinis camelo & lhe não dera outra repofta, lhe pedio dilfo hú eftor- mento que lhe ele deu. E não refponder ho gouernador a efte requeri- mêto, fez parecer a dom Simão que tomaua a gouernança por força, & parecendolhe mal começoufe dabalar pera lhe defobedecer, & não q ho difeffe a Pero mazcarenhas. CAPITOLO .XXXII. Da catifa q Eytor da filueira, & Diogo da Jiliieira, teuerão pera ferem cõtra ho gouernador. PUbricado por criftouão de foufa que auia por boa a prifão de Pero mazcarenhas, como ele era pefloa tão principal na índia, & de q fe fazia muyta conta, os mais dos que erão da parte de Pero maz¬ carenhas, vendo que era daquele parecer, ho teuerão també por bom, & «rendo q afli cumpria ao feruiço de Deos & del rey, affeffegarão de feus
  • 56 Hijioria da índia aluoroços, principalmente em Goa, em que ceifarão fupitaméte os ajun¬ tamentos & perfias que auia dantes, com ho que ho gouernador ficou def- canflado, tendo que eítaua em paz: pelo que começou de faperceber do neceíTario, pera a vinda dos Rumes, affi como mandar varar nauios, & fazer outros de nouo, & fundir artelharia, & fazer poluora & pelouros. E nefte tempo na etrada Dabril, lhe pedio Eytor da filueira, que man- daffe Pero de faria feruir a capitania de Malaca de q eílaua prouido, & que lhe daria a de Goa, do que fe ho gouernador efcufou, porque Pero de faria tinha também a capitania de Goa por el Rey, & eftaua em fua efcolha tela, ou deixala, & por iflo ho não podia fazer ir a Ma¬ laca fem fua võtade, & com tudo ele lhe falaria niífo, & fe quifeífe ir a Malaca lhe daria a de Goa, & falandolhe, refpondeo Pero de faria que não queria ir a Malaca, ho que Eytor da filueira não creo, quando lho ho gouernador diffe, & pareceolhe que como eftaua neceflitado domes pera fe fuftétar na gouernança, que faria com Pero de faria q não dei- xaífe Goa, por ho ter configo que era grande feu amigo, & parecendolhe ifto nã quis receber palauras de comprimentos, que ho gouernador teue coele, dizédo que lhe pefaua de lhe não poder dar aquela capitania mas q outra coufa aueria que lhe delfe: & ele refpondeo que não auia que lhe dar, & que bem fabia dele a verdade, & que lhe não auia détrar mais em cafa, ho que ho gouernador fofreo polo tempo em que eftaua, & dali fe foy logo Eytor da filueira muyto agaftado & indinado cotra ho gouer¬ nador, & cotou o q paífara coele a Diogo da filueira feu parente & amigo, confelhandolhe que lhe pediífe a capitania de Malaca, pois a Pero de faria não queria feruir, & ele ho fez alfi: & ho gouernador refpondeo que lha dera de boa vontade, mas que lha não podia dar, pola feruir lorge cabral, a quem Pero mazearenhas a dera fendo jurado por gouer¬ nador, pelo que lorge cabral a não alargaria fem ver prouifão de Pero mazearenhas, & indo ele fem ela a Malaca, feria fazer la outro aluoroço como auia na índia, & por iflo ho não podia prouer do q lhe pedia, do que fe ele moftrou muyto agrauado, & não quis receber nhús compri¬ mentos do gouernador, porque todos então pela neceflidade que fabião que tinha deles fe lhe querião vender muyto caros, & ajudarfe dele com fazerem feu proueito: & crendo que não tinhão nhú de fua amizade nem de ferem de fua valia pois lhes não daua o que lhe pedião, pareceolhes muyto mal fer ele gouernador, & que tinha por força a gouernança a Pero mazearenhas que era ho verdadeyro gouernador & por tal ho ou- uerão, & logo lhes pareceo bem que ho gouernador fe pofefle coele em dereyto fobre quem ho deuia de fer. E aflentãdo ifto ambos, começarão de prouocar outros fidalgos que foflem de fua openião & fizerão coeles
  • Livro VII, Capitolo XXX11 3 7 que a teueffem & forão eftes, dom Antonio da íilueira, dom Triftão de noronha, do Iorge de crafto, Vafco da cunha, dom Anrrique deça, dó Fran- cifco de crafto, Nuno fernãdez freyre, Iorge da filueira, Frãcifco dataide, Iorge de melo, Diogo de miranda, Ayres cabral, Simão fodré, Marti vaz pacheco & Simão delgado quadrilheiro mór. E acquiridos eftes & outros muytos homés por fua parte, logo ho efcreuerão por terra a Pero maz- carenhas, & fua determinação: por iífo que trabalhaffe com dom Simão que ho foltaífe, & na entrada do verão fe foffe a Goa, & farião cõ ho gouernador que fe pofefTe coele em juftiça fobre cuja era a gouernança. E efta carta foy afllnada por todos eftes fidalgos que digo, q vifta por Pero mazcarenhas a moftrou a dom Simão, dizendo que pois aqueles fidalgos ho querião ajudar que porque ho não foltaria ele fendo tamanho feu amigo, & pois niffo feruia a Deos & a el Rey, & aftirmaffe que lhe prometeo de lhe dar a capitania mór do mar fe ho fizeífe, & tirala a An¬ tonio de mirãda porque não era fua fe ele foffe gouernador que ficaua fem poder auer effeyto a fegúda fubcefia de Lopo vaz de fam Payo que ho fazia capitão mór do mar, & dom Simão lhe prometeo de ho foltar fe aqueles fidalgos permaneceffem em fer da fua parte: & que efcreuelfie a feus amigos que tinha em Cochim pera faber fe tinhão ainda fua voz, & que requereffe a Antonio de miranda & ao védor da fazenda que pois erão na índia peffoas tão principais fizeffem com ho gouernador que fe pofeffe coele 5 juftiça: & ele ho fez adi, & lhes mandou fobriffo grandes requerimentos cõ cartas a feus amigos que lhos aprefentaffem, & como ho védor da fazenda era muyto recatado temiafe de Pero mazcarenhas ter algúas inteligências em Cochim, & por iffo tinha fuas efpias pera lhe tomarem quais cartas ou papeis que lá mandaffe, & acertarão de tomar húa carta que ouui, & tinha ho fobrefcrito tão rifcado que fe não podia ler, & por iffo não foube pera quem era & dizia. «Senhor agora nouamente torno a fazer certos requerimentos fobre a •gouernança da índia por me fer requerido que os faça, lá fenhor vos ha de fer moftrado hú deles, fey certo que vos ha de parecer bem fazelo pois a todos eftes fenhores digo polos mais deles parece mal não ho fazer dias ha, defejão todos virlhe á mão poderem aleuantar ho feruiço del Rey noffo fenor, & não confentirem coufas que paffam contra feu real eftado de que tem que fe lhes pode dar muyta culpa por as confentirem paffar como paffam: & porem como em Goa não fuy atequi vifto nem ouuido, não paffou ho tempo de fazer o q agora faço, beijaruofey as mãos porque tudo vejais, & ponhais ante vos que a Antonio de miranda nem a Afonfo mexia lhes não ha nunca de parecer bem gouernar eu a índia, porque gouernãdoa não lhe pertence a hú a capitania mór do mar, nem Tomo IV 8
  • 58 Hijloria da índia a outro a capitania de Cochim o que lhes pertence gouernando Lopo vaz, & por iflo ho querem fofter. E com tudo vejo q quer Deos tornar fobrifto como cumpre a feu feruiço, & ao eftado real del Rey noffo fenhor. Beijo as mãos de vofla merce defte Cananor a vinte tres Dabril de mil & qui¬ nhentos & vinte fete. Pero mazcarenhas. E vifta efta carta pelo vedor da fazenda, refpondeo ao requerimento de Pero mazcarenhas que ho fizefle ao gouernador & não a ele, porq lhe não podia requerer q fe pofefle e juftiça fobre a gouernança q era fua por prouifam del Rey, & ho mefmo refpondeo Antonio de miranda, & ho védor da fazenda mandou logo efta carta de Pero mazcarenhas ao go¬ uernador pera que foubefle fua determinação, que ainda a não fabia, & cuydaua que eftaua fora de tal penfamento. CAP1TOLO .XXXIII. Do requerimento que os officiais da cantara de Goa ji\erão ao gouer¬ nador. D Aqui por diãte amiudou Pero mazcarenhas os requerimétos fobre fe ho gouernador poer coele em juftiça, alfi ao védor da fazenda como a Antonio de miranda & ao mefmo gouernador que a nhú refpondeo, antes prendeo algúas pefloas que lhos aprefentauão. E Eytor da filueira, Diogo da lilueira & dom Antonio da filueira com os de fua valia deixarão nefte tempo de ir a cafa do gouernador & acompanhalo como coftumauao dantes, o que ele cuydaua que era pelos agrauos que terião das capitanias que lhes não dera, & diffimulaua coeles fazendolhes fempre gafalhado onde os topaua, nem tirou por iífo a Eytor da filueira os mil pardaos que lhe mandaua dar á cufta del Rey parecendolhe que coifto ho amanfaria, & ho teria da fua parte com os mais amigos q tinha: mas ele eftaua ja tão determinado em fazer q fe pofefle em juftiça com Pero mazcarenhas que nhúa coufa aproueitaua ao gouernador pera ho fazer mudar. E vendo ho gouernador que os requerimétos de Pero maz¬ carenhas nã ceflauão defenganou ho por húa carta que lhe não fizefle re¬ querimétos, porque não fe auia de poer coele em juftiça, que era fazer duuidofo o que tinha certo por prouifão del Rey: do q logo Pero mazca¬ renhas. auifou a Eytor da filueira, efcreuendolhe que pois Lopo vaz não queria poerfe em dereyto por feu requerimento, que lho fizefle ele com os outros de fua valia, & não querendo fatisfazer que lhe defobedeceflem & obedeceíTem a ele, porque fe afli ho não fizeflem que fe chegaua ho verão: & fe naquele negocio fe não tomaua primeyro algúa concrufam,
  • Livro VII, Capitolo XXXI11 59 que receaua que ho gouernador ho mandaria prefo pera Portugal, & affi não aproueitaria ho bem que lhe querião fazer. E vifta por Eytor da fil- ueira efta carta, moftrou a aos de fua liga. E foy acordado por todos que não era neceífario fazerfe então nhú requerimento ao gouernador fe não fendo Pero mazcarenhas preféte: por tãto como foffe tempo ele foffe a Goa, & coele requererião ao gouernador que fe pofeífe em juftiça, & quando não quifeffe que lhe defobedecerião & obedecerião a ele. E neíle acordo forão os officiaes da camara de Goa que tambe Eytor da filueira tinha prouocado a teré a voz de Pero mazcarenhas, & affi muytos cida¬ dãos de Goa, que todos affinarão em húa carta q Eytor da filueira efcre- ueo a Pero mazcarenhas defte acordo, dizendo mais que todos aqueles que ali yão affinados perderião por ele as vidas & fazendas. E os affina- dos forão duzétos & feífenta homes, de q Pero mazcarenhas ficou efpã- tado quando vio a carta, por cuydar que ninguém quifeffe fer da fua parte, & moftrou efta carta a dom Simão pera que teueffe mais võtade de ho foltar & fe animaífe a fazelo vendo que tinha tanta gente de fua valia, & tornou a efcreuer a Eytor da filueira & aos outros, q toda via era neceífario em quanto não podia ir a Goa requererem ao gouernador que fe pofeífe coele em juftiça, & quãdo ho não quifeffe fazer q ho pren- delfem, & affi ficaria a coufa fegura por fua parte, porque fem duuida fe efle feyto não foffe auerigoado antes da chegada das naos do reyno, & ho gouernador ho foffe quãdo elas chegaffem eftaua certo ter mayor po¬ der do que tinha, porque os capitães não auião dobedecer fe não a quem achaffem em poffe da gouernança, & coiffo ho poderia prender em pri- fam mais apertada ate ho mandar pera Portugal, & por iffo era muy ne- celfario fazerélhe ho requerimento que dizia, & prendereno quando não quifeffe fatisfazer a ele, & pera que pareceffe q tinhão caufa pera lho fazer, fez pera os fidalgos hum & outro pera a camara de Goa em que lhes requeria que requereffem ao gouernador q fe pofeífe coele em juftiça fobre cuja era a gouernança. E Pero mazcarenhas infiftia tanto nefte ponto que fe pofeífe ho gouernador coele em juftiça, porque tinha por muy certo que a auia ele de ter, & que lhe auião de julgar a gouernança. Eftas cartas, & requerimentos mandou por hum Mem vaz com fua pro¬ curação pera requerer & fazer tudo quanto lhes cumpriffe, & ele partio por terra em Iulho, & chegou a Goa na entrada Dagofto, onde muyto fecretamente deu a Eytor da filueira as cartas & requerimentos que leuaua que logo as deu aos pera que yão. E a todos parecerão bem os requeri- mctos de Pero mazcarenhas, & Me vaz aprefentou na camara o que ya pera os officiaes: que logo fizerão outro ao gouernador que fe pofeífe em dereyto com Pero mazcarenhas fobre a gouernança & derãono ao fecre-
  • 6o Hijloria da índia tario & coele o que lhes Pero mazcarenhas fizera. E ele os moftrou ao gouernador, que não refpodeo mais fe não ameaçandoos fe lhe fizeffem outros requerimétos: & ho mefmo faria fe deflem reporta a nhú que lhes fizeffem fobre aquele cafo, ou Pero mazcarenhas, ou a qualquer outra pertoa. E os officiaes diflerão ifto a Eytor da filueira, dizendo que afli ho auião de fazer, por iffo que bufcaífe feu remedio: porem que fe a coufa vieife a fer neceflaria fua ajuda que lha darião. E vendo Eytor da filueira a determinação do gouernador, acordou com os de fua valia, & com todos os q tinhão a voz de Pero mazcarenhas, que ele com os fidalgos fizeffem hum requerimento ao gouernador que fe pofeífe em juftiça cÕ Pero mazcarenhas, & que ho deflem a ele mefmo, & que lho defle Ma¬ nuel de macedo com hum efcriuão, & ele lho deu em faindo de fua cala. Ho gouernador ho tomou, & logo ho leo, & não deu outra reporta fe não mandar Manuel de macedo aa cadea & carregalo de ferro, porque contra fua defefa fora oufado de lhe dar ho requerimento. E Manuel de macedo tomou teftemunhas de como ho gouernador fendo ele fidalgo ho mãdaua meter na cadea com as peffoas baixas, & ifto mais polo injuriar que por fazer juftiça, porque pera iffo auia fortaleza ode ho prendeflem merecendo ele prifam tão graue, quanto mais que lhe fazia fem juftiça pois ho prendia por lhe lhe requerer que a fizefle de fi. E paffando aquela primeyra furia ao gouernador mandou que fofle tirado do tronco, & an- daífe pola fortaleza com a menagem tomada: mas ele não quis fe não eftar na cadea pois da primeyra lhe não derão a fortaleza por prifam, & ho efcriuão que ya coele pera dar ho eftormento foy efpancado & arre¬ pelado polo gouernador, & os feus criados ho ouuerão de matar fe não fugira. CAPITOLO .XXXIIII. De como ho gouernador prendeo Eytor da filueira & os outros fidalgos de fua valia. VEndo Eytor da filueira & os outros fidalgos de fua valia o que ho gouernador fez a Manuel de macedo, pareceolhes que era por de mais fazerlhe requerimentos fobre fe poer em juftiça fobre a go- uernança porque ho não auia de fazer, & que eftaua leuantado com a índia. E confultarão entre fi que era muyto grande deshõrra fua fofre- renno, & que el Rey lho eftranharia: & q aquilo era caufa muy abaftante pera prenderem ho gouernador como Pero mazcarenhas requeria. E aflentando de ho fazer afli, diíferãno aos officiaes da camara de Goa, & a todos os que erão da fua parte pera lhe acodirem com armas quando
  • Livro VII, Capitolo XXX1III 6r ouueffe de fer a prifam, & começoufe hú grande rumor pola cidade, de que ho gouernador não fabia nada, & Pero de faria lho defcobrio. E logo que ho foube, determinou de prender a Eytor da filueira & os outros fidalgos que ferião dezafete, & comunicado ho com Pero de faria. Ele lhe difle que alfi ho deuia de fazer, porque 1'e não hauia de fofrer tama¬ nho defacatamento. E affentado iíto deufe parte a Antonio da filueira & a Simão de melo & a outros, pera q ao outro dia fe foliem todos arma¬ dos fecretamente a tomar as ruas que yão ter a cafa Deytor da filueira porq deteueflem os que lhe quifelfem acodir: & que Pedro de faria por fer capitão os fofle prender, & ho gouernador eftaria na rua noua pera mandar gente em fua ajuda ou acodir fe fofle necelfario. E ao outro dia pola menhaã q forão noue dias Dagofto eftando tudo ordenado ficou ho gouernador a caualo na rua noua, & Pedro de faria fe foy a cafa Deytor da filueira que eftaua hi muyto perto em outra rua, & achou ja muyta gente ao derredor da cafa que ya acodir a Eytor da filueira, entendendo que ho gouernador ho mandaua prender: & por a coufa fer tão fupita não leuauão mais que lanças, & alfi acodirão os fidalgos da conjuração fem mais armas q as coftumadas. E fabendo Eytor da filueira q Pero de faria eftaua hi fayo a húa genela & preguntoulhe que queria: & ele lho difle, requerendolhe que lhe defle a menagem. E ele refpondeo que fobifle ele acima a tomarlha, & que lhe faria o que ele merecia, pois era tão roim fidalgo que aceitaua ilo prender. O que vendo Pero de faria man¬ dou chamar ho gouernador, que foy logo leuando algúa gente. E nefte tempo era a reuolta muyto grande da gente que acodia ao gouernador & a Eytor da filueira, & todos com lanças & ordenauafe húa muy perigofa briga, porque os do gouernador leuauão efpingardas, & os fidalgos da liga eftauão ja todos com Eytor da filueira, & determinauão damotinar a gente de fua parte contra ho gouernador pera que começaflem a peleja, & eles profleguiflem: porque por fe lhe não dar toda a culpa do mal que fe feguifle nã querião começar. E coefta determinação em ho gouernador chegando, difle Diogo da filueira da genela aos da fua parte que eftauão na rua. Senhores não vedes ifto que toma por força a gouernança da ín¬ dia, não he bem que fe lhe confinta. Ao que ho gouernador refpondeo com ira, q por força a tomaua & a auia de tomar. E com quanto os da parte dos fidalgos ouuirão eftas palauras, nunca eles oufarão de bolir configo porque vião que os fidalgos eftauão quedos. E ho gouernador lhes bradou da rua que fe deflem á prifam. E eles diflerão que fe não auião de dar, porque ele os não podia prender que era feu immigo por lhe re¬ quererem que nã tomafle a gouernança a Pero mazcarenhas, & fobrifto lhe fizerão algús requerimentos. E vendo ele que fe não querião dar á
  • 6 2 Hijloria da índia prifam, deceofe do caualo com muyto grande menencoria, & tomando húa lança & adarga quis fobir acima ondeftaua Eytor da íilueira cÕ os outros, que por a fua gente eftar mal armada & a do gouernador bem, & principalmente por lhes parecer feruiço del Rey não fe fazer o que eftaua ordenado que auia de fer com tamanho perigo, não fe quiferão defender fe não darfe aa prifam. O que foy grande bem, porque fe fe de¬ fenderão ouuera de fer húa coufa muy fea pera Portuguefes & poucos & poucos ouuerão de ficar viuos. E é ho gouernador querendo fobir pela efcada, fayo ao peitoril dela Eytor da íilueira, & diffelhe que ele & os outros fidalgos íe dauão por prefos, então pedio Pero de faria ao gouer¬ nador que fe fofie, & que ele os leuaria aa fortaleza, & que lhe deuia de dar aquela honrra de os leuar pois era capitão da cidade. E ho gouerna¬ dor ho fez afíi, & foy efperalo á fortaleza onde foy logo com os prefos que forão eftes, Eytor da filueira, Diogo da filueira, Dom Antonio da íil¬ ueira, dom Triftão de noronha, dõ lorge de crafto, Vafco da cunha, Marti vaz pacheco, lorge da filueira, dom Anrrique deça, Diogo de miranda, Francifco dataide, Simão delgado quadrilheiro mór, Nuno fernãdez freyre, dom Francifco de crafto, Simão fodré, lorge de melo & Ayres cabral. E entrados na fortaleza, ho gouernador lhe tomou as menagés que em feus pés né alheos não fayfiem dela, & diflo foy feyto hú auto. E prefos eftes fidalgos, pareceo ao gouernador que ficaua em paz, porque muytos da¬ queles que erão da fua parte vendo os prefos forão reconciliar logo coele, & antreles forão os officiaes da camara, a que mandou que refpõdeffem ao requerimento de Pero mazcarenhas q lhes leuaua Mé vaz que ainda eftaua em Goa: & por comprazer ao gouernador refponderão que lhe não podião requerer que fe pofeífe em iuftiça fobre a gouernança por fabe- rem que era fua por prouifam del Rey, & era obedecido por gouernador por todos os da índia: & fe fobriílo lhe requereflem que fe pofeflé em juftiça pareceria que defobedecião aos mandados del Rey, a que perten¬ cia julgar cuja era a gouernança & não a outrem, por tanto que fua vinda a Goa era efcufada, porque não feruiria de mais que de fazer aluoroço na gente, que era neceffario que efteueffe quieta pera pelejar com os Ru¬ mes que efperauão, requerendolhe da parte del Rey que não foffe a Goa. E ho gouernador também refpondeo largamente por parte da camara a Pero mazcarenhas, apõtandolhe o dereyto que tinha na gouernança, & como era fua. E de tudo foy feyto que fe deu a Men vaz com que fe par- tio pera Pero mazcarenhas leuandolhe também cartas dos fidalgos prefos em que lhe pedião que em todo cafo fofie a Goa, porque tudo fe faria bé. E partido Me vaz, porque ho gouernador fabia que daqueles fidalgos q eftauão prefos algús não tinhão culpa & por amor da amizade Deytor da
  • Livro VII, Capitolo XXXV 63 filueira forão na conjuração mandou os pera as poufadas, & também polos ter da fua parte, & eftes forão Vafco da cunha, dom Triftão de noronha, Martim vaz pacheco, Iorge da filueira, dom Anrrique deça, Diogo de mi¬ rada, Frãcifco dataide, Simão delgado, Nuno fernandez freyre, dom Fran- cifco de crafto, Simão fodré, & a Eytor da filueira, Diogo da filueira, dom Antonio da filueira, & dom Iorge de crafto, por ferem cabeças daqla conjuração deixou os eftar na fortaleza, & a Ayres cabral, & a Iorge de melo por fere muyto maldizentes & aluoraçadores do pouo mandou os leuar á fortaleza de Benaftarim, & q os prendeffem em ferros. E no cabo Dagofto temédofe ainda Deytor da filueira & dos outros tres que lhe per- judicaffem & q efcreuião a Pero mazcarenhas q foffe a Goa os quifera mãdar a Cochim em hú bargantim: o que não careceo de fofpeita que pera morrerem no mar os mandaua por fer ainda ho tempo muyto verde, & por iflo lhe eles requererão muy eftreitamente que os não mandafle porq os mandaua a morrer, pelo que deixou de os mandar & tinha fobreles grande recado, & eles também ho tinhão fobre fi porque fe re- ceauão de peçonha, & andaua a coufa tão danada de parte a parte que tudo fe podia recear, & de tudo fe podia ter fofpeita. CAPITOLO .XXXV. De como Pero mazcarenhas foy obedecido por gouemador por dom Si¬ mão de menefes. Aprifam deftes fidalgos com q ho gouernador cuydou que ficaua mais feguro na gouernança ho ouuera de poer em rifco de a perder: porq fabida por Pero mazcarenhas fua prifam, & recebendo car¬ tas deles da caufa porque fora, & como fe temião de os matar com pe¬ çonha, porque ja cometera de os matar no mar com os mandar em tempo tão verde como os mandaua: teue oufadia de apertar muyto com dom Si¬ mão q ho foltalfe & obedeceífe por gouernador, & defobedeceífe Lopo vaz de fam Payo: pois ele como tirano queria forçofamente tomar a go¬ uernança, prendendo aqueles q lhe requerião que fe pofeffe coele em juf- tiça, & bufcando artes pera os matar. E parecendo muyto mal a dom Si¬ mão a prifam daqueles fidalgos & ho mais que ho gouernador fazia, diffe a Pero mazcarenhas, que pois ho gouernador fe não queria poer em de- reyto fobre a gouernãça fe não tela por força, o q lhe a ele parecia muyto mal q tinha por deshõrra obedecelo por gouernador, & por iflo obedece¬ ria a ele Pero mazcarenhas pois queria juftiça, o que fazia por pacifica¬ ção da índia. E porque parecefie afli a todos leuou Pero mazcarenhas aa
  • 64 Hijloria da índia igreja da fortaleza. E jútos ho feytor, & alcayde mór, & affi outros offi- ciaes da juftiça, & da fazeda: & algús fidalgos & todos os outros q mo- rauao na fortaleza & arrabalde: hú tabalião leo em voz alta a fubceflam de Pero mazcarenhas que fora aberta por falecimento de dom Anrrique de menefes, & ho auto q foy feyto da entrega da gouernança a Lopo vaz de fam Payo que gouernaffe a índia em quanto Pero mazcarenhas não folfe de Malaca, & a carta do védor da fazenda per q ho mandou cha¬ mar, & a fubceífam do gouernador com todos os autos & requerimentos que forão feytos da refiftencia que lhe ho védor da fazenda fez em Co- chim ate aquele dia. E defpois de tudo lido, diífe Pero mazcarenhas. Tudo o que fenhores ouuiftes, vos foy lido pera que faibais quão fem rezão & fem nhúa juftiça fuy injuriado, prefo e mal tratado: & que fe não poderá mais fazer a hú pubrico mal feytor que quifera entregar a índia aos mouros, do que me fizerã, Afonfo mexia em me efpancar, & Lopo vaz é me prender fobre a merce q me S. A. fez da gouernança da índia por muytos & muytos grãdes feruiços que nela & em outras partes tenho feytos aS. A.&ael Rey feu pay: & agora por derradeyro lhe fegurey Malaca com deftruir el rey de Bintão, & parecendome que vinha receber a merce que me fez por galardão de meus feruiços recebi tanta deshõrra & tamanha injuria como eftá notorio, principalmente Da- fõfo mexia que polo officio que te me ouuera de fauorecer & ajudar que¬ rendo me Lopo vaz fazer força, & apacificar a índia como pefloa tão principal nela por feu officio: & ele como meu Imigo foy o q a reuolueo com querer entender por me fazer mal o que a carta de fua alteza não diz, & tem pofta a índia em bãdos & diuifões & e perigo de fe perder, & Lopo vaz ho ajuda por fua parte em não fe querer poer comigo em juftiça que por lho não pedir quando ya a Goa me prendeo em ferros como a tredor, & por força me quer tomar a gouernança, & diz que por armas a ha de defender, & bé fe parece pois prende & mal trata a todos aqueles que lhe pedem juftiça por minha parte. E pera fe ifto ver mais claramente prendeo agora os principais fidalgos da índia com tanto rigor & afpereza como que forão comprendidos em treição, & dizem me que eftá determinado de vir cercar efta fortaleza & prcderme cÕ ho fenhor capitão fendo tão certa a vinda dos rumes, & tudo ifto com ho mais que tem feyto fam moftras verdadeyras deftar leuãtado com a índia & defo- bedecer aos mãdados de fua alteza, & cõtrariar as vontades de feus vaf- falos que andão na índia, que aos mais parece mal efta tirania de que vfa. E pois ho ele affi faz, requeiro a vos fenor capitão, & ao feytor, & alcayde mór & a todos os outros officiais defta fortaleza da parte dei Rey noffo fenhor húa vez, & duas & tres: que vifta a cõtumacia de Lopo vaz
  • Livro VII, Capitolo XXVXI 65 de fam Payo de fe não querer poer comigo em juftiça fobre a gouernança, que coeftes ofliciaes ma etregueis por vofla parte, & me obedeçais por gouernador, pera que coefte fauor & com outros que efpero ho poífa conftranger a poerfe comigo em dereyto pera que a gouernança fiq a cuja for & fe pacifiquem eftes bandos com q a índia eftá em perigo de fe per¬ der vindo os rumes como efperamos. E coifto fez fuas proteftações de não ho querendo afli fazer lho eftranhar el Rey, & auer por eles a perda que recebefle de ho não fazerem, pedindo de tudo eftormétos com fuas reportas ou fem elas. Mas não foy neceflario, porque todos refponderão q lhe obedecerião polas caufas que dizia: & logo foy jurado por todos & obedecido por gouernador da índia com grande feita. O que logo foy fabido em Cochim, & como foy tempo muytos fidalgos & outras peffoas honrradas que erão de fua valia & inuernauão em Cochim fe forão pa- rele, & afli chegarão a Cananor algús capitães de nauios que erão fora da índia. E achando que Pero mazcarenhas era obedecido por goqerna- dor porque Lopo vaz de fam Payo não fe queria poer coele em iuftiça ficarão coele: & coifto eftaua muyto fauorecido. CAPITOLO .XXXVI. Dos requerimentos que fe\ Pero mazcarenhas a Lopo vaz & fam Payo. OBedecido pero mazcarenhas por gouernador, & vedofe tão fauore¬ cido: determinou dauer de fua parte a Chriftouão de foufa, porq lhe lembrou que a carta q lhe efcreuera de auer fua prifam por boa que fora mais polo ver prefo & por apacificar a índia que por lhe parecer rezão prenderéno: & pois eftaua folto & obedecido por gouerna¬ dor, & fe queria poer em juftiça fobre cuja era a gouernãça q feria da fua parte. E pera ifto lhe mãdou hú requerimento em que relataua todo ho paflado, requerédolhe juntamente cÕ dom Simão & cõ outros ofliciaes da fortaleza que requereífe a Lopo vaz de fam Payo que fe pefefle coele em juftiça, & não querendo que lhe defobedecefle, & obedeceffe a ele que queria juftiça & pacificação da índia. E coefte requerimento mandou Francifco mendez de vafconcelos que pera efte cafo fez feu procurador. E partido Francifco médez, mandou outro requeriméto ao gouernador & dõ Simão outro pera q foltafle aqueles fidalgos q eftauão prefos, & a eles todos cartas de muyto esforço que perderia a vida fobre os foltar, dizen- dolhe o que era feyto & o que efperaua de fazer: & a primeyra coufa que fez quem lhas leuaua lhas deu em chegando a Goa, & defpois os requerimentos ao fecretario que os deu logo ao gouernador, & então foube Touo tv 9
  • 66 Hijloria da Índia ele a foltura de Pero mazcarenhas & como era obedecido por gouerna- dor, & lhe pefou de ho fiar de ninguém, & vio q ho ouuera de ter em Goa ou 5 Cochim, & temeofe que entrafle de fupito em Goa, porq foube q os prefos, & os Tanadares, & capitães dos pafos da ilha, & muytos cidadãos, lhe tinhã fcrito q foffe a Goa, porq todos eftauão preftes pera ho ajudar a reftituir em fua Tionrra. E por iflò mandou a Simão de melo feu fobrinho q fofle goardar a barra de Goa a velha, com húa galeota, & com hú bargantim, porque por ali lhe pareceo que entrafle Pero maz¬ carenhas, que mandou que fofle prefo, & leuado a Goa: & eftando hi Simão de melo aos dezaíeis dias Dagofto, chegarão a Goa dous capitães de duas naos q ho ãno paflado partirão de Portugal, & inuernarão em Moçanbiq. E os capitães erão Antonio dabreu, de que falei no liuro Ter¬ ceiro, & Vicente gil filho de Duarte triftão armador de naos, & indo ettes falar ao gouernador, ele lhes contou ho que paflaua antrele, & Pero maz¬ carenhas fobre a gouernança, & pera lhe darem feu parecer fe era gouer¬ nador por dereito, lhes moftrou as prouifões paliadas, & a carta del rey pera Afonfo mexia, é que dizia: q das outras prouifões fe não vfafle, & lhas leuafle çerradas, & deulhes juramento que verdadeiraméte lhe difef- fem feus pareceres: & eles lhe jurarão que entendião, que ele era gouer¬ nador, & os que tinhão ho contrairo deferuião muyto el rey. E defpois difto aos feis dias de Setembro, chegarã a Goa outros dous capitães da armada que aquele anno partira de Portugal, de que foy capitão mór Manuel de lacerda, & forão feus capitães Criftouão de medoça capitão Dormuz, na vagante de Diogo de melo, Aleixos dabreu, Gafpar de paiua, & Baltefar da filua, & Manuel de lacerda, & Aleixos dabreu, fe perderã na ilha de fam Lourenço por culpa dos feus pilotos, & Baltefar da filua, & Gafpar de paiua, chegarão a Goa aos feis de Setembro: & também forão pregútados polo gouernador, como Antonio dabreu & Vicente gil, & refponderão como eles, & de tudo mãdou fazer hú auto, que foy por eles aflinado, & por dom Ioão deça cunhado do gouernador, & por Frã- cifco pereyra de berredo, que nas mesmas naos forão de Portugal, hú prouido da capitania de Cananor, outro da de Chaul, nas vagãtes de dom Simão, & de Criftouão de foufa. E ifto fe fez aos dez dias de Se¬ tembro.
  • Livro VII, Capitolo XXXVII 67 CAPITOLO .XXXVII. De como Pero mazcarenhas foy obedecido por governador, por Criflouão de foufa. NEste tpõ teue Criftouão de fouia nouas muyto certas que Raix çal- mão capitão mór da armada dos Rumes era morto, & q morrera em húa batalha, q os mefmos Rumes ouuera hús cÕ os outros fobre defauença que recreceo antre eles, & que era tanta gente morta, & a armada ficara tão daneficada q fe tornara pera çuez, & que ja aquele anno nem tão afinha podião paffar aa índia. E apos eltas nouas chegou Francifco mendez de vaícocelos que moftrou a Chriftouão de foufa per autos pubricos como dó Simão tinha obedecido por gouernador a Pero mazcarenhas por lhe parecer que affi cumpria a fua lealdade & á mena¬ gem que tinha dada de não obedecer fe não a el Rey, ou a feu certo re¬ cado que tinha que era Pero mazcarenhas de cuja parte & de dõ Simão lhe deu os requerimentos que lhe leuaua: & affi os que fizerão ao gouer¬ nador pera q fe pofeffe em juftiça, & o que ele fizera aos que lhos leua- rão: & affi lhe moftrou per papeis todo ho mais que tinha feyto, & como determinaua de ir cercar Cananor, requerendolhe por derradeyro como leu procurador que lhe obedeceffe como lhe tinha obedecido com todos os capitães & fidalgos da índia quando fe abrira a fua fubceífam. Ouuido \ tudo ifto & vifto por Chriftouão de fouia, vio que era neceflario entender em coufas de tanta importância. E juntos a confelho, ho feytor & alcayde mór & os outros officiaes da fortaleza: & affi os fidalgos que inuernauão coele que era a mór parte dos que andauão na índia propos lhe a prifam Deytor da filueira & dos outros fidalgos, & ho efcandalo que iíío fizera, em tãto que da hi tomou do Simão caula pera foltar Pero mazcarenhas & ho obedecer por gouernador, & lhes mandou ler os requerimétos que dantes diffo, & defpois forão feytos ao gouernador, & o que lhe fazião Pero mazcarenhas & dom Simão. E ouuido tudo por eles ficarão muyto efcandalizados da prifam dos fidalgos, & do gouernador moftrar que por força queria ter a gouernança, affi em palauras como em obras, pelo que de comú acordo reqrerão todos a Chriftouão de foufa que pois Pero maz¬ carenhas era folto & obedecido por gouernador, & Lopo vaz de fam Payo nã queria poerfe em juftiça, q pera pacificação da índia deuia dobedecer a Pero mazcarenhas, com declaração que em todo ho tépo q Lopo vaz ie quileífe poer em juftiça coele que fe pofeffe. E ifto fe deuia de fazer logo ãtes que Lopo vaz aqueriífe móres forças das que tinha, & fe pofeffe *
  • 68 Hijloria da índia era querer determinar aquele cafo por armas como fe affirmaua. E por efta rezão & outras muytas que fe derão, & mais porq a índia nã fe po¬ dia pacificar doutra maneyra, pareceo bé a Chriftouão de foufa obedecer a Pero mazcarenhas cõ a declaração que digo, & com determinação de fazer todas as võtades que podelfe a Lopo vaz de fam payo, cemo def- pois pareceo quando efteue com Pero mazcarenhas a juizo, como direi a diante, no que fe vio q fóméte por pacificação da índia, & por feruir niffo a Deus nofTo fenhor & a el rey, fez efta obediência a Pero mazcarenhas, & nã por outro nhú interefle nem proueito que pretendeffe. E acordado per todos que Pero mazcarenhas fe obedecefle por gouernador, & obe¬ decido por efle cÕ autos pubricos que diíTo forão feytos, & aflinados por todos, mãdarão logo hú requeriméto ao gouernador que foltaffe os fidal¬ gos que eftauã prefos, & fe pofeffe em juftiça com Pero mazcarenhas. E Criftouão de foufa lhe fcreueo húa carta, em que lhe daua as rezÕes por¬ que obedecera a Pero mazcarenhas, & a declaração com que fe fizera, do q ho gouernador não foy contente, nem quis refponder ao requeri¬ méto que lhe foy dado, antes ajútou húa armada, de que fez capitã mór a Antonio da filueira de menefes feu genrro, & lhe mandou que foífe coela a Chaul, & requereífe a Criftouão de foufa que lhe entregaffe a ar¬ mada que !á eftaua, & que entregaffe a capitania da fortaleza, a Fran- cifco pereyra de berredo, por quanto feu tempo era acabado, & ele vinha prouido dela por el rey. E chegado Antonio da filueira a Chaul, Crifto¬ uão de foufa não cÔfentio que fe defembarcaffe, porque fabia que ho go¬ uernador não quiífera refponder ao feu requerimento, & viofe coele no mar, eftando cada hú em feu bargantim: & ouuindo Criftouão de foufa ho recado do gouernador, refpondeo que nhúa coufa daquelas auia de fazer, porque tinha mandado em contrairo de Pero mazcarenhas feu go¬ uernador: fobre ho que Antonio da filueira lhe fez muytos requerimentos. E afli Francifco pereyra fobre lhe entregar a capitania da fortaleza, pro- teftando por feus ordenados, proes, & percalços, & diffo tomarão ambos eftromentos. CAPITOLO .XXXVIII. De como dom Garcia Atirrique{ fe\ pa^es cõ el rey de Tidore. ATras fica dito como por Antonio de brito q fora capitã da fortaleza de Maluco leuar dela muyta géte, & outras muitas coufas neceffa- rias pera defenção da fortaleza, de que auia grande neceftidade, mandara dom Garcia anrriquez a Martim correa q lhas foífe bufcar á ilha de Banda, a quaefquer nauios de Portuguefes que hi efteuefté. E Martim
  • Livro VII, Capitolo XXXIX 69 correa chegou a Bãda quafi perdido, com hú brauo temporal q lhe deu, & valeolhe Antonio de brito que ainda lá eftaua. E logo defpois de ele chegar, chegou de Malaca em hú nauio hú fidalgo chamado Manuel fal¬ cão, que Pero mazcarenhas mandaua por capitão mór, de certos jungos de mercadores, em que va hú Fernão baldaja por fcriuão da feytoria de Maluco com fazenda parela, que logo Martim correa recolheo no feu nauio. E por ele faber da gente da terra, que viram paffar duas velas da feição das naos Portuguefas por ãtre aquelas ilhas, pareceolhe que ferião naos de Caftelhanos, por não fentir lugar pera onde naquele tempo foíTê naos Portuguefas, & receando q fe fofle Caftelhanos irião pera Ma¬ luco, & poerião em perigo a noffa fortaleza, por a pouca gente que lá ficaua, & menos munições cÕ que fe defendeffe, requereo a Antonio de brito, & a Manuel falcão que foflem focorrer a fortaleza de Maluco porq nã fe perdeffe: & Antonio de brito não quis ir, & Manuel falcão fi, & leuando a mais gente que pode partirã ele & Martim correa pera Maluco, & forão furgir na ilha de Ternate, & defembarcados fe forão pera a for¬ taleza, onde acharão que dom Garcia andaua é concerto de pazes com el rey de Tidore. Do que Cachil daroes não era contente, porque afora ver que perdia muyta parte do mando que tinha auendo pazes, & que os Portuguefes não terião dele tanta neceflidade como tinhão, receauafe que com a paz, el rey de Tidore ho mandaffe matar com peçonha, pelo mal que lhe tinha feyto na guerra. E com quãto do Garcia ifto fabia, fez toda via a paz com el rey de Tidore, com condição, que dentro em feis mefes tornafle el rey a artelharia que fora tomada na fufta q diife, & todos os fcrauos dos Portuguefes que andauão fugidos é fuas terras, & affi ho mais que fe achaffe que lhes fora tomado. CAPITOLO .XXXIX. De como dó Garcia anrrique\ tornou a quebrar a paç. FEyta efta paz, fabendo el rey de Tidore quã defcõtente Cachil da¬ roes eftaua dela, polo contentar lhe mandou dizer que cafaria com ele húa filha fe quifeífe, & ifto fazia porque como fabia que tinha muyto credito com os Portuguefes, receou que por amor dele quebraffem a paz, no que ele receberia muyta perda, & por iífo queria ter feguro Cachil daroes com amizade & parentefco. E fabendo dom Garcia I10 que el rey de Tidore cometia a Cachil daroes, & que ele folgaua de ho acei¬ tar, trabalhou muyto polo eftoruar, porque via claramente que defta liança del rey de Tidore com Cachil daroes, auia de refultar fazerélhe
  • 7o Hiftoria da índia algúa treição, & que com a paz fe auia el rey de Tidore de querer vin¬ gar dos Portuguefes, do mal que lhe fizerão na guerra, & vendo que não podia eftoruar ho cafameto, determinou de ho eftoruar com quebrar a paz, & pera que moftrafle ter rezão de a quebrar, mandou logo pedir a artelharia a el rey de Tidore, pofto que não era comprido ho prazo em que lha auia dentregar, & quando lhe foy efte recado, ellaua ele muyto doente, & com tudo refpondeo como home que queria amizade, que não- podia logo mandar a artelharia, por ter dada algúa a el rey de Bachão, & a outros reys q ho ajudarão, que como a ajuntaífe a mandaria, & os fcrauos mãdaria logo pedindo a dom Garcia que lhe mãdalTe algú medico pera ho curar, & ele mandou hú boticairo, que lhe deu peçonha com que ho matou é poucos dias. E fabendo dom Garcia que era morto, determi¬ nou de tomar a cidade, em quanto os moradores dela eftauão triftes pola morte del rey, & defcuydados da guerra. E tendo fua gente preftes pera iíTo, mandou hú recado diante ao regedor do reyno que lhe mãdaffe logo a artelharia fe não que auia a paz por quebrada: & por ainda a efte tempo ho corpo del rey efteuefTe por enterrar, refpondeo que como folie enterrado logo daria a artelharia & ho mais. Dom Garcia que não que¬ ria outra coufa mandou embarcar fua gente, & embarcada tornou a man¬ dar pedir a artelharia, & fe lha não deffem logo que auia a paz por que¬ brada. E Fernão baldaya que leuou efte recado, não quis fair em terra & mandou ho do mar: & fendolhe refpondido polo regedor & mandarins que tanto que acabaífem hú confelho em que eftauão pera fazerem rey, logo fatisfarião a dom Garcia. Ao que Fernão baldaya não refpondeo: mas com hú pregão lhe notificou q dom Garcia auia a paz por quebrada, & lhe pregoaua a guerra. E coifto feyto fe tornou a dom Garcia que ya por caminho, & ãtemanhaã chegou ao porto da cidade de Tidore cujos moradores afli pola trifteza da morte del rey como polo defcuydo que lhe caufou a confiança que tinhão na paz eftauão de todo defapercebidos pera fe defenderem, & por iíTo como fintirão que os Portuguefes defembarca- uão fugirão da cidade, em que entrados os Portuguefes não acharão q fazer faluo poerlhe ho fogo com que queimarão a mayor parte dela & tomarão fete peças dartelharia. E deftruida a cidade, tornarãofe á forta¬ leza: & defte feyto ficarão os Portuguefes em muyto defcredito com toda a gente daquelas partes & os tinhão por tredores, & que não goardauão fua fé, & afli no reyno de Bachão como em outros, a que dantes yão, lhes foy defefo que não foífem lá mais, & não forão.
  • Livro VII, Capitolo XL 7' CAPITOLO .XL. De como dom Iorge de menefes indo pera a ilha de Ternate foy ter ás ilhas dos Papuas onde inuernou. DOm Iorge de menefes q ya por capitão da fortaleza de Maluco par- tio como difie pera Malaca com regiméto de Pero mazcarenhas que folfe pela via de Borneo pera fe acabar de faber aqle caminho por õde fe efcufaua a detença que fe fazia em Banda efperando por mou- ção. E porque não pude faber o que aconteceo a do Iorge nefta viagem, não direv mais fe não que foy ter atraues das ilhas do Morro fetenta legoas da noífa fortaleza: & chegando ali hú dia fobre a tarde foy de¬ mandar a terra, & fendo muyto perto dela mandou fondar pera furgir afaflado da terra fegundo ho coftume dos Portuguefes, mas como derra- dor daquelas ilhas não fe acha fundo fe não tendo as naos as proas em terra. Dom Iorge que ifto não fabia, nem conhecia a terra: não oufou de furgir & afaítoufe pera ho mar. E vendo os da terra que fe afaílaua, me- terãofe algús e duas almadias & forãofe pera as naos, poré não fabendo fe erão de Portuguefes fe de Caílelhanos, não oufarã de chegar a elas, & falarãlhe hú pouco de lonje, & por das naos os chamaré & acenarem cÕ panos, chegou húa almadia a bordo dúa das naos, de q pergútarão á gente dela pola noíTa fortaleza & polos Portuguefes, de q lhes nã 1'oube- rão dar nhúa noua: & por nifto anoitecer fe afaftarã os da almadia das naos, & fe forão leuando tres beirames vermelhos que lhes os Portugue¬ fes derã. E idas as almadias, defpois q foy be noyte acalmou ho vento, & dó Iorge ficou fé remedio, porq como não podia furgir por não auer fundo, né fe podia chegar a terra por lhe faltar ho vento, efcorreo por antre aquelas ilhas cõ as agoajés q ali correm fortemente, & indo adi foy cair no golfão que fe faz antre eftas ilhas & ho eftreito de Magalhaés, onde lhe fobreueo hú brauo temporal, com q a fua nao, & outra de fua cõferua forão a Deos mifericordia ate as ilhas que chamão dos Papuas, donde por amor dos ponentes que ventauão não pode tornar a Maluco fe não no Mayo feguinte, de mil & quinhentos & vinte fete: cõ os leuã- tes, & ãdou por aquelas ilhas feis mefes cõ afaz de fadiga, & adoeceo- Ihe & morreolhe algúa gente.
  • 72 Hijloria da Índia CAPITOLO .XLI. D<* figunda armada que o Emperador mandou ás ilhas de Maluco. NO liuro Sexto fica dito, como húa das naos da armada de Fcrnã de magalhaés cõ que ya defcobrir Maluco tornou a Seuilha com Crauo, & fua tornada & a moftra do Crauo q leuou, deu caufa ao Emperador Carlos, mãdar outra armada doutras cinco naos q folie a Maluco a fazer a fortaleza na ilha de Tidore, pola amizade que os Caf- telhanos achara é el rey deffa ilha, & defta armada foi por capitão mór hú frey Garcia de loaeis frade duma das ordes de caualaria de Carteia, & defta armada fóméte a capitaina paflou a Maluco com outro nauio mais pequeno, porem fem ho capitão mór, de que não foube ho q fez. E defta nao que digo era capitão hum fidalgo Bifcainho, que auia nome Marti inheguez de Carquicios, que era juftiça mór da armada, & chegãdo a húa ilha foube como os Portuguefes tinhão fortaleza, & armada na ilha de Ternate, & por iflo recolheo a gente do nauio na nao, & ho queimou, & ficou com trezÕtos homes todos efcolhidos, com que feguio fua viaje, & foy ter a traues das ilhas do Morro, no mefmo inftãte que dõ Iorge ali foy ter, & ouue vifta dos nauios em q ya, & por lhe auer medo que conheceo ferem dos Portuguefes fe efcõdeo, & foife meter no golfão q chamão de Camafo, cuja terra era del rey de Tidore, & por os morado¬ res conhecerem q erão Caftelhanos, polo que fabião da amizade que el rey tinha coeles os receberão muyto bem. E os Caftelhanos fabendo a guerra que os Portuguefes tinhão feyto a el Rey de Tidore, prometerâo- lhe de os vingar deles com lhes tomar a fortaleza & matarénos a todos & comerenos aliados, & outros muytos feros com que os da terra eftauão muy fatisfeytos, & dauãlhes tudo fem dinheiro, & aífombrauã coefte fauor os moradores doutros lugares del Rey de Ternate nolfos amigos. CAPITOLO .XLII. De como chegou húa nao de Cajlelhanos ás ilhas de Maluco. Anoua deftes dous nauios de dom lorge de menefes q forão viftos antre aquelas ilhas do Morro foy ter á ilha de Ternate, donde fe deu a dom Garcia anrriquez fem declaração fe erão os nauios de Portuguefes ou de Caftelhanos. E como ifto ficaua duuidofo logo dom Gar¬ cia determinou de faber a verdade porque receaua ferem Caftelhanos, &
  • Livro VII, Capitolo XLII 73 mandouho faber per Martim correa que foy em húa cora cora com hú foo Português chamado Diogo da guerra por faber bem a lingoa da terra, & a outra gente forão Mandarins. E nefta cora cora foy ter a Camafo a hum lugar del rey de Ternate, onde foy certificado fer a nao de Cafte- lhanos, & de quão fauorecidos os vaífalos del rey de Tidore eftauão coe- les, & que tinhão grande armada, & confelharãlhe q não folie lá porque Martim correa ho quifera fazer. E vendo que ho aconfelhauão bem tor- noufe pera a fortaleza com aquela noua: que fabida per dom Garcia mandou com confelho húa armada a efperar efta nao quando foífe de Ca¬ mafo para Tidore que afli cuydarão que foífe: & a capitania moor defta armada deu a Manuel falcão, & forão nela fetenta Portuguefes em dous nauios, & Cachil daroes leuaua doze carafcoras. E chegando Manuel fal¬ cão ao meyo do caminho mãdou polo ouuidor da fortaleza húa carta que leuaua de dom Garcia pera Martim inheguez que lhe ele foy dar em faindo do golfam de Camafo: & ifto pera ter achaque de ver a nao como ya apercebida, & ho numero dos Caftelhanos. O que tudo ho ouuidor vio muyto bem, & q a nao ya muyto bem artilhada & cÕ muytas armas, & os Caftelhanos ferião trezentos. E Martim inheguez lhe deu azo pera que ho viffe muyto bem & ho diffeffe a dom Garcia, que ele fabia bem quão pouco poder tinha afli de gente como doutras coufas que tudo lhe differão os da terra: & por iffo eftaua muyto fobre os Portuguefes & não os tinha em conta, mas nem por iífo deixou de refponder á carta de dom Garcia cõ muytos offerecimentos & cortefia. E defpedido ho ouuidor coefta carta feguio fua viagem pera Tidore, onde chegado & metida a nao dentro no arrecife, mandou fazer na entrada dele dous baluartes de pedra enfofa q artilhou muyto bé com algúa artelharia da nao: & eftes goardauão a étrada do porto, & a nao eftaua defronte cõ a artelharia q lhe ficou, q parecia húa fortaleza. E ho ouuidor de dõ Garcia defpois q fe defpedio de Martim hinheguez tornoufe a Manuel falcão q fabédo ho modo de q a nao eftaua ouue por efcufado cometela Ido tão íingelo, & tornoufe pera a fortaleza & deu cõta a dõ Garcia do q achou. E Martim hinheguez defpois q fe fortaleceo como digo, mãdou dizer a dõ Garcia por hú homé deífes principais q yão coele, q ele era ali vindo por mã- dado do Emperador feu fenhor cujas aqlas ilhas erão, affi por eftaré na fua demarcação, como por Fernão de magalhães feu valfalo lhas defco- brir polo q tinha tomado poffe delas, & mais as tinha per húa fentéça q ouuera contra el Rey de Portugal: & por eftas caufas todas defpois de eftas ilhas fere defcubertas, ficarão ali trlta de feus vaífalos q forão na fua armada cõ feytoria em q ficara muyta fazenda, & bé xl. peças dar- telharia, & q não achaua nhúa coufa deftar, & q os da terra lhe dizião Tono iv 10
  • 74 Hijloria da Índia <} os Portuguefes tomarão tudo & matarão os Caítelhanos q ficarão na feytoria, & mais os achauão cõ fortaleza feyta nas terras do Emperador fem fua liceça q folgaria de faber a rezão q os Portuguefes teuerão pera fazeré eftas coufas: porq de tudo auia de tirar eftormétos pera fe qixar ao Emperador. E chegado efte meíTageiro a dõ Garcia lhe difle tudo ifto: ao q ele refpondeo, q aquelas ilhas & outras muytas não erão né forão nuca do Emperador, né lhe podião caber é fua demarcação, porq nã a auia & q a ouueífe, ele fabia certo nã lhe caberé nela, & q fe ouuera fétéça cõtra el rey feu fenor a veria, por os q a derão ferem feus vaffa- los: & q també os juyzes Portuguefes a derão por el Rey feu fenhor, pelo q não era aquela a rezão por õde as ilhas de Maluco erão fuas, né menos por as mãdar defcobrir por Fernão de magalhães q as não defco- brio de nouo, por auer mais de dez annos q as defcobrira Antonio dabreu por mãdado Dafonfo dalbuquerq gouernador q naqle tépo era das índias por el Rey de Portugal: do q ho mefmo Fernão de magalhães fora tefte- munha, & tédo certeza õde aqlas ilhas jazião, por fazer treição a el Rey de Portugal fizera crer ao Emperador feré de feu delcobriméto, & fizera q as ya defcobrir indo por outro caminho & nauegação, onde ouuera ho fim q merecia por fer tredoro a feu fenhor natural q era el Rey de Por¬ tugal & não ho Emperador: & q do tépo q Antonio dabreu defcobrira eítas ilhas, logo algús reys delas ficarão amigos del Rey de Portugal, & forão cotétes de os Portuguefes trataré em fuas terras, & dali por diãte fépre lá tratarão, & por rogo del rey de Ternate ho paffado mãdara el Rey de Portugal fazer naqla ilha húa fortaleza. E indo a fazer Antonio de brito achara certos Caftelhanos na ilha de Tidore, q por nã teré licéça del Rey de Portugal pera andaré por fuas terras os mandara ao gouer¬ nador das índias pera faber a rezão porq o fazião, afli q aqlas ilhas erão por dereyto del Rey de portugal, por cujo mãdado ele eftaua por capitão naqla fortaleza q deféderia ate a morte a que lha quifeffe tomar, & de- féder a qualquer gente do mundo que não andaffem por aqlas ilhas fem licença del Rey de Portugal, & que afli faria aos Caftelhanos pois ãdauão fem ela, pelo q lhe requeria da fua parte, & da do Emperador q logo fe fofle pera a fortaleza, & não querédo eftar de miftura com os Portu¬ guefes lhes daria hú lugar apartado em q efteueífem á fua vontade: & mais lhe requeria q não comprafle nhú crauo q ho não podia fazer por fer todo pera el Rey de Portugal, & não querédo por fua võtade fazer húa coufa né outra, ele proteftaua de lho fazer por força fem por iffo encorrer é nhúa pena pois ho fazia por feruir a el Rey de Portugal feu fenhor. E coefta repofta fe foy o meíTageiro, & poré Marti hinheguez não fe quis ir pera a fortaleza, & mãdou requerer a dõ Garcia q ho deixafle
  • Livro VII, Capitolo XLIII 7* eítar õde eftaua, & fobriíto ouue muytos recados de parte fem tomarê nhúa concrufam, & cada hú tirou feus eítormêtos do q requeria. CAPITOLO .XLIII. Do que aconteceo a dom Garcia anrrique; cõ os Cajlelhanos, & do mais q fucedeo. VEndo dom Garcia que Martim hinheguez não fe queria tirar de Tidore & fazia aleuantar ho preço do crauo dando por ele quatro tanto do q eftaua affentado na feytoria, determinou de lho fazer por força, & iíto cõ confelho de Manuel falcão feytor & outras peffoas principais, & que ele em peffoa foífe a elle feyto. E iíto affentado, partio húa noyte leuãdo ate cê Portuguefes, & muytos dos da terra embarcados em corafcoras & outros nauios, & pera baterem a nao & os baluartes leuou tres camelos, hú em hú batel com húa manta & os dous em húa fuíta & hú calaluz, & neftes não ya outra gente de peleja fe não os capi¬ tães, bombardeiros & remeiros: & a fuíta q ya diante em chegãdo de- frote dú dos baluartes que a fintirão os Caítelhanos cõ quanto fazia efcuro, tiraran-lhe tantas bobardadas que lhe matarão hú remeiro, & quebrarão a cana do leme, quebrãdo húa mão ao que ya a ele. E ho ca¬ pitão da fuíta fem mais efperar por dom Garcia começou logo desbom- bardear ho baluarte, & por os tiros ferê muyto ameude arrebêtou ho camelo, pelo q fe retirou pera onde eítauão a fuíta & ho calaluz: & dom Garcia mãdou logo por outro camelo á fortaleza que veo antes q ama- nhecelfe & foy aífeítado na fuíta, & manhaã clara mãdou do Garcia dar bateria aos Caítelhanos com ho batel, fuíta & calaluz: & eles q virão como fe a coufa ordenaua começão de defparar fua artelharia dos ba¬ luartes & da nao, & era tãta que os pelouros q tirauão parecião que auião dentulhar ho mar: & receando os q yão no batel, fuíta, & calaluz q os fizeífem é pedaços, não oufarão de chegar muyto & poferãfe tão loge q quãdo os feus pelouros defparauão yão dar no mar & de chapeletas che- gauã júto da nao q axda não chegauão a ela: & os Caítelhanos como q zombauão deles lhes dauão muytas apupadas. E dom Garcia també nã oufaua de chegar com as corafcoras por ferê muyto fracas que erão cofi- das cÕ cordas & qualquer tiro as faria em pedaços. E neíte joguete q mais ho parecia q peleja eíteuerão ate ho meyo dia q fobreueo a viração. E vendo dom Garcia que não fazia nada, afaítouíe com toda fua armada: & também porque lhe faltava a poluora, & auia de mandar por ela á fortaleza, & em quanto mãdou ficou em húa enfeada: & eítando ali fayo
  • ■j6 Hiftoria da índia Martim correa, ho feytor & outros ate quinze em terra. E eftando ou- Ihãdo hú lugar de mouros q eílaua em hú alto pera ho irem queymar, algús Caftelhanos que eftauão no lugar & os fintirã, forão muyto fecreta- mente por antre ho mato, & começarão de lhes tirar cõ efpingardas & béftas, & hú quadrelo deu a Martim correa abaixo de húa orelha q deu coele no chão quaíi morto. E por efte defaftre, & também por dom Gar¬ cia ver que não podia fazer nhú dãno aos Caftelhanos, nã quis ali eftar mais & tornoufe pera a fortaleza com fua armada, do que os Caftelha¬ nos ficarã muyto foberbos credo que os Portuguefes fugião com medo, & afli ho dizião aos da terra, porem a nao ficou tão aberta do muyto jugar da artelharia, & por ter a quilha no chão, & por fer velha abrio de todo & fe echeo dagoa & perdeofe fem mais aproueitar pera nada: do que os Caftelhanos ficarão muyto triftes, & nã fizerão mais nhú rebo¬ liço de guerra, & deixarãfe eftar como homés que defcanfauão, & do Gar¬ cia fez ho mefmo: & porque era chegada a moução pera Malaca em q auião de partir pera lá algús júgos, determinou de auer algú crauo pera el Rey, porque efte era ho proueito que pretendia daquela fortaleza, & ainda ate então não tinha auido nhú com q forraffe parte do muyto gafto que fazia naqla fortaleza. E a caufa de não fe poder auer nhú crauo pera el Rey era feré os Portuguefes tão cobiçofos q ho atraueífauão todo, dando por ele ho dobro que fe daua na feytoria, & fazendo muytos mimos aos negros que lho vendião, pelo q ho não querião leuar á feytoria, & ho mefmo feytor & efcriuães ho comprauão antes pera fi que pera el Rey, & por iflo não podia auer nhú. E fabédo dõ Garcia ifto, mãdou que toda pelfoa do crauo q teueffe deffe a decima parte a el Rey pelo preço da feytoria, & quando ho não quifeífe dar por fua vontade lho tomaffem por força, & afli ho mandou apregoar, com o q todos receberão muyto pefar & poferãfe em ho não confentir, & chamarão em fua ajuda Cachil daroes & afli muytos Mandarls. E vedo dõ Garcia efte aluoroço, & achãdofe fó & fem poder pedir focorro ao gouernador, & receando que fe apertafie muyto, q lhe fugiffem os Portuguefes, & ficando fó lhe tomaffé os mou¬ ros aa fortaleza deixou fua determinaçã & étédeo é fazer fua fazéda como os outros fazião, & no Ianeyro fegulte mãdou c hú júgo que partio pera Malaca Marti correa & Manuel lobo cõ cartas ao capitão de Malaca em q lhe pedia focorro de gente de q tinha muyta neceflidade por amor dos Caftelhanos q ficauão em Tidore & em Geilolo.
  • Livro VII, Capitolo XL1I1I 77 CAPITOLO .XLI111. De como Antonio de miranda dazeuedo prometeo a Pero mazcarenhas de lhe obedecer. ENtrado ho verão, partiofe Antonio de mirada dazeuedo capitão mór do mar da índia de Cochim meado Setebro cõ toda a armada pera Goa, & por ele efcreueo Afonfo mexia védor da fazenda ao gouer- nador o q paífara aqle inuerno com os requerimentos de Pero mazcare- nhas, a que deuia de mandar pera Portugal por fer na índia muyto per- judicial ao feruiço de Deos & del Rey, não fabendo ainda q era folto. Partido Antonio de miranda foy ter a Cananor pera ver fe tinha dõ Si- mão neceflidade dalgúa coufa, & eftando no mar lhe mãdou Pero mazca- renhas hú requerimento por dom Simão em que lhe requeria, q pois dom Simão & Chriftouão de foufa com a mayor parte dos fidalgos da índia & gente darmas que andaua nela vendo como Lopo vaz de fam Payo não fe qria poer coele em juftiça pera fe faber cuja era a gouer- nãça & a queria ter por força ho tinhão obedecido por gouernador. E ele com tudo queria juftiça por pacificação da Índia, lhe requeria da parte del Rey que també ho obedecefle porque vendofe Lopo vaz fem armada conientiria que fe julgafie por dereyto a qual deles pertencia a gouernãça, proteftãdo de não querendo fatisfazer a feu requerimento correr em pena de lhe pagar feus ordenados proes & percalços que auia dauer como go¬ uernador & mais a q pareceffe bem a el Rey. E vifto efte requerimento per Antonio de miranda, vendo q Pero mazcarenhas eftaua obedecido por gouernador, & que de ele & Lopo vaz feré ambos gouernadores fe auia de feguir muyto deferuiço de Deos & del Rey, refpondeo que ele não podia obedecer por gouernador a Pero mazcarenhas ate nã faber do gouernador que não fe queria poer em juftiça: & quando ho foubeffe que então lhe defobedeceria: o que não fatisfazendo a Pero mazcarenhas, lhe mandou requerer q do que dizia lhe deffe hú aflinado. O que ele fez polas caufas q digo, parecendolhe que aquele era ho melhor talho que podia dar, & deu ho aflinado que eu vi, & dizia. * Digo eu Antonio de mirãda dazeuedo capitão mór do mar da índia polo muyto poderofo Rey de Portugal noflo fenhor q me obrigo ao fenhor Pero mazcarenhas, de fazer com ho fenhor Lopo vaz de fam Payo q ora he gouernador da índia, que fe ponha coele em dereyto: q també pretéde fer gouernador dela fobre qual deles ho ferá. E não querendo ele poerfe nefte juyzo, por eftó dou minha fé, preito & menagé ao dito fenhor Pero
  • 18 Hijioria da índia mazcarenhas de me ir parele & lhe obedecer como a verdadeiro gouer- nador: feyto per mim & affinado aos dezafete de Setembro de mil & qui¬ nhentos & vinte fete. Dado efte affinado partiofe Antonio de miranda pera Goa õde logo ho gouemador foube como ho dera, & eftranhoulho muy afperamente, affirmandolhe q fe não auia de poer em juftiça fobre a merce q lhe el Rey fizera, que be fe poderia ir pera Pero mazcarenhas, porq outré acharia q foffe capitão mór do mar. E ele fe difculpou, dizendo q não dera ho affinado com tenção de ho comprir fe não por fe efpedir de Pero mazca¬ renhas que conhecera que eftaua tão danado q receou de fazer coele algú defmãcho. E ho gouernador foy acõfelhado q tiraffe a capitania mór do mar a Antonio de miranda pelo q fizera, mas ele não quis porq não fizefle mais aluoroço na gente, & por ver fe podia fazer as coufas por bê, & mandou logo Antonio de mirãda a Chaul (donde Antonio da fil- ueira não vindo) pera que fe entregafle da armada q lá eftaua, & fizefle entregar a capitania da fortaleza a Francifco pereyra de berredo. CAPITOLO .XLV. Do que Antonio de miranda & Crijlouão de fotifa ji\erão. E chegando aa barra de Chaul achou Antonio da lilueira q fe partira pera Goa, & diflelhe que efperafle ate ver fe Chriftouão de foufa queria fatisfazer ao recado do gouernador, & mandoulhe dizer como eftaua ali q compria muyto ao feruiço del Rey veréfe ambos, a que ele relpõdeo que fe era pera lhe entregar a armada & a capitania da fortaleza que ja difíera que ho não auia de fazer por ter mandado emcon- trairo de Pero mazcarenhas feu gouernador, & mãdoulhe requerer com os officiaes da fortaleza & cõ os fidalgos q inuernauão coele, que vifle a força q Lopo vaz de lam Payo & Afonfo mexia fazião a Pero mazcare¬ nhas em lhe tomarem a gouernança, não querédo ele fe não o q fofle de- reyto: & pois eftaua em fua mão fazer determinar efte cafo por juftiça, que fizefle cõ Lopo vaz que ho quifefle. E fazendo fobrifto grandes pro- teftaçoes contra Antonio de miranda: que defpois de refponder a eftes requerimentos fe vio cõ Chriftouão de foufa na fortaleza, onde concerta¬ rão ambos ho modo que fe teria pera q Lopo vaz de fam Payo fe pofefle em juftiça com Pero mazcarenhas pera pacificação da índia, & q os juy- zes q determinafle efte cafo fofle no mais de fete .f. Antonio de miranda, dõ Ioão deça, Francifco pereyra de berredo, Baltefar da filua, Gafpar de paiua capitães de duas naos da carrega, frey Ioão daluim da ordé de
  • Livro VII, Capitolo XLV 79 fam Francifco que em leygo fe chamara Ioão lopez daluim, frey Luys da vitoria da ordem de fam domingos, & Chriftouão de foufa quis q foíTem eítes juyzes, pofto q fabia q tirado os dous frades os outros tinha aífinado q Lopo vaz era gouernador verdadeyro, mas porq ele na teuefle q dizer os cõíetio & por iíTo nã quis ele fer hú dos juyzes, nem quis que ho foffe nhú fidalgo feu parente nem homem de q fe prefumiffe fer da openião de Pero mazcarenhas que pois Antonio de miranda foy nomeado por juyz bem ho poderá ele fer mas não quis por eíla caufa, & porque não era feu fim fe não apacificar a índia, & que não fe determinaífe eíla defe- rença por armas, porque nifto cria q feruia Deos & el Rey que era o que lhe lembraua, & não outra coufa. E fendo nomeados efles juyzes antrele & Antonio de miranda com juramento de terem niffo fegredo ate ho tempo de fe declararé, porq nem Pero mazcarenhas, né Lopo vaz ho foubeifem, ao outro dia fe ajuntarão na igreja com ho feytor & alcayde mór da fortaleza, & outros officiaes, & fidalgos, & pefToas principais que inuernauão nela, relatãdo ambos as coufas paliadas, & dizendo quão ne- ceffario era pera pacificação da índia que ho gouernador fe pofeífe em jultiça cÕ Pero mazcarenhas tinhão ambos cõcertado húa pauta q lhes moítrauão pera dizer cada hú fe fe acrecétaria mais nela ou diminuiria, & os capitolos dela forão elles. o Que Antonio de mirãda daria hú aífinado a Chriftouão de foufa tal como o q dera a Pero mazcarenhas. «E outro em que fe obrigaffe a leualo a Goa, & feguramente podeffe falar ao gouernador fem perjuyzo de fua fazenda, parentes amigos & criados, pera lhe reqrer o q lhe pareceffe leruiço del Rey, fem interuiré outras palauras fora da matéria, adi de fua parte como da do gouer¬ nador. * E q chegãdo á barra de Goa deixaria a armada de fora & fica¬ ria nela Antonio da filueira em arrefens entregue a hú fidalgo fem fof- peita naquele negocio, com lhe ele tomar a menagem, que fendo cafo q ho gouernador prendefle a Chriftouão de foufa, que aquele fidalgo fe foífe pera Pero mazcarenhas cÕ a armada & ho obedeceífe por gouer¬ nador. «E q Chriftouão de foufa daria a Antonio de mirãda hú eílorméto aífinado por ele & polos officiaes da fortaleza & fidalgos q inuernauão nela em q prometeffem de lhe obedecer com toda a armada q eftaua em Chaul ate chegaré a Goa & fe comprir ho atras capitolado: & també prometerião no eílorméto, que não querendo Pero mazcarenhas o que foífe feruiço de Deos & del Rey q fe foliem pera ho gouernador, & que fe não falaffe mais em Pero mazcarenhas fer gouernador: & ho mefmo
  • 8o Hijloria da índia prometeria ho alcayde mór q ficafle por capitão na fortaleza de Chaul q a entregaria ao gouernador & não a Pero mazcarenhas. «E q quãdo ho gouernador & Pero mazcarenhas fe pofeffem em juf- tiça fobre a gouernãça antes de os juyzes da caufa pronúciare coufa algúa prometerião cÕ juramento q aqle q ficalTe por gouernador não étéderia na peífoa, né na fazéda do outro, né nas de feus criados, parétes & ami¬ gos, né desfaria o q o outro teueíTe feyto, & a qualquer deles q niíto não quifeífe confentir que lhe defobedeceflem. «E que os juizes que ouueffem de julgar aquela deferença, fcrião peíToas fem fofpeita, que eles ambos Criítouão de foufa, & Antonio de miranda, declararião quãdo foífe tempo. * E q tãto q ambos de dous chegaffem a Goa ferião foltos, Eytor da íilueira, do Iorge de crafto, dõ Antonio da ftlueira, & quaefquer outros que efteueflém prefos por aquele calo de Pero mazcarenhas, que tãbem prometeriã de goardar ho que ali determinauã, & que efta deferença fe determinaria em Cochim, õde 1'e ajuntarião, Lopo vaz de fã Pavo, & Pero mazcarenhas & em partindo Lopo vaz de Goa defiftiria logo da gouer- nança, & iria como peífoa priuada, em poder Dãtonio de miranda, & em Cananor fe lhe étregaria Pero mazcarenhas pelo mefmo modo, & que- rendoo ele leuar é feu poder, fe entregaria Lopo vaz, a Criftouão de foufa, ou a dom Simão de menefes, pera quem ho leualfem no nauio em q foífem. E que alé do feguro que Antonio de miranda auia dauer a Crif- touã de foufa, lhe aueria outro do capitão de Goa, & dos officiaeis da camara da cidade, com juramento q farião, que não goardando ho gouer¬ nador ho feguro que lhe deífe, lhe defobedecerião, & obedecerião a Pero mazcarenhas.» E defpois de lida efta pauta, q todos a ouuirão, diífe Chriftouão de foufa a caufa porque fe fazia, requerédolhes a todos cõ ho capitã mór do mar, que lha ajudaflem a poer em efeyto, & que alfi ho prometelfe todos por juramento, ho que eles fizerão, tendo muyto em merce a Criftouão de foufa, & a Antonio de miranda fazeréna. E de tudo foy feyto hú auto por Gafpar afonfo tabalião pubrico da fortaleza, que foy afinado por todos, aos quatro Doutubro de mil & quinhentos & vinte fete.
  • Livro VII, Capitolo XL VI 81 CAPITOLO .XLVI. De como ho goueniador, & Pero de faria, & outros jurarão de com- prir a pauta que fi\erão Chrijiouão de foufa, & Antonio de noronha. FEyta efta pauta foy leuada a Antonio da íilueira, por Antonio de miranda, para que confentifTe nela, & ele confentio muyto contra fua vontade, & por não poder mais fazer, & eftranhando muyto a Antonio de miranda fazela. E feytos dela dous terlados, hú pera Crifto- uão de loufa, outro pera Antonio de miranda, que fe partio no mefmo dia, & ao outro Criftouão de foufa, deixando entregue a fortaleza a Al- uaro pinto alcaide mór dela, & defpois de chegar? todos jútos á barra de Goa, Antonio de miranda fe foy ao gouernador, & perante ho licen¬ ciado Ioão do foiro ouuidor geral da índia, & ho fecretario, lhe moftrou a pauta que fizera com Criftouao de foufa, dizendo que a fizera por eui- tar os grandes males que vira que eftauão ordenados, por Criftouao de foufa, & por os qftauã coele que muy eftreitamente lhe requererão q con- fentiffe nela: & por iffo confentira muyto contra fua võtade, porque bem fabia que ele era verdadevro gouernador, & pera ho fer trabalhara q os juyzes fofíem fem fofpeita & no mais de fete pera terem menos que apu¬ rar. Do que ho gouernador ouue muyto grade menencoria, & porque ho feyto não fe podia desfazer, na lhe diffe mais fe não que ele mefmo tinha a culpa do que ele fizera, pois fe fiara mais dele defpois de d-ar ho afli- nado q dera a Pero mazcarenhas, & que fizera mal de fazer aqla pauta, porque fe fora por efcufar males que então eftauão mais armados que nuca. E querendofe Antonio de mirada difculpar, diffe ho gouernador que não erão neceffarias difculpas pois fizera fua vontade, mas que creffe q os juyzes não auião de fer mais de fete auendofe de poer em juftiça, & ele lhe diffe que não ferião, & diffo lhe daria hú afíinado fe ho qui- feffe. E tendo ele jurado com Chriftouão de foufa de terem em fegredo os juyzes que ouueffem de julgar aquela deferença ate ho tempo em q fe ouueffem de declarar por comprazer ao gouernador lhos defcobrio, & forão os que diffe. E contente ho gouernador deles, lhe pedio hú affinado que não foffem outros, nem foffem mais: & ele lho deu, & ho ouuidor geral, & ho fecretario aflinarão como teftemunhas. E ficando a pauta ao gouernador vio a coeles & com Pero de faria, que lhe confelharão que confentiffe nela, porq não ho fazendo fe leuãtarião todos contrele, & pri- meyro a mandaria moftrar aos officiaes da camara da cidade, & conten- tandolhes confentiria nela com condição q foffe como gouernador ate Ca- Tomo IV ii
  • 82 Hiftoria da índia nanor, & que a honrra Dafonfo mexia foffe goardada & não confentirião que ficando Pero mazcarenhas por gouernador ho tirafie de nhum dos officios que tinha, por qualquer maneyra que foffe, & ho entregaria feguro ao gouernador que foffe do reyno. E contente Chriftouão de foufa difto, mandou ho gouernador foltar os prefos, & deu ho feguro a Chriftouão de foufa pera ir a Goa, & ele não quis ir por lhe efcreuerem que não foffe, porque ho gouernador tinha determinado de ho prender com Anto- nio de miranda, & por iffo fe determinou que fe difleíTe húa miffa na agoada de Goa, & leuantando ho facerdote a hoftia, juraífem nela Anto- nio de miranda & Chriftouão de foufa perante dom Ioão deça & Antonio rico fecretario da índia q ho gouernador iria como gouernador ate Ca- nanor: & q verdadeyramente fegúdo fuas cõciencias efcolherião pera juy- zes daquela deferéça aqueles homés que lhes parecefle q melhor & cõ mais conciecia determinaíTem aqla caufa fem defcobrirem per fi nem por outrem os que tinhão efcolhidos. E também jurarião o que tocaua ao vé- dor da fazenda. E leuados eftes capitolos por dom Ioão deça & por An¬ tonio de miranda a Chriftouão de foufa, ele lhes dilfe que fe acrecentaf- fem na pauta: porem que por quanto ho galeão fam dinis em que ho gouernador andaua, era a mayor força que andaua na índia, por andar marauilhofamente artilhado, & nele fomente podia pelejar com toda a outra armada da índia auia de jurar que como chegaffe a Cananor fe paliaria como prefo á galé em que andaua Antonio de miranda. E fendo ho gouernador difto contente, aos vinte Doutubro foy dita húa miffa na agoada de Goa na terra firme: & fendo prefentes Chriftouão de foufa, Antonio de miranda, dom Ioão deça & outros muytos fidalgos em ho facerdote leuantando a hoftia diífe Antonio rico que hi eftaua aos circunf- tantes fe jurauão por aquele verdadeyro Deos em q firmemete crião como fieis Chriftãos de comprir & goardar o que foy aífentado na pauta de Chaul: & que ho gouernador foffe em poffe da gouernãça & com toda fua hõrra ate Cananor, & que goardaffem em tudo o que cumpriffe á honrra do védor da fazenda, & não confentiffem que ficãdo Pero mazca¬ renhas por gouernador lhe tirafie nhú dos officios que teueffe fe não que ho deixaffe eftar ate ir gouernador de Portugal, & dizendo cada hú em alta voz que fi, difle a Chriftouão de foufa & a Antonio de miranda fe jurauão na mefma hoftia que bem & verdadeyramente efcolheífem pera juyzes daquela deferença aqueles que fegundo feu parecer melhor & com mais faã conciecia a determinaíTem, & que nem por outre auião de def- cobrir quê erão ate não fer tempo de fe declararem, & eles diíferão que fi. E deftes juramétos fez ho fecretario hú auto q todos afíinarão: & logo ao outro dia vinte hú Doutubro, no mofteiro de fam Frãcifco de Goa
  • Livro VII, Capitolo XL VII 83 eftando hi Pero de faria capitão dela & officiaes da camara, & quãtos fidalgos auia nela & ho vigairo geral com toda a clerizia, tendo frey Gon- çalo guardião do moíteiro ho fanctiffiimo facramento nas mãos eftãdo ho gouernador em giolhos, diffe em voz q todos ho ouuiflem. Bem fabeis os q aqui eftais como por vos & por outros muytos que eftão aufentes nã húa vez mas tres fuy jurado por gouernador da índia por as prouifões del Rey meu fenhor q diffo tenho, & por efle fuy obedecido, pelo qual me núca quis poer em juftiça fobre a gouernança com Pero mazcarenhas, né agora me pofera fe nã vira claramete quãto Deos & el Rey ferão de- feruidos, & por iífo mais por força que por vontade, & como quem mais não pode me ponho em dereyto, & juro naquela hoftia confagrada de afli ho fazer, & chegando a Cananor defiftir do mando de gouernador, & não do dereyto que tenho na poíTe da gouernança, que defte não ey de defiftir antes protefto de me ajudar dele em todo ho tempo que me for neceflario, & afli jurou de fe étregar como prefo na galé Dantonio de mi- randa, & de comprir os mais capitolos da pauta que ele fizera com Chrif- touão de foufa em Chaul com condição que foífe goardada inteiramente a honrra do vedor da fazenda como eftaua affentado: & ho mefmo jura¬ mento fizerão Pero de faria, Ioão do foiro, os officiaes da camara, & todos os mais q ho auiã de fazer, & ainda ho não tinhão feyto: & de tudo ho fecretario fez hum auto que todos aflinarão. CAPITOLO .XLVII. De como Pero mazcarenhas & Lopo va\ de fã papo dejijlrão em Cana¬ nor do mando do gouernador. ACaba ifto q todos ouuerão por muyto grande coufa por quão diffi- cultofa lhes parecia poerfe ho gouernador em juftiça, partiofe ele pera Cananor hú dia defpois de partidos Antonio dazeuedo & Chriftouão de foufa. E foy efta partida tão preftes q os do bãdo de Pero mazcarenhas fe efpantarão muyto, porque cuydauão que ho gouernador ho não feria mais que ate Cananor, & que ele afli ho cria por ter tantos cõtra fi. E chegado todos a Cananor aos feys de Nouembro forãfe logo á fortaleza Chriftouão de foufa & Antonio dazeuedo, & moftrarão a pauta a Pero mazcarenhas pera a jurar de que ele foy contente, dizendo que tudo cofentiria por pacificação da índia: mas que eftaua muyto defcon- tente do que vira em húa carta que ho gouernador mandaua ao védor da fazenda, que ele ouuera por fua diligencia, & nela nomeaua os juyzes que tinhão efcolhidos pera determinarem aquela deferença, & que ali vira
  • 84 Hijloria da índia claramente quão fofpeito lhe era frey Ioão daluim pola muyta confiança q Lopo vaz moftraua ter que auia de julgar por ele polas rezões que daua pera iffo. E moftrando a carta virão Antonio de miranda & Chrif- touão de foufa que era afli, & por iffo lhes requereo que tiraffem frey Ioão dalul & metefle outros: & Pero mazcarenhas quifera que Chriftouão de foufa fora hú deles, dizendo que ho podia fer pois ho era Antonio de miranda, & ele não quis por faber q Lopo vaz ho tinha por fofpeito, & em lugar de frey Ioão daluim meterão cinco pera ferem juyzes, que forão Lopo dazeuedo, Antonio de brito que fora capitão de Maluco, Nuno vaz de caftelo branco capitão & feytor do nauio do trato de çofala, Triftão de gá, Baílião pirez vigairo geral da índia. Do q Antonio de miranda foy contete com quanto tinha dado feu aflinado ao gouernador que os juyzes não auião de fer outros fe não os fete que lhe differa em Goa, & eftes que forão acrecétados ficarão afli nomeados antrele & Chriftouão de foufa com juramento de não fe defcobrirem a ninguém, nem Antonio de mi¬ randa ho diffe a Lopo vaz. Ifto affentado, ao outro dia fe ajútarão na igreja da fortaleza Pero mazcarenhas, dom Simão de menefes, ho feytor & alcayde mór cõ os mais officiaes da fortaleza, Antonio de mirãda, Chriftouão de foufa 'com outros muytos fidalgos, & perante todos & do fecretario defpois de ouuida miffa, tendo Baftião diaz vigairo da fortaleza nas mãos ho fanéliflimo facramento, jurou Pero mazcarenhas por ele de coprir em tudo o q eftaua na pauta que diffe, declarando que quãdo diíif- tiffe de fer gouernador, & fe entregaffe como peffoa priuada, dififtiria fomente do mãdo de gouernador, & não do dereito que tinha na gouer- nança, dizendo que não infiftira tanto em o fer, fe não por crer que era fua, & q era contente que ficando Lopo vaz por gouernador, ho mãdaffe prefo pera Portugal: & acabando ele de jurar, jurou dom Simão, & def¬ pois os officiaeis, fidalgos, & peffoas principaeis, & todos aflinarão em hú auto que ho fecretario fez diffo, & tãbe ho aflinou ho gouernador. E defpois difto a requerimento de Pero mazcarenhas fez ho mefmo fecreta¬ rio hú auto, em que fe declarou que os juizes que auião de julgar aquela contenda, não auião de julgar mais fe nã quem era bem q gouernaffe pera pacificação da índia, porque cuja era a gouernança por dereito, el rey ou feus delébargadores ho auião de determinar. Feytas todas eftas coufas, embarcoufe Pero mazcarenhas no galeão de Chriftouão de foufa, como eftaua affentado na pauta, & porq ali fe mudou Antonio de miranda da galé em q andaua ao galeão fam Dinis, & Lopo vaz de fã payo lhe auia de fer entregue pera ho leuar a Cochim, ficou no mefmo galeão, do que fe Pero mazcarenhas queixou a Chriftouão de foufa, & a Antonio de mi¬ randa, dizédo que Lopo vaz não compria o capitolo da pauta, no modo
  • Livro VII, Capitolo XL VIII 85 que auia de fer entregue, & dififlir de gouernador, pois ya no galeão fam Dinis, que era a mayor força da índia, & podia nele pelejar com toda a armada, & mais leuaua bandeira na gauea, q aquilo não era de- filtir de fer gouernador, fe não feio como dantes, requerendo q foffe como eftaua aííentado, ho que Lopo vaz não quis fazer. Ho que vendo os fidal¬ gos, fe poderão muyto contra iífo, dizendo que fe quebraua a pauta, & ho juramento que Lopo vaz fizera, & vedo Criítouão de foufa como ifto era azo pera fe eltoruar ho bé queftaua começado, fez cõ Pero mazcare- nhas & com os outros, q deixaífem ir Lopo vaz como queria & ho con- fentirão, & embarcado Pero mazcarenhas defparou hú tiro groffo, & a efte final dous homés q eflauão nas gaueas dos galeões, fam Dinis, & fam Rafael, tirarão as bandeiras que ambos tinhã como capitainas, pera que fentédefie que em ambos eftauão os gouernadores, & que ho tirar das bandeiras, era final que dififtião do mãdo da gouernança, & ficauão como peffoas priuadas, de que fe auia de fazer juftiça, & eles ambos em fe tirãdo as bandeiras, protefiarão que não defiítião mais que do mãdo da gouernãça, ate fe julgar qual auia de gouernar, & da pofle que tinhão não defiítião. E feyto ifto Antonio de miranda entregou Pero mazcare¬ nhas a Chriítouão de foufa, pera ho leuar ate Cochim, & lá lho entregar, & ele fe entregou de Lopo vaz de fam payo, & fe partirã todos pera Co- chl. E quando foy elta perfia de Lopo vaz não querer fair de lam Dinis, mandou dizer a Pero mazcarenhas que por fe efcufarem aqueles debates, & outros muytos que fabia q auião de recrecer, q lhe requeria da parte del rey, que pois fem eles ambos fe podia é Cochim dar a fentéça fobre aquela demanda, que ficaffem na cofia com a armada repartida por am¬ bos, goardando que não leualfem os mouros pimenta, & que os juizes fome te foífem a Cochim, & defpois de dada a fentéça como lhes pareceíle lho mandarião dizer, & Pero mazcarenhas não quis. CAPITOLO .XLVIII. Da defauença que ouue ãtre Lopo va\ de fã payo & Pero mazcarenhas. E partidos como digo pera CochT, chegarão lá a quinze de Dezembro, & furtos foy Antonio de miranda moftrar ao védor da fazenda, a pauta que fizera com Criítouão de foufa, pera que a jurafle como todos fizerão, ho q ele não quis fazer, dizendo a Antonio de miranda q como fazião tal pauta fem fua autoridade, que era a fegunda pelloa da Índia defpois do gouernador, fem cujo confentimento não fe podia fazer nada que tocaffe á gouernãça, eítranhãdoo muyto, & dizendo que eles t
  • 86 Hijioria da índia darião conta a el rey de coufa tão mal feyta como aquela fora, & não querendo de todo em todo ho ve'dor da fazenda jurar a pauta, Pero maz- carenhas & todos os fidalgos de fua parte, requererão a Chriftouão de foufa, & a Antonio de miranda, q pois Afonfo mexia não queria jurar a pauta como Pero mazcarenhas, & Lopo vaz, com todos os fidalgos da índia fizerão, no que fe moftraua claramete fer muyto fofpeito, que aquela deferença não fe determinaffe em Cochim, fe não é Coulão, que era dali hú dia de viagem. E conhecendo Criftouão de foufa que Lopo vaz não auia de cõfentir niffo, por ter fabido que toda a efperança de fer gouer- nador tinha em Afonfo mexia polos cargos que tinha, & como de todo em todo eftaua poíto em lhe fazer a votade, ainda que foífe fem rezão, por nã dar caufa a fe aquele negocio determinar por armas, fez com Pero mazcarenhas, & com os de fua valia, que pofto que Afonfo mexia não quifeffe jurar a pauta, que cõfentiffem que aquela deferença fe determi¬ naffe em Cochim: & confentindo niffo, forão a terra Antonio de miranda, & Criftouão de foufa, & meteranfe em fanto Antonio pera nomearem os juizes que julgalfem aquela deferença, & querendo Chriftouão de foufa, que fe não nomeaífe por juiz frey Ioão daluim, & é feu lugar fe meteífem, Lopo dazeuedo q fora aquele ano de Portugal, Antonio de brito que fora capitão de Maluco, Nuno vaz de caftelo branco, que fora capitã do nauio do trato de çofala, Triftão de gá, Baftião pirez vigairo geral da índia: como ele & Antonio de miranda affentarão cõ Pero mazcarenhas em Ca- nanor, Antonio de mirãda pelo fcrito que tinha dado a Lopo vaz de fam payo, que os juizes não foffem mais de fete, nem fe mudaífem os que eftauã nomeados, não queria confentir nos que fe acrecentauão, nê em fe tirar frey Ioão daluim, nem ho quis fazer fé dar conta diífo a Lopo vaz, q quãdo ho foube, ouue diffo muyto grãde menencoria, porque tinha por muyto fofpeitos os juizes que fe acrecentauão, & não quis confentir niffo, dizendo que não auia mais de fofrer do que fofréra, & que bé efcufado fora a Antonio de miranda enganalo, & trazelo ali de Goa, & que ele tinha a culpa daquilo & não outrem, em tecer a meada que tinha tecida, porem que lhe não daua nada, porq a ele, & aos outros todos efpetaria em hú pao, & que fe foífe logo pareles, & que os ajudaffe a enganalo, mas que fe nã quifeffem coprir ho que eftaua affentado, nã cõfentia em nhús juizes, ne fe queria poer em dereito, & que pelejaria cÕ todos com fam Dinis fomente, & a vetura diria qué era gouernador, & que ele feria obrigado a dar cõta de tudo pois fora a caufa: & Antonio de miranda lhe refpondeo que não enganaua nígué, antes fazia o que deuia, & no que fizera naquele cafo tinha feyto muyto feruiço a Deos & a el rey, a que fe queixaria das injurias que lhe differa, & outras muytas palauras defcan-
  • Livro VII, Capitolo XL VIII S7 dalo fe paflarão antreles, que não fe ouuirão por amor do grande arroido que fazião os q fe metera no meyo: & Antonio de miranda fe foy do ga¬ leão muyto agaftado, pera ho em que eftaua Pero mazcarenhas, que fabendo ho que paífaua, lhe requereo por virtude da pauta, q pois Lopo vaz de fã payo nã cõfentia nos juizes, que ele & Criftouão de foufa no- meauão, & ele era deles contente, que comprifle a pauta que dizia, q em tal cafo ho ouueffe por gouernador fem mais contradição, & lhe reque¬ reo que por efte ho obedeceffe, & ho mefmo requerimento lhe fizerão quãtos fidalgos eftauã coele, & por virtude da pauta: & por eftar efcãda- lizado das palauras que lhe differa Lopo vaz, cõfentio no q Pero mazca¬ renhas & outros lhe requerião, tomando teftemunhas que ho fazia porq Lopo vaz não queria coprir a pauta, & fazendo fobrilfo grandes protefta- çoés, tomou logo os nauios que pode & os entregou a Pero mazcarenhas, & forão eftes a galé baftarda em que eftaua por capitã Eytor da filueira, ho nauio de Nuno vaz de caftelo branco, duas carauelas, de que erão ca¬ pitães Vicente pegado, & Ioão de fá, hú galeão de que era capitão Simão de melo, que naquele tempo nã eftaua nele, & afli húa galeota, & algús bargantls, & pofto que Antonio de miranda tomaífe eftes nauios a Lopo vaz ficarã fam Dinis, & fam Luys, & ho çamorim, de q eram capitães Martim afonfo de melo jufarte, & dom Ioão déça, & as galés de Ruy pe¬ reira, & Dantonio da filueira de menefes, & a carauela de Fernão de mo- raeis, afora muyta fuftalha q eftaua no porto de Cochim, & por iffo ho poder de Lopo vaz era dauãtagé do de Pero mazcarenhas, & afti os de hú bãdo como do outro fazião preftes fuas armas, & artelharia, efperãdo por batalha, pola perfia q tinha Lopo vaz em não cõfentir nos juizes que Chriftouão de foufa & Antonio de mirãda nomeauão, & algús dos de Pero mazcarenhas, defla gente baixa, bradauão por guerra, dizendo q Pero mazcarenhas não devia de fofrer tãtas foberbas, quãtas lhe Lopo vaz fazia, & q então tinha tépo de fe vingar de quãtas injurias tinha re¬ cebido. E era pera auer medo, de como a coufa eftaua aparelhada pera fe perder a Índia, porq fegundo ho poder dãbos os bãdos eftaua igoal eftaua certo fe deffem batalha, não fe apartarem fem hú ficar vécedor, & efte auia de ficar de maneyra, que facilmente ho desbarataria el rey de Calicut, q pera efte fim tinha preftes grande armada, pera dar fobre os noffos q efcapaffem da batalha, & todos os outros reys & fenhores eftauão daleuãto, pera a efte tépo daré nas noffas fortalezas & as tomaré, & defta vez tinhão por certo ficar a índia livre dos noffos, & afti ouuera de fer: porq né Pero mazcarenhas fe queria decer do acrecétamento dos juizes, né Lopo vaz de não ferem tãtos, & tres dias durou efta perfia, em q ouue muytos requerimentos de hú ao outro, & muytas proteftações
  • 88 Hijloria da índia de nhú deles ter culpa do mal q fe feguiffe da batalha que fe aparelhaua, no q Antonio de miranda fe achaua muyto culpado por defcobrir a Lopo vaz os juizes q tinha concertado com Criftouão de foufa q julgafie aqla contenda, & polo affinado q lhe dera de não ferem mais, que fe eftas duas coufas não forão, Lopo vaz confentira nos onze juizes, & porq ele confentiffe neles, fe afirmou que lhe prometeo de votar por ele, & por ifto confentio Lopo vaz que fofíe aqueles onze juizes, & por lhe Afofo mexia aconfelhar que confentiííe neles, & defpois defcolhidos lhe pofeffe fofpeiçoes, & ho mefmo lhe cofelhou ho ouuidor geral, & tãbe dõ Vafco déça feu procurador lhe moftrou a pauta q tinha affinada, & ho jura¬ mento q tinha feyto de a cõprir, pelo q não podia fazer outra coufa fe não cofentir q fe nomeafle os juizes, & por todas eftas caufas ho cÕ- fentio, & mãdãdo chamar Antonio de mirãda lho dilfe, & pedindolhe perdã das palauras q lhe differa reconciliou coele. E depois de Lopo vaz confentir, requereo Pero mazcarenhas que ho tiraffe de fam Dinis, por quãto eftaua nele muyto poderofo: & Antonio de mirãda ho pos na nao lam Roque q tinha pouca gente, & entregouo a Antonio da filueira de menefes feu genrro, & Pero mazcarenhas foy pofto na nao Frol delamar, & entregue a Diogo da filueira, & ambos jurarão de os entregar quãdo lhos pedifiem. E com ifto ficaram feguros de obedecer á fentéça que fe deífe contra cada hú deles. CAPITOLO .XLIX. Como forão acrecêtados mais dous juizes por parte de Lopo va\ de fam payo, & do mais que paffbu. ASsentado ifto, logo ao dia feguinte que forã dezanoue de Dezébro, fe forã a terra Criftouã de foufa, Antonio de mirãda, ho ouuidor geral, & ho fecretairo, ao mofteiro de fanto Antonio, onde fe ajú- tarã os mais dos capitães & fidalgos que eftauão em Cochim, & perante eles nomearão Antonio de miranda, & Criftouã de foufa, as peffoas que auiã de ler juizes aluidros, da deferença que auia antre Pero mazcare¬ nhas, & Lopo vaz de fam payo, & por ficarc nomeados os não torno a nomear, & declarados eftes juizes, foi dita húa milfa que todos ouuirão: & no fantiflimo facramento lhes deu ho fecretario juramento, q bem & verdadeiraméte julgaffem fe pertécia a gouernãça a Pero mazcarenhas fe a Lopo vaz de fam payo, & eles ho jurarão, & ho fecretario fez ho mefmo juramento, de goardar ho affinado que cada hú lhe daria de feu parecer, & ho não moftraria né daria a ningué, fe nã a el rey fe lhos pedifle, &
  • Livro VII, Capitolo XLIX 8g de tudo fez hú auto q todos aífinarão. E feyto efte juraméto, Antonio de mirada tomou Criftouão de foufa a parte, & diflêlhe q pera q Lopo vaz de fam payo na teueífe que dizer, quando fe a fentença deífe contrele, que deuião dacrecentar ainda por juizes, a frey Ioã daluim, & a Bras da filua dazeuedo, & logo pola primeira, Criftouao de foufa não queria, porq fabia certo que aqueles dous erão muyto fofpeitos a Pero mazcarenhas, & receaua que julgaífem contrele, & não querendo ele cofentir, lhe difle Antonio de miranda q confentiffe, & nã fe receaífe daqles juizes, porq ele auia de votar por Pero mazcarenhas, & tãbé dõ Ioão déça porq fabiã muyto certo que a juftiça era fua, & nã faziã aqla cirimonia de juizes, por mais q pera apacificar Lopo vaz, & porq lhe não pareceífe q lhe tomauão a gouernança, & a dauão a Pero mazcarenhas: & eftado nifto acodio dom Ioão déça, & difle ho mefmo q dizia Antonio de mirãda, & Criftouão de foufa conlentio nifto, fem dar conta a Pero mazcarenhas, nem a nhú de feus parentes & amigos, porq lhe pareceo q por mais fal¬ uas que lhes fizefle nã auião de confentir naqueles dous juizes, porq os tinhão por muyto fofpeitos, & por efla rezão fora tirado frey Ioão daluim a requerimêto de Pero mazcarenhas, & tãbem porq ele queria que aquela coufa fe acabafte em paz, & não por guerra como fe começaua de fazer que efte era ho leu fim, & pofto que entédeo que ya contra feu juramento defcolher juizes fem fofpeita, conlentio neftes dous por euitar a guerra q teue pera fi que aueria fe ho nã confentiffe, porq cometer Antonio de mi¬ randa aquilo não era fem vontade de Lopo vaz, q eftaua claro trabalhar pola fazer, & por cima de tudo ifto Criftouão de foufa eftaua fó & não tinha quê ho ajudafle, porq como ele vifle as nouidades que de cada vez lobreuinhão, conheceo q ainda a coufa auia de vir a eftado q fe fe não fizefle a võtade a Lopo vaz & a Afonfo mexia auiã de quebrar, & como tinha afletado de lha fazer em tudo porq não ouueffe guerra, não quis que ficafle coele nhú fidalgo feu parente nem amigo, nê pefloa da valia de Pero mazcarenhas, porque acontecendo ho q lhe parecia, não contra- riaffem fua determinação & fizeflem reuolta: & confentldo ele neftes dous juizes, foilhes dado ho mefmo juraméto q aos outros, & afli ficara treze, & logo eles diíferão a efles fidalgos & capitães que eftauão preftes q mã- dafté chamar ho vedor da fazenda, porq fé ele fazer certos juramentos não auiã de dar fentença naquele cafo q lhes era cometido, & vindo ho védor da fazenda, a requerimento daqueles fidalgos & capitães, Antonio de miranda é nome dos outros juizes, lhe reqreo da parte del Rey de Portugal que jurafie de entregar a fortaleza de Cochim a Lopo vaz de lam payo, ou a Pero mazcarenhas, a qual julgaffem por gouernador, & ifto fem manha né cautela, & ele ho jurou com condição q afli os juizes» Tomo IV 12
  • 90 Hifloria da Índia como todos os capitães & fidalgos que ali eftauão, & na frota juraflem folenemente q tomauão fobrefi a ele, & a Aires da cunha capitão de Cou- lão, Pero vaz trauaços, Diogo chainho, & os moradores de Cochim, & oficiaeis da camara, que não recebeifem nhú dano nem offença, afii em fuas pefioas, como fazédas, & lhe fizeflc dar embarcação, afli pera Por¬ tugal, como pera outros logares, & a ele lhe não foffe negada, pofto q fe defpois alegaffe que era feruiço del rey q ele ficafle na índia, & q Pero mazcarenhas fe obrigalíe por hú aflinado feu a cõprir tudo iíto cõ jura- míto, & afii foy feyto: & ho fecretario fez diffo hú auto q todos afiinarã, & defpois difto querendo os juizes entender em feu ofticio, difierão a Criftouão de foufa q fe fofie, & ele polo que tinha affentado cõ Antonio de miranda & q efteueffe ao defpacho daqla deferença, nã fe quis fair, & vendo que Antonio de mirãda era hú dos que infiftia q fe faifle, ouue coele fobriffo palauras, & afii com os outros, & foy a coufa de maneyra, que acodirão os juizes de Cochim por mãdado Dafonfo mexia, pera dei¬ tarem fora a Criftouã de foufa, que já fe faia quando eles chegarão, vendo que fua eftada nã aproueitaua ali, & então conheceo quã mal fizera é não fazer hú capitolo na pauta, jurado, & aflinado, por Antonio de miranda, que ele efteueffe ao defpacho daquela deferença, porque afli não lhe fora defefo que não efteueffe, & então vio també ho grande erro q fizera, em deixar acrecetar os dous derradeiros juizes, porque polo rigor que vfarão coele, lhe pareceo que auiã de dar a fentença cotra Pero mazcarenhas, & em entrando onde ele oftaua, difle de muyto agaftado, fus alforges & partamos q tudo he por demais, & caloufe que nã quis mais dizer, por amor do juramento q tinha, & ifto tudo fe fez ate vefpera. CAPITOLO .L. Das repões q ho vedor da fa^êda & outros offerecerã aos juizes pera q Pero mazcarenhas não foffe gouernador. DEspois de Chriftouão de foufa fer ido q os juizes ficarão recolhidos com ho fecretario que ali ficou, que auia de fer ho efcriuão daquele procelfo, dom Vafco deça procurador de Lopo vaz de fam Payo, & Simão caeyro procurador de Pero mazcarenhas, moftrarão aos juizes as procurações que tinhão dãbos: & lhes derão todos os papeis de que ãbos fe efperauão dajudar & coeles húas largas rezões per efcripto fobre a jultiça que tinhão, & apos ifto lhes foy dado hú requeriméto dos offi- ciaes da camara de Cochim em nome de toda a cidade, em q lhe reque- rião da parte de Deos & del rey que por nhú modo lhe nã julgaflem a
  • Livro VII, Capitolo L 9i gouernãça a Pero mazcarenhas, porque fe lha delfem auião de defpouoar a cidade, & irfe pera os mouros, por não fe atreuerem a faluar cÕ os Chriftãos ficando ele por gouernador que era feu Imigo capital, alegado as rezões q auia pera iífo: pelo qual não fe fiarião de nhú juramento que fizeífe. E vilto elte requerimento pelos juizes lhes forão dadas húas re- zoes do vedor da fazenda que dizião. «Senhores fe voffas merces quiferé verdadeyramente efpicular a juf- tiça que ho fenhor gouernador Lopo vaz de fam payo tem pera lhe ficar a gouernança, acharão que lhe fobeja, & da meírna maneyra hão dourar a que Pero mazcarenhas póde ter pera fer gouernador, acharã que he nhúa por muytas rezões, de que aqui darei algúas. » A pricipal he fer ele muyto odiofo aos moradores deita cidade, pela injuria que diz que recebeo deles quãdo defembarcou contra meus reqrimentos, pelo q eítá claro que feria muyto grãde deferuiço de deos & del rey, ficar ele na índia como peífoa particular, quanto mais co mãdo, & a fora fer muyto odiofo por eíta caufa que té de vingança, ho he tãbem por deferuir a el rey cõ ho mando que lhe dá, como vereis neífa inquirição que fe tirou aqui contra ele a requerimento do feytor de Malaca, em que fe achou que fez muy graues erros, aííi nas coufas da jultiça, como nas da fazenda, & també offreço os autos que mandou fazer contra os oflkiaeis da camara delta cidade, contra quem ha de pro¬ ceder defpois que for gouernador. E Lopo vaz de fam payo os que tinha prelos em Goa (& não é ferros como lhe merecião) foltou os leueméte, por lhe dizerem q era affefego da índia, & pola ver pacifica fe pos em ventura de perder ho que tinha certo, digouos que tem bem feruido el rey noífo fenhor na jultiça, & na fazenda olhay ho que fazeis. »Tem tãbem Pero mazcarenhas determinado como for gouernador de tirar Antonio de miranda de capitão mór do mar, & a mim da capi¬ tania de Cochim: como fe proua por effa carta affinada por ele. »Também ha outra rezão muy euidente pera não fer gouernador Pero mazcarenhas, porque polo fer cometeo mui graues crimes perdoãdo cõtra forma das ordenações del Rey noífo fenhor a algús que tinhão mor¬ tas algúas peffoas & os recolheo a Cananor & deles traz cõfigo hú Lucas leytão que matou aqui tres homés, & por feu mãdado eítá em poffe de hú nauio. Pero tauares q matou fua fogra fobre dous feguros de dom Anrrique & hú bombardeiro q matou hú homé, & os q efpancarão & ferirão em Cananor ho tabalião que lhe leuou ho requerimento dos offi- ciaes da camara delta cidade. E por fer gouernador prometeo a muytos q tinhão roubado & tomado muyto dinheiro a el Rey noífo fenhor de lho quitar, afli como foy a Chriltouão de foufa que te tomados a fua alteza
  • 92 Hijioria da Índia perto de qulze mil cruzados, deles do tempo do doutor Pero nunez & deles do meu, & por faber que ho queria conftranger a pagar efte dinheiro fe contrariou logo das cartas em que tinha obedecido por gouernador a Lopo vaz de fam Payo & lhe delobeceo por nã pagar efte dinheiro, como não pagará fendo Pero mazcarenhas gouernador, & Lançarote de feixas da feytoria q teue em Pegú deue muyto dinheiro a fua alteza & lho nã quer pagar por fer fecretario de Pero mazcarenhas, nem menos pagará ho frete do nauio que leuou a Malaca carregado de fua fazéda & deixou a del Rey: & Francifco mendez de vafconcelos q deixou por capitão em Cananor tomou hú nauio de mercadores noffos amigos que ya carregado muyta fazenda & dinheiro, & tudo té fonegado fegudo tenho polo liuro & aíféto do efcriuão do mefmo nauio, & Manuel da gama que eu tenho prefo por dous mil cruzados que deue a el Rey, que me começaua de pagar deixou de ho fazer, dizendo que como Pero mazcarenhas gouer- naífe que tudo fe bé faria. Pois que toma tais prlcipios de gouernar a juftiça, & daproueitar também a fazenda de fua alteza antes de fer gouer¬ nador, que fara defpois q ho for? Pelo que eftá notorio fer coufa muy perjudicial feio, & julgãdo voífas merces que ho 1’eja, eu lhes encampo a fazenda del Rey noíTo fenhor que eu tenho nela também feruido, que re- cebeo palfante de trezentos mil cruzados de proueito como darey por conta, & concertadas fuas fortalezas & pagos mais de duzentos mil cru¬ zados de foldo fem lhe bolir nos cofres das naos da carga como algús fazem. E porque nã fe pode fazer tãto feruiço fem fe tomar conta aos q roubão fua fazenda & fem poer verbas a outros q ho deferué per outros modos (que he dobrado feruiço) defejão os culpados neftes erros como leais vaífalos que me va da índia & bufcarão pera iffo efte caminho de fazer gouernador a Pero mazcarenhas: q fe ho fenhores julgardes por effe vos encampo a fazéda de fua alteza, & protefto que feja fatisfeyto pelas voífas, & quãdo não per voífas peífoas, & protefto por meus ordenados, & polas perdas que receber, pofto que me não lembra fe não el Rey noífo fenhor, porque a ele fe faz a guerra. » Coeftas rezoes eftauão outras de Pero de faria capitão de Goa fúda- das fobre a mefma matéria, & affi hú requerimento do licenceado Ioão de foiro ouuidor geral da índia, em q requeria o que por eftas rezÔes vay relatado. E toda a noyte do dia em que os juyzes começarão deftar em defpacho quãtos moradores auia em Cochim andarão defcalços em pro- ciffam cõ fuas molheres & filhos, pedindo a noífo fenhor que fpiritaífe nos juyzes que não julgaffem a gouernança a Pero mazcarenhas polo medo q auiã de fe vingar deles & cõ grandes brados pedião mifericordia: o que foy muyto piedofa coufa de ver.
  • Livro VII, Capitolo LI 93 CAPITOLO .LI. De como foy dada a fentença q Lopo va\ de fam Payo gouemajje a índia. Evifto pelos juyzes tudo o que fe alegaua por ambas as partes, fez cada hú hú efcripto de feu parecer que alfinou & ho deu ao lecre- tario que os leo peranteles, & defpois de fe achar que Lopo vaz de fam Payo tinha mais votos, & que a ele pertencia a gouernança jul¬ garão que foffe gouernador, & o fecretario efcreueo a fétença que dizia. «Viftos por os juyzes eftes autos, & o que por eles fe moftra, & -viftos noífos aflinados em q cada hú declarou fua tenção: julgamos por noífa difinitiua fentença que Lopo vaz de fam Payo gouerne, & feja go¬ uernador neítas partes da índia, & Pero mazcarenhas fe va em bora pera ho reyno de Portugal, & lhe fera dada embarcação fegúdo a qualidade de fua peífoa: & quanto aos ordenados dos fobreditos fiq pera el Rey noffo fenhor ho julgar como lhe bem parecer, & aíli todo ho mais que cada hú deles quifer requerer no reyno.» E affmada pelos juyzes, logo no mefmo dia q forão vinte hú de De¬ zembro ao foi pofto Antonio de miranda, Dom Ioão deça, Bras da filua dazeuedo, & Triftão de gá fe forão em hú bargantim á nao em que eftaua Pero mazcarenhas: & dos de fua valia forã muytos apos eles cuydando que a fentença fe dera por ele. E entrados dentro ho fecretario lha pu- bricou perante todos: & ele a ouuiu com rofto muy feguro, moftrando grande coração, o que feus amigos não fizerão, q todos ficarão muyto triftes. E ele ficou naqla nao ate lhe fer dada embarcação. E os juyzes forão pubricar a fentença a Lopo vaz de fam payo, q a recebeo com muyto prazer, & deu muytos agardecimentos aos juyzes: & pedio muyto perdão a Antonio de miranda do q paffara coele. E com quanto a fen¬ tença foy dada por Lopo vaz, defpois fe deu em Portugal cÕtrele: & q pagalfe a Pero mazcarenhas ho ordenado q leuara de gouernador cÕ todos os proes & precalços. E por fer quafi noite não fe foy ho gouernador a terra & ficou no mar: Õde & na terra ouue muytas folias & prazeres & grãde ftrõdo dartelheria q defparaua: o q daua grãde torméto aos da outra parte: porq lhes parecia q fe ficafle na índia q o gouernador lhes auia de fazer mal. E porque a ele lhe pareceo q terião efta fofpeita os quis fegurar, & ao outro dia antes que defembarcaffe correo toda a frota em hú catur, & a todos em geral fez efta fala. Pois noffo fenhor Deos foy feruido de me reftituyr na gouernança da índia, peçouos fenhores que
  • 94 Hijloria da índia todos vos alegreis comigo, & creais que ficando eu por gouernador, vos fica a todos hú amigo pera vos fauorecer na índia, & com el Rey meu fenhor reprefentandolhe voiTos feruiços & pedirlhe que vos faça merce: porque vos dou minha fé que vos tenho em muyto boa cõta aos que foftes da parte de Pero mazcarenhas em proffeguirdes cõ tanto esforço o que vos parecia que era rezão, porq ho mefmo fizereis por mim fe fôreis da minha parte, & por ifio vos não ey de ter de má vontade, & vos prometo que me não lembre mais ho pafládo: & vos peço q façais outro tãto, & q fejamos muyto amigos, & firuamos todos el rey muyto bem, & vamos defcanfar q he tempo. O que lhe todos teuerão muyto em merce & forãfe coele pera terra, ode foy recebido com foléne prociíTam, & debaixo de hú palio foy leuuado á See, & defpois de ouuir milía á fortaleza em q auia de poufar, & ali tornou a fazer muytos offrecimentos aos fidalgos que lhe forão contrairos com que fe iegurarão pera ficar na índia. CAPITOLO .L11. Do que ho gouernador fe{ defpois de fer rejlituido em fua pojfe. REstituido Lopo vaz de fam Payo na gouernãça, quifera logo aper- ceberfe pera ir bufcar os rumes, q bem fabia ho leu desbarato & a morte de çaleimão raix foylhe confelhado que não foffe porque por nhú modo lhe conuinha ir fora da índia, affi porque os da valia de Pero mazcarenhas não eftauão de todo affeifegados, & ficando ele na índia deípois da partida do gouernador aueria outra reuolta como dãtes, por¬ que nhú auia de querer ir ao eitreito: & també el rey de Calicut tinha feyta grande armada, & vendo ho gouernador fora da índia faria nela muyto dãno, & abaftaua q ho capitão mór do mar folie ao eftreito ás prelas & lá faberia a certeza do q era feyto dos rumes, & não vindo go¬ uernador no anno feguinte então os iria ho gouernador bufcar tãbe aper¬ cebido que podefie pelejar coeles. E ifto determinado, defpachou ho gouer¬ nador ho capitão mór do mar cõ húa armada de noue velas .f. feys galeões de que a fora ele que ya em fam Dinis forão por capitães Fer- não rodriguez barba de fã Rafael, Antonio da filua dos Reys magos, Ruy vaz pereyra de fã Luys, Anrrique de macedo do çamorim grãde, & Lopo de mezquita do peqno, & Frãcifco de vafcocelos de húa galeota, & Ruy pereyra de húa galé baítarda, & húa galeota & clco bargãtls: & coefta frota em q irião mil homés fe partio em Ianeiro, & xii. dias defpois de fua partida mãdou o gouernador a Simão de melo feu fobrinho a fazer prelas ás ilhas de Maldiua, & leuou hú nauio de gauea & húa carauela.
  • Livro VII, Capital o LIII 9* E nefte tempo forão acabadas de carregar as quatro naos que auião dir pera Portugal & fe partirão, & foy em húa delas Pero mazcarenhas étre- gue prefo a Antonio de brito, & por amor dele fe forão muytos fidalgos pera Portugal & affi outras peífoas. E primeyro que efta frota partiíle mãdou ele citar ho gouernador perãte el rey ou perante os defembarga- dores da fua relação pola gouernãça da índia, & por ho ciuel & crime que fobre aqle cafo efperaua dalcançar contrele: & mais lhe efcreueo como os Caftelhanos ficauão em Maluco na ilha de Tidore como dilfe atras pera que focorrefle a dom Iorge de menefes que lá eftaua por capi¬ tão. E partida efta frota chegou a Portugal a faluamento: & Pero maz¬ carenhas foy bem recebido del rey: que não ouue por feu feruiço o que lhe fora feyto. E defpois de Lopo vaz de fam Payo fer em Portugal ouue fentença contrele que lhe pagafle todo ho ordenado que ouuera dauer com a gouernança. CAPITOLO .L111. De como dom Garcia anrriqueç entregou a fortaleza de Maluco a dom Iorge de menefes. DOm Iorge de menefes q inuernou nas ilhas dos Papuas como difle atras defpois que ventarão os leuantes partiofe pera Maluco & che¬ gou á ilha de Ternate em Mayo de mil & quinhétos & vinte fete, onde foube em chegando a guerra q os Portuguefes tinhão com os Cafte¬ lhanos, Tidores & Geilolos: do que lhe pefou por a pouca gete q leuaua & effa quafi toda doente que a outra lhe morreo nas ilhas onde inuernou. E tendo ja efta certeza defpois de chegado, deixando os dous nauios a recado fe foy nos bateys aa fortaleza, donde fabendo dom Garcia fua ida ho fayo a receber muyto ledo, porque fe poderia tirar da grande obriga¬ ção em que eftaua com guerra por amor do pouco apercebimento que tinha parela, & logo lhe entregou a fortaleza afli como lha Antonio de brito entregara, que foy da maneyra que difle no liuro fexto. E dom Iorge lhe deu diffo hú conhecimento feyto per hú tabalião pubrico: & logo q do Iorge chegou Martim hinheguez o capitão dos Caftelhanos que eftaua em Tidore ho mandou vifitar dandolhe a boa hora de fua vinda, & offre- cendolhe paz & amizade: cõ queixume de do Garcia que nunca a quifera coele, antes lhe metera a fua nao no fundo, & lhe matara hú homé & ferira tres: o q dom Iorge lhe agardeceo offrecédofelhe também por amigo, & difeulpando dom Garcia que ho quifera fer feu, mas que ele fora o que não quifera nem irfe parele como lhe mandara pedir, & qui¬ fera antes eftar antre os mouros feus immigos, pedindolhe que pois que-
  • 96 Hi/Ioria da índia ria fua amizade q ho moftraífe é fe ir pera a fortaleza, onde lhe daria apoufentamento de que foífe contente. E por Martim hinheguez não ref- ponder a ifto lhe mandou dom Iorge hú requeriméto aos quatro dias de Iunho em q lhe requeria cõ ho alcayde mór da fortaleza, feytor & outros officiaes que fe foífe logo daquela terra & de todas as ilhas de Maluco, & não compraífe nhú crauo. E ho mefmo requerimento lhe fez Martim hinheguez: & defpois de muytos requerimentos de parte a parte fizerão tregoas, ate verem recado da índia ou Defpanha do que mandaua ho go- uernador q fizelTe do Iorge. E como as tregoas forão affentadas ouue muyta amizade, preftãça & conuerfação antre os Portuguefes & Caftelha- nos, & dauãfe dadiuas hús aos outros principalméte os capitães. E fem- pre Martim hinheguez fe fora pera a noífa fortaleza fe ho não eítoruarão el rey de Geilolo & Cachil daroes: el rey de Geilolo porque os Tidores teueííe neceffidade de fua ajuda, & Cachil daroes porque os Portuguefes a teueífem da fua. CAPITOLO .L1111. Do que dõ Iorge quifera fa\er acerca do crauo & não pode. DEspois difto tirou dom Iorge a alcaydaria mór da fortaleza a Ma¬ nuel falcão que a tinha por lho mandar alfi Pero mazcarenhas, porq lhe leuara dous homiziados de Malaca. E tirada efta alcay¬ daria deu a a hú Simão de vera, & porque Manuel falcão não fe efcan- dalizafle de lhe tirar a alcaydaria, & ele & outros não cuydaífem q ho fazia fem caufa moftroulhe ho mandado de Pero mazcarenhas. E com tudo Manuel falcão não fe ouue por fatisfeyto & ficou ímigo de dõ Iorge pofto que ho diffimulaua. També dom Iorge quis vfar de hú regimeto que Afonfo mexia védor da fazéda da índia mãdara a Maluco, em que man¬ daua que ho feytor de Maluco compraífe quanto crauo ouueífe nas ilhas, & carregaífe ho mais q podeífe pera el Rey & ho mãdaffe á índia, & o que fobejaífe ho vendeífe aos moradores da fortaleza cõ ganhar ho mais que podeífe, & daqle dinheiro fe pagaífe ho ordenado do capitão & dos outros officiaes, & fe pagaífe ho foldo & mantimento da gente darmas pera el Rey poder fofrer os grandes gaftos daquela fortaleza: & cõ tudo que fe tomaffe ho crauo fem efcandalo dos mouros & Portuguefes q efta- uão na terra. E dom Iorge mandou apregoar efte regimento, & que fe goardaífe. E vedo os Portuguefes quanto proueito lhes tirauão, & que defta maneyra poderia el Rey faber ho muyto q ganhaua ê auer ho crauo á fua mão & ho muyto que perdia em ho não auer, & que nunca ho mais alargaria, no que ficauão perdidos, porq nã ficauão mais q cõ ho foldo &
  • Livro VII, Capitolo L V 97 mãtimento que nunca lhes pagauão: determinarão de não confentir que aquilo fofle auante, & confederãfe com Cachil daroes que ho eftoruafie. E ele q muyto folgaua de os Portuguefes fempre terem neceffidade de fua ajuda afli ho fez, dizédo que pois os mouros não podião vender feu crauo a que queifeflem, que afli não vederião feus mãtimentos na forta¬ leza, & mandou q os não vendeflem dali por diante: & começou ho efcan- dalo de crecer em tanta maneyra que a dõ Iorge lhe foy neceflario difli- mular, porque ho nã pode defender. E afli perdeo el rey tamanho proueito como efte fora de fua fazéda, & que foy a caufa de fazer ali aquela for¬ taleza, & que fem ter ho crauo lhe não feruia de mais que de gaftar dinheiro debalde, & comprar ho crauo ho tres dobro mais caro do que ho compraua na Índia antes que a fizefle, porque os mercadores lho leua- uão a Malaca ou á índia, fem mandar por ele a Maluco cõ tamanho gafto como fazia a fortaleza que lá eftaua, & as armadas que yão por ele, em que a fora ho dinheiro que fe gaftaua fe auenturarão Portuguefes q cada dia fe perdião no mar, & morrião na terra. CAPITOLO .LV. Do que pajjou dom Iorge de menefes cõ dõ Garcia anrrique\ fobre man¬ dar a Malaca pela via de Borneo. Qj Uando do Iorge partio de Malaca pera Maluco, mãdoulhe Pero mazcarenhas que lhe mandaífe recado pela via de Borneo como _achara Maluco & como ficaua, & q requerefle a dom Garcia q fofle por efte caminho de Borneo, porq como era muyto mais breue q ho de Banda, & podia a fortaleza fer por ali focorrida em menos tempo que pola via de Banda, defejaua Pero mazcarenhas que fofle bem fabido dos Portugueles pera q nauegaflem por ali, afli pera feré conhecidos dos reys & fenhores daquelas ilhas, & tratarem coeles por ter enformação que auia nelas ouro, como por os Caftelhanos fazere por ali feu caminho, & os podião hi efperar & lhos tolherião que não fofle m a Maluco: & tam¬ bém por fe euitaré brigas que fempre recrecião antre os capitães que inuernarão em Bãda. Efte regimento moftrou dom Iorge a dõ Garcia, & requereolhe da parte de Pero mazcarenhas, q fe partifle pera Malaca no nauio é que ele dom Iorge fora, & que fofle pola via de Borneo. E coefte requerimento ficou dom Garcia muyto falteado, porque recebia grãde perda não indo por Banda, ondefperaua dir ter hú jugo que ho anno paf- fado mãdara a Malaca carregado de crauo feu & de partes, & auia de tornar a Bãda com roupa pera ho leuar carregado de noz & maça, & Tomo IV i3
  • Hiftoria da Índia 98 dizendo a dom Iorge que ele lhe refponderia, ouue confelho cÕ algús feus amigos que erão aqueles que tinhão mandado ho crauo com ho feu, & efperauão de fazeré fuas fazédas em Banda como ele efperaua de fazer a fua, & por iffo lhe côfelharão que per nhú modo deixaffe dir por Banda. E acordarão todos o q diffeffe a dõ Iorge pera não ir por Borneo: & ifto acordado, refpõdeo dõ Garcia ao requerimento de dõ Iorge. Que ele fora de muyto boa vontade pola via de Borneo por feruir el Rey, mas que fabia q não auia de poder ir, porque cometera por hi ho caminho em tempo Dantonio de brito, leuando muyto bõs pilotos: & defpois de andar perdido por aquelas ilhas cÕ muyto grãde trabalho arribara a Maluco: & auendo dõ Iorge a dõ Garcia por efcufado de ir, determinaua de mã- dar outre por aquele caminho: 0 q vifto por dom Garcia, & que fe foffe outrem ficaua ele em muyta culpa por não ir, determinou deftoruar a ida, & diífe a dõ Iorge que lhe parecia muyto efcufado mandar aqle na- uio, porque a fora defcobrir aqla nauegação pela via de Borneo, a prin¬ cipal caufa de ho mãdar era mãdar pedir focorro q ele ja tinha mãdado pedir por Manuel lobo: & quando aquele nauio chegaffe a Malaca ja lá auia de fer fabido ho leu recado, & quando viffem que fobre tão apertado da guerra dos Caítelhanos como ele mandaua dizer q eítaua, & tão ne- ceffitado de gente & munições pera a guerra, & que fobriffo ya aquele nauio pareceria q ho primeyro recado fora zombaria, & que não auia neceffidade de gente né de munições, porque fe a ouuera não fe poderá mandar aquele nauio: & a fora iffo os q foffem nele auião de dizer como a nao dos Caítelhanos fe fora ao fundo, & que os Caítelhanos erão me¬ nos, & as tregoas que tinhão affentadas, o que tudo feria caufa de lhe não mãdaré ho focorro que efperaua, ou fe lho mandaffem não feria tão bÕ como fora nã indo ho nauio, pelo que ho não deuia de mandar, mas deixalo eltar & mandar concertar outro que eítaua varado, & defpois de aparelhado lho deffe, porque ele iria nele efperar os Caítelhanos ao ca¬ minho, & impidirlhes que não mandaffem pedir focorro á noua efpanha como fe dizia que querião mãdar pedir: & por fazer feruiço a el Rey queria leuar cem bahares de crauo que tinha de partes, & os venderia ao feytor pera el Rey. E porque logo dõ Iorge não quis conceder ifto, lhe fez hum requerimento em que fazia grãdes proteftações que fobre- uindo algúa perda a el Rey por ele dõ Iorge não querer fazer 0 que lhe requeria carregaffe tudo fobrele. E eíte requerimento foy pubricado a dom Iorge aos quinze dias de Iunho, que parecendolhe boas as rezões de dom Garcia, refpõdeo que queria fazer 0 q lhe requeria: & porem q le diffo a fortaleza, ou os Portuguefes recebeffem algú dãno ou perda que carregaffe fobrele dom Garcia, & affi ceffou de mandar ho nauio. E poré
  • Livro VII, Capitolo L VI 99 dõ Garcia ficou muyto defcontéte de dõ Iorge por afli apertar coele q foffe pela via de Borneo, & arrepédeofe de lhe dar cem báres de crauo de q lhe tinha dada palaura de lhos mãdar dar é Malaca: & a caufa foy que pedindolhos dõ Iorge empreftados refpondeo ele que aueria feu con- felho. E dando cota dilfo a feus amigos q efperauão de fe ir coele, con- felharanlhe q lhe defle de graça os cê bahares de crauo, & que não qui- feffe dele outra paga fe não hum nauio em que fe foffe, & licença pera fe ire coele ate vinte homés de fua obrigação. E do Garcia ho fez aíli fazendo húa doação a dom Iorge dos cé bares de crauo, & húa procura¬ ção pera os mandar arrecadar em Malaca, & dom Iorge lhe prometeo ho nauio & mais a licença pera os homés, & quãdo dõ Garcia vio que apertara tãto coele q fofTe pela via de Borneo, fentioho tãto q defconfiou de dom Iorge comprir ho que lhe prometera, & começou de ter má fof- peita dele. CAPITOLO .LVI. De como dom Iorge de menefes mãdou recado ao capita de Malaca pola via de Borneo. POsto que dõ Iorge por amor do reqrimento de dõ Garcia, deíiftio de mãdar ho nauio que diffe, tinha tã afTentado de mandar a Ma¬ laca pela via de Borneo pera fe faber bé aquela nauegação, que determinou de mãdar húa coracora, por fer nauio de que auia na terra grande abaftãça, & não auia de fazer mingoa na fortaleza. E porq a viaje lhe importaua muyto, não a confiou doutré fe não dú Vafco lourenço, q afora fer muyto esforçado & fefudo era feu tio, pelo que tinha nele muyta confiança: & deulhe pera fua cõpanhia hú Diogo cão, & outro chamado Gõçalo velofo, & outros dous & por piloto hú Caílelhano, & hú Malayo que forão coele de Malaca, & tinhão algú conhecimento daquele caminho. E pedido a Cachil daroes a melhor coracora das que tinha os mãdou nela, & deu a Vafco lourenço cartas pera ho capitã de Malaca, fcreuen- dolhe a guerra em que ficaua & a necefiidade q tinha, pedindolhe muyto q ho focorreffe, & que lhe mandaffe hú maço de cartas ao gouernador da índia, & tãbe lhe deu roupa & outras peças boas pera dar a el rey de Borneo, & afli outros reys, & dõ Garcia, & Cachil daroes també derão fecretaméte cartas a Diogo cão, q fcreuião ao gouernador da índia con¬ tra dom Iorge, & ele as tomou por dõ Iorge ho mãdar contra lua von¬ tade, & mandaua tãbé dõ Garcia húa renunciação da doação, & procura¬ ção, que tinha dadas a dõ Iorge dos cé bares de crauo, q dõ Iorge mãdaua arrecadar em Malaca por Vafco lourenço: que partido de Ternate foy
  • 100 Hijioria da índia furgir na cidade de Borneo, Ieuãdo no caminho muyto trabalho, & hi achou hú caualeiro chamado Afonfo pirez que ya pera Maluco por capi¬ tão dum jungo, a q deu conta de como ficaua dom Iorge, & elle Afonfo pirez era muyto conhecido del rey de Borneo, & por iffo foy com Vafco lourenço quando lhe foy falar que lhe deu ho recado de dom Iorge, como mandaua por aquele caminho a Malaca, pera a amizade q tinha coele foffe em crecimento, & os Portuguefes conuerfaífem, & teueffé trato em fua terra, & coeíle recado lhe deu de prefente hú pano darmar deras muyto rico, em que eftaua afigurado o cafamento del rey Dingraterra cõ a tia do Emperador, & el rey tirado pelo natural cõ fuas veftiduras reays. E quando el rey de Borneo vio aquelas figuras, preguntou que querião dizer, & Vafco lourenço lhe dilfe. E fabédo el rey que aquele que tinha a coroa era rey coroado, fofpeitou que os Portuguefes com engano lhe querião meter aquele pano em cala, pera q de noyte por feytiçaria aquela figura de rey fe tornaífe homé, & affi as outras figuras q eftauão coele, & ho auia com ajuda deles de matar ou prender & tomarlhe ho reyno, pelo que ficou muy toruado, & diífe a Vafco louréço que lhe tiraífe logo ho pano de diante, que não queria que em feu reyno ouuveífe outro rey fe não ele, & que fe foffe logo com os outros Portuguefes fe não que os caftigaria como a homés q lhe querião fazer treiçã. E ele & os outros fe virão em perigo, fe não fora por Afonfo pirez & algús mouros merca¬ dores que os difculparão dizendo a verdade a el rey & ho abrandarão muyto da fúria que tinha, & porem não quis ho pano nem que ficaffe na terra. E detédofe aqui Vafco lourenço, determinou Afonfo pirez de não ir a Maluco & tornarfe a Malaca, ou por fe deter aqui mais tempo do que ouuera de fer, ou por amor da guerra q auia em Maluco com que não podia fazer fazéda, & fabendo Vafco louréço como fe tornaua foyfe coele por ir em melhor embarcação que na coracora q dali fe tornou pera Maluco õde chegou cõ muyto perigo, & ho capitão contou a dõ Iorge o que paífara. GAPITOLO .LVII. De como dõ Iorge de meiiefes mandou prêder dõ Garcia anrrique\. NO tempo que cfta cora cora chegou começaua el rey de Geilolo de fazer guerra a dõ Iorge porque não ctraua nas tregoas dantre el rey de Tidore, & fazia algúas corridas por mar a Ternate, & Cachil daroes as fazia tambe a Geilolo, & faziãfe algú dãno de parte a parte. E eftãdo aiTi a coufa, faleceo Marti hinheguez capitão dos Cafte- lhanos, & eles fizerão outro q fe chamaua Fernão dela torre. E fabido
  • Livro VII, Capitolo L VII tor por dó Iorge mandou ho vifitar, & pregútarlhe fe queria goardar as tre- goas que eítauão affentadas antrele & Martim hinheguez: & Fernão dela torre não quis, & tornoufe a guerra a renouar. E porque Fernão dela torre não tinha nhúa vela de remo fe não as da terra mãdou fazer húa galeota pera que pelejaffe nela cõ os Portuguefes: & como dó Iorge ho foube mandou fazer outra com muyta prefTa, pera o que mandou apenar quantos carpinteiros & calafates auia na terra, pofto que andaífem é ou¬ tras obras: pera o que mandou tomar muytos que fazião hú jugo de dom Garcia, porque importaua muyto acabarfe a galeota cedo, por ele não ter outro nauio de remo em que pelejaffe com a galeota q fazião os Caítelhanos. E vendo hú clérigo chamado Fernão vaz tomar os carpin¬ teiros que trabalhauão no jungo, alTi por ter parte nele como por fer amigo de dó Garcia fe foy logo a fua cafa, dizédo que pefar de tal como lhe auia dom Iorge de tirar os officiaeis da fua obra, & qpe ho não fazia fe não polo não ter em conta, & coifto outras palauras de padre mais caualeiro, q religiofo, cõ q ho prouocou a ter menencoria de lhe dom Iorge tomar os carpinteiros, fem lhe lembrar q era pera ferúiço del rey, & coefta furia fe foy á ribeira, onde dom Iorge andaua fazendo trabalhar na galeota, & fe lhe queixou do q tinha feyto, & do Iorge refpondeo q não fe podia fazer menos, por cõprir affi a feruiço del rey. E por dó Gar¬ cia infiftir que lhos não ouuera de tomar, & dõ Iorge querer fofter q fizera bé, vierão a taeis palauras, que do Iorge chamou fandeu a dõ Gar¬ cia, & q ho caftigaria muy bem, & dõ Garcia lhe diffe que defiítiffe da capitania, & q lhe faria conhecer q era melhor fidalgo & caualeiro que ele, & niílo apunhou da efpada, & paliarão outras palauras mais feas, & acodindo gente de húa parte & doutra, fe foy dõ Garcia pera fua poufada acõpanhado deffes q erão de fua valia, que lhe louuauão muyto ho q dif- fera a dom Iorge, & os q ficarão cõ dom Iorge, lhe diíferão q não deuia de paífar por tamanha defobediencia, & q deuia logo de préder dõ Gar¬ cia, & ho que mais atiçaua ifto era Manuel falcã, por qrer grande mal a ambos, & defejar de os ver em difcordia: & agarrochado dõ Iorge deites confelhos, mãdou a Thomaz nunez dafonfeca feu ouuidor, que foffe tomar a menajé a dõ Garcia & ho trouueífe prefo a fortaleza, ao q os que efta- uão coele que erão muytos acodirão, dizédo a dom Garcia q não era bé deixarfe prender, & que eles ho ajudarião, & dõ Garcia não quis dar a menajem ao ouuidor, & diffelhe que nã tinha alçada fobrele né el rey lha daua, que tirafTe deualfa dele, & a mãdaffe ao gouernador da índia: & fabendo ifto dom Iorge, mandou repicar o fino da fortaleza, a que fe jútou a gente, & dõ Iorge lhe diffe como dõ Garcia lhe defobedecia, pelo q determinaua de ho prender, & todos diíferão que fizeffe ho que bé pare-
  • 102 Hijloria da índia ceife, & que eles ho ajudarião como a capita del rey de Portugal: & logo dõ Iorge mandou a Simão de vera alcaide mór, que cõ hú fcriuão da feytoria fofle tomar a menajem a dõ Garcia da fua parte, que fe foffe pera a fortaleza prefo & difefle aos q eítauão com dõ Garcia que fe fol¬ iem parele ates q foffe lá, & quando chegou a fua cafa, achou que fe ajú- tauao muytos coele, hús por terem feu crauo feyto & fe qrerem ir coele, outros porq também fe querião ir, por amor da guerra q eftaua trauada de que fe enfadauã, & quãdo eftes ouuirão ho que lhes dom Iorge man- daua dizer de fua ida lá, differão que fofle embora, q eles ho iriã receber ao caminho cõ lançadas, & eíte atreuiméto tinhã por faberé que paífarã fèm caftigo aqueles que fauorecerã & ajudará Antonio de brito não fendo capitão, contra dõ Garcia que ho era, & dõ Garcia refpondeo ao alcaide mór ho que refpondera dantes ao ouuidor, ho que os de fua valia lhe louuarão muyto, & era ho aluoroço muyto grande neles, o q fabido por dom Iorge mandou apõtar algúas peças dartelharia nas cafas de dom Gar¬ cia pera as derribar, mas primeyro tornou a mandar lá ho alcavde mór com ho mefmo recado que dantes, & coele hú Trilião vieira: a q rogou por fer amigo de dom Garcia que lhe confelhafle que fe fofle pera a for¬ taleza. E ele ho fez affi, pregútandolhe primeyro fe determinaua de fe defender de dõ Iorge. Ao que dom Garcia refpondeo, que como fe auia de defender fendo ele capitão del Rey de Portugal: & então lhe differão Trilião vieira & ho alcayde mór, que pois affi era q lhe pedião que fizefle o que dõ Iorge mandaua: o que os q ali eílauão lhe contrariarão, & ele difle q não era tempo, porque fe ho fizefle daria caufa a auer muytos < mortos & feridos, pelo que os Caltelhanos ficarião fenhores da terra. E dizedo illo foyfe fó á fortaleza pera ver fe podia apacificar dom Iorge, a q difle. Ex me aqui que me quereis, q me quereis: & ele lhe pedio a menagem que dom Garcia lhe deu defpois de muytos debates porq lha nã queria dar. E tomada pelo ouuvidor & feyto diífo hú auto, ho man¬ dou pera húas cafas em q Antonio de brito poufara, & mãdou logo tirar deuaffa dele. CAPITOLO .LVIII. De como dom Iorge foltou dom Garcia & tornarão a fer amigos. TAnto que dom Garcia foy prefo, como Cachil daroes era grãde feu amigo, trabalhou muyto com dom Iorge q ho foltafle dandolhe pera iflo muytas rezÕes, mas dom Iorge nunca quis, dizendo que ho auia de ter prefo, & que affi ho auia de mãdar ao gouernador da ín¬ dia pelo que Cachil daroes ficou muyto defgoítofo de dom Iorge, & fe )
  • Livro VII, Capitolo L VIII io3 lhe acrecentou ho odio que lhe começaua de ter polo não ter tanto de fua mão como cuydaua que ho teueífe. E também Baltefar rodriguez fey- tor & outros homés hõrrados trabalhauão com dom Iorge q foltaffe dom Garcia, & que fe lembraffe que era hú bõ fidalgo, & q fora capitão da¬ quela fortaleza, & ho recebera cõ muyta feita & prazer, & lhe fizera muytos offrecimentos: mas todauia dom Iorge ho não quis foltar, dizendo que ele efcreueria a el Rey porque o tinha prefo. E com toda efta briga mandou nefte tempo Cachil daroes com algús Portuguefes correr per mar a Geilolo, & queimarão hú lugar & fem receberé dãno fe tornarão pera Ternate: & auédo dezoyto dias que dom Garcia eftaua prefo, & fabendo que dõ Iorge ho não queria foltar, & dizia que ho auia de man¬ dar prefo ao gouernador agaftoufe muyto, & teue confelho com os de fua valia fobre o q faria: & eles lhe confelharão que deuia de requerer a dom Iorge q ho foltaffe que ja deuia deftar fatisfeyto dalgúa paixão que dele teuera, & quando ho não quifeífe foltar lhe mandafTe dizer que ho prendeífe em ferros, porque ou auia de fer bem prefo ou bem folto: & fe ho não quifeífe prender em ferros que auia a menagem por aleuantada, & fe auia dir pera fua caia & fazer o que lhe bé vieffe. E dom Iorge por ho feu cafo não fer pera ho prender em ferros não ho auia de prender, & por fe não foltar per fi fem fua licença ho auia de foltar: porem acon¬ teceu doutra maneyra, porq ouuindo dõ Iorge ho recado de dom Garcia que lhe leuou ho alcayde mór, lhe mandou dizer polo feytor que ho nã auia de foltar, & que lhe pedia que quifeífe antes eftar fobre fua mena¬ gem que em ferros. E não querendo dõ Garcia, aconfelharão a dom Iorge que pois aífi queria que ho prédeffe em ferros, & ele fe foy ás cafas onde dõ Garcia eílaua, & dahi ho leuou aa fortaleza & com hús grilhões ho mandou meter na torre da menagé ondefteue oyto dias. O que vendo os de fua valia que ferião de coréta ate cincoeta homés, determinarão de ho tirar da fortaleza, dando diflo conta a Cachil daroes pera que os fauore- ceffe como fauorecia: mas eles não poderão por na fortaleza auer grande goarda & vigia de noyte & de dia. E vedo que não podião fazer o q de- fejauão, determinarão de fe hir pera hú lugar forte donde mandaffem requerer a dom Iorge que foltaífe dom Garcia, & quando não quifeífe q fe fòífem pera os Caftelhanos, & que os prouocarião a fazerem guerra a dom Iorge, dizédolhes quão pouco poder tinha pera fe defender, & pri- meyro q ho pofeífem por obra ufarão de manha, defcobrldo ho a Fernão baldaya efcriuão da feytoria, porque como era amigo de dõ Iorge lho diria logo: & dom Iorge por fe eles não irem pera os Caftelhanos folta- ria dõ Garcia. E ifto foy difcuberto a Fernão baldaya por hú Caftelhano defta liga q auia nome Frãcifco do fouto que era feu amigo, & porque
  • 104 Hifioria da índia fabia q ho era de dom Iorge lhe defcobria aquele negocio. E fabido iíto por dom Iorge quifera logo préder os principais daquela conjuração, & aífi ho diffe a Fernão baldaya & a Simão de vera alcayde mór, a que pefou diífo por ferem feus amigos & naturais do porto dõde eles erão & por iflo diíferão a dom Iorge que lhe auia de fer muyto trabalhofo goar- dar tantos homes quatro ou cinco mefes q auia dali aa moução de Ma- laca, & que temia que lhe fugiífem, & que eftes auião de foltar dõ Gar¬ cia defpois que efteueífem prelos, & foltos poderião fazer hú mao recado: que ho melhor feria foltar do Garcia & tirarfe de perigos, & mais não fendo a caufa de fua prifam tão obrigatória: & fobriílo lhe derão outras muytas rezões pera ho foltar que a dõ Iorge parecerão bem. E cõ outros pareceres como eftes, mandou foltar dom Garcia com condição que não fofle cõtrele & ho ajudafte cotra os Caftelhanos & que ele romperia a deuaífa que tinha tirada dele: & tudo ifto lhe prometeo dom Garcia, & lhe deu fua fé de ho fazer afli, & defpois forão grãdes amigos & fe con- uerfauão como que núca ouuera antreles nhúa difcordia. CAPITOLO .LIX. De como os da parte de dõ Garcia trabalhando por hauer inimizade antrele & dõ Iorge. DEsta amizade & conuerfação de do Iorge & dõ Garcia pefaua muyto aos de íua valia, porque como erão os mais que eftauão na fortaleza & os mais luzidos dela, & vião a grande neceflidade que dõ Iorge tinha de gente por amor da guerra temiãfe de dom Iorge não querer q fe foífem, & dauão por muyto certo dom Garcia não lhos pedir fe continuaffe coele a amizade q começauão, que bé vião que não era rezão que dom Garcia os pedifle em tal tempo, mas ho defejo de ire lograr a fazenda que tinhão, & ho interefle do que ganhauão em fe ir não lhes deixaua vfar do que entédião. E como vião que pera fe irem não auia melhor remedio que difcordia antre dom Iorge & dom Garcia traba- lhauão quãto podião pola femear, & dizião aos amigos de dõ Iorge que não fe deuia de fiar tanto de dõ Garcia que não era tamanho feu amigo como lhe daua a entender, & tudo erão difíimulações ate auer licença pera leuar os que queria, & quãdo lha não defle que os auia de leuar por força, & a dom Garcia dizião que viffe bem como confiaua em dom Iorge que não era feu amigo como moftraua, né auia de comprir coele de lhe dar ho nauio pera fe ir, nem a licença pera os homês como lhe prometera, & que le auia defcufar cõ a guerra que tinha: porem q a ver-
  • Livro VII, Capitolo L1X io5 dade era pera fe vingar deles porq forão da fua parte, por iffo que tomaffe coele concrufam naquele negocio, & não efperaffe pola partida quando não teueffe tempo pera fazer nada: & tantas vezes diíferão ifto a dõ Gar¬ cia que quafi ho creo, & por iffo eftando hú dia com dõ Iorge á porta da fortaleza lhe pedio que lhe acabaffe de dar ho nauio que lhe prometera pera fe ir, & licença pera os que forão em ajuda de fua foltura: ao que dõ Iorge refpondeo que ainda era muyto cedo pera falar naqle negocio, que quando foffe tempo ele feria feruido como mãdaffe. Do q dom Gar¬ cia foy cõtente, & falou em outra coufa, do q os de fua valia ficarão muy defcontentes, porque lhes pareceo que dom Iorge dizia aquilo por tepori- zar, & affi ho differão a dom Garcia, & que não fe moftraffe tão froxo naquele cafo, nem quifeffe eftar aa difpofição de dom Iorge, nem fe lhe acanhaffe como moftrara quando lhe falara, q fe quifeffe andar acompa¬ nhado que eles ho acompanharião: porque vendo ho dom Iorge andar acompanhado ho temeria & faria quanto quifeffe. O que a dom Garcia pareceo bem, & dali por diãte andou acompanhado & todos cõ fuas efpa- das: & como dõ Iorge era feu amigo não atétaua naquilo, né em muytas fobrançarias que lhe fazião os de dom Garcia, a q aquilo pareceo muyto mal, & parecialhes que dom Iorge diífimulaua, pera quando foffe ao tempo da partida os não deixar ir & vingarfe deles defpois de ido dom Garcia, & por iffo affentarão de os não deixarem eftar em paz, & femea- rem antreles tal difcordia que nunca efteuefle bem, porque doutra ma- neyra não fe poderião ir daqla terra, & dizião a dom Iorge que dom Garcia daua muytos auifos aos Caftelhanos & aos mouros de quãto fe ordenaua na fortaleza contreles, & trabalhaua quanto podia, porque os de Ternate lhe teueffem odio, & lhe fizefie guerra: & pera os prouocar a iffo lhes mandaua deitar peçonha nos poços de que bibião, & mãdaua de noyte aos de fua valia que lhes entraffem nas cafas & lhes dormiffem com as molheres & com as filhas, & como fabião a lingoa da terra diziã- lhe por ela que dom Iorge lho mandaua fazer. E porque ifto afli paffaua, & os de dom Garcia ho fazião, vianfe os mouros tão perfeguidos que muytos fe yão da cidade a morar a outra parte: & dizião mais a dom Iorge que nhúa coufa dÕ Garcia delejaua tanto como matalo, & deftruylo quando ho não podeffe matar: & pera mais auerigoarem fuas métiras & falfos teftemunhos, & meterem odio antre os da terra & dom Iorge, & ho homiziaré com el rey de Bachão grande amigo dos Portuguefes que afte tempo eftaua em Ternate com obra de duzentos homes faltarão húa noyte no feu arrayal hú Triftão vieira, Afonfo getil, Luys diaz, & outros da parte de dom Garcia & matarão quatro ou cíco Bachões & ferirão muytos, porque domo eftauão em terra damigos não fe temião de nada, Tomo IV >4
  • io6 Hijloria da Índia & os Portuguefes fizerão a feu faluo o que querião & feyto recolheranfe. E ao outro dia indo el rey de Bachão fazer queixume daquilo a dom Iorge, Triftão vieira & os outros q ho fizerão ho eftauão efperãdo fobre acordo: & fabendo dele ao q ya differãlhe que não foffe porque dom Iorge lho mandara fazer, por iffo q não tinha remedio pera fe lhe fazer juftiça. E pera q el rey creífe que era afli, differãlhe que a caufa porque dom Iorge lhe mandara fazer aquela offenfa fora por vingança dos Portugue¬ fes que matarão em fua terra a dom Triftão feu irmão quando lá fora, & dos jungos & crauo que lhe tomara como atras fica dito. E el rey o creo, & dali por diante não quis ir á fortaleza, & efteue pera fe leuantar & fazer leuãtar a terra: mas quis Deos que foy dõ Iorge fabedor diffo & da caufa porque ho queria fazer, & deulhe muytas difculpas, & mandou tirar deuaífa fobriflò em que fe acharão culpados Triftão vieira & os ou¬ tros que ho fizerão, que fendo auifados fugirão pera ho mato onde os não poderão tomar, pelo que dõ Iorge os não caftigou & deu conta do que paffaua a el rey de Bachão pelo q perdeo a fofpeita de dom Iorge & tor¬ nou a fua amizade como dantes. CAPITOLO .LX. De como do Garcia prendeo dõ Iorge em ferros, & a caufa porque. OS outros da parte de do Garcia como virão que ele achara culpa¬ dos Triftão vieira, Afonfo getil & Luys diaz, pera indinarem dom Iorge contra dom Garcia & fua difcordia auer effeyto: differãlhe que bem via ho perigo em que aqueles homés ho quiferão poer, & que não ho fizerão fe não por mandado de dom Garcia: & pera ver fe era afli q viffe quão pouco cafo dom Garcia fizera diffo fendo tamanho feu amigo, & que ele os fizera fugir & os fauorecia. E parecendo a dom Iorge q aquilo feria afli, pera efcufar paixões & defgoftos, & também por fer perto do tempo da partida de dom Garcia que era em Nouembro, deter¬ minou de ho mandar peraTalãgame donde auia de partir, & que hi eftaria ate que partiffe, do q deu conta a Baltefar rodriguez feytor, & ao alcayde móc Simão de vera & a Fernão baldaya q tinha por amigos, que por ho ferem mais de dõ Garcia, ou por lhes parecer afli tirarão dom Iorge da¬ quele propofito, dizendo que feria dar caufa a outras Imizades & odios, pelo que dõ Iorge fe mudou daqla determinação. E vendo feus ímigos q nhúa coufa daquelas ho aluoroçaua nem mouia para quebrar cÕ dõ Gar¬ cia, começarão de deitar fama que dõ Iorge mandaua matar dõ Garcia: & rugindofe ifto afli, hú negro que fe chamaua Miguel nunez que dõ Iorge
  • Livro VII, Capitolo LX 107 leuara da índia, & em q confiaua por fer homem esforçado defcobrio em muyto fegredo ao feytor que dom Iorge lhe tinha mandado que ma- tafle a dom Garcia, & por lhe parecer que não era bem que ho fizeffe, fe queria lançar co os Caílelhanos. E parecendo ifto húa coufa muy graue ao feytor quifera que Miguel nunez ho differa a do Garcia, mas ele não quis dizedo q auia medo de dom Iorge: & porem que dõ Garcia podia eftar feguro que ele ho não matafle, mas que doutrem ho não feguraua: & ho feytor fez com Miguel nunez q não fe fofle pera os Caílelhanos né pera outra parte, & que dom Garcia ho leuaria pera a índia, & affi ficou. E cuydando ho feytor bem naquele negocio não lhe daua muyto credito, aífi por lhe parecer que dõ Iorge não cometeria húa coufa tão fea, como por faber os mexericos & emborilhadas que auia naquela terra antre os capitães, & por outra parte parecialhe que podia fer verdade, porque nos homes tudo ha, & que fe mataffem dom Garcia que ele teria que dar conta a Deos pois ho não auifara, & por elle refpeito determinou de lhe defcobrir o que lhe Miguel nunez diífera, tomandolhe primeyro juraméto de não fométe dizer em nhú tempo q ele lho diífera, mas nem dar dilfo cõta a peflòa algúa & ho ter em muyto fegredo. Ouuido ifto por dom Garcia, aífentou que era verdade, & que dõ Iorge o queria mandar ma¬ tar: & defpois de agardecer muyto ao feytor tão bÕ auifo, diffelhe que não podia deixar de dar conta daquele cafo a algús feus amigos, pera que teueffem cuydado de ho goardar, porem que lho diria com juraméto: o que pareceo bem ao feytor, & pediolhe muyto que lhe não lembraífe aquilo mais, nem teueffe nhú efcandalo de dom Iorge, que bem poderia fer que eftaria muyto innocente, mas dom Garcia não ho fez afii, & logo deu conta diífo a Manuel falcão, Manuel botelho, Diogo da rocha, Fran- cifco pirez, & a outros q tinha por amigos & em que confiaua, que lhe confelharão que mataífe logo a dom Iorge. E offerecerãfe pera ho faze¬ rem Manuel botelho & Francifco pirez. E Manuel falcão não foy deíle parecer, dizendo que era forte coufa matar hum capitão de húa fortaleza, que melhor feria prédelo & tirar deuaíía de fuas culpas, porque alem das que tinha lhe poerião tantas que nunca fe defembaraçaífe delas, & mais fendo eles teftemunhas, & com a deuaífa ho mãdaífe dom Garcia prefo aa índia, & que ficaífe por capitão daquela fortaleza, como ho ele era dantes. O qual confelho pareceo bem a dõ Garcia, fomente tornar ele a fer capitão, porque fabia quão trabalhofa & perigofa coufa era feio daquela fortaleza, em que aífentou configo de deixar por capitão a Ma¬ nuel falcão, & ifto não q lho diífeífe ate auer effeito. E affentado nifto diífe ho dom Garcia a el rey de Bachão & a Cachil daroes, pedindolhes que ho fauoreceífem. E eles lho prometerão & muyto alegres por auer
  • io8 Hijloria da índia tamanha diícordia antre os Portuguefes, porque por derradeyro erão feus immigos, & não lhes moftrauão amizade fe não cÕ neceflidade, o que eles fempre defejauão que teueíTem deles. E nefte tempo mandou dom Iorge a Cachil daroes que foffe darmada aa ilha de Maquiem, com que forão muytos dos que erão da parte de dom lorge: & dom Garcia fez que ficaffem os da fua pera fazer o que determinaua. E vendo que era tempo ho pos em obra, & logo Francifco de crafto grande amigo de dom Gar¬ cia conuidou Simão de vera alcayde mór & outros pera lhes dar hú ban¬ quete no Toloco hum lugar húa legoa da fortaleza, porque fe temia dom Garcia que eftando eftes na fortaleza não lhe deixarião prender dõ lorge fem baralha. E aceitado ho banquete pelo alcayde mór & pelos outros que auião de ir coele, ao outro dia que era domingo leuou os Francifco de crafto ao lugar onde auia de fer: & como dom Garcia foube que dom Iorge acabara de jantar, mandou a Manuel falcão, & a Diogo da rocha, que fe foliem parele & Azedem que jugaífe coele as tauolas, porque ocu¬ pado no jogo não entendeffe o que lhe querião fazer. E adernados a jugar forãfe logo aa fortaleza Manuel botelho, Triftão vieyra & Afonfo gentil que ja erão perdoados do que fizerão a el rey de Bachão, & afli hum Francifco pirez, Ioão de figueiredo, Andrés de palacios, Frãcifco do fouto, & outros todos da quadrilha de dom Garcia: & eftes yão ja repartidos hús pera fecharem as portas da fortaleza & as goardarem, & outros pera leuarem algús criados de dom Iorge a folgar fora da fortaleza, & os que não podelíem leuar fora, que com cada hum fe pofefiem tres dos conju¬ rados pera os terem & tolherem que não acodiffem a dom Iorge: & apos eftes foy do Garcia, feria ás duas horas defpois do meo dia: & como não fe temião de immigos & era de dia não eftaua ali ho porteiro, pelo q os q tinhão cargo de fecharem a porta tanto que dom Garcia fobio pera a torre da menagem onde dom Iorge eftaua, tomarão as chaues da porta da fortaleza que eftauão hi dependuradas & a fecharão & forãofe apos dom Garcia, que defpois de recebido de dõ Iorge fe aífentou, & vedo como dom Iorge eftaua com ho fentido no jogo que jugaua fe abra¬ çou coele, dizendo. Eftay prefo: & logo Manuel falcão & outros tres ou quatro ho ajudarão, & os outros fe liarão com dous criados de dom Iorge que não eftauão coele mais, & teuerãnos & taparãlhe as bocas que não bradaífem. E dom Iorge que vio a coufa como ya, começou de bradar. Treição, treição: & nifto hú feu page teue acordo de ir repicar ho fino da vigia. Dom Garcia & os outros que fe abraçarão com dom Iorge, teuerão coele muyto trabalho em ho derribarem pera lhe lançarem fer¬ ros: porq como ele de feu natural era muyto forçofo & esforçado, & a menencoria de fe ver afii tratar lhe acrecentaua as forças & esforço, bra-
  • Livro VII, Capitolo LXI 109 cejaua & perneaua & mordia tão fortemete que quaíi ho não podião ter. E fe ele efteuera folto & com armas, nhú daqueles oufara de ho efperar: & ele bradaua, dizendo. Tredores mataime, & não me injurieis. E com tudo como erão muytos derão coele no chão & deitarãlhe húa adoba de quatro elos que dom Garcia pera iffo mandara leuar fecretamente, & coefta efteue dõ Garcia prefo quando do lorge ho prendeo. E deitada a adoba apanharãno em corpo & em alma & derão coele em hú fotão da fortaleza debaixo do chão, ode ainda ho prederão a húas camaras de bombardadas. CAPITOLO .LXI. De como pajfou dó Garcia defpois de ter prefo dom lorge. BAlthesar rodriguez rapofo feytor & outros Portuguefes que poufa- uão fora da fortaleza, ouuindo repicar o fino como ho tinhão por coufa noua por fer atais horas acodirão todos com fuas armas, & quando acharão as portas frechadas cuydando q era treyção, hús brada- uão por efcadas por fobirem ao muro, outros dizião que quebrafTem as portas: & era a reuolta e o arroido tamanho que a gente da terra faya a ver o que era. E defpois que dom Garcia fayo do fotão em que deixou dom lorge, & ouuio repicar o fino, & ho arroido que fazião os que efta- uão de fora, acodio ao muro a lhes falar pera os aífeffegar, & diflelhes. Senhores não vos aluoraceis & affeffegay q a fortaleza he del Rey dõ Ioão de Portugal noffo fenhor & por fua eftá & eftara, que todos fomos feus vaffalos, & defejamos feu feruiço: & porque ho eu muyto defejo, & ho bem & repoufo de todos, fiz o que vos agora direy. Bem fabeis como eu era capitão defta fortaleza, & a entreguey a dom lorge de menefes por virtude de húa prouifam do gouernador da índia pera que lha entregaífe, o que eu não podia fazer por dom lorge mandar enforcar hú homem Português nas ilhas dos Papuas, pera o que não tinha alçada nem poder pois ainda não era capitão, por não fer entregue da capitania, pelo q era obrigado á juftiça, & ate não fe liurar não podia ter cargo de capitania né doutra coufa: & fe ho eu foubera não lhe etregara a defta fortaleza & ho mandara prefo á índia. E não abaftou efte crime que tinha come¬ tido fedo peffoa priuada, fe não defpois q foy capitão vfou fempre de tiranias, & té deftruyda efta terra, & andaua pera me matar: & fabendo eu fuas culpas pelo que deuo ao feruiço de Deos & del Rey noffo fenhor ho prendi pera ho mãdar á índia com a deuaffa de fuas culpas: & não dei cõta dillo a todos é geral porq não toruafle tamanho feruiço del Rey, & agora que he feyto volo digo. E peço fenhores muyto por merce q mo
  • IIO Hijloria da índia ajudeis a lofter, auendo por bê o que tenho feyto, & ajudandome a goar- dar efta fortaleza de q me ey por entregue pera dar conta dela a el Rey nofTo fenhor ou ao feu gouernador da índia. E nifto chegou ho feytor Baltefar rodriguez q ya muyto agaítado por lhe parecer que fora caufa daqla reuolta, pelo q defcobrira a do Garcia, & então vio quão mao con- felho teuera em lho dizer, & achauaflê muyto culpado: & quãdo vio dom Garcia nã quis efperar q acabafle de falar, & queixandofelhe do q tinha feyto a do Iorge, dizialhe q outros meos mais honeftos poderá ter aqle negocio que ho de q vfara, de que lhe auia de fer tomada muy eftreita cota. E diffimulando cõ o que Baltefar rodriguez dizia por fe não poer coele em difputa, pediolhe por merce q fe folfe pera fua cafa & oulhaífe polo feruiço del Rey como oulhaua a quê ele daria conta do porq prê- dera do Iorge, pelo que efperaua merce & honrra. E vendo Baltefar ro¬ driguez q naquilo nã auia remedio caloufe: & os outros refponderão a dom Garcia q fe fizera bê ou mal q ele daria conta diíío & forãfe, & tambê Baltefar rodriguez. E em quãto dom Garcia & os outros andauao nifto ficou a torre de menagem fó, & fintindo ho hú criado dom Iorge chamado Aluaro do cais q eftaua doente, & affi o que era feyto a dó Iorge como homê esforçado leuantoufe, & metêdofe na torre da menagem fechou as portas de dentro, & pofto a húa janela começou de dizer a grã- des brados. Efta fortaleza he del Rey nofTo fenhor, & dõ Iorge de me¬ neies ho capitão dela em q pes a dom Garcia anrriquez, ao q logo aco- dio dom Garcia, & os q eftauão coele & por efcadas fobirã ás janelas da torre & entrando dêtro tomarão Aluaro do cais com q derão dúa janela abaixo bê efpancado & arrepelado, & a outro que quifera repicar ho fino fizerão faltar do muro abaixo. E ainda ifto não era quafi feyto quando chegou Simão de vera alcayde mór, & os outros amigos de dom Iorge que forão ao banquete, & íabendo q eftaua prefo determinarão de ho fol- tar & todos juntos fe forão á porta da fortaleza pera a quebrar: & ou¬ tros da parte de dom Garcia acodirão pera lho defender, & Ioão efcriuão patrão da ribeira, & Thome fernãdez piloto fubirão ao muro polas lan¬ ças, & affi outros algús, & differão a dom Garcia que acodiffe ao q que¬ ria fazer Simão de vera & os outros, & começoufe húa grade reuolta porque acodio el rey de Bachão com muyta gente: & pofto que moftraua que era pera apacificar, a verdade era pera fauorecer dõ Garcia, que com húa lãça nas mãos, & húa adarga no braço reqreo a Simão de vera & aos que eftauão coele que fe foflêm, porq aquele feyto não fe auia de liurar por força darmas como eles querião, pois todos erão hús & vafla- los del Rey de Portugal, cujo feruiço não era auenturarêfe tantos homês por hú fó, & que fem tanto dãno como eles querião fazer fe apacificaria
  • Livro VII, Capitolo LXI1 ui aquilo. E també outros que eftauão de fora que não erão por dom Iorge né por dõ Garcia ajudarão a pacificar de modo que Simão de vera & os que eftauão coele fe forão pera fuas cafas & dom Garcia ficou por capi¬ tão da fortaleza, & aífi efteue hús dias. CAPITOLO .LXII. Do q fi\erão os amigos de dom Iorge defpois de fua prifam. DEsta prifam de dõ Iorge correo logo a noua pola terra, de que a gente fe efpantou muyto. E fabida por Cachil daroes em Maquie, efTes amigos de dom Iorge q eftauão coele ho fizerão logo partir pera Ternate pera ho focorreré & ajudarem. E chegados a Ternate Ca¬ chil daroes foy logo ver dom Garcia, de que eftaua muyto cõtete por prender dõ Iorge a quê tinha odio & defejaua de ho ver fora de capitão. E Simão de vera tãto que efta armada chegou, ajuntou logo os amigos de dõ Iorge que yão nela, & erão por todos corenta homes, & fizerão todos cabeça de Simão de vera, a que derão fua fe' de fazerem todo ho pofliuel por foltarem dom Iorge, & quando não podeflem irfe pera os Caftelhanos; & fauoreciaos hú irmão del rey q auia nome Cachil viaco grande amigo de dõ Iorge & immigo de Cachil daroes por entender fuas tiranias. E praticando fobre o que auião de fazer, determinarão de impe¬ dir húa deuafla q dom Garcia mandaua tirar dõ Iorge: porque a fora lhe affacarem grãdes males tirauão por teftemunhas feus Imigos, & q forão em fua prifam. E Simão de vera fez fobrifio hú requerimento a dom Gar¬ cia, proteftando não fer valiofa tal deuafla: porem dom Garcia não dei¬ xou de a tirar. E porque Simão de vera infiftia que não fe tirafle, aluo- raçarãofe os da parte de dom Garcia pera ho matar, & affi ho dizião pubricamente & andauão em magotes armados darmas defenfiuas & offéfiuas, & como erão muyto mais que os de dom Iorge & tinhão por fua parte el rey de Bachão & Cachil daroes ãdauão afouto como fenho- res do campo. O q vendo Simão de vera & feus companheiros não fe teuerão por feguros em Ternate, & differão a Cachil viaco que fe que- rião ir pera a terra alta onde eftarião feguros, & dqli requererião fua juf- tiça, & quãdo lha não quifeflem fazer fe irião pera os Caftelhanos: o que pareceo bem a Cachil viaco, & foyfe coeles pera os fazer apoufentar, porque fe temeo que ho gouernador daquela terra os não quifefle rece¬ ber, & partirão húa noyte fecretamente. E chegados a terra alta não os quifera ho gouernador receber por não leuaré liceça de Cachil daroes: & Cachil viaco lhe difle, q onde ele eftaua nã era necefiaria licéça de
  • 112 Hijloria da índia Cachil daroes, q fintio muyto agafalharé Cachil viaco & os Portuguefes fe fua licéça, & a do Garcia também lhe pefou muyto de fe iré pera lá, porq logo lhe começarão de fazer íeus requerimentos, & alfi fizerão hú a Pero botelho capitão do nauio em q fora dom Iorge de Malaca pera Ma¬ luco, em que lhe Simão de vera requeria que fe ajuntaífe coele pera fol- tarem ao feu capitão que eftaua prefo: ao que Pero botelho refpondeo q não conhecia outro capitão fe não dom Garcia, & que lhe não tornaflém mais com tais requerimentos porque era tempo perdido, que ele não conhecia por capitão a dõ Iorge. E vendo Simão de vera quão pouco lhe aproueitauão feus requerimentos, aífentou com os outros que chamafTem em fua ajuda el rey de Tidore & Fernão dela torre, & q fe foffem pareles quando não acabaífem com dom Garcia q foltaffe dom Iorge, & manda- rãlhes dizer tudo o q paífaua acerca da prifam de dõ Iorge, pedindolhes que os ajudaífem & emparaffem como peffoas virtuofas & poderofas q erão, & que mandaffem requerer a dom Garcia que foltaffe dom Iorge, & quãdo não quifeflé q então fe irião pareles, porq por nhú modo auião de ficar com dom Garcia nem com outro capitão. E el rey de Tidore & Fernão dela torre pofto q tinhão guerra com os Portuguefes vendo que aqueles não tinhão culpa, & que erão defemparados, determinarão de os fauorecer & ajudar, & adi lho mandarão dizer, & logo fizerão hú reque¬ rimento a dõ Garcia que foltafTe dom Iorge proteftãdo que carregalfem fobrele todas as perdas & dãnos que daquela prifam recreceffé, alfi a el Rey de Portugal como a quaefquer outras peffoas. E quando dõ Garcia vio aqle requerimento ficou muyto embaraçado, porque vio que fe dõ Iorge teuefle de fua parte el rey de Tidore & os Caftelhanos que lhe daria tra¬ balho, & que lhe farião guerra & receou muyto aquela carga. E com tudo refpondeo ao requerimento, dando as melhores rezões q pode por onde prendeo dom Iorge: & defpois difto rogou a Cachil daroes q foffe a terra alta, & com alguma diffimulação foubelfe de Simão de vera & dos que eítauão coele fe determinauão de fe iré pera os Caftelhanos porque ifto receaua muyto, & os feguraífe quãto podeífe. O que Cachil daroes fez logo, & chegado a eles diffelhes que não fabia porq fe forão da fortaleza, porque dom Garcia não lhes tiraua officios, né ordenados, nem foldos: antes deíejaua de lhos dar dobrados, & lhe pefaua muyto de fe iré. Ao que Simão de vera refpondeo que não querião nada de dõ Garcia fem foltar dom Iorge: & que foubeffe certo q fe auião dir pera os Caftelha¬ nos, & ele daria conta dos males que fucedeífem. E eftando neftas pra¬ ticas chegou húa armada dos Caftelhanos que mandaua Fernão dela torre é fauor de Simão de vera, & dos outros: que por Cachil daroes ali eftar fizerão que ya pera os leuar & fizerão moftra de fe quererem embarcar.
  • Livro VII, Capitolo LXIII 113 E quãdo ele vio tanta concrufam, pedio a Simão de vera que não fizeíTe nada de fi ate não ir falar com dom Garcia, de q fabia certo q auia de foltar dõ Iorge antes de fe partir pera Malaca, & q ele lho faria fazer logo: & Simão de vera diffe q por amor dele efperaria, porem que fe dom Garcia não foltaua dom Iorge que logo fe auia dir. CAPITOLO .LXIII. De como dõ Garcia foliou dõ Iorge de menefes. SAbendo dom Garcia per Cachil daroes a determinação de Simão de vera & de feus companheiros temeo muito fua ida pera os Cafte- lhanos, porq lhe auião logo de fazer guerra eles & el rey de Ti- dore, & el rey de Geilolo. E eftando a fortaleza de guerra não fe podia partir como queria, & deixala a Manuel falcão, porq fucedendo algú de- faltre feria fua a culpa, & por iflo fe mudou do propofito que tinha de leuar dõ Iorge prefo & deixar por capitão a Manuel falcão, & quis antes foltar do Iorge & tornarlhe fua capitania, & afli ho mandou dizer a Si¬ mão de vera por Cachil daroes, & q fe foffe logo pera a fortaleza com os outros. E ele não quis, dizendo que não fe auia dir fe não defpois de dõ Iorge folto. E dali por dianté fe entendeo logo em ho cõcertare com dõ Garcia no q fe paliarão algús dias: & por derradeyro fe aíTentou que dõ Garcia foltalfe dõ Iorge & lhe deixaffe fua capitania, & q dom Iorge lhe auia de dar ho nauio de Pero botelho pera fua embarcação, & auia de deixar ir Pero botelho com quantos eftauão no nauio, & auia de dar licêça pera fe ire com dõ Garcia todos os q erão da fua parte fem lhes embargar fuas fazendas né fazer nhú impidiméto pera q não foliem, & alfi fe auião de romper todos os requerimentos q erão feytos de parte a parte & deuaífas q erã tiradas, & q ifto auião de jurar dõ Iorge & dõ Garcia em foléne juramento. E defpois de dõ Garcia ido pera Talã- game cÕ todos os q auião dir coele, viria Simão de vera & os outros & foltarião dõ Iorge: & alfi foy feyto, & dom Garcia mandou diante feu fato, & dos que yão coele, & primeyro que fe partifle da fortaleza mã- dou écrauar a artelharia da fortaleza porq lhe nã tiraífé coela: & ele ido étrarão Simão de vera & feus companheiros & foltarão dõ Iorje com muyto prazer, mas dõ Iorge que ho não tinha antes eftaua muyto fentido de dÕ Garcia pola offenfa que lhe fizera, mandou logo ao ouuidor que fizeffe autos de tudo o que lhe dom Garcia fizera & alfi tirou eftormétos de como no tempo que efteuera prefo fe apoderarão os Caftelhanos da ilha de Maquiem por não auer quem lha defendefie, no que el Rey de Tomo IV i5
  • H4 Hiftoria da índia Portugal recebera muyta perda por auer nela muyto crauo, & mandou logo fazer hú requerimento a Pero botelho que fe fofle pera a fortaleza porq tinha muyta neceflidade do feu nauio por amor da guerra dos Caf- telhanos, & fobrifto tornou a auer outra reuolta que dom Garcia dizia que dõ Iorge lhe tinha dado aquele nauio pera fua embarcação: & ouue muytos requerimetos de parte a parte, & por fim de tudo fe foy do Gar¬ cia ao nauio & Pero botelho coele contra vontade de dom Iorge, que mãdou fazer auto de fua defobediencia auendo ho por aleuatado, & afli quãtos yão com dom Garcia, & tirou eftormentos de como lhes dera a licença por força, & a neceflidade em que ficaua de gente: & coeftes au¬ tos & eftormentos, & com cartas pera ho capitão de Malaca, mandou logo a hú Vicente dafonfeca que partio pera Malaca apos do Garcia, & affi mandaua tambe pedir focorro de gente. CAPITOLO .LXIIII. De como os mouros de Lõgú matarão Aluaro de brito & tomarão hiia galé.- NEste ãno de mil & cccccxxvii. eftando Iorge cabral por capitão de Malaca, matarã os mouros da cidade de Lõgú certos portuguefes fem nhúa caufa, & Iorge cabral mandou lá a vingar eftas mortes a hú Aluaro de brito capitão de húa galé em que leuaria fetenta Portu¬ guefes que todos coele forão mortos pelos mouros de Lõgú, & tomarão a gale. E auédo quinze dias que a noua defte dãno era em Malaca che¬ gou hi de Banda Martim correa, a que Iorge cabral por ho ter por bõ caualeyro deu a capitania mór de húa armada que mãdou a Lõgú a vin¬ gar aquelas offenfas, & por não faber particularméte como Martim cor¬ rea as vingou digo em forna que queymou Longú matando primeyro muy¬ tos mouros, & tornãdo a tomar a gale que tomarão a Aluaro de brito fe tornou a Malaca, & por ele foube Iorge cabral como a fua partida de Maluco ainda lá não era dom Iorge de menefes, & a neceflidade gran- diflima de gente & de mantimentos em que ficaua dõ Garcia ãrriquez por amor da guerra q tinha cõ os mouros & cõ os Caftelhanos q ficauão em Tidore. O que fabido por Iorge cabral fez logo preftes ho focorro cõ que partio na étrada do Ianeyro fegulte hú fidalgo chamado Gõçalo go- mez dazeuedo q foy por capitão mór de húa armada de dous nauios de gauea, & hú bargãtl, & hú júgo em q forão ce Portuguefes & muytas munições, & dous mil cruzados de roupa.
  • Livro VII, Capitolo LXV uS CAPITOLO .LXV. Do q fe\ Lopo va\ de fam Payo defpois que foy julgado por gouer- tiador. HO gouernador Lopo vaz de fam Payo que ficou ê CochI deípois de partidas as naos da carrega pera Portugal, defpachou dom Ioão deça que foffe tomar poíTe da fua capitania da fortaleza de Cana- nor, & porque tinha por certeza que auia muytos paraós de Malabares de Calicut por toda aquela cofta q fazião muyto mal aos amigos dos Por- tuguefes, rogou a dom Ioão deça que aquele pedaço de verão q auia ate ho inuerno goardafie aquela cofta com húa armada que lhe daria: do que ele foy contente por feruir el Rey, & ho gouernador lhe deu húa galé em que andaífe & dezafeys catures & bargantls que ho acompanhaf- fem, a cujos capitães não foube os nomes. E partido dom Ioão deça a goardar a cofta do Malabar, entendeo ho gouernador em mandar fazer a fortaleza a çunda q fabia q não era feyta por Francifco de fá não po¬ der mais: & por efta fortaleza importar muyto ao feruiço del Rey de Portugal, porque defenderia aos Caftelhanos que não foífem lá fe quifef- fem ir bufcar pimenta defejaua ele de fe fazer, & pera ifio efcolheo a Martim Afonfo de melo jufarte que era feu parente & ho conhecia por esforçado: & quãdo o cometeo coefte cargo ele ho nã quis aceitar, dizendo que Francifco de fá aueria por injuria querer outrem fazer o que ele não fizera, & por ifio não auia daceitar tal cargo. E ho gouerdador lhe diffe que as coufas do feruiço del Rey, nã auia ninguém dauer por injuria fazelas outrem fe ele as não pode fazer, & q el Rey não era obri¬ gado a goardar effas preheminencias a ninguém, fe não feruirfe de quem foffe fua vontade pois todos erão feus vaííalos, & que ja fe feruira de Francifco de fá & então fe ferueria dele. E com tudo Martim afonfo não quis aceitar aquela capitania, né a aceitara fe ho gouernador lhe não fizera fobriflò grandes requerimentos, & ainda então a aceitou com dizer que faria o que lhe Francifco de fá mandafie fe ho achaffe em Malaca. Aceitada efta ida por Martim afonfo, por ho gouernador & ele fe teme¬ rem que fabendo a gente onde ya não auia de querer ir pelo q lá acon¬ tecera a Frãcifco de fá, deitarão fama que Martim afonfo auia dir fazer prefas aa cofta de Tanaçarim, & de caminho auia dinuernar em Palea- cate, pelo que fe ajuntarão quatrocentos homes que ho gouernador que¬ ria mãdar nefta armada que foy de noue velas groífas & de remo, de cujos capitães não foube os nomes faluo de tres, de Thome pirez capitão
  • n6 Hiftoria da Índia do nauio em que ya Martim afonfo, de Duarte mendez de vafconcelos capitão de húa galeota, de Ioão coelho capitão dú bargantim, & ho go- uernador mandou a Martim afonfo que folie por Ceilão & focorrefle a el rey a quem fazia guerra Patimarcar capitão mór dúa armada del rey de Calicut: & Martim afonfo ho fez afíi. E chegado a Ceiláo não achou Pa- temarcar, que fabédo que ele ya lhe ouue tamanho medo que fugio, & ficãdo el rey de Ceilão liure defta guerra, foyfe Marti afonfo a Calecare hú grande lugar na cofta cujo fenhor tinha a pefcaria do aljôfar como contey atras, & porque fe temia dos mouros de Calicut fez paz com Mar¬ tim afonfo com condição que pagaífe ho tributo que feu anteceífor pagaua, & que ho gouemador da índia lhe mandaífe dar goarda quando foffe a pefcaria, & daqui fe foy a Paleacate onde auia dinuernar. CAPITOLO .LXVI. De como do Ioão deça desbaratou & prendeo Chinacutiale. DOm Ioão deça capitão de Cananor que andaua goardando a cofta com a armada que diffe, andou por ela todo aquele pedaço de ve¬ rão, em que fez muyto dãno aos mouros de Calicut que yão pera Cambaya com pimenta, & em diuerfos dias tomou corenta & oyto velas antre zambucos & paraós & os mais deles pelejando em que matou muy- tos mouros: & não contete coefte dãno que lhes fazia fayo hú dia em Mangalor onde fabia q eftauão certos paraós de Calicut que lhe fugirão & queimou ho lugar: & porque ho nã pude faber particularmente ho digo afíi enfoma, & também húa batalha que ouue no cabo do verão com Chi¬ nacutiale hú valete mouro & muy fabedor da guerra que era capitão mór de fefleta paraós del rey de Calicut, & cuydando de tomar dom Ioão íayo a pelejar coele, & com quanto leuaua tamanha armada & gente muy grofla a refpeito dos Portuguefes foy desbaratado & morta & ferida muyta de fua gente, & ele foy ferido de duas cutiladas pelo rofto, & de duas efpingardadas per húa perna, & afíi fe deitou ao mar cuydando def- capar por ho feu paraó fer entrado pelos Portuguefes, & afíi foy tomado. E auida efta vitoria que foy muyto grãde por fer ja ho cabo do verão fe reco.lheo dom Ioão a Cananor, & mandou parte da armada pera Cochim, & ho gouernador lhe fez merce de Chinacutiale que eu vi em feu poder, & por quem ouue grande refgate.
  • Livro VII, Capitolo LXVII1 117 CAPITOLO .LXVII. De como Pero de faria paríio pera Malaca, & Simão de foufa galuão pera Maluco. EStando ainda ho gouernador em Cochim por lhe parecer afíi feruiço del Rey rogou a Pero de faria que foffe feruir a capitania de Ma¬ laca pois era fua: do que fe ele quifera efcufar por Malaca fer muyto doétia, & afli ho diffe ao gouernador, dizedo que antes queria ficar em Goa ppis também era fua, que era muyto fadia, & por derradeyro cofentio em ir a Malaca por comprazer ao gouernador que defejaua de tirar de lá Iorge cabral q eftaua da mão de Pero mazcarenhas. E que- rédo também ho gouernador prouer a capitania de Maluco & tirala a do Iorge de menefes deuha a hú fidalgo chamado Simão de foufa galuão de q faley atras, & ifto por fer peffoa de grãde confiança & em que tinha muyto credito, & a capitania mór do mar & alcaydaria mór da fortaleza deu a outro fidalgo chamado dom Antonio de crafto, & a feytoria a outro fidalgo chamado Antonio caldeira, & a capitania de húa gale' em q Simão de foufa auia dir a Iorge dabreu que fora ao prelte cÕ dõ Rodrigo de lima, & deulhe fetenta homes, & em Malaca lhe auia Pero de faria de dar trinta pera fazerem cento, & defpois partirão ele & Pero de faria pera Malaca em Abril de mil e quinhentos & vintoyto, & primeyro fe partio ho gouernador pera Goa õde auia dinuernar, & da hi mãdou por capitão da fortaleza Dormuz hú fidalgo chamado Chriftouão de mendoça que a tinha por el Rey dom Ioão de Portugal, & mandou coele Raix xa- rafo que era liure por fentéça do licenceado Ioão de foiro ouuidor geral, & que foffe feruir ho feu goazilado Dormuz. E chegado Criítouão de mendoça a Ormuz foy entregue da capitania por Diogo de melo que era capitão. CAPITOLO .LXVIII. Das prefas que Antonio de miranda capitão mór do mar fe\ no ejlreito, & do mais que fucedeo. PArtido de Goa Antonio de miranda dazeuedo capitão mór do mar feguio fua rota pera ho cabo de Goardafum õde chegou defpois de paffada húa grande tormenta, & ali repartio fua armada em tres efcoadrões apartados hús dos outros, porq as naos dos mouros que paf- faffem não lhe podeffem efcapar, & andando efperandoas apartoufe Anr-
  • Hijioria da índia 118 rique de macedo com tépo da conferua Dantonio de miranda: & andando apartado alamar, hú dia pola manhaã topou com hõ galeão grande de rumes feyto como os noffos, & como os rumes erão muytos & yão bem apercebidos de guerra fayrão ao encontro dos Portuguefes tirandolhe muytas bombardadas, & aperceberão muytos armados de fayas de malha & corceletes, & era fermofa gente & muyta. E cõ tudo Anrrique de ma¬ cedo os não duuidou & abalrroou coeles, & começarão hús & outros de pelejar brauaméte fobre entraré hús os outros, & fendo ho veto calma que ficou de lufadas arremeflarão os immigos húa lãça de fogo ao ga¬ leão Portuguez, & pegoulhe no artimão que ardeo donde com húa lufada de véto fe facodio, & tornou a cair no dos Imigos ainda acefa & pegou¬ lhe ho fogo, & por amor do fogo que fe pegou nos galeões ceifou a pe¬ leja, & acodirão hús & outros ao apagar, & os Portuguefes cortarão logo a abalrroa: & defapegados dos Imigos apagarão ho fogo & liuraranfe dele, o que os immigos não poderão fazer ao feu & ardeo todo com muy¬ tos deles, & algús poucos fe lãçarão ao mar que forão mortos & catiuos cÕ ajuda doutros Portuguefes de dous galeões da frota q ali forão ter. E por fer acabada a moução das prefas forãfe todos eftes tres capitães a Caxé húa vila de mouros na cofta Darabia, Õde per mãdado Dantonio de mirada fe auião dajútar defpois de feytas as prefas, & hi ho acharão cõ vlte velas de mouros que tomarão ele & os outros, & erão oyto naos groíTas & doze terradas, & marruazes q fam mais pequenos que naos: & por ele fer certificado que ainda auião de palfar certas naos de mou¬ ros pera ho eftreito tornoufe a efperalas deixando em Caxem Ruy pe- reyra que era quadrilheiro mór pera vender parte da fazéda que fe tomara aos mouros, & porem as naos não paffarão & vendo q não paf- fauão foyfe a Adem que eftaua de paz cõ Portugal, onde achou Ruy pe- reyra q tinha recado dos regedores da cidade que el rey não eftaua nela, & q os rumes fizerão hi algú dãno. E defpois da morte de çoleimão raix fe forão a Camarão effes que efcaparão. E fobrefta noua teue Antonio de mirãda confelho fe iria a Camarão pelejar com os rumes: & foy acor¬ dado que não porq era paliada a moução, mas que mãdaffe lá hú catur a faber nouas deles q por fer pequeno poderia palfar, & foy nele ho piloto mór, & por lhe ho véto fer contrairo não pode furdir auante & tornoufe, & no caminho tomou dous marruazes, & dos mouros foube que os rumes que eftauão em Camarão ferião tres mil & quinhétos homés. E efta noua deu a Antonio de miranda: que Dadé fe foy a Zeila pera dar nela, & achouha defpejada & queimou ha, & dali fe foy a Mazcate: & deixando hi a frota, & por capitão mór dela Antonio da filua foy inuernar a Ormuz.
  • Livro VII, Capitolo LXIX 119 CAPITOLO .LXIX. De como forão catiuos de mouros Diogo de mesquita & outros. INuernando Antonio de miranda dazeuedo em Ormuz vedeofe a fazéda das naos que tomou em que fizerão feflenta mil cruzados: & a vinte dous Dagofto fe partio pera a ponta de Diu onde auia de fazer outras prefas. E chegado la achou ainda ho mar tão grofio que ho comia, & por ifto arribou a Chaul fazendo final aa frota que arribafie, & todos arriba¬ rão faluo Antonio da filua & Anrriq de macedo que poderão fofrer ho pairo: & arribando Antonio de miranda fobreueolhe hú temporal de vento por dauante com que Lopo de mezquita capitão do çamorim peqno arri¬ bou pera Diu. E andando ainda os mares feytos defta toruoada topoufe com húa nao de mouros de Diu que ferião duzétos, todos bem armados, & os Portuguefes ferião ate trinta, & arribarão fobre a nao com quanto ho tempo era forte & ho mar andaua groflo, & abalroarãna, & em a ferrãdo faltou Lopo de mezquita neia com boa parte dos feus & come¬ çarão de pelejar cõ os immigos com muyto esforço, & nefte conflito def- faziãfe a nao & ho galeão polas grandes pancadas q fe dauão com a grandiflima marulhada que fazia & ambos eftauão abertos & fazião muyta agoa, & ouuerãfe de perder fe não quebrara a abalrroa, & cada hú foy pera feu cabo ficando Lopo de mezquita com os que digo na nao: & não podendo os do galeão tornar a tomar a nao com a fortidão do tépo arri¬ barão por efie mar por fe não perderem. E Lopo de mezquita & os ou¬ tros que ficauão na nao vendo que fua faluação defpois de noflo fenhor era ho bÕ pelejar, pelejarão tão esforçadamente que matarão a mayor parte dos mouros, & os outros fe derão de muyto feridos, & poftos em recado acodirão os Portuguefes á nao que fe ya ao fúdo com a muyta agoa que fazia: o que vedo Lopo de mezquita apanhou todo ho dinheiro que achou nela, & mandou a Diogo de mezquita feu irmão que fe metefle no batel, & afli dezafeys outros, porque não podendo a nao efcapar fe falualfe com ho dinheiro, & porem não deixou de trabalhar por efgotar a nao. E vendo os que eftauão no batel com Diogo de mezquita que não fe podia vencer a agoa q a nao fazia, nem com as bombas, nem com bal¬ des, defefperarão de fe poder faluar, & porque fe os que eftauão nela fe quifelfem acolher ao batel fe alagaria por fer pequeno, acolherãfe antes que ifto aconteceííe fé Diogo de mezquita lhes poder refiftir antes ho leua- rão por força. E indo caminho de Chaul toparão com a armada de Diu & forão catiuos, & leuados a Diu: donde os leuarão a el rey de Cãbaya
  • 120 Hifloria da índia q folgou muyto coeles por os ter por muyto esforçados & fabedores na guerra, principalmente a Diogo de mezquita, a que cometeo que fe tor- nafle mouro, offrecendolhe por iífo grades honrras & merces: & não que- redo fer mouro ho atentou cõ grades tormentos ate ho meter na boca de húa bombarda ceuada pera defpararem coele. E ele como fiel Chriítão & verdadeyro amigo de noífo fenhor, fofreo tudo com conltancia gran- diífima, dizendo fempre q lhe fizeífem quanto quifeffem, que não auia de deixar a ley de Deos verdadeyro pola feyta de Mafamede que era men¬ tira. E vendo os outros catiuos feu esforço também não quiferão fer mouros. E el rey de Cambaya efpantado da coftãcia de Diogo de miz- quita ho mãdou prêder, & a ele & aos outros mãdou dar cruel catiueiro. E Lopo de mezquita q ficou na nao, pos tanta diligencia com ajuda de noffo fenhor que venceo a agoa, & efcapãdo a nao foy ter a Chaul õde achou Antonio de miranda, & do dinheiro que fe fez da fazenda delia nao forão pagas as partes que fe deuião aos da armada, & os feffenta mil cruzados ficarão forros pera el Rey. CAPITOLO .LXX. De como Halixá capitão da armada de Diu pelejou cõ Anrrique de ma- cedo, & de como foy morto Antonio da flua. ANrrique de macedo que ficou á põta de Diu paliada a tormenta com q os outros arribarão acalmou ho vento: & eítando em cal¬ maria derão coele as fullas de Diu que erão trinta & tres, & ãdaua por feu capitão mór hu valente mouro chamado Halixá, que vedo ho galeão daquela maneyra cercou ho em redondo, & mãdoulhe dar ba¬ teria, & os Portuguefes começarão também de jugar com fua artelharia, & começoufe hu brauo prlcipalmente da parte dos mouros que tirauão todos ao lume dagoa por as fullas ferem ralleiras, & fizerãlhes tantos rombos que não aproueitauão bombas né baldes pera vedar a multidão dagoa q entraua, & foy neceífario atupiréfe os buracos cõ colchões & colchas, & andauão os nolfos tão canfados que quaíi não auia quem po- delfe trabalhar, & fe os noífo fenhor não focorrera não poderão efcapar, porque ainda que nelle tempo fobreueo vento ho galeão não podia bé nauegar por ter quebrados os maítos & as vergas efpedaçadas, & as velas rotas. E nillo chegou Antonio da filua capitão do galeão reys magos q vinha ao tõ do ellrodo das bõbardadas, & chegando a tiro de berço do çamorim mandou dar fogo a fua artelharia, & mais auante começarão as trombetas de tanger, dizendo. Alegraiuos, alegraiuos que aqui fam os tres
  • Livro VII, Capitolo LXXI 121 reys magos. E ouuindo os mouros as trõbetas, cuydarão q era o capitão mór q fabião q chegara á ponta de Diu, mas não que fe fora, & cuydando que vinha com toda fua armada, fugirão todos com medo & deixarão Halixá fó, que também fugio por derradeiro. E fofpeitando Antonio da íilua a caufa da fugida dos immigos, feguios ás bombardadas, & Halixá lhe teue hú pouco ho rofto também ás bombardadas, & nifto deu nele hú pelouro de bombarda perdido & matouho, cõ que os feus ficarão tão defacoroçoados q nã quiferão mais feguir os Imigos, & tornarãfe pera onde ficaua Anrrique de macedo: & Halixá vendo os afli tornar cuydou que era manha pera ho colherê, & por iíío não quis ir apos eles, mas foyfe fugindo, que fe os feguira nem eles nem os do çamorim efcaparão. E chegados a Anrriq de macedo forãfe todos a Chaul, & dahi pera Goa com ho capitão mór que chegou la na fim de Setêbro & deu conta do paífado ao gouernador. CAPITOLO .LXXI. De co/no Chrisjiouão de mêdoça capitão Dor muç mãdou por terra Auto- nio tenreyro a Portugal cõ recado a el Rey. NEste tempo defejãdo Chriftouão de mendoça capitão Dormuz de mãdar a el Rey de Portugal certeza de como os rumes não paf- fauão aa índia, & auifos de muytas coufas que comprião a feu feruiço, affi em Ormuz como na índia efcolheo pera leuar por terra efte recado a hú Antonio tenrreyro natural de Coimbra q eftaua em Ormuz, & fora com Baltefar peffoa ao Xeque ifmael, donde indo caminho de Ierufalem foy prefo por turcos cuydando que foffe efpia. E leuado ao Cayro foy folto, & querendofe dali tornar a Portugal fe foy a Chipre, donde por hú acontecimento mudou feu caminho & tornoufe aa índia, & de Chipre atraueffou ho deferto & foy ter a Baçora & dahi a Ormuz: & porq tinha experiencia deite caminho, & fabia a lingoa Perfiana, & por fer homem defprito & esforçado ho efcolheo pera fazer efte caminho, & mais por não achar outrem, porque por ho perigo do caminho ho re- ceauão todos, & dizendolhe Chriftouão de mendoça quando efta ida im- portaua ao feruiço del Rey de Portugal. Ele polo feruir a aceitou de boa võtade & dãdolhe Chriftouão de mêdoça muyto pouca ajuda pera fua def- pefa, & algúas cartas de credito pera onde lhe folTem necefiarias fe par- tio Dormuz pera a cidade de Baçora a vinte de Setembro do anno de mil & quinhêtos & vintoyto, & foy por mar ate efta cidade, que he em Ara- bia no cabo do fino perfico trinta & tantas legoas pelo rio eufrates acima, 16 Tomo IV
  • 122 Hiftoria da índia & pos neíte caminho corenta dias por os vetos q achou contrairos: & neita cidade fe deteue vinte dias em fe defpachar porque a cafila que ya pera Damafco onde ele efperaua dir era partida, & ho Xeque da cidade não lhe queria dar guia pera atraueílar ho deferto que ya de Baçorá ate Alepo, dizendo que não achaua quem fe arrifcalfe a tamanho perigo como era ire duas peífoas no mais, porq as alimarias os comerião: & mais que nunca ouue peffoa q paffaffe ho deferto fem ir em cafila, & parecia que ho Xeque de ho dar por morto fe foíTe no mais que com a guia, auia dó dele & não lhe queria dar auiaméto pera fe ir. E com tudo nunca An- tonio tenrreyro defiftio de ir. E vendo ho Xeque fua perfia muyto efpã- tado de feu esforço, & louuandolho muyto: lhe deu hú piloto q ho guiaffe, porque naquele caminho regefe polos ventos como no mar por não auer hi eítradas ne pouoados faluo dous caitelos dalarues. E Antonio tenr¬ reyro & ho piloto fe partirão na entrada de Nouembro ás duas horas defpois de mea noyte, porque não foffem viítos, & ya cada hú em feu dormedario que andão de vinte cinco legoas ate trinta antre dia & noyte, & não come mais de húa quarta de farinha húa vez no dia & bebé de quinze em quinze dias, & neftes leuauão feu mãtiméto de tamaras, bif- couto, farinhas, manteiga, Vaca cozida & agoa. E partidos de Baçora tirarão por feu caminho a diãte por aquele efpantofo deferto por õde nã auião mais q alimarias brauas .f. vffos, tigres, liões & lobos: & afaita- uãfe quãto podião donde podia auer alarues (q andão por aqle deferto em aduares) porque os não roubaffem q fam grandes ladrões, & affi ca¬ minharão vinte dous dias fem nunca receberé afronta daqlas alimarias faluo duas vezes que os quiferão cometer dous liões a que efcaparão polo grande andar dos dormedarios: & outra vez de madrugada correndo a redea folta. E tão amedrontados forão os dormedarios que correrão duas legoas, & deita corrida fe eftrepou ho dormedario Dantonio tenrreyro em húa mão, & ficou tão manco q lhes foy forçado deterêle feys di
  • Livro VII, Capitolo LXXII 123 pouoada de mouros do fenhorio do turco, & aqui fe tirou Antonio tér* reyro da cafila q auia de paliar ate a cidade de Damafco: & tirado fe foy a cafa dú Veneziano mercador de muyto groílo & rico trato que ali fazia fua abitação, & em que a gente da terra tinha grande credito, & chamauafe Micer andre, a quê leuaua cartas de Chriltouao de médoça pera lhe dar auiamento pera feu caminho & não ho achou que era em Coítãtinopla a chamado do turco, & por fer inuerno & auer muyto gran¬ des neues que ninguém caminhaua efperou aqui Antonio tenrreyro cin- coenta dias & no cabo fe meteo em húa cafila que ya pera a cidade de Tripoli de furia tudo fenhorio do Turco, & daqui fe embarcou & foy ter aa ilha de Chipre, & depois de paliar alfaz de trabalho em muyto gran¬ des tormentas em que fe vio, foy ter a Italia, dode tomou feu caminho por terra pera Portugal Õde chegou a faluamento, & deu a el Rey as cartas que leuaua, & foy muy grande efpãto lua ida por fer ho primeyro Português que fez aquele caminho por terra, & ho primeyro homem que ho fez fó cõ hQ piloto, & que moltrou a el Rey que por terra lhe podia ir recado da índia é tres mefes ou menos, porque não gaitou ele mais no tépo em que caminhou, bem que fez mais detença polos impedimen¬ tos que lhe focederão. CAPITOLO .LXXII. Do que pajfou Gonçalo gome\ da\euedo com dom Garcia anrriqi na ilha de Bãda. ATras fica dito como Iorge cabral mãdou locorrer Maluco por Gõ- çalo gomez dazeuedo q partio de Malaca na entrada de Ianeyro do anno de mil & quinhentos & vintoyto, & chegou a Banda onde achou dõ Garcia anrriquez q auia pouco que chegara de Maluco, & tinha feyta húa tranqueyra onde poufaua, & Gonçalo gomez també mandou fazer outra, & niíto chegou Vicente dafonfeca com as cartas de dom Iorge de menefes & autos que mandara fazer de dõ Garcia, & contou a Gon¬ çalo gomez tudo o que dom Garcia fizera a dom Iorge, requerendolhe fecretaméte que ho prendeífe & a quantos yão coele & que lhe tomaífe ho nauio, & quanto aa prifam de dom Garcia & dos outros refpondeo Goçalo gomez que ho não podia fazer, mas q lhe tomaria ho nauio quando folie tempo. E vendo Vicente dafonfeca iíto quifera mandar a Malaca as cartas & papeis que leuaua de dom Iorge per algús Portuguefes que auião dir pera laa, & como fabião q era contra dom Garcia, que també auia dir não ouue ninguém que os quifeífe leuar, pelo que os não mãdou &
  • 124 Hijtoria da índia tornou a dõ Iorge como direy a diante. E vendo dom Garcia Vicente dafonfeca, que fabia q era grande feruidor & amigo de dom Iorge logo fofpeitou a que auia de fer fua vinda, & por iffo fe começou de recear que Gonçalo gomez ho prendefle, & mais porque tanto que Vicente da¬ fonfeca chegou, Manuel falcão que poufaua com dom Garcia tendo a mefma fofpeita de Vicente dafonfeca que ele tinha, fe paflou logo pera a tranqueira de Gonçalo gomez, parecédolhe que fazia a vontade a dom Iorge, porque efperaua de tornar pera Maluco com Gonçalo gomez a q contou o que dom Garcia fizera a dõ Iorge, confelhandolhe que ho pren- deffe por iflo, & que lhe tomaffe ho nauio em q ya, & Gonçalo gomez diffimulaua, & Manuel falcão começou de deitar fama que Gonçalo go¬ mez auia de prender do Garcia pelo que fizera a dom Iorge, & algús feus amigos o começarão dauifar diffo, & q lhe auia de tomar ho nauio em que ya por iffo que pofeífe cobro nele: o que não quis fazer porque lhe parecia impolfiuel tomarélho por leuar crauo pera el Rey, & da pri- fam nã fe temia porque fabia a verdade por efpias que trazia cÕ Gonçalo gomez, que tinha affentado configo de lhe tomar ho nauio quãdo fe ou- uefle de partir & não ho dilfe a ninguém por não fer defcuberto: & quãdo fe ouue de partir pera Maluco fe foy por terra efpedir de dom Garcia que fayo coele ate a praya Õde fe embarcou nos bateis, & alargado de terra fe foy dereyto ao nauio em que dom Garcia ya q auia nome cayado, & então ho deu dom Garcia por tomado & creo o q lhe tinhao dito. E entrado Gõçalo gomez no nauio tomou ho pera leuar a Maluco, & fabendo que dõ Garcia tinha as velas na trãqueira mãdoulhas pedir, defculpãdofe de tomar ho nauio, porque ho fazia a requerimento de dõ Iorge de me¬ neies capitão de Maluco de cuja jurdição era aquela terra, & por dõ Gar¬ cia as nã querer dar lhe tomou ho feu jungo em que leuaua mais de qua- torze mil cruzados, pelo que dõ Garcia mandou logo as velas & hú recado a Gonçalo gomez per Manuel lobo, eftranhandolhe o q lhe fazia, & por ele mandou húa carta de crença ao meftre & condeftabre do nauio, & a outros em que confiaua que fizelfem o que lhe Manuel lobo diffefle, que foy que quando fe partiffem fizefiem de modo que deffe á vela derradeyro de todos pera ficarem na trafeira, & ainda então fizeífem que fe embara- çauão, porque entre tanto iria dõ Garcia com gente & tomaria ho nauio, porque Gonçalo gomez por lhe ho veto ventar a popa não lhe auia de poder acodir, & afti ho tomaria. E eles diíferão que ho farião: & ido Manuel lobo deu Gonçalo gomez a capitania do nauio a Ruy figueira ca¬ pitão doutro nauio. cuja capitania deu a Manuel falcão. Ifto feyto foife ao feu nauio & fezfe á vela, & os outros capitães coele faluo Ruy figueira, cujo meftre por comprir o q prometera a dom Garcia fez que fe emba-
  • Livro VII, Capitolo LXXIII 125 raçaua ao dar da vela, pelo q todos os outros ja nauegauão quãdo ele deu á fua, & ainda fez tomar ho nauio por dauante, que era ho final a que do Garcia auia dacodir, que acodio logo em paraós cõ muyta gente. E Ruy figueira que entedeo a ruindade capeou a Gonçalo gomez que eftaua vendo ho embaraço do nauio: & vendo Gonçalo gomez a gente que ya de terra pera ho nauio & ho capear de Ruy figueira, entendeo logo o que era, & mandou tirar ás bombardadas a dom Garcia, o que fez também Manuel falcão: & como Manuel lobo ya na diãteira matou- lhe húa bombardada dous remeiros, & a ele quebroulhe húa perna: o que vendo do Garcia defefperou dauer o nauio & tornoufe, & Ruy figueira feguio fua via a pos Gonçalo gomez que partio na fim Dabril. CAPITOLO .LXXIII. De como Aluaro de faya vedra tornou liúa galeota aos Portuguefes & catiuou muytos dos que yão nela. EM quanto iíto paífaua eftaua dom Iorge em grade aperto, porque fabendo Fernão de la torre & os reys de Tidore & de Geilolo quão efcorchado dom Garcia ho deixara afli de gete como de munições de guerra, determinarão de lha fazer mais apertada que dantes, princi- palmete el rey de Geilolo que trabalhaua quanto podia por ganhar todo ho Morro, que defejaua muyto de fer fenhor dele, & por lhe os Cafte- lhanos prometerem de lho fazerem auer foy ele de fua parte & os aju- daua: & como trazia ali fempre gr.offa armada para efta conquifta tolhia leuaréfe mantimentos a Ternate, tomãdo os nauios que os leuauão, o que era caufa de auer grãde fome na fortaleza. E ellando a coufa nefte eftado, chegou a Tidore hú nauio de Caftelhanos, & por capitão hú Aluaro de laya vedra que partira da noua efpanha por mandado do gouernador dela por capitão mór de tres nauios é focorro dos Caftelhanos que eftauão em Tidore & dous defaparecerão no caminho, que fegundo fe defpois loube fe perderão: & Aluaro de faya vedra não pos mais na viagem de tres mefes por amor das grãdes corrétes que ho mar faz da noua efpa¬ nha pera as ilhas de Maluco, & polos vetos que fam fempre a popa. E eftes nauios mandou ho gouernador da noua efpanha por grandes con- jeituras que auia que dali fe podia nauegar pera as ilhas de Maluco. E quando os Caftelhanos virão Aluaro de faya vedra, & fouberão donde ya, & a breue viagem que fizera ficarão muyto ledos & esforçados con¬ tra os Portuguefes, efperãdo que da noua efpanha lhe iria fempre focorro,
  • I2Ô Hijloria da Índia a que os Portuguefes nã podeffem reíiftir & lhes tomarião a fortaleza, & os mouros feus amigos também tinhão grande contétamento coefta noua: & determinarão logo el rey de Tidore & el rey de Geilolo de ire tomar a ilha de Moutel cujos Sangajes erão da obediécia del rey de Ternate, & muyto amigos dos Portuguefes. E fabendo os Sangajes eíte apercebiméto ho mandarão logo dizer a Cachil daroes & a dom Iorge pedindo a ambos que os focorreííem: & Cachil daroes apercebeo fua armada em q fe em¬ barcou: & dom Iorge mandou Fernão baldaya na galeota noua q fizera, & deulhe trinta & tãtos Portuguefes que foliem coele, & mandoulhe que andafle da ilha de Moutel pera a de Maquie, & que fizeffe a mais crua guerra que podefle aos immigos. E fabendo Fernão dela torre eíte focorro que ya aos Sangajes de Moutel, mãdou logo Aluaro de faya vedra por capitão doutra galeota que fizera noua, & deulhe coréta Caítelhanos. E partido pera Moutel topoufe cõ Fernão baldaya a quatro de Mayo. E como erão ambos valetes caualeyros em fe vedo fizerão remar hú cõtra o outro defparãdo effa artelharia q leuauã & defaparelhando as galeotas com as bobardadas fe aferrarão, & pelejarão hú bÕ pedaço mui braua- méte fem fe poderé entrar: & neíte tépo foy morto Fernão baldaya cõ outros oyto. E como os Portuguefes ficarão fem capitão, & por eítare muytos feridos não fe poderão mais defender com ho esforço primeyro, pelo q os Caítelhanos os entrarão & os fizerão rcder, & os catiuarão, & lhes tomarão a galeota, morrédo pore cinco deles & feridos os mais. E tomada a galeota, Aluaro de faya vedra a leuou a Fernã dela torre q eítaua na cidade de Tidore, & entrou cõ grãde feita, & foy recebido cõ outra mayor & os Caítelhanos & mouros ficarão tão foberbos coefta vito¬ ria q fe derão por fenhores da fortaleza, õde foy grãde trifteza pola tomada da galeota & catiueiro dos Portuguefes, porq não ficauão nela mais de cincoéta & Cachil daroes não quis mais andar em Moutel aué- dofe por muyto injuriado de acõtecer aqle defaftre aos Portuguefes an¬ dando ele em fua cõpanhia: & deixãdo fua armada e Moutel tornoufe pera Ternate. CAPITOLO .LXXIIII. De como Gõçalo gome\ da^enedo chegou a ilha de Ternate. Eeftando dõ Iorge muyto agaftado pola tomada deita galeota, & por lhe não ficaré mais de cincoenta Portuguefes pera defender a for¬ taleza, & por não ter mãtimentos chegou Vicente dafonfeca a oyto de Mayo, & deulhe noua do grande focorro q trazia Gõçalo gomez q não tardaria. E cõ ho prazer deita noua não fintio dÕ Iorge não querer nin-
  • Livro VII, Capitolo LXXIIII I2J gué leuar a Malaca os papeis q Vicete dafonfeca leuaua, & logo fe efpa- lhou a noua do focorro q vinha aos Portuguefes. E os Caílelhanos cuy- dãdo q fépre auião de vécer fizerão preftes Aluaro de faya vedra pera ir efperar Gõçalo gomez ao caminho & tomalo com quantos yão coele, & leuou duas galeotas & hú bargantim, & a armada del rey de Tidore. E ele partido chegou Gõçalo gomez á ilha de Bachão, Õde fe vio cõ el rey & foube dele ho eftado em q eftaua a fortaleza, & deixou coele Manuel falcão, porq como fabia a imizade q auia atrele & dõ Iorge quãdo fe par¬ tira de Ternate nã ho quis lá leuar ate na faber como do Iorge eftaua coele & foidalos fe foffe neceffario. E partido dali feguio fua rota pera Ternate cõ toda fua armada, & topou no caminho a dos Caílelhanos de q auédo vifta mãdou embandeirar a fua em final dalegria porq na cuy- daífem q os temião: porem Aluaro de faya vedra não oufou de cometer Gõçalo gomez q paffou por ele mãdando tanger fuas trõbetas como q os faluaua, & dali foy furgir no porto de Talangame, & dahi á fortaleza onde foy recebido cõ muyta fefta & dõ Iorge lhe entregou logo a alcay- daria mór da fortaleza, & a capitania mór do mar por húa prouifam q leuaua do gouernador da índia. E fabedo Gõçalo gomez ho dãno q dõ Iorge tinha recebido da guerra, confelhoulhe q trabalhafle por fazer paz cõ Fe mão dela torre: & dõ Iorge lhe diífe q a nã auia de fazer fe nã cõ fua hõrra, & ainda porq lhe a ele parecia bé fazela q fe fora por ele não a ouuera de cometer. E auido feguro pera mãdar hú melfageiro a Fernão de la torre lhe mandou dizer por Iorge goterrez hú caualeiro, q ele fempre defejara de ter paz cõ os caílelhanos, afli por fere chriftãos, como por vaffalos do eperador q eftaua tão liado cõ el rey de Portugal por paretefco & amizade: & q fe ateli não falara na paz fora porq não cuydaífe q ho fazia por neceflidade mas agora q fabia q não era por iífo pois lhe era vldo tamanho focorro como era notorio, lhe pedia q fizefe paz, & não folfe caufa dauer guerra antre Chriftãos. E deu a Iorge go¬ terrez eftes apontametos com que auia de fazer a paz. «Que dõ Iorge era cõtéte de fazer paz coele & cõ os reys de Tidore & de Geilolo por amor dele: & lhe daria Paulo hú caftelhano q fora ca- tiuo do tempo de dõ Garcia: & q Fernão dela torre lhe auia de dar todos os portuguefes q forão catiuos na galeota & lhe auia de tornar ametade da ilha de Maquie q tinhão tomada & era da obediência del rey de Ter¬ nate : & lhe auia de jurar q não auia dajudar os reys de Tidore & de Geilolo, fe quifeífem guerra coele. E q os portuguefes & caílelhanos q fe paíTaíTe dúa parte pera a outra não fendo por cafos crimes, q os def- fem a feus capitães, & afli os efcrauos que fugiflem: & que Cachil daroes & el rey de Bachão não farião mais guerra aos reys de Tidore & de Gei-
  • 128 Hiftoria da índia lolo: & quando Fernão de la torre não quifeffe a paz coeítas cõdições que lhe fizeffe fobriflo hú requerimento cõ proteftação q ele foffe obrigado a todas as perdas & danos q recreceflem daqla guerra, aífi a el Rey de Portugal como ao Emperador. Levado eíte recado de dõ Iorge & apõta- métos das pazes a Fernão de la torre em todos cõcedeo fe não na refti- tuiçã dametade da ilha de Maquie dizédo q era do Emperador. E refpõ- dédo ao requeriméto q lhe fez Iorge goterrez ficou a guerra como dantes. CAPITOLO .LXXV. De como dom Iorge de menefes & Fernão de la torre mandarão pedir Jocorro hú á índia & outro á nona efpanha. VEndo dõ Iorge q Fernão de la torre não queria a paz cõ as cõdi¬ ções q ele apõtaua não a quis: pofto q foy cõtra ho parecer de Gõçalo gomez & doutros q forão coele, q dizião que deuia dacei- tar a paz fé fe dar ametade da ilha de Maquie, mas dom Iorge não quis porq lhe parecia aquilo couardia: & vedo q não fazia a paz, & que a guerra auia dir em creciméto: & entendédo em Gõçalo gomez quão pouco ho auia dajudar a ela quis mãdar pedir focorro a Malaca & á índia affi de gente como de fazenda pera a feytoria q ja nã auia nhúa por fe gaitar toda como chegou, & mais pera mãdar por Simão de vera que queria mandar em hú nauio os autos & eftormétos q tirara de dõ Garcia pera ho fazer prender antes q fe foffe pera Portugal, & determinou que fofie no nauio cayado q eítaua carregado de crauo. E dadas as cartas em q efcreuia ao capitão de Malaca & ao gouernador da índia quanto aconte¬ cera defpois de fer capitão da fortaleza, partiofe Simão de vera no nauio que digo. E chegado á ilha de Mindanao foy morto com quantos leuaua polos da terra que lhe tomarão ho nauio, ou fe perdeo porq núca mais pareceo, & affi não ouue effeyto o q dõ Iorge queria. E fabédo Fernão de la torre como dõ Iorge mandara Simão de vera a pedir focorro a Ma¬ laca & á índia fobre lho Gõçalo gomez leuar tão bõ creo q queria def- truir de todo os Caftelhanos, & pera tãbé ter géte com q fe defendeífe, acordou cõ confelho de mãdar pedir focorro aa noua efpanha, efcreuendo ao gouernador dela o q pafTaua, & q alem da géte darmas lhe mãdaffe officiaes pera fazer húa fortaleza de q tinha neceffidade grãdiffima por não ter em q fe recolheffe. E coelte recado mãdou Aluaro de faya vedra no nauio em q fora, & pera credito da tomada da galeota dos Portugue- íes leuou algús dos q forão nela catiuos & forão Fernão romeiro patrão da ribeira, Iacome ribeiro comitre, & hú efcriuão pubrico da fortaleza:
  • Livro VII, Capitolo LXXV 129 & adi outros dous Portuguefes q fe paflárão pera os Caftelhanos, & pe¬ dirão q os mandaíTe cÕ Aluaro de faya vedra, hú auia nome Simão de brito patalim, & outro Bernaldim cordeiro. E partido Aluaro de faya vedra a quatorze de Iunho pera a noua efpanha, eítando furto no porto de húa ilha q fe chama Hamey ceto & fetenta legoas de Tidore, de¬ terminou Simã de brito cõ Fernão romeiro de queimarem ho nauio, porq Aluaro de faya vedra não foífe pedir ho focorro, & não achando maneyra pera iíTo furtarão ho batel & quatro efcrauos q ho remaílem, & tornarãfe todos pera Ternate, & cõ furtaré efte batel poferão Aluaro de faya vedra em condição de não ir por diãte por nã ter batel com q fe feruiífe: & todauia foy, mas achou logo ho vento por dauante, & por tãtos dias que lhe pareceo q era ali geral & por iffo fe tornou pera Ti¬ dore onde foy ter em Nouembro. E Simão de brito & os outros Portu¬ guefes q fugirão no batel forão dilha em ilha fofrendo muyto má vida de fome & de trabalho ate que forão ter antre húas ilhas onde fe dei¬ xarão ficar tres de canfados & os tres feguirão auante ante a ilha de Garmelim do fenhorio del rey de Tidore, onde fendo conhecidos por Portuguefes forão prefos por amor da guerra que fabião que el rey tinha coeles a que logo forão mandados: & conhecédo os Fernão dela torre q yão com Aluaro de faya vedra teue deles má fofpeita, pelo q os mãdou meter a tormeto & confefTarão a verdade. E por efta treiçã mãdou Fer¬ não dela torre degolar Simão de brito & enforcar Fernão romeiro & ho outro ficou catiuo. E defpois difto fe tornou a falar na paz, mas não fe tomou nhúa concrufam por Fernão dela torre não querer alargar a metade da ilha de Maquiem: do q dom Iorge andaua muyto agaftado, & mais porq quifera ir deftruir a cidade de Tidore, & Gõçalo gomez nunca ho quiz ajudar nem quis mandar os Portuguefes que forão coele, & dizia q não fora a Maluco fe não pera fazer crauo, pelo q todos lhe querião bé & não fazião cafo de dõ Iorge fe não dele, ne dõ Iorge nã oufaua de mandar os q forão coele de modo que ficaua fubdito de Gon- çalo gomez com quem não oufaua de bolir por não amotinar a géte & trabalhaua pola leuar por bem. E Gonçalo gomez cõ vergonha fobre a ilha de Maquie pera tomar os logares q forão del rey de Ternate, & foy coele Cachil daroes mas enfadoufe logo & tornoufe fem fazer nada, né quis mais fair de Ternate fe não quando fe foy, & por não ter rezão de ir darmada alargou a alcaydaria mór & a capitania mór a dom Iorge & todo feu feyto era fazer crauo: & dom Iorge deu eftes officios a Lio- nel de lima que cuydou que ho fizefle melhor q Gonçalo gomez, & man- doulhe pagar dãte mão hú anno dordenado, mas ele ho fez tão mal, & valeolhe a dõ Iorge que os Caftelhanos cõ medo da gente que fabião
  • Hijloria da índia i3o que eftaua na fortaleza fazião a guerra mais branda, & tinhão muytas vezes tregoas. CAPITOLO .LXXVI. De como Martim afonfo de melo jufarte fe perdeo na cojla de Ben¬ gala. INuernando Martim afonfo de melo jufarte em Paleacate rompeofe na índia ho fegredo de fua ida a çunda, & algús amigos dos q leuaua na armada lhes efcreuerão verdade donde auião dir: & eftes derão a noua a outros, de modo que foy fabido pelos da armada do que fe muytos efcãdalizarão polos enganarem, & hús fugirão por não irem a çunda, & outros fe conjurarão pera queimarem os nauios da frota tão dãnados eftauão, & húa noyte lhes poferão ho fogo, & fe nã fora acodir- lhe Marti afonfo muy afinha & apagar ho fogo cõ muyta diligencia eles forão queimados, & por mais deuaffas que tirou pera faber quem ho fizera nunca ho pode faber, mas foube de muytos que eftauão pera fugir por não iré coele & eftes mandou prender, & aos que erão fugidos tomou as fazendas. E paffado ho inuerno com muyto trabalho deftas amotina¬ ções partiofe, & porque foube que antre Bégala & Pegu andauão certas fuftas de rumes fazendo prefas, furgio em húa ilha chamada Negamele defronte da cidade Darracão a efperar as fuftas q auião ali dir ter: & eftando furto fobreueolhe tamanho temporal de veto que não podendo ho nauio fofrer a amarra feleuou & arribou, & os outros capitães tam¬ bém arribarão, & não podendo ter coele fe apartarão de fua conferua, & defpois de ceifar a tormenta fe achou fó, & determinou de tornar á ilha donde fe aleuantara pera ver fe achaua hi os outros capitães: & naue- gãdo per antre húas ilhas deu ho nauio em hú baixo onde ficou, & por¬ que a gente não pelejaíle fobre tomar a barquinha do nauio pera fe fal- uaré hús & outros não, mandou a hú fidalgo chamado André de foufa que fe meteffe nela, & não confentiffe que ninguém entrafle dentro, & pera fe faluar a gente toda mandou muyto depreífa fazer jangadas dal- gús paos das obras mortas do nauio & darcas, esforçando a gente que todos fe faluarião. E eftando nefta ocupação feria a mea noyte quando ho nauio adernou, & tõboufe todo pera húa parte, que lhe não ficauão defcubertos mais que os caftelos. E como ifto foy fupito & de noyte ou- uerãfe de perder quantos eftauão dentro mas acolherãfe aos caftelos & ali ficarão, & as jangadas que eftauão começadas fe perderão, & eles ficarão molhados & quafi defpidos pera fe deitarem ao mar cuydãdo que não tinhão outra faluação: o q vedo Martim afonfo os deteue & chamãdo
  • Livro VII, Capitolo LXXVI i3i Andre de foufa que chegaffe á popa do nauio fe meteo na barquinha leuando diante a Thome pirez que era o fenhorio dele, & defpois fe me¬ terão outros que Martim afofo chamou por feus nomes, & não ficarão mais que feys Portuguefes & os efcrauos, que pedião chorando que os tomaíTem, & era piedade ouuilos: mas por fer de noyte & Martim afonfo temer que fe çoçobraífe a barquinha com ho pefo da gente não os quis tomar, prometendolhes com juramento de tornar por eles tanto que po- feffe os outros em terra, que por não caberem & temer que çoçobrafTem os não tomaua, & eles diíferão que affi ho efperauão nele. E Martim afonfo, fe foy caminho da terra que feria donde eftaua ho nauio como de Lisboa a Almada, onde chegou fendo ainda de noyte, & ho rolo do mar era tamanho & tão brauo que fazia muy grande efcarceo, & por iffo não oufou Martim afonfo de fe chegar a terra, & mandou fora dous marinhei¬ ros pera verem fe era praia ou penedia, & eftes não tornarão mais, & pareccdo a Martim afonfo q fe afogarião não quys que fayffe mais nin¬ guém, & tornou ao nauio pelos Portuguefes que lá ficauão por ver que caberião na barquinha, & não quis tomar nhú efcrauo porque não çoço- braffe. E tomados os Portuguefes tornoufe a terra onde deitara os mari¬ nheiros, & não os achando nem final deles teueos por perdidos. E com quanto efte defaftre era tamanho, & eftauão em muyto grande perigo affi no mar como na terra q não fabião, não faleceo a Martim afonfo esforço: & moftrando grande coração lhes diffe. Em tamanha defauentura como he perder a fazenda, & a vida ficar em tamanho rifco como parece que eftá a noífa a principal coufa que nos ha de confolar, ha de fer termos por certo q ho merecemos por noífos peccados, porque muyto menos fe lente ho mal que vem a homem por fua culpa que aquele q padece fem ela, & que efte que nos fobreueo não he tanto como merecemos a noífo fenlior: que como pay piadofo vfando de fua mifericordia infinita nos deu efte leue caftigo, porque fe ho dera conforme a noffas culpas onde fe per- deo ho nauio acabarão noffas vidas, & por não perdermos as almas que lhe tanto cuftarão deuemos de crer que nos deixou coelas, & mais que affi como nos liurou de tamanho perigo nos ha dacabar de liurar de todo ate nos poer em faluo, por iffo meus companheiros vos peço muyto que creais ifto como ho eu creo, & que efpereis em noffo fenhor como eu efpero que nos ha de leuar a faluamento, & que efta efperança vos es¬ force pera não fintirdes trabalho, fome, fede & outras fadigas que aue- mos de paffar ate termos remedio com que tornemos aa índia, & que vamos agora ao longo da cofta pera ver fe achamos os noffos nauios ou algús deles em que nos embarquemos, & quando não'iremos ate Arra- cão, cujo fenhor he amigo dos Portuguefes & dali nos iremos aa índia..
  • 132 * Hijloria da Índia O que par*eceo bem a todos, & fe moftrarão muyto esforçados pera ho feguirem. CAPITOLO .LXXVII. Dos grandes perigos & trabalhos que pajjdrão Martim Afonfo & os outros ate chegarem a Arracão. Efem leuare nhúa coufa que comer mais que hum pouco de bizcoito, & fem agoa nauegarão dous dias ao logo de terra fem comer nhúa coufa, porque por amor da agoa que não tinhão não oufauão de prouar ho bizcoito, nem oufaua Martim afonfo de mandar a terra bufcar agoa porque não via final de a auer nem ya sa companhia quem foubeífe a terra pera a bufcar, & mais não vião nhúa pouoação. E indo afli nefta afronta tamanha virão húa aldea, com que todos forão muyto ledos pa- recendolhes que ali terião remedio dagoa, & Martim afonfo mãdou dei¬ tar em terra hum fidalgo chamado Francifco dacunha que agora mora no Algarue, & a hum Fialho dalcunha, pera que foubeffem dos morado¬ res daquela aldea fe lhe darião agoa, & quão longe eftaua do mar. E como Francifco da cunha & ho fialho chegarão aa aldea ajuntarãfe bem corenta homés & tomando os antre fi os leuarão por força mais pera ho fertão & os prenderão, & os que ficauão na barquinha bem os virão leuar mas não conhecerão cornos os leuauão, & cuydarão que lhes yão moftrar algúa agoa. E eftando efperando por eles fobreueo hú vento por dauante com que ho mar fe começou dencarapelar: & receando os Portuguefes algúa torméta, & também enfadados da má vida tomarão dali achaque pera dizerem a Martim afonfo que defembarcaffem ali, o que lhe não pa- receo bem ao menos ate não tornarem Francifco da cunha & ho Fialho, nem lhe parecia bem defembarcarem, porque como os da terra os viffem defarmados terião coração pera os matarem por amor de os roubarem, & que farião ifto fem receo porque como não nauegauão não tinhão que perder, & que auendo de defembarcar melhor feria em Arracão como tinha dito, porque ho fenhor dela como nauegaua & tinha que perder não lhes auia de fazer nhú mal com temor das nofTas armadas, & por iffo feria melhor iré lá. E Martim afonfo não dizia ifto fe não pera ver fe topaua algús dos feus nauios que tão mal lhe parecia defembarcar em hum cabo como no outro. Mas como ifto não parecia afii a todos, differão muytos que deuião de defembarcar ali porque não leuauão mantimétos, & auia dous dias que não comião, & yão fefTenta & quatro pefloas cõ que a barquinha ya metida no fundo, & que fe alagaria com qualquer maru¬ lho, por iffo que ho mais feguro era defembarcar ali. E nifto apertarão
  • Livro VII, Capitolo LXXVII i33 tanto que Martim afonfo diffe que defembarcaífem, & porem que ho fazia muyto contra fua vontade, & que não era capitão, nem era nada, que fe ho fora não defembarcara, & que não podia fer que de cinco nauios que fe dele apartarão não achaflem algum em que fe faluaflem por efcufarem deitar á cortefia dos mouros, & que entre tãto bem fe poderião fofter na barquinha, & quando a tormenta fofle tamanha então defembarcarião. E ouuindo ifto Andre de foufa, Gonçalo vaz de melo, Nuno fernãdez freyre & outros dous todos grandes amigos de Martim afonfo diíferão, que ele era feu capitão & ho auia de fer, & que fe pofeífe aquilo em confelho, & faberião fe era pera fazer ou não. E polto fezfe o que Martim afonfo dizia: & palfando grande efpaço que Francifco da cunha & ho fialho não tornauão diffe que ali verião todos que gente era aquela, & quão bom feria defembarcarem. E fem mais efperar fe partio, porque como não tinha armas não oufou de fair a faber o que lhes acontecera, & eítes fugi¬ rão defpois & forãfe aa índia. E indo Martim afonfo ao longo de terra com ho mar bonança virão hum ribeiro que fe metia no mar, com que derão muytas graças a nolfo fenhor, & por q ali não parecia pouoação feguroufe Martim afonfo & mandou a Diogo pirez deça, & Nuno fernan- dez freyre, & a outros dous que foffem encher dagoa húa jarra marta- bana que leuaria dous almudes. E eítãdo tomando agoa acertarão dous homens da terra de chegar ao ribeiro com húa panela darroz cozido que ainda leuauão quente, & Nuno fernandez lho comprou & leuou a com a agoa Martim afonfo: & querendo ele partir ho arroz por todos lhe pedi¬ rão que ho comeífe foo, porque pera todos não era nada & pera ele foo feria algúa coufa, & não quis fe não partilo & a cada hum coube hum bocado. E porque na agoa era neceífaria grande prouifam fe fartarão ali dela, & leuarão a jarra chea, & por lhes durar molhaua Martim afonfo a ponta dum lenço nagoa & dauao a chupar a cada peífoa certas vezes no dia, & ho outro tempo tinhão na boca hum pelouro defpingarda pera não auerem fede, & comião algús bocados de bizcoito pera fe fofterem. E coefta adieta tão trabalhofa nauegarão cinco dias foftendo os noffo fenhor milagrofamente, & no cabo deles chegarão aa barra Darracão.
  • i34 Hiftoria da índia CAPITOLO .LXXVIII. De como Martim afonfo foy lenado com os outros per hús pefcadores aa cidade de çuquirá. Ecomo a Martim afonfo lhe pefaífe muyto de fe étregar aos mouros, porque fabia quão delleais & falfos fam, trabalhaua por bufcar todos os modos que podia pera não fe entregar. E porque fentia nos mais dos Portuguefes enfadameto de tanta má vida nã oufou de lhe dizer o q temia dos mouros porq não cuvdaffem q ele não queria defem- barcar fe não trazelos na barquinha, & q defefperados fizeflem algum de- fatino, & por iffo diflimulou coeles, dizendolhes que antes que fe foflem pera Arracão foffem ver a hús ilheos que ali eftauão perto fe por ventura eftarião hi algús dos feus nauios, & quãdo não algú fato fe foffem perdi¬ dos, que ho mar ali lançaffe, & defpois fe irião pera Arracão. E confen- tindo que foflem mandou remar pera lá, & começãdo datraueffar acalmou ho vento & ho mar ficou cauado, & era tão vanzeiro que metia a barqui¬ nha no fundo com a agoa que lhe entraua que vazauão com hum capa¬ cete & com húa bacinina que leuauão, & aqui fe virão de todo perdidos pelo que chamarão muyto deuotamete por fam Lourenço a quem prome¬ terão fuas efmolas, & noflo fenhor por rogos do bem auéturado mártir os liurou defte perigo, a cuja honrra defpois mandou Martim afonfo fazer húa irmida em húa fua quinta no termo Dobidos: & liures do mar che¬ garão ao ilheo, em cuja praya logo em defembarcãdo acharão dous facos de bizcoito todo molhado & húa arca de pao, & dentro algús guingoes de que defpois fizerão arrombadas á barquinha. E nifto conhecerão que algum nauio dos que bufcauão era perdido, & virão que ho ilheo era quafi tudo praya pequeno & redondo & no meyo dele debaixo de húas aruores altas eftaua um charco dagoa nadiuel em q andauão peixes, mas a agoa cheiraua mal & amargaua, & por ali auia húas faueiras como as noffas com fauas, húas verdes & outras fecas. Os Portuguefes em as vendo arremeflarãfe a elas com a fome que leuauão comendo muytas: & parece que por terem eíta propriedade os mais dos que as comião co¬ meçarão logo darreueffar, & fair tudo juntamente como fe comerão algúa peçonha & cayão no chão muyto fracos & defacordados, pelo que os ou¬ tros ceifarão de as comer, & Martim afonfo acodio muy trifte cuydando que aquilo foffe peçonha & fez agafalhar os doentes ainda q não auia outras camas fe não a area, & afli andou ate que anoyteceo, & quis lhe noffo fenhor bem que fazia luar pera os alomear. E andãdo paffeando
  • Livro VII, Capitolo LXXVIII i35 Nuno fernandez freyre & Frãcifco mendez ao longo do mar por não po¬ derem dormir com ho cuydado do perigo em que fe vião virão fair dagoa húa tartaruga, & indo apos ela ate onde tinha perto de duzentos ouos tomarãna coeles & leuarãna a Martim afonfo que a mandou logo fazer em pedaços pera comerem & fizerão muytos por fer mayor que húa grande rodela, & as gemas dos ouos deitou em húa bacinica & coalha¬ dos ao fogo os deu por fua mão aos doentes com que os esforçou, & affi comerão todos da tartaruga afiada & do bizcoito & almeirões cozidos q auia ali muytos & coziãnos em agoa em hum capacete que ainda que era ferrugéto & os almeirões fabião a ferrugem fabião bem com a fome. E ao outro dia tomarão outra tartaruga a que acharão mais de duzentos ouos, & coefte refrefco fararão os doentes & esforçarão os fãos algum tanto em tres dias que ali efteuerão. E vendo Martim afonfo a gente con- téte, rogoulhes que não foffem a Arracão, porque tinha igrande duuida no fenhor daquela cidade por royndades que fabia que fizera a Portugue- fes que ali forão mais profperos do q eles yão, mas que foffem a Cheti- gão outra cidade del rey de Bengala que hú Português dos da compa¬ nhia que ja fora nela lhe dizia q era perto, & que ali os agafalharião bem por amor que nauegauão, & tinhão neceffidade da amizade dos Portu- guefes, & todos differão q foliem. E atrauelfando a cofta, chegarão a húa praya õde virão muytos palmitos, & vendo Martim afonfo a terra defpo- uoada defembarcou ali com todos, & mandou tirar a barquinha em terra, & com pedaços das tartarugas q ainda leuaua & algús ouos, & cÕ ho biz¬ coito ajútarão os palmitos & refrefcarão, & com boa agoa que acharão deixarãfe eftar tres dias, & de noyte dormiã dous marinheiros na barqui¬ nha, & de quando em quãdo fe leuantaua Martim afonfo & a vigiaua: & ifto fez porque algús Portuguefes lha não podeffem furtar como determina¬ rão pera fugirem nela & deixaré os outros. E na derradeyra noyte indo a Marti afonfo vifitar achou duas almadias pegadas cõ terra, & euydando que a querião tomar bradou aos Portuguefes q acodiflem. E fentindo hus pefcadores da terra que eftauão nas almadias q acodião, afaftarãfe de terra & falarão, & Martim afonfo lhes mãdou perguntar por hú Portu¬ guês que ja eíleuera em Bengala & fabia a lingoa quanto era dali a Che- tigão, & dizédo que perto concertou coeles que os leuaflem lá por dez pardaos que lhes derão, & os pefcadores mentião, & a cidade que dizião não era Chetigão fe não outra chamada Cuqueriá de q era fenhor hú mã- cebo mouro chamado Codauaz & por dinidade cão, & ficaua ho nome todo Codauazcão, & era vaffalo del rey de Bengala. E tomãdo os pefca¬ dores a barquinha de toa tirarão a força de remo quanto mais poderão & em amanhecendo achoufe Martim afonfo dentro em hú rio, q ho Por-
  • i36 Hifioria da Índia tugues que efteuera em Bengala diffe que não era aquele ho rio de Che- tigão, porem que bem podião fair por ali ao mar, porque fabia que aquele rio cercaua aquela terra como ilha, & forão por aquele rio ate que anoy- teceo: & nifto faltarão os pefcadores fupitamente em terra, dizédo que yão leuar recado ao lafcar de Chetigão como eítauã ali: & dizédolhe ho Português que porque métião fe aquele não era ho rio de Chetigão, dif- ferão q fi era, & forãfe. E Martim afonfo diffe que efperaíTem ate verem que recado leuauão os pefcadores, mas eles não tornarão mais, porem forão dizer a Codauazcão que eftauão ali tãtos Portuguefes q andauão perdidos, & q nã leuauão armas. E ele folgou muyto cõ aqlas nouas por¬ que os tinha por valentes homés & fabedores na guerra, & folgou coeles pera ho ajudarem em húa que tinha com hú feu vezinho, porque efpe- raua de ho vecer cõ fua ajuda, & porque era noyte não quis que defem- barcafTem, & mãdoulhes dizer per hú homem que fabia a lingoa Portu- guefa que não fe agaítaífem porque ele era grãde amigo del Rey de Portugal, & affi lho diffe ho homem em voz alta fem ho veré por amor do grande efcuro que fazia. E ouuindo Martim afonfo eítas palauras em Português & em lugar onde tão pouco efperauão ouuir falar fua lingoa nem palauras tão fauoraueis a eles ficarão muyto confolados, & efperarão bÕ remedio pera a faluação das'vidas, pelo que derão muytos louuores a noffo fenhor. CAPITOLO .LXXIX. De como Marti afonfo & os outros fi carão, ê poder de Codauazcão. COdauazcÃo que eítaua muyto aluoraçado pera auer os Portuguefes, leuantoufe como foy manhaã & caualgou acompanhado de muyta gente de guerra que tinha junta, & Ido coele todos a pé fe foy á ribeira leuando diante feus inítormétos de guerra que yão tocando por feita, mas aos Portuguefes não lhes pareceo affi: & quando virão tanta géte daquela maneyra cuydarão que os yão prender, & differão que não era fifo efperar mais, que fe foffem, porque ho recado que lhes derão de noyte da parte do goazil foy pera os deterem que não fugiffem, & a Mar¬ tim afonfo lhe pareceo bem & foyfe pelo rio abaixo pera ir fair ao mar: a géte de Codauazcão quãdo os virão fugir lançarão a pos eles ao longo do rio apelidando a terra, & tirãdolhes muvtas frechadas & pedradas, & da outra banda do rio acodião trabalhadores, & fuas molheres & filhos: & todos cõ tamanha fúria que parecia que os querião meter no fúdo, & valeolhes que indo affi deu a barça em feco, o que vendo Martim afonfo leuantou hú lenço em final de paz porque os não mataffem & bradou á
  • Livro VII, Capitolo LXXX 1S7 gente que efteueífe queda: & ela ho fez afli, & porque a barca eftaua hú pouco afaftada foy neceífario defembarcar Marti afonfo & os outros a nado: & ele foy logo falar a Codauazcão que quando ho vio lhe fez muyto gafalhado, & diflelhe que não fe agaftaífe polo defaftre que lhe aconte¬ cera, & que fizeíTe cota que eftaua em Portugal, porq ele & os outros Portuguefes aflí auião de fer tratados como lá, & que ele os deixaria ir pera a índia dentro na moução, ou os mandaria quando não teueífe em¬ barcação por iífo que defcanfaífe: o que lhe Martim afonfo agardeceo muyto, & ele ho mandou apoufentar com todos os outros em húas gran¬ des cafas, & lhes mãdou dar todo ho neceífario, & panos pera veftidos dalgús que diflo tinhão neceííidade. E logo ao outro dia chegarão aa barra defta cidade Duarte mendez de vazcõcelos capitão de húa galeota & Ioã coelho capitão dú bargantl ambos da conferua de Martim Afonfo q andauão em fua bufca, & na barra fouberão dos mefmos pefcadores q ali leuarão os Portuguefes como eftauão na cidade. E os capitães mãda- rão dizer a Martim afofo como eftauão ali, q determinaífe o q queria: & ele pedio licéça a Codauazcão pera fe ir lébrandolhe o que lhe tinha pro¬ metido. E ele lhe diífe q era verdade, mas q não lhe podia logo dar licéça, & cõtoulhe a caufa porq, q era a guerra q tinha, q efperaua dacabar cÕ fua ajuda détro na moução, & então lhe daria licença, & q mãdaífe dizer aos capitães que eftauão na barra q ho efperaffem, & entre tanto lhes darião os mantimétos de q teueífem neceííidade, & Martim afonfo ho fez afli. CAPITOLO .LXXX. De como Martim afonfo foy liure do cativeiro em que eftaua. Ecomo Codauazcão tinha fua gente preftes pera ir fobre feu Imigo, partiofe logo leuãdo Marti afonfo cõfigo, q ya a caualo & os ou¬ tros Portuguefes a pé, & todos leuauão armas q lhes Codauazcão dera, & forão cÕ muyto trabalho por ho caminho fer muyto roym & fra- gofo. E a gente de Codauazcão fe efpantaua de como ho podião aturar não fendo coftumados a andar por aquela terra, & tinhão os pera muyto, & afli forão por fuas jornadas ate chegarem aa cidade do immigo de Codauazcão que tinha deitado fama que leuaua cem Portuguefes com efpingardas a fora ho grande poder de gente da terra, & afli alifantes, pelo que feu immigo não oufou de ho efperar & fugio deixando a cidade deípejada, & por iífou a tomou Codauazcão fem nhúa refiftécia: & dali foy feguldo feu Imigo ate ho deitar fora da terra que núca oufou de lhe dar batalha com medo dos Portuguefes que da gente da terra não fazia Tomo IV 18
  • i38 Hijloria da índia conta ainda que fora mais da que era: afli que ho medo dos Portuguefes fez fugir ho immigo de Codauazcão que ficando fenhor de toda a terra de feu immigo fe tornou pera a cidade de Soré ondeftaua fua mãy & dous feus irmãos, & ho galardão que deu a Martim afonfo & aos outros pola ajuda que lhe derão, foy negarlhes a licença que lhes tinha cõcedida & pedirlhes refgate polos deixar ir, o que lhes não derão polo não teré. E quãdo Martim afonfo vio a pouca verdade de Codauazcão, determinou de fugir dando parte diífo a algús dos q eftauão coele. E cõcertado com os capitães que eftauão na barra, que para hú dia certo lhe mandaffem as almadias pos em obra fua fugida húa noyte defpois que ftntio que os da cidade erão recolhidos, & mandou diante os mais dos que eftauão coele com quem foy hú português q cÕ hú Manuel de caceres leuaua os recados de Marti afofo aos capitães & fabia a terra & õdeftauão as alma¬ dias q era dali a quatro legoas: & partidos eftes foife Martim afonfo apos eles, indo coele Manuel de caceres: & ifto feria as onze horas da noyte: & como ho caminho era muyto roym & cõprido, começarão de canfar & algús ficarã & eftes querêdo defpois ir a pos os outros não fabedo a terra fe perderão: & védofe perdidos tomarã por remedio tornaréfe á cidade, ode chegarão antes damanhecer, & deitarãfe em fuas camas a dormir, & antreftes foy Diogo pirez deça. Martim afonfo & os outros feguirão auante, & com ho roim caminho & cõ irem de vagar, & parti¬ rem tarde da cidade amanheceolhes antes q chegaffem aas almadias, & por nã fere defcubertos embrenharãfe. E tanto q amanheceo foube logo Codauazcão q Martim afonfo & os outros Portuguefes erão fugidos, do que lhe pefou muyto, & mãdou chamar Diogo pirez deça & os que efta¬ uão coele, & preguntoulhes que como fugira Martim afonfo & os outros & eles ficarão, difle que não fabia porque Martim afonfo lhe não dera conta de nada, & q acordãdo de noyte ho achara menos & aos outros. Codauazcão ho creo, & mãdou logo hú capitão cõ quatro cetos homés darmas ebufca de Martim afonfo & dos outros & q trabalhaffe muyto polos achar: & ele os achou, & é a géte os vedo começão darremelfar 1'obreles pedradas, & frechadas fem conto: & os Portuguefes fe quiferão defender, & Martim afonfo não quis, dizédo q não era tépo, porq fe ho fora ele começara primeyro, & q quanto fe mais defendeffem tãto mais aluoraçarião a terra, & fe ajuntaria mais gente & os matarião mais afinhá, & por iffo era melhor entregaréfe fem efcãdalo. E bradãdo aa géte q não tiraffe foyfe parela, & diffe ao capitão q os Portuguefes erão tão obedien¬ tes a quem tinhão por capitão q fazião quãto lhes mandaua, & porq ele mãdara aqles q ali vinhão q fugiffem que por iffo fugirão: & fe fe auia de dar algúa pena por aqla culpa que foffe a ele fomente porq ele a tinha.
  • Livro VII, Capitolo LXXXI i39 Ho capitão lhe diffe q não era culpado é fugir, & q pefara diflo a Co- dauazcão, porq folgaua coele & cÕ os outros Portuguefes, q fe foífé pera a cidade & q lhe faria merce, & afli forã. E primeiro q dali abalafle hús Bramenes dos gétios pedirã ao capitão q lhes mandaífe dar hú daqles Portuguefes pera facrificaré aos feus pagodes a quê rogarão q lhe depa- raífe aqles portuguefes, & pois lhos deparara q lhes defle hú pera lhes fazeré feita: & ele lhes deu a hú Gõçalo vaz de melo, a que queria mal porq quando forão aa guerra lhe chamara cão perro, & ele não fe vin¬ gou cÕ medo, & vingoufe ali porque vio a fua. E ali foy logo degolado, fem Martim afonfo né nhú dos outros oufaré de falar por não poderé mais. E leuado Marti afonfo a Codauazcão, ele fe queixou porq lhe fugia dãdolhe tã boa vida, & tornouho a fua graça como dantes, & fazialhe merce & hõrra & poré não ho quis deixar ir né a nhú dos outros, pelo q Martim afonfo efcreueo tudo o que palfaua aos capitães que ho eítauão efperando na barra, efcreuendolhes que fe foffem, & efcreueo húa carta pera ho gouernador em que lhe daua relação de fua defauétura, pedindo- lhe que ho mandaífe refgatar, & os capitães fe partirão & derão eíta carta a Lopo vaz de fam Payo q ainda gouernaua a índia, q rogou a hú mouro Dormuz chamado Cojeçabadim que ya a Bengala, que refgataífe Martim afonfo, & os que achaífe viuos, & ele os refgatou por tres mil cruzados que deu a Codauazcão, & os mandou á índia em húa fuíta fua gouer- nando Nuno da cunha, logo no primeyro anno de fua gouernança. CAPITOLO .LXXXI. De como Simão de foufa galuão com lormenta foy ter a Dachem. PArtidos Pero de faria & Simão de foufa de Cochim pera Malaca como étrarão no golfão da ilha de Ceilão pera a de çamatra, por fer fempre perigofo ainda que feja na moução & porque a gale era rafteira mãdou Simão de foufa abater quanta artelharia leuaua afli grofla como miuda: & quafi no cabo de golfão lhe lobreueo húa braua tormenta com que fe apartarão, & Pero de faria foy ter a Malaca õde foy entregue da capitania da fortaleza por Iorge cabral que a feruia, & Simão de foufa com ho mefmo temporal foy ter á ilha de çamatra á barra de Dachem quaft perdido, & cõ a artelharia toda abatida & a gente enjoada & canfada. E fabendo ele polos da terra Õdeítaua, quiferafe logo ir fe ho deixara ho tépo por faber camanho Imigo dos Portuguefes era el rey Daché, mas ho tépo não lhe daua lugar. EI rey fabédo da gale q eftaua na barra mãdou pregútar q gente era & pera Õde ya, & fabendo
  • 140 Hijloria da índia q erão Portuguefes q yão pera Malaca, determinou de os tomar, & pera faber quantos erão, & como yão apercebidos mãdou vifitar Simão de foufa cõ muyto refrefco, dizédo q folgaua muyto de ir ali ter pera fazer amizade cõ os Portuguefes cõ que a defejaua de ter auia dias, rogãdolhe q entraffe pera détro q lá eílaria mais feguro & feria melhor prouido, & fe quifeffe q ho mãdaria rebocar per algúas lãcharas. O q Simão de foufa lhe agardeceo, dizédo q não ya pera dentro por fe deter menos, porq na hora q ho tempo delTe lugar fe auia de partir. E receãdo el rey q ho fizeífe afíi, mãdou fazer aquela noyte preftes mil homés darmas q fe em¬ barcarão em vinte lãcharas pera iré tomar Simão de foufa q polo feu q ihe leuou o refrefco foube a géte q tinha, & q não leuaua artelharia pera fe defender: & como foy manhaã os defpedio, mãdãdo ao capitão delas q por força lhe leuaffe Simão de foufa quãdo não quifeffe por fua võtade, & por difíimular mãdoulhe diãte hú recado em hum calaluz: que pois ali eftaua que entraffe pera dentro porque lá eílaria mais feguro, & que man- daua algúas lancharas pera que ho rebocaffem. E efte recado lhe deu do calaluz hú mouro que não quis entrar na galé. E dandolhe Simão de foufa a repofta yãofe as lancharas chegando: & quando Simão de foufa vio a muyta gente que ya nelas conheceo ho engano, & diffe ao mouro que lhes diffeffe q fe foffem que lhes não queria dar trabalho, & ele não fe queria ir, pelo que Simão de foufa pedio fuas armas, & os outros também fe armarão: & hú fidalgo q fe chamaua Manuel de foufa pos ho fogo a hú falcão & tirou ao calaluz pera que fe foffe. Ho capitão das lancharas vendo que era defcuberta fua treição mãdou que aferraffem a galé: & tangedo os mouros feus inftormétos de guerra, & dando grandes gritas remeterão á galé tirandolhe muytas bombardadas & efpingardadas de que ferirão algús Portuguefes, & duas ou tres lancharas aferrarão a galé por popa, & faltarão muytos mouros dentro fem lho os Portuguefes poderé defender: & a peleja fe começou muyto braua, que com quanto os Portuguefes erão poucos, & os mouros muytos pelejarã tam esforçada- méte que matarão & ferirão muytos dos que entrarão & os outros fize- rão tornar a fuas lancharas, pelo que os das outras não oufarão mais détrar: & porem combatião os Portuguefes brauiflimamente com efpin¬ gardadas, frechadas, zagúchadas & pedradas: & com tudo fazião mortal dãno porque como as lancharas erão alterofas & a gale rafteira ficauão muyto fenhores dos Portuguefes & tratauão os muy mal, poré não tanto que não recebeffem dobrado mal, mas como erão as noue partes mais que os Portuguefes não fe lhes enxergaua tanto como neles q erão pou¬ cos. E deita maneyra durou a peleja ate as dez horas, em que Simão de foufa & os outros fe defenderão com esforço tão fobre natural q auendo
  • Livro VII, Capitolo LXXXII 141 os mouros por impolliuel vencerénos & efpantados de tal valentia domes, & dos muytos q da fua parte erão mortos & feridos fe retirarão ficando corenta Portuguefes mortos & feridos, & tornarãfe pera a cidade. CAPITOLO .LXXXII. De como Simão de foufa galuão foy morto na barra de Dachem cõ quãtos j'ão coele. SAbédo ei rey como a fua gente não leuaua a gale, ouue diflo muyto grãde menencoria, & mãdou logo ir diante de fi os capitães & pre- guntoulhes como não leuauão a gale, & eles lho contarão fazendo- lhe grande efpãto da valentia dos Portuguefes: do q el rey fe agaftou muyto mais do q eftaua, & caualgãdo em hú alifante mandou chamar ho feu capitão geral com a gete de guerra que tinha a cargo, & mandoulhes que lhe foliem por a gale de Simão de foufa, jurãdolhes por Mafamede que os que tornaflem fem ela q os auia de mandar matar com a mão daquele alifante, & logo os mandou embarcar em cincoenta lancharas, o que fizerão com bé má võtade por auere grãde medo aos Portuguefes pola valétia q neles virão na peleja paliada. Ho capitão mór dos mouros defpois q chegou á gale fez cj nã ya pera pelejar, & leuãtãdo húa bãdeira de paz dilie q queria falar a Simã de foufa q chegou a bordo a faber o q queria. E ele lhe dilie da parte del rey q eltaua muyto agaftado, porq fendo tamanho amigo dos Portuguefes & defejãdo de lhe fazer horra & gafalhado receberá de feus valfalos tamanha offéfa como lhes fora feyta, & q logo mãdara préder todos aqles q lha fizerão, & pera ver ho caftigo q lhes daua, lhe rogaua muyto q entraffe pera détro, & que ficaria lou- uado. O q ouuido polos q eftauão cõ Simão de foufa, muytos começarão de dizer q fe étregalfem porq ja não podião pelejar: 0 q ouuindo Simão de foufa ouue medo que fe amotinaífe a gente, & por iífo lhes quis falar, & dilie ao capitão dos mouros q aueria confelho com fua gente, & fe eles quifelfem ir pera détro. E como 0 capitão receaua muyto a peleja com os Portuguefes foy contente de Simão de foufa auer ho confelho que dizia pera ver fe podia efcufar a peleja & afaftoufe. E Simão de foufa pregútou á géte da galé que dizia, & muytos lhe dilferão que faria bem de fazer o que el rey de Daché queria pois por força, ho auião de fazer por não feré poderofos pera fe defeder pofto q todos os q ali chegarão forão viuos & fãos quanto mais fendo a mayor parle mortos & feridos: & poderia fer que vedo el rey q fe punhão em feu poder q lhes goarda- ria fua palaura & faria o que dizia, & q fe tiraria dalgú mao penfameto
  • 14-2 Hijloria da Índia fe ho tinha, o q mais aíinha poeria em obra vedo q não fe fiaua dele. Aò que Simão de foufa refpõdeo, q claro eftaua q quê era tão mortal Imigo dos Portuguefes como el rey Daché que fe os acolhefle q os auia de ma¬ tar de muy cruas mortes: & pois auião de morrer fem as vingar, q me¬ lhor morrerião vingãdo as, & farião o q deuiã a Chriftãos & a caualey- ros, & entre tãto q fazião o que deuião lhes daria noflo fenhor maneyra pera fe faluaré: & quando não podeífem faluar as vidas q lhes faluaria as almas por fua mifericordia pois morrião por feu feruiço. E animados todos coeftas palauras, diíferão q fizede o q lhe bem pareceífe, & q eles ho feguerião: o q lhes agardeceo muyto, & diífe ao capitão dos mouros que não auia détrar pera détro q fe podia ir êbóra: & ele por eftar ameaçado del rey nã oufou de fe ir, & mãdou aos feus q cometeffem a galé & trabalhadem muyto porq tomaffé os Portuguefes viuos, q afli lho encomedara el rey, & q lhes lébrade como os ameaçara fe fofle fem a gale, por iífo q fizeffem por faluar as vidas. Os mouros remeterão á gale cÕ tamanhos alaridos q eles fométe abaftarão pera defatinar os Portu¬ guefes, quanto mais tãtas nuués de frechas q tolhião a claridade do foi: tãta forna defplgardadas q efcurecião ho ár, pedradas, zagúchadas, aza- gayadas & outros arremedos tão efpefos q parecião húa groda chuua. E nefta reuolta fe chegarã tãto certas lãcharas á gale q faltarão algús mou¬ ros détro, q logo forão fornidos pelos Portuguefes q cada hú pelejaua por vinte, & não defcanfauão mométo & fizerão afaftar as lancharas dos mou¬ ros, que como erão muytos fe ébaraçauão hús com os outros porque todos querião fer os dianteiros que pelejadem, & có a fadiga q nifto tinhão podião os Portuguefes aproueitarfe deles, adi cõ os tiros miúdos como cÕ as efpingardas & outras armas odenfiuas com que derribauão hús fem pernas, outros partidos em pedaços. E era coufa efpãtofa de ver como os Portuguefes fe podião defender de tanta multidão de mouros, quanto mais odédelos com tamanha deftruição. E porem eles não eftauão fem ela que erão algús mortos & os outros quafi todos feridos, & os mouros q ho não fabião mas cuydãdo q eftauão em todas fuas forças por padar de tres horas que duraua a peleja, & q nem fométe os poderão núca abalroar, começarão de fe alargar da peleja ainda que os capitães lhes lembrauão ho ameaço q lhes el rey fizera, pelo que lhes não daua efpan- tados de tã braua defenfão domes. E védo hú mouro q andaua na galé de por força, como os mouros fe afaftauã lãçoufe a nado por ningué até- tar nele, & foy dizer aos mouros que nã fe fodem, porq os portuguefes erão mortos os mais deles, & os outros tão feridos & canfados q nã fe podião defender, & fe os cõbatedé mais hú pouco lhes tomariã a galé, & ho capitão mãdou efte mouro a el rey pera que lhe didede aquilo, &
  • Livro VII, Capitolo LXXXII 143 affi os feridos q tinha, pera q lhe mãdaffe géte de refrefco, & munições q logo mandou. E chegada efta géte tornara os mouros a cometer a galé q entrará muytos, por ja os Portuguefes que auia viuos lhes nã poderem refiftir: porq nã pelejauão mais q Simão de foufa, Manuel de foufa, dõ Antonio de crafto, Antoriio caldeira, Iorge dabreu, & outros tres ou quatro: & cÕ quanto fazião façanhas, os mouros os fizerão retirar ate ho pé do mafto, & pregarão duas frechas a dõ Antonio de crafto na afte dúa chuça com que pelejaua, & ficarãolhe as mãos pregadas, & affi pelejou ainda hú pouco, & foyfelhe tãto fangue das muytas feridas que tinha que cayo morto, & Simão de foufa, & Manuel de foufa com os outros fizerão ali coufas tão milagrofas que não fe pode contar, & be vingarão fuas mortes affi os que ali morrerão, como os q defpois acabrão fuas vidas é poder dos mouros. E na fúria defta peleja deu hú zaguncho darremeffo a Simão de foufa fobre ho coração, & com a força que leuaua lhe rõpeo as coiraças & ho coraçã & caio morto, & os que ficarão viuos que feriã vinte cinco, em que entrauão Antonio caldeira, & lorge dabreu, fe entre¬ garão, prometendolhes os mouros as vidas, & eles fe derão por nã terem forças nem folego pera fe defenderem, & com efte Simão de foufa aca¬ barão de morrer quatro filhos de Duarte galuão .f. Iorge galuão, Manuel galuão, & Ruy galuã que todos falecerão neftas partes feruindo os Reys de Portugal como feu pay & ante paliados feruirão. Tomada a galé pelos mouros não qrião goardar ho leguro q derão aos Portuguefes, & queriã- nos matar fe os capitães não acodirão que lhos tolherão: & eles vedo que nã podião vingarfe deles dos muytos parentes & amigos q lhes ma¬ tarão, vingarãfe em Simão de foufa q feyto em pedaços ho deitarão ao mar. Tomada affi a galé foy leuada a el rey com os Portuguefes que efcaparão viuos, a q el rey fez muyto gafalhado por diffimular fua mal¬ dade, & fez q lhe pefaua muyto da morte de Simão de foufa & dos ou¬ tros q ele mãdaua chamar pera lhes fazer gafalhado & hõrra como defe- jaua de fazer a todos os Portuguefes de que era grande amigo: & como eles foliem fãos q eícolheffem antre fi algú que folie dizer da fua parte ao capitão de Malaca, q mãdaffe por eles, & pola galé & artelharia, & polo mais que lá téueffe que fora dos Portuguefes, porque tudo daria de boa vontade. E ifto fazia com tenção que ho capitão de Malaca mandaífe algú nauio, & q ho tomaria com a gente que folie nele: & pera mais en¬ ganar os Portuguefes mandoulhes dar muyto boas poufadas & curalos cÕ grãde diligencia, & darlhe todo ho neceliario tão largamete como fe eJteuerão antre Chriftãos.
  • *44 Hijloria da índia CAPITOLO .LXXXIII. De como dó Garcia anrriq\ chegou a Malaca. DOm Garcia anrriquez q ficou na ilha de Banda defpois que foy tempo partiofe pera Malaca, & no caminho tomou hú jugo de mouros Iaos. E auido feguro de Pero de faria que ho não pren- deffe né a nhú dos q forão na prifam de dom Iorge, fe foy a Malaca, onde lhe Pero de faria mandou embargar toda fua fazenda, dizédo q lhe não dera feguro mais q pera ho nã préder. E defpois eftando em Ma¬ laca hús embaixadores del rey de Panaruca, que he na ilha de Iaoa que yão afletar paz & amizade cÕ Pero de faria, fe leuãtou hú arroido antre os criados deftfcs ébaixadores & os Malayos, que foy caula de fe defem- bargar a fazeda de dõ Garcia, & foy defta maneyra. Poufauã eftes em¬ baixadores é húa cerca de taipa junto da pouoação dos Quelís, & paf- fando hú dia hú home da terra per junto defta cerca com hú pouco de dinheiro virãlho hús criados do ébaixador: & tomarãlho por força, ao que acodirão algús da cidade: & eftando em rezões com os q tomarão ho dinheiro q ho tornafle paffou ho meirinho da fortaleza, a q requererão que ho fizeffe tornar, & querédo ho fazer foy fobriflo morto pelos Iaos. E os da cidade vendo ifto fe acolherão cÕ medo, & começafie hú rumor que os Iaos de Panaruca & quãtos morauão em Malaca erão feytos amoucos, & porq atras diffe q coufa fam amoucos ho não digo: & efte rumor chegou á fortaleza, & acodio logo Pero de faria com gente armada cuydãdo q era treiçã, & quando foy achou ja dõ Garcia anrriqz q cõ fete ou oyto Portuguefes da fua companhia acodio ao arroido cõ fuas armas & fez deter os Iaos que nã pafiaflem auante & matou doze deles, pelo que quando chegou Pero de faria ouue pouco que fazer em os fazeré recolher, & tudo fe logo apacificou. E porque dom Garcia acodio a tão bÕ tempo lhe mãdou Pero de faria defembargar fua fazéda dando fiança dús tantos mil cruzados, pera fe dom Iorge de menefes quifefle dele algúa coufa, & afti efcapou dom Garcia em Malaca.
  • Livro VII, Capitolo LXXXII1I 145 CAPITOLO .LXXXIIII. De como el rey de Dacliem mandou cÕ engano di^er a Pero de faria que lhe daria os Portuguefes & a galé. NEste tempo auia guerra antre el rey de Dachem, & el rey dauru feu vezinho. E fabendo el rey Dauru a muyta rezão q os Portu¬ guefes tinhão pera ferem Imigos del rey Dachem, mãdou pedir ajuda a Pero de faria capitão de Malaca, mandãdolhe dizer por feu em¬ baixador como tinha guerra cÕ el rey Dache, & q confiado na amizade q tinha cÕ os Portuguefes do tempo q Iorge dalbuquerq fora capitão de Malaca lhe mandaua pedir ajuda contra el rey de Dache que fabia que era Imigo dos Portuguefes, & q lha auia de dar por mar pera coela pe¬ lejar a fua armada com a del rey de Dachem em quãto eles pelejaflem por terra, & q efperaua de fe vingar dele & vingar aos Portuguefes das offenfas q lhes tinha feytas. E partido efte embaixador del rey Dauru, foy logo fabido del rey de Dachem: do q ele ficou muyto agaftado, por¬ que a fora recear muyto el rey Dauru por fer poderofo de gente, & géte esforçada & guerreyra, auia grande medo de lhe ho capitão de Malaca dar ajuda, porq dandolha era fem nhúa redenção deílruido: & eftaua certo darlha afíi por os males q os Portuguefes tinhão dele recebidos como porque naqla conjunção auia muytos Portuguefes é Malaca, afíi os q eíta- uão dantes, como os que forão cõ Francifco de fá a çúda: & os q leuaua Pero de faria da índia, & os que auia de leuar Marti afonfo de melo jufarte q ainda não fabia que era perdido, porem foubera dos Portugue¬ fes q tinha catiuos q auia dir ter a Malaca. E tedo por certo darfe a ajuda a el rey Dauru, determinou de lhe atalhar com manha que lha não def- fem: fazendo como dize da necefíidade virtude, & requerer amizade ao capitão de Malaca cõ oífrecimento de dar os catiuos & a galé, & todo ho mais q tinha tomado aos Portuguefes. E porq não auéturafle nhú dos feus nefta embaixada, & també porq parecelfe ao capitão de Malaca q tinha võtade de cõprir o q dizia, mandou coela Antonio caldeira, & em fua cÕ- panhia outro Português, & primeyro q ho mandaífe lhe fez muytas mol- tras damizade a fora as q tinha feytas a todos em os agafalhar & curar, & diífelhe a caufa porq ho mãdaua & não a nhú feu, & q fe o capitão de Malaca quifefle q mãdalfe logo pelos outros Portuguefes, & pola galé & artelharia, afíi dela como de húa nao q fe perdera na fua barra, & a que tomara na fortaleza de Pacem: & que não queria outra coufa fe não fua amizade & a dos Portuguefes. E ao tempo que Antonio caldeira che- Tomo IV 19
  • Hi/loria da índia 146 gou a Malaca tinha Pero de faria prometida fua ajuda ao ébaixador del rey Dauru, & quando vio Antonio caldeira & foube ho recado q leuaua ficou muyto ledo parecédolhe que cobraria os Portuguefes que eftauão catiuos, & a gale & artelharia, & que nifto ganhaua mais q em dar ajuda a el rey Dauru: & não ele fómete eftaua coifto muyto ledo mas os mais dos principais da fortaleza, & dõde Pero de faria tinha preftes Diogo de macedo capitão mór do mar de Malaca pera ir por mar com outros capi¬ tães ajudar el rey Dauru começou de ho ter. O q não parecendo bem a Martim correa por fer feu amigo & ter coele credito lhe diífe que viffe bem o q fazia, porq toda aqla amizade del rey Daché lhe parecia fingida, & q não era pera outro fim fe não pera faber fe daua ajuda a el rey Dauru, ou fe fazia armada preftes pera ir vingar a tomada da gale alfi como auia pouco q fe fizera em longú, porq bem deuia ele de faber que auia muyta gente é Malaca. E a rezao por onde lhe parecia q el rey Da¬ ché mandaua mais Antonio caldeira pera faber aqlas duas coufas que cÕ determinação de fazer amizade, era conhecer ele por experiencia que os mouros não cometião amizade fe não quando vião q lhes era muyto ne- ceífaria, & que el rey Daché ainda nã fe vira apreffado dos Portuguefes pera cÕ neceffidade defejar fua amizade, antes ele lhes tinha feytas muy- tas & muy graues offenfas, na morte de Iorge de brito, na tomada da fortaleza de Pacem, na da galé de Simão de foufa & outras, porq nunca ouuera caftigo: pelo q auia deitar muyto foberbo, & não pedir amizade com offrecer tãtas coufas a quê lhe não pedia nhúa, o que lhe fazia fof- peitar o que fofpeitaua. E parecédo ifto bé a Pero de faria, mandou cha¬ mar Antonio caldeira, & lhe refumio perãte Martim correa quanto lhe ele tinha dito, rogandolhe muyto que atentaffe bé fe fe poderia ter aquela fofpeita del rey Dachem. Ao que ele.relpõdeo que não abonãdo ho muyto, & dãdo ho por amigo muy fiel dos Portuguefes, & acreditando ho tanto que diífe q por nhú preço deixaria de lhe tornar com qualquer repofta que lhe deífem pola confiança q nele tinha. O q vifto por Pero de faria, teue por fem duuida q el rey Daché falaua verdade pois Antonio caldeira fiaua tãto dele, q eftãdo liure fe queria tornar lá fem receo de ho cati- uaré: & mais porq dilatado ele a repofta a el rey de Daché, lhe diífe Antonio caldeira q fe a mais dilataífe & ho não quifeífe mandar a Daché q ele fe iria, porq auia de cõprir o q prometera a el rey de Daché & aos Portuguefes que ficauao coele de tornar com a repofta. E quãdo Pero de faria vio fua determinação, acabou de todo crer q ele tinha por ver- dadeyro o que el rey de Daché lhe mandaua dizer, & defpachouho logo efcreuendo a el rey de Daché que folgaua muyto com fua amizade, & q a aceitaua em nome del Rey de Portugal, & dali por diante teria nele
  • Livro VII, Capitolo LXXXV 147 hú bÕ amigo, & receberia dele fauor & ajuda quando lhe fofle neceffario, & que logo mãdaria pelos Portuguefes & polo mais q dizia, & com a confiança que tinha de fua amizade, não queria dar ajuda a el rey Dauru que lha mandaua pedir contrele, & que diffo poderia eftar feguro, & mandaua hú Português cafado em Malaca que fabia bem a terra & a lin- goa dela que leuafie Antonio caldeira em hú balanço & ho pofeffe no reyno de Pacem onde eftaua el rey de Dachem & lho entregafle. E par¬ tidos de Malaca forao ter a húa ilha, onde fazédo agoada forão mortos polos moradores dela que erão mouros, pelo que el rey de Dachem não ouue repofta. CAPITOLO .LXXXV. Do q paffou antre Pero de faria & el rey Dauru, & el rey de Dachem. DEspedido Antonio caldeira pera Daché, como Pero de faria tinha aíTétado de nã dar ajuda a el rey Dauru defpedio ho feu embai¬ xador refpõdendo que não podia ajudar a el rey Dauru contra el rey de Dachem por amor dauer aqueles Portuguefes que tinha catiuos, & por cobrar a muyta artelharia q tinha del Rey de Portugal que fe iífo não fora que ho ajudara de muyto boa võtade, & ajudaria cõtra qual¬ quer outro rey. E ouuindo ho embaixador efta repofta tão fora do que efperaua, & defpois de ho deterem tãto tempo como ho deteuerão ouue muyto grande menencoria pofto q ho diflimulou. E fem mais fe defpedir de Pero de faria fe partio húa noyte muyto fecretamente, do que pefou muyto a Pero de faria, parecendolhe que ya agrauado, & que el rey Dauru ho ficaria dele: o q ele não queria porque fabia que el rey Dauru era leal amigo dos Portuguefes, & grande feruidor del Rey de Portugal, & por iffo delejaua de ho poupar: & pera ho temperar de feu agrauo, mandou lá a hú Fernão de morais capitão du galeão como ho que man¬ daua em feu fauor, & cõ grandes difculpas de lhe não dar logo ajuda. E chegado ho embaixador del rey Dauru a ele antes que Fernão de morais lá chegaífe, lhe deu a repofta de Pero de faria, de que el rey ficou muyto agaftado, & porque fe temeo que defle ajuda a el rey Daché, defpachou logo fua armada que tinha preftes que foffe pelejar com a del rey de Da¬ ché que eftaua no porto de Pacem: & indo pera lá topou no caminho hú paraó em que ya hú Português daqles q el rey de Daché tinha catiuos por qué ho mefmo rey mandaua dizer a Pero de faria q mãdaffe logo polos outros Portuguefes, & pola galé & artelharia: & ifto porq Antonio caldeira tardaua cõ a repofta, & parecialhe q Pero de faria nã queria fua amizade, por amor dos dãnos q tinha feytos aos Portuguefes, & qria
  • 148 Hijloria da índia antes a amizade del rey Dauru & darlhe ajuda pera ho deftruiré ambos. E coeíta fofpeita feruia, & pera fe tirar dela tornou a mandar aquele Português, q topando ho os Aurus, como fabião que ho feu rey não eftaua bé com os Portuguefes tomarão efte & mandarãno a el rey Dauru, que fabédo dele ao que ya não ho quis deixar ir, porq Pero de faria coefte recado não fe apreffaíTe a focorrer el rey Daché. E nifto chegou Fernão de morais ao porto dondeftaua el rey Dauru: que como não era amigo dos Portuguefes não quis mandar recado a Fernão de morais, ãtes de- fendeo que ninguém foffe ao galeão. E paffando quatro dias que Fernão de morais eftaua no porto fem peífoa nhúa da terra ir a bordo, determi¬ nou com quãto lhe aquilo pareceo mal de fe auéturar & ir falar a el rey, o que lhe foy contrariado, dizendo que poderia fer que el rey eftaria agrauado de Pero de faria pola ajuda que lhe não quis dar, & por iffo não quereria que os Portuguefes foffem a fua terra ne conuerfalos, & que indo a terra fem feu recado lãçaria mão dele, & ho prenderia por iffo que não foffe. E como Fernão de morais era muyto esforçado & auentu- reyro não quis deixar dir: & chegado diante del rey, foy dele muyto bé recebido & agafalhado, & moftrou receber bem as difculpas de Pero de faria, & que não lhe pefaua de fua amizade com el rey Dachem por amor das caufas q dizia, antes folgaua muyto de cobrar por aquela via os Portuguefes, galé & artelharia, & que nem por iffo deixaua de fer feu amigo & ho feria fempre. E ifto tudo era fingido, que como vio Fernão de morais logo determinou de ho préder & tomarlhe ho galeão fe a fua armada desbarataffe a del rey de Dachem, & ifto por fe vingar da ajuda que lhe Pero de faria não deu. E com tudo quis efperar fe vécia a fua armada ou não, porque não vencendo queria ficar amigo com os Portu¬ guefes, porq ficando mal coeles receaua q fe ajútaffem cõ os Dachés & ho deftruiffem, & deteue Fernão de morais oyto dias dando lhe a enten¬ der q ho tinha pera fe fauorecer coele contra leus Imigos, & a cabo dos oyto dias lhe foy noua que a fua armada pelejara com a del rey Dachem, & q nhúa vencera & fe apartarão fem mais pelejarem & a fua fe tornaua, & logo deixou ir Fernão de morais & lhe deu ho Português que leuaua ho recado del rey de Dachem, que tinha reteudo ate também ver em q parauão aqles negocios, & por não ferem a fua võtade ho foltou, & mã- dou dizer a Pero de faria o que ja tinha dito a Fernão de morais que quãdo chegou ao galeão achou q ho meftre & a outra géte fe querião ir defefperados de ele tornar, parecendolhe que era catiuo, & receando que foffem os mouros tomar ho galeão. E vendo el rey Dauru que fua ar¬ mada não vencera a del rey de Dachem não quis pelejar coele por terra, nem menos el rey de Dachem quis coele guerra, parecendolhe que ho
  • 149 Livro VII, Capitolo LXXXVI auião dajudar os Portuguefes por não ter ainda repofta de Pero de faria, & logo fe concertarão ambos & fe fizerão amigos. E como a amizade del rey de Dachem cõ Pero de faria era fingida por amor da guerra del rey Dauru como fe vio dela defapreffado, não quis mais amizade com Pero de faria né darlhe nada, & pefoulhe dos Portuguefes que tinha manda¬ dos: o que Pero de faria não foube porque por nã poder não mandou a Dachem, & por lhe parecer que tudo eftaua certo pera de cada vez que lá mandaffe, & fe então foubera a verdade & mãdara lá húa armada el rey de Dachem cumprira o que tinha prometido ou fora deftruido. CAPITOLO .LXXXVI. De como Nuno da cunha partio pera a índia por gouernador dela. NEste anno de mil & quinhentos & vintoyto mandou el Rey dom Ioão de Portugal por gouernador da índia hú fidalgo chamado Nuno da cunha védor da fua fazenda, q por amor da grande inuernada que foy aquele ano não pode partir fe não a dezoyto Dabril, & leuou húa armada de noue naos grolfas & hum galeão, & hú nauio redondo. Das naos forão capitães a fora ele, Simão da cunha feu irmão que ya por capitão mór do mar da índia, Pero vaz da cunha tambe feu irmão q leuaua a capitania de Goa, Garcia de fá q leuaua a de Malaca, dõ Fernãdo de lima de Sãtarem q ya por capitã mór das tres naos do trato de Baticalá pera Ormuz, dõ Frãcifco deça, Frãcifco de medoça, Ioão de freytas & Antonio de faldanha: do galeão Bernaldl da filueira, do nauio afonfo vaz azãbujo. E nefta armada forã tres mil homés dar- mas em que entrauão muytos fidalgos & criados del Rey a mais luzida gete que ate aqle tempo fora á índia. Partida efta armada antes de che¬ gar ás ilhas das Canarias ãtre as noue horas & as dez do dia fe foy a nao de Ioão de freitas ao fúdo porq abrio da popa ate a proa de duas pancadas que lhe deu a nao de Simão da cunha, & ifto por culpa do piloto da nao de Ioão de freitas, & em obra de húa hora fe écheo dagoa que não fe pode lançar ho batel fora & ho efquife efcaífamente, em que fe meteo Ioão de freitas cõ algús, & fobrifto & fobre fe tomarem arcas & tauoas pera cada hú fe faluar ouue muytas cutiladas, de q muytos morrerão: & foy piedofa coufa de ver hú homé cafado que leuaua fua molher & tres filhas moças, que vendofe fem efperança de faluação íe abraçarão todos cinco: & dãdo gritos que chegauão ao ceo fe forão cõ a nao ao fundo: o q os das outras naos entenderão quãdo a virão meter debaixo dagoa que ateli não 1'abião nada do que palfaua por irem húa
  • i5o Hijloria da Índia legoa dela ou pouco menos. E entendendo o que era acodirão os capi¬ tães em os efquifes com q faluarão bem cincoenta peffoas q andauão pe¬ gadas é arcas & é tauoas, & afogarãfe na nao cento & cincoenta, & Nuno da cunha nã caftigou ho piloto da nao de Ioão de freitas q efcapou porque nã foube a verdade de como aquilo fora que lhe foy encuberta. E proíleguindo em fua viagé foy fazer agoada na ilha de Sãtiago, Õde achou menos ho galeão de Bernaldim da ftlueira que cuydou que achaffe ali porque defapareceo logo ao fair da barra de Lisboa, & indo por fua rota foy ter ao parcel de çofala onde deu em feco, & foy morta a gente pelos cafres. E fazendo Nuno da cunha agoada na ilha de Santiago, & tomados os mantimétos que lhe leuauão duas carauelas que ateli forão coele tornou a fua viagem, & na cofta de guiné deixou a nao Dantonio de faldanha por fingrar menos que todas as outras & perderem viagem por efperaré por ela: & diffelhe pelo feu piloto que fe ficaífe com a bé- ção de Deos, porque bem via quão tarde era, & que perdião viagem por fua caufa, & que melhor feria perderfe húa nao que todas: & coiíto deu os traquetes que leuaua amainados & ho mefmo fizerão as outras, o que vendo os que yão com Antonio de faldanha ficarão muyto triíles de fe verem ficar, o que eu vi por ir na nao. E dãdo ho gouernador os traque¬ tes com as outras defaparecerão em pouco efpaço, & Antonio de falda¬ nha mandou tantas vezes mudar a carrega da nao da popa a proa, & affi pelo contrairo que lhe acertou ho cõpaflò: & fingrou dali por diante muyto be. E nifto & em vigiar a nao fem dormir de noyte nê fe defpir, & em a fazer andar mais do que ho piloto & meftre fazião & em a fegu- rar, & em ter muyto grãde cuydado de curar os doétes foy tão fingular capitão que mais não podia fer. E defpois da ajuda de noffo fenhor por fua diligencia foy efta nao aquele anno á índia fegúdo os eftoruos que teue pera não ir. E feguindo Nuno da cunha fua rota nã leuãdo e fua conferua mais q Pero vaz da cunha & dõ Fernãdo de lima & Afofo vaz Ido na volta do cabo de boa Efperãça lhe deu hú temporal de fui q du¬ rou húa noyte & hú dia ate vefpera, & em acabando forão ter coele An¬ tonio de faldanha & dõ Francifco deça, que auia dias que yão em com¬ panhia, & forão recebidos com grande fefta. E indo aífi em conferua lhe deu aos feys dias de Iulho na paragem do cabo outro temporal de fui que durou vinte quatro horas, & poderão as naos fofrer ho pairo ate ho quarto dalua em q ho veto foy em tanto crecimento q a Nuno da cunha lhe foy forçado arribar porq era ho mar tão groífo que ho comia, & affi arriba¬ rão as outras naos faluo a Dãtonio de faldanha, que como era noua quis noffo fenhor q pode fofrer ho pairo, & iffo foy també caufa de paffar á índia. E arribando Nuno da cunha foy correndo com aquele temporal
  • Livro VII, Capitolo LXXXVII i5r ate que acalmou & achoufe com Pero vaz da cunha & com dom Fernãdo de lima. E os outros capitães forão por effe mar ate que tornarão a fazer viagem. E achãdofe Nuno da cunha cõ feu irmão & com dõ Fernãdo, acordou coeles que por quanto era tarde & yão em rifco de não paffar á índia, q por poupare caminho foffem por fora da ilha de lam Lourenço, & afli ho fizerão: & do Francifco deça & Frãcifco de mendoça & Afonfo vaz que fizerão feu caminho por dentro forão ter a Moçãbiq, faluo Afonfo vaz q fe perdeo nos ilheos de Moçambique & faluoufe toda a gente, & dom Francifco deça & Francifco de mendoça acharão em Moçambique a Simão da cunha, & por fer paffada a moução não poderão paffar aa índia, & inuernarão hi. E Garcia de fa que antes do primeyro temporal fe apartou da cõferua, defpois de fe ver quafi perdido cõ a fegunda tor- menta feguio fua rota, & paliando muyto trabalho de fome & de fede cõ que lhe morreo muyta gente chegou aa cofta da índia hú fabado dezafete Doutubro com tanta neceífidade dagoa que não leuaua mais que húa pipa dela. E defpois dele oyto dias chegou Antonio de faldanha que també paffou alfaz de trabalho com fome & fede, de q lhe adoeceo quafi quanta gete leuaua & lhe morrerão perto de feífenta peífoas, & foy por fora, & por fazer prouifam na agua que leuaua pouca, bem hú mes fe não deu a cada peífoa mais q hú quartilho dagoa cada dia, & por paffar aa índia não tomou nhúa agoada por fe não deter: & chegou a Baticala hú fabado vinte quatro Doutubro, & dali foy ter a Cochim. CAPITOLO .LXXXVII. De como fe perdeo a nao de Nuno da cunha. PAssada a tormenta que dilfe com que fe as naos efpalharã, Nuno da cunha cõ pero vaz da cunha & dom Fernãdo de lima feguirão por fua rota, & com muyto roym viagem de ventos cõtrairos & calmarias foy ter aa ilha de fam Louréço quafi na fim Doutubro, & fur- gio na barra do rio de Santiago pera fazer agoada, & ali foy ter coele hum Português q lhe contou como efcapara da nao de Manuel de lacerda que fe perdera ali em hú baixo por culpa do feu piloto, & a gente fe fal- uara na terra por fer perto, & Manuel de lacerda fe deteuera hú anno efperando que fofiem ali ter algúas naos que os tomaífem: & q aueria dous mefes que andara hi húa nao oyto dias, de dia a terra & de noyte ao mar, & que cada noyte lhe fazião fogos em cruz pera que foubefle que eftauão ali Chriftãos, & nunca chegara a terra, & defpois defapare- cera. E efta era a nao Dãtonio de faldanha, & não quis chegar pofto que
  • 152 Hijioria da índia vio os fogos, porque fabia que també os mouros os fazião pera engana¬ rem os Chriftãos & os fazerem chegar a terra, & fe perderem em muy- tos baixos & reítingas que ha ao longo dela. E diffe mais aquele Portu¬ guês que defaparecida efta nao ficarão Manuel de lacerda & todos muyto triftes, por não efperarem tão cedo por outra nao. E porque a terra era muy pobre de mantimentos, & não fe podião manter: & também porq ho mais certo caminho das naos Portuguefas era pola outra bãda da ilha acordarão de fe paífaré lá, & feytos em duas quadrilhas foy cada húa por feu cabo: & ele por eftar doente fe deixara ali ficar, & que a gente da terra lhe fazia muyto boa companhia, & dela foubera como chegarão aquelas tres naos. E fazendo Nuno da cunha & os outros capitães agoada, em húa terça feyra que auia quatro dias que ali eítaua, eftando os bateis détro no rio, leuantoufe hú traueífam com que a nao de Nuno da cunha começou de caçar pera terra, & por eftar fobre húa fó ancora lãçarão outra, & defpois outras ate feys que não auia mais & todos os auftes delas trincarão, & era por fe roçarem por penedos que eftauão debaixo, & com a grande força que leuauão pelo pefo das ãcoras trincauão logo. E não auedo ancoras que teueffem a nao, caçou tanto pera terra, que deu fobre húa area Õde fez affento & abrio, encheofe dagoa, & ho melmo ouuera dacontecer á nao de dom Fernãdo de lima fe não teuera hú aufte de cairo que teue mão, porque també outros de linho trincarão, & os efquifes que erão por agoa détro ao rio nunca poderão acodir por ho véto fer traueffam & na boca do rio fazer ho mar tamanho efcarceo que não poderão fair, né fairão ate não acalmar ho vento, & a nao por a reftinga fer baixa não ficou cuberta dagoa mais que ate a ponte, & dali pera baixo tudo fe perdeo, & a gente fe faluou toda, & Nuno da cunha fe paffou com parte dela pera a nao de Pero vaz da cunha, & a outra fe apoufentou na de dom Fernado, & tirados os maftos & vergas a efta nao, & queymado quanto parecia fobelagoa, Nuno da cunha fe partio caminho da índia a dez de Nouembro & foy ter antre as ilhas de Zanzibar, & húa noyte entrou em húa enfeada grande que fe fazia antre a ilha de Zanzibar & outra. E quando veo pola manhaã nem os pilotos poderão entender por onde entrarão, né por õde auião de fair: porque os canais por õde entra¬ rão & por õde auião de fair erão tão eftreitos que não fe enxergauão com ho mar que arrebentaua em frol. E defpois de defefperarem de não poderem dali fair & eftarem em muyto rifco de fe perder, mãdou Nuno da cunha a Manuel machado capitão dos feus alabardeiros que foffe a terra com algús deles a tomar lingoa pera faber ondeftaua, & ele foy no efquife da nao & quifera fair em húa pouoação de q logo os negros aco- dirão bem armados de frechas & paos toftados, & pelejando coele ho
  • Livro VII, Capitolo LXXXVII i53 fizerao recolher por força, & fobriffo lhe matarão hú gormete & ferirão outros homes: o que fabédo Nuno da cunha, fez confelho fobre o que faria, & feu irmão Pero vaz fe conuidou pera ir a terra, õde foy no ba¬ tel com certos fidalgos & outros homés todos armados. E vedo os a gente da terra daquela maneira fugirão & defpouoarão ho lugar: do q Pero vaz fe agaftou muyto, & diífe a todos que bem vião ho perigo em q as naos eftauão, & quãta neceffidade tinhão de tomar quê as tiraífe dali, & pois os negros não querião efperar era neceflario tomarenos por manha: & efta feria ficarem em terra embranhados algús dos noffos, & os outros fizeífem que fe tornauão no batel á nao, porque como foffe noyte os ne¬ gros auião de tornar á pouoação, & os q ficalfem embranhados poderião tomar algú que lhes diífefle ondeftauão, ou lhes deífe maneyra pera fe * tirarem dali. E a ifto não refpondeo ningué, faluo hú mãcebo fidalgo chamado Diogo de melo filho de Ioão de melo abade de põbeiro q diffe ele ficaria com hú feu irmão Tristão de melo, & com hú feu criado que auia nome Ioão rodriguez. O que lhe Pero vaz teue muyto em merce, louuando ho por iflo grandemente, & prometendolhe de ho dizer a Nuno da cunha pera lhe fazer merce: & Diogo de melo lhe dilfe que viffe como ficaua, & tanto que foffe noyte que acodiffe á praya diante daquela pouoação ondeftauão pera ele ter õde fe faluaffe, que bem fabia que fe auia de ver em perigo, porq não auia de vir de terra fem tomar lingoa: & coifto fe foy embranhar com feu irmão & cÕ ho outro, & Pero vaz mandou remar ho batel pera as naos. E vendo ho os da terra ir cuyda- rão que fe tornauão, & por ifto em anoytecedo fe forão pera a pouoação: & fintindo Diogo de melo que tornauão fayo do mato cõ Triftão de melo & Ioão rodriguez, & apanhou hú mouro q ya fó, que vendo os noffos ouue tamanho medo que fe calou, porque eles também ho ameaçarão com as efpadas nos peitos q ho matarião fe bradaffe ou não quifeffe an- . dar. E coifto derão muy afinha coele na praya onde a borda dagoa acha¬ rão Pero vaz no batel. E vendo todos ho mouro que era hú velho forão muyto ledos, porque diffe a Pero vaz pelo lingoa defpois que perdeo ho medo, que fe ho não tomarão q nunca as naos ouuerão de 1'air dali ainda que tomarão outro, porque ele era piloto daquela cofta, & q as auia de tirar, & ho mefmo diffe a Nuno da cunha defpois q foy coele que deu a Diogo de melo muytos agardecimentos pelo que fizera, & lhe prometeo que como gouernaffe a índia lhe daria a primeyra coufa que vagaffe que coubeffe nele, porq fizera hú muyto grande feruiço a Deos & a el Rey em lhe trazer aqle piloto: do que os q forão cõ Pero vaz ouuerão grande enueja, & lhes pefou muyto de não fe offerecerem a embranharfe como fe ele offreceo. E certo q defpois de nolfo fenhor ele foy caufa de fe as Tomo IV 20
  • i54 Hijloria da Índia naos faluarem em tomar aquele piloto, & ao outro dia ho piloto mouro tirou as naos daquela enfeada por hú canal tão eftreito que todos fe efpantauão de como podião por ali fair, & dali forão ter ao porto de Zan- zibar, ondefteuerão algús dias refrefcando por fer a terra muyto pera iílo como diíle atras. E defefperando Nuno da cunha de poder palTar á índia por fer vinda a moução dos leuantes que era contraíra pera fua nauega- ção, & lhe era forçado inuernar em algú lugar daqla cofta, determinou de fer em Mombaça por ter muyto bõ rio pera eftarem as naos o que não podia fer em Melinde por fer cofta braua, & as naos correré muyto perigo, & por iffo não podia hi ter ho inuerno. E affentado nifto, deixou em Zanzibar bem duzentos doétes que leuaua por ir mais defpejado, & por fer a terra muyto fadia & abaftada pera eles ali ficarem. E pedio a hú fidalgo chamado Aleixo de foufa chichorro q ficaffe por feu capitão, o que ele fez de muyto boa võtade por feruir el rey. E Nuno da cunha fe partio pera Melinde, onde foy muyto bé recebido del rey, & hi achou Diogo botelho pereyra capitão de húa naueta em que fora bufcar dõ Luis de menefes fe parecia por aqla cofta, porque auia fofpeita q não era per¬ dido & eftaua ali com a gente da fua nao, & daqui mandou Nuno da cunha pedir licença a el rey de Mombaça pera inuernar no feu porto dã- dolhe a rezão porque não podia fer em Melinde, & fazendolhe muytos offrecimentos. Mas el rey de Mõbaça parecendolhe que aquilo era ma¬ nha pera lhe tomaré a cidade nã a quis dar, pelo que ele determinou de lha tomar & ter hi ho inuerno. CAPITOLO .LXXXVIII. De como Nuno da cunha tomou a cidade de Mõbaça. Edãdo parte defta determinação a feu irmão & a do Fernãdo a que pareceo bem, alfentou em confelho que ho deuia de fazer. E feyto alardo da gente que tinha achou oytocentos Portuguefes & bem duzétos mouros da índia noffos amigos que inuernauão em Melinde que forão coele, & feys centos com que ho ajudou el rey de Melinde: & par¬ tio hú dia atarde com quatro velas: a capitaina, a de dom Fernãdo de lima, a de Diogo botelho pereyra & a dos mouros. E chegãdo ao outro dia pola manhaã á barra de Mombaça furgio, & furto mandou fondar a barra por Pero vaz da cunha q foy no batel da nao bem artilhado & forão coele corenta homés de que algús erão fidalgos .f. Anrrique de foufa chi¬ chorro, Diogo botelho pereyra & outros: & na entrada da barra que era ho mais eftreito dela acharão que eftaua hú baluarte de pedra, & q tinha
  • Livro VII, Capitolo LXXXVIII i55 oyto bombardas que os mouros que eftauão nele defpararao logo em vedo ho noffo batel que por fer rafteiro, & paliar muyto rijo ho não poderão pefcar: & paliando auãte foy íurgir no lugar onde as naos auião de fur- gir que era perto da cidade, & efte final auia de ter Nuno da cunha pera entrar íem Pero vaz tornar a darlhe recado, porq das naos podião ver onde furgia, pelo que Nuno da cunha começando de ventar a viração disfirio as velas leuadas as ancoras, & ho meímo fizerão os outros & en¬ trarão pera dentro, & tirarãlhe do baluarte mas não lhe fizerão nhú dãno, & Nuno da cunha não mãdou tomar ho baluarte por moftrar aos mouros q ho não tinha em conta, & lhe fazer crer q lhe não queria fazer guerra & confentiffe el rey por bem que inuernalie ali, & por iífo efperou aqle dia ate noyte fem mandar tirar á cidade pera ver fe lhe mandaua algú recado, mas ele eftaua bem fora dilio, & adi lho aconfelhauão os feus, & diziãlhe q quãdo fe não podelie defender que melhor era deixar a cidade que darlha por fua vontade, & que hi lhe ficaua paliado ho inuerno q os Portuguefes fe auião dir. E coefte propofito defpejarão a cidade da fazêda & da gente que não ficou mais q a de peleja. E vedo Nuno da cunha que el rey eftaua em feu fer & não lhe mandaua recado defenganoufe que queria guerra, & pera faber Õde teria melhor delembarcação, como foy noyte mandou a Pero vaz que ho folie ver. E chegando ele diante da cidade q os mouros ho fintirião fairão muytos á praya & tirauão muy- tas frechadas cõ frechas heruadas q ferirão algús Portuguefes, & Pero vaz fe tornou a Nuno da cunha, a que dilfe que auia húa praya em q podia bê defembarcar pofto q auia de fair a gete por agoa que daria pola cinta, & dali a duas horas chegou á capitaina hú mouro de Melinde que vinha da cidade & dilfe a Nuno da cunha que fe goardaífe de defembar¬ car na praya que auia de fer coufa perigofa pola detéça que a gente auia de fazer em chegar a terra, & que entre tanto a frecharião os mouros porque aífi ho tinhão determinado: por ilfo q deuião de defembarcar junto de húa mezquita qftaua abaixo da praya em q defembarcaria fé nhú pe¬ rigo por fer ali alcantilado, & que ele moftraria efte lugar. E dilfe mais que os mouros ferião tres mil de peleja, & que não tinhão mais que húa eftancia de fora de húa das portas da cidade com quatro ou cinco bom¬ bardas de ferro, & que ho bombardeiro era hú Português, & q auia an- treles algús efpingardeiros, & q eftauão com grande medo q lhe parecia que auião logo de fugir. Sabido ifto por Nuno da cunha, cõcertou cõ feus capitães de dar ao outro dia na cidade & deu a diãteira a Pero vaz da cunha com feyscétos Portuguefes & trezétos mouros, & muytos deftes Portuguefes erã efpingardeiros, & era feu capitão hú fidalgo chamado Fernão coutinho que defpois foy por terra da índia a Portugal, & Nuno
  • i56 Hiftoria da índia da cunha com os outros capitães & refto da géte lhe auião dir na retro goarda. E ao outro dia em amanhecédo defembarcarão na mezquita onde os guiou ho mouro de Melinde, que feria da cidade hú tiro de béfta ou pouco mais, & fem acharem ali refiftencia (porque os mouros os efperauão na praya) feguirão pera a cidade que era cercada de muro baixo, & forão contra a porta onde de fora eftaua a eílancia que ho mouro differa, em que eftauão duas bõbardas de ferro que tirarão algús tiros. E vendo ho bombardeiro q os noífos fe chegauão, fugio com medo & affi os mouros que eftauão na eftãcia fe recolherão á cidade. E vedo el rey que contra os Portuguefes nã auia defenfa fugio da cidade cÕ toda a gente, & como a preífa foy grande que não podião leuar o que tinhão deixarão muyta parte dele foterrado, & outra leuarão & lhes ficou por hi. E el rey fe pos na mefma ilha mea legoa da cidade cõ feu arrayal bé fortalecido. Ç não achãdo Nuno da cunha nhúa refiftencia nos mouros, não os quis feguir & mandou roubar a cidade em que ho mais que fe achou forão mantimétos, poré algús acharão dinheiro com q fe tornarão dali pera Portugal no nauio de Diogo botelho. E tomada afli a cidade fé morrer ninguém dúa parte & da outra, fez Nuno da cunha algús caualeiros, & defpois mandou fortalecer algúa parte dela atraueífando as ruas cõ tranqueiras: porq pera quão poucos os noflos erão ficaua ela muyto grande, & não a podião defender toda: & temiafe Nuno da cunha que os mouros lhe correffem por quão perto eftauão. E fortalecida aquela parte da banda do mar com fuas eftancias & gente que as goardaffe, apoufentoufe nos paços del rey, & dahi a algús dias mandou tomar ho baluarte da barra em que ainda eftauão mouros, & mandou a iffo dom Rodrigo de lima irmão de dõ Fernando de lima, que com os que leuaua tomou ho baluarte matãdo & catiuando a mór parte dos mouros q ho goardauão, & tomandolhe fua artelharia, & foy ferido dõ Rodrigo de húa frechada & afli algús outros: & ele morreo defpois da ferida por fer a frecha heruada. E dali por diante como os mouros eftauão tão perto da cidade, & a mayor parte dela efteuefle defpejada, vinhão correrlhe de dia & de noyte, & como não achauão refiftécia da parte do fertão defauergonhauãfe tãto que entrauão dentro, & hús leua- uão o que lhes ficara efcondido, outros chegauão ate as tranqueiras q os noflos tinhão feytas nas ruas: & querião paliar por elas, & afli ho fizerã© fe pelos noflos lhe não fora defendido q lhes refiftião forteméte: & fe os noífos não teuerão neceflidade de pelejar na tomada da cidade aqui teue- rão tanta q os mais dos dias & das noytes ho fazião, porq os mouros erão tão fobejos que continuaméte vinhão, & muytas vezes tomauão os Portuguefes comendo & erão feridos muytos de húa parte & doutra. E
  • Livro VII, Capitolo LXXXVIII í57 húa vez fayo do Fernando de lima com tamanha preíTa que foy fem capa¬ cete cõ hú chapeo de frifa, & paffãdolho com húa frecha ho ferirão na tefta: ao que ele diífe muyto alto. Amores de minha molher por moftrar que não fentia a ferida, & pelejou também com os q ho ajudauão que fez fugir os mouros de que ficarão algús mortos. E fendo os Portuguefes tão perfeguidos coeftes continos rebates, afrontauaffe Nuno da cunha diffo, & tinhão por grande injuria, & porque não fabia quantos os mouros erão & os noffós feré poucos não oufaua de mãdar dar no arrayal pera os fazer afaftar dali: & defejãdo de tomar lingoa pera que foubeífe o q digo, encomendou a Diogo de melo de que diífe atras que lha tomaífe, porque tinha nele confiança que ho faria, & ele lho prometeo, & forão coele Trif- tão de melo & outros dous homés & húa noyte fe deitarão em cilada perto do arrayal. E eftando aífi forão ter coeles dous mouros de que tomarão hú, & em no tomando deu tamanhos brados antes que lhe po- deífé tapar a boca q foy ouuido no arrayal, õde ho aluoroço foy muyto grande, & começarão todos de fe reboluer pera acodir: o que fentindo Diogo de melo quifera tomar ho mouro ás coftas & leualo: mas era tão gordo que nunca ele né nhú dos outros ho poderão leuantar. E vedo ele ífto, & que dali á cidade era mea legoa, & que ho não auia de poder leuar contra fua vontade porq os mouros vinhão matou ho & cortoulhe hú braço que leuou pera teftemunho do que fizera, & perto da mea noyte chegou aa cidade coele & por Nuno da cunha dormir deu ho braço ao feu camareyro, & ao outro dia lhe contou o que fizera: & querédo laa tornar pera ver fe podia tomar lingoa não ouue diffo noceflidade, porque os mouros não tornarão mais, que vendo que os Portuguefes chegauão de noyte ao feu arrayal pareceolhes que lhes punhão cilada, & ouuerão tamanho medo que dali por diante não yão á cidade 1'e não com muyto tento, & fe dauão rebates era poucas vezes, de modo que os Portuguefes ficarão liures da afronta em que dãtes eftauão polo bõ esforço de Diogo de melo. E auendo ja dias què Nuno da cunha ali eítaua começarão os noffos dadoecer & morrer por ler a terra doentia, & em todo ho inuerno que durou ate fim de março morrerão trezentos & fetenta Portuguefes antre os quaes morreo Pero vaz da cunha & outros muytos fidalgos & caualeyros.
  • Hijioria da índia i58 CAPITOLO .LXXXIX. Do q ho gouernadór fe\ ejle inuerno em Goa, & de como fe perdeo híía armada no rio de Chatua. INuernãdo ho gouernador Lopo vaz de fam Payo eíle luerno do ano de vintoyto na cidade de Goa não quis prouer a fortaleza de capitão, & ele mefmo ho foy pera tirar algúas tiranias que fabia q fazião os capitães, aífi como dar fentéças por dinheiro, porq os juyzes não podião defpachar os feytos fe não coeles, leuar húa tãga de todos os caualos que yão Dormuz: & irião fempre hús ãnos pelos outros paffante de dous mil caualos, de todos os feguros q dauão ás naos Dormuz quãdo fe tornauão hú pardao por cada vinte candis, & auia nao q pagaua cincoéta pardaos, & mais húa tanga de cada peífoa, & nã auia anno que não foffem a Goa fefienta fetéta naos & leuaua cada húa muyta gente. E eítes tributos que os mouros fentião muyto mais q os que pagauão a el rey na alfandega tirou ho gouernador, de q os mouros folgarão tanto que no anno feguinte forão a Goa muyto mais naos que ateli & a renda dalfandega teue muyto grande crecimento, & aífi concertou outras miudezas que erão muy ne- ceflarias pera bÕ regimento da cidade & nobreza dela. E porque auia algúa falta dos mantimentos q yão do Bagalate por os Tanadares do Hi- dalcão os antreteré, mãdoulhe fobriíTo húa embaixada per Trilião de gá, cõ hú preféte dú arnes inteiro laurado de romano cÕ medalhas & folhagé, duas maças de torneo de prata dourada & húa forna de coral groflo, mã- dãdolhe offrecer fua ajuda fe lhe folie neceffaria. Do q o Hidalcão fe moftrou muyto cõtéte, & defpachou ho com muytos agardecimetos: & prouifões pera os tanadares q deixaliem paliar pera Goa quantos mãti- métos lhe leualiê & cortar na terra firme toda a madeira q quifelie: cõ o q foi a cidade bé prouida. E porq não faylfe de Calicut né de feu feno- rio nhúa piméta, mãdou o gouernador Simão de melo cõ hú galeã & cinco bargãtls a goardar a coíta, & ele ficou efperando por Antonio de mirãda q chegou na fim de fetébro. E foylhe recado de do Ioã deça ca¬ pitão de Cananor q a vinte de fetébro fe perdera húa armada q fayra de CochI de treze bargãtls & catures & húa galeota: & cõ hú fupito tra- uelfã dera toda á colla na boca do rio de Chatuá na coíta de calicut & fe efpedaçara, & a géte fora toda morta & catiua pelos mouros: pelo q el rey ficara muito foberbo & fazia húa grolfa armada: cõ cujo fauor os mouros de Cananor andauã muito aluoroçados: por iífo q failfe de Goa ho mais cedo q podelie.
  • Livro VII, Capitolo XC i59 CAPITOLO .XC. Como o gouernador desbaratou Cutiale de Tanor. SAbido ifto pelo gouernador é feis dias fe acabou de fazer preftes: & partio de goa ho j. doutubro deixado por capita Antonio de mirada q defcãçafe do trabalho q leuara no eftreito. Fora coele eftes capi¬ tães nos feus galeões Fernã rodriguez barba, lopo de mezquita, Anrriq de macedo, Antonio de lemos a q deu ho galeão Dantonio da filua: leuou mais é fua conferua ate fete bargãtins q não auia mais é Goa, & ele foy no galeão fam Dinis. E chegãdo antre mõte Deli achou Simão de melo feu fobrinho q lhe diífe q tinha auifo de dõ Ioão deça capitão de Cana- nor, q eftaua em Termapatão húa frota de Calicut de cxxx, velas .f. fef- fenta paraós be armados & artilhados & as outras pagueres & naos de carga q leuauã efpeciaria a meca: & os paraós yão e fua goarda ate fere fora da coíta da índia: de q era capitão mór Cutiale de Tanór valete caualeyro q tinha por f&õ por chegar entã da cafa de Meca. E fabedo ho gouernador eíta noua dilTe q fe foifem lãçar ao mar da baya de cana- nor q ali qria pelejar: porq dãdolhe noffo fenhor vitoria como efperaua, queria q a vifiem os mouros. E fezfe alarmar cõ os galeões: & os bar- gantins roãdou que foliem ao longo da cofia: & affi foy furgir onde digo á boca da noyte: & logo mãdou Siqira ho malabar capitão dú catur a faber noua da armada dos mouros fe ya, ou q fazia pera a ir bufcar fe não vieífe logo. E ele a achou no caminho: porque fabendo Cutiale que Simão de melo andaua a monte Deli com tão poucas velas, determinou de ho ir tomar parecendolhe q ho podia fazer cõ tamanha armada, & defpois de ho tomar efperaua de ir cõbater a fortaleza de Cananor: & coefta determinação fe fez á vela de madrugada, & pafiado a vifta do gouernador cuydou q era Simão de melo & por iffo virou fobrele. E era fermofa coufa de ver tãta multidão de nauios todos cõ as velas infunadas & muyto pera efpãtar a quê auia de pelejar coeles, a foma dartelharia de q yão armados, a gete fem cõto de q yão fornecidos, abaítada defpin- gardas, darcos & frechas, de zagúchos, defpadas & doutras armas offen- fiuas & defenfiuas: & dãdo gritos q parecia q fendião ho ceo com prazer de lhes parecer q tomarião os noífos, & coiflo tantas diuerfidades de tã- geres q retenião q quebrauão os ouuidos de quê os ouuia. E cõ tudo o gouernador como os vio armoufe logo & fez final de confelho a q forão os capitães & fidalgos & acharãno ainda armãdofe, & fem fe afientar afli em pé como eftaua lhes difie q determinaua de pelejar cõ os mouros.
  • i6o Hijloria da índia Lopo dazeuedo, dõ Triítão de noronha & Eytor da íilueira differão logo q pareceria doudice qrer pelejar cÕ armada tão grolía q ho não deuião de cometer, mas q fe apinhoafTem & fizeffem fortes pera fe defenderé dos Imigos fe os cometeffé. E coeftes fe forão a mayor parte dos do con- felho: & algús q forão bé poucos dizião como a medo q feria melhor pelejar q apinhoaréfe, porq os mouros nos feus nauios q erão rafteiros os rodearião & matarião ás efplgardadas e frechadas fem lhe eles poderê fazer nhú nojo dos galeões, por iflo ho melhor feria pelejar coeles & co- metelos logo nos bargãtins, porq por feré ligeiros poderião étrar & fair quando quifeífem, & os galeões irião á vela em fua cõpanhia pera feruiré cÕ a artelharia como fortaleza. E debatédo hús & outros fobre fazeré boas fuas rezões, chegou Siqueira, & como era muyto esforçado & fabia bem a guerra do mar por auer dias q a vfaua, difle ao gouernador q fazia porq eftaua tão deuagar, q fe os mouros chegauão a eles q lhes auião de fazer muyto mal eftãdo daqla maneyra, q não tinhão outro remedio fe não cometelos nos bargãtins fométe & não no meyo em q auia grãde força fe nã per qualquer dos cabos q auião deitar fracos & nã fe auião de poder ajudar tão afinha q eles nã leuaffé na mão cada hú feu paraó: & q efperaua é noffo fenhor q os auia dajudar como fizera outras vezes, & q entre tãto q cometeffem nos bargãtls os galeões farião feu officio cõ a artelharia. Ao gouernador lhe pareceo be efte confelho mas nã oufou de ho tomar por tãtos capitães & fidalgos lhe feré cõtrairos & calauaife, & Ioão de foire ouuidor geral que era do parecer do gouernador, & porq ho via calar nã oufaua de falar, poflhe rijo hú pé fobre ho feu oulhãdo parele como q lhe confelhaua q tomaffe ho parecer de Siqueira. E ele parece q infpirado de noffo fenhor pera auer a vitoria q ouue, diffe muyto ledo & esforçado. Ora fus que ey de pelejar, A eles com ho nome de Iefu: qué quifer acompanhar ho feu gouernador & a bandeira real de fua Alteza figame. E coifto tomou húa efplgarda ás coftas & faltou em húa fuíta de que era capitão Ioãne ho taful, & nã ho feguirão outros fidalgos fe não os que yão no feu galeão, que forão eítes, Ruy diaz pereyra, dom Sancho manuel, Ioão rodriguez pereyra ho paffaro, dõ Francifco de crafto, Ioão pereyra, Bras da filua dazeuedo, Garcia de melo, Duarte coelho, Fernão da filua, Nuno pereyra, Lionel de foufa, Andre cafco, Manuel de brito cabral, Francifco de barros de paiua. Porque os mais dos que forão de voto que não fe pelejaffe fe deixarão ficar, & não com medo mas com pefar da honrra q o gouernador ali poderia ganhar, que ainda não podião apagar ho odio que lhe tinhão por parte de Pero mazcarenhas. Embar¬ cado ele, achoufe com treze ou quatorze bargantins & catures que tam¬ bém acodirão algús de Cananor, de q forão capitães Francifco médez de
  • Livro VII, Capitolo XCI 161 Braga, Martim da íilua & Iorge vaz, & de todos fez dous efcoadrões: & ho diãteiro deu a Simão de melo com que foy Lopo de mezquita em hú bargantim, & ho outro lhe ficou, & foy hú dos capitães Fernão rodriguez barba. Ifto ordenado remeterão aos Imigos q eftauão a tiro de berço bra- dãdo por Sãtiago, & dão por Sãtiago, & dão por hú cabo tirando muy- tas bombardadas & efpingardadas cõ que os romperão deixando arroba¬ dos algús paraós fem receberê deles dãno, & ho mefmo foy doutra vez que os tornarão a romper: & defta vez fete bargantins noífos aferrarão fete paraós dos immigos, de que dos primeyros tres que abalroarão erão capitães Siqira, Frãcifco medes de Braga, Martim da filua de Cananor. E em aferrando lhes lançarão dentro muytas panelas de poluora com que os queymarão & aos mais dos que yão neles: & ho gouernador com os outros tambê pelejarão tão esforçadamente que poferão os immigos em tal aperto que fe desbaratarão em menos de duas horas q durou a força da peleja, & fugirão a remo hús pera Cananor, outros por effe mar que andaua bem cuberto deles que fe lançauã a ele por efcapar dos noffos, q matarão muytos & outros catiuarão. E durou ifto ate ho meyo dia que começou a viração de q os Imigos fe ajudarão & derão á vela pera fugiré a todo tira: o q vedo ho gouernador os não quis mais feguir por os feus eftaré muy canfados & recolheo os paraós q eftauã rédidos q forão xxxv. cÕ os metidos no fúdo em q forão tomadas quafi cincoeta peças dartelha- ria, & forã mortos & catiuos bé dous mil mouros, fem dos noífos nã morrer nhú o q foy milagre por quã poucos erã & os Imigos tantos de cujo langue o mar em q foy a batalha fe tornou de cor de fangue q foy a vifta de Cananor: & por ilfo os mouros dele a virão muy bem q todos efteuerão na praya cuydãdo q os noífos auiã de fer tomados & ficarão muyto triftes quando virão ho cotrairo, & fizerão grandes prãtos, porq muytos dos mortos erão naturais de Cananor. E receãdo el rey de Cali- cut q por amor defta vitoria lhentregalfe ho gouernador a terra por Crã- ganor mandou laa ho príncipe com muyta géte: & fabido ifto é Cochim mandou ho védor da fazenda húma armada ao paffo de Cranganor. 21 Tomo IV
  • IÕ2 Hifloria da índia CAPITOLO .XCI. De como ho gouernador correo a cojla de Calicut & dejlvuiu a vila de Porquá. AUida efta tamanha vitoria ho gouernador fe tornou aos galeões & achou dõ Triftão de noronha, Lopo dazeuedo & Eytor da íilueira: que defpois do gouernador partido pera dar a batalha fe correrão de ho não ajudar & yão pera iffo em hú batel, mas chegarão a tempo q tudo era acabado: & ele & os outros que contrariarão ao gouernador q não pelejaffe ficarão muyto corridos: & muyto mais de ho não acom¬ panharem na peleja & ficarem nos galeões. E parecendo a algús que o gouernador ho efcreueria a el rey fizerão capítulos dele por fe vingar que prouarão por feus parétes & os mandarão a el Rey no anno feguinte: mas ho gouernador q não tinha tal penfaméto pofto q ho nã acÕpanharã na batalha, lhes fez tãta hõrra & gafalhado como fe a eles vêcerão. E porq poderia fer q a armada dos mouros fe tornaria a reformar nã quis ho gouernador defébarcar e Cananor & dous dias eíteue efperãdo no mar. E vedo q nã tornauã parecédolhe q auiã deitar metidos por eífes rios, partio a bufcalos cÕ confelho dos capitães & fidalgos, & mãdou diãte a Simão de melo por capitão mór dos bargãtls, & ele ya ao mar cõ os galeões. E indo adi etrou Simão de melo cõ noue bargantís, Õde foube que eítauão varados doze paraós & queimou os cõ parte do lugar fem em feus moradores auer refiftencia, porque fugirão como virão os noffos, q defpois de queimados os paraós cortarão quantas palmeiras auia ao der¬ redor do lugar que era a mayor deítruição que fe lhes podia fazer: & defpois difto fayo em Chatuá õde queimou dezafete paraós, & ho lugar com morte de muytos dos feus moradores em vingãça dos noffos que ali forão mortos quãdo fe a frota perdeo. E adi fayo em outros lugares que todos forão deítruidos eítando ho gouernador no mar a vida de tudo, & adi foy ate Cranganor onde achou a noffa armada que hi eftaua como difie. E fendo certo que ho príncipe de Calicut não eftaua ali fe nã pera defenfam leuouha em fua companhia, porque leuaua determinado de ir dar em Porquá pera deftruir ho Arei pola imizade que tomara com os Portuguefes por amor dei rey de Calicut. Efte nome Darei he titulo de fenhorio, & adi era ho Arei fenhor daqle lugar, & grande codairo de toda roupa pera o q trazia muytos catures bé artilhados, & coifto tinha aqui- rido grãde tefouro, & tinha muyta artelharia & bõ quinhão de gete de peleja. E porq ho gouernador ifto fabia determinou de o deftruir & dar
  • Livro VII, Capitolo XCII i63 ho lugar a faco pera q os Portuguefes enrriqceífem, & iíto diífe fecreta- mente a algús capitães porq fe não rompeffe & deffe fupitamente no lugar. E partido de Cranganor tarde, fez que ya pera Cochim, & em anoyte- cendo fez volta fobre Porquá onde furgio em amanhecédo, & em furgindo faltou em terra cõ lua géte, a que fez faber que lhe daua ho lugar a efcala franca, com q todos ficarão tão ledos que poíto q a fua êtrada era muyto perigofa por fer por eíteiros de maré, & por muyta vafa que chegaua ao giolho, palfarão tudo preítefmente leuando Simão de melo a dianteira, mas não acharão com quem pelejar por ho Arei fer fora com fua gente de peleja. E os moradores que erão fracos & fem armas em vedo os noífos fugirão & deixarãlhe ho lugar, em que ele entrando fe forão de- reytos aos paços do Arei & meterãnos a faco, & tomoufe muy groflo dinheiro, porque eu vi hú caldeirão de cobre que leuaria hú cantaro dagoa q tomou Francifco médez de Braga cheo de pardaos douro, & outros tomarão dez mil, ovto mil, cinco mil, & ho geral de ceto & duzétos pera cima & erão mil homes. E a fora ho dinheiro amoedado douro fe tomou outro muyto de prata & peças ricas de pedraria, & muytos panos ricos da Perfia, Choramandel & das ilhas de Maldiua, & camarabãdos da Perfia: & forão tomadas fua molher do Arei & húa fua irmaã que não poderão fugir, fermofamcte arrayadas douro, aljôfar & pedraria, aííi nas orelhas como no pefcoço, mãos, braços & pernas & tudo lhes foy tomado & elas ficarã catiuas. E roubado ho lugar foy deftruido com feu fitio em redondo a fogo & a ferro q não efcapou nhúa coufa, & forão tomadas oytenta peças dartelharia de ferro & de metal & oyto paraós & dous ca- tures. E coefta vitoria fe foy ho gouernador a Cochim: & ho Arei ficou tão quebrado deita deítruição que nunca mais oufou de fer cõtra os noífos, & daqui naceo fazer defpois paz cõ Nuno da cunha, & não oufou de a fazer com ho gouernador por faber que aquele anno fe efperaua na índia que foffe outro de Portugal, & auia medo que desfizeíTe o que efteueífe alfentado, & refgatou fua molher & irmãa por muyto dinheiro. CAPITOLO .CXII. De como foube ho gouernador que as fu/ias de Diu corrido a Chaul: & do q fc\. Estado ho gouernador em CochI chegou Garcia de faa, & defpois Antonio de laldanha, que como diífe fe apartarã de Nuno da cunha com a tormenta que lhes deu: & contarão ao gouernador o que paffarão na viagem. E Antonio de faldanha lhe diífe q fegundo ho tempo
  • IÔ4 Hijloria da índia que auia q íe apartara de Nuno da cunha, q pois não era na índia q não paliaria aquele ãno, & afli pareceo a todos. E afletado q não paliaria aqle anno, tornou ho gouernador a fazer guerra a Calicut, pera o q fe foy a Cananor cõ toda a armada, & furgldo ao mar mãdou a Simão de melo q folie queimar quatorze paraós de Calicut q eftauão no lugar de Marauia ao pe' do mote Deli: & Simão de melo foy lá cõ cinco bargãtls em q leuou felfcta homés & pelejou cõ os mouros que erão trezentos, & defpois de pelejarem hõ pedaço os desbaratou & os fez fugir & quei¬ mou os paraos. E feyto ifto tornoufe Simão de melo a Cananor & defem- barcou cõ ho gouernador, que determinãdo de mandar Antonio de mi- randa á cofta do Malabar, deu a capitania de Goa a dÕ Ioão deça capitão de Cananor: & a de Cananor a Simão de melo, a que deixou noue bar- gantins darmada ate a vinda de Antonio de miranda, q defpachou def¬ pois de chegar a Goa pera onde fe partio de Cananor: & defpois dele partido partiofe dom Ioão deça pera Goa, & em chegando fe partio An¬ tonio de mirãda pera a cofta do Malabar com húa armada de duzétos homés. E eftando ho gouernador em Goa lhe foy dado hú recado muyto apreífado de Francifco pereyra de berredo capitão de Chaul em que lhe dizia q as fuftas de Diu que erão cincoenta & tantas chegauão á boca da barra de Chaul & lhe corrião cada dia, q fe temia fegúdo trazião muyta gente que entraliem no rio & tomaffem a fortaleza que tinha pouca gente: por iffo que focorrelie logo fe não que lha écampaua. Pelo que ho gouer¬ nador affentou de ir a Chaul como trazia determinado de ir por outro recado como aquele que lhe Frãcifco pereyra mãdara a Cananor. E par¬ tiofe de Goa a cinco de Ianeyro de mil & quinhétos & vinte noue bem contra vontade Dantonio de faldanha & de Garcia de fá que forão coele, que cõ outros muytos fidalgos lhe contrariarão fua ida, dizédo que a pef- foa do gouernador da índia não auia de ir a coufa tão pouca a feu ref- peito como as fuftas de Diu, que abaftaria mandar hú fidalgo. E ho gouernador que fabia que era húa armada muyto poderofa, & que fe a desbarataífe faria grande feruiço a el Rey feu fenhor não quis fe não ir & leuou húa armada de cincoenta & duas velas, galeões, galés, galeotas, bargantins & catures, & nela dous mil homens Portuguefes & dos da terra. E chegando a Chaul achou que as fuftas fugirão com medo de fua ida, do que os que lha contrariarão zombarão muyto & diziãlhe que as folfe bufcar, & logo o gouernador defpedio hú capitão dú catur q lhas foífe bufcar ate certas legoas pola cofta: & ele as achou no rio de Maim, & vio que erão felfenta & tres cheas de gete & muy bé armadas darte- lharia, & que andaua por capitão mór delas hú valete mouro chamado Halixa, & adi ho dilfe ao gouernador que achou na barra de Chaul. E
  • Livro VII, Capitolo XCIII i65 fabendo ele eíla noua entrou no rio & foy defembarcar na fortaleza, & defpois de defembarcado chegarão no mefmo dia á barra treze fuftas de Halixa que ele mandaua a faber nouas do que ho gouernador determi- naua, & deulhe por final q fe lhe faiflem de Chaul q era final que ho gouernador ya pelelar coele & fe não não. E os mouros chegarão á boca da barra pofto que os noffos galeões eftauão hi furtos & não lhes ouue- rão medo porque ventaua a viração que era contraíra pera fairem de dentro, & começarão desbombardear: o que fabido pelo gouernador mã- dou logo a Eytor da filueira que lhe faiffe cÕ doze bargantls q foy a re¬ mos ate a boca da barra cõ a decente da maré mas não pode fair por amor da montante que começaua. E com tudo os mouros fugirão & forã dar efta noua a Halixa. CAPITOLO .XCIII. De como ho gouernador diffe aos capitães da armada que queria ir tomar Diu & de como foy contrariado. SAbédo ho gouernador Õde as fuftas eftauão, & q na corrião a Chaul como dantes determinou de as ir bufcar pera pelejar coelas: & pri- meyro q partifle defcobrio aos capitães & fidalgos húa coufa q ja de Goa trazia na võtade. E jútos todos em confelho lhes diffe. Bc fabeis fenores q Diu he a mais forte coufa de toda a cofta de Cambaya, & chaue de toda a índia porq dali a pode el rey de Cambaya conquiftar, & ali he a certa colheita dos rumes fe vieré á índia: por ifto a fora fer tão mao vezinho como he pola guerra q nos faz importa muito ao feruiço del Rey meu fenhor tomarfe, o q agora prazédo a noffo fenhor fe poderá fazer cõ muyto pouco perigo de ieus vaflalos & muy pouco gafto de fua fazéda, porque eu fey certo q a principal gente de Diu anda neftas fuftas, & a mayor parte de fua artelharia, & q Meliq tocão q agora he capitão he ainda nouo na guerra & fabe pouco dela q iam coufas euidétes pera fe poder tomar facilméte: & efta foy a caufa prlcipal de minha vinda & nã bufcar as fuftas q pera iffo abaftara hú capitão. E porq eu fey certo q Diu efta defta maneyra, & fey q cõ ajuda de pofto fenor ho poderemos tomar, me parece q deuemos de deixar as fuftas & engolfarmonos no mar, como que imos a Ormuz, & engolfados fazer volta fobre Diu onde védonos de fupito hão de cuydar que deixamos fua armada dasbaratada de que hão dauer tamanho medo q ou fe nos hão de dar ou não hão de poder refiftir pera os tomarmos: & ifto me crede como a homem que de idade de dezafeys annos andey fempre na guerra ategora. E pregútãdo
  • i66 Hijloria da Índia a Antonio de ialdanha & a Garcia de fá que lhes parecia, difíerão que lhes não parecia bem ir primeyro a Diu que pelejar com as fuftas, por¬ que fegundo a gente delas andaua foberba vedo que ele fe partia de Chaul & as não ya buicar crerião q lhes fugia & terião atreuimeto de ir a Chaul & deftruir a cidade & a fortaleza: & quanto a ir a Diu também lhes pa¬ recia mal porque não crião que eftaua defpejado ne fe deuia de crer fe fe não viffe pelo olho, porque como auião os mouros de fer tão defcui- dados que eftando ele tão perto auião de ter Diu defapercebido pera fe defender importandolhe tãto: & aparecendo ele no feu porto & não ho tomando feria húa grande deshonrra: por iíTo não era bé que foífe, nem menos ás fuftas porque era muyto pequena emprefa pera ho gouernador da índia. E cõ ho parecer deftes dous fe forão os mais dos que ali efta- uão, fomente Eytor da filueira foy do parecer do gouernador, afti em ir a Diu como em ir pelejar com as fuftas, & por fer hú fó não aproueitou, mas ho gouernador diífe que ainda que parecefTe mal a todos, que auia dir pelejar cõ as fuftas, & que foífe coele quê quifefle. E logo fe partio com toda a armada, & deu a capitania mór dos nauios de remo a Eytor da filueira pera que foífe ao longo da cofta, & ele com os nauios groífos ya hum pouco amarado pera que as fuftas lhe não efcapaífem. E quãdo ho gouernador partio apareceo no ceo hú final branco feyto como barra & atraueífaua de noroefte a fuefte & tinha húa ponta fobre Diu, de q def- pois fe foube que os mouros tomarão muyto mao pronoftico, & efte final durou ate ho dia & hora em q as fuftas forão desbaratadas. CAPITOLO .XCIIII. De como ho gouernador pelejou com a armada de Diu & a desbaratou. Eindo ho gouernador nefta ordem dia détrudo atarde aparecerão ao longo de terra húas treze fuftas que yão pera Chaul, & em auendo vifta da noífa armada voltarão fugindo: ho gouernador como vio eftas cuydou q vinha toda armada: meteofe logo em hú bargantim cõ determinação de pelejar coela. E vendo que não erão mais foyfe ao bar¬ gantim Deitor da filueira, & diífelhe que ao outro dia prazendo a noífo fenhor efperaua que pelejaffem com as fuftas, & deulhe ho regimento do que auia de fazer: porque ele auia deftar nos galeões fauorecédo a bata¬ lha: & pera mais animar os capitães na peleja mãdou apregoar por toda a frota, que daria ce cruzados ao capitão q primeyro aferraífe fufta. E fabido pela frota que auião de pelejar confeffarãfe todos aquela noyte: & ao outro dia q era quarta feyra de cinza fevs de Feuereyro em rõpendo
  • Livro VII, Capitolo XCIIII 167 a alua chegarão a Bombaim õde as fuftas eftauão pegadas cÕ húa poma, & erão por todas feffenta & quatro. Eytor da filueira como foy ho dia claro que as vio correo todos os bargantls & catures de fua capitania & mãdou a todos os capitães que não tirafie nhú tiro aos Imigos fe não def- joois de defefperarem de os aferrar que afíi ho tinha mandado ho gouer- nador, porque não fugiíTem com medo da noíía artelharia. E receando Eytor da filueira q os mouros fe fe viffem em apertada fe acolhelfem a hú rio que lhes ficaua da bãda do norte, mãdou a hús oyto capitães de bargantins que em ele rompédo com os mouros tomalfem a boca do rio & lha defendelfem, & abalou pera os mouros com os outros cujos capi¬ tães erão a fora ele, Diogo coelho, Gafpar paez, Francifco aluarez, Ioão rodriguez ho chatim, Pedraluarez de mezquita, Antonio correa de Goa, Louréço botelho, Chriftouão Lourenço carracão, ho calafate de Chaul, Diogo corefmas malu, Pero barriga, Antonio colaço, Chriftouão correa, Iorge diaz, & Antonio fernandez: com que yão eftes fidalgos, Chriftouão de melo & Diogo de fã Payo fobrinhos do gouernador, do Frãcifco de crafto, Ioão pereyra, Manuel rodriguez coutinho, Andre cafco, Frãcifco de barros de payua, Luys coutinho, Duarte coelho, Ioão de melo, Garcia de melo, Antonio barbudo, Ioão da filueira, Manuel do carualhal, Nuno pereyra, Lãçarote dalpõem & outros a que não foube os nomes. Halixa eftaua com fuas feffenta & quatro fuftas feytas e tres batalhas & ele na da retrogoarda: & como vio que os noflos abalauão deu final aos feus que tiralfem com artelharia, & começou de tirar tãtos pelouros que era coufa defpanto, & tudo foy cuberto de fumo, & por mais baftos que os pelouros erão os nolfos tirauão auante quanto podião fem nhú tirar. O que vifto por Halixa, & q chegauão a aferrar não oufou dagoardar mais com medo & fezle á vela pera dobrar a põta que digo & acolherfe pelo rio acima, & por ho vento fer efcaffo pera iffo mandou meter os remos de q tão pouco fe pode ajudar por fer contra agoa, q vazaua a maré, & por iffo fe mudou a outra fufta peqna & deixou a fua q era grãde, o que foy caufa defcapar da peleja que a efte tempo fe começaua datear braua- mente, porque os noffos chegarão aos immigos, & ho primeyro bargan- tim q aferrou cõ húa das fuftas q era como húa boa galeota foy ho Dan- tonio fernãdez em q yão os fidalgos q diffe, & com a grande pancada q ho bargantim deu em aferrando tornou a defaferrar & afaftoufe hú pouco ficando dentro na fufta Francifco de barros de payua q foy ho primeyro que faltou nela & ficou na poftiça onde ho efpaço que ho bargantim efteue fem tornar a abalrroar correo muyto grande perigo & fofreo trabalho immenfo em fe defender dos Imigos que trabalhauão quãto podião por lhe tirar a vida. E tornando ho bargantim a aferrar foy focorrido dos ou-
  • Hiftoria da índia j68 tros a q os mouros defendiao que não étraffem na fufta. E eftãdo nefta perfia cavo da gauia da fufta húa panela de poluora que quebrou na mefma fufta do mafto pera a popa, & tomando fogo a poluora que ali eftaua arrebentou com hú medonho eftouro, & toda a cuberta daquela parte lançou ao mar com quantos eftauão nela, & Francifco de barros que hi eftaua cayo no bargantim ferido em hum hombro dú zaguncho, & forão feridos Ioão pereyra de húa frechada no rofto, & dom Francifco de crafto na cabeça com húa pedra, & como a fufta arrebentou ficou rédida, & entre tanto chegou Eytor da filueira com os outros capitães, & aferrãdo os Imigos apertarãnos tã rijo que fizerão faltar rauytos ao mar & outros matarão, & os desbaratarão de maneyra que todos fugirão & os Portu- guefes os feguirã & por fe não poderem acolher ao rio que cuydauão, forão tomadas coréta & feys fuftas com toda fua artelharia & queimadas tres de q não efcapou ninguém que todos forão mortos nelas & no mar: fem dos Portuguefes morrer nhú, fomente forão algús feridos, & das onze fuftas que efcaparão recolheo Halixa fete cõ a fua & fugio pera hú lugar grande chamado Taná donde fe foy a Baçaim, & as quatro fugirão pelo rio de Nagotane onde forão tomadas pelos gentios de Chaul, & aífi não efcaparão mais que as fete q leuou Halixa. E desbaratados os mouros, recolheofe ho gouernador cõ os nauios grofios aa enleada de Bombaim no proprio dia, no qual & na noyte fegulte os dos nauios de remo que pelejarão cõ os mouros os acabarão de matar na agoa. E ifto feyto ajun¬ tou Eytor da filueira fua armada, & as fuftas que tomou aos imigos & foyfe pera ho gouernador que ho recebeo cõ muyto prazer, & laa armou caualeyros a muytos fidalgos & a outros que ho quiferão fer por fe acharé em hú feyto tão hõrrado como aquele foy, & de que os mouros ficarão muy debelitados: porq toda fua efperança eftaua naql(i armada. E juntos todos os noífos, tornou ho gouernador a propoer em cofelho fua ida a Diu, dando por rezão muy principal ho desbarato das fuftas com q Diu ficaua desbaratado & fe tomaria facilmente ou fe daria, mas não lhe apro- ueitou porq Antonio de faldanha & Garcia de ia lhe forão muy cõtrairos, & por fua caufa outros muytos como da primeyra. E veo a coufa a tãto q lhe diffe Garcia de fa que não roubaffe a honrra a Nuno da cunha que el rey não mandaua aa índia a outra coufa fe não a tomar Diu: por ifto q lho deixalfe, fe não q pedia dele hú eftorméto, & ho mefmo dizia An¬ tonio de faldanha. E por ho gouernador não ter da fua parte mais que que Eytor da filueira, & andar muy acanhado cõ a vinda de Nunò da cunha q quafi ninguém ho queria ver, não oufou dir cotra os requerimé- tos que lhe fazião. E fegundo fe defpois foube foy coufa muy errada não ir a Diu porq fe lhe entregara fe la fora & não cuftara tãto como defpois
  • Livro VII, Capitolo XC.V 169 cuftou aífi de fangue como de dinheiro, & pera fua difculpa com el rey pedio ho gouernador ao fecretario hú eftormento de certidão do que pro- pofera naquele confelho & no outro ates de pelejar com as fultas, pera q el rey foubeffe que fe não deixara tomar Diu por fua culpa. E efte eftorméto foy tirado de hú auto que ho fecretario fez dambos os confe- lhos que foy affinado pelos que forão neles. CAPITOLO .XCV. De como ho gouernador quifera ir fobre a cidade de Tana, & a canja porque não foy. VEndo ho gouernador q não podia ir a Diu, determinou de dar em Taná húa cidade de mouros quatro legoas por dentro do rio de Maim, cidade grande & rica, & em q fe faz muyta roupa de Cam- baya, & era fenhor dela hú Xeque: & porq ho gouernador fabia que eftaua rica a queria tomar pera a dar a faco aos foldados q leuaífem de comer pera ho inuerno: & pera q ho fizelfe tributário a el rey de Portu¬ gal. E propofto ifto em confelho, & acordado que ho fizeffe embarcoufe na fuftalha & nos bateis dos galeões com toda a gente da armada, & An- tonio de faldanha foy é húa galé muyto contra võtade do gouernador & de todos, porque ya em rifco de ficar em feco: & aquele dia á tarde que foy ho primeyro de Março entrou pelo rio de Maim com determinação de chegar a Taná em amanhecedo porque tomaffe os immigos mais de- fapercebidos. E indo todos a remo com a maré que enchia ja perto da cidade, foube ho comitre da galé Dantonio de faldanha tão mal atinar ho canal do rio que fe meteo por hú efteiro, em que ficou em feco quãdo vazou a maré^que foy quafi em amanhecendo, & aífi ficou toda a armada em feco, & foy coufa efpãtofa quando foy manhaã clara ver como ficarão os bargantins & catures, porque hús ficauão com os efporões fincados no chão & as popas pera cima, outros com os efporões pera cima & as po¬ pas pera baixo, que parecia que os efteuerão ordenando daquela ma- neyra: do que ho gouernador ficou bem agaftado porque não auia outro remedio fe não efperar pola maré: & os capitães affi como ho nauio de cada hum podia nadar, affi tiraua pera a cidade por mais mandados que ho gouernador fazia que ho nã fizeífem, & deixauãno fó, & ate Antonio de faldanha deixou a fua galé em feco & foyfe em húa fufta, & a gale ficou é rifco de não poder fair, porque as agoas yão quebrando como que as mares da noyte lam móres que as do dia, & por iífo ficou a gale é muyto pouca agoa, & não podia nadar, né poderá fair fem ajuda: & efta Tomo IV 3J
  • Hijloria da Índia i-jo deu ho gouernador que por fe não perder na fe quis dali ir ate a não tirar, & ele por fua pefloa fe meteo na vafa ate a cinta & ajudaua a tirar pelos cabos & aportar ancoras porq os fidalgos que yão coele tirafiem tãbem, o q eles fizerão & forão Chriftouão de melo, Diogo de fam Payo, dom Francifco de crafto, Frãcifco de barros de payua, Ioão pereyra, Ma¬ nuel rodriguez coutinho, Andre cafco, Luys coutinho, Duarte coelho, Ioão de melo, Garcia de melo, Ioão da filueira, Manuel do carualhal, Antonio barbudo, & Lançarote dalpõem. E ajudarão também Lourenço botelho com a géte da fua fufta & ho colaço com a do feu catur: & leuando todos tanta fadiga & trabalho que lhe faya ho fangue das mãos de puxare polos cabos tirarão a gale pera ho alto das oyto horas da manhaã ate a húa defpois de meyo dia, fem nhú dos outros capitães querer ajudar fe não tirar pera a cidade pofto que vião ho trabalho em q ho gouernador ficaua. E vendo ele tão pouca obediécia aos feus mandados não quis dar em Taná porque receou q tão pouco lhe obedeceflem lá & que recrecefTe diffo algQ defaftre, & tornoufe pera a frota que deixaua no mar. E vendo os que eftauão diãte da cidade partir a bandeira forão a pos ela: & ho gouernador não quis caftigar tamanho defacataméto como aquele foy por os culpados ferem muytos mas reprendeos brãdamente: & perdeofe hú bÕ faco naquela cidade porque eftaua muy rica. E por fer ja perto do inuerno & ho gouernador auer dinuernar em Goa, & não ter mais q fazer naqla cofta que não fizeífe hú capitão mór & deixou húa armada de vinte bargantins & duas galeotas com trezentos homés a Eytor da filueira pera que fizeífe a guerra naqla cofta ate ho cabo do verão em que fe recolhe¬ ria a Chaul, & ele partiofe pera Goa onde chegou em Março. CAPITOLO .XCVI. I)o que fe\ Antonio de miranda na cojla do Malabar cõtra os mouros de Calicut cõ ajuda de Chrijlouão de melo. CHegado ho gouernador a Goa defpois do desbarato daá fuftas mã- dou a Ormuz tres galeões carregados de mercadoria del rey, cuja capitania mór deu a dom Fernando deça feu cunhado, & forão feus capitães Antonio de lemos & Lopo de mezquita, & mandoulhe que da volta foffe fazer prefas á ponta de Diu, & defpachou pera Malaca a Garcia de fá que tinha a capitania, & encomedoulhe muvto ho refgate de Martim afonfo de melo jufarte que eftaua catiuo em Bégala, & man¬ dou ao Malabar Chriftouão de melo feu fobrinho em húa gale & fevs bar- gãtins de baixo de fua bandeira pera que fe ajuntaffe com Antonio de
  • Livro VII, Capitolo XCVI 17* miranda & lhe obedeceíTe. E chegado laa foy coele ao rio de Chale Õde fabia que eftaua húa grande nao del rey de Calicut carregada de piméta pera Meca & doze paraós pera irem em fua companhia em que aueria oyto centos mouros frecheiros & efpingardeiros a fora outros defpadas & laças q erão muytos, & Antonio de miranda entrou no rio com os bar- gatls & catures leuãdo os a fio por ambas as partes do rio que lhe nao fizefle nojo a artelharia dos mouros, que tinhão os paraós diante da nao na metade do rio encadeados de quatro em quatro com bombardas nas proas & per ambos os bordos. E por mais bombardas q tirarão, os Por- tuguefes remado a todo tira, & defparando fua artelharia lhe chegarão, & aferrando cÕ os quatro diãteiros pelejarão tão rijo cÕ os mouros que eftauão neles q os fizerão fugir faltãdo hús ao mar & outros recolhendole pera os paraós trafeiros que logo forão cercados dos Portuguefes, & pera fe defpacharé mais afinha lhe lançarão détro panelas de poluora com que os queimarão, & coiífo fe deitarão todos os mouros ao mar, & deles forão mortos nagoa outros fugirão pera terra a nado cõ tamanho medo que nem na pouoação fe atreuerão a faluarfe, & os Portuguefes a qimarão & deftruirão tudo ao derredor. E deftruida a terra tornoufe Antonio de mi¬ randa fem perder nhú dos feus de q forão feridos algús, & leuou configo a nao carregada como eítaua & oyto paraós q os quatro forão queima¬ dos, & mãdouha coeles a Cochim onde ho védor da fazenda mandou fazer deles bargãtins, & a pimenta foy defcarregada na feytoria. Depois difto andado Antonio de miranda & Chriftouão de melo a monte fermoio hú da bãda do fui & outro da do norte, teue Chriftouão de melo vifta da armada de Calicut hú dia a tarde, & fabendo que era de cincoenta paraós ajuntoufe com Antonio de miranda (que ainda não fabia parte dela) & diífelho, & por fer tarde não pelejarão coela aquele dia & dei- xarãno pera ho outro dia. E cocertado da maneyra q auia de fer, em amanhecendo foy fe Chriftouão de melo em bufca dos immigos indo abo- linãdo ao longo de terra com ho terrenho, & Antonio de miranda fe em- pegou. E Ido alli ouue Chriftouão de melo vifta dos Imig«s que também ho bufcauão, & fendo perto deles tiroulhe algús tiros, & como q auia medo deles polos ver muytos viroulhe a popa com os outros & fezfe na volta do mar. E em os mouros vendo que fugia forão apos ele obra de trinta paraós que ho feguirão ate auer vifta Dantonio de miranda, que indo de auifo do q auia de fazer em vendo Chriftouão de melo fez volta, & paliando a fota veto dele meteofe por ãtre os Imigos, que védofe alli cometer de fobre falto amainarão pera fugir a remos porque não podião pola bolina. E nefta detença oyto dos nofios bargantins aferrarão oyto paraós, & começarão de pelejar: & querédo os outros fugir fayolhes ao
  • 172 Hijloria da índia encontro Chriftouão de melo, & feys dos feus bargantins abalrroarão cõ outros feys paraós, & os dezafeys q ficarão por aferrar fugirão ate fe ajuntar com ho feu capitão mór feguindo os Antonio de miranda ás bom- bardadas & efpingardadas: & nifto efteuerão hú pouco coeles, q pofto que os quiferão aferrar eles fe goardarão bem diffo: tanto que apertando os noffos pera ho fazer lhes fugirão ao longo de terra tnetendofe por rios & efteiros cõ muyta gente ferida & algús paraos arrombados, & Antonio de miranda & Chriftouão de melo os não quiferão feguir, & forão ajudar os feus q ficarão aferrados com os Imigos que ja os tinhão desbaratados, & os matarão todos fem ficar nhú, & os quatorze paraos lhes ficarão em poder que Antonio de miranda mandou a Cananor pera os fazeré bar- gantls: & correrão a cofta defpois, & deixãdo a limpa meado Abril fe recolheo Chriftouão de melo pera Goa & Antonio de miranda pera Co- chim por amor do inuerno. CAPITOLO .XCVII. Da guerra que Eytor da Jilueira fe\ em Cambaya. FIcando Eytor da filueira por capitão moor na cofta de Cambaya, determinou de tomar húa fortaleza duas legoas do mar pelo río de Nagotane, em que foube que eftaua hú capitão del rey de Cambaya com feys centos de caualo & dous mil de pé: & deixou dir porque obra de húa legoa da fortaleza era ho rio tão baixo que não podião nadar os catures, & queimou feys pouoações grandes de lauradores que eftauão quafi na entrada do rio de húa parte & doutra, & fez efpantofa deftrui- ção: o que fabedo ho capitão da fortaleza foy ho bufcar com fua gete pera pelejar coele, & topouho na derradeira pouoação que andaua def- truindo. E fabendo Eytor da filueira quão groffa gete trazia não quis pe¬ lejar coele no cãpo por ter tão pouca géte como erã trezétos homés, porque muyto ya de pelejar coeles no cãpo a pelejar na fortaleza onde determinaua dir pelejar, que no campo auião deftar efpalhados & tirar aos noffos como a barreira, & na fortaleza não auião de pelejar mais que aqueles q coubeffem no muro, & no primeyro impeto q era ho mais forte ficauão com os noffos quafi tantos por tãtos, & por ido não quis Eytor da filueira pelejar, & afli ho diffe aos feus que fez recolher aos bargãtls ficando ele na trafeira, porque os mouros cj chegauão ja fobrele affober- bauãno muyto dando grandes apupadas, & chamando nomes, aos noffos & os de caualo remetião efcaramuçãdo: & Eytor da filueira lhes fez rofto com a gente que eftaua por embarcar tirãdo muytas efpingardadas, &
  • Livro VIL; Capifo/o XCF// 173 hú dos noflos que tinha húa laça com húa rodela fe afaftou do corpo dos outros, & hú dos de caualo que ho vio fó remeteo a ele pera ho ferir a mão tente com hú zaguncho, & ho foldado ho efperou, & em querédo chegar a ele q alçaua ho braço pera ho ferir meteolhe a lança polo fobaco do braço & deu coele no chão ferido mortalmente, & ainda não foy no chão quãdo lhe ho foldado tomou ho zaguncho, & caualgãdo no caualo, leuou outro mouro décontro que ya pera ho ferir, & paliou ho polos pei¬ tos pofto q ho laudel era forrado de malha: ao que os noflos derão grãde grita & desfecharão húa grãde çurriada defpingardadas, & coifto fe teue- rão os mouros & fe retirarão. E ho foldado tomando ho caualo do fegúdo mouro pela redea fe foy cÕ muyto afleflego pera Eytor da filueira pedin- dolhe que ho fizefle caualeyro quando folie tempo, & ele ho fez. E não ponho ho nome delle foldado por fer conhecido: poré ganhou ali efta honrra, & Eytor da filueira lha fez dali por diante, & aífi ho gouernador q lhe chamaua I10 feu caualeyro, & na igreja eftaua júto coele, & eu ho vi muytas vezes. E embarcado Eytor da filueira foyfe ao logo da cofia caminho de Baçaim dali a clco legoas: mea legoa por hú rio acima, man¬ dando diante faber lua difpofição per hú Chriftouão correa capitão dú bargãtim: & efte lhe diífe que quaíi pegado cõ ho logar eftaua húa tra- queira de madeira de duas faces entulhada que tinha tres baluartes do mefmo com feífenta peças dartelharia groffa, & eftaua em lua goarda & do lugar Halixá (q fora capitão das fuftas) cõ tres mil homés de pe' & quinhétos de caualo acubertados. E com quanto ifto fe foube era ho de- fejo dos noflos tamanho de pelejar cõ os mouros, que em quanto Eytor da filueira fazia cÕfelho como auiã de cometer ho lugar bradauão todos que acabaliem. E alfétado por todos que fe cometefle, & repõtãdo a maré entrarão pelo rio acima cõ grãdes alegrias: & ao outro dia ás noue ho¬ ras chegarão defronte da tranqueira que eftaua na borda do rio que não auia outro defembarcadoiro fe não nas bocas das bõbardas q logo defpa- rarão nos noflos, que fendo tão poucos era coufa medonha velos antre tãtos pelouros como vinhão da tranqueira q pera cada hú dos noflos auia muytos q os matalfem, mas noffo fenhor os goardou que todos efcaparão & tomarão terra, & os primeyros forão duzentos piães Canarins que yão cõ Malu mocadão dos remeiros q Eytor da filueira deitou diante pera quebrar neles a primeyra çurriada da tranqueira, & tambe eftes forão faluos. E defembarcado Eytor da filueira, remeteo á tranqueira que muy¬ tos dos noflos tinhão aferrada, & pelejauão muyto valétemente com os immigos que fe defendião muy bem, & dauão q fazer aos noflos por ferem muytos: & fe os noflos não teuerão tãtas efpingardas virãfe c aflaz de trabalho, porque as frechadas dos immigos não tinhão conto, nem os
  • 114 Hijloria da índia arremeflòs & pedradas que lançauão, & laçadas que dauão a mão tente, mas as efpingardadas dos noífos podião mais & derribarão tantos que fizerão caminho pera etrar fem lhe os mouros poderem reffftir, pofto que trabalharão niffo quanto poderão. E vedo que os noffos os entrauão fugi¬ rão, & eles os feguirão ate ho lugar onde fe meterão todos: & aqui fize¬ rão os immigos rofto aos noíTos defendendole. E ifto porque fabédo Ha- lixá q Eytor da filueira ya fobre a tranqueira, receãdo que a entrafle deixou nela a gente q lhe pareceo que abaftaria pera a defender & com a outra de pé & de caualo fe pos em Cilada com teção de dar nos noffos defpois de andarem no lugar, & com os immigos teré efta certeza fize¬ rão rofto aos noffos & fe defendião. E eftando nifto favo Halixá da cilada com os de caualo diante & os de pé detrás, o que íintldo Eytor da fil¬ ueira recolheo os noffos & fayofe ao campo, & feytos em húa pinha efpe- rou os immigos que ho forão cometer cuydando q lhe fugia. E chegãdo os dianteiros q erão os de caualo, desfecharão os noffos as elpingardas tirando em roda viua porq os mouros os não entraífem & derribarão muytos deles, & os caualos cõ medo do eftrodo das efpingardadas come- ção de fugir, & metéfe por antre os de pé derribando os com os peitos, & trilhando os com os pes os desbaratarão & fizerão fugir & coeles Ha- lixa: & os noífos por eftarem muy canfados os não feguirão, e forão rou¬ bar ho lugar a que derão fogo defpois de roubado & ardeo a parte da¬ quele dia & quafi todo ho feguinte fem ficar coufa q não foffe queimada, & cortadas as hortas & palmares derredor. E foy coufa efpãtosa a def- truição que foy feyta por tão pouca gente. E ifto acabado q foy húa coufa muy grande fayofe Eytor da filueira pera ho mar com fua armada carre¬ gada de muyta fazeda, artelharia & catiuos que fe tomarão em Baçaim, & com tres taforeas carregadas de madeira, & foyfe por effa cofta a def- truir muytas pouoações: de que a géte fugia cõ medo, & os noífos quei- mauão os lugares & deftruyão tudo. E era ho medo tamanho nos da terra q a ieys legoas por dentro do fertão não oufaua ninguém de pare¬ cer. E coefte medo mandou ho Xeque da vila de Taná pedir paz a Eytor da filueira com lhe offrecer que pagaria cadãno quatro mil pardaos de pareas, & daqle deu logo dous mil & por não poder pagar os outros dous mil deu arrefens. E de tudo ifto foy feyto hú contrato allinado por ambos, & por fer no cabo do verão fe foy Eytor da filueira a Chaul ondé auia dinuernar, & dahi mãdou as taforeas da madeira ao gouernador.
  • Livro VII, Capitolo XCV1II i?5 CAPITOLO .XCVIII. Do que paffou dõ Iorge de meúefes cõ Fernão de la torre. ATras fica dito quão pouca ajuda deu Gõçalo gomez dazeuedo a dom Iorge de menefes cõ a gente q leuou de Malaca, & como nã queria mais que eftar na fortaleza fazédo fua fazenda: porem hú fó bem lhe fez que com fua eftada enfreaua os caftelhanos e os mouros pera que não fizeffem a guerra tão apertada como dãtes, & tinhã muytas vezes tregoas & yão folgar hús cõ os outros fem terem neceífidade de pediré feguro fe não quando chegauão ou leuantauão húa bandeira branca, no que parecia que aueria paz antreles. E com tudo nunca a ouue, né Fernão de la torre quis dar a dõ Iorge os Portuguefes que tinha catiuos por mais vezes que lhos pedio do que dom Iorge eftaua muyto agaftado. E corrédo alli ho tempo húa noyte quafi no fim do quarto da prima forão ter aa fortaleza dous caftelhanos, que tomados pelas vigias forão leuados a do Iorge q os mandou prender cuydando que yão pera dãno da forta¬ leza por não pedirem feguro, nem leuarem recado do feu capitão. E fabendo Fernão de la torre a prifam deftes Caftelhanos com feguro de dÕ Iorge lhe mãdou hú embaixador que foy com tamanho aparato como que fora de hú grande príncipe, porque alé de leuar muyto ricos vefti- dos, leuaua diãte trombetas, & frautas & dous reys darmas: & ya acom¬ panhado de gente muy luzida. E a cõcrufam de fua embaixada foy efpã- tarfe Fernão de la torre muyto de dom Iorge prender os dous Caftelhanos, fendo tão coltumados antreles, & os Portuguefes iré folgar hús com os outros, pedindolhe q lhos deffe: & dom Iorge difle q ele refponderia, & mandou apoufentar ho embaixador que deteue algús dias, & neles lhe fez muvta hõrra comendo ás vezes ambos, & outras lhe mandaua de co¬ mer a fua poufada. E hú dia eftãdo ho embaixador no cabo do comer lhe mandou dom Iorge como por zõbaria hú paftel em que yão hú cão & hú gato pequenos viuos com hú recado, que pois aqueles dous que erão tão cõtrairos de fua natureza, & eftauão tão pacíficos, que porque ho não eftauão afli os Caftelhanos cõ os Portuguefes, pois que auia tanta rezão pera iffo, afii por ferem todos Chriftãos & efpanhoes, como também por ferem vaffalos de dous príncipes tão liados per parentesco & amizade. E vifto pelo embaixador ho recado & ho prefente, mãdou preguntar a dom Iorge per qual daquelas alimarias entendia os caftelhanos. E ele refpondeo q polo gato, por ho terem ate então muyto arranhado, & ele auia de fer ho cão que os auia dapanhar dum bocado, & q diffeffe a Fer-
  • Hijioria da índia 176 não dela torre que lhe pedia muyto q lhe deffe os Portuguefes que lhe la tinha, fe não q lhe não auia de dar os caftelhanos, que pera iflo os tomara. E ifto refpondeo ao embaixador por derradeyro quando fe tor¬ nou: porem Fernão dela torre não quis dar os portuguefes. E daqui a dias a quatro de Dezébro chegou a Ternate hum fidalgo chamado dom Iorge de crafto em hum jungo de que ya por capitão & de caminho foy por Borneo, leuando em fua conferua hum Iorge de brito por capitão de húa fufta que fe perdeo de fua companhia & tornoufe pera Banda, & dõ Iorge leuou muyta roupa pera a feytoria & munições pera a fortaleza que então era tudo muyto neceífario. E com a vinda de dom Iorge de crafto fe fauoreceo dom Iorge algúa coufa, & mandou ho darmada ao morro, onde chegado pelejou com a. armada dos immigos & os desbara¬ tou & fe tornou a Ternate: & fendo ja em Ianeyro de mil & quinhentos & vinte noue, Gonçalo gomez dazeuedo começou de querer entender em fua partida pera Malaca: o q vendo dom Iorge de menezes, lhe reqreo muyto eftreitamete que ho não fizeffe, & afii ho requereo a Lionel de lima, a quem tinha dada a alcaydaria mór da fortaleza, & capitania mór do mar, poendolhe diante a neceflidade que tinha deles por amor da guerra que lhe fazião os mouros & os Caftelhanos, & em quanto apreto ficaria por lhe leuarem a gente. E com tudo nunca quiferão fe não irfe, prometendolhe de lhe não leuar a gente, que dom Iorge deteue com muy- tos rogos & dadiuas de fua fazenda, & prometendolhes que no anno feguinte lhes ajudaria a fazer crauo. E coifto que lhes prometeo ficarão: & pola ida de Lionel de lima deu os feus officios a hú Gomez aires criado do meftre de Santiago, & mandou na conferua de Gõçalo gomez dazeuedo a dom Iorge de crafto que foffe pedir focorro a quaifquer capi¬ tães ou mercadores que achaffe em Banda, afli de gente como de merca¬ dorias pera a feytoria. E partio Gonçalo gomez & os outros a dez dias de Feuereyro, & Gonçalo gomez foy por Bachão pera tomar hi Manuel falcão que deixou em Bachão ate faber fe dom Iorge queria que ele foffe pera a fortaleza, o que ele não quis confentir por eftar mal coele, como ja diffe. CAPITOLO .XCIX. De como Garcia de fá Je partio pera Malaca. ENtrado ho mes de Ianeyro defte anno de mil & quinhentos & vinte noue que era a moução pera ir de Malaca pera a índia, partiofe Iorge cabral que fora capitão da fortaleza de Malaca, & dom Gar¬ cia anrriquez cada hú em feu jungo, & affi outros fidalgos que laa eftauão
  • Livro VII, Capitulo C 177 & chegarão aa barra de Cochim, & com quanto yão com determinação de paíarem a Goa não oufou Iorge cabral por fer ja na fim de Março & ventarem os noroeftes que correm ao longo da cofta & lhe erão por da- uante, & por iífo fe acolheo Iorge cabral a Cochim. E dom Garcia não quis acolherfe coele, & diffe que auia de paliar a Goa em que pes ao vento & ao mar: & polo vento fer por dauante, & ho jungo em que ele ya fer mao de bolina & ir muyto carregado, chegou a Batecalá com muyto grande trabalho & perfia: & eftãdo hi vio que ho tempo auia de fer de cada vez mais forte por fer meado Abril que entraua ho inuerno, & por iífo ouue por feu acordo que era melhor tornarfe a Cochim: como tornou, & com grãde tormenta chegou aa fua barra onde durando a tor- menta furgio, porque por ho jungo fer grande & ir muyto carregado não pode entrar no rio de Cochim. E deixando dom Garcia ho jungo furto fobre húa ancora foyfe a terra, & defpois de ido creceo ho vento tanto que durou tres dias & tres noytes & andaua ho mar tão groífo que ho jungo fe foy ao fundo cõ a muyta agoa que lhe entrou dentro, em que fe perderão cincoenta mil cruzados que tanto valia a carrega q tinha: & dom Garcia não ficou cõ mais que com ho veltido com que foy a terra, & defpois ho prendeo Nuno da cunha pelo que fizera em Maluco & ho mãdou prefo a Portugal no anno feguinte. E defpois de paliada efta tor- menta, Garcia de faa que eftaua então em CochI fe partio pera Malaca, & ya em húa nao, & leuaua em fua companhia hum jungo que comprara pera leuar fua fazenda: & ho jungo fe perdeo ao fair da barra. E che¬ gado Garcia de faa a Malaca, lhe entregou Pero de faria a capitania da fortaleza, & ficou em Malaca ate ho Setembro feguinte que fe partio pera a índia onde chegou em Nouembro. CAPITOLO .C. De como el rey Dachem tomou por engano hã galeão a Manuel pacheco. EL rey de Dachem polos recados que tinha mandado a Pero de faria que mandalfe pola galé como atras fica dito efteue efperando que foliem por ela. E quando vio que não yão, nem Pero de faria lhe mandaua repofta ficou efpantado, & determinou de faber porque lhe não mãdaua recado: & mandando preguntar a caufa diífo ao Bédara de Ma¬ laca q auia nome Sanaya de raja cõ quem tinha grande amizade, & lhe peitaua grolfamente por lhe dar auifo do que fabia q os Portuguefes de- terminauão & quantos erão, porque todo feu penfamento era diminuilos tanto com ardijs & manhas que podeífe tomar a fortaleza fem perigo. Tomo IV i3
  • Hiftoria da índia n8 E como pera ifto tinha efte trato com Sanaya, foy por ele auifado de como Pero de faria recebera bem a embaixada que lhe leuara Antonio caldeira, & como ho mandara com repofta: & por amor da fua amizade que tinha por muyto certa não dera focorro a el rey Dauru, & que fe Garcia de faa não entrara na capitania naquele tempo, que fempre Pero de faria mandara pola galé. E el rey de Dachem que ifto foube, deter¬ minou logo de cometer paz a Garcia de fá pera ver fe lhe podia acolher algús Portugueles pera os matar, & mandoulhe hum embaixador, que auido feguro de Garcia de fá entrou em Malaca, & primeyro que deffe a embaixada correo toda a cidade fobre hum alifante leuando nas mãos hum bacio douro em que ya húa carta del rey de Dachem pera Garcia de fa & rodeado de muyta gente de pé, leuaua hum homem diante tan¬ gendo em húa bacia, & de quando em quãdo dizia em voz alta como pre¬ gão que el rey de Dachem queria fazer amizade com el rey de Portugal: & ifto fez por fer afli ho coftume daquelas partes. E corrida a cidade deu a embaixada a Garcia de fa, cuja concrufam foy defculparfe do que fora feyto a Simão de foufa galuão, & como eftaua preftes pera dar a galé, artelharia & Portuguefes, fobre que mãdara tres a Malaca per duas vezes pedir ao capitão que mandafle por tudo hum homem honrrado pera afi'entar coele amizade, porque defejaua que os Portuguefes teueffem trato em fua terra, & que nunca vira repofta: pedindo a Garcia de faa que lhe quifeffe refponder com fazer o que pedia. E parecendo Garcia de faa que era aquilo verdade, fez muyta hõrra ao embaixador, & defpedioho logo mandando coele outro com repofta como el rey queria, que fez grande recebimento ao embaixador Português, & por lhe fazer honrra que antreles he muyto grãde lhe deu duas manilhas douro pera que trou- uefie no braço dereyto como caualeyro, & aos que yão coele deu a cada hum fua. E partido ho embaixador pera Malaca foy morto com quantos yão coele na barra de1 Dachem por mandado del rey, & ifto tão fecreta- mente que ho não fouberão mais que aqueles que ho fizerão, & por ifto ho não foube Garcia de faa, mas foube a honrra que lhe el rey de Da¬ chem fez pelo que não teue nenhúa fofpeita daquela maldade, mas vendo que ho embaixador não tornaua cuidou que fe perdera no mar. E fabendo ifto el rey por Sanaya de raja, tornou a mandar outro embaixador a Gar¬ cia de faa, efpantandofe muyto como não mãdaua confirmar a paz como lhe mandara dizer, q a mandaffe logo confirmar per algum homem honr¬ rado. E cuidando Garcia de fá que era afli, fem ho praticar em confelho efcolheo pera mandar a Dachem hú Manuel pacheco q fabia bem a lin- goa Malaya, & porque fe ganhaua muyto na mercadoria q fe lá leualfe deulhe hú galeão nouo carregado dela & a mais fua, & a outra doytenta
  • Livro VII, Capitolo Cl H9 Portuguefes que auião dir com Manuel pacheco, que por a ida fer de proueito ouuerão licença pera irem, com grade aderença. E dilto deu logo Sanaya auifo a el rey de Dachem confelhãdolhe que tomaífe aquele ga¬ leão, affirmando que fe ho tomaua que ele lhe tomaria logo a fortaleza de Malaca, porque a gente que ya no galeão era a principal da fortaleza, & a q ficaua era doente & pobre. E tendo el rey efle recado quando Ma¬ nuel pacheco chegou á barra de Daché determinando el rey de ho tomar mandou muytas lancharas darmada pera ilfo, que andando ho galeão balrrauenteando de fora da barra fayrão poucas & poucas, & quando os Portuguefes virão tanta gente como trazião as lancharas, diíferão a Ma¬ nuel Pacheco que lhe parecia aquilo treição, que feria bÕ armaréfe pera fe defenderem: do que fe ele agaítou muyto dizendo que é el rey não auia treição que não fizeflem aluoroço. E como ja efteuelfem muytas lan¬ charas ao derrador do galeão, entra por ele húa frecha que fayo dantre os mouros, ao q Manuel pacheco pedio muyto aprefiãdo húa faya de ma¬ lha, & em a metédo pela cabeça vem outra frecha & atrauefialhe ho pef- coço, & apos ifto étrão os mouros ho galeão por todas as partes dando grãdes gritas, & fem fe os Portuguefes poderem armar nem defender forão tomados ás mãos fem efcapar nhú, & leuados a el rey os mãdou matar com os outros q tinha da galé de Simão de foufa, & ficoulhe ho galeão que era nouo & muyto bem artilhado, & coeíta artelharia ficou muyto mais abaftado dela do que eítaua a fortaleza de Malaca: cotra quem mandou logo húa armada, mandando dizer a Garcia de fá que lhe agardecia muyto ho galeão que lhe não falecia mais que hú bargãtim, que lhe rogaua que lho mandaffe fenão que ele ho tomaria cedo. E el rey ficou tão foberbo que não tinha em conta os Portuguefes, & determinou de lhes tomar a fortaleza de Malaca. CAPITOLO .Cl. De como foy difcuberta a treyção de Sanaya de raja, & foy morto por iffo. DEspois da tomada deite galeão mãdou Sanaya de raja dizer a el rey de Daché que pois ho tomara que ele compriria com lhe dar a fortaleza pera que dali por diante bufcaua tépo. E quafi q ho ouuera de fazer fe ho noífo fenhor não defcobrira, & aífi foy que andando muytos mouros Dachem darmada ao longo da cofta de Malaca, ajunta- rãfe com algús dela onde chamão ho tãque del rey & hi fizerão hú bã- quete em que os Dachés defpois de bêbados cotarão aos Malayos como
  • 18o • Hijloria da índia por inftrução de Sanava el rey de Dachem tomara ho galeão, & como mandara matar ho embaixador de Garcia de fa pera mais didimulação, & como tinha ordenado de tomar a fortaleza em hú tal dia que Garcia de fa efteuefle na igreja com toda a gente que auia de tirar dentro com hum camelo que eftaua ceuado defronte aa porta da fortaleza, & matar a mais da gente que efteuefle dentro tomar a fortaleza cÕ gente que auia de ter pera iflo: do q logo Garcia de fa foy auifado por algús dos Ma- layos que erão feus amigos: & ouue logo confelho fobre matar Sanaya, & que folfe com ho menos aluoroço que podelfe fer. E eftando nefte con¬ felho chegou Sanaya q era fora com outro mouro feu enteado que auia nome Tuam mafamede, & Garcia de fá ho mandou chamar: & ele foy logo lá bé defcuydado do pera q ho chamauão que não cuydaua que fe fabia, & ya coele Tuã mafamede, a que Garcia de fá diíTe q queria pren¬ der Sanaya por treição que fazia: o q Sanaya não entendeo por não en- teder a lingoa Portuguela. A que Tuam refpondeo, que fe Sanaya fizera treição que a pagaife. E logo Sanaya foy prefo, & atadas as mãos atras foy deitado do terrado da torre q era de cinco fobrados, & affi foy morto. E Tuam mafamede que adi ho vio matar ficou fora de li com medo, & Garcia de fá lhe diíTe que não ouuefle medo, porque Sanaya pagara ho mal que fizera: & a ele que era leal faria fempre muyta honrra & merce, & mandou ho leuar pera fua cafa muyto acompanhado: & adi liurou noffo fenhor a fortaleza cÕ a morte de Sanaya de raja que fez muyto grande efpanto nos Malayos, & fez lébrar a morte de Tuã timuteraja em tempo Dafonfo dalbuquerque, & dizião que os Portuguefes fabião muyto que não fe lhes efcondia nada. E el rey de Dachem ficou muyto trifte pola morte de Sanaya, porque perdeo nele grande perda, & a molher de Sa¬ naya fugio logo, & foyfe coela Tuã mafamede pera el rey Dugentana, hú rey comarcão de Malaca. CAPITOLO .CII. De como Nuno da cunha chegou a Ormuç, & de como foy prefo Raix xarafo. ' INuernãdo Nuno da cunha em Mombaça forão ter coele no cabo do inuerno Simão da cunha, dom Francifco deça, & Francifco de médoça que inuernarão em Moçambiq onde lhe morrerão quatrocétos homés, & afii ho diderão a Nuno da cunha, & a perdição Dafonfo vaz azambujo, & de Bernaldim da íilueira: do que ele ficou muyto trifte & receou que também Garcia de fá & Antonio de faldanha foflem perdidos, & porque
  • Livro VII, Capitolo CII i8r era no cabo do verão da índia, & a nauegação pera laa auia de fer muy perigofa por amor das naos que erão grandes, acordou cõ aqueles capi¬ tães que pera fegurança delas fofle ter ho inuerno da índia a Ormuz. E eftãdo pera partir foy hi ter em hú nauio hú Baftião ferreyra cidadão de Goa que por mandado do gouernador foy bufcar Nuno da cunha a Mo¬ çambique cuydãdo que inuernaua lá & não ho achando foy a Melinde, & porque auia de ir inuernar aa índia efcreueo Nuno da cunha por ele ao gouernador como tomara Mombaça, & a caufa porque ya a Ormuz, pedindolhe muyto que teueífe a armada da índia concertada porque auia de ter neceffidade dela em chegando. E partido Baftião ferreyra, partiofe ele pera Ormuz, & eftando na agoada de teiue foy ter coele dom Fer- nãdo deça cõ os outros dous capitães de fua cõferua que yão da índia como difle atras, & dahi fe foy a Mazcate õde deixou os doentes da ar¬ mada que erão muy tos, & as naos de dõ Frãcifco deça & de Francifco de mendoça, & por capitão a dom Fernãdo de lima, & foyfe na fua nao a Ormuz indo coele Simão da cunha & dom Fernando deça com feus capitães, & el rey lhe fez grande recebimento: & com fua chegada ficou Raix xarafo muy aflbmbrado que caftigaffe fuas tiranias, porque como vinha nouamente auia medo de entender nele. E auedo poucos dias que ho gouernador eftaua em Ormuz, chegou de Portugal Manuel de macèdo por capitão de hú galeão com prouifam del Rey de Portugal pera preder Raix xarafo por muytas culpas que tinha dele, & que lhe fofle entregue, & no mefmo galeão ho leuafle prefo a Portugal. E el Rey deu efte cargo a Manuel de macedo por confiar dele q ho faria melhor que outrem & não fe peruerteria cõ peitas. E chegando ele á agoada de Teiue que he feflenta legoas Dormuz foube como Nuno da cunha eftaua em Ormuz: & porque fe receou que fe foubeffe ao que ya lhe tiraria a honrra quef- peraua de ganhar em prender Raix xarafo (por fer coufa muy defejada) quis écobrir fua ida a Ormuz, & foyfe é húa terrada cõ algús de que fe confiou mandando ao q deixou no galeão por capitão que dali a tantos dias fofle ter a Ormuz que era ho tempo que lhe pareceo que teria feyto feu negocio. E chegado a Ormuz na terrada que era hú dia pola manhaã defembarcou muyto fecretaméte & foyfe a cafa de Raix xarafo que pou- faua nos paços del rey, mãdando primeyro a hú criado feu que como ho vifle falar com Raix xarafo lhe leuafle húa carta a Nuno da cunha em q dizia q lhe requeria da parte del Rey de Portugal que tanto que aquela vifle mandafle gente a cafa de Raix xarafo porque cõpria muyto a feu feruiço. E chegado a cafa de Raix xarafo foy dele muyto bem recebido porque ho conhecia & tinha coele amizade de quãdo ho leuara da índia pera Ormuz defpois de fe liurar das culpas que lhe punhão como difle
  • Hijloria da Índia 182 atras. E ho homem que tinha a carta pera Nuno da cunha como os vio falar foylha leuar. E lendo Nuno da cunha a carta chegou Simão da cu¬ nha muyto deprefla & diífelhe que fazia, que Manuel de macedo tinha prefo Raix xarafo: & aíli era que ja a noua andaua pola cidade. E ficando Nuno da cunha muyto falteado coefta noua mandou logo a Simão da cu¬ nha que fofle préder Raix xarafo, & ele foy com muyta gente: & che¬ gando la achou que ja Manuel de macedo tinha prefo Raix xarafo, & Si¬ mão da cunha lho tomou & lhe mandou logo efcreuer fua fazenda, & ho leuou configo a cafa de Nuno da cunha fem na cidade auer por iflo nhú aluoroço cõ quanto Xarafo tinha nela muyto poder & muyta valia, & era muyto aparentado, & ifto por medo dos noífos. E Nuno da cunha ficou tão agaftado de Manuel de macedo préder Raix xarafo fem lhe dar conta diflo, que ho mandou prender com quanto lhe ele moftrou a prouifam que trazia del Rey pera ho préder: & também ho porque Nuno da cunha fez ifto foy por abrandar el rey Dormuz q moftrou fentir muyto a prifam de Raix xarafo por fer é fua cafa, & dauaffe por muyto injuriado diflo. E defpois da prifam de Raix xarafo em Agofto, ordenãdo Nuno da cunha fua partida pera a índia veyo noua certa a el rey Dormuz que Raix bar- dadim gouernador de Baharé por el rey Dormuz fe lhe rebelara & lhe não qria pagar corenta mil xarafins que lhe pagaua de réda, & ifto por amor da prifã de Raix xarafo de q era cunhado dizédo q el rey ho fizera prender pois cofentira q fofle em fua cafa, pelo q lhe auia de fazer todo ho mal que podefle. O q fabido por el rey deu cota a Nuno da cunha, dizédo q pois ele era vaffalo del Rey de Portugal & lhe pagaua pareas q ele como feu gouernador lhe auia de reftituir Baharem & tornar a fua obediência a Raix Bardadim, & mais pois a prifam de Xarafo fora caufa de feu aleuantamento, & fe ifto não fazia que não podia deixar de def- contar nas pareas del Rey de Portugal aqles corenta mil xarafins q lhe rédia Baharé: a q Nuno da cunha refpõdeo q não tinha naquilo rezão, porque fe Xarafo fora prefo fora por fuas culpas & el Rey de Portugal ho podia caftigar como feu fuperior, & por iflo não era aquilo efcufa pera não pagar as pareas. E daqui praticarão tanto fobrefta coufa q Nuno da cunha fez cõ el rey q pagafle mais de pareas a el Rey de Portugal os corenta mil xarafins q lhe rédia Baharem & que lho fometeria a fua obe¬ diência. E ifto pos Nuno da cunha em cõfelho com os capitães & fidal¬ gos de fua armada: & algús diflerão q ele ya dirigido de Portugal pera tomar Diu: & Diu importaua mais tomarfe que fe acrecétarem mais co- réta mil xarafins ás pareas Dormuz, porque auia de réder mais, & auia de fer mais hõrra del Rey de Portugal tomarfe, & que fe agora fofle fobrele cõ ho deftroço que Lopo vaz de fam Payo tinha feyto nas fuftas,
  • Livro VII, Capitolo CIII iS3 & com ir de nouo de Portugal q ho tomaria, & indo fobre Baharem ou mandado lá q auia dauer muyta detença por fer fora de moução, & per¬ deria tempo de chegar aa índia tão cedo como era neceflario pera ir fobre Diu, por ilfo que deixaífe Baharé. E outros difíerão que não por¬ que bé fe podia fugigar Baharem & tomarfe Diu, & coeltes foy Nuno da cunha. E ifto fe adernou, & q folie Simão da cunha a Baharem: a que Nuno da cunha deu por regimento q por quanto era fora da moução, & os ventos lhe auião de fer por dauante q andaífe ás voltas ate trinta dias & quando nefte tempo ho não podefle aferrar que fe tornalfe. E coeíte regimento fe partio Simão da cunha na entrada de Setembro, & ele foy em hú nauio redondo dú Iorge gomez mercador da índia Português, que eu conheci, & forão por feus capitães dom Francifco deça no nauio em q Manuel de macedo fora de Portugal, que não chegou a Baharem por fer roim de vela, & Manuel dalbuquerque em outro, & dom Fernãdo deça no feu galeão, & Aleixo de foufa em outro, & Lopo de mezquita no çamorim pequeno, & Trilião dataide em húa fuíta, & a gente q ya nelles nauios forão trezentos dos nolfos todos fidalgos & caualeyros cria¬ dos del Rey, géte toda limpa & bem armada de coiraças de feda, & ar¬ mas brancas. E fazendo fua viagé acharão os vetos contrairos & teuerão alfaz de trabalho, & andando aíli deulhes noffo fenhor hú vento que os pos em Baharé, faluo a dom Francifco deça que ficou atras & Aleixo de foufa que no caminho tomou algúas terradas de mouros, & defpois foy ter a Baharem eítando os outros furtos. CAPITOLO .CIII. Do q aconteceo a Simão da cunha em Baharem, & de como morreo & outros muytos. CHegado Simão da cunha ao porto de Baharem achou hi Belchior de foufa tauares capitão mór do mar Dormuz com obra de feys bargantls & catures q ellaua goardando ho porto, junto do qual eítaua húa boa fortaleza cÕ cobelos & torres cercada de muro & caua onde Raix Bardadim eítaua com fuas molheres, filhos & muyta gente darmas. E vendo ele furta a nolfa frota, & parecendolhe ao q ya, pos húa bandeira branca aruorada na fortaleza: & vilta por Simão da cunha mãdou a terra faber o que queria por hú lingoa: por qué Raix bardadim lhe mandou dizer que ele não fe leirãtara fe não por amor da prifam de Raix xarafo feu cunhado: & pois os nolfos interuinhão niflb que ele nã queria coeles nada por fer muyto grãde feruidor del Rey de Portugal, &
  • 184 Hijloria da índia pois ele queria aquela fortaleza lha queria dar em paz, & fe iria cõ fuas molheres, filhos, gente & quanto eftaua nela, & coefta condição lha da¬ ria. Ouuido ifto por Simão da cunha, quifera aceitar a fortaleza com aqla condição, mas foy cotrariado dos capitães & fidalgos, dizendolhe q com medo a tomaua daqla maneyra, & q não era bé que aqle mouro ficaffe lê caftigo polo q fizera, & quãdo a ouueffe de tomar fem peleja foffe cõ lhes ficar a fazéda: & que Raix bardadim fe foffe com fuas molheres, filhos & gente, porque fem fazenda ficaria bé caftigado, & não daria mais toruação né defalfego a el rey Dormuz. E com quanto ifto pareceo muyto mal a Simão da cunha por parecer alíi a todos ho ouue por bé, mas muyto contra fua vontade, & iffo refpondeo a Raix bardadim: que como homé esforçado não repricou mais fe não mandou aruorar no muro duas bandeiras, húa brãca outra vermelha como qué dizia aos noífos q viífem fe querião paz ou guerra. O q vendo os capitães diíferão a Simão da cunha q quifeffe guerra, & por iffo ele mandou defembarcar a gente, & algúa artelharia q leuaua para bater a fortaleza. E feytas fuas eftãcias, & ordenados feus capitães & gente q auia deftar nelas, começoufe de dar bateria á fortaleza, & em começando mandou Raix bardadim tirar a bandeira branca & ficou a vermelha como quem não eftimaua a guerra dos noífos: & bem parecia q era alíi, porq como os noffos faziã algú bu¬ raco no muro cõ a artelharia logo era tapado & tão depreffa q quafi q não fe enxergaua, do q Simão da cunha andaua muyto agaftado vendo q não fazia nada, principalméte porq lhe faleceo a poluora també aperce¬ bido ya dela: & então ele camanho erro fizera em não tomar a fortaleza q lhe dauão em paz. E como não tinha outro remedio de poluora fe não mãdar por ela a Ormuz, mandou logo lá hum bargãtim q foy é poucos dias, por ho vento fer a popa, mas á tornada foy ho vagar muyto. E vendo os mouros a dilação que auia na bateria da fortaleza zombauão dos noífos de cima do muro como era noyte, & diziãlhe q pois os nã qui- ferão deixar ir q ali auião todos de ficar. E parece q adiuinhauão ou fize- rão por onde foffe alíi fegundo fe prefumio q deitarão peçonha nas agoas de que os noffos auião de beber, ou por elas feré peçonhentas naquele tépo, & nele mefmo fer a terra muyto doentia, & os noffos eftaré def- poftos pera doenças com ho muyto grande trabalho q tinhão começarão dadoecer & tanto que não fe podião leuantar. E Raix bardadl mandou dizer a Simão da cunha q pola amizade q tinha com os noffos lhe acon- felhaua q fe foffe, porque fe ali efteueffe mais lhe auia dadoecer a gente de maneyra que quando fe quifeffe ir não auia de poder: & os noffos zombauão daquilo & dizião a Simão da cunha q ho mouro dizia aquilo com medo, & por iffo Simão da cunha não tomou feu confelho que fora
  • Livro VII, Capitolo CIII i85 muy bÕ, porq defpois nã fucedera a defauétura q fucedeo: & foy a doéça dos noffos em tanto crecimento que quando a poluora chegou Dormuz eftauão quafi todos doétes & algús mortos, & porq ele via afli adoecer a gente mudou as eftãcias pera perto do mar, porq ho teuefle mais a mão fe fe viffe apertado dos mouros que foliem fobrele, o que temia muyto que foffe fe Raix bardadim foubeífe como tinha a gente: o q ele fabia muy bé pola experiécia q tinha da terra, mas como não queria fe não amizade cÕ os noffos porque fe fizeffe algú dãno fabia que Raix xarafo ho auia de pagar nunca quis bolir configo nem fair aos noifos, que fe faira cÕ pouco trabalho os matara a todos. E defpois de Simão da cunha reco¬ lher os feus pera mais perto do mar, fez húa eftãcia em que os pos todos, & tornou outra vez a bater a fortaleza de que derribou hú lãço do muro por eftar abalado dantes, & quifera por ali entrar a fortaleza fe teuera quem ho acompanhara, mas não achou fãos mais de trinta & cinco ho- més, & todos os outros tão doentes & fracos que não fe podião bolir: & de muyto agaftado leuantou as mãos ao ceo, dizédo. Senhor quã pouco te cuftara darefme cem homés fãos, Que cÕ tãtos fe atreuera a entrar a fortaleza fe os teuera: & vendo que os não tinha deixou de ho fazer com muyto grande magoa adi por iffo como por ver quão bem acertaua em tomar a fortaleza que lhe dauão em paz, & quã mal aconfelhado fora em a não tomar & em fe não ir quando tinha tépo. E ãtes que ho não teueífe de todo determinou de fazer embarcar a artelharia & os doentes porq os falualfe, o que fez cÕ immenfo trabalho afli leu como dos trinta & cinco que eftauão fãos, que faindolhe muyto fangue das mãos embarcarão a artelharia, & defpois os doentes com q ja não podião de cãlados & por iffo lhes atauão cordas nos pés & os leuauã a rafto ate ho mar. E foy húa muy piedofa coufa de ver efta embarcação, afli do mao trato que fe daua aos doentes por fe mais não poder fazer, como dos gimidos & gri¬ tos que dauão & magoas que dizião. E nefte trabalho ajudou muyto bê aos noffos hum mouro Dormuz q foy com Simão da cunha que era Xe¬ que da ilha Dãgão & ya em húa terrada com coréta mouros també Dor¬ muz com q fez muyta ajuda aos noifos afli no cerco paliado como nefta embarcação. E embarcados todos os doétes & artelharia, fe embarcou Simão da cunha morto de paixão, & de tamanha defauentura a que ele quifera atalhar em tomar a fortaleza fe ho deixarão, do que ele tinha mayor magoa, & coela diífe ao meftre do feu nauio em fe embarcando. Meftre quando ouuerdes de fazer algúa coufa de voffa honrra não tomeis ho confelho de ningué fe não ho voffo. E coifto fez dar ás velas & fe par- tio & afli os outros nauios: & logo nos primeyros tres dias de fua naue- gação começarão de morrer muytos dos doentes q leuaua q lhe renoua- Toiio IV *4
  • i85 Hifloria da índia uão de cada vez mais fua trifteza de que ele adoeceo, & tão auorrecido ya da vida & de tudo q fe meteo na camara do nauio fem querer ver ninguém ne falar, & dãdo muyto grandes ays & fofpiros durou noue dias defpois q adoeceo & morreo de trifteza, & no feu nauio morrerão bé fetenta doentes a fora os dos outros nauios: & ficou ho nauio tão defem- parado de que ho mareaffe que fe ouuera de perder fe lhe noífo fenhor não focorrera com ir ter coele Fernandaluarez çarnache em húa terrada que com fua géte ho ajudou a leuar a Ormuz, Õde Simão da cunha q ya morto nele foy enterrado, & afíi Francifco gomez filho do bifpo do Fú- chal, & todos os nauios da armada chegarã muy deftroçados, hús diante outros defpois: & os mais dos q forão a Baharé morrerão que muy pou¬ cos efcaparão & ifto foy o q ganhou de ir lá: & mais coefta ida não pode Nuno da cunha partir pera a índia em Agofto pera chegar em Setembro & fazer preftes a armada pera ir a Diu aquele anno & não foy. E vedo Nuno da cunha como nã tinha mais que fazer em Ormuz, determinou de fe partir pera a índia, & arrecadou as pareas del rey Dormuz, & foltou Manuel de macedo & pos em feu poder a Raix xarafo porque ho auia de leuar pera Portugal por mandado del Rey. E tédo tudo preftes, par- tiofe caminho da índia, & forão coele dõ Fernãdo de lima, dom Fran¬ cifco deça, Frãcifco de mendoça, Manuel de Macedo & outro todos capi¬ tães de naos, & Iorge gomez no feu nauio. CAPITOLO .CIIII. De como ho gouernador fe partio de Goa pera Cochí. TEndo ho gouernador Lopo vaz de fam Payo ho inuerno 5 Goa, che¬ gou hi Baftião ferreyra na entrada dele com cartas de Nuno da cunha, que tomara aos mouros Mombaça õde teuera ho inuerno, & ficaua em Melinde dõde auia dir a Ormuz pera no verão feguinte paf- far á índia, pedindolhe que lhe teueffe a armada preftes porque auia de ter neceflidade dela e chegãdo, & por efta noua mandou ho gouernador húa foléne prociífam, em que com todos foy dar graças a noífo fenhor por a noua da armada de Portugal, q os mouros querião adiuinhar que não auia de vir, & andauão por iífo muyto ledos dizédo q ja não auia Portugal. E dadas graças ao eterno Deos, ho gouernador fe pos com muyta diligecia a mandar concertar a armada, & a fazer de nouo algõs nauios a fora muytos que mandara fazer em diuerfos tempos .f. feys ga¬ leões & a taforea de Cochim que era nao de quinhetos toneis, feys galés reais, cinco galeotas, quatro carauelas, & cincoenta bargantins, & muy-
  • Livro VII, Capitolo C1I1I 187 tos outros q mandou fazer de paraós Malabares, de que no tempo q go- uernou a índia fe achou por certeza que fe tomarão a Imigos bé cento & cincoenta com fuítas & outros nauios, & todos bé artilhados & de boa artelharia: & deites forão leuados muytos pera diuerfas partes do fenho- rio que el Rey de Portugal tem na índia, & outros fe gaitarão de velhos: & com tudo ficou a mais groíTa & melhor armada que tinha nhú príncipe Chriftão de céto & trinta & feys velas .f. quatorze galeões, feys gale's reais, oyto galeotas, feys carauelas, & céto & duas fuítas & bargantins. E afli como acrecétou a armada, affi també teue cuydado de repairar as fortalezas da terra do neceffario: na Dormuz mandou fazer hú baluarte defronte da porta, & mandou acabar hús cobelos q eltauão começados, & enmadeirar os terrados da fortaleza, & argamaíTar ho muro, & con¬ certar a igreja q eftaua dãneficada, & na de Chaul mãdou leuãtar mais hú fobrado na torre da menagé, & acabar ho cobelo do alcayde mór, & fazer hú cais de pedra, & duas cafas pera almazés dartelharia & de mã- timétos. Na cidade de Goa hú pedaço de chapa no muro da banda do mar & hú cobelo. & acabar a fé q eítaua começada & telhar de nouo ho moíteiro de fam Frãcifco. Na fortaleza de Cananor mandou fazer húa caua ao derredor do arrabalde pera q ficaíTe détro ho poço dagoa, q eítaua fora da fortaleza q era parela muy grãde perjuyzo por nã ter agoa: & na mefma caua hú baluarte q varejaífe ho mar dúa bãda & da outra cõ a artelharia & mãdou refazer ho muro da cerca da fortaleza q eítaua desfeyto em muytas partes & derribar o q cercaua a torre da menagé por fer fraco & fazelo mais forte, & fazer húa cafa pera feytoria, & húa fala do apoufentaméto do capitão. Em Cochim mãdou fazer a parede grande q vay da fortaleza ao lõgo da praya ate o caluete, & acabar todos os cobelos q eítauã da bãda do mar: & affi outras obras miúdas de q a fortaleza tinha neceffidade. E a fora tudo iíto mãdou pagar trezétos mil cruzados de foldo, q foy coufa em q fez grande feruiço a el Rey feu fenhor. E affi como foy esforçado na guerra, foy cõftãte na juítiça q fem- pre folgou muyto de fazer, poíto q algús quiferã dizer ho cõtrairo por odio q lhe tinhão: poré ele caítigou fempre os crimes afperaméte como fe vio no mulato q foy enforcado em Goa por tirar de noyte em CochI cõ húa efpingarda a Frãcifco pereyra peítana, & os oyto aleuãtados da cõpanhia dos q fe aleuãtarão cõ húa fuíta & cõ hum bargantim, q em peífoa foy préder húa noyte a terra firme, & eu ho vi partir q eítaua em Goa a eífe tépo. Foy fépre muyto deuoto & temerofo de noífo fenhor, & tão calto q núca lhe fentirão molher em quãto andou na índia: & foy fora de vaidades né prefunções, & cõ todos era companheiro affi na paz como na guerra, & pera todos muyto bé enfinado. Foy homé grande de
  • i88 Hijloria da índia corpo, mêbrudo & bé apelidado & de rofto alegre. E no cabo deite in- uerno que teue ê Goa, em dia de fam Bertolameu de madrugada furgio na fua barra a armada q aquele anno foy de Portugal de quatro naos em q ya por capitão mór Diogo da íilueira & por feus capitães Ruy gomez da grã, Ruy mendez de mezquita, & Anrriq moniz que morreo no mar, pay Daires moniz & Dantonio moniz q forão coele meninos: & efta ar¬ mada leuou tão boa viagé que quãdo chegou a Goa yão os homês dela q erão quinhétos tão fãos & tão gordos q parecia q auia qulze dias q par¬ tirão de Lisboa, & núca defpois eu vi outros tais. E detendofe Diogo da íilueira poucos dias em Goa, fe partio pera CochI: & defpois dele o go- uernador a fazerfe preftes pera a partida de Portugal, pera õde efperaua de partir pola vida de Nuno da cunha, como direy a diante. FINIS.
  • LIVRO OITAVO
  • PROLOGO NO OCTAVO LIVRO DA HISTORIA DO DESCOBRIMENTO & conquiíta da índia pelos Portuguefes. Dirigido ao muyto alto & muyto poderofo Rey dõ Sebaítião noffo fenhor defte nome o primeyro. Rey de Portugal, & dos Algarues, Daquem, & Dalé mar, em África, fenhor de Guiné, da cóquiíta, nauegação, & co¬ mercio de Etyopia, Arabia, Perfia, & da índia. Pelos Jilhos de Fernão Lope% de Cajlanheda. AInda que nam fora manifeíto muyto alto & muy poderofo fenhor, o animo cõ que V. A. & feus antepaffados todos, receberão as femelhantes offertas de obras proueytofas á Republica, & que en- finauão por exemplos a bem obrar na paz & na guerra, baftaua pera nós offerecermos efta a V. A. a vontade com que el Rey dom Ioão ho ter- ceyro voffo auó (que eftá em gloria) aceitou o Primeyro liuro defla hifto- ria & quanta merce por ifto fez a Fernão Lopez de Caftanheda noffo pay (q Deos té.) Porq alem de V. A. ter as melmas obrigações pera a fauo- recer que ele tinha, que erão ler de excellentes feytos de Portuguefes, & animarem com elas a feus defcendentes pera as ymitarem, & terem por facil poer as fazendas & vidas por acrecentamento de noffa fancta fee, & feruiço de feu Rey (como eftes feus antepaffados fizerão) parecia baftãte caufa peraV. A. fauorecer efte Liuro, fer parte daquele Primeyro (por continuação da hiftoria) q a el Rey voffo auó pareceo bem, Principal¬ mente que trabalhou nela tanto noffo pay, & fez tantas diligécias por efcreuer a verdade, que com o fim da hiftoria fe lhe acabou a vida, que tinha muy trabalhada de muytas indifpofições caufadas de cõtino cuydado, & de continuas vigílias, & leytura de muitos papeis q da índia trouxera. Polas quaes rezões, em feu nome pedimos a V. A. queira tomar fob feu amparo efte Liuro Octauo, (& com efte o Nono & Decimo feguintes, que muy cedo fe imprimirão) pera que refponda o fruyto ao muyto tra¬ balho que ho Autor nele teue, & alcance ho fim que pretendeo.
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  • HO LIVRO OYTAVO DA HISTORIA DO DESCOBRIMENTO & CONQUISTA DA INDIA PELOS PORTUGUESES, Por mandado del Rey dom Ioão de gloriofa memória deite nome o III. Em que se cotem o 4 os Portuguefes fizerão na índia, & em outras partes do oriéte, gouernandoa Nuno da cunha. Feyto per Fernào lope^ de Cajianheda. CAPITOLO .1. De como Nuno da cunha chegou â índia, & foy entregue da gouernança. PArtido Nuno da cunha Dormuz. E feguindo por fua viagem, foy furgir na barra de Goa a vinte quatro Doutubro. E no mefmo dia a tarde defembarcou, efperando o no cais os vereadores da cidade, & capitão, & ouuidor dela com muytos fidalgos, & gete outra. E moítrada lua prouifam de gouernador, & jurando de goardar os priuilegios da cidade: forão abertas as portas, que eftauão cerradas em quanto durou efta cerimonia. E metido debaixo dú paleo, entrou na cidade: onde eftaua a clerizia com húa foléne prociflam de Cruzes leuantadas, foy leuado á Sé da cidade a fazer oração, & da hi pera fua cafa. E como tinha deter¬ minado de aqle anno não ir a Diu, cometeo a Eytor da filueira que folie com a armada da índia efperar Simão da cunha á cofta de Cambaya: pera hi lhentregar a armada quando tornaífe de Baharem, pera fazer guerra a Cãbaya. Que ainda q diz no cabo do'liuro feptimo, q Simão da cunha tornou de Baharem antes de Nuno da cunha partir Dormuz; não foy alli, q foy erro da impreflam. E por Eytor da filueira auer por afronta de leuar aqla armada pera outrem, efcufoufe diffo: pelo que ho gouernador pedio a feu cunhado Antonio da filueira de menefes que a Tomo IV
  • *94 Hijloria da índia leuaffe. E eftando pera partir, chegou recado do desbarato de Simão da cunha, & da fua morte. E porque Antonio da filueira eílaua pera leuar efta armada, deu lhe ho gouernador a capitania mór dela, pera que fizefle a Cambaya a guerra q lhe ouuera de fazer Simão da cunha, & deulhe nouecentos Portuguefes, de que os quatrocetos erão efpingardeiros: que forão embarcados em cincoenta e tres velas de remo, galés, galeotas & bargantins. E partido Antonio da filueira, deu o gouernador a capitania mór doutra armada que auia de mãdar ao eftreito a Eytor da filueira de quatro galeões, duas carauelas & quatro bargãtins. Dos galeões a fora ele, forão capitães Martim de crafto, Antonio de lemos & Fernão rodri- guez barba: das carauelas Frãcifco de vafconcelos, & Ioanemendez de macedo. Dos bargãtins Antonio botelho, Francifco de freytas, & outros dous, & deulhe por regiméto q partiffe em Ianeiro. E deixãdo por capi¬ tão de Goa a dom Fernando de lima, fe partio pera Cochim. E de cami¬ nho deixou dom Ioão déça na capitania de Cananor que era fua. E fez capitão mór da cofta do Alalabar a Diogo da filueira feu cunhado da pri- meyra molher, & deulhe húa armada de duas galeotas, de que forão ca¬ pitães Manuel de vafcõcelos, & Nuno fernandez freyre, & a carauela de Francifco da cunha, & feys bargantins, & foy capitão dú Ioão da filueira feu irmão de Diogo da filueira, & deixoulhe nefta armada duzentos Por¬ tuguefes. E chegado a Cochim, foy recebido com a mefma folénidade q em Goa: & ali acabou de fer entregue da gouernança. CAPITOLO .II. De como forão prefos Lopo va\ de fam Payo & ho licenceado Ioão de foyro. ENtregue ho gouernador da gouernança, mandou préder a Lopo vaz de fam Payo, & efcreuerlhe quanta fazenda lhe foy achada, dizendo q afli ho mandaua el Rey de Portugal, por amor de hús capítulos q derão dele feus Imigos. E por eftes capítulos fe proceffou defpois em Portugal contra Lopo vaz de fam Payo: & fe deu fentença cõtrele, que perdeffe ho mantimento q ouuera feruindo de gouernador. E por efta caufa fe deu a fenteça cõtrele, & nã por lhe daré a gouernãça os juyzes q julgarão por ele na índia, como dilfe no liuro feptimo q foi por erro. E fabida a prifam de Lopo vaz, todos os q erão amigos do feruiço de Deos & del Rey, forão muyto efpantados: por fer notorio com quanta diligencia, verdade & limpeza Lopo vaz de fam Payo feruira ho cargo da gouernança da índia, afli na guerra, como na paz, & q tinha feyta a
  • Livro VIII, Capitolo II i95 melhor & mayor armada do q nuca gouernador fizera ateli. E todos os da índia ho dizião afli pubricaméte, o que eu ouui a muytos, brasfemando de quam mao galardão lhe dauão de feus muytos & grandes feruiços. E afli dizião q ho gouernador eftaua muyto indinado cotra Lopo vaz de fam Payo, & lhe queria mal por lhe Garcia de faa & Antonio de faldanha fazeré crer, que Lopo vaz lhe quifera roubar lua honrra em querer tomar Diu, o q fizera fem duuida fe lho eles não eftoruarão, & afli por outros mexericos doutras peffoas q núca falece. E de ho gouernador não eftar be cõ Lopo vaz, fe pareceo no exceder ho modo q teue em lhe mandar tomar fua fazéda tão meudaméte, que lhe mãdou Lopo vaz dizer q nã fe agaftaua do q lhe fazia, porq efperaua em noflo Senhor que outro ho auia de vingar: o q fe fe comprio bé. E logo q Lopo vaz foy prefo, mandou dizer ho gouernador ao licenciado Ioão de foiro, ouuidor geral da índia, que entregafle a vara a hú Pero barreto, & fe fizefle preftes pera Portu¬ gal. E vedo Ioão de foiro efte recado do gouernador, como era prudéte, pareceolhe q não era fem mifterio, & q não faria boa fazéda em ficar na índia cotra votade do gouernador. E fem mais qrer faber fe el Rey ho mãdaua ir ou nã, refpondeo ao gouernador: q lhe beyjaua as mãos por tamanha merce, q ele era ja velho & canfado, & não tinha na índia ou¬ tro prémio de feus trabalhos, fe não pobreza & muytos defgoftos, pelo que nenhúa coufa defeja mais q irfe pera fua molher, & feus filhos. Mas porq ele deffe boa cõta de fi a el Rey de que tinha aqla vara, que lhe deffe húa certidão de como lha tomaua. CÕ cuja repofta ficou ho gouer¬ nador atulhado, q defejaua de mãdar Ioão de foiro pera Portugal, & q não fofle feu ouuidor: porque lhe não tinha boa võtade, por fer certo q ele fora ho prímeyro que em particular, & em pubrico confelhara cõ muyta inftancia a Lopo vaz de fam Payo defpois do desbarato das fuftas de Diu, q ho fofle tomar, & afli por outros mexericos, de q fempre os gouernadores quando nouamente chegão á índia ouué que farte, princi- palmete de peffoas q té nela mãdo. Afli q védo ho gouernador q por ali não podia leuar Ioão de foiro, mãdoulhe tomar reíidécia fem ho el Rey mãdar ir pera Portugal, né auer por acabado ho tépo de fua ouuidoria. E tãto q a refidécia foy pregoada, como Ioã de foiro tinha muytos Imi- gos, afli dos fidalgos da índia, por fer grãde amigo de Lopo vaz, cujos Imigos erão, como dos outros por fazer deles juftiça que todos auorrecé, todos teuerão q dizer cõtrele. E mais porq ho enqueredor & efcriuão da refidécia erão feus Imigos, & afli ho forão tãbé muytas teftemunhas, que cõ medo q ele fizefle juftiça deles, fe lançarão cõ os mouros. E cõ feguro do gouernador fe tornarão pera os Chriftãos. E cõ os ditos deftas & ou¬ tras taes teftemunhas, foy Ioão de foiro prefo, & mandado a Portugal.
  • Hijloria da índia 196 E partido, como feus Imigos defejauão de ho deítruir, na cotentes cõ as teftemunhas da reftdécia ajudarãfe de hú Pero daguiar, q feruindo Ioão de foiro douuidor geral feruia de feu efcriuão, q depois de fua partida foy prefo por falfario, a q algús Imigos de Ioão de foiro cometerão q tef- temunhaífe cõtrele, & q lhe auerião perdão do gouernador do crime, por¬ que eftaua prefo. E prometendo que fi, ouuerãlhe ho perdão, que dizia «Eu Nuno da cunha védor da fazenda del Rey rioflb fenhor, & gouerna¬ dor da índia, &c. Certifico, q fendo prefo Pero daguiar por falfario, lhe perdoev fuas culpas, cõ tal codição q confeíTaífe tudo o que fabia do lice- ciado Ioão de foiro, q foy ouuidor geral neftas partes da índia. E ifto por parecer q cõpria aífi a feruiço del Rey noffo fenhor. E aíli pareceo ao gouernador, & nã cõ outra má téção. E coefte perdã, diffe efte Pero daguiar mil teítemunhos falfos cõtra Ioão de foiro, fegúdo fe defpois foube por inquirições mui autéticas que fobriflo fe tirarão, que eu vi: & mais Pero daguiar como foy folto fugio pera os mouros, & antreles morreo, & fe me não engano mouro. Finalmete q por mais maldades q os Imigos de Ioão de foiro fulminarão cõtrele ate ho fazeré condenar, fabida def¬ pois a verdade, foy reftituido em fua honrra, & em graça del Rey, & em feu feruiço, & nele morreo. E Lopo vaz de fam Payo, & ele, como digo forã mãdados prefos pera Portugal na armada q ho gouernador mã- dou aqlle anno, de q foy capitão mór Lopo dalmeida de Santaré, filho q foy de dõ Diogo dalmeida prior do Crato, que chegou a Portugal a fal- uaméto cõ rica carrega. CAPITOLO .III. Do que dõ Iorge de crajlo fe\ na ilha de Bãda. NO liuro feptimo fica dito como dõ Iorge de crafto, por mandado de dom Iorge de menefes capitão da fortaleza de Maluco, foy a Banda a bufcar focorro. E chegado, achou hi Iorge de brito capi¬ tão da fuíla q fe perdera de fua conferua quãdo hia pera Maluco, & não podendo feguir fua rota arribou a Banda, pera q vinda a moução de Mayo fe foffe a Maluco. E affi achou dõ Iorge dous jugos de Malaca, de que erão fenhores hú Lopaluarez, & hú Baftião vieyra mercadores ricos, a q dõ Iorge contou a necellidade de géte, & de dinheiro em que ficaua a fortaleza de Maluco, requerédolhes da parte del Rey, que empreftalTem dinheiro pera fe remedear, & alargaífem coréta Portuguefes q leuauão em fua cõpanhia pera a defender. O q eles não quiferão fazer, do que dõ Iorge fez autos que mandou ao capitão de Malaca pera os caftigar. E
  • Livro VIII, Capitolo IIII i97 efperando ele por moução pera tornar a Maluco, forão ter ás outras duas ilhas de Banda certos mouros vaffalos del rey de Tidore por feu .man¬ dado aleuantar a terra cõtra os Portuguefes, & pera os fauoreceré hião coeles algús Caftelhanos: q aluoroçarão a géte, dizendo mil males dos Portuguefes, & muytos bés dos caftelhanos, & q auião cedo de fenhorear toda aqla terra. E por mais que dõ Iorge trabalhou por atalhar a ifto, & por tomár eftes mouros & caftelhanos nunca pode. E vinda a moução de Mayo, partiofe pera Maluco, & chegou á fortaleza cõ no mais q vinte cinco Portuguefes que hião na fufta com Iorge de brito, & fem nenhúa fazenda pera a feytoria, do q dõ Iorge de menefes ficou muyto agaftado por não ter com q pagar á gente feu mantiméto, q morrião com fome. E a géte da terra q ho fabia, fe efpantaua muyto de como os Portugue¬ fes podião fofrer tamanhos trabalhos como erão os da guerra & os da fome, & da grãde conftãcia q tinhão em feruir a feu Rey, & como nã fe hião & deixauão a fortaleza pois erão tã mal pagos, afli do loldo como do mantiméto. E afli erão efpantados do pouco cuydado que os gouerna- dores da índia tinhão dos Portuguefes q eftauão naqla fortaleza. E quando Cachil daroes foube q não auia nenhúa fazéda com q fe pagalfe o que fe deuia aos Portuguefes, dizia q nã podia fer fe não q não auia na índia nenhús Portuguefes, né gouernador pois não mandaua cõ que fe pagafle a géte que eftaua naqla fortaleza. E védo ele a defordé que auia antre os Portuguefes, & quão pouco obedecião os que fe achauão em Banda aos mãdados do capitão de Maluco, cuja fabião q era a jurdição de Banda, teue ho em muy pouca conta, & afli aos Portuguefes: & dizia que gali¬ nhas brancas antre pretas paredão muyto mal. E outras coufas, em que moftraua criar algúa malícia cõtreles, como defpois fe afirmou. CAPITOLO .IIII. De como dom Iorge de menefes foy fobre a cidade de Tidore. NEste tempo fe acabarão húas tregoas que auia antre dom Iorge, & Fernão de la torre, & afli antre os reys que feguião eftes dous capitães. E acabadas as tregoas, nã quis Fernão dela torre aflen- tar outras por confelho del rey de Tidore, & do gouernador de Ieillo, que tinha tudo preftes pera renouar a guerra com que efperaua de fe fazer de todo fenhor do Morro, que he a melhor coufa daquelas partes, & por ilfo fazia efta guerra. E mãdou logo lá fua armada, pera que tomaffe os lugares que lá tinha el rey de Ternate: & el rey de Tidore mandou outra. E ainda que Cachil daroes tinha bé prouidos os lugares
  • Hifioria da Índia jgS del rey de Ternate, mandou també fua armada, em que forão algús Por- tuguefes. E andando lá, encontroufe Cachil rade gouernador de Tidore, capitão de húa groffa armada com feys corafcoras da armada de Ternate. E defpois de os ternates pelejarem muy esforçadamente, forão desbara¬ tados por Cachil rade: que matou & ferio muytos deles, & mais pren- deo hú mouro principal de Ternate capitão de húa cora cora, que tomou com quantos hião nela, que mãdou defpois matar muy cruamente. E ficando os Ternates, & os Portuguefes que os ajudauão alfi desbaratados, acolherãfe a terra: & mandarão recado por mar a do Iorge de feu def- barato. E que os Imigos eftauão muito poderofos, porque a fora eftar lá a principal gente de Tidore, andauão coela coréta Caftelhanos, q a fauo- recia muyto, & fe nã fofTe hú groíTo focorro, q ferião cedo fenhores do Morro. O que fabido por dom Iorge, ficou muyto ledo, porque vio que tinha muyto bõ tempo pera deftruyr el rey de Tidore, & desbaratar Fer- não dela torre, q não teria configo mais que ate corenta Caftelhanos, & el rey de Tidore muy pouca gente, & eífa não bem vfada na guerra, pelo que determinou de ir a Tidore. E calando ifto configo, diffe a Ca¬ chil daroes que era neceífario deftruyré aquelas armadas de feus Imigos que andauão no Morro, & ajútarem todo feu poder, & ho de feus ami¬ gos. O que parecendo bem a Cachil daroes, mandou logo recado aos Sangajes & capitães da ilha de Ternate, & a el rey de Bachão, que aco- dilfem com fua gente: o que logo fizerão, porque tinhão pouco que fazer em a ajuntar. E chegados a Ternate, fem dom Iorge dizer nada do que determinaua, mandou armar os Portuguefes, que erão cento & vinte todos efcolhidos. E leuando fuas trombetas & atabales, deu moftra a el rey de Bachão, & a Cachil daroes, & aos outros, que folgarão muyto de os ver. E eles tambe derão moftra da fua gente a dom Iorge, que por não faber certo quanta era ho não digo, mas era muyta & bem armada. E logo ali fe apartou dom Iorge cõ ho alcayde mór, & com ho feytor, & outros Portuguefes principais, & com el rey de Bachão, & Cachil daroes, & diflelhes. Que bem fabião que a guerra que tinhão auia tãto tempo, & de q recebião tantas oprefloes, toda nacia na cidade, & ilha de Tidore. Cujo rey a fora ter grande poder de gente de feu reyno tinha ho fauor & ajuda dos Caftelhanos que fe tinhão fortalecidos em fua terra com for¬ taleza prouida de muyta & boa artelharia, com que ficaua ainda mais poderofo. E que ele nunca vira ho tempo tão defpofto pera ho deftruyr como aquele, por a fua principal gente da guerra fer fora, & alfi a mayor parte dos Caftelhanos, pelo que não auia quê defendefle a terra, que def- truida ficarião em paz, & não aueria quem lhe fizefle mais guerra: por¬ que el rey de Geilolo não a podia fazer fem ajuda del rey de Tidore, &
  • Livro VIII, Capitolo IIII 199 dos caftelhanos. Ouuido ifto polos circundantes, ho primeyro que deu feu voto foy el rey de Bachão, por fer ho principal. E diffe, que lhe parecia muyto bem irem fobre Tidore, & deftruyla, & ho mefmo diffe Cachil daroes, & os Sangajes & capitães q hi eftauão. Mas os Portuguefes, que como tinhão fazenda que lograr, não quererião arrifcar as vidas em pele¬ jas, forão os mais contra eftes pareceres, dizendo: q ainda que pareceffe que em Tidore auia pouca gente, q não auia de fer tão pouca, que com a artelharia que tinha não defendeíTe ho primeyro combate dos Portu¬ guefes, que não erão tantos, nem leuauão tanta gente, que do primeyro lanço leuaffem nas mãos húa cidade tão forte como era Tidore, nem me¬ nos a fortaleza dos Caftelhanos que eftauã dentro. E que ficando a com¬ bates, auerião tempo pera a gente que andaua darmada no Morro, & a de Geilolo lhe ir focorrer: & ajuntandofe toda, os poderião desbaratar, ou fabendo como a fortaleza de Ternate ficaua foo a irião tomar, & vfa- rião do feu ardil: por iífo lhes parecia que não deuia de ir a Tidore. O que ouuido por dom Iorge, ficou tão agaftado de os Portuguefes ferem de roto que não foffem a Tidore, dizendo os mouros que fi: que fe leuan- tou, dizendo que não auia de perder a merce que lhe noffo Senhor fazia, em lhe dar vitoria de feus immigos com tão pouco trabalho & perigo, como fabia que auião de ter. E logo entregou a fortaleza a Gomez aires alcayde mór, com que deixou algús Portuguefes fora dos cento & vinte que diffe. E pedio a el rey de Bachão & a Cachil daroes, que logo fem- barcaffem com lua gente, que ele afli ho auia de fazer: & auião de par¬ tir aquela noyte antes que fe rompeffe Õde hião, porque queria tomar os immigos de fupito. O que lhes pareceo muy bem, & logo fe embarcarão, & afli dõ Iorge: com que os Portuguefes hião de muyto má võtade, o que ele entendia mas diffiimulaua. E embarcoufe em hú batel grande bem artilhado, & com Iorge de Crafto em hú parao malabar. E os Portugue¬ fes q não couberão coeles, fe embarcarão cÕ el rey de Bachão, & com Cachil daroes, & partiofe vefpera de fam Simão & judas paliado hú pe¬ daço da noyte. E ao outro dia, que era dia deftes dous Apoftolos, em amanhecendo chegou ao porto de Tidore: que he húa cidade grande hú pouco afaftada do mar, cercada de húa tranqueyra de duas faces em lugar de muro.
  • 200 Hijioria da índia CAPITOLO .V. De como dom Iorge de menefes tomou a cidade de Tidore. CHegado dom Iorge ao porto de Tidore, affentou logo coeífes capi¬ tães & pelToas principaes de dar na cidade. E que entretanto que fofle parela, ficaffe dom Iorge de crafto no paráo em que hia: & com ho camelo que leuaua, & com ho outro q hia no feu batel defle ba¬ teria a hú baluarte que ali eftaua, & deixou coele quinze Portuguefes, & algús mouros de Ternate. E ele com a outra gente defembarcafie & fofle dar na cidade, que era dali a hú pedaço. E porq auião dir por antre ar- uoredo, acordoule que fofle diante defcobrindo a terra hú Vafco Lourenço, muyto valente caualeyro, com que irião doze Portuguefes: & logo á fua vifta hú Dinis botelho cõ outros tantos. E defembarcado dõ Iorge com toda a gente leuando eíla ordé, abalou pera a cidade, onde afli nos mou¬ ros como nos caftelhanos auia grande fobre falto, & muyto grãdé medo: porque Cachil rade ho gouernador de Tidore, que era muito esforçado, & fabido na guerra não eftaua na cidade, que andaua no Morro com a principal gete dela, & el rey era ainda moço que não fabia pelejar. E Fernão dela torre ho capitão mór dos caftelhanos també eftaua defati- nado, porque alem de faber pouco da guerra, & não fe ver nunca em outra tal como aquela, & achauafe com no mais de coréta & dous caftelha¬ nos, que os outros erão todos de fora. E ele não fe entendia com os mou¬ ros, né eles coele: pelo que auia em todos muyto grande efpanto. E com tudo Fernão dela torre mandou afleftar algús berços fobre ho muro, prin¬ cipalmente daquela parte dode hia dom Iorge, & mandou tirar coeles, & tirauão muyto amiúde. E chegãdofe os Portuguefes mais, começarão os caftelhanos de mefturar efpingardadas, & com húa paliarão a rodela a hú Português, & ho ferirão na mão efquerda. E como eles hião todos, ou os mais de má vontade a efta guerra, abaftou efta ferida pera os efpantar, & impedir que não pafiaflem auante, & deteuerãfe. O que ou- uera de fer caufa de morreré muytos fe lhes noflo Senhor não acodira, porque como eftauão juntos, poderãlhe as efpingardadas dos Imigos fazer muyto dãno. Mas nifto chegou dom Iorge & começou de bradar, que fe chegaflem ao muro, & eles não derão por iflo, & deixarãfe eftar quedos. E como ele era muyto esforçado, paflou a diante com húa efpada dam- bas as mãos, dizendo. Que pois não querião pelejar, que ele queria fer ho primeyro que recebefle a morte, antes que padecer tamanha vergo¬ nha. E dizendo ifto, & chamãdo por Santiago, remeteo a hú portal que
  • Livro VUI, Capitulo VI 201 eftaua na tranqueyra por onde os de dentro fe feruião. E em abalando que hia perto da trãqueyra hú Caftelhano chamado Pero de ramos, que eftaua em cima com Fernão dela torre, & cõ outros: lhe difle. Senhor dom Iorge, agora veremos. E dizendo ifto, desfechou húa efpingarda nele. E quis Deos que lhe deu na efpada, & refaluando dahi ho pelouro, lhe deu na cabeça: & por ter capacete, & ho pelouro ir fraco lhe não fez nada. E logo dom Iorge çarrou com a tranqueyra, & por fer aleijado do braço dereyto não fe pode guindar acima, o que prouou de fazer por fer muyto ligeiro. E em ele chegando ao muro, chegarão Vafco Lourenço, Dinis botelho, Vicente dafonfeca, Francifco pirez, & outros que abalarão coele. E nefte tempo os Caftelhanos nã fazião fe não tirar, hús com efpin- gardas outros com bêftas & outros com pedras & lanças. Poré os Por- tuguefes não dando por iflo, esforçados por dom Iorge fe chegarão fem medo á tranqueyra, & mais vedo dom Iorge em cima, porque como Vafco Lourenço, Vicente dafonfeca, & os outros forão coele, ele os ajudou a fobir, & afli eles também ajudarão a ele, dandolhe decima as mãos. E em quanto fe ifto fazia era a peleja muy braua, porque vendo os Cafte¬ lhanos que os entrauão, trabalhauão quanto podião por não perder a tran¬ queyra, & os Tidores lhes ajudauão muy bem, de que forão mortos bem cincoenta: q como os Portuguefes & os mouros que os ajudauão erão muytos, entrarão a tranqueyra. E entrada, não poderão os Caftelhanos, nem os mouros refiftir aos Portuguefes, & os Tidores fe recolherão pera a cidade, & Fernão dela torre com os Caftelhanos pera a lua fortaleza, leuãdo os mais feridos, & ficando dous mortos & quatro prefos. E dom Iorge foy com fua géte feguindo os Tidores, ferindo & matando muytos, ate os deitar da cidade, & de volta coeles fe foy ho feu rey. CAPITOLO .VI. Do concerto que ji\erão dom Iorge de menefes, & Fernão dela torre. AUida por do Iorge efta tão iluftre vitoria com fomente lhe ferirem tres Portuguefes, mandou recado a dom Iorge de Crafto, que fe foffe logo á cidade cõ os Portuguefes q ficarão coele. E ele che¬ gado, foy a cidade faqueada & defpois queymada, no que fe gaftaria ate vefpera, porq como as cafas erão de madeyra ardeo muy afinha. E def¬ pois difto aflentou dom Iorge de combater a torre dos Caftelhanos, a que chamauão fortaleza, que como difle era cercada de caua. E primeyro que ho fizefle, efcreueo húa carta a Fernão dela torre: em que dizia, que lhe pedia muyto, & requeria da parte do Emperador, que fe entregaffe: & Tomo IV 26
  • 202 Hijloria da índia que não fofle caufa de mais mortes dos Chriftãos, porque bem via ho eftado em que eftaua, & quam pouco remedio tinha pera fe defender. & q fe fe quifeífe entregar a ele, & aos que eftauão coele feguraua as vidas, & as fazendas. E efta carta lhe mãdou por hú feu efcrauo que forrou pera iflo: & da torre fayo ho alcayde mór q fe chamaua monte mayor a tomar efta carta. E lida por Fernão dela torre, mandou dizer a dom Iorge pelo mefmo Monte mayor, que não fe auia dentregar por mais feguros que lhe defie: mas que lhe daria a galeota que fora tomada a Fernão Baldaya com toda fua artelharia, & a ilha de Maquiem, & que não aju¬ daria mais cõtra os Portuguefes a el rey de Tidore, nem a el rey de Gei- lolo, né lhes faria guerra. E que ficando em paz, & amizade, ele dom Iorge fe tornafle pera Ternate. Ao que dom Iorge refpõdeo, que não fora fua ida ^or tão pouca coufa: & pois afli queria, que fua foífe a culpa do dãno que recebeffe. E partido mote mayor coefta repofla, abalou do Iorge apos ele com fua gente, toda feyta em dous fios como prociífam, porque a artelharia da torre dos caftelos a não podefle pefcar. E diante hião algúas peças dartelharia emcarretadas, que forão tomadas em hú ba¬ luarte, & afti efcadas & muytas panelas de poluora. E vedo Fernão dela torre efte aparato, & a muyta gente que dom Iorge leuaua, determinou de fe entregar. E auido feguro de dom Iorge pera lhe ir falar, fayo da torre com a melhor gente que tinha. E. afaftado hú pouco dela, & dõ Iorge da fua, fe falarão: & aflentarão que Fernão dela torre deífe a dom Iorge a galeota, que fora tomada a Fernão Baldaya, com toda a artelharia, & os catiuos. E que logo ao outro dia Fernão dela torre fe fofle pera a cidade de Camafo com os Caftelhanos que ho quifeffem feguir, & ali eftaria fem fazer guerra aos Portuguefes, né a el rey de Ternate, né a el rey de Bachão, nem a nehús amigos dos Portuguefes. Nem farião crauo, nem irião a nenhúa das ilhas em que o auia: & q tornarião a ilha de Maquie a el rey de Ternate. E contra ele, nem contra el rey de Bachão ajudarião el rey de Tidore, nem el rey de Geilolo: & pera fua embarcação dom Iorge lhes daria ho bargantim que fora del rey de Gei¬ lolo, & mais tres corafcoras pera ho acompanharem ate Camafo: & que dom Iorge lhes não faria mais guerra, nem a el rey de Tidore, nem a el rey de Geilolo. E ifto fe goardaria ate el Rey de Portugal, & ho Em- perador mandaré ho contrayro. E depois de ambos de dous darem conta difto a fua gente, do que todos forão contétes: fizerão ambos por efcrito húa capitulação defta paz, que jurarão de comprir, & goardar, & a afli- narão cÕ algúas peffoas principais.
  • Livro VIII, Capitolo VII 203 CAPITOLO .VII. Do que fe\ dom Iorge de menefes defpois dejlc concerto. FEyto efte concerto, logo dezoyto, ou dezanoue Caftelhanos diflerão que queriao ficar com dom Iorge. E Fernão dela torre lhos entre¬ gou, & cõ os outros q ferião vinte, fe tornou a fazer preftes pera fua partida, q foy ao outro dia, leuando toda fua fazéda, & a do Empe- rador, & dõ Iorge mãdou coele tres corafcoras da armada de Cachil da- roes. E indo feu caminho pera Camafo, q he no Morro, toparão quatro corafcoras, em q hia ho gouornador de Geilolo: & quãdo vio o Bargãtl, cuidou q era de Portuguefes, e por iflo nã oufou de os cometer: & difli- mulãdo paflòu auante fem mais querer faber quem hia ali. E chegado a Geilolo, foube o que dom Iorge de menefes fizera em Tidore, & que no bargantim que topara hia Fernão dela torre com os caftelhanos, & as co¬ rafcoras erão de Ternates, que lhe dauão goarda. E auendo ho gouerna- dor aquilo por injuria, armou logo dez corafcoras, & foyfe nelas, pera por força tomar os caftelhanos aos Ternates, & os leuar a Geilolo, onde lhe parecia q eftarião melhor que em Camafo: & partido, nunca os pode achar, & tornoufe. E chegado Fernão dela torre a Camafo, tornarãfe pera Tidore os Ternates q forão coele. E algús caftelhanos q eftauão em Geilolo, como fouberão q eftaua em Camafo, lhe efcreuerão que fofle pera Geilolo, porque lá eftaria melhor, por fer Camafo del rey de Ti¬ dore, que era ja amigo dos Portuguefes. E tanto fizerão coele, que de¬ pois fe foy pera Geilolo, & quebrou o que tinha prometido, & jurado. E dom Iorge de menefes, que ficou em Tidore, defpois de partido Fernão dela torre, alíentou paz com el rey de Tidore, com cõdição que auia de pagar certos bahares de crauo cadãno de pareas a el Rey de Portugal, & q auião deftar certos Portuguefes em Tidore, pera lhe enfinarem os noffos coftumes, & não mais dajudar os Caftelhanos contrele, nem aos mouros. E eftando aqui dom Iorge, apareceo ao mar hú jungo de Bãda, & Damboino, em que vinhão cento & cincoéta mouros, que ho leuauão carregado de roupas, & de mantimentos pera darem por crauo em Ti¬ dore, cuydando que eftaua em fua profperidade. E fabendo dom Iorge donde era, mandou a dom Iorge de Cralto que ho fofle tomar, & ele foy em húa galeota. E fabendo os mouros a deftruyção de Tidore, & a ida dos caftelhanos, não oufarão de pelejar, & entregarãfe a dom Iorge de Crafto, que os leuou no jungo á cidade. E dom Iorge de menefes lhe fez merce do jugo, em nome del Rey de Portugal, afli porque ho tomara,
  • 204 Hijloria da índia como porque auia de ficar em Tidore, pera arrecadar ho crauo que el rey auia de dar. E deixando coele coréta Portuguefes, & Cachil daroes com fua armada, fe partio pera Ternate, leuando duas galeotas dos Caf- telhanos, & algúa artelharia, & afli a galeota que elles tomarão a Fernão Baldaya com fua artelharia, & muyta poluora, & muytas munições, & ho maçame, & ancoras que forão da nao de frey Garcia de loais. E bem vingado dos danos que recebera dos caftelhanos, & comprido o que dif- fera, que auia de fer ho cão que os auia dapanhar dú bocado, chegou a Ternate, onde foy recebido com grande fefta. E ficou em muyto credito com a gente da terra, & dali a algús dias chegou dom lorge de Crafto de Tidore, onde deixou tudo acabado. E no laneyro feguinte fe partio pera Bãda cõ determinação de fe tornar á índia, como tornou, & leuou algús Caftelhanos per mãdado de dõ lorge de menefes q fabédo como Fernão dela torre fe foy de Camafo pera Geilolo cotra a capitulação que tinhão feita, lho mandou eftranhar. E Fernão dela torre deu por defculpa, que ho fizera por força: & porem que no mais goardaria a capitulação, & afli ho fez. CAPITOLO .VIII. De como Antonio da filueyra de menefes dejlruyo çurrate & Reynel. PArtido Antonio da filueira cõ fua armada, foy ter a Chaul, donde fe partio pera a cofta de Cambaya, q he da banda do fui, onde auia de fazer a guerra. E começou logo em hú lugar chamado Reynel, ho principal daquela banda: que eftá quatro legoas do már, por hú pequeno rio acima, que vay. em voltas per hú campo aflentado na borda do rio. He abaftado de trigo, & darroz, que fe colhe naquele campo, em q ha muyta caça daltenaria. Ho lugar he grande, & ralo, & bé arruado: tem boas cafas de pedra & cal, de muytos fobrados, & muyto polidas. Seus moradores fam todos mouros Neiteás, & os melho¬ res caualeyros de Cambaya. E daqui hia a principal gente para as fuftas de Diu, & afli pera os exercitos del rey de Cambaya, que tinha por fron- teyro ho capitão defte lugar contra Nizámaluco, & eftaua hi outro. E che¬ gando Antonio da filueira á foz defte rio de Reynel, quãdo a vio tão eftreyta, não quis entrar fem fondar primeyro ho rio per fi mefmo: & achou que ficaua feco dele muyta parte com baixa mar, pelo que não podião entrar os nauios grandes que deixou de fora com gente que os guardafle, & por capitão mór Manuel de vafconcelos: & nos catures, em que leuaua fete centos foldados, entrou pelo rio acima. E de caminho quifera dar em outro lugar, grãde & nobre, chamado çurrate, que eftaua
  • Livro VIII, Capitolo VIII 20 5 pelo mefmo rio húa legoa antes de Reynel, & achouho defpejado. E de- íembarcando com fua gente, em hú dia & húa noyte ho queymou todo, que nenhúa cafa ficou em pê: & as ortas & palmares darredor forão todas cortadas & deftruidas, & queymadas muitas cotias carregadas de manti- métos, que eftauão pera ir a Diu. Feyta efta deftruyção, partiofe Antonio da filueira pera Reynel, que parecia da outra banda do rio, que por fazer grandes voltas eftaua húa legoa de çurrate: de cuja deftruyção fendo feus moradores certificados, fe fortificarão com húa tranqueyra á borda dagoa em que affeftarão muyta & boa artelharia que tinhão, a mais delia de metal. E nas bocas das ruas fizerão outras, em q também afiêntarão ar¬ telharia: & quatrocentos de caualo, fe layrão ao campo a efperar Anto¬ nio da filueira. E muytos deftes erão acubertados, & todos armados de laudeis, deles enlaminados de laminas de ferro, & outros forrados de malha pelos peytos, & mangas, & terçados nas cintas, & nas mãos dous & tres zagunchos, & nos arções feus arcos e coldres de frechas, que bé parecia géte de feyto. E afli efperarão os Portuguefes, que hião pelo rio acima tangédo fuas trombetas, & dando grandes gritas, porque os immi- gos foubeffem que os não temião. E eles em fe os noflos defcobrindo, que a artelharia podia jugar defcarregão húa grande çurriada de bom- bardadas, que parecia húa toruoada muy efpantofa. E continuando, pa¬ recia que tirauão em roda viua tantos & tão baftos erão os pelouros. E foy milagre de noffo Senhor por fua bõdade, que nenhú não acertou em homé, & todos hião por alto. E fendo hú tiro de béfta abaixo do lugar, defrote dõde eftauã os de caualo defembarcou Antonio da filueira cõ toda a géte, por não defembarcar nas bocas das bõbardas da trãqyra & pera dali ir dereyto ao lugar. E porq creo q os de caualo ho cometerião, or¬ denou fua gente, & deu a diãteyra a Manuel de foufa, cõ que hião os mais dos elpingardeyros, q em defembarcãdo fizerão rofto aos de caualo, defparando fuas efpingardas, de q eles parece q ouuerão medo, & reco- lherãfe ao lugar fem peleja, porq lá efperauão de fe defender com a ar¬ telharia q tinhão nas bocas das ruas. E aifi ho fizerão, q em os Portu¬ guefes aparecendo começarão de tirar coela: mas né por ilfo eles deixarão de chegar, faltando dú cabo pera ho outro, & abaixãdofe q lhe não acer- talfem os pelouros, como não acertarão. E chegando ás tranqueyras, acharão grande refiftecia nos mouros, q erão muytos e esforçados, & pe¬ lejarão hú pedaço ate q os entrarão pela Eua principal, & forão os pri- meyros Ioão jufarte tição Dázinhaga, Ruy boto de lima, dõ Diogo vilan- çuela, Gonçalo vaz coutinho, Frãcifco da filua, Baltefar lobo de foufa, & outros fidalgos ate dez: & eftes moftrarão aqui bé fua valétia, por naqla rua eftar ho mayor pefo de gente. E afli como fe eftes desbaratarão, logo
  • Hijloria da Índia 206 a gente das outras fe desbaratou, & fugirão todos, ficando coréta mor¬ tos, & dos Portuguefes tres, & algus feridos. Antonio da íilueyra os não quis feguir, & poédo goarda da bãda do fertão, mãdou faquear ho lugar, em q as mais das cafas erão lauradas de macenaria, & douradas, & ca- teles dourados & Iaurados de pedraria baixa, & outras alfayas tão poli¬ das & ricas: que ate muytos falcões que fe acharão em alcandaras tinhão os caparoes dourados. E bé parecião de gente rica, q àfli o era a q ali moraua, por fer dos principaes lugares de q tratauão pera a China. E afíi acharão muyta mercadoria, de que auia cafas cheas: principalmente de cobre, & de marfim, & de porcelanas, & doutras coufas de muita va¬ lia, de que os nofibs carregarão os catures ho mais q poderão: poré car- regauão pouco por amor do pefo da gête que auia dir neles, que fe forão nauios grãdes, quantos ali hião ficarão ricos pera fempre, porque não tinha coto a riqueza que ali auia de muytas coufas q não digo. E temendo Antonio da filueira q lhe carregaíTem os catures, q não podeffem nadar, mãdou poer fogo ao lugar, & efperou a noyte feguinte, q ardeo todo fem ficar coufa que fe podefle enxergar. E forão queymadas vinte naos, & muytas cotias todas carregadas de mercadoria, & de madeyra, & a terra ao derredor foy toda deltruida como em çurrate. E deixando tudo def- truido a fogo, & a ferro, embarcoufe: mandando primeyro deitar na mayor altura do rio a artelharia que não pode leuar, q foy muyta, ber¬ ços & falcões, & todos de metal. E chegado á barra, achou q tomarão os q ficauão na armada feys cotias que hião pera Diu carregadas de mã- timétos, & queymarão outras muytas carregadas de madeyra, q em Diu fizerão grande mingoa, pola neceflidade q tinha de tudo. E as nouas da deftruyção deites dous lugares fizerão grãde efpanto, alfi lá como em toda Cambaya, porque por eftarem tão longe do mar, & os caualeyros de Reynel terem tanta fama, fe efperaua que núca os noffos lá foflem. E gente da terra andaua toda pafmada, porq vião que fe não podião fegu- rar fe não bé metidos no fertão. E deixando Antonio da filueira muyto grãde terror nefta comarca, por começar de fe chegar ho inuerno fe par- tio pera Chaul.
  • Livro VIII, Capitolo IX 207 CAPITOLO .IX. \ De como Antonio da filueira deflruyo Damão, & Agacim, & outros muy- tos lugares de Cãbaya. Eindo fempre ao logo da colta pera a deílruyr, foy ter a Damão hú lugar muy grade na põta da enfeada da banda do fui cõ húa for¬ taleza de muro de largura doyto pês quadrada, & em cada qua¬ dra hú cobelo, & a porta chapada de metal, em que el rey de Cãbaya tinha géte de guarnição, que fabendo a deftruição q os Portuguefes fize- rão em çurrate & Reynel, & como tornauão não oufarão defperar, & fugirão. E os do lugar lhes teuerão companhia, tirando primeyro fuas fazédas: & por ilfo os noffos não acharão aqui com quê pelejar, & quei¬ marão, & deftruirão tudo na terra, & no mar muitas naos, & cotias car¬ regadas de mantimentos, & mercadorias. E indo daqui pelo rio acima, queymarão muytas aldeas: em que acharão húa nao grande q fe fazia pera Meca, q també foy queymada, & forão catiuas muytas almas. E tamanho era 0 medo na géte, princi^lméte na mezquinha, q defempa- rauão os lugares em q morauão, poílo que foífem lõge do mar, & hiãfe pera mais longe. Deftruida efta comarca de Damão, partiofe Antonio da filueira pera Agacim, outro lugar grande, por hú pequeno rio acima na volta que a cofia faz pera Chaul, em q auia cinco mil & quatrocêtos ho- més de peleja: os cinco mil de pé, & os quatrocêtos de caualo, géte esfor¬ çada, & q efperaua de fe defender. E por iffo Antonio da filueira deter¬ minou de os cometer, pera o q defembarcou na cofia hú quarto de legoa do lugar, por ho rio fer pequeno & baixo: & mandou diante Manuel de foufa cõ céto & cincoéta efpingardeyros, acopanhado de muitos fidalgos, & ele hia nas cofias. E chegãdo perto do lugar, acharão os de caualo no cãpo, & os de pé no lugar. E os de caualo pofto que vião chegar os Portuguefes não os fairão a receber, & deixarãfe eftar apinhoados. O q vendo Manuel de foufa, deu Santiago neles, & então começarão de bolir, remetédo aos Portuguefes: q os tratauão muyto mal cõ as efpingardas, com que derribarão treze: de q eles ouuerão tamanho medo, que a cabo de pouco que pelejauão fugirão, deixando cinco Portuguefes mortos. Os de pé tanto q os virão fugir fizerão o mefmo, fem receberé tãto mal como receberão fe ho lugar não teuera naqla parte mais q húa fó étrada muyto efireita, pelo q os Portuguefes fe deteuerão em entrar: & por iffo não poderão alcãçar dos imigos mais que ate duzétas almas, que matarão & catiuarão. E ho lugar foy todo deftruido a fogo & a ferro, afli calas como
  • Hijloria da índia 208 amores, & cotias, q auia muytas carregadas de mantimétos, & madeyra, q fe leua daqlas partes pera outras de Cambaya, & pera ho eftreyto. E eftando Antonio da íilueira pera fe embarcar, tres Portuguefes que fica¬ rão em terra defmãdados, forão cometidos de certos mouros de caualo, q os poferão em tanto aperto q os fizerão apartar, & dous fugirão por acerto pera ondeftaua Antonio da íilueira, a q ele acodio, & os recolheo. E ho outro, q fe chamaua Pedraluarez do geito, tomou mais defuiado feguindoo tres mouros de caualo. E vendo ele q não podia efcapar virou a eles, & derribou hú morto q vinha diante: o q vendo os outros fugirão, & ficando liure, fe foy embarcar em paz. E dali fe foy Antonio da fil- ueira a húa ilha chamada Bombaim pegada cõ a cofta, pera dali arreca¬ dar as pareas de Taná, Bandorá, & Caranjá, que Eytor da íilueira fizera tributários, como dilfe no liuro fexto: q eles logo pagarã cõ medo de feré deftruidos como os outros, em q fe fez a efpãtofa deftruição q diífe, não fómente neles, mas em muytas aldeas q ha por aqla cofta, q he muy pouoada. E nefta guerra queymarão os noífos trezétas velas antre naos groffas, zambucos, & cotias carregadas de fazéda, de madeyra & de marttimetos. Em que fizerão muyto grande perda, aííi a Cambaya como ao eftreito, & forão catiuas muytas almas, de que a el Rey de Portugal vierão céto & cincoéta, bos pera remeyros. E efta foy a mais afpéra guerra q ateli foy feyta a Cambaya, & de q recebeo mais perda, & os noífos receberão mais proueito: porque todos os daqla armada forão ricos, & el rey de Cãbaya a fentio muyto. E nefta ilha ficou Antonio da filueira algús dias pera arrecadar as pareas como diífe. CAPITOLO .X. De como ho capitão de Reynel desbaratou a Francifco pereyra de ber- redo, capitão da fortaleza de Chaul. FAzendo Antonio da filueira efta guerra naqla cofta, a fazia el rey de Cambaya a Nizamaluco fenor de Chaul vaífalo del Rey de Portu¬ gal. E ifto por feus capitães, q lhe tomarão & qymarã muytos luga¬ res de feu fenorio & ele andaua fugindo dú cabo pera ho outro, & por iffo os Imigos fe efpalharã por fua terra. E hú deites capitães, q era ho de Reynel fabêdo a deftruição q os noífos fizerão em Reynel, por vin- gãça determinou de queymar Chaul dos mouros, parecendolhe que por ferem amigos dos Portuguefes fe vingaua, & partio pera lá cõ cinco mil de caualo, & doze mil de pé. E mandou diante algús q foífem ver a dif- pofição da terra, & eftes chegarão júto do lugar. Onde logo foy grande
  • Livro VIII, Capitolo X 209 aluoroço, & derão recado na fortaleza q lhe acodiífé. E acertoufe q eítaua hi Fernão de moraes, que hia em hú Galeão pera Ormuz, & acodio logo cÕ fua géte, & afli algús da fortaleza. E acharão ja os Imigos antre as ortas de Chaul, & pelejará coeles, & os fizerão fugir, ficãdo mortos tres de caualo. E ficãdo ho lugar feguro por aqla vez, fe tornou Fernão de moraes pera a noffa pouoação. E ao outro dia forão effes principaes de Chaul dos mouros requerer a Frãcifco pereyra de berredo capitão da noffa fortaleza, q folie bufcar os Imigos q eítauão perto, & os lançalfe de todo fóra da terra, porq lhes nã queimalfem o lugar: & q era obri¬ gado a defendelos pois Nizamaluco era tributário a el Rey de Portugal. O que os q eítauão com Frãcifco pereyra, lhe cofelharão q fizelfe. E ele ho fez, & fahio da fortaleza cõ cincoenta de caualo, & cento & cincoéta efpingardeiros de pé: & foy em bufca dos Imigos ate chegar a hú paffo mea legoa alem de Chaul, q fe chama Argao: que he tão forte q cin¬ coenta homés ho podé defender a todo mudo. E chegando ali não pare¬ dão ainda os mouros, pelo q teue que erão fugidos de todo, & fe quifera tornar pera a fortaleza. E afli lhe diíferão algús q ho fizelfe, porq ele não era obrigado a ir bufcar os imigos tão loge da fortaleza: & pera defen¬ der Chaul abaltaua acodirlhe fe os Imigos tornaífem, & quanto mais perto pelejaífe da fortaleza, tanto mais pelejaria a feu faluo. Outros diíferão, que deuia de palfar auãte & ir bufcar os imigos, & pelejar coeles: porq fe tornaífe fem ho fazer, q pareceria fraqueza, & q ficaria em defcredito com a géte da terra. E tãto ho apreífarão eítes q ho fizerão palfar auãte a outro palfo, dõde mãdou quatro de caualo a defcobrir a terra. E eítes lhe mandarão dizer q não paredão os Imigos, q fofle auãte, & não per- deífe aqla honrra, q lhe querião roubar os que lhe confelhauão que não folfe, & coilto foy. E faindo a hú campo acharão os imigos, q eítauão no cabo dele deitados ao pé de húa ferra: q logo fe leuantarão em os noífos parecédo. E quando Francifco pereyra vio tão grolfa gente, achoufe em¬ baraçado: & mais porq os Imigos de caualo pegarão logo cõ os noífos de caualo q hião diãte. E por os mouros feré tão grolfa gente, os não poderão fofrer, & recolhiãfe quãto mais podião muyto apreífados dos Imi¬ gos, que os apertauão rijo: & por iffo Frãcifco pereyra fe quifera reco¬ lher com os de pé ao palfo donde partira, & fazerfe ali forte. Mas não pode, porq vedo os de pé a prelfa com q fe os Portuguefes de caualo re- colhião, & a groífa géte dos Imigos q vinha fobreles, é eítãdo cãfados do caminho, por a calma fer muyto grãde: começarão de defmayar, & de- fordenarfe. E em vez de fe fazerem em corpo, & tiraré aos imigos cõ as efpingardas, efpalhãfe & começão de fugir polas ferras fora do caminho. O que védo os Imigos, começão de dar grãdes gritas: & apertarão tão Tomo IV 37
  • 210 Hijloria da índia rijo coeles, q os desbaratárão a todos & fizerão fugir, afli os de caualo, como os de pé por eífas ferras por fora da eftrada, com ho que recebe¬ rão mais dãno: q fe forão por ela como Francifco pereyra, & algús ou¬ tros que teuerão coele em chegando ao primeyro paffo fe fizerão fortes, & refiftirão aos Imigos cõ as efpingardas, mas não ouue effe acordo. E afli forão os Portuguefes fugindo ate a fortaleza, indo os mouros em feu alcãço, q matarão deles oytenta de pé, & ferirão muytos, & queymarão Chaul dos mouros, de q matarão muytos. E chegarão tão perto da nofla fortaleza, que lhe queymarão ho arrabalde fe não fora a artelharia que começou de tirar. E cõ tudo cercarão a fortaleza, o que Frãcifco pereyra efcreueo logo a Antonio da íilueira, & q ho fofle focorrer. O q ele fez como vio a carta, & chegou no mefmo dia q partio, por não fer Chaul mais de cinco legoas de Bombaim. E chegando a Chaul, achou a terra toda cuberta de mouros, que cõ fua vinda fe forão: & receando que tor- naflem, deixoufe ficar em Chaul. CAPITOLO .XI. De como ho gouernador prendeo Francifco pereyra de berredo. PArtidas as naos da carga pera Portugal, de q foy por capitão mór dõ Lopo dalmeida, defpachou ho gouernador pera Malaca a Anto¬ nio da filua de menefes capitão da nao do trato da índia pera Ma¬ laca. E afli pera Maluco hú fidalgo chamado Gõçalo pereyra, q tinha por el Rey de Portugal a capitania da fortaleza da ilha de Ternate, & coele outro fidalgo feu cunhado que auia nome Hanibal cernige q hia na fua fubceflam. E por capitão mór do mar de Maluco hú Bras pereyra fobri- nho de Gonçalo pereyra. E ho gouernador deu a feytoria da fortaleza a hú Luvs dandrade: & eftes todos partirão de Cochim em Abril pera Ma¬ laca, indo em fua cõferua Antonio da filueira, & hú Lionel de lima em húa galeota que hia tãbé pera Maluco. E defpachados eftes, partiofe ho gouernador pera Goa a feys de Feuereyro, & é Baticalá lhe foy dada húa carta Dantonio da filueira: em q lhefcreuia ho defaftre que aconte¬ cera a Francifco pereyra, & como ficaua em Chaul. E ho gouernador quifera logo ir a Chaul, & não foy por adoecer em Goa, & por iflo efcre¬ ueo a Antonio da filueira, que tirafle a capitania a Frãcifco pereyra de berredo, & a leruifle, & lho mandaífe prefo a Goa, & q tirafle a inquiri¬ ção fobre a defordé do Argao, & afli ho fez Antonio da filueira, & ficou por capitão de Chaul, & inuernauã coele leys cetos & cincoenta folda- dos, a q deu fempre de comer á fua cufta, em q gaitou tãto. E ficou tão
  • Livro VIII, Capitolo XII 211 indiuidado, que de pão cozido ficou deuendo tres mil pardaos a Ana fer- nandez, molher do bacharel Fernão Louréço, a quê ho ouui. E coefta gente fegurou a fortaleza de fer cercada de mouros. CAPITOLO .XII. De como Diogo da filueira queymou Calicut, & foy Jobre ho lugar de Mangalor, & ho dejlruyo de todo. DIogo da filueira, q ho gouernador deixou por capitão mór na colta do Malabar: foy por feu mãdado ao porto de Calicut pera aca¬ bar as pazes q el rey de Calicut começara de fazer cõ Lopo vaz de fam Payo. E el rey não quis por húa liga q tinha feita cõ o Chatim de Mangalor, como direy a diante. O q vedo Diogo da filueira, por fe vingar mãdou poer fogo ao lãço da cidade q eftaua ao logo do mar, o q algús Portuguefes fizerão cõ panelas de poluora. A q os da terra logo acodirão, mas tolherãlho do mar cõ a artelharia: & cõ tudo não arderão mais de duzétas cafas, por não auer véto: q fe ho ouuera, toda a cidade fora queimada. E vedo Diogo da filueira q não auia ali mais que fazer, foyfe pola cofia queimando muytos lugares, & cortãdo os palmares, & outros aruoredos de q a gente fe manté, q he a mayor guerra q fe lhe pode fazer. E fabédo quanto importaua ao feruiço del Rey de Portugal, q a efpeciaria não fofle leuada a Meca: trabalhaua cõ grande diligécia em goardar os rios daqla cofia principalméte ho de Chale, em q fabia q eftauão carregando algús galeões de rumes defpeciaria & droga pera ho eftreyto, & affi muytos zãbucos & paráos grãdes. E porq não podeífem fair, logo dahi a poucos dias q foy na cofia mãdou a Nuno fernãdez freyre q fofle furgir na boca do rio de Chale cõ a fua galeota, & cõ hú bargantim, q leuauão ambos feflenta homés, & q goardafle q não faifle nenhúa das velas q eftauão détro. E pera eftaré todos de melhor võtade, os manteue quatro mefes á fua cufta, tendo continuaméte tanta abaftãça de mantimétos q mandaua bufcar a Cananor q núca lhe faltauão. E ele cõ a outra armada vigiaua os outros rios de maneyra q núca pode fair nenhúa nao & pafloufe a Moução: pelo q os mouros, & rumes defcarre- garão as naos & galeões & os vararão: & não quiferão cõprar tanta pimêta como lhes védião os gétios, & eles por iflo a forão véder na nofla feytoria de Cochim, & por efta caufa foy muyta aqle anno. E fabendo Diogo da filueira q os mouros não podião aqle anno ir ao eftreyto, de¬ terminou de ir fobre Mangalor como lhe ho gouernador efcreuera de Goa q fofle: & pera iflo lhe mandou mais bargãtins & géte. E praticãdo
  • 212 Hifloria da Índia Diogo da filueira efte feyto cõ dom Ioão déça capitão de Cananor, por íer bé efperemétado na guerra adernarão q deuia dir. E partiofe logo, leuãdo húa armada de duas galeotas, húa carauela & treze Bargãtins. cujos capitães forão Nuno fernãdes freyre, Manuel de vafcõcelos, Fran- cifco da cunha, Ioão da filueira, Antonio de foufa, Gomez de fouto mayor, Niculao jufarte, Aires cabral, Lourenço botelho, Afonfo aluarez, o cala¬ fate de Goa, Ioão penaluo, Antonio fernandez, Frãcifco de fequeira ma- labares, Diogo corefma & Antonio médez de vafcõcelos feitor da armada E coefta armada foy ter fobre a barra de Mangalor, q he hú lugar grande do reyno de Narfinga metido obra de meya legoa por hú rio. E fobrele júto cõ ho lugar eftaua feita húa caia forte de pedra, & cal como forta¬ leza com feus bailéus ao derredor, de que fe podia defender, & tinha muyta artelharia aífeftada da banda do rio pera Õde tinha húa feruétia & outra pera o lugar. E hú pouco abaixo deita fortaleza da banda da terra eítaua húa tranqueyra de duas faces entulhada de terra, em q eftaua húa eftãcia dartelharia. E efte lugar tinha arrendado a el rey de Narfinga hú grãde mercador gétio, a q na fua lingoa chamão Chatim, & por feu grãde trato & riqueza fe chamaua ho ChatI de Mangalor. E afii era ele ho mais rico Chatim de toda aqla cofta de Goa ate ho cabo de Camorim, & que tinha mayor trato: & por fer amigo dos noffos podião fuas naos nauegar feguras. E vendo el rey de Calicut quê não podia carregar é feus portos pera o eftreito, fez amizade coefte Chatim, & mãdaua ali fua efpeciaria, & hi a carregauão os mouros de Meca cõ difiimulaçã q carregauão no porto de noffo amigo: & pagauão a el rey de Calicut os mefmos derey- tos q lhe foyão de pagar no porto de Calicut, & por iffo cõtentaua ho Chatim. E hia efte trato em tãto crecimento, q afli era Mangalor efcala de Meca, como Cochim de Portugal, pelo q era muy perjudicial. E por induftria del rey de Calicut, fe fortaleceo ho Chatim da maneyra q digo, & lhe mandou a artelharia, & á fua cufta tinha ali géte de goarnição pera defenfam do lugar, & da fortaleza: & ifto efteue encuberto algús annos ate q foy fabido pelo gouernador, q por effa caufa ho mandou def- truir. E chegado Diogo da filueira á barra de Mangalor, mãdou tomar lingoa, de q foube q ho Chatim fora auifado de fua ida per mouros de Cananor, & q efperaua por ele cõ determinação de fe deféder, pera o q tinha muyta géte de peleja, & alli foube ho fitio do lugar. E cõ quanto vio q era rnuyto forte, & a géte muyta em demafia pera a fua, q não erão mais de quatrocétos Portuguefes, determinou de dar nele. E dando cõta aos outros capitães de fua determinação, q forão coela conformes: alfentou coeles de dar no lugar ao outro dia. E porq os paráos de Cali¬ cut curfauão ali rnuyto, q ficarião na boca do rio a carauela & as duas
  • Livro VIII, Capitolo XII 213 galeotas pera lhes defendere a étrada fe vieffem, & cÕ os bargãtins en- trarião. E por fe liurar do nojo q a artelharia lhe podia fazer, defembar- caria hú pedaço abaixo do lugar cõ duzétos & coréta Portuguefes, de q os cento & vinte ferião efpingardeiros, & os outros q erão comitres, bom¬ bardeiros, & géte do mar iriao nos bargantins pera esbõbardear a forta¬ leza: porq cuydãdo os Imigos q os cometião polo rio não acodiffé tatos a defenderlhe a entrada da terra. E deites iria por capitão hú Francifco dajora, porq os capitães auião dir cõ Diogo da filueira. E ilto affentado, confeífarãfe todos aqla noyte, & encomédarãfe a noffo Senhor, porq o feyto era perigofo. E ao outro dia q forão vlte fete de Março, de mil & quinhetos & trinta, em começando a maré abalarão pelo rio acima, & Diogo da filueira delembarcou ondeltaua affentado. E feguindo pera ho lugar, perto dele acharão obra de dous mil dos Imigos, que os efperauão em hú palmar. E em vendo os nolfos derão húa grãde grita, defparãdo muytas frechadas & algúas efpingardadas. Ioão da filueira que leuaua a dianteira cõ os efpingardeyros, mãdou desfechar neles: & apertarãnos tão rijo, derribãdo algús mórtos, q os fizerão recolher ao lugar. E eles recolhidos, quifera hú feu bombardeiro dar fogo a artelharia da tran¬ queira : & quis Deos q hú dos nolfos lhe acertou cõ húa efpingardada & o matou, & os nolfos chegarão tam afinha a trãqueira que a artelharia não pode tirar, & em chegãdo entrarão logo a tranqueira, que os Imigos não oufarão de refiltir, & deles fe acolherão á fortaleza, & outros ao lugar. E Ioão da filueira com ate lelfenta dos nolfos, tomou ao logo do rio pera a fortaleza: & no caminho achou húa mezquita õdeltauão reco¬ lhidos muytos Imigos, q fe deféderão cõ muvto esforço. E logo no começo foy a pe'leja muyto afpera, & muytos dos nolfos forão feridos, porq como a porta da mezquita era eftreita, & eles querião entrar todos juntos del- cobriãle & feriãnos. E eftando nefte cõflito, hú fidalgo chamado Francifco de foula remeteo fó á porta da mezquita, & leuou hú mouro nos braços, & matouho ás punhaladas. E coifto os q defendião a porta fe retirarão hú pouco pera détro, q algús dos nolfos teuerão lugar dentrar, & como hús entrarão, entrarão todos. E a caufa détraré defpois de noffo Senhor, foy Frãcifco de loufa, q doutra maneira a étrada da mezquita ouuera de cuftar muyto. E entrados os nolfos, todos os Imigos forão mórtos, q ne- nhú elcapou: & entretanto os q ficauão cõ Diogo da filueira enxorarão ho lugar de todo, q não ficou nele ningué. E todos cõ grande impeto, remete a cõbater a fortaleza: em q logo acharão grãde refiftécia, porque os Imigos eftauão muytos fobre os bailéus, de q arremeffauão panelas de poluora, & tirauão muytas pedradas, & algúas efpingardadas, cõ que ferirão algús dos nolfos q chegarão defmãdados. Mas eftes não durarão
  • 214 Hijloria da índia muyto, porq a noffa efpingardaria lhes começou de tirar, & matado algús fez recolher os outros: & não oufarão de tornar ali mais por amor das efpingardadas q lhes tirauão em aparecêdo. E vedofe os noíTos defapref- fados de cima, bufcarão maneyra pera entrar a fortaleza: & Ioão de foufa lobo, & Diegaluares telez, & Francifco de barros de payua acertarão da- char hú berço de ferro, q tomando todos tres fizerão dele vay & vê, com q arrobarão hú poftigo da fortaleza por onde entrarão cõ outros a pefar dos mouros, q lho defenderão pouca coufa, porq os entrauão ja por cima das paredes. E era a reuolta antreles muyto grande por fugiré, porq como forão étrados não oufarão defperar mais, & fugirão pela porta do rio, a q fe lançarão pera fe acolherê da outra bãda, como acolherão muytos. E algús forã mórtos, adi ao fugir pelos noffos, q ãdauã na fortaleza, como no rio pelos q eftauã nos bargãtls, q ja erã chegados. E ãtreftes foy morto o ChatI de húa efplgardada, & dos nofTos Deos feja louuado não morreo nhú, fendo efte hú feito muyto perigofo, & em que os Imigos pelejarão animofamente. Defpejada a fortaleza, porq os Imigos não tornaífé em quanto fe roubalfe, & os tornaífé defapercebidos, mandou Diogo da fil- ueira goardar as portas a leu hirmão Ioão da íilueira, & a Manuel de vafcõcelos: & deu ho cargo de fazeré embarcar a artelharia dos Imigos a Ioão de foufa lobo, Diegaluarez, Martim vaz pacheco, & a Francifco barros de payua: q a fizerão embarcar, & forão feffenta bõbardas, de que muytas erão groífas, & tres quartaos. E entretanto foy a fortaleza roubada, em q fe achou muyta forna de cobre, de coral & dazougue, & muytas graãs, & veludos & outras muytas mercadorias muy ricas de Meca: & muyta poluora, & mantimétos fem coto. E diílo foy a maior parte queimada, porq vedo Diogo da filueira q a géte fe defmandaua em carregar muyto os bargantins, defpois dembarcada a artelharia mandou dar fogo á fortaleza, q foy toda queimada fe não as paredes da banda do rio por feré muyto fortes, & os nolíos a derribarão á mão ate os ali- ceces. E afft foy queimado todo ho lugar & treze naos q hi eftauão vara¬ das, & queimadas, & cortadas as hortas: de maneyra q parecia q nunca ali ouuera pouoação. E foy elte hú muy notauel feyto por feré os noffos tão poucos, & de q el rey de Portugal foy muyto leruido, afli por fe lhe tolher q nã fe leuaffe mais dali pimenta a Meca, como por fer aqle lugar muyto forte & foberbo, q fe não falaua em outra coufa. E ali tinha el rey de Calicut fua efperãça, & os feus muy grande esforço, & colheita: & por fua deftruição ficarão todos muy qbrados, & a terra ficou toda affombrada de medo dos noffos.
  • Livro VIII, Capitolo XIII 215 CAPITOLO .XIII. Do que aconteceo a Diogo da Jtlueira com Patemarcar capitão da ar¬ mada de Calicut. DEstruido ho lugar, porq era cabo do verão, & Diogo da filueira nã auia de fazer mais q correr a cofta, em q não fe efperaua coufa perigofa, pelo q não tinha neceífidade de tãtas velas, mandou pera Goa noue, & cõ as outras q erão fete 1'e foy a Cananor. E no mefmo dia q chegou paffou a vifta Patimarcar capitão de húa armada de Calicut de feífenta paráos, q hia por arroz a Mangalor, não fabédo q era deftruido. E auendo os nofios vifta dele, determinou Diogo da filueira dir pelejar coele, pofto q tinha tão pequena frota: & efta ainda carregada da prefa de Mangalor, & fayo. cõ húa galeota em q andaua, & cõ cinco bargãtins por fe ho outro eftar defcarregãdo, & tres ou quatro catures de Cananor. E mandou a todos q aferraffem cõ os mouros, porq trazião artelharia, & fe andaffem ás bombardadas q os meterião no fundo. E indo coefta de¬ terminação achou ho veto traueffam & ficauãolhe os Imigos de balrra véto, pelo q os não pode aferrar, fóméte hú dos catures por fer ligeiro paffou auãte a remo. E quãdo os Imigos ho virão fó o quiferã abalrroar. E e queredo voltar pera fugir, os q hião nele fe cõcertarão tão mal q çoçobrou, & afogarãofe fete dos noffos q hião dentro. Ao q os mouros derão húa grande grita, & começarão de defparar muytas bombardadas, & de húa quebrarão hú braço a Ioão da filueira, que andaua diante no feu bargantim. E vendo Diogo da filueira que por caufa do vento não podia afferrar os Imigos, & que ás bombardadas lhe tinhão muyta auan- tage por feré muytos, & trazeré os nauios defempachados: não quis per¬ der tempo, nem géte, porque vio que era por de mais andar ali cõ tão poucos nauios & tão carregados. E tornoufe a Cananor, & Patemarcar foy fua guia, & quando achou Mangalor deftruido carregou em outra parte. E tornado Diogo da filueira a Cananor muyto fentido pelo que lhe acontecera, mãdou delcarregar os bargantins, & a galeota. E cifa- dos, & enfeuados pera que ficaflem mais ligeiros, leuando algús catures de Cananor: que por todos erão onze velas, foyfe a mõte Deli a efperar Patemarcar pera pelejar coele, & tornãdo ho foy logo cometer. E como ele então vinha carregado, & fentio a determinação dos noffos, pois ho hião ali efperar. E cõ ho efpãto q trazia do q achara feyto em Mãgalor, não quis tomarfe coeles, & trabalhou por fe acolher cõ ho vento que lhe fazia pera iífo. E os nofios os feguirão cõ grandes apupadas, & meterão
  • Hifioria da Índia 216 no fundo feys paraos cõ a artelharia, & os outros fugirão & fe forã a Calicut: cujo rey ficou muyto trifte pela deftruição de Mangalor. E vé- dofe defefperado de ter outra colheita como aqlla, quifera defpois fazer fazer paz com ho gouernador, q não quis por conhecer quã mentirofo era, & quã incõftante. E Diogo da filueira defpois q lhe fugio Patemar- car, andou pela cofta ate quafi a fim Dabril fem mais achar cõ quem pe- lejaffe: & por entrar ho inuerno fe foy a Cochim, onde inuernou. CAPITOLO .XIIII. De como Eytor da filueira foy por capitão môr ao cabo de Goardafum, & das prefas que fe\. . ATras fica dito como Eytor da filueira partio de Goa a vinte hú de Ianeiro, do anno de trinta pera ho cabo de Goardafú cõ a armada q diífe, em q forão feys cétos Portuguefes. E chegado á paragem onde auia defperar as naos, repartio os nauios atraueffando ho mais que podião alcançar, porq não podeffem paliar nenhúas naos fem fere viftas. E andando as efperando, foy ter coele húa nao muito grãde de mouros malabares, cõ quem pelejou. E eles fe defenderão muyto bé por hú bõ pedaço, & defpois forão entrados & mortos todos, fe não hús poucos de q Eytor da filueira foube q aqla nao era do Chatim de Mangalor, & hia carregada de piméta & droga. E foy muyto grande dita tomarfe efta nao, porq cõ a goarda q Diogo da filueira fez na cofta do Malabar não hia a Meca outra pimenta fe não aquela, & aífi não foy lá aquele anno nenhúa. Tomada efta nao que foy muyto rica, topou Martim de caftro outra q hia de Diu carregada de roupa de Cambaya, & hião nella bem duzentos homes de'peleja, em q entrauão muitos Turcos: & os noffos ferião ate corenta. E pelejarão coeles hú bõ efpaço primeiro q os aferraífem ate q os abalrroarão: & em afferãdo, Martim de caftro que era muy arrifcado caualeyro, foy o primeyro que faltou dentro, & coele algús dos feus: cõ quanto as pedradas & frechadas q os Imigos tirauão erão fem conto. E defpois de fere détro, foy a peleja muyto mais rija que dãtes, porq os mouros erão homés de feyto, & pelejauã com muyto esforço: & defendé- dofe morrerã quafi todos, deixando muyto ferido a Martim de crafto, & dez ou doze dos noffos, q todos jútos fofteuerão ho mavor impeto da pe¬ leja. E tomada a nao achoufe q hia rica arrezoadamente. E a fora eftas duas naos fe tomárão algúas outras pelos outros capitães, mas fem pe¬ leja: & eftas duas forão as de mór preço. E dos catiuos q forão tomados foube eytor da filueira, que a mayor parte das naos de Diu & do reyno
  • Livro VIII, Capitolo XVI 217 de Camb'aya erão paffadas: porq como efperauão q ho gouernador fofle aqlle ano a Diu partirão cedo polas não tomaré. E fabido ifto por Eitor da íilueira, vedo q era tépo perdido andar ali mais, partiofe pera ho lugar de Mete: Õde tinha mãdado aos outros capitães q fe ajútaflem no fim das prefas, & hi fe ajútarão todos. CAPITOLO .XV. De como os Rumes leuantarão ho cerco a Adem com medo da nojfa armada. MOrto ho capitão mór do Turco q matou Soleimão raez, como diiíe no liuro fexto. Muftafa, & Cojeçofar feu tefoureyro, não oufando de tornar a Iudá, né a çuez, pola treição que fizerão ao Turco, determinarão de tomar Adé & fazerfe Muftafa fenhor dela pera , fazer hi feu affento. E ajútãdo dez nauios de remo, antre grãdes & pe¬ quenos da armada q leuaua Soleimão raez, & coréta zãbucos: & Geluas foy fobre Adé, onde chegou de fupito com feys cétos Rumes, & muyta outra géte da terra, q por ganhar foldo ho ajudaua. E cercou Ade por mar, & da banda da terra mandou fazer húa eftãcia, em que forão aflef- tados quatro Bafilifcos, com q lhe derribarão todo o muro daqlla parte por muytas vezes: & os mouros ho tornarão a refazer. E erão tão esfor¬ çados, & defendiãfe també, q núca Muftafa os pode tomar em cinco mefes q durou ho cerco: em que lhe morreo muyta géte deffa pobre, de fome, & de fede. E fabendo Muftafa como a nofla armada andaua no eftreito ouue medo q fofle a Adé como coftumauão, & q ho tomaífe fegúdo a fua géte eftaua defmayada do trabalho da guerra. E por ifto leuãtou ho cerco, & fe foy pera Camarão & Adem ficou liure. CAPITOLO .XVI. De como Eytor da filueira fe\ que el Rey Dadem fe fi\effe tributário del Rey de Portugal. SEndo junta toda a nofla armada em Mete, mandou Eytor da filueira as naos & zãbucos das prefas a Mazcate pera fe véderé. E ele par¬ tiofe pera Adé, porq leuaua por regiméto do gouernador, que aca- bãdo as prefas defle húa vifta a Adem. E achãdo no porto quaefquer nauios de muyto preço os tomafle, & doutra maneyra não curaífe deles. E mandaffe recado a el Rey, q por amor dele ho fazia: & fe quilefle fer Tomo IV J8
  • 2l8 Hijloria da índia vaiTalo del Rey de Portugal, & pagarlhe algúas pareas q ho ajudaria em quato podeífe: & por a guerra q fabia q tinha com os rumes mandaua aqla armada em fua ajuda. E chegado Eytor da íilueyra ao porto Dader q foy aos quatro Dabril, defpois de furto, foy logo viíitado por dous mou¬ ros principais, da parte del rey cõ muyto refrefco, de vacas, galinhas & carneiros, & cõ palauras de muyta amizade: & ifto cõ medo da nofla ar¬ mada. Porq fegúdo ele fabia que os nolfos erão de concrufam, & tinha a fua gente trabalhada da guerra dos rumes, deufe por tomado, & poriifo diffimulou com eftas moftras damizade. E na enuolta delas mãdou per¬ guntar a Eytor da filueira a determinação de fua vinda. E ele lhe refpon- deo pela inftrução do gouernador: & pos de fua cafa que achado nouas em çacotora que os rumes erão idos & não tinha neceffidade dajuda, efpalhara a armada âs prefas. E coifto lhe cometeo a vaífalagé & paga das pareas, offrecédolhe fua ajuda cõtra os rumes, fe tornaífem, & man- doulhe algúa coufa com que lhe pareceo que folgaífe, pera o prouocar a fazer feu requerimento. A que el rey refpondeo, que cuydaua que ho go¬ uernador lhe agardecefe fofter ele a guerra contra os rumes, gente mal- uada, & tamanha imiga dos noffos: q todo feu defejo era entrar em Adê pera paífar á índia: & poriifo folgaífe com fua amizade fem mais pareas ne coufa algúa. E entendendo Eytor da filueyra q el rey fe efcufaua, mã- doulhe dizer que ho milhor lugar em q os o gouernador podia acolher era Adê, porq os teria ali mays certos: & fe ate li não erão desbarata¬ dos, fora por andare fempre por lugares eftreytos & não fabidos, por iífo viffe o q lhe copria. E paífados fobrifto mais outros recados vio el rey q lhe cúpria fazerlhe a votade & fezfe vaífalo del rey de Portugal, com lhe pagar de pareas cadãno dali por diante dez mil xerafins da valia Dor- muz: & difto fe fez hú contrato, cõ condição q o gouernador ho ajudaífe contra feus Imigos, & as naos Dadé podeifem nauegar feguras pera onde quifeffem, tirãdo Meca. E efte cotrato foy aífinado por el rey & por Ey¬ tor da filueira. E el rey deu logo a Eytor da filueira mil & quinhétos xerafins mortos, de q mãdaria fazer em Ormuz húa coroa pera el rey de Portugal, que lhe leuariã da fua parte em final de vaifalagé. E detendofe aqui Eytor da filueira a fazer efte contrato lhe efcreueo el rey de Xael q queria fer vaífalo del rey de Portugal, & entrègarlhe a artelharia que tinha em Xael & em Dofar, pedindolhe muyto que foífe por hi pera fe fazer dilfo aflento. E eytor da filueira refpondeo que aceitaua fua vaífa- lage, poré que não podia ir lá por lhe ho tépo não dar lugar, que man¬ daria lá hú homé de confiança com que aífentaffe o q dizia. E querendofe Eytor da filueira partir deixou em Adê a requerimento del rey hú bar- gantim com trinta Portuguefes, & por capitão hú Antonio botelho criado
  • Livro VIII, Capitolo XVII 219 del rey de Portugal, de q cofiaua: & deulhe por regiméto q paffado ho inuerno fe fofle à índia: & de caminho paflafle por Xael, & vifitaífe el rey da fua parte, & lhe diflefle que coele podia aflentar o q lhe efcreuera a Adé, pera o q lhe deu inftruçã. E feyto iílo fe partio pera Ormuz, & paliando por Mazcate achou vedidas as prefas, de q vierã a el rey pagas as partes trinta & dous mil pardaos. E hi foube que Frãcifco de freytas capitão de hú bargantim que deixara em Mete cõ húa nao de prefa pera a leuar a Mazcate, defpoys de ele fer partido, chegou húa fuíta de rumes, que era trinta, & dez Arábios todos efpingardeyros: & quando Francifco de freytas a vio, cuydando q fofle algú bargantim noffo favo a ela, & conhecédoa aferrouha, pofto q na tinha mays de dez Portuguefes: & afer¬ rados pelejarão por tãto efpaço fem fe poderé vencer, que de canfados lhes foy neceflario defcajiçar pera tomaré folego: & tornãdo a pelejar quis noífo fenhor q pofto que os noffos erão tam poucos, que pelejarão tam esforçadamente q os rumes & Arábios forã todos mortos: faluo hú arrenegado Português, que andaua coeles, q faltando nagoa bradou q era Chriftão, & ifto lhe valeo: & efte fe chamaua Antonio bocarro, & eftando cÕ feu pay em Ormuz que era alcayde mor, de fua própria malicia fem auer outra caufa, fugio pera a terra firme, & fe foy tornar mouro: polo q os mouros ho não teuerã em conta, & ho defprezauão. E viofe defpoys em tãta neceflldade de pobreza, que lhe foy neceflario fazerfe alfayate, & cõ iflò ganhaua de comer, ate q fe ajuntou co os rumes: que na pe¬ leja ajudou muy bé cõ húa efpingarda, porq defpoys de tomado differã algús que ho virão tirar. E nefta peleja morrerão dous Portuguefes, & os outros forão feridos. E de Mafcate fe foy Eytor da filueira inuemar a Ormuz: dÕde na fim de Agofto fe partio pera a ponta de Diu, & fem fazer nada efteue hi todo Setembro, & defpoys fe foy pera Goa em Ou¬ tubro. CAPITOLO .XVII. De como Gonçalo Pereyra chegou a Malaca. PArtidos Gonçalo pereyra, & Antonio da filua de Cochim, feguirão fua rota pera Malaca, & com tepo apartoufe Antonio da filua de Gõçalo pereira, que com Lionel de lima foy em conferua ate as ilhas q chamão de Nicobar, & Lionel de lima q hia diãte como a fua ga- leota era pequena, podeas dobrar, pofto que achou ho vento ponteyro: o que Gonçalo pereyra não pode fazer por fer ho feu galeão grande: polo q lhe foy forçado furgir na primeira ilha que era defpouoada, & furgio hú pedaço afaftado de terra. E por ho tepo fer roim pera fua viagé
  • 220 Hijioria da índia le deteue ali algús dias, em q por recear que lhe faltaffem os mantime- tos começou dapertar a regra: do q fe a gente começou dagaftar, & def- confiados algús de fe poderé ir dali tão cedo, concertarão muyto fecreta- méte que fe folfem no paraó do galeão á cofta de Pegu que era dali perto, onde farião em prefas mays proueyto do que fazião auenturados a mor- reré de fome & de fede, & q tinhã bÕ aparelho pera furtar ho paraó, por nefte tempo fe fazer coele agoada, & por iffo trazia hú par de ber¬ ços & pelouros. E tédo ifto affentado, negocearão eftes como foífem fazer agoada: pera o q leuarã fuas armas, & eftando ho piloto em terra en¬ chendo as pipas cõ algús marinheiros os conjurados fe forão cÕ ho paraó: & não ho achando ho piloto logo fofpeitou o que era: & ficando muyto trifte por ho galeão eftar dali bõ pedaço & não ter em q foífe por fer a ilha defpouoada, & muyto trifte fe foy com os outros por ella a diante pedindo mifericordia a noffo fenhor, que auendoa delles lhes aparou húa almadia, que parece que ali foy ter â cofta, cõ que elles ficarã muyto ledos, ainda q era tão pequena que não cabia nella rhais q hú homé pera ir ao galeão, & efte acordarão q folie ho piloto, afli por fer lá muyto ne- celfario, como por lhes prometer de acrecétar a almadia com algúas tauoas & mãdar por eles: & metendofe fo na almadia foy remando cõ hú pao, & adi chegou ao galeão: & dito a Gonçalo pereyra como ho pa¬ raó era furtado, fez logo acrecentar a almadia, & mandou polos mari¬ nheiros q ficauão em terra. E indo perto da ilha deulhes por cima dela húa toruoada que ouuera de çoçobrar a almadia, & mais efgarrou coela por eífe mar & perderafe, fe lhe noffo fenhor não acodira, que paffada a toruoada ho piloto q tinha olho na almadia a vio ir efgarrada o que fabido por Gonçalo pereyra porque ficaua perdido fem ela mandou cõ grande preffa leuar ancora, & dar á vela & forão fobre a almadia q tomarão: & cobrados os marinheyros q ficarão na ilha, alargou ho veto algúa coufa, com que acordarão de profieguir fua viagé, ainda q foffe cõ trabalho, porq menos o fintirião que morreré ali à fome: & por efta caufa fe par¬ tirão, & fe forã de ilha é ilha, furgindo muytas vezes, por ho véto fer contrayro. E quafi q não fe mantinhão fe não cõ ho peixe que pefcauão. E parece q enfadado ho piloto & algús homeés darmas, & marinheiros defta mà vida, determinarão de fe tornar a Bengala, matando primeyro a Gõçalo pereyra pera ho poderé milhor fazer, & q em Bengala fe fariã ricos de prefas. E cõcertandofe efta conjuraçã, foy defcuberta a Gonçalo pereyra: que prédeo logo ho piloto, & todos os outros cõjurados. E che¬ gado a Malaca foy tirada deuaffa fobre aquela conjuração, em q não fe achou mais proua contra os cõjurados, que pera ferem açoutados com baraço & pregão & degradados. E porq Gonçalo pereyra leuaua por re-
  • Livro VIII, Capitolo XVIII 221 giméto do gouernador que foíte de Malaca pera Maluco pela via de Bor- neo, deteuefe em Malaca ate quafi a fim Dagofto. CAPITOLO .XVIII. De como morreo el rey de Ternate, & fe matou Cachil vayaco. ATras fica dito como Fernão dela torre defpois de ido pera Camafo, onde auia deftar pola capitulaçam das pazes que fez com dõ lorge de menefes, fe foy pera Geilolo por lho requereré os caftelhanos que hi eftauã. E depois de lá eítar tornou ho gouernador de Geilolo a fazer guerra a el rey de Ternate: polo q foy neceífario fazerlha tãbé dom lorge, mas né hús né outros a fazião tam apertada como dates. E começãdofe affi efta guerra, faleceo el rey de Ternate: & fofpeitoufe muyto q foy de peçonha, & q lha mandara dar Cachil daroes, por faber que elrey lhe qria mal por ele fer caufa de fer metido naquela fortaleza, & auer tanto tépo q ali eftaua como prefo. E affi tabé por amor das tira¬ nias q fazia em fua gouernança, com q tinha pofto ho reyno em grande opreffam. Poré a verdade da morte del rey não fe foube: & foy muyto fintida, affi dos portuguefes como dos mouros por lhe todos quereré bem por fua boa condição. E por fua morte foy leuantado por rey outro feu irmão mais moço q auia nome Cachil ayalo. E vedo a raynha fua mãy que lhe não ficaua outro, temendo q lhe morreffe efte, pedio muito a dõ lorge que lhe deífe pera eftar na cidade, & fezlhe fobriífo muytos re¬ querimentos. Mas dom lorge nunca quis, temendo q lhe fizeffem treição fe el rey efteueífe fora de feu poder. E affi lho cõfelhaua Cachil daroes por amor do que ganhaua em el rey eftar na fortaleza, q tinha aufoluta- mente todo o mando do reyno, & eftãdo fora não auia de fer affi por lhe a raynha qrer grãde mal. E porq ela fabia q por ele poderia feu filho fair fora da fortaleza, diffimulaua ho mal q lhe queria, & trabalhaua muyto por lhe fazer a vontade. Em tanto que teue coele ajuntamento, fendo fua madrafta & com tudo nunca pode alcançar o q defejaua, por Cachil daroes eftoruar quanto podia que não tiraffem el Rey da fortaleza: pelo mando que perdia: tirãdofe que receaua tanto de perder, que tinha mortal odio a toda pefloa que fofpeitaua que podia fer caufa de lho tiraré. Pelo que queria mal a Cachil vayaco que a tras nomeey, porq dõ lorge era grande feu amigo, & ho fauorecia muyto: o q temia fer caufa de ho fazer gouernador, & tirar a ele daquele cargo: porq fempre entédeo em dõ lorge defpoys que forão as deferenças q teue com dõ Garcia anriquez q não era feu amigo: & que a comunicação que tinha coele era mays por
  • 222 Hijloria da Índia neceffidade q por vontade. E por ifto que digo fe temia de Cachil vayaco, & encubertaméte ho tinha por inimigo: & Cachil vayaco a ele da mefma maneira por amor das fuas tiranias. E viuédo defta maneyra acertoufe q húa armada del rey de Geilolo foy dar vifta á fortaleza: & dõ Iorge man¬ dou contrela a Cachilvaico com algús Portuguefes: & ele fe embarcou em húa coracora em q Cachil daroes coftumaua dandar, do que ele não foube nada. E cachilvaico depois de fazer recolher os geilolos & lhes tomar húa coracora, tornoufe coela muyto ledo pera a fortaleza: o que també dom Iorge feftejou por fer feu amigo, do q Cachil daroes ouue grade enueja. E ouue tamanha menencoria de cachil vaiaco ir na fua coracora que defcobrio ho odio q lhe tinha & dali por diante lhe daua todos os defgoftos que podia, & ho auexaua em tudo: & trataua de lhe dar peço¬ nha. E tão apertado fe vio Cachil vaiaco dele, que defefperado de faluar fua vida antre os mouros fe acolheo á fortaleza, contãdo a dom Iorge a caufa porq ho fazia. E fabedo Cachil daroes como eftaua na fortaleza ficou muy agaítado por lhe parecer q tomaua por valedor a dõ Iorge. E ifto inflamou ainda mais a Cachil daroes cõtrele, & determinãdo de ho auer pedio ho a dom Iorge por fua pefloa: dizendo, que aquele homê tinha offendido muy grauemente a el Rey de Ternate, & ho tinha muyto deferuido. E pera proueito do reyno era neceflario fer caftigado, pelo q lho deuia de dar: porq el Rey de Portugal não auia dauer por feu feruiço emparar ele, nem fauorecer os que deferuião a el Rey de Ternate, antes folgaria de lhos ajudar a caftigar. O que ouuido por dõ Iorge, como era amigo de Cachil vayaco, & defejaua de ho faluar, pos em confelho fe ho entregaria a Cachil daroes. E quando ele vio que dõ Iorge punha aquilo em cõfelho, temeofe que ho aconfelhaffem, que ho entregafle. E porque fabia certo, que fe Cachil daroes ho acolhefle q ho auia de matar, & que ho nam pedia a outro fim: quis antes matarfe que morrer por feu man¬ dado. E fupitamente fe deitou da torre abaixo, & logo morreo. E com íua morte fe desfez ho confelho, & Cachil daroes ficou vingado, & dõ Iorge muyto trifte por lhe não poder valer. E ficou muyto defcontente de Cachil daroes do que era, & Cachil daroes muyto mais dele, por qrer emparar feu Imigo, & lho nam dar logo como lhe pedio fem auer con¬ felho fobriffo. E afli fe foy mais acrecentando ho odio que fe tinhão hú ao outro.
  • Livro VIII, Capitolo XIX 223 CAPITOLO .XIX. Da injuria que foy feyta a Cachil vaydua. E do mais que fucedeo. DEste odio que Cachil daroes tinha a do Iorge, lhe naceo ter outro a todos os Portuguefes, & defejar de os deitar da terra, & auor- reciaolhe tanto, que os mouros ho entendião. E a fora quererem mal aos Portuguefes de feu natural, queriãolho também por faberem q lho queria Cachil daroes. E no q podião lhe fazião mal, mas ilto muy diffimuladaméte, porq não vião a fua: & auião grande medo a dõ Iorge, porq ho conhecião por caualeyro. E por fe vingarem dele lhe matarão húa porca da China, que ele eítimaua muyto. E poíto que foy feyto fecre- tamente, dõ Iorge fez fobrifio tanta diligencia, que achou culpado na morte da porca a Cachil vaydua tio del rey, & caciz mór que antreles he como antre nos ho Papa: & nem por fer de tão alto eílado & digni¬ dade, dõ Iorge deixou de ho mãdar prender na fortaleza. Do q fe recre- ceo grãde aluoroço na cidade, & fe não fora ho medo que tinhão a dõ Iorge leuãtarãfe. E logo cachil daroes fe foy cõ os principaes da ci¬ dade â porta da fortaleza õdeftaua dõ Iorge, & pediolhe cõ todos eles, q mandaffe logo foltar Cachil vaydua: eítranhãdolhe preder húa peífoa de tal qualidade por tão baixa coufa como húa porca. E dõ Iorge não cu¬ rando de muytas palauras diffe, que ho não auia de foltar, fe não pagã- dolhe a fua porca anoueada. E Cachil daroes, que conhecia dõ Iorge por determinado, não curou de mais pratica, & foy cõ os outros pera man¬ dar penhores que fe pofeífem em caução ate a porca fer aualiada. E quando tornou ja não achou dõ Iorge que andaua na ribeira, onde lhe foy falar Cachil daroes. E dõ Iorge foy cõtéte de dar Cachil vaydua fobre os penhores, & mandou a hú Pero fernãdes que os tomaffe & ho foffe foltar, & ele ho fez alTi. E como home de pouco faber cuydando que fazia graça, lhe vntou a boca & ho rofto com húa polia de toucinho: que foy a mayor injuria & offenfa que fe podia fazer a hú mouro, por lhe fer tão defelo em feu alcorão comerem porco, quãto mais a Cachil vaidua de tal qualidade & dignidade antre os mouros. E affi fentio ele tanto aqla injuria, que lhe faltarão as lagrimas fora dos olhos. E corren- dolhe pelo roltó, que ainda leuaua vntado de toucinho, fe foy pera Ca¬ chil daroes, que cõ muytos mandarins ho efperaua â porta da fortaleza, a quem contou fua injuria: cõ que todos chorarão affi da magoa dele como por não fe poderê vingar. E cuydando que aquilo fora feyto por mandado de dom Iorge, fe indinarão ainda muyto mais, porem calarãoie.
  • 224 Hijloria da índia E algús Portuguefes que ali eftauão, em vez de os confolare riãofe muyto, louuando a graça de Pero fernandez. E Cachil vaidua de fe auer por muyto injuriado, não quis mais morar em Ternate, & foyfe por aquelas ilhas: notificando aos mouros a grandiflima injuria que lhe fora fevta, do q Mafamede eftaua muy offendido, pedindo-lhe da fua parte que a vin- gaflem. Pera o que todos fe começarão daperceber, & depois ho fizerão: & Cachil vaidua fe recolheo na ilha de Bachão, & não tornou a Ternate le não no tempo Dantonio galuão como direy a diante. E fe a dõ Iorge lhe pefou quando foube a offenfa que fora feyta a Cachil vaidua, ou o q fez niífo não ho pude faber: pore Cachil daroes não fez nada, & efteue como eftaua fem bolir configo, fe não que dali a algús dias mãdou que nam leuaffem os mouros a veder nenhús mantimétos â cidade. E ifto por lhos os Portuguefes tomarem por força fem lhos quereré pagar, porq não tinhão com que, que não auia dinheiro na fortaleza cõ que lhe pagaffem foldo nem mantimento, do que dõ Iorge andaua muyto agaftado, & não podia dar remedio aos muytos queixumes q lhe os mouros fazião dos Portuguefes que lhes tomauão ho feu. A quem fe reprédia diffo, refpõ- dião que lhes deffe de comer, & que ho não tomarião aos mouros: q vendo ho pouco remedio de feus agrauos que achauão em dom Iorge fe queixauão a Cachil daroes, que por euitar brigas lhes mandou q não vendeffé nenhús mantimétos, né os teueífem em cafa por os Portuguefes não tomarem. Cõ que eles ficarão em eftrema necefíidade, & fe viao cer¬ cados da morte: a que dõ Iorge querendo acodir, mandou Gomez aires alcaide môr da fortaleza cõ algús Portuguefes, que foffe pola ilha bufcar mantimentos. E algús deftes que hião diante, chegarão a hú lugár cha¬ mado Tabona, & como homés mórtos de fome, & também foberbos: parecendolhes que erão fenhores da terra, fe meterão logo polas cafas, tomando por força os mantimétos q achauão: Do que efcandalizados os moradores, começarão de lhes refiftir com fuas armas. E como erão muytos, & os Portuguefes poucos tratauãonos mal, & nifto chegou Go¬ mez aires cõ os que ficauão coele, que erão poucos mais q os q andauao no lugar. E cuydando ho regedor dele que hião em focorro dos com que os mouros pelejauão, acodio também pera lhes focorrer: & tomando os Portuguefes antre fi, derãlhes muytas pancadas & feridas, & a algús tomarão as armas que leuauão, & afii os fizerão tornar pera a fortaleza.
  • Livro VIII, Capitolo XX 225 CAPITOLO .XX. De como ho governador de Tabonafoy deitado aos cães, & Cachil daroes foy degolado. VEndo dõ Iorge os Portuguefes tão mal tratados, ficou muyto indi- nado contra os mouros de Tabona. E mandou a Gomez aires, que foíTe logo contar aquilo a Cachil daroes, & q lhe diffeffe da fua parte que mandafle ir á fortaleza o regedor de Tabona, & os principaes que ho ajudarão a fazer tamanha offenfa aos Portuguefes: porque doutra maneyra não ho teria por amigo del Rey de Portugal, ne ho feria feu. E como dõ Iorge tinha el rey na fortaleza, fez logo Cachil daroes o q lhe mãdou dizer: & forão com ho regedor de Tabona dous homes principaes do lugar, a que dom Iorge mandou cortar as mãos, & cortadas os man¬ dou leuar a Tabona pera darem nouas aos outros, & ao regedor mãdou ho deitar com as mãos atadas a dous cães grandes que tinha de filhar. E ifto era na praya, q eftaua cuberta de gente, que fahia a ver tão noua & crua juíliça. E foy coufa piadofa de ver como os cães remeterão ao regedor, & começarão de lhesfarrapar a carne, mordendo ho muy cruel¬ mente, & dos gritos que ele daua cõ a dor das dentadas. E nifto deu con- figo no mar, parecendolhe que ali fe faluaria: & metendofe ho mais que podia, os cães ho feguirão dandarem encarniçados. E vedofe ele em tama¬ nho perigo, andando ja a nado com os pés que com as mão não podia, fez volta aos cães que ho feguião & começou cõ muyto esforço & acordo de fe defender cõ os détes: do que todos ficarão muy efpantados, porque fe os cães ho mordião ele também a eles. E andando muyto ferido, affer- rou hú dos cães por húa orelha, & afferrado fe meteo coele debaixo da- goa, onde foy afogado. E afli acabou fua vida deixãdo muyto gt^nde efpanto de feu esforço em quantos ho virão, & tamanha fama antre os mouros, que ainda agora falão nele, & não ouue ali que não choraífe cõ piedade de verem morrer tão cruel morte a hú homé tão esforçado, que pofto que tinha culpa, fora pera lha perdoar auédo refpeito á caufa dela, & mais defpois que moftrou feu esforço. E pola perda deite homem fica¬ ram os mouros muyto magoados, principalmente Cachil daroes, que dali por diãte teue mortal odio a dõ Iorge, & aos Portuguefes: & defejaua de os matar a todos, ou deitalos fora da terra, & praticou ifto com os do confelho del rey de Ternate. E a principal caufa pera que o queria fazer era pera fer rey, & dahi a algús dias foy dito a dom Iorge, que ele tinha aífentada paz cõ Cachil catabruno gouernador de Geilolo, & tinhão am-
  • 22Ô Hijloria da índia bos concertado de matarem os Portuguefes & os Caftelhanos, & tomar- lhes quanto tinhão, & depois matarem os reys, que eram ainda moços, & fazeréfe reys, & liaréfe por cafaméto. E Cachil daroes auia primeyro de matar os Portuguefes, & defpois Cachil catabruno os Caftelhanos. E culpauão também nefta treyção ho çamarao, que era ho almirante do mar, & ho Boyo q era juftiça mór do reyno. Sabido ifto por dom Iorge, porque ho cafo era de tanto pefo não quis fazer nada nele, ate não ter a mayor certeza que pode. E defpois que a teue, mandou hú dia chamar a Cachil daroes, & ho Boyo, & ho çamarao: & apartando os, lhez fez pre- gútas do que lhe era dito: & eles ho confeflarão com temor que os nam meteffem a tormento. E por Cachil daroes fer ho principal da treyção, foy prefo na fortaleza: fobre o q foy grande aluoroço nos mãdarins, & mais quando fouberão a caufa de fúa prifam. E dom Iorge teue logo con- felho com ho feytor, & alcayde mór, & outros officiaes, & peffoas prin- cipaes da fortaleza fobre o que faria de Cachil daroes. E foy acordado q foffe degolado pubricamente, porque eftando prefo poderfehia leuãtar a terra contra a fortaleza com efperança de ho liurarem: & fabédo que era morto affeflegarião pois ho não podião cobrar. E ifto affentado, foy Cachil daroes degolado da maneyra que em Portugal fam degolados os grandes fenhores: o que pos grande efpanto nos mouros, efpecialmente nos mandarins, que naquela terra não morrem por juftiça: & quando co¬ metem crime per q mereção morte degradãnos. E vendo eles matar affi a Cachil daroes, não fe ouuerão por feguros, & dizião q fora morto fem caufa fòmente por mexericos: & temendo effes principaes que lhes fizef- fem outro tanto, determinarão de fe ir da cidade morar a outra parte, por não eftarem na conuerfação dos Portuguefes, & cõfelharão á raynha q fizeffe ho mefmo. E adi ho fez, & foyfe coeles a hú lugar forte cha¬ mado Turutó: porem a gente comuú não bolio coníigo, & deixoufe eftar. E a raynha defpois q foy em Turutó, mandou pedir a dom Iorge que lhe feu filho porq não morreífe. E elle nunca quis, pelo q a raynha mandou, q não leuaffenr a vender mãtimetos á cidade: & afli durou efte aluoroço ate que Gonçalo pereyra chegou a Ternate.
  • Livro VIII, Capitolo XXI 227 CAPITOLO .XXI. De corno Gonçalo pereyra chegou â ilha de Ternate. GOnçalo pereyra que ficou em Malaca, eíteue hi ate vinte Dagofto q íe partio pera Maluco com Lionel de lima, & foy de Malaca ate ho eftreito de Cincapura ao longo da cofia, e dali fez feu ca¬ minho pera a ilha de Borneo, que alfi ho Ieuaua por regimento de Nuno da cunha pera tomar hi caixas, que lam hú genero de moeda que ferue em Maluco, & algúa mercadoria neceífaria pera lá. E fazendo feu cami¬ nho por ãtre muytas ilhas por õde ele he, foy ter á ilha de Borneo q he húa ilha de q os Portuguefes a efte tempo tinhão defcubertas oytenta legoas. He terra muyto abaftada de carnes, arroz, & doutros muytos & diuerfos mantimétos: & afli de coufas ricas, & de muyto preço, como a canfora que nace por toda efta ilha em aruores, aífi como nace a rezina neftas partes. E efta daqui he a própria canfora, & que vai na índia a pefo douro: porque a outra da Perfia he contrafeyta. Ha também dia- mães que nacem nas prayas do mar, junto da cidade de Tanjapura, que fam muyto mais finos q os da índia, & fam de mayor valia. Nefta cofia que he defcuberta ha cinco grandes pouoações, todas portos de mar .f. Moduro, Cerauá, Laue, Tanjapura, & Borneo: de que a ilha toma ho nome. Cidade grade, cercada de muro de ladrilho de nobres edifícios & a principal de todas, & em q os reys daqla ilha refidem, & té ali muy fumptuofos paços. Deftes portos, os principaes fam Laue, & Tanjapura, & onde fe faz mayor carregação: & em todos morão muytos & muy ricos mercadores que tratão na China, na Laquea, em Sião, Malaca, çamatra, & é outras ilhas derredor, a que leuão canfora, diamães, aguila, & man¬ timentos, em que entra hú vinho q chamão tampoi, ho melhor que ha an- tre os vinhos contrafeytos, & em retorno leuão roupa de cambaya de toda forte, cobre, azougue, vermelhão, & cacho & pucho. Os moradores defta ilha fam mouros: geralméte fam baços, & bem defpoftos, tratãfe bem, & veftéfe ao vfo malayo, & falão a lingoa malaya. Ho rey defta ilha he mouro, & muyto rico & poderofo de géte, & feruefe com grande eftado: tem hú regedor que pola mayor parte gouernaua ho reyno, a que cha- mauão em fua lingoa xabandar. Chegado Gonçalo pereyra ao porto defta cidade, mandou hú prefente a el rey per Luis dandrade, & ao xabandar outro: & mandou dizer a el rey, que el rey de Portugal, & ho feu go- uernador da índia ho mandauão ali pera ho feruir no que mandaffe, por¬ que delejauão muyto fua amizade: & q feus vafialos foífem tratar a Ma-
  • 228 Hifloria da índia laca como hião dantes, onde ferião bem tratados, & tãbem os Portugue- fes foffem a feus portos & teueffem neles trato. E dado per Luis dandrade efte recado a el rey, & ao xabandar com os prefentes, com q moftrarão folgarem muyto, refponderão. Que recebião grande contentamento em el rey de Portugal & feu gouernador quererem fua amizade, q goardarião coeles muy inteiramete, & erão muyto contentes de fazerem o que lhes pedião. E que fe auião por ditofos de Gõçalo pereyra ir ao feu porto, & de ho terem por vezinho em Maluco, onde fe preftarião coele. E mandou el rey ao xabandar, que aquele dia agafalhafe em fua cafa a Luis dan¬ drade: & a(Ti ho fez, fazendolhe grande fefta. E ao outro dia ho defpa- chou el rey, & mandou coele dous mandarls a vifitar Gõçalo pereyra, & madoulhe hú prefente. E em vinte dias que ali efteue lhe leuarão a vé- der todos os mantimentos & coufas de que tinha neceflidade. E ficando em grade amizade com el rey, fe partio pera Ternate: & leuando muyto boa viagem, foy furgir no feu porto a hú fabado na entrada Doutubro, do anno de mil. & quinhétos & trinta & hú. E logo algús fe forão á for¬ taleza, de quem dÕ Iorge foube como Gonçalo pereyra hia prouido da capitania por el rey, & como hia coele Lionel de lima que era feu imigo. E teue pera fi, que por eífa caufa ho auia de mexericar com ho gouerna¬ dor da índia: & fofpeitou q auia de fer prefo. E ao domingo quando fayo a receber Gonçalo pereyra mãdou leuar a hú feu criado hús grilhões de¬ baixo da capa. E depois de recebido Gonçalo pereyra cõ grade fefta, que defembarcou ao domingo pola manhaã. Chegados á porta da fortaleza, moftrando Gonçalo pereyra a prouifam que leuaua da capitania, lha en¬ tregou dom Iorge, dandolhe as chaues da fortaleza, & afli lhe entregou el rey Cachil dayalo. E defpois tomando os grilhões q ho feu criado leuaua, diffe a Gonçalo pereyra: que fe tinha neceflidade deles para lhos deitar, que ali eftauão, & ele muyto obediente pera os receber. E efta juftificação fez dom Iorge pola fofpeita que diffe que tinha de fer prefo. E Gonçalo pereyra lhe diffe, que não hia pera ho prender nem anojar, fe nam pera ho feruir no que podeffe, cõprindo cõ a obrigação do feu carrego. E coifto entraram na fortaleza, onde dõ Iorge ho banqueteou aquele dia, & ho enfermou da terra: & deixando ho nela, fe foy à noyte pera a fua poufada, que era fora da fortaleza.
  • Livro VIII, Capitolo XXII 22p CAPITOLO .XXII. De como Gonçalo pereyra prometeo à raynha de Ternate de lhe entre¬ gar feu filho. SAbendo a raynha & os mandarins q eftauão coela, que Gonçalo pe¬ reyra eftaua de pofie da capitania, & que dom Iorge nam era capi¬ tão, determinarão de fe queixar dele dos muytos grãdes agravos q lhes tinha feytos, afli na prifam de Cachil vaidua, como na morte do re¬ gedor de Tabona, & de Cachil daroes: & fobre tudo de lhe não querer dar ho feu filho & terlho prefo, morredolhe ja outro na prifam. E auida licença de Gonçalo pereyra, mandarão hú principal Mãdarim a efte ne¬ gocio, que fabia a lingoa Portuguefa, & homem muy prudente, & dif- creto: que defpois de fer bem recebido de Gonçalo pereyra lhe diífe. A pouca experiécia de noffa lealdade, & a má fama que os mouros té de defleais aos Chriftãos, & ho muyto credito que os Portuguefes tem de juítiçofos, te fará crer que a ida da raynha & dos mandarins, & deixarem fua cidade: não foy por culpa de dom Iorge de menefes. E que fazédo- lhe ele muyto boas obras, fauorecédo fuas pelfoas, & emparãdo fua terra, eles como Imigos dos Chriftãos por lhes fazerem mal, & lhes tirarem os mantimentos, deixarão fuas antigas moradas, & forão tomar outras no- uas. E poré, não fam os mouros tão defleais como os Chriftãos os fazem principalmente os deltas ilhas de Maluco que fe prezão de fidalgos, & de caualeiros. Poys quem fe preza deltas duas coufas, també fe prezará de lealdade, fem que a fidalguia & caualaria não podem fer. E fe noffa leal¬ dade he verdadeyra ou não, digam no os moradores da ilha de Tidore, que vindo os caftelhanos a fua terra fem os conhecerem os agafalharão, & empararão ha tantos annos: & podendoos matar & tomarlhes tanta fazenda como tem, fem terem quem lhes diífo tomaífe conta, nunca ne¬ les entrou tamanha baixeza, & lempre os tratarão como a feus naturaes: E 1'e os Tidores fizerão ifto aos Caftelhanos que não conhecião, porque ho não farião os Ternates aos Portuguefes, de que tinhão tanto conheci¬ mento por fama, & por experiencia: & a quem por eftas duas coufas que el Rey Boleyfe tinha de fuas virtudes offreceo fortaleza em fua terra; cõ delejo de fua amizade, & fem a iíTo ho obrigar outro intereífe. Mas temo de paliar a diante que a grauidade do cafo me faz couardo pera ho contar: & com tudo esforçome cõ a confiança de tua bondade, que nos dize que he tanta, que de ti mefmo faras juftiça. Não foy a ida da Ray¬ nha nem dos mandarins por fua culpa, nem deixarão fuas cafas por mal-
  • 23o Hijloria da índia dades que fizefiem: mas forão tantas as auexações, opreffoés & males que receberão dos Portuguefes que de os não poderem fofrer fe defterra- rão de fua natureza, & forão bufcar nouos afiemos. Certo que outra pef- foa a que eftes males que digo não doerão tanto os ouuera de contar: & não eu, que fomente em cuydar neles finto partir meu coração em mil partes, com dor & magoa de tamanha defauentura como foy a nofla, quanto mays tendo padecido tãta parte deles. E poys aquilo a que me a ty mandarão não fe pode fazer fem os contar dilos hey. Ho primeyro agrauo q os defauenturados moradores deita terra receberão, foy de An- tonio de brito, que lhes prendeo feu Rey, & de liure lho fez catiuo. E dom Garcia ho continuou q nunca lho quis foltar, nem menos dom Iorge, ate que morreo. E nam abaítou morrer aqlle mas logo meteo em feu lugar o que lhe fucedeo, & efte foy ho galardão que ouuemos de confen- tir que os Portuguefes fizefiem fortaleza em nofla terra, & cuydando q metíamos amigos com nofco, nos achamos com imigos, porque fempre nos aífi tratarão. E defpoys q os agafalhamos qual de nos pode faluar o que tinha pera comer, que tudo nos tomauã? Qual de nos pode goardar fuas molheres & filhas que as não forçaflem? Qual de nos pode viuer quieto, que eles nos defenquietauão? E tudo ifto fofreramos, mas dõ Iorge não quis que ele nos auexou & perfeguio, de maneyra que ho não pode¬ mos fofrer. Ele nos prendeo Cachil vaidua noflo caciz mór, que não po¬ dia fer para nos mayor injuria, nem parele mayor offenfa que vntarem- lhe a boca com porco, cuja carne he tão abominauel em nofla ley. Man¬ dou deytar aos caés hum homem de tanto preço como era ho regedor de Tabona. Mandou degolar Cachil daroes gouernador defte reyno, & a principal pefloa dele. E temédo a raynha, & os Mandarins, que també os mandafie matar fe forão da terra. E ela, & eles fe mandão aqueixar de do Iorge por eftas coufas q fez, & te pede que lhe faças juíliça dele tão inteiramente como eles efperão: & que lhe des feu rey, pera q os go- uerne, empare & fauoreça, & pera q cafe & aja filhos que lhe fucedão. E a raynha te pede efpecialmente, q ajas piedade de fua viuuidade, & defemparo: & que te lebre que não té outro filho pera fua confolação fe não efte, q lho deixes lograr algús dias antes de fua morte. E que fazendo ifto faras o que deues, & como fe efpera da bõdade Portuguefa: & ela, & todos os do reyno ferão obrigados pera fempre fazeré o que lhe man¬ dares. Ouuida efta fala por Gõçalo pereyra difie ao embaixador, que ele refponderia. E mandou ho agafalhar, & dar todo ho necefiario á cuíta del Rey. E fazendo cofelho propos nele o q lhe a Raynha & Mandarins mandauão dizer acerca de lhes foltar feu rey: em q hús difierão, q não era bé que fe foltafle. Porq fe a raynha & os Mãdarins não fe tinlfSo
  • Livro VIII, Capitolo XXII 23l leuãtado polos efcãdalos & agrauos que dizião ter recebidos, fora por amor do feu rey que eftaua na fortaleza. E fegúdo fe moftrauão agraua- dos, como ho teueffem por fe vingaré dos agrauados paífados, & por não recebere outros, fe leuãtarião. Outros differão, q antes pera os defagra- uar & apazigoar, fe deuia de foltar el rey: porq fe Gõçalo pereyra cõti- nuaíTe cõ a prifam del rey cuydarião q todos os capitães lhes auião de ter prefos os feus reys, & os auião fempre dagrauar. E como defefpera- dos trabalhauão por deitar os Portuguefes fora da terra, q erão muy pou¬ cos pera refiftiré ao poder dos mouros, fe fizeffem todos corpo: o q eftaua certo fazeré, porq hús auião dajudar os outros. E vedo q Gõçalo pereyra lhes foltaua feu rey, & fazia o q feus anteceífores não fizerão, lhe toma¬ ria amor, & crerião q tambe auia capitães q lhes fizeífem bé: & torna- rião a amizade cõ os Portuguefes, & ficaria a terra affentada. E defte pa¬ recer foy Gõçalo pereyra, & efte fe goardou. E pore affentoufe, q antes que el rey foífe folto fe acabaffe a fortaleza, pera mayor fegurãça dos Portuguefes, & dos mouros eftarem em paz. E q entretanto fingiífe Gon- çalo pereyra q andaua muyto ocupado no defpacho dos nauios q auião dir pera a índia, & q defpois de fua partida lhes daria el rey: porq ate então fe poderia çarrar de todo o muro da fortaleza, & acabar hú ba¬ luarte, ou faleceria muy pouco, & q então não faltaria algúa efcufa. E ifto affentado, refpõdeo Gõçalo pereyra ao embaixador da raynha: q era contéte de lhe dar el rey feu filho, & feruila e tudo, porq affi lho mãdaua el Rey de Portugal, & ho feu gouernador. E q lhe pedia muito q logo fe foífe pera a cidade de Ternate, & afli os mãdarins q eítauão coela, pera aflentaré a terra: & q teueffem amizade cõ os Portuguefes como dãtes, porq todos erão feus feruidores. E tornado ho embaixador coefta repofta, ainda a raynha repricou que lhe deffem primeyro feu filho, & étão fe iria pera a cidade: & fobrifto ouue muytos recados de parte a parte. E affen¬ toufe por derradeyro, q el Rey foffe entregue defpois da partida dos na¬ uios: & que Gonçalo pereyra juraffe folénemente de ho fazer afli. E ele ho jurou em húa Cruz q ho vigayro da fortaleza tinha nas mãos, vertido em húa fobrepeliz: & ele em giolhos cõ as mãos fobre a Cruz em quanto diffe as palauras do juramento, eflãdo prefentes os principaes Mãdarins de Ternate, & os officiaes da fortaleza.
  • 232 Hiftoria da índia CAPITOLO .XXIII. Do que Gonçalo pereyra fe\ defpois de chegar a Ternate. FEyto efte juraméto, fizerão os mouros grande fefta com a efperança da liberdade do feu rey. E a raynha cõ os Mandarins, fe foi logo pera Ternate. E Gonçalo pereyra a mandou vifitar por Luys dan- drade, mandãdolhe hú bÕ prefente, & aílí a algús dos Mãdarins que fabia que erão feus priuados. E afti os mãdou aos Sangajes & gouernadores da terra, noteficandolhe ho cõcerto que tvnha feyto com a raynha, & como eftaua em Ternate, pedindolhe q ho vieflem ver porque folgaria muvto de os conhecer & feruir. E eles ho fizerão affi, faluo Cachil hu- mar fangaje da cidade de Maquiem por eftar agrauado das pareas do crauo que lhe dom Iorge mandara que pagaffe a el Rey de Portugal: que ele dizia q não podia pagar, por lhe não ficar q comer. E por não fazer aluoroço, diffimulou Gõçalo pereyra, coele: & aos que forão á fortaleza fez muyta honrra, merces, & gafalhado. E pera mais cõtentar a todos, veftio el rey á Portuguefa de veludo de cores: & ordenou certos Portu- guefes pera fua goarda, & que ho leuaífem a defenfadar, & folgar pola cidade. De maneyra q parecia a todos q el rey eftaua em fua liberdade: do que a raynha & todos andauão muyto contentes, & tinhão muyta con¬ fiança q Gõçalo pereyra compriria o que tinha jurado, & moftrauãlhe em tudo grande amizade. E pera a ele arrematar mais & fegurar, fez hú go- uernador do reyno com apraziméto dos Mãdarins & da raynha, pera que ho teuefie de fua mão, & o ajudaífe, & fauoreceffe como Cachil daroes fizera a Antonio de brito. E efte foy hú mãdarim da geração dos reys de Ternate, q auia nome Cachilato: de q todos os Portuguefes tinhão muyto conheciméto. Tãbê nefte tepo Fernão dela torre capitão mór dos cafte- lhanos, mãdou vifiitar Gõçalo pereyra, & ratificar as pazes que tinha fey- tas com dõ Iorge de menefes, & fez paz cõ el rey de Geilolo. E por fe lhe el rey de Tidore mãdar queixar, que não podia pagar as pareas do crauo que lhe pofera dom Iorge de menefes, porque fe as pagaffe lhe não ficaua nada, pareceo bõ a Gonçalo pereyra de lhas leuãtar ate auer recado do gouernador da índia, a quem efcreueria fobrifio. Do que el rey foy muyto contente, & ficou grande feu amigo. E tendo Gonçalo pe¬ reyra affentada a terra em tanta paz, & aífeffego, & vendo que não auia coufa que eftoruaffe ho feruiço del Rey feu fenhor, que ele pofpofta toda cobiça, defejaua de fazer muy inteyramente: começou de fe poer em or¬ dem pera ho fazer, & deu húa carta do gouernador Nuno da cunha a
  • Livro VIII, Capitolo XXI11I 233 dõ Iorge de menefes, que lha não quifera dar ate não aflentar a terra. Em que ho gouernador dizia a dom Iorge, que ela era enformado que a principal caufa dos defconcertos que ouuera antre os capitães que eftauão naquela fortaleza, & os que hião de nouo pera eftarem nela, fora quere- réfe ir cÕ os capitães que fe hião, os Portuguefes que la eftauão, por terem feyto feu crauo. E algús que hião com ho capitão nouo fe podião empregar fuas fazendas fazião ho mefmo. E fem lhes lembrar a obriga¬ ção que tinhão do feruiço de Deos & del Rey fe hião, deixando de guerra ho capitão que ficaua, & fem géte. E pera euitar ifto lhe mandaua, que quando fe fofle da fortaleza não leualfe mais que ate feys homés fem licença de Gonçalo pereyra, & por cada hú que leuaffe de mais fem ela pagaria mil pardaos. E a fora efta carta, lhe moftrou Gonçalo pereyra hú aluará do mefmo gouernador, em que lhe mãdaua o que lhefcreuia na carta: & afli outro, em que mandaua a Gonçalo pereyra, que tomafle a menagem a dom Iorge ate fe ir aprefentar diante dele na Índia, & tirafte deuafla dele de todo ho tempo que fora capitão daquela fortaleza. E Gon¬ çalo pereyra lha tomou perante ho alcayde mór & feytor, & perante hú efcriuão, que fez de tudo hú auto. E GÕçalo pereyra pedio muyto per¬ dão a do Iorge do que fazia, dizendo que não podia al fazer, por lho mandar affi ho gouernador da índia: & porem que lhe prometia de ho defpachar muyto bé, goardando em tudo fua honrra. E que alem dos ho¬ més que lhe ho gouernador daua, lhe daria vinte homés que foflem coele: & daria licença a dom Vicente de menefes feu jrmão pera ir em fua cõ- panhia, & afli lhe daria hú jungo que fazia pera fua embarcação. E dom Iorge lho teue em merce, & lhe difte que ho não culpaua em fazer o que lhe mandaua ho gouernador, nem deixaria por iffo de fer feu amigo, & feruidor & q confiaua muyto nele, que faria o q dizia. E pediolhe q fofle efcriuão de fua deuafla Gauriel da cofta, que ali fora feitor: & ele lho prometeo. E dom Iorge fe foy pera fua poufada prefo fobre fua menagem fem nenhú efcandalo de Gõçalo pereyra: & afli ho dizia a feus amigos, que ho forão logo vifitar. E gonçalo pereira começou logo de tirar de¬ uafla dele. CAPITOLO .XXII11. De como Gonçalo pereyra quis fa\er crauo pera el Rey de Portugal. COm efta prifam de dom Iorge de menefes, & por fer feyta com tanto afleflego, ficarão os Portuguefes muy tornados, principal¬ mente os que forão officiaes na fortaleza: & temerão muyto a Gõ¬ çalo pereyra, vendo cõ quãta prudência fazia fuas coufas. E logo virão Tomo IV 3o
  • 234 Hiftoria da índia em íi o q receauão; q Gonçalo pereira mandou recencear a cota ao fey- tor, & almoxarife, & outros officiaes paliados pelo feytor Luys dandrade. E ifto porque os mandaua ficar na fortaleza por ter falta de gente. E não íe achou a eftes nenhúa coufa da fazenda del Rey em receita, & tudo era defpefa: pelo que tendo eles roubado el Rey, & deuendolhe quanto tinhao, achoufe que el Rey lhes deuia. Tão defordenado andaua tudo na¬ quela fortaleza, & tão pouco fe olhaua pela fazenda del Rey, nem auia a quem lembrafle os gaítos que fazia naquela fortaleza, pera lhe poupa¬ rem pareles fua fazenda, fe não quem mais podia apanhar mais leuaua. E defenganados eftes, que não auião aquele anno de ir pera a índia: determinou Gonçalo pereyra de fazer crauo pera el Rey, & mandou apre¬ goar híi regiméto que leuaua do gouernador Nuno da cunha, que era ho mefmo que fizera Afonfo mexia: & polo auer por bom, mandaua que fe goardaffe. E Gonçalo pereyra ho mandou apregoar com grande foléni- dade: & a fuftancia dele era, que fe compraffe pera el Rey quanto crauo ouueffe naquelas ilhas pelo preço que eftaua aflentado na feytoria, & fe meteffe nela, & que nenhúa pefloa de qualquer qualidade q foffe ho po- defle comprar. E efte crauo que fe compraffe pera el Rey ho compraria ho feytor Luis dãdrade, ou quem ordenaffe, com confelho & parecer de Gonçalo pereyra: & cõprado fe carregaffe ho mais que fer podeffe, afíi pera fe leuar á índia como a Malaca, & o que fobejaífe fe deffe ao capi¬ tão, feytor, & officiaes da fortaleza, & a géte darmas fobre feus ordena¬ dos, & foldos, por tal preço que el Rey podeffe ganhar, pera poder cõ ho ganho fofter ho gafto que fazia naquela fortaleza. E auendo hi tanto crauo que fobejaífe de tudo ifto, fe vendeffe aos mercadores com ho mefmo ganho. E porem que tudo ifto fe fizeffe com refgoardo de não auer efcan- dalo na terra. Apregoado efte regimento ficarão os mouros muy defcon- tentes por lhes tirarem de venderem ho crauo por mais do preço que eftaua aflentado na feytoria, porque ho vendião por mais. E os Portugue- fes também teuerão muyto defcontentamento, porque perdiao muyto em não compraré ho crauo aos mouros: & com tudo confolarãfe, parecendo- lhes cj aquilo não ouueffe effeito: porque affi fe apregoaua na chegada de cada capitão, mas não fe fazia nada polas emburulhadas que recrecião ao partir, antre o que ficaua & o que fe partia. O que eles efperauão que feria afli antre aqueles dous, & por mais conformes q eles efteuef- fem, que eles os reboluerião com feus mexericos de que erão muyto bõs officiaes: & por ifto fe defagaftarão logo, & não deixarão de fazer crauo ho mays encubertamente q podião. Mas també Gonçalo pereyra atalhou a ifto, com mandar apregoar fob certa pena que toda peffoa que teueffe dachem em fua cafa, que affi chamã ao pefo cõ que pefam ho crauo, ho
  • Livro VIII, Capitolo XXIIII 235 leuaífe ao feytor Luys dandrade pera ho quebrar & queimar, porq dali a diante não auia dauer mais q dous pefos, ãbos de húa marca, hú na feitoria, & outro é cafa da raynha, pera que todos os que vendeffem crauo ho foliem lá pefar, pera fe faber quanto crauo vinha á feytoria, & quãto rendia: & que ho feitor auia dir bufcar as cafas, & fe achafle algú Da- chem, quem quer que ho teueífe auia de pagar a pena. E efte pregão fe comprio muy inteyramente, & todos os daches forão leuados a Luis dan¬ drade que os queimou & quebrou: & mandou fazer dous nouos, hú pera a feytoria, & outro pera a raynha. E porq os Portuguefes tinhão com¬ prado muyto cr$uo, pelo que ja aqle anno fe podia auer pouco pera el Rey, mandou a todos os que ho tinhão que védeflem ho terço dele a el Rey pelo preço da feytoria, o que eles fizerão muyto cõtra fua vontade. E fabedo q fe eltaua carregando hú jungo dú mercador chamado Nacoda catimo pera ho leuar á ilha da Iaoa carregado de crauo, mandou ho tomar pera el Rey, por fer defpois do pregão da defefa do crauo, & pa- galo polo preço da feitoria: & acharão q tinha fetenta & tantos báres de crauo. E nelta carregação tinha parte a raynha de Ternate, & algús San- gajes que fe calarão, porq Gonçalo pereyra não foubelfe q eles quebra- uão ho regimento del Rey de Portugal, & tãbem porq ho crauo era tanto q os mouros rogauão coele. Nefte têpo foy GÕçalo pereyra auifado, q na ilha de Maquiem eftauão varados feys jungos de mouros pera fazere crauo, & na ilha de Bachão cinco fobre ancora pera o mefmo, que erão da Iaoa, Bãda, & Amboino. E dando conta diílo a Bras pereyra capitão mór do mar, mãdoulhe q os foífe deitar fora, porque não carregaífem. E bras pereyra não quis ir, dizendo que não hia a Maluco fe não pera fazer proueito: & não auia dandar darmada corrédo as ilhas, gaitando o q tinha: que fe a ida fora proueitola q logo a fizera. E por mais reque¬ rimentos que lhe Gõçalo pereyra fez pera ir, núca quis ate lhe dizer q lhe alargaua a capitania mór do mar, & q fe iria pera a índia na mou- ção feguinte pois ho apertaua tanto. E pediolhe logo licença pera fe ir, dizendo q fe lha não deffe q a tomaria. E Gonçalo pereyra diffimulou coele, porque não abrifTe caminho a outros: que vendo q aqle q era feu paréte ho deixaua em tal tempo, que farião eles q não lhe erão nada: & diffelhe que não fe foífe, q não ho queria mandar pois não era fua võtade de ir. E cõ tudo Bras pereyra ficou muyto efcandalizado, & quafi feu Imigo. E Gõçalo pereyra não ho pode caltigar por não fe amotinar, & amotinar outros que lhe farião grande mingoa, pola grãde neceflidade que tinha de géte. E porque Bras pereyra iíto fabia fazia aqueles feros. E vendo Gonçalo pereyra que ele não queria ir, cometeo a ida a Lionel de lima, que com quanto era capitão del Rey, & aquela ida era muyto
  • 236 Hijloria da Índia de feu feruiço, a não quis aceitar, ne aceitou ate que lhe Gonçalo pereyra prometeo a capitania do primeyro nauio ou jungo, que mandaffe á índia cõ crauo, em que podefle leuar o que teuefle, & lhe pagaria ho ordenado da galeota. E por derradeyro quando foy não achou nenhú júgo, porque foy tãto ho vagar que primeyro os ternates mãdarão auifo aos capitães dos jungos, & eles. fe forão com medo de lhos meterem no fundo. CAP1TOLO .XXV. Da defauença que ouue antre dom Iorge de menefes & Gonçalo pereyra. Como quer que ho diabo trabalha fempre por toruar ho feruiço de Deos: & onde vé mayor feruor, hi põe mayores fofças pera ho impedir. Afli fez aqui, que não trazendo Gõçalo pereyra ho pen- famento, fe não como feruiria noífo Senhor & a el Rey: & a maneyra q teria pera ter aqla terra em paz em quanto nela efteueífe, & fizelfe ter aos homés boa ordem em fua vida, pera que ficaffe exemplo a feus fucef- lores: ouue Portuguefes tão pouco Chriftãos, & tão beftiaes, que por ele fazer ifto lhe tinhã mortal odio, & alfi a Luis dandrade. Porq por ter ho mefmo defejo, que ele tinha de feruir el Rey ho ajudaua quanto podia por fua parte, & tomauão eftes xmigos por caufa de fuas abominaueis votades, dizere que Gõçalo pereyra queria vfar o que nenhú cupitão vfara de goardar tão inteiramete ho regimente acerca do crauo. E o que os mais atormentaua verê a grãde amizade que Gõçalo pereyra tinha com os mouros, & quanto trabalhaua pola fofter cõ boas obras. E que ifto nã era outro fim íe não por não ter neceflidade dos Portuguefes, & poder fazer o q quifefle. E verê a grãde conformidade q auia antrele & dõ Iorge de menefes, q o que hú queria, queria o outro: & vendo q indo aquilo affi era em feu perjuyzo, começarão de vfar de fuas diabólicas manhas, & ordir odio & Imizade antre Gõçalo pereyra & os mouros, & antrele & dõ Iorge, dizedo aos mouros q Gõçalo pereyra os queria ter fugeitos, & q não védeffem ho crauo, não mandando el Rey de Portugal tal coufa, ne menos ho gouernador da índia: & ele por fe moftrar bom feruidor qria fazer mais do q lhe mãdauão: que não fabia como a raynha & os mãdarís cõfentião aquilo. E a Gõçalo pereyra hião dizer q dõ Iorge dizia á janela de fua poufada aos q paffauão pola rua, que ele Gõçalo pereyra auia de préder a raynha, & algús feus privados. E ifto dizia por fe a raynha ir da cidade, & fazer aleuãtar os mãtimétos: & q fe lhe não qui- fera muyto grãde mal & defejara muyto de ho dãnar que ho não diftera, mas q lho queria & defejaua de ho ver em neceflidade: porq afli tãbé
  • Livro VIII; Capitolo XXV 237 dizia, q quãdo fe partiffe q auia de leuar da fortaleza quanta géte podeffe, porq não teueffe cõ que a defeder aos mouros. E q em Banda auia de tomar ho nauio a Hanibal cernije, porq era feu cunhado, & mãdar pedir feguro ao gouernador antes de chegar á índia: & quãdo lho não deffe q fe auia daleuãtar, & fegúdo dó Iorge era determinado q ho faria affi, por iffo q ho deuia de préder em ferros. E a dõ Iorge de menefes diziãlhe q não fe fiaffe da amizade que lhe moftraua Gonçalo pereyra, porque na deuaífa não lhe goardaua nenhúa, antes fe moftraua feu immigo mortal, porque prouocaua as teftemunhas a que dilfeffem mal dele. E quãdo ho não querião dizer, que dizia q não fabia, porq aqueles vilãos dauão fua alma ao diabo por amor de dõ Iorge, & fobriffo lhe dizia outras palauras injuriofas, & fazia efcreuer o que dizião ao contrayro. E dizião, que por fer parente de dom Garcia anrriquez lhe queria tamanho mal: que ho auia de deftruir, pois lhe não podia tirar cõ húa efpingarda. E pofto que pola primeyra Gonçalo pereyra, & dõ Iorge não crefle ifto, tantas vezes lho differão, & tantos modos bufcarão eftes mexeriqueiros pera lho me- tere na cabeça, & mais ho diabo que os ajudaua que ho crerão: & co¬ meçarão de criar odio hú ao outro, & como ele foy crecendo affi, não fe fiaua hú do outro. E veo a defconfiança a crecer tanto, principalmente em dõ Iorge: que mandou pedir a Gonçalo pereyra que lhe deffe húa certidão de como lhe entregara aqla fortaleza de paz cõ tãtas peças dar- telharia com as q tomara aos caftelhanos, & afli feys nauios & outras coufas, porque lhe era neceflaria pera el rey faber ho feruiço q lhe tinha feyto. Ao que Gonçalo pereyra relpondeo, q não lhe auia de dar tal cer¬ tidão, porque a terra não eftaua de paz cõ a fortaleza quando lha entre¬ gou, antes muy abalada pola morte de Cachil daroes, & do regedor de Tabona, & da injuria q fora feyta a Cachil vaidua, & a raynha fugida de Ternate, & os feus mandarins, & ho Sangaje Cachil humar rebelado por amor das pareas que lhe pofera, & el rey de Tidore queixofo por lhe fazer outro tãto. E por de todo em todo Gõçalo pereyra não querer dar efta certidão, tirou dõ Iorge hú eftorméto dele: pelo q de cada vez crecia mais ho odio antreles. E fobrifto fugirão da fortaleza feys Portu- guefes, de que hú era piloto: deftes feys fe forão dous pera os caftelha¬ nos, & os quatro caminho de Bãda em hú paráo da terra. E tãto q eftes homés defaparecerão, foy dito a Gonçalo pereyra, q dom Iorge & feu jrmão dõ Vicente os mandarão diante: & affi auia de mandar os mais que podeffe. O que fabido por Gonçalo pereyra, condenou eftes fugidos em perdimento das fazédas pera el rey q logo forão védidas em leylão, & ho dinheiro entregue na feitoria. E de dous deftes q logo forão toma¬ dos em húa ilha fe foube em juyzo q era verdade que fe hião por mã-
  • Hijloria da Ivdia s38 dado de dõ Iorge, & de feu jrmão dom Vicéte, & lhes derão vinte mil caixas pera o caminho, & fete patolas, & lanças, efpingardas, & outras armas: & lhes differão que cedo iria outra barcada apos eles. E com ho teftemunho deites homés, acabou Gonçalo pereyra de dar credito ao que lhe dizião de dom Iorge: & prédeo logo dom Vicente fobre fua menagé, & dous criados de dõ Iorge em ferros por amor dos dous homés dos quatro q fugirão. No q dõ Iorge não teue paciência, & foltou muytas pa- lauras cõtra Gonçalo pereyra, a que logo foy difcuberto: que ho jugo que do Iorge tinha começado pera fi, fe fazia cÕ a pregadura, breu & eftopa del Rey de Portugal, & á fua culta pagaua també os officiaes. E pera mayor certeza diílo, que foffem a cafa Dafonfo pirez hú amigo de dom Iorge, & hi acharião muyto ferro, & outras coufas que dõ Iorge de menefes tomara dos almazens, quando foube q Gonçalo pereyra vinha á vela pera tomar ho porto de Talãgame. E logo Gõçalo pereyra foy buf- car a cafa Dafonfo pirez, em que achou quinze quintaes de ferro que tomou pera el Rey, por lhe Afonfo pirez dizer que dom Iorge os man¬ dara ali meter: & adi tomou ho jugo pera el Rey. E receando q dom Iorge fe leuantaífe, tirou hú capitão doutro jungo que hi tinha dõ Iorge, q chegara q era feu, & deu a capitania a Lionel de lima Imigo de dom Iorge. E iíto porque ho jungo auia de tornar pera a índia, & Gõçalo pe¬ reyra lhe tinha prometida a capitania do primeyro nauio q foffe pera a índia. E fobriíto tirou dõ Iorge muytos eftormentos de Gonçalo pereyra, & ele deuaffou de dom Iorge fobre a morte de Cachil daroes, & do re¬ gedor de Tabona, & da injuria q foy feyta a Cachil vaidua, & fobre man¬ dar enforcar hú Português nas ilhas dos papuas, & afli fobre outras cul¬ pas q lhe punhão. E por derradeiro quãdo foy tépo de partir, que foy em Feuereyro de mil & quinhentos & trinta & dous, ho entregou prefo em ferros a Lionel de lima feu Imigo. E não lhe valeo requerer a Gon¬ çalo pereyra, que lho não entregaffe por fer feu Imigo, que ho delfe a Hanibal cernije que hia também pera Banda. E porq Gonçalo pereyra receaua que dom Iorge tomaffe em Banda o nauio a Hanibal cernije como dizião, não quis dar licença a nenhú feu amigo pera ir naquela armada, né a feu jrmão dõ Vicente. E deu a Lionel de lima as deuaflas que tirara de dom Iorge, & efcreueo húa carta muy larga ao gouernador Nuno da cunha, acerca das coufas de dom Iorge, dizendo que perguntaflé por elas a Lionel de lima, & ao vigairo que fora da fortaleza & ao meirinho. E alli lhefcreuia também como ficaua a fortaleza, & quão trabalhofa era por amor das defordés dos Portuguefes, & afli outras coufas neceífarias. E mandou pera el Rey cincoéta báres de crauo, que foy ho primeyro ca¬ pitão q ho mandou. E na conlerua de Lionel de lima hia Hanibal cernije
  • Livro VIII, Capitolo XXVI 23g ate Banda, pera trazer dahi fazenda pera a feytoria. E a raynha de Ter- nate efcreueo també a el Rey de Portugal, & ao gouernador da índia, fazendolhe queixume de dom Iorge, & mandou cõ as cartas ate a índia dous criados feus, a que encomédou muyto que vjjfem bé que poder tinha el Rey de Portugal na índia. E leuado dõ Iorge tato a recado como digo, foy ter á índia, donde o gouernador ho mandou prefo para Portugal, porq por fer da qualidade que era não quis julgar as culpas que lhe punhão, & afli ho efcreueo á raynha de Ternate. Cujos criados quãdo virão man¬ dar do Iorge pera Portugal, & q não fazião dele juftiça na índia dizião, q antre os Portuguefes não auia juftiça pois alargauão tanto ho caftigo das culpas: que pera bé fe auião de caftigar õde fe cometião, & que dali por diante não efperarião q lhes fizeffem juftiça. CAPITOLO .XXVI. De como fe perderão no mar dom Fernando de lima de Sanãarem & Lopo da\euedo. NEste inuerno que ho gouernador Nuno da cunha teue em Goa, não quis prouer a capitania da fortaleza que efteua vaga, & ele feruio de capitão por poupar o ordenado a el Rey, & deu a ouuidoria géral da índia ao licenciado Lopo fernandez de caftanheda meu pay ou- uidor de Goa, & por fua induftria crecerão as rendas de Goa vinte mil pardaos. E no cabo defte inuerno chegou a Goa Antonio botelho capitão do bargantim que ficou em Adem cõ cartas damizade del rey Dadé pera ho gouernador, em q lhefcreuia como Muftafa & Cojeçofar defpois de leuãtados de fobre Adem fe partirão com vinte feys velas pera a índia. E defpois defte na étrada Doutubro, chegou Eytor da íilueira com fua ar¬ mada, & deu conta ao gouernador do que fizera em Adem. E lhe contou como dõ Fernando de lima, nem Lopo dazeuedo não forão a Ormuz, nem fabião nouas deles, pelo que fe cria ferem perdidos: & afli foy que nunca mais parecerão.
  • 240 Hijioria da Índia CAPITOLO .XXVII. De diuerfas armadas que partirão pera a índia. NEste anno partirão de Portugal cinco naos pera a índia fem capi¬ tão mór, de q forão capitães Manuel de brito, Fernão camelo, Frãcifco de foufa tauares, q hia por capitão de Cananor, Pero lopez de fam Payo pera capitão de Goa, & Luis aluarez de payua. E defpois da partida deftas naos, partio pera a ilha de fam Lourenço Duarte dafonfeca por capitão mór de feu jrmão Diogo dafonfeca a bufcar a géte da nao de Manuel de lacerda, & ambos fe perderão. E os capitães das cinco naos da carrega leuarão muvto roim viage, & os tres primeyros chegarão a Goa no mes Doutubro em diuerfos dias. E defpois diífo fe partio ho gouernador pera Cochim, & fendo lá chegou em Nouébro a nao de Pero lopez de fam Payo, a que morrerão na viagé duzentos Por- tuguefes a fora efcrauos, & os mais morrerão doudos. E milagrofamente chegou defronte de Cananor por não auer que mareaífe as velas, & auia dias que as não guindauão, nem amaynauão, & acodiolhe Diogo da íil- ueira que andaua na cofta, & a leuou á toa a Cananor. E chegado ho gouernador a Cochim, defpachou pera Portugal as naos: & primevro que partiffem, mandou Niculao jufarte em hú nauio com nouas a el Rey do que palfaua na índia. E deixãdo em Cochim Antonio de faldanha pera leuar a armada que hi eftaua fe tornou a Goa. CAPITOLO .XXVIII. De como foy morto Hagamahumud por dó Manuel telo de menefes. COmo quer que ho gouernador determinaffe de ir efte anno fobre Dio, vfou de hú ardil a fim de coele alcançar fortaleza em Diu, fem morte de gente. E foy mãdar a Diu primeiro que ele foffe Coje percoli hú mouro Perfiano, em que tinha grande confiança por fer bõ homem, & auer muytos annos que era morador em Goa. E efte mouro auia deftar em Diu, pera q quando ho gouernador foífe cõ fua armada, confelhaffe a Melique tocã capitão de Diu, q deffe fortaleza ao gouerna¬ dor, porq lhe não tomaífe a cidade, fazendolhe ho poder que ho gouer¬ nador leuaua muyto mayor do que era. E que aqle confelho lhe daua como amigo, & quãdo Melique ho não tomaífe, que viífe bem o que de- terminaua, & fe faiffe da cidade pera lho dizer. E cõ lhe fazer grades
  • Livro VIII, Capitolo XXV 111 241 merces, fe partio Coje percolim como mercador, q hia Dormuz com mer¬ cadoria. E defpois da partida defte mouro, começou de fe ajõtar em Goa a armada que ho goucnador auia de leuar: & por fere os nauios muy- tos, & não caberem no rio de Goa, affi como chegauão affi fe partião pera Chaul, donde auiáo de partir todos jõtos pera Diu. E defpois de feré partidos, partiofe ho gouernador com a armada q tinha em Goa pera Chaul em dia dos Reys, do anno de mil & quinhentos & trinta & hú. E chegando a Chaul pera faber o que hia na cofta de Cambaya, mãdou ha defcobrir por dom Manuel de menefes telo, Luis falcão & outro fidalgo, q me não lembra feu nome, que forão em tres catures armados. E che¬ gando todos tres juntos perto da ilha das vacas, toparão de fupito cÕ Ha- gámahumud, aquele mouro de que contey no liuro quinto, que tanta guerra fez aos Portuguefes: que andaua por capitão de vinte fuftas em goarda daquela cofta, em que trazia muyta & muyto boa gente de guerra. E auendo ele vifta dos tres catures, & conhecendo que erão de Portu¬ guefes, foy contreles com fua armada. Dõ Manuel & os outrcs dous ca¬ pitães, que virão húa armada tamanha, parecédolhe que feria mais dou- dice que valétia pelejar coela, começarãfe de recolher feus palfos conta¬ dos, porque não cuydaífem os mouros que fugiã, que cõ tudo não deixarão de os feguir, apertando ho remo quanto podião, principalmente Hagama- humud, cuja fufta era mais remeyra que todas, & afti leuaua a dianteyra a todas: & hia alcançãdo ho catur do a que não foube o nome, por fer zorreyro, & não fe remar també como os de dom Manuel, & de Luis fal¬ cão, & quafi que ho hia abalrroando. O que vedo dõ Manuel, pofto que ho perigo de ho focorrer era muyto grãde não deixou de o fazer. P, fazendo volta atras a boga arrancada, remeteo á fufta de Hagamahumud, & em chegãdo bordo cõ bordo, q os Portuguefes quiferão faltar dentro na fufta, quis noffo Senhor poer tamanho medo nos mouros q vinhão nela, q fe acolherão todos ao outro bordo. E em fe recolhendo & fuftta çoço- brãdo, tudo foy hõ: que não teuerão os Portuguefes tempo pera faltar dentro. E o que ouuerão de fazer na fufta fizerão fora, que foy matarem nagoa os mais dos mouros, & antreles foy Hagamahumud. E porq a mayor parte de fua armada 1'e vinha chegãdo, cõtentoufe dom Manuel com faluar ho catur. E mandando ceifar da morte dos mouros, fezlhe dar hõ cabo pera ho ajudar a furdir, & foyfe coele & com Luis falcão pera Chaul, õde fe foube logo a morte de Hagamahumud. Do que ho gouer¬ nador foy muyto ledo, & deu por iffo muytos agardecimétos a dom Ma¬ nuel: & não tão fomente por a valétia que fez em fe auenturar com tama¬ nho perigo a faluar ho catur & falualo, mas em fer caufa da morte de Hagamahumud, ho mais valente & esforçado capitão que tinha el rev de Tomo IV 3i
  • 242 Hifioria da índia Cambaya, & que mais ardijs de guerra fabia: & q ho gouernador temia tanto, que não receaua de ter outro eítoruo pera não tomar Diu, fe não efte mouro, que fabia q auia deftar détro, & que Melique tocão fe regia por ele em tudo. E quando foube q era morto, deu ho feito de Diu por acabado como ele defejaua, & affi ho derão os capitães & fidalgos da ar¬ mada, dizendo: que nenhúa coufa poderá fuceder tão importante pera fe tomar Diu como a morte de Hagamahumud. E afli fora fe ho gouerna¬ dor não fe deteuera tanto como fe deteue em Chaul q forão dez dias mais do neceífario, & defpois na ilha do betele. E neíla detéça veyo a Diu ho focorro que direv a diante: & forã os mouros q eftauão nele auifados pelos de Chaul de tudo o q o gouernador determinaua, & do poder q leuaua. E os mefmos mouros fe efpantauão de indo ho gouernador a húa emprefa tamanha fazer tanta detença: & também fe efpantauão muyto, que fendo fão, quãdo caualgaua hia encoftado a hú moço defporas. E zombando daquilo dizião, que não era aquele ho homem que auia de tomar Diu. CAPITOLO .XXIX. De como ho gouernador Nuno da cunha partio de Chaul pera a cidade de Diu. ACabadas eftas detenças, partiofe ho gouernador com a mais pode- rofa armada do que ate aquele tempo fe ajuntára na índia, que era de quatorze galeões todos grandes, fortes & bem artilhados, & feys naos Portuguefas, & dezafete galés & galeotas, & húa galeaça, & duas carauelas, & céto & doze fuftas, bargãtins, catures, júgos: & ou¬ tros nauios de diuerfas feyçoes, que com os de guerra fazião perto de trezentas velas. E nos de guerra hião quatro centas peças dartelharia groífa, bafiliscos, efpalha fatos, camelos, efperas, liões, ferpes, faluagés, a fora a miuda, que era a grande foma. A géte que hia nefta armada erão tres mil Portuguefes, & tres mil Malabares, & dous mil Canarins frecheiros, & efpingardeyros. Os principais capitães forão Eytor da fil- ueira, Diogo da filueira, Antonio da filueira de menefes, Antonio de fal- danha, Manuel de brito, Ruy gomez da graã, Marti afonfo de melo jufarte, Marti de crafto, Ruy vaz pereyra, Vafco da cunha, Francifco da cunha, Manuel de foufa, Antonio de lemos, Fernão rodriguez barba, Anrriq de macedo, Lopo de mezquita, Fernão de morais, dom Fernando deça, Frã- cifco de vafcõcelos, Manuel de vafconcelos, Ambrofio do rego, Nuno bar- reto, Gonçalo gomez dazeuedo, Francifco de faa, Fernão de lima, Ioão da filueira, Anrrique de foufa, Manuel dalbuquerque, Triítão dataide,
  • Livro VIII, Capitolo XXIX ' 243 Luis falcão, Antonio de faa, Iurdão de freytas, Triftão gomez da graã, Nuno fernãdez freire, Ioam médez de macedo, Diogo botelho pereyra. E pera que a frota foffe em boa ordem & goardada, fez tres capitanias cada húa de vinte bargãtins & catures: & fez delas capitães a Manuel dalbu- qrque, Triftão dataide, & Luys falcão. E diãte da armada obra de húa legoa auia de ir Antonio correa de Goa, defcobrindo ho mar com certos catures. E indo nefta ordem bé de vagar, foy ter a Damão, donde auia datraueífar a enleada pera Diu: & porq defpois não podia tomar outro porto, tomou ho defte lugar, que com ho medo da noífa armada eftaua defpouoado, & afli a fortaleza q era forte cõ fuas portas forradas de me¬ tal. E aqui foy dita húa miffa cõ grande folénidade, em húa tenda q fe armou pera iflo, & prégou frey Antonio padrão comiflãiro na índia do meniftro da ordé da obferuancia de fam Francifca. E encomendou muyto da parte de noflo Senhor, q pelejaffem todos cõ muyto esforço pera toma¬ rem Diu, onde noffo Senhor era muyto offendido cõ as abominações da falfa feyta de Mafamede, & géralméte affolueo todos de feus pecados. E dita a mifla, mandou ho gouernador dar hú pregão Real, q dizia. Ouui, ouui, ouui ho mãdado do muyto alto, & muito poderofo Príncipe el Rey dÕ Ioão de Portugal noflo lenhor, que por galardoar ho esforço & valen¬ tia dos q fe atreuerem a fobir primevro nos muros de Diu, & leuantaré neles efta bandeyra por fua Alteza, em feu nome lhe faz o fenhor gouer¬ nador merce ao primevro de quinhentos cruzados, & ao fegundo de qua- trocétos, & ao terceyro de trezentos. E defpois difto, porque ho gouer¬ nador fabia por Antonio correa que oyto legoas de Diu eftaua húa pe¬ quena ilha quafi pegada com a terra firme, onde por fer muyto forte el rey de Cambaya mãdaua fazer húa fortaleza, pera o que tinha hi hú ca¬ pitão turco cõ dous mil homés de peleja Guzarates, & Abexins, & algús Turcos: & mil de trabalho que trabalhauão na fortaleza, de que eftaua feyta algúa parte dos muros, & dos cobelos, mas pouca coufa. Teue con- felho com os capitães principais da armada, fe daria nefta ilha primeyro q em Diu. E moueo a poer ifto em confelho, faber que a voz de todos era que fe deffe primeyro naquela ilha q em Diu: pofto q fua determina¬ ção era de não fe entremeter em nenhú feyto ate não tomar Diu. E alíi ho difle no cõlelho, em que ouue diuerfos pareceres: porq hús dizião que era bé cometer primeyro a ilha q deflem em Diu, porq fe pafiafiem fem a tomar, como os mouros erão mais de moftras q de obras, tomarião tamanha foberba cuidãdo q era de medo, que aquilo abaftaria pera lhes dar esforço com que fe defendeffem. E por iflo era necelíario não paliar fem tomar ilha, porque iflo feria caufa de os mouros defconfiaré de fe de¬ fenderem. Outros dizião que não era bé cometerfe a ilha, porq como ela
  • 244 Hiftoria da índia era muyto forte por fer a mayor parte cercada de rochedo, & menos gente da q eftaua nela a poderia defender. Podia fer q aconteceffe algú perigo no cometimento, & qualquer q fofTe daria muyta quebra a tama¬ nha armada como aqla era & tão poderofa. E os noffos vendo q tão pouca coufa como a ilha (a feu refpeyto) lhes daua que fazer, efperãdo que em Diu por fua grandeza, & fortaleza achafle mais refiftencia perderião ho esforço q leuauão pera o tomar. E os mouros pelo cõtrayro: o q fe de- uia muyto de recear, & por iífo não fe deuia de cometer a ilha. E como do outro parecer erão mais q defte, aífentoufe q fe tomaíTe a ilha pri- meyro que Diu, & aííi ho aflinarão todos em hú auto que foy feyto pelo fecretario Simão ferreyra. CAPITOLO .XXX. De como ho gouernador pelejou na ilha do betele com ho capitão del rey de Cambaja, & lha tomou. ASsentado q a ilha do betele fe deuia de tomar, partiofe ho gouer¬ nador, leuando a ordé que trouuera ateli. E atraueffando ho golfão da enfeada, chegou húa manhaã a efta ilha, que fe chamaua então do betele, & agora fe chama dos mortos, que como diffe eftá oyto legoas de Diu, quafi pegada cõ a terra firme terá húa legoa de roda pouco mais ou menos: da banda do norte te hú canal daltura de tres braças, & da bãda do fui hús ilheos com q fica eftreita a paffagem pera a terra firme. Da de lefte té ho rio q a aparta da terra firme, da doefte ho mar. E de todas he cercada de alto rochedo, & fica muyto alta fobre o mar. E pera fer húa das mais fortes coufas do mundo, não lhe faltaua mais que fer cercada de muro, que lhe el rey mandaua.fazer, pera fazer outro Diu, receando q lha tomaffem: porque de nenhúa parte fe podia també fazer guerra a Diu como dali, do que os gouernadores tinhão pouco cuydado. A efta ilha chegou ho gouernador hú dia pola manhaã: & vedo os mou¬ ros tamanha armada, temerãfe q os tomaffem. E querendo fazer concerto com ho gouernador, auido feguro dele, foylhe falar ho capitão da ilha: & pediolhe q os deixaffe ir com fuas molheres, filhos & fazédas, & que lhe deixaria a ilha. E ho gouernador não quis, fe não q ele fóméte fe foffe com fuas molheres, filhos & fazéda: & que os outros fe lhe auião detregar, & ho capitão não quis. E ifto q ho gouernador fez, foy contra ho parecer de todos. E aquele dia affentou ho gouernador, q ao outro dia deffe na ilha manhaã clara: & a primeyra entrada foffe Deitor da filueira, que cometeria da banda do ponente onde eftaua a porta da fortaleza, &
  • Livro VIU, Capitolo XXX 245 da banda do leuante Diogo da filueira, & da do fui Martim Afonfo de melo jufarte, & Francifco de faa, & os outros capitães irião repartidos coeles. Ifto aííentado, foy Martim afonfo de melo jufarte em anoytecédo por mãdado do gouernador ver ho defembarcadoyro da ilha. E achando que era bõ, tornou cõ recado ao gouernador, & defpois ao feu nauio. E confeífoufe, & encomédoufe a noflo Senhor, como fazião todos os da ar¬ mada. Os mouros como eítauão determinados de morreré antes que fe entregarem, fizerão cetecentos deles os cercilhos como clérigos, q affi ho cuftumauão quãdo determinão de morrer: & eítes fe chamão boluches, gente de fevto. E ho feu capitão queymou fuas molheres, filhos & fazenda: & affi ho fizerão todos os cafados, por não terem embarcação pera paf- faré a terra firme, & a géte pobre paffou a nado. E ho tefoureyro del rey de cambaya, fe paffou em húa pequena jangada de madeyra com ho di¬ nheiro que tinha. Affi não ficou na ilha mais que a gente de peleja, que acabando de queymar as molheres, & os filhos, q foy tres ou quatro ho¬ ras ante manhaã, derão fogo a eífa artelharia q tinhão por mandado do capitão, & coela, & com efpingardas começarão de tirar a algús nauios noífos que eítauão a fombra da ilha, & tão perto que ouuião os nolfos aos mouros chamarlhes perros, & que ali auião de morrer. E os noífos lhe começarão també de tirar, & era ho luar tão claro que os enxerga- uão muyto bé, & começoufe hú afpero jogo de bombardadas, & efpingar- dadas de húa parte & doutra. E vedo ho gouernador que fe gaftaua na¬ quilo a poluora dos noífos debalde, não quis eítar polo que fe determinára no confelho de dar na ilha manhaã clara, & mãdou dar logo, que foy muyto ante manhaã, pera o que mandou fazer final cõ as trõbetas & cha¬ ramelas : o que foy grande erro, pelo q fe diffo feguio. Ouuido efte final pela armada, embarcarãfe logo todos com grande preífa húa quinta feyra a dous dias de Feuereyro, dia da purificação de noffa Senhora. E come¬ terão cõ leus capitães a ilha pelas partes que lhes forão alfinadas, não ceifando os mouros de defparar fua artelharia & efpingardaria, mas não fazião nojo coela. Eytor da filueira por ter a primeira entrada, foy o que cometeo primeyro a porta da fortaleza, q os mouros tinhão entulhada de pedra & terra. O q os noífos não entenderão cõ ho açodaméto q tinhão de a quebrar, & també não o éxergarão cõ a fombra do muro, & traba- lhauão pela derribar cõ hú vay & vé. E tãto ãdarão neíte trabalho q ama- nheceo, & étão enxergarão como a porta eítaua, & diflerãno a Eytor da filueira que eítaua ao pé da efcada, q ficou muy agaítado por lhe teré feridos algús delpingardadas, & ter neceílidade defcada pera fobir ao muro, & mãdou logo por ela. E entretanto ficou ás efpingardadas com os mouros, q não recebião tãto nojo por eítarem cubertos cõ ho muro,
  • Hijtoria da Índia 246 como fazião aos noffos que eftauão defcubertos. E nifto derão húa efpin- gardada a Eytor da íilueira na coxa da perna dereyta que !ha vazou, paf- fandolhe as efcarcelas: & achoufe logo tão mal q ho leuarão ao batel. E chegando a efcada, fobio a fua gente ao muro: & ho cõtrameftre do feu galeão, a q não foube ho nome, não podendo fobir pela efcada por a gente fer muyta, fobio pola lãça q leuaua ate que lãçou a mão ezquerda ao muro, & fe pegou. E arrancando cõ a direyta a efpada, deu húa efto- cada a hú mouro q ho derribou: & os outros não oufarão de chegar a ele polas efpingardadas q os noffos tirauão muy baftas. E nefte tépo co¬ meçarão os mouros de defpejar daqle lugar, porque ouuião grande grita, & reuolta na ilha: & foy q nefta detença q os Deitor da íilueira fizerã em fobir, cometeo Diogo da íilueira pela parte que lhe foy affinada: & foy ho primeiro capitão q fubio, & fubirão coele dez homês do galeão, é que hia Martim de craíto capitão dele, Fernão de crafto, Gil de crafto, Luys coutinho, Francifco de foufa, Payo rodrigues daraujo, Antonio de fá, Lionel de foufa, Ioão aluarez dazeuedo: & Anrrique de foufa ho ga¬ lego. E a pos eftes fobirão logo Diogo de melo, Fernão de lima, Lionel de lima, Iorge de lima, dom Vafco de lima,Vafco pirez de fãopayo, dom Manuel de menefes, dom Francifco de crafto, & outros a que nã foube ho nome, q erã dez: & acharão Diogo da íilueyra cõ os outros q os tinhão os mouros em grande aperto por fere muytos, & eles poucos. E fe eftes não fobreuieram virãfe em grãde fadiga: & cõ fua vinda & de Martim afonfo de melo: que chegou cõ fua gete os íizerão afaftar: & carregando fobre eles os leuarão ate júto de hú cobelo, onde fe apinhoarão bem qua¬ tro centos, & aly íizerão rofto aos noffos, pelejando brauaméte cõ efpin¬ gardadas & frechadas: & algús que eftauão no Cobelo os ajudauam de cima cõ pedras & cantos q deytauão aos noffos. E acertou hú canto na cabeça a Diogo da íilueyra, q foy ho primeiro q chegou a elles q ho der¬ ribou: & afíi forão derribados outros que quiferão chegar coele. Pore Diogo da filueira & eles fe aleuantarão, & era a peleja tamanha q era efpãto. E cõ quanto a efte tempo fe tinhão ajuntados muytos dos outros capitaés cõ Diogo da íilueyra, não podião entrar os mouros, també fe de- fendião: principalméte defpois q foy ter coeles ho feu capitão cõ outros tres mouros de caualo. E decedofe fe ajuntou coelles esforçãdoos cõ gran¬ des alaridos. E também da noffa parte fe ajuntarão todos os capitães q eram ja entrados cõ fua géte, & de cada vez a peleja era mais afpera. E eítãdo em pefo remeteo Iorge de lima ao capitão dos mouros & ferioho de maneyra q ho matou: & cõ fua morte enfraquecerão os mouros, de que muytos erão mortos: & fe forão recolhendo pera húa mezquita, onde fe meterão muytos, & outros q não poderão por os noffos os apertaré,
  • Livro VUI, Capitolo XXXI 247 fugiram cõtra as barrocas da banda do mar, & parte dos nofios ficarão cõ Diogo da filueyra pelejando cõ os que fe acolherão à mezquita, parte forão feguindo os q fugião caminho das barrocas, por onde fe lançauam abayxo: & muytos deftes forão mórtos. E matãdo hú Português hú mouro, outro mouro que hia em fua companhia, vendo que nã podia efcapar, virou ao Português pera ho ferir, & ele lhe deu cõ a lança polos peytos & ho paliou da outra parte, & ho mouro fe deixou correr pola lança afli atrauelfado, ate fe ajuntar cõ ho Português & deulhe húa cutilada cõ hú terçado que lhe cortou húa coxa cercea, & cairão ambos cadahú pera feu sabo. E defte esforço, & força auia muitos antre os mouros, de q quã- tos fe acolherão á mezquita foram mórtos. E acabãdo de os matar che¬ gou ho gouernador, & achou os noffos á caça cõ os mouros que fugião pera as barrocas, por onde fe deytauão a correr: & muytos cayão com preífa, & faziãofe é pedaços por aqles penedos, & os outros lançauãofe delles ao már, delles fe metião debaixo de lapas. E os nofios q acudião todos a efta parte por fer a peleja acabada eftauão em atalaya: & em fe os do már ou os das lapas defcobrindo, tirauãolhe cõ as efpingardas, & afíi matauão muytos. E porque fe perdião muytos tiros, mandou ho go¬ uernador q não tiraflem mais, & foy correr a ilha, onde não achou nenhú mouro, q quafi todos forão mortos & catiuos. E poriiío chamarão dali por diãte a efta ilha a dos mortos. E dos nofios morrerão dõ Francifco dabranches, Ioão aluarez dazeuedo, & outros fidalgos & homes conheci¬ dos, q erão por todos dezafete. E forão feridos cento & vinte, de que defpoys morrerão algús. E pofto que a vitoria foy grande cuftou muyto caro, & deu mais perda que proueyto, porque não auia nhúa necefiidade de matar então aqueles mouros, & muyto grande de poupar os nofios pera tamanho feito como ho de Diu. CAPITOLO .XXXI. De como I10 gouernador chegou a Diu, & como foube que Rumecão eflaua dentro, com rumes & ar telhar ia. MOrtos & catiuos todos os mouros que auia na ilha & deftruida & queymada a fortaleza que le começaua, & recolhida fua artelha- ria, recolheo fe ho gouernador á frota com todos os noffos, em que fe logo começou denxergar algú defmayo pelo dãno que receberão na deftruyção da jlha: afií dos mortos que eram pelloas principaes, como dos feridos, de que muytos ho eram, & auiam de fazer grãde mingoa no feyto de Diu, afli como Eytor da filueyra que de cada vez fe achaua
  • Hijloria da índia 24S peor: & era hú dos esforçados capitães da armada & de bÕ confelho, & ele foy hum dos que ho deu que não fe tomaffe a jlhà antes de Diu. E recolhido ho gouernador deyxoufe ali eftar oyto dias efperando polo judeu, ou polo mouro que tinha em Diu por efpias, que leuaffem auifo de como eftaua, 0 que não pode fer, porq feys dias antes que chegaffe á ilha dos mortos, polas detenças que fez, chegou Muftafa, q defpois fe chamou Ru- mecão, que inuernando no eftreyto (como diffe a tras) fe partio pera a índia com determinação de jr morar a Cambaya, & viuer cõ elrey.que fe feruiria dele polas guerras q tinha. E coefte fundamento fe foy diante Coje çofar com ho dinheiro q tinha do Turco, q erão trezentos mil cru¬ zados: & foy defembarcar a Diu. E defpoys chegou Rumecão em hú ga¬ leão, & com a outra frota em que leuaua fuas molheres, & feyfcentos rumes, & tres bafalifcos de metal, cada hú de trinta & dous palmos, que erão muy fermofas peças: & affi outras miúdas, & mil & trezetos Arᬠbios. E cõ toda efta gente foy ter a Diu, onde foy muy bé recebido de Melique tocão, que eftaua muyto medrofo da grande armada que fabia que ho gouernador leuaua. E polo que ho judeu, & ho mouro lhe tinham dito eftaua determinado de dar fortaleza ao gouernador. E Rumecão q ho entendeo ho prouocou a q ho não fizeffe, poédolhe diante quam forte eftaua Diu, aííi de gente (porque auia nele treze mil homés de peleja) como dartelharia: porq os baluartes, affi da fortaleza como da vila dos Rumes eftauão muy bem baftecidos dela. E a cadea que atraueffaua ho porto que fazia muy grande impedimeto na entrada & dentro dela fetéta & tres fuftas, que era húa groffa armada: & eftaua tam forte que podia pelejar com todo ho mudo & defenderfe: quanto mais dos Portuguefes que não auião de fer tantos: pelo que lhe feria coufa vegonhofa & de grãde vitupério & defonrra fazer nenhú partido com ho gouernado quãto mays darlhe fortaleza, que pois lhe parecia que os noffos leuauão tama¬ nho poder q defpejaffe a cidade da fazenda & da gente q não era pera pelejar, & ficaffe a de peleja & a defendeffe coela. E fe os Portuguefes podeffem mais & os entraffem, q eftarião defpejados pera fe faluar. E fe os não entraffem que tornarião a recolher o q teueffem fora, & ficarião defcanfados. E ifto pareceo bé a Melique tocão, & affi fe fez. E mais mandou que fopena de morte não fe faiffe nenhú dos mercadores eftrã- geyros que nela eftauão, porq eftes pelo q lhe compria ajudarião a de¬ fender a cidade, & mais não darião nenhú auifo ao gouernador do que determinauao de fazer. E por ifto nem ho judeu nem ho mouro poderam fayr da cidade & dar auifo ao gouernador, que fe andara mais de preffa & chegara antes de Rumecão, fizera muyto feruiço a Deos & a el Rey, & ganhara grande honra em fe lhes dar fortaleza em Diu, que era a mais
  • Livro VIII, Capitolo XXXII 249 forte coufa que auia na índia, & de que mouros & Rumes fazião todo feu fundamento, pera dali deitarem os noffos fora dela. E vendo ho gouerna- dor q lhe tardaua ho recado q efperaua não quis mais efperar, & partiofe pera Diu, onde chegou hú domingo á tarde onze de Feuereiro, & furgio ao már quafi húa legoa da cidade: fabendo já a vinda de Rumecão por lingoa q tomou Antonio correa. E certo que fez efpanto na cidade húa armada tamanha & tam poderofa como a nolfa parecia. E fe Rumecão não efteuera dentro, Melique rogara com fortaleza ao gouernador, & q ho não deftruiffe. E ainda Rumecão teue que fazer em lho eíloruar: ate dizerlhe q fe failfe da cidade, & que ele a defenderia cõ a gente que trou- uera, & cõ os mercadores. E ele tinha mandado minar todas as ruas da cidade, & encher as minas de poluora pera lhes dar fogo, fe os noffos entrafTem. E mandoulhes tirar cõ os feus tiros, principalmente á capi- taina, q ate noite não fizerão outra coufa. E cairã tres pelouros tã perto dela q o gouernador mandou alargar as amarras pera ficar mais lõge que lhe não fizefem os pelouros nojo. E núca quis mandar tirar á cidade, efperando ainda por recado das fuas efpias, pera determinar o que auia de fazer. CAPITOLO .XXXII. De como ho gouernador deu bateria a Diu, & do que lhe aconteceo. AO outro dia em faindo ho foi apareceo muyta géte polos muros & baluartes da cidade, veftidos de cabayas de graã que fe vião muyto bé, & logo os bafelifcos dos rumes começarão de difparar & tira- uão pelouros de metal: & de ferro coado de pefo doyteta arratés, fegúdo fe vio por algús q cairã em nauios noffos, q nam fizerão nojo. E vendo ho gouernador ifto & que não vinha nenhúa das fuas efpias defefperou de viré, & determinãdo de dar bateria á cidade por már mandou a An¬ tonio correa que chegaffe até a cadea q çarraua ho porto pera defcobrir a artelharia q auia nos baluartes, & fe eftaua algúa armada no porto, & Antonio correa foy cofteãdo a ilha cofido cõ terra, polo não pefcar a ar¬ telharia, afti dos baluartes da cidade como do da vila dos rumes, que chouia fobre eles pelouros, & affi ho galeão dos rumes q eftaua de fora da cadea, & as fuftas q eftauão de dentro, ho q tudo muy bem vifto por ele fe tornou ao gouernador que eftaua no galeão fão Dinis cõ Eytor da filueyra, q fe finou aqle dia da efpingardada q lhe derão na ilha dos mor¬ tos. E fua morte fez grande efpanto na gente comú por ele fer dos prin- cipaes capitaés da armada & bem quifto, & fabendo ho gouernador por Antonio correa como a cidade eftaua forte pola banda do már, mãdoulhe t Tomo IV 32
  • Hiftoria da índia 25 o que fofle faber fua deípofição da banda da terra, & fabida lhe tornou a dizer que daqla parte não tinha artelharia & que eftaua fraca porq a mayor fortaleza q tinha era húa caua baixa q logo fe podia atupir, & q do defembarcadoyro à cidade feria perto de húa legoa, & q daquela parte lhe parecia q aueria pouco em a tomar, o que não podia fer por ho go- uernador nã hir aparelhado pera dar bateria por terra. E então vio ho erro q fizera e fe deter tãto no caminho, & em fazer tamanho gafto como fez em fazer aqla armada pera ir a Diu fem faber muito bem fua difpo- fição, & que gente lhe era neceííaria pera ho tomar. E nefte dia fenão fez mais, & ao outro pola menhaã fe ajuntarão no feu galeão os capitaes da armada aque difle ho auifo que efperaua da cidade, & a fortaleza que finha da bãda do mar & da terra, propondo per qual feria melhor darem- lhe bateria, & foy determinado que pofto que a bateria não fe podia dar bem por mâr por amor do arfar dos nauios, q pois ali eftauão que fe deffe do màr, porq da terra não podia fêr, por a diílancia que auia do defembarcadoiro á cidade fer grãde por fe leuar a artelharia por terra. E pofto q fe podéra leuar não auia tanta gente que podeffe ficar na frota pera pelejar cÕ a armada dos imigos fe lhe faife, & podeffe jr á bateria pera goardar a artelharia com q fe deffe: & os imigos erã tanta gente que fe podião repartir pera pelejar no már & defender a terra, & por iflo era ho mais feguro dar a bateria por már, & trabalhar por qbrar a ca- dea q çarraua ho porto, & entrar dentro & tomar a armada dos mouros ou ganhar ho baluarte do már ou ho da barra: porque cõ qualqr deftas coufas fe abalarião os mouros pera darem fortaleza. E logo ali fe affen- tou que dom Vafco de lima, Iorge de lima, & Triftão homé cada hum em feu batel de mantas que leuaua cada hum feu tiro chamado lião furgifem da lagea pera dentro: & deffem bateria ao baluarte do mar. E que os ajudalfem Iurdão de freytas hum fidalgo da ilha da madeyra, & Antonio de fá de Santarém, capitães de duas albetoças que leuaua cada húa hú efpalhafato: & ao baluarte de Diogo lopez bateria Manuel dalbuquerque com a fua galeaça que tiraua hú bafelifco por proa, & auiãno dajudar quatro capitães de quatro galeotas, que tirauão quatro tiros groíTos. E os capitães forão Nuno fernandez freire, Fernão de lima, Manuel de vafcon- celos, & Vafco da cunha: ho baluarte da terra auia de bater Francifco de fá capitão da galé baftarda com hum bafelifco que tiraua ferro coado de pefo de fetenta arrateés: & auiãono dacõpanhar quatro galés que tira¬ uão tiros groffos: & Antonio da íilueyra com ho refto das galés: & fuf- talha de que era capitão mór, auia de eftár de fobre falente pera acodir fe foífe neceffario, & entrar por qualquer portal que os da bateria fizeífem no baluarte do mar. E a outra armada dos galeoés & nauios groffos auia
  • Livro VIII, Capitolo XXXII 251 deftar afaftado obra de húa legoa de terra, porque lhe não chegaífe a ar- telharia dos mouros, Ifto affentado forão defemmafteados os nauios da bateria, & fortalecidos de fortes & largas arrobadas: & aquela tarde os começarão de rebocar algús catures com quem andauão ho gouernador & Antonio de faldanha: & nifto forão as bõbardadas da cidade tantas, principalmente dos baluartes que auião de fer batidos, que os que rebo- cauão Francifco de fa ho deyxarão longe donde auia deftar, porem Ma¬ nuel dalbuquerque foy leuado ao pofto donde auia de bater. E por Fran¬ cifco de fá ficar longe donde auia deftar não fe deu ao outro dia a bateria como eftaua affentado, mas ouue hum brauo jogo de bombardadas dãbas as partes. E na madrugada feguinte quis ho gouernador mandar rebocar Francifco de fa, & deufe niffo tam má ordem: & afli por a corrente dagoa fer muy tefa, que amanheceo primeiro que ho pofeffem no pofto, então forão as bombardadas tam baftas que os mouros tirauão que não as po¬ dendo os capitães dos catures fofrer deyxarão Francifco de fá mea legoa donde auia deftar, que foy grande defmancho: & ho gouernador dagaf- tado de ver quanto eftoruo auia pera Francifco de fá chegar onde avia deftar, mandou que todavia fe deffe bateria, que fe começou ás noue ho¬ ras do dia, & foy coula elpantofa as bombardadas que defparauã dhúa parte & doutra, & a grofiá fumaça que fe leuantaua dambas as partes que efcurecia ho ceo & a terra. E em a bateria começãdo ex que abalão os tres bateis de mantas atoados a tres catures, de que erão capitães, Gonçalo vaz coutinho fidalgo,-Frãcifco de barros & outro. E parecia coufa defcarnio ver tres bateys que paredão tres cafcas de nozes, irem cometer tres baluartes que eftauão das mais medonhas coufas do mundo, com os muytos pelouros que deytauão, com que parecia que ardião em fogo: & afli lhes tirauão as fuftas'fque eftauão de dentro da cadea, & ou¬ tras dantre ho baluarte da terra & a vila dos Rumes. E41 dozentos paífo* do baluarte do màr como os pelouros chouião matarão dez remeiros no catur de Gonçalo vaz coutinho, que rebocaua ho batel de dom Valco de lima: & ho arrombarão de modo que não pode paffar auante: & alar¬ gando ho cabo com que leuaua atoado ho batel ho deyxou. Mas logo aco- dio outro catur que ho rebocou: & vendo Iorge de lima como Gonçalo vaz alargara ho batel a dõ Vafco, temeofe q Fernão de barros lhe alar- gaffe ho feu, pelo q lhe bradou que ho não fizeffe fe não q o meteria no fundo. E como ele era esforçado não ho fez por mais q as bombardadas forão, cõ que lhe matarão dous Portugueles & fete remeiros: & foy ho poer a quarenta paffos do baluarte, q defte efpaço fe auia de dar a bate¬ ria. E ainda ali não alargou o cabo ate lhe Iorge de lima não bradar duas vezes que ho alargafle: & nefte efpaço forão poftos os outros ba-
  • 25 2 Hijloria da índia teis: & ficou ho de dom Vafco da banda do mefmo baluarte. E ho de Iorge de lima no meo. E todos tres começara de ho bater com feus tiros que deytauão pelouro de ferro de pefo de quarenta arratés: & tendoho aberto Iorge de lima com tres tiros que lhe tirou, arrebentou a bombarda no repairo ao derradeyro, & não pode mays tirar, que fe iffo não fora ele & os outros fizerão portal por onde fe poderá entrar. E com tudo Iorge de lima ho mandaua cõcertar: pera ver fe poderia fazer obra: & nifto lhe derão tres tiros ao lume dagoa com que lhe arrombarão ho ba¬ tel, & lhe matarão cinco Portuguefes: & pera não fe alagar mandou lan¬ çar ho tiro a húa bãda. E nefte inftãte eftando dom Vafco em pê no feu batel lhe leuou hum pelouro dos imigos a cabeça com parte dos hõbros, refpondendo ele ao feu condeftabre (que lhe dizia que fe abaixaife) que não auia medo a pelouros. E affi como aconteceo a eftes bateis afli acon- teceo aos outros nauios da bateria que lhes não valerão arrombadas nem fortaleza pera refiftirem às brauas çurriadas de pelouros que lhes dauão os imigos em roda viua: & a todos arrobarão, & meterão muytos den¬ tro, com que lhes matarão aílaz de gente, principalmente a Manuel dal- buquerque que eftaua mais perto do baluarte que tinha a cargo. E os mouros também receberão algum dano, porque polas ameas dhum pano do muro entrou hu pelouro noffo que acertou de dar em hum cayxão de poluora que eftaua junto de hum tiro: & acendeofe ho fogo na poluora. E queymou muytos dos imigos, & eu vi ho fumo: & afli outros tiros per¬ didos lhes fizerão também muyto dano & muyto mais lho ouuerã de fazer fe os noflos tiros groffos não arrebentarão todos fem ficar nenhum. E diffeffe que por lhe deitarem carrega dobrada da q leuauão: & q ho mã- dou afli ho gouernador, por lhe parecer que farião mayor paflada, & por iflo fe efquentarão muyto mays do que fe efquétárão com a carrega pró¬ pria. E arrebentarão fem lhes valer a muyta diligencia que os nolfos po- ferão em os resfriar com vinagre. E eftando afli a coufa que paliaria de dez oras, que tãto durou a bateria fem os tiros arrebentarem, foube ho gouernador como os tiros erão arrebentados, & que não fazião nada, & por iffo mandou afaftar effes nauios pequenos: & os grandes por ho não poderem fazer logo, ficarão ate a tarde.
  • Livro VIII, Capitolo XXXIII a53 \ CAPITOLO .XXXIII. De corno lio gouernador fe partio do porto de Diu. Eem fe os nauios afaftando derão os mouros grandes gritas, afli de prazer, como por fazerem efcarnio dos Portuguefes, & moítraranfe muytos polos muros & baluartes, difparando fua efpingarderia: & niíto & em tirar a artelharia defpenderão ate a tarde, que fe os nauios groífos acabarão dafaílar. Ho gouernador dagaítado & defcontéte não fe quis tornar ao feu galeão, & foife á taforea de Antonio faldanha, & hi teue confelho fe daria outra bateria, & foylhe cõfelhado que não, porque ainda que não teuera arrebctados os tiros groífos como os tinha não po¬ dia fazer nojo á cidade, pola muyta & muy groífa artelharia que tinha, cÕ que lhe faria de cada vez mays dãno. E q a cidade tam forte como aquela eftaua não fe podia dar bateria por már para lhe fazerem dano, fe não por terra detrás de mantas & repairos. E que fe deuia de tornar, & deixar aquele feito pera outro tempo em que fe podeífe milhor fazer. E eítãdo niíto fupitamete defpararão as fuítas dos immigos a fua artelha¬ ria, & afli os baluartes & muros, & iíto por feftejarem ho prazer que tinhão da vitoria. E ouuindo os Portuguefes aquele fupito, cuidarão que as fuítas fahião a pelejar coeles. E como os nauios da bateria ettauão de- faparelhados, & eles aíTombrados da refiítencia paífada, aluoroçarãofe muyto com medo: & foy muyto grande rebate por toda a nofla armada. E 1'e as fuítas layrão os nauios defaparelhados correrão rifco de ferem tomados, mas não fayrao porque não tinhã os imigos eífa oufadia: & cuydauão que tinhão feito aífaz em fe defender: & afli foy, porque fe os noflòs tiros não arrebentarão tam afinha eles fizerão portal por onde os Portuguefes entrarão: ou quebrarão a cadea, & aferrarão cõ as fuítas: & com qualquer deitas a cidade fe tomara. E porque os nauios da bate¬ ria eítauão defaparelhados, & era neceífario aparelharenfe foy forçado ao gouernador deterfe ali a leíta feyra feguinte, & fabado, & domingo: & tegúda feyra fe partio pera a ilha dos mortos. E os mouros q ho virão ir ficarão liures do grande medo que tinhão de os entrarem: & Muitafa muyto foberbo por fazer que não fe defle Diu ao gouernador. E afli ho fez certo a el Rey de Cambaya, pera quem fe logo foy, a que contou ho que paífaua, & lhe fez feruiço da artelharia que trouuera. E por tude iíto lhe fez el rey grandes honrras & merces, afli de renda como de nome de cão, que antreles he muyto eítimado. E dali a diãte fe chamou Ru- mecão: & era dos mais honrrados capitães del Rey de Cambaya, & mais
  • Hijloria da índia 2b4 feu priuado, & de que ele fazia mayor conta, do q Melique toca ficou muyto magoado: & fecretamente imigo de rumecão, & receofo que el rey lhe deífe a capitania de Diu. CAPITOLO .XXXIIII. Do que lio gouernador fe\ defpojs de fejr de Diu. CHegado ho gouernador á ilha dos mortos, teue ali cofelho com to¬ dos os capitães & fidalgos da armada, que por quanto os mouros de Diu auião de ficar muyto foberbos por ho gouernador os não poder tomar, & auião de cuydar que não podia nada, era necefiario pera q de todo não perdeffe ho credito ficar na cofta de Cambaya húa groffa armada que deftruiffe os mays dos lugares que podeífe, principalmente Baçaim em que el Rey de Cambaya começaua de fazer outro Diu. E co- meçaffe na cidade de Goga que he dentro na enfeada dezalete legoas da ilha dos mórtos: & coifto fe reftauraria em parte ho reués que os Portu- guefes receberão em Diu. E aflentado de fe fazer afli, conuidoufe Antonio de faldanha pera ficar por capitão mòr deita armada: & ho gouernador lho concedeo por fer peffoa de merecimento, & por ter feyto muyto fer- uiço na índia a el rey de Portugal: & deulhe a galé baftarda em que ficaffe & oyto galês outras com quarenta fuftas: & bargantins em que ficarão paffante de mil Portuguefes todos gente efcolhida, & com a outra armada fe foy ho gouernador a Chaul, cuja capitania por eítar vaga deu a Diogo da íilueyra feu cunhado. E de Chaul fe foy ho gouernador a Goa, dõde mandou ao eftreyto a dom Antonio da íilueyra por capitão mór de húa armada & deulhe a galeaça em que foy: & os outros capitães a fora ele forão Martim de crafto, Iorge de lima, Anrrique de macedo, Antonio de lemos, Ioão rodriguez paez, todos em galeões. E deulhe por regimento que fofle ver Adem a faber del rey fe tinha neceflidade de fua ajuda: & tendoa lha defle. E arrecadaílé as pareas que deuia. E ho gouernador ficou em Goa onde auia de ter ho inuerno. E porque pola ida de Afonfo mexia, que fe fora pera Portugal aquele anno ele ficaua por vedor da fazenda até el Rey prouer, ho que lhe era pejo por a grande ocupação que tinha na gouernãça da índia. Por fe defcarregar dos negocios da fazenda fez ouuidor dos feytos dela ao licenciado Lopo fernandez de caf- tanheda que ateli feruira douuidor geral da índia na vagante do licen¬ ciado Ioão do foyro: & auiao de fer dali por diante ho doutor Antonio de macedo, que vinha prouido por el Rey defte officio.
  • Livro VIII, Capitolo XXXV 255 CAPITOLO .XXXV. De como Antonio de faldanha dejiruio a cidade de Goga, & do mays que fc\ na cojia de Cambaya. ANtonio de faldanha que ficaua na cofta de Cambaya com a armada que diffe, partido ho gouernador pera Chaul, partiofe pera a cidade de Goga q he na enfeada como diffe, fituada na boca de hum fteyro rafa fem nenhúa fortaleza, pouoado de mouros mercadores, q ouuindo como a nofia armada hia defpejarão ho mais que poderão. E nefte tempo acertou deftar ali húa armada de Malabares de Calicut de vinte cinco paraos carregados de pimenta que leuauão a vender. E eftes fabendo a vinda de Antonio de faldanha, & não tendo outro remedio vararão os pa¬ raos polo efteyro acima obra de húa legoa da cidade: fe poferão em ren¬ que jútos hús dos outros, com feus tiros dartelharia nas proas: & os lemes atraueífados nelas pera mays fortaleza: & a gente detrás com mof- tra de fe defender, poftoq algúa fe foy pera á cidade a ajudar algús mou¬ ros que nela ficarão porque os mays erão acolhidos com medo dos Por- tuguefes que chegarão á cidade hum dia pola menhaã, & logo defembar- carão: & diante de todos Fernão rodriguez barba, que leuaua a primeyra entrada. E por derradeyro Antonio de faldanha. E como a gente que eftaua na cidade era pouca defendeofe pouco, q logo fugirão ficando algús mortos aífi guzarates como malabares: & entrada a cidade foy faqueada. E porque Antonio de faldanha fabia que a armada dos malabares eftaua pelo efteiro acima, determinou de a hir deftruyr. E partio pera lâ def- poys de comer, & foy por terra feytos tres efcoadroés de fua géte. A ca¬ pitania do dianteyro que feria de dozentos homés deu a Fernão rodriguez barba. E a do fegundo q feria de trezentos deu a Francifco de vafconce- los. E ho terceyro deyxou pera fi que feria de quinhentos homés. E indo nefta ordem chegou a húa grãde varzia, por onde na borda do efteyro eftaua varada a armada dos malabares, que como os Portuguefes forão deles a tiro de bombarda, lhes começarão de tirar com a artelharia que jugaua muyto a rniude: mas nem por iffo deixarão eles de paliar auãte. E rompendo por antre aquela multidão de pelouros inueftirão cõ os pa¬ raos, & os mouros como virão a cõcrufão, & que os Portuguefes querião pelejar coeles fem nenhú medo, ouuerãolho tamanho que fugirão: & dey- xarão os paraos, fem morrer nenhum Português, que acabando os immi- gos de fugir começarão logo dapanhar effa pimenta que eles tinhão. E temendo Antonio de faldanha q fe carregaffem muyto: & que tornalfem
  • 256 Hijioria da índia os imigos fobreles & não fe podeííem defender como muvtas vezes fe faz, mandou dar fogo aos paraos. E arderão todos com quanta pimenta tinhão, do que os foldados ficarão muito magoados, porque perderão ali muyto: & ficarão affaz de defcontétes de Antonio de faldanha, que defpoys que os paraòs arderão fe tornou a cidade, onde mandou queymar cinco naos que eftauão varadas, & fem a fua gente fazer ali nenhúa prefa fe tornou a embarcar. E dali fe paffou á outra banda da enfeada, & entrou em çur- rate & Reynel que achou defpejados. E hi tomou oyto paraòs Malabares que achou varados. E feyto iíto fe partio pera Chaul fem querer ir dar em Baçaim, como lhe ho gouernador mandara, & a caufa fov porque ho efcorreo de noyte, & por não tornar a tras, & mays porque foube que eítaua muyto forte. E chegando a Chaul deyxou quafi toda a armada a Diogo da filueyra, que aíli ho mandara ho gouernador, pera fazer guerra á cofta de Cambava, & tolher que não foffê dela mantimentos a Diu nem madeyra, porque defta maneyra lhe daria tanta guerra que com aperto fe deite. E deyxando a armada em Chaul fe foy na galé baitarda a Goa, & deu conta ao gouernador do que fizera. CAPITOLO .XXXVI. De como Iorge de lima focedeo na capitania a dom Antonio da filueira. DOm Antonio da filueyra que foy ao cabo de goardafum por capitão mór da armada chegado á parajem em que auia defperar as naos de prefa, repartio fua armada no modo que auia deitar: & anda¬ rão afli ate quafi a fim Dabril fem paliarem nenhúas naos de prefa, & por fe chegar ho inuerno partiofe pera Adem. E no caminho foube que el rey fe leuantara contra os Portuguefes, & matara quantos la deyxara Eytor da filveyra, & outros que delpoys forão com mercadorias, em que tomou bem oytéta mil pardaos. E affirmoufe q a caufa deita treyção del Rey Dadem foy cobiça de húa nao carregada de pimenta que hús Portu- guefes lá leuarão que ele mandou tomar, & defpois tomou ho mays que digo, & com tudo do Antonio chegou a Adé. E chegando fugirão do porto certas naos que hi eítauão, & a ele tirarãolhe ás bombardadas: & vendo dom Antonio que não podia fazer nada por quam pequena armada leuaua, partiofe pera Ormuz onde auia de inuernar & hi faleceo: & por feu fale¬ cimento foy emlegido por capitão mór daquela armada, Iorge de lima. E ele deu a capitania do feu nauio a dom Ioão lobo, & em Agoíto fe par¬ tio Iorge de lima pera a índia. E no caminho tomou dous nauios de mou-
  • Livro VIII, Capitolo XXXVII 257 ros: & no dinheyro que fe fez na carrega q leuauão vierão a el Rey cin- coenta mil pardaos pagas as partes. CAPITOLO .XXXVII. De como Gonçalo pereyra fe\ amizade com el Rey de Tidore. PArtido dom Iorge de menefes de Ternate, entendeo Gonçalo pe¬ reyra em acabar a fortaleza que ainda eftaua da maneyra q Anto- nio de brito a deyxara: que nenhú deftes capitães fe lébrou de aca¬ bar aqla obra. E como Gonçalo pereyra pera ifio tinha neceffidade de madeyra, & outras couías que auia na ilha de Tidore mãdou pedir tudo ao rey dela por fer amigo dos Portuguefes, & mandou a ilfo Luys dan- drade, por quem lhe mãdou hum prefente de fedas, & outras coufas de preço. E Luys dandrade hia com nome dembaixador, & aili leuaua ho aparato, com que defembarcou no Tidore. E fabendo el Rey quem de era: & os carregos que tinha lhe mandou fazer foléne recebimento: & os feus principaeis mandarins com muyta gente I10 forão efperar ao mar: & em defembarcando ho tomarão antre fi, & ho leuarão aos paços del Rey per debayxo de húa ramada de ramos verdes q duraua do mar ate os paços & ho chão cuberto de flores: & eruas cheyrofas, & entrados nos paços acharão el Rey e húa varanda terrea aparamentada de finos panos deras, de figuras, & de verdura: que lhe derão os Caftelhanos. E el rey feria de xvij. anos, & era aluo & gétil home: eftaua veftido muy ricamete, & tinha grãde mageftade & eftado, eftaua acopanhado de feus jrmãos, & de muytos mandarins. E como fe criara cõ os Caftelhanos fabia bem a fua lingoa: & Bizcainha, & Portuguefa: & prezauafe muyto de as falar. E quãdo Luys dãdrade chegou diante dele fezlhe muyta honrra: & faloulhe Português. E Luys dandrade lhe aprefentou ho pre¬ fente que lhe leuaua com que moftrou, que folgaua muyto, principalmente com húa efpingarda: & defpoys lhe preguntou miudamente por el Rey de Portugal: & polo Emperador, & por fuas cortes, & defpoys polo go- uernador da índia. E por Gonçalo pereyra, a que refpondeo que ma¬ deyra: & quanto lhe foffe neceflario de lua terra tudo lhe daria, & lho mandaria: & alíi ho fez. E ficando muyto amigo de Gonçalo pereyra, a que também mandou hum prefente, tornoufe Luys dandrade pera Ter¬ nate. E no caminho fe ouuera de perder com húa toruoada que lhe deu: & defpoys difto por Cachil humar Sangaje da cidade de Maquiem eftar leuantado por amor das pareas que lhe pofera dom Iorge, & não querer dar obedíencia a Gonçalo pereyra mandou contrele Vicente dafonfeca com
  • 258 Hijloria da índia húa armada, & Cachilato com outra, ho que fabido por Cachil humar fugio pera el Rey de Geylolo, & foy lhe tomada fua terra. E defpoys por rogo del Rey de Geylolo: & de Fernão dela torre lhe reftituyo Gonçalo pereyra feu eftado, do que el Rey de Geylolo & Fernão dela torre fica¬ rão feus amigos, & fe vifitarão dali por diante por feus mefejeyros. CAPITOLO .XXXVIII. De como a Raynha de Ternate determinou de matar Gonçalo pereyra. NEste tempo executaua Gonçalo pereyra a prematica do crauo quanto podia, apertando muito que fe goardafle do que os Portu- guefes andauão muy efcandalizados polo muyto que niflo perdião: & dizião antre fi que fe deuião de jr pera os mouros ou pera os Caíte- lhanos, & deyxar fòs Gonçalo pereyra: & Luys dandrade, pera ver fe de- fendião a fortaleza. E os que ifto fintião mays, & dauão caufa a fe os ou¬ tros aluoroçarem erão ho vigairo da fortaleza que auia nome Fernão lopez: & Afonfo pirez, Vicente dafonfeca, Baltefar velofo: & Manuel pinto, que como fabião a lingoa da terra, & tinhão amizade com a Ray¬ nha & com muytos mouros que também recebião perda nefta prematica do crauo, prouocauamnos a parecerlhes mal: & a efcandalizarenfe de Gonçalo pereyra, a que determinarão de tirar a capitania & fazerem ou¬ tro capitão que lhes alargalfe ho crauo, & cometerão pera iífo Bras pe¬ reyra que fabião que eítaua mal com Gonçalo pereyra: & por ho não querer aceytar adernarão de fazerem capitão Vicente dafonfeca, que na¬ quele tempo injuriou de palaura ao fobrerolda da fortaleza por dizer da parte de Gõçalo pereyra aos que eftauão em fua cafa que foífem vigiar a fortaleza porque não querião jr á vigia. E reprendendo Gonçalo pereyra dilto a Vicente dafonfeca, ele fe agaftou tanto que lhe difie algúas defcor- tefias. E como Gonçalo pereyra defejaua de o caftigar por faber que era traueífo: & reuoltofo prendeo ho na fortaleza em ferros co aquele acha¬ que : ho q fabido polos outros cõjurados pedirão logo a Gõçalo pereyra com grande inftancia que ho foltade & ele não quis, dizendo q ho auia de ter prefo pera na moução ho mandar á india com outros reuoltofos q auia na fortaleza: do que eles ficarão muyto cortados por lhes parecer que entrauão naquele conto: & não quiferão mays falarlhe na foltura de Vicente dafonfeca. & determinarão de ho matar antes da moução & antes que Hanibal cernige feu cunhado chegaffe de banda. E trabalharão de aquerir de fua parte a Raynha, & Cachilato: & os mays dos mandarins, & tantas coufas & males lhes differão de Gonçalo pereyra: & que não
  • Livro VIII, Capitolo XXXVIII 259 auia de dar e‘l rey. E tanto lhe meterão em cabeça que não defejaua fe não deftruilos, & que affi ho auia de fazer fe lhe não atalhaflem com a morte, que eles ho crerão: & menos abaftara pera ho crerem por ferem defconfiados: & imigos dos chriftãos. E a fora elle odio natural teuerão outro a Gonçalo pereira polo que dele ouuirão. E pera faberem fe era affi como eles dizião mandoulhe a Raynha pedir feu filho muy apertada¬ mente, dizendo que lhe lembraífe quantos dias auia que lhe jurara de lho dar & que ho nam copria, que fe efpantaua muyto de não comprir ho que que jurara em fua ley. E como ele defejaua dacabar hum baluarte da for¬ taleza em que andaua com grãde preífa, & a entrega del Rey ho auia deftoruar: & também não ho querer entregar até a fortaleza não fer de todo çarrada, porque os da terra ho ajudaífem como ajudauão, refpõdeo á Raynha que ele defejaua tanto de a feruir: & fazerlhe a vontade que fem juramento lhe entregara feu filho quanto mays jurandolho. E pola ocupação em que andaua de que não fe queria eftoruar não compria coela, pedindcJhe muyto que lhe deífe licença pera ido: & que ho ajudalfe com mays gente pera acabar afinha aqla obra: porque quanto mays afinha acabaffe, tãto mays afinha lhe daria feu filho & faria todo ho mays que lhe mandalfe porque pera iífo defejaua de ter defcanfo. Porem a Raynha não foy contente daquela refpofta: porque lhe pareceo efcufa pera lhe não dar feu filho: & te.ue por verdade, ho que lhe os Portuguefes dizião de Gonçalo pereyra, pelo que determinou de ho matar & tomar a fortaleza, & defpois matar todos os Portuguefes. E o que lhe deu atreuimêto pera ifto foy conhecer o odio que os principaeis & mays antigos Portuguefes tinhão ao capitão, & que folgarião de ho ver morto: & por efla caufa tinha pera fazer aquilo ho melhor tempo que podia fer. E mays por el Rey eftar na fortaleza: & coele feus hirmãos, & algús filhos dos manda¬ rins : & hia ho gouernador vifitalo muytas vezes. E quafi q núca de lá fayão mandarins mancebos que hião folgar coele, a quem polos terem muyto em coltume não bufcauão fe leuauão armas, pelo que as podião leuar fecretas: & quando não leuarlhashião os que leuauão de comer a el Rey, nas canas em que leuauão ho vinho: & a agoa. E nifto fe acabou de determinar, com confelho de feus mandarins com que ho logo pra¬ ticou.
  • 2Ô0 Hijioria da índia CAPITOLO .XXXIX. De como foy morto Gonçalo pereira. E os mouros que o matarão. ISto determinado a raynha por diffimular com Gonçalo pereyra fe mof- trou muyto fatisfeita com a fua repofta, & mandoulha muyto agarde- cer. E pera mais diflimulação mãdoulhe muyta géte que ho ajudafle a fazer a fortaleza, porque quanto acabalfe mais cedo mais afinha lhe da¬ ria feu filho: do que Gõçalo pereyra ficou muyto ledo, & andaua muy contente, fazendo continuamente trabalhar na fortaleza. E nefte tempo Cachil Catabrum, gouernador de Geilolo, que era metido na treyção que a Raynha de Ternate auia de fazer a Gonçalo pereira, vendo que tardaua de fe executar, receoufe que fe rompeffe, & que Gonçalo pereira lhe ficaffe por Imigo. E determinando de lho defcobrir, temia també que ho não foubelfe ainda: & defcobrindofe q Gõçalo pereira ho foubera por ele q a Raynha & os de feu cõfelho ficaria feus Imigos. E pera não perder nifto nada quis apalpar o que Gonçalo pereira fabia daquela treição. Man¬ dando a hum Mandarim em q confiaua muyto que lhe foífe dizer em fegredo como de fi mefmo, que olhafie como eftaua, porque os Manda¬ rins de Ternate fazião muytos confelhos, & fegundo lhe parecia erã cõ- tra fua vida, & contra aquela fortaleza. E ifto pera que affi como Gon¬ çalo pereira tomaífe aquilo, affi faberia fe lhe defcobriria a treyção, ou fe calaria. E Gonçalo pereyra como eftaua muyto crente na amizade da Raynha & dos do feu confelho, & pouco acautelado da maldade dos Por- tuguefes feus imigos: pareceolhe quando lhe ho Mãdarim diífe o que lhe Cachil catabrú mandou que lhe diffeffe, que era mexirico, & que proce¬ dia denueja de os Ternates ho ajudarem também a fazer a fortaleza. Ref- pondeolhe que ja era velho, & não tinha neceffidade de confelho. Ho Mandarim quando vio quão defcuydado Gonçalo pereyra eftaua da trey¬ ção, temeofe que ho defcobriffe aos Ternates, que ho matarião por iflo, & acolheofe pera Geilolo, onde contou a Cachil catabrum o que achara, do que ele ficou affeflegado da fofpeita que tinha. E a fora efte auifo em que Gonçalo pereyra não atentou, dilTeranlhe algús Portuguefes que os mouros que ajudauão na fortaleza andauão mays ledos que dantes, & que dauão muytos faltos, & fazião geitos como fazião quando andauão na guerra, E que os tomauão polas mãos, & pegauão neles dizendo carachel mandi,' que em fua lingoa quer dizer homé valente & esforçado: & que lhe parecia aquilo final de terem ordenada algúa treição. E nem por ifto atentou Gonçalo pereira. E fendo ja chegado ho dia em que os mouros
  • Livro VIII, Capitolo XXXIX 261 tinhão entre fi determinado de ho matar, que foy aos dez e fete de Mayo, vefpera de Penthicofte, ordenarão como auia de fer. E deitando fortes fobre quem feria o que mataffe Gonçalo pereira, cahio a forte fobre hum primo de Cachil daroes, que auia nome Cachil cabalou ainda mancebo, & fobre outros dez da fua idade que ho auião dajudar. E pera que os Portuguefes não fofpeitafTem dele nada, auião de jr com Cachilato que era feitura de Gonçalo pereira: & que lhe hia falar a qua.lquer hora, por ter coele eftreita amizade. E poferão logo aquele dia pola menhaã muyta gente em tres ciladas, húa ao derredor da pouoação dos Portuguefes em matos tam cerrados que a cercão, que nunca ali ningué vay, & poriffo não podião fer viftos. E a fegunda eftaua por elfas cafas da cidade, & a terceira na mizquita, que eftaua pegada com a fortaleza. E os mouros defta em vendo hú certo final que fizeffem na fortaleza os que mataífem Gonçalo pereira auião de fayr, & entrar nele pela bãda do mar, por onde ho muro ainda eftaua baixo: & auião de repicar o íino da vigia pera que acodiífem os Portuguefes que efteueífem fora: & em favndo auião de fayr os mouros das duas ciladas a darlhes nas coftas, & matalos a todos. E efte dia andarão os mouros tam contentes pelo que efperauão de fazer, que vindo ho meyo dia em que hião comer & tomar folga, dizião a Gon¬ çalo pereira que foffe comer & repoufar, & que eles trabalharião ate noite. E afli lhe differão algús Portuguefes que lhe parecião muyto mal aqueles offrecimentos dos mouros, mas nem aquilo ho pode efpertar. E mandou aos mouros q foffem comer & repoufar ate as tres horas que paftaua a calma, & então tornarião como coftumauão. E idos ele fe reco- lheo na fortaleza com os Portuguefes q comião coele, & defpois de co¬ merem fe forão repoufar a fuas poufadas, que eftauão fora da fortaleza. E ho capitão Gonçalo pereira ficou com feus criados, & algús outros que poufauão dentro, & cada hum fe recolheo á fua camara a dormir. E fabendo Cachilato ifto foife á fortaleza com Cachil cabalou, & os outros deputados, pera matarem Gonçalo pereira, & batendo á porta da forta¬ leza que eftaua fechada, como eftaua fempre a aqlas horas, abrio ho por¬ teiro conhecendo fer Cachilato, que por jr outras muytas vezes a efte tempo falar a Gonçalo pereira, ho deixou entrar: & ate ho page que lhe leuaua a efpada, fem bulcar fe leuaua armas, nem a nenhú dos outros, tam em coftume os tinha. E Cachilato hia tam feguro, que nem mudou cor, nem fez nenhú geito, em que fe entendefe ao q hia. E fobindo ate ho derradeiro fobrado da torre da menajem, onde poufaua el rey & feus hirmaos, achou Vicente dafonfeca, que como diffe auia dias que eftaua prefo, & andaua com hús grilhões: & porque Cachilato, & Cachil caba- ' lou erão feus amigos, & fabia a lingoa, affentaranfe fobre hú catle a falar
  • 2Õ2 Hijloria da índia coele, dando a entender que efperauão por Gonçalo pereira pera lhe fala¬ rem. E fe ele então fayra fem duuida que a fortaleza fora tomada, & forão mórtos todos os Portuguefes. Mas noffo fenhor os quis goardar, pera em aquelas partes fe conuerterem tãtas almas á fua fanéta fé, como fe def- pois conuerterão. E nefta conjunção hia pera a cidade hú Português cha¬ mado Manuel aluarez dalcunha ho faboeiro. E paffando por júto da miz- quita, vio a gente darmas que hi eftaua: & como lhe pareceo coufa noua, fez volta pera a fortaleza. E receando os mouros q foffem defcubertos por ele fairão algús ao matar, & matarãno, & andãdo coele ás cutiladas vioos húa efcraua branca de Gonçalo pereira, que acertou de chegar a húa janela da camara em que ele dormia a fefta, q eftaua daquela banda: & começou de bradar dizédo q matauão os mouros hú Português. Ao q Gonçalo pereira acordou, & acodio logo á janela bradãdo q acodiflem ao Português, & tomãdo húa adarga, & a efpada abrio a porta da camara pera fanr fora, & vio eftar á porta Cachilato & Cachil cabalou, & os ou¬ tros cõ feus crifes arrancados pera ho ferirem. E na cafa mais afaftados el rey: & feus hirmãos també cõ armas, & logo arrancou da efpada, & fe pos á porta a defenderlhe a entrada muy esforçadaméte, q ho não po- dião entrar: & mays não tendo cõ que ho picar de longe como ele fazia. E defpoys cõtaua el Rey q Vicéte dafonfeca que hi eftaua atiçaua muyto os mouros que mataffem Gonçalo pereira, & que não fe chamaffem ho- mes fe fendo tantos não mataflem hum lo, & os mouros vendo que ho não podião entrar pola porta, entrarão hús por cima do repartimento da camara que era baixo: & outros quebrauão ho repartimento q era de canas com barro por cima. E como erão tantos & Gonçalo pereira fó não pode acodir a tantos lugares, foy entrado & ferido na mão da efpada, & de duas mortaes feridas nos peytos com que cahio. E nifto a fua efcraua não fazia fe não bradar: & a eftes brados & á reuolta que os mouros fazião acodirão os criados de Gõçalo pereira com fuas armas, & hú deles que auia nome Dinis daraujo que hia diãte deu com húa chuça a Cachil cabalou que achou primeyro & paífou ho dà outra banda, & afli ferido ho ferio a ele, de maneyra que cairão ambos mórtos á porta da camara, & logo Baftião fernandez: & outros criados de Gonçalo pereira que vi-, nhão a pos Dinis daraujo fe meterão com os mouros as cutiladas: & ifto tudo foy tão breuemente feito que os mouros não teuerão tempo de faze¬ rem ho final que auião de fazer aos da mezquita: pelo que eles não fai¬ rão, que foy caufa dos mais que eftauão na fortaleza ferem mórtos, & a reuolta era muy grande dêtro, porque os mouros fe defendião como ho- més defefperados, & pofto que nã tinhão fe não crifes dauão que fazer aos Portuguefes. E então acodio Vicente dafonfeca a húa janela que ca-
  • Livro VIII, Capitolo XL 263 hia pera fora da fortaleza acenando com a mão, & bradando treição, & repicarão ho fino da vigia, a que logo acodio Luys dandrade que poufaua fora da fortaleza & coele forão dez homés, todos com as armas que po¬ derão tomar, & batendo à porta da fortaleza, que ainda eftaua fechada lha foy abrir hú Ieronimo Fernandez criado de Gonçalo pereira. E che¬ gado Luys dandrade onde era a peleja vio Cachilato cÕ húa efpada nua na mão, aíTentado no catle com Vicente dafonfeca, & os Portuguefes pe¬ lejando com os mouros: a que Luys dandrade remeteo com os que hião coele, & como eles virão tantos fobre fi defefperados de fe poderé defen¬ der hús derão configo polas janelas fora que cayão fobre ho patio da for¬ taleza, & fugirão polo muro que eftaua muyto baixo da banda do mâr. Outros q não poderão mais acolherãfe á camara onde el rey já eftaua com feus jrmãos, a q logo fe acolheo em os Portuguefes começando da- codir, porque não cuydaífem q fabia parte daquela treição. E os que digo q entrarão na camara em que el rey eftaua fecharão a porta fobre fi, que logo Luys dãdrade qbrou, & matou ho primeiro mouro que ftie fahio ao encontro. E cõ ajuda de Gomez ayres, & outros muytos q já erão che¬ gados entrou com os mouros & os acabou de matar, faluo a el rey & tres jrmãos feus, & Cachilato pera faber por eles como fora a morte de Gonçalo pereyra, & os tér por arrefeés, que por amor deles não fizeflem os mouros guerra á fortaleza: de que logo tomou as chaues & fe ouue por apoffado dela, por lhe dizerem que quando Gonçalo pereira efpirou preguntou por ele: & difle q lhe difleífem q olhafle por aquela fortaleza. CAPITOLO .XL. De como Vicente dafonfeca foy leuantado por capitão da fortaleza de Ternate. SEgura a fortaleza dos mouros, q andauão no derradeiro fobrado da torre da menajé, deceo Luys dandrade abaixo pera acodir á pouoa- ção dos Portuguefes, a que os mouros das ciladas punhão ho fogo, vendo que não poderão tomar a fortaleza. E no primeiro fobrado da torre achou Bras pereira, que hia acodir acima muyto de preífa, cuydãdo que hia a tempo. E luys dandrade lhe diffe que foffem acodir abaixo, que tudo encima ficaua feguro. E Bras pereira refpondeo q fofle ele, porque queria ficar na fortaleza como capitão que era. & Luys dandrade lãçou mão dele, dizédo que efteueífe prefo. Mas logo fe concertará que fe lou- uaífem & a qual deles julgaflem a capitania, que a elTe ficaífe, & decerão logo abaixo. E como ja os portuguefes eftauão á porta da fortaleza, man-
  • Hijloria da índia 264 dou Luys dandrade acodir á pouoação, onde os mouros tinhão feyta muyta perda. Porem forão todos deitados fora pelos Portuguefes, & algús ficarão mortos. E deitados os mouros fora vigiaranfe toda a noite. E como Fernão lopez ho vigairo da fortaleza, & Afofo pirez, Baltefar velofo, & Manuel pinto, & outros Imigos de Gõçalo pereira & de Luys dandrade, & amigos de Vicente dafonfeca foubeífem que ao outro dia fe auia de determinar a deferéça que auia antre Bras pereira & Luys dãdrade qual feria capitão: determinarão eftes que nenhú deles ho foífe, fe não Vicente dafonfeca, como tinhão ordenado auia dias, porque a eftoutros dous que- rião lhe grãde mal a hum por fer parente de Gonçalo pereira, a que ainda tinhã mortal odio pelos terços do crauo que tomou pera el Rfey, & polo regimento que mandaua goardar, & ao outro por fer feu amigo & quebrar os achens, & por fe doer muyto do feruiço del Rey. E tinhão por certo que qualquer deles auia de leuar ho eflilo de Gonçalo pereira. E mais auião de tirar devalfa de fua morte, o que lhes feria muyto per- judicial por eles darem motiuo aos mouros pera ho matarem, & princi¬ palmente Vicéte dafonfeca, de que el rey Cachil dayalo dezia, que fe ele não fora que atiçaua os mouros q matalfem Gonçalo pereira, que nunca ho matarão. E por ifto, & porq fabião q auião de ter Vicente Dafonfeca de fua mão, & não os outros, não querião que nenhú deles foífe capitão fe não ele. E toda a noite negociarã como ho foífe, principalméte ho vi¬ gairo Fernã lopez, que por facerdote & religiofo ho podia fazer mais fem vergonha. Porque como era padre fpiritual de todos, cuydauão que o q ele dizia era verdade & aquilo fe deuia fazer. E logo ao outro dia, q forão dezoito de Mayo, dia do Spirito fancto, de M. D. xxxj. fe ajútarão todos á porta da fortaleza da bãda de fora: & Bras pereira capitão mór do már, & Luys dãdrade feytor & alcaide mòr, eftando prefentes Ayres botelho & Grauiel da coíta efcriuães da feitoria, derão as cartas de feus officios a Pero de moura ouuidor da fortaleza, pera q determinaffe com os que ali eítauã de qual deles era a capitania. E defpois de debatido por ambos, acordoufe q eles juraífem lolénemente de cada hú deles eftar polo que fe achaífe por direyto & por regimêto del Rey de Portugal, & o que ficaífe fem a capitania obedeceífe ao outro, tam inteyramente como fe fora prouido por el Rey, ou polo feu gouernador da índia. E efte jura- méto lhes foy dado fobre húa pedra dara á porta da igreja polo vigairo do que foy feito hú auto por Ayres botelho efcriuão da feitoria, que por fer amigo de Vicente dafonfeca, & laber a maçada que os de fua parte tinhã feyta, pera que teuelfe credito, acrecentou mais nas palauras do juramento que efcreueo, que cadahú deles obedeceria por capitão a ou¬ tra qualqr peífoa que folfe enlegida por capitão: o que Bras pereira alfi-
  • Livro VIII, Capitolo XL 265 nou fem o lér. Mas Luys dandrade não quis affinar fem ho lér primeiro. E quando vio o que Ayres botelho acrecentou não quis aífinar, porque cÕ ningué tinha duuida, fenão com Bras pereira: & com os outros claro eftaua que a ningué pertencia a capitania fenão a ele q era alcaide mór da fortaleza. E pedindo a pena efcreueo por fua mão, que não confintia em fer outro nenhú elegido por capitão, fenão ele ou Bras pereira que contendia coele: & ifto aflinou. Feyto efte auto meteofe o ouuidor na for¬ taleza com os outros todos, & fechando as portas fobre fi, pera lá deter¬ minarem fe era a capitania de Luys dãdrade, ou de Bras pereira q ficarã de fora. E metidos dentro começa ho vigairo déburulhar tudo, dizendo a todos q vilTem bem o que fazião,. & não deffem fuas vozes a Luys dan¬ drade pera fer capitão, porque era de condição muyto forte, & ímigo dos homés, & que não queria ho proueito de ningué fe não ho feu. E q Vi- céte dafonfeca era muito bõ homé, & amigo de todos, & q todos ho conhecião de muito tempo: & que lhes deixaria fazer feu proueito & os teria em paz. E fez de maneira que auendofe de votar ou por Luys dan¬ drade, ou Bras pereira, meterão em lugar de Bras pereira Vicente dafon¬ feca. E hús votarão por ele, & outros por Luys dandrade: fem aprouei- tar ao ouuidor dizer que não auia aquilo de fer afti feito. E vendo ho vigairo q por Vicente dafonfeca não votauão fe não os de fua parciali¬ dade, temeofe que acabando todos de votar Luys dandrade teuefle mays votos q Vicente dafonfeca, não quis efperar ate o cabo: & coeífes q tinha, abrirão a porta da fortaleza cõ grande arroydo de trobetas: & de vozes com que dizião viua viua ho capitão Vicente dafonfeca: & os que ainda não tinhão votado, fairão de volta coeles, dando também as mefmas vo¬ zes, fem aproueytar ao ouuidor dizer q aquilo não valia nada: & ho mefmo dizia a Luys dandrade, & bradaua que lhe não roubaífem fua juf- tiça: E que não podião enleger por capitão fe não a ele que era alcaide mór, & el Rey lhe daua a capitania per mórte do capitão, em quanto não proueífe doutro. E fabendo ifto Gonçalo pereyra lhe entregára a for¬ taleza quando morrera: & que ele logo não confentia q enlegeífem por capitão fe não a ele ou a Bras pereira, & auia por nenliúa a eleição q era feita, pedindo ao ouuidor q de tudo lhe deííe hum eftormento pera ho gouernador da índia, requerendolhe que prendeffe Vicente dafonfeca q não podia fer capitão porque matara Gonçalo pereyra: mas tudo ifto não aproueytaua, porque Vicente dafonfeca tinha tãtos por fi q ho ouuidor não fe atreuia coele. E afli ficou Luys dandrade fem remedio, & Bras pereyra tãbem que de ver tão mal encaminhado ho feyto de Luys dan¬ drade não falaua no feu. E Vicente dafonfeca fe foy a comer leuando configo toda a gente a q deu de comer, & ainda quãdo jantauão, defpoys Tomo IV 3*
  • 206 Hijloria da índia de bem quentes do vinho muytos derão feus votos a Vicête dafonfeca pera fer capitão. E com tudo ainda Luys dandrade tinha quafi tantos vo¬ tos como ele. E acabando ele de comer pedio a Luys dandrade as cha- ues da fortaleza pera ficar de todo capitão, & não lhas qrendo dar nê obedecelo por capitão, mãdou Vicente dafonfeca ao ouuidor q lhe tomafTe as chaues, & ele refpondeo que ho não auia de fazer porq Luys dandrade era capitão por dereyto, & ele ho amoftraria por regimento delRey, re- qrendo que lhe defTe hum eftormento do q dizia pera q el Rey de Por¬ tugal foubelfe que não tinha culpa no que aly fe paflaua, & que não po¬ dia fazer mays do que fazia. E Vicente dafonfeca fazendo q não atentaua no que ho ouuidor dizia, mãdou a Gauriel da cofta que tomaffe as cha¬ ues a Luys dandrade, q tão pouco ho quis fazer, nem menos bolião con- figo nhú da parcialidade de Vicente dafonfeca, porque muytos fe come- çauão darrepender do que tinhão feyto. O q entendendo Fernao lopez ho vigairo, porq não fe traftornaife ho que tinha feyto, remeteo a tomar as chaues a Luys dãdrade. E logo acodirão ao ajudar Ayres botelho efcriuã da feytoria & hú Pero Iorge, & por força lhe tomarão as chaues bra¬ dando ele, que lhe roubauão fua juftiça, mas como ela ali não era fe não de que mais podia ficou fem ela, porq podia pouco, que ate ho ouuidor nã oufaua de bolir coníigo cõ medo de ho matarem tão danados via an¬ dar os da liga de Vicente dafonfeca: q como defejaua a morte de Gõçalo pereira: & a precurou, & foy caufa dela núca fez fobrela nhúa diligen¬ cia. E difiimulou coela como homê q folgaua. E bê pareceo fer afii, porq tendo prefo Cachilato que fora ho principal meniílro daqla morte, ho q ele vio por feus olhos, nunca lhe deu nhú caftigo: né pera moftrar que qria caftigar tão brauo crime como aqle ho quis meter a tormêto pera lhe fazer cõfeffar como aquela morte fora ordenada. CAPITOLO .XLI. Do qfe\ Vicête dafonfeca defpois de fer capitão. SAbido pola Raynha q fua treyção não ouuera efeyto, ainda q lhe dilfo pefou muyto, cõfoloufe fabédo q Vicête dafonfeca ficaua por capitão, porq efte lhe daria logo el Rey feu filho, como lhe tinha prometido Afonfo pirez. E pera eílar niffo mais fegura mãdou logo re¬ cado ás ilhas de Moutel & Maquie, q lhe prédefTé os Portuguefes $ efteueífem. E quando chegou feu recado fe fabia ja a morte de Gonçalo pereyra: pelo q os mouros fe leuantarão contra os Portuguefes q lá an- dauão fazêdo crauo, & matarão logo Pero fernãdez, aquele q vntou cÕ
  • Livro VIII, Capitolo XLI 267 toucinho ho rofto a Cachil vaidua, & outros algús: & defpoys de chegar ho recado da Raynha não matarão mays, & prenderão os outros, & pre¬ los lhos leuarão: & defpoys de os ter, mandou dizer hú deles a Vicéte dafonfeca que folgaua muyto de ele fer capitã daqla fortaleza, por faber q era feu amigo & dos mouros, & ela & eles ho conheceré de muyto tempo: que lhe lébralíe o q lhe Afonfo pirez prometera é feu nome, que fe ele foífe capitão q logo lhe entregaria el Rey feu filho: pedindolhe muyto que poys ho era q lho entregaífe: & que ele lhe feria por iífo em muita obrigação & lhe faria todas as amizades q podefle. Vicéte dafõfeca fe cõfelhou cõ Afofo pirez fobre ho que refponderia a efte recado: & como ele perdera fetéta báres de crauo q lhe arderão, & mais hú dos Portugueles q eftauão em poder da Raynha era feu filho, cõfelhoulhe q refpondeífe á raynha que lhe deffe ela primeyro os Portuguefes que lá tinha, & que pagaífe aos outros a perda q receberão dos mouros quando foy a morte de Gonçalo pereyra, & q ele lhe daria el Rey. E como a Raynha tinha por muyto certo darlhe Vicéte dafonfeca feu filho tanto que foífe capitão, & naqla reporta ho achaffe tão defuiado diflb, pareceolhe q fe queria efcufar de lho não dar. E pera o mouer a q lho deffe foltou a Francifco pirez filho de Afonfo pirez, & mandoulhe q fe foífe pera a for¬ taleza, & rogoulhe q difeífe a Vicéte dafonfeca, que doutra maneyra efperaua ela q ele compriífe fua palaura. E q mais conta fizera de lua amizade do q achaua que diuera de fazer, & q mais cofiara nele do q ele confiaua dela: porq ainda que lhe dera feu filho fem nhúa condiçã, que ela fizera defpoys quanto ele mandara, & que bem ho fabia ele: por iífo q erão efcufadas cõdições pera lhe dar feu filho, quãto mais q ainda q lho dera liuremente, lá lhe ficauão em arreies tres hirmãos feus, & Ca- chilato gouernador do Re^no, & peffoa muy principal nele, que valião mays que quantas perdas os Portuguefes podião ter recebido: & porem q lhe parecia q todo o que dizia era por efcufar de lhe dar feu filho, que fe lho nã quifelfe dar, que não lhe mandalfe mays nhú recado. E porque fabia que el Rey de Bachão eftaua na fortaleza mandoulhe pedir q rogaífe a Vicéte dafõfeca que lhe deíTe feu filho. E efte rey de Bachão como era muyto leal amigo del Rey de Portugal, na ora que foube a morte de Gon¬ çalo pereyra, acodio cÕ fua gente á fortaleza pera valer aos Portuguefes fe teueífem diífo neceflidade, que ficarão muyto ledos coele. E Vicéte da¬ fonfeca por mays azedume que ho recado da Raynha trazia no cabo não lhe quis mandar feu filho, porq não falaua em cõprir as cõdições com que lho ele queria dar, né lhe quis mandar recado, porq a Raynha dizia q lho não mandaífe fem feu filho. E vendo a raynha q lho não mandaua, por fazer mal a Vicente dafonfeca & aos Portuguefes foyfe da cidade cõ
  • 268 Hijloria da índia os Mandans: & mandou q não fe vendefíem nhús mãtimentos: & man- doufe queyxar de Vicéte dafonfeca a el rey de Tidore leu fobrinho, de lhe não querer dar feu filho como lhe tinha prometido, & como fabia q lho prometera Gonçalo pereyra: rogandolhe que lhe empecefle em tudo ho q podeffe. E niíto chegou a Ternate ho nauio é que fora Hanibal cer- aije a Banda: & hia por capitão dele hú Dinis de payua, por Hanibal cernije não querer tornar a Maluco & fe yr pera Malaca. E como Vicéte dafõfeca eftaua necelíitado de géte, munições de guerra, & de mantimé- tos, determinou de mãdar logo efte nauio pola via de Borneo a pedir ao capitão de Malaca eftas coufas & deu a capitania dele a hú Manuel das naues criado del rey do Ioão de Portugal por ter hú aluara feu para lhe daré a capitania de hú nauio: & defpoys de lha ter dada a deu a Bras pereyra que lha pedio por fer capitão mór do mar, & també lha tirou, & a deu a Luys dãdrade, q agaftado da fem juftiça q lhe fora feyta fe qria jr pera a índia, & por iflo pedio aqla yda, & Vicéte da fonfeca lha deu cõ cofelho de feus amigos, por recearé que tanto q os outros nauios q efperauão de Banda chegalfem, aueria amotinação na géte & farião ca¬ pitão Luys dandrade, fegúdo tinhão entendido. E partido Luys dandrade hia tam trifte pelo q lhe fez Vicente dafonfeca, q hú dia efteue pera fe deytar no mar fe ho não teuerão, & defpoys ho ouuerão de matar é húa ilha, & també em Borneo fobre húas deferenças q teue cõ a géte do na¬ uio, & dali foy ter a Malaca, & deu cõta a Garcia de fa do q era feyto: peloq ele não quis mandar focorro a Vicéte dafonfeca q ouue por tredoro. E dali fe foy Luys dandrade á índia, & contou a Nuno da cunha a morte de Gõçalo pereyra, & ho q lhe fizera Vicente dafonfeca, aquexãdofe dele, mas não fe fez fobrifio nada, né Vicente dafonfeca foy caftigado. GAPITOLO .XLII. De como Vicéte dafonfeca foltou el rey de Ternate. COm a yda da raynha da cidade, & não fe venderé os mantimétos, ficarão os Portuguefes é grande neceflidade, do q Vicéte dafõfeca ficou muyto agaftado & fem efperança de remedio, porq algú que efperaua, era hú jungo q fabia q auia de vir de Banda cõ roupa & man¬ timétos, em que vinha por capitão hú Frãcifco de fá: que fabendo como Gõçalo pereyra era morto & da maneira q fora, pareceolhe que Vicente dafonfeca eftaua leuantado, & não quis jr á fortaleza temendo que lhe tomaífe ho júgo & quanto leuaua, & por iflo fe foy a Tidore pera véder a fazéda q leuaua, & fazer feu emprego. E furto no porto de Tidore, el
  • Livro VIII, Capitolo XLII 26 g Rey por rogo da Raynha de Ternate ho prédeo, & aquãtos Portuguefes yão coele, & lhe tomou quanta fazenda leuaua: & mandado defenxarcear ho júgo ho mãdou meter no fundo, & ifto cÕ fúdaméto q por efta prefa, & polos Portuguefes q a Raynha de Ternate tinha, lhe daria Vicéte da- fonfeca el Rey feu filho, & alfi lho mandou dizer a raynha. E parecédo- Ihe a ele q aquilo era fero, fezlhe outro mayor & mandou logo perante ho meflageiro prender el rey de Ternate & metelo é hú fotão, & afli feus jrmãos, & prendeo em ferros os filhos dos Mandarins q eftauão coeles & as molheres q ho feruião, dizendolhe que difiefie a Raynha que fe el rey de Tidore lhe não mandafle logo ho jugo, que feu filho & os outros ho pagaria. E ho jungo não foy reftituydo, não foube porque caufa: & a Raynha mãdou pedir a el Rey de Geylolo, q não deífe mantimentos a Vicente dafonfeca ate lhe não dar feu filho poys lho tinha prometido, & que trabalhaffe polo cõcertar coele, que ele faria o q lhe bem parecefle, porque não queria guerra com os Portuguefes, fe não auer feu filho & cafalo pera ter herdeyro, o que não podia fer eftando prefo. E eítando efte embayxador da Raynha em Geylolo, chegou Bras pereyra em húa galeota, q apertado Vicéte dafonfeca da neceflidade dos mãtimétos mã- daua por ele pedir a el Rey q lhos mãdalfe véder offrecédolhe por iflo amizade & ajuda cõtra feus immigos, & efcreuia a Fernão dela torre a neceflidade é que eftaua: pedindolhe polo amor de Deos q ho ajudafle cÕ el Rey, pera que lhe mandafle vender os mantimentos. E ouuidas por el rey ãbas as embayxadas cÕ confelho de Cachil catabruno, & de Fer¬ não dela torre & doutros Caftelhanos, refpondeo á Raynha q faria cÕ Vi¬ céte dafonfeca q lhe defle feu filho, cõ tanto q fizefle ho q lhe pedia, & mandou mantimentos a Vicéte dafonfeca, & pedindolhe muyto q defle el Rey de Ternate a fua mãy, & que ela fe obrigaua a pagarlhe todas as perdas q os Portuguefes receberão quando matarão Gonçalo pereyra, & lhe daria os Portuguefes que tinha catiuos & ho jungo q eftaua em Ti¬ dore, do q el Rey de Geylolo & Fernão dela torre ficauão por fiadores, & querendo fazer aquilo por amor deles, lhe ferião fempre em grande obrigação. E vifto por Vicéte dafonfeca a neceflidade grandiflima q tinha de mantimentos, & que os não podia auer foy cõtente com confelho dos Portuguefes de fazer o que lhe el Rey de Geylolo & Fernão dela torre rogauão, cõ tanto q lhe auião de dar arrefés ate a Raynha cõprir ho que dizia, & afli lho mãdou dizer per Bras pereyra, que foy em húa Galeota q el rey de Geylolo lhe mandou carregar de mantimentos, & lhe deu é arrefés quatro Mandarins dos principais de Ternate, q lhe a Raynha man¬ dou pera iflo, & afli lhe mandou muytos barcos carregados de mantimen¬ tos. E el Rey de Tidore como ifto foube foltou logo Francifco de fá &
  • 2J0 Hijloria da Índia os outros pera os mãdar, & eles não efperarão por iflo & fugirão, & el rey lhes mandou ho feu fato. E defpoys difto fe ajuntarão na vila de Li- matao onde a raynha eftaua, Fernão dela torre, & ho gouernador de Gey- lolo: & hi foy ter coeles Vicente dafonfeca, leuãdo el rey Cachil dayalo, q entregou a fua mãy defpois de juraré que compririã o q eftaua alfen- tado. E logo os Portuguefes forão entregues a Vicente dafonfeca, & polas perdas recebidas ficarão ós arrefés que diffe ate ferem pagas. E aífi foy folto el rey de Ternate cõ grãde fefta, ficãdo muyto amigo de Vicente da¬ fonfeca, & dos outros Portuguefes, a q pagarão logo as perdas q recebe¬ rão quãdo matarão Gonçalo pereyra. E defta maneyra ficou Vicente da fonfeca em paz com os mouros, & a terra ficou outra vez aflétada como a tinha Gonçalo pereyra. CAPITOLO .XL111. De como ho gouernador começou a fortaleza de Chale. VEndo ho gouernador q não poderá tomar Diu, determinou de emen¬ dar efte aueífo cõ fazer húa fortaleza e Chale duas legoas de Ca- licut, q te hu rio tão alcãtilado, como diffe no liuro Sexto, q po- dião entrar nele carauelas & galés, & auédo ali fortaleza podia inuernar a noffa armada, & andar pola cofta ate Mavo: & fairia logo na entrada de Setébro, no q fe daria muyto eftoruo ás naos dos mouros yrem cõ piméta a Meca, & nã fe ordenaria coufa alguma contra os Portuguefes q fe logo não foubefle em Chale, & coefta fortaleza ficauãos os mouros de Calicut muyto enfreados, & não podião nauegar como dantes. E vendo ho gouernador quãto ifto importaua ao feruiço del rey feu fenhor, nego- ceou em todo aquele inuerno que teue em Goa, que fe ouueffe cÕfenti- méto del Rey de Chale pera fe fazer efta fortaleza, & porq de todo não 1'e pode acabar efte negocio, como foy na entrada do verão que ho tempo deu jazigo, defpedio Manuel de foufa com húa armada pera a cofta do Malabar, cõ húa inftrução do que auia de fazer no negocio da fortaleza, & q comprafTe ho chão a dinheyro, quãdo não podeffe fer doutra ma¬ neyra. E védofe ele cõ el rey de Chale, prometeolhe mil pardaos douro por confentir q fe fizeffe a fortaleza é fua terra, & mais q ho gouernador ho fauoreceria contra el rey de Calicut fe lhe quifefie fazer guerra. E el rey aceytou os mil pardaos, dizendo que os tomaua pera pagar os pal¬ mares q eftauão no lugar em q fe auia de fazer a fortaleza. O q logo Ma¬ nuel de foufa efcreueo ao gouernador, que fe fez preftes pera partir, & andando niffo chegarão a Goa duas naos de Portugal, cujos capitães erão
  • Livro VIII, Capitolo XLIIII 271 hú Manuel de brito, & hú Manuel botelho, q hião dirigidos pera yré á China: & eftes differão que partira tãbe ho Doutor Pero vaz corregedor da corte por capitão de húa nao q leuaua ho officio de védor da fazéda da índia, poré ele não paffou & tornou a Portugal. E vedo ho gouerna- dor q não yão mays naos, não quis q foffé aqlas á China, & mandou as carregadas pera portugal, & perderãofe no caminho. E preítes ho gouer- nador de fua partida, partiofe pera Chale leuãdo configo parte da armada de remo, foife a Cochim a dar auiamento ás naos q auião de partir pera Portugal: & da volta q tornou fe ajútou cÕ Manuel de foufa é Ianeiro de M. D. & xxxij. E viole cõ el rey de Chale, a que deu os mil pardaos por cõfentir q fe fizeffe a fortaleza como eftaua cõcertado. E forão logo cor¬ tadas húas mil palmeiras q ocupauão ho chão onde a fortaleza auia de fer edificada: & feytas algúas eftãcias dartelharia q defendeffé os Portu- guefes fe el rey de Calicut vieffe cõ fua gete (por fe prefumir q acodiria) forão abertos os aliceffes da fortaleza cõ grande fefta de todos & tãger das trõbetas & charamelas, & defparar de toda a artelharia. E abertos os aliceffes ho gouernador affentou a primeira pedra veftido nú pelote de veludo & muito loução. & Antonio de faldanha a fegúda: & dahi por diãte os outros fidalgos q erão muitos repartidos por quartos que todos trabalhauã com a outra gete como quaes quer pola animarem ao traba¬ lho, & erão fempre os primeiros q trabalhauão. E elrey de Chale ajudaua tãbe cõ fua gente. E ho gouernador mandou primeiraméte fazer e redõdo os muros da fortaleza em q fe pos tanta diligêcia q em xvj. dias forão em altura q fe afletou a primeira andayna dartelharia nos baluartes. E cõ quãto foy fama q el rey de Calicut auia de yr eftoruar efta obra núca oufou. CAPITOLO .XLIIII. De como ho capitão môr Diogo da filueyra dejlrayo ho lugar de Tana. SAbédo ho Xeq de Tana (que Eytor da filueira fizera tributário a el rey de Portugal) que ho gouernador não poderá tomar Diu & q Meliq tocã fazia forte Baçaim, não quis pagar as pareas a Diogo da filueyra quãdo lhas mãdou pedir: & cõ quãto defpois diffo ho mãdou ameaçar q lhe faria guerra, toda via não quis, parecedolhe q tinha coftas no focorro q lhe podia yr de Baçaim da muyta gete q hi tinha Meliq tocão. E tendo Diogo da filueyra regiméto do gouernadpr q na entrada do verão foffe fazer guerra a Cãbaya, quis logo começar é Tana, pera õde partio no começo Doutubro de trinta & hú cõ húa armada de nauios de remo, em que leuaua trezentos homes de peleja, os mays deles efpin-
  • Hijloria da índia 272 gardeyros, & ficou por capitão da fortaleza o feu alcaide mor. E de ca¬ minho fez muyto grande deftruyção pola cofta, queymãdo lugares, cati- uãdo & matando gente, & cortando palmares & ortas. E chegado a barra de Taná, mandou fondar ho rio & efpiala, & foube q eftaua muyto forte por ter diãte húa tranqueyra entulhada & bé artilhada & ter muyto mao defébarcadoyro, por fer ho rio baixo & durar a maré pouco, & auião de jr hú pedaço pola vafa primeyro q defembarcaffé, & cõ tudo ifto deter¬ minou de defembarcar, & alfi ho affétou cõ feus capitães q ho mefmo q ele tinha, tinhão pera cometer os mouros q cometerã ao outro dia cõ a maré de pola menhaã, indo nos catures pera q podeffê melhor nadar. O Xeque que fentio q hiã, os foy efperar na trãqueira cõ toda fua gete de peleja, q erão quatro mil de pé, em que auia muytos frecheyros, & quinhetos de caualo: & como os Portuguefes forão a tiro de berço da tranqueira começou de jugar a fua artelharia, lançãdo grãde forna de pe¬ louros, & os Portuguefes pafTauão por antreles muy fem medo, & que- rédo noffo fenor que lhes não empeceífem chegarã ate onde os catures não poderão paífar, & ali faltarão na vafa, por onde forão cõ muyto pe¬ rigo & trabalho aferrar cõ a trãqueira & acharão algúa defenfa nos imi- gos, de q os trafeyros fem vere porq, começarão de fe retirar pera a cidade, & tão rijo como que foliem os noffos a pos eles, & fentindo ifto os diãteyros q pelejauão co muyto esforço, cuydarão q era aquilo algúa cilada q os Portuguefes deytarão, & q os tomauão no meo, de q ouuerão tamanho medo, q fe poferão em desbarato & fugirão por mays q lhe ho Xeq bradaua que ho não fizeffem. E afroxada a defenfa da tranqueyra, fobirão logo os Portuguefes polas lãças, outros por õde podião, & dão a pos os imigos q né na cidade fe atreuerão a faluar, & fugirão ficãdo muytos mortos & catiuos, & dos noffos não morreo nhú: & defpejado ho lugar foy roubado & qymado. E dãdo Diogo da filueyra muytas gra¬ ças á noffo fenor pola merce q lhe fizera tornoufe a embarcar, & em¬ barcado acabou a agoa de vazar & os catures ficarã em feco, o q deu alfas de fadiga, porque a gete da cidade que eftaua recolhida hy perto forão fobreles, fabédo como eftauão & leuarão algús berços cõ q lhes tirauão & cõ muytas frechadas: & nefte trabalho efteuerão ate q tornou a maré, & fem receberé nhú dano, antes os imigos muito da nolfa arte¬ lharia, fe forão polo rio abaixo ate q fairão ao mar.
  • Livro VIII, Capitolo XL V 2j3 CAPITOLO .XLV. De como o capitão môr Diogo da filueira dejlruyo a vila de Bandora. D Aqui partio Diogo da íilueyra pera outra vila mais auãte chamada Bandora, que foube q Meliq Tocã fnor dela tinha muyto fortale¬ cida cõ húa tranqyra da Bãda do rio, & outra q nacia de húa pota daqla & fe eftendia pera o fertão, ambas de duas faces, & entulhadas, & aíTeftadas nelas muita artelharia, & auia cinco mil homés de pê, de q muitos erã Rumes & oyto cétos de caualo. E eftaua efte lugar metido, por hú rio a cima. E chegado Diogo da filueyra á barra pos em pratica a feus capitães & aos principaes da frota fe daria naquele lugar, dizendo- lhe fua fortaleza & a gente que tinha: & todos acordarão que fe come- telTe, porq quafi tão forte eftaua Taná & ajudaraos noffo fenhor, & affi aueria por feu feruiço de o fazer entã. E coifto entrarão todos polo rio dentro húa menhaã, & fabendo os mouros como entrauão quiferão lho defender cõ a artelharia, que de húa das tranqueiras varejaua bem pelo rio abayxo, & erão os pelouros tão baftos, que fizerão fazer tanta de¬ tença aos noffos que quando chegarão perto do lugar era noyte, & por iffo não quis Diogo da filueira q defembarcafle, & chegoufe da banda dalem do rio pera paffar ali a noyte, que toda fe gaftou em bombarda- das q fe tirarão hús aos outros a montão fem fe fazer nenhú nojo: & como foy menhaã os mouros acodirã logo á praya a efperar os Portu- guefes como q auião por injuria efperalos detrás das tranqueiras. Diogo da filueyra porque a gente não auia de poder defembarcar fe nam nos catures & bateis mandouha paffar a eles, & partem pera terra a boga arrãcada paffandolhes por cima muytos pelouros dos imigos: & quando abordarão com terra acharãna cuberta de mouros, & diante os Rumes por mais esforçados, de q os mais erão efpingardeiros, q defpararão húa grãde çurriada defpingardadas, & os noffos a eles, & é quãto ela defpa- rou faltarão algús nagoa, & adi Diogo da filueyra cõ a bandeira, pele¬ jando todos cõ muyto esforço, porq os imigos apertauão quãto podião por lhes eftoruar q não tomaffem terra, ho q nã poderão fazer, principal- mente os Rumes q mais trabalharão niffo, ate perdere muitos as vidas ho q vedo os outros fe retirarão, cõ q os Guzarates q tinhão neles feu esforço ouuerão tamanho medo q fe desbaratarão & fugirão, hús ao lõgo das tranqyras, outros polas portas delas caminho do lugar, & fem fe de¬ ter nele fe acolherã: & os noffos os forã matado ate defpejarê o lugar: & durou a peleja húa grãde ora, é q muytos dos imigos forão catiuos, Tomo IV 35
  • 214 Hijtoria da índia & dos noffos feridos algús. E faqado ho lugar foy todo queymado & def- truido á vifta dos mouros que eftauão recolhidos hy perto: & parecia q noffo fenor lhes punha medo dos noffos q não oufauão de os cometer vé- dofe vencidos en tão pouco tépo. E por os noffos eftaré muyto cãfados & fracos nã quis Diogo da filueyra mandar ébarcar a artelharia q eftaua nas tranqueyras, & cõtétoufe cõ deftruyr ho lugar, q foy affaz de perda pera os mouros por fer de grande trato: & dali fe foy pola cofta de Cam- baya por õde ãdou toda a parte q ficaua do verão cõ fua armada repar¬ tida ê efquoadrões de tres & quatro velas, cõ q lhe não efcapou nhú dos nauios q hiã de hús lugares da cofta pera outros cõ fuas mercadorias, de q tomou muytos, & outros qymou & meteo no fúdo. E tamanha era a deflrução q fazia q não oufauã nenhús de fayr dos portos, o q foy caufa defte anno auer muyta quebra na reda dalfãdega de Diu do q rédia os outros annos, & ouue muyto grãde falta de mantimétos, & de todas as coufas q hião da outra cofta da éfeada. E não fòméte fez Diogo da filueira efta deftruição no mar, mas també na terra, em q queymou muytas po- uoações, & nauios q eftauão varados, é q catiuou obra de quatro mil almas & tomou muyta mercadoria, mantimétos, & madeyra. E de tudo ifto ouue el Rey de Portugal fua parte, porq Diogo da filueyra foy ho primeyro q cõ apraziméto dos foldados q leuaua, tirou o cuftume q auia dãtes q el rey nã ouueffe parte nas prefas q fe fazião cõ os nauios de remo, & entã as ouue, em q fua fazeda recebeo muyto proueyto, porq do dinheyro q lhe coube á fua parte pagou quafi todo ho foldo q fe deuia aos feus foldados & dos catiuos q tomou fe efquipou a mayor parte dos nauios de remo da armada da índia, & ouue muyta roupa pera ho trato de Chaul pera çofala, & muyta madeyra, & mantimentos. E quafi na fim do verão fe tornou a Chaul onde auia de ter ho inuerno, ficãdo os mou¬ ros tão daneficados, q muyto mays ho fentirã do que poderão fentir darfe fortaleza em Diu: & de Chaul mãdou Diogo da filueyra ao gouemador <í fazia a fortaleza em Chale céto & vinte catiuos pera trabalharem nela. CAPITOLO .XLVI. De como fe leuantou Damião bernalde\ & do q fe\. QUando ho gouernador tornou de Diu pera Goa, deu por interceffã de Simão ferreira feu fecretario, licéça a hum Chatim Português que auia nome Damião bernaldez pera yr tratar a Bengala em hum leu nauio. E indo de viage tomou na cofta de Baleacate muytas Chãpanas de mouros & de gentios amigos del Rey dÕ loão de Portugal,
  • Livro VIII, Capitolo XL VI 275 que nauegauao com feu feguro, & matando com muyta crueza quantos hião nelas as roubou, & feyto muyto mal por efta cosfta, & deyxãdo a gente muy efcandalizada, fe foy á de Bengala. E eftando na ilha de Ne- gamale foy ter coele húa galeota de Rumes, em que yrião bem quarenta homens de peleja, de que pelejando coeles matou dezoyto & catiuou vinte dous, & mays tomou a galeota, em que achou muyta riqueza. E nela & em outra que defpoys tomou, fez bem feytos vinte mil cruzados que goar- dou pera fi, fem dar parte aos foldados que lhos ajudarão a tomar: & a a galeota com fua artelharia deyxou pera dar ao gouernador, & ho apa- zigoar fe teueífe dele menencoria por fe affi aleuantar. E parece que bem ho adiuinhaua, porque eftando defpoys em Begala na barra do rio de Chetigão onde eftauão dezoyto nauios de Portuguefes, foy dada húa carta do gouernador da índia ao Goazil da cidade de Chetigão, & a Cojeçaba- dim (ho Mouro em que faley no liuro Septimo) em q lhes rogaua muyto que prendeffem Damião bernaldez & quantos hyão coele, & quãdo ho não podeffem fazer, os mataffem, & lhes queymaffem ho nauio com a fazenda, porque andauão aleuantados & tinhão feytos grandes males, cõ que el rey de Portugal era muy deferuido, & que fobrifto gaftaffem ate tres mil par- daos q fe obrigaua a pagarlhes. E efta carta efcreueo ho gouernador, porque foube os roubos que Damião bernaldez fizera na cofta de Balea- cate, & efta carta moftrarão ho Goazil & Coje çabadim, a hum Nuno lobo criado do gouernador: & fabendo deles que ho final da carta era leu, differão lhes que polo feruirem querião prender Damião bernaldez fe queria yr aprefentar ao gouernador, & por final lhes tinha empreitada a galeota que tomara aos Rumes pera com outros fe yre em fua conferua pera a índia, & não lha quifera vender comprandolha eles, & efcufara fe diflò, cõ dizer q a goardaua pera amanfar coela o gouernador, & q fe não determinara de fe lhe yr aprefétar q lhes védera a galeota, por iflò q ho não prédeffe, & mays por não auer morte dos Criftaos q não fe efcufaua fe 0 quifeífe préder: & difto q differão derão cada hú feu affi- nado ao Goazil & a Coje çabadl, q lhes pedirão pera fua difculpa cõ o gouernador, de não fazere feu rogo, & difto não foube Damião bernaldez nada. E eftãdo ali na barra de Chetigão ya de noyte a terra & furtaua muyta géte & mataua os homés, & prédia os moços debaixo de cuberta. E hú dia andando na ribeyra hú mouro honrrado que era capitão da cidade, que na lingoa da terra fe chama Gormale, faltou Damião bernal¬ dez em terra fupitamente & prendeo ho, & auia tam pouca gente na ribeyra que ho pode prender a feu faluo, & deu coele no nauio deyxando feridos os que lhe quiferão acodir. E logo como ifto fe foube na cidade forão prefos dezafeys Portuguefes que eftauão nela & tomaralhes íuas
  • Hijioria da índia 276 fazendas, & affi derão rebate em húa feyra que fe fazia dahy a duas legoas pera prenderem outros que !a andauão: & eftes fintindo ho que lhes querião fazer fugirão pera ho mar & faluaranfe nos nauios. Os mou¬ ros porque Gormale era pefloa muy principal defejauão de ho cobrar, & por iffo mãdarão dizer a Damião bernaldez que lho deffe & que lhe da- rião os Portuguefes: & ele não quis polo grande refgate que efperaua por ele. E os mouros leuarã então os Portuguefes á praya, de q Damiã bernaldes eftaua tão perto q os podia ver & ouuir & defpindo os nuus começarã de os açoutar muy cruelméte, pera q auédo Damiã bernaldez piedade deles deffe Gormale. Mas ele era tã cruel & amigo do dinheiro q efperaua por Gormale, que nunca o quis dar. O que vendo os mouros tornarão a recolher os Portuguefes. CAPITOLO .XLV11. Do inays que fe\ Damião Bernaldeç. E como morreo. NEste tempo eftauão na galeota que Damião bernaldez tomara aos Rumes, Nuno fernandez freyre (que agora mora em Lisboa) Diogo de camoes: & outros Portuguefes a que Damião bernaldez empreftara a galeota pera fe yré caminho da índia com luas fazendas em lua conferua. E vendo Nuno fernãdez as coufas que fazia Damião bernal¬ dez tanto cõtra o feruiço de Deos & del rey, & mais por fe yr gaftando a moução & ferem partidos os mais dos nauios dos portuguefes que ali eftauão, pareceolhe q Damião bernaldez não queria tornar á índia, & por iffo determinou de fe yr com a galeota fem fua licença, fe achafie quem ho ajudaffe: pera ho que falou com ho piloto de Damião bernaldez que eftaua na galeota & com ho meftre & com outros que conuerteo a yrenfe, por não encorrerem na pena em que Damião bernaldes tinha en- corrido por fer leuantado. E concertado ifto na noyte feguinte tres ou quatro oras ante menhaã que a marê começaua de decer, cortou a amarra da ancora de montante, & começou de mandar leuar a outra da jufante ho mays quietamente que poderã, & como começou de fe leuar afli a galeota começou de yr polo rio abaixo, ho que fintindo algús de Damião bernaldez que eftauão hy perto em hú feu bargãtim começarão de bradar que fe ya a galeota. Nuno fernandez & ho piloto fizerão q ca- çaua, & q então o fintião, & fazedo q fe aparelhauão, acabarão de leuar a ancora, & forãofe, indo Nuno fernãdez ao leme: & polo efcuro q fazia deu algúas vezes é feco, & cõ tudo quis noffo fenor q cõ aquela vazãte chegarão á barra, & dahy tomarão feu caminho pera Ceylão dõde fe
  • Livro VIII, Capitolo XL VII 277 auiao de jr a índia. E em amanhecendo foube Damião bernaldez q a ga- leota era partida, & determinado de jr a pos ela pera enforcar quãtos hião nela foltou Gormale a troco dos Portuguefes, ja q não tinha tempo pera auer por ele ho refgate q efperaua. E indo caminho da barra deu ho nauio tamanha pãcada em feco q lhe faltou ho leme fora por não ter leua & perdeofe, & vedo q não podia nauegar fem leme mudoufe ao bar- gãtim & botou a pos a galeota, que lhe leuaua tanta auãtagem q núca a pode alcãçar, & Nuno fernãdez cõcertou fecretaméte cõ ho piloto q não tomafTe ho porto de Colúbo é Ceylão ondeftaua a noíla feytoria, porq poderia chegar entre tãto Damião bernaldez, & dizer ao feytor q lhes leuauã furtada aqla galeota & reqrer q os prendefle, & os ébaraçaria, & por ido tirarão pera ho cabo de ComorI guiando ho piloto toda húa noyte pera ho mar por não yré ter a Colúbo: do que a géte fe agaftou muyto quãdo no dia fegulte não virão terra: & ho piloto diflimulou dãdofe a culpa de gouernar mal. E dobrado ho cabo de ComorI, acharão hú catur de Portuguefes a cujo capitão rogou Nuno fernãdez que lhe pofeffe em terra dous homês que erão da cõpanhia de Damião bernaldez que quife- rão yr coele coeffa condição, & mais por lhes prometer de auer perdão do Gouernador, & deulhe vinte pardaos pera gaitarem entre tanto. E daly fe foy a CochI & depois a Chale onde ainda eftaua o Gouernador, a que deu conta do que fizera a Damião bernaldez & lhe entregou a galeota: & o Gouernador lhe agradeceo muyto aquele feruiço que fizera a elrey de Portugal. E Damião bernaldez que ya a pos a galeota, chegou á en- feada de Bilgão onde achou Diogo de camões que Nuno fernãdez hy dei¬ xara & quiferão enforcar porque lhe ajudara a leuar a galeota, & deixou de ho fazer por rogo de Nuno lobo & doutros que yão coele no bargan- tim: & temendo que ho achaffê algús capitães Portuguefes & ho pren¬ defle fabédo como andaua, deixou o bargãtim a Nuno lobo q ho leuaffe ao gouernador & ele defembarcou e Negapatão pera fe jr a Bifnegar & auer dahi perdão. E eítando em Negapatão fazédo fe preltes pera ho ca¬ minho, foubeo hú Miguel ferreyra q eftaua em Baleate por capitão, a q ho gouernador Nuno da cunha efcreueo fobre Damião bernaldez ho q tinha efcrito a Coje çabadl & ao Goazil de Chetigão, & foy ho préder. E carregado de ferro ho mãdou a Gomez de fouto mayor capitão da pefcaria do Aljôfar, q ho mandou a Coulão, donde foy leuado a Goa, & eftãdo hy prefo no troco & fenteciado em dez ãnos de degredo pera a ilha de fctã Helena faleceo, auédo primeiro o gouernador oito mil cruza¬ dos que tinha efcondidos.
  • Hijloria da índia 278 CAPITOLO .XLVIII. De como Antonio de faldanha foy por capitão môr ao cabo de Goar- dafum. HO gouernador q fazia a fortaleza de Chale cõ ajuda dos fidalgos q ho ajudauão, & adi doutra gente Portuguefa q eftaua coele, lhe deu cabo em tão breue tempo q a géte da terra ficou efpãtada: & muyto mais el rey de Calicut, q núca é todo efte tempo oufou de mã- dar géte a defender aqla obra, pofto q deitou fama q ho auia de fazer, E muyto fentia o atreuiméto do gouernador q afli lhe fazia húa fortaleza nas fuas barbas, & ho muito q perdia niflo de feu credito. E a fortaleza acabada ficou em hú capo rafo dõde defcobria ho mar & muyto perto, era quadrada & é cada quadra tinha hú baluarte muito forte, & os panos dos muros q corriao de baluarte a baluarte erão de cincoenta pês de largura, & da bãda de détro ao logo do muro eftauão as cafas dos ofticiaeis da fortaleza & as dos fronteiros, & no meo eftaua a torre da menajem, també muyto forte & toda be artilhada. A capitania defta fortaleza deu ho gouernador a Diogo pereyra por feu privado pofto que era muito ve¬ lho, & lha pedião outros homes de mays feruiço, & q erã mais pera a deféder do q ele era: & deyxando no mar por capitão mór a hú fidalgo chamado Manuel de foufa natural Deuora com húa armada de trezétos homés fe partio pera goa, onde achou apercebédofe Antonio de faldanha pera yr ao cabo de Goardafum, ao que ho mandaua por capitão mór de húa armada, de que forão capitães a fora ele q ya no galeão fam Mateus, Vafco pirez de fam paio em Lambia morim, dom Fernãdo deça na ga- leaça, Antonio de lemos nos Reys magos, Diogo botelho pereira em hú galeão, que foy feyto em Chaul, & em duas galeotas dõ Pedro de mene- fes & Manuel de vafcocelos, q leuaua debaixo de fua capitania certos bargãtins. E coefta armada partio Antonio de faldanha na êtrada de Fe- uereyro de mil & quinhétos, & trinta dous, & no caminho lhe deu húa grande tormenta cÕ q Diogo botèlho efteue quafi perdido, & milagrofa- méte o faluou noffo fnor & arribou a Chaul: & não pode yr cõ Antonia de faldanha.
  • Livro VIII, Capitolo L *79 CAPITOLO .XLIX. De como Rayx ale quifera matar elRey Dormu\ feu jrmão. QUasi a pos Antonio de faldanha partio Antonio da filueyra de me¬ neies pera Ormuz por mãdado do gouemador pera jr íeruir a capitania da fortaleza Dormuz, q vagara por mórte de Criftouão de médoça, & feruia de capitão Belchior de foufa tauares que dantes era capitão mòr do már. E foy cõ Antonio da filueyra Luys falcão feu fobri- nho, pera fer goarda mòr del Rey Dormuz. E chegado lá Antonio da fil¬ ueyra, & étregue da capitania da fortaleza, el rey Dormuz fe lhe queixou de hú feu jrmão homé de dezoyto annos, que ho queria matar por fauor induzimento de fua mãy, q por lhe qrer mayor bem q a ele, qria q fofie rey antes q ele, & que húa noyte fora achado debayxo do fey catele cÕ húa adaga, & por iffo mãdara préder: & por fer ho cafo de tãta im- portãcia & não auer diffenfoés no Reyno, não quifera fazer juftiça dele como lhe merecia, pedindolhe q ho mandaffe á índia, porq fabia certo q não fazia aquilo fe não por induzimcto de fua mãy, ho q Antonio da fil¬ ueyra fez por pacificar a cidade, em q começaua dauer bandos por aqla caufa. E no mefmo nauio em q Antonio da filueyra foy, mandou ho jrmão del rey que fe chamaua Rayx ale com toda fua cafa, efcreuendo ao go- uernador a rezão porque ho mãdaua. E ho gouernador ho recebeo muyto be, & lhe tomou fua fé fegúdo fua ley, de nã fe tornar a Ormuz fem fua licença, porque fe foubeffe q fazia, ou queria fazer ho contrairo que ho mandaria pera Portugal. E ele prometeo de ho fazer, & ho comprio. CAPITOLO .L. De como Manuel de vafconcelos & outros tomarão a nao çafeturca. CHkgado Antonio de faldanha ao cabo de Goardafum, fem lhe acon¬ tecer coufa que feja de contar, vendo que não fazia ali nenhúas prefas, mandou Manuel de Vafcõcelos que fofie com os bargãtins ao porto de Xael, pera ver fe achaua hi algúas naos, que por fer tarde aueriã dinuernar. E mandou efias velas porque por ferem de remo não ferião fintidas, & auião de hir mais afinha que os galeões, & por iffo ficou coeles a tras pera jr de vagar. E chegando Manuel de vafconcelos de fupito, achou hi húa nao de Cambaya chamada çafeturca, que feria de oytocentas toneladas, & por fua grandeza, q era a mayor de quantas
  • 280 Hijloria da índia andauã naquela carreira era muyto nomeada. E ho capitão eftaua cÕ de¬ terminação de inuernar em Xael, & na fayda do inuerno antes folie verão de todo jrfe a Diu, & aueturarfe antes ao perigo do már, q ao de fer tomado dos Portuguefes. E a mefma conta fazião outros muytos mouros: & por iffo os Portuguefes não achauão prefas auia dous annos. E vedo os mouros defta nao defcobrir a noffa armada, foy ho feu medo tamanho que não oufarão defperar, & fugirão pera terra, leuãuo todo ho dinheiro que tinhão, & algúas coufas leues, & ficoulhes a carrega groífa. E por fua fugida não teuerão os Portuguefes quem lhes refiftilie tomala. E Ma¬ nuel de vafcõcelos meteo nela hú quadrilheiro & hú feytor pera q fe en- tregaífem da fazenda q tinha & ele cÕ os bargantins le pos em goarda dela, ate chegar Antonio de faldanha, q chegou dahi a dous dias. E vendo ele que no porto não auia mais naos, & q fe chegaua ho inuerno partiofe pera mazcate, onde determinaua dinuernar, & hi foy védida a fazéda da nao & o cafco. E paffado o inuerno partiofe cÕ a armada pera a ponta de Diu, & mãdou Manuel de vafcõcelos ao logo da cofta cõ algús bargã- tls, & tomou outra nao de mouros de diu, q hia de Meca muyto rica, q defpois foy védida é Chaul cõ toda fua carrega. E no dinheiro que fe fez nela & na çafeturca fe mõtarão perto de dozétos mil pardaos. E aíli deu Manuel de valconcelos caça a hú galeã de Calicut, que por lhe fugir indo da ponta pera fe meter em Diu deu em húa lagea & perdeofe, & afoga- ranfe os mais dos mouros. E é quafi dous mefes q Antonio de faldanha aqui andou nã fez mais prelas: & partiofe pera Goa onde entregou ho dinheiro que leuaua. CAPITOLO .LI. De como ho gouernador determinou de tomar a fortaleza de Baçaym. NEste anno de mil & quinhentos & trinta & dous foy a armada q hia de Portugal pera a índia repartida e duas capitanias móres, húa leuou dõ Efteuão da gama, filho de dõ Vafco da gama cõde da vidigueira & almirante do mar Indico, que hia prouido da capitania de Malaca na vagante de Garcia de fá, & hia debaixo de fua capitania Vicente gil armador, cuja era a nao em q hia. A outra leuaua dom Paulo da gama, hirmão de dom Efteuão, prouido també da capitania de Malaca na fua vagãte. E debaixo de fua bandeyra hia hú Antonio carualho. E deftes capitães dõ Efteuão inuernou em Moçãbique, & os outros cõ muyto grãde trabalho paliarão á índia õde chegarão aqle anno é diuerfos tepos cõ muytos doétes. E nefta armada foy hú Bifpo chamado dõ Fernando que for^ frade de fam Francifco, pera reformar na índia ho eftado ecle-
  • Livro VIII, Capitolo LI1 281 íiaftico, & dar ordés & crifmar: & eu ho ouui pregar é Goa muvto bé, donde ho gouernador defpachou Antonio de faldanha por capitão mór das naos da carga, que forão tres & hú jungo q partirão na fim de dezembro do mefmo anno. E també eftando ho gouernador em Diu foube de certa certeza q Melique tocão tinha feita em Baçaim húa fortaleza muyto forte & que fe criaua ali outro Diu, & q efperaua de trazer ali as fuftas de Diu pera que tolheíTem aos nolfos que não paffaffem a diante. E como ho gouernador fe temeffe de yre rumes á índia porque fe foffem tomauão aquela fortaleza achandoa em terra tã fértil como aquela he, & Atuada ao longo de hú tam bÕ rio como ho de Baçaim: pelo que a índia ficaua em muyto grande perigo fe os teueffe tão vezinhos, & por iffo determi¬ nou de jr fobrela & deílruyla, & fem dar conta a ninguém fe começou de aperceber pera hir quafi no cabo do verão, em que Diogo da filueyra auia de ter feyto muyta guerra a Cambaya. CAPITOLO .LII. De como Diogo da filueyra tomou as cidades de Patane, Pate & Man- galor. DIogo da filueira que inuernaua em Chaul pelo regimento que tinha de fazer guerra a Cambaya partiofe pera lá com fua armada logo na entrada do verão, & foy correndo a cofta ate Diu, fazédo os catures muytos faltos por toda a cofta, em que fizerão muyto grande dãno, & coiffo eftaua a genfe tão efpantada que não fe atreuia a faluaríe pelo menos de feys legoas pelo fertão onde fe acolhia, & pola ourela da mar não auia ninguém, & nenhús nauios oufauão de yr a Diu, né as fuf- tas oufauão de fayr, com quanto Diogo da filueyra andou a vifta de Diu algús dias. E vendo ele que não fazia ali nada paliou auãte caminho de húa cidade chamada Patane doze legoas de Diu na mefma cofta de Cam¬ baya, fituada á borda de hú arrecife cercada de muro, & na praya hú baluarte que varejaua ho defembarcadoiro, & diante dele húa forte tran- queyra bé artilhada que goardaua muytas naos que dentro dela eftauão varadas, por fer cidade de grande trato, & pouoada de muytos mouros mercadores. E a fora iffo tinha el Rey de Cãbaya ali gente de goarnição, de que muytos erão Rumes dos q Rumecão leuaua a Diu, & com a gente da cidade feriam bem tres mil homés de peleja: ho que tudo foube Diogo da filueira por ho capitão de hum Catur, por qué mandou efpiar efta cidade: que também lhe dilfe q a fua defembarcaçã não podia fer fe não diante da tranqueira. E cÕ tudo ele affentou cÕ os outros capitães q def- 36 Tomo IV
  • 282 Hijloria da índia fem na cidade & a tomaflem cõ ajuda de noflò fenhor, em q efperaua q os ajudaria. E co efta determinação parela da põta de Diu, eftando a géte q eftaua nela bé defcuidada de tal ida, affi por a cidade eítar muyto afaf- tada das noffas fortalezas como por até aquele tempo nhúa armada nofla chegar àquela cofta. E quãdo ho capitão de Patane vio a nofla frota ficou muito falteado, porq fabia ho grãde dano q tinha feyto na outra cofta de Cambaya, & mais q pera paflar ali auia de fer vifto das fuftas de Diu, que lhe auião de contrariar a paflagem, & por iflo ho falteou muito vela no feu porto: & mãdou logo muyta parte de fua géte acodir á trãqueyra pera defeder a defembarcaçã dos Portuguefes q defpoys de fere aífoltos por hú clérigo q lhes fez a confiffão geral remarão pera terra em feus bargantins & catures & fem temor dos muytos & muy grolfos pelouros q defparauão da tranqueyra & do baluarte roperão por eles ate pojar em terra cadahú por onde podia, & afli defébarcou Diogo da filueyra cõ a bandeyra real, & nifto não auia ordé né efperar por capitães, fe não qué primeyro podia (porq na índia efte he ho proprio cometer dos noflos) & pera quam perigofos os lugares fão parece q he afli melhor que dou¬ tra maneyra, porque que defembarca nas bocas das bombardas fem ter nhú emparo fe não ho de noflò fnor q he ho verdadeyro parece q fe não defembarcafle coefta prefteza, & efperaflem cõcerto q os mataria a arte- lharia a todos. Afli defembarcados os noflos como digo, remete a tran¬ queyra cada hú por feu cabo & aferrarão coela goardãdo os noflò fnor da artelharia que lhe não fizefle nojo, & védofe os imigos afli cometer depoys de fe defenderé hum pouco, em que morrerão algús das noffas efpingardadas alargarão a tranqueyra, recolhédofe pera a cidade, de q ho capitão acodio cõ géte de refrefco, & mandãdo abrir a porta pera fayr chegarão a ele os feus q fugião da tranqueyra, q vinhão com grãde preffá polos yré os noflos ferindo nas coftas. E quando acharão ho feu capitão esforçarão & voltarão aos noflos esforçandoos ele q pelejou como muyto valente caualeyro, ho que foy caufa de o matarem cõ outros algús dos feus em hú pedaço q aqui pelejarão muy bé, & eftes que morrerã forão Rumes. E vendofe os imigos fem capitão defacoroçoarã de maneyra q fugirão, & os noflos entrarão na cidade a pos eles ferindo & matãdo, & fizerão matãça efpantofa afli nos foldados como em outra gente q não era de peleja de que catiuarão muyta. E Diogo da filueira não confintia que os feus faiflem fora da cidade a pos os Imigos, porq eftauão canfados. E defpois que os lançarão todos fora repartio os noflos em quadrilhas, & mãdou faquear a cidade & leuar todo ho defpojo que foy muyto â praya pera fe repartir defpois, & acharão mantimétos fem cõto, de q a frota ficou bé baftecida. E faqada a cidade foy queimada cõ muytos mouros q
  • Livro VIII\ Capitolo LII 283 eftauão efcõdidos nas caías, que cõ os q morrerão na batalha foy húa boa forna. E dos noflos quis noflo fenhor que não morreo nenhú. E affi forão queimadas quoréta naos & zãbucos q eftauã varados, & hú galeão q chegara de çuez auia dias carregado de rumes. E feyta efta deftruyção & recolhida a artelharia dos Imigos á nofla frota, embarcoufe Diogo da filueira cõ toda fua gente, q dali ficou rica, & tornãdofe foube dalgús mouros que tomou em hús zãbucos, que auãte de Patane pera ho norte eftaua na mefma cofia outra cidade chamada Pate muyto mays forte que Patane, cõ muytas eftancias dartelharia pelos muros da banda do mar, & com maré chea lhe batia ho mar no muro, & eftaua détro muyta géte de peleja todos Guzarates: & partiofe logo pera lá cõ determinação de a tomar, & ás noue horas do dia pouco mays ou menos chegou diãte da cidade cõ a viração, cujas eftãcias os imigos tinhão muyto embãdeiradas. E chegãdo os noífos a tiro de bõbarda da cidade defpararão fua artelha¬ ria refpõdédo a dos imigos, que não oufauão de fayr da cidade, & affi defembarcarão fem receberé nenhú dano, & remetédo ás portas da cidade as arrobarão, o q vendo ho capitão dos imigos lhe acodio logo com muyta gente: & defendeoas cõ tanto esforço q nunca as defemparou, ate perder fobriffo a vida, & affi céto q eftauão coele na dianteyra, de q os mays morrerão defpingardadas, & dos noífos quis noífo fenhor q denhú: & cã a morte do capitão & deftes fe retirarão os outros a tras, & ficou lugar aos Portuguefes pera q entrafle na cidade em que fe os imigos defende¬ rão muyto bem em algúas ruas, & por iflo forão muytos deles mortos, & por derradeiro fugirão & deyxarão a cidade que defpoys de fer quey- mada, & deftruyda como a de Patane, partio logo Diogo da lilueira pera outra queftaua mais auãte quarenta legoas de Diu, chamada Mãgalor fituada na boca de hum rio é cofia braua & tinha hú bÕ arrecife, cidade principal daqla cofia toda rafa, & fé nenhúa fortaleza pouoada de mou¬ ros mercadores, q fabédo a deftruição de Pate & Patane ainda queftauão tão fortes, não fe atreuerão a defenderfe pofto q tinhão muyta gente de peleja, que chamarão pera os defender defpoys que fouberão q os Por¬ tuguefes andauão por aquela cofia, & defpejarão a cidade & fe forão, & por iflo os noífos nã teuerão mays q fazer que queymala cõ muytas naos que eflauão varadas. E defpoys de queymadas eftas cidades em que Diogo da filueyra foy em peífoa, queymarão os feus capitães muitas pouoações fem ele fayr em terra, & fizerão tamanha deftruição que fe defpouoou toda a cofia & não oufaua nenhúa gente de chegar ao mar cõ medo de não catiuaré mays, que forão muytos: & tomada muyta artelharia pera el Rey, & muyta fazenda a fora a das partes q todos forã muyto ricos, & queymarão muyta riqza por não teré nauios em q a carregar. E Meli-
  • Hijloria da Índia 284 que capitão de Diu não podia acodir por a ocupação q tinha em fazer Baçaim, & punha ali tãta força por lhe parecer que coela defenderia Diu, nem menos acodia el Rey de Cãbaya por muyta gerra q lhe fazião feus imigos pelo fertão (como direy a diãte.) E não achando Diogo da filueyra quem lhe refiftifle continuaua a guerra tornando outra vez a ponta de Diu a efperar as naos que foífem de Cambaya pera Meca, que com feu medo nã oufou nhúa de fayr aquele anno, no q el rey de Cambaya recebeo muyta perda e fuas alfandegas. CAPITOLO .L111. De como Açadacã fe\ paç com lio goueniador, & lhe deu as tanadarias de Salfete pera el rey de Portugal. NO Terceyro & Quarto Liuro fe fez meção de hú mouro chamado çufolarim efcrauo & capitão do Hidalcão a que Afonfo dalbuquerq tomou a ilha & cidade de Goa, a que ho mefmo Hidalcão por fazer honrra lhe concedeo que fe podelfe chamar Cão, & ifto por fer efte nome antreles de muyta honrra, & fe chamou Açadacão, que defpoys por fer bõ caualeyro & de muyto feruiço o çabayo & feu filho Hidalcão que lhe fofcedeo no fenhorio o fizerão dos principaeis de feus capitães, & lhe derão terras na comarca de Salfete, & antrelas foy Pondá & Bilgão que he ao pê da ferra do Gate que ele defpoys fez húa cidade muyto forte cercada de muros, cobelos, & caua, ao modo das noífas, & deufe tam boa manha q tinha mays de quarenta contos de réda, & muita gente de peleja aífi de caualo como de pé & alyfantes, & defpoys do Hidalcão era a fegúda peffoa em feu fenhorio aífi de terras, gente, & renda, & cõ tudo era efcrauo do Hidalcão, & cada vez q lhe vieffe á vontade defpoelo de feu eftado o podia fazer, & por iífo andaua ele fempre receofo de ifto fer aífi, & nefte tempo veo a laber que ho Hidalcão ho queria fazer, por¬ que ho mãdou chamar, q era a mayor certeza de fer aífi, porq eítes fenhores de marauilha mandão chamar eftes capitães fe não pera lhes tirar as terras que te & matarenos. E como Açadacão teuefle efta fof- peyta ou certeza quis fe logo fauorecer com fazer amizade cÕ ho gouer- nador q eftaua em Goa a q fecretaméte mandou fobriflo feu embayxador, & q lhe daria por iífo pera el rey de Portugal as terras de Salfete & Pondá q rédião bé cinquoéta mil pardaos douro: & poré q ho gouerna- dor auia de mandar recolher eftas rédas dilfimuladaméte porq 0 Hidal¬ cão o não foubeffe, o que o gouernador lhe agardeceo muyto, & em nome del Rey de Portugal lhe confirmou amizade, & prometeo de o ajudar
  • Livro VIII, Capitolo LI11I 285 contra o Hidalcão, & fez logo Tanadar mór a hú Criftouão de figuey- redo cafado em Goa & grande feu priuado, que mandou á terra firme cõ outros Tanadares pequenos & efcriuães & algúa géte, & ele fe apofentou 5 hú pagode de freyras, & dali arrecadaua as rendas, & Açadacão teue maneyra como fe efcufou de yr por aqla vez a chamado do Hidalcão, q tãbé não iníiftio é ele por amor de grandes negocios q lhe fobreuierão. CAPITOLO .LII11. Das diferenças q oitue antre Vicente dafonfeca & Bras pereyra. FIcãdo Vicéte dafonfeca por capitão da fortaleza de Ternate (como a tras he dito) determinou de mandar hú jungo a Malaca, cuja ca¬ pitania deu a Afonfo pirez que fora hum dos q o fizerão capitão, & fabendo Bras pereyra que efte jungo auia de yr pera Malaca, pedio a Vicéte dafonfeca a capitania dele, & porq lha não quis dar vierão a tanta defauéça, que Bras pereyra fez hú requerimento ao feytor & officiaeis da fortaleza & a outros criados del Rey que prendeífem Vicéte dafonfeca, q cometera treyção em dar ajuda & fauor aos mouros pera mataré Gon- çalo pereyra, & que tinha aquela fortaleza por força, & dali por diante não falou mays a Vicéte dafonfeca, & andaua armado cõ outros muytos q erão de fua valia, & eftes amotinauão outros & tinhão Vicéte dafonfeca então pouca conta, que dizião pubricamente q ele ajudara a matar Gõ- çalo pereyra, & mandara matar outros Portuguefes defpoys que fora ca¬ pitão. E por ele atalhar a outras mayores coufas q daquelas podião foce- der prendeo Francifco de fá, Cofmo moniz, & outros culpados nefta defamação, q com a prifão deftes creceo muyto mays: & foy pofto per vezes fogo a hú bargãtim polos amigos deftes, porque fofpeytauão que prefos os queria mandar nele á índia, & dali por diãte mandou Vicente dafonfeca vigiar a ribeyra por homés armados. E ainda defpois difto cre¬ ceo mays a defauença & odio antrele & Bras pereira, fobre hú berço q mandou tomar da Galeota em q eftaua Bras pereyra, pera hú bargantim que queria mandar a Malaca em companhia do jungo q diffe, & afti fobre certos homés que mandou leuar da galeota pera a fortaleza, por lhe dizeré que queriã fugir pera Bãda, & fobre hú que Bras pereyra tolheo ao Ou- uidor que ho não leuaffe, fobre ho que diíTe palauras muyto defamatorias contra Vicéte dafonfeca, pelo que ele indinado diffo lhe mãdou tomar ho efquife & os efcrauos da galeota que erão em terra, & defendeo com grandes penas que nhúa peffoa lhe leuaffe mãtimentos. E vendofe Bras pereyra afti atalhado, foy a fua menencoria tamanha q parecia doudo, &
  • 286 Hijloria da índia c6 grãdiflimos brados dizia aos q eftauão em terra, q Vicente dafonfeca não era capitão, antes era trédor a el Rey de Portugal por matar a Gon- çalo pereyra feu capitão, & tinha aqla fortaleza pera a vender aos mou¬ ros, & por efTa caufa lhe não obedecia, & requeria a todos q não lhe obe- decefiem: & acabando de dizer ifto, mandou tirar tres tiros a fortaleza. Vicéte dafonfeca q eftaua na ramada fe recolheo logo, & mandaua tirar a artelharia pera meter a galeota no fúdo fe não fora pelo alcaide mór q lhe pedio q o deixaffe primeyro falar cõ Bras pereyra do que foy con¬ tente, & defpois do alcaide mór falar coele, & acabar q obedeceria a Vicéte dafõfeca & jria a terra & os faria amigos foi peor, porq em Bras pereyra chegãdo a terra, Vicéte dafonfeca muyto ledo com lhe parecer q ya pera fer feu amigo, como lhe o alcaide mòr tinha dito, foyfe á praya pera o receber, & ele lhe diffe muyto brauo q fe foflé dali porq o não qria ver nem falar coele: & Vicente dafonfeca lhe refpondeo q não lhe amotinaffe a géte & q viífe quão mao exépro daua aos mouros & a todos, com aquelas deíobediencias, & Bras pereyra tornou a dizer as mefraas palauras q dantes, & requereo a quatos hi eftauão que prédeffem Vicéte dafonfeca pola morte de Gõçalo pereyra: & Vicéte dafonfeca q prendef- fem a ele porque lhe defobedecia, & foy fobrifto muyto grande aluoroço nos Portuguefes, q algús dizião q Vicéte dafonfeca não era capitão, & os mays dizião que era, & q Bras pereyra merecia prefo por fer caufa da- qllas reuoltas: & chegou a coufa a tanto, q ho alcaide mór & feytor 1'e apartara cõ toda a gente, & lhes perguntarão fe tinhão Vicente dafonfeca por feu capitão, & por os mais dizerem que fi, o ouuerã por capitão, & Bras pereyra foy prefo, & afli efteue na fortaleza fem mais Vicéte dafõ¬ feca qrer fer feu amigo pofto que lhe foy cometido. E não fe auédo por feguro dele né doutros de fua valia, os entregou prefos a Baltefar velofo capitão do Bargantim q mandou em companhia do jungo que hia pera Malaca dahi os leuaffé á índia, & partirão na entrada de Março do anno de mil & quinhentos & trinta & dous, & cuydando Vicente dafonfeca que por mãdar Bras pereyra & os outros ficaua feguro na capitania o ficou menos, porq algús deffes mais hõrrados que ficarão coele parecendolhes q merecião melhor a capitania q ele, começarão de praticar é ho pren- deré, & prefo ho mandaré pera a índia, ho q lhe foy logo difcuberto: & pera os amanfar & tirar daqle penfamento gaftaua coeles muy largamente, & lhes deyxaua fazer crauo, & lhe fazia quãtas boas obras podia cõ que algú tãto os amãfou, & poré ele não fe confiaua de ningué, & trazia fem- pre húa faya de malha fecreta, & fua efpada, & andaua tão acautelado q quãdo lhe falaua algué eftaua fempre cõ os olhos nele & a mão na efpada, né tomaua nhúa coufa a peffoa q não foífe fua fe não com a mão efquerda
  • Livro VIII, Capitolo LV 287 & a dereyta na efpada, & viuia com muyto grande fadiga, & muytas ve¬ zes fe apartaua fó a chorar dagaftado de ter tomado aqle carrego. CAPITOLO .LV. Do q Pateçarãgue & Trauancelo determinarão contra el rey Cachil Dayalo. YEndo os mouros as grades diflénfões & defordés q auia antre os Portuguefes: & q fé nhú temor de caftigo né vergonha do mundo matauão capitães, & fazia outros cõtra o regiméto de feu rey, & ■quã mal comprião os mãdados de hús & dos outros, & q fempre ficauão liures de pena, determinarão de fazer ho mefmo contra feu rey Cachil dayalo, & os q derão principio a efta maldade & treyção forão hú Pate¬ çarangue q Vicente dafonfeca fizera gouernador do reyno pera ho ter de fua mão, & outro q auia nome Trauãcelo ambos velhos difcretos & pru¬ dentes, & de muyta autoridade cõ os mandarins & géte popular pelo q tinhão credito pera fazeré quãto quifeífem. E a caufa de Pateçarãgue fazer efta treição, foy medo de lhe el rey tirar a gouernãça do reyno, porq por fer ja didade pera iífo qria entéder nela pera faber como feus vaflãlos erão gouernados, q auia muytos annos q os gouernauão gouerna- dores q fazião mais o q os capitães qrião q o que deuião: & porq go- uernãdo el Rey Pateçarangue não era neceflãrio q gouernalfe & perdia fua valia determinou ele de priuar el rey do reyno, & fazer rey a hú feu jrmão baftardo chamado Tabarija, & era tam moço q não era pera go- uernar, cõ fundaméto q gouernaria ele ao menos ate Tabarija fer didade, & de tudo ifto deu conta a Vicente dafõfeca, certificãdolhe q fe Cachil dayalo riã foífe defpofto de rey, q ho auia deftoruar a não fazer feu pro- ueyto como faria não fendo ele rey, nem ficaria tão aufuluto capitão como forão os paffados, pelo q deuia de confentir em Cachil dayalo fer defpofto de rey, no q Vicente dafonfeca conientio por não perder ho q efperaua de ganhar em quãto efteuefle na capitania. E tédo Pateçarangue efte con- fentimento pera fua treyçam começou logo de a poer em obra, tomãdo por copanheyro a Trauancelo, & como não podiam fazer nada, fe os fidalgos téré odio a el rey, prouocauãonos a lho teré por quantas manei¬ ras podiã principalmete fazedolhes crer q lhes ãdaua cõ as molheres: & diziam q era mal inclinado: & de forte cõdição, & aífi lhe punham ou¬ tras muitas tachas cõ que o faziã inábil pera fer rey, & delpoys q Pate- çarãgue & Trauancelo virão q os fidalgos tinhão odio a el rey, começarão de lhes perfuadir q 0 defpofeflem de Rey, & fizefle rey a feu jrmão Ta-
  • 288 Hijloria da índia barija. Nefte tépo auia na fortaleza grade falta de mãtimétos, & muytos Portuguefes mandauã feus efcrauos q os foliem furtar aos mouros, & aíli os cabaços q tinhão nas palmeyras cõ o vinho q faya deles, & como os mouros queria mal aos Portuguefes & ás fuas coufas, deitauão peçonha nos cabaços cÕ q matauão os q lhes yao beber ho vinho, & també ás cu¬ tiladas quado os achauão de bõ laço, & como erão mortos tam encuber- tamente não fe fabia mais de fuas mortes q acharénos menos. E não podédo Vicéte dafofeca determinar no q feria feito deles diífeo a Pateça- rangue, rogandolhe q lho foubeffe, & ele por meter coele em odio a el rey, cõtoulhe a maneyra da morte dos Portuguefes & dos efcrauos atri¬ buindo a culpa diffo a el rey, afirmando q fe fazia por feu mandado, do q fe Vicéte dafonieca elcandalizou muyto, & mandoufe qyxar a el rey pelo mefmo Pateçarangue, cõ o q fe el rey efpantou muyto, por quã ino- cete fabia q eltaua daquela culpa, & fe nã fe temera de o Vicéte dafon- feca tornar a préder forafelhe difculpar por fua peffoa, mas elte temor lhe fez q não folie, & mandoufe dilculpar por Pateçarãgue cuidãdo q lhe era leal, & como ele não era no cabo da difculpa q deu a Vicéte dafofeca lhe difle q fé duuida crefle q tudo aquilo erão palauras. E crendo Vicéte dafonfeca q era verdade determinou de préder el rey & telo prefo como dãtes, & que Pateçarangue gouernaria ho reyno, poré el rey era tam re¬ catado q nunca mais foy á fortaleza, ou parece q foy auifado delta de¬ terminação & afaítauafe ho mays q podia da conuerfação dos Portugue¬ fes, nã por mal q lhes quifelfe, mas por recear de os efcãdalizar, & fazialhes quanto bé podia, & era tã obediéte a Vicéte dafonfeca & defe- jaua tãto deitar bé coele, q não queria valer a nhú Português q fe a ele acolheffe por algú dilito, & logo lho mandaua, & cõ tudo nã lhe valia q de cada vez lhe tinha mayor odio & defejaua mais de o préder, & quãdo vio q ho não podia fazer determinou de o mandar matar: & tudo ifto por induzimento de Pateçarangue q tinha o mefmo defejo, & tam dana¬ dos andauão q ho não podião encobrir, & foy difcuberto a el rey q como era de grande coração diífimulaua cõ Pateçarangue, & não ho quis «liti¬ gar por não dar caufa a Vicéte dafonfeca rõper coele guerra, q bé fabia q auia de qrer acodir por ele. E andando affi encubertos forão quatro efcrauos de Portuguefes ao mato, & não tornãdo mais mãdou Vicéte da¬ fonfeca dizer a Pateçarangue (defpoys de lhe mandar pregútar por eles) q el rey os deuia de ter fe os nã mandara matar, ho q el rey foube do q ficou tão triíte & agaítado, que fe paliou logo pera hum lugar chamado Turutó mea legoa de Ternate, & leuou pera lá fua mãy & os do feu con- felho, mandando dizer a Vicente dafonfeca que fe ya, pera ver fe 1'e po¬ dia liurar da culpa que não tinha, & que de lá faria ho que lhe mandaífe,
  • Livro VIII, Capitolo L VI 2 89 do que Vicéte dafonfeca ficou muy efcandalizado, & creo que fe queria leuatar cõtra a fortaleza, & por iflo trabalhaua quãto podia polo mandar matar, & mandava fazer aos mouros quãtos males podia. E vendo el rey ifto, ouue confelho com os feus fobre fe mudar pera mays longe, & aflen- tarao de fazer outra cidade onde fe chama a terra alta húa legoa daly, que com quanto lhe auia de fer trabalho, affi em deyxar feu aflento, como em fazer noua pouoação, a tudo fe offreciã por fe tiraré de mexe¬ ricos, defgoftos, & brigas que diflo podiam recrecer. E auido efte confe¬ lho el rey & a raynha fe forão a Tidore & derão difto cota a el rey que era jrmão da raynha, & tio del rey, a que pareceo bem a mudãça pera a terra alta pelas rezões que lhe derao pera iffo, & coefte parecer mãdou el rey Dayalo edeficar outra cidade na terra alta. CAPITOLO .LVI. De como el rey Cachil Dayalo fe pajfou pera a terra alta. PAteçarangue como queria mal a el rey & defejaua q Vicente da¬ fonfeca efteueffe firme em lho querer, como vio o q fe ordenaua diífelho logo, atribuindo aquela mudança del rey a quererfe forta¬ lecer pera fe leuantar contra a fortaleza & fazer-lhe guerra, ho q Vicente dafonfeca creo, aíli polo odio que tinha Elrey, como pola mudãça que lhe via fazer tam de fupito, & mays porque nefte tempo tendo já el rey onde fe agaflalhafle na terra alta fe mudou pera lâ cõ toda fua familia, faluo a Raynha fua mãy que ficou pera fazer yr Pateçarangue & os de fua fami¬ lia, que em nhúa maneyra fe qrião yr de Ternate polo odio q tinhão a el rey, & eftauam determinados de lhe defobedecer, por lhes Vicente da¬ fonfeca ter prometido de os ajudar a defender, & por iflo não fe querião yr. E quanto el rey mays via que Pateçarãgue infiftia em não yr pera a terra alta, tanto mays infiftia q fofle, porque receaua muyto que não que¬ ria ficar é Ternate em tal tempo fe não pera o deferuir, & que o fazia cõ oufadia q lhe daua Vicéte dafonfeca, & com ter ifto por certo, lhe mandou dizer q pera hú tal dia fe folie pera a terra alta cõ todos os de fua valia, fopena de os caftigar como a reueis, & defobediétes a feu rey: E não fatisfazedo Pateçarãgue a efte mandado né nhú dos outros deter¬ minou el Rey de proceder cõtrele: pera o que fe foy a Ternate, Õde achou Pateçarangue pofto em armas cõ todos os feus pera fe deféder, & tinha cõfigo quarenta Portugu'efes efpingardeyros q lhe dera Vicéte dafonfeca pera o ajudaré contra el rey, & eftes eftauão na dianteyra. E como os el Rey vio, diflé q não queria coeles guerra, mas que fe efpantaua, & eftaua Tomo IV 37
  • Hijloria da Lídia 2f)0 muvto efcandalizado, q fendo ele valfalo del Rey de Portugal, não lhe qrer Vicéte dafonfeca, que era capitão da fua fortaleza, deixar caftigar Pateçarangue feu vaffallo q ho offendia graueméte, antes daua fauor, & ajuda cõtrele, fendo obrigado poys era capitão del Rey de Portugal a lho ajudar a caftigar quãdo ele fó nã podefte: & rogou muyto aos Portugue- les q afti ho dilTelfem a Vicéte dafonfeca, & q ele era vaflallo del Rey de Portugal, & por efTe fe tinha, né deyxaua de o fer pola mudãça q fazia de Ternate pera a terra alta, q fe a fizera, fora por efcular payxões, & defgoftos q fe começauão ante os Portuguefes & os Mouros, & da terra alta, mandaria mays mantimentos á fortaleza do q yão dãtes, q não cuy- daffe Vicéte dafonfeca q fe mudaua pera outro fim, & afti fe veria a diante, pedindolhe por derradeyro q nã quifefle fauorecer cõtrele Pateça¬ rangue né os outros q lhe erão defobediétes, & q efperaua por fua re- pofta pera faber o q auia de fazer, & coifto fe foy. E ele ydo recolherafe os Portuguefes, & derão a Vicente dafonfeca ho feu recado, q ele ouuio com grãde menécoria porq ho não matarão, & afti ho diffe, affirmando cõ juramento q ho auia de deftruir, & foltando cõtrele muy feas palauras, é q moftraua claraméte ho grãde odio q lhe tinha, do q el rey foy aui- fado: & nã vendo fua repofta, determinou cõ os de feu cõfelho de proce¬ der contra Pateçarangue, a q mandou primeiro rogar q fe foffe parele, & não querédo mandoulhe fazer guerra por feus capitães q cada dia lhe fazião muitas corridas, & lhe dauão rebates por már & por terra, afti de dia como de noyte, é q Vicente dafonfeca ho mandaua fempre ajudar polos Portuguefes, & afti 1'e ya ateãdo a guerra de pouco em pouco: ho que védo el rey a quis mays apertar, & foy fobre Pateçarãgue por már, & Cachil bualaua gouernador de Toloco por terra cõ a mays géte q pode. E Vicéte dafonfeca acodio logo por terra, & mãdou por már feflenta Por¬ tuguefes efpingardeyros em hú batel, & em hú paraó artilhados, & nã pelejará: porq védo el rey os Portuguefes q yão diãte, nã quis pelejar coeles & retiroufe, & eles ho apertarão tãto cõ a artelharia & efpingar- daria, q lhe foy neceffario fugir. E outra vez tornou el rey é hú calaluz cõ algús mãdarins pera falar a Vicente dafonfeca & lhe rogar q teueífé paz, & ele lhe nã quis falar, antes mãdou a certos Portuguefes q lhe íaiflém, & por ele não qrer pelejar, & fe yr, forã a pos ele ate o enla- caré na praya da terra alta õde fe faluou, leuãdo quatro mandarins feri¬ dos, & foylhe tomado o calaluz. E delpois difto foy Vicéte dafõfeca dar- mada à terra alta õde chegou de fupito ãte manhaã, & tomou a el rey toda a armada q tinha afti no már como na terrá, & fe tornou pera a for¬ taleza cõ grãde cõtétaméto de Pateçarãgue, & dos outros imigos del rey, q védo como lhe Vicente dafonfeca fazia guerra daqla maneyra, ainda q
  • Livro VIII, Capitolo L VII 2QI o nã merecia, era tã amigo dos Portuguefes, & defejaua tãto fua amizade pola criação q teuera coeles, que nuca quis guerra, né defenderfe pola não fazer, q fe quifera queyxarfe aos outros Reys fegúdo eftauão mal cõ os Portuguefes, bé ajútara gente com q fizerra guerra, mas nã quis polo amor q lhes tinha, & defejo de fua cõuerfação: & ãtes quis auéturarfe a perder ho Reyno, como perdeo, q fazer guerra aos Portuguefes, tédo que era muyio mór perda nã lhe goardar lealdade q perder o Reyno, & pera ver fe cõ fe yr dele poderia qbrar a fúria q Vicéte dafonfeca tinha cõtrele, fe foy pera Tidore cõ toda fua cafa, & cõ fua mãv, cõ determi¬ nação de eftar lá ate q el rey fizefle cõ Vicéte dafonfeca que foffe feu amigo, & afli lho diffe, & ele lhe diffe q acabaria iífo cõ Vicéte dafonfeca por amor da amizade q tinhão ambos, & que també ho ajudarião el rey de Bachão & el rey de Geylolo, & Fernã dela torre, a q efcreueria que ho fizeílem, & afli ficou el rey Dayalo em Tidore, cuydãdo que ali fe re¬ mediaria. CAPITOLO .LV11. De como Vicente dafonfeca tomou a cidade de Tidore. VIcente dafonfeca q nã fabia nada da yda del rey Dayalo, ajõtou húa grãde armada de mouros & de Portuguefes cõ determinação de o deftruyr, pera o que fe foy á terra alta que achou defpouoada, do q fe muyto efpantou, & cuydou q el rey fe meteria pelo fertã da jlha pera fe fazer forte. E queymado efte lugar, foy fobre as cidades de Ma- layo & de Toloco, q tãbé forão defpejadas, por el rey ter mãdado aos moradores q nã pelejaílém cõ os Portuguefes, & eílas tãbem forão quev- madas. E labédo Vicente dafonfeca q el Rey Dayalo fe fora pera Tidore, folgou muyto, pera ter achaq de lhe tirar o reyno, porq não podia eftar fem Rey, & afli lho confelharão Pateçarangue & os de fua valia, & q fizefle hú jrmão baftardo del rey Dayalo, chamado Cachil Tabarija moço de quatorze ate quinze annos, da própria ydade pera eles mandaré a terra â fua võtade, & pera Vicente dafonfeca ho fazer melhor, fez gouer- nador do reyno Pateçarangue. E leuãtado Tabarija por rey, foy Vicente dafonfeca coele em húa grãde armada por effes lugares da fralda do már, a que mandaua dizer que ele defpofera de rey de Ternate a Cacil dayalo, & o deitara do reyno cõ fua mãy & outros, por feré culpados na morte do capitão Gonçalo pereyra & fe qreré leuãtar cõtra a fortaleza, & fizera rey a Cachil tabarija, q també era filho del rey Boleife, cujo o reyno era por dereyto, pois Dayalo ho perdera: q rogaua muyto a todos q obede- ceflem por Rey a Tabarija, porq não querendo lhes auia de fazer guerra.
  • Hijloria da Índia 2Ç2 E vendo os mouros que el rey Dayalo fe fora, cõ receo da guerra, obe¬ decerão todos a Tabarija, fométe o regedor de Toloco q queria mal a Pateçarangue, cõ quanto era feu paréte, & defejaua de o matar por a treyção que fizera a el rey Dayalo, & por iflo o mandou préder Vicente dafonfeca, & eíteue prefo até q morreo. E como Pateçarangue fabia q el rey Dayalo eftaua é Tidore, receauafe q dali cobraffe feu reyno: & pera mayor fua fegurança, fez cõ Vicéte dafõfeca q foífe cõ grande armada fobre Tidore, & fizelfe cõ el rey q lhe mãdalfe entregar todo ho tefouro q Dayalo leuara, cõ todo o mais quãdo fe fora de Ternate, fe nã que o deftruiífe, & ficando Dayalo fem tefouro nã teria poder pera fe reítaurar no reyno. E como Vicéte dafonfeca cria muyto em Pateçarangue tomou feu confelho. F. chegado a Tidore húa manhaã cõ grade armada, mãdou dizer a el rey as rezões porq defpofera de rey a Cachil dayalo & fizera rey a Tabarija, a quê pertencia todo ho tefouro douro, prata, & armas defeníiuas, & offenfiuas, & efcrauos que Dayalo & fua mãy leuarão de Ternate, que lhe rogaua que lhe mandaífe logo dar tudo fe qria ter paz coele, fe nã q lhe faria guerra: & tãbem lhe auia détregar Dayalo & fua mãy, ou os lãçaíTe de lua terra, porq que tinha amizade cõ os Portugue- íes nã auia dacolher hú tamanho feu imigo como Dayalo. El rey de Ti¬ dore como era moço, efpantoufe dú recado tã afpero, & refpõdeu a Vicéte dafonfeca que faria tudo o q fofle rezão, que lhe pedia q defem- barcaffe pera falaré fobre aquele negocio & fe fazer o q foífe feruiço del Rey de Portugal: & por cÕfelho de Pateçarangue não quis Vicéte dafon¬ feca verfe cõ el rey, & repricou q fizelfe logo o q lhe pedia fe queria ter paz coele: & védofe el rey tã apertado, dilfe q aueria cÕfelho cõ os feus, & defpoys yria falar a Vicente dafonfeca pois ele nã qria defembarcar: & Vicéte dafonfeca nã refpÕdeo, porque vio q el rey não fazia o que lhe pedia. E cuydando el rey q confentia em q ouueffe cõfelho entrou nele, mas Vicéte dafonfeca tomou outro, q lhe deu Pateçarãgue, que foy dár na cidade pois el Rey nã fatisfazia a feu requerimento, & com lhe fazer guerra o faria, & adi ho fez, defembarcãdo fupitamente cõ fua gente ar¬ mada, & entra pola cidade ferindo & matãdo feus moradores, q confia¬ dos na paz & amizade que tinhão cõ os Portuguefes eftauão bem defcuy- dados de tal coufa, & fabendo ho el Rey, fugio logo com a fua mãy, & & Cachil dayalo cõ a fua pera húa ferra q eftaua fobre a cidade, pera onde tãbem fugirão os mais dos moradores, pofto q algús quiferão refiftir por defenderé fuas molheres & filhos, & eftes forão mortos quafi todos: & não tendo os Portuguefes com qué pelejar, roubarão & queymarão a cidade. E avida efta tamanha vitoria, em q Vicente dafonfeca cõ os Portuguefes perderão mais de credito, do que ganharão de honra fe tor-
  • Livro VIII, Capitolo L VIII 2Q3 nou pera Ternate fem alcãçar nada do que ya bufcar, fe não guerra cõ Tidore fem nhúa caufa, de q noffo fenor lhe deu logo algú caftigo: E tornado á fortaleza, vedo o regedor de Toloco (q diffe q foy prefo) q Cachil dayalo nã podia cobrar o reyno, por nã auer rey daqla geração, determinou de matar el rey Tabarija, & dous feus jrmãos, que Vicéte dafonfeca tinha na fortaleza pera fua fegurãça, ho q cuidou de fazer por eftar coeles no derradeyro fobrado da torre de menagem, ainda que prefo com húa adoba, & pera cõprir fua determinação, ouue hú cutelo q trazia efcondido, & logo q Vicéte dafõfeca chegou de Tidore, eftãdo hú dia á porta da fortaleza ho regedor q eftaua fó cõ el rey & feus jrmãos, & ou¬ tros algús no derradeyro fobrado da torre da menagem, remeteo a el rey pera ho matar, q quis Deos q lhe efcapou & fugio cõ os outros pera duas camaras a q fechará as portas de détro, & outros fugirão pola efcada abaixo bradãdo q lhes acodiífem, & ele nã pode alcançar nhú por amor da adoba que ho toruaua, mas alcançou hú filho de Vicente dafonfeca, moço de fete ãnos & degolouo, vendo q não fe podia vingar de qué qui- fera. E feyto ifto, porq fentio q acodio gente, poífe fobre a porta da efcada tirando cõ pedras & páos & algúas efpingardas, cõ q defendia muy bra- uaméte que a géte não fobiffe a cima, & cõ tudo, hú caualeiro chamado Iorge goterez paffou a diante bem cuberto de húa rodela q lhe o mouro qbrou fobre a cabeça cõ húa elpingarda q lhe arremeffou, & o ferio & atordoou algú tanto, poré ele era tã esforçado que aífi fe chegou ao mouro, & lhe deu húa eftocada pela barriga q o paffou da outra parte, & ele q não era de menos esforço q Iorge goterez, né por iffo perdeo o lugar é q eftaua em quãto teue cõ q fe defender, & defpois de lhe fale¬ cer, çarrou cõ Iorge goterez & ferio o cõ o cutelo por debaixo da barba, & ele o leuou nos braços, & forã ambos pola efcada a bayxo, & chegãdo ao fobrado Iorge goterez fe defemborilhou dele, & deu lhe húa cutilada na cabeça com que quebrou a efpada, & Vicéte dafonfeca & outros ho acabaram de matar. CAPITOLO .LV111. De como el rey Cachil dayalo perfeguido de Vicente dafon feca fe foy morar a Geilolo. GRÃde efpanto foy por todas aquelas jlhas quãdo fe foube q Vicéte dafõfeca defpofera de rey de Ternate a Cachil q era legitimo, & tã amigo dos Portuguefes & criado ãtreles, & ho perfeguira tãto até o fazer fugir do reyno, & fazer rey a Cachil Tabarija tã moço &
  • *94 Hiftoria da Índia baftardo, & a qué não pertécia o reyno por nhúa via, & tinhã todos diíto gráde efcãdaio: & muitos Sangages & gouernadores dos lugares do reyno de Ternate, não querião obedecer a el rev Tabarija, & chamauãlhe rey de Vicéte dafonfeca & de Pateçarãgue, pelo que Vicéte dafõfeca fez a mayor armada q pode & mãdou nela por capitã mór Pateçarãgue pera fazer a efles q digo q obedeceífé a Tabarija q obedecerã vedo fe apref- fados da guerra, pofto q el rey Cachil dayalo lhes focorreo cõ algúa ar¬ mada mas nã aproueytou, & afli tãbé fez por força q obedeceífe a el rey Tabarija hú mouro chamado Ouro bachela tefoureiro del Cachil dayalo peiToa mui notauel no reyno, q obedecédo a el rey Tabarija, lhe entre¬ gou todo o tefouro que tinha del rey Cachil dayalo, o q foy caufa dal- gús Sãgages & fnores q ainda eftauã por dar obediécia a el rey Tabarija lha deffé. E vedo el Rey de Tidore como as coufas del rey Tabarija erã de cada vez mais profperas, & el rey Cachil dayalo ya é mais perdição, & ele nã lhe podia valer por eflar muy qbrado das guerras palfadas, fez paz cÕ Vicéte dafõfeca cõ receo q o deftruiífe & Vicéte dafõfeca a fez por aífétar a terra: vendo el rey feita efta paz nã fe atreueo a viuer é Tidore por amor dos Portuguefes q fabia q ^uião lá dir, dos quaes fe não fiaua, & por ifio determinou de morar em Geylolo, & foy lá pri- meyro, pera pedir licença a el rey q lha deu de boa võtade, & lhe pro- meteo de lhe dar algús lugares, de cujas rédas fe mãteueífe, & mais q ele & Fernão de la torre mãdariã rogar a Vicéte dafonfeca q o ajudaffe cõ algúa coufa, poys o deytara de feu Reyno, & affi ho fizerão, mas ele não quis, antes com Pateçarãgue mandou cometer a el Rey de Tidore q lhe vendefle el rey Cachil dayalo & lho entregaffe, porq não fe pafiáífe pera Geylolo, temédo q de lá lhe fizellé guerra, ho q el rey não quis fazer. E vendo Vicente dafõfeca q não qria, fez q lhe deffe a mãy del rey Tabarija, q andaua em cõpanhia da molher del rey Cachil dayalo, cõ qué Pateçarãgue defejaua de cafar pera fer mays hõrrado, & aiíi o fez, depoys q foy entregue a Vicente dafonfeca, a q não abaítando as perfe- guições que tinha feytas a el Rey Cachil dayalo, tratou fecretaméte cõ a raynha fua molher q lhe fugifTe pera Ternate, & que a cafaria cõ el rey Tabarija & íeria raynha, o q nunca auia de fer fendo molher de Dayalo, porq núca auia de fer rey: & affirmoufe q nefte concerto cÕfentio el rey de Tidore, cuja jrmaã era a raynha, & ifto por peita, & por defefperar del rey Dayalo cobrar mais o reyno. E defpoys dele tornar de Geylolo, húa noyte o embebedou a Raynha é húa cea q lhe deu: & eftando ele bem entregue no fono, fe foy ela fecretaméte com algúas das fuas mãce- bas, leuãdolhe a mayor parte do tefouro q tinha. E chegando a Ternate, a cafou Vicéte dafonfeca cõ el Rey Tabarija, o q fabido por el rey Ca-
  • Livro VIU, Capitolo LIX 2 9 5 chil dayalo ho fentio mais q perder o reyno, por lhe qrer muyto grade bem, & fer ela refrigério de feus trabalhos, & tãbem íintio leuarlhe o tefouro, porq ficaua de todo fem ter com q folteueffe aqueles que ho acÕ- panhauão: & como era magnanimo não defmayou cõ todos eítes infortú¬ nios né fe mudou da determinação de yr morar a Geylolo. E porq fua mãy auia de ficar em Tidore, deyxou coela aqles que o acõpanhauão, écomédadolhos muyto, & pedindolhe a eles muyto perdão de os nã leuar cõfigo, & de lhes nã poder fazer merce, fazédo ele & eles grãde prãto ao defpedir, fe partio pera Geylolo fò, & tã pobre, q não tinha mays do que lhe el rey de Geylolo daua, ode elleue até q tornou outro tépo, como direy a diãte. E partido el Rey Dayalo pera Geylolo, el rey de Tidore pedio ajuda a Vicéte dafonfeca, & a el rey Tabarija, pera cobrar algús lugares de feu fenhorio q lhe eftauão reuelados, & cõ fua ajuda os tor¬ nou a cobrar: em q hú Iorge goterrez, & hú Simão valete pelejarão muy esforçadaméte. E defpois dilto, moueo el rey de Geylolo guerra a Vicéte dafõfeca por certos lugares de feu fenhorio, q lhe tinha tomados, & não tornaua tédolhe prometido de lhos tornar, & aíli elteuerão até chegar a Maluco Trilião datayde q foy por capitão da noífa fortaleza, como a diante direy. CAPITOLO .LIX. De como ho gouernador determinou de yr fobre a fortaleza de Baçaí, & do filio da fortaleza. DEspoys do gouernador auer as tanadarias Daçadacão, como diífe, vio q era tempo de poer em efeyto a determinaçã que tinha de yr tomar a fortaleza de Baçaim, o q tinha defcuberto, per jura- méto q o não defcubrilTem, a Marti afonfo de melo jufarte, Manuel dal- buquerq, & a outros cinco ou feys, a que diífe. Ainda quécubro a trifteza q tenho por nã tomarmos Diu, nã creais q he tã pequena, que me nã dá tãto cuydado, q podeis crer q nuca mays fuy ledo, porq com quãto fiz o q pude como todos viltes, & neífa parte me dou por fatisfeito, todavia me nã poifo affeflegar, porq me lébra q neíte cafo a minha fatisfaçã he a menos, pois nada aproueita fe nã fatisfazer aos de fora, & mais é cou- fas q tocã ao bé pubrico. E como eu conheço q os homés geralméte nas coufas delta qualidade nã leuão em conta nhúas difculpas mas fempre faze as culpas mayores do q fão: magoame muyto as q me hão de dar de nã tomar Diu poíto q as não tenho, & por iífo qria fazer algúa coufa cõ q eftoutra efqueceffe: & a que fe offrece he tomar Baçaí antes de fer de todo outro Diu, pera o q defpoys da ajuda q efpero de nolfo fenhor,
  • Hijloria da Índia sg6 faz muito ao cafo o medo q os mouros té dos noflos, pola guerra q fizera em Cãbaya o ãno pafTado & efte, & a deílruição de Patane, Pate, & Mã- galor, q quafi erã tã fortes como BaçaT, & forão deftruydas por tã pou¬ cos como traz Diogo da filueyra, affi fera Baçal cÕ ajuda de noflo fenhor polos q lá formos, q feremos dous mil Portuguefes cõ os q traz Diogo da filueyra, & por nã fe faber õde ymos o encubro dizédo q vou a C㬠baya, & por iffo vos dey juraméto q o nã defcubraeis, & afli volo peço. O q lhes pareceo muito be, & cõfelharão ao gouernador q fem detéça o executaffe. E como ele tinha tudo preftes partiofe na entrada do ãno de mil & quinhentos & xxxiij. & foy na galé baftarda, & feria a frota de perto de oytéta velas, é q entrauão fete galeões, de q forã capitães, do Paulo da gama, Vafco pirez de fam payo, do Fernãdo deça, Antonio de lemos, Anrrique de macedo, Antonio cardofo, & outro a q nã foube o nome: as outras velas forã galés, galeotas, bargantins, catures, & na- uios da terra, dos principaeis capitães q foube q forão das galés, & ga¬ leotas forã, Marti afofo de melo jufarte, Manuel dalbuquerq, Triftão da- tayde, pero de faria, Frãcifco da cunha, Vafco da cunha, Nuno barreto, Manuel de vafcõcelos, dõ Pedro de Menefes, Fernão de lima, & outros fidalgos & caualeyros: & nas velas Portuguefas yão dous mil Portugue¬ fes, & dous mil Canarls frecheiros & adargados nos nauios da terra. E partido de Goa coefta frota foy ter a Chaul, õde mãdou diãte Manuel dalbuquerq cõ certos bargantls, q foffe tomar a barra de Baçal, porq nã entraflê nenhú focorro de Diu, & ele partio a pos ele: E chegado ao rio do Pagode duas legoas de Baçal: efperou por Diogo da filueira q por leu recado fe partio da põta de Diu õde andaua, & fe foy ali ajútar coele, & jútos partirã todos pera Baçal, q como difle, he quinze legoas de Chaul metido por hú rio é q podé nadar galês, & defte rio fe faz hú efteyro q o cerca da bãda de léfte, & fe vay meter no mar q fica a terra é jlha: pegado cõ a boca defte efteiro eftaua hú baluarte, & mais pera a barra a tiro de bõbarda eftaua húa mezquita é húa mama de terra. E porq os Portuguefes não podefie defêbarcar júto da fortaleza fizerão húa tran- qyra de valos de terra q começaua do baluarte, & fe eftendia até mea legoa alé da fortaleza pera a pouoação, era daltura de braça & mea & muito larga, & dos mefmos valos tinha muytos baluartes em q eftauão aífentadas trezétas peças dartelharia, & pera mais fortaleza cercarãona da caua daltura de húa braça q fe échia dagoa do efteyro q difle, de modo q nã fe podia étrar fe não pelo cabo da tranqyra, q os mouros fizerã, porq fe algúa ora os noffos os quifeffé cometer, nã poderiã tãto ãdar a pé pera chegaré ao cabo da tranqyra, & fe chegaífé, chegarião tam canfados que não poderião pelejar, & coefta fortaleza & cõ Meljque
  • Livro VIII, Capitolo XL 2gj ter dezafete mil homés de peleja alfi de pé como de caualo, & todos efcolhidos, lhe parecia que eftaua feguro de fer tomado. CAPITOLO .LX. Como Melique quifera deter cõ engano lio Gouernador q não cometejje a fortaleça. CHegado ho gouernador á barra de Baçaim entrou dentro no rio pera furgir com fua armada, q fabendo Melique camanha era temeo de fer tomado, & pera auer mays gente & fe fortalecer mais, mã- dou logo dizer ao gouernador por hum mercador Dormuz q hi tinha húa nao, q bé fabia como feu pay, & ele forão fempre grandes feruidores del Rey de Portugal: & a amizade que teuerã cõ os feus gouernadores da índia, & nuca lhe quifera fazer guerra, fobre q el rey de Cãbaya os ve¬ xara & tratara mal, & por ifto afli fer ele qria goardar coele o que até ali goardara com outros gouernadores, & ter coele paz & amizade como teuera cõ os outros fe ele diíTo folie contente, & fe pofeffe no q foffe razã. Ho gouernador defpoys de ouuir efte recado, pregútou ao mouro pola fortaleza, & fe eftaua tã forte como era a fama, & ho mouro lhe prome- teo de lhe dizer a verdade, pedindolhe q lhe nã mãdalfe queymar húa náo q hi tinha, & mays pois era vaffallo del Rey de Portugal: ho q o gouernador lhe prometeo, & ele lhe contou largaméte a gente que Meliq tinha & ho affento da fortaleza, & quam fortalecida eftaua. E ho Gouer¬ nador que com tudo tinha determinado de dar nela, não lhe deu nada do que ouuio ao mouro, & refpondeo a Melique, que por faber que era ver¬ dade tudo quãto lhe mandaua dizer, era contête de fazer coele paz & o ter por amigo, & que lhe mandaffe arrefens, & que defpois de os ter mandaria la cõ quem affentaffe a paz & a amizade. E como Melique não tinha tenção de fazer a paz, não quis mandar refpofta aqle dia, & ao ou¬ tro mãdou tres Mouros honrrados que ho mercador Dormuz conhecia, que ho gouernador mandou agafalhar em húa galeota, de que era capi¬ tão Ioão de payua feytor da armada: & mãdou a Martim afonfo de melo que folie alientar paz com Melique: & feria com condição que lhe alar- gaífe aquela fortaleza. E fabédo Melique como ya Martim afonfo, fayo ho a receber hú pedaço fora da fortaleza: & ali aífentados na herua fobre húa alcatifa praticarão na paz, & Melique não qria dar a fortaleza, & por Martim afonfo aprefiar muyto coele q a delie, lhe dilfe Melique q lhe rogaua por fua fidalguia que lhe diífeífe, fe ele fora Melique fe a dera, & Martim afonfo refpõdeo que fe foubera ho poder que ya contrele, como 58 Tomo IV
  • 2g8 Hijloria da índia fabia, que a entregara por efcapar: & com tudo Meliq pola tenção que tinha infiftia muyto em não dar a fortaleza. E por derradeyro, mays pera deter a coufa que pera querer concrufam, diffe que derribaria a fortaleza, com condiçam que lhe pagafle ho gouernador os gaftos que fizera, & que auia de leuar a artelharia, madeyra, & pedra, & em refazimento dos gaftos lhe auia de dar cincoenta caualos dos que leuaua, & coefta repofta fe tornou Martim afonfo, & deua ao Gouernador, que mandou logo os arrefés, & chamou a cofelho na fua galé onde propos aos capitães fidal¬ gos, & peífoas principaeis da armada, a repofta de Meliq, & como mui¬ tos fabiam ho alféto da fortaleza pelo mouro & ho modo de q eftaua for¬ talecida, & temefle a peleja, ou lhes pareceffe melhor auer a fortaleza fem ela q coela, em q muitos corriã rifco de morreré, & a Índia ficar desfalecida de géte, de q ao prefete auia neceífidade grãdiflima, forão de parecer q fe cõcedeffe a Meliq o que pedia, dando as mefmas razões q digo, & porq não fe fizeffe Baçal outro Diu. E Diogo da filueyra, & Ma¬ nuel dalbuquerq forão muy defuiados defte parecer, dizédo que aqla ar¬ mada que ho gouernador trazia, tinha muyto cuftado a el Rey, & o que fe poderia dar por fe derribar a fortaleza feria outro tanto, o que era grande vergonha & parecia fraqueza, que era muyto de notar pois fe co¬ metia por tanta & tam boa gente & també armada como ali eftaua, & por nã ficar 5 cuftume aos mouros q como quifeffem ajuntar quaeis quer quatro pedras pera lhas venderé també como Meliq qria véder aquelas, & mays leualas, que o não deuião de fazer: & fe Melique nã quifeífe dar a fortaleza liuremente que pelejaffem, & que efperauão em noífo fnor q os auia de ajudar por mays fortes que os imigos eftiuelfem, & defte pa¬ recer forão outros, & ho gouernador por derradeyro, & por ferem mays vozes fe alfentou que foffe afti, & ho gouernador ho mandou dizer a Me¬ lique por ho mouro Dormuz, & por ele refpondeo que ao outro dia man¬ daria a refpofta: & vendo os foldados efta dilação fem faberé a caufa, & porque fabião o que Martim afonfo paflara cõ Melique fobre o que o go¬ uernador teuera confelho, & lhe refpõdera, affentarão q poys ho gouer¬ nador não dera logo em terra que não qria fazer nada & fe tornaua, & leuãtoufe fobrifto grande murmuração por toda a frota, & o fecretario Simão ferreyra ho difle ao gouernador, q vendo ho vir de fora cõ rofto defcontéte lhe pregõtou que ya lá, & de que vinha defcõtente, ele lhe refpõdeo q por dizeré todos q fe tornauão pera Goa fem fazeré nada, & entédendo ho gouernador, que poys ele foltaua aquilo q auia grãde mur¬ muração na armada, & vendo també q Melique não mandaua repofta, tornou a chamar a confelho & determinou de dar em terra ao outro dia q era dia de fáo Sebaftião, & que de toda a gente fe fizefíe tres efcoa-
  • Livro VUI, Capitolo LXI 299 drões, no primeiro q feria de feis cétos Portuguefes, & quinhétos Cana- rls, yriao Diogo da filueyra, Martim afonfo de melo jufarte, & Manuel dalbuquerq. No fegúdo que feria doutros tatos yrião dom Fernando deça, Vafco pirez de fão payo, dom Paulo da gama, Antonio de lemos, Anrriq de macedo, Antonio cardofo, & os outros capitães dos galeões. No ter- ceyro que feria de oyto cétos, yria o gouernador cõ a bãdeyra real acõ- panhada dos outros capitães, & nefta ordem defembarcarião todos de madrugada & cometerião ho cabo da tranqueyra, cujo caminho ho mouro Dormus lhes infinaria, indo na dianteyra com Diogo da filueyra, & á boca da noyte a albetoça de Pero de faria com as mais velas que teueífem tiros groíTos, & adi algús bateis de mãtas fe chegarião o mays que podelfem â fortaleza & á tranqueyra, pera q ouuindo de madrugada hú tiro de berço q tiraria o feu catur indo pera terra começaífem de bater a forta¬ leza & trãqueyra. CAPITOLO .LXI. De como Diogo da filueyra, Martim afonfo de melo jufarte: & Manuel dalbuquerque desbaratarão a trãqueyra dos imigos. ISto alfentado tornarãofe os capitães a feus nauios, & chegados á tran¬ queyra & fortaleza os q auião de dar a bateria écomédoufe a géte a noífo fnor, porq ho feyto era muyto perigofo por a fortaleza eflar tam forte como diffe, & em grandes alegrias porq foubefTem os imigos q os não temião. E vinda a madrugada q o gouernador deu o final cõ ho berço, como eftaua alfentado, começou a noífa artelharia de defparar & como era ainda de noyte & fazia neuoa, & os tiros defparaífem quaft a húa foy húa coufa efpãtofa, & mays porq a artelharia dos imigos come¬ çou també de jugar cuydãdo q os Portuguefes defembarcauão diante da fortaleza. E defembarcados eles & poftos na ordé em q auião de yr, co¬ meçarão de caminhar ao longo da tranqueyra pera ho cabo dela, porque querédo Diogq da filueyra entrar pola caua não quis quãdo achou a altura que tinha: & por ifTo palfou auãte por hú campo rafo onde a noffa gente nã tinhão outro emparo fe não o de noífo fnor q os goardaffe das muytas bõbardadas q lhes os imigos tirauam & efpingardadas em roda viua, & muytas bõbas de fogo, & tudo tã bafto q era milagre euidente efcaparé de tantos tiros, & noífo fnor feja louuado em nhú acertarão, pelo q def- poys muytos dos Canarls que yão cõ os noífos fe tornarão criftãos, di¬ zendo que o noífo Deos era melhor que todos os outros deofes q nos goardaua dos perigos. E os meírnos mouros efpantados de veré q os feus tiros não empecião aos Portuguefes, mandarão dizer a Meliq q vilfe o q
  • 3oo Hiftoria da Índia fazia porq a artelharia não fazia mal áqles homés, & que fe chegauão ao cabo da trãqueyra, onde fe todos ajuntarão, & ferião doze mil homés de pé & de caualo, em q auia muytos Rumes & outra gente branca. E fabido por Melique aqle recado, acodio á tranqueyra deyxãdo encomédada a fortaleza a hú capitão de q confiaua. E quando os Portuguefes chegarão ao cabo da trãqueyra defpois de tantos perigos acharão como digo aqle corpo dos imigos, q era coufa de tiros de fogo que tirauão pera defender a entrada mas os Portuguefes não duuidando nhúa coufa remeterão aos imigos na ordem em q yão, tirãdo hús muytas efpingardadas, & outros co lançadas. E vendo os imigos a oufadia cõ q os cometião os menos: teuerão coração pera fe defender o que fizerão por hú quarto dora, pele¬ jando muy esforçadaméte & logo fe desbaratarão, não podédo fofrer o impeto dos Portuguefes, & fugirão deles pera a pouoação, & outros pera a fortaleza, & afli os feguirão os noffos, parte deles com Diogo da filueyra q feguio os q yão contra a pouoação, & parte cõ Martim afonfo, & Ma¬ nuel dalbuquerque os q yão pera a fortaleza: & nifto chegou Meliq, & começou de recolher os feus, & aíli como os recolhia fazia volta aos que yão com Diogo da filueyra, mas aproueytaua lhe pouco, porque como os Portuguefes yão fauorecidos com a vitoria a cada volta lhe matauão muy¬ tos: & afli os leuarão ate a pouoação, onde Melique nã fe atreuédo a fal- uar, fugio paliando húa ponte que atrauelfaua ho efteyro q diffe, & reco- lheofe cõ a gente ao pê de húa ferra Õde fe fez forte, & na entrada da tranqueyra & no alcãço dos imigos forã mortos bé quinhétos homés, & muytos deles Rumes, & ãtreles foy hú AbexI de caualo, q ãtreles era tido por esforçado caualeyro, & matou ho Ioão jufarte tição, & afli foy morto hú capitão del rey de Cambaya cõ dous filhos & hú genrro, & não foy a efta batalha a mays que a ver os Portuguefes, porque nunca os vira pelejar, & tinha deles fama que erão muyto valentes homés, & efte capitão fe achou armado de hú bõ corfolete: & aíli morrerão outros mui¬ tos capitães & homés conhecidos, & dos Portuguefes morrião ate feys, & hú deles era fidalgo, & chamaualfe Diogo de melo, & outro Bertola- meu drago, & dos outros não foube os nomes. E eíta vitoria fe ouue é tres oras, & foy dos prlcipaeis q ate aly fe ouue na índia, por fer hú feyto de muyto grande perigo, & fer a peleja cõ a melhor géte da índia, afli de pé como de caualo, & em q auia muytos Rumes, & a mays da outra gente toda brãca, afora terem tantas munições & tiros de fogo como diífe.
  • Livro VIII, Capitolo LX1I 3 o i CAPITOLO .LXII. De como os imigos defpejavão a fortaleza de Baçaí. DEsbaratados os imigos & pofto fogo á pouoaçam, tiraram os Por¬ tuguefes caminho da fortaleza, & chegando á mezquita que difTe, efperarao polo gouernador q chegou á trãqueyra quafi em tédo os Portuguefes acabado de desbaratar os imigos, que polo pouco efpaço q gaitarão em os desbaratar, não pode chegar mays cedo: & foy a preffa tamanha q correrão os Portuguefes muyto rifco de fere mortos cõ a nofTa artelharia q tirauão os do mar, q cuydando q nã tomaífem a trãqúeyra tão afinha, não fazião fe não tirar a ela polos ajudar, & tã impreífo tinhão ifto na fantezia, que os vião ãdar fobre os valos da tranqueyra, & cuy- dauão q erão os jmigos, & q os Portuguefes erão todos mortos, fe não quãdo virão luzir os capacetes, então deixarão de tirar. E chegando ho gouernador á mezquita deu muytos louuores a noflo fenhor por aqla vito¬ ria, & fez muyta honrra & gafalhado a Diogo da íilueyra & aos outros capitães louãdo feu esforço & valentia, & diiTelhes q efperaua em noflo fenor dalmoçar ali & cear dentro na fortaleza, porq o mais era feyto: & pera qbrar as portas da fortaleza mandou logo â frota por algús tiros grofios, q por derradeyro aprouue a noflo fenhor q não forão neceffarios, & acaboufe ho feyto fem perigo, porq indo polos tiros, mandou ho go¬ uernador ao fecretario q fofle efpiar a porta da fortaleza pera ver fe lhe poderião tirar cõ as bõbardas porq mãdara, & mandou yr coele fete ou oyto homés, & como os outros o virão abalar, (por fer priuado do gouer¬ nador) leuãtarãofe bem quinhétos & forão a pos ele. E vendo-os mouros q eftauão na fortaleza aquele corpo de gente emcaraua nela & a bateria q lhe dauão por mar, & vendo desbaratada a tranqueyra, & que Aleliq fora desbaratado, & não fe poderá recolher á fortaleza, cuydarão que lhe yão tomar a porta pera não poderé fayr em quãto os outros entrauão pelos muros, & cõ o medo q difto cõceberão abrirão as portas & fugirão pera ho efteyro cõ determinação de paflar da outra parte: & os Portu¬ guefes q os virão derão apos eles, mandando ho fecretario dizer o que paffaua ao gouernador, que logo feguio pera o lugar por onde os jmigos qrião fugir, & ainda nefte alcanço forão deles mortos perto de cinquoéta Rumes & homés brancos, & por não poderé paflar do efteyro fe torna¬ rão pera a fortaleza, a cuja porta ho gouernador armou algús caualeyros, & antreles forão Gil de crafto filho de Diogo borges contador de Vifeu, Baltefar lobo de foufa, Tomé de brito, Lionel de lima & outros, a fora
  • 302 Hijloria da Índia muyios q fizera na mezquita: & defpoys entrou na fortaleza dando muy- tas graças a noffo fnor pola muyta grande merce q lhe fizera, & achoufe muyta poluora defpingardada & de bõbardada & muytos pelouros & ou¬ tras muytas munições, a fora a artelharia que com a que foy tomada na tranqueyra forão quatrocétas peças, & antrelas fete groffas arrebétadas, & a terra foy cortada & deftruyda, em tato q os Portuguefes rogauão hús aos outros q deyxaífem algúas aruores pera fombra, & a rogo de hú Guzarate gentio home velho & que tinha prefença de honrrado, mãdou o gouernador que não cortaífem mais aruoredo. E porq ele não tinha gente pera foíter aqla fortaleza contra võtade del Rey de Cambaya & pola não deyxar aos mouros a mãdou derribar toda & afli o baluarte, & desfazer a tranqueyra, no q fe deteue oyto dias tendo em terra feu ar- rayal. E desfeyto tudo ifto ate os aliceces, recolheo fe a frota, & dahi mãdou a Diogo da filueyra ao eftreyto por capitão mór de húa armada de tres galeões de que forão capitães ele, Antonio de lemos, Antonio car- dofo, & húa galé real, a cujo capitão não foube ho nome, & duas galeo- tas, capitães Frãcifco de foufa, & Eernão de crafto, & quinze bargantins & catures: & porq lhe foy dito q a fortaleza de Damão eftaua defpejada, determinou de a mandar derribar, & deu ho cargo diffo a Manuel dalbu^ querq q fez capitão mór de húa armada de tres galés de q forão capitães ele, dÕ Pedro de menefes, & Manuel de vafconcelos, & doze bargantins & catures, pera que lhe deu trezentos homês, & deyxandolhe efta armada fe partio pera Chaul e dahi pera Goa õde auia de inuernar, & daqui def- pachou Martim Afonfo de melo jufarte pera yr a Bégala fauorecer Coje- xabadim, aquele mouro q ho refgatou,como diffe no Liuro Septimo. E por el rey de Bengala ho não querer deyxar tornar pera fua terra efcre- ueo a el rey de Portugal ho agrauo q lhe el rey fazia pedindolhe q ho mandaffe tirar dela, & q auendo de yr algué a iíTo foffe Martim afonfo, aquem efcreueo q lhe mandaíTe aquela carta, & que efcreueffe a el Rey os feruiços q lhe tinha feytos, & q lhe pedifle aqla yda a Bengala, por¬ que ele també pedia a el rey q ho mandaífe: & Martim afonfo ho fez afli, & el rey lhe fez merce da yda, & afli lho efcreueo, & efcreueo ao Go¬ uernador que lha deffe, & por iffo lha deu, & a tirou a Ruy vaz pereira, a quem a tinha dada. E auendo Martim afonfo dyr, deulhe ho gouerna¬ dor ho galeão fam Rafael em que foffe, de que era capitão Criftouão de melo, & deulhe cento & cincoenta Portuguefes, & partio de Cochim em Abril, leuando em fua conferua hum nauio feu, & húa nao de Baftião luys efcriuão da matricula de Cochim, & Antonio gramaxo em hú jungo
  • Livro VIII, Capitolo LXIII 3o3 CAPITOLO .LXIII. De como Manuel dalbuquerque foy derribar a fortaleza de Damão. Agente que ficou com Manuel dalbuquerque, fe embarcou de muyto má vontade por fer entrada dinuerno, & ferem os ventos contray- ros, como por eftarem enfadados de pelejar, & defejarem de vr defcãfar a Goa: & Manuel dalbuquerque os confortou & esforçou, & par- tiofe pera Damão, que he hum lugar grande, & tem húa boa fortaleza, fituada na ponta da enfeada de Cãbaya da banda do fui, por hú rio a cima pouoado de Guzarates gentios, & na fortaleza eítaua hú mouro ca¬ pitão del rey de Cambaya, cõ quatrocentos Abexins & Fartaquls, & os mais deles efpingardeyros, & eítaua a fortaleza bem artilhada, & não defpejada como fizerã crer ao gouernador. Chegado Manuel Dalbuquer¬ que húa antemenhaã á barra de Damã, affi como chegou mandou logo a hum fidalgo chamado Ioão de mendoça que foífe fondar ho rio pera ver fe poderião entrar nele as galês & ver a defpofição da fortaleza, & ele foy em hum catur, & tornou cõ recado ainda antes damanhecer, que as galés podião nadar no rio, & fegundo as congeyturas que vira, que lhe parecia que os imigos eltauão todos recolhidos na fortaleza efperando por ele. E com quanto Manuel dalbuquerque ifto foube, & vio que traria pouca gente pera cometer a fortaleza, era tam amigo de fua honrra que não quis que diífeífe algue que poderá tomar a fortaleza fe a cometera, & affi ho diífe a todos os capitães, & peífoas principaeis da frota, pedin- dolhe que a cometeflém, & que defpoys ho tempo lhe moítraria ho que podião fazer, & ifto porque todos erão dacordo que poys a fortaleza eítaua forte que a não cometeífem, porque ho Gouernador os não man¬ dara a tomala, fe não a derribala, crendo que eítaua defpejada, & pois o nã eítaua, nem eles não trazião petrechos pera a tomar, que era efcufado cometela, & polo que lhes Manuel dalbuquerque pedio, lhes pareceo bem veremna, & paífarão tanto auante com toda a frota, ainda ante menhaã, que fe pegarão com ho muro da fortaleza, de que as bombardas chouião: & vendo Manuel dalbuquerque q nã fazia ali mays que poderem lhe ma¬ tar gente, tornoufe a fayr antes que vieífe ho dia, & que lhe podeíTem os imigos fazer nojo com a artelharia, & atraueífando pera Diu a efperar algúas naos que foífem a Meca, deulhe hum tempo com que eíteue quafi perdido & arribou a hú lugar chamado Agacim que achou defpejado, & achou hy muyta madeira que mandou leuar a Goa, pera onde fe foy queymado ho lugar, & hi achou ho gouernador, que por nã fer chegado
  • 3 04 Hijloria da índia do Efteuão da gama q tinha a capitania de Malaca na vagãte de Garcia de fá, defpachou pera lá do Paulo da gama feu jrmão, q entraua na mefma capitania, na fua vagante, que de Goa fe foy a Cochim, & dahi partio pera Malaca na fim Dabril de mil & quinhentos & trinta & tres, & foy por capitão mór de dous nauios, & duas fuftas, & foy coele hum fidalgo feu tio chamado Triftão datayde, que ya por capitão da fortaleza de Maluco. E chegado dom Paulo a Malaca foy entregue da capitania por Garcia de fá, & defpoys defpachou Triftão datayde q partio pera Maluco em Agofto pera yr por Borneo, & por não poder faber que ar¬ mada leuou, o não digo. CAPITOLO .LXI1II. De como chegarão aa índia certas armadas de Portugal. NEste anno de mil & quinhentos & trinta & tres, mandou el Rey dom Ioão de Portugal fete naos á índia repartidas em duas capi¬ tanias, de tres foy capitão mór hum fidalgo chamado dom Iohão pereyra, que leuaua a capitania de Goa, & forã feus capitães hum dom Francifco de noronha que fe perdeo com tempo, & Lourenço de payua que paífou cõ dom Ioão. Da outra armada foy capitão mór outro fidalgo chamado dom Gonçalo coutinho prouido também da capitania de Goa na vagante de dom Ioão pereyra, forão feus capitães Simão da veiga, Diogo brandão do porto, & Nuno furtado de mendoça comédador da Cardiga, a que não foube ho que aconteceo na viagem, fe não a dom Ioão pereyra, que fayndo do parcel de çofala, & indo por antre húas jlhas, quis efpe- rar as naos de fua conferua, & preguntando ao piloto & ao meftre como farião, differão que amaynaífem, & Antonio galuão, hú fidalgo de que fiz mençã no liuro Septimo, que ya na nao por paffageyro, & fabia bem da nauegação, diffe, que lhe não parecia bom confelho, & que poys não que- rião fazer caminho, que deuião de payrar com ho traquete pera a nao fazer cabeça ao már, & não yr dar em terra pera onde corrião as agoas, & também como e(tauão perto do Tropico, podia fobreuir algúa toruoada que os leuafle mays afinha a terra, & parecendo ifto bem a todos affi fe fez, porem nam durou mais que até o quarto da modorra rendido, que fe dom Ioão, & Antonio galuão acolherão a fuas camaras a dormir, & ainda bem o piloto & ho meftre não fentirã que dormião, derão com as velas embayxo, porque tomarão ho confelho de Antonio galuão de mâ vontade. E feyta efta boa pilotagé, dão configo nos camarotes, & dey- tãofe a dormir muy defcanfados, & duas oras por paliar do quarto dalua
  • Livro VIII, Capito lo LXII1I 3o5 começaffe douuir o leme da nao, q ya roçado polo chão porq amaynadas as velas leuarã as agoas a nao pera terra como Antonio galuã dizia, que por yr na camara do leme acordou logo ao arroydo q ele fazia, & nifto deu a nao duas pãcadas tamanhas cõ a quilha q parecia q fe abria, & a elas acordarão os q jazião de baixo da cuberta, & começarã de gritar cuidando que a nao era perdida, & mays porque vião o meftre & o piloto defacordados, que como virão o mao recado que tinhão feyto pafmarão, & nã fabiã mais q chorar, & era a reuolta muito grãde na géte, hús bra- dauã q mataffem o meftre & o piloto, pois forão cauía de fe perder a nao, outros arremetião a arcas, & a tauoas & paos, pera fe deytarem ao már, com quanto fazia grande efcuro, & dom Ioão queria tomar o batel, & trazia húa efpada pera ho defender a quem o quifeffe tomar. E era o defacordo tamanho em todos, q fe ouuera a nao de perder fe não fora Antonio galuão, que mãdou logo dar os tranquetes, & yr marinheyros ao leme, que nã acharão por faltar fora quando a nao deu as pancadas: & Antonio galuão, ainda que vio tamanho perigo como aqle era, diffe aos marinheyros & ao piloto & meftre q fe calafle por a géte nã efmorecer: que noffo Senhor lhes daria remedio que teueffem nele confiança, & diffe a dom Ioão que tiraffe a efpada que tinha, nem lhe fentiffem que queria tomar o batel, porque cuydaria a gente que era a nao de todo perdida, & remeterião todos ao batel pera o tomaré & matarfeyão hús com os outros, que diflimulafle & fe moftraífe alegre, porque coiflò os auia nofio Senhor de faluar & não cõ defordens, ho que pareceo bem a dom Ioão, & affi ho fez, & confolou a gente que eftaua defpida pera fe lançar ao már, & Antonio galuão chegou então debayxo da bõba, & diffe a todos que esforçaffem que a bomba tinha pouca agoa, que era final que a nao não abrira, & mandou logo dar a bomba pera que vilTem q era verdade, com o que todos esforçarão. E por Antonio galuão achar com ho prumo que eftauão em dez braças, & logo em oyto, que era final que não tor- naua a terra, mandou logo alargar húa ancora, & amaynar os tranquetes que tinhã dados: & ifto feyto amanheceo, com que a géte acabou des¬ forçar de todo, & mays porque as outras duas naos chegarão & lhes fala¬ rão, & ali ouue confelho, que por quanto não eftauão de Moçambique mays q quatorze legoas, & a nao que começaua de fazer agoa q foífem fem leme, porq na detença que fizeffem em o fazer fe poderia a nao yr ao fundo, & por fer tam perto poderia a nao yr á toa do feu batel & as outras naos yrião em goarda dela, & afii ho fizerão & chegarão a Mo¬ çambique a faluamento, onde por não fe poder tomar a agoa da nao por fer na quilha, acõfelhauão a dom Ioão que a defcarregaífe nas outras naos & fe foffe nelas, & aquela ficaria ali pera a desfazerem, mas Anto- Toko IV 39
  • 3o6 Hiftoria da Índia nio galuão não foy deíle parecer, fe nã q a nao fe tiraffe a mote ou ás marés & fe cõcertaffe ho melhor que podeífe fer, & que fe foífe dom Io- hao nela á índia: & que ele yria coele & ho ajudaria de dia & de noyte com quãtos leuaua que erão muytos. E como dõ Iohão tinha bem efpre- mentado quam bom confelho era o Dãtonio galua tomou eíle: & concer¬ tada a nao foyfe nela á índia, & quãtos yão na nao vedo q Antonio galuã fe ébarcaua, fe émbarcarã també, poíto q eflauã fora dela, & bem fe pode crer, que defpoys de noíTo Senor ele faluou aqla nao duas vezes. E affi partio dom Efteuão da gama, que inuernou em Moçambique, & dom Io- hão foy ter a Goa, onde inuernaua o gouernador, que por efperar de fazer paz cÕ el rey de Calicut, fe partio logo pera lá como as naos chegarão: E chegado a Calicut com toda a armada, leuantoufe tamanho temporal de veto, que não pode fofrer a amarra mais de hú dia & caçaua muyto, pelo que o gouernador arribou a CochI, & hy fe deteue oyto ou dez dias, em efcreuer pera Portugal, & defpoys fe tornou a Calicut: E começãdo dauer recados antrele & el rey fobre as pazes, núca em dous dias fe pode tomar nenhua concrufão, porque cada hum queria húa coufa, & nifto fobreueo tam braua tormenta, que todos os noffos fe derão por perdidos, & alargando tamalaues o vento, que Manuel dalbuquerque pode dar o traquete da fua galé, acolheofe por fe não perder, & cuydando ho gouer¬ nador que ya defamarrado, & que efgarraua fez final á frota que leuaííe, & diffirindo ho traquete dauante feguio a pos ele pera lhe acodir, & def- pois de ver como ya, por o vento lhe não feruir pera tornar a Calicut, fezfe na volta de Goa, feguindo ho toda a frota, & foy aferrar ho feu porto, & por eíta caufa não ouuerão efeyto as pazes com el rey de Calicut. CAPITOLO .LXV. De como Vafco da cunha foy efpiar Diu. HO Gouernador ficou tam magoado de quam mal lhe focedeo a em- prefla de Diu, que por muytas boas venturas que lhe defpoys foce- derão não podia perder a magoa que tinha, nem cuydaua o mays do tempo fe não que maneyra teria pera fazer fortaleza em Diu, & coefte fundamento mandaua fazer tanta guerra a Cambaya, porque el Rey en¬ fadado dela lhe deffe efta fortaleza, porque teueffem paz. E parecendolhe que el rey efteueffe ja mais brando pera iffo, lhe mandou húa embaixada per Triftã degá fobre que lhe deffe fortaleza em Diu, & que fazia paz coele, & feria feu amigo, & por o mefmo Trilião degá efcreueo a algús capines del rey, & fenhores de fua corte que ho fauoreceffem, & ajudaf-
  • Livro VIII, Capitolo LXV 307 fem pera auer efta fortaleza, & lhes mandou prefentes pera que o fizef- fem de melhor vontade,*& nifto fe trabalhaua. Defpoys que el rey ouuio a embaixada, que moftrou ouuir de boa vontade, porem nam tinha ne- nhúa pera dar a fortaleza. E andando alíi efte embayxador com el rey, foubeo Melique tocão capitão de Diu, q eftaua muyto receofo de lhe el Rey tirar aquele eftado pera o dar a Rumecão, & eftando coefte receo, não fe fabe com que tenção efcreueo ao Gouernador que lhe mandaffe hú fidalgo com que podeffe falar miudamente coufas que compriã muyto a feruiço del rey de Portugal^& quando o gouernador vio efta carta, fof- peytou que Melique quereria dar fortaleza, & fazendo logo confelho fobriflo, pareceo a todos ho que o gouernador fofpeytaua, & por iffo affen- tou que fe mandaffe o fidalgo q Meliq pedia, pera q o gouernador efco- lheo a Vafco da cunha, aífi por caualeiro muito esforçado & fefudo, como por antigo na índia, & faber bem os coftumes dos mouros: & deulhe húa inftrução do que auia de fazer com Melique, que auia de fer, que ele deífe aquela cidade a el rey de Portugal: & que ho gouernador em feu nome lhe fazia por iffo doação de juro dametade da renda da alfandega dela, & mais lhe faria húa fortaleza em qualquer dos rios de Cambava que ele quifeffe, pera que efteueffe feguro del rey de Cambaya, contra quê ho fauorecia, & ajudaria de cada vez que lhe foffe neceffario, & que trabalhafte por yr á cidade & ver fe auia nela algúa entrada por onde fe podeffe tomar, porque não fe tomando concrufão com Melique, yria fobrela outra vez & a tomaria, & pera ifto mandou que foffe coele ho artilheyro mór, que fabia muyto da guerra. E afii lhe deu mais hum Iao Criftão cafado em Goa, jrmão dum bombardeyro que eftaua em Diu no baluarte do mâr, que fe lhe offreceo, pera falar coefte bombardeyro feu jrmão, & intentar fe fe poderia por algúa maneira tomar a cidade. E defpachado Vafco da cunha de tudo ho que compria a fua viagem, partiofe em húa fufta na entrada Dagofto, & chegando á barra de Diu, aruorou húa ban¬ deira branca, ho que fabido por Melique fofpeytando ho que era, pelo que tinha efcrito ao gouernador, mandou hum homé de confiãça a faber quem vinha na fufta, & Vafco da cunha lho diffe, & que trazia húa carta do gouernador a Melique tocão, poré que não auia de yr a terra fem lhe mandar por arrefens o capitã do baluarte do már que lhe logo mandou, & deyxando ho Vafco da cunha em poder Dãtonio borges (hum fidalgo que ya coele) fe foy defembarcar na cidade, & fe vio cõ Meliq nas fuas cafas onde falarão de praça hum pedaço, & defpoys fe recolheo Vafco da cunha a hum apofento das mefmas cafas onde auia de poufar, & hi foy falar coele Melique fecretamente, que como fabia falar bem ho Por¬ tuguês, não ouue neceflidade de lingoa. E defpoys de lhe Valco da cunha
  • 3o8 Hijloria da índia dar húa carta do gouernador em Perfiano, em que lhe efcreuia o que que¬ ria dele, & ho partido que lhe faria, q Melique leo: lhe difle mais, que não deuia nada a el rey de Cambaya pera por amor dele deyxar de fazer húa coufa de tanto feu proueyto como lhe o gouernador cometia: antes ainda que não fora de nenhú interelfe a ouuera de fazer por fe vingar dos danos, & agrauos que lhe el Rey de Cambaya tinha feytos, como fora matar lhe feu jrmão mays velho Melique faca, por outra nenhúa caufa fe não por lhe tomar fua fazenda, cuidando que foífe rico, & tirar- lhe a honrra do gouernador não tomar Diu, & dàla a Muftafa hum eítrã- geyro, que fora fem porque tredoro ao Turco feu fenhor, & que caufas erao eítas pera que vindo conjunção pera i(To, como agora vinha, vingar fe del rey de Cãbaya, & tirarlhe Diu, & dalo ao gouernador com partido tam proueytofo como lhe fazia, & mais com ficar em fua natureza tam feguro del rey de Cambaya: & Melique lhe refpõdeo que lhe parecia bé tudo ho que dizia, & com tudo queria cuydar nilío, & defpoys lhe refpon- deria: & Vafco da cunha lhe diffe que cuydaífe, & entre tanto yria dar húa carta do Gouernador a Diogo da íilueyra que chegara então á põta de Diu de Mafcate onde inuernara, fem fazer no efireito nhúas prefas. E a carta do Gouernador pera Diogo da íilueyra dizia, q nã fizelfe nhúa guerra a Diu, porque trazia hú embayxador com el rey de Cambaya. E defpedido dele Vafco da cunha fe tornou a Diu, que lhe Melique tocão moltrou, & ne elle ne o artilheiro mór virão entrada pera fe poder come¬ ter fe não com grande força de gente, pera fe repartir em terra & no mar, & húa atupifie a caua & bateffe os muros, & outra pelejaffe com a armada dos mouros que eílaua no már. Tambe nefte tempo ho Iao de Goa efteue com o bombardeyro feu jrmão no baluarte do már, pera ho que difle, mas não ouue maneyra pera nada, nem Melique fe acabou de determinar, fe aceytaua ou não o que lhe o gouernador cometia: & ref¬ põdeo a Vafco da cunha q naqle verã yria o gouernador darmada até Diu, que até étão fe determinaria, & lhe daria auifo de fua determinaçã, & deulhe húa carta de crença pera ho gouernador, & coela fe foy Valco da cunha pera Goa, onde contou ao gouernador ho que fizera, & Diogo da íilueyra fe foy pera Chaul.
  • Livro VIII, Capitolo LXV1 3og CAPITOLO .LXVI. Do que fe\ dom Paulo da gama defpoys de fer capitão de Malaca. DEspoys que dom Paulo da gama foy entregue da capitania de Ma¬ laca, determinou de fazer guerra a el rey Dugentana, filho do Rey a que Afohfo dalbuquerque tomou Malaca, que delpoys de perder Bintao, fez feu aflento em húa cidade, chamada Vgentana, cincoenta legoas de Malaca por hú rio acima, & era muyto poderofo de gente, afli por már como por terra: & efte defpoys que foy Rey, affentou pazes com Pero mazcarenhas fendo capitão de Malaca, poré nunca defpoys comprio as condições das pazes. E porque dom Paulo ifto fabia, determinou de lhe fazer guerra, & yr fobre ele & tomarlhe a cidade, & ifto com confe- lho de todos os fidalgos que eftauão cÕ ele: & eftando quafi preftes a ar¬ mada que dom Paulo auia de leuar, chegou á jlha das Naos húa armada de vinte fete lãcharas bem fornida de gente & dartelharia, & era del Rey Dugentana, & ya por feu capitão mór hú valente mouro chamado Tuão barcalar, q mãdou dizer a do Paulo, que el Rey Dugentana feu fenhor ho mandaua em focorro del rey de Péra feu jrmão, & lhe mandara que de caminho mandaffe faber dele fe mandaua que ho feruiffe em algúa coufa & que ho fizeífe, ao que dom Paulo refpondeo com muytos agarde- cimentos, dizendo não ter neceííidade de lua ajuda, & o capitão fe foy. E examinada bem efta fua vinda, & offrecimentos delneceflarios, aflen- toufe que fua vinda não fora por outra coufa, fe não que fabendo el Rey Dugentana a armada que fe fazia preftes, pera yrem fobrele, mãdara efta armada cÕ aqla diflimulaçã, pera q ficafte nas coftas da noíTa, q como auia de leuar toda a prlcipal gete da fortaleza, & auia de ficar pouca pera deféder poderiã os imigos defébarcar a feu faluo, & ao menos quey- mar a pouoaçã dos Quelins, & por ifto fe alfetar por todos fer afli, fe acordou por eles q a yda fobre Vgentana era efcufada, & que ficafte pera outro tempo. E porque dom Paulo fegurafte el rey Dugétana, & lhe fizeífe perder algúa fofpeyta fe a teuefie, mandoulhe por ébaixador a hú Fernã vieyra que confirmafle as pazes que eftauão alfetadas: & defpoys que foy em Vgentana el rey ho prendeo & a quantos yão coele, & mandou os matar cõ diuerfos generos de mortes, dizendo que ho fazia, porque fabia que os noftos erão feus imigos, & mays por vingar a morte de Sanaya que Garcia de fá mãdara matar, como difle, & dali por diante fe come¬ çou guerra antre os noftos & el rey Dugentana, q mandaua fuas armadas correr a Malaca, & pelejauão com a noflã armada, & afli durou a guerra
  • Hiftoria da Índia 3 io ate que foy dom Efteuão da gama (como direy a diante). E com quanto dom Paulo não tinha mays de duzentos homés, era tão esforçado & de tão bõ faber na guerra, que ordenou fempre tam bem fuas coufas, que fempre leuou ho melhor dos imigos: & fobrifto era tam liberal, que gaf- taua ho feu muy largamente, dando muyto grande mefa aos foldados. E durando affi ifto, por auer quinze annos q el rey de Pão, & el rey de Pa- tane, eftauão de guerra com a fortaleza de Malaca, q era grande defer- uiço del rey de Portugal, determinou dom Paulo de fazer pazes coeles, que fez, indo por embayxador hum Manuel godinho, que as affentou muyto á vontade de dom Paulo, & como compria a feruiço del Rey de Portugal, que foy grande proueyto de fua fazenda, & da de feus vaífal- los: E eftas pazes forão caufa de tornaré a tratar na China, de que fe defpoys defcobrirão pelos nolfos, mais de cincoenta pórtos melhores que os de Cantã, como a diãte direy. CAPITOLO .LXVII. Da treyção que el rey de Bengala ordenou contra Marlim afonfo de melo jufarte. MArtim afonfo de melo jufarte que partio de Cochim pera Bengala com cinco velas, foy furgir na barra da cidade de Chetigão, & cÕ licéça do Goazil da cidade (que he como gouernador) fayo em terra com os Portuguefes de fua companhia: & porque ali fe paga na alfandega de tres hum, que he muy grande dereyto, recearã os Por¬ tuguefes de o pagar & por iffo efconderã muyta da fazenda q leuauã, fem a leuaré â alfandega, o q foy peor porq o Goazil o foube, & deu na cafa em que eftaua, & a tomou por perdida pera el rey de Bengala. E nefte tempo mandou Martim afonfo hum Duarte dazeuedo, que agora mora em Euora, com húa embaixada a el rey de Bengala fobre paz, & amizade com el Rey de Portugal, & deyxar yr pera fua terra a Cojexabadim, & mandoulhe de prefente dous caualos arabios, & húa faca de Cambaya & algús caixões dagoas rofadas, que Antonio de faldanha tomou na nao çafeturca, & muytas peças de veludos velutados & demafcos, & ifto da parte do gouernador da índia, & da fua muyta fazenda outra & das par¬ tes, porque coftuma el rey de Bengala de mandar aualiar ho que lhe dão os eftrangeyros & pagarlho, & ifto por auer todas as boas peças q leuão, & por iffo todos os mercadores & outras peífoas eftrangeyras q vão a ele, lhe fazem muyto grãdes prefentes, em que tem o ganho muyto certo, & mais forrão os dereitos q ouuerão de pagar, poré nê todos lhe podé man-
  • Livro VIII, Capitolo LXVII 3i r dar prefentes, por a cidade do Gouro, em que refide, eftar cê legoas dos portos de mar pelo Gãges a cima, & fer a yda lá muy cuftofa. E defpa- chado Duarte dazeuedo, partio fe pera ho Gouro, & forão coele hú Ioão de vilhalobos Deftremoz, Nuno fernandez freire, Iurdão de moraeis, Diogo cabaço, Diogo ferraz, Lopo cardofo, & outros que fazião numero de dez. E nauegãdo polo rio acima, chegou á cidade do Gouro, (cujo íitio & no¬ breza diffe no Liuro Quarto). E chegado lá, achou q era morto Nança- rotexá rey de Bengala, q o matarão os feus capados, de que ficara hú filho que por fer menino gouernaua o reyno hú feu tio jrmão del rey, q auia nome Mahmudxá, & efte moraua nas cafas del rey, q erão do tama¬ nho Deuora, hú funtuofo & nobre edifício, lauradas todas as cafas de lauores douro, & o chão & as paredes cubertas dazulejos, & no meo deftes paços eftâ hú pateo, q ocupa tãto efpaço como o refio de Lisboa, a q entrão por doze portas, & todas em voltas, & em cada húa eftão quatro porteiros, & no cabo deite pateo eftá hum alpendere, aque eles chamão Bailéu, em q el Rey de Bengala ouue os embaixadores, & então efta ho pateo cheo de géte darmas. Té tãbé eítes paços muitos jardins & cafas de prazer, q alé de ricos fam muvto deleitofos. Sabendo Duarte dazeuedo, como Mahmudxá gouernaua o reyno, deulhe a ébayxada q leuaua a el rey, & afíi ho prefente da parte de Martim afonfo, & ele lhe diffe q o defpacharia, & tres dias defpois dilto matou Mahmudxá el rey leu fobrinho, & fezfe rey de Bégala, eftãdo alTentado tres dias & tres noy- tes na cadeira real, porque doutra maneyra não podia fer rey. E como ele tinha muitos de fua parte pode fazer ifto: & ficãdo por rey de Bégala, tornoulhe a falar Duarte dazeuedo, relatãdolhe outra vez fua embayxada, & afli lhe deu o prefente que leuaua a el rey da parte do gouernador. Com que el rey folgou muvto, & prometeolhe de o defpachar muyto cedo: E por não yr de cada vez tãta gente ao paço, diflelhe que nã fofTe daly por diãte mais que Nuno fernãdez freire, q fabia a lingoa, & a que conhecia da outra vez que efteuera em Bégala, & afli fe fez: & nefte tempo que efperauão ho defpacho, tomarão Nuno fernandez & os outros Portuguefes grãde cõuerfação & amizade com hum mouro Valéciano que moraua na cidade que també a tomou coeles por feré Efpanhoes, & fol- gaua de falar coeles nas coufas Defpanha, principalméte de Valença donde era natural, & efte era homé principal na cidade, & tinha grãde credito cõ el rey: & a mefma amizade, tomarã com hum Iogue, chamado Xeq pir, q dezia fer de trezétos ãnos, q fazia grãde auftinécia & fanta vida le nã fora Mouro, & por iífo el rey & todos crião muito nele, & lhe fazião efmolas. E quando Duarte dazeuedo deu a el rey o prefente da parte do gouernador, em que (como diffe) entrauão algús caixões dagoas roladas
  • 3l2 Hiftoria da Lídia q forão tomados na nao çafeturca, q ainda leuauão a marca dos mouros de cujos forão, que logo forão conhecidos por hú Rume, cuja fora a fufta que tomara Damião bernaldez, que moraua no Gouro, & como ele eftaua muyto magoado da fufta q lhe tomarão, & dos cõpanheiros que forão mòrtos & catiuos na peleja, acrecétoufelhe a magoa com ver os caixões que fabia como forã tomados: & defejando de fe vingar, trabalhou por fazer matar Martim afonfo com quãtos Portuguefes eftauã em Chetigão, & quãtos eftauão no Gouro, & pera fazer com el rey q o fizeífe, peytou a hCi capado que auia nome Agehabedelá grãde priuado del rey, a q diffe que não deuia de confentir que os Portuguefes foffem a Bengala, porq tinha fabido que eram ladrões, que roubauã os romeyros q yão a Meca, de cujas forão as mais das peças q lhe derão de prefente, & que yão efpiar as terras cõ moftra de trato & amizade, & deípois as cõquiftauão, como fizerão em muytos lugares da índia: O que fabendo el Rey de Ca- licut, & defpois el rey da China, os nã quiferão confentir em fuas terras, & os matarão & tomarão quãto leuauão, pelo qua nunca lá mays torna¬ rão, & afli deuia ele de fazer, & aueria cem mil cruzados q leuauão de mercadoria. E como el rey de feu natural era tirano, pareceolhe ifto bé, & mãdou logo recado ao Goazil de Chetigão que prédeffe Martim afonfo & os Portuguefes q eftauão coele, & lhe tomaífe as fazendas & lhos mã- dafle: E porque fe ifto não defcobriffe per alguém, & foffe auifo a Cheti¬ gão, mandou poer goardas afli no rio como em terra, q não deyxaffem paffar ninguém pera Chetigão fe não quem leuaffe fua licença, porem ifto não fe pode fazer com tãto fegredo, q hú Gentio chamado Darinda ho não foubefle, & efte ho defcobrio a Nuno fernãdez, por hú certo preço q lhe pedio por ilfo prometendolhe de trabalhar por faber quãto paffaffe nefte negocio. E como Nuno fernandez foy fabedor defta treyção, efcre- ueo logo a Martim afonfo, a que não pode yr ho recado por amor das goardas que não deixarão paffar ho portador, & quando Nuno fernandez ifto foube, diffe ho a Duarte dazeuedo & aos outros, que tambê efpera- rão que lhes fizeífe el rey o mefmo q mandaua fazer a Martim afonfo, & encomédarãofe a Deos, porq nã tinhão nhú remedio pera efcapare, & Nuno fernãdez ya falar muytas vezes com o Iogue, & dizialhe o que paf- faua, & encomendaualhe que falaffe a el rey por eles.
  • Livro VIII, Capitolo LXVIII 3i3 CAPITOLO .LXVIII. De como Martim afonfo de melo jufarte foy prefo em Bengala. CHegado ho recado del rey de Bengala ao Goazil de Cheiigão, de¬ terminou de prender Martim afonfo, q andaua coele em reqri- mento que tornaífe a fazéda q tinha tomada aos Portuguefes: & determinando de ho prender, lhe mandou dizer q lhe fofle falar, & con¬ certaria ambos como lhe auia de tornar a fazenda. E Martim afonfo leuou configo céto & cincoenta homes os mais deles com efpingardas, & vendo ho Goazil quã bé acopanhado ya, não oufou de cometer o que tinha de¬ terminado, & fingindo grandes ocupações diffimulou com Martim afonfo, pedindolhe que ficaffe pera ho outro dia, & mais que por lhe fazer grande honrra auia dir gétar coele com todos os Portuguefes principaeis, pera que ele fe podefle gabar de tamanha honrra como aquela. E Martim afonfo como era bom homé, & fem nhú dobrez, pareceolhe q ho Goazil lhe falaua verdade, & por lhe comprazer por amor do requerimento q trazia coele aceitou ho gentar, fem lhe lébrar que não conuinha a feu cargo aceytalo, & que lhe poderião fazer treyção, & pois ya, yr aperce- bido como o dia dãtes. E fiandofe no Goazil, foy com quarenta homés fem leuaré todos mays armas que fuas efpadas, & outros ficarã na pou- fada com hum Francifco pacheco, & Ioão jufarte tiçã Dazinhaga que ya também na armada não quis yr, por ter cõcertado de yr a monte a ma¬ tar hum porco. E Marti afonfo foy coefta companhia que digo a cafa do Goazil que tinha preíles grande bãquete, que foy dado em hum pateo de baixo de hum alpendere, & eftando no meyo do comer, ho Goazil fe leuantou fupitamente, fingindo q lhe vinha hum accidéte ao eftamago, & diífe a Martim afonfo, & a Gonçalo gomez dazeuedo que eftauão junto coele, que não fe boliffem que logo tornaua, & eles muyto inocentes ho crerão, & deyxarãfe eílar, q fe logo fe leuantarão não fora o que foy: & efperando eles polo Goazil, acode bé quatro mil frecheiros por cima das paredes do pateo, & com grandes gritas começão de defparar fuas fre¬ chas em Martim afonfo & nos outros, que conhecerão emtam ho mao recado que tinhão feyto em fe fiarem dos mouros, & não tendo outro re- medio, acodirão logo á porta do pateo pera fe fayrem & acharãona fe¬ chada, & por mais força que poferão nunca poderã leuar as portas fora do couce, & entre tanto os mouros não fazião fe não frechar neles, & forão logo cubertos de frechas Criftouão de melo, Gonçalo gomez daze¬ uedo, Antonio de mezquita, Antonio gramaxo & outros feys que cayrão Tomo IV 4«
  • Hijloria da índia 3:4 mórtos, & Martim afonfo também ouue fete frechadas mas não forão em lugares perigofos, & era grande magoa ver a ele, & aos outros que não fe podião defender dos mouros nem offendelos, & faltauão dum cabo pera ho outro por fe goardarem das frechadas, & arremetião á porta perfiando pola leuar fora do couce: & niftb apareceo o Goazil fobre a parede, & fazendo eftar quedos os Mouros, diffe a Martim afonfo que bé via como eftaua, que não quifelfe morrer & que fe entregafle, porque não era pera mays que pera os leuaré a el rey de Bengala que defejaua de os ver & que lhe daua efpaço pera auer confelho com os feus, com que Martim afonfo fe apartando lhes diffe, que não fe enganaflem cõ o que lhes dizia ho Goazil, porq fe afli fora ja que os tinha em feu poder & eftaua feguro de não fe poderé defender antes de lhes mandar fazer mal, lhes ouuera de cometer q fe defle, mas como determinaua de os matar ou prender, não fez coeles nhú compriméto, que lhe parecia que não fe deuião de dar, porque os outros Portuguefes lhes acodiriã & os liurarião, & todos forão contra efte parecer, dizédo q fe os mouros os quiferão matar, q lhes na cometera o Goazil q fe deflem, porq não lhe mõtaua mays matalos ás frechadas que mandarlhes cortar as cabeças, & fe os prendeífe que aflaz de merce lhes fazia, porq ou por refgate ou por outra maneira teriã efpe- rança de feré foltos por iflò que fe deflem: & não efperaflem por focorro, porque fe os outros Portuguefes lho ouuerão de dar ja ali forão: & eles dizia verdade, porq Frãcifco pacheco q ficaua na poufada por mayoral, como ouuio q Martim afofo eftaua cercado dos mouros, em vez de lhe acodir fugio pera os nauios, & afli fizerão os outros, deyxãdo quanto tinhão em terra, & tudo lhes tomarão os mouros, & fe teuerão acordo também os matarão: & Ioão jufarte tiçã também fe faluou milagrofa- mente, que no monte foube ho que paflaua na cidade. E vedo Martim afofo q os que eftauã coele erão de parecer que fe deflem, confentio niflo muyto contra fua vontade, & entregarãofe, jurãdolhes o Goazil em hum Moçafo, que os não prendião fe não pera os leuarem a el rey de Ben¬ gala porq defejaua de os ver: & como forã prefos ho Goazil os mandou leuar por terra ao rio Ganges, & por ele acima ao Gouro.
  • Livro VIII, Capitolo LXIX 3i5 CAPITOLO .LXIX. Do perigo em que os Portuguefes cjleuerã de ferem mortos. EM quanto fe ifto fazia, Nuno fernãdez freyre, que com Duarte daze¬ uedo, & os outros Portuguefes eftaua no Gouro, trabalhaua por faber de Darinda, ho gentio que diffe, que nouas tinha de Martim afonfo & dos outros, & mãdaua lho preguntar pelo lingoa. E hum dia pola menhaã lhe refpondeo, que Martim afonfo & os outros erão prefos & que os leuauão ao Gouro, & Nuno fernandez ho diiTe logo a Duarte dazeuedo, & que lhe parecia que os auião logo de prender por iíTo, que determinaíTem ho que leria bem que fizeílem, & Duarte dazeuedo, & Ioão de vilhalobos, Diogo cabaço, Diogo ferraz & outros quatro forão de pa¬ recer que fe entregaífem logo, & Nuno fernandez, Iurdão de morais, & Lopo cardofo, differão que não fe auião dentregar, porque poys os auião de matar querião primeyro vender bem fuas vidas. E eftando nefta pra¬ tica ex que dá de fupito fobre as cafas hum capitão del rev de Bengala com quatrocentos foldados pera os prender, & começando de quererem entrar a cafa, entregarãofe logo Duarte dazeuedo & os outros que erão do feu parecer, & em eítes fayndo arremete Nuno fernandez freyre, Lopo cardofo & Iurdão de moraeis á porta, & defendiãona tam esfor- çadamete, que os imigos a não podião entrar: & como daqui recrecefe grande aluoroço, acodio ho Lafcar, que he como ho regedor da juftiça em Portugal: & vendo a Nuno fernandez com que tinha conhecimento diffelhe que pera que era cometerem ho que não auião de poder leuar auãte, que fe deffe, porque el rey os não mãdaua prender fe não por algúa má enformação que tinha deles, que fabida a verdade os foltaria logo, & ajudou o a iífo Duarte dazeuedo, & os outros: & vendo eles que não fe podião defender derãofe, & forão prefos com outros de dous em dous a húa braga, & ho Lafcar lhes mandou efcreuer as faze- das & focreftalas, & reboluendo húa arca que não auia mays que efcre¬ uer, foy achado no fundo dela hú Crucifixo de vulto, que hú mouro amoftrou dizendo que aquele era ho Deos dos Criítãos como por efcar- neo, o que magoou tanto os Portuguefes que chorarã: & Nuno fernandez lhes diffe, que poys aquele Crucifixo fe achara a tal tempo, que o deuião de tomar por final de feu liuraméto que efperaffem em noflo fenhor que auiã defcapar. E prefos aífi de dous em dous forão leuados á cadea da cidade em que aueria bem quinhétos prefos, & logo Agehabedalá diffe a el Rey, que pera que erão prefos aqueles ladroes q os mandaffe matar,
  • 3i6 Hijloria da índia & mandando el rey que os mataffem quis noífo fenhor q pareceffe aquilo mal a hum mouro chamado Alfacão que era ayo dos moços fidalgos dei rey, & diífelhe q nã deuia de mandar matar aqles homés, porq eftariã antreles algús mercadores que não terião culpa, & Agehabedelá a que pefou muyto douuir aqla palaura, diffe que não era bem que fe deffe a vida a ladrões, & pera os matarem a todos lhes diffeffem que os que fou- beilem tirar com efplgarda q os auião de goardar pera a guerra, & aos que foílem mercadores que os auião de matar, & todos dirião que fabiã tirar com efpingardas, & logo efte recado foy dado ao Lafcar, que logo fe foy á cadea, & ho primeyro a que preguntou fe era Lafcarl foy a Nuno fernandez freyre, dizendolhe a caufa porque lho pregútaua, & parece que noíTo fenhor infpirou nele que fofpeytaffe ho fim pera que lhe fazião aquela pregunta, diffe que era mercador, & que bem ho deuião de conhe¬ cer por tal, pois com aquela erão duas vezes q ali fora, & ho Lafcar parecendolhe q negaua a verdade, por comprazer a Agehabedelá que afli lho encomendara, quis fazer medo a Nuno fernandez pera dizer que era Lafcarim, mandouho tirar da cadea & fizerão que lhe querião cortar a cabeça pocdolhe húa efpada no pefcoço, & dizialhe ho Lafcar, que fe que¬ ria viuer q diffeffe a verdade, mas nem por iffo fe difdiflé, & ho mefmo aconteceo a lurdã de moraeis & a Diogo cabaço, & os outros com medo da morte dizião que erã Lafcarins, & que fabião fundir artelharia, & como ho Lafcar vio que hús dizião húa coufa & outros outra, não quis fazer nada ate não dar conta a el rey, & efcreuendo os nomes de Nuno fernandez, Diogo cabaço, & lurdã de moraeis pera os moftrar a el Rey, foy lhe dar rezão do que paffaua, & acertou de não eftar coele mais q Alfacã, q diffe a el rey defpoys de lhe ho Lafcar fazer relação do que paffaua, que poys não ganhaua nada em mandar matar aqles homés que lhes deffe a vida, porque poderia vir tempo em que folgaffe de os ter viuos: & quando defpoys os quifeffe matar que hy os teria, & el rey foy cõtente, & affi efcaparão os Portuguefes, a que Alfacão mandou dizer ho que differa a el rey, & poys efcaparão daqla ora q efperaffem em Deos que os faluaria & q lhe rogaffem por eles & por ele, & q foubeflém que auião de ter nele hum bom padrinho. E defpoys difto chegou Martim afonfo de melo & os que forão prefos coele, & forão metidos em húa cadea que eftaua metida dentro nos paços del Rey que era como cadea da corte, & eftes andauão prefos cada hum fobre fy, & as mãos foltas, & Nuno fernandez & os outros a fora eftare prefos de dous em dous, andauã cõ as mãos dereytas prefas ao pefcoço, & hús, & outros nã tinhã pera comer cada dia mays que hum Pone, que pola moeda Portuguefa fam tres reys, que coprauão darroz que cozião em agoa, & iffo lhes fof-
  • Livro VIII, Capitolo LXX 317 tinha a vida pera não morreré com fome. E com tudo Nuno fernandez & feus companheyros paffauão melhor acerca de comer, porque lhes fazião muitas efmolas algús fidalgos que eftauã prefos, & afli ho Iogue, & ho mouro Valenciano que difle, & Alfacã, & de tudo partião com Mar- tim afonfo & com os outros, & do mays paffauao todos muy trabalhofa, & trifte vida, efperando cada dia que os tiraffem a degolar, como fazião a outros muytos, que não auia dia que ho não fizeffem. E até as onze horas eftauão fempre fem comer, que não podião com os fobre faltos que tinhão até aquelas oras fe os matarião: & com ho rol comer & fedor da cadea, & com não vellirem quorenta dias camifas adoecião deles. E ouue noíTo Senor por feu feruiço, q paffados eftes quarenta dias, el rey por confelho de Alfacão quis ver o fato que fora tomado a Nuno fernandez, & aos outros & mãdoulhes dar muytas camifas, ceroulas, & gibões, que eftauão antrele: & afli mandou dali por diante dar a cada hum cada dia húa tanga pera fua mantença, & coefte fauor lhes refpoufarã os corações, & perderão ho medo que dantes tinhão: & afli viuerão até a moução feguinte, em q o gouernador mandou recado a el Rey de Bengala fobre refgatar Martim afonfo (como direy a diante). CAPITOLO .LXX. De como os Caftelhanos que eftauão em Geilolo fe farão pera Triftão datayde. CHegado Triftão datayde a Malaca com dom Paulo da gama feu fobrinho, partiofe pera Maluco quafi na fim Dagofto, porque auia dyr por Borneo. E porque nã pude faber certo o q lhe acõteceo no caminho, nem q armada leuou, o não digo, fe não que chegou á jlha de Ternate em Outobro de mil & quinhentos, & trinta & tres: & defem- barcado foy bem recebido del rey Tabarija, & de Vicente dafonfeca, que folgou muito cÕ fua vinda, pelo aperto em que eftaua cÕ a guerra dos Geylolos, & entregoulhe a fortaleza, moftrandolhe Triftão datayde pri- meyro as prouifões que tinha pera entrar naquela capitania. E como nefte anno não era çafra de crauo nem ho auia, & todos os Portuguefes teuef- fem fuas fazendas pera empregarem no anno feguinte, pelo que defejauão de ficar na fortaleza, todos fe fizerão muyto amigos de Triftão datayde pera os deyxar ficar, & algús lhe defcobrirão que Vicente dafonfeca em ele vindo á vela, apanhara quanto auia na feytoria pera fe pagar, & a feus amigos, do que lhes era diuido de feus ordenados & foldos, pelo que Triftão datayde ho mandou prender, & bufcarlhe a cafa, & lhe man-
  • 3i8 Hi/ioria da Índia dou tomar quanta fazenda fe achou que leuaua da feytoria: & mãdou logo tirar deuaífa dele fobre a morte de Gonçalo pereyra, & fobre tomar ho reyno, a el Rey Cachil dayalo, & dalo a Cachil tabarija. E fobre ou¬ tros males que tinha feytos. E como quafi nenhús Portuguefes fe quifef- fem aqle anno yr da fortaleza por amor do crauo que não tinha, ninguém acodia por Vicente dafonfeca, & por ifTo Triftão datayde não teue os tra¬ balhos que teuerão os capitães paliados, nem ouue as defordens & aluo- roços que auia dantes. E paliados algús dias, el Rey de Tidore & el rey de Bachão & outros fenhores mandarão vifitar Triftão datayde, & ele lhes mandou a todos prefentes: & vendo que el Rey de Geylolo ho não mandaua vifitar, teue por certo que eftaua de guerra, & por iffo ouue feguro dele pera mandar Antonio de teiue que mandou com Pero de monte mayor, que fora por embaixador de Fernão dela torre ao gouer- nador da índia, fobre lhe dar licença pera fe ir â índia, & dahi embar- caçã pera Portugal, & ho gouernador lha mandaua, & carta pera Triftão datayde & pera dom Paulo, que de Maluco & de Malaca lhe delfem em¬ barcação pera a índia, & a yda Dantoftio deteiue com Pero de mote mayor foy pera aífentar com Fernã dela torre, a maneyra de como fe auia de yr de Geylolo pera a fortaleza, porq por amor da guerra temia que el rey de Geylolo os não deyxalfe yr, antes fabédo que fe querião yr os prenderia, & ifto receaua também Fernão dela torre, & por ifto nã quis que el rey de Geylolo ho foubeífe, & tãbem pera fe yrem fem fua licença não podia leuar fua art-elharia, nem as armas que tinhão, de que a mayor parte tinhão empenhadas a el rey de Geilolo por lhes dar que comelfem, & pera auerem tudo, aíletou que lhe mandaífe Triftão datayde dizer pubricamente, que ho Emperador & el rey de Portugal eftauão con¬ certados na deferença que tinhão fobre a coquifta das jlhas de Maluco, & por iífo ho Emperador lhe mandaua que com todos os Caftelhanos que eftauão coele fe foliem pera Portugal pera dahi fe yrem a Caftela, pelo que el rey de Portugal por rogo do Emperador lhes mandaua dar embarcação em que fe foliem, & ho gouernador da índia afli lho man¬ daua dizer, & que eftaua preftes pera lha dar que fe folie logo pera a índia, & quando não quifeliem yr por fua vontade, que Triftão datayde lhos mandaífe por força, & que ele fe moftraria muyto queyxofo a el rey de Geylolo defte recado, dizendo que nã fe auia dyr pera os Portuguefes, & que antes fe deyxaria morrer, & que ele fe defenderia que ho não tomalfem por força, & fe el rey coeftes biocos lhe não delfe licéça pera fe yr com quanto tinha, & lhe diífeífe que o ajudaria a defender, que en¬ tão folie Triftão datayde com a maior armada que podelfe ao porto da cidade de Geylolo, & delfe a entender que queria defembarcar de dia,
  • Livro VIII, Capitolo LXX 3rg pera os Mouros acodirem ali todos: com cujo medo faria que não defem- barcaua, & como foffe bõ noyte, deyxaffe ali algús bateis com artelharia & géte que tiraffem, pera que os mouros cuydaffem que queria defem- barcar ante menhaã, & yrfe ya com ho rofto da armada defembarcar dali mea legoa hú lugar que fe chama Balobalo, dõde yria por terra a Gey- lolo, onde os mouros lhes fayriã & eles yrião na diãteira, & fe lhes étre- gariã logo, ho que vedo os mouros auiam de fugir, & eles ficarião na cidade, & poderião leuar lua artelharia, & outras armas & ho mais que tinhão, & parecédo efle ardil bem a Triftão dataide mãdou o recado que digo a Fernao dela torre q moftrãdofe dele muyto agrauado, ho relatou a el rey de Geylolo, dizédo o q diíTe q auia de dizer, & el rey & os do feu cõfelho lhe refpoderão q não fe agaftaffe que eles ho ajudaria a de¬ fender, que mãdaíTe dizer a Triftão datayde que nã fe auia dyr parele & fabendo ele ho que auia de fazer, pedio ajuda a el rey Tabarija pera yr tomar os caílelhanos a Geylolo dizédolhe a caufa porque, & ho mefmo mandou dizer a el rey de Tidore, & a el rey de Bachã, & a muytos Samgages, a que també mãdou pedir ajuda, que todos forã em peffoa com a mays gente que poderão ajuntar, & de Ternate partio Triftão da¬ tayde acompanhado deftes reys & fenhores, & cÕ húa grãde frota & po- derofa de gente & fortalecida dartelharia chegou ao ponto da cidade de Geylolo, que pòs nos mouros grande efpãto mas os Caílelhanos lho tira¬ rão, & esforçando os acodirã todos ao porto pera refiftirem a Triftão datayde, que deu conta aos reys & capitães do ardil que leuaua pera vencer os imigos, não falando nada nos Caílelhanos, & vfando logo dele fazendo que queria defembarcar, & tendofe como que ho fazia com medo, esforçarãofe os mouros muyto, parecendolhes que era afli, & dando gran¬ des gritas tirauã muytas frechadas, & nilto efteuerã ate' a noyte, que con¬ tinuando Triftão datayde feu ardil deyxando no porto algúa gente em bateis fe foy ao porto do lugar de Balobalo, & quafi á mea noyte defem- barcou muyto pacificamente por não fer fentido dos mouros que eftauão defcuydados, fe não quando fentirão que os entrauão, & querendo refiftir a ilfo pelejará hum pouco, mas forã logo desbaratados: & entrado o lugar per Triftão datayde mandou o queymar, & queymado abalou pera a cidade de Geylolo, & el rey q foube fua yda pelos mouros que fugirão de Balobalo, mandou a Cachil Catabruno, que ho fayífe a receber, que fayo com muyta gente, & diante Fernão dela torre com os outros Cafte- lhanos, & menhaã clara chegarão a hum efcampado onde então chegaua Triftão datayde, pera quê fe forão logo dando grandes gritas de prazer por fe verem em liberdade que ate ly tinhãofe por catiuos, pois não po- dião al fazer fe não eftar em poder dos mouros.
  • 320 Hijloria da índia CAPITOLO .LXXI. De como Trijlão datayde queymou a cidade de Geylolo, & como Cackil catabruno fe fe\ Rey. DE tão fupita mudança como efta, não fomente ficou Cachil cata¬ bruno muyto elpantado, mas com tamanho medo que logo fe re- recolheo pera a cidade, donde nã fe atreuendo a defender botou leuando el rey & tudo ho mais que pode & ho melmo fizerão os mora¬ dores, & fugirão todos pera o mato, de modo que quando Triftão da¬ tayde chegou achou tudo defpejado, & defpois de fer a cidade faqueada diffo q lhe acharão, a mandou toda queymar faluo a mezquita, por lhe os reys rogaré q não foífe queimada, mas de noyte, mãdou Triítão da- taide a algús Portuguefes que defTem rebates falfos na gente dos reys, dando a entender que erã Geylolos, & q nefta reuolta pofeffé fecreta- méte fogo á mezquita, & alfi foy tãbé queymada, & acabou de arder menhaã clara: & como não auia mais que fazer tornoufe Triítão datayde com os reys pera a fortaleza, deyxando no porto de Geylolo Diogo far- dinha capitão mór do már de Maluco, & Antonio de teyue cõ húa armada em que ficarã feffenta Portuguefes & muytos Ternates, pera que tolhef- fem aos Geylolos que não tornaífem á cidade nem foffem pefcar, por ho pefcado fer ho principal mantimento que tem. E ele ydo, Cachil cata¬ bruno com acordo de todo ho confelho del rey de Geylolo, cometeo pa¬ zes a Diogo fardinha, & a Antonio de teyue, que mandarão fobriffo recado a Triftão datayde, & por feu confentimento foy Cachil catabruno coeles á fortaleza, & aífentou pazes com Triftã datayde. E como auia dias que ele determinaua de fe fazer rey de Geylolo, & ho tinha adi concertado com Cachil daroes, não ho fez por não ver mais ho tempo defpofto pera iffo, vendo ho então, determinou de executar feu defejo: E quãdo foy de Ternate, deu peçonha determinada a el Rey, que morreo dahi a algús dias, & por ele fer moço, nem fer cafado, né ter filhos, fe fez rey de Gey¬ lolo. E porque fez ifto quando foy de Ternate, crerão todos que fora aquilo por confentimento de Triftão datayde, & também por ele ho dizer pubricamente, & que dera por iffo muyto grandes peytas a Triftão da¬ tayde, em que entrarão hús payoés douro e crauo & outras coufas. Tam¬ bém defpoys difto, Triftão datayde contra vontade del rey de Ternate & de Pateçarangue, & dos de feu confelho, leuantou ho degredo ao çama- rao, que fora criado de Cachil daroes, & que gouernando ele o reyno de Ternate fora almirãte do már, & dom Iorge ho degradou quando man-
  • Livro VIII, Capitolo LXX1I 321 dou degolar Cachil daroes polo achar culpado, & pefaua a el Rey Taba- rija & aos de feu confelho, de Triftão datayde leuantar ho degredo ao çamarao por ele fer mao homé, & temerem q lhes fizeífe algú mal, como fez, & Triítão datayde tomou logo coele grade credito, & ele trabalhaua muyto por lhe fazer a vontade, & daualhe muytos ardis pera acrecentar fua fazenda, que era ho que ele defejaua, & pera a fazer melhor & ajun¬ tar muyto crauo, determinou de fazer yr de Maluco quãtos mercadores eftauão naquelas jlhas, alli Portuguefes como eftrangeyros, a que mãdou fob certa pena per hum Pregão que mandou deytar que pera tal dia fe embarcaffem, ho que fazia grande efpanto, porque ate então nunca fe acontecera deytarem por força os Portuguefes fora daqlas jlhas antes eles fugião, & então erã tão maos de yr q Triftão datayde fez embarcar muy¬ tos por força, & ho primeyro capitão que partio, foy hum fidalgo cha¬ mado Iurdã de freytas, que primeyro que fe embarcaífe fez grandes re¬ querimentos a Triftão datayde que lhe deífe carrega de crauo pera ho nauio, porque ya vazio fem leuar algúa, no que el rey de Portugal rece¬ bia muyto grande perda, mas Triftão datayde não quis, porque lhe ficafle todo ho crauo. E entregou prefo Vicente dafonfeca a Iurdão de freytas, que ho entregaffe ao gouernador da índia com a deuafla de fuas culpas. E também nefte nauio, foy Fernã dela torre com os outros Caftelhanos, & Iurdão de freytas foy ter á índia onde entregou Vicente dafonfeca. E cõ quãto na deuafla q Triftão dataide tirou fe prouauão claramente fuas culpas por Õde merecia muyto grande pena, nunca lhe foy dada, ho que deu caufa a fe fazerem em Maluco muyto mayores males, alli contra Deos como contra ho proximo, nem ouue quem fe lembrafle do feruiço del rey, fe não de enrriquecer por qualquer maneyra que podefle. CAPITOLO .LXXII. De como ho gouernador foy a Diu pera Je ver cõ el rey de Cambaya. ATras fica dito, como Vaíco da Cunha foy a Diu por mandado do gouernador a falar com Melique tocão fobre lhe dar Diu, de cuja vda el rey de Cãbaya foy auifado per Rumecão, que trazia fuas efpias com Melique por lhe querer mal, & defejar que el rey de Cam¬ baya lhe deffe a capitania de Diu, & por iífo diffe a el rey q aquela vifta de Vafco da cunha com Melique deuia de fer pedirlhe o gouernador for¬ taleza em Diu, o que el rey logo íofpeytou, & dali tomou odio a Meli¬ que, & determinou de lhe tirar a capitania de Diu, & dala a Rumecão, ho q auia dias que defejaua, crendo que cõ iífo feguraua Diu de lho toma- Tomo iv 4
  • 322 Hijtoria da índia rem os Portuguefes, & q ele faria vyr muytos Turcos do eftreyto pera andaré na fua armada, & defenderem aos Portuguefes que não tomaíTem as naos de Cambaya quãdo vinhão do eftreyto, ho que ele fintia muyto. E fofpeytando el rey que ho Gouernador trazia trato com Melique, pera lhe dar fortaleza, defpedio Trilião degá, com lhe refponder que era cõ- tente de dar ao gouernador a fortaleza que lhe pedia, que fe folie ver coele em Diu, & ifto com tenção de ho nã fazer fe não a fim deftoruar que lhe não fizefle ho Gouernador guerra aquele verão, & que indo a Diu, ho poderia acolher & matalo, & mais eftoruaria que Melique lhe não defle fortaleza. E fabido polo gouernador efte recado del rey creo que era afli, porque ainda não conhecia quam maliciofo era, & logo fe fez preftes pera yr a Diu, & dizendo ao que ya, com que toda a gente ficou muyto alegre. E pera efta vifta do gouernador cõ el rey de Cam¬ baya fe fizerão os fidalgos & capitães da índia, & outras pelfoas honrra- das preftes de muytas louçainhas, & galantarias de feda & ouro, afli nas armas como nos veftidos, & todos gaitarão muyto, do que fe arrepende¬ rão aífaz, vedo depois q não ouue efeyto efta vifta: & daqui ficou defpois chamarfe na índia efte anno das paruoices, porq virão muytos q as fize¬ rão em gaitar tãto dinheyro de balde. E feytos todos eftes gaftos, par- tiofe o gouernador pera Chaul, & dahi pera Baçaim õde achou Diogo da íilueyra, & daqui fe partio pera Diu cõ húa poderofa frota doytenta ve¬ las, em que entrauão oyto galeões, de que a fora a capitayna erão capi¬ tães, Diogo da Íilueyra, Antonio de lemos, Manuel de macedo, dom Eíte- uão da gama, Antonio de fá ho rume, Diegaluarez telez, dom Gaftão coutinho, & de Galés & Galeotas, Manuel dalbuquerque, Vafco pirez de fão payo, dom Pedro de menefes, Manuel de vafconcelos, Fernão de lima, & outros fidalgos, yrião nefta armada dous mil Portuguefes, a mays luzida gente que nunca fe ajuntou na índia. E chegado ho gouernador defronte de hum lugar chamado Danu, foube que ho dia dantes paliara el Rey de Cambaya em noue galés pera Diu, & logo dali lhe mandou dizer por Si- mão ferreyra que onde feria bÕ veréfe fe em madrefaba ou no már, & foy coele pera lingoa Ioão de Sãtiago (lingoa do gouernador) que fora mouro & fizerafe Criftão. E profeguindo ho Gouernador por fua viagem foy ter á jlha dos Mortos, & ali efperou por Simão ferreyra, que não tar¬ dou muyto que não chegou, & ya coele Cojeçofar, que lhe dilfe da parte del rey de Cambaya que lhe pedia que fofle a Diu & que 1'e veriã, & Ioão de Santiago dilfe ao gouernador que foubera em Diu que el Rey de Cambaya queria dar a fua capitania a Rumecão, que fe lhe offrecera de lho defender. E delta jlha dos Mortos fe foy ho gouernador a Diu, & da barra mandou Simão ferreyra com Cogeçofar a el rey, pera que lhe man-
  • 323 Livro VIII, Capitolo LXX1II dafíe recado em que lugar da jlha queria que fe vilfem, & indo ele coefte recado foyfe ho gouernador a terra com os capitães & algús fidalgos, & defembarcou onde chamão ho Palmarinho, & ya ver fe poderião ali proar as galés, pera q querendo el Rey de Cãbaya que fe vilfem ali fazer che¬ gar as galês, pera ficar feguro com a fua artelharia fe el rey de Cambaya quifeífe fazer algúa treyção. CAPITOLO .LXXIII. De corno Manuel de macedo fe defajiou cõ Rutnecão, 6 não lhe fayo ao defafio. EStando nifto, veo Simão ferreyra, & dilfe ao Gouernador que el rey não acabaua daífentar onde fe auião de ver, & que lhe mandaua pedir que lhe mandaíTe lá os capitães da galé baftarda & dos ga¬ leões, que os queria ver pera lhes fazer honrra. E eftando ho gouerna¬ dor fufpenfo fobre ho que faria, porque receaua que el Rey reteueffe os capitães defpoys que os lá teueífe, dilfelhe Triftão de gá que ja fora por embayxador a el Rey de Cambaya que os mandalfe, porq não os mã- dando el rey era tam fofpeytofo q cuydaria que não fe fiaua dele: & como ifto cuydafie não fe auia de querer ver cõ ele, & por ifto os man¬ dou ho Gouernador yr, & el Rey os recebeo com muyta honrra. E fabendo Manuel de macedo como el rey queria dar a capitania de Diu a Rumecão, & tirala a Melique tocão que era muyto feu amigo, eftando com el rey lhe diffe (delpois de lhe pedir licéça pera falar hú pouco) q fe efpãtaua muyto dú rey tã fabedor, & caualeiro como ele era, querer tirar a capitania de Diu a hum vaífallo como era Meliq tocão & q o tambe tinha feruido, & filho de tã fingular capitão como fora Meliqaz o velho, q tanto feruiço fizera ao reyno de Cãbaya, & tãto acrecetara na hõrra dos Guzarates, & a qria dar a Rumecão hú homé eftrãgeyro, de q não tinha outra experiencia fe nã fazer treyção ao Turco cõ quê viuia, & por effa caufa fugira de feu feruiço, & fe acolhera a Cãbaya, pelo q não fe deuia de fiar dele, fe não efperar q lhe fizeífe outra treyção, & fe Rume¬ cão ali eftaua & negaffe ho que ele dizia, que ele lho faria confeifar em batalha, que folgaria muyto dauer coele. E Rutnecão que ali eftaua o ouuio dizer ao lingoa, & por não refponder oulhou el Rey parele com hú rofto menécorio: & calandofe toda via Rumecão, dilfe Manuel de macedo que entendeo q era aquele, q outra vez o tornaua a defafiar pola mefma rezão, & mays que podia meter configo outro, porq ele fe mataria cõ ambos. E vendo el rey q não refpondia, lhe dilfe com yra, q como não
  • Hijloria da índia 324 refpõdia ao defafio, & Rumecão difle q poio não ter em cota, poré que poys aílí qria, q aceytaua o defafio, fem meter outré c&figo, & aíli foy logo deputado ho mar pera ler ho campo do defafio, & que pelejaria cada hú de fua fuíta em que eftarião fós. Aceytado ho defafio, mandou el rey dizer ao Gouernador, que lhe auia de falar de húa genela, no baluarte de Diogo lopez, & ele efteuefte no már em húa galê, do que fe o gouer¬ nador rio quando ho foube, & mandoulhe dizer q lhe não queria falar daqla maneyra: & fabédo o defafio de Manuel de macedo cÕ Rumecão folgou muyto, & deulhe licéça pera ho fazer, & mandoulhe efquipar hú bargantim em que fe meteo, & foy furgir júto da lagea, & por Rumecão tardar, & ao gouernador lhe parecer que nã oufaria de fayr com medo da nolla frota, mandou leuar & fezfe hú pouco ao mar, & defpoys diflb 1’ayrão do porto da cidade fete ou oyto fuftas toldadas & embandeyradas, & húa diante da outra forão demandar ho bargantim ondeítaua Manuel de macedo, & dando todas húa volta ao derredor dele fe recolherão ao porto donde fayrão, & não tornou mais nhúa, que parece que não quis el Rey q Rumecão fayffe ao defafio. E vendo ho gouernador que tardaua muyto, fez linal a Manuel de macedo com hum tiro que fe recolhefle: & recolhido deyxoufe eftar, & vedo que o defafio não auia efeyto, & que ficaua de guerra cõ Cambaya, mandou húa armada ao eftreyto de tres Galeotas & treze fuftas, & por capitão mór Vafco pirez de fão payo que ya em húa das galeotas, & nas duas dom Pedro de menefes, & dom Ma¬ nuel de lima, & yrião na armada trezentos homés. E de Diu fe tornou ho gouernador a Chaul, donde defpachou pera ho eftreyto a Diogo da íilueyra por capitão mór de húa armada de cinco galeões, cujos capitães a fora ele forão, Antonio de fá, dom Gaftão coutinho, Diegaluarez telez, & Antonio de lemos, com regiméto que lâ fe entregaffe da armada q leuara Vafco pirez de fãopavo, & q na entrada do verão fe folie á põta de Diu donde faria guerra a Cãbaya: tãbé defpachou Antonio da filua de menefes pera Bégala a refgatar Marti afonlo de melo jufarte, & foy por capitã mór de noue velas, cõ q partio de CochI, & delpois fe partio o gouernador pera Goa onde auia dinuernar: & dali defpachou a dõ Ef- teuão da gama pera Malaca a feruir a capitania da fortaleza, porq era fua primeyro q de dõ Paulo da gama leu jrmão, & ele fe foy a CochI dõde o acabou de defpachar o ve'dor da fazéda, & partiofe pera.malaca é Abril de M. D. xxxiiij. E depois dele, partio o védor da fazéda pera Ormuz a vifitar a feytoria & faber como fe gaftaua a fazéda del rey de Portugal, & foy é húa nao.
  • Livro VIII, Capitolo LXXI11I 325 CAPITOLO .LXXIIII. De como indo dom Iorge de crajlo fobre el rey de Reyxel, fe tornou fem fa\er nada. NEste tempo eftaua leuantado cotra el Rey Dormuz hú feu vaífallo q era rey de húa cidade chamada Reyxel, na cofta do eftreyto da Perfia, céto & fetéta legoas Dormuz, & efte trazia húa armada de doze fuftas por aqle eftreito, cõ q roubaua as naos que nauegauã por ele, principalmente pera Ormuz, & por ifto oufauão muy poucas de nauegar, no q el rey Dormuz recebia grade perda dos dereytos da alfandega, pelo q fe aqueyxou a Antonio da filueyra capitão da fortaleza, dizédo q era necelfario deftruirfe aqla armada, porq doutra maneyra não podia pagar as pareas q pagaua a el rey de Portugal. E fabido ifto por Antonio da filueira alfentou com dõ Iorge de crafto q era capitão mór do már Dor¬ muz que foífe com fua armada a Reyxel, & requerefe a el rey q fe tor- nafle á obediência del Rey Dormuz, & recolheífe a armada, fe não q feria neceflario acodir a ifto pois el Rey Dormuz era vaffalo del Rey de Por¬ tugal, & coifto fe partio dõ Iorge indo em húa galeota, & leuou dous bar- gantis, de q erã capitães Ruy gomez cafto, & Ioão ribeyro, & húa fufta, capitão Nuno vaz, & cinco catures, & neftas velas forão duzentos homés. E chegado ao cabo de Vadeftão, céto & felfenta legoas Dormuz, achou o tempo tã cõtrayro, q lhe foy forçado furgir em húa jiha defpouoada pe¬ gada cõ ho mefmo cabo, onde efteue paífante de vinte dias: & paífado efte tempo que teue lugar de fazer viagé, achoufe cõ neceffidade dagoa & de mãtimétos, & por nã auer na jlha nhúa deftas coufas, as foy tomar á terra firme, & eftãdo fazédo agoada hú terço de mea legoa donde fur- gio, fayrão muytos mouros q eftauão em ciladas, & derão em fua géte tã fupitamente q não fe poderão valer que nã foífé tomados pelos mouros oyto Portuguefes & trlta & cinco efcrauos Criftãos, & outros tãtos re- meyros da capitayna, q não leuaua mais, & fabido ifto por dõ Iorge q eftaua no mâr ficou muy agaftado, porq pola perda dos remeiros q lhe catiuarã nã podia profeguir fua viagem, & porq não auia onde os foífe tomar, propos é cõfelho fe tornaria a tomalos a Ormuz pois fem eles nã podia fazer coufa q aproueytafle, & auédo algús q lhe confelhauã q tor- naífe a Ormuz fem paliar auãte, difie hú Frãcifco de gouuea q pois fe auia de tornar q pera poder dar nouas em Ormuz do que ya em Reyxel, & das fuftas lho queria yr faber em hú catur, & dom Iorge não quis, dizédo q fe lá foífe auifar fe yão os imigos de fua yda, o q ele não qria
  • Hijloria da índia J26 fe nã tomalos de fupito, & afli fe tornou a Ormuz, & quãdo Antonio da íilueyra foube q a fora nã fazer nada lhe acõtecera aqle defaílre & por fua culpa, ficou muyto agaítado pola má cota em q os Portuguefes ferião tidos, & polo feruiço del rey de Portugal q perecia & determinou de tor¬ nar a mandar a mefma armada cÕ outro capitão mór, pera q efcolheo Frãcifco de gouuea, de q conhecia esforço & faber pera acabar aqle feyto, & aífi lho diffe, pedindolhe muyto que o fizefle verdadeyro, & ele lho prometeo. CAPITOLO .LXXV. De como Francifco de gouuea foy por capitão mor da armada cõtra el rey de Rey.xel. Epartiofe Dormuz com a mefma armada q leuara dõ Iorge, & foy na fufta de que era capitã Nuno vaz, & fem lhe acotecer coufa q o toruafle de fua viagé foy ter ao porto de Reyxel, cidade grãde cõ húa boa fortaleza na cofia Darabia fituada e bõ íitio de cafas de pe¬ dra & cal, & abaítada de mãtimétos, & pouoada de mouros. El rey fabédo q a noffa armada eftaua no porto, determinou de a tomar cõ quã- tos yão nela, & iílo por égano, pera o q mãdou dizer a Frãcifco de gou¬ uea por hú mouro hõrrado q fua vinda foífe boa, porq folgaua muyto q os Portuguefes fofTem a feu porto, polo defejo q tinha de ter coeles pa¬ zes, & fe as ele quifefle aceytar, era cotente de lhe dar as fuítas q tinha & os catiuos que tomarão a dom Iorge, & fazenda dos noffos que os feus tinhão tomada, & coeíte recado lhe mandou hú prefente de muyto re- frefco. E porq Francifco de gouuea leuaua em regimento q fizeífe paz com el rey dandolhe ele o que lhe prometia, refpondeo q era cotente de fazer coele paz fe fizefle ho que dizia, & que ate então lhe não auia de tomar nada. E ouuida eíta repofta por el rey lhe cometeo que fe viflem á borda dagoa, & em ordenar como auia de ler eíla viíla fe paflarão tres dias, porque el rey fe arrependia de yr falar a Francifco de gouuea, por¬ que como determinaua de o prender pareceolhe que corria perigo, & quando ouueffe algum, melhor cayria no feu Goazil, & por iflò ho man¬ dou, efcufandofe a Francifco de gouuea de não yr como lhe mãdara dizer. E paflados eítes dias, mandou el rey armar húa tenda muyto rica na praya pegada cõ ho mar, pera fe ver nela ho feu Goazil cõ Frãcifco de gouuea, que fayo em terra cõ quarenta Portuguefes: todos defpingardas, & ele com húa efpada dãbas as mãos nua, & deyxou os nauios cõ os efporões em terra, & a artelharia ceuada, porque tinha fofpeita que lhe auião os mouros de qrer fazer algúa treyçã, & affi era, q el rey tinha
  • Livro VIII, Capitolo LXXVI 3 a 7 pofto húa cilada de tras dum oytevro que eftaua hi perto, em que entra- uão quatrocétos de caualo & grãde multidão de gete de pé, pera é ho Goazil lançado mão de Francifco de gouuea acodiflém eles fobre os que foflem coele, & os mataíTê a todos & lhes tomaffem a armada: & pera iffo fayo Coje frajulá (q aili fe chamaua o Goazil) cõ trezétos homes, & vendo o Frãcifco de gouuea lhe mãdou dizer q pera q era tanta géte poys ya de paz, q ele não tinha mais de quaréta homês q trouuelfe ele céto, & afli o fez o Goazil, & mãdou apartar os outros: & entrado na tcda afletoufe, & difle a Frãcifco de gouuea q fe afletafle e ele não quis pola fofpeita q tinha, & é quãto falou cõ o Goazil fempre pafTeou cõ a efpada na mão & por iffo o Goazil nã oufou de cometer ho que leuaua determinado, antes eftaua temerofo de ver ho defaffego de Francifco de gouuea, & cuydaua q o auia de matar: & ho concerto da paz foy o que el rey mandou dizer a Francifco de gouuea, que todo foy efcrito per dous efcriuães, hum Português, & outro mouro, & affinado por Francifco de gouuea & polo Goazil que fe tornou pera a cidade defpois difto aca¬ bado, & difle que ao outro dia fe compriria ho concerto. E quando el Rey vio ho Goazil fem Francifco de gouuea, ouue tamanha menencoria que ho quifera mandar matar, & não o fez por confelho dos feus, mas tiroulhe ho oflicio. CAPITOLO .LXXVI. Do que fe\ Francifco de gouuea de [poys q vio que el rey de Raxel não queria pa\. VEndo el rey que não poderá auer Frãcifco de gouuea como quifera, determinou de fe declarar coele por imigo, & mandou muytos efpingardeyros & frecheyros a goardar hús poços em que Frãcifco de gouuea quifera fazer agoada, ho que não pode por lho os mouros de¬ fenderem. E como erão muytos em demafia, & os nofios poucos, fizerão nos recolher pera os nauios com muyto trabalho, & ajudoulhes muyto a fua artelharia que fez algú dano nos imigos de mortos & de feridos, & eles matarão hum marinheyro Português. E como a nofla artelharia pode jugar afaftarãofe os imigos, & os noífos teuerão lugar de fe embarcar, & pola neceflidade que tinhão dagoa foy forçado a Francifco de gouuea (antes doutra coufa) de a yr tomar a húa jlha chamada Carrega fete legoas de Reyxel, & indo pera lá ouue vifta das fuftas de Reyxel, & pofto que erão o dobro da fua armada, determinou de pelejar coelas, & alli ho difle aos outros capitães, & arribou logo pera os imigos, que vendo a nofla armada, parece que ouuerão tamanho medo que arribarão pera
  • 3s8 Hijloria da índia terra, & forãofe meter em hú rio duas legoas de Reyxel, & duas ficara de fora por não poderem mays. E vendo Frãcifco de gouuea que fe aco¬ lhia, por as alcãçar mais afinha fe mudou a hú dos catures & por remar rijo alcãçou húa das duas fuftas que ficarão de fora, & aferrou logo húa delas, & nifto lhe matou tres homés de vinte que andauão nela todos efpingardeyros, & os outros fe lançarã ao mar que os Portuguefes cati- uarão todos & tomarão a fuíta, & a outra varou em terra & faluoufe a gente, & a fufta, que ficou em poder de Francifco de gouuea achoufe car¬ regada de crauo, gingibre, & canela, & afíi andauão as outras naos que tomarão que yão Dormuz pera Baçora. Tomada efta fufta, & vendo Fran¬ cifco de gouuea que não podia pelejar cõ as outras por eftarem metidas no rio foyfe fazer agoada a Carrega, ondeftaua húa pouoação com húa mezquita, & aqui eftauão obra de feffenta mouros da armada dos imigos, que ficauão efperãdo em quãto os outros leuauão a Reyxel as prefas que fizerão, & eftes como virão a noffa armada no porto em quanto fe fazia agoada acolherãofe a hum cabeço alto õdefteuera húa fortaleza, determi¬ nando de fe defender, & mandarão recado a Reyxel de como ficauão, & os moradores do lugar fe acolherão por outra parte a húas lapas q efta¬ uão ao longo do mar, de que os Portuguefes matarão a mayor parte. Defpoys de feyta agoada & queymado ho lugar, em que foy queymado húa mezquita que os mouros tinhão por coufa fanta, & a que yão em romaria de muytas partes, mandou Francifco de gouuea dizer aos mou¬ ros que eftauão no cabeço que os auia de matar fe em tres oras não fe lhes foffem entregar pera fazer deles ho q quifefle, & eles o fizerão com medo, mandandolhe primeyro as armas, & por eles ouue defpoys Fr㬠cifco de gouuea os Portuguefes que catiuarão dõ lorge de crafto, com condição que fe goardaífe a paz q alfentara com Coje frujalá, do q el Rey foy contente, vendo quam pouco ganhaua em ter guerra com os Portu- gueies. E ifto feyto, Francifco de gouuea foy correndo aquele eftreyto até a jlha de Baharem donde efcreueo a el rey de Baçora o que fizera, & mandoulhe a efpeciaria que tomara aos mouros, & ifto por fer amigo dos Portuguefes. E fabendo el rey que aquele eftreito eftaua feguro, mandou húa nao carregada de mantimentos a Francifco de gouuea com muytos agardecimentos da efpeciaria que lhe mandara. E deyxando Francifco de gouuea feguro efte eftreyto fe foy inuernar a Ormuz, cujo rey faleceo nefte tépo: & Antonio da filueyra & Diogo da filueyra leuantarão por rey hum feu filhp dydade doyto annos, que defpois foy morto com peçonha, que lhe mãdou dar Rayxaleque q eftaua degradado na índia, & por fer feu tio fucedeo no reyno, & foy muyto amigo dos Portuguefes, & fez muytos feruiços a el Rey de Portugal.
  • Livro VIII, Capitolo LXXVII 3zg CAPITOLO .LXXVII. Do que /
  • Hijloria da Índia 33o afeyçoado a Agehabedalá que tomou o feu, & refpondeo a Iorge alcofo- rado que era contente de fazer paz com o gouernador, mas que lhe auia de dar quorenta & cinco mil pardaos por Martim afonfo & polos outros, porque os não auia de dar por menos, & defpoys tornou a dizer que os nã queria refgatar, & ifto por confelho de Agehabedalá. E Iorge alcofo- rado fe foy coella repofta del rey, que diífe a Martim afonfo & aos ou¬ tros, que ficarão muyto triftes, parecendolhes que poys os el rey não que¬ ria refgatar que nunca fayrião dali, & fizerão grãde pranto com Iorge alcoforado quando fe defpedio deles, & ele leuou efta repofta a Antonio da filua, q indinado cõtra elrey determinou de fe vingar em feus vaffal- los, & hum dia ante menhaã deu com fua gente em Chatigão & pos lhe ho fogo, com que queymou muyta parte dela, & matou & catiuou muyta gente: & dali fe foy a húas jlhas onde morauão muytos Bengalas degra¬ dados, & deftruyolhe as pouoaçoes, & matou os mais deles: & feyta muyto grande deftruyção fe foy pera a índia, & com menencoria difto mandou el Rey prender os Portuguefes de dous em dous, que andauam ja foltos, & os que lhe aconfelhauam que fizelíe paz com ho gouernador & que lhe deffe os catiuos fem refgate, lhe differão então que bem via quanto melhor confelho era ho feu que ho de Agehabedalá, & poys aquele capitão dos Portuguefes fem mandado do gouernador lhe fizera tanto dano, que faria outro que foffe dirigido pera lho fazer. E el Rey conhe¬ cendo a verdade mandou cortar a cabeça a Agehabedalá, porque ho não confelhara bem fiandofe dele, & não lhe valeo fua priuança, & por não parecer que foltaua os Portuguefes com medo os não foltou logo: E dali a algús dias por parecer que os foltaua por amizade mandou leuar ante fy a Martim afonfo folto, & moftrou lhe húa carta de marear fobre q pra¬ ticou coele hum pedaço, & defpoys ho mãdou tornar á cadea, & de dias em dias ho mandaua leuar antefy, bufcando fempre coufas pera praticar coele: & nefte tempo mãdou q lhe tiraffé os ferros, & aos outros, de que mandou tirar da cadea Nuno femandez freyre por faber tanger viola, & a hum Ioão adão que tangia hús orgãos q lhe Martim afonfo mandara de Chatigã, & a hú André gonçaluez pera lhe cantar, porque era muyto inclinado a mufica, & tinha muytos muficos ao feu modo, & hum meftre da mufica, que tinha treze mil pardaos de réda com aquele ofticio, & a efte entregou Nuno femandez, Iohão adão, & André' gonçaluez, & dali por diante teuerão todos melhor vida, & fazialhes el rey merce, & não tinhão outra má vida fe não eftarem ali fem poderem fayr quãdo querião.
  • Livro VIII, Capitolo LXXVIII 33r CAPITOLO .LXXVIII. De como húa armada del rey Dugentana foy correr a Malaca, & de como foy morto dom Paulo da gama & outros. DOm Eíteuão da gama que ya pera Malaca, chegou lá em Mayo, & logo lhe dom Paulo feu jrmão entregou a capitania, & ficando ele por capitão, daly a oyto dias teue noua que eítaua no rio de Muar húa armada del Rey Dugentana, & pera faber a verdade diflo & quantas velas erão, mãdou lá Simão fodré, & Frãcifco de barros de payua que leuarao cinco manchuas. E chegados acharão a armada fora do rio poíta ao longo de terra, & erão doze calaluzes de Iaos, de que era capitão mór hum mouro chamado Habrahem, & cinco lancharas del rey Dugétana, & todas com muyta gente & artelharia, ho q Simão fodrê, & Francifco de barros poderão bem ver- por fe chegaré muyto, em tãto que os imigos cuydando que querião pelejar fe leuarão, & forão pareles, & eles como não yão pera pelejar fizerão volta pera Malaca a dar rezão do que virão, & os mouros os yão feguindo quanto podião, & em anoytecendo lhe co¬ meçarão de tirar com a artelharia. E fendo duas legoas de Malaca, paf- fadas duas oras da noyte, virão com ho luar que fazia muy claro muitas manchuas, & em cada húa dous tres Portuguefes, & deles fouberão que fobre a tarde defpois de fua partida, fe vira em Malaca contra Muar, húas nuuens delgadas como fumo, & por muytos afirmarem que era fumo, & dartelharia, o différão a dom Eíteuão, & que feria bom mandar focor- rer aos Portuguefes que laa erão, & afll lho confelhou hú Aluaro botelho bom caualeyro & muyto antigo em Malaca: & com quanto dõ Eíteuão não quifera mandar ho locorro diífelhe dõ Paulo que o mandaffe & q ele yria, & dõ Eíteuão fe efcufaua dizedo, q a armada eítaua varada & que não auia em que yr ho íocorro: & com tudo dom Paulo nã quis fe não yr muyto contra vÕtade de dom Eíteuão, & embarcoufe em hú paraò de carrega de húa nao de Cambaya, & Manuel da gama em outro & com cada hum vinte homés fidalgos & caualeyros: & outros quarenta homés fe embarcarão em manchuas tam pequenas que não cabião em cada húa mays q dous tres, & com tam rols embarcações foy focorrer quem não tinha necellidade de focorro, & chegou a eles ás oras que digo. E fabendo eles quam mal aparelhado vinha dom Paulo pera pelejar com os imigos, por hum nauio dos feus abaítar fó pera pelejar com toda a fua armada foy Simão fodré dizer a dõ Paulo q por eíta rezão fe deuia de tornar, & não pelejar com os imigos de cuja armada lhe deu relação, pelo que a
  • Hiftoria da índia 332 dom Paulo lhe pareceo bem feu confelho, & fez volta, & os imigos não deyxarão de lhe dar caça quãdo virão que armada trazião, tirandolhe muitas bombardadas, o que os Portuguefes não podião fazer por não terem artelharia. E vendo eles que os imigos os alcançauão, & quam mal auiados yão pera pelejar coeles, confelharão a dom Paulo que ou fe paífalTe a húa manchua & recolheífe as outras & fe fofle que o poderia fazer por ferem legeyras, ou varaffe em terra, porque onde ele enfecaíTe nã auião os nauios dos jmigos de nadar, & defte modo fe faluaria ate fer focorrido de Malaca. E dom Paulo parecédolhe iflo fraqueza não quis fe na pelejar, & cõ animo muy esforçado virou a abalrroar cÕ húa lanchara q achou mais perto, & Manuel da gama fez ho mefmo, & em aferrando forão todos os feus encrauados dazagayas, frechas, & páos toftados, & com tudo ele entrou na lanchara que aferrou a pos hum feu ayo chamado Iorge fernãdez borges, que foy o primeyro que entrou, & com quanto a dom Paulo lhe atraueffou húa azagaya a mão dereyta, ele & Iorge fernan- dez pelejarão tam valentemete que logo em entrando leuarão os mouros ate popa da lanchara, & nifto entrarão Antonio pereira que foy alejado do braço dereyto, Vafco da cunha, dom Francifco de lima, que forão feridos nas cabeças, & Gonçalo bayão, & affi outros, & pelejauão com grãde bra- ueza porque os jmigos erão muytos, & outro tanto fazia Manuel da gama com os feus. E tendo dom Paulo rendida a lanchara ondeftaua quifera paliar auante mas não pode, porq em aferrando a lanchara fe lançarã os feus remeyros ao mar, & fugirã & eftãdo affi cõ a lãchara rédida, acodio outra q trazia muyto mays gete, & entrou de roldão ondeftaua dom Paulo & forão tantos os que carregarão fobre ho Bayleu que quebrou coeles, & como erão muytos, & os Portuguefes eftauão ja feridos, & doutras lan¬ charas lhe tirauãomuytos arremeflos, por mais esforçadamente que pele¬ jarão não fe poderão defender, & foy morto Iorge fernandez borges & dom Paulo cayo defmayado do muyto fangue q fe lhe ya das mortaeys feridas que tinha, & Gonçalo bayã eftando muyto ferido pofto no bordo da lanchara foy derribado no mar, & affi cayrão outros muytos com a grande multidão darremeffos que os imigos arremeffauão, & acharãofe feys paos toftados jútos com que tirauão. E tambe foy desbaratado Ma¬ nuel da gama, pofto que aqle dia fez marauilhas cõ os feus & affi os ou¬ tros Portuguefes, porem aproueytou pouco porque os imigos por ferem em demaíia muytos os afogauão & com tudo também receberão perda, que morreriã bem quorenta a fora muytos feridos, & por iflo 1'e conten¬ tarão com efcaparem, & fe foram leuando dom Paulo quafi morto na lãchara fem faber q o leuauã, nem a Iorge fernandez feu ayo, & foubeffe q ainda dom Paulo viuera ate ao outro dia a vefpera, & fe ele não cayra
  • Livro VIII, Capitolo LXX1X 333 nunca ho mal dos Portuguefes fora tanto. E acolhidos os imigos ajunta- rãofe todos os nofios capitães, & achando menos dom Paulo ficarão muyto triftes por fer muyto amado de todos, por fuas muitas virtudes, & por fer muyto esforçado. E a fora ele acharão que morrera Ioão rodriguez de foufa, fobrinho de garcia de fá, Iorge fernandez borges, Antonio de- farão, Pero queymado, Gonçalo bayão, & dous bombardeyros, & forão feridos Manuel da gama, dó Francifco de lima, Vafco da cunha, Antonio pereyra, Francifco bocarro, Fernão gomez, & outros que fazião numero de trinta, & coefta perda l'e tornarão a Malaca, & contarão a dom Efte- uão ho que lhes acontecera. CAPITOLO .LXXIX. De como Francifco de barros depayua foy bufcar mantimentos a Patane, & do que lhe aconteceo. SEntindo muyto dom Efteuão a morte de feu jrmão, determinou de yr fobre el Rey Dugentana & deftruylo, por vingança daquela morte, pera ho que fe começou daperceber. E porq ê Malaca auia grãde falta de mãtimétos, mãdou por eles no Iulho feguíte a Pão, cujo rey eftaua de paz, & foy Simã fodré é húa nao de duzentos toneis, & ao mefmo mãdou Francifco de barros de payua a Patane cõ que também tinha paz, & eftando lá foy ter com Simão fodré húa armada del rey Du¬ gentana de trinta & cinco lancharas, de que ya por capitão mór Tuão mafamede, que fugira de Malaca pola morte de Sanaya de raja. E por Tuão mafamede não fe atreuer a pelejar com Simão fodré foy em bufca de Francifco de barros que fabia que tinha hum nauio pequeno, & não teria nele mays que ate vinte Portuguefes, & né por iffo fe deyxou ele de defender dos imigos com muito esforço, & eles o cometerão com gran¬ des gritas pera ho aferrarem, mas nunca poderão, porq os Portuguefes os não deyxarão cõ muytas panelas de poluora que lhe arremeffauão & cÕ muyta foma defpingardadas q lhe tirauão. E defpois de lhe matarem tres homés, & feriré os outros todos, vendo q o nã podiã aferrar fe afaf- tarã hum pouco, ho que vendo os Portuguefes como eftauão muyto can- fados & feridos, q ja não podião configo, requererão a Francifco de bar¬ ros que poys não podião mais fazer que fe acolheffem a terra, & faluar fe yao, & defpoys viria tempo em que fe vingaria, & ele não quis pare- cendolhe que era quebra de fua honrra: dizédo que melhor era a morte com honrra, que a vida deshonrrada, & mays que temia que vendo os Patanes como yão desbaratados que fe leuantaffem contreles & os mataf-
  • 334 Hijloria da Índia fem, pofto que eftauao de paz. E vendo a gente que nã ie queria yr, não- quiferão mays efperar, & lançarãofe' ao batel do nauio & forãofe a terra, fomente dous, hum chamado Ioão freire, & outro Baftião nunez & eftes dous perfuadirão a Francifco de barros que fe foífe, & primeyro deytou a mais da artelharia que pode no mar porque não ficaífe aos imigos, & por eífa caufa pos fogo ao nauio, & á poluora que eftaua nele, & defpoys fe foy pera terra fé fer vifto dos imigos, & em terra recolheo os Portu- guefes & foy le pera a cidade onde foy bem recebido, & hi ficou hum anno por não ter embarcação pera fe yr, & defpoys mandou dom Efte- uão por ele. E fintindo os imigos que ho nauio eftaua defpejado entrarão nele, & apagarão o fogo & tomarãno meo queymado: & vendo que não podião auer a gente dele forão fe, & Simão fodré que foy a Pão fez car¬ regar certos jungos de mantimetos, & foy fe coeles a Malaca. CAPITOLO .LXXX. De como Diogo da filueyra chegou a ponta de Diu & do que hife\. PAssado ho inuerno q Diogo da íilueira teue em Ormuz, partiofe pera Mazcate onde tinha os galeões, & dali na fim Dagofto com toda a armada pera a ponta de Diu, onde efperou as naos que foífe do eftreito, de que fez dar á cofta algúas q lhe fugirão, & as não pode tomar. E vendo que nã fazia ali nada foy furgir na barra de Diu onde as fuftas fe lhe moftrarão, mas não oufarão de pelejar coele: & aquy foube que ainda eftaua em Diu por capitão Melique tocao, & não deyxara el rey de Cãbaya Rumecão como eftaua determinado, por naquela conjun¬ ção lhe fer notificado que el rey dos Mogores (hum rey muyto poderofo) lhe fazia guerra pera que el rey de Cambaya tinha neceflidade de Rume¬ cão. E defpoys que Diogo da filueyra ifto foube, tomou húa nao de prefa que foy ter coele, & tomada fe fez à vela, & foyfe pera Goa com recado do gouernador que lhe mandou dizer que fe foífe. CAPITOLO .LXXXI. De como chegou á índia Martim afonfo de foufa. NEste tempo chegou a armada de Portugal, de que foy por capitão- mór Marti afonfo de foufa, a quê por feus feruiços el rey fez merce da capitania mór do mar da índia: & a armada q leuou de Portugal foy de cinco naos groífas cõ a fua, de q forã capitães ele,.
  • Livro VIII, Capitolo LXXXII 335 Diogo lopez de foufa, Triftao gomez de graã, Simão guedez de foufa, q leuaua a capitania de Chaul, Antonio de brito, que leuaua a de CochI. E chegado a Goa a faluaméto, moftrou Marti afonfo fua prouifã ao gouer- nador q hi eftaua, pelo que o meteo de pofle da capitania mór do mar, & lhe mandou que fe foííe a Cãbaya pera tomar a vila de Damão, & lhe fazer a mays guerra que podeffe, & que em Cambaya fe entregaria da armada que trazia Diogo da íilueyra. E defpachado Martim afonfo, par- tiofe pera Chaul, & forão coele eftes capitães de galês & Galeotas, Fer- não de foufa de tauora, Manuel de foufa de fepulueda, Martim correa, dom Diogo dalmeyda, Ioão de foufa lobo, & Francifco de fá, & outros, & affi hú Ioão de foufa dalcunha Rates em húa carauela: & chegado a Chaul achou hy Diogo da filueyra que lhe entregou a armada de Vafco Pirez de fão payo, q era de tres galeotas, & dezafeys fuftas, & affi qua¬ tro galeões, & Diogo da filueyra feguio fua rota pera Goa pera fe yr pera Portugal. CAPITOLO .LXXXII. De como Martim afonfo de foufa tomou a vila de Damão. ENtregue Martim afonfo de foufa da armada, partiofe pera a vila de Damão, & leuaua trinta & cinco velas, em que yrião feyfcentos fol- dados, & coefta frota chegou a Damão, hum lugar do reyno de Cambaya, lituado na ponta da fua enfeada da banda do fui por hú rio acima Õde el rey de Cãbaya tinha húa fortaleza forte & bem artilhada, quadrada, & em cada quadra hú baluarte, & tinha húa fô porta. E fabédo ho capitão dela, que era Turco, a yda de Martim afonfo queymou ho lugar, & deftruyo tudo ao derredor, & recolheo a gente na fortaleza, em que tinha quinhentos foldados, os mays deles Rezbutos, que fam os gen¬ tios que erão fenhores de Cambaya, antes q a os mouros ganhalfem, & por fere homcs esforçados os tinha ali el rey de Cambaya, os outros erão Turcos, em que entrauão cem efpingardeyros, & eftauã todos muito con¬ fiados de poderem defender aquela fortaleza ao gouernador da índia, quãto mays a Martim afonfo, que fabião q leuaifa pouca gente. E pare¬ cendo ao capitão q ele cometeffe a fortaleza polo rio, mãdou fazer ao longo dele algúas eftancias dartelharia. Chegado Martim afonfo, como digo, furgio na cofta pera dali yr ver a difpofição da fortaleza, a que foy em hum catur pequeno quando era baixa már, & foy nefte tempo, por¬ que com a maré crecia a agoa, & ficaria fobre a terra defcuberto á arte- lharia, cõ bayxa már ficaua ho alcantil alto, & encobrilo ya dos tiros, q forão fem conto, affi de bobardas, como defpingardas entrado polo rio, s
  • 336 Hijioria da índia & valeolhe ho ardil que teue pera lhe não empecerem, & por iffo paffou auante da fortaleza & a vio muyto bé, & vedo quã perigofa era a étrada por aqla parte por amor da artelharia, determinou de a cometer por ou¬ tra fe podefie fer: & fabédo que polo fertã polas coftas da fortaleza auia hum caminho largo & chão, por onde a gente podia yr a prazer, pareceo- lhe bem cometer por aly, & affi o diffe aos capitães em confelho, & que auia de defembarcar na cofta braua de frõte da fortaleza ás duas oras defpoys de mea noyte, pera em amanhecendo dar na fortaleza, & affi ho fez, & ao defembarcar teuerão os Portuguefes muyto trabalho, q defem- barcarão tã afaftados da terra que lhes daua a agoa polo pefcoço, porque não oufauão de chegar os catures a terra que auião medo de fe efpeda- çarem com ho grande efcarceo que o mar fazia. E em quanto a gente defembarcaua foy Martim afonfo ver com cinco fidalgos o lugar por onde auia dyr: & achando que era affi como lhe tinhão dito, tornoufe pera fua gente que achou defembarcada, & coela feyta em hum corpo abalou pera a fortaleza, & chegou ás coftas dela em amanhecendo, leuando diante duzentos efpingardeyros pera fazerem defpejar os mouros que acodiffem daquela parte, como acodirão logo, mas quam afinha forão acodir, tam afinha fe tornarão com medo das efpingardadas, que erã tantas, que quafi desfaziã as ameas. E vendo os Portuguefes o muro defpejado poferão as as efcadas que leuauão pera fobyré, & o primeyro q pos a fua foy hú Frãcifco da cunha, & o primeiro que fubio por ela, e a pos ele outros, & por a efcada fer podre, com a gente fer muyta quebrou, fendo Fran- cifco da cunha quafi no cabo dela & cayo, leuando diante de fy quantos yão de tras dele, & todos ficarão mal tratados das quedas, principalméte ele que cayo de mays alto, & com quebrar efta efcada receou a gente de fubir polas outras, & não quis ningué mais fobir, dizédo q erão podres, o q ouuindo Marti afonfo mãdou logo trazer húa efcada noua q mãdara fazer de duas antenas da carauela, & era tão larga q podiã yr por ela cinco homés em fieira, & é quãto fe foy por efta efcada forã algus Por¬ tuguefes ao derredor da fortaleza pera onde eftaua a porta pola qual virã fayr obra de trinta dos imigos q yão fugindo, & eftes erão da gente bayxa, em q o medo era tamanho q determinarão de fugir, & eftes co¬ meçará logo, por os foldados eftaré em cima nos baluartes, & não auer quê os teueífe: & vedo os fugir eftes Portuguefes q digo, começarão de bradar q fugião os imigos, & derã logo a pos eles, & outros acodirã á porta que eftaua aberta & remeterão a ela rijo que os jmigos a não po- derã fechar, porem fizerãofe em corpo diante dela, & começarã a defen¬ der a étrada, & na própria conjunção em que aqueles Portuguefes remetiã á porta da fortaleza, chegou a efcada noua que digo, & pofta ao muro ho
  • Livro VIII, Capitolo LXXXIII SS7 primeyro que fobio & chegou ao muro, foy Torres hú Italiano comitre da galé de Martim afonfo, & ho fegúdo Diegaluares telez, hú fidalgo muy esforçado, & a pos eftes outros poucos, & ifto & ho chegar dos outros Portuguefes á porta da fortaleza foy todo hum, & vendofe os imigos aili cometer, defefperados de fe defenderem, determinarão de fugir, & por iffo fe decerã os mais ao pateo da fortaleza, & fetenta (parece q dos mais honrrados) fe poferão a caualo pera fe acolherem logo, & os outros co¬ metera a porta a pe' como que querião fayr, mas não poderão por efta- rem nela tantos Portuguefes, que eftauão atochados fem poderem yr pera diãte nem pera tras, & tinhão feyta húa medonha pinha de fals & defpa- das nuas, & efpingardas, & era húa braua reuolta deles pera entraré & dos imigos pera fayré, & tudo era cheo de brados & gritos. E tres dos imigos como determinados de morrer? pera fazeré lugar aos outros, efpe- taranfe nas lanças, & forão correndo por elas ate chegarem aos q as tinhão, & ferirãonos muy rijo cÕ os terçados, & muyto mais dano fizerão fe não fora por hú Aluaro de meyreles que os acabou de matar cõ húa efpada dãbas as mãos, & afli foy morto outro de caualo com húa efpin- gardada que também quis cometer a porta. E tanto que Martim afonfo vio que Diegaluarez telez, & os outros fobião pola efcada, acodio a esfor¬ çar os que eftauão á porta, & a força dombros q pos com outros deu coeles dentro, & como agoa que rompe de prefa, dá Santiago nos imi¬ gos, & nifto chega Diegaluarez telez, & os outros que entrarão pelo muro, & colhedohos no meo, apertarãonos de tal modo, que nenhum efcapou viuo, pelejando primeyro com muyto esforço, porque vendo que não po- dião efcapar vingarãofe nos Portuguefes, de que matarão dez, & ferirão muytos de muytas feridas. E roubada a fortaleza, deteuefe Martim afonfo tres dias em a derribar e arrafar, que parecia que nã efteuera aly, & daquy foy correndo a cofta ate Diu, & coefta vitoria lhe ouuerão os mou¬ ros grande medo, & el rey de Cãbaya a íintio muyto. CAPITOLO .LXXXIII. • De como el Rey dos Mogoures entrou na índia. ANtes difto entrou na índia hum rey de hús pouos a que vulgar- méte chamão Mogores, cujo fenhorio confina cõ ho do çofio, & dizem que he a terra a que antigamente chamarão Parchia, he efta gente alua & bé affombrada de barbas cõpridas, & traz? as cabeças ra¬ padas, & nelas hús carapuções quafi da maneyra dos do çofio, veftem cabayas, & roupões de feda, ou de pano, fegúdo cada hum pode: os no- 43 Tomo IV
  • 338 Hijloria da índia bres fe ferue com muyta policia de baixelas de prata, & de noyte alo- meaofe com velas de cera em caftiçaeis, & de caminho leuão ho fato em arcas encoyradas, almofreixes, & malas, cubertos cÕ repoíteyros, & alca¬ tifas fobre camelos, & leuão muyto boas tendas pera poufarem no campo. Ho proprio pelejar dos Mogores he a caualo, os caualos fão como quar- taos, correm pouco, & andão muyto, & pelejão coeles acubertados, fuas armas fão pelotes de feda ou de coyro de quartos, que lhe chegão hum palmo abayxo do giolho forrados de laminas, cõ crauação dourada, nas cabeças celadas, & capacetes cõ grãdes penachos dourados. As armas offéfiuas fão arcos, frechas, terçados, maças de ferro, & machadinhas, & todas eítas armas leuã péduradas nos arções das feias, leuão tãbé muyta artelharia encarretada, Sacada peça de coprimento de couado, as groffas tirão pelouros do tamanho de falcões, a miuda como nozes. Cõ eíta gente anda outra muyta de diuerfas nações, affi como Tartaros,Tur- quimães, Coraçones, & outros, & todos fe chamão Mogores, mas os pró¬ prios Mogores Ião os que digo: cujo rey era grão fenhor de terra, & de gente, & feruiafe com grande eltado, & venno muyto poucas vezes, & quando quer que lhe fale alguém manda ho chamar, & os lenhores de fua corte fazé cada dia duas vezes a çalema á cafa ou á tenda em que eftá: he mouro, & affi ho fão todos feus valfallos, ho mais do tempo Iejúa, & reza, pelo que os feus ho tem por fanto, dizião que nunca lhe fouberão conhecer molher, & affi eítranhaua muyto ho pecado da luxu¬ ria. Tem grãde goarda e fua peffoa affi na paz como na guerra, & goar- dâno aos quartos dous mil de caualo, acada quarto em q entrão cem lenhores principaeis, & todos comé da fua cozinha, quando caualga acom¬ panha ho gente fem conto, affi de pé como de caualo, & vão diante dele porteyros cõ varas vermelhas, & outros officiaeis que fazem apartar a gente. A caufa da vinda deite rey á índia foy fegúdo foube dalgús Por- tuguefes que elteuerão no feu arrayal, fer desbaratado do Xeque jfmael, de que efcapou com fete mil de caualo, & vendo fe desbaratado, de cor¬ rido nã quis tornar a feu Reyno, fem fazer algúa coufa com que emen- daffe aqla quebra, & determinãdo de conquiítar ho Reyno de Deli comar¬ cão do feu, lhe começou de fazer guerra cõ ajuda dum jrmão del rey de Deli, a que pertencia ho reyno de dereyto, & a q prometeo fe ho con- quiftaífe, porem não ho fez affi defpoys de conquiftado, & tomouo pera fy. E eíte a que pertencia ho reyno quando iíto vio fugio pera el Rey de Cambaya, a pedirlhe ajuda contra ho rey dos Mogores, que por as no¬ brezas de que vfou nelta conquiíta cõ os foldados, cobrou tamanha fama, q em pouco tempo ajuntou cincoenta mil de caualo. E como també tinha fama de conquiftador, eílãdo no reyno de Dely, foy ter cõ ele hú fobri-
  • Livro VIII, Capitolo LXXXIIII 33g nho del Rey de Mandou, aqueixandofelhe del rey de Cambaya, q lhe ma¬ tara feu tio por treyção, & lhe catiuara fete filhos & lhe tomara ho reyno. Pedindolhe que fizefe por be ou por mal que el rey de Cãbaya foltaíle os filhos, & lhes tornalíe o reyno. Sobre o q el rey dos Mogores man¬ dou hú embaixador a el rey de Cambaya, que por não querer fazer feu rogo ouue defafio antreles pera fazeré guerra hú ao outro, que logo co¬ meçarão per feus capitães. E porq os del- rey de Cambaya leuauão ho pior, determinou ele de jr a ela em peffoa, pera o q determinou de fazer paz com ho gouernador Nuno da cunha, porq temeo que lhe tomafTe Diu cÕ toda a fralda do mar em quanto fofle contra el rey dos Mogores. E pera o contétar & prouocar que fizefe a paz, lhe deu Baçaym, fobre o q lhe mandou hú embaixador, que fe chamaua Coge xacoez. CAPITOLO .LXXXIIII. De como el rey de Cambaya deu Baçaim a el Rey dom Ioam de Por¬ tugal. PArtido efte embaixador que digo, chegou a Goa, onde deu fua em¬ baixada ao gouernador, cuja cõcrufam foy que el rey de Cãbaya lhe daua Baçaym com todas fuas ilhas, & húa legoa polo fertão, que rendia tudo cincoeta mil pardaos douro, & que fizefe paz coele. E como ho gouernador fabia certo ho fim pera que el rey de Cãbaya que¬ ria a paz, & quãta neceflidade tinha dela, nã a quis cõceder, fem el rey de Cambaya a fora o q daua confintir que as naos dos mouros q hião a Diu foíTem a Baçaym, & hi pagarião pera el Rey de Portugal os derey- tos que pagauão em Diu, que ferião bé outros cincoenta mil pardaos de ouro, & mais que lhe auia de dar todos os Porruguefes catiuos que tinha, o que el rey de Cambaya concedeo, porque era fua tenção vencer el rey dos Mogores, & defpoys os Portuguefes, & tomarlhes a índia. E outor¬ gado por ele efte contrato, foyfe ho gouernador a Baçaym com. húa grãde armada: & lá fe ajútou coele Martim afonfo de foufa, & lhe leuou ho embaixador delrey de Cambaya alfinado por ele ho contrato que antreles foy feyto. E ho embaixador lhe entregou Baçaim com fuas jlhas, & húa legoa pelo fertão, & entregue mandou o gouernador fazer húa cafa forte por não poder fazer logo fortaleza, & efta ferueria de feitoria, & fez fey- tor a hum Gafpar paez, & deyxandolhe algúa gente fe tornou a Goa onde inuernou, & primeyro defpachou ho embayxador del rey, cÕ quem foy Ioão de Santiago lingoa do gouernador q fora mouro & era Criftao, pera que trouueífe os catiuos que el rey auia de dar, que erão Diogo de
  • Hijloria da índia 340 mezquita, Lopo fernandez pinto, & outros. E ei rey porq lhe pareceo q Sãtiago lhe defcobriria muytas coufas do gouernador que lhe erão necef- farias que foubeíTe, cometeo que ficaffe coele, fazédolhe merce de vinte mil pardaos douro & de quorenta mil de renda & q feria feu lingoa, do que Santiago foy contente, & defcobrio a el rey quanto lhe pareceo que fabia do gouernador & dos Portuguefes fazendolhe feu poder muyto pouco, & q facilmente os deytaria fora da índia, fe quifefie, & por iffo el rey não quis mandar os catiuos ao gouernador, nem tam pouco man¬ dar que as naos que auião dir a Diu foffem a Baçaim. CAPITOLO .LXXXV. De como indo dom EJieuão fobre el rey Dugentana lhe desbaratou húa tranqueyra. DEspois da morte de dõ Paulo ficou el rey Dugentana tão foberbo, que mandou logo fuas armadas ao eftreito de Cincapura pera que tomaffem os jungos que per hi foffem a Malaca, & fizeffem aos nofios quanto mal podeffem, & eles ho fazião affi, correndoos por muytas vezes. O que demoueo mais a dom Efteuão pera a deftruyção del rey de Vgentana, que tinha feu afiento em húa grande cidade fete legoas por hum rio a cima, cujo nome he Vgentana, & dele fe chama affi a cidade: & efte rio fe mete no mar alem do eftreyto de Cincapura. E determi¬ nado dom Efteuão de deftruyr efte rey, ajuntou fua gente q forã quatro- cétos Portuguefes: & deyxando a fortaleza entregue ao alcaide môr, fe partio pera Vgentana em Iunho do anno de mil & quinhentos & trinta & cinco cÕ húa armada de duas fuftas ele em húa, Manuel da gama em outra, & fete lancharas, de q erão capitães, Simão fodré, dom Frãcifco de lima, Antonio dabreu, dõ Criftouã da gama, Anrique mendez de vaf- concelos, Pero barriga, Antonio grãdio, & húa carauela redõda, de q foy capitão, hú Fernã gomez natural Dalcouchete, q fora fcriuão da feytoria de Malaca, & húa nao capitão hum Diogo botelho, & affi algúas man- chuas, & balões pera feruiço defta frota, & partido coela chegou á foz do rio Dugentana, por onde entrou, & defpoys de nauegar por ele tres legoas por fer bayxo não pode a nao paífar mais auante, & por iffo a deyxou ali, & pera q goardalfe o rio que não focorreífe a armada del Rey que andaua de fora. E partido dali, a obra de mea legoa achou húa po- uoaçã q fe defpouou com medo dele, que cõ tudo tomarã ali lingoa, por quem foube que dali pera riba não era o rio de mais largura que dum tiro de pedra & de muyto grande corrente, & tudo cuberto defpeffo aruo-
  • Livro VIU, Capitolo LXXXV 341 redo que encobria ho foi, & que dali a duas legoas mãdara el rey fazer húa tranqyra, porque os Portuguefes teueífem mays q fazer em chegar a Vgentana, & pera lhe tolherem dali ho caminho, porque ficaua muyto eftreyto. E fabido ifto por do Efteuão, mandou Pero barriga, Iorge dalua- réga, & Bernaldim cordeyro em fenhos balões a defcobrir ho rio, & faber fe era afli ho que ho lingoa dizia, & que lhe tornaffem cõ recado porq ali os efperaua. E eles forão & achara a tranqyra feyta ao pé dú outeyro q fazia hú cotouelo no rio, & cõ a tranqira ficaua tão eftreito q não po¬ dia paliar ninguém q os Imigos q nela eítauão os nam mataffem ás fre¬ chadas, & tinhão cortadas muytas aruores fobre o rio & atadas com rota de Bengala, pera q fe dõ Efteuão palfaffe as deixaíie cayr & lhe çarraf- fem ho caminho, q não fe podefle tornar. E ver ifto lhes cuftou muyto perigo de os matare cõ frechadas & vifto tornarão a dõ Efteuão & lho cotarão, & q fegundo feu parecer ele não podia paliar fem desbaratar aqla tranqira, & q ho faria por ter pouca gente. E dito ifto per dõ Efte¬ uão aos outros capitães & pefloas principais da frota, alfentoufe por todos q tomaffe a tranqueira, & hõ pedaço primeiro q chegaffem a ela fairia Pero barriga & Antonio grandio com a fua gente em terra pera daré por ela na trãqueira, & ele com os da armada daria por mar. E porq ho mato era muyto bafto & dõ Efteuão le temeo q pola eftreiteza do rio os Imigos fe efcondeífem antre ho aruoredo & lhe frechalfem a gente, mã- dou fazer bailéus nas fuftas & nas lancharas pera ire debaixo efpingar- deiros, & tirare dali fe acõteceíle o q receaua. E paliados dous dias que fe nifto deteue, tornou a fua viage caminho da tranqueira, & hú pedaço dela defembarcarão Pero barriga & Antonio grandio com a gente de fuas lãcharas, que ferião ate felfenta homés, ou pouco menos, & tirarão pera a trãqueira indo a vifta da armada, & chegarão primeiro que os do már. E por lhes parecer q feria perigo não cometer os Imigos, os cometerão afli como hião auiados, desfechãdo os efpingardeiros q hião diãte. E os imigos fe defenderão hú pouco, mas vendo chegar a armada pareceolhes q os queriã tomar no meyo, & fem fe deter muyto na defenfa fugirão, ficando mortos tres dos principays, & os outros fe acolhera â fortaleza onde el rey eftaua, a quê cõtarã feu desbarato, engrandecédo muyto ho poder de dõ Efteuão & feu esforço, por encobrirem ho medo q leuauã: Pelo que os q eftauão com el rey teuerão també algú de ferem desbara¬ tados, & receauão a chegada dos noflos.
  • CAPITOLO .LXXXVI. De como dom Efteuão chegou â fortaleza dos immigos. DEsbaratada á trãqueira fem os Portuguefes receber? nenhú dano, como chegou dom Efteuão tornarãfe a embarcar Pero barriga & Antonio grandio com fua g?te, porq pofto que dõ Efteuão quifera que forão fempre por terra ate a fortaleza pera tolher aos Imigos fe os ouueffe que lhe não tiraffem dantre ho aruoredo, não podião por a terra fer apaulada pola mayor parte dãbas as partes do rio, & fer fapal por onde fe não podia andar: & por iffo os Imigos não podião chegar ás bor¬ das do rio, que fe iflo não fora eles chegarão, & fométe delas às pedra¬ das & frechadas fegundo ho rio era eftreito & eles muytos poderão de¬ fender a paífagé a dom Efteuão: & tamb? por ho rio fazer muitas voltas & cotouelos lhes eftoruou lãçar? balfas de fogo pera queimar a noffa frota, porq fe auiã de deter neftes cotouelos. E pofto que a terra era aíli apau¬ lada onde auia lugar pera iffo ainda q eftreito defembarcarão Antonio grandio & Pero barriga cõ fua gente & hião a vifta da frota, defpois q partio defta primeira trãqueira caminho da fortaleza: onde eftaua Laque- ximena capitão mór del rey q teria cõfigo b? feys mil homés os mais deles frecheiros, & dos outros algús efplgardeiros & em q el rey tinha todo feu esforço, & a fora iffo eftaua muyto forte cõ húa tranqueira q atraueffaua ho rio, & era de duas faces entulhada de grãdes madeiros & pedras: & ? cada cabo hú cobelo do mefmo, & no meio húa porta q fe fechaua é abria pera fair? fuas armadas. E nefta trãqueira auia muyta artelharia, & dela pera húa chapa da terra de húa. das bãdas do rio fe eftédia húa fortaleza de madeira muito forte em q eftaua recolhido La- queximena cõ fua g?te. E el rey eftaua em húa pouoaçã dali a húa legoa, & por ele eftar tão fortalecido lhe pareceo q eftaua feguro de fer entrado. Chegado dõ Efteuão a efta fortaleza furgio cõ a frota detrás dú cotouelo que a emparaua da fortaleza, de q ficou a tiro defpingarda, q era a lar¬ gura do cotouelo. E logo ? chegando Pero barriga & Antonio grandio q chegarã por terra lhe mandarão dizer q deuia feguir a vitoria q trazia da tranqueira, & cõ ho fauor dela desbarataria logo os Imigos. E dõ Ef- teuã não quis por nã jr apercebido pera iffo, & por fer tarde & a géte jr cãfada de leuar á toa os nauios. E afli ficou ho cõbate pera outro dia. E porq de noite os Imigos não lançaffem fogo de terra na frota, ficarão Antonio grandio & Pero barriga cõ fua géte da parte ondeftauão, & da outra defembarcou Anrique médez de vafcÕcelos cõ os feus, pera q a
  • 343 Livro VIII, Capitolo LXXXVI frota lhes ficaífe no meyo & hús & outros a goardafie. E laqximena q fintio q os noffos erão chegados fortaleceofe ainda mais do q eftaua, & mandou meter muytos eftrepes de pao ferro muyto groffos por derredor da fortaleza. E efta noite cõcertou dõ Efteuão como fe auiao de cometer os imigos: & foy q dÕ Chriftouã da gama feu jrmão foíTe na carauela de Fernãgomez abalroar a trãqueira, & jrião coele Simão fodre, Manuel da gama & outros ate cincoéta homés fidalgos. E q a crauela foffe cercada darrõbadas por lhe nã fazer nojo a artelharia. E logo ao outro dia lhas fizerao muyto fortes daruores inteiras q cortara pera iffo. Ifto feito hú dia pela menhaã abalou a carauela q leuaua muy grande pefo por amor das arrobadas, & por iffo não podia jr fe não âs toas, & eftas auia dir atar em aruores hú Luys de braga q fora efcriuão da feitoria, & defpois da¬ tadas nas aruores fe auião dalar por elas os da carauela ao cabreftante, porq nã auia força de remos q a fizeífe furdir fegundo feu pefo, & a grande correte dagoa: & mais indo a remos não fe podia leuar por amor da artelharia dos imigos q eftaua certo pefcar as manchuas ou balões a q foffe atoada como defcobriffe ho cotouelo q ficaífe a vifta da trãqueira. E indo húa fó manchúa atoada defta maneira hia ao longo de terra, & defpois emparfehia cÕ a mefma carauela em quanto fe alaffe polo cabref- tãte. E porq nifto auia de auer vagar ficou do Efteuão cÕ o refto da ar¬ mada detrás do cotouelo ate a carauela afferrar cõ a trãqueira, de q tanto q fe lhe a carauela defcobrio começão de chouer pelouros cõ tanta fúria q parecia q fundiã ho mundo, quanto mais a carauela, a q as arrobadas aproueitarão muyto pera os que hiã detro não fere todos feitos é peda¬ ços. Porem Fernão gomez foy ferido dú pelouro em hú braço, de q def¬ pois morreo. E da carauela també jugauão coeífa artelharia q leuauão, & tudo era cuberto de fumo, & como o rio era fõbrio por amor da efpef- fura do aruoredo, quafi q ficou todo efcuro, & nifto paffou Luis de braga muj grãde perigo em yr atoar os cabos âs aruores por onde fe auia dalar a carauela. E auédo os negros q remauão medo das bõbardadas e fre¬ chadas q tirauão da tranqyra não querião remar, pelo q conueo a Luys de braga arrãcar da efpada, & ameaçalos coela q os mataria fe nã re- mafle, & cõ ifto remarã fem eles né ele ferem feridos: o q pareceo mila¬ gre : & afíi foy ate q anoiteceo q a carauela ficou a meo tiro de pedra da tranqyra & ali furgio cõ determinaçã de aqla noyte jr aferrar a trãqueira.
  • 344 Hijloria da índia CAPITOLO .LXXXVII. De como dó E/leuão desbaratou el rcy Dugentana. SUrta a carauela, vio Luis de braga na boca do canal júto da tran- qyra onde a carauela podia chegar hú jugo alagado q os imigos alagarão receando de fer o q vião, & ficaua a agoa ta baixa q na podia paíTar húa manchua por cima do júgo, & fabido ifto por dõ Chrif- touão deyxoufe eftar ate ver o q dõ Efteuão determinaua, a quê logo man¬ dou dizer o q paffaua, ele lhe mãdou dizer q fe tornaífe, & affi o fez. E vedo dõ Efteuão q nã podia cõbater a fortaleza por már determinou de o fazer por terra & nã fe yr fem a tomar: & pera faber fua difpofição, & onde poderia alfentar a artelharia mãdou a Francifco bocarro de Lif- boa q tinha a feytoria de Malaca q fe paífalfe da banda dalem rio, & viífe a difpofição da terra dizendolhe pera q: & foy coele hú efplgardeiro, & indo em pés, & é mãos por não fer vifto fe pos em cima dú outeirinho q fenhoreaua a fortaleza, q vio aífentada de maneira q eftãdo hú camelo dõde ele eftaua cÕ hum par de falcões, nã pareceria nlgué na fortaleza q não folfe pefcado, & aífi o difle a dõ Efteuão, & q fô aqla eftãcia abafta- ria pera fazer defpejar a fortaleza aos Imigos. E ouuindo lho Manuel da gama lhe difle, q não fizeffe aquilo tã chão, q mais auia q fazer do que dizia, & ele diffe q pois ele q o fora ver o dizia q ainda era muito me¬ nos, & pera ifto foliem lá dõ Efteuão, & ele, & verião fe era affi, & então forã todos tres & coeles dõ Chriftouão, Antonio dabreu & Anriq médez, & por o mato ler muyto bafto os não virão da fortaleza. E vedo q era afli como Frãcifco bocarro dizia, na noyte fegulte mandou dõ Efteuão fazer ali húa eftancia cõ hú camelo, & dous falcões, & deu a goarda dela a Anriq médez de vafcÕcelos, cõ a gente da fua lanchara: & Antonio grãdio eftaua é outra da mefma parte em q eftaua a fortaleza. E é ame- nhecédo começou jugar a artelharia q fazia muyto nojo aos imigos, & eles aos nolfos nenhú, pofto q a fua núca deixaua de tirar. E durou efte cÕbate quafi oyto dias, é q os nolfos matarã dos Imigos muitos & eles algús dos nolfos, & nifto faltou a poluora, porque dõ Efteuão não deter¬ minaua de dar tãtos dias cõbate, que cuydou q em hú fe acabaífe aqle feyto, & tãbe lhe começou dadoecer a gente por a terra fer muyto doen¬ tia, & por faltaré os mãtimétos, pelo q dõ Efteuão dagaftado pos é cõ- felho fe fe tornaria pois não fazia nada & podia perder muyto, & muitos forã de parecer q fe tornalfé, & Pero barriga cõ algús diffe q ele não auia medo aos Imigos pera fe tornar, mas q auia medo á nolfa frota q
  • Livro VIII, Capitolo LXXXV1I S45 tinha pera andar fete legoas per hú rio muyto eftreyto & de grande cor¬ rente, q feria caufa de darem hús nauios pelos outros & desbarataréfe per fi, que não fe deuião yr dali fem cometer a fortaleza, & cometendoa poderia fer que Deos os ajudaria, & quando não, fe os Imigos os viflem tornar terião rezã de dizer, vãofe deixalos yr. E como dõ Efteuão & todos tinhão a Pero barriga por muyto bÕ caualeyro, & que fizera diífo muy boa experiecia em África, & q fabia bé da guerra, abalouos muyto efte feu parecer, & ouuerãno por bÕ, poré não fe determinarão no q farião & ficou alfi, & cada hú fe tornou a feu lugar, & fe forã a jentar q era pela menhaã. O q parece q quis noffo fnor pera mais feu louuor & glo¬ ria: porq defpoys defte confelho, chegou à fortaleza Tuão mafamede capitão mór do mâr del rey Dugétana, da cofta de Pão onde ãdaua dar- mada, & el rey o mãdara chamar pera ajudar cÕ fua géte a Laqueximena cotra os noffos & deixou a frota no mdr, & foyfe por terra cõ fua géte â fortaleza, & chegou o dia em q foy efte cõfelho, & como ya de refrefco quis logo fayr aos noffos, & deu aqla tarde rebate nas eftancias Dãtonio grãdio, & de Pero barriga cõ bé mil homés, & eles q não defejauão mays q pelejar coeles receberãonos cõ muito esforço, & pelejarã cõ grãde ou- fadia. E tanto q a grita foy ouuida na frota, mãdou dom Efteuão os mais que pode q foffem acodir, & a artelharia começou logo de jugar, & foy ho arroido tamanho q parecia deftruirfe o mudo. E como os Imigos vif- fem quã bé fe os da eftancia defendião, & q focorrião os da armada, & ouuirão as bombardadas, cuydarão q erão tomados no meo, & defmaya- rão de modo q fe ouuerão de perder fe não teuerão tã perto a colheyta, onde fe acolherão fem fazer dano aos Portuguefes, recebendo deles muyto, & forão os matãdo até a fortaleza. E vedo Laqximena quã facilméte Tuão mafamede, q ya de refrefco fora desbaratado & a bateria q fe daua de cõtino á fortaleza, & fobre tudo parecerlhe q determinauão de a tomar, ouue tamanho medo, & afli os q eftauão coele, & també Tuã mafamede pelo q tinha efpremétado, q aqla noyte defpejarão a fortaleza de todo, & fe forão caminho da pouoação em q el rey eftaua, que tãbé defpejou a pouoação cõ quantos eftauão nela & fugio cõ medo. Tomo IV 44
  • 346 Hiftoria da índia CAPITOLO .LXXXVIII. Do qfe\ dó FJleuão defpoys q desbaratou el Rey Dugentana. DEspejada a fortaleza, quando veo ao quarto dalua, q era de Pero barriga nã ouuldo na fortaleza o q dates ouuia per brandarê & falare os Imigos q fe vigiauã, & tãger os feus finos, & cantar ga¬ los. E parecendolhe muyto foffego, fayofe fora da eftãcia cõ algús homês do quarto, & chegoufe â fortaleza, & não ouuindo nada chegoufe tão perto q claramête vio q eftaua defpejada, o q logo mãdou dizer a do Ef- teuão q como amanheceo defembarcou com fua gente, & entrou dentro na fortaleza em que não ouue que roubar. E ela desfeyta de todo, & re¬ colhida a artelharia q hi ficou, foyfe cõ toda a frota pelo rio acima á po- uoação delrey q também achou defpejada, & queymouha toda, & muitas lãcharas q eftauão começadas, & tomou outras q eftauão acabadas, & aífi algús calaluzes. Ifto feyto feguio pelo rio acima bé húa legoa alê da pouoação pera ver q auia nele: & achou muitas lãcharas & calaluzes q eftauã varados no mato no q gaftou tres dias. E feyto ifto fe tomou, & quãdo fe fayo do rio, porq a corrête nã atraueffaffe os nauios, hiãofe atoãdo as aruores, pelo modo que fe atoaua a carauela quãdo foy pera aferrar a tranqyra: faydo fora do rio tornoufe a Malaca Õde foy recebido cõ muito grãde feita da gete da terra, porq ouue tamanha vitoria dú Rey q eftaua tão poderofo, & fazia tãto dano a Malaca, & de cada vez lho ouuera de fazer mais, & das lancharas, & calaluzes & artelharia que do Efteuão ouue dos Imigos fez húa grãde armada de q tinha muyta ne- ceflidade. CAPITOLO .LXXXIX. De como Francifco de barros de payua & Anriq mêde\ de vafcõcelos pelejarão cõ húa armada de Iaos. CHegado do Efteuão Dugetana mãdou Anriq mêdez de vafconcelos a Patane aífi pera trazer Frãcifco de barros de payua q la eftaua, como pera dar ordé que fofle dahi hú júgo á China que lá mã- daua a prouar fe qreriã ter trato, como teuerão em tépo paflado, & foy Anriq mêdez em hú nauio dos noffos: & chegado a Patane achou Fr㬠cifco de barros viuo & os q ficarão coele, & defpachado o júgo pera a China deu ordê como Francifco de barros fe ébarcafie em outro da terra cõ os de fua cõpanhia pera fe tornare a Malaca. E defpachãdofe Frãcifco
  • Livro VIII, Capitolo LXXXIX 34] de barros teuerão noua de húa armada de coflayros Iaos, de q era capi¬ tão môr hú mouro Iao chamado Eriacatl, & trazia vinte quatro calaluzes, dús q té duas ordés de remos hús de pãgayo outros de galé, & fã tama¬ nhos q traz cada hú cé homés de peleja, & aífi o trazião eíles, & muyta artelharia, & muitos arteficios de fogo. E fabédo Anriq médez & Fran- cifco de barros q efta armada vinha pera Patane, fizerãofe á vela cõ tra- qtes, & mezenas pera yré receber a armada ao már, & em fayndo da enfeada furgio Francifco de barros na cofta por ter ainda géte em terra & mais a vela grade. E Anrique mendez foy na volta do mâr a defcobrir os Imigos, & defcubertos virou pera onde ficaua Frãcifco de barros, & furgio por ho vento fer calma, & os Imigos fe forão chegado a remo pera ele: & feria as tres oras defpois de meo dia, Eriacatl repartio os calalu¬ zes defta maneyra: Mãdou a fete que fe foffem cometer Francifco de barros, & ele cõ os outros a Anriq médez & porq o não pode aferrar á fua vontade, por Anriq mendez trazer o feu batel atracado da banda dabalrauento, mãdoulhe cortar o cabo por hú calaluz, & os q ho yão fazer como fabião q auiã dachar contradiçã aperceberão fe parela, fazédo hú teito das fuas rodelas por cima do calaluz cõ q por mais pedradas q lhe derã & outros arremeffos cõ q lhe tirarã, nã deyxarã détrar no batel, & cortarlhe o cabo & leuarãno. E leuado abalroou Eriacatl ho nauio com outros capitães, & Anrique médez acodio logo cõ os feus, cõ muytas pa¬ nelas de poluora & muytas efpingardadas: & durou a peleja hú pedaço em q muytos dos Imigos forão mortos. E nefta peleja foy Anrique mé¬ dez ferido na barba de húa frechada de zarauatana, & por fer peçonhenta ficou ele defacordado, & os feus ho meterã por morto em húa camara. E com tudo fe defenderão també que nunca os imigos os poderão entrar por aquela parte, antes os fizerã afaftar. E querédo outros abalroar por outra, como ja fazia vento, derão ás velas, & forãfe na volta do mâr. E não os podendo os Imigos feguir, forãfe todos a Frãcifco de barros, que pelo q lhe ficaua em terra fe deixou eftar furto, não tendo configo mays que dezafeys Portuguefes, & por iífo os Imigos ho aferrarão logo, & ele fe defendeo que ho não entraflem cõ muytos artifícios de fogo que lhes deitou. E nefte cõbate lhe matarão tres homés, & lhe tomarão tres pa- raós de feruiço que tinha a bordo, & fugirãlhe doze marinheyros da terra. E vendo Eriacatim que achaua mayor defenfa do que cuydou, ja fobre perfia fez quatro fieyras dos feus calaluzes, & cada húa hia abalroar ho jungo, & pelejaua tanto ate que cançaua, & todos ho abalroarão muytas vezes. E també fe defendeo que nunca ho entrarão, pofto que lhe mata¬ rão & ferirão quafi todos, & ele foy ferido em húa perna de húa frechada peçonhéta, & a hú Baftião nunez da vidigueira derão quatro bõbardadas
  • Hijloria da índia 348 em húa rodela q tinha embaraçada, fem lhe fazer nenhú mal. E durou a peleja ate as onze horas da noite, q era muy clara pelo grande luar q fazia. E não ficando viuos né pera pelejar mays que Frãcifco de barros & Icã martinz meftre.do nauio, & Baftião nunez, aferrou por derradeiro ho jungo Eriacatim, que núca ate então ho abalroara, & coele foy outro capitão. E como os noflos não erão mais que os q digo, começarão de fubir ao nauio ate doze dos Imigos, a que acodirão Francifco de barros & os outros dous cõ muyto esforço, & lançarão fobreles tãtas panelas de poluora q os fizerão faltar ao már todos queimados, de que morrerão os mais. E aíli húa molher & dous filhos de Eriacatim, que trazia cõfigo, q defefperado dentrar ho jungo fe afaftou, & não quis mais perfiar, & de fora fe pos as frechadas & bõbardadas cõ fua armada, de q tinha per¬ dida a mayor parte da gete q foy morta nos cometimétos paffados, que foy muyto grãde milagre de noffo fenhor, fendo tantos quantos erão não entrare nuca ho jugo, ou nã ho queimaré, fegundo a multidão darteficios que lhe deitarão dentro: de que algús derão em húa jarra de poluora, em q fe acedeo ho fogo que queimou tres Portuguefes, & hú foy Fran¬ cifco de barros em húa mão, & em húa parte do rofto. E a fora ifto forão tantas as bõbardadas que lhe derão, que fe noffo fenhor ho não liurara, abaftarão pera ho meter no fundo, & ho fazeré em pedaços, porque ao lume dagoa lhe derão quatro com que ho arrobarão, & acodirão os Por¬ tuguefes a taparlhe os rõbos, & no mafto grãde lhe derã cinco, & no do traqte tres & na camara de popa lhe meterã xlv. pelouros. E eítando affi Anriq medez q ficara defacordado da frechada tornou em feu acordo, pregútando fe era Francifco de barros tomado: & fabedo q ainda fe de¬ fendia, queixoufe muito cõ os feus porque ho defempararão, & ho nã ajifdarão & mandou que ho foffem ajudar, & quãdo forão acharão os Imi¬ gos afaftados tirãdolhe bombardadas, & romperão por antreles tirando com a artelharia, & meterã hum calaluz no fundo, & forãofe ajuntar com Francifco de barros, ho que vendo Eriacatim fe foy na volta da terra muyto deftroçado, & com grande perda.
  • Livro VIII, Capitolo XCI 349 CAPITOLO .XC. De como Francifco de barros & Anrrique mende\ de vafconcelos fe tor¬ narão a Malaca. PArtidos os Imigos, difie Francifco de barros a Anrriq médez como ficara, & q forçado auia dir a terra pola gente q lá tinha, & ama- rinharfe, porq fem iflo na poderia yr a Malaca, & aífi o fez, & Anrique médez proífeguio pera Malaca, & tornado Francifco de barros a Patane & tomado o de q tinha neceflidade & fua gente, & curados os feridos, partiofe pera Malaca, & no caminho topou Patibarrá Iao capitão môr de húa armada de colTairos de feífenta, & tantas velas groífas, & por yr muyto ao mar lhe efcapou, pofto que ho feguirão oyto velas, & não ho podendo alcançar ho deyxarão. E depois difto foy ter coele Anri¬ que mendez, que vinha de Patane onde arribou cõ tempo defpois de Francifco de barros partido, & aífi forão em companhia ate que fe apar¬ tarão com tepo. E ficando Francifco de barros fó, porque leuaua tão pouca géte como digo, & fabia que aqlas armadas o auião dir efperar ao eftreyto de Cincapura pera ho tomarem, porq não tinha outro cami¬ nho pera Malaca, foyfe a húa jlha que eftaua oyto legoas da cofia, & hi fe deyxou eftar ate q lhe pareceo q os imigos ferião idos, & ele marcaua ho tempo de fua eftada polos mantimentos que poderião ter. E parecédo a Francifco de barros que era tempo, partiofe & paliou o eftreyto fem achar nhú dos jmigos, & foy ter a Malaca onde achou Anrique médez que por achar os tempos contrayros gaftou tanto tempo que ja os imigos erão ydos, que fe iífo não fora, fora grande milagre efcaparlhes. CAPITOLO .XCI. De como muytos gentios q morauão no Morro fe tornarão Crijlãos. DEspoys q Triftão datayde capitão da fortaleza de Maluco ficou de pofle dela, entendeo em a reftaurar por eftar muyto daneficada, & a torre da menagem, q do derradeiro fobrado pera cima era de paredes de canas, & mãdou ha fazer de tauoado & rebocar por détro cÕ cal, & aífi mãdou fazer a ygreja de pedra & cal. E nefte tempo lhe chegou hú meffageyro de hú gentio gouernador de húa cidade de Morro chamada Momoya, por qué lhe mãdou dizer que fe tornaria Chriftão fe lhe prometefle de o liurar dos mouros q de cada vez q hião ali darmada
  • 35o Hijloria da Índia vexauão a ele, & aos outros gentios, tomandolhes o q tinhao, & tratan- doos como catiuos. E coefte melfegeyro hia hum Português chamado Gon- çalo velofo, per cujo cofelho fe qria efte regedor tornar Chriftão. E fol¬ gando Trilião datayde muyto coeíla noua, por fer tamanho feruiço de Deos como era, porq efta obra tão fancta ouuefle effeyto, teue efte meffe- geiro com feus cõpanheyros efcõdidos ate q fe bautizarão, & veftidos muyto bem de trajos Portuguefes os defpedio cÕ repofta ao regedor, q fe ele fizeífe Chriftão, ale de o fauorecer, ajudar, & emparar, contra que quer que o quifefle anojar, lhe faria muytas merces. Pelo que o regedor fabida efta repofta fe foy logo pera a fortaleza a fazer Chriftão, Õde re- cebeo agoa de bautifmo com grãde fefta & folenidade, & foylhe pofto nome dõ Iohão de momoya, & alfi forão bautizados todos os de fua cafa. E quando fe foy mandou Trilião dataide coele hum clérigo chamado Sy- mão vaz pera q bautizalfe aqle pouo, de q ho mais fe tornou em pouco tempo á lanta fé catholica, & em tanto crecimento hia efta obra de noífo fnor, que foy neceífario mãdar Trilião datayde outro clérigo q auia nome Francifco aluarez, pera ajudar Simão vaz, & tãto fruto fizerão ambos que os mays dos pagodes daqles gentios mudarão em ygrejas, em q ce- lebrauão ho officio diuino. E vendo Trilião datayde como efta Chriftin- dade multiplicaua, mandou lá algús Portuguefes que em húa trãqueyra que fizerão eftauã em goarda & fauor daqles Chriftãos, pera q os mou¬ ros os não vexaffem. E fazédofe ifto no Morro, chegou ao porto de Ter- nate hú calaluz em q vinhão hús homes de húas jlhas que fe chamão dos Celebes, onde dizem que ha muyto ouro, cera, cafcas de tartarugas, & outras mercadorias ricas, & eftes coltumauão de yr cada ano a Ternate a bufcar roupa da índia & outras coufas q leuauão em retorno de fuas mercadorias, & como tinhão efte costume defpoys que forão no porto de Ternate fizerão moftra do que leuauão: em que moftrarão algúas mani¬ lhas douro, & logo na noyte feguinte faltarão coeles certos Portuguefes em hum batel & cometerãonos como Imigos, ferindo & matando algús & os outros fe faluarão no mar deyxãdo ho calaluz que os Portuguefes tomarão & leuarão a Trilião datayde cÕ todo ho defpejo que tinha, que ele tomou, pelo q pareceo que aquilo fora feyto por feu mãdado, de que el Rey Tabarija & os mouros ficarão muy defcõtentes, & efcandalizados, mas calarãfe porq nã podiã mays.
  • Livro VIII, Capitolo XCII 351 CAPITOLO .XCII. De como Trijlão datayde prendeo el rey de Tabarija de Ternate, & fua mãy, & Pateçarangue. NEste tépo foy mexericado el Rey Tabarija de Ternate cõ Trilião datayde que trataua de o matar & tomar lhe a fortaleza, & q en. trauão neíta confulta fua mãy, & feu marido Pateçarangue rege¬ dor do reyno: & Ragabaho juftiça mòr. O que fabido por Trilião dataide ho creo por fere mouros. E determinãdo de os prender deu diffo conta a algús Portuguefes feus amigos, com q aflentou q pera prêder el rey & os outros fem aluoroço, fizeífem dous dos mefmos Portuguefes que pele- jauão, pelo que Trilião dataide os mandaria prender, & prefos, rogarião a el rey que falalTe por eles q os foltalfé, ao que ele jria á fortaleza, & indo lá feria prefo cõ os outros, que també os farião la jr com algúa manha. Hlo adernado logo fe pos em obra. E rogado el rey por parte dos dous Portuguefes prefos q os fizefe foltar, foyfe à fortaleza pera ho rogar a Trilião dataide, que efperãdo por ido eltaua na torre da mena¬ gem com a mayor parte dos Portuguefes da fortaleza, a que tinha dado cota do cafo, & a q tinha mandado que tãto que ele & el rey fe adentaf- fem, agafalhadem antre dous hum mouro dos que entradem cõ elRy em que aferrarião como el rey fofle prefo, porque não fizeflem aluoroço, ou fe deytadem da torre abayxo não fe podendo defender. E edando todos praticando chegou a raynha mãy del rey, & Pateçarangue feu marido, & Ragabaho q Trilião datayde tinha mandado chamar por hum Iorge de brito & Lionel de lima fidalgos: & eles como Inocentes da culpa q lhe dauão, forão logo a feu chamado. E tendo os Trilião dataide todos jútos, lhes difle, que tinha fabido, que fe querião leuantar contra aquela fortaleza, & matar a ele & aos outros Portuguefes, & pera lhes dizer iílo os mandara chamar pera os prender polo cafo fer pera ilfo, & mandalos ao gouernador da índia pera os caíligar como merecelTem, do que eles fe moílrarão muyto efpantados, como quê não tinhã culpa, ficando muyto feguros, & fem mudança de cór, dizendo logo, q aquilo erão mexericos de pelfoas que lhes querião mal, que fe pofeífem coeles e juftiça porque moftrarião fua jnocecia, & aífi fizerão muytas exclamações, dizendo que os prendião fem caufa, & lhes roubauão fua juftiça: & com tudo Trilião datayde os mandou prender em ferros, & meter em hús fotãos debaixo na torre da menagé, & ifto fem nenhú aluoroço, porque os mouros que hião com el Rey por eftarem afferrados não o poderão fazer & porq o
  • 352 Hiftoria da índia não ouueffe na cidade, quando fe foubeffe a prifam del rey, fez Triftão datayde logo rey por confelho do çamarao que eftaua coele, a hú moço que auia nome Cachil aeyro, filho baftardo del Rey Boleyfe & de húa Iaoa q ainda era viua, & ho tinha cõfigo, a cuja cafa Lionel de lima foy por ele com outros, & fobre o leuarem deytarão a mãy por húa Ianela fora, fobre o q foy grande aluoroço na cidade. E porque logo fe rompeo como el rey & os outros erão prefos, muytos fugirão da cidade, princi¬ palmente os do cofelho del rey, cuydando que também os prédefiem, & era pera auer piedade ho defatino cõ que fugião, & como os feguião as molheres, os filhos, & os criados chorãdo, & deixando as cafas abertas, & como a géte baixa os faya auer gritando de medo, & era a reuolta muy grãde. E hú mouro honrrado q auia nome Ouro bachela, de que faley a tras, por fer do confelho fe quifera yr difculpar a Triftão datayde, & foy morto á porta da fortaleza, ho q foy caufa de ainda os mouros fugirem mais & quafi fe defpouoar a cidade, porem logo fe tornou a po- uoar tornãdofe os mouros poucos & poucos, por grandes amoeftações que lhe fobriffo fez ho çamarao, dandolhes muyto firmes feguros da parte de Triftão datayde, de não receberem mal nos corpos né nas fazédas, & por efta maneira forão aífelfegados todos os outros lugares da jlha, cujas pef- foas principaeis forão á fortaleza por rogo de Triftão datayde que lhes deu as caufas porq predera Tabarija & os outros. E o mefmo efcreueo aos reys comarcãos, & Sãgajes porq ho nã teueífem por tirano & fe aluo- roçaífem. E ainda q lhes pareceo mal o q tinha feyto, não lhes deu diffo, dizendo q era be empregado nos Ternates todo ho mal que lhes fizefiem os Portuguefes, poys os leuarão a fua terra & lha entregarã, & os ajuda¬ rão contreles feus parentes, & naturaeis: & mandarão dizer a Triftão datayde que lhes parecia bé ho que tinha feyto, offrecédolhes fua ajuda fe lhe fofle neceffaria, com ho que Triftão datayde ficou cõtéte & defcã- çado, & logo leuãtou por rey Cachil aeyro, & fez gouernador do reyno ho çamarao, pofto q era de baixo fangue, q era cõtra ho coftume da terra: & por fe fegurar meteo el rey na fortaleza donde nunca faya: mas hi era feruido & venerado como rey, & ho feruiã os feus. Nos officios q tinha dordenãça, todos Triftão datayde proueo de nouo, que cuydando q eftaua feguro pera fazer tudo o que quifeffe, determinou logo dauer pera fy todo ho crauo q ouueffe na terra, pelo preço que eftaua affentado na feytoria, q era a mil reaes ho Bahar. E pera iífo mandou ho çamarao pregoar fob graues penas, que nenhú mouro nem gentio védeffe crauo fe não a Triftão datayde & aos Portuguefes q ele ordenaffe pera o cõpra- rem. E o mefmo mandarão pregoar a feu requerimento os reys de Ti- dore & de Geylolo, & ho de Bachão, que també foy requerido pera iffo,
  • Livro VIII, Capitolo XCIII 353 mas nã quis. E pera fe auer todo efte crauo, & não efcapar nenhú, pos Triftão datayde nos lugares em que ho auia criados feus, & outros ho- més de que cõfiaua, & eftes a fora arrecadar? ho crauo, tiranizauão a terra com crueza demafiada, tomando a feus donos quãto lhes vinha á vontade, & as molheres & filhas, & feruindofe deles em tudo como def- crauos, fem Triftão datayde querer acodir a iffo, & cõfelhandolhe algús que ho fizefle por não fe leuantar a terra, zombaua diffo. E toda efta dili¬ gencia dauer o crauo, era caufa de ho feu preço aleuantar de cada vez mais, & chegou a valer ho Bahar a cincoenta & a feflenta cruzados, porq como os Portuguefes tinhão muita fazeda q empregar, & vião ho cami¬ nho q a terra leuaua pera fe leuãtar, qrião todos empregala, & todos comprauão crauo, & os mouros como fe auenturauão a grandes penas fe Triftão datayde ho foubefle, não o querião dar menos do preço q digo, & outros ho dauão por armas, & pola neceffidade q os Portuguefes tinhão não deyxauão de ho comprar. CAPITOLO .XCIII. De como Triflã dataide fe\ guerra a el rey de Baclião. NEste tépo fez Triftão datayde guerra a el rey de Bachão, por 1'e vingar dele de lhe nã querer deyxar fazer crauo em fua terra: & por não yr á fortaleza defpois da prifão del rey de Tabarija, como q fe qria leuãtar cotra ela. E como ele fabia bé da guerra, a primeyra coufa q fez, foy mãdar tomar lingoa a Bachão pera faber ho que el rey determinaua, & a ifto forão hú Antonio pereyra, Iorge goterrez, & outro. E como os Bachões nã fe temião por eftarem de paz com os Portugue¬ fes, facilmente eftes capitães tomarão algús, do q fe el rey efpantou muito, por fer ho mays antigo amigo, & mais leal que os capitães de Ternate teuerão fempre naquela terra, & cõ mais deligencia acodio fem- pre á fortaleza em fua neceflidades: & pofto q Triftão datayde foube dos Bachões que el Rey eftaua muyto afleflegado na paz & amizade que tinha coele, todauia profeguio a guerra contrele, mandando húa armada que lha fizefle a fogo & a fangue. A cujos capitães el rey fez grãdes requerimen¬ tos da parte del Rey de Portugal que lha não fizeflem pois era amigo del Rey de Portugal & tinha paz coele, & nã queria guerra nem fizera por que lha fizeflem, & cõ tudo não quiferão fe não fazerlha, no que não fizerão mays que perder? algúa gente que lhe os Bachões matarão & ferirão, & fem fazerem mays fe tornarão a Triftão datayde, que tomando aquilo por injuria determinou de fe vingar, & yr em pefloa, & leuar em <5 Tono IV
  • 354 Hi/loria da índia fua ajuda os reys de Ternate, & de Tldore, & partiofe cÕ húa grofla ar¬ mada, de q forao capitães a fora ele, Diogo fardinha capita mór do már, Baltefar vogado, Antonio pereyra, Francifco pirez, Baltefar velofo, Li- fuarte caeyro, Fernão anriquez, Antonio de teyue, Iorge goterrez, & ou¬ tros, & afíi os reys que digo, & feus gouernadores & Sangajes. E che¬ gado á boca do rio de Bachão, foube q os mouros ho tinhão atupido, com ho muito & muy bafto aruoredo que tem de cada parte que ferra¬ rão, & deytarão nele. E fabendo Triftão datayde que não podia yr por terra por fer alagadiça, determinou de yr polo rio & defatupilo, & afli ho fez, leuãdo nos bateis & chãpanas, molinetes carreteis com que tirauão os troncos groífos do aruoredo, & os mays delgados cortauão cÕ macha¬ dos, o que fazião cÕ muyto grãde trabalho. E fabédo ei rey de Bachã como Triftão datayde defatupia ho rio & fe hia chegãdo á cidade, mã- dou gente que per antre o mato tirafle frechadas, & arremeffos aos Porr tuguefes, & os eftoruaíTe de defatupirem ho rio, ao q Triftão datayde atalhou, mãdando Diogo fardinha capitão mór do már cõ outros capitães q fofiem ao longo de terra cõ os efpingardeiros & varejaffem a gente q impedia o defatupir do rio, & afli foy feyto. O que vendo el rey, man¬ dou deytar ho rio por outra parte por onde ya antigamente, & como tinha muyta gente logo foy feito, & começando a agoa de vingar, ficou a frota de Triftão datayde em feco, & fofpeytando ele o que podia fer, mandou géte a ver fe era afíi, & achando q fy, derão nos q trabalhauão no rio, & fizerãonos fugir, & defpois atopirão a madre q tinhão feyta ao rio, & fizerãono tornar por onde corria. E defefperado el rey de poder efcapar a Triftão dataide, defpejou a cidade & acolheofe com a gente polo fertão da jlha, de modo q quando Triftão dataide chegou a ela, nem achou géte cõ que pelejar, nem fazéda q roubar, o q vendo os Portugue- fes lhe poferão o fogo, & a qymarãò & deftruyrão de todo, cõ grande parte da terra ao derredor, & quebrarão as fepulturas dos reys q ali eftauã fepultados, & leuarão as offadas, parecendolhes que defpoys lhas refgataria el rey: E defpois difto, quifera Triftão datayde entrar pola jlha & deftruyla, mas não pode, por fer terra alagadiça: & vendo que não podia fazer nada fe tornou pera a fortaleza cõ os reys, deyxãdo Diogo fardinha cõ a mayor parte da armada pera q fizefle guerra guerreada a el rey de Bachão, & ficou coele Pateçarangue cõ a armada de Ternate. E ydo Triftão datayde el rey cometeo paz a Diogo fardinha & q daria duzetos Bahares de crauo, do q Triftão dataide foy contente, & defpois diifo madou hú nauio a banda a fazer fazéda, de q foy por capitão hú Ioão de canha pinto.
  • Livro VIII, Capitolo XCIIII 355 CAPITOLO .XCIIII. De como el rey de Cambaya foy bufcar el rey dos Mogores. DEspoys que çoltão badur Rey de Cambaya fez paz cõ ho gouerna- dor, determinou de yr pelejar com el rey dos Mogores, q lhe en- traua a terra, como diffe, & qrendo partir foube q fe lhe rebelara a raynha dum reyno por hum feu filho que era feu vaffallo, que determi¬ nando de fugigar efta raynha primeiro que fofíe contra el rey dos Mogo¬ res, partio logo da cidade do Mandou onde eftaua & leuou hum exercito em que entrauão cento, & cincoenta mil homés de caualo, em que aueria trinta mil acubertados & de bõs caualos, & os outros erão bõs & máos, & quinhétos mil homés de pê, em que entrauão quinze mil eftrãgcyros Fartaquis, Abexins, & trezétos Rumes, que leuaua Rumecão, & cincoenta Portuguefes, quinze Chriftãos catiuos, que el rey foltou pera ho ajuda¬ rem nefta guerra, & lhes mandou dar armas & pagar foldo, & os outros arrenegados, & trinta Francefes que forão ter a Diu na nao Dobrigas: leuaua mil peças dartelharia écarretadas, em que entrauã quatro bafalif- cos, jrmãos do q Nuno da cunha mãdou a Portugal, & tudo de metal, é carretas de quatro rodas, & cada carreta era leuada por duzentos boys, os bois das carretas das outras peças erão fegudo elas demandauã, & muytos bombardeyros & fundidores. E pera efta artelharia hião quinhé- tas carretas carregadas de poluora & de pelouros: leuaua oyto centos Alifantes cõ caftelos de madeyra, & de muytos deles jugauão dous ber¬ ços, & nos outros hião quatro efpingardeyros. Pera as defpefas defte campo leuou quinhentos cofres grãdes de cobre cheos de dinheyro douro & de prata, & cada hú hia em húa carreta. A fora outro muyto dinheyro que leuauão todos os fenhores q hião com el rey, aífi mouros como gen¬ tios, de q algús tinhão fete cétos mil cruzados de renda, & outros qui¬ nhétos, quatrocentos, trezentos, duzentos, & cento, & cada hum leuaua feu tefouro: & hião nefte campo tres mil mercadores, q ho mais pobre não decia de vinte mil cruzados, & muytos de trezentos, & duzentos mil. Partido el rey, feguio feu caminho pera o reyno de Sangà, & foy fobre a principal cidade dele, q fe chama Chitor, q na lingoa da terra quer dizer fombreiro do mudo, & afti ho he ela, & alé de fer a mais nobre & rica q pode fer no mudo, não lhe falta grandeza & fortaleza: ferá de tres legoas de roda, fituada fobre húa muyto alta ferra, cercada de fortes mu¬ ros & baluartes da noffa maneira, em q auia muy funtuofos edifícios, afíi dos feus pagodes como dos homés que tinha os mais as paredes forradas
  • 356 Hifioria da índia de tauoado dourado, & as que não erão douradas erão branqueadas cõ hú betume aluo, & rijo q parecia vidro. Neíta cidade eftaua a raynha deite reyno, q auia nome Creméti, molher viuua & ainda de boa jdade, & muyto fermofa, & tão esforçada q pelejaua como homé, & tinha cõfigo dous mil de caualo & trinta mil de pé. Chegado elrey de Cãbaya a efta cidade cercou da ferra quãto ocupaua dela a cidade, & do pé da ferra começou logo de mãdar fazer dous maneys de pedra & barro pera che¬ garem acima ao muro da cidade, & cada hú por détro de largura de cincoéta pés cubertos de vigas muyto jutas, porq as pedras q os immigos lançauão de cima não fizeflem nojo aos que andauão dentro fazédo hús degraos pera a gete fobir por ali a cidade, & mandou pregoar que a todo home q lhe leuafle húa pedra dos muros da cidade daria hum madrafa- xao, que pola noífa moeda vai tres cruzados, pera o q tinha diante de ft cofres cheos deles, & coeíta diligencia, & cÕ a que fe pos nos mayneis forão acabadas em hú mes & feyto fobre cada húa hú baluarte que fica- uão tão perto dos muros da cidade que deytauão détro panelas de pol- uora, foy a cidade entrada principalmente pola valétia dos Portuguefes, que el rey fempre mandaua poer nos lugares de mayor perigo, por os ter por mays oufados q nhús das outras nações, & aífi forão eles os pri- meyros que entrarão a cidade. Cujos moradores fizerã húa notauel faça¬ nha, que foy queymarenfe todos (em fe entrando a cidade) alfi molheres como homés que não poderão morrer na batalha, & alfi fuas fazendas que tinhão preíles pera iffo, & foubefe defpois q forão fetenta mil peífoas & ho fogo durou tres dias fem fe poder apagar. E a raynha fugio logo com feus filhos & com hum fenhor feu vaffallo que tinha por amigo. E tomada a cidade el rey de Cambaya ficou tão ledo como fe fora fenhor do múdo, & dizia que dali por diante nhú rey da índia auia de trazer fombreyro fe não ele, & fez muyto grandes merces aos do feu campo dobrando as rendas aos fenhores e ho foldo aos foldados. CAPITOLO .XCV. De como el rey de Cambaya fem pelejar foy desbaratado, por el rey dos Mogores. EL Rey dos Mogores defpois q determinou de pelejar com elrey de Cãbaya, partio de fuas terras com duzentos mil de caualo, os cin- coenta mil acubertados, & eítes erão Mogores, os outros de caua- los ligeiros, Tartaros, Tarquimães, Coraçones, & Delis, & cadahú deites acubertados leuaua hú moço de tras de ft cõ hú zaguncho, & alforge cõ
  • Livro VIII, Capitolo XCV 357 mantimeto, & a gente de pé era fem conto, em q auia dez mil efpingar- deiros, & afli hião nefte campo muytas molheres folteyras todas a caualo & com arcos & frechas com que tirauão, & leuaua mil peças dartelharia, & coefte campo fe foy caminho da cidade de Mandou onde cuydou que achaffe el rey de Cambaya. E chegado a ela que foube que não eftaua hi não a quis combater. E fabendo que eftaua fobre Chitor fez para la feu caminho, donde lhe mandou dizer que auia dous mefes que andaua por fuas terras fem achar com que pelejafle: & el rey de Cambaya auia tres dias q tomára Chitor quando lhe derã efte recado, & logo partio com feu campo cõtra Mandou q era o caminho que trazião feus cõtrayros. E chegado a húa fua cidade chamada Docer, aflentada em hú cãpo rafo ao longo de hú rio, achou nouas q ho Mogor eftaua dali fete legoas, & que não andaua cada dia mais de húa legoa, legoa & mea, & os feus corre¬ dores erão vinte mil de caualo acubertados, de q era capitão hú feu jr- mão: & tãto que ifto foube defpedio hú feu capitão chamado Coraçãcão com tres mil de caualo a faber fe era alíi o q lhe dizião. E fabédo o jr- mão do Mogor fua yda deu nele & matoulhe quantos leuaua, faluo quo- renta q ficarão muyto feridos, & ho capitão foy catiuo. Aqui efperou el Rey de Cãbaya ho Mogor, afli por defcanfar fua gente, como por auer difpoíição muito boa pera aflentar o arrayal, que aflentou pegado com o rio de húa parte, & da outra cercado de tranqueiras & cauas cõ muyta artelharia que ficaua fortiflimo, & aqui cõtra feu coftume, q era não fe cofelhar nunca cõ ninguém no que auia de fazer, tomou confelho com Rumecão (que era feu condeftabre) fe daria batalha ao Mogor, porq aué- turaua nela todo feu eftado, o que lhe confelhou q não fizeffe, mas q por outros meyos o afaftaífe de fi, porq dali ao jnuerno aueria hú mes, & cõ as chuuas & cheas & ribeyras era impofíiuel o Mogor efperar no campo, & fe auia dir por força, o que pareceo bé a el rey de Cambaya, mas fayolhe mal, porque nã choueo goteira dagoa, que foy cõtra natureza do tempo: o que foy caufa de fe perder, o q quiça nã fora fe pelejara. E tudo ifto parece que foy permiflao diuina, porq fe ele dali ficara cõ a vito¬ ria, todo feu poder ouuera de virar contra os Portuguefes, & não ceifar atee que os não defarreygara da índia. E chegado ho Mogor a tiro dar¬ telharia do campo del rey de Cambaya, aflentou o feu q tomaua tres legoas pera tras, & na frontaria do arrayal eftauão dous fenhores princi¬ pais, hú fe chamaua Indobeque que era Mogor, outro Eftacolim, Grego de naçã & condeftabre, & das carretas em que leuaua a artelharia cer¬ cou o campo, & cada quorenta fe cerrauã com húa cadea de ferro com que fe fechauão em outra carreta, & defte modo fe fechauão todas em roda que ficauã como fortaleza, & nhú homé de caualo podia entrar den-
  • 358 Hijloria da Índia tro. Tendo ho Mogor aíTentado feu arrayal, começou a artelharia de jugar, & como a del rey era mays furiofa fuftigaua mays ao longe, & fazia mayor dano, pelo q o Mogor fe tirou pera onde lho na fizeffe, & mãdou conuidar el Rey de Cambaya pera batalha campal, chamandolhe couardo. E cÕ tudo el rey de Cambaya pela determinação que tinha não quis pe¬ lejar, porque ja começaua dauer medo fem ver de que. E nefte tempo fugirão do campo de Cambaya cinco Portuguefes, quatro Chriftãos, & hú arrenegado, & forãofe pera o campo do Mogor a quem forão leuados, & leuantoufe a velos da porta de fua téda, & moftrou que folgaua muyto de os ver, & preguntou a cada hú por feu nome, & o arrenegado que era o lingoa lhos difle, & que ho feu era Hamet, porq fe tornara mouro, do q fe el rey efpantou muyto, & eftranhoulhe muyto tornarfe mouro. E fabendo como em Chriftão fe chamaua Antonio gonçaluez, mandoulhe q affi fe chamaffe, & a todos fez merce de dinheiro, veftidos, & armas, & lhes prometeo muito grandes merces fe quifefle jr coele a fuas terras, & encomédouos ao feu codeftabre porq era chriftão: & agafalhauãofe com a fua gente, & fazialhes muyta horra, & eftes ouuirã no mefmo campo que ho Mogor era de cafta de Chriftãos, & por iffo folgaua coe- les. E vedo ele que el rey de Cambaya não queria pelejar, começa de lhe tomar os mantimentos & não lhe deyxaua jr ao cãpo fe não os q não podia tomar, & eftes erão tã poucos q não erão nada pera a multi¬ dão domes & dalimarias q auia no cãpo del rey de Cãbaya, em que logo ouue muyto grãde fome, & era o trigo & ho arroz tão pouco q fe ven¬ dia aos arratens, & valia cada hú feys vinténs, & hú molho de feno ou¬ tro tanto, & começarão de morrer os caualos & os homés, & em dous mefes q aífi efteuerão ouue algús recontros em q fempre os Mogores forão vencedores. E por derradeyro mandou el rey de Cãbaya hum ca¬ pitão cõ todos os Abexins a tomar húa grande recoua de mantimentos que lhe trazião, & os Mogores a tomarão & matarão os mais dos Abe¬ xins, & era ja tamanho ho medo q auião aos Mogores no cãpo de Cam¬ baya q do rugido das armas fe efpantauão. E vendo ifto el rey de Cam¬ baya, & a muyta gente que lhe morria foy ho feu medo tamanho de fer tomado que determinou de fugir. E húa noyte ja no cabo do quarto da modorra fe acolheo ho mays fecretamente que pode, deyxando recado a Rumecão que arrebentafle a artelharia, porq os Imigos não fe aprouey- taflem dela, & que com a mays da géte de caualo que podefle fe fofle á cidade de Mandou pera onde ya, q efta fituada na ponta de húa ferra de fete legoas de roda & de mea legoa daltura, & fica como hú penhão: porq a mayor parte he de rocha viua, a cidade ferá do tamanho de Lif- boa & fobê a ela per húas efcadas feytas ao picã na rocha. Nefta cidade
  • Livro VIII; CapiVo/o XCVI 35g tinha el rey, hús paços todos Iaurados douro & dazul, & as paredes cu- bertas dazulejos, & tem húa orta do tamanho de Vila noua dandrade, & dentro tres grandes tanques dagoa cõ dous bargantls cada hú, em q el rey fe defenfadaua com feus priuados, & no cabo dela húa eftrebaria com dez mil caualos, cÕ fuas feias & freos pera fazer merces aos fnores feus vaffallos. E primeyro q chegaífem a eftes paços auião de paífar por tres fortalezas muyto fortes cõ feus muros & cauas, & cada húa não tinha mays de duas portas q goardauão capitães cõ gente. E fe efta ferra não fora tamanha nunca efta cidade fe poderá tomar, porq tinha dentro agoa & mantimétos pera quãto duraífe o cerco, mas por a grãdeza da ferra não fe podia defender. E cõ tudo el rey de Cãbaya fe acolheo a ela cõ fete mil de caualo q fe forão ajuntãdo coele, cõ quãto deixou a eftrada é fayndo do cãpo, & fe fov por lugares defuiados por não fer tomado. CAPITOLO .XCVI. De como el rey de Cãbaya fe acolheo a Diu, & do Jiiais que fe\. FUgido el rey de Cambaya, mandou Rumecão fobrecarregar a arte- lharia, & muyta arrebétou & outra ficou por arrebentar cõ preffa de fugir, porq a fugida del rey por mais fecreta q foy fe foube logo pelo Mogor, q muyto de preffa foy a pos ele cõ quinhétos de caualo, & os feus derão logo no cãpo del rey de Cãbaya & roubarãono, & as ten¬ das del rey que erão de borcado & de veludo de dentro & de fora forão todas efpedaçadas, q ocupauão hum refíio détro no arrayal em q caberiã dez mil homés de caualo, & foy coufa fé conto ho dinheyro q fe achou, & afli ouro & prata em barras, & muitas peças ricas q não tinhão preço, aíli del rey como dos fenhores q yão coele, q nhú cõ preffa de fugir leuou coufa nhúa: & como eles, & a outra géte do cãpo forão pelo de- reyto caminho de Mãdou, quafi todos forão mortos polos Imigos q lhe feguião o alcanço, & o Mogor fe deu tãta preffa que em tres dias chegou a Mandou, & chegada fua géte cercou a cidade, & mandou dizer a el rey de Cambaya q reftituiffe aqle reyno a cujo era, & os outros q tinha toma¬ dos, & que deffe Diu ao gouernador da índia, & q ho deyxaria yr pera Cãbaya do q fe el rey rio, parecédolhe q eftaua feguro pola fortaleza da cidade & polos mãtimentos q tinha: & durando efte cerco fe cõcertou o Mogor cÕ Rumecão q fe foffe parele & que lhe daria a réda q tinha del rey de Cãbaya & fe aífentaria cõ feus jrmãos, & não lhe deu Diu q tãbé Rumecão pedia por dizer q o tinha prometido a Nuno da cunha. E coefte concerto fugio Rumecão fingindo q daua hú rebate no cãpo dos Imigos,
  • 36o Hiftoria da índia & fayo antemenhaã cõ quantos Rumes tinha & foife pera o Mogor. E foubefe q quãdo el rey de Cãbaya o foube q diflera a Manuel de macedo. Como fofte verdadeyro, & ifto polo q lhe profetizara de Rumecão quando fe defafiou coele. E defpois difto peytou o Mogor tato a hú capitão q goardaua húa das portas da cidade q lhe deu por ela étrada húa noite & tomou a cidade, & el rey de Cãbaya fe acolheo cõ quatro de caualo por yr mais encuberto, & foife caminho do reyno de Cãbaya â cidade de Chãpaner q he da cofta trinta legoas, & é hús grãdes cãpos fe leuanta húa ferra peqna a modo de penhã toda de rocha talhada & ferá em par¬ tes de húa legoa daltura, & em outras de quatrocétas braças, he toda cercada de muro muyto forte de cantaria cõ cincoéta & oyto baluartes do mefmo, & muito bem artilhados dartelharia groffa q não té cõto: toda efta cerca não té mais q húa fó entrada per húa porta feyta ao picão muito alta, & vay de baixo do chão, mais de quorenta braças, & antes de chegar a efta porta tem húa caua de cem paffos muyto fúda, & no an¬ dar de baixo húa ponte leuadiça: em goarda defta eftauão quatro trabu¬ cos de maftos tão groffos como os das naos de carreira. Dentro defta pri¬ meira cerca ha outras feys, & alem da derradeyra eftá a pouoação que he de céto & trinta mil vezinhos q fe eftende por toda a ferra, & nela eftão hús paços del rey do tamanho da cidade Deuora cercados de muro cÕ tres portas de ferro, & de dentro poufa el rey quando ali vay com as fuas molheres q fam feyfcétas, & os recebedores de fuas rendas que an- dão na corte, & os officiaes de fua cafa, & eftã os almazés dartelharia & das armas, & as cafas da fúdição dartelharia: todo o mais fam jardís, & cafas de prazer, a mais rica & deleytofa coufa do múdo, & no pico defta ferra ha outra fortaleza fobre rocha talhada. Tanto q el rey de Cãbaya chegou a efta cidade, fez logo partir pera Diu fuas molheres & fua mãy & ho feu tefouro douro amoedado & joyas ricas, q dizé q chegaua tudo a dez cõtos douro: & ho de prata q era muyto, mandou recolher na for¬ taleza do cume da ferra, & mandou a hú capitão q auia dir cõ fuas mo¬ lheres q fe teuefTe noua q o Mogor ho feguia q fe folie a Cãbaiete, húa cidade porto de mar, onde tinha feyta húa frota muy grande de galeões, galés, & galeotas. E aífi deixou em Champaner hum capitão com cinco mil homés de peleja, & mantimentos pera quatro annos. E ifto tudo feyto partio pera Diu cõ feus quatro companheyros veftido como pobre, & ra¬ pado por não fer conhecido, né dos feus q tamanho era ho feu medo q de tudo ho auia. E qué auia tão pouco q com feu grande poder auia de cõquiftar ho múdo, tornou tão deftroçado por fua grande foberba, que fegundo ele cõfefTou, ateli não tinha em conta Deos, né Mafamede, nem entraua nas mezquitas a fazer a oração da fua feyta, & cuidaua q ele
  • Livro VIII, Capitolo XCVII 361 mefmo era deos, & aífi punha em feu titulo. Ho çoltão Badur cuja ca- deyra eftâ nos ceos, & ho foi he feu feio, & a lúa ferradura do feu caualo, & as eftrelas crauos dela. E chegado ele a Diu, mãdou logo fazer dous baluartes em dous palfos da terra firme pera a jlha que fe podião paffar cÕ maré vazia, & ifto porq fe o Mogor vieífe que o não podeffe entrar: & eftãdo em Diu chegará as fuas molheres & fua mãy & feu tefouro. E porq fe os Imigos na aproueytaífem da armada q tinha em Cãbaiete man¬ dou a queymar, & afli madou hú feu fobrinho chamado Mirãomuhmald pera Damão, & pera aqla comarca que cõfina cõ Chaul a fazer gente & defendelas do Nizamaluco fe lhe quifeffe fazer guerra, & mandoulhe q quãdo fe viffe em neceflidade q fe foife a Chaul & fe entregafTe a Martim afonfo de foufa q fabia que inuernaua a hi. CAPITOLO .XCVII. De como Martim afonfo de foufa foube ho desbarato del rey de Cãbaya. EStando el Rey de Cãbaya acolhido na cidade do Mandou defpois q fugio: hú Português q andaua coele catiuo q auia nome Francifco lourenço fugio, & cõ muito grãde trabalho foy ter a Chaul vefpera de lam Ioão, & cotou a Martim afonfo o desbarato del rey de Cãbaya, & q defpoys de fer fugido ouuira como fugira de Mãdou no mais que com quatro de caualo, & como toda a terra por onde paliara eftaua muy temerofa dos Mogores & defefperada de fe el rey de Cãbaya poder de- feder. E a pos ifto foy dado hú recado a Martim afonfo de Mirãomuhmald q eftaua em Damão, q lhe mandou pedir feguro pera eftar ali, & pera fe jr a Chaul cõ fua peífoa, dinheyro, & molheres fe fe viffe apreífado dos Mogores: Õde Nizamaluco, & Martim afonfo & Simão guedez de foufa capitão de Chaul lhe mandarão os feguros muyto largos. E efcre- ueolhe Martim afonfo q el rey de Cambaya deuia dobrigar ao gouerna- dor pera o ajudar é tamanha neceflidade como eftaua cõ lhe dar húa for¬ taleza em Diu, em q nã perdia nada, antes ganhaua muyto em cobrar tam boa amizade como a fua, & creria ho gouernador que ele era feu amigo porq doutra maneyra não fe auia de fiar na paz que fizerão, pois tão mal comprira hú dos fuftanciaeis pontos do cõtrato das pazes, que era mandarlhe logo os catiuos que nunca mais mandou, antes induzira a Santiago que ya por eles a ficar coele, o que não erão começos de boa amizade, & pera desfazer todas as fofpeytas q o gouernador tinha de lhe não goardar a paz, era muyto neceflario darlhe fortaleza é Diu & mais por quã feguro ficaua de feus Imigos cõ lha dar. E o mefmo efcreueo Tono IV .16
  • 362 Hifioria da índia Martim afonfo a el rey de Cãbaya, mandandoo vifitar como amigo, & offrecerlhe com fua armada o que lhe dele cõpriffe, porque lhe pareceo q polo tempo em q el rey eftaua fe moueria coifto a dar fortaleza em Diu, & o mefmo lhe efcreueo Mirãmuhmald, efcreuendolhe a boa palaura q achara em Martim afonfo, & como lhe mandara ho feguro q lhe pedira. E como Martim afonfo efcreueo a el rey de Cãbaya, efcreueo ao gouer- nador do modo q el rey eftaua, mãdandolhe pedir licença pera na entrada Dagofto yr fobre Diu cÕ a armada q tinha, porq cria verdadeiraméte q indo naqla cojunção el rey auia de dar fortaleza em Diu pera ganhar noffa amizade, que lhe importaua tãto q fem ela na fe podia reftaurar, por eftar desbaratado, & feu Imigo muyto apoderado no reyno, cÕ quem auia de recear de fe ele gouernador ajútar, & por Diu eftar muito defgoamecido dartelharia & mingoado de gente, porque tudo el rey tinha leuado á guerra & ho perdera no desbarato: & porq eftando no màr lhe podia tolher os mãtimentos que yao por ele, q erão os mays dos que fe gafta- uão em Diu, & por lhe tolher os focorros q efperaua da gente do mar roxo que tinha mandado bufcar, & mays faria arribar a Baçaym as naos que foffem do eftreyto, o que podia fazer por virtude do contrato das pazes q eftauão adernadas. E vifta por ho gouernador efta carta, mof- trouha a algús fidalgos feus parentes & amigos, dizedo, que bê efcufado era cuydar ninguém q auia el rey de Cãbaya de dar a aqle tépo fortaleza em Diu poys nunca teuera dele tanta neceflidade como entã, por fer o prlcipal lugar de fua faluação, & por ter nele fuas molheres & thefouro, & por iffo lhe parecia efcufado fazer fundamento da fortaleza nem ho fazia: & pofto que lha el Rey de Cambaya quifeffe dar que primeiro auia de fazer a de Baçaim com q fe cõtentaua, & a fegurança dela era o prin¬ cipal proueito q queria do desbarato del rey de Cambaya, & defpois que teue muitos fidalgos defte parecer, por ferem feus parentes & amigos, pos em confelho a yda que Martim afonfo lhe fcreuia que queria fazer a Diu, & todos os q tinha prouocados a ferem de feu parecer votarão que não era bem que foffe, dando pera iffo as rezões que ho gouernador daua, & Frãcifco de foufa tauares, & Aleyxo de foufa chichorro, & outros algús forão de parecer que Martim afonfo era muyto bem que foffe, porque por el rey de Cambaya não ter outro lugar mais principal pera fua fal¬ uação que Diu & ter hi fuas molheres & tefouro auia de querer confer- ualo & telo feguro, ho q ele mefmo fabia que não podia fer fem amizade dos Portuguefes & darlhe fortaleza nele, porq coela ho feguraua de todo, pois ho auião de defender aos Mogores como feu, & não tendo nele for¬ taleza fe auia de temer que lho tomaffem por quã fraco eftaua fem a ar- telharia q dãtes tinha, & mays fabendo quã pouco firmes eftauão as pazes
  • Livro VIII, Capitolo XC.VIII 363 q tinha cÕ ho gouernador, por quã mal comprira as principaeis cõdições que mais importauão a fua firmeza: & fabendo q eles erão fnores do már Õde lhe podião tolher os mantimentos, q por ele principalmente mais que por terra hião a Diu, & por iffo tinhão por muy certo q indo Mar- tim afonfo a Diu fem pedir fortaleza ho auia el rey de conuidar coela quanto mais pedindolha, pelo q auião por muito grande feruiço de Deos & del Rey de Portugal fua yda lá, & não yr feria do cõtrario. E como efte parecer foy de poucos & ho outro de mais, affentoufe que Martim afonfo não fofle a Diu, & que ho gouernador lho defendelfe como defen- deo, por húa carta que lhe logo efcreueo. E defpoys vindo Agoíto q ho inuerno começou de dar lug&r á nauegação daquela cofia, defpedio (fem fazer fobriflo confelho) Symão ferreyra q fora feu fecretario em húa fuíla pera Diu, com embayxada a el rey de Cãbaya, mandandoho vifitar como amigo & offrecerlhe fua ajuda cõtra feus Imigos, cÕ determinação que el rey lhe daria fortaleza e Diu pola neceííidade em que eflaua, & pola ajuda q lhe otfrecia, & pera fe iíto afii fofle deu procuração a Symão fer¬ reyra que a aceytaífe, & fizeífe fobriflo concerto como ele fizera fendo prefente, & mandoulhe q nã fofle por Chaul porq Martim afonfo nã fou- befle fua yda, & mandou coele Cogexacoez (ho embaixador del rey de Cãbaya) & tres catures que ho acompanhaífem & partio quafi na fim Dagofto. CAPITOLO .XCVIII. De como el rey de Cãbaya mãdou pedir foccorro ao Turco. DEspois que el rey de Cãbaya fe vio em Diu cõ fuas molheres & tefouro, & vio q feus comarcãos eftauão cjdos, & lhe não fazião guerra, & fabendo ho q Marti afofo efcreuera a Mirãomuhmald a cerca de lhe goardar á amizade, teuefe por mais feguro do q partira de Champanel, & coiífo & cõ lhe parecer q era impoffiuel tomarélhe os Mo- gores Chãpanel né Diu, & outros algús lugares fortes q tinha na cofia de Cãbaya, pareceolhe q bem fe poderia foíler cõtra os Mogores fem fun¬ damento da amizade cõ os Portuguefes pera lhes dar fortaleza em Diu, credo que fe contentaflem com a de Baçaym: & determinou de mãdar pedir focorro ao Turco, tendo por certo que lho daria, & coele tornaria a cobrar feu fnorio, & deytaria os Portuguefes fora da índia & se faria ínor dela. E pera prouocar ao Turco q com boa vontade & breuidade lhe mandafie o focorro, mãdoulhe hum prefente de joyas, armas, & rou¬ pas ricas, q foy aualiado em feyfcentos mil cruzados, & em dinheiro pera paga do foldo de dez ou doze mil homés q lhe mandaua pedir, lhe mã-
  • 364 Hijloria da índia dou hú conto douro, & oytocétos mil cruzados: & ifto tudo & cartas q fcriuia ao Turco, entregou a hú feu principal capitão q auia nome çafer- cão, em q tinha grande cõfiança, & por iffo ho mandou cõ efta embay- xada, dandolhe por regimento q fofle até Iuda por már & dahi por terra ao Cayro deyxando a bÕ recado o q leuaua, & dahi fe yria onde ho Turco efteuefle, & lhe daria fuas cartas. E pera hir é fua companhia lhe deu hú Português arrenegado, chamado Iorge q era feu patrão mór. E pofto q era ainda ho têpo verde quis q partife çafarcão na entrada de Setembro, porq ouue medo q partido mais tarde as topaífe Martim afofo de foufa q auia de correr a cofta com fua armada, & porq as coufas q leuaua çafarcão erão de tamanho preço por hirem bé feguras deulhe tres galeões em q fofTé ele capitão de hú, & doutro Iorge o arrenegado, & em fua companhia duas carauelas, & duas fuftas, & todas eftas velas ho me¬ lhor artilhadas q pode fer. E pofto q algús qyrão dizer q coefte çafarcão mãdou el rey de Cãbaya a fua principal molher, & que mandaua eíte tefouro cõ fundamento de fe hir morar a Meca, o q digo he verdade, fegúdo fe foube por Garcia de noronha, hú Turco q fe tornou defpoys Criftão em tempo doViforey dÕ Garcia de Noronha, & doutros Turcos q forão tomados no eftreito (como direy a diãte). Ne he de crer q derer- minãdo el rey de Cãbaya de fe yr pera Meca mandaffe diante & fem ele fua prlcipal molher, & parte do feu tefouro, fendo os mouros tã ciofos de qualqr das fuas molheres, quanto mais da prlcipal. Né he de crer q foffe eífa fua determinação, pois mandára qymar fua armada, q pera efta viagem lhe era tã neceífaria. CAPITOLO .XCIX. De como el rey de Cãbaya foy acõfelhado q dejfe fortaleza em Diu ao gouernador. TOmada a cidade de Mãdou pelo Mogor, feguio a pos el rey de C㬠baya q foube q hia pera Chãpaner, & fabendo q era partido, m㬠dou hú feu capitão cõ vinte mil de caualo q viífe fe podia alcançar ho tefouro del rey de Cãbaya, & q folie a Cãbayete a tomar a frota q lhe pareceo que ainda acharia, mas achoua ja toda qymada: & dali foy roubãdo a terra. E ho Mogor q ficaua cõ feu cãpo fobre Champaner pei¬ tou tãto ao capitão q a goardaua q lha étregou, porq queria mal a el rey de Cãbaya por muitos males q lhe fizera: & ho Mogor ouue efta cidade na étrada Dagofto, & apoufentoufe nela pera dali cõquiftar o reyno, & como ele tinha prometido Diu ao gouernador, que fabendo feu poder & a
  • Livro VIII, Capitolo XC1X 365 guerra q fazia a el rey de Cambaya, lhe mandou pedir Diu fecretamente per húa carta q lhe fcreueo, lebroufe de fua promeffa, & qrendoa coprir lhe fcreueo húa carta a qles chamão Formão, & mãdouha a Marti afonfo pera q lha mãdaífe, & antes de lhe fer dada efta carta foube el rey de Cãbaya q ho Mogor eftaua em Chãpaner & ouuefe de todo por perdido & defefperado de ter õde fe faluaífe determinou de fugir pera Meca, cõ feu tefouro, molheres, & paretes & deyxar ho reyno ao Mogor q o tomaffe. E qrédo por e efeito fua partida ajuntoufe fua mãy, & Cogeçofar & Ni- narao hú gentio feu parente, a que tinha dada a capitania de Diu, & afli outros feus parentes: & tantas rezoes lhe derão q na era boa fua deter¬ minação, que fe tirou dela, & Cogeçofar lhe acofelhou q deífe fortaleza em Diu ao gouernador, & q o ajudaria, porq lhe parecia q fem fua ajuda fe não podia reítaurar, & q não lhe deífe nada de dar aqla fortaleza pera feu remedio, porq defpois de reftituydo no reyno a podia tomar de cada vez que quifeífe & deitar os noífos fora dela. E coefte propofito pareceo bé a el rey de Cãbaya dar efta fortaleza, & ceifou de fua yda pera Meca, & efcreueo logo a Martim afonfo que na ora partiífe pera Diu porque cõ- pria muyto a feruiço del rey de Portugal fazelo afli, & mãdoulhe outra carta pera o gouernador, em q lhe dizia q foífe a Diu porq lhe qria dar a fortaleza. E per hú ébaixador q leuou eftas cartas mãdou Diogo de mezquita, Lopo Fernãdez pinto, & os outros catiuos q era obrigado a mandar, & antes q efte embaixador chegalfe a Chaul foy dada a Martim afonfo a carta del rey dos Mogores, & apos ela chegou o embayxador & lhe deu as del rey de Cãbaya afli parele como pera o gouernador. E vendo Martim afonfo quãto importaua yr ele a Diu, pofto q lhe o gouer¬ nador tinha defefo que não foífe, partiofe logo com tres catures em q leuaria feflenta homés, ele hia em hú, & Symão guedez de foufa capitão de Chaul em outro, deyxãdo recado a Vafco pirez de fam payo q fe foífe a pos ele cõ a outra armada, & tãbem antes de fua partida mandou a Ioão de medoça q leuaífe o embaixador del rey de cãbaya ao gouernador & a carta del rey dos Mogores, & lhe efcreueo como hia a Diu.
  • 366 Hijloria da Índia CAPITOLO .C. De como Martim afonfo de foufa & Symão ferreyra chegarã a Diu, & do q ajjentarã có el rey de Cãbaya. PArtido Marti afofo de Chaul feguio por fua viagem pera Diu, & perto dele achou Simão ferreyra de q ficou efpantado hir a Diu pelo q lhe o gouernador efcreuera, de quã pouco fundaméto fazia de fe lhe dar fortaleza, & mais de como Simão ferreyra paliara fem tomar Chaul, & també fe ele efpãtou de quãdo lhe Marti afonfo diffe q el rey de Cãbaya o mãdara chamar muyto de preífa & mandara cartas ao go¬ uernador, & pore que não auia de fazer coufa nhúa cõ el Rey de Cãbaya lem lhe dar fortaleza em Diu: & ifto também porq foube a procuração que ele leuaua do gouernador pera aceitar fortaleza em Diu fe lha delfe: dizédo mays q o tepo não era pera el rey não dar fortaleza & q lha auia de dar, & pera iífo o mandaua chamar, & ele coeffe prepolito hia, & aííi foy, que chegados a Diu, diffe el rey a Marti afonfo o eftado em que eftaua, & qria que o gouernador o ajudaffe cõtra feus Imigos, na fomente a defenderfe deles mas pera lhe fazer guerra, & q ele Marti afonfo auia dãdar coele pola cofiança q tinha nele: & em galardão delta ajuda q que¬ ria do gouernador lhe daria húa fortaleza em Diu no lugar q lhe bé pa- recelfe. E porq o gouernador não poderá logo hir, por Goa õdeítaua fer mais longe que Chaul, mãdara chamar a ele Martim afonfo, afli pera o ajudar a defender de feus immigos fe foífem fobrele, como pera coele alfentar ho dar da fortaleza, & capitulações das pazes, ate ho gouerna¬ dor as auer por boas, & pera que mandaffé dizer ao gouernador quãta vontade tinha de as fazer: & poys Simão ferreyra tinha procuração pera as fazer em nome do gouernador que logo alfentaífé como auião de fer, & que ho gouernador fe lhe bem pareceífe faria a fortaleza da bãda dos baluartes do mar & da terra, camanha lhe bem pareceífe, porq ambos lhos daua, & afii aquele lugar por melhor, porque era ho mais forte da cidade, & podia naqle lugar fer a fortaleza focorrida por mar fe teueífe neceflidade. E cõcertado el rey cõ Marti afonfo de que maneira auiã de ler as capitulações das pazes, ho mandou meter de polfe do baluarte da terra, & ali fe apoufentou com todos os Portuguefes. E os capítulos das pazes forão eftes. * Ho çoltão Badur he cÕtente de dar a el Rey de Portugal húa forta¬ leza é Diu em qualquer lugar que ho gouernador Nuno da cunha quifer,
  • Livro VIII, Capitolo C 36 7 da banda dos baluartes do mar & da terra, da grandura q lhe bem pare¬ cer, & aífi ho baluarte do mar. «E aífi ha por bé de dar & confirmar Baçaym com todas fuas ter¬ ras, tanadarias, rédas, & dereytos, aífi como tem dado no cotrato que fez coele fobre as pazes no dito Baçaym. «Com condiçã, que todas as naos de Meca que por virtude do dito contrato das pazes erão obrigadas a hir a Baçaym que ho não fejão, & venhao a Diu, aífi como dantes vinhão: nem lhes feja feita força algúa. E quãdo algúa quifer lá hir por fua vontade que ho poffa fazer: & aífi ho farão outras doutras partes que yrão & virão pera onde quiferem. E porem húas & outras nauegarão com cartazes. «E com condição, q el Rey de Portugal não terá em Diu dereytos né rédas né mays q fó a dita fortaleza & baluartes, & todos os dereytos, rendas, & jurdição da géte da terra, fera do dito çoltão Badur. « E com condição, que todos os caualos Dormuz & Darabia que polo dito contrato das pazes erão obrigados a hir a Baçal vão a Diu & paga¬ rão os dereytos a el rey de Portugal fegundo o coftume de Goa. E não os comprando el rey, feus donos os leuarão onde quiferem. «E com condição, que todos os caualos que forem do eftreyto pera dentro, não paguem nenhús dereitos, & ferão forros. «E com condição, que el Rey de Portugal & ho çoltão Badur ferão amigos damigos, & immigos de immigos. E ho gouernador em nome del Rey de Portugal ajudará ho çoltão Badur cõ todo o q poder por mar & por terra, & aífi el rey a ele quãdo cõprir com fuas getes & armadas. «E com condição, que querendofe fazer Chriftãos algús Mouros da terra do çoltão Badur que ho gouernador ho não confinta. E aífi ho çol¬ tão Badur não confintiraa fazerfe nenhum Criftão mouro. E que paífan- dofe de fua terra algúa peffoa ou peíToas que deuão dinheyro ou tenhão fazenda del Rey de Portugal, q ele os mande entregar, & outro tãto fará ho gouernador fe fe paliar pera os Portuguefes algum homé que tenha fazéda do çoltão Badur, ou lhe deua dinheyro. Feytas eftas capitulações, & aífinadas por el Rey, mãdou as Marti afonfo (por Diogo de mezquita que foy coele) ao gouernador pera q as aífinaífe, & el rey de Cambaya mandou coele Xacoez com húa carta ao gouernador, rogandolhe q nã tardaífe, & partirãfe ambos na fim de Se- tébro.
  • 368 Hijloria da Índia CAPITOLO .Cl. De como lio gouernador fe par tio pera Diu, a chamado del rey de Cam- baya. CHegado Ioão de médoça a Goa cÕ ho embaixador del rey de Cam- baya, derão ao gouernador as cartas que lhe leuauão, & a del rey dos Mogores (q eu vi) dizia em noífa lingoagem. «Muyto honrrado, & muito fenhor ãtre todos & a cabeça de todos, q lie muyto fofrido & muyto virtuofo, & tal fama té de muyta honrra, gouernador, & capitão mòr Frangue, a que cato a corte/ia como fe fo fe a peffoa del rey, ele me efcreueo húa carta cõ feu defejo, & por feu bê, & boa amizade, q me foy dada indo ja de caminho pera offender meus cõtrairos fobre fuas terras: & o q mefcreuefles vi logo & folguey muyto de ho ver. E aqle tempo veo muita gê te de meu cõtrairo fobre minhas terras, então fairã algfis capitães meus a pelejar coeles, & derão fobre ho feu arrayal, & os desbaratará todos, & forão apos eles ate jíito de Mãdou, matando & catiuãdo muyta gente, os quaes como virão a minha efpada fugirão todos como gente roym & ciuel. «Eu mandey híi pião aos capitães do Daquê, a que tinha mandado que foffem fobre as terras de meu cõtrairo: & lhes diffefe q fe viejfem pera ml: fam muyto honrados, & muyto grãdes feíiores, & tê todo ho reyno do Daquê. Como chegarê a víi, confelharmey coeles, & cõ pouco trabalho auerey meu contrairo cõ todas fuas terras. « Os portos de mâr q me efcreuefles q querieys que vos ficaffem com toda a renda: os quaes eu tenho em meu poder, dijfo vos mando efle For¬ mão, & o q me pedis vos outorgo, porê cõ condição que quê quifer naue- gar q ho pojfa fa^er, & que viua quê quifer nejjes portos fem receber efcandalo. E de tal rey como eu aueys defperar ainda mais merces, & queria q fi\efeys boa jufliça em qualquer lugar q tiuerdes em poder, por¬ que minha gente q ha dejlar perlo vos ajudará a favela quando for ne- cefario: & affi fará a vo[[a quando me côprir. E as terras q ejleuerem perto de vos podereis tomar, & não cureys das de longe, que tempo virá q as tomarey. E quê efpera minha rnerce & defeja minha amizade, não digo eu darlhe os portos de màr, fe não as terras frmes, & quanto eu poder, que o$ portos de màr não lie nada ? A carta del rey de Cãbaya não dizia q lhe queria dar fortaleza em Diu, fe não q em vedo aqla partiífe logo pera Diu, porque compria muito ao feruiço del rey de Portugal veré fe ambos. E ho mefmo dizia a carta
  • Livro VIII, Capitolo Cl 36g de Marti afonfo q lhe fcreuera el rey de Cãbaya, & q hia porq cria q lhe auia de dar fortaleza em Diu. E parecendo ao gouernador q affi auia de fer pola côjunção em q era, pofto q el rey dos Mogores fazia promeífa tão larga, pareceolhe melhor tomar fortaleza del rey de Cambaya q tinha Diu, que tomala da mão del Rey dos Mogores que ho auia ainda de cõ- quiftar, & conquiftado ou ho daria ou não. E tãbem vinhalhe melhor a amizade del rey de Cãbaya por quã pouco podia q a del rey dos Mogo¬ res q era muito poderofo, & fegundo a prefunção q trazia queria conquif- tar toda a índia, & daria mais q fazer q nhú rey dela, & quanto menos podeffe, tãto o eftado del rey de Portugal ficaua mais feguro, & por iffo determinou de fe liar cõ el rey de Cãbaya & animalo q refiftiffe a el rey dos Mogores & ajudalo a iffo quãto podeffe. E fem fe deter mays q ho dia em q Ioão de medoça chegou, fe partio ao outro e húa fufta: & forã coele em outras, Garcia de fá, Frãcifco de foufa tauares, Diogo lopez de foufa, & Antonio galuão, porq pera efperar por toda a armada feria muito vagar, poré ficou recado a Manuel de foufa q fe partiffe coela ho mays afinha q podeffe fer. E partido de Goa foy ter a Chaul, & dahi a Baça! onde achou Vafco pirez de fam payo cõ a armada q leuaua a Marti afonfo, & o gouernador ho deteue q não foffe & deyxoufe ali eftar ate q chegou Diogo de mezquita q hia em fua bufca com as capitulações das pazes pera as aflinar, & ali lhe deu Xacoez a carta q lhe leuaua del rey de Cambaya. «Nomeado do grãde rey liã do már, das agoas azuys, Nuno da cu¬ nha, capitã mór com a merce del rey, eu vos acrecêtey por amizade. Sa- bereys q o fecretario Symão ferreyra fiel & amado em ãbas as partes & Xacoez atear filho do hõrado viera a ml: a voffa carta q me mãdaftes veo a meu eftado, & vi tudo o q nela vinha efcrito, quãto á vontade & defejo q tédes eu o foube claro, & ãtes difto Xacoez me fez faber a voffa bondade & amizade, & o foube agora por Simão ferreyra per via dami- zade, aquilo q vos era neceflario, & q em tãtos annos nã fe pode cõprir, né ouuereis dalcãçar tã afinha hú lugar pera eftaré os Portugueles aqui é Diu da banda q vos qreys, vos não ho mandaftes pedir né ho pediftes, eu vos faço merce dele cõ as condições q Symão ferreyra outorgou por virtude da voffa procuração, as quaes fabereis por fua carta & per pala- ura de Xacoez. Agora he neceflario q tanto q efta vos for dada, q nã efteys qdo em nhú lugar, & venhais aqui cõ Xacoez: eu tinha efcrito ao capitão mór do már, & tãto q lhe derão meu mãdado logo veo a minha caía, folguey coiffo, & por iffo o mãdey eftar aqui pera me feruir. Feita é Diu a vintoyto de Setébro de mil & quinhétos, & trlta & clco.» Tono IV 47
  • 37o Hijloria da índia \ CAPITOLO .CII. De como ho gouernador chegou a Diu, & fe vio cô el rey de Cãbaya. Efabédo ho gouernador o q era feyto logo partio pera Diu Õde che¬ gou em Outubro, & leuaria nouecetos homés, & á boca da barra o foy receber por mãdado del Rey de Cãbaya Ninarao capita de Diu em húa galé acopanhado dos principays da corte, & eftes defembar- carão cõ ho gouernador que foy logo falar a el rey que efperaua por ele em feus paços que erão terreos, & faziãfe as cafas ao derredor de hú grande pateo, & el Rey eílaua em húa cafa pegada coele, que mais pa¬ recia alpendere que cafa, deytado em hú catle que não tinha outra riqza fe nã fere os pés douro, ne a cafa não eftaua paramétada fe não tudo muito pobre, & el rey veftido em húa Cabaya de pano dalgodão branco, eftauão coele obra de dez ou doze fenhores, hum fora hirmão del Rey de Deli home de fetenta anos, & outro jrmão doutro rey, & eftes affen- tados no chão júto do catle, & os outros em pé, porq diante del rey não fe pode affentar fe nã rey ou filho de rey. CÕ o gouernador entrarão nefte pateo ate quorêta fidalgos, & tanto que vio el rey lhe fez húa mefura ao noffo modo, & entrãdo na cafa lhe fez outra, & afli fizerão os que vã coele. El rey não lhe fez outra cortefia fe não agalhalo bem com os olhos, & por afli fe cuftumar, antes que falaflem, foy veftida ao gouernador húa cabaya de borcado de pefo q lhe el rey mandou dar, & aos que o acõ- panhauão outras de borcado, & borcadilho, & afli as teuerão em quanto efteuerão nos paços, porq he ifto final de grãde amizade. El Rey não teue outra pratica cõ ho gouernador fe não pregútarlhe como hia do ca¬ minho: & aifto lhe refpõdeo em pé, que ho não mandou affentar, fomente cobrir a cabeça que teue difcuberta ate lha el rey mandar cobrir, & def- poys fe tornou á frota, & ao outro dia defébarcou, & foy fe apoufétar no baluarte da terra q eftaua embandeyrado com bãdeyras das armas de Portugal. E defpoys difto fe virão algúas vezes o gouernador & el rey & concertarão que por quanto elRey fe temia q os Mogores lhe tomaffem a cidade de Baroche que eftá trinta legoas da enfeada de Cãmbaya, man- dafle lá ho gouernador hú capitão noffo com duzentos & cincoenta Por- tuguefes pera a defender, & eftãdo pera hir por capitão deles dom Gon- çalo coutinho chegou Manuel de macedo, a quem ho gouernador deu efta yda. Também el rey de Cambava pedio ao gouernador q lhe mãdaffe tomar húa fortaleza que lhe os Mogores tinhão tomada no rio Indo, & a efta empreffa mandou ho gouernador por capitão mór Vafco pirez de fam
  • Livro VIII, Capitolo CIII 371 payo com húa armada de doze fuftas & bargantins a cujos capitães não foube os nomes, faluo a Miguel dayala, Rodrigaluarez vogado, & Afonfo figueyra, & leuou duzentos & cincoenta homés, & em fua companhia foy hum mouro chamado Cogeçofar capitão del rey de Cambaya com tre¬ zentos Turcos debayxo da bandeyra de Vafco pirez, q partio de Diu na entrada de Nouembro. CAPITOLO .CIII. Do façanhofo feyto que fe\ Diogo botelho em fe yr em híta fujla pera Portugal. NEste tempo andaua na índia hú caualeiro chamado Diogo botelho q dãtes andara na índia muitos annos, & fizera nela muito fer- uiço, aífi a el rey dom Manuel, como a el rey do Ioao feu filho, & a fora iffo era muito fabido na arte marinhatica & fabia bé fazer car¬ tas de marear & indo da índia deu a el rey dÕ loão húa carta de doze peles em que eftaua quanto do mundo era difcuberto. E qrendolhe el rey fazer merce, não faleceo quê lhe difTefie q fe queria hir pera el rey de França pera ho deferuir, & outros mexericos cõ q el rey o degradou pera a índia, & foy na armada de Martim afonfo de foufa, no ãno de mil & quinhentos & trinta & quatro. E como Diogo botelho foffe muyto leal a feu rey, & fabia que não tinha culpa no q lhe aífacarã, como foy na índia pedio ao gouernador Nuno da cunha q lhe deyxaíTe fazer húa fufta pera adar nela feruldo a el rey, & ifto cõ tença de feyta fe yr nela pera Por¬ tugal, porq tornãdofe, vifie el rey fua lealdade, & camãha falfidade fora o q lhe diflerã, & q aífi como ya da índia naqla fufta, alfi fe fora pera Frãça fe o quifera fazer: & coefta determinaçã fez a fufta 5 Cochí q foy de vinte dous palmos de cõprido, & doze de largo, & feys de põtal, q he da quilha ate a primeyra cuberta. Feita efta fufta, começarão maldi¬ zentes de dizer q a fizera pera fe hir nela ao eftreyto & da hi pera o Turco: & fabédo o Doutor Pero vaz o q fe dizia, lhe tomou a fufta, como vedor da fazéda q era, & Diogo botelho lhe difle q viífe bé o q fazia em lhe tomar aquela fufta fem ter proua abaftante pera o fazer, no que ho deftruya de todo, porq fabendo el rey que lhe tomara a fufta, & a caufa porque lhe mandaria cortar a cabeça. E Pero vaz lhe tornou a fufta, jurando lhe ele primeyro em húa oftia confagrada de não fe ir pera parte algúa em que defleruifie el Rey de Portugal, fe nã de ho feruir como ho mays leal: & honrado vaílallo que ele tinha. E auida a fufta fe foy Diogo botelho a Dabul pera dali fe partir, & como ele fabia bem da pilotagem
  • 3j2 Hijloria da Índia não quis leuar nenhúa peffoa que foubeffe dela, por não auer antreles contradição, o que feria caufa de fe perder, né quis leuar pera mareare a fufta mays q feus efcrauos, & de Portuguçfes leuou cinco a fora ele, tres criados feus, ho Comitre da fufta & hum Manuel moreno, & muyto be prouido de mãtimétos cõ a vela dofte fe partio de Dabul ho primeiro de Nouébro de mil & quinhétos & trlta & cinco, dizendo q fe hya ajutar cõ a nofla armada que andaua na cofta de Cãbaya. E pera atraueflar ho golfão, começou logo de fe afaftar muito de terra. E confelhandolhe ho Comitre que ho não fizeíTe, lhe defcobrio fua determinaçã & aos outros: & porque fe temeo q fe rebelaflem quãdo o foubeffem, trazia húa faya de malha fecreta, & húa efpada na cinta, & esforçou a todos muito pera efta viagé, dizedo lhe quãto lhe compria fazela, prometedolhe galardão de feu trabalho, & logo deu ao Comitre vlte mil reas, & lhe pagou tudo quãto jurou q lhe ficaua na índia, & coifto forã todos cõtentes dir coele, & mais porq tomou terra na cofta Darabia ao tempo que diffe que auia de tomar ho que parece q foy ordenado por noflo Senhor, por fere ali as correntes tamanhas, q quãtos pilotos por ali nauegão defatinão no tomar da terra. E feyta agoada & carnagé em hú porto chamado Iubo fe partio, & foy furgir no cabo das agulhas duas legoas de terra, & ali lhe deu hú brauo temporal de fui cõ q arribou duas vezes, & coele fe vio perdido de todo, por ferem os mares muy groffos em demafia: & como a fufta era pequena entrauão por húa parte, & fayão pela outra, & mila- grofamente ho faluou noflo fenhor: & coefte teporal dobrou o cabo de boa efperãça a vinte de Ianeyro, & ainda defpois paffou trabalhos immen- fos, de fe ver morto cõ tormetas, & cõ fome & fede, & efcorreo a jlha de fanta Elena, que a não vio cõ a neuoa que faziã os grãdes vetos. E coefta má vida determinarão os marinheyros de ho matar, & aos outros Portuguefes & hiréfe a terra, & não andare mais no mar. E fendo ja de¬ baixo da linha na cofta de Guiné, leuanianfe húa noyte, hús cõ efpetos, outros cõ machados, & fisgas, & dão em Diogo botelho & nos outros, de que logo matarão hú, & ferirão o Comitre & Diogo botelho que aco- dirão a efta reuolta, & ifto feyto deytarãofe ao már, & afogarãofe, & efte foy outro trabalho muyto grande perderemfe afli os que mareauão a fufta, & ficar ferido ho Comitre, & Diogo botelho que era o que mãdaua a via, fem q nã fe podia nauegar, & teré tã mao aparelho pera fe curare, pelo q Diogo botelho efteue quatorze dias fé poder falar, & mãdaua gouernar por efcrito o q ouuera de fer caufa de fe perderem, & fobrifto lhes co¬ meçou de faltar a agoa, & como não auia onde fe tomar foy neceflario eftreitar a regra, no q paliarão muyto grande fede, & de tudo os liurou noflo Senhor, & chegarão á paragem das jlhas que Diogo botelho não
  • Livro VIII, Capitolo CIII 3j3 quis tomar por hyr daquela maneyra, que temeo que ho prédeffem, & por lhe dar veto por dauãte lhe foy forçado arribar á jlha do Fayal, onde foube q eftaua ho corregedor daquelas jlhas: & como não fe podia enco¬ brir, defembarcou, fingindo que leuaua hú recado do gouernador da índia a el rey que lhe importaua muyto, & fez hú maço de cartas feytiço & felado, pera diffimular o recado. E ao defembarcar ho fora receber ho corregedor cÕ toda a gente da terra, como a coufa muy noua, fabendo como viera da índia em húa fufta tão pequena, ho que tinhão por grãde milagre, & fizerão lhe as mais feftas que poderão, ate lhe correrem tou¬ ros: & eílando os vendo de húa janela foy conhecido do corregedor q eftaua coele, & como fabia que fora degradado pera a índia pareceolhe que vinha fugido: & por iffo fe auenturara a vir naquela fufta: & deter¬ minando de ho prender, preguntoulhe fe era parente dú botelho q fora degradado pera a índia, fingindo que não lhe fabia ho nome, porq fe ne- gaffe q era aquele, aueria fua prefunção por verdadeyra, & prendeloya logo. E fofpeytãdo Diogo botelho fua determinação, diffelhe que ele era ho mefmo que fora degradado, & Nuno da cunha por não achar outrc que fe quifeífe auéturar a tamanho perigo como aqle fora, ho mãdara por lhe querer mal: & que fizera aqla viagé por o recado q leuaua fer de grãde importância & de tanto fegredo, que de ninguém fiaua as car¬ tas fe não de fy mefmo, & moftroulhe ho maço, o q ho corregedor creo, & por iffo ho não prendeo, & pediolhe q lhe dilfefle q recado era, ao q ele refpondeo q por nenhú modo lho podia dizer, mas q por amor dele, pofto q foffe contra juraméto, lhe deixaria húa carta em q lhp contaífe, q lhe auia de dar fua fé q não abriflé fe não oyto dias defpoys de fua partida, & afli fe fez. E na carta q lhe deixou dizia do modo q hya, do q o corregedor ficou muyto magoado porq o nã prédera, & mais porq acabando de lér a carta chegou ali Simão ferreyra q ho gouernador man- daua da índia cõ noua a el rey como el rey de Cambaya lhe dera forta¬ leza em Diu, q mãdou logo quafi a pos Diogo botelho quando foube q era partido, porq nã foubeífe el rey por Diogo botelho a noua da forta¬ leza q por ele, mas não pode fer, porque partido Diogo botelho chegou a Portugal onde fe foy aprefétar a el rey & lhe diffe a caufa porq fe fora da índia daqla maneyra, & lhe deu as nouas da índia, cõ q el rey ficou muyto ledo, & lhe agardeceo fua vinda louuãdo muito feu atreuiméto, & tornou o em fua graça, & fezlhe merce, tendoo por tã leal como era. E quãdo fe foube do modo q viera, & foy vifta a fufta, foy 5 todos efpãto grandiflimo, & dizião q fe fora e tempo dos Romãos gétios, q lhe fizerão húa eftatua por memória de façanha tão grande, como não fe acha em nenhúa efcrttura q algum homé fizeffe.
  • Hifloria da índia 374 CAPITOLO .CIIII. De como çoleymão Haga entrou nas terras da Tanadaria de Salfete. ATras fica dito como Açadacão fenhor de Bilgão, por fe temer do Hidalcao fizera paz com ho gouernador pera ho ter de fua parte fe lhe compriffe, & lhe dera fecretamente as Tanadarias de Sal¬ fete & de Bardes, & defpoys difto tornado o Hidalcao a eftar bé cõ Aça¬ dacão, & a recebelo em feu feruiço, arrependeofe Açadacao de ter dado as Tanadarias: & vendo que ho Gouernador era em Diu, onde fe auia de deter, pareceolhe q era tépo de as cobrar, por quam poucos Portu- guefes fabia q as goardauão, & mandou a hum Turco capitão de Pondâ, chamado Haga, que com cinco mil homés de pé & de caualo folie reco¬ lher as rendas daqlas Tanadarias, & ele ho fez afíi: & mandou algúa da fua gente cercar Chriftouão de figueiredo Tanadar mór, q eftaua apou- fentado em hum pagode de freyras chamado Bardor, que tomaua ho nome do diabo a q era didicado, & eftas freyras erão molheres, q def¬ poys de viuuas não fe quiferão queymar. E vendofe Chriftouão de figuey- redo cercado, ho mãdou logo dizer a dom Ioão pereyra capitão de Goa, & como ele era muyto esforçado & amigo de noflb Senhor, & do feruiço del rey, em lhe fendo dado ho recado, ajuntou cem homés de caualo Por- tuguefes, & duzétos de pé, & a dezoyto de Setembro fe paliou a Benef- tarim, & dali foy caminho do Pagode de Bardor, & çoleymão fe retirou pera húa aldea mea legoa dele, como foube que»ya. E chegado dom Iohão ao pagode que foube que os Imigos fe yão, não os quis feguir porque leuaua a fua gente cãfada, & quis que repoufafe em quãto comia, & entre tãto mandou dizer a çoleymão q fe folie mais de prefa do que ya, & de- tédo çoleymão o meflageiro, mandou dizer por outro feu a dom Iohão que afíi ho faria, & que ho não feguiífe muyto, & antes q fe efte melfe- geyro partife, mandou dom Iohão aos feus que delfem moftra, & os pri- meyros forão os efpingardeiros que erão oytenta, & ho mouro tremia com medo do grande eftrondo: & dada a moftra deyxouho dom Iohão yr, mandando dizer a çoleymão que tãto que acabalfe de comer yria de pos ele, por iífo que ho não achaífe, & afli lho diífe, & lhe contou a efpí- garderia que dom Iohão leuaua. E conhecendo çoleymão ho dano q po¬ dia receber dela, receou de o efperar, & fazédo final a fua gete, retiroufe mais pera détro da terra, & quãdo do Ioão chegou ao lugar onde efpe- raua de o achar, não vio fe nã a fardagem & vendo dom Ioão q fugião, não os quis apertar, & deyxoufe yr a pos eles, & ao outro dia foy ter a
  • Livro VIII, Capitolo CV 375 hú Pagode chamado Chãdor tres legoas do de Bardor, onde cuydou ^ çoleymão fe fizefTe forte & ali ho efperaffe, mas não ho fez com medo, ante fayo de todo da comarca de Salfete, & affi ho foube aly onde fe dey- xou ficar por fer perto da noyte: E como foy menhaã por fegurar a terra, andou por ela efpaço de tres oras, & deyxando fauorecida a gente dela, com ho medo que lhe ouuerão os immigos, tornoufe ao pagode da Bar¬ dor, onde animou os Gãcares que não ouueffem medo dos mouros, por¬ que bem vião camanho ho eles auião das armas dos Portuguefes, que fendo tãtos & eles tão poucos lhe fugirã. E deyxando algúa gente da que leuaua a Criftouão de figueiredo, principalmente efpingardeyros fe tornou a Goa. CAPITOLO .CV. De como Manuel de vafcõcelos desbaratou os mouros que ejlauão na tran¬ queira de Bòri. DEspoys que çoleymão hagá fe recolheo cõ medo de dom Iohão, & foube que ele era tornado a Goa, temendo que fe tornaffe a en¬ trar em Salfete cõ grande corpo de gente q tornaria dom Iohão, & affi andaria fem fazer nada, por iíTo que feria melhor mãdar fua gente em quadrilhas por elTas aldeas a recolher as rédas, & as recolheria me¬ lhor, & affi o fez. E fabido ifto por dõ Iohão, fez logo húa armada de fuftas & bargantins que andafie por aquele rio de Salfete, & Manuel de vafconcelos cafado é Goa era capitão mór & fazia muytos faltos fayndo de dia, & de noyte em terra, & daua nas aldeas onde eftauão os mouros defcuydados de fua yda, & por iífo mataua & catiuaua muytos. E fabédo çoleymã como os feus erão affi perfeguidos dos Portuguefes bufcou reme- dio pera os defender: & como fabia que ho rio de Salfete era muyto eftreyto, onde eftaua hum paffo que fe chama Bóri, cinco legoas da jlha de Goa, por onde os Portuguefes palfauão, mandou ali fazer húa eftãcia de tres bombardas em húa tranqueyra, que amanheceo hum dia feyta, & quando os Portuguefes forão pera pafiar pola eftreyteza do paffo va- rejaua os a artelharia muy rijo: & fazialhe muito dano, & por atalhar a ele, & que aquela força não crecefie mays, mandou dom Ioão a Manuel de vafconcelos que a foffe desfazer & foy là cõ quarenta efpingardeiros: & chegando, achou grande refiftecia nos Imigos, que ferião bem duzen¬ tos homés, & quafi todos frecheyros, & cõ tudo paffando a primeira çur- riada das bõbardadas aferrou cõ a tranqueyra & defpois Manuel de vaf¬ concelos, de pelejar hú pedaço cõ os mouros muy esforçadaméte os fez fugir, matando muytos deles, & qymou a tranqyra, & recolhida a arte-
  • 3?6 Hijloria da índia lharia le tornou pera Goa, & defembarcou cõ os que forão coele, leuando cada hú fua cabeça de mouro na mão, pera moftra da vitoria q lhes noffo Senhor deu, & por iffo forão muy bem recebidos. CAPITOLO .CVI. De como dom Ioão fe\ no rio de Salfete a fortaleza de São Ioão de Ra- chol. VEndo dom Iohão q a guerra fe ateaua, & que os queftauão no pa¬ gode de Bardor não eftauão feguros, & pera el rey de Portugal colher as rendas daqlas Tanadarias q tinha, era neceffario ter lá gete, & efta em lugar feguro dos Imigos, & pera ifto determinou de fazer húa fortaleza em hum lugar que a feu parecer & doutros fidalgos & pef- foas principaeis achou muyto bõ pera iffo no rio de Salfete em hum morro de rocha, que eftaua por ele a cima feys legoas da jlha de Goa & húa do paffo de Bóri, & efte morro era grãde, & eftaua quafi pegado cõ a terra firme, & ficaua antrele & ela algúa agoa como efteyro, & daqla banda fe fazia hú cãpo rafo q era quafi terra alagadiça com agoa & morraça & ficaua hum fapal. E achado efte morro por do Ioão logo cõ a géte da armada q lá andaua começou de fazer a fortaleza, & aca¬ bou a ê efpaço de tres mefes ou pouco menos, & ê todo efte têpo teue- rão os noffos muita guerra cõ os mouros a quê pefaua ê eftremo daqla fortaleza, & por iffo defendião brauamête q não fe fizeffe: & açadacã a quê pefaua mays q ninguê, & era ho q foftinha efta guerra núca acabaua de mãdar gête & arteficios de fogo, & muytas munições: & nefta guerra fizerão os noffos muito boas coufas em armas, q não efcreueo particular¬ mente, porq as não pude faber fe não em forna. E com quanto dom Ioão foy bem contrariado dos Imigos q não fizeffe efta fortaleza, ele a acabou cÕ muyta honrra, & acabada foilhe pofto nome fam Ioão, á honrra do ianto defte nome, & polo rochedo em qftaua fão Ioão de Ráchol, & tinha tres baluartes ê triãgulo, & no meyo húa torre de Menagê, & todos cõ muita artelharia & cubertos de telha: era entulhada até o andar das ameas do muro, & tinha fua coyraça, & feruiafe por húa efcada dentu- lho, tam larga & chaã, que podião fobir por ela homês a caualo, & defta efcada entrauão na fortaleza por húa põte leuadiça: podiãofe bê agafa- Ihar nela feys cêtos homês cõ mãtimêtos q lhe abaftaffê. Acabada efta fortaleza deu dõ Ioão a capitania a Miguel froez, & deixoulhe feffenta dos noffos, & a goarda daqle rio deu a Gonçalo vaz coutinho, que an¬ daua em húa albetoça bê artilhada, & a Iorge de melo foarez q andaua
  • Livro VIII Capitolo CVII 377 ? húa galé, & ifto porq os mouros acodião fempre á borda do rio no paffo de Bóri a frechar os noffos que paffauã nas fuftas pera a fortaleza, q todas leuauão arrombadas pera emparo dos q hião nelas, & fempre auia pelejas antre os nofios & os mouros. E tornado dõ Ioão a Goa foube q era chegada a armada das naos da carga, de q fora de Portugal por capitão mór Fernão perez dãdrade, & forão feus capitães Fernão de mo- rays, Martim de freitas, Thome de foufa, Luis aluarez de payua, Fernão camelo & Iorge mazcarenhas, q chegarã a Índia a faluameto. CAPITOLO .CVII. De como Vafco pire{ de faõ payo tomou a fortaleza de Variuene no rio Indo. VAsco pirez de fam payo q partio de Diu pera yr tomar a fortaleza de Variuene, como a tras difle, andadas oytenta legoas ao longo da cofta chegou á foz do rio Indo, q tanto eftá de Diu pera ho norte, & ateli chega ho reyno de Cãbaya, & começa outro chamado Vlcinde, em que entra no már efte rio Indo, hú dos famofos de Afia. E furto aqui Vafco pirez vazou a marê húa grande mea legoa & ficarão os nauios em feco, & foy auifado pela gente da terra que defpejaffe os na- uios q ficaffem leues quando tornaífe a mõtante dagoa, porq fe perderião fe efteueffem carregados por trazer grande força, que enchia com maca- reo, ho que logo fez, & mandando aboyar a artelharia forão poftos fobrela os maftos & vergas dos nauios, & quãdo a maré tornou vinha ho macareo tam alto & cÕ tamanho impeto & rugido, que os noffos ou- uerão medo cuydãdo que os auia de çoçobrar, & affi derã os nauios gran¬ des pancadas na praya, que parecia que fe efpedaçauã, & paffada efta fúria foy recolhida a artelharia cõ o mais. E aparelhados os nauios en¬ trou a frota no rio, & hi achou Vafco pirez ho capitã del rey de Cãbaya a q os Mogores tomarão a fortaleza, q fabédo como Vafco pirez hia ho foy ali efperar cõ a géte q tinha embarcada em galuetas, & contoulhe q tanto q os Mogores fouberão fua vinda, queimarã logo a pouoação da fortaleza a q fe acolherão, & ferião ceto & cincoenta homés todos fre¬ cheiros, fe não oyto que erão efpingardeiros, & que não tinhã mays arte¬ lharia q quatro ou cinco berços, & q a fortaleza eftaua na borda dagoa & era peqna & quadrada feyta de barro enuafado, & de rama cõ feus baluartes & cercada de caua. E leuãdo Vafco pirez eíte capitão cõfigo foy polo rio acima até õde eftaua a fortaleza a q chegou de noite, & fem qrer faber mais da difpofição da fortaleza né da terra, ordenou de dar <8 Tono IV
  • Hiftoria da índia 378 nela ao outro dia é amanhecedo, & repartio o cõbate por tres eftancias, húa auia de ter ele cõ os feus capitães, & Portuguefes da bãda do rio, outra Cogeçofar co os Turcos, & a outra o capitão del rey de Cãbaya cõ fua géte, q era a mais efpingardeiros, & não auião de ter outro cuy- dado fe não de tirar aos Mogores que pareceflem fobre ho muro, & cada dous capitães Portuguefes auião de leuar húa efcada pera fobiré ao muro. Iíto cõcertado, & encomédãdofe todos a noflo fenor, defembarcarão ao outro dia em amanhecédo feytos em tres efcoadrões, & cada hú fe foy ao lugar q lhe era aflinado. E cõ quanto os Mogores erão poucos, refif- tião muy brauamente coeífa artelharia q tinhão & efpingardas, defparãdo frechas fem coto, & arremeífando muytas panelas de poluora, & muyto fogo outro cÕ que logo ferirão bé oytenta Portuguefes, que foy caufa de não poderem chegar as efcadas ao muro, faluo Miguel dayala q foy ho primeyro que fobio, & bé cÕtrariado & ferido fobio ao muro, donde os Imigos 0 deytarão abaixo, no que correo muyto perigo, & cõ tudo efca- pou cõ a vida, & a hú fidalgo chamado Martim afõfo de melo punho, q fobia apos ele, é chegando ao quarto degrao foy ferido de húa frecha na roda do giolho cõ que cayo abayxo, & não fobio mais ningué por nefte tempo arder a efcada. E vendo Vafco pirez ho dano q recebia fua gente, mandou a afaftar com determinação de defcoroar as ameas do muro pera a gente poder melhor fobir, & afli o fez cõ a artelharia q logo mandou tirar em terra: & por fe eíta obra acabar tarde, não quis cometer a en¬ trada, & ficou pera 0 outro dia, em q hão ouue q fazer por os Mogores fugire aqla noyte, do que fendo Vafco pirez auifado defembarcou cõ os feus & foy a pos eles, & ainda matou algús, & tomada a fortaleza entre¬ gou ao capitão del rey de Cambaya, & por não ter mantimétos' & auer algú defconcerto antrele & Cogeçofar, não fez mais guerra aos Mogores & tornoufe pera Diu. CAPITOLO .CV1II. De como foy começada a fortaleza de Diu, pelos Portuguefes. HO gouernador q eftaua em Diu, cõ negocios que teue & em ajun¬ tar pedra cal & madeyra, não pode começar de fazer a fortaleza fe não em Nouebro, & defpois douuir mifia cõ todos os capitães & fidalgos cõ grande eítrondo dartelharia, & arroido de trõbetas, & ale¬ gre fom de charamelas: aíTéntou a primeira pedra defta fortaleza, com muytas moedas douro debaixo dela. E a pos ele os outros capitães & fidalgos, que todos cõ muyto prazer trabalhauão, por auer tanto tépo que
  • Livro VIII, Capitolo CIX 379 efta fortaleza era neceffaria pera conferuação do eltado da índia: por fer a principal porta por onde os Turcos podia entrar. E coela ficou de todo fechada, como direy no liuro nono quando foy cercada de Turcos. E aíli foy começada a obra, pera que el rey de Cambava mandou ao gouerna- dor doze mil cruzados com nome dalmorço pera a géte de feruiço, que deu em grande abaftança pera feruirem nefta obra, em q os Portuguefes leuauão affaz de trabalho, porque tanto trabalhauão os fidalgos como os outros, & todos erão repartidos por quartos: & os capitães deles anda- uão ás enuejas de quê daria melhor de comer aos de feu quarto, & quem ho daua melhor tinha mais gente & fazia mais obra. E por iffo crecia fempre, 0 que Garcia de faa tinha a cargo, que era hú baluarte, a que defpois chamará de fantiago, & algús lhe chamauao de Garcia de faa, porq o fez todo, no q gaitou muyto, que daua melhor de comer q todos os outros capitães. E fazendofe a fortaleza, foube el rey de Cãbaya como el rey dos Mogores defpois de tomar Champanel quifera ir fobre Diu, & não fora por faber que eitaua hi ho gouernador, & fe foy a Madauá, & a tomou por peyta q deu ao capitão que a tinha. E parecendo a el rey que feria bÕ dar húa fayda polo reyno pera que foubeffem feus vaflalos q era viuo, & com efperança de os íocorrer cõ ho fauor dos portugue¬ fes, não fe entregaíTem a el rey dos Mogores. E tomando niíto ho pare¬ cer do gouernador, que foy q fy, lhe pedio que lhe defle Martim afõfo de foufa pera companheiro, por lhe fer affeyçoado por feu esforço & va¬ lentia, & boa conuerfação, do que ho gouernador foy contente. E aífi lhe deu mais fete ou oyto fidalgos. E quando fe el rey partio lhe encomen¬ dou muyto fuas molheres e feu thefouro: & mais lhe pedio q mãdaffe rogar a Niza maluco que lhe não fizeffe guerra, porq eitando feguro de lha não fazer tiraria de fua frontaria Miram muhmalà com a géte que tinha q lhe era neceffaria pera outra parte. E ho gouernador mandou com efta embaixada a hum caualeiro chamado Gafpar preto, homé de muyta confiança. CAPITOLO .CIX. De como Xercanfur tomou ho reyno dos Pantanes a el rey de Bengala. REynando em Bengala Nançarote xá antecelfor de Mahumedxá (como diffe a tras) determinou el rey dos Mogores pola fama que tinha de feu grandiffimo tefouro, de ho conquiítar antes détrar na índia: & porq não podia entrar fe não polo reyno dos Patanes que confina com ho rio Ganges (como diffe no liuro quarto falando do reyno de Bengala) cometeo dentrar por ele. E tendo el rey dos Patanes pouca força pera
  • 38o Hijloria da índia lhe refiftir, pedio ajuda a el rey de Bégala, que logo lha deu pelo que lhe importaua: & ambos refiftirão a el dos Mogores & ho fizera tornar. E ele ido el rey de Bengala prendeo el rey dos Patanes & tomoulhe ho reyno: em q deixou por gouernador Cotufoxa, hum grande fenhor feu vaflalo, com muyta gente repartida por capitanias, & ele andaua no campo com grãde exercito, em que andaua hum foldado Patane home muyto esforçado, que auia nome Xercãfur, que auendo hum arroido com ho thefoureiro do campo, acodio Cotufoxá aos apartar, & foy morto por de- faftre: pelo que Xercanfur fe foy do arrayal. E el rey de Bengala lhe perdoou defpois, & ho fez tornar, & pos por gouernador no reyno a hum feu primo chamado çoltão halamo. E defpois difto morreo Nançarote xá, de que ficou hú filho pequenino, em cujo nome gouernaua ho reyno Mah- mudxà feu tio hirmão de feu pay, que fe leuantou cÕ ho reyno (como diffe a tras). O que fabido por çoltão Halamo lhe efcreueo logo que ref- tituifie ho reyno a feu fobrinho, fe não que lhe faria guerra, como fez, & nela foy morto. E Xercanfur ho foldado que tenho dito, védoho morto, pos logo em faluo ho tefouro do campo, & recolhendo a mais gente que pode do campo de çoltão halano, desbaratou a gente del rey de Bengala. O que fabido por ele, & receando que Xercanfur fe lhe leuantaffe com ho reyno, lhe mandou cometer que fe foffe parele, com promeífas de muytas merces, que ele não quis fem que ele reftituiffe primeiro ho reyno dos Patanes em fua liberdade, o que el rey nã quis, & começou de lhe fazer guerra, de que Xercanfur leuaua ho milhor. CAPITOLO .CX. De como el rey de Bengala mandou ao gouernador vinte Portuguefes dos que catiuou. PRosseguindose efta guerra antre el rey de Bengala & Xercanfur, q foy caufa de Martim afonfo de melo, & os outros catiuos terem melhoramento em feu catiueiro. Neíle ãno de mil & quinhétos & trinta & cinco chegou a Chetigão hum Diogo rabelo que hia da índia, a q ho gouernador encomendou muyto q viffe fe por meyo de Coge çaba- dim podia refgatar Martim afonfo & os outros, & que lhe pagaria ho refgate, no que ele pos fua diligencia. E como el rey de Bengala eftaua muv affombrado da guerra q lhe fazia Xercanfur: & auia medo de lhe ho gouernador mandar çarrar Chatigão & Satigão, folgou de fazer paz coele, & mãdoulhe vinte dos catiuos de graça, por hum embaixador que lhe mandou com Diogo rabelo, per quem lhe mandou dizer, que lhe não
  • Livro VIII, Capitolo CXI 38r mandaua logo Martim afonfo & os outros, por fe temer de ter neceffi- dade deles pera a guerra que tinha, pedindolhe muyto que lhe mandaíTe focorro, & defpoys de vindo lhe mandaria Martim afonfo & os outros: a quem rogou que efcreueífe ao gouernador q lhe mandaíTe ho focorro que pedia, dãdolhe a entender que fe lho mandaíTe, que lhe daria fortaleza em Chatigão, & afíi lho efcreueo Martim afonfo. Porem ho gouernador teue tanto que fazer na fortaleza que lhe el rey de Cãbaya deo em Diu, & defpois com a morte do mefmo rey, como direy a diante, que nunca pode mãdar ho focorro, né quis defpachar ho embaixador fem ho man¬ dar. E el rey de Bégala ainda que mandou eftes catiuos, não quis foltar Martim afonfo, temendo que fugifle pera Xercanfur, mas mandauaho cha¬ mar muytas vezes, & praticaua coele em muytas coufas. E Martim afonfo porque ho entendia, nuca lhe quis pedir que ho foltafle, antes fe moftraua muyto defcuydado da foltura, por onde el rey folgaua muyto mays coele. CAPITOLO .CXI. De como Trijião datayde mandou el rey Tabarija ao gouernador da índia. ENtrado ho anno de mil & quinhentos & trinta & cinco, defpachou Trilião dataide capitão da fortaleza de Ternate os nauios que auião de ir pera Malaca & pera a índia, cuja capitania mór deu a Lio- nel de lima: que també entregou prefo el rey Tabarija, com os autos q mãdou fazer de fuas culpas: & coele mandou fua mãy & Pateçarangue, que forão piadofa coufa de ver quãdo os tirarão da prifam os prantos que fazião, & as magoas que dizião, vendofe leuar de fua terra pera ou¬ tra eftranha, donde não efperauão mays de tornar. E então conheceo Pateçarangue que pagaua ho mal que fizera fem caufa a el rey Cachil dayalo feu rey em lhe fazer tirar ho reyno. E partido Lionel de lima com fua frota foy ter a Banda & dahi a Malaca, & defpoys á índia, onde entregou el rey Tabarija & os outros prefos ao gouernador Nuno da cunha, q por os achar fem culpa os deu por liures, & julgou que fe deffe ho reyno de Ternate a el rey Tabarija: & ele fe tornou Chriltão, & ho gouernador ho tornou defpoys a mandar pera Maluco, & morreo em Ma¬ laca, como direy a diante.
  • 38u Hijloria da índia CAPITOLO .CXII. De como os Rej-s das ilhas de Maluco jurarão de fa\er guerra a Trijlão datayde. ATras fica dito a guerra que Triftão datayde fez a el rey de Bachão, do q ele ficou tam efcandalizado, que ainda q fez paz não perdia ho efcandalo, porque lhe lébraua quamanho feruidor fora fempre del rey de Portugal, & quam leal, & com quanta diligencia acodira fem¬ pre á fortaleza em todas fuas necefíiidades, & verfe por derradeiro tam mal galardoado de Triftão dataide, tomoulhe mortal odio & defejou fua deftruyção, & queixoufe aos outros reys das ilhas de Maluco, que por també eftarem muyto efcãdalizados ainda que ho diflimulauão: ho efcan¬ dalo daquele lhe fez renouar ho feu. E defpoys que per recados teuerão algúa inteligécia acerca de fe vingarem .f. El rey Cachil dayalo, q fora de Ternate, El rey Cachil Catabruno de Geylolo, El rey Cachil mir de Tidore, & el rey de Bachão, onde todos juntos, alegou cada hú larga- mente as caufas que tinhão pera fere Imigos não fomente de Triftão da¬ taide, mas de todos os Portuguefes, & procuraré fua total deftruyção, & adi ho jurarão todos quatro fobre hum Moçafo, que he ho liuro de fua feyta, & por fua cabeça, & polos offos de feus paliados, de fe leuãtarem cotra a fortaleza, & fazerélhe tanta guerra ate que a tomaífem, & mataf- fem Triftão dataide, & quantos Portuguefes efteueffem nela, ou os dei- taífem fora da terra. E fendo cafo que ho não podefTem fazer por a for¬ taleza fer focorrida, que então cortarião & queimarião as aruores do crauo daquelas ilhas, & as da noz & da maça & todo outro aruoredo de fruyto, & defpouoarião as ilhas, & fe irião morar a outras, porque os Portugue¬ fes perdeífem a efperança de tornar mais a elas, & fobrifto perderião todos as vidas & os eftados. E ho mefmo juramento fizerão vinte dous hirmãos deftes reys, & affi de teré ifto em muyto fegredo. E logo ali foy ordenado que os da ilha de Ternate auião de fer os primeyros que auiã de começar efta guerra: & que ate eles não ire bem cõ ela por diante, não auião os reys das outras ilhas de bolir configo. E ho çamarao tam¬ bém foy nefta liga, & ainda que não foy prelente, deu pera iffo feu con- fentimento. Que pofto q deuia muyto a Triftão dataide, que de nada ho fizera tamanho fenhor, era mouro, que naturalmente fam defleays. E ali foy també ordenado, que fizeífem crer a Triftão dataide q nas ilhas dos Celebes & Macaçares, & na de Mindanao auia ouro, que as mandaífe defcobrir, & ele com cobiça ho faria: & como a iffo auia de mãdar gente
  • Livro VIII, Capitolo CXIII 383 lhe ficaria pouca pera fe defender, pelo que aueria pouco que fazer em ho tomar. E que os da cidade de Ternate ferião os primeyros que fe leuãtafTem, & a defpouoarião, porque os Portuguefes não podefTem ter mantimétos: & lhes fizeffem coiflo mais guerra. E ho çamarao fingiria que lhe pefaua daqle leuantamento, & que não era fabedor dele: & fe faria grande amigo de Triftão dataide, & ficaria coele pera efpia, por¬ que mayor guerra faria em defcobrir aos ímigos feus fegredos do q or- denaífe cõtreles que em pelejar contrele. CAPITOLO .CXIII. De como os mouros de Ternate defpouoarão a cidade. ISto afli ordenado, fizerão faber a Triftão dataide, que erão chegadas a Geylolo certas corafcoras, que vinhão da ilha de Mindanao em que acharão muyto ouro, com o que ele fe prouocou a mandar defcobrir efta ilha, & mandou a iífo hum Ioão de canha pinto em hú nauio, que a foy defcobrir, & tendo defcuberta parte dela, foy com tempo ter a outra ilha que eftaa ao már deita, que fe chama Siriago: & tendo necefíidade de fazer nela agoada, fez paz com a gente da terra, fangrandofe ele & el rey, & bebédo hum ho fangue do outro, & defta maneira fica feita a paz. E auedoa os da terra por muyto firme conuerfauão com os Portu¬ guefes, & hião ao nauio fem medo. E determinãdo Ioão da canha de fe ir, deitou hú dia mão de quãtos da terra eftauão no nauio pera os cati- uar, & algús fugirão deitandofe ao már, & eftes forão dizer a el rey a treyção que lhe os Portuguefes fizerão, que logo mandou deitar fua ar¬ mada ao már, em q mandou meter fua gente pera ir tomar o noílb nauio, cõtra quem foy a velas, & a remos, tirãdo tantas frechadas & arremeífos, & com tamanhas gritas, que Ioão de canha com medo mandou cortar as amarras, & dar ás velas & fugio. E ho que pior foy que lhe ficou a ar- telharia do nauio, q com hum temporal deitou ao már. E vendo os mou¬ ros que ho não podião alcãçar tornarãfe. E por ifto que lhe os Portugue¬ fes fizerão crerão todos os males que os das ilhas de Maluco contauão deles. E efcapando Ioão de canha daqui, acabou de defcobrir a ilha de Mindanao, em q não achou ouro, & tomoufe pera Ternate. E por aquele anno fer a moução do crauo, não quis Triftão datayde mandar mays def¬ cobrir os Celebes nem Maçacares, porque ãdaua muy ocupado em fazer nauios pera carregar de crauo, cÕ outras peffoas que tinhão nele parte. O que vifto polos reys, & defefperãdo de diuidirem os Portuguefes por aquela maneira, ordenarão de os diuidir por outra: & foy fazer el rey
  • 384 Hiftoria da índia de Geilolo cõ hús pouos chamados Tauaros, que era liures, que fizeflem guerra ao fenor da grã Bocanora & ao Morro: em cujos fenhorios fe tor- nauão muitos Chriftãos, dos que difle a tras, porq fabião que lhes auia Triftão dataide de mandar logo acodir, & afli ho fez, mãdãdo húa ar¬ mada de Ternates & de portuguefes á grão Bocanora, & por capitão mór hú feu fobrinho chamado Iorge dataide, & outra ao Morro, cuja capita¬ nia mór deu a Diogo fardinha capitão mór do mar. E andando eftes ca¬ pitães fazedo a guerra neftas duas partes: como os Ternates virão q fica- uão poucos Portuguefes na fortaleza, poferão em effeito fua determinação, & forãofe muytos deles fecretamente em certas corafcoras á Batachina do morro junto de Geylolo, onde eftaua hum Vicente correa meftre de húa nao, com outros cortãdo madeira pera eftes nauios que fe faziã, & duas ou tres legoas da cofta toparão hú batel dos noífos, que Vicente correa mãdaua carregado de madeira pera a fortaleza: & hião nele alguús Portuguefes & Arábios que ho remauão. E os mouros matarão a treição quantos hião no batel, faluo hú dos Arábios que efcapou a nado, & foy dizer a Vicente correa o q paffaua do que elle ficou muyto efpãtado, por os mouros fere tamanhos amigos dos Portuguefes. E parecedolhe ifto algú mifterio, acolheofe logo cõ os outros em hú batel pera Ternate: & no caminho achou os mouros que matarão os Portuguefes: & quando os vio fezfe forte pera fe deféder: & conhecendo por iffo os mouros q Vi¬ cente correa fabia o que fizerão, diflimularão, & como não lhes fazia tempo pera Ternate, arribarão a Geylolo, & Vicente correa també pola mefma caufa. E indo ao longo da cofta topou hum capitão del rey de Geylolo cõ oyto corafcoras, que lhe diffe que hia por feu mandado pera o leuar feguro, porq foubera a treiçã que os mouros de Ternate fizerão aos Portuguefes, & porque ho não fizefem a ele. E ifto fez el rey de Gey¬ lolo pera mays diflimulaçã com Triftão datayde, que lho mandou muyto agardecer quando ho foube: & ficou muy fufpefo não fabendo determinar a caufa porque os mouros farião aquela treyção: & agaftoufe muyto coiffo, & mays porque não eftaua ali ho çamarao que lho diffefe, que era darmada. E eftando afli, como já os moradores de Ternate a teueflem fecretamente defpejada de fuas fazendas, hú dia antemenhaã fe forão todos: o que fabido por Triftão dataide acodio muyto de preffa: & achando ainda algús que hião na trefeyra rogaualhes que não fe foffem, & fe eftauão agrauados dele, ou doutra pefloa que os defagrauaria: mas eles nem fomente ho quiferão olhar, & forãofe. E ele não quis que lhe fizeflem mal polos não efcandalizar mays, parecendolhe que os amanfa- ria por bem: mas eles não eftauão nifló, & forãofe pera outros lugares donde efperauão de fazer guerra.
  • Livro VIII, Capitolo CXII1I 385 CAPITOLO .CXIIII. De como Triftão dataide quifera fa^er pa\ cõ os mouros, & eles não qui- ferão. DEspejada a cidade, acertou de chegar ho çamarao, q como diffe era fora com húa armada, & tanto q defembarcou com os feus feruidores & peffoas de fua familia: os outros mouros q ficauão na armada fizerão volta nas melmas corafcoras em que hião & fe forão. O q logo pareceo mal a muytos Portuguefes porque fabião que ele era muyto mal quifto dos mouros, por fer gouernador em q lhes pez: & de- fejauão de ho matar, & q não teuerão nunca tam bÕ tempo pera iflò como então, poys eftauão leuantados contra a fortaleza, o que moftrauão em fe ire logo, & poys ho deixauão viuo, não era fe não por fer també na con- fulta do leuãtaméto, & por diffimulação ficaua na fortaleza pera poder defcobrir aos outros o q Triftão dataide determinafle: a q defpois algús differão efta fofpeita: mas ele cria tanto no çamarao que lhe não deu cre¬ dito. E ho çamarao defembarcado fe foy logo a Triftão dataide: & difie- Ihe muyto efpãtado que lhe parecia que a gente de terra era leuantada: porque os da armada em que fora ho quiferão matar, porque não queria ir coeles: & que feu filho ho defemparara pera fer com os aleuantados, & por amor dele ho não matarão, & ho leuarão á fortaleza, onde queria morrer & viuer coele que lhe tanto bé tinha feyto, & que a feu refpeito lhe não lembraua natureza né filhos, né outra coufa algúa. E Triftão da¬ taide muyto crente q era affi, lhe fez muyto gafalhado, dãdolhe grandes agardecimétos. E determinando de ver fe por bé podia pacificar a terra, fez húa armada dalgús bargantins & paraós que tinha, & affi das coraf¬ coras da armada del rey de Geilolo, cujo capitão ainda hi eftaua pera ver o fim q auia efta guerra, & leuar a noua a el rey. E nefta armada mandou el rey Cachil aeyro, parecédolhe q lhe obedecerião os mouros, & affeífegarião daquele mouimento, & hia ho çamarao. E efta armada correo todos os lugares maritimos da ilha, a cujos moradores dezião da parte del rey & de Triftão dataide, cõ muytos rogos, que tornaflem a fazer amizade coele, & que ele os defagrauaria fe eftauã agrauados, & faria quanto quifeflem: lébrandolhes a amizade q fempre teuerã cõ os Portuguefes, & como lhes chamauão hirmãos, & outras muytas coufas pera os prouocarê a paz & amizade. E os mouros como que eftauão fala¬ dos refponderão todos per húa maneira, dizendo q não obedecião a Ca¬ chil aeyro, porq ho não tinhã por rey: & poílo que como a rey lhe obe- Tomo IV 49
  • 386 Hijloria da Índia deceífem algú tempo fora por força, q feu rey natural era Cachil dayalo q ja tinhão. E que quanto a amizade cõ os Portuguefes, eles a tinhão como dantes, & a queria de muyto boa vontade, fe eles mataffem a Trif- tão datayde, a q querião tamanho mal por muytos q lhes fizera, q nuca lhe verião ho rofto ne ferião amigos dos Portuguefes em quãto ho teuef- fem por capitão. E fabendoo Tryftão datayde determinou cõ cofelho de lhes fazer guerra, pera ver fe farião coela paz. E juta fua armada correo a cofta da jlha daqla banda da fortaleza, & queymou efles lugares que hi eftauão: o q vedo os mouros leuantarãofe logo dali, & pafTarale pera os altos das ferras, & fizerão hi fuas pouoações, q fortalecerá grande- méte: & porq fe temerão q os Portuguefes foliem lá de noyte, & atinaf- fem onde eftauão os lugares, polo ladrar dos cães ou cãtar dos galos, não deyxarão nenhús q não matafle, & defpois difto derã húa noyte na cidade de Ternate em q ainda morauão algús Portuguefes & qymarãna toda, pera declarará a Triftão dataide q núca auião de ter paz coele, & dali por diante corrião á fortaleza de dia & de noite: & deytauãolhe muitas ciladas, com q matauão & catiuauão dos q eftauã na fortaleza, principal- méte os efcrauos q fayão por agoa & lenha: E alíi faltauão cõ os q ãdauã a pefcar no arrecife & às vezes lhes tomauão os paraòs & erão tam fobe- jos q de noyte não ceffauão de fazer feus faltos cõ q dauão grãde opref- fão aos Portuguefes, q cõtinuamente eftauã armados, & tirando tiros per¬ didos com fuas efpingardas porq como ho não fazião logo os immigos eram coeles gritãdo & fazédo grãdes matinadas. E Triftão dataide porq fua géte não leuafle tã má vida, mãdou fazer certas goaritas ao derredor da pouoação dos Portuguefes, em q mandaua vigiar algús efplgardeyros repartidos per quartos & ho mefmo mãdou fazer na ribeyra pera goarda da armada, & ele tinha a outra géte juta debaixo da ramada á porta da fortaleza pera fe lhe foffe neceífario acodir a algú rebate, & ali comião & dormião. E Francifco de foufa alcoforado capitão de húa nao grofia, q eftaua é Talãgeme, cõ outros capitães doutros nauios, q auião de par¬ tir cõ carrega pera a índia no Ianeyro fegulte, como fouberão q a terra era leuãtada, cercarão logo de trãqueiras & cauas os nauios q tinhão a mõte pera os corregeré & baftecerãnas dartelharia pera fua deféfã.
  • Livro VIII, Capitolo CXV 387 CAPITOLO .CXV. De como fe leuaníarão os lugares do Morro. COmo efta guerra foy começada, Triftão dataide mãdou logo auifo é hú parao ao vigairo Simão vaz q eftaua no Morro bautizãdo os q fe tornauã Chriftãos, pera q efteueffe a recado cÕ os Portuguefes q eftauão coele & os nã tomaíTem de fobrefalto: mandandolhe tãbé dizer q compraífe os mais mãtimentos q podefle antes q os Ternates foffem aluoroçar a terra, & a pos efte parao mandou Diogo fardinha capitão mór do már é hú bargantim, afli pera fauorecer os Chriftãos da terra do Morro como pera ho trazer carregado de mantimétos, mas quando ele chegou, ja achou Ternates, q tinhão dito como erão leuãtados cõtra a fortaleza, & lhe fazião guerra, de q não auião de ceifar ate a não toma ré & mataré Triftão dataide, & todos os outros Portuguefes, q deuião de ter por Imigos, pois ho erão del rey Cachil dayalo feu rey & fenhor na¬ tural, a q tinhão feyto tanto mal como eles fabião & por eira & outras muytas fe leuantarão contra os Portuguefes, porque ele afli lho tinha man¬ dado: & mandaua a eles como a feus vaffalos que lhes não védeffem ne- nhús mantimentos, & coifto tinhão amotinada a géte que os não queria vender. E algús lugares que erão dos Chriftãos nouos como ouuirão que os Ternates erão leuantados contra a fortaleza, & que el rey Cachil dayalo era reftituydo é feu reyno, renunciarão logo a Chriftandade que tinhão, & tornarãofe gétios como dantes, & poferãofe da parte del rey Cachil dayalo & afli algús gentios. E eftes erão os que não queriã ven¬ der os mantimentos, & faziãnos aleuantar: em tanto que valédo ho alqueire darroz a dous vintés, tinha fobido a cruzado, & afli ho preço do mais hia cada vez em mayor crecimento. E achando Diogo fardinha ifto afli tranftornado, fez queyxume ao gouernador de çugalá Chriftouão nouo que auia nome Luys correa, que parece que por nã fatisfazer a feu quei¬ xume, vierão a roins palauras, em que lhe Diogo fardinha chamou cão perro arrenegado: & que eftaua em ponto de lhe cortar a cabeça, mof- trado que ho queria fazer cõ húa efpada dãbas as mãos, & que como fofle na fortaleza auia de dizer a Triftão dataide que ho mandaffe enfor¬ car. E ou por efta injuria, ou por Luys correa eftar abalado pera deixar a ley de Chrifto, com ho exépro dos outros deixouha logo, & tornoufe gétio & Imigo dos Portuguefes, a que defédeo que não fe deffem nem védeffem em fua terra nenhús mantimétos. E cõ tudo em outra parte car¬ regou Diogo fardinha ho bargantim deles, & fe tornou pera a fortaleza,
  • 3S8 Hiftoria da índia & forão coele algús Chriftãos da terra, cÕ voz de ajudaré Triftão datayde na guerra que tinha cõ os Ternates. Porem a verdade era que hiã ver fe os Ternates fe tinhão leuantado, que ho não podia crer: pera que achado que era affi fe tornaffem gentios, & fere contra os Portuguefes. E che¬ gado Diogo fardinha a fortaleza, que Triftão dataide foube ho aluoroço q hia no Morro não cuydando que fofTe mais, mãdou logo hua champana armada em que hião certos portuguefes pera trazerem mantimentos: & eftando eftes lá em hum lugar chamado Bicoya forão todos mortos pola gente da terra, que tomou a chãpana com toda a artelharia, & as mais armas que leuaua. E ho mefmo foy feyto a outros Portuguefes que hião do Morro para Ternate em outro nauio. E nefta cõjunção foy morto ho vigairo Simão vaz com quantos Portuguefes eftauão coele, pela gente da terra que ele bautizara, que lhes tomou quanto tinhão. E ifto tudo fe fez fem no Triftão dataide faber fe não dahi a dias. E vendo ele a necefli- dade que tinha de mantimentos: & quam dificultofamente os podia auer do Morro, focorreofe a el rey de Geylolo, que por mays diflimular fua ímizade lhe mandou quatro corafcoras carregadas de çagu: & mãdou aos que hião nelas que fe deixaffem ficar com ho feu capitão Cachil timor, que ajudaua Triftão dataide, a que mãdou fazer grandes offerecimentos dajuda de géte pera aquela guerra, & de fua peffoa fe fofTe neceffaria, & de mantimentos: com o que Triftão dataide ficou muy contéte de ter por amigo hú rey tam principal como aquele. CAPITOLO .CXVI. Do efpantofo feyto que fe\ dom Ioam de Mamoia. EL rey Cachil dayalo ja antes difto á petição dos Ternates eftaua apoderado de toda a ilha de Ternate, & outra vez obedecido por rey: & tinha mãdado fazer gente de guerra a Mindanao & a Banda, mandando dizer ho pera que: & como determinaua de tomar os Portu¬ guefes, & a caufa porque. E fendo lâ efte recado, acertou de jr a Banda hum jungo de hú Português chamado Lopaluarez, q os Bandanefes toma¬ rão, matando quãtos Portuguefes hião dentro. E tomada a artelharia & outras armas, mandarão tudo a el rey Cachil dayalo, que muyto ledo ho mandou dizer a el rey de Geylolo com quem naquele tempo acertou def- tar hú Caftelhano que fora lingoa na fortaleza, q auia nome Manhoz, que lá fora ter, não foube a que: & como efte hia da noffa fortaleza, de que el rey defejaua faber nouas, deulhe húa efcraua & quatro aneys douro: & preguntandolhe defpois por nouas de Triftão dataide, diffelhe dele mil
  • Livro VIII, Capitolo CXVI 38g males: & q por efla caufa eftauão os Portuguefes muy defcõtentes dele, & lhe qrião mal, & que fe ho ajudauão na guerra era polo que lhes hia niíTo. E que Triftão dataide eftaua muyto apertado coela, por não ter mantimentos, nem efperança de os auer fe não dele: & q a guerra eftaua já tã trauada, q lhe parecia que nunca os Ternates fariã paz. Por? que Triftão dataide a defejaua muyto pera prender todos os reys de Maluco, & os mandar prelos á índia, como fizera a Tabarija. E affi lhe difle ou¬ tras muytas coufas que parecião métiras porque as não podia faber tam particularmente como as dezia, & parecia que era mays por lhe parecer que el rey folgaria coilfo, que por ler afli. Do q el rey deitou mão & ho creo: & tendo por certo a guerra dos Ternates & Portuguefes, mãdou dizer a el rey Cachil dayalo q eftaua preftes pera ho ir ajudar na guerra contra Triftão dataide, & cõprir o que tinha jurado com os outros reys, que lhe mãdafle entregar os lugares q lhe forão tomados no morro, a q logo el rey Cachil dayalo fatisfez, mandando a iffo hú feu capitão que foy em cõpanhia del rey de geylolo, que leuou a mays poderofa armada q pode. E determinando de ir ao Morro mandou recado a Cachil timor que eftaua cõ Triftão dataide que fe fofle logo, & leuafle os Chriftãos do morro, a q tambê mandou que fe foffem, & affi ho fizerão, fem falaré a Triftão dataide, do que ele fe efpãtou muyto, & logo ho teue a mao final. E chegados eftes a Geylolo logo fe el rey partio pera ho Morro: & tomado ho primeyro lugar defpois q foy lá, mandarãno chamar os de çugalá, pera lhe enuegar? hú clérigo Português chamado Francifco alua- rez, que ali bautizara muytos dos q fe conuerterã: & algús Portuguefes qftauão coele fazédo hú júgo pera carregar? de crauo, o q lhes fendo dif- cuberto fugirão em húa coracora: em q leuarã a pedra dara, & ho caliz, & algús ornamentos de húa igreja em q fe dizia miffa. E não pode fer tão fecretaméte, q parte da armada delrey de Geylolo, q ja hi eftaua, não fofle apos eles. E pelejãdo cõ algúas corafcoras que os alcançarão foy Francifco aluares ferido de dezafete feridas, & cõ tudo ele & os outros pelejarão tão brauamete q fe efcapulirão dos Imigos, q por derradeyro os ouuerão de tomar fe nã lançarã ao mar os ornamétos q leuauão, & como erão de feda, & os imigos cobiçofos, ébaraçarãfe ? os tomar, & por ifto, & por fobre vir a noyte efcaparão & fe acolherão, & fem fazer? detéça forão ter á fortaleza, onde contarão a Triftão dataide o q paffaua, do q ele ficou muito agaftado, por perder aqle rey em q tinha grãde cõ- fiança, & por lhe parecer que tamb? os outros reys fe auião de leuãtar. E como andaua tão ocupado como digo na guerra dos Ternates, nã pode mãdar focorro ao Morro & deixou o feyto á fortuna. Tomado Çugalá por el rey de Geylolo tomou defpois outros lugares & ho derradeyro auia
  • 3go Hijloria da Iudia nome Mamoya, de q era gouernador dõ Ioão de mamoya, aqle gétio q primeiro fe tornou Chriftão, q como ho era verdadeyro, não temeo elrey de Geylolo cÕ quã poderofo ya, & pofle em defeníão cõ algús Portugue- fes q tinha, q eftauão ali os mais dos q andauão no Morro, & tinhão feyta húa tranqyra cõ algúa artelharia, onde fe do Ioão meteo coeles, & cõ algús de fua valia, pera fe defender ou morrer, porq foy defenganado dos da cidade q fe auiã détregar a elrey de Geylolo, como entregarão é chegãdo. E quãdo el rey foube a determinação de dõ Ioão foy 1'obre a tranqyra, & os Portuguefes fem pelejare fe lhe entregará logo, não apro- ueitando a dõ Ioão dizerlhe quam mal o fazião, q toda via cõ os q tinha ainda q erã poucos fe defédeo del rey, cõ tanto esforço q é todo aqle dia ho nam pode entrar: & vinda a noyte q ceifou o cõbate, vedo dõ Ioão q não fe podia deféder, não quis que fua molher por fer fraca lhe fizefle el rey negar a fé de Chrifto, & aífi a feus filhos q erão peqninos, & por iffo matou a ela & a eles, & defpois de deftruyr feus tefouros, por elrey os não auer, fe quifera matar fe feus parétes & amigos ho não teuerão por força, do que ele ficou muito magoado, & lhes pedio muyto q o dey- xafTem matar, porq melhor feria matarfe, que ficar em poder dum tirano tão cruel como el rey, que por fer rey fizera tamanha treyção como fora matar el rey feu jrmão, q de dereyto era rey: pelo q lhe qria grãde mal. E cõ tudo não cõfentirão q fe matalfe, & entregarão fe a el rey, q entrado na tranqyra, & fabendo o q dõ Iohão fizera, ho mandou trazer antefy, & pregútandolhe como teuera coração pera fazer coufa tão abominauel, ref- pondeo cõ muito esforço, q bé fabia q ele & fua molher & filhos erã Criftãos, & como ela por fer molher era fraca, & cõ pouca prema a po- deriã fazer negar a fé, & a eles por moços q por iffo os matara, q me¬ lhor eílarião na gloria do parayfo, onde cria q auião dir q então má terra como aqla, do q fe el Rey efpantou muito, & quifera o fazer tornar mouro, mas núca pode pofto q ho ameaçou cõ a morte q ele não temeo, né el rey lha deu por rogo de feus parentes. E tomada por el rey eíta cidade, em que acabou de tomar os lugares que erão feus, tornou fe a feu Reyno muyto ledo & vitoriofo com muytos Portuguefes catiuos.
  • Livro VIII, Capitolo C.XVII 3gi CAPITOLO .CXVII. De como os outros reys das ilhas de Maluco fe leuantarão. VEndo el rey de Tidore & el rey de Bachão q a guerra dos Terna- tes hia auante com os Portuguefes, não quiferã mays efperar pera lha fazerem, como antre todos eftaua jurado, pera o que logo ajun¬ tarão fua gente, que foy muyta, & tãbe forão e fua ajuda quatro reys das ilhas dos Papuas, que per cartas entrarão nefta liga: & forão el rey de Vaigama, el rey de Vaigue, el rey de Quibibi, & el rey de Mincimbo. E determinados elles reys de rompere a guerra com Triftão dataide, por¬ que lhe não pareceífe que lha fazião por cobiça, não quiferão catiuar ne¬ nhum dos Portuguefes que eftauã fazédo crauo em feus fenhorios, nem tomarlhe coufa algúa do que tinhão. E el rey Cachil mir de Tidore, mandou chamar Iorge goterres, Ioão figueira & outros portuguefes q lâ eftauão, & preguntoulhes fe querião ficar coele ou irfe pera a fortaleza, a que determinaua de fazer guerra, dizédo as caufas porque. E fabendo deles que fe queriã ir, os mandou, dãdolhes embarcação em que leuarão tudo o que tinhão: & por eles mandou pubricar a guerra a Triftão da- tayde, que ficou coiffo bem agaftado, nã por medo dos mouros, mas pola falta que tinha de mantimentos. E a pos eftes portuguefes que forão de Tidore, chegarão outros da ilha de Maquie da de Moutel. El rey Lan¬ dim de Bachão tambê mãdou hum Francifco mendez dorta com outros, & todos forã mortos no caminho por os Ternates que os encontrarão, ou por outros feus amigos. Por cuja vingãça quando Triftão dataide ho foube, foy fobre hum lugar chamado Mongue perto da fortaleza, que eftaua bé fortalecido de tranqueiras & prouido de mouros, com que Trif¬ tão dataide & os Portuguefes q hião coele ouuerão hfia braua peleja alíi de feridos como de mortos: & com tudo ho lugar foy entrado. E ho pri¬ meiro que entrou foy hum Iorge de brito, de que faley a tras, & carre¬ garão fobrele tãtos mouros, que ho ouuerão de matar fe não fora focor- rido por hú Baltafar vogado Deuora, que eu conheci, muyto valente caualeiro, & por Iorge dataide, & Antonio de teyue, & por Triftão da¬ taide, & por outros, que pelejarão com tanto esforço, q com quanto os mouros erão muytos, & eles poucos os fizerão fugir: & ficarão feridos Iorge de brito, Andre pinto, Anriq jorge, Afonfo teixeira, & outros algús. E faqueado ho lugar & queimado, tornoufe Triftão dataide pera a forta¬ leza, ficãdo os mouros muyto magoados por a perda daqle lugar, q eftaua muyto forte.
  • 3g 2 Hijloria da Índia CAPITOLO .CXVIII. De como je\ Trijlão data/de proffeguindo a guerra. E de como Frãcifco de foufa tomou Turutoo. NEste tépo chegou a Ternate hú fidalgo chamado Simão fodré, em húa carauela cõ focorro a Trilião dataide que ho mandaua dõ Ef- teuão da gama capitão de Malaca: & foy por Borneo, & logo a pos ele chegou Ioão da canha pinto de defcobrir a ilha de Mindanao. E com a vinda deites dous capitães ficou Trilião datayde muyto ledo, por trazeré géte, de que tinha grande necefiidade pera fe defender daqles reys q efperaua que foliem cercar a fortaleza: do q eles ellauão bé fora, que não fe atreuião a iffo, por não terem tiros pera darem bateria, nem faber pera ho mais, & por iíTo determinarão de lhe fazerem guerra guer¬ reada por mar, & tomar os Portuguefes com fome. E em quãto fe aper- cebião pera ilfo não quis Trilião dataide eltár ociofo, porque eítaua tam apertado, que não tinha outra faluação fe nã fazer guerra aos mouros da ilha, & deltruyrlhes as pouoações, porque niffo auia algús mantimêtos que fe tomauão nelas. E porque não pude faber por ordem, nem parti- cularméte o que fez Trilião dataide na guerra que teue com os Ternates, & co os outros mouros de fora, que lhe corrião por már ate a moução de partirem as naos pera a índia, não polfo també contar as coufas por ordem, nem particularmente, fe não em forna: & defpois da vinda de Simão fodré foy por mandado de Trilião dataide a húa pouoação de mouros, q ellaua perto da fortaleza fobre húa ferra, a q chegou é ama- nhecédo cõ certos Portuguefes que hiã cõ ele: & deu nela tã de fupito, q os mouros ficarão tam falteados, que não teuerão acordo pera fe de¬ fender, & fugirão logo quali todos, fe não algús que pelejarão quafi nada, & ferirã hú Português chamado Fernão da lilua. E faqueado ho lugar foy queimado, & Simã fodré fe tornou á fortaleza. E vendo Trilião da¬ taide tam bÕ começo em tempo de tanta defauentura, como era muyto esforçado & fabedor na guerra, não quis deixar esfriar eíta vitoria, & proffeguindo auante, mandou dellruyr per Simão fodré as vilas de Tu- rutó, Palatia, & Calamata, & neíta fizerão os mouros muy dura refillen- cia pelejando brauamente, & os Portuguefes também, de que forão feri¬ dos alguús, & hum deles fe chamaua Ioão freire, que ouue cinco feridas, de que defpoys elleue em perigo de morte. E na tomada doutra vila cha¬ mada Gico, ho fizerão os Portuguefes tam esforçadamente, que a toma¬ rão & queimarão, & foy ferido hú Baltafar velofo dhúa efpingardada da
  • Livro VIII, Capitolo CXVIII 3y3 que lhe quebrou hum braço. E com todas eftas vitorias eftauão os mou¬ ros tam duros no odio que tinhão a Triftão datayde, que não querião coele paz, poito que depois lha mandou offrecer per algúas vezes, & ho çamarao lhes mandaua dizer q a não fizeffem, porque os Portuguefes nã podião durar muyto, por a grande falta que tinhão de mantimétos, que não auia mays que os que tomauã nas pouoações: com o que fe os mou¬ ros esforçauão pera proffeguiré a guerra. E todos os que fugião deites lugares que Simão fodrê deftruyo fe ajuntarã, & adi outros doutras par¬ tes, & fizerão húa pouoação fobre húa rocha no mais alto da ferra, que fenece perto da fortaleza da parte do ponente, & dali pera baixo era dambas as bandas de pena talhada, & cercada de dous profundiííimos vales, q era medo oulhar pera bayxo. E a feruentia deita pouoação era na bicada deita ferra, per húa vereda tam eítreita, que não fe podia yr por ela, fe não húa peífoa diante doutra: & ainda quaii em pés & em mãos, por fer demaíiadamente ingrime, & com pailos muy afperos. E a fora iifo ho pé da ferra por onde era ho caminho, eítaua cercado de húa caua em que auia muytos eíterpes ao derredor: & perto da pouoa¬ ção húa tranqueira bé artilhada, que goardauão muytos efpingardeiros. Neíta pouoaçã que auia nome Turutó fe tinhão os mouros por feguros por fua fortaleza, & corriãlhe daqui a miude, & punhãlhe ciladas, com que fazião muyto mal aos Portuguefes & os punhã em grande trabalho. O que Triftão dataide fintia em eítremo, & mais porque fora duas vezes pera deftruyr efte lugar & não pode fazer nada. E vendo que era efcu- fado, por ho caminho que eítaua fortalecido, não quis lá mais tornar, ate não ter quem foubefle outro caminho menos perigofo: & trabalhando por auer algue, mãdou a iifo Baltefar vogado, & Efteuão de chaues, que dei¬ tados em cilada em hú vale, tomarão certos mouros, que prometerão a Triftão dataide de ho leuar a Turutó por caminho fem perigo. E porque ho feyto era grande, mandou pedir a Francifco de foufa que eítaua em Talãgame, que ho ajudaífe com a gente q tinha, deyxando nos nauios a goarda neceífaria. E como Frãcifco de foufa defejaua muyto de feruir el Rey, foy de muyto boa vontade pera ho feruir niífo. O que vifto por Triftão dataide lhe deu a capitania mòr deite feyto, & não quis ir lá. E deulhe por feus capitães Antonio de teyue, & Antonio pereira, os quaes foy aifentado q foífem com a mayor parte da gente que hia com Frãcifco de foufa pelo caminho fem perigo, & Frãcifco de foufa foífe pelo perigofo & cometeffe ho lugar, pera q cuydaffem os mouros que era toda a gente & acodiffem ali. E entre tanto Antonio pereyra & Antonio de teyue ho entrarião, & tomarião. Ifto aifentado partiofe Frãcifco de foufa bem de noite, & onde fe fazia ho caminho fem perigo pera Turutó mandou An- 5o Tomo IV
  • 394 Hijloria da índia tonio pereira & Antonio de Teiue que foliem por ele com as guias q leuauão, & ele em amanhecédo fe foy cÕ fua gente dereito á trãqueira dos Imigos que como ho virão derao húa grande grita, defparando fuas bombardadas, que nã empecerão aos Portuguefes por eftarem mais altas que eles. E vendo que lhes não fazia nojo çarrarão com a tranqueira, tirãdofe de hua parte & doutra muytas efpingardadas. E nifto chegarão Antonio pereira & Antonio de teyue com fua gente & dão por as coftas do lugar, entrãdo cÕ grande eftrondo de gritas & efpingardadas, com que os mouros cuydando q era todo ho mudo fobreles, foy ho feu medo tama¬ nho que fugirã a quem mais podia. E francifco de foufa & os outros ca¬ pitães os feguirão, matando & ferindo ate defpejaré ho lugar, que logo foy todo queymado & deftruydo com morte de muytos mouros, fem dos Portuguefes morrer nenhum. Ifto feyto tornoufe Francifco de foufa pera a fortaleza, onde foy bem recebido por feyto tam façanhofo. CAPITO LO .CXIX. Do que aconleceo a Tri/lão datayde com a armada del rey de Tidore. COm quanto a perda defte lugar foy muyto grande pera os mouros, não defmayarão pera deixarem de prolfeguir a guerra. E pera a fazerem dali por diante mays afpera & com mays fua fegurança leuantarão todas as pouoações que ainda lhes ficauão daquela parte do ponente, onde eftaua a fortaleza, & palfarãfe pera a banda do leuante, com o que Triftão dataide ficou mays defaliuado, porque como os Imi¬ gos eftauão mays afaftados da fortaleza não lhe corrião tanto a miude: mas deífas vezes que lhe corrião, faziã muyto dãno aos Portuguefes, tomandolhe o gado que fahia a pacer, & catiuãdo os efcrauos q hião ao mato, & quãdo hiã fobre algúas pouoações perdião o caminho à mingoa de guias: & primeiro que chegalfem a elas os fentiã os mouros, que como ho mato he muyto çarrado, & a terra muyto fragofa & fem caminhos, punhãofe em palfos onde fe podião ajudar deles, & os ferião & matauão fem receberem dãno, & recebendo os Portuguefes muyto fe tornauão fem fazerem nada. E outras vezes leuauão també os mouros ho milhor em algúas pouoações que os Portuguefes querião tomar, donde fe tornauão feridos & mal tratados, defendedolhe os mouros que as não tomalfem. E ho mefmo trabalho que tinhão os da fortaleza, tinhão os que eftauão em Talãgame com Francifco de foufa nos nauios de carga, falteandoos os Imigos por terra quando hião bufcar mantimento, & por mar, prin#ipal- mente defpois que os reys de Tidore, de Geilolo & de Bachão foltarã
  • Livro VIII, Capitolo CX1X 3g5 fuas armadas que trazião por mar, com q dauão affaz de fadiga a eftes Portuguefes q eftauão em Talangame, que ás vezes lhes fahião em feus paraos & champanas, mas como erão poucos fempre leuauão a peor. E vindo húa vez certas corafcoras de Tidore, fayranlhe os Portuguefes, cujos capitães forão hum Luys do cafal valente caualeiro, & hu Fernão anriquez, & outros. E receado os mouros a artelharia dos Portuguefes, fizerão volta retirandofe, & eles forão depos eles ás bombardadas: & vendoos fugir fcguirãnos ate os meter no porto de Tidore. Do que os mouros fe ouuerão por muyto injuriados, & determinando de fe vingar, poferão húa cilada de muytas corafcoras detrás de húa põta perto de Ta¬ langame, donde mandarão tres que correffem aos nauios dos Portuguefes, & fe chegaífem a eles ho mais que podeflem, pera os mais atiçaré a fayr- lhes, & entã fe retiraffem de vagar, ate os metere na cilada, & afli ho fizerão. E leuarão Luys do cafal, & Fernão anriquez, q lhe fayrão em dous paraos ate dobrarem a ponta onde eftaua a cilada, & ah voltarão fobreles: & nifto fayrão os da cilada, & pegarã com Luys do cafal que acharão diante, & afli como Fernão anriquez os vio pegados coele, aco- lheofe pera Talangame, & deixou Luys do cafal, & os outros que ho aju- dauão, que defpoys de pelejaré valentemente forão todos mortos. E os mouros fe tornarão pera Tidore muyto ledos, por ferem os primeiros que matarã Portuguefes em batalha de már, o que lhes parecia impofli- uel, por amor da artelharia a que auião medo, & dali por diante lho per¬ derão. O que Triftão dataide íintio tanto como a perda daqueles Portu¬ guefes: & por iflò determinou de não deixar paffar aquilo fem vingança, & embarcoufe em fua armada, cujos capitães forão Diogo fardinha, An- tonio de teyue, Antonio pereyra, Baltafar vogado, Francifco de foufa, Simão fodré, Efteuão de chaues, & outros fidalgos & caualeyros, & par- tiofe pera Tidore, cõ propofilo de deftruir a cidade mas os mouros não lhe derão efle vagar, antes ho forão receber ao mar em fua armada, que era muy groffa a refpeito da de Triftão datayde, que quando os vio ficou efpantado de fua oufadia: & mandando dar fogo a feus tiros, começou- lhes de tirar. E os mouros que lhe não auiã medo, fizerão ho mefmo com os feus, & começafe hú brauo jogo de bombardas & efpingardadas. E fe os mouros teuerã os nauios tam fortes como os dos Portuguefes fempre aferrarão com eles: & fe ho fizerão não ficara nenhú viuo dos noffos, porque os mouros erão muytos & bé armados: & porem ho medo de lhe metere os nauios no fundo os eftoruou de aferrarem, nem os Portugue¬ fes oufauão de os aferrar, porque os vião tantos. E afli andarão hum bõ pedaço nefte jogo. E vendo Triftão datayde que lhe falecia a poluora & que não fazia nada, começou de fe retirar & os feus coele, ate que vol-
  • 3g6 Hijloria da Índia tarão de todo pera a fortaleza, feguindoo fempre os mouros, & dadolhe muytas apupadas, ate que fe enfadarão, & tornarãofe pera Tidore muyto foberbos coefta vitoria, & perderão de todo ho medo que tinhão de Trif- tão datayde, que eles auiã por mujto esforçado. E entendendo ele os mouros não quis mays fayr da fortaleza a pelejar, nem por terra nem por már: & também por amor do defpacho dos nauios da carga que auião de partir para a índia. CAPITOLO .CXX. De como indo hum capitão del rey dos Mogores fobre Baçaym deyxou de hir com medo dos Portuguefes. EL rey de Cambaya (como fica dito a tras) fazendo ho gouernador a fortaleza em Diu deu húa fayda por feu reyno pera que foubef- fem que era viuo. E forão coele Martim afonfo de foufa, & outros fete ou oyto fidalgos: & andando la foube como el rey dos Mogores tomara a cidade de Madauá, principal de Cambaya quando feus reys erão gentios. E eftando el rey de Cambaya em húa fua cidade, hum dia -antemenhaã lhe derão rebate q vinhão os Mogores, & foy ho medo tama¬ nho que os Mogores forão tomarãna. E el rey de Cambaya fe fahio logo & tornoufe a Diu. E fabendo ho gouernador eftas nouas, & receando que os Mogores foliem fobre Baçaym & ho tomaffem, mandou a Garcia de faa que foífe pera lá, por ter acabado ho baluarte que tomou a cargo de fazer na fortaleza, que auia nome Santiago, & deulhe quatrocentos Por¬ tuguefes que foífem coele: & mãdoulhe que ajuntalfe antre tanto os ma- teriaes pera húa fortaleza que auia dir fazer como acabalfe a de Diu: & affi ho fez. E eftãdo ele em Baçal, chegou hi Gafpar preto, que fora com embaixada do gouernador a Nizamuluco fenhor de Chaul, fobre que não fizefe guerra a elrey de Cambaya, que ho concedeo por amor do gouer¬ nador: & lhe offreceo fua ajuda: & Gaspar preto diffe a Garcia de fá q vldo de lá pera Diu teuera por noua q hia hú capitão do rey dos Mogo¬ res fobre Baçaim com vinte mil de caualo, & géte de pé fem coto, pera ho tomar cõ toda fua comarca, & dalo a Melique tocão q fora fenor dele, & fe lançara com el rey dos Mogores no desbarato del rey de Cambaya. E que os corredores delta gente chegarão dele tão perto que catiuarã algús de fua cõpanhia, pelo que lhe fora forçado leixar ho caminho que leuaua & fe acolher a Damão, & dali fe fora por már a Baçaim. E gar- cia de faa ficou muyto trifte coefta noua, porque já a tinha, & a gente da terra: & afli os Portuguefes eftauão com grãde medo por faberem quan-
  • Livro VIII, Capitolo CXX 3Q7 tos erão os Mogores, & eles tam poucos. E por iffo Garcia de faa na fe eftreueo a efperalos: & mais quãdo foube quam perto eftauão, porq a fora não ter mais de quatrocentos homés, & os Imigos não terem conto, não tinha onde efperaffe feu primeiro impeto fe não no campo, o que era perigo grandiflimo, porq com os Imigos tiraré nomais q cada hú fua fre¬ cha lhos matarião todos. E por iffo Garcia de faa com ho parecer de Gaf- par preto & doutros, determinou de fe embarcar & irfe, o que lintindo a gente da terra, & algús mercadores eftrãgeiros, que fe auião por fegu- ros com a eftada de Garcia de faa, deranfe por perdidos, entendendo que fe queria ir, & chorauão fua defauentura. E era piadofa coufa de ver ho gritar das molheres, ho chorar dos meninos, & ho lamentar dos homés, & a efte fom entrouxará os Portuguefes feu fato. E como ifto era tama¬ nha quebra do credito que tinhão, principalmente naquele tépo, em que toda a cofiança del rey de Cãbaya eftaua neles, pareceo muyto mal a An- tonio galuão, que não fabia o q Garcia de faa tinha affentado: & quando ho foube lhe pareceo muyto mal, & diffelhe. Vos fenhor não me negareys que quãdo aqui vieíles por mãdado do gouernador que não fabieis que os homés que trazíeis não erão mays dos que agora fam, a refpeyto dos Imigos que neffe tempo imaginaftes muy bem quantos auião de fer, poys querião tomar efta terra, a q ho gouernador vos mandaua pera lhe refif- tir, & bé fabieis então que não tinheis onde vos defender fe não no cãpo pelejando, & poys vos então não efcufaítes, podendo ho fazer fem def- honra, q o nã fabia ningué, não vos efcufeis agora, com ficar deshonrado, & os Portuguefes cõ defcredito poys he em pubrico. E por fofter efte q eles ha tantos annos que tem ganhado na índia, ferá muyto feruiço de Deos & del rey perder as vidas que durão tão pouco, & ifto vos requeiro da fua parte que ho façais, quanto mais que fem as perder, nos podemos defender com a artelharia & efpingardaria que temos, q nos defenderão a dianteyra, & a trafeyra ho mar, & mays faremos muy afinha húa tran- queyra de quanta madeyra aqui temos, que cõ húa caua ficará fortiflima. E muytos que eftauão com Garcia de faa eftauão tam affentados em fe hir: que não fomente lhes não pareceo bé o que dizia Antonio galuão, mas nem deixarão Garcia de faa que lhe refpondeffe, antes começarão de dizer todos q era efcufado aqle confelho. E vendo Antonio galuão q ho não qrião poer em pratica, foyfe muyto agaftado. E parecendo muyto bé a Garcia de fá o q differa, affentou de ho fazer, & dizendo ho a todos foy a pos ele, & louuando lhe muito feu confelho ho tomou, & pediolhe que fizeífe a metade da trãqueira, & afli a fez, cõ o q géte afli da terra, como eftrãgeiros fe ajuntarão todos cõ Garcia de fá pera ho ajudaré. E fabendo ho capitão dos Mogores quã fortalecido ele eftaua, deyxou de yr
  • Hijtoria da índia 3g8 a Baçaym, & tornouie, cõ o que os portuguefes ganharão muyta hora & credito & afíi Antonio galuão q deu ho cofelho. CAPITOLO .CXXI. De como el rey de Cãbaya quifera fa\er hú muro antrc a tiojfa fortaleza & a cidade. DEsapressado Baçaim dos Mogores partiofe Gafpar preto pera Diu, & deu a repofta de Nizamaluco ao gouernador q a difle a el rey de Cambaya, que ficou muy defaliuado, fabendo que lhe não auia Nizamaluco de fazer guerra: & então ficou muyto mays defcontéte do q andaua dãtes por ter dada a fortaleza em Diu ao gouernador, porq lha dera cõ tenção que cÕ a ajuda q lhe deffe, deitaria fora de feus reynos os Mogores, & ele via q ho gouernador nã podia, pelo q fe achou muito alcãçado, & ja que não tinha remedio pera ao prefente eftoruar que não fe fizefie a fortaleza, determinou de ver fe a poderia cegar, cõ lãçar húa parede antrela & a cidade, pera defpois q fe ho gouernador folfe fazer naqla parede baluartes com q podeffe bater a fortaleza & tomala. lfto determinado, mandou dizer ao gouernador por Ninarao capitã de Diu, & por Ioã de Santiago feu lingoa q lhe deixaífe fazer a parede que digo: & ho gouernador lhes difle q ele refpõderia a el rey por feu melfageiro, & fobre efta repofta fez cofelho em que propos o q lhe elrey mãdara dizer, & Marti afonfo de foufa foy de voto que fe cõcedeífe a el rey que fizeffe a parede, porq como era apetitoso palfarfelhehia aqle apetite & nã a faria. E Fernã rodriguez de caftelobrãco ouuidor geral & outros difle- rão q por nhú modo fe lhe cõcedefe, porq logo a faria, & feita feria peor desfazerélha, & defte voto foy ho gouernador: & ifto determinado, affen- toufe q Fernaõ rodriguez lhe foífe dizer que fe a fortaleza era fua, & os portuguefes feus, q pera que era aquela parede, & por iffo era efcufada. E quãdo lhe Fernaõ rodriguez deu efte recado, el rey fe agaftou & ref- põdeo muyto aluoroçado, que queria aquela parede, pera que hú Portu¬ guês não teueífe lugar de yr matar húa vaca a hú feu gétio, ou fazer ou¬ tra coufa de q fe feguiífe efcandalo antre os mouros, & os portuguefes, o que ele não queria por amor damizade dãtrele & el Rey de Portugal. E todauia infiftia q auia de fazer a parede, fobre o q fe paífarão algús recados antrele & ho gouernador, q leuaua fernã rodriguez, & apertãdo mais el rey em fazer aqla parede, mãdou dizer ao gouernador que quãdo fizera coele ho cõtrato das pazes, naõ fe obrigara mais q a deixarlhe fazer húa fortaleza, & não a ferlhe fogeito, & fegúdo via ele ho queria
  • Livro VIII, Capitolo CXX1 399 fogigar, pois lhe queria jmpedir que naõ fizeffe húa parede é fua terra, que lhe não goardaua ho cõtrato, & a repofta deite recado foy acordada em confelho, q Fernã rodriguez refpondelfe a el rey ho mais brãdaméte q podelTe fer, & quando de todo em todo infiftiífe na parede, q o defen- ganafe q lha não auia o gouernador de deixar de fazer. E Fernão rodri¬ guez foy a el rey, que lhe falaua pelo lingoa Ioã de fantiago, & quando el rey vio que lhe não concedia ho gouernador a parede, começou de falar alto que lhe não goardauão ho contrato em nehúa coufa, & que pe¬ dira mil homes ao gouernador pera lhe yre goardar Baroche, & que lhe não dera mais de céto, & pois lhe quebraua a paz q auia de fazer a pa¬ rede. E fernão rodriguez lhe difle que em nhúa maneira lho auia ho go¬ uernador de confentir, porq né os Portuguefes auião de querer que lho confentifle, do que el rey ficou muyto menécorio, & chamou perro a Ioão de fantiago, porque lhe dizia tal coufa, & defpois dilfe que os portuguefes lhe chamauão doudo, & que ele ho era pois fizera o que fez, & porem que tãbem os doudos atentauão pelo q lhe cõpria. E coiíto fe foy Fernão rodriguez, & el rey ficou muito agaítado do defegano que lhe ele deu, por auer aquilo por grãde quebra, & fe ele poderá logo fe vingara do gouernador, mas como tinha pouco poder, & os Mogores eílauão em Cambaya, não oufou de bolir configo, & dali por diante teue mortal odio aos portuguefes, & determinou de lhes tomar a fortaleza como teueffe tempo, & com tudo diííimulou eíte odio, & eíteue algús dias arrufado fem fe ver como ho gouernador, a que mandou dizer por Ninarao, que pois não queria que fizeffe a parede, que a nã queria fazer, mas que lhe deífe gente pera fazer guerra aos Mogores como lhe tinha prometido, fobre ho que ho gouernador teue confelho, em que foy acordado que lhe não deífe gente, porque não feria muito pedila elrey pera a matar á treição, que fe lhe refpondeífe que lha não podia dar por ter pouca, que pera ho ve¬ rão que juntaria mais lha daria, & coefta repofta fe agrauou elrey muyto, & diffe q não podia ho gouernador negar que lhe não compria ho cõtrato, & poys afli era q ho não podia ajudar q bufcaria feu remedio, & man¬ dou a Ninarao que diífeífe ao gouernador como que ho auifaua que ele fe queria yr pera Meca. E fabido ifto pelo gouernador logo pos em con¬ felho o que faria, em que foy acordado q ho deteuelfé, porq não era tepo de ho deixaré yr, pola diuifam q auia em Cãbaya. E cõcertado antre ho gouernador que fe viífem, por quãto el rey eftaua fora da cidade na quinta de Melique, virãfe na ponta de Diu, onde ho gouernador foy em húa fufta, & forão coele Martim afonfo de foufa, Manuel de foufa, dom gonçalo coutinho, & fernão rodriguez de caftelo branco ouuidor geral, & Ioam da cofta fecretario do gouernador, a que el rey eftaua efperãdo em
  • 400 Hijloria da Índia húa fufta, acompanhado dalgús fenores do feu reyno ate quatro ou cinco, & o gouernador entrou na fufta del rey, & ãbos de dous fe meterão no toldo, & os fidalgos & fenhores ficarão de fora, & ali fez elrey húa com¬ prida pratica ao gouernador, em que lhe refumia as condiçoés do con¬ trato q era feito antreles, & que não fómete lho quebraua em lhe impi- dir a parede, mas nem lhe daua a gente que pedia aqueixãdofe muyto dele. E ho gouernador lhe diffe que por eftar doente lhe nã refpondia, que lhe refponderia Fernão rodriguez que fabia bem aquele negocio, do que fendo el rey contente, Fernão rodriguez lhe diffe, q no cõtrato que ele fizera com ho gouernador, não eftaua q fizefe a parede que dezia antre a fortaleza & a cidade: & por iflo não fe deuia de aqueixar dele que lho não goardaua: quanto mays que fazendofe aquela parede a fortaleza ficaua cÕ a artelharia cega & não valia nada, o que ele não auia de que¬ rer poys a dera liuremente, & poys era parele tam proueitofa como pera os Portuguefes, q erão todos feus: & eftauão ali pera ho feruir quãdo fofle tempo, & porq então ho não era, por fer entrada dinuerno, lhe não daua ho gouernador a gente que lhe pedia, com q por derradeiro nã auia de fazer nada, porque a inuernada ho não auia de deixar de andar pèlo campo, que pera ho verão q poderia andar por ele lhe daria a gente q quifefle, & que ainda q aquilo nã efteuera no contrato abaftara pera ho fazer, a võtade que tinha de ho feruir, & que não cuydafle outra coufa: nem q lhe não goardaua o contrato, porque feria fem rezão, & cõtra o que deuia ao defejo que ho gouernador tinha de o feruir. E alfi lhe diífe outras coufas com que el rey abrandou, & ficou fatisfeito, & prometeo de fe tornar pera a cidade: & diffe que não hia logo com ho gouernador, porq não pareceífe aos mouros que hia por força: & o gouernador fe tornou. E como el rey era inconftante, ainda defpoys difto teue algúas refegas darrepédimento do que fizera, com q mandou aqla noyte engeitar a paz ao gouernador: & polo feu fecretario lhe mandou ho contrato, dizendo q lho não goardaua: & na mefma hora foy a ele Fernão rodri¬ guez, per mandado do gouernador é húa fufta, & acompanhado da fua guarda. E falãdo a el rey ho affeflegou de maneira, que ao outro dia fe fe foy pera a cidade como tinha prometido, & tornou a fer amigo do go¬ uernador, ainda que fingido, porq determinaua de tomar a fortaleza como teueffe tempo.
  • Livro VIII, Capitolo CXXII 401 CAPITOLO .CXXII. De como os Mogores forão desbaratados. MIrÁomuhmalá fobrinho del rey de Cambaya, que eftaua na frÕta- ria de Damão cõtra ho Nizamaluco: defpoys que vio os Mogores não oufarã dir fobre Baçaim cõ medo dos Portuguefes, não quis ali eftar mays, porq Nizamaluco não auia de fazer guerra a elrey feu tio que lhe mandou gente pera q com a que tinha foffe fazer guerra aos Mo¬ gores q andauão no reyno de Mãdou, a que ele foy leuando ainda mays gente q lhe Nizamaluco deu pera ho ajudar naquela guerra: & lá fe ajun¬ tou cÕ alguús capitães del rey de Cambaya, que tinhão por ele algúas fortalezas, & deles foube como el rey dos Mogores era partido pera ho reyno de Bégala ao conquiítar pela grande fama do tefouro que tinha el rey de Bengala, & que deixara em Mandou algús capitães cõ géte de goarnição: a que Mirãmuhmalá fez logo a guerra, com q os apertou em eftremo, & affi com fome, porq como eítauão nas fortalezas & não erão fenhores do cãpo, não podião auer mantimétos, & morrerão muytos á fome, & de trabalho, & dos outros hús fe forã bufcar ho feu rey, outros fe ajuntarão cõ Mirzãohamet fobrinho do feu rey, que fe foy defpoys pera el rey de Cãbaya, que cõ a diminuyção dos Mogores ficou muyto fauore- cido: & dali por diante lhe acodio muyta gcte, cõ que defpois cobrou feus fenorios fem ter necelíidade da ajuda dos Portuguefes. CAPITOLO .CXXI1I. De como dom Ioão pereyra capitão de Goa desbaratou çoleymão haga. DUrando a guerra dantre Açadacão & dõ Ioão pereira capitão de Goa, fobre querer tomar as tanadarias de Salfete & de Bardés, tornou Açadacão a mãdar fobreles çoleymão haga feu capitão com noue mil homes, de q erão fete mil Balagatinos, em q entrauão duzentos de caualos ligeyros & cincoeta acubertados & os dous mil eítrangeiros brancos, & deites dous mil os mais frecheiros & efpingardeiros. Entrado çoleymão haga nas tanadarias com efta gente, não quiferão os da terra por feu medo pagar mais as rédas que dantes pagauão aos tanadares Portuguefes, que logo efcreuerão a dõ Ioão pereyra capitão de Goa, re- querêdolhe q lhes acodifie, a que ele partio logo cõ quatrocétos Portu¬ guefes, trezentos de pé, de q foy capitã Payo rodriguez daraujo, & ceto * Tomo IV 5i
  • 402 Hijloria da índia de caualo, em q entrauão Iurdão de freitas da ilha da madeira capitão do campo, Galuão viegas adail de goa, Manuel de vafconcelos caiado, Galaz viegas, Diogo botelho dandrade, & outros a q não foube os nomes, & mil piães da terra, de que forão capitães Crifná & Ralú dous gétios. Coefta géte partio dom Ioão na entrada de Feuereiro: & chegado a Ra- chol foube q eftaua çoleimã haga dali a húa legoa, & logo por húa lin- goa q tomou foube q era aleuãtado pera mais longe, cÕ medo q auia de pelejar coele polo ter por muyto esforçado. O q fabido por do Ioã deter¬ minou de ho ir bufcar: & indo polo caminho foube de Galuão viegas q hia diãte defcobrindo ho cãpo, que çoleimão eftaua cõ fua géte na bicada de húa ferra dali a duas legoas, a cuja vifta chegou aos noue de feue¬ reiro: & feria a efpaço de mea legoa. E quando os Portuguefes virão tantos mouros efpãtarãfe muyto, por não faberé dantes quantos erão, ne os fazião a dõ Ioão tantos: a q algús differão que fe tomaffe, porq feria doudice cometeré a tantos mouros. Do q dom Ioão ficou muyto agaftado por lhe parecer q ho dizião cõ medo, &' ajuntãdo effes principays lhes diffe. Pareceme fenores q vos vé de pouca fé em noffo fenhor, dizerdes que nos tornemos fem cometer eftes mouros, como q não folfem eles os q nos fugirão muytas vezes: & os q nos núca poderão impedir q não fizeffemos a fortaleza de Rachol, pois eles não fam agora mais esforça¬ dos q então, ne vos tédes agora menos esforço q quando vos eles fugirão: & o q vos parece q vos ha de faluar, iffo vos deitará a perder de todo, porq fe vos os Imigos viré tornar cuidarão q lhe fugis & cuydãdo vos figuirão, & pola grande diftancia q ha daqui á noífa fortaleza, nos matarã a todos primeiro q la cheguemos. Por ifto cõ a efperãça em noffo fenhor q nos darà vitoria, & cõ vos lébrar quantas vezes nos fugirão demos neftes cães, porq védo q os cometemos, eu vos fico q logo lhes fobreue- nha ho medo q nos té, & nos deixé ho campo. E parecendo ifto bé aos mays, differão q deffem nos Imigos, q nefte tépo começarão de chegar pera dom Ioão feytos em tres efcoadrões, & de todos feyto hú arco, em cujas põtas hião em cada húa cento dos de caualo ligeyros, & no meo os acubertados: & fendo a tiro defpingarda dos noíTos (q eftauão feitos em hú corpo) começão de defparar muytos foguetes ferrados & bombas de fogo, & muytas efpingardadas, & frechadas fem conto, & dando grãdes gritas hião çarrãdo ho arco pera tomar os noííos no meo, q coeffa téção ordenou çoleimão a fua géte defta maneyra. E certo q hia tão medonha q era muyto pera temer. Dõ Iohão q vio q não podia deixar de ficar no meo, porq o arco vinha muyto largo, determinou de dar nos Imigos ãtes q fe çarraífem de todo, & mãdou a Iurdão de freitas q cõ trlta de caualo efcolhidos foffe cometer os acubertados, & mãdou coele o feu guião & q
  • Livro VIII, Capitolo CXXII1 . 403 ele daria entretãto em húa das põtas. E nifto erão as efpingardadas tãtas da parle dos Imigos, & foguetes ferrados, & bobas de fogo, q algús dos q hião cÕ Iurdão de freytas virarão as coftas, mas tornarão logo, parece q com vergonha de fe faber: & em Iurdão de freytas ferindo, deu ele Santiago em húa das pontas dos Imigos, porem ho medo parece que fal¬ tou cõ os noflos, que não abalarão com dom Ioão mays dos de caualo q noue & deites forão Bento gomez das donas, Antonio ferrão, Baltião rolz, & aos outros feys nã foube os nomes & os outros de caualo fe deyxarão eítár quedos, & parte dos de pé, & os outros começauão de fugir com os piães da terra, mas do Ioão cõ quãto o vio, não deyxou de cometer os mouros cõ os noue q digo chamando por Santiago: & vedo q Baítião rolz hia fem capacete, bradoulhe q ho foffe tomar, & ele refpodeo que não era tempo, & affi fem capacete o fez tão esforçadamete cõ todos os outros q os mouros daqla ponta fe começarão logo de desbaratar, vedo em quã pouco dõ Ioão & os noue tinhão fuas efplgardadas, fre¬ chadas, bõbas de fogo, & foguetes, & q affi fe arremeífauão aos matar como homés q não eítimauão as vidas, & matando muytos dos mouros os fizerão fugir, deita ponta, & nifto acodio çoleymão haga cõ os da outra & desfezfe o arco. E vedo os noffos q não abalarão cõ dõ Ioão como fe desbaratauã os Imigos em q ele deu cobrarão coração, & fey- tos em hú corpo ho forão ajudar, & iffo caufou não ho fumir çoleymão & aos q eitauão coele quãdo acodio cõ os da fua ponta, & mefturan- dofe hús cõ os outros renououfe a peleja q foy muy braua, porq ãtre os Imigos auia muytos Parcos & outra géte brãca q pelejauão com grãde esforço, mas como os noffos ja eitauão juntos, & fe efquétauão de cada vez mays, cõ ho feruor da batalha fizerão marauilhas por emendar ho paífado, & matando muytos dos Imigos apertarão tão rijo cõ os outros q cs fizerão fugir, & dõ Ioão cõ os noíTos de caualo lhe feguio ho en¬ calço bé duas oras, em q matou muytos de caualo, & piães, & muyto mays matára, fe não q muytos meterão ramos verdes nas toucas como leuauão os noffos piães, & coiffo efcaparão, & os noffos os feguirão ate hú rio onde os Imigos fe lançarão & paffarã a nado, & algús fe afogarão com preffa, affi hião cortados de medo, & daly fer tornou dõ Ioão ao ar- rayal dos Imigos onde foy achada muy rica prefa, affi de fazêda, como darmas & mãtimétos, & muytos boys de carrega & caualos. E muytas cabayas q çoleymão tinha pera dar aos feus, q primeiro rõpeffe os por- tuguefes. E dõ Ioão mandou fazer alardo, & achou q lhe não fora morto ningue: fométe lhe firirão algús de frechadas & zagunchadas, & algús caualos: No q noffo fenor moftrou quã milagrofa fora aqla vitoria. E dos mouros fe achou q forão mortos mil & fete centos, & muytos catiuos. E
  • 404 Hijioria da índia antre os mortos foy hú fobrinho de çoleimão, q era capita do capo: & Abedacão capitão de Cintacora, caualeyros de muyto esforço, e de grade eftima antre os mouros. E afli outros muyto prlcipaes. E por memória defta tã famofa vitoria, & q os mouros muyto fentirão, armou dõ Ioão muytos caualeyros, q fe teuerão por muyto ditofos de ho fer em feito tam hõrado. E ifto feyto o q ficaua daquele dia & parte do outro, andou dõ Ioã corrédo a terra, pera q foubeífem os moradores q era fenhor do cãpo, & todos lhe leuauão muytos prefentes de mantimentos, cÕ prazer de fe verem liures dos mouros que lhes auorecião grandemente polo mao trato que lhes dauã. E deyxando do loão a terra em paz fe tornou a Goa, onde foy recebido com procifTão foléne, & achou hi hú embaixador de çoleimão haga, q da fua parte lhe leuou hum prefente de coufas ricas, & lhe pregútou como hia da batalha: & fe eftaua em difpofição pera dar outra: E ifto fez çoleymão por ficar muyto cotente do esforço de dõ Ioão, q bc vio como os feus ho defempararão, & cÕ quã poucos cometera os mouros. E dõ Ioão recebeo bem ho embaixador, & lhe fez muyta hora & gafalhado, & ho banqteou, & lhe deu hú bõ prefente pera çoleymão, & q lhe diffefe q ficara muyto defpofto da batalha pera o q lhe cõpriffe: & ainda eftaua pera dar outra. Do q çoleimã ficou muyto ledo, & Aça- dacã muyto trifte vedo q não podia cobrar aqlas tanadarias: pelo q fe pode ver q fe podiã tomar todas & fofterfe, & q por culpa dos gouerna- dores fe perderão tanto tépo tantos mil cruzados que elas rendem. CAP1TOLO .CXXIIII. De como foy acabada a fortaleza de Diu, & foy começada a de Baçaym. HO Gouernador q fazia a fortaleza em Diu fe deu tãta prelfa em a fazer que a acabou quafi, em quorenta & noue dias de trabalho, q foy na fim de Feuereiro de mil & quinhetos & trinta & feys ãnos, & acabada pos lhe nome Sã Thome, & ficou de trezentas & cin- coéta braças e roda, & de figura triãgular, & tinha os muros de groflura de dezoyto pés, & daltura de trlta palmos cõ as ameas, tinha quatro ba¬ luartes, os tres em triãgulo, & o outro no meo, entulhados ate ho pri- meyro fobrado, abertos pola banda de dentro & defcubertos & cercada de caua, muyto forte & bê artilhada, & ficou feito ho cauouco pera húa cifterna muyto grãde. E ela acabada deu ho gouernador a capitania a Ma¬ nuel de foufa Deuora, & deulhe noue cétos homés. E eftãdo ho gouer¬ nador em Diu, vio cõ todos os fidalgos q ho acÕpanhauão, hú homé q dizia fer de trezétos & quoreta annos, & afli ho aftirmaua el rey de Cã-
  • Livro VIII, Capitolo CXXIIII 40S baya, & todos os principaes de Diu & lébrauafe fer toda Cãbaya de gen¬ tios, & não auer nenhúa pouoação em Diu. Dizia que quatro vezes fe lhe pelarão os cabelos brãcos, & outras tantas lhe tornarão a nacer pretos, & por tãtas vezes lhe cayrão os dentes, & lhe tornarão a nacer. E q teuera fetecentas molheres. E ho gouernador lhe mãdou ver ho pulfo por hum medico, que lho achou muyto esforçado, & no rofto & na fala homc de fetenta annos, & tinha pouca barba & e(Ta preta, era de nação Bégala, de cafta de getios, & auia muyto que fe tornara mouro. Ho gouernador efteue ainda em Diu quafi ate fim de Março, & antes de fe partir Nina- rao capitão de Diu lhe diffe fecretaméte, que não fe fiaua del rey de C㬠baya por fer muyto inconftante & cruel, & que receaua que lhe quifefe fazer mal, como fazia a outros q lho não merecião, pedindolhe que mã- dafe a Manuel de foufa que ho acolhofe na fortaleza fe teuefTe diífo ne- cefiidade, & q ele ho feruiria: cõ o q ho gouernador folgou muyto, por ter por amigo hú homé tam principal como aquele. E cõ confelho mãdou a Manuel de foufa que ho fauorecefe & recolhefe na fortaleza fe neceífa- rio foffe. E defpois fe partio pera Baçaim, a que chegou com toda fua armada: & quando vio a trãqueira que fe fez per confelho de Antonio galuão, gabouha muyto, & foy logo ver ho fitio onde auia de fazer a for¬ taleza pera a começar. E por fazer honra a Antonio galuão que fabia que a merecia por muytas vias, quando ouue de abrir os alicefes da for¬ taleza, mãdoulhe que defle as primeiras enxadadas, & pofeífe a primeira pedra, eftãdo hi Garcia de faa, & outros muytos fidalgos. E deixãdo ho gouernador Garcia de faa pera a acabar, partiofe pera Goa, & defpoys dalgús dias que chegou foy ver a fortaleza de Rachol, fobre o que logo Açadacão lhe mandou húa embaixada, que a derribafTe & teuelfem pazes como dantes, & que recolhelfem ambos as rendas das tanadarias daquela comarca: & q as pofelfem em depofito ate ele mãdar dizer a el rey de Portugal da maneira q lhe dera aquelas tanadarias: & quando el Rey ouueffe por bé de as tomar, que lhas deixaria é paz & feria feu amigo como era. E ho gouernador não quis cõ cõfelho, dizendo que tinha as tanadarias por bõ titulo, poys ho Hidalcão por amor dele lhe não fizera guerra.
  • 4o6 Hi/loria da índia CAPITOLO .CXXV. De como Antonio Galuão partio pera Maluco. EM Goa achou ho gouernador Lionel de lima, que de parte de Triftão dataide capitão da fortaleza de Ternate, lhe entregou el rey Taba- rija, Pateçarangué, & foas molheres, & os outros prefos, que todos fe queixarão muyto da lem rezão & agrauo q lhes Triftão dataide fizera, reqrédolhe q viffe logo fuas culpas, & os cõdenafle ou afTolueffe: & fe as não teueflem q os tornaffe a mãdar a Maluco nas naos q foffem pera lá. O q ho gouernador não quis fazer, ainda q fabia q não tinhã culpa, & nã os quis mãdar aqle ãno: por não ter caufa de mandar prender Triftão dataide, de que era muyto grãde amigo: & por iflo dilatou o defpacho dos prefos: do q eles fe queixauão muyto, & dizião que tam pouca juftiça achauão na Índia como em Maluco: Pera onde ho gouernador determi¬ nou de mandar aquele anno Antonio galuão, que tinha a capitania da for¬ taleza : porq per Lionel de lima, & por cartas domes de Maluco, foube as auexações que Triftão dataide fazia aos Portuguefes & aos mouros: pelo q eftaua certo leuantarfe a terra contrele: & a fora iffo ficaua em grande aperto de fome, & fem auer na feytoria apercebimento pera a paga do foldo & mantimento da géte & pera reftauraçã daqla terra era muyto neceflario jr hú capitão esforçado, mãfo & de bõa cõfciencia. E como ho gouernador por experiécia fabia que em Antonio galuão auia eftas qualidades: & fobre tudo fer muyto amigo do feruiço del rey, & que outra coufa não defejaua mais nefte mundo, folgou muyto de ele fer ho capitão que auia dctrar na fortaleza, & afli lho difle. E com quãto ele douuida fabia algúa coufa das defordés & males q auia em Maluco, pofto q lhe ho coração dizia que nã foffe, todauia por feruir a Deos & a el rey difle q yria. E ho gouernador lhe deu húa nao pera jr, fem lhe lébrar que a tinha dada a hú fidalgo chamado Duarte de miranda: O que fabendo Antonio galuão, por lhe não fazer má obra, a tornou a engeitar ao gouernador, dizédo ho porq ho fazia: & també por a nao fer muyto pequena pera leuar a gente q tinha neceflidade de leuar, pelo q lhe deu outra mayor. E como pera ir a Maluco fe acha a géte cõ muyto traba¬ lho, não quis Antonio galuão terfe â q lhe ho gouernador poderia dar: & cÕ rogos, dadiuas & promeífas doutras mayores em Maluco, acquirio a mays géte q pode, & fe partio pera Cochim onde fe auia dacabar de def- pachar: mas não achou lá nenhú aparelho pera iflo por Pero váz vedor de fazenda não ter dinheiro q lhe dar, pelo q lhe foy neceflario empref-
  • Livro VIII, Capitolo CXXVI 407 talo a el rey, & deixou de ho leuar empregado em coufas q ho trefdo- brara: & be poderá fem fua quebra deixar de ir aqle anno, poys lhe não dauao auiaméto, como fe dera aos capitães paliados, & não quis pelo muyto q fua ida importaua ao feruiço del rey, & como iíto fabia nã lhe lébrou mais feu intereífe: & fem lhe fer paga nhúa coufa de feu orde¬ nado, como aos outros capitães, nem a gente q ya coele do foldo q lhe era diuido, fe partio de Cochim a oyto de Mayo na nao q lhe ho gouer- nador deu, & cõ outra q fretou á fua cufta, de q fez capitão hú Francifco nunez, em q leuou a mays & mays luzida géte q nunca foy a Maluco, q por fer muyta, & não caber na fua nao fretou aq!a: & tãbé leuou molhe- res, a q fez grandes partidos: cõ fundamento de as cafar lá cõ Portugue- fes, afli pera fazere geração, como pera faberé os mouros q determinauã eles de morar em Maluco, & não de deixar a terra E leuou muyta fazéda de Cambaya trigo & vinho & azeites de Portugal, açúcar & grande forna de conferuas, pedras datafonas, & ferras grandes & pequenas, macha¬ dos, enxadas, & outras alfayas neceffarias pera quem lá moraffe, que não auia na terra: & alfi leuou ferro & chúbo: E com eftas duas naos: & com outros nauios que hião pera Malaca, todos debaixo de fua capi¬ tânia fe partio de Cochim. CAPITOLO .CXXVI. De como el rey de Cdlicut fe quifera coroar em Repelim, & não pode. COmo quer q el rey de Calicut tinha grande odio a el rey de CochI, por amor dos Portuguefes, bufcaua fempre modos pera ho def- truyr: & o que achou nefte tempo, foy querer coroarfe em hú pa¬ gode, que eftá em terra de Repelim, q antre os gentios he cafa de grande fantidade: & neia coftumão os reys de Calicut de fe coroar: & como erão coroados, era coftume irélhe os outros reys do Malabar fazer reuerencia, como feus fogeitos que erão dali por diante. E porq lha el rey de Cochim fofle fazer: & ho prédefle queria ele coroarfe: & tambe pera q fe teueífe tempo paflar dali a Cochim & deílruila. E apercebendofe pera efte feyto, foubeho el rey de Cochim, que ho difle a Pero vaz védor da fazenda: dizendolhe o q importaua fua coroação: pelo q Pero vaz mandou logo goardar ho paffo de Crãganor por onde el rey de Calicut podia paflar a repelim: & deu a capitania mór deita goarda a hú Pero froez feu parente, que foy em húa fufta, & tres capitães em tres bateys, & os que hião coeles erão todos efplgardeiros. E por eíta goarda: ou por outra coufa, não paffou el rey de Calicut como fe efperaua.
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  • Livro VIII, Capitolo CXXVIII 409 & os rumes forão em duas chãpanas em q leuauã algús tiros a q querédo dar fogo, fe acédeo na poluora dãbas: & por iffo fe tomara fem chegaré á tranqueira, a q chegarão os Portuguefes, tirando muytas bõbardadas & efpingardadas. E como os bégalas tinha grade defcõfiança dos Portu¬ guefes, védoos tão poucos & chegarfe tãto á trãqueira, não faltou quê diflefe a el rey q eftaua no bayleu olhãdo o q farião, que não fe chegaua tanto, fe não pera fe deitaré cÕ os Patanes que os fizefe tornar, & affi ho fez. E por fe tirar da fofpeita q tinha determinou de tomar a todos as ar¬ mas : dizédo a Marti afofo q o não fazia: fe não polos efcufar de pelejaré, porq não queria q morreffe nenhú pera os mãdar todos viuos ao gouer- nador. E cÕ toda efta defculpa Marti afonfo lhe diffe, que não deixaua de cuydar q ele tinha fofpeita dos Portuguefes lhe fugirem & por iffo lhes mandaua tomar as armas pedindolhe muyto q ho não fofpeitaffe: porque os Portuguefes erão tam leays q não auião de fugir: pofto que ele não ficara em terra, quanto mays ficando: & que quanto fazião era com de- fejo de ho feruirem, por amor das merces que lhes fazia. & affi lhe diffe outras coufas, abonãdoos. E el rey lhe deu por defculpa o que tinha dito. CAPITOLO .CXXVIII. De como el rey de Bengala fe\ pa\ co Xercanfur. ACabada a tranqueira que Xercãfur mãdou fazer, determinou daper- tar mays ho cerco, & mandou pafTar muyta parte da fua gente da bãda da cidade, que paífou em almadias, por não ter outra embar- caçã: & por ho rio fer eílreyto paflauã os caualos & os alifantes a nado* & cada hú leuaua atados nas ilhargas dous odres de peles de vacas, por¬ que os não leuaffe a corrente dagoa que he grandiffima. E vendo el rey que paffauâo, fiãdofe ja de Martim afonfo, rogoulhe que fe podefle eftor- uaffe a paffagé aos Imigos: E ele foy em hú parao: & mandou a Duarte dazeuedo que foffe em outro, & leuarão os Portuguefes que erão quinze ou pouco mais. & affi forão muytos Bégalas, que como virão os patanes fugirã logo, tamanho medo lhe auião, & os Portuguefes ficarã fós & por ferem tam poucos não poderã pelejar com os Patanes: & mays porque algús que cometerão pera iffo fe afaftarã, tirandolhes muytas frechadas: & deixarãlhes dous alifãtes, que os Portuguefes lhes tomarã. E vedo Marti afonfo q nã podia mays fazer, tornoufe a terra, & leuou os alifan¬ tes a el rey q tudo vio donde eítaua: & como os Bégalíts fugirão, & deu muytos agardecimétos a Martim afonfo, q acodio logo cõ os Portuguefes, & Bégalas à parte por onde os Patanes poderião cometer a cidade, q Tomo IV 5a
  • Hijloria da índia 410 eftaua cercada de tranqyras cõ algúa artelharia: Porem os Patanes na curarão diffo né fizerão mays defpoys de defembarcaré, q alTentar feu ar- rayal, afli eftes como os q defpoys paífarão, no q fe deteuerão algús dias, & el rey ficou tã cõtente do esforço q Marti afonfo moftrou aqle dia em ficar cõ os Portuguefes antre os Patanes, defpoys de os Bengalas fugiré, q lhe mandou dar húa cabaya & mil tangas de Bégala, q fam duas mil & quinhentas das da índia, q pola moeda Portuguefa, erão céto & quo- renta & clco mil rs, & dali por diante lhe mandou dar pera comer feys tãgas cada dia, q erão noue cétos rs, q por a terra fer tã barata como diífe no liuro quarto, fundião mays do que ca funde dez cruzados. E a cada hú dos Portuguefes mãdou dar húa tãga, q eles poupauão, por Marti afõfo lhes dar de comer, a q el rey dali por diãte ficou tã afeiçoado & tinha nele tamanho credito, q lhe prometeo de dar lugar ao gouerna- dor pera q fizeffe húa fortaleza é Chatigão & outra em Satigão, & mais porq preguntando a Martim afonfo, fe lhe mandaria o gouemador mil Portuguefes pera ho ajudarem, & artelharia, lhe diffe q fy. E porem porq ifto auia de fer cõ ire primevro á índia & tornaré, o que ele não podia efperar, por Xercãfur apertar muyto ho cerco, começou de tratar coele paz, do que deu cota a Marti afonfo, & q Xercãfuar lhe pedia por lhe dar paz treze leques douro: & cada leq té quarenta & cinco mil pardaos, que faze forna de quinhentos & vinte clco mil pardaos. E Martim afonfo lhe diífe q não deuia de dar aqle dinheiro, porque coele lhe auia Xerc㬠fur de fazer guerra: & com tudo el rey não deyxou de o dar, cõ condiçã q Xercanfur ficaffe feu valfalo, & primeiro q fe foífe lhe fizeffe reuerécia, & ele lha fez da borda do rio eftando antre fua gente, & el rey defronte no feu bayleu, & diziaífe q ele dera a Xercanfur outros treze leques fecre- tamete por fazer paz coele, afli polo aperto em que eftaua, como també polo muyto q perdia na guerra. E não fe efpante ningué defte rey, dar tanto dinheyro: porque el rey de Cãbaya diífe em Diu ao gouernador Nuno da cunha, que ho tefouro del rey de Bengala era tamanho como ho feu, & como ho del Rey de Narfinga, que erão dos mayores que fe fabião naquelas partes. E pofto que el rey ficou defapreífado da guerra de Xer¬ canfur né por iífo deyxou de fazer a Marti afonfo a honrra q lhe dantes fazia, cõ que eftaua tão acreditado na corte, que muytos fenhores & ou¬ tras peífoas principaes ho tomauão por terceyro cõ el rey, pelo q era muyto honrrado de todos, & lhe mandauão muytos prefentes, & por amor dele erão muy eftimados os outros Portuguefes, & andauão muyto luzidos & tam feguros como em Lisboa. E el rey defpoys de fe ver liure da guerra, ou por outra caufa, mudou a võtade q tinha de dar fortalezas a el Rey de Portugal é Chatigã & Satigão, fe não as alfandegas cõ cafas
  • J Livro VIII, Capitolo CXX1X 411 de feytoria, & affi ho diíTe a Martim afonfo, que lhe lébrou q não pro¬ metera fe não fortalezas: & porq vio q el rey não eftaua niífo não quis perfiar, & diffelhe que deffe o que quifefle. E por feu rogo fez el rey juyz da alfandega de Chatigão a Nuno fernãdez freyre, dãdolhe hú grãde cir¬ cuito de cafas, em q morauã mouros & gétios, pera q rédelie parele, & o q rendeífe a chapa de chatigã, & lhe deu outros muitos poderes de q todos os da terra eftauão efpantados, fer el rey tã amigo dos Portugue- fes, q os qria arreygar na terra. E ho juyz dalfãdega de Sategão q era menos, deu a loã correa, & logo ele & Nuno fernandez fe forão pera eftas duas cidades a feruir feus officios, do q os Goazis delas eftauã muy triftes, porq lhes tirauão ho poder q tinhã, prlcipalmente ho de Chatigão q era mayor. CAPITOLO .CXXIX. De como el rey Dugentana fe\ ga\ cõ dom EJleuão da gama. ATras fica dito, como defpoys q el rey Dugetana foy desbaratado por dom Efteuã da gama, & deftruyda fua fortaleza, q fez outra mais pelo rio acima, dõde fazia guerra a Malaca como dantes. E determinado do Efteuão de ho deftruyr, tornou a fazer húa armada como a q leuara da outra vez & partiofe pera lá, & fendo junto do rio de Muar lhe deu húa toruoada cõ que fe alagou húa fufta em q ele hia, indo do Efteuão em hú bailéu, q hia fobre ho tédal da fufta, q fe defpregou quãdo fe a fufta foy ao fundo, em q morrerão quatro dos noífos, & os outros efcaparão, & affi efcapou do Efteuão no bayleu, & perdeofe húa arca com a fua prata. E vendo ifto todos os da frota, lhe diíferão q fe tornafle & não folie auante, & q fe reformaria doutra fufta & de gente: como que tomauão aquele defaftre por mao pronoftico, o q ele não quis fazer, moftrãdo muyto esforço, dizédo q não cria em agoiros, & q efpe- raua em nofio fnor de fer tão ditofo naqla emprefla como fora na outra. E affi foy q deftruyo a fortaleza q el rey Dugétana tinha muyto forte, & bé artilhada & com muyta gete, & lha queymou & tomou a artelharia. E porq o não pude faber particularmente ho digo é foma, & affi lhe tomou algúas lãcharas, & fe tornou pera Malaca. E vendo el rey Dugé¬ tana que não fe podia defender de do Efteuão, lhe mãdou cometer pazes por feu embayxador, & ele lhas outorgou coeftas cõdições q daly por diãte não fizefle mays nauios de guerra & os. q teueífem foliem pera ler- uir cõ mercadorias, & que pagalie de pareas cadano a el rey de Portu¬ gal duas lancharas aparelhadas, q lhe auia de mandar a Malaca, & q em
  • 412 Hiftoria da índia nhú nauio q foffe a Malaca, não fizeffe nenhúa força nem roubo. E quãdo os capitães de Malaca teueffé neceífidade de remeyros ou doutra qualfjr coufa lhos deffe, & quãdo feus Imigos lhe fizeffe guerra, ou fe rebelafle algúa terra o fizeffe faber ao capitã de Malaca pera o ajudar: & auia de fer vaffallo del rey de Portugal. E difto tudo fe fizerã efcrituras aflinadas por el rey & por do Efteuão, & ficarão dali por diante em paz. E def- poys difto mandou dõ Efteuã hú fidalgo chamado Antonio de foufa por capitão mór de cinco fuftas, a húa cidade chamada Pe'ra quorenta legoas de Malaca pera o norte: cujo rey tinha paz cÕ el rey de Portugal. E fedo Antonio de íoufa na cofta defte reyno achou hú capitã del rey de Péra chamado Tuãomarra pelejãdo em húa lanchara cõ dous jungos q ho tra- tauão mal. E conhecédo Antonio de fouía quê era lhe acodio & com fua chegada fugirão os jungos. E Tuão marra lhe diffe que aqles jugos erã da cõpanhia de Tuão mafamede capitão mor do már del rey Dugétana, com quê tinha deferença porq acolhera em hú jungo (daqles com q ho achara pelejãdo) certos vaffalos del rey de Pera, q fe lhe leuantarão cõ muyta fazenda, & hião fugidos pera Ache, cujo rey era Imigo dal rey de Pera amigo del rey de Portugal. E poys el rey dugétana ho era també, & Tuão mafamede era feu vaffalo, lhe pedia q fizeffe coele que lhe en- tregaffe os aleuantados. E Antonio de foufa lhe diffe que fi: & forãfe am¬ bos em bufca de Tuão mafamede, q andaua hi perto: & auendo ele vifta deles cuydou que hião pera pelejar coele, pos fe em defenfam, come¬ çando logo ás bõbardadas. E pofto q Antonio de foufa nem Tuãomarra lhe nã tirauão, & leuantarão bandeira de paz, ele não deixaua de tirar, parecendolhe q ho querião tomar cõ engano. Pelo q foy forçado a Anto¬ nio de foufa & a Tuão marra, tirarélhe també com fua artelharia: o q ele vedo ouue logo medo pelo penfamento q trazia & fugio: & porque ho feguião, parecédolhe que não podia efcapar, lãçoufe ao mar ferido em húa perna de húa efpingardada & afli fe acolheo a terra q era perto, & lá morreo da ferida que leuaua, & o mefmo fizerão os feus, & a lanchara em que andaua ficou em poder de Antonio de foufa. Tomada efta lãchara Antonio de foufa foy logo pelejar cõ ho jungo dos aleuãtados, que lhe Tuão marra moftrou, & forão coele tres fuftas de fua conferua: os do jungo erão muytos & homés de feito, & leuauão muyta artelharia, & poriffo fe defendião valentemente, pofto q os noffos pelejauão com muyto esforço, & lhes fazião muyto dãno. E indo Antonio de foufa pera aferrar ho júgo, defparou dele húa bõbardada que lhe deu por hú giolho & leuou- Ihe a perna em pedaços, & ele cayo ao már, por eftár em lugar pera iffo, & como hia armado foife logo ao fúdo. E morto Antonio de foufa, os noffos deixarã ho jungo & també por fer noite, & os q hião nele fe forão
  • Livro VIII, Capitolo CXXX 413 na volta do már, & os noífos fe tornarão a Malaca com a lanchara de Tuão mafamede. CAPITOLO .CXXX. De como Triflão datayde mãdou pedir jocorro. ENtrado ho mes de Ianeiro do ano de M.D.xxxvj. em q as naos auião de partir de Maluco pera a índia, defpachou Triftão dataide todos os jungos de mercadores que eftauão pera partir, porq lhe leuauão ho feu crauo de graça. E núca quis que a nao Sanótifprito que era del rey tomaffe carrega, dizendo q elrey não tinha crauo cÕ que fe carregaffe, fobre o q Rodrigo rabelo feytor deita nao lhe fez hú requerimento, di¬ zendo q defendefle que ningué cõprafle crauo ate aqla nao fer carregada, como o gouernador Nuno da cunha mandaua por hú feu aluará, q logo lhe aprefentou, em q també defêdia q nã foffe de vazio pola perda q el rey receberia niffo: & q auia muito crauo q ele daua aos jungos dos mer¬ cadores por lhe leuaré ho feu de graça. E triftão dataide não quis, & deixou ficar a nao: fobre o que Rodrigo rabelo lhe fez outro requeri¬ mento, dizendo q fe perderia a nao de todo fe ficaffe, por auer dous an- nos q não fora tirada a mote, & apodreceria & fe comeria do gufano. E cÕ tudo Triftão dataide não quis, antes ho tratou muyto mal de palaura, & lhe quis dali por diante mal. També Triftão dataide mandou nefta moução Diogo fardinha capitão mór do mâr da fortaleza, com cartas & requerimentos pera ho capitão que efteueffe em Banda, & pera ho de Malaca, & pera ho gouernador da índia, em q lhes auia a fortaleza por emcampada fe lhe não mandaffem logo focorro de gente, armas & man¬ timentos pera a guerra que lhe os mouros fazião, contãdo quã apertada era, & a necefíidade em que eftaua: & mãdouho em húa barcaça em que auia de tornar de Banda Ioã de canha pinto que hia coele. E a pos ele mandou hú Dinis de payua cÕ os mefmos requerimentos. E chegados a Banda acharã por capitão Anrique mendez de vafcõcelos, de q fiz men¬ ção a traz, que viftos os requerimentos & cartas de Triftão dataide, lhe mãdou logo ho mais focorro que pode, afli de mantimentos, de gente darmas & munições, & mandoulho em hú jungo, de que foy por capitão hú fidalgo Caftelhano chamado dõ Fernãdo de Mõroy. E també hú piloto q auia nome Luys froez cõprou hú jungo, & carregado de mantimentos com algús portuguefes q acquirio, fe foy em companhia de dõ Fernando, & Ioão de canha pinto.
  • 414 Hijloria da Índia CAPITOLO .CXXXI. De como os mouros quiferão queymar húa nao dos Portuguefes & não poderão. VEndo eftes reys das ilhas de Maluco a defenfam q achauão nos Por¬ tuguefes, determinarão de queimar a nao Santifprito q eftaua em Talangame, de q era capitão Francifco de foufa: & ho jugo de Fernão anriquez q fe eftaua acabando, & eftaua fortalecido com húa tran¬ queira. E efta queima auia de fer de jangadas de madeira fobre joangas, metida por antrela muyta rama feca, & afti breu & alcatrão: & em quanto fe ifto fazia ceifarão fuas armadas de andar no mar, de que hú dia defaparecerã, & tardarão bê dous mefes em tornar, o que foy grãde bé pera Triftão dataide & os q coele eftauão, que nefte têpo defcanfarão dos grandes trabalhos da guerra: porq nem por terra lhes dauão os Imi- gos rebates, & podião feguramête yr bufcar mantimentos húa legoa da fortaleza, em que não achauão nenhús, por ferê todos os çagueiros cor¬ tados, & afti palmeiras, & as eruas, que não auia aruore nc erua de que fe podeífem aproueitar, q eles por hú cabo & os da terra polo outro tudo tinhão leuado: & da terra não lhe ficaua já outro mantimêto que podef- fem auer mays facilmente que ho pefcado & marifco: ainda q era muyto caro, por não auer quê ho vendeflê fe não ho çamarao q o mãdaua pef- car, & vendiao muyto á fua võtade que daua húa fardinha por cincoeta rs, & húa cauala por feys vintês. E bem moftraua fer immigo dos Por¬ tuguefes, que nenhúa piedade auia deles ainda que os viffe doentes, nem os focorria como fazia Cachil daroes no tempo de Antonio de brito, que os remediaua & acodia com ho que tinha, como que fora pay de todos. E inda que os portuguefes andauão muy efcãdalizados do çamarao, por entenderê fua roindade, difiimulauão por amor de Triftão dataide que fabiã que era feu amigo: & fov a fome tamanha antre os Portuguefes, que não ficou cão nem gato, nê bogio, nê ratos, que não foíTem comidos, & era a careftia tamanha dalgús mãtimêtos que auia, que era coufa efpã- tosa, porq hú alqueire darroz valia cinco cruzados, & húa jarra de çagu vinte cinco cruzados & trinta, & não abaftaua a hum fó home mais q hú mes, & ainda a não comer muito, hum porco vinte mil rs, & húa cabra oyto mil, & húa galinha quatro cruzados & hú ouo trinta rs, húa jarra de vinho da terra dezafeys cruzados, & húa pipa de vinho de Portugal cem mil reys, & a trezêtos cruzados a efcolher. Húa panela pera fazer de comer hú toftão & mays. Húa faya de malha, ainda que foífe roym cento & cento & cincoenta cruzados, hua elpingarda trinta, húa lança
  • Livro VIII, Capitolo CXXXI 41S vinte & cinco, & húa efpada ho mefmo, & húa adarga outro tanto: & hú punhal doze cruzados, ho vertido & calçado não tinhão preço. E com quanto efta careftia era tamanha, & a gente forte grandemente atormen¬ tada da fome, fentião algú defcanfo em fe verem defapreflados da guerra eftes dous mefes. Se não quando hum dia fubitamête em amanhecendo aparecem ao mar de Talãgame bé trezentas velas dos Imigos que cobrião ho már, & foy medonha coufa de ver pera os Portuguefes. E por terra apareceo també muyta géte de guerra: & era a caufa, porq em quãto as jãgadas de madeira que vinhão coefta frota queimaflem a nao & outros nauios, acoderia a gente por terra a dar na trãqueira, & queimalahia cõ o jugo q eftaua em terra: & jfto auia de fer em decendo a maré. Vendo Frãcifco de foufa efte aparato deulhe na vontade ho pera q podia fer: & como era muito esforçado não fe toruou, antes teue muy bÕ cõfelho pera atalhar aos mouros q lhe não queimaflem a nao, cercandoa cõ muytas vigas deitadas nagoa, & bé amarradas q efteueflem qdas, pera que as jangadas de fogo não podeffé chegar á nao: & nifto gaitou aqle dia: q tãbé os mouros gaitarão em chegaré a Talangame, onde Frãcifco de foufa os recebeo cõ muytas bõbardadas que a nao & o jugo tirauão muy a miude, & afli os outros nauios, com q lhe não poderão chegar: né a gente da terra bolia configo: efperãdo q os do már fizeífé obra, & como foy noyte mandou Francifco de foufa hú homé por terra dizer a Triftão da- taide como ficaua, q lhe acodifle: & por ele refpondeo q logo hia. E auido confelho, mandou da melhor gente da fortaleza nefies nauios que tinha, de q foy por capitão mór hú fidalgo homé didade q auia nome Efteuã de chaues, & forã os capitães Antonio pereira, Iorge dataide, An- tonio de teiue, Luys de braga, Iorge de brito, Ioã figueira, Baltefar ve- lofo, Baltefar vogado, Iorge goterrez, & outros q partirã cõ o nauio bé artilhado: & em chegãdo a tiro de berço da frota dos mouros poé a proa neles defparãdo feus tiros, a q eles refpÕderã cõ os feus, que como não erão tam furiofos: nã lhe fazião tanto dãno como recebião, & por iflo lhes derão lugar que entraflem. E védoos Francifco de foufa vir faltou cÕ outros nefles paraos q tinhão, & jútos cõ os que vinhaõ em focorro re- meté as jangadas que eftauão em feco cõ ho pefo da madeira, & poferã- ihes ho fogo cõ panelas de poluora, & a pefar dos mouros do mar & da terra que as querião defender arderam todas, & fobrifto forão feridos algús de húa parte & da outra. E como os mouros virão arder as jan¬ gadas, & que não tinhão remedio, afaftarãfe afli os da terra como os do mar, & forãfe dãdolhe os Portuguefes grande apupadas, & Efteuão de chaues fe tornou pera a fortaleza, onde derão muitas graças a noífo fenhor por tamanha vitoria.
  • 4i6 Hijloria da índia CAPITOLO .CXXXII. De como Triftão dalayde tornou cometer pa\ aos mouros & naó a qui- ferão. PArecendo a Triftão dataide, q coefta vitoria ficariam os Tmigos mays brados, quis ver fe querião paz, o q mãdou cometer polo çamarao, & eles refpoderão como dãtes, & diziafe que por confelho do mefmo çamarao, que lhe defcobria ho aperto de fome em q os Portuguefes efta- uão. E por dar a entender que falaua nas pazes, falaua alto na lingoa Malalaya, porq auia algús que a entendião: & ho feu filho mais velho q andaua cÕ os mouros como ho via fazia que pelejaua coele, & dizialhe na lingoa Malaya porque não fe paflaua pera os mouros, & eftaua com perros dos Portuguefes, & ele lhe refpondia cõ grãde furia que melhor eftaria ele & feus amigos com os Portuguefes, de q tinhão mais necefli- dade que dos mouros, & antrifto lhe dizia por húa lingoagem q ha na terra, que he como ho latim antre nos (que nenhú português entedia) as neceflidades em que eles eftauão, & que não ceffaffem da guerra, q muy afinha os tomarião cõ fome, & por deffimulação vinhão nefta pratica a pelejar, & ho filho moftraua ao pay os cotouelos & as folas dos pés, que he como antre nos ho moftrar das figas, que he ho mayor defprezo & injuria que húa pefloa pode fazer a outra. E fabendo Triftão datayde como os mouros não qrião paz, tornou a proffeguir a guerra ho mais bra- uamente que pode, afti por mar correndo a ilha ao derredor, como por terra indo fobre algús lugares que tomaua: & aos mouros que catiuaua deles mandaua afiar: & faziã os portuguefes q os comião, pera fe man¬ terem coeles, & outros mandaua aos mouros cõ as maõs cortadas, & ore¬ lhas, & narizes, pera que os efpãtaífe quãdo foubeffem que os affauão, mãdãdolhes dizer q afti auia de fazer a todos. E mandãdo hú dia afti hú deftes, por naÕ yr daquela maneira onde os feus naturays ho viffem, de¬ terminou de fe matar, & por não ter com q, fe deitou nagoa de que be- beo tanta que fe afogou, do que os portuguefes ficarão efpantados. E che¬ gando nefte tépo o focorro que hia de Bãda, como difTe atras, pera Trif¬ tão datayde fazer mais guerra aos mouros, tomoulhe os dous melhores portos que tinhão, que erão ho de Toloco, & ho de Tabãga, & no de Toloco mandou poer húa barcaça, de que era capitão Ioã de canha pinto, com trinta homés, & húa carauela com outros tantos no de Tabãga. E eftes nauios eftauão ali como fortalezas: & em aparecendo os mouros por màr, ou por terra, tirauanlhe com a artelharia, & a fora iffo eftauão
  • Livro VIII, Capitolo CXXXIII 4i7 os nauios de remo repartidos neíles dous portos, & dali corrião à cofta da ilha, & faziâo quanto dano podião. E porq os capitães não podião dar de comer muyto tépo aos foldados q andauão coeles, reuezaua Trif- tão dataide as capitanias a quê podia dar de comer, & defta maneira foftinha a guerra: de que també os mouros da ilha eftauão muyto apref- fados por eftarem encerrados. E ainda q as armadas de feus Imigos que andauão pelo már erã muytas não podião defender aos Portuguefes que lhes nã fizeffem guerra nem podião aferrar coelas, por amor das canga- lhas das fuas joangas & corafcoras que deitauão muyto pera fora como poftiças de galê, & mays erão tam fracas, que auiã medo q qualquer tiro que lhes delfe as fizefe em pedaços, que fe iffo não fora, não deixarão daferrar cÕ os Portuguefes como defpoys fizerão. CAPITOLO .CXXXIII. De como Trijlão dataide dejlruio a cidade de Toloco. PRrosseguindo affi Trilião dataide a guerra côtra os mouros, deter¬ minou de tomar a cidade de Toloco, cuja pouoação mudarã pera cima da ferra onde eftauão muyto fortes: & auida por Trilião da¬ taide húa guia que o leuaffe a efta cidade, ordenou de a tomar, & que Francifco de foufa folie com cincoenta homés efcolhidos pela bãda da terra, por onde lio leuaua ho guia, & ele cometeria da parte do már, porq os mouros acodiffem ali, & deixaífem defpejada a parte da terra, & affi fe fez, que em rompendo ho dia, fe moftrou Trilião dataide da banda do már cõ fua gente, tocando fuas trombetas, & defparando fua efpingar- daria, a que os mouros acodirão logo, deixãdo cair da rocha muytas & grandes galgas & vigas, & tirando efpingardadas, & muytos arremeífos com que ferirão algús dos Portuguefes: & nillo chegou Francifco de foufa pela banda da terra & deulhe nas coftas: 0 q lhe fez tamanho medo que fugirão pera ho mato: & os Portuguefes entrarão a cidade, & faqueada dos mantimentos foy queimada & deftruyda, do q os mouros da ilha fica¬ rão muyto quebrados, porque vendo tam afinha deftroida aqla força q era tam forte, pareceolhes q era por demays defenderéfe aos Portuguefes, a q vião que dauão de comer nos mantimentos q lhes eles tomauão, pelo q mandarã dizer a el rey Cachil dayalo que eftaua em Tidore, que lhes delfe licença pera defpouoarem de todo a ilha de Ternate, dãdolhe as caufas que auia pera iffo. E como ela nã defejaua outra coufa, parecêdo- lhe q com iffo daneficaua muyto os Portuguefes, refpondeo que li: com ho parecer del rey de Tidore & dos outros reys. E porque a ilha não fe 53 Tomo IV
  • 418 Hijloria da índia podia afíi defpejar, por amor da noffa armada, confultarão ho modo q terião pera a defpejarem a feu faluo: & em quanto tomauão efte confe- Iho, não andauão fuas armadas no mar, tam continuas como coftumauão: o que vendo Triftão datayde determinou de mãdar faltear ho reyno de Geylolo, de que lhe pareceo q el rey eftaria muy defcuydado, por lhe parecer que em tal tempo não oufaria Triftão dataide de mandar lá fua armada que logo mãdou, & por capitão mór Antonio pereira capitão mór do már, & coele os outros capitães nomeados a tras, & afli o çamarao. E chegãdo antemenhaã a Geilolo, fayrão em terra & queymarão húa tnezquita que eftaua junto da praya: & acodldo os Geylolos, os Portu- guefes fe embarcarão logo fem afronta: mas em outro lugar pequeno que qiliferão cometer mays a diante, a receberão affaz, q como a terra eftaua apelidada fayrã logo os mouros a recebelos á praya, & fezerãnos ébarcar em q lhes pez, & matarãlhe hú homé: & coifto feito fe tornarão pera cafa, ficando os mouros muyto foberbos, por refiftiré daquela maneira aos Portuguefes: a que de todo perderão ho medo. GAPITOLO .CXXXIIII. De como foy morto pelos mouros Baltefar vogado. HO confelho que eftes reys ouuerão pera fe defpejar a ilha a faluo da fua gente, foy q cometeffem paz a Triftão dataide, pera q man- daífe defpejar os portos que tinha pejados, & iré ali fuas armadas
  • Livro VIII, Capitolo CXXXV 419 tão dataide mandou a iffo Francifco de foufa, & Baltefar vogado em dous bargãtins, que indo peraiíTo, em dobrando húa ponta, virão a armada del rey de Geylolo que os eftaua efperãdo por auifo de Poyo que eftaua em Tabãga. E os mouros vendo os dous bargãtins forãfe dereitos a eles defparando fua artelharia & efpingardaria, & muytos arremeífos & ho mefmo fez Baltefar vogado, que era muyto valete caualeiro, que hia diante de Frãcifco de foufa. E logo nefte primeiro encontro ouue algús feridos de húa parte & doutra. Poré como os mouros hiã determinados dabol~ roar cõ os Portuguefes, íem medo da fua artelharia, em acabando a pri- meyra çurriada, aferrou com Baltefar vogado húa poderofa joanga, em q irião bé duzétos mouros todos gente luzida & de feito que íaltando logo no bargantim, matarã a Baltefar vogado & quantos hião coele pelejando ele & eles primeyro cÕ muyto esforço, & vingado muy be fuas mortes com muytos mouros que matarão. E vedo Francifco de foufa tantos mou¬ ros, & que feu focorro a Baltefar vogado não aproueitaria de mais que de ho tomarem, tornoufe com a mayor preffa q pode a Talangame, onde ficaya Triftão dataide, q fabédo como Baltefar vogado ficaua, & a groffa armada dos mouros, vio q não aproueitaua focorrerlhe, porq ja auia de fer morto: & entre tanto q lá foffe fegundo os mouros auiã de ficar fober- bos jrião dar na fortaleza, & queimarião a pouoação dos Portuguefes, pelo q fe partio logo pera a fortaleza, & deixou Francifco de foufa em Talangame. CAPITOLO .CXXXV. Do mays que os mouros fi\erão defpoys de tomarê ho bargantim. DA morte de Baltefar vogado & dos outros Portuguefes, & da to¬ mada do bargantim ficarão os mouros de Geilolo foberbilíimos, & cõ prefunção dos mais esforçados daquela terra & doutras muytas, poys oufarão de fer os primeiros que abolroafTem nauios de Por¬ tuguefes, & ho tomaífem cõ morte do capitão, & leuarão ho bargantim a el rey de Geilolo com as cabeças dos mortos, que fez aos capitães gra¬ des merces, do q os mouros de Tidore ouuerão tamanha enueja quando ho fouberão, que jurarão de tomar a primeira vela que fayífe da forta¬ leza, donde Triftão dataide não oufaua de fair, por lhe não acõtecer ou¬ tro defaftre: pelo q Poyo filho do çamarao q eftaua em Tabãga, & os da lua valia não forão pera a fortaleza. E fabédo os mouros que Triftão da¬ taide não oufaua de fayr dela, fayão nela eífes que andauão por már, principalmente os de Geilolo, & punhãfe em ciladas pera os que faiflem da fortaleza, ou dos nauios q eftauão em Talangame, de q acertou de
  • 420 Hijloria da índia fayr hú dia Fernão anriquez, a bufcar hú pao pera hú leme, com fua gente, & com a de Francifco de foufa: & fayranlhe de húa cilada os mou¬ ros, que como era muytos matarão logo obra de dez Portuguefes, & mays de quorenta efcrauos, & não efcapara nenhú fe a trãqueira não fora tã perto, onde fe os Portuguefes acolherão. E quando Triftão dataide ho foube, determinou de fe auenturar a jr lá a ver como aquilo fora, & també pera leuar çagu pera a fortaleza de hús jungos que hi chegarão Damboyno, & foy em húa fufta muyto bé artilhada, & acompanhado de cincoeta Portuguefes todos efcolhidos. E indo perto de Talangame fayo- lhe húa armada del rey de Tidore, que os feguio de maneyra que che- gaua a ele a tiro de berço. E ele lhe mandou tirar com fua artelharia, q logo Francifco de foufa ouuio, & fofpeitando o que era fahio logo em terra, com a mays da gete dos nauios, & foyfe ao logo do mar pera aju¬ dar a Triftão dataide, que nefte tempo acertou de meter hú pelouro na capitayna dos mouros, em que fez hum buraco que fe hia ao fundo, pelo que lhe foy neceífario focorrerenlhe os outros nauios, & com ifto fe dete- uerão que Triftão dataide fe meteo debaxo da fombra da artelharia das naos. O que vifto pelos mouros, & que lhe não podião fazer nenhú nojo, por eftaré onde eftauão, tornarãfe pera Tidore com algús feridos & mor¬ tos. E dando Triftão dataide ordé ao que era neceífario em Talãgame, tornoufe carregado de çagu pera a fortaleza, dode não oufou mais de fayr por não ter gente & effa q tinha doente & fraca da grande fome & tra¬ balho q paffauão, como diífe a tras. O que vendo os Reys ajuntarãfe todos cõ fua gete pera jrê cercar a fortaleza & tomaré os Portuguefes viuos cõ Triftão dataide, & lhes daré muy cruas mortes. E porq os ca¬ pitães & foldados lhos tomaffem viuos, dauãlhe de beber por os copos por onde bebião, que fam douro, que he a mayor honra q lhe podiã fazer: & entre tanto que fe ajuntauão os de fora, os q eftauão em cafa corrião cada dia a fortaleza, fem lhe os Portuguefes oufaré de fair & fazião os mouros tamanho arroido de gritas, & eftrondo defpingardadas, q cõ medo quantos bufaros auia na ilha fe deitarão ao már, & nunca mays parecerão. E Triftão dataide efteue em tamanho aperto cõ todos os q eftauão coele, que fe noffo fenhor não leuara lá tão cedo, como leuou Antonio galuão, nenhú nã efcapara.
  • Livro VUI, Capitolo CXXXVI 421 CAPITOLO .CXXXVI. De como dom Ioão pereira pelejou em Bardes cõ Ianebeque capitão Da- çadão, & 0 desbaratou. PAssada a força do inuerno, q as agoas começarão de dar lugar, tornou Açadacão a continuar a guerra contra os Portuguefes, & mandou ás terras das tanadarias de Bardes hú feu capitão cha¬ mado Inabeque cõ quatro mil homés, de q os quatrocétos erã de caualo, & dos outros muytos deles erão efpingardeiros, pera q fofTe arrecadar as rendas, & prouaífe a fortuna fe lhe feria mays fauorauel q a çoleimão haga. E como ele entrou na terra cõ efte poder, efpãtoufe ho noffo tana- dar, de maneyra que fe foy pera Goa, & contou ao gouernador o q paf- faua, que logo mãdou dom Ioão pereira capitão de Goa, q partio na en¬ trada Dagofto com ceto & trinta de caualo, deles Arábios, deles da terra & forão coele eftes fidalgos, dõ Pedro de menefes. Ioão de mendoça. Chriftouão de foufa. Lifuarte dandrade. Martim correa da filua, Ioão jufarte tição. Manuel de foufa de fepulueda. Francifco de gouuea. Pero da cunha. Manuel de vafcõcelos ho cafado. E dos cafados de Goa Galuão viegas, Galaz viegas. Antonio da roboreda, & hú feu filho do mefmo nome, & outros q fazião ho numero q digo, & quatrocentos Portuguefes de pé, os mays efpingardeiros, de que foy por capitã Payo rodriguez da- raujo, & quinhentos piães da terra, & feus capitães Crifná & Ralu. E paffando dõ Ioão em Pangí, começou a caminhar pera ondeftauã os Imi- gos, q era dali a húa legoa, & as noue horas do dia ouue vifta deles, de¬ cima dhúas ferras, q cayão fobre húas varzeas femeadas darroz, & no meyo delas fe fazia hú palmar, alé de hú arroyo dagoa. E nefte palmar que era muyto grande tinha Ianebeq a fua gente de pé, em que auia oy- tenta efpingardeiros, & os mais dos outros erão frecheiros. E dãbas as bandas do palmar eftauão os de caualo repartidos em dous efquadrÕes, & a ordem era muy boa, & como quem fabia bé da guerra, porq podião todos pelejar fem fe embaraçaré hús cõ os outros: E quando os Portu¬ guefes virã ho bõ concerto em q os Imigos eftauão & quantos erão, algús q yão na diãteyra fe deteuerã, & deyxarã paliar algús dos trafeiros: q forã Ioão jufarte tição, Manuel de vafcõcelos, Lifuarte dãdrade, Frãcifco de gouuea, Pero da cunha, Galuã viegas, & decendo da ferra começarã os noflbs piães de rÕper CÕ os Imigos, q como eftauã encubertos no pal¬ mar, nã queriã fayr dele, & tirauã dali muy rijo: & nifto faé do palmar tres mouros hú efpingardeiro, outro frecheiro, & outro defcudo & lãça,
  • Hifloria da índia 4.22 q nefta ordé pelejauã, & remetera a hú Ioão rolz (dalcunha ho taful) q fe defmãdou cofiado na ligeyreza do caualo, & matarãno: o q vendo Li- íuarte dandrade, Frãcifco de gouuea, & Pero da cunha, q começauã de chegar, quiferã lhe acodir, mas ja ho achara morto: E Lifuarte dãdrade q ya diante, cõ quãto nã paffaua de dezoyto annos, remeteo aos tres mou¬ ros & ferio hú ã mão tente cõ a laça pola cabeça cÕ tãta força, q lhe fayo o ferro por debaixo da barba, & o mouro com 0 aperto da morte laçou as mãos na lãça tã forteméte q a leuou cõfigo ao chão, & Lifuarte dãdrade porq lhe nã ficafTe fe deceo, & tomãdoa tornou a caualgar cõ muyto perigo, porq acodiã fobrele os ímigos: & fe nã forã Francifco de gouuea, Pero da cunha, & hú Fernã rolz q fe poferão diante, tratarãno mal: & nefte tempo deu dõ Ioã nos ímigos pola outra banda do palmar, cõ tamanho impeto, q logo fe desbaratara & fogirão, principalmente porq íintirão fugir lnabeque q eftaua da outra banda, que dizem q fe vio tam apreffado de Francifco de gouuea, Pero da cúha, & Lifuarte dãdrade, q o feguiã fem o conhecer q fe deceo, & meteofe é húa cafa donde fe fal- uou, cõ a reuolta q era grãde dos ímigos q fugiã & dos Portuguefes q os feguiã, & foram apofeles húa legoa, em q matarã & catiuarã deles bé duzétos, & dos Portuguefes nã morreo mais q Ioã rolz, & fora feridos Pero da cunha, & outros algús: & por fer ja noyte dõ Ioã fe recolheo a hú pagode é q fe fez forte. E ao outro dia mãdou defcobrir a terra, pera q íe ouueffe ímigos, foffe pelejar cõ eles, mas ja nã pareciam nhús q todos fe acolherão, & Ianabeq fe tornou pera Açadacão muyto trifte. E vendo dom Ioam q ficaua a terra fegura tornoufe pera Goa. CAPITOLO .CXXXVII. De como Antonio da filueira pelejou cô Çarnabeq capitão Daçaàacão em Bardés, & 0 desbaratou. AUédose Açadacão por muy injuriado de feus capitães, feré vécidos tãtas vezes, na dififtio da guerra: & juntos quatro mil & duzétos homés de pé efpingardeiros, frecheiros, & adagardos, & oyto cé- tos de caualo: fez capita deles a hú valete Turco chamado Çarnabeq q auia pouco q chegara, a q cõtou quantas vezes os feus capitães forã vé¬ cidos, rogãdolhe muyto que trabalhaífe por auer vitoria dos Portuguefes, & cõ ifto o mãdou á terra de Bardés: & começado de recolher as rédas, foy o gouernador diflo auifado, & mãdou a Antonio da filueira q fe fizeffe preftes pera yr pelejar cõ os ímigos, & lançalos fora da terra. E porq determinou de mádar cõ ele a mais géte de caualo q podeffe: mãdou pre-
  • Livro VIII, Capitolo CXXXVI1 423 goar q todo homé que quifeffe yr a caualo, fe o nã teueffe, folie por effas eftrebarias de mouros & de Chriftãos, & tomafTe caualo, & andaua o mey- rinho a fazelos dar, & cõ tudo por nã auer feias, na ouue mais de céto & oytéta de caualos Arábios, em que entrara eftes fidalgos, afora outros q nã foube: loã de médoça, Frãcifco de médoça, Ioã jufarte tição, Anto- nio de lemos, Manuel de macedo, Frãcifco de gouuea, Lifuarte dãdrade, Pero da cunha, Ianemédez de macedo, Manuel de vafcõcelos cafado, Fr㬠cifco da íilua Dalcobaça, dõ loã lobo, Ruy diaz pereyra, Diogo botelho dãdrade, Chriftouão de foufa de Lamego, Pero rolz porras, Manuel Da- zãbuja, Antonio cabral de Sãtaré, Iorge de melo punho, Aluaro de mé¬ doça, Luys coutinho, Pero barriga, Frãcifco pacheco, Diogo pereira, os outros erã cafados & cidadãos de Goa, & deles mefmos yão mais cento & trinta de roeis da terra, q faziã numero de duzétos & oytéta de caualo, & quinhétos de pé todos Portuguefes, & os mais efpingardeiros: & foy por feu capitã Ruy diaz pereira, & outros tãtos da terra, de q foy capitã Crifná, & pafTarã em Pãgl em hú dos dias de Setébro, eftãdo hi ho go- uernador, q fazia muita hõrra a todos os q paíTauã, & por iffo palfou tãta géte, & tã boa. E paífados da bãda dalé, começarã de caminhar pera onde eftaua çarnabeque q era dali a duas legoas, é hú vale ãtre duas fer¬ ras de grãde aruoredo, q chegaua ate as rayzes das ferras, & a entrada fortalecida de muytas couas cubertas de torrões cõ herua, porq nã fe pa- recefTé, & ficaua hú caminho dobra de doze palmos cuberto daqle aruo¬ redo, antre as raizes das ferras, & húa varzia q fe fazia ao longo delas, q era terra alagadiça por femeada darroz, & não fe podia andar por ela, & cõ ifto eftaua aqle lugar muyto forte, & çarnabeq muito cofiado q auia de desbaratar os Portuguefes fe ho cometeffé & pera os cõuidar a iffo, tanto q os vio, q feria ás duas horas defpois de meo dia, mãdou a hú feu capitã q cõ obra de duzentos de pé fayffe fora da boca do vale & fe mof- traífe aos Portuguefes, & tãto q os cometeffé, fe retirafTé pera détro, onde ele ficaua é cilada cõ os de caualo, & algús dos de pé polas fraldas das ferras q os viífé os Portuguefes, & q nã cuydaffé que erã mais pera os cometeré. Antonio da filueyra como vio os q fayrão á boca do vale, & vio os outros q pareciã polas fraldas das ferras, logo lhe pareceo q era cilada, por faber q antre os Imigos auia muytos de caualo, & como lhe ifto pareceo, mandou a Ruy diaz pereyra q cõ os Portuguefes de pé, porq erã todos efpingardeiros, fofTe dar nos Imigos, & afíi mãdou a Gal- uão viegas q fofTe cõ cincoéta de caualo em fauor dos de pé & eftes forã nomeados por ele, q não quis q foffé fe nã homés de feito, & Lifuarte dãdrade lhe pedio q o meteffe naqle cõto, & ele nã quis por fer mãcebo, & temer de fe defmãdar, & todauia Lifuarte dãdrade fe furtou & foy cõ
  • 4*4 Hiftoria da Índia os cincoêta: & quãdo Antonio da íilueira ho vio yr na ho quis mandar tornar, & diffe q aqles nã fe podia eftoruar & q Deos os goardaua. Os ímigos como os Portuguefes forã deles a tiro defpingarda, q lhes come¬ çara de tirar cõ elas, começará de fe retirar pera ondeítaua Çarnabeq na cilada, & a efte retirar começou de correr Galuã viegas cõ os q yã cõ ele, & indo aífi corrádo, cayrã bá quinze nas couas q eftauã cubertas, & o primeyro foy Antonio de lemos, & os outros pafTarã auãte, & quato mais le chegauã ao boqueirã das ferras, tato mais chouiã fobreles efpí- gardadas & frechadas, & valeolhes yrá por debaixo dú aruoredo de tama¬ rindos muyto bafto, em cuja rama qbraua a furia da mayor parte delas, & aífi virá pola bãda efqrda dõde leuauão as adargas com q fe empara- uão, q doutra maneyra os mais ouuerã de morrer, porq ouue adarga em q fe achará defpois pregadas feffáta frechas, & ná por iffo os noffos nã deixará de paífar auãte, ate dar cõ a cilada q eftaua detrás do lugar, & por fer a terra apertada tinha çarnabeq os de caualo em fieyras, & a gáte de pé polas fraldas das ferras, & ele diãte dos de caualo, encima dú po- deroío caualo, & ele homá grande & mábrudo, armado de hú laudel de laminas, & na cabeça húa fota, & hú terçado vazado ate a põta, & cheo dazougue, & cõ efta ajuda, & cõ a grandilfima força q tinha, dizião q fendia dú golpe húa bufara polo meo. E em os noffos começãdo dentrar por antre as cafas, começã os ímigos de defparar muytas bõbas de fogo, com q matará algús, & o primeyro foy Frãcifco da filua Dalcobaça, mas cõ tudo iffo os noffos entrará por antre as cafas, & chegará aos ímigos de caualo cõ muyto esforço, & cõ eles começará de pelejar, mas nã te- uerã os de pé q os ajudaffem cõ as efpingardas, porq ficaram muyto atras q nã poderão ter coeles. E como os ímigos virão quão poucos os noffos erã, remeterá a eles cõ grãde impeto, principalméte çarnabeq, & o pri¬ meiro q ferio foy Gafpar preto, & alcãçouho por hú hõbro & defcofeolho tãto, fem lhe aprouãitaré as armas, q lhe viã latejar os bofes, & a Migel froes deu outro por cima do capacete, q logo deu coele no chão, & juraua depois q dali a quatro dias lhe nã ficara a vifta perfeita, & outro deu a hú q fora porteiro de Lopo vaz de fãopayo, q lhe cortou de húa orelha ate o olho da outra parte q lhe ficou a cabeça ébicada & cayo logo morto, & tirou outro a Diogo botelho dandrade, & errãdoho, tomoulhe o caualo por cima das ancas nas cubertas da féla, & fendeho quafi ate baixo, & em caindo foy Diogo botelho faluo por Chriftouã de foufa, & por Lifuarte dãdrade, q lhe derã hú caualo dos q andauã foltos, o q fizerã cõ grãde perigo, por carregará fobreles muytos mouros, q eftauam muyto fauore- cidos cõ o esforço do feu capitã: E cõ os noffos feré tã poucos os trata- uão muyto mal cõ os ferirá, & aífi aos caualos q todos forão feridos, &
  • Livro VIII, Capitolo CXXXVII 425 algús mortos, & tãbé os q yão neles o ouuerã de fer fem ficar nhú fe na fora Pero barriga, q como fabia bé da guerra, & vio o perigo dos Portu- guefes, pera os fazer recolher diffe alto: Nã he tempo, ao capo, ao capo, & dizedo ifto fe começou de recolher, & outros q o ouuyrão começara de fugir a qué mais podia, fem atentaré por algús q eftauam cercados de mouros em aperto grandiffimo, & hú deftes foy Ioão jufarte tição, q def- pois de chamar outros q lhe acodilfé, & nam quiferam, ou ho não ouui- ram, chamou duas vezes por Lifuarte dandrade q ya na derradeyra, & detédofe ele por ver qué ho chamaua, arrãca dãtre os ímigos çarnabeq cÕ outros quatro de caualo, & apos ele outros muytos, pelo q a Lifuarte dãdrade lhe coueo acolherfe indo ferido dú dos ímigos, a quem matou o caualo, & quis noffo Senor q começando eftes de fe desbaratar, chegou Antonio da filueira cõ o refto dos noífos, indo diãte de todos, antre Ruy varela & Pero da cunha, & nas coftas Frãcifco de gouuea & Frãcifco pa- checo q ya dizedo a brados: Snores, olhai polo voffo capitã? E eles yã tão apertados dos mouros q nã podiã fazer menos, & fe Antonio da fil¬ ueira nã chegara, nã efcapara nhú fegúdo os mouros feriã neles, princi- palméte çarnabeq, q vedo ho focorro q fobreuinha aos q fugiã, porq nã cuydaíTé os nolfos q lhes auia medo, fe meteo por antreles tã rijo como hú corifco, & topãdo cõ Antonio da filueira, lhe deu hú golpe fobre hú hõbro, q fe as armas nã forã tã boas lho cortara, mas atormentoulho de tal maneyra, q depois lhe foy neceflario trazer ali hú emprafto muytos dias, & em ele dando efte golpe, Ruy varela & Pero da cunha q ficarã hú pouco atras Dãtonio da filueyra, lhe puferã as lanças nos peitos pera o derribaré mas não poderã, & por ifio deixãdo as lãças pegarão nele, & ajudãdoos Frãcifco de gouuea & Lifuarte dãdrade, deram coele do caualo abayxo fem fe poder valer, & ele derribado foy logo tão pifado dos pés dos caualos que nã fe pode mais leuantar & ali foy morto: E em cayndo acodirão dos feus hús dezoyto Turcos todos capitães Daçadacão, & forão fobre Antonio da filueira & fobre os outros que eftauão coele, & come¬ çará de pelejar muy brauaméte, porem como çarnabeque era ja derri¬ bado, & os feus ho nã vião, & os nolfos efpingardeiros começaífem de varejar com as efpingardas, começarã os ímigos de fe desbaratar & fugir, aífi os do vale como os das fraldas das ferras, & acabarão de fe desba¬ ratar de todo cõ a morte dos dezoyto capitães Turcos, que pelejarão com tanto esforço & valentia, que depois de hú fer derribado do caualo, re- meteo a hú Diogo pereira que eftaua a caualo pera lho tomar, & com tanta força lhe puxou por húa perna, que lhe rafgou húa bota. E desba¬ ratados de todo os ímigos, que começarão de fugir, feguirão os noflos apos eles até hú efcãpado que foy muyto pouco efpaço, & Antonio da fil- 54 Tomo IV
  • 4^6 Hiftoria da Índia ueira não quis que paflaífem dali, receando que ouueffe outra cilada, por ver yr os immigos de caualo muyto de vagar pola ferra acima por cami¬ nhos que tinhão feitos, & efte vagar fegúdo fe depois foube, era por amor de recolhere os de pé. E mandando Antonio da íilueira deter os noífos, chegou Crifná, & requereolhe da parte de Deos & del rey que o feguiffe & foffe apos os Imigos q yão muyto desbaratados & que os matar ião todos, & fe não q lhe deffe licéça pera os feguir cÕ os feus piaés, porq eles abaftariã pera matar todos os Imigos, como fizera quando paffara com dom Ioão pereyra a Salfete, que fizera afogar tres mil almas, & An- tonio da filueyra não quis polo receyo da cilada, contentandofe cõ desba¬ ratar os imigos, de q forão mortos çarnabeq & os dezoyto capitães, & quatrocetos outros, & muytos feridos, & fó a morte de çarnabeq baftara pera efta fer húa muyto grande vitoria como foy, de q Açadacão ficou tão quebrado, que núca mais oufou de mandar nehúa gente que pelejaffe em campo com os Portuguefes, de q morrerão nefta batalha, Francifco da filua Dalcobaça, Manuel dazambuja, o que foy porteiro de Lopo vaz de fãopayo, Pero rodriguez porras, & outros tres, & forã feridos, Ioã de médoça, Aluaro de médoça, Ioã jufarte tiçã, Lifuarte dãdrade, Gafpar preto, Antonio da raboreda, o moço, & outros algús: & durou efta ba¬ talha das onze oras até as tres. CAPITOLO .CXXXVIII. De como Antonio da filueira fe\ húa tranqueira em Bardes. REcolhidos os Portuguefes, mãdou Antonio da filueira ver hú efteyro q ya ter ali perto, a ver fe eftauão hi hús bateis, q lhe o gouer- nador diífera q auia ali de mãdar cõ géte q efteueffe naqle efteyro, porq auiã os Imigos de paffar por ele & os atalhaffe, & Antonio da fil¬ ueyra mãdaua bufcar eftes bateis, pera leuar neles os feridos & mortos, mas nã fe acharã, pelo q os fãos os ouuerã de leuar ás coftas nos efcu- dos dos Canarls ate onde defembarcarão, q era legoa & mea, no q leua- rão trabalho Imenfo, por fazer muyto grãde calma & nã tere ainda co¬ mido. E indo affi todos muyto cãfados, chegou Ioã de payua feitor da armada do gouernador, q da fua parte ya vifitar Antonio da filueira & faber como lhe ya, porq quando os Portuguefes começarã de fugir da ba¬ talha q Antonio da filueira focorreo, tres cafados de Goa (a q nã foube os nomes) fugirã tão bé, & hú foy dizer ao gouernador q Antonio da fil¬ ueyra fora desbaratado, & mortos muytos dos q iã coele, nomeãdohos por feus nomes. E eftãdo o gouernador muyto trifte, foube a verdade
  • Livro VIII, Capitolo CXXXIX 427 por hú pião de Crifná q lhe mãdou cÕ a noua, & por iffo o gouernador o mãdou vifitar, & mais mãdaualhe fazer húa tranqira ondeftaua o noffo Tanadar daqla comarca, em q deixaria quorêta efpingardeiros pera q ficaífe feguro, & mãdaua rogar aos fidalgos q eftauã cõ Antonio da fil- ueira q o ajudalfé a fazer a trãqira. E por a gente yr muyto cãfada & morta cõ fome, fe foy Antonio da íilueyra onde ya pera hi defcãçar, & aqla noite foy húa braua & efpãtofa torméta de veto, toruoes, & chuua: & como os noífos eftauã no cãpo, õde nã auia nhú abrigo de tédas né cafas, defgrudarãfe as adargas cõ a agoa, & os caualos fe ouueram dafo- gar, & muytos por fer ho tempo tam forte fe paliarão fecretamente a PangI cÕ quanto hi eftaua o gouernador, que todavia mandou a Antonio da filueira que folie fazer a tranqueyra, & ele foy nam leuando mais de duzentos Portuguefes, em que entrauam trinta & feys de caualo, & fez a tranqira muyto forte de duas faces & entulhada, cõ feus baluartes forra¬ dos de tauoado pela bãda de détro, & foy feita é oyto dias, cõ muyto trabalho dos fidalgos. E fabédo ho Gouernador q a tranqira era acabada, mãdou a Antonio da filueira q correffe a terra onde fora a batalha, porq auia noua q tornaram ali os immigos & q eftauã hi, 0 que deu grande oprefTão aos Portuguefes, por fere tã poucos como erã: E logo fe partio Antonio da filueira cõ fua géte, indo diãte Galuã viegas defcobrindo a terra, & cõ ele Galaz viegas, Baltefar de vilhegas, & Lifuarte dãdrade, q yã fempre diãte do corpo da géte hú terço de legoa, & por iffo chegarã fós onde fora a batalha, em q não acharã Imigos né rafto deles, & fabédo ho Antonio da filueira fe tornou, deyxãdo a terra pacifica, & fe paliou a Pãgl onde ho gouernador ho efperaua, & dali fe foram pera Goa. CAPITOLO .CXXXIX. De como foy prefo Garcia de Sâ, & Antonio da filueira foy acabar de fa\er a fortaleza de Baçaim. NEste anno de mil & quinhentos & trinta & feys, partio pera a ín¬ dia por capitão mór da armada da carga hú fidalgo chamado Iorge cabral, (de que fe fez menção no liuro Septimo) & os outros ca¬ pitães foram 1'rancifco barreto, Ambrofio do rego, Gafpar dazeuedo, & Vicente gil, a que nã foube o que aconteceo, nem em que tempo chega¬ ram á índia. E porque el Rey de Portugal mandaua prender a Garcia de Sá (que eftaua por capitã em Baçaim fazendo a fortaleza) & focreftar- lhe fua fazenda, por capítulos que feus Imigos deram dele, mandou ho gouernador a Antonio da filueira, q foffe acabar de fazer a fortaleza de
  • 4^8 Hijloria da índia Baçal, & aífi a Ioao de mendoça, & q Garcia de Sá fe foffe pera Goa, & eles forã com gente que lhes o gouernador deu pera iffo. E chegado An- tonio da iilueira a Baçal, mandou Garcia de Sá pera Goa, & ele ficou acabando a fortaleza cõ Ioam de mendoça, no q gaftarã tres mefes. CAPITOLO .CXL. De como Marti afonfo de foufa foy focorrer a el rey de Cochi, & do que fe\ no caminho. DUrando a perfia del rey de Calicut fe querer coroar em Repeli, & defendédolho os noflos, por na ficar fuperior dos reys do Malabar amigos del rey de Portugal, foubeho ho gouernador, & por iffo mãdou logo Marti afonfo a Cochi cõ a fua armada, em que leuaria qua¬ trocentos homés, & os capitães q leuou, afora ele q ya em húa carauela forã, Vafco pirez de fampayo, Fernã de foufa de tauora, Manuel de foufa de Sepulueda, do Diogo dalmeyda, Marti correa, Frãcifco de barros de payua, Iorge barrofo dalmeyda, Francifco pereira, Gafpar de lemos, Iorge de figueiredo, Diogo de reynofo, Antonio de fouto mayor, Fran¬ cifco de Sá, Ioão de foufa de matos, dõ Pedro de menefes, & eftes em galeotas & fuftas, afora outros q yão em catures. E fabedo Marti afonfo q em Colemute fe fazia fempre grade armada cotra os noffos, determinou de ho deftruyr: & dando cota diflo a feus capitães, defembarcou cõ eles cõ a gete q leuauã, & ao defembarcar, acharã obra de dous mil Naires, q lhes quiferã defender a defembarcaçã, & ouue fobriffo húa braua pe¬ leja, de q os noffos ficarã vecedores, cõ morte de muytos dos Imigos, & os q ficauão fugirã & defempararã ho lugar, q foy todo queymado, & foram tomadas fete fuftas que hi eftauam varadas. CAPITOLO .CXLI. De como Martim afonfo de foufa chegou a Cochi. ONde defpois q chegou, foube como el rey de Calicut caminhaua cõ fua gente, cõ determinação de paffar a Repeli pelo paffo de Crã- ganor, pera fe coroar como diffe atras, & géte fua q ya diãte, era chegada ao paffo onde tinha queymada húa hermida q ali deixara fam Thome, & fizerã húa trãqueira forte, em q affêtara algúas peças darte- lharia. E fabido ifto por Marti afõfo, determinou de yr tomar efta tr㬠queira, & defender aqlle paffo a elrey de Calicut, & pera efte feyto mã-
  • Livro VIII, Capitolo CXLII 4*9 daua elrey de Cochí húa foma dos feus Naires, & affi ho Mãgate caimal feu vaffalo, & grãde fenhor: & os capitães deita géte, era os regedores de Cochí, q por nã acodiré a hú dia q Marti afonfo tinha aflinado, pera dar na trãqueira húa menhaã, não deu, & ficou a coufa pera ho outro dia. E fabédoho el rey de Calicut naqle (por fuas efpias) q Marti afonfo deixara de yr dar na trãqueira por falta de maré, & q auia dir ao outro dia cõ grande poder de géte, foy ho feu medo tamanho, q nã oufou de ho efperar: & na noyte feguinte recolhida a artelharia da tranqueyra, fe paífou cÕ fua géte á Chatuá, & dahi pera ho pé da ferra, & não oufou de tornar a cometer o q cometia, fem grãde poder de gente (como direy adiante.) CAPITOLO .CXLII. De como el rey de Calicut, com medo de Martim afonfo de fonfa fe re¬ tirou pera fuas terras: & de como Martim afonfo começou de fa\er guerra a el rey de Repelim. SAbido em Cochim como el rey de Calicut fugira, mudou Marti afonfo a yda q auia de fazer a efperalo, em yr cõtra el rey de Repeli, affi por fer noífo ímigo, & ajudar a el rey de Calicut, como por ter húa pedra del rey de Cochí, q lhe el rey de Calicut irmão de NãbeadarI to¬ mara, quãdo lhe tomou Cochí, q fe ele acolheo ao pagode deVaipI (como difle no liuro primeyro.) E el rey de Cochí fabédo q el rey de Repeli tinha elta pedra, q era coufa de fua religiã, fentiafe diffo por muyto inju¬ riado, & reqria a Marti afofo q lha folie tomar, que foy com cofelho do védor da fazenda & de todos os outros, & leuou mil dos noífos, & muy- tos Naires debaixo da capitania do prlcepe de Cochí & do Mãgate cai¬ mal, & doutros fenhores del rey de Cochí. E cõ Marti afonfo forã todos os capitães da fua armada, & affi Antonio de brito capitão de Cochí, Iorge mafcarenhas de montãs, & Pero froes, q yã cõ elle por terra, & por mar ya Iorge cabral capitã mór da armada da carga, & Manuel ro- driguez coutinho, em fuftas & bateis. Partio como digo por terra, a vinte hú de Nouébro, & aqle dia foy dormir á terra do Anche caimal, & ao outro foy cometer a terra del rey de Repelim, q he quafi ilha, & dõde a não cerca a agoa, q era pola parte q os noífos auião détrar, cercada de canaueaes de canas da índia, que fam muyto groífas, & eftauão tecidas de maneyra, q ficauão mais fortes q muro, & tinha ali certas entradas, em q eitauã tranqueyras muyto fortes, & bé artilhadas & guardadas de gente. Os noífos yão neíta ordé: Antonio de brito leuaua a diãteyra cõ trezétos homés os mays efpingardeyros, & yã cõ ele àã Diogo dalmeida,
  • 43o Hiftoria da índia Iorge mafcarenhas de motas, Pero froes, & outros capitães & fidalgos: E apofele, Marti afonfo cõ a bãdeyra real cõ ho refto da géte. Antonio de brito foy cometer húa deitas tranqueyras q digo, q tinha tres peças dartelharia: & védoho os Imigos, apartarãfe cem Naires todos efcolhidos por muyto esforçados, & fayrã a receber os noífos fora da trãqueyra, cuydando q por fua valétia os nã deixaflem chegar a ela, mas os noflos matará e ferirá muytos cõ as efpingardas, & os fizerã fugir: & indo alfi desbaratados, hum que ya muyto ferido nam fe atreuédo a viuer, cha¬ mou outro, & deulhe a fua agomia & feu efcudo q lho leuafle, & ifto, porq té eles q ainda q morram na batalha, fe faluã as armas, ficã intey- ramete cõ fua hÕrra. E feguindo os noflos os Imigos, entrará cõ eles na trãqueyra, & dentro achará refiftécia nos Imigos q a guardauão, & durou a peleja ate chegar Marti afonfo, q fe os Imigos desbarataram de todo & fugirão, & dali fez Marti afõfo volta fobre a mão elquerda, onde eftauã duas eftãcias pera o rio q o guardauã, & eítas cõbatia Iorge cabral cõ os capitães q leuaua por mar, q apertarã tão rijo cõ os mouros q os fizerã fugir. E fabédo el rey de Repelim q aqlas trãqueiras erã tomadas, mã- dou alargar as outras, & recolher fua géte pera a cidade, onde efperaua de fe defender cõ cinco mil Naires q tinha feus, & do Mãgate aché vaf- falo del rey de Calicut, & entrauão neítes quinhentos efpingardeyros. CAPITOLO .CXLIII. De como Marti afonfo de foufa desbaratou el rey de Repelim, & lhe queymou a cidade. DEsbaratadas as trãqueiras q digo, deixoufe Marti afonfo ficar ali pera defcãfar fua géte: & ao outro dia em amanhecendo, abalou pera a cidade de Repelim, q era dali húa legoa, & mandou a Frã- cifco de barros de payua, q cõ céto & cincoéta efpingardeyros fofle diante defcobrindo a terra: & nas coftas lhe ya Antonio de brito cõ quatro cé- tos homés, & cõ os mefmos capitães & fidalgos q ho acõpanharão ho dia dãtes, & na retroguarda Marti afõfo cõ ho refto da géte: & caminhãdo nefta ordem, pofto q no caminho auia muytos frecheiros, por antre muy¬ tos palmares q auia duma parte & doutra: Francifco de barros cõ os feus efpígardeyros os defpejaua de maneira, q os noflos nã receberá deles nhú dãno, & afli forã ate a entrada da cidade, q era per antre hús valos & húas cauas, q o de mais era cercado de canaueaes. E nefta étrada eftaua hú capitã cõ muytos efpígardeyros & frecheiros, & como ela era eftreita podiãna os Imigos defender muyto bé, & por iflo durou a peleja
  • Livro VIII, Capitolo CXLIII 43i aqui hú pedaço, & por derradeiro os ímigos ficarão desbaratados, & os noflos entrarão leuandoos diante de íi fugindo ate dar nas cafas del rey, donde ho refto dos ímigos q hi eftaua fugirã, vedo fugir os outros: & núca el rey os pode deter por mais q os esforçou, & então fugio coeles, fendo dos derradeiros. & Francifco de barros ho feguio cõ algús outros, tirandolhe tantas efpingardadas q lhe matarão o que lhe leuaua ho fom- breiro, que com a prefTa não ouue qué ho leuãtaífe, & ficou o q el rey fentio muyto, por fer antreles grande defonra. E defpois de perdido ho fombreiro, el rey foy tam apertado dos noflos q ho feguião, que cõ muyto grande perigo efcapou, faluandofe em húa almadia em q fe embarcou cõ ho mangate Ache, & outros quatro & fugio. E entre tanto Marti afonfo que tomou por outra parte, foy dar em húa mezquita, de q fayrã obra de vlte mouros determinados de ho matar, fegundo hú remeteo a ele com grande oufadia, tirandolhe húa cutilada, que ele tomou na rodela, & logo ho atraueflou com hú zagúcho que leuaua: & a pos iflo foy morto dos noflos: & os outros també morrerã, pelejãdo como muyto valetes homés. E mortos eftes Martim afonfo fez ali corpo recolhédo os noflos de que muytos andauão defmãdados pola cidade a roubar, & deftes forão mor¬ tos dez ou doze, que na batalha não morreo nenhú: fomente forão feri¬ dos muytos, & antreftes forão hú Duarte de miranda, & hú Efteuão gago. E dos ímigos fe acharã mortos cento, & os feridos forão fem conto, & em muyto ponco efpaço. E desbaratados os ímigos & fugidos, foy rou¬ bada a cidade, & as cafas delrey, em q foy achada a pedra del rey de Cochim, q era húa pedra branca como qualqr outra, da feyção & do tamanho de húa mea moo datafona, & tinha abertas húas letras malaba- res. E cõ efta pedra fizerão os nayres de Cochim grande fefta: & afli forão achadas húas tauoas de metal, cõ húas ferpes efcolpidas nelas, & húas letras Chins, que el rey de repelim tinha em grande veneração, por fer coufa de fua religião. E faqueada a cidade, defpoys de fer toda quei¬ mada fe tornou Martim afõfo a Cochim, onde foy recebido cõ muyta fefta, & deu a el rey de Cochim ho fombreiro del rey de Repelim, & as tauoas, & a pedra, que ele eftimou muyto, & lhe deu por ilfo grandes agardeci- mentos.
  • Hifloria da índia 432 CAPITOLO .CXLIIII. De como Martim afonjo defendeo a el rey de Calicut que não pajfaffe polo paffo do vao. VEndo ho védor da fazenda q el rey de Calicut continuaua a guerra, & q cometia dentrar polo paffo de Crãganor, pareceolhe bé cõ con- felho de Marti afonfo, & de Antonio brito, fazer húa fortaleza naqle paffo, que fe logo começou. E nifto tendo Marti afonfo noua que partia a armada de Calicut carregar darroz a Bracelor, fez fe preftes pera jr pelejar coela, & tomarlhe a carga quãdo tornaffe, q era hú dos grades danos q podia fazer a elrey de Calicut, com que a fua gente lhe morreria de fome. E fazendofe preftes pera jr, ex que chega recado del rey de Cochim muyto de preffa, que vinha el rey de Calicut cõ grande poder de gente em q entrauão dous mil efpingardeyros, & determinaua détrar polo paffo do vao, que era na terra do Mãgate caymal, duas legoas acima do paffo de Cranganor, & q não queria entrar por efte paffo de Craganor, por eftar impedido cõ a fortaleza q os noffos fazião, & polo paffo do vao podia paffar cõ a maré vazia, como em outro tépo intétara de paffar feu anteceffor, quãdo lho Duarte pacheco defendeo tão milagro- faméte como diffe no liuro primeiro. E por ho recado fer tam de preffa, fe embarcou logo Martim afonfo em hús tones, por jr mays aíinha, & em- barcarãfe coele obra de nouenta dos noffos, os mays deles capitães & fidalgos, & forã coele ho regedor de Cochim cõ algus naires, & deyxou encomendado a Antonio de brito q foffe a pos ele com a mais gente q podeffe. E mãdou a Francifco de barros de payua q em húa galé com outros dous capitães de dous bargantls fe foffe meter no rio de Crãganor pera goardar ho paffo, que não paffaffe por ele gente del rey de Calicut, & defendeffe que não entraffem no mefmo rio, húas vintecinco fuftas da armada del rey de Calicut, q era certo que ele mãdaua jr a efte rio pera ho ajudaré, & defenderé os noffos catures q nã leuaffem focorro onde foffe neceffario: o que fe podia fazer por a terra fer toda regadia de muy- tos rios (como diffe no primeiro liuro). E fe Martim afonfo não mandara atalhar a eftas fuftas defta maneira, por nenhú modo fe poderá tolher a paffagé a el rey de Calicut, como defpoys tolheo. Ifto ordenado partiofe Martim afonfo pera ho paffo do vao: & ao outro dia em amanhecédo chegou ás terras do Mangate caimal, q pola breuidade do tépo não tinha juntos mays de tres mil nayres. E dele foube q eftaua el rey de Calicut dali a duas legoas, & que tinha quoréta mil homés, & q dahi a tres dias
  • Livro VIII, Capitolo CXLII1I 433 daria a batalha, porq era feu coítume dala aefte prazo, defpois q che- gaua a terra de feus imigos. E no dia em q auia de fer mandaua tanger húa bozina & hú atambor de tamanha grandura, que não auia quatro ho- més que ho abalaífem, & efte fe ouuia a duas legoas: & fem eftes finays fe não daua a batalha, & q ifto teueffe por certo. E como Marti afonfo teueffe aquilo por abufam, nã ho creo, & foyfe ao paíTo onde defembar- cou, & por lhe os tones não ficaré em feco os mandou afaftar pera ho rio, & ele pos fe no cãpo cõ fua gente, & eftauão coele ho mãgate & o regedor de Cochim cõ feus nayres, que lhe dizião que eftaua ali de balde, porq el rey de Calicut não auia de dar a batalha fenão pafTados os tres dias: & primeiro fe auia de tanger ho atãbor que digo. E eftãdo niíto co¬ meça daparecer hú corpo de géte dos Imigos, que ferião cinco mil homés, que com grandes gritas remeterão ao palfo, & começão de paliar. E cuy- dando Marti afonfo que era algúa gente da del rey q vinha defmandada, mandou a Gafpar de lemos que cõ vinte efpingardeiros fe pofcffe detrás dú valo q eftaua perto do vao, & dali fizefe rofto aos Imigos, q em con- tinéte começarão de crecer, fe não quando aparece a bãdeira delrey, q era final q vinha ali: E afli era que não curando de fuperftições, por to¬ mar os noífos de fupito, & os desbaratar a feu faluo, não quis vfar dos finays que mãdaua fazer quando auia de dar batalha. E parece que noífo fenhor infpirou em Marti afonfo, que não creffe o q lhe ho Mangate dizia do coítume del rey de Calicut, porq fe lho crera paífara elrey fem fer contrariado, & fizera o q determinaua, que fora grande mal. E como as infinias del rey aparecerão os nayres do mãgate & os de Cochim conhe¬ cendo q ele vinha foy ho feu medo tamanho, que fe afaftarã dos noífos hú bõ pedaço pera fugire, fe Martim afonfo foífe desbaratado. E algús dos noífos ate trinta cõ o melmo medo fugirão pera os tones em q fe efconderão pera fe acolheré fe Marti afonfo leualfe ho pior. Martim afõfo que vio efta couardia, fabendo do Mangate ho porq, tomouho pela mão & teueo que não fugife, dizendo q não ouueífe medo, porq efperaua em noífo fenhor de desbaratar el rey cõ aqueles poucos que tinha, que não ferião mays de feífenta. E algús dos noífos defconfiados difto poder fer, lhe acõfelhauão q fe recolheífe aos tones, & fe faluaífe, porq não era fifo efperar tam groífa géte. Poré Vafco pirez de fam payo, & Frãcifco pe¬ reira lhe confelharão que pelejafe & ho mefmo lhe pareceo a ele que deuia de fazer, por ja teré paífado ho vao muytos dos Imigos: & fegundo erão ligeiros antes de chegar aos tones matarião quantos hião coele: & a fora ifto não poderia recolher Gafpar de lemos por eftar cercado dími- gos. E encomendãdofe a noífo fenor de todo coraçã, & cõ ho esforço nele, fez hú corpo dos feus, & dá Santiago nos Imigos, ferindo & matando ne- Touo IV 55
  • 434 Hiftoria da índia les, q erão bé cinco mil alé do paflo: & ajudauao Ioão luys ho cõdeíta- bre da fortaleza de Cochí tirando de traués aos ímigos cõ hú tone, em q fe chegou á boca do vao. E dali a pouco chegou cõ a maré hú batel noflb cõ hú falcão & dous berços q també varejarão forteméte aos ímigos: & cõ tudo eles erão tantos, q fe os noíTo fnor não enfraqcera afogará os noffos, a q ouuerã tamanho medo, que fe começarã de retirar pera alé do paffo ondeftaua el rey de Calicut. O q vedo a géte do Mãgate, ouue vergonha de ter fugido, & pera émendaré ho paflado remeterão cõ gran¬ des gritas onde era a batalha, & ja nã acharão q fazer, por feré todos os ímigos paflados da outra bãda: & Martim afonfo não quis deixar paflar os noffos, de q morrerá algús nefta batalha, & dos ímigos perto de tre¬ zentos. E ainda defpoys dos ímigos fere paflados da outra bãda fe poferã cõ os noffos ás efpingardadas, & afli eíleuerão per efpaço de duas horas, ate q fe recolherão, & Marti afonfo fe afaftou hú pedaço, & ficou no capo aqla noyte. GAPITOLO .CXLV. De como Antonio de brito pelejou algiias ve\es no pajfo do vao com a gente del rey de Calicut & fempre venceo. COesta vitoria tã milagrofa, q noffo fenor deu, ficou el rey de Cali¬ cut tã quebrado que fe tornou ao leu arrayal & não quis tornar mais a dar batalha por fua peffoa, & ficou feu poder muyto defa- creditado, & ho dos noffos cõ muyto grãde credito, vedo a géte da terra cÕ quãta oufadia lhe refiftirã, fendo tã poucos, & tornoulhes alébrar as grãdes vitorias q ali ouuera Duarte pacheco cõtra aqle maluado rey de Calicut, que então reynaua: & os da parte del rey de Cochim fe esforça¬ rão tanto pera ajudar os noffos, que logo aqla noite acodirão ao Mãgate caymal mays quatro mil nayres. E ao outro dia chegou Antonio de brito com quatrocétos dos noffos: & vendo Martim afonfo tam boa gente: dãdo a dianteira a Antonio de brito deu outra batalha aos ímigos q prouarão de paflar ho vao: & venceos com lhe matar mays gente que da outra vez & os fez afaftar do paffo, do que el rey de Calicut ficou bé trifte, & qui- fera irfe de todo, fe os fenhores que eftauão coele ho não eftoruarão. E ho dia feguinte delta batalha chegou ho príncipe de Cochim cõ vinte mil naires feus & dos caymais q ho acõpanhauão: & erão múytos efpingar- deiros. E vendo Martim afonfo tanta géte junta, ouue fua ellada ali por efcufada: & mays fabédo q andaua do már a armada de Calicut, a que era neceffario q acodiffe. E por iffo deixou a goarda daquele paffo a An¬ tonio de brito, deixãdolhe quatrocentos dos noffos, & os vinte mil nayres
  • Livro VIII, Capitolo CXLVI 435 que digo. E defpois de Martim afõfo fer ido do paffo, ficou nele Antonio de brito quinze dias: & nefte efpaço pelejou feys vezes com a gente del rey de Calicut, fobre querer paflar o vao, & de todas foy vencedor, & fez grade deftroição nos immigos: o que vendo el rey de Calicut, & q fua perfia era por demais, leuantou ho arrayal, & recolheofe pera détro de fuas terras. E el rey de Cochim ficou liure do medo que tinha dele. CAPITOLO .CXLVI. De como Martim afotifo de foufa desbaratou Cotialemacar capitão mor do mar del rey de Calicut. PArtido Martim afonfo do paffo do vao, & chegado a Cochi, embar- coufe cõ trezentos dos noffos, pera ir bufcar a armada de Calicut, & ele foy em húa carauela, & vafco pirez de fam payo, dom Diogo dalmeida, & Manuel de foufa de fepulueda em galés, & em fuftas. Fer- não de foufa de tauora. Martim correa. Francifco de barros de payua. Iorge barrofo dalmeida. Francifco pereira. Gafpar de lemos. Ieronimo de figueiredo, Frãcifco de faa & outros. E partido de Cochi foy correndo a cofta ate Chale, onde achou Diogo de reynofo com cinco fuftas, q fe aco¬ lhera ali fugindo a Cotiale marcar capita mór darmada de Calicut: & defpoys de pelejar cõ ele hum pedaço: efteue muyto perto de fe perder, & foylhe tomada húa fufta de feys que trazia, & os Imigos ho feguirão ate Chale onde efcapou. E recolhido Diogo de reynofo á conferua de Martim afonfo, partiofe em bufca da armada dos Imigos tornado pera Cochim & ao outro dia a horas de vefpera indo Marti afonfo alamar cõ as galés & fuftas mayores da frota, & as ligeyras ao lõgo da terra, pa- receo a frota dos Imigos també ao longo de terra da parte de Calicut, & era de vintecinco fuftas, em q andauã mil & quinhentos homés, & muy- tos deles efpingardeiros. E como aparecerão os Imigos de fupito, os nof¬ fos que andauão defejofos de pelejar coeles, principalmete Diogo de rey¬ nofo q hia nos dianteiros, remeteo logo aos Imigos, & Antonio de lima capitão doutra fufta, & Antonio de fouto mayor, & outros que hião nas fuftas ligeiras & derã coeles antre os ilheos de Pãdarane tirandolhe muy- tas bombardadaa & efpingardadas. Cotiale marcar que fabia que Marti afonfo andaua no mar, pareceolhe logo que era aquele, & pola fama que tinha da refiftécia que fizera a el rey de Calicut tinhalhe grande medo, & cÕ ele nam oufou defperar, & determinando de fe acolher a Calicut, çar- rou fua armada, & a vélas & remos fe foy ho mais que pode perlongando a terra pera dobrar a ponta de Coulete. Martim afonfo que vio os ími-
  • 436 Hiftoria da Índia gos, & como a peleja fe começaua, porque nam podia chegar com a ca- rauela, faltou em húa fufta das mais ligeyras, & a fua gente mandoua meter na fufta de leronymo de figueyredo, & bota a boga arrancada a tomar a dianteyra aos ímigos, porque nam dobrafle a ponta, & foy cõ ele Francifco de barros, por fer a fufta das mais pequenas. E indo afli Diogo de reynofo & Antonio de lima que feguiam os ímigos alcãçarão húa fufta, & aferrandoha faltaram dentro com fua gente, que pelejou com tanto esforço que nhú dos ímigos ficou com a vida, & com tudo dos nof- fos forão mortos quatro & muytos feridos: E vendo Cotiale marcar que Martim afonfo lhe tomaua a dianteira, & as outras fuftas lhe yão nas cof- tas, & as galés lhe fazião rofto pera o tomarem de traués vio que ho cer- carião, & que não poderia efcapar antes que ho cercafTem, pos a próa em Tiracole, hú lugar queftá na cofta, que tem hú arrecife de penedos diante do porto com duas entradas, húa da bãda do norte, outra do fui, & os feus feguirão a pos ele, & enfecando as fuftas quanto poderão faltarão em terra & meterãofe antre as fuftas, dõde tirauã muytas bombardadas & efpingardadas a Martim Afonfo, que entrou no arrecife com Francifco de barros, & Ieronimo de figueiredo pela entrada da banda do fui, & na boca da do norte ficou a nofla fuftalha, por não caberem todos dentro, & era hum efpantofo jogo de bombardadas & defpingardadas dús & dou¬ tros, & Martim afonfo por fe chegar aos ímigos ficou em feco no rolo do mar, o que vendo os immigos, remeteram deles á fua fufta com grandes gritas de prazer, de lhe parecer que a tinham tomada, & chegarãofe tanto que lhe lançaram mão da apelaçam da fufta querendolha enfecar de todo: & os noffos quado afli viram tomar a fufta, meteramfe ás lançadas & efpingardadas com os immigos, de que mataram tantos que os fizeram afaftar, & dos noflos foram mortos dous & feridos fete ou oyto: E entre tanto Francifco de Barros, & leronymo de Figueyredo, meteramfe antre as fuftas dos immigos, de que queymaram algúas com panelas de pol- uora & outros artifícios de fogo, & nam deyxaram de pelejar ale' a noyte, & começaram ás quatro horas, & fizeram muyto grande dãno nos immi¬ gos, & dos noffos nam foram mortos mais de tres, & feridos muytos.
  • Livro VIII, Capitolo CXLVII 437 CAPITOLO .CXLVII. De como Martim afonfo de foufa quifera pelejar em terra com os ímigos & não pode. ACabada a peleja, pola noyte que fobreueo mandou Marti afonfo re¬ tirar todos, & fez a frota em duas partes, & dúa deu cuydado a Manuel de foufa de Sepulueda, que guardaífe com ela a entrada do arrecife da banda do norte, & a Francifco de barros a outra, & que guardaífe a do fui, porque os ímigos nã fogiffem de noyte, que temendo que os noflos lhe não queymaífem as furtas ao outro dia, toda a noyte gaitaram em varar as furtas, & fizera eftancias dartelharia & fortalece- rãofe grandemente, & na mefma noyte acodirã todos os de Coulete,Ter- mapatão, & doutros lugares darredor, & ajuntarãfe quinze mil homês, o que fe logo enxergou em amanhecendo na grorta gente que apareceo & no grande rumor que fazia. E quãdo Marti afonfo vio as eftancias & a fortaleza q tinham feyta, chamou os capitães a confelho a que propos o cafo, & que era neceífario pera fayr em terra fazer duas partes da gente que tinha, húa pera ficar na frota, outra pera pelejar em terra, pera o que a gente que tinha era tam pouca q nam abaftaua pera nenhúa deltas coufas, pelo que todos acordaram que nam era bem pelejar cÕ os ímigos, pelo grãde rifco que fe corria, & q fe foíTem logo, & aíli ho fizeram, & tornará na volta de Canànor: E tornando Marti afonfo ao longo da corta pera Calicut, chegou a ele hú catur bem efquipado com cartas del rey de Cochí, em q lhe certeficaua q tornaua el rey de Calicut, pedindolhe que lhe acodiffe logo, & ele o fez afli, & entrou cõ toda a frota polo rio de Cranganor, & foy ter ao parto do Vao, por onde el rey de Calicut en- traua da outra vez, & hi achou Antonio de brito com os cafados de Co- chim, & outra gente efperando por el rey de Calicut, que fabendo q Marti afonfo era chegado, nam quis cometer de palfar, & tornoufe, que nam cuydou que Marti afonfo podefle acodir tam de prefla, & por iflo co¬ metia ho parto: & vendofe adi eltoruado ficou tã quebrado, que aquele verão nam cometeo mais de querer paflar a Repeli & efpalhou fua gente, 0 que fabido por Martim afonfo fe tornou outra vez a correr a corta, onde també não achou a armada de Calicut, que com medo dele fe reco- lheo & ficou a corta defpejada, pelo que aquele anno nã foy nenhúa efpe- ciaria ao eftreyto, & Marti afonfo fe recolheo em Mayo a Cochim onde inuernou.
  • Hijloria da índia 438 CAPITOLO .CXLVIII. De como Açadacão começou de fa\er guerra ao gouernador. VEndo Açadacam, fenhor de Bilgão, que por mais gente que man- daua pera tomarem as Tanadarias, que lhe ho gouernador tinha as nam podião tomar, & fempre era vencida em todas as batalhas que dauam aos Portuguefes, determinou de as cobrar por guerra guer¬ reada, a que principalmente ho demoueram confelhos del Rey de Cam- baya, que determinaua de tomar a índia aos Portuguefes (como direy a diante.) E determinando de fazer efta guerra foy com muyta gente aflen- tar feu arrayal junto do Rio de Salfete, mea legoa da fortaleza de Ra- chol, com fundamento de çarrar aos Portuguefes ho caminho pera efta fortaleza, com outra que ali queria fazer, & depois de çarrado tomar a fortaleza de Rachol, com quantos eftauam nela: & mandou logo affentar húa eftãcia com tres peças dartelharia em húa terra groffa ou morro, quafi como rocha que fe fazia onde ho rio fe eftreitaua muyto, & como ho canal do rio era pegado cõ efte morro, nam podia nenhúa coufa paífar pera a fortaleza que a nam pefcaffe a artelharia: O que vendo Gonçalo vaz coutinho, & Anrrique de melo coutinho, & Iorge de melo foarez, q guardauam aquele rio em duas galeotas & húa antemenhaã com fua gente na eftancia que digo, & fazendo fogir os mouros que a guardauam, toma¬ ram a artelharia, do que Açadacão ficou muyto injuriado, & eftãdo aíli, faltou ho mantimento a eftes capitães que guardauam ho rio, por lho nã mandar Miguel froes fevtor de Goa, que tinha cuydado de lho mandar, & tardando ho mantiméto, tanto q os capitães nem a gete poderã fofrer a fome, forãofe ao paflo DagacI na jlha de Goa, cuydãdo de ho acharé hi, & tãpouco ho não acharão, & ainda ali efperaram por ele tres ou qua¬ tro dias, & nefte tépo vedo Açadacão que nam auia guarda no rio q eftor- uafíe, fortaleceo logo aquele paffo, fazendo em ambas as bandas do rio eftacadas dobradas & entulhadas, eftreitandoho de tal maneyra, que nam ficaua mais efpaço que quanto paffaffe hú bargantl diante doutro, & na coroa do morro que era chaã da banda do rio, onde auia algúa maneyra de defembarcaçam, ainda que muyto roim, fez logo hum muro de pal- meyras de duas faces, entulhado de terra, rama, & pedras com hum ba¬ luarte, & trauefes, em que forão afletadas algúas peças dartelharia, & na terra que cercaua o morro, que era apaulada, mãdou leuantar muytas valas, em que foy affentada algúa artelharia, & aífi foy continuãdo a cerca, com que ficaffe húa força fortiflima, & ficaffe çarrado o caminho
  • Livro VIII, Capitolo CXLIX 439 pera Rachol. E afora a géte de feruiço q era muyta, tinha Açadacão em guarda defta obra dez mil mouros, em que entrauam muytos frecheiros & efpingardeiros: E quando Gonçalo vaz tornou com os outros capitães, q viram a coufa como ya, & a determinação dos mouros, mandaram dizer ao gouernador que mandaffe mais gente, pera verem fe podiam eftoruar que aquela obra nam foffe auante, & ele mandou tam pouca que nam aproueytou, & tornaramlhe a mandar que mandaífe mais, porque era ho feyto perigofo, & era neceffaria muyta gente. CAPITOLO .CXLIX. De como dom Gonçalo coutinho, foy desbaratado, no pajfo Debort. COm efte fegundo recado de Gonçalo vaz coutinho, defpachou logo ho gouernador a dom Gõçalo coutinho, q folfe por mar cÕ oyto- cétos Portuguefes, a desfazer a fortaleza q Açadacã fazia no paffo de Bori (q aíG auia nome aquele pado) & os capitães que o acõpanharão forão, Lionel de lima, Manuel de vafconcelos, Ioão jufarte tição, Gõçalo vaz coutinho, lorge de melo foarez, Anrrique de melo, Triftão homé, Simã de lima, Diogo botelho dãdrade, Afonfo fialho, Miguel dayala, & outros a que nã foube os nomes, todos fidalgos & gente de feito: E húa terça feira em anoytecendo foy dom Gonçalo com feus capitães embar¬ car ao paffo Dagacim, & o refto da noyte que paffou no rio perto do paffo de Bori, ordenou cÕ os outros capitães de cometer a fortaleza dos mouros em amanhecédo, & que ele cÕ quatrocentos homes daria no rofto da fortaleza, q era o lugar mais perigofo, & Lionel de lima com duzen¬ tos Portuguefes defembarcaria mais a baixo pera Goa, & rodearia pera cometer a fortaleza por de tras, & Manuel de vafconcelos com outros duzétos defembarcaria mais acima pera Rachol pera dár por outra parte, & tomaffem os mouros no meo que não fe podeffem defender: E porque por amor do morro que fazia hú cotouelo, não fe podião ver pera daré todos a húa, affentoufe que quãdo dom Gonçalo ouueffe de defembarcar, mandaffe tocar as fuas trobetas, pera que a efte final defembarcaflem Lionel de lima & Gonçalo vaz: E querendo amanhecer abalou dõ Gon¬ çalo pera fe chegar á fortaleza, & os outros coele, cada capitão cõ fua gente pera onde lheftaua affmado q defembarcaflem: & quis fua defauen- tura de dõ Gonçalo, que húa fufta em que ya, afli por fer grande como por yr muyto carregada, núca pode nadar pera chegar onde auia de de¬ fembarcar, no que fe deteue até menhaã clara, o que vendo dom Gon¬ çalo, & que a fufta não furdia, mudoufe dela a hú catur, & coefta reuolta
  • 440 Hiftoria da índia & cÕ a grande opreflao que lhe daua a artelharia dos Imigos que nefte tépo jugaua muy brauamente, efqueceo a dom Gonçalo de leuar coníigo as trombetas pera fazer o final queftaua ordenado, nem menos lhe lem¬ brou leuar a bandeira: E chegandofe ele pera o morro com a géte do feu efcoadrão, q ficou no meo das eftancias dartelharia, que os mouros tinhao nas eftacadas dambas as bandas do rio, em que tãobem eftauão muytos frecheiros & efpingardeiros, foy coufa medonha de ver os pelou¬ ros de bombardas & defpingardas q defparauã dúa & doutra parte, bo¬ bas de fogo, & frechadas, que todo o ár era cuberto: E logo muytos dos Portuguefes do efcoadrão de dom Gonçalo forão feridos & mortos, & ele chegou cÕ muyto grande trabalho a húa calheta q fe fazia ao pé do morro á borda do rio onde auia de defembarcar, & hi achou o catur Dafonfo fialho que ja tinha defembarcado, & foy o primeiro que com quatro da fua capitania trepou pelo morro & fubio ao muro, & hú dos quatro auia nome Baftião da cofta, & outro Ioão pinheiro mulato & na¬ tural de Setuuel, & aos outros nã foube os nomes: E pofto que fobre o muro acharão grande refiftécia nos Imigos, de que matarã algús, & ou¬ tros fizerão faltar a baixo feridos, ganharã hú pedaço do muro, recebédo fobriflò muy grãdes feridas, & fe teuerão qué os ajudara, fempre a for¬ taleza ficara pelos Portuguefes, por cujos peccados noffo Senhor permitio que não fe ganhaífe: E querendolhe dom Gonçalo acodir, arremefoufe cõ muyta prefla fora do catur, & paliando por cima do outro, começou de trepar por hús páos diante de todos os que o acompanhauã, & fobindo ao muro cõ muyto grande oufadia, deulhe dú traués húa arcabuzada no braço efquerdo q lhe efmiunçou grãde parte dele, & coefta juntaméte lhe derão com húa panela de poluora na cabeça que o ouuera de queimar, fe não fora a celada que leuaua, & coifto foy tanta a pedrada com gran¬ des pedras, que o defatinarão & cayo a baixo, & deite mefmo traués forão tantas as arcabuzadas, panelas de poluora, & pedradas, que não deixarã fobir nhú da fua companhia, & no mefmo catur matarão & feri¬ rão a todos, & antreles foy Triftão homé valente caualeiro, que eu co¬ nheci na índia, & a géte dos outros catures do efcoadrão de do GÕçalo não poderão defembarcar na calheta, por fer tão eftreita que não cabião nela mais que os dous que eftauão détro, & quãdo vião q não podião en¬ trar chegauãofe ao morro & trepauã por ele pegandofe a vergonteas & a troços deruas, mas os mouros não os deixauã, tirandolhes com o que difle, & coiffo muitos tições acefos, com que ferião, efpedaçauão & ma- tauã os Portuguefes fem fe poderé valer, & entre tanto Afonfo fialho & os outros quatro que eftauão fobre o muro forão tão apertados dos mou¬ ros cõ feridas que receberão, que Ioão pinheiro & outros dous cayrão
  • Livro VIII, Capitolo CL 441 mortos do muyto fangue que fe lhes foy, & Afonfo fialho & Baftião da cofta forao deitados do muro abaixo quaíi mortos, & forã cayr no catur antre os outros, a q os mouros derão grade grita: Nefte tempo Lionel de lima que defembarcou primeiro que dõ Gonçalo, quãdo vio que tar- daua o final das trombetas, & entrando per hú aruoredo efpefo, foy fayr onde os mouros tinhã feytas fuas valas detrás da fortaleza, & como era mancebo & esforçado, em vendo os mouros adiantafe do corpo da gente com cinco homes, leuando ho feu guia, & foy cometer hú magote de mou¬ ros, q o ferirão tão mortalmente defpingardadas que logo cayo morto, pelo q o feu guião & os cinco lançarão a fugir, & os outros que ficauão nu corpo quando aquilo virão desbaratarãofe com medo, & fugirão tão defatinados que não pararão menos do rio & embarcarãofe com grande afronta, porq os feguião os mouros & matarão muytos, & acabarão todos fe não forão os nauios a que fe acolherão, & Manuel de vafconcelos não defembarcou, porque não ouuio o final q efperaua, & teuefe até ver o que feria, fe não quãdo ouuio a grita dos mouros cõ prazer do desbarato de dom Gonçalo, q fe partio logo pera Agacim, com lhe ficarem mortos perto de duzétos homés, em que entrarão Triftão homé, Lionel de lima, Simão de lima & outros, & leuar quatrocentos feridos, & afíi fe tornou pera Goa. CAPITOLO .CL. De como Pero de faria derribou a fortaleza de Rachol. COm quanto dom Gonçalo foy desbaratado, nem por iffo ho Gouer- nador deyxou de mandar guardar o rio como dantes, pera que eftoruaffe q não fizeflem os Imigos a fortaleza que fazião, & dei¬ xou Gõçalo vaz coutinho com os capitães que tinha & ainda outros, que forão Ioão jufarte tição, Ioão fernandez de vafconcelos, Diogo botelho dandrade, & Miguel dayala, & eftes tres em bateis de mantas, pera esbombardearem os mouros quando trabalhaffem na fortaleza, & anda- uão certos capitães de catures pera acodirem a eftes bateis fe foffe ne- ceffario: E como Açadacão vio efta armada q andaUa no rio, não quis mandar trabalhar na fortaleza de dia, porque dos bateis lhe matauão a gente cÕ bõbardadas, & mandaua trabalhar de noyte que lhe não farião tanto nojo: E com quanto os Portuguefes derribauão de dia com a arte- lharia parte da obra que fe fazia de noyte, não era tãto, que não foffe em muyto crecimento, & nefta perfia eftauão continuamente, em que hús & outros leuauão muy grande trabalho: E algús arrenegados q eftauã com .Açadacão, dizião de noyte por feu mandado a Gonçalo vaz, que fe efpã- 56 Tomo IV
  • 442 • Hijloria da Índia tauao dele, q fendo tão bõ caualeiro & amigo na índia, não confelhar ao gouernador q dififtifTe daquela guerra que fazia a Açadacão pois era tão injufta, que por força lhe queria tomar fuas terras, fendo ele amigo del Rey de Portugal & tendo ambos paz, & fobre q tinha proteftado q a não quebraua por fe defender & trabalhar de cobrar fuas terras, que lhe o gouernador tinha por força, & como folfe na índia outro gouernador, auia de mãdar tirar hú eftromento da pouca culpa que tinha naquela guerra, & de não fer em cargo dos gaftos que o gouernador fazia nela, pois fe defendia, & que com aquele eftormento auia de mandar hum feu criado a Portugal queixarfe a el Rey da guerra que lhe ho gouernador fazia, & tãtas vezes foy ifto dito a Goçalo vaz que deitou mão diffo, & efcreueoho ao gouernador, & que deuia dacodir, porq a fortaleza dos mouros ya de cada vez em crecimento, fem lhe poder eftoruar que não foíTe, & mais que ele & outros capitães eftauão de détro do rio pera Ra- chol, donde não podião fayr fem muyto perigo: E vifta efta carta pelo gouernador, pareceolhe que Açadacão fe juftificaua pera lhe alargar as Tanadarias que lhe tinha tomadas, que ele eftaua bem fora de lhas tor¬ nar em quanto as podelfe defender: E porq pera efta guerra lhe fazia grande pejo a fortaleza de Racho!, pois pera a fegurar lhera neceflario ter fempre géte naquele rio, & por amor dela lhe era perjuyzo fortalecer Açadacão aquele paíTo, pos em confelho fe feria bem derribala, & foy acordado que fy, pera ho que logo defpachou Pero de faria, porq fabia muytos ardijs, & a que os mouros auião grande medo: E chegado Pero de faria, logo de noyte lhe os arrenegados diflerão ho que dizião a Gon- •çalo vaz acerca da guerra com Açadacão, ao que ele refpondeo, que lhe difleflem, que coufa de tanto pefo como aquela, fe nam auia de dizer aili,
  • Livro VIII, Capitolo CLI 443 poderofos pera derribaré a fortaleza que fazia Açadacã: E partido ho embaixador, Pero de faria paflou ê paz pera a fortaleza de Rachol por virtude das tregoas, & muito de prelfa recolheo a artelharia da fortaleza & a gente nos nauios que tinha, que fez logo fayr pera fora, que tãobem paliará em paz, & ele ficou cõ algús bõbardeiros picado a fortaleza & minãdoa, o que tudo fe fez muyto preftes: & cotra a tarde mãdou dar fogo ás minas, q arrebentado cayo toda a fortaleza fem ficar nada em pé, & derão tamanho eftoruo q foy ouuydo dos mouros, & Açadacão man¬ dou logo por terra faber que era aquilo (que não voou ao que era) por eftar defcuydado de tal coufa, por lhe parecer que o gouernador quere¬ ria paz, fegundo entendera em Pero de faria, que em dando fogo ás mi¬ nas fe foy polo rio abaixo: & entretãto o embaixador Daçadacão foy ao gouernador com a inftrução de fua embaixada, q era pedirlhe as Tana- darias, lembrandolhe a condição cõ q lhas dera. E vendo o gouernador a carta de Pero de faria, deteue 0 embaixador até bem tarde, & refpon- deo por derradeiro que não queria foltar as Tanadarias, né queria coele paz fe nã guerra. E partido o embaixador coefta repofia, em chegãdo ao paflo de Bori achou no rio Pero de faria que vinha de derribar a forta¬ leza de Rachol, & logo fe foy pera Goa zombando Daçadacão, q fentio muyto o engano que lhe fizera Pero de faria & mais porque ficaua de guerra com o gouernador, & efteue alli fufpenfo hús dias cuydando no que faria. CAPITOLO .CLI. Dii ardil cõ que el rey de Cambaya quijera cegar a fortaleza de Diu & tião pode. EL rey de Cambaya (como difie a tras) eftaua muyto arrependido de dar fortaleza em Diu ao Gouernador determinou de a tomar, pera o que quifera fazer o muro ãtre a cidade & a fortaleza, que lhe o gouernador não cõfentio: E diflimulãdo q lhe não daua diflo: como fe o gouernador partio de Diu, fe lhe dobrou a vontade q tinha de tomar a fortaleza, pera que mãdou ao Rao capitão de Diu, que tanto q fe ele par- tiíTe, começalfe de fazer húas eftrebarias no lugar em que quifera fazer o muro & q foífem compridas, & de vinte pés de largura, com as pare¬ des muyto fortes que vieflem ao oliuel do muro da fortaleza & fe lhe per- guntaffem que era aquilo, dilfeífe que erã eftrebarias pera caualos que ali determinaua de ter: & como foflem acabadas as entulhafie fecretaméte & entulhadas que ficaria hú forte muro aífentaria nele a artelharia que lhe parecefle neceflaria pera bater a fortaleza, & que lhe mandafle recad»
  • 444 Hijloria da índia que tornaria logo: E deixãdolhe cinquoenta mil homés de peleja, fe par- tio a cobrar os lugares que lhe tinhão tomados, & ele partido, dahi a poucos dias começou o Rao de fazer as eftrebarias: E fabido por Ma¬ nuel de foufa capitão da fortaleza, logo lhe pareceo o que era, & mais lembrandolhe o muro q elrey quifera fazer naquele lugar, & tãobe lho differão os Portugueíes, confelhandolhe que mãdafTe dizer ao Rao que não fizefTe aquelas eftrebarias, & quando não quifeffe, q lhas derribaffem: E parecendo ifto bé a Manuel de foufa, logo aos quatro dias Dabril fe foy a cafa do Rao, & depois de falar coele fobre não fazer as eftrebarias, & aífentarão que o Rao mandaffe dizer a el rey de Cãbaya, como Ma¬ nuel de foufa lhe ya á mão a fazer as eftrebarias, que lhe mandaffe dizer o que faria, & q entretanto nã fe boliffe nelas: & o Rao nã enfiftia mais em fazer o que lhe mandaua el rey de Cambaya, tendo tanta géte pera o poder fazer, afli por fer amigo de Manuel de foufa, como polo ter de fua parte, pera fe lhe el rey de Cãbaya quifeffe fazer algum mal, & fe ifto não fora fempre infiftira em fazer as eftrebarias, & rompera a guerra, com o q Manuel de foufa teuera grande trabalho por fer entrada din- uerno, & o gouernador nã lhe podia focorrer: E fabendo el rey de C㬠baya por recado do Rao, como Manuel de foufa impedia as eftrebarias & Imaginando que feria por entéder o fim pera que erão, não quis que lhe entédeífem fua determinação, & mudou o propofito q tinha de tomar a fortaleza cõ diflimulações fe nã defcúbertaméte por fua peífoa: & pera q o gouernador não podeífe focorrer á fortaleza, efcreueo a Nizamaluco, a Hidalcã, & a Açadacão, & a el rey de Calicut, q determinaua de tomar a fortaleza de Diu, & defpois deitar os Portuguefes fora da índia pedin- dolhes muyto q o ajudaífem cõ fazeré guerra aos Portuguefes, porq ocu¬ pados coela, não podelfem focorrer hús aos outros, & efta foy a caufa Daçadacã & el rey de Calicut fazerem a guerra q fazião aos Portuguefes, & Nizamaluco & Hidalcão não a fizerão, por não eftarem em tempo pera iífo, & efcreueo tãobem ao Rao q deixaífe de fazer as eftrebarias, porque tinha determinado de tomar a fortaleza por outra maneira, que como foffe defocupado dos negocios é que andaua, que ele acodiria a Diu & tomaria a fortaleza, & afli lhefcreueo o q efcreuia aos reys da índia, & coefte recado não foy feyta mais obra nas eftrebarias, com o que Manuel de foufa ficou defcãçado, poré ficoulhe outra guerra: porq fabendo os mouros, principalméte os foldados, q el rey de Cambaya determinaua de tomar a fortaleza, éfoberbeceranfe muyto cotra os Portuguefes, & que- riãnos tratar como catiuos, dandolhes muytos encõtros fe os achauã na cidade, & cofpindo neles, & dizédolhes palauras injuriofas. O que fabendo Manuel de foufa, por efcufar brigas & fofter a paz, mandou pregoar q
  • Livro VIII, Capitolo CLI 44S fopena de dez pardaos, nhú Português nã fofle fora da fortaleza, mais q até hú tiro de pedra: & fabendo os Portuguefes a caufa do pregão, nã o podião fofrer, & dizião que pera q era ter paz cÕ os mouros pois eles querião guerra, & não deixauão dir á cidade em cõpanhias & muyto a recado: E acertoufe aos quatorze de Iunho, q andando hús Portuguefes na cidade, hú tiro de béfta da fortaleza, quis hum mouro dar húa bofe¬ tada a hum Português, & ele ho matou antes q lha deífe, fobre o que fe armou hú brauo arroido de cutiladas & pedradas, antre muytos mouros & algús Portuguefes, ao q Manuel de foufa acodio & fez recolher os Por¬ tuguefes, que os mouros ouuerão por feu barato de fe apartaré porq leuauã o peor, do q pefou muyto aos Portuguefes q andauão no arroido porq lhe nam deixarão matar os mouros, & deitauão as armas no chão cõ menecoria: E recolhendofe Manuel de foufa, matarão os mouros cinco Portuguefes q andauã negoceãdo na cidade, do q Manuel de foufa ficou tão agaftado, que pos em confelho fe roperia a guerra, & foy determi¬ nado q não, & a principal caufa, por nã terê agoa na fortaleza, fem q não poderião fofrer o cerco, & tãobem por auer tamanha foma de mou¬ ros na cidade, q lhe darião aífaz de fadiga, & por nã poderem fer focor- ridos em menos q dali a tres mefes, por iífo q fe deuia de payrar o me¬ lhor q podefiem, & pedir ao Rao q entregalfe os mouros q matarã os Portuguefes, pera Manuel de foufa fazer juftiça deles, & quando não qui- feffe, q diffimulafle até a vinda do gouernador, a q mandarião recado como vieffe o verão & entã fe vingariã. Ifto aífentado, Manuel de foufa quis fer ho q folfe pedir os mouros ao Rao, & não leuou mais que quo- renta alabardeiros & efpingardeiros q erão da fua guarda, & afli feus criados, fazendo fechar as portas da fortaleza ao alcaide mór antes que fe apartaffe dela, & requerendolhe da parte del rey q não deixalfe fayr dela nhús Portuguefes, & q ficaíTe por capitão fe lhe acÕtecelfe algúa coufa, & cõ ifto fe foy ás cafas do Rao, q eftauã cercadas de be quorenta mil mouros todos armados, & tã foberbos, q punham medo a quê os via, & cõ tudo nã bolirã coníigo vedo Manuel de foufa, & derãolhe lugar que entraífe: Entrado ele, cõ tanta feguridade como q eles forã feus, & falãdo ao Rao queixandofe dos mouros q lhe matarã os Portuguefes, quifera q lhos entregara, & ele fe lhe defculpou q o não podia fazer fem licéça del rey de Cambaya, a quê efcreueria a coufa como fora, & q ele lhe mãdaífe pedir os mouros, & afii fe fez, mas el rey de Cãbaya fe rio bé de lhe Manuel de foufa pedir os mouros, & efcreueolhe q lhos nã auia de dar, porem q mãdaria aos feus Cacizes que os encomendaífem a Mafamede. E quãdo Manuel de foufa vio efta repoíla, teue por certo q el rey lhe auia de fazer guerra ou algúa treyção, & dali por diãte nã repoufaua
  • 446 Hiftoria da índia coefte cuydado, & tinha grade guarda fobre os Portuguefes que nã foffem á cidade, & vigiaua de noyte a fortaleza cõ muyta diligencia. CAPITOLO .CLII. De como el rey de Cambaya tornou a Diu, & do que fe\. PAssandose eílas coufas em Diu, deu el rey de Cambaya fim a fuas guerras, & foyfe a Diu, onde chegou a dez dias Doutubro, & logo em chegando, húa noyte difle hú mouro a Manuel de foufa á porta da fortaleza eftãdo ele fó da banda de dentro cÕ a porta fechada, & o mouro de fora, q fe ao outro dia ho mandaífe chamar el rey de Cam¬ baya q nã foffe porq o queria matar,.& porq nã cuydaífe q lhe dizia iflo por algú intereffe, lhe nã dizia que era, & Manuel de foufa não difle iflo então a ningue, até ver fe era afli, fe não quãdo ao outro dia foy chamado da parte del rey de Cambaya, & ainda q fabia ho q lhe o mouro differa, não deixou dir, porq ouue medo q não indo tomafle el rey achaq pera rõper a guerra, ao que ele defejaua mujho datalhar, & tãobé pareceolhe q não ganhaua el rey nada é o matar, pois coiflo não tomaua a fortaleza, & mais q o auifo q lhe deu o mouro feria falfo: E deitadas be fuas con¬ tas, aflentou em yr, deixãdo o alcayde mór por capitão, a q encommen- dou muyto a guarda daqla fortaleza & defenfão fe neceffaria foffe: E dei¬ xando toda a gente armada & artelharia preftes, foy falar a el rey, não, leuãdo mais q os da fua guarda & feus criados, & el rey o recebeo cõ muyto gafalhado, & lhe mandou dar húa Cabaya rica, & lhe pergútou como eftaua, & ele lhe deu de prefente hú Montante com a maçaã & ca¬ bos dourados, & hús eftribos & efporas do mefmo teor: E Manuel de foufa por fer efta a primeira vez q o via, nã lhe quis logo falar na morte dos Portuguefes, & tornoufe aa fortaleza, moftrãdo el rey q ficaua feu amigo: mas como era muyto incõftante logo fe mudou, & dali a algús dias eftando na quintaã de Meliq, determinando configo de tomar a for¬ taleza o pos em cõfelho, em q foy cõfelhado per todos q o nã fizefle, & fua mãy lhe rogou muyto, dizedo q os Portuguefes não lhe fazião nhú mal, & que fe bolifle coeles lhe ficarião por Imigos, & não lhes auia de tomar a fortaleza, & eles deftruirlheyão a cidade, por iflo q foffe feu amigo, & não lhes fizeffe guerra, & ajudoua muyto Sãtiago em q el rey confiaua, a q difle q não auia de tomar a fortaleza aos Portuguefes tão facilméte como lhe parecia, porque a fora ela ler muyto forte, & arti¬ lhada de boa artelharia, eles erão tam leaeis & tão esforçados, q auiã todos de morrer primeiro q a perdeffem, que fe lha não tomafle por algú
  • Livro VIII, Capitolo C.LII 447 ardil q por força era efcufado, q o ardil auia de fer, fazerfe muyto amigo de Manuel de foufa, & difíimular com o yr ver aa fortaleza, pera que tão- bem defcanfaífe dalgúa fofpeyta fe a teueffe: & vindo o gouernador a Diu, coefta amizade o poderia preder ou matar, & fendo ele morto ou prefo tomaria a fortaleza, porque morto o gouernador, não auião os Por- tuguefes de ter esforço pera fe defenderé, & q daquela maneyra a toma¬ ria a feu faluo, & nifto afTentou el rey: E como era acidental & apetitofo, quis logo yr á fortaleza, onde foy aos treze de Nouêbro ás oyto oras da noyte, não indo coele mais que o Rao & dous outros fenhores mouros, & fem ter mandado recado a Manuel de foufa que auia dir, bateo de fupito a eftas oras q digo: E fabendo Manuel de foufa q ya mandou tocar as trõbetas, & como os Portuguefes andauão cõ atoardas de guerra, em hú momento forão todos armados & póftos no terreyro da fortaleza, & erão perto de nouecentos, a q Manuel de foufa mãdou q fizeffem húa rua perãtreles cõ muytas tochas antrefachadas, cõ cuja claridade as armas refplãdecião q era húa bê fermofa coufa: E nifto abrio Manuel de foufa o poftigo da porta da fortaleza, & entrou el rey, que mãdou q não en- traffem coele mais q o Rao & os outros dous, & que toda a outra gente ficaífe de fora, & logo mãdou fechar o poftigo & ifto por fegurar Manuel de foufa, & ficou efpantado de chegar tão de fupito, & achar os Portu¬ guefes armados tão afinha: E dando a entender que fe agaftaua entre tantos armados, diffe a Manuel de foufa, q fe ele era tamanho amigo del rey de Portugal & dos Portuguefes que pera q fe armauão, ao que lhe relpondeo, q não eftranhaffe aos Portuguefes armarenfe por fua vinda, porque coftumauão de o fazer quando os reys entrauão nas fortalezas del rey de Portugal, com o q el rey defcanfou, & foy ver dentro as cafas de Manuel de foufa: E o Rao fabédo que lhe tinha delcuberta algúa parte do mal q el rey queria aos Portuguefes, quando vio el rey na fortaleza & entrar nas cafas de Manuel de foufa, receandofe q o matalfe dilfelhe, capitão prender & não matar, & Manuel de foufa lhe diífe, q não auia de fazer húa coufa né outra, & depois dizia q o deixara de fazer, porq nã fabia fe o ouuera o gouernador por bé: E vendo el rey as cafas de Ma¬ nuel de foufa gaoulhas muyto, & dizédolhe ele q as cafas, fortaleza, ele, & os Portuguefes, tudo era feu, diffe el rey em Português: Bofe' amigo, a fortaleza he del rey teu fenor, & as cafas fão tuas. E auendo obra de mea ora q eftaua détro fayofe, leuado Manuel de foufa por húa mão, & o Rao por outra ate fayr da fortaleza, & foyfe pera lua cafa cuydando q deixaua Manuel de foufa muyto fora de fofpeyta cõ aquela yda, & ele como conhecia el rey, temiafe dele como dantes.
  • 44& Hiftoria da índia CAPITOLO .CLIII. De como Manuel de foufa efcreueo ao Gouernador o que pajfaua em Diu. PAssados poucos dias que el rey foy à fortaleza, teue noua certa da grãde guerra que el rey de Calicut, & Açadacão, fazião aos Por- tuguefes, & como era incõftante, & tinha mortal odio aos Portu- guefes, efquecido do confelho q tinha tomado, quis tomar por força a for¬ taleza, & fem nhú propofito,. mãdou hum dia de prefente a Manuel de foufa quoréta galinhas muyto magras & fem cabeças & pernas, & ifto afli por zõbar dele, como por final de guerra, & Manuel de foufa as tomou, o que não pareceo bem aos Portuguefes, que logo fouberã que aquilo era fazer el rey efcarneo deles & mais final de guerra, & entã fe arrepédeo Manuel de foufa de não prender el rey quãdo foy á fortaleza, pois fabia fua determinaçã, & efcreueo logo ao gouernador por hú Francifco anrri- quez quanto lhe tinha dito o Rao da determinaçã del rey de Cambaya & o que tinha feito, & como o não prendera quando fora á fortaleza por não faber fua vontade, & q acudilfe a Diu porque efperaua por cerco: Vedo o gouernador efta carta ficou muy agaftado de Manuel de foufa não prender el rey quando o teue na fortaleza pois fabia fua determinaçã: E -em acabando de a ler, efcreueo outra por fua mão a Manuel de foufa, eftranhandolhe não prender el rey, & que o prendefle fe o acolheffe outra vez na fortaleza, porq ele partia logo, & na mefma ora mãdou coefta carta a hú criado feu, chamado Pero de chaues, de que confiaua muyto, que foy em hú catur bem efquipado, leuando a carta cofida em hú gibão, q deu a Manuel de foufa, o qual não pode préder el rey por nã tornar mais á fortaleza: E por nefte tempo o gouernador andar em concerto de pazes cõ Açadacão, mãdou diante a Diu Manuel de macedo cõ algúa gente, mandandolhe que diffeffe a Manuel de foufa q como ele chegalfe a Diu, defparafle toda a artelharia & fizefle grande fefta, dizendo que chegarã quatorze naos de Portugal que leuauão fete mil homés, & afli foy feito, com o q el rey de Cãbaya ouue medo de declarar a guerra: E mu¬ dando então o confelho de tomar a fortaleza, aflentou em prender o go¬ uernador & mandalo chamar, fingindo que queria falar coele coufa que importaua muyto ao feruiço del rey de Portugal, porque coifto yria logo & mandoulhe hú embaixador, que era hú mouro muyto honrrado feu ca- pitã, filho doutro chamado Lucão, grãde fenhor em Cambaya, que tinha hú conto douro de réda: & efte embaixador fabia bem a treyção q orde- naua el rey de Cãbaya, que lhe mandou que foffe por Baçaim & leuafle
  • Livro VUI} Capitolo CLIIII 44$ configo Cojexacoez, q era Tanadar mór del rey de Cambaya naquela terra. CAPITOLO .CLIIII. De como foy defcuberta ao governador a treyção del rey de Cambaya. COm quanto Açadacão eftaua tão forte no pafTo de Bori, & vio der¬ ribada a fortaleza de Rachol, & vio desbaratado do Gonçalo cou- tinho, & mortos duzentos Portuguefes, não defcanfaua porq o go- uernador não queria paz coele, que bem fabia que fem ela não podia cobrar as Tanadarias de Salfete & de Bardes, q era o fim porq fazia efta guerra, & por iífo não deixaua de pedir paz: E ainda depois de ydo Pera de faria, quãdo derribou a fortaleza de Rachol, mandou hú embaixador a pedir paz ao gouernador, prometendolhe fe a fizefTe, cÕ lhe dar as Ta¬ nadarias, de lhe defcubryr húa coufa que lhe importaua muyto fabela, & nifto lhe foy dada a carta de Manuel de foufa, acerca da determinaçam del rey de Cambaya: E vendo o gouernador que lhe era neceflario aco- dir a Diu, & que Goa ficaua em perigo fe ficaíTe de guerra com Açada- cão, determinou de fazer paz coele & darlhe as Tanadarias, & mais por¬ que foube do mefmo embaixador o que efcreuera a Açadacã & aos outros fenhores, acerca de fazere a guerra q lhe faziã por eíla caufa, & moftrou- lhe a própria carta quelrey de Cambaya efcreuera a Açadacão, & que ifto era ho q lhe importaua de faber, porq não fe fiaffe del rey de Cam¬ baya : E ho gouernador porque não pareceffe que coeíte medo fazia as pazes diffimulou, dizendo que nã lhe daua del rey de Cambaya, porq tinha em Diu mu^to boa fortaleza & gête com que a defender, mas por Açadacã fer vezinho de Goa & amigo del rey de Portugal, folgaria de ter paz coele & tornarlhe as Tanadarias, com condiçã, que ele mandafle hú embaixador a el rey de Portugal fobriflo, como dizia dantes, & que fe el rey ouueífe por bem que lhe ficaíTem as Tanadarias que lhe fica- rião, & fe não que as auia de tornar, & affi fé fez a paz: E depois diíto chegou o embaixador del rey de Cãbaya, & coele Xacoez a que o gouer¬ nador mandou fazer bom recebimento & lhes fez muyta honrra, & deu- lhes por cõpanheiro a Coge percolim hú mouro Perfiano (de que faley a tras) que eu conhecy, em que o gouernador confiaua muyto, por auer annos q andaua na índia & fer amigo dos Portuguefes & efprementado- por leal, & mais era muyto prudente, & por iffo lhe encomendou o go¬ uernador que lhe foubefle do embaixador del rey de Cãbaya a determi¬ nação del rey, & tãobé rogou o mefmo a Xacoez que tinha por amigo, & lhe defcobrira que el rey de Cambaya lhe mandara que comprafle To«o IV 9j
  • Hijioria da Índia 4S0 quanto arroz ouuefle em Baçaim & por aqla terra, porq os Portuguefes o nã achafle, & que nifto lhe parecia que el rey queria fazer guerra á fortaleza de Diu, & a ele treyçã, por algúas coufas que lhe o embaixa¬ dor diflera: E concertado ifto com eftes dous mouros, eles tomarão a cargo de o faber, pera que hú dia derão hú banquete ao embaixador, em que entrauão muyto bõs vinhos, com que ficou quéte & ledo, & ficando todos tres fós fobre comer, começará Cogepercolim & Cogexacoez de dizerem mal dos Portuguefes, & brasfemando deles, por os males que fazião aos mouros, & efpantandofe muyto del rey de Cambaya fendo tamanho fenhor, como os não deitaua fora da índia, dandolhe por iífo muyra culpa, & que deuia de tomar o gouemador em hú bãquete que lhe deffe, ou em outro lugar & prendelo, porque prefo facilméte lhe tomaria a armada & a fortaleza, & depois tomaria as outras fortalezas, & deita¬ ria os Portuguefes fora da índia, o que lhe feria mayor honrra, que fer tamanho fenhor como era, & pera fua fama fayr pelo mundo, deuia de mandar o gouernador depois de prefo ao Turco em húa gayola de ferro: E o embaixador com a ledice que tinha, riofe muyto quando ouuyo ifto, dizendo que affi ho tinha el rey de Cambaya determinado: & que como ho gouernador folie em Diu, lhe auia de dar hum banquete & a feus ca¬ pitães na quintaã de Melique, em húa orta que tinha cercada de forte muro onde os auia de préder a todos, ou nas fuas cafas quando os nam podeffe acolher na quintaã. E pera mayor certeza do gouernador, eftaua em outra cafa pegada com ela hú Português, que fabia a lingoa, que ho ouuia & efcreuia, & deu tudo ao gouernador, que deu muytas graças a noffo Senhor por lhe defcobrir aquela trevçam, & bem parece que loy aquilo permiífam diuina, porq a Chriftandade que auià na Índia nam fe perdeíle, ho que ouuera de fer, fe a treyçam del rey de Cambaya ouuera de fer, fe a treyçam del rey de Cambaya ouuera effeyto, & logo ho go¬ uernador determinou cõfigo de prender el rey de Cambaya, fe ho Manuel de foufa não teueífe prefo, & auia de fer, fazer que ya doente do cami¬ nho, pera que quando chegafle a Diu o folie el rey ver á fortaleza onde ho prenderia, & quando nam, prendelo em fua cafa, a primeyra vez que ho folfe ver, leuando cincoenta fidalgos & homés de feyto armados fecre- tamente, que ho auiam dacompanhar: E em ele chegãdo por terra ás cafas del rey com efta companhia, auiam de chegar por mar os nauios de remo, com todo ho refto de fua gente, todos armados fecretamete, tãgedo trombetas & atabales, como que lhe yão fazer fefta, & em ho go¬ uernador chegãdo á primeyra porta das cafas del rey, auiam de matar ho porteyro, & defpois arrombando as outras portas onde el rey eftaua & prendelo, & dar coele nos catures, que auiam deftar pegados com as
  • Livro VIII, Capitolo CL V 45i fuas cafas, por ho mar bater nelas, & dali dar coele na fortaleza, por¬ que a noíTa armada defenderia que não chegalfe a del rey, & os que yão com ho gouernador ho defenderiam dos mouros fe acodilTem por terra, & nam deu logo parte difto a ninguém, por nam fer defcuberto, & logo pos em obra fua partida, que foy na entrada de Ianeyro do anno de mil & quinhentos & trinta & fete, & leuou húa armada de trinta vélas groflas & miúdas, com quinhentos Portuguefes, mandado recado a Marti afofo de foufa que andaua no Malabar, que logo partifle pera Diu, & foífe com muyta prelía, porque era coufa de muyta importância, & Marti afonfo ho íez afli, leuando toda a armada que tinha, & ho gouernador nam efperou por ele, & foy com tam pouca gente com preffa de lhe parecer, que tanto que chegafle a Diu, por yr doente ho yria el rey de Cãbaya logo ver á fortaleza, onde ho prenderia, & fazia conta que com a géte que leuaua, & a que tinha Manuel de foufa fe defenderia dos mouros, & que com a q Marti afonfo leuaffe, abaftaria pera fegurar Diu, quanto mais que como os mouros viflem prefo el rey de Cambaya, não auiam de ter coração pera bolire cõfigo. CAPITOLO .CLV. De como Antonio galuão chegou a Malaca. PArtido Antonio galuão de CochI, feguio fua rota pera Malaca com os nauios de fua conferua, & indo no mais que com a nao que fre¬ tou, de que era capitão Francifco nunez, & na paragem da jlha de çamatrã, lhes deu húa torméta com que fe ouuera de perder, porque eftando furto, foy a outra nao dar por a fua, não a vendo com o grande efcuro, & abalrroou coela, & desfaziãfe húa cõ a outra cÕ o mar que era muito grofTo. E eftãdo neíte grãde perigo, quis noífo Senhor que ceifou a tormenta & apartarãofe as naos, & daquy foy ter a Malaca aos dezovto de Iunho, & eftando aquy adoeceo & quafi morto o mãdou dom Efteuão da gama leuar pera a fortaleza, onde noffo Senor lhe deu faude, & já em Agofto chegou Diogo fardinha, per que Triftão datayde mandaua pedir focorro a dom Efteuão, encampãdolhe a fortaleza fe lho logo não man- dalfe pela via de Borneo, & Diogo fardinha deu tãobem húa carta de Triftão datayde a Antonio galuão, em que ho auifaua do que auia dyr apercebido: & afli lhe derão outra carta que lhe elcreuiã algús homés de Maluco, & antre outras coufas diziã nela: E afli efperamos fenhor por voífa vinda, como os fantos Padres que eftauão no limbo efperauão pola de noflo Senhor, pera nos tirardes de tantos trabalhos como temos, & ate qua chegardes nos parece dez mil ãnos, praza a noflo Senhor que o
  • 4S2 Hijloria da índia traga como defejamos: Dizem que lhe hão lá de cõprar a fortaleza, fe a vender ferá grande deferuiço de Deos & del rey, & rifco deita fortaleza, & de noffas vidas & fazendas, & receamos muyto de a venderdes, por¬ que fe aíll for, dará caufa a fe perder de todo o feruiço de Deos & del rey, a que importa muyto eíta fortaleza & vindo parela fareis a ambos muyto feruiço, & a nos todos muyta merce, & muyto bem a toda a terra, que cÕ grande defejo de fua vinda o eftá efperando. E tãobé lhe foy dada outra carta de Rodrigo rabelo feytor da nao Santifpirito, em que lhe fazia grandes queixumes de Triitão datayde, por lhe não deixar carregar a nao & a deter dous annos. E íabendo Antonio galuão por eftas cartas a grande necelíidade que a fortaleza de Maluco tinha de mantimentos, armas, & géte, requereo ao feytor Belchior botelho que carregaífe a nao del rey de mãtimentos por quão neceffarios erão, & por ele não querer tomar fe nã poucos, foy neceffario a Antonio galuão bufcar dinheiro empreítado, & comprou tantos á fua cuíta que carregou a nao q leuaua fretada, & niffo & em peytar a géte que foffe coele gaitou muyto, porque ouuyndo a gente que ya coele o trabalho que auia em Maluco: E vedo que os que de lá vinhão não querião tornar, nã querião yr cõ Antonio galuão, que fazédo o que digo, lhes ganhou as vontades pera yrem. E porq fabia que toda a faluação da fortaleza de Maluco erã muytos mantimétos, deixou em Malaca hú Antonio foarez, que foffe em hú jungo pela Iaoá & o carre- gaffe hi deles, & pera iffo lhe deu a fua prata laurada q tinha por não ter já dinheiro: E vendo quão neceffaria era fua yda a Maluco, poito q eitaua muyto doéte, & dom Eíteuão & os outros lhe confelheuão q não fe ma- taffe, & que efpaçaffe fua partida pera o laneiro feguinte, não quis fe nã partirfe indo quaíi com a candea na mão, tamanho era feu defejo de fer- uir a Deos & a el rey: & aos dezoyto Dagoito deu á vela, & fe partio de Malaca pela via de Borneo: E fabendo quão perjudicial era ao feruiço del rey, leuarfe a Maluco fazéda de partes, não quis dar licença a nin- gué que a leuaffe, poito que por iffo lhe dauão muyto, né menos deu licença a mercadores pera que foffem coela depois q lá eiteueffe, o que nunca ate então fizera nenhú capitão.
  • Livro VIII, Capitolo CL VI 453 CAPITOLO .CLVI. De como Antonio galuão chegou aa jlha de Ternate. PArtido Antonio galuão de Malaca foy ter ao porto de Borneo có fua conferua, & por el rey & os feus eftaré muyto efcãdalizados dos agrauos q os mouros de Maluco recebião de Triftão datayde & dos Portuguefes, nã foy Antonio galuão ali tãobem agafialhado, como o forão os outros capitães q yão pera Maluco, pelo que não fe quis deter & partiofe logo, & dali foy ter á jlha de Ternate, em cujo porto furgio aos vintacinco dias Doutubro, & como foy vifto da fortaleza, foy grande o aluoroço na gente, & algús deífes principaes o forão logo vifitar, pera lhe dizerem mal de Triftão datayde como diflerão, atrebuyndolhe toda a culpa de lhe os mouros fazerem guerra, & que os Portuguefes eftauão tão efcãdalizados dele que fe dom Efteuão da gama não efteuera por ca¬ pitão de Malaca, eles o mandarão prefo ao Gouernador da índia, mas porque do Efteuão, que era feu fobrinho, eftaua em Malaca onde auia dir ter, o não mandarão, & tantos males dizião de Triftão datayde, que Antonio galuão o não creo, parecendolhe que o dizião por lhe compra¬ zer. E porq fabia que fempre os capitães daquela fortaleza quando entra- uão prendião os outros queftauão nela, determinou de nã fazer affi a Triftão datayde, fe não mandalo com fua hõrra, faluo fe lhe achaífe taes culpas que não podefle al fazer fe nã prendelo, & affi lho mandou dizer, mãdandoho ele vifitar, & pedirlhe q fofle logo tomar pofle daquela forta¬ leza, o q nã quis fazer, & deteuefe algús dias fem fayr em terra, por lhe parecer que vedo a gente o fauor que fazia a Triftão datayde, recõciliaf- íem com ele, ou ao menos nã fe atreuefiem a queixarfelhe muito dele. E vendo os da fortaleza quanto dilataua tomar pofle dela, diziã que era com medo de nam fe atreuer com a carrega que era feu capitão: E por iífo defembarcou hú domingo, & foy recebido com prociffam cantando os clé¬ rigos: Te Deum laudamus, & metido de pofle da fortaleza, foy ho pra¬ zer muyto grande em todos, dizendo que os fora remir do catiueyro em que eftauam, principalmente em leuar tantos mantimétos como leuou: E porque ele fabia a neceffidade que auia deles, & a grande valia que tinham, pos tayxa neles, & pera que teuefle mais vigor, & todos foubef- fem que auia de permanecer, começou logo nos del rey que eftauam na feitoria, mãdãdo que fe deflem trinta gantas daroz, que fam oyto alquei¬ res, por quatrocentos & oytenta rés, a rezão de fefienta o alqueire, va* ledo dantes a cinco cruzados, & a efte preço fe pagafle nele o manti-
  • 454 Hi/loria da Índia mento & foldo que fofle diuido ás partes, a que ainda deuião a algús do tépo Dantonio de brito, & nifto a fora el rey ganhar muyto em fe defen- diuidar, ganhou muyto no emprego defte aroz: E afli mandou que a jarra do çagu fe deífe a duzentos rés, & hum porco tres mil rés, & húa cabra dous cruzados, & hú cabrito tres toftoés, hú leytão hú cruzado, húa ga¬ linha cincoenta rs, & afli todo ho mais muyto barato, pera quam caro eftaua dantes (como difle atras) & afli em todas as outras coufas. E pera fe melhor executarem as penas defta taixa, fez hú juyz ordinário, & dous almotaceis, que ate entam nam ouuera, & deulhes os cinco liuros das or¬ denações, que leuou pera iflo da Índia, que forão os primeyros que fe virão naquela terra: & afli leuou pera o eclefiaftico, as Coftituyções que o Cardeal do Afonfo de gloriofa memória fez. E védo a gente quam amigo Antonio galuã era do bem comú, & quão zelofo da juftiça, de cada vez lhe querião mayor bé, & dauam mais graças a Deos por lhes dar tal ca¬ pitão. E depois de ter ordenado o que pertencia a bÕ regiméto da terra, entendeo em repayrar as coufas neceffarias pera defenfam da fortaleza, efpecialmente na artelharia que achou muyto daneficada, a grofla fem re- payros, & a miuda fem rabos nem piães, & ainda dizião que falecia a melhor, que Triftam datayde dera aos jungos dos mercadores pera fegu- rãça do crauo que lhe leuauam, nem auia ferreyro pera que a concer- tafle, porque hú que auia, deralhe Triftão datayde licéça pera Malacana moução paliada, nem auia poluora, nem caruão pera fe fazer: & Antonio galuã fez tanta diligencia, que achou hú ferreyro que andaua encuberto, a que deu tanto de fua fazenda, que quis vfar do officio, que importaua tanto q fem ele não fe podia concertar a artelharia, que logo foy concer¬ tada, & repayrada de todo o neceffario: E feyta poluora, & Antonio gal- uão com os fidalgos & pefloas principaes yão ao mato a cortar madeyra, pera os repayros das bombardas, & lenha pera fe fazer caruão, & a tra¬ ziam ás coftas com immenfo trabalho, o que não fe poderá fazer fe An¬ tonio galuão não leuara a ferramenta que difle que leuou da índia pera efte mefter. CAPITOLO .CLVII. De como Antonio galuão fe apercebeo pera yr pelejar com os mouros a Tidore. TAm foberbos eftauã os reys de Maluco, com as vitorias paliadas, que ainda q fouberão a vinda Dantonio galuão, & a boa gente que leuara, não defiftirão da guerra q faziam á fortaleza, & mãdauã fuas armadas q lhe fofle correr, & afli o fazião, dandolhe os mouros mil
  • Livro VIU., Capitolo CLVII 455 rebate de dia & de noyte, com q Antonio galuão focedeo no grade tra¬ balho q Triftão datayde tinha dates, tendo cõtinuamete as armas vertidas, cõ quantos auia na fortaleza, acodindo aos faltos dos Imigos, muytas ve¬ zes eftãdo comédo & dormindo, & fem terem nenhú repoufo. E parecendo a Antonio galuã, q por fer nouo na terra, quereria os reys paz coele, & porque fabiáo que fe auia dir Triftão datayde, mandoulha pedir por Gon- çalo vaz çarnache capitão mór do mar, que foy em húa carauela a Ti- dore, onde os reys eftauam juntos: que ouuindo a embayxada Dantonio galuam fobre a paz, fe defculparam da guerra que faziam, com os males & offenfas que lhes Triftam datayde tinha feyto, & que aueriam fobriflò feu confelho, & entre tanto aflentaram tregoas por certos dias, pera que coefta cór teueflem tempo de tomarem lingoa da fortaleza, & faberé a determinação Dãtonio galuão, quando o não podeffé faber pelo çamarao: E cõ a confiança defta tregoa, de que Antonio galuão foy cõtente, come¬ çarão os da fortaleza de fayr pola jlha a bufcar lenha, mas defmãdados que dãtes, principalmente os efcrauos, de que os Imigos que eftauam em cilada pera ifio, tomarão logo tres, & forãofe coeles tam afinha, que quando Antonio galuão acodio ja os não achou. E vendo ele quam mal lhe os reys guardauam a tregoa, mandoulho eftranhar muyto, dizendo que pois afíi era, que não lhe pofeflem culpa fe lhes fizefle guerra, q lhe auia de fazer defcuberta & não cõ treyções: ao que refponderão, que fizefle ho que quifefle que preftes eftauão: O que ouuido por Antonio galuão, determinou de yr fobre Tidore & dar batalha aos reys, porto que fabia o demafiado numero de gente que tinhão, & quão esforçada era, & que o gouernador da índia, com todo feu poder faria muyto em a desba¬ ratar, & que era perigo grandiflimo auenturarfe em húa batalha: & po¬ rem lembraualhe, que pera efperar por mais gente, que a nam podia auer fe nam da índia, & em dous annos, fe no caminho lhe nam aconte- ceífe algú defaflre, & que pera a gente que tinha não auia mantimentos, pera a terça parte defte tempo, nem os podia auer de nenhúa parte, & fem eles era impofliuel fofterfe, por iflo que era melhor auenturarfe em húa batalha, com a efperança em noflo Senhor, que morrerem com fome poucos & poucos. E ifto determinado, praticouho em confelho, & os mais foram de parecer, que nam fe deuia de pelejar com tamanho poder de gente como tinham aqueles Reys, fendo os Portuguefes tam poucos, que fe deuia de meter na fortaleza & guardala, & mandar pedir gente ao go¬ uernador da índia: & Antonio de galuão foy de parecer que pelejafle, dando as rezões que difle, & algús foram defte parecer, & nefte fe aííen- tou. E como tudo eftaua preftes pera a partida, partiofe Antonio galuão pera Talangame, onde eftauam quatro vélas, cm que auia dir, afora algús
  • Hifioria da índia 4™ paraós de feruiço, & em duas, q eram duas naos, yr ele & Gonçalo vaz çarnache, & em hum nauio Francifco de 1'oufa alcoforado, & em hum ca- laluz el rey Cachil aeyro, & ho çamarao com cincoenta mouros, & nas outras velas cento & fetenta Portuguefes, & na fortaleza deyxou por ca¬ pitam Triftam datayde, porque nam podia ficar outra peffoa mais perten¬ cente pera ifTo, afli por fer tam esforçado, como por fer tio de dom Efte- uam da gama que eftaua em Malaca, que ho focorreria logo fe folTe cafo que Antonia galuão morre fie na batalha, & também folgou de ho deyxar, pera que tiraíTe eftormentos de feus feruiços á fua vontade, & cobrafTe a perda que tinha recebida cõ a guerra, & deyxou coele feus criados & amigos. E eftando Antonio galuã em Talãgame pera partir, favrãlhe de húa cilada dous mil mouros, com q ouue húa efcaramuça defpingardadas, de q né hfis né outros ficarão feridos, & em fe os mouros embarcando, foy tomado hú, a q Antonio galuão pregútou polo que os reys determi- nauão, prometendolhe merces fe difTeíTe a verdade, & tormentos fe dif- feffe mentira, a que o mouro refpondeo muyto feguro. Sabe capitão, que fe aos reys que eu firuo, & á fua gente, fe feguifie algú dãno polo que eu diífeíTe, não aueria torméto que mo fizeffe dizer, q afli como eu tiue oufadia pera ficar na trafeyra, pera defender os outros que fe embarca- uão, aíG terei esforço pera fofrer a pena com que falue tãtas vidas: mas como foy certo, q os reys & a géte que eftão em Tidore, não perde nada no q te differ, direy verdadeyramente o que me preguntares, então lhe diffe, que os quatro reys de Maluco, & outros quatro dos Papuas, efta- uam todos em Tidore, com tanta gente, que não fe podia contar, & era fua determinação de ho tomarem viuo com todos os Portuguefes, pera aos que eftauão dantes com Triftão datayde & a ele matarem com gra- ues tormentos, & a Antonio galuão & aos outros os refgatarem, & que a cidade de Tidore eftaua fortiflima com muros & baluartes, & muytos eftrepes, que por nehúa parte podia fer entrada, com húa fortaleza fobre húa rocha talhada, pera onde fobiam por hum caminho tam ingreme & eftreyto, que ás pedradas fe defenderia a fobida a todo mundo, & pera a encaualgarem por terra auiam de fobir mais de húa legoa, por cami¬ nho muyto fragofo & çarrado daruoredo, & todauia o mouro lhe prome- teo de ho leuar lá, porque quanto mais cedo ho leuafle, tanto mais afinha feria liure, & ele feu catiuo: & Antonio galuão eftaua efpantado de ver a oufadia defte mouro, & tudo lhe fofria, porque ho guardaua pera guia, fe lhe foffe neceífario.
  • Livro VIII, Capitolo CLVIII 45 7 CAPITOLO .CLVIII. De como Antonio galuão dejlruyo de todo a cidade de Tidore. AO outro dia em que Antonio galuão determinaua de partir, em rõ- pendo a alua, apareceo ao mar húa armada dos mouros, de paf- fante de trezentas vélas de remo, em que yão mais de trinta mil 'homes de peleja com os remeiros, que também fe contam por homes darmas, & he coftume da terra, os filhos dos reys, dos Sangajes, & dos Mandarls andarem ao remo em quanto fam mãcebos, & prezãofe diffo* porque dali vê a ferem caualeyros. E os mouros que fouberã que Anto¬ nio galuão eftaua de partida, forãolhe dar moftra de fua armada pera o efpãtaré, & cõ tudo cõ medo da fua artelharia, não oufarão de chegar a tiro de bombarda dele: E vedo ele q tudo aquilo era rebolaria não dei¬ xou de partir, deixãdo em guarda de Talãgame Fernã anrriquez, em cer¬ tos jungos que hi ficauão, & em ele partindo, partio também a armada dos mouros indo fempre alamar: & chegado a Tidore que começou de coftear a jlha, forão as prayas cubertas de gete que o fayão a ver, & daua grãdes gritas. E em começando de defcobrir a cidade, começou a arte¬ lharia de jugar dela, mas como paffauã os pelouros por alto nam lhe faziam dãno, & Antonio galuão mãdou q não tiraffem á cidade, cõ deter¬ minação de ver primeiro fe podia fazer paz por bé, & quãdo não q então faria a guerra, & foy furgir cõ fua armada diante dúa mezquita, & dali mãdou logo hú recado aos reys fobre paz, mas o meffageyro nã foy ou- uydo, ne o deixarã chegar á cidade, cõ muitas efpingardadas que lhe tira¬ rão de q o ferirão, & coifto derão muytas apupadas, como que zombauão da yda Dãtonio galuão, chamando nomes injuriofos aos Portuguefes, q tudo ouuião por eftaré perto de terra, & nifto gaitarão o q era por paliar do dia, & quafi toda a noyte. E em aparecendo algúa cãdea na noffa ar¬ mada, tirauãlhe logo cõ a artelharia, pelo q fe paliou dali pera baixo da cidade, alfi por fe tirar daquele perigo, como por ter tépo pera praticar como daria na cidade, & ali lhe deu húa toruoada com q fe ouuera de perder, & por iíTo determinou de furgir ao pé da rocha onde eftaua a. fortaleza da cidade, porq ali lhe pareceo q a poderia melhor esbõbardear, & eftar mais emparado da fua artelharia. E querendo faber fe era como lhe parecia, mãdou Gõçalo vaz çarnache q o folie ver, & fondaffe ao pé da rocha, do q fe ele efcufou, dizédo q o matarião os tiros q lhe tiraffem de terra q yria de noyte. E vedo Antonio galuão q o nã queria fazer* foy fazelo, o q fez cõ muyto grãde perigo, & depois foy ali furgir cõ a Tomo IV 58
  • 458 Hijloria da índia armada, em que logo fez cofelho fobre fayr em terra, & hús dizião, q a cidade fe deuia defcalar por qualquer parte q podefle, outros q polo mais forte, porq ali auia dauer menos gête pera a defender, outros q deuiã de tomar a fortaleza, q ainda q fofTe coufa muy trabalhofa de fazer, era de muyto menos perigo, porq nã tinha artelharia nê gête q a defendeffe, porq auiao os mouros por impofliuel poderfe tomar: & tomada, darião dali tanta guerra á cidade, que ou fe os mouros yrião dela, ou farião paz, quanto mais q auião muyto de defmayar com a fortaleza tomada, & ainda q tomaffe primeyro a cidade, eftaua certo acolheremfe os mouros á for¬ taleza, como fizerão outras vezes, & ali feria impofliuel fazerlhe dãno, & defte parecer foy Antonio galuão, & ali fe aflentou que pera efte feyto leuaffe cento & vinte Portuguefes efcolhidos, & os cincoenta ficaflem na armada, afli pera a defenderem fe a dos Imigos a cometelfe, como pera que em amanhecendo apareceflem nos nauios todos armados, & tangédo fuas trombetas & atãbores, q cuydaffem os Imigos que querião delem- barcar, & acodiflem a tolherlhes a defembarcação, & Antonio galuão com os outros podeflem mais facilmente tomar a fortaleza. E encomendãdofe a noiTo Senhor, que os liuraffe de tamanho perigo como aquele a que fe punhao, por exalçamento de fua fanóta fee. Rendido ho quarto da mo¬ dorra, que era o tempo em que os Imigos eflauã mais affoffegados, de- fembarcou Antonio galuã cõ os cêto & vinte Portuguefes, q todos leuauã efpingardas & laças, & leuauãolhas feus efcrauos, q cõ os fenhores faziam numero de trezêtos. E tornados os bateis pera a frota, abalou Antonio galuão pera a fortaleza, per hú caminho q eftaua afaftado da cidade, pera cima da rocha q difle, pelo que não foy fentido dos Imigos, & leuaua a gete feyta em corpo, & na dianteyra yã Gõçalo vaz çarnache, Diogo lopez dazeuedo, Iorge de brito, Antonio de teyue, dó Fernãdo de mõrroy, Iorge datayde, & outros fidalgos cujos nomes nã foube, & afli hú Antonio car¬ neiro q leuaua o mouro, q difle q os guiaua, & no meo ya Antonio gal¬ uão cõ a bandeira: & a trafeyra por fer lugar de mais importãcia, foy encomêdada a Frãcifco de foufa, cõ quem yão Ioão freyre & outros: E como o caminho era muy fragofo, & Antonio galuão ya de vagar, por os feus não canfarc, chegou a mea legoa da fortaleza ás oyto oras do dia (q era do apoftolo Sã Thome:) E como fe ya chegãdo á cidade, foy fintido das atalayas dos Imigos, q lhes logo derão auifo, dizêdo quã poucos erã os Portuguefes: E aluoroçados os reys coefta noua, derão logo rebate á fua gête, de q fe ajútarão cincoêta mil homês de peleja, & fayndo cõ os reys, tirarão a grãde preffa pera onde ya Antonio galuão, q ouuindo ho arroydo da gête q era grãde, por nã fe embaraçar coele, antes de chegar á fortaleza, deixou o caminho q leuaua, & meteofe pelo mato, q como
  • Livro VIII, Capitolo CL VIII 459 era muy efpeflo ho encobrio dos Imigos, q o perderá de vifta: E cuydãdo q fogia, começa de dar grades apupadas cõ prazer, & era medonha coufa douuir os ecos q fazião por aqles vales, q ifto fó abaftaua pera fazer def- mayar Antonio galuã & os feus, q cõ a efperãça em noffo Senhor ya todos muy esforçados. EI rey Cachil dayalo q leuaua a diãteira dos im- migos, & a quê era encomédado q fofTe o primeyro q deffe nos Portu- guefes, trabalhou por lhes atalhar antes q chegaffé á fortaleza, & fayndo cõ fua géte a hú efcapado q fe fazia antreles & a fortaleza, foy ali ter Antonio galuão por acerto, & el rey quifera auer fala dele pera o deter, q chegaffé entretanto os outros reys cõ o refto da géte & o tomafle ás mãos cõ os outros, q nã fe cõtétauã de os matare pelejado: porém An¬ tonio galuão nã curãdo de pratica, & fazédo tocar as trõbetas, remete c5 os feus aos mouros, chamando por Sãtiago, & defparãdo fua efplgarda- ria, & outros ás lãçadas & cutiladas, de q logo foy ferido el rey Dayalo q andaua na diãteira, veílido em húa faya de malha & hú capacete na cabeça, pelejando cõ húa efpada dambas as mãos, & cahio das feridas q lhe derã, & como era muyto esforçado, leuãtoufe logo, dizendo q nã era nada, pofto q lhe fahia muyto fangue. E nefte tépo deu hú mouro a hú Pero pinheyro, cõ húa efpada hú golpe de tãta força fobre o capacete, q o derribou atordoado, & mataraho, fe lhe não acodira Iorge de brito, q o derribou cõ húa lançada, & logo foy morto, & Pero pinheyro leuantado, & niílo era a batalha muy trauada, & ferida muy afperaméte, trabalhãdo os mouros por cercaré os Portuguefes, & fumirénos a todos, ho q fem duuida ouuera de fer fe a batalha mais durara, mas quis noffo Senhor por fua mia, atalharlhe com cayr el rey Dayalo defmayado, do muito fan¬ gue q fe lhe foi das feridas q erã mortaes, & em caindo, bradou, dizédo que ho tiraffem da batalha, porque os cães de feus Imigos, nã fe alegraf- íem com a fua cabeça. E tanto q os feus ho viram affi leuar, defmaya- ram de maneyra, q não poderã mais pelejar, & fogiram a qué mais podia deyxando as armas, por yrem mais defpejados, & eftes deram na outra gente q os reys leuauam pera os ajudaré, & como deram neles dencon- tro fizerãnos fogir, & hús yão pera a fortaleza, & outros por effes matos. Antonio galuão dando muytas graças a Deos por tão milagrofa vitoria, foy feguindo os q yam pera a fortaleza, matando & ferindo neles, & en¬ trou nela com todos os feus déuolta cõ algús mouros, que vazaram logo fora & lha deixaram, & ele lhe mandou dar fogo, & como as cafas eram de madeyra & de canas & cubertas dola, começa o fogo dacenderfe tam brauaméte, q era efpanto ouuir ho arroydo que fazia. E vendo os reys que nam auia ali remedio, acodirão á cidade, onde ho medo foy muyto grãde nos que nela ficarão, quando virã entrar elrey Dayalo quafi morto,
  • 460 Hijloria da índia & começaram logo de fogir dela, cÕ molheres, filhos & fazendas, & mais quãdo viram os reys q fogiam, & ouuião ho arroydo do fogo q quey- maua a fortaleza. E vedo os reys tamanho deftroço, começa de fe poer em faluo por efles matos, & el rey de Tidore acodio a fuas molheres & tefouro, cõ quatro mil homes que ho ajudauão, & deram cõ tudo em hú profundo vale, & vedo os Portuguefes & Arábios marinheiros q eítauã na nofla frota ho deftroço dos mouros, em q pes a hú Francifco nunez, & a hú Fernão levtão, q Antonio galuão deixou nas naos por capitães, tomado nos bateis algús berços & falcões, forãfe á cidade, & nã achado defenfa nos mouros, meterãfe a roubar fem nehúa ordem, o q foy caufa de os mouros daré neles & matará & ferira algús Arábios, & afli ouue- rão de fazer aos Portuguefes, fe nefta cõjunção nã entrara Antonio gal¬ uão cõ os feus, q vendo q eftauã todos viuos & fãos, tãto q o fogo foy bé ateado na fortaleza deceo á cidade, & em entrãdo cõ grande grita & arroydo de trõbetas, defempararã os mouros tudo & acolhéfe. E por fe os Portuguefes nã embaraçar? cõ ho roubo, mãdou Antonio galuã poer fogo á cidade, q foy toda queymada, afora os muros, é q ardeo muyta riqueza, porq como os mouros eftauã muy cofiados em os não tomare, tinhã todas fuas fazédas fem tiraré nhúa coufa, & forã mortos muytos mouros, & feridos fem coto, & catiuos infindos homés & molheres, & tomada muyta artelharia, & nauios de remo, & hú júgo: & dos Portu¬ guefes nã foy morto nhú, faluo hú efcrauo. E parece q quis noífo Senhor fazer efte milagre, pera cõfufã dos mouros & qbrarlhes fua foberba. CAPITOLO .CLIX. De como os Reys de Geilolo & de Bachão, & os outros fe foram pera fuas terras. AUida efta tã milagrofa vitoria, mãdou Antonio galuã derribar os muros & baluartes da cerca da cidade, q em algús dias forã der¬ ribados, q tudo ficou tã rafo como fe núca ali efteuera cidade, & afli foi atupida a caua, & ifto com íméfo trabalho Dãtonio galuão & dos feus, que de dia eftauã em terra, & de noyte dormiam na armada. E como os Reys eftauam juntos, & tinham ainda junta a gente que efcapou da batalha, determinaram de ho tomarem no mar com fua armada, quando fofle das naos pera a cidade, por fer a diftancia hú pouco com¬ prida, do q Antonio galuão foy auifado por fuas efpias, & aquela noyte mandou poer em cilada ao longo da terra debayxo do aruoredo algúa gente nos nauios de remo que tomou, pera q fayndolhe os Imigos, lhes
  • Livro VIII, Capitolo CLX 461 ficafíem os feus detrás & ele diante, & pera os prouocar a fayrenlhe, embarcoufe pola menhaã com grade arroydo de trõbetas, & como os mouros eftauão preíles na armada, fayrão logo a ele indo cofidos com terra, pera lhe tomarem a diãteira antes q chegalTe, & indo afíi, foram dar de fupito com a cilada, que lhe Antonio galuão tinha pofta, de que lhe logo começarão de tirar com a artelharia & chegarfe a eles, & affer- rarã húa coracora del rey de Bachão, q ya diante carregada de géte, q nam oufando de pelejar fe deitou ao mar, & a coracora foy tomada: E vedo os outros ifto, forãfe retirando, & defendédo de maneyra, q nam receberá mais nojo & forãofe, do q os reys ficarão muy enuergonhados, vedo quã pouco lhes fundira feu ardil, & por ifio acordará de daré em Antonio galuão por terra & per mar, & eftãdo juntos pera iffo, foy An¬ tonio galuão auifado, & foy logo fobreles por terra, & partio de dia por lugares encubertos, pera os tomar de fobrefalto, & afíi ouuera de fer, fe os da companhia de Frãcifco de foufa, que ya na dianteyra, nam tirarã certas efpingardadas yndo perto dos ímigos, q os fintirã, & como eítauã cortados do medo, & os tomalfem de fobrefalto acolheramfe logo, & toda- uia Antonio galuam alcançou os da trafeyra, de que matou & ferio & catiuou algús, & antre os mortos foy hum primo del rey de Geilolo muyto valente caualeyro, de que os immigos receberam grande perda, & fize¬ ram por ele grandes prantos, & defpois difto, foy Antonio galuam fobre hum lugar que eftaua hi perto, que achou defpouoado cõ medo & quey- mouho, & era ja o medo tamanho nos mouros, que nam oufauam dapa- recer, o que vifto polos reys de Bachão, & de Geilolo, & dos Papuas, & q era efcufado tentar mais a fortuna contra Antonio galuam, determina¬ ram de fe tornarem pera fuas terras, & deyxaré a guerra pera outro tempo, & adi ho dilferam a el rey de Tidore, dandolhe pera ifio algúas rezões, & as principaes forão, que Deos pelejaua por Antonio galuão, ou Mafamede deftar yrofo cõtreles, cõfentia que foliem afli vencidos por tam poucos Portuguefes, tendo eles tanta géte que nam tinha conto, infirindo dali, que nam era bem que pelejalíem mais & com ifto fe partiram, ficando el Rey de Tidore muyto trifte de ho deixarem daquela maneyra. E vendo os Portuguefes defaparecer os immigos, cuydauam que yão fobre a nofla fortaleza, & fizerã grandes requerimétos q lhe acodifie, & ele nã quis, dizédo q qué nã defendia fua terra, que não auia dir tomar a alhea.
  • Hijloria da Índia 462 CAPITOLO .CLXI. De como Antonio galuão fe\ pa\ com el rey de Tidore. DEterminando Antonio galuão de nam fe yr dali, fem fazer paz com el rey de Tidore, ou quando nã quifefle yr fobrele & matalo, efcre- ueolhe húa carta, em que dizia, como fem ho ele nunca ter ano¬ jado, em chegando àquela terra lhe yão cada dia correr fuas armadas, & mandandolhe cometer paz, nunca vira fua repofta, & de fe ver injuriado, acodira por fua honrra, & mais por iífo, q por defejar a guerra lha fizera, & aos outros reys, com quem defejaua de ter paz, & pois eram ydos, & ele tinha experiencia de quanto mal fazia a guerra, lhe pedia muyto que fizefle com ele paz, & que apertaua tanto com ele, que a quifelfe pola muito boa fama que tinha dele. Recebida del rey efta carta, mandouhâ ler em confelho, em que foy praticado que Antonio galuão, como homé que defejaua paz & conferuação da terra, fempre defendera aos feus que a nam deftruyflem, nem cortaflem palmeiras, nem nenhúas aruores, & atee a fua mezquita (coufa tã auorrecida dos Portuguefes,) deixara fem tocar nela, & quem ifto fazia, & nam fe enfoberbecia com a vitoria, de- uia de fer bÕ homé, pelo que deuiã de fazer tregoa com ele, com condi¬ ção que fe foffe logo do feu porto, & lhe não fizeffe mais guerra, & def- pois de vagar fariam paz com ele, porque não a auiam de fazer em quanto Triftão datayde efteuefle em Àlaluco, & a (Ti lho mandou el rey dizer, do que Antonio galuão não foy contente, por lhe parecer coufa muyto defapegada, & affi ho mãdou dizer a el rey, & que nã auia de fazer nada fobre a paz, fem fe ver com ele, & logo lhe os Portuguefes diflerão que aquilo feria impofliuel, por fer antigo coítume dos reys de Maluco, nam verem ho roíto a qué os vencia, fe nam dahi a feys mefes, & por efta caufa el rey fe efcufou de fe ver com ele, & mandou em feu nome a Cachil rade feu jrmão, & a fegunda peffoa do reyno. E por An¬ tonio galuão ter dele boa informaçam, antes de falar com ele a bem de feyto, lhe cometeo que quifeífe fer rey daquele reyno & q lho daria, por feu jrmão ho ter perdido, por fe ter leuantado contra a fortaleza, & lhe ter feyta tam crua guerra, & não querer ainda paz offerecendolha ele, & Antonio galuão fazia ifto, por lhe parecer que com efte beneficio teria Cachil rade da fua parte, & ho ajudaria cõtra os outros reys, & ele nam quis, dizendo que nunca Deos quifefle que fofle tredoro a feu jrmão. E por ele não querer aceitar ho reyno, né querer prometer a Antonio gal¬ uão, que faria com el rey que fe viffe com ele, ficou Antonio galuão tão
  • Livro VIII, Capitolo CLXI 463 agaftado, que nam quis fazer nada com ele, & Cachil rade fe foy, ficando de guerra como dantes: Porem el rey mudou feu coftume, & viofe com Antonio galuão, leuãdo configo Cachil rade & feus jrmãos, & muytos Mandarls, & adernarão paz, com condição que el rey defie toda a arte- lharia q tinha, & todas as armas Portuguefas, & adi dede pera el rey de Portugal ho crauo que ouuede em fua terra, pelo preço da feytoria, & que nã ajudade nhú rey contra os Portuguefes: E neda vida deu Antonio galuão prefentes a el rey & a Cachil rade & feus yrmãos, & aos Manda¬ rls, & dali por diante em algús dias que fe Antonio galuão deteue ho forão ver el rey & eles, & comião & bebião como que auia muyto tempo q fe conuerfauão, & el rey & todos edauã muy contentes da condição Dantonio galuão, & folgauã muyto com fua amizade, & Cachil rade o auifou que fe nã fode dali ate efia amizade não ficar bê firme, porque el rey feu yrmão era muy perfeguido dos reys de Bachão & Geylolo, & temia que tãto que dali fode partido lhe tornade a fazer guerra, em vin¬ gança da morte del rey Cachil dayalo, que fora morto a ferro, que todos edauã obrigados per juramento de a vingaré, & adi lho pregauão feus Cacizes: pelo que Antonio galuão fe deteue mais algús dias do q fe ou- uera de deter, & nede tempo lhe prometeo de tornar a fazer a cidade onde edaua, & a começou antes de fua partida. CAPITOLO .CLXI. De como fe os Portuguefes amotinarão pera fazerem crauo. VEnho Antonio galuão que el rey de Tidore edaua firme em fua ami¬ zade, determinou de yr fobre el rey de Geilolo, pera fe por bem não quifede fazer paz, lhe fazer guerra ate que a fizede. E partido lhe deu hú tão brauo temporal que arribou a Talangame, & como os Portuguefes fe ali virão, porque era já a moução de Malaca & defejauão de fe yrem & fazerem crauo, não quiferão tornar com Antonio galuão á guerra, & amotinarãofelhe de maneira, que lhe foy forçado defembar- carfe & yrfe á fortaleza, onde logo mandou adubar a nao de que era ca¬ pitão Francifco de foufa & a outra em que ele fora. E porq Tridão da- tayde fe auia dyr naquela mouçã mãdou tirar deuada dele, como era cof¬ tume tirarfe dos capitães quãdo acabauã: E fabendo Tridão datayde que os mais o acufauã, pedia a Antonio galuão que ouuede piedade dele, & ele lhe prometeo de fazer todo o fauor que podede, cÕ tanto que não fode contra fua conciencia, por ido que defcanfalfe: E fabendo que hú Ioão freyre edaua mal coele fez que fode feu amigo, & adi outras ami-
  • 464 Hijloria da índia 2ades, apacificandoho com os mais que lhe querião mal, ate pacificar hús pefcadores que fe lhe queixauão dú comprador de Triftão datayde, cha¬ mado Pratas dalcunha, porque lhes tomara o pefcado & os efcalaurara, & mãdou dizer a Triftão datayde que caftigafle o Pratas, & tãtas coufas fazia por ele, q muytos dizião, que pois o não caftigaua polas culpas que tinha, & mandaua prefo á índia, algú viria q o prendefle & caftigafle fem culpa. E com tudo mandou q fe tirafle deuafla de Triftão datayde, do que fe ele logo efcandalizou Dantonio galuão, & começou de lhatimonar a géte em fegredo, & Antonio galuão nã fabendo diflo nada, entendia em auer crauo com que carregafle pera el rev a nao de Francifco de foufa & a outra, & mandou pregoar que fob graues penas que nhúa pefloa védefle crauo fe não na feitoria, ou a quem o feytor deputafle pera o comprar, & ao tabalião pubrico q fob a mefma pena não fizefle conhecimento nem efcritura de compra nem veda de crauo a nhúa pefloa, & ao Ouuidor q nhúas partes ouuifle fobre crauo. E fabendo que nas jlhas de Moutel & de Maquiem eftauão certos jungos de mouros tomando crauo, mãdou logo lá Gonçalo vaz çarnache com húa armada pera os deitar fora, & foram cõ ele Cachil rade & o çamarao, & os deitaram fora, & com todas eftas diligencias que Antonio galuão fazia, nam podia auer crauo, ne os Por- tuguefes deixauam de o comprar, o que faziam de noyte depois que le fechaua a fortaleza, & carregauãno em hú jungo dú Dinis de payua. E fabendo Antonio galuão como comprauam de noyte, mãdou vigiar a praya de noyte pelo meyrinho da fortaleza, mandandolhe q o tomafle, & que¬ rendo ele fazelo, foy efpancado, & nifto foy Antonio galuã auifado pelo vigayro da fortaleza, & por outro clérigo, que o querião matar por amor da defefa do crauo, & cada hú lhe deu feu alfinado do que lhe dizia. E vendo ele o efcãdalo dos Portuguefes, prouou de ver fe os podia aman- far com boas palauras, & fazendoos todos ajuntar á porta da fortaleza, lhes difle. Nam me enganareis fenhores, que todos os homes que 1'e tem em conta domes, tem por coufa muy abominauel a ingratidão, & por grande baixeza, & fe prezão muvto dagardecidos, & té por nobreza vfar dagardeciméto, & de quem recebem algú beneficio, defejã de lhe fazer outros, he certo que fe perguntar a cada hú de vos, que dira q aíli he, pois fe afli he porque fazeis o contrayro com el Rey noflo fenhor, que faz a todos tãtas merces de contino, dandovos terra em que moreis, dã- dovos leys em q viuaes, defédendovos de voffos ímigos, dandovos ma¬ neira pera terdes de que vos mãter, & outras muytas merces que fam largas de contar: pois de quem receberíeis tantos benefícios, que fe lhe fofle neceflario ajudardeslhe a fuftentar fua fazéda que o nam fizefleis, o que nam fazeis a el Rey, mas antes lha deftruys, porque nam tendo ele
  • Livro VIII, Capitolo CLXII 465 nefta terra outra coufa, com que fuítétar dez ou doze mil cruzados que gaita cadanno, nos foldos & mantimentos deita fortaleza, fe nam o crauo, que ha tanto tempo que aflentou com os reys que lhe deflem a mil reis o bár, vos lho tedes leuãtado a vinte mil, que nam vai tanto na índia, com que fazeis que nam fe acha pera fe lhe comprar, & lhe fazeis per¬ der o cabedal de q tem neceflidade, pera foíter os grandes gaftos deita fortaleza: pelo que vos requeyro da fua parte, que não compreis crauo, & lhe deixeis comprar, & o queirais antes comprar do feu feitor, que volo ha de dar mais barato q os mouros, porque aífi o ha ele por bem em hú regimeto que aqui eitá Dafonfo mexia, fendo veedor da fazenda da índia, & pera que faybais que nam he iíto ardil pera o auer pera ml eu volo jurarey, & logo jurou folénemete em hú miffal de nã cõprar crauo pera fy por nhúa pelfoa, fe nam todo pera el Rey, ate fuas naos ferem carregadas, & rogou a feus amigos, & mandou a feus criados que aíli o fizeffem, & certo crauo que lhe deram por amizade el rey de Ternate & o çamarao, & el rey de Tidore, & Cachil rade, nam que lhe entraffe em cafa, & mandouho leuar á feytoria. CAPITOLO .CLXII. Do mais que pajfou Ântonio galuão cõ os Portuguefes fobre o crauo. NEnhuma deitas diligecias aproueytauam, pera fe auer crauo pera el Rey & de dous mil Báres dele, que Antonio galuão fabia que erão feytos, depois de chegar a Maluco, não fe ouuerã pera el Rey mais de ceto, & iíto porq o comprauão a mil reis, & as partes dauã por ele vinte mil, & mais não o querião carregar nas naos del rey, fe não em hú jungo dú Dinis de payua, em que Triítão datayde tinha parte. E receãdo Antonio galuão que fe foifem fem fua licéça, & lhe leuaífem a gête, fez vir as naos & o jungo de Talangame, & furgir em húa calheta perto de noffa Senhora da barra, & ainda deu juraméto aos capitães, que não fe foífem fem fua licença, nem lhe leuaífem gête, & deite juraméto fe fez hú auto que todos aílinaram. E cõ tudo Antonio galuão por fua peífoa, vigiaua de noyte a praya, pera ver fe topaua algús cõ crauo, & tomaua o q achaua: do que aqueles que o trazião fe agaitauam muyto, & dizião que fazia grande erro em fe fayr de noyte da fortaleza, que o poderião matar, porem ele não deixaua a vigia. O que vedo os Portu¬ guefes que comprauão o crauo, fe ajuntarão hú dia com Triítão datayde q os fauorecia & era fua cabeça por lhe pefar com as diligencias q fazia Antonio galuão, & forãofe daffuada com armas diante da porta da ygreja, 59 Tomo IV
  • 466 Hifloria da Índia eftãdo ele dêtro na fortaleza, & dizião com grandes brados, que não auia de deixar de fazer crauo, & que o auião de defender ás laçadas a quê lho quifeífe tomar dali por diante, & foy ifto em tanto crecimêto, que Antonio galuão mandou repicar o fino da vigia, pera ver fe auia alguê que fofTe da parte del Rey, & nifto quis fayr fora, pera ver o que a gente determinaua, & em fayndo, achou á porta da fortaleza Francifco de foufa com outros, & diffelhe que ja Triftão datayde & os da aflúada erão ydos, que na lhe lembraffe aquilo, & ele o fez adi. E vendo a gente quão re- remiffo era em caftigar aquele delito & outros, cuydauão que auia medo a Triftão datayde, pelo que o nãe teueram em conta, & pareceo tão mal efta aífuada a muytos, que Gõçalo vaz çarnache culpaua muyto Antonio galuão de não prender Triftão datayde, & ho mandar prefo á Índia, & diziaho pubricamente, pelo que Triftão datayde faltou coele com gente pera o matar ou injuriar, & adi o fizera fe Gonçalo vaz nã fe acolhera á ygreja, & Antonio galuão não acodira: & fintindo Gonçalo vaz isto, de- fafiou Triftão datayde, que lhe nã fayo ao defafio, pelo q Gõçalo vaz lhe efcreueo húa carta de muy feas palauras. E defejãdo Antonio galuão affof- fego, prêdeo fobre fua menage Gonçalo vaz por amor ao defafio, pare- cendolhe que coiffo poeria paz antrele & Triftão datayde, de cuja difcor- dia, por fere taes peífoas, fe podia feguir muyto defferuiço de Deos & del Rey: porem Gõçalo vaz fe ouue por muyto injuriado de fer prefo, aco- dindo por fua hõrra, & ficou Imigo Dãtonio galuão, nem Triftão datayde não ficou feu amigo, ne deixou de lhe leuar quanta gente pode á Índia, que fabia a neceftidade que tinha dela por amor da guerra em que ficaua. E pera mais efcandalizar a gente da terra, leuou hú moço Chriftão cha¬ mado Paulo, filho dú homem dos principaes do Morro, que auia de cuy- dar que lho leuauão a vender á índia. E não o querendo Triftão datayde dar, nem a gête que leuaua, mandãdolhe Antonio galuão pedir tudo cÕ muyta cortefia, depois deftar embarcado, mandoulhe depois fobriífo muy¬ tos requerimêtos, o que nam fatisfazendo Triftão datayde, antes foltãdo palauras muy feas, foy Antonio galuão ás naos ao outro dia, adi pera lhe tomar a gente que lhe leuauão, como pera tomar pera el rey o terço de todo o crauo que achaffe de partes pelo preço da feitoria, & embarcoufe em hú batel com hú falcão por proa.
  • Livro VIII, Capitolo CLXIII CAPITOLO .CLXIII. Do que Trijlão Datayde fe\ a Antonio da Madureyra. COmo os que eftauão no mar, tinha em terra quem os auifafie do q Antonio galuão determinaua, forão logo auifados q auia dir ás naos ao outro dia, & o pera que, leuarão de noyte as ancoras, & fem lhes lembrar o juramento q tinhão feyto a Antonio galuão, de nam íe yré fem fua licença, nem lhe leuaré gete, derão algús á vela & forãofe, & quando Antonio galuã chegou, ja nã achou mais que húa nao, & o jugo de Dinis de payua que fe fazião á vela, & foyfe ao jugo, requerendo de fora que amanayífe, & Dinis de payua fe pos a bordo com toda a gente armada, & efpingardas ceuadas, com murrões acefos, dizendo q quê chegaífe a ele que o mataria. E como ho vento era frefco, & 0 mar grofio foyfe, fem lhe lembrar que por ter muytas diuidas & emburilha- das, o embargauam por elas ao tempo da embarcação, & Antonio galuão fe obrigou por ele fe nam pagaífe, & 1'e iffo não fora, não fe podia yr, & ficaua perdido, por ter feyto muyto grãde emprego, & em ele partindo, acabou a nao de dar ás velas & fe partio també, & eílas velas & as ou¬ tras, leuarã a mayor parte da gente da fortaleza, fem nhú temor.de ferem caftigados, que be fabião que auião de ficar fem caftigo como ficaram os paliados, que fizerão os mefmos dilitos, & por iffo forão de cada vez mayores. E vendo Antonio galuão como fe forão, leuandolhe a gente de q tinha tãta neceífidade, por ficar de guerra, ouueos por aleuantados, & cõdenouos em perdimento das fazendas pera el Rey, & tirou eftormétos, & deuaffas do que lhe fizerão, & de como ficaua, & cõ dous requerimen¬ tos, hú pera o capitão de Malaca, & outro pera o gouernador da Índia, que tomaífem pera el Rey as fazédas daqueles aleuãtados, & lhe deffé a mais pena que merecião fuas culpas, defpachando logo pera Banda hú Antonio da madureyra, que leuou todos eítes papeis em húa carauela, & mais cartas pera el Rey de Portugal, em que lhe efcreuia o eftado em que achara a terra, & o q tinha feyto, & que defie tudo ao capitão que efteuelfe em Banda.: a que chegando Antonio da madureyra, achou hi por capitão hú Manuel da gama, parente de dõ Efteuão capitão de Ma¬ laca. E por Manuel da gama eftar auifado de Dinis de payua, & doutros que ja lá erão, que não tomaffe nhús papeis q lhe Antonio galuão man- daffe, dizendolhe o fobre que erão, não quis tomar nhús, por mais reque¬ rimentos que lhe Antonio da madureyra fez que os tomaffe, ne menos confentio que tomaffe agoa, nem lenha, & como a Imigo o fez fayr do
  • 468 Hijloria da Índia porto: & pola neceífidade q tinha de fazer agoada fe foy á jlha Dam- boyno, & furgio em hú porto perto doutro donde Triftão datayde eftaua furto, que logo foube o que Antonio da madureira leuaua, & temendofe que o defle em algú nauio dos que ali eftauão & fe faberia na índia & em Portugal o que fizera em Maluco, & porque não le foubefle, mandou contrele hú Antonio pereyra que fora capitão mór do mar em Maluco, q foffe cõ gente armada contra Antonio da madureira & que o fizeífe yr dali, & afli o fez, que lhe não deixou fazer agoada, & tornoufe pera Maluco fem dar os papeis que leuaua, & afli íe enterrou o q Triftã da¬ tayde & os outros fizerão, & el rey foy muyto deferuido, & os mais deles forão tãobem galardoados como que o feruirão muyto bem. E a culpa diíto he toda dos gouernadores da índia, q não trabalhão muyto por faberem os dilitos que fe fazem em Maluco, & fabidos os não caf- tigão muyto bem. CAPITOLO .CLXIIII. De como el rey de Cambaya foy ver ho gouernador ao galeão. PArtido ho Gouernador pera Diu, começou de fe fazer doente, pera q podeffe bem .fingir que o era quãdo chegafle á fortaleza, porq el rey o foífe ver a ela & lá o prendefle, & de cada vez fe fazia mais doéte, & por iflo fe deteue em Chaul algús dias, & dali le foy a Baçal em húa fufta por détro do rio, pera moftrar quão doéte ya, porque a fama correfle, & quando chegafle a Diu foubefle el rey de Cambaya q ya doente, & aqui fe deteue algús dias, & quando ya a terra por moftrar que não fe podia ter, leuauãono em hú Palanquí, que fam como Efqui- fes, & leuauãono homés & ya cercado de fidalgos. E partido de Baçal chegou á jlha dos Mortos a fazer agoada, & pera lhe yr falar Manuel de foufa, que foy vefpora Dentrudo á noyte, & lhe contou tudo o que el rey de Cãbaya determinaua em fua treyção, & ainda de noyte fe tornou pera a fortaleza, fem fer fentido dos mouros onde fora. E paflado o dia Den¬ trudo, ao outro dia, que era quarta feyra de Cinza, em amanhecédo fe foy o gouernador á vela pera Diu, & indo afli, el rey de Cambaya que andaua á caça de monte ao logo do mar o vio yr, & mãdoulhe logo pre- guntar por fua difpofição por hum porteiro, por quem lhe mandou algús veados & gazelas, deles fem pernas, & outros fem braços: E dado por ele o recado del rey de Cambaya ao gouernador, refpondeolhe que ya muyto doéte, & por iífo fe deteuera tãto no caminho que fe iflo não fora, logo lhe fora beijar as mãos. E partido o porteiro, foy ho Gouernador
  • Livro VIII, Capitolo CLXI11I 469 furgir na baya de Diu, & ali ho foy logo ver Manuel de foufa, & nifto chegou o embayxador per que el rey de Cãbaya mandara chamar o go- uernador, que ho ya vifitar da parte del rey que o mandou, & depois de ho ter mandado chegou a Diu, & em chegando lhe tornaua 0 embaixador cõ repofta do Gouernador como ya doente, & por iffo lhe não ya beijar as mãos. E fabendo el rey que o gouernador ya doente, o quis yr ver, parecendolhe que o feguraua coiflo: & afli como vinha da caça fe embar¬ cou em húa fuftinha, leuãdo configo Coge çofar, & hú feu filho, que auia nome Rumecão, & dous gérros, hú chamado ho Tigre do mundo, outro Caracem, & ho feu fecretario, & Langarcão grãde fenhor, que tinha hú coto douro, & Ioão de fantiago lingoa & outros cinco mouros, todos capi¬ tães & grandes fenhores. E em outras tres fuítas yão os criados deites, & chegou tão de fupito ao galeão, que não teue o gouernador tempo pera mais, que pera o fayr a receber ao portaló todo infiado. E afora os fidal¬ gos que yão coele no galeão eftauão outros & algús capitães q forão ao galeão em furgindo. E quando o gouernador deceo para o conues a rece¬ ber el rey difle a Lifuarte dandrade, Manuel de vafconcelos cafado, loão jufarte tição, Chriltouã de melo, Antonio de Sá o rume, Antonio mendez de vafcõcelos, & a outros que eftauão juntos, que fe fofiem pera ho cha- piteo como q o goardalfem, q receaua algúa treyção, pelo que afli aque¬ les como todos os outros, mandarão polas efpadas & as poferão na cinta, & nifto entrou el rey no conues veftido em húa cabaya de pano verde, & na cabeça húa touca preta peqna, & húa adaga rica na cinta, & dous pa- gés lhe leuauão hú terçado & hú arco com frechas, & deite modo yão os q o acompanhauão. O gouernador q o efperaua lhe tirou hú chapeo de guedelha leonado, & fezlhe húa mefura que pos hú giolho no chão muy pefadaméte como que eftaua muyto doente: El rey lhe tomou as mãos com as fuas, que era ho mayor gaflalhado que lhe podia fazer, & o leuan- tou, & lançandolhe ho braço por cima das coftas, fobirã ambos á tolda, onde os fidalgos oulharao todos pera o gouernador, principalmente Ma¬ nuel de foufa que fabia q o gouernador determinaua de prender el rey, afli pelo q lhefcreuera antes de fua yda que o prédefle, como pelo que lhe dilfe quãdo o foy ver á jlha dos Mortos: E ainda q os outros fidalgos não fabião que o gouernador queria prender el rey, parecialhes que era bem prenderfe, porque tinhão algúa fofpeita que queria fazer treyção & fabião certo q quifera tomar a fortaleza, mas o gouernador núca oulhou pera ningué, & cÕ os olhos no chão entrou com el rey na fua camara, entrãdo coele Coge çofar, o Tigre do mundo, o Secretario del rey, San¬ tiago, & outros dous mouros, & nhú Português. E em entrando, mandou el rey fechar a porta por dentro, & ficando os fidalgos muyto efpantados
  • 410 Hijloria da índia de lhe o gouernador não fazer nhú final, começarão de murmurar diffo hús com os outros: E Manuel de foufa que fabia como o gouernador de- terminaua de prender el rey, quando vio entrar o gouernador & el rey na camara, ficou muyto agaftado de o gouernador lhe não dizer nada nem lhe fazer final, & não fe fabendo determinar no q faria, diffe a Ma¬ nuel de macedo, & Antonio cardofo, o que lhe o gouernador efcreuera acerca da prifam dei rey, pedindolhes confelho no que faria, & eles lhe confelharão que mandaífe preguntar ao gouernador que determinaua ou que queria que fizeffe, & ele lho mandou pergútar por Iorge barbofa q agora he juyz dos Órfãos em Coimbra, q por não lhe quereré abrir a porta da camara, nem poder entrar pola efcotilha da camara do leme, fe foy á varanda da camara onde ho gouernador eftaua, & entrou, & achou aífentados el rey & ho gouernador em húa alcatifa falando, & ho gouernador encoftado ao mafto da mezena, & alfentado Iorge barbofa em giolhos, lhe deu o recado á orelha, a q o gouernador não refpondeo, ne Iorge barbofa não fayo fora a dizer ifto a Manuel de foufa, porque el rey como quê fe temia, fe Ieuãtou logo muyto de preífa, & fayofe da ca¬ mara fem efperar q ho gouernador foffe coele, ne ate o prepao, & todos os fidalgos oulharão pera o gouernador como da primeira, & tãobem abai¬ xou os olhos, & el rey fe foy embarcar tão de preífa, que ficaua Coge çofar no galeão, & alargandofe el rey, que lhe differão que ficaua o tor¬ nou a tomar, q foy muyto grande honrra, & como ho tomou, mandando remar a todo tira, partio pera a cidade q eftaria húa legoa ou mais, dõde o gouernador eftaua furto. CAPITOLO .CLXV. De como foy morto el rey de Cambaya. INdose el rey embarcar, apartoufe o gouernador com Manuel de foufa, & diffelhe que foffe a pos el rey & lhe difteífe que cõ a preífa de fua yda não teuera tempo de lhe dar hú recado del rey de Portugal feu fenhor, que cúpria muyto darfelhe logo, que lhe beijaria as mãos por fe yr á fortaleza pera onde logo ya & hi lho daria: E com ifto fe embarcou Manuel de foufa em hú catur que tinha a bordo, indo coele Diogo de mezquita & Antonio correa. Os fidalgos que ficauão no galeão de pafma- dos do gouernador deixar aífi yr el rey oulhauão parele, & ele lhes diífe. Senhores q me oulhaeis, embarcayuos neífas fuftas que eftão a bordo, & acõpanhay el rey & fazei o que vos Manuel de foufa diífer: E dizendo ifto, dão todos configo nas fuftas, cÕ no mais outras armas que efpadas,
  • Livro VIII, Capitolo CLXV 4H & em húas muytos, & em outras poucos, com preffa grandiilima botão a pos Manuel de foufa q ya atracado quanto podia por chegar a el rey, & valeolhe muyto pera o alcançar, a detéça que el rey fez em tornar a tomar Coge çofar, que doutra maneira nunca ho alcançara: E empare¬ lhando com a fufta, difle a Santiago que diflefie a el rey que fe paffafle ao feu catur que queria o gouernador que foffe á fortaleza, & Santiago refpondeo que doudices erão aquelas, que nã auia de dar tal recado a el rey que lho fofTe ele dizer detro á fufta. E parece que querendo Manuel de foufa faltar dentro, ou como quer que foy cayo no mar, & logo hú feu page fe lançou a pos ele & leuandoho polos cabelos o teue, & nifto chegou húa fufta em q yão Lopo de foufa coutinho, Antonio cardofo, o doutor Pedraluarez dalmeida ouuidor geral da índia, & defta fufta faltou Lopo de foufa no catur de Manuel de foufa, & ajudouho a tirar do mar aos outros: E el rey de Cãbaya quando vio aqle defaftre, como que lhe pefaua dele, chamou Manuel de foufa pera a fua fufta, que em todo tempo teue leuantado ho remo, & Manuel de foufa entrou logo dentro, & coele Diogo de mezquita, & Lopo de foufa, Pedraluarez dalmeida, & Antonio correa, & feria ás quatro oras depois de meo dia, & ficará de proa Ma¬ nuel de foufa, Antonio correa, & Pedraluarez, Lopo de foufa, & Diogo de mezquita paffarão á popa: E vendo Santiago entrar eftes fem o el rey mandar, & vendo como as outras fuftas dos Portuguefes vinhã aprefla- das, diífe a el rey que o querião prender, & como era colérico, logo tirou húa frecha pera o ceo, que era final de gtlerra, o que entendédo Diogo de mezquita, & mais polo q ouuio a Santiago, arrancou da efpada fupi- tamente, & arrebatado el rey por hú braço o ferio pela parte dereyta de húa eftocada pequena, por amor dos mouros que logo acodirão & o em¬ baraçarão, & como erão treze & todos de muyto esforço carregarão fobre os Portuguefes ferindoos brauaméte & quafi dos primeiros golpes forão mortos Manuel de foufa, & Pedraluarez dalmeyda, ou tomados forão dei¬ tados ao mar, & Diogo de mezquita, Lopo de foufa, & Antonio correa, pelejauão com muyto esforço, & coefta detença teuerão tempo de chegar duas fuftas Portuguefas, de que erão capitães hú Afonfo fialho, & hú Al- uaro mendez de Chaul, homés fem medo, & leuauão ambos bem corenta Portuguefes, & em chegando acertou de cayr nagoa Antonio cardofo em querendo faltar na fufta delrey, & eles o tirarão, & em o tirando hú page del rey Abexim moço de ate dezoyto annos ajudaua os feus muy valen¬ temente, tirãdo cõ o arco del rey tão ameude, q parecia que punha as frechas duas a duas, & em tirãdo Antonio cardofo dagoa deulhe húa fre¬ chada com que o atraueífou & logo morreo, os criados daqueles fenho- res que yão cõ el rey de que erão os mais Turcos, també ajudauão por
  • 472 Hijloria da índia fua parte efquentãdo a batalha brauaméte & Aluaro mendez q ifto vio aferrou logo com húa das fuftas em que faltou com algús dos feus, & pelejou tam fem medo que matou os mais deles & os outros fez faltar ao mar, muyto feridos, mas deulhe o page del rey nefte tépo húa fre¬ chada polo eftomago co que ho derribou morto, & aííi matou Afonfo fia- lho, & outros dez ou doze, & matara todos fe o na acertarão de matar com húa efpingardada. Lopo de foufa & Diogo de mezquita que eftauam cercados de mouros, ainda que recebião muytas feridas matará cinco ou feys, porem os outros que os fentirão canfados & fracos do fangue que tinhão perdido çarrarão coeles, & como tinhão mais força derão coeles no mar em que ouuerão de morrer fe os não tomarão. El rey como vio defpejada a fufta dos Portugucfes manda remar a boga arrancada cami¬ nho da cidade, feguindoho quafi toda a nofTa armada de remo que tiraua cõ fua artelharia, & era ja a barafunda muy grãde de gritas, bombarda- das, & efpingardadas, o que vendo os Turcos q eftauão furtos em húa galeota & em húa taforea que chegarão ali onde andauã darmada por mãdado del rey de Cambava, começarão de defparar fua artelharia cõtra os Portuguefes, o que viílo por Gonçalo vaz coutinho & outros capitães que ficauão muyto a tras pera alcãçare elrey os forão aferrar & os ma¬ tarão quafi todos pelejando. El rey que fe acolhia quâto podia chegou antre os baluartes onde fe daua por faluo, mas noffo Senhor que via quão perjudicial era fua faluação pera os Portuguefes, ordenou q em ali che¬ gando fayffe de dentro do rio hú catur noífo de q era capitão hú Portu¬ guês chamado dalcunha Pantafaful que fe lhe atrauelfou diante, & com hú pelouro de berço lhe matou quatro remeiros: & como nifto vazaua a maré & deitafle a fufta pera fora, por mingoa dos remeiros que faltauã, & el rey viífe que a noífa armada fe chegaua, pareceolhe que melhor fe faluaria a nado, & por ifto fe deitou com os outros ao mar, & nadando chegou húa fufta de que era capitão hú Triftão de payua de Santarém a quem el rey bradou em fua lingoa que o não mataífem que era el rey de Cãbaya, & q daria muyto dinheyro a quê o faluafle, & fegurandoho Triftão de payua lhe deu hú remo a q fe pegou, & depois de pegado ao remo, lhe deu outro cõ húa chuça pelo rofto & Iho.atraueflou: & védoho Triftão de payua ferido, acabouho de matar cõ húa efpada, & depois fe foy ao fundo q núca pareceo, & Sãtiago foy ter nadãdo ate junto do ba¬ luarte do mar, donde hú Português lhe deu co hú canto na cabeça de q logo morreo, & afli forão mortos todos os outros, faluo Coge çofar, q ferido na cabeça de duas feridas o faluou Antonio de fouto mayor porq o conhecia. E efte foy o fim del rey de Cãbaya, tamanho fenhor de ter¬ ras, gêtes, & tefouros, q le efcapara viuo cõ faber q os Portuguefes o
  • Livro VIII, Capitolo CLXVI 413 queriao matar lhes dera muyto trabalho, por ter palíante de cincoéta mil homes em Diu, & armada & artelharia: mas nofio Senhor q ouue pie¬ dade dos Portuguefes permitio q o mataffem, vedo o defcuydo q ouue de o prendere tendoho na mão, & fabendo a treyção que queria fazer, & o odio que tinha aos Portuguefes. CAPITOLO .CLXVI. Do que fucedeo depois da morte del rey de Cambaya. SAbido pelo Gouernador a morte del rey de Cambaya, ficou muyto trifte por iffo, porq lhe parecia q melhor negocio fizera fe fora prefo, & como ja lhe tinhão leuado Coge çofar, prometeolhe a vida, & muytas merces, fe lhe deífe maneyra pera auer Diu em paz, & ele lho prometeo, & dandolhe fua fee, de não fazer outra coufa, foyfe á cidade, ainda que era quafi noyte, onde auia grãde aluoroço pola morte del rey, & os mercadores (cÕ medo de os roubarem) defpejauão ho mais que po- dião, & ho Rao capitão da cidade eftaua pera fe yr, fabendo que Manuel de foufa era morto. E Coge çofar mandou logo deitar hum pregão em nome do Gouernador, que ele daua feguro real a todo mercador que ficafle em Diu, de nam lhe fer feyto nenhú damno, nem nos corpos nem nas fazendas, & mandaua a todos os foldados, que logo defpejaffem a cidade, fopena de morte, cõ o que os mercadores affoffegaram do aluo¬ roço que tinham, & os foldados fe acolheram, & o Rao tambe fogio aquela noyte, & foyfe pera as molheres del rey, que eftauam na quintaã de Melique, & pos em faluo a elas & ao tefouro del rey. E fabendo o Gouernador como a cidade eftaua affoffegada, defembarcou ao outro dia, & dando muytos louuores a noffo Senhor foy tomar poífe dela, & achou húa boa armada, & quatro bafalifcos de metal, & cinco efperas, & hum quartao, a fora outra muyta artelharia de ferro, & mais de dous mil quin- taes de poluora de bombarda, & defpingarda, & pelouros, & outras mu¬ nições de guerra fem conto, em muy bõs almazés, & afli cobrou a alfan- dega de Diu pera el Rey de Portugal, que rendia cento & oytenta mil cruzados ou mais, & ficaua fenhor da melhor cidade q auia na cofta de Cãbaya, & da principal que na índia daua mais guerra que outra nhúa, & cõ cuja tomada os reys da índia, ficarã mais alfombrados de medo dos Portuguefes que doutra nhúa, & mais quãdo fouberão que el rey de Cambaya fora morto. E depois difto, chegou Martim afonfo de foufa com fua armada, a que pefou muyto de não fe achar ali, porque fe fe achara fempre el rey de Cambaya fora prefo, & não morrera nhú Português, Tomo IV 6o
  • 474 Hiftoria da índia de quatorze que forão mórtos q nomeey, & vinte cinco ou trinta feri¬ dos. CAPITOLO .CLXVII. De como Mir{ãohamet fe fe\ rey de Cambaya có fauor do gouernador. DIuulgada a morte del rey de Cambaya, foy ter a noua no feu ar- rayal ondeftaua hú cunhado que fora do rey dos Mogores, cha¬ mado Mirzãohamet que andaua com el rey de Cambaya, q fabendo como ele era morto, & não deixaua filhos, & era mal quifto, & que por effa caufa poderia auer controuerfia fobre quem leria rey de Cambaya, determinou dintentar de o fer, & logo fe fez chamar rey de Cambaya com fauor de dous mil Mogores de caualo, gente efcolhida que andauão no arrayal com que fez corpo, & tomou o dinheiro q el rey de Cambaya trazia no arrayal, que era hú conto & meo douro, & affi todas as coufas de leu feruiço. E fabédo como os grandes de Cambaya querião fazer feu rey Mirãomuhmala q andaua no Mandou, & por fer morto, tomauão por rey a hú moço que auia nome çoltãomahmude, focorreofe ao gouernador Nuno da cunha q o fauoreceffe, mandandolhe offrecer por iffo cincoéta mil pardaos pera os gaftos de fua armada, q lhe logo daria. E depois de fer de todo rey de Cambaya de Mangalor ate Diu, que fam dezoyto legoas, com húa pelo fertão, & de çurrate ate' Baçal com outra, pedindo- lhe tãobem confelho no que faria pera fe conferuar em rey. E fendo o gouernador contente de fazer fua petição, o mandou pubricar por rey de Cãbaya no alcorão de Diu, & lhe mandou dizer, que em quãto os do reyno eftauão fem rey, ele deuia dyr polo reyno, porque como auia muy- tos que querião mal a çoltão badur, & nã tinhão rey, folgarião de o ter por eífe, & fe ajuntarião coele, & quando os q querião fazer rey o fizef- fem, já lhe não poderião dar o reyno, o que feria ao reues íe ele fe dei- xaífe eftar quedo, por iffo que logo deuia dabalar: Porem ele não tomou efte confelho, & deixoufe eftar na vila de Nouaguer leuando boa vida, & mãdou os cincoéta mil pardaos ao gouernador, & hú affinado do q lhe prometia. E depois difto no mes de Março adoeceo ho gouernador, & por le achar muyto mal & dizerem os Médicos que de cada vez fe auia dachar peor, por Diu ler muyto contrayro a fua faude, lhe requererão os fidalgos que fe foífe inuernar a Goa, (porq determinaua dinuernar em Diu,) & por iffo ho Gouernador ouue de yr inuernar a Goa, pofto que foy muyto contra fua vontade, & nam leuou mais que feus criados & Marti afonfo de foufa com fua armada, & deixou em Diu todos os fidal¬ gos da índia, & affi a outra gente da armada, & ficou por capitam Anto-
  • Livro VIII, Capitolo CLXVIII 4lS nio da fxlueyra, & nos dous baluartes da vila dos Rumes, Ioão de men- doça, & Francifco de mendoça yrmãos, q dauão de comer cada hú a cento & vinte homes, & Ruy diaz pereyra ficou por capitam nas cafas que foram da mãy del rey de Cambaya, que eram como fortaleza, & daua de comer a cem homés, & Antonio da filueyra a trezentos, & affi dauão mefa algús fidalgos .f. dõ loa lobo filho do barão, Francifco pe¬ reyra, Anrrique de melo, filho baftardo do cõde de Marialua, & Gafpar de foufa, no que todos gaftarão muyto, principalméte Antonio da filueyra que tinha mais q todos, no que fizerão muyto feruiço a el Rey de Por¬ tugal, porque fem iíTo nam fe podia foftentar a muyta gente que inuernou em Diu, que fem ela fora tomado pelos capitães de Cambaya, que com medo defta gente nam oufarã de lhe fazer guerra, como determinauã, pera íe vingaré dos noffos pela morte do feu rey. CAPITOLO .CLXVIII. De como os capitães & fenhores de Cambaya desbaratarão Mir\ãohamet, que fe chamaua rey de Cambaya. PArtido ho gouernador pera Goa, como os capitães de Cambaya fin- tião muyto fer Mirzãohamet rey de Cãbaya, & mais com fauor dos Portuguefes, determinarão de ho deftruyr, pera o que leuanta- ram por rey a Mirãomuhmahla que andaua no Mandou, & em quanto não foífe, foram eleytos tres capitães principaes, pera que em feu nome regeffem o reyno, com a mãy de çoltão badur, & forã eítes Madre ma¬ luco, Driacão, & Aucão, que ajuntando dez mil de caualo, & quinze mil de pe', forão cotra Mirzão hamet que ainda eíiaua em Nuaguer muyto de vagar. E fabendo ele que feus immigos o yão bufcar, lhes fahio ao en- cÕtro com os dous mil Mogores que tinha de caualo, & ouueram húa ba¬ talha em que Mirzão foy desbaratado, & fogio pera o reyno de Vlcinde, cujo rey era feu parete, & dos feus forão mortos quinhétos, & os outros fogirão pera a vila dos Rumes, q eftaua dali legoa & mea, & todo efte caminho os feguirão os Imigos, & matarão os q digo, & os acabarão de matar a todos, fe não q chegando a tiro de bõbarda da vila dos Rumes, fe teuerã por as muytas bõbardadas q lhes Ioão de medoça mãdou tirar, cuydãdo q yão contrele, & dali fe afaftarão os de Cãbaya, & ficarã os Mogores, q paliados tres dias, em q Antonio da filueira foube a verdade de como vinhão, os mandou recolher na vila dos Rumes, por fere noífos amigos, & depois q os feridos forão fãos, lhes deu auiaméto pera q fe partiífem. E neftes tres dias q os Mogores efteuerã fem os Antonio da
  • 476 Hiftoria da Índia íilueyra querer mandar recolher, por fe temer de treyção, aconteceo q hú Mogor aperfiou muyto cÕ Ioão de médoça, q o deixaffe entrar na vila cÕ fua molher, & Ioã de médoça dimportunado diffe q entraíTe ela fó, & cõfentindo o Mogor, ela nam quis, dizédo que coele queria morrer & viuer. CAPITOLO .CLXIX. De como os regêíes de Cambaya, deyxarão por fronteiro cõtra Diu Alucão, & do mais q paffou. EStes capitães de Cambaya, depois que virão que não podiã fazer mais mal aos Mogores do q lhes tinhão feyto, recolherãofe pera Nouaguer, cõ determinação de fazeré guerra a Antonio da íilueyra, & primeiro que a rÕpeffem, ouue algús recados deles a ele fobre pazes: E por Antonio da filueira lhes pedir que deífem a el rey de Portugal ho q lhe daua Mirzão hamet fe foífe rey, nã ouue a paz effeito, & declaroufe a guerra, que foy encomendada a Alucão que tinha ali fuas terras, & os outros fe forão pera Madauá, deixandolhe doze mil homés, & ele tolheo logo que não foffem da terra firme á jlha bufcar carnes & fruytas, & mã- daua de noyte paffar fua gente á jlha por certos paflòs q tinha de bayxa mar, pera que atupiffem algús poços de que os Portuguefes bebião. O que Ioão de médoça cõtrariaua com os feus com muyto esforço, & quafi cada noyte auia rebates de peleja, & niffo & em vigiar leuauã os Portu¬ guefes trabalho immenfo, & leuarão em dous mefes que durou eíle cerco, em que paliarão tanta fome de carne que chegou húa galinha a valer feys toftoés, & quafi na fim de Iunho negoceou Antonio da íilueyra como ou- ueífe tregoas antrele & Alucão até a uinda do gouernador, que efperaua que foífe dahi a hum anno, & mandou coefte recado a hum Francifco pacheco, que foy juyz dalfandega, que foy arrepelado dú capitão Dalu- cão, fobre palauras que á cinte quis auer com Francifco pacheco, pera ho injuriar, que por iífo fe tornou fem dar o recado que leuaua. O que íin- tindo muyto Antonio da íilueyra, pedio a Ioão de médoça que na menhaã de fam Ioão que auia de fer ao outro dia, foífe colher as lampas á eftan- cia do capitão que arrepelara Francifco pacheco, & eftando pera partir, chegou hum recado Dalucão, em que fe defculpaua a Antonio da filueyra do que o feu capitão fizera, & por iífo ho tinha prefo pera ho mandar de¬ golar, & mandou confirmar as tregoas, & leuantou ho cerco, de que a cidade ficando defaprelfada, foy logo abaftada de muytos mantimentos, & ennobrecida de muytas & muy ricas mercadorias.
  • Livro VIII, Capitolo CLXXI 477 CAPITOLO .CLXX. Be como Iorge mafcaretihas partio pera Maluco COntinuando ho Gouernador fua viagem pera Goa chegou lá, & dahi fe foy Martim afonfo de foufa a Cochim, onde auia dinuer- nar, & dahi defpachou Fernã rodriguez de caftelo branco vedor da fazenda, hú fidalgo que auia nome Iorge Mafcarenhas, de que fiz men¬ ção nos liuros atras, que ya por capitão & feytor da nao do trato da índia pera Maluco, que partio em Abril pera Malaca, & dahi auia dyr carre¬ gar de crauo a Maluco, & da torna viagem de noz & maça em Banda, & partio tãobem de Cochim em húa fufta hum Afonfo vaz de brito pera Bégala, per mandado de Martim Afonfo de foufa a refgatar Martim Afonfo de melo jufarte que lá eftaua catiuo com outros Portuguefes (como tenho dito) & trazelo fe lho quifeffem dar. E partidos eftes, em diuerfos tempos chegarão aos lugares a que yão: & quando Afonfo vaz chegou a Chetigão, ja el rey de Bégala fabia a morte del rey de Cam- baya, que lhe fora por terra, & os mouros lha contarão mentirofa, dãdo a culpa ao gouernador q o matara, por lhe tomar Diu tendo coele paz, com o que el rey ficou toruado, & perdeo o credito dos Portuguefes, pa- recendolhe que adi lhe farião, & os mouros cofpião aos que eítauã no Gouro, & lhes dizião injurias. E eftando nefta afronta, chegou a Cheti¬ gão logo no principio Dabril, hú Antonio médez de crafto, que fora criado Dantonio da íilueyra, que ya em hú nauio com fazenda, & leuaua húa carta do gouernador pera Marti afonfo, em que lhe contaua da morte del rey de Cambaya, & as rezões porq fora morto, & logo Nuno fernãdez freyre juyz da alfãdega de Chetigão terladou efta carta, & a mandou a Marti afonfo por duas vias, & ele a moftrou a elrey, que quando foube as rezões porq el rey de Cambaya fora morto, as ouue por boas, & pe- dio perdão do paliado a Martim afonfo, & tornou os Portuguefes a fua graça. CAPITOLO .CLXXI. De como os capitães das naos da carga chegará aa índia. VIndo o verão da índia, chegarão a ela em diuerfos tempos, algúas das naos da carga que aquele anno partirão de Portugal, de que foy capitão mór dõ Fernando de lima, filho de Diogo Lopez de lima, q ya por capitão Dormuz, & os capitães de fua conferua forão,
  • 478 Hifioria da índia Iorge de lima, que ya pera capita de Chaul, dom Pedro da filua, Marti de freytas, que depois que chegou á índia foy morto por mouros, não foube como, & Lopo vaz vogado. E depois da partida deftas naos, parti¬ rão outras tres carregadas de gente, de que forão capitães, Diogo lopez de foufa, Fernão de morais, & Fernão de craíto, & eftas mandou el rey de Portugal, por fer certificado pela via de Veneza, que mandaua o Turco húa armada á índia pera lha tomar. CAPITOLO .CLXXII. De como ho Gouernador foube que ya húa armada de Turcos aa índia. FEytas as tregoas antre Antonio da filueyra capitão de Diu, & Alu- cão, todos os mercadores & outra gente pobre, que fe forão de Diu, quando mataram el rey de Cambaya, fe tornarão pera a ci¬ dade, & na entrada de Setembro, mãdou Antonio da filueyra Miguel vaz, & Pantalião pereyra em dous catures contra Mangalor, pera que fizeíTem arribar a Diu as naos que foflem do eftreyto, fegurandoos, que ainda q Diu folie de Portuguefes, feriam também tratados, como quando era del rey de Cambaya, & coiffo arribaram muytas naos, com que a cidade foy tam ennobrecida, que diziam os mouros, que depois da morte de Meli- queaz, nunca a cidade ho efteuera tanto nem tam rica. E neftas naos efcreueo ho fenhor Dazibele no eftreyto a Coge çofar, que ho Turco man¬ daua húa armada aa índia, de que era capitam mór çoleymão Baxá, rey do Cayro & Dalexandria, & mandoulhe ho terlado do regimento que ço¬ leymão tinha do Turco nefta armada, o que logo Coge çofar difle a An¬ tonio da filueyra, & ele o efcreueo ao gouernador & afli Coge çofar. E ouuidas pelo gouernador eftas nouas, partiofe pera Diu na fim de Dezé- bro, a fazer certas coufas neceífarias pera a vinda dos Turcos: & por rogo Dãtonio da filueyra, mandou Coge çofar húa fufta cÕ recado ao fenhor Dazibele, que lhe mandaffe certeza da determinação de çoleymão baxá, & que tornafle a inuernar a Diu.
  • Livro VIII, Capitolo CLXXIIII 479 CAPITOLO .CLXXIII. Do dãno que Patemacar, & outros capitães de Cahcut fyerão aos Por- tuguejes. NEste tempo fe Ieuãtou cõtra el rey de Ceilão hú feu yrmão, que auia nome Maduna pãdale, a que fauorecia el rey de Calicut, por ele fer muyto grade Imigo dos Portuguefes, & mandou em fua ajuda tres valetes mouros .f. Pate maçar, Cutiale macar, Ale habrahe, por capitães de coréta & fete fuftas grandes, & bé armadas, em que yão oyto mil mouros, q partirão do porto de Panane, andãdo Marti afonfo de foufa darmada na cofta. E partidos eftes capitães, acharam furtas na barra de Cochim quatro naos Portuguefas, q tomauã carga pera Portugal, a q fe chegauão a remos pera as tomaré, ou meterem no fundo, porq lhes pareceo q auiã deitar fem gente como eftauão, mas não poderão, porq tanto q fe vio eíta armada de CochI, mãdou logo Fernão rodriguez de caítelo branco védor da fazenda, muyta géte em focorro das naos, que chegou a elas primeyro q chegaffem os mouros, a que deram húa grande çurriada de bombardadas, & os fizerão yr feu caminho, que tomarão pera Coulão, em cujo porto acharão hum Niculao jufarte, capitão de húa nao que eftaua carregando: & cuydãdo de o tomar, o cometerão ás bombar¬ dadas cõ que o matarão, & vendo que não podião tomar a nao paliarão de largo, & tomarão muytos zambucos, & naos q yão de Choramãdel pera CochI, & húa nao q ya de Ceilão com as pareas. E alé do cabo de ComorI, derão em hum lugar de Chriítãos da terra, chamado Tutucori, da pefcaria do aljôfar, & não eftando hi Manuel rodriguez coutinho, q era capitão dela o tomarã, & roubarão de quãto tinha, até as veftimétas & a pedra dara, & matarã muyta géte, & depois fe deyxarã andar por aquela colta, q não topauão nenhú nauio que não tomaífem. CAPITOLO .CLXXIIII. De como Marti afonfo de foufa chegou onde eftauão os capitães del rey de Calicut. NO tépo q elta armada fahio de Panane, andaua Marti afonfo de foufa cõ a fua cofta do Malabar, & ya na volta do Cananor quãdo foube dela, pelo q tornou logo atras, & fe foy a CochI, & refor- mãdofe do neceffario, foy em bufca dos mouros, de q fabia cada dia no-
  • 480 Hijloria da Índia uas, & no cabo de Comorl achou o veto, q chama comúméte na índia, a vara de Choromãdel, q lhe era por dauãte, & como o mar era muyto groífo, dobrou aqle cabo cõ aflaz de trabalho & de fome, falecédolhe os mãtimétos, por fe deter mais dias do q cuydou. Dobrado o cabo, q os mouros ouuerã vifta de Marti afonfo, nã quiferã pelejar coele, pofto q lhe tinhão grãde auãtagé, & ifto fizera duas ou tres vezes, fé os Marti afonfo poder alcãçar, do que fe ele agaftou muyto, porq vio q fe os feguiffe da¬ quela maneyra, aíli como affi não os podia alcançar, & desbarataloyão pouco & pouco, & afora não poder fazer ao que fora, receaua que em fua aufencia fe leuantaífem na cofta do Malabar algús mouros coffayros, q tomaffem quãtas naos nauegaffem por aquela cofta, pelo que lhe pare- ceo que era melhor tornarfe a guardar a cofta, q gaftar ali o tempo fem fazer nada & affi 0 fez, & cõ quanto deu em CochI efta caufa pera fe tornar, pos Fernão rodriguez em confelho coele, & cõ os outros capitães & fidalgos o feu parecer, & ainda q o ouuerã por bõ, adernarão q era muyto neceífario não yre os mouros a Ceylão, porq fe Maduna pandale desbarataile el rey de Ceylão, & ficalfe vitoriofo, traria ali aquela armada del rey de Calicut, & tomaria quantas naos padadem, affi pera détro de Ceylão, como de détro pera fora, pelo q Marti afonfo deuia de tornar a bufcar os mouros & pelejar coeles, & prazeria a noífo Senhor q os acha¬ ria varados em húa enfeada onde os desbarataria, o q parece que foy pro- noftico da vitoria q Marti afonfo ouue. E tãbé indo Marti afonfo pola cidade, depois q fe adentou que tornade a bufcar os mouros, fayo á rua hua molher viuua, a q os mouros de Calicut catiuarão hú filho didade de doze ãnos q auia nome Marcos, & tomãdoho pola fralda dúa loba, lhe pedio cÕ muytas lagrimas q lhe trouuede feu filho, q fabia q lho leuauã os mouros naquelas fuftas, & q ouuede piedade dela, porq nã tinha ou¬ tro, Marti afonfo por fe defapredar dela, lhe prometeo o q pedia, & bé o cúprio: E reformada fua armada de mais nauios & géte, fe partio cõ quatrocétos Portuguefes, é vinteduas vélas de remo, de q afora ele forã capitães, Fernão de foufa de tauora, Manuel de foufa de Sepulueda, Frã- cifco de fá, Ioão de médoça, Marti correa da filua, dom Diogo dalmeida, Iorge barrofo dalmeida, FrScifco de barros de paiua, Gafpar de lemos, Frãcifco pereira, Ieronymo de figueiredo, Antonio de lima, Antonio de foufa, Symão rãgel de Coimbra, Antonio fernãdez, & Francifco de fequeira Malabares, & outros dous, a q não foube os nomes: & indo Marti afonfo por fua viagé tomou certas champanas de mouros, q yão da pefcaria do aljôfar, em q catiuou obra de coréta mouros dos q yão cõ Pate macar, & cõ os outros capitães, q mãdou entregar aos Chriftãos de Tutocori, pera fe vingaré do mal q lhe fizerã, do q fe eles vingarão bé: E profeguindo
  • Livro VIII, Capitolo CLXXIIII 481 daqui 2 bufca dos mouros, foy os achar na enfeada de Beadalá, húa grade pouoaçao perto dos baixos de Chila, & aqui eftauã os mouros, pera por força, arrecadará os dereitos da pefcaria do aljôfar, & como eftauã de vagar, tinhã varada a armada 2 húa lingoa darea q ficaua em reftíga, & tinha aífétado o arrayal em q eftauã dentro em hú palmar, & os mari¬ nheiros, & bombardeyros eftauão nas fuftas: Chegado Martim afonfo a vifta dos mouros, em húa fegunda feyra vintoyto de laneyro, & auendo eles vifta de fua armada, acodiram logo os que eftauam no arrayal ás fuftas, que tinhão todas feus tiros nas proas, com que começarão logo de jugar pera a noífa armada, que també defparaua fua artelharia chegan- dofe pera os mouros, & era o eflrondo dos pelouros muyto grande dam- bas as partes, & afli a matinada de brados, & de gritas, que dauão hús & outros, & os mouros de lhes parecer q por fere muytos tinhão toma¬ dos os Portuguefes, & os Portuguefes de os achará em lugar que não lhes podião fogir, & coefte aluoroço q os Portuguefes tinhão, errarã o canal da reftíga por onde ouuerão détrar com os mouros & aferralos, pelo que como as fuas fuftas erão grandes, pera que nadarem pola ref- tinga encalharão nela, 0 que vendo os marinheyros dalgúas fe deitarão nagoa pera tomarem fundo, & verá fe podião os foldados •defembarcar, por eftarem em grande perigo, com as muytas bombardadas, efpingarda- das & frechadas, que os mouros tirauão, & achãdo os marinheiros que o fundo era darea folta & a agoa alta pera defembarcarem homés arma¬ dos, diflerãno aos capitães, q mandarão que ningué defembarcalfe. E por mandado de Marti afonfo fe afaftarão pera o pego, & nifto defembarca- rão cõ fua gente mais abaixo da reftinga, dõ Diogo dalmeida, Fernão de foufa de tauora, & outro capitão, & encaminharão ao lõgo da praya pera os mouros, cuydando q defembarcalfe Marti afonfo, & vedo os mouros q ele nã defembarcaua, antes fe afaftaua pera o pego, pareceolhes q pode- rião tomar as fuftas de do Diogo, de Fernão de foufa, & do outro q ficauã fós, pera q logo começarão de defencalhar algúas das fuas em que fe metião, o que vifto por Marti afonfo, conhecendo feus penfamentos, lançoufe logo no feu balam, & varando por cima da reftinga, per antre tamanha multidão de pelouros como digo, falta em terra & fez recolher dom Diogo, & outros capitães com fua gente ás fuas fuftas, & fazendo acabar dafaftar as outras pera ho pego, foy ver a difpofiçã da reftinga em que achou o canal: & como as bombardadas eram muytas, arrombou- lhe húa o balão, com que fe vio em grande perigo. Tomo IV 6l
  • 482 Hijioria da índia CAPITOLO .CLXXV. De como farão desbaratados por Martim afottfo de foufa os capitães del rey de Calicut. VIsto por Martim afonfo o que queria, tornoufe á fua frota, & como foy noyte, mandou a Francifco de fequeyra, que fe fofle deytar com o feu catur húa legoa abayxo da enfeada, & que deytaffe em terra certos Malabares feus parentes pera efpias dos mouros, & pera cima da enfeada, mandou deytar fete fuftas ao longo da terra, porq fe os mouros quifefTem fogir de noyte, como fizeram em Calecare, que os eítor- uaífem, & que tiralfem tiros, refpondendo hús aos outros, & de quando em quando elpingardadas. O que ouuindo os mouros, & temendo que foliem aquela noyte cometidos pola praya fortalecerãofe daquela parte de valos, & tunchas darea, em que aflentaram algús tiros, com que refpon- diam aos dos Portuguefes, & teueram toda a noyte muy grande vigia, & como foy menhaã recolherãole os catures da vigia, onde eftaua Martim afonfo, que fabendo das efpias o q os mouros receauão & como fe forta¬ lecerão, quis ainda efperar outra noyte fem os cometer ate faber mais deles, & anoytecendo, mandou ter a mefma vigia que a paffada & pola mefma maneira, & os mouros refponderão aos tiros dos Portuguefes ate o quarto da prima rendido, & não quiferão mais refpoder, parecendolhes que os Portuguefes fazião aquilo pera lhe fazer gaitar a poluora de balde, & que não oufauão de pelejar coeles por ferem poucos, & efperauã o focorro de CochI ou Choromandel, & fe lhes folfe pelejariã, & fe não nã: E feyta elta conta, não refponderão aos nolfos tiros, nem curarão de muyta vigia & deitarãofe a dormir, do que Martim afonfo foy logo aui- fado por fuas efpias, pelo que vio que tinha tépo de pelejar coeles pois o não tinhão em conta, & por não efperaré por iífo eftarião mais defcuy- dados, & o defcuydo lhes faria mayor medo, & affi 0 dilfe aos capitães da frota, & a outras peífoas principaes, cÕ que alfentou que pelejaria coeles em terra, em que defembarcaria em quatro fuítas grandes, hú quarto de legoa dõde os mouros eltauão pera o norte, & como folfe perto deles, faria final com húa camara de falcão a Antonio de foufa & a Gaf- par de lemos, que cÕ oytenta homés de lãças & rodelas, & a géte do mar ficarião em fete catures no canal fobre o remo, & em ouuindo o final co- meterião os mouros: E deixãdohos no canal, foyfe ao pollo õde auia de defembarcar, & mandou a todos os que foubeífem tirar com efpingardas que as leualfem, & deífe as rodelas & lãças aos marinheiros q lhas leuaífé,
  • Livro VIII, Capitolo CLXXV 483 & q cobrifle os murroés, porq os mouros lhos nã enxergaflem, q os qria tomar de fupito, & defta maneira começou de caminhar pera onde efta- uão os mouros cÕ a gente em corpo, q ferião feyfcentos homes com os efcrauos & marinheiros, & as fullas em que defembarcou yão ao logo de terra emparelhando coele, pera que húa fizefle o final cÕ o tiro, & cami¬ nhando nefta ordem, Antonio de foufa & Gafpar de lemos que ficauão no canal com os fete catures fobre o remo, eftauão efperando o final, fe não quando hú dos catures fe atrauelfou no canal per rol vigia, & atra- ueífado foy logo vifto dos mouros, a q parecendo que o acertaífem lhes tirara com hú falcão, & em Antonio de foufa & Gafpar de lemos o ou- uindo, cuydarã que era o final que lhes Martim afonfo auia de fazer, pelo q remeterão aos mouros tangendo as trombetas & gritando com tamanho arroido que fazião moftra de ferem todos os da armada, & afli o cuyda- rão os mouros, que logo acodirão a defenderlhes a defembareação, & meterãofe nagoa aos receber, & fentindo quão poucos os Portuguefes erão esforçaraofe muyto, & remeterão aos catures, & tomauãnos polos remos querédohos varar em terra, ao que os Portuguefes faltarão nagoa, & co¬ meçarão de pelejar com os mouros, que como erão muytos os tratauão mal, & matarã Antonio de foufá, Gafpar de lemos, & outros fete, & com tudo os outros fe defendião brauamente. Martim afonfo que tinha ouuido o tiro dos mouros, & a pos ele ouuio as trombetas & a grita, logo conhe- ceo o que era, & diífeho á fua gete, a que mandou fopena de morte que ningue não foffe fe não feu pado cheo, porque fe foflem de preífa chega- rião tão canfados, por fer ainda longe, que nam poderião pelejar & os Imigos os matarião, & que encomendaifem a Deos os outros que peleja- uão que ele os goardaria, & coifto chegou aos mouros, & fem o fentirem lhes deu nas coftas, poré eles nã defmayarão coefte fupito cometiméto, antes como erão oyto mil homés, fizerão logo rofto aos Portuguefes, lan- çãdo diante os efpingardeiros que erã duzentos, & hús & outros começa¬ rão húa efpantofa peleja, em que Martim afonfo pelejaua como caualeiro, & mãdaua como capitão, & não eftimando cõ os outros efpingardadas nem lançadas, nem outros golpes, fe metião todos cõ muyto esforço antre os Imigos matando & ferindo, ao que os outros ajudauão tãbê, que não o podédo os mouros fofrer, começarão de defpejar as fuftas & retirarfe pera 0 palmar onde tinhão o arrayal, feguindohos os Portuguefes, & como forão no largo que fe os mouros poderão eítender & cercar os Portugue¬ fes, q erã muy poucos antre tantos, apertarãonos de maneira q fe aco¬ lherão ás fuftas, ate onde os mouros os feguirão: E como os Portuguefes forão em terra apertada, em que tanto montaua aos mouros fere poucos como muytos, porque nã podiã pelejar fe não os da dianteira, tornarã a
  • 4*4 Hijloria da Lídia auer a melhor deles, & tornarãnos a leuar de vencida ate o palmar, donde os mouros os tornara a leuar ate as fuftas. E vencendo ora hús ora outros, gaftarã nifto ate as oyto oras do dia, em q forão feridos bem fetenta Portuguefes, o que vendo Martim afonfo, & que os mouros não fe auião de desbaratar, em quanto teueíTem fuas fuftas inteiras, com efpe- rança de as cobrarem, determinou de lhas queymar por confelho Danto- nio fernandez malabar, que afli lho diííe, & ele mãdou logo que lhes pofeífem fogo & afli foy feyto: & como eftauão cifadas & enfeuadas co¬ meçarão darder, laurando o fogo com grande fúria, o que defefperou os mouros de as faluaré, & começou de fugir a gente q não tinha obriga¬ ção, & logo a outra, & a tras ela os capitães, & fogindo afli os mouros, algús feus filhos pequenos quiferão leuar por força ho menino Marcos filho da viuua de Cochim, que fe liurou deles ás punhadas & ficou: E Martim afonfo q vio fugir os mouros, deixouhos yr por ter fua gente can- fada, & faluar algúas das fuftas de que faluou vinteduas, & forão quey- madas vintecinco, em que forão tomadas quatrocetas peças dartelharia, as céto de metal, & mil & quinhentas efpingardas, & dos mouros forã mortos oytocetos, & algús catiuos, & achoufe antreles hú Português que trazião catiuo, q auia nome André luys, & ho menino Marcos, cÕ que Martim afonfo folgou muyto pera o dar a fua mãy, & dos Portuguefes forã mórtos dez, & feridos fetenta, de que hú foy Diogo de reynofo de húa efpingardada por húa perna. CAPITOLO .CLXXVI. Do mais que fe{ Martim afonfo de foufa depois da vitoria de Beadala. Auida efta vitoria, deu Marti afonfo muytos louuores a noffo Senor por a grande merce que lhe fez, & certo que foy muyto grande, porque afora a perda que el rey de Calicut recebeo em perder efta armada, fe ela efteuera inteira, quando os Turcos vierão a Diu, como direy adiante, ela fizera tãta guerra aos Portuguefes, q a cofta do Mala- bar não fe poderá nauegar, & as naos Portuguefas da carga ou efcapa- rão ou não de ferem tomadas, & que não fizera outro mal, fe não ajun- tarfe com a dos Turcos fora muyto grande: Afli que foy efta vitoria muy importãte pera fegurar a índia. E por ela fer de tanta fama, muytos fidal¬ gos pedirão a Martim afonfo q os fizefle ali caualeiros, & ele os fez, & dali mandou ao gouernador a noua defta vitoria, per hú caualeiro cha¬ mado Miguel dayala que mora em Lisboa, que foy em húa fufta, & de caminho a defle em Cochim a Fernão roíz de caftelo brãco vedor da
  • Livro VIII, Capitolo CLXXVI 485 fazenda. E indo de viage, depois de partir de Cochim, topou a Montedeli duas fuftas de Malabares cÕ q quifera pelejar, & fugirãolhe, & logo topou outra muyto grande & com muyta géte, cõ que aferrou & pelejou cõ os mouros hú bom pedaço fem o poderem entrar, & matou muytos cõ os feus foldados que erão dezoyto, & afli fe apartara matandolhe os mouros dous. E Marti afonfo q ficaua em Beadalá, por fer perto Ceilão, foy lá a vifitar el rey, & faber dele fe tinha neceflidade de fua ajuda, cõ o que el rey folgou muyto, & cõ ho desbarato dos Malabares. O que fabido tãbé por Madune pandale, fe recolheo pera húa ferra õde fe fez forte, & defapreffou el rey, pelo que el rey não teue neceflidade de Marti afonfo, & deulhe vinte mil pardaos pera os gaftos da armada, & dali fe tornou a Cochim, onde foy recebido cõ grade fefta, & depois fe tornou a correr a cofta cõ a mefma armada q leuaua & indo de Calicut pera Cananor defrõte de Tiracole, pelejou cõ dezoyto fuftas de Calicut, que yão carre¬ gadas darroz, cuidando os mouros que yão nelas, que ferião tres mil, que ainda Martim afonfo não era paffado do cabo de ComorI pera o Malabar, & como o conhecerão fugirão vedo que os ya cometer, & ele & os feus capitães os feguirão ate que os alcãçarão, aferrarão, & entrarão, & forã mortos bé mil & quinhentos mouros, & algús catiuos, & os outros 1'e fal- uarã a nado por fer perto de terra, & as fuftas forão todas tomadas, faluo húa que varou & das outras tomou Simão rangel duas que aferrou cõ os feus foldados, & matarão quantos mouros yão dêtro, & dos Portu- guefes morrerão vinte, & forão feridos céto & dez, poré os mouros lin- tirã muyto a grãde perda q aqui receberã principalmente os de Calicut, cujo rey acabou aqui de perder toda fua armada, pelo q lhe foi forçado fazer depois pazes cõ o Viforey dõ Garcia de noronha (como direy no liuro Nono.) E auida por Martim afonfo efta vitoria, fe foy a Cananor, leuando os mouros que catiuou enforcados nas vergas dos nauios, pera q os viflem os mouros de Cananor, porq fabia que andauão muytos de¬ les naqla armada, pelo que tãobem lhes mandou deitar na praya os que forão mortos na batalha pera q os viflem. E coeftes dous defpojos que Martim afonfo fez nas armadas de Calicut, ficou a cofta do Malabar limpa delas por hús dias.
  • 486 Hijloria da índia CAPITOLO .CLXXVII. De como Martim afonfo de melo jufarte fayo do catiueyro de Bengala. CHegado Afonfo Yaz de Brito a Chetigão (como diffe a tras) falou logo com Nuno Fernandez Freyre, dizendolhe ao que ya, & auido feguro del rey de Bégala, foyfe ao Gouro, onde lhe deu a carta de Martim afonfo de foufa, em que lhe contaua os grades negocios q ficara ao gouernador depois da morte del rey de Cambaya pera fegurãça de Diu, & por iffo lhe nã poderá aqle anno mandar a gente que lhe pe¬ dira por feu embaixador, que lhe mandaria coela no anno feguinte, pedin- dolhe muyto pois era amigo del rey de Portugal, que deixaíTe yr Martim afonfo de melo, de que auia neceflidade na índia pera capita de húa for¬ taleza que lhe dera el rey de Portugal: E por efta carta deu el rey licença a Martim afonfo que fe folfe com os outros Portuguefes, faluo Nuno fer- nãdey freyre, Ioão adão, Antonio paez, Afonfo vaz de brito, q auiã de ficar em arrefés de Martim afonfo, q prometeo a el rey de fazer que o gouernador lhe mãdafle logo muyta gente: E cÕ os Portuguefes que auião de yr coele, fe foy embarcar a Chetigão na fufta Dafonfo vaz de brito, & dahi fe partio pera a índia, onde chegou a faluaméto: E já a efte tempo auia noua no Gouro que Xercanfur (aquele Patane de que falei a iras) tornaua fobre o Gouro cÕ cem mil de caualo, & trezétos mil de pee: & ao dia feguinte em que Martim afonfo partio do Gouro, chegarão muytos Bengalas q eftauão na frontaria contra os Patanes, de q forão desbarata¬ dos, & afirmarão a el rey q Xercãfur fe chegaua de cada vez mais pera ho Gouro cõ a gente q digo, & dizia q nã fizera paz cõ el rey, fe não porq lhe deffe cadãno treze leques, & el rey mãdou logo faber fe eftaua Martim afonfo ainda no Gouro pera o não deixar yr, porq o ajudaffe na¬ quela guerra que efperaua: & vendo que Martim afonfo era ydo cõ os outros Portuguefes, mandou Nuno fernãdez freyre cõ grãdes poderes a Chetigão, pera que lhe fizeífe mil manchuas como as de Malaca, pera eftoruar coelas a Xercanfur a paffagem do Ganges ao Gouro, o que não pode fer, porq quãdo Nuno fernandez partio: já muyta gete de Xercan¬ fur tinha palfada, & tinhã cercado o Gouro por agoa, q não pode Nuno fernandez fayr em hú paraó em q ya fe não defendendofe ás efpingarda- das cõ dous efcrauos que leuaua q o ajudauão, & alfi fe foy fayndo dãtre os Patanes. E em húa cidade abaixo do Gouro, chamada çarnagão, achou no rio o Lafcar dela com feyfcentas almadias carregadas de mantimentos que leuaua ao Gouro, & quãdo foube q eftaua cercado, cometeo a Nuno
  • Livro VIU, Capitolo CLXXVIII 4&7 fernandez que foífe coele, q não quis por o aperto em que fe vira, & por ele não qrer yr, não oufou o Lafcar dyr cõ os mantimentos nem foy, & por falta deles foy a fome tamanha no Gouro, q os pays comerão os filhos pequenos, tendo primeiro comidos os caualos & os alifantes, & por derradeiro os Patanes entrarão a cidade, & matarão a mayor parte dos q eítauão dêtro, & el rey de Bégala fugio muyto ferido, & indo afíi, topou cÕ hú capitão del rey dos Mogores que o ya focorrer por lho ele mãdar pedir, & efte capitão leuaua quorenta mil de caualo, cõ que el rey de Bengala alfí ferido como ya, fez logo volta pera o Gouro, parecédolhe que o tornaria a tomar, & el rey dos Mogores ya a pos ele cõ o refto de feu exercito: & fabendo Xercãfur que ya, como não queria mais que o tefouro del rey de Bengala, apanhouho todo & leuouho deixãdo a cidade defpejada, & afli a acharão os Mogores, cujo rey por não achar o tefouro, & porque morreo el rey de Bégala das feridas, não quis ali mais eftar & tornoufe. O que fabendo Xercanfur depois de fe fazer jurar por rey de Bengala & dos Patanes, foy a pos ele com feu exercito, & depois de o desbaratar lhe tomou o reyno de Deli, de Sanga, & do Mandou, & ficou fenhor deles, & do de Bengala, & do dos Patanes, & morreo muy grande fenhor, & por fua morte deyxou eftes Rey nos aos filhos que tinha. CAPITOLO .CLXXVIII. De como os Aches quiferão tomar a fortaleza de Malaca. EM todos os liuros a tras fica dito, o mortal odio que el rey Dachem tinha aos Portuguefes, & quanto trabalhou por tomar a fortaleza de Malaca, & eftando ainda neíte propofito, mandou hú feu capi¬ tão com tres mil homés que a foffe tomar, & defembarcaria de noyte, & logo efcalaria a fortaleza. E partido cõ húa grande armada, fem fer íen- tido dos Portuguefes, nem faberem fua yda, chegou a Malaca vefpora de noífa Senora de Setembro, do anno de i53y. ao quarto da modorra, & defembarcado muy caladaméte, foyfe á pouoaçã dos Quells q era cer¬ cada de madeyra, & entrou por hú baluarte, que fe chamaua do Bédara, cujos criados o vigiauão, mas dormião a elte tempo tãobem, q os Aches os matarão a todos fem acordarem, & entrando por aqui na cidade, re¬ partidos em efcoadrões, fe forão com fuas guias á ponta pera dali yrem á fortaleza & efcalaréna, o que ouuera de fer, fe lhe noffo Senhor não atalhara, & indo feu caminho deímandarãofe algús a roubar certas cafas, cujos moradores fintindo que erão Imigos, & cuydando que foffe géte del rey Dungentana, forão dar auifo ás vigias da fortaleza, que dãdo rebate
  • 488 Hijloria da Índia a do Efteuão da gama que era capitão, fe pos logo em armas com os Portuguefes, & fabedo ele que erão Aches, temeo muyto fua vinda, pa- recendolhe que na deuia de fer fem terem inteligência na cidade, princi¬ palmente com Ninapão & Ninabay jrmãos, mouros honrrados & ricos, de que dom Efteuao tinha grande receo de lhe fazerem treyção. E dei¬ xado a fortaleza a recado, foyfe á ponte com duzétos Portuguefes, em que entrauao Triftã datayde, que auia pouco que chegara de Maluco pola via de Banda, Manuel da gama, Paulo da gama, Antonio pereira, dom Manuel de lima, dom Francifco de lima, dom Chriftouao da gama, Frãcifco bocarro'feytor, & outros fidalgos & caualeiros, & paliando a ponte, logo na entrada da pouoação dos Quells foy dar cÕ hú efcoadrão dos Aches, cõ q começou de pelejar, ao que os outros acodirã logo & foy antreles húa braua batalha, em q os Portuguefes pelejarão tãobe, q fizerã afaftar os Aches hú pedaço pera détro da cidade, matando algús: E vendo o feu capitão que não podia fazer o pera que viera, foltouhos a roubarem na cidade, ao que dom Efteuão acodio ainda q era denoyte, & apertouhos tão rijo, q em amanhecedo os fez recolher ao baluarte por onde entrarã, o que fizerão com muyto tento, & fechando a porta fobre fy, fem lhe os Portuguefes poderem impedir q a não fechalfem, & feriã- nos do baluarte com muyta preffa cõ frechas heruadas: O que vendo dom Efteuão, mandou a Triftã datayde que cõ cem homés quebraífe a porta do baluarte, & ele cõ duzétos entraria entre tanto polas coftas, & afli fe fez, fobre o que foy húa efpãtofa peleja, & por derradeyro os Aches forã tão mal tratados, q tomarão por remedio fugiré & yrenfe pera fua terra, ficando trezétos mortos, & dos Portuguefes não morrerão nhús, fòmente forão feridos Triftão datayde, dõ Francifco de lima, Anto¬ nio pereira, Francifco bocarro & outros. E el rey Daché depois q foube q a fua gente fora desbaratada, acrefcentoulhe mais o defejo de tomar a fortaleza, & tornou a mandar outro capitã com cinco mil homés que a tomalfe por força a efcala vifta. CAPITOLO .CLXXIX. De como os Aches tornarão a Malaca. VEndo dom Efteuão quão de rebate chegarão os Aches, & a oprel- fam em q poferão a fortaleza, ordenou fefTenta Portuguefes pera vigiaré a cerca dos Quells, & porque era de madeyra, ajuntarãofe eles todos por rogo de do Efteuã & cercarãna de taypa, & dõ Efteuão por acabar afinha a obra andaua fempre nela louuando os que o fazião
  • Livro VIII, Capitolo CLXXIX 489 bem, & dandolhes de comer á cufta del rey, no que gaitou trezétos cru¬ zados, & coiíto fez obra em trinta dias, q doutra maneira não fe fizera cõ menos de trinta mil cruzados, & a menos altura do muro era dú homé, & a mayor de dous & tres: & niíto foube dõ Efteuão como yao os Aches pera Malaca, & temédofe que defembarcafiem logo de caminho como da outra vez, pos no baluarte do Bendara duzétos efpingardeiros, & por feu capitão Paulo da gama, & a Triftão datayde, a dom Francifco de lima, a dõ Manuel de lima, & a Manuel da gama, deu a cada hú vinte cinco fobrefalentes pera q correflem o muro, & acodiífem onde foíTe ne- ceffario, & ele com outros cento fe poz junto da fortaleza: E efperãdo coefta ordem os Aches, chegarão, & como yão pera tomaré a cidade per cõbate, affentarã feu arrayal hú quarto de legoa dela, onde chamão a põta de Tãjaquell, que na noyte feguinte fazendo grande efcuro feytos em tres efcoadrões hú pera efcalar o baluarte do Bendara, & os outros pera efcalarem o muro, & quando não podeffem o cortaré cõ efcopros & macetas, cuydando que era ainda de madeira, & os que auião defcalar o baluarte, fobirão muy caladamente parecédolhes q os não fentião, fe não quãdo os Portuguefes que eftauão nele arremefarão fobreles tanta panela de poluora, & lhes tirarão tantas efpingardadas que os q fobião fe dece- rão muy de prefla & os outros não oufarão de fobir & ho mefmo acõte- ceo aos que quiferão fobir pelo muro, & com tudo os Aches nam deixa¬ rão o combate, em que perfiaram duas oras de relogio, & forão muytos feridos & mortos: & como fayo a lúa fe forão por nã recebere mais dãno, & tornarão na noyte feguinte, & acontefeolhes da mefma maneira. E vendo dom Efteuão que por virem polo efcuro não recebião tãto dãno como receberião fe ouuefle claridade, recebeos na primeyra noyte que tornarão com grandes nouelos de fiado enfopados em azeyte, & eftes ace- fos de tres em tres poftos em grãdes efpetos de tres pontas, que eftauam fincados no chão hum tiro de pedra do muro, & dauão tanta claridade como q fora de dia, pelo q os Aches forão be viftos a hú grade pedaço do muro, onde lhes tirarão cõ a artelharia & efpingardaria com que os fizerão tornar fem oularem de chegar ao muro, nem oufarão de tornar mais pois os vião: E recebendo muy to 'grãde dãno de mortos & feridos fe partirão pera fua terra tão de prefla que Triftão datayde que foy a pos eles com húa armada os não pode alcãçar: & com a fama dos Aches yrem tão mal tratados não oufarão outros de bolir configo. Tomo IV 62
  • 49° Hijloria da índia CAPITOLO .CLXXX. De como Antonio galuão fe\ pa^es com el rey de Geilolo, & de Bachão. PArtido Triftão datayde de Ternate como a tras fica dito, Antonio galuão que ficaua por capitão da fortaleza, ficou em grande traba¬ lho por fe yr tãta gente que quafi ficou fó, & por eftarem ainda os Ternates de guerra. E como ele conhecia que a principal caufa de feu defcanfo era pacificar a géte da terra & tornala a fer amiga dos Portu- guefes, trabalhou polo fazer por meo de Cachil rade yrmão del rey de Tidore, que niflo lhe aproueytou tanto, q fe ele não fora cuílaralhe muvto fazelo, porque os Sãgages do fenhorio de Ternate querião q defpofeífem de rey de Ternate a el rey Cachil aeyro dizendo que era baftado, & auia outros que lhe percedião pera fere reys, & que defpofeífem de regedor ao çamarao, cometião a Antonio galuão qfcreueffe ao Gouernador da ín¬ dia, que lhes mandaífe el rey Tabarija que era feu rey de dereyto, & fe foffe morto q então farião outro, & que entre tãto foífe Antonio galuão feu rey. E como ele era muyto bom home & defejaua muyto de feruir a Deos & a el rey, não quis aceytar aquele partido, receando que o pouo fe efcandalizafle de fer regido por ele q era Chriftão, & por iífo trabalhou tanto com os Sangages & gouernadores dos lugares, que forão contetes dobedeceré por rey a Cachil aeyro, & ao çamarao por regedor, & afli o fizerã pelo q Antonio galuão deu muytos prefentes á fua cufta & coillo começarão os Ternates q eftauão efpalhados por outras jlhas de fe tor¬ nar pera Ternate & pouoar a terra, em que Antonio galuão começou da- querir grande fama de muyto bom homé, & q nã auia nele nhúa cobiça, & efpantauãfe os mouros muyto de lhoffereceré a gouernança do reyno & não a querer aceitar, porque no tempo que a teuera fe poderá fazer quão rico quifera, & el rey, & o çamarao lhe ficarão por ilfo em obriga¬ ção grãdilfima, & affi o dizião pubricamente. E tendo affentada a terra, pera a coferuar, trabalhou por fazer cÕ el rey de Geilolo & com el rey de Bachão, que fabia que fe apercebião pera lhe fazerem guerra & tra- balhauão com el rey de Tidore que os ajudaífe, & ifto por vingaré a morte del rey Cachil dáyalo, que fora morto a ferro, que erão obrigados a vingar fegundo feu coílume. E por os reys não quereré a paz, os defa- fiou Antonio galuão a ambos que fe mataíTem coele pois ele fó era o de quem defejauão de fe vingar, & os reys aceitará o defafio, mas não ouue effeito, por el rey de Tidore & feu yrmão Cachil rade interuiré niffo, & lhes fizerão fazer a paz com Antonio galuão: E ao tempo que a aífen-
  • Livro VIII, Capitolo CLXXXI 491 tara, lhes mandou Antonio galuão grades prefentes da parte del Rey de Portugal, & eles lhe mandarão algús Portuguefes que tinhão catiuos, & artelharia, & outras armas. E affentadas as pazes, muytos Ternates que eftauão naqueles dous reynos fe tornarão pera Ternate, & afli fe tornauão cada dia outros, & fe ya pouoãdo a terra como dãtes, de que a gente eftaua tão fora como diffe a tras, ne ouuera núca de tornar a Ternate fe não fora a boa fama Dantonio galuão, & veré por obra que era adi como ouuião. CAPITOLO .CLXXXI. De como fe perderão duas naos de Cajlelhanos que yão pera Maluco. NEste tempo mandarão os reys daquelas jlhas recado a Antonio galuão q per antrelas contra as dos Papuas andauão duas naos de Caftelhanos q nã podião tomar porto, nem eles auião de con- fentir que o tomalfem ate não faberem fe era diífo contente, ho que lhes ele mandou agradecer, & pedir que os não deixaffem tomar porto em fuas terras, & que lhes difleffem da fua parte que fe foffem á fortaleza & ferião remedeados de todo o necelfario: E logo mandou fazer algús bateis de que tinha neceffidade fe ós Caftelhanos quifeffem guerra: Cujo capitão mór auia nome Fernão de grijaluarez, & o da outra nao fe cha- maua Aluarado, q indo da noua Efpanha pera o Peru do Emperador on- deftaua o marques dõ Fernando cortes, & ou por võtade de Fernão de grijaluarez, ou por afli fer mãdado, fendo a duzetas legoas da cofta da noua Efpanha, diffe á fua géte q auião de defcobrir outra terra fem dizer q terra era, do q a todos pefou muyto, & por nauegare ao logo da linha ora a húa parte ora á outra ate cinco ou feys grãos daltura, parecia a todos que a terra que auião de defcobrir erão as jlhas de Maluco, & afli andarão ate fe poerem em treze graos da parte do fui, & tornarão ate vintaquatro da banda do norte, & fem nunca acharem terra, por falta dagoa, tornarão a demãdar a linha pera fazerem agoada dos chuueyros, no q gaitarão muytos dias. E falecendolhes o mantimento, quiferão tor¬ nar á noua Efpanha & não poderão, porque chegãdo a vinte fete graos da linha efcafeaualhes o veto, & fizerão ifto tantas vezes, que lhes foy forçado yrenfe dereitos ás jlhas de Maluco, & morreolhes quafi toda a gente, & antreftes foy Fernão de grijaluarez, & forão ter a elas, cujos moradores lhes não deixarão tomar porto por amor Dantonio galuão, & diziãlhes que fe fofiem á nolfa fortaleza, o que nã quiferão, & vendofe fem remedio de poderem tomar porto, & com medo de fe alagarem por
  • 492 Hijioria da índia as naos andarem muyto abertas derão á cofta, onde os mais forã mórtos pola gente da terra, & efcaparão tres ou quatro que forão catiuos, & de¬ pois os refgatou Antonio galuão & foube deles tudo ifto, & q na noua Efpanha fe fazia húa armada pera yr a Maluco q foy (como direy no liuro Nono.) CAPITOLO .CLXXXII. De como Iodo freyre foy ao Morro por capitão de húa armada. DEpois Dantonio galuão mandar recado aos reys de Maluco que na deixafiem tomar porto aos Caftelhanos fez logo húa armada de que foy por capitão mór ao Morro hú Ioão freyre pera tornar á obediência da fortaleza certos lugares que lá eftauão leuantados, & foy coele Cachil rade, por cuja caufa algús daqueles lugares derão logo obe¬ diência a Ioão freyre, & outros não quiferão & fe defenderão, & ouue hi peleja antre os mouros & os Portuguefes, & foy morto hú Fernão pinto, & andando lá Ioam freyre, chegou Iorge mafcarenhas capitão, & feytor da nao do trato da índia pera Maluco, que ya carregar de crauo pera el Rey dom Ioão de Portugal: & tanto quê furgio em Talangame, foubefe na fortaleza por algús da nao que forão a terra, que Iorge mafcarenhas leuaua hum aluará del Rey em que dfcfendia que nenhúa peífoa compraífe crauo & todo fe vendeffe na feytoria fopena de perdimento do crauo & de toda a fazenda: & que mandaua ao gouemador da índia & ao védor da fazéda que o fizeflem comprir: E aífi differam mais que o védor da fazenda dera licéça a Iorge mafcarenhas & aos que yão coele pera com¬ prarem certos báres de crauo & os carregarem, & a mefma licença man¬ daua a Antonio galuão, & ao feytor & a feus efcriuães, com ho que toda a géte da fortaleza fe aluoroçou grandemente, & ajuntarãofe os mais â porta da fortaleza, dizendo a grandes brados, que auião dyr queymar a nao de Iorge maícarenhas cõ quantos eftauam dentro pois vinha nela tal aluará, & que fe auião dir pera os caftelhanos fe vieífem, ou pera os mouros, pois lhe tirauam o crauo que eles també mereciam, pois não tinham outra coufa em que tratar: & defendiam aquela fortaleza com tanto derramamento de fangue & trabalhos tam immenfos, & defendédo el Rey ho crauo, geralmente ho feu vedor da fazenda ho alargaua a Iorge mafcarenhas & aos feus marinheyros que nunca pelejaram naquela terra: & diziam a Antonio galuão que acodio a efte aluoroço, que nam fofreíTe ho aluaraa que leuaua Iorge mafcarenhas pois nunca el Rey ho mandara em tempo doutro nenhú capitão, ao que ele refpondeo que pois que ele era del rey & eles também, que auiam de comprir os íeus mandados, &
  • Livro VIII, Capitolo CLXXXIII 493 que fe el rey aquilo mandaua, ele era contente de lhe obedecer & ho auia por bem, & que el rey fazia ho que deuia pera forrar ho grande gafto que auia tantos annos que tinha naquela fortaleza fem auer dela nenhú proueyto: & quanto a ele nam lhe daua nada de yr pobre por goardar os mãdados del rey, em que efperaua que lhe faria merce pois a fazia a todos os que ho feruiam, rogando a todos que nam fe aluoro- çaffem em quanto nam viífem ho aluará que diziam, porque ele daria a tudo hum meo com que ficaífem cotentes: Porem a gente nam foy con¬ tente difto, & mais porque fabia que Antonio galuam era tam amigo do feruiço del rey, que auia de goardar ho aluará ao pé da letra, & nam podiam' aífoíTegar: & tam danados andauam, que fayndo Iorge Mafcare- nhas em terra, fem ho faber Antonio galuam, alfi como os que digo ho viram faltaram com ele pera ho matarem, & affi ouuera de fer fe nam fe acolhera a.húa cafa na pouoação dos Portuguefes onde fe defendia com a porta fechada, a que acodio Antonio galuam, & quando chegou jaa acendiam fogo pera queymarem a cafa & a ele: E como a gente vio An¬ tonio galuam, foramfe todos, & ele leuou Iorge Mafcarenhas pera a for¬ taleza : & como nam eftaua em tempo pera caftigar aquele crime, por amor dos caílelhanos que efperaua, & recear que fe lhe foífe a gente, diílimulou com os culpados, dandolhe efperãça que quãdo viífe o aluará faria o que foífe juítiça, pois naquelas partes era védor da fazeda del Rey, & fez que foffem amigos de Iorge mafcarenhas & dos que yão cõ ele, no que lhe foy bõ padrinho, porque doutra maneyra foralhe grande trabalho faluar a vida, fegundo a gente defejaua de o matar. CAPITOLO .CLXXXIII. De como foy lido, & pubricado o aluaraa que leuaua Iorge mafcarenhas, & das muytas de for dês que fobrijfo fucederão. Assossegado efte aluoroço, moílrou Iorge mafcarenhas o aluará que leuaua, que depois de Antonio galuão dizer que lhe obedecia, foy lido em voz alta perante todos, cuja fuftancia era o que diífe: & affi foy lida a licença que o védor da fazenda daua a Antonio galuão & a Iorge mafcarenhas & aos outros pera fazerem crauo, & Antonio galuão dififtio logo da fua, dizendo que pofto que perdia niffo muyto, que antes o queria q perderfe ho feruiço del Rey feu fenhor, que pera fe conferuar naquela terra era muyto neceífario não fazer ninguém crauo fe não ele, pera fe tornar ao primeyro preço que lhe fora pofto per Antonio de brito, porque os mouros auerião por feu barato de o darem, não ho podendo
  • 494 Hijtoria da índia vender a outrem fe nã a el Rey, & que melhor feria aos Portuguefes compraréno na feytoria que aos mouros pois lho dauão tão caro que nam valia mais na índia q em Maluco, & mais que na feytoria lho darião em defconto de feus foldos & mantimentos, fem terem neceffidade de darem por ele roupas & outras coufas que auiam dauer de fora, & ja que da¬ uão tamanho ganho aos mouros, que melhor feria darem algum a el Rey que os mantinha, & gaítaua tanto em fofter aquela fortaleza & era caufa de eles enrriquecerem, que nam era rezã que eles leuaífem tudo & el Rey nada, pedindo a todos q ouueífem por bem ho que el Rey mandaua & comprilfe ao pé da letra: E logo mandou pregoar o aluará com trom¬ betas por a cidade, & depois pola jlha. E mandou ao ouuidor & ao fey- tor que tiraffem deuaffa fe ele ou feus criados fizeram algum crauo, ou o compraram depois que ali eftauão, & achoufe que nam, porque defe- jaua tanto de feruir el Rey, & tomarem todos dele exempro pera ho fer- uirem, que antes queria perder fua fazenda, que fazer coufa em que pa- receífe que o deferuia. E mandou mais que do crauo que as partes tinhão feyto, fe tomaffe ho terço pera el rey, & lhes foffe pago polo preço da feytoria, & affi foy feyto, no que fe ouueram quinhentos báres de crauo pera el Rey: E pera que dali por diante fe ouuelfe todo ho crauo pera el Rey, efcreueo cartas aos reys de Maluco & aos Sangages, pedindolhes que defendefiem em fuas terras que nam fe vendeífe o crauo fe nam ao feytor, mandandolhes ho terlado do aluará del rey, ao que todos refpon- deram que feruiriam de muy boa vontade a el Rey de Portugal, mas que naquilo não podiam por fere certos que ainda que mataífem os mouros que nam auiam de deyxar de vender ho crauo a quem mais lhe deífe, que defendeíTe ele aos Portuguefes que lho não compraffem, porque dou¬ tra maneira não podia fer: E por nelte tempo Antonio galuão fer auifado que lorge mafcarenhas mandaua fazer crauo, & q os Portuguefes o que- rião tãobem fazer, pediolhe Antonio galuão que o nam fizeífe por não dar azo que ho quifeffem os outros fazer, que muyto crauo auia de leuar del Rey em que fe entregaria daquele, pera que lhe ho vedor da fazenda daua licença: E não o querendo ele fazer pos Antonio galuão pena con¬ forme ao aluará del rey que não compraffe crauo, & lorge mafcarenhas lhe moftrou hum aluará do gouernador, em que o ifentaua de todo de fua jurdição, affi a ele, como a quantos yão coele, & a nao & fua carga, & fobrifto ouue ãtreles difcordia, & lorge mafcarenhas fe foy pera a nao, & não tornou mais a terra. E vendo os Portuguefes eíta difcordia, come¬ çarão logo dapertar com Antonio galuão que lhes deixafie fazer crauo, fe nao que fe yrião pera a índia, fazendolhe fobriflo grandes requerimétos, & proteltando de ele fer em cargo a el rey da perda que recebeffe por
  • Livro VIII, Capitolo CLXXXI1I 495 fua yda: & com tudo Antonio galuão nã quis nunca alargar ho crauo, & mandou requerer a Iorge mafcarenhas pelo Ouuidor, que lhe não leuaffe nhúa gente fem lua licença, & ele não quis deyxar chegar ho Ouuidor a bordo, mandandolhe tirar com efpingardas, cuydando que o ya prender: & foy ho aluoroço tamanho na gente, & o defauergonhamento, por lhe Antonio galuão nam querer alargar o crauo, que o quiferão matar, mas não poderão. E por derradeyro fe armaram cento & oytenta homes, & affi armados na metade do dia fe forão embarcar, ameaçãdoho com a morte fe lho quifeffe tolher, & dizendo que pois era tão amigo do feruiço del Rey, que lhe goardalfe a fua fortaleza, & affi fe forão embarcar cÕ Iorge mafcarenhas, & com hum Fernão anrriquez fenhor dú Iungo em que fe ya pera a índia, & Antonio galuão não pode refiftir a ifto, porque lhe nam ficauam mais de cento & vinte homes, & eftes porque lhes daua de comer á fua cufta, que não auia na feitoria com que lhes pagaffem mantimento, & Antonio galuão porque não ficaffe fó & fe perdelfe aquela fortaleza, gaftaua o feu, & não lhe daua nada perdelo por feruir el Rey, dizendo que pois o perdia niffo que el Rey ho fatisfaria: E era a reuolta tamanha, & ho Ouuidor ouue tamanho medo, que por lhe Antonio gal¬ uão não mandar préder ninguém deixou a vara, nem ho Vigairo queria feruir a ygreja, & tão bem fe foy. E embarcada ella gente com Iorge mafcarenhas, & com Fernão anrriquez, partirãofe pera Banda: & tam¬ bém foy em fua conferua hum Gonçalo Vaz çarnache, que andaua dar- mada no Morro, onde tomou por força a Ioão Freyre hú nauio em que andaua que Antonio galuão tinha pera mandar aquele anno aa índia car¬ regado de Crauo, & por mays requerimentos que mandou fazer a Gõçalo vaz (depois que foy em Talãgame) que tomaffe o crauo nunca quis, & foyfe com o nauio vazio, no que el rey recebeo muyto grande perda, & Gonçalo vaz nã ouue por iflo nhú caftigo, pelo que em Maluco cada hú fazia ho que podia fem temor de Deos, nem del Rey, nem vergonha do mudo, & mais porq fabião q os não podia caftigar o capitão de Maluco. E vedo algús caítelhanos que eftauã na fortaleza (& eftauã pera fe yr) como Antonio galuão ficaua fó, não fe quiferã yr, lembrados da muyta horra & gafalhado, & outras muytas boas obras que lhes tinha feytas, & por lhe pagaré tudo ifto quiferão ficar: Pois os Portuguefes a quem tinha feyto o mefmo, lho pagauã tão mal, & affi lho difleram & ficaram coele, o que lhes ele agardeceo muyto, & logo efcolheo hú deles, que auia nome Pero de ramos q conhecia por bõ homé, & efcreueo por ele a el Rey de Portugal & ao gouernador & ao védor da fazenda o que lhe fizerão muy miudamente, mandandolhe os eftormetos que diffo tirara & os autos q fizera, & mandoulhe que defle tudo a qualquer capitão que
  • 4q6 Hijloria da índia achafle em Banda: & em guarda defte Pero de ramos foy Cachil rade com húa armada dei rey de Tidore, & chegado a Bãda deu tudo a Paulo da gama que hi eftaua por capitão, & eftando hi morrerão Iorge Mafca- renhas, & Gonçalo vaz'çarnache de doença que lhes fobreueo. CAPITOLO .CLXXXIIII. Do que o gouernador fe\ em Diu pera a vinda dos Turcos. O O Gouernador que ya pera Diu, como difle a tras, chegou lá na entrada de Feuerevro, do anno de mil & quinhentos & trinta & oyto, & fabendo de Coge çofar como tinha por certa a vinda dos Turcos, & que vinhão com grande poder, por quanto a cerca da vila dos Rumes era grãde, & era neceffaria muyta gente pera a defender, que ele não tinha, pelo que os Turcos a poderião tomar, acordou com con- felho de a derribar, & que fizeffe na borda dagoa hú baluarte & húa cafa forte pera apoufentamento do capitão do baluarte, o que logo foy come¬ çado, & tinhão as paredes de vinte pés de largo, cuja capitania o gouer¬ nador deu a hú Francifco pacheco juyz dalfandega de Diu, & dentro na fortaleza foy começada húa cifterna de vinte palmos dalto, & tão alta que cada palmo auia de leuar duzentos & cincoenta toneis dagoa: E neíte tempo quifera o gouernador reformar as tregoas que Antonio da filueyra tinha adernadas cõ Alucão que fe acabauão então, & Alucão núca o pos em obra, por mais recados que lhe forão fobriffo: E o gouernador ainda que efperaua pelos Turcos, não quis inuernar em Diu, & foyfe a Goa, deixando a Antonio da filueyra feys cetos homes, de que os quatrocentos erãò mal armados, & os duzentos não eram pera pelejar, & antreftes muyto poucos fidalgos, & leuou toda a gente configo, deixando a forta¬ leza em tamanho rifco & de guerra com Cambaya: & de Goa defpachou a Vafco pirez de fampayo pera yr a Bengala com gente em ajuda del rey, & foy por capitão mór de noue velas, de que foram por capitães afora ele, Antonio de melo q agora mora em Bucelas, Frãcifco de barros de payua, Manuel mafcarenhas, Chriftouão douria, Diogo rabelo, & outros, & mandou nefta frota ho embayxador del rey de Bengala, & Vafco pire>z fe foy a Cochim, donde partio em Mayo pera Bengala.
  • Livro VIII, Capitolo CLXXXV 491 CAPITOLO .CLXXXV. De como Coge çofar fugi o de Diu. DEpois do Gouernador partir de Diu, reformou Antonio da filueyra as tregoas que tinha com Alucão, & a pos iffo chegou a Diu húa carta q Coge çofar tinha mandada a Caxem a faber ainda mais certeza da paflagem dos Turcos á índia, q lhe leuou recado muyto certo que auião de paffar com gente armada, de que ele folgou muyto, porq lhe parecia que deitarião os Portuguefes fora da índia, que era coufa que muyto defejaua, por lhes ter mortal odio, pofto que moftraua fer leu amigo: E logo determinou de fe yr pera çurrate fecretamente com toda fua cafa & fazenda, pelo que encobrio o recado que tinha a Antonio da filueyra, dizendo que lhe parecia vento a vinda dos Turcos, porque el rey de Caxé & algús mercadores de Meca lhefcreuerão que não auia lá tal noua. E pera mais diífimulação de fua yda, fez q carregaua húa nao noua q fizera auia pouco pera a mandar a TenaçarI, & em quanto fazia ifto, mandou fuas molheres pera çurrate em companhia das de hum mouro honrrado, que por lhe o gouernador tirar a xabandaria de Diu, fe ya mo¬ rar a çurrate com toda fua cafa, & por iffo forão as molheres de Coge çofar coele, fem ninguém entender que fe yão, por os mouros terem muy- tas. E mandadas as molheres, carregou húa noyte o fato na nao que dizia que mandaua a TenaçarI, & fazendo que deitaua a nao fora da barra pera partir, fe acolheo aos vite feys Dabril de mil & quinhétos & trinta oyto: De cuja fupita yda foy grande efpanto na cidade, efpecialmente antre a gete da terra, que dizia que não fe fora Coge çofar fe não pera fazer guerra aos Portuguefes, & affi pareceo a Antonio da filueyra, que fabendo que eftaua em çurrate lhefcreueo muytas vezes, que fe fua yda fora por agrauos que lhos declaraífe & o defagrauaria, pedindolhe muyto que fe tornaffe pera Diu, a que ele nunca refpondeo, pelo que Antonio da filueyra fe receou de guerra, & pos grande diligencia em fe acabar ho baluarte & a cifterna. E logo hú domingo depois da yda de Coge çofar aconteceo húa coufa que pareceo pronoftico das guerras que mouros & Turcos fizerã aquele anno á fortaleza: E foy que os moços catiuos aifi Chriftãos como mouros fe fizerão em dous bandos, & por modo de fol¬ gar pelejarão cÕ paos hús contra os outros, & ficando os moços Criftãos com a vitoria, o fintirão tanto os moços mouros que fe quiferão vingar, & pola fomana tornarão a pelejar de verdade, leuãdo hús & outros arte- ficios de fogo, & os Chriftãos leuauão húa bandeyra com a Cruz de 63 Tomo IV
  • 498 Hijloria da índia Chrifto, & os mouros outra com a ymagem de Mafamede, & fempre os Chriftãos leuauão a vitoria, & por fe fazerem muyto mal hús aos outros, lhes foy deffefo que nam pelejaffem. E nifto a dezafeys dias de Mayo chegou a Diu Fernão de moraes que aquele anno partio de Portugal por capitão de húa nao da carga, como difle, & por ele efcreuia el rey ao gouernador a certeza da paffagé dos Turcos á índia, & efta tinha Anto- nio da filueyra per hú Triftão gomez natural de cezimbra, que fendo ca- tiuo de Barbaroxa lhe fugio & foy ter a Baçorá & depois á índia, de quê Antonio da filueyra foube a certeza da paffagem dos Turcos. E não po¬ dendo Fernão de moraes nauegar na fua nao pola cófta da índia por fer inuerno, fe foy em hú catur caminho de Goa, & de Chaul não pode yr no catur & fe foy por terra, & leuou as cartas ao gouernador, que fe co¬ meçou a fazer preftes pera no Setembro feguinte yr a Diu. CAPITOLO .CLXXXVI. De como os regedores de Cambaya mandarão cercar Diu. COge çofar que defejaua muyto de tomar a fortaleza de Diu, por faber quão mal prouida eftaua de gente & dagoa, foyfe a Chãpa- ner ondeftaua a mãy do çoltão badur, & feu neto çoltão mahmude rey de Cambaya moço pequeno, & os tres capitães que gouernauã o reyno, & deulhes cota da difpofição em que eftaua a fortaleza de Diu, afirmando que nunca auião de ter tão bom tempo pera a tomarem como aquele, & eles o acordarão affy, & logo defpacharão a Alucão pera fazer guerra a Diu com cinco mil de caualo & dez mil de pé, & porque era velho foífe Coge çofar feu companheiro, que por efta honrra que lhe foy feyta leuou á fua cufta mil Turcos de caualo & tres mil Guzarates de pé, que cõ os Dalucão fazião dezanoue mil homés, com que partirão pera Diu, do que logo Antonio da filueyra foy auifado, que o difle aos fidalgos & pefloas principaes q eftauão coele, & mandou a Francifco pacheco ca- pitã do baluarte da vila dos Rumes que dormifie lá cada noyte, porque eftaua acabado & entulhado ate o primeiro fobrado, & até li tinha vinte palmos daltura, & forão lá leuados cinco tiros groffos, hú lião, húa fal- uage de ferro, & húa efpera, & dous camelos de metal, a que logo man¬ dou fazer as bombardeyras, & mandou lançar ao mar os nauios que tinha varados pera defenderem coeles o rio. E andando nefta occupaçam leuan- toufe húa noyte fogo na fortaleza em cafa de húa molher folteira q quey- mou feflenta moradas de caías, de q Coge fofar quando ho foube tomou bom pronoftico, & difle á fua gente q aquele fogo queymara quantas mu-
  • Livro VIII, Capitolo CLXXXVII 499 nições tinhao os Portuguefes. E apreflando coeíta noua feu caminho, che¬ gou ele & Alucão á quintaã de Meliq aos vinte quatro de lunho onde aíTentarã feu arrayal, & tolherão logo os mantimentos q yão da terra firme á cidade, em cujos moradores foy tamanho o medo que logo come¬ çarão de fugir. E fabendo Coge çofar deites que as bombardeyras do baluarte da vila dos Rumes não erão acabadas, & os tiros não podião jugar foyho faltear húa quarta feyra antemanhaã vinte feys de lunho, leuando os quatro mil homés de fua capitania, & chegou tam de fupito que fubio fua gente ao muro que ainda não era derribado, & matarão algús Portuguefes dos que vigiauão, & aos brados deites acordarão os officiaes da alfandega & outros Portuguefes, que por todos forão vinte, & com preífa fe acolherão em camifa ao baluarte, & dali fe defenderã com as efpingardas tão esforçadamente que os não poderão entrar, prin¬ cipalmente porque acodio logo Antonio da filueyra & fez afaítar os Imi- gos, & Coge çofar foy ferido de húa efpingardada por húa mão, & por iífo fe tornou pera a quintaã de Melique onde fe achou muyto mal da ferida. CAPITOLO .CLXXXVII. De como Antonio da filueyra pos goardas nos pajfos da ilha. NEste tempo auia em Diu muytos mouros brancos do eítreito todos homés de guerra, que el rey de Cambaya antes de morrer man¬ dara chamar a foldo pera o ajudarem contra os Portuguefes, & eítes chegarão aquele Abril paliado em habito de mercadores pera nam ferem conhecidos, & leuauã fuas armas fecretas, & agafialhauãofe cõ os outros mercadores onde tinhão efcondidas as armas. E vendo eítes a guerra que Coge çofar fazia aos Portuguefes, creceolhes o defejo de o ajudarem, & defcobrindofe por lafcarls começarão de prouocar a géte da cidade q fe leuantaffe contra os Portuguefes, & hús por hú cabo outros pelo outro fazião grandes ajuntamentos nas ruas e nas praças, ao q logo acodio Antonio da filueyra acõpanhado da melhor géte da fortaleza toda armada, & dãdo de fupito nos mouros prédeo muytos deites, & bufcando as cafas dos mercadores tomou quantas armas achou cõ que os lafcarls ficarão defarmados. Iíto feyto, porque a cidade não tinha agoa fe não a da jlha, pos goardas nos paíTos que auia dela pera a terra firme, & em dous baluartes que eitauão em dous deles pos por capitães Gonçalo fal¬ cão filho de Ioão falcã, & Luys rodrigues de carualho, & em outro paífo que auia nome Palari, Lopo de foufa coutinho de Santaré em húa galeota com vinte cinco efpingardeiros, & outros tantos em húa barcaça & duas
  • 5oo Hijloria da índia fuftas, & o paflo da ponta da ilha goardauão Antonio da veiga feytor, & Francifco anrriquez tefoureyro dalfandega, & Francifco foreyro, & Iorge barbofa de Coimbra efcriuães, & Francifco de gouuea capitão mór do mar de Diu, & Miguel vaz, Pantalião pereyra andauão de fobrefalente em tres catures correndo os paííos de noyte & de dia: E em quanto du- raua a ferida de Coge çofar q os mouros não dauão rebates, fez Antonio da filueyra acabar o baluarte da vila dos Rumes, que ficou daltura de quoréta palmos, & afli a cafa de junto coele, pera que mandou logo Fran¬ cifco pacheco cõ fetenta homés, porem não fe pode fazer caua a efte ba¬ luarte que foy caufa de fe tomar depois, & tãbem foy acabada a cifterna da fortaleza, & afti como a yão acabando, a enchião dagoa, & leuou cinco mil toneis, com que a fortaleza ficou bé abaítada dagoa. CAPITOLO .CLXXXVIII. De como Antonio da filueyra deixou a ilha, & fe recolheo na cidade. DEpois que Coge çofar foy fam da fua ferida, logo ele & Alucão alfentarão feu arrayal na terra firme ao derredor da jlha, & fize- rão fuas eílancias dartelharia defronte dos paffos da jlha, Coge çofar defronte do de Palari, & Alucão dos outros, & de dia & de noyte nunca a artelharia eftaua queda fem tirar, pera que defendelfem a paífa- gem a algús catures que leuauão mantimentos & munições aos palfos: E Coge çofar que defejaua muyto de tomar o paffo de Palari, melhorou húa noyte fua eílancia em a chegar mais para o paffo, porque bem fabia que não auia de poder de dia, & pera fe acabar logo em húa noyte mã- doua fazer de ceftos de campo cheos de terra, & andando neíta obra qui- nhétos Turcos dos da fua capitania, acertou de paífar polo rio Miguel vaz no feu catur, & enxergando em terra a forna que fazião algús ceftos que eftauão aflentados, & fem poder defenferençar o que era, deulhe húa çurriada defpingardadas de q fe os Turcos empararão com os ceftos, & não bolirão configo por não ferem fentidos, receando que os eltoruaífem da obra q fazião. Lopo de foufa que ouuio as efpingardadas acodio logo na fua galeota, & mandou tirar àquela foma que parecia com hú camelo, cujo pelouro dando nos ceftos os esborralhou todos, & matou algús Tur¬ cos: E vendo Lopo de foufa q com aquele tiro defapareceo a foma que via mandou tirar mais, & os Turcos lhe tirarão tãobem: porem como Lopo de foufa era esforçado não quis eftar naquilo, & faltou em terra com Miguel vaz cõ todos os de fua companhia, & derã nos Turcos com tamanho impeto que os fizerão fugir ficando algús mortos, o que pareceo
  • Livro VIU, Capitolo CLXXXVIII 5or ao outro dia no muyto fangue que ali foy achado & tripas domes, que os corpos leuarao os viuos por não faberem os Portuguefes o dano que lhes fizerão, & Miguel vaz foy ferido de húa efpingardada em hú pé. E com tudo ifto como os mouros erão tantos como diíTe não lhes poderão os Portuguefes tolher que não melhoraffem fuas eftancias & as pofeflem a menos de cem paíTos do rio, com que impedirã aos Portuguefes que não nauegaffem por ele, porq tudo quãto paífaua de dia & de noyte pef- cauam com a artelharia, matando & ferindo os Portuguefes, & por iífo, & por Antonio da íilueira ver claramente que não podia defender a jlha com quão pouca gente tinha, & tãobem por ter a cifterna chea dagoa, & não ter neceflidade da que auia na jlha, determinou com confelho, de a alargar aos mouros, o que fez aos noue Dagofto: E per Payo rodriguez daraujo mandou dizer de noyte aos capitães que eílauã nos pados que fe recolheflem á cidade, no que foy grande defmancho & defordem, porque afora fazer grande veto & marulhada no rio, com que o nauegar por ele era muyto perigofo. Em Antonio da veiga feytor ouuindo o recado Dan- tonio da filueyra não fe quis mais deter, & deixãdo fua capitania fe aco- lheo por terra cÕ medo das bõbardadas q lhe os mouros auiã de tirar fe foífe por agoa, & os outros q forão Frãcifco anrriquez, Iorge Barbofa, Frãcifco foreyro, Miguel Vaz, & Pantalião Pereyra fe forão por mar nos catures & em duas galeotas foy tamanho o medo nos comitres delas das bombardadas que tirauã os mouros paliando por diante de húa eflancia, que derão coelas em feco indo os catures diante, que por iífo não fentirão o que acõtecera ás galeotas, cujos remeiros & géte darmas vendo que eftauão em feco fugirão logo com medo de os tomarem os mouros, & deixarão fós os capitães, por cujos rogos nunca quiferão tornar: & vedo eles que fós não podião faluar as galeotas, & que fe perderião efperando mais, poferãolhes o fogo & forãofe por terra: & os mouros que as virão arder acodirã logo a ver o q era, & achandoas fós, apagarão o fogo & recolherão as bõbardas que tinhão & outras armas, & o mefmo aconte- ceo a Gonçalo falcão que ya em húa barcaça com a gente & artelharia q tinha no baluarte de que era capitão, & a Luys rodriguez de carualho que ya em húa fufta, que nunca a fua gente quis efperar & toda fugio, & deixarão a artelharia & outras armas aos mouros, que fem pelejarem, & ás efcuras, ouuerão em húa noyte o que não poderão auer em muytos dias pelejando continoamente: E fazendofe tãobé á vela Lopo de foufa coutinho pera fe yr na fua galeota, o grande vento que fazia & a maré que vazaua lha deitarão da banda da terra firme, onde ficou em feco hú tiro de pedra da madre do rio, & fentindo que daua em feco, alargou o batel pelo rio abaixo, porque fe receou que os leus fugiffem nele, & fem
  • Hifioria da Índia 502 ele bem fabia que não fe podião yr por o rio fer ali de mais largura que em outra parte. E em amanhecendo que os mouros o virão tão perto de terra & tão longe dagoa, pareceolhes que o poderião tomar, & remeterão á galeota trezentos, deles Turcos, Abexins, & Arábios, dando grãdes gri¬ tas, & em eles abalado rebata Lopo de foufa o feu guião, ficãdo a lança no meo da galeota, & difie cõ o rofto ledo: Ainda que por ml queira paf- far algúa couardia, fam eftes fenhores q eftão em minha companhia tão valentes caualeyros que mo não confentirão, a que logo hús remeterão ás efpingardadas, & os que as não tinhão aos berços & falcões da ga¬ leota, & poendolhes o fogo tendohos aos hombros defparão nos ímigos, & juntamente coeles a artelharia groffa, cujos pelouros hús leuauão em migalhas, outros em pedaços, & outros deyxauão feytos dous de cada hú, & coefta esborralhada fe efcarmentarã os ímigos de maneira q fugirã, & antes que tornaffem outra vez tomarão Lopo de foufa & os feus a galeota nos braços, & ora neles, ora a empuxões com trabalho Imenfo derão coela no pego, & efcapando de tamanho perigo com ajuda de noffo Senhor fe forão pera a cidade, encontrando dous catures que yão em feu focorro. CAPITOLO .CLXXXIX. De como Antonio da filueyra fe recolheo aa fortaleza. PErdida a artelharia que eftaua nos paífos com que Antonio da fil- ueira efperaua de defender a cidade, foy por todos acordado que a não podia defender fem tirar artelharia da fortaleza, o q era pe- rigofo, porque não fabião o que fucederia, & por iffo & por não ter gente pera defender tamanha cerca como tinha a cidade, acordoufe em confelho q a deixaífe & fe recolheífe na fortaleza q era o mais feguro. E porque já os mouros erã entrados na jlha & andauão á vifta da cidade, & os que eftauã nela lhes fazião finaes com bãdeiras, fayo Antonio da filueyra com cem Portuguefes pola cidade & enforcou & alãceou muytos mouros prin- cipalméte os que via com armas, & prendeo quatro mercadores princi- paes, porque fe fe viffe em algúa neceffidade fe remedeafTe coeles, & quafi noyte fe recolheo á fortaleza aos dez Dagofto, & ao outro dia começarão os mouros que já eftauão na cidade de roubar algúas cafas junto da for¬ taleza em que auia muyta fazenda & mantimentos que os Portuguefes cõ preffa nã poderão recolher na fortaleza, & por rogo dalgús, que vedo roubar o feu, quiferão fayr aos mouros mandou Antonio da filueyra coeles hú fidalgo chamado Gafpar de foufa q deu coeles nos mouros que fizerão fugir, ficando algús mortos, & dos Portuguefes foy morto hú, & outros
  • Livro VIII, Capitolo CLXXXIX SoS forão feridos, & com tudo tornarão pera a fortaleza carregados de man¬ timentos, & dali por diante ordenou Antonio da filueyra q os foliem tomar cada dia, & foflem em fua goarda cincoéta & quatro homés, & aífi lenha & agoa dús póços que eftauão juntos da fortaleza: & por fazer hõrra a Lopo de foufa coutinho o fez capitão delia goarda, cõ que cada dia ya á cidade por mantimentos, lenha & agoa, & auia recontro com os mouros, de que fempre morrião algús. E nefte tempo fazia Coge çofar bater ho noíTo baluarte da vila dos Rumes, com húa ellãcia dartelharia que mãdou alfentar no cays dalfandega de que tãbem varejaua o mar por amor dal- gús catures que da fortaleza leuauão mantimentos ao baluarte: & porem não fazião nhú nojo, nem a artelharia que batia ho baluarte, nem tão pouco ho fazia Alucão que poufaua nas cafas da mãy do çoltão badur, & fua gente ellaua pola cidade, a que cada dia faya Lopo de foufa fem medo dos mouros. E hú dia vefpera da aífunção de nolfa Senhora, fayndo á cidade matou algús Turcos de Coge çofar que achou defmandados, & outros fugirão & o forão dizer a Coge çofar, que mandou logo quinhétos homés efcolhidos em bufca de Lopo de foufa, que eftaua no mais que cÕ quatorze na boca de húa rua, & os outros tinha poftos nas bocas doutras, & dando os mouros coele determinou de pelejar coeles, & logo quifera começar, & por cõfelho dú Simã furtado bom caualeiro deixou bem en¬ cher a rua, porq quanto os Imigos mais fe apinhoalfem menos fe auiã da- judar das armas. E os mouros fe ajútarão tantos que nã podião pelejar mais que os dianteiros: & logo Lopo de foufa deu neles com os feus, & pelejarão tão esforçadamente q matarão todos os mouros que eftauão na dianteira & os q eftauão logo detrás deftes, & os outros fogirão ficando mortos trinta, & dos Portuguefes nhú, & Lopo de foufa foy ferido em húa perna, & outro homé em outra, & a hú feu page foy quebrado hum olho. E em quanto Lopo de foufa jouue ferido, forão capitães da goarda Gonçalo falcão, & Gafpar de foufa, que catiuarão hú mouro honrrado, de que foube Antonio da filueyra que no arrayal Dalucão fe dilfera que a Mangalor chegara húa nao de mouros, que dizia q em Adem ficaua húa grofia armada de Turcos, & porem que não fe tinha por certo, & cõ tudo como ho mar deu jazigo, mandou Antonio da filueyra Miguel vaz q foífe a Mangalor, & paflalTe a vante pera faber noua da armada dos Turcos. E depois q Lopo de foufa tornou a dar goarda achou hú dia rofalgar nos poços, & por iífo não quis Antonio da filueyra que faiífem mais fora, & recolheofe de todo na fortaleza, de que fempre do baluarte & da vila dos Rumes tirauão muytos tiros perdidos aos mouros, em q fazião muyto dãno. E Antonio da filueyra efcreueo ao gouernador per mar como eftaua, pedindolhe focorro, & ele lho mandou logo (como direi a diante.)
  • Hijloria da índia 5 04 CAPITOLO .CXC. De como ho embaixador del rey de Cãbaya chegou a Constantinopla, & deu a embaixada ao Turco. ATras fica dito, que çafercão capitão del rey de Cambaya que ele mãdaua por embaixador ao Turco a pedirlhe focorro, partio de Diu na entrada de Setembro do anno de mil & quinhentos & trinta & feys, & profeguindo por lua viage foy ter a Iudá onde deixou fua frota & o prefente que leuaua ao Turco, fe foy por terra ao Cayro, & dahi polo Nilo abaixo ate Roxate hú lugar na foz do Nilo fefienta milhas Da- lexadria: E chegado lá deu a embaixada & cartas q leuaua ao Turco, que lhe refpondeo logo que por aquele anno não podia dar a ei rey de Cambaya a gente que lhe pedia, por quanto eílaua de caminho pera a cidade de Belona, com determinação dentrar por ali em italia, mandando- lhe que eiteueífe afli o prefente q lhe leuaua ate fua tornada, & então mã- daria a el rey de Cambaya a gente que pedia. E tornãdo 0 Turco de Be¬ lona fem fazer nada, foylhe o outro embaixador del rey de Cambaya que diffe que lhe mandara com determinação de deítruyr os Portuguefes que andauão na Índia, por fe arrepêder de ter dada a fortaleza é Diu. E eíte apertou cõ o Turco que mandaffe a el rey de Cambaya o focorro que lhe mãdara pedir. E depois da chegada deite, chegou outro de Mirão- muhmahlá que mandaua pedir 0 focorro cõ grande efficacia pera fe vin¬ gar dos Portuguefes que tinhão morto a el rey de Cãbaya, & lhe querião tomar o reyno. E com a vinda deite derradeiro embaixador, determi¬ nando o Turco de dar o focorro que lhe pedião, efcreueo a çoleymão baxá Rey do Cairo, Alexandria, Roxate, Damafco, Meada, ate ludá, que lhe mãdaffe leuar a Coitãtinopla 0 dinheiro & prefente que lhe mandara el rey de Cambaya, & as fete velas em que fora foffem leuadas a çuez, & ferião varadas com outras que hi eítauão, o que çoleimão fez logo & mãdou o dinheiro & prefente per hú capitã chamado Hamed rex, & por mãdado do Turco foy em fua companhia Iorge o arrenegado. E vendo ho Turco tanta riqueza mandada aiíi tão leueméte por hú rey que mo- raua tão longe, pareceolhe q a riqueza daquela terra deuia de fer fem conto, pelo que defejou de poder cõquiítar Cambaya & o reíto da índia, & por iífo fe enformou de Iorge o arrenegado, afíi da riqueza de Cam¬ baya & dos outros reynos, & do poder de feus reys, & do dos Portugue¬ fes, que o enformou muyto largamente de tudo fazédolhe muy pouca coufa o poder del rey de Portugal na índia, & q com qualquer armada
  • Livro VIII, Capitolo CXCI SoS poderia lançar os Portuguefes fora da índia, & tomarlhe ho q tinhão tomado. E nifto chegou a Coftãtinopla a principal molher q fora del rey de Cambaya cõ' muyto dinheyro & pedraria, & contou ao Turco a morte de feu marido, pedindolhe que mãdaífe húa armada á índia pera laçar os Portuguefes fora. E nefta conjunçã chegou a Coftãtinopla o embaixador del rey de Xael, q lhe leuaua de prefente dezoyto Portuguefes que cati- uara no feu porto com outros (como diffe a tras.) E antreles ya hú Al- uaro madeyra que prefumia de piloto, de que tãobê o Turco fe enformou das coutas da índia, & do poder del Rey de Portugal nela, & achou que cõformaua com o que Iorge lhe tinha dito, & offreceofelhe pera yr na ar¬ mada fe a mandaífe á índia, porque fabia muyto bem o caminho, & os pórtos, & barras dela. CAPITOLO .CXCI. De como ho Turco deu a capitania moor da armada que mãdaua aa índia a çoleymão ba.xaa rey do Cayro, & do regimento que lhe deu. COestas enformações & outras muytas que o Turco teue, determi¬ nou de mãdar húa armada á índia, pera ver fe a podia tomar aos Portuguefes, & os nauios pera efta armada eftauão em çuez, que lhos mãdara fazer Habrahem baxá muyto grande feu priuado pera yr conquiftar a índia, onde não foi por o Turco o matar quando foube q queria dar Coftantinopla ao Emperador. E determinando o Turco de m㬠dar efta armada á índia, deu a capitania mór dela a çoleimão baxá rey do Cayro, que fabendo como a armada auia dyr, pedio a capitania mór dela ao Turco, cujo porteiro da camara fora, & primeyro de feu pay, a quem fendo Chriftão & natural da Morea, fora dado de tributo em moço, & o Turco o mandou capar pera fer feu porteyro da camara & andar antre as fuas molheres: & a caufa de alcãçar tamanho fenhorio foy, por¬ que reynando ho mefmo Turco que então reynaua (a quê como digo fer- uira de porteiro da camara) fe lhe leuãtou Hamedbaxá rey do Cayro, Alexandria, Roxate, Damafco, Meada, ate ludá, a que o Turco deu efte fenhorio, porque no cerco de Rodes inuêtou as albarradas com que foy tomado & fez a fortaleza de madeyra em que o Turco poufou em quanto durou o cerco: E leuantado efte Hamed baxá, foy morto por Camufay mouro Arábio natural de Lepo, & tefoureiro mór do Cayro, que primeiro que o mataífe efcreueo feu leuantamento, & que determinaua de o ma¬ tar, & morto, mandou a cabeça ao Turco com as cartas de como o ma¬ tara. E mãdado efte recado, ya já por caminho çoleimão baxá, que o Tomo IV 64
  • Hiftoria da Índia 5o6 Turco mãdaua com húa armada de doze velas em fauor de Camufay: E achando çoleimão o feu recado que mandaua ao Turco, tomou as cartas & rõpeas, & com a cabeça de Hamed baxá fe tornou a Coftãtinopla, & difle ao Turco q ele matara Hamed baxá, pelo qual lhe deu o fenhorio que tinha Hamed baxá, & daqui ficou grade ímizade antre Camufay & çoleimão, que com quanto era tamanho fenhor & de ydade de fetenta annos, & tã gordo que depois que fe alfentaua nã fe podia leuantar, & dous homés o leuantauão, & tinha tamanha papada q lhe caya fobre os peytos, era tão cobiçofo de gloria & de dinheyro, que por alcãçar tama¬ nha como feria tomar a índia aos Portuguefes, & fer fenhor dos muytos & grandes tefouros que lá auia, pedio efta emprefa ao Turco, com con¬ dição q pagaria á fua cufta a gente da armada. E fendolhe cocedido pelo Turco, fugio Aluaro madeyra o piloto de Coftãtinopla & deu configo em Portugal, & contou a el rey a paffagem deita armada á índia, pelo que o el rey foube primeiro que ela lá fofle. E tédo çoleimão baxá preftes as coufas de fua armada, fe partio de çuez na entrada de Iulho de 1538- an¬ nos com húa frota de fetenta & quatro velas .f. quinze galês baítardas de trinta & tres bãcos cada húa, vinte cinco galês reays de trinta ban¬ cos, dez galés fotis, quatro albetoças, a que eles chamão maonas cõ fua apelaçã, feys galeões de duas gaueas, & outros quatro nauios mais pe¬ quenos, que fazião por todos feffenta & quatro velas, fornidas todas de muyta & boa artelharia de metal, & de feys mil & quinhentos homés de guerra .f. mil & quinhétos Ianiceros, & dous mil Turcos todos efcolhidos & gente limpa que lhe forão de Coftantinopla, & tres mil homés outros, q por ferem vfados no mar auiã de feruir dofficiaes dos nauios, & de fol- dados quando foffe neceffario, & fete mil homés forçados pera remeyros, a que tomou as armas. E porque algús fe lhe querião amotinar mandou degolar duzentos, & a fora iffo fez outras mtiyto grandes cruezas & tira¬ nias pera auer dinheiro com que auia de pagar á gente. E leuaua neíta armada cinco capitães prlcipaes .f. Iucefhamet capitã mór do mar Dale- xandria, a que çoleimão deu a capitania mór daquela armada, deixãdo pera fy a jurdição, os outros forão Muftafaa, da cafta dos Mamelucos, que çoleimão pos em lugar de Camufay tefoureyro mór do Cayro, que ya tãobem por capitão, & çoleimão o matou por fe temer dele, que erão Imigos, como ja diflé, os outros tres capitães auião nome, Habrahembe- que da cafta dos Mamelucos, & Mahmuhdebeque, & o regimento do Turco que leuaua foy efte: Que fofle tomar a cofta da enfeada de Cam- baya ou Mãgalor, & hi fizefie agoada, & não pelejafle com ninguém fe não cõ a própria armada do gouernador da índia por el rey de Portu- gual, porque não enfraquecefle ou diminuifle fua armada, & fe o gouer-
  • Livro VIII, Capitolo CXCII 5o7 nador não quifefTe pelejar coele no mar, fe foffe á cidade de Goa & lhe pofefle cerco & tomada fe fizeffe nela forte, porq logo lhe mandaria focorro pera fe defender dos Portuguefes: E fe em Mangalor foubeífe que não podia pelejar com a armada do gouernador, nc tomar Goa fem auenturar muyto de fua armada & géte que então fe foffe a Ormuz & o tomaffe & fe fizeífe hi forte, porque logo o focorreria com breuidade. CAPITOLO .CXCII. De como çoleimão baxaa fe partio caminho da índia, & do ardil que teue pera tomar a cidade Dadem, & de como chegou ao porto de Diu. PArtido çoleimão baxá de çuez, deufe a mayor preffa que pode em fua viagem, porque não foffe fabida na índia primeiro que che- gaffe, pera o que tinha feita grande diligencia, porque nhúa vela fayffe do eftreyto antes de ele fayr: & de çuez pos tres dias de caminho ao Toro, & do Touro a Iudá cinco, & fez de demora doze, & quifera por manha acolher el rey de Iudá, que como fabia bem a pouca verdade dos Turcos, principalmente de çoleimão, & quão cruel & tirano era, def- pejou a cidade & poffe em faluo: E çoleimão ajuntou aquy á fua armada as fete velas que ali eítauã que forão del rey de Cambaya, & tres naos de Hamezui vedor da fazenda do Cayro, & outras duas del rey de Iudá, com que a fez de fetenta & feys velas. E partido de Iudá pos quatro dias ate' Camarão, & de caminho tomou Azibelé, hú lugar na coíta Darabia, de que era fenhor hú Turco chamado Nacodahamet, q depois de fazer muyto bo recebimento a çoleimão, foy degolado por feu mandado, fem mais outra caufa le não a de fua crueza, & deu ho fenhorio do lugar a Muítafa feu capitam: E chegado a Camarão efcreueo a el rey Dadem como ya á índia & a caufa por que, pedindolhe que ouueffe por bem de lhe dar licença pera entrar no porto Dadé a tomar agoa, lenha, & carne, que entretanto o que leuaua a carta lhe faria preíles & aíli algúas cafas pera deixar hi muytos doentes que trazia, do que el rey foy contente, pa- recendolhe que çoleimão lhe falaua verdade, que depois que fez em Ca¬ marão quinze dias de detêça, fe partio pera as portas, & gaitou no cami¬ nho hum dia & húa noyte, & outro tanto das portas ate o porto Dadem, onde furto, el rey Dadem o mandou vifitar com muytos refrefcos, & ço¬ leimão pera tomar a cidade por manha como trazia determinado, man¬ dou lá os doentes que mãdara dizer a el rey que trazia pera os deixar nela, & eítes forão dos mais esforçados, & ya hú homé lançado em hú leyto, & nele efcõdidas as armas pera fy & pera outros que o leuauão.
  • 5o8 Hijloria da índia E como as cafas pera eftes doentes eftauão defpejadas & perto do mar, de quatro que Ieuauão hú doente ficauão dous pera o curarem, no que os da cidade não atentauao porque os viã fem armas, & coefta manha fe meterão em quatro ou cinco dias bem quinhetos homés, & depois de ferem dentro, mandou çoleimão rogar a el rey Dadem que fofle á fua galé, porq tinha de falar coele coufas que releuauão muyto, do que el rey fez efcarneo. E como iflo era o que çoleimão queria, mandou fazer hú final, a q os doentes fayrão todos cõ fuas armas, & derão nos paços del rey, onde entrarão de roldão fem auer quem lhes podeffe refiílir por fua fupita vinda, & el rey foy prefo & leuado á galé de çoleimão, ficando a cidade em poder dos doentes: E el rey Dadem depois que foy na galé de çolei¬ mão lhe perguntou, porque ho mandara prender fiandofe dele, & ele lhe refpondeo, que fe lhe parecia bem eftar ele em peífoa do Turco, & auer quatro dias que eftaua ali & não o yr ver, ao q el rey refpondeo com muyto esforço, q fe ali efteuera o Turco fenhor de çoleimão, q era rey como ele, que o fora ver, mas a ele q era feu efcrauo & feu capitão, como queria que o foffe ver, que ele o tinha em feu poder porque fe fiara dele, porq fe não fe fiara nunca a fua gente lhe entrara na cidade, nem fe liurara dali com cabeça, & çoleimão o mãdou logo enforcar em hú palanco da galé, & depois pêdurar á porta da cidade, que logo man¬ dou faquear por fua gente, & ele fayo em terra & fe pos á porta, man¬ dando apregoar q fopena de morte quanto fofle roubado na cidade tudo fe leuafle á frota: E çoleimão bufcaua a quantos layão de dentro carre¬ gados do roubo, & tomaualhe todo ho ouro, prata, & joyas que lhes achaua, & o fato deixaualho, & coifto ouue muyto grande forna douro & de prata: PI vendo os foldados que não partia coeles tomarãolhe mortal odio, & o mefmo faco q fe deu á cidade fe deu a tres naos de Malaba- res que eftauão no porto que lhes çoleimão mandou tomar pera leuar carregadas de mantimentos, & aos Malabares tomouos pera remeiros. Tomada a cidade, mandou cortar as cabeças aos principaes moradores dela, porque não fizeífem aluoroço depois de fua yda: & prouendoa de gente de guerra & dartelharia, deixou nela por capitão Habrahêbeque Ianicero? & partiofe pera a índia, & nefte golfão afli por hú grãde tépo- ral que lhe deu, como por fua forte & afpera condição, fe apartarão de fua conferua feys velas, & húa delas que era hú galeão foy ter aos jlheos de fanta Maria na cofta da índia, onde Antonio de fouto mayor eftaua com certas fuftas darmada, q pelejou todo hú dia cõ os Turcos que yão nefte galeão. E depois de muyto grande peleja os desbaratou matando os noflos os mais deles, & dos q ficarão viuos foube como ya çoleimão, & os mandou ao gouernador Nuno da cunha, que fabendo efta noua fe come-
  • Livro VIII, Capitolo CXCIII 5og çou de fazer logo preftes pera focorrer a Diu, onde lhe pareceo que efta armada auia dyr dereyta. E continuando çoleimão fua viage pera a cofta da Índia, depois de quinze dias de partir Dadem, foy ter ao porto de Mãgalor, onde Coge çofar parece que auifado de fua yda o eftaua efpe- rando, & lhe foy falar ao mar louuando muyto fua vinda & poderofa ar¬ mada, & aconfelhandolhe que folie a Diu, porque quem quifeífe fenho- rear a índia tinha muyta neceífidade de ter aquela cidade pera ho fazer mais facilmente, por fer muyto forte de fua naturez, & ter bom porto & varadoyro, & eftar a balrrauento da índia, & que a tomaria fem nhú tra¬ balho por quão poucos & mal armados eram os Portuguefes que eftauã na fortaleza, & mingoados de muytas coufas neceífarias pera fua defen- fam, & muyto canfados do trabalho da guerra que lhes ateli tinha feyta: & coeftas rezões fe demoueo çoleimão a yr a Diu & quebrar ho regiméto do Turco. E partiofe pera Diu, indo Coge çofar diante por terra, & a húa quarta feyra quatro dias de Setébro de 1538, ás dez oras do dia che¬ gou á vifta de Diu, & começou de fe ver da fortaleza a armada de çolei¬ mão que ya nefta ordem. Da banda do mar afaftadas da terra obra de duas legoas yão quatorze galés reays feitas em hú efcoadrão, & ao logo da terra fete, & a pos eftas todas as outras galés & nauios de peleja da armada, & no meo as naos de carrega, então fe conheceo fer efta armada de Turcos pelo grande numero de nauios de remo que era. E tãobem chegou nefta conjunção Miguel vaz na fua fufta, que certificou fer a ar¬ mada de Turcos. O q fabédo Antonio da filueyra efcreueo logo húa carta de crença pera o gouernador q lhe mandou pelo mefmo Miguel vaz, dizendolhe que contaífe largamente ao gouernador como ficaua, & ele fe partio logo pera Goa, & como era muyto esforçado em faindo do porto por fe afirmar na verdade de camanha a frota era, fez feu caminho muyto perto da armada, & fayrãolhe doze galês tirandolhe ás bõbardadas que o ouuerão de tomar fe lhe não acalmara o vento: & vendo que ho não po- dião tomar, fe forão furgir junto da outra armada, que furgio ao baluarte de Diogo lopez de fequeyra fazendo grandes alegrias. CAPITOLO .CXCIII. Do que fe\ Antonio da filueyra com a vinda dos Turcos. VEndo Antonio da filueyra fobre fy húa armada tão poderofa como a dos Turcos, & que fegundo os muytos annos q auia que fefpe- raua na índia deuia dir muyto bem prouida de gente, artelharia, & munições, não perdeo a efperança que tinha em noffo Senhor que o
  • 5io Hijioria da Índia ajudaria, nem o esforço que fempre teue em femelhantes perigos, & não lhe lembrou que eftaua cem legoas do gouernador, nem em húa fortaleza cÕ tão pouca artelharia, & muyto pouca gente, que ainda que auia fete- centos homés de rol, fomente os duzentos eftauão bem armados pera pe¬ lejarem, pore dos outros os trezentos erão efpingardeyros, que afii o achou polo alardo q fez. E depois ajuntados os fidalgos & peffoas prin- cipaes q eftauão na fortaleza pera repartir por eles a eftancias que auia de fazer lhes difie. Ex aquy fenhores o tcpo em q auemos de poer diante feremos Portuguefes, & vindo a eftas partes a feruir a Deos & a el Rey noffo fenhor, porque o contentamento de fe offerecer coufa em que pof- famos alcançar o que pretendemos, nos fara facilmente paífar todos os trabalhos que fe nos deuem reprefentar do muyto aparato de gente & ar¬ telharia q tão perto de nós temos. Eu de ml digo, q eftou tão confiado em noffo Senhor, & neftes bõs defejos, & na companhia com q me acho, que tenho por muy certo, que não fomente auemos de defender efta for¬ taleza a eftes infieys, mas ainda os auemos de desbaratar & alcançar deles jlluftre vitoria. E porque tenho bem entendido q nefta confiança não faço auentagé a nhú dos que aqui eftão, não lembro as grandes obri¬ gações q todos temos pera ter eftas efperanças, nem as muytas vitorias que nos Deos por fua bõdade tem dado neftas partes contra eftes feus & noflos Imigos. E logo tratou de repartir as eftãcias da fortaleza da ma- neyra feguinte. A Gonçalo falcão deu a goarda do baluarte fam Thome, & no pano do muro q fe começa nefte baluarte & vay direyto ao baluarte de Santiago (que fez Garcia de Sá) ordenou tres eftancias, de q forão capitães, Manuel de vafcõcelos juiz dalfandega, natural da jlha da Ma- deyra, Francifco anrriquez tefoureiro dalfandega, & Antonio forevro efcri- uão da fortaleza, & no pano do muro que corria do baluarte de fam Thome ate o poftigo, pos duas eftancias, de que forão capitães, Rodrigo de proença, & Fernão peleja, efcriuães da feitoria, & no baluarte Santiago, deixou por capitão como eftaua Gafpar de foufa, & no pano do muro que fae defte baluarte & corre ao longo do rio ate as cafas dele mefmo An¬ tonio da ftlueyra por fer ali o muro delgado q ficara do lépo de çoltão badur, & era lugar de grande perigo ho deu a Lopo de foufa coutinho que o goardaffe, dizédolhe logo o porq lho daua, no q moftrou ter nele grande confiança como tinha. Em outra eftancia que fez na feitoria velha, pos por capitão o feitor Antonio da veiga, a capitania do baluarte da coy- raça que entraua no mar, pos por capitão a Fernão velho filho do Alcayde mór, & por fer o lanço peqno lhe não deu mais de vinte cinco homés pera fua cõpanhia: a capitania do baluarte da barra, que tãobem chamão do almazem, deu a Francifco de gouuea, q era capitão mór do mar: No
  • Livro VIII, Capitolo CXCIIII 5 ii baluarte do mar ficou Antonio de foufa de Lamego como eílaua. No pano do muro que vay ao longo delongo da cofta braua, por fer muyto forte, & nam fe poder por ali receber damno, não teue mais necefíidade que de vigias, porq não fugiflem por ali os efcrauos, & defcobrilfem aos Imi- gos o que ya na fortaleza, & Antonio da íilueyra ficou por fobrefaléte com a fua gente pera acodir aos lugares neceffitados de focorro, & pera roldar as eftancias: & mandou aos cafados que vigiaffem a cafa da pol- uora, porque lhe não pofeífem os efcrauos fogo, & affi a cifterna, porque lhe não deytaffem peçonha. Ifto ordenado, logo os capitães das eftancias começaram de fe fortalecer onde era neceflario, trabalhando com os de fuas capitanias fem defcanfar, porque os immigos os nam tomaftem de- fapercebidos. CAPITOLO .CXCIIII. Do que aconteceo aos Portuguefes com fetecentos Ianiceros que defem barcarão em Diu. COgií çofar que naturalmente queria mal aos Portuguefes por os ter por ímigos, & por nuca leuar deles o melhor em quanto lhe fez guerra, eftaua muyto ledo com a vinda dos Turcos, porque a fora lhe fer inclinado pola criação que teue coeles, parecialhe que ho auiam de vingar dos Portuguefes tomãdolhe a fortaleza, & deftruyndo de todo, affi os que eftauam nela, como per toda a índia, & por i(To defejaua muyto de os ajudar, & engrandecia muyto fua armada a Alucão, depois que fe vio com çoleymão baxá em Mangalor: E fem nenhúa vergonha lhe cometeo que fizeffem chamar no alcorão de Diu por rev de Cambaya ao Turco, como lhe çoleymão rogara que fizefTe, o que Alucão nam quis fazer, efpantandofe muyto da deflealdade de Coge çofar, tendo recebida tanta honrra & merce em Cãbaya, & querer fazer tamanha treyção a el rey & ao reyno, & ditfe que nam auia de ter nhúa amizade com çoley¬ mão nem com os Turcos, porque fabia bem quam má gente eram, & fe ele a ouueffe de ter, que nam eftaria mais em fua companhia: & Coge çofar diflimulou coele. E como çoleymão furgio o foy vifitar, & diffelhe o que achara em Alucão, acerca de fua amizade, porem que ele o ferue- ria com a gente que tinha, atee morrer em feruiço do Turco & feu, & deulhe informação do fitio da fortaleza, fazédoa fempre coufa muyto facil de tomar, & depois fe tornou pera terra. E çoleymão por animar os Gu- zarates, ao outro dia que foram cinco de Setembro, mandou defembar- car fetecentos Ianiceros que fayram com fuas cabayas deles de borcado, outros de cetins carmefins, & doutras cores luftrofas, & nas cabeças hús
  • 512 Hijloria da Índia chapeos de feltros feytos como çaladas antigas (que os fazem conhecer por Ianiceros antre a outra gente,) & eram todos guarnecidos & orlados douro & com ricas plumas, & eítes eram todos frecheyros & efpingar- deyros: & aíR como defembarcaram, fizeram ho caminho pera a forta¬ leza, poendo as mãos nos bigodes que eles tem por grande fero & afli outras rebolarias que coftumam por ferem de feu natural muyto fober- bos. Os de Cãbaya efpantados de tamanha oufadia os feguiram, cuydando que auiam logo de fubir ao muro, & eles nam o fizeram affi, mas mete- ramfe polas cafas que forão dos Portuguefes, que eftauão darredor da fortaleza pera as roubarem, ao que Antonio da íilueyra acodio, mandan- dolhes tirar ás efpingardadas, com que foram mortos cincoenta, & eles mataram fete dos Portuguefes & ferirão vinte, mas como recebião mayor dãno nam quiferam yr mais por diante, & afaítarãofe dandolhes os Por¬ tuguefes grandes apupadas, q eles tem por grande injuria: E Alucão q conhecia muyto bem os Turcos & fua pouca verdade, & mais pelo q lhe Coge çofar cometeo da parte de çoleymão, nã quis coeles nhúa amizade, & por iífo não quis eftar ali mais, & partiofe aquela tarde pera Noua- guer cÕ feys mil homés, q dos de fua cõpanhia nã quiferão yr mais coele por induzimento de Coge çofar cõ quem ficarão, que com os feus faziã treze mil: E em Nouaguer efteue Alucão todo o tempo que durou o cerco da fortaleza, & dahi efcreueo a el rey de Cambaya o q lhe Coge çofar cometera da parte de çoleymão, pelo que fe fora pera Nouaguer: E el rey lhe refpondeo que fizera muyto bem, mandãdolhe que não deffe ne- nhús mantimentos aos Turcos & defendeífe q lhos não leuaffem, & afli o efcreueo a todos feus capitães comarcãos de Diu, que o compriram muy bem, & nunca el rey de Cambaya quis mandar o contrayro por mais cartas que lhe çoleymão efcreueo fobriffo: o que he de crer que quis noffo Senhor porque os Turcos fizeffem tã pouco como fizerão con¬ tra os noffos, de que foy grande caufa o pouco fauor que acharão nos Guzarates. CAPITOLO .CXCV. De como çoleymão baxaa J'e foy ao rio de Madre fabaa pera mandar calhar fua artelharia fobre cuberta pera bater a fortaleza de Diu. COmo foy noyte deram os Turcos moftra de fua efpingardaria, & em eles acabando a deram também os Portuguefes per mandado Dan- tonio da filueyra, porque foubeffem os Turcos q auia quem lhes refiftifle, & tiraram todos hú & hum, & como eram trezentos deteueramfe hum pedaço em tirar, & em acabando deufe moftra da noffa artelharia
  • Livro VIII, Capitolo CXCV 5i3 defparando cada peça por fi, & apos ifto tangeram as trombetas, & de¬ pois derão os da fortaleza grandes gritas, de que fe os Turcos agaftaram muyto, principalmente çoleymão, que na moftra que os Portuguefes fize¬ ram conheceo que era gente de feyto, poré difíimulou, & depois difto tudo ouuirao os da fortaleza dizer de fora em altas vozes, portas, pedras, & ifto por algúas vezes, no q pareceo q dizião aos Portuguefes q tapaífé com pedras as portas da fortaleza, do que Antonio da filueyra tinha muyto bom cuydado, & nam era neceffario lembraremlho. Ao outro dia, que foram feys de Setembro, começou de ventar Sul, que por fer traueflam ondeftaua a armada dos Turcos fez algum receo da tormenta a çoley- mam, mas acalmou logo, & quis noffo Senhor deyxar a matança dos Tur¬ cos pera os Portuguefes. E determinando çoleymão de tomar a fortaleza por confelho de Coge çofar, fe foy ao rio de Ãladre faba pera hi çalhar fua artelharia fobre cuberta que trazia abatida, & porque nifto fe auião de gaftar algús dias, não o quis mandar fazer no porto de Diu, porque o não deftruyffe a artelharia da fortaleza: E como feu fundameto era tomar primeyro ho baluarte da vila dos Rumes que a fortaleza, mandou a Coge çofar que ficaífe preparando as coufas neceffarias pera fe bater, & dey- xoulhe quinhentos Turcos que o ajudaflem debaixo da capitania de Mah- mudebeque, & ele fe partio pera Madre fabá fabado fete de Setembro, & ao entrar no rio fe lhe perderão quatro nauios de carrega, carregados de mantimentos & munições, que lhe depois deram grande perda: & a primeyra coufa que çoleymão fez, foy mãdar defembarcar tres bafalifcos & outros tiros que mandou a Coge çofar per Abrahembeque com qui¬ nhentos Turcos, & por fer ho caminho comprido & em muytas partes darea folta, não pode yr mais que hum dos bafalifcos com as outras pe¬ ças que foram leuadas a Diu, onde Coge çofar & Mahmudebeque anda- uam occupados em fazer as trinchas, baftiães, repayros, & mantas de que tinham neceflidade pera as baterias que efperauam de dar ao ba¬ luarte & á fortaleza, & com tudo nam deyxauam de tirar aa fortaleza muytos tiros perdidos com a artelharia, defque amanhecia até ho quarto da prima rendido, & afli cÕ efpingardas com que lhe tirauã cada dia bé dez mil tiros, & os mais deles empregauão na ygreja que eftaua em hú alto & parecia de fora, & afli húa rua pubrica q atraueffaua por diante da porta principal & por fer paífagem de gente, & afli por amor da que entraua na ygreja q os Imigos vião fazião ali os feus tiros, mas nolfo Se¬ nhor goardaua os Portuguefes, pofto que as efpingardadas lhe yão ze- nindo pelas orelhas, & coifto erão brauamete atormentados & fofrião muyto grande trabalho repayrando todos o que era neceífario repayrarfe na fortaleza .f. dobrando as ameas dos baluartes na groífura do muro de Tomo IV 65
  • Hijloria da índia 514 pedra & barro, & fazendo mantas & derribando as pontes da porta da fortaleza & do poftigo, & tapado as portas dentulho de pedra & terra, & na coyraça foy feyto hú contra muro, & na eftancia de Lopo de foufa coutinho, fe fez húa tranqueyra de madeyra, & por dentro húa eftacada tecida, & todos trabalhauam neftas obras fem auer deferença de pelfoas cada capitão na obra que fazia em fua eftancia com a gente dela, & todos a qual mais esforçado lem moftrar nhú cãfaço. CAPITOLO .CXCVI. De h1 ardil com que Coge çofar quijera fa\er muyto mal aos Portu- guefes, & de como lhe atalhou Francifco de Gouuea capitão moor do mar de Diu. DEterminando Coge çofar, Abrahêbeque, & Mahmudebeq, de fazer aos Portuguefes quãto mal podeffem fabricarão húa machina de guerra em húa albetoça doytenta couados de comprido que fora de çoltão badur, & por fua grandeza nam podia nauegar, & eftaua va¬ rada, & acrecentando efta em altura a fizerão quafi tã alta como o ba¬ luarte do mar ou da vila dos Rumes, & feyta a mandarão encher de lenha, falitre, enxofre, & alcatrão que fizeffe tudo grande fumaça, & poer no meo do rio amarrada com quatro ancoras, duas de montãte & duas de jufante, porque efteuefle mais fegura ate' ferem agoas viuas cõ que podeffe nadar, porque por feu grande pefo o não podia fazer com agoas mortas, & ifto com determinação de a encoftarem ao baluarte da vila dos Rumes & daremlhe fogo pera que com o fumo fizeffe grande nojo aos Portuguefes, ou também pera que facilméte os podeffem cõbater, o q fe ouuera effeyto lhes fizera muyto mal: & confiderando ifto Antonio da filueyra, pera lhe atalhar, lhe pareceo bem queymarfe efta fabrica antes que vieffem as agoas viuas, fobre o que fez confelho no baluarte fam Thome com os capitães das eftancias, a quem propos o cafo & pe- dio feus pareceres de como fe queymaria aquele edeficio & por quem: & Frãcifco de gouuea capitão mór do mar que eftaua prefente, & por feu officio lhe pertencia fazer aquela queyma, diffe a Antonio da filueira pri- meyro que ninguém votaffe, que ele podia praticar o modo que fe auia de ter em fe queymar aquela nao, porq qué o auia de fazer ja eftaua certo fer ele Francifco de gouuea, & que fua merce & todos aqueles fenhores vião muyto bem o feruiço que fazia a el rey de Portugal, & o perigo que corria em o fazer. Antonio da filueyra lhe diffe que todos ferião teftemunhas diffo & da merce que merecia em o fazer: & orde-
  • Livro VIU, Capitolo CXCVII 515 noufe que aquela noyte foffe Francifco de gouuea no catur de Miguel vaz, que era ja vindo de Goa, & foffem coele Bertolameu fernandez, & Baf- tião diaz capitães de dous catures, pera que todos tres juntamente pofef- fem o fogo com panelas de poluora, & que os que ouueffem dir nos ca¬ tures foffem efpingardeyros, pera que fe defendeffem dos Imigos fe lhes foffe neceífario: Ifto affentado, como foy bem noyte partiofe Francifco de gouuea a fazer a obra que lhe era encomendada, & com quanto fazia efcuro, como o rio era eftreyto foy logo fentido dos immigos que vigia- uão na borda dele, que em o fentindo defpararam fua artelharia que tinhã affentada por aquela parte: & quanto mais tudo eftaua calado, tanto mais efpantofo foy ho fupito eftrondo da artelharia & a grande fumaça que fe leuantou, & afli como a artelharia jugaua de preffa, aííi os remeyros dos catures apertauão o remo com tanta força que parecia que voauam, & coefta diligencia ajudando-os noffo Senhor fe efcapulirão de tamanha forna de pelouros, & forão pegar com aquela machina q parecia húa muyto alta & grande torre, em que eftauão obra de vinte mouros em fua goarda: E em Francifco de gouuea & os outros aferrado cÕ a nao, arremeflarã- lhe detro rnuytas panelas de poluora & rocas, & outros arteficios de fogo que fe pegou logo ao alcatrão & aos outros materiaes, & começando a labareda de fe leuantar, derão os mouros configo nagoa com medo da morte, de que nam poderão efcapar aos noffos que os mataram nagoa, & Francifco de gouuea & os dos outros catures efteuerão fobre o remo até que o fogo que poferão fe ateou de maneira que não fe podia apagar, o que foy fevto com muyto grande perigo dos que eftauão nos catures, por ferem em todo efte tempo tão baftas as bombardadas & efpingarda- das que os mouros tirauão, que milagrofamente efcaparão os Portugue- fes: E queymada a nao de todo, tornoufe Francifco de gouuea com o mefmo perigo, & por efte feyto que fez ficou muyto louuado. CAPITOLO .CXCVII. De como foube ho Gouerncidor que ejlauão os Turcos no porto de Diu. SAbido pelo Gouernador como çoleymão baxá eftaua com fua armada no porto de Diu, receoufe que paffaria a Goa & a cercaria, & por¬ que coiffo tolheria yrem mantimentos a Goa, determinou de fe pro- uer primeyro da terra firme, & por confelho de Fernão rodriguez de caf- telo branco védor da fazeda, mandou hú embaixador a Açadacão com a noua da vinda dos Turcos, pedindolhe muyto que não fizefle gente com receo deles, & qaffio mandaffe dizer aos capitães do Daquê, porq ele
  • 5i6 Hijloria da índia fó queria tomar o trabalho de lhes reíiftir, pera q foubeflem quão bõ ve- zinho tinhao nele: E coefte embaixador foy qué compraífe mãtimentos diflimuladaméte & os mãdafie a Goa, & affi fe fez: & Açadacão folgou muyto coefta embayxada, & agardeceo ao Gouernador o q lhe mandou dizer. E em quãto fe o gouernador apercebia pera yr focorrer Antonio da filueira, lho mãdou dizer por Fernão de moraes, com q forão obra de vinte foldados efcolhidos, & em Chaul fe ajútou com Pero vaz guedez, q Symão guedez de foufa capita da fortaleza mandaua també cõ poluora & munições, & entrarão ambos no porto de Diu por eftar defpejado dos Turcos, né forã viftos do Coge çofar por fer de noite, & Pero vaz fe tor¬ nou a Chaul, & Fernão de moraes nã fez outro tãto por lhe Antonio da filueira requerer q o nã fizeífe: & dali a dous ou tres dias foy húa noyte á fortaleza Frãcifco pacheco capitã do baluarte da vila dos Rumes, dizédo que queria fazer teftaméto & defcarregar fua alma: o que fabedo o fey- tor Antonio da veyga lhe mãdou requerer que pagafle a el rey certa forna de dinheiro q lhe deuia, do q fe ele ouue por muyto injuriado e agrauou do feytor a Antonio da filueira, de q fe agrauou tãto por lhe dizerem q era bem q pagafle o q deuia, q lhe engeitou a capitania do baluarte, & por Antonio da íilueyra ficar difiò agaftado, fe lhe offereceo Lopo de foufa coutinho pera a capitania, quando Frãcifco pacheco a nã quifefle de todo, & ifto por feruir el rey cõ quãto o perigo eftaua muy certo, mas nã foy neceflario por Frãcifco pacheco tornar a tomar a capitania, & Antonio da filueyra dilfimulou efte defacataméto por fer o tempo que era. E nefta conjunçam apareceo ao mar húa nao de conferua dos Turcos que ya car¬ regada de mantimentos, & leuaua trezentos homens, os mais de peleja, & per mandado Dantonio da filueira a foy reconhecer Miguel Vaz no feu catur em que leuaua dous berços, & quinze efpingardeyros: & chegando á nao que eftaua furta pera auer fala dela, os mouros lhe tirarão com a artelharia & muytas frechadas, & aífi fe começou a peleja que durou até a tarde que veo a viração, com que os mouros leuando ancora forão va¬ rar na terra firme da banda da enfeada, & Miguel vaz a feguio até lhe fayrem dous bargantins de Turcos que vigiauão o mar, & por nam ter poluora nem pelouros não quis coeles nada, & fe foy leuando dous feri¬ dos, deyxando mortos & feridos dos mouros céto & cincoenta, fegundo fe foube.
  • Livro VIII, Capitolo CXCVIII 517 CAPITOLO .CXCVIII. Do que fe\ Vafco pirei de Sampayo em Bêgala. TOmada a cidade do Gouro por Xercanfur, como diíTe atras efcapa- rao muvto mal feridos tres Portuguefes que eftauã com el rey de Bengala, Afonfo vaz de brito, Diogo ferraz, & Ioão adão, & fo- raofe a Chetigão pera Nuno fernãdez freyre: E fabido lá como o Gouro era tomado, & el rey de Bengala fugido, aleuãtoufe grade cotenda antre dous fenhores mouros vaífalos del rey de Bengala, Codauazcão & Ama- zarcão que eftauão em Chetigão fobre qual feria fenhor dela, & Nuno fernãdez os concertou, & ficou Amazarcão: E nifto chegou a Chetigão per mandado de Xercanfur hú capitão Patane por Nogazil, q he como regedor, & tomou poffe dela pacificamente: & dizendolhe Nuno fernãdez os officios q tinha em Chetigão por prouifão do rey que fora de Bengala, & ele diffe que os teuelfe, porque Xercanfur folgaria muyto coiífo, & lhe faria ainda mayores merces que aquelas por fer muyto amigo dos Por¬ tuguefes, & eftando nifto chegou Vafco pirez de fampayo com a armada que dilfe, com o que Amarzacã & outros fenhores Bégalas folgarã muyto, & acordarão todos que pois leuaua tãta gente que lhe requereflem que prédeífe o Nogazil de Xercanfur, & tomafie a cidade com voz de fer pera el rey de Bêgala, porque todos o ajudarião: & fe el rey tornafle como efperauão que ficaria a cidade pera el rey de Portugal, & fe nã que mã- daria recado ao Gouernador q o focorreífe pera fofter a cidade, & adi lho mandarão pedir por Nuno fernãdez freire que lhe confelhou que o fizeffe, porq ficarião os Portuguefes em grande credito naquela terra, o que Vafco pirez nã quis fazer, dizendo que pois a terra eftaua afli, q que¬ ria fazer fua fazêda & yrfe, & mandoufe efcufar a Amarzacão pelas mais honeftas rezões que pode, dãdolhe efperança que prenderia ainda o No¬ gazil, rogãdolhe que o não prédeífe fem feu recado, & ele lho prometeo: E nefte tempo chegarão os Mogores ao Gouro, não eftando hi Xercanfur que era ydo a poer em faluo o tefouro del Rey de Bêgala: & fabendofe em Chetigão a vinda dos Mogores, pareceo aos Bengalas que o feu rey era tornado (pelo que foy em todos grande aluoroço.) E Amarzacão védo que Vafco pirez não quifera prender o Nogazil, não fe fiou dele pera lhe dizer que o prendeffe, & quis que fofle prefo por feu mãdado, afti por ganhar niffo honrra, como por alegar aquele feruiço a el rey de Bengala, & fecretamente mandou hú capitão cõ quinhentos Bengalas frecheyros & efpingardeyros que prendeffem o Nogazil, que fupitamente lhe cercarão
  • Si8 HiJIoria da índia a cafa & o tomarão defapercebido pera não fe defender, que quando fe vio adi mandou chamar Nuno fernandez que lhe valeífe, & que antes que¬ ria fer prefo dos Portuguefes que dos Bengalas: E Nuno fernãdez por auer perigo na tardança não deu cota do cafo a Vafco pirez que eftaua na frota, & foyfe a cafa do Nogazil, & quando os Bengalas o virão, de- rão húa grande grita nomeando el rey de Bengala, & por lhe terem grande acatamento o deyxarão entrar ondeftaua o Nogazil com hum feu yrmão em poder de certos Bégalas que os tinhão prefos, que ele fez afaf- tar, & fabendo do Nogazil que queria fer antes prefo dos Portuguefes que dos Bengalas, diífelhes a parte que Amarzacão nã era bem confe- lhado em prender o Nogazil daquela maneyra, que ouuera de mandar algús officiaes dalfandega, a que o Nogazil tinha tomado dinheyro de q ouuera de faber quanto era, & mandalo efcreuer, & depois proceder con- trele: o que parecedo bem ao capitão que tinha prelo o Nogazil, man¬ dou dizer a Amazarcão o que dizia Nuno fernãdez, que também mandou logo hú efcrito a Valco pirez, em que lhe contaua o cafo pera que aco- diffe logo: & ele mãdou Frãcifco de barros de paiua cõ cincoenta efpin- gardeyros, que em chegando ás cafas do Nogazil começarão de tirar, pelo que os Bengalas fugirão & o feu capitã, & Francifco de barros tomou o Nogazil & o leuou a Vafco pirez, que o teue prefo bem feys mefes, & depois o deyxou fugir por peytas que lhe deu: E eftãdo aífi a a coufa, forão ter a Bengala feffenta Turcos em húa galeota que fe apar¬ tarão na partida Dadem da armada de çoleymão baxá, & paliando por Pegu deytarão fama que o Gouernador & os Portuguefes erão mortos polos Turcos, & dando a mefma noua em Bengala, forãofe meter em hum rio quatro legoas de Chetigão: O que fabendo Vafco pirez, mandou Fran¬ cifco de barros de paiua na fua fufta, & algús calaluzes com géte pera q tomaffe a galeota aos Turcos, que fe defenderão também que o fizerã afaftar, & logo vararão a galeota, & fizerão húa tranqueyra em q affefta- rão quatorze bombardadas que tinhão, & eftãdo ali catiuarão tres Portu¬ guefes a que derã muytos tormentos, ameaçando os outros que os auião denforcar. E Vafco pirez com quanto tinha muyta gente núca quis vin¬ gar efta injuria, nem tomar os Turcos, o que poderá bem fazer, né me¬ nos quis dar ajuda a Nuno fernãdez freyre q lha pedio pera yr defender húa nao noua que tinha carregada de fazenda, q foube que os Turcos querião yr tomar: o que vendo Diogo rabelo o foy ajudar com quinze Portuguefes que andauão na fua fufta, & Antonio de Melo leuou cinco no efquife do feu nauio, & Nuno fernandez em hú parao, & chegados aa galeota não a poderão aferrar por defaftre, & nã por lhes faltar coraçã, & os Turcos lhe matarão feys Portuguefes & ferirão os outros, & hú foy
  • Livro VIII, Capitolo CXCIX 5i9 Nuno fernãdez, & depois deu Criftouão douria de fupito com os Turcos em outro rio que cÕ medo faltara ao mar & fugirão, & Chriftouão dou¬ ria tomou a galeota com a artelharia & com muyta riqueza que tinhão, & Vafco pirez inuernou em Bengala fem fazer mais que o que digo, & depois foyfe a Pegu onde faleceo de doeça: & aíli perdeo el rey de Por¬ tugal efta cidade de Chetigão, que fe poderá fofter com pouco trabalho, por Xercanfur andar ocupado em fua conquifta, como diffe a tras. CAPITOLO .CXCIX. De como Antonio galuão refe\ a fortaleza de Ternate. PArtido Iorge mafcarenhas & os outros da jlha de Ternate, que An¬ tonio galuão ficou defapreflãdo, entendeu logo em refazer a forta¬ leza que eftaua tam daneficada, que a fez quafi de nouo, & man¬ dou fazer dentro cafas pera poufarem Portuguefes, & tulhas pera ter mantimétos dús annos pera outros, porque fe lhe fobreuieífe guerra que efteueífe prouido deles, & não auendo guerra os dar á géte em defconto de feu foldo & mantimeto. E a(fi fez a cafa da feytoria de pedra & cal com tulhas pera eftar o crauo, & mandoulhe fazer húa cerca de taypa, & junto coela mandou fazer a cafa da ferraria de taypa que dantes era de febe, & aíli era a cafa da poluora que mandou fazer de taipa defronte da porta da fortaleza, porque lha não furtaffem os efcrauos quando a fazião. E porque os Portuguefes gaftauam muyto em refazerem cadanno as fuas cafas, que erã de paredes de canas fendidas, fez coeles que as fizeífem de pedra & cal, com suas janelas & chaminés como em Portu¬ gal, & que fe cercalfem de muro de taypa, o que fizerão á fua cufta fem cuftar a el Rey nada: E quando foy ao abrir dos aliceces pera efta cerca, el rey de Ternate deu as primeiras enxadadas por amor Dãtonio galuão, & apos ele o çamarao & outros fidalgos, & Antonio galuão os banque¬ teou aquele dia, & el rey lhe deu géte que trabalhaífe nefta obra, & a fora efte muro forã feytos ainda outros dous, porque ficaífe ho reíio dar- redor da cerca em campo rafo, porque nas outras cercas ficaua a terra mais alta que elas: De maneyra que tinha a cidade tres cercas, & a der- radeyra tinha feus baluartes & era cercada de caua que ficaua muyto fermofa com muytos poços dentro & parreyras que Antonio galuão ali leuara, que eftauão todo o ãno verdes & com fruyto, que adi he a quali¬ dade da terra. E fez com elrey que deífe aos Portuguefes terras que lauraffem & prantaífem aruores, em que fizerão quintaãs, em que trazião criações de galinhas, porcos, cabras, & ouuelhas* que parecia o campo
  • 520 Hiftoria da índia de Sãtaré: E pera a terra fer melhor regida, fez almotacés & vereado¬ res. E porq a entrada no porto da cidade era trabalhofa & perigosa por amor dú penedo que eftaua no meo da barra de noíía Senhora que era a principal, mandou quebrar eíle penedo, & ficou a barra tão boa que dõde dantes não podia entrar húa coracora fem muyto tento, entraua & faya hú nauio á véla fem payxão, & mandou aleuantar tanto o arrecife que ficaua o porto como húa caldeyra fem o mar fazer nojo aos nauios que eftauão dentro por mais brauo q andaffe, & çarrou as outras duas bar¬ ras. E vendo el rey de Ternate a fermofura da noíTa cidade, creceolhe cobiça de fazer affi a fua, ao menos nas cafas, & por leu rogo lhe orde¬ nou Antonio galuã como auia de fer, & ficou a cidade arruada & muyto mayor do que era, do q os mouros eftauão muy contentes: & porq a fua mezquita ficaua padrafto da noffa fortaleza a mandou el rey meter den¬ tro na fua cidade. E aífi como fe ennobreceo efta cidade de Ternate, fe ennobreceram outras q parecião pouoações Portuguefas. E pera a noffa cidade de Ternate ficar de todo nobre, trouue Antonio galuão agoa dali tres legoas a hum grande chafariz que fez junto da fortaleza de que be¬ bia a gente, & em que bebião gados, & lauauão a roupa, & da agoa que fobejaua regauã ortas & pomares, affi dos Portuguefes como dos mou¬ ros, que dali por diante a feu rogo deixarão a vida da guerra que tinhão, & derãofe a laurar & a femear & a criaré gados, com q a jlha ficou gran¬ demente abaftada. E Antonio^galuã por pagar a el rey de Ternate quã- tas boas obras lhe fizera, o tirou da fortaleza onde eftaua como prefo & o deixou yr pera a cidade pera húas cafas q fez muy funtuofas, & lhen- tregou a gouernãça de feu reyno pera que liuremente o gouernaffe, & lhe deu licença pera q cafaífe, ho que os reys daquela jlha não fizerã rríais depois que ali foy feyta a noffa fortaleza & eftauão como catiuos, & por efta liberdade que Antonio galuão deu a efte rey, lhe ficou ele & feus vaffalos em tanta obrigação q ele & eles lhe tinhão tãto acatamento como que fe fora pay de todos & affi lho chamauão, né o nomeauã por outro nome, nem fazia el rey né nhú Mandarl coula q lho não diffeffem pri¬ meiro & não tomaffem em tudo feu cõfelho, & fazião em feu louuor muy- tas cãtigas. E affi como os mouros lhe queriã bem polas boas obras que lhe fazia, affi lho querião tãobé os Portuguefes, porq lhes fez pagar muy- tas diuidas que lhes os mouros deuião auia annos, & nhú capitão teue poder pera lhas fazer pagar, & os que adoecião, ele os curaua á fua cufta, por el rey não ter cõ q os curaffe, & fe ele não fora, todos morrerão de fome, q empreftou a el rey com q lhes pagaffe o mantimeto, no q per- deo muyto, porq cõ empregar o feu dinheiro nifto, não fez nunca fua fazenda, & dous annos teue efte trabalho & gafto, porq em todo efte
  • Livro VIII, Capitolo CC 521 tempo nunca os gouernadores nem o vèdor da fazenda mandarão roupas á fortaleza pera fe a gente prouer de mantimentos. CAPITOLO .CC. De como no Morro fe leuantou híi capitão, & de como foy morto, & do mais q pajfou. ANdando Antonio galuão ocupado neftas coufas foube que no Morro fe leuantara hú capitão que afora leuãtar a terra, & trazia por mar húa grofla armada com que andaua tão foberbo q dizia que auia de correr a Ternate: o q fabido por Antonio galuão mandou logo lá húa armada de corafcoras que lhe empreítou el rey de Tidore, & mandou por capitão mór dela hú clérigo de mifTa que auia nome Fernão vinagre com coréta Portuguefes, que foy lá, & pelejou com aquele capitã, que foy morto na batalha & hú feu yrmão, & outros muytos, & a outra gente fugio. E depois deita vitoria aífentou Fernão vinagre a terra, & fez re- bautizar muytos que forão Chriítãos, & fez muytos de nouo, & leuou a armada carregada de mantimentos. E vendo Antonio galuão quão bem aquilo fucedera, & os Chriítãos q fe lá fizerão, tornou a mandar Fernão vinagre, q ainda fez mais Chriítãos, cujos filhos leuou a Antonio galuão por feu mandado pera os mandar doutrinar na noífa fanéta fee, & man- dalos iníinar a ler & a efcreuer, no que tãobé gaitou muyto, & afli em dar peças a íeus pays quãdo o yão ver, porq coiíto os tinha feguros na Chriítandade & na amizade, & elte foy hú grande feruiço que fez a Deos & a el rey, porq afora os muytos Chriítãos que fe fizerão & permane¬ cera, ganhoufe leuaré dali muytos mantimentos a Ternate, cõ q a terra eíteue mais barata do que núca eíteue. E depois diíto fabendo Antonio galuão que nauegaua pera Maluco húa groffa armada -de jungos da Iaóa, Bãda, Macaçar, & Amboyno, que ya bufcar crauo, a cujo trato efperauão de dar muyta artelharia, & armas que leuauão como dantes fazião, & por eíta géte nã yr ás jlhas de Maluco donde depois ferião maos de dei¬ tar, & farião toruação em fe auer o crauo pera el rey, determinou de lhes impedir a vinda, pera o q mandou a Amboyno Diogo lopez dazeuedo capitam mór do mar de Maluco, cõ húa armada de vinte cinco corafco¬ ras & duzentos mouros que lhe empreítou el rey de Tidore, em q foy feu yrmão Cachil rade, & Diogo lopez leuou coréta Portuguefes, & du- zétos Ternates. E chegado a Amboyno, achou a frota que digo com que pelejou & a desbaratou & fez fugir & desfazer com morte de muytos dos que yão nela, & em algús jungos que fe lhe réderão, achou muyta 66 Tono IV
  • 522 Hiftoria da índia artelharia, muytas armas, & muyto dinheiro, & dali foy ao logo da cofta com fua armada, & adernou amizade em toda ela, & os q a não qriã por bem, fazialha receber por mal, & em tres lugares principaes que fe cha- mão, Atiua, Mantelo, & Nunciuèl, fez fazer os feus moradores Chriftãos, pedindolho eles com grade inftãcia. E adi fe tornou pera Ternate leuando hú yrmão del rey de Ternate que lá eftaua fugido, do tepo de Trilião datayde, & Cachil vaidua do tempo de dom Iorge, & afli outros do pouo. E tãobem nefta cõjunção mãdou Antonio galuão a feu fobrinho Ioão fo¬ gaça cÕ húa armada ás jlhas dos Papuas a bufcar as duas naos de Cafte- lhanos q dide, por faber que erão lá lançadas, mas não as achou por ferem perdidas, & defcobrio aquelas jlhas & adentou amizade com todos os reys delas, que mandarão a armada carregada de mantimentos a An¬ tonio galuão. E neíle tépo forão ter a Ternate dous yrmãos Macaçares de nação, que eftãdo em Ternate & fendo gétios, infpirados de nodo Se¬ nhor fe fizerã Criítãos, & foy feu padrinho Antonio galuão, cujo nome tomou o mais velho & o mais moço ouue nome Miguel galuão, q bauti- zados fe forão á jlha do Macaçar donde erão naturaeis, & dahi tornarão a ver Antonio galuão, cÕ húa armada carregada de fandalo & algú ouro & armas, & outras mercadorias, q diderão a Antonio galuão que auia nas jlhas do Maçacar & dos Celebes, onde folgarião muyto de teré trato com os Portuguefes, & fe lá fodem fe farião muytos Chriftãos, & pera o ferem vinhão algús mancebos fidalgos, a que logo foy dada agoa de bautifmo. E ouuyndo Antonio galuão as nouas deita terra folgou muyto, afli por fe alargar nela a fee de Chrifto, como pera os Portuguefes fazere feu proueito: & logo ordenou de mandar lá hú caualeiro chamado Fran- cifco de craíto cafado, homé muyto pera ido, a q deu hú regimento que adentade amizade cÕ os reys daqlas terras, & trabalhade por fe tornaré Chriftãos, pera ho que lhe deu muytas peças que lhes dede de prefentes, & que tudo fode por bem. E defpachado Francifco de crafto partio de Ternate em Mayo, & aos vintefeis de Iunho chegou a húa jlha dos Cele¬ bes chamada Chedigão, que eftá em doze grãos & dous terços, cujo rey & pouo erão gentios, & adentou logo amizade com el rey vendofe no mar, & ambos fe fangrarão nos braços, & hú bebeo ho fangue do outro, & dahi a poucos dias fe fez el rey Chriftão, muyto contra vontade dos do feu confelho, & foylhe pofto nome dom Frãcifco, & foy bautizarfe den¬ tro ao nauio, q não quis Francifco de crafto yr a terra, & adi fe fizerão Chriftãos tres yrmãos del rey & fua molher & hú filho, & cento & trinta fidalgos, & muytos do pouo. E padados vinte dous dias que Francifco de crafto gaftou nido partiofe, deixando em todos muyta foydade, & dali foy ao longo da jlha de Mindanao, & chegou a hum rio ondeftaua húa
  • Livro VIII, Capitolo CC 523 cidade chamada Soligão cujo rey fe fez Chriftão, & foylhe pofto nome Antonio galuão, & coele recebeo agoa de bautifmo a Raynha & duas filhas, & be cento & cincoenta peffoas outras. E depois fe fizerão na mefma jlha Chriftãos el rey de Butuão, a que chamarão dom Ioao o rey grande, el rey de Pimilara que tãobem fe chamou afli, el rey de Cami- guy a q poferão nome do Francifco. E afli receberão agoa de bautifmo fuas molheres, filhos, & yrmãos, & muyta parte de feus vaflalos, afli dos nobres, como do pouo. E querendo Francifco de crafto paflar defta jlha á do Maçacar, foylhe o vento tão contrayro, que mil vezes efteue per¬ dido, pelo que os que yão coele não quiferão que paflafle por diante, & o fizerão tornar a Ternate, leuando muytos filhos daqueles que fe toma¬ rão Chriftãos, pera lhe fer infinada a doutrina chriftaã & a nofla lingoa, o que Antonio galuao fazia com grande cuydado, & os criaua como filhos. LAVS DEO.
  • Foy impreffo efte Oélauo liuro da hiftoria da índia em a muyto nobre & leal cidade de Coimbra, por João de Barreyra impreíTor del Rey na mefma vniuerfidade. Acaboufe aos vintafeys dias do mes Dagofto de i56i. annos.
  • LIVRO NONO
  • HO LIVRO NONO DA HISTORIA DO DESCOBRIMENTO & CONQUISTA DA INDIA PELOS PORTUGUESES, Feyto per Fernão lope^ de Cajlanheda. CAPITOLO .1. De como entrarão os Mouros na Ilha de SalJete. SAbendo Meliqueacé a fertilidade & abaftança da Ilha de Salfete & o muito que remdia determinou de a tomar, e não por o paífo que tinha per[a] a terre firme como diífe atraz fenão mais acima pello mefmo rio, do que fe Ruy Lourenço de Tauora não precataua que auia por impolliuel entraré por ali os Mouros fenão em barças, & porque fabia que as não tinhão auiafe por feguro d’etraré por aly, & como não acha¬ rão que os toruaífe entrarã boa foma deles que logo fe forã onde moraua hú dos Tanadares portuguefes, & o catiuarã matando algús poucos que eftauã com elle, & daly fe forã pela ilha a roubar, o que logo foube Ruy Loureço, que por não ter gente com que podeífe peleiar cõ os Mouros o não fez, & logo mandou pedir focorro ao Capitã de Chaul & ao Viforey que eftaua em Diu, & entretanto mandou goardar o paífo feco que affi fe chama o da Ilha de Salfete, pera nã fe poderé os Mouros íair équãto chegaua o focorro pera poder peleiar coeles, & mandono goardar per Fernã da Silua que partio pera lá aos fete de feuereiro cõ duas cotias grandes & dous catures carregados de gente eftando là auia dous dias Fernã Gomez de Soufa cõ dous catures bem artilhados & fornidos de gente, & chegando ao paífo pos os nauios em compaíTo que podeífe acu¬ dir hús aos outros, & começou d’esbõbardear algús Mouros que eftauã pera paífaré a terra firme por aquele paífo, & não podendo os Mouros fofrer os tiros forã fe acima do paífo & cometerã a paífaiem cõ marè va- Prorege Garçía Noronia. Salsete de Ba- çaim entrado pe¬ lo» Mouros.
  • Hijloria da índia Socorro de Chaul contra os Mou¬ ros. S28 zia, o que lhe Fernã da Silua nã pode defender por na poder la chegar os nauios, mas defpois que a maré tornou que lhe pode chegar, fuftigou tã brauamente que matou algús & os fez afaftar & tomoulhes treze caua- los, & vendo os mouros a dificuldade que auia na pafTajem deíiftirã dela & meterafe pola ilha que tem grandes matas & altas ferras, & derafe a roubar os moradores dela, & paliando algús dias pareçendolhe que ja Fernã da Silua feria ido, forã algús a ver fe era affi. E e pareçendo tira- rãlhes dos catures cõ artilharia, cõ cuio medo fe tornara e derã recado aos outros que não quiferã majs tornar, & deixarãfe eílar ate verem em que aquilo paraua. E entretanto o que foi pedir focorro ao Capita de [Cha]ul chegou là em breue efpaço por nã fere mais de doze legoas, & ho capitã vendo o recado de Ruy Lourenço, mandou logo é leu focorro Gonçalo Vaz Coutinho cõ algúa gente, & tãbe o Viforei como foube o aperto é que Ruy Lourenço eftaua efpidio logo Dom Pedro de Caftelo Brãco é húa Galé cõ çem homés de peleja & mandoulhe que folie deitar os Mouros fora da Ilha de Salfete, mandando em fua companhia Triftã d’Atayde e húa nao cõ outros cem homés, & como Baçajm eftà mais perto de Chaul que de Diu, chegou primeiro Gonçalo Vaz Coutinho que foi aos doze de feuereiro cõ que Ruy Louréço folgou muito, & logo acor¬ dou coele que folie deitar os Mouros fora da Ilha de Salfete & que o aiudaria Fernã da Silua, & cõ outra que lhe daria que cõ a que trazia feriã por todos dozentos portuguefes de que os cincoenta erã efpingardei- ros; & ficando Ruy Lourenço foife Gonçalo Vaz Coutinho ao palio iuntar cõ Fernã da Silua pera darem nos Mouros, o que nã poderã fazer por os Mouros ferem muitos & eftaré embrenhados polas ferras & bosques, e os portuguefes erã muijo poucos pera os defécouaré, & por iffo ouuerã Gonçalo Vaz & Fernã da Silua por efcufado de Pirem polia ilha aos buf- car, & ficando Fernã da Silua é goarda do paífo como d’antes, tornoufe Gonçalo Vaz pera a fortaleza, & deu conta do que paíTaua a Ruy Lou¬ réço a que pareçeo bé a caufa porque nã forã bufcar os Mouros & que efperaífé ate chegar o focorro que mandafe o Viforey; & porque nã fabia quando feria, defpidio Gonçalo Vaz a gente que trouuera de Chaul por¬ que por fer perto tornaria como foife necelfaria, & ele ficou cõ Ruy Lou¬ réço pera ir por ela.
  • Livro IX, Capitolo II S2g CAPITOLO .II. De como os Mouros que andauã na Ilha de Salfete forã desbaratados. EStando afi chegara Dom Pedro de Caftelo Braço & Triílã d’Atayde com os duzentos homés que dife, & defébarcados difle Dom Pedro Socorro do viio- a Ruy Lourenço que ho Viforej o mandaua a deitar fora os Mou- rey’ ros da Ilha de Salfete & que ho queria logo ir fazer, & deteuefe por efpe- rar a gente de Chaul pera onde Gonçalo Vaz partio c ele chegando, & tornou logo cÕ cento & quarenta portuguefes em que entrauã muitos fidal¬ gos, & indo Dom Pedro por Capita mór de todos fe foi cÕ toda a gente ao paffo que cõ a que là eftaua fazia quatrocentos & oitenta portuguefes Manipuiu* miii- todos gente efcolhida & bé armada & muitos deles efpingardeiros & IumMa"ro,‘ quorenta de caualo, & poftos todos na Ilha & fabendo Dom Pedro onde os Mouros eftaua partio a bufcalos cõ a gente feita é quatro efcoadrões, Fernã da Silua capita d’ú em que auia çento de pè & quorenta de caualo todos arabios & muito bos, & efta era a gente de Baçajm, da de Chaul que era outra tanta era Capita Gonçalo Vaz Coutinho, dos outros dous efcoadrões que era cada hú de çé homés era capitães Dom Pedro & Triftã d’Atajde, & detrás delia gente ião bé feifçentos bigairis carrega¬ dos de mantimentos que cõ os portuguefes faziã moítra de dous mil ho¬ més, & afi o cuidarã os Mouros quando os virã, & afirmando que era afi foy o feu medo támanho que fe começarã logo de recolher pera húa ferra de que eílauã perto que era muito forte coufa & nã fe podia fobir a ela fenã húa pefoa diante d’outra, & cõtudo os Portuguefes derã apos eles, & querendo fobir por a ferra nã quis Dom Pedro dizendo que fazia já calma & que canfariã muito, & fe os Mouros fe quifefé defender que os matariã a todos, & por os foldados infiftiré a querer fobir difelhes que o Viforej lhe dera por regimento que lançalfe os Mouros fora da Ilha & nã lhes fizeffe mal, do que eles fe agaftarã tanto que fem nenhúa paciên¬ cia lhe differã que era muito grande Judeu & que não preftaua pera nada, & que auiã de peleiar cõ os Mouros em que lhe pes. E algús fobirã logo Successns prnc- pela ferra acima, & inda que erã poucos peleiarã tã esforçadamente cõ h'' os Mouros que os desbarataram matando muitos deles, & tomandolhes alguns caualos que là tinhã fe tornará pera Dom Pedro & lhos aprefen- tarã como que faziã efcarnio dele & lhe diziã que fe elle fobira a ferra cõ a outra gente que nã efcapaua nada dos Mouros, & ele os vio tã da¬ nados, que nã oufou de lhes dizer nada, antes fe partio logo pera hú lugar da Ilha que fe chama Taná onde tinhã as fuftas, & foi cõ ele Gon- Tomo iv 67
  • 53o Hi/loria da índia Spolia. Iterum hoftes graflantur et ru- giunt. çalo Vaz Coutinho cÕ a gente de Chaul, & Fernã da Silua cõ a de Ba- çaim fe tornou a goardar o paflo. Os Mouros que afi fe virá cometer & qua mal os tratara aqueles poucos de Portuguefes que peleiarã coeles, cudarã que os cometezé outra vez todos iuntos, & não fe auendo por feguros fe afi folie, determinará de fe auenturar a iréfe da Ilha, crendo que ainda os Portuguefes nã eftariã no paflo, pera onde partirá cõ muita preffa, & chegando a ele começará de fe meter ao vao, donde Fernã da Silua eftaua cõ fua armada afaftado hú pedaço por os catures & fuftas não eftarem no vao é nado, & por eftar afi afaftado fe atreuerã os Mou¬ ros a pafar pofto que o virá, & é ele os vendo arrãca muito rijo pera o vao a força de remo fazendo defparar fua artelharia, & Fernã Gomez de Soufa & Pero Lopez, Lionel Paez, & outros capitães de fuftas & ca¬ tures que eftauã coele fizerã o mefmo & matarã muitos dos imigos cõ a artelharia, & outros morrerã as mãos dos Portuguefes defpois que che¬ gará a eles, diante de que fugiã como da morte, & muitos por fe faluar fe afogarã no rio, & outros fe emtregarã nã fe podendo faluar, & os me¬ nos eícaparã & fe acolherã pola Ilha embrelhandofe por effas ferras onde nã fe poderá achar, & afi andará ate que poucos & poucos fugirã da Ilha. E deles não ficou aos Portuguefes outro defpoio fenã armas & quo- réta caualos Arábios, & o grande contentamento da vitoria fé deles fal¬ tar ninhú. E ficando afi a Ilha fegura tornoufe Gonçalo Vaz Coutinho pera Chaul cõ a gente que de là trouue, & Dom Pedro & Triftã d’Atajde fe partirã pera Goa a efperar o Viforej, & Ruy Louréço ficou cõ menos oppreífã da que tinha d’antes. E eles partidos loge no mefmo dia que forã vintecinco de feuereiro ao quarto da Modorra chegou hú piã a Ruy Louréço, & lhe diffe que Samgredegi cõ fua géte era abalado donde eftaua pera Baçajm & que leuaua mil & quinhétos de pè & duzentos de caualo todos guzarates & bé armados à fua maneira, & que diziã que auiã de queimar a pouoaçam de cima & a dos Portuguefes, & que a po- uoaçam de cima era toda defpeiada & auia grande defmaio na gente da terra. Ruy Louréço fe leuantou logo & iumta a gente da fortaleza a repi¬ que acodio ao cabo da nofla pouoaçam por onde fe temia que os imigos emtraffé, & nifto chegarã eles a Baçajm de cima, onde nã acharã ningué & cõ prazer de lhes pareçer que nã auia qué lhes refiftilfe poferã fogo a húas cafas que açefo alomeou tudo ao derredor que fe via muito bé da nofla pouoaçam, & da fortaleza, donde Ruy Louréço mandou logo tirar cõ húa feluagé que dando antre os imigos fez neles grand’esborralhada matando algús & ferindo, & vendo os outros que o fogo os defcobri[a] aos Portuguefes pera lhes tiraré apagarãno logo & tornarãfe, & affem- tarã feu arraial dali húa legoa ao pè d’húa ferra donde corriã a Baçaim
  • Livro IX, Capitolo III 53i de cima & roubauã as vezes feus moradores, & como fintiã que Ruy Louréço ia a peleiar coeles fugiã logo, & vendo ifto Ruy Lourenço de¬ terminou de derribar a ponte por onde entrauã na Ilha porque nã podefé os imigos entrar & defaprefafie a gente da terra que reçebia grande op- prefiam deftas corridas, & aiuntando fua gente foi derribar a ponte de que derribou hú pouco que abaftaua pera eftoruar a paflajem, & cõ quanto os imigos eftauã a vifta núca oufarã de lho irem contrariar, faluo que iã fazer muitas algazaras & os portuguefes lhes tirauã às efpingardadas; os imigos vendo que na podia fazer as corridas que fazia d’antes aiumtarã os materiaes que erã neceíTarios pera corregeré a ponte & depois de cor- regida tornara a correr a Baçajm o que nã fizera muitas vezes porque Ruy Louréço tornou a derribar a ponte & derribou a de todo pera o que leuou mais gente que da outra vez & tres bombardas ecarretadas & nã cudando os imigos que Ruy Louréço ia aífi aperçebido chegarãfe todos ao rio tirando muitas frechadas e efpimgardadas, & os Portuguefes nã boliã comfigo ate que chegarã bem & entã lhes tirarã cõ as bombardas & matarã dous de caualo & feis de pè & dos outros baquearãfe hús & fugirã outros & acolherãfe ao feu arraial, & cõ quanto não tinhã feruim- tia pera a ilha nã deixauã de dar muitas vezes rebate da borda do rio, & ifto durou afi ate Maio que fe tornou a correger a ponte como direj adiante. CAPITOLO .III. De como foy acabada a fortaleza de Diu, & do que fe% dó Aluaro de Noronha em Onor. POsta a fortaleza de Diu é tanta altura que lhe nã faleciã majs que as ameas, partiofe o Viforej pera Goa deixando noueçentos folda- dos a Diogo Lopez de Soufa & cõ eles algús fidalgos pera daré mefa, & forã eftes dom Diogo d’Almeida filho do contador mór, dom Joã d’Almeida filho de dom Lopo d’Almeida de Santaré, Antonio Carualho filho de Vafco Carualho, Pero Lopez de Soufa filho d’Alfonfo Lopes da Cofta, Francifco Lopez de Soufa feu irmão que era Capitam mór daquela cofta, & aíi outros a que nã foube os nomes que neftas mefas que derã gaftarã muito no que firuirã a EI Rej grandemente porque fé eles & Diogo Lopez de Soufa daré de comer aos foldados nã fe poderã eles fofter aquele Inuerno naquela fortaleza por nã auer dinheiro del Rej para lhes pagaré foldo né mantimento, né pera fe acabar a fortaleza, & os fidalgos cõ os foldados a acabarã, & fe ifto nã fora tornara EI Rej de Cambaia fobre a fortaleza, & íe a nã tomara deralhe muita opprefiam, pelo que Eitadodafortale- za de Diu.
  • 53a Hifloria da Índia todos os que dera mefa fizera a EI Rej mui afinado feruiço, & chegando o Viforej a Goa defpachou logo feu filho do Aluaro de Noronha cÕ húa amadaden.Ai1- granc^e armada pera o rio de Onor, onde fabia que eflaua carregando hú «arodcNoronha, nauio de Turcos que tinha feita húa tramqueira be artilhada ao longo do rio pera onde logo partio, & por nã faber os nomes dos capitães da ar¬ mada o nã digo ne por ordem o que fizerã fenã que emtrados no rio d’Onor o primeiro capitam que defembarcou diante das bocas das bom- bardadas foi Antonio de Soutomajor & apos ele Dom Luis d’Ataide & defpois os outros & os turcos fugirã fé peleiare & queimarãlhe o nauio queimado»*'*'11' ^ tomar^^e a artilharia & daqui foj dom Aluaro é bufca de vintecinco de paraòs de Calicu que iã pera Cambaia que topou defronte do rio de Mangalor, & os Mouros cÕ medo acolherãfe a dous efteiros onde fe aium- tou coeles muita gente da terra pera os aiudare contra Dom Aluaro que ouue cÕ eles húa braua peleja & cõ aiuda dos feus capitães & foldados matou & ferio muitos deles & os desbaratou & fez deixar o campo, & queimou os nauios que foi hú honrado feito, & em que fez mujto feruiço a EI Rej por aqueles corfairos fazere muito mal por aquela Cofta. T CAPITOLO .1111. Do que Miguel Ferreira fe\ em focorro del Rei de Çeilã. 'Abem em Goa fez o Viforej outra armada cuia capitania mor deu a hú fidalgo chamado Miguel Ferreira muito valente caualeiro & de muito feruiço na índia & muito antigo nela, & por fua antiguidade moraua é Baleacate iumto da cafa do béauenturado apoftolo Sant’ Thomè, & fabendo ele como os Turcos eftauã fobre a fortaleza de Diu aiumtou dez nauios cõ a gente que pode & foi é feu focorro, & por nã poder ir ei Rej de GciUo mais çedo chegou a Goa quando o Viforej tornaua de Diu que fabendo opnm.Jo de (,a. como patemarcar Capitam mor do mar del Rej de Calicut era a fazer guerra a EI Rej de Çeilã determinou de lhe focorrer por fer amigo del Rej de Portugal, & fabendo quã valente, difcreto, & prudente era efte Miguel Ferreira deulhe a Capitania mòr defte focorro que mandaua a EI Rej de Çeilã que foi nos dez nauios que Miguel Ferreira trouuera & em outros majs que lhe deu, & mui bé apercebido de gente & artilharia fe partio Miguel Ferreira de Goa pera Çeilã onde chegou a faluamento. E porque nã pude faber por ordem o que fez é aiuda del Rej de Ceilã con¬ tra Patemarcar que o tinha çercado, o nã digo fenã fumariamente que peleiou muitas vezes com Patemarcar & fempre ouue a vitoria, & na derradeira foi morto Patemarcar & hú feu fobrinho tãbé muito valento
  • Livro IX, Capitolo V 533 caualeiro & outros muitos Mouros, & os que efcaparã fora catiuos & tomada fua armada cõ quanta artilharia leuaua no que EI Rej de Calicut reçebeo irrecuperauel perda & ficou deftroçado & fé ninhúa força na fomente na armada gente & artilheria mas é Patemarcar frol do esforço de toda fua caualaria, prudente & fabedor fobre todas os feus Capitães. E afi ficou EI Rej de Calicut tã alapardado & fem animo que no veram feguinte pidio paz ao Viforej como direj adiante. E Miguel Ferreira de¬ pois que desbaratou Patemarcar mandoulhe cortar a cabeça & cõ a de feu fobrinho mandou a EI Rej de Ceilã que é eftremo ficou ledo vendo que era liure de dous tamanhos imigos & de que tinha medo grandiflimo. E alem de dar por iffo muitos agardecimentos a Miguel Ferreira, lhe mandaua boa forna de dinheiro que ele na quis tomar dizendo que na era vindo pera tomar dinheiro fenã pera lhe entregar as cabeças de feus imigos como tinha feito. E deixando EI Rej pacifico fe tornou pera fua cafa cõ tamanha honrra & fama como merecia hú feito ta façanhofo como aquele foi. CAPITOLO .V. Dos Capitães que forã pera diverfas partes. DE Goa defpachou tãbem o Viforej dom Jorge de Caftro pera Capi¬ tam da fortaleza de Maluco que tinha a Capitania na vagante de Antonio Galuam, & despachouo pofto que algús difierã que An- tonio Galuam nã acabaua ajnda o tempo de fua Capitania por lhe EI Rej dar por quatro anos & naquelle ano fe acabaré os tres, & cõ quanto dom Jorge ifto foube todauia requereo ao Viforej que o defpachafe pera Maluco fazendo conta que lhe venderia Antonio Galuam o ano que tinha por feruir, & por confelho de Dom Jorge & de Fernã Rolz de Caftelo Brãco & de Garcia de Sá & doutros revogou o Viforej a prematica que EI Rej tinha feita fobre nlgué poder comprar crauo é Maluco fena S. A. E alargou que o compraífe qué quifefe, dizendo que o fazia por auer que quifefe eftar na fortaleza de Maluco porque doutra maneira nlgué que¬ ria là ir, & fem gente nã fe podia fofter a fortaleza & por iffo auia por majs feruiçO del Rej fer o crauo comú a todos. E afi defpachou Pero de Faria pera Capitam de Malaea que entraua na vagante de Dom Efteuã, & pera Banda dom Francifco de Noronha feu fobrinho do Viforej, & Fernã de Moraes pera Pegu, & Luis Coutinho pera Moçambique & Fer- nam de Lima pera Ormuz, & por que fabia que no Mardaue que é no eftreito na cofta de Arabia andauã certas fuftas de Turcos mandou là Vafco da Cunha pera as deftruir cõ hõa armada de dez fuftas de que Adiutui a lafita- nii et labore le- uatus. Reuogada a pre¬ matica do crauo.
  • 534 Hijloria da índia afora ele forã capitães Afonfo Pereira de Laçerda, Bertolameu d’Albu- querque, Lopo de Soufa, Ruj Dias Soutomajor, Diogo d’Azeuedo, Lan- çarote Perejra, Bertolameu da Silueira, Ruj da Cofta, & Chriftouam de Melo natural de Beja. E cÕ efta armada fe partio Vaíco da Cunha pera o eftreito. Mandou mais o Viforej a hú caualeiro que auia nome Fernam Farto natural d’Obidos que fofie pelo eftreito ate Çuez ou ate onde majs podeffe & foubefe que Turcos auia no eftreito & o que determinauã por¬ que determinaua fe lhe noífo Senhor deífe faude ir no ano feguimto tomar Adem & queimar a armada dos Turcos que afi lho mandaua EI Rej, & fe na adoecera aquele ano o ouuera de fazer. E Fernã Farto fe partio é húa fufta cõ defafeis foldados, & hú deles fora Turco & no çerco de Diu fe lançara cõ os Portuguefes, & tornarafe chriftão & auia nome Garcia de Noronha, & efte ia por lingoa pera éganar os Turcos quando os viiorey doente e achaffé. E ficando o Viforej doéte foi fua doéça é tanto crecimento que nã fe leuantou mais ate que morreo, & da cama gouernaua a índia aiu- dandoo Fernã Rolz de Caftelo Brãco vedor da fazenda. CAPITOLO .VI. Do que Francifco Mende\ de VafcÕçelos ajjemtou com El Rey de Cam¬ baia. PArtido de Diu Francifco Mendez de Vafcomçelos que o Viforej man¬ daua por Embaxador a El Rey de Cambaia foife a Nouaguer onde eftaua Cojeçofar pera hi lhe dar Alucã auiamento de feu caminho, & por o nã achar efteue efperando ate que vieífe, & entretanto Cogeço- far lhe fez muito bõ recibimento ainda que queria grãde mal aos Portu¬ guefes & lhe pefafe muito de o ver, mas diíimulaua ate ver tempo em que fe vimgafe, & quando os moradores de Diu que eftauã é Nouaguer virã Francifco Mendez & os Portuguefes que iã cõ ele fizerã tamanha fefta que nã fe podia crer & afi a fez Alucã quando chegou que vio Fran¬ cifco Mendez a que teue hú pouco chorãdo coele de prazer dizendo que daua muitas graças a Deus & a Mafamede por o deixaré ver os portu¬ guefes & eftar de paz coeles que ja a daua por feita & achando ainda ali os moradores de Diu queixoufe cõ Cogeçofar de os nã ter mandados pera lá & logo mandou apregoar que que fe quifefe ir pera Diu o podia fazer porque auia paz antre El Rey de Portugal & El Rey de Cambaia, & a efte pregã leuantarã os Guzarates tamanha grita de prazer que era pera efpãtar, & a géte pobre que tinha pouco que leuar começou logo de ca¬ minhar pera Diu & quando foj a húa hora depois do meio dia eftauã da
  • Livro IX, Capitolo VII 535 banda da vila dos Rumes bé duas mil almas, & muitos por nã tere é que paliar fe lançauã a nado pegados é paos a que Diogo Lopez de Soufa acodio logo mandando a tres catures que os pafafe, & quando fe virã é fuas cafas & antre os portuguefes parecia doudos cõ as alegrias que fazia, & pouoado Diu como dantes, foi o mantimento tato & tã barato que nuca o foj tato. E defpachado Francifco Mendez d’Aluca partiofe pera Madauã onde el Rey de Cambaia eftaua cõ fua corte a quê leuaua de preféte oito caualos Arábios muito bos & acõpanhauãno vlte portuguefes de caualo afora feus criados & piães pera ho feruire. E quando chegou a Madauã na foi reçebido cõ nenhú aparato ne põpa cõ que fe coftumaua receber! os outros Embaxadores que era muito grade, & ifto deziã que fizera El Rey por cõprazer a mãj do Çoltã Badur que eftaua na corte & depois da morte de feu filho queria grandiflimo mal aos portuguefes por ho ma- taré, & defeia grãdemente de os ver deftruidos, & ficou trifte e todo eftremo quado foube que efcaparã aos Turcos é que tinha efperãça que os auiã de deftruir. E el Rey afi por amor dela como por de feu natural querer mal aos portuguefes fazia ifto, cõ quãto os Regedores de Cam- Rex Cambaiae baia lhe cõfelhauã que ho nã fizelfe poédolhe diante quãto ganhaua cõ a peM^amm^ob* paz dos Portuguefes, & por ifo & nã porque teuefe vontade cõfirmou as lata» aegre con- Capitulações das pazes que erã as que dife, & as afinou, & Francifco firmaI‘ Mendez fe partio pera Baçajm defcõtéte. CAPITOLO .VII. De como el Rey. de Cambaia mãdou Bramaluco fobre Baçaim. PArtido Francifco Mendez de Madauã El Rey de Cambaia mãdou logo nas fuas coftas a Bramaluco que era fenhor da comarca de Expetit reditu* Baçajm que per fua pefoa fofe cõ muita géte fobre Baçaim pera Baça,ni- recolher os dereitos que fe pagauã a El Rey de Portugal. E mandoulhe que fe Ruy Louréço fe lhe queixafe que lhe refpõdefe que aquela terra era do Reino de Cãbaia & que Çoltã Badur as nã podia defmébrar dele & que ele como Rey de Cambaia as podia tomar pois o Viforej nã falara nelas nas capitulações das pazes. E afi mãdou outro Capitam a Diu cõ immiuit pratsi- géte pera eftar é goarda da cidade, & como foi nela logo hi ouue brigas inRuu™°°‘ cõ os portuguefes, & ifto faziã cê rumes que vinhã antre efta géte que oium. como queriã mal aos portuguefes & lhes tinhã eueja de feré majs valetes queriãfe vimgar deles cõ éganos & treições porque não oufauã de praça, & defta maneira matarã tres deles cada hú por fi, porque fe erã mais auialhes medo & fete iumtos matarã o derradeiro que primeiro que mor-
  • 536 O» Rumes man¬ dados de Diu pe¬ ra le aio pertur¬ bar de Iodo a paz. Hiftoria da Índia refe matou hú dos rumes & ferio outro muito mal & defédiafe dos ou¬ tros tã be que fe nã atolara é húa vafa mataraos a todos; o que fabido por Diogo Lopez aiútou fua géte pera dar na cidade & matar quãtos mouros auia dêtro cudando que o Capitam del Rey de Cambaia era fabe- dor da morte do Português & o cõfintia, fenã quãdo foube que o nã fabia né eftaua na cidade, & por ifo çefou de fua determinação ate lho fazer faber & quãdo nã fizefie o que era rezão, vimgarfe, o que nã fez por o Capitam fazer boa eméda. E quãdo foi ifto de Diogo Lopez querer dar na cidade acertoufe que hú fidalgo chamado Antonio d’Azeuedo que era Capitam do baluarte do^mar era ido fem liçeça de Diogo Lopez à vila dos rumes omde a elle tempo eftaua tédo a feita é húa mefquita cõ oito portuguefes que iãjcõ ele, & fabédofe na cidade que Diogo Lopez queria dar nela & auédo fobrifo grãde reuolta forãfe cincoéta rumes à mefquita omde eftaua Antonio d’Azeuedo pera o préderé cõ os outros o que nã fe atreuerã a fazer fé lhe tomaré as armas por égano & étã os préderã & nã os matarã porque por amor deles nã defe Diogo Lopez na cidade, & depois de coçertado cõ o Capitam foltarã Antonio d’Azeuedo & os ou¬ tros, que dali a dias defpois difto açertou Antonio d’Azeuedo de paliar da vila dos rumes pera o baluarte do mar é húa barca é que ia algúa gete da terra & oito rumes & cõ Antonio d’Azeuedo iã dous foldados & hú moço feu & nã leuaua majs que húa efpada & imdo no meio do rio dife Antonio d’Azeuedo ao barqueiro que ho pofefe hú pouco abaixo do cais, ao que fe atraueffou logo hú dos rumes & dife muito foberbo que nã auia o barqueiro d’ir fenã dereito ao caeis, & dizédo ifto pos a mão nos bigodes porque o té por grãde fero, & repricãdo Antonio d’Azeuedo cÕ muita mãfidão que o pofefé onde dezia porque lhe cõpria poeréno ali, leuãtoufe outro rume muito mais foberbo, & arrãcamdo dú terçado dife que nã auia d’ir o barqueiro fenã ao caeis, ha o que Antonio d’Azeuedo nã podendo fofrer leuou da efpada a grãde furia & começa de ferir o Rume muito rijo que cõ os outros fete forã todos mortos porque cõ aiuda dos dous foldados d’Antonio d’Azeuedo nã cefou ele de ferir nos rumes ate que forã todos mortos, & cõ a morte deftes oito fe aluoraçarã os ou¬ tros muito mais, & por fe nã romper guerra antre os portuguefes & os Guzarates por efta caufa mandou Alucã ir os rumes da cidade pera No- uaguer, & ficou tudo em paz.
  • Livro IX, Capitolo VIII 537 CAPITOLO .VIII. De como algiis Mouros da Ilha de Ter na te fe tornarã Chri/iãos. NO outauo liuro fica dito como por induítria d’Antonio Galuã fe fizera xpãos feis Reis nos macaçares & outros muitos fenhores & Conuertidosnmi- géte do pouo, o que fabido nas ilhas de Maluco prlcipalmente na '“íiZaiiic! de Ternate muitos defeiauã de reçeber a fee catholica, o que fetindo os cacizes o eítoruauã quãto podiã fazédo fobr’ifo grades requirimentos a EI Rey da parte de Mafamede que por atalhar a ifo acordou cõ os do feu cõfelho que todo fidalgo que fe fizefle xpão perdeíe pera EI Rey a teça & moradia que tiuefe & afi fua fazenda, mas cõ tudo na deixará algús de íe fazer, & afi como foi hú Mouro que fe chamaua Culano fabia [?] hú dos mais principaes da corte & da cafa del Rey de Ternate & dos tres de feu cõfelho, & fobre fe fazer xpão ouue grade aluoroço é EI Rey & nos de fua corte & o quiferã matar & ele fe acolheo a fortaleza omde el Rey foi a pedilo a Antonio Galuã & ele lho nã quis dar poíto que Comtancia de todos efles prícipaes portuguefes lhe acõfelhauã que o defe a el Rey & AnIonio Ga,u5°- nã cõfimtife que fe fizefe xpão, porque el Rey lhe nã fizefe guerra, & cõ tudo esforçãdofe Antonio Galuã na obediência que lhe El Rey tinha nã o quis dar a El Rey nã deixar de o fazer xpão, & por derradeiro El Rey foi cõtéte difo & cõ toda fua corte foi prefete ao feu bautifmo & de fua molher & de feus filhos que todos forã hú domlguo polia manhã, em que Antonio Galuã fez fazer muito grãde feita, & foi poíto nome a Culano Manuel & tomou por apelido Galuã por amor d’Antonio Galuã que foi feu padrinho que lhe mandou fazer húas cafas iunto da fortaleza é que morafe cõ fua molher & filhos, & ali os mãtinha à fua cufta, que a del rei de Portugal nã podia fer por nã ter ninhúa fazenda na feitoria, & vedo Antonio Galuã camanho feruiço de Deus & del Rey era fazerfe aquele homé xpão porque fendoho o feriã muitos o fez fe lhe lébrar o que nifio gaítaua, & nã fe éganou porque outros muitos fidalgos & fenho¬ res fe tornarã xpãos nã lhes lembrãdo as fazendas, morgados & teças que perdiã por ifo, & vedo a géte comú que como eftes fe tornauã xpãos fe tornauã algús à noffa fanta fe, ao que El Rey acudio pedimdo a An¬ tonio Galuã que o nã comfimtife porque tãto que erã bautizados logo lhe defobedeciã & nã achariã nígué pera o feruiço neçeífario, do que fe ele efcufou dizédo que o nã podia fazer fé carrego de cõfciemcia, & cõ quãto Antonio Galuã iíto fazia El Rey lhe era tã afeiçoado por o cõferuar é rei que tudo lhe fofria que fe fora outro capitam fempre fe lhe leuãtara & Tomo IV
  • 538 Hiftoria da Índia O amor c credito grande que todos tinhão de A nto- nio Galuáo. Desejos dos reis de Maluco de o reterem na terra. fizera guerra, & afi como era amado del Rey afi o era de todo pouo & dos outros reis comarcãos, e tãto que fazêdo ele xpão a hú primo coir¬ mão del Rey de Geilolo pefoa muito prlcipal acerca dele, EI Rey de Gei- lolo o nã ouue por mal, por? mandoulhe dizer que lhe pedia que nã fizeífe mais xpão a ninhú de fua terra fem fua liçeça porque ele a nã negaria a que o quifefe fer. E depois difto fe focorreo el Rey de Geilolo a Antonio Galuã que lhe defe remedio a hú filho que tinha muito doete de boubas a que os feus médicos nã fabiã dar cura, & que ele tinha tamanha cÕ- fiança nele que efperaua de lhe dar faude, & afi lha deu Antonio Galuã depois de Deos cõ o pao da China que lhe mãdou dar per hú Gomez d’Andrade que fora ê outro tempo catiuo é Geilolo cõ o regimento cÕ que lhe auia de fer dado, & acabado de o tomar ficou fã, pelo que el Rey & a Rainha ficarã é obrigaçã grandiflima a Antonio Galuã & afi o diziã. E tãto era o credito que tinhã naquela terra nele que defeiando El Rey de Ternate muito de cafar cõ húa filha del Rey de Tidore ou de feu irmão Cachilrade pera fe aifegurar no Reino & não auer medo a El Rey Tabarija, & nã o podedo acabar por fua valia meteo por terçeiro a An¬ tonio Galuã que foi a ifo a Tidore & por amor dele aprouue a El Rey de cafar fua filha cõ El Rey de Ternate, dizédolhe El Rey perãte todo feu cõfelho que nã cafaria fua filha cõ El Rey Aeiro, mas que a emtre- gaua a Antonio Galuã pera que faça dela o [que] quifefe como fara de minha pefoa & de meu Reino porque tudo efta preftes pera feu feruiço; & como efte cafamento fe fez por interceffão de Antonio Galuã fez ele grãdes feftas nele & deu muitas peças ricas a El Rey & a Rainha, pelo que afi El Rey de Tidore como todos os outros Reis de Maluco que ali erã jumtos lhe queriã de cada vez mòr be. E vedo quãto proueito fe feguia aquelas Ilhas dele fer Capitam da fortaleza de Maluco pela paz que aífé- tara & que goardaua cõ tãta fegurãça defeiauã é eftremo que fofle em fua vida Capitam daquela fortaleza, & pidirãlhe todos jumtos eftreita- mente que confintife que o mandaffé pedir a El Rey de Portugal, & por¬ que ele nã queria lhes prometerá de pagaré a El Rey todo o crauo que lhe deuiã, & mais derã liçeça pera bater moeda de cobre que fe gaftaria por aquelas Ilhas, o que lhes pidia por fintir que era grãde honrra del Rey de Portugal baterfe a fua moeda tã longe, & majs que afi védia El Rey o quimtal de cobre a noue mil reis que erã majs tres mil & quinhe- tos do que o dauã na Índia. E credo os Reis que o tinhã fatisfeito lhe tornarã a rogar o que lhe dantes rogauã o que lhes cÕçedeo d’importu- nado deles, & eles efcreuerã é nome de todos húa carta a El Rey de Por¬ tugal cõ feu embaixador na monção feguimte em que lhe relatauã muitos males que receberã dos capitães daquela fortaleza que ateli forã princi-
  • Livro IX, Capitolo IX 53g palmente de Triftã d’Ataide, relatado tãbé as caufas da cõjuração que fizera cõtr’ele & porque lhe fizera guerra ta crua, & cotado mil bés que Antonio Galuã fizera a toda aquela terra & os principaes mãtelos é paz & é juftiça cõ que reftituira a terra a feu primeiro eftado, pelo que todos o tinha por paj & afi lho chamauã, pidindo cõ grade efficacia a EI Rey que emquãto Antonio Galuã viueífe ouueffe por feu feruiço de fer capi¬ tam daquela fortaleza no que lhes faria merçe grãdiffima porque eftauã tã efcaldados dos capitães pafTados que nã fe atreuiã a viuer cõ outros íenã com Antonio Galuã de que tinhã efperiécia. E outra tal carta como efta efcreueo tãbé Cachilrade é nome do pouo de todas aquelas Ilhas. CAPITOLO .IX. De como Antonio Galuã foi viuer a ferra de fogo da Ilha de Tidore. ACabadas as feftas defte cafamento que todos fe forã pera fuas ter¬ ras fe tornou xpão hú Mouro Arábio que proçedia da geração de Mafamede & por ifo & por fer caciz & homé virtuofo de feu na¬ tural o tinhã os Mouros é grãde veneração, & ifto fez nos mouros tama¬ nho abalo que EI Rey fe ouuera de tornar xpão fe nã eíliuera de cami¬ nho pera Amboino & outras ilhas de feu fenorio & afi ho diífe a Antonio Galuã, poré que da volta o faria, & efta ida fez ele cõ cõfimtimento d’Antonio Galuã que pera iffo lhe deu algús portuguefes que fofle coele & lhe epreftou a artelharia & trõbetas. E vendo os mouros que feu Rej tinha liberdade pera ir d’armada o que nenhú teuera depois que os por¬ tuguefes eftauã naquela Ilha acabarã de crer que era liure de todo cõ que tãbe de todo acabarã de cõfirmar o amor que tinhã a Antonio Galuã & obrigação em que lhe erã por tatos bés como lhes fazia. E aiútoufe a ifto que femdo EI Rey d’armada fe açendeo húa nojte fogo na pouoação dos mouros a que Antonio Galuã acudio cõ algús portuguefes & cõ fua dili- gécia fe atalhou o fogo que não queimou majs de quatroçentas cafas que doutra maneira ouuera d’arder toda a pouoação, & majs não fe roubou a nlgue coufa nenhúa & ifto por amor de Antonio Galuã a que todos tinhã tamanha obediência como fe fora feu fenor natural, & chamauãlhe pai & fiauãfe tãto dele que afi os Reis como os outros o leuauã onde tinhã fuas molheres & filhas o que nã faziã a feus irmão & nã falauã é outra coufa fenã nelle & em fuas virtudes de que foaua tãta fama que muitas peífoas iã doutras partes a velo, antre as quais foi húa tia del rej de Tidore, molhor viuua, & de dias, & que auia muitos anos que eftaua é hú éçer- ramento como mofteiro cõ outras donas cõ determinação de núca dali fair Conuersáo. Acerca da liber¬ dade do rei de Maluco. Muitos louuores de Antonio Gal- uáo.
  • 540 Hijloria da índia o que quebrou por ir ver Antonio Galuã. E quãdo fe ifto foube foi tido por tamanha marauilha que acreçentou muito majs a fama que corria Emfomiaçio que d’Antonio Galuã, a que os mouros da terra queria fazer crer que na mor **“* j' dfog0b
  • Livro IX, Capitolo IX 541 leuar auãte. Eele como fazia ifto cÕ medo quifera cõ os outros deitar for¬ tes do que lhes acõteceria dali por diãte, 0 que Antonio Galuã nã con- fintio, & fez que fobiifé dous ou tres cõ ajuda que lhes derã & fobidos é cima cõ machados que leuauã cortará algúas aruores deífas que auia é cima & como folie cortados & nã de todo ficauã depêduradas, & cõ ou¬ tras que arrimará debaxo & affi canas muito groífas, poderá fobir Anto¬ nio Galuã & os outros co que feguio por debaxo de hú alto & bailo aruo- redo ate chegaré a outro que eftaua todo quebrado & rachado & o chã foçado de porcos & muitas pedras grãdes & pequenas delas metidas no chã & outras fobre a terra, & erã as que 0 fogo lãçaua que faziã aquela deftruyção no aruoredo & era ali tã mal aflombrado & medonho & efcuro por nã dar ali foi que parecia que andauã ali os diabos, & de feito forã todos afõbrados de medo, & imdo afi fairã daquela efpeífura & virã foi que os esforçou & rompendo por hú canaueal muito groffo & bailo que de toílado do fogo quebraua logo fairã a hú chã que feria dúa legoa de roda tudo coberto de cimza & de pedregulho efmeuçado & ifto do fogo & no meio defta terra eftaua a boca donde ele faia, & deite canaueal nã oufauã os Mouros de paffar co medo o que vendo os portuguefes fizerã o mefmo, deixãdoos Antonio Galuã paliou diante pera a boca do fogo, o que vendo hú da companhia que auia nome Miguel Anjo home preto na¬ tural de Gelolo bradou cõ os criados d’Antonio Galuã porque o nã acom- panhauã, & elles o fizerã de vergonha pelo que cobrando os mouros co¬ ração forã correndo apos ele que chegou a boca do fogo que era grãde & redõda & a lugares fumigaua, & da banda de dentro fe faziã hús de- graos de pedra viua é caracol que o fogo fazia afi como ia queimando & tã bé feitos como que os fizerã ao compaifo por onde deçerã algús por¬ tuguefes & mouros por fer a altura pequena & pera veré húas mãchas verdes & amarelas que fe faziã fobre as pedras que virã que era de hú bitume que trouuerã que deitado é agoa por efpaço de húa nojte torna- uafe como azeite, & andando bufcãdo a alagoa d’agoa feruéte que nã auia leuãtafe hú vento cõ que o fumo começou logo de fair daquela boca & eles fe forã recolhédo o majs depreífa que poderã, & quis Deus que nã arrebétou 0 fogo porque nenhú nã efcapara, & afli tornará todos a forta¬ leza onre os tinhã por mortos & foi grãde efpãto de os veré viuos, & os mouros teuerã por feito mui grãde ter Antonio Galuã atreuimento pera ir ver aquela boca & chegar a ela, & oulhauã pera ele & pera os que forã cõ ele como pera coufa eftranha. Chega a ver a bo¬ ca do fogo. Não achou alagoa d'agoa que lhe di- ziSo.
  • Hiftoria da Índia Ciutrra de Cam¬ baia contra Ba- çaim. Rcpairos c diligc- çias de Rui Lou- reoço. S43 GAPITOLO .X. De como Bramaluco capitam del Rey de Cambaia cercou Baçajm. t PArtido Francifco Mendez de Vafcõçelos de Madauã chegou a Ba¬ çajm domde logo fe foi a Chaul por dentro dos rios & dahi a Goa por terra & partido de Baçajm logo aos 24 de Maio chegou Bra¬ maluco capitam del Rey de Cambaia cõ fua gete que era mil & quinhé- tos de caualo antre caualos ligeiros & acubertados & oito nul & quinhé- tos de pé, os cemto efpimgardeiros & os outros frecheiros & adargados, & debaxo de fua gouernamça vinhã outros capitães Cogerrahmude [?], Pofegi, & aiumtoufe coele Meliqueacem que dantes eftaua fobre Baçajm, & afi trazia cimco alifantes armados, & cõ fua vimda foi gramde defmajo na gete da terra, & todos os moradores de Baçajm fugirá pera a nofla pouoaçam é que Ruy Loureço de Tauora mandou dar guafalhado aos primcipaes & os outros fe fora pera a ilha de Salfete, & chegado Bra¬ maluco a Baçajm alojoufe hi cõ fua gente, porque cõ o aruoredo das or- tas & dos palmares ficaua écuberto da artelharia da noíTa fortaleza pofto que era perto. Ruy Loureço de Tauora tinha quatroçetos portuguefes de que os quoréta erã de caualo todos boa gete & bé armada, & équãto os Mouros affétaua feu arrajal porque lhe nã étraífé na ilha de Salfete por ho paífo que diffe mãdou logo Fernã da Silua feu fobrinho cõ algúe gete é catures & almadias que ho guardafe, & nefte pado mãdou tãbe fazer logo hú baluarte. E porque os mouros tãbe podiã etrar na pouoaçã dos portuguefes pola bãda do çertã, mãdou logo fazer do cabo do efteiro pera ho mar húa vala alta & forte de quaréta braças de cõprido, & dali por diãte por fer area, & nã fe poder fazer vala, mãdou fazer húa trã- queira de madeira forte que feria de çem braças & cõ ifto ficauã a po¬ uoaçã & fortaleza çercadas tirãdo aquilo que cõ marè vazia ficaua ef- praiado que feriã dez braças de cõprido, & ordenou fuas vigias afi na fortaleza como na trãqueira, & fora dela no campo pos vigias de caualo, & a cada quarto redido tiraua a fortaleza húa bõbarda, & logo refpõdiã trõbetas & atabales que eftauã na trãqueira, & na boca do efteiro pegado cõ a fortaleza pos hú batel armado que varejafe ho mar & ho efteiro & a capitania dele deu ao patram mor da fortaleza, & a capitania de húa eftãcia que eftaua a par da etrada da trãqueira deu a Fernã Gomez de Soufa, & outra doutra eftãcia que fez na Igreja deu a hú fidalgo chamado Francifco de Médoça, & ele cõ os de caualo ficou pera acodir ao efpaço
  • Livro IX, Capitolo XI 5^3 que ficaua fem repairo quãdo a marè era vazia, & na fortaleza hauia de ficar Joã de Magalhães feitor & alcajde mór. CAPITOLO .XI. De como foj morto hu fobrinho de Bramaluco & outros Mouros. ISto afi ordenado quiz Ruy Louréço faber que géte feria a dos imigos porque ho nã fabia & aos onze dias de julho faio fora das tranquei- Minuta praeiia. ras & começou d’efcaramuçar, ho que vifto por Bramaluco mãdou logo algús de feus capitães que cõ a géte de fuas capitanias afi de pé como de caualo fofé dar nos portuguefes, & afi o fizerã, & é faimdo dan- tre as ortas & palmares que fe defcobriã, mãdoulhes Ruy Louréço tirar cõ húa efpera que matou algús, & os outros fe recolhera aos palmares, & dali por diãte quafi cada dia faia Ruy Louréço fora das trãqueiras cõ fua géte a moftrarfe aos mouros que logo lhe faiã & cõ os tiros da fortaleza mataua & feria muitos fé os deixar chegar a fi, & cõ quãto ele defeiaua peleiar coeles, & fimtia é fua géte que tãbé ho defeiaua nã ho fazia por lho ho Viforej ter muito defefo é hú regimento que lhe mandou de como fe hauia d’auer naquele çerco, & por ilo nã peleiaua cõ os Mouros, mas fazialhes efte dano que digo, do que Bramaluco eftaua muj magoado, & húa noite ao quarto da prima mãdou fete de caualo que foífé dar nas nofas vigias de caualo que eftauã fora da trãqueira, & imdo pera ifo que forã íimtidos acodio logo Ruy Louréço & mãdou tirar dous tiros grofos que eftauã apõtados pera aquela parte & quãdo os mouros virã tamanha diligécia é lhes refiftiré tornarãfe fem fazeré nada doque Bramaluco ficou muito agaftado, & por iffo logo aos dezanoue de Junho mãdou a hú feu fobrinho que cõ a maior parte da géte de caualo & de pé emtrafe é as trãqueiras, ho que cometeo ao quarto d’alua e é ela rõpédo chega hú tiro de béfta da trãqueira, cõ a géte de caualo feita é hú efquadrã muito çer- rado, & a géte de pè efpalhada pollo cãpo & algús deles poferã fogo a duas cafas palhaças que eftauã fora da trãqueira, & tãto que começarã d’arder leuãtarã húa medonha grita; Ruy Louréço que eftaua na trãqueira cõ fua géte nã podédo fofrer efte atreuimento dos mouros por fer muito esforçado, quifera ir cõ algús de caualo dar naqueles que punha ho fogo, & é faimdo da trãqueira faio apofele toda a outra géte, & porque faimdo todos corria a fortaleza perigo, & ele nã podia ter a géte tornoufe a re¬ colher, & mãdou defparar hú camelo na géte de caualo & matou dous homés de que hú foi o fobrinho de Bramaluco & matãdo tãbé muitos de pé fe recolherá os mouros & Bramaluco ficou muito trifte por a morte
  • 544 Hijloria da índia de feu íobrinho & mãdou que por hús dias nã correfé os mouros a for¬ taleza né parecia nenhú deles pelo campo; & vedo Ruy Louréço que lhes nã podia fazer dano como dantes, mãdaualho fazer per ho tanadar mor das terras de Baçajm hú valete caualeiro a que nã pude faber o nome que cÕ algús de caualo falteaua muitas vezes os mouros fecretamente quãdo iã bufcar herua & mãtimentos, & mataua & catiuaua deles & lhes tomaua gado. CAPITOLO .XII. De como Bramaluco cometeo pa\ a Ruy Louréço de Tauora. Astuçia de Bra- maluco. VEndo Bramaluco quã bé os portuguefes fe defemdiã & quã pouco tinha feito cÕ eles tédo tata géte eftaua muito corrido & énuergo- nhado & pera écobrir efta vergonha determinou de fazer por ma¬ nha ho que nã podia por força pera o que tomou por corretor hú mouro chamado Mulenaciã[?j a que el Rey de Portugal daua hú pardao da teça cada dia que fe pafou de Baçaim pera Taná quãdo foube que Bramaluco ia fobre a fortaleza, & cõçertou coele que como feruidor del Rey de Por¬ tugal & amigo de Ruy Louréço lhe efcreuefe húa carta é que lhe difefe como pera tal dia tinha Bramaluco determinado d’étrar as 'rãqueiras & dar cõbate ha fortaleza pera o que tinha mãdado fazer muitas efcadas & outros petrechos neçeffarios do que ho auifaua pera ho remediar equãto tinha tempo, & que lhe pareçia que hauia de fazer algú cÕcerto cÕ Bra¬ maluco, porque por feu rogo deixara ja tres vezes de combater a forta¬ leza pera ho que tinha muito grofa géte que cada dia lhe chegaua de nouo. E quãdo Ruy Louréço vio efta carta logo étédeo a manha, & mais porque [tinha ma fofpeita de Mulé por fe ir de Baçaim como foube do çerço, & mais fé lhe dar cõta de fua ida né lhe pedir liçença pera ifo, & tédo efte cõçeito dele refpõdeolhe que lhe agardecia feu auifo é que tinha duuida porque femdoele vaífalo del Rey de Portugal & tédo rezã de ho feruir por lhe ter feita tanta merçe defemparara a fua fortaleza é tal tempo & fe fora meter antre feus imigos, & quãto ao cõbate que lhe Bra¬ maluco queria dar que lhe parecia que nã tinha efcadas pera ifo, que auiã de fer curtas porque as fizera fé medida dos muros que fe a quifefe que lha mãdaria, & que quãto a étrar as trãqueiras que foubefe que tinha cõfigo muitos fidalgos & criados del Rey de Portugal que lho hauiã de deféder ate que morrefé todos, & Mulé deu efta repofta a Bramaluco que difimulando coela lhe dife que mãdafe dizer a Ruy Louréço que lhe mãdafe algué porque queria fazer pazes cÕ ele, & Ruy Louréço foi cõtéte, & reçeãdofe que Bramaluco fizefe aquilo por lhe acolher algú português
  • Livro IX, Capitolo XII 545 & lho matar nã quis mãdar nenhú & mãdou hú mercador gétio chamado Janaique muito bõ homé & amigo do feruiço del Rey de Portugal & dos portuguefes & deulhe hús apõtamentos das codições cõ que hauiã de fer as pazes que ele Bramaluco fe hauia logo de fair da Ilha de Baçajm cÕ toda fua géte, & fora dela hauia de ter feu arrajal, & efperar ate fim d’Agofto que o Viforej viria, & étretãto né ele né Ruy Louréço nã arre¬ cadaria nos lugares do fertã nenhús dereitos dos lauradores né ortelães, & fe depofitarã ate a vida do Viforej que determinaria fe erã del Rey de Portugal fe del rej de Cambaia. E quãdo Bramaluco vio eftes apõtamen¬ tos como homé que na era cõtéte de taes condições né queria fazer a paz coelas, começou de dilatar o defpacho dela & tãbé pera ver fe nefte tempo podia por treiçã tomar a Ilha de Salfete, ou outra, ou a fortaleza, em que Ruy Louréço tinha muito grade vigia porque ho conhecia por manhofo & temia ho que ele determinaua, & mais védo quãto tardaua a repofta da paz, & por ifo tinha grade vigia na fortaleza, ho que nã podia fazer nas ilhas, & conheçédo ifto Bramaluco & fabédo quã pouca géte as goardaua, determinou de tomar a ilha de Carãiá per hú paffo per que fe podia étrar, & mãdou fecretamente fobr’efta ilha hú capitam cõ quatro- cétos homés de pè que étrado nefta ilha foi logo çercar húa cafa é que moraua ho tanadar daquela ilha que era português & hauia nome Ma¬ noel d’Aguiar que nã tinha mais que dez portuguefes & algús tiros cõ que fe defédeo tã esforçadamente dos mouros que nã fomente lhe nã po¬ derá étrar a cafa mas ajmda ferio & matou muitos. E logo Manoel d’Aguiar mãdou dizer a Ruy Louréço como eítaua pedimdolhe focorro que lhe nã pode mãdar por eftar tã apertado como eftaua & tãbé temeo que pois Bramaluco era tã falfo que fobre eílar cõ ele é cõcerto de paz lhe mãdaua tomar aquela ilha que afi tomaria a fortaleza, & por ifo nã oufou d’alargar de fi nenhúa géte da que tinha, & cõ tudo ufou de húa manha que lhe aproueitou muito & foi que acertãdo de ter húa carta de Bramaluco, mãdou logo abrir a hú ourivez outra tal chapa como a carta Aituçia de Ruy tinha, & coela chapou húa carta que mãdou efcreuer por hú limgoa é Lourenç°- nome de Bramaluco pera ho feu capitam que eftaua é Carãjá é que lhe mãdaua que logo fe faife da Ilha porque tinha feita paz cõ Ruy Louréço & mãdoulha da parte de Bramaluco per hú piã da terra, & tudo fe fez no mefmo dia que Manoel d’Aguiar mãdou pedir ho focorro a Ruy Lou¬ réço. E quando o capitam de Bramaluco vio a fua carta & conheceo a fua chapa foife logo pera ho arrajal, & afi ficou Manoel d’Aguiar liure, & Ruy Louréço que o foube mãdou logo outro catur ao paffo da Ilha cõ muita mais géte & artelharia que ho outro, porque tolhefé melhor a étrada aos mouros que nã tornarã, mas, porque Bramaluco quãdo vio ho 69 Tono IV
  • 546 Hijloria da Índia feu capitam & foube a caufa porque deixara a Ilha mandouho éforcar credo que por peita de Ruy Louréço ele mefmo ordenara ho ardil. CAPITOLO .XIII. Do notauel feito que fi\erã Feritã Dias d’Arruda & outro português. VEmdo Bramaluco quã mal lhe foçedera ho feito de Carajá quis ver fe podia tomar a ilha do Salfete ê cuio pafo ja eftaua feito ho ba¬ luarte nouo que dife, & por capitam dele hú Pero Velho de Vila Fraca cÕ cimco portuguefes & algús tiros groífos & por ifto na auia tamanha goarda nos rios, & determinado Bramaluco de tomar efta ilha mãdou a ifo hú dos feus Capitães cõ muita géte que emtrou a ilha, & queredo tomar ho baluarte Pero Velho fe defêdeo tã bé que lhe matou muitos Mouros & ho fez ir da ilha, ho que fabédo Ruy Louréço mãdou ter grãde goarda nos rios daquelas ilhas primcipalmente nos pafos por onde as podiã emtrar, & cõtinuamente andauã catures corrédo de húas partes pera outras, & na fortaleza tãbé auia muito grãde vigia & de dia & de noite eftaua toda a géte armada & afi comia & dormia reçeãdo que defe Bramaluco cobate à fortaleza ou cometefe de noite as trãqueiras do que ele eftaua bé fora & majs achãdo tãta refiftéçia nos portuguefes, & cÕ tudo por fua honrra nã quis fazer a paz cõ as cõdições que Ruy Lou¬ réço queria, & hauia por milhor telo çercado, & defpachou Janaique per qué mandou dizer a Ruy Louréço que nã faria paz fenã cõ eftas cõdi¬ ções, que fe iria de Baçajm omde ficaria toda fua géte no arrajal como eftaua, & coela ficaria hú tanadar por EI Rey de Cambaia que arreca¬ daria por ele todas as rédas das terras do fertã de Baçaim ate que ho Viforej viefe & determinafe ho que lhe pareçefe, & que entretãto ele Ruy Louréço nã arrecadaria nenhús dereitos, ho que Ruy Louréço nã quis, & mãdou dizer a Bramaluco que pois nã queria a paz que lhe nã mãdafe majs recado & ele o fez afi, & logo aos quatro dias do mes de Julho a oras d’auemarias mãdou feus capitães que correfé a fortaleza & eles ho forã fazer mas nã fizerã mais que perderé algúa géte que lhes matou a artelharia, & védo Ruy Louréço que Bramaluco nã queria paz mãdou mais géte a goardar os pafos per omde fe podiã emtrar as ilhas de Sal¬ fete & Carãjà & farã a ifto bé çem homés que amdauã é almadias & ca¬ tures & é hú deles andaua por Capitam hú Fernã Dias natural d’Arruda dos Vinhos que trazia cõfigo dous portuguefes & hú deles fe chamaua d’alcunha fete pães que fe lançara cõ os mouros & fora arrenegado & depois fe tornou pera a fortaleza & fe recõciliou & porém nã deixaua de
  • Livro IX, Capitolo XJIII 547 fer mouro & defeiãdo de fe tornar pera os Mouros faloufe cõ aqueles que eftauã é Carajá é cuja cofta Femã Dias andaua, & coçertou de fe lamçar coeles & darlhes o catur & os dous portuguefes pera que os ma- tafe o que fez aos doze de Julho falãdofe cõ os marinheiros do catur que era guzarates que fe lamçafé na ilha cõ os mouros & que eles mataria os portuguefes & tomaria o catur, & os guzarates o fezerã afi, ho que vedo Fernã Dias deu a vela perá fe pafar à outra bãda, & tédoa dada deulhe ho veto por dauãte cõ que tornou a dar a coíla no lugar domde dou»xPáo» peie- partira, & os mouros que paflauã de cimcoéta acodirã logo fobre Fernam íSo com 5omou' Dias & feu companheiro (que o fete pães acolheofe logo) & Fernã Dias quãdo fe vio naquele eftado dife a feu companheiro que nã fe defé & que morrefé cõ vimgaré primeiro fuas mortes, & afi o fezerã que tres dias contínuos peleiarã cõ os mouros de que matará muitos & de cãfados os tomarã & lhes cortarã as cabeças & coelas fe forã no catur & as leuarã a Bramaluco que fez coelas grãde feita & afi cõ hú berço que ia no ca¬ tur, de que Ruy Louréço ficou muito trilte, & logo mãdou ho tanadar mor aquela noite que folie queimar húas aldeas que eftauã de fronte da fortaleza em que eftaua algúa géte de pè de Bramaluco que femdo aui- fada por hús efcrauos que fugirã da fortaleza primeiro que chegafle ho tanadar, & fugio toda faluo quatro homés que forã queimados nas cafas onde eftauã. CAPITOLO .XIIII. De como Bramaluco combateo a fortaleza & foi desbaratado. COmo Bramaluco vio que Ruy Louréço nã comçedia as pazes m㬠dou a feus capitães que tornafé a correr a fortaleza como dantes & eles ho fezerã afi & fempre a artelharia da fortaleza lhes ma- taua géte, & aos 20 de Julho apareçeo muy grofa gete de caualo antre os palmares de que nã oufaua de fair cõ medo das bõbardadas que logo a fortaleza começou de tirar, & a géte de pè por ficar majs baixa pafou auãte & chegou quafi as trãqueiras tirãdo muitas frechadas & efpimgar- dadas, a que Ruy Louréço logo acodio & cõ a géte que tinha ofemdeo os mouros tã brauamente que lhes foi forçado iréfe faluo obra de trimta que fe deixarã ficar dous tiros de béfta das trãqueiras, ho que védo Ruy Louréço faio a eles cõ hú feu pagé ambos a caualo & apos eles hú Mi¬ guel Alcoforado tãbé a caualo que dife a Ruy Louréço que efperafe ate ir chamar mais de caualo & que dariã nos mouros mais feguramente, & Ruy Louréço nã quis temédo que emtretãto fe fofie os mouros, & dife que defem logo, & dife ao feu pagé que fofie comtra ho mar é dereito deles pera que eles cõ cobiça de o mataré fe recolhefé pera mais perto
  • Hijloria da índia Hum filho debra- maluco morto. 548 deles & os mouros 0 fizera afi & tãto que Ruy Louréço os vio ir pera o feu pagé remeteo a eles cõ Miguel Alcoforado bradado por Samtiago & o pagé fez ho mefmo & logo todos tres derribará feis mouros mortos & os outros fe poferã é defenlam cercãdoos & tirãdolhes frechadas ao que logo acodirã os de caualo da fortaleza & cõ fua aiuda fora mortos todos os Mouros & dos portuguefes nenhú & foi ferido o caualo de Ruy Lou- réço & outro, & outros tatos mortos ferã mortos cõ a artelharia, & na nojte feguimte faio ho tanadar mor fora & catiuou vimte piães de Bra- maluco que fe agaftaua de cada vez majs vedo quã pouco noio fazia a Ruy Louréço & quãto reçebia dele & cõ tudo nã deixaua de lhe mãdar correr cada dia & fempre reçebia dano fé os portuguefes receberé dele nenhú, & fe nã fora por Bramaluco ja os mouros nã queriã correr as trã- queiras & deziã que para que era ir là pois nã faziã majs que morreré poucos & poucos que fe deuiã d’ir & leuãtar o cerco pois nã faziã nada, & ele os esforçaua ho mais que podia & os fazia ir cõ ameaças por cuio medo iã, porem tinhãno tamanho dos portuguefes que nã oufauã de os efperar, em tãto que dia de Samtiago fazédo Ruy Louréço fefta ao béaué- turado Apoftolo faio cõ toda fua géte afi de pè como de caualo é húa foiça fora das trãqueiras cõ mais de treçétos piães guzarates diãte & emde- reitou pera os mouros que os eftauã védo da bãda de hú palmar domde logo fugirã todos tãto que virã os portuguefes édereitar par’eles cudando que os ia cometer. E recolhido Ruy Louréço fe tornarã os mouros a moftrar, & cõ medo da artelharia que matou algús fugirã. E como Bra¬ maluco nã perdia 0 defeio de tomar a ilha de Salfete tornou a mandar là algús de feus capitães cõ quinhétos homés a ifo aos vimteoito de Ju¬ lho, & os cemcoemta dos portuguefes que amdauã é goarda dos pafos acodirã logo a lho deféder, & afi Niculao Gomez Pefoa que era tanadar de Salfete, & peleiarã cõ os mouros tã esforçadamente que os fizerã re¬ tirar do pafo matãdolhes treze frecheiros & efpimgardeiros, & dos nofos nã morreo nenhum, fomente forã feridos Niculao Gomez Pefoa & outros dous, & logo ao outro dia tornarã os mouros a cometer o pafo fobre que tãbé ouue húa peleia brauiflima é que forã mortos pafamte de çem mou¬ ros & autre eles hú filho de Bramaluco & por ifto fe tornarã os Mouros coele pera ho arrajal omde foi feito grãde fimtimento polo filho do Bra¬ maluco & çem mouros de caualo dos majs esforçados lhe prometerá de morreré todos ate vimgaré a morte de feu filho & é final difo fe raparã todos & ele alemtou de a vingar & combater a fortaleza & tomala, & cometeo ifto hú fabado noue d’Agofto vefpera do gloriofo Sam Louréço leuãdo toda fua géte que feriã des mil & dozétos homés noue mil de pé & mil & dozemtos de caualo, feita em tres batalhas cada húa de tres mil
  • Livro IX, Capitolo X1III 549 piães frecheiros & efpimgardeiros & outros & quatrocétos de caualo, húa hauia de cometer pola boca do eftreito omde eftaua ho batel de que era capitam ho piloto mor, outra hauia de cometer pela orta que fora de Garçia de Sà, & outra pelo efpaço que eftaua fem trãqueira & nefta iã os ceto de caualo rapados & por capitam deles hú fobrinho de Brama- luco, & era medonha coufa de ver tãta géte que cobria todo ho campo que era de mea legoa & ouuir ho arroido que fazia os feus inftrumentos de guerra & o rumor que eles fazia falado hús cõ os outros. Ruy Lou- réço nã tinha mais de trezétos homés que os outros que faltauã pera quatroçétos amdauã e goarda dos pafos & cõ quãto fe achou tã pouca géte pera efperar tã brauo cõbate nã perdeo o esforço que tinha & vifi- tou logo os eftãcias pera ver fe lhes faleçia algúa coufa de fua defem- fam & mãdou aos que as goardauã que por nenhúa coufa fe tirafem delas, & fez tirar efa artelharia da fortaleza que defcobria por omde iã os mouros, de que a batalha que ia cometer a vala chegou primeiro a ela que nenhúa dos outras chegafe as eftãcias que hauia de cometer, & ifto cÕ determinaçam que como os portuguefes fofe cometidos pola vala acuderiã todos a ela & defamparariã as outras eftãcias que logo emtra- riã, ho que pareçe que Ruy Louréço adeuinhãdo como fimgular capitam que era, proueo nifo como dife cõ mãdar que nimgué deixafe fua eftãçia por acodir a outras pofto que os mouros as emtrafé o que pareçe que foi infpirado por noffo Senhor pera coefte ardil faluar aquele dia efta for¬ taleza de Baçajm de nã fer tomada de Mouros, ho que fora fe Ruy Lou- reço nã mandara cõ graues penas ho que mãdou porque fegúdo multidã dos mouros que cometerá a vala os das outras eftãcias nã deixarã de acu¬ dir parecedolhes que hauia de fer logo emtrada, mas ho que Ruy Lou- réço tinha defefo ho impedio, & fabédo os que goardauã a vala que erã cimcoemta que lhes nã hauiã d’acudir, & que por fi foos fe hauiã de liurar começã em chegãdo os de pé que forã os primeiros, a defparar fuas efpimgardas, & a tirarlhes cõ muitos arremeffos, & os mouros faziã o mefmo, & começafe húa braua & medonha peleia. E muito pera efpã- tar de ver tãtos milhares de mouros fobre cimcoéta portuguefes & como nolfo Senhor os esforçaua que fe defédefem & tolhefé aos mouros a em¬ trada cõ mataré & feriré muitos. E hauédo quafi húa hora que eftes pe- leiauã chegou a fegúda batalha que ia cometer a eftãcia que goardaua Ruy Loureço que eftaua cõ doze de caualo, ele, & Fernã da Silua feu fobrinho, ho feitor, & ho alcaide mor Fernão de Malgalhães, & Luis Al- uerez feu irmão, ho tanadar mor, Pero Lopez fcriuão da feitoria, Lionel Paes, Saluador Moutinho, Niculao Gomez Pefoa que hauiã ferido auia dous dias em Taná como dife de húa elpimgardada pelos peitos que o Bramaluco cerca 3 fortaleza com iodo leu poder. Animo & conle- Iho de Rui L011- renço. 1’raelium.
  • 55o Hifloria da Índia Fog*. palou de parte a parte, & afi ferido foi peleiar, & defarmado, & outros a que nã foube os nomes & tinha coeftes trimta portuguefes de pé & fefemta piães de terra. Nefta batalha que digo que vinha cometer efta eftãcia vinhã os cemto de caualo rapados & por feu capitam hú fobrinho de Bramaluco, & eftes iã todos diãte dos outros fem auer antr’eles mif- tura doutra géte & fazia hú rumor como que rezauã & védoos Ruy Lou¬ réço dife aos feus de caualo que os folfé cometer fora do lugar é que eftaua & que em damdo nos mouros fe recolhefé logo, & deixado os feus de pe omde eftauã, remete cÕ os de caualo aos mouros obra de hú iogo de mancai da trãqueira, & ho primeiro que pos ferro nos mouros foi Ni- culao Gomez cÕ quãto ia defarmado, & defte ccomtro cairã doze dos mouros mortos, & dos noífos Manoel Paes, & matará o caualo de Ruy Louréço fobre que carregará logo muitos mouros cõ grãde grita, & cõ quãto fe ele defendeo como mui esforçado caualeiro virale é grãde perigo fe lhe nã acodirã logo Saluador Moutinho que era feu criado & Pero Lo- pez que peiãdo ambos animofamente defemderã Ruy Louréço dos muitos mouros que eftauã fobr’ele & o tornará a caualgar é outro caualo & afi fe tornou logo a recolher, & é fe recolhédo como os mouros eftauã ma¬ goados de fe lhes afi fair das mãos arremeterá quatro ou cimco a ele & fairãlhes outros tãtos dos noífos de que foi hú Luis Alueres que matarã do primeiro écomtro, & acodldo os portuguefes de húa parte & os mou¬ ros da outra começoufe antr’eles húa afpera peleia, & aos portuguefes aiudaua muito a artelharia das eftamcias que tiraua ameude & fazia muito dano nos mouros a que tãbé o faziã os portuguefes cõ fuas armas, de modo que forã tã cortados de medo que começará de fugir, & afi os do efcoadrã que cometera a orta de Garçia de Sà que lhe defemderã quimze portuguefes que eftauã nela matamdo muitos cõ efpimgardadas & o ter- çeiro efcoadrã que foi cometer a boca do efteiro que goardaua o patram no batel como dife tãbé fugio cõ muitas bombardadas que lhe tirarã, & quis nofo Senhor que forã afi desbaratados & fogirã fem mataré mais portuguefes que aqueles poucos que nomeej & forã feridos o almoxarife & o alcaide mor & os outros cimco, & pofto que fuas feridas forã muito grãdes aprouue a noífo Senhor que forã fãos dali a oito dias, fé fe lam- çaré é cama o que foi milagre euidemte, & dos mouros forã mortos quimze de caualo & duzétos de pe & dous deles capitaés de que hú era fobrinho de Bramaluco & capitã dos rapados, & afi foi nofo Senhor fer- uido de liurar defta vez a fortaleza de fer tomada que fem duuida o fora fe ele por lua mifericordia grãdifima nã dera tãto esforço a Ruy Louréço & aos que ho aiudauã, pelo que todos lhe derã muitos louuores defpois delta famofa vitoria.
  • Livro IX, Capitolo XV SSr CAPITOLO .XV. Do que fe\ Ruy Loureço de Tauora defpois dejlc combate paffado. FIcamdo Ruy Louréço muito ledo coefta vitoria foi logo auifado por fuas efpias que Bramaluco determinaua de tornar a combater a for¬ taleza cÕ muita géte que lhe chegara de refrefco & quãdo a na po- defe tomar cercala é redondo & queimar a pouoacam, & cõ quãto ele ficou muito agaftado coefta noua por os mouros feré tatos mas né por ifo perdeo o grade esforço que tinha, & chamou a cofelho em que afetou que logo toda a fazéda dos que morauã na pouoaçam fe recolhefe à for¬ taleza & fofé defcubertos os telhados das cafas por feré d’ola que na te- uefé os mouros é que pegafé o fogo & que mudafé as trãqueiras pera mais perto da fortaleza porque fe podefé goardar cõ menos trabalho ho que logo foi feito, & mãdou Ruy Loureço chamar a géte que goardaua os pafos & que nã ficafe mais que algúa pera guarda das cafas dos tana- dares, & tãbé mandou recado a Jorge de Lima capitam de Chaul do aperto em que eftaua mãdãdolhe pedir géte, que lhe ele logo mãdou & forã cemto & cimcoéta homés de que os mais erã efpimgardeiros em¬ barcados é cimco fuftas de que foi capitam mór Fernã de Lima fobrinho de Fernã de Lima, & eftas fuftas forã por demtro dos rios, mas quis noflo Senhor que a géte nã foi neçefaria pera a preíTa pera que Ruy Lou- réço mãdaua pedir, porque Bramaluco efperou por a Lua noua pera ver nela hú çerto final de feus agoiros que tinha por bÕ pera cobater a for¬ taleza, & porque achou que o final nã era bõ a nã cõbateo, & efperãdo Ruy Louréço efte cõbate porque Bramaluco vife que lhe nã hauia medo mãdou embãdeirar a fortaleza & cada dia auia muito tãger de trobetas, & grãde tirar d’arte!haria, & lhe mãdaua faltear os feus piães que iã a herua principalmento per hú Francifco Chanoca mulato natural de To¬ mar homé muito esforçado que cõ outros companheiros veftidos ao ufo da terra falteavã afi a eftes piães que digo do Bramaluco como pefcado- res que pefcauã pera o arrajal de que prédia muitos, & cõ licéça de Ruy Louréço cortou a hú a mão dereita, & os orelhas, & os narizes & o m㬠dou a Bramãluco dizédo que outro tãto auia de fazer a todos seus, o que pos é todos grãde efpãto védo a pouca conta é que tinhã os portuguefes, & eftãdo afi aos dezoito d’Agofto chegou de Goa hú catur de que era ca¬ pitam o Pereira Malabar que leuara dinheiro a Baçajm & a Diu pera paga do foldo da géte & cõ recado do Viforej a Ruy Louréço que logo lhe mãdaua focorro, & logo apos efte catur chegou Fernã de Lima cõ o
  • Hifloria da Índia PeroVelbocom.., mouro» 5oo. focorro de Chaul, & apos ele DÕ Diogo d’Almeida é hú catur, & outro fidalgo é outro cÕ muitos fidalgos mãcebos que fabédo em Diu o aperto é que [estava] Ruy Louréço, pedirá a Diogo Lopez de Soufa que os mã- daffe é feu focorro. CAPITOLO .XVI. De como Pero Velho fe defemdeo de mil Mouros com tres companheiros. VEmdo Bramaluco quã pouco fizera no combate pafado & que quãdo cudara de fazer majs dano aos portuguefes, emtã lho fizera menos ficou muito agaftado primcipalmente quãdo vio que começaua de ir focorro a fortaleza, & emtemdemdo bé quã pouca honrra hauia de ga¬ nhar coela comtétoufe de tomar a ilha de Salfete parecemdolhe que o faria fem perigo por quã pouca géte fabia que a goardaua que no ba¬ luarte nouo nã hauia [mais] de fete portuguefes com o capitam & na cafa de Taná quafi pegada coele dez ou doze cÕ o tanadar, & nos pafos nã auia nenhús, & como ifto determinou mãdou Meliqueaçem & hú feu filho valete caualeiro & Pofegi feus prlcipaes capitães cÕ mil homés de peleia que cõ marè vazia pafarã em amanhecédo a ilha de Salfete aos feis dias de Setembro, & cõ a pafaiem de Meliqueaçé a maior parte da géte da terra pofto que erã amigos dos portuguefes fe leuãtarã comtr’eles & fe aiútarã cõ os mouros dãdolhes mantimentos. Meliqueaçé como foi na ilha mandou a Pofegi que cõ quinhétos mouros cõbatefe o baluarte que dife que eftaua a borda d’agoa que lhe cobria o pe cõ preamar & tinha as paredes de groffura de fete palmos étulhado ate altura de mea lãça, & ali era terrado, & tinha quatro peças d’artelharia e feruiafe por húa efcada leuadiça & dali pera cima tinha hú fobrado, o capitam dele auia nome Pero Velho valéte caualeiro natural de Vila Frãca filho dú João Gonçalvez do Adarço & tinha cõfigo dous bõbardeiros & quatro folda- dos. Pofegi cõprimdo o mãdado de Meliqueaçé foife cõ os quinhétos mouros a combater o baluarte & quis Deus que por encher a marè nã poderá chegar ao pè do baluarte pera abalroaré coele, porem tirauã efpimgardadas & frechadas fé comto & dauã gritos que faziã tremer a terra que eles fomente baftauã pera derribar o baluarte, de que os por¬ tuguefes fe defemdiã cõ muito esforço defparãdo amiúde fua artelharia para as tres partes do baluarte, & afi fuas efpimgardas, & cõ tudo os mouros erã tãtos que nã fe emxergaua neles o dano que recebiã & como o efpaço do combate foi grãde & os portuguefes gaftauã muita poluora d’efpimgarda ouuelhes de faltar & afi a de bõbarda o que védo Pero Ve¬ lho & que fem ela nã fe podia fofter cõtra a força dos mouros, determi-
  • Livro IX, Capitolo XVI 553 minou de antes de fe gaftar de todo mandar por ela a cafa do tanadar que era ahi perto, & mãdou tres dos portuguefes que eftauã cõ ele & forã é húa almadia que por eftar no rio lhe nã poderá os mouros tolher a embarcaçam que quãdo virá ir a almadia começa de a feguir tirãdolhe tãtas efpimgardadas que chouiã fobre’ela os pilouros de que hú açertou é hú dos da almadia na cabeça & logo o matou & os outros goardou noffo Senhor que nã reçeberã nenhú mal & feguirã feu caminho, & nifto aca¬ bou a marè de vazar, os mouros fe chegará logo ao pè do baluarte cõ grãde impeto gritãdo de prazer parecedolhe que tinhã na mão os portu¬ guefes que eftauã demtro & que logo os auiã d’emtrar, & afi fora fe nã teuerã recolhida a efcada leuadiça porque os portuguefes nã lhe podiã fazer dano cõ a artelharia por eftaré pegados cõ o pè do baluarte né cõ as efpimgardas por nã oufaré a fe defcobrir das genelas do baluarte por¬ que fegúdo as efpimgardadas & frechadas dos mouros erã muitas nã po¬ diã efcapar pore [?] vimgauãfe cõ panelas de poluora que deitauã fobr’eles cõ que queimauã & matauã muitos. E vedo Meliqueaçé que os nã podiã emtrar, mãdou que os queimafé demtro & mãdou açemder hú grãde mõte d’ola ao pe do baluarte, & cõ as lãças a metiã açefa no baluarte pelas ianelas & cõ a labareda do fogo que era muito grãde & cõ o fogo que era grãdiíimo fe afogauã & queimauã os portuguefes de maneira que acor¬ dará de largar aquele terrado & fobirfe ao fobrado omde lhes nã fariã tãto noio o fogo & o fumo cõ determinaçam de peleiaré dali atè que todos morrefe & nã fe dare efperãdo e noffo Senor que os liuraria pois peleiauã por exalçamento de fua fanta fee & que emtretãto os focorreria Ruy Loureço a que tinhã mãdado recado do aperto em que eftauã, & ele como o foube lhes mãdou géte é dous catures & emtretãto que fe embarcaua defpidio húa almadia cõ poluora & pelouros. Pois fobido Pero Velho ao fobrado cõ todas fuas armas emtrarã logo os mouros no terrado pelas ianelas & erã tãtos que nã cabiã nele trazédo antre íi grãde reuolta pera fobire ao fobrado o que vedo Pero Velho acordou cõ feus companheiros que pois eftauã e perigo de morte que a defem primeiro a quantos mou¬ ros eftauã no terrado pera que a fua foffe bem vimgada, & defpregãdo húa tauoa do fobrado deixãdo cair polo buraco hú caixã de poluora cim- gida cõ murrões acefos que nã fomente matou quãtos mouros eftauã no terrado mas as labaredas que fairã pelas ianelas queimarã fora quãtos alcãçarã, & eftes resfolegadoiros das janelas que o fogo teue foi caufa de quebrar fua fortidão grãdiftima & nã leuar o fobrado cõ os portu¬ guefes, pelo que eles derã muitos louuores a nofo Senhor que bé vio a merçe que lhes fez das vidas que bé fabiã quãto as auéturauã quãdo dei¬ tará o caixã que nã lhes lébrauã cõ a preffa que o fogo hauia de resfo- Pero Velho fica cem tree compa¬ nheiros. Meliqueaçem ca- pitSo principal dos mil moures ellaua prelente. Vigor mirabilis xpianorum. Tomo IV 70
  • 554 Hiftoria da Índia Fim deite comba¬ te & dos mouros que morrerão. legar pelas ianelas & que nã era o perigo tamanho como eles cudauã que era quãdo fe ofreçerã a ele deitado o caixa, que cõ quãta deftruiçam fez nos mouros nã deixara os feus capitães de os animar pera emtraré outros ao terrado dizédolhes que nã auiã de ter os portuguefes tãta pol- uora & que daquela vez os tomariã & por ifo outros cometerã logo pera étrar pola porta do terrado que eítaua aberta, & Pero Velho & feus com¬ panheiros que eítauã nele matarã tãtos deles cõ as lãças ao emtrar que de cãfados fe tornarã ao fobrado, & çerto que era muito pera louuar o eterno Deus nofo Senhor como daua esforço a quatro homés pera fe de- femderé a tãtos mouros que fomente a vifta de tãta multidã e todos feus imigos & que procurauã fua morte & baftaua pera lhes matar as forças & tolher o esforço d’efpãto, quãto mais veré cotra fi tanto numero de frechas que emcobriã o foi, tãtas efpimgardas que pareciã pedras do ceo, tãtas lãças que pareciã grãdes canaueaes & tãtos terçados luzétes que quas[i] lhes çegauã a vifta reuerberãdo cõ o foi, & que todos eftes inftro- mentos eftauã preftes pera os matarem porem cõ aiuda de nofo Senhor a que fe écomédauã & que os esforçaua a nenhú nã auia medo, & de- femdiãfe cõ grãde esforço matãdo muitos mouros dos fem comto que eftauã no terrado. E vedo Meliaqueaçé como nã faziã nada & que tor- naua outra vez a marè que impedia os mouros chegaréfe ao baluarte mandouos afaftar ficãdolhe céto & quoreta mortos, afora muitos feridos & queimados de que depois morrerã boa parte & ne Pero Velho & nenhú de feus companheiros forã feridos peleiãdo de pola menhã ate noite, o que nã fe acha é nenhúa hiftoria antiga ne moderna de nenhúa nação que acõteçefe a quatro homés contra tãta gente o que foi grãde milagre de noífo Senor & em que Pero Velho & feus companheiros ganharã fama pera fempre. CAPITOLO .XVII. De como os Mouros derã outro combate a Pero Velho. NO dia em que efte baluarte foi combatido logo pola manhã virã os portuguefes que vigiauã as trãqueiras vir da parte do arraial dos mouros algús piães nofos que vinhã de fegar herua, & nã os co- nhecédo cuidarã que erã dos imigos & que iã correr a fortaleza pelo que repicarã ao que logo acodio Ruy Louréço cõ a géte de caualo & de pè & faio ao campo efperar os imigos tocãdo fuas trõbetas, os mouros auédo vifta deles cudarã que os iã cometer, poferãfe tãbé em armas & fairã tè os palmares & cõ quãto erã o trefdobro dos portuguefes auiãlhe tamanho medo que núca oufarã de os cometer & hús & outros fe recolherã fé
  • Livro IX, Capitolo XVII 555 majs peleiarê & nifto foi Ruy Lourêço auifado do çerco do baluarte novo da ilha de Salfete & mãdou la húa almadia cõ munições & géte é dous catures como dife & por fer tarde nã chegou là fenã bé noite depois do combate & feria vimte homés os que forã é focorro & a outro dia que foi domigo vefpera de nofla Senora de Setembro na fabédo Meliqueaçé o focorro que era vimdo ao baluarte mandouo cõbater outra vez cudamdo que de cãfados nã fe poderia deféder os que eftauã demtro, & Pero Ve¬ lho vedo ir os mouros pera o baluarte deixoufe eftar quedo & fem fe moítrar nenhú dos que eftauã coele deixará chegar os mouros ao pè dele & fobir ao terrado, & nifto da neles de fubito cõ panelas de poluora efpimgardadas & laçadas com que matara cimcoéta & ferira muitos, o que vedo Meliqueaçé nã quis mais perfiar & foife & afi ficou a ilha liure, e Pero Velho mandou cortar as cabeças a oito dos mortos porque forã conhecidos que fendo amigos dos portuguefes fe lãçarã co os Mouros & mãdouas a Ruy Lourêço cõ a noua da vitoria que fez coela grãde fefta, & logo mãdou é hú catur pera a Ilha de Mal o feu tanadar que cõ medo dos imigos que andauã na ilha de Salfete porque era vezinha fugio pera Baçaim & tãbê por os da terra fe leuãtaré contra ele por efa caufa, & os que iã coele no catur erã oito portuguefes & os piães que o feruiã & chegado a Mal defrõte da cafa da tanadaria que era perto d’agoa defê- barcou & foife cõ feus piães pera fua cafa ficãdo no catur os portuguefes que auiã d’efperar até veré como fe os da terra auiã cõ o tanadar, que aimda bé nã chegou a cafa acodem fobr’ele çéto & çimcoéta piães de Bramaluco que amdauã na ilha & outros muitos naturaes dela & quiferã o apanhar fe fe nã acolhera, & aimda nã efcapara fe os do catur lhe nã acodirã ouuldo a reuolta, & iumto d’agoa foi a peleia tã braua que forã mortos dous portuguefes & dos imigos trimta que ficarã logo eftirados & os outros fe afaftarã, & Meliqueaçé affétou o arraial de frõte de Tanà & os portuguefes fe ébarcarã & tornarã pera a fua fortaleza leuãdo a feu capitam ferido, & daqui por diãte núca mais Bramaluco quis que os feus correfé a fortaleza & deixoufe eftar efperãdo que repofta traria o feu embaixador que mãdara ao Viforej como dife atraz, & eftamdo afi mãdou hú capitam de Bramaluco defafiar Antonio Chanoca o mulato de que falei, & o defafio auia de fer é húa ilha omde Antonio Chanoca foi & o mouro lhe faio, & defpois difto é Outubro chegou a Baçajm dom Luis d’Ataide é húa fufta que comprou é que leuaua cimcoemta homés feus criados & amigos a que daua mefa a fua cufta & deu emquãto efteue em Baçaim & vinha é focorro de Ruy Lourêço afi por feruir EI Rey como por fer feu amigo. PeroVelhosocor- rido. Peleja cã os Mou¬ ros cfi vitoria.
  • s 5 <5 Hijloria da Índia CAPITOLO .XVIII. De como Ru/ Lourêço nã quis fa\er pa\ com Bramaluco. ATras fica dito como Bramaluco mãdou hú embaixador ao Viforej cõ determinaçam que fe emquãto feu embaxador fofe ao Viforej que fe podefe tomar a fortaleza que nã goardaria a paz poftoque o Viforej a quifefe, & que nã podêdo tomar a fortaleza faria paz, & che¬ gado efte embaxador ao Viforej foi dele bê recebido & foi cõtéte d’outor- gar a paz cõ cõdiçam que as terras de Baçaim ficafé a EI Rey de Por¬ tugal de maneira que lhas dera Çoltã Badur Rey de Cambaia, & madou cõ o mefmo embaxador hú Antonio Pefoa cafado em Goa homê de me¬ recimento para que em feu nome afietafie a paz cõ Bramaluco, & por¬ que nã fe fiaua na verdade dos mouros que fabia quã pouca era mãdou fazer preíles húa boa armada ê que auia d’ir dom Pedro de Caftelo Brãco nas costas d’Antonio Pefoa ê focorro de Ruy Lourêço porque por caufa defte focorro quifefe Bramaluco a paz, & chegado Antonio Pefoa a Baçaim aos quimze d’outubro, viofe duas vezes com Bramaluco fem tomarem nenhúa concrufã açerca da paz, & emtemdemdo Ruy Lourêço que aquilo erã dilações de Mouros em que nã ha nenhúa verdade nã quis que fe tornafe Antonio Pefoa a ver com Bramaluco o que ele deíeiaua em eítremo pera fe vimgar de quãtas offêças lhe tinha feitas, & eftãdo afi chegou dom Pedro de Caftelo Brãco a Baçaim o primeiro dia de No- uêbro cõ húa armada de dezoito velas antre gale's fuftas & bargãtís. E de quatro galés forã capitães o mefmo dom Pedro, dom Francifco de Lima, Jorge Vafcõcelos, dom Bernardo d’Eça & aos outros capitães nã foube os nomes. Iã nefta armada pouco mais de quatrocêtos homês em que emtrauã muitos fidalgos que nã nomeo por lhe nã poder faber os no¬ mes. E defembarcado dom Pedro porque afi o trazia por regimento man¬ dou dizer a Bramaluco que fe faife fora das terras del Rey de Portugal & de là requerefe fua inftiça fe lhe parecia que a tinha, & Bramaluco ref- põdeo que nã fe auia de fair fenã per força d’armas & que no campo o efperaua fe quifefe peleiar coele & coefta repofta folgou Ruy Lourêço muito polo defeio que tinha de peleiar & cõcertando cõ Dom Pedro que peleiafê fizerã alardo & acharã que tinhã mil & dozêtos portuguefes de peleia & antr’eles quatrocêtos efpimgardeiros, & trezêtos cariarl muitos frecheiros & efpimgardeiros, & todos os portuguefes eftauã muito ledos por lhes pareçer que daquela vez auiã de deitar os Mouros fora da terra, & porque nas coftas do feu arraial eftaua da bãda do rio hú grãde lugar
  • Livro IX, Capitolo XIX 557 chamado Pale, ordenou dom Pedro oito catures em que fofTé gemte do mar & bombardeiros & esbõbardeafé o lugar antemanhã pera que cu- damdo Bramaluco que os portuguefes queria cometer o arrajal por aquela bãda acodifé todos a ela & defpeiariã a do fertã por omde dom Pedro determinaua demtrar, poré Bramaluco que era muito fabedor na guerra teue outro pareçer que como foube que Dom Pedro era chegado & fabia a boa gemte que eftaua jumta logo teue por çerto que auiã de querer pe- leiar coele, o que ele na queria que bé fabia a grade auãtaié que os por¬ tuguefes tinha aos Mouros & por ifo leuãtou o arraial domde eftaua pera majs auãte de modo que ficaua húa legoa da fortaleza & mãdou aos mo¬ radores de Pale que fe os portuguefes la fofle ter que logo fogifle pera o arraial pera fe fazeré todos fortes & mãdou defpeiar Baçaim dos mouros de todos feus moradores & que ficafe nele algúa géte fua afi de pe como de caualo pera que fe os portuguefes fofle trauaffé coeles peleia cudamdo que na era majs géte & depois de trauada a peleia acodiria ele cõ a géte grofa & como os portuguefes efteuefle cãfados do caminho & da peleia logo os desbarataria. CAPITOLO .XIX. De como Dom Pedro de Cajlelo Brãco foi pera peleiar com Bramaluco & nã peleiou. VImdo o dia em que Dom Pedro determinaua de peleiar cõ Brama¬ luco que foi húa fegúda feira tres dias de Nouébro em que fe aiú- tou toda a gemte muito antemanhã diamte da cafa de nofa Se¬ nhora & depois de ouuiré mifla em que fe emcomédarã a noífo Senhor abalarã pera o cãpo nefta ordenãça todos a pè Ruy Louréço de Tauora cõ quatrocétos homés com fuas trombetas, pifaros, & atambor, & os piães canarls com feu capitam Joã de Sepulueda que foi CÕ o Viforej de Portugal na nao Jumgo & inuernou é Moçambique & depois de muitos trabalhos foi ali ter, & leuaua trezétos homés, dom Pedro de Caftelo Brãco capitam mor cõ o refto da géte que acompanhauã a bãdeira real. Iã cõ eftes capitães muitos fidalgos com feus guiões acompanhados da géte que leuauã, dom Luis d’Ataide, dom Bernardo d’Eça, dom Diogo d’Almeida, Jorge de Vafcõçelos, & outros a que nã foube os nomes; & nefte tempo os oito catures que dife chegarã a Pale & começãdo d’esbõ- bardear acolheofe a géte como eftaua ordenado & os portuguefes roubarã o lugar em que nã acharã majs que mãtimentos & tornados a embarcar correra o rio tirado muitas bombardadas que poferã Bramaluco é grade afromta cudamdo que o cercauã os portuguefes & emtretanto dom Pedro
  • 558 Hijloria da índia que ia cõtra o feu arraial chegou a Baçaim dos mouros ja muito de dia fazédo muito grade calma, & algús que iã diãte topará cõ os mouros que ali deixou Bramaluco, & eles fe começará logo de recolher nã deixãdo de peleiar cõ os portuguefes. Emtã fez dõ Pedro tres efcoadrões de toda a géte de que forã capitães Joã de Sepulueda a que deu a diãteira, Ruy Louréço & ele, & Joã de Sepulueda deu nos mouros cõ fua géte & aper¬ tou coeles tá rijo ferido & matãdo que os leuou alé de húa põte domde pafauã da ilha pera a terra firme, omde Bramaluco tinha feu arraial & perto, pelo que os portuguefes ouuerã logo vifta dos mouros que parecia grofa géte, mas né por ifo os portuguefes duuidauã de peleiar coeles & nã auia qué os teuefe, dizemdo todos que foífé logo dar nos mouros, & dõ Pedro nã quis parecédolhe que nã era bé que peleiafé, porque fazia muito grãde calma, & dezia que os portuguefes iã cãfados coela & fracos por nã teré aimda comido, & fer perto de meio dia, que auia medo que depois de começada a batalha cãfafem muito majs & emfraquecefé de todo & fe perdefé como fe perderã no Argao é tempo pafado os que forã cõ Francifco Pereira de Berredo, & como ele era capitam mór nã apro- ueitou a Ruy Louréço né aos outros fidalgos pareçerlhe aquilo mal, & muito triftes & cõtra fua võtade fe tornarã dali cõ dõ Pedro de que a géte brasfemaua porque nã peleiaua cõ os mouros, & fe teuerã de qué fazer cabeça forã peleiar coeles, & deziã que núca tal coufa acõtecera na Imdia, & hú mouro dife ao outro dia na fortaleza que fe dõ Pedro pafara adiãte que logo os mouros ouuerã de fugir que ja eftauã preftes pera ifo, tamanho era o medo que tinhã dos portuguefes, & cõ efta tornada de dõ Pedro ficou Bramaluco muito foberbo & dezia muitas rebolarias, & húa delas era que auia d’ir queimar a pouoaçam dos portuguefes; & def- pois difto logo dali a tres dias quifera dõ Pedro fazer hú falto no arrajal por hú rio que pafaua polas coítas dele, para omde partio fecretamente é des fuftas & catures cõ determinaçam de fazer efte falto antemanhã, & Meliqueaçé que eftaua cõ fua géte na ilha de Salfete, fabédo que dõ Pe¬ dro ia cudou que ia fobr’ele pelo que determinou de fe acolher pelo pafo feco, que cometeo cõ fua géte feita é hú corpo, nã eftãdo a efte tempo no pafo mais que hú catur cõ ate oito portuguefes, que védo como os mouros pafauã, derã fobr’eles pera lhes tolheré a pafagem, & aiudãdoos o tanadar de Taná cõ algús piães que tinha, começará de peleiar coe¬ les & os mouros porque reçeauã que chegafe dõ Pedro trabalhauã quamto podiã por fe defpedir dos portuguefes que matará deles cimcoéta & to¬ rnará a bãdeira de Meliqueaçé que foi par’ele húa grãde imiuria & mui¬ tas efpimgardas, terçados, & outras armas. E imdo dõ Pedro para fazer efte falto, foube Ruy Louréço que Bramaluco lhe queria ir queimar a
  • Livro IX, Capitolo XX 55g poueaçam, & mãdou chamar dõ Pedro pera peleiar coele, & por efa caufa nã foi dõ Pedro auãte cõ fua determinaçam, & tornoufe, & Bra- maluco nã foi, né oufaua bolir cofigo, & dõ Pedro fe tornou pera Goa, & afi os outros todos, & Ruy Louréço ficou fo’ cõ fua géte, & nifto tor¬ nou Antonio Pefoa cõ outra embaxada do Viforej fobre a paz a Brama- luco, cõ quê o Viforej defeiaua de fazer paz por fer velho & defeiar fogir os trabalhos da guerra, & Bramaluco quãdo ouuio efta ébaixada ficou muito foberbo cudado que lhe auia medo o Viforej, & refpõdeo que nã queria fazer nenhõ cÕcerto acerca das terras de Baçajm que erã fuas, & de que eftaua de pofe, que lhe agardeçefe o Viforej muito deixar eftar a fortaleza, & que nã daria hú palmo daquelas terras fe nã lho tomafé por força do que Antonio Pefoa ouue tamanha merécoria que fe leuãtou é pè, & dife a Bramaluco que fezefe o que dizia & que lhe daria quatro mil pardaos, & ê final lhe daua logo hú rico anel que Bramaluco nã quis tomar, & Antonio Pefoa fe partio logo pera Goa, & ele partido, ao outro dia chegou hú méfageiro del rei de Cambaia a Bramaluco que fofe logo a ele pera o feruir é húa guerra em que tinha dele grãde necefidade, & vedo Bramaluco que lhe cõuinha de ir quis atétar primeiro fe podia fazer Bramaluco cha- paz cÕ Ruy Louréço porque nã leuafe tã pouca honrra quã pouca tinha £aad°d'1 Rey de ganhada ateli, & tornãdo a culpa a Antonio Pefoa de nã fe fazer a paz mãdou dizer a Ruy Louréço que lhe mãdafe algúa pefoa de que cõfiafe & que afemtariã a paz, & Ruy Louréço nã quis, né quis outra vez que lhe Bramaluco mãdou o mefmo recado, refpõdédo que lhe nã mãdafe majs recado porque nã auia de fazer paz cõ homé tã métirofo. Emtã fe partio Bramaluco deixãdo por frõteiro Meliqueaçé naçaruto feu fobrinho cõ quinhétos de caualo, & tres mil de pè. CAPITOLO .XX. De como elrrej de Calicu pedio pa\ ao Viforrej. NEste ano de mil & quinhétos & trimta & noue chegou a Goa a quatro de Setébro Pero Lopez de Soufa por capitam de quatro naos do reino & os outros capitaés forã dõ Roque Telo, Simã Sodre', & Aluaro Barradas, & defpois de chegar efta armada chegou a Goa hú Mouro mercador de Calicu chamado Chinacutiale que trazia reca¬ dos del Rey ao Viforrej fobre pazes, & o Viforrej refpondeo ao embaxa- dor cõ parecer dos do cõfelho, que ele era cõtéte de fazer paz cõ EI Rey de Calicu cõ as cõdições que lhe mãdaria da fortaleza de Chale pera omde eftaua de caminho, & emtretãto ouuefe amtr’eles tregoas cõ tãto /
  • 56o Hijloria da Índia Condiçfits pazes c6 el de Caliça. que nã faife de Calicu nenhú parao de guerra, & coefta repofta folgou muito el rey de Calecu por quã defeiofo eftaua da paz, & eftãdo o Vifor- rej pera partir pera Chale adoeçeo de camaras de maneira que na pode ir, & mãdou feu filho dõ Aluaro de Noronha que fofe fazer eftas pazes que leuou húa grade armada em que foi bé acompanhado de fidalgos & doutra géte que partio de Goa a treze de dezébro, & chegado a Chale onde eftaua por capitam Manoel de Brito, viera logo par’ele de Cochim Diogo Lopez de Soufa, dom Joã de Caftro, & Fernã Rolz de Caftelo Braço vedor da fazemda que efteuerã ao afTéto das pazes cõ dõ Aluaro, & por parte del Rey de Calicu efteue el Rey de Tanor feu procurador, das & os capitolos das pazes forã eftes: Que El Rey de Calicu fofe amigo Rey del Rey de Portugal & que na ouuefe é feu reino nenhús paraos de guerra, nê fofe de feu reino a Meca nenhúa nao cÕ piméta né gemgibre, né drogas, & que na cofemtife que nenhúa nao de Meca viefe a feu reino cÕ remos né armas né munições né nauegafe de feu reino fé cartazes do capitam de Chale ou do Viforrej, & afi dos gouernadores que lhe foçe- defé, em que fe declarafe o lugar pera omde ia, & o tamanho da nao & a mercadoria que leuaua, & na femdo defta maneira, ou que fofe fe a nao que a leuafe fofe achada cõ outra mercadoria que na fofe reto. do lugar pera omde era o cartaz, que a tal não fofe tomada pera El Rey cõ toda fua carrega, como tomada de boa guerra, & que a mefma pena teria a nao em que fofe achada mais piméta ou gemgibre do que ouuefe mifter feu dono da nao pera comer, & que os vafalos del Rey de Portu¬ gal & os del Rey de Calicu podefé tratar feguramente nos lugares dú & doutro, & que el Rey de Calicu védefe & fizefe véder a El Rey de Por¬ tugal toda a piméta & gimgibre que ouuefe é feu Reino na feitoria de Chale, & el Rey fe obrigaua a lhe cõprar todo, & pagarlho na feitoria de Cochim pelo preffo que eftaua afletado; & que eftas pazes fe auiã afi de goardar ate que El Rey de Portugal refpÕdefe fe era cõtéte pois nã que¬ ria que mãdafe nenhúa piméta a Meca, que mãdafe a fua cufta cimco mil quimtaes dela a vemder a Portugal & de lá lhe trouuefé o dinheiro, & que o Viforrej efcreueria logo aquele ano fobr’ifto a El Rey de Portugal, o que o Viforrej efcreueo, mas El Rey nã foi diflo cõtéte, & eftas capi¬ tulações forã juradas & afinadas por dõ Aluaro & por El Rey de Calicu, & coelas fe tornou dõ Aluaro a Goa omde achou o Viforrej emtreuado afi de doéça como de velhiçe que era muito gaftado, & da cama gouer- naua a Imdia aiudamdoo a ifo Fernã Rolz de Caftelo Brãco em que tinha grãde cÕfiãça por fer pefoa pera ifo.
  • Livro IX, Capitolo XXI 56i CAPITOLO .XXI. De como dom Jorge de Cajlro chegou a fortale\a de Maluco. PArtidos Pero de Faria & dom Jorge de Caftro pera Malaca forã là ter, & ficamdo hi Pero de Faria emtregue da capitania da for¬ taleza partiofe dom Jorge de Caftro pera Maluco leuãdo é fua cõferua húa nao de Garcia de Sà que la mãdou a carregar e húa fufta em que ia Jorge de Melo Soares que leuaua a Capitania mòr do mar de Maluco, omde dom Jorge chegou a faluamento aos doze dias d’outubro, & por fe éformar das coufas da fortaleza efteue tres dias fem defebar- car, & como os mais dos officiaes del Rey da fortaleza, & afi os mora¬ dores dela tinhã odio a Antonio Galua por lhes nã deixar fazer crauo & lhes tomar pera EI Rey o que tinhã comprado, iã ver dõ Jorge & deziã- lhe dele mil males pricipalmente o feitor Belchior Botelho em tãto que determinou de o préder defpois de tomar pofe da fortaleza em que de- fembarcou hú fabado vimtecimco d’outubro, & defpois de moftrar a fua prouifam da capitania Antonio Galuã dife que tinha aimda por feruir hú ano do tempo de fua capitania por na ter feruido majs de tres & el Rey lhe tinha feita merçe de quatro fegúdo cõftaua per hú Aluará del Rey que logo moftrou requeredo ao ouuidor, feitor & alcaide mor & aos ou¬ tros officiaes que nã metefe a dõ Jorge e pofe da capitania & deixafê a ele acabar o ano que tinha por feruir pois fabiã que gaitara quãto tinha é feruiço del Rey & que naquele ano efperaua de fazer algú proueito pro- teftãdo de nã lhe querédo fazer o que requeria de auer fatisfaçam da perda que recebia por dom Jorge, ou por quê foffe dereito, & como todos eftauã liados cõtr’ele nã ouue quê quifefe emtender que requiria juftiça, & tirãdo difo hú eftromento, tomou dom Jorge pofe da fortaleza, cramãdo Antonio Galuã que lha tomauã por força & fazédo difo fuas proteftações lha emtregou de paz o que núca ateli defpois dela ler feita, & nã fomente em paz cÕ todos os reis de Maluco, mas os que auia de Çamatra ate os papuas & os çelebes & os macaçares que fã quatrocétas legoas de terra, & cÕ feis reis que fe tornarã xpãos cÕ muita parte de feus vaífalos, & todos tamanhos amigos do feruiço del rej de Portugal por amor d’Anto- nio Galuã como que forã feus vaífalos, & afi lhe emtregou a fortaleza bé repairada, & cÕ a igreja começada de fazer de pedra & cal, & cõ húa cafa de Noífa Senora da mifericordia acabada cõ fua cõfraria de proue- dor, oficiaes da mefa & irmãos que emterrauã os mortos, & cõ cimcoéta portuguefes cafados nã auédo majs de dezoito quãdo Antonio Galuã tomou Eilado em qui Antonio Galuáo deixou a fortale¬ za de Maluco. Touo IV 7«
  • 562 Hijioria da índia pofle dela, & a gemte d’armas toda fam, & muita artelharia, efpimgar- daria & armas defemfiuas & muita poluora d’efpimgarda, & de bombarda & pilouros & outras munições, & ferras, machados, paos de ferro, ma¬ tas, padefes, & outros petrechos de guerra muito neçefarios & dous ba¬ teis nouos que mãdou fazer de que ouue conhecimento de dom Jorge é publica forma. CAPITOLO .XXII. De como dom Jorge de Cajiro foi a Ilha de Geilolo pera peleiar cÕ o rej dela & nã peleiou. ímproba caufa cxpediendi mili¬ tes: ímproba etiam roductndi. A Traz fica dito como quãdo dom Jorge chegou a Ternate amdaua Antonio Galuã ocupado em fazer a igreja da fortaleza & acabar a cafa de nolfa Senora da Mifericordia pera o que tinha mãdado pe¬ dir a madeira a el rej de Geilolo que lha mãdou, & afi muitos mãtimen- tos é húa armada de que foi por capitam Macalifa hõ Mouro honrrado que chegou ao porto de Talãgame nefta comjumçam, & fabédo dom Jorge cuja era efta armada mãdou logo a Macalifa que fe foffe logo que nã que¬ ria coufa algúa del Rey de Geilolo, & que difefe ao perro del rej que o auia d’eforcar polia guerra que fizera aquela fortaleza & a Triftã d’Ataide & outras muito roTs palauras de que Macalifa ficou muito agaftado, & fe foi logo cÕ o que leuaua, & cotou a El Rey de Geilolo o que lhe dÕ Jorge difera, pelo que El rej fe fortaleçeo efperãdo por guerra, & os portugue- fes a efperauã tãbé de que eftauã muito agaftados porque afora de re- çeare os trabalhos dela fabiã quã mal auiã de fazer fuas fazédas, & fizerã grãdes requirimentos a dõ Jorge que nã mouefe guerra & fe eftaua agra- uado del rej de Geilolo que lhe pidife difo éméda & quãdo lha nã defe que emtã fizefe guerra, mas que fem caufa era muito mal fazerlha, & ele nã quis ouuir a nimguê, né fazia efta guerra por outra coufa fenã por vimgar Triftã d’Ataide del rej de Geilolo, & por lhe Antonio Galuã com- trariar efta guerra & fe lhe ofereçer a Geilolo pera o cõcertar cõ el rej, o mãdou muito defcortefmente pera a poufada fo pena de lefa majeftade, & logo partio pera Geilolo 5 húa armada coefes portuguefes que tinha a que nã foube o numero çerto, mas era hõa forna deles, & forã coele os reis de Ternate, de Tidore, & de Bachã, & ficou a fortaleza a Antonio Barbudo que afora fer ouuidor era alcaide mòr aimda que era xpão nouo, afi andauã entã as coufas da Imdia, & chegado a Geilolo defembarcou hú pouco defuiado do porto omde eftaua húa trãqueira nã muito forte cõ algúa artelharia, & a géte nã era muita pera quãta dom Jorge leuaua, que defébarcado aífétou leu arrajal & algúa artelharia pera cõbater a
  • Livro IX, Capitolo XXII 563 trãqueira. EI rej de Geilolo fe deixou eftar quedo por que na determi- naua fenã de fe defemder, & porque ao outro dia os portugueíes nã co¬ meterá a trãqueira, né fazia mais que cortar arvores, mãdoulhes EI Rej dizer que difefé a dõ Jorge que fe ia a peleiar coele que ali eftaua, & fe a bufcar lenha ou madeira que ele lha mãdara a Ternate & efcufara d’ir lá que doutra maneira o fizera Antonio Galuã quãdo fora a Tidore que na comfimtira fer cortada aruore algúa que cõ os homés o auia dõ Jorge d’auer & nã cõ as aruores, & os portuguefes refpõderã que co- meçauã nas aruores pera acabaré nos homés, & vedo EI rej que dõ Jorge dilataua peleiar coele teueo por fraco & pareçeolhe que cõ qualquer ar¬ dil lhe faria leuãtar o çerco, & poílhe filadas antre o aruoredo pera que lhe matafe a géte que cortafe as aruores, & mãdou çertos mouros de que fe fiaua que fofle aos arraiaes dos reis & cõ grãdes brados pergútafé pelo capitam daquelas gétes & que fe o matafé fe tornariã a fazer capi¬ tam Antonio Galuã, & defpois difto difefem o mais difiimuladamente que podefem que queriã falar cõ dom Jorge algúas coufas que compriã muito a fua vida & honrra & pergútãdolhe algús portuguefes que era o que lhe queriã que lhes difefem é fegredo, que difefem a dom Jorge que çertos geilolos erã feitos amoucos & deitados naqueles arraiaes pera o matare por ifo que olhafe por fi, & porque lhes cõpria nã iã falar a dom Jorge, & chegados eftes aos arraiaes poferã grãde efpãto cõ o que diziã & mais cõ tamanhos brados & cudauã que erã doudos & logo fe fez húa grãde mò de géte derredor deles antre a qual forã algús portuguefes a que eles cõ grãde difemulaçam diferã o que compria a vida & honrra de dom Jorge, o que fez nele grãde abalo pera fe tornar quãdo o foube porque fabia bé quã determinados fã os amoucos, & nefta comjumçam algús gei¬ lolos das çiladas ferirã fupitamente algús portuguefes cõ efpimgardadas o que o fez mais abalar, & começou logo de dizer que a géte daquela terra era a majs guerrejra do que ele cudaua & do que a deixara quãdo dali partira é tempo de dom Jorge de Menefes, & temédofe dos amoucos determinou de fe goardar muj bé équãto ali efteuefe, & mãdou a Jorge de Melo Soares que goardafe a artelharia, & rogou aos outros capitães que efteuefé de noite é fua goarda cõ todos os portuguefes de fuas capi¬ tanias, & como el rej de Geilolo foubefe ifto per fuas vigias logo aquela noite ao quarto da modorra mãdou algús dos feus que defé nos arraiaes dos reis que eftauã amtre a trãqueira & o de dom Jorge, & como tãbé eftes eftauã afombrados dos amoucos cudarã que erã chegados, & foi grãde aluoroço amtr’eles & grãde grita & reuolta, & algús cõ medo fe forã logo recolhédo pera o arrajal de dõ Jorge pera lhe dizeré o que pa- faua, & ele cudãdo tãbé que erã os amoucos, porque bé ouuia a grita,
  • 56# Hijloria da Lídia mãdou aos que o vigiauã que matafé os que fe recolhia pera o feu ar¬ raial pofto que difefé que era de feus amigos & eles o fizera afi & ma- tauãnos fé lhe aproueitar dizeré qué erã, & vedo o feito mal parado tor- narãfe pera domde vinha, & nifto amanheceo & os geilolos fe recolhera a fua trãqueira, deixado feito algú dano no arrajal de mortos & de feri¬ dos, o que fabédo dom Jorge acabou de fe determinar de todo é fe tor¬ nar, & chamado a cõfelho dife que ele tinha muito má fofpeita do que pafara aquela noite, pelo que tinha fabido dos geilolos o dia pafado, & tãbé lhe fora dada húa carta da fortaleza em que o auifauã que olhafe por fi & nã fe fiafe dos reis de Ternate, Tidore, & Bachã porque eftauã cõçertados cõ el rej de Geilolo que defe nos portuguefes & que os reis feria comtra os portuguefes & os aiudariã a deftruir, & por eftas caufas & tãbé por ter muito que fazer no defpacho das naos que auiã d’ir pera a Imdia, & por fer neçelario deterfe mais do que ele cudaua fe queria tornar, & fazer guerra guerreado [?] a el rei de Geilolo ou tornar fobr’ele mais defocupado do que eftaua emtã, do que os do cõfelho ficara muito agaftados, & diferãlhe que nã deuia de cudar tal coufa quãto mais dizela, que primeiro que partira de Ternate, ouuera de cudar muito bé tudo, mas pois ali eítaua nã defiftife da guerra fenã fe el rej de Geilolo lhe pe- dife paz porque fe o afi deixafe ficaria tã foberbo que os iria bufcar à fortaleza, & tãbé fe os outros reis tinhã algú mao péfamento o poeriã em obra fe o afi vifem ir fé fazer majs do que tinha feito, & cõ tudo ele nã quis defifter de fua determinaçam, do que todos ouuerã tamanha me- récoria que lhe perderã o acatamento, & hú Baltezar Velofo cõ quãto era amigo de dom Jorge fe leuãtou logo dizédo, pezar[?] de tal cõ qué nos trouue qua coefte homé a nos deshõrrar, & dãdo hú fofpiro, dife bõ Antonio Galuã, outros deziã que fe Antonio Galuã ali eftiuera que nã fe dilatara tãto aquele feito, & que ou forã ja todos mortos, ou os geilolos deftroidos, & cõ tudo iíto dÕ Jorge difimulou & nã fe mudou de fua de¬ terminaçam, né menos por mais faluas que lhe fizerã os reis de Ternate, Tidore, & Bachã, quãdo fouberã que fe ia por fe reçear deles, o que eles íimtirã muito & do que fe ouuerã por muj jmiuriados.
  • Livro IX, Capitolo XXIII 565 CAPITOLO .XXIII. De como el rej de Geilolo começou de fa\er guerra à fortaleza. SAbemdo El rej de Geilolo quãto obrara feu ardil, teue dom Jorge e pouca cota, & pera que ele vife claramente que ifto era afi aimda que ele eftaua no porto teue manejra como deitou fua armada ao mar, & mãdoulhe que fofe correr à noffa fortaleza em que foi muito grade efpãto aíi nos portuguefes como nos ternates quãdo ouuerã vifta deita armada, prícipalmente no alcaide mor Antonio Barbudo que nuca fe é tal vira, porem Antonio Galua acodio logo & o fegurou, & como a armada nã queria mais que dar aquele repiquete, tornoufe, & achou do Jorge de partida que deixou no porto de Geilolo a Jorge de Melo Soares pera fazer guerra a El rej, & ficou 5 a Nao é que fora dõ Jorge, & ficou Francifco de Sá t húa carauela, & afi parte das armadas daque¬ les reis, mas defpois que dõ Jorge foi é Ternate mãdou chamar Jorge de Melo pera o mãdar a Bãda na nao é que eftaua carregada de crauo, & a capitania mor ficou a Francifco de Sá, & vedo El rej de Geilolo ida a Nao, mãdou dizer a Francifco de Sá que logo fe foffe apos ela fenã que lhe prometia de o mãdar tomar, ou fazelo ir dali em que lhe pez, do que fe ele rio cudãdo que era fero, fenã quãdo ao outro dia amanhe- cédo deo de fupito a armada del rej de Geilolo na dos portuguefes & os mouros a rõperã logo & lhe tomarã húa c cora (*) cõ fua artelharia matãdo o capitã, & algús dos que coele eítauã & outros catiuarã cÕ quãto todos peleiarã muito bé, o que vedo Francifco de Sá fe acolheo cõ medo de fer tomado, & apos ele todos os outros, feguldoos os geilo- los ate que virã que os nã podiã alcãçar. E dali por diãte começou el rej de Geilolo fazer guerra à fortaleza, & corrialhe muitas vezes é que cati- uou algús portuguefes & feus efcrauos & mouros da mefma ilha que a nimgué perdoaua, & o mefmo fazia nas jlhas de Tidore, & de Bachã. E emtà conheçeo dõ Jorge quã mal acertara e fazer aquela guerra de que afi mouros como xpãos fe queixauã muito & brasfemauã dele por fer caufa dela, & Pero Paes acolheofe à fortaleza del rej de Ternate cõ medo do Çamarao & doutros fenores do feu reino que o queriã matar por lhes amdar cõ as molheres, & vedo eles que dom Jorge o amparaua & aco¬ lhia fe amotinará cÕtr’ele & eíteuerã algús dias fem ire à fortaleza & de- ziã que auiã de fazer outro rej & leuãtarfe cõtra dom Jorge que como (*) Coracora.
  • 566 Hijloria da Índia Antoniut Galra- nos pro caritate tumultua compo- oit. Ruy Louríço aco¬ mete aoa foi dados de Cambaia. fabia a grade amizade que aqueles fenores tinha cõ Antonio Galuã, pe- diolhe muito que os tirafe do propofito que tinhã, & que lhes fezefe per¬ doar a EI rej que lhes nã tinha culpa, & afi lho moftraria, & Antonio Galua pofto que fabia que lhe nõ merecia dõ Jorge tiralo daquela afrõta nã fe quis lembrar difo vedo quãto importaua ao feruiço del rei de Por¬ tugal aquelas amizades por o perigo em que ficaua a fortaleza fe fe leuã- tafe outro rej que eftaua çerto liarfe cõ o de Geilolo, & nã aueria [?] que fazeré fe os outros ajumtaré coeles, & fazeré outra vez todos guerra à fortaleza, & por ifto que Antonio Galuã cõfiderou fe meteo por terçeiro naquelas amizades & as acabou cõ dificuldade grãdiflima, o que outré nã fizera por aqueles mouros fimtiré tãto aquele cafo das molheres que o que prefumé que fe faz vimgã tãto como fe fofe feito, porem tinhã tama¬ nho amor & tãta obediécia a Antonio Galuã que quiserã ouuir a defculpa del rej de Ternate & reçebela & tomar a fua obediecia & a de do Jorge como dantes, o que el rej de Ternate agardeçeo muito a Antonio Galuã dizédo pubricamente que duas vezes lhe dera o reino, & os portuguefes tãbé lhe agardeçerã muito liuralos da guerra que efperauã. GAPITOLO .XXIIII. De como Ruy Lourêço de Tauora desbaratou Meliquenazuto. MEliquenazuto que tinha çercado Ruy Lourêço de Tauora na for¬ taleza de Baçaim lhe fazia a mais guerra que podia primcipal- mente defpois que foube que erã idos os capitães que o forã focorrer, & leuarã toda a gemte que fora coeles, & que lhe nã ficauã mais que ate trezêtos portuguefes, corrialhe ate as ortas de Baçaim, & catiuaualhe a gête da terra, & o mefmo fazia às jlhas derredor, & nã têdo Ruy Lourêço gête pera peleiar coele, mãdou pedir focorro ao Viforrej que mãdou a ifo Joã de Sepulueda cõ trezêtos homês, & chegado a Ba¬ çaim determinou Ruy Lourêço de ir peleiar cõ Meliquenazuto, pera o que partio hú dia pera o feu arrajal que era húa legoa da fortaleza leuãdo feifçêtos portuguefes em que emtrauã trimta de caualo de que era capi¬ tam hú Pero Lopez que nomeej atraz, & dozêtos canarls, & leuaua algús tiros de campo cõ fumdamento de. fazer algú eftrõdo cõ que os mouros fogifê foi jamtar & dormir mea legoa do arrajal pera que ao outro dia chegafe cõ a gête folgada, porem Melique fabêdo que ele ia & que leuaua a artelharia pera que a nã podefe leuar mãdou cortar muitas aruores & deitalas no caminho por omde auia d’ir, & ao outro dia partio Ruy Lou¬ rêço pera o arrajal cõ duas batalhas feitas de fua gête. A primeira que
  • Livro IX, Capitolo XX1III 567 era do dozétos efpimgardeiros deu a Joã de Sepulueda, & ele cõ a outra ficou na trafeira, & imdo afi chegou às aruores que eftauã cortadas que lhe impedio poder leuar a artelharia, & por ifo a deixou ficado é goarda dela algús portuguefes & canarls, & ele foi por diãte ate chegar à vifta do arrajal de Melique que tinha aíTétado antre duas ferras de cujas raí¬ zes naçia hú grade campo que antre as ferras era de dous tiros de befta & antr’elas eftaua o arrajal affemtado & diãte dele eftaua Melique cÕ fua géte efperado Ruy Louréço com defefeis tiros de metal na diãteira, & detraz deles dozétos efpimgardeiros turcos que erã a melhor géte que tinha & em que tinha toda fua cõfiãça, & ao pe' da ferra da mã efquerda quinhétos de caualo guzarates, & na fralda da ferra da ma dereita dous mil & oitocétos piães tãbé guzarates, & eftauã tã bé ordenados, & forta- leçidos que erã muito pera temer prlcipalmente como era a de Ruy Lou¬ réço que defpois que vio os mouros na ordé em que eftauã acordou cõ Joã de Sepulueda que porquãto parecia que Melique tinha toda fua cõ- fiamça nos feus efpimgardeiros & nos de caualo que neftes iumtamente defé eles ambos cõ feus efcoadrÕes & pera peleiar cõ os piães dos imi- gos fez outro efcoadrã de çéto & cimcoéta portuguefes de que fez capi¬ tam Saluador Moutinho a que mãdou que ajumtafe afi a fardajem, & todos os ecrauos dos foldados & que fe fizefe nú corpo pera que pareçefe majs gemte, & fe vife que os piães dos imigos acodiã à peleia que lhes refiftife & fe fpgifé que os feguife, & doutra maneira nã bolife cõfigo; & emcomédãdofe a noflo Senhor remeterã aos imigos Pero Lopez cõ os feus trimta de caualo, & efpimgardeiros aos de caualo, & apos ele Joã de Sepulueda, & nas fuas coftas Ruy Louréço, & toda a géte que leuauã nã erã majs de quatroçétos & cimcoéta portuguefes & dozétos canarjs cõtra Força dambos o* tamta multidã de mouros que era efpãto prlcipalmente os quinhétos de exercl,os- caualo, os majs deles acubertados & os duzétos turcos efpimgardeiros, & todos cõ feus morrões acefos que pareciã cãdeas & fobretudo os defa- feis tiros d’artelharia que eftauã diãte de todos como emparo cõ fuas bo¬ cas abertas que parecia que queriã emgolir os portuguefes que tãto que forã deles a çé pafos defparafã cõ furiofo impeto feus medonhos pelouros de que prouue a noffo Senhor que hú fó fe empregou é hú português que foi logo defpedaçado, & os outros efcapãdo milagrofamente daguele pe¬ rigo, remeterã aos mouros cõ que peleiarã muj brauaméte fazédo neles muito grãde eftrago afi os de pè como os de caualo, tãto que os majs dos turcos efpimgardeiros cairã mortos, pofto que fe defcderã cõ grãde esforço o que védo os mouros de pé começarã a deçer da ferra pera aco- diré, mas nã preftou, porque ja os de caualo nã podédo refiftir a valétia dos portuguefes começauã de fogir, & como iã desbaratados derã nos de
  • 568 Hijloria da índia pé & fizera os tãbé fogir, & aíi fugira todos feguimdo os Ruy Louréço & Joã de Sepulueda que iã a caualo, & tirado os feus trimta de caualo, todos os outros ia a pe, & afi forã bé húa legoa & por a calma fer muito grade fe tornou, deixãdolhe mortos duzétos de caualo dos melhores, & trezétos de pè em que étrarã todos os turcos, & dos portuguefes nã foi morto mais que hú, & forã muitos feridos, & no arrajal foi achado muito & muj rico defpoio de dinheiro, joias, armas deféfiuas, & ofemfiuas & muito gado & os defafeis tiros de metal, & coefta vitoria que foi é Ja- Lançado» o» imi- neiro fe tornou Ruy Louréço pera a fortaleza, & fabédo que Meliquena- goa de Baçami. zuto ng parara fenã fora e\es Meliquena\uto. DEspois deite desbarato tornou Meliquenazuto ajumtar gemte pera tornar fobre Baçajm, & fazédofe preítes pera ifo, foubeo Ruy Louréço que fabédo como o viforrej eítaua tã mal que nã entem- Koy Louréçopre- dia na gouernãça, efcreueo a feus parétes & amigos pedimdolhe que fofem fornada^os^rai* imuernar coele por amor da guerra que efperaua, & eles o fizerã afi, & goa. partirã logo pera Baçajm Fernã de Soufa de Tauora, Manoel de Soufa, Antonio de Sotomeja, Manoel de Médoça, Diogo de Médoça feu irmão, Jorge Pimétel, Joã Rolz Peçanha, & outros muitos fidalgos a que nã foube os nomes, & afi outra géte que cõ a que tinha Ruy Louréço erã ojtoçétos portuguefes do que Melique nã fabia nada, & cudãdo ele que Ruy Lou¬ réço nã tinha mais que os ordenados à fortaleza partio pera a cercar leuãdo trezétos de caualo, & cimco mil de pè todos guzarates, & foi aífé- tar feu arrajal no Peral, & dali corria a terra, & a roubaua, & fazia def- pouoar, & quãdo Ruy Louréço foube que fe afletara no Peral omde o desbaratara, efpãtoufe por fer cultume dos mouros daquelas partes nã tornaré alfétar arraial omde húa vez fã desbaratados, & cuidou que pois Melique fe tornaua alfétar ali que deuia de ter majs géte da que tinha, o que nã pareçédo aos fidalgos que eítauã coele, lhe requeriã cada dia que fofe peleiar cõ os imigos, & ele o nã fazia por nã faber a géte que erã, & como o foube por fuas efpias que todas cõçertarã é feré o numero que dife, afl etou de peleiar cõ os imigos, efperãdo é Noífo Senhor que o po¬ deria fazer cõ a géte que tinha, & afi o dife aos fidalgos que eftauã coele
  • Livro IX, Capiiolo XXV 5 69 que ficará difo muito ledos, & toda a outra gête quãdo o foube, & ajum- tãdo fua gête que erã oitoçêtos portuguefes, fez deles dous eícoadrões, hú de trezêtos os mais deles arcabufeiros deu a Fernã de Soufa de Ta- uora, outro de quinhêtos ê que êtrauã corêta de caualo deixou pera íi, & nefta ordê partio de Baçaim quafi na fim de Março pera o arrajal de Me- lique & foi jamtar ao logo de húa ribeira quafi duas legoas dele, cõ de- terminaçam de dormir ali pera o outro dia em que efperaua de peleiar cõ os imigos ter a gête defcãfada, & Melique tinha outra determinaçam porque como era muito esforçado, & fabedor na guerra, fabêdo que Ruy Lourêço partia da fortaleza, partio tãbê do feu arrajal cõ fumdamento de dar nele onde quer que jamtafe [?] porque fazia cõta que a gête auia d’ef- tar ecalmada & cãfada do caminho & que fe auia de defarmar, & defcui- dar, & como era pouca & a fua muita, & a gête de caualo muito defcã- çada, tinha por muj çerto na ficar nenhú dos portuguefes que nã foffe morto ou catiuo, & vindo ele coefta determinaçam deu ta de fubito nas vigias de Ruy Lourêço que em elas chegado a dizerlhe a vimda de Me¬ lique & ele que chegaua nas cofias, & le nofo Senhor na acodira cõ fua mifericordia ê poer medo & efpamto a Melique nã oufar de cometer a Ruy Lourêço, & todos os feus forã mortos & catiuos, & nã ouuera nifo que fazer fe Melique fe dera neles ê chegamdo porque muitos eftauã de- farmados & deitados por efe chã apreílados da grãde calma que fazia, & do cãfaço que traziã, mas como digo Melique toruado cõ o medo & efpãto que lhe nofo Senhor pos no coraçã nã oufou de os cometer, & feito hú circulo de fua gête os começaua de çercar, & vêdo Ruy Lourêço a merçe grãdiffima que lhe o mifericordiofo Deos fazia, dãdolhe por ifo muitos louuores falta ê cima de feu caualo, domde repartio fua gête afi como vinha, Fernã de Soufa Tauora na diamteira, & o feu efcoadrã de que ele mefmo era capitã deu a capitania a Manoel de Mêdoça, & a Diogo de Mêdoça feu irmã emtregãdolhe a bãdeira real, & ele cõ os de caualo remeteo aos imigos de caualo, & Fernã de Soufa, & os outros aos de pé, chamãdo por Samtiago que he de crer que nofo Senhor o mãdou ali aos ajudar porque ê eles chegamdo aos imigos logo os imi¬ gos como que viã algúa coufa de que fe muito efpamtauã virarã as cof- tas, & fugirã a toda tira, & os portuguefes apos eles matãdo, & ferimdo, ate que os piães de Melique fe embrenhará é húas grãdes brenhas, & aqui ficarã os portuguefes de pé, & Ruy Lourêço cõ os de caualo, foi mais lomge feguimdo os mouros de caualo, de que forã mortos trimta & dos piães quatrocêtos, & dos portuguefes nenhú, mas forã feridos mui¬ tos amtre os quaes forã Fernã da Silua por acodir a Jorge Pimêtel que eftãdo a caualo o trataua mal hú mouro de caualo que Fernã da Silua Tomo IV 7=
  • Hifloria da índia Guerra de Ba- çaim acabada. i5.»o. Morte do gouer- nador. Succede dom Ef- tcuão da Gama. 570 matou, & primeiro que o matafe lhe deu 0 mouro húa grade cutilada por hu giolho que lhe cortou o ofo, & foi ferido Joã Rolz Peçanha é húa perna de que ficou aleijado. E Melique & os feus forã ta desbaratados que nã oufarã d’emtrar no feu arrajal a que o outro dia foi Ruy Louréço & o madou roubar & queimar, & deteuefe ali aquele dia ate que foube que os imigos era fora de toda a terra de Baçaim né forã oufados de tor- naré mais a étrar nela tã efcarmctados fora & afi fe acabou eíta guerra que durou dous anos, em que Ruy Louréço gaitou quãto tinha, & 0 que poderá ganhar neite tempo que ouuera de fer muito, & por eitar muito pobre & faber que na fe podia reítaurar no ano que tinha por feruir de¬ terminou de fe ir pera Portugal como foi no ano feguimte, & alargou o ano que tinha por feruir ao Gouernador dom Efteuã da Gama. CAPITOLO .XXVI. De como faleçeo 0 Viforei Dom Garcia de Noronha & fuccedeo na gouer- nãça Dom EJleuão da Gama. COmo quer que os dias do Viforei Dom Garçia de Noronha erão compridos foi a fua doença de camaras entanto crecimento que lhe tirou a vida, & feito feu teílamento cõ todos os mais autos que deuia de fazer hú tão verdadeiro & deuoto chriitão como ele era aca¬ bou fua vida na noite dos tres de Abril do anno de 1540. E ao outro dia pola menhã foi enterrado no meo da capela mor da fè de Goa, onde def- pois do officio de feu enterramento eftando hi o bifpo da índia, & 0 ve¬ dor da fazenda, & o capitão da cidade & afi muitos fidalgos foi dita húa milfa do Spiritu Sanéto cõ grande folenidade & ela acabada abrio o ve¬ dor da fazenda a primeira via da fucceífão da gouernãça da índia, & por fe achar nela Martim Afonfo de Soufa que era ido pera Portugal foi aberta a fegunda fucceífão, en que foi achado por Gouernador Dom Ef- teuão da Gama filho do grande Dom Vafco da Gama primeiro conde da Vidigueira & almirãte do mar indico que cõ trabalho immenfo, & peri¬ gos fem cõto defcobrio a índia como diífe no liuro primeiro, & fabido como era gouernador logo todos os fidalgos cõ muita géte outra forão por ele a fua cafa, & cõ grande prazer & feita o leuarão à fé, a cuia porta eítauão o Bifpo, & o vedor da fazenda que lhe aprefentou a fua prouifão, & defpois lhe deu o Bifpo iuramento en hú miífal que bem & verdadeiraméte fizefe o feruiço de EI rei & guardalfe os privilégios da cidade, & difo fez o fecretairo hú auto, & defpois de o gouernador ouuir miffa foi vifitar os filhos do viforei, & dahi pera fua cafa, & porque a
  • Livro IX, Capitolo XXVIII 5yi efte tempo EI rei não tinha dinheiro, o gouernador lhe empreftou todo o que era neceffario cÕ que fe tudo proueo como cõpria a feu feruiço, & porque não auia capitão mor do mar, deu a capitania mor dele a feu irmão Dom Chriítouão da Gama que mandou inuernar a Cochim pera acabar de mandar fazer çertos galeões & gales que là eítauão começa¬ dos que fez acabar cõ grande prefa. CAPITOLO .XXVII. De como el rei d’Ormu\ quifera matar Martim Afotifo de Melo Jufarte. P Asando aíli eltas coufas eítaua Martim Afonfo de Melo Jufarte por capitão na fortaleza d’Ormuz, ouue el rei d’Ormuz palauras cõ o goazir fobre que vierão a tanto que el rei arrancou duma adaga pera o goazir, & ouuerao de matar fe não acodira Martim Afonfo que fe acertou [?] no paço, & reprendeo el rei do que fazia, pelo que ele o ou- uera de matar fe lhe hú português não leuara a adaga da mão, & fe não fora temer el rei de fe amotinar a géte d’Ormuz fempre prendera el rei, & també lembrarlhe que fizera hú baluarte a fua cuíta que cuítou trinta mil cruzados, & fabendo que os turcos tinhão cercado Antonio da Sil- ueira entregoufe na fortaleza a Martim Afonfo cõ fuas molheres, filhos, & thefouro, & fcreuendo Martim Afonfo ao Viforei o que el rei fizera o mandou leuar prefo a Goa, & leuantar por rei d’Ormuz a feu filho mais velho. CAPITOLO .XXVIII. De como Martim Afonfo do Carualhal desbaratou o Çoltam de Reinei. TAmbem neíte tempo chegou a Martim Afonfo de Melo Jufarte hõ embaixador do Xeque Ifmael por qué lhe mandaua pedir que aiu- dafe a hú feu capitão a que mandaua deítruir o Coltão de Reinei que eítaua reuelado contr’eIe, & tinha feito na terra grandes roubos, & tiranias, ao que Martim Afonfo logo fatisfez por amor da amizade que que auia antre elrei de Portugal, & o Xeque Ifmael, & logo defpachou a hú fidalgo chamado Martim do Carvalhal por capitão mor de noue velas a cuios capitães não foube os nomes né o numero da gente que leuarão mas deuia de fer pouco, & partido Martim do Carualhal chegou ao porto do Reinei a cuia fortaleza que era muito forte achou cercada pela banda da terra de Cazica capitão mor do Xeque Ifmael que tinha doze mil de caualo afora a géte de pé, & Martim do Carualhal a cercou Manda negocear armada. Delaltre del Rey de Ormuz. (Menção do cer¬ co de Diu.) Seu filho em leu lu¬ gar & o rey pre¬ to. Xeque Ifmael aju¬ dado dos Portu- gueles por amiza¬ de contra teus imigos.
  • Hijloria da índia Determinação do Gouernador de ir queimar a arma¬ da do Turco. Fernão Roiz fica cô o goucrno. 572 por mar, de maneira que ningem podia entrar né fair & como o princi¬ pal mantimento da fortaleza lhe hia por mar, & lho tolhião que não en- traffe logo, faleçeo de maneira que en fete dias foi a fome tamanha que morrerão delia de cinco mil almas pera cima, & comião os meninos & os offos das alimarias & os coiros, porque o Çoltão como vio o cerco do mar, imaginou a falta que auia de auer de mãtimentos, & por ifio recolheo eífes que auia pera os dar aos foldados de que tinha mais ne- cefíidade pera o aiudaré na guerra, & pera os fofter daua a Martim do Carualhal doze mil xerafís, & deralhe mais por lhe deixar entrar duas terradas que lhe hião carregadas de mantimentos, 0 que Martim do Car¬ ualhal não quis pelo que deuia a fua fidalgia & lealdade, no que ganhou muito credito, & honra afi com os mouros que ali eftauão como cÕ 0 Xe¬ que Ifmael que o teue en muito, porque na verdade fe as terradas entra¬ rão tarde ou nunca fe tomara a fortaleza, & cõ grande trabalho, & perda de géte, & quãdo o Çoltão vio que lhe não entrauão as terradas & não tinha mantimentos defefperou de fe poder mais fofter, pelo que determi¬ nou de fe entregar a Martim do Carualhal porque cofiaua nele que lhe trataria mais verdade que Cazicã & querendoo fazer lho contradife hú feu caciz dizendo que perderia o corpo & alma, & entregandofe a Cazicã fe perdefe o corpo que não perderia a alma, & afi o fez, mas não fe pode ter que não difele quãdo fe entregou que a portuguefes fe entregaua & não a mouros que o não tomarão fenão effes, ao que Cazicã lhe refpon- deo que por iífo era el rei de Portugal grande amigo de Xeque Ifmael pera o aiudar, & lhe entregar os malfeitores, & afli fe acabou a guerra, & Martim do Carualhal fe tornou pera Ormuz cõ a honra que digo. CAPITOLO .XXIX. De como El rei de Cranganor fugio a Fernão Rot\ de Caãelo Branco. SAbidas polo gouernador eftas nouas que trouue Fernão Farto de eftar varada a armada dos turcos en Suez afentou de a ir queimar afi por o Viforei ter efa determinação, como também por faber que o conde da Vidigueira feu pai quando tornou a índia por Viforei leuaua en hú capitolo de feu regimento que fofle queimar a armada dos turcos, & logo pubricou que auia de ir, & fe foube entre chriftãos, & mouros, & determinando o gouernador de fazer efte feito deixou cõ confelho en feu lugar enquãto fizeffe efta viagé a Fernão Roiz de Caftelo Branco vè- dor da fazenda da índia, afi por o cargo que tinha como por dizer El rei na fucceflao do gouernador que fendo elle aufente da índia feruiffe 0 vè-
  • Livro IX, Capitolo XXX 573 dor da fazenda ate elie tornar a índia, & declarado que Fernão Rolz auia de ficar por gouernador partiofe logo pera Cochim a fazer a carrega das naos que auia d’ir pera Portugal, & andado acupado nifo queixoufelhe EI rei de Cochim en feu nome, & del rei de Parau, & do Mangate cuo- mal del rei de Cranganor que lhes mandou matar dez iangadas que todos tinhao dados aos bramenes do pagode de Crãganor pera fua guarda por os defenderé das muitas foberbas que lhes fazia EI rei de Crãganor por as deferenças que tinha cõ elles, & fobre os iangadas madara matar hú dos bramenes, & que fazia aquilo por fer da parte del rei de Calicu, & ter razão de romper guera, por ifo que o caftiguafle, & Fernão Rolz os quifera antreter atè o gouernador tornar do ftreito pera onde eftaua de caminho por lho o mefmo gouernador afi efcreuer, porem os reis não quiferão efperar tãto, & çarrarãfe cõ a pimenta pelo que não fe podia fazer a carrega, & eftando afi chegou Manoel da Gama cõ a gente que foi bufcar a Choramãdel pera ir com o gouernador ao ftreito, a quê Fer¬ não Rolz contou o que paflaua requerendolhe que fofe cõ Dom Fernando d’Eça capitão de Cochim caftigar EI rei de Cranganor & como ifto com- pria a feruiço del rei de Portugal foi cõtente, & logo Fernão Rolz partio pera Cranganor, & feria meado Dezembro, & leuaua fetecentos portu- guefes & forão cõ elle Dom Fernando d’Eça capitão de Cochim, Dom Francifco de Lima, João de Mendonça, Afonfo Furtado feu irmão, Rui Gomez d’Azeuedo, Manoel da Gama, & Simão da Veiga, & forã tam¬ bém en fua companhia el rei de Cochim, el rei de Parau, & o Mangate que leuauão cinco mil naires, & fabendo el rei de Cranganor como Fer¬ não Rolz hia fobre elle fugio cõ medo leuando feu thefouro de que ainda fe achou algúa coufa en hú pagode, & Fernão Rolz mandou queimar as cafes del rei de Cranganor, & outras muitas, & fazer grande deftruição caitigaaeireide na ilha, & afi tornou a Cochim, & logo lhe derão pimenta. cranganor. CAPITOLO .XXX. De como foi atalhado hã ardil cõ que el rei de Calicu quifera tomar Cochim. O Rei de Calicu que fez pazes cõ o Viforei Dom Garçia faleço an¬ tes que o Viforei, & focedeulhe outro grande imigo dos Portu- guefes, & por ifo núca quis afinar no cõtrato das pazes que efta- uão feitas, né menos defpois que Dom Efteuão foi gouernador, & efperaua de tomar Cochim, & porque cada quatorze anos fe faz hú fefta en hú pagode do Malabar chamado Mamanga, en que fe aiuntão todos os reis
  • Martim Afonfo Gouernador a ín¬ dia (i 541). 574 Hifloria da Índia do Malabar vafalos del rei de Calicu, & lhe dão obediência & iurão de fazere o que lhes mandar, & fazia efte rei conta que nefta fefta que vinha perto aiuntaria todos os reis, & iria cõ elles tomar Cochim, & porque o não poderia fazer fe afinafe as pazes, as não queria afinar, do que Fer- não Roíz foi auifado pelo que logo mandou dizer aos mais dos reis que fe auião de iuntar naquella fefta, que elle fabia o fundamento del rei de Calicu, & que foubefem certo que fe não quifefé ir ao pagode, que elle feria feu amigo & que os aiudaria, fenão que lhe auia de fazer como fizera a el rei de Cranganor, de que eftes reis ouuerão tamanho medo que não oufarão d’ir ao pagode pelo que el rei de Calicu fe achou foo, & não pode fazer o que determinaua, & vendofe atalhado lhe foi forçado afinar o con¬ trato das pazes, & daqui ficou a paz tão afentada que dizião que tornara Calicu à fua primitiva idade. CAPITOLO .XXXI. De como Martim Afonfo de Soufa foi pera a índia por gouernador delia. SAbendo El rei Dom Joam de Portugual que Dom Garcia de Noronha que fora Yiforei da índia era faleçido fez Gouernador da índia a Martim Afonfo de Soufa, que no tempo que a gouernou Nuno da Cunha fora la capitão mor do mar como contei no liuro oitauo, no qual tempo dera de fi experiencia de quã fingular capitão & esforçado caua- leiro era, de quã prudente era pera gouernar, & por el rei ter dele efta experiencia, o meteo na primeira fucceffão do Viforei Dom Garçia, a que não fucced[e]o por não eftar na índia, afi que por eftar tão apurado pera efte officio lho deu El rei, & partio pera a índia em março do anno de 1541 cõ húa armada de quatro naos, cuios capitães afora elle forão Dom Aluaro de Taide filho do conde Almirãte Dom Vafco da Gama, Luis Cai[a]do, Aluaro Barradas, & fuccederãolhe na viagem tão rols tem¬ pos afi de calmarias como de tormentas de vetos cotrairos que inuernou em Moçambique cõ toda a armada, & eftando hi em feuereiro de qua- réta & dous, chegou Luis Mendes de Vafconcelos en hú galeão que por mandado do Gouernador Dom Efteuão hia faber fe inuernauão la algúas naos, & como Martim Afonfo vio efte galeão que auia de tornar a inuer- nar a índia, determinou de ir nele, o que diífe aos capitaes da armada, & lhe mandou que partifle apos elle, & affi o fizerão, & elle não quis ir nas naos por fer a viagem mais fegura no galeão, & mais depreífa, & partido de Moçambique chegou a Goa a quatro de Maio, & como nlgué
  • Livro IX, Capitolo XXXI 575 efperaua que foíTe em tal tempo não podião crer fua vinda quando ou- uirão as nouas, & defembarcando do galeão fe foi a Santos que fão as cafas de Antonio Corrêa, & ahi dormio aquella noite, & como ia era certa fua vinda logo ao outro dia pola menhã fe forão pera elle todos os fidalgos & capitães & acompanhado de todos fe foi por mar a Goa, & Dom Efteuão 0 foi reçeber ao caeis cÕ procifão, donde foi leuado a fé a fazer oração, & dahi as cafas do Sabaio en cuia fala moílrou a Dom Ef¬ teuão a patete que leuaua de EI rei de Portugal pera lhe entregar a go- uernãça, que lhe logo entregou & entregue dela fe tornou a Santos, donde defpois de eftar outo dias fe tornou a Goa eftando Dom Efteuão apou- fentado en Pãgim onde inuernou. E partido Martim Afonfo de Moçam¬ bique pera a índia, partirãofe també os feus capitães pera là, a que foi forçado arribaré a Çacotorá donde tres forão ter a Goa, & entrarão cõ muito perigo por a barra de Goa a velha, & a capitania foi dar a cofta no rio das Cabras antre Chaul & Baçaim & hi fe fez en pedaços, & a géte fe faluou, faluo feis ou fete pefoas, & a gête fe recholheo a Baçaim onde eftaua por capitão Dom Francifco de Menefes que a mandou curar mui bem que hia toda doente. Ho Gouernador Martim Afonfo de Soufa ficou inuernando en Goa, & foi logo vifitar o fpirital oude ouuia mifa Animuspms. cada fefta feira, & cada fomana viíitaua os prefos, & lhes fazia audien- çia, & fempre foltaua prefos, & fe auião prefos por diuidas, & não tinhão por onde pagar, mandaualhe pagar no foldo, & ifto fez fempre enquanto gouernou, & defpedido Antonio Cardofo pera Ormuz, elle fe partio pera Baticalá a que eftaua determinado de ir fazer guerra, por auer annos que a Rainha não pagaua as pareas que era obrigada, & por fauoreçer certos cafeiros(‘), & lhes dar colheita en hú rio feu, & aperçebido pera efta ida partiofe no fim de Outubro leuando mil & quinhentos homés, & quaréta velas grofas & meudas, de que afora elle forão capitães Luis vai com armada Falcão, Dom Duarte d’Eça, Fernão da Silua, Fernão de Soufa de Ta- aBa,ical“- bora, Martim Corrêa, Francifco de Sá, Dom Joam Pereira, Alonfo An- riquez, Jorge de Soufa, Fernão Gomez de Soufa, Francifco Lopez de Soufa, Pero Lopez de Soufa, Luis Caiado, Afonfo Furtado de MédÕça, João de Mendonça, & outros a que não pude faber os nomes. E no feu galeão hião muitos fidalgos que por não faber os nomes de todos, os não nomeo. Chegado 0 gouernador cõ toda efta armada a foz do rio de Ba- tecalá, furgio & mãdou recado a Rainha, que pois era vafala de EI rei de Portugal lhe deuia pagar as pareas dos annos paffados & afli que lhe (*) Cosairos.
  • Hijloria da índia 576 entreguaffe os paraôs dos cafeiros(1) que fe acolhião no rio de Punde, & fe o quifefle fazer a empararia & fauoreceria, & fenão a deftruiria, ao que a Rainha começou de fatisfazer cõ lhe mandar quatro paraôs dos cofairos, mas não lhe mandou tres que faltauão pera comprimento do numero que erão né as pareas, pelo que»o Gouernador determinou de dar na cidade pera o que defembarcou hú dia antemenhã cõ mil & qui¬ nhentos portuguefes, & todos eítes capitães & fidalgos que difle, & pofto na praia ordenou fua gente dando a dianteira a Garçia de Sá feu tio, & mãdou cÕ elle eítes capitães Afonfo Furtado de Mendonça, Dom Diago Freire, & Fernão Gomez de Soufa que leuauão quatrocentos homés, & detrás hia o Gouernador cõ mil & cem homés en hu caualo abaítardo acompanhado de muitos fidalgos que hião a pé. Os mouros eltauão fei¬ tos en hú corpo por aqueles palmares, & erão muitos, & tirauão muitas frechadas, & efpinguardadas, mas por tudo ilto os portuguefes não dei¬ xarão de ir adiante, & cometerão os mouros cõ grande impeto que elles não podendo fofrer fe recolherão pera a cidade depois de fe defendere hú pouco, & chegados a cidade fizerão rofto aos portuguefes & fe defen¬ derão peleiando muito rijo & no efpaço que durou a peleia forão mortos dez ou doze portuguefes, & forão muitos feridos, porem dos mouros forão muitos mais, & hú dos portuguefes que forão feridos foi Dom Fran- cifco d’Almeida filho de Dom Lopo d’Almeida de Santarém por acudir a hú foldado que matauão diante delle, & fem nenhú medo deu nos mou¬ ros cõ quem peleiou cõ demafiada valentia, & pofto que acodirão muitos mouros fobre elle, peleiou cõ tanto esforço que não fomente liurou o fol¬ dado, mas o defédeo, & a li ate que foi focorrido doutros portuguefes fem fe nunca mudar do lugar donde eftaua, que foi coufa marauilhofa fendo hú homé acometido de tantos Mouros cõ tantas frechadas, cutila¬ das, & lançadas poderfe fofter em hú lugar fem fe retirar atras, o que parece que foi caufa de feos imigos desbarataré & defpeiaré o lugar, no que também muitos portuguefes ganharão muita honra, que não nomeo cidade de Batica- por lhe não faber os nomes, & faqueada a cidade & queimada fe reco- Iheo o Gouernador a armada, onde efteue quatro dias & nelles mandaua cada dia Garçia de Sá a terra acompanhado deftes capitães, & fidalgos & outra géte a queimar, & cortar palmares & ortas, & a deftruir a terra enquanto podião, a que por algúas vezes fairão muitos mouros pera lhe refiftir, mas nunca poderão, & neftes rebates forão mortos muitos mou¬ ros, & antr’eles dous de caualo, que erão capitães da Rainha, & hú deles lá deitruida. (•) Cosairos.
  • Livro IX, Capitolo XXXI $77 matou Dom Franciíco de Noronha cÕ húa efpinugardada, & vendo a Rai¬ nha que não fe podia defender pedio paz ao gouernador, & acabou de lhe entregar os paraôs, & pagou as pareas que deuia, ifto feito foife o gouernador, & defpachou quatro naos de carga pera Portugal, & fez ve¬ dor da fazenda Aleixo de Soufa Chichorro, & defpachou os nauios pera Malaca, & outras partes & fez nouamente Alfandega en Malaca que ren- dio a EI rei de Portugal vinte mil pardãos cada anno, o que el rei per¬ dera ateli por culpa dos outros gouernadores não atentaré nifo, & porque a fazenda del rei fofe milhor arrecadada en Malaca, mandou lá por vedor da fazenda hú Simão Botelho que tinha bem feruido el rei, & deulhe hú aluara de íucceffão na capitania fe morrefle Ruy Vaz Pereira, que hia por capitão, & defpachadas eftas coufas & outras partiofe pera Goa, onde inuernou. Tono IV 73
  • . .
  • TAUOADA DO SEPTIMO LIURO. Capitolo i. De como foy aberta a terceyra focejfam em que hia Lopo Va% de fam Payo. Pag. 5 Cap. ii. De como Lopo va\ de fão Payo desbaratou húa armada de mouros de Calicut no rio de Bacanor. 6 Cap. iii. De como Francifco de fá fe partio pera ir a çúda, & de como dom Iorge de menefes foy por capitão de Maluco. 9 Cap. iiii. De como Lopo va\ de fam payo cõcertou Raix xarafo cõ Diogo de melo capita dormu\. 10 Cap. v. De como Eytor da Jilueira do porto de Maçua mandou chamar dom Rodrigo de lima, & fe foy a Ormu\. 11 Cap. vi. De como temêdofe Meliq faca capitão de Diu del rey de Cã- baya determinou de dar fortaleza aos Portuguefes. 14 Cap. vii. Do confelho q Hagamahmut deu a Meliq fobre defpejar Diu: & como lho tomou. i5 Cap. viii. De como Eytor da Jilueira fe tornou a Chaul, & do mais q fe\ Lopo va\ de fã Payo. 17 Cap. ix. De como ho Tanadar de Dabul pedio pa% a Lopo va\ de fam Payo. 19 Cap. x. Do q acõteceo a Antonio galuão capitão de húa das tiaos da carga ate chegar á índia. 19 Cap. xi. De como el rey de Portugal mandou que Lopo va\ de fam Payo foffe gouernador. 23 Cap. xii. De como lopo va\ de fam payo foy declarado por gouerna¬ dor. 24 Cap. xiii. De como Hagamahmut fe leuantou com Diu, & ho deu a el- rey de Cambaya. 26 Cap. xiiii. Do grãde aluoroço q auia na gête da índia, di\cdo q Lopo va\ nã era gouernador. 28 Cap. xv. De como Chrijlouão de foufa capitão de Chaul determinou q Lopo va\ de fam payo não era gouernador. 3o Cap. xvi. Do juramento q ho gouernador fe\ em Cochim. 3i
  • 58o Tauoada do feptimo liuro Cap. xvii. De como fe affentou que lio gouernador não fojje a Cama¬ rão. 32 Cap. xviii. De como foy morto Gafpar machado, & outros Portugue- fes. 33 Cap. xix. De como Pero mafcarenlias foube que era gouernador da ín¬ dia, & do que fe\. 34 Cap. xx. Em q fe efcreue lio fitio & a fortaleza da ilha de Bin- tão. ' 35 Cap. xxi. De como Pero ma\carenhas foy Jobre a ilha de Bintã. 36 Cap. xxii. De como foy desbaratada a armada que el rey de Pão man- daua em focorro del Rey de Bintão. 3q Cap. xxiii. De como Fernão ferrão pelejou com Laqueximena. 38 Cap. xxiiii. De como Pero ma\carenhas tomou a cidade de Bintão. 40 Cap. xxv. Do q fe\ Pero ma\carenhas defpois de tomada a cidade. 42 Cap. xxvi. De como Francifco de fá foy a çunda, & do que lhe aconte¬ ce 0. 43 Cap. xxvii. De como Pero ma\carenhas chegou a Cochim, & querêdo defembarcar lhe refiflio ho védor da fazenda. 44 Cap. xxviii. De como não podendo Pero ma\carenhas defembarcar em Cananor fe par tio pera Goa. 47 Cap. xxix. De como ho gouernador foube o que Afonfo mexia fe\ a Pero ma^carenhas. 48 Cap. xxx. De como lio gouernador mandou q fojje prefo Pero ma\ca- renlias. 49 Cap. xxxi. De como Pero ma^carenhas foy prefo em ferros. 52 Cap. xxxii. Da caufa q Eytor da filueira, & Diogo da ftlueira, teue- rão pera ferem cõtra ho gouernador. 55 Cap. xxxiii. Do requerimento que os oficiais da camara de Goa fi\erão ao gouernador. 58 Cap. xxxiiii. De como ho gouernador prendeo Eytor da filueira & os outros fdalgos de fua valia. 60 Cap. xxxv. De como Pero ma\carenhas foy obedecido por gouernador por dom Simão de menefes. 63 Cap. xxxvi. Dos requerimentos que fe\ Pero ma\carenhas a Lopo va\ de fam Payo. 65 Cap. xxxvii. De como Pero ma\carenlias foy obedecido por gouerna¬ dor, por Crijlouão de foufa. 67 Cap. xxxviii. De como dom Garcia Anrrique{ fe\ pa\es cõ el rey de Tidore. 68 Cap. xxxix. De como dõ Garcia anrrique^ tornou a quebrar a pa\. 69
  • Tauoada do feptimo liuro 58r Cap. xl. De como dom Iorge de menefes indo pera a ilha de Temate foj’ ter ás ilhas dos Papuas onde inuemou. 71 Cap. xli. Da fegnnda armada que 0 Emperador mandou ás ilhas de Maluco. 72 Cap. xlii. De como chegou húa nao de Cajlelhanos ás ilhas de Ma¬ luco. 72 Cap. xliii. Do que aconteceo a dom Garcia anrrique^ cÕ os Cajlelha¬ nos, & do mais q fucedeo. 73 Cap. xliiii. De como Antonio de miranda da\euedo prometeo a Pero ma^carenhas de lhe obedecer. 77 Cap. xlv. Do que Antonio de miranda & Crijlouão de foufa Ji^erão. 78 Cap. xlvi. De como ho gouernador, & Pero de faria, & outros jura¬ rão de comprir a pauta que fi\erão Chrijlouão de foufa, & Antonio de noronha. 81 Cap. xlv.ii. De como Pero ma\carenhas & Lopo va\ de fã payo defijli- rão em Cananor do mando do gouernador. 83 Cap. xlvjii. Da defauença que ouue ãtre Lopo va\ de fã payo & Pero ma^carenhas. 85 Cap. xlix. Como forão acrecêtados mais dous jui\es por parte de Lopo va\ de fampayo, & do mais que paffou. 88 Cap. l. Das repões q ho redor da fajêda & outros offerecerã aos jui- %es pera q Pero ma\carenhas não foffe gouernador. 90 Cap. li. De como foy dada a fentença q Lopo va\ de fam Payo gouer- naffe a Itidia. 93 Cap. lii. Do que ho gouernador fe\ defpois de fer rejlituido em fua poffe. 94 Cap. liii. De como dom Garcia anrrique^ entregou a fortaleza de Ma¬ luco a dom Iorge de menefes. g5 Cap. liiii. Do que dó Iorge quifera fa\er acerca do crauo & não pode. 96 Cap. lv. Do que paffou dom Iorge de menefes cÕ do Garcia anrrique^ fobre mandar a Malaca pela via de Borneo. 97 Cap. lvi. De como dom Iorge de menefes mãdou recado ao capitã de Malaca pola ria de Borneo. 99 Cap. lvii. De como dó Iorge de menefes mandou prêder dõ Garcia anr- rique{. 100 Cap. lviii. De como dom Iorge foltou dom Garcia & tornarão a fer amigos. 102 Cap. lix. De como os da parte de dó Garcia trabalhauão por hauer inimizade antrele & dõ Iorge. 104
  • 582 Tauoada do feptimo liuro Cap. lx. De como dõ Garcia prendeo dõ Iorge em ferros, & a caufa porque. 106 Cap. lxi. De como pajfou dõ Garcia defpois de ter prefo dom Iorge. 109 Cap. lxii. Do q fi\erão os amigos de dom Iorge defpois de fua pri- Jam. 111 Cap. lxiii. De como dõ Garcia foltou dõ Iorge de menefes. ii3 Cap. lxiiii. De como os mouros de Lõgú matarão Aluaro de brito 6 tomarão húa galé. 114 Cap. lxv. Do q fe\ Lopo va\ de fam Payo defpois que foy julgado por gouernador. 113 Cap. lxvi. De como dõ Ioão deça desbaratou & prendeo Chinacu- tiale. 116 Cap. lxvii. De como Pero de faria partio pera Malaca, & Simão de foufa galuão pera Maluco. 117 Cap. lxviii. Das prefas que Antonio de miranda capitão môr do mar fe\ no ejlreito, 6 do mais que fucedeo. 117 Cap. lxix. De como forão catiuos de mouros Diogo de mesquita & ou¬ tros. 119 Cap. lxx. De como Halixá capitão da armada de Diu pelejou cÕ Anr- rique de macedo, & de como foy morto Antonio da flua. 120 Cap. lxxi. De como Chrifouão de mêdoça capitão Dormu\ mãdou por terra Antonio tenreyro a Portugal cõ recado a el Rey. 121 Cap. lxxii. Do que pajfou Gonçalo gome\ da\euedo com dom Garcia anrriqi na ilha de Bãda. 123 Cap. lxxiii. De como Aluaro de faya vedra tomou húa galeota aos Portuguefes & catiuou muytos dos que yão nela. 12b Cap. lxxiiii. De como Góçalo gome\ da\euedo chegou a ilha de Ter- nate. 126 Cap. lxxv. De como dom Iorge de menefes & Fernão de la torre man¬ darão pedir focorro hú á índia & outro á noua efpanha. 128 Cap. lxxvi. De como Martim afonfo de melo jufarte fe perdeo na cofa de Bengala. i3o Cap. lxxvii. Dos grandes perigos & trabalhos que pajfarão Martim Afonfo & os outros ate chegarem a Arracão. i32 Cap. lxxviii. De como Martim afonfo foy leuado com os outros per luís pefcadores aa cidade de çuquirá. i34 Cap. lxxix. De como Marti afonfo & os outros f carão êpoder de Co- daua\cão. 136 Cap. lxxx. De como Martim afonfo foy liure do catiuciro em que ef- aua. 137
  • Tauoada do feptimo liuro 583 Cap. lxxxi. De como Simão de foufa galuão com lormenta foy ter a Dachem. i3g Cap. lxxxii. De como Simão de foufa galuão foy morto na barra de Dachem cõ quãtos yão coele. 141 Cap. lxxxiii. De como dõ Garcia anrriq\ chegou a Malaca. 144 Cap. lxxxiiii. De como el rey de Dachem mandou cõ engano di\er a Pero de faria que lhe daria os Portuguefes & a galé. 143 Cap. lxxxv. Do q paffou antre Pero de faria & el rey Dauru, & el rey de Dachem. 147 Cap. lxxxvi. De como Nuno da cunha partio para a índia por gouer- nador dela. 149 Cap. lxxxvii. De como fe perdeo a nao de Nuno da cunha. 151 Cap. lxxxviii. De como Nuno da cunha tomou a cidade de Mõbaça. 154 Cap. lxxxix. Do q ho gouernadór fe\ efe inuerno em Goa, & de como fe perdeo Ma armada no rio de Cliatua. i58 Cap. xc. Como o gouernador desbaratou Cutiale de Tanor. 15g Cap. xci. De como ho gouernador correo a cofia de Calicut & deflruiu a vila de Porquá. 162 Cap. xcii. De como foube ho gouernador que asfuflas de Diu corrião a Chaul: & do q fe\. i63 Cap. xciii. De como ho gouernador dijfe aos capitães da armada que queria ir tomar Diu & de como foy contrariado. i65 Cap. xciiii. De como ho gouernador pelejou com a armada de Diu & a desbaratou. 166 Cap. xcv. De como ho gouernador quifera ir fobre a cidade de Tana, & a caufa porque não foy. 169 Cap. xcvi. Do que fe^ Antonio de miranda na cofa do Malabar cõtra os mouros de Calicut cõ ajuda de Chrifouão de melo. 170 Cap. xcvii. Da guerra que Eytor da filueira fe\ em Cambaya. 172 Cap. xcviii. Do que paffou dõ Iorgede menefes cõ Fernão de la torre, 173 Cap. xcix. De como Garcia de fá fe partio pera Malaca. 176 Cap. c. De como el rey Dachem tomou por engano híi galeão a Manuel pacheco. 177 Cap. ci. De como foy difcuberta a treyção de Sanaya de raja, & foy morto por iffo. 179 Cap. cii. De como Nuno da cunha chegou a OrmUy, & de como foy prefo Raix xarafo. 180 Cap. ciu. Do q aconteceo a Simão da cunha em Baharem, & de como morreo & outros muytos. i83 Cap. ciiii. De como ho gouernador fe partio de Goa pera Cochí. 186
  • 584 Tauoada do oytauo liuro. TAVOA DA DO LIVRO OYTAVO. Capitolo i. De como Nuno da cunha chegou â índia, & foy entregue da gouernança. 193 Cap. 11. De como forão prefos Lopo va\ de fam Payo & ho licenceado Ioão de foyro. 194 Cap. iii. Do que dó Iorge de crajio fe\ na ilha de Bãda. 196 Cap. iiii. De como dom Iorge de menefes foy Jobre a cidade de Ti- dore. ' 197 Cap. v. De como dom Iorge de menefes tomou a cidade de Tidore. 200 Cap. vi. Do concerto que fi\erão dom Iorge de menefes, & Fernão dela torre. 201 Cap. vii. Do que fe\ dom Iorge de menefes defpois dejle concerto. 2o3 Cap. viii. De como Antonio da filueyra de menefes dejlruyo çurrate & Reynel. 204 Cap. ix. De como Antonio da Jilueira dejlruyo Damão, & Agacim, & outros muytos lugares de Cãbaya. 207 Cap. x. De como ho capitão de Reynel desbaratou a Francifco pereyra de berredo, capitão da fortaleza de Chaul. 208 Cap. xi. De como ho gouernador prendeo Francifco pereyra de ber¬ redo. 210 Cap. xii. De como Diogo da filueira queymou Calicut, & foy Jobre ho lugar de Mangalor, & ho dejlruyo de todo. 211 Cap. xiii. Do que aconteceo a Diogo da filueira com Patemarcar ca¬ pitão da armada de Calicut. 2i5 Cap. xiiii. De como Eytor da Jilueira foy por capitão môr ao cabo de Goardafum, 6 das prefas que fe\. 216 Cap. xv. De como os Rumes leuantarão ho cerco a Adem com medo da no ff a armada. 217 Cap. xvi. De como Eytor da Jilueira fe\ que el Rey Dadem fe f\effe tributário del Rey de Portugal. 217 Cap. xvii. De como Gonçalo Pereyra chegou a Malaca. 219 Cap. xviii. De como morreo el rey de Ternate, & fe matou Cachil vayaco. 221 Cap. xix. Da injuria que foy feyta a Cachil vaydua. E do mais que fucedeo. 223
  • Tauoada do oytauo liuro. 585 Cap. xx. De como lio gouertiador de Tabona foy deitado aos cães, & Cachil daroes foy degolado. 225 Cap. xxi. De como Gonçalo pereyra chegou â illia de Ternate. 227 Cap. xxii. De como Gonçalo pereyra prometeo à raynha de Ternate de lhe entregar feu filho. 229 Cap. xxiii. Do que Gonçalo pereyra fez defpois de chegar a Ter¬ nate. 232 Cap. xxiiii. De como Gonçalo pereyra quis faqer crauo pera el Rey de Portugal. 233 Cap. xxv. Da defauença que ouue antre dom Iorge de menefes & Gon¬ çalo pereyra. 236 Cap. xxvi. De como fe perderão no mar dom Fernando de lima de Sanâarem & Lopo da\euedo. 239 Cap. xxvii. De diuerfas armadas que partirão pera a índia. 240 Cap. xxviii. De como foy morto Hagamahumud por dõ Manuel telo de menefes. 240 Cap. xxix. De como ho gouernador Nuno da cunha partio de Chaul pera a cidade de Diu. 242 Cap. xxx. De como ho gouernador pelejou na ilha do betele com ho ca¬ pitão del rey de Cambaya, & lha tomou. 244 Cap. xxxi. De como ho gouernador chegou a Diu, & como foube que Rumecão ejlaua dentro, com rumes & artelharia. 247 Cap. xxxii. De como ho gouernador deu bateria a Diu, & do que lhe aconteceo. 249 Cap. xxxiii. De como ho gouernador fe partio do porto de Diu. 253 Cap. xxxiiii. Do que ho gouernador fez defpoys de fe yr de Diu. 254 Cap. xxxv. De como Antonio de faldanlia defiruio a cidade de Goga, & do mays que fe\ na cofia de Cambaya. 255 Cap. xxxvi. De como Iorge de lima focedeo na capitania a dom Anto¬ nio da filueira. 256 Cap. xxxvii. De como Gonçalo pereyra fe\ amizade com el Rey de Ti- dore. 257 Cap. xxxviii. De como a Raynha de Ternate determinou de matar Gon¬ çalo pereyra. 258 Cap. xxxix. De como foy morto Gonçalo pereira. E os mouros que o matarão. 260 Cap. xl. De como Vicente dafonfeca foy leuantado por capitão da for¬ taleza de Ternate. 263 Cap. xli. Do q fez Vicête dafonfeca defpois de Jer capitão. 266 Cap. xlii. De como Vicête da fonfeca foltou el rey de Ternate. 268 Tomo IV 74
  • 5S6 Tauoada do oytauo liuro. Cap. xliii. De como ho gouernador começou a fortaleza de Cliale. 270 Cap. xliiii. De como ho capitão mór Diogo da filueyra dejlruyo ho lu¬ gar de Tana. 271 Cap. xlv. De como o capitão môr Diogo da filueira dejlruyo a vila de Bandora. 273 Cap. xlvi. De como fe leuantou Damião bernalde{ & do q fe\. 274 Cap. xlvii. Do mays que fe\ Damião Bernalde7. E como morreo. 276 Cap. xlviii. De como Antonio de faldanha foy por capitão mór ao cabo de Goardafum. 278 Cap. xlix. De como Rayx ale quifera matar elRey Dormu; feu jr- mão. 279 Cap. l. De como Manuel de vafconcelos & outros tomarão a nao çafe- turca. 279 Cap. li. De como ho gouernador determinou de tomar a fortaleza de Baçaym. 280 Cap. ui. De como Diogo da filueyra tomou as cidades de Patane, Pate & Mangalor. 281 Cap. liii. De como Açadacã fe\ pa\ com ho gouernador, & lhe deu as tanadarias de Salfete pera el rey de Portugal. 284 Cap. liiii. Das diferenças q ouue antre Vicente dafonfeca & Bras pe- reyra. 283 Cap. lv. Do q Pateçarãgue & Trauancelo determinarão contra el rey Cachil Dayalo. 287 Cap. lvi. De como el rey Cachil Dayalo fepajfou pera a terra alta. 289 Cap. lvii. De como Vicente dafonfeca tomou a cidade de Tidore. 291 Cap. lviii. De como el rey Cachil dayalo perfeguido de Vicente da¬ fonfeca fe foy morar a Geilolo. 2g3 Cap. lix. De como ho gouernador determinou de yr fobre a fortaleqa de Baçai, & do fitio da fortaleza. 295 Cap. lx. Como Melique quifera deter cÕ engano ho Gouernador q não cometeffe a fortaleza. 297 Cap. lxi. De como Diogo da filueyra, Martim afonfo de melo jufarte: & Manuel dalbuquerque desbaratarão a trãqueyra dos imigos. 299 Cap. lxii. De como os imigos defpejarão a fortaleza de Baçai. 3oi Cap. lxiii. De como Manuel dalbuquerque foy derribar a fortaleza de Damão. 3o3 Cap. lxiiii. De como chegarão aa índia certas armadas de Portugal. 3o4 Cap. lxv. De como Vafco da cunha foy efpiar Diu. 3o6 Cap. lxvi. Do que fe\ dom Paulo da gama defpoys de fer capitão de Malaca. 3c>9
  • Tauoada do oytauo liuro. 587 Cap. lxvii. Da treyção que el rey de Bengala ordenou contra Martim afonfo de melo jufarte. 3io Cap. lxviii. De como Martim afonfo de melo jufarte foy prefo em Ben¬ gala. 3i3 Cap. lxix. Do perigo em que os Portuguefes ejleuerã de ferem mortos. 315 Cap. lxx. De como os Cajlelhanos que efiauão em Geilolo fe forão pera Triflão datayde. 2>\~] Cap. lxxi. De como Triflão datayde queymou a cidade de Geylolo, & como Cachil catabruno fe fe\ Rey. 320 Cap. lxxii. De como lio gouernador foy a Diu pera fe ver cõ el rey de Cambaya. 321 Cap. lxxiii. De como Manuel de macedo fe defafiou cõ Rumecão, & não lhe fayo ao defafio. 323 Cap. lxxiiii. De como indo dom Iorge de crafio fobre el rey de Rey- xel, fe tornou fem fa\er nada. 323 Cap. lxxv. De como Francifco de gouuea foy por capitão mor da ar¬ mada cõtra el rey de Reyxel. 326 Cap. lxxvi. Do que fe\ Francifco de gouuea defpoys q rio que el rey de Raxel não queria pa^. 327 Cap. lxxvii. Do quefe\ Antonio da filua de Menefes em Bengala. 329 Cap. lxxviii. De como hãa armada del rey Dugentana foy correr a Malaca, & de como foy morto dom Paulo da gama & outros. 331 Cap. lxxix. De como Francifco de barros de payua foy bufcar manti¬ mentos a Patane, & do que lhe aconteceo. 333 Cap. lxxx. De como Diogo da filueyra chegou a ponta de Diu & do que hi fe\. 334 Cap. lxxxi. De como chegou á índia Martim afonfo de foufa. » Cap. lxxxii. De como Martim afonfo de foufa tomou a vila de Da¬ mão. 333 Cap. lxxxiii. De como el Rey dos Mogoures entrou na índia. '53q Cap. lxxxiiii. De como el rey de Cambaya deu Baçaim a el Rey dom loam de Portugal. 339 Cap. lxxxv. De como indo dom Efieuão fobre el rey Dugentana lhe def- baratou hfia tranqueyra. 340 Cap. lxxxvi. De como dom Efieuão chegou â fortaleza dos immigos. 34a Cap. lxxxvii. De como dõ Efieuão desbaratou el rey Dugentana. 344 Cap. lxxxviii. Do q fe\ dõ Efieuão defpoys q desbaratou el Rey Du¬ gentana. 346 Cap. lxxxix. De como Francifco de barros de payua 6 Anriq mêde\ de vafcõcelos pelejarão cõ híia armada de Iaos. 346
  • 588 Tauoada do oytauo liuro. Cap. xc. De como Francifco de barros & Attrrique mende\ de vafcon- celos fe tornarão a Malaca. 349 Cap. xci. De como muytos gentios q morauão no Morro fe tornarão Criflãos. 349 Cap. xcii. De como Trijlão datayde prendeo el rey de Tabarija de Ternate, & fua mãy, & Pateçarangue. 351 Cap. xciii. De como Trijlã dataide fe\ guerra a el rey de Ba- chão. 353 Cap. xciiii. De como el rey de Cambaya foy bufcar el rey dos Mogo- res. 355 Cap. xcv. De como el rey de Cambaya fem pelejar foy desbaratado, por el rey dos Mogores. 356 Cap. xcvi. De como el rey de Cãbaya fe acolheo a Diu, & do mais que M- 359 Cap. xcvii. De como Martim afonfo de foufa foube ho desbarato del rey de Cãbaya. 361 Cap. xcviii. De como el rey de Cãbaya mãdou pedir foccorro ao Turco. ' 363 Cap. xcix. De como el rey de Cãbaya foy acõfelhado q deffe fortaleza em Diu ao gouernador. 364 Cap. c. De como Martim afonfo de foufa & Symão ferrcyra chegarã a Diu, & do q affentarã cõ el rey de Cãbaya. 366 Cap. ci. De como ho gouernador fe partio pera Diu, a chamado del rey de Cambaya. 368 Cap. cu. De como ho gouernador chegou a Diu, & fe vio cõ el rey de Cãbaya. 370 Cap. cm. Do façanhofo feyto que fe\ Diogo botelho em fe yr em híia fujla pera Portugal. Cap. ciiii. De como çoleymão Haga entrou nas terras da Tanadaria de Salfete. 374 Cap. cv. De como Manuel de vafcócelos desbaratou os mouros que ejla- uão na tranqueyra de Bóri. Cap. cvi. De como dom Ioão fe{ no rio de Salfete a fortaleza de São Ioão de Rachol. 376 Cap. cvii. De como Vafco pire{ de faõ payo tomou a fortaleza de Va- riuene no rio Indo. 377 Cap. cviii. De como foy começada a fortaleza de Diu, pelos Portugue- fes. 378 Cap. cix. De como Xercanfur tomou ho rey no dos Pantanes a el rey de Bengala. 379
  • Tauoada do oytauo liuro. 58g Cap. cx. De como el rey de Bengala mandou ao gouernador vinte Por- tuguefes dos que catiuou. 38o Cap. cxi. De como Trijlão datayde mandou el rey Tabarija ao go¬ uernador da índia. 381 Cap. cxii. De como os Reys das ilhas de Maluco jurarão de fa\er guerra a Trijlão datayde. 382 Cap. cxiii. De como os mouros de Ternate defpouoarão a cidade. 383 Cap. cxiiii. De como Trijlão dataide quifera fa\er paç cÕ os mouros, & eles não quiferão. ; 385 Cap. cxv. De como fe leuantarão os lugares do Morro. 387 Cap. cxvi. Do efpantofo feyto que fe\ dom Ioam de Mamoia. 388 Cap. cxvii. De como os outros reys das ilhas de Maluco fe leuanta¬ rão. 391 Cap. cxviii. De como fe\ Trijlão datayde projfeguindo a guerra. E de como Frãcifco de foufa tomou Turutoo. 392 Cap. cxix. Do que aconteceo a Trijlão datayde com a armada del rey de Tidore. ' 394 Cap. cxx. De como indo hum capitão del rey dos Mogores fobre Ba- çaym deyxou de hir com medo dos Portuguefes. 396 Cap. cxxi. De como el rey de Cãbaya quifera fa\er hu muro antre a noffa fortaleza & a cidade. 3g8 Cap. cxxii. De como os Mogores forão desbaratados. 401 Cap. cxxiii. De como dom Ioão pereyra capitão de Goa desbaratou ço- leymão haga. 401 Cap. cxxiiii. De como foy acabada a fortaleza de Diu, & foy começada a de Baçaym. 404 Cap. cxxv. De como Antonio Galuão partio pera Maluco. 406 Cap. cxxvi. De como el rey de Calicut fe quifera coroar em Repelim, & não pode. 407 Cap. cxxvii. De como Xercanfur fe\ guerra a el rey de Bengala. 408 Cap. cxxviii. De como el rey de Bengala fe\ pa\ có Xercanfur. 409 Cap. cxxix. De como el rey Dugentana fe\ pa\ cõ dom EJleuão da gama. 411 Cap. cxxx. De como Trijlão datayde mãdou pedir focorro. 413 Cap. cxxxi. De como os mouros quiferão queymar liúa nao dos Portu¬ guefes & não poderão. 414 Cap. cxxxii. De como Trijlão datayde tornou cometer pa\ aos mouros & nao a quiferão. 416 Cap. cxxxiii. De como Trijlão dataide dejlruio a cidade de Toloco. 417 Cap. xxxhii. De como foy morto pelos mouros Baltefar vogado. 418
  • 5go Tauoada do oytauo liuro. Cap. cxxxv. Do ma/s que os mouros fi\erão defpo/s de tomarê ho bar- gantim. 419 Cap. cxxxvi. De como dom Ioão pereira pelejou em Bardes cõ Ianebe- que capitão Daçadão, & 0 desbaratou. 421 Cap. cxxxvii. De como Antonio da filueira pelejou cõ Çarnabeq capi¬ tão Daçadacão em Bardés, & 0 desbaratou. 422 Cap. cxxxviii. De como Antonio da filueira fe\ húa tranqueira em Bar¬ des. 426 Cap. cxxxix. De como fo/ prefo Garcia de Sá, & Antonio da filueira foy acabar de fa\er a fortaleza de Baçaim. 427 Cap. cxl. De como Marti afonjo de foujã foy focorrer a el rey de Co- chí, & do que fe\ no caminho. 428 Cap. cxli. De como Martim afonfo de foufa chegou a Cochi. » Cap. cxlii. De como el rey de Calicut, com medo de Martim afonfo de foufa fe retirou pera fuas terras: & de como Martim afonfo come¬ çou de fa\er guerra a el rey de Repelim. 429 Cap. cliii. De como Marti afonfo de foufa desbaratou el rey de Re¬ pelim, & lhe queymou a cidade. fio Cap. cxliiii. De como Martim afonfo defendeo a el rey de Calicut que não pajfaffe polo paffo do vao. 432 Cap. cxlv. De como Antonio de brito pelejou algíias ve\es no paffo do vao com a gente del rey de Calicut & fempre venceo. 434 Cap. cxlvi. De como Martim afonfo de foufa desbaratou Cotialemacar capitão mor do mar del rey de Calicut. 435 Cap. cxlvii. De como Martim afonfo de foufa quifera pelejar em terra com os imigos & não pode. fiq Cap. cxlviii. De como Açadacão começou de fa\er guerra ao gouerna- dor. 438 Cap. cxlix. De como dom Gonçalo coutinho, foy desbaratado, no paffo Debir. 439 Cap. cl. De como Pero de faria derribou a fortaleza de Rachol. 441 Cap. cli. Di7 ardil cõ que el rey de Cambaya quifera cegar a forta¬ leza de Diu & não pode. 443 Cap. clii. De como el rey de Cambaya tornou a Diu, & do que fe\. 446 Cap. cliii. De como Manuel de foufa efcreueo ao Gouernador 0 que paffaua em Diu. 448 Cap. cliiii. De como foy defcuberta ao gouernador a treyção del rey de Cambaya. 449 Cap. clv. De como Antonio galuão chegou a Malaca. 451 Cap. clvi De como Antonio galuão chegou aa jlha de Ternate. 453
  • Tauoada do oytauo liuro. 5gi Cap. clvii. De como Antonio galuão fe apercebeo pera yr pelejar com os mouros a Tidore. 454 Cap. clviii. De como Antonio galuão dejlruyo de todo a cidade de Ti¬ dore. 457 Cap. clix. De como os Reys de Geilolo & de Bachão, & os outros fe foram pera fuas terras. 460 Cap. clx. De como Antonio galuão fe\ paq com el rey de Tidore. 462 Cap. clxi. De como fe os Portuguefes amotinarão pera fazerem crauo. 463 Cap. clxii. Do mais que pajjou Antonio galuão cõ os Portuguefes fobre 0 crauo. 465 Cap. CLxni. Do que Trifião Datayde fe\ a Antonio da Madureyra. 467 Cap. clxiiii. De como el rey de Cambaya foy ver ho gouernador ao galeão. 468 Cap. clxv. De como foy morto el rey de Cambaya. 470 Cap. clxvi. Do que fucedeo depois da morte del rey de Cambaya. 473 Cap. clxvii. De como Mir^ãohamet fe fe\ rey de Cambaya cõ fauor do gouernador. 474 Cap. clxviii. De como os capitães & fenhores de Cambaya desbaratarão Mir-ãohamet, que fe chamaua rey de Cambaya. 475 Cap. clxix. De como os regêtes de Cambaya, deyxarão por fronteiro cÕtra Diu Alucão, & do mais q paffou. 476 Cap. clxx. De como Iorge mafcarenlias partio pera Maluco. 477 Cap. clxxi. De como os capitães das naos da carga chegarã aa índia. » Cap. clxxii. De como ho Gouernador foube queya hua armada de Tur¬ cos aa índia. 478 Cap. clxxiii. Do dãno que Patemacar, & outros capitães de Calicut fi^erão aos Portuguefes. 479 Cap. clxxiiii. De como Marti afonfo de foufa chegou onde eflauão os capitães del rey de Calicut. 479 Cap. clxxv. De como forão desbaratados por Martim afonfo de foufa os capitães del rey de Calicut. 482 Cap. clxxvi. Do mais que fe{ Martim afonfo de foufa depois da vitoria de Beadala. 484 Cap. clxxvii. De como Martim afonfo de melo jufarte fayo do catiueyro de Bengala. 486 Cap. clxxviii. De como os Aches quiferão tomar a fortaleza de Ma- laca. 486 Cap. clxxix. De como os Aches tornarão a Malaca. 488 Cap. clxxx. De como Antonio galuão fe\ pa^es com el rey de Geilolo, & de Bachão. 490
  • 5Ç2 Tauoada do oytauo liuro Cap. clxxxi. De como fe perderão duas naos de Cajlelhanos que y 5o pera Maluco. 491 Cap. clxxxii. De como Ioão freyre foy ao Morro por capitão de húa armada. 492 Cap. clxxxiii. De como foy lido, & pubricado 0 aluaraa que leuaua Iorge mafcarenhas, & das muytas de for dês que fobriffo fucederão. 493 Cap. clxxxiiii. Do que o gouernador fe\ em Diu pera a vinda dos Tur- 496 De como Coge çofar fugio de Diu. 497 De como os regedores de Cambaya mandarão cercar 498 De como Antonio da filueyra pos goardas nos paffos da 499 De como Antonio da filueyra deixou a ilha, 6 fe reco- cos. Cap. clxxxv. Cap. clxxxvi. Diu. Cap. clxxxvii. ilha. Cap. clxxxviii. lheo na cidade. 5oo Cap. clxxxix. De como Antonio da filueyra fe recolheo aa fortaleza. 5o2 Cap. cxc. De como lio embaixador del rey de Cãbaya chegou a Conf- tantinopla, & deu a embaixada ao Turco. 504 Cap. cxci. De como lio Turco deu a capitania moor da armada que mãdaua aa índia a çoleymão baxaa rey do Cayro, & do regimento que lhe deu. 5o5 Cap. cxcii. De como çoleimão baxaa fe partio caminho da índia, & do ardil que teue pera tomar a cidade Dadem, & de como chegou ao porto de Diu. 507 Cap. cxciii. Do que fe\ Antonio da filueyra com a vinda dos Tur¬ cos. 509 Cap. cciiii. Do que aconteceo aos Portuguefes com fetecentos Ianiceros que defembarcarão em Diu. 5ii Cap. cxcv. De como çoleymão baxaa fe foy ao rio de Madre fabaa pera mandar calhar fua artelharia fobre cuberta pera bater a for¬ taleza de Diu. 5i2 Cap. cxcvi. De Ini ardil com que Coge çofar quifera fa\er muyto mal aos Portuguefes, & de como lhe atalhou Francifco de Gouuea capi¬ tão moor do mar de Diu. 514 Cap. cxcvii. De como foube ho Gouernador que efauão os Turcos no porto de Diu. 515 Cap. cxcviii. Do que fe\ Vafco pirei Sampayo em Bêgala. biq Cap. cxcix. De como Antonio galuão refe\ a fortaleza de Ternate. 519 Cap. cc. De como no Morro fe leuantou híi capitão, & de como foy morto, & do mais q paffou. 521
  • Tauoada do liuro nono 5g3 TAUOADA DO LIURO NONO. Capitolo i. De como entrarão os Mouros na Ilha de Salfete. 527 Gap. 11. De como os Mouros que andauã na Ilha de Salfete forã des¬ baratados. 029 Cap. iii. De como foy acabada a fortaleza de Diu, & do que fe; dó Al- uaro de Noronha em Onor. 531 Cap. iiii. Do que Miguel Ferreira fe\ em focorro del Rei de Çeilã. 532 Gap. v. Dos Capitães que forã pera diverfas partes. 533 Cap. vi. Do que Francifco Mende\ de Vafcõçelos affemtou com El Rey de Cambaia. 534 Cap. vii. De como el Rey de Cambaia mãdou Bramaluco fobre Ba- çaim. 535 Cap. viii. De como algíis Mouros da Ilha de Ternate fe tornarã Chrif- tãos. 537 Cap. ix. De como Antonio Galuã foi viuer a ferra de fogo da Ilha de Tidore. . 539 Cap. x. De como Bramaluco capitam del Rey de Cambaia cercou Ba- çajm. 542 Cap. xi. De como foy morto hú fobrinho de Bramaluco & outros Mou¬ ros. 543 Cap. xii. De como Bramaluco cometeo pa{ a Ruy Lourêço de Ta- uora. 544 Cap. xiii. Do notauel feito que fi\erã Fernã Dias d’Arruda & outro português. 546 Cap. xiiii. De como Bramaluco combateo a fortaleza & foi desbara¬ tado. 547 Cap. xv. Do que fe\ Ruy Lourêço de Tauora defpois dejlc combate paffado. 551 Cap. xvi. De como Pero Velho fe defemdeo de mil Mouros com tres companheiros. 552 Cap. xvii. De como os Mouros derã outro combate a Pero Velho. 554 Cap. xviii. De como Ruy Lourêço nã quis fa\er pa\ com Bramaluco. 556 Cap. xix. De como Dom Pedro de Cajlelo Brãco foi pera peleiar com Bramaluco & nã peleiou. S5q Cap. xx. De como elrrej de Calicu pedio pa\ ao Viforrej. 559 Tomo IV 75
  • 594 Tauoada do liuro nono Cap. xxi. De como dom Jorge de Ca/Iro chegou a fortaleza de Ma¬ luco. 561 Cap. xxii. De como dom Jorge de Cajlro foi a Ilha de Geilolo pera pe- leiar cõ o rej dela & nã peleiou. 562 Cap. xxiii. De como el rej de Geilolo começou de fa\er guerra à for¬ taleça. 565 Cap. xxiiii. De como Ru}■ Lourêço de Tauora desbaratou Meliquena- çuto. 567 Cap. xxv. De como Ruy Lourêço de Tauora desbaratou duas veçes Me- liquenaçuto. 568 Cap. xxvi. De como faleçeo 0 Viforei Dom Garcia de Noronha & fuc- cedeo na gouernãça Dom EJleuão da Gama. bqo Cap. xxvii. De como el rei d’Ormu\ quifera matar Martim Afoufo de Melo Jufarte. bqi Cap. xxviii. De como Martim Afonfo do Carualhal desbaratou 0 Çol- tam de Reinei. òqi Cap. xxix. De como El rei de Cranganor fugio a Fernão Rotç de Caf- telo Branco. 672 Cap. xxx. De como foi atalhado hã ardil cõ que el rei de Calicu qui¬ fera tomar Cochim. Cap. xxxi. De como Martim Afonfo de Soufa foi pera a índia por gouernador dela. 574
  • ÍNDICE ONOMÁSTICO A Abdenago — Págem do Preste — vi, 196. Abedacão—capitão de Sintacore — vm, 404. Abeniaga—ilha — vi, 172. Abexina—terra do Preste — m, 266; vi, 189 — carta da — 1, 7; iv, 401; v, Abexim — m, 232; vi, 199; v, 40; — cristão — v, 38; — el-rei — viu, 471; — morto em combate —111, io5. Abexins — 11, 340, 432,436; 111, 168, 316; iv, 440; v, 40, i3o; vi, 187, 190, 200; vm, 243, 3o3, 355, 358, 5o2. Abina — Patriarca do senhorio do Preste — ui, 236. Abrahem (Xeque Coje) — filho do rei de Farteque —11, 297 a 3oo, 363 a 365. Abraldej— cavaleiro, por alcunha o Ga¬ lego, e sobrinho de João da Nova — 111, 36, 53, 80; — arrefens — m, 56. Abranches (D. Francisco d’) — sua morte — vm, 247. Abrantes I (conde d’) — D. Lopo d’Almeida —11, 207, 299; ni, 122. Abreu (Aleixas d’) — capitão — vn, 66. Abreu (Álvaro d’) —1, 140. Abreu (Anionio d') — fidalgo da ilha da Madeira —ui, 127,128,139, 141, 146,149, 15o, 187,209,210,243,25o, 297; vm, 344— capitão —111, 144; vii, 66; vm, 340 — capitão-mor de uma armada e desco¬ bridor das ilhas de Maçãs e Cravo —111, 186 — capitão-mor do mar de Malaca — vii, 19 — capitão da nau Santiago — m, 125; —descobridor das ilhas de Ma¬ luco — vn, 74. Abreu (João Gomes d’)—capitão da nau Judia, da frota de Tristão da Cunha — 11, 276, 278 a 281, 402, 448. Abreu (Jorge d’) — vi, i85, 190, 192, 193, 196, 197, 198; vn, 117, 143 — sota embai¬ xador— v, 49. Abreu (Lopo d’) — fidalgo, cavaleiro e capitão da armada de Lopo Soares 1, 191. Abreu (Rui d’) — um dos que ficou na fei¬ toria de Coulão — 1, 128, 196. Abreu (Simão d’) —vi, 218, 238, 239. Abreu (Vasco Gomes d’) — fidalgo e cava¬ leiro—11, 225, 226, 262, 263, 3o6, 416, 447 — capitão da armada de D. Fran¬ cisco d’Almeida — u, 208 — capitão-mor —11, 307 — capitão-mór desde o cabo de Guardafui até Cambaia —11,208; — capitão-mór de Sofala e Moçambique — 11, 3o5, 374. Alexir (Coje) — estribeiro-mór d’el-rei d’Ormuz — v, i33. Açadacão — senhor de Bilgão — vm, 284, 285, 374, 401, 404, 405, 421,422, 425,426, 438, 439, 441 a 444 448, 449, 515, 5i6 — Tanadarias d’ — vm, 295. Açafrão — u, 261, 459. Ace — porto d’el-rei de Pacem — m, 197. Açoutado (ilha do) — Perto da costa de Moçambique — 1, 23. Acote — cafre que se tornou mouro e pri¬ vado do rei de Sofala —11, 232, 273, 274. Adão (Baba) — nome que os mouros dão ao primeiro homem —11, 260. 261. Adão — mouro — iv, 413. Adão — (Porto d’) — ív, 413.
  • 5g6 Hijioria Adão — (João) — viu, 517 — arrefem — vm, 48G; — músico — vm, 33o. Adarço — (João Gonçalves do) — ix, 552. Adebucar — mouro de Melinde — 1, 192. Adem — 1, 7, 134; 11, 295, 296; m, 21, 118, 215, 216, 241, a5i, 252, 254, 256, 257, 269, 270, 278, 279, 284, 287,294, 3i 1, 324, 332; iv, 385, 3g2, 395, 396, 399, 402, 410, 412; v, 35, 37, 54; vi, 184, 261, 263; vn, 12, 118; viu, 217 a 219,239, 254,256,5o3, 509; ix, 534 — abexins cativas em — m, 241, 279 —cidade de —m, 216, 252, 253, 258; iv, 439; vm, 507 — costa d’ —11, 404 — fortaleza em — m, 278, 332 — gover¬ nador d’ —111, 256; iv, 395 — merca¬ dores d’ — n, 325, — Porto d’ —111, 254, 265; iv, 3g5; vi, 184—regedor d’ — iv, 395 — serra d’ — m, 253. Adem — el-rei d’ —11, 472; m, 216; iv, 391; v, 37 ; vi, 184; vm, 507, 5o8, 217, 239, 256. Adem — (Xeque d’) —111, 253 a 255, 268, 270, 278 — terras do —111, 277. Adena — (cidade) —111, 25o. Adugraf — mordomo-mór na língua abe¬ xim— vi, 186. Aeyro (Cachil) — filho bastardo d’el-rei Boleife — vm, 352, 456, 490—el-rei—vm, 385; ix, 538. Afonseca (Antonio d’) — escrivão do gover¬ nador Afonso d’Albuquerque —111, 3oi, 3o6. Afonseca (Bartolomeu d’) — capitão das lanchas de Malaca — v, 58. Afonseca (Diogo d’) — irmão de Duarte d’Afonseca e capitão — viu, 240. Afonseca (Duarte d’) —fidalgo e filho do Dr. Fernão d’Afonseca — vi, 320, 322, 325 —capitão — vi, 320, 33;) — capitão- mór — vm, 240. Afonseca (Dr. Fernão d’) — vi, 320. Afonseca (Lucas d’) — fidalgo e cavaleiro — n, 229, 270, 271, 281, 284 — capitão — vi, 226 —capitão d’armada de D. Fran¬ cisco d’Almeida —11, 209, 283, 356. Afonseca (Tomás Nunes d’) —ouvidor de D. Jorge de Meneses — vn, 101, 102. Afonseca (Vasco d’) —m, 102 — morto em combate — m, io3, 106. da índia Afonseca (Vicente Nunes d’) —vn, 114,123, 124, 126, 127 ; vm, 201, 257, 258, 262, 264, 267 a 270, 286 a 295, 317, 318, 321 — ca¬ pitão— vm, 266 —capitão da fortaleza da Temate-^ vm, 263, 285. Afonso (Antonio) — que fôra com cartas do governador —111, 325. Afonso (Braz) — criado da Casa Real e al¬ moxarife do armazém de Malaca — ui, 190. Afonso (Q.) — veja: Meneses (D. Afonso de). Afonso (D.)—veja: Noronha (D. Afonso de). Afonso V (el-rei D.) de Portugal —111, 363. Afonso (Fernão)—mestre da nau Santa Maria da Serra — ui, 280. Afonso (Garcia) — 1, 141. Afonso (Gaspar) — Tabelião — vii, 80. Afonso (Gil) — privado do capitão da for¬ taleza de Cananor —11, 316. Afonso (João) — calafate da nau Nazaré — ui, 344. Afonso (Martim) — língua — 1, 14. Afonso (Martim) veja: Coulinho (Martim Afonso de Melo). Afonso (Martim) veja: Jusarte (Martim Afonso de Melo). Afonso (Martim) veja: Melo (Martim Afonso de). AJonso (Mend’) — m, io3 — criado do Ba¬ rão— iv, 413. Afonso (Mend’) veja: Tanger (Mend'Afonso de). Afonso (mestre) — médico—m, i65, 369 — ferido em combate — 111, 164. Afonso (Miguel) — bombardeiro — 1, 141. Afonso (Príncipe D.) — filho do rei D. Ma¬ nuel — iv, 386, 432 — Cardeal — vm, 454. Afonso (Rodrigo) — da nau de Duarte Pa¬ checo — 1, 140. Afonso (Simão) — capitão —111, 129, i5o, 210. África — 1, 69, 72, 78, 209 ; v, 47 ; 111, 133 ; vi, 36z; vm, 345 — môço mourisco d’) — cristão e escravo de D. Lourenço d’Al- meida —11, 440. Agacirn — iii, 34, 37, 40, 218; vm, 207, 3o3, 441 — Baia d’ — iv, 416 — (cidade d’) —
  • índice onomástico 597 em Java —111, 158; v, 127 — (ilha d’) — perto do Gôa — ui, 21—Passo d’ — m, 22, 34, 38, 161; vm, 438, 439 —Porto d' — vi, 155 — povoação d’ — m, 39 — rio d’ — 111, 34, 37, 212, 217; iv, 4i5,— tana- dar d’ — 111, 162. Agehabedelá — grande privado d'el-rei de Bengala — vm, 312, 315, 316, 329, 33o. Aguiar (Antão d’) — vi, 3oo. Aguiar (Jorge d’) —11, 418, 425, 446, 447 — capitão-mór —11, 417, 418. Aguiar (Manuel d’) — Tanadar — ix, 545. Aguiar (Pedro Afonso d’) — fidalgo e ca¬ valeiro— 1, 196, 197, 200; 111, 9, i5, 16,— capitão da armada de D. Fernando Cou- tinho —11, 479 — capitão da armada de Lopo Soares — 1, 191—capitão da se¬ gunda armada de Vasco da Gama — 1, 96 — capitão-mór — m, ■ 5, 17. Aguiar (Pero d’) — escrivão — vm, 196. Aguila — iii, 160, 192. Aidar — Xeque mouro, senhor da vila de Ardenil e de outros lugares e aldeias da Pérsia. — m, 346. Aidel (Mira) —turco — v, 140, 141. Aires (Gomes)—viii, 225, a63 — alcaide- -mór — vm, 199, 224 — criado do Mestre de Santiago — vu, 179. Ajem — nome que os mouros dão a Abe- xina — iu, 266. Ajora (Francisco d’) —capitão — vm, 2i3. AI aqueças — 1, 35. Albuquerque (Afonso d’) — 1, 20, 121, 122, 125 a 128, i3o a i32; 11, 276 a 278, 290 a 294, 298 a 3o2, 304, 334, 341, 359, 366, 376, 388, 400, 401, 403 a 405, 411, 417, 419 a 424, 442 a 446, 448 a 455, 472 a 482; iii, 35o, 352, 363, 364, 370; iv, 384, 385, 389, 391, 392, 401, 414 a 416, 421, 426, 433 ; v, 22, 23, 35, 40, 85,92,113, 127, 146; vi, 340; vii, 34, 47, 74, >80; vm, 284, 309 — capitão-mór — 1, 115; 11, 279, 3o3, 323 a 337, 339 a 345, 347 a 356, 36o a 371, 373, 374, 376 a 38i, 402, 406 a 409, 411 a 4t5 — embaixador d’—m, 157—em¬ baixadores d’ —iii,365 — governador da índia — 1, 115; 11, 355,417, 445,471,480; m, 5 a 20, 22 a 3o, 32, 33, 35 a 38, 41 a 45, 47 a 74, 77, 79 a 89, 92 a 101, io5 a 146, 148 a t5i, 153 a 161, 167, 168, 172, 178, 181 a 199, 204, 212 a 218, 220 a 232, 236 a 243, 245, a5i, 252, 25< a 261, 263 a 265, 267 a 285, 287 a 3i3, 317 a 3a5, 329 a 345, 35o, 353 a 358, 363 a 372 — sua morte —111, 369. Albuquerque (Bartolomeu d’) — capitão — ix, 534. Albuquerque (Francisco d') — primo de Afonso d’Albuquerque — 1, 116 a 122, 125, 128 a 132, i35, i36, 201; 11, 210, 276 — capitão-mór — 1, 5, 115 — cartas de — 11, 214. Albuquerque (Francisco d’) — Judeu cativo a quem Afonso d’Albuquerque fez cris¬ tão — Lingua — iii, 87, 3oi. Albuquerque (Jorge d’)—parente de Afonso d'A!buquerque — m, 3i2, 313, 327, 328, 357 a 359, 361, 363; iv, 387; v, 33, 34, 51, 52, 55, 80, 84, S8, 92, 98 a io3, 106, 126 a 128; vi, 215, 23o, 232, 233, 234, a36 a 240, 242, 243, 244, 292, 3oo, 3o2, 3o3, 3o6, 307, 3og, 351, 352 — capitão — m? 222 — capitão-mór — v, 23 — capitão de Malaca — m, 309, 310; v, 86, 125 ; vi, 155, i65, 298, — capitania de Cochim — 111, 241. Albuquerque (Manuel d') — vii, i83 ; vm, 25o, 25i, 252, 295, 298 a 3oo, 3o3, 3o6 — capitão — vm, 242, 243, 296, 322 — ca¬ pitão-mór — vm, 3o2. Albuquerque (Pero d’) —sobrinho de Afonso d’Albuquerque e primo de Vi¬ cente d’Albuquerque — m, 285, 311, 312, 33o, 339, 3qo, 367 — capitão da nau Se- bastiana — 111, 332 — capitão-mór de quatro naus — m, 311. Albuquerque (Vicente d') — 111, 25g, 285, 288. Alcaçova (Diogo d’) — escrivão da feitoria de Sofala —11, 233. Alcaçova (Fernão d’) —fidalgo, vèdor doi¬ rei e capitão-mór iv, 420, 421, 435. Alcaçova (Simão d’)—iv, 425,454 — ca¬ pitão — ív, 422 — capitão da armada de Lopo Soares, — iu, 363 — capitão-mór — iv, 4*7-
  • Hiftoria da Índia 5g8 Alcatifas — i, 35. Alcobaça (Francisco da Silva d’) — fidalgo — viii, 423, 424 — morto em combate, — viu, 426. Alcochete — 1, 28; viu, 340. Alco/brado (Francisco de Sousa) — capitão — viu, 386, 456. Alcoforado (Jorge) — embaixador — vm, 329, 33o. Alcoforado (Manuel de Castro) — capitão da nau S. Pedro da armada de D. Garcia de Noronha — m, 180. Alcoforado (Miguel) — ix, 547, 548. Alcoveq (Mafamede) — mouro, principal de Quilôa e que ficou por arrefens — 1, 97; 11, 211 a 219. Ale — profeta santo dos mouros — m, 346. Ale (Acem) — mouro, lingua — m, 333,336, 339, 340, 367, 368. Ale (Cide) — o Torto —11, 439, 440; iti, 32. Ale (Coje)—mouro de Repelim — 1, 172. Ale (Raix) — irmão de Raix Hamet—m, 279, 342. Alecão — capitão mouro, parente do rei de Cambaia —111, 85, 89, 90; — capitão da nau Meri —111, 88. Aleixo (D.)—veja: Meneses (D. Aleixo de). Alem (costa d’) —11,323, 388. Alemão (Pero) —bombardeiro da caravela Santa Helena — 1, 141. Alemquer — m, 71; v, 20, 61. Alemquer (Pero d’) — Piloto de Vasco da Gama e que já fôra de Bartolomeu Dias — 1, 9. Alepandari — v, 8. Alepo — cidade —111, 271; vm, 122. Alexandre — senhor da Ethiopia — 1, 7, 8; 11, 339. Alexandria — cidade — 1, 5, 6; n, 338, 38i a 384; m, 147, 271; iv, 398; v, 44; vm, 478, 504, 5o5 — mar d’ — vm, 5o6 — Pa¬ triarca de — ui, 236. Alfacão — mouro — vm, 316, 317, 329. Algodão — 1, 73; iv, 440 — pano d’ — 1, 29, roupa d’ — 1, 35,111, 254. Alhandra —111, 179. Alijão (Coje) — mensageiro do embaixador do Xeque Ismael. — m, 334, 335. Aljôfar— 1, 11,17, 35; u, 212, 260, 289, 459; m, 187, 269, 277, 311, 312. Almada — ni, 266, 269; vu, i3i. Almada (Antão Vaz d’) —11, 284, 290. Almada — (Antonio d') — fidalgo m, 73,74 — sua morte — m, 86. Almada (D. Antonio d’) — capitão — m, 78. Almada (Fernão Martins d’) — capitão da armada de Afonso d’Albuquerque — 1, 115. Almada (Gonçalo Rodrigues d’) — capitão da armada do governador Diogo Lopes de Sequeira — iv, 453. Almada (João Vaz d’) — fidalgo — n, 232, 233, 270, 271—capitão — v, 23, 34 — capitão-mór do navio de João de Quei¬ roz —11, 23o — feitor de Sofala —11, 281. Almandeb — m, 237. Almarga (marcas d’) — 1, 16. Algarve — 1, 202; 11, 317; v, 22; vi, 152; vu, 13a. Almecega —11, 212. Almedina — 1, 7. Almeida (D. Antonio d’) — capitão — vi, 226. Almeida (D. Diogo d’) — Prior do Crato e irmão de D. Francisco d’Almeida—11, 279, 425. Almeida (D. Diogo d') — fidalgo e filho do contador-mór — vm, 196, 429, 435, 481; íx, 531, 552, 557 — capitão — viu, 335, 420, 480. Almeida (D. Francisco d’) — filho do pri¬ meiro conde d’Abrantes — u, 207, 212, 2i3, 2i5, 216, 226 — capitão-mór — u, 207, 432 — governador da índia —11, 207 a 221, 223 a 229, 233 a 241 — ferido — íx, 576 —primeiro vice-rei da índia — 1, 28, 160, 195 ; 11, 207, 208, 248 a 255, 262 a 265, 270 a 273, 275 a 277, 281 a 283, 285, 286, 289, 291, 3o5, 3o6, 319, 323, 356 a 359i 374, 3Si, 384, 385, 387, 388, 398, 399, 401 a 403, 410, 416, 417, 419 a 435, 437 a 446, 448 a 455, 471, 473 a 484, 486,
  • índice onomástico 599 487 ; m, 3a, 73, 87, 116,117, 195, 2ia, 272, 294, 355, 356, 371—sua morte —11, 485. Almeida (D. João d’) — fidalgo, filho de D. Lopo d’Almeida — ix, 531. Almeida — (D. Lopo) — 1, conde d’Abrantes —11, 207. Almeida (D. Lopo d’) — filho de D. Diogo d'Almeida, Prior do Crato. De Santarém — capitão-mór —viu, 196, 210; ix, 53i. Almeida (D. Lourenço) — filho de D. Fran¬ cisco d’Almeida —11, 208, 211, 212, 218 a 225, 234, 237, 238, 251 a 256, 258, 262, 264 a 267, 269, 270, 282 a 2S6, 289, 290, 3o5, 307, 357 a 359, 386 a 394, 396 a 398, 400, 401, 419, 429; iv, 449— capitão da armada do vice-rei D. Francisco d’Al- meida —11, 356 — capitão-mór do mar —11, 252, 263 —sua morte —11, 395 — nau de — n, 398, 493, 441. Almeida (Dr. Pedro Alvares d’) — ouvidor geral da índia — vut, 471. Almeida (Gaspar d’) — vi, 247. Almeida (João d') — natural de Quinlete e criado de Antonio Corrêa — v, 61. Almeida (Jorge Barroso d’) — capitão — viu, 428, 435, 480. Almeida (Sebastião d’) — da fortaleza Ma¬ nuel— 1, 140. Almeirim — vn, 2, 3, 25—horta d'—1,6. Almíscar — 1, 35; 11,459; iti, i56, 192; v, 16. Alpoim (Lançarote d’) —fidalgo e capitão — vn, 167, 170. Alpoim (Pero d’) — m, 123, 128, 129, i3g, 146, i5o, 3o 1,3o3 — capitão da nau Santa Catarina — m, 125 — ouvidor de Afonso d’Albuquerque — ui, 71, 79 — secretario — iii, 332, 367. Alães — resina d’ — muita na ilha de Sa- matra —11, 296; 111, 160, 192. Alucão — fronteiro — vm, 476, 478, 496 a Soo, 5o3, 511, 5i2; ix, 534, 535, 536. Alvarado — capitão — vin, 491. Alvarenga (Jorge d’) — vm, 341. Alvares (Afonso) — capitão — vm, 212 — pertencente à nau de Duarte Pacheco — 1, 140. Alvares (Fernão de Grijó) — capitão-mór vm, 491. Alvares (Francisco) — padre —v, 49; vi, 190, 192, 193, 196, 199, 201; vn, 12,3o; vm, 35o, 389 — autor de um livro sôbre as coisas do senhorio do Preste João — 111, 233 — capitão — vn, 167 — foi na em¬ baixada de D. Rodrigo de Lima — vi, i85 — vigário da egreja de S. Tomé — v, 10. Alvares (Gonçalo) — piloto-mór da frota e capitão de Sofala —11, 232, 270, 271. Alvares (Jorge) — iv, 447. Alvares (Lopo) —11, 413 — mercador rico — vm, 196, 388. Alvares (Luis) — v, 65, 66, 68, 73, 76 — es¬ crivão da feitoria de Coulão — v, 63, 74 — capitão, — v, 10—Tanadar-mór — ix, 549 — sua morte em combate — ix, 55o. Alvares (Manuel) — o Saboeiro — vm, 262. Alvares (Pedr’) —copeiro d’el-rei D. João II —11, 299, 3o 1. Alvares (Pedr’) — pagem do conde d’Abran- tes e Tanadar de Cartea—n, 299,111,115. Alvares (Pedro) — veja : Cabral (Pedro Alvares). Alvares (Sebastião) —escrivão da feitoria de Cananor —1, 102. Alvares (Simão) — da nau de Duarte Pa¬ checo — 1, 140. Alvares (Tristão) — môço da camara d'el- -rei e capitão da frota de Tristão da Cunha —11, 276, 279. Alvim (João Lopes d') — m, 102, io3, 243, 248, 328, 329 — capitão-mór do mar — iii, 275 — fica com a capitania-mór do mar de Malaca, quando Fernão Peres d'Andrade partiu para a índia — iii, 25o — capitão da nau de Gaspar de Paiva — iii, 190. Alvim (frei João d’) — da ordem de S. Fran¬ cisco — vn, 78, 79,84 — juiz — vn, 86,89. Alvito — homem que fôra mouro — ni, 344. Alvôr (vila d’) — 1, 8. Amado (Duarte) —11, 451. Amajarcão — senhor mouro e vassalo d’el- -rei de Cambaia. — vm, 517, 5i8. Amazonas — da mitiologia. Segundo os mouros habitavam antigamente a ilha de Socotora — it, 297. Ambar — 1, 26, 29, 35; n, 212, 297, 455.
  • 6oo Hiflor ia da índia Amboino — ilhas d' — perto das de Maluco — ui, 2to; vi, i65; vm, 2o3, 235,420,468, 521. Amechacis — dignatario chinez —iv, 432. Atnoucos — Veja: Chaner — 1, it3. Anagapatu — bramane — 111, 3i 1. Anche — caimal — vm, 429. Ancolâ — lugar do reino de Daquem a 4 léguas d’Anjediva — u, 242 ; 111, 81, 82. Ancoscão—capitão de Pandá—111,392, 408, 409, 410. Andrade — cristão-novo —111, 282. Andrade (Diogo Botelho d’) — fidalgo — vm, 402, 423, 424, 441 —capitão — vm, 439. Andrade— (Fernão Peres d’) —fidalgo e armado cavaleiro aos 16 anos por D. Fran¬ cisco d’Almeida. —11, 222, 285, 314, 3i6, 359, 391, 434, 477, 478; iii, 10, 29, 3o, 34, 35, 37, 38, 58, 65, 67, 69, 71, 72, 74 a 79, 83, 98, 100, 101, io3, 104, 106, 109, 110, 121, 124, 127, i3o, i3i, 135, 136, i38, 140, 145, i5o, 153, 190, 199,200,201,203 a 207, 209, 210, 243, 245 a 248,25o, 272, 292 ; ív, 386, 387, 389,425 a 428,43o, 433,436,437, 438, 453, 454; v, 8 — armador-mór —11, 212—capitão —11, 475; iii, 7, 18 — ca¬ pitão de Anjediva e do navio S. João — iii, 60 — capitão-mór — ív, 429, 431, 432, 447; vii, 34; viii, 377 — capitão-mór do mar de Malaca — iii, 189, 242 — ferido no combate contra a armada de Cale- cut —11, 267 — ferido no combati contra o Idalcão — iii, 40 — ferido no combate contra Patequatir em Combaláo — iii, 202 — ferido mortalmente no combate contra Pateonuz,em Malaca — iii, 249 — capitão da nau Trindade —ni, 125 — da nau de Cristovão de Tavora — iii, 364 — sua morte —ív, 421. Andrade (Gomes d’) — ix, 538. Andrade (Lisuarte d’) — fidalgo — vm, 421 a 425, 427, 469 — ferido — viu, 426. Andrade (Luis de) — vm, 227,228,232, 236, 257, 258, 263, 265, 266 — alcaide-mór da fortaleza de Temate — vm, 264 — ca¬ pitão — vm, 268 — feitor da fortaleza de Ternate — vm, 210, 234, 235, 264. Andrade (Simão d’) — fidalgo, cavaleiro e irmão de Fernão Peres d’Andrade — 1, 141, 153; 11, 314, 434, 479, 4S0; m, 7, 10, 18, 22, 29, 34, 38, 40, 47, 51 a 53, 56, 65, 66, 71, 72, 74 a 78, 83,86,87, 98, 100, 101, 122, 139, i5o, i53, 184, 190, 93, 194, 220, 222, 251, 257, 260, 268, 338, 339, 36q; ív, 384, 389, 390, 411; v, 8, 14, 129, i3o — capitão de Chaul — vi, 152, 2o3 — ca¬ pitão da nau Enxobregas — iii, 332 — capitão-mór — vi, 152 — ferido — m, 106 — capitão da nau Joia — m, 125 — des¬ cobre o porto Dugufu —m, 265. Andragide — reino na ilha de Samaira — 11, 456. André — português que pertencia aos homens de João Gomes d’Abreu —11, 448. André (D.) — veja : Henriques (D. André). André (Micer) — mercador venesiano — VII, 123 Anfião —11, 459. Anhaya (Francisco d’) — filho de Pedro d’Anhaya —11, 23o, 232, 233, 270, 271, 290, 386, 391, 398, 400, 401; vii, 28 — ca¬ pitão— vii, 19, 23, 3o —capitão da armada do vice-rei D. Francisco d’Al- meida—11, 356—capitão-mór da armada —11, 270 — capitão-mór do mar em So- fala —11, 229 — capitão da nau S. João da armada de Pero d’Anhaya — u, 229. Anhaya (Pero d’) — fidalgo e cavaleiro — 11, 208, 229, 231, 233, 270, 282, 290, 374, — capitão da armada de D. Francisco d’Almeida — 11, 209 — capitão de Sofala —11, 273, — capitão-mór —11, 23o, 231, 232 — sua morte —11, 275. Aníbal (Afonso) — 1, 141. Anjão ou Angão — ilha — v, 144 — Xeque da iljia de — vn, 185. Anjedina ou Anchediva — ilha — 1, 7, 62, 64, 65, 76, 94, 114, 115, 134, 193; u, 208, 228, 234, 236, 239,241,251,271,282,425; iii, 59, 60, 80, 81 a 83,177 ; ív, 385 — capi¬ tania de —11, 419 — fortaleza de —11,210, 235, 236, 256, 263, 282, 283. Antão (D.) — capitão de Lisboa — vi, 346. Antilhas (Terra das) — vi, 166.
  • índice onomástico 601 Antonio — português dos homens de João Gomes d'Abreu — n, 448. Antonio (D) — veja: Noronha (D. Antonio de). Antonio (Pedro) — milanês lapidário que fugiu para o reino de Calecut — 1, ti3. Antruj— ni, i6t, 331; v, 35,— tanadarias de — tu, 115, 296. Antruj (Casta) — m, 26, Apas — bolos de farinha de trigo de que usam os malabares — 1, 40. Aquaxuino — lugar de — vi, 202. Arabia — 1, 71, 70; 11, 245, 296, 324, 336, 338; ui, 26, 28, 228, 266, 268, 269, 312, 347, 333, 364, 365; ív, 412 ; v, 93 ; vi, 184; vii, 121; viu, 372 — cavalos d’ —111, 289; viu, 367 — costa d’ — 1, 134; 11, 323, 339, 340, 343, 38a; iii, 253, 267, 276; ív, 398, v, 54; vi, 204, 206, 210; vii, 118; VIII, 326, 507; ix, 533, — língua — 1, 6; 111, 254. Arabia (califa em) —111, 365, — costa do — 111, 365 — embaixador do —111, 365. Arabia (el-rei d’) — n, 339, ^40. Arabias —11, 258, 385; m, 42, 23o, 316; v, 94; viu, 219, 248, 384, 421,460, 502; IX, 535 — mouros — 1, 29 — moradores em Ormuz —11, 337 — de poleja —111, 168. Aranha (Rodrigo) — capitão vi, 279, 286, 339. Araújo (Antonio d’) — v, 107. Araújo (Dinis d’) — criado de Gonçalo Pe¬ reira — viii. 262. Araújo (Manuel d’) — iv, 422. Araújo (Paio Rodrigues d’) —vii, 8,51; vm, 246, 5o 1 — capitão — viu, 401, 421. Araújo (Rui d') — fidalgo e cavaleiro — 1, 190; 11, 444, 445, 454, 464, 465, 466; iii, 127, i3o, 133, 135, 136, 1)7, i38, 142, 145, i53, 154, 184, i85, 207 — alcaide-mór e provedor da fazenda de Malaca —111,189 — capitão — 111, 202 — cartas de — iii, 120 — cativo em Malaca —iii, i32 —de¬ terminador dos agravos e apagador das diferenças dos governadores da Terra em Malaca —iii, 190 — escrivão da fei¬ toria deCoutão —1, 128, i85 — feitor de Malaca —11, 460 — morto em combate contra Patequatir —m, 202. Araxamenoca— naire,— 1, 76, 81, 82. Arca (Lopo d’) — vi, 265. Ardenil — vila Pérsia — iii, 346. Arei — grande servidor d’el-rei de Por¬ tugal — v, 69; vii, 162, i63. Argao— passo a meia legua de Chaul — vm, 209, 210; ix, 558. Arménia — lago em — 111, 346. Aro (Frei João d’) —da ordem de S. Do¬ mingos — vii, 29. Ar quico — lugar e vila — v, 38 a 40,42, 45, 46, 48, 49; vi, i85, 200 a 202 —capitão de — v, 38, 41 a 43, 46; vi, 184. Arquico (Soltão d’) — vii, 12. Arzila (tomada d’) — iii, 260. Arracão — ív, 446; vii, i3i, ■ 32, 134, i35 — barra d’ —vii, «33 — cidade d’ — ív, 445 ; vii, i3o — rio d’ — ív, 446. Arracão (senhor d’) — vassalo d’el-rei de Portugal — ív, 445, 446. Arraul — senhorio do rei de Cochim — 1, 186; 111, 172 —ponta de —1, 176, 178 — ilha — 1, 106, Ó2, 153 — panical d’— 1, 141—passo d’ — 1, 187. Arrenegados — ni, 225 a 228. Arroj — 1, 35, 135; ni, 2o3, 209; ív, 387; vi, 278. Arruda dos Vinhos — ix, 546. Ascenção (ilha) — n, 404. Asia — 1, 69; 11, 264, 338; m, 345, vm, 377 — embaixadores dos mouros d’— m, 352 — mouros d’ — iii, 352. Ataide (Alexandre d’) — Judeu cativo, a quem Afonso d’Albuquerque fez cristão — língua — ui, 87, 3oi, 336, 338 a 340, 354, 368; v, 40, 42. Ataide (D. Álvaro d’) — filho de Vasco da Gama — capitão — ix, 574. Ataide (D. Duarte d’) — capitão — vii, i5a, 176. Ataide (D. Luis d’) — ix, 532, 555, Ataide (Francisco d’) — vu, 57,63, — preso — vii, 62. Ataide (João d’) — m, 259. Ataide (Jorge d’) — sobrinho de Tristão d’Ataíde — vm, 391,458 — capitão — vm, 40 — capitão-mór — vm, 384. Ataide (Pero d’) — 1, 74, 84, 85, 93, 99, 115, 76 Tono IV
  • 602 Hiftoria da índia 118, 122, 125, i32, 192 —capitão — 1, io3 — capitão da segunda armada de Vasco da Gama — 1, 96 — capitão-mór—1, 114. Ataide (Vasco d’) — capitão da armada de Pedro Alvares Cabral — 1, 72, 74. Ataide (Tristão d’) — vn, i83 ; vm, 317, 318 a 321, 35o a 354, 382 a 389, 391 a 396, 413 a 420, 45t a 456, 462 a 468, 48S a 490, 322; ix, 528 a 53o, 539, 562 — ca¬ pitão—vm, 242, 243, 296— capitão da fortaleza de Maluco — vm, 295, 304, 349 — capitão da fortaleza de Ternate — vm, 381, 406. Ativa — lugar principal de Amboino — vm, 522. Ancão — capitão de Cambaia — vm, 475. Auru—reino na ilha de Samatra e co¬ marca de Dachem — n, 456,; vi, 23o — costa d' — ui, 193. Auru (el-rei d') —v, 100; vi, 23o; vu, 145 a 148, 178 —embaixador d’ — vn, 146. Aurus — v, 100, 10!, 102; vn, 148. Ausbrote — bombardeiro — 1, 141. Avelar (O) — alcunha de um português arrenegado que era capitão-mór de La- queximena. — vi, 242, 243, 3o6, 307. Avelosa (Diogo d’i — iv, 419. Ayala (Miguel d’) — cavaleiro — vm, 378, 441, 484 — capitão — vm, 371, 439. Ajambuja (Manuel d’) — porteiro de Lopo Vaz de Sampaio — vm, 423, sua morte — vm, 426. Ajambujo (Afonso Vaz) — capitão da ar¬ mada de Nuno da Cunha — vn, 149,180. Azevedo (António d’) —11,293,3oi; 111, 2o3, 336 — capitão, e sua morte em combate contra Patequatir — m, 202. Azevedo (Antonio Miranda d’) — irmão de Martim Lopes de Azevedo e capitão — m, 327; ív, 449 ; v, 100, io3 ; vi, 274, 279, 281, 33g, 340, 341; vu, 57, 58, 78, 80 a 90, 93, 118 a 120, 158, 159, 164, 170, 171; ix, 536 — capitão da armada do governador Lopo Soares — ív, 395 — capitão-mór — vi, 272, 297 — capitão-mór da costa do Malabar —vn, ii — capitão-mór do mar — v, 3; vn, 25, 26, 33, 48, 49, 5o, 52, 53, 77> 9'» 117 —juiz-vn, 79. Azevedo (Braz da Silva d’) — vn, 93, 160 — juiz — vn, 89. Azevedo (Duarte d’) —vm, 3io, 3ii, 3i5, 409. Ajevedo (Diogo Lopes d') — vm, 458, ca¬ pitão— ix, 534 capitão-mór do mar de Maluco — vm, 521. Azevedo (Francisco d’) — criado da casa Real e escrivão da feitoria de Malaca — m, 190. Azevedo (Gaspar d’) — capitão — viii, 427. Ajevedo (Gonçalo Gomes d’; — fidalgo e criado da casa Real — vn, 44, 52, 123, 124, 125, 126, 128, 129, 175, 176; vm,313 — alcaide-mór da fortaleza de Ternate — vn, 127 —capitão — vm, 242 — ca¬ pitão-mór— vn, 114, 127. Ajevedo — (João Alvares de) — vm, 246 — morto em combate — vm, 247. Ajevedo (Lopo de) — fidalgo —111,206,209, 242, 243; v, 56, 116; vi, i52, 176, 177; vu, 86, 160, 162 ; vm, 239 — capitão, — v, 80, 84—capitão da caravela de James Teixeira, em Malaca —111, igo — sota ca¬ pitão de Fernão Peres d’Andrade —111, 190 — parte de Malaca com Fernão Peres d’Andrade — m, 25o. Ajevedo (Martim Lopes d’) — senhor de Cavres — vi, 33 9. Ajevedo (Rui Gomes d’) — capitão — v, 4, 5,7; ix, 573. Ajevedo (Simão Miranda d’) — capitão da armada de Pedro Alvares Cabral — 1, 72. Ajibelé — lugar na costa de Arabia — vn, 5o7. Ajibelé (senhor d’) — viii, 478. Ajinhaga (João Jusarte Tição d’)—vm, 2o5, 313, 314. Ajougue — 1, 29, 35; 11, 261, 289, 459. B Babilónia — 1, 7. Baçaim — ív, 407; 116, 118; vu. 168, 173, 174; vm, 254, 256, 271, 281, 295, 296, 298, 3*2, 339, 340, 362, 363, 367, 369, 396, 398, 401, 404, 405, 427, 428, 448, 45o, 468; ix,
  • Índice onomástico 6o3 5iS, 329, 531, 535, 542, 544, .‘46, 551, 555, 556 a 559, 566, 568 a 570, 575 — barra de — vm, 297 — fortaleza de — vm, 280, 295, 3o 1, 427; ix, 549 —ilha de — ix, 545 — rio de — viii, 281. Bacanor—lugar e porto da província de Talinate no reino de Daquem —11,208, 242 — rio de — vi, 359; vit, 6, 7. Bachão — ilha do arquipélago Maluco — vi, i65, 166, 167; vii, 127, 176; vm, 224, 235, 253, 391; ix, 565 —reino de — vii, 70 — rio de — vm, 354. Bachão (el-rei de) — vit, 70, io5 a 108, 110, ui, 127; vm, 198, 199, 267, 291,318,319, 352, 353, 354, 382, 391, 394,460, 461, 463, 490; ix, 56a, 564. Bachares — m, 173, 211; vm, 353. — Porta dos — ui, io5, — rua dos —111, io5. Bachela (Ouro) — mouro tesoureiro doi¬ rei Cachil Dayalo — vm, 294, 352. Baçord — cidade em Arábia no cabo do Sino Pérsico — vii, 121, 122; vm, 328, 498. Baçord (el-rei de) — m, 364; vm, 328 em¬ baixador d’ — ui, 365, 366. Badarças (Fernão Rodrigues) — 1, 99, 114 — capitão — 1, io3 — capitão de guarda da feitoria de Gochim — 1, 96. Badur (Sultão) —filho de Madofar e pri¬ meiro do nome—vu, 14; vm, 36i, 366, 367, 475, 498, 5o3, 510; ix, 535 —Rei de Cambaia — vm, 355; ix, 556. Baharem — ilha e reino —11, 339, 363, 368, 376; 111, 178, 23o, 3i 1, 3i2, 353; v, 93,94, 98, 107, 112, n3; vu, 182, i83, 186; vm, 193, 328, — governador de — m, 356; v, 96. Baharem (el-rei de) — m, 364, 365. Baharqueçum—Palavra arábica que quere dizer mar serrado, nome que os mouros dão ao mar que separa a ilha de Mihum da terra do Preste, veja: Mar Rôxo; 111, 266. Baião (Estevão) — homem de Jorge da Cunha — m, 29. Baião (Gonçalo) — ferido — vm, 332, — sua morte — vm, 333. Bailéu — vm, 311. Baixo (Gonçalo) — cavaleiro e capitão — 11, 4o3. Balagate—terra firme de Gôa — m, 22, 27, 3q, 109, 195, 227; v, 90; vu, i5S, —se¬ nhores de — m, 107. Balagate (senhor de) — Idalcão — 11, 426 — Sabaio, el-rei de Marsingo —11,475. Balagatinos — vm, 401. Balapulágoripo — naire, grande senhor e irmão de Unireypulá — v, 9. Baleacate — vm, 274, 277; ix, 532. Baleacem — vi, 295, 296. Baldaya (Fernão) — vn, 70, 104, 106, 126; viii, 202, 204, — escrivão da feitoria de Maluco — vn, 69, io3. Balobalo — lugar — vm, 319. Baltasar — filho de Gaspar. Língua — 11, 389. Banda — ilha—m, 186, 187, 210, 331; v, 35, 127; vi, 155, i56, 157, 160, 161, i63, i65, 166, 169, 214, 216, 217, 218, 228, 245, 298, 299, 3i 1, 357, 358; vn, 35, 68,71,97, 114, 123, 144, 176; vm, 196, 197, 2o3, 204, 235, 237, 238, 239, 268, 285, 38., 388, 4i3, 4*6, 467, 477, 488, 495, 496, 521; tx, 533 — Junco —11, 461. Bandaneses — vm, 388. Baneane — v, 134. Baneanes — gentios de Cambaia tidos por santos — ui, 314. Bander (pôrto de) — a três léguas d’Ormuz — m, 345. Bandará — vm, 208 — pagode — vi, 211 — vila de — vm, 273. Bandel — v, 88. Banganim — m, 99. Barba (Fernão Rodrigues) — capitão — vii, 52, 159, 161; viii, 194, 242, 255 — capitão da nau S. Rafael — vn, 94. Barbaros — 1, 186; m, 3j2. Barbaroxa — vm, 498. Barbosa — cidade — u, 296; m, 254, 277; iv, 410, 412, 439 —nau de —111, 268 — rei de — v, 45. Barbosa (Diogo) — capitão da armada de João da Nova. — 1, 93. Barbosa (Duarte) — cunhado de Fernão de Magalhães e que ficou com a capitania
  • 6 04 Hijloria da Índia da nau de Luiz de Mendonça — vi, 160, 3i3, 3ai,— sua morte — vi, 162. Barbosa (Duarte) — língua — 1, 102. Barbosa (Jorge) — de Coimbra — vnt, 5o 1, — escrivão — viu, 5oo — juiz dos orfãos em Coimbra — vni, 470. Barbudo (Antonio) — fidalgo e capitão — vii, '67, 170. Barbudo (António) — cristão-novo, ouvi¬ dor e alcaide-mór — ix, 562, 565. Barbudo (Cide) — 11, 283. Barbudo (Gaspar) — vi, 3oo. Barbudo (Tristão)—iv, 442, 443, 445,— capitão — iv, 433, 444. Barcealar (Tuáo) — mouro e capitão-mór d’el-rei de Ugentana. — vm, 3og. Barcelona — 1,6. Barcelor — vi, 292. Bardadim (Raix)—governador de Ba- harem por el-rei d’Ormuz — vii, 182 a i85. Bardes —111, 26, 60, 79, 331; vm, 421, 422, 426 — aguada de — m, 61 — pagode de — em Salfeta — v, 91 — Tanadaria de — iii, 296; v, 90; vm, 374, 401, 421, 449. Bardor—pagode de freiras — vni, 374, 375, 376. Barnegais — v, 40 a 48; vi, 197, 198, 200; vii, 12 — senhorio de — vi, i85. Baroche — cidade a trinta léguas da en- seade de Cambaia — viu, 370, 399. Barra (baluarte de) ou do armagem — vm, 5io. Barradas (Álvaro) — capitão — ix, 559, 574 — escrivão de João Lobato — v, 91. Barraverrão — lugar e posto da província deTalinate no reino de Daquem—11,242. Barreto — (Álvaro) —11, 418, 447 — capi¬ tão da armada de Lopo Soares —111, 363; ir, 394 — capitão da nau Santa Marta — «, 417, Barreto (Francisco) — capitão — viu, 427. Barreto (Jorge) veja: — Beja. Barreto (Jorge) — veja Castro. Barreto (Manuel Teles) —11, 291, 298, 3o 1, 327, 33o, 367, 376, 377, 443, 450, 483 — capitão —11, 323,416, 424, — capitão da nau Rei Pequeno — ir, 277. Barreto (Nuno) — capitão — vm, 242, 296. Barreto (Pero) — veja Magalhães. Barriga (Pero) — fidalgo, cavaleiro e ca¬ pitão— vii, 167; vm, 340, 341, 342, 344, 345, 346, 423, 425. Barros (Cristovão de) — genro de Heitor Rodrigues de Coimbra e alcaide-mór da fortaleza de Cantão — v, 10, 67, 68, 70, 74- Barros (Fernão de) — vui, 251. Barros (Francisco de) capitão—vm, a5i. Bartolomeu—pretencente à nau de Duarte Pacheco — 1, 140. Barva — veja: Brava. Basiliscos — vm, 217. Basto (João do) — da fortaleza Manuel — 1, 140. Basto (Pero Lopes de) — feitor das partes de Malaca — u, 460. Batachina — ilha a 5o ou 60 léguas de Ter- nate — vi, 214, 253; vm, 384. Baticala — lugar e pôrto da província de Talinate no reino de Daquem, —11, 208, 242, 249, 416, 424, 441,478; iii, 29, 3o, 31, 87, 108, 117, 175, 179, 180, 2l5, 23o, 288, 290, 299, 33o; iv, 384, 433; v, 4, 7, 111; vi, 260, 273, 291, 292; vii, 149, 151, 177; vm, 210; ix, 575 — armada de —111, 47 — barra de — v, 4; vi, 274 — fortaleza em — iii, 28 — ilheos de —11, 420, 424 — mouros de—iv, 384 — pôrto de —111, 19; iv, 385 — rio de — ix, 5-j5 — terras de — 111, 117. Baticala (el-rei de) — m, 116; v, 4 embai¬ xador d’ — m, 116. Baticala—(rainha de) — ix, 575 a 577. Baxá (Habrahem) — vm, 5o5. Baxá (Hamed) — vm, 5o6. Baxá (Soleimão) — rei do Cairo e da Ale¬ xandria e capitão-mór de uma armada da índia — vm, 478, 504 a 509, 5i t a 5i3, 518. Bajaruco — nome que os mouros dão às moedas de cobre — m, 116. Beadala — vm, 484, 485 — enseada de — vm, 481. Beb — m, 237. Beguea (Mahoda) — Rei de Pacem e xa-
  • índice onomástico 6o 6 bandar dos gurazatos, mouro principal de Malaca — nt, 117, 128, 129. Beira (abade da) — vi, 157. Beja — 1, 7; in, 216, 253; vi, 304, 342; ix, 534. Beja (duque de) — depois rei D. Manuel — 1, 6. Beja (Diogo Fernandes de) —111, 24, 34,40, 47» 5a, 65> c7> 74» 77» 78, 9% 99» 101» I0J> 118, 123, 126, 162, 178, 179, 196,211,251, 257, 3oi, 311, 3i3, 3i6, 33o, 333, 368 —v, 53, 83, 85, 86, 93, 115, 116, 121, 122, 124 — capitão — ui, 18, 222; v, 34, 51, 80 — capitão da armada de Jorge d’Albu- querque — v, 23 — capitão da nau Frol da Rosa — in, 332 — capitão-mòr — v, 84, 107, 109, 110, 123 — capitão-mór do mar —iii, 182; v, 121 — capitão-mór do mar de Gôa — in, 195 — embaixador junto d’el-rei de Cambaia — ni, 309, 3io, 316 a 326 —sua morte — v, 123 — que ficou por arrefens junto de Raix Mora- dim — m, 335. Beja (Jorge Barreto de)—capitão—11,3oi; v, 22, 36, 41. Belem — 1, 70; 11, 209, 458; ív, 453; vi, 263 — Nossa Senhora de — 1, 9, 72, 97. Belinamacar — mouro de Cochim — 1, 137. Belo (Duarte)—armador em Lisboa—v,32. Belona (cidade de) — vm, 504. Benaivilo (Micar) — veneziano que estava em Calecut — 1, 87. Bernardes (Damião) — vm, 275, 276. Benastarim — 111, 21, 3q, 35, 36,40,41,43, 44, 48, 114, 162, i63, 167, 169, 211, 213, 2í5, 218, 222, 228, 229, 23i, 23g, 240, 3oi; iv, 393, 408, 415 —aguada de —111, 34 — castelo de — 111, 214, 217 —estrada de — ui, 179 — fortaleza de—111, 181,211, 212, 214, 216, 217, 222 a 227, 229, 232, 25i, 372; iv, 417; vii, 63 — ilha de — a 4 léguas do Pano Seco — m, 20 —mouros de —ui, 3oo, 3o6 —oiteiro de —m, 221, 222 — passo de—111, 22, 34, 38, 40, 69, 168, 181, 239, 25i; ív, 392, 414 — peleja de — m, 41 — povoação de — 111, 39 — rio de—111, 34, 35, 37, 38, 39,44,161,217, 218; ív, 415, 416 —Tôrre em — m, 125. Bendara — el-rei de Campar —11, 460,461, 462, 464, 465, 466; ui, 120, 127, 132, 134, 199, 313, 329; ív, 454, 462 — baluarte do — vm, 487, 489. Bengala — reino — n, 256, 296, 338, 340, 459; 111, 273, 324, 35o, 364; ív, 386, 387, 437, 438, 439, 441, 442, 448; v, 3, 15, 20, 57; vi, 169; vii, 6, i35, 136, 139, 170; vm, 220, 274, 275, 3o 1, 310, 311, 312, 324, 329, 341, 379, 401, 405, 40S, 477,486, 487, 496, 217, 5iS, 519 — costa de —vn, i3o — en¬ seada de — ui, 156; v, i5 — ilha de — 1, 126 — panos de —11, 459 — reis de — ív, 440— roupa fina de — m, 129. Bengala (el-rei de) —ív, 433,440, 441,446; vii, 135; vm, 3o2, 3io, 3ii, 313, 314, 3i5, 317, 329, 379, 38o, 3Si, 401, 408,409,410, 477» 4*6, 487, 496, 517, 518. Bengalas — vm, 408, 409,410,486, 517, 518. Benini (Ponta de) —11, 304. Benjabeque — m, 366. Benjoim —11, 456; 111, 156, 192; v, 16. Bepur — entre Chani e Calecut — 1, 144. Bepur (el-rei de) — 1, 187. Beque (Habrahem) —mouro, senhor da ci¬ dade de Draguer e capitão do Xeque Ismael, — m, 345, 353; vm, 5o6, 5o3, 5i3, 514. Bequim (Coje) — veja: Samecerim (Coje). Berberia — 1, 39. Berid — cadeia de ouro que o rei põe no braço do que sabe ser melhor cavaleiro, em ocasião de duelo —11, 244. Bermudes (Dami.ío) — chatim português — vm, 274, 277, 312. Bermudes (Femão) — fidalgo e cavaleiro — 11, 211, 214, 219, 221, 223, 284, 285, 290 — capitão —11, 283 — capitão da armada de D. Francisco d’Aimeida —11, 209 — capitão da nau Taforea —11, 265. Berredo (Aires Pereira de) —111, 141, i5o, 151, 153, — alcaide-mór da fortaleza de Malaca e capitão da mesma — nt, 243 — capitão — m, 327 — que ficou em Malaca com a nau de Nuno Vaz de Castelo Branco —111, 190. Berredo (Francisco Pereira de) — fidalgo — 473» 474 5 32, 33, 113, 167, 168,
  • Hifloria da índia 606 «7-S 337; IV, 390; VII, 68, 78; VIII, 209, 210; ix, 558 — capitão — m, 177, 222 — capitão da fortaleza de Chaul — vu, 66, 78,164; viu, 208 — capitão da nau S. Gião —11, 447, — da nau de S. João —111, 3o, — da caravela S. Nicolau —111, 332,— cativo em Cambaia —111, 114 — salvo de naufrágio — in, 3i. Berredo (Manuel de) — capitão — v, 126; VI, 23 I, 232. Betacorol — rei de Tanor —1, 143. Belela (ilha do) —viu, 242, 244—págem do — ii, 255 — rio de — vi, i5i, 153. Bentencour (João de) —fidalgo da ilha da Madeira—vi, 286 —morto pelos mouros — vi, 287. Beludetes — capitães na língua Abaxir — vi, 194, 196. Bajeguiche —11, 209, 277, 3o6. Bejerril—capitão castelhano — v, 31, 32. Bicoya — lugar — vm, 388. Bigairins — v, 65. Bilgão — cidade — perto da serra de Do- gaie —ui, 34; iv, 417; v, 90; vm, 277, 284, 438 — senhor de — vm, 374. Binlão — cidade e ilha —111, 209, 273, 275, 328, 329, 362; v, u5; vi, 233, 23S, 243, 298, 3o2 ; vii, 35, 36, 40, 42; vm, 309 — barra de — v, 126; vi, 236, 241, 244; vu, 37 —cativos de —m, 274, 275 —mouros de — vi, 238, 3oo — rio de — vi, 241 — senhor de — vu, 42. Binlão (el-rei de) —111, 247, 273, 275, 327, 357, 358, 359, 36o; iv, 436, 447, 44S, 453 a 458, 460, 461, 463; v, 8, 14, 58, 60, ói, 106, 125, 126, 127, 129; vi, i55, 23o, 233, 236, 238 a 242, 244, 299, 3o3, 3o6, 3io; vu, 36, 37, 38, 43, 64 — armada de — m, 361, — capitães d’ — v, 58 — cartas d’ — m, 273 — embaixador d’ — iv, 462; v, 13o, —escrivão d’— mouro, bengala de nação e escrivão da fazenda d’ —111, 2)3 a 275 — frota d’ — iv, 458. Bipur — reino — 1, 143. Birrio — piloto — 1, 8. Bisam — mosteiro na terra do Prata — v, 40, 41, 42, 43, 49 — frades de — v, 40. Biscaia —111, 140. Bisigudo (Simáo Afonso) —111, no, 13g, 243 — capitão da caravela Latina, na ar¬ mada de António d’Abreu —m, 187 — sua morte em Malaca em combate contra Pateonuz — 111, 249 — que partiu de Gòa com o governador por capitão da cara¬ vela Latina — m, 125. Bisnagar — a maior cidade do reino de Daquem na província de Canara. —11, 244, 246, 247, 475; 28, 5t; vu. 9, — panos de — m, 289. Bisnagar (el-rci de) — 111, 46. Bixordo (Jorge Lopes) — capitão da nau Santa Crnz, na armada de D. Fernando Coutinho — 11, 480, 481. Boa Esperança (cabo da) — 1, 6, 10, 12, 73, 74, 92, 96, 132, 192; 11, 210, 227, 229, 263, 277, 282, 290, 418, 447, 471, 481; m, 180, 198, 286; v, 24; vi, 166; vii, i5o. Boa Genle (aguada da) — 1, i5. Boa Paç (aguada da) — n, 23o. Bocanora (senhor da Gran) — vm, 384. Bocarro (Antonio) — vm, 219. Bocarro (Francisco) — v, 101; vi, 3oo, 352, — feitor — vm, 488—ferido — vm, 333 — feitor de Malaca — vm, 344. Bohemia — m, 239. Bojardo (João Gomes) —1, 141, 164. Bolcife (el-rei) — viu, 229, 291, 352. Bombaim — ilha— m, 323; vu, 167, 168; viu, 208, 210. Bons Sinaes — (rio dos)—em África, nome posto por D. Vasco da Gama — 1, 14, 16, 67. Bontaibo — mouro que habitava em Mala- bar— 1, 39, 40, 49, 51, 52, 59, 62, 63, 65. Borges (António) — fidalgo — vm, 307. Borges (Diogo) — criado d’el-rei de Por¬ tugal, escrivão da armada d’António d’Abreu e contador de Viseu — m, 187; vm, 3o i. Borges (Jorge Fernandes)— aio de D. Paulo da Gama e morto em combate — vm, 332, 333. Borges (Nuno) —v, 107. Borges (Pero) — v, 54. Bori — Passo a 5 léguas da ilha de Gôa — vm, 375, 376, 377, 439, 443, 449.
  • índice onomástico 607 Borinté—lugar na ilha de Banda —vi, 245. Borneo — povoação em Ternate — vu, 35, 7'» 97- 99> '76-. vm, ««, «7, 304, 317, 392, 45 c, 452, 453, — cânfora de —11, 459 — cidade de —vii, 100 — ilha de — vi, 217; vui, 227, 26S. Borneo (el-rei de)—vi, i63, 164; vu, 99, 100. Botelho (Aires) — escrivão da feitoria de Ternate — vm, 264, 265, 266. Botelho (Álvaro) — cavaleiro— vi,3oo; vni, 331 —sua morte — vi, 3oi. Botelho (Antonio) — criado de el-rei de Portugal e capitão —vm, 194, 218, 239. Botelho (Belchior) — feitor — vm, 452; tx, 56i. Botelho (Dinis) — vm, 200, 201. Botelho (Diogo) —vm, 371, 372, 373 — ca¬ pitão— vm, 340. Botelho (Gomes) — vi, 248. Botelho (Jane Mendes) —11, 346, 371. Botelho (Jorge) —veja: Pombal (Jorge Bo¬ telho do). Botelho (Lourenço) — capitão — vii, 167, 170; VIII, 212. Botelho (Manuel) — capitão —vu, 107,108; viu, 271. Botelho (Pero) — capitão—v, 106; vn, 112, 113, 114. Botelho (Simão) — vedor da fazenda da alfandega de Malaca—íx, 577. Botim (Luis) — piloto da nau Santa Cata¬ rina—111, 186. Boyo —justiça-mór de Ternate—vm, 226. Bracelor — lugar e pôrto da província de Talinate no reino de Daquem —11,208, 242; vi, 291, 294; vm, 432 — rio de — vi, 283, 292. Braga (Álvaro de) — 1, 59, 60, 61, g3,— escrivão da alfândega do Pôrto — 1, 43, 56. Braga (Francisco Mendes de)—capitão — vii, 161, i63. Braga (Luiz de) — capitão — vm, 415, — escrivão — vm, 343, 344. Bragança (Diogo de) — bombardeiro —1, 141. Bragança (Duque de) —vi, 2i3. Bragança (Duquesa de) — irmã do rei de Portugal — m, 240. Bragança (João de) — môço de monte e vedor — 1, 8. Brentaluco — senhor da comarca de Ba- çaim, — íx, 535, 542 a 552, 555 a 559. Bramene — 1, 100, 142; 11, 247; m, 287; vi, •53, i54. Bramcne-mór — Rei de Cochim — 1, 186. Bramenes — homens religiosos da seita dos gentios de Daquem — 1, i3o, 146 a 149. 157, 161, 183, 184; 11, 242, 246, 287, 288; m, 25, 314; v, it ; 139; íx, 573. Branco (Aranha) — naique canarim e ca¬ pitão — m, 166, 220, 222. Brandão (Luiz) — capitão — vi, 3io. Brasil — 1, 73; 11, 277, 375; iv, 420; v, 23, 25, 27, 29, 31; vi, 157 —costa do —vi, 1C0. Brasis — povo do Brasil — v, 26. Brava — lugar e cidade na costa de baça a 800 léguas de Hoja —1, i3|; 11, 292, 291, 295, 297; vi, 185, 197, 198, 202; vu, 12, — costa — na ilha de Samatra —11, 457 — mouros de — v, 110. Braç (Pero) — da caravela Santa Helena, bombardeiro (?) — 1, 141. Brerna — reino — v, 15. Bren — 1, 29. Brocadilhos — 1, 35; 11, 4'9. Brocados — 1, 35. Brito — (Afonso Vaz de)—vm, 477,486, 5i7. Brito (Álvaro de) — fidalgo e cavaleiro, filho de Nuno Borges —11, 314; v, 107, 110, 3o3; vii, 114 — capitão — v, i33; vi, 237, 304; vii, 35- Brito (Andrade de) — vi, 234. Brito (André de) — vi, 180 — sua morte em pôrto de Pão — vi, 234. Brito (António de) — irmão de Lopo e Jorge de Brito — v, 125, 127; vi, 155, 156, 166, 170, 171, 214 a 217, 237, 245 a 25o, 252, 253, 255, 256, 298, 311, 352, 354 a 358; vti, 68, 69, 84, 86, 95, 97, 102; vm, 23o, 232, 357, 414, 43o, 432,434,435,437, 454, 493 — armada d’ — v, 106, — caça- dor-mór d’el-rei de Portugal — v, 45, —
  • HiJJoria da índia 608 capitão — v, 36, 80, 86, 126; vii, 35; vni, 335 — capitão de Cochim — vm, 429 — capitão-mór do mar e de Maluco —v, 35, 106; vi, 3 ■ 1. Brito (Antonio Mendes de) — vit, 5i. Brito (Belchior de) — fidalgo da cidade de Beja — vi, 342, 346. Brito (Cristováo de) — fidalgo — alcaide- mór da fortaleza de Gôa — vi, 294— ca¬ pitão — ui, 180, 198 — capitão-mór da armada das naus de carga — 111, 329 — capitão da nau Belem da armada de D. Garcia de Noronha —111, 180 — sua morte — vi, 295. Brito (Francisco de) — conhecido pelo dos Olivais, capitão — v, 106, vi, 261; vii, 5t —capitão da armada do vice-rei D. Vasco da Gama e capitão do trato de Baticata para Ormuz — vi, 260. Brito (Francisco de) — cristão de Pão — vi, 234. Brito (Jorge de) — m, 198,242, 243; iv, 386, 393; v, 84, 86, 88, io3, 104, io5, 106; vi, 175i vil, 34; VIII, 197, 35i, 391, 458, 459 — armada de — v, 77 — capitão — 111, 204; v, 80; vii, 176; viu, 196, 415,— ca¬ pitão da armada de Lopo Soares e capi¬ tão de Malaca — m, 363; iv, 384, 394 — capitão da nau Santa Ofémia, da armada de D. Garcia de Noronha — tu, 180, 332 — capitão-mór — v, 56 — copeiro-mór d’el-rei — m, 363; iv, 384 — morie de — vii, 146. Brito (Lopo de) — capitão — iv, 3g3, 449; v, 34 — capitão da armada do governa¬ dor Lopo Soares — iv, 3g5, — capitão de Ceilão — v, 23, 35. Brito (Lourenço de) — fidalgo — u, 263, 269, 270. 3o5, 387, 401, 416,410, 421,422, 423, 442, 45o, 476, 477, 478, 479,480, 481, 484—capitão —11, 3o3 a 314, 316 a 322 — capitão da fortaleza de Sant’Angelo, em Cananor — n, 25i, 307 — sua morte na aguada do Saldanha —11, 485 — so¬ brinho do capitão —11, 316, 317. Brito (Manuel de) — vn, 8,13, 51, — capitão — vii, 6, 7, 11; viu, 240, 242, 271; ix, 56o. Brito (Rui de) —fidalgo e cavaleiro na¬ tural de Santarém — m, 199, 201, 209, 242, 243, 245, 246, 248, 25o, 272, 310, 312, 313; vii, 34 — alcaide-mór de Sofala — 11, 273 — capitão da fortaleza de Malaca — iii, 189; iv, 421 — capitão de Moçam¬ bique —11, 416. Brito (Tomé de) — cavaleiro — vm, 3oi. Bualava (Cachil) — governador de Toloco — vm, 290. Bubacahum (Raix) — mouro arábico, ca¬ pitão principal e governador de Baharem — v, 112. Bucelas — vi, 352; vm, 496. Bulhão (Francisco) — vi, 248 Burgos — vi, 157. Butuão (el-rei de) — feito cristão — vm, 523. C Cabaço (Diogo) — vm, 311, 315, 316. Cabalou (Cachil)—primo de Cachil Daroes — viu. 261, 262. Cabeata — clérigo velho, parente e confes¬ sor do Preste — vi, 187, 190, 191, 192 — filhos de — vi, 197. Cabo Verde (ilhas de) —1, 9, 191. Cabral (Aires) — vn, 57, 63 — capitão — vi, 279; vm, 212 — preso — vii, 62. Cabral (António) — fidalgo de Santarém — vm, 423. Cabral (Jorge) — fidalgo — vi, 287; vn, 44, 56, 117, 123, 139, 177; vm, 43o—capitão — vi, 279, 339; vn, 114 — capitão da for¬ taleza de Malaca — vn, 176 — capitão- mór — vn, 6, 34; viu, 427 — capitão-mór da armada de carga — vm, 429. Cabral (Jorge Dias) — cavaleiro—v, 80, 81. Cabral (Lopo) — capitão do navio S. Ro- mão—11, 3o6 — capitão da armada de Lopo Soares —111, 363. Cabral (Manuel de Brito) —vu, 160. Cabral (Pedro Alvares) — fidalgo da casa real e capitão-mór — 1, 71 a 79, 80 a 99, 126, 128, 194; m, 5, 35, 288, 298; v, 8. Cabras (rio das) — entre Chaul e Baçim — ix, 575.
  • índice onomástico 609 Cabreira (Pero) — capitão da armada do governador Diogo Lopes de Sequeira — IV, 453. Cabreira (Lopo) — feitor de Cananor — n, 241, a5i, 315. Cação (rio de) — vi, 231. Cacatanambari—Rei de Bipur e de Cucur- rSo — i, iq3. Caceres (Manuel de)— vit, 138. Cachilato — mandarim — viu, 232, 258, 262, 263, 266 — feitura de Gonçalo Pereira — viii, 2G1 — governador do reino de Ternaie— viu, 267. Cacij— 1, 21, 3o, 3í; ui, 33, 34 — gover¬ nador dos mouros de Malaca —111, 190. Caciçes —111, 133; vm, 445, 463. Caeiro (Lisuarte) — capitão — vm, 354. Caeiro (Simão) — vu, 45, 48, 55 — preso — vii, 52 — procurador de Pero de Masca- renhas — vu, 90 — ouvidor geral de Pero de Mascarenhas — vu, 44. Cafila — v, 93. Cafre — veja: Nunes (António). Cafres — gentios — 1, 44; 11, 3o6. Caiado (Luis) — capitão — ix, 574, 575. Caicoulão — 1, i85, 190; v, 11, 64, 67, 74, 75, — regedores de — v, 11, — rei de — v, 11. Caimaes — senhores de título entre os Ma- labares — 1, 37, 45, 77, 107, 116, 117, 118, i43, 187; v, 12. Caimaes (terra dos cinco)—ilha — 1, i63. Caimal — iv, 393 — povoação do — 1, 142. Caimal (Mangate) — amigo do rei de Co- chim —111, 92. Cais (Álvaro do) — criado de D. Jorge — VII, 110. Cairo— 1, 7, 17, 40, 82; 11, 338, 381 a 384, 405; 111, 147, 2i5, 216, 219, 236, 270, 287, 3i5; iv, 397, 398, 402; v, 45, 141; vi, 2o3, 224, 272, 289; vii, 121; viii, 364, 478, 504, 5o6, — mouros do — m, 196, 284, 285, 209, 3oo. Cairo—senhor e rei do — m, 237; vm, 304. Caixão — cidade — m, 345, 347. Caixem — vila de mouros na costa da Arabia —vi, 210, 211; vu, 118; vm, 497. Cajoa (ilha de) — vi, 253. Tomo IV Calaci — lugar de mouros a 5 léguas de Dabul — v, 6 — rio de — v, 6. Calafate — m, 42. Calaiate — lugar e cidade na Arábia —11, 323, 324, 326, 328, 329, 333,.|o, 381, 405, 406, 407, 409, 443; 111, 355, 368; iv, 413, 414; v, 54, 55, i3ô; vi, 2o3, 204, 206, 207, 210; vu, 11 — feitor em — v, 137 — gua- zil de — vi, 177, — porta de — v, 52. Calaiate (Xeque de) — 11, 324, 406; v, 137, 204; vii, 11. Calamata — vila — vm, 3g2. Calambuco — pau de muito preço —111,160. Canlancea (Ponta de) — na ilha de Saco- tora— II, 296, 297; III, 252. Caldeira (Antonio) — fidalgo — vn, 5i, 143, 145, 146, 147, 178 —capitão da feitoria de Maluco — vu, 117. Caldeira (Fernão) — que fôra pagem de Afonso d’Albuquerque. Casado em Gôa — 111, 13, 14, i65, 176, 181, 294,— criado de Afonso d’Albuquerque — m, 3o3 — morto em Gôa por João Gomes— iv, 392. Caldeira (Simão Martins) — 111, 98, 101, io5,127, iSq, 142, i5o,—capitão do junco que acompanhou as naus, quando o go¬ vernador partiu de Maluco para índia — in, ip3 — capitão-mór — m, 87 — que partiu com o governador, por capitão da galé pequena — m, 125. Caldeu — linguagem —111, 23q. Cale — cidade — 1, 126. Caleare — cidade 11, 260; vu, 116; viii, 482. Calecut — 1, 7, 19, 20, 23, 26, 28 a 34, 35, 40, 41, 45, 47, 48, 5o, 51, 53, 54, 56 a 64, 66, 67, 68, 71, 72, 76, 81, 82, 83, 85, 86, 88 a 96, 98 a 101, 106, 113, 114, 116, 118, 120, 122, 126, 129, i35, 143, 144, 151, 132, 158, i65, 168, 171, 172, 178, 181, 182, 184, i85, 188, 190, 191, 194, ig5 a 198, 201 ; n, 208, 328, 233, 237, 239, 241, 257, 264, 266, 269, 271, 272, 273, 282, 283, 284, 286, 33i, 382, 384, 399, 416,420, 423, 437, 438, 476> 479» -|8o; 1». 5» 6, 7, 9» *4> ‘5, 17» >7, 86, 104, 110, 112, 126, 147, 160, 161, 194, 215, 239, 272, 276, 284, 288, 290, 291, 294, 297, 298, 3oo, 3o8, 309, 322, 331, 363; iv, 384, 45o; v, 8, 81, 87 ; vi, 226, 227, 237, 77
  • 6io Hi/ioria da índia 238, 257, 258, 264, 266, 277, 278, 279, 281, 283, 291, 295, 312, 315, 320, 322, 325, 326, 329, 333, 334, 338, 340, 35o, 358; vn, 7, 9, 22, 116, 158, 164; viu, 211, 212, 216, 270, 3o6, 435, 437, 479, 485; íx, 532, 56o, 574 — armada de —1, 118, i3i, i35, 197511, 265, 266, 285, 289; vi, 274; VII, 11, 22, 171; viu, 5i5, 432, 434, 435 — armagens — vi, 314, 315 — arrecife de — 1, 3g; vi, 338 —barra de —111, 229—capitania de — iv, 453 — catual de —1, 41; vi, 258, 277 — costa de — 1, 7, io3 ; 111, 179; vi, 279; vii, 32, 162 — descobrimento de — I, 42 — feitoria de — iit, 298, 299 ; vi, 314, 315 —fortaleza de —111, 289, 291, 299, 3oo, 310, 331, 372; iv, 385; v, 4; vi, 238, 264, 3■ 2 a 319, 321, 322, 324 a 327, 33o a 333, 337 a 341, 343, 344, 345, 347 a 35o — frota de —1, 176; 11, 264,434; vii, 159 — galeão de — vm, 280 — guerra de — ui, 298 — malabares de —11, 272; vu, 115; viu, 255 — mar de — 1, 60,82, 197 — mer¬ cadores de —11, 356; m, 309 — mouros de — 1, 5o, 128, 149, 190, 191; 11, 25i, 252, 253, 420, 461; 111, 196, 298; iv, 449, 450; vi, 227, 265, 266, 275, 294, 314; vii, 6, 116, 170 — naire-privado de el-rei de Calecut — 1, 88 — naire —1, i85; vi, 258 —nau de — iii, 187, 289 —naus de — 1, 151 ; 11, 25o, 253; iii, 17, 299— paraus de — 1, i63; II, 432, 433, 438, 439 — pôrto de — 1, 97, 98; 111, 12, 110, 298; vi, 337, 339 —re¬ gedor de — vi, 257, 238, 259, 278, 281 — reino de —11, 356; m, 292; vi, 265, 275, 277, 293 — reis de —11, 255 — rios de — 1, iS5. Calecut (el-rei de) — 1, 5, 34 a 37, 3g a 43, 45, 46, 48, 49, 5o, 54, 55, 58, 60 a 63, 71, 77, 78, 81, 83 a 88, 90, 91, 92, 95,96, 100 a io5, 107 a n3, 115, 116, 117, 125, 126, 128 a i32, i34 a 143, 145 a i63, i65, 167 a 176, 178 a 184, 186, 187, 188, 191 a 194. 197, 198, 201, 208; 11, 228, 233, 249, 25o, 252 a 255, 263, 264, 265, 269, 272, 273, 283, 304, 3o5, 3io, 3i 1, 319. 320, 356, 384, 387, 432, 435; iii, 6, 7, 9, 15, 90, g3, 94, 96, 107, 116, 118, 153, 195, 197, 239, 240, 241, 246, 25i, 271, 272, 289 a 292, 294, 297 a 3oo, 3o8, iog; iv, 451; v, 12, 87; vi, 237, 238, 256 a 25g, 275 a 279, 282, 288, 294, 296,312, 314, 315, 318, 319, 324, 326, 328, 329, 335 a 338, 340, 344, 347 a 35o; vii, 5,6, 11,33,87,94, 116, 161, 162, 171; vm, 211, 212, 214, 271, 278, 3o6, 3i2, 407, 428 a 43o, 432 a 435, 437, 448, 482, 484, 479; íx, 53z, 533, 55g, 56o, 573, 574 — armada d’el-rei — vm, 480 — caimal d’el-rei de —v, i3 — carta d’el-rei de Co- chim —1, 100, 101, 109 — embaixador d’ — iii, 299 — emperador do Malabar —11, 310. Calecut (Príncipe de) — 1,109,179; iii, 240, vii, 162. Califa (Abedalá) — embaixador do Xeque Ismael — iii, 353 ; vi, 223. Camacho (Diogo) — Tanador d’Antruz — iii, 115—provedor dos defuntos e espi¬ ritai, meirinho da fortaleza de Malaca, escrivão do almoxarife Braz Afonso, criado da casa Real — m, 190. Camalo — mouro, embaixador de Meli- quiaz - v, 78, 79. Cantara (João de la) — condestável dos bombeiros da fortaleza de Cochim — 11, 273, 436. Camarabandos — Panos ricos da Pérsia em seda e ouro —11, 226. Camarão (ilha de) — trezentos e vinte léguas de Judá, e dentro do estreito — 11, 384; iii, 264 a 270, 276, 278; iv, 391, 392, 3g5, 396, 397, 399,401, 402, 403,410; v, 54; vu, 12, 27, 3o a 33, 118; vm, 217, 507 — fortaleza de — m, 276, 277. Camaso — lugar d'el-rei de Ternate — vu, 73 ; vm, 203, 204, 221 — cidade de —vm, 202; vu, 72, 73. Camba — ui, 3 ■ 5. Cambaia — 1, 29, yb, 83, 114; u, 208, 224, 226, 259, 286, 280, 292, 295, 296,417, 435, 456; ui, 3i, 85, 89, 114, 115, 195, 228, 23i, 232, 254, 277, 283, 284, 3i 1, 313, 316, 3i8, 32i, 323, 324, 33o, 335, 368; iv, 406 437, 439, 441; v, 5, 22, 36, 77, 85, 107, 112, vi, 2o3, 265, 278, 359; vu, i3, 18, 116, 172; viu, 193, 194, 206 a 208, 217, 242, 248, 271, 279, 281, 284, 296, 3o3, 3o6, 310, 324,
  • índice onomástico 611 335, 358, 36o, 377, 3o6, 399, 4o\ 407,448. 474 a 476. 496. $04, 5ia; k, 532, 535 — cativas em — ui, 88, 89, 90, a31 — costa de — 1, 114; 11, 429; 111, 3o, 281; v, 22, 108; vi, i5a, 182; vii, i65; vm, 204, 241, 254, 255, 256, 274, 282, 363, 372, 473 — droga de —n, 459 — enseada de — n, 385, v, no; vii, 12; vm, 370, 306 — merca¬ dores de — ui, i33, 283 — mouros de— 1, 94; ii, 270, 4'3i, 448; ui, 3o, 133, 369; v, 13, 38; vi, 184, 309 — nau de — 11, 271; iii, 127; vm, 331 — naus de — 11, 427,428, 433, 437, 439, 441; ui, 128, 136, 153, 283, 3o3, 315, 322 —panos de —11, 261, 459 — portos de — ui, 284—regedores de — vm, 498; ix, 535 — reis de — m, 3i3, 316, 3ip —roupa de —11, 225, 235, 440; vii, 169; vm, 216, 227 — rios de — vm, 307. Cambaia (el-rei de)—1, 92; 11, 34i, 384, 385, 399, 426, 429, 43o, 439; ui, 3i, 3a, 33, 85, 88, 89, 94, 107, 113, 114, 116, 118, 195, 240, 281, 283, 294, 297, 3o8 a 3i 1, 315 a 325; iv, 406; v, 77, 79; vi, 3i2; vii, 5, 14 a 17, 26, 27, x 19, 120, 16S, 172; vm, 204, *07, 208, 243, 244, 245, 253, 254, 281, 284, 297, 3oo, 3o2, 3o3, 307, 3o8, 3ai, 322, 3a3, 334, 335, 337, 338, 33g, 355, 556 a 370, 377 a 379, 381, 396 a 398, 401, 405, 410, 438, 443 a 446, 448 a 45i, 468 a 475, 477.478> 486, 498, 499, 5o4, 5o5, 507, 5n, 512; ix, 531, 534 a 536, 542, 545, 546, 556, 559 — cartas d’ — m, 90 — embai¬ xador d’ — iii, 231, 284 — mensageiros d’ — iii, 284; Príncipe de — 11, 344, 345 — nau do — da armada de Cojeatar — 11, 342, 345; Xambar de — estante de todos os mercadores de Cambaia, homem principal de Malaca e muito do rei —111, i33. Cambaieta — cidade e porto do mar — vm, 36o, 561, 364. Cambalão — ilha—1, 121, 122, 146 — Passo de —1, i38 a i43, 146, i5a, 173, 187511, 11, 3u. Cambalão (caimal de) — vassalo d’el rei de Cochim —1, io5, 122, 142, 146, 147. Camelo (Fernão) — v, 116 —capitão — viii, 240, 3^^ — embaixador junto de Niza- Maluco — v, 84. Camelo (Dinis) — Tablião público de Ca- nanor — vii, 55. Camigny (el-rei de) — feito cristão — vm, 523. Caminha (João de)—bombardeiro —1, 141. Caminha (João de) — iii, 262 ; — escrivão das naus de carga que foram a Cantão — iv, 383 — védor da infanta D. Isabel — iii, 261. Caminha (Pero Vaz) —escrivão da armada de Padro Alvares Cabral — 1, 72 — feitor d’Ormuz — n, 363 a 365 — sua morte em Socotará, por façanha dada por Cojea¬ tar—11, 365. Caminha (Rui Gonçalves de) — capitão de ordenança —111, 217. Campar — pequeno reino na ilha de Sa- matra —11, 456; iii, 327, 36i — cabo de — no reino de Pacem —11, 456—rio de — iii, 327 — el-rei de — m, 3i3, 327 e 328, 329, 358, 359 — bendará em Malaca e go¬ vernador de mouros — iii, 357 — mensa¬ geiro d’ — iii, 159, 160. Campo (Antonio do) — 1, n5, 118, 122, 123, 125, i32; 11, 216, 291, 298, 326 327, 330, 352, 367, 370, 373, 374, 376, 400,416, 424, 425, 443, 45o, 452, 483 — capitão — 11, 279, 323 — capitão da segunda armada de Vasco da Gama — 1, 96 — capitão da nau Santo Espirito — n, 277. Campo (Gomes do) —vi, 352. Campuchina — vi, 3o6. Camões (Diogo de) — vm, 277. Camusay — mouro arabico natural de Lepo e tesoureiro-mór do Cairo — vm, 5o 5. Canacani — Ilha na costa d’Arabia — 1, i34. Canaire (Caluste) — grande senhor gentio — VI, 3l2. Canafistola — 1, 91. Cananor — 1, 7, 35, 84, 85, 91, 93 a 96, 98, 101, 102, 107, 108, 115, 116, i3i, i35, i36, 137, 143, 171, 181, 185, 193, 194, 195,201; 11, 208, 228, 233, 239, 240, 241, 248, 2Í0, 251, 256, 257, 263 a 267, 269, 3o5, 307,
  • 612 Hiftoria da índia 3io, 315, 339, 386, 387, 400, 401,404,419, 420, 422, 424, 441, 442, 454, 461, 474 a 482 ; 111, 14, 15, 16, 18, 80, 81, 82, 84 a 87, 90, 95, 96, 97, 108, 109, 111, n5, 121, 122, 126, i63, 168, 180, 197, 198, 214, 215, 221, 229, 240, 241, 25i, 255, 271, 272, 283, 290, 292, 293, 295, 296, 297, 3oo, 3o5, 3o6, 3o8, 310, 331, 364; iv, 385, 394, 453; v, 124; vi, 203, 238, 264, 267, 278, 274 a 276, 278, 288, 289, 290 a 293, 320, 325, 333, 334, 337, 35o, 358, 359; vii, 7, 18, 22, 32, 33, 47» 49» 5o> 5l> 53> 55> 58> 65> 67» 77» 80, 82, 83, 86, 91, 92, 116, 158, 160, 161, 162, 164, 172; viu, 194,211,212,215,240, 437,479, ,|85 —capitaniado de — m, 16 — igreja de — vi, 362; vii, 5 — feitoria de — 1, 115, 149 —111, 299; iv, 394 — forta¬ leza de — 11, 241, 249, 25o, 251, 256, 263, 286, 307, 474; 111, 215, 241, 295, 297, 331; v, 4 ; vi, 268 ; vii, 48, 49, 52, 115, 159, 187 — mouros de —11, 241, 283, 319; m, 195; v, 75, — nau de —v, 5, 7 — pagueres de — m, 24 — ponta de — 1,135 ; 11, 251, 269, 307, 317, — porto de —1, 92; n, 241, 3z3, — el-rei de — 1, 34, 102, 107, 109, 128, i3o, 193, 201; 11, 207, 241, 249, 251, 269, 304, 3o5, 307, 309 a 311, 3i3, 315, 317, 3i8, 320 a 323, 442; m, 98, 107, 198, 240, 271, 290, 291, 294, 297, 298, 299, 364; vi, 264, 274, 275, 289, 290, 296 —embaixa¬ dores d’ — 1, 10; ui, 299, — Príncipe de —11, 3o5, 309, 3io, 311, 315, 318, 319,321. Canaqua — piloto guzarata — 1, 33, 34. Canquam — governador da cidade de, — na China — iv, 429. Canará — província no sertão no reino de Daquem — n, 242, 244—idioma —11,261. Canarias — ilhas — 1, 9, 72; n, 209; v, 23, 32; vi, 157; vii, 149. Canário (Diogo) — 1, 141. Canarim (capitão) —que foi na embaixada do Idalcão — m, 231. Canarins — m, 21,41,42, 106,162, i63, 166, 176, 217, 220, 222, a5i; 419; v, 6; vi, 206; viu, 299 — de fleja — m, 167. Canconchina (enseada de) — iv, 387. Candacia (rainha) — em Etiópia, ascen¬ dente do Preste João — m, 233. Candagorá — capitães do rei de Cochim — 1, 141, 144, 145, i55, 167; 111,92,299. Candaluj— ilha — m, 194; iv, 437, 438, — rei da — m, 292. Canela — 1, 58, 61, 64, 91, 92, 94; 11, 259, 261, 262; ui, 158, 2i5, 35o; viii, 328. Canfora — 1, 35; 11, 456; vm, 227. Cangicar — porto do idalcão — 111, 288 Canlanhede (conde de) — v, 100 — veja: Pedro d’. Cantão — cidade na China a 25 léguas de Nauto — iv, 424 a 433, 447; v, 129, 13o; vm, 310 — Puchana Grande de — iv, 43o — Tutão de — iv, 428. Cão (Codavaz) — mouro, senhor de Cu- queriá — vii, i35 a 139. Cão (Diogo) — vii, 99. Cão (Gaspar) — m, 85, 98, 100, 101, 102, 119, 258, 263 — sua morte em Camarão — ui, 264. Cão (Pero) — 11, 386, 387, 389, 3g3,395,401, 437 — capitão — 11, 416, 424,— capitão da armada do vice-rei D. Francisco d’Al¬ meida — 11, 356 — que levava a bandeira real —11, 220 — sua morte — 11, 437. Capacia (Baixos de)—m, 131, 157; v, 57. Capacote — lugar a duas léguas a baixo de Calecut — 1, 33; vi, 264. Caracem — genro de Coge Sofar — vm, 469. Caramate — lugar e porto da província de Talinate no reino de Daquem — 11, 242. Caranjà— ilha—vm, 208; ix, 545, 546, 547. Cardamono — 1, 91; 11, 289. Cardoso (O) — bombardeiro — 1, 141. Cardoso (Antonio) — vm, 299, 470, 471; ix, 575 — capitão — viii, 296, 302. Cardoso (Francisco) — criado da casa Real, escrivão do almoxarife Jácome Fernandes — m, 190. Cardoso (Lopo) — viu, 311, 315. Carlos V — Imperador e rei de Castela — m, 210, 363; v, 56; vi, 156, 157, 158, 159, 161 a 164; vii, 72, 73, 74, 100, 128; vm, 201, 202, 2o3, 257, 318, 491, 5o5. Carná — regedor de Calecut — vi, 277. Carneiro (Antonio) — vm, 458.
  • índice onomástico 6i3 Carneiro (Gonçalo) — capitão — it, 3o6, 404. Carneiro (Pero d’Alcacova) — escrivão d’el-rei — vit, 23. Carquicios (Martim Inheguez de) — fi¬ dalgo Biscainho, justiça mór e capitão da segunda armada do Imperador — vii, 72 a 75, 95, 96, 101 — sua morte — vm, 100. Carracão (Cristovão Lourenço) — capitão e calafate de Ghaul — vu, 167. Carrasco (Gomes) — capitão — 1, 133. Carrega — ilha — a 7 léguas de Reyxel; viu, 327, 328. Cartajena (João de) — de Burgos e capitão da frota do Imperador —vi, 157, 160, 161 —degradado por Fernâo de Maga¬ lhães — vi, 159. Carlas —111, 307. Carvalhaes (Lopo de) — da fortaleza Ma¬ nuel — 1, 140. Carvalhal (Martim Afonso do) — fidalgo e capitão-mór — ix, 571, $72. Carvalho (Álvaro) —11, 418. Carvalho (Antonio) — fidalgo, filho de Vasco de Carvalho — vi, 3oi, 3o2, 304, 3o5; viu, 280 ; ix, 531 — feitor da casa da Ceita — vi, 3oo, 352. Carvalho (Belchior) —escrivão do embai¬ xador Antonio Pessanha — v, 20. Carvalho (Carlos) — capitão —111, 36t; iv, 462; v, 58. Carvalho (João) — português capitão e pi¬ loto da nau Conceição da frota do Im¬ perador — vi, 157, 162 a i65. Carvalho (Luis Rodrigues de) capitão — vui, 499, 5ot. Carvalho (Manuel de) —fidalgo e capitão — vu, 51, 167, 170. Carvalho (Vasco) — fidalgo e cavaleiro — 1, 196, 197, 200; 11,418; tx, 531 — capitão da armada de Lopo Soares — t, 191 — capitão da nau Santa Maria do Castelo — 11,417. Casado (Francisco da Madureira) — juiz da fortaleza de Gôa —111, 116. Casado (Gil) — fidalgo e cavaleiro—11, 314, 358. Casal (Luis do) — cavaleiro e capitão — vm, 395. Cascaes — 1, 68. Cascavéis — 1, 11. Casco (André) — fidalgo e capitão — 160, 1G7, 170. Cassadas (Fernão d’Alvares) — capitão— VI, 231. Castanheda (Fernão Lopes de) — 1, 5. Castanheda (Lopo Fernandes de) — pai de Fernão de Castanheda, licenciado e ou¬ vidor geral da índia e Gôa — vm, a3g, 2 i4. Castanheda (Rui de) — capitão da segunda armada de Vasco da Gama — 1, 96. Castea (Tanadaria de) —m, 115, 296. Castela — ui, 210, 400; vi, 156, 160, 162, 2i5; viii, 3:8 — coroa de —111, 210 — el- rei de) — 1, 40. Castelhano (Francico) — bombardeiro — 1, 141. Castelhanos — vi, 158, 162 a 166, 170, 171, 214, 215; vii, 9, 71 a 76, 95, 96, 97, 101 a io5, 107, iii a 115, 125 a 129, 175, 176; vm, 197, 198, 199, 201, 203, 204, 229, 257, 258, 269, 317, 318, 319, 32i, 491, 492, 522 vii, 69. Castelo Branco — 1, 6; n, 434. Castelo Branco (D. Pedro de) — vi, 178, 339; ix, 528, 53o, 558, 559 — capitão — v, 129; ix, 556 — capitão-mór — tx, 529, 557 — testemunha — vi, 270. Castelo Branco (Fernão Rodrigues de) — vm, 399, 400; ix, 533 — ouvidor geral — vm, 398 — vedor de fazenda — vm, 477, 479. 484. 49*. 5i5; ix, 534, 56o, 570, 572, 573, 574. Castelo Branco (João'Gonçalves de) — ca¬ valeiro —11, 484 ; iii, 57, 63, 74, 259; iv, 406, 410, 416, 418, 434; v, 7, 8, 33 — al- caide-mór do Pano Seco — iv, 415 ca¬ pitão — iv, 394, 433 — capitão-mór — v, 9 — embaixador junto do Idalcão — 111, 331; v, 35 —escrivão da nau Frol da Rosa — iii, 62. Castelo Branco (Nuno Vaz de) —11, 299, 3oi, 3o2, 331, 332, 335, 345, 346, 348, 369, 371, 372, 379, 38o, 406, 410 a 415, 424,
  • 6i4 Hijloria da Índia 445, 452, 454, 455, 46.S 468, 469, 470; iu, a3, 24, 41, 42, 58, 59, 62, 65, 66, 67, 80 a 84, 86, 90 a 93, 96, 97, 100, 101, 112, 114, 122, 123, 124, 127, i3o, 139, 141, 149 a 151, 190, 194; vii, 86, 87 — capitão — v, 21—capitão da nau S. João — iu, 35, 125 — capitão e feitor do trato de Cam¬ baia para Sofala — vn, 18, 84—ferido —11, 373; ni, 43 — posto a tormentos por D. Francisco d’Almeida — ir, 453 — qua¬ drilheiro-mó r—n, 405, 451; 111, 111. Castro (António Mendes de) — viu, 477. Castro (D. Álvaro de) —111, 259, 336 — ca¬ pitão da armada de Lopo Soares — iv, 395—desaparecido com a sua galé — iv, 396. Castro (D. Antonio de) — fidalgo, capitão- mór do mar e da fortaleza de Maluco — vn, 117, 143. Castro (D. Cristovão de) — filho de Felipe de Castro e primo de D. Pedro de Castro — vi, 219, 220 Castro (D. Estevão del — v, 126. Castro (D. Francisco de) — fidalgo — vn, 57, 63, 170; viu, 246 — capitão — vn, 167 — ferido — vn, 168 — preso — vn, 62. Castro (D. João de) —ix, 56o. Castro (D. Jorge de) — vii, 5i, 57, 63, 80; viu, 196, 199 a 201, 2o3, 204, 326, 328; ix, 56i a 566 — capitão — vi, 339; vii, 176 — capitão da fortaleza de Maluco — ix, 533 — capitáo-mór do mar d’Ormuz — vni, 3a5 — preso — vii, 62. Castro (D. Pedro de) — vi, 218 a 222, 227 — capitão — vi, 178. Castro (D. Roque de) — irmão de D. Pedro de Castro — vi, 220. Castro (Felipe de) — vi, 220; vn, 28, — ca¬ pitão da armada de Lopo Soares — 1, 191 — capitão-mór — vi, 351 — capitáo- mór de Jorge de Castro —11, 3o5, 404. Castro (Fernão de) — capitão — viu, 246, 3o2, 478. Castro (Francisco de) — vn, 108; vm, 522, 523. Castro (Gil de) — cavaleiro e filho de Diogo Borges — vm, 246, 3o 1. Castro (Jorge Barreto de) —fidalgo e irmão de Felipe de Castro — n, 333, 335, 345, 369, 371, 370, 38o, 381, 423,424, 449, 454, 475, 484, 487 — capitão — 11, 3o6 — capitão de Cochim — ir, 419 — capitão da fortaleza d’Ormuz —n, 36o — capitão- mór, por morte do vice-rei D. Francisco d’Almeida —11, 485. Castro (Manuel de) — capitão da nau Santa Maria da Ajuda — iu, 307. Castro (Martim de) — capitão — viu, 194, 2l6, 242, 2(6, 254. Castro (Nuno de) — escrivão da alfandega d’Ormuz — v, 89. Castro (Pero d’Afonseca) —111, 98, 101, 122, 211, 218, 25i, 257, 265,268 —capitão — iu, 110, 179 —capitão da nau Santa Maria d’Ajuda—ni, 126. Castro (Rui Gomes de) — capitão — viu, 325. Castro (Tristão de) — v, 95. Catual — 1, 43, 44, 45, 48 a 57, 61, 76, 81; u, 406, 407; i", '99. ao7- Catual (irmão do) — grande senhor — 1,45. Catabruno (Cachil)—vm, 226, 269, 319, 320 — governador de Geilolo — vm, 225, 260 — el-rei — vm, 382. Catanho (Rafael) — v, 53, 84, 86, 100 — ca¬ pitão— iv, 420; v, 34, 51, 80 — capitão da armada de Jorge d’Albuquerque — v, 23. Catepati —111, 199. Cathayo (Terras do Grão cão do) — m, 232. Califa — cidade na costa da Pérsia — m, 178, 353; v, 98, 112 — fortaleza de—na costa da Arabia em frente d’Ormuz — n, 340; v, 112. Catimo (Nacoda) — mercador — vm, 235. Cativos — ui, 153, 16S, 169, 270, 273, 283 — de Bintáo — 111, 273. Ca'olicos — moeda de oiro que Afonso d’Albuquerque mandou cunhar em Ma- laca — m, 155, 35o. Cavres — terra — vi, 339. Cajicão — capitão-mór do Xeque Ismael — ix, 571, 572. Ceilão — ilha — 1,126; 11, 258, 262, 296,419, 448, 455; 111, 127, 129, 161, 194, 267, 296;
  • índice onomástico 61S IV, 446, 449; v, 8, 14, 23, 35, 37; vi, 295, 296; vii, 33, 116, 139; viu, 276, 277,479, 485 — armada de — m, 19 — fortaleza de v, 3 ; vi, 295 — mouros de — vm, 480; el-rei de —11, 259, 260, 261, 262; iv, 449; v, 3; vi, 295, 297, vil, 116, 479, 480; ix, 53z, 533. Ceitis — 1, 11. Ceini — dignatáiio chinez — iv, 432. Ceivi — letrado que anda sempre com o Tutão — iv, 431. Celebres — ilhas — a 60 léguas da ilha de Ternate —vi, 352, 353, 354 1 VB1, 35o, 382, 383, 522; ix, 561. Cera — 1, 25, 29, 35, 212, 295 ; 111, 2S8. Ceravá — povoação em Ternate — vm, 227. Cernache (Cristóvão de) — capitão — v, 93. Cernache (Fernão ou Fernando de) — v, i3X, 139; vii, 186. Cernache (Frei Cristóvão de) — cavaleiro da ordem do Espiritual de S. João de Jerusalem. Comendador de Poiares — 111, 261. Cernache (Gonçalo Vaz) —vm, 456 a 45S, 464, 466,495, 496 — capitão-mór do mar — vm, 455. Cerneira (Paulos) — capitão — iv. 407,414. Cerniche (Anibal) — fidalgo c cunhado de Gonçalo Pereira —111, 101,121,122 a 124; vui, 210, 237, 238, 258, 2Ó8 — capitão — iii, 98 — enforcado —m, 124. Cerniche (Jerónimo) — capitão da armada de Diogo Mendes de Vasconcelos — ii',83. Cerniche (Manuel) — fidalgo — vi, 320 — sua morte — vi, 223. Ceuta (casa de) — vi, 3oo, 352. Ceuta (Frutos de) —111, 228. Cejiliano (O) — arrenegado, mestre de campo —vi, 3i2, $14, 3i5, 318, 319, 3ai, 327, 329, 33o, 331. Cejimbra —11, 209; vi, 272; vm, 498. Chabregas —11, 458. Chainho (Afonso) — capitão — iii, 189. Chainho (Diogo) — capitão e feitor de Ma- laca — vi, 309 ; vn, 90. Chainho (Garcia) — v, 101, 240, 3o3, 3oy, 3o8, 3op — capitão — v, 34 — feitor de Malaca — v, 23; vi, 238, 3oo. Chale — lugar de Calecut — vi, 358, vm> 270, 271, 274, 277, 435 ; ix, 56o — feitoria de — ix, 56o — fortaleza de — vm, 270, 27S; ix, 559—rio de —111, 3oo; vi, 238; vn, 171; vm, 211. Chale (el-rei de) — vm, 270, 271. Chalião — entre Calecut e Tanor — 1, 143. Chamalotes — 1, 35. Champanel — cidade —111, 32, 317, 319, 320; vm, 36), 363, 364, 365, 379, 49S. Chandagará — 1111, 331. Cltandor — pagode a três léguas de Bardor — vm, 375. Chaneipulá — governador de Cantão — v, 9. 74- Changuacheri — v, 7 5. Chani — 1, 144. Chanoca (Antonio) — tx, 555. Chanoca (Francisco) — mulato de Tomar — ix, 551. Chanoca (Gaspar) — m, 28, 33 — embaixa¬ dor— iii, 27, 51, 23o. Chanoca (João) — capitão —11, 3o6. Chanoca (Lopo) — por alcunha, o Grande —11, 226, 227, 228, 233, 256, 284 — capi¬ tão— 11, 205, 283 — capitão da armada de D. Francrsco d’Almeida —11, 209, 356. Chãos — ilheos —1, i3. Charanaipil — senhorio do rei de Cochim — 1, 186. Charavaipim — ilha — 1, 117. Charcanda — naire que fôra, criado do príncipe Naramuhim — 1, 162. Chatim — vi; 203 — gentio, morador em Cananor — 111, 90, 114. Chatins —111, i33, 153, 154, 155, 197; vi, 204. Chatuá—vu, 162; vm, 429 — rio de —vi, 334; vii, 158. Chaner — que em malabar quer dizer — morto — homens que se vingam e depois se matam — 1, 113. Chaul — principal lugar do rei no de Da- quem a 60 léguas de Diu —11, 283 a a85, 289, 358, 386, 387, 3S8, 400, 432, 441; 11^ 109, 181, 194, 229, 252, 283, 284, 297, 311^ 313, 372; iv, 391, 406, 407, 410, 433 — v, 79, 84, 110, 115, 116, 117, 124, i3o a i33
  • 6i6 Hiftoria da índia — vi, i5i, i52, »54, 178, 2o3, 210, 218, 266, 273, 290, 297 —vii, i3 a 10, 27, 3o, 48, 52, 53, 54, 66, 68, 78, 79, 83, 119, 120, 121, if>3 a 167, 170, 174, 187; vm, 204, 206, 207, 200, 210, 241, 242, 254, 255, 256, 271, 278, 280, 281, 296, 3o2, 3o8, 322, 324, 361, 363, 365, 366, 369, 468,478, 498, 516; ix, 527 a 53o, 542, 552, 575 — barra de — vi, 261; vii, 78 — feitoria de — v, 6 — for¬ taleza de — v, 56, 84, 146; vi, i5i ; vn,' 80; vm, 208 — gentios de — vn, 168 — ilheos de — v, 119 — mouros de — v, t32 — vm, 208, 209, 210—nau de —ui, 267 — rio de — 11, 388, 392; v, 117 — Xeque de— v, i3i. Chaves (Estevão de) — fidalgo e capitão — viu, 393, 395—copitão-mór — vm, 415. Chaves (João de) — meirinho da fortaleza de Cantão — v, 65. Chaves (Pero de) — vm, 448. Cheira dinheiro — veja: Gomes (João). Chericanda — escrivão da fazenda d’el-rei de Cochim — 1, 186, 188. Cherinamascar — mouro —111, 126; v, 73, 75, 76. Chetigão— uma das ilhas Celebres — iv, 446; vm, 275, 3-2, 33o, 380,410,411,477, 486, 517, 5i8, 522 — alfandega de — viu, —477 — barra de — vm, 829 — fortaleza em — vm, 381, 410 — cidade e porto de Bengala — iv, 439, 441; vii, i35; vm, 310, 329, 519 —guazil de —vm, 3.10, 3i2, 313, 314, 275, 277 — lascar de — iv, 442 8446; vn, 136— rio de — vn, i36; vm, 275. Chicliorro (Aleixo de Sousa)—fidalgo, irmão de André de Sousa Chichorro —v, i2i; vm, 362 — capitão — vii, 154—ve¬ dor de fazenda — ix, 577. Chichorro (André de Sousa) — v, 121, 122 — capitão — v, 80, tu. Chichorro (Francisco de Miranda) — ca¬ pitão—111,7, 14—sua morte — m, 12. Chichorro (Henrique de Sousa) — vn, 154. Chilão (baixos de)—11, 258; vm, 481 — parcal de — u, 258. China — 1, 35; 11, 296, 338, 459,460; 111, 137, 156, 209, 231, 321, 357, 358, 363, 364; iv, 38o, 387, 38g, 421 a 425, 427, 432, 436, 447» 44?» 4615 v, 8, 14, 15, t6, 23, 56, 84, 86, 111, i3o; vi, 152, 164, 172, 175, 176, 181, 265, 341; vm, 206, 227, 271, 3io, 346; ix, 538 —ilhas da — iv, 425; vi, 172 — juncos da —111,132, — el-rei da — iv, 386, 424, 426, 427, 430, 431, 432, 448; v, 129; vi, 173 ; vm, 312. Chinaculiale — mouro capitâo-mór da ar¬ mada d’el-rei de Calecut, mercador — vn, 116; ix, 559. Chincheo — cidade — iv, 447, 448. Chins — 1, 127; m, 144, 145, 187; iv, 387, 422, 423, 425, 426, 427, 429, 43o, 4'3i, 433, 4475 v» '6, 17» '29» '3o; vi, 173, 174, i75, 245 ; vn, 121,123; viii, 431 — armada dos — vi, 172 — capitão-mór dos — vi, 173 — capitães dos—11,402; m, i32, i38,139, «56, 157, i5% 187 — juncos dos —111, i36. Chirabipií (Caimal de) — vassalo d’el-rei de Cochim — 1, io5. Chirinamacar — mouro irmão de Mamale- macar— m, 111. Chilor — cidade — no reino de Sanga — vii, 14; viii, 355, 357. Choramandel — província no reino de Da- quem — 1, 126, 157, 190, 196; 11,242,258, 296, 459; m, 129, 197; v, 11, 12, 19; vi, 263; vn, 31, i63; vm, 479, 480, 482; ix, 573 — chatim de — iv, 444. Chorão — ilha —111, 21, 46, 5i, 59,62, 122, 181. Christus (Samara) — maioral do mosteiro de Bisam — v, 44. Cide — embaixador de el-rei de Baçora — m, 366. Cidiale — por alcunha o Torto, mouro granadi, que vivia em Cambaia —11, 399; 111, 32 ; vi, 274 — carta de — m, 368, 369 — embaixador de Meliquiaz — vi, 273. Cira — ilha no porto de Adem — m, 253, 264, 279, 281. Cirne —11, 364. Ciiapor — rio de — v, 5. Cobelo — vm, 246. Cobre — i, 29, 35; n, 289, 385; 111, 93, 107, 1Í8, 23o, 282 — minas de — m, 234 — rio de — 1, i5. Coçaej — posto na costa da Arabia, ao
  • índice onomástico 617 pé do Monte Sinae e a 3o léguas de Suez — ui, 267. Cocagatocal— rei de Cotogão — 1, 143. Cochicale — mulher cristão de Cantão — v, 73, 74- Cochim — i, 67, 84, 86, 89 a 94, 96 a io5, 107 a 121, ia3 a 126, 128 a i3i, 134 a 141, 145, 146, 149, 151, i52, 156 a i65, 167, 169 a 175, 178 a 180, 182 a 186, 188, 189, 191, 194 a 199; u, 208, 2i3, 228, 233, 239, 240, 249 a 252 a 256, 258, 262 a 264, 266, 270 a 273, 276, 282 a 286, 289, 290, 304, 3o5, 307, 323, 386, 387, 401, 403, 416,418 a 424, 434, 441, 442> 447> 448, 45o, 451, 454, 455, 461, 475, 477, 479, 480; hi, 5, 6, • 5, 18, 24, 29, 3o, 72, 81, 83, 86, 90 a 93, 95 a 98, 107, 108, ui a 114, 126, 127, 180, 190, 194 a 198, 212 a 214, 229, 23i, 239, 240, 241, 246, 372, 283, 287, 291 a 297, 299, 3o3, 304, 307, 310, 33o, 331, 363, 364, 368, 372; iv, 383 a 386, 3g3,394,403,406, 419, 420, 433, 435, 436, 437, 449; v, 4, 8, 12, i3, 22, 23, 34, 35, 36, 63, 64, 66, 70, 71, 76 a 79, 81,84, 86, 87, iii, 116, 118, 120, 121, 124, i3o, 131, i33, 146, 147; vi, i52, 178, 180, 226, 227, 228, 236, 237, 257, 260 a 267, 272, 273, 275, 277, 279, 281, 285, 29O, 291, 292, 294, 296, 3l2, 319, 322, 325, 333, 337, 33g, 35o, 35i, 352; vn, 6, 7, 9, 18, 22, 23, 26 a 29,3i a 34, 44 a 47, 54, 57, 58, 63 a 66, 77, 80,84 a 86,88, 90,91, 92, 115, 117, 139, 151, i58, i63, 171, 172, 177, 186, 187,188; viu, 194, 210, 211, 216, 240, 271, 277, 302, 304, 3o6, 310, 324, 335, 371, 406, 407, 428,429, 431, 433,435, 437, 451, 477, 479, 480, 482, 484, 485, 496; ix, 560, 571, 573, 574 —arraial de — 1, 111 — barra de —v, 111; vi, 319, 32o; vu, 177— cartas dos mouros de — vi, 332 — cidade de Santa Cruz de — vi, 270 — fanões de — v, 9 — feitoria de — 1, 115, 135; 11, 444; m, g3 — fortaleza de — Ma¬ nuel— 1, 119 a 121, 135, i63, 166, ig5, 198; 11, 241, 256, 271, 272, 486; iii, 7, 295, 297, 3o4, 331; iv, 449; v, 3; vu, 89; vni, 434 —guerra de — 104, io5 —ilha de — 1, 109, 164, i65, 166, 179 — mercadores de —iii, g3, 196 — mouro de — 1, 83 — mouro mercador de —11, 420 — mouros de —1, i35, 137, 139, i83; ii, 283, 285; 111, 14, 93, 107; v, 75; vi, 337 — naires de — 1, ii3, 119, i58, 182; viu, 431—naus de —11, 386, 393; iu, 197 — passos e naus de —1, 137, 187 — pimenta de — ra, 309 — pôrto de — 1, 99, io3, 114; m, 291; vu, 87 —poléas de — 1, 166 — reis de — 11, 255 — ribeiras de — in, 294 — rio de — 1, 119, 146, 187; 11, 253 ; vi, 227; vii, 177 — Sé de — onde foi enterrado D. Vasco da Gama — vi, 270, 271 — chatim de — servidor de el-rei de Portugal — v, 70. Cochim— (António da Silva de) —vm,2i9. Cochim (Diogo Pereira de) — iii, 272, 292, 293, 294, 302, 3o5 a 307; iv, 396,435; v, 73 a 76, 124 — capitão da armada de Lopo Soares — iv, 3^5 — feitor de Co¬ chim— ui, 304 — junco de — ív, 397, tes¬ temunha — ni, 3o6. Cochim (el-rei de) — 1, 84, 89, 91, 92, 94, 100 a 104, 106, 107, no, ui, 114, 115, 117, 119, 120,121, 122, 125, 128, i31, 135, 137 a 140, 142, 144 a 147, 149, i5o, 151, i52, i55, i56, 157, 160 a i63, i65 a 169, 171 a 175, 178, 179, 180, 182, 184 a 186, 188, iq5, 199; 11, 207, 208, 253, 255, 256, 272, 283, 284, 285, 401, 403; m, 90 a g3, 96, 97, m, 126, 213, 229, 240, 272, 291, 292, 294, 297, 298, 299, 3o8, 309; v, 12, 87; vi, 238, 277, 296. 312; vm, 407, 428, 429, 431 a 435; ix, 573 — caimal — v, i3 — carta d’ — em que concede a Duarte Pacheco o privilégio de Dom, pela sua vitoria sôbre o rei de Calecut — 1, 186 — carta d’ — ao rei de Calecut — 1, 101, 110 — cartas d’ — vm, 437 — naires d’ — ív, 3p5. Cochim (Príncipe de) — 1,145,158,160,178; iii, 90 a 93, 96, 97, 292; vm, 429, 434 — Terceiro — 1, n3. Codamacão — rei de Cambaia — 111, 320, 321, 322, 323, 325, 327. Codava^cão — senhor mouro, vassalo doi¬ rei de Cambaia — vm, 517. Coelho (Aires) — vi, 236, 242, 243, 3oo — capitão — vi, 228 —sua mor’e — v, io5; vi, 3o 1. Tono IV 78
  • 6i8 Hijioria da índia Coelho (Cristóvão) — capitão — vii, 167. Coelho (Diogo) — capitão — vu, 167. Coelho (Duarte) — fidalgo—iv, 426; vi, 172, 23o, 23a; vii, 37, 39, 43, 160, 170 — alcaide-mór da fortaleza deBintão—vn, 42 — capitão — iv, 387; v, 58, 126; vi, 23i ; vu, 35, 167 — capitão-mor—vu, 38. Coelho (Francisco)—escrivão do gover¬ nador Afonso d’Albuquerque — m, 3o3. Coelho (João) — capitão — vu, 116, 137. Coelho (Martim) — ir, 374, 375, 404, 405, 408, 409, 415, 416, 423, 441, 476, 483 — capitão—11,424—capitão da nau S. Cris¬ tóvão — u, 3o6 — capitão da nau que levava o governador Afonso d’Albu- querque a Cananor —11, 475 —sua morte na aguada do Saldanha — n, 485. Coelho (Nicolau) — criado d’el-rei — 1, 9, 10, 16, 17, 18, 20, 21, 32, 43, 54, 55,64, 65, 68, 69, 70, 74,118, 119, 129, i32 — ca¬ pitão da armada de Francisco d’Albu- querque — 1, ii5 — capitão da armada de Pedro Alvares Cabral — 1, 72 — ca- pitão-mór da esquadra de Vasco da Gama — 1, i3. Coelho (Pero) — da caravela Santa Helena. — 1, 141. Cogeaquim — capitão mouro, cativo dos portugueses — iv, 406. Cogeçameçadim (nau de)—1, i5i. Cogerrahmude — capitão d’el-rei de Cam¬ baia — ix, 542. Cogexacoef—embaixador d’el-rei de Cam¬ baia— viu, 363 — Tanadar-mór — viu, 449. Coimbra —11, 207, 434; 111, 196; iv, 894; vi, 157; vu, 121; viu, 470, 5oo. Coimbra (Bispo de) — irmão de D. Fran¬ cisco d’Almeida —11, 207. Coimbra (João de) — piloto de Paulo da Gama —1, 21—piloto-mór da índia — v, 83. Cojeabrahem — mouro persiano — tu, 184. Cojeçabadim — mouro d’Ormuz — vu, 139; viu, 275. Cojeamir — mercador, mouro — m, 23o. Cojeatar — it, 339, ^41, 342, 345, 347 a 355, 36o, 36i, 363 a 366, 368, 37i a 374, 376, 377» 379, 38o, 409 a 411, 414, 415, 423, 473 ? hi, 118, 119, 178, 23o, 311, 329, 337, 355; v, 88; vi, 176 — armada de —a, 344—aguada de — vi, 177 — governador do reino d'Ormuz — u, 337 — guazil d’Ormuz—11,472 — regedor em Calaiate — 11, 340 — regedor d’Ormuz —11, 343. Cojebequim — mouro de Calecut — 1, 82, 83, 96, i3i, 194; m, 5, 6; vi, 238. Cojeçofar — mouro — vin, 239, 322, 365, 378 — capitão d’el-rei de Cambaia — viu, 371—tesoureiro de Mustafa — viu, 217. Cojehamet — mouro escrivão da alfandega d’Ormuz — v, 89. Colaço (António) — capitão — vii, 167, 170. Colaço (João) —11, 418 — capitão —11, 3o6 capitão da nau Judia —11, 417. Colascar — Jau da nação e governador — iii, 190. Colascar — cidade — vi, 3o2, 3o3. Colemute — viu, 428. Columbo — cidade e pôrto de Ceilão — 11, 261; iv, 449, 45o ; vi, 296; vm, 277. Comarcão —111, 232. Comarcões — mouros — vi, 238 — reis — 111, 159, 160, 191; vm, 352. Comitre (O) — viu, 372 — capitão da ar¬ mada de Duarte de Lemos — iv, 411 — da fusta — n, 406. Comorim — 1, 196; v, 65; vu, 119 — cabo de — 1, 34; 11, 208, 258, 403, 467, 471; 111, «94» «951 v, 9; vu, 33; vm, 212, 277,479, 480, 485 — rainhas e príncipes de — v, 68, 72. Comorim (el-rei de) — iv, 404; v, 9 — re¬ gedor d’ — v, 65. Comorim (rainha de) — irmã do rei de Co¬ morim — iv, 404; v, 9, 10, 11, 63 a 67, 73, 74, 75- Compi—governador de cidade na China — iv, 429, 431, 432 — Grande — capitão de guerra — iv, 43o. Condestavel —111, 219, 200. Conhampuça — Deusa chinesa — iv, 422. Conlégarimpo — naire, grande senhor irmão de Unirey pulá — v, 9. Conquão — iv, 431, 432 — Grande —iv, 43o.
  • índice onomástico 6ig Constantinopla — vn, 123; viu, 304, 5o5,5o6. Coraçãncão — capitão — vm, 357. Coraçones — gente branca do mar Rôxo — n, 287; ui, io5, i32, 3i6; iv, 440; vm, 338, 356 — de peleja — m, 167, 168. Coral — 1, 35, 61; u, 261, 289, 459. Corascoras — vm, 383, 389. Corchins — nome da guarda a cavalo do Xeque Ismael —111, 348. Corço (Pedro) — capitão — tn, 332. Corço (Silvestre)—capitão da Galé Grande — m, 332, 335. Cordeiro (Bernardim) — vu, 129; vm, 341. Cor gol — filho de Tuxura e regedor de Ca- laiate — u, 339, 4°7 > v> 52. Cor gol (el-rei de) — n, 340. Corrêa (Aires) — 1, 73, 76, 81, 82, 83, 86, 88, 98, 100; v, 95, 96 — capitão —v, 80, 85, 115 — feitor da armada de Pedro Al¬ vares Cabral —1,72 — sua morte em Ca- lecut — 1, 87; v, 8 —vendedor de naus — h 9- Corrêa (António) — fidalgo, filho de Aires Corrêa e sobrinho de Diogo Lopes de Sequeira — m, 98, i65; v, 14, 15, 20, 21, 57, 59, 60,61,63,79, 83, 93 a 98, 107,112, 113, 117, 120, 121, 124, i3o, i3i, i32, i33, vi, 211, 213; vii, 36; vm, 243, 249, 470, 471; ix, 275 — capitão — v, 80, 85; vn, 167 — capitão de Cochim — v, 4 — ca- pitão-mór — v, 8, 58, 93 — fugido de Calecut a nado, com 12 anos, quando lhe mataram o pae — 1, 88. Corrêa (Cristováo)—capitão — v, 80, 86, 106; vn, 173. Corrêa (Diogo) — fidalgo, cavaleiro, filho de frei Paio Corrêa —11, 210, 218, 220, 223, 226, 227 — capitão —11, 417 —ca¬ pitão da armada de D. Francisco d’Al- meida —11, 209 — capitão do navio Ro¬ sário—11, 447 —salvo de naufrágio — m, 31. Corrêa (Diogo Fernandes)—1,97,100,104; 11, 256; m, 37, u3, 119; v, 22 — alcaide- mór e feitor da fortaleza de Cochim — 1, 140; 11, 256 — capitão — n, 474 — ca¬ pitão de Cananor — m, 114, 167 — ca¬ pitão da nau de carga para Portugal — n, 256 — cativo em Cambaia — m, 85,114 — feitor da segunda armada de Vasco da Gama e Cochim — 1, 96, 197 — sua morte — m, 221. Corrêa (Francisco) — criado do governa¬ dor D. Francisco d’Almeida — 1, 102; m, 287; vi, 3o8; vn, 51 — capitão da armada de João de Sousa de Lima — m, 286 — sua morte — u, 219. Corrêa (Frei Paio) — pai de Diogo Corrêa — n, 209. Corrêa (Gaspar) capitão — v, 97. Corrêa (João) — capitão — viii, 408 — juiz d'alfandega de Chetigão — vm, 411. Corrêa (Jorge) — escrivão do feitor deDio — ui, 282. Corrêa (Lopo) — vn, 5i. Corrêa (Luiz) — cristão-novo e governador de Sugalá — vm, 387. Corrêa (Martim) — do Algarve — v, 5o; vi, i53, 245, 248 a 255; vn, 68, 69,73,76,114, 146; vm, 435 — alcaide-mór — vi, 255, 358 — capitão — vi, i52, 228, 247; vm, 335, 428; ix, 575 — capitão-mór do mar — vi, 255. Corrêa (Pero) — capitão e irmão de Diogo Corrêa — n, 417; m, 178, capitão da ar¬ mada de Duarte de Lemos—11,447 — ca¬ pitão da fortaleza de Socotará — m, 85. Corrêa (Rodrigo) — da fortaleza Manuel — 1, 140. Corrêa (Rui) — v, 96, 98. Corrêa (Vicente) — mestre da nau — vm, 384. Correntes (cabo das) — 1, 96; 11, 229, 23o, 404; ui,* 16. Cortes (Marquês D. Fernando) —vm, 491. Corvinel (Francisco) — fidalgo, cavaleiro e capitão da nau Santiago —11, 479; m, 18—feitor de Gôa — 27, 296. Corvo (ilheo do) — nos Açores — v, 3i. Cosmim (cidade) — Porto principal do reino de Pegu — iv, 387 — v, 16 — mercadores de — iv, 389 — regedor de — iv, 388 — rio de —v, i5, 16. Costa (Afonso Lopes da) — fidalgo e ca¬ valeiro— 1, 196, 197, 200 — 11, 278, 290, 291, 298, 3oi, 324 a 327, 33o, 331, 352,
  • 6 20 Hijlôria da índia 367, 36g, 370, 371, 373, 374, 376, 377,400, 416, 443, 450, 455; in, 121; ív, 398, 400, 434, 435, 436, 447, 453, 454, 459, 461, 462; v, 8, 14, 22, 23; ix, 53i—capitSo —11, 279, 323 — capitão da armada de Lopo Soares — 1, 191; m, 363; ív, 394 — ca¬ pitão de Malaca — v, 21—capitão de Taforeia — n, 277, 33o — um dos capi¬ tães da fortaleza d’Ormuz — n, 36o. Costa (António da) — v, 73. Costa (Gabriel da)—vnt, 266 — escrivão da feitoria de Ternate — viu, 264 — fei¬ tor — viii, 233. Costa (Garcia da) — irmão d’Afonso da Costa — capitão — ív, 434; v, 11 — capi¬ tão da armada de Lopo Soares — ív, 3g5. Costa (Gaspar da) — irmão d’Afonso Lopes da Costa, capitão da nau Esperança — v, 21, 22. Costa (João da) — secretário do governa¬ dor — viii, 399. Costa (Manuel da) — capitão da Galé San¬ tiago — ui, 332 — feitor — m, 259. Costa (Rui da) — capitão — ix, 534 — sua morte — vi, 287. Costa (Rui Gonçalves da) — escrivão da alfandega d’Ormuz — v, 89. Costa (Sebastião da) — viii, 440, 441. Cota (rua da China) — vi, 3i3, 314. Cotangone — vi, 220. Cotano (Álvaro) — barbeiro da fortaleza Manuel — 1, 140. Cote ou Acote—feito rei de Safala por Pero d’Anhaia, e capitão de Sofala —11, 275. Cotialemacar — capitão-mór do mar doi¬ rei de Calecut — viii, 435. Cotogão — entre Cananor e Calecut — 1, 143. Cotogão (el-rei de) — 1, 143, 187. Cot rim (Fernão) — cavaleiro enviado a terra por D. Lourenço para fazer con¬ certo d’amizade com o rei de Ceilão — 11, 262. Cotufoxa — governador — viu, 38o. Coulâo — reino e cidade a 12 léguas de Cochim — 1, 34, 125, 126, 128, 131, i36, 137, 181, i85, 189, 190, 191, 196; 11, 208, 228, 233, 239, 241,242, 251 a 254; iu, 322; ív, 383, 384, 394, 403, 405, 45o; v, 8, 9, 10, 11, 34, 65, 70, 74, 75, 81; vi, 279; vn, >8, 44.49> 86, 90; vm, 277, 479 —cristãos de — 1, 127; v, 66—feitoria de — 1, 149, 185; 1 v, 403 a 405, 394 — fortaleza de — S. Tomé —11, 241; ív, 394, 404; v, 3, 8 a 11, 34, 35, 63 a 66, 70 a 74, 76; vn, 47 — mar de — 1, 190 —príncipes de — v, 72 — pôrto de — 1, 35; v, 70 — regedores de —ív, 384, 404, 405; v, 11, 64, 65 — Rei Grande de —v, 9, 10, 67; el-rei de — 1, 34, 35, 90, 107, 127, 128, i3o; 11,207( 239, 420; ui, 309; ív, 383; v, 3, 8, 10, 11> 76; rainha de — irmã do rei de Coulão — ív, 383, 384, 403, 404, 405; v, 3, 8 a 12> 63 a 66, 68, 72 a 76. Coulete — reino — vi, 259, 264, 282, 283, 285, 288, 296; vm, 437 —baia de — vi, 282 — ponta de — vm, 435. Coutinho (D. Fernando) — N. B. Fernando e não Francisco como está no livro se¬ gundo. Capitão-mór e Marechal de Por¬ tugal—11, 479 a 482; iii, 5 a 12, 14, 15, 86; — sua morte —111, 12. Coutinho (D. Francisco) — veja: Coutinho (D. Fernando). Coutinho (D. Garcia) — filho de D. Duarte d’Atafde—ív, 3g5, 411; v, 88, 134, i35, i38, 139, 143, 14Í, 146; vi, 154—capitão — v, i33, 136, 140, 142 — capitão da ar¬ mada de Lopo Soares; m, 363; ív, 394, — capitão da fortaleza d’Ormuz — v, 52, 115 — sua morte — vi, 176. Coutinho (D. Gastão) — capitão — vm, 322, 324. Coutinho (D. Gonçalo) — irmão de D. Gar¬ cia Coutinho— ív, 398,400; v, 145, 146; viii, 399,439,440, 441; vm, 449 —capitão — vm, 370 — capitão-mór da capitania de Gôa — vm, 304. Coutinho (D. Luis) — capitão da segunda armada de Vasco da Gama — 1, 96. Coutinho (Fernão) — fidalgo e capitão — vn, 155. Coutinho (Francisco Pereira) —n, 284,290; iii, 38, 40, 41, 52, 59, 98, 101, 217 — ca¬ pitão — 11, 283; iii, 7, 18 — capitão da
  • índice onomástico 62 I armada de Cristóvão de Brito —111, 329 — que ficou na guarda ao Passo Seco — in, 34. Coulinho (Gonçalo Vaz) — fidalgo — viii, 205} 438, 439, 441, 442, 472; tx, 528, 529, 53o— capitão — viii, 251 — capitão da guarda do rio de Salsete — viii, 376. Coulinho (Henrique de Melo) — vin, 438. Coulinho (Lionel) — fiidalgo e cavaleiro — I, 196, 200; 11, 278, 291 a 293, 296 a 298, 404—capitão da armada de Lopo Soares — 1,191 —capitão da nau Leitoa a Velha, da frota de Tristão da Cunha —11, 276 capitão-mór da cidade de Brana —11, 295 — capitão da nau Rosa, na armada de D. Fernando Coutinho — 11, 480 — sua morte — m, 14. Coutinho (Lopo de Sousa) — de Santarém — viii, 471, 472, Soo a 5o3, 5to, 514, 5i6 — capitão; vm, 499. Coulinho (Luiz) — fidalgo — m, 18, 19, 34, 40, 74, 77; vn> '7<>; viii, 246, 423 —ca¬ pitão na armada de D. Fernando Cou¬ linho — 11, 480 — capitão — ui, 18, 29, 37; vit, 167 — capitão de Moçambique — ix, 533. Coutinho (Martim Afonso de Melo) —vi, i5i, i52, 172 a 176, 228. Coutinho (Manuel Rodrigues) — fidalgo — vii, 170; vm, 429, 479 —capitão — vn, 167. Coutinho (Rui Pereira) — n, 292, 293 — ca¬ pitão — 279 — capitão da nau São Vi¬ cente, da frota de Tristão da Cunha — II, 276. Coutinho (Vasco Fernandes) — m, 140,204, 243; vi, i52, 174 —capitão — v, 111 — capitão da nau Graça —111, 332 — ca¬ pitão do navio de Sebastião de Miranda — ui, 190— que partiu para a índia com Fernão Peres d’Andrade — in, 25o. Covilhã (Pero da) — criado de el-rei D. João II — 1, 6, 7, 8. Cranganor — 1, 113, 116, 129, i3o, 143,144, 196, 198 — 11, 454; m, 241; yi, 237, 3i2; vn, 161, 162, i63; ix, 573 — cidade de — 1, 3i — cristãos de — vi, 263 — passo de — vm, 407, 428, 432 — rio de — 1, i65; iii, 91; vm, 432, 437; el-rei de — ix, 572, 573, 574. Crasto — veja: Castro. Crato (Prior do) — D. Diogo d’Almeida — 11, 279, 425, 438 — D. Duarte de Meneses — v, 111. Cravo — 1, 17, 26, 3o, 31, 58, 61 ; 11, 278, 279, 4*7, 46o, 461; iii, 190, 201, 210, 275, 35o; vi, i65 a 167, 169, 216; vii, 72, 96, 97» 99, >'4> >28, 129; viii, 233, 234, 236, 258, 266, 318, 321, 328, 353, 413, ^63 a 465, 492, 495, 52i; íx, 533, 538 —ilhas do — iii, 186, 187. Cremenli — rainha do reino de Sanga — vm, 356. Cremenlim — rainha de Cambaia — vn, 14. Crisna — filho de Crisna, rendeiro de Gôa — iii, 26, 107, 161, 166; vm, 427 —ca¬ pitão gentio — iii, 222; vm, 402,420,421, 423. Cristão (Abexim) — cativo — m, 257, 279 naire —11, 272. Cristãos — 1, 25, 26, 40 — pilotos — 1, 29 — povoação de — 1, 24, 25 — rei dos — se¬ nhor de Calecut — 1, 48; ilha dos — veja — Quilôa. Cristovão (D.) — veja: Lima (D. Cristóvão de. Cruj (ilheo da) — onde Bartolomeu Dias, pôs o último padrão, quando da desco¬ berta do cabo da Bôa Esperança, a 10 léguas do rio do Infante — 1, 6, 14. Cuambar — iv, 438. Cubo — ilha — vi, 160, 162 — el-rei de — vi, 162, i63. Cucurrão—reino junto da serra de Mar- singa — 1, 143. Culano — mouro principal da corte d’el-rei de Ternate — íx, biy. Curea (Sibila) — 1, 69. Cunha (Aires da) —vii, 34, 35, 41, 47, 48 — alcaide-mór e feitor de Coulão — vn, 49 — capitão — vi, 179 —vii, 35 —ca¬ pitão de Coulão — vm, 90 — capitão-mór de Malaca — vi, 292, 310. Cunha (Álvaro da) — sobrinho de D. João de Lima — vi, 259. Cunha (Fialho da) — vn, i32, i33.
  • 6 22 Hijlória da índia Cunha (Francisco da) — n, 3g5; vn, i32, 133; viii, 212, 33b — capitão —vi, 226; vm, 194, 242, 296 — capitão da segunda armada de Vasco da Gama — 1, 96. Cunha (Gomes da) — m, 206—embaixador junto do rei de Sião — ui, 188. Cunha (Jorge da) — fidalgo e cavaleiro — iii, 18, 19, 34, 38, 39, 43, 44, 5o, 52, 59, 60, 74 —capitão—18, 29—capitão da nau Madalena, na armada de D. Fernando Coutinho —11, 479. Cunha (Manuel da)—m, 98 a 101, to3, 104, 109, ui a 114, i63, i65; v, i32 — armado cavaleiro por Afonso d’Albu- querque —111, 106 — capitão da armada de Gonçalo de Sequeira — m, 83 — ca¬ pitão de Cananor —111, 108 — guião — ui, i65 — sua morte — iii, i65. Cunha (Nuno da) — filho, mais velho de Tristão da Cunha —11, 228, 3oo, 3oi, 356 a 359, 43o — vii, 139, 149 a 157, i63, 164, 168, 177, 180, 182, i83,186, 188; vm, 193, 227; ix, 574 — vedor da fazenda Real e governador da índia — vii, 149; vm, 194 a 197, 210, 216, 217, 228, 232, 233, a3q, 236 a 245, 247, 249 a 251, 253 a 256, 268, 270, 271, 277 a 281, 284, 295, 299, 3o 1 a 3o3, 3o6, 307, 3io, 311, 318,32i a 324,329, 33o, 335, 339, 34o, 355, 359, 36i a 363, 365 a 371, 373, 374, 378 a 381, 396 a 400, 404 a 406, 410, 413, 421,426 a 428, 438, 439, 441 a 443, 447 a 45i, 453, 455, 467 a 471, 473 a 478, 486, 490, 492, 496, 497, 5o6, 5o8, 509, 515 a 5i8. Cunha (Pero Vaz da) — irmão de Nuno da Cunha e capitão de Gôa — vii, 149 a 157; viii, 421 a 423, 425. Cunha (Rui da) —11, 404, 421, 424; iii, 14 — capitão —11, 3o6. Cunha (Simão da) — irmão de Nuno da Cunha, capitão e capitão-mór do mar da índia — vn, 149, i5i, 180 a i85,193 — sua morte — vii, 186; vm, 194. Cunha (Tristão da) — fidalgo da Casa Real —11, 277, 281, 290, 292, 297, 304, 3io, 321, 322, 323, 356, 357, 359, 386, 404, 418— capitão mór — it, 276, 298 a 3o3 — governador —11, 207 — criado de — capitão da nau Santo António — 11, 276. Cunha (ilhas de Tristão da) —11, 277, 418, 447'» v, 56; vn, 20. Cunha (Vasco da) — vn, 5i, 57, 63; vm, 25o, 3o6 a 3o8, 321; ix, 533,534 — capitão — vm, 242, 296 — ferido—vm, 332, 333 — preso —vii, 62. Cuomal — (Mangate) — ix, 5-jZ. Cuqueria — cidade — vn, i35. Cúria (ilha de) — vi, i65. Curiaraja — mercador de Malaca — iv, 422. Curiale — vila e lugar a oito léguas de Ca- laiate —11, 3a6, 328, 329, 333. Curiva (rei de) — 1, 143. Curivacuil—rei de Curiva — 1, 143. Curlor (el-rei de) — 1, 187. Curuche (Diogo de) — da nau de Duarte Pacheco — 1, 140. Cutiale — capitão-mór d’el-rei de Calecut —11, 356; vi, 256, 257, 264. D Dabul — cidade —11, 283,289,384,400,424, 425,426, 429,431, 432,433; iii, 20,31, 32, 168, i3i, i32, 236, 284,285, 287, 288, 299; iv, 407; v, 4 a 8, 35,124; vi, i5i, i52, 210, 294; vn, 18, 19, 26; vm, 371, 372 — barra de — iii, 288 — cativos em — m, 174 — feitoria em — v, 36 — nau de — iii, 194 — naus de — v, 36 — pôrto de — iii, 110, 23o — rio de —11, 386. Dalá — cidade do reino de Pegú—v, 16. Dalaca — ilha — iii, 277, 403 — Xeque de — iii, 269. Data — pôrto — na costa da Guiné —11, 209. Dalutalão — cidade — vi, 245. Damão — iii, 3i; viii,207,243,3o3,36i, 396, 401 — cidade — iii, 315 — fortaleza — vm, 3o2, 3o3 — vila — vm, 335. Damaso — lugar — vi, 311. Damasco — cidade — vn, 122,123; vin, 504, 5o5 — governador de — iii, 271. Damascos —11, 459.
  • índice onomástico 6s3 Dansechatins — governador de Baticalã, pelo rei de Narsinga — m, 2i5; m, 289. D anda— ilha entre Chaul e Dabul — m, 284, 285, 299; v, 84; vi, 210. Dangim (pano de) — m, 22. Dangoxa = ilha a 40 léguas de Moçam¬ bique— n, 280, 281. Danit — filho de Nahu, que depois reinou -.,8. Dantas (Luiz) — capitão da armada de Cristóvão de Brito — m, 329. Danu — lugar — viu, 322. Daquem ou Dachem — reino e cidade na ilha de Samatra — n, 242, 245, 286, 287, 425, 456; m, 19, 20, 21, 28, 127, 229, 238, 284, 289, 297, 3i3, 316; v, io3; vn, 139; viu, 235, 368, 412 — barra de — vii, 141, 178, 179 — capitães do — vn, 515 — man- gate de — viu, 431—mouros de — vn, 179; el-rei de —111, 287, 3o8, 345; v,— 21, io3, 104; vi, 175, 228 a a3o, 236; vn, 141, 142, 145, 146 a 149, 177 a 180, 487, 488 — embaixadores d' — ni, 345. Dachens — vn, 148; viu, 487 a 489. Dar ama — cabo — m, 20. Darfela — abexim — vi, 200. Dariem — terra do — perto das Antilhas — vi, 166. Darinda — gentio — viu, 312. Darinha — vm, 315. Daroes (Cacil) — filho bastardo do rei de Ternate — regedor e governador — vi, 171, 214 a 217, 247 a 257; vn, 69, 73, 76, 96, 97, 99, 100, 102, io3, 107, 108, iii, 112, 113, 126, 127, 129; vm, 197, 198, 199, 203, 204, 221 a 224, 226, 229, 23o, 232, 237, 238, 261, 320, 321, 414. Davam — reino de — v, i5. David (Prestes) — que governava quando Afonso d'Albuquerque esteve na índia — ui, 236, 237. Dayalo (el-rei Cachil) — rei de Ternate — vm, 22i, 228, 264, 287,289,291 a 295,318, 381, 382, 386 a 389, 417, 459. Deberum — ponta de —11, 296. Debixa — veja: Diu. Decanin — veja: Daquem. Decão — reino de — fronteiro ao de Nar¬ singa —11, 234. Degum — cidade do reino de Pegú — v, 16, '7- Delamixa (Raix) — irmão de Raix Xarafo, filho de Raix Moradim e porteiro-mór d’el-rei d’Ormuz — n, 354, ^72 a ^74; w, 340, 356; v, 113, 114 —guazil da Alfân¬ dega d’Ormuz — v, 89 — guazil de Ca- laiate — vi, 177. Delgado (António)—bombardeiro —1,141. Delgado (Simão) — quardilheiro mór; vn, 57, 62, 63 — preso — vii, 62. Deli — (el-rei de) —111, 321; vm, 338, 3ço; capitães do — m, 316; Monte — na pro¬ vinda do Malabar — 1, 34, 94, 97; 11, 240, 242, 304, 400, 420, 44', 4795 111, '9, 87, 284; iv, 437; vi, 292; vn, 159, 164; vm, 215, 485; —reino — no sertão da índia — ui, 232, 240, 316; vm, 338, 487. Delis — vm, 356. Desaja (Sancotea) — capitão mouro ma- laio — iv, 436. Deserta (Arabia) — m, 266. Destroção — mouro, regedor de Surrata — ui, 316. Deuses ou Pagodes — 1, 39. Diamantes (Pedreira de) — na província de Canará — 11, 242. Dias (Aires) — vi, 199, 201. Dias (André) —11, 452 — alcaide pequeno de Lisboa — 11, 276; v, 56 — capitão — v, 80; vi, 237 — da fortaleza Manuel —1, 140 — tesoureiro de Cochim —11, 444. Dias (Bartolomeu) — almoxarife dos arma¬ zéns de Lisboa, capitão-mór e desco¬ bridor do Cabo da Bôa Esperança — 1; 6, 8, 9, 10, 13, 14, 74 — capitão da ar¬ mada de Pedro Alvares Cabral —1,72. Dias (Cristóvão) — capitão —111, 36i; v, 58. Dias (Diogo) — irmão de Bartolomeu Dias — 1, 58 a 61, 74, 92; ui, 36i—capitão — v, 58—capitão da armada de Pedro Alvares Cabral — 1, 72 — escrivão de Vasco da Gama — 1, 42 — feitor — 1, 56. Dias (Estevão) — iv, 419 — filho do abade da Beira e que foi na frota do Imperador 1
  • Hijiória da índia 624 — vi, 157 — mestre do navio de António Galvão — vii, 21. Dias (Fernáo) — natural d’Arruda e ca¬ pitão — v, 46; ix, 546, 547. Dias (Gaspar) — alferes de Afonso de Al¬ buquerque —11, 3oo, 346, 38i, 451. Dias (João) — da caravela Santa Helena — 1, 140. Dias (Jorge) — almoxarife da fortaleza de Calecut, capitão e sua morte — vi, 342; vii, 167. Dias (Luis) — vii, io5, 106. Dias (Rui) — cavaleiro —111,71, 72 — man¬ dado enforcar por Afonso de Albu¬ querque no rio de Pangim —11, 451; m, 70. Dias (Sebastião) — capitão — vm, 5i5 — vi¬ gário— vii, 84. Dias (Simão) — n, 452, 4S4. Dias (Vicente) — escrivão da alfandega d’Ormuz — v, 89, 135. Diodoro — iii, 325. Diogo (frei) — vigário geral da índia — m, 36g. Diogo (mestre) — vigário —11, 2i3. Diu — cidade —11, 289, 384 a 387, 399, 420, 422, 424, 425, 428 a 431,435,440,44'. 443, 475; ui, 35, 125, 181, ig5, 232, 276, 281, 282, 283, 287, 294, 296, 311, 313, 315, 320, 323; iv, 3gi, 420, 433, 434, 435 ; v, 77, 78, 79, 81 a 86, 107 a 110, 116; vi, i52, 181, 182, 2o3, 273, 274, 297, 347, 351, 363; vii, i3, i5 a 18, 26, 27, 32, 119, i63 a 166, 168 a 170, 182, i83, 186; vm, 193, 195, 204 a 206, 216, 217, 219, 240 a 244, 247 a 25o, 253, 254, a56, 270, 271, 274, 280 a 284, 295, 296, 298, 3o3, 3o6, 307, 3o8, 321 a 324, 337, 33g, 34o, 355, 35g a 363, 366 a 37'. 374, 377 a 379,38i, 3g8,404,405,410, 446 a 451, 468, 469, 473, 474, 476 a 478, 484, 486, 496 a 499, 504, 509, 511, 512, 5i3; ix, 527, 528, 534, 535, 551,552 — al¬ fandega de — vii, i5; vm. 274, 496 — ar¬ mada de — vii, 120, 166 — barra de — v, 23, n5; vm, 307, 334 —capitania de — vm, 254—feitoria de —111, 310, 322, 323 — fortaleza de —111, 231, 283, 284, 294, 319, 320, 322, 323, 324; iv,*453; v, 23,80; vii, 15; vm, 362, 364, 366, 36g, 373, 378, 396, 404, 443, 444, 450, 498, 5i2; ix, 531, 532 — mar de — vm, 514 — mouros de — vi, 181; vii, 119; vm, 254— ponta de — iii, 281; v, 77, 93, 107, 115; vi, 178, 202; vii, i3, 119, 120, 121; vm, 296, 308, 324, 334, 399 — pôrto de — v, 84, 85; vm, 253, 507, 5i3, 5i5, 5i6. Divar — ilha perto de Gôa —11, 288; m, 21,46; iii, 51, 59, 61, 62, 74, 239 — Nossa Senhora de — iii, 62. Dixára — cidade do reino de Pegu — v, 16. Dôce (rio) —vi, 157, 158. Docer — cidade — vm, 357. Dofar — vi, 202, 204, 205; viu, 218—pôrto de — vi, 2o5 — Xeque de — vi, 204. Dogatne — lugar — vi, 253. Dogaie — serra — a 12 léguas de Gôa — iii, 34. Dolaca — ilha — v, 37, 47, 48, 54; vii, 11. Donas (Bento Gomes das) — viu, 403. Dor fação — vila —11, 333 — fortaleza — v, 92. Doria (Cristóvão) —vm, 496, 519. Doria ou Dorian — reino — n, 242, 286. Dormiscão — capitão pérsico —111, 347, 35o, 352. Doubej — iii, 323. Douro — província em Portugal —1,43. Drago (Bartolomeu) — sua morte — viu, 3oo. Drago (Bernardo) — homem de Malaca — vi, 233. Drago (sangue de) — resina, muito abun¬ dante na ilha de Socotorá —11, 296. Draguer — cidade — iii, 345. Draguim (el-rei de) — iu, 202; vi, 3o3 a 3o6. Driação—capitão de Cambaia — vm, 475. Droga — 1, 7, 35, 62; 11, 256, 289, 356, 382, 4'7> 4'9. 4<5<>> 461! ui, 147, 190, 192, 254; iv, 433; vi, 238; vm, 216. Dudia — cidade —111, 157. Dugu/u — pôrto — iii, 265. Dulcinde — reino—xu, 313, 316. Dupe — ilha — vi, 3o2.
  • índice onomástico 62Ç Duperagunatoraja — governador dos Jaos, em Malaca — m, 190. Duriâ — reino — n, 242. E Eanes (Afonso) — bombardeiro — 1, 141. Eanes (Domingues) — bombardeiro — 1, 141. Eanes (Estevão)— mestre de caravela Santa Helena — 1, 140. Eanes (Fernand’)—capitão do bargatim S. Tiago — in, 332 Eanes (Francisco) — da caravela Santa Helena —1, 141. Eanes (Pedro) — carpinteiro da caravela Santa Helena — 1, 140, 141. Eanes (João) veja: Impolim. Eça (D. Bernardo'd’) — capitão — ix, 556, 557. Eça (D. Duarte d’) — capitão — ix, 575. Eça (Diogo Pires d’) — vn, i33, 138. Eça (Fernando d’) — fidalgo, cavaleiro, cunhado de Lopo Vaz de Sampaio — n, 218, 219, 227; vh, 181, i83; viu, 299 — capitão — viii, 242, 296 — capitão da ar¬ mada de D. Francisco d’Almeida —11, 208—capitão de Cochim — ix, 170 — capitão da Galeacea — viii, 278 — capi- tão-mór — vn, 170 —sua morte —11, 224. Eça (D. Francisco d’)—vn, i5o, i5i, 180, 181, i83, 186 — capitão da armada de Nuno da Cunha — vn, 149. Eça (D. Henrique d’) — m, 44; vn, 26, 51, 57, 63 — preso — 62. Eça (D. João d’) — fidalgo, cavaleiro e cu¬ nhado de Lopo Vaz de Sampaio — m, 220, 221, 256, 258, 261, 263, 268, 3oo, 364; vn, 78,82, 89, g3, 115 — capitão — m, 222 — capitão de Cananor — vn, 66,116,158, 164; viii, 194, 212 — capitão de Gôa — ni, 332 — capitão do navio Samorim — vn, 87. Eça (D. Vasco d’) — vn, 5, 24 — capitão da fortaleza de Cochim — vn, 23 — procu¬ rador de Lopo Vaz de Sampaio — vn, 88, 90. Egito — ni, 233; iv, 422; v, 17. Éguas (vale das) — n, 418. Eiras (João d’) — m, 76 a 78 — sua morte - ni, 79. Eivas — v, 128; vi, 245. Equinocial (Linha) — a 320 léguas do pôrto de Dale —11, 209. Eratocol (Paranhira) — senhor de Cranga- nor — 1, 143. Eriacatim — mouro Jan e capitão-mór — viu, 347, 348. Escarlata — 1, 61. Escarlatas — 1, 35. Escolar (João) — escrivão da embaixada de D. Rodrigo de Lima — v, 49; vi, i85. Escovar (Pero d’) — vn, 5i. Escrivão (João) — patrão da ribeira — vn, no. Esmeralda (Fernando de) — bombardeiro — h 141- Esmeril — n, 289. Espanha—n, 246, 338; vi, 184, 195, i65, 214; vn, 96; vm, 311. Espanha (Nova) — vn, 125, 128, 129; vm, 49'» 492- Espanhóis — vm, 311. Especiarias — 1, 7, 11, 25, 26, 31, 34, 35,40, 42, 5o, 52, 58, 62, 63, 69, 71, 82, 85, 88, 89, 94, 100, 102, 186, 189,190, 196; 11, 228, 233, 234, 241, 25o, 256, 263, 282, 283, 289, 295, 356, 38i, 382, 383, 385, 417; m, 6, 17, 114, 137, 147, i55, 160, 161, 192, 195, 196, 215, 23o, 254, 282, 287, 288, 3o8, 3og, 323, 324, 33o; iv, 433; v, 2, 8, 29, 34; vi, 210, 238, 256; viii, 437. Esperas — moedas de prata, mandadas cunhar por Afonso d’Albuquerque — in, 116. £s/»í/iAosn(Gonçalo Gomes)—capitão cas¬ telhano — vi, 214. Espiritai — v, 134, 135, 140. Estaço (Diogo) — de Évora, tio de Diogo Estaço e que levava o guião de D. João de Lima — m, 263 — pagem de D. João de Lima — m, 258. Estacolim — senhor principal de Mogor, condestável e grego de nação — vn, 357. Estanho (aneis de) — 1, 11 — calim como Tomo IV 79
  • 626 Hiftoria da índia dizem os naturaes do Sião — m, 156 — minas de — ui, 234. Estão (João) —11, 371, 372 — escrivão da armada de Afonso d’Albuquerque — u, 324, 443- Estevão — frade — v, 42. Esteves (João) — português — v, 3o. Esteves (Rodrigues) — 1, 141. Etiópia — 1, 7, 71, 74; n, 296; ui, 233, 266; v, 47 — costa de — m, 278; iv, 410, 412, 4i3 —cristandade da —ui, 364 —montes da — ui, 233. Etiópia (imperador da) — veja: Preste. Estevão (D.)—veja: Gama (D. Estevão da). Estreito — ra, 324; iv, 393, 405, 414, 418, 438; v, 36, 45, 47, 5i, 63, 64, 66, 70, 72; vi, 160, 180, 184, i85, 202, 203, 297; vii, 18, 26, 27, 32, 117, 118; viu, 194, 208, 211, 254, 3o2, 322, 364, 367, 371, 437, 478; IX, 534, 573 — fortaleza — m, 256 — mouros do — vi, 2o5 — portas do — a 3o léguas d’Adem — ui, 205, 267, 276, 27S; iv, 395, 396, 398, 410, 439; V, 54; VIII, 322. Estrela (Serra da) — vi, 157. Estremof — vi, 157; vm, 311. Eufr ates — rio — vu, 121. Europa — 1, 5, 69; 11, 246, 264, 38i, 384; 111, 271; iv, 429. Eva — a primeira mulher —11, 260. Evangelho (Fernão Martins) — m, 311; iv, 420, 434; v, 84, 85, 86 — feitor de Diu — v, 77, 81, 83 — feitor de mercadorias em Diu — m, 282. Evora — u, 385; iu, 253, 258, 263, 319; iv, 428, 440; v, 24; vi, 205, 269; vm, 278, 310, 311, 36o, 391, 404. Evora (Fernão Serrão d’) — capitão — vu, 35, 37, 38, 39, 40. Evora (Pero Vaz)— capitão—iv, 414 — piloto — iv, 403. F Faial — ilha do — vm, 373. Falcão (António Lobo) — sobrinho de Ma¬ nuel Falcão —iv, 422, 460—capitão — iv, 386, 387. Falcão (Gonçalo) — filho de João Falcão — vm, 5oi, 5o3, 5io — capitão — vm, 499. Falcão (João) — vm, 499. Falcão (Luiz) — sobrinho de António da Silveira de Meneses—vm, 241 —capitão — vm, 243; ix, 575—guarda-mór de el-rei d’Ormuz — vm, 279. Falcão (Manuel) — fidalgo — iv, 459, 460; vi, 3oo, 3o 1, 302; vn, 96, 101, 107, 108, 124, 125, 127, 176 — capitão — iv, 387; vii, u3 — capitão-mór — vu, 69, 73 — feitor — vu, 75. Faleiro (António) — vi, 2o3, 204, 206, 208, 210. Faleiro (Francisco) — vi, 2o3, 2o5. Faleiro (João) — m, 283. Faleiro (Rui) —vi, i5y, 159. Farão (Antonio de) — sua morte — vm, 333. Faraão (conde de) — vi, 287. Faria (Álvaro de) —comendador—m, 190. Faria (Manuel de) — cavaleiro e escrivão da feitoria de Calecut — vi, i5g, 3i6. Faria (Pero de) — filho do comendador Ál¬ varo de Faria — m, 2o3, 2o5, 207, 242 a 245; iv, 421, 454; vi, 359; vn, 25, 48, 51, 61, 62, 81, 117, i3g, 144 a 149, 177, 178; vm, 299, 441, 442, 443, 449; ix, 561 - ca¬ pitão—iv, 4 36; vii, 83; vm, 296 — ca¬ pitão de Gôa — vn, 26, 92 — capitão de Malaca — vn, 56, 143; ix, 533 — capitão- mór — vi, 338 — ferido — m, 202 — que ficou em Malaca com a galé de Duarte da Silva — m, 190. Fartaque — reino de —11, 297 ; m, 252; vn, i3 — cabo de — na Arábia—u, 276, 296; m, 3o. Fartaque — el-rei de — n, 276, 297, 3o3. Fartaquis — 11, 287, 379; vm, 3o3, 355 — mouros — m, 252. Fartaquis (Melique) — v, i3o. Fatigar — reino do Preste — vi, 201. Farto (Fernão)—cavaleiro, natural d’Obidos — ix, 534, 572. Feio (Lourenço) — capitão de batel—1, t33. Felix — povoação moura a 3 léguas do Cabo da Guardafui — n, 405; m, 238.
  • índice onomástico 627 Fernandes (Álvaro) — capitão da nau Lagos, da frota de Tristão da Cunha — —11, 276. Fernandes (Ana) — mulher do bacharel Fernão Lourenço — vm, 211. Fernandes (André) — natural do Pôrto — n, 397. Fernandes (António) — 1, 96, io3; m, 42 — capitão — vii, 167; vm, 212, 480—um dos capitães da guarda da feitoria de Cochim — 1, 96 — condestável do galeão de Manuel de Sousa — v, 140 — mari¬ nheiro— ui, 344 — cristão-nõvo, criado do capitão da fortaleza de Ormuz, preto malabar — m, 41; v, 145; vm, 484. Fernandes (Baltazar)—criado de D. Antão, capitão de Lisboa — vi, 269, 346 —ca¬ pitão — 515. Fernandes (Braz) — bombardeiro — 1, 141. Fernandes (Dinis) — veja: Melo (Diogo Fernandes de). Fernandes (Diogo) — criado do Bispo da Guarda e na fortaleza Manuel — 1, 140, 141; ui, 172, 212, 287 — adail de Gôa — ui, 162, i63, 172, 176, 211, 238, 239 —fe¬ rido — ui, 177 — embaixador junto do Idalcão — ui, 23i. Fernandes (Diogo) veja: Beja: (Diogo Fer¬ nandes). Fernandes (Diogo) — veja: Corrêa (Diogo Fernandes). Fernandes (Domingos) — vi, 292, 293 — piloto — iii, 280. Fernandes (Duarte) — 11, 223 — cristão- novo — 11, 462 — escrivão da caravela Santa Helena — 1, 140—tesoureiro d’el- rei D. Manuel —11, 222 — escrivão — vi, 240. Fernandes (Francisco) — ourives — v, 24, 28. Fernandes (Gaspar) — cavaleiro, fidalgo — iv, 444, 445 — sua morte — v, io5. Fernandes (Gil) — capitão da segunda ar¬ mada de Vasco da Gama — 1, 96. Fernandes (Gonçalo) — da caravela Santa Helena — 1, 140 — da fortaleza Manuel — 1, 140; ui, 294. Fernandes (Jácome) — criado da casa Real e almoxarife dos mantimentos de Malaca — iii, 190. Fernandes (Jerónimo) — criado de Gon¬ çalo Pereira — vm, 263. Fernandes (João) — 1, 141; vi, 197—aio de Nuno da Cunha —11, 3oi — da cara¬ vela Santa Helena — 1,140 —da fortaleza Manuel — 1, 140 — feitor da armada de Diogo Lopes de Sequeira —11, 467 — vi¬ gário-geral — iii, 3oq. Fernandes (Manuel) — Fidalgo da Casa Real —11, 23o, 281—feitor da armada de Pero d'Anhaya —11, 229—feitor de Sofala —11, 233 — capitão-mór de Sofala — 11, 275. Fernandes (Martim) — matelote e celeiro de el-rei D. Manuel —11, 222. Fernandes (Nuno) — vm, 277. Fernandes (Pero) — vm, 223, 224— da for¬ taleza Manuel— 1, 140 — piloto — v, 106 — sua morte — vm, 266. Fernandes (Pero) — veja: Tinoca (Pero Fernandes). Fernandes (Sebastião) — criado de Gon¬ çalo Pereira — vm, 262. Fernandes (Tomás) — 111, 125 — mestre das obras d’el-rei na índia, e da forta¬ leza de Gôa —11, 307, 3o8, 309; m, 109» 299. Fernandes (Tomé) — piloto — vii, 110. Fernandes (Tristão)—1, 141. Fernandes (Vasco) — veja: Coutinho (Vasco Fernandes). Fernando (el-rei D.) — de Castela — vi, 156. Fernando (D.) — Bispo que fôra frade de S. Francisco — vm, 280. Fernando (D.) — irmão do conde de Fa- raâo — vi, 287. Fernando (D.) — veja: Monrroy (D. Fer¬ nando). Fernando (frei) — 1, 6. Fernando (mestre) — cirurgião —11, 224. Fernandinho — arrenegado — ra, 225. Ferrão (António) — vm, 403. Ferraj (Afonso) — irmão de Gaspar Fer¬ raz — v, 10, 73. Ferraj (Diogo) —vm, 311, 315, 5iy.
  • 628 Hijloria Ferraj (Gaspar) — escrivão da feitoria de Coulão — v, 63, 65. Ferreira (António) — veja: Fogaça (An¬ tónio Ferreira). Ferreira (Francisco) — vu, 5i. Ferreira (Miguel) — fidalgo — m, 3og, 333, 334; ix, 533 — capitão de Baleate — vui, 277— capitão-mór — ix, 532. Ferreira (Nicolau) —m, 333, 336 — embai¬ xador d’el-rei d’Ormuz —111, 329, 332 — língua —111, 367. Ferreira (Pero) — veja: Fogaça (Pero Fer¬ reira). Ferreira (Sebastião) — cidadão de Gôa — vu, 181, 186. Ferreira (Simão) — cavaleiro — vra, 298, 322, 323, 366,373 — secretário — vtn, 244, 274, 363, 369 — sua morte — v, i3i. Ferro —11, 289. Fe\ (mouros de) — 1, 7. Fialho (Afonso) — viu, 440, 441, 472 — ca¬ pitão — vm, 439, 471. Fidalgo (João) — ni, 257, 259, 261; iv, 442, 443,446 — capitão d’ordenança — m, 217, 222, 256; iv, 433. Figueira (Afonso) — capitão — viu, 371. Figueira (Cristóvão de) — tanadar-mór — VIII, 285. Figueira (Fernão) — capitão — iv, 462. Figueira (Henrique) — alcaide-mór e fei¬ tor de Coulão — vii, 28, 44, 49. Figueira (João) — capitão — vra, 391, 415. Figueira (Rui) — vu, 125 — capitão — vu, 124 — capitão-mór—m, 364. Figueiredo (Cristóvão de) — pagem de Afonso d’Albuquerque —11, 371, 373 — tanadar-mór — vra; 374, 375. Figueiredo (Francisco de)—homem de Jorge da Cunha — m, 29. Figueiredo (Jerónimo de)—vm, 435, 436 — capitão — vm, 480. Figueiredo (João de) —vu, 108, Figueiredo (Jorge de) — capitão — vm, 428. Florentim (Bartolomeu) —banqueiro — 1, 6. Flores ou Froles — ilha das — v, 3i. Focate — ni, 253. Fogaça (António Ferreira) — sobrinho de da índia Pero Ferreira Fogaça—111,180, 211, 259, 264; iv, 3g3, 411 — alcaide-mór de Soco- torá—11, 474; m, 85 — capitão —11, 447; iii, 222; iv, 434; v, 36 — capitão da ar¬ mada de Lopo Soares — iv, 3g5. Fogaça (Francisco) — m, 36i—capitão — IV, 462; VI, 23 I, 232. Fogaça (João) — sobrinho de António Gal- vão — vi, 182; vm, 522 — capitão — vi, 181. Fogaça (Jorge) — fidalgo e cavaleiro — u, 314, 358, 359; m, 22, 23, 47, 52, 5g, 65, 67, 71, 72, 87 —capitão—m, 7, 18. Fogaça (Pedro Ferreira) — fidalgo e cava¬ leiro— 11, 210, 214, 471, 473; iv, 393 — capitão —11, 291—capitão da armada de D. Francisco d’Almeida —11, 209 — capitão da armada de Lopo Soares —iv, 3g5 — capitão da Taforea — m, 332 — capitão de Quitão e de Sacotará — u, 447.474 5 ■», 85. Foreiro (António) — capitão e escrivão — vm, 510. Foreiro (Francisco) — escrivão — vm, 5oo, 5oi. Forjão (Diogo) — v, 135. Formosa (Baia) —11, 278. Franjulá (Coje) — Quazil de Reyxel — vm, 3z6, 327, 328. França — viu, 371. França — (el-rei de) — 1, 40; vm, 371. Francês (Pedro Eanes) — capitão — v, 23, 34; vu, 26. Franceses — vra, 355. Francisco (D.) — veja: Almeida (D. Fran¬ cisco d’). Francisco (D.) — veja: Coutir.ho (D. Fran¬ cisco). Francisco (D.) — el-rei de Camiguy, depois de cristão — vm, 5a3. Francisco (D.) — el-rei de Chedigão, feito cristão — vm, 522. Frandes (copos de) — 1, 46; 11, 459; 111, 315. Frangorá — védores da fazenda do rei de Cochim — 1, 141, 144, 145. Franques — nome que os malabares davam aos portugueses — 1,62, 100, 101, io5,1061 108, 109, no, 112, ii3, i5o, i5i, 180; ii»
  • Índice onomástico 629 319, 428, 432; ui, 25, 256, 270, 352; iv, 45o, 451; vi, 189, 224; viu, 368. Freire (Bernardim) — ui, 40, 58, 59, 61, 62, 71, 74, 238, 241 — capitão — 111, 18, 37. Freire (D. Diogo) — capitão — íx, 576. Freire (Gomes) — fidalgo, cavaleiro — m, 16, 17; viu, 334 — capitão do Bretão, da armada de D. Francisco Coutinho —11, 479- Freire (João) — viu, 392, 458, 463, 495 — capitão-mór — vnt, 492 — feitor da ar¬ mada de António d’Abreu e criado da Rainha D. Leonor —111, 187 — pagens de Tristão da Cunha —11, 302. Freire (Lourenço) —camareiro de D. Lou- renço d’Almeida e que morreu com êle no combate com a armada de Mirocem —11, 397. Freire (Nuno Fernandes) — vii, 57,63, 133, i35; viu, 211, 276, 3i 1, 3i2, 3i5, 316, 317, 329,330,486,487, 517, 518, 519 —capitão — vi, 279; viu, 194, 212, 243, 25o — fe¬ rido— vi, 219 — juiz da alfandega de Chetigão — viu, 411, 477 — preso — vii, 62. Freire (Rui) — fidalgo e cavaleiro—11,219, 221, 223, 257; ui, 11 — capitão da armada de D. Francisco d’A!meida — 11, 208 — capitão da nau Garça, da armada de D. Fernando Coutinho —11, 479; 11, 481 — capitão da nau de carga para Portugal —11, 256 — sua morte — 111, 12, 14. Freitas (Francisco de)—capitão de ar¬ mada de Nuno da Cunha — vii, 149; vm, '94. 219- , Freitas (João de) — vu, 15o. Freitas (Jordão de) — fidalgo da ilha da Madeira e capitão — viu, 243, 25o, 321, 402 — ferido — viu, 403. Freitas (Martim de) — capitão — vm, 377, 478. Freixinal — vi, 157. Frio (cabo) —vi, 157. Frocs (Luís) — piloto — viu, 413. Froes (Miguel) — vm, 424 —capitão da for¬ taleza de S. João de Rachol — vm, 376 — feitor de Gôa — vm, 438. Froes (Pero) — vm, 429, 43o. Funchal (bispo do)—vu, 5i, 186. Fundarave — pôrto — 1, 89. Furtado (Afonso)—1, 75, 76, 8t, 82; íx, 573 — feitor de Sofala — 1, 72. Furtado (Duarte) — capitão — v, 58. Furtado (Simão) — cavaleiro — vm, 5o3. G Gá (Antão de) — escrivão de João de Queiroz —11, a3o. Gá (Fernão Alvares de) — v, 115, 141. Gá (Francisco de) — fidalgo — iv, 389 — capitão da armada de Lopo Soares — iv, 3g5. Gá (Tristão de)—cavaleiro e fidalgo da Casa Real — 11, 441 — m, 231, 283, 284, 322, 324; vu, 84, 86, 93, 158; vm, 322 — capitão da armada de Lopo Soares — iv, 395 — embaixador — vm, 3o6, 323 — um dos que escapou do combate com os rumes —11, 397. Gabaliquãma — cidade e pôrto de Ceilão 11, 261, 262. Gabrijerus — fidalgo abexim — vi, 200. Gago (Estevão) — vm, 431. Gago (Gabriel) — capitão — iv, 462. Gale — pôrto de — antigo de Gabaliquãma — u, 262; iv, 449 — senhor de —11, 262. Gales (bombardeiro) — m, 262. Galo (Gaspar) — v, 104, io5; vi, 245 — ca¬ pitão — v, 86. Galvões — apelidos de cavaleiros — v, 24. Galvão (António) —filho de Duarte Galvão, fidalgo —vi, 219, 221, 222, 227; vu, 20, 21, 22, 28; vm, 224, 304, 3o5, 3o6, 369, 397, 398, 405, 406, 420, 451 a 455, 457 a 467, 490 a 495, 519 a 523; íx, 533, 537 a 541, 561 a 566 — capitão—vi, 220; vu, 19, 3o. Galvão (Duarte) — fidalgo — m, i3, 363, 397; iv, 401,403,453; v, 54; vi, 189, 219; vu, 10, 12, 19, 3o, 143 — embaixador junto do Preste — iv, 3g5 ; vi, ig5 — que escreveu uma carta do rei D. Manuel ao rei de Calecut, em Ungua arábica — 1, 78.
  • 63o Hijloria da índia Galvão (Jorge) — fidalgo, filho de Duarte Galváo e que desapareceu juntamente com a galé de D. Álvaro de Castro — tv, 396; vii, 143. Galvão (Manuel) — filho de Duarte Galvão e primo de Pero da Silva — v, 54 — sua morte — vii, 143. Galvão (Miguel) — gentio feito cristão — VIII, 522. Galvão (Rui) — fidalgo e filho de Duarte Galvão — ui, ■ 3, 101, a5i, 257, 280, 281, 283 — alcaide-mór da fortaleza de Ca- nanor —111, 126 — capitão — m, 98, 222, 311, 332 — capitão-mór de João Gomes — ui, 278 — ferido — tu, 221 —sua morte — vii, 143. Galvão (Simão de Sousa)—filho de Duarte Galvão—vii, 139 a 142, 146, 178, 179 — capitão — vii, 35 — capitão de Maluco — vii, 117 — capitão-mór do mar de Ma¬ luco — vii, 10, 35 — sua morte — vii, 143. Gama — veja — Gaspar. Gama (D. Aires da) — irmão de D. Vasco da Gama —iii, 198 — capitão da nau Pie¬ dade, da armada de D. Garcia de No¬ ronha — iii, 180 — capitão da armada de Diogo Lopes de Sequeira, e capitão de Cananor — iv, 453. Gama (D. Cristóvão da) — irmão de D. Es¬ tevão da Gama e filho de D. Vasco da Gama—viu, 3q3, 344, 448 — capitão — viu, 340 — capitão-mór do mar —ix, 571. Gama (D. Estevão da) — filho de D. Vasco da Gama — vin, 304, 3o6, 310, 331, 333, 334, 340 a 346, 411, 412, 451 a 453, 456, 488, 489; ix, 533, 575 — capitão —vnt, 322, 488 — capitão da fortaleza de Ma- laca — viu, 324, 392,467 — capitão-mór do mar — vi, 266; viu, 280 — governador — ix, 570, 572 a 574. Gama (Estevão da) — pae de Vasco da Gama, alcaide-mór da vila de Sines em Campo d’Ourique — 1, 8. Gama (Estevão da) — primo de Vasco da Gama —1,97,98, 100, io3 — capitão-mór — 1, 96. Gama (Fausto da) — feitor de nau—11,232. Gama (Lopo da) — v, 49; vi, i85, 193. Gama (Manuel da)—fidalgo — v, 99 a 101; vi, 286; vii, 92; viu, 331, 332, 340, 343, 344, 488, 489; ix, 573 —capitão — viii, 467 — ferido — vi, 287 ; vm, 333. Gama (Paulo da) — irmão de Vasco da Gama, cavaleiro da casa Real, capitão- -mór —t, 8, 9, 16, 20 a 24, 3o, 31,43, 56, 66, 68, 70— filho de D. Vasco da Gama — vm, 299, 310, 317, 3i8, 324, 33i, 333, 340, 488, 496 — capitão — vm, 296, 489 — capitão de Malaca — vm, 304, 3o8 — capitão-mór — vm, 280 — sua morte — vm, 332. Gama (Vasco da) — capitão-mór e embai¬ xador—1, S a 34,39 a 71,102 —D. Vasco, conde da Vidigueira e almirante do mar Indico —1, 5, 96 a 102, 115, 126; it, 211, 282; iii, 90, 180; iv, 453; vi, 266, 271; vm, 280; ix, 370, 574 — vice-rei — vi, 260 a 270, 272, 273, 290 — sua morte — vi, 270. Gamiopola (ilha de) — v, 21. Ganapatu — iii, 318. Gana — lugar — vi, 253, 255. Gancho (Gonçalo Fernandes) — iv, 460. Ganeares —111, 162; vm, 375. Ganges — rio — 1, 70; iv, 439 a 441; vnt, 311, 314, 379, 408, 486. Garcês (António) —111, io3 — sua morte — iii, 106. Garcês (Cristóvão) — m, 243 — que ficou em Malaca com a capitania de Simão d’Andrade — iii, 190. Garcia (D.) — veja: Coulinho (D. Garcia). Garcia (D.) — veja: Henriques (D. Garcia). Garcia (D.) — veja: Noronha (D. Garcia). Garmetim (ilha de) — do senhorio do rei de Tidore — vn, 129. Gaspar — língua, mouro batisado e que tomou o apelido Gama, dado por Vasco da Gama —1, 66, 67, 89; 11, 2i3, 225, 389, 402, 423; iii, 9. Gastão (frei) — frade de S. Francisco e da fortaleza Manuel —1, 120, 140. Gale — serra — m, 53; vm, 284. Gaufar — uma das ilhas Maldiva — vn, 22. Gaja — iii, 233. Geilolo — uma das ilhas do arquipélago Maluco — vi, 217, 246; vii, 76, 100, io3;
  • índice onamástico viii, 199, 2o3, 204, 221, 260, 293 a 295, 317 a 319, 382 a 384, 389, 418, 419; ix, 538, 562, 566 — cidade — vin, 320 — go¬ vernador de — viu, 197, 2o3, 221, 270; ix, 5, 65. Geilolo (el-rei de) — vi, 171; vii, 96, 100, 113, 125 a 127; viii, 198, 202, 222, 232, 258, 269, 291, 295, 318 a 320, 352, 384, 388 a 390, 394, 419, 460, 461, 463,490; ix, 538, 562 a 565 — armada de — viu, 385. Geilolos — vii, 95; viii, 317, 320, 418. Geito (Pedro Alvares do) — viii, 208. Gelofo (el-rei de) —11, 307. Gelofo — reino —11, 3o6. Gennes (Batista) — da caravela Santa He¬ lena — 1, 141. Gennes (Paulo)—da nau de Duarte Pa¬ checo — 1, 140. Genoeses —11, 384. Gentia (Malabar) —11, 272. Gentil (Afonso) — vii, io5, 106, 108. Gentio (mercados) —111, 2J2. Gentios — 1, 35, 85, 126; m, 187, 190, 196, 197, 208, 23 4, 314, 315, 371; iv, 388, 394, 405, 440; v, 9 ; vm, 373. Gibraltar (estreito de) — 1, 24, 3o; vi, 160. Gico — vila — vm, 392. Gidi — lugar a 14 léguas d’Ormuz — v, 144. Gil (Afonso) —vi, 3o5. Gil (Gonçalo) — um dos que ficou na fei¬ toria de Coulão — 1, 128. Gil (Gonçalo)—veja: Santarém (Gonçalo Gil Barbosa de). Gil (Vicente) — filho de Duarte Tristão — v, 111 — armador — vm, 280 — capitão — vi, 226; vn, 66; vm, 427. Gingibre — 1, 17, 26, 3o, 61, 91, 94; 11, 241, 278, 279, 418; 111, 158, 179, 285, 298, 35o; v, 128; vm, 328; ix, 56o. Girarte (João) — da nau de Duarte Pa¬ checo — 1, 140. Gi^em (Xarife de) — mouro e senhor das terras desde a ilha de Camarão até à ci¬ dade de Judá — m, 267. Gôa — ilha — 1, 7, 66; 11, 288, 388, 3g8,451, 482; m, 17, 19, 20, 22 a 25, 27 a 3o, 33 a 36, 38, 44,47, 5i, 53, 54, 57, 59,68, 69, 70, 63i 82, 84 a 89, 93 a 99, 106 a 121, 123 a 126, 148, 161 a i63, i65, 166, 168,169, 172,173, 177 a 182, 187, ig5 a 197, 211 a 214,217, 220 a 222, 227 a 232, 237 a 241, 251, 252, 268, 271, 285, 287 a 293, 295, 297, 280, 283, 3o2, 304, 3o5, 3o8, 3io, 3i 1, 325, 329 a 331, 35o, 356, 357, 363, 364, 368, 372; iv, 385, 392 a 395, 406 a 408, 410, 414 a 416, 418, 420, 433 a 435, 438; v, 4, 5, 7, 8, 22, 23, 35, 36, 77, 79, 90, 91, 120; vi, i52, 178, 180, 184,203,205,210,211,221, 222, 226, 257, 261 a 263, 265, 266, 271 a 273, 277, 278, 294, 295, 338, 35o a 352, 358, 36a; vii, 7, 9, 18, 19, 22, 25 a 27, 3i a 33, 45 a 52, 56 a 60, 62 a 66, 77 a 80, 82, 84, 86, 91, 92, 117, 121, 149, 158, 159, 164, 165, 167, 170, 172,177, 181, 186, 188; vm, 193, 194, 210 a 212, 2i5, 216, 219, 239 a 241, 243, 254, 256, 270, 274, 277, 280, 281, 284, 285,296, 298, 3o3, 304, 3o6, 307, 324, 334, 335, 33g, 366 a 369, 374 a 377, 401, 402, 404 a 406, 421, 422, 426 a 428, 438, 439, 441 a 443, 449, 474, 475, 477» 496> 498» 5o9» 515, 516; ix, 53o a 533, 542, 551, 556, 559, 56o, 568, 571, 574, 575, 577 — alfandega de — m, 26 — armagem de — vi, 2o3 — barra de —111, 22, 99, 369; iv, 420, 453; vn, 81 — calafate de — vm, 212 — camara de — vn, 9 — capitania de — in, 27; iv, 453 — cerco de — m, 181 — cidade de —11, 398; 111, 19 a 21, 25,28, 79,98, 100, 192, 370; ív, 414; vi, i5i; vii, 28, 187; vm, 507— Espiritai de — vi, 262 — feitoria de — in, 296 — fortaleza de — iii, .18, 120, 124, 251, 33a — guardião de S. Francisco de — vn, 5o —ilhas de — iii, 238, 239 — ilhas de — m, 22 — Jau de — vm, 3o8 — mar de — vi, 263 — mu¬ lheres tomadas em—111, 3o3 — mouros de —111, 24, 89 — pôrto de —111, 290; vi, 177 —rio de —iii, 19, 83, 177; vm, 241 — Sé de — ix, 570 — tanadarias de — ni, 26 — xambar de — iii, 38. Gôa (senhor de) — el-rei de Portugal —11, 234, 287; iii, 27, 297. Godinho (Diogo) — escrivão da feitoria de Cananor — 1, 102. Godinho (Lourenço) —v, 7, 104, 106 — ca-
  • 632 Hijloria da índia pitão — v, 4, a3, 36, 86 — sua morte — v, io5. Godinho (Manuel) — embaixador — viu, 310. Godins (Nuno) — capitão do navio de Gon- çalo de Sousa — n, 467. Godij (Francisco)— capitão — v, 86, 106. Goga (canal de) — m, 284 — cidade — vm, 254, a55. Gois (Damião de) — escritor — m, 233. Gois (Gonçalo Vaz de) — fidalgo e cava¬ leiro—11, 215, 228, 270, 304, 314, 3 ■ 6 — capitão da armada de D. Francisco d’Al- meida — n, 209 — sua morte —11, 317. Gois (Rui da Costa de) — vi, 286. Golfão — perto do cabo de Guardafui — ui, 252; v, 108. Gomeira — v, 32. Gomes (Afonso) — u, 452, 454. Gomes (António) — bombardeiro — 1, 141. Gomes (Estevão) — português, piloto da nau Trindade em que ia Fernão de Ma¬ galhães — vi, 157. Gomes (Fernáo)—escrivão da feitoria de Malaca e capitão de Alcochete — vm, 340, 343 — ferido — vm, 333. Gomes (Francisco) — filho do bispo do Funchal — vii, 186. Gomes (João) — fidalgo e cavaleiro — 11, 314, 434; ui, 218, 25i, 252, 256, 259, 277, 278, 280, 3oo, 3o 1; iv, 393, 408; v, 4 — capitão da caravela Santiago — m, 332 — capitão da armada de Lopo Soares — iv, 395 — capitão da armada de Diogo Lopes de Sequeira — iv, 453 — escrivão da feitoria de Gôa — ív, 392 — por al¬ cunha o Jardo — n, 291, 405; m, 236 — mensageiro português, junto do Preste — ui, 237 — sua morte — ív, 392; v, i3. Gomes (Fernão) — veja: Lemos (Fernão Gomes de). Gomes (João) — veja: Abreu (João Gomes d'). Gomes (Jorge) — mercador — vn, i83,186. Gomes (Pero) — capitão e casado em Gôa — ív, 415. Gomes (Rui) — veja: Azevedo (Rui Gomes d’). Gomes (Rui) — da fortaleza Manuel — 1, 140. Gomes (Tristão) — natural de Sesimbra e cativo de Barba roxa — vm, 498. Gonçalo (frei) — 1, 6 — guardião do mos¬ teiro do S. S. Sacramento — vn, 83. Gonçalves (Adão) — bombardeiro — 1, 141. Gonçalves (Afonso) — natural da serra da Estrela e que foi na frota do Emperador — vi, i57. Gonçalves (André) — cantador (?) — vm, 33o. Gonçalves (Antão) — fidalgo, cavaleiro, al¬ caide de Cesimbra e capitão da armada de D. F'rancisco d’Almeida —11, 209, 217 a 219 —capitão da nau de carga para Portugal —11, 256. Gonçalves (António) — que passou a mouro, com o nome de Hamet — vhi, 358. Gonçalves (Bartolomeu) — mestre da nau S. Gião — m, 280. Gonçalves (Garcia) —111, 3o5, 3o6. Gonçalves (Gaspar)—irmão de Álvaro Fernandes — n, 276. Gonçalves (Gregório) — v, 22. Gonçalves (João)—veja: — Castelo Branco (João Gonçalves de). Gonçalves (João) —11, 434 — bombardeiro — 1, 141 — feitor e língua da embaixada de D. Rodrigo de Lima — vi, i85, 197 a 199,201 —guarda-mór d’Ormuz — v, i38. Gonçalves (Manuel) — mestre de caravela — 1, 141. Gonçalves (Pero) — piloto de Afonso d’Al- buquerque — m, 41. Gonçalves (Rui) — capitão — it, 374, 375 — capitão da armada do vice-rei D. Vasco da Gama — vi, 260 — capitão d’orde- nança —111, 222. Gonçalves (Salvador) — bombardeiro — 1, 141. Gondalim — passo de — m, 20, 22, 34. Gorgia — el-rei de — iit, 348 — embaixa¬ dor d’ — ui, 349, 35o. Gori—fortaleza em Bengala — ív, 441; vm, 408. Goripo (Balapulá) — malabar irmão de
  • índice onomástico 633 Anireypulá — v, 66, 68, 69, 72 a 75 — ca¬ pitão— v, 71. Goripo (Coule) — irmão de Anireypulá e Balapulá Goripo — v, 66. Gormale — capitão da cidade de Chetigão — v, 57; viu, 275 a 277. Goterre — da fortaleza Manuel — I, 140. Goterrej (Diogo) — m, 42 — ferido — ni, 43. Goterrej (Jorge) — cavaleiro castelhano — vii, 127, 128; viu, 293, 295, 353, 391 — capitão — viu, 354, 415. Gouro — cidade na margem do Ganges — iv, 440, 441; viu, 311, 312, 314, 408, 477, 486,487,517. Gouveia .(Diogo) — v, 73. Gouveia (Francisco de)—fidalgo—vm,3a5, 327, 328, 421 a 423, 425, 5i5 —capitão- -mór — viu, 326 — capitão-mór do mar de Diu — viii, 5oo, 510, 514. Grã (Rui Gomes da) — capitão — vn, 188; viu, 242. Grã (Tristão Gomes da) — capitão — vm, 243, 335. Grada —11, 400; iv, 390 —mouros de — 11, 384. Gramaxo (António) —viu, 302, 3i3. Gramaxo (Francisco) — moço da camara da condestrabesa — v, 62. Grambocanora (ilha de) — vi, 255 — el-rei de — vi, 256. Granda (reino de) —11, 207. Grande — ilha — de ponte de Cochim — 1, io5. Grandio (Antonio) — capitão — vui, 340 a 342, 344, 345. Grego (Jorge) —1, 141. Gregos — 1, 186; 11,362; 111, 372. Gregorio (João) —11, 317. Guarda (Bispo da) — 1, 140; 111, 3oi. Guardajum (cabo de) — a 160 léguas para nordeste de Socotará — 1, io3, 114, i32, 134, 201; n, 208, 276 a 278,290, 296, 297, 323, 341, 36o, 367, 370, 374,38i, 404,405, 416, 417, 420, 447, 471, 474; ui, 3o, 85, 178, 238, 252, 281, 311, 33o; iv, 406, 434, 438, 43q; v, 7, 8, 33, 5i, 55; vi, 184, 2o3, 272, 274, 297, 35i; vn, 11, 117; vm, 216, 256, 278, 279. Guadalajarra — sobrenome de um fidalgo castelhano, alcaide-mór da fortaleza de • Cananor, quadrilheiro — u, 235, 251 ,?3i 3. Guajil — ui, 311. Guajis — vm, 411. Guedes (Martim) —11, 468; ui, 140, 203, 205, 206, 209, 242, 243, 248; iv, 425 a 427 — capitão — ui, 204 — escrivão da Ta- forea —11, 465. Guedes (Pero Vaz) — vm, 516. Guerra (Diogo) — vu, 73. Guilão — reino de — na Pérsia —111, 346 — el-rei de — vassalo do Xeque Ismael — iii, 347/ 348, 35o. Guiné —11, 209, 277, 3o6, 375; v, 25, 32 — costa da—u, 418; m, 198; vn, 19, i5o; vm, 372 — descobrimento da — 1, 5 — mar da — 1, 7 — senhor da — 1, 78. Guisado — marinheiro — vi, 342. Guisado (Diogo) —11, 371, 372 — escrivão da Tanadaria d’Antruz —111, 115. Gunape — vi, i55. Guoga — cidade rica na enseada de Cam¬ baia — n, 385. Guores — pôvo de —m, 187. Gusmão (D. Luiz de) — fidalgo castelhano — v, 23 a 25, 28, 3o a 33 — capitão — v, 27 — piloto de — v, 23, 24, 26, 27, 29. Guierre (D.) — capitão da armada de Lopo Soares e capitão de Gôa —111, 363, 364; iv, 392, 393, 394, 406 a 408, 410, 414 a 420, 449 ; v, 5. Gujarates — gentios do reino de Cambaia — 1, 29, 83; n, 386, 466; 111, 136, 151, 283, 315 ; iv, 448; viii, 243, 273, 283, 3o3, 323, 498, 511, 512; ix, 534 — mouro — 1, 82. H Habraão (Rabi) — Judeu português — 1, 7. Habrahem — mouro capitão-mór — viu, 331. Habrahem (Ale) — capitão, mouro — vm, 479- Hagd (Soleimão) — turco, capitão de Pandã — vm, 374, 375, 401, 402, 404, 421. Hagamahmut — mouro tartaro de nação, Tomo IV 80
  • 634 Hiftoria da Índia parente de Meliqueaz — v, 78 a 84, 108, 109, 116, 118 a 122, i3o a i33 ; vit, 15, 16, 26, 27; viu, 241, 242 — capitão-mór — v, 86—capitão de Meliqueaz — v, 117 — governador de Diu — v, 77 — sua morte — viu, 240. Halamo (Sultão) — governador — vm, 38o. Halixá — mouro —vir, 121, i65, 167, 168, 173, 174 — capitão d’armada de Diu — vii, 120 — capitão-mór — vn, 164. Hamet — veja: Gonçalves (António). Hamet (Cide) — capitão de Cojeatar—11, 368. Hamet (Mirzão) — vm, 476. Hamet (Raix) — irmão de Raix Xarafo e sobrinho de Raix Moradim —111, 337 a 341, 343, 344, 356; v, 92, n3, 114. Hamet (Xeque) — v, 112. Hamey — ilha — a 160 léguas de Tidore — vu, 29. Hameçni — vèdor da fazenda do Cairo — vm, 507. Helena (Rainha)—mãe do Preste — n,4o5; iii, 236, 237; v, 40, 47 a 49. Henrique (frei) — da ordem de S. Fran¬ cisco, pregador que foi na armada de Pedro Alvares Cabral — 1, 72, 73, 98 — bispo de Ceuta — 1, 88. Henrique (Infante D.) — 1,69, 78. Henrique (mestre) — médico e cirurgião de Afonso d’Albuquerque — 11, 454. Henriques (Afonso) —111, 285. Henriques (Afonso) — capitão — ix, 575. Henriques (D. André) — vi, 176, 228 a 23o 236 —capitão—vi, 234 —capitão da for¬ taleza de Pacem — vi, 172. Henriques (D. António) — capitão e irmão de D. Sancho Henriques — vi, 231 — sua morte — vi, 235. Henriques (D. Garcia)—vt, 155, 156, 166, 170, 214, 215, 218, 236 a 238, 298, 299, 241, 242, 244, 3i 1, 354 a 358; vu, 68 a 70, 72 a 76, 95, 97, 99 a 114, 123 a iz5, 127, 128, 144, 176, 177; vm, 221, 23o, 237 — capitão — v, 126 — capitão de Maluco — vi, 352 ; vii, 111 — preso — vu, 102. Henriques (D. Sancho) — genro de Jorge d'Albuquerque — v, 53, 101; vi, 172, 175, 231 a 234, a36, 237, 244 — capitão — v, 100 — capitão da fortaleza de Pacem — v, io3 — capitão-mór do mar de Malaca — v, 52, 86; vi, 23o — sua morte — vi, 235. Henriques (Fernão) — vm, 414, 420, 457, 495 — capitão — viii, 354, 395. Henriques (Francisco) — vm, 448, 5ot — capitão e tesoureiro d’alfandega — viii, 5oo, 510. Hercules —11, 43o. Hesperico (Simâo Dias) —11, 450. Hibenáro — nome que os índios e mala- bares dão à ilha de Ceilão —11, 259. Hires (Nicolau) — da caravela Santa He- lena —1, 141, 164. Hoja — lugar a 20 léguas de Melinde— 11, 290 a 292; v, 33, 5i. Holanda (Isbrão d’) — bombardeiro da ca¬ ravela Santa Helena — 1, 141. Homar — Piloto mouro —11, 302. Homem (António) — iu, 367. Homem (Diogo) — m, 340. Homem (Francisco) —estribeiro-mór — VI, |52. Homem (Gaspar) — 1. Homem (Henrique) —filho de João Homem — iii, 259, 261; v, 54—capitão d’orde- nança — m, 222. Homem (João) — fidalgo, cavaleiro, capi¬ tão da armada de D. Francisco d’Al- meida — 11, 209, 226 a 228, 239, 240, 252, 254, 255, 265, 482; v, 54 — ferido —11, 267. Homem (João) — ilha de — n, 227. Homem (Pedro)—irmão do estribeiro-mór Francisco Homem —11, 444; vi, i52, 175 — capitão — v, tu — escrivão da feito¬ ria de Cochim — 11, 444 — sua morte — vi, 174. Homem (Tristâo) — cavaleiro e capitão — viu, 25o, 439, 440 — sua morte — vm, 441. Horta (Jorge d’) — capitão — itt, 37. Hugu/u — pôrto e cidade d’Adem — 111, 253. Humar (Cachil) — sangage da cidade de Maquiem — vm, 232, 237, ibq, 258.
  • Hume (Pedro) — i, 35. Hupe — vi, 24a. índice onomástico 635 l laqueie — ilha — nos Rezbutos— vn, i5, 26, 27. Içarao — gentio, capitão principal d’el-rei de Narsinga — ui, 117, 118 — sua morte — ui, 161. Idalcão ou Hidalcão — Senhor de Balagate —11, 241, 246, 426; 111, 24 a 28, 3i, 33 a 36, 38, 45, 46, 49, 51, 53 a 57, 61, 63, 64, 68 a 70, 73, 77 a 80, 97 a 99, 107, 116, 118, 122, 148, 161, 167 a 169, 181, 182, 192, 214, 216, 217, 225, 227 a a3o, 236, a3S, a85, 287 a 289, 295 a 297, 3oa, 3o8, 33o, 331, 334; iv, 410, 414, 418, 419; v, 35, 36, 90; vi, ai 1, 2i3, 35o; vii, 19, i58, 284; viu, a85, 374, 405, 444 — capitães do — iv, 394; v, 91 — embaixadores do — ui, a3o, a3i — tanadares do — vn, 158 Ilhães (João d’) — bombardeiro — ni, 79. Impolim (João Eanes) — iv, 386, 387 — ca¬ pitão da nau Santo António — m, 242 — feitor de Pacem — iv, 421. Jnabeque — viu, 422. índia — 1, 5 a 8, 14 a 17, 19, 2;, 28 a 3o, 33 a 35, 43, 46, 47, 5o a 52, 62, 65 a 71, 80, 88, 90, 92, 93, 96, 97, 100, 102 a io5, 107, 109, n3 a 115, 120, 125, 128, 131, i32, 134 a 138, 160, 173, 176, 180, 188, 191 a 193, 201, 202; 11, 207 a 210, 214, 224, 229, 23i, 232, 239, 241, 242, 246, 248, 25o, a5i, 258, 263, 270, 271, 274 a 278, 281, 283 a 286, 290, 296, 3o3 a 3o6, 3o8, 322, 338, 339, 341, 355, 356, 375 a 378, 38i a 387, 402, 405, 407, 410, 411, 414 a 421, 423, 425, 43i, 432, 439, 442, 443, 445, 446,449 a 451, 458, 459, 463, 464, 466 a 468, 471, 473 a 477. 479. 481, 483. 486, 393, 399; ni, 5, 7 a 10, 12, ■ 5, 17, 18, 26, 3o, 3i, 46, 47, 53, 82 a 88, 94, 95, 100, 107, 108, 110, iii, ii3 a 116, 118, 119, 121, 126, i32, i33, i36, 138, 147, 148, 155, 157, 159 a 161, i65, 178 a 182, 186, 188 a ig3, 195, 198, 2o3 a 205, 212, 213, 216, 217, 227, 228, 23o, 232, 237, 238, 240 a 243, 245, 25o, 252, 254 a 257, 265 a 267, 270, 271, 276, 277, 281, 282, 286, 287, 289 a 304, 3o6 a 3io, 3i2, 3i3, 316, 318, 322, 325, 327, 329 a 331, 333, 336, 342, 344, 347, 354, 356, 357, 363, 364, 367 a 370, 372; iv, 384, 385, 390 a 392, 397 a 401, 413, 414, 418, 420, 421, 432, 433, 437 a 441, 447 a 45i, 453, 461; v, 3, 4, 8, 9, 14, i5, 16, 19, 21 a 24, 29, 31, 33, 34, 36, 40, 47, 49, 51, 56, 63, 64, 73, 75, 76, 80, 84, 85, 90, 94, 98, 111, 114, 115, 120, 124, 128, 129, 133, i35 a i38, 141, 143, 145 a 147; vi, i5i, 157, i65, 169, 176 a 178, 181, 182, 184, i85, 187, 189, 195, 197, 198, 202, 2o3, 2o5, 209 a 211, 2i3 a 2i5, 221, 223, 224, 226, 228, 234, 236, 243, 245, 260 a 263, 265 a 272, 274, 279, 285, 288 a 290, 295, 296, 3o 1, 309, 310, 314, 338, 340, 343, 347, 349 a 351, 353, 358, 362, 363 ; vii, 5 a 12, 14, 18 a 26, 28 a 31, 33 a 35, 44, 46, 47, 49, 5o, 52, 53, 55 a 57,60, 62 a 65, 67, 68, 74. 77 a 79, 81 a 87, 90 a 97, 99, 102, 107, 109, 110, 116, 121, 128, i3o, i3i, i33, 137, 139, 145, 149 a 15a, 154, 155, i63 a 166, 176, 177, 181, i83, 186, 187; vm, 193 a 197, 204, 210, 2l8, 219, 227, 228, 23l, 232, 234 a 240, 242, 248, 249, 254, 256, 257, 264, 265, 268, 271, 274 a 277, 279 a 285, 286, 297, 298, 3oo, 304, 3o6, 307, 310, 312, 318, 32i, 322, 328, 33o, 334, 335, 337 a 34o, 35o, 35i, 356, 357, 359, 363, 369, 37i a 373, 379 a 381, 386, 389, 392, 396, 397, 406, 410, 4i3, 427, 429, 438,440, 442, 444, 449, 45o, 454, 455, 464 a 466, 468, 473, 474. 477. 478, 480, 484, 486,492, 494, 495, 497.498, 504 a 509, 5i 1; ix, 532, 534, 558, 56o, 562, 564, 570, 572 a 575 — armada -11, 444; ui, 6, 7, i5, 17, 93, 286, 297, 324; v, 23, 35; viu, 193 — armada de turcos — viu, 478 — bispo da — ix, 570 — casa da — v, 23 — conquista da — m, 139, 216, 236 —costa da — 1, 7, 58; 11, 356; iii, 33, 279, 284, 287, 293; vii, 159 — fortalezas da — 111, 295, 296, 368 ; iv, 384, 401 — governança da —11, 476, 478, 479, 481 — história da descoberta e conquista da — 1, 5 —mouros da —1, 17; n, 384,
  • 636 Rijlória da índia 399; ui, 14, 59, 256; iv, 384; vi, 329 — ordenança da —111, 94 — reis da —11, 310, 384; ui, 36, 195; vi, 347 — reis e senhores da —111, 255, 3oi — embaixadores dos reis e senhores da —m, 116, 117 — se-, nhores da —11, 399; 111, 53, 116 — velas da —. 111. 6. índico (mar) — 1, 5, 34, io3; 11, 286; m, 3i3; iv, 439; v, i5; viu, 280 — oceano —11, 242. índio — 1, 52. índios — 1, 22; 11, 228, 385; m, 325 — cris¬ tãos — 1, 29, 52 — mercadores — i, 26; n, 258 — nau dos — 1, 32: Indo — rio — 70; in, 281; .viu, 377. Indobeque — senhor mogor — vm, 357. Infante — rio do — na costa da África a i5 léguas de Moçambique — 1, 6, 9, 12 a 14; vi, 166. Inglaterra (el-rei) — vn, 100. Iogue — gentio que tem uma certa religião ' — 1,89. Isabel (Inianta D.) — m, 240. Isaias — iii, 233. Ismael (Naco da) — chim —111, 187, 275. Ismael (Xeque) — rei da Pérsia — n, 212, 226, 339, 354, 412; iii, 271, 287, 3o8, 33o, 332, 333, 345 a 353, 356, 364, 365; vi, 223 a 225 ; vn, 121; vm, 338; ix, 571, 572 — capitão do — iii, 311 — capitão da guarda do — iii, 35o, 352 —. capitães do —11,413, 414 — carapuça do —111, 23o — carta do — iii, 334, 335 — embaixadores do — n, 354 a 356; iii, 23o, 287, 3o8, 333 a 335, 342, 343, 352, 353, 368; iv, 419; ix, 571 — mensageiro do embaixador do — 111,3o8, 334 — governador do — iii, 345, 343, 349, 35o a 35a — Sofio —11, 339» m> ^46; vm, 337 — vedor do — iii, 35o. Italia — 1, 70; m, 3o3; vn, 123 ; vm, 504. Italianos — 1, 128, 143, 144, 195. Itao — dignatário chinês — iv, 432. J Jacapari (rio de) — a 1 légua de Pacem — v, 61. Jacob (Arraiz) — regedor das terras de Barnagueis — vi, 200, 202. Jácome — cristão de Colascar—vi, 3o3. Jácome (Fernáo) — cunhado de D. Afonso de Noronha — 11, 474; m, 3i, 168. Jambeque (Bedim) — capitão do Xeque Is¬ mael — iii, 353. Janaique — mercador gentio — íx, 545,546. Janebeque — capitão de Açadão — vm, 421. Jangoe — povoação de Sofala —11, 232, 275. Janiceros — vm, 511, 512. Japora — lugar na ilha de Java — m, 242. Jaques — condestável — v, 139. Jardo (O) — veja: Gomes (João). Jaú —11,464; 111,188; iv, 459,460—homem rico —11,461 — grande senhor — iv, 458. Jaús —11, 466, 467; iii, i32, 143, 144, i5i, 153, 154, i85, 188, 190, 193, 194, 204, 206, 242, 247, 248, 25o; iv, 388, 38g; vi, 245; vm, 331 — armada dos — vm, 346— cor¬ sários — vm, 347 — môços — iii, 240 — mouros — vn, 144. Java — ilha — n, 459, 467; 111, í3i, 144', 205 a 207, 209, 242, 275; iv, 458; v, 127; vi, 155, 233, 240, 244; vn, 9, 43, 144; vm, 235, 452, 521 — Jungo da — iii, 143 — el-rei de —111, 158, 242 — embaixador d’ — m, 1Í8 a 160. Jaj (cabo) —1,12. , Jelaltalcbo (Coje) — mouro principal, e grande privado do rei d’Ormuz—v, 145. Jerónimo (D.) — veja: Lima (D. Jerónimo de). Jerusalem — cidade de — 1, 6; iii, 233, 237, 238, 257, 287; vn, 121—casa santa de — 11, 439 — guardião de S. Francisco de — iii, 387 — Santo Sepulcro de — iv, 398. Jesus (companhia de) — 1, 5i. Jesus (Gabri) — vi, 202. João — apóstolo — iii, 237. João (D.) — Rei Grande e el-rei de Butuão — vih, 5a3. João II (D.) —rei de Portugal — 1, 5, 7 a 9, 3q, 191; 11, 299; vi, 156. João III (D.) — rei de Portugal — v, 96, 129; vi, 260, 263, 267, 271'; vn, 109, 117, 149; vm, 243, 268, 274, 304, 339,371,492;
  • índice onomástico 637 ix, 574 — carta de — a D. Duarte de Me¬ neses — vi, 267. João (D.) — veja: Lima (D. João de). João (D.) —veja: Monrroy (D. Joáo de). João (frei) — frade, bombardeiro e vigário — ui, 304. João (O Preste) — 1, 67, 19; 11,405; m, 23a, a33; vi, 180, i85, 186, 190 —senhor da Ethiopia — 1, 5. João (Principe D.) — de Portugal — vi, 119. Jorge — arrenegado, patrão-mór — vui, 364, 504, 5o5. Jorge (D.) — veja: Meneses (D. Jorge de). Jorge (Henrique) —ferido —viu, 391. Jorge (João) —criado da casa real, escri¬ vão da feitoria de Malaca — m, 190. Jorge (Pero) — cavaleiro e capitão—tv, 407, 415; vi, 288; viu, 266. José — Judeu português e. sapateiro que esteve em Babilónia — 1, 7. Jubo — pôrto — viu, 372. Jucefhamet — capitão-mdr do mar d’Ale- xandria — vm, 5o6. Judá — (cidade de) — na Arábia, a 800 léguas das Portas do Çstreito — 1, 7; u, 296, 381, 38í; ui, 237, 255, 266 a 270, 279, 284, 289; iv, 386, 391, 395 a 399,403, 405, 412, 4i3, 4*4 5 v, 7, 22, 34 a 37, 47; vi, 273. 274; vii, 10,12; vm, 217, 36q, 504, 5o5, 507 — el-rei de — vm, 507 — merca¬ dores de — ui, 254 — naus de — ui, 254. Judeu — espanhol, morador no Cairo e que levou cartas dos portugueses cativos em Adem, ao governador Afonso d’Albu- querque — m, 215, 216. Judeus — iii, 254, 3o6. Julfar —11,414 — armada de —11,415. Juna — ilha de — entre a ilha de Gôa e a Terra •firme — m, 20. Jusarte (Cristóvão)—fidalgo —1, 147, 149, 153, 158, 159; vi, 322, 323, 325, 326 — ca¬ pitão — 1, 146 — capitão-mór — vi, 32o — da fortaleza Manuel — 1, 140. Jusarte (Mariim Afonso de Melo) — vi, 180, 245, 247, 248, 298, 299, 31 o, 311; vii, 115, 116, iio a 139, 145; vm, 245, 246, 295, 297 a 3oo, 3o2, 310 a 317, 329, 33o, 477, 486 — capitão — viii, 242, 296 — ca¬ pitão da fortaleza d’Ormuz —ix, 571 — capitáo-mór—vi, 298; vn, 10; vm, 324 — capitão da nau S. Luiz — vii, 87 — ca¬ tivo em Bengala—vn, 170 — ferido — vi, 249. Jusarte (Nicolau)—capitão—viu, 212, 479. L Labaredas (Diogo Fernandes) —11,482. Laçá — cidade no sertão d’Arábia — v, g3. Lacerda (Afonso Pereira de)—capitão — ix, 534. Lacerda (Manuel de) — fidalgo —11, 293, 3oi, 408, 410, 442, 484; 'O, 52, 57, 65 a 67> 7*> 7*i 98, 100 a 102, 104, io5, 122, 123, 179, 180, 182, 196,211,220,241,251, 256, 259, 261, 263 a 265, 268, 3oo; iv, 434 a 436; vn, i5t, i52; vm, 240 —capitão — iii, 7, 18, 222; tv, 420, 449 — capitão- mór—ui, 126; vn, 66 —capitão da nau Cisne — m, 126 —capitão de Gôa —111, ig5 — ferido — m, 106, 221 — que tomou a defesa de Francisco de Tavora —11, 378. Lacre — 1, 35; m, 107, 156; v, i5. Lafamone — almirante do mar, do rei de Malaca—ui, ■ 33, i36, 153, 160, 199, 202 a 205, 209, 210. Lambeamorim — mouro — vi, 312. Lamcgo — 1, 7; m, 261; vm, 423. Lamego (criado do Bispo de) — v, 110. Lamo — na costa d’Africa —11, 402. Lamprea (Francisco) —11, 435, 452. Laqueximena — mouro, parente d’el-rei de Bintão e seu almirante — v, 126 a 128; vi, 23o, 231, 233, 235, 241, 242, 244, 299, 3o 1 a 3o6; vn, 38 a 41; vm, 343, 345 — capitão-mór — vi, 3oo; vm, 342. Lara — n, 368, 376 — cidade de —11, 363; m, 353; vi, 223 — el-rei de — sogro doi¬ rei de Corgol — u, 340, 38o; ui, 356, 364. Laraque (ilha de) — a légua e meia de Ormuz —11, 410, 411. Lares (Pero de) — condestável de Fran¬ cisco de Albuquerque — 1, 118. Lascar — ív, 454, 462; v, 57; vm, 3i5, 3i6.
  • 638 Hijiôria da índia Lascarim — m, 371; vi, ao3. Lascarins—soldados do reino de Narsinga — 11, 247, 248; ui, 25, 26, 310; vi, 204, 2o5 — fazenda dos — m, 25. Latinos — 1, 186; 111, 372. Landim (el-rei) — de Bachão — vm, 391. Langarcão — grande senhor — vm, 469. Lave — povoação de Ternate — vm, 227. Leais — moedas de cobre mandadas cu¬ nhar por Afonso d’Albuquerque — m, 116. Leão (Henrique Nunes de) —11, 375, 404; m, 287 — capitão da armada de João de Sousa Lima — m, 286 — capitão do na¬ vio Santo António —11, 3o5. Leão (João Nunes de) — m, 62. Leão (Jorge Nunes de) — m, 94, 98, 101, 108, 139, 141, 149, i5o, i5i, 153 — capitão da armada de Gonçalo de Sequeira — m, 83 — capitão da nau Enxobregas — m, 125, 193, 221. Leça (João de) — da caravela Santa He¬ lena — 1, 141. Leiria — vi, 15y. Leilão (O)—bombardeiro — 1, 141. Leitão (Fernão) — vm, 460. Letião (Lucas) — vii, 91. Leitão (Nuno) — capitão da armada de Pedro Alvares Cabral — 1, 72, 74. Leme (Francisco Fernandes) — vi, 3oo, 352. Leme (Henrique) — cunhado de Jorge d’Al- buquerque e capitão —iv, 387 a 389; v, 58, 126; vi, 23o a 232. Lemos (António de) — fidalgo — vm, 299, 423, 424 — capitão — 434; vi, 33q; vn, '59, 170; vm, 194, 242, 254, 29Ó, 302, 322, 324—capitão do galeão Reis Magos — vm, 278. Lemos (Duarte de) — sobrinho de Jorge d’Aguiar —11, 418, 447, 448, 472, 475; m, 6, i5 a 17, 3o, 84, 86 a 89, 93 a 97, 108, 111 a u3, 215; iv, 411 —armada de — m, 18 — capitão da naveta Santa Cruz —11, 417 — capitáo-mór —11, 471, 473; 111, 96 — capitão-mór da armada do cabo de Guardafum — 11, 446 — capitão-mór de Cambaia —111,89 — governador e ca¬ pitão-mór desde o cabo de Guardafum até Cambaia — m, 85. Lemos (Fernão Gomes de) — fidalgo — m, 140, 143, 251, 257, 268, 289, 3oo, 348 a 353; vi, 284,291, 295 — capitão — m, 222 ; iv, 434, 462; v, 36, 80; vi, 180, 272, 278, 335 — embaixador junto do Xeque Is¬ mael — m, 345. Lemos (Gaspar de) — 1, 73; vm, 433, 435, 482, 483 — capitão — vm, 428, 480 — ca¬ pitão da armada de Pedro Álvares Ca¬ bral — 1, 72. Lemos (Gomes Martins de) — irmão de Fernão Gomes de Lemos — vi, 2S4, 291 — capitão — vi, 292 — sua morte — vt, 295. Lemos (Simão de) — irmão de Duarte de Lemos e capitão — n, 474. Leôa — ilha — 11, ib-j — serra —11, 229. Lepo — terra — vm, 5o5. Lequia — iv, 447. Lequias (terra das) — tv, 447. Leros — carta — 1, 182. Leste (João) — capitão da nau Santo An¬ tónio, do armada de Pero d’Anhaya — 11, 229 — sua morte — n, 229. Levantisco (cristão) — veja: Gaspar. Licamaou — cidade e pôrto de Ceilão — 11, 261. Lima (António de)— iv, 418; vm, 436 — capitão — vm, 435, 480. Lima (D. Afonso de) — vi, 293. Lima (D. Cristóvão de) — irmão de D. Je- rónimo de Lima — n, 378, in, 99. Lima (D. Diogo de) — vi, 342 — capitão — v, 23, 33g, 344. Lima (D. Fernando de) —filho de Diogo Lopes de Lima—vii, i5o a i52, 154, 156, 157, 186 — capitão — vm, 181 — capitão de Gôa —vm, 194,239 — capitão-mór — vm, 477 — capitão da armada de Nuno da Cunha e capttão-mór do trato de Baticalá para Ormuz — vii, 149. Lima (D. Francisco de) — vm, 488, 489; ix, 573—capitão — vm, 340; ix, 556—fe¬ rido — vm, 332, 333. Lima (Diogo Lopes de) — capitão d’Or- muz — vm, 477. Lima (D. Jerónimo de) — fidalgo —11, 293, 3oi, 378, 410, 415, 442; m, 45, 47, 5o, 51,
  • índice onomástico 63g 52, 57, 65, 67, 74, 98, 99, 101 a io3, 119 — captiSo — ui, 7, 18 —sua morte —111, 104. Lima (D. João de) — fidalgo, irmão de D. Jerónimo e D. Vasco de Lima —11, 292, 293, 3oi, 442; 111, i3, 58, 60, 61, 65, c7> 74» 98, 99» 'O'» '°4> '05, 127 a 129, «38, 140, i5o, 186, 190, 251, 256, 258, 263, 287, 297, 3oo, 3oi; v, 61,81, io3; vi, 257, 259, 260, 277 a 279, 281, 282, 292, 294, 312 a 334, 335 a 338, 340 a 346, 348 a 35o — capitão — m, 222; v, 36, 80 — ca¬ pitão da armada de Diogo Lopes de Se¬ queira — iv, 453 — capitão da fortaleza de Calecut — iv, 453; vi, 227, 238, 256, 258,276—capitão-mórdas naus de carga — iii, 286 — ferido —111, 106 — que ficou com a capitania da nau de Anibal Cer- niche — 111, 124 — que ficou com a capi¬ tania do navio de Manuel de Lacerda — 111, 72 — que partio com o governador de Gôa, capitão da nau Anunciada —111, 125 — que tomou a defesa de Francisco de Távora — ti, 378. Lima (D. Jorge de) — vi, 335, 336, 338. Lima (D. Manuel de) — viu, 324, 488, 489. Lima (D. Miguel de) — filho de D. Afonso de Lima — vi, 276 — sua morte — vi, 293. Lima (D. Rodrigo de) — fidalgo e irmão de D. Fernando de Lima — v, 49; vi, 184, 186 a 202, 351; vu, 11 a 13; vii, 117, 156—embaixador —v, 48; vi, 180, i85 embaixador que foi à costa de Danit — 1, 8. Lima (D. Vasco de) — fidalgo de Santarém — vi, 257, 276, 277, 281, 314, 316, 321, 323, 328 a 33o, 335 a 337, 846; vn, 11, 51; viii, 246, 25o a 252 — capitão — v, 133 ; vi, 152, 181; vn, 7. Lima (FernSo de) — vi, 276, 328; vm, 246 — capitão — vm, 242, 25o, 296, 322 — ca- pitão-mór —ix, 551—capitão d’Ormuz — íx, 533. Lima (João de Sousa) — capitão-mór —111, 287. Lima (Jorge de) — vi, 276, 277, 281, 314, 316, 321, 328, 335, 342, 346; vn, 5i ; vm, 246, 25o a 252 —capitão — vm, 254 — capitão-mór — viu, 256 — capitão de Chaul — viu, 478; íx, 551. Lima (Lionel de) — fidalgo, parente de An¬ tónio de Brito —vi, 246, 25o, 25i, Z5y, 358; vn, 129; vm, 210, 219,227, 228,235, 238,246,3oi, 351, 352,406 — alcaide-mór da fortaleza de Ternate — vn, 176 — ca¬ pitão— vi, 247; vm, 439 —capitão-mór — vm, 38i — sua morte — vm, 441. Lima (Rui Boto de) — viu, 2o5. Lima (Simão de) — capitão — vm, 439 — sua morte — viii, 441. Limatao — vila de — vm, 270. Litiga — ilha — vi, 304. Litiga — el-rei de — sugeito ao rei de Ma- laca e vassalo do rei de Bintão —111,153, 327, 3a8; vi, 3o3, 304, 3o6 ; vn, 42. Lis (António de) —11, 3o2. Lisboa — 1, 5, 6, 8, 9, 20, 57, 70, 71, 72, 80, 93,96, io3, i32, 191, 201,202; 11,216,229, 256, 258, 277, 418,425,447,471,479,480; 111, 17, 180, 198, 212, 256, 266, 269, 277, 284, 286, 33o; v, 24, 28, 3a, 56 111; vi, 157, 256; vii, 131, i5o, 188; vm, 3i 1, 358, 410, 484—alcaide de — m, 261 — arce¬ bispo de — v, 110 — Sé — 1, 202. Lisboa (frei António de) — frade da ordem de S. Francisco e a quem D. João II, mandou por terra a descobrir a índia e foi até Jerusalém — 1, 6. Loais (Frei Garcia de) — frade de uma das ordens ds cavalaria, de Castela, capitão- mór da segunda armada do Imperador — vn, 72 ; vm, 204. Lobato (João) — feitor — v, 91. Lobato (Manuel) — escrivão de feitoria — vu, 44, 45. Lobo (António) —11, 400. Lobo (António) — veja: Teixeira (António Lobo). Lobo (Diogo) — capitão da armada de Gon- çalo de Sequeira — iu, 83. Lobo (D. João) — filho do Barão — vu, 5i; vm, 423, 475 — capitão — viii, 256. Lobo (João de Sousa) — capitão — vm, 214, 335. Lobo (Lopo) — capitão da armada do vice- rei D. Vasco da Gama — vi, 260.
  • 640 Hiftôria da índia Lobo (Manuel) — vn, 76, 97, 124, ia5. Lobo (Nuno) —criado do governodor Nuno da Cunha — viu, 275, 277. Lobo (Rui) — vi, 3oo, 3o8, 352. Lobo (Tomé) — vi, 23a. Lopes (Afonso da) — veja: Costa (Afonso Lopes da). Lopes (Aires) — alcaide pequeno da forta¬ leza Manuel — 1, 140. Lopes (Álvaro) — criado d’el-rei e escrivão da comarca de Santarém — 1, 200. Lopes (Diogo) — vm, 25o, 3aq. Lopes (Diogo) — veja: Sequeira (Diogo Lopes de). Lopes (Fernão) — cavaleiro — m, 174, 228 — vigário da fortaleza de Ternate — vm, 258, 264, 266. Lopes (Francisco) —filho de Rui Lopes — 11, 468. Lopes (João) — matalote e celeiro do Car- dial —11, 222, 223 — almotacé-mór d’Or- muz — v, 89. Lopes (Jorge) — veja: Bixordo (Jorge Lopes). Lopes (Pero) — ix, 55o — capitão — ix, 53o — escrivão — ix, 549. Lopes (Rui) — védor d’el-rei D. Manuel — 11, 468. Lóres (el-rei dos) —111, 348, 35o. Lotir — cidade de —principal da ilha de Banda — vi, 299. Longú — cidade — vii, 114, 146 — mouros de — vn, 114. Loulé (Gonçalo de)—v, 34, 49 a 5i, 120 capitão — v, 34, 80. Lourenço — da caravela Santa Helena — 1, 140 —cristão, cativo de Soleimáo Rex . — iv, 402. Lourenço (D.)—veja: Almeida (D. Lou¬ renço d’). Lourenço (Diogo) — capitão — vi, 231. Lourenço (Fernão) —11, 210 — bacharel — vm, 211. Lourenço (Francisco) — cativo — vm, 36i. Lourenço (Pero) — criado d’el-rei de Por¬ tugal e capitão — v, 71, 73 — capitão do navio S. João —11, 3o6 — da feitoria de Coulão — 1, 128. Lourenço (Rui) —veja: Ravasco (Rui Lou¬ renço). Lourenço (Vasco)—vn, 99, 100; vm, 201 — capitão — vi, 237, 244 — cavaleiro — vm, 200. Loureiro (frei António do) — frade de S. Francisco e custódio da sua ordem na índia — ui, 3i. Lua (ilha da) — hoje ilha de S. Lourenço — 1, 7 — montes da — em Sintra — 1, 69 — no senhorio do Preste — m, 233. Lucão — capitão e grande senhor de Cam¬ baia — viii, 448. Lucas — apóstolo — m, 237. Luia — lugar —111, 268. Luij (Afonso) — capitão — vi, 231. Luiç (André) — cativo — vm, 484. Luiç (D.) — veja : Meneses (D. Luiz de). Luij (Fernão) — 1, 141. Lúiç (Frei) —frade de S. Francisco —111, 28. Luij (João) — condestável da fortaleza de Cochim — vm, 434 — da fortaleza Ma¬ nuel— 1,140 — fundidor d’artilharia, bom¬ bardeiro — m, 281. Luij (Marcos) — 1, 141. Luij (Sebastião) — escrivão da matricula de Cochim — vi, 261; vm, 302. Lulangane— lugar na ilha de S. Lourenço -11, 279. Lutatão — pôrto de — em Banda — vi, 298. M Maça —11, 460; ui, 201, 210, 23o; vn, 97. Macaçar — ilha do — vm, 521 a 523. Macaçares — ilhas de — vm, 382, 383, 522; ix, 537, 561. Macalifa — capitão, mouro — ix, 56a. Maçana (ilha de) — vi, 162. Macar (Cutiale) — capitão, mouro — vm, 479- Macar (Pate) — vm, 480. Maçarelos — da caravela Santa Helena — 1, 141. Maçari (Mafamede) — m, 215. Maçarquibir —11, 217.
  • índice onomástico 641 Maçãs — ilha das —m, 186, 187 —praia do rio das — 1, 70. Maçãs (Luiz de) — bombardeiro — 1, 141. Macedo (Diogo de) — vn, 51 — capiião-mór do mar de Malaca — vn, 146. Macedo (Dr. António de) —vm, 254. Macedo (Henrique de) — vn, 5i, 118 a 121; viu, 299—capitão — v, 36, 84; vi, i52, 180, 339; vn, 7, 139; vm, 242, 254, 296 — capitão do Samorim Grande — vn, 94. Macedo (João Mendes de) — fidalgo — vu, 5i; vm, 423 — capitão — vm, 194, 243 — sua morte — vi, 323. Macedo (Manuel de) — irmão de Nuno Fer- nandes de Macedo, fidalgo —v, 81, 109, 117, 119, 121, 124; vi, 273, 281, 297, 340, 349, 35o; vn, i3, 33, 60,182,183, 186; vm, 323, 36o, 370, 423, 424, 470 — capitão — v, 84, 107; vi, i52, 226, 339; vn, 7, 11, 181; vm, 322. Macedo (Nuno Fernandes de) — v, 77, 81, 108, 109 — capitão — iv, 434; v, 3o, 80, 84, 107, 180. Maceira (ilha de) —11, 406. Macendo (cabo de) —11, 415. Machado — pagem de Afonso d’Albu- querque —11, 324. Machado (Francisco) — cristão-nôvo, na¬ tural de Torres Novas, alfaiate —111,208. Machado (Gaspar) —11, qi3; vn, 33, 34 — escrivão da Tanadaria de Castea — ui, n5. Machado (Henrique) —11, 434 — sua morte —11, 436. Machado (João) — degredado que fôra na armada de Pedro Alvares Cabral e que ficou em Melinde — 1, 76; 111, 35, 5o a 54, 56, 64, 65, 68, 69, 73, 78 a 80, 168 a 170, 172 a 176, 211, 225, 228 — capitão do Idalcão — m, 36 — capitão-mór — m, 251 capitão e tanadar-mór da ilha de Gôa — iv, 408 — sua morte — iv, 409. Machado {Luiz) — filho do Dr. Lopo d’Arca — vi, 265 — ferido — vi, 219. Machado (Manuel) — capitão de alabar- deiros — vn, i52. Maçua — m, 265, 268 a 270; iv, 402, 403, 414; v, 45, 46, 48; vi, 184, 189, 190, 192, Tomo IV 197 a 202, 351; vn, 12 — fortaleza de — m, 265, 26S, 270; vi, 191 — ilha de — 111, 277; v, 36 a 39,47,49 — lugar de — vi, • 85 — pôrto de —ui, 233; iv, 401, 453; v, 38, 40, 41, 43; vi, 180; vn, 11. Madavã — cidade de — principal de Cam¬ baia— ni, 317,318,320, 325; vm, 379,396, 476. Madavão — ix, 535, 542. Madeigascar — nome antigo da ilha de S. Lourenço — 11, 258. Madeira — ilha — u, 209, 362, 418; m, 144 ; v, 54, 88 ; vi, 286; vm, 25o, 402, 510. Madeira — língua — 1, 28, 90. Madeira (Álvaro) — piloto de Constati- nopla — vm, 5o5, 5o6. Madeira (António) — m, 3o2, 3o5, 3o6. Madofar (Raix) —irmão de Raix Hamet — ui, 338, 340 a 342. Madofar (Soltão) — 4.0 rei de Cambaia — vn, 14. Madraçal — v, 135. Madre Faba — v, 84, 107,111,116; viu, 322 — fortaleza —v, 83, no, 112, u5-»-rio de — a 5 léguas de Diu — v, 82, 83; vm, 5i2, 5i3. Madureira (Álvaro da) — que passou a mouro e capitão-mór de Miralmelique— iv, 407. Madureira (António de) — vm, 467, 468. Madureira (Francisco de) — 11, 434; m, i65. Majamede— 1, 22, 34, 97; 11, 261, 266, 335, 364, 384 ; m, 236, 274, 304, 329, 3q6, 347; vm, 36o — lei de —11, 337. Mafamede (Cide) — mouro deTunis —11, 291, 405. Mafamede (Coge Alachatim) — embaixa¬ dor de Mirabuçaca — m, 365. Mafamede (Tuão) —m, 243 — mouro en¬ teado de Raja Sanaya — vu, 180; vm, 4i3 — capitão — vu. 36 — capitão-mór — vm, 333 — capitão-mór do mar doi¬ rei de Ugentana — vm, 345, 412. Mafamede (Xeque) — de Chaul — v, i3i, i3a. Magadoxo — cidade de — a 18 léguas da cidade de Brava, na mesma costa — 1, 81
  • Hijioria da Índia 642 67 ; II, 237, 295, 405, 471, 472; m, 288; V, 45, 49- Magalhães (António de) — irmão de Pero Varreto de Magalhães — ir, a3o. Magalhães (Estreito de) — vi, 353 ; vn, 71. Magalhães (Fernão de) — n, 463, 465, 468, 4-,o; ui, 18, 210; v, 56; vi, 156, 158 a 161, 163, 170; vii, 72 a 74— alcaide-mór — ix, 549 — armada de — vi, 214, 215 — ca- pitão-mór da frota do Imperador — vi, 157 — descobridor do estreito de Todos os Santos—ui, t6 —sua morte — vi, 162. Magalhães (J0S0 de) — feitor e alcaide- mór — íx, 543. Magalhães (Jorge de) — sua morte — iv, 409. Magalhães (Martim de) — natural de Lis¬ boa, môço da camara d’el-rei de Por¬ tugal e que foi na frota do Imperador -vi, i57. Magalhães (Pero Barreto de) — fidalgo e cavaleiro, por alcunha o Leão — o, 232, 270, 271, 357, 358, 386 a 3gi, 393, 395, 396, 398, 400, 424, 425, 427, 429, 437, 483 a 485; viu, 195 — capitão — ii, 209, 290 — capitão da armada do vice-rei D. Fran¬ cisco d’Almeida — u, 356 — capitão-mór —11, 229, 416 — capitão da nau Santo Espírito —11, 229 — sua morte —11, 397. Mahmude (Sultão) — rei de Cambaia — vai, 474. Mahmudxá — irmão de Mançarotexá — viu, 311. Mahmuhdcbeque — vm, 5o6, 5i3, 514. Mahmetxá (Patxá) — rei d’Ormuz e filho de Raix Safardim — v, 146. Maim — iii, 284, 323 — fortaleza em — iu, 284 — ilha de — íx, 555 — rio de — vii, 164, 169. Maimame — mouro tido por santo pelos reis da índia — n, 3o5, 384, 386, 290 — sua morte —11, 3o 1. Maior (Campo) — v, 54. Malabar — 1, 39, 44, 65, io5, 106, 109, 126, i3o, 171, 180, 186; 11,208,242,289,296, 382, 456, 459; ui, 86, 254, 294, 3i5; vi, 266, 293 ; vii, 43 ; vm, 211, 451, 479, 485 ; íx, 574 — costa do — 1, 34, 89 a 91, to3, 263, 282, 386, 387, 417, 486; iv, 437; vt, 237, 256, 263, 273, 35i, 358; vii, 6, n, 115, 164, 170; vm, 194, 216, 270, 480,484 — idioma —1, 60; 11, 261—reis do —1, 35 a 37, 198; 11, 245, 25o, 276; vm, 407, 428. Malabares — 1, 36, 39, 40, 47, 60 a 63, 82, 83, 113, 126, 129, 166, 173, 187; 11, 234, 249, 264, 287, 289, 3o5, 432, 439; 111, 94, 98, 133, 161, i63, 166, 194,214, 217,218, 220, 222, 251, 277, 339; iv, 400; v, 5; vi, 226, 2G4, 265, 278, 319, 3jo, 358, 359, 361; vii, 22; vm, 482, 485, 5o8 — mouros de — vi, 184, 274, 292, 297 — nau de — v, 65 — paraos — vn, 187 ; viii, 256 — piões — — m, 164. Malaca — u, 256, 296, 338, 447, 454 a 457, 461, 465 a 467, 469, 470, 474; m, 19, 83, 84, 88, 96, 108, 119 a 122, 125 a 127, 129 a i3i, i36 a 139, 143 a 145, 147, 148, i5i, 153 a 161, 167, 182 a 193, 195 a 197, 199, 202 a 211, 2i3, 231, 239, 242, 243, 25o, 272 a 276, 283 a 284, 292, 294, 3o3, 304, 3o6, 309, 3io, 3i2, 3i3, 322, 324, 327 a 329, 344, 35o, 357 a 36i, 363, 372; iv, 384, 386, 387,38g, 421, 422, 425, 426, 435,436, 447, 448, 453 a 456, 458, 461; v, 4, 8, 14, i5, 21 a 23, 52, 57, 58, 61,63, 79 a Si, 84, 86, 98, 99, io3, 106, 125, 127 a i3o; vi, i5i, i52, i55, i63 a i65, 169, 172, 174, 175, 180, 2i5, 216 a 218, 228, 23o a 239, 242, 244, 245, 25o, 260, 291, 292, 298 a 304, 3o6, 307, 309 a 3i 1, 351, 358; vii, 5, 6, 9, 10, 19, 25, 33 a 36,43, 44, 52, 56, 64, 69> 7', 76, 91, 92,96, 97, 99, 100, 104, 112 a u5, 117, 123, 127, 128, 139, 140, 144 a 147, 149, 170, 175 a 180; vm, 196, 210, 219 a 221, 227, 234, 268, 280, 285, 286, 304, 309, 317, 318, 324, 331 a 334, ^40, 346, 349, 38i, 392, 407,4" a 413, 451 a 454, 456, 463, 467, 477, 486 a 489; ix, 533, 561, 577—alfandega de —íx, 577 — ar¬ mada de — iii, 119 — baluarte — m, 119 — cativos em — m, 134, 195 — cidade de — no reino de Sião —11, 417,458 — costa de — v, 14; vii, 179 —embaixadores dos reis comarcãos de — m, i5q — feitoria de —m, 294; iv, 448; vm, 344 — forta-
  • índice onomástico 643 leza de — ui, 182, i83, 203, 207, 208, 247, 248, 25o, 273, 275, 3i3, 357, 358; v, 14, 125; vn, 179, 180; viu, 3io, 487— gentios de — m, 153 — guzarates de — tu, i35 — ilha de — 1, 126 — mandarins—m, i83 mercadores de — m, 144, 184, 191, 197 — nau de — in, 187 — pôrto de — 11, 460; 111, 199, 244—ribeira de — ni, 204 — Ti- mungão de — m, 203 — el-rei de — 11, 460, 461; iii, 120, 128, i3o a 133, i35 a i38, 142 a 144, 149 a i5i, 153, 154, 160, 182, 184, 186, 188, 191, 202, 207, 209; VII, 42 —príncipe de — m, i5i, i53, 154. Malaia — língua —11, 458; vm, 416. Atalaio — cidade — viu, 291. Alalaios —11, 461; 111, 144, 145, 147, i5i, 153, 247 ; iv, 454; vi, 241; vu, 36,40, 179, 180, 144. Malaques — moeda de oiro que Afonso de Albuquerque mandou cunhar em Malaca — iii, i55. Maldiva (ilhas de) — 1, 3q, 126; 11, 255, 256, 258, 405, 420, 471; m, 194, 196, 198, 214, 215, 272, 292, 3Ô4; iv, 394, 406, 433, 437 a 439» 44' i v, 4, 13, 56; vi, 272, 289; vn, 6, 10, 21, 22, 34, 94, i63 — el-rei de —iv, 437 — embaixador das ilhas de — m, 198, 214 —fortaleza em — v, i3. Alalhorquim (Gaspar)— capitão da armada do Vice-rei D. Vasco da Gama — vi, 260, 261. Atalu (Diogo Quaresmas) — capitão — vn, 167. Maluane (ilhas de) —11,375. Maluco (ilhas de) — ou do Cravo — ii, 459; m. 16,186,187, 209, 210, 275; iv, 458,461; v, 56, 84, 86, 106, 125, 127; vi, i56 a 158, 160 a 166, 169, 214, 236 a 238, 244, 245, 256, 298, 310, 311, 352 a 355, 358; vu, 9, 10, 35, 44, 68, 69, 72, 74, 84, 86, 95 a 97, 100, 112, 117, 123 a 125, 129, 177; vm, 196, 197, 210, 221, 227 a 229, 235, 268, 295, 304, 317, 318, 32i, 38i a 383, 391, 40C, 407, 413, 451, 453, 454, 462,465,468, 477> 4S8, 49'- 492. 494, 495, 5215 IX> 537, 56i —feitoria de — vi, 214; vii,69 — for¬ taleza de — vi, 214, 298, 299, 311, 352; vn, 71, 93; vm, 196, 349,452; ix, 533, 538, 56i — Junco de — n, 461 — mar de — vu, 10, 35; viu, 320,453 — reis de — vm, 389, 414, 456, 492, 494; iv, 538, 561. Maluco (Madre) — capitão de Cambaia — vm, 475. Mamale — mouro mercador e principal de Cananor — rei das ilhas Maldivas — 111, 107, 198, 214, 272, 275, 292 — enforcado vi, 274. Alamalemacar—mouro — m, 111, 126. Mamelucos — u, 384, 438; 111, 316; iv, 390, 391; vm, 506. Mamoya — cidade do Morro — vm, 349, 390. Mamoya (D. João de) — gentio feito cris¬ tão e que tomou êste nome, depois de batisado — vm, 388— governador de Ma¬ moya— vm, 390 — regedor de Maluco — vm, 35o. Mamonacodá — mouro — v, 116. Manaique — canarim, capitão do Idalcão — v, 91. Aíancias (Francisco de Sousa) — fidalgo e cavaleiro — iii, 18, 38, 40, 41, 5o, 58 a 60, 70—capitão — m, 29; iv, — 418 —ca¬ pitão da nau S. Boaventura, da armada de D. Fernando Coutinho —11,479—9ue ficou de guarda ao Parso Seco — m, 34. Mandarins — 111, i5i ; vi, 249, 252 ; vm, 463. Maudeh (Bahel) — nome que os mouros dão às Portas do Estreito — iii, 266. Mandou — reino — grande e rico, no sertão, perto de Cambaia—iii, 313, 316; vm, 359, 36i, 368,401, 474,475, 487 — cidade do — viu, 355, 357, 364 — el-rei de —111» 283; vu, 14; vm, 339. Mandovim —111, 5o, 57, 100, io5, 170— es¬ treito de — iii, 74, 76 — porta do — m, 44, 53 — postigo do — m, 47. Mangalor — lugar e pôrto da província de Tabinate no reino de Daquem —11, 208, 242; iii, 289, 299; vi, 294; vu, 116; vm, 211, 212, 215, 216, 283, 296,474, 478, 5o3, 5o6, 507, 511 — chatim de — vm, 211,212, 216 — cidade, na costa, no reino de Dul- cinde — n, 385; m, 281, 3i3; vm, 281 — pôrto de — vm, 509 — rio de — vi, 278, 283, 291, 292; ix, 532.
  • 644 Hijlória da índia Mangate — i, 156, i6o, 161, 173; viu, 43o, 433, 434 — caimal de —1, 144; ¥111,429, 432 — naires de — 1, 158. Manho;— castelhano, língua — vm, 388. Manichete — feitor de Meligupim —111, 326. Manimbar — ambar preto — iv, 438. Alaningoubo — cidade e pôrto de Ceilão — 11, 261. Manjavarrão — lugar e pôrto da província de Talinate no reino de Daquem —11, 242. Mantelo—lugar principal d'Amboio — vm, 522. Manlua — lugar de mouros — v, 33. Alanuel — nome que tomou Culano depois de batisado — ix, 537. Manuel I (D.) — rei de Portugal — 1, 5, 6, 8, 3o, 47, 68 a 73, 75, 76, 78, 80, 86, 89, 90, 93, 96, 97 a 99, 101 a io3, 120, 160, 201, 202; 11, 222, 275, 335, 355, 383, 479, 487; ui, 116, 155, 236, 237, 35o, 363 ; iv, 385, 386; v,56, io5,129; vi, 156, 198,a63; vii, 34; viii, 371 — carta de — 1, 78. Manuel (D. Nuno)— iv, 420; v, 23, i3o. Manuel (D. Sancho) — vn, 160. Alanuel (fortaleza)—veja: Cochim (forta¬ leza de). Manuéis — moedas de oiro mandadas cu¬ nhar por Afonso d’ Albuquerque—m, 116, 35o. Maqueiem — ilha do arquipélago Maluco — vi, 166, 167, a5a; vii, 108, 111, ii3, 126 a 129; vm, 202, 232, 235, 266, 391,464 — cidade de — vm, 257. Mar (Gemas de) — m, 267 — ribeira do — m, 299. Maravia — lugar — perto do Monte Deli — vi, 275; vn, 164 — rio de — vi, 292. Maravio (Valentino) — 1, 69. Marcar (Cotiale) — capitão-móf da ar¬ mada de Calecut — vm, 435, 436. Marcar (Pate) — mouro, capitão-mór — vi, 35o. Marcos — apostolo —111, 237 — patriarca do senhorio do Preste — in, 237 —filho de uma viuva de Cochim e cativo — viu, 480, 484- Mardave — ix, 533. Marear (Chirina) — mercador de Cochim — 1, 171. Marear (Mamalle) — mercador de Cochim — 1, 171. Marfim — 1, 25, 26,29,35; 11,212,270,295; iii, 107, 254, 288. Maria (João) — milanês lapidário — 1, 113. Mariaco — lugar principal da ilha de Ti- dore — vi, 248 a 25o. Marialva (conde de)— vm, 475. Marques (João) — da fortaleza Manuel — I, 140. Marra (Tuão) — capitão d’el-rei de Pera — vm, 412. Marrecos (Francisco) — u, 480; iu, 86, 94 — capitão do navio Bretão, da armada de D. Fernando Coutinho —11, 479. Marreiro (Álvaro) — mestre da nau de Manuel de Lacerda — m, 264, 265. Mariabão — m, 324 —barra de —v, 20 — pôrto de — em Pegú — iv, 387; v, 20 — rio de — v, 16. Martama — nome que os indios davam a S. Tomé — 1, 127. Martim — bombardeiro da fortaleza Ma¬ nuel — 1, 140 — mestre —11, 366. Mariim (Manuel) — criado da Infanta e da fortaleza Manuel — 1, 140. Martins (Fernão) — 1, 41, 47 — língua — 1, 17, 19, 40, 42 — védor de Vasco da Gama (?) — 1, 42. Martins (Gaspar) — língua —111, 353. Martins (João) — mestre de navio — vm, 348. Martins (Simão) — cavaleiro —11, 268, 269, 386, 425; iii, i3, 22, 65, 66 — capitão — II, 265, 416, 424; m, 7, 18 — capitão da armada do vice-rei D. Francisco d’Al- meida —11, 356. Alarufim (Sebastião Rodrigues)—vi, 352. Mascarenhas (Cristovão) — m, 190, 243. Mascarenhas (Jorge) — parente de Pero de Mascarenhas — iv, 42Í, 426, 447, 448,454, 461; vn, 46, 47; vm, 477, 493, 494, 496, 519— capitão — iv, 422. Mascarenhas (Manuel) — vm, 496. Mascarenhas (Pero) — m, 214, 220, 221, 223, 3o3, 310; vi, 280, 284 a 287, 291, 292,
  • índice onomástico 645 3oç), 310, 35i; vn, 6, 7, 10, 18, 24, 26, 28 a 33, 35 a 69, 71, 77 a 91, g3, 94, 96, 97, 117, 160 — capitão — m, 222; vi, 279 — capitão da armada do vice-rei D. Vasco da Gama — vi, 260 — capitão de Cochim — ui, 198 —capitão de Gôa — m, 241 — capitão da nau de conserva de D, Garcia de Noronha — nt, 198 — capitão da nau Santa Maria da Luz — 111, 180 — capitão de Malaca — vi, 260; vn, 5, 25, 33; vin, 309 — governador — vu, 34, 63, 78, 83, 91,92 — preso — vu, 52,95 — testemunha — vi, 270. Mascarenhas (Simão) — da fortaleza Ma¬ nuel — 1, 140. Mascate — vila —11, 328, 333, 381, 474; nt, 355 ; iv, 419; v, 55, 76, 77, 85, 92; vi, 2o3, 208, 297, 347, 351; vn, 13, 118, 181; viu, 217, 219, 3o8, 334 — governador de — vi, 176 — pôrto de — v, 137; vi, 177 — Xeque de — v, 137, 177. Matão (ilha) — vi, 162 — el-rei de — vi, 162, i63. Matanatriniri — filho da rainha de Camo- rim — v, 65, 66 — capitão — v, 72. Matatana (el-rei de) —11, 281. Matatana (reino de)—11, 448—rio de — na ilha de S. Lourenço — u, 279, 448. Mateus — v, 37, 40 a 42, 46 a 49; vi, 188, 189, ig5 — apóstolo — iii, 237 — bombar¬ deiro— 1, 141 — embaixador da rainha Helena —11, 405; 111, 237, 238, 241, 257, 363; iv, 395, 453; v, 38; vi, i85 — mer¬ cador cristão natural do Cairo — ui, 236. Mateus (Abima) — v, 40. Matias — cristão de Caicoulão — v, 67. Matas (António de) — m, 74, 81, 82, 98, 101, 119 —capitão do navio de Aires da Silva —111, 72. Matos (João de Sousa de) — capitão — viii, 428. Àfirtoso(Gil) — capitão da armada de Vasco da Gama — 1, 96. Majanduão (el-rei de) — vassalo do Xeque Ismael — m, 347, 348. Meabahu — capitão d’el-rei de Cambaia — 111, 316, 3a5 a 327. Meaçamadim — capitão de cavalaria —111, 318. Meacoge — capitão d’el-rei de Cambaia — ni, 316, 325 a 327. Meada — vm, 504, 5o5. Mealheiro (Gonçalo Afonso) — m, 86. Mealheiro (João Rodrigues) — escrivão da feitoria de Sofala —11, 233. Meca — 1, 7, ai, 62, 76, 198; 11, 208, 239, 252, 356, 38i, 402, 405; m, 14, 17, 21, 87, 147, 195, 229, 353 ; iv, 396; v, 43, 93; vi, 226, 237, 238, 256, 265; vn, 171; vm, 207, 211, 212, 214, 216, 218, 270, 280, 284, 3o3, 3ia, 364, 365, 399 — casa de — 1, 35; nt, 257, 271; iv, 398; vn, 159 — estreito de — 1, 7, 82; n, 287, 296, 417, 471; 111, 237, 25i, 253, 254; v, 47; vn, 20 —portas do estreito de —111, 216 — mercadores de — vm, 497 — mouros de — 1, 34, 82, 83, 85 a 87, 92, 95, 97, 98, 101, io3, 115; n, 25o» 38i; ui, 19, 312, 33o; vn, i3, 19 — nau de 11, 401; ui, 87, 110, 179; vn, 19; ix, 56o — naus de — 1, 60; 11, 228, 233, 326; 111, 311; vm, 367 — reino de — ix, 56o — senhor de —111, 267 — veludos de —1,18; n, 245, 382; 111, 187. Medieis (Cosme de) — 1, 6. Mediterrâneo — m, 271. Meira (João de) —111, 261, 262, 367; v, 135, 137, 146 — capitão — v, 115, 134 — ca¬ pitão da caravela S. Jorge — m, 332. Meireles (Álvaro de) — vm, 337. Melicagi — mouro, capitão do Idalcão — ui, 118. Meligupim — senhor de Damão, e grande privado d’el-rei de Cambaia —m, 32, 23i, 283, 284, 317 a 320, 325, 326 — carta de — ui, 3io —feitores de — 111, 318, 3a5t 326 —irmão de —111, 316, 317 — senhor de Surra te —111, 311. Melinde — cidade de — 1, 21, 28, 29, 33, 5o, 63, 67, 68, 75, 92, 97, i32, 133, 134, i5i, 192, 201; 11, 2i5 a 227, 271, 291, 3o6, 38i, 385, 405, 406, 446, 447, 471, 474; iii, 3o, 35, 286; iv, 406; v, 33, 34, 5o, 5■; vi, 219, 261, 272; vn, 154 a 156, 181,186—damas de — 1, 29. Melinde — el-rei de — 1, 29, 3i, 74,75,93,
  • 646 Hiflória da índia i33, 134; n, 227, 291, 405; m, 2S6; vn, • 54. Meligue — v, 77; vn, 165; vm, 249, 254, 271, 296 a 3oi; íx, 566 a 5yo — capitão de Diu — viii, 283 — quinta de— vm, 399, 44Ó, 45o, 473, 499. Meliqueacem — tx, 527, 542, 552 a 555, 558. Meliquenayuto — tx, 566, 568. Meliquiaj — senhor de Diu —11, 384, 385, 387, 389, 390, 392 a 3g5, 397, 399, 428, 43o a 433, 435 437 a 441; m, 35, 88, 181, 23l, aSl, 282, 284, 294, 320, 323, 324, 369; iv, 434; v, 77 a 82, 84, 85, 108, 110, 115 a 117, 133; vi, 181, 182, 273; vii, i5 a 18, 27; vm, 323, 478 — armada de — iv, 407 — capitão de Diu — m, 116; v, 22; vi, 35o; vii, 14—carta de —11,439—men¬ sageiro de — ui, 232 — nau de —11, 438, 439; III, 231. Aleliquesaca— filho de Meliquiaz — v, 77 a 79, 81, 83, 85, 86. Melo (António de) — fidalgo — vi, 352; vm, 496, 518 — capitão — v, 106; vi, 237. Melo (Cristóvão de) — natural de Beja, sobrinho de Lopo Vaz de Sampaio — vn, 167, 170, 171; vm, 3i3, 469 — capitão — vn, 167; vm, 3o2 ; íx, 534. Melo (Denis Fernandes de) — por alcunha o Mulato —11, 3o2 ; m, 13, 41,42, 43, 65, 102, 122, 123, 128, 139, 149 a 151; iv, 398, 399; v, 86, 100, 101; vi, 183 — capitão — ív, 449; v, 36, 80; vi, 181 — capitão da armada de Lopo Soares — ív, 395 — ca¬ pitão da nau Saboia — m, 125 — capitão da nau de Francisco de Távora, patrão- -mór da índia — n, 3y8. Melo (Diogo de) —11, 374, 375, 404, 405, 408, 409, 416; m, 146; v, 88; vi, i52, 174, 218, 288, 290; vii, 11, 66, 153, 157; vm, 246 —capitão —v, iii, vi, 221 — capitão da nau S. João —11, 3o6 — capitão d’Or- muz — vi, 178; vn, 10; 117 — sua morte —11, 414; vm, Soo. Melo (Duarte de) —11, 386, 389, 390, 395, 396; 111,98, 114, 126, 161, 217, 218, 25l, 256, 260; ív, 459 a 461; v, 59, 60 — ca¬ pitão —11, 290; ui, 7, 18, 222; v, 58 — ca¬ pitão da armada do vice-rei D. Francisco d’Almeida —11, 356 — capitão da armada de Lopo Soares — ív, 394—capitão-mór da fortaleza de Gôa —111, 125 — capitão- -mór do mar — ív, 454, 462 — capitão- -mór do mar de Malaca — ív, 456,458 — feitor e alcaide-mór de jurisdição — 11, 416. Melo (Francisco de) — por alcunha o ga¬ lego — 111, 2o3, 243, 362, 363, 328 — ca¬ pitão-mór — in, 204, 327, 36i — capitão da nau S. Cristovão — m, 248. Melo (Garcia de) — fidalgo — vn, 5i, 160, 170 —capitão — vii, 167. Melo (Gonçalo Vaz de) — vii, ■ 33, 139. Melo (Henrique de) — filho bastardo do conde Marialva — capitão — vm, 439, 475. Melo (João de) — ív, 411; vn, 170 — abade de Pombeiro — mi, i53 — capitão da ar¬ mada de Cristovão de Brito —111, 329 — capitão da armada de Lopo Soares — ív, 3g5 — fidalgo e capitão — vn, 167. Melo (João de) — veja: Silva (João de Melo da). Melo (Jorge de) —fidalgo —11,4345111,301; vn, 51, 57, 63 — preso — vn, 62 — sua morte — v, 126. Melo (Jorge de) — veja: Pereira (Jorge de Melo). Melo (Lionel de) — vi, 276. Melo (Martim Afonso de) — ív, 38
  • índice onomástico 647 Melo (Vasco Martins de) — sua morte — vi, 176. Meloal — lugar na ilha de Gmeixome— n, 38o, 381. Menagem (de) — apelido dado por D. Ma¬ nuel a Manuel Fernandes, quando o fêz fidalgo da casa real, pelos seus feitos em Sofala — u, 275. Menaique — capitão gentio —111, 35,3g, 40, 44. fa- Menancabo— reino, na ilha de Samatra — 11, 456, 459; ui, 186, 359, 36o — el-rei de — m, 361. Menancabos — ni, 363. Mendes (Álvaro) — capitão de Ghaul — viu, 471, 472. Mendes (Diogo)—n, 434; m, i3, 36i; iv, 463 — alcaide-mór de Cananor — m, 18 — capitão —11, 425 ; m, 7, 18; iv, 462. Mendes (Francisco)—vn, 135. Mendes (Garcia) — escrivão da nau de An- iónio do Campo—1, 118. Mendes (Gonçalo) — m, 272 — feitor de Cananor — m, 251 — feitor e pagador das obras da fortaleza de Calecut — m, 299. Mcr.des (Jaime) — cavaleiro —11, 346; vi, 25o, 25t. Mendes (Jorge) — n, 271 —capitão da nau Santo António —11, 23o. Mendes (Pero)—bombardeiro — 1, 141. Mendes (Rui) — 111, 36i — capitão — v, 58. Mendes (Simão) — vi, 3oo. Mendoça (Afonso Furtado de) — capitão — ix, 575, 576. Mendoça (Álvaro de) — fidalgo — viu, 423 — ferido — vin, 426. Mendoça (Cristovão de) — fidalgo — vn, 123; via, 279 — capitão — v, 23, 34, 5i — capitão d’Ormuz — vn, 66, 117, 121. Mendoça (Diogo de) — irmão de Manuel de Mendonça — n, 465 ; íx, 568, 569. Mendoça (Francisco de) — irmão de João de Mendonça, fidalgo — v, 117 a 119,122; vii, 18, 26, t5i, 180, 181, 186; vtn, 423, 475; íx, 542 — capitão — v, 80, 111; vi, 181, 351; vn, 11 — capitão da armada de iNuno da Cunha — vn, 149. Mendoça (João de) — fidalgo — vm, 3o3, 368, 36g, 421, 423, 426, 428, 475, 476 — capitão — viu, 480; íx, 573, 575. Mendoça (Luiz de) — degradado e capitão da frota do Emperador; vi, 157, 158, 160 — mandado matar por Fernão de Maga¬ lhães— vi, iSg. Mendoça (Manuel de) — capitão — íx, 568, 569. Mendoça (Nuno F'urtado de) — capitão e comendador de Cardiga — vm, 304. Mendoça (Pero de) — fidalgo e cavaleiro — 1, 196; 11, 282, 283 — capitão da ar¬ mada de Lopo Soares — 1, 191. Meneses (António da Silva de) — vn, 34; vm, 324, 329, 33o — capitão da nau do Trato da índia para Malaca — vm, 210. Meneses (D. Afonso de) — filho do conde D. Pedro — iv, 398, 399; v, 4,70 a 72, 74, 100, 101; vi, 286; vii, 7, 5i —capitão — vi, 279, 339; vii. 11 — capitão da armada de Lopo Soares — iv, 3g5. Meneses (D. Aleixo de)—sobrinho de Lopo Soares — iv, 38g, 3qo, 392, 393, 414, 419, 435, 436, 447, 448, 453 a 455,458 a 461; v, 8, 3q, 61, 66, 70, 74 a 76, 84, 86, m, 117 a 120, 124, 147 — capitão — iv, 394; v, 80 —capitão-mór—iv, 385 — capitão- mór do mar — iv, 421—governador — v, 36, 73, 87. Meneses (D. António da Silveira de) —vii, 5o, 87, 88; vm, iq3, 204 a 208,210, 279 — capitão — vm, 242 — capitão-mór — vn, 68; viii, 194 — capitão da fortaleza de Gôa — vn, 9. Meneses (D. Duarte de) — filho do conde de Tarouca, Prior do Crato, e alferes- mór d’el-rei — v, 111, 124, 146, 147; vi, 196, 2i 3, 228, 237, 260, 261, 206 a 269, 272, 290 —capitão da cidade de Tânger v, 111 — governador da índia—v, i33; vi, 151, i5a, 180 a i83, 202, 210, 211, 221, 223, 126, 227, 234, 236, 237, 244, 257, 266, 270, 298; vn, 9. Meneses (D. Fernando de) — vi, 260. Meneses (D. Francisco de) — capitão — íx, 575. Meneses (D. Henrique de) — filho de D. Fer-
  • 648 Hijloria da Índia nando.de Meneses, por alcunha o Rôxo — vi, i5a, 262, 265, 267, 273, 274, 363; vn, 5, 6, 10, 11, 23 a 26, 34, 33. 54, 64,91 — capiião da armada do vice-rei D. Vasco da Gama — vi, 260 — capitão da forta- taleza de Cochim — v, 120 — capitão de Gôa — vi, 262 — capitão d’0 rmuz — vi, 260 — governador da índia — vi, 271, 272, 275 a 283, 285, 286 a 290, 295, 296, 319, 3a3, 325, 326, 333, 337 a 342, 344, 345, 347, 349 a 352, 358, 359 — sua morte — VI, 362. Meneses (D. João de)—conde de Tarouca, Prior do Crato, mordomo d’el-rei D. Ma¬ nuel, capitão-mór —11, 383. Meneses (D. Jorge de) — cavaleiro, filho de D. Rodrigo de Meneses — v, 87, 118, 119, 121 a 124, 133; vi, 261, 274, 341, 344, 346, 358 a 36o; vn, 10, 72, 96, 97, 99 a 114, 117, 123 a 129, 144, 175, 176; viu, 197 a 204, 222 a 226, 228 a 23o, 232, 233,236 a 239, 257, 320, 522 — capitão — v, 22, 80, ui; vi, 279. 338, 339 —capitão da ar¬ mada do vice-rei D. Vasco da Gama — vi, 260 — capitão da fortaleza de Moluco — vn, 9, 35, 71, 95; viu, 196 — capitão do galeão S. Jerónimo — vi, 272 — capitão- -mór — vi, 359 — capitão de Tidora — vn, 95. Meneses (D. Luiz de) — v, 124, i3o, i33; vi, 15i, 154, 155, 176, 177 a 184, 198 a 2o3, 207, 210, 211, 237, 238, 257, 260, 263, 266, 267,270,272.297; vn, 154 — capitão- -mór do mar da índia — v, 111, 120,146; vi, i5i —carta de — ao Preste — vi, 201. Meneses (D. Manuel Telo de) — vm, 240, 241, 246. Meneses (D. Pedro de) — vni, 324, 421 — capitão — vm, 278, 296, 3o2, 322, 428. Meneses (D. Rodrigo de) — v, 87; vi, 260, 345; vn, 10. Meneses (D. Simão de) — vi, 278, 280, 281, 285 a 287, 291 a 294, 337; vn, 32, 48 a 5o, 52, 55, 57, 59, 63, 65 a 67, 77, 80, 84 — capitão — vi, 279 — capitão da fortaleza de Gôa — vn, 47 — ferido — vi, 288. Meneses (D. Tristão de) — irmão de D. Jorge de Meneses — iv, 458, 461; vi, i65 ; vn, 106 — capitão — ív, 420. Meneses (D. Vicente de) — irmão de D. Jorge de Menezes — vm, 237, 238. Meneses (Lopo Soares de) — governador d’Ormuz —11, 472. Meneses (Pero da Silva de) — capitão — v, 115, 117, 118. Mergena (Mira) — abexim cavaleiro e go¬ vernador d’Adem —ui, 254, 255, 25;, 261, 262, 264; ív, 412 —carta de — m, 270. Mergeu — lugar e pôrto da província de Talinate no reino de Daquem —11, 242; ui, 117, 198; ív, 433. Merlao — rei ou sobrinho do rei d’Onor — — 11, 233, 234; m, 115, 117, 118, 161, 197, 198, 216, 23o, 294 — embaixador de— 11, 233 ; ui, 117. Mesquita (Álvaro de) — português de Es- tremoz, primo de Fernão de Magalhães e que foi na frota do Imperador — vi, 07, 160, 161. Mesquita (António de) —vm, 3i3. Mesquita (Diogo de) — irmão de Lopo de Mesquita — vn, 7, 120; vm, 365, 367,369, 470 a 472 — cativo — vu, 119; vm, 340. Mesquita (Lopo de) — vn, 7, 120, 161, i83 — capitão—vi, 180; vn, 159, 170; vm, 242 — capitão do Samorim Pequeno — vu, 94, 119. Mesquita (Pedro Alvares de) — capitão — vu, 167. Mesquita (Rui Mendes de) — capitão — vu, 1S8. Mesurado (Jorge) — feitor da nau de An¬ tónio Correio — v, 58, 59. Mestre (Fernando do) — bombardeiro — 1, 141. Mete — lugar — 1, 134; v, 36; vi, 208, 209; vm, 217, 219 — Xeque de — vi, 208 a 210. Mexia (Afonso) — vi, 263; vn, 6, 32, 3q, 44 a 48, 66, 78, 82, 86, 88 a 90; vm, 234, 204, 465 — capitão da armada do vice-rei D. Vasco da Gama — vi, 260; vu, 28 — testemunha — vi, 270 — vèdor da fazenda — vi, 260, 267, 269 a 271, 325; vu, 5, 23, 24, 26, 28, 3o, 40, 57, 58, 64, 77, 83, 85, 90, 91, 96, 171.
  • índice onomástico 649 Miacoje—capitão d’el-rei de Cambaia — 111, 3i, 3». Miguel — gentio feito cristão — 1, 89. Mihuen — ilhas de — nas portas do Es¬ treito, perto d’Arabia — m, 266, 278. Milaneses— 1, 178; 11, 264. Milão — in, 336. Miligupim — privado d'el-rei de Cambaia — 111, 114. Mina — 1, 9, 10; v, 23, 191 — caravela da — v, 24. Mina Grande (rei de) — m, 36o. Mindanao — ilha — vi, 164; vn, 128; viu, 382, 383, 388, 392, 522. Minho — i, 43. Mir (el-rei Cachil) — rei de Tidora — vm, 382, 391. Mira — ilha —vi, i55, 298. Mirabolanos — 1, 91. Mirabuçaca — capitão do Xeque Ismael — m, 312, 345, 365, 366 — governador de Baharem — m, 356 — carta de — in, 365. Miralmelique — iv, 407. Miram — veja: Muhmalá (Miram). Miramalmel — mouro da confiança de Raix Xarafo — v, 92. Miranda (António de) — fidalgo, e embai¬ xador junto do rei de Sião—m, 187,188, 206; ív, 387. Miranda (Diogo de) — vn, 57, 63 — preso — vn, 62. Miranda (Duarte de) — fidalgo — vm, 406, 43.. Miranda (Francisco de) — fidalgo e cava¬ leiro—11, 314. Miranda (Sebastião de) —11, 442; m, 65, 66, 86, 90, 61, 93, 95, 98, 100, 101, 129, 138, 140, i5i, 190 — capitão do navio o Bretão —ui, 125 —que tomou a defesa de Francisco de Tavora — n, 378. Miranda (Simão de) — 1,74. Miranda (Tristão de)—capitão — m, 327. Mirãomuhmald — vm, 36i a 363 — rei de Cambaia — vm, 475 — sobrinho d’el-rei de Cambaia — vm, 401. Mirocem — capitão-mór da armada do Sol- dão e parente dêste, senhor de Judá — 11,384, 387 a 393, 396, 398 a 400, 403,416, 428, 43o a 433, 435, 436, 438 a 440; m, 195; ív, 390 a 392, 396 — naus de —11, 38g, 3go, 3g3, 436, 437. Mirfãohamel— sobrinho do rei dos Mo- gares — rei de Cambaia — vm, 401, 474, 475. Mirjahoten — capitão pérsico e governador da cidade de Caixão — m, 347. Mincimbo (el-rei de)—viii, 391. Mlaipur — cidade na costa, perto de Cou- lão, pertencente a Narsinga — 1, 127. Mocadão (Malu) —vii, 173. Moçambique — ilha de —1, 16, 17, 20 a 23, 25,41, 5o, 74,92, 96, io3, i32, 192; ii, 210, 211, 214, 228, 229, 263, 270, 276 a 281, 290, 291, 3o5, 3o6, 374, 375, 402, 402, 416 a 418, 424, 446, 448, 480; m, i5 a 18, 86, 95, 113, 180, 198, 213, 241, 286, 364; ív, 386, 392, 418, 420, 453; v, 25, 27, 33, 34, 49» 5i, 57, 77, 128, 129; vi, 166, 178, 218 a 221, 261; vii, 18, 21, 66, i5i, 180, 181; vm, 280, 3o5, 3o6; ix, 533, ibj, 574, 575 — aguada de — 1, 23 — ilheos de — vn, 151 — mouros cativos de — 1,27 — piloto mouro de — 1, 21,23 — pilotos de—1, 27 — pôrto de — 1, 21, 22 — Soltão de — 11, 416 — Xeque de — 1, 192; u, 214. Mocandono (cabo de) —11, 336. Mocrim — rei das ilhas de Baharem — v, g3 a 98, 112. Moduro — povoação em Ternate — viii , 227. Mogor — viii, 357 a 36i, 364, 365. Mogores — vm, 338, 356, 358, 36i a 363, 37o» 377, 378, 396 a 399, 401, 474 a 476, 517 — capi tão dos—vm, 397 — el-rei dos — vm, 334, 337 a 339, 355, 356, 365,368, 369, 379, 38o, 396, 401, 474, 4S7 — carta de — vm, 368. Mombaça — cidade de — 1, 23, 24, 28, 41, 5o, 133, 134; 11, 216, 217, 219, 225, 227, 233 a 235, 25o; vn, 154, 180, 181 —barra de — vn, 154 — cavaleiro de — 1, 29 — mouros de— vn, 186 — el-rei de — 1, 25, i33, 134; 11, 216, 223, 225, 235; v, 5i; vi, 218; vii, 154 —sobrinho d’ —vi,2i8, 219. Monçaide ou Bontarde — 1, 3g. Mandou — cidade do — vm, 361. 82 To«o IV
  • 65o Hiftoria da índia Monfia — ilha — v, Si — rei de — v, 34. Mongue — lugar —vm, 391. Monij (Aires) — filho de Henrique Moniz — vii, 188. Monij (António) — filho de Henrique Mo¬ niz — vii, 188. Monij (Cosme) — vn, 285. Monij (Henrique) — capitão — vii, 188. Monlana — v, 99. Monrroy (D. Fernando) — irmão de D. Gu- terre, fidalgo castelhano — iv, 406, 408, 409, 410, 414 a 416 418, 419, 449; vi, 261; vm, 458 — capitão — iv, 394; vm, 413 — capitão da armada do vice-rei D. Vasco da Gama — vi, 260. Monrroy (D. João) — sobrinho de D. Gu- terre — iv, 406 a 409. Monsanto (conde de) —111, 260. Monta (Miguel de) — capitão — v, 36. Montaus (Jorge de Mascarenhas de) — vm, 429, 43o. Monte (Cabo do) — na costa da Guiné — ii, 277, 375. Monte Maior — vm, 202. Monte Maior (Pero de) — embaixador — vm, 318. Monte-Mór-o-Novo — 1, 9. Monteiro (Baltasar) — do Pôrto, — m, 261. Montei — ilha do arquipélago Maluco — vi, 166, 167; vii, 126; vm, 266, 3gi, 464. Montes Claros— v, 111. Moraes (Diogo de) — criado do Duque de Bragança — vi, 213. Moraes (Fernáo de) — vi, 3q3 a 346; vii, 18, 3a, 5i, 87, 148; vm, 209, 498, 5i6 — capitão — vi. 351; vii, 147; vm, 242, 377, 478 — capitão de Pegu — ix, 533. Moraes (Jordão de) — vm, 3i 1, 315, 316. Morado (Miramahmet) — privado d’el-rei d’Ormuz — v, 114, 146, 147; vi, 179. Moravio (Valentino) — homem que encon¬ trou umas pedras com inscrição latina, pofetizando o descobrimento da índia — 1, 7°- Morea — vm, 5o5. Moreno (Lourenço)—1, 99, no, 143, i63, 166, 167, 175, 179; 11, 256; iii, 96, 97, 195, 196, 213, 272, 291 a 293, 307; iv, 435; v, 4 —capitão da armada de Gonçalo de Sequeira e feitor de Cochim — m, 83, 293, 304; iv, 393 — escrivão — 1, 90, 100, 104, 140—sua morte — in, 272. Moreno (Manuel) — vm, 372. Morro — ilhas de — vii, 71, 72, 125; vm, 198 a 200, 2o3, 349, 35o, 384, 387 a 3go, 439,440, 442, 466, 492, 495, 521 — senhor do — vm, 197. Mortos — ilhas dos—ou do Betelo — vm, 244, 254, 322, 468, 469. Moura (António de) — in, 99. Moura (D. Pedro de) — vi, 286. Moura (Fernão de) — filho bastardo de D. Pedro de Moura — vi, 286—sua morte — vi, 287. Moura (Lourenço de) — capitão — v, 93. Moura (Pero de) — ouvidor da fortaleza de Terna te —vm, 264 a 266. Mouro (um) — feitor d’el-rei de Calecut — 1, 48 — piloto — 1, 20 a 22; m, 194. Mouros — 1, 17 a 20, 23 a 25, 27 a 29, 35, 39, 41, 61, 126; 11, 258,287; iii, 25, 38, 41, 45, 5i, 54, 56, 73, 79, 80, 82, 85, 98, io5 a 107, 114, 115, 119, 120, 125, 128, 131, i32, 144, 147, 148, i5i, 153 a 156, 161 a i63, 166, 171 a 174, 180, 183, 187, 190, 194 a 197, 200, 208, 210 a 212, 214, 2i5, 217, 219 a 222, 224 a 23o, 233, 234, 236 a 239, 241, 242, 254, 255, 258, 260 a 262, 264, 266, 267, 269 a 271, 273 a 275, 277, 279, 281, 282, 284, 285, 287, 288, 293, 296, 297, 299, 3oi a 304, 3og a 311, 3i3 a 315, 33o, 337, 356, 366, 36g, 371, 372; iv, 385, 389, 392, 394, 397 a 399, 401, 403 a 405, 439, 440, 445, 451; v, 5, 9, 14, 23, 5o, 53, 55, 59, 64, 65, 69, 72, 76 a 78, 81 a 83,89, 96, 105, 107 a 109, 111, 116, 126, 134 a 142, 144 a 146; vi, 155, 179, 181, 184, 200 a 204, 206, 207, 211 a 2i3, 2i5, 218 a 220, 225 a 227, 23o, 235, 236, 240, 256, 258, 261, 263, 278, 280. 282, 285, 287, 288, 296, 298, 299, 3o2, 3o5, 315, 33o, 338, 343, 346, 348, 35o, 363; vii, 7, 8, 38, 40 a 43, 85, 91, 97, 118, 119, 121, 123, 126, 141, 142, 147, 154, 155, 07, 159, i65 a 168, 171, 174, 179, i83, 184; vm, 200, 203, 208, aii, 215, 224, 235, 237, 242, 245, 247, 249, 251, 260
  • índice onomástico 651 a 264, 267, 270, 274, 276, 280, 282, 290 a 292, 296, 297, 3o2, 3i3, 314,319, 332, 336, 337, 339, 349, 353, 367, 376, 377, 385, 386, 391 a 395, 400, 404, 407, 411, 414, 416 a 420, 423, 425, 431, 438, 439,441,445, 45o, 451, 454, 456, 457, 458, 460, 462,464,472, 477» 478, 480 a 484, 492, 494, 5oo, 502, 5i5, 516; ix, 527 a 53o, 532, 533, 537 539, 541 a 549, 552, 554 a 558, 567 — Abexins —11, 287 — armada dos — vii, 162 — ca¬ tivos— 111, 344 — capitães — 111, 317 — capitão-mor dos — vii, 141 — malaios — iii, i33 — nau dos — m, 3i, 84, 178, 196, 278, 368; iv, 3g6, 407; v, 76; vi, 184; vii, 11 — povoações de — 1, 24. Moutinho (Salvador) — criado de Rui Lou- renço de Távora — ix,549, 55o —capitão — ix, 567. Muacho (Gomes) — iv, 419. Muar— a 5 léguas de Malaca — m, 154, 160, 199; iv, 436, 453, 454, 458, 461; vi, 231 — rio de — a 10 léguas de Malaca — iii, 153, 160, 199, 202, 2o3, 209, 247; v, 14, 58; vi, 23i, 232, 239; vm, 331, 411. Muhmala (Miram) — vm, 379. Mulenacião — mouro corretor — ix, 544. Mundo (O Tigre do) — genro de Coje Sofar — vm, 469. Muria (Curia) — ilhas — 1, 114. Mustafa — vm, 217, 239, 248, 253, 3o8, 5o6, 507. Mula (Mangate) — caimal, vassalo d’el-rei de Cochim — 1, i5o. Mulacoil (Parinhara) — Senhor da terra entre Canganor e Repelim — 1, 143. Matar aja — vej a: Timutaraja. N Nabaes (Rui de) —11, 435, 436. Nabanda — lugar a 3 léguas d’Ormuz —11, 411, 4*3, 414. Naçaruto (Meliqueacem) — sobrinho de Bramaluco e fronteiro — íx, 559. Nacoda— ni, 187. Nacodahmet — senhor turco — vm, 507. Nagotane — rio de — vn, 168, 172. Nahu — irmão de Alexandre que ficou seu sucessor por morte dêste — 1, 8. Nahodabeguea — mouro xabandar dos gu- zarates —11, 461, 463. Naiques —111, i63. Naire — 1, 36, 39, 142, 173; 11, 271, 3io — capitão e guazil d’el-rei de Cananor e grande servidor d’el-rei de Portugal — iii, 98 — cristão e pião do meirinho da fortaleza de Malaca (?)—in, i83—pa¬ gador dos soldos dos naires de Nara- muhim — 1, 111. Naires — fidalgos malabares — 1, 35, 3y, 38, 43, 45, 53, 55, 58, 59, 61, 90, 94, 98, io8, 109, 112, 117 a 119, 121, 122, 123, 140, 141, 143, 145, 152, 158, 160 a 162, 166 a 168, 175, 178, 179, 182, 194, 196 a 198; 11, 265, 316, 319, 322, 356; 111, 10, i3; iv, 393, 404; v, 9, 10, 12, 13, 65, 67, 71, 72; vi, 257, 259, 276, 280 a 282, 287, 293, 294, 314, 3i5; vm, 428 a 43o, 433, 434. Nãma — Deusa chinesa — iv, 422. Nambari — senhor de Bejur — 1, 144. Nambeadarim — príncipe de Calecut — 1, 106, 107, 129, i3o, 143, 148, 149, 151, i55, i58, 159, 178, 181, i83, 197, 198; iii, 289 a 241 290 a 292; vi, 226 — capitão-mór dos Maires — 1, 144. Nambeadarim (Benara) — acima de Pa- nane, para a serra — 1, 144. Nambeadarim (Elancol) — senhor de Re¬ pelim — 1, 106, 110, 119, 121, 129, 143, 545, 148, i52, 154, 156, 158, 160, 162, 166, 176, 178, 179, 181, 185; iii, 299 — sota-ca- pitão — 1, 144. Nambeadarins — 1, 187. Nançarotexá—rei de Bengala — vm, 3ii. Nanló — vila — na China a 3 léguas de Ve¬ niaga — iv, 425 — Pio de — iv, 425 a 428 — pásto de — iv, 427. Nápoles — 1, 6. Nara— 1, 144. Naramuhim — príncipe de Cochim irmão do rei, e seu capitão-mór — 1, 109 a 111, 162. Narengale — senhorio do rei de Cochim — 1, 186. Naroá (Passo de) — m, 161, 162.
  • 652 Hijlória da índia Narsinga — reino — i, 34; n, 234, 242, 245, 249, 25g, 286; iii, 229, 23o, 271, 272, 316; iv, 441; vm, 212 — serra de —1, 143 — el-rei de —1, 65, 126, 127; n, 208, 234, 245, 246,249, 251,441, 475; 111, 22, 27, 28, 33, 3G, 45, 51, 68, 69, 79, 97, 99, 116 a 118, 168, 198, 229, 23o, 289, 290, 33o; iv, 440; v, 90, 91; vi, 359; vn, 9; vm, 212 — capitão d’ — iii, 34; vi, 361—embai¬ xador d’ —11, 241, 248; 111, 289, 290. Natal — cabo do — na ilha de S. Lourenço —11, 279. Naus — ilha das — in, 25o; vm, 309. Navarro (João) — cavaleiro — iii, 220 — lfngua — 111, 231—que se fêz mouro e passou para o Idalcão —111, 238. Naves (Manuel das) — capitão e criado d'el-rei D. João — vm* 268. Navios—Anunciada—111, 125,332—Aveiro — 11, 265 —Bastarda —vn, 94; vm, 25o, 254, 256 — Belém —11, 3o5,374, 375,419, 422, 481; m, 180, 356 — piloto do — m, 35G — Bérrio — 1, 9,20,27,65,66 — Bota¬ fogo—11, 214,417; 111,95, 332 — O Bretão —11, 479; m, 86, 125 — Cirne — 11, 277, 424; 111, 126, 196 — Conceição — vi, 157 — Dobrigas — vm, 355 — Enxobregas — iii, 125, 193, 22i, 311, 3i3, 332 — Espera — 11, 265; ív, 387, 422; v, 21 —Espera Pequena — iv, 436 — Ferros —11,480; ni, 332 — Frol de la mar —111, 82, 125, 193, 197; vn, 88 — Frol da Rosa —111, 62, 63, 74, 82,332; v, 121 — Garça —11,276,479, 481; 111, 126, 332 — Galeaça — vm, 278 — Galega —11, 479; m, 16 —Giro panco — navio de Java que serve para levar man¬ timentos— vi, 240 — Grande (Galé) — iii, 125, 332 — Joia — m,. 125 — Judia — 11, 276,417 —Jungo —ix, 557 —Lagos —11, 276 —Lambia Morim — vm, 278 — La¬ tina (Caravela) —111,125, 148,187 — Lei- toa Velha—11, 276 — Lionarda —11,417; 111, 125 — Madalena —11, 417, 479 — Méri — de el-rei de Cambaia — n, 341 a 346, 38i; m, 84, 85, 88, 283, 284 — Mocrina — v, 97 — Mucumari — do governador de Damasco — m, 271 — Nazaré — m, 3o3, 332, 344 vi, 22i—Nossa Senhora da Nazaré — n, 479 — Pequena (Galé) — m, 125 — Piedade —111, 180 — Rainha — do tempo do rei D. João II — 1, 39 — Re¬ donda (Caravela) — m, 126 — Redondo — v, 107 — Rei Grande —11, 277, 405, 415 — Reis Magos — 1, 67 ; v, 56; vn, 94, 120; vm, 278 — Rei Pequeno —11, 277; ui, 58, 125 — Rosa —11, 480 — Rosário —11, 417,447; iii, 126 — Rume — iii, 3n, 3i8, 332 — Rumesa — iii, 125 — Sabaio — ui, 125,187 — Safeturca—de Cambaia — vm, 279, 280, 310, 3 ■ 2 — Samorim — vn, 87, 120, 121 —Samorim Grande — v, 107; vn, 94 — Samorim Pequeno — vu, 94, i83 — Santa Barbosa — ív, 387; v, 86 — Santa Catarina —111, 125, 186 — Santa Cruz —11, 417, 480, 481; m, 125, 332; ív, 422; v, 55, 121 —Santa Helena —1, 140; iii, 359 — Santa Maria — 1, 141 — Santa Maria d'Ajuda —111, 126, 180, 3o5, 807 — Santa Maria do Castelo —11,417 — Santa Maria da Luz — tu, 180, 3o5 — Santa Maria da Serra — m, 280 — Santa Marta — 1, 141; 11, 417 — Santa Ofemea — iii, 180, 198, 33a; vi, 355, 356 — Santiago — 11, 276,479; 111, 125, 190, 332; ív, 422, 461; vi, 157 — Santiago Menor — ív, 436 — Santo André — ív, 422 — Santo António — 229, 23o, 276, 3o5, 375, 404; iii, 125, 214, 242, 25o; vi, 157; vn, 86 — Santo Espírito —11, 229, 277, 387, 4'9.474; 125; vm, 413, 414, 452 — S. Boaventura —11, 479 — S. Cristóvão —11, 3o6; 111,248 — S. Denis —v, 117, 119, 121, 146; vi, i5i, 15a, 180; vii, 82, 84 a 88, 94, 159; vm, 249 — S. Gabriel — 1, 8, 9 — S. Gião —11, 447; m, 280 — S. Jerónimo — vi, 272 — S. João —11, 229, 3o6, 375, 417, 419,421,422; ui, 3o, 35,60,125 — S. Jorge — 11, 276, 479; 111, 332; v, 124 — S. Leão — vn, 12 — S. Luiz — vn, 87, 94 — S. Marcos — v, 133 — S. Mateus — vui, 278 — S. Nicolau —111, 332 — S. Paulo — 11, 229 —S. Pedro —m, 180, 218, 219, 232 — S. Rafael — 1, 8, 9, 23, 24, 27, 68; v, 56; vn, 94; vm. 3o2 — S. Romão —11, 3o6 — S. Roque — vn, 88 — S. Simão —11, 3o6, 375 —11, 276,479; ui, 33a; vi, 157 —
  • índice onomástico 653 Sebastiana—iii, 33a — Sebastiana Velha — ii, 479 — Serra — v, 115 — Taforea — li, a65, 33o, 463, 465, 467, 468, 470; ui, ia5, 33a —Trindade —111, ia5, ig3; vi, 157 — S. Vicente. Negamele (ilha) — vu, i3o; viu, 275. Negapatão — vni, 377. Negrais (Ponia de) — v, iS. Neiteas — gentias de Gôa —111, ai, 107,115; vm, 304. Neto (Diogo) —11, 371. Nicobar — (ilhas de) — a aoo léguas de Ceilão —11, 455. Nicolau V — Pápa — 1,69. Nilo — rio —11, 38a, 383; vm, 504. Ninachalu—mercador gentio rico—11,460; iu, 133, 135, 146, 147, 151, 153, 199,243, 3i3, 329, 357 — fiador de Nacoda — m, 187 —filho de — 111, 155 — governador dos gentios de Malaca —111, 190. Ninahay — irmão de Ninapão, mouro rico e honrado — vui, 488. Ninapão — mouro rico e honrado — vui, 488. Ninoroa — gentio, parente d’el-rei de Cam¬ baia — vm, 365, 399 — capitão de Diu — vm, 370, 398, 405. Nijatnaluco— senhor de Chaul —11, 287, 289, 429, 441; iii, 116, 285, 283, a85; iv, 410, 414; v, 84, 116; vm, 204, 208, 209, 36i, 379, 396, 398,401,444 — capitão — v, 84 — embaixador de — m, 116. Nogayil— vm, 517, 5i8. Nogueira (Antão) — cunhado de Duarte Lemos — capitão — u, 474; m, i5, 16, 3o, 3i — capitão da armada de Lopo Soares — iv, 394. Nogueira (António) — capitão — ui, 288. Nogueira (Francisco) — iu, 25i, 272 — ca¬ pitão da fortaleza de Calecut — m, 299. Nontaques— corsairos mouros — vi, 207. Noradim (Raix) — pérsio, guazil-mór do reino d’Ormuz —11, 348 a 351, 354, 355; iii, 23o, 311, 3i2, 33o, 335 a 344, 354 a 356, 367; v, 89, 113 ; vi, i83 — filho e so¬ brinho de que ficaram por arrefens — m, 333. Noroa (Passo de) —111, aa5, 239, a5t. Noronha (D. Afonso de) — fidalgo, irmão de D. António de Noronha e sobrinho de Afonso d’Albuquerque — 11, 293, 298, 299, 3ot, 377, 421, 43J, 440, 474; m, 20, 3o, 3i, 84, 85, 88,114 — um dos capitães da fortaleza d’Ormuz —11, 36o—capitão da fortaleza de Sacotará —11,3o3; ui, 16 — sua morte —iii, 3i. Noronha (D. Álvaro de) — filho de D. Gar¬ cia de Noronha — ix, 531, 532, 56o — ca¬ pitão de Cochim —11, 2i3, 272, 419 — capitão-mór —11, 420. Noronha (D. António de) — sobrinho de Afonso d'Albuquerque —11,293,3oi, 331, 336, 369, 371, 372, 38o, 381,406, 408,412, 4'9.420,423, 424,440,474,475; m, 8, 10, 13, 14, 18, 20, 22 a 24, 27, 37, 38, 40, 41, 44, 45, 47 a 5a, 55 a 57, 62, 64 a 66, 72 a 79,81 — capitão — 11,4i5, 424 — capitão da fortaleza de Cochim —m, 7 — capitão da fortaleza de Gôa —111, 26 — ferido — 11, 373 — sua morte — m, 78. Noronha (D. Francisco de) — sobrinho de D. Garcia de Noronha — capitão — vm, 304; ix, 533 — sua morte — ix, 577. Noronha (D. Garcia de) — sobrinho de Afonso d’Albuquerque—iii, ai3,214, 218, 220, 223, 224, 229, 231, 2J9 a 241, a5i, 257, a58, 260, 261, 264, 268, 269, 290, 291, 298, 3oo, 3o8, 310, 336, 33y, 33g, 340, 343, 344, 354, 356 — vm, 364; ix, 551, 556,472 — capitão — iii, 222 — capitão da nau Nazaré — 111, 332 — capitão-mór — 114 180, 212—capitão-mór da armada de carga—iu, 198 — vice-rei—vm, 364,485; ix, 527 a 535, 5q3, 54% 546, 555, 55y, 55o, 56o, 566, 570, 571, 573, 574 —sua morte — ix, 570. Noronha (D. Jorge de) — capitão — vi, 279, 280; vu, 5i. Noronha (D. Sancho de) — alcaide-mór de Gôa — iii, 332. Noronha (D. Tristáo de) — vi, 286; vu, 5~, 63, 160, 162 — capitão — vi, 339 — preso — vu, 62. Noronha (Garcia) — nome que tomou um turco língua, depois de baptizado — ix, 534.
  • 654 Hijloria da índia Noronha (João Rodrigues de) — fidalgo — vi, 154, 178 a 180 — capitão da fortaleza d’Ormuz — vi, 182. Noronha (Sebastião de) — capitão —vi, 181, 182. Nossa Senhora do Monte — outeiro de — 111, 220. Nossa Senhora da Serra — Em Góa, onde foi enterrado Afonso d’Albuquerque — m, 370. Nossa Senhora da Vitória — ermida em Cananor, mandada edificar por D. Lou- renço d’Almeida —11, 270. Nova (João da)—fidalgo e cavaleiro —1, 94, g5, 98; 11, 214, 216 a 218, 220 a 222, 234, 252, 262, 263, 290, 291, 298, 324, 325, 33o, 332, 342, 36<)( 377 a 379, 381, 402, 403, 424, 439, 440, 443, 45o, 452; m, 36 — alcaide pequeno da cidade de Lisboa — 1,93 —capitão —11,323 — capitão-mór da segunda armada da índia — 1, g3 — um dos capitães da fortaleza d’Ormuz — 11, 36o — capitão da armada de D. Fran¬ cisco d’Almeida, capitão-mór do mar de Cambaia até ao cabo de Comorim — n, 208. Novaes (Francisco de) — capitão da ar¬ mada de João da Nova — 1, 93 — feitor da armada de D. Lourenço d’Almeida — 11, 395. Novaguer — vila — viu, 474 a 476, 5i2; ix, 534, 536. Noj — 1, 3o, 35; n, 461; m, 201; vn, 97. Noj moscada — m, 210. Nunes (António) — por alcunha 0 Cafre — iv, 419. Nunes (Fernão) — escrivão da fazenda — vn, 24, 26. Nunes (Francisco) — vm, 451, 460 — ca¬ pitão— vm, 407. Nunes (Gonçalo) — criado de Vasco da Gama e capitão — 1, 9. Nunes (João) — capitão —11, 418 — escri¬ vão — vi, 270. Nunes (João) — veja: Ruim (João Nunes). Nunes (Miguel) — mouro convertido e de quem foi padrinho, el-rei de Portugal — 11, 405; vii, 106, 107. Nunes (Dr. Pero) — capitão e vedor da fa¬ zenda da índia — v, 23, 34, 5i; vi, 263; vn, 92. Nunes (Sebastião) — vm, 334- Nuno — criado do conde de Vila Nova e que foi na frota do Imperador — vi, 157. Nura — ilha — m, 277. Nuncinel — lugar principal d’Amboio — VIII, 522. O Óbidos — vn, 134. Óbidos (Álvaro d’) — da nau de Duarte Pa¬ checo— 1, 140. Ocidente (cabo do) — 1,47. Oliveira (Antão d’) — guarda-mór da rainha D. Leonor — iv, 413. Oliveira (Gonçalo d’) — piloto da nau Sa- boia — ui, 187. Oliveira (Jerónimo d’) — filho de Antão d'OHveira, degolado na índia — iv, 413 ; v, 4. Olo — homem da ilha de S. Lourenço — 11, 278. Onor — lugar e pôrto da província de Ta- linate no reino de Daquém — 1, 65; 11, 242, 424, 441, 475; m, 20, 34, 98, 117, 216, 290; iv, 433; ix, 531 — barra de — m, 216 — cidade — n, 237 — ilheu de —m, 19 — reino de — n, 236 — rio de — n, 236; m, 98; ix, 532 - el-rei de —11, 233,235 a 237, 441; m, 115 a 117, 197, 294. Orfacão—vila —11, 335; v, ii3. Ormu? — ilha — 1, 7; 11, 236, 245, 324, 325, 329, 333, 336, 337, 339 a 341, 343, 35o, 352, 354 a 356, 35g, 36o, 365 a 368, 378, 38o, 400, 401, 405, 406, 409 a 411, 414, 415, 419, 442, 443, 449, 472, 473; ui, 17, 21, 28, 56, 68, 85, 109, 118, 119, 121, 126, 178, 2:6, 23o, 265, 290, 309, 3u, 312, 329 a 332, 334, 338, 341 a 345, 353, 356, 364 a 366, 368; iv, 384, 385, 389, 3go, 392,405, 412 a 414, 419, 420, 439; v, 7, 22, 36, 40, 51, 54 a 57, 76, 84 a 86, 88 a 90, 93, 94, 97, 98, 107, 110, 112 a 117, t20, i33, 136 a 138, 144, 146; vi, i5i, i52, 154, t55>
  • índice onomástico 655 176 a i83, 202, 2o3, 209 a 211, 221, 223, 236, 237, 257, 261, 262, 266, 273; vii, 11, i3 a i5, 18, 22, 3a, 33, 118, 119, 139, 149, 158, i65, 170, 180 a 187; viu, 193, 209, 218, 219, 239, 241, 256, 279, 297 a 299, 324, 326, 328, 334, 507; ix, 533, 572, 575 — alfândega d' — v, 89, 92, ii3; vi, 182 — cavalos d’ — vm, 367 — cidade d’ — 11, 337, 341, 376; ui, 35a, 364; vi, 154, 155, 179, 180 — conquista d’ — 11, 451 — fei¬ toria d’ — ui, 355; iv, 389 — fortaleza d' —11, 35i, 352, 354, 35o, 36i a 365, 367, 406; 111, 3og, 335, 343, Í44, 354, 355, 36q, 367, 368; iv, 392; v, 88, 13q a 136, 139 a 144, 146 —vi, i5i, 154,182, 290; vii, 117; vm, 279; ix, 571 — guazilado d’ — vi, i55; vii, 117 — mar d’ — vm, 3a5 — merca¬ dores d’ —11, 356; m, 24 — mouros d’ — ui, 25, 110, 2Ôo, 366, 369 — nau d’ —11, 410; iii, 69, 11 o, 293 — naus d’ —111, 3o3 — pôrto d’ —11, 356; 111, 333 ; v, 136 — reino d’ —11, 3a3, 328, 339, 343, 355, 356, 451; iii, 333, 364, 367, 372; v, 88 — reis d’ — 11, 339, 351; m, 356 — xabandar d’ — v, 134 —el-rei d’ —11, 323, 324, 326, 328, 329, 333 a 336, 339, 341, 342, 348 a 352, 354, 355, 36o, 36i, 363, 364, 378, 380,406, 411, 414, 472; 111, 3i 1, 3i2, 319, 320, 324, 329, 33o, 332, 333, 335 a 344, 354, 356, 357, 364, 365, 367, 368; iv, 414; v, 52, 55, 88, 89, 92 a 94, 97, 98, 112 a 117, i33, 134, 137, 143, 145, 146; vi, 154, 155, 177, 204, 223, 288, 290; vii, 10,11, 32,182,184, 186; vm, 279, 325; ix, 571 — paços d’ — iv, 390. Orla (Francisco Mendes d’) — vm, 391. Orla (Jorge d’) — m, 258, 285, 344, 367. Orla (Pero Vaz d’) — cavaleiro e criado d’el-rei de Portugal —11, 33o, 353, 371, 372 — alcaide-mór e feitor — 11, 35a — feitor da armada de Afonso d’Albu- querque —11, 328. Ortij (D. Diogo) —bispo de Viseu — 1, 72, 202. Oura (Porta d’) —111, 256. Ouguela— v, 54. Ourique (campo d’) — 1, 8. Ouro — 1, ii, 17, 25, 26, 29, 35,61, 212, 256, 261, 273, 295,456,459; iii, 156, 158, 187, 254, 269; v, i5 — minas d’ — iii, 234, 361. Ouro (Fanões d’) — moedas que valiam 3 cruzados — 1, 38. Ouro (rio d') — 1, 9. Outel (Gaspar d’) — v, 108 a 110 — capitão — v, 36, 80, 85, 107. P Pacem — cidade e reino a 20 léguas de Pedir, na ilha de Samatra — 11, 456,457; m, 127, i3i, 187, 193; iv, 386, 387, 389, 421, 455, 457; v, 14, 15, 57, 61, 98 a 100; vi, 172, 228. 23o, 236; vii, 147 — feitoria de — iv, 386 — fortaleza de — v, 102 ; vi, 175, 228, 229; vu, 145, 146 — mercadores de — m, i3o — pôrto de —111, 128; v, 106; vii, 147 — príncipe de — v, 99, 100 — rio de — v, 61, 62; vi, 228 — el-rei de —11, 456; m, 127, 128, i3o, i3i, 188, 190, 197; iv, 386, 457; v, 61 a 63, 102. Pacheco (António) —11, 479, 480; m, 13; iv, 386, 435, 436; vu, 34 — capitão — 111, 7, 18 — capitão-mór do mar de Malaca — iv, 384,421; v, 8, 21, 22. Pacheco (Cristóvão) — sua morte — iii, 202. Pacheco (Diogo) — iv, 454, 460 — capitão — iv, 436, 448. Pacheco (Duarte Pereira) — fidalgo e ca¬ valeiro— capitão-mór da índia — 1, 5, 77, 84, 85, 116, 118, 121 a 125, 129 a i32, 134 a 137, 139 a 143, 145 a 15o, 152 a 176, 178 a 186, 188, 189, 194 a 198, 200 a 202; 11, 255, 319; iii, 90, 246; vi, 340; viu, 432, 434. Pacheco (Francisco) — fidalgo — vm, 3i3, 314, 423, 425, 5oo — capitão — vm, 498, 516 — juiz da alfândega de Diu —vm, 476, 496. Pacheco (João) — capitão — vii, 35, 41. Pacheco (Manuel) — irmão de Diogo Pa¬ checo— iv, 460; v, 61, 63; vu, 177, 178 — capitão — v, 58 — sua morte — vu, 179. Pacheco (Martim Vaz) — vu, 5q, 63; vm, 214 — preso — vu, 62.
  • da índia 656 Hiftoria Pacheco (Veríssimo) — irmão de António Pacheco — iv, 435, 452. Padrão (Frei António) — comissário na índia do ministro da ordem de S. Fran¬ cisco— viu, 243. Padua (Baixos de) — ni, i5, 16, 18, 126; vi, 156,437. Paes (António) — arrefens — vm, 486. Paes (Diogo) — feitor de Chaul — v, 6, 110, i3a. Paes (Francisco)—escrivão da embaixada de Diogo Fernandes de Beja —111, 3io, 317. Paes (Gaspar) — capitão — vn, 167 — feitor de Baçaim — vm, 339. Paes (João Rodrigues) — capitão — vm, 254. Paes (Lionel) — capitão — ix, 53o, 549. Paes (Pero) — ix, 565. Pago — lugar a 18 léguas de Malaca — iv, 436, 458, 461, 463; v, 57, 58, 60, 125 — estreito — v, 14. Pagode (rio de) — a 2 léguas de Baçaim — iv, 407; vm, 296. Pagodes — Templos feitos pelos Bremenes, — n, 288, 318. Paiva (Afonso de) —criado do rei D. João II —'» 6, 7- Paiva (Dinis de) — capitão — vm, 268,413, 464, 465, 467. Paiva (Francisco de Barros de) — fidalgo — vii, 160, 170; vm, 214, 33i, 333, 334, 346, 347 a 349, 43o, 432, 435, 437, 496, 518 — capitão — vn, 167; vm, 428,480 — ferido — vn, 168. Paiva (Gaspar de)—m, 43, 98, 100, 101, io3, 104, i38, 140, 142, i5o, 153, 190 — alcaide-mór de Gôa — m, 27 — capitão — vn, 66, 78; vm, 297 — capitão da nau Santo António — m, 125 — feitor da ar¬ mada— vm, 297, 426 — que ficou com a capitania de Pero Quaresma — m, 124. Paiva (Gonçalo de) — fidalgo e cavaleiro — n, 210, 211,214, 2i5, 219, 228,233,284, 285, 290, 358 — capitão —11, 265, 283 — capitão da armada de D. Francisco d’Al- meida — n, 209. Paiva (Lourenço de) — m, 63 — capitão — vm, 304 — secretário do governador Afonso d’Albuquerque— m, 19,71. Paiva (Luiz Alvares de) — capitão — vm, 240, 377. Palacios (Andrés de) — vn, 108. Palarim (Passo de) — vm, 499, 5oo. Palatia — vila — vm, 392. Pale — lugar — nc, 557. Paleacate —11, 458; vn, ii5, 116, i3o — panos de — n, 459 — roupa fina de — m, 129. Patinhar — 1, i52, 167 —paso de —1, 166. Paliposio — 1, 197 — senhor de — in, 92. Palma — ilha a 60 léguas das Canarias — 11, 209. Palmarinho — lugar — vm, 3a3. Palurte — 1, i56, 168 — caimal de — védor da fazenda d’el-rei de Cochim — 1, 141; m, 91—Parso de — a dois terços de légua do passo do Dau — 1, 15a, i65, i83, 187. Panane — vila a 5 léguas de Calecut — 1, 40, io3, io5, 143, 144; 11, 356, 424; vi, 279, 280, 358; vm, 479 — pôrto de — 1, 199 — regedor de — vi, 280. Panaruca — cidade de Java —m, 158; vn, 43 — el-rei de — vn, 144 — Jaus de — vn, 144. Panalora — cidade e pôrto de Ceilão — n, 261. Pandale (Maduna) — irmão d’el-rei de Cei¬ lão — vm, 479, 480, 485. Pandarane — ilheos — 1, 41, 53, 198, 199; ni, 179; vm, 435 — porta de — 1, 102. Pangim — m, 22 a 24,60,61, 68, 81,82, 99, 122, 239, 251; viii, 421, 423,427 — arti¬ lharia de — ui, 65 — barra de — vn, 52 — castelo de — m, 20 — fortaleza de — m, 23, 61, 64, 68,81 —Passos de — m, 22 — rio de — em Gôa —11, 451; m, 20 a 22, 55, 58, 82, 122; vn, 9. Panguejaoas — m, 134, 137 —armada de — m, i36. Panicaes — grandes de Calecut — 1, 38,77; m, 197. Panical — 1, 168, 169. Panos — 1, 17, 35.
  • índice onomástico 657 Pantafasul — alcunha de um capitão por¬ tuguês — viu, 472. Pantalião — mestre de calafates — m, 344. Panloja (Francisco) — fidalgo e cavaleiro —11, 314; ui, 84, 85, 88,98 — alcaide-mór da fortaleza de Gôa — iii, 125, 166 — ca¬ pitão—111,7, '8- Pão — reino — iii, Ó4, 156; vi, 299; vm, 333, 334 — barra de — vi, 235 —cidade de — vi, 233 — costa de — vm, 345 — pôrto de —vi, 234, 235. Pão — el-rei de — 111, 142, 143 ; vi, 233, 234, 235, 244; vii, 37, 38; vm, 310. Pápa — 1, 72, 202 ; 111, 333, 35o; v, 44, 45 ; VIII, 223. Papuas — ilhas dos — vu, 71, 95, 109; vm, 391, 456, 491, 522; ix, 56i — el-rei dos — vm, 461. Papucol—senhor de Chalião e .de Papu- ranguri — 1, 143, 144. Papuranguri — 1, 143. Parangale — lugar d’e!-rei de Calecut — vi, 258. Parau (Nambia de) — amigo do rei de Co- chim — iii, 92. Parçaie (Xerife) — senhor de Meca — iv, 3g6. Par chia — vm, 337. Parcos — vm, 403. Paris — vu, 29. Patalim (Simáo de Brito) — vn, 129. Patamar — correio índio —11, 228. Patane — cidade e reino de — n, 385; 111, 209; iv, 425; v, 107; vi, 23o, 235, 236, 244, 298, 299; vm, 281 a 283, 296, 333, 346, 347, 349, 38o, 5*7 — coota de — vi, 234 — pôrto de — vi, 310. Patane — el-rei de — vi, 244, 310; vm, 379, 38o. Patanes — vm, 329, 333, 379, 409, 410, 486, 487. Pate — v, 5o; vm, 296 — cidade — m, 281; vm, 281, 283 — senhor de — v, 5i—vila de — 1, 68. Pateçarangue — vm, 287 a 292, 320, 354, 381,406 —capitão-mór— vm, 294 —go¬ vernador de Ternate —vm, 287, 35i. Touo IV Patehomum — grande senhor de Java — 111, 144. Patemarcar—mouro principal de Cochim — 1, 83; v, 73, 75, 76; vi, 277; vu, 116; vm, 216, 479; ix, 533 — capitão-mór da armada d’el-rei de Calecut — vn, 33 ; vm, 2i5; ix, 532. Pateonuq— mouro, senhor de Japora, na ilha de Java, e vassalo do rei desta ilha — iii, 242, 244 a 25o, 275, 292, 36o — sota capitão de — m, 248 — feito pelos Jaus rei da cidade d’Adema — iii, 25o. Patequatir—Jau, e governador dos mouros de Malaca —111, 188, 189, 191, 199 a 202, 205 a 210. Patibarrá — Jau, capitão-mór —vm, 349. Patrício (Luiz) — natural de Roma —11, 264. Pau (João Rodrigues) — iv, 413. Paulo — castelhano — vu, 127. Paulo — moço cristão, filho de um dos principaes homens do Morro—vm, 466. Paulo (D.) —veja: Gama (D. Paulo da). Paulo (Pedro) — filho de Bartolomeu, e capitão da armada de Diogo Lopes de Sequeira — iv, 453; v, 56. Paulo (Marco) — m, 232. Pedir — reino e cidade da ilha de Samatra —11, 456, 457; m, 127 — pôrto de — iv, 389; v, 15, 106 — el-rei de —11, 456; m, 127, 134 — carta d’ —11, 457. Pedraria — 1, 7, 25, 35, 40, 61, 62; 11, 256, 259, 261, 289, 382; 111, 187. Pedro (conde D.) — v, 70; vi, 286. Pegado (Vicente) — capitão — vn, 87 — degredado — vn, 3o — secretário — vn, 6. Pegas (João) — cavaleiro e capitão da for¬ taleza do Passo do Vau — n, 272. Pegu — ilha e reino na enseada de Bengala — 1, 126; 11, 296, 456, 459; m, 156, 206, 324; iv, 387; v, 14 a 16, 20, 21, 57, 61, 99; vn, 92, i3o; vm, 518, 519 — cidade de —v, 16, 19, 20 —costa de — vn, 220 junjo de — m, 188 — roliz-mór da — v, 20, 21—senhores dos jungos de — iii* 153. — el-rei de — 111, 206, 240; iv, 387, 388; v, 8, 18 a 21. ' S3
  • da índia 658 Hiftôria Pegus — ui, i5i, 153, i88;v, 17 —merca¬ dores — 111, 151. Peixoto (Fernão)—1, 88, 96 — cativo em Calecut — 1, 95 — escrivão — vm, 510. Peixoto (Gonçalo) — 1, 96. Pemba — ilha — v, 51 — embaixador de — vi, 218 — rei de — v, 34; vi, 218, 219. Penalvo (João; — capitão — viu, 212. Pequeno (Diogo Rodrigues)—bombardeiro — 1, 141. Pera — ilha de — vm, 291—cidade a 40 léguas ao norte de Malaca — viu, 412 — el-rei de — vm, 412. Peral — ix, 568. Percolim (Coje) — mouro mercador — vm, 240, 241, 4,9, 45o. Pereira — capitão — ix, 551 — irmão de Manuel de Lacerda — h, 484. Pereira (O) — alcunha do piloto de Bal- tasar da Silva —111, 121. Pereira (Aires) — veja: Berredo (Aires Pereira de). Pereira (Aires) — capitão da Taforea — 111, 125, 129, 139. Pereira (António) — viu, 353, 394, 488 — capitão —viu, 354, 3g3, 395, 4i5 —ca- pitão-mór do mar — vm, 418 — capitão- mór do mar de Maluco — vm, 468 — fe¬ rido — vm, 332, 333. Pereira (Braz) —sobrinho de Gonçalo Pe¬ reira — vm, 258, 263, 265, 26S, 269, 285, 286 — capitão-mór do mar — vm, 235 — capitão-mór do mar de Maluco — vm, 210 — capitão-mór do mar de Ternate — vm, 264. Pereira (Diogo) — por alcunha o Malabar, fidalgo e cavaleiro — 1, i63; 11, 314, 444, 452; ui, 126, 369; viu, 278, 423, 425 — ca¬ pitão-mór — 1,140 — escrivão de feitoria de Cochim — n, 444; m, 91, 368. Pereira (Diogo) — veja: Cochim (Diogo Pereira de). Pereira (Diogo Botelho) — capitão — vit, 154, i56; vm, 243, 278. Pereira (D. João) — vm, 3o5, 3oõ, a 377, 402 a 404, 421, 422, 426 —capitão — ix, 575 — capitão-mór e capitão de Gôa — vm, 304, 374, 401. Pereira (D. Manuel) — capitão —11, 403. Pereira (Duarte Pacheco) — fidalgo da casa Real —1, 187, 199 —capitão da ar¬ mada de Afonso d’Albuquerque — 1, 115. Pereira (Francisco) — vm, 433, 435, 475 — capitão — vm, 428, 480. Pereira (Francisco) —veja: Berredo (Fran¬ cisco Pereira de) Pereira (Francisco) — veja : Coutinho (Francisco Pereira). Pereira (Francisco) — veja: Pestana (Fran¬ cisco Pereira). Pereira (Gaspar) — 11, 421, 424, 442, 444, 445; m, 272, 292 a 295, 297, 298, 3oo a 3o3, 3o5, 307 — provedor da fazenda del- -rei de Portugal na índia, e secretário do governador —11, 443 ; m, 212, 213. Pereira (Gonçalo) — m, 3oo; vm, 210,219, 220, 226 a 238, 257 a 270, 285, 286, 318 — capitão — m, 222; v, So, 85, 93 ; vm, 291. Pereira (João) — fidalgo — v, 94; vu, 5t, 170 —capitão —v, 93; vii, 167 —capitão da caravela Santiago — m, 332 — ferido — vu, 168. Pereira (João Rodrigues) — capitão da nau Botafogo —u, 417, 418. Pereira (Jorge de Melo) — fidalgo —11,3y5, 404, 424, 425, 435, 437,446, 485, 487; m, 213, 215 ; v, 96 — capi tão da nau Belém — u, 374, 3o5, 419, 481 — capitão de Ca- nanor — m, 214 — capitão-mór — m, 212 — C3pitão-mór de Henrique Nunes de Leão —11, 3o5. Pereira (Lançarote) — capi ião — ix, 53q. Pereira (>Nuno) — fidalgo e capitão —vii, 5i, 160, 167. Pereira (Nuno Vaz) —fidalgo e cavaleiro, cunhado de Fernão Peres d’Andrade — n, 256, 266, 267, 424, 425, 434 a 43S; iv, 435; vn, 34 — capitão — 11, 255, 265 ; ív, 421; vi, 270 — capitão da nau Santo Es¬ pirito —11, 419 — capitão de Sofala —11, 275, 282, 374 — quadrilheiro —11, a35 — 11, 235 — sua morte —11, 439. Pereira (Pantaliâo) — vm, 478, 5oo, 5oi. Pereira (Rui) — fidalgo e cavaleiro —11, 267, 314,(434, 436; vu, 87 — alcaide-mór
  • índice onomástico 65g da fortaleza de Benastarim — in, a5i — capitão — vi, 272 —capitão da galé Bas¬ tardo— vn, 94 — capitão do convés da nau de Duarte de Melo —11, 38p — qua- drilheiro-mór — vn, 118 —morte de — 11, 279. Pereira (Rui Dias) — fidalgo —11, 279, 291, 297, 29S; vn, i€o; vm,423,470—alcaide- -mór e capitão da nau S. Jorge da ar¬ mada de Tristão da Cunha — 11, 276. Pereira (Rui Vaz) —v, 56, Sj, 77, 182, Ó2; viu, 302 — capitão —v, 80, 84; vi, 180; vn, 6; viu, 242; tx, 577 — capitão do navio S. Luiz — vn, 94. Pereira (Vicente) — fidalgo, cavaleiro, fe¬ rido — 11, 267, 314. Peres (Fernão) — ferido —11, 317. Pereslrelo (Bartolomeu) — feitor de Ma- laca e povedor da fazenda — m, 337, 358. Pereslrelo (João Lopes) — capitão da se¬ gunda armada de Vasco da Gama — 1, 96. Pereslrelo (Rafael) — irmão de Bartolomeu Perestrelo — m, 357, 358; iv, 387; v, 84 — capitão —v, 34, 5i, 80 — capitão da armada de Jorge d’Albuquerque — v, 23. Pérolas — 1, 35; 11, 260, 459; m, 311,312. Pérsia — 1, 71; 11, 245, 323, 324, 336, 338 a 340, 355, 368; ni, 26, 28, 178, 228, 287, 289, 312, 32i, 346, 364; v, 37,46; vi, 2o3, 223, 224, 290; vn, i63; viu, 227 —cabo da — ui, 345 — estreito da — a 160 léguas d’Ormuz — n, 276, 323 ; v, 55; vm, 325 — mar da — 11, 336; m, 3i 1 — panos da — 11, 225 — reis e xeques da — m, 347. Pérsios — moradores em Ormuz —11, 258, 337; m, 316 — de pleja — m, 167. Persiana (moura) —11, 462. Persianos —11, 33q ; 111, 132 ; iv, 440; v, 94 — de pleja — m, 168. Pérsio (Sino) — na Arábia —11, 336; m, 365. Peru— do Imperador — vm, 491. Pessanha (Álvaro de) — capitão —11, 416, 424, 434. Pessanha (Ambrósio) — filho mais novo de Manuel Pessanha —11, 391; m, 12. Pessanha (António) — por alcunha o Bas¬ tardo, fidalgo e cavaleiro, natural d'Alen- quer —11, 314; v, 20, 61. Pessanha (João) — escrivão e pai de Rui Dias — m, 71. Pessanha (João Rodrigues) — filho de Ma¬ nuel Pessanha — it, 285; ix, 568, 5yo — capitão dos homens de D. Lourenço d’Al- meida —11, 396 — sua morte —11, 397. Pessanha (Jorge)—filho de Manuel Pes¬ sanha —11, 396 — sua morte —11, 397. Pessanha (Manuel) — fidalgo — n, 263, 395, 401, 419, 434, 449, 450; ui, 10, 14 —ca¬ pitão —11, 236; 111, 7 — capitão da forta¬ leza d’Anjediva — n, 210,282 — capitão- -mór —11, 210, 2i5, 228 —sua morte — m, 12. Pessoa (Afonso) — m, 67, 74, 128, i5i, 189, 199, 200, 243, 272 — capitão —ui, 65, 125. Pessoa (António) — ix, 5:g — capitão — vi, 279, 292, 339 — casado em Gôa —vi, 286 — embaixador — ix, 556. Pessoa (Baltasar) — cavaleiro da ordem de Santiago—v, 98; vi, 224, 225; vn, 121 — embaixador junto do Xeque Ismael — VI, 223, 226. Pessoa (João Rodrigues) — sua morte — iv, 409, 410. Pessoa (Nicolau Gomes) — Tanadar de Salsete — tx, 548 a 55o. Pessoa (Pero) — feitor de Malaca — m, 207, 208. Pestana (Francisco Pereira) - 11,418,446; in, 215, 217, 241; vi, 178, 210, 211, 213, 262, 326, 333 a 336, 340; vn, 187— capi¬ tão de Gôa — vi, 2o3, 221, 261 — capitão da nau Lionardo —11,417 — capitão de Guilôa — 11, 417, 447 — capitão-mór — vi, 325. Peteira (Diogo Fernandes) — fidalgo, ca¬ valeiro, e capitão da armada de António de Saldanha—1, 115, i3a, 134. Petrea — ilha da Arábia — ni, 266. Phelipo, ou Felipo—homem santo da terra do Preste — v, 44. Pimenta — 1, 17, 26, 3o, 31, 34, 61, 64, 85, 86, 89, 91, 94,99, 123, 125, 128 a 131, i35, 168, 169, i85, 190, 196, 199; 11, 239, 252, 289, 382, 383, 403, 420, 456, 45g; m, 55,
  • 66o Hiftoria da índia 57, 86, 93, U2, 131, 145, 147, i58, 187, 217, 285, 293, 298, 299, 307, 3io, 35o, 367, 372; iv, 3.83 a 386, 40Í, 440; v, 11, .15,63 a 65, 75, 76; vi, 201, 226, 237, 263, 265, 278, 297, 359; vii, 9,43, 85, 115, 116, i58, 171; viu, 214, 216, 256, 270; ix, 56o, 573 — naus de — nt, 120 — el-rei de —111,91, 93, 114. Pimcntel (Jorge) — ix, 568, 56g. Pimilara — el-rei de — feito cristão — vra, 523. Pina (António) — moço da câmara d’el-rei de Portugal — vi, 233. Pina (Diogo de) —filho de Rui de Pina, ferido — v, i3. Pina (Rui de) — cronista — 1, 70; v, i3. Pina (Simão de) — capitão da armada de Pedro Alvares Cabral — 1, 72, 74. Pinheiro (Álvaro) —ouvidor — v, 134, i35. Pinheiro (João) — mulato, natural de Se¬ túbal — viii, 440. Pinheiro (Pero) — viu, 459. Pinto (Álvaro) — alcaide-mór da fortaleza de Chaul — vn, 81. Pinto (André) — Tanador pequeno; vi, 211 — ferido — viu, 3gi. Pinto (Cosme) — capitão e criado de D. Luiz de Meneses—vi, 210, 211. Pinto (Cristóvão) — capitão — v, 86, 106. Pinto (Fernão) — sua morte — vm, 492. Pinto (João de Canhe) — vm, 354, 383, 392, 413, 416. Pinto (Jorge) — veja: Silva (Jorge Pinto da). Pinto (Lopo Fernandes) — cativo — vm, 340 365. Pinto (Manuel) — vm, 258, 264. Pintor (O) — capitão da armada de Lopo Soares — iv, 395. Pio — dignatário chinês — iv, 432. Pir (Xeque) — Iogue — vm, 3n, 312, 317. Pira — el-rei de — vm, 309. Pires (Afonso) — cavaleiro — vm, 238, 258, 264, 266, 267 — capitão — vn, 100; vm, 285. Pires (Cristóvão) — escrivão da nau de Duarte Pacheco — 1, 140. Pires (Diogo) —1,99,109,14, i35, 147, 200; 11, 252, 284, 357, 358, 386, 391, 392, 395, 396, 416, 425, 429, 434, 436 ; vi, 327, 329 — da gente de D. Lourenço d'Alroeida — 11,265 — capitão —1, io3,131. 146511,265, 283, 424 — capitão da armada de Manuel Teles de Vasconcelos — 1, 199 — capitão da armada do vice-rei D. Francisco d’Al¬ meida — 11, 356 — capitão da caravela Santa Maria—1, 141 —capitão da guarda da feitoria de Cochim — 1, 96 — condes- tável da fortaleza de Calecut —vi, 321, 326, 328. Pires (Francisco) — filho de Afonso Pires — vn, 107, 10S; vm, 201, 267 — capitão — VIII, 354. Pires (Gonçalo) — marinheiro — 1, 43, 54, 55. Pires (Jerónimo) — 1, 141. Pires (João) — da fortaleza Manuel, e da nau de Duarte Pacheco — 1, 140. Pires (Luiz) — capitão da armada de Pedro Alvares Cabral — 1, 72 — mercador — vi, 3o6. Pires (Sebastião) — vigário geral da índia — vn, 84, 86. Pires ( Thomé) — boticário do príncipe D. Afonso e embaixador — iv, 386, 4Í2 — capitão — vn, 26, 115, 131. Pocaracem — mòuro principal de Cananor — ui, 271, 272, 290, 291, 297. Pofegi — filho de Meliqueacem e capitão d’el-rei de Cambaia — ix, 542, 552. Poiares (comendador de) — nt, 261. Polas (Dafela) — vi, 202. Poleas — trabalhadores, do Malabar — 1, 165 a 167. Polvoreira — ilha da — perto de Sumatra — 11, 467, 470; m, 128, 129. Pombal — vila — iv, 444. Pombal (Jorge Botelho do) — cavaleiro da casa Real e primo do comendador Rui Soares —11, 403; m, 14, 101, 109, 110, i5i, 204 a 209, 242 a 244, 249, 25o, 275, 327 a 329, 358 a 36i, 363; iv, 422 — ca¬ pitão— 11, 281, 402; m, 98, 200, 203 — capitão da caravela Redonda — m, ia5. Pombeiro — vn, 153. Ponáhambar — âmbar d'oiro — iv, q38.
  • índice onomástico 65i Pondá — iv, 392, 408; v, 91; vi, 2i3; vm, 284, 374 —rio de —ív, 415 — tanadaria de —m, 118; ív, 414; v, 90; vi, 211. Porcate (Xarife) — senhor de Meca e das terras de Judá até Toro —111, 267. > Porcelanas — 1, 35; 11, 45q. Pormão (Pero Vaz) — capitão — v, 131. Porqud (terra de) — 1, 152, i$o, 166; vi, 287, 351; vir, i63 — Arei de —vi, 279,282, 348, 35i, 352 — vila de — vu, 162. Porras (Pero Rodrigues) — fidalgo — vm, 423 — sua morte — vm, 426. Portalegre (conde de) — D. Diogo da Silva de Meneses — 1, 71. Pôrto — cidade —11, 397; ui, 261; v, 62. Pôrto (Afonso do) — da nau de Duarte Pa¬ checo — 1, 140. Pôrto (João do) — da nau de Duarte Pa¬ checo— 1, 140. Pôrto (Jorge de) — da caravela Santa He¬ lena— 1, 140. Pôrto (Diogo Brandão do) — ív, 460 — ca¬ pitão — viii, 304. Portugalete (Inhigo de) — calafate bis- cainho — 1, 141, 147. Portugal — 1, 5 37, 10, 13, 24, 25, 29, 3o, 40, 42, 45, 47, 48, 5i, 53, 54, 56 a 58, Gi, 62, 66, 68, 70, 82, 86, 89, 90, 92 a 95, 98 a 100, io3, 104, 108, 116, 119, 120, 125, i3o a i3a, i35, i38, 160, i65, 181, 186, 191, 197, 199, 201, 202; 11, 208 a 210, 214, 223, 228, 233, 23g, 241, 25i, 256, 258, 262, 263, 270, 272, 277, 282, 283,290, 3o3, 319, 329, 355, 359, 36o, 374, 375, 386, 404,406, 409, 410, 416, 419 a 425, 429, 443, 445, 447, 45o, 451, 453 a 455, 400, 467, 471, 475, 477 a 483, 485, 487; in, 5, 7, 8, 10, 12, 14 a 18, 35, 70, 72, 83, 86 a 89, g3, 95, 96, 98, 108, n3, 120, 124, 177, 179, 181, 182, 186, 190, 198, 2i3, 214, 217, 229, 236, 238, 241, 272, 286, 289, 291, 292 a 294, 297, 299, 3oi, 3o2, 304 a 310, 3z3, 324, 329 a 331, 334, 336, 363, 364, 368, 369, 372; ív, 383, 384, 392, 413, 420, 421, 433, 436, 453; v, 3, 4, 23, 25, 31, 34, 35, 40, 5i, 56, 64, 79, 88, 89, iii, 112, 120, 128, 129, 147; vi, i5i, i56, 160, 162, 178, 180, 189, 192, 195, 202, 2i5, 226, 23i, 260, 263, 266, 270 a 272, 279, 35o, 351, 362; vu, 12, 18 a 20, 22, 28 a 3o, 59, 66, 77, 84, 86, 93, 55, 109, 115, 118, i2i, 123, 128, 1Í7, 149, 155, 156, i63, 181 a i83, 186, 188; viii, 194 a 196, 210, 226, 239, 240, 243, 254, 268, 271,'274, 279, 280, 304, 306, 315, 318, 334, 335, 339, 355, 37o, 371, 373, 377» 407» 4'4> 442,448, 4^8, 477, 479» 492. 498, 5o6; ix, 557, 56o, 570, 573, 574, 577 — armada de — 1, i5i; 11, 282,416,477, 478; ui, 7, 45, 46, 56; vu, 23, 32, 186 — armas reaes de — 1,6; 11, 334 — bandeira das armas reaes de — 1, 72 — casa real de — 1, 8; 11, 383; 111, 210 — Cochim de — viii, 212 — embaixadores do Xeque Ismael a — in, 352 — frota de — o, 322 — mercadorias de — tu, 283 — naus de — naus de —11, 322, 403, 416; ui, 47, 81, 82, 180, 19Ó; ív, 386, 418, 419; v, 11, 52, 66; vm, 270—Padrão de — 1, 61, 68; n, 457 — Prmcpe de — m, 240 — Rainha de — ui, 240 — reino de — 1, 5; vu, 98 — reis de — 1, 69, 71; 111, 363; vm, 143 — el-rei de — 1, 41, 48, 5o, 52, 61, 75, 78, 81 a 83, 87, 90 a 92, 96, 100 a 102, 104, 112, 116, 119, 121, 127, i31, i33, 134, 141, 156, 173, 174, 186, 187, 189, 191, 193 a 195, 198; 11, 207, 211, 213, 214, 216,217, 225, 227, 229, 231, 239, 241, 248 a 25o, z53, 255, 256, 262, 270, 276, 282, 283, 289, 291, 292, 297, 3o3, 3o5, 323, 324, 329, 333 a 335, 341 a 343, 349, 35o, 352, 354, 355, 36o, 36i, 365, 367, 370, 377, 401, 404 a 406, 4Õ, 417, 419 a 421, 425, 429, 439 a 442, 444, 447, 449, 457, 465, 472 a 474, 480, 481 ; ui, 6, 18, 19, 24, 25, 27 a 29, 3a, 33, 36, 41, 54, 69, 72, 83, 88, 91, 98, 100, 107, 108, n3, 114, 116 a 120, 123, 126, 127, i3r, i32, 134, 135, 137, 138, 145, 147, i5i, 155, 157, ■ 58, 160, 169, 181, i83 a i85, 187, 192, 196 a 198, 2i3 a 215, 217, 225, 227 a 233, 237, 239 a 242, 255, 271 a 273, 282, 283, 28Í a 293, 295, 298 a Soo, 302 a 3io, 3i2, 3i3, 317, 322, 324, 329 a 331, 333, 33q, 336, 345, 352, 355, 357, 358, 363, 36q, 367, 309, 370, 371; ív, 383 a 386, 388, 3o3, 3g5, 404, 405, 4 >4, 4'5,426,427» 43o, 432 a 434, 445, 447, 448, 45o, 453,
  • 662 Hijioria da índia 461; V, 4, 5, 8, 9, II, 12, 20, 21, 23, 29 a 32, 35, 36, 38, 4'i a 45, 47 a 49, 5i, 5g, 61, 64 a 67, 69 a 71, 73, 74, 76 a 78, 80, 81, 85, 87 a 90, 92 a 94, 99, ioo, 102, 111 a ii3, u5, 117, 120, :25, u8, i3o, 137, i38; vi, i52, 154, 155, 157, i65, 166, 170 a 172, 176, 177, 179, 182, i83, 187 a 189, 191, 192, 195, 196, 198, 200, 201, 204, 211 a 214, 216, 218, 222, 223, 233, 237, 242, 255, 259, 267, 269, 270, 272 a 275, 277, 289, 290, 336, 340, 348 a 35o, 356, 358, 3ói; vn, 9, i3, 15, 17 a 19, 23, 24, 26 a 3o, 35, 42, 44, 45, 48, 40, 73, 74, 77, 89, 102, 110, 112, 114, ii5, 121, 128, i36, 146, 147, 169, 178, 181 a i83, 187; viu, 194 a 196, 202, 203, 208 a 211, 214, 217 a 219, 222, 225, 227, 228, 231 a 236, 238 a 240, 254, 257, 264, 266, 267, 271, 274, 277, 284, 286, 290, 292, 297, 3o2, 307, 3io, 318, 321, 324 a 326, 328, 353, 363, 365 a 369, 37i, 376, 382, 398, 405, 410 a 412, 427, 428, 442, 447 a 449, 463, 467, 470, 473, 475, 476, 478, 486, 491, 494, 495, 504 a 5o6, 514, 5i7, 519; ix, 532, 534, 535, 537, 538, 544, 545, 556, 56o, 561, 566, 371, 572, 573, 575, 577 —alvará d’ — iv, 421; v, 8; vn, 24—armas d’ — 1, 63 — cartas d’ — 1, 40; ui, 89, 3o5; v, 124; vii, 23 — embai¬ xador d’ — 1, 40, 42, 47; v, 129 — feitoria de—1, ioo, 104 —reino d’ — vi, 199. Português — degredado de Melinde —11, 385 — mulato natural da Ilha da Madeira —11, 362 — Judeu — morador em Je¬ rusalém — m, 287. Portuguesa (mulher) — cativa de mouros — v, 5. Portugueses — 1, 5, 17; 11, 3o5, 3n, 318, 356, 393, 395; ui, 251, 256, 272, 321,332; iv, 385, 387, 3g3, 395, 397, 400 a 405, 431 — mortos pelos mouros — iv, 384. Poyto — filho do Samarao — vui, 418,419. Prata — 1, 17, 26, 61; 11, 212, 256, 261, 278, 279,418,4595111, r 56, 187 ;v, 128— anéis de — 1, 17 — minas de — in, 234. Pratas — alcunha de um comprador de Tristão d’Ataíde — viu, 464. Preto (Gaspar) — criado de Cristóvão de Sousa —vi, 219; viii, 396 a 398, 424 — cavaleiro e embaixador — vm, 379—fe¬ rido — vm, 426. Preto (Luiz) — capitão — 11, 416, 424. Preste (O) — 1, 7; in, 234, 236, 238, 265, 33o; iv, 395, 402, 403 ; v, 38, 39, 43, 45 a 49; vi, 186 a 196, 198, 199, 201, 202; vn, 13, 3o, 117 — cartas do — vi, 198 — costa do — v, 37, 49; vi, i85, 197, 198, 200, 201 — cristão do — v, 45 — embaixador do — tu, 232, 241, 257; iv, 453 — escrava do embaixador do — ni, 241 — mulher do embaixador do — m, 241 — justiça-mór do — vi, 201, 202—mãe do —m, 233, 237, 241, 363 — embaixador da mãe do — m, 287 — mordomo-mór do — vi, 197 — Patriarca do — vi, 195, 196 — senhor das índias e Ethiopia —1,7; n, 334; m, 23a, 233 — senhorio do — 1, 6,8; m, 233, 236, 268 — terra do — m, 266, 267, 270, 277; v, 44 — frades da terra do — 1, 8; 111, 294. Primeiras (ilhas) — 1, 74; 11, 210, 874, 375, 446. Proença (Rodrigo de) — escrivão—vm, 510. Puchanci — dignatário chinês — iv, 482. Puéte (Diogo de lo) — mestre d’obras — v, 83. Pulás — fidalgos de Coulão — iv, 384, 404; v, 10, 11. Pulata — senhor de um jungo — m, 145; iv, 422. Pulatecão—turco, capitão géral do Idal- cio — m, 34 a 38, 44, 47 a 5i, 53, 54, 56, 61, 64 a 66, 68, 161, 162,164 a 167, i6q, 170 — capitães de —m, 162. Pulopuar (ilha de) — vn, 34, 35. Puluã (ilha) — do senhorio d’el-rei de Bor- neo — vi, i63. Punache — naire, cunhado de el-rei de Ca- lecut — vi, 259, 277. Punda (rio de) — ix, 576. Punho (Jorge de Melo) — fidalgo — vm,423. Pythagoras — n, 288. Q Quadra (Gregorio de) — cavaleiro e que
  • índice onomástico 663 fôra criado do marquês de Vila Real — n, 446, 471, 472; m, 279; iv, 411. Quadraji (Melique) — íilho do regedor de Surrate e pagem d'el-rei de Cambaia — iii, 220 a 322, 325 — carta de —111, 326. Quaresma (Diogo) — capitão — viu, 212. Quaresma (Pero)—11, 279, 282, 290; ui, 98, loi, 121, 122, 124, 164 a 166, 176, 182 — capitão —11, 277; iv, 420 — capitão da armada de Diogo Mendes de Vascon¬ celos — iii, 85. Quatepatir — Jau, homem principal de Ma- laca —111, 143, 191, 199 a 201, 205 a 207 — filho de — iii, 206, 207. Queimado (Garcia) — vi, 3oo. Queimado (Gonçalo) — 11, 34G, 413 — al¬ feres — 11, 373; iii, 12 — piloto-mór —11, 3q6— sua morte — nt, 12. Queimado (Job) —11, 277, 291,298,300,404 — capitão da frota de Tristão da Cunha —11, 276. Queimado (Pero) — ni, 3i 1, 316 a 318, 322, 325 — sua morte — viu, 333. Queirof (João de)—11, 270 — capitão do navio S. Paulo da armada de Pero d’Anhaya — 11, 229 — sua morte — 11, 23o. Queiroj (Pero de) — v, i32. Queixada (Gaspar da) — capitão da frota do Imperador—vi, 157, 160 —mandado degolar, por Fernáo de Magalhães — vi, 159. Queixome — ilha a 3 léguas d’Ormuz— u, 339, 340, 378 a 38o, 409, 410, 414, 4i5; v, 138, 143 a 146; vi, 153, 178, 179. Quejaj—veja: Meliqueaz. Quelius — mercadores que moram no lado norte de Malaca —11, 458; iii, i5i, i53; vi, 242, 3oo, 3o6; vu, 144; vui, 309,488 — cidade dos — vi, 243 — povoação dos — 11, 461; viu, 487, 488. Querimba — ilhas de — vi, 218. Quibibi (el-rei de) — vai, 391. Quilôa — ilha de — na costa da Etiópia — o mesmo que ilha dos Cristãos — 1, 20, 23, 5o, 74, 93, 96, 97, 132, 201; 11, 207 a 211, 214 a a 16, 224, 225, 227, 228, 233, 241, 270, 271, 277, 278, 291, 416, 447; IV, 418; v, 34 — cidade de — 1, 74; 11, 213 — costa de — a, 283 — fortaleza de —11, 2i3, 214 —reino de — it, 214 — el-rei de — rei de Moçambique — 1, 18, 74, 75, 97, 133; 11, 211, 213, 214; v, 34. Quintal (Álvaro) — 11, 359. Quintela — em Portugal — v, 61. R Rabandar — meia légua de Pangim — m, 24, 5S, 60, 68, 74, 99, 112. Raboreda (António de) — ferido — vm, 426 — casado em Gôa — vm, 421. Rachol — cidade — m, 68, 79, 97, 99; v, 90, 91; viu, 402, 439, 442 — fortaleza de S. João de — no rio Salsete — vm, 376, 402, 405, 438, 441 a 443, 449. Rade (Cachil) —irmão do rei de Tidore e governador de Tidore — vm, 198, 200, 4G2 a 465, 490, 496, 521; ix, 538, 539. Rafael (Jaze)—clérigo abexim — vi, 192. Rafael (Pero) — 1, 99, 102, 114, 129, i35, 132, i5y, i5g, 160, 164, 168, 174, 191, 198, 200, 201; 11, 240, 252 — capitão —1, io3, i3i — capitão da armada de Manuel Teles de Vasconcelos — 1, 199 — capitão da caravela Santa Helena — 1, 140 — ca¬ pitão da guarda da feitoria de Cochim —1,96 — capitão-mór—1, 189. Ragabaho — justiça-mór de Ternate —vm, 351. Raix (Soleimão) — viu, 3o, 94, 118; vm, 217. Raja (Laxa) — capitão-mouro — vu, 41. Raja (Sanaya) — vu, 40, 41, 178, 179; vm, 333 — Bendara de Malaca—vu, 177 — capitão — vu, 36 — sua morte — vu, 180. Raja (Tuão) — capitão-mouro — vu, 41. Ralu — naique canarim, capitão — iv, 417; viu, 402, 421. Rama (cabo da) — in, 82. Ramatrauiri — filho da rainha de Camorim — v, 67. Ramos (António) — iv, 419. Ramos (Francisco) — da nau de Duarte a checo —1, 140.
  • CÕ4 Hiftoria da índia Ramos (Pero) — castelhano — viu, 201,49.S, 496. Rangel (Simão)—m, 76; viii, 485 — ca¬ tivo— m, 196, 2i5 — capitão — viu, 480. Rao — capitão de Diu — viu, 443 a 443, 447. 448, 473- Raos — que em Narsinga é como o Dom em Espanha —11, 246. Rapanaique — canarim, capitão do Idalcão — v, 91. Raposo (António)—111, roi,- 251, 256, 260, 283, 289, 3oo, 3oi, 338 — alcaide-mór de Gôa e Tanadar de Pondá — v, 91 — ca¬ pitão— ui, 100, 311; v, 7, 36, 80 — ca¬ pitão da armada de Lopo Soares — iv, 394 — capitão do navio Ferros — iu, 332 — nau de — iv, 397. Raposo (Baltasar Rodrigues) — natural de Beja — vi, 3o3 — capitão — vi, 304 — ca- pitão-mór — vi, 310. Raposo (Luiz) — criado d’el-rei de Portugal — v, io5. Raposo (Nuno Martins) — capitão da cara¬ vela Anunciada — 111, 33í — secretário, de Afonso d’Albuquerque — m, 336, 338, 339, 354, 355, 356. Raulu — ui, 167. Ravasco (Rui Lourenço) — capitão da ar¬ mada de António de Saldanha — 1, ii5, i32 a 134, 193, 200. Real (António) — u, 424; 111, 126, 195, 196, 272, 291 a 294, 3o2, 3o5 a 307, 310 — al¬ caide-mór e capitão da fortaleza de Co- chim — patrão-mór da ribeira—iu, 7, 18, 95, 304 — carta de — m, 307 — ca- tures de —111, 195. Rebelo— português que ia na frota do Im¬ perador— vi, 157. Rebelo (Diogo) — v, 52; viii, 38o, 408, 496, 5i8. Rebelo (Francisco) -r- vi, 3oo — sua morte — Vi, 3oi. Rebelo (Gonçalo) — criado de Rodrigo Re¬ belo e tanador da ilha de Chorão — m, 181. Rebelo (João) — feitor de Cochim — vi, 316; vii, 23 — sua morte —vi, 176. Rebelo (Lopo) — escrivão da feitoria de Coulão — 1, 128. Rebelo (Rodrigo) — cavaleiro da casa real — 11, 284, 290, 358; ui, 10, i3, 14, 108, 109, 123, 167, 181 — capitão—11, 227, 283 — capitão da nau Aveiro —11, 265 — capitão da nau Sebastiana Velha na ar¬ mada de D. Fernando Coutinho —11,479 — capitão da fortaleza de Cananor — iu, 86 — feitor — viu, 413, 452. Rejo (Ambrósio do) — vi, 152, 172, 174, 235, 236 — capitão — vi, 2J4; viii, 242, 427 —feitor e alcaide-mór de Chora- mandél — vii, 3i. Reinoso (Diogo de) — viii, 435, 436, 484 — capitão — viu, 428. Rembarbu — n, 459. Repeda (Tristão de) — cirieiro da forta¬ leza Manuel — 1, 140. Repelim (terra de)—a quatro léguas de Cochim — 1, 107, no, 121, 13g, 140, 144, 152, i63, i65, 172, i83 a i85; viii, 407, 428, 437 — cidade de — viu, 43o — el-rei de — viii, 429, 480 — ponta de — 1, 168 — rio de — 1, 144, i83. Resende (Fernão de) — capitão — m, 332, 367—capitão da armada de Lopo Soares — ív, 395 — escrivão da feitoria de Ma luco — vi, 214. Restelo — praia — 1, 9. Rex (Hamed) — vin, 504. Re.v (Salomão) — turco, capitão-mór e se¬ nhor de Judã — ív, 391, 396, 397, 399, 402. Reynel — cidade rica da enseada de Cam¬ baia —11, 385 ; 111, 3o; viu, 204 a 208, 256 — pôrto de — ix, 571 — rio de — vin, 204 — Soltão de — ix, 571, 572. Reynel (Pero) — vi, 214. Reynel (Rodrigo) — cavaleiro — 1,13o, 131, 137 — feitor da pimenta de Cranganor — 1, 129 — sua morte — 1, 139. Reyxel — cidade e pôrto com fortaleza na costa da Arábia—m, 312, 33o; viii, 3a5, 326, 328 — el-rei de — vni, 325 a 327 — Xeque de — vi, 177. Refbutos — vii, 15; viii, 335. Rhodes — 1, 6; vi, 3ia, 319.
  • índice onomástico 665 Ribeira — da cidade d’Adem — m, 73 a 75, 77, 99, 122, 134, 255, 256 —porta da — in, 56,76,99. io3, 104 — patrão da — m, 38. Ribeiro (Jácome) — comitre, cativo dos castelhanos — vu, 128. Ribeiro (João) — capitão — viu, 3a5. Ribeiro (Pero) — da fortaleza Manuel — 1, 140. Rico (António) —secretário da índia — vn, 29, 82. Roçalcão — cunhado do Idalcão —111, 168 a 181, 196, 211, 212, 217, 218, 220, 223 a 228, 239. Roçai cale (cabo de) —11, 322, 406; v, 52, 55. Rocha (Diogo da) — vn, 107, 108. Rodes (cerco de) — vm, 5o5. Rodrigues (Baltasar) — feitor — vu, io3, 106, 110. Rodrigues (Diogo) — da fortaleza Manuel — 1, 140. Rodrigues (Felipe) — fidalgo e cavaleiro —11, 219, 256, 267, 283 a 285, 290, 386, 389, 390, 416, 424 —capitão — m, 7 — capitão da nau Espesa — 11, 265 — capi¬ tão da armada de D.Francisco d’Almeida —11, 209, 356 — o primeiro que chegou às casas do rei de Quilôa —11, 212 —sua morte —iii, 12, 14. Rodrigues (Fernão) — vm, 422, 480. Rodrigues (Fernão)—veja: Castelo Branco (Fernão Rodrigues de). Rodrigues (Francisco) — piloto da cara¬ vela Latina —111, 187. Rodrigues (Frei) — capelão da feitoria de Coulão — 1, 128. Rodrigues (Gaspar) — língua —11, 324, 348 — feitor dos portugueses em Ternate — vi, i65, 214. Rodrigues (Gonçalo) — ferreiro, natural de Leiria e que foi na frota do Impera¬ dor— vi, i5y. Rodrigues (Heitor) — cavaleiro, criado da casa real, natural de Coimbra — iv, 404, 4o5;v, 10 a 12,64876—capitão e feitor da fortaleza de Coulão — iv, 394, 403 — v, 8, 9, 63. Rodrigues (João) — por alcunha o Chatim, criado de Diogo de Melo — vn, 153 — capitão — vu, 167. Rodrigues (João) — o faful — 1, 88; vin, 422. Rodrigues (João) — veja: Noronha (João Rodrigues de). Rodrigues (Jorge) — escrivão d’el-rei — vn, 25. Rodrigues (Leão) — da fortaleza Manuel — 1, 140. Rodrigues (Sebastião) — ni, 41 a 43, 224 a 228, 239—escrivão da casa da moeda —u, 397 — contador e escrivão da camara de Gôa — in, i65, 177; vm, 403. Rolis — sacerdotes pegús — v, 17. Roma — 1, S ; v, 44 — igrej a de — vi, 190. Romeirão (Fernão) — patrão da ribeira e cativo dos castelhanos — vn, 128, 129. Ronor (Luiz Patrício) — n, 359. Rosadas (Aguas) — 1, 35. Rosado (Cristóvão) — capitão da armada do vice-rei D. Vasco da Gama — vi, 260, 261. Roxate — vm, 504, 5o5. Roxo (mar) —1, 5, 7, 17, 65, 93, 114, 128, 129; 11, 208, 252, 276, 282, 296, 3o6, 38i, 382, 384, 416,417,432,459; 111, 17, 86,98, 106, 110, ui, 118 a 120, 123, 233, 236, 239, 240, 251, 266, 270, 271, 277, 278, 282, 287, 290, 292, 296, 299, 3oq, 33o, 332; iv, 407; vi, 347; vn, 13 — Bispo dos lugares do—vi, 196 — estreito do — 1, 21, 3a, 104, 115, i32; iii, 17; vi, 196 — mouros do — 1, 18, 127; iii, 160, a56, 270. Rubaca — aldea d’Adem — m, 253. Rubães — iii, 267 a 270; iv, 396. Rubens — ilheta que fica em frente da ilha de Mihum — iii, 266. Rubis — 1, 17. Ruim (João Nunes) —11, 464, 467, 469 a 471 ; ui, 111. Rumecão — filho de Coje Sofar — vm, 247 a 249, 253, 254, 281, 307, 321 a 324, 334, 335, 357 a 36o, 469. Rumecão — patrão de um galeão de Mi- rocem —11, 384. Rumes —1, 193 — 11, 353, 386 a 388, 391 a 84 Tomo IV
  • 666 Hijlória da índia 393, 396 a 401, 416, 419, 420, 424, 429, 61, 63; vn, i5i, i63, 164, 166, 168, 170, 432 a 440, 442 ; ui, 46, 48, 73, 83, 107, 1 io, 118, 119, i32, 195, 216, 255, a56, 295, 297, 33o, 354; iv, 386, 395, 397, 399, 400, 405, 419, 440; v, 7, 22, 35, 37, 72, n5; vi, 191, 200, 201. 273, 295, 347; vn, 5, 10, 18, 3i a 33, 49, 52, 53, 56, 62, 67, 94, 118, 121, i3o, i65; viu, ai 1, 317, 218, 247 a 249, 273, 275, 276, 281 n 283, 3oo, 3oi, 36o, 408, 409, 474; ix, 536 — armada dos — ív, 385, 439; v, 47 —espia de — m, 241 — naus de —11, 387, 437; iu, 35, 106 — vila dos — viu, a5i, 475,496,498 a Soo, 5o3, 5i3, 514, 5i6; ix, 534. S Sá (de) — fidalgo morto em Gôa em com¬ bate— m, 177. Sá (António de) — de Santarém e por al¬ cunha o Rume —11, 410, 412, 413, 442; tu, 98,101,110; ív, 4o5 ; v, 64, 75 ; vi, 276, 277, 281, 316, 328, 33o, 346; viu, 246, 469 — capitão — iu, 179, 222; vui, 243, 25o, 322, 324 — capitão do navio Rosário — iu, 136 — feitor de Coulão — 1, 128; ív, 383 — que tomou a defesa de Francisco de Tavora —11, 378 —sua morte — ív, 383. Sá (Cristóvão de) — fidalgo e que entrou para frade da ordem de S. Francisco — v, 22 — capitão — v, 36, 80, 84 —capitão- -mór — v, 22. Sá (Diogo de) — vi, 276. Sá (Francisco de)—fidalgo e primo de Manuel da Cunha — m, i5, 16, 18,41,43, 44, S2, 59, 71, 72, ui a 114; vi, i56.273, 294, 295, 338; vn, 10, 35, 42 a 44, n5, 145; viu, 245, 251, 269, 285,435; ix, 565 — capitão — viu, 242, 25o, 268, 335, 428, 480; ix, 575 — capitão da armada de D. Fernando Coutinho — n, 479 — ca¬ pitão da armada do vice-rei D. Vasco da Gama e capitão da ilha de Sunda — vi, 260 — capitão da fortaleza de Gôa — vn, 9. Sá (Garcia de) — fidalgo — v, 8, 22, 58, 176, 178 a 180; viu, 195, 268, 280, 304, 309, 333, 36g, 379, 396, 397,405, 428, 510; ix, 533, 549, 55o, 56t, 576 — capitão — v, 57, 106, 125, 126 — capitão da armada de Diogo Lopes de Sequeira — ív, 453 — capitão da armada de Nuno da Cunha — vii, 149 — capitão de Malaca — vn, 149, 177 — preso — viii, 427. Sá (Gaspar de) — feitor d’armada — vn, 12. Sá (Henrique de)—capitão do batel de Nuno Vaz de Castelo Branco —111, 129. Sá (João de) — 1, 44 — capitão — 1, 70; vn, 87 — tesoureiro da casa da índia — 1, 42- Sá (Nicolau de) — vi, 243, 3oo, 307 — con¬ tador dos contos d’el-rei — vi, 352. Saba — rainha — iu, 233. Sabadim (Coje) — vui, 277, 38o. Sabaio — mouro, senhor da ilha de Gôa — 1, 66; 11, 234, 287; iu, 19 a 22, 26, 28, 70, 94, io3, 295, 345, 353; ív, 416 — capitão do — in, 20 — casas do — iu, to3 a io5 ; ix,— 575 — embaixador do —111, 345 — filho do Idalcão — viu, 284 — senhor do Balagate e el-rei de Narsinga —11, 475. Sabão (canal de) — ih, 2o5 — estreito — m, 2o5, 242. Saca (Meliquiaz) — filho de Meliquiaz — vii, 14, 26; viu, 3o3. Sacotora — ilha entre o cabo de Fartaque e o cabo de Guardafui — u, 276, 278, 290, 296, 297, 3o3, 322 a 324, 356, 365, 376, 377, 379, 38i, 404 a 406, 440, 447, 471, 473 a 475 ; 111, 20, 3o, 3i, 84, 85, 118, 119, 168, 178, 215, 25a, 289; ív, 395 ; v, 33; ix, 575 — feitoria de — ni, 85 — for¬ taleza de — u, 3z3; m, 118. Sada — lugar na ilha de S. Lourenço —11, 279. Saldanha (aguada de) — antes do cabo da Boa Esperança — 1, i3a; 11, 482. Saldanha (António de)—fidalgo caste¬ lhano— 1, i3a, i33, i34, 192, 197,200,201, 290; iv, 434; v, 23, 37, 45 a 47, 49; vn, t5o, i5t, t63, 164, 166, 168, 169, 180; viii, 195, 240, 25i, 253,255, 256, 271, 279, 280, 3to — capitão —iii, 222; v, 36; viu, 242
  • índice onomástico 667 — capitão da armada de Nuno da Cunha — vn, 149 — capitSo-mór —1, ti5; iv, 420; vm, 254—capitão-mór que foi ao cabo de Guardafui —viii, 278 — capitão- -mór das naus de carga — viu, 281. Saldanha (D. António de) — v, 7, 22 — ca¬ pitão-mór do mar — iv, 42t, 438, 439; v. 7- Saldanha (Diogo de) — capitão e sobrinho de D. António de Saldanha — v, 22, 36. Sadradim (Raix)— capitão e parente de Raix Xarafo — v, 98. Safardim (el-rei) — in, 355. Safardim (Raix) —111, 333 ; v, 146. Safercão — capitão d’el-rei de Cambaia — vm, 504. Safim (Bispo de) — 1, 202. Sagae — povoação de Sofala — n, 23o. Sal — rio — vi, 212. Salamanca — vn, 29. Salas (Diogo de) —escrivão da Tanadaria de Sintacóre —111, 115. Salfeie — ilha de — defronte de Gôa, do lado de Agacim — in, 34, 331; v, 90, 91; vm, 375, 426; ix, 527 a 531; ix, 542, 545, 546, 54S, 552, 555, 558 — rio de — m, 21, 34, 36, 37; vm,375,376,438 —Tanadaria de — iv, 414; v, 90; vi, 211; vm, 284, 374, 401, 449. Salgado (João) —in, 36t, 36a —capitão — v, 58. Salgado (Pero) — criado da casa real e escrivão da feitoria de Malaca — in, 190. Salmão — capitão-mór da armada dos rumes — iv, 392; vii, 67. Salomão — rei-biblico — m, 233 — templo de — iii, 233. Salne — vi, 321. Salvaleira — vi, 323. Samalamacar — mouro principal de Co- chim, mercador rico — 1, 137, 167, 169. Samalcão — governador do Idalcão — m, 227. Samarao—criado de Cachil Daroes — vi, 253, 254; vm, 226, 3ío, 352, 383 a 385, 3g3, 418, 419, 455,456, 464,465,490, 519; ix, 565. Samatra — ilha de —1, 126; 11, 256, 296, 456, 459; ui, 127, 128, i3o, 131, 158, 186, *93, 194; iv, 386, 389; v, 98, io3; vi, 228; vn, 9, 43, 139; vm, 227, 451; ix, 56i. Samecrim (Coje) — mouro do Cairo — 1, 82, 83, 86 a 88. Samgredeji — ix, 53o. Samibelegão — homem privado da casa d’el-rei de Pegu — v, 20, 21. Sam Martim (Andrés de) — astrologo — vi, 157, 159, 161, 214. Sampayo (António de) — sua morte —11, 397. Sampayo (Diogo Pereira de) — sobrinho de Lopo Vaz de Sampaio — fidalgo e capitão — vi, 286; vn, 167, 170 — sua morte — vi, 287. Sampayo (Lopo Vaz de) —m, 232, 23õ, 25i, 257, 268, 269, 285, 288; vi, 267, 269, 271, 272; vn, 5, 6, 8 a 11, i3, 14, 17 a 19, 26, 27, 31, 44, 48, 53, 54, 57, 58, 63 a 65, 67, 68, 77 a 80, 83 a 91, 95, 139, 182; vm, 195, 211, 424, 426 — capitão — ui, 222 — capitão de Cochim — vi, 260, 266, 270 — vn, 6 — capitão da nau Santa Cruz — m, 332 — ferido —111, 221 — capitão-mór e governador da Índia — vi, 266,270; vn, 6, 7, 23 a 25, 28 a 3a, 45, 47 a 5a, 55. 56, 59 a 62, 78, 81, 92 a 94, 96, 90, 110, 115 a 117, 121, 127, 128, 158 a 170, 1S1, 186 a 188; vm, 193, 194 — preso — vm, 194. Sampayo (Pero Lopes de)—capitão — v, 56 — capitão da armada de Lopo Soares — ív, 395 — capitão de Gôa — vm, 240. Sampayo (Rui de) — fidalgo e cavaleiro — 11, 314. Sampayo (Vasco Pires de) — vm, 246, 299, 335, 365, 369, 371, 377, 378,433, 435,496, 517, 518 —capitão — viii, 296, 322, 428 — capitão-mór — vm, 324, 370—capitão do navio Lambia Morim — vm, 278 — sua morte — viii, 519. Samorim — o mesmo que imperador — rei de Calecut — 1, 35,78, 187; ra, 5, 14, 291, 292, 299, 309. Sanaga (rio de) —11, 374. Sanaya — vm, 309. Saneai (Lopo de) — bombardeiro — 1, 141.
  • 668 Hiftoria da Índia Sancalim (Passo de) —m, 38, 3g, 122; iv, 414. Sanches (João —mourisco cristão —n, 291, 405; 111, 236. Sanches (Lopo) — fidalgo e cavaleiro — 11, 23o, 232, 316 — capitão —11, a33 — ca¬ pitão da armada de D. Francisco d’Al¬ meida —11, 209 — sua morte — n, 229. Sancho (D.) —veja: Henriques (D. San- cho). Sandalos — r, 35; 111, 192, 201. Sangà — reino grande e rico, perto de Cambaia — m, 3i3, 316; vn, 14; vm, 355, 487. Sangajes — \u, 126; viu, 198, 199, 232, 294, 319, 352, 354, 457, 490, 494. Sanguim — ilha —vi, 164. Santa Catarina — dia de —1, 12 — Pôrto de — em Gôa — iu, 47, 48, 98, 100 a io3, io5, 106 — Porta d’água de — m, 76. Santa Clara (ilhas de) —perto de Moçam¬ bique —11, 448. Santa Cru$ (terra de) —1, 73. Santa Helena — angra de — 1, 10 a i3; 11, 226 — ilha de —111, 229; vm, 277, 372. Santa Luija (pôrto de) — vi, 157. Santa Maria — 1, 44, 52 ; 11, 288; m, 314 — ilheos de — vm, 5o8 — padrão de — 1, 63 —pôrto de — vi, 157 — praia de —1, 10. Sant'Angelo (fortaleza de) —veja: Nar- singa Cananor (fortalezas de). Santarém — cidade — 1, 6, 118, 200; 11, 229, 434, 454; m, 189; vi, 152, 276, 281; vu, 149; vm, 423, 499, 520; ix, 531. Santarém (Gonçalo Gil Barbosa de) — 1, 91, 92, 94, 99; 11, 228, 251 —capitão da nau de carga para Portugal —11, 256 — escrivão da armada de Pedro Alvares Cabral — 1, 72 — feitor —11, 241 — feitor de Cananor — 1, 102 — feitor de carga —9°- Santarém (João de) — da caravela Santa Helena —1, 141. Santarém (João Fernandes de) — escrivão da nau de D. Aleixo de Meneses — iv, 434, 460. Santarém (João Guedes de) — iv, 460. Santarém (Tristão de Paiva de) — capitão — vm, 472. Santarém (Rui Palha de) — m, 259. Santiago — apostolo — u, 322, 3z6, 332; m, io5 —baluarte de — vm, 5io—habito de — m, 369, 370 — ilha de — 1, 10, 67, 68, 70, 72; vn, i5o—rio de — 1, 10, vn, 151. Santigo (fortaleza) — veja: Quilôa (forta¬ leza de). Santiago (João) — vigário da fortaleza Manuel — 1, 140. Santiago (João de) — mouro que se fez cristão. Língua do governador Nuno da Cunha — vm, 322, 33g, 340, 398, 399, 469, 471. Santiago (mestre de) — vn, 176. Santo Agostinho (cabo de) — na costa do Brazil —11, 277, 375; m, 198; vii, 20. Santo Antão (ordem de) — m, 234; v, 44. Santo António (oiteiro de) — ui, 102. Santo Espirito — 1, 78. Santos — ix, 575. Santos (Baia de todos os) — vi, 61. Santos (Estreito de todos os) — m, 16. S. Bartolomeu — 1, 80. S. Braf (aguada de) —1, 9, 12, i3, 68, 93; 11, 447 . S. Domingos (mosteiro de) — 1, 202. S. Felipe — apóstolo — m, 233. S. Francisco (novo mosteiro de)—vn, 187 — ordem de — 1, 6,72, 120. S. Jerónimo (mosteiro da ordem de) — 1,9. S. João—1, 6—ordem de—11, 279 — ordem de — de Jerusalem — in, 261. t S. Jorge (ilheos de) — nome posto por Vasco da Gama — 1, 22, 68. S. Julião (rio de) — vi, 158, 161. S. Lajaro (ilhas de) — m, 286. S. Lourenço (cabo de) —11, 448 — ilha de — 1, 7; 11, 256, 258, 278, 279, 290,417,447, 448; m, 179, 286, 364; v, 128, 129; VII, 26, 66, i5i ; vm, 240—feitoria de —111, 364. São Pedro (Diogo de) — bombardeiro — 1, 141. São Pedro (Fernando de) — bombardeiro — 1,141*
  • índice onamástico S. Rafael (Baixos de) — t, 24 — Padrão — 1, 16. S. Sebastião (cabo de) — 11, 23o — pôrto de—11,448 — rio de — na costa do Brazil — «, »77- S. Tomé — apóstolo — 1, 80, 126, 127 — casa do — ix, 532. S. Tomé — baluarte de — vut, 5to, 514 — igreja de — em Coulão — iv, 383, 403, 405; v, 11 — ilha de—1, 91, i3a; 11, 277; iii, 198; vii, 20 — cristãos de — 1, 26. Sapato — nome de um pagode na ilha de Divar — ti, 288. Sardinha (Diogo) — vm, 388, 451 — ca¬ pitão — vm, 395 — capitão-mór do mar de Maluco — vm, 320, 354, 384, 387, 413. Sardinha (Manuel) — d’Evora — vi, 2o5. Sarnabeque — capitão d’Açadação, turco — vm, 422, 424 a 426. Sarnagão — cidade — viu, 486 — lascar de — vm, 486, 487. Sarranaperina — Rei muito antigo do Ma- labar— 1, 34. Sasardim — rei d’Ormuz — m, 311. Satigão—veja; Chetigão. Saya Vedra (Álvaro de) — capitão-mór dos castelhanos — vu, 125 a 129. Sebastião — arrenegado — vi, 256, 328, 331, 334, 336, 337. Seco (Passo) —antigo vau de Goudalim — ui, 20, 21, 34, 38, 40, 41, 212, 218, 220, 239; iv, 415. Seda — 1, 35; n, 456; m, 192. Segurado (João) — criado de D. Fernando, irmão do conde de Faro —vi, 287. Seguro (Pôrto) — 1, 73. Seixas (Domingos de) — capitão — iv, 407, 4i5, 4'9- Seixas (Lançarote de) —secretário de Pero de JMascarenhas — vu, 44, 45, 48, 55, 92 — preso — vu, 52. Sepulveda (João de) — ix, 566 a 568 — ca¬ pitão — ix, 557, 558. Sepulveda (Manuel de Sousa) — fidalgo — vm, 421, 435, 487 — capitão — vm, 335, 428, 480. Sequeira — capitão malabar — vn, 159 a 161. 669 Sequeira (Diogo Lopes de) —11, 447 a 45o, 454, 455,460, 463,474; m, 19, 83,84, 119, 120, i3i, 134, i35, 137, i54; iv, 421,447, 449; v> 78. 79. 83> 84> 97. M6, 147; vi, i5i, i52, 180, 187, 189, 273; vu, 13 — al- motacem-mór d’el-rei — 11, 417; iv, 453 — baluarte de — vm, 5og — capitão-mór 11, 417, 456, 457, 460 a 471 — governador da índia — iv, 413, 453 — v, 3 a 5, 7 a 9, 11 a 14, 21 a 23, 29, 34 a 43, 45 a 49, 51, 52, 54 a 57, 63, 64, 66, 70, 72, 76, 77, 79 a 82, 84 a 86, 89, 90, 93, 98, io3, 107, 110 a 122, 124, i3o, i3i, i33, 136, i38; vi, i85. Sequeira (Francisco de) — o Malabares — capitão — v, 8, 58; vm, 212, 480, 482. Sequeira (Gonçalo’ de) — fidalgo — capiião- -mór —111, 83, 89, 93, 95 a 98, 111 a 114, 292. Sequeira (Henrique) — filho de um alcaide de Lisboa —111, 261. Serpa (António de) — escrivão — vi, 316. Serra (casa da devoção de Nossa Senhora da) — ui, 268. Serrão (Francisco) —11, 316, 462, 464, 465, 467, 468; ui, 83, 84, 153, 210; vi, 161 — capitão da nau Sabaia e sota-capitão de António d’Abreu —111, 187. Serrão (João) — fidalgo e cavaleiro — 11, 210, 218, 219, 224, 264, 268, 284,285,290; ui, 113, 179, 294, 3o5; vi, 158, 159, 162, 3oo — alferes de Jorge de Brito — v, 104 — capitão —11, 233, 265, 283 — capitão da armada de D. Francisco d’Almeida — 11, 209 — capitão da nau Botafogo —11, 214 — escrivão da fortaleza de Calecut ui, 299 — sua morte — v, to5. Serrão (João) — natural de Freixinal, e ca¬ pitão da frota do Imperador — vi, 157, 160—sua morte —vi, 162. Setins —11, 459. Setúbal — vi, 2o3; vm, 440. Setúbal (Pero Dinis de) — capitão d’ar- mada de Lopo Soares, fidalgo e cava¬ leiro — 1, 191. Sevilha —111, 16; v, 3a; vi, 157, 158, 160, 161, 166, vu, 72. Siaca — iii, 36o — rio de — m, 359.
  • Hiflória da Itidía 670 Siaca (el*rei de) — ni, 359 a 361 —vedor da fazenda d’ —111, 36o. Sião — reino de — n, 458, 459; 114 156, 206, 207; ív, 387, 425, 426; v, 16; vi, 234; viu, 227 — cidade de — 111, 145 — el-rei de —11, 459; ui, 143, 145, t56, i5y, 186, 187 — embaixador d’ — ui, 158, 187 — filho d’ — cativo dos portugueses — tv, 460 — mãe d’ — 111,157, 240. Silva—natural de Coimbra e que foi na frota do Imperador — vi, 157. Silva (Aires da) — iu, 34, 40,47,48, 5a, 5o, 65, 70, 71. 98, ico a io3, 220, 25t, 256, 260 a 262, 268; tv, 393, 411, 4t3, 436; v, 4 — capitão — ui, 7, 18 — capitão da ar¬ mada de Lopo Soares — ív, 394 — ca¬ pitão da fortaleza de Cochim — ív, 435 — capitão da nau Botafogo — ui, 33a — capitão da nau S. Pedro — m, 219. Silva (Aires Gomes da)—capitão d’ar- mada de Pedro Alvares Cabral — 1, 72, 74- Silva (António da) — vi, 291; vu, 119, 159; viu, 423, 425 — capitão — vi, 278, 292, 339; vu, 7 — capitão do Reis Magos — vu, 94, 120 — capitão-mór — vu, 118 — sua morte — vu, 121. Silva (Baltasar da) —111, 98, toi, 121 a 124 — capitão — vu, 66, 78 — capitão da ar¬ mada de Diogo Mendes de Vasconcelos —111, 83 — enforcado —111, 124. Silva (Duarte da) —ui, 123, 139, i5i, 190 — capitão da Galé Grande — m, ia5. Silva (D. Pedro da) — viu, 478. Silva (D. Rodrigo da) —fidalgo e capitão — ív, 462; vi, 216. Silva (Fernão da) — sobrinho de Rui Lou- renço de Tavora — vu, 160; viu, 392 ; ix, 527, 528, 53o, 542 — capitão — ix, 529, 575 — feitor — íx, 549 — ferido — ix, 569. Silva (Francico da) — vu, 5i; viu, 205. Silva (Gaspar da) — fidalgo — ív, 3g3, 399, 402, 411, 4i3; v, 77; vu, 5i —capitão — ív, 449 —capitão da armada de Lopo Soares — ív, 394—capitão da fortaleza de Chaul — v, 56. Silva (João de Melo da) — vi, 282, 284, 285, 287, 288 — capitão — vi, 33g — ca¬ pitão de Coulão — v, 111; vi, 279. Silva (Jorge Pinto da) — fidalgo natural d’Elvas — vi, 245 a 247 — capitão — iu, 52. Silva (Lourenço da) —11, 346, 369 a 371, 412. Silva (Martins Corrêa de) — fidalgo — vu, 161 ; viu, 421 — capitão — vm, 480. Silva (Pero da) — senhor de Campo Maior e Ouguela, irmão de Afonso Teles e por alcunha o Cafre—capitão — v, a3, 34, 36, 54, 80, 85. Silva (Tristão da) — fidalgo e cavaleiro — 1, 196, 197, 2oo;u,418,420,424—capitão da armada de Lopo Soares — 1, 191 — capitão da nau Madalena — u, 417. Silveira (António da)—vi, 273, 333; vu, 7, 8, 52, 61, 63, 78, 80, 81; vm, 326, 328, 422, 424, 426 a 428, 475 a 477,496 a 5o3, 509 a 514, 516; íx, 571 — arrefens —vu, 79 — capitão — vi, 279, 326, 339 — capi¬ tão da armada do vice-rei D. Vasco da Gama — vi, 260 — capitão de Diu — vm, 478 — capitão da fortaleza d'Ormuz — vm, 3a5 — capitão-mór — viu, 25o. Silveira (Bariolomeu da) — capitão — íx, 534. Silveira (Bernardim da) — vu, i5o, 180 — capitão da armada de Nuno da Cunha — vn, 149. Silveira (Diogo da) — parente de Heitor da Silveira e cunhado de Nuno da Cunha — vu, 5t, 55, 56, 58, 63, 88; vm, 212 a 16, 240, 245, 247, 256, 272, 274, 281 a 284, 296, 298 a 3oi, 3o8, 328, 334, 335 — capitão —vi, 279; vu, 7, 11; vm, 242, 322 — capitão do Chaul — viu, 254— ca¬ pitão-mór — vu, 188; viu, 271, 273, 3o2 — capitão-mór ao cabo de Guardafui — vm, 216—capitão-mór da costa do Mal abar — vm, 194,211 — preso — vn, 62. Silveira (D. Álvaro da)—v, 4—capitão da armada de Lopo Soares — ív, 394 — sua morte — ív, 413. Silveira (D. António da) — vn, 5t, 57, 58 — capitão-mór — viu, 254, 256 — preso — vn, 6a.
  • índice onomástico 671 Silveira (D. Diogo da) — capitão da ar¬ mada Lopo Soares — iv, 394. Silveira (D. João da) — sobrinho de Lopo Soares —111, 36+; iv, 400, 411, 433, 437 a 439, 441, 443, 443, 446, 448 — capitão — iv, 394 —capitão de Gananor — vi, 238 — capitão da fortaleza de Ceilão — v, 3 — capitão-mor — iv, 443 a 445 — nau de — iv, 397. Silveira (Fernão da)—filho de Gonçalo da Silveira — sua morte — vi, 323. Silveira (Gonçalo da) — capitão da armada de Lopo Soares — ív, 394. Silveira (Heitor da) — filho do coudel-mór — vi, 273, 275, 276, 293, 320, 333, 334, 338, 340, 343 a 34Í, 348, 351; vn, 11 a i3, i5 a 17, 26, 27, 32, 48, 5o, 51, 55, 56, 58 a 61, 63, 67, 80, 160, 162, i65 a 168, 170, 173, 174; viu, 193, 208, 217 a 219, 239, 244 a 247, 249, 256, 271 — capitão — vn, 87; vm, 242—capitão da fortaleza de Cananor — vi, 278, 337 — capitão-mór — vi, 226; vm, 194 — capitão-mór da costa de Cambaia — vn, 172 — preso — vn, 62. Silveira (João da) — fidalgo — irmão de Diogo da Silveira — vn, 170; vm, 2i3 a 215— capitão — vu; 167; viu, 194,212, 242 — capitão-mór — ív, 418. Silveira (Jorge da) — n, 345, 369, 371,403, 406, 410, 4i5 ; ui, 29, 3o, 47, 81, 86, 93, 95, 98, 101, 251, 256, 258, 259; vn, 57, 63 capitao — iii, 7, 18 — ferido —11, 373 — preso — vn, 62 — sua morte — in, 261. Silveira — (Luiz da) — v, 21. Silveira (Simão da) — capitão da armada de Lopo Soares e de Cananor — in, 363, 364. Silveira (Vasco da) — fidalgo e cavaleiro — 1, 84, 85; ui, 6, 14, i5— capitão— 11, 447, 474; iii, 7 — capitão da armada de Lopo Soares—1, 191 — capitãodo navio Rosário —11, 417— sua morte — in, 12. Simões (Gil) — môço da camara d’el-rei, capitão e escrivão do embaixador Fernão Gomes de Lemos — m, 345, 353 ; v, 128. Sinai (Monte) — na Arabia — 1, 7; tn, 267 — Santa Catarina de —111, 101. Sines — vila — 1, 8, 71. Singapura — estreito de —m, 156, 2o5,206, 209; tv, 448; vi, 236; vn, 36; viu, 227, 340, 349 — ilha de — v, 127 — ponta de — iii, i56. Sintacora — in, 117, 173, 297, 299; v, 35; viu, 404 — alcaide de — u, 233 — forta¬ leza — 11, 234,242, 286; 111, 20, 22 — tana- daria de —111, ii5. Sintra — em Portugal — 1, 68 a 70; 11, 276. Sintra (António de) —11, 421 8423 — se¬ cretário do vice-rei D. Francisco d’Al- meida —11, 453. Sirgueiro (João) — chatim — vi, 20Ô, 207, 211. Siriago — ilha — vm, 383. Sirião — cidade do reino de Pegu — v, 16. Soar —11, 334 — fortaleza de —11, 333 a 335. Soares (António) — vm, 452. Soares (Fernão) — fidalgo e cavaleiro — 11, 215, 218 a 220, 223, 227, 236, 237,421, 423, 424 — capitão —11, 208 — capitão- -mór —11, 256, 3o6, 404, 420 — da forta¬ leza Manuel — 1, 140—quadrilheiro —11, 235. Soares (Jorge de Melo) — vm, 376, 438; ix, 563, 565 — capitão — vm, 439 — capitão- -mór do mar de Maluco — ix, 56i. Soares (Lopo)—1, 134, 192 a 195, 197 a 201; 11, 210, 214; m, 242, 363, 364, 370; v, 4, 7, 8, 37, 78, 85; vi, 189; vu, 12 — capitão-mór da armada que foi no ano de 1504 e capitão da Mina no tempo do rei D. João II, 1, 191 — do conselho d’el- -rei D. Manuel e capitão dos ginetes do Príncipe — ív, 383 — capitão-mór e go¬ vernador da índia —iu, 363, 364, 368, 369; ív, 383 a 386, 390, 392 a 406, 410 a 412, 414, 418 a 421, 432 a 436, 438, 446, 448, 449, 451 a 434; v, 3, 7. Soares (Pero) — capitão — ív, 422. Soares (Rui) — comendador da ordem de S. João e que fôra criado do Prior do Crato, D. Diogo d’Almeida — u, 279, 280, 290, 402, 424, 425, 438. Soco (Ponta de) — na ilha de Socotora — n, 296, 297.
  • 6^2 Hijioria da Índia Sodré (Braz) — irmão de Vicente Sodré e capitão da guarda da feitoria de Cochim — i, 96,99, io3. Sodré (Francisco) — capitão — m, 179. Sodré (Simão) — fidalgo — v», 57, 63, 331, 333, 334, 343, 392, 3p3 — capitão — vi, 226; viu, 340, 395 ; ix, 559 —capitão-mór d’armada — vi, 272 — preso — vn, 62. Sodré (Vicente) — 1, 100, 102 a 104, 114 — capitão da guarda da feitoria de Cochim — 1, 96 —capitão-mór da esquadra da costa de Calecut — 1, 99. So/ala — 1, 7, 17, 5o, £», 74, 75, 92, 93, 96; 11, 208, 209, 229, 23o, 235, 270, 271, 275, 277, 279, 281,282, 290, 3o5, 3o6, 316, 374, 448; 111, 282, 363, 364; v, 84; vn, 18, 84, 86; viu, 274 — el-rei de—1, 96; 11, 23o, 231 — fortaleza em — n, 229, 231, 232, 277 — mouros de — 11, 273 — parcel de —11, 23o, 278; viu, 304. Sofar (Coje) — vm, 248, 469 a 473, 478, 496 a 5oo, 5o3, 509, 5ii a 514, 516; ix, 534. Sojio — veja : Ismael (Xeque). Sufolarim — capitão-mór —111, 76. ' Sogovia (João de) — mercador castelhano e da fortaleza Manuel — 1, 140. Soiro (João do) — licenciado — vn, 83; vm, 264 — capitão — vi, 231 — ouvidor geral da índia — vi, 261, 267, 269, 270, 271, 272; vii, 5, 6, 23, 5i, 81, 88, 92, 117, 160; vm, 195,196 —preso — vm, 194—testemunha — vi, 270. Soldão (Grão) — n, 355, 38i; m, 94. Soldão (Tomaz) — filho do Xeque Ismael e seu sucessôr — vi, 225. Soldão (Xumagali) — vi, 200, 202. Soligão — cidade — vm, 523. Soltanquiler— capitão pérsico, veador e senhor da cidade de Xiraz — m, 347. Soltanjina— rei de Pacem — m, i3i, i35, 190, 191. Sollão — governador da ilha de Moçam¬ bique, senhor das terras de Toro até Suez —1, 18 a 21; 11, 382, 384, 386, 391, 399, 43?, 433,441; ni, 116, 195, 214 a 216, 23o, 255 a 257, 267, 270, 271, 276, 277, 279, 287, 297, 29S, 300; iv, 3go, 391, 401 — armada do — n, 422, 440; 111, 231, 265, 33o; iv, 390, 393 — bandeiras do — 11, 439 — capitão-mór do — 11, 435 — em¬ baixador do — 111, 216—espia do — m, 241 — frota do — iv, 399 — galés do — iv, 400 — nau do — m, 269 — sua morte iv, 396. • Somorim — veja : Comorim. Soré — cidade de — vn, 138. Soromenho (João) — da fortaleza Manuel — 1, 140. Solomeja (António de) — ix, 568. Soure — vila em Portugal—n,435;m, 126, 211. Soure (Afonso de) — capitão da fazenda de Calaiate — vi, 206. Soure (Lourenço de) — vi, 206, 207. Soure (Simão Velho de) — veja.: Velho (Simão). Sousa (Aleixo de) — v, 95; vn, i83. Sousa (Álvaro de) — fidalgo, sua morte — — iv, 454- Sousa (André de) — v, 118, i3o, i3i, 133. Sousa (António de)—11, 434; tu, 13, 155 ; viu, 482, 483 — capitão — viii, 212, 480, 5n —capitão-mór — vm, 412. Sousa (António de Brito de) — capitão — v, 80, 85. Sousa (Baltasar Lopes de) — cavaleiro — vm, 205, 3o 1. Sousa (Cristóvão de) — irmão de Gaspar da Silva — fidalgo de Lamego — ív, 3g3, 4i3, 436, 452; v, 5 a 8, 116; vi, 218, 266; vn, 739, 14, 18, 27, 31, 32,48, 52, 54, 55, 65 a 68, 77 a 91; viu, 421, 423, 424 — ca¬ pitão— iv, 449; v, 36—capitão da ar¬ mada de Lopo Soares—iv,3g5—capitão da fortaleza de Cochim — vi, 261 — ca¬ pitão de Chaul — vn, 3o — capitão-mór — v, 4 — capitão principal de tôda a índia — vn, 53 — carta de — a Lopo Vaz de Sampayo — vn, 53 — carta de — a Pero de Mascarenhas — vn, 54 — ferido — vi, 219. Sousa (Diogo Lopes de) — vm, 369; ix, 531, 535, 536, 552, 56o—capitão — vm, 335, 478. Sousa (Duarte de) — fidalgo degredado,
  • índice onomástico 673 protegido por Afonso d’Albuquerque — 11, 45o a 454. Sousa (Fernão Gomes de) — ix, 527, 542 — capitão — ix, 53o, íji, 5j6. Sousa (Fernão Martins de) — capitão — vi, 272 — testemunha — vi, 270. Sousa (Francisco de) — sobrinho de Se¬ bastião de Sousa, por alcunha o Bravo — .. 353; v, i36; vi, 242, 248, 249; vm, 213, 240, 392 a 394, 415, 417,419,420, 458, 461, 463, 464, 4(56 — capitão — v, 115, 134; vm, 3o2, 395, 414. Sousa (Francisco Lopes de) —capitão — tx, 575 — capitão-mór — ix, 531. Sousa (Garcia de) —11, 386, 401, 403, 438, 441, 455, 463, 469, 477; 111, 35, 36, 39, 40, 74, 83, 84, 87, 98, 111, 251, 256, 259 a 264 — capitão —11, 424; iii, 18, 222 — capitão de Malaca —111, 2i3 — capitão da Tafo- rea — 11, 455, 467 — guarda de Benas- tarim —111, 34 — sua morte —111, 263. Sousa (Gaspar de) — fidalgo — vm, 475, 502, 5o3, 510. Sousa (Gonçalo de) —11, 468; vn, 51 — ca¬ pitão — 11, 418, 467. Sousa (Henrique de) — capitão, por al¬ cunha o Galego—vm, 242, 246. Sousa (Jerónimo de) — fidalgo — m, 281, 283, 344; iv, 406, 409; v, 37, 38, 54, 76; vi, 263, 286; vn, 5i — capitão — m, 222, 311 ; iv, 394; v, 36, 80; vi, 279 — capitão da galé S. Vicente —111, 332 — guarda do Malabar — vi, 264. Sousa (João de) — senhor da Ericeira, por alcunha o Rates—111, 139, 141, t5i; vi, 237 — capitão — vm, 335 — sota-embai¬ xador de Fernão Gomes de Lemos — in, 345. Sousa (João de) — veja: Lima (João de Sousa). Sousa (João Rodrigues de) —sobrinho de Garcia de Sá — sua morte — vm, 333. Sousa (Jorge de) — fidalgo-capitão — ix, 5y5 — capitão-mór — vn, 32. Sousa (Lionel de) — vu, 160; vm, 246. Sousa (Lopo de) — capitão — ix, 534- Sousa (Manuel de) — fidalgo, natural de Évora — iii, 211; v, 49, 5i; vn, 140, 143; viii, 205,207,270, 271, 369, 399, 405, 445 a 4S1, 468 a 471,473; ix, 568 — capitão — v, 23, 5o; vm, 242 —capitão da fortaleza de Diu — viii, 404, 444 — capitão-mór do mar — vm, 278 — sua morte — v, 33. Sousa (Manuel de) — veja: Tavares (Ma¬ nuel de Sousa). Sousa (Martim Afonso de) — fidalgo, irmão de João de Sousa — vi, 237, 298, 3oo, 3o2, 309; vm, 335 a 337, 339, 36i a 363, 365 a 367, 36g, 371, 379, 396, 398, 399, 428 a 437,451,473, 474, 477, 479 a 486; ix, 570 — capitão-mór do mar da índia — vm, 334— capitão-mór do mar de Ma¬ laca — vi, 237, 244, 299 — governador — ix, 574 a 577 — sua morte — vi, 3o 1. Sousa (Paio de) — primo de Pero Barreto de Magalhães —11, 271, 290, 357, 386, 391, 392, 394 a 3g6, 398, 400, 425 —ca¬ pitão—11, 271, 416, 424 — capitão da ar¬ mada do vice-rei D. Francisco d’Almeida —11, 356. Sousa (Pero de) — irmão de Garcia de Sousa —11, 271; m, 39. Sousa (Pero Lopes de) — fidalgo, filho de Afonso Lopes da Gosta — ix, 531, 566, 567 — capitão — ix, 559, 575. Sousa (Sebastião de) — fidalgo e cavaleiro — 11, 210, 228, 229, 233, 234; iii, 11, i5, 16, 18; v, 129, i56; vi, 228 a 23o, 236, 245; vn, 28 — capitão — v, 128; vn, 3o — capitão da armada de D. Francisco d’Almeida — n, 209 — capitão da nau S. Jorge da armada de D. Fernando Cou- tinho—11, 479—capitão da nau de carga para Portugal — 11, 256 — capitão-mór — vi, 228. Sousa (Simão de)—vu, 117 — capitão — iv, 434; v, 36 — capitão da fortaleza do Chaul — vm, 335, 361, 365, 516. Sousa (Tomé de) — capitão — vm, 377. Souto (Francisco do) — castelhano — vn, io3, 108. Souto Mayor (António de) — vm, 435,472, 5o8; ix, 532 — capitão — viii, 428. Souto Mayor (Fernando ou Fernão Eanes de) — vi, 212, 213 — capitão — v, g3 — tanadar-mór — vi, 211. Tomo IV 85
  • 674 Hifioria da índia Souto Mayor (Gomes de) — vi, 186; vn, 5i — capitão —vi, 279; viu, 212 — capitão da pescaria d’aljofar — vnt, 277. Souto Mayor (Rui Dias) — capitão — tx, 534. Suaquem — na costa Bexia — 1, 7; v, 45 — cidade de — v, 39 — fortaleza em — vi, 191. Sudameci (Raja) — mouro jau, capitão- -mór do mar d’el-rei de Pacem — v, 61 a 63. Suej — cidade —11, 382 a 384; ui, 216, a55, 267, 270, 276 a 278, 33o; tv, 391, 398; viu, 217, 283, 5o5, 507; ix, 534, 572. Sufe (el-rei de) —11, 273 a 275. Su/ogogi — mouro, capitão de Gôa — m, 23, 25, 33, 38, 39, 61 —capitão do Idal- cão —111, 38. Sufolarim — mouro, escravo e capitão do Idalcão — ui, 38, 39, 40, 43, 48, 68, 74 a 76, 79 a 81; iv, 414 a 417, 419; viu, 284. Sugalá — viu, 389 — governador de—viu, 387- Sujo (mar) — ao longo da terra do Preste — iii, 267, 268. Sunda — cidade e reino —11, 456; vn, 9, 43, 44, i3o, 145 — fortaleza em —vn, 35 — ilha de — m, 158; vi, 260. Suquirá — cidade — vu, 134. Surrate — cidade rica na enseada de Cam¬ baia—11, 385; ui, 231, 311, 3i3, 316, 318, 322, 323 a 326; viu, 204, 207, 256, 497 — regedor de —111, 317, 3i8, 3so—rio de — ui, 316. Subil (D. João) —bispo de Safim— 1, 202. T Tabanga — viu, 416, 419. Tabariga (Cachil)—filho d'el-rei Boleife e irmão bastardo d’el-rei Cachil Dayalo — viu, 287, 291 a 293, 318, 352, 389 — el-rei de Ternate — vui, 293 a 295,317, 319, 321, 35o, 351, 353, 381, 406, 490; ix, 538. Tabarij (cidade de) —111, 353 ; vi, 224, 225. Tabona—lugar de—viu, 224—governador e regedor de— viu, 224.225,229, 23o, 237, 238. Tafetás —11, 459. Taficiras — i, 35. Tajul (João o) —capitão — vu, 160. Talangame — vu, 106, 113 ; viu, 386, 393 a 3g5, 414, 415, 419, 420, 455 a 457, 463, 465, 492, 495 — pôrto de — vi, 247, 3i 1; vu, 127; viu, 238; ix, 562. Talinate — provinda do reino de Daquem —11, 242. Tatnão — nome que os chins dão à ilha de Veniaga —iv, 425. Tamarindos — 1, 91. Tambarane—o mesmo que Deus, pedra do tamanho de um ôvo que os Baneanes trazem ao pescoço — 1, 65; 11, 243. Taná — lugar na ilha de Salsete —vn, 168, 170; viu, 208, 271, 273 ; ix, 529, 544, 549, 555, 558 —barra de—viu, 272; ix, 552 — cidade de — vu, 169 — Xeque de — vu, 174; viu, 271, 272. Tanaçarim (costa de) — vu, 115. Tanger — cidade de — ui, 102; v, 111; vi, 267. Tanger (Mendo Afonso de) —111, 102, 180 — capitão — 111, 179 — capitão da nau Santa Maria de Ajuda —111, 126—sua morte — ui, 211, 21a. Tanjapura —cidade em Ternate—viu, 227. Tanjaquelim (Ponta de) — viu, 489. Tanor — 1, 143; vi, 256, c. Tanor (Cutiale de) —capitão-mór tido por santo—vn, 159. Tanor — el-rei de — 1, 143, 186, 198, 199 — procurador d’el-rei de Calecut — ix, 56o. Taprobana — ilha de Samatra —11, 456. Tareiro (Gonçalo) — castelhano que ia na nau de Pero Barreto —11, 398. Tarouca (conde de) — veja: Meneses (D. João de). Tarouca (conde de) —11, 383; v, nt. Tarquimães — vui, 356. Tartaros — vm, 338, 356. Tavares (António) — vi, 216. Tavares (Belchior de Sousa) — capitão- -mór do mar d'Ormuz — vu, i83 — ca¬ pitão da fortaleza d’Ormuz — vm, 279.
  • índice onamástico 67S Tavares (Duarte) — tu, 1Ó9; iv, 419 —es¬ cudeiro do conde d’Abrantes — íu, 122 — cativo —111, 168. Tavares (Francisco de Sousa) — iv, 436; v, 6, 7, 82, 113, 119, t2i, 138 a 141, 143, 144; vii, 27, 31, 51, 3a; vm, 362, 369 — capitão —v, 55, 80, 85, 146, 181; vi, 151 — capitão de Cananor — vm, 240 — ca- pitão-mór—vi, i52. Tavares (Manuel de Sousa) —111, i65, 196, 223 ; v, 117 — alcaide-mor de Gôa — m, 19', 222 — capitão —ui, 176 —capi- tâo-mór d’Ormuz — v, u5, 137; vi, i83 — ferido — 111, 179 — sua morte — vi, 258. Tavares (Pero) — vii, 91. Tavares (Sancho) — escrivão da feitoria de Sofala —11, 233. Tavora (Cristóvão de) — capitão da ar¬ mada de Lopo Soares e capitão de So¬ fala —111, 363, 364. Tavora (Fernão de Sousa de) —vm, 435, 481; ix, 568, 569 — capitão — viu, 335, 428, 480; ix, 575. Tavora (Francisco de) — cunhado de Si- mão d’Andrade — u, 291, 293, 298, 33o, 331, 342, 352, 366, 376 a 378, 38i, 402, 406, 409, 412, 415, 423, 424, 434, 436,446; iv, 411 — capitão — n, 279, 323; v, 80,85 — capitão —111, 363; iv, 394—capitão- -mór — 11, 406 — capitão da nau Rei Grande —11, 277, 405. Tavora (Rui Lourenço de) — ix, 527 a 531, 535, 542 a 559, 566 a 570 — capitão — íx, 558. Tavaros — povos — viu, 384. Teãrrougei — província no reino de Da- quem — n, 242. Teive — terra a 60 léguas de Ormuz — v, 85; vu, 181. Teive (António de) — vm, 318, 320, 391, 394, 458 — capitão —viu, 354, 393, 395, 4i5. Teixeira (O) — língua da fortaleza Ma¬ nuel— 1, 140, 186. Teixeira (Afonso) — ferido. Teixeira (António Lobo) —11, 386, 3go, 395, 398 — capitão —11, 290 — capitão da armada do vice-rei D. Francisco d’Al- meida —11, 356. Teixeira (Braz) —íu, 17—capitão do navio do ferro, na armada de D. Fernando Coutinho —11, 480. Teixeira (Duarte) — vu, 45 — tesoureiro das mercadorias — vu, 23, 44. Teixeira (James) —11, 299, 3oi, 345, 346, 369, 371, 379; m, 122, 123, 126, 138, 140, 149 a 151, 190, 320 a 322, 324 —capitão da nau de Baltasar da Silva — m, 124 — capitão da nau Santa Cruz — m, 125 — sota embaixador de Diogo Fernandes de Beja —111, 310. Teixeira (Jeronimo) — h, 465,470,471; íu, 18, 19, 3o, 47, 81, 86,87 — capitão —n, 418; ui, 18, 29. 7eixeira (João) —11, 345, 346, 371, 379; ui, 41, 42 — capitão — ui, 280. Teixeira (Jorge) —111, 96. Teixeira (Pero) — fidalgo e cavaleiro —11, 314; v, 40 —capitão e ouvidor geral — v, 36, 41 a 46. Tejo (riba) — ui, 277-70. Telengue— provinda no sertão, no reino de Daquem —11, 242. Teles (Afonso) — v, 54. Teles (Álvaro) — 11, 278 — capitão da ar¬ mada de Lopo Soares, capitão de Ca- lecut — ui, 363 —capitão da nau Garça da frota de Tristão da Cunha — n, 276. Teles (Diogo Alvares)—fidalgo — vm, 214, 337 — capitão — viu, 322, 324. Telo (D. Jorge) — sobrinho de D. Henrique de Meneses e filho de D. João Telo — vi, 265, 266, 345, 35g a 36i — capitão — vi, 265, 279 — capitão-mór da costa de Ca- lecut — vi, 359 — carta de — vu, 7. Telo (D. João)—vi, 265, 345. Telo (D. Roque) — capitão — íx, 559. Teles (Manuel) — veja: Vasconcelos (Ma¬ nuel Teles de). Temião (cidade de) — na ilha de Samatra — ui, 194. Teninchiriledo — rei de Calecut — vi, 276. Temudo—espia de D. Francisco d’Almeida — «, 446, 452.
  • Hiftória da índia 676 Tenaçarim — cidade e reino de —11. 459 ; ni, i56; v, 15; vii, 10; vm, 497. lendilhões — m, 82. Tenhi (aguada de) — a 4 léguas de Calaiate —11,409. Tenreiro (António) — vii, 121 a 123 — iti¬ nerário de — vi, 224. Terceira — ilha da — 1, 70; v, 3i. Termapatão — 1, 171; vii, 159; vm, 437. Tcrnale — uma das ilhas de Maluco — m, 210; vi, 161, 166, 167, 170, 214, 218, 245, 248, 253, 255, 256, 311, 352, 353; vii, 69, 7'» 72> 95» 99» l0°» Io5» '"» '*5, 126, 127, 129, 176; viii, 198, 202, 204, 210, 224, 226 a 229, 232, 237, 25;, 268, 269, 288 a 290, 292, 293, 317, 320, 351 a 354, 382 a 384, 386, 388, 392, 41;, 453, 490, 491, 519, 521 a 523; ix, 537, 562 a 565 — armada de — viu, 198 —cidade de —vi, 2i5; vm, a3i, 383, 418, 5ao — fortaleza de S. João de — vi, 170, 354; vm, 199, 263, 285, 381, 406, 519 — mandarins de — viu, 23o a 232, 260 — mouros de — vi, 247; viu, 200, 383 — pôrto de — viu, 35o — reino de — vm, 294, 38i — reis de — vm, 232; ix, 564 — el^rei de — vi, 165,170, 171,252, 253;vii, 72 a 74, 126, 127, 129, 197, 198, 202, 221, 222, 225, 259, 261 a 263,267, 268, 269,291, 293, 320, 354, 490, 519. 520; ix, 537, 538, 562, 565, 566 — máe de — vi, 170 — tio de — vi, 2i5 — rainha de — vi, 171,214, 216, 217; viu, 229, 23o, 23a, 235, 239, 258 a 260, 266 a 269, 289. Ternales — vui, 198,2o3, 217, 260, 32o, 384, 387 a 3Sg, 391, 392, 418, 490, 491, 521. Teubi — veja: Teive. Tição (João Jusarte) — fidalgo — vm, 3oo, 421, 423, 424, 441, 469 — capitão — vm, 439 — ferido — vm, 426. Tiçoaré — nome que os gentios dão a Gôa — ui, 20. Ticos — dignatário chinez — iv, 432. Tidorc—uma das ilhas de Maluco — vi, *56, 162, i65, 166, 170, 214, 215,217, 247» 248, 253, 256; vii, 72 a 76, 95, 114, 125, 129; vm, 198, 199, 2o3, 204, 229, 257, 268, 269, 289, 291 a 295, 382, 391, 396, 417, 418, 420, 454 a 456; ix, 438, 539, 563, 565 — barra de — vi, 247 — cidade de — vi, 246; vii, 70, 126, 129; viii, 197, 200, 291, 457 — corascoras de — viu,3g5—manda¬ rins de — vi, 252 — mouros de — vm, 419 — pôrto de — vi, 25o; viu, 268, 3g5 — reis de — vi, 249 — el-rei de — vi, i65, 170, 171, 215 a 217, 245, 252, 253, 255, a56, 298, 311 ; vii, 68 a 70, 72, 73, 100, 112, n3, 125 a 127, 129; vm, 197, 198, 202, 2o3, 232, 237, 257, 268, 269, 292, 294, 295, 318, 319, 352, 354, 391, 417, 420, 460 a 463, 465, 490, 496, 52i; ix, 538, 539, 562, 564 — armada de — vm, 394 — car¬ pinteiros de — vi, 216. Tidores — vii, 95, 96; viu, 201, 229. Timoja —11, 387, 416, 424, 441; in, 19, 20, 22, 23, 29, 33 a 35, 44, 59,60,62,80 a 82, 97 a 99, 294 — armador gentio —11, 234 — bramene de — m, 55 —costa de — m, 74 — estreito de — m, 101—gentio ca¬ pitão de ladrões — 1,65 — rei de —11,233. Timor — ilha — u, 459; vi, i65 — Cachil de — capitão de — vm, 38S, 389. Timutaraja — rei de Malaca —11, 4615111, 151, 182 a 185,242, 273 — governador dos mouros — m, i53, 188 — degolado — m, 186 — filho de — 11, 461, 463, 464 — Tuão de —111, 180, 358. Tinoco (Pero Fernandes) — fidalgo e cava¬ leiro— 11, 314, 316, 317; m, 27 —embai¬ xador — 11, 475 — ferido — u, 317 — sua morte — 111, 12, 14. Tiracole — lugar — vm, 436, 485. Tirano — v, 99 a 102. Toar (Sancho de) — 1, 74, 77, 91, 93 — ca¬ pitão da armada de Pedro Alvares Ca¬ bral — 1, 72 — pesca da nau de Sancho de Toar — 1, 92. Tocâo (Melique) — capitão de Diu — vm, 240, 242, 248, 273, 281, 307, 3o8, 32i, 322, 323, 334, 396. Toeis — dignatário chinez — iv, 432. Toloco — lugar em Ternate — vi, 354, 355; vii, 108; viii, 290,416 —cidade —vm, 291, 417 — regedor de — vm, 292, 293. Toro — lugar perto do monte Sinai na costa d’Arabia — 1, 7; m, 237, 267, 276 ; vm, 507.
  • índice onomástico 677 Torravair — cidade e pôrto de Ceilão — 11, 261. Torre (FernSo de la) — castelhano — vn, 101, 112, ia5 a 129, 175, 176; viu, 197, 198, 20i a 204, 221, 232, 258, 269, 270, 291, 318, 319, 321 —capitão — vn, 100 — capitão-mór — vm, 200. Torres — italiano comitre — vm, 337, Torres Novas — ui, 208. Torrejno (Fausto) — castelhano, meirinho do galeão de D. Luiz de Gusmão — v, 27. Torto (O) — veja : Ale (Cide). Toscano (Simáo) — feitor — vi, 229 — criado de Pero de Mascarenha, que foi degolado — vii, 29. Touro — vm, 507. Touro (Henrique de) — iv, 419 — capitão — iv, 407,414. Trannancor — el-rei de — iv, 404. Trapobana —11, 258. Travancelo — vm, 287. Travancor — pôrto no cabo de Comorim — 11, 471. Travassos (Pero Vaz) — capitão — vi, i52, 176; vii, 90. Tremecem (moiros de) — 1, 7. Treines (trigo) — 1, 26. 7rigo (Fernão) — patrão da ribeira de Ma- laca — ui, 204. Trimuni: Parli(Iterama Maratinquel Onir- ramacoul) —rei de Cochim —1, 186, 188. Tripoli (cidade de) — vii, 123. Tristão (Duarte) — armador — v, 111; vn, 66 — mercador — iv, 420. Tristão (Jacome) — capitão — v, 23, 34. Tropico — vm, 304. Tuambandam — capitão d’el-rei de Ma- laca —ui, 141. Tuão — ui, 190. Tumba — cidade de Java —111, i58. Tunes — 1, 39; n, 348 — mouros de — it, 348; iv, 390. Turco (O) — principal da casa d’el-rei de Cambaia — m, 32, 238, 320, 347, 352,353; iv, 391, 396, 397, 401; vi, 3ig; vn, iz3; vm, 217, 248, 3o8, 323, 363, 364, 371, 45o, 478, 504 a 5o6, 5o8, 509 — armada do — vn, 3o. Turcos—1, 18, 36; n, 287, 426, 433, 472; m, 17, 19, 22, 25, 26, 34, 39,42, 44,48, 94, 98, io5, 117, 118, i32, 158, 161, 164, 166, 170,195, 228, 270, 284, 285,289, 297, 316; iv, 390, 396, 397; vi, 200, 201; vii, 1217 vm, 210, 243, 335, 371, 378, 379, 471, 472, 484, 496 a 498, 5oo, 502, 5o3, 5o6 a 5og, 511 a 5i3, 515, 516, 518, 519; ix, 532 a 535, 568, 571—armada de —111,84,94; vn, 27; ix, 572 — capitães — m, 224; vm, 425 — navio dos — m, 125 — de pleja — m, 167, 168. Turcol — i, 184, 194, 197. Turonaia — povoação na ilha de S. Lou- renço(?) ou de Moçambique (?) —11, 448. Turquia — 1, 18, 19; u, 383. Turquimães — ni, 316; vm, 338. Turumbeque—n, 409 — poços de —11, 368» 3óg, 371. Turutó — lugar — vm, 226, 288, 292, 2g3. Turuxá — el-rei —11, 340; vi, 154, 155, 179. Turuxá (Raix) — irmão do rei d’Ormuz, Sasardim, e que lhe sucedeu — n, 339 j m, 3i 1. Tutão — governador de comarca na China — iv, 429 a 433. Tutucori — lugar — vm, 479 — cristãos de — vm, 480. U Udebarrão — lugar e pôrto da província de Talinate no reino de Daquem — n, 242. Udigirmele — serra no reino de Daquem —11, 242. Ugentana — lugar em Bintão — vn, 42; vm, 341, 3q6 — cidade de — a 5o léguas de Malaca — vm, 309, 340 — rio de — vm, 340 — el-rei de — rei comarcão de Ma¬ laca— m, 202; vn, 180; viu, 309, 331, 333, 340, 344 a 346, 487, 411, 412. Ulcide — reino de — m, 281; vm, 377, 475. Unhos (Diogo de) — mestre de capitania —11, 484. Unireypulá — naire e grande senhor — v, 9,66.
  • 6j8 Hifioria da índia Upe — lugar —ui, i88, 189, 201. Utclimutaraja — Jau, homem principal de Malaca —111, 143, 144. V Vacas — baía das — n, a3o — ilha das — vi, ao3, 204; viu, 241. Vadesião — cabo, a 170 léguas d’Ormuz — vin, 325. Vaigama — el-rei de — vin, 391. Vaigue — el-rei de — vhi, 391. Vaipim — ilha — defronte de Cochim — 1, 112, 113, 116, 156, 158; m, 90, 92, 93, 96 — pagode de — m, 92, 93 — senhor de — rei de Cochim — 1, 186. Valadares (Heitor de) —v, 53, 101. Valadares (Rui Gonçalves de) — capitão do navio S. Simão —11, 3o6. Vale (João do) — meirinho da caravela Santa Marta — 1, 141. Vale (Miguel do) —escrivão da alfandega d’Ormuz — v, 89 — feitor — vii, 51. Valenciano (mouro) — vm, 3tt, 317. Valente (Afonso) —alferes — v, 60. Valente (Simão) — vm, 295. Vaqueiro (Pero) —11, 222. Vaquil — que em língua persiana quere dizer: mordomo-mór da casa do Xeque Ismael — vi, 224. Varela (Duarte) — genro de Heitor Rodri¬ gues de Coimbra — v, 10, 68, 69, 71, 72, 73. Varela (Rui) — v, i33, ■ 35, 137, 140, 142, 143; vi, 180; vm, 425 — tesoureiro d’Al- fandega d’Ormuz — v, 89. Vargas (André de) — capitão; vi, 237. Varinene — fortaleza no rio Indo — vm, 377. Vasco (D.) — veja: Gama (D. Vasco da). Vasconcelos — capitão — vm, 25o. Vasconcelos (António Mendes de) — vit, 5t; vm, 469 — feitor da armada e capitão — vm, 212. Vasconcelos (Diogo Mendes de) — m, 84, 87, 88, 94, 96, 98 a 101, 104, io5, 108, 118 a 124, 167 a 170, 190, 211, 222, 242, 368, 369—armada de — m, 128 — capitão da armada de Lopo Soares — m, 363 — ca¬ pitão de Cochim — m, 363 ; iv, 3g3 — ca- pitão-mór e que foi descobrir Malaca — 111, 83 — capitão de Gôa — m, 162 a 166, 172 a 182 — sua morte — iu, i65. Vasconcelos (Duarte Mendes de) — v, 52, 53, 55 — capitão — vn, 116, 137. Vasconcelos (Francisco Mendes de) — ca¬ valeiro — vi, 325, 333, 337 ; vii, 67; vm, 255; ix, 535, 542 — capitão — vi, 279, 320, 35t; vii, 94; vm, 194, 242 — capitão de Cananor — vii, 92 — embaixador — ix, 534 — procurador de Pero de Mascare- nhas — vii, 65. Vasconcelos (Henrique Mendes de) — vm, 3)2, 344, 346 a 349 — capitão — vm, 340, 413. Vasconcelos (João Fernandes de) — vm, 44*. Vasconcelos (Jorge de) — fidalgo — vi, 341, 342; ix, 557 — capitão — vi, 339; ix, 556- Vasconcelos (Lopo Mendes de) — fidalgo, cavaleiro, capitão da armada de Lopo Soares — 1, 191 a 193. Vasconcelos (Luiz Mendes de)—capitão — ix, 574. Vasconcelos (Manuel de) —fidalgo, por al¬ cunha o Casado — vm, 204, 214,279, 280, 402, 421, 423, 441, 469 — capitão — vm, 194, 212, 242, 278, 296, 3o2, 322, 439 — capitão e juiz d'alfandega—vm, 5io — capitão-mór e casado em Gôa — vm,375- Vasconcelos (Manuel Mendes de) — ferido — vi, 229. Vasconcelos (Manuel Teles de) — fidalgo e capitão-mór — 1, 199, 201; 11, 252, 3oi, 33o, 352, 400 — capitão —11, 279 — ca¬ pitão da nau de carga para Portugal — 11, 256. Vau (Passo do) — 1, 109, 110, 02, 07,162, 166, 168; 11, 253, 255, 271 ; m, 34; v, 87; vm, 432, 434, 435, 437. Vayaco (Cachil) — vm, 221, 222. Vaydua (Cachil) — caciz-mór— 223, 224, 229, 23o, 237, 238, 267, 522. Vaf (Afonso)—vn, i5o, i5i. Vaj (Álvaro) — 1, 188; ui, i3 — capitão —
  • índice onomástico <>79 iii, 327 — escrivão da feitoria de Cochim — 1, 100, 140, 186 — da nau de Duarte Pacheco — 1, 140. Vaj (Antão) — fidalgo e cavaleiro —11,228, 234 — capitão —11, 265, 283 — capitão da armada de D. Francisco d’Almeida —11, 209 — capitão de esquadrão e mestre da nau de Diogo Mendes de Vasconcelos — ui, 100, 124. Vaj (António) —da nau de Duarte Pacheco — 1, 140. Vaj (Diogo) — escrivão da alfandega d’Or- muz — v, 89. Vaj (Duarte) — língua da embaixada de Diogo Fernandes de Beja —111, 3io, 317. Vaj (Dr. Pero) — corregedor da côrte ca¬ pitão e vedor da fazenda da índia — vm, 271, 371. Vaj (Fernão) — clérigo — vu, 101. Vaj (Jerónimo) — v, 69. Vaj (Jorge) — viii, 161. Vaj (Lopo) — 1, 201. Vaj (Lopo) —veja: S.vnpayo (Lopo Vaz de). Vaj (Mem) — vu, 59, 62. Vaj (Miguel) —vui, 478, 5oo, 5oi, 5o3, 509, 515, 516. Vaj (Nuno) — capitão —viu, 325, 326. Vaj (Nuno) — veja: Castelo Branco (Nuno Vaz de). Vaj (Pero) — cavaleiro — 1, 141; v, 120 — da caravela Santa Helena — 1,140 — ve¬ dor de fazenda — vm, 406, 407. Vaj (Pero)—veja: Orta (Pero Vaz de). Vaj (Simão) — clérigo — vi, 222; vm, 3 5o, 387 — sua morte — viu, 388. Vaj (Tristão) — veja: Veiga (Tristáo Vaz da). Veiga (Afonso da) —vi, 206 a 208. Veiga (António da) — capitão e feitor — vm, Soo, 5oi, 510, 5i6. Veiga (Pero Vaz da) — capitão da armada de Francisco d’Albuquerque — 1, 115. Veiga (Simão da) — capitão — vui, 304; ix, 573. Veiga (Tristão Vaz de)—v, i38, 13g, 143; vu, 28, 29 — capitão —vu, 19, a3, 3o — feitor de Calaiate — v, 137. Veiquibaris — capitães gentios —111, 118. Velha (Gôa a) —111, 84, 39, i63, 167, 218 — baía de —111, 21. Velho (Álvaro) —1, 43. Velho (Diogo) — feitor da armada — sua morte — u, 397. Velho (Fernão) — capitão — viii, 5io. Velho (Gaspar) — vi, 3oo. Velho (João) — marinheiro — v, 27. Velho (Manuel) —111, 340; v, u3 a u5, 133 a 137, 140, 142 a 144; vi, 176, 177, 180 —capitão — v, 80, 85 — juiz d'al- fandega d’Ormuz e provedor das rendas do reino — v, 89. Velho (Pero)—natural de Vila Franca, filho de João Gonçalves do Adarço — ix, 552 a 555 — capitão — vi, 279, 3a6; ix, 546. Velho (Simão) — 11, 3Gg, 413,
  • 68o Hijlória da índia Vidiam (cidade) — iu, 156. Vidigueira (Sebastião Nunes da) —vm, 347,348 — conde da —D. Vasco da Gama — 1, 5, io3, 260, 267, 268, 270, 271, 280; ix, 570, 572. Viegas (Baltasar de) — viu, 427. Viegas (Galaz) — casado em Gôa — vm, 402, 421,427. Viegas (Galvão) — casado em Gôa—vm, 421, 423, 424, 427 — adail de Gôa — vm, 402. Viegas (João) — cristão português que fu¬ gira de Malaca —111, 127, 272 —alcaide- -mór da fortaleza de Gôa — v, 77 — qua¬ drilheiro pequeno — m, 129. Vieira (Braz) — criado d’el-rei e Tanadar de Sintacora — m, 115. Vieira (Fernão) — emdaixador — vm, 3og. Vieira (Gonçalo)—v, i35, 136. Vieira (Tristão)—vit, 102, to5, 106, 108. Vieira (Sebastião) — mercador rico — vm, 196. Vila (João da) — 1, 102. Vila do Conde (João de) — 1, 141. Vila Franca — 1, 88; ix, 546. Vila Lopes (João de) — de Estremoz — vm, 311, 315 — ca pi tão; vm, 408. Vila Lobos (Lopo de) — capitão da ar¬ mada de Lopo Soares — iv, 395. Vila Nova (conde de) — vi, iSy. Vila Nova d’Andrade — vm, 359. Vila Real (marquês de) —11, 446. Vilancuela (D. Diogo) — vm, 2o5. Vilhena (António de) — bacharel e ouvi¬ dor da índia — m, 3o6, 307. Vinagre (Fernão) —clérigo e capitão-mór — VIII, 521. Visapor—cidade principal do senhorio do Idalcão — m, 331. Vitória (Frei Luiz da) — da ordem de S. Domingos — vii, 79. Viseu — vii, i3; vm, 3oi — Bispo de — D. Diogo Ortiz — 1, 202. Vogado (António)—m, 102, io3 — sua morte —111, 44, 106. Vogado (Baltasar) — cavaleiro, natural de Evora — viii, 3g 1, 3g3,418,419 — capitão — vm, 354, 395, 415. Vogado (Lopo Vaz) — vm, 472. Vogado (Rodrigo Alvares) — capitão — vm, 371. X Xá (Mahumed) — vm, 379, 38o. Xá (Nauçarote) — rei de Bengala — vm, 379, 38o. Xabadim (Coje) — vm, 3o2, 310. Xabadim (Raix) — regedor de Calaiate — v, 52, 53, 55, 92, 113; vi, 179, i83. Xabandar (O) — regedor das povoações de Banda — m, 38; v, 134; vi, i56; vui, 227, 228. Xacoej (Coje) — embaixador — vm, 339, 367, 369, 449, 450. Xael—cidade de —na costa da Arábia a 55 léguas d’Adem — vi, 184, 207, 297; vm, 218, 219, 280 — pôrto de — vm, 279 — vm, 218, 5o5. Xaleque (Ray) — que sucedeu no trono d’Ormuz — vm, 328. Xamixir (Raix) — parente e capitão dè Raix Xarofo — vi, 155, 178, 179, 182, i83, 202 — que matou el-rei d’Ormuz — v, 146. Xarafo (Raix) — filho de Raix Noradim — m, 56, 89, 92, 95, 97, 98, 112, 113, 133, 134, 139 a 143, 146, 147; vi, 154, 155, 177 a 180, 182, i83, 202, 223, 237, 288, 2ço; vii, 10, 11, 32, 33,117, 180 a i83, i85,186 — capitão-mór da armada d’el-rei d’Or- muz — v, 94 — guarda-mór — n, 354 — guazil d’Ormuz — v, 52, n3. Xatamay — o mesmo que Xeque Ismael — m, 346. Xeque — 1, 134; 11, 324 a 326; vi, 2o5 — sogro d’el-rei d’Ormuz —v, 113. Xequegi — capitão das fustas de Meliquiaz — iv, 407; v, 22. Xercaufur — soldado patane — vm, 379 a 38i, 408 a 410, 486, 487, 517, 519. Xiraj — cidade de — na Pérsia — m, 347; vi, 223, 224. Xiirmão (el-rei de) — vassalo do Xeque Is¬ mael — m, 347, 348. Xumagali — vi, 200.
  • índice onomástico 681 z Zagajabo—embaixador do Preste —vi, 202. Zanjibar — ilha de —i, 68, i33; u, 227, 263, 290; v, 51; vn, i52 — cidade de — 1, i33 — embaixador da ilha de — vi, 218 — pôrto de — vn, 154 — el-rei de — v, 34; vi, 218, 219. Zebelçocor — ilha — no mar d'Arábia — m, 267, 268. Zebid — cidade em Adem — nt, 253; iv, 891, 392; v, 37. Zeila — cidade — na costa da Abexia a 5 léguas das portas do estreito de Meca — 1,7; 11, 296,471; ui, 254, 277, 278: iv, 3g6, 410, 412; vi, 190; vn, 118 —el-rei de — v, 45 — fortaleza em — vi, 191 — nau de — ui, 268 — pôrto de — m, 279. Zingitijara — rio de — vi, 151. Tomo IV
  • EDIÇÕES DA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE (extracto do catálogo) SCRIPTORES RERVM LVSITANARVM série a) Publicado : FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA.--História do descobrimento, e conquista da índia. Ed. revista pelos snrs. Pedro de Azevedo e P. M. Laranjo Coelho, vol. i, u e m. Em algodão, cada vol. 40^00 Em linho, cada v l. ioo#>oo DAMIAM DE GOES. — Chronica do Felicíssimo Rei Dom Emanvel. Conforme a ed. pripceps. Rev. pelo Dr. David Lopes, 4 volumes.8o#oo FERNÃO GUERREIRO.— Relação anual das coisas que fizeram os padres da Com¬ panhia de Jesus nas suas Missões do Oriente, da África e Brasil nos anos de 1600 a 1609. Ed. completa das 5 Relações, dirigida e pref. por Artur Viegas, vol. 1 e n. Em algodão, cada vol. 6o$oo „ Em linho, cada v l. 120&C0 JOÃO DE BARROS.—Décadas — vol. 1. Em algodão. 6oá>oo „ Em linho.yioftoo P.' JOAO RODRIGUES GIRAM. — Carta Anua da Vice-Provlncia do Japão. íntegra inédita agora prefaciada por António Baião. Em algodão, cada vol. -<$- Em linho, cada v l. No prélo: DAMIAO DE GOÇS—Chronica do Principe Dom Ioam. Conforme a ed. princeps. DUARTE GALVAO. — Crónica de D. Afonso Henriques. Revista e prefaciada por „Tomás da Fonseca. JOÃO DE BARROS e DIOGO DO COUTO. — Décadas. Ed. conforme a ed. princeps, revista e prefaciada pelo Dr. António Baião. Em preparação: Papéis rei.ativos á guerra da restauração e independência de Portugal. série b) Publicados; I. — HIERONYMO OSÓRIO. — De rebus Emmanvelis gestis. 3 vols. . . . 6o$oo II. — Itinerários Quinhentistas da Índia a Portugal. — Rev. e prefaciados pelo Dr. António Baião, vol. 1 i8#oo III. — Comentários do grande Afonso d’Albuquerque — Conforme a 2.* ed. Rev. e prefaciada pelo Dr. António Baião, vol. 1 (Partes 1 e 11) e 11 (Partes 111 e iv). 35#>oo Em preparação: ANTONIO GALVAO. — Tratado dos diversos e desvairados caminhos por onde nos tempos passados a pimenta e especiaria veio da índia às nossas partes, e assim de todos os descobrimentos antigos e modernos que são feitos em a era de t55o. série c) Publicado: D. FRANCISCO MANUEI. DE MELO. — Epanaphoras de varia historia portuguesa. Ed. dirigida pelo Dr. Edgar Prestage. Em preparação: História Trágico-marítima.
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