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  • SCRIPT ORES RERVM LUS1TANARVM (série a) DO Descobri» a Conquista da Índia pelos Portugueses POR FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA livros v E vi 3/ EDIÇÃO CONFORME A EDIÇÃO PRINCEPS REVISTA E ANOTADA POR PEDRO DE AZEVEDO COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE I929
  • HISTORIA DO DESCOBRIMENTO & CONQUISTA DA ÍNDIA PELOS PORTUGUESES
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  • SCRIPT ORES RERVM LUSITANARVM (série a) HISTÓRIA Descobrimento & Conquista da Índia pelos Portugueses POR FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA livros v e vi 3.* EDIÇÃO CONFORME A EDIÇÃO PRINCEPS REVISTA E ANOTADA \ *' POR PEDRO DE AZEVEDO COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE I929
  • 80MPRA 238791 Desta edição tiraram-se 160 exemplares em papel de linho numerados e rubricados N.° // *')*•-4
  • LIVRO QUINTO
  • LI U RO QUINTO DA HISTORIA DO DESCOBRIMENTO & CONQUISTA DA INDIA PELOS PORTUGUESES: no tempo que a gouernou Diogo lopez de fequeira por mandado do inuidtiílimo rey dom Manoel de gloriofa memória. Feyto per Fernão Lope% de Caftanheda. CAPITOLO .1. De como. Lopo foare\ entregou a gouernança da índia a Diogo lopeç de fequeira & fe partio pera Portugal. REformada a amizade atre ho gouernador Lopo foarez & el rey de Ceilão defembarcou ho gouernador & apoufentoule em húa têda de dentro da noífa tranqueira, & tédo quafi acabada a fortaleza que feria na fim de Nouembro, chegou dom Ioão da filueira de Bengala dõde partio como diífe, & o gouernador lhe deu a capitania da fortaleza, & por fer ainda mancebo deu a capitania mór do mar a Antonio de mi¬ nada dazeuedo homem antigo na índia & que fabia bé da guerra, & deu- lhe húa armada cÕ que andaífe naquela parajem pera goarda da fortaleza, como pera fazer prefas nas naos de noffos immigos. E ifto adi ordenado partiofe o gouernador pera Cochim com determinação de fazer em Cou- lão outra fortaleza por ter licença do rey de Coulão pera fazer húa cafa forte, & ter prazme da raynha pera coeite nome de cafa forte lhe deixar fazer húa fortaleza por peita que por iffo lhe auião de dar. E ho gouer¬ nador ceifou delta determinação por faber que era chegado Diogo lopez de fequeira por gouernador, & proífeguio pera Cochim, onde foy rece¬ bido cÕ muyta honrra de Diogo lopez de fequeira que foy coele ate a for¬ taleza, & dali por diante ho vifitaua muytas vezes: & não quis entéder
  • 4 Hijloria da índia em nada da gouernança da Índia em quanto Lopo foarez eíteue nela faluo em repartir os nauios, & cfefpachou loa gomez cheira dinheiro pera as ilhas de Maldiua, onde elrey de Portugal mandaua que fizeffe húa forta¬ leza & foffe capitão dela. E porque fabia que Baticalá eítaua leuãtado mandou a dom Afonfo de meneies em húa galé darmada que foffe furgir 1'obre a barra de Baticalá, & lhe tomaffem as naos q faiífem de detro: & ho mefmo mandou a Chriftouão de foufa q foffe fazer a Dabul, q foy em húa galé por capitão mór de Ruy gomez dazeuedo & de Lourenço godinho que hião em duas carauelas, & mandouihe que foffe por Goa & tomaífe duas fuítas das q lá eítauão: & por rogo de lopo foarez fenten- ceou Diogo lopez ho feyto da juíliça contra Geronimo doliueira que ma¬ tou dom Aluaro da filueira como ja dilfe, & foy degolado. E feyta a car¬ rega das naos entregou Lopo foarez a índia a Diogo lopez de fequeira per hú eítorméto pubrico, declarando a gente que ficaua nas fortalezas, & as peças dartelharia. E ifto feyto partiofe Lopo foarez pera Portugal, onde chegou a faluamento. CAPITOLO .11. De como ho gouernador tornou el rey de Baticalá aa obediência del rey de Portugal. PArtido Lopo foarez ho gouernador fe partio pera Goa em Ianeyro de mil & quinhétos & dezanoue deixado por capitão de Cochim hú fidalgo feu fobrinho chamado Antonio correa em quãto Aires da filua não vinha de Malaca, & tirouha a Lourenço moreno, & leuou toda a armada da índia, & de caminho vifitou as fortalezas de Calicut & de Cananor, & foy ter com dom Afonfo de meneies que eítaua fobre a barra de Baticalá, cujo rey fabendo que ho gouernador ali eítaua foy o feu medo tamanho de ho deítruyr q logo lhe mandou pedir perdão do leuãtamento paffado, & pedirlhe que ho tornaffe a receber por vaffalo del rey de Portugal, porq eítaua preltes pera pagar ho tributo que dan¬ tes pagaua, & .mais pagaria tantos mil pardaos pera os galtos da armada. E ho gouernador foy contente, & adi fe fez: & ifto feyto partiofe pera Goa.
  • Livro V, Capitolo 111 5 CAPITOLO .III. De como Clirijlouão de foufa foy darmada fobre Dabul: & do que lhe lá aconteceo. • PArtido Chriftouã de foufa pera Dabul foy ter a Goa. onde pedio a Ruy de melo que eftaua por capitão na vagate de dom Goterre que lhe deffe as duas fuftas que ho gouernador mandaua, & dãdo- lhas tornou a fua viage pera Dabul, & por ler ja tarde achou os noroeftes muy rijos q lhe erão pof dauante, & ho não deixauão furdir indo ala- mar: & por iffo & por a carauela de Ruy gomez fer zorreyra deu a longa, porque cÕ ho emparo da terra lhe pareceo que não foliem os ventos tão rijos. E com tudo a carauela de Ruy gomez não pode ter coele né cõ as outras velas & ficou a tras. E indo Chriftouão de foufa aífi foube que detro no rio de Citapor eftaua carregando húa nao de mouros noffos Imi- gos poffe na boca do rio, & mãdou a hú capitão dú Catur que leuaua em fua conferua que foffe tomar a nao. E vendo ho os mouros que a car- regauão entrar détro no rio fugirão pera terra & deixarão a nao fó, & ho capitão do Catur a atoou & a leuou a Chriftouão de foufa, q metendo nela que a goardaffe a leuou em fua conferua, & daqui leuãdo fua rota abatida foy furgir na barra de Dabul, onde foube por algús da terra que lhe forão vender refrefco, que em quanto le deteuera em Citápor a tomar a nao paffara Ruy gomez & fora ter a Dabul, onde lhe logo fayrão as fuftas. E eftãdo coele ás bombardadas fe lhe acendera ho fogo na fua pol- uora c5 que a carauela foy toda queimada & quantos eftauão nela faluo húa molher Portuguefa que os mouros catiuarão: & que aueria fete ou oito dias que aquilo acontecera. O q Chriftouão de foufa creo por achar ainda algúa madeyra da carauela, & ficou muyto trifte por aquele defaf- tre, & quiferafe vingar dos mouros fe lhe fayrão, mas núca oufarão, nem ele não foy bufcalos por eftarem muyto dentro do rio. E auédo obra de doze dias que aqui eftaua forão os ventos tantos & tão brauos que não podendo ele nem os outros fofrer a amarra lhe foy forçado arribarem a húa enfeada chamada dos Malabares que era abrigada pera eftar hi ate amainar aquele vento, & hi queimou húa pouoação por fer de noffos Imi- gos. E amainãdo ho vento da hi a algús dias fe tornou a Dabul, onde foube que em quanto efteuera na enfeada dos Malabares encalando ho veto chegara húa nao de Cananor em que hia por capitão hú efcriuão da noffa feytoria que leuaua fazéda del rey de Portugal pera fe vender em Cambaya (& efta paffou de noyte pola enfeada onde eftaua Chrifto-
  • 6 Hifloria da índia uão de foufa & por iíío a não vio) & chegando defronte de Dabul lhe fayrão as fuftas & metcrãna no fundo com bombardadas. E vendo Chrif- touão de foufa que ho dano que as fuftas fazião hia em creciméto, deter¬ minou dentrar no rio & vingarfe, & porque não tinha mantimentos os foy tomar a Chaul aa noffa feytoria ondeftaua por fevtor hú Diogo paez, & em tornado de lá pera Dabul quis dar em Calaci hú lugar de mouros cinco legoas dele por fer de fua jurdição, & eftaua metido por hú rio acima obra de mea legoa. E chegando á foz do rio deixou ali a galé & a carauela furtas por não poderem nadar nele, & étrou no Catur fuftas & bateys em q leuaria ate cento dos noffos, & chegou ao lugar tres ho¬ ras ante manhaã, mas fazia hú luar tão claro que parecia dia. Os immi- gos tanto que fentirão os noffos fugirão logo, & a rezão de 05 fentiré tão afinha foy porque efta géte a mór parte da noyte anda acordada: os noffos feguirão hú pouco a pos os immigos & deixarãnos por fer noyte, & tornaranfe a queimar ho lugar q era grãde & auia nele muytas mez- quitas, & queimarãno todo defpois de ho roubaré, & afli duas naos que hi eftauão varadas. Ifto feyto recolheofe Chriftouão de foufa á praya pera fe embarcar, & hi efperou por algús marinheiros q ainda ficauão rou¬ bando. E eftando afli efperando fobreueo hú Tanadar dúa tanadaria dali a duas legoas, & fabédo do dia dãtes que os noffos eftauão na foz do rio de Calaci hialhe focorrer & leuaua trezentos piães Canarins todos fre¬ cheiros, & em os noffos os vendo aluoraçaranfe muyto, & differão a Chrif¬ touão de foufa que foffe pelejar coeles, do que ele foy cõtente, & afli pera iffo como pera recolher os marinheiros que lhe ficauão no lugar abalou logo pera eles, & eles moftrando muyto esforço ho fayrão a receber, & ho cercarão por diante & polas ilhargas tirado frechadas fem coto: Chrif¬ touão de foufa porq lhe não frechaffé os feus eftando ’jútos mãdou os elpalhar da mefma maneyra q fe os Imigos efpalhauão, pofto q lhe algús differão q melhor feria apinhoarefe pera húa parte & ficaré os Imigos defcubertos á noffa artelharia q lhes tiraffe do rio q os delpachaffe logo: & Chriftouão de foufa não quis, parece q por de defejar de pelejar. E efpalhados os noffos, trinta efpingardeiros & algús béfteiros q auia antre- les desfecharão nos Imigos & fizerãnos afaftar, & os noffos fe começarão de recolher efpalhados como digo, & tãto q quafi fe nã vião hús aos ou¬ tros. E os Imigos q virão efte defcocerto acodirão logo fobreles apertãdo os muyto cõ frechadas & ferindo deffa géte baixa q hia mal armada, q começou de fugir cõ menos cõcerto do que leuauão: fem Chriftouão de foufa né os outros capitães os poderé ter, & vedo ele ifto deixoufe ficar cõ os Imigos, ficãdo coele Frãcifco de foufa tauares & outros principaes & fazião volta aos Imigos pera os deter, & eles fe retirauão pera os can-
  • Livro V, Capitolo 1111 7 far, & deípois voltauão fobreles. E aífi forão ate a praya voltado hús aos outros bê quatro vezes em q a peleja foy bé ferida afli dúa parte como doutra: & tã perfiada q em chegaré os noffos á praya gaftarão bé tres horas, & cõ os feridos q fe hião embarcar & cõ os outros q fugião ig desfizera os noífos tãto q nã chegarão cõ Chriftouão de foufa á praya mais q ate trinta homés, & ainda aqui dapertado dos ímigos fe nã achou mais q cõ dez pera fembarcar de q hú era Frãcifco de foufa tauares, & aqui paliou Chriftouão de loufa grãde perigo, & efteue quafi perdido porq erão ja ébarcados todos os noffos fe nã ele cõ os dez q digo, & a maré échia & daualhes a agoa pola cinta, & os ímigos chouião frechas fobre¬ les, & coefta fadiga quafi q nã podião ajudar a ébarcar Chriftouão de foufa q ho não podia fazer lem ajuda por ir armado em hú arnês inteiro, & era neceffario tomaréno é pefo pera ho meteré no batel, & os ímigos nã dauão vagar pera iffo. E védo eles o q os nollos tinhão em ho fazer & cuydãdo q nã auia que lhe refiftiífe meteranle pola agoa, & chegauanfe aos bateys & ás fuftas lãçãdo mão dos remos pera os tomar: & quis deos q a efte tempo eftaua ja Chriftouão de foufa embarcado & os ou¬ tros q ho ajudarão, & vedo a oufadia dos ímigos mãdoulhes tirar cõ a artelharia, de q logo fugirão ficãdo muytos mortos, & dos noffos morreo hú bõbardeiro & forão feridos trinta. Feyto ifto porq Chriftouão de foufa trazia por regiméto do gouernador q ate a étrada de Ianeyro foffé em Goa as duas carauelas q leuaua pera ire cõ Antonio de faldanha a Or- muz, mandou a Louréço godinho q fe foffe, & ele ficou com a galé, fuftas & catur, & cõ tão pouca géte q não era nada pera a das fuftas de Dabul q era muyta & elas bé artilhadas foyfe a Dabul & furgio na barra, Õde achou Ioão gõçaluez de caftelo branco q por mãdado de Lopo foarez eftaua é goarda dela com tres fuftas, & per húa carta que lhe Chriftouão de foufa deu do gouernador fe partio pera Goa. CAPITOLO .1111. De como ho gouernador defpachou certos capitães pera diuerfas partes. DE Baticalá fe foy ho gouernador a Goa, donde mãdou Antonio de faldanha capitão mór do mar cõ húa armada ao cabo de goarda- fum a fazer prefas, & a faber fe eftauão os rumes é Iudá pera os ir bufcar como trazia por regimento. E fabédo aqui como fora queimada a carauela de Ruy gomez dazeuedo & metida no fúdo a nao de Cananor, parecédolhe q fora por culpa de Chriftouão de foufa ho mandou logo cha¬ mar por Antonio rapofo capitão dú nauio cõ qué mandou Ioão gõçaluez
  • 8 Hi/toria da índia de caftelo braço q auião de ficar e Dabul, & por íer ja étrada dinuerno quando chegarão não foy neceíTario ficaré lá, & tornaranfe cõ Chriftouão de foufa a Goa dõde fe forão a CochT por ja lá eftar ho gouernador. A q Chriftouão de foufa moftrou como não tinha culpa na carauela né na nao: & por iífo ho gouernador lhe pedio perdão de ho mãdar alfi vir de Da¬ bul. E porq ho gouernador foy auifado q em Coulão auia algum aluoroço de guerra por húa fortaleza q hi queria fazer ho feytor Eytor rodriguez, mãdou lá Ioão gõçaluez de caftelo brãco cõ tres fuftas darmada, & q não auédo q fazer é Coulão foffe fazer prefas ao cabo de Goardafú & tornaffe a inuemar a CochT: & affi por ho gouernador faber de do Aleixo de me¬ neies, & de Fernão perez dãdrade, & doutros fidalgos q chegarão de Malaca ho aperto em q ficaua cõ a guerra del rey de Bintão q era necef- fario mãdarlhe focorro: determinou de lho mãdar por Antonio correa filho Daires correa que foy morto é Calicut e tempo de Pedraluarez ca- bral, a que tinha dada húa viagem pera a China, & q de caminho iria por Malaca. E por nefte tépo lhe moftrar Simão dandrade hú aluara del rey per q mandaua q querédo ele ir á China defpois de vir de lá Fernão perez feu irmão q foffe. Não deu ho gouernador efta ida da China a An¬ tonio correa, fe não a de Malaca fométe, & a ida da China deu a Simão dãdrade a que defpachou logo, & fe partio em húa nao: & apos ele par- tio em outra hú fidalgo chamado Garcia de fá com géte em focorro Da- fonfo lopez da cofta: & defpois mãdou é húa armada de tres velas por capitão mór a Antonio correa, a q deu em regiméto q decercada Malaca foffe affentar pazes cõ el rey de Pegú, & das tres velas forão capitães, ele de húa nao, Antonio pacheco de húa carauela que leuaua a capitania mór do mar de Malaca, & hú Frãcifco de feqira é hú bargãtl. E nefta armada q partio de CochI a feys de Mayo forão ceto & clcoéta Portu- guefes. CAPITOLO .V. De como a raj-nha de Coulão deu confentimento pera fe fa\er fortaleza. ** DEsejãdo Lopo foarez no tépo q gouernaua a índia de fazer húa fortaleza em Coulão, ouue licença del rey de Coulão pera fazer húa cafa forte em que a fazenda del rey de Portugal efteueffe fegura, porque ho nã eftaua na cafa q eftaua feyta. E efta licéça ouue cõ determinaçã de cõ nome de cafa forte fazer húa fortaleza, porq tinha pera iffo coníetimêto de Alepãdari: q affi fe chamaua a raynha de Coulão, & coefte fundaméto tornaua de Ceilão (quãdo lá foy fazer a fortaleza) fe
  • Livro V, Capitolo V 9 não achara a certeza de ler chegado por gouernador da índia Diogo lopez de fequeira, q auifado por Eytor rodriguez feytor de Coulão do q paf- faua a cerca da fortaleza, lhe deu comifTam pera q por hú aluara prome- teffe á raynha tres mil rajas q íam moedas da terra q vai cada húa trlta & tres rs & hú terço em q pola valia da nolfa moeda fe motauão céto & trinta & dous mil rs, & a Chaneipulâ feu gouernador & muyto grade priuado mil fanões de CochI q vai cada hú defaífeys rs, em q pola moeda portuguefa mõtão defaífeis mil rs: & ifto porq deflem confentiméto pera fe fazer a fortaleza, & algúa delia copia lhes auia logo de fer paga, & a a outra defpois da fortaleza acabada: & ifto poré fé fer feyta guerra aos Portuguefes, né por ei rey de ComorI, né pola raynha & feus filhos, né menos por ela raynha de Coulão. Do q ela foy muyto cõtéte, oíferecen- dofe cÕ feus pulás a morrere cõ toda fua géte fobre fe a fortaleza fazer & daré pera a edificação dela toda a ajuda q podeffe fer, pofto q fabião q auião danojar niflo muyto ao rey grãde de Coulão, & cobrar por ími- gos ho rey de ComorI & a raynha & feus filhos: & porem q lhes na daua nada diífo por feruiré a el rey de Portugal por cujos vaffalos & feruido- res fe tinhão como fe propriaméte forão Portuguefes. E pera mayor fegu- rança a mefma raynha por fua pelfoa entregou Eytor rodriguez a hús tres irmãos Naires q morauão ao derredor dõde auia de fer a fortaleza que viuião cõ a raynha de ComorI, & erão grãdes fenhores & punhão em cãpo feyfcétos Nayres de peleja, & ho mais velho auia nome Unirey- pulá, ho meão Balapulágoripo, & o mais moço fe chamaua coulégorlpo. E éftes todos tres tomarão fobre íl ho feytor & prometerão de ho ajudar em quanto podeífem: & Eytor rodriguez fe cocertou muyto fecretaméte cõ Unireypulá q ho ajudaífe, & q em quanto duraífe a obra da fortaleza lhe daria cada dia húa raja. E fendo ho gouernador auifado de tudo per Eytor rodriguez, lhe deu comiffam pera q começaífe a obra. E como c Coulão foy fabido q fe auia de começar, foy coufa defpãto ho rumor & aluoroço q fe leuãtou, afli antre os mouros como ãtre os gétios: aqixã- dofe todos diífo. E el rey de ComorI & fua irmaã ajútarão muyta gcte, dizédo q era pera iré fobre Eytor rodriguez, & o mataré cõ quantos efta- uão coele. E fendo ho gouernador auifado defte aluoroço mãdou lá como difle a Ioão gõçaluez de caftelo brãco por capitão mór de tres fuftas é focorro: mas nã foy necelfario porq a raynha de Coulã & Chaneipulâ erão tão verdadeyros feruidores del rey de Portugal & defejauão tãto feu feruiço q apazigoarão tudo, & a raynha de Comorim ceifou de fua fúria, cÕ quãto ficou é grande odio cõtra os noífos. E vedo Ioão gõçaluez como ali nã auia q fazer foyfe ao cabo de Comorim, dõde íe fazer nenhúas prefas fe tornou a Cochim. 2 Tomo III
  • 10 Hijloria da índia CAPITOLO .VI. De como Eytor rodrigue\ de Coimbra começou de edijicar a fortaleza de Coulão. APacificandose mais a coufa determinou Eytor rodriguez de come¬ çar fua obra: & encomédãdofe a noflo fenhor, ho mais diflimula- damente q pode começou hú dia dabrir os aliceces dãdo ele as pr-imeyras enxadadas, & ajudado ho Chriftouão de bairros & Duarte va¬ rela feus gérros, & a(Ti hú Luys Aluarez q eftaua por capitão de húa galé, & Gafpar ferraz & Afonfo ferraz feu irmão, & ho padre Frãcifco aluarez vigairo da igreja de fã Thome, & outros q per todos fazião nu¬ mero de vinte fete Portuguefes & dous pedreyros da terra, & quãdo dous mil Naires q ali té ho rey grãde de Coulão (pera coferuação do eftado da terra) virão os grãdes aliceces q abria Eitor rodriguez tornaranfe a aluoroçar, dizédo q erão pera fortaleza & não pera cafa, pelo q ele os mãdou atupir & ficarão mais eftreitos, poré de largura de dez palmos, & aífi como hia abrindo afli hia fazendo a parede da cerca da fortaleza q fez de cõpriméto doytéta & cinco palmos & de largura de fetenta & cinco, & tedo a parede daltura dú homé: affétarão os nayres del rey de Coulão q tamanha cerca não era fe nã pera fortaleza, & aqueixaranle diffo á raynha de ComorI porq tinhão a de Coulão por 1'ofpeita nas cou- fas dos Portuguefes, a que fe queixou logo a raynha de Comorim, dizédo q ho não auia de fofrer, & mãdou a fua géte q fe pofeffe é armas. O q fabido por Eytor rodriguez nã quis ir cõ tamanha obra auãte, por apaci- ficar a gente & não ter dõde le defendeflé fe lhe fizeflem guerra, & ata¬ lhou ho vão da cerca cõ húa parede ficãdo a húa parte a cafa da feyto- ria, & a outra a fortaleza, com q prolfeguio auãte, dizédo q era a cafa da feytoria. Porem os Naires del rey de Coulão, né a raynha de ComorI & feus dous filhos não affeffegauão né perdião os ciúmes q tinhã daquilo fer fortaleza, & hora lhe tolhião os pedreiros, hora os cauouqiros: outras vezes fe ajútauão pera iré fobre Eitor rodriguez, & de tudo ho auifaua a raynha de Coulão & feus pulás, apreffando ho, q fe pofeffe na mayor altura q podeffe: porq lhe parecia q auião os Imigos de pelejar coele. E ele ho fazia afli, encomédandofe fempre a noffo fenhor de qué era muyto amigo q ho ajudou ate poer húa torre no primeyro fobrado. E por fer auifado q dia de Pafcoa auião os Imigos de pelejar coele deftapou étão as bõbardeiras q ateli teuera çarradas por não étéderé que era fortaleza, & affeftou nelas fua artelharia. E recolhido dentro na torre cõ a geate q
  • Livro V, Capitolo VII ii digo, amanheceo afli dia de Pafcoa: o q deu tamanho efpanto aoslmigos q não oufarão de ho cometer cÕ medo da artelharia: do q a raynha de Coulão & feus pulás ficarão muyto ledos, & mandarão dizer a Eitor ro- driguez q não temeffe dali por diante aos Imigos, porque ja não auião doufar de ho cometer, & quando ho quifelTem fazer q ela com todos feus vaffalos auião de morrer fobre ho defender. O que lhe ele agardeceo muyto, pedindolhe que os deixaffe chegar aa fortaleza pera ver como pe- lejauão os Portuguefes: poré os Imigos não oufarão de ho fazer, & dali por diante abrandarão da fúria q trazião, né fizerão mais fobrançarias aos Portuguefes. E nelfe tempo foy ali ter hum fidalgo chamado Garcia da cofta de Santaré cõ húa galé de que era capitão, q ho mandou ho go- uernador pera fauorecer & ajudar Eitor rodriguez: o que ele fez cõ muyto cuydado & diligécia. CAPITOLO .VII. Dú grande ferniço q a raynha de Coulão fe\ a el rey de Portugal. COm muyto grande trabalho, aíli do inuerno q era muy forte cõ chu- uas & cõ vetos, como cõ temores de guerra hia Eitor rodriguez proífeguindo é fua obra, não fométe na fortaleza mas na da igreja do apoftolo fam Thome, q tãbé começou, porq a raynha de Coulão, & ho regedor & outros pulás lhe fazião dar toda a pedra & outros mate- riaes q erão neceífarios pera eftas obras. E affi tinhao todos cuydado de¬ las como fe forão Portuguefes, não lhes lembrado q fazião niffo pefar ao rey de Coulão, né que efcãdalizauão a raynha de ComorI & feus filhos, nem que cayão em odio do pouo. O que parecia milagre de noflo fenhor teré os gentios tanta fee & amizade cõ os Portuguefes q affi os fauore- cião. E de tudo ifto Eitor rodriguez auifaua ho gouernador, q lhe man¬ dou q foífe affi cõ a obra como hia, porq leria coele na entrada Dagoílo. E cõ quãto Eitor rodriguez tinha efte trabalho de fazer a fortaleza, não deixaua de étéder na piméta q auia de cõprar pera a carregação das naos q fe efperauão aquele anno: & foube q erão abertas na ferra duas gran¬ des eftradas per que andauão a formiga tres mil boys de Charamandel, dõde leuauão arroz a Coulão & Caicoulão, & é retorno piméta de feus termos. E vedo ele camanho perjuyzo iíto era pera a carregação das naos de Portugal, queixoufe diífo aos regedores de Caicoulão, reqrédolhe q vedaffem q nã fe leuaífe aqla piméta. Ao q refpõderão q nã podiao fazer niffo nada por fayr a piméta de lugares de Bramenes a q não po- dião ir á mão: & por iífo ho rey de Caicoulão perdia feus dereytos, mas
  • 12 Hijloria da índia não podia al fazer ie não perdelos. E vedo Eytor rodriguez ho mao re- medio q ali tinha, efcreueo ho ao gouernador: q não achando pera iflo remedio lhe não refpodeo, & então fe focorreo ele á raynha de Coulão por faber quanto defejaua ho feruiço del rey de Portugal, & pediolhe que mãdaffe por quinhetos dos feus Naires fazer hú falto na cafila dos boys de Choramandel, & que os efcarmentaffem de maneyra que não fizeffem mais aquele caminho, & que prometia de dar cem cruzados por cada ca¬ beça de home q lhe deífem da cafila. E a raynha por feruir el rey de Portugal fe cocertou com hú rey irmão doutro, per cuja terra as cafilas caminhauão que lhe daria quinhentos Naires pagos á fua culta com que fizeffe guerra a feu irmão porque deixaua paliar a cafila por fua terra, porque não paliando por ela nã tinha caminho por outra parte. E eíte mefmo rey que auia de fazer a guerra a feu irmão, antes de a começar fez com os quinhentos Naires da raynha de Coulão hú falto na cafila de Choramandel em que matou cinco homés dos que hião nela, & tomou muytos boys & grande 1'oma de pimenta, com que os outros ficarão tão efcarmentados que defiltirão de todo daquele officio, & logo as eítradas forão çarradas: do que a raynha de Coulão mãdou pedir aluifaras a Ey¬ tor rodriguez notificandolhe o q era feyto, & que em fatisfação daquele feruiço que fizera a el rey de Portugal, & do gaito que fizera com os qui¬ nhentos Naires a que pagara hú mes de foldo, queria que lhe efperaffe aquele ano por duzentos & oyteta bares de pimeta que diuia: & ilto por eltar pobre & gaitada das guerras paliadas. O q lhe Eytor rodriguez fez: cõ que ela ficon muyto contente. CAPITOLO .VIII. De como lio gouernador foy ver lni pará que fe fa\ia antre hfts Caimaes na terra firme, & do que acõteceo. NO começo deite inuerno que ho gouernador teue em Cochim fuce- deo auer hú pará antre certos Caimaes valfalos del rey de Cochim & del rey cte Calicut fobre certa deferença que tinhão. E eite pará quer dizer na fua lingoa batalha de defafio, em que fe ha dauerigoar a verdade, & a(Ti como hum rey ou fenhor faz a outro qualquer offenfa: ho offendido defafia o que hò offendeo pera fe darem batalha campal, & ajuntão pera iflo toda fua valia damigos & valfalos: & fe ho offendido tem mais gente que o que ho offendeo dalhe a batalha em pubrico, & fe não ho mais fecretamente que pode. E fabendo ho gouernador que fe daua eíta batalha a mea legoa de Cochim polo fertão foy a ver acompanhado
  • Livro V, Capitolo IX i3 de quinhétos hornens em que auia algús fidalgos, & todos com capas & efpadas fomente: & foy ho gouernador é tónes polo rio ate Õde fe auia de dar batalha, & ali defembarcou, & ãtre os q auião de dar batalha, & os q a auião de ver ferião quatro mil homés a fora os noffos. E começada a batalha, quis hú nofio bobardeiro fauorecer ho Caimal del rey de CochI cotra ho del rey de Calicut, ajudãdoho cõ húa efpada dambas as mãos. O q vedo ho Caimal como qria mal aos noffos, remete cõ parte de fua géte a algús deles q ãdauão elpalhados tirãdolhe muytas frechadas: ao q ho gouernador acodio logo, & recolheo os noffos: & feytos todos é hú corpo fe quifera tornar fe ho deixarão, porq os naires como homés efcã- dalizados dos noffos os feguião, apertando os com frechadas muyto baf- tas: & por fe o gouernador defembaraçar não quis q os noffos trauaffé coeles, fe não q fe defendeffem: porque erão muytos & fe a batalha fe trauaffé paffarião os noffos mal por fere poucos: & por iffo ho gouerna¬ dor fe recolhia ho melhor q podia, & os Imigos apertauão todauia tã rijo q ho punhão e muyto perigo, o q vedo algús fidalgos fe poferão diãte dele pera ho emparar das frechas, & ho primeyro foy Chriflouã de foufa q logo foy ferido de húa é hú braço, de q defpois foy aleijado & affi forão feridos outros & mortos cinco, & antreles forão Diogo de pina filho de Ruy de pina. E defpois q os Imigos virão q os noffos não querião pe¬ lejar coeles, & també por acodiré aos companheiros q ficauão na batalha deixarão os ir. E vendofe ho gouernador defapreffado dos Imigos fez re¬ colher os mortos, & foyfe a CochI onde teue ho inuerno, em q mandou cõcertar a armada pera ho verão feguinte. CAPITOLO .IX. De como mouros de Camba/a matarão a Ioão gome\ nas ilhas de Maldiua com outros noffos. ATras fica dito como loão gomez cheira dinheiro foy ás ilhas de Maldiua pera fazer lá húa fortaleza: & defpois q foy é Maldiua achou q era ali efcufada fortaleza, & q abaílaua húa feytoria pera ho trato q ali auia dauer. E affi ho fez & ele ficou por fcytor, & téd© mãdada húa nao fora em q forão algús criados feus q nã ficarão coele mais q ate oyto dos noffos & algús da terra q feruião na feitoria forão ali ter certas naos de mouros de Cãbaya, q como erão noffos Imigos & virão Ioão gomez cõ tão pouca companhia, determinarão de ho matar & tomar quanto eftaua na feytoria. E affi ho fizerão, & Ioão gomez morreo
  • 14 Hijloria da índia defendédofe tão esforçadaméte como ele pelejou fempre nas pelejas é q fe achou q era muyto valete caualeyro: & aífi acabou feus dias com qua- tos eílauão coele, & defpois de mortos roubarão os mouros a feitoria & leuarão tudo fem ho rey da terra oufar de reíiílir por nã ter géte de pe¬ leja. E ho gouernador quãdo ho foube nã pode fazer nada naquilo por os mouros não ferem de lugar certo. CAPITOLO .X. De como defpois Dantonio correa Jocorrer Malaca fe partio pera Pegú a ajfentar amizade. % Prtido Antonio correa 5 focorro de Malaca feguio por fua viage, & indo atraues de Ceilão por fer inuerno lhe deu húa torméta cÕ q fe apartará dele os outros nauios & ele ficou fp, & affi foy ter a Pacé: & dali foy ter a Malaca Õde eílaua Afonfo lopez da coíla é tama¬ nho aperto de guerra como diífe, afli por mar como por terra que lhe fazia el rey de Bintão q eílaua é húa pouoação por dentro dú elleiro q fe chama Pago q fae do rio de Muar, & tinha ali húa forte fortaleza de madeira, & mandaua fua armada pola coíla de Malaca, & fazia arribar ao pago todos os jugos que hião a Malaca, & outras quaefqr velas q leua- uão mercadorias ou mantimétos. E por eíla caufa não hia nenhúa vela a Malaca, pelo q eílaua 6 grande aperto de fome, & valia húa ganta darroz q não leua mais q húa canada hú cruzado & húa canada de vinho ho mefmo, & por falta dele auia dias quando Antonio correa chegou q não fe dizia miífa, & os Imigos vinhão muyto amiúde correr por terra a for¬ taleza, & por os noífos fere poucos & muyto doetes não oufauão de fayr a eles, ne fométe fazer trãqueiras fora da fortaleza pera dali defenderé ho impeto dos Imigos, porq temião q ali os tomaffé fegundo erão muytos & fobejos & eles poucos por ja a eíle tempo Simã dãdrade fer partido pera a China & leuar cõfigo toda a gcte q fora coele da índia. E por ho capitão de Malaca eílar neíle tamanho aperto folgou em eílremo cõ a chegada Dantonio correa q com os mãtimétos que leuaua da índia defa- liuou algú tanto os da fortaleza da fome q padecião: & dali por diãte fe differã miíTas por amor do vinho q leuou, & começoufe de fétir manos ho cerco: & porq os noífos ficaffem mais deíapreífados tomou Antonio correa cargo de defender húa trãqueira q eílaua da bãda da fortaleza hú pedaço afaítada dela, & cõ fua deféfam ficauão os da fortaleza liures dos rebates paífados. E aífi foy, porq vindo os imigos como dãtes acharão na trãqueira Antonio correa bé acõpanhado defpigardeiros & de béíleiros &
  • Livro V, Capitolo XI i5 dalgúas peças dartelharia, de q os ímigos receberão algú dano, & por ferem muytos ho não eítimarão ne deixarão de correr como dãles, & quafi q dauão cada dia rebates, prlncipalméte defpois q entéderão ho focorro q era vindo porq então infiftião mais q da primeyra é vécer os noífos, porq não cuydaffem q cõ medo do focorro afroxauão de lhe fazer guerra, & cõ iíto dauão afTaz q fazer a Antonio correa cõ contino traba¬ lho dos rebates q lhe dauão, a q acodia com muyto perigo de fua vida & qbrãtaméto do corpo & fadiga do fpirito porq não comia né dormia fe nã armado: cõ tão Iméfo trabalho viueo dous mefes fem nunca lhe neíte tempo matarem nenhú dos da fua companhia, antes matando ele & eles muytos dos immigos: com que fe efcarmentarão de maneyra que afafta- rão feu arrayal pera mais lõge, & afroxarão muyto de fuas corridas. E ficado os noffos mais defaliuados da guerra & mais feguros pareceo bé a Antonio correa de ir a Pegú, aífi pera afletar paz cõ el rey pera os noffos iré lá tratar & viré de lá mãtimétos a Malaca, como pera os trazer logo pola neceflidade q auia deles. E defpachados os jugos da China & dou¬ tras partes q com fua eftada é Malaca fe atreuerão a partir, partiofe pera Pegú na nao em que fora da índia, & foy primeyro a Pacé carregar de piméta q era bõ emprego pera lá. E carregada a nao partio do porto de Pedir quarta feyra quatorze de Setembro do anno de dezanoue, & dahi feguio fua rota pera Pegú. CAPITOLO .XI. Em q fe efcreue ho reyno de Pegú & feus cofhimes. ESte reyno de Pegú he na enfeada de Bégala da bãda do fui por õde comarca cõ outro chamado Tenaçari, & do norte cõ ho de Bégala, de q eftá céto & vinte legoas pola coíta do mar per húa põta q fe chama de negrais, & em a dobrãdo étrão logo em hú rio grãde q fe chama Cofml onde começa ho reyno de Pegú: q tera de cofta ate cincoéta legoas. Da bãda do ponéte tem ho mar indico & do leuãte ho reyno de Brema & Dauã, q fe eftendc per húa corda de ferras muy altas q té defta parte de q ha ao mar em húas partes trinta & é outras coréta legoas, q he a largura deite reyno, em q ha muytas mõtanhas cõ grãdes matas de alto & efpeffo aruoredo em q fe crião multidão dalifantes, de vacas & bufa¬ ras brauas & porcos mõteles & veados, com q os da terra fazé muytas mõtarias principalméte os grandes fenhores. Ha nelte reyno muytas mi¬ nas douro, mas nã fe tira polo rey deféder porq nã qreria tirar a gete outros metais de q ha muytos na terra: é que fe da també muyto lacre
  • Hijloria da índia 16 & muyto fino, & ha nouidade dele muyta & pouca: procede de hú ge- nero de formigas q ho crião, ho bõ he de canudo, ho fomenos he de pão. Ha robis fem cõto, & os melhores q ha é outras partes, çafiras, efpinelas & outra pedraria: de Sião lhe vem muyto beijoim & almizquere. Ha grade criação de caualos do tamanho de facas dirlanda, & afli té ho an¬ dar, & todo ho ãno não comé mais q erua: deites fe ferué adi na paz como na guerra: dafle nefta terra geralméte muyta forna darroz, & criãfe infinitos pórcos & galinhas grãdes & boas, de vacas & outro gado miudo ha arrezoadamete, & afli ha muyta diuerfidade de fruytas: de modo q he muyto abaítada de mãtimétos, & por iflo os leuão por mercadoria pera õde os não ha. He efia terra toda muyto fádia, afli pera os naturais como pera os eftrãgeiros, & não fe cria nela nenhú bicho peçonhéto: he toda cortada de grãdes rios q nacé nas ferras q difle & deles fam muyto altos, & étra a maré neles: a mayor parte das pouoações fam ao logo deles, & fe he em parte eftreita fam as cafas de húa parte & da outra, & cada cafa tem hú paraó peqno pera feu feruiço. A prlcipal cidade de todo eite reyno fe chama Pegú, de q ele toma ho nome fituada ao logo do rio de Cofml em q eitão outras cidades notaues afli como Dixára, que eftá na põta da barra, & Dalá mais acima & Degú quatro legoas da barra, Si- rião & Cofml que 'eítá dezoyto legoas da cofta & ateli chegão os jugos ou naos eltrãgeiras, & dali vão em champanas da terra ate Pegú q he auante oytéta legoas ou pouco menos. E afli eflão outras cidades de Cofml ate Pegú a q não foube os nomes, & muytas delas fam cercadas de mu¬ ros & cobelos a nofla maneyra, & tudo de cal & ladrilho. Ha outro rio principal ate cincoéta legoas deite, q fe chama Martabão de cuio nome eitá em fua praya fituada húa fermofa cidade fete legoas da barra tãbe porto prlcipal em q fe fazem as jarras martabanas q leuão á índia, & afli outra muyta louça de maffa de porcelana, porem não tão fina como a da China, né daquelas cores & pinturas. Neítes rios & em outros muy- tos ha muytos & bõs pefcados diuerfos dos noflos faluo faués: vendefe ho pefcado viuo em paraós cheos dagoa. A gente deite reyno comúméte he fermofa, principalmente as molheres: os homés fam de meaã eítatura de membros groflos, baços como mulatos fracos pera guerra: fuas armas fam efpadas de ferro morto do tamanho das noflas & muyto mais largas cõ bainhas de pao: te padefes tão altos como hú homé de coyros dalifan- tes cõ verniz por cima & capecetes do mefmo. E també coítumão armar a cabeça & coítas cõ húas peles dús bichos q tem conchas muyto fortes, & laudeis acolchoados: té lanças de ferros compridos & pelejão a pé & a caualo & em alifantes, & nos rios em paraós. Tem algúas efpingardas & bombardinhas de ferro & algúas poucas de metal com letras chins, no
  • Livro V, Capitolo XI *7 q parece que aquela terra foy fenhoreada deles em outro tempo, porque tambe ha ainda finos dos chis cõ as fuas letras, & afli idolos. Ho capitão que he vencido na guerra quando torna pera lua cala não fe ferue polas portas porq fe dantes feruia, fe não por outras ate reftaurar fua honrra. Ha nefte reyno grãdes officiaes doficios macanicos, aflí douro como prata, ferro & pao, & pintores muy fingulares. A géte natural defie reyno he gétia (ainda q algús fam mouros) adorão idolos de diuerfas feyções hús de figura domé dú palmo daltura, & dahi ate do tamanho dú gigante, & outros tã altos como a mais alta torre & muyto bem obrados, & eftes de cal & tijolo os outros de metal & de pao, & todos dourados & pintados de muy tas cores, & deles té tres rodos: & dize os Pegús q fignificão ao deos grande criador do mundo, & os outros a outros fanctos q forão de boa vida & caualeyros. Adorão tãbé a hús edifícios q chamão varelas feytos ao modo das dos Chins como difle atras, faluo que fam todas mo- ciças de cal & tegelo reuocadas por cima dú betume de lacre, & por cima dourado douro de pão, & nas põtas té hús barões de ferro cõ húa poma & lombreiro de metal cercado de cãpainhas, & nefias pomas meté peças douro & pedraria q offrecé: a menor varela deftas he daltura de quatro braças, & daqui pera cima em grande quãtidade, afli como íe efcreue que erão as pirâmides do Egipto. Em todas as pouoações defte reyno ha muy- tas & húa mayor que todas, na cidade de Degú eftá húa tão alta que le vé a mór parte do reyno, & a efta vay muyta gente em romaria por hú certo dia do anno. Eftas varelas adorão por deos, & dizem q afli como ele he grande afli as fazé grandes, & ao derrador delas ha cafas de ido¬ los & outras em q pregão. Tem efta géte também outros templos como mofteiros em que morão os feus facerdotes a q chamão Rolis homés ca- ridofos, principalmente aos eftrangeiros, & em hús morão trezentos & em outros quatrocentos: eftes trazé as cabeças rapadas, & arrancão os cabe¬ los da barba: veftem húas roupas de mãgas que lhes chegão ao peito do pé & encima outros panos compridos & eftreitos a maneyra deftolas. Eftes não conhecem molheres defpois que fe meté neftas cafas & he lhes defelo: viué apartados da conuerfação dos outros homés. Eftes mofteiros fam de madeira muyto fortes & dourados em muytas partes, té finos grandes & peqnos como os noflòs, & deles mayores que os que eftão em Santiago de Galiza, com letreiros & muytos lauores ao derredor, & vfam deftes finos nas cerimonias de fua feita. Antreftes Rolis ha hús princi- paes a que os outros obedecé, & em todo ho reyno ha hú fobre todos que tem por homé fanéto. Deftas cafas húas tem réda que lhes dotou qué as edificou, ou dos lugares onde eftão, outras fam pobres, & os que viuem nelas fe mantém defmolas. Também ha deftas cafas de molheres Tomo III 3
  • i8 Hiftoria da índia que rogao a deos polos defuntos que as fundarão. Té também outras cafas que não ferué fe nã de ter idolos como em tefouro, principalmente húa em efpecial em q ha tantos grandes & pequenos que affomão a céto & vinte mil, & cada dia metem muvtos que offerecem peifoas: a cafa em que eftão he muyto grande & de grande comprimento, c5 hús poyaes altos de tigelo, & polas paredes hús vãos como almarios cheos de idolos peqnos & por cima os grandes: em cada lugar ha húa cala pubrica que ferue deítaré nelas ataúdes doutra feyção dos noífos com muytos lauores dourados & tamanhos q fam neceífarios doze & qulze homés pera os leuar, & neites leuão os finados a qimar a certo lugar fora das pouoa- ções, & fegundo a calidade da pelloa adi leua ho ataúde, & aífi lhe fazem ho fogo com que a queimão, que a hús ho fazem com fandolos & a ou¬ tros com outra lenha. Crem q ha outra vida defpois deita, mas não como nos cremos, jejuão por fua deuaçã trinta dias no anno & não comé fe não á noyte: nelte tépo ha muytas pregações & outras cirimonias de fuas ido¬ latrias. Té que qué leua ho alheo que na outra vida fica catiuo da peffoa a qué ho leuou, tem q matar coufa viua pera comer q he mao, & muy¬ tas vezes mãda el rey apregoar por fua deuação q não maté né pefqué, & a pena não fe executa muyto porq qué té cargo difio lhes dá lugar porq lhe peitã, & por iífo afogão os porcos é rios quando os qré matar nã morre nhúa peffoa por juitiça, & quando comete crime porq mereça morte degradãno pera os lugares da colta ou pera algúas ilhas. Ha taixa pera hú homem que mata outro pagar certa coufa fegundo a calidade do morto a feus erdeiros ou a feu fenhor, todo ho natural deite reyno que tem fenhor quando morre lhe fica a fazéda, & os herdeiros fazem hú prefente ao fenhor fegúdo he a cantidade da fazenda, & ele lhe faz merce dela: & deita maneyra do pião ao caualeyro, & da hi pera cima ate el rev* Cafam os homés cõ húa fó molher, & deles com duas & tres o que os outros tem por má coufa: ao tempo que as molheres andão pera pa¬ rir lhes fazé no quintal das cafas em que morão húa cafa de terra & ca¬ nas como fam as outras, & neítas eitão trinta ou corenta dias defpois de paridas, & tem por mal entrarem em fuas cafas fem paliarem eítes dias. A gente deite reyno comúmente he bem enfinada & de melhor con¬ dição que outros nenhús gentios, & falão verdade, & mais chegada aos noífos coítumes que outros algús, & comé o que nos comemos o que ou¬ tros não fazem: & parece q ferião Chriítãos fem trabalho fe os conleruaf- fem & doutrinaffem, tratanfe todos bem. Ha antreles homés letrados em outra lingoa que tem a fora a própria como antre nos ho latim, efcreué em papel com tinta & tem efcripturas antigas: a cortefia que vfam he leuantar as mãos diante do roito, & fe a peffoa he de mór calidade que
  • Livro V, Capitolo XI 19 a que lha faz não refponde aífi, mas faz hú geito diffo: vfam de muyta policia os nobres em feu feruiço, & feruenfe das portas a détro com anãos de que ha muytos no reyno, & afli com molheres pequenas corcouadas detrás & diante & quebrãnas em crianças pera efte fim porq não empre¬ nhem, & neftas tem fuas fenhoras grande confiança. Tem eftes nobres muytas maneyras de folgar a fora montear q coftumão muvto, & húa he meterenfe em paraós que té, adi grandes como pequenos deles de hõ foo pao, & de tal maneyra que leuão por banda cem remeiros de pãgayo, & dourados & pintados, & no meyo húa cafa de madeira do mefmo modo, & nas proas húa deuifa: & ha outra feição de paraós que tem porcima outra ordem de remos compridos, & os remeyros vertidos de libré. E metidos os fenhores neftes paraós, apoftão com outros a quem mais re¬ mara, & leuão inftrumentos que tãgem & remão ao feu fom: coufa muyto pera ver, & el rey vay ver efta fefta a húa cafa que tem pera iífo no meyo do rio, & ali eftá ho preço da aporta, & os juyzes que ho deter- minão. E os da aporta iam muytos, & infinita gente polo rio & pola terra a ver erta fefta em que fe faze grãdes gaftos. Andão eftes fenhores em andores muyto ricos pintados & dourados, deles cubertos & outros def- cubertos & leuãnos dez & doze homés. Ho andor del rey & de feus filhos fam deferentes dos outros é teré os tirãtes forrados de marfim, & té por honrra iré acõpanhados de muyta géte de pé: os eftrãgeiros não podé andar neftes andores fe não per merce del rey. Nefte reyno não fe laura moeda, & correm por ela húas bacias velhas de q fe feruirão & fam de fuzileira, por pelo fe compra tudo coelas: ho pefo comú fe chama biça q he dous arratés & meyo & tem cem miticaes & comprado é ouro & leuado a Choramandel ou á índia vai de mil & quinhentos ate mil & feyfcétos rs como outra mercadoria. Ha nefte reyno grandes & ricos mer¬ cadores que tratão todos em lacre, & na pedraria que diffe, & em almif- quere, ouro, prata & beijoim, & mantimétos, & jarras martabanas & ou¬ tra louça branca que fe faz na terra: & todas eftas mercadorias vem doutras partes, de que trazé emprego de coufas q não ha na terra. El rey he gétio & ferueífe cõ grade eftado, poucas vezes tem guerra com feus vezinhos: ho mais do tempo refide na cidade de Pegu em que té hús muyto grandes paços de madeira aleuantados do chão muyto polidos com ouro & pinturas: fam cubertos de telha mourilca, té grãde terreyro diãte, & ao derredor deles fam tudo alpéderes ou aftrebarias dalifantes & de caualos. He muyto dado á caça, principalméte dalifantes, de que toma muytos & feytos manfos manda vender os que lhe fobejão: traz na lua corte muytos fidalgos & fenhores: té por agouro ver abutre, & por iífo nos feus paços eftão fempre vigias pera q os enxotem. Tem por cof-
  • 20 Hijloria da índia tumc ho principal fenhor do reyno fer amo do príncipe ík fua molher lhe dá ho leyte, porq fendo feu amo não aja treição por fua caula. Seruefe el rey de capados de Bengala que vem por tempo a fer grades fenhores no reyno & a mandalo: & acha el rey q lhe fam leaes, & que não pre- tcdê fe não feu feruiço porque não tem outrc. Em húa cidade deite reyno a q não foube ho nome eítá junto dela na borda de hú grande rio hú templo & diante dele no rio ha húa grande forna de peixes quafi do tamanho de tubarões que tem tres ordês de dentes & as bocas muyto grãdes, & fam tão domeíticos que batendo com a mão nagoa & cha¬ mando os por certo nome, acodem muytos abrindo a boca, & a gente lhe mete arroz nela. Coufa muyto pera efpantar por ho rio fer grande & de maré perto do mar não fe mudarem dali & ferem continos: & dizem que fam daquele templo, & tem que quê mata algú que não viue defpois hú anno. CAP1TOLO .XII. De como Antonio correa affentou pa\es ê Pegú. PArtido Antonio correa pera efte reyno de Pegú foy furgir na barra de Martabão a vinte fete de Setembro, onde as agoas corrê tanto que em deitando ancora acédeo ho aufte fogo no efcouuem, & ele furto acodirão logo pilotos da barra pera ho metere no rio como mete¬ rão, & foy furgir diãte de Martabão, & dali mandou por embaixador a el rey de Pegú que eítaua bé corêta legoas polo fertão a hú Antonio pa- çanha natural Dalanquer & por feu efcriuão hú Belchior carualho, & pera ho acõpanharê algús dos noffos ate fete ou oyto, & afli forão coele piães da terra. E chegado Antonio paçanha á cidade de Pegú falou a el rey, & defpois de lhe dar hú prefente que lhe leuaua, lhe deu a êbaixada da parte del rey de Portugal, cuja concrufam foy afientaré amizade & trato, & que pera iífo hia aquele feu capitão Antonio correa q ficaua no porto de Martabão, onde poderia mandar hú homê principal de feu reyno, pera q ambos em nome del rey de Portugal & dele affentaffem as pazes. Do que el rey foy cõtente, & defpachou logo pera iífo a hú çamibelegão prin¬ cipal de fua cafa, & afli ho rolaz mór do reyno, que como diífe tem por fanto pola grande auftinécia q faz. E chegados todos a Martabão viofe Antonio correa em húa mezquita com çamibelegão & com ho Roliz mór. E leuou configo ho feu capelão com fua fobrepeliz, porque ele & ho Ro¬ liz auião tambê de jurar as pazes em fuas leys, & na mezquita fe affen- tarão todos quatro no chão fobre húa alcatifa. E çamibelegão tirou de húa boceta de marfim húa folha douro batida do tamanho de húa nofla
  • Livro V, Capitolo XIII 21 de papel efcripta de luas letras, em que fe cotinhão os capitolos das pa¬ zes da parte del rey de Pegú q ele auia de jurar: & diffe a Antonio cor- rea que lha mandaua el rey de Pegú pera a leuar ao gouernador da índia q a mandaíTe a el rey de Portugal, & ho Roliz diffe q prouuefTe a deos que fofle aquilo por bem. E tudo ilto declaraua hú lingoa, & logo tirou hú grande maço dolas em que eftaua efcripta fua feita: & as letras erão tudo ós com pontos hús com mais outros com menos: & ele & çamibe- legão & Antonio correa poédo todos tres as mãos fobre aquelas olas jura¬ rão cada hú por fi em nome de feu rey de manteré & goardarem a paz & amizade legundo fe continha nas capitulações. E defpois fizerão ho mefmo juramento Antonio correa, çamibelegão & ho noffo capelão fobre ho cancioneiro geral q ho capelão acertou dabrir nas obras de Luys da íilueira: na que fez fobre ho. ecclefiaftés de Salamão q começa vaidade das vaidades, & não quis que fofle ho liuro dos euangelhos, porque lhe não pareceo rezão jurar por eles a quê não cria neles, & mais porque fabia que aqueles não auião de goardar ho jurameto fe não em quãto lhes fofle neceflario gardalo. E juradas as pazes, & ficando os noffos em grande amizade com os da terra começoufe antreles ho trato: & ficou aqui Antonio correa ate ho mes de Iunho do anno de vinte que era a moução pera Malaca. CAPITOLO .XIII. De como Antonio paclieco & outros forão calinos pelos Acliês & a canja porq. DEspois de partido Antonio correa pera Pegú Afonfo lopez da cofta capitão de Malaca que ellaua muyto carregado cõ Antonio pa- checo fer capitão mór do mar q lhe auia medo por ter dous irmãos & fentia de fi que por fua forte condição lhe podia dizer algúa coufa de que íe efcandalizafle, & leuantarfehia contrele. E deitando lobrifto fuas contas achou que ho melhor feria não ho ter ali, & por ifto bufcou acha¬ que pera fazer autos dele, dizendo que ho delacataua, & q ja fe leuantara cõtra Nuno vaz pereyra fendo capitão, & prédeo ho & prefo ho mandou pera a índia na nao efpera de que era capitão Gafpar da cofia irmão dele Afonfo lopez, & indo de viagé forão dar húa noyte na ilha de Ga- mifpola onde fe perdeo a nao, & a gente fe faluou. E eítãdo ali fem re- medio pera fe tornaré a Malaca forão hi ter certas lãcharas del rey Da- chê, que andauã darmada, & como erão Imigos dos noffos pelejarão coeles, & por feré muytos os matarão defpois de fe defenderé muyto bc,
  • Hijloria da índia 22 & matarê muytos Imigos. E ãtonio pacheco, Gafpar da cofta, Diogo fer- nãdes, Grigorio gonçalues do Algarue, & outros tres de muyto feridos cayrao, & aífi os tomarão & forão catiuos. E defpois os mandou Garcia de fa refgatar fendo capitão de Malaca na vagante dAfonfo lopez da cofta, que adoeceo defpois diffo: & porq fabia quão dificultofamente ali auia dauer faude polos áres de Malaca ferem muyto roins, determinou de fe ir pera a índia pera ver fe podia lá fárar. E porq não tinha em q fe ir reconciliou cÕ Garcia de fá, com que eftaua mal: & cõcertou coele que lhe daria ho tépo q tinha por feruir da capitania: & q lhe defle ele a fua nao. E fabendo ifto ho alcaide mór quifera ir á mão a iffo: & poerfe em dereito cõ Afonfo lopez: & ãbos ouuerã fobriffo palauras rols. E por der¬ radeiro a capitania ficou a Garcia de ftí: & Afofo lopez partio pera Co- chim em Dezébro do ãno de xix. & la morreo defpois, antes q ho gouer- nador chegaffe do eftreito. CA PI TO LO .XIIII. De q ho gouernador fe\ em Cocliim na entrada do verão: & de como Anlonio de faldanlia chegou Dor mu*. DEterminãdo o gouernador de ir no ãno feguinte a queimar as galés dos rumes q eftauão é Iuda & fazer húa fortaleza, fez fe preftes naqle inuerno do ãno de xix. & paliado ho inuerno, porq não po¬ dia partir fenão dali a cinco mefes, mãdou entre tãto fazer guerra á cofta de cãbaya por hú fidalgo chamado Chriftouão de fa, que agora he frade da ordem de fam Frãcifco, a q deu a capitania mór de tres galés: cujos capitães a fora ele forão do Iorge de menefes, & Iorge barreto de beja: & mãdoulhe q na entrada de Ianeiro folie coele em Goa. E a caufa do gouernador mãdar fazer efta guerra a cãbaya era, porq Meliquiaz capi¬ tão de Diu cotra as pazes q aífétara cõ Afonfo dalbuquerq trazia dillimu- ladamente fuftas pola cofta q matauão os noíTos fe os achauão de bÕ lãço, & tomauão as naos de nofios amigos, finalméte q era húa guerra encu- berta: & poriflo ho gouernador mandou a Chriftouã de fa q não perdoaffe a nenhúa coufa de Cãbaya: o que ele fez aífi defpois q foy na cofta, & defejaua muyto de topar cõ Xequegi capitão das fuftas de Meliquiaz q núca oufou de fair fabêdo q Chriftouão de fá ãdaua pola cofta, onde fez muytas prefas & matou muytos mouros, & delpois fe foy a Goa como lhe ho gouernador mandara: & també na entrada do verão chegou An- tonio de faldanha á põta de Diu vindo Dormuz õde fora inuernar, & ali fez algúas prefas cõ os feus capitães, prlcipalmente Diogo de faldanha
  • Livro V, Capitolo XV 23 feu fobrinho capitão de húa nao, & Louréço godinho capitão de húa cara- uela, q abalrroarão ambos húa nao de mouros q foy ter á barra de Diu & aferrandoa pelejarão cÕ os mouros q fe deféderão hú pouco, & def- pois fe rederão & os noflos capitães étrarão a nao & a roubarão de muyto dinheiro, & nã foy tão fecretaméte q ho não foube Antonio de fal- danha, & fez fobriflo tãtas diligecias q ouue a mayor parte do dinheiro, & dahi fe foy a Goa & de Goa a Cochim ao gouernador q lá eftaua. CAPITOLO .XV. De como partio de Portugal por capitão mór da armada da índia Iorge dalbuqrque, & de como dó Luys de gu\mão arribou ao brafil por lhe qbrar o leme. NEste anno de mil & quinhétos & dezanoue partio pera a índia húa armada de dezafete velas grofias de q foy por capitão mór Iorge dalbuquerq que é tepo Dafonfo dalbuquerq fora capitão de Ma- laca, & hia prouido da mefma capitania na vagãte Dafonfo lopez da cofta. Forão os capitães da frota ho doutor Pero nunez pera védor da fazenda da índia cõ hú regiméto em que el rey tiraua ao gouernador todo ho po¬ der, & mãdo qué dantes tinha na fazenda & ho daua a ele Pero nunez, & aííi ho auia por ilento da jurdição do gouernador nos cafos ciueis & crimes. E coefte officio leuaua mil cruzados dordenado cadãno, & q po- delfe mandar cadãno polo índia cê quintaes de pimenta cõprados polo feu dinheiro, & aífi cé quintaes de cobre que compraria a el rey pelo preço q lhe cuftauão na cafa da índia, & q mãdaffe cadãno a Portugal tres caixas forras & dous efcrauos, & leuaua vinte homés pagos aa cufta del rey pera ho acompanharê. Ho outro capitão foy Diogo fernãdez de beja pera capitão da fortaleza que el rey de Portugal cuydaua que eftaua feyta é Diu, Rafael catanho, & Rafael pereftrelo pera ire aa China nas naos em q hião: & ho outro capitão q hia em húa nao de dõ Nuno Ma¬ nuel, Pedreanes francês, Chriftouão de médonça, Manuel de foufa, Pero da filua, Iacome triftão, dom Diogo de lima, Lopo de brito pera capitão de Ceilão, loão rodriguez Dalmada, Garcia chainho pera feytor de Ma- laca, & outro capitão a q não foube ho nome, & dó Luys de Guzmão hú fidalgo caftelhano q hia é hú galeão. Partidas eftas naos de Lisboa arri¬ bou dõ Diogo de lima a Portugal, & nã foy aqle ãno: & os outros fegui- rão auãte todos em conferua ho mais do tépo, faluo dõ Luys de guzmão £} logo fe apartou: & auêdo quinze dias q paflara as Canarias ouue vifta de húa carauela. E fabédo dõ Luys do feu piloto, q era da Mina & ho
  • 24 Hijloria da índia dinheiro q poderia trazer, difle q pera q querião mais índia q tomala, & irenfe polo eftreito de Gibraltar, & em leuãte fe farião mais ricos. E ifto diíTe fecretamete ao piloto como q ho atentaua pera ver fe ho faria: & ho piloto fez q cuydaua q ho dizia zombando, & afli lhe diffe també que não tomaífem a carauela. E efte piloto era Português natural de Lisboa, & parecendolhe muyto mal o q lhe diífera dõ Luys em fe apartando dele ho comunicou cõ quatro irmãos q hião no galeão naturaes Deuora, cujos apelidos erão galuões caualeyros muyto esforçados & de grandes efpiri- tos, porq ifto fempre foy natural nos defte apelido: que lhe prometerão, q fe dom Luys quifeífe fazer o q não foffe rezão q lhe refiftirião. E eftes fe apartarão logo da cõuerfação de do Luys & não comerão mais coele né jugarão, em tanto q bé entendeo ele q ho entédião, & q lhe compria dandar dereyto, porq lhe nã auião de fofrer outra coufa, pelo q determi¬ nou de fazer corpo de gente q teueífe de £ua mão, & fez hú rol de todos os caftelhanos q hião no galeão & achou fere cincoéta: & a eftes mãdou dar do vinho & da agoa q ele bibia q era ho melhor dizédo q ho fazia porq erâ fidalgos: & aífi começou de fazer outras foberbas aos Portugue- fes. E a primeyra defpois defta foy querer tomar húa pipa dagoa & ou¬ tra de vinho a hú Francifco fernandez ouriuez q fora feu ofpedeé Lisboa & lhe fizera lá muytos feruiços, & pera lhos pagar ho fizera ir á índia. E tomandolhe ele afli ho feu vinho & agoa, por fe queixar diffo, dizendo q outras merces efperaua dele, quifera ho mandar meter na boba. Ao q logo acodio ho piloto com os galuões, dizédo q não fazia juftiça cõ foÕ que lho não auião de cõfentir. E receando dom Luis que ho fizefiem, & que fe leuantaffe a gente coeles, porque os que tinha por íi erão poucos diffimulou cÕ Frãcifco Fernandez & não lhe tomou as fuas pipas né ho mandou meter na bõba, & diffe ao piloto que pera q trazia punhal: & ifto por hú que trouue daquele dia em q lhe diffe que tomaífem a cara¬ uela da Mina, & refpondeolhe muyto crefpo: q queria ele ao feu punhal que lhe não fazia nenhú perjuyzo: mas q fizefle ele como fazião os fra- q todos bebiã ho vinho roim & ho bõ, & q nã auia antreles excepção, & afli fazião os q hião pera a índia: & q fe não daua vinho efcolhido né agoa íe não aos capitães & ao piloto & meftre, & fe lho não quifeífe dar q lhe não daua nada, porem que folgaria de ho ver dar a outra gente. E dõ Luys fe calou, né nenhú dos feus não falou nada: & dali por diante fempre ouue degoftos ãtre ho piloto & ele & ele não oufaua de bolir polo ver homé defprito. E indo afli tanto auãte como ho cabo de boa Efpe- rãça, lhes fobreueo hú temporal com q lhe quebrou ho leme por baixo da cana obra de hú couado: & por dali por diante não gouernar bé (ainda q ho remediarão) difle ho piloto q fe não atreuia a dobrar ho cabo
  • Livro V, Capitolo XVI 25 cõ aqle leme, por aquela tormêta não ler nada pera outras que auião de vir, & por iífo fez ho capitão confelho fobre arribarc, & acordarão q arri- barê, & acordarão q arribaífem ao Brafil porq dali não perderião viaje & irião inuernar a Moçambiq: porq tornãdo a Guiné, onde algús dizião que tornafle auiã de tornar a Portugal. E coefte acordo fe fizerão na volta do Brafil, de que ouuerão vifta defpois de trinta dias, & correndo algús portos dele fem acharê madeira de que podefle fazer leme, forão ter a húa baya grãde õde ho piloto, capitão & carpinteiro fayrão a ver a terra cõ obra de trinta homês: & defpois de acharê muyto aruoredo de que fe poderia fazer ho leme, em fe querédo tornar ao galeão, pare- cêdo ao capitão q le poderia ali vingar do piloto das deferenças que teuera coele veolhe a falar nelas, & a dizerlhe más palauras. E ho piloto pofto q não tinha da fua parte mais q hú primo feu & ho carpinteiro, & ho capitão tinha os outros que erão vinte feys, não lhe fofreo o q lhe dizia, & Ieuãdo de húa lãça que trazia enrreftou no capitão que arrancou da efpada, & afli os da fua parte: & ho primo do piloto & ho carplteiro fizerão ho mefrno, & começoule antreles hú brauo jogo de cutiladas, que ho piloto era valete homê & fazia terreyro cõ a lança & ho primo & carpinteiro lhe goardauão as cofias. O que vêdo ho capitão, & q nã fe acabaua a coula tão alinha como ele cuydaua, dilfe ao piloto. Aa irmão comigo. E ele refpondeo cÕuofco pefatal. E coifto lhe cometeo ho capitão amizade & a fizerão logo, & jurarão todos de ter fegredo no que paifara, porque fe não efcandalizafie do capitão a gente do galeão, que ficou ho carpinteiro ferido, & por iífo fe não pode ter fegredo & quafi que fe rõ- peo, mas como nã foy de todo ninguê fez cõta diflò. CAPITOLO .XVI. Das brigas que dõ Luys de girmão ouue cõ ho feu piloto, & de como os brafis matarão perto de feffêta dos nojjòs. PAssado ifto mandou ho capitão ho meftre a terra pera mãdar fazer ho leme & leuou ho carpinteiro afli ferido como eftaua, & forão coele dous bombardeiros que leuarão dous berços com que fizerão húa eftancia pera fe defenderé fe a gente da terra lhe quifelfe fazer mal: & ifto porque fabião que de fua natureza come os eftrangeiros. E come- çãdole de fazer ho leme começou de crecer muyta gête da terra, que he da maneyra que ja dilfe no liuro primeyro, & auia aqui formigas muyto grãdes & peçonhêtas, & criauão em aruores em ninhos que hi fazião da feyção q antre nos os faze as andurinhas. Trazia efta gête os mantimétos Tono III 4
  • 2Ô Hiftoria da índia q auia na terra, como també cotey a tras, & dauãnos aos noífos por an- zolos, alfinetes & outras coufas baixas, & não auia quê os entédefie fe não por acenos, & de cada vez crecião mais a ver os nofios & ho galeão: de q fe muyto efpantauão moftrando q nunca tal virão, & conuerfauão com os nofios pacificamente & eles coeles, & forão algús a húa pouoação q eftaua dali a húa legoa. E auendo oyto dias que fe ifto cõtinuaua leuou ho piloto ho leme velho a terra pera lhe tirarem os ferros q tinha pera ho nouo que fe acabaua: & não podédo os nofios alalo pola area em q atolaua muyto ajudarãlhe duzentos Brafis mandando os a iflo hú que os chamou cõ húa cabaça chea de pedras com que fez muyto grande rogido, & delles auia muytos ãtre aqla gente. E alado ho leme õdeftaua a eftancia dos nofios foyfe ho piloto ondeftaua ho arraial dos Brafis que era de redes armadas 1'obre eftacas ou prefas a aruores & nelas dormião. E vendo os Brafis húa molher que ho piloto leuaua todos fe chegauão a vela como a coufa noua & dizião tumargatu q parece que antreles he palaura def- panto. E eftãdo afil chegou hú homé que parecia de corenta annos alto de corpo & bem defpofto & nú, & trazia ho cabelo enrrodilhado ao der¬ redor da cabeça, & trazia hú cinto de lobo marinho forrado doffos dali- marias, & na cinta húa efpada defpinha de peixe de cinco palmos de comprido & na mão hú manchil de ferro muyto velho: & em chegãdo q falou, logo todos os outros fe calarão & efteuerão prõtos a ouuir o que diria, no que pareceo que era feííor deles, & logo foy dali hú bradando como pregoeiro, & quantos ho ouuião fe aflentauão calados a ouuir o q pregoaua. Ifto feyto mãdou efte que parecia rey ou fenhor dar ao piloto muyta forna de mãtimentos, & ifto fegúdo parecia cuydando que fofle ho capitão do galeão, porq ele leuaua hú pelote vermelho & húa efpada na cinta, & húa adarga noua embraçada, & os outros noífos ho acompanha- uão, & dandolhe també ho piloto defias coufas q leuaua tornoufe pera Õde fe fazia ho leme. E eítando comédo chegou ho carpinteiro (que ãdaua ja em pé) do arrayal cõ outro noífo & differão. Day ao demo efta gente, q nos leuarão a húa.aruore em cujo pé auia húa abelheira, & acenarãnos que fizefiemos ho buraco mór do que era: & feyto cõ húa machadinha q tirauão os fauos difierãnos que nos foliemos, & não querendo nos fazelo logo encararão bc cento os arcos em nos cõ as frechas embibidas, & por iflo nos viemos. E dizendo mais que fe defpachaflem dali & q fe acolhef- fem ao galeão, & q não fofle mais ninguê ao arrayal: cõtrarioulhes ho piloto, dizédo q era muyto boa géte & pacifica. E acabãdo de comer tor¬ noufe ao arrayal cõ certos dos nofios, dõde dahi a obra de húa hora vé grande numero de Brafis a correr & gritãdo,' trazédo algús as armas do piloto & de feus companheiros como que os deixauão mortos, & dão fobre
  • Livro V, Capitolo XVI 27 os noflos que erão feífenta & tres q eílauão na eftancia, donde começarão de jugar os berços que não fizerão nenhú nojo nos Imigos por fe baquea¬ rem todos, & como erão muytos inueítirão com a eftancia, de que os noffos fe começarão a defender ás cutiladas o q fizerão por efpaço de húa hora recolhendofe á praya: & nefte tempo poucos & poucos forão dos noffos mortos clcoéta & tres, & os dez q ficauão fe lãçarão ao mar & an- treles forão ho meílre & ho carpinteiro, q com os oyto fe faluarão no batel, q chegou neíta conjunção: & ho meílre fe foy logo ao galeão, & difleo ao capitão, a q não pefou nada da morte do piloto & dos galuães & dos outros q hião coele por fe ver defapreffado pera o que parece q ja determinaua de fazer, & ele foy a terra cõ corenta homes pera trazer os lemes, & os Imigos fe afaftarão com medo porque hião todos arma¬ dos & recolherão os noffos os lemes & do velho acharão menos húa femea, & afíi a ferraméta do carpinteiro & do calafate. E tornado ho capitão ao galeão deteueffe ainda ali tres dias pera fe acabar ho leme, & neftes dias repartio ho fato do piloto polos caítelhanos de lua valia, & pera fi tomou hú pelote de graã, que mãdou delmanchar & fazer pola feyção dú q tinha a figura do Damadis de gaula q eftaua pintado em hú feu liuro, dizédo q no mundo auia dauer dous Amadifes, & q hú era ja morto, & ele era ho outro, & coifto outras muytas rebolarias: & fabendo dú marinheiro chamado Ioão velho que ho leuaria a Moçambiq deulhe a pilotajê do galeão & partiofe defpois do leme acabado. E auêdo cinco dias q partira fem fazer caminho fe não ao mar, fez meirinho do galeão a hú caftelhano chamado fãto torrezno, porq morrera no Brafil o q ho era: & logo aqle dia a tarde ho meirinho pedio a todos da parte do ca¬ pitão as chaues das caixas dizendo q as queria ver pera ver fe achaua nelas fazéda q era furtada dos q morrerão em terra, & cuydãdo todos que era aquilo afli lhe derão as chaues leuemente: & auidas pelo capi¬ tão mandou tomar quãtas efpadas, punhaes & covraças os noffos leuauã nas caixas: & iíto aos Portuguefes fométe, pelo q algús deles 1'e forão ao capitão, & differãlhe que peraq lhe tomaua as armas & ele refpõdeo q pera não pelejarem hús cõ os outros: & fe não fizeffem mais maos reca¬ dos do q erã feitos.
  • 28 Hiftoria da índia CAPITOLO .XVII. De como dó Lnys de gu\mã fe aleuãtou cõ ho galeão de que hia por capitão, & do q fe\ aos portuguefes q ho não quiferão feguir. ISto feyto logo ao outro dia pola menhaã amanheceo ho capitão na tolda armado em hú arnes tranlado, & hú eltoque nuu nas mãos, & coele cíquoenta armados os mais caftelhanos & os outros eftrangeiros de que fe confiou: & fez vir diante de li a Frãcifco fernãdez ouriuez, cujo ofpede fora em lisboa: & defpois de lhe mandar deitar hús grilhões lhe dilTe q fe cõfeffaffe porq ho auia de matar, porq tinha determinado de lhe dar a morte cõ o piloto & cõ os galuães polas rezões que paffarão. E fem ho mais querer ouuir ho mandou confeffar por hú clérigo, que eftaua cercado daqueles armados. E ho capitão pafléaua pola tolda re- zãdo muyto alto, & de quãdo em quãdo aprefiaua ho clérigo que acabalfe a confiffam. E nefte tempo os Portuguefes eítauão no cõués muyto triftes vendo & ouuindo tudo o q paffaua, & por não terem nenhúas armas não podião refiftir ao q ho capitão fazia: & étão virão que por lhe não refif- tirem lhe tomarão as armas & acharãfe muy alcãçados, & como eles eftauão defarmados & os caftelhanos armados deixarãfe eftar no conués, & também porque algús q quiferão fubir á tolda os nã deixarão os cafte¬ lhanos per mãdado do capitão, q não fazia fe não apreffar ho clérigo que acabalfe de confeffar ho feu ofpede, & ele fe detinha pera ver fe 1'e lhe hia aqla furia, & não fe lhe indo acaboule a confiílam: & acabada foyfe ho capitão ao feu ofpede q ho efperou aflentado é giolhos com as mãos aleuãtadas pedindolhe pola paixão de noffo fenhor que ho não matalfe, & ele não dando por iífo com muyta crueza lhe tirou hú reues com ho efto- que que tinha: & cortoulhe húa mão cõ q ele fe quifera emparar, & che- goulhe ás queixadas, & logo ho vazou cõ húa eftocada com que morreo, & apos ilfo ho mandou deitar ao mar. Feyto ifto defpejou a tolda dos armados pera ho conués ficãdo foo na tolda com ho meftre a q mandou dar ao apito: ao que fe todos ajuntarão ao pé do mafto per mandado do capitão, q lhes difie. As leys imperaes & as q agora fazem os reys de¬ fendem com graues penas os leuantamentos cõtra os reys & príncipes, ou contra os que tem. fuas vezes, principalmente cõtra feus capitães q andão na guerra ou que vão parela: porque pera ela ter boõ effeyto ha dauer tanta paz antre os que a hão de fazer como em hú conuento de frades, porque doutra maneyra em vez de a terem com os contrairos a terão configo, & por ilfo em leuante onde fe a guerra mais exercita que
  • Livro V, Capitolo XVII 29 e outras partes. Os capitães te tamanhos poderes que por muy pouca coufa enforcão foldados, & lhes mandão cortar as cabeças, quãto mais por tamanhas como he leuantarfe contra hú capitão: & porque eu foube certo por proua abaftante pera ml que aquele homé me queria matar ho matey & nã por crueza como cuydarão algús, porque eu tinha recebido dele boas obras fedo feu ofpede, & ifto me lébraua pera ho faluar fe po¬ derá, mas não pude porq hú tredoro não fe pode poupar por mais boas obras que tenha feytas: & fe não caftiguey eíte delito logo como ho foube foy porque erão mais na conjuração, & ho principal era ho piloto de quem não podia fazer juftiça por fer a fegúda peffoa dofpois de mim & mais poderofo que eu: & 1'e eu quifera caftigalo como merecia ouuera bandos & perdêramos nos todos: & Deos que fabia a determinação que ele trazia contra ml iem lho eu merecer permitio q morreffe no Brafil tão neiciaméte como morreo, que ho mao penfamento que trazia ho ce¬ gou pera q nãq conheceffe que ho auião de matar moftrãdolho noffo lenhor tão claramente: & porque aquela peçonha que ainda ficaua naqle homem vos não empeçonhentalfe a todos ho matey, no que fez o que deuia, por¬ que com fua lbo morte atalhey as de muytos, & não pus a coufa em pro- céffo de juftiça, porque a proua não era baftante pera ho condenar por efta via, & ajudeyme das leys da guerra & do poder que dão aos capi¬ tães, de que ley que el rey de Portugal não deixa vlar aos feus, & não quer que va tudo.fe não per via ordinaria de proceífos, & não perdoa a homem que mata outro, & por iffo eu não oufarey de tornar diante dele, nem menos dir aa índia diante de feu gouernador, & quero me ir a ou¬ tra índia que he mais fegura & onde todos faremos mais proueito, & efta he no mar de leuante õde andaremos a toda roupa, & eu vos feguro que em hú anno ganhemos mais do que valera a carrega da efpeciaria que que efte galeã poderá trazer da índia, & ali leuaremos muyto boa vida refrefcãdo cada dia em terra o que não ouueramos de fazer na índia, por iffo quê quifer ir comigo diga mo, & quem não também, porque eu lhe dou a fee de fidalgo de lhe não ter por iffo má vontade, & de ho dei¬ tar na primeyra terra que tomarmos. Ifto dito chamou logo cada hú por feu nome pera fazer rol dos que quifeffem ir coele & dos que não, & aos q lhe dizião que fi daua juraméto de lhe ferem leaes & morrerem coele, & foos dezafeys Portugueles ouue que não quiferão ir coele nem ele os pode conuerter a iffo por mais que lho perfuadio, & outros ouue que fe affentarão no rol dos que auião dir, & a elles que não quiferão lhe mandou lançar grilhões, dizendo que ho fazia por não fazerem algúa reuolta, prometendo de os lançar na primeyra terra que tomaffe: & pera os ter mais feguros do q ele receaua mandou os meter de noyte em húa
  • 3o Hiftoria da índia corrente & dormião no conués, & mandou poer ao pee do maíto hú man¬ dado feu & aflinado por ele, em que dizia que dali por diante qual quer Português que folfe ao fogão em quanto lhe fizeffem de comer que foíle açoutado & pregada a mão dereyta no maíto, & a mefma pena teria todo o q de noyte não diffeffe: ou da vigia, fou foão vou fazer tal coufa, & quem como foífe Aue Maria por nao não foíle requerer fua regra, & quem mijaffe na amurada do nauio. E dali por diante como quem fe temia tinha de contino doze homés armados que ho goardauão aos quatros. Diuul- gado eíte mandado acertarão doUs Portuguefes de pelejar no fogão & ele os mãdou açoutar, & pregar as mãos no maíto. Do q os Portuguefes ficarã muyto indignados contrele, & fe arrepéderão muyto de fe affentaré no rol, nem lhe darem as fés de lhe ferem leaes, porq vião que lhe não goardaua a que lhes dera, & conceberão tamanho odio contrele que ho matarão fe teuerão armas, mas não as tinhão, que cõ quanto fe affentarã pera ir coele, ele não fe fiaua deles. E cada dia enuentaua achaques pera lhes fazer mal, porque ho não queriã feguir, com quanto lhes deu fua fe, que lhes não tiueffe por iffo má vontade. CAPITOLO .XVIII. De como dó Luys mandou enforcar cinco Portuguefes: & do mais que fe\: & de como deixou ho galeão & fugio. DEterminado do Luys de fe leuantar diífe ao meítre do galeã que fe tornaífem, & q ho meteffe polo eítreito de Gibraltar, porq la ele fabia por onde auia de ir, prometendolhe de lhe cortar a cabeça íe ho affi não fizelfe. E ho meítre não podendo al fazer, lhe pedio hú eítormento pera fua guarda, & faber el rey de Portugal que ele não tinha culpa: & ele lhe deu logo ho eítormento ho mais autentico que pode fer: & dali fezerão volta pera ponente. E indo affi diífe hú dia dom Luys que ele fabia que os prefos determinauão de o matar: & por iffo os queria mandar enforcar que fe cõfeffaffem: & logo mãdou dar tratos.de polé a hú deles cõ doze camaras de falcão, pera q confeffaffe a verdade fe ho querião matar: & diffeffe 1'e fabia fe entrauão todos neíta conjuração ou deles. E com dór dos tratos o que os recebia diífe fem fer affi, que os da cojuração erão trinta. E nilto fe pareceo que com medo ho dezia, porque os noffos não erão mais de defafeis & os outros não falauão coeles. E poriffo diífe dõ Luys quando lho ouuio q la hiao algús dos feus: & man¬ dou logo chamar hú Ioão eíteues português, que cuydando q era pera lhe dar tratos fe deitou ao mar. E então affirmou mais dom Luys que era
  • Livro V, Capitolo XVIII 3i verdade o q dezia: & mãdou enforcar cinco dos prefos, & querédo enfor¬ car ho carpinteiro do galeão, pediranlho os caftelhanos, dizendo que lhe delfe a vida, pois fizera ho leme fem que não poderão nauegar: & dom Luys lha deu, & aos outros que eftauão pera enforcar: & dali por diante deixou os outros: & indo ja na volta das ilhas, delejando ho meftre de lhe fugir, difielhe que ali auia húa pouoação de Portuguefes de feflenta vezinhos, que iria ali fazer agoada & carnage de q tinha neceffidade. E ifto com determinação de ver fe podia ali fugir. E dom Luys lhe diífe que foííem, & afii forão ate auer vifta das ilhas & furgirão antre ho ilheo do coruo & a ilha das froles: & eftãdo hi pera mãdar a terra chegou hi hú mercador da ilha terceira em húa carauela pera a levar carregada de trigo: & védoa dom Luys meteofe no feu efquife com algús homés arma¬ dos fecretamente: deixãdo por capitão hú caftelhano chamado Bezerril: & chegando á carauela diííe ao fenhorio dela, que dom Luys de gufmão capitão daquele galeão por el rey de Portugal, que hia pera a índia lhe mandaua húa carta que lhe logo deu, em que dezia, que indo ele pera a índia arribara por lhe qbrar ho leme q fora fazer ao Brafil, onde os Brafis lhe matarão ho piloto & outra muvta gente, & por ifio lhe fora forçado tornar-fe pera Portugal, & hia muyto deilroçado q lhe pedia por amor de Deos & da parte del rey de Portugal que foffe coele ate lá pera lhe acodir fe teueífe neceffidade. E cuydando ho mercador q era affi por feruir a feu rey foyfe logo ao galeão cõ o piloto & outros, & de todos dõ Luys deitou mão & prédeos & tomou ho dinheiro que ho mercador leuaua pera cõprar ho trigo q erão feffenta mil rs. E paliados todos os da carauela ao galeã deu a capitania dela a Bezerril, artilhãdolha, & apa- deffãdolha muyto bé: & deulhe por meftre & piloto a hú Português q era cafado tres vezes em Portugal & por ilfo fugira de lá, & por ifto fe fiaua tãto dele dõ Luys como dú caftelhano. E pregútando dõ Luys ao meftre do galeão pola pouoação da ilha leuou ho á ponta delgada, & não ho quis leuar no proprio porto, porq dali determinaua de fugir, & dom Luys mandou a terra hú caftelhano a dizer da fua parte q quê quifefle trocar carnes por azeites & vinhos que foffe ao galeão. Ifto fabido logo forão a ele tres homés principais q lhe leuarão hú grãde feruiço de re- frefco, & ele os prendeo, & pòrque lhes diífe que os não auia de foltar ate lhe não darem cada hú dez ou doze vacas que as mandaflem pedir a fuas molheres. E tédo ele mandado efte recado apareceo outra carauela, q determinãdo dõ Luys de tomar mandou fete marinheiros ao efquife dando lhe os remos q tinha em feu poder, porque fe lhe não foflc cõ ho efquife. E eftãdo os marinheiros efperando por ele no efquife, difle hú deles aos outros. Que oulhais. E outro refpõdeo. Corta cabo pefatal. E
  • 32 Hifloria da índia eítes erao Portuguefes: & cortado ho cabo foranfe pera terra remando a todo tira, & derão auifo á carauela q dom Luys quifera tomar q també fugio. E os marinheiros chegados a terra, requererão na pouoação que prendeffem ho caftelhano q lá andaua, porq dom Luys era leuantado, & afli foy feyto: & os vezinhos da povoação q ferião vinte vigiauãfe dali por diãte de dia & de noyte hiã dormir por efles matos. Paflado afli ifto apareceo húa naueta que vinha de guiné: & vifta por dom Luys mandou a ela Bezerril na carauela, & que lhe mandafle amainar de fua parte, & fe não que a metefle no fundo, & ela amainou logo, & ho capitão, meftre & piloto forão leuados a dõ Luys, q os ameaçou cõ tratos fe não difleflem o que trazião: & eles ho diflerão logo que erão trezentos efcrauos, alga- lea, marfim & pao vermelho, & q a armação era de Duarte belo hú ar¬ mador de Lisboa, & abaldeado no galeão quanto vinha na naueta, afli mercadoria como mantimentos paliou a ela os prelos que leuaua. E em quãto fe ifto fazia, determinando ja ho meftre do galeão de fugir pedi o licéça a dom Luys pera ir ver húa fua irmaã que auia dias que lhe differa q tinha ali q auia muyto tempo q a não vira: & por fe dõ Luys não fiar dele ho não deixou ir a terra, mas mandouho na bateira da carauela cõ dous caftelhanos q ho nã deixalTem fair fe não q lhe falafíe do mar. E chegados perto da terra ho meftre teue tal manha q juntaméte os empur¬ rou & deu coeles no mar, & ele fe lançou apos eles, & em quãto os tomauão fe acolheo a terra leuãdo configo ho eftormento q lhe dõ Luys dera, q fabendo q ho meftre era fugido mãdou hú cunhado feu irmão de fua molher q era Portuguefa cõ hú leguro feu ao meftre pera q fe tor- naífe. E o cunhado como foy em terra mandoulhe dizer que fe foffe pera ladrão. E defpois difto efteue ali dõ Luys quatro dias com calmaria, & vindolhe veto 1'e partio pera as Canarias, & no caminho tomou húa cara¬ uela carregada de paftel q hia pera Frandes & hú nauio carregado de pefcado, & tendo quatro velas chegou ás Canarias & tomou porto na Gomeira onde védeo toda a fazéda q leuaua, & logo fe rompeo q hia leuantado cõtra el rey de Portugal, & fobrifto ouue taes rezões cõ ho capitão q lhe mãdou tirar ás bombardadas á fortaleza, dõde lhe també tirarão e quebrarão a verga do galeão, q vendo ele q não podia nauegar fem ela por não ter outra mudou ho fato & artelharia dele á carauela de bezerril: & deixãdo ali ho galeão & as outras velas fe foy na carauela caminho de Seuilha.
  • Livro V, Capitolo XIX 33 CAPITOLO .XIX. De como os mouros matarão a Manuel de foufà & corêta dos noffos em lula agoada, & como defpois fe perdeo lio galeão. NEste tépo q ifto fucedeo a do Luys de Guzmão, fe apartou tãbé da cõferua de Iorge dalbuquerq por mais não poder fazer outro capitão da frota q auia nome Manuel de foufa & hia e hú galeão, que defpois de paífar muyio trabalho de tormétas foy ter na parajé de Moçambiq na fim de Setébro, .& parecédolhe q poderia ainda paífar á índia nã quis tomar Moçambiq (porto q tinha neceflidade dagoa) & paffou auante, & como ja os leuãtes curfauão fez muy pouco caminho por feré por dauante, pelo q lhe foy forçado ir bufcar a corta do cabo de Goar- dafú pera tomar agoa, porq por falta dela leuaua a mais da gete doete, & cada dia lãçaua mortos ao mar. E indo coefta fadiga feguio tanto por aqla volta q ouue vifta de çacotorá, q não pode tomar por ho vento fer porcima dela q lhe ficaua ponteiro, & por iífo arribou á corta: & auendo vifta de terra fe deixou ir ao logo dela caminho de Melinde pera ver fe achaua õde tomaíTe agoa, & foy ter a hú lugar de mouros chamado Mã- tua em cujo porto furgio, & furto fe foy a terra cõ ho piloto leuãdo corêta homes armados pera tomar agoa por força quãdo não podeffe doutra maneyra. E chegado a terra achou húa muy boa fonte afaftada do lugar, & começando de tomar agoa chegarão algús da terra a vender galinhas & outros mãtimêtos moftrãdo qrer paz. No q cofiados os noffos, defcui- darãfe tãto q lhes ficou ho batel em feco bê mea legoa do mar cõ a va¬ zante da maré o que vedo Manuel de foufa chamou os noffos & meteo-fe coeles a leuar ho batel pera ho mar a força de braços & de peitos. E vendo os da terra q andauão naqla fadiga ajútanfe perto de dous mil ho- més cõ fuas armas, & dando nos noífos os matarão todos q não ficou nenhú & tomarão ho batel: os do galeão leuarão logo ancora porq lhes não fizelfem outro tanto, & fem ter que mãdaífe a via tomarã por reme- dio mãdala ho contra meftre q fabia dirto algú pouco, & foranfe ao lõgo da corta quafi fem efperãça de faluação, porq por ferem os mais muyto doétes auia tão poucos q mareafle as velas q não podião marear mais q ho traquete, & coele nauegauão pera Melinde, porq por não auer quê foubeffe mandar a via não podião feguir outra rota, & indo aííi chegarão a outro lugar de mouros chamado Hója, em cujos moradores acharão paz & amizade & lhe venderão mantimentos, & por iífo fe deteuerão feys dias no feu porto, & por hú defaftre lhes ficou ho meftre em terra cõ 5 Tomo 111
  • 34 Hifioria da índia feys homés fãos: o que lhe fez muytá mingoa, porq não ficarão mais q feys fãos q podeíTem marear ho galeão, & alíi forão caminho de Melinde a Deos & a vétura fem faberé onde era porq não tinhão que mandaffe a via, & por iíTo errarão Melinde paliando ao mar dele, & forão dar em húa ilha júto de Quiloa onde ho galeão deu em hú baixo & ali fe perdeo, & os mouros da terra fe ajuntarão todos & matarão quantos hião no ga¬ leão, faluo hú moço que era fobrinho do meftre, q elrey de Zambizar tomou pera fi. E mortos os-nolfos ajíitaranfe os reys de Quiloa, de Zan- zibar, de Peba & de Monfia & partirão antre li quanto fe tomou no ga¬ leão, que acabou defta maneyra com os que hião nele. CAPITOLO .XX. De como Iorge dalbuquerque com algiis capitães de fna armada . inuernarão em Moçambique & outros pajfarão á índia. PAssando eftes capitães eftas defauenturas, ho capitão moor Iorge dalbuquerq foy ter a Moçãbiq, onde por fer tarde inuemou com fete capitães da frota q tambe hi forão ter. E eftes forão ho dou¬ tor Pero nunez, Diogo fernandez de beja, Rafael catanho, Rafael peref- trelo, Pedreanes francês, Chriftouão de mendonça & Iacome triftão. E Pero da filua, Lopo de brito, Garcia chainho, Ioão rodriguez dalmada & outros paliarão á índia, & forão ter a Cochim eftãdo hi ainda o gouer- nador a q diíferão a frota q partira de Portugal, & q lhes parecia q Iorge dalbuquerq cÕ os outros capitães inuernauão em Moçambiq. E por ho gouernador faber fe era afli & por ter necefíidade deles pera a viagé do eftreito q auia de fazer étrando Agofto os mãdou bufcar a Moçãbiq per hú Gõçalo de Loulé capitão de húa carauela, a q mãdou q lhes diflefle q ho fofle bufcar pelo eftreito ate Iudá pera onde ficaua de caminho. CAPITOLO .XXI. De como o gouernador foy ver a fortaleza de Couiã. DEspachado Gonçalo de Loule, & dando ho mar jazigo partiofe o gouernador pera Coulão a dar remate á fortaleza & fauorecer ós Portuguefes q lá eftauão: & é quãto hia deixou por gouernador a dõ Aleixo de meneies pera que acabafe de fazer a carrega da efpecia- ria q auia dir pera portugal. E ele foy em húa gale açõpanhado doutras duas, a cujos capitães não 1'oube os nomes né do q paliou é Coulão, faluo i
  • Livro V, Capitolo XXII 35 q efteue hi paííãte de tres mefes dado remate á fortaleza a q foy polto nome fão Thome por hõrra defte bé aueturado apoftolo: cujo íitio he forte por natureza & em lugar q pode be defender a etrada do porto aos Imigos cÕ hp poço de agoa muy fabrofa quafi pegada coela. A cerca da fortaleza tinha de canto a cãto oytéta & cinco palmos & de vão fetenta & cinco: fizerafe tres tofres, a da menagé & outras duas q ficão é Triã- gulo, q quãdo jugafie a artelharia húa nã podeífe fazer nojo a outra. E cõ tudo não fe pode acabar efta obra cÕ quanto ho gouernador hi foy & efteue ate Nouembro, q como digo forão tres mefes: & na fim de No- uembro fe tornou pera Cochim dõde defpachadas as naos da carrega fe foy a goa Õde tinha toda a armada q auia de leuar a Iudá, onde deter- minaua de ir aqle anno de vinte & pelejar cõ os rumes & queymarlhe as galés & fazer húa fortaleza c Iudá ou em Adé onde viffe que era melhor, pera q tinha juntos todos os petrechos neceffarios, & de Goa defpachou por capitão de Ceilão a Lopo de brito, & por capitão mór do mar Anto- nio de brito feu irmão, & porq tinha carta do hidalcão q queria coele amizade & q mãdafle hú home de confiãça com q a aflentafle, determi¬ nou de mandar a Ioão goçaluez de caftelo branco q lá fora é tempo Da- fonfo dalbuquerq, & fabia a terra & lingoa. CAPITOLO .XXII. De como Ioão gonçalue\ de cajlelo branco foy por embaixador ao Hidalcão. Edeulhe húa carta de creça pera o Hidalcão & húa inftrução do q lhe auia de dizer, q era folgar muyto cõ fua amizade, & q folga¬ ria de fazer o q lhe requeria. E q auendo amizade ãtreles ele daria maneyra como mandafle hú embaixador a Portugal & efcreueria a el rey tudo o q lhe comprifie, & pera fer melhor defpachado q iria coele a Portugal ho mefmo Ioão gÕ- çaluez q lhe mandaua, q não hia lá por outro refpeito fe nã pera lhe dizer o q queria delrey de Portugal. E pera q viffe q queria cõcrufam na amizade lhe não queria pedir as tanadarias de Banda ate Cintacora como Afonfo dalbuquerq, fométe pedia a Dãtruz pola neceffidade q tinha de madeira pera as armadas da índia. E q lhe pediria as fuftas de Dabul & apertaria muyto q lhas delfe todas, & não qrédo lhe deíTe a mayor parte, & fobriífo lhe apontaria os muytos Portuguefes que matarão em nauios que tomarão.
  • 36 Hiftoria da índia E lhe diria q era cõtéte de dar feguro ás naos de Dabul pera naue- garé como as de Cãbaya, & tãbe daífétar feitoria em Dabul: & lhe daria licença pera mãdar duas naos a ceilão a carregar dalifantes: & pera mã- dar por caualos a Ormuz: cõ tanto que foflem pagar os dereitos a Goa: & lhe daua feguro pera feus mercadores leuaré a Goa fuas mercaderias & tirarem outras. E q fe algús portuguefes andaíTem na terra firme lançados cÕ os mouros ele lhes deffe feguros em nome dele gouernador: & por eíte capi¬ tulo os auia por bõs & firmes. E mais lhe deu hú prefente pera o hidalcão, cõ que fe partio de Goa na entrada de Feuereiro bé acopanhado: & foy ter ondeítaua ho hidal- cão que não quis dar a tanadaria q ho gouernador pédia. E a cabo de hú ãno fe tornou pera Goa. CAPITOLO .XXIII. De como indo ho gouernador pera a cidade de Iuda fe lhe perdeo a nao em q hia. E de como não podêdo ir a ludafoy Jurgir á ilha de Maçua. TEndo ho gouernador preítes fua partida pera Iuda, entregou a go- uernãça da índia a do Aleixo de menefes a q mandou q foffe inuer- nar a CochI: & partiofe ho gouernador pera Iuda a treze de Feue¬ reiro de M. D. xx. cÕ húa frota de xxiiii. velas .f. dez naos groffas, de que erão capitães ele, Diogo de faldanha, Antonio ferreira fogaça, Simão guedez de foufa. Fernã gomez de lemos. Pero da íilua. Pero gomez tei- xeira ouuidor geral. Antonio de brito caçador mor del rey de Portugal. Antonio rapofo. E dous galeões, capitães Antonio de faldanha & dõ Ioão de lima. E cinco galés cujos capitães forão Chriítouão de foufa. Geronimo de foufa. Chriítouão de fa. Dinis fernãdes de melo. Iorge barreto de beja. E quatro nauios redondos, capitães Miguel da mouta. Gafpar doutel, Nuno fernãdez de macedo. Anriq de macedo. E duas carauelas latinas capitães Lourenço godinho: & Pero vaz de vera, & hús bargãtins pera feruiço da frota. Partido ho gouernador de Goa aos noue de março, che¬ gou a Mete onde defpois de fazer agoada mandou queimar ho lugar, q eítaua defpejado: E feguindo daqui fua rota pera ho eítreito, aparecerã por dauãte da frota hús marruazes de mouros, a q os outros capitães fe forão em os vendo: E queredo ho gouernador fer dos primeiros q che- gaffe a eles, porq os não roubaífem, mandou deixar ho caminho do pego q leuaua & rodear por derredor de húa raítinga, por onde cuydou q ata-
  • Litro V, Capitolo XXI11 37 lhaua: pofto que contra vontade do piloto, q difle q auia medo de ir dar em algú baixo: como foy dar por ho gouernador não querer fe não que foffe por õde dezia: & ali fe perdeo a nao: & acodindo logo algús nauios que hião perto faluarão a gente com algú fato, porem a fazenda groffa, artelharia & munições pera a fortaleza que fe auia de fazer, tudo fe ali perdeo, & o gouernador fe paffou ao galeão Dantonio de faldanha, & dali tornou a fua viagem pera Iudá, & chegou ás portas a dezafeys de Março, & ali efteuerão muytos dos nauios da armada quaíi em feco: & nifto atraueffou húa gelua que foy tomada pola galé de Ieronimo de foufa, & de treze mouros que hião nela foube ho gouernador que 'erão vindos a Iudá mil & duzentos homés em ajuda dos rumes, que armarão feys galés que mandauão a Zebit õdeftaua húa copanhia de rumes, & ifto pera que os concertaffem cÕ el rey Dadem com quê eftauão em difcordia: & cõcer- tados efteueffem em Ade a fua obidiencia, cõ condição q dali lhes dei- xaffe fazer guerra aos noffos que hi foffem fazer prefas. E eftas galés fabendo q ho gouernador hia, fugirão logo pera Iudá onde forão dar nouas de fua ida. E fabédo o gouernador q erão paffadas, proffeguio fua viagé pera Iudá indo polo mar mavor, & cõ muyto trabalho de furgir muytas vezes & dar vela outras tantas, & andar muyto pouco, fe pos cento & vinte legoas de Iudá, & eftãdo ali furto com vento contrairo hús a vifta dos outros, defefperado de poder ir auante chamou a confelho todos os capitães da frota, & preguntoulhes q faria cõ tempos tão defuai- rados como ali achauão. Ao que todos refponderão q erão geraes, & q não podião ir por diante fe não cõ muyto trabalho & rifco de andarem ali hú mes, & por derradeiro nã podere chegar a Iudá. E pois Lopo foa- rez quando lá fora chegara naqle tempo a quinze legoas dela & nelas pofera quinze dias, q farião eles que eftauão céto & vinte: por iffo era perfia efcufada querer ir mais auãte, & era perder tempo. E parecendo ifto a todos os capitães & pilotos, acordarão que deixaffem a viagem de Iudá, & pois a deixauão foffem á cofta de Abexia ao porto da ilha de Maçua q lhe Mateus dizia, dõde fe podia ir á corte do Prefte. E não fe atreuendo os pilotos mouros que hião na frota ir a Maçuá 1’em tornarem a auer vifta da ilha de Ceibão onde tornarão, & com muyto trabalho & fadiga foy a ver vifta da ilha de Dolaca na primeyra oytaua de Pafcoa: & feguindo dali pera Maçuá no proprio dia em fe poendo ho foi virão os noffos nele húa bandeira preta de feyção de rabo de galo, & muytos affir- mauão per juramento que a vião bolir. E aos dez dias Dabril chegou ao porto da ilha de Maçuá, que eftara dous tiros de béfta da terra firme em quinze graos da bãda do norte, em q auia húa muyto grande pouoação de mouros, q pofto que a terra era do Prefte não lhe obedecião por efta-
  • 38 Hijioria da Índia rem no mar. Sam todos pretos afli homés como molheres, & ãdão nús da cinta pera cima: fam grandes mercadores e muyto ricos, principal- mente douro que lhes trazião do fertão onde tratauão, & afíi marfim, mel, cera & efcrauos Chriftãos que eles fazião tornar mouros, & defpois de tornados erão muyto mais Imigos dos Chriftaos q os mefmos mouros: de q erão muy eftimados por ferem valentes homés. Os moradores defta ilha fabendo que ho gouernador hia fugirão com medo defpejãdoa de todo: & foranfe pera hú lugar da cofta chamado Arquico que eílaua duas legoas da ilha, & ali tinha ho Prefte hú capitão a quem fe os mouros en¬ tregarão cõtandolhe a caufa porque: & fabendo ele como ho gouernador hia defpedio hú recado parele. CAPITOLO .XXIIIl. De como ho gouernador chegou ao porto de Maçuá, & de como foube que Mateus era verdadeyro embaixador do Prejle. NO porto defta ilha de Maçuá eftauão duas grandes naos de mouros de Cãbaya, & afli muytas geluas de mouros doutras partes, que como virão a nofia frota fe leuarão logo, & dando á vela fe aco¬ lherão por effe eftreito a diante, & Ieronimo de foufa deu caça ás naos & aferrou com húa que queymou & ho bargãtim foy apos as geluas ate de¬ fronte Darquico húa boa vila de cafas de pedra & cal, de que fe efpan- tãdo os noífos, como não podião alcãçar as geluas fe poferão a olhala: & nifto virão vir de terra húa almadia com tres homés que abordado com ho bargantim fe lançarão dentro, preguntando aòs noífos por arauia q homés erão, & por ela lhes foy refpõdido que erão Chriftaos vaffalos del rey de Portugal, & dous deles é ho ouuindo beijauão os pés ao capitão com prazer dizédo. Chriftão, Chriftão lefu Chrifto filho de fancta Maria, pedindolhe q os leuaffe ao capitão mór da nofia frota, porq lhe leuauão húa carta do capitão Darquico & cõtarãlhe como ele foubera dos mouros de Muçuá q aqla frota era de Chriftaos, & hú deles pedio licéça pera lhe ir affirmar q fi era & logo fe foy, & os dous ficarão, de q hú era Chriftão Abexim & outro mouro, & ãbos forão leuados ao gouernador que ja eftaua furto, que fabédo cujos erão lhes fez muyto gafalhado com grande aluoroço por fe ver é terra de Chriftãos, & defpois ho Chriftão lhe deu a carta que lhe leuaua, & afli hú anel de prata que lhe ho capitão mãdaua é final de paz, q ele tomou com muyta fefta por fer feu, & man¬ dou ler a carta que dizia q ho capitão Darquico daua muytas graças a noflo fenhor deos porque erão compridas as profecias q eles tinhão
  • Livro V, Capitolo XXI1II 39 naquela terra q dizião que auião de vir Chriftãos á ilha de Maçua, & por ifto q eles fabião defejauão muyto fua vinda: & pois ho gouernador era ho feitor do mar que ordenafie da terra o que lhe bé parecefle, porque ele com a fé que tinha de fer aqla frota de Chriftaos não defpejaua a vila & os eftaua efperando, pedindolhe que lhe mãdaffe hú final de paz & dami- zade. E ouuidas eftas palauras polos da capitaina, chorauão os mais com prazer de fe ver naqla terra de Chriftaos que auia tãto tempo q eftaua efcõdida. Ho gouernador defpois de dar de veftir aos do capitão, mãdou- lhe húa bandeira de damafco branco com hfta cruz vermelha em final de paz, & refpondeolhe cõ outra carta, & tornou os a mandar no bargan- tim, & quando partio defparou toda a artelharia da frota em final de féfta, & antes do bargantim chegar a terra hú pedaço lançoufe ho mouro a nado, pera q foffe dar noua primeyro que ho bargantim chegaífe da ban¬ deira q leuauão ao capitão. O que fabido em Arquico foy ho aluoroço tamanho affi nos Chriftaos como nos mouros, que bé duas mil almas forão corrédo á praya: & vendo I10 bargantim que chegaua ao porto deitauãfe no mar com grande alegria & pegauão dele pera o leuar a terra. E nifto veo ho capitão da vila & recebeo a bãdeira com grande reuerencia, ado¬ rando a cruz & fazendo muyto gafalhado aos noffos, mandou ordenar fua gente em prociífam & coela foy a bãdeira leuada á vila, & foy aruorada fobre as fuas cafas: & porq lhe ho gouernador efcreuia q fe queria ver coele, & adi ver algús frades dú mofteyro chamado Biffam q eftaua dali a vinte legoas mandou os logo chamar, & ho barnegais a qué ele era fugeito. E barnegais he nome doficio que naquela terra he como condef- tabre, marichal ou fronteiro mór: & eftendiafe fua jurdição da vila Dar- quico ate a cidade de çuaqué’que fam fefTenta legoas polo fertão, & era vaffalo do Prefte & tinha cõtinuaméte guerra com hú rey mouro comar¬ cão daqla terra. E ifto feyto mãdou ho dizer ao gouernador, que entre tanto foy ver a ilha de Maçua pera repartir polas naos muytas cifternas dagoa doce q lhe dizião q auia nela: & afli achou q erão xlix. & todas cheas & fechadas cõ chaue pera ho tempo da neceflidade. E repartidas as cifternas pera as naos fazeré agoada, vio toda a ilha pera leuar dela enformação fe ainda em algú tépo quifeffe mãdar fazer ali húa fortaleza, & vio q tinha muyto bõ porto çarrado & de bõ fundo: & a parte da ilha ondeftauão as cifternas era de pedra & a outra parecia furtada ao mar, & mandandoa medir achou q tinha mil & duzentas braças de roda, & q era comprida, & no meyo onde era mais eftreita tinha de largura ccxl. & em- hú dos cabos duzentas & fefféta & em outro ccl. E auia na terra grãde criação de vacas, & muytas gazelas, & tantas lebres que as matauão os noffos a pé, & do mais era muy defpofta pera fe fazer nela quãto quifef-
  • 40 Hiftoria da índia fem. E tornandofe ho gouemador pera o galeão vio vir por terra hú homé de caualo cõ quatro boys diante, & parecédolhe q feria algú recado pa- rele mandou chegar ho efquife a terra, & ho de caualo fe chegou á agoa bradado. Chriftãos Chriftãos. Iefu Chrifto filho de fancta Maria, & trazia húa carta grande de porgaminho eftédida, & pitada nela a imagé de noífa fenhora cõ ho menino Iefu no colo, & de cada parte hú anjo & abaixo os apoftolos. E aprefentando os boys ao gouemador étrou cõ outros dous no efquife tão fem medo como que conuerfara fempre cõ os noífos. E ho gouemador os recebeo muyto bé & beijou a imagé muyto cõtente de ver ho acatamento & veneração que os Abexins fazião á imagé: & pregun- tando ao q a trazia a caufa de a trazer, refpõdeo q pera tefiimunho de fua chriftindade, & q ho capitão lhe mandara q a leuaffe, de q també lhe deu húa carta em q lhe efcreuia o que tinha feyto. E eftando efte homé com ho gouemador, preguntou a Alexandre dataide q era ho lingoa fe ouuera na índia noua de hú homem q fe chamaua Mateus q fora a buí- car os noífos á índia. E fabédo iílo ho gouemador pera faber a verdade de Mateus diífe ao lingoa q fizeífe qnão fabia dele nada, & que lhe pre- gútaífe que homé era. E ho Abexim lhe contou quem era, como eu ja diífe no liuro terceiro quando a raynha Helena ho mãdou á índia: & chegados ao galeão ho gouemador mandou por Mateus que hia cõ Pero gomez teixeira, & como ele chegou foy coufa eftranha ho grande prazer q os Abexins moítrarão coele & beijauãlhe a mão: & ele cõ muytas lagrimas daua graças a noífo fenhor q ho deixara chegar a tépo em q fe moftraífe fer fua embaixada verdadeyra & outras boas palauras: & man¬ dou dizer ao capitão q mandaífe dizer ao Barnegais & aos frades de Bi¬ fam q vieífem logo em todo cafo. E fabidp em Arquico que Mateus eftaua no porto de Maçua ao outro dia ho foy ver muyta géte & preguntauão por abima Mateus. E abima em fua lingoa quer dizer padre como ja diífe, & affi ho honrrauão eles beijandolhe as mãos & os veftidos, que os noífos folgauão muyto de ver por fe certificarem q fora verdadeyro embaixador, & não echacoruo como algús immigos Dafonfo dalbuquerq deitarão fama q era quando foy á índia & defpois em Portugal, por Õde efteue em defcredito ate aquele tempo.
  • Livro V, Capitolo XXV 4i CAPITOLO .XXV. De como lio capitão Darquico foy falar ao gouernador, & defpois ho forão ver notie frades do mojleiro de Bifam. AO outro dia fabendo ho gouernador que erão fugidos pera terra tres dos noífos da gale' de Iorge barreto, mãdou ho ouuidor geral a terra que os foíTe bufcar, & q pediffe ajuda ao capitão Darquico fe lhe folTe neceífaria: & também lhe pediffe da fua parte que não tar- daffe mais em fe ir ver coele, porq ele por não deixar a frota foo ho nã fazia. E fabendo ho capitão como os noífos erão fugidos os mandou logo prender da hi a cinco legoas onde os tomarão: & ao outro dia fe foi com ho ouuidor a ver ho gouernador acompanhado de muyta gente & foy por terra, & chegãdo a tiro de béfta do mar defparou a noffa frota toda fua artelharia, de que ele ficou tão efpantado que não foy mais por diante & tremia todo. O que entendendo I10 ouuidor lhe diífe a caufa do defpa- parar da artelharia: mas ele não fe fegurou coiffo & deixoufe eftar quedo, pofto que chegarão algús fidalgos q ho gouernador mãdou pera ho acom¬ panhar? ate a capitaina. E ho ouuidor que entedia feu medo não quis apertar coele que foífe á capitaina, porq receou que entraffe nele algúa defconfiança, & por iffo ho foy dizer ao gouernador, aconlelhandolhe que foffe a terra a verfe cõ ho capitão. O q ele fez leuando Mateus configo, & defpois de fe receberem com grãde amor abraçãdofe, alfentaranfe em tres cadeiras: & ho capitão fora do medo que tinha começou de dizer que daua muytas graças a noífo fenhor Deos por fe comprir húa profecia que tinhão que dizia q auião de vir Chriftãos ao porto de Maçuá: & pois •ra comprida que lhe pedia da parte de Deos todo poderoso que fe goar- daífe antreles aquela paz & amizade que ele mefmo Deos mãdara ter aos feus difcipulos em nome de todo pouo Chriftão. E q prefopondo ele que ifto auia aífi de fer, ho vinha ver & a quantos vinhão coele como a Chrif¬ tãos, & que auia tão longo tempo que fe defejauão naquela terra, & que foffe certo que hia pera fazer quanto lhe mãdaffe, fomente porque era Chriftão & por trazer configo Chriftãos, & que ao mefmo viria ho Bar- negais que chegaria ate tres dias. E ho gouernador lhe refpõdeo que a paz & amizade eftaua muy fegura de fua parte, & afti de todos os nol- fos: porque ele não viera ali fe não pera effe fim, & fegurouho quanto pode, & por a calma fer grande fe deteuerão pouco. E ho gouernador lhe deu em final damizade húa efpada & outras coufas com que ele fol¬ gou muyto: & coifto fe defpidirão, & o capitão caualgou em hú caualo Tomo III
  • 42 Hijloria da índia q trazia a defiro, & tomando húa lança correo ho cãpo com muvta defen- uoltura & ár. E chegado a Arquico, chegarão hi noue frades do mofteiro de Bifam que hião falar ao gouernador, que fabendo fua vinda mandou logo lá ho oouvidor pera que vieffe coeles, & coele Alexandre dataide pera lingoa, & forão por terra em caualos, & afíi tornarão com os fra¬ des que hião a pé por lho mandar afli a fua regra. E fabédo ho gouer¬ nador como hião os fayo a receber á borda dagoa nos bateys que hião todos embãdeirados & cÕ as trobetas, & dali os leuou com grãde fe'fta de folias ao galeão, onde todos os clérigos da frota & os cãtores do go¬ uernador os eftauão efperando no bordo do galeão com fuas fobrepelizes vefiidas & húa cruz leuãtada, & ate os frades entrarem cantarão ho cãto de Bndiélus dns Deus Ifrael. E em os frades entrando tomarão a cruz & adorarãna com tanta deuação & reuerencia que não auia que não delfe muytas graças a Deos de ho ver: & defpois de adoraré a cruz fizerão muyto acatamento a Mateus. Defpois difto ho gouernador lhes mandou dar de comer na fua camara tamaras, nozes & outras fruytas, porque não comião carne nem pefcado, & enformandofe deles particularmente do feu mofteiro & da fua regra deulhes licença pera q foflem com Ma¬ teus á nao em que ele vinha. E defpois deftarem lá hú pedaço fe torna¬ rão pera Arquico & foy coeles ho ouvidor q ho gouernador mandou pera ir ver ho mofteiro de Bifam, & ver o que lhe os frades differão dele, & deulhe húa carta pera ho proprio capitão Darquico que chegara de cafa do Barnegais onde era, que eftoutro q diífe não era ho proprio & ficara em lugar do outro, & mandoulhe hú prefente. CAPITOLO .XXVI. Do filio do mofteiro de Bifam, & da regra que goardão os feus frades. CHegado o ouuidor a Arquico, & fabendo ho capitão que queria ir ao mofteiro de Bifam mãdou a hú feu irmão que folie coele com quinze piães, & deulhe duas mulas pera dous dos nolfos que hião coele: & ho mayoral dos frades porq não auia dir logo mandou coele hú frade chamado Efteuão, & partido Darquico começou de caminhar por húa terra defpouoada em que auia muyta caça de veação & muytas ga¬ zelas. E ao outro dia começou de topar em magotes muyta gente de pé & de caualo, que; vinhão em mulas: & eftes erão da companhia do Bar¬ negais q vinha. E defpois defta gente achou quatro mulas a deftro & quatro caualos tamanhos como os Dandalozia, & hú pedaço atras vinha
  • Livro V, Capitolo XXVI 43 ho Barnegais, & hú tiro de béfta dele fe deceo ho irmão do capitão Dar- quico & lhe foy falar, & ho Barnegais não deixou dãdar em quanto lhe ele falou. Ho ouuidor em chegando ao Barnegais deceofe pera lhe falar, & ele deteue húa mula em que hia: & era homem de boa eftatura ma¬ gro & lãçado hú pouco por diãte. Seria de fefféta annos: vinha veftido de pano branco dalgodão & cuberto com hú bedem muyto fino. Chegado ho ouuidor a ele beijoulhe a roupa fobre hú giolho, & difielhe que era Chriítão que vinha na frota que el rey de Portugal mandara ao porto de Maçuá, pera feruiço de Deos & do Prefte & exalçamento da fee catho- lica. Ho Barnegais lhe difle que fua vinda foífe muyto boa, & que auia de fer com muy grãde trabalho pois era de tão longe, & por falar com ho gouernador fe abalara de fua terra, & pois hia ao mofteiro de Bifam que tornaffe logo, porque defejaua de falar coele antes de fe ver com ho gouernador, & mãdaua coele mais gcte, & ele não quis. E apartado do Barnegais começou de caminhar por antre húas ferras ao longo de húa ribeira terra muyto groffa & viçofa, em que auia tãta criação de gado vacuú que vio por onde hia bem oyto mil vacas, & na coroa de húa da- qlas ferras é hú efcãpado eftaua húa horta dortaliça & larãgeiras, & junto coela húa cerca q cercaua hú mofteiro, em q o ouuidor entrou, & á porta da igreja ho recebeo hú frade velho & deulhe a beijar húa cruz, & def- pois entrarão na igreja que era quadrada fem capela mór & na cabeceira tinha hú altar quadrado que não chegaua á parede cuberto de panos pre¬ tos & não auia outro, & eftaua nele a ímagé do anjo fam Miguel, & afaf- tada defte altar atraueffaua húa corrediça de feda que chegaua de parede a parede, & por todas elas eftauão pintadas muytas imagés de fanCtos, & antrelas a figura de fam Iorge como a nos temos, & a de Moyfes cÕ as tauoas da ley, & todas cubertas cõ panos. E nefte mofteiro não efta¬ uão mais q oyto frades, & as celas erão redõdas cubertas de palha cõ curucheos & cruzes nas põtas deles, & tinha húa boa horta em que auia parreyras, limoeiros, figueiras & peffegueiros cõ peffegos limpos da frol & era em Abril, & daqui fe partio ho ouuidor pera ho mofteiro de Bifiam que eftá íobre ho pico de húa ferra cercado ao derredor onde chegou defpois de vefpera, & aa porta da cerca ho receberão algús frades cujos hábitos erão túnicas & mantos de teadas groffas amarelas & os capelos feytos como murças, & cada hú tinha encima da cabeça húa cruz, & coeles eftauão quíze moços de quatorze ãnos cada hú, que erão orfãos & criauãnos os frades por amor de Deos: daqui foy leuado a outra cerca q cercaua a igreja a cuja porta ho fizerão defcalçar porq auia dentrar dentro: foy aqui recebido de fete frades cõ capas de brocado de Meca da maneyra que té os noffos frades nas féftas, & os cinco tinha cada hú
  • 44 Hijloria da índia fua cruz leuantada, & os dous fenhes retauolos de nofia fenhora. Coeftes eftaua ho mayoral do mofteiro também com húa capa cõ hú pedaço de leda lançado em cruz ao pefcoço, & aili outros frades fem capas, & hú deles tomou ho ouuidor pola mão & ho meteo na igreja cj era feyta pela vitola da do outro mofteiro: & no altar tinha hú retauolo grade de pao em q eftauão as figuras da fanctiflima Trindade todas tres de húa igoal- dade & idade, & nos catos do retauolo as imagés dos quatro euãgeliftas como as ha ãtre nos. Auia mais outro altar em que eftaua hú crucifixo com nofta fenhora de húa parte & fam loão da outra, & húa imagé de noffa fenhora do prato muyto deuota, & outras duas imagés. E afíi auia outros dous altares de noffo fenhor & de noffa fenhora, & polas paredes muytas pinturas de fantos. També lhe foy moftrada a fanchriftia, em q auia muytos ornamentos de feda e muytos calizes douro & de prata, & outras peças do culto diuino: & afli lhe forão moftradas todas as ofticinas do mofteiro, de que não faltaua nenhúa pera fer como os noffos, mas não tinha mais que hú fino & efte de cobre fem badalo, & tãgiãno cõ hú maço: & por derradeyro lhe moftrarão húa fepultura alta cercada de candieiros que acendião ás vezes. E vifto ho mofteiro affentoufe ho ouuidor com ho mayoral dele que auia nome Samara chriftus, & coeles cinco frades velhos & muyto magros que paredão de boa vida, & ho mayoral lhe contou que auia trezentos & cincoenta annos que aqle mofteiro fora edificado por hú homé fancto chamado Phelipo 'cuja fepultura era aquela grande que vira, & q os frades daquele mofteiro & todos os outros da terra do Prefte erão da ordé de fancto Antão, & q fe mãtinhão todos de feus trabalhos, que cauauão & roçauão & fazião por aqlas ferras muytas lauoiras, & tinhão grande criação de gado & de mulas que vendião pera fuas neceflidades, porq as efmolas erão poucas & os dizimos leuauaos ho Barnegais: & diffelhe que a ley euangelica fora pregada naqla terra polo euãgelifta fam Mateus, cuja offada eftaua em Alexandria, & q tinhão a briuia em q não tinhão mais que tres liuros defdra, & que tinhão as epiftolas de fam Paulo: & q coftumauão de fe cõfeffar como cometião ho peccado. E q crião noffo fenhor dera poder a fam Pedro de abfoluer & condenar, & que ele deixara ho mefmo poder a feus fubcelfores. E a caufa porq não reconhecião por fuperior ho noffo Papa era por fer muyto longe dali a Roma, & auer muytos mouros & turcos no caminho. E a ifto lhe diffe ho ouuidor fe lhe queria dar húa carta dobediécia pera ho noffo Papa & outra pera el rey de Portugal & ele diffe q fi, mas tornou logo a dizer que era ja noyte. E ao outro dia era fabado, & que não auia de falar coele ne fazer nada, porq ho goardauão á honrra de nofta fenhora afli como ho domingo, & por iffo não auia defcreuer, né ele auia de poder
  • Livro V, Capitolo XXVII 45 agoardar pois vinha tão depreífa, mas que lhe daria hú liuro que mof- trafle a el rey de Portugal & ao Papa, pera que vifíem em que crião os Chriftãos do Prefte, & logo lho deu, & era-de oytauo em letra da fua lingoa. E coifto fe defpedio dele, & ele foy leuado a húa cela em q efta- uao duas tauoas por cama & húa pedra á cabeceira, & húa manta pera cubertura. E eftas camas tinhão os frades, porque em tudo tratauão muyto mal feus corpos & faziáo afpera pendença, de que parece que fe nolfo fenhor feruia & ouuia fuas orações, & que eftauão por fortaleza da Chriftindade que jazia daquelas ferras pera dentro: nem he pera crer outra coufa eftando tão cercada da feita de Mafamede & não fe lhe pegar nada: porque da banda do ellreito tinha ho rey de Zeila & de Barbora & toda aqla corda, & da outra parte Magadaxó, & outros reys com q tinha guerra: & da bãda do Cayro a traués de çuaque feffenta legoas acima de Maçuá tinha hú rey mouro fenhor daquela terra dantre ho Prefte & ho Cayro cÕ que ho Barnegais tinha fempre guerra como ja dilfe. Affi q eftar efta terra tão inteira com fua Chriftandade tendo tão má vezinhãça não era fem grãde mifterio de nolfo fenhor. E affi recolhido ho ouuidor a fua cela, lauoulhe hú frade os pe's com agoa quéte, & defpois lhe deu de cear pão de trigo, & de ceuada, & mel & cebolas, & vinho de mel, porque ho não auia duuas, ne lhe deu outras igoarias porque os fra¬ des não comião carne nem pelcado, & pera ho caminho lhe deu da parte do mayoral duas gamelas de farinha & muytas cebolas, & limões: porque não auia dachar que comer. E ao outro dia que era vefpora da pascoela em amanhecendo fe partio ho ouuidor pera Arquico, & che¬ gou laa ho domingo feguinte. CAPITOLO .XXVII. De como I10 goiiernador fe vio com ho Barnegais & jurarão ambos de dous ami\ade em nome de feus fenhores. ONde achou alda ho Barnegais q ho gouernador fabédo q hia pera Arquico ho mãdou receber por Antonio de faldanha, & por An- tonio de brito caçador mór del rev de Portugal: q forão muyto bem atauiados, affi de fuas pelfoas como dos q os acompanhauão, em q entrauão trinta efpingardeiros & outros tantos béftei.ros, & forão ter cõ ho Barnegais duas legoas alé Darquico: & fabédo ele qué erão fezlhes muyta hÕrra & moftrou muyto prazer cõ fua vifta, & quando fe tornarão pera a frota lhes diffe que diffeffem ao gouernador q logo ao outro dia ho iria ver. Mas ele não foy, porq hús mouros queftauão é Arquico mo-
  • 46 Hijloria da índia radores de Maçuá pefandolhe defta amizade q nolTo fenhor ordenaua antre ho gouernador & ho Barnegais, porq fabião q auiao de fer laçados da terra: & por iíTo perfuadirão ao Barnegais q não foffe falar ao gouer¬ nador, porq como eftaua tão poderofo no mar predelo hia & nã ho lolta- ria ate lhe não dar grãdes tefouros, porq os noffos erão muyto cobiçofos: & tãbé por ele fer mais honrrado q ho gouernador, deuia ho gouernador dir onde ele eftaua. E vedo ho gouernador como ele não hia mãdoulhe recado por hú Fernão diaz que lãbia a lingoa: pedindolhe que foffe porq compria muyto a feruiço de Deos & do Prefte. E ele refpÕdeo q foffe ho gouernador a Arquico & hi fe verião. E tendo dada efta refpofta chegou ho ouuidor, & fabendoa lhe foy logo falar, & moftrando que a não fabia, lhe diffe q queria efperar pera ho acompanhar quando foffe ver ho gouer¬ nador. E dizendolhe ele o que tinha dito a Fernão diaz, refpondeo ho ouuidor q por nenhú modo podia ho gouernador deixar a frota: & ainda que poderá pois ele era Chriftão & dezia que defejaua de feruir a Deos, que não deuia dauer por mal ir ver quem ho hia bufcar de tão longe, & não pera feu intereffe fe não pera exalçaméto da fé de Iefu Chrifto noflo fenhor. E fobrifto ouue antreles muytas palauras, perfuadindolhe ho ouui¬ dor que foffe, & ele efcufandole: ate que ho ouuidor lhe diffe que ho gouernador não deixaua dir fe não porq as naos não podião chegar a Ar¬ quico nem os outros nauios grandes, & que podendo ele fora: & q os verdadeyros Chriftãos nã deuião de ter pontos donrra fobre o q compria a feruiço de Deos: & ho mefmo lhe differão ho capitão Darquico & ou¬ tros fidalgos (q fe fouberão q os mouros erão caufa daquelas duuidas matarãnos a todos). E vendo ho Barnegais a perfia q todos tinhão coele, diffe q fe vilfe ate onde as noffas galés podião chegar, & que hi vielfe ho gouernador & ali fe virião. E difto não aprouue ao gouernador quando ho foube, parecendolhe q aquilo era algúa roindade, & mandou lá Anto- nio de faldanha fobriffo, que não pode mais acabar fe não que fe viífe Õde as gales podeífem chegar. E ho gouernador ho não quis por não pa¬ recer outra coufa ao Barnegais: & ao outro dia fe partio nas gales & nauios pequenos, & nos bateys em que auia de defembarcar, em q leuaua muytas armas alaftradas pera irem fecretas que não fabiq o que aconte¬ ceria. Ho Barnegais eftaua ja efperãdo bem afaftado do mar com duzêtos de caualo & dous mil de pé. Ho gouernador defembarcou com toda a gente, & deixandoa pofta em ordem ao longo do mar apartoule cõ os fidalgos (cujos pajes hião armados pera ho Barnegais ver as noffas armas) & meteofe em húa tenda que mandou armar pera efta vifta: & ainda fobriffo ouue debates, porque ho Barnegais não fe queria abalar donde eftaua, dizédo que foffe lá ho gouernador. E por importunações de Ma-
  • Livro V, Capitolo XXVII 47 teus & Dantonio de faldanha cõfentio q moueffem a pé ele & ho gouer- nador ãbos a húa dõdeftauão, & q no lugar em q fe ajútafle fe falarião: & ajútaranfe hú bõ tiro de béfta do mar em hú grade cãpo verde, & por efte efpaço ficou deles a gête dú & do outro. Cõ o gouernador hião os capitães da frota, & cõ ho Barnegais clco fenores dos q vierão coele: & abraçãdofe cõ muyta cortefia fe affétarão em húas alcatifas, & cõ todos os rigores paliados eftauão tão cõtétes de fe verem q todos lho éxerga- uao, & ãbos derão muytas graças a deos polos ajútar. E ho gouernador começou logo, dizédo. Ho muyto poderofo rey de Portugal meu fenor defejãdo dc proífeguir a guerra q feus antecelfores fizerão fempre aos mouros: cõ que não íòméte lhe ganharão a terra de Portugal, mas outra muyta c África, defejãdo de os deftruyr a continuou fempre do tépo q reynou ategora: & não fe contétãdo cõ a q faz em África a mãda fazer na índia, & no eftreito de Meca por fer certo q nele te os mouros fuas rayzes, q ele queria deftruyr de tòdo: não eftimando os grãdes gaftos & defpefas que niffo faz com ho trabalho de feus vaífalos, porque he pera feruiço de noffo fenhor Deos. E tedo ele por noua q ho éparador da alta Ethiopia era Chriftianiffimo, defejãdo fua amizade por efte refpeito mã- dou aos feus capitães móres & gouernadores da índia q mãdafle defco- brir polo eftreito fe ha algú porto de feu fenorio: & como ho mifericor- diofo deos ajuda bõs defejos, afli ajudou a executar efte, infpirãdo na raynha Helena mãy do Prefte q mãdaffe fua ebaixada a elréy meu fenor por Mateus q aqui eftá: o q parece nã fer le mifterio muy grãde: & q quer noffo fenor q fe ajúté eftes dous prlcipes pera total deftruyção dos mouros: & q afli como lhe a ele aprouue q ho apoftolo fã Mateus de- núciaffe naqla terra a ley euãgelica: q afli teue por bé que por outro Mateus que era ho embaixador foubeffe el rey meu fenhor ho defejo q ho Prefte tinha de fua amizade: pera que ajuntando ambos feus poderes defarreygaffem daquelas partes a feita de Mafamede, & por efta caufa mandou el rey meu fenhor feu embaixador com Mateus para affentar cõ ho Prefte paz & liãça pera fempre, q morrera como Mateus fabia: & dali fe não poderá mais tornar ao eftreito. E eu me ey por muyto ditofo dos impedimentos que fucederão pera iffo, pera eu fer ho corre¬ tor defta amizade & liança, & fer ho primeyro por quem el rey meu fenhor ha de ter verdadeyra noticia do Prefte, & quãdo vim ao eftreito foy meu intento ir primeyro a Iudá a pelejar com a armada dos rumes, & da volta defpejar dos mouros as ilhas de Dolaca & de Maçuá & en- tregalas aos capitães do Prefte & fazer com fua licença húa fortaleza, que não poderá fer por fe me perder húa nao em que trazia os petre¬ chos pera iffo. E coisto acabou. E ho Barnegais refpondeo. Louuado
  • 4s Hijloria da índia feja ho poderofo Deos pera fempre, que permitio que fe compriffem as proficias que tínhamos do ajútaméto dos Chriltãos cõnofco. E bem creo eu que pera iffo auer eífeyto infpirou ho Spiritu fanéto na raynha He¬ lena que mandaffe Mateus por embaixador a el rey de Portugal, pera que com ho Prelte foliem irmãos por liança, pois ho fam em Iefu Chrilto noffo fenhor, & no cuydado que tem de fazer aos mouros. E pera ifto auer eífeyto abaley eu de tão loge como venho, & pera a guerra dos mou¬ ros ho Prelte dara toda a ajuda de gête & dinheiro que for neceífaria: & fe ele viífe defpejadas Dolaca & Maçuá auer fe hia por mór fenhor do que he: & mais fe viffe em qualquer delas húa fortaleza dos Portu- guefes que ele fara á fua culta fomente que eles a goardem. E defpois delta pratica & concerto que fizerão, q ho gouernador mandaífe hú em¬ baixador ao Prelte em nome del rey de Portugal. lurarão ambos cada hú em nome de feu fenhor amizade & liãça pera todo fempre: & ho Bar- negais jurou primeyro, dizendo em voz alta. Eu juro nefte final da cruz em que padeceo noffo fenhor em nome do Prelte meu fenhor & no meu de lermos amigos dos amigos do ChriítianilTimo rey de Portugal, & im- migos de todos os feus immigos, & amigos de todos os feus vaffalos & feruidores, & immigos dos immigos da fé de noffo fenhor Iefu Chrilto: a que peço q fe goarde antrenos aquela paz & amizade que ele mandou q fe goardaffe antre os feus apoítolos. E ho gouernador fez outro jura¬ mento pelas mefmas palauras. CAPITOLO .XXVIII. De como ho gouernador mãdou dom Rodrigo de lima por êbaixador ao Prejle. IIJrada elta amizade com muyto grande alegria de todos que fe che¬ garão logo de húa parte & doutra eíteuerão ainda ho gouernador, & ho Barnegais falãdo em algúas coufas: & ho gouernador lhe deu dous corpos de coiraças ricas & hú arnes Iteiro & efpadas, adargas & punhais & dous bedes de feda & outras peças ricas. E defpedidos hú do outro recolheofe ho gouernador aos bateis, & ate fe embarcar não quis ho Bar¬ negais partir: & iíto por cortefia, & defpois fe partio pera Arquico, dõde aquele dia mandou ao gouernador hú caualo & húa mula & cincoéta va¬ cas que ele repartio pela frota, em q auia grande aluoroço, principal- méte antre os fidalgos, por fe abrir caminho pera exalçameto da fé catho- lica em lugar Õde todos trazião tão pouca efperança de fe achar: porq todos (como diffe) tinhão a Mateus por mintirofo nem fazião coma de
  • Livro V, Capitolo XXIX 49 mais que de ho poer em terra, & vendo ho contrairo aluorauanfe todos com prazer de fuceder também, & a muytos tomaua defejo de irem por embaixadores, alfi pera feruirem a Deos & a ei rey de Portugal, como pera veré a corte do Prefte: & algús pedirão efta ébaixada ao gouerna- dor, & ele a deu a hú fidalgo chamado dõ Rodrigo de lima, & por fota embaixador & efcriuão da embaixada hú Iorge dabreu deluas, & lingoa dela Ioão efcolar, & forão coeles hú Lopo da gama & Francifco aluarez clérigo & outros ate treze. E defpachado dõ Rodrigo & Mateus fe parti¬ rão pera Arquico leuando dõ Rodrigo eftas peças pera ho Preíte, quatro panos darmar de figuras muyto finos, húas coyraças de veludo carmefim cõ as outras peças douradas, & húa efpada & hú punhal douro, & dous berços de metal cõ fuas camaras dobradas, & dous barris de poluora, & hú mapa com todas as terras que el rey tinha na índia cõ cruzes poftas nelas, & ê algúas imagés de noffa fenhora, & hús orgãos, & hú crauicor- dio, & hú tangedor pareles, & pera a raynha Helena mandou húa meada daljofar groflo com húa cruz de rubis, & pera ho morteiro de Bifan incenfo & pimenta & panos de feda pera ornamentos & húa campã, & panos pera veftiaria dos frades, & a Mateus mãdou dar algúas peças de que fe ele contentou, & ho gouernador & Antonio de 1'aldanha forão coeles hú pedaço. E Darquico forão ao morteiro de Bifam õde fe finou Mateus. E dali partio dõ Rodrigo pera a corte do Prefte: de cuja par¬ tida os mouros daquelas partes ficarão muyto triftes q temião muyto ajú- tarfe ho poder delrey de Portugal cõ ho do Prefte & deftruyrenos, & dizião que pois frota de tamanhas naos como o gouernador leuaua che¬ gara á ilha de Maçuá, é cujo caminho auia tantos baixos & ilhas que dali por diante cada dia irião lá as noífas armadas, & chegarião ate çuez, & parecialhes aquilo caminho pera fe deftruyr fua feita como tinhão por profecia de muyto tempo: & cõ medo do gouernador defpejarão os mou¬ ros a ilha de doloca & fe forão pera a terra firme. E defpois da partida de dõ Rodrigo ho gouernador a mãdou queimar, & dahi fe partio pera Ormuz. CAPITOLO .XXIX. Do q acõteceo a Goçalo de loule indo pera Moçãbique & como ouue a artelharia do galeão de Manuel de foufa. GOnçÃlo de loule que hia cõ recado do gouernador aos capitães q inuernauão é Moçambique defpois q atraueffou ho golfão q ouue vifta de terra foy ao longo dela ate Magadaxo: em cujo porto queimou duas naos q eftauão á gelua fem achar nenhúa refiftencia nos Tomo IU 7
  • 5o Hijloria da Índia mouros, & dali foy ter a Pate, & qrendo entrar no porto pera tomar agoa, como ho feu piloto não 1'abia ho canal por Õde fe entraua deu em feco fobre area em que a carauela ficou adernada. E entédendo os noflos que com a maree tornarião a nadar efteuerão efperando ate ho outro dia que tornafie: & amanhecedo virão vir da cidade obra de trezentos paraós pequenos carregados de gente que chegando a tiro de bõbarda de cara¬ uela pararão poedofe todos a fio oulhando a carauela, & adi efteuerão ate que veo a maree: & então fe apartou hú dos paraós remando & che- goufe perto da carauela, & hú dos que vinhão nele faluou os noffos em iingoa Português, & pregútando q bufcauão naquela terra. Ao que os nofios refponderão q bufcauão mãtimétos, & porque achauão pouco fundo nã oufauão dentrar no porto, rogandolhe que os leuaffem a ele & q lho pagarião. E parece q os mouros por fe não fiarem dos noflos nã fe qui- ferão atoar cõ a carauela, & diflerão que fe fizeflem á vela, & que os feguifiem, & que afll os leuarião. E os noflos tornarão a repricar que os leuaffem á toa, & por eles nunca quererc lhes atirarão cõ hú falcão pera lhes fazer medo: que eles ouuerão tamanho que fugirão pera os outros, que logo começarão de remar & chegarfe pera a carauela tangédo muy- tos inftormétos de guerra: os noflos que fe temerão que os aferaflem os Imigos defpararão hú camelo q deu no principal paraó & meteo ho no fundo & a géte ficou fobre a agoa nadando, & por lhe acodir çoçobrarão outros tres paraós com ho pefo da géte. E vendo os outros que ficauão nos paraós ho dãno q lhes podia fazer a nofla artelharia fugirão pera a cidade deixando os q andauão nadando, que vifto por Gõçalo de loule como ficauão defemparados mandou a hú Marti correa q cõ os outros fete fofte no batel a matalos. E ele ho fez afli & matou muytos, & recolheo defadado de matar hús tres, de que hú era homem velho, & recolhendo os chegou hú mancebo a bordo pedindo q ho recolheflem porq fe afogaua de canfado, & por não caber no batel & Martim correa auer medo de çoçobrar ho não quis tomar, & ele morreo logo de húa lãçada que tra¬ zia: ao que ho mouro velho deu hú grande fofpiro, & os outros dous começarão de chorar, & os noflos fe forão pera a carauela, & como ho capitão eftaua defefperado de poder entrar no porto por não não ter que lho infinafle, diffe q deflem torméto aos tres catiuos & q eles ho infina- narião: & qrendo começar no velho ele acenou aos dous q ho difleffem, & hú deles ho moftrou: & achãdo ho piloto da carauela doze braças fe fez á vela & entrou no porto õde furgio antre húas naos q hi eftauão, & nã auédo que refiftifle as roubarã os noflos de muyta riqza q acharã ne¬ las, & nã cabédo todo ho defpojo na carauela o q sobejou carregarão é hú zãbuco pera o leuaré atoado ate Melinde, onde efperauão de véder
  • Livro V, Capitolo XXX 5i o q leuauão, & ali lhe refgatarão ho mouro velho q era fenhor de Pate pofto que então ho não fabia Gõçalo de loule: & partido daqui foy ter a Melinde & mea legoa da cidade achou ho meftre que fora do galeão de Manuel de foufa & outros feys q em hú paraó hião fugidos de Hoja on- defteuerão cativos ate então, & em Melinde foube como fe perdera ho galeão & que ouuera ho defpojo. E determinando Gõçalo de loulé de cobrar toda a artelharia do galeão leuou de Melinde hú mouro de Moçam¬ bique q fabia ondeftaua, que era na ilha de Zanzibar, na de Peba & na Monfia. E paliando Gõçalo de loulé por eftas ilhas lha derão os reys com medo & cobrou toda a artelharia que nenhúa ficou fe não a q tinha el rey de MÕbaça. E cobrada efta artelharia foy ter a Moçambique na fim de Feuereyro defpois de paífar húa muyto grande tormenta. CAPITOLO .XXX. De como Iorge dalbuquerqiie polo recado do governador fe partio em bufca dele cõ algíts capitães dos que inuernarão coele. E chegado a Moçãbiq deu ho recado q trazia do gouernador a Iorge dalbuquerque, & elle ho praticou com os outros capitães: & acor- doufe qué Iorge dalbuquerque com Diogo fernandez de beja, Chrií- touão de médoça, Rafael catanho & Rafael pereítrelo foífem bufcar o gouernador, & ho doutor Pero nunez ficaffe por fer védor da fazenda, & com os outros capitães fe foífe dereyto á índia, porque fe ho gouernador tardafle no eftreito como podia fer teueffe naos que mãdafie carregadas pera Portugal. E ifto alfetado partiofe Iorge dalbuquerq cõ os capitães q digo & cõ Gõçalo de loule quando foy tépo & feguirão fua derrota pera ho cabo de Goardafum que he de quinhentas legoas de Moçambique, & ali achou nouas como ho gouernador era entrado no eftreito: & querendo Iorge dalbuquerque entrar nele os feytores das mais das naos da con- ferua q erão de mercadores lhe requererão muyto eftreitamente da parte del rey de Portugal q nã leuafie as naos dos mercadores ao eftreito que fe podião perder, & perderião vender fua mercadoria fe inuernaffem no eftreito & muyto mais em não ir a Portugal ho anno feguinte, tirando diífo eftormétos & fazendo fuas proteftações fobre Iorge dalbuquerque que foífe obrigado a pagar todas as perdas que recreceífem aos merca¬ dores de as fuas naos entrarem no eftreito, pelo que Iorge dalbuquerque não quis entrar tomãdo certidão do q lhe os feytores requerião: & mo- ueo ho também a não entrar parecerlhe q feguraua mais coilfo ho feruiço del rey, & tomou feu caminho pera Ormuz, õde determinaua defperar
  • Hijloria da índia jí ho gouemador. E feguldo por fua viagé cõ grades tormetas ate ho cabo de Roçalcate, & como ho dobrou o deixarão & foy iurgir no porto de Calayate, & ali efperou ho gouernador por lhe parecer alfi melhor. CA PI TO LO .XXXI. De como Iorge dalbuquerque mandou prender Raix xabadim regedor de Calayate, & do grande dãno q receberão os tiojfos querendoho prender. AO tépo q Iorge dalbuquerq chegou a efta vila eftaua nela por rege¬ dor hú mouro chamado Raix xabadim cunhado de Raix xarafo goazil Dormuz. E efte Raix xabadim eftaua mexericado com el rey Dormuz, q ho tinha mandado chamar muytas vezes: & ele receando o q era nunca quis ir, o q mais indinou el rey & defejaua de ho préder, & não oufaua fazelo de praça por faber que era bom caualeyro, & q fe auia de defender cÕ a gente que tinha. E defcontente difto foube que hú Duarte mendez de vafcõcelos q andaua darmada naqla cofta tinha muyto eftreita amizade & conuerfação cõ Raix xabadim em tanto que muytas vezes fe hia coele darmada, & por ifto lhe efcreueo húa carta muyto fecre- tamente em q lhe pedia q manhofamente prendefle Raix xabadim, porq 1'abia que ninguém ho podia fazer melhor: prometédolhe por ilfo muytas merces. E fe por vétura naquela conjunção chegaffem ali algúas naos de Portugal, que lhe pediffe da fua parte aos capitães que lhe prédeffem Raix xabadl: & ho mefmo efcreueo dõ Garcia coutinho capitão da forta¬ leza de Ormuz. E tendo Duarte mendez efte recado como chegou Iorge dalbuquerque lhe foy dar conta dele moftrandolhe as cartas q tinha, que també Iorge dalbuquerq moftrou aos capitães da frota com quê pos ho cafo em confelho, & affentoufe que fe prendeffe Raix xabadim na noyte feguinte, & no começo dela irião os capitães da frota cõ a melhor gente de fuas naos ajuntarfe por popa da galé de Duarte médez & no feu batel iria em feu lugar dom Sancho anrriquez feu cunhado & genrro que hia por capitão mór de Malaca, & no de Diogo fernandez porq eftaua doente & fangrado iria Diogo rabelo feu cunhado, & Duarte médez iria a aafa de Raix xabadim ás horas q coftumaua, & dom Sancho lhe iria nas coftas cõ a gente: & em Duarte mendez entrãdo entraria coele & préderião Raix xabadim. E afíi ho quiferão fazer, mas não poderão, porq parece que ele entendeo a coufa & eftaua a recado, & nã quis mãdar abrir a Duarte médez: & chegado dom Sancho com a gente quando vio q não queria abrir quis qbrar as portas & entrar por força, ao q acodio a gente
  • Livro V, Capitolo XXXI 53 darmas de Raix xababim q eftaua defronte das fuas cafas alojada é tédas, & começoufe hú jogo de laçadas muy afpero, & étre tanto dom Sacho entrou por força em cafa de Raix xabadim cõ Duarte médez, & hú Eytor de valadares, Rafael catanho, & como não erão mais acharão détro quê lhes refiftiífe, pelejando muy forteméte, & todos quatro ho fazião muy esforçadaméte. E eítando ncfte perigo, a gente de Raix xabandim pelejou com os noflos de maneyra q os fez retirar pera a praya ferido & matãdo neles, & como os fizerão retirar acodirão a Raix xabadim q entédendo q ho qrião préder fe deitou de hú terrado abaixo por húas cordas & fugio, & ficarão os feus q tinha das portas a détro q dom Sãcho & os outros tres fizerão recolher aos terrados das cafas, & eles ficarão fenhores dos baixos. E fintindo q os Imigos tornauão fobre as cafas & não vendo ne- nhú dos noífos fecharão as portas & poferanfe de dentro pera fe defender fe lhas quebaffem, & quando os mouros virão que os não podião entrar poferao fogo ás portas pera os queimar: & nifto quis noffo fenhor q aco- dio Diogo fernandez de beja cõ gente, que cõ quanto eftaua doente & fangrado não fe pode fofrer fem fe achar naqle feyto, & acodio defpois que a peleja foy trauada. E indo polo mar ouuio a grãde grita que hia em terra, & chegãdo a ela com muyta preífa achou os noffos encãtoados na praya & muytos feridos, & algús mortos: & fabédo a coufa como paífaua esforçou os noífos & remeteo coeles aos mouros, & apertou os tão rijo que os fez fugir porque cuydarão que quantos auia na frota hião fobreles: & leuando os de vencida foy ter ás cafas de Raix xabandim onde dom Sancho eftaua com os outros em grande perigo. E Rafael cata¬ nho lhe bradou de húa genela que mandaffe matar ho fogo que eftaua pegado nas portas, porque mataua a ele & aos outros, & querqndo os noflos apagalo começarão de chouer fobreles zagunchadas & frechadas q os mouros tirauão de fobre os terrados doutras cafas, que ja os q efta- uão nas cafas de Raix xabandim erão fugidos por cordas per q fe deita¬ rão. E apagado ho fogo fayo de dentro dom Sancho q eftaua muyto ferido & apos ele os outros. E fabédo Diogo fernãdez que Raix xabadim era fugido, não teue mais q fazer & mandou embarcar os feridos que forão cincoenta & mortos vinte, & dos mouros nã morrerão mais de tres: & todo efte dãno receberão os noífos por Duarte mendez faber mal ordenar ho feyto & dom Sancho ho feguir nele. E por efte feyto ficarão os noífos em muyto defcredito com os mouros, & Raix xabadim com grãde fama de caualeyro esforçado por lhe faber também refiftir.
  • 54 Hijloria da índia CAPITOLO .XXXII. Da grãde tormêta que ho gouernador pajjou faitido do ejlreito, & como fe perdeo a galé de Ieronimo de foufa, & dos que morrerão nela. PArtido ho gouernador, Diogo lopez de fiqueira da ilha de Dolaca pera ir inuernar a Ormuz feguio fua viagem, & aos fete dias de Mayo paffou por Camarão, & aos quinze paflbu as portas do eílreito & foy furgir õde fe perdeo a fua nao de q ainda cobrou tres ancoras, & a vinte hú dias dele chegou a Adé, onde paífados tres dias fe partio pera Ormuz & na parajem da ilha da Madeira achou muyto grandes çarra- çoes & tormentas com que os mais dos bateys dos nauios çoçobrarão: & afíi abrio a galé de Ieronimo de foufa & fe foy ao fúdo nha & meteofe dentro com treze ou quatorze fidalgos que hião coele, dizendo que pois todos auião de morrer que melhor feria faluarenfe os fidalgos que os ou¬ tros. E hú deites era hú Pero da filua dalcunha ho cafre irmão Dafonfo telez fenhor de Cãpo mayor & ouguela, & quifera meter na barquinha húa arca encoirada, que Ieronimo de foufa não confentio que fe meteffe dizendo que os faria çoçobrar, & q fe ele não deixaua meter mais géte por irem boyãtes & não çoçobraré como queria leuar húa arca que pefaua por tres homés, & nã lha quis deixar meter: do que Pero da filua auendo menencoria, diffe que pois a fua arca não hia na barquinha que não auia dir nela & tornoufe á galé dizédo que efperaua em Deos que fe auia de faluar melhor que os que hião na barquinha. E vedo hú feu primo cha¬ mado Manuel galuão filho de Duarte galuão que fe tornaua á galé, tor¬ noufe coele por fer muyto feu amigo: & Ieronimo de foufa fe foy vendo q de todo em todo Pero da filua não queria fe não ficar na galé, onde não tardou muyto que não morreo cõ quantos ficarão coele por fe a galé ir ao fundo & não auer quem lhe acodilíe. E Ieronimo de foufa fe foy na barquinha com Anrrique homé filho de Ioão homem & Pero borges, & outros fidalgos ate onze, & tirarão caminho da coíta Darabia onde por milagre de noífo fenhor chegarão a cabo de dous dias, efcapando de ma¬ res muy groffos & altos. E defembarcados acodio logo a géte da terra que erão mouros, que conhecédo ferem Chriltãos como lhes querião grande mal começarão logo de os atormentar com pancadas, bofetadas, & arrepelões: & como eles não vião tempo nem tinhão cõ que refillir fufrião tudo com paciécia pera ver fe podião efcapar da morte. E defpois de roubados de quanto leuauão veítido, q ficarão nús fe forão ao longo do mar pregútando por Calayate, õde fe querião ir adi por fer de noffos
  • Livro V, Capitolo XXXIII ss amigos como por terem por certo q ali auião dachar a noffa armada ou algús Portuguefes, & forão affi ao lÕgo do mar caminho de cem legoas defcalços & defpidos, q era coufa piadofa de ver como hião torrados do foi & magros de muyta fome, & de grande fede que paffauão, & corta¬ dos de muytas pãcadas q recebião dos mouros & fracos do immenfo cançalfo & fadiga fem comparação que lhes caufaua ho caminho: & aíli forão ter a húa cidade vinte legoas de Calayate, cujo fenhor era vaffalo del rey Dormuz, & quando foube que os noffos hião afli os mandou leuar perante li, & os deteue algús dias pera tornarem enfi & fe esforçarem, & fezlhe neítes dias tanto gafalhado & bÕ tratamento q mais não podia fer. E defpois de veltidos dãdolhe dinheiro pera ho gaito do caminho os mandou a Calayate & coeles certos criados leus pera q foflem feguros. CAPITOLO .XXXIII. De como o gouernador foy ter a Calayate & dahi a Ormu\ onde inuernou. EScapÃdo ho gouernador daquela grãde tormenta q digo não deixou de ir com mares muyto groffos & çarrações ate ho cabo de Roçal- gate, que fe faz na entrada do eftreito da Perfia, Õde entrado com a armada achou grande calmaria q não fe afaítauão as velas dos maftos: & a caufa era começar ali ho verão, & da torméta palfada fer ja inuerno na coíta que dura do cabo de Goardafum ate ho de roçalgate q começa no mes Dabril & acaba em Setembro: & por iflo os noííos acharão tama¬ nhas tormétas por aqla coíta. E pareceo coúfa de admiração que em efpaço de duas legoas auia em hú cabo calmaria & ho foi eltaua muyto claro, & em outro ho ceo muyto efcuro & nuués muyto groflas & grande tormenta. E chegado ho gouernador a Calayate ondeltaua Iorge dalbu- querque foube do defmãcho que fe fizera na prifam de Raix xabadim: & muyto agaítado diífo tirou a capitania da galé a Duarte mendez de vaf- concelos polo achar culpado, & ho prendeo & afli outros: & porque auia dir inuernar a Ormuz nã quis leuar mais que as galés & nauios peque¬ nos, & as naos groflas & galeões deixou os q foflem inuernar a Mazcate debaixo da capitania de Iorge dalbuquerq, onde fe defpois forão. E pera eítes capitães darem mefa á gete que ficaua coeles fezlhe merce do dinheiro del rey pera fua defpefa, & todos ho tomarão, faluo Francifco de foufa tauares capitão da nao fanéta Cruz: a q ho gouernador a deu naqle portò, & por feruir el rey deu mefa á fua culta em que gaitou muyto por fer nobre fidalgo, & prezarfe muyto de fazer tudo bem feyto.
  • 56 Hijloria da índia E ho gouernador fe foy a Ormuz onde teue ho inuerno com grandes feitas que lhe fizerão el rey, & Raix xarafo. CAPITOLO .XXXIIII. De como foy por capitão mór da armada pera a índia Iorge de brito, & do que aconteceo ao galeão de Ruy va\ pereyra com hu peixe. ANtes difto fe foy de Portugal agrauado del rey dom Manuel hu Ferna de magalhães (de que fiz menção no liuro terceyro) & coefte agrauo fe foy pera ho emperador Carlos rey de Caltela, a q fazedo crer que as ilhas de Maluco erão fuas (como direy a diante) foy por feu mãdado por capitão mór de húa armada a defcobrilas. E fabido ifto por elrey dom Manuel, quis atalharlhe com mandar húa ar¬ mada a eltas ilhas pela via da índia, pera que prendefle a Fernão de magalhães fe lá fofle ter. E pera eíte feyto efcolheo hú fidalgo chamado Iorge de brito (de que faley també no liuro terceyro) por confiar dele que ho faria bem, & em muyto fegredo lhe diífe fua determinação com juramento que a não defcobrilfe a nenhúa pelfoa fe não na índia, & mais lhe dilfe que faria húa fortaleza é húa das ilhas de Maluco onde lhe me¬ lhor pareceffe, & deulhe quinhétos homés pera leuar a Maluco, & arte- lharia & munições pera elta fortaleza, & affi officiaes q nela feruiífem. E todos eftes officios deu el rey a quê Iorge de Brito lhe pedio que os deffe, & por não fer delcuberto pera onde Iorge de brito hia dizia em todas as prouifões dos officios que erão pera onde Iorge de brito foffe. E por el rev écobrir mais fua ida lançou fama que hia fazer húa fortaleza na ilha de çamatra, & a fora ifto deulhe el rey prouifões pera ho gouernador da índia que lhe deíTe a armada & a gente que lhe pediffe: & fobre tudo lhe deu a capitania mór da armada que aquele anno de vlte auia dir pera a índia. E os capitães de fua conferua forão Gafpar da filua q leuaua a capitania da fortaleza de Chaul que el rey mandaua fazer, Pero lopez de fam Payo capitão doutra que fe auia de fazer nas ilhas de Maldiua, Pero louréço de melo que leuaua húa viagem pera a China, André diaz alcayde pequeno de Lisboa que hia pera fazer a carga, Lopo dazeuedo, Pedro Paulo, Manuel de foufa capitão do galeão reys magos que auia de ficar na índia, Ruy vaz pereyra doutro galeão q auia nome fam Rafael, que também auia lá de ficar. E o que acõteceo a efta armada na viagem eu ho não foube, fomete a Ruy vaz pereyra que a vinte fete de mayo fendo cincoéta legoas das ilhas de Triftão da cunha, lhe deu húa grande tor- menta de vento: & logo a hú fabado vefpera da Trindade na paragé do
  • Livro V, Capitolo XXXV S7 cabo ho feguio hú peixe muyto grande dos q chamão peixes fombreiros, & rodeando ho galeão tres ou quatro vezes da derradeira ho aferrou pola bada de bõbordo leuãdo ele metidas todas as velas com vento galerno, & tanto q ho peixe ho aferrou teueo quedo como fe efteuera furto, & tinhao cingido com a cabeça na amura, & ho rabo no leme: com que deu nele duas pancadas que derribou dous gormetes que hião a ele, & era tão groífo que chegaua com húa efpadana á mefa da goarnição & muytos lhe poferão a mão nela. E receando ho piloto & ho meftre q çoçobraífe ho galeão: mandarão amaynar ho traquete da gauea, & ho cõdeftabre ho quifera ferir cÕ hú pique & não lho cõfentirão, & focorreofe ho capitão a noffo fenhor, & hú clérigo fe reueltio, & com húas relíquias na mão começou de rezar, & quis noffo fenhor que auendo hú oytauo dora q ho peixe tinha aferrado ho galeão ho defaferrou, & deitou pola boca duas ou tres vezes grãdes golpes dagoa no chapiteo, & tornou apos ho galeão que feguio ate ho quarto da modorra rendido. E cõtinuãdo daqui Ruy vaz pereyra fua viagem foy ter a Moçambique, õde foube que ho gouer- nador inuernaua em Ormuz, & por fer muyto cedo ho foy efperar a Maz- cate. CAPITOLO .XXXV. De como Antonio correa defpois de chegar a Malaca foy fobre a tranqueira do Pago & a desbaratou & feq fugir os inimigos. VInda a moução de Pegú pera Malaca, partiofe Antonio correa leuando a fua nao carregada de lacre & doutras mercadorias, & feys jugos carregados darroz, vinhos, azeites & carnes. E de ca¬ minho foy ter a Pacem, onde achou tres naos de mercadores de Bengala carregadas de mercadoria: de que era capitão mór hú capado chamado Gormale, & querendo Antonio correa que foffem a Malaca pera paga¬ rem lá os dereytos de fua mercadoria na noffa feitoria lhe daua Gormale hú conto de rs, & q ho deixaffe ficar em Pacem, & que ali pagaria os dereytos a hú feytor noffo que hi ficaffe, & não querédo Antonio correa ho leuou cõfigo caminho de Malaca, dandolhe feguro de lhe nã fer lá feyto nenhú mal. E paffando polos baixos de Capaciá em dia de corpo de Deos q foy vefpera de fam Ioão deu a fua nao em feco & ficou na vafa fem perigar ate que tornou a nadar com a maré & dahi foy ter a Malaca Õde achou por capitão Garcia de fá, & foy muito bé recebido dele & de toda a géte: porque polos muytos mãtimétos que trouue ficou a terra tão abaí- tada q oytenta gantas darroz valião hú cruzado valendo dantes ho mefmo quatro. E ho Lafcar dizia que Antonio correa era fanóto que tirara a Tomo III 8
  • 58 Hifioria da índia fome da terra: & também coefta fartura, a gente del rey de Bintão que tinha cercada Malaca leuãtou ho cerco, & fe recolheo ao Pago onde el rey eftaua. E porq eítando ele ali fempre auia de mandar correr a Ma¬ laca & darlhe muyta oppreflam, affentarão Garcia de fá & Antonio cor- rea que era neceflario laçado dali fora, & que Antonio correa ho foffe fazer, & foffe por capitão mór, & pera iffo partio de Malaca a qulze de Iulho, '& forão coele eítes capitães, Duarte de melo, Duarte furtado, Duarte coelho, Anrriq leme, Manuel pacheco, Bertolameu dafonfeca ca¬ pitão das lancharas de Malaca, Frãcifco de fequeyra, Carlos carualho, Diogo diaz, Chriítouão diaz, Ruy mendez, Ioão falgado, & outros a que não foube os nomes que por todos erão trinta em nauios redõdos, cara- uelas, galés, lancharas & hú Bargantim, & em todos quatrocentos & cin- coéta homés ate quinhctos .f. céto & cincoeta dos noffos & trezétos dos da terra, & ele hia em húa galé & foyfe dereyto ao rio de Muar que he largo & alto como ja diffe & bé pouoado de gete dú cabo & do outro & dambas as bãdas he aruoredo tão alto & tã baíto que não fe ve ali foi fe não ao meyo dia: por efte rio detro ate feys legoas fe faz húa boca dú eítreito q fe chama Pago, & por ele acima eftaua húa pouoação muyto grãdc do mefmo nome em que el rey de Bintão moraua em húas grãdes & fumptuofas cafas cercadas todas deítancias dartelharias, & ho efteiro atraueffado de muytas & fortes eftacadas: & na entrada dele pelo rio grande eftaua húa fortiffima tranqueyra de duas faces muyto larga & ambas de paos ferros q fam quaíl tão groffos como maítos & da mefma dureza do ferro que não apodrecem nagoa, & entulhado de troços dos mefmos paos & doutros com húa porta no meyo que fe fechaua por onde entrauão & fayão as fuas lancharas: & neíla trãqueyra eítauão afletados arrezoadaméte de tiros dartelharia, & em goarda dela hú capitão del rey de Bintão com muyta gête de peleja, & por iffo como pola fortaleza da trãqueyra parecia a el rey de Bintão q eftaua ali muyto feguro, & não fomete a noffa armada que ele fabia q auia de fer pequena, mas a mais grolfa do múdo a não auia de desbaratar. E entrado Antonio correa por efte rio que he todo em voltas foy por ele ate a trãqueira dos immigos & furgio na derradeyra volta detrás de húa ponta ondeftaua feguro de fua artelharia, & ficaua tão perto da tranqueyra que ouuia ho tõ da fala dos immigos, & de noyte mandou efpiar a tranqueyra por hú Iorge me- furado feytor da fua nao que fabia bem a liqgoa malaya, & foy em hú balanço q fe rema de pangayo, & por iffo não leuaua mais q hú foo re- meiro, pelo que não foy fentido nem viíto com a grande fombra do aruo¬ redo. E chegando á tranqueyra ouuios falar hús cõ os outros, & dizião que eíteueffem preítes porque os frangues eítauão á porta: & paffado ho
  • Livro V, Capitolo XXXV $9 quarto da modorra tornou com recado a Antonio correa a que contou o que ouuira, & que no rumor da géte parecia que era muyta. Antonio correa chamou logo a confelho, & os capitães da armada & peffoas prin- cipaes dela: & defpois de lhes contar o que lhe Iorge mefurado diífera, diífelhes. Se nefta guerra fenhores foreys tão nouos como eu fou, & eu tão antigo como vos: parecerame que era neceífario esforçaruos pera efta batalha: mas pois eu q fou nouo nela eftou esforçado com a confiãça que tenho em noffo lenhor, & por vos ter em minha companhia, que fareis vos que quafi tendes de juro vencer a eftes mouros, & vos moftrou noífo fenhor tantas vezes feu poder em os vencerdes fendo tão poucos & eles tãtos que cobrião a terra & ho mar: por iflo ey por efcufado querer dar esforço a quem ho tem pera fi & pera ml, fe não dizeruos que prazendo a noífo fenor como for manhaã daremos na tranqueyra, leuãdo diante Duarte de melo na fua carauela pera q nos faça caminho & poffamos fobir polos maftos & exarcia dela: & nenhú de vos tirara com fua arte- lharia ate que eu não faça final com húa efpera que leuo. E ifto affentado tornarãfe os capitães aos nauios, & poftos em ordem como foy manhaã abalarão a remo pera a trãqueyra, & a carauela hia á toa, & em defco- brindo a ponta defparou a artelharia dos immigos com ho feu efpantofo impeto, & por eftar dalto não fez nojo aos noífos, que també em defco- brindo a põta começarão de jugar com fuas bombardas, começãdo pri- meyro Antonio correa com a fua efpera & ajuntoufe ho fumo delas com o que as dos Imigos lãçauão, & fezfe dambos húa neuoa tão grolfa & negra que tudo ficou efcuro: pore os noífos pelouros varejauão tão rijo pola tranqueyra q os immigos fe efpantarão & fugirão vendo que nefte tempo chegou Duarte de melo á tranqueyra & abalrrou coela, o que eles não cuydauão que podia fer, & por iffo fugirão, pelo que os da carauela que em albarroando começarão de fubir pola enxarcia não acharão na tranqueyra quem lhe refiftiífe, o q diíferão aos outros & abrirãlhes as portas por Õde étrarão muyto ledos com grandes gritas de louuores a noífo fenhor, principalmente Antonio correa por alcãçar tão facilmente húa tão famofa vitoria como aquela foy, porque tanto motaua vecer cÕ ho medo q lhe ouuerão, como pelejando. Entrados os noífos acharão muytas panelas darroz cozido & outras igoarias q os immigos tinhão pera almoçar que eftauão ainda quentes, de q almoçarã: & defpois apanharão algúas alcatifas que acharão & recolherão aos nauios vinte peças darte- lharia de metal, em que auia algús berços com as efperas del rey de Portugal.
  • 6o Hijloria da índia CAPITOLO .XXXVI. De como el rey de Bintâo com toda fua gête figio do pago por medo Dantonio correa, 6 como foy queymada & dejlruida aquela força. Ecomo a principal coufa daqle feyto era lançar fora do pago a el rey de Bltão: determinou Antonio correa de ho fazer, & afli ho diífe aos feus capitães: com que affentou que Duarte de melo ficafle na boca do eftreito com ho feu nauio de fora no rio, & ele cÕ os pequenos & bateys entrafTe polo eftreito: & afíi fe fez indo ele diante de todos em hú batel apadelTado por lhe não fazeré nojo as frechas q os Imigos lhe poderião tirar de terra. E porque foy auifado que tinhão ferrado quafi todo aqle aruoredo dambas as bandas do rio pera ho derribarem nele com cordas q lhes tinhão atadas nas pontas tanto q os noflos entraífem por ele pera coiffo lhe impedirem a paffajem: leuaua diante de fi húa mã- chua & vinte carpinteiros nela com machados pera desfazerem as aruo- res em troços & defembaraçarem ho caminho, que tãbem eftaua atrauan- cado com as eftacadas, & por iffo leuaua ele aparelhos no feu batel pera q os q hião nele foflem arrãcãdo as eftacadas: como arrancarão com muyto trabalho, & coele cortarão também os carpinteiros o que os Imi¬ gos derribarão em os noffos entrando. E coeftes embaraços fizerão os noífos algúa detença em chegar ao pago, porem chegarão cõ muyto grãde efpanto dos Imigos que fempre cuydarão q os eftoruaflem tãtos impedi¬ mentos. E vendo el rey como hião ajuntou fua gente que era muyta & muytos alifantes de caftelos junto das fuas cafas que eftauão em hú tefo dúa bãda do efteiro que partia a cidade polo meyo a q daua feruentia húa ponte de madeira q ho atraueffaua, & os Imigos eftauão a vifta dos noffos fazendolhes grãdes rebolarias de gritas, & defparando fua artelharia: de que os noífos não fizerão conta, & com grande ímpeto poyarão em terra, & primeyro Afonfo valete q era ho alferez, & Antonio correa que quifera leuar a gente em ordem, mas não pode: porque nem ela tinha lufriméto pera iffo, nem a multidão de frechas que os inimigos defparauão os dei- xaua: & do meyo do tefo arremetem a eles chamando polo apoftolo San¬ tiago, correndo a quem primeyro chegaua aos inimigos, que vendo a fúria dos noflos, & reprefentandofelhe diante o q tinhão paliado pera chegar ali, ou poendolhes noffo fenhor hú terror muy grande como he de crer, fem mais pelejar começão de fugir a quê mais podia, & os noflos apos eles derribando muytos mortos por efle chão & deixarannos logo por não faberem a terra que não quis Antonio correa que lhes fobreuiefie algú
  • Livro V, Capitolo XXXVI 1 61 perigo. E á porta das cafas del rey fez rauytos caualeyros por memória de tão famofa vitoria como aquela foy fem dos noífos fer nenhú ferido nem morto, & dos immigos muytos & catiuos: & faqueadas as cafas del rey & a cidade, em que fe ouue muyto & muy rico defpojo a fora a ar- telharia foy tudo queymado, & aífi a frota del rey que eftaua recolhida no eitreito em que auia bem cem calaluzes, lancharas & mãchuas & algús dourados nas proas & popas em que el rey coítumaua dandar: & eítes eftauao cheos de poluora & de lenha, & porque os noífos os não leuaífem lhes poferão os immigos fogo em fugindo, & a dous deites dourados mã- dou Antonio correa apagar o fogo & meos queymados os leuou a Ma- laca, & deita vez ficou el rey de Bintão tão deítroçado q fe acolheu a Bintão que era perto de Malaca, pera onde fe partio Antonio correa def- pois de queymar a tranqueyra, & laa foy recebido com muyta feita pola liurar de tamanho cerco & de fome tão apertada. CAPITOLO .XXXVII. Do façanhofo feito que cinco dos noffos fi\erão defendendofe de Raja çudamcci & de fua gente que matarão quafi toda & lhe tomarão hãa lãchara. SEndo Antonio correa é Pegú, el rey de Pacem que era tirano & tinha tomado ho reyno ao proprio rey que matara leuantoufe con¬ tra os noíTos que eítauão em Pacem & erão vinte quatro criados de dom Aleixo de menefes & de dom Ioão de lima, & todos forão mor¬ tos & tomarãlhe muyta fazenda que tinhão del rey de Portugal, & deites fidalgos, & doutras partes que valia fetenta mil cruzados, & pola guerra que el rey de Bintão fazia a Malaca não fe tomou diílo vingança, & def- pois que Antonio correa a liurou do cerco, mandou Garcia de fá a Ma¬ nuel pacheco em húa nao em que andaífe darmada de Pacem ate Achem, & não deixaífe entrar em nenhú deites dous portos nauio algú fem fayr, nem confentiífe que fayífem deles a pefcar, porque eíta era a mayor guerra que fe lhe podia fazer, & deulhe vinte dos noffos antre foldados & marinheiros: & partio Manuel pacheco pera laa quafi na fim Dagoito, & como chegou foy logo fentido, porque nem lhe ficou pefcador que não tomaffe, nem deixaua entrar nenhú nauio eitrangeiro & fe aperfiauão me¬ tia os no fundo. E andado aífi por lhes faltar agoa mandou Manuel pa¬ checo fazer agoada em hú rio chamado Iacaparí húa legoa do de Pacem & forão no batel a fazela no mais de cinco homés, Antonio paçanha Da- lanquer, Ioão dalmeida de quintela criado Dantonio correa, Antonio de
  • 62 Hijloria da índia vera do Porto, Francifco gramaxo moço da camara da condeftrabefa & ho barbeiro da nao, & os remeiros, & a nao ficaria húa legoa a lamar. E feyta agoada, & tomados palmitos começarão de fe fayr do rio: & nifto acode fobreles tanta forna de géte dambas as partes do rio que foy coufa defpanto velos & as gritas que dauão, & as frechas que lhes tira- uão, porque todos eftauão magoados deles pola guerra que lhes fazião, & como os nofios não leuauão arrombadas que os emparafle, fizerãnas das adargas poendo as dianteiras nos bordos do batel, & as cofias hús nos outros, & em pouco tempo todas as adargas forão empenadas: & quis noífo fenhor que nenhú não foy ferido, & com muyto trabalho fay- rão do rio tirando caminho da nao: & indo quafi a meya legoa dela, não poderão furdir por mais que os remeiros remauão por crecer a maré & ventar a viração q tudo era contreles. E eftando nefta fadiga ex que faem do rio de Pacem tres grandes lancharas cÕ mil homés de peleja fegúdo fe delpois foube: & hia por capitão delas hú mouro Iao muyto valente caualeyro, que auia nome Raja çudameci capitão mór do mar del rey de Pacem, & as Lancharas hião húas das outras a tiro defpingarda, & a ca- pitaina hia diante, & enxergauafe logo pola bandeira que leuaua, & todas hião a boga arrancada por chegar ao noífo batel, & os q hião nele vendo que da nao lhe não podião acodir por não auer em que: & que a capi- taina dos immigos lhes hia chegando, & que não tinhão remedio fe noífo fenhor não acodia, encomendaranfe a ele muyto deuotamente, & aíli a noífa fenhora: & esforçados coiífo acordarão que tanto que os immigos abalrroaffem coeles trabalhaífem polos entrar pola proa da lanchara, por¬ que como era eftreita poderfehião ali ajudar deles melhor que em outra parte, & mais que em a lanchara abalrroãdo pegaífe ho barbeiro com as mãos nela & a teueífe ho mais que podeffe. E afli ho fez, que em os im¬ migos chegando lançou as mãos na lanchara & a teue como a poderá ter húa abalrroa, & com quanto as gritas que os immigos dauão, & os inf- tormentos que tangião, & as frechas que tirauão era pera efpantar a muy- tos, quanto mais a tão poucos como eram os nolfos: eles confiados em noífo fenhor & em fua gloriofa madre, bradando por eles de todo cora¬ ção fe arremedarão na proa da lanchara, & dali com esforço milagrofo começão ás lãçadas com os immigos & matar, afli os lafcarins como os remeyros que a nenhú perdoauão. E os immigos que hião muyto fora de lhes parecer que feria por os noífos não fere mais de quatro & eles polo menos trezentos afli remeyros como lafcarins: vedo que os noífos pelejauão daquela maneyra começarão de fe lançar ao mar, & outros fe retirarão pera a popa da lanchara ondeftaua Raja çudameci que fe pos diante dos feus pera refifiir aos noífos & durou aqui a peleja quafi húa
  • Livro V, Capitolo XXXVIII 63 hora em que os noífos forão todos feridos: mas eles pelejarão també com ajuda de nofTo fenhor, q he de crer que os ajudaua: que não fomente ma¬ tarão a mayor parte dos immigos, & outros fizerão lãçar ao mar muyto feridos, & ho derradeyro foy Rajaçudameci ferido de cinco lançadas, que parece que fe lançou mais pera fe vlgar da fraqueza dos feus que pera faluar a vida, porque defpois que foy no mar nadando com pe's & com húa mão, com a outra mataua quantos podia alcãçar com hú rico terçado q trazia: & afli andou ate que fe fumio debaixo dagoa, & as duas lan¬ charas que ficauão a tras vendo aquela desbaratada, ou defpois que co¬ meçarão de ver que ho auiã de fer não oufarão de paffar & tornaranfe: no que parece bem que quis noífo fenhor dar vida aos noffos, porque fegúdo eftauão feridos & caníados fe os immigos chegarão a eles ali aca¬ barão fuas vidas: & com vitoria tão milagrofa como cfta foy ficarão fenhores da lanchara & fe forão pera a nao defpois que vazou a maré: onde todos derão muytas graças a noífo fenhor por tamanha merce como aquela foy: com que os Imigos ficarão tão efpantados q afli auião medo dos noífos afli como do fogo & nao oufauão de bolir configo. E recebendo el rey de Pacem perda grandiflima defta guerra, mandou dizer a Manuel pacheco que pagaria a fazenda dos noífos que fora tomada em fua terra, & que fizeífe paz coele: & afli ho aflentarão ate faber de Garcia de fá fe era contente, & ele ho foy defpois q el rey de Pacem comprio o que dizia, & Manuel pacheco Ieuou a lanchara que os noífos quatro tomarão a Malaca: & por memória do milagre que noífo fenhor fez lhe mandou fazer hú alpédere cuberto & a pos nele fobre hús vafos pera que durafle pera fempre. E vinda a moução pera a índia como quer que Malaca ficaua liure da guerra: partiofe Antonio correa pera Cochim & Ieuou co- figo aqueles cinco por quem noífo fenhor fez ho milagre. CAPITOLO .XXXVIII. De como fe leuantarão contra Eytor rodrigneç capitão da fortaleza de Coulão a raynha de Coulão & a de Comorim. EYtor rodriguez capitão & feytor da fortaleza de Coulão tendo a quafi acabada defpois de ho gouernador fer partido pera ho eftreito, mandou dizer á raynha de Coulão per Gafpar ferraz & Luys alua- ’ rez efcriuães da feytoria, que lhe mandalfe pagar fetenta & cinco bares de pimenta que lhe quebrarão no pefo da que comprara pera a carrega das naos, como lhe os feus feytores & corretores ficarão de pagar: & afli duzentos & oytenta bares de pimenta que deuia da forna que ficara de
  • €4 Hiftoria da índia pagar pola fazenda que fe tomou a Antonio de fá quando ho matarão, & que lhe madaua pedir efta diuida por quanto acabaua no anno feguinte feu tempo & fe auia de ir pera Portugal, & auia de dar conta pelo que tinha necellidade de arrecadar o que lhe diuião, porque o que lhe fuce- deffe não auia de querer arrecadar as diuidas que ele fizera. Ao que ela refpondeo que pagaria os duzentos & oytenta bares que deuia do cõcerto das pazes: porem que fe ouuera dauer refpeito pera lha quitaré ao grade fauor & ajuda que dera pera fe fazer a fortaleza que fem iífo não poderá ir por deante: & quanto aas quebras da pimenta que as não auia de pa¬ gar, porque não fe pagauão em Cochim nem em Caicoulão. Ao que ho capitão repricou, dizendo que fe fizera feruiço a el rey de Portugal, que ele era tão manifico que lho pagaria muyto bem, porque adi ho vfaua com aqueles que ho feruião. E quanto aa quebra da pimenta também a deuia de pagar ou mandar aos corretores que a venderão que a pagaf- fem: porque aqueixandofe ele da pimenta que era molhada lhe diíferão ho regedor, & efcriuães, & corretores que fe pefaífe a pimenta, & fe dei- taffe ao foi tres ou quatro bares, & defpois de feca fe repefaífe & o que fe achaffe que quebraua que ele a faria pagar aos corretores, ®u a paga¬ ria, & q ifto fe afientara. Ao que a raynha refpondeo como dãtes & ho mefmo fez ho regedor, moftrandofe ambos muyto defcontétes Deytor ro- driguez: & a mefma repofta derão outra vez que lhe ele tornou a man¬ dar outro recado como ho primeyro. E de tudo Eytor rodriguez mandou fazer hú auto pelos mefmos efcriuães que leuauão os recados, porque ho gouernador quando tornafie do eftreito foubeffe como paffaua a coufa, & lhe não pofeífe culpa íe a raynha le aleuantaffe contra a fortaleza: o que ele receaua porque fabia quão aluoraçada era aquela gente, & quãto fe efcandalizaua de qualquer coufa, principalmente fe tocaua em feu inte- reffe. O que ele bem receou, porque tanto que a raynha vio que lhe pe¬ dia a pimenta de verdade, & que não podia deixar de a dar, agaftoufe coiffo muyto: porque fempre feu fundamento foy que a não auia de pagar & lha quitarião polo muyto fauor que deu a fe fazer a fortaleza, & coefta tenção ho daua. E vedo que lhe faya em branco tomou pera remedio de nã pagar nenhúa pimenta leuantarfe & fazer guerra aa fortaleza, & mais que via ho tempo defpofto pera iffo por a pouca gente que auia na forta¬ leza que a defendefie, & ho pouco focorro que podia ter por ho gouerna¬ dor ler fora da índia & leuar coníigo toda a gente darmas dela. E pera poer em obra fua determinação, perfuadio á raynha de Comorim que a ajudafle a efta guerra com dous filhos que tinha, & que logo tomarião a fortaleza & matarião quãtos Portuguefes eftauão dentro. E concertadas ambas, chamarão também em fua ajuda algús mouros. E tendo entre íi
  • Livro V, Capitolo XXXVIII 65 feyto efte concerto, efperando tempo pera ho executarem, acertarão hú dia feflenta Bigairls de irem da parte de Comorim pera a fortaleza car¬ regados de conchas doftras & de lenha pera fazerem cal, & hia coeles hú homem Deitor rodriguez: o que fabido por Matanatriuiri hú dos filhos da raynha de Comorim, mandou certos Naires feus, & alfi algús mouros que lhe efpalhaífem a lenha & concha & os efpancaífem. O q eles logo fizerão, & ho Português que hia com os Bigarins fugio pera a fortaleza, & contou o que paífaua a Eytor rodriguez, que não lhe parecendo ainda o que era porque aquilo fora feyto por Naires da parte de Comorim fe mandou aqueixar ao regedor delrey de Comorim per Luys aluarez & Gafpar ferraz efcriuães da feytoria. E íendolhe feyto efte queixume, ele diffimulou: dizendolhe que lhe pefaua muyto do mal que os Nayres fize¬ rão: & quãdo Eytor rodriguez quifeífe mandar leuar algúa coufa pera a fortaleza da parte de Comorim que lho mandaffe dizer, & que ele daria hú mãdado pera que não fizeffem mal a quem a trouueífe: & ho mefmo queixume mandaua Eytor rodriguez d raynha de Coulão, mas ela não ho quis receber, & fezfe partida de Coulão. E porque ele foy auifado que fe dizia na parte de Comorim que fe lá foífe ter algú Português que lhe auião de cortar as pernas & matalo, mandou ho preguntar á raynha de Comorim le era afli, & ifto per hú Malabar efcriuão da feytoria que não oufou de mandar laa Português. E a raynha & feus filhos refponderão que ateli fora fua vontade de os Portuguefes irem a Coulão: mas que dali por deante fe algú laa foífe que ho auião de mãdar matar. O que fabido por Eytor rodriguez mandou que nenhú Portuguez não foífe mais a Coulão. E auendo dous dias que ‘ifto affi andaua foube que húa nao de Malabares q eítaua no porto tomaua húa noyte pimenta, & auia dacabar de carregar no mar, & lhe auião de leuar a pimenta em tónes: & tendo vigia quando hião os mãdou tomar por hú loão de Chaues meirinho da fortaleza que foy em hú catur, & tomou fete tónes carregados de pimenta com quantos remeiros hião neles. O que fabendo a raynha de Coulão os mandou logo pedir a Eytor rodriguez, & ele não lhos quis mandar, dizendo que lhe pedia que lhos deixaífe caftigar porque lhe tinhão leuado mais de feys mil bares de piméta, & por iífo erão catiuos del rey de Por¬ tugal: poré q ele falaria cõ os oíficiaes da fortaleza, & q tudo fe faria muyto a feu feruiço como fépre fe fizera: do q a rainha ficou muyto def- cõtcte. E cõ quato Eytor rodriguez lhe mãdou os remeyros ao outro dia ela os nã quis ver, & ho regedor de Coulão que eftaua coela diífe a Luys aluarez que os leuaua, que pera que os leuauão então fe lhos não quife- rão mandar quando lhos pedião. E como ja tudo efteueífe muyto danado contra os Portuguefes, começarão os Naires que hi eftauão de dizer que Tomo III
  • 66 Hijloria da índia mataffem Luys aluarez & os que hião coele: o que lhe ho lingoa difíe: pelo que ele na efperou repofta da raynha & foyfe ho mais afinha que pode pera a fortaleza onde achou acolhidos muytos Chriftãos de Coulão, que fugirão pera lá com medo de Matanatriuiri que os mandaua matar por amor dos remeyros que eftauão prefos: & logo a raynha de Coulão & a de Comorim defenderão geralmente que nenhum official da terra não folie mais trabalhar nas obras da fortaleza, nem leuaífem lá manti- metos: E alli fe fez. O que vedo Eytor rodriguez ho efcreueo logo a dom Aleixo de meneies que eftaua em Cochim, pedindolhe que lhe mã- dalfe vinte be'íteiros & efpingardeiros pera defender coeles a fortaleza: pedindolhe também que lhe mãdaffe algú dinheiro de que tinha neceífi- dade pera acabar duas torres que eftauão por acabar. A que dom Aleixo refpondeo que não auia efpingardeiros nem béfteiros q todos ho gouer- nador leuara ao eftreito, nem tão pouco tinha dinheiro que virião as naos de Portugal & então lho mandaria. E vendo Eitor rodriguez tão mao re- medio, bufcou dinheiro que tomou a Õzena cõ que acabou fua obra. CAPITOLO .XXXIX. De como a raynha de Coulão & a de Comorim quiferão tomar a fortaleza por treyção & não poderão. DEterminãdo as raynhas de Coulão & de Comorim de tomar a noffa fortaleza: parecendolhes que por guerra lhes feria dificultofo, de¬ terminarão de a tomar por treição: o que concertarão com aque¬ les tres irmãos malabares q atras diffe .f. Vnirey pulá, Balapulá goripo, Coulegoripo que morauão com a raynha de Comorim. E a maneyra da treição auia de fer fingindo terem agrauos dos filhos da raynha de Co- morl, & auiâo de cometer Eytor rodriguez que querião viuer com el rey de Portugal & feruilo: & fingindo medo de ferem fintidos não auião de querer falarlhe na fortaleza le não na igreja de fam Thome & ifto de noyte, onde fe folie ho matarião com quantos foliem coele, & com gente que eftaria preftes tomarião a fortaleza. E ifto affentado fazianfe os tres irmãos muyto amigos Deitor rodriguez, mandandolhe muytos auilbs fin¬ gidos do que as raynhas determinauão: no que ele não atétaua pola ami¬ zade que dantes tinhão coele. E com tudo não hião á fortaleza, mas man- dauanlhe muytos auifos fingidos, & moftrauanfe grandes feus amigos & feruidores del rey de Portugal ate fingiré de querere tornar a aflétar a paz q eftaua qbrada: & nifto andarão algús dias ate que mandarão dizer a Eytor rodriguez q ho não podião acabar. E chegado ho inuerno em
  • Livro V, Capitolo XXXIX 67 que determinarão de executar a treição q trazião forjada, mandarão dizer a Eytor rodriguez per hú Chriílão de Caycoulão chamado Matias, que a fora ho rey grãde de Coulão eftar muyto mal coeles por ajudaré a fazer a fortaleza, & affi os principaes & pouo da terra: indo hú dia a cafa de Ramatreuiri filho da raynha de Comorim, & ele os não quifera ver & fizera q dormia, no q lhes fizera muyto grãde desfauor, & mais que aquilo lhes parecia vefpera de os deftruyr, o que temião muyto por ve¬ rem a terra tão aluoroçada contra a fortaleza, & que fe querião vingar do odio q lhe tinhão pola ajudarem a fazer: & por outra parte pofto que affi não foífe, & quifeffem as raynhas que eles lhes ajudaflem contrele naquela guerra q fabia que lhe auião de fazer, que ficauão delfruydos, porque fabião que elas não auião de leuar ho melhor da guerra, & eles não ganharião mais que ficarenlhes os Portuguefes por immigos, o que eles não querião por nenhú preço: por iffo fe os ele quifeífe receber pera viuerem cÕ el rey de Portugal, & lhes dar o foldo que lhes daua ho rey grande, que affentarião viuenda cÕ el rey de Portugal & ferião feus pera fempre, & morrerião na guerra q efperauão. E vendo Eytor rodriguez como ambas as raynhas eftauão de guerra: & que aqueles tres irmãos ho ajudarião muyto nela, affi por ferem principaes da terra, como por ajuntarem a hú repique leys centos Naires, & ferem tão vezinhos da for¬ taleza: pareceolhe bé aceitar ho partido que lhe cometião, fobre 0 que fe confelhou com Matias, & defpois cõ Chriftouão de bairros feu genrro, & alcayde mór da fortaleza, & affi cõ outros officiaes & homés horrados dela. E per todos, foy acordado q os tres irmãos fe deuião de tomar por criados del rey de Portugal, com lhe daré a moradia & foldo que tinhão do rey grande de Coulão, que erão corenta cruzados a cada hú por anno: & ho foldo & ordenado da terra quando de fuas peífoas & de feus Nai¬ res fe quifeífe feruir na guerra. E ifto affinado por todos os que forão no confelho, mandou Eytor rodriguez dizer aos tres irmãos por Matias que foífem fós á fortaleza pera aflentar coeles a viuenda com el rey de Por¬ tugal: do que eles fe moftrarão muyto alegres, porem efcufaranfe dir á fortaleza, porque não folie fentido da géte da terra o que querião fazer: mas que á boca da noyte fe ajuntarião coele na igreja de fam Thome onde leuaria os principaes da fortaleza & peranteles lhes juraria de com- prir o que alfentaíle coeles: & iflo com tenção de terem quinze mil ho¬ mens em cilada, & em quanto hús mataflem Eytor rodriguez & os que ho acompanhauão, os outros entrarião de fupito na fortaleza que.auia deflar aberta, & a tomarião. E não caindo ainda Eytor rodriguez nefta treiçã, lhes refpõdeo que bufcalTem outra maneyra pera aflentar feu par¬ tido, porq bé fabião que auia hú anno que não fava da fortaleza nem
  • 68 Hijioria da índia auia de íayr por nhúa maneyra, & quando os irmãos virão que não po- dião acolher Eytor rodriguez, diíferão que pois ele não podia ir á igreja que dizião que foífem na noyte feguinte feus gérros ho alcayde mór, & Duarte varela & Luys aluarez efcriuão de feytoria, & eles abaftarião pera fazerem o q ele fizera: & ifto pera os matarem, porque fabião que como matalfem eftes que erão os principais com q fe Eytor rodriguez auia de deféder facilmente leuarião a fortaleza nas mãos. E quis nofio fenhor que quãdo foy a boca da noyte em que auia de fer a treição q Eytor ro¬ driguez fe achou mal fentido, & mandou dizer aos tres irmãos que por efla rezão não podia praticar com ho alcayde mór, né com os outros que auião dir, o que auião de fazer que ficaífe pera outro dia, & que ele lhes mandaria dizer quãdo. E paliados dous dias lhes mandou dizer que aquela noyte fofTem á igreja & fe faria ho concerto. E como eles eftauão defa- percebidos pera a treição, relponderão que aquele não era bõ dia pera fazer mudança que ficaífe pera outro q foífe bõ: & logo apos aquela repofta lhe mãdou dizer Balapulá goripo ho principal da treyção que na mefma noyte queria ir á fortaleza pera aífentar coele por li & por feus irmãos. E como tudo erão métiras nã foy, & fez efperar Eytor rodriguez ate mea noyte: & em amanhecédo lhe mandarão todos tres outro recado, que eles não hião aa fortaleza por lhe dizerem feus parétes que não fe fiaífem dele, & por iffo não oufauão dir, que lhes mandaífe por arrefens feus genrros & outros homés honrrados que ficaífem em fua cafa em quãto foífem aa fortaleza, & q irião logo. E ifto com determinação de então acabarem fua treição pera o que tinhão qulze mil homés como dã- tes: mas quis nofio fenhor lembrarfe dos Portuguefes, & abrio os olhos do entendimento a Eytor rodriguez, pera que vilfe claramente a treição que lhe querião fazer, & refpondeo que não queria coeles partido nenhú que efteueífem como dantes. CAPITOLO .XL. De como as raynhas mandarão cercar a fortaleça. VEndose os tres irmãos defefperados de poderé fazer a treição q determinauão, diíferãno aas raynhas: que confultarão coeles que pois não podião tomar a fortaleza por treição q a tomaífem por guerra, porque não podia fer q tão poucos Portuguefes como eftauão nela a defendeífem a tanta géte como elas tinhão, & mais em inuerno que era ja ho mar çarrado por ferem dezanoue de Iunho: & parecia que não po-
  • Livro V, Capitolo XL 69 dião fer iocorridos, & logo ajuntarão bem xv. mil naires & por capitães os tres irmãos, a q derão cuydado daqla épreífa. E tédo efta géte juta pera daré na fortaleza hú Arei grãde feruidor delrey de Portugal & amigo de Eytor rodriguez étrou de fupito na fortaleza cuberto cÕ hú pano por não fer conhecido, & lhe difle que fe goardaffe porque eftaua muyta gente junta dos immigos pera ir logo pelejar coele. E ifto dito fem mais detença fe tornou a fayr: o que ouuido por Eytor rodriguez mãdou cortar húas palmeyras que fazião hú ccuberto dõde lhe podião dar combate. E an- dãdo hús fete ou oyto homés cortado as, acodio Balapulá goripo agra- uandofe de as cortarem, & apos ele fe defcobrirão tão de fupito quinze mil homés q os Chriftãos da terra que morauão ao derredor da fortaleza não teuerão tempo de meter nela fuas fazédas: & ho melhor que poderão fe acolherão a ela cõ fuas molheres & filhos: & ifto poderão fazer por¬ que a artelharia da fortaleza jugaua muyto rijo que aíti ho mãdou Eytor rodriguez como vio os immigos, com que matou deles obra de vinte cinco em quanto durou ho combate que fov ate noyte, & eles roubarão & quey- marão as cafas dos Chriftãos da terra q fe acolherão á fortaleza, & ma¬ tarão hú Português chamado Ieronimo vaz que ãdaua fora da fortaleza por hú homizio, & dous efcrauos & hús quatro carplteiros & pedreiros da terra, porq trabalhauão na fortaleza. E nefta reuolta deitarão muyta peçonha no poço da fortaleza & em outro feu vezinho, que matou logo quantos peixes andauão neles, & defpois ho mandou Eytor rodriguez alimpar & fazer nele hú forte repairo pera ho defender aos immigos, que logo aífentarão algúas eftãcias com bombardas roqueyras q mouros q ali inuernarão lhe empreftarão das fuas naos, & coefta artelharia tira- uão á fortaleza & com muytas frechas: mas por fer a artelharia fraca não lhe fazião dãno, & porque a noíla lho não fizefie muyto fizerão muy¬ tas cauas pera fe acolherem: & ifto de noyte que de dia não oufauão de trabalhar por não fe delcobrirem a artelharia, com q os Portuguefes tirauão pofto que era de noyte atinando ao tõ das enxadadas. E coeftes tiros perdidos matarão algús dos immigos, que também tinhão tento quando os Portuguefes falauao, & tirauão muytas frechadas pelo que era neceífario aos da fortaleza de vigiaré armados: & noue dias continos teuerão efte trabalho, & afli de corridas q os Imigos fazião á fortaleza de q fempre ficauão no campo paffante de vinte mortos cõ a artelharia, & dos Portuguefes forão feridos algús de frechadas & antreles foy Duarte varela genrro Deytor rodriguez q tinha configo ate trinta homés de que cinco eftauão muyto doétes: & coeftes efperaua em noífo fenhor de fe defender a tamanha multidão dlmigos como defendeo não tendo na for¬ taleza mais que arroz, porem pera oyto mefes, & efte fe comeo na forta-
  • 7° Hiftoria da índia leza cozido em agoa tal em quanto durou ho cerco, & ás vezes ratos pera que lhes pareceffe que comião carne. CAPITOLO .XLI. De como dó Aleixo de menefes mandou focorrer a fortaleza de Coulão per dom Afonfo de menefes. NA hora q os Imigos poferão cerco fobre a fortaleza, hú Chatim de Cochim feruidor del rey de Portugal que eftaua em Coulão, par- tio logo pera Cochim & foy dizer a dom Aleixo de menefes o que paffaua. E vendo ele ho perigo em que ficaua a fortaleza por a pouca gente q tinha pera a defender, mandou em feu focorro dõ Afonfo de meneies filho do conde dom Pedro muyto esforçado caualevro, que foy em húa fufta com dezanoue homés mal armados & fete deles efpin- gardeiros, & hú pouco de bifcoilo, & duas pipas de carne, & duas car- teirolas de poluora: & com quãto era inuerno quis noffo fenhor dar jazigo ao mar que a fufta foy a faluamento & é poucos dias chegou ao porto de Coulão, onde os immigos a feruirão com affaz de frechadas & bom- bardadas & com hú efpingardão ferirão ho comitre da fufta de húa peri- gofa ferida: & dom Afonfo fe vio em grãde fadiga porque não tinha pa- raó em que podeffe defembarcar, né Eytor rodriguez não tinha nenhú que tudo lhe queymarão os immigos. E vendo que não auia outro reme- dio, mandou hú homem a nado, que foffe dizer a dom Afonfo que fe che- gaffe tanto a terra que pofeffe nela ho efporão, & que defembarcaria com géte que lhe mãdaria da fortaleza, E mandou ho alcayde mór com vinte homés: & em laindo da fortaleza começou de jugar a artelharia que eftaua daquela banda, porque embaraçalfe os immigos que por fere tan¬ tos não tinhão em conta os pelouros. E vendo que dom Afonfo defébar- caua poferão fogo ás fuas bombardadas, & defparauão frechas fem conto, & foy húa bem perigofa defembarcação. E com tudo aprouue a noffo fenhor q nenhú dos Portuguefes não foy ferido, & todos fe recolherão c faluo á fortaleza com as armas e adargas bem cubertas de frechas: & coefte focorro chegauão os que eftauão nela a cincoéta, com que os im¬ migos teuerão grande defprazer parecendolhes que de cadauez que a for¬ taleza teueffe neceflidade de focorro lho mãdarião de Cochim. E os mou¬ ros q hi inuernauão & dcfejauão muyto de ver tomada a fortaleza lhes dizião que não fe enganaffem, porque em Cochim não auia mais gente com que podeffem focorrer a fortaleza pofto que diffo teueffe neceflidade, porq a leuara ho gouernador toda ao eftreito: & mais que aquela fufta
  • Livro V, Capitolo XLI 7i nao hia pera mais que pera leuar a Cochim os que eftauão na fortaleza, por iffo que trabalhaflem pola arrobar porque os não leuafle: & defpois tomarião a fortaleza. E cuydando os Naires que ifto era alll afleftarão húa bombardeta grofla na fufta & afadigauãna muyto rijo, & mataranlhe hú remeyro. O que vendo Eytor rodriguez aflentou com dÕ Afonfo que foflem tomar aquela bombarda, pera o que fayrão húa ante manhaã com trinta homens & remeterão aa eftancia, & derão nos Narres que a goar- dauão: a que acodio logo Balapulá goripo que era ho capitão daquela eítãcia, & começarão de pelejar & logo Duarte varela a que era encomé- dado que com certos homcs tomafie a bombarda remeteo a ela pera a tomar, mas acharãna liada no repairo cõ hús cabres tão fortes que núca os poderão cortar com as efpadas: & vendo que a não podião leuar a deixarão, & também porque a gente recrecia muyto q foy forçado a Ey¬ tor rodriguez recolherfe o q fez cõ algúa afrõta & ficarão fete dos immi- gos mortos, & mais leuaranlhe a camara da bombarda com q por hús dias lhe impidirão q não podeíTe jugar ate que fizerão outra, & dos Por- tuguefes não foy nenhú ferido. E não deixãdo ainda os immigos de per- 1'eguir a fufta com outras bombardadas miúdas, acordarão dom AfÕlo & Eytor rodriguez de a mandar a Cochim. E afli ho fizerão, & por ho mar ãdar ja muyto grofio não pode mais chegar que á cale' & hi inuernou, & como a fufta fe partio de noyte que os immigos a não virão partir, quando foy menhã que a não virão cuydarão q a géte da fortaleza fe fora nela como lhe os mouros dizião, & mais porque não parecia ningué pola for¬ taleza: & os mouros lho affirmarão mais. E cuydando as raynhas que era afli mandarão a feus capitães que deflem na fortaleza & a tomaflem: pera o que fe ajútarão todos cõ grandes alegrias de gritas & de tãger de trobetas, & melhorando fuas eftácias remeterão á fortaleza & come¬ çarão de lhe dar bateria cõ fuas bombardas, & porque a principal era a porta da fortaleza, & Eytor rodriguez fe temeo que a quebraflem man¬ dou poer algús homés em húa goarita que eftaua fobre a porta pera q a defendefiem com grãdes pedras & panelas de poluora, & fez feu capitão a hú Pero lourenço criado del rey de Portugal, & ele pos fe em baixo no patio da fortaleza com vinte homés armados & mandou abrir a porta pera que os immigos entraflem fe quifeflem. E vendo eles a determina¬ ção dos Portuguefes nã oufarão de cometer a porta, mas tirauão multi¬ dão de frechadas, & os Portuguefes efpingardadas & bõbardadas, & afli efteuerão bé duas horas & fe tornarão os Imigos a recolher a fuas ertan- cias ficãdo mortos obra de trlta & dos noflos nhú.
  • 72 Hijloria da índia CAPITOLO .XLII. Do q focedeo na guerra aos Porluguefes & aos imigos. VEndo as raynhas & os príncipes quão pouco dãno fazião aos da fortaleza eftauão muyto agaftados, em tanto que quiferão defiftir da guerra fe os mouros lhes nã forão a mão eftranhandolho muyto: & prometendolhe que os Portuguefes fe auião dentregar, afli de cãfados de fe defenderem como da fome q os auia dapertar. E defefperados de focorro por ho gouernador ler ao eftreito Õde os rumes ho auião de def- baratar, & não auia dauer quê focorreffe a fortaleza, por iífo que efpe- raífem de a tomar, & fizeranlhe outra camara á bombarda groffa tal como a que lhe tomarão os Portuguefes & deitaua pelouro de ferro de pefo de dez arratés cõ que tornarão a tirar á fortaleza, & lhe defman- charão os curucheos das torres, com quãto erão muyto fortes: porem nas paredes dos muros não amegauão os pelouros nada, & não auia dia q não meteífem na fortaleza céto, afli defta bombarda como doutras mais pequenas: & Deos feja louuado nunca ferirão nem matarão ninguém, faluo hú efcrauo de dom Afonfo de menefes. E com toda efta opreíTam q os da fortaleza tinhão, principalméte de comerem tão mal como digo íintiãfe tão esforçados pera fazer mal aos Imigos q quaíi todolos dias fayão da fortaleza a cortarlhe os palmares, que era a mayor offenfa & dãno q lhes podião fazer, & affi ho fintiã eles muyto, efpecialmente Ma- tanatriuiri que eftaua por capitão de húa eftãcia onde era a principal deftruyção dos palmares q os Portuguefes fazião por terem ali os immi- gos grande colheita: de que os Portuguefes fcpre neftas faydas matauão algús dos que lho fayão a defender. E ho capitão deita géte que faya era as mais das vezes dõ Afonfo que neíte cerco feruio muyto bem. E vendo Eytor rodriguez como os imigos fayão a defender ho cortar das palmey- ras, mandoulhe deitar húa cilada detrás dús valos dobra de quinze efpin- gardeiros & béfteiros, & mandou a Duarte varela que cõ dez homés fofle cortar as palmeiras da parte da eftãcia de Balapulá goripo, que logo layo a lho defender com algús Naires, de que os da cilada matarão fete ou oyto, & Duarte varela fe recolheo, feguindo ho os Imigos: a que fez rofto junto do poço como muyto bÕ caualeyro que era, & mandou aos béftei¬ ros & efpingardeiros que deflfem húa çurriada nos Imigos, & afli ho fize- rão: & hú Simão aluarez criado de Eytor rodriguez acertou a Balapulá goripo húa efpingardada por ambas as coxas q lhas vazou & qbroulhe ho offo dúa que logo cayo no chão: ao que Duarte varela acodio pera ho
  • Livro V, Capitolo XLIII 7* tomar & coele Luys aluarez efcriuão da feytoria, Afonfo ferraz, Antonio da cofta, Diogo de gouuea, Pero lourenço & outros caualeyros, & tra- uoufe húa braua peleja por fobreuir tanta gente dos Imigos que quafi afo- gaua os noíTos, & por iffo não poderão catiuar Balapulá goripo, & Duarte varela foy ferido cõ húa efpada na fola de hú pé, & Afonfo ferraz foy ferido doutra de q defpois morreo, & Antonio da cofta de duas frecha¬ das, & afli outros: & recolheranfe com muyta afrota, & nem por iffo dei- xauão de fayr a cortar os palmares, o que fazião cada dia, & de cada vez matauão gente aos Imigos & lha ferião, & dos noíTos não morrerão mais que eftes q digo. E afli durou ho cerco ate oyto dias Dagofto em q acontecerão outras muytas coufas que não efcreuo por orde por as não faber particularméte, mas os Portuguefes ho fizerão fempre tãbé cõ ajuda de noífo fenhor q os Imigos fe efpãtauão: & afli foy efte hú dos hõrrados q os portuguefes fizerão na índia. CAPITOLO .XLIII. De como a raynha de Comorim pedio paç a Eytor rodriguc\ & fe leuâtou ho cerco da fortaleza. DEsenganadas as raynhas de Coulão & de Comorim q não podião tomar a fortaleza pois ho não poderão fazer e perto de dous me¬ ies que eftauão fobrela, arrependeranfe muyto de teré começada a guerra, porque vião que fizerão niflò lua perda. E a raynha de Como¬ rim quifera que pedirão paz ao capitão, & a de Coulão lhe diífe que ele auia deftar efcãdalizado delas & nã auia de querer paz, que melhor leria mandala pedir a dom Aleixo de menefes q ficaua por gouernador. No q a raynha de ComorI não quis confentir, dizendo que a quem ela fizera a guerra a eífe auia de pedir a paz. E a raynha de Coulão nã quis fe não mandala pedir a do Aleixo, a quem mandou hú feu pulá pedindo perdão do que fizera, & prometédo de ler dali por diante muyto fiel a el rey de Portugal, pedindolhe que mandafle lá com que affentaffe a paz, porque não fe atreuia a aífentala com Eytor rodriguez. E dom Aleixo defpachou logo pera iré fazer efte negocio Diogo pereyra de Cochim, & Cherina- marcar & Patemarcar mouros que foliem coele. E étre tanto que hião a raynha de Comorim q defejaua daffentar paz com Eytor rodriguez mã- doulhe recado por húa molher Chriftãa da terra chamada Cochicale muyto conhecida dos Portuguefes, que chegou á porta da fortaleza húa noyte dos oyto dias Dagofto rendido ho quarto da prima: & conhecida quem era defpois de chamar, & dizendo que queria falar a Eytor rodri- Tomo 111 IO
  • 14 Hijloria da índia guez da parte da raynha de Comorim, foy leuada diante dele: & ficando com dom Afonfo & com ho alcayde mór, & Luys aluarez efcriuão da fey- toria. Ela lhe diffe q a raynha de Comorim cganada pela de Coulão q lhe auião de tomar a fortaleza per hú ardil q Balapula goripo & feus irmãos tinhão ordenado pera iffo, fe leuantara cotrele & lhe fizera guerra, do que fe arrependia muyto & confeffaua que errara: & lhe pedia q qui- feffe coela paz, porque queria fer muyto grande feruidor del rey de Por¬ tugal, & daria pera a fortaleza toda a prouifam de mantimentos de que teuefle necefiidade: & dali por diante mandaria a feus filhos & a fua géte que mais não'Iizeffem guerra á fortaleza. E preguntada por Evtor rodri- guez fe trazia algúa carta de creça da raynha: & dizendo que não, lhe refpondeo que a trouueffe ou viefle algú pulá principal coela, & que então refponderia a bem de feyto. E ela difTe que fi traria, porq a raynha de- fejaua muyto a paz: & aífi foy que logo ao outro dia á noyte ao quarto da modorra tornou & coela Chanei pulá muyto pricipal na cafa da ray¬ nha que entrou com feguro Deitor rodriguez, a quem defpois de dar hú grande prefente de mantimétos da parte da raynha, lhe confirmou tam¬ bém com hú feu recado ho mefmo que Cochicale lhe differa a noyte pal¬ iada, pedindolhe que alê de cõfirmar a paz lhe quifeffe dar feguros pera as fuas naos nauegaré, & que deuia de folgar de lha cõfirmar por a noffa fortaleza eftar em fua terra, & fer feita contra fua vontade & de feus pu¬ las: & mais por não qrer mandar affentar paz cÕ do Aleixo como fizera a raynha de Coulão, fe não coele. E contou a Eytor rodriguez como fabendo a raynha q Diogo pereira eftaua em Caicoulão, q vinha por man¬ dado de dom Aleixo pera affentar as pazes cõ a raynha de coulão, lhe mãdara dizer q não entraffem em Coulão, fe não que fe acharia mal. E de tudo iíto Eytor rodriguez mãdou muytos agardecimentos á raynha, & da fua parte lhe outorgou a paz, prometédolhe que quando fe ouueífe daffentar de todo, ele aprefentaria ho muyto grãde feruiço q ela fazia a el rey de Portugal em defiftir da guerra & focorrer á fortaleza a tam bÕ tempo. O q ela eftimou muyto, & fez logo afaftar a fua gente de guerra: & mãdou aos feus areys que mandaffem aos pefcadores de fua terra que leuafiem cada dia pefcado á fortaleza. E també a raynha de Coulão de- íiftio da guerra: & Eytor rodriguez ficou defapreífado dela, fem em todo ho tepo que durou lhe feriré nem mataré mais que os que diffe.
  • Livro V, Capitolo XLI111 75 CAPITOLO .XL1111. De como Cherinamarcar, & Patemarcar mouros ejloruarão que a ray¬ nha de Coulão não ajfentajfe a pa\ que cometia, & de como fe fe\ def- pois. SAbendo Eytor rodriguez como Diogo pereira & Patemarcar & Che- rina marcar eftauao em Cailecouláo, & não oufauã de paliar dali cõ medo da raynha de Comorim, elcreueo a Diogo pereira que fe folie em hú tóne por mar á fortaleza, & que os mouros fe foffé polo rio: & affi ho fizerao. E chegado Diogo pereira a fortaleza dilfe a Eytor ro¬ driguez como dõ Aleixo ho mãdaua ali pera reformar a paz cõ a raynha de Coulão: a cujo reqrimento aqueles dous mouros vinhão. Do que fe Eytor rodriguez aqueyxou muyto, dizédo que aqles mouros erão Imigos dos portuguefes, como ho erão quantos auia na índia, & que lhe parecia que por fua caufa fe não auia de fazer a paz, que ele não cõcedeffe fem a raynha comprir logo hús apontamentos, q forão os feguintes. Que détro naquele anno auia de pagar duzentos & oytéta bares de pimenta que deuião a el rey pola fazéda que fora tomada a Antonio de fa: & affi fetéta & dous bares q deuia da quebra do pefo da pimenta da carga do anno paífado: & mais treze bares que fe montauão em certo dinheiro que lhe deuia, como eftaua per conta certa. E auia de pagar todo quanto fe roubara affi aos Portuguefes, como aos Chriftãos da terra, quãdo fe poz ho cerco á fortaleza: & affi todo ho dãno que receberão em quanto durou a guerra defcrauos q fugirão pera os Imigos: & mais auia logo de correger todo ho daneficaméto que na fortaleza foífe feyto. E que os dereytos da igreja de fam Thome que ho modelcar dos mouros tinha tomados defpois da guerra lhe foffé logo tornados: & por caítigo diffo fe deífem pera fempre á igreja de fam Thome todos os de¬ reytos que pertencião á mezquita dos mouros. E que os mouros de Co- chim, Cananor & doutras partes que ajudarão naquela guerra não podef- fem mais tornar a Coulão, fomente terião hi feus feytores. Que Balapulá goripo & feus irmãos pola treição que quilerão fazer em tomar a fortaleza mude fua viuenda per uma legoa da fortaleza, & achando os de Changuacheri pera a fortaleza os podeffé matar. Que a raynha de Coulão & a de Comorim & os regedores pola trei¬ ção & guerra que fizerão pagaífem cem bares de pimenta, & affi fe obri-
  • Hijtoria da índia 76 gaffem a dar dous mil bares pera a carrega que fe efperaua de fazer, & ifto polos preços de Cochim. E que diflefle á raynha & ao regedor q fe não quifeffem outorgar & comprir eftes apontamentos que foubeffem certo que em todos os portos del rey de Coulão não ficaria nao a(Ii fuas como deftrangeiros q não fof- fem tomadas ou metidas no fundo como de immigos. E coeftes apõtamétos fov Diogo pereyra falar á raynha de Coulão indo coele Luys aluarez efcriuão da feytoria, ficando por eles arrefens na fortaleza: & forão coeles Patemarcar & Cheirinamarcar, que tanto que lhes foy lido perãte a raynha ho apontaméto que dizia que auia de pagar a quebra da pimenta, não ho poderão fofrer, & apartandofe logo com a raynha lhe differão q fe auifafie que por nenhú modo aflentaífe a paz com a condição daquele apontamento, porque não fomente ela era per¬ dida em pagar a quebra da pimenta & poer tal coftume, mas os merca¬ dores de Cochim & de todas as outras partes em que vendião pimeta a el rey de Portugal. E como a raynha cria muyto neftes mouros, tomou leu confelho & não quis affentar a paz: & adi fe tornou Diogo pereyra coeles pera a fortaleza fé tomar nenhú afiento com a raynha. E efte auia- mento derão em os dom Aleixo mandar a Coulão: do que fe Eytor ro- driguez aqueixou muyto cÕ Diogo pereyra, porq logo foy certificado do confelho que derão aa raynha, & diffelho delenganando os que fe a ray¬ nha não pagaffe a qbra da pimenta q ela perderia mais do que ganhaua, & ho mefmo auia de fer dali por diante em CochI & nas outras partes onde fe compraua piméta pera carregação das naos. E vendo Diogo pe¬ reyra que fua eftada em Coulão era debalde tornoufe a Cochim cõ os mouros, & com quanto não fe tomou affento na paz, não tornarão as ray- nhas a fazer guerra á fortaleza & defpois fe fez a paz. CAPITOLO .XLV. De como ho gouernador par tio Dormu\pera a índia & os nojfos tomarão duas naos de mouros, & do mais que pajfou. HO gouernador que inuernaua em Ormuz deixando affentado tudo o que era necefiario fe partio pera a índia na fim Dagoíto, & foy ter a Mazcate onde eftaua a armada dos nauios groífos, & ali forão ter coele os mouros que hião em goarda de Ieronimo de foufa & dos outros noflos. E fabendo ho gouernador 0 que pafiaua, fez merce aos mouros, & mandou por eles hú rico prefente a feu fenor polo gafalhado que fizera aos noffos: & defpois fe partio pera a índia & leuou a rota da
  • Livro V, Capitolo XL V 77 ponta de Diu, & naquela traueffa topou per diuerfas vezes duas naos de mouros que forao tomadas & húa fe rendeo fem peleja, & outra tomou por força darmas Ruyuaz pereyra (que fe ajuntou em Mazcate com ho gouernador) & ajudouho Nuno fernandez de macedo, & foy tomada cõ morte de muytos mouros que fe defenderão valentemente. E tomadas eítas naos foyfe ho gouernador dereyto á põta de Diu com determinação de ho tomar fe ho achaffe pera iífo, que affi dizia que lho mandaua el rey feu fenhor fe lhe não defiem nele fortaleza: & porem que foffe fem morte de gente. E ifto não dizia ele de praça, fomente que hia pera recolher Fernão martinz euangelho que eftaua hi por fevtor auia ãnos: & chegado á barra furgio & mandou chamar Fernão martlz, de quem foube que Me- liquiaz não eftaua em Diu que ho mandara el rey de Cambaya fazer guerra aos resbutos, & que em feu lugar deixara Meliquefaca feu filho, & por feu gouernador hú leu parente mouro & tartaro de nação chamado hagamahmut, & q Diu eftaua forte com baluartes que tinhão muvta arte- lharia: & de contino eftauão no porto cincoéta feflenta fuftas bem arti¬ lhadas. E fabido ifto polo gouernador chegou ali Gafpar da íilua, que como diffe Ieuaua a capitania de húa nao da armada de Iorge de brito: q paflado ho inuerno partio coele de Moçãbique onde inuernou, & foy tanto abaixo que foy ter a Diu, & conhecedo a nofia frota fe chegou a ela, & deu ao gouernador húa via de cartas que lhe trazia del rey de Portugal, em que lhe mandaua q não lhe querédo el rey de Cambaya dar fortaleza em Diu que fizeffe guerra a Cambaya & procurafie por tomar Diu com ho mayor reigoardo que podefle que lhe não matafiem gete. E fabédo ho gouernador q Diu eftaua tão forte, diilimulou pera outro tempo, & mãdou dizer a Melique, que pois feu pay ali não eftaua que não le queria mais deter, & foyfe a Goa com determinação de tornar fobre Diu com grãde armada. E fabendo em Goa como aquele inuerno fora morto de noyte Ioão viegas alcayde mór da fortaleza, não fez fobriffo nada: pofto que fe dizia pubricamente que ho mandara matar ho capitão, & de Goa fe foy a Cochim, onde achou Iorge de brito cõ os capitães q inuernarão coele faluo Gafpar da filua: & Iorge de brito lhe deu cartas del rey de Portugal, em q lhe mãdaua fazer muytas coufas como direy a diante.
  • Hijloria da índia 78 CAPITOLO .XLVI. De como Mel\quea\ mandou hã embaixador ao gouernador pera faber fe fe apercebia pera ir a Diu. MEliqsaca filho de Meliqaz capitão de Diu vedo a pouca detença que o gouernador fizera no feu porto. E fabedo defpois a frota que fazia em CochI, porque logo fe foube pelos mouros, fofpei- tou fe feria pera ir fobre Diu: porque ainda q a paz eftaua affentada ãtre feu pay & elrey de Portugal bé fabia que a tinha quebrada, cõ trazer as fuftas que trouuera darmada todo ho tempo de Lopo foarez affi cõtra os noífos, como cõtra feus amigos, & q ho gouernador podia cõ rezão fazer- lhe guerra: & q faria aquela armada pera ir fobre Diu, & por cõielho de Hagamahmut, pera faber fe era affi & abrãdar ho gouernador dalguã cólera fe a teueffe: mãdoulhe hú ébaixador, que foy hú mouro horrado chamado Camalo, a q principalméte encomendou muyto que trabalhafe por faber ou étender cõ q determinação ho gouernador fazia aquela ar¬ mada: & deulhe húa carta de crença pera ho gouernador a quem man¬ dou dizer que lhe pefara muyto de fe ir tão afinha do feu porto, por lhe não poder fazer parte dos feruiços que defejaua como feruidor del rey de portugal & muyto grande amigo dos feus gouernadores, & pois ho não poderá ver ho mandaua vifitar por aquele embaixador, & faber fe mandaua dele ou de fua cidade algúa coufa: porque ho faria como vaf- falo del Rey de portugal q era. E mandoulhe hú carro triunfal muyto fermofo & marchetado cõ muytos laços de marfim, & pera ho tirarem quatro bois dandura, q fão de muyto preço: & tinhão os cornos muyto bé dourados, & efte mouro foy em hõa naueta: & chegado a Cochim deu fua embaixada ao gouernador & ho carro q lhe leuaua: cõ que elle folgou muyto pera ho mandar a elrey feu fenhor, como mandou nas naos q aquele ãno forão cõ a carrega pera ho reyno. E fendo ho gouernador auifado por algús q ho fofpeitarã que Camalo vinha a defcobrir terra fe era pera Diu a armada que fe fazia: não ho quis defpachar & deteueo com diffimulaçÕes ate que ho leuou configo quando partio pera Diu, por¬ que não foífe dar noua a Meliqueaz que hia.
  • Livro V, Capitolo XL VIII 79 CAPITOLO .XLV11. De como Meliqfaca & Hagamahmut fouberão que lio gouernador hia a Diu & de como fe fortalecerão. DEspachadas as naos da carga que auião de ir pera portugal: par- tiofe pera goa pera da hi fe ir a Diu & leuou em fua conferua ho embaixador de Meliqueaz, que entedendo bem ho porque ho go¬ uernador ho detinha como fe vio no mar apartoufe húa noite dele, & tirou feu caminho pera Diu onde chegado contou a Meliquefaca & a Hagamah- mut o que entendera no gouernador, & como lhe fugira: & caindo ele na mefma fofpeita que ho feu embaixador tinha, fortaleceo logo Diu ho mais q pode. Do baluarte do mar ao da terra atraueffou húa cadea de ferro muyto groffa: q fe leuãtaua & abaixaua, pera ha noffa armada não poder entrar. E fe foffe cafo que fe aquela cadea quebraffe ou cortaffe mandou a de dentro dela poer certas naos cheas de pedra & de terra cÕ robos por baixo tapados pera que em a cadea quebrando os deftapafle & fe foffem ao fundo, & impidiffem que a noffa armada não podeffe en¬ trar no porto. E fortaleceo os muros & baluartes de mais artelharia do q tinhão, & detrás deita cadea eítauão as fuas furtas muyto bem artilha¬ das, & a fora a muyta forna dartelharia: & munições que tinha, ajútou a mais géte de guerra q pode a fora a que tinha de contino que era toda efcolhida. E afli ficou Diu húa força grandiífima. CAPITOLO .XLV111. De como ho gouernador fe partio pera Diu, & chegou ao feu porto. DEspois que ho cbaixador del rey de Cabaia defapareceo da con¬ ferua do gouernador: leguio ele por fua viagem: & vifitãdo de caminho as fortalezas da cofta foy ter a Goa: onde defpois de fua chegada, chegou Antonio correa de Malaca: q achado noua é CochI da rota q ho gouernador leuaua, 1'e foy logo apos ele pera fer no feyto de Diu. E acabado ho gouernador de fe fazer preftes de todo em Goa: fe partio pera Chaul onde ho eftaua efperando parte da armada: que com a que hia coele fe auia dajuntar ali toda. E chegado a barra de Chaul fez no mar confelho com todos os capitães da frota, & fidalgos, & pef- loas prlcipais q hião nela. Em q declarou como lhe el rey mãdaua tomar Diu fe lhe não deffé nele fortaleza: & ali foy afftnado per todos q Diu
  • 8o Hijloria da Índia fe deuia de tomar fe lhe não deflem fortaleza, porque não fe tomando fe criaria a li húa força que defpois daria muyto que fazer, & q pera ho trato de Malaca cõpria muyto a feruiço del rey de Portugal: de ter for¬ taleza é Diu. Ifto determinado mandou ho gouernador a hú fidalgo cha¬ mado Pero lourenço de melo capitão de hú galeão, que por faber bé das coufas da guerra folie diãte, com hú caualeiro chamado Iorge diaz cabral q tinha ho mefmo faber: que aprendera é Italia cõ muytas moftras de grande valétia, & que vifie ãbos a defpofição de Diu: & por onde fe po¬ deria cõbater auédo diffo neceffidade: & aífi mãdou coeles algús capitães de fuílas & bargantls. E abalou apos eles com todo ho refto da armada que feria bem doitenta velas, antre naos groífas, galeões, nauios redon¬ dos, gales, carauelas, fuílas, & bargantls, de que os capitães principais, forão dom Aleixo de menefes, dom Iohão de lima, Chrillouão de fá, Chrillouão correa, Ruy vaz pereira, Pero louréço de melo, Dinis fernã- dez de melo, Francifco de mendoça, Andre de foufa chichorro, Lopo da- zeuedo, dom Iorge de menefes, Diogo fernandez de beja, Frãcifco de tauora, Antonio de brito de foufa, Geronimo de foufa, Frãcifco de foufa tauares, Antonio rapofo, Rafael pereílrelo, Rafael catanho, Iorge dal- buqrq, Iorge de brito, Andre diaz, Pero da filua, Antonio correa, Aires correa, Fernão gomez de lemos, Nuno fernãdez de macedo, Gõçalo de loule, Antonio de Brito, Gõçalo pereira, Gafpar doutel, & Manuel velho. E nella armada hião perto de tres mil Portuguefes: & ela muyto bé aper¬ cebida dartelharia, & de grãde forna de munições de guerra: q a pare¬ cer de todos era pera tomar Diu. A cuja barra ho gouernador chegou na entrada de Feuereiro, & ao furgir da armada: por Chrillouão correa & Gõçalo de loule hiré furgir diante de dom iohão de lima que ja eftaua furto: ouue ele menécorea, & por não ter lugar onde furgife diante de¬ les: fe não á lagia leuoufe & foy furgir fobrela. E por dom Iohão furgir naquele lugar: parece que cuidarão algús capitães q era pera bateré a cidade per mar. E começoufe toda a géte daluoraçar, & poerfe em ar¬ mas: & de certos nauios tirarão algúas bõbardadas, & foy a coufa de maneira, q os mouros cuidarão verdadeiraméte q os qrião cometer: & fe os portuguefes ho fizerão tomarã a cidade por auer nela pouca géte, & eífa cõ grãde medo: poré acodirã todos aos muros & baluartes. E Ha- gamahmut & Meliq fe mãdarão logo qixar ao gouernador dizédo: q fe auia pazes ãtrele & Meliqaz, q como lhe qria tomar a cidade. E ele ref- põdeo q não qria, que aquilo era defmãdo de géte de guerra: que efte- ueflem feguros. E mandou logo a todos os capitães que elleueífem que¬ dos: & a dõ Iohão de lima: que fe leuafle donde eftaua & faifle pera fora: & querédo ho ele fazer não pode por vazar a mare, & ouuera de ficar é
  • Livro V, Capitolo XLIX 81 leco: & perderfe ho galeão fe lhe não acodirão é bateis cÕ q ho reboca¬ rão pera fora. E fe os mouros q eftauão nos muros poferão fogo a fua artelharia meterão muytos dos noífos nauios no fundo. E labédo ho go- uarnador ho rifco q correo ho galeão de dõ Iohão de lima, & pola reuolta de q foy caufa: ouue tamanha menécoria q ho mãdou chamar & prcdeo tirandolhe a capitania do galeão. E paliada efta furia q lhe algús fidalgos falarão ho foltou, & lha tornaua a dar: & ele a não quis agrauãdofe muyto do gouernador, & tornoufe pera CochI. E ho gouernador deu a capitania do galeão a Nuno fernãdez de macedo: & a fua carauela deu a Manuel de macedo feu irmão. CAPITOLO .XLIX. De como ho gouernador fe vio cõ Meliquefaca & com Hagamahmut. MEliquesaca & Hagamahmut que virão no feu porto húa frota tão poderofa como ho gouernador leuaua, ouuerão grande medo de ho gouernador qrer tomar a cidade: & fe algúa efperança tinhão de não fer affi, era a noffa feitoria que eftaua é Diu. E por iífo préderão Fernão martlz euangelho ho feytor: & outros q eftauão coele, pera que não fugiíle pera a frota. E defpois dauer algús recados antreles & ho gouernador fobre lhes mãdar pedir Fernão martlz & eles lho não quere¬ rem dar Foy concertado antreles que fe viífem: ho que também Haga¬ mahmut não queria confentir porque fe receaua que nefta vifta folie tomado pelos noífos com Meliquefaca, & por derradeiro fe virão ãbos cõ ho gouernador Õde fe chama a calheta: & efte lugar efcolheo ho gouer¬ nador por fer enformado por Pero loureço de melo & por Iorge diaz ca- bral, q tinha a cidade daquela parte ho muro baixo: & fe fazia ali húa grande praya, & que fe podia dar cõbate ou efcalar a cidade. E pera ho gouernador ho ver cõ os outros capitães: quis que a vifta folfe ali, & que ele eftaria no mar com algús capitães. E Meliqfaca & Hagamahmut em terra com algúa gente, & aíli fe fez. E a concrulao de fua pratica foy dif- fimular ho gouernador que não hia pera tomar Diu, nem fazerlhe guerra: fomente hia cõ aqla armada por mandado del Rey de Portugal feu fenhor: pera da fua parte pedir a Meliqueaz que lhe deixalfe ali fazer húa forta¬ leza em q podelfe ter fegura fua feitoria, porque lhe não aconteceife ho que em Calicut, Coulão, & Malaca, acontecera, & não querendo que a fizeífe: q não deixalfe eftar hi mais fua feitoria, & q fobrifto lhe diífelfem ho que determinauão. E eles refpõderão que Meliqueaz não eftaua na cidade, & que eles não podião dar fortaleza: nem entregarlhe Fernão Tomo III n
  • 82 Hijloria da índia martlz com a feitoria fem licença de Meliqueaz: porque em quanto a tiueflem na cidade eftarião feguros de lhes não fazer guerra: & iflo diffe Hagamahmut por que entendeo no gouernador que lhe auia de fazer guerra. E pofto que ho gouernador repricou a efta reporta, não tomarão outra cõcrufão: & aífi fe apartarão. E Hagamahmut fortaleceo logo aqle lugar: porque como era muyto prudente entendeo bem ho gouernador que determinaua de dar na cidade por aquele lugar. E aqui fe fez def- pois hú baluarte a que os noffos chamarão de Diogo lopez por fe chamar aífi ho gouernador que foy caufa de fe fazer, em fe entender nele que auia de cometer por ali a cidade que com hú baluarte naquele lugar ficaua forte de todo. CAPITOLO .L. De como lio gouernador fe mudou, do confellio que tinha de tomar Diu: & de como mandou ver lio rio de Madre faba pera fa\er hi fortaleza. DEspois difto não fe foube a caufa porque afrouxou ho gouernador do impeto cõ que hia pera tomar Diu, & esfriou tãto diffo: que fem querer cofelho pubrico é que propofelíe as caufas que auia pera ho não tomar, & cada hú difefe ho q lhe parecia. Chamou hú dia a lua camara (onde eftaua fo cõ ho feu fecretario) a cada hú dos feus capitães: & fidalgos da frota. E dizialhes be fabeis que foy aqui noffa vinda por mãdado del rey meu fenhor pera tomar efta cidade, que eu cuidey q podeflemos tomar: pola calheta que os mouros fortalecerão logo, depois que virão que eu vi quam fraco eftaua ho muro daquela bãda, & pera fairmos em terra & efcalala, os muros fam muyto altos, & nela ha muyta gente: vede o q poderemos fazer, & pera lhe darmos bateria do mar, dizemme os bombardeiros que lhe não poderemos fazer nojo, por¬ que não tirarão certo como ho arfar dos nauios, agora vede ho que vos parece. E quando os capitaes, & fidalgos: fe virão perguntar daquele modo tendo afientado quanto importaua tomarfe Diu, fe Meliqueaz não deffe fortaleza: ficarão muy efpantados daquele modo de fazer confeiho. E entendendo no gouernador que não queria pelejar todos por lhe fazer a vontade, dizião que não pelejafle, & do que cada hú dizia fazia o fecre¬ tario hum termo & alfinauamno. Mas Francifco de foufa tauares que tinha do gouernador que fe Diu fe combateffe efteuefle antre ho baluarte do mar & ho da terra na lua nao: por lho alfi pedir, não lhe parecendo bem ho que ho gouernador dizia, não quis dizer fe não a verdade, & diffelhe que por mais gente que aquela cidade tiueffe, nem por mais altos que os muros fofiem: que deuia de defembarcar & trabalhar por efcalar a cidade,
  • Livro V, Capitolo L 83 porque não ho fazendo affi pareceria grande couardia, & os mouros per- derião de todo ho credito que tinhão em nos: & terião oufadia de andar com fuas fuftas. E outro tanto fez Diogo fernandez de beja que ihe diffe com grande menencorea, que ja era tempo que fe não foffem faõs de Diu & que não- fe auião de ir ate lhes não qbraré os braços & as pernas, & q núca auião de ter outro tempo como aqle pera tomar Diu. E cõ tudo ho gouernador não quis pelejar: do q fe todos efpãtauão muyto & auia ãtreles grãde murmuração. E quando a gente darmas vio que fe tardaua em dar combate a cidade: ficarão todos muyto defcontentes, polo grande aluoroço que leuauão pera a combater, & muytos dagaftados dizião mal do gouernador: & que não podia fer fe não que fora peitado de Melique- faca que não pelejafe por não tomar a cidade: & afli outras coufas q diz a gete miuda quando os prlcipes ou capitaés não faze as coufas fegúdo feu parecer: & depois difto foy Fernão martlz ho feytor de Diu cõ reca¬ dos de Meliqfaca & de Hagamahmut ao gouernador & tornou a eles cõ repofta fobre lhe daré lugar pera fortaleza, & que ficaria ahi Diogo fer- nãdez de beja cõ gente & nauios pera a fazer. E Diogo fernãdez foy a terra algúas vezes ver ho íitio onde fe faria, & tomar medidas do chão que feria necefiario, & tudo erão diflimulações. E nefte tépo mãdou ho gouernador Antonio correa ao rio de Madre faba cinco legoas de Diu, a ver fe 1'e poderia hi fazer fortaleza porque bé fabia que a não auia de fazer é Diu, & mãdou coele Iohão de Coimbra piloto mór da índia pera fõdar ho rio & hú Diogo de la puéte meftre das obras de pedraria pera ver ho fitio da terra, & fe auia pedra pera fazer cal: & forão 6 húa cotia por ire mais diflimuladaméte, & étrados délro na barra do rio forão Iohão de coimbrã & Diogo dela puéte por ele acima na barquinha da cotia ate a pouoação de Madre faba pera tomar éformação daquilo a q hião: & védoos os mouros hir daquela maneira como fão fofpeitofos, fofpeitãdo q hião fazer algú mal préderãnos & mãdarãnos a Meliquefaca, & auédo vifta da cotia é que Antonio correa ficaua, esbõbardearãna de maneira q correo muyto perigo de a meterem no fundo: fem Antonio correa fe po¬ der fair por fer enchente de mare: & fayofe com vazante fem mais efpe- rar porque bem foube que erão prefos Iohão de coimbrã & Diogo dela puéte, q achou em poder do gouernador quando chegou a ele, que lhos tinha Melique mandado logo como lhos derão. E eles differão ao gouer¬ nador que fe podia fazer húa boa fortaleza em Madijefaba.
  • 84 Hijloria da índia CAPITOLO .LI. De como auendo lio gouernador dir inuernar a Ormu\ deixou na índia em feu lugar a dom Aleixo de menefes. Epor iffo determinou ho gouernador de a fazer naquele rio pois não podia em Diu: porque dali aueria trato pera Malaca: & pera ço- fala & faria tanta guerra a Diu q Meliqueaz aueria por bem de ter verdadeira paz com os noffos, & fe forçadamente não ouuera dir in¬ uernar a Ormuz cometera de fazer logo a fortaleza, mas não podia por elta ida que auia de fazer: & determinou de fazer a fortaleza quando tornafe, & que teria mais tempo pera iífo. E em fua aufencia deixou ho poder de gouernador a dom Aleixo de menefes: a quem mandou pera Cochim cõ as gales pera hi inuernar, & que na entrada do verão fegulte tornaria coelas a Madrefaba onde ho acharia fazendo a fortaleza. E def- pachou a Iorge dalbuquerq pera Malaca: & que foffe com dom Aleixo ate Cochim onde lhe daria embarcação, & adi a Iorge de brito pera Ma¬ luco & Rafael catanho & Rafael pereftrelo pera a China, nas fuas naos: & todos-forão debaixo da bãdeira de dó Aleixo ate Cochim. CAPITOLO .LII. De como ho gouernador mandou pedir a Ni^a maluco fenhor de Chaul lugar pera fa\er hãa fortaleza: & fe partio pera Ormu\. PArtido dó Aleixo de menefes, por ho gouernador ter neceffidade de mantimétos pera a viagé Dormuz foy tomalos a Chaul: & deixou no porto de Diu a Diogo fernãdez de Beja por capitão mor de Ma¬ nuel de Macedo & de Anrique de macedo capitães de duas carauelas, pera que recolheffe Fernão martinz & a feitoria, que be fabia q lhe não auião Meliq nem Hagamahmut de dar fortaleza. E mandoulhe q tãto que ouueffe a feitoria, q lhes pubricaffe a guerra, & fe foffe a Ormuz. E def- pois diíto como digo fe partio pera Chaul: & por os noroeftes feré rijos fe foy á ilha de Danda, que tinha porto abrigado, & hi lhe leuarão os mãtimétos. E de Danda mãdou Fernã camelo por embaixador a Niza- maluco fenhor de Chaul pera que lhe deixaffe fazer húa fortaleza em Chaul: & ele efpedido, fe partio pera Ormuz na fim de Feuereiro: & forão coele eftes capitães Nuno fernãdez de macedo, Chriftouão de fá, Ruy vaz pereyra. Pero louréço de melo, Lopo dazeuedo, Frãcifco de
  • Livro V, Capitolo LII1 85 ioufa tauares. Frãcifco de tauora. Antonio de brito de foufa, Pero da filua. Ayres correa. Antonio correa, Gafpar doutel, Gonçalo pereira, & Manuel velho. E defpois de ir ter a Mazcate foy fazer agoada a Teubi ou Teiue como lhe todos chamão. E partido dahi na entrada de Mayo dia de fancta Cruz, apareceo húa nao de mouros q vinha de Ormuz: & ho primeiro capitão que chegou a ela foy Frãcifco de foufa tauares: & entre- gandofelhe os mouros a leuou ao gouernador, que pofto que foube q era de Cãbaya, & que leuaua feguro, lho não quis goardar, por amor da guerra que lhe auia de fer feyta, & mandou tomar a nao pera el rey & quãtos hião nela: & forão achados nela vinte mil pardaos em tangas & fazenda que valia mais, & ho gouernador pedio a Francifco de foufa tauares que foffe nela te Ormuz pera ir bé goardada: & ele o fez aífí. CAPITOLO .L111. De como Diogo fernãde\ de beja ouue Fernão martin\, & os outros que ejlauão ê diu, & fe foy pera Ormu\. DIogo fernãdez de beja q ficaua no porto de Diu pera fazer a forta¬ leza: bc entendeo, q lhe não auia Melique faca de dar lugar pera a fazer: & que tudo aquilo forão manhas pera antreter ho gouer¬ nador que não tomaffe a cidade: & q ho fizezão ali ficar por diflimula- ção, cuydando q tendoo em Diu teriã a noffa paz fegura. E tendo ele ifto por certo, trabalhou por auer Fernão martinz & os outros na nao, em que não houve tamanha goarda defpois q fe ho gouernador foy como dantes. E por iífo ouue facilmente a fazenda del rey com cor de fer ho fato dos nofTos que eftauão em terra. E defpois de fer a fazenda na nao recolheofe Fernão martlz húa noyte com os outros: & logo ao outro dia Diogo fernãdez mandou pubricar a guerra a Meliquefaca, mandandolhe dizer que defpois de Meliquiaz affentar paz com Afofo dalbuquerque: os gouernadores da índia lha goardarão fempre, & ele não: porq logo em tempo de Lopo foarez armara fuftas & fazia guerra a noffos amigos, & mandara fazer reprefaria no noffo feytor que nunca quifera dar ao gouer¬ nador com quanto lho mandara pedir tantas vezes: & cuydando que ho enganaua lhe prometera fortaleza que ho gouernador fabia que lhe nã auia de dar, né ho deixara ali pera mais que pera ver fe podia auer ho feytor & os outros noffos, & que agora que os tinha foubeffe que el rey de Portugal mandaua quebrar a paz, & que lhe fizeffem guerra dali por diantet & que lho fazia faber porque os Portuguefes não fazião guerra aa treição como os mouros fe nã de praça. E defpois que Diogo fernaD-
  • 86 Hijtoria da índia dez mandou efte recado a Meliquefaca, diflelhe Fernão martíz que fe foí- iem logo porque as fuítas de Diu auião de fayr logo a pelejar coele, & que corria rifco porque andauão cõ muyta géte & artelharia. E Diogo fernandez fe rio, dizendo que fe vieffem q as meteria no fundo, & vinda a mare' fayrão logo as furtas & Agamahmut por capitão mór, & mãdou jugar toda a artelharia mui forteméte, & que fe chegaffem aos noffos na- uios & que os cercaffem, principalméte a nao de Diogo fernandez, em que ferirão muytos & matarão algús, & apertarão tão rijo pera a cerca¬ rem com quãto os noífos lhe tirauão com artelharia que a Diogo fernan¬ dez lhe pareceo mal efperalos que erão muytos em demafia, & eftaua ja em tãto aperto que lhe foy necelTario cortar as amarras cõ que eftaua furto, porque não ouue vagar pera Ieuarem as ancoras, & ho mefmo fize- rão os outros nauios, & dãdo aas velas acolherãfe todos tres a Ormuz: Õde chegarão auédo dez dias q o gouernador chegara. GAPITOLO .L1111. De como partirão de Cocliim Iorge dalbuquerq pera Malaca & Iorge de brito pera Maluco. DOm Aleixo de menefes que foy pera Cochim defpois que laa che¬ gou defpachou Iorge dalbuquerque que auia dir por capitão pera Malaca, & feu genrro dom Sancho anrriqz por capitão mór do mar. E fendo preftes a armada que auia de leuar, fe partio de Cochim a vinte cinco Dabril de mil & quinhentos & vinte hú, & ele foy é húa nao q auia nome fanóta Barbara, & Rafael catanho que hia pera a China em outra, & Dinis fernandez de melo em hú nauio: & iriã neftas tres velas perto de duzentos homés darmas todos Portuguefes & ãtreles muy¬ tos fidalgos & géte efcolhida, & defpois de partido Iorge dalbuquerq par- tiofe Iorge de brito pera ir a Maluco a feys dias do mes de Mayo, & leuou húa armada de oyto velas, de que a fora ele que hia núa nao forã por capitães Chriftouão correa dum galeão, Francifco godiz & Chriftouão pinto de dous nauios de gauia: & Lourenço godinho de húa carauela, & Antonio de brito feu irmão de Iorge de brito doutra q ficou em Cochim acabando de le aparelhar, & Gafpar galo de húa furta. E em toda efta armada não leuou mais de trezétos homés, porque os que hião dirigidos pera ir coele lhe fugirão quali todos como fouberão que auião de ir a Maluco, q ho defcobrio ho gouernador tanto que vio as prouifÕes de Iorge de brito, & ifto por lhe qrer mal.
  • Livro V, Capitolo L V 81 CAPITOLO .LV. De como dom Iorge de menefes foy em ajuda del rey de Cochim contra el rey de Calicut. NEste tépo auia guerra antre os reys de CochI & de Calicu, como fempre ate li fora: & a caufa era por amor da morte dos prínci¬ pes de Cochim que ho rey de Calicu paliado matara na batalha que ouue coeles no paffo do vao: & porque queymou Cochim & ho def- truyo como difle no liuro primeiro delia hiíloria: & mandaua ho coftume dos reys de Cochim que qualquer deles auia de vingar ella injuria, cõ matar qualquer rey de Calicu, ou outros tatos dos feus prlcipes, como forão mortos pela gete de Calicu no pado do vao: & que auia de fazer outra tal deftruyçao em Calicu como fora feito em Cochim, & defpois lauarfe el rey de cochim nos tanques del rey de Calicu: & coiíto ficaua fatisfeito & vingado de fua injuria. E porque ainda nenhú rey de Cochim tomara ella vingança duraua a guerra antrele & ho de Calicu, que como era mais poderofo de gente, hialhe lepre melhor na guerra: & poriílo el rey de Cochim pedio focorro a dõ Aleixo de menefes que ficaua por go- uernador, que poíto que el rey de calicu era amigo del rey de Portugal, não negou ho focorro a el rey de Cochim polo foíler que não folfe des¬ baratado,.ficaua el rey de calicu mais poderofo, do que era coufa muyto perjudicial pera ho ellado del rey de Portugal: & mandou em fua ajuda a dom Iorge de menefes filho de dom Rodrigo de menefes caualeiro de muyto esforço, com que mandou trinta Portuguefes béíleiros & efpingar- deiros com que pelejou tã valenterríéte em ajuda del rey de Cochim cõtra el rey de Calicu, que ho desbaratou muytas vezes: & em que dõ Iorge fez coufas muyto alTinadas que não conto particularmête, porque as não foube fe não em forna. E vendofe el rey de Calicu desbaratado tãtas ve¬ zes recolheofe pera fuas terras que dantes andaua polas del rey de Co¬ chim, que não fabia feruiços nem honrras que não fizelfe a dom Iorge q teue configo todo ho inuerno com licença de dom Aleixo pera eltar feguro del rey de Calicut.
  • 88 Hifloria da índia CAPITOLO .LVI. De corno fabendo el Rey de Portugal qtiã mal fe gajlauão as rendas do reyno Dormu\, mandou recolher o que fobejaua do gajlo do reyno: & pera ho faber mandou que ouuejfe officiaes Portuguefes nalfandega Dormu\. QUando Afonfo dalbuquerque tomou a primeyra vez Ormuz def- pois de desbaratar Cojeatar & fua armada fezfe elrey Dormuz que étão era vaflalo del rey de Portugal por fe dar por vencido. E pedindo mia a Afonfo dalbuquerque, fezfe vaffalo del Rey de Portugal, & confeffou per húa efcriptura pubrica aflinada por ele & por Cojeatar, & polos principais Dormuz, & aflinada de feus feios q da mão del rey de Portugal recebia ho reyno, & fe obrigaua dali por diãte a pagarlhe vinte mil xarafins de parias cadãno: & efte contrato moflrou el rey de Portugal defpois a doutores theologos que lhe diflefiem fe ho reyno Dor¬ muz era feu, & dizendolhe que íi, ho teue dali por diante por feu. E fabedo que era tiranizado polos goazis Dormuz q gaftauão mal trezentos mil cruzados que lhe dizião que rendia a maífa do reyno, determinou de faber fe era afli, & achando fer verdade auelos & fazer deles todo ho gafto do reyno & ho refto ajútalo em thefouro. E pera ifto quis poer offi¬ ciaes na alfandega Dormuz & nas outras dos outros lugares do reyno & mandou ao gouernador por húa prouifam q foy na armada de Iorge de brito que foffe meter de pofle eftes officiaes que mandaua, & fizeffe duas fortalezas em Ormuz a fora a que eftaua feyta, húa no Bãdel que era onde defcarregauão as naos, & outra em outra parte, porq pera fegurãça da terra erão ambas ali neceffarias, & q as proueífe ambas dartelharia & de gente, em que entrarião oytéta homés de caualo: & q nenhú dos noflos poufaffe na cidade fe não que fe recolheífem todos a eftas fortale¬ zas porque efteueffem ali feguros fe fe el rey Dormuz quifefle aleuantar por amor dos officiaes que fe punhão, & que pofefie no mar boa armada pera mór fegurança da terra. E pera capitão Dormuz mandaua el rey de Portugal a Diogo de melo cõ grãdes poderes que arribou da ilha da ma¬ deira como ja difle, & ficou dom Garcia coutinho na capitania em que dantes eftaua. E afli mãdaua el rey de Portugal que ouuefle em Ormuz almotacé mór Português, & que dali por diante ouuefle balãças & pefos como os de Portugal, & que diflefle ho gouernador a el rey Dormuz q aquilo não auia de fer mais que aquele anno, pera o que ele defpois fabe- ria, & afli lho efcreueo pedldolhe q fe não efcãdalizafle, porq tudo era
  • Livro V, Capitolo L VI 89 pera ieu proueito. E defpois de ho gouernador eftar em Ormuz deu a a carta d^l rey de Portugal a ei rey Dormuz que lhe efcreuia íbbre aquilo & pediolhe licêça pera ho executar. E el rey Dormuz ficou bem falteado com tal noua, porque vio q aquilo era tomarlhe ho reyno, & mofirou que daua licença de boamente, porq lhe pareceo que fe a não deffe que ho priuarião do reyno: & diífe ao gouernador que era neceffario falar aos officiaes mouros pera lhes tirar ho efcandalo q diffo auião de ter. E em vez de lho tirar aqueixoufelhe do q lhe fazião, do que fe todos indina- rão muyto, & dizião que não era pera fe fofrer. E Raix xarafo que era goazil por morte de Raix noradim feu pay foy o que mais fentio ifto q nenhú por amor do feu mando que era mór que ho de todos: & como ele era muyto prudente, & via que ho tempo não era por eles, confelhou a el rey & aos officiaes que diflimulalíem, & não moftraffem nenhú del- contentamento polo q ho gouernador fazia, porque fe ho moftraffem lem- brarlhehião temerfe de fe leuantarem, & temêdofe diffo deixaria tãta força em Ormuz, afli no mar como na terra que não podeffem coela pofto que fe quifeffem leuantar, por iffo que fizeffem muyto bÕ rofto: porque quanto ho gouernador lho viffe melhor tanto mais íeguraria: & diffe a el rey q lhe diffeffe q ho reyno Dormuz era del rey de Portugal, que podia fazer dele o q quifeffe, porque de tudo ele & feus vaffalos erão contêtes, & afli ho diffe el rey, & que pofeffe ho gouernador os officiaes quando quifeffe. E auido efte cofentimento, forão poftos os officiaes q el rey de Portugal mãdaua prouidos pera iffo, que erão Manuel velho por juyz dalfandega & prouedor das rêdas do reyno, Ruy varela por thefoureyro, & por elcri- uães Miguel do vale, Ruy gõçaluez da colta, Vicente diaz, Nuno de crafto, Diogo vaz, & quatro mouros: de que hú auia nome Cojehamet, homem antigo na alfandega Dormuz, & que fabia muy bem os fegredos dela, & efte os diffe a Manuel velho que por feruir el rey peitaua efte & outros pera q lhe defcobriffem a verdade do que rendia ho reyno: & afli eftaua cÕ Manuel velho por goazil dalfandega Raix delamixa irmão de Raix xa¬ rafo homem fiel & grande amigo dos noffos. E poftos eftes officiaes nal- fandega, pos fe também por almotace' mór hú loão lopez, q mandou por leu regimento que ouueffe em Ormuz pefos & balanças como ê Portugal: do que fe todo ho pouo efcandalifou muyto, & dizião que ja ho reyno Dormuz era de todo dos noffos, & q os mouros erão feus catiuos. E po¬ rem el rey era muyto bem tratado, & dauafelhe largaméte ho neceffario pera feu gafto: & Raix xarafo era fomente ao que vinha mal defte par¬ tido, porque fe lhe tiraua gaftarenfe per fua mão as rêdas do reyno & tiranizalo, o que então não podia fazer. Tomo III 12
  • ço Hijloria da índia CAPITOLO .LV11. De como tendo el rey de Narfinga desbaratado lio Hidalcão mandou di\er a Ruy de melo capitão de Goa que fojje tomar as tanadarias da terra firme, & de como as tomou & ficarão del rey de Portugal. PAssando fe ido 5 Ormuz fucedeo na índia, que eftando ho Hidal¬ cão pera ir cercar Goa com feys cétos mil homés de pé & de ca- ualo & cem bombardas groffas com determinação de a tomar: querendo nofio fenhor acodir a tamanho perigo como efte fora pera os noffos, fe leuantou fupitamente guerra antre ho Hidalcão & el rey de Narlinga, & em húa batalha foy ho Hidalcão desbaratado & fugio com perder muyta gente. E proífeguldo el rey de Narfinga a vitoria, lhe tomou a cidade de Rachol & a de Bilgão, & outras muytas: pelo que aquelas tanadarias da fralda do Balagate vezinhas de Goa ficarão defemparadas. E como el rey de Narfinga por fer tão rico como ja diffe nã tinha necef- fidade delas, & defejaua de auer todos os caualos que hião a Goa, & que ho Hidalcão não ouuefle nenhú, mandou dizer a Ruy de melo capitão de Goa q ele tifiha ganhado por força darmas ao Hidalcão a cidade de Bil¬ gão com toda fua comarca ate ho mar, em que auia tanadarias que ren- dião mais de cincoenta mil pardaos douro, de que fazia doação a el rey de Portugal pera todo fempre por amor da amizade q iempre defejara de ter coele, & por amor dauer todos os caualos q hião a Goa que folie ele entre tanto tomar poffe das tanadarias. E defpois de vldo ho gouernador lhe mãdaria feu embaixador pera affentarem fuas coufas. E Ruy de melo Uie refpondeo com muytos agardecimentos alfi de fua parte como do go¬ uernador, prometedolhe que acerca dos caualos fe faria tudo o que foffe rezão, & que ele ficalfe contente. E determinando de ir tomar a tanada- ria de Salfete que eftaua mais perto, ajuntou duzétos de caualo dos noffos todos moradores em Goa, de que ele hia por capitão, & perto de fete- centos de pé os mais deles dos noffos, & efpingardeyros & bélleiros, cuja capitania deu a Ruy jufarte de melo feu fobrinho; & palfandofe a Salfete em almadias & jãgadas, como não achou ninguém que lhe refiftiffe tomou logo poffe daqla tanadaria por el rey de Portugal. E affentada a terra que affentou em obra de dez dias fe tornou pera Goa deixãdo por tanadar mór a Ruy jufarte, a que deixou vinte cinco de caualo dos noffos & cin- coéta efpingardeiros de pé, & feys cétos piães da terra os mais deles fre¬ cheiros, & ordenados por fuas capitanias: deixandolhe por regimento que tomaffe poffe das tanadarias de Pondá & Bardés, & pofeffe nelas tanada-
  • Livro V, Capitolo L VII 91 res Portuguefes logo nomeados, que lhe obedecerião. E Ruy de melo não fe deteue mais, porque não era neceffario que como não auia qué defen- deífe a terra abaftaua Ruy jufarte com aquela gete pera a tomar & affen- tar. E tornado ele pera Goa, Ruy jufarte fe foy a Pondá, & tomãdo pofTe dela pos hi por tanadar a Antonio rapofo alcayde mór de Goa & cafado nela & defpois tomou as outras & Ruy jufarte tinha feu affento em terra de Salfete no pagode de Bardes: & tinha por feu feytor a hú dos noffos cafado em Goa que auia nome Ioão lobato, & por feu efcriuão Aluaro barradas, & eles arrecadauão as rendas de todas as tanadarias que Ruy jufarte vifitaua dali dondeílaua. E auendo dous mefes que eftaua em pofle delas teue por certeza que hião fobrele dous capitães do Hidalcão, que fe hia reítaurando da rota de Rachol. E como perdia tanto naquelas tana¬ darias quis ver fe as podia cobrar, & pera iffo mandaua aqueles dous capitães que digo ambos Canarins, hú chamado Manaique & outro Rapa- naique com tres mil piães, & não mandaua outra gente, affi por auer os noffos por poucos como por ter neceffidade dela pera a guerra que ainda tinha com el rey de Narfinga. E labido ifto por certo de Ruy jufarte, mandou logo recado a Ruy de melo que amanheceo hú dia em Salfete com toda a gente de caualo de Goa que era a que diffe. E junto cõ Ruy jufarte efperarão q vieffem os immigos: que não vierão cõ medo do focorro que era vindo a Ruy jufarte: & fabédo Ruy de melo que eftauão recolhidos em tres aldeas determinou de ir fobreles, & logo naquele dia q chegou á mea noyte partio pera lá por não fer fentido & chegou lá ante- manhaã, & pofta fua gente em ordem deu na primeyra aldea. E fentindo ho capitão dos immigos os noffos não fe atreuendo a lhe refiftir fugio logo, o que vedo fua gente fez outro tanto: de modo q os noffos não teue- rão trabalho coeles, & Ruy de melo mãdou que deífem nos da terra cuy- dando q fe defendeffem, o que eles não fizerão polo que Ruy de melo mãdou que os não rhataffem, porem que os catiuaflem: & forão catiuos cento & trinta almas, & logo os outros capitães fugirão, & Ruy de melo tornou a affentar a terra: & fabido por ela o desbarato deites capitães nã oufarão outros de tornar a bufcar os noffos que ficarão em paz.
  • P3 Hi/toria da Judia CAPITOLO .LVIII. De como Raix xarafo prouocou lio fogro del rey Dormu\ que lio fixcjje leuantar contra os noffos. VEndo Raix xarafo como os officiaes Portuguefes permanecião na alfandega Dormuz tinha diífo tamanho defcontentamento, como a quem fe tiraua ho vfo do dinheiro que ela rendia que ele gaftaua dantes d fua vontade: & auendo ifto por injuria lhe daua muyto tormento: & com grande trabalho ho encobria: porque não entendédo ho gouerna- dor o que ele fentia não fe apercebeffe pera o que determinaua de fazer que era leuantarfe, & nifto era todo feu cuydado: porque leuãtandofe & deitando os noffos fora Dormuz, não fomente lhe parecia que ficaua liure da lugeição em que eftaua, mas ainda ficaria fenhor del rey & do reyno afli como ho erão os goazis antes que efteueffe a obediécia del rey de Portugal. E trazendo eíte propofito não lhe achou outro melhor remedio pera que ouueffe effeyto que prouocar ao fogro del rey Dormuz que lhe pareceífe bem eíte leuantameto. E nifto ouue pouco que fazer, porque ele era hú Xeque que antre os mouros fam auidos por fanótos, & eíte era tão immigo dos noffos q dizia aos mouros que muyto mór merecimento tinha hú mouro de matar hú fragúe que de dar quãto tinha defmolas & fazer quantas romarias ouueffe no mundo. E como ao Xeque lhe pareceo bem leuantarfe el rey cõtra os noffos, começou de lho confelhar: & como todos os mouros pola mayor parte fam delagardecidos logo el rey tomou feu confelho lem lhe lembrar em quanta obrigação era aos noffos que ho liurarão do catiueiro em que ho tinha Raix hamet: & tendo ho Afonfo dalbuquerque em feu poder, & afli a cidade lha tornou, *& a ele deu liberdade, & fez rey liure com tanta honrra como diffe no terceyro liuro. E determinado el rey de fe leuantar,- & matar todos os noffos: mandou fazer gente á terra firme per hú mouro chamado Miramahmet morado, em que Raix xarafo tinha grande confiança: & afli tornou elrey em fua graça a Raix xabadim, aquele que Iorge dalbuquerque quifera prender em Mazcate como diffe atras, & mandoulhe per fua carta quefteueffe na fortaleza Dorfacão, & ali eftaria com géte de guerra ate ver feu recado.
  • Livro V, Capitolo LIX 93 CAPITOLO .LIX. De como lio capitão mór Antonio correa pelejou em Baharem com el rey Mocrin & lio desbaratou. NEste tempo eftaua leuantado contra el rey Dormuz hum rey feu vaílalo & tributário, q fe chamaua Mocrim rey da ilha de Baharé, de q ja faley no liuro terceyro & fenhor de húa cidade chamada Laçá no fertão Darabia, duas jornadas do mar dõde fe crião os melhores caualos Darabia, & tem grande comarca, & dela parte a Cafila, que da¬ quelas partes vay a Meca, cujo caminho he jornada de dous mefes por¬ que vay de vagar: & alli era fenhor de húa fortaleza que ha nome Ca- tifa na terra firme Darabia dez legoas de Baharem. Efte era cafado com húa filha do fenhor de Meca & tinhãno os mouros por fancto, & era muvto esforçado & valente caualeyro: & defpois que fe leuantou cotra el rey Dormuz & lhe não quis pagar as pareas que pagaua dates trazia muyto grande armada de terradas que paffauão de cento & coréta, & efta fazia arribar a Baharem quãtas naos hião dos lugares daquele fino perfico pera Ormuz: com o q el rey perdia muyto do q rédia a fua al- fandega: a fora as pareas q perdia de Mocrim. E vendo ele como lhe ho gouernador punha officiaes Portuguefes na alfandega pera recolherem as rendas que rendefie, difielhe que pois era vaflalo del rey de Portugal que lhe tornafie Mocrim a fua obediência, dandolhe conta do que paffaua auia annos. O que lhe ho gouernador cocedeo: & determinando de ho fazer adi diffe a Antonio correa feu fobrinho que ele lhe tinha dada a ca¬ pitania mór de húa armada que auia de mandar á ponta de Diu a efpe- rar as naos de prefa ate que ele foífe: & que auia de mandar outra a Baharem dizendolhe a que, que viffe fe a queria antes. E ele a quis por ler de mais honrra que de proueito, & deixou a da ponta de Diu. E labendo Diogo fernandez de beja que hi eftaua como Antonio correa en- geitara a capitania mór da armada de Diu por ir a Baharem, foyfe logo ao gouernador & moftroulhe hú aluara del rey pera lhe dar a capitania mór da armada de Diu que ateli na moftrara pola não tirar a Antonio correa por fer muyto feu amigo, & ho gouernador lha deu. E aceitada por Antonio correa a êprela de Baharem, partiofe pera lá a quinze de Iunho de mil & quinhétos & vinte hú & hia em hú galeão: & forão feus capitães Gonçalo pereira que hia em outro, & Fernandeanes de fouto mayor que hia em húa galé, & Ioão pereira em húa carauela, & Lou- renço de moura, & Chriftouão çarnache em duas fuftas, & em outra ou-
  • 94 Hijloria da Índia tro, cujo nome não foube: & neftas velas hião quatrocétos Portuguefes, & hia coele Raix xarafo capitão mór da armada delrey Dormuz que era de duzentas terradas em que hião tres mil mouros mil & quinhentos fre¬ cheiros & outros tantos lanceiros, & no caminho lhe deu hú temporal que fez arribar a frota del rey Dormuz, & os nauios da noffa, faluo a capitaina & a carauela de Ioão pereyra, & coele fométe chegou a Baha- rem & furgio diante de húa cidade do mefmo nome muyto grande de cafas grãdes de pedra & cal com chaminés, & varãdas pera foi & gelo- fias nas genelas & ali tinha el rey Mocrim leu affento, & por efperar por Antonio correa, de que tinha certeza q fabia bem da guerra eftaua bem apercebido, & tinha a cidade cercada da banda do mar de húa tranqueira de duas faces de largura de dez palmos entulhada de terra & darea com algús portaes pera feruetia da praya, & aíTentada nela muyta artelharia, & goardauãna doze mil Arábios poftos em eftancias, & tinha trezentos de caualo a mâyor parte acubertados, & quatrocentos Períianos frechei¬ ros, & vinte rumes efpingardeiros cõ algús outros que tinha infinados a eífe officio. E chegado Antonio correa a Baharem furgio ao mar ondefteue leys dias efperando por fua armada que fe ajuntou coele no cabo deite tépo, faluo duas fuítas, de q húa arribou a Ormuz & a outra veyo del- pois de ele ter desbaratados os immigos. E chegados os nauios, & alli a armada del rey Dormuz quis Antonio correa faber a gente que tinha pera ver fe podia poyar em terra, & não achou mais de duzentos & vinte ho¬ mens que foliem pera poyar em terra, de que os cento erão fidalgos & criados del rey, & os cincoenta efpingardeiros & bélteiros. E os outros homens darmas dos da índia, & a outra gente era do mar que auia de ficar em goarda da armada: & com quanto fe achou com tão pouca gente, & fabia que a dos immigos era tanta como diffe affentou de poyar em terra com confelho dos outros capitães & dos principais da frota: efpe¬ rando todos em noffo fenhor que os ajudaria, & quifera cometer os inn- migos vefpera de Sãtiago, fe não fora por Raix xarafo, que por certas cirimonias de fua feyta não quis então: & por iífo alargou a coufa pera os vlte fete de Iulho, que foy hú fabado & quifera cometer com fua géte por húa parte, & que Raix xarafo cometera com a fua por outra pera fe ver o que cada hú fazia. E ele nã quis, dizendo que el rey de Portugal & el rey Dormuz erão irmãos, por ilfo auia fua gente de ir junta: & ilto era com medo fegundo defpois pareceo. E acabado lio confelho, os capi¬ tães fe tornarão a feus nauios, & eles com fua gente fe confeffarão & en- comédarão a noffo fenhor: porque ho feyto era muy perigofo por a gente dos immigos fer tãta, que auia bé trezentos pera cada um dos noffos: pocé Antonio correa tinha tamanha confiança em Deos & em noffa fenhora
  • Livro V, Capitolo LIX Pi¬ que efperaua de leuar a vitoria, & toda aquela noyte fe lhe encomendou muy deuotamente. E quando veyo ao fabado pola manhaã fe embarcou cõ lua gente nos bateys & barquinhas da frota, & Xarafo com fua gente por fer muyta fe pos em grandes jangadas de madeira que os paraós das fuas terradas auião de rebocar: & faindo ho foi abalou Antonio correa com todos os feus pera terra leuando a dianteira Ayres correa feu irmão que hia com ho feu guião, & hião coele cincoenta homens efpingardey- ros & béfteiros & alft algús fidalgos. E como ja era baixa mar e diãte da cidade folie ho mar muyto aparcelado tocarão os bateys a tiro defpingarda dela: & não podendo dali paliar arremeífoufe logo a gete nagoa que lhe daua pola braga fem auer quem a podelfe ter. Antonio correa fayo também pola agoa & mandou ficar nos bateys a hum Triftão de crallo homem de confiãça, a que mandou que não recolhelfe nos bateys ninguém fem feu recado. Elrey Mocrim eftaua nefte tépo na tranqueyra com fua gente, es- forçandoa como valente caualeyro & fazendo jugar fua artelharia que def- paraua muy amiúde, de q Deos milagrofamente liurou os nolfos, que fay- rão na praya bem canfados: & logo Ayres correa que leuaua a dianteira como dilfe arremeteo aa tranqueyra com os que ho acompanhauão per an- tre muytas frechas fem conto-& pelouros defpingarda que os inimigos tira¬ rão: defpois que os nolfos forão na praya que por mais que elas forão não deixarão de remeter á tranqueyra, onde logo os efpingardeyros & béfteiros matarão muvtos mouros, & dos nolfos forão feridos Ayres correa de duas frechadas & outros muytos. E eftãdo em grande perfia, os nolfos por entrar & os mouros por lho defender: chegou Antonio correa com a ban¬ deira & com ho refto da gente em corpo, & deu Santiago nos mouros per húa aberta que eftaua antre a tranqueyra & as cafas, & foy ho Ím¬ peto dos nolfos tão furiofo que fizerão retirar os mouros pera dentro da cidade matandoos ás lançadas. E nifto acodio el rey com hú tropel de gente de caualo, & hú grande magote doutra de pé diante, & dão nos nolfos tão de fupito, & apertando os tão rijo ferindo muytos deles que os fizerão retirar pera a praya: andando el rey fempre diante dos feus & poédole nos lugares mais perigrofos & pelejando com tanto esforço que era coufa delpanto: & como os ímigos fizerão retirar os nolfos car- regauão de cada vez outros de novo, & como as fuas lanças erão muyto mais cõpridas que as dos nolfos chegauãlhe fem lhes eles poderem che¬ gar : & por iífo recebião muyto dãno tanto que não ho podendo os nolfos fofrer fe retirarão bem pera junto dagoa. E foy a reuolta tamanha que Ayres correa foy derribado com grandes feridas de lanças & frechas & carregarão fobrele muytos mouros pera ho matar & ferirãno de treze lãçadas defpois de derribado, & fe não fora por Aleixo de foufa & Ruy
  • Hiftoria da Índia 96 correa q lhe acodirão matarãno: mas eles pelejarão ambos tão valente- mente, & matarão & ferirão tantos mouros que os fizerão afaftar & liura- rão Ayres correa ficando ambos muyto feridos. E certo q fizerão hú feyto dino de grande memória, & em que ganharão muyta honrra: & por ou¬ tra parte também Antonio correa teue afiaz que fazer, porque mandaua como capitão, & pelejaua como foldado com que tinha dobrado trabalho de todos & andaua muyto canfado & ferido no braço dereyto, & alíi a mayor parte de fua gente, porque toda pelejou aqui com marauilholo esforço ajudando os noífo fenhor: porque doutra maneyra não he de crer que tão poucos como os nofios erão refiftiífem a tão grande multidão de immigos, matãdo & ferindo muytos deles: & a el rey matará nefta reuoita dous caualos em que andaua, hú primeyro & defpois outro: & também os mouros ficarão tão canfados & feridos que lhes conueo apartarenie pera defcanlar, o que foy grande folego pera os nofTos que também fize¬ rão ho mefmo. E Antonio correa mandou leuar feu irmão & outros muy¬ tos feridos aos bateys. E ifto feyto que fentio que os nofios eítauão algú tãto defcanfados tornou a arremeter aos mouros, bradando todos por nofia lenhora: & parece que polos feus rogos desfechou nefta arremetida hú dos nofios efpingardeiros a fua efpingarda em el rey & ferio ho em húa coxa tão mortalméte que lhe foy forçado fayrfe da batalha, & coele algús de caualo dos mais hõrrados. E ele ido como os mouros le virão fem capitão fugirão a quem mais podia, & por Antonio correa ter a lua gente muyto ferida & canfada, & ele eftar do mefmo modo deixou os ir & nã os quis feguir, pofto q muytos bradauão que os feguifiem: & con- tentoule cÕ a merce que lhe noífo fenhor fez em lhe dar húa tão famofa vitoria como efta foy em obra de duas horas fem dos nofios morrerem mais de cinco, & hú deles foy hú fidalgo chamado Iorge pereyra, & hú mourifco Chriftão, Dantonio correa, que em toda a batalha ho defendeo da morte, adargando ho fempre com húa adarga, & de muyto frechado cayo morto: & forão feridos feflenta & tantos os mais deles de lançadas a mão tente, & dos mouros a fora el rey de Mocrim que morreo dahi a dous ou tres dias morreo ho gouernador de Baharé: pefloa muyto prin¬ cipal & feys homés principais feus parentes, & trinta de caualo & trezé- tos de pé, & muytos feridos: & forão mortos muytos caualos defplgar- dadas. E por hõrra defta tão famofa vitoria, deu defpois ho muyto alto & muyto poderofo rey dom Ioão de Portugal ho terceyro, a Antonio cor¬ rea que podefie meter em hú quarto do efcudo das fuas armas a cabeça dú rey mouro, que agora tras, & outra por timbre no elmo em memória da del rey Mocrim que lhe defpois foy cortada.
  • Livro V, Capitolo LX 97 CAPITOLO .LX. De como morreo el rey Mocrim. E de como Antonio correa mandou a fua cabeça ao governador com a nona da vitoria, & da fepultura que lhe foy feita. VEncida a batalha chegou raix xarafo a Antonio correa com fua gente: com que ateli eíteuera nagoa fem defembarcar, efperando o que fucedia aos noflos. E'i'e eles forão vécidos prefumiofe que fe ouuera de leuantar cõtreles, & ifto eftaua claro polo odio q lhes tinha, & polo q deixaua ordido em Ormuz. E Antonio correa dilíimulou coele ho defauergonhaméto de defembarcar a tal tempo, & mandou aos feus mouros que feguiffem ho alcanço aos immigos. E eles remeterão pola cidade moftrãdo que ho fazião, mas defpois que forão dentro não ho qui- ferão fazer & meterãfe a roubala: onde logo Antonio correa entrou com a bandeira tangendo as trombetas diante, & foy ter ás cafas del rev que erão muy grandes & fumptuofas, & junto delas achou húa galeota q os rumes tinhão feyta, que algús lhe cÕfelharão que mãdaffe queymar: mas ele não quis. E feytos ali muytos caualeyros, fidalgos & outras peffoas honrradas que lho requererão, não quis mais paffar auãte por fer tarde q era meyo dia, & tornoufe aa frota pera fazer curar os feridos, & dei¬ xou a cidade em poder de Raix xarafo: que tomou dela poife por el rey Dormuz, & de caminho mãdou Antonio correa poer fogo a céto & co- renta & fete terradas q el rey Mocrim tinha. E na noyte feguinte eftando todos dormindo fe acendeo ho fogo na bitacora da capitaina, & foy a reuolta tamanha que todos os feridos fe leuantarão a acodir, & era ho fumo tamanho q não auia quê podelle decer abaixo a apagar ho fogo, & defpois de muyto trabalho foy apagado. E nefta enuolta quebrarão os pontos das feridas quafi a todos os feridos, & foy neceffario tornarénos a curar: mas nígué ho fentio com ho grãde prazer que tinhão da vitoria palfada. Ao outro dia foy Antonio correa a terra com os que poderão ir coele pera lãçar a galeota que dilfe ao mar: & aquele dia lhe fez ho ter- reyro com muyto grande trabalho por a tranqueyra dos immigos eftar diante q nã era ainda derribada: & ao outro dia a lançou ao mar com muyta fadiga, porq os noflos erão poucos & não podião, & os de Xarafo não ajudauão: & Antonio correa ajudaua como qualquer com quanto eítaua ferido no braço dereyto, em que padeceo grande dor, & por auer a galeota pera el rey fufria tudo. E lançada ao mar lhe pos nome Mo- crina por amor del rey Mocrim: & deu a capitania dela a hú Gafpar cor¬ rea. E auendo cinco dias que fora a batalha, foylhe dito por hú mouro i3 Tono ltl
  • 98 Hijloria da índia da terra, & por outro de Raix xarafo q el rey Mocrim era morto, & na na noyte feguinte ho auião dir enterrar a Catifa. E Raix xarafo lhe req- reo q ho mãdafie tomar ao caminho por quanto fora tredoro a el rey Dormuz, & era necelfario que lhe cortafiem a cabeça, & que ele manda¬ ria a iflo fua gcte. E Antonio correa ho confentio, & foy hú paréte de Raix xarafo chamado Raix çadradim q foy por capitão de doze terradas cõ que tomou ho corpo del rey Mocrim & ho leuou a Antonio correa q lhe mandou cortar a cabeça: que os mouros de Raix xarafo cauacarao por dentro tão futilméte que ficou a pele do rofto com os olhos & nari¬ zes: & defpois a rechearão dalgodão cÕ húa afelha na moleyra por ode fe podia tomar, & parecia viua: & Antonio correa a mandou a Ormuz ao gouernador com a noua do que tinha feyto, & leuou a Baltefar peífoa & Ruy correa q forão 5 húa fufta.' E coefta noua recebeo ho gouernador muyto grande prazer cõ os nolTos, & el rey Dormuz com os mouros, & fizerão todos muyto grandes feftas. E ho gouernador foy dar graças a noffo fenor á igreja com todos os fidalgos. E ele & el rey Dormuz mã- darão fazer húa fepultura a efta cabeça na praça Dormuz: por honrra de cuja foy & por memória Dãtonio correa & dos que fizerão aquele feyto, & forão abertos nela dous letreiros hú na noífa lingoa, & outro na Per- íiana que dizião. A quinze dias do mes de Mayo de mil & quinhentos & vinte hú, chegou ho gouernador Diogo lopez de fequeyra a Ormuz, & achou ho reyno de Baharem & Catifa leuãtado contra el rey Dormuz, & mandou lá Antonio correa feu fobrinho cõ fete nauios & quatrocentos homés & pelejou com Mocrim rey da dita terra, & a fua cabeça jaz aqui: morre¬ rão muytos mouros & algús Chriítãos & forão muytos feridos. E os mou¬ ros vedo feu desbarato lhe Õtregarão logo Catifa: & também trouue húa gaieota que os rumes tinhão feyta que agora anda em poder dos Portu- guefes. E ho gouernador mandou fazer efta fepultura por honrra do rey que morreo como bõ caualeyro: & por memória dos Chriftãos. CAPITOLO .LXI. De'como Iorge dalbuquerq chegou a Pacê, & determinou de rejlituyr 110 reyno ho príncipe q letiaua da índia. DEspois de Iorge dalbuquerq partido pera Malaca com a frota q difle, feguio lua viage ate chegar á ilha de çamatra & furgir no porto de Pacem, pera q fe podeíle reftituyfe naqle reyno ho prín¬ cipe herdeiro dele como lhe ho gouernador dera por regimento. E furto
  • Livro V, Capitolo LX1 99 nefte porto com toda fua armada, teue maneyra como fez faber aos prin¬ cipais de Pacem a caufa de fua vinda. E ifto em fegredo, porque ho tirano ho não foubeífe & fe pofefle em recado. E eles com ho aluoroço da vinda de feu verdadeyro rey q muyto defejauão, fe forão os que poderão fecre- tamente a capitaina: & hi lhes moftrou Iorge dalbuquerque ho príncipe & ho Moulana: q eles folgarão muyto de ver, & lhe diíferão que fua von¬ tade era muy boa pera ho receberem por fenhor, mas que não oufauão com medo do Tirano. E nefta pratica foube Iorge dalbuquerque que ho Tirano eftaua muyto fortalecido em húa fortaleza júto da pouoação que era húa legoa pelo rio acima: & era húa traqueyra larga feyta em qua¬ dra que cercaua húa pouoação pequena onde ho Tirano moraua perto da outra grande que lhe ficaua como arrabalde. E nefta tranqueyra auia muyta artelharia: & da banda do norte era cercada de fapal & terra apaulada, & tinha a entrada dali per húa ponte. E em hú canto da bãda do fui tinha húa porta, & daquela parte era cercada de caua chea dagoa. Dentro defta tranqueyra no meyo da pouoação eftauão as cafas do Tirano cercadas doutra trãqueyra da mefma maneyra da de fora cÕ duas portas peqnas, húa da banda do fui & outra de lefte. E a fora efta fortaleza fer tão forte eftauã nela feys mil homens de peleja, os mais deles frecheiros, & muytos de zarauatanas. E com quãto Iorge dalbuquerque ifto foube: como era muyto esforçado, & fabia q ho principe tinha juftiça pera aqui- rir ho reyno, determinou de pelejar cõ ho Tirano fe não quifefle por bé foltar ho reyno: & afli lho mandou dizer. Do q fe ele efeufou, dizédo q ho reyno era feu, & mais que queria fer vaífalo del rey de Portugal, & pagarlhe pareas: q Iorge dalbuqrq engeitou, dizédo que el rey de Portu¬ gal nã queria por vaffalos fenão os dereytos herdeyros dos reynos, & nã os q os tinhão por força. E védo a contumácia do Tirano, determinou de pelejar coele: & pera ho notificar a feus capitães, os chamou a con- felho, & ajuntoufe coeles hú fidalgo chamado Manuel da gama q hi era chegado de Malaca é hú nauio darmada pera fazer arribar a Malaca os júgos de Pegú, q por nã ire a Malaca hião defearregar a Pacé. E jútos os capitães, Iorge dalbuqrq lhe propos ho regiméto q trazia do gouerna- dor acerca de reftituyr ho prlcipe de Pacé é feu reyno: & ho poder de géte q tinha ho Tirano, & como eftaua fortalecido. E a géte que ele tinha que não feria mais q duzétos dos noffos. E todos forão dacordo q pele- jafle, & q noífo fenhor os ajudaria pois tinhão a juftiça de fua parte.
  • 100 Hijioria da índia CAPITOLO .LXII. De como el rey Dauru foy fobre Pacc pera pelejar cõ o tirano q tinha o reyno ufurpado. TEndo ifto affentado acertou de chegar a Pacem el rey Dauru com grande exercito, que tinha guerra com ho Tirano, & hia pera ho deftruyr por amor do príncipe que era feu paréte. E fabida por Iorge dalbuquerque fua chegada, porque era amigo del rey de Portugal, lhe mãdou dizer por hú mouro natural de Pacem: que ele era ali vindo pera reftituyr ho príncipe de Pacem no reynò, & deftruyr aquele Tirano q ho tinha vfurpado. E porque fabia que era amigo del rey de Portugal, lhe pedia que fe afaftaffe donde foffe a peleja, & lhe deixaffe a ele fó aquela emprefa: & porque a fua gente, & a do Tirano toda andaua dú trajo mandaffe aos feus q no dia da batalha pofeffem na cabeça hús ra¬ mos verdes pera os defenferençarem dos immigos, porque os noffos auião dauer por effes a todos os que os não teueffem. E el rey Dauru foy diffo contente, & mandou pedir a Iorge dalbuquerque que lhe fizeffe merce do defpojo q ficaffe dos immigos defpois que os noffos não quifeffem mais: porq efperaua em Deos que lhe auia de dar vitoria. Feyto efte concerto, fez Iorge dalbuquerque faber aos naturaes da terra como auia de dar na trãqueyra & em que dia, & mandoulhes que fe afaftaílem do caminho por onde auia dir, & que teueffem outro tal final como os Aurus. CAPITOLO .LXIII. De como Iorge dalbuquerq desbaratou & matou em hum combale ao Tirano que tinha vfurpado ho reyno de Pacem. VIndo ho dia em q fe auia de dar ho combate, eftãdo os noffos cõ- feffados daquela noyte os affolueo hú clérigo ante manhaã, & def¬ pois de almoçarem forãfe pelo rio acima nos bateys ate onde defembarcarão, & em terra fez Iorge dalbuquerque tres efcoadrões de fua gente que erao duzétos homés: do primeyro q foy de felfenta homens era capitão dom Sancho anrriquez, & hião coele Rafael catanho, & Dinis femandez de melo. Do fegúdo que era doutros tantos foy dom Afonfo de menefes filho do conde de Cantanhede caualeyro muyto esforçado. Ho terceyro leuaua Iorge dalbuquerque com ho reftante dos duzentos homés, & acompanhauãno Manuel da gama-, Antonio de Miranda dazeuedo, Gar-
  • Livro V, Capitolo LXI1I IOI cia chainho, Eytor de valadares, Frãcifco bocarro: & outros fidalgos & caualcyros. E nefta ordem ao ibm de fuas trombetas abalou pera a for¬ taleza ao lõgo de hú efteiro que paliou per húa ponte, & ferião dous tiros de efpingarda donde defembarcou á fortaleza, & dú cabo & do ou¬ tro eftaua todo ho caminho cheo de gente, adi da terra como dos Aurus q todos eltauão e fauor do prlcipe & fazia grades alegrias. E chegado dom Sancho perto da fortaleza começa a artelharia a defparar, & a noffa efpingardaria lhe refpondeo, que por ler muyto pouca foaua muy pouco: poré começou de fazer muyta obra, porque os noífos fem nenhú medo cÕ quãto erão poucos remeterão ã tranquevra pela banda do fui, & che- garanfe a ela derribando muytos dos immigos com as efpingardas. Mas como eles erão tatos como difie 1'oftinhãfe muy esforçadamente: & nifto chegarão dõ Afonfo de menefes & Iorge dalbuquerque com feus efqua- drões, & tomarão toda aquela banda da tranqueyra encheo, combatédoa muy fortemente. E vendo Dinis fernandez de melo quão ocupados os Imi- gos eftauão na defenla da tranqueyra, remeteo á porta q eftaua daquela banda cõ Manuel da gama, & Eytor de valadares, & Francilco bocarro: & arrombarão a porta com hú vay & ve: & ainda nã foy arrobada quãdo muytos dos immigos acodem a defendela com frechadas tão baftas, afli darco como de zarauatana que quafi q ocupauão todo ho vão da porta. E cõ tudo os quatro entrarão as lançadas, & apos eles outros muytos: & aqui fe renouou a batalha cõ grande furia. E era milagre de noffo , lenhor ver tão poucos como os noffos erão antre tanta multidão dimmi- gos. E labédo Iorge dalbuqrq como a fortaleza era etrada acodio á porta & entrou dctro, & cõ fua entrada fe recolherão dos Imigos pera as cafas do Tirano, & outros pera a banda do norte: & os noffos ficarão de rofto com as cafas do Tirano que como difie eftauão cercadas em redondo doutra tranqueyra tão forte como a primeyra. E aqui eftaua a principal força defta fortaleza por ho Tirano ter ali fuas molheres & filhos, & as dos feus principais & fuas fazendas. E Iorge dalbuquerque a cometeo cõ fua gente feyta em hú efquadrão, & hús tirauão cõ as efpingardas aos que eftauão encima, outros fobião por efcadas que pera iffo leuauão, & fem temor das pedradas, frechadas & lançadas dos Imigos fe guindauão a cima, & dali faltarão embaixo apos os immigos que ja de quebrados fe retirauão, & abrindo húa das portas que a trãqueyra tinha entrarão os outros que eftauão de fora: & apertarão tão rijo como os immigos, que não tédo coração de fe defender por verem q de cadauez os matauão mais começarão de defpejar pera a banda do norte, & fayãofe per húa pote que eftaua daquela parte com fuas molheres & filhos. E começando os Imigos de vazar por aquela ponte, foy dõ Afonfo de menefes por
  • 102 Hijloria da índia acerto ter a ela com corenta dos noffos. E defejofo de matar ainda mais dos immigos dos q aquele dia tinha mortos deu neles com os que hião coele, & apertou os tão rijo que os fez tornar pera dentro. E vendo eles q lhes não ficaua onde fe podeífem faluar, determinarão de morrer de- fendendofe, & affi ho fizerão que nenhum não ficou do Tirano ate ho me¬ nor, tirando algús que catiuarão & aíli muytas molheres, & a peleja du¬ raria tres horas de relogio, em que morrerião dos immigos tres mil fegúdo fe defpois foube, & os quatrocentos forão dos principais, & dos noffos morrerão quatro & forão muytos feridos: o que foy mais milagre de noífo fenhor que força humana. CAPITOLO .LXIIII. De como ho príncipe foy recebido por rcy de Pacê: & de como Iorge dalbuquerque fe\ luta fortaleza em Pacem. TOmada a fortaleza foi faqueada pelos noffos & ho rofulho que lhes ficou foy logo apanhado pelos Aurus, cujo rey fe foy pera Iorge dalbuquerq, & lhe deu ho prol faça de fua vitoria com palauras de muyta alegria polo tirar de trabalho & mais de duuida fe vencera ou não: & ficou muyto mór amigo & feruidor del rey de Portugal que dantes por ter tais vaffalos. E fabendo Iorge dalbuquerque que ho Tirano fora morto na batalha com os que ho feguião, & que não auia dauer contradição em reftituyr ho príncipe no reyno, mandou logo dar pregões que todos os da terra fe ajuntaífem pera lho entregar. O que eles fizerão logo aquele dia: & com muyto prazer lhe forão fazer reuerencia ás cafas do Tirano, onde ho Iorge dalbuquerque apoufentou. E obedecido ho principe por rey, & entregue da cidade: tornoufe Iorge dalbuquerque com todos os noffos a armada que eftaua na barra: a cuja entrada da banda de leite determi¬ nou de fazer húa fortaleza pera affeffego da terra, & pera eílar a feyto- ria del rey de Portugal que affi ho trazia por regimento. E aquele era ho melhor lugar por eítar pegada com ho mar por onde podia fer focorrida: & mandou dar conta defta determinação a el rey: pedindolhe que pois el rey de Portugal queria també ter ali aquela fortaleza pera fegurança de feu eítado, & não lhe fer feyta outra treição como a paífada que ho ajudaífe a fazela: & pois não tinha necefíidade da que ho tirano deixara por eftar pacifico na cidade, que a mandaffe desfazer: & lhe mandaffe a madeira pera fazer a que dizia, & gcte pera que a fizeffe. Ao que logo el rey fatisfez é tudo, & a fortaleza foy feyta em breue tempo com mu¬ ros, baluartes & torres de madeyra, & cercada de caua. E ela acabada
  • Livro V, Capitolo LXV io3 & muyto bem artilhada deu Iorge dalbuquerque a capitania a dom San- cho anrriquez feu gérro, & deixou feytor, efcriuães & outros ofticiaes & cê homés por todos. E pofto que Antonio de miranda dazeuedo lhe re- quereo que lhe deífe a capitania da fortaleza, porque lio gouernador lha daua por hú aluara q lhe moflrou. E ele não quis, dizendo que ho gouer¬ nador não podia paífar tal prouifam, por el rey lhe conceder que podeffe dar por tres annos a capitania de qualquer fortaleza que fizeffe: & aífi ficou dõ Sãcho por capitão da fortaleza. CAPITOLO .LXV. De como Iorge de brito foy morto em Achem com outros miiytos de fua armada. PRrosseguIdo Iorge de brito por fua nauegação pera Malaca foy ter á barra da cidade Dachem na ilha de çamatra, q he reyno como atras diffe, & he húa cidade grade ao pé de húa lõbada q fe faz ãtre a cidade & hú rio, de modo q a lombada lhe fica por padaftro. He de caías terreas de paredes de terra cubertas dola, fomente as cafas del rey tem algúa policia: he muyto abaftada de mantimentos, pouoada de mouros, & feu rey era também mouro & tinha pouco eftado & pouca renda. E com tudo grande guerreiro & capital immigo dos Portuguefes, & trabalhaua por lhe fazer quanto mal podia: & porque Iorge de brito labia iíto, & principalmente por cobrar a fazenda que ali fora tomada de dom Ioão de lima & doutros fidalgos como diffe atras furgio na fua barra. E furto dentro no rio, mandou dizer a el rey que fe efpantaua muyto dele querer fer immigo dos Portuguefes fendo todos os outros reys da ilha de çamatra feus amigos, mandandolhe apontar o que lhes tinha feyto, principalmente a tomada da fazenda que digo: rogandolhe que logo lha mandaffe antes que anoyteceffe, & não lha mãdando que iria por ela. El rey defpedio ho meffegeiro com dizer que refponderia: mas não ref- pondeo, porque não determinaua de fazer coufa algúa do que lhe Iorge de brito pedia, antes lhe reíiltir quãto podeífe pera o que fe percebeo ho melhor que pode esforçando fua gente. E vendo Iorge de brito que tardaua a repofta del rey, deufe por refpondido que queria guerra, & chamando a confelho feus capitães & outros homens honrrados da frota: propos algús males que el rey Dachem tinha feytos aos Portuguefes, polo que deuia de fer caltigado, antes que tomaffe mais atreuimento do que tinha. No que todos acordarão que fe fizeffe, & que ao outro dia pola manhaã defembarcaffem: o que receãdo el rey Dachem trabalhou polo impidir,
  • 104 Hijloria da Índia mandando fazer aquela noyte húa eftancia fobre a lombada em que man¬ dou affeftar algús berços pera que tirafiem aos noflos, não fomête ao de- fembarcar, mas fe quifeflem fobir acima: & mandou a hú feu capitão que a goardaffe com obra doytocentos mouros os mais deles frecheiros. Iorge de brito como foy manhaã abalou pera terra nos bateys da frota com a gente de lanças, efpadas, & adargas. E os bcfteiros & efpingar- deiros hião todos na fufta de Gafpar galo apartados, porque auião de ir na dianteira, & hião afli pera defembarcarc logo juntamente & fe porem de golpe em ordem: o que não poderia fer indo efpalhados pelos bateys. E logo a delauentura que aqui auia dacontecer começou logo aqui de dar final, porque como vétafle ainda ho terrenho & a fufta era grande & hia bem carregada não a deixaua ele remar tãto como os bateys q hião mais boyantes & fe remauão melhor: o que foy caufa de chegarem a terra muyto primeyro que a fufta, & em defembarcando começão os mouros de defparar os berços que eltauão na eftancia, com que lhe não fazião nenhú nojo por eftarem muyto ao fopé da lombada. O que vendo ho ca¬ pitão dos mouros como era homem esforçado, quis ver fe por fua peffoa cõ os feus podia defeder aos Portuguefes que nã fobiflem pola lombada, & lançafe corrédo por húa ilharga dela com a mayor parte dos feus: dando grandes gritas, & tirando muyta forna de frechadas. O que vendo Iorge de brito lhe pelou de não elperar pela fufta em que hião os béftei- ros & efpingardeiros, & então cónheceo ho erro que niflo fez, porque fe os teuera muy facilméte caftigara aqueles mouros contra quem mandou que folie Lourenço godinho com os de fua capitania pera os fazer ter. E parecendolhe que ganhada aquela eftancia da lõbada não tinhão os mou¬ ros mais força, com delejo de 1'e defpachar afinha não quis efperar pelos efpingardeiros & béfteiros, & remete cõ os outros capitães pela outra ilharga da lombada que eftaua defpejada, & não parou ate chegar á eftan¬ cia: de que logo fugirão effes mouros que hi eftauão fem oufarem de fazer nenhúa moftra de refiftencia, & a fugida deites & ver ho feu capi¬ tão que pelejaua com Lourenço godinho a eftãcia ganhada, forão caufas pera q ele não tardaffe muyto em deixar a peleja & fe acolher fem húa parte né outra receber nenhú dãno. Nefte tempo eftaua el rey Dachem preftes com mil homés muyto bem armados á fua vfança & quatro ali- fantes armados,* & ouuindo eftes a grita & reuolta que hia onde eftaua a eftancia layrão algús fora da cidade a ver o que era: & em aparecendo vio os Ioão lerrão que era ho alferez de Iorge de brito: & como homem leue do fifo fem lho ele mandar remete pola ladeira abaixo pera onde aparecerão os ímigos & apos ele todos os outros quando ho virão partir, fem valer a Iorge de brito bradarlhes que fe teueílem: porq fua tenção
  • Livro V, Capitolo LXV io5 era efperar polos béíteiros & efpingardeiros, & dar na cidade com toda a géte pofta em orde. E quando vio que não podia meter nela aqueles foyfe coeles: os immigos que fayrão da cidade em vedo ir os.Portugile- fes fe recolherão pera a cidade, Õde el rey eftaua com toda fua gente & alifantes. E entrãdo os noffos apos os Imigos que cuydauão leuar de ven¬ cida, derão com ho corpo da gente que os cercarão antre as cafas: & começarão de os ferir muyto rijo de todas as partes, aífi dom frechas ‘como com lanças darremeifo cõ que lhes dauão muy mortaes feridas, de que os primeyros que morrerão forão Ioão ferrão ho alferez, & hú Ayres coelho, & hú Gafpar fernandez que hia por feytor de Maluco home muyto valente caualeyro, & tão conhecido por tal que diífe el rey dom Manuel a Iorge de brito quando lhe pedio a feytoria parele que era melhor pera matar hú mouro que pera ler feytor. E elle Gafpar fernandez foy tomado por hú alifante que ho refinou pera ho ar & da pancada que deu quando cayo morreo, ou ho acabarão de matar os immigos que de cada vez apertauão mais os noffos, q pelejauão com muyto esforço, principalméte eífes capitães & homens dobrigação: porem os Imigos erão tãtos & os tinhão tão apertados que lhes não aproueitaua pelejar: & todos eftes q digo forão feridos & mortos, & antreles Iorge de brito: com cuja morte os q ficauão forão fogo desbaratados & fugirão feguindo os immigos apos eles, matando & ferindo neles. E indo adi encõtrarão com Lourenço godinho que hia caminho da cidade, & quando os vio vir daquela ma- neyra, voltou também a recolherfe aos bateys, deixãdo defemparados os q fugião fem os querer recolher nem fazerfe em corpo coeles: pelo que os immigos lhes poderão ainda fazer mais mal & os feguirão quafi ate a praya, onde os noffos mais delaliuados dos immigos fe recolherão aos bateys fem a fuíta de Gafpar galo poder ainda chegar por dar em feco. E recolhendofe os noffos hú Luys rapofo & Pero velofo ãbos criados del rey, & da criação de Iorge de brito perguntarão por ele, & achando que não era embarcado, difierão q nunca deos quifefTe que fembarcairem fem ele, & tornaranfe a meter antre os immigos a bufcalo, & matando muy- tos deles forão mortos: & coelles matarão os mouros bem fetenta homés todos efcolhidos & de nome, & forão feridos muytos defpantofas feridas que lhes derão com lanças darremeifo que lhes paffauão as coiraças, mas eftes viuerão delpois todos, & dos mouros morrerão muyto poucos. Tomo III ■4
  • Hijloria da índia 106 CAPITOLO .LXVI. De como por morte de Iorge de brito fucedeo na capitania de Maluco Antonio de brito feu irmão & do mais q paffou. REcolHidos 05 nofTos cõ tamanha perda como digo, Lourenço godi- nho fe apodou da armada, & encomendou as capitanias dos nauios aos efcriuães deles, & por confelho de todos fe partirão logo dali pera ho porto de Pedir que he a diante, porque não fayffem os Imigos & os tomalfem: & como os nauios não tinhão capitães ouue algús que íe quiferão leuantar coeles & irfe a diuerfas partes a fazer prefas. E eftando afli dous dias defpois de ali eftare chegou Antonio de brito, & fabendo a morte de feu irmão foyfe pera a capitaina, onde antre outros papeis achou hú aluara del rey: em -que lhe daua a capitania de Maluco por morte de feu irmão, & por ele tomou poífe da frota, & foy de todos obedecido por capitão mór, & proueo logo as capitanias dos nauios dãdo a do galeão de Chriftouão correa a hú fidalgo chamado Antonio de melo, & a do nauio de Chriftouã pinto a Lourenço godinho, & a de Francifco godiz a hú Francifco de brito chamauão dos oliuais, & a da carauela de Louréço godinho a hú feu irmão q auia nome Pero botelho, & a da fua carauela a hum Pero fernandez piloto. E repartidas eítas capitanias fe foy ao porto de Pacé onde ainda achou Iorge dalbuquerque, a que algús amigos daluoroços & nouidades aconfelharão q podia tirar a capitania de Maluco a Antonio de brito & dala a outrem q era a dada fua por Iorge de brito morrer debaixo da fua jurdição, & não fer ainda feyta a fortaleza de q auia de fer capitão, & que ho aluara da fucefiam Dantonio de brito não fe entendia fe não fendo feu irmão ja capitão da fortaleza: & por ifto quifera Iorge dalbuquerque lançar mão da armada. E defen- dendole Antonio de brito por muytas rezões, vierão a concerto que fe os capitães da armada Dantonio de brito foífem contentes de lhe obedecer por capitão mór q ho fofle, & fe a Iorge dalbuquerque q ele podefíe dar a capitania a quem quifelfe. E forão tomados os votos dos capitães, mef- tres, pilotos & homés honrrados da armada, & por todos votarem q que- rião Antonio de brito por feu capitão mór lhe ficou a capitania, & foyfe cõ Iorge dalbuquerq a Malaca ondeftaua Garciade fá por capitão da for¬ taleza, que a entregou logo â Iorge dalbuquerque por virtude da fua pro- uifam: & por nã fer ainda a moução pera Maluco ficou Antonio de brito em Malaca ate fer vinda. E com tanta & tão boa gente como fe ajuntou em Malaca, ceffou a armada del rey de Bintão de lhe ir correr como dantes.
  • Livro V, Capitolo LXVII 107 CAPITOLO .LXVII. De como ho gouernador Diogo lope\ de Jequeyra mãdou por capitão mór Diogo fernândeç de beja a Cambara, & do que lhe aconteceo. DEspois da partida Dantonio correa pera Baharem em Agofto, m㬠dou ho gouernador que eftaua em Ormuz a Diogo fernandez de beja capitão mór da armada que auia dir fazer guerra a Cam- baya q fe partiífe, & que ho efperafle da põta de Diu ate ho rio de Ma¬ dre fabá onde elperaua de fazer a fortaleza que ouuera de fazer em Diu. No que ho gouernador não teue nenhú fegredo antes ho difle pubrica- méte. E coefte regiméto fe partio Diogo fernãdez, cujos capitães forão, Nuno fernandez de macedo no çamorim grande, & Gafpar doutel é hú nauio redondo, & Manuel de macedo em húa carauela. E partido Dor- muz aos vinte Dagoíto, & chegando á cofta de Cambaya na parajem da cidade de Patane tomou ele dous zãbucos de mouros q hião da outra cofta: & Nuno fernãdez ouue vifta de húa nao de mouros que lhe fugio, porque em lhe tirando hú bombardeiro noffo húa bombarda deu na re- linga da vela & rompea, & em quanto a remedarão acolheofe a nao. E dali foy logo ter coele outra muyto grande q hia do eftreito & leuaua por cada banda dez bombardas roqueyras, & hião nela cento & vinte mouros brancos de peleja muytos deles elpingardeiros a fora outros, & molheres & meninos, & carregada de muyta mercadaria: & ele lhe deu caça ate a encaualgar. Vedo os mouros que os tomauão parece que con¬ fiados na grandeza de fua nao: que efpedaçaria ho galeão fe ho encon- trafle em cheo, poferão a proa nele indolhe de balrrauento: & fe ele não arribara ouuerãno de partir polo meyo, tão poderofa era a nao. E como ela ficou tão perto do galeão mandou Nuno fernandez aos mais dos noflos que fe meteífem na alcaçoua do galeão, & cobrir a entrada com hú pano: porq os mouros vendo pouca gente lhe não ouueflem medo & não fugifle, & affi foy: por onde a nao foy logo aferrada por proa, a que cinco ou feis dos noflos acodirão com Nuno fernandez, & entrarão dentro coele: & os outros ficarão de popa por onde cuydarão que fe a nao abalrroafle. E como os mouros le virão entrados arremeteram a Antonio daraujo, que foy ho primeiro que entrou, & derãlhe húa cutilada por húa perna. E ho fegundo foy Aluaro de brito filho de Nuno borges, a que ferirão na cabeça fobre hum olho: de maneira que logo ho derribarão, & a Nuno fernandez com hú zaguncho per húa ilharga, com que lhe defentreflolha- ram as couraças. Os outros mouros também fe poferão polo bordo da
  • Hifloria da índia 10S nao, & tirauão muytas frechadas, pedradas, & efpingardadas, & era a barafunda muyto grande. E eítãdo os nofTos que eftauão na nao neíte pe¬ rigo, & fentindoho os que ficauão no galeão focorrerãolhe. E dando San¬ tiago nos mouros entrarão por popa, & deites que entrarão obra de qua- torze começarão de pelejar com os mouros: q os outros meteranfe logo a roubar a nao. E com a peleja dos noffos afroxarão os mouros de proa & defaliuarão Nuno fernandez, & os outros por acodirem aos de popa: onde os noffos matarão a mor parte dos mouros, principalméte os bom¬ bardeiros que logo os conhecião pelos murroes: & os outros forão cati- uos com toda a mais gente da nao, que foy logo paífada ao galeão. E porque não auia agoa pera tantos mandou Nuno fernandez a dous bom¬ bardeiros noffos que eiteueffem a bordo com fenhos marrões & mataífem coeles todos os mouros homés: & aííi ho fizerão, & deitauãnos ao mar, & fomente ás molheres & meninos derão a vida. E defpois de baldeada a mor parte da fazenda da nao no galeão: mandou Nuno fernandez a dous carpinteiros que lhe foliem fazer dous rombos pera fe meter no fúdo. E eles com medo fizerãolhos: lam pequenos que pode entrar pouca agoa. E também porque defpois de faidos, algús mouros que fe efconderão na nao, vendo os rombos que lhe fizerão: & fentindo como a deixauão tapa- ranlhe os buracos, de modo que a nao fe nam foy ao fundo. E iíto feria ate noue horas do dia. E cuidando Nuno fernandez que a nao ficaua bem arrombada deixou ha. CAPITOLO .LXVIII. De como Hagamalimut faio com algíias fuflas de Din a pelejar com os noffos, & os desbaratarão: meiêdo no fiido ho nauio de Gafpar doutel. Ecomo ifto foffe obra de feis legoas de Diu, ouuerão os mouros viíta dos noffos. E fabendo ho Melicjaz que ja hi eítaua, & 1'abia q os noffos eítauão coele de guerra, mãdou logo a Hagãmahmut q faiffe cÕ ate xviii fuitas aos noífos, & ele ho fez afli: Com que eles quando virão as fuitas ficarão todos bem agaítados, porque como auião de paflar Golfão trazião a artelharia abatida: & as portinholas do lume dagoa ca¬ lafetadas, porque lhe não Õtraffe ho mar dentro, & vinhão os nauios aífaz dempachados com fato: o que algú tanto foy delcuido dos noifos capi- taés, porque como ouuerao viíta da coíta de cambaya: & mais tam perto de Diu logo fe ouuerão daperceber: & mais fabédo que as fuitas lhe auião de fair em auendo viíta deles: aííi que vendo as os noífos quiferãofe
  • Livro V, Capitolo LXVII1 109 aperceber, mas elas não lhe derão lugar pera iffo. E Hagamahmut man¬ dou a duas que tomafle a nao dos mouros & a leuaffem a Diu: & afli ho fizerão, & as outros repartio pera que pelejaffem com os noffos fegundo lhe parece q abaftarião pera iffo. E como ho veto era calrrta terçaualhe bé pera a peleja. E os noffos quando virão repartir as fuffas cuidarão q não foffe a coufa como foy: porem os mouros que leuauão é determina¬ ção de os deftroirem de todo, remeterão hús & outros ao nauio q lhes coube: & cercarannos polas popas, & começarão de os facudir com a artelharia que traziao muy boa, & os noffos ali nhúa pola caufa q digo, principalméte ao lume dagoa: que a dos altos como as fuffas erão raftei- ras não lhe podia fazer nojo: nem os noffos não lho podião fazer cõ ou¬ tras armas, porq os mouros tirauão em roda viua tanta efpingardada, & frechada, que era pafmo. E ho primeiro nauio com que apertarão foy ho de Gafpar doutel queftaua mais a lanço: & metianno no fundo quanto podião, ho que ele vedo: & que não podia efcapar determinou de aferrar com os Imigos pofto que erão muytos em demalia, porque por fer muy esforçado lhe pareceo q fe poderia afli ajudar deles: & coefta determina¬ ção mandou atracar ho batel pera fe meter detro com os do nauio: ho que eles não quiferão dizendo que os mouros erão tantos que parecia doudice cometelos: & ele refpondeo que melhor era doudice que couar- dia porque não podia fer maior que deixarfe atíi morrer como deixarão, porque não tardou muyto q fe acabou ho nauio dencher dagoa de popa: & adernãdo dela leuantou a proa pera cima & foyfe ao fundo, com mor¬ rerem os mais dos noffos: & algús q efcaparão nadãdo forão tomados dos mouros com grandes gritas que dauão com prazer de tamanha vito¬ ria, & muyto mais esforçados q dantes forão ajudar feus companheiros, que pelejauão com ho capitão mor & com Nuno fernandez, (que de Ma¬ nuel de macedo parece que não fazião conta por a fua carauela fer pe¬ quena) & os que cercarão ho capitão mor lhe derão húa bombardada ao lume dagoa abaixo do conues que ho meterão no fundo fe não acodirão logo cÕ hú bacio de prata dagoa as mãos q não fe achou outra pafta de chúbo, & pregado hõ coiro por cima vedoufe a agoa que não entraffe: & cõ tudo ainda ho ouuerão de meter no fundo fegundo apertauão coele, fe ho não defedera ho feu batel que era hú batelão grande com húa tilha em que trazia hú camelo & dous falcoés: que varejarão tã bem as fuffas, q as fizerão afaftar de lonje, & afli ficou liure ho capitão mor & não lhe matarão ningué. E como Nuno fernãdez não teueffe outra tal -defenfão, os mouros q ho cõbatião ho apertauã tã rijo quanto parecia fobela agoa do bordo ate a gauia era cuberto de frechas que os Imigos pregauão nele: & coifto tanta bombardada que não fe lhe podia ningué emparar. Porque
  • JIO Hijloria da índia eftando hú bõbardeiro no conues com hú falcão as coftas pera tirar aos Imigos, dalhe hú pelouro polos peitos & màtouho, & outro entrou por húa portinhola da defpéfa do galeão qftaua calafetada por fer ao lume dagoa, & leuou as pernas ao defpenfeiro, & hú pedaço dum hombro a Aluaro de brito queílaua ali ferido: & paffando auante matou húa mo- lher, & leuou húa mão a hú menino, & húa nadega a hú homé: & affi ferio outras quatro peffoas, & forão por todas noue: & outro pelouro q leuaua de meftura húa roca deu na cabeça do eferiuão do galeão & leuou- lha: & affi matou outro homé criado do bifpo q então era de lamego, & agora he arcebifpo de Lisboa, & ferio defpois bé fete peffoas. E quis noffo fenhor q eftando os noffos nefte tamanho aperto começou de ven¬ tar algú vento que era antre terrenho & viração que affi como começou começarão os noffos de fazer caminho, mas nem por iffo as fuftas deixa¬ rão de os feguir ás bombardadas: porq como ho vento era galerno po- dião com os noffos nauios, & apertarãnos tanto que os fizerão meter na enleada de Cambaia, indo com tãta neceffidade dagoa q a cada peffoa fe não daua mais que mea fiá dagoa por dia: & ifto os apertaua mais que que as fuftas, fe não quando lhes da húa trouoada feca: & fov tarri rija que as fuftas fe acolherão ho mais q poderão, & tornaranfe a Diu. E vedo os noffos as fuftas acolhidas furgirão, & lurtos lhe fobreueo outra trouoada molhada com que fe fartarão dagoa: & apos ela forão dar coe- les dous zãbucos de mouros de Braua, carregados deferauos pretos, & Sãdalo brauo: & tomados foife ho capitão mor a Chaul a tomar agoa & mantimentos, que eftaua hi hú feytor noffo chamado Diogo paez & tomado ho de que tinha neceffidade tornouffe a bufear ho gouernador, pera lhe dizer que não curaffe de cometer fazer fortaleza em Madre faba: porque foube q Meliquetjz foubera dos noffos que efeaparão do nauio de Gafpar doutel, a determinação do gouernador de querer hi fazer fortaleza em tornando Dormuz & logo fe apercebera pera lho deféder, & por ifto foy grande mal defeobrir ho gouernador fua determinação como atras diffe: que fe a não defeobrira poderaffe ali fazer fortaleza. E Diu não dera def¬ pois tanto trabalho como deu.
  • Livro V, Capitolo LXIX m CAPITOLO .LXIX. De como partio de Portugal dom Duarte de menefes por gouernador da índia, & de como chegou lá com toda jua armada. SAbendo el Rey de Portugal que na índia começauão dauer aluoro- ços de guerra, & q alguús Reys & fenhores começauão de declinar da obediência & acatamento que dantes tinhão ao feu nome: quis mandar hú gouernador que tornaffe a reftaurar ifto no primeiro eftado. E pera iffo efcolheo a dom Duarte de menefes capitão da cidade de Tan- gere em África, onde em muytos annos tinha dado aífaz de teftemunho de feu esforço & valentia contra os mouros em muytas batalhas que ven¬ cera: & é lhe entrar tanto pola terra que chegou aos Motes claros (coufa que os mouros núca cuidarão, & que os muyto mais efpantou que todo ho pâfTado) & por efta experiencia que auia de dom Duarte, & por fer filho do cõde de Tarouca: prior do Crato & alferez mor del Rey lhe deu ele a gouernança da índia cõ muyta auantajem do que ate li fizera aos outros gouernadores. E defpachada fua armada fe partio de Lisboa a cinco Dabril anno de mil & quinhentos & vintehú. E os capitaés que leuou forão eíles, dom Luis de menefes feu irmão que leuaua a capitania mor do mar da índia: Martim Afonfo de melo de Santarém que leuaua húa viajem pera a China, por capitão mor de tres naos a fora a fua: cujos capitaés erão Vafco fernandez coutinho & Diogo de melo, feus irmãos & Pedromé irmão do eftribeiro mor que hião por capitaés deita armada, & Iohão de melo da filua, que ia pera capitão de Coulão & Vi¬ cente gil filho de Duarte triftao hum armador. E partida efta armada fem lhe acontecer coufa que feja pera contar, chegou a cofta da índia em Agofto: & eftando furta fobre Baticala, chegou hi dom Aleixo de mene¬ ies, que como abrio a barra de Cochim fe partio com tres gales, de que erão capitães, dom Iorge de menefes, Francifco de mendoça, Andre de foufa chichorro, que hia caminho de Madre faba a bufcar ho gouernador Diogo lopez. E dando rezão a dom Duarte do eftado em q a índia eftaua feguio fua via. E dom Duarte fe foy a Cochim onde fe apofentou na for¬ taleza, & começou logo dufar do officio do gouernador.
  • 112 Hijloria da índia CAPITOLO .LXX. De como Antonio correa oiiue a ilha de Baharê, & a fortaleça de Catifa: & fe tornou a Ormuç. COmo el Rey MocrI foy morto, hú feu fobrinho chamado Xequeha- met a que a géte da terra obedecia mandou pedir feguro a An¬ tonio correa pera lhe hir falar pera lhe entregar a ilha de Baha- rem & a fortaleza de Catifa: porque todos os da terra qrião eftar a feruiço del Rey de Portugal, & em final de aquilo fer verdade lhe man¬ dou dous caualos Arábios. E efte recado lhe leuou hú mouro homc muyto aluo & rofado, vertido ao modo Veneziano de cor de bredo. E dado por Antonio correa ho feguro viofe com Xeque hamet, q lhentregou a ilha & fortaleza, com condição que lhe deífe paflagem pera a terra firme a ele & á gente eftrãgeira: & Antonio correa lha deu também cÕ condição, que não leuaffe nenhúas armas né caualos de que tinha muytos. E feita a entrega coeftas condiçoés, foy dada a paflagem a Xeque hamet & a lua géte: & pafiou os Raix xarafo nas fuas terradas: & defpois que paflarão ho mefmo Xarafo foy tomar porte de Catifa por el Rey de Portugal, & por el rey Dormuz. E Antonio correa fez gouernador de Baharem Raix bubacahum mouro Arábio capitão principal, & muyto bom homé de que a gente da terra foy muyto contente. E reftituido todo ho reyno de Ba¬ harem a el Rey Dormuz, & ficando tudo em paz partiofe Antonio çorrea caminho Dormuz aos doze dAgofto & não efperou por Raix xarafo, por ter grãde receyo que achafle ja ho gouernador partido pera Cambaia porque não leuaua em regimento que efteueffe em Baharem mais que ate vinte cinco de Iulho: porque cõpria ao gouernador partir cedo pera Cã- baia, porque defejaua de fazer a fortaleza em Madre faba antes q de Portugal foffe outro gouernador. E pola prefia q Antonio correa teue de fua partida deixou dauer muytos caualos & outras coufas ricas, que fica¬ rão em poder de Raix xarafo & ele as deixou por fazer ho que deuia: & hir a tempo ao gouernador que fazia dele muyta conta: de quem foy muyto bem recebido chegãdo a Ormuz. E el rey Dormuz ho mandou logo vifitar dizédo que ho não fazia per fi por eftar doente de húa perna. E Antonio correa ho foy ver, & ele lhe fez muyta hõrra: & lhe mãdou dar um terçado douro, & húa adaga, ambos muyto ricos & hú caualo felado com húa feia & goarnição de prata, & peças de brocado & outras peças de feda: & a feu irmão q hia coele outras, & huã adaga & terçado ambos ricos: & afli mãdou dar peças ricas a todos os capitaés & fidal-
  • Livro V, Capitolo LXXI 113 gos que forão coele na armada que ho acompanharão, pedindo a todos muytos perdoes de lhes dar tam pouco: porque fe fora fenhor de todas luas rendas como dantes que lhes pagara os gaftos & os trabalhos como merecião. E defpois de chegado Antonio correa, chegou da hi a algús dias Raix xarafo cõ fua armada, & entrou muyto foberbo por hir com os noffos & fuceder a coufa tã bem como fucedeo. CAPITOLO .LXXI. Do confelho que ho pay dei rey Dormu\ lhe deu q não fi\effe treyção aos noffos. E de como a treição foy defcuberta ao gouernador. VIndo Raix xarafe de Bahare trouue mais propofito de fazer cõ el rey Dormuz que fe leuantaífe, porque vinha muyto poderofo de géte: que toda a da armada que leuou a Baharem era lua, & por ler goazil Dormuz & filho de Raix noradim, cuja feitura erão os mais de feus moradores tomou mor atreuimento pera fe leuantar: & por ilfo falou logo com el rey como chegou: & labendo que eítaua em propofito de fe leuantar perluadio ho que permaneceífe. E labendo ho pay del Rey que ele tinha eíta determinação como velho, fabedor e prudente lhe fez húa fala: em que lhe frouue d memória os beneficios que recebera Dafonfo dalbuquerque é ho Iiurar do catiueiro de Raix hamet, & em ho reftituir no reyno tédo tudo em feu poder: & que fempre ho tratara como a filho, & afli recebera muvtas amizades dos noffos: & polto q el Rey de Portu¬ gal lhe tomaífe fua fazenda não era de modo que lhe não ficaffe larga¬ mente ho neceífario pera feu gaito, & que pois ele não tinha dãtes mais (porque ho reíto fe gaítaua a võtade do goazil) não lhe deffe gaítalo el rey de Portugal porque coiflo ficaua 1'eguro das treiçoés que auia em Ormuz: porque ele não lhe auia de tomar mais que a fazéda com partir coele, & ho goazil não fomente le auia de contentar de lha tomar mas ainda a vida como coltumauão: por iffo que lhe rogaua que fe não leuan- taffe. E com quanto elie conlelho era como de pay, perfuadio ho mais ho de leu fogro Hoxeque que fempre ho matinaua que fe leuantaífe. E começãdoffe ifto dordenar, Raix de lamixá q íabia parte deita coufa como era grãde amigo de Manuel velho cõ quê era cõpanheirò nalfãdega diífe- lhe hum dia: que Raix noradim feu pay lhe deixara ecomédado quando morrera que folie fempre muyto leal aos noffos, porque eles ho reftitui- rão em lua honiFa q lhe Raix hamet tinha vfurpada & ho vingarão dele: & porque lhe ele prometera de ho fazer afli, lhe queria defcobrir húa coufa em que hia muyto ao gouernador: & ifto fazia porque ho tinha por Toko lil i5 2
  • JI4 Hijloria da Lídia irmão & queria que ganhaífe as aluifaras diflo: & defcobriolhe como ei Rey trataua de fe leuantar, & determinaua de mãdar queimar a frota do gouernador porque não teuefie em que fe acolher: ou deixalo pera def- pois q fe foíTe & tomar a noífa fortaleza. E cuidando Manuel velho que daria nifto grande noua ao gouernador, defpois que foube que Mira- mahmet morado, & ho Xeque erão os que mais confelhauão el Rey que fe leuantafle: rogou a Raix dela mixá que quifelTe dizer aquilo ao gouer¬ nador, & ele di 11 e q diria fendo ele lingoa (porque fabia bem a Perfiana) & dizendo ele que íi forãofe a cafa do gouernador hú dia pola feita, õde lhe defcobrirão em fegredo ho que diffe: do que ho gouernador não fez nhú cafo né recebeo coilfo nhúa alteração: & Manuel velho diífimulou cõ Raix dela mixá dandolhe muytos agardicimétos da parte do gouernador. E ainda fobrifto porque pareceo a Manuel velho q ho aiTeffego Dormuz eftaua na morte do Xeque, & de Miramahmet morado, ofereceofe ao go¬ uernador pera os matar fecretaméte quãdo hião de noyte pera cafa del Rey, per hú lugar fecreto que lhe dilfera Raix dela mixá, & ho gouerna¬ dor não quis. E não abaítou eíle auifo que lhe eltes dous derão mas ainda fobrifto Raix hamet outro irmão de Raix xarafo diffe ao gouernador que fe queria ter Ormuz em paz que quando fe foífe pera a índia não dei- xaífe nele ho xeque fogro del Rey, & ho gouernador atetou tão pouco por iífò que não lhe perguntou a caufa porque ho diíia, nem como ho fabia, nem menos tomou feu confelho: E fobreíte lhe deu Frãcifco de foufa tauares outro. Que fabendo ele q Raix xabadim eftaua é Orfacão da mão del Rey Dormuz, que dantes fe moítraua efcandalizado dele man- dandoho prender: diffe o ao gouernador & que lhe parecia aquilo muyto mal, & que era pera fe entender que el Rey de Orrnuz queria ordenar algúa treição, & por ilfo ho tinha ali: que deuia dir fobrele & tomalo. E ho gouernador fez fobriífo algús cõfelhos. E acordouífe que foffe fobre Òrfacã & o tomaífe: & por derradeiro não quis fazelo por fer muyto con¬ fiado. Porem a verdade não fe foube faluo que fe dizia que eftaua muyto defcontente por el rey de Portugal não deixar em feu arbítrio, & no pa¬ recer do confelho da índia a maneira de como fe auião de poer os noífos ofticiaes nalfandega Dormuz fe não taixar logo la tudo: & dizia quel Rey efcriuia na area: & por eíte defgofto parece que não comprio ele ho re¬ gimento del Rey, que era mandarlhe que fizefle em Ormuz duas fortale¬ zas, & recolheíle a elas todos os noífos que morauão fora da fortaleza, onde deixaria oytenta homés de caualo, & no mar húa boa armada: por¬ que delta maneira ficarião os mouros enfreados pera fe não leuantarem: & de tudo ifto ho gouernador não fez coufa nenhúa, mas ainda ho dinheiro que rendia a alfandega, que el Rey mandaua que fe recolhefe em hú cofre,
  • Livro V, Capitolo LXXII n5 & que ho teueífe Manuel velho em poder, ho entregou a el Rey Dormuz & lá eftaua: & a frota q deixou a Manuel de foufa tauares capitão mor Dormuz, foy hú nauio em que ele andaífe, & húa carauela de que erà capitão Iohão de meira, & em húa galeota Francifco de foufa ho brauo, & em húa fufta Fernão daluarez dega, & em todas tam pouca gente que não era nada: ho que vendo ho capitão da fortaleza dõ Garcia coutinho lhe pedio & requereo que lhe deixaíTe rriais gente, & que olhaífe como ficaua a terra bolida: & ele lhe deu então trezentos homés. E dizendo dom Garcia que era pouca gente, dixelhe ho gouernador que deixaffe a fortaleza & que a daria a quem a defendeffe com aquela gente. CAPITOLO .LXXII. De como ho gouernador mudou lio confelho que iinlia de fa\er fortaleza em Madre faba, & a começou em Cliaul. DEixando ho gouernador Ormuz também apercebido pera ho grande perigo em que ficaua, apercebeo lua partida pera a índia. E difli- mulando el rey Dormuz a treição que queria fazer, rogoulhe que deixafie algum nauio pera lhe leuar hú embaixador que queria mandar a el Rey de Portugal, & alli húa tenda rica & outras peças que lhe queria mandar de prefente: que fingio que feftauão fazendo. E ho gouernador deixou a Pero da filua de menefes capitão de húa nao que leuaffe efle embaixador: & illo feito partiofe na fim de Setembro, com fundamento de fazer húa fortaleza no rio de Madre faba, & pera iffo leuaua a nao Serra de que hia por capitão Aires correa, carregada de petrechos e mu¬ nições neceifarias & algús rumes catiuos, pera ajudarem ao trabalho. E chegando a poma de Diu que não achou Diogo fernandez de beja com fua armada, ficou efpantado de ho não achar polo que lhe tinha mandado: & parecendolhe que feria a correr a cofia foytfurgir na barra de Diu. Ho que logo Meliquiaz foube, & como também fabia que dom Duarte de me¬ nefes era chegado pera gouernar a índia, mandouho dizer ao gouernador com tenção: que fe hia pera lhe fazer guerra que lha não fizefle: Pcrem ho gouernador não lhe refpondeo nada, & deixoufe eftar. Ho que vendo Meliqueaz mandou logo muyta gente a Madre faba, receando que ho go¬ uernador quifeífe ir lá fazer fortaleza como tinha fabido polos noffos, que tomarão do nauio de Gafpar doutel: & afli mandou meter mais gente & artelharia nas fuftas que eftauam a vifta do gouernador. Que efiando afli furto os Rumes catiuos que eftauão na nao Serra quiífcrão antes morrer que viuer catiuos, & por iífo bufcarão maneira pera poerem fogo em hum
  • Hiftoria da Judia 116 payol ondeftaua poluora em que fe acendeo de maneira que nunca lhe poderão valer que não ardefie a nao & quafi quantos eftauão nela, & foyfe ao fundo. E ficando ho gouernador muyto agaftado por elte defaftre: & por fe perdere os petrechos & munições pera fazer ali a fortaleza, & lhe lerem necelfarios outros, & os não ter, & lhe parecer que os teria em Chaul: determinou de ir lá fazer a fortaleza, & por iífo fe foy pera lá, & na foz do rio achou Diogo fernãdez de beja, que lhe contou como lhe os mouros meterão no fundo ho nauio de Gafpar doutel & desbara¬ tarão a elle & aos outros capitães: & como Meliquiaz tinha fortalecido Madre faba, porque não podelfe fazer lá fortaleza: polo que fe ele tirou daquela determinação: & aífentou de a fazer em Chaul, fobre o que tinha mandado Fernão camelo ao Nifa maluco. E efta fortaleza fez por fazer algúa coula, que fe achaua corrido de não ter feito nada, & da pouca fegurança que deixaua em Orrauz, do que ele andaua aífaz delcontente, & affi ho dezia. E porque as naos em que ãdauão Lopo de azeuedo & Chrillouão de faa erão da carreira mandou os daqui pera Cochim, & ele entrou pera détro do rio, & foy furgir com toda a armada diante de Chaul, onde achou Fernão camelo com repofta de Nizamaluco, que daua licença pera fe fazer a fortaleza, com condição que lhe mandaffe ali ven¬ der cada anno quatrocentos caualos Arábios. E com tudo pefaualhe muyto de fe fazer fegundo ho gouernador foy auifado: & por ilfo fe confederou logo ho gouernador com Mamonacodá hum mouro honrrado natural da terra, & muyto principal nela: & ho peitou tanto que lhe deu maneira como ouuefle pedra & fizeffe cal pera fazer a fortaleza: & affi lhe defle madeira & outros materiais necefiarios parela. E pera fe fazer efte con¬ certo hia ho gouernador cada dia a terra, & de noyte tornaua a dormir a frota: & neíle tempo mandou fazer húa tranqueira bem fortalecida dar- telharia pera fe defender fe vieffem Imigos, em quanto fazia a fortaleza: & ifto porque teue por noua certa que Meliqueaz fe vinha a Baçaim pera ver fe lhe podia impedir que não fizeffe fortaleza, porque lhe pefaua muyto de a ter tam vizinha de Diu: & porem defpois fe foube que Meli¬ queaz não era ho que hia a Baçaim, fe não Hagamahmut por feu man¬ dado, & que leuaua todas as fuftas: & por iífo ho gouernador fe fortale¬ cia, & de dia eftaua em terra dando ordem aos que tirauão a pedra & fazião a cal, & de noite hia dormir á frota, & a gente comú licaua em terra.
  • Livro V, Capitolo LXX1II 7/7 CAPITOLO .LXXIII. De como dom Aleyxo de menefes chegou a Chaul, & de como Haga- mahmut capitão de Meliquiaç correo per mar aos nojos. NEste tempo chegou dom Aleyxo de menefes a Chaul, & cotou ao gouernador como era chegado dom Duarte de menefes por gouer- nador. E com tudo fe deixou eftar ate fer feita algúa parte da for¬ taleza: & auendo algús dias que dom Aleixo era chegado, fe leuantou fupitamente hú grande rumor antre a gente da terra, dizendo que vinha Meliqueaz. E como os noffos ho ouuifTem foy tamanho ho medo em algús, que fe embarcarão logo fem mais efperar: & outros dezião ao gouerna¬ dor que fe embarcaffe, porque Meliquiaz trazia muyto grãde armada & muyta gente, & fe ho efperaffem em terra que os moradores dela fe ajun- tarião coele & os tratarião muito mal. E ho gouernador não quis tomar tal confelho: antes acodio aos que fe embarcauão, pelejando coeles de palaura porq fe embarcauã fem feu mãdado deteueos. E nifto veo ter coele Antonio correa, q com quanto ouuio ho rumor que hia, não deixou douuir húa miffa que eftaua ouuindo: & acabada foy ajudar ao gouerna¬ dor a deter os que fe embarcauão, que era fem caula, porque Haga- mahmut era o que vinha, & não Meliqueaz: & efte ainda longe, & trazia lua armada. E fabendo ho gouernador a verdade, mandou a dõ Aleixo que faiífe ao mar a pelejar com os Imigos, & que foffe em fam Dmis, & que ho acompanhalTem outros dous galeões & a carauela de Manuel de macedo, & as tres galés: em que por trazerem pouca géte mandou ho gouernador meter algúa de fua armada, o que todos fazião de maa von¬ tade, alli lidalgos como dos outros: & a rezão diffo era por andarem def- contentes do gouernador, & por verem que aquilo não era peleja em que 1'e ganhatfe honrra, por fer de perigo fem fe ninguém poder aproueitar de fuas forças. E com tudo Francifco de foufa tauares fe embarcou na galé de Francifco de mendonça: & indo dõ Aleixo polo rio abaixo acal- moulhe ho vento & não pode fayr dele, & virão os noffos que andauão os immigos ás bombardadas com húa nao noffa: & efta era de Pero da filua de menefes, que vinha Dormuz onde ficara elperando polo embaixa¬ dor & prefente que el rey de Ormuz dizia que auia de mandar a el Rey de Portugal: & vendo Pero da íilua que tudo erão dilações não quis mais efperar & partiofe: & indo pera entrar no rio de Chaul topou os immi¬ gos que andauão nas fuftas que ho cercarão logo, tirandolhe muytas bom¬ bardadas: & como os noffos vinhão defapercebidos não poderão aprouei-
  • iiS Hijloria da índia tarfe de fua artelharia. E por a nao fer podre, & as bombardadas dos immigos muytas, meterãna no fundo: & ho capitão com os mais q vinhão nela forão afogados: & algús que ficarão fobela agoa forão tomados. E antes da nao fer metida no fúdo quiferalhe dõ Aleixo focorrer por eftar a vifta: & mandou ás gales q focorrefle a remo, o q elas fizerã, & ao fair da barra como ja a nao era metida no fundo chegarão as furtas, & meterãofe coele ás bõbardadas tam rijo que os fizerão deter: & na galé de dõ Iorge matarão tres homés cõ hú tiro & affombrarão muytos. E arti efteuerão ate a tarde que dom Aleyxo fayo fora: mas como o vento era contrairo foylhe forçado furgir na corta, & por iffo não pode chegar ás furtas que eftauão a fua vifta: de q aquela noite fugio hú dos noftos q fora catiuo na nao Pero da filua, que contou a dõ Aleixo o que lhe acõte- cera. E como foy manhaã os noffos fe fizerão á vela pera pelejar com os Tmigos, que como os virão vir juntos em corpo, & q as galés & bateis ficauã coeles ela por ela: & cuydando que faifle toda a outra que fabião queftaua dentro: retirarãfe contra Baçaim, dõde tornarão dali a dous dias, eftando de fora da foz Andre de loufa dando goarda a hú nauio noffo que eftaua efperando pera entrar com a maré: & Andre de foufa ho goardaua, porque em quanto ali efteueífe não vieffem os ímigos & ho meteffem no fúdo, como fizerão a Pero da filua. E fintindo dom Aleixo q eftaua ainda no rio a vinda dos ímigos: temédo que trataffe mal Andre de foufa fayo fora cõ fua armada: & vendo quã pouca era pelejarão coela ás bõbardadas: no q fe deterião bé tres horas: & morrerã algús dos noffos na galé Dandre de foufa: & Hagamahmut ficou muyto foberbo de fe ter tãto cõ os noffos: & por ver que não faya a outra armada a pele- lejar coele, que cuidaua q lhe auia medo. CAP1TOLO .LXX1III. De como os noffos pelejarão algftas ve\es com Hagamahmut: & de como ho gouernador determinou de fe partir pera Cochim. Epor fe ho gouernador recear q os Tmigos faiffem na ponta da barra, onde andauão os cauouqueyros tirando pedra pera a fortaleza, mandou a Francifco de mendoça que na fua galé fe pegaffe com terra, & impediffe que não fayffem os ímigos em terra: & dom Aleyxo com a outra armada lhe ficaffe á vifta détro no rio. E logo ao outro dia que ifto foy feito em começãdo a viração q feria as dez horas do dia, foy Hagamahmut cometer Francifco de mendoça, eftando dom Aleixo com os outros capitães a tiro de falcão & a vifta: mas por amor da viração
  • Livro V, Capitolo LXXIIII que era por dauãte lhe não pode focorrer: & com tudo mandoulhe aju¬ dar cõ a artelharia, que os imigos tinhão em muyto pouca conta que lhe não fazião nenhú danno por as fuftas ferem rafteiras & ela tirar de longe. E como Hagamahmut fabia que dom Aleyxo não podia acodir a Francifco de mendoça, por amor da viração que lhe era contraíra, apertaua muyto pera ho abalroar: o que vendo feu comitre diflelhe q arribaflem porque doutra maneira não fe podião faluar: & porque lhe tinhão ja quebrada a eftanteirola, & defgoarnecida muyta parte das obras mortas. E com tudo Frãcifco de mendoça porque não parecefle q fugia não quis arribar dando vela, mas mandãdo arriar a amarra mãdoufTe alar por ela: & chegouffe pera a noffa frota & ela parele, que a noífa artelharia ho pode ajudar & nem por iffo os Imigos fe deixarão de chegar auante, & tornarão a jugar as bõbardadas muy fortemente, & durarão nifto bem quatro oras de re- logio: & ficãdo muy tos mortos na gale de Francifco de mendoça, & tres na de dõ Iorge de menefes. Foyífe Hagamahmut muyto contente, pofto que com muytas fuftas defaparelhadas. E dom Aleixo fe deixou ficar por¬ que não parecefle q fe recolhia com medo dele: q afli ho cuidariã os da terra, por terem para fi que os imigos podião mais que os noflos & por iffo fe deixou ficar: & afli ho mandou dizer ao gouernador. E pofle na boca da barra ondefteue dous dias efperando por Hagamahmut queftaua nos Ilheos de Chaul dali a húa legoa concertando fuas fuftas. E vendo do Aleixo que não hia foyo bufcar leuando as tres gales, & a carauela de Manuel de macedo, & húa fulta & ho batel de fão Dinis com hú tiro groflo, & hia nele Francifco de foufa tauares, & dom Aleixo hia na gale de dom Iorge de menefes. E fabêdo Hagamahmut como dõ Aleixo ho hia bufcar, auendo aquilo por quebra de lua honrra: & que perderia a gente da terra ho credito que tinha nele de poder mais q os noflos, vendo que ho hião bufcar: fayo a receber dom Aleixo, & cometeo os noflos porem não com a furia q acoflumaua. E começoufe antreles hú jogo de bombar- dadas, de que muytos dos remeiros dos Imigos forão feridos, & dos noflos algús. E vendo Hagamahmut hir a coufa daquela maneira como ventou a viração, mandou furgir lua frota a balrrauéto da noífa: que tam¬ bém furgio porque por ho vento ler por dauante não fe podião chegar aos Imigos: & afli efteuerão toda a noyte fegulte. E ao outro dia tornou dom Aleixo a pelejar com os Imigos, & jugarão as bombardadas ate que veyo a viração que os eftoruou: & então fe tornou dom Aleixo a boca da barra, efperando que tornafle Hagamahmut como tornou: & dõ Aleixo lhe faio: & defpois de jugarem as bõbardadas fe tornou a boca da barra: & por efpaço de vinte dias teuerão efte trabalho, fem fe fazer de húa parte nem da outra nhúa coufa notauel, fe não delaparelharenfe hús aos
  • 120 Hijloria da índia outros com a artelharia: & matarenfe remeiros hús aos outros. E neítc t#po mãdou ho gouernador fazer em húa das pontas da barra da banda do fui hú repairo a maneira de baluarte com ceftos cheos de terra em que madou affentar algúa artelharia, pera que tiraffe aos Tmigos quando folTem cometer dom Aleixo: pera q ho efcufaffé de pelejar cõ ele, & tirar os noffos de perigo & trabalho. E ho cõfelho de fazer efte baluarte lhe deu hú caualeiro chamado Pero vaz por mão homé de bõ esforço faba- dor da guerra por a coítumar muito tempo em Italia õde andara. E ho gouernador lhe deu a capitania defta eftãcia de que fazia tirar aos immi- gos quãdo vinhão, que por iflo não tornarão dali por diante tão amiúde, porque a artelharia lhes fazia dãno. E com tudo Pero vaz hia dormir de noyte á frota porque os immigos ho não tomaífé, & deixaua a artelharia fó. O que foy dito ao gouernador, & q proueíle naquilo porq os mouros não foífem de noyte tomar aquela artelharia. E ele refpondeo, que como a auião os mouros de tomar. E fendo ja na fim Doutubro mandou G5- çalo de loule na fua carauela cõ recado a el rev de Portugal do que fizera em Ormuz, & como fazia aqla fortaleza: poíto que mal dizétes diíferão que mandaua nela muyto dinheiro, porque lho não tomaflem quando che- gaífe a Portugal, & por diílimular a mandaua com aquele recado. E fazédo ele aqla fortaleza, punha grande diligencia por fe acabar, cõ quanto Hagamahmut não deixaua de lhe correr muytas vezes: & como ho go¬ uernador não tinha mais que vinte pipas de poluora quãdo fe começara eíta guerra hiafelhe acabando quãto podia, & não lhe vinha outra que mandara bufcar a Goa, porque ja ho não tinhão por gouernador, & efpe- rauão cada dia por dom Luys de menefes capitão moor do mar pera quem a goardauão. E vendo ho gouernador q lha não mandauão: & que fe a que tinha fe gaílaffe como 1'e gaítaua, que fe gaitaria de todo, & gaftandole feria forçado arribar com toda a frota & deixar a fortaleza porq os noffos não terião com que fe defender dos immigos, o que feria grande perda do feruiço del rey feu fenhor & abatimento de fua honrra: pelo q determinou de os noffos não fayre mais a pelejar com os immigos, fomente que os enxetaífem da eítancia que digo. O que fe acordou em confelho, & adi fe fez dali por diãte, & fe ouue algúa peleja foy pouca coufa: & a eflancia fe fortificou mais & poferão nela quinze dos noffos que a defendeffem com Pero vaz. E como não ouueffe poluora mais que pera defenfão, & a torre da menajem da fortaleza eíteueíTe no primeiro lbbrado, poíto que ainda não auia muro fe não a tranqueira: determinou de fe hir pera Cochim, porque fe lhe chegaua ho tempo da partida pera Portugal: & auia de leuar configo Antonio correa, & dom Aleixo. E de¬ terminando iíto deu a capitania da fortaleza a Anrique de menefes, & a
  • Livro V; Capitolo LXXV 121 capitania mor do mar a Diogo fernandez de beja por confentimento dos fidalgos capitaes das gales, que auião de ficar debaixo da fua capitania: & Antonio correa ho foube deles defimuladamente, por mandado do go- uernador que receaua q não quifeífem: & por iffo não oufaua de lhe dar a capitania mor: & deixoulhe a nao Frol da rofa pera em que andaffe, & Santa cruz que era velha, & asares gales em que ficarão por capitaes aqueles q ãdauão dãtes: & húa fufta & a carauela de Manuel de macedo: & leuou a outra frota de velas groffas & ele em fam Dinis: cuja capita¬ nia deu a Frãcifco de foufa tauares. CAPITOLO .LXXV. De como defpois de os tmigos desbaratarem Andre de foufa chichorro, pelejarão com Diogo fernande{ de beja & ho matarão. E de como I10 gouernador deu a capitania do mar a Antonio correa & fe foy pera Cochim. Eeftando Diogo fernãdez de fora da barra lurto com fua armada, faio ho gouernador com a de fua conferua, & iorgio a oras do foi pofto pera efperar ho terrenho com que auia de fazer fua viajem. E nifto andaua Hagamahmut ha vifta com fua armada, q nunca dali faya goardãdo a barra que não entraffe nhú nauio noífo: & em quanto ali an¬ darão tomarão algús por força em tempo que lhe os noffos não poderão acodir. E vendo os ímigos ho gouernador furto porque fazia calma, & os feus nauios que erão groffos não fe podião ajudar: começarão de ho ro¬ dear a remo fazendolhe fobrançaria como quem tinha ho tempo por fi, com ho que fe Diogo fernãdez agaftou muyto: porq a fua nao em que tinha toda fua fazenda eftaua dentro no rio onde receaua que entraffe os Tmigos, & lha metefle no fúdo como acoítumauão: & por iffo mandou pera a boca da barra Andre de foufa chichorro na fua gale que a goar- daffe fe os Tmigos quifeffem entrar. E ele ho fez affi: & furgio na boca da barra é fe çarrãdo a noite. Hagamahmut como ho vio furto foy logo fobrele cõ trinta fuftas, & derãolhe tanta bõbardada toda a noyte que lhe defaparelharão a gale: & defpois que foy de dia lhe matarão fete homés & aleyjarão e hú braço Aleixo de foufa chichorro feu irmão, & tinhãono abalrroado pera ho entrar. E eftãdo nefte aperto focorreo dom Iorge de menefes que eftaua mais perto & tinha a gale mais remeira que as outras, & no meio do caminho tirou hú tiro por final que hia: cõ que fe os de Andre de foufa esforçarão tanto q cobrarão nouas forças pera refiftir aos Tmigos, que os não entraffem: que fentindo ho focorro que 16 Tomo III
  • 122 Hiftoria da índia vinha fe ajuntarão todos de popa da gale. Ho que vedo dom Iorge man- doulhes tirar cõ hú tiro groffo de proa, que dando por antre as fuftas dos Imigos arrombou algúas: do que auédo as outras medo fe afaftarão por mais q lhe Hagamahmut bradou q ho não fizeífem: & achando dõ Iorge lugar por onde etraífe abalrroo.u com Andre de foufa tirando os nofíbs muytas efpingardadas & fetadas: & como as duas gales fe ajun¬ tarão começoufe húa grãde peleja cõ os Imigos, que fe afaftarão de todo por fobre vir Diogo fernandez na gale de Francifco de mendoça: & leuaua tres bateis armados & hú efquife & cõ fua vinda fugirão os Imi¬ gos que nunca os Hagamahmut pode ter: & tãbe lhes matarão gõte & arrobarão fuftas: & Diogo fernãdez étrou na gale Dãdre de foufa & vedo quã desbaratada eftaua mandoulhe q fe foífe moftrar ao gouernador que cftaua lurto ao mar, & ele com dom Iorge ficarão goardando a barra: & Diogo fernãdez fe paffou á galé de dom Iorge. E ao outro dia em ama¬ nhecendo eftado as galés afaftadas por efpaço de mea legoa húa da ou¬ tra veyo Hagamahmut com fua armada, q era de trinta fuftas, & achando menos a galé Dandre de foufa, creo q de ficar ao outro dia de todo def- troçada não eftaua ali. E como as outras galés não erão mais de duas não as teue em conta ainda que ho gouernador eftaua a vifta por eftar amarrado & ventar terrenho que fabia que lhe auia dimpedir que não podeffe focorrer as galés: & por ifto determinou de tomar a de dõ Iorge que eftaua na diãteira, & foy ho cometer a remos dizendo aos feus fua determinação, mandandolhes que trabalhaífem por lhe quebrar ho mafto & os remos porq lhe não fugiífe. E eles trabalharão por iffo defpois que chegarão a ela que foy em faindo ho foi, & cercandoa por proa come- çafie hú muy brauo jogo de bombardadas dúa parte & doutra, & a fumaça era tamanha que nem hús nem outros parecião. E os noífos que eftauão nos bateys em vez dajudarem dõ Iorge & Diogo fernandez acolheranfe com medo detrás da popa da galé porque os não pefcaffe a artelharia dos immigos: no que Diogo fernandez nã atétou por a grande ocupação q ele & dom Iorge trazião em fazeré jugar a fua artelharia porque os não aferralfé os Imigos, q trabalhauã quanto podião por lhes chegar def¬ pois de lhe furarem ho mafto por duas partes, & quebrada a mór parte dos remos: & arrombada a galé polo coftado em fete ou oyto partes. O que vendo ho comitre dando a galé por defpachada fe ali mais efteueffe quis cear coela: & afli ho diffe a Diogo fernãdez & a dom Iorge: dizendo que ali eftauão na dianteira, & toda a furia da artelharia dos immigos quebraua neles, & que ceando fe meterião antre os bateys, & a outra gale & ficarião em renque, & afli fe reparterião os pelouros dos immigos por hús & polos outros, & não receberião tanto dãno. O que parecendo
  • Livro V, Capitolo LXXV 123 bem a Diogo fernandez mandaua como capitão mór que fe fizeffe: porem dom Iorge foy á mão ao comitre, dizendo que como fe auião de cear fe tinhão a mór parte dos remos quebrados, & ho não auião de poder fazer: antes fem neceflidade moftrarião aos immigos ho dano que tinhão rece¬ bido, & que por iflo lhe fugião. E os immigos crendo fer afíi os feguirião fem nhú medo & os aferrarião, & tanto ganharião de fe cear, & arran¬ cando húa efpada diífe ao comitre que ho não ceaffe ninguém, ou que lhe cortaria a cabeça com aquela efpada, fe não que remaífem auante, & moftraflem aos immigos que defejauão de lhe chegar, pera q lhe que- braífem a foberba q tinhão, & q leuafíe diãte os bateys q os auião muyto dajudar. O q pareceo be a Diogo fernãdez & lhe louuou feu confelho. E porque foube que os bateis eftauão acolhidos detrás da popa da gale paflbuífe lá pera os fazer paliar auante, & eftando fobre a poftiça chamã- dolhes judeus rapazes porque fazião de vagar ho q lhes mandaua. Sobre- uem nefta cõjunção, hú pelouro da parte dos Imigos: & deu em hú pião dú falcão, donde refualando foy dar a Diogo fernandez em húa ilharga, & meteolhe as armas por dentro da carne: & deu coele no chão morto. E porque a gente não defmayaífe com fua morte, ãtes que ho viífem ho mandou emburilhar em húa mãta dum remeiro: & alíi ficou fua morte atabafada, que a não fouberão mais que algús q ali eftauão, que dom Iorge esforçou. E trabalhauão por fe defender com a artelharia, que todos erão ja bombardeiros, por fer morto ho condeftabre & outros muytos. E não auia quem mandaffe a gale por ho comitre eftar ferido, & quafi que não auia nhú que ho não folie: ou de bombardadas ou de frechadas. Ho que vendo os remeiros da gale dando a por desbaratada, como erão gen¬ tios & mouros, & querião mal aos noífos por os trazerem catiuos quife- ranfe leuantar: & dizendo aos imigos que eftauão perto ho eftado dos noífos, chamauãnos que foliem tomar a gale. E dom Iorge que os enten- deo, leua da efpada & ferio fete ou oyto deles: de modo que os outros com medo efteuerão quedos. E porque não auia quem mandalfe a gale, mandou dom Iorge a hú remeiro mouro que fabia dilfo que a mandaffe, & que lhe daua liberdade: & lhe faria merce, & ho mefmo fez a dez ou doze Chriftãos q trazia degradados porque ho ajudalfem a pelejar: & afli ho fizerão. E animandofe os noífos coefte refrefco tornarão a pelejar de nouo. E prouue a nolfo fenhor q vendoos os Imigos afli tornar como quer q os tinhão por tomados, enfraquecerão, de maneira que fe afafta- rão, & mais polo dano que recebião dos noífos. E vendo os dom Iorge afaftar por lhes amoftrar que eftaua a fua gete esforçada: & afíi por amor da gente da terra qftaua na praya vendo a peleja, meteofe na fua barqueta coefles que couberão & foy apos eles hú pouco: fendo ja meo
  • 124 Hijloria da índia dia, que tanto durou a peleja. E os da terra eftauão muy efpantados de os noffos fe liurarem dos Imigos, & muyto mais de fe eles afaftarem fendo tantos. E tornado dom Iorge a gale mandou a forgir, & embandeirar com muyta feita porque creífem os mouros que ficara a vitoria coele & lhes qbrar os coraçoés: & efteue furto ate horas de vefpera que veo a vira¬ ção: que fe foy pera ho gouernador, & contoulhe ho que paífaua. E auendo de leuar ho corpo de Diogo fernandez a foterrar a terra, foy de- farmado paliadas quatrp oras que era morto: & acharão que lhe não faira nenhú fanguc. E tirãdolhe húa Cruz que tinha ao pefcoço lhe come¬ çou de gotejar pelos narizes, pelo que pareceo q na Cruz eftaua a vir¬ tude de lhe não 1'air fangue, & porque pola morte de Diogo fernandez era neceífario deterfe ho gouernador algus dias mandou dom Aleixo pera Cochim na carauela de Manuel de macedo: & fentio tanto a morte de Diogo fernandez pola afronta que os noffos receberão q defejou de a vin¬ gar, & elteue com determinação de ficar na índia aquele anno por amor de a vingar, & não lhe dera ficar na índia com outro gouernador: por¬ que tinha húa carta del Rey de Portugal, em que lhe daua poder que fendo cafo que ficaffe na índia cõ outro gouernador, que inuernaffe em Cananor com trezentos homens: em que ho gouernador não entenderia: porem não quis por algús refpeitos. E cõcertadas as galés, & feyta algúa poluora que fe fez em pilões deu a capitania mór da armada que ficaua de Chaul a Antonio correa ate que chegaffe dom Luys de menefes, & deulhe ho galeão fam Iorge pera andar nele: & mandoulhe que fizeffe hú baluarte na outra ponta da barra da banda do norte, pera que defen- delfe a entrada aos Imigos: & porque ele tinha pouca poluora recolheífe a armada pera antre ãbos os baluartes, & dali pelejaffe coeles. E dado efte regimento partiofe pera Gochim húa quinta feyra vinte fete de De- zébro, & em Dabul toppu dom Luys de menefes que ia pera Chaul: & proffeguindo daqui fu a viagem foy ter a Cochim, onde dom Duarte eftaua apoufentado na fortaleza: & porque ele fabia que ho gouernador ho auia de fer ate fe ébarcar pera Portugal por prouifam del rey, & fendo gouer¬ nador auià de poufar na fortaleza, lhe mandou dizer como chegou que lha defpejaria fe quifeffe poufar nela. E ele nao quis, & poufou em cafa de Diogo pereyra ate fe embarcar.
  • Livro V, Capitolo LXXVI 125 CAPITOLO .LXXVI. De como Iorge dalbuquerque capitão de Malaca & Antonio de brito forão fobre el rey de BintSo, & do que lhes aconteceo. MEtido Iorge dalbuqrque de pofle da fortaleza de Malaca vendo ho tépo defpofto pera fe vingar do rey de Bltão & ho deftruyr de¬ terminou de ho fazer antes que Antonio de brito fe partiffe pera Maluco, porque com a géte de fua armada, & a que tinha da ordenança de Malaca era aífaz pera por em effeyto fua determinação por mais forte que Bintão efteueffe. E com tudo enformoufe de fua difpofição & fitio: que era per efta maneyra. He húa ilha perto da terra firme, terra baixa & defpeffo aruoredo alto & groffo regado de muytas ribeyras pequenas. > A pouoação que he grade fe chama Bintão que quer dizer eftrela. Eftá fituada ao logo do rio ou braço do mar que cerca a ilha: he de cafas ter- reas cubertas dola, íaluo as del rey que eftão em hú alto. Da cidade atra- ueffa húa ponte de madeira pera a terra firme, & diãte dela fe faz ho porto a que entrão por hú canal. Nefta ilha fez feu affento el rey q foy de Malaca deípois que foy deitado do Pago tomãdoa a hú mouro malayo feu vafialo que era fenhor dela, & fortificou a grandemente: fazendo no canal algús arrecifes com muytas pedras que hi mandou deitar, & adi meter muytas eftacas de paos muyto copridos & groflòs que fazião a palfagem por ah muy difficultofa & perigofa é eftremo, & os nauios auião dir muyto de vagar por fer em voltas, & ficauão defcubertos a muyta artelharia que eítaua em terra ao lõgo em húa tranqueyra fortiffima q cercaua a cidade toda em redondo feyta dús paos de húas vigas que na¬ quela terra chamão paos ferro: porque té fua natureza em feré tão duros que não apodrecem nagoa, & era de duas faces & entulhada cõ feus ba¬ luartes da mefma madeira: de modo que era tão forte ou mais que húa de pedra. E alem difto a terra da banda do fertão era tudo vafa de boa altura: & de tudo ifto foy auifado Iorge dalbuquerque, & poré que fe podia fobir pola tranqueira fem efcadas. E como elte era ho principal ponto de que fe ele efperaua dajudar pera tomar aquela força, alfentou de todo de ir fobrela, porque desfazendofe ficaua el rey também desfeyto pera não poder fazer guerra a Malaca ao menos tão cedo. E praticado ifto cõ Garcia de fá, Antonio de brito & outros capitães & fidalgos: foy acordado per todos que compria muyto ao feruiço del rey de Portugal fazerfe aquela viagem, que começarão no mes Doutubro de mil & qui- nhétos & vinte hú, & forão bem feys cétos Portuguefes embarcados em
  • 126 Hijloria da índia nauios noífos & lancharas, de que a fora Iorge dalbuquerque forão capi¬ tães Antonio de brito & os da fua armada, Garcia de fá, Anrriq leme cunhado de Iorge dalbuquerque, Manuel de berredo, dõ Garcia anrri- quez, Duarte coelho & outros fidalgos & caualeyros a q não pude faber os nomes. E chegado Iorge dalbuquerq á barra de Bintão furgio com toda a frota: & auido confelho fobre a maneyra que teria pera dar na cidade, acordoufe q a não cometelfe pelo canal do porto pola difliculdade & perigo que auia em ir por ele: & também por eftar no porto a armada del rey de Bintão: mas que cometeffe por hú baluarte da tranqueyra que eítaua da mão dereyta afaítado do porto por hum pequeno efpaço, por¬ que por terra lhe faria menos nojo a artelharia q por mar. llto determi¬ nado que foy hú dia atarde, encomendaranfe todos a noífo fenhor aqla noyte por fer ho feyto muy perigofo, & manhaã clara defembarcarão leuãdo Garcia de fá a dianteira com Antonio de brito, & em poyando em terra foy medonha coufa de ver a multidão das bombardadas & efpin- gardadas fem conto que defpararão os Imigos: esforçados por Laquexi- mena hú valentiffimo mouro parente del rey de Bintão & feu almirante do mar, & muyto efpremetado & fabedor na guerra, & por iflò lhe el rey encomédou a defenfam daquele baluarte, em que os immigos virão que os Portuguefes encarauão, a que ele logo acodio com bem quatro mil homés muytos deles efpingardeiros & os outros frecheiros de arco & za- rauatana: & doutras armas diverfas com q tirauã aos noífos em roda viua: porq em quanto os Portugueses defembarcarão, nunca ho ar eíteue defocupado de tiros de todos eítes artifícios que digo: em tãto q em hú momcto cairão mortos dos Portuguefes algús vinte: & forão feridos mais de fetenta. E hú deites foy Garcia de fá, que paífando auãte por antre tãtos pelouros de bõbardas & efpingardadas chegou cÕ algús de fua cÕ- panhia ao baluarte: porq os mais como digo forão derribados, feridos & mortos. E Garcia de 1'á achou ho baluarte de tal modo q núca pode fobir por ele: como fizerão crer a Iorge dalbuquerque q fe podia fobir fem efcadas. E pera lhe não ficar nada por fazer do q ho obrigaua ho muyto esforço que tinha, mãdou a dous criados feus que ho ajudaífem a fobir, o que eles fizerão cÕ grãde valétia, fem temor de infinitas lançadas que os mouros lhe arremeffauão: & de húa foy Garcia de fa ferido em húa perna tã brauamente q cayo: & os mefmos criados ho tomarão & leuarão a embarcar. E afli foy ferido hú dó eíteuão de caítro de húa bõ- bardada em húa perna: & leuãdoo hú feu criado lhe deu outra bõbar- dada na cabeça q ho acabou de matar. E foy també aqui morto hú fidalgo chamado Iorge de melo: & os outros a que não pude faber os nomes. E vendo Iorge dalbuquerque tamanho deítroço em tã breue tempo, conhe-
  • Livro V, Capitolo LXXV11I 127 ceo lio erro q fez em fe crer no q lhe differão, q fe podia fobir a trã- queira fem efcadas & q não acertara em as não trazer. E afli em pé pos em confelho cõ algús capitães & fidalgos que feria bõ recolherfe, porq não auia de fazer mais que matarélhe & ferirélhe quantos leuaua: & re- colheo cõ a perda que digo: de que os mouros ficarã muyto foberbos, & tomarão oufadia pera fazeré tãta guerra a Iorge dalbuqrq como lhe def- pois fizerão. CAPITOLO .LXXVII. De como Antonio de brito fe par tio pera a ilha da Iaoa. DEspois deite desbarato recolhidos todos á frota forãfe á ilha de Cincapura: & ali fe efpedio Antonio de brito de Iorge dalbuqrq & com fua armada de feys nauios feguio fua rota pera a ilha da Iaoa, cujo fitio & fertilidade diife no liuro terceiro, õde foy tomar porto na cidade Dagacim: com determinação de tomar mantimétos, porq eítaua de paz cõ os Portuguefes, do tépo de Afonfo dalbuquerq: & depois de os ter tomados mandou ho feu batel a bufcar agoa a ilha da madura, quafi pegada com a da Iaoa: & cuydando os que hiao no batel q fayão é terra de feus amigos fayrão muyto feguros: & como os da terra os vi¬ rão deícuydados creceolhes a cobiça de lhes fazeré mal por a pouca fir¬ meza de fua amizade: & derão fobreles tão de fupito q os catiuarão: & tomarãlhes ho batel cõ hús berços q leuaua: & Antonio de brito cõ quãto reqreo q lhos deffem pois tinhã paz cõ os portuguefes nunca os pode auer fe não por refgate. E aqui ficou neíta ilha ate ho mez de Ianeiro leguinte efperando moução pera a ilha de Banda, donde auia de partir pera Maluco como direy a diante no liuro lexto. CAPITOLO .LXXVIII. De como Iorge dalbuquerq fe tornou pera Malaca: & de como Laque- ximena lhe começou de fa\cr guerra. VEndo el rey de Bintão quão mal fe ouuerão os portuguefes naquele feito & camanho defarrãjo aquele fora, teueos em muyto pouco, & tanto q Iorge dalbuquerq fe defamarrou do porto pera Malaca mandou a pos ele Laqueximena cõ obra de vinte lacharas darmada bé fornecidas de géte & artelharia, q o hia esbõbardeando, & Iorge dalbu¬ querq voltou algúas vezes fobrele pera o abalroar: poré ele fe goardaua diffo, que não era feu fundamento fenão perfiguilo & tomarlhe algú nauio
  • 128 Hijloria da índia le ho achaffe defmandado. E affi foy ate Malaca, onde fe Iorge dalbuquer- que recolheo: & Laqueximena ficou no mar por onde andou diflimulando fem querer pelejar cõ a nofia armada, pofto q lhe favo por vezes, ate que vendo tépo entrou no porto, & queimou dous jungos de mercadores carregados. E tornandofe recolher acodio hú Gil fimões capitão de hú bargantim cõ certas velas q eílauão preftes, & foy a pos eles. E vendo ele q não erão mais de cinco ou feys, efperou as, porq vio q podia ali fazer prefa. E gil fimões ou de muito esforçado, ou por apagar a fama q tinha de couardo, fegundo fe defpois diffe, vendoo efperar adiantoufe dos outros: & foy abalroar coele: & como os mouros erão muvto mais q os q hião coele na lanchara foy deles entrado, & morto com todos os cõpanheiros defpois de pelejaré miiy esforçadamente & venderem bé fuas vidas. E os outros capitães vendo efta lanchara tomada não oufarão de ir mais por diante cõ a peleja por ferem muyto poucos, & recolheranfe a Malaca. E defpois difto lhe fayo muytas vezes a nolfa armada, & núca quis pelejar coela, porq não queria mais q andar fazendo aqles faltos: & deita maneira fazia a guerra de que os portugueies não recebiã mais dãno que a opreífam daqles rebates, que como a noífa armada andaua també no mar podiã ir mãtimentos a Malaca & eftaua farta & abaftada. CAPITOLO .LXXIX. De como Ba/lião de foufa partio de Portugal pera fa\er Ima fortaleza na ilha de S. Lourenço. E o porq a não fe\. NEste ãno de mil & quinhétos & vinte hú, determinou el rev dom Manuel de Portugal de mandar fazer húa fortaleza na ilha de fam Lourenço por ter por enformação que auia nela muyta prata & gingibre q efperaua dauer: & també pera que as naos da carga da efpe- ciaria indo pera a índia fazeré ali agoada & iré por fora da ilha de Iam Loureço q era mais fegura nauegação pera fe paliar a índia que por Mo¬ çambique, & determinãdo de fazer efta fortaleza deu a fundação dela & primeira capitania a Baftião de foufa hú fidalgo natural Deluas, de que fiz menção no liuro fegundo, & deulhe duas naos de capitania, ele por capitão de húa, & ao da outra não foube ho nome. E nela hião os offi- ciaes necefiarios pera edificarem a fortaleza: & afli pedra, cal, & outros materiaes pera fua edificação: & partido de Portugal foy ter á ilha de fam Lourenço fem a outra nao que fe apartou de fua conferua por húa muyto grande & braua tormenta q lhes fobreueo: & não achando aqui a nao efperou por ela algú tempo, & vendo que não hia pareceolhe q era
  • Livro V, Capitolo LXXX 229 perdida: & por lhe falecerem os materiaes & officiaes com q auia de edificar a fortaleza a deixou de fazer, & dali fe foy a Moçãbique, onde não achou a nao nem noua dela: & por fer paliada a moução de paliar a índia com as detenças q fizera ouue dinuernar em Moçãbique, donde partio pera a índia no anno de mil & quinhentos & vinte dous: & atra- ueífando aquele golfão topou a outra nao cujo capitão lhe difie q chegara primeiro q ele á ilha de fam Lourenço & cuydando que era perdido fe partira. E dali forã ambos ter a índia a faluamento: & tendo palaura do gouernador que lhe daria ajuda pera tornar á ilha de fam Lourenço a fazer a fortaleza, chegou dom Pedro de carteio branco, que com outros dous capitães partira de portugal no mefmo anno, como direy a diante, & leuou húa prouifam ao gouernador del rey dom Ioão ho terceiro de Portugal (que fucedera no reyno por falecimento delrey dom Manuel feu pay) em que lhe mandaua que nenhúa fortaleza das que el rey feu pay mandara fazer na índia de nouo, fe fizefe: poré que as que efteueífem começadas fe acabalfem. E por efla caufa não foy Baftião de foufa fazer a fortaleza a ilha de fam Lourenço. CAPITOLO .LXXX. De como fe levantarão os Chins contra os Portngucfes que ejlauão em Cantão: & prenderão ho embaixador del Rey de Portugal, & os q ejlauão coele. DEspois de partido Simão dandrade pera Malaca, & ficando os Chins muyto defcontèntes dele, faleceo el rey da China, que eftaua muyto bé com os Portuguefes: & o que lhe fucedeo adi como era muy defuiado de fua condição, afíi ho foy tambe em fer pouco amigo dos noífos: & logo ouuio ho embaixador del rey de Bintão, que feu antecelfor não quis ouuir em muytos annos q auia q andaua na corte: & ifto porque a primeira vez q lhe falou lhe dilfe muyto mal dos noífos, de que tambc ho diíTe a efte rey que digo, chamãdolhe ladroes & que hião com pequena armada efpiar as terras alheas, & defpois cõ ho muyto poder que tinhão na índia tornauão a tomalas: & que afli fizerão a Ma¬ laca que era del rey de bintão que eftaua lãçado fora dela fam caufa. E porq fe ele tinha por feu vaífalo fe focorria a ele pedindolhe ajuda pera fe reftituir em Malaca, & que lhe pedia muyto q os nã confentiífe em fua terra, porq fua ida lá não era fe não a efpiala pera defpois a tomare: & ao menos que ho não fizeftem por ela fer tão grande como era, lhe da- rião fadiga no mar onde erão muyto poderolos. E nifto foylhe noua do Tono ltl >7
  • i3o Hijloria da índia aluoroço q os que forão com Simão dãdrade deixarão em Cantão. E ifto & o que lhe o embaixador del rey de bintão dilfe, & outras caufas que particularméte não pude faber, imprimio tanto em el rey, & naqueles que ho aconfelhauão, que mandou prender ao nolfo embaixador, & os outros queftauão coele, & mandou q efteuelfem apartados hús dos outros, & que lhe foífe tomada toda lua fazenda, efcripta & aualiada: & dizem hús que cõ trifteza adoeceo, & morreo ho embaixador: outros q morreo com peçonha. E porq eu nã pude faber as particularidades difto ho digo afti em forna: & tambe o mais que paffou no aleuantaméto da China contra os noffos: que ou polo el rey mandar, ou como quer que foy, os Chins tomarão em Cãtão os noífos quatro jungos carregados de pimenta & fandalo, & outras mercadorias q erão del rey de Portugal & de par¬ tes, eftãdo eles furtos no porto, de que os nolfos que hiã neles fe falua- rão com aífaz de fadiga, & fe recolherão a húa nao de do Nuno manuel que eftaua furta: a cujo capitão não pude faber ho nome, fe não que na defenfa da nao ho fez fracamete quando os Chins derão fobrele, & fe não forão os noffos dos jungos que fe acolherão a ela & a defenderão va¬ lentemente ela fora tomada: & não fomente a defenderão, mas fe tiuerão algú tiro grofTo dartelharia toda a frota dos Imigos fora metida no fundo, pofto q era grande. E efcapando os nolfos defte perigo acolheranfe cami¬ nho de Malaca, onde chegarão na fim de Outubro de mil & quinhentos & vinte & hú, & derão noua do leuantamento da china: & diífo fe tirou inquirição em Malaca, que fe leuou çarrada a el Rey de Portugal: em que forão tiradas a limpo algúas caufas defte leuantamento, que como digo não pude faber, & poriífo as não diffe. CAPITOLO .LXXXI. De como Hagamalimut deu hú combate a Antonio correa, & quifera to¬ mar ho baluarte do outeiro & foy desbaratado. E de como dom Luys de menefes chegou a Chaul: & Antonio correa fe foy pera Cocliim. PArtido ho gouernador pera Cochim logo ao fabado feguinte, que forão vinte noue de Dezembro, foy Hagamahmut furgir com a vi¬ ração fobre a barra de Chaul, com fuas trinta & feys fuftas muyto melhor fornecidas de gente, armas, & artelharia que dantes: & trazPa muytos de fobreffalente de cafa de Melique fartaquis: & Abexins em que tinha muyta confiança, por ferem peffoas de feyto. E Hagamahmut fur- gio em lugar onde lhe a artelharia da noífa frota não podia fazer nojo: & ela eftaua furta na barra antre ambos os baluartes. E não queria An-
  • Livro V, Çapitolo LXXXI i3i tonio correa fair dali por lho mandar adi ho gouernador, por os ímigos não pelejarem coele, & lhe fazerem gaftar a poluora, que receaua muyto faltarlhe primeiro que lhe foífe de Cochim. E ao domingo vendo Haga- mahmut que Antonio correa não faya a pelejar coele, lhe efteue fazendo muytas algazaras, pera ver fe ho podia prouocar a iífo. E ele que ho en- tendeo deixoufe eftar ondeftaua. E a fegunda feira acabando de vetar ho terrenho, que feria as dez horas do dia, abalou Hagamahmut com toda fua armada indo a remos, & chegando a tiro de bombarda dos noffos pos as fuftas em ala diante deles, & começou de lhes tirar com a arte- lharia. E antonio correa lhes mandou tirar com a fua & muy temperada- mente porque fe lhe não gaftaffe a poluora. E a tenção de Hagamahmut era vfar de hú ardil que lhe dera um Xeque mafamede que era Xeque de Chaul que encubertamente queria grande mal aos noffos, & pefaualhe da fortaleza que fe fazia em Chaul, & defejaua de os ver deftroidos: & por iífo mandou confelhar a Hagamahmut que tomaífe ho noífo baluarte da barra que eftaua ao pé do outeyro ondeftaua ho facho dos noffos: & que fe pofeffe ás bombardadas com os noffos: & entre tanto mandaffe algúas fuftas a tomar ho baluarte que digo, & defembarcarião em húa calheta na cofta, & dali iria a gente ter ao baluarte por cima do outeiro, porque os nolfos lhe não podelfem tirar com a artelharia: & ele daria guia que a leuaífe, como deu por Hagamahmut fer contente do ardil. E pera ho poer em obra mandou apartar obra de doze fuftas, que fe forão dereytas á calheta detrás do outeiro, de que pojarão em terra obra de duzentos homés gente muy luzida, & guiandoos hú criado do Xeque en- caualgarão ho outeiro onde eftaua ho facho por um caminho tã eftreito que não cabia por ele mais que hú homé diante do outro, & todo ifto fe via da noífa frota: & muy oufadaméte os ímigos decerão do outeiro, & remeterão ao baluarte q eftaua ao pé dele, parecendolhes q ho não pode¬ ria Antonio correa focorrer por fe defender de Hagamahmut: & que ho baluarte teria tam pouca gente que logo ho tomariã: & ele pouca tinha, que não erão mais de trinta homés, & eftes escolhidos, que Antonio cor¬ rea mandara ao fabado que foífem lá eftar, receando que os ímigos ho foffem tomar, & foy por capitão deftes hú valente caualeiro & bé pratico na guerra que auia nome Pero vaz por mão, que com os que ho acom- panhauão fe pos logo em defenfa, a que nenhúa aproueitaua por as bÕ- bardadas fem conto que tirauão as fuftas que deitarão os ímigos em terra, & húa delas leuou a Pero vaz polas pernas, que ãdaua fobre húa parede do baluarte, armado e hú arnes esforçando os léus, & ele cavo embaixo, & doutras morrerã outro caualeyro chamado Simão ferreira, & ho con- deftabre do baluarte & hú bombardeiro. E em quãto os pelouros afti
  • 132 Hifloria da Índia chouiao que era couía efpantofa, decerão os Imigos tam denodados do outeiro que poferão as mãos na eftacada que cercaua ho baluarte, dando grandes gritas: & começando de defpender tanta frechada & efpingardada que cobriao ho ár. E era coufa medonha de ver os noífos tam poucos metidos antre tantos generos de coufas pera os matarem, & muyto de louuar a noflo fenhor como os goardaua, & eles como pelejauão & fe de- fendião dos immigos que os não entraffem, eftando detrás de húa febe, que diflo era ho baluarte. E todos ho fazião tam valenteméte, que nunca Romãos, nem Gregos affi pelejarão. E Antonio correa que tudo iíto via, receando que os mouros tomaííem ho baluarte, mandou em feu focorro a Ruy vaz pereyra no feu batel, & a outro capitão em outro com obra de cincoenta ou feffenta homes, em que hiã muy bons caualeiros. E vendo os Imigos efte focorro, tendo ho baluarte no aperto que digo, começarão com medo de fe recolher de preífa: & os noífos que os entenderão derão a pos eles & matarão muytos antes que fe embarcaífem & embarcados fugirão. E hagamahmut q pelejaua com Antonio correa como vio ho def- barato dos feus alargoufe da peleja ao remo & foy furgir onde eftaua dantes, leuando muytas das fuftas defaparelhadas & arrombadas, & com os maftos quebrados das bombardadas dos noífos, & muyta gente morta. E dãdo Antonio correa muytas graças a Deos de fe ver affi defaprelfado foy correr os nauios de fua armada pera ver fe auia algús mortos: & não achou nenhús, faluo dos remeiros, & eltes poucos. E defpois foy ver ho baluarte, em que achou mortos os que diífe, & os outros todos muyto feridos, & as adargas & rodelas cobertas de frechas: & a de hú Pero de queyros tinha vinte & fete: & a de Manuel da cunha vinte cinco: & todo ho baluarte & muyta parte ao derredor dele júcado delas: & ao der¬ redor eítauão trinta mouros mortos, que os do baluarte matarão: & pola praya quafi outros tantos que matarão os que forão focorrelos: & eftes parecião todos honrrados, em tere cabayas de chamalotes & fotas finas & terçados de prata, & muytos tinhão efpingardas. E mandando Antonio correa cortar as cabeças a todos as mandou ao noflo feitor de Chaul cha¬ mado Diogo paez, que as leuaífe a Xeque Mafamede, porque foube que os mouros de Chaul affirmauão que ho baluarte era tomado polos Imi¬ gos, & folgauão muyto: principalmente Xeque Mafamede que diflera ao dia dantes que ao outro auia de fer o que auia de fer, como que atfião de matar todos os noífos. E quando os mouros fouberão o que foy, & virão tantas cabeças dos mortos, que eles cuydauão que auião de matar os noífos ficarão muyto efpantados. E ho Xeque conheceo antre as cabe¬ ças a de feu criàdo q foy moftrar ho caminho do baluarte aos Imigos: & fez por ele grande pranto. E ao outro dia mandou Antonio correa enfor-
  • Livro V, Capitolo LXXXII i33 car polas pernas em forcas que mandou fazer na praya, os mouros que morrerá na peleja pera que os viífem os das fuftas. E ficou Hagamahmut coifto tam quebrado, que nunca mais cometeo os noflos pofto que eftaua diante da praya. E defpois difto mandou Antonio correa fazer ho ba¬ luarte, que foy feito em dous dias & meo muyto forte: & pos nele por capitão hú Aluaro de brito, & deulhe vinte elpingardeiros pera ho guar¬ dar. E eftando alfi chegou dom Luys de menefes a húa fegunda feyra ao meo dia. E entregandolhe Antonio correa a armada, fe foy pera Cochim em hú galeão chamado fam Marcos. E foy coele dõ Iorge de menefes: porque fobre ter também feruido naquela guerra: & fer dom Luys feu parente lhe tiraua a capitania da galé em que andaua, & a deu a outro fidalgo chamado dom Vafco de lima. E defpois de fer chegado dom Luys a Chaul, porque Meliqueaz tinha defejo de fazer paz com ho gouernador, por ter fama de quam esforçado caualeiro fora em África mãdou recado a Hagamahmut que não fizele mais guerra aos noflos & afli ho fez. CAPITOLO .LXXXII. De como Raix xarafo & el rey de Ormuç fe leuãtarâo cõtra os nojfos que ejlauão na cidade & 11a fortaleça. PArtido ho gouernador Diogo lopez de fequeira pera a índia, come¬ çou de entrar em Ormuz a gête que Raix xarafo mandara fazer na terra firme: do que logo Coje Abexir eílribeiro mór del rey Dormuz deu auifo a Manuel velho: com que tinha muyto grande amizade. E ele ho foy dizer ao capitão dom Garcia coutinho que não deu por iflo, lem lhe lembrar ho grande perigo em que eftaua. E mandou dizer a el rey de Ormuz que pois dera prefente ao gouernador, que rezão feria dalo també a ele. E el rey por diflimular coele lhe mandou dous caualos & hú terçado, & cinto & adaga ricos: & també porque efperaua de cobrar tíido muyto cedo. E nefta conjunção indo Manuel velho, Ruy varela, Mi¬ guel do vale, & algús outros folgar ate ho cabo da cidade forão auilados por Coje abixir, que não tornaflem por onde hião porque os auião de ma¬ tar, o que eles afli fezerão não tornando por ali. E tampouco não apro- ueitou faber tudo ifto Dom Garcia pera ter mays algúa goarda na forta¬ leza, & a mandar vigiar milhor que dantes: nem pera mandar recolher a ela muytos dos noflos que poufauão fora, porque os não mataffem, fe fofle verdade ho leuantamento que tam claramente fe dizia, & pera ho que Raix xarafo com muyta prefla fe fazia preftes, armando muytas ter- radas pera queimar com elas a noífa frota: & armando eftancias de ar-
  • 134 Hifloria da Índia telharia pera combater os noffos na fortaleza. E de tudo ifto ho capitão não queria ver nada nem fabelo, pofto que a obra fe moftraua por íi & alem diflò lho dizião: & tamanho foy feu defcuydo, que mandandolhe hú mercador Baneane dizer por hú fcripto que foffe certo que na noyte feguinte fe auiã os mouros de leuantar & matar todos os noffos que pou- fauão na cidade: Como que lhe differa que ho leuantamento dos mouros era mentira que defcanfaffe, alli fe deitou muyto defcuydado em fua cama, 1'em prouer a coufa nenhúa: nem fomente mandara Iohão de meira capi¬ tão da carauela, nem a Francifco de foufa ho brauo capitão da galeota que folfem lá dormir, & ficarão aquela noyte na fortaleza: E não abaftou efte efcripto que lhe mandou ho Baneane, mas a inda fendo Manuel velho auifado por hum mouro que olhaífe por fi, porque ele ouuira aquele dia no bahazar (que he a praça) hú pregão da parte de Raix xarafo, que mataífem todos os noffos que poufauão na cidade, & que auia grande aluorouço nos mouros: & com quanto Manuel velho difie ifto a dom Gar¬ cia não fez mais que polo fcripto do Baneane, nem Manuel velho com quanto ifto foube fe quis recolher a fortaleza nem deu auifo aos outros noffos que poufauão pola cidade que erão muytos, .f. os officiais da alfan- dega & ho ouuidor que auia nome Aluaro pinheiro, & ho almotace mor, & os doentes que eftauão no fpirital. E recolhidos os nofTos a fuas pou- fadas com tamanho defcuydo. Aquela noyte que era de húa terça feira na entrada de Nouembro, eftando todos no primeiro fono: derão os mou¬ ros neles, & primeiramente ho Xabandar Dormuz deu por mar na noffa fufta em que não eftauão mais de dous grometes, que quando fintirão os mouros fe efconderão com medo: & ho Xabãdar lhe mandou poer ho fogo, & cuydando que ficaua de maneira que fe acendefTe logo, foiífe a carauela que deixou porque os noffos que eftauão nela começarão de fe defender com muyto esforço, & por iffo ho Xabandar os deixou. E fe na carauela & na fufta ouuera capitães & gente como auia de fer: a frota dos Imigos fora desbaratada, & eles não poferão em efeito feu propofito. E ido ho Xabandar fairão os dous gormetes que eftauão na fufta, & apa¬ garão ho fogo que andaua nela. E por efte feito que ho Xabandar fez tam mal lhe mandou el Rey Dormuz poer húa beatilha como a molher por defonrra, & em quanto os mouros fazião ifto no mar, cometerão outros a alfandega que eftaua dous tiros de befta da fortaleza, & outros as cafas do ouuidor & dos outros noffos, que poufauão pela cidade, dando gran¬ des gritas com prazer de lhes parecer que os auião de matar a todos. E crendo então Manuel velho, que era verdade ho leuantamento dos mou¬ ros trabalhou com os que poufauão coele, & quafi em camifa cõ lanças & adargas fe acolherão fugindo pera a fortaleza: o que poderão fazer por
  • Livro V, Capitolo LXXXI1I i35 lhe ainda os mouros não terem tomadas as portas por onde fayrão. E quis noffo fenhor q era a mare vazia, que ao não fer não poderá reco- lherfe na fortaleza fem perigo de fe afogaré, por fer ao longo dela cu- berto dagoa cõ maré. E vendo ja ho capitão dõ Garcia coutinho q ho leuantamento dos mouros era de verdade, achoufe muy falteado por eftar muyto defapercebido pera fofrer cerco como fe efperaua: & ho principal defapercebimento era não ter agoa que eftaua a ciílerna da fortaleza chea de lenha, & ela não tinha outra agoa nem lugar perto donde fe ouueífe: & també hú cobelo que eftaua fobre a porta da treição q faya ao mar eftaua cheo de lenha, & nenhum tiro dartelharia eftaua concertado, nem pofto onde auia deftar, & a reuolta era muy grande pola cidade affi da grita dos mouros como dos noífos, que ouue algús que fe defenderão, afli como foy ho ouuidor & algús Chriftãos da terra que fe acolherão ao fpirital, & dali fe defendião porque erão cafas fortes, que outras forão logo arrombadas & mortos quantos eftauão dentro, & elas queimadas. E por fer de noyte não quis o capitão que lhe focorreííem da fortaleza polo perigo que fe niffo corria. CAPITOLO .LXXXIII. De como os mouros começarão de bater a fortaleza, & de como dom Garcia mandou pedir /ocorro á índia., E vinda a manhaã começou de fe leuantar grande labareda de fogo no madraçal ou cafas onde poulaua ho ouuidor, & adi no efprital, que os mouros poferão polos não poderem entrar: polo que fe conheceo na fortaleza que ainda ali eftauão algús dos noífos viuos. O que conhecendo dom Garcia mãdou os focorrer por vinte cinco dos noífos, em que entrauão Manuel velho, Ruy varela, Diogo forjão, Vicente dias, & Gonçalo vieira, q todos hião bem armados. E quãdo chegarã ao Ma¬ draçal onde poulaua ho ouuidor acharão alguús mouros com que peleja¬ rão, & faluarão algús dos noífos, & afti Chriftãos da terra, pórem ho ouuidor era ja morto, & morreo affogado do fumo. E com ele & com outros que morrerão a ferro forão mortos bê feíTenta. E quando fe os noífos recolherão teuerão húa grande peleja cõ muytos mouros que lhe quiferão tomar a dianteira, & muytos dos Imigos forão feridos & mor¬ tos : & os noíTos forã todos feridos & fe recolherão á fortaleza, & reco¬ lhidos dõ Garcia fe aparelhou logo pera fe defender, mãdando alfeftar a artelharia nos lugares neceífarios, & repartio as eftãcias por eíTes principaeis que eftauão na fortaleza. E afli fe defpedio Iohão de meira
  • i36 Hijloria da índia com recado ao gouernador de como a fortaleza ficaua cercada pera que mandaffe focorro: & Francifco de foufa ho brauo fe foy logo pera a fua galeota, que foy alada pera junto da fortaleza porque os mouros a não queimaífem. E nefte tempo eftaua húa nao de Manuel velho carregada de tamaras (que cm Ormuz chamão congo) pera hir a índia, & por as tamaras ferem neceífarias na fortaleza pera fuprirem por pão de que eftaua muyto mingoada: acordoufe que a nao folfe defcarregada: & defpois desfeita pera que da fua madeira fe fizeífem repairos a artelha- ria, & aífi algúas eílancias de que auia grãde neceftidade, porque na fortaleza não auia nhúa: & porque os mouros auião de querer impedir chegarfe efta nao a fortaleza determinoufe que Francifco de foufa com a enchente dagoa a leualfe a toa na fua fufta ate ho mais perto da fortaleza que podeffe fer: & por terra acoderia Manuel velho cõ vinte cinco efpingardeiros dos noífos pera defender que não chegaífem os mou¬ ros á praia, & fairia pola porta da treiçao defronte dõde a nao eftaua: ifto determinado foy logo pofto é efeito. E os mouros que ho virão aco- dirão logo muytos a pelejar com os noífos aífi com os queftauão em terra como com os que atoauão a nao por mar apertando os fortemente, & com tudo os noífos derão com a nao em 1'eco junto da fortaleza: & por a peleja fer muy grande, & os mouros muytos, forão mortos algús dos noífos aífi na fufta como em terra, & hú deles foy hu Gonçalo vieira homé muy esforçado, & os outros quafi todos feridos: & dos mouros também ho forão muytos, & algús mortos: porem como digo a nao foy recolhida, & desfeita pera repairos da artelharia, & pera algúas tranquei¬ ras de que defpois ouue neceífidade. E nefte tempo adoeceo Frãcilco de foufa que eftaua na fua galeota com algús dos noífos goardandoa que a não tomaífem os mouros: & por fua doença lhe foy forçado recolheríe a fortaleza: polo que ho capitão mandou a eífes principais da fortaleza que goardalfem a galeota aos quartos, ho que eles refufarão por amor da eftãcia da praya que varejaua a galeota. E cõlelharão ao capitão q a não mandaífe goardar, porq lhe auião de matar ali a gête 1'em feruir de nada, & q feria melhor poupala pera defeder a fortaleza: & ho capitão tomou feu cõlelho. E ficãdo a galeota fem goarda logo os mouros a queimarão. E neftes dias chegou ao porto Dormuz húa nao do capitão q vinha da índia carregada darroz & de açúcar, & doutros mãtimétos, & foy furgir diãte da pota em q eftaua a nolfa fortaleza: & fabendo os noífos a cacega q a nao trazia tã neceífaria pera ho tempo pola neceífidade q auia de mãtimétos na fortaleza, quiferão defcarregar logo a nao. ho capitão não quis, não fe foube cõ que determinação. E como qr que os Imigos anda- uão muyto alerta pera fazerem dãno aos noífos teuerão a nao em eípia
  • Livro V, Capitolo LXXXIII1 i3? fabedo que trazia mantimentos, & húa noyte lhe poferão ho fogo, que andando bem ateado nela, foy vifto da fortaleza de que logo ho capitão mãdou tirar com a artelharia cuidando que fizeífe coiffo afaítar os ími- gos: que fazendo efcarnio dos noífos tiros porque lhe não empecião dauão grandes gritas. E vendo ho capitão que não aproueitauão os tiros, man¬ dou a Ruy varela & a Manuel velho, que foífem com algús efpingardei- ros fazer afaílar os mouros: & eles ho fizerão affi faindo pola porta da treição, & começarão de facudir os mouros que não vião os noífos com a grãde claridade do fogo que os cegaua. E vendo os mouros que de cada vez mais caião muytos mortos afaítarãofe antes que ho fogo fe ateaffe de todo: então chegarão os noífos, & apagando parte do fogo lal- uarão ainda algú arroz: que os ajudou a manter algús dias. CAPITOLO .LXXXIIII. De como fabendo Manuel de foufa tauares q el Rej- Dormu; cftaua leuan- tado, foy /ocorrer a nojfa fortaleza: & do que fe\ em chegando. EM quanto iílo aíli palfaua em Ormuz Manuel de foufa tauares capi¬ tão mor do mar, andaua como diffe goardãdò a cofia dos nouta- ques: & por hú grãde temporal que lhe deu fe acolheo ao porto de Mazcate: onde neíta conjunção foy ter Trilião vaz da veiga que eílaua por feytor em Calayate: & leuaua cõfigo obra de trinta dos noífos: & eítando aqui chegou recado del Rey Dormuz ao Xeq de Mazcate como era leuantado contra a noífa fortaleza, que fizeífe ele ho mefmo, & ma- talfe os noífos que hi eftauão na feitoria: & ou por ele fer leal aos noífos ou por não querer obedecer a el Rey Dormuz 'parecédolhe que não auia de poder hir auante com aquele feyto: refpõdeo a el Rey Dormuz que não auia de fer contra os noífos, antes auia de perder a vida por eles: & ho mefmo diffe a Manuel de foufa a quem moítrou as cartas del Rey Dormuz, que lhe deu por iílo muytos agardecimentos, com promeífa de lhe ferem feitas muytas merces em nome del Rey de Portugal por aquele feruiço que lhe fazia: & é final diffo ele lhe deu algúas peças ricas: & eíta lealdade r.ão vfou ho xeque de Calaiate, que fabendo ho recado del rey Dormuz matou logo eífes Portuguefes que eílauão na feitoria: & ho mefmo fizera a Triítão vaz & aos outros que forao coele fe la eíleuerão, & tomou a feitoria: ho que foy logo iabido em Maicate. E niílo chegou a hi também Iohão de meira que hia pedir focorro a índia, & contou a Manuel de foufa ho leuãtaméto del rey Dormuz: ho q fabido por ele or¬ denou fua partida pera Ormuz: & deu hú paraó q trazia a Trilião vaz Toxo III 18
  • Hijloria da índia r38 da veiga pera ir nele com os q trouuera de Calayate. E feyto iílo enten- deo Manuel de foufa em Trilião vaz que induzia a Fernão daluarez çar- nache que não foffem coele a Ormuz, & fe foíTem fazer prefas nas naos dos mouros que étão vinhão da índia. O que entendendo Manuel de foufa diffimulou & tomou effes berços que tinha ho paraó de Trilião vaz, & diífelhe que fe paffaffe ao feu galeão, & que hi iria mais feguro. O que Trilião vaz ouue por grande afrõta, & não fe quis paffar ao galeão, antes deixando Manuel de foufa fe foy caminho Dormuz, & em húa agoada que tomou lhe matarão mouros dous homes, & milagrofamente pode en¬ trar em Ormuz pola grande armada de mouros que andaua no mar goar- dando que não entraíTe nenhú nauio nolfo na fortaleza. E cõ quãto Ma¬ nuel de foufa iílo fabia, & affi ho grande numero de gente que ellaua fobre a noffa fortaleza não quis deixar de lhe focorrer: não lhe lembrando ho perigo que corria niflo, & a perda que perdia que erão bem vinte mil cruzados que ganhara nas prefas que fizera fe fe deixara andar pola colta, que de todas quãtas prefas fizeffe tinha a fexta parte, por eíla maneyra. Faziafe de todo ho monte tres partes tirando primeyro a vintena pera ho gouernador. E delias tres partes erão as duas pera el Rey de Portugal, & húa fe partia pelo meyo, ametade pera ho capitão mór do mar Dor¬ muz, & a outra pera a gente da armada. E partido Manuel de foufa cÕ Fernão daluarez çarnache pera Ormuz amanheceo hú dia fobela ilha de Queixome, onde lhe acalmou ho vento com que auia detrar no porto Dor¬ muz, & por Queixome fer dela obra de legoa & mea foy Manuel de foufa vilto da fortaleza, & conhecendofe fer ele, fabendo do Garcia quão pouca gente trazia, ouue medo que recebeífe dãno da armada dos mouros, que era de duzentas terradas bem artilhadas & fornidas de muytos frecheiros & outra gente de guerra: & por ilfo mandou a Trilião vaz da veiga que artilhando bem ho paraó em que viera ho foffe focorrer, pollo que ellaua muyto ferido de quando fayra na agoada. E ele foy leuando configo algús dos noffos q forão poucos, & em ho paraó faindo pera ondeltaua Manuel de foufa, apartaranfe muytas terradas pera atalharem ho paraó que fe não foífe ajútar cõ Manuel de foufa, & chouião fobrele bõbardadas & fre¬ chadas fem coto, & os q hião no paraó tãbe defparauão efpingardas & bõbardadas q farte. E paffãdo cõ muyto perigo ouuera dir ter em outro, porq vedo Manuel de foufa vir ho paraó, & quão pouca gente trazia, cuy- dou que era cilada, & q deitauão os immigos affi aquele paraó: pera que cuydãdo ele que era dos nolfos ho deixalfe chegar a fi ho meteífe no fundo, & cuydou que viria ali hum Ioão gonçaluez goarda mór Dormuz que era arrenegado, & querendolhe mandar tirar com hú tiro, chegou mais ho paraó & foy conhecido Trilião vaz: & por ilfo Manuel de foufa
  • Livro V, Capitolo LXXXV i3g mandou que não tiraffem. E chegado ho paraó a ele determinou de fe recolher á ponta da fortaleza porq começaua de decer a mare, & com grande prefteza mandou a Fernão daluarez & a Triftão vaz que fe atoaf- fem polas popas á proa & popa do feu galeão, & deixando no paraó & na fufta algús homens darmas com os bombardeiros fe recolheífem com a outra géte ao galeão: o que eles logo fizerão. E em quãto fe fez foy cuberto de frechas ho mafto do galeão, tãtas erão as frechadas que os mouros tirauão, & afli muytas bobardadas de que noffo fenhor quis goar- dar os noffos. E todauia Manuel de foufa fe foy com a decente caminho da põta: o q vendo os mouros por mais que os noffos lhes tirauão com a artelharia fe chegarão tanto a eles que entrauão na fufta & no paraó, & ifto antes que Triftão vaz & Fernão daluarez fe recolheífem com os outros ao galeão, & eles matarão ás lãçadas quafi todos os que quiferão entrar. E hú condeftabre da fufta chamado Iaques matou bem feys mou¬ ros com hú marrão, & os outros ho fizerão ali todos muyto bem: por¬ que a fora matarem todos os que quiferão entrar ferirão outros muytos. E recolhidos ao galeão forão fempre pelejãdo com os mouros ate chega¬ rem á ponta da fortaleza em cuja prava dom Garcia tinha mandado affel- tar húa efpera com q tirarão aos immigos que feguião os noffos, & coefte tiro arrombarão muytas terradas & meterão outras no fundo, em que forão mortos muytos dos immigos, & dos noffos forão frechados oytenta, & hum morreo na batalha que durou de pola manhaã ate húa hora def- pois de vefpera. E quando defpois quiferão amainar a vela do galeão não podião cõ as muytas frechas que eftauão pregadas no mafto, & defpois que veyo a maré fe fizerão na praya muyto grandes bardas delas. E defta batalha ficarão os mouros da armada tão efcarmentados que nunca mais oufarão de cometer Manuel de foufa que ficou no mar por amor de goar- dar ho galeão & a fufta. CAPITOLO .LXXXV. De como os mouros derão bateria á nojfa fortaleza, & do que os nojfos fizerão. VEndo Raix xarafo quão defuiada lhe fayra a obra do penfamento que teuera de leuar os noffos do primeyro lanço & matalos cõ lhes tomar a fortaleza, determinou de lhe dar bateria pera coela lhe desfazer os muros da fortaleza & entralos: porque lhe parecia que vindo coeles ás mãos q fe lhe não auião de poder deféder por quão poucos erão, & os feus fere doze mil homes & os mais deles de feyto: & deftes
  • :4o Hijioria da índia erão feys mil frecheiros, & efpingardeiros. E determinando ele de bater a fortaleza por confelho de hú turco q auia nome Mira aidel grade fabe- dor na guerra, mãdou fazer húa eftãcia nas cafas delrey & outra na cafa onde fora ho noffo efpirital, que ficaua ãtre a fortaleza & os paços del rey, & afora os tiros que tirauão deftas duas eftãcias auia outros muytos efpalhados polos paços que também tirauão a fortaleza, & tam amiúde que não oufaua ningué daparecer. nela por aquela parte, por onde lhe os os noífos não podião fazer nhú dano: & fazendo os mouros muyto aos no.ífos principalmente da eílancia do fpirital, ouue ho capitão confelho de dar naquela eílancia, por fer iúto da fortaleza: & a cafa fer fraca q era de paredes de barro, & cuberta dola: & podiafe arrombar com hú vay & vem: ho que fe encommendou a Ruy varela & a Manuel velho que ho foffem fazer, cõ quareta homés: de que os mais leuarião panelas de pol- uora pera logo pegarem coelas fogo, na cafa em que eftaua a eílancia. E ao outro dia e amanhecendo eílando os mouros bem fem cuidado de os noífos fairem, fairão eles & derão na cafa tãgendo as nollas trombe¬ tas : & cõ húa viga de que fizerão vay & vem derão cõ hú pedaço da pa¬ rede no chão, que fez portal por onde os noífos podeffem étrar. Ao que os mouros que goardauão a eílancia acodirão logo cuidando que fofie os noífos mais do que erão: & defendiãofe fortemente fe não forão as pa¬ nelas de poluora q os noífos leuauão, cõ que algús tirarão aos mouros & queimarãnos & efles como lançarão as panelas, feruiãfe defpingardas que leuauão: & começarão a derribar nos mouros q ho não podédo fofrer fugirão, matando cõ tudo dous dos noífos: que entrarão na cafa & toma¬ rão a artelharia, que leuarão a noífa fortaleza, com ajuda doutros q lhe focorrerão pera os aiudar a leuar a artelharia: que como digo leuarão deixando poílo fogo na eílancia ou cafa, cujos telhados arderão logo por ferem dola, & ficou de maneira que os mouros não fe poderão mais aproueitar dela. E ficando Raix xarafo magoado de afii desfazer aquela eílancia: & lhe leuaré os noífos a artelharia qflaua nela mãdou afleílar hú tiro groífo ao fope dos paços del rey, que ficaua defronte da porta principal da fortaleza: & eftaua efte tiro embuçado porque os noífos ho ho não viífem & fe goardaífem dele. Como não virão fe não quando eie tirou hú pelouro de ferro coado com q vazou a porta da fortaleza. E vendo ho capitão que qbradas as portas ho Õtrarião os mouros, acodio logo a mãdar entulhar por détro a porta com area, & ho entulho foy tam largo que ho tiro não podia fazer nojo: & pera quebrar ho tiro dos Imigos mãdou affeftar outro tãbem groífo na igreja, que eftaua em hú cobelo de fora da porta da fortaleza. E porq tinha por certeiro a hú An- tonio fernandez condeftabre do galeão de Manuel de foula, mandoulhe \
  • Livro V, Capitolo LXXXVI '4i que lhe tiraífe ho què ele fez: & quebrou ho tiro. Com cujo prazer os noífos derão húa grade grita & aífi ficarão liures daquela eítãcia: pore ainda ficarão aos mouros duas daquela parte, & outras duas da parte do mar, & húa delas eítaua na xabãdaria, que tiraua ao longo da praya: que com baixa mar era feruentia antre ho mar & a fortaleza, por õde os nolfos andauão: & os mouros tirauão ali como q lho querião tolher. Ho que vedo Manuel de foufa mãdou poer de fronte no mar a fuíta de Fer- não daluarez degá com grandes arrombadas de cairo, porq a artelharia dos Imigos lhe não fizeffe nojo: & mandoulhe que tirafie aa eítancia dos ímigos, & aíli I10 fez ele: & como eles não tinhão com q fe emparar dos noífos tiros morrião coeles muytos: polo que ouuerão por feu barato daleuantar a eítãcia, & com outras duas que lhes ainda ficauão da bãda do mar não ceífauão todas as noytes de bater a fortaleza por aqla parte, & de dia com outras duas da banda do fertão: aífi que continuamente lhe dauão bateria, com que não fazião tãto nojo nos muros, nem nos co- belos da fortaleza por a artelharia fer miuda, quanta era a opprelfam que dauão aos noífos tolhédolhes que não apareceífem. E coifto & com a fome que ja auia antre os noífos fugirão pera os mouros algús delfa gente baixa, & diíferão a Raix xarafo que na fortaleza auia grande fome: & que auia muytos doentes dela & do trabalho que leuauão. E auendo obra de quinze dias que duraua a bateria, vendo Raix xarafo ho pouco dãno que a fortaleza recebia: & quam feguíos os nolfos eftauão, tomou confelho com Mira aydel, ho turco que diífe: que lhe acõfelhou que efca- laífe a fortaleza, & q lhe parecia que a tomaria, porque a fua gente era muyto mais q a noífa em demafia, & mais folgada, & a noífa doente & cãfada do trabalho & da fome: & que cometeífe tambe a porta do alcayde mór, quebrandoa com hú tiro. E parecendo iíto bê a Raix xarafo mãdou logo fazer muytas efcadas para eíte feito. CAPITOLO .LXXXVI. De como os mouros quiferão efcalar a fortaleza: 6 os nojfos lhes que¬ brarão as efcadas com a artelharia, & de como vendo os mouros ho dano que recebido dos nojfos com medo do /ocorro da índia defpejarão a ci¬ dade. Eordenãdofe aífi iíto, com que os noífos correrão grande rifco de lerem tomados fe ouuera effeito, quis noífo fenhor que fugio hú mouro da cidade pera a noífa fortaleza, & defcobrio 0 que os mou¬ ros fabricauão: o que afrigio muyto aos noífos, porque vião ho grande
  • 142 Hijloria da índia perigo que era. O q fabido pelo capitão ouue confelho fobre o que faria, & acordoufe que pera quebrarem as efcadas pofeffé fobre as ameas dos muros & dos cobelos vigas muyto groffas com grades pedras nelas & atadas por cabos: & nas goaritas & cobelos da fortaleza efteueffem jar¬ ras de poluora & panelas pera deitarem fobre os Tmigos. E porque fe foíTe coufa que cometeffem a porta do alcayde mór, que ferraífem logo os efteos de húa ponte que tinha diante por onde entrauão, & que ficalfe tão pouco por ferrar que quebraffem logo com qualquer pefo, & que dei- taífe debaixo muyta ola & lenha feca: pera que caindo a ponte com os mouros lhe acodiffem com poluora com q fe acédeffe a lenha & os quei- maffe. E eftando os nofTos apercebidos como digo, fairam hú dia os mou¬ ros com as efcadas pera efcalarem a fortaleza por húa parte, & vinha grande corpo de gente darmas coelas, dando grandes gritas de prazer cuidando que ja os noffos erão tomados: que logo acodirão ao muro & cobelos que eílauão daquela parte, & defpararão a artelharia nos Imigos, que como vinhão em corpo não fomente matou muytos deles, mas qbrou a mor parte das efcadas, que era o que os noffos pretendião, & com tamanho dano fe recolherão os Imigos. E raix xarafo vendo as fuas efca¬ das quebradas não quis tornar a intentar de fazer outras, porque lhe pa- receo q era efcufado poder efcalar a fortaleza, & tornou a dar bateria. E mãdou armar hú trabuco em hú patio dos paços del rey com que lan- çaffe pedras na fortaleza & mataffe os noffos. E affi fora fe os mouros fouberão tirar com ho trabuco, mas não 1'abião, & errauão a fortaleza. E juntamete coifto começou de criar húa parede de oyto pés de largo, por detrás doutra que eftaua da banda de loefte em q tinhão húa eftan- cia, cõ tenção de crecer tanto a parede em alto q fobejaffe por cima da fortaleza pera affentare ali a artelharia & tiraré dentro: o que fe affi fora, forã os noffos deltroidos & ningué não oufara daparecer. E fazendofe affi efta parede Manuel velho que vigiaua daquela parte tão perto daquela parede que ouuio bater húa noite, conheceo que era obra que fe fazia, & chamou Ruy varela que vigiaua hi perto, & affentando que fe fazia parede differãno ao capitão, que defpois que affentou que fe fazia parede da outra banda daquela velha, mãdoulhe dar bateria com duas efperas, que atroarão a parede de maneira que fe fez húa abertura de dous de¬ dos dalto abaixo, & affi fizerão algús buracos, por onde ho capitão affen¬ tou q fe meteffé jarras de poluora pera fe lhe dar fogo. E antes difto m㬠dou poer muytos capacetes em paos ao derredor das ameas do muro quanto fobejaffem hum pouco por cima das ameas, que cuydaffem os mouros q erão homens: & mãdou embandeirar a fortaleza & tanjer as trombetas & repicar ho fino da vigia, pera que os mouros cuidaffem que
  • Livro V, Capitolo LXXXVI 143 era vindo focorro á fortaleza, & lhes qbrar os corações: o que eles cuy- darão ouuindo eftas alegrias, & vendo tatos capacetes & murrões acefos. E na noite feguinte que fazia grande tormenta de vento nordefte forão Manuel velho & Ruy varela leuando jarras & panelas de poluora que fizerão meter pelos buracos queftauão feitos na parede velha, & coiffo algúa ola. E do pé da abertura fizerão hú formigão groffo de poluora ate a fortaleza: donde defpois de recolhidos lhe poferão fogo, que correndo por ele entrou pola abertura & deu na ola de que fe acendeo nas jarras & dali em húa eftãcia que ali eftaua em que logo ho fogo pegou & dela faltou nos paços, & deles fe começou datear pola cidade começando de fe atear em cafas dola que eftauão nos terrados, que como ja diífe eftão tam perto hús dos outros pola eftreiteza das ruas que logo faltaua ho fogo dús nos outros, & nunca por mais que os mouros trabalharão polo apagar quando fe começou datear na eftancia nunca poderão: & ho grande vento que fazia ho acendeo tãto que fez muyto grãde perda nas muytas cafas q queimou pola cidade, & mais acabou de derribar a parede velha Õde foy pofto: & ela derribada ficou difcuberta a noua que feria daltura de tres braças, & de comprimento dum grãde tiro de pedra: & do cobelo de Ruy varela, & do de Manuel velho, a derribarão com as duas efpe- ras que digo, & também quebrarão ho trabuco por ficar defcuberto que fe via da noífa fortaleza, & tudo ifto fazião os noífos com grandes gritas & tãjer de trombetas & repicar de finos, q quebraua muyto ho coração aos Imigos, vendo quam mal lhes hia & que os noífos lhe não auião medo & não fomente lhes foy feito efte dano: mas outros muytos pola cidade com hú cão pedreiro que tiraua tiros perdidos & outros muytos que deu no feu alcorão., E por ifto & porque fe Raix xarafo temeo que vieífe focorro da Índia, tam fupitamente como viera Manuel de foufa, & a nao de dom Garcia, & ho parao de Triftão vaz: determinou cõ el Rey de defpejar a cidade, & irfe pera a ilha de Queixome, & afli ho fizerão defpejando primeiro a gente toda fua fazenda: & quando fe el Rey fayo com toda a gente da cidade, que foy húa noyte mãdou Raix xarafo poer- Ihe fogo porque fe os noífos não lograífem dela.
  • 144 Hijloria da Índia CAPITOLO .LXXXVII. Do que pajjou aníre os nojfos de [pois que os mouros defpejarão a cidade. E conhecendo eles a caufa do fogo, como foy manhaã lhe forã acodir & ho apagarão defpois de ter feita muy grande perda, & apagado acharão ainda algúas tamaras, & cifternas com agoa, que fe não acharão fe perderão todos com fede por não auer na fortaleza agoa ne- nhúa & quafi nenhús mantimentos, porque auia perto de dous mefes que duraua ho cerco: & tamanha foy a eftreiteza da regra porq fe daua a agoa, & os mãtimentos q a cada peffoa fe não daua por dia mais que dous pequenos púcaros dagoa, & dous paés mais pequenos que hú punho cada hum, & não comião coeles mais que húas poucas de tamaras: & coefta regra não ficou na fortaleza gato nem rato que não foífe comido, & afii fe comerão oyto caualos q nã auia mais na fortaleza: & eftando os noffos cotentes pola agoa que acharão nas cifternas defpois da ida dos mouros, fobreueolhes hú grande defaftre, pera que lhe preftaffe mal, & foy q como na cidade ficaffem muytos gatos dos mouros como fe virão fem gente, hiãofe com fome pera a fortaleza, & entrauão polas bobardei- ras, que os noffos taparão por fe defapreffarem deles: & como os gatos não acharão por onde ir á fortaleza: & a fede os apertaua deitarãfe nas cifternas pera beber nelas, & afogauãofe dentro: & quãdo os noffos fou- berã ifto, ja eftaua a agoa danada, pore pola necefiidade q tinhão coziãna, & afíi a bebião: & com tudo perdeofe muyta. E tornado a neceflidade a crecer como dantes, ouueffe confelho, que folfe Manuel de foufa tauares com fua armada a bufcar agoa: & primeiramente á ilha Dangão, que he húa parte da de queixome. E por Manuel velho faber bé a lingoa foy no paraó com Manuel de loufa, & no caminho qymou duas naos de mouros que eftauão furtas: & não podédo tomar agoa em Angão paffou auante a hú lugar chamado Gidi quatorze legoas de Ormuz, & hi tomou agoa & fe tornou com grande prazer dos da fortaleza, com quãto a agoa não foy tanta que lhe matafTe a fede: & a fome dos mantimentos era de cada vez mais. E ho mefmo auia antre os mouros porque indo eles bufcar mãti¬ mentos á terra firme hião demandar a ponta da noffa fortaleza pela banda do norte, ho que entendendo os noffos os efperauão ali no paraó & na fufta, & tomando os lhes dauao fúdo & muy poucos efcapauão defta morte: pelo q eles mudarão a feruentia pela banda do fui, onde parece que quis noffo fenhor que fe leuantou naquele canal por onde as terradas
  • Livro V; Capitolo LXXXVII 14S dos mouros hião hú baleato fegundo feu tamanho & feição, & efte as ço- çobraua com tanta diligencia que parecia q não viera ali pera outro fim: ho que vendo os noífos louuarão muyto a noffo fenhor por tam bom íocorro como aquele fora: & leuauão grande paffatempo em ver como ho baleato çoçobraua as terradas dos mouros, que vendofe tão perfegui- dos affi dos noffos como do baleato, não oufarão de fair de Queixome a buícar mãtimentos: pelo que foy a fome tamanha ãtreles que morrerão muytos. E cuydando eles que foffe affi antre os noífos, pera ho faberem fizerão fugido a hú mouro principal que auia nome Coje jelaltalebo, grãde priuado del rey Dormuz & conhecido dos noffos: com qué íe deitou dando a entender que hia defauindo delrey dormuz. E foípeitando ho capitão ao que hia lhe mãdou dar pão & agoa muyto boa que tinha em jarras, di- zendolhe q comeífe afouto q tinha muyto mantimento. E ho mouro bebia a medo como que receaua que foffe a agoa falobra dos poços da ilha: & quando a achou doce efpantoufe: & muyto mais porque os noffos mete¬ rão hú tanque de pao na boca da cifterna que eftaua chea de lenha, & ho tanque dagoa doce, de que tirarão perante ho mouro cõ hú coco per húa corda curta: & ele cuydou que a cifterna eftaua chea dagoa, & ho mefmo lhe fizerão crer em húa tulha a que fizerão outro iobrado hú dedo abaixo das bordas, & cobrirãno de trigo como que eftaua chea: do q fe ho mouro efpantou muyto polo grande difcurfo do cerco, & como ele não vinha a íaber mais que aquilo tornouífe a Queixome dali a algús dias. E nifto ho capitão da fortaleza íe começou de cartear com el Rey Dormuz, & mandaua fazenda a Queixome per hú Antonio fernãdez criftão nouo & feu criado que era lingoa: & el Rey lhe mandaua tão bem cartas & prefentes, ho que pareceo mal a eífes fidalgos & caualeiros & officiais del Rey, & ho eftranharão ao capitão ho que fazia: dizendo que ho não auia de fazer affi porque eles eftauão naquela fortaleza que era del Rey aquem auião de dar conta dela. E dizendo dom Garcia que ele era capi¬ tão que faria ho que quifeífe, diíferãolhe que não faria nem ho podia fazer fem feu cõíelho, & quiíferãono préder & fazer outro capitão: fe não che¬ gara nefte tempo dom Gonçalo coutinho feu irmão, que vinha da índia em focorro da fortaleza. Tono 11
  • Hiftoria da Índia 146 CAPITOLO .LXXXVIII. De como dom Gonçalo coutinho foy em focorro da fortaleza Dormu\. E de como el Rey Dormu\ foy morto por mandado de Raix xarafo. POrque Iohao de meira que ho foy pedir á índia chegado a Cochim, õde achou dom Duarte, & Diogo lopez, deulhe as cartas de dom Garcia em que contaua ho eftado em que ficaua a fortaleza: fobre ho que ouuerão ambos confelho coeffes fidalgos capitaês, & peffoas prin¬ cipais da índia: em q Diogo lopez dizia que por quanto dom Luis de menefes capitão mór do mar eftaua ocupado na fortaleza de Chaul que foffe logo em focorro dos noffos Francifco de foufa tauares no galeão lam Dinis, & dõ Duarte não quis dizendo que aquilo pertencia a dom Luis feu irmão q mandaria ho locorro que foffe neceffario ate ele poder hir, & que iria inuernar a Ormuz. E acordado ifto fcreueolhe logo que mãdaffe ho focorro, & ele mãdou a dom Gonçalo coutinho por fer irmão de dom Garcia: & foy no feu galeão que leuou carregado de mantimen¬ tos, & com a gente neceffaria. E diffeffe q dom Gonçalo em chegando foy primeiro a Queixome que entraffe na noffa fortaleza, & vifitou el rey Dormuz aquem vedeo muyta parte dos mantimentos que leuaua, & por iffo lhe deu muytas peças ricas, afora ho dinheiro que fe mõtaua nos mã- timentos. E defembarcado ele na fortaleza ceffarão as diffenffoês que auia antre os officiais da fortaleza & peffoas principais dela & ho capitão: porque dom Gonçalo ho fauoreceo com fua chegada: & coefte focorro acabarão os noffos de ficar de todo feguros dos mouros, antre quem nefte têpo auia grandes Imizades principalmente ãtre Raix xarafo, & Mira- mahmet morado, que era muyto priuado del Rey Dormuz porque el Rey lhe dormia com fua molher, & por efta priuança lhe queria Raix xarafo grande mal, & também a el Rey a que determinou de tirar a vida, & que faria Rey quê quifeffe per ter toda a gouernança do reyno como no tempo paffado teuera feu pay: & affentado ifto com feus parentes, emcomendou a morte del Rey a Raix xamixir: que ho afogou fecretamente com a corda de hú arco. E affi foy comprido ho que feu pay del rey lhe pronofticou quando lhe confelhaua que não fe leuantaffe cõtra os Portuguefes porque lhe não auião de tomar mais que a fazenda, & os mouros a fazenda & a vida. E morto el Rey fez Raix xarafo Rey Dormuz a Patxá mahmetxá que fora filho de Raix çafardim: a que Afonfo dalbuquerq tomou Ormuz a primeira vez como diífe no liuro fegúdo, & efte fez Raix xarafo Rey
  • Livro V, Capitolo LXXX1X 147 porque lhe dormia cÕ lua may: & morto el Rey fugio logo Miramahmet morado, & Raix xarafo ficou com toda a gouernança do Reyno. CAPITOLO .LXXXIX. De como Diogo lope\ entregou a gouernança da índia a dom Duarte de menefes, & fe par tio pera Portugal. PAssÁdose eftas coufas é Ormuz fezfe prelles a armada q auia de hir pera Portugal. E carregadas as naos entregou Diogo lopez de lequeira a gouernança da índia a dom Duarte de menefes, dando- lhe ele conhecimento de como a recebia com tanta gente, tanta artelha- ria, & tantos nauios. E ifto feito embarcoufle Diogo lopez, & coele dom Aleixo de menefes, & outros muytos fidalgos que tinhão acabado de fer- uir leus carregos na índia, & outros que hiao pedir fatisfação de feus feruiços, & em Dezébro de mil & quinhentos & vintehum fe partirão de Cochim pera Portugal, onde com ajuda de noífo fenhor chegou efta ar¬ mada a que nam foube ho que aconteceo na viagem. LAUS DEO.
  • Acaboufe de empremir a preíente obra per IoSo da barreira & Ioã aluares em a muyto nobre & fempre leal cidade de Coimbra, aos xv. dias do mes de Outubro de M. D.liii.
  • LIVRO SEXTO
  • HO LIURO SEXTO DA HISTORIA DO DESCOBRIMENTO & CONQUISTA DA INDIA PELOS PORTUGUESES: Em que fe conte o que eles fizerão no tempo que a gouernarão dõ Duarte de menefes, Dom Vaíco da gama conde da Vidigueira & almirante do mar Indico. E dom Anrrique de menefes per man¬ dado do inuiftiílimo Rey dom Manuel de gloriofa memória: & do muyto alto & muyto poderofo rey dom loão feu filho ho ter- ceyro defte nome noífo fenhor. Feyto per Fernão Lope% de Cajlanheda. CAPITOLO .1. De como dom Luys de menefes capitão mór do mar da índia foy Jocor¬ rer a fortaleza Dormu\., & de como partio pera Malaca Martim Afonfo de melo coutinho. PArtido Diogo lopez de Gqueyra pera Portugal, partioíe o gouerna- dor pera a cidade de Goa pera da hi mandar em focorro da forta¬ leza Dormuz a dom Luys de meneies feu irmão q eftaua fazendo a fortaleza é Chaul. E chegado a Goa mãdoulhe ho galeão fam Dinis em q auia dir a Ormuz, & mandoulhe ho regimeto do que auia de fazer. E porque a capitania defte galeão era de Francilco de foufa tauares, de que atras fiz menção: deulhe ho gouernador em fatisfação a capitania de húa galé real em que ho mandou a Chaul pera ãdar darmada ate Dabul por capitão mór de dez ou doze fuflas: & indo de caminho queimou no rio de Zinguizara & no do Betele algúas naos & cotias, húas varadas & ou¬ tras carregadas de mantimentos. E chegado Frãcifco de foufa a Chaul,
  • Hifioria da índia 152 partiofe dõ Luys pera Ormuz, & forão coele Rui vaz pereyra, Manuel de macedo, Anrrique de macedo, capitães de galeões & Duarte dataide, Lopo dazeuedo & Pero vaz trauaços capitães das naos. E ele partido, partiofe pera Goa Martim Afonfo de melo coutinho que ajudaua a fazer a fortaleza, & partiofe por ter a viagé da China pera onde auia dir. E chegado a Goa delpachou ho gouernador & partio fe pera Cochim leuãdo debaixo de fua capitania Vafco fernãdez coutinho & Diogo de melo feus irmãos, & Pedrome irmão de Francifco homé eftribeiro mór, & coefíes fe auia dajútar em Cochim Ambrolio do rego que auia dir em hú jungo: & de Cochim le partio Martim Afonfo pera Malaca em Abril de mil & quinhentos & vinte dous. CAPITOLO .11. De como ho gouernador deu a capitania de Chaul a Simão dandrade, & mãdou goardar a cojia de Cambaya. HO gouernador q eftaua em Goa onde auia dinuernar defpois que mãdou ho galeão fam Dinis a feu irmão dom Luys pera ir nele a Ormuz como difle, deu a capitania de Chaul a Simão dandrade que era vindo da China, & cafara per palauras de futuro com húa fua filha baftarda, & deulhe aquela capitania em cafamento: o que não podia fazer pola ter Anrrique de menefes hú bÕ fidalgo que lha dera Diogo lopez de fequeira fendo gouernador, & polo regimento lha podia dar os primeyros tres ãnos por ele íer o que a fizera & não fe lhe podia tirar fe não por erros. E dada a capitania a Simão dandrade, partiofe pera Chaul cõ húa armada de qbra de doze fúftas que auia de goardar aquela cofta das fuftas de Diu, & auia dandar repartida é capitanias, de húa auia de ler capitão mór Frãciíco de loufa tauares, doutra dom Vafco de lima de Santarém, & doutra Martim correa do Algarue: & ate Chaul auia dir Simão dandrade por capitão mór, & hião nefta frota duzétos ho¬ mens. E de caminho quifera Simão dandrade defembarcar em Dabul & pelejar com fete mil homés q eílauão nela por lhe ho tanadar não querer dar de duas galés que hi fizerão turcos: & eftando ja nos bateys cõ lua gente pera faltar em terra ouue ho tanadar tamanho medo que lhe m㬠dou dar as galés com q feguio feu caminho pera Chaul. E chegado lá Anrrique de menefes lhe entregou a capitania da fortaleza pola prouifam do gouernador, porque vio q nã auia de poder fazer^outra coufa, & deuia a efte tépo tres mil pardaos que gaftara na fortaleza com dar de comer & outras coufas de feruiço del rey de Portugal. E metido Simão dandrade
  • Livro VI, Capitolo III 153 na capitania da fortaleza, repartio as capitanias das fuftas como trazia por regimento: & os capitães móres fe forão a goardar a cofta, em que fizerão muyto dano por todos aqueles rios. E acertando Martim correa dentrar no rio do Betele que he muyto frefco fayo em terra com obra de vinte cinco dos noffos: & metédofe por hú efpeffo palmar foy alfi ate che¬ gar diante de hús grandes paços de muytos pátios, jardís & varadas: & diante da porta do primeyro patio eftauão afietados no chão muytos ho- més & molheres pobres. E faindo de dentro hú homé leuantaranfe todos muyto de preffa, a que primeyro chegaria a ele: mas ele deixou todos & foyfe a Marti correa, & fazendolhe fua cortefia como mouro q era affentoufe coele e hú poyal: & ali em praticando lhe deu conta como aqles paços erão de hú grãde fenhor mouro, que auorrecido das coufas do múdo viuia ali apartado & gaftaua ho feu com aqueles pobres que auia & com outros, a q continuamente daua efmola de dinheiro, trigo & arroz: de que ele era o efmoler. E nifto fayo ho proprio fenhor "mouro, & moftrou folgar muyto de ver os noífos, & fazédolhes muyto gafalhado: fe aífentou cÕ Martim correa, com quê efteue praticando ate que foy ho¬ ras de fe tornar á fua fufta, onde lhe mãdou duas vacas, galinhas & fruyta. E nefta pratica perguntando Marti correa ao mouro a caufa por¬ que fazia aquelas efmolas, ou que fatisfação efperaua delas. Refpõdeo que era tanto de fua condição fazer bé que ho fazia polo gofto que niffo leuaua. CAPITOLO .III. Do que aconteceo a Martim correa andando darmada. E outra vez lhe aconteceo q foy ter a húa fortaleza defpouoada onde achou hum Bramene velho que os noffos catiuarão, & polo não quererem foltar defpois que foy nas fuftas rogou a Martim correa que ho refgataffe por dez pardaos, & que lhe deffe licença pera ir por eles. E ele lha deu jurãdolhe ho Bramene polas linhas que trazia ao pef- coço que tornaria, & a ele não lhe daua de não tornar por ler velho & não lhe pedio ho refgate fe não zombando: mas ele que jurara de ver¬ dade não ho teue aífi. E auendo hú pedaço que era partido tornou cõ oyto galinhas ás coftas: & quando os noffos ho virão ficarão efpãtados de ho ver tornar, & ele pedio a Martim correa muyto perdão de não po¬ der tornar mais cedo: & também que lhe perdoafle de lhe não poder dar todos os dez pardaos que lhe prometera, porque por fua pobreza não podia dar mais que feys que logo tirou, & polo refto trazia aquelas oyto galinhas. E efpantado Martim correa da grande verdade do Bramene, Tomo III 20
  • Hijloria da índia 154 & de Goardar tam bem feu juramento: lhe não quis tomar ho dinheiro, & polas galinhas lhe deu dous panos pera fe veftir, & mais hú feguro aflinado por ele pera que nenhú Português q ho tomaffe lhe fizeffe mal. E coifto fe foy ho Bramene muyto contente, & ele fe foy recolhendo pera Chaul, & na enfeada dos Bramenes fobre húas vacas que os noífos qui- ferão matar por não leuarem carne ouue húa peleja com bem oytocentos mouros, de que os nofios ouuerão a vitoria & os fizerão fugir: & defpois foy fobre hú lugar que fe defpejou com medo dos noffos, & affi fe reco- lheo a Chaul a inuernar, onde também fe os outros capitães recolherão. CAPITOLO .1111. De como dom Luys de menefes q hia em focorro Dormu\ chegou lá, & do que fe\. DOm Luys de menefes que hia caminho Dormuz chegou laa na étrada de Mayo: & porque dom Garcia coutinho que eftaua por capitão da fortaleza Dormuz ter acabado ho tempo de fua capitania ho tirou dom Luys dela, & a entregou a hú fidalgo chamado loão rodriguez de noronha que a tinha por el rey de Portugal, & defpois entendeo em fazer que fe tornaffe a pouoar Ormuz, porque fem iffo não fe podia fofter a fortaleza por lhe faltare os mantimentos que não vinhão por não auer mouros na cidade. E fabendo ele que não fe podia ifto fazer fem votade de Raix xarafo, trabalhou pola aquirir offrecendolhe perdão de tudo o q tinha feyto rio leuantamento del rey Turuxá & em fua morte: & affi todos aqueles que niffo foffem culpados: & que fe tornaffe a pouoar a cidade Dormuz. Mas como Raix xarafo tinha determinado de não tornar a po¬ der dos Portuguefes, pofto que niffo fe perdeffe ametade da renda do reyno núca quis: não refpondendo porem claramente a dom Luys q não queria fe não defapegadamente, & mais porque lhe parecia que dom Luys não trazia tanta gente que oufaffe de pelejar em terra. E fabendo os ca¬ pitães da frota & outros fidalgos como Raix xarafo temporizaua com dom Luys, confelhauãlhe que não curaffe de mais dilações, & que pele- jaffe com Raix xarafo: porque certo eftaua que pois tinha em feu poder el rey Dormuz, & gouernaua ho reyno que não auia de querer tornar a poder dos Portuguefes que lhe auião de tirar todo ho mando que tinha. O que dom Luys não quis fazer, nem menos poer ifto em cofelho pera fe determinar o que pareceffe melhor. E vedo que era efcufado perfiar mais com Raix xarafo que fizeffe o que lhe requeria, determinou de lhe procurar a morte: porq ele morto el rey Dormuz pouoaria a cidade, &
  • Livro VI, Capitolo V i55 muyto fecretamente mandou cometer q ho mataffe a Raix xamixir o que matara el rey Turuxá: mandãdolhe offrecer ho goazilado Dormuz fe ho fizeffe, porque fabia que pofto que Xamixir era parente & capitão de Raix xarafo, que era a fua lealdade tão quebradiça que por qualquer peita a quebraria quanto mais por tamanha como era ho goazilado Dor¬ muz. E affi foy que Raix xamixir aceitou de boa vontade a emprefla, mas q não poderia matar logo a Raix xarafo por andar muyto a recado que fe temia de dom Luys. E defpois "de ele ido fe obrigou a fazelo per hú affinado que lhe diffo mãdou: & ficando dom Luys defcanfado coele mandou dizer a Raix xarafo, que pois queria mudar a cidade Dormuz aa ilha de Queixome q lhe não daua diffo porque também de lá auia el rey Dormuz de pagar as pareas que era obrigado a pagar a el rey de Portugal como fe efteueífe na ilha dormuz: por iflò q as pagaffe & a va¬ lia da fazenda que fora tomada a el rey de Portugal & a feus vaflalos. Do que ele foy contente, & afli ho fez. E com quãto Raix xarafo não queria tornar pera Ormuz não deixaua dauer paz antre os Portuguefes & os mouros, & tinhão trato hús com os outros. CAPITOLO .V. De como dô Garcia anrrique\ & Iorge dalbuquerque chegarão ás ilhas de Banda, & discripção dejlas ilhas. IOrge dalbuquerq capitão de Malaca vendo q el rey de Bintão afrou- xaua da guerra que lhe começou de fazer, & q podia efcufar algúa gente da que tinha: determinou de mandar por capitão á ilha de Banda a dom Garcia anrriquez feu cunhado por fer aquela capitania coufa de muyto proueito, & deulhe hú nauio redondo em q folie com a gente que podia efcufar. E defpachado dom Garcia, partiofe pera Banda na étrada de íaneyro de mil & quinhentos & vinte dous: & Ido de caminho pola ilha Dajaoa achou ainda Antonio de Brito no porto Dagacim, & como hia de viagem feguio fua rota & Antonio de brito partio apos ele pera as ilhas de Banda, q eítão em quatro graos & hú terço da banda do fui, & fam tres que fazem todas antre fi hum muyto bõ porto & redondo como alagoa: a mayor delas fe chama Bãda, a meã Mira, & a mais pe¬ quena Gunuape: que na lingoa da terra quer dizer ferra de fogo: & affi ho he ela que arde continuamente, & por iffo he defabitada. E Banda como digo he a principal, & ha nela muytas aruores que dão a noz & a maça & nacem polos matos como outras aruores: fam do tamanho de grandes pereyras, & affi tem as folhas ralas & os efgalhos, & os pés fam
  • Hiftoria da índia i56 lifos como os das larãgeiras & nas folhas fe parece com peffegueiros, & affi dão a frol como a fua. Ho fruito que dão eftas aruores he a noz q chamamos nozcada que nace como hú pefiego, & no tamanho & na cor fe parece coele: & defpois de fer de vez a colhe & a deitão a f&car ao foi, & affi como vay fecãdo fe vay abrindo & lança hõas folhinhas que fam a maça. E tiradas todas eftas folhinhas fica ho caroço defte pomo que he a noz, que defpois de lhe ler tirada a maça fica ainda cuberto de húa cafpa preta de cor de caftanha, que defpois de fer muyto feca fe efpede por fi da noz. Efte pomo ho fazem em verde em conferua daçu- car: & he muyto eftimado em toda parte por fer muyto medicinal & faber muyto bem, & também fazem dele olio que aproueita muyto pera frial¬ dade. Apanhada efta noz & maça a dão os da terra aos mercadores eftrangeiros a troco de panos baixos: & por húa corja deles q na ilha valera a dinheiro tres cruzados lhe dão hú bahar de maça q fã quatro quintaes, & da noz lhe dão fete bahares. Efta ilha he pouoada de gentios homés pobres & pouco polidos, & de prefença defpriziuel, não tem rey a que obedeção, tem cada pouoação hú regedor a que chamão Xabandar, & não lhes obedece fe não por amizade. As pouoações fam de cafas ter- reas cubertas dola: a principal fe chama lutatão. Ao porto defta ilha che¬ gou Antonio de brito em Feuereyro & hi achou ja dom Garcia anrriquez, que lhe diffe como hi foubera de certa certeza que forão ter ás ilhas de Maluco duas naos de Caftelhanos que carregarão de crauo & fe tornarão, deixãdo dez ou doze homés na ilha de Tidore a modo de feytoria: & ho como eftas naos lá forã ter foy affi. CAPITOLO .VI. De como Fernão de rnagalliães fe\ crer ao Emperador Carlos rey de Cajlela que as ilhas de Maluco erão de fua conquijla & de como as foy defcobrir. REynando elrey dom Manuel de Portugal^fe foy pera Caftela hú Fer- não de magalhães, de que fiz menção no liuro terceyro quando Francifco de fá & Baftião de foufa fe perderão nos baixos de Pa- dua que ficou no ilheo. Efte por fe vingar del rey do Manuel, moftrãdofe agrauado dele lhe fez húa grãde treyção: que foy dizer ao Emperador Carlos quinto defte nome que era rey de Caftela, que pola repartição da conquifta que fe começou de fazer antre el rey do Ioão ho fegundo de Portugal, & el rey dom Fernando de Caftela que não ouue effeyto: erão de feu defcobrimento & conquifta as ilhas de Bãda & as de Maluco,
  • Livro VI, Capitolo VI 1S7 dandolhe pera iíTo algúas rezões: que como nã ouue quem as contrariafle por parte del rey de Portugal, & erão em fauor do emperador, & pera feu proueito lhe parecerão bem ho creo fem mais examinar a verdade do que lhe dizia Fernão de magalhães, & adi a hum Ruy faleyro que tam¬ bém hia coele mais por fazer treyção a el rey de Portugal que por outra caufa & faziaífe grande aftrologo, mas não fabia nada: & tudo o que fin¬ gia que fabia era por hú fpirito familiar que tinha fegundo fe defpois foube. E eftes dous fizerão crqp ao Emperador que eftas ilhas que digo erão do feu defcobrimento & conquifta, & fe lhe offrecerão a lhas defco- brir por fora da nauegação da índia: & pera efte defcobrimento fe con¬ certou ho Emperador com certos mercadores que lhe armaffem cinco naos em Sevilha, de que deu a capitania mór a Fernão de magalhães, & mãdou coele a hú aftrologo chamado Andrés de fam Martim, pera que por aftrologia vifle fe podia alcãçar a faber a altura de lefte a oefte de que fe efperaua muyto dajudar pera ho dereito defte defcobrimento. E foy efte aftrologo com Fernão de magalhães, porque ao tépo de fua par¬ tida fe efcufou Ruy faleyro dir coele: porque parece que foube polo feu familiar quão mal auia de fuceder aquela viagem aos que a fizeffem, & deu a Fernão de magalhães hú grande regimento de trinta capitulos, pera q por tres maneyras podeffe conhecer a diftancia & deferença que andaffe de lefte a oefte: q ele fazia fer coufa muy facil de faber porque fabendofe fe poderia faber certo fe eftas ilhas de Maluco & Bãda erão do defcobri¬ mento & conquifta de Caftela ou não. E coefte regiméto fe partio Fernão de magalhães em Ianeyro de mil & quinhétos & vinte por capitão mór da frota do Emperador, de que forão por capitães ele na nao Trindade & por feu piloto hú Efteuão gomez Português, Luys de médoça degra¬ dado da nao vitoria, & Ioão de cartajena natural de Burgos da nao fanéto Antonio, & Ioão ferrão natural de Freixinal da nao Sãtiago, & Gafpar da queixada da nao conceição & piloto Ioão Carualho Português. Hião nefta frota ate duzétos & cincoenta homés, em q entrauão trinta & tantos Portuguefes de q foube eftes nomes, Aluaro de mezquita deftremoz, & hú da filua de Coimbra, Martim de magalhães natural de Lisboa & moço da camara del rey de Portugal, Efteuão diaz filho dú abade da beira, Gonçalo rodriguez ferreyro natural de Leyria, Afonfo gonçaluez natural da ferra da eftrela, Nuno criado do conde de vila noua, & hum Rabelo. Partido Fernão de magalhães coefta frota do porto de Seuilha foy ter ás Canarias, & dali leuou a rota do Braíil, & forão ter ao porto de faníta Luzia onde fizerão agoada. E dali indo ao longo da cofta contra ho fui tomarão ho porto de fantfta Maria & paffarão ho cabo frio & ho rio doce que he húa grande enfeada a que não virão cabo, & poferão fevs dias em
  • Hijioria da índia i58 paffar dúa ponta a outra & fempre por agoa doce, de que fizerão agoada. E vendo os capitães da frota que Fernão de magalhães queria paliar defte rio doce fizeranlhe grandes requerimentos que não paíTafle, & que ho defcobrifle: porque alfi ho leuaua por regimento do Emperador, a que fe defobedeceífe, foubeffe que lhe não auião dobedecer. E ele lhes refpondeo por boas palauras, que a feruiço do Emperador compria paf- lar ele auante: porque doutra maneyra não podia dar fim a fua emprefa. E paliou ficando os capitães Caftelhanos, &■ alíi os pilotos e meftres muyto defcontentes dele, tanto q determinarão de ho matar ou leuãtarfelhe, di¬ zendo que não fabião onde os leuaua. Porem Fernão de magalhães não foube difto nada: & nauegando por fua viagem fempre a villa de terra cõtra ho fui foy ter na entrada Dabril a hú rio grande a q pos nome de fam Iulião ou dos patos q eftá em corenta & noue graos, & a terra era toda efcaluada lem aruoredo nem eruas & muyto fria, & a gente dela veftida de peles & muyto pobre: & porq entraua ja ho inuerno que ali começa em Abril & dura ate Oytubro, determinou de inuernar ali, pera o que meteo a frota no rio que mãdou defcobrir por Ioão ferrão, & em quanto foy defcobrilo fizerão os tres capitães conjuração cÕ algús outros de matar Fernão de magalhães & tornarfe pera Seuilha, determinando de dizer ao Emperador que ho fizerão por ele não querer goardar feu regimento & fazia caminho muyto fora do que lhe ele mãdara. E fendo ifto fabido por ele, teue maneyra como fe favo logo pera fora do rio com fua nao, não moftrando fer fabedor do q fe lhe ordenaua, antes diffimu- lando grãdemente. E faydo fora comunicou a coufa cõ ho ouuidor dar- mada, dãdolhe miudamente as rezões porq não quifera defcobrir ho rio doce. E como por aquele rio efperaua de ir ter ao verdadeyro caminho de Maluco: & pera ifto auer effeyto cõpria muyto fazerfe juftiça daqles capitães, porque doutra maneyra não auião daífeflegar no feruiço do Em¬ perador. E porq fe não podia fazer deles juftiça fem grãde aluoroço & perigo da gente da frota, era neceífario vfarfe dalgúa manha pera fe ma¬ tar Luys de mendoça que era a cabeça da conjuração, & a quem todos feguião, porq morto efte logo todos ficarião affeflegados & não aueria mais amotinações: & ho Emperador feria feruido como ele defejaua. E concertoufe que ho mefmo ouuidor ho mataffe ás punhaladas, fingindo que lhe leuaua hum requerimento de Fernão de magalhães que fayfe pera fora do rio onde ele eftaua, & folfe de noyte porque ouueire menos rebo¬ liço & os outros capitães lhe não acodiflem. E indo ho ouuidor aa fua nao coefta diflimulação cõ companhia apercebida pera ho cafo, eftando- lhe fazendo ho requerimento ho matou ás punhaladas ajudando ho a ifto os que ião coele. E logo ho ouuidor & os feus começarão de bradar que
  • Livro VI, Capitolo VII i5g viuefle ho Emperador & morrefle os que lhe erão tredores. E tomado pofle da nao polo Emperador mandou aos marinheiros que faiflem pera fora com a nao & foflem furgir junto de Fernão de magalhães, & aíli ho fizerao. E como foy manhaã mandou ele dizer aos outros dous capitães que fe deffem fe não que lhes meteria as naos no fúdo. E fabido ifto po¬ los marinheiros da nao de Ioão de cartagena alargarão as amarras & forão ter fobre a nao de Fernão de magalhães, em que ele logo entrou & prendeo a Fernão de cartagena em ferros, & defpois a Gafpar de quei¬ xada, a que no mefmo dia mandou degolar & efquartejar com pregão que pubricaua a caufa porque: & outro tanto mandou fazer a Luys de mendoça ainda que eftaua ja morto, & a Ioão de cartagena porque fe achou que não tinha tanta culpa degradou ho pera fempre pera aquelas partes, & afli a hum clérigo culpado nefte malefício. E efta fupita & afpera juftiça pos grande efpanto na gente da frota, & dali por diãte foy Fernão de magalhães muy temido. E nifto chegou Ioão ferrão que fora defcobrir ho rio onde fe lhe perdeo a nao, & ele efcapou com quantos hião coele & fe tornou pera onde eftaua Fernão de magalhães, que man¬ dou logo tirar as quatro naos a monte pera fe corregerem, porque anda- uão muyto abertas & daneficadas & não poderião fofrer a comprida via¬ gem que eftaua por fazer. CAPITOLO .VII. De como Fernão de magalhães mojlrou hum regimento que leuaua do faleyro pera fe conhecer a altura de lejle a oejle. E do que hum ajlro- logo que liia na frota & os pilotos dela acordarão. COncertandose as naos Fernão de magalhães moftrou aos pilotos & ao aftrologo Andrés de fam Martim ho regimento que leuaua de Ruy faleyro acerca de fe poder faber a altura de lefte a oefte como ja diffe. E vifto ho regimento por todos, mandoulhes Fernão de magalhães que diífefle cada hum o que alcançaua a faber, & fe podião aproueitar dele em fua nauegação. E os pilotos refponderão por efcripto que não fe podia vfar daquele regimento, nem aproueitaua pera fe naue- gar por ele. E afli ho afíinarão: & ho aftrologo refpondeo ho mefmo a todos os capitolos do regiméto que erão trinta faluo ao quarto que dizia que pola conjunção que a lúa tem com as eftrelas fixas, & com ho foi fe pode faber o que húa terra difta da outra na altura de lefte a oefte. E diífe a efte capitulo que não auia outro caminho pera alcançar adeferéça da altura de norte a fui a de lefte a oefte fe não aquele nem ele ho fabia.
  • i6o % Hijloria da índia E acrecentou ainda outras muytas conjunções & opofições, & pera mor clareza diflo fez fobriflo hú tratado em que alegou muyta aftrologia, & diffe q aquela regra era muy fabida por todos os aftrologos & colmogra- fos. E per ela eftando ele naquele porto no mefmo anno a dezafete Da- bril que fora ho eclipfe do foi vira & notara pelo eclipfe que ali tomou, que ho meridiano daquele porto diítaua do de Seuilha donde partirão feflenta & hum graos de norte a fui. O que fabido por Fernão de maga- ihães & pelos pilotos: foy por todos aprovado por bõ, & quando virão que a diftancia dos graos era tãta quiferãna diminuir & encurtar a der¬ rota que ateli fizerão, porque fe temião de fair do lemite de Callela, & poferão ho mefmo porto em algúas cartas que leuauão arrumadas em branco, & hús ho poferão em corenta & tres graos, outros em corenta & feys: mas a verdade foy pofta nos papeis & liuros em q as efcriuião, cuydando que não auião nunca daparecer como defpois parecerão & vie- rão ter ás mãos dos noffos, pelos quais fe moftrou q as ilhas de Banda & de Maluco fam do defcobrimento de Portugal, & ainda alem da Banda treze graos & meyo, & de Maluco dezafleys. CAPITOLO .VIII. De como Fernão de magalhães pajfou lio ejlreito de todos os fanâos & foy ter á ilha de Cubo: & de como foy morto em húa batalha com dous capitães feus & outra gente. ENtrado ho mes Doutubro que fe acabaua ho inuerno daquelas par¬ tes, determinando Fernão de magalhães de proffeguir aquele def¬ cobrimento que fazia com tamanha falfidade & dellealdade, deu a capitania da nao de Ioão de cartagena a feu primo Aluaro de mefquita, & a de Luys de mendoça a feu cunhado Duarte barbofa, & a de Gafpar de queixada a Ioão ferrão. E feyto ifto partiofe no mes Doutubro: & indo ao longo da cofta do Brafil dahi a cento & tantas legoas fe achou metido com toda fua frota em húa grande enfeada, & não podédo tornar pera tras foy por ela ate chegar õde ho mar fe metia pola terra, & Fernão de magalhães mãdou logo fondar a boca dele, & polo grande fundo q fe achou conheceo que era eftreito q fe fazia do mefmo mar oceano, aífi como fe faz ho de gibraltar: pelo que ficou muyto ledo, porque lhe pa- receo que aquele eftreito auia de cortar toda a terra do Braíil ate chegar ao mar por õde ele cria que poderia nauegar pera Maluco fem ter necef- fidade de ir pola noffa nauegação: o que ele receaua muyto por não topar nauios Portuguefes, & determinou de defcobrir aqle eftreito pera
  • Livro VI, Capitolo VUI 161 ver íe chegaua a outro mar, porque fe chegafie daua a fua nauegação por muyto boa. E aflentado nifto pos lhe nome a baya de todos os fanótos por chegar ali em tal dia. E dando conta de fua determinação aos Por- tuguefes começou de nauegar por efte eftreyto, & entrado por ele era a boca de largura ho efpaço q tomauão duas naos húa júto da outra, & defpois fe alargaua ate húa legoa, & de cada vez de mór fundo que lho não achauão, & de húa parte & doutra auia muy altas ferranias cubertas de neue. E era terra defabitada & fem verdura nem aruoredo, nem pa¬ recia nenhú gado nem alimarias brauas. E indo aífi acharão que ho eftreito fe fazia em duas bocas. O que vendo Fernão de magalhães mã- dou a Aluaro de mezquita que fofTe por húa delas ate ho cabo, & defpois fe tornalfe ali, & que ele faria outro tãto: & quem chegaífe primeyro efperafle pera faberem o que achauão, & vere o que auião de fazer. E coefte cõcerto partirão, & Fernão de magalhães feguio por fua rota a diante por antre aquelas grandes & altas ferranias cubertas de neue ate que começou dachar outra terra em que auia húas aruores altas q pare¬ dão cedros & aífi outro aruoredo: & aífi foy ate ho cabo daquele eílreito que vio que fe acabaua no mar oceano, & que a terra por onde fe fazia aquele eftreito ficaua cercada de mar de duas partes. O q vifto por ele tornoufe a paragem donde fe apartara Daluaro de mezquita per laber dele o que achara por fuajderrota. E chegado não ho achou, & efperando por ele algús dias núca veo, porque fegúdo fe defpois foube ho feu piloto com a gente da nao fe leuantou contrele, & ho prendeo porque não foflem mais auante & fe tornaífem: como tornarão pera ho rio de fam Iulião, onde recolherão a Ioão de cartajena que hi ficara degradado & fe torna¬ rão pera Seuilha, dizendo que Fernão de magalhães era doudo, & que mintira ao Emperador, porque não fabia õdeftauão Banda nem Maluco. E vedo Fernão de magalhães que Aluaro de mezquita não vinha não ho quis mais efperar por fe lhe não gaitarem os mantimentos, & tornoufe por aqle eftreito por õde faio ao mar oceano: & a boca por õde fayo achou q eftaua em cincoéta & cinco grãos de norte a fui pera a parte do fui, & dali mãdou Fernão de magalhães q foflem bufcar a linha equino¬ cial, porq fabia pelas cartas mefiuas de Francifco ferrão, & pelas cartas antigas de marear que Maluco jazia naquele paralelo da equinocial: & diminuindo na altura ate fe poer debaixo dela nauegou por ele cinco me¬ ies fem achar Maluco, do que aífi ele como os feus pilotos & ho aftrologo fe agaftarão muyto, porque fegúdo fe defpois achou pelos noífos quando tomarão húa deitas naos na ilha de Ternate. Aífirmoufe Fernão de ma¬ galhães com ho aftrologo & pilotos da frota que tinhão tanto andado de leite a oefte defpois que fayrão do eftreito que erão faydos do limite de Tomo III 21
  • Hijloria da índia 162 Caftela, & que entrauão ja muyto polo de Portugal. E com temor de toparem gente nofla, & também com muyta neceílidade dagoa, acorda¬ rão de deixar a derrota que leuauão, & nauegarão pera a parte do norte ate que fe poferão em dez grãos, & ali acharão hú arcepelago de muytas ilhas: & tomãdo ali terra virão que a gente tinha paraós em que naue- gaua, & trazia muyto ouro nos braços & nas orelhas, & que ho refgata- uão por ferro: & daqui a cincoéta legoas forão ter a húa ilha chamada Maçana que tinha rey, que fazendolhes muyta honrra & gafalhado os leuou a outro rey doutra ilha chamada Cubo cujo vaifalo era, que rece- beo com muyta honrra a Fernão de magalhães, & lhe fez muy bõ trata¬ mento: principalméte defpois que foube como era capitão mór dú fenhor tamanho como ho Emperador, de quem Fernão de magalhães fez que fe fizefle vaifalo, & mais ho fez tornar chriítão & a fua molher, & a feus filhos com muytos do feu reyno, & pos lhe nome dom Fernando: & por feu confentimento foy edificada húa igreja da auocação de nofla Senhora da vitoria em que fe celebraua ho officio diuino. E eftando neíta amizade, el rey rogou a Fernão de magalhães que ho ajudaife contra outro rey feu vezinho fenhor de húa ilha chamada Matão que lhe não queria obedecer, & fobriflo tinhão ambos guerra. E por el rey fer vaifalo do Emperador, Fernão de magalhães lhe deu a ajuda que lhe pedia, e pelejou duas ve¬ zes com ho rey de Matão, & dambas lhe matou muyta gente. E não que¬ rendo com tudo obedecer a el rey de Cubo pelejou coele outra vez, & deita foy morto & desbaratado: porque el rey de Matão tinha mandado fazer muytas couas cheas deítrepes no lugar onde auia de fer a batalha, que em fe começando de dar fez que fugia com fua gente. E Fernão de magalhães contetandofe coiífo os não feguio, & recolhendo fua gente dão os immigos nele, & dão coele nos eítrepes onde matarão a ele & a Duarte barbofa, & a Ioão ferrão com vinte tantos homés, & os outros fe recolhe¬ rão aos bateys, & metendofe #ias naos fe tornarão para a ilha de Cubo. CAPITOLO .IX. Da treyção que el rey de Cubo fe\ aos Cajlclhanos em que matou muy¬ tos deles, & de como efcaparãofugindo. E do que pajjarão ate chegarem aa ilha de Tidóre, húa das ilhas de Maluco. TOrnados os Cailelhanos aa ilha de Cubo, & vendofe defemparados do feu capitão moor, & de quem os guiafle pera onde auião de ir quiferanfe tornar dali. Ao que Ioão carualho piloto da nao de Ioão ferrão acodio, dizendo que não fizeífem húa couardia tamanha como
  • Livro VI, Capitolo IX i63 aquela, & que oulhaffem em quanta obrigação lhes ficaria ho Emperador fe lhe defcobriffem Bãda & Maluco: por iffo que ho defcobriffem que ele os leuaria lá. E animados todos coifto, determinarão de proííeguir auante, & deranlhe a capitania da nao. E ftandofe apercebendo pera tornar a fua viagem, mandou el rey de Matão ameaçar el rey do Cubo que iria fobrele, & ho deftruyria fe não mataífe os Caftelhanos & lhe não tomalíe as naos. E como ele eftaua amedrontado pola morte de Fernão de magalhães & dos outros ouue medo ao ameaço, & prometeo a el rey de Matão de lhe fazer o que queria: o que logo pos em obra, & pera iffo fingio fazer húa grande fefta em que conuidou os capitães da frota & os principais dela, pera lhes dar hum banquete, porque doutra maneyra os não podia tomar juntos, porque defpois da morte de Fernão de magalhães hião poucas vezes a terra por confelho de Ioão carualho: que quãdo foube que erão conuidados pera ho banquete, & que ho querião receber lhes rogou muyto que ho não fizeffem, porque tinha por fem duuida que aquilo era treição. E por muytas rezões que lhes deu pera ho ler, não quiferão fe não ir a terra: mas ele não quis ir, nem que foffe ninguém da fua nao, & mandou leuar as Ancoras, faluo húa fobre que ficou, & efta apique pera fe leuar logo fe foffe neceffario. E eltando os Caftelhanos comendo debaixo de húas aruores com grande fefta & el rey coeles, da neles a gente del rey armada & matarão trinta & tantos, & os outros fe acolhe¬ rão ás naos que eftauão perto. E poderanno fazer porque Ioão carualho mandou defparar algúas peças dartelharia, de que os immigos auendo medo não feguirão os Caftelhanos, que defpois dembarcados por fe verê que erão tão poucos que não abaftauão pera tres naos queimarão húa delas, baldeando nas outras o que leuauão, & partiranfe por effe mar defefperados de faluação, porque Ioão carualho com quanto lhes prome¬ tera que os leuaria a Maluco, nem fabia ondeftaua, nem pera onde auia de nauegar: & fem leuar certa rota nem via fe foy por effe mar onde a ventura ho leuaffe, & foy ter a húa ilha chamada Puluã do fenhorio del rey de Borneo, onde tomarão dous homens que os leuarão aa ilha de Borneo: & mandarão dizer a el rey cujas erão aquelas naos & que tra- zião muytas mercadorias pera tratar fe lhes deffe licença pera fairem em terra, & coela fairão, mãdãdo el rey receber os dous capitães horrada- méte & cõ grãde fefta. E leuadas mercadorias a terra affentarão feyto- ria, & da hi a dous dias amanhecerão darredor das naos trezentos & tantos paraós, & parecia q pera lhe tomare as naos. O q eles entendendo fe fizerão logo á vela, & derão em cinco jungos que eftauão no porto de que tomarão tres em que acharão muyta riqueza que leuauão de Malaca dõde erão, & catiuarãlhe toda a géte. E feyto ifto foranfe a húa ilha def-
  • 1Õ4 Hi/loria da índia pouoada q eftá afaftada do porto, onde lhe el rey de Borneo mandou logo pedir os catiuos, mandandolhe dous Caftelhanos da feytoria: dizendo que lhe não mandaua os outros porque ficauão oulhando pola fazenda da feytoria. E deranlhe os catiuos, mandandolhe dizer que lhe mandaffe os Caftelhanos que lá eftauão: & por ho recado tardar hú dia cuydarão os Caftelhanos que lhe querião fazer treição, & por iffo requererão a Ioão carualho q fe partiffem, & afli ho fizerão deixando os companheiros em terra com a fazenda, & forão ter a húa ilha defpouoada onde derão pédor ás naos por andarem muyto abertas. E dali forão ter a outra ilha chamada Mindanao, & defpois a outra que auia nome Sanguim. E an¬ dando perdidos & fem faber õdeftauão nem efperança de ho faber nunca: & crendo que fe chegaua fua fim toparão com hu júgo da China que hia de Maluco: & auédo fala dele por acenos fouberão que auião de tornar atras da derrota que leuauão, & tomarão pilotos que os leuarão á ilha, de Tidore, húa das ilhas de Maluco, onde chegarão na fim Doutubro de mil & quinhétos & vinte hú: cujo rey os recebeo muyto bem, & eles lhe derão grandes prefentes, dizédo que erão vaffalos del rey de Caftela & ho mór fenhor da Chriftindade, & por leu mãdado hião defcobrir aque¬ las ilhas pera ter traio nelas & fe ele diffo folfe contente que faria niffo muy grãde proueito. E vencido el rey dos prefentes que lhe derão, difle que elle & fua terra erão del rey de Caftela, & que lha entregaua: & que foubera por feus feyticeiros que erão partidas cinco naos pera aqla ilha por mandado de hú grande rey, & por iffo ele era vaffalo del rey de Caftela, & lhe obedecia como a fenhor: & que lhe rogaua que efpe- raffem dous mefes & que lhe daria crauo nouo. Ao que eles refponderão que nã podião efperar por ferem as naos velhas, & por iffo fe querião logo tornar: mas que dali a dous annos lhe prometião de tornar cõ cin- coéta naos carregadas de mercadoria: & preguntaranlhe fe hião os Por- tuguefes a eftas ilhas. E fabendo q fi, differão muyto mal deles chamãdo os ladroes, & prometendo que lhe auião de tomar Malaca, porq dela ate Maluco tudo era del rey de Caftela, & rogarão a el rey que lhe fizeffe vender effe crauo que fe achaffe na ilha pofto que foffe velho porque coeffe irião contentes. O q fazião por fe acolher q temião q foffé os Portugue- fes, & q os tratafle mal: q bé fabião q não era Maluco de feu defcobri- mento pelo que tinhão efprementado naquela nauegação: & bem tomarão por partido tornarem a fuas terras com a uida: & em quanto fe ajuntaua ho crauo que auião de leuar ficarão cõ el rey fazendo veniaga de fuas mercadorias.
  • Livro VI, Capitolo X i65 CAPITOLO .X. De como el rey Daternate foy cometido dos caftelhanos com amizade & a não quis, & de como carregarão duas naos de crauo & lula foy ter a efpanha, & outra defpois de partir arribou a Maluco. Eeftando aqui mãdarão offrecer amizade a el rey de Ternate cõui- dando ho com prefentes pera iflo. E como ele era feruidor del rey de Portugal auia muytos annos não a quis aceitar, antes lhe man¬ dou dizer que era vaffalo del rey de Portugal, & que a ele queria ter por fenor & não outro, & mandou logo recado a Iorge dalbuquerque capitão de Malaca, em que lhe efcriuia o que paífaua: & affi ho efcreueo ao gouernador da índia & a el rey de Portugal. E eftas cartas mandou em hú jungo que mãdaua a Malaca, pedindo a elrey que mandafle pro- uer aquela terra pois era fua, & que mandafle fazer nela húa fortaleza. E vendo os Caftelhanos como el rey nã queria fua amizade diíferão a el rey de Tidore q quando tornalfem com a armada q dizião ho farião vaf¬ falo do Emperador pofto que não quifeífe. E el rey de Tidore vendo como fe eles querião ir, mandou apanhar todo ho crauo que fe pode auer com que carregarão as duas naos q tinhã. E a moor parte defte crauo era del rey de Portugal, & dos noífos que lá ficara do anno de mil & qui¬ nhentos & vinte de tres jungos de Malaca que defcarregarão na ilha de Bachão por não terem tempo pera irem a Malaca, & hú deles era de Curia deua hú mercador em que hia a carga del rey de Portugal, do re¬ torno da fazenda que Gafpar rodriguez feytor mandou quando lá foy dom Triftão de menefes. E muytos fardos defte crauo leuauão os nomes dos noífos de cujos erão, & com a preífa que tinhão de carregar efte crauo cõ medo que não foffe ter coeles algúa armada nofla & os tomaffe, cÕ- prauão ho bahar a dez & a doze dobrões, & mais coréta barretes ver¬ melhos: comprãdo os noífos ho bahar a cruzado & a menos. E carrega¬ das as naos deixarão os Caftelhanos feytoria nefta ilha de Tidore com todos feus ofticiaes, a q ficarão muyto cobre & outras mercadorias, & deixarãlhe corenta bombardadas & muytas béftas & efplgardas & outras armas prometendo a el rey de Tidore que quando tornaffem auião de fazer húa fortaleza. E com ifto fe partio húa das naos, de que era capi¬ tão & piloto Ioão carualho em Dezébro de mil & quinhentos & vinte hú: & partida foy auer vifta da ilha Damboino que eftá atraues da de Banda, de que também ouue vifta, & affi da cofta da jaoa & dahi foy á ilha de Timor õde fugirão dous caftelhanos q defpois forão ter a Malaca com
  • i66 Hiftoria da Índia defefperação de fe a nao não poder faluar, porque hia tão aberta que a cada relogio dauão á bomba quatro vezes, & por iflo a tirarão ali a mõte & a cõcertarão, no que fe deteuerão ate Feuereyro de mil & quinhentos & vinte & dous, & dali cortou pola altura do cabo de boa Efperança. E fazendofe auãte dele cuydando que ho tinha dobrado, cortãdo dali ao no- roefte foy dar ao rio do Ifante que eftá quinze legoas de Moçambique. E nifto fe moftrou quão pouco fabião por onde hião, por quantos grãos aqui errarão daltura de lefte a oefte, & daqui forão polo noffo caminho ate tornarem a Seuilha: & a outra nao dos caftelhanos que partio da ilha de Tidore defpois deftoutra leuou fua derrota pera a terra do Darié q he detrás da terra das antilhas. E auendo dous mefes que nauegaua, foranlhe os ventos tão contrairos a fua viagem que lhe foy forçado arri¬ bar ás ilhas de Maluco, & quando chegou achou os nolfos fazendo húa fortaleza na ilha de Ternate, como direy a diante. CAPITOLO .XI. De como Antonio de brito & dom Garcia anrrique\ fe partirão pera as ilhas de Maluco, & da difcrição dejlas ilhas. SABino por Antonio de brito como eftauão Caftelhanos é Maluco, & como tinhão affento na terra: temendo q teuefTem mais força da que tinhão, requereo a dõ Garcia anrriquez da parte del Rey de Portugal, que por quanto leuaua pouca géte pera pelejar com os Cafte¬ lhanos & com os da terra & os fugigar, que foffe coele com a gente q tinha pera ho ajudar. E vifto por dom Garcia como aquilo era feruiço delrey aceytou de muyto boa võtade fazelo fem lhe lembrar ho muyto que perdia de fua fazéda por não ficar em Bãda, em que Antonio de brito afientou amizade & trato com os da terra: & por memória diffo pos hú padrão de pedra com as armas reaes, & fobriffo teuerão os da terra coele algúa deferença, & pelejarão coele & lhe ferirão algús homés, & por derradeyro ficarão amigos. E vindo ho mes de Mayo q era a mou- ção pera Maluco, partirãfe Antonio de brito & dõ Garcia com fua armada que era de oyto velas, & leuauão nela trezentos homés. E feguindo por fua viagé chegarão a eftas ilhas que eftão cem legoas de Bãda: & eftão coelas noroeftefuefte, & fam cinco a fora outras muytas de que fe faz hú grande arcepelago que ocupão grandiflima diftancia de mar. E eftas cinco que digo que propriamente fe chamão as de Maluco fam as q dão ho crauo, que he tão eftimado per todas as partes do mudo. E fam os feus nomes eftes, Bachã, Maquiem, Moutel, Tidore & Ternate: eftão todas
  • Livro VI, Capitolo XI 167 debaixo da equinocial, & antre a de Ternate & a de Bachão eftão as outras tres. E a de Ternate que he mayor que todas eftá em hum grao da banda do fui. Todas eftas ilhas fam chãs polas fraldas do mar, & dali fe vay a terra aleuantando algú tanto ate duas legoas pelo fertão: mas dali por diãte fam as ferranias tão grãdes & as rochas tão altas & os ar- uoredos tão baftos & çarrados que nã fe podem habitar. E e todas eftas ferras ha vieiros denxofre: & em húa da ilha de Ternate eftá húa boca que continuamente lança efpantofas labaredas de fogo. Todas per eftas duas legoas que digo fam cubertas de muyto aruoredo brauo, & antrele nacem as aruores que dão ho crauo: de que principalmente ha mais em Moutel & Maquiem que em nenhúa das outras. As aruores que dão ho crauo fam do tamanho das que dão a noz, & em terem os troncos lifos & a rama copada fe parecem com laranjeiras: porem as folhas parecéfe com as do loureyro. Nace ho crauo por todas elas em pinhotas como madre filua, & quãdo he de vez eftá verde. Os q ho apanhão fe fobem neftas aruores & com húas canas de forquilha ho colhem & deitão em hús ceftinhos que traze na cinta, & nifto quebrão todos os raminhos & gomos que eftas aruores metem de nouo, pelo que ficão tão daneficadas que nã dão crauo ho anno feguinte & fe reformão nele pera dare ho crauo ao outro anno: de modo que pola mayor parte não dã nouidade inteira todos os ãnos. Apanhado ho crauo ho deitão ao foi a curar, onde anda muytos dias & fe torna roxo, & defpois negro como ho vemos, de ho borrifarem com agoa ialgada. Ha també outras aruores que fe chamão çagus de cujo miolo fe faz pão: defpois de tirado ho deitão 5 jarras com agoa falgada, & paliados algús dias ho fecão ao foi, & feco ho moé & da farinha ou pó faze pão, que fegundo eu vi he da cor do noffo pão de rala, & fabe como pão. Outras aruores diuerfas ha neftas ilhas, que húas dão vinho outras azeite, outras fruytas: & ifto continuamcte que não tem tempo limitado, & por iffo não falece núca. Ha também grandes cana- ueaes de canas de boa groífura q nace cheas dagoa muyto boa, & quem vay polo mato & ha fede faz hú furo em hú canudo deftas & bebe: ha també outras de que fe ferue a géte pera acarretarem agoa & vinho & azeite & fazerem de comer & fam da groífura dú braço & de húa coxa, & os canudos fam comúmente de comprimento dú couado & couado & meo: & leuão fete, oyto canadas. Neftas ilhas ha poucos mãtimentos, & quafi que vão todos de fora: & ifto por fer a gente muyto guerreira & não fe ocupar fe não em guerras: poré a terra he fértil, & tão viçofa que em caindo a folha ao aruoredo logo lhe nace outra & nunca eftá fem ela: & as cabras que vem defora para darem duas vezes no anno, & as mais dous filhos de cada vez, & muytas tres & algúas quatro, & as por-
  • Hijloria da índia 16S cas també paré duas vezes no anno, & as cabritas & leytoas ainda ma¬ mão quando logo emprenhão: & he tamanha a fertilidade defta terra que fe vão molheres doutra que fejão auidas por maninhas logo empre¬ nhão nela. Ha també neftas ilhas hús bichos como coelhos que te nas barrigas hús bolfos como aljabeiras, & quãdo parem metem neles os filhos, & coeles dentro fem lhe cairem corre & faltão polas aruores du¬ mas em outras: eftes fe chamão cuços na lingoa da terra & lam muyto bõs pera comer. Ha no mar muyto pefcado & muyto bõ, & hús cangre- jos do tamanho de centolas, & afli parecem: & tem hús bollos como pef- coços de lagoftas. E eftes faem do mar pera ho mato a comer húa fruita que ha na terra que fe chama Canaria & he como amêndoas, & afli tem a cafca, & eles a quebrão com os detes: eftes fam muyto gordos & muyto goftofos pera comer, tomãnos com candea defpois que de noyte faem em terra, & como vé ho fogo eftão quedos, & pera os terem muytos dias os metem em húa jarra & os mantém com cocos que comé. E com quanto ha neftas ilhas poucos mantimentos, effes que ha nunca falecem nem ha nelas fome, porque vay a gente bufcar cada dia ao mato ho comer de que tem neceflidade, & viuem como na primitiua idade. Todas eftas ilhas fam muyto fortes por natureza & arteficio, & tem portos em que os na- uios eftrãgeiros podem entrar muy difficultofamente, por terem todos ar¬ recifes feytos á mão. Suas pouoações fam como digo pola fralda do mar ate duas legoas pelo fertão, & as mais delas ou todas fam muyto fortes cõ cercas de trãqueyras, & cauas & fortalezas de madeira. As cafas fam de paredes de terra cubertas dola, fométe as mezquitas fam de pedra: os moradores fam mouros, & auia pouco que tomarão a feyta de Mafa- mede q dantes erão gentios. He gente bem defpofta & mais preta que baça afli homés como molheres: tem todos húa lingoa & tratanlé muyto bem dos atauios do feu corpo, comúmente não fam pera trabalhar ma- canicamente: poré fam homés engenhofos em carpentaria de macenaria & em laurar de baftidor. Sã muyto guerreiros & valétes na guerra & muyto cruéis nela q ho pay mata ho filho, & ho filho ho pay, & aos im- migos q matão cortão as cabeças que podem & pendurãnas ao pefcoço polos cabelos, & ifto é final de bõs caualeyros, & fem iflo não fe tem por taes né ganhão honrra. Quando queré fazer algúa coufa de fuftancia ajun- tanfe muytos a comer em q fe embebedão & defpois de bêbados aífentão o q hão de fazer, & ho mais bêbado té por mais honrrado: não té na- uios fe não pera guerra, & lam de remo: os mayores fe chamão coras coras & joãgas, & fam tão compridos que tem cento & oytenta remos por bãda, & fam muyto bem feytos. Não té jungos né outros nauios dalto bordo, porque não ha antreles nenhús mercadores, nem ha antreles outra
  • Livro VI, Capitolo XI iôg mercadoria que leuar pera fora fe nã crauo, & efte não ho leuarão por não tere nauios pera iffo: & os da ilha de Bãda ho hião lá bufcar é feus júgos & ho comprauao muyto barato a troco de panos da índia pera fe veftiré, q leuauão á Banda os mercadores dc Malaca: & també a troco deles comprauão em Bãda a noz, maça & crauo & não querião ir por ele a Maluco porq gaftauão na viagé quafi o dobro do tempo que punhão de Malaca a Bãda ida por vinda, que erão feys mefes que partião de Malaca em Ianeyro & é Feuereyro chegauão a Bãda, & carregauão em Iulho em que partião pera Malaca & chegauão em Agofto, & pera Ma¬ luco auião de partir de Banda em Mayo, & chegauão nele por não fer ho caminho de mais de cem legoas, & por amor da moução dos leuantes não podião tornar de Maluco fe não em Ianeiro fe achauão carga, & fe nã auião defperar hú anno, & em Banda auião defperar ate Iulho pera partirem pera Malaca. E por efta rezão não querião os mercadores de Malaca paliar a Maluco & achauão em Bãda ho crauo: que defpois q os Portuguefes efteuerão em Maluco^não trouuerão os Bandanefes mais a Banda. Os reys delias ilhas tem a feyta de Mafamede, & conforme a ela cafam com muytas molheres & fempre tem húa por principal: eles & os fidalgos de fua corte a que chamão mandarins fe vefté ao modo malayo & os bajus fam de feda rica com botões douro, & pedraria polas dian¬ teiras & mangas. Trazem"»arrecadas nas orelhas, & no pefcoço colares douro & cadeas, & nos braços manilhas, & affi fe vefté as molheres, & nas cabeças fombreiros goarnecidos douro & pedraria & nas feílas co¬ roas douro, & por dó traze panos brancos que chamão fifas feytos dantre cafcas daruores, & nos braços manilhas de rota de Bengala q fam cani¬ nhas delgadinhas, & rapão quãtos cabelos tem em feu corpo, & vntanfe dolios cheirofos, & traze nas cabeças lêços atados. Seruenfe com muyto grande eftado poíto que não té nenhúa réda, que cada lugar he obrigado a darlhe hú tanto pera comerem certos dias cõ toda fua cafa, & iíto em abaitaiiça. E a mefma maneyra té os fenhores feus vafialos, que fe cha¬ mão Sangages, & alli os regedores: porque cada rey tem feu regedor que tem cuydado das coufas do reyno, affi na paz como na guerra. E cõ quanto eftes reys não tem renda fam tão venerados affi dos feus naturais como dos eftrangeiros doutros reynos & tidos por húa coufa tão fagrada, que poíto q eítem antre feus Imigos fe dizé eu fou tal rey afaltanfe logo & danlhes lugar: & té por collume fe lam vencidos em algúa batalha de não verem ho rofto ao vécedor fe nã dali a feys ou fete mefes. A géte baixa os tem por tão divinos que paliando por diante deles tapão os olhos & deitãfe no chão de bruços por não oufarem de lhes ver ho rofto, né os nomeão fe não por foi, lúa ou por nomes de coufas q té por muyto Tomo 111 22
  • //O Hijloria da índia grades. E de todos os reys deftas ilhas el rey de Ternate fomente era amigo del rey de Portugal, & lhe mandou pedir que fizeffe fortaleza é fua terra, & não quis amizade com os Caftelhanos. CAPITOLO .XII. De como Antonio de brito ajfentou amizade com a tnãy del rey de Ter¬ nate & com outros reys: & de como começou a fortaleza de fam loão de Ternate. CHegado Antonio de brito a eftas ilhas q foy na fim de Mayo, porq fabia q na ilha de Tidore eftauão os Caitelhanos q ficarão hi cÕ feytoria das duas naos da armada de Fernã de magalhães quis ir lá primeyro q a de Ternate pera tirar dali aqla feytoria polo grãde per- juyzo q faria á del Rey de Portugal. E indo lá cõ toda a armada ouue 5 feu poder os Caftelhanos q ja não tinhão q feytorizar, & fezlhe tão bõ gafalhado como q fora Portuguefes: & leuado os dali fe foy aa ilha de Ternate, cujo rey era falecido, & fofpeitauafe q el rey de Tidore feu fogro ho matara cõ peçonha é hú bãquete por não qrer fer amigo dos Caftelhanos como ele era: & a raynha gouernaua ho reyno por hú feu filho erdeiro não fer mais de fete ãnos. E quando a raynha foube q An¬ tonio de brito eftaua na barra da fua cidade, mãdoulhe a boa hora de fua vinda polo regedor do reyno, & dizerlhe q el rey feu marido era fale¬ cido, & quando falecera lhe deixara encomedado q fe os Portuguefes ali vieflê pera fazer fortaleza q os agafalhaffe muyto be, & lha deixaífe fazer õde quifefle, & lhes deffe toda a ajuda de que teueffé neceftidade: & q affi ho auia de fazer. O q lhe Antonio de brito mãdou agradecer, & por a boa võtade q achou na raynha determinou cõ confelho de dõ Gar¬ cia ãrriquez & dos outros capitães de fazer a fortaleza naqla ilha, & pera ver ho lugar em q feria bõ fazela mãdou pedir licéça á raynha pera de- fembarcar: q lhe ela deu de muyto boa võtade, & mãdouttie fazer grade recebiméto por feus mandarls. E vifto por Antonio de brito ho lugar pera fazer a fortaleza, começou de fazer húa trãqueira pera fe recolher cõ a fazêda & artelharia em quanto fazia a fortaleza, mas primeyro affentou cÕ a raynha & cõ outros é nome do rey da terra q ele era cõtente de dar hú lugar a el rey de Portugal júto da fua cidade em q auia de ter húa feytoria cõ roupa & outras coufas q os Bandanenfes trazião de modo q a terra efteueffe abaftada das tais mercadorias cõ cõdição q ho crauo não fe védefle a outros eftrãgeiros & a troco de roupas q valeffem mil rs fe cõpraria na feytoria o Bahar do crauo q fam quatro quintaes q faya
  • Livro VI, Capitolo XII 171 ho quintal a cc. rs. E de tudo ifto fe paflarão efcripturas affinadas por abas as partes: & porque Antonio de brito nã fe fiaua da raynha por ler filha delrey de Tidore q tinha por muyto fofpeita na amizade del rey de Portugal pola muyta q tinha cõ os Caftelhanos, quis ter de fua parte algú da terra pera q ho ajudaffe & fauorecefie fe a raynha quifeffe fazer algúa treyçao: & efte foy hú Cachil Daroés filho baftardo do rey q fora de Ternate pay do menino q reynaua. E cõcertãdo coele q ho ajudaffe fe ho fizeífe regedor do reyno: trabalhou tato q fez q ho folfe, pofto q cotra võtade da raynha & dos de fua valia q lhe querião mal: & por amor Dantonio de brito & de Cachil Daroés q tinha muytos de lua bãda ho diflimularã & moftrarão folgar de Cachil daroés fer regedor: porem a raynha quis dali por diãte mal a Antonio de brito, & efperaua tempo pera lhe poder fazer mal, & affi ho cõcertaua fecretaméte cõ feu pay el rey de Tidore, porq tinha grande magoa de ver regedor Cachil Daroés q lhe tiraua ho mãdo q tinha dantes. E ele cõ ho fauor Dãtonio de brito fe qria abfolutamete fazer fenhor do reyno & c tudo o q podia ho feruia, dãdolhe auifos do q auia de fazer, & do q fe auia de goardar. E fe efte home nã fora fegúdo as guerras q defpois focederão a Antonio de brito, & as neceflidades em q fe vio núca fizera a fortaleza né fofrera eftar na terra como efteue. E feyto regedor & acabada a traqueyra, & metida detro toda a fazéda & artelharia q trazia: & recolhida a armada dentro no porto, começou de edificar a fortaleza é Iunho dia de fam Ioão bau- tifta do ãno de mil & quinhetos & vinte dous. E eftãdo hi el rey de Ter¬ nate & todos leus Sãgages & mãdarls cõ muyta gente do pouo, defpois de dita húa miffa cõ a mayor folenidade q pode fer forão abertos os ali- ceces & aífentadas as prrimeiras pedras cõ grade arroido da artelharia q defparou toda & muyto tãger de trõbetas. Ao q el rey de Ternate deu grade ajuda cõ todos os feus Sangages, & affi el rey de Geilolo: poré nã aproueitaua por a géte não fer pera trabalho, & os Portuguefes ho tinhão muy grãde na obra q fazião, & na deferéça q achauão nos mãtimétos da terra aos q erão coftumados.
  • Hijloria da Índia 172 CAPITOLO .XIII. De como Marti Afonfo de melo coutinho chegou aa China & a achou de guerra. SEguindo Marti Afofo de melo coutinho pera Malaca foy ter a Pace, & hi deixou do Andre anrriquez por capitão de fortaleza q ho era por elrev de Portugal, & leuou dõ Sancho anrriquez pera Malaca Õde chegou e lulho: & achado nouas do leuãtaméto da China partio logo pera lá & foy é fua conferua Duarte coelho em hú júgo, & de caminho fizerão os noflòs muytas & muy ricas prefas. E chegado a vifta das ilhas da China no mes Dagofto do ãno de vinte dous lhes deu húa toruoada com q payrarã. E paliada efta borrifcada apareceo a armada dos Chins de muytos júgos & calaluzes cheos de géte de peleja, q por a terra eftar leuãtada cçtra os noílos os ãdaua efperãdo. E auédo os Chins vifta da noífa frota logo fe poferão é fom de pelejar chegãdofe muyto parela, & defparãdo fuas bõbardinhas, & tirado muytas frechadas. E Marti Afonfo porq ja eftaua auifado de fuas rebolarias & queria paz não bolia cofigo & deixauafe ir. O q os feus capitães não querião fazer, & vedo q os Chins os affoberuauão muyto mãdarão algús defparar fua artelharia, principalméte Ambrofio do rego com q lhe defaparelharão algús nauios & matarão géte, pelo q eles fe ouuerão de retirar vendo ho dano q rece- bião. E ãbroíio do rego os começou de feguir, do q Martim Afonfo ouue grãde menecoria, & muyto mais no dãno q fora feyto aos Chis, e fez recolher Ambrofio do rego. E mãdãdo ho ir á fua nao fe aqueixou muyto coele, & lhe diffe palauras afperas: & por fer de boa cõdição ho nã cafti- gou doutra maneyra. E feguindo feu caminho foy furgir na ilha Dabe- niaga é húa baya de fora do porto, õde tãbé furgio a armada dos Chis ao mar, & afaftada da noífa: poré tinha a cercada, q não podia fayr q não palTaíTe por ãtrela. E cÕ quãto os Chis receberão dãtes algú dãno dos noflos nã deixauão de lhes tirar.
  • Livro VI, Capitolo XIIII 173 CAPITOLO .XIIII. De como Martim Afonfo de melo quifera tornar a reformar a paç com os Chins & não pode. VEndo Marti Afonfo q os Chis infiftião é moftrar q eftauão de guerra, acordou cõ feus capitães q tomalfem aqla noyte lingoa pera fabere a determinação dos Chins, & mãdaré recado ao feu capitã mór da caufa porq querião guerra cõ os noffos eftãdo dãtes é tanta paz, & aqla noyte tomarão os noffos cinco Chis q hião ao lõgo de terra é húa mãchua carregada de caruão. Poré eftes como erão rufticos & não fabião mais q fazer caruão, não fouberão dizer nada do q lhes Marti Afonfo preguntou: & cõ tudo ele' os veftio muyto bé, & mãdou os ao capitão mór dos Chis cõ recado: dizedo q ele vinha de paz, & cõ muyta merca¬ doria pera tratar, & q achaua guerra fé faber a caufa, q lhe pedia muyto q lha mãdaffe dizer, & q ele faria toda a enméda q foffe pofliuel fe a guerra era por culpa dos noffos & fe não q lhe pedia q a não quifeffe coeles, & q goardaffe a paz q eftaua affétada. Coefte recado forão eftes cinco homés & não tornarão cõ repofta, ãtes os Chis tirarão muyto mais q dãtes, porq tinhão recado do feu rey q não confentiffé os noffos e ne- nhú porto feu. E Martim Afonfo ainda fe fofteue fem rõper a guerra aqle dia, porq lhe pareceo q os cinco por feré rufticos não faberião dar feu recado: & na noyte fegulte mãdou tomar outra vez lingoa, & leuarã- lhe dous homés q forão tomados em terra. E deftes foube como el rey da China eftaua muyto mal cõ os noffos, & o q tinha mãdado: por iffo q nã curalfe de recados né de falar é paz porq tudo era debalde. E fabido ifto por Marti Afonfo, os mandou veftir & tornar a terra: & na mefma noyte em que ifto foy foube por cinco dos noffos do jugo de Duarte coe¬ lho que ficara a tras como furgira detrás de húa põta por auer vifta da armada dos Imigos q auia medo q ho tomaffé, q ou mãdaffe por ele ou lhe deffe licéça pera fe tornar. E Martim Afofo mãdou dous bateys ar¬ mados que núca poderão paffar polos muytos pelouros com q tirauão os Imigos: & cõ muytos feridos & quatro mortos fe tornarão a recolher pera a noílã frota. E védo Martim Afonfo os noffos feridos & mortos q hiã nos bateys ficou muyto fentido: & determinãdo de pelejar cõ os Chins pois eles querião guerra chamou a confelho, em q dos capitães & peffoas q eftauão no confelho foy muyto cõtrariado q não pelejaffe porq era dou- dice: mas q fizeffem agoada porque auia diffo neceffidade, & q entretãto ho tépo lhes diria q farião. Ifto determinado foyfe Martim Afonfo a terra
  • ■r 74 Hiftoria da índia cõ os bateys da frota muyto bê armados, & fayo ê terra a mãdar fazer agoada, & era hú pouco apartado donde eftaua a armada: o q vedo os Imigos apartarãfe logo bê trinta calaluzes & lãcharas & derão fobelos bateys ás bõbardadas, & foy a coufa tão de prelfa q efcaffamête Marti Afonfo teue têpo pera fe recolher aos bateys cõ os feus, deixado ê terra pipas & jarras por êcher. E recolhido com muyta afrota aos bateys fe foy cõ outra muyto mavor ás naos jugãdo fempre as bõbardadas cõ os Imigos q ho feguirão ate perto delas, & não chegarão porq a noífa arte- lharia começou de jugar a q eles auião grãde medo por fer muyto mais furiofa q a fua, & por efte medo nã oufauão eles de rõper de todo a ba¬ talha cõ os noífos, fe não ladrauãlhe de lõge pera ver fe os farião ir. CAPITOLO .XV. De como ardeo a nao de Diogo de melo, & os Chís tomarão a nao de Pedromê & matarão a ele & a quãtos eftauão dentro. E de como Mar- tim Afonfo partio pera Malaca. VEndo os noífos que os Chis eftauão de todo de guerra, & mais por mãdado do feu rey, & q tinhão muyto pouco poder pera os fugi- gar, aconfelharão a Martim Afonfo q fe foífe ê quãto fe podia ir fem mór afronta, porq defpois não poderia. E feyto de tudo auto q todos afíinarão, afletou de fe partir: & ao outro dia fe leuou cõ os outros capi¬ tães, & em desferindo as velas começarão os Chins de fe chegar pareles dãdo grãdes gritas, & coelas çurriadas da fua artelharia, & muytas nu- uês de frechas. Pedromê & Diogo de melo q lhes ficauão mais perto fe defêdião cõ muytas bõbardadas. E nifto acendeofe fogo ê hú barril de poluora na nao de Diogo de melo, com q fe ho fogo ateou de modo q núca fe pode apagar & a nao arrebêtou & fe foy ao fundo. E vedo Pe¬ dromê como muyta da gête ficou fobre a agoa nadado, mãdoulhe acodir polo feu batel q leuaua fora, os Imigos acodirão logo ê muytos jugos fobre Pedromem q como ficaua cõ pouca gête por amor da q hia no ba¬ tel teuerão os Imigos lugar de lhe aferrar a nao por todas as partes: & entrarão dêtro tantos q por mais esforçadamête que fe os noífos defêde- rão todos forão mortos, faluo hú q fe acolheo á gauea: & afll forão mor¬ tos os do batel polos Imigos q andauão nos calaluzes, & os Imigos não curarão de Marti Afonfo nê de Vafco fernãdez, nem Dãbrofio do rego polos muytos tiros q tirauão. E os q matarã os noífos na nao de Pe¬ dromê, defpois de mortos lhes cortarão as cabeças & as recolherão & roubarão a nao de quanto tinha ate da enxarcia & ancoras, & cabos q
  • Livro VI, Capitolo XVI 175 não ficou nada. E dado grades gritas & tocado feus inftrometos de guerra fe afaftarão, & eles afaftados ho da nao de Pedromem que fe acolheo á gauea começou de capear, & Marti Afofo mãdou por ele & trouuerãlho noyte, porq foy grade trabalho aueréno por não auer êxarcia por õde fobiífem á nao. E efte cotou a Martim Afonfo como paffara ho feyto, & logo em confelho Martim Afonfo fez húa fala aos outros capitães fobre a vingãça dos mortos, dãdo pera iíTo as rezões q a paixão mais que a rezão lhe infinaua: que lhe todos contradifferão, dando outras mais viuas, porque era be que não pelejaífem, fe não que logo foffe metida no fundo a nao que fora de Pedrome: & na mefma noyte fe partiffem pera Malaca, porque os Chis não ouueffem vifta deles pelo perigo que lhes refultaua. E pera fua defculpa de Martim Afonfo fe fez hú auto deftes pareceres q todos aflinarão, & dele pedio ele hú eftormento ao efcriuão da nao pera fua goarda, & muyto contra fua võtade por fer de grandes fpiritos m㬠dou executar 0 que foy acordado no confelho. E metida a nao no fundo fe partio cõ os outros capitães, & fendo ainda e Agofto que duraua a moução de Malaca pera a China & pera fua viagem lhe era ho vento cõ- trairo, quis noffo fenhor q lhe feruiífe. E indo por fua vi age tomou a via de çamatra pera ir ver fe tinha a fortaleza de Pace neceffidade dalgúa coufa. CAPITOLO .XVI. De como el rey Dachem mandou cercar a fortaleça de Pacem, & de como lhe focorreo Martim Afonfo de melo. EL rey Dachem defpois que foy a morte de Iorge de brito & dos outros que morrerão coele, ficou tão foberbo q determinou de def- truyr os noífos onde podefTe, & não dar a vida a nenhú. E fabendo que eftaua noífa fortaleza em Pacem, & quem era ho capitão, & quã pouca gente tinha: determinou de a tomar. E fazendo obra de dous mil homés de peleja mandou hum feu capitão fobrela, & mandoulhe que a queymaíle porque era de madeira. E como ho caminho era curto & por terra, em breue tempo derão fobre a fortaleza: em que a efte tempo efta- uão ate fetenta homés porque os outros fe forão com dom Sancho quando quando fe foy pera Malaca, & com muyto poucos mantimentos, mas com boa artelharia & outras munições com que fe os noífos defenderão dos immigos, & os não deixarão chegar aa fortaleza: polo q eles trabalharão muyto pera a queymarem que effe era ho feu intéto. E também os noífos tinhão de noyte grande vigia, & fazião fogos perque viflem fe os immi¬ gos chegauão aa fortaleza, & tinhão muyto grande trabalho, & eftauão
  • Hifioria da índia 176 em grande perigo por os mantimentos ferem muyto poucos fe ho cerco duraífe. E eftando nefta fadiga chegou Martim Afofo de melo que vinha da China, & auendo os immigos vifta da frota que trazia, que era de cinco velas groffas, conhecendo que era dos noífos leuantarão ho cerco com medo & fugirão hum dia antes que Martim Afonfo chegalfe: & fe ele não chegara tão cedo dom Andre 1'e vira em grande aperto. CAPITOLO .XVII. De como fe perdeo a nao de Duarte dataide, onde ele morreo com outros. E de como ho gouernador de Ma\cate acodio aos nojfos. REformada a paz como dilíe defpois q veyo Setembro defpachou dom Luys as tres naos pera a índia com ho dinheiro das pareas & outro que fe fizera da fazenda del rey de Portugal: & porque Pero vaz trauaços hum capitães deitas naos eítaua doete deu dom Luys a capitania da nao a Manuel velho ate a índia. E partidos Dormuz che¬ garão a agoada que fe chama de Cojeatar junto de Mazcate pera fazerem agoada. E eftando ali furtos dia de fam Mateus aa noyte acodio húa tor- menta de vento traueífam tão furiofo e esforçado que leuou húas naos de mouros que eftauão em picadeiros hú grande efpaço dú cabo pera outro, & arrancou cafas, & dali a doze legoas fez perda que foy aualiada em cincoenta mil xerafins. E efte vento deu aa cofta com a nao de Duarte dataide em hús penedos, em que fe fez em pedaços por não ter mais que húa ancora,7 & morrerão algús dos noffos: antre os quaes forão Duarte dataide, & hú feu filho, dom Garcia coutinho que hia coele pera a índia, Vafco martlz de melo & Ioão rabelo. E quando a nao foy aa cofta deu pola nao de Lopo dazeuedo & qbroulhe ho garoupez: que a fora efte danno recebeo outro muyto mayor de dous camelos, que afli como a nao jugaua de hum cabo pera ho outro jugauão eles também & desfaziãna toda. E fabendo Manuel velho a fadiga em que eítaua Lopo dazeuedo com quanto era noyte fe meteo no feu batel com algús & foylhe acodir: & defpois que ho deixou feguro fe tornou aa fua nao andando ho mar tão alto que quafi fe não pode embarcar. E tornado aa nao achou toda a gente aluoroçada pera fugir com medo de darem aa cofta: & ele tomou diftimuladamente as armas a todos, porque fe não defendeífem fe os qui- feífe por força fazer eftar na nao: dizendo que auião de morrer ou fal- uala. O que fez ajudandolhe feus criados que todos tinhão armas. E fazendo afleflegar a gente, & mandando fazer as ancoras portantes com a popa da nao por diante foy alargando as amarras, & gouernando a
  • Livro VI, Capitolo XVII m bombordo & a eftribordo fe fayo da enfeada da agoada & foyfe meter no porto de Mazcate que eftaua hi logo, onde fe faluou. E ao outro dia Xeque Reyxil Xeque de Mazcate a requerimento de Manuel velho man¬ dou lançar pregão que nenhú mouro fopena de morte não tomaífe nenhúa coufa daquela nao que fe perdera. E ifto fez ele por fer grãde feruidor delrey de Portugal & amigo dos noffos: & por iffo mãdou tirar toda a fazenda que hia na nao, afli del rey como das partes & artelharia por treze mergulhadores que naquela terra fe chamão caroás. E a fazenda del rey erão dous cofres em que hia ho dinheiro das pareas del rey Dor- muz, hum com tangas, outro com xerafins: & nefte hia húa adaga & ter¬ çado douro pera el rey de Portugal, que el rey Dormuz lhe mandaua de prefente com húa cinta douro de largura de mais de dous dedos & hum fio de pérolas pera a raynha, & muytos fardos de feda folta, & da fazenda das partes fe deu ao Xeque a cinco por cento, que coeffa condição a man¬ dou tirar, & pola del rey não quis nada. E todos os corpos dos mortos forão achados & enterrados. Feyta efta deligencia com que fe cobrou toda a fazenda del rey por induftria de Manuel velho eftando ele naquele porto lhe foy dito pelo Xeque de Mazcate que a agoada de Cojeatar era che¬ gado hum criado de Raix xarafo & feu capitão com gente darmas em húa terrada: que fe temia que foífe pera ho matar, por quanto como fabia antes de dõ Luys chegar a Ormuz mãdara Raix xarafo a Raix de- lamixá feu irmão por goazil de Calayate. E indo por terra cÕ medo da noffa armada paliara a vifta de Mazcate, Õde lhe ele Xeq fayra cõ gente ao ecõtro, por fer amigo dos noífos & immigo del rey Dormuz por ter guerra coeles: & nefte écõtro hú dos noffos q hia coele matara Raix de- lamixá cõ húa efpingardada, & por iffo temia q ho capitão de Raix xa¬ rafo foffe pera ho matar, q lhe valeffe pois fora fempre leal aos nolfos, & por effa caufa lhe qrião fazer mal. E fabido ifto por Manuel velho foy no feu batel com muytos dos noffos ondeftaua a terrada: & dãdo de fu- pito nela prendeo ho capitão de Raix xarafo q hi eftaua com os remey- ros, fométe porque a outra géte era é terra. E prefo ho capitão cõ todos os remeyros os leuou á fua nao, & hi fez amigo ho capitão com ho Xe¬ que. E ifto feyto foyle caminho da índia como Lopo dazeuedo, & forão furgir no porto de Goa onde fe entregou a fazenda del rey que leuauão. Tomo ill
  • 17 S Hijloria da índia CAPITOLO .XVIII. De como dom Luys fe tornou pera a índia, & do mais que paffou. VEndo os capitães & fidalgos da armada de do Luys que não fe po¬ dia acabar com Raix xarafo que tornafle a pouoar Ormuz, indina- ranfe muyto cotrele, & dizião q não fe lhe deuia de paffar húa coufa tão mal feyta, & em q tanto moftraua ho mal q queria aos Portu- guefes, & q ho deuia de pagar muyto be, cõ dom Luys defembarcar em Queixome & deftruir toda a terra & quando nã podeífe logo fazerlhe guerra, guerreala ate q a deftruyfe, & q dõ Luys deuia de poer ifto em confelho. E pore ele cõ quãto fabia o que dizião nã ho quis poer e con- felho & cõtentoufe cõ ho aflinado q tinha de Raix xamixir q mataria Raix xarafo como foífe tempo. E de ele nã dar 5 Queixome ne querer tomar a cerca diflo o parecer dos fidalgos & capitães da frota, fe defcõtentarão eles muyto, & affi a outra gete: & fobretudo por ho acharé muyto folto no falar, & não ter em conta dizer a hú homé o q lhe vinha á votade: & fé fazer mais é Ormuz qoq digo fe tornou pera a índia, & de cami¬ nho foy ter á pota de Diu pera fazer hi prefas. E efperando polas naos em q as auia de fazer lhe deu hú teporal cõ q por força arribou a Chaul cõ fua armada, & da hi fe foy a Goa: onde tãbe a gente eftaua muy def- contéte do gouernador, porq diffimulaua muytas coufas mal feytas q fazia Frãcifco pereyra peftana, & dizião q por lhe dar muytos bãquetes & pe¬ ças ricas. E tão apreífados fe vião os cafados de Goa cõ a forte cõdição de Frãcifco pereyra q algús fe forão fora de Goa, & outros fe lãçarão na terra firme, & andarão cõ os mouros quafi todo ho tempo de fua capita¬ nia, & não auia nenhúa juftiça. E fabido polo gouernador ho pouco q dõ Luys fizera é Ormuz, determinou de ir lá, porq aífi lho efcreuera Ioã rodriguez de noronha & mãdou dõ Luys a CochI pera fazer a carrega das naos q foliem de Portugal, de q aqle ãno partirão no mais de tres fem capitão mór, de q forão capitães dõ Pedro de crafto, Diogo de melo q hia por capitão Dormuz, & dõ Pedro de caftelo brãco q naqle ãno paffou á índia & outros dous inuernarão e Moçãbiq.
  • Livro VI, Capitolo XIX *79 CAPITOLO .XIX. De como por morte de Raix xabadim, Raix xarafo fe acollieo á nojja fortaleza cõ medo de ho mataré os mouros: & de como fe tornou a po- uoar a cidade Dormu\. PArtido dom Luys Dormuz teuefle Raix xarafo por feguro na gouer- nança do reyno, porq como ele era prudete be conheceo q nã era aqle ho tepo em q por força lhe auiã de fazer fazer o q não qui- leffe. E como homê que fazia cõta q a cidade Dormuz fe auia de mudar a Queixome, onde não auia de ter que lhe contrariaífe feu mando por ficar a noffa fortaleza apartada começou de fe defcuydar da grãde goarda q trazia em fua peífoa, q dos mouros não fe temia, porq Miramahmet morado feu Imigo ja era deitado do mudo, & os q eílauão na corte erão feus parentes & criados a que fazia muyto bé. E por iffo lhe pareceo q eftaua feguro & esfriou de todo da goarda de fua peífoa: & o mefmo fez Raix xabadim feu cunhado. O que vedo Raix xamixir que por feu aífi- nado tinha prometido a dõ Luys de os matar não quis mais efperar, & achãdo de melhor lãço Raix xabadim mãdou ho logo matar por hús fre¬ cheiros q lhe tirarão á treyção, & o matarã, & nã quis tomalo jõtaméte cÕ Raix xarafo porq lhe pareceo q apartados os mataria melhor: no q errou, porq quãdo Raix xarafo vio morto feu cunhado logo fe goardou, & foy tamanho ho feu medo q cõ quanto tinha dous mil homés de peleja, & Raix xamixir no mais de quinhentos não fe fiou deles né de feus pa¬ rentes parecendolhe que todos erão cõtrele, & não fe atreuedo a íaluar em Queixome fugio fecretaméte é húa terrada & acolheofe á nolfa forta¬ leza, porque bem fabia quã leays os noífos erão, & que mais feguro auia deftar antre eles que antre os mouros. Raix xamixir que foube como ele laa eftaua, mandou logo requerer a Ioão rodriguez de noronha que ho prendeffe, porque ele era tredoro & tirano q fizera leuãtar Ormuz, & mandara matar el rey Tuxurá, & fazia que fe não pouoaífe Ormuz, & porq ele ifto fabia como feruidor q era del rey de Portugal prometera a dom Luys por hú aflinado de ho matar, & a feu cunhado Raix xabadim, o q poíera e obra quanto lhe fora poffiuel. E pois Raix xarafo eftaua e feu poder q ho prendeffe polas coufas fobre ditas. O que vifto por Ioão rodriguez ho prédeo, & ele prefo paffoufe logo el rey a Ormuz cõ todos os feus moradores. E Ioão rodriguez q fabia o q dom Luys tinha pro¬ metido a Raix xamixir cõprio lho dãndo lhe o goazilado Dormuz. O q vedo Raix xarafo prometeo muito dinheiro a Ioão rodriguez q ho foltaffe
  • 18o Hijloria da índia & lhe tornaffe a dar ho goazilado. E como ifto era húa coufa tamanha não fe atreueo Ioão rodriguez a fazelo, & prometeolhe q faria cÕ o go- uernador q ho fizeíTe: & pera ho fazer vir a Ormuz lhe efcreueo a pri- fam de Raix xarafo, & como a cidade Dormuz era pouoada: & q era muyto neceffario ir afTentar aqlas coufas, & q não fofle coele Manuel ve¬ lho ne Ruy varela: porq afli compria a feruiço del rey. E ifto foy inftruçã de Raix xarafo q como fabia quã be eftes dous fabião as coufas Dormuz, & os males q ele tinha feytos não os qria lá porq ho não dãnafle. E vifta polo gouernador efta carta aflétou de todo é ir a Ormuz pera o q fe co¬ meçou de fazer preftes. CAPITOLO .XX. De como dom Lu/s de menefes dejpachou ê Cochi certas velas pera di- verjas partes & defpois fe partio pera ho ejlreito. DOm Luys de menefes defpois q foy é Cochi defpachou as naos da carrega q auião dir pera Portugal, & afli Pero Louréço de melo pera ir á China q ja do tempo de Diogo lopez tinha húa viagé pera lá, & ele o nã quis deixar ir: & deu licõça a Marti Afofo de melo jufarte q fofle e hú júgo é fua copanhia. E tãbe defpachou pera Malaca a hú Andre de brito que fofle tratar por aqlas partes é húa nao fua q fizera á fua cufta: & eftes todos partirão e diuerfos tépos. E ifto defpa- chado, tornoufe dom Luys pera Goa, dõde o gouernador ho defpachou co húa armada de galeões, afli pera as prefas do eftreito como pera ir ao porto de Maçuá & trazer dom Rodrigo de lima q fora por ébaixador ao Prefte joão: & mãdoulhe q acabado ifto fe fofle inuernar coele a Ormuz. E coefte regiméto fe partio dõ Luys pera ho eftreito: & a fora ele que hia no galeão fam Dinis forão os capitães da fua armada, Nuno fernãdez de macedo, Ruy vaz pereira, Fernão gomez de lemos, Anrriq de macedo, & Lopo de mezquita todos capitães de galeões.
  • Livro VI, Capitolo XXI z8i CAPITOLO .XXI. De como indo o gouernador pera Ormu\ tomarão hús mouros de Diu húa galé a Bajlião de noronha. PArtido dõ Luys defpois q ho gouernador deu defpacho a algúas coufas q ficaua fazendo, partiofe pera Ormuz leuando húa armada de feys galés, de que forão capitães Baftião de noronha, Ioão fo¬ gaça, Dinis fernadez de melo, Frãcifco de médoça, dõ Vafco de lima, Frãcifco de foufa tauares: & aífi algús nauios de gauea, a cujos capitães nã foube os nomes. E atraueffãdo o golfão foy vifta húa nao de mouros q hia pera Diu: & os primeyros capitães que a virão forão Baftião de noronha & Ioão fogaça q lhe derão caça, & Baftião de noronha por a fua gale fer mais veleira que a de Ioão fogaça a alcançou quaíi noyte, & por effa caufa não quis pelejar cõ os mouros, mas mãdou amarrar muyto bé a galé cõ a nao porq fe lhe não fofle de noyte, pera q em amanhecédo pelejaffe cõ os mouros, q vedo ho vagar do capitão teuerãno é pouco, & fintldo q nã hia mais q ele fó coeles, & q a outra galé não parecia, de¬ terminarão de tomar aqla, & amarrãna polos maftos CÕ cabos muy grof- fos fem ho fintiré os Portuguefes q adormecerão: & tãto q amanheceo não efperarão os mouros q os Portuguefes os cometeíTé, & acodirão logo cõ muytas pedradas com q os defatinarão q temerã détrar a nao: & tãbé porq o capitão os nã animaua a iffo. E vedo os mouros fua fraqza, come- çarã algús de qrer decer á galé pola proa da nao, & não ouue ãtre os Portuguefes que lho oufafie de deféder polas muytas pedradas & zagú- chadas q vinhã decima fe não hú mãcebo filho do Coudel mór, cujo nome me nã fouberão dizer certo, & efte foy ali morto polos mouros fem lhe ningue acodir: o q vedo eles decerão liureméte á galé fem auer que lho defédeífe: ãtes os Portuguefes & ho capitão cõ medo fe recolherão ao tedal da gale, & dali por não teré mais colheita derão cõfigo no mar, & ho capitão defpio as coiraças pera poder melhor nadar, & ouuerãfe os mais dafogar fe não fobreuiera Ioão fogaça na fua gale de q os ãdarão apanhãdo. E pofto q Ioão fogaça tinha géte 5 abaftãça pera pelejar cõ os mouros q tinhão tomada a gale de Baftião de noronha não quis, & fazedo fe é outra volta deixou a gale e poder dos mouros q a leuarão a Diu, & a derão a Meliqjaz cõ quãta artelharia leuaua q era muyta & muyto boa. E ifto paffou tão lõge das outras velas da armada q lhe não poderã aco¬ dir, de q todos os cápitães da armada ficarão muy efcãdalizados, & fe ouuerão por muyto iujuriados: porq núca outra tal fe acõtecera na índia,
  • i8s Hijioria da índia né acoteceo defpois. E ho gouernador mãdou prender Ioao fogaça & Baf- tião de noronha & da hi a algús dias os mãdou foltar. E fabédo Meli- quiaz como a gale fora tomada, teue ho gouernador e tão pouca cõta q não quis paz coele & tornou a mãdar fua armada de fuftas ao lõgo da cofta de Cãbaya, & mãdou varar a gale: & quãdo algús eílrãgeiros hião a Diu amoftraualha, & cotaualhe como os mouros a tomarão. E a tomada defta gale deu muyta oufadia aos mouros da índia pera tere os Portu- guefes em pouca conta. CAPITOLO .XXII. De como o gouernador chegado a Ormu\ foliou Raix xarafo. PRosseguindo daqui ho gouernador fua viagem pera Ormuz, che¬ gou lá & cõ fua chegada folgarão muyto, afli Chriftãos como mouros credo q pagaria Raix xarafo q eftaua prefo os muytos & muyto grãdes males q tinha feytos, affi a hús como aos outros. Aos Chriftãos no trabalho & fadiga em q os pos cÕ ho leuãtameto Dormuz & cerco da fortaleza, & a perda q deu a muytos de fuas fazêdas, & em fer caufa da morte dalgús feus amigos & parétes. E aos mouros é lhes matar feu rey & os defaflegar cõ a guerra & darlhes muytos trabalhos coela, & e os tiranizar fem nenhúa piedade, tomãdolhes quãto tinhão de cada vez q queria. E pois eftaua prefo por culpas tão pubricas como auia tão pouco q cometera, efperauã todos que pagafle com a vida aque¬ las & outras lecretas. E chegado ho gouernador a Ormuz foy por tres vezes a húa torre ondeftaua prefo & falou coele perante Ioão rodriguez de noronha capitão da fortaleza que terçaua grãdemente por Raix xarafo com ho gouernador pera que ho foltafle & fizeffe goazil, & tirafle os offi- ciaes Portuguefes da alfandega de Ormuz & das outras alfandegas, & que pagaria a el rey de Portugal mais corenta mil xerafins que fazião feffenta mil cõ os q pagaua dãtes, de que pagaria logo ametade: & pa¬ garia a valia da fazéda q fe tomara a el rey de Portugal na feytoria: & aífi pagaria as partes o q lhe tomara no aleuãtaméto da cidade cotra a fortaleza. E ale diffo daria duzétos mil xerafins, pera o q ho gouernador quifefle. O q pareceo bc ao gouernador, mas receaua do Luys feu irmão q lhe não auia aquilo de parecer bé, porq queria mal a Raix xarafo & defejaua de fe vingar porq por feu rogo não quifera pouoar Ormuz: & mais q auia de qrer fofter no goazilado a Raix xamixir pola promeffa q lhe tinha feyto, & por iffo determinou de foltar Raix xarafo & fazelo goa¬ zil ãtes da vinda de do Luys pera o q fez confelho cõ ho capitão da for-
  • Livro VI, Capitolo XXII i83 taleza & algús capitães da frota, a q diffe o q Raix xarafo lhe cometia: & q a ele lhe parecia bé, porq era éformado q Raix xamixir q feruia de goazil era muyto doudo & não fabia gouernar, & os moradores eftauão muy defcÕtétes dele, & afli ho hião os mercadores q vinhã de fora, & q nã daua a el rey feu fenor de pareas mais de vlte mil xerafins, & Raix xarafo daua lx. mil & bé pagos, & era home antigo na terra: & cõ fua prudécia & íiío a fabia bé gouernar, & tinha nela credito: que lhe pare¬ cia q efte deuia de fer goazil & nã o q o era. E étédédo todos no gouer- nador q queria fazer aquilo, a todos pareceo bé: faluo a Manuel de foufa tauares q era capitão mór do mar Dormuz q difle q lhe nã parecia bé, porq auia muytos ãnos q conuerfaua Raix xarafo, & fempre lhe conhe¬ cera fer Imigo mortal dos Portuguefes & ter defejo de os lançar fora Dor¬ muz : do q era muyto boa teftemunha a treyção que lhes fizera no leuan- tamento Dormuz tendo feu pay, & ele, & feus irmãos recebido tanto bem dos Portuguefes, & affi é não querer q fe pouoaffe Ormuz, perdoandolhe do Luys ho paífado, & por iffo dizia q não fométe ho nã deuião de foltar né darlhe ho goazilado, mas q ho mataffem fe querião ter feguro Ormuz, & fe não que fempre aueria nele reuoltas. E deite parecer foy Dinis fer- nandez de melo: porem como não erão mais de dous preualecerão os ou¬ tros com quem foy ho gouernador. E determinado ifto de q foy feyto aífi- nado por todos foy folto Raix xarafo & reflituido no goazilado, & Raix xamixir & Raix noradim deitados fora Dormuz, q derão tão boa moítra de feruidores del rey de Portugal & damigos dos noflos na morte de Raix xabadim & na de Raix xarafo pera que não ouue tépo por fua fugida. E eftes dous fe forão Dormuz em húa terrada, & fecretamente lhe foy dado fúdo por mandado de Raix xarafo: & eíta paga ouuerão por que- reré feruir a el rey de Portugal: & efte foy ho goazilado que lhe dõ Luys prometeo. Do q os noffos ficarão muy eícandalizados, & adi os mouros & de todo perderão ho credito dos noflos, & dizião que quem teueffe muyto dinheiro em Ormuz fempre viuiria, pofto que fizeffe todos os males do mundo. E metido Raix xarafo é pofle do goazilado pagou logo ametade dos duzentos mil xarafís & das pareas ao gouernador, & pola outra ame¬ tade ficou em arrefés hú filho de Raix xarafo. E na paga das partes fe teue efta maneyra que dauão juramento a cada peffoa do que perdera & pagauãlhe logo hú terço, & eles jurauão mais do que perderão, & tudo lhes pagarão defpois de maneyra que muytos ficarão ricos. E a fora ifto que Raix xarafo deu ao gouernador lhe fazia cada dia muytos feruiços de muytas cõferuas, fruytas, carnes & pefcados, & dagoas cheirofas: com q leuou aqle luerno muyto boa vida.
  • 184 Hiftoria da índia CAPITOLO .XXIII. De como dõ Luys indo pera dar na cidade de Xael lha defpejarão os mouros, & do mais q fe\ ate tornar do ejlreito. PArtido dõ Luys de Goa com fua armada feguio fua rota pera ho cabo de Goardafum, onde é poucos dias que efteue efperãdo po- las naos de mouros tomarão os noífos capitães cinco. E dali feguindo fua rota foy ter ao porto Dadé onde achou quatro naos que mã- dou queymar, & dali determinou de ir fobre hú lugar de mouros chamado Xael que eílá na mefma cofia Darabia cincoenta & cinco legoas Dadé indo pera ho eílreito: eftá em quatorze graos & hú coarto fituado em cofia braua em que ho mar de contino anda rolado. He lugar grãde, abaflado & viçofo de todas as fruytas que ha em Eípanha: he de grande trato por auer nele muytos caualos & encenfo que leuão os mouros do Malabar & de Cambaya, q leuão ali fuas mercadorias a vender. Neíle lugar inuernão as naos que vão pera ho mar roxo fe nã pode paliar por irem ja tarde, & ventarem os ponentes que lhe fam por dauante, & do Luys determinou de ir fobre efle lugar por fer da obediécia del rey Dadé, E cÕ quãto foube q auia nele muyta géte, & no porto andaua fempre ho mar de leuadia quis ir dar nele porque andaua agaílado de não ter ainda feyto nada na índia, & aqui cuydou de ho fazer, mas os mouros ho tira¬ rão deffe cuydado, porq ou fabédo ou adiuinhãdo ao q ele hia defpejarão ho lugar affi da géte como da mór parte da fazéda: de maneyra que dõ Luys não teue nada que fazer. E com tudo defembarcou com fua gente, que faqueou ho lugar diffo que auia nele q ainda fez algús ricos. E eftando aqui leuantoufe húa torméta tão braua q ouuerão de dar os galeões á cofia, & alijarão ao mar a artelharia que eílaua fobre cuberta, & çoço- broufe hú eíquife: & pola mifericordia de noífo fenhor fayo dali dõ Luys cõ a armada & fe partio pera Maçuá, & defpois queimou grandes naos de mouros q eítauão varadas é terra. E proífeguindo fua viage pera Ma¬ çuá defpois de paífar algúas tormétas com q fe vio é perigo foy furgir no feu porto: & dali por interceffam do capitão Darquico mandou recado a dõ Rodrigo de lima q ho efperaua ate dia de Pafcoa que auia de fer ate qulze Dabril, & fe então não foífe coele que fe auia logo de partir, porque não podia mais efperar, & ficou efperando.
  • Livro VI, Capitolo XXIIII 185 CAPITOLO .XXIIII. De como dom Rodrigo de lima partio caminho da corte do Prejle. NO quinto liuro fica dito como quãdo Diogo lopez de fiqueyra fendo gouernador da índia foy ao eftreito, mãdou do lugar de Maçuá por embaixador ao Prefte joão hú fidalgo chamado dõ Rodrigo de lima, em cuja cõpanhia forão treze Portuguefes .f. Iorge dabreu, Lopo da gama, Ioão efcolar efcriuão da embaixada, Ioão goçaluez feytor & lin- goa dela, Francifco aluarez clérigo de miffa & outros q fazião ho numero que digo. Defpachado do Rodrigo partiofe do lugar Darquico aos trinta dias Dabril leuado em fua companhia ho embaixador Mateus que faleceo no começo do caminho, per que caminhando chegou a hú lugar chamado Barua aos vintoito de Iunho. E efte era cabeça do fenhorio do Barnagais aquele que foy falar a Diogo lopez de fiqueyra a Maçuá como dilfe no liuro quinto. E efte nome de Barnagais quer dizer rey do mar que nagais quer dizer rey na lingoa abexim & bar mar, & aífi he ele como rey & tem coroa douro que lhe da ho Prefte: & te debaixo de feu fenhorio fete lenhores de grandes terras de q muytos põe em campo quinze mil homes de lanças & efcudos, & todos leuão diante de fi atabales, q não pode tra¬ zer fe não grãdes fenhores: & atli te outros muytos mas não tamanhos fenores como eftoutros, & todos ferue cÕ ho Barnagais na guerra, & ele & eles fam fogeitos ao Prefte q os defpõe das fenhorias quando quer, & lhes pagão muy grãdes dereytos: com q acode ao Barnagais & ele os paga ao Prefte. E neftes dereytos entrão cl. caualos. A efte lugar de Ba¬ rua chegou dõ Rodrigo dõde achou que no mefmo dia partira ho Barna¬ gais doente dos olhos pera outro lugar chamado Barra: a q dom Rodrigo foy pera lhe falar leuãdo configo cinco Portuguefes q hião em mulas porq nelas caminhauão todos. E nefte dia foy dom Rodrigo pera falar ao Bar¬ nagais, mas não pode: ou não quis ele que lhe falaffe, & foy aquela noyte muyto mal agafalhado, & ao outro dia lhe falou. Eftaua ele em húa cafa terrea deitado em hú catle, & fua molher aflentada á cabeceira: & apro- ueitou pouco falarlhe dom Rodrigo, & pedirlhe auiamento pera ho ca¬ minho porque lho deu bem mao, pofto q tinha prometido ao gouernador de lho dar bÕ. E dõ Rodrigo & os de fua companhia compradas algúas mulas q lhes falecião por ho Barnagais lhas não querer dar, fe partio: & defpois de paliar muytos trabalhos & perigos que não coto por breui- dade, chegou húa legoa da corte do Prefte, que como difle no liuro ter- ceyro anda fempre no campo, & agafalhafie em tendas, de que antre boas Tomo III u
  • i86 Hijloria da índia & outras fomenos auera feys mil. Ho Prefte he tamanho fenhor como diffe no mefmo liuro, adi de terra como de gete & de tefouros: andão na fua corte muytos reys & grandes fenhores. He Chriftão & feruefe com pouco eltado, porque ho não vé fe não feus priuados, ne fe moftra a todos mais de tres vezes no ãno .f. dia de Natal, dia dos Reys, dia da exaltação da Cruz de Setembro. E quãdo caminha também vay cuberto que ningué ho não ve: & quãdo lhe falão algús ebaixadores pofto q efté õde ele eftá falãlhe por terceira peffoa. CAPITOLO .XXV. De como dÕ Rodrigo chegou á corte do Prejte joã. DOm Rodrigo chegou como digo a húa legoa do arrayal do Prefte húa fegunda feyra dezafete Doutubro, & ali foy ter coele per mã- dado do Prefte ho feu mordomo mór que na lingoa Abexim fe chama Adugraz, & hia pera goardar dom Rodrigo & darlhe o q lhe foffe neceffario. E logo partirão dali q aífi lho diffe ho mórdo mór, & e vez de irem por diante tornarão pera tras bem húa legoa: dizendo ho Adu¬ graz a dom Rodrigo q não fe agaftaffe porq ho Prefte auia dir pera aquela parte a que eles hião. E chegados detrás dhús cabeços deceranfe & apoufentaranfe em tendas que lhes hi armarão: & logo ho Prefte fe foy apoufentar ali perto é fuas tendas: & por feu mãdado foy dada a dom Rodrigo húa boa téda para poufar com fua cõpanhia, & quem lha leuou lhe diffe q era da peffoa do Prefte, & q tal como aqla não a tinha ninguém no arrayal: & que efta honrra lhe fazia ho Prefte por fer ebai- xador de rey Chriftão. E na fefta feyra feguinte vinte dias Doutubro foy dom Rodrigo chamado da parte do prefte por hú frade que lhe diffe q lhe leuaffe ho prefente & todo ho íeu fato & ho dos de lua companhia porq o queria ver. E por mãdado do Prefte foy muyta gente pera acom¬ panhar dõ Rodrigo, q nã quis leuar mais q o prefente q leuaua. E indo afli be acopanhado chegou a hús arcos q fe fazião diãte das tédas do apoufentaméto do Prefte, & os arcos eftauão é duas ordés, & é cada húa aueria bé xx. cubertos todos de pano brãco & roxo antrefachados hú de húa cor & outro doutra: & de húa ordé a outra aueria hú efpaço de cê paffos: & eftes arcos fdrão feytos por fazer fefta ao ébaixador, porq afli diante das tédas do Prefte q fam brãcas eftaua húa roxa que dizião não feruir fe não em grandes feftas ou recebimentos. Aqui onde eftauão eftes arcos aueria bem vinte mil homens poftos em renque de húa parte & da outra, & pelo meyo ficaua húa larga rua. E todos eftes fayão a ver dom
  • Livro VI, Capitolo XXV 187 Rodrigo & os de fua companhia que hião todos be veftidos & arrayados de ouro, & os Abexins fe efpantauão por ho trajo dos Portuguefes fer muy differente do feu. Abaixo deftes arcos eftauão quatro caualos, dous de cada parte felados de feias ricas, & aifi os outros jaezes, & com cu- bertas de borcado a modo de cubertas darmas, & nas cabeças grandes penachos & abaixo deitas eftauão outros muytos també felados, mas não com jaezes ricos como os outros. E indo dõ Rodrigo pelo meyo deita géte chegarão a ele feífenta homés todos bé veftidos, & hião quafi cor¬ rendo: porque aífi ho coftumão quando leuão recados do Prefte. E def- pois q da fua parte derão hú a dom Rodrigo foranfe coele: & chegado hú pouco ãtes dos arcos achou quatro leões prefos por cadeas que ho Prefte té por eitado: & debaixo dos arcos primeyros eftauão alterna¬ dos os quatro mayores fenhores que andauão na corte do Prefte, a que os q hião com dom Rodrigo fizerão fua reuerencia, q he abaixar a mão dereyta ate ho chão. E aifi ho fez dom Rodrigo & os Portuguefes que parou ali com os q hião coele: & auendo hú grãde pedaço q ali eftaua chegou hú clérigo velho paréte do Prefte & feu cofeífor, de tãta valia & credito coele q era a fegúda peífoa é feu fenorio defpois dele & chama- uafe Cabeata. E efte fayo da teda roxa e q ho Prefte eftaua. Efte pergú- tou a dõ Rodrigo q qria & dõde vinha: & ele lhe refpodeo q da índia, & leuaua ébaixada ao Prefte joão do capitão moor & gouernador das índias por el rey de Portugal. Coefta repofta fe foy ho Cabeata, & def¬ pois tornou duas vezes a pregútar a mefma pregúta: & da derradeira viofe do Rodrigo tão agaftado por não faber ho coftume da terra q lhe diffe: Não fey q diga. E ele lhe diffe q diífeíTe o q quifeffe q tudo diria ao Prefte. E dom Rodrigo não quis dizer mais q o q tinha dito, dizédo q nã diria mais porq a embaixada q leuaua não a auia de dar a outrem fe não ao Prefte, q mãdou dizer a dõ Rodrigo pelo meímo Cabeata q lhe mãdaífe o q lhe mãdaua ho gouernador. O q dõ Rodrigo fez cõ parecer de todos os Portuguefes q eftauão coele, & étregou ao Cabeata ho pre- iente q Diogo lopez mandaua ao Prefte em que entrauão eitas peças, húa efpada & hum punhal ricos, quatro panos darmar deras, húas couraças ricas com todo feu comprimento, dous berços de metal, quatro camaras pareles, & algús pelouros & dous barris de poluora, hús orgãos & hum mapamundi. E efte era ho prefente de Diogo lopez, & dom Rodrigo acre- centou quatro fardos de pimeta da que leuaua pera fua defpefa. E def¬ pois de ho Cabeata ho ir moftrar ao Prefte tornou coele onde eftauão os arcos, & mandou eftender tudo fobreles. E fazendo calar todos, difle ho juftiça mór em voz alta, defpois de nomear cada húa das peças do pre¬ fente, que todos deffem muytas graças a noífo fenhor por fe ajútarem os
  • Hijioria da índia 188 Chriftãos, & fe hi auia algús a que pefalfe que choralfem, & os que fol- gauão que cantaffem. E em acabando de dizer ifto deu a gente húa grande grita dando graças a Deos. E coifto foy defpedido dom Rodrigo bé def- contéte por não falar ao Prefte, & afli ho foy por lhe não fazerem ho gafalhado que efperaua, & foube per algús Chriftãos da Europa que an- dauão na corte que auia quem diffeffe aos grandes fenhores dela que con- felhaffem ao Prefte que ho não deixaífe ir nem aos de fua companhia, porque aífi era ho coftume da terra. E nefte tempo fe mudou ho Prefte donde eftaua, & a dom Rodrigo lhe conueo comprar mulas em que foffe, & bufcar quem lhe leuafle ho fato, por lho não querer mãdar leuar ho mordomo mór nem darlhe mulas. E veyo a coufa a tanto que donde dan¬ tes lhe dauão de comer aa cufta do Prefte paliarão algús dias que lho não derão, aífi que em onze dias que auia que era chegado paliou muy- tos defgoftos, & não lhe aproueitaua aqueixarfe deles, nem mandar pe¬ dir ao Prefte que ho ouuiffe, & parecia que todos ho defprezauão: nem ho Prefte eftimou ho prefente que lhe foy dado, & mandou logo dar tudo a igrejas & a pobres, porque os criados de Mateus lhe differão que aquele não era ho prefente que lhe el Rey de Portugal mandaua, & que ho tomara ho gouernador, & que lhe mandaua aquele. E defpois teue dom Rodrigo bem q fazer em tirar ifto da cabeça ao Prefte porq ho cria, & poré deu fobrifto muytos achaques. CAPITOLO .XXVI. De como ho Prejle mandou chamar ho embaixador & não lhe falou. AUendo onze dias que dom Rodrigo eftaua na corte húa quarta feyra que foy ho primeyro dia de Nouembro paliadas duas horas da noyte ho mandou chamar ho Prefte: & cuydando ele que era pera ho ouuir foy logo caminho das tendas do Prefte que eftauão dentro de húa cerca de febe, em que também diante das tendas eftaua húa cafa grande terrea cuberta de hú colmo que ha na terra que dura muyto, & eftaua armada fobre groffos efteos daciprefte forrada de tauoas mal pin¬ tadas. Na entrada defta cafa eftauão armadas quatro corrediças de corti¬ nas, a do meyo de borcado as outras de feda. E diante defta cafa fe fazião dous pátios, os quaes erão cercados também de febe, & na porta do pri¬ meyro eftauão certos porteiros, & eftes deteuerão dom Rodrigo & ho não deixarão entrar, por efpaço de húa hora, pofto que fazia grande vento & muyto frio, & de enfadados de efperar os da companhia de dom Rodrigo tirarão duas efpingardadas: & logo lhe perguntarão da parte do Prefte
  • Livro VI, CapitoloXXVI i8g porque não trazião mais efpingardas: refpondeo que porque não hião pera guerra. E nifto veo ho mordomo com outros quatro principais da corte: & dizendo a dom Rodrigo que foffem pera dentro, abalarão indo ele diãte com os outros quatro em fieira, & nos cabos dous homens com duas velas acefas nas mãos. E entrando pelo primeyro patio ate que forão no fegundo, detinhãfe de quando em quando: & dizia cada hum por íi em voz alta. Senhor o que me mandaftes aqui ho trago, & de dentro ref- pondião também em voz muyto alta. Anday pera dentro. E a eíta palaura por fer do Prefte & licença fua abaixauão todos as cabeças, & punhão as mãos dereytas no chão por reuerencia. Feyta eíta cirimonia muytas vezes pelo modo fobredito, diffe ho mordomo mór & os outros quatro. Os frãgues q íenhor me mandaftes aqui os trago. E da caía refpondião que entraffem pera dentro, & afli ho fizerão defpois de ditas eftas pala- uras muytas vezes, & ali acharão feyto hum eftrado rico, & diãte dele eftauão cento & feffenta homens com velas acefas nas mãos oytenta de cada banda: & todos tinhão as velas em igoal compaífo. Todo ho chão da cafa eftaua cuberto de efteiras pintadas, & aqui fe deteuerão. E eftando aífi de dentro das corridiças, foy hú page com hum recado do Prefte a dom Rodrigo: em que dizia que ele não mandara Mateus a Portugal, & pofto que fora fem fua licença, que el Rey de Portugal lhe mandaua por ele muytas coufas, & pois lhas mandaua porque lhas não dauão. E dom Rodrigo refpondeo que por Lopo foarez não poder ir a Maçuá, & por falecer Duarte galuão que el Rey de Portugal lhe mandaua por embai¬ xador: mas que as peças que lhe el rey mandaua eftauão goardadas na índia, & não as leuara Diogo Lopez pera lhas mandar por não fer certo de poder tomar ho porto de Maçuá, nem leuaua Mateus fe não pera ho deitar em qualquer porto que tomaffe da Abexia, pera que defpois que ho foubeffe lhe mandaffe ho prefente que lhe el Rey de Portugal man¬ daua, & quando ho Deus leuaua a Maçuá por defejar de ho vifitar, man¬ dara a ele dom Rodrigo com aquelas peças que lhe dera, & pera faber ho caminho quãdo foffe embaixador del Rey de Portugal. E coefta re- pofta lhe mandou pedir que ho ouuiífe & faberia a verdade: & també lhe diria por efcripto o que ho gouernador lhe mandaua dizer alem da carta. E fem ho Prefte refponder a ifto ho mandou defpedir, & dali a dous dias as mefmas horas da noyte mandou ho Prefte chamar dom Ro¬ drigo, que foy & achou a caia que diffe aparamétada de borcados, & atauiada de coufas mais ricas que dantes & mais gente & toda muyto lusida, & mais velas & entrou com as cerimonias paffadas: & os homens que ali eftauão a fora os que tinhão as velas eftauão em ordem, hús de .húa parte outros de outra com efpadas nuas na mão. E defpois de ho
  • 1Q0 Hijloria da Índia Prefte mandar pregútar a dom Rodrigo pelo Cabeata & pelo feu paje moor muytas coufas fem propofito, lhe mandou dizer que jugaffem dous Portuguefes defpada & adarga. E defpois de fayrem dous mandou dizer que fayflem outros dous: & por os dous primeyros ho não fazerem á von¬ tade de dom Rodrigo, fayo ele com Iorge dabreu. E acabando de jugar mandou dizer ao Prefte que fizera aquilo polo feruir, nem ho fizera por outro nenhú príncipe ainda que lhe dera cincoéta mil cruzados, pedindolhe muyto que ho ouuifie & faberia o que lhe mandaua dizer ho gouernador, & que ho defpachaffe pera poder ir tomar a tempo a armada dos Portu¬ guefes que auia de ir ao eftreito. A ifto lhe refpondeo ho Prefte que ainda então chegara, & que não tinha vifto hum terço das fuas terras que folgaffe, & que iria ho gouernador a Maçuá, & que le mãdaria recado & então fe iria: & mais que faria ho gouernador fortalezas em Maçuá, çua- quem & em Zeila, a que ele ajudaria com todos os mantimentos necelfa- rios. E per fim de tudo não quis daquela vez ouuir dom Rodrigo, & mandoulhe que lhe mandaffe por efcrito na lingoa Abexim o que ho go¬ uernador lhe mandaua dizer. O que dom Rodrigo fez para ver fe fe podia defpachar, & defefperado de lhe não poder falar. GAP1TOLO .XXVII. De como dom Rodrigo falou ao Prefte joão. DEspois difto foy ainda dom Rodrigo chamado do Prefte algúas ve¬ zes & de nenhúa ho ouuio, & mãdou pergútar a Frãcifco aluarez muytas coufas das cerimonias da igreja acerca do culto diuino: de que lhe foube dar tão boa rezão que ho Prefte ficou contente, & man¬ dou ir perante fi Francifco aluarez, & mandou ho reueftir como pera dizer miífa, & perguntoulhe hos íinificados de todas as peças das vefti- mentas, & ele lhos difle. E dali por diante foy dom Rodrigo & os de fu a companhia melhor prouidos de mantimentos que dantes, & foylhe dada húa tenda em que fe lhe difleffe miffa ao modo da igreja de Roma, por¬ que os Abexins não a dizem affi. E ho Prefte mandou a todos effes fenho- res da corte que a ouuiffem. O que eles fizerão de boa vontade: & ho Prefte & todos tinhão Francifco aluarez por homem fanto, & pedianlhe que rogafie a Deos por eles. E húa terça feyra dezanoue de Nouembro bem noyte foy dom Rodrigo chamado do Prefte pera lhe falar. E ele foy com todos os de fua companhia, & no primeyro patio efteue grandes tres horas primeyro que entraffe, & defpois entrou na cafa que diffe com as mefmas cerimonias que dantes entrou, & defta vez achou muyto mais
  • Livro VI, Capitolo XXVII *9* gente que das outras, & muyta dela com armas, & aííi eftauão muyto mais velas, & a cafa alcatifada de ricas alcatifas, & as cortinas de bor- cado, & os eftrados de panos de feda: de modo q tudo eftaua muyto dauãtagem da primeyra. E dom Rodrigo não entrou nefta cafa com mais de noue peffoas de fua companhia, & os outros ficarão de fora. E entrado dom Rodrigo forão abertas duas corrediças, de que dom Rodrigo & os que hião coele eftarião comprimento de duas lanças que ali os mandarão eftar. E abertas eftas corrediças apareceo ho Prefte que eftaua detrás delas homem de meaã eftatura, que parecia de idade de vinte tres annos, & de tantos era: de cor de maçaã bayones não muyto parda, ho rofto redondo & magro, os olhos grandes, ho nariz alto no meyo: começaua- lhe de nacer a barba. E com tudo tinha no rofto húa grauidade do tama¬ nho fenhor como era: tinha veftida húa roupa de borcado fobre húa roupa de feda, na cabeça tinha húa coroa alta, húa peça de ouro outra de prata, & polo rofto tinha hum tafeta azul como rebuço que lhe cobria a boca & a barba que hum paje abaixaua de quando em quando que lhe parecia todo ho rofto, & defpois ho tornaua a aleuantar & ficaualhe meyo cu- berto. Tinha na mão húa Cruz de prata laurada ao boril: eftaua affen- tado em húa cadeira real fobre hum eftrado alto de feys degraos cuberto de panos ricos, aa fua mão dereyta eftaua hú paje que tinha húa Cruz de prata, & de cada parte da cadeira dous com efpadas nuas nas mãos, & nos cantos do eftrado eftauão quatro que tinhão fenhas velas acefas. Em ho Prefte aparecendo dom Rodrigo lhe fez fua reuerencia abaixando a cabeça & poendo a mão dereyta no chão & ho Prefte oulhou parele, & logo lhe mandou preguntar pelo Cabeata como fe achaua naquela terra, & fe folgaua nela. Ao que refpondeo que bem, & que folgaua muyto nela por fer de Chriftãos, & fe auia por muyto ditofo de fer ho primeyro que a ela fora com embaixada. E defpois defta repofta lhe mandou pelo mefmo Cabeata as cartas que leuaua parele do gouernador, & ho regimento que lhe dera, tudo na lingoa Abexim, que ho Prefte leo per fi. E defpois diffe que daua muytas graças a Deos pola merce que lhe fizera em ver o que feus antecelfores nunca virão, nem ele cuydara de ver. E que folgaria muyto que el rey de Portugal mandaífe fazer for¬ talezas em Zeila, Maçuá, & çuaquem: porque temia que os rumes fe fizefTem fortes naqueles lugares, & fazendofe darião grande opreffam a ele & aos Portuguefes. E querendo el rey de Portugal fazer aquelas for¬ talezas, ele daria todos os mantimentos que fe ouueífem de gaftar nelas. E dom Rodrigo difTe que fi faria, porque também defejaua de as fazer: & fobre ifto praticarão hum pedaço. E dom Rodrigo fe foy pera fua tenda muyto contente de ter falado ao Prefte: & ho Prefte também ho
  • Hiftoria da índia 192 ficou de fua embaixada, & de ter conhecimento dos Portuguefes de que ouuia contar tantas façanhas. E logo ao outro dia mandou chamar Fran- cifco aluarez, & lhe perguntou por muytas coufas da igreja Romana, & polas vidas de fam Hieronimo & de outros fantos, & folgou muyto de as faber, & de as ver em hum Fios fanótorum que lhe Francifco Aluarez mandou. E no domingo feguinte mandou hum fermofo caualo a dom Ro¬ drigo: & aquela noyte defpois de eftar dormindo com todos os de fua companhia ho mandou chamar: & ele foy, & entrou na cafa onde ho Prefte eftaua com outra tal mageftade como da outra vez: & diante das primeyras corrediças forão dados veftidos a todos os da companhia do embaixador da parte do Prefte, de que fe logo ali veftirão: & a dom Ro¬ drigo derão outro veftido das corrediças pera dentro. E veftidos todos entrarão onde ho Prefte eftaua: & ele lhes mandou dizer pelo Cabeata que fe podia ir embora com todos os de fua companhia, & que ficafle hum frangue dos que dantes eftauão na corte, & por ele lhe mandaria ao caminho as cartas que ainda eftauão por efcreuer. E dom Rodrigo diffe que não auia de partir fem repofta, & que efperaria quanto ele man- daífe, mas que lhe pedia que ho defpachaffe a tempo que podefle ir tomar a noffa armada a Maçuá. E ho Prefte refpondeo per fua boca que lhe prazia, & fe auia ele de ficar por capitão em Maçuá. E ele refpon¬ deo que pofto que defejaua muyto de fe ir pera Portugal, que faria o que lhe mandaffe, porque fabia que niflo feruiria a el Rey de Portugal leu fenhor. E coifto ho defpedio ho Prefte & tornoufe pera fua tenda. CAPITOLO .XXVIII. Das brigas que ouue antre Iorge dabreu & dom Rodrigo. AO outro dia que forão vinte feys de Nouébro fe partio ho Prefte fupitamente daquela parte pera outra, & donde dantes hia encu- berto que ninguém ho não via partio então defcuberto encima dú caualo acõpanhado de dous pajes & paliou efcaramuçando por diante da tenda de dom Rodrigo: & logo fe leuantou a gente toda & fe foy apos ele, & dom Rodrigo também. E antes de partir fe foy parele hú fenor chamado Iaze rafael, que era clérigo, & affi hú capitão do Prefte pera ho goardar, & mandaranlhe dar cincoenta mulas & efcrauos pera leua- rem farinha & vinho, & outros efcrauos pera lhe leuarem ho fato, & das cincoenta não lhe forão dadas mais de trinta & cinco, & das outras no mais de quinze & algús efcrauos. E de tudo tomou dõ Rodrigo ho me¬ lhor & ho mais, dizendo que tudo era feu: do que fe todos efcãdalizarão
  • Livro VI, Capitolo XXVIII ig3 muyto, principalméte Iorge dabreu & Lopo da gama porque não deu aos outros fe não as peores mulas & peores efcrauos & que não abaftauão pera lhes leuarem ho fato. E porem diílimularão, & defpois que chega¬ rão aa corte, mandando ho Prefte perguntar per hum frade a dom Ro¬ drigo como hia a ele & aos de fua companhia, & fe lhes derão tudo o que lhes mandara dar. E refpondendo dom Rodrigo que tudo, difle Iorge dabreu que não difieffe aquilo que lhe não derão todas as mulas: & as que derão erão tortas & cegas, & os efcrauos velhos & não valião nada. Porem q aífi como tudo era ho tomara dom Rodrigo fem dar nada a ninguém. E dizendo dom Rodrigo que não dilTeífe aquilo, porq tudo era muyto perfeyto: refpondeo Iorge dabreu, que fe tudo era perfeyto que ele ho tinha, & a ele ho dauão, mas que dali por diante não feria aífi. E ho frade fe efpantou muyto douuir ifto, por não ouuir mais fe foy cotalo ao Prefte. E defpois de ele ido ouuerão Iorge dabreu & Lopo da gama tais palauras que vierão ás lançadas & âs cutiladas, & Francifco aluarez os apartou, & Iorge dabreu ouue húa pequena cutilada e húa perna: & ele & Lopo da gama forão deitados fora da tenda. E fabédo ho Prefte deftas brigas & ho fobre que fora, mandou dizer a dõ Rodrigo que en- tregafle as mulas & os efcrauos a hú homem que mãdou que teuefle cuy- dado de leuar ho fato dos Portuguefes, & que eles não fizeífem mais que caminhar. E dom Rodrigo ho fez alfi, & aquela noyte foy chamado do Prefte pera ho fazer amigo com Iorge dabreu. E por mais que lho ho Prefte rogou uunca quis, antes lhe pedio que ho mandafle apartar de fua tenda & a Lopo da gama. E ho Prefte ho fez alfi, & mandou os apou- fentar na tenda de hum fenhor da corte. E eftando aqui chegoufe a fefta do Natal, em que ho Prefte mandou a Francifco aluarez que lhe diffeffe miífa, que lhe ele difle fegundo ho noífo coftume, que ho Prefte louuou muyto, & diffe que lhe parecia que eftaua no paraifo, & vio confeflar, & comúgar os Portuguefes, o que lhe pareceo em eftremo bem: & alfi ele como os grãdes & outros de fua corte eftauão muyto contentes do culto diuino dos Portuguefes & dizião que erão homes fanétos. E também ou- uirão todos as matinas do Natal que os Portuguefes diíferão muyto bem: & na noyte feguinte á mea noyte tornou ho Prefte a caminhar, & partio alfi por paffar fé gente hús paflòs muyto rols & eftreitos que tinha pera paliar, & onde morrião muytas mulas & gete. E paliados eftes paftos mãdou dizer ho Prefte a dom Rodrigo, q ele tornaua a feu caminho, que não caminhafle mais do que lhe mãdafle. E com quanto os dias atras ninguém fabia onde ele hia, & a gente poufaua onde achaua húa teda brãca armada, a que fe fazia cerimonia como fe hi efteueffe ho Prefte: começou então de caminhar delta maneira: metido em húas cortinas de 35 Tomo 111
  • *94 Hijtoria da índia feda roxa fem corridiças de diante & tão altas que ho cobrião a caualo. E cilas erão leuadas per homés cõ varas que hião da parte de fora, ele veílido deitado, & na cabeça húa coroa douro & de prata, caualgando 6 húa mula ageazada de ricos goarnecimétos com hú rico cabreíto de dous cabos fobre ho freo, por onde dous pajes leuauão a mula: leuaua mais outros quatro, dous de cada parte, hús com as mãos fobre ho pefcoço da mula, outros fobre as ancas. Diante das cortinas logo pegados coelas leuaua vlte pajes dos principais, & eiles a pé & diante deles hião feys caualos adeitro, & diante dos caualos feys mulas cõ ricos jaezes & goar- nimentos, & cõ cada caualo & mula quatro moços defporas cõ bõs veíti- dos, & dous os leuauão pelo cabreíto, & dous hião com as mãos fobre as feias cada hú de feu cabo. Diãte deitas mulas hião logo vinte fenhores dos principais da corte, & eítes em mulas veítidos de marlotas de feda & bedés, & diante deites fidalgos hia dom Rodrigo & os de fua compa¬ nhia por mandado do Preile por lhe fazer honrra: & dali a grande efpaço não hia outra gente de pé nem de caualo, & hião corredores diante que fazião apartar todos. Leuaua mais ho Preíte dous capitães da goarda q na fua lingoa fe chamão Betudetes & fam grades fenhores, & cada hú leuaua feys mil homens darmas, hú da mão ezquerda outro da dereyta, & ambos fora do caminho & bem afaílado do Preite, & fe caminhão por terra que he forçado irem todos por hú caminho, vay hú muyto atras do Preíte & outro muyto a diante, & cõ ho diateiro vão fempre quatro leões prefos por fortes cadeas. Hião mais cõ ho Preíte detrás dele duzentos homés, de que os cento leuão cem jarras de vinho de mel cada húa de feys canadas, & outros cento com ceítos cheos de pão: & coeítes vão feys homés detrás deles q os goardão. E eíte mantimento fe recolhe nas tendas do Preíte em ele defcaualgando: hião também diante deita gente as tendas das igrejas da corte do Preite que fam treze, & as pedras dara de todas: & cada pedra leuão quatro clérigos de miífa em huma coufa como padiola que leuão aos hõbros cubertas de panos de feda, & vão outros clérigos de fobrefalente pera quando eiles canfarem. Diante de cada húa hião tres homés dordés, hú com húa cruz aleuantada, outro com hú turibolo encenfando, & outro diante tanjédo húa campainha, & toda peífoa que vay pelo caminho em ouuindo a cãpainha fe afaita pera fora, & fe vay a caualo deceífe, em tanta veneração tem aquela pedra onde fe põe ho facramento do altar. A gente que hia com ho Preite não tinha cõto, porq em efpaço de quatro legoas não auia quem rompeífe pelo caminho, né por fora dele: feria a decima parte deita gente toda limpa & bé tratada, & a outra gente comú em q ha muytos pobres. E neíta gente não entrão os grandes fenhores & fidalgos, porque com cada
  • Livro V, Capitolo XXIX 19$ hú na quantidade da gente com que abalão pouoarao húa boa cidade ou vila Defpanha, & hirião bem cem mil em caualgaduras de mulas a fora as que hião adeítro que ferião tres tãtas, & a fora as de carrega que não tem conto: & a fora os caualos que erão muytos. E era coufa fermofa de ver tãto numero de gete & dalimarias: & coufa muyto pera efpantar como auia terra que os manteueífe, porque a corte do Preíte he muyto abaftada de mantimentos. CAPITOLO .XXIX. De como ho Prefte defpachou dom Rodrigo de lima. ASsi caminhou ho Prefte ate chegar júto de húa grande igreja da auocação da fan&iflima Trindade pera a fazer confagrar, & pera mudar a ela a oífada de feu pay que eftaua em outra pequena junto daquela: & aqui chegou ho primeyro dia de Ianeyro do ãno de vinte hú, onde foy recebido de clérigos & frades que paflarião de vinte vinte mil. E tendo aqui ho Prefte feu arrayal em húa pratica q teue com do Rodrigo per terceyra pefToa lhe deu algús achaques fobre lhe não da¬ rem o que lhe elrey de Portugal mãdara quãdo lhe mãdaua Duarte gal- uão por embaixador, & na mefma pratica lhe mãdou dizer q fe fora no tempo dos reys paífados & não leuara muyta roupa que lhe não fizerão nenhúa honrra: & que ele lhe fazia muyta. A que dom Rodrigo refpon- deo q tinha recebidos ê fuas terras muytos agrauos, afii de defprezos & de roubarem a ele, & aos de fua companhia veftidos & quanto leuauão pera comer, & tres ou quatro vezes os quiferão matar: & que fe morref- fem naquela terra auião dir ao paraifo, porque morrião martyres, por¬ que tudo fofrião por feruirem a Deos & a el Rey de Portugal. E que doutra maneira fora Mateus honrrado em Portugal, por dizer que era feu embaixador, & que doutra era ele, pedindolhe que ho defpachaífe pera fe hir. E o Prefte refpondeo q bem fabia a honrra que Mateus re¬ cebera aífi na índia como em Portugal, & que não ouuefle menencorea q logo ho defpacharia & muyto á fua vontade, & coifto ho defpedio. E no dia dos Reys feguinte, fe bautizou ho Prefte com fua molher, & fua may & ho Patriarca: & outra muyta gente, q afli fe tornão a bautizar cadano naquele dia fegúdo feu coftume. E ho bautifmo foy em hú tan¬ que grande forrado de tauoado cuberto de pano dalgodão encerado: & defpois que eftá cheo dagoa q hú clérigo benze & lhe deita oleo, entra ho Prefte no tãque per hús degraos que tem: & hú clérigo que foy feu meftre home de grande idade, lhe mete tres vezes a cabeça debaixo
  • Hiftoria da índia ig6 dágoa: dizedo. Eu te batizo, em nome do padre, do filho, & do fpirito fanto. E defpois de bautizado, fe foy a hú cadafalfo q eftaua junto do tanque cercado de corrediças de tafetá, pera que dali fem ho verem vilTe quãtos fe bautizauão. E bautizado ele & fua molher & fua may & ho Patriarca, fe bautizou grande numero de gente: & também mãdou conui- dar os Portuguefes, pera fe bautizaré mas não quiferão. Defpois difto fem mais paffar coufa q de contar feja, tendo ho Prefte defpachado a dom Rodrigo, mandouo chamar pera ho fazer amigo cõ Iorge dabreu, & por mais q lhe rogou nunca quis, antes lhe pedio do Rodrigo, que ho dete- ueffe dous mefes defpois de fua partida porque não foffe coele, que era certo que ho queria matar. E ho Prefte ficou muyto defcõtente de dom Rodrigo não querer fazer ho que lhe rogaua: & defpedioho fé ho querer ver, & cõ menencoria lhe não quis dar veftidos de borcado que tinha parele, & pera os outros. E per hú dos Betudetes, mandou a Francifco aluarez húa Cruz de prata, & hú cajado da mefma laurado de taupia, por poffe da fenhoria que lhe tinha dada: q era fazelo bifpo daqueles lugares do mar Roxo. E defpois de dõ Rodrigo fe ir pera fua tenda, lhe mãdou ho Prefte trinta õças douro, & cincoenta pera os de fua compa¬ nhia, mãdando que deftas ouueffe Iorge dabreu, & os que eftauão cõ ele fua parte, & afli deífem carregas de farinha que mandou, & oyto mulas, de trinta que também mãdaua: & pera el Rey de Portugal mãdou per Abdenagó feu paje, húa coroa de fua pelfoa douro & de prata: & que diffeffem a el Rey de Portugal que lha mandaua como de filho a pay, & que lha mandaua como coufa prezada, & por ela lhe aprefentaua todo fauor ajuda & focorro de dinheiro, gentes, & mantimentos que lhe foílem neceflarios, pera fortalezas & armadas q fizeffe no eftreito do mar Roxo. E afli forão dados a dõ Rodrigo cinco faquinhos de borcado, & nos tres hião tres cartas, pera el Rey de Portugal: fcriptas em pergaminho, em lingoa Abexim, Arabica, & Portuguefa, & duas pera ho gouernador da índia: & eftes metidos em hú cefto forrado de pano & cuberto de couro, & aflelado ho fecho: & difle ao embaixador que fe podia ir quando qui- fefle que de todo era defpachado. E ele quifera falar ao Prefte & não pode por fe partir a madrugada paífada pera outro lugar.
  • Livro VI, Capitolo XXX i97 CAPITOLO .XXX. De como dó Rodrigo fe partio da corte do Prejle, & da caufa porque tornou a ela. DEspachado dõ Rodrigo da maneyra que digo, partiofe dia de Cinza treze dias de Feuereiro. E forão coele dous filhos de Cabeata, por cujas terras auia de paflar, pera ho goardarem & lhe darem polo caminho ho neceflario, & hia também um frade. E coeítes hia Iorge dabreu, & ficauão atras de dom Rodrigo. E logo nas primeiras jornadas, Iohão gõçaluez feytor da embaixada, fobre palauras que ouue cÕ hú Ioão fernãdez que ho feruia lhe deu com hú pao na cabeça: do que agrauado Ioão fernandez não quis ir mais com ho feytor, & meteofe com do Ro¬ drigo. E dahi a poucos dias, caminhando ho feytor fó, faltou coele leuãdo húa lança com que lhe deu duas lançadas em húa mão, & nos peitos, onde ho ouuera de paffar ao vão, fe a lança não fe deteuera e húa cofta: & fobriíto foy Ioão fernãdez prefo por dom Rodrigo, & húa noyte fugio pera Iorge dabreu & affi efcapou. E profeguindo por feu caminho, forão ter com dom Rodrigo ho mordomo mór do Prefte, & outro fenhor, que lhe diílerão que os mandaua pera fazerem amizades antrele & Iorge da¬ breu, porq ficaua muyto defcontente de partirem immigos, & irem aífi apartados polo caminho: rogandolhe de fua parte que fofle feu amigo, & folfem juntos: & tãto lhe diíferão q fe ouue de fazer. E feyta a amizade, derã a cada Português fua mula da parte do Prefte. E continuarão aque¬ les dous fenhores cõ eles feu caminho, dizendo que aífi lho mandara ho Prefte, pera os aprefentare ao capitão mór da armada dos Portuguefes, porque ho Barnagaeis que ho ouuera de fazer ficaua na corte: & aífi ca¬ minharão ate chegarem ao lugar de Barua, onde fe deteuerão tanto que paffou I10 tempo, em que a armada dos Portuguefes auia dir a Maçua pera os leuar a índia. E paliado ho tempo, dom Rodrigo contra a ami¬ zade que tinha feyta com Iorge dabreu, mandou ao feytor que lhe não deífe mantimeto nem aos de fua companhia. Sobre ho que Iorge dabreu fe queixou ao mordomo mór do Prefte, & ao outro fenhor: polo que man¬ dará o chamar, & lhe afearão muyto ho que fazia, rogandolhe que deífe ho mantimento a Iorge dabreu, mas não ho poderão acabar coele: & cada hú fe foy pera fua poufada: ficãdo os Abexls muyto agrauados de dom Rodrigo, & efpantados de fua crueza. E como Iorge dabreu era esforçado, não quis vfar de mais rogos com dõ Rodrigo, & determinou de tomar ho mantimento por força, pera q a tempo que lodos dormião,
  • iq8 Hiftoria da índia faltou em cafa de dom Rodrigo ondeftaua ho feytor q tinha ho manti¬ mento, & com os de fua companhia armados, defpingardas, lãças, & efpadas: começou de qbrar as portas cõ hú vay & vem: & foy a coufa a tanto, que hú criado de dom Luys foy ferido de húa efpingardada, & ele fe acolheo por húa porta falfa á poufada do mordomo mór & do ou¬ tro, que ãbos forão prender Iorge dabreu: & os feus por não terem pol- uora não fe defenderão com as efpingardas: & prefos os mandarão a outro lugar cÕ goardas que os goardaffem. E nefte tempo quiferã ho mor¬ domo mór & ho outro, fazer amigos dõ Rodrigo & Iorge dabreu mas não poderão: & por iffo & por fer paffada a moução de fe irem na ar¬ mada da índia, determinarão de os tornar á corte: & caminhando pera lá acharão ho Barnagaeis, que fabendo ho cafo que era acontecido, re- prendeo muyto ho mordomo mór & ho outro de leuarem os Portuguefes á corte, & diffelhes que lhos deixaffem, & bradou muyto com dom Ro¬ drigo, & com Iorge dabreu, pelo que fizerão, q ainda perantele cuuerão muyto mas palauras, do que ho Barnagaeis fe efpantou, & de ver quam pouco amor fe eftes tinhão em terra eílrangeira onde hauião de fer muyto amigos: & tomou a dom Rodrigo a coroa & as cartas do Prefte q leuaua pera el rey de Portugal, & leuouos cofigo a fuas terras, & deixou do Ro¬ drigo no lugar de Barua, & foyfle ao lugar de Barra co Iorge dabreu: donde & ele & dom Rodrigo forão defpois leuados á corte do Prefte. Mas como não ho pude faber. CAPITOLO .XXXI. De como dom Luys fe tornou a partir da corte do Prejle. Eeftando na corte aos quinze dias Dabril, forão dadas a dom Ro¬ drigo as cartas q lhe dom Luys de menefes efcriuia, que naquele dia folie com ele em Maçua, porque não podia efperar mais por amor da moução: & affi lhe daua conta do falecimento del rey dom Ma¬ nuel, & efcreuia também ao Prefte, pedindolhe que ho defpachafe logo. E vendo dom Rodrigo & os outros como naquele dia fe acabaua ho prazo que lhe dom Luys punha q foliem em Maçua: ficarão muyto triftes, por verem que auião ainda de ficar hú anno naquela terra: & muyto mais triftes, polo falecimento del Rey dom Manuel. E acordarão em confelho de ho dizerem ao Prefte: & logo começarão de rapar as cabeças hús aos outros que naquela terra fe faz por dó, & veftirem panos pretos: & eftando os Portuguefes nefte officio leuaranlhes ho jantar, & os q ho leuauão vendo ho que fazião deixarão ho comer fem falarem, & forão
  • Livro VI, Capitolo XXXI *99 dizelo ao Prefte: que logo mandou preguntar per dous frades a dom Ro¬ drigo que lhes acõtecera. E ele não pode refponder com choro: & Fran- cifco aluarez lho difle pelo coftume da terra dizendo. Cairam os eftrelas & a lúa, & ho foi efcureceo & perdeo fua claridade, & não temos quem nos cubra nem quem nos empare, nem pay nem may que por nos feja, fe não Deos que he pay de todos. EI rey dom Manuel noífo fenhor he falecido da vida deite mundo, & nos ficamos orfãos & defemparados, & a efta derradeira palaura q quaíi não pode dizer com choro, aleuantarão todos hú dorido prãto: & os frades fe forão também chorando a dizelo ao Prefte, que ficou muyto trifte com aquela noua. E em final de trifteza mandou apregoar, que por tres dias nam fe abrilTem as tendas onde fe vendia pão, vinho, & carne, & outras mercadorias, & affi fe fez. E pafia- dos os tres dias mãdou chamar dom Rodrigo & os outros Portuguefes, & todos entrarão onde ho Prefte eftaua. E ele preguntou a dom Rodrigo quem herdara hos Reynos del Rey de Portugal feu padre, & ele difle que ho Príncipe dom Iohão feu filho, & refpõdeo ho Prefte q não ouuefle medo q é terra de criftãos eftauã, q bÕ fora ho pay, & bÕ feria ho filho, & q ele lhefcreueria: & do Rodrigo lhe pedio q ho defpachafle, porque ho efperaua no mar ho capitão mór da armada dos Portuguefes, & que afli ho efcreuia a fua alteza: & ele difle que logo entenderia em feu def- pacho, que lhe tornaflem as cartas de dõ Luys na fua lingoa: & dom Ro¬ drigo ho fez afli. E como fabia ho vagar q ho Prefte tinha nos defpachos, defpedio logo hú Português de fua cõpanhia, chamado Ayres diaz, cõ hú Abexim cõ cartas a dom Rodrigo: dandolhe a rezão porq nã fora em Maçua ao prazo q lhe poderá: pedindolhe q pera ho ãno tornafle por ele. E nifto partiofe ho Prefte pera outra parte, & tãto que foy apoufentado dom Rodrigo lhe pedio licença pera fe ir, & ho Prefte lhe dilfe que não ouuefle medo, que ja tinha mãdado recado a dõ Luys que efperafle: & por importunação de dom Rodrigo, mandou Iohão gonçaluez ho feytor com cartas fuas & de dõ Rodrigo pera dom Luys, & deulhe húa boa mula & veftidos ricos & dez onças douro, & mandou cõ ele dous criados feus: & dali a hú mes & meo defpachou dõ Rodrigo, & deu ricamete de veftir aele & aos outros, & a quatro deu cadeas douro cõ cruzes & a cada hú fua mula, & pera todos oytéta õças douro & cem panos de feda: & dãdolhes a fua bençam os defpedio.
  • 200 Hijlcria da índia CAPITOLO .XXXII. De como foram mortos quatro Portuguefes e Arquico. E de como dõ Luys de menefes fe par tio de Maçua. FIcando dom Luys de menefes no porto de Maçua é quanto forão chamar dom Rodrigo á corte do Prefte, hião os Portuguefes muy- tas vezes a terra & tratauão cõ os Abexis, ãtre os quaeis morauão obra de quarenta Rumes: q como qrião mal aos Portuguefes não podia fofrer velos antrefi, & não oufauão de lhes fazer mal porque erão muy- tos, porem dauãlhe diffimuladamente grandes encontros, & fazianlhe muy- tos defprezos: ho q eles entendendo ajuntaranfe hús doze, & fem ho dom Luys faber fe forão a terra armados de chuças, & rodelas, & delafiarão os Rumes todos juntos: que não oufando de fair ao defafio, lhe differão manfamete que não querião nada coeles: do que ficarão muy injuriados, & defacreditados com a gente da terra que vio ho defafio. E logo ao ou¬ tro dia que ifto foy, forão fete foldados a Arquico em hú paraó: que não fabendo ho que era paffado antre os outros & os Rumes, não leuaram mais q fuas efpadas. E vendoos os Rumes daquela maneyra, virão que tinhão tempo pera fe vingar: & ajuntando algús mouros derão lobre os fete, de q matarão quatro, & ifto com grãde eftrõdo & arroido: & q cõ quãto os Portuguefes erão Chriftãos, nuca Xumagali foltão, q era a juf- tiça da terra quis lá acodir: fabendo q os Rumes & mouros matauão os Portuguefes: nem menos Arraiz jacob regedor das terras de Barnagaeis. E fomente hú fidalgo Abexim que auia nome Gabrizefus acodio ao arroido mas nã fez nada, nem trabalhou por valer aos Portuguefes: & defpois de mortos eftes quatro fugirão os tres, & acolhidos ao paraó forão dar a noua a dõ Luys. E os rumes & mouros temendo que foífe dom Luys tomar vingãça da morte dos Portuguefes acolherãfe ao fenhorio de hú Abexim chamado Darfela, que com quãto foube ho mal que deixauão feyto os não prendeo. E fabédo dom Luys a morte dos Portuguefes, man- doufe aqueixar ao Xumagali, dizendo que fe ho lugar nã fora do Prefte que el Rey de Portugal tinha por irmão q ele ho deftruyra pela morte dos Portuguefes, & por ifto ho deixaua de fazer & lhe fazia. E Xumagali lho mandou agardecer, defculpãdo fe lhe de não caftigar os rumes & tur¬ cos porque os não poderá prender. Ifto paffado vendo dõ Luys que não hia dõ Rodrigo ao prazo que lhe pofera, & q fe lhe gaftaua a moução pera fayr do eftreito: partiofe deixando efcritas cartas a dom Rodrigo, em que dizia a rezão porque não efperara por ele, & auifando ho que
  • 201 Livro VI, Capitolo XXIII não fe foffe de junto do mar, que pera ho ãno tornaria por ele: & q íe queixaffe ao Prefte da morte dos portuguefes. CAPITOLO .XXIII. De como dó Rodrigo fe tornou á corte do Prefte & fe tornou a partir. PArtido do Rodrigo da corte do Prefte pera ho porto de Maçuá não andou muyto q não achou Ayres diaz & ho feytor Ioão gonçaluez com as cartas de dõ Luys de menefes. E quando dom Rodrigo foube q era partido não deixou de proíTeguir feu caminho, & mais polo que lhe dõ Luys dizia q não fe apartaffe de junto do mar q pera ho ãno tornaria por ele. E chegado a Arquico achou hi muytos fardos de pimenta & de roupa que lhe dom Luys deixara pera feu gafto & dos de fua compa¬ nhia, & porque tinhão que gaitar por lhes ho Prefte mãdar dar todo ho neceffario ate q fe foífem: acordou cÕ parecer de todos que mandaffe ao Prefte a metade da pimenta & da roupa, & que lha leuaífe ho feytor, & foffe coele Francifco aluarez pera ler a carta de dom Luys ao Prefte, em que fe lhe mãdaua queixar da morte dos Portuguefes, & pera ambos re¬ quererem ao Prefte que fizeffe juftiça. E ifto aíli affentado parecendo a dom Rodrigo que ho Prefte faria muytas merces a quem leuaffe a pimenta, determinou de lha leuar ele mefmo & leuarlha toda pera ho obrigar a fazerlhe móres merces. E quando Francifco aluarez foube como queria ir & leuar toda a pimenta, eftranhoulhe não deixar algúa aos que ficauão, mas ele não quis deixarlha: & partiofe ho primeyro dia de Setembro, & na fim de Nouembro chegou á corte do Prefte que eftaua em hú feu reyno chamado Fatigar. E apoufentando dom Rodrigo foy falar ao Prefte, & lhe deu ho prefente que lhe leuaua dizédo que não hia a mais q a leuarlho, & deulhe a carta de dõ Luys de menefes que lhe efcriuia acerca dos Portuguefes que lhe matarão em Arquico efcripta em lingoa Abexim que ho Prefte leo. E defpois diffe q lhe pefaua muyto de dom Luys não vingar logo aqles Portuguefes, & matar a quãtos mouros auia em Ar¬ quico: & que ele mandaria fazer juftiça, & afli o fez. E da hi a algús dias defpachou dom Rodrigo, & a ele & a Francifco aluarez deu trinta oquias douro & ce panos, & mandoulhes dar de veftir: & diffelhes q fofTem de vagar porque auia de defpachar hú embaixador que queria mãdar a el Rey de Portugal, pera q foubeffe quãto defejaua: & que auia dir coele ate Maçuá ho juftiça mór de fua corte pera fazer juftiça fobre a morte dos Portuguefes, & perãte dõ Rodrigo diffe ao juftiça mór que prendeffe todos os rumes, turcos & mouros, & Chriftãos q achaffe que Tomo III 36
  • 202 Hijloria da índia eftauão em Arquico no tepo que hi matarão os Portuguefes, & os q achaffe culpados em fua morte ou em não prenderá aqueles que os ma¬ tarão, que os entregafle a qualquer capitão mór da armada dos Portu¬ guefes, pera q fizeffe deles juftiça como lhe bá pareceffe. E coefte defpa- cho fe partio dõ Rodrigo, & no caminho ho alcançarão ho juftiça mór, & defpois ho embaixador que mandaua a Portugal que auia nome Zaga- zabo que fora ja lá, & fabia bem a lingoa Portuguefa. E indo todos por feu caminho chegara a Barua q era perto do mar, & por não achará ne- nhúa noua da armada dos Portuguefes fe deixarão eftar ate fer pafláda a moução de poder vir. E nefle tempo foy ho juftiça mór a Arquico, & prendeo Xumagali foltão, & Gabri jefus & Arraiz jacob & Dafela polas coufas q diífe atras, & leuou os prefos á corte, ode diffe ao Prefte como aquele anno nã fora a armada dos Portuguefes ao eftreito, & que os em¬ baixadores ficauão no lugar de Barua: & ele lhes mandou logo recado que fe foífem ao lugar de Aquaxumo que era melhor lugar que ho de Barua, & hi mandou dar aos Portuguefes quinhentas carregas de trigo, cem vacas, cem carneiros, cem panelas de mel outras tantas de manteiga: & ao feu embaixador mandou dar vinte carregas de trigo & outras tãtas vacas & carneyros, & outras tantas panelas de mel & de manteiga. E afli efteuerão ali efperando ate q foy a armada da índia. CAPITOLO .XXXIIII. De como dõ Lui\ de menefes faqueou Dofar, & chegou a Ormu\. PArtido dõ Luys de Maçuá foy fobre Dofar hú lugar no eftreito grande & de grande trato pouoado de muyta gente todos mouros, que vendo a armada de dom Luys fizerão moftra de fe quererá defender, mas como virão defembarcar os Portuguefes fugirão, & ho lugar foy faqado & queymado. E defte lugar feguio dom Luys fua rota pera Ormuz, õde chegou: & quãdo foube que Raix xarafo era perdoado & feyto goazil, & Raix xamixir fugido, eftranhou ho muyto ao gouerna- dor moftrãdo grande menácoria, & não podia ver Raix xarafo, & polo não ver fe partio logo em Agofto fem querer ir cõ ho gouernador. E chegãdo á ponta de Diu achou ho tempo ainda tão verde que lhe foy for¬ çado arribar a Ormuz & hi efperou, & partiofe pera a índia com ho go¬ uernador.
  • Livro VI, Capitolo XXXV 203 CAPITOLO .XXXV. De como Antonio faleyro fe leuãtou com dijjimulação de ir fa\er prefas ao cabo de Goardafum. GOmo quer q nefte têpo as licenças pera tratar & fazer prefas íe dauã na índia liberalmete, auia rnuyto poucos q as não pediífem, & por iífo antes q dom Luys de menefes partiífe pera ho eftreito deita vez q digo hú Antonio faleyro que andaua na índia: com fer as ve¬ zes Chatim & outras lafcarim, pedio licença a Francilco pereyra peítana capitão de Goa pera ir fazer prefas ao cabo de Goardafum, dizedo q ãdauão por ali muytos mouros ao longo da terra em terradas peqnas em q paflauão rnuyto dinheiro dús lugares pera os outros: & ifto parecedo- lhe que andauão leguros dos Portuguefes de q nã ferião viítos por andaré aífi ao lõgo da coíta. E pera Francifco pereyra lhe dar a licença de me¬ lhor võtade, lhe prometeo parte da prefa, ou lhe deu logo coufa certa: & por iífo lha deu, & mais lhe mandou dar do almazem de Goa quatro berços & hú falcão de metal que affi foy no partido. E a teção Dantonio faleyro, fegúdo defpois pareceo queria coeíta cor de liceça pera fazer eítas prefas écobrir a maldade q auia dufar é fe fazer coffayro de toda roupa. E a fora ter pera iffo grande abelidade & oufadia, fabia rnuyto bé a lin- goa Arabica & Perfiana & outras. E auida a licéça de Frãcifco pereyra & os berços & falcão, artilhou húa fuíta de cayro que tinha & hú paraó pequeno: & conuocou pera irem coele ate vinte Portuguefes, hús ome- ziados & outros pobres, a que prometeo de lhes fazer as barbas douro, contãdolhe ho modo de que auia de fazer as prefas. E tédo certos eltes foldados, cocertoufe cÕ certos Chatls Portuguefes calados e Goa q tinhão húa terrada Dormuz & hú huquer de Cananor q auiao de leuar carrega¬ dos de fazéda pera trataré é Calayate & Mazcate dode auião de trazer caualos e retorno: & e quãto fe ho huquer & a terrada acabauã de car¬ regar mãdou diãte a hú Francifco faleyro de Setuuel q fe foffe na fufta & na terrada cõ os outros Lafcarins efperalo a Chaul, & aífi o fez: & étrãdo no rio de Chaul cõ a fufta pera fazer agoada, mãdoulhe Simão dãdrade capitão da fortaleza tomar ho leme & a vela, q Frãcifco faleyro teue maneyra pera a auer & fayofe logo. E defpois de vldo Antonio faleyro cõ a terrada & huquer forã fazer agoada á ilha das vacas: & eftado hi forã ter coeles hús dous mercadores Perfianos ê húa cotia q ião de Diu pera Perfia, & leuauão roupa fina de Cãbaya q valeria feys mil pardaos, q Antonio faleyro lhes roubou cõ quãto leuauão feguro. E
  • Hijloria da índia ■204 defpois de os meter a torméto pera cõfeffaré fe tinhão mais, os catiuou & aos feruidores q erã muytos mãdou meter a bãco na fufta & no paraó pera remare. E defpejada a cotia & metida no fúdo, partiofe pera a ou¬ tra coíla cõ as velas de fua cõferua indo ele na terrada, & como ainda lá era inuerno era lhes ho veto quaíi por dauãte, & achauão ho mar muy grolfo em tato q com os grandes mares lhe faltou fora ho leme da ter¬ rada, & andarão tres dias fem ho poderé meter, & nifto paliarão muyto grande perigo de fe perderé cÕ fe vere mil vezes alagados. E tornado ho leme a meter paffarã auante & forão aferrar terra na cofta Darabia obra de treze legoas de Calayate, & juntamente cõ a terrada, a fufta & ho paraó, & ho huquer defcayo & foy ter perto de Dofar & hi fe perdeo cõ quãto leuaua, faluo noue homes todos Chatls fobre q logo acodirão muytos mouros pera os mataré fabendo q erão Chriftãos, mas eles fe deféderão també com as efpingardas que leuauão q fe faluarão & forão ter a Dofar cujo Xeque por fer amigo dos Portuguefes lhes fez muyto gafalhado & lhes deu com q fe cobriflem & poufadas, & lhes diífe q ficafle coele ate q ali foffe ter algú nauio de Portuguefes em q fe foflem, & affi ho fizerão. CAP1TOLO .XXXVI. De como Antonio faleyro foy ter a Calayate & defpois a Dufar: & do que fe\. COnhecido por Antonio faleyro ondeftaua tirou pera Calayate, onde foy furgir & hi vendeo a fazéda q roubara aos mouros na ilha das vacas, & eles fe lhe refgatarão por dinheiro q lhes foy em- preftado por outros que conhecião. E como ele determinaffe de executar ho mal q hia fazer, diífe aos Lafcarls q ião coele, q ho Xeq de Calayate lhe deuia certa forna de dinheiro q lhe nã quifera pagar, ãtes fobrilfo lhe fizera algúa offenfa, por iffo q fe auia de vingar dele: & ifto fendo' ho Xeq grãde amigo dos Portuguefes & vaffalo del rey Dormuz, vaffalo del rey de Portugal, & fe fe queixara a el rey Dormuz ou ao capitão da for¬ taleza eles lhe fizerão juftiça: poré fegúdo outras maldades q efte Anto¬ nio faleyro delpois cometeo, mais he de crer q ele queria roubar aqle Xeque por faber que tinha dinheiro que por lho deuer. E dada cõta aos feus Lafcarls do q determinaua, infiou a fufta & ho paraó diante da porta das cafas do Xeque que eftauão na praya perto do mar, & dali lhe tirou tãta bombardada, q ho Xeque por não fe ver deftruido lhe mãdou qui- nhétos xerafins com q fe contetou & ho deixou: & tendo perto de feys mil xerafins cõ os da roupa q roubara aos mouros & coeftes recolheos
  • Livro VI, Capitolo XXX VI 205 fem partir cõ os Lafcarls: do q eles começarão de murmurar ãtre fi, & algús q eftauão defembaraçados domizios na quiferão ir mais coele, & fe forao na terrada q foy a outro porto carregar de caualos, & antreftes q fe forão foy hú Manuel fardinha Deuora, & os outros ficarão, afli por fere omiziados como por efperaré q alda aueriã algúa coufa. E ficãdo coeftes q digo, fe foy caminho de Dofar, porq ali efperaua dencher as mãos fegundo ho dizia aos Lafcarins, & ia por capitão da fufta & Fran- cifco faleyro no paraó. E eftãdo furto perto de Dofar pera tomar a Goa, foy ter coele de madrugada húa nao de mouros do eftreito q ia carre¬ gada da índia: & fintindo os mouros q ali eftauã Portuguefes fizerã volta ao mar. E Antonio faleyro os feguio na fufta & no paraó, & os alcãçou logo por lhes faltar ho veto: & os mouros não quiferã pelejar né lãçarfe ao mar parecédolhe q fe refgatarião é Dofar, & por iffo Antonio faleyro os tomou todos, & erão muytos & deles cafados q leuauão fuas molhe- res & filhos: & daqui fe foy ao porto de Dofar, & furto mãdou dizer ao Xeque q fe lhe qria cõprar aqla nao afli como ia, & mais q quãto lhe qria dar por nã queymar quatro grãdes naos de mercadores mouros q eftauão no porto meas defcarregadas. E fabido efte recado polos noue Portuguefes q difle q eftauão cõ o Xeque forãfç logo a Antonio faleyro, & cõtarãlhe a piedade de q ho Xeq vfara coeles é feu infortúnio rogãdo- Ihe q não fizefle nenhú mal é feu porto ao menos ate os não recolher, do q ele foy cõtéte. E cuydãdo ho Xeq que Antonio faleyro lhe agradecia ho bé que fizera aos noue, & auedo q eftaua feguro deulhes licéça q fe foffé. O q lhe eles agardecerão bé mal, q recolhidos com Antonio faleyro lhe acrecétarão ho defejo q tinha de roubar as quatro naos q eftauão no porto, & tornou a mãdar cometer ao Xeq fe lhas qria cõprar. Do q fe ele efpãtou muyto, & refpõdeo q não efperaua aqle galardão do bé q fizera aos Portuguefes, pedindolhe que nã fizefle mal aos q eftauão no feu porto. E ifto refpõdeo ho Xeq pera q étrelãto q andauão eftes recados fe fizefle forte cõ húa tranqueyra q mãdou fazer: q bé vio a roldade Dãtonio faleyro, & q lhe nã auia de goardar amizade. E feyta a tranqueyra du- aando ainda os recados não efperou que Antonio faleiro começafle pri¬ meiro a peleja, & ele a começou mandandolhe tirar cõ algúas bõbarda- das, & por iflo Antonio faleiro não pode roubar as naos como quifera, & poslhe ho fogo: & como as bõbardadas erã muyto baftas, & ele não podia fazer nada cõ as fuas, afaftoufe pera ho mar porque ho não ma- taffem.
  • 206 Hijloria da Índia CAPITOLO .XXXVII. De q acõteceo aos feíe portuguefes q ião na nao q Antonio /aleiro mã- daua pera Calaiate. VEndo Antonio faleiro que não tinha ali mais q fazer, determinou de fe hir pera outra parte, & porq a nao dos mouros ho não pe- jaífe, mandou a pera Calaiate a véderfe hi a fazenda, & mãdou por capitão dela hú Afofo de foure, & deulhe feis Portuguefes pera fua cõpanhia, & algús dos remeiros Canarls, porq não fe fiaua dos mouros: & praticãdo ode fariã agoada por a nao não ter agoa, diffe ho feu melmo piloto, q de caminho a tomarião c húa agoada q ele fabia q eftaua perto, & coifto fe partio a nao indo perto de terra: & como naquela cofta Da- rabia as ferras fã muyto altas, & ho mar fica coelas abrigado do vento, & fazia calmaria, fingraua a nao muyto menos do q fofria a pouca agoa q leuaua, & pera q abaftaffe ate chegaré a agoada, não bebia a gente mais q a fiá por dia cada peífoa, & como as calmas erão grãdes morriã muytos mouros de fede, & cada dia os deitauão mortos ao mar: & coefte trabalho forã ate q hú dia diffe ho piloto da nao q ja eftauão de frõte da agoada q mãdaífé tomar agoa: & eílariã quatro legoas de terra fegúdo feu parecer, q cõ a calmaria nã podia a nao mais chegar. E como a ida a terra era perigofa, por ela fer de mouros & Imigos dos portuguefes, nã ouue nhú dos q ião na nao q quifeffe ir fora fe não fe lhe caiffe por forte: & deitadas fairão q foffé fazer a agoada: hú Afofo da veiga, & hú Iohão firgueiro chatl, & outro, & faidos eftes deulhes Lourenço de foure algúas teadas & outros panos baixos, cõ q afagaffé a géte da terra fe foffe neceffario: & cõ fuas efpingardas fe ébaroarão no paraó da nao, de q partirão as oyto oras do dia. E como cõ a calmaria q fazia as agoas correfle muyto: não poderã os q remauão ho paraó remar cõ tãta força q não defcaifle muyto, & tãto q chegarão a terra duas oras ãtes de foi pofto, & oulhãdo pera a nao acharão q ficara muyto acima dõde forão ter: & chegados g terra mãdarão os marinheiros auer fe achauão agoa, q faidos em terra forã falteados dalgús mouros q os efperauão c cilada, porq os virã das ferras quãdo ião: & dando fobreles pera os matar feri¬ rão algús, & logo fe acolherá todos ao paraó: & recolhidos os remeiros forão mais pera baixo Õde não acharã nhúa cõtradição, & fizera agoada é húas fõtes folobras q eftauão ãtre certas palmeiras ao lõgo do mar, & foi pofto fe partirã caminho da nao, indo todos bem canfados do traba¬ lho, de remar & de fazerem agoada, & de quafi não comerem aquele
  • Livro VI, Capitolo XXXV 11 207 dia, & afii da grande calma que fazia. E tudo ifto foy caufa de os re- meiros enfraqceré tato q de todo não poderão remar por mais pãcadas q lhes os Portuguefes dauão & por mais ameaços da morte q lhe fazião, pelo q cõueo aos Portuguefes remaré: & parecédolhes q ferião perto da nao porq a não vião cõ ho grade efcuro q fazia começarão de bradar pera q ouuindoos na nao lhes fizeffem algum fogo a q atinaffem, mas como a nao eftaua muyto mais longe do q cuydauão pelo muyto que tinhão defcaydo núca os ouuirão: o q lhes quebrou muyto os fpiritos que erão os q ajudauão a remar q as forças ho muyto remar lhas tinha quafi gaftadas, & as mãos esfoladas de q lhes corria fangue, & como defefpe- ração de não chegarem tão cedo á nao os debilitafle muito começarão de dormir defcançados & triftes: poré ho cuydado os acordaua, & ás vezes remãdo, & as vezes dormido amanheceo fé chegaré á nao né a veré: nem quafi q podião ver a terra, dõde partirão ao dia dãtes, pelo q conhe¬ cerão que tinhão muyto defcaydo: cõ o q defacoroçoarão tãto q né os Portuguefes nem os Canarls podião remar. E védo q a nao não parecia, acordarão q fe tornaffé a terra pera veré fe a podião ver das ferras & marcandofe coela fe tornarião: & como ãdauão canfados e fracos de não comeré não poderão chegar a terra fe nã quaíi foi pofto, & deitarão fateixa afaftados dela, porq fe algús mouros efteuefTé em cilada não deífé fobreles & os pofeífé é perigo, & dali foy Afofo da ueiga a terra a nado leuãdo húa lãça diante de fi, & não achãdo nenhú impediméto fe fobio na ferra, & oulhando pera húas partes & outras quanto podia alcançar cõ a vifta núca pode ver a nao. E coefta trifte noua fe tornou a paraó, cõ que íoão firgueiro quafi ficou morto: ho outro Português foy també a terra em fe poédo ho foi, & fobido na ferra ho mais q pode tão pouco vio a nao. E eftãdo afli oulhãdo vio palfar a frota em q dõ Luys de menefes ia pera Xael como dilíe atras, pelo q conheceo q fe a nao efteuera õde a deixarão q a éxergara como éxergou os galeões, & ela eftaua alda lá, mas tinhão tanto defcaido cõ ho paraó q era tamanha diftancia dõdeftauão á nao q a não podião enxergar. E vendo Lourenço de foure q ho paraó não tornaua pareceolhe q fora tomado de mouros: & defefperãdo de tor¬ nar partiofe ao outro dia pola manhaã auédo dous q efperaua por ele. E indo caminho de Calayate faltarão coele Noutaqs q fam hús coífairos mouros q andão por ali, & matãdo os Portuguefes tomarão a nao.
  • 208 Hijloria da índia CAPITOLO .XXXVIII. De como foy ter liú mouro cô os tres Portuguefes q ejlauão no par ao, & do remedio que lhes deu nojjo fenhor pera efcaparem da morte. VEndo aquele que fora a terra q era por de mais oulhar pola nao tornoufe ao parao, & difle aos cõpanheiros ho pouco recado q trazia: do q todos ficarão tão triftes como requeria tamanho de- faftre, porque eftauão em perigo de morte por não teré que comer nem em que nauegar & pera fayrem em terra era pouoada de mouros immi- gos dos Portuguefes, principalmête polo dãno q Antonio faleyro fizera & fazia por aqla cofta. E fintindo os remeyros ho mao remedio q auia fugi¬ rão todos aquela noyte, & quando amanheceo eftauão os tres companhei¬ ros tão fracos dauer dous dias que nã comiao quafi nada que eftauã pera efpirar, & coefta necefliidade lançarão enzolos ao mar com que pefcarão algú peixe q comerão cozido em hú caldeirão em q ho cozerão e terra. E vendofe como digo fem nenhú remedio, acordarão que efperaffem ate ho dia feguinte pera ver fe vião a nao que por ventura fe mudaria dõde a deixarão, & quãdo não, que então fe auenturaflem a ire no paraó ao lõgo de terra ate Mazcate, & comerião trigo cozido dús quatro alqueyres q acertarão de ter em hú fardo que deitarão no paraó pera laltro: & aili comerião algú pefcado q tomaffé. E aflentados nifto vigiarã ho paraó, & de quahdo é quando hião a terra a ver fe parecia a nao: & efte mefmo dia defpois de horas de vefpera eftando oulhando pera terra virão fupita- mete fayr detrás dú penedo hú mouro mãcebo da te dezoyto annos cõ húa fota na cabeça, & hú pano encachado & nas mãos húa mea lãça. E cuydando Afonfo daueiga q era cilada defparou húa efpingarda q tinha ceuada, & fe ho mouro não fe baqara matara ho, & em ho pelouro pal¬ iando leuantafe & dãdo cõfigo no mar nadou cõ muyto grãde preffa ate chegar ao paraó bradando como que dizia que lhe não fizelfem mal: & em chegãdo ao paraó foy metido dentro, & defpois que tornou a cobrar ho folego q tinha quafi perdido cõ medo da efpingardada, começou de falar & vedo q ho não entédião ajudauafe també dacenos. E quis nolfo fenor dar graça aos cõpanheiros q entédeífé o q dizia, q era q ele andãdo encima da ferra onde goardaua gado os vira fayr da nao & chegar a terra & tornar pera a nao & defpois pera terra, & q a nao fe partira aqla ma- nhaã, & por auer dó deles lho vinha dizer pera q não efperaffé por ela, & q fe deuião dir a húa pouoação de mouros chamada Mete q eftaua dali perto, cujo Xeque era amigo dos Portuguefes & os agafalharia, & q fe
  • Livro VI, Capitolo XXXVIII 20 g quifefle q lhes fizefTe algúa coufa q ho faria de boa võtade. E entedédo os cõpanheiros o que ho mouro dizia alegrarãfe credo q noflo fenor era o q lho mãdaua pera fe faluare & derãlhe por iffo muytas graças, & ro- garalhe q lhes fofie bufcar algú mantiméto pera o q lhe derão quatro tãgas, prometédolhe fe lho leuaffe de lhe darê teadas & efpadas q lhe moftrarão, & ele prometeo de tornar ao outro dia as mefmas horas, & affi tornou cõ hú fardo dapas q fam hús bolos de farinha de trigo q os mouros come, & hú cabaço cheo de mel braço & cinco galinhas, & dilTe lhes da parte do Xeq de Mete q fe fofie parele, porq folgaria muyto de os agafalhar & q os teria ate aueré algú remedio pera fe tornaré á índia ou iré pera Ormuz. E dãdo eles ao mouro quanto lhe prometerão, lhe rogarão q foffe dizer ao Xeq que lhe rogauão muyto q mãdaífe por eles porq por não faberé a terra não poderião aceitar a pouoação, & tãbé eftauão tão fracos q não fe atreuião a remar: & que fe mandaffe por eles lhe darião aqle paraó & quanto tinhão nele. E ho mouro lhes prometeo q aquela noyte mãdaria ho Xeq por eles: & aíli mãdou que duas ou tres horas ãte manhaã chegarão a eles quatro Cafres c húa almadia catiuos do Xeq que hião por eles, & cãtãdo ao feu modo em final dalegria os tomarão de toa & 1'e forã, & de madrugada chegarão defrõte da agoada q ho piloto mouro dizia, q era húa leuada dagoa q faya da ferra & cayà na praya. E tomãdo ali os Cafres agoa tornarão a feu caminho, & é ama- nhecêdo chegarão a Mete, & quãdo foy ao deíebarcar Ioão firgueiro não queria fair é terra, dizedo q lhe parecia q ho Xeq lhes auia de fazer trei- ção. E por nifto auer algúa detéça, & ho Xeq fer bÕ homê & difcreto pareceolhe o q era, & por ilfo fe foy é húa almadia ao paraó leuãdo húas cotas na mão per q rezaua ao feu coftume. E chegãdo ao paraó, diffelhe é lingoa Portuguefa q vieffem ébora, & q folgaua muyto cõ fua vinda: q fizefie cõta q eftauão ãntre Portuguefes, & fazédo os defembarcar os leuou pera as fuas cafas que erão muyto boas & fobradadas & os apoufentou em húa em que efteueffem apartados, & ali forão muyto bem agalhados, & afii ficarão naquela pouoação. Tomo III *7
  • 210 Hijloria da índia GAPITOLO .XXXIX. De como Antonio faleyro fe tornou pera a índia, & do que fucedeo aos tres companheiros que ejtauão com o Xeque de Mete. ANtonio faleyro defpois que mandou a nao pera Calayate foy fe por aqla cofta em que fez algúas prefas de dinheiro q júto cõ o q ja tinha determinou de fe tornar á índia, porq por os males q tinha feyto por aqla cofta não oufou dinuernar c nenhú lugar dela, né menos é Ormuz por amor do gouernador q fora fem fua liceça, & porq ele na queria tornar a Goa por não dar parte das prefas a Frãcifco pereyra q fabia q lhas auia de tomar fe lhas nã deffe, foyfe dereyto á ilha de Dãda q eftá antre Chaul e Dabul, & ali inuernou, & defpois ouue perdão do gouernador: & affi ficou fe caftigo de tamanha maldade & treição como aqla foy, porq fendo muytos lugares da cofta Darabia amigos dos Portu- guefes os efcãdalizou de tal modo cõ os dãnos & males q hi fez que fica¬ rão mortais Imigos dos Portuguefes, & defejauão de fe vingar deles: pelo q hús Xeques vezinhos do Xeq de Mete fabedo q tinha em fua cafa os tres Portuguefes q forão da companhia Dantonio faleyro, lhe mandarão eftranhar muyto agafalhalos, requerendolhe que lhos deffe fenão que irião fobrele & ho deftruyrião. E temendo ele que ho fizeífem affi por ferem muyto poderofos & ele pouco, contou o que paffaua aos tres companhei¬ ros, moftrandofe muyto trifte de os não poder ter rogandolhes que nã ouuefle por mal de os mãdar pera cafa doutro Xeq feu paréte, q moraua dali certas legoas, & q efte os mãdaria a Caixe, cujo rey era grãde amigo dos Portuguefes, & dali aueriã feu remedio. E mãdou coeles hú feu primo é outro paraó bé efquipado, & affi hia ho feu. E Ido por feu caminho ao logo de terra lhe fayrão trlta almadias carregadas de mouros armados pera os tomaré, de q fe liurarão cõ daré ás velas dos paraós: & como ho veto era frefco deixarã as almadias atadas. E defpois difto foy ter coeles hú nauio de Portuguefes que era da conferua de dõ Luys de me- nefes, & hia por capitão dele hú Cofme pinto criado do mefmo dõ Luys: a qué os tres cõpanheiros cotarão o q lhes acõtecera, & a obrigação em q erão ao Xeque, pedindolhe q os leuaffe no nauio: do que ele foy cÕ- téte, & por iffo deixarão ho caminho que leuauã & fe efpedirão do primo do Xeque a que mandarão por ele ho feu paraó, & húa arroba defpecia- ria q pedirão pera iffo: & affi algúas peças que poderão auer, mandando- lhe muytos agradecimétos pelo bé que lhes fizera, & pedindolhe perdão de ho nã poderé melhor feruir, & ho nauio fe foy a Caixé, e cujo porto
  • Livro VI, Capitolo XL 211 eftãdo furto fobreueo tamanha torméta de veto & chuua q quãtas naos eftauão no porto fe perderão feytas é pedaços em terra: & afíi outras outras que auia pouco que partirão que arribarão, & afli quãtas fe aco¬ lherão ali que fe acolhião de fora, & os mares erão tã groffos & altos q quãdo as Õdas qbrauão é terra étrauão por ela détro grãdeípaço: & cay- rão no lugar mil & quinhétas cafas jútamente q fe amaflarão todas. E fov a deftruyção tão efpantofa & medonha que não auia quê não pafmaffe de a ver: & cÕ tudo ho nauio de Cofme pinto ficou é faluo & íepre fe teue fobre as ãcoras. E ceifando a torméta foyfe a Ormuz, & afli fe fal- uarão os tres cõpanheiros, faluo Ioão firgueiro que cõ a torméta que digo arribou a Caixem em hú nauio de Chatls a q fe mudou pera fe tornar á índia, & quando arribou ho nauio deu aa cofta em que fe efpedaçou com morte de quantos hião nele. CAPITOLO .XL. De como os mouros ganharão as tanadarias de Pondá & de Salfeíe. HO Hidalcão q tinha grãde magoa de ver poflúir as tanadarias de Põdá & de Salfete a el rey de Portugal andaua fempre efperãdo tépo pera as cobrar, & vedo o gouernador & dõ Luys feu irmão fora da índia que em Goa não ficaua mais géte q os ordenados á forta¬ leza, determinou de as tomar, & pera iflo mãdou hú feu capitão & feu paréte cõ cinco mil homés de pé & de caualo, q entrãdo pola comarca das tanadarias começou darrecadar as rédas pera ho Hidalcão, & foy ter a húa aldea õdeftaua hú Andre pinto tanadar peqno cõ fete ou oyto Por- tuguefes q todos forão mortos faluo ele, que efcapou muyto ferido & fe acolheo ao Pagode de Bandorá, ondeftaua hum fidalgo chamado Fernão eanes de Souto mayor, que era Tanadar mór q tinha ali fua eftãcia, por ho Pagode fer forte & cercado de muro de pedra & cal: & tinha céto & cinquoeta Portuguefes, de que os trinta erão de caualo, & trezétos piães da terra. E como Fernão eanes era muyto esforçado, em os immigos chegãdo fobre ho Pagode fayolhes ao encontro, & foy desbaratado por defarranjo dos feus: & cõ muytos feridos fe recolheo ao Pagode. E ficando os immigos por iflo muyto foberbos, ho teuerão cercado dous dias. E nefte tempo foy noua a Goa a Francifco pereyra, que erão mor¬ tos quantos eftauão no Pagode: pelo q mandou logo Antonio correa de Goa cõ certas fuftas pera trazer os que efcaparão. Com cuja chegada Fernão eanes folgou muyto: & vendofe fauorecido cõ algúa géte que An¬ tonio correa trazia, que podião meter no lugar da q tinha ferida: deter-
  • 212 Hijloria da índia minou com confelho de ir bufcar os Imigos & lançalos fora da terra, pera 3io que mandou ê fua bufca: & não lhe leuarão deles outra noua, fe nã que paífarão por húa aldea chamada Verná da hi a legoa & mea, mas que não fe fabia onde eftauão. E como Fernão eanes era muyto esfor¬ çado, & lhe parecia que fabia bem da guerra: aífentou que os immigos hião fogindo com medo, & q com qualquer gête os poderia desbaratar: & partio logo apos eles, leuando vintecinco Portuguefes de caualo, & céto & vintecinco de pé, & trezétos piães da terra: & ao outro dia a oras de vefpera palfou hú rio que fe chama ho do Sal (tres legoas donde par¬ tira) & no cabo de húa grande & fermofa veiga que fe faz da banda da¬ lém: a tiro de bombarda ouue vifta dos immigos, q eftauão defcanfando ao pé de hum oyteiro. Que em vendo os Portuguefes fe leuãtarão logo: & como eftauão efpalhados & erão clco mil, paredão muyto mais do que erao: ho que crendo os Portuguefes fe efpantaram, & dizião que aqueles erão muyto mais dos que forão fobre ho Pagode. E vedo Fernão eanes efte efpanto, deteueos pera os esforçar & diffelhes. Senhores de que vos efpantaeis? porque não erão mais os Imigos que nos cercarão do q eftes fão, que fe ho forã não leuantarão tão afinha ho cerco, & de fe aueré por poucos, pera contra noffas forças nos alargarão: & afli efpero em noífo Senhor que lhes ha agora de parecer pera nos fugirem, & coefta efpe- rança q todos auemos de ter como Chriftãos, auemos de dar neles, porq pofto que foífem mais do que vos pareifem, não temos melhor remedio q pelejar q fe nos qremos recolher não temos fe não ho Pagode que he muy longe, & fe voltamos eftes perros hão de crer que he cÕ medo, & por iífo nos hão dapertar, de maneyra que mais dano nos hã de fazer fem pelejarmos q pelejãdo, & q nos não figã, corremos muyto perigo é paf- far efte rio q temos paífado, porque a maré enche & ele he eftreito, & os de pé efta certo não achare vao, & os de caualo duuido, & pois em voltar & em pelejar ha perigo, auenturemonos antes ao da peleja que he com honrra, que ao do fogir que pera Portuguefes he tão vergonhofo & de tãta defonrra: & parecedo ifto bem a todos acordarão que fe fizeífe afli. E eftãdo nefta pratica cuydando os immigos que fe detinhão com medo deles forãnos cometer, feytos em duas batalhas em q auia muytos •de caualo acubertados, & húa delas cometeo os Portuguefes de rofto, & a outra lhes tomou a trafeira pera ficarem cercados de todo & não tere por onde fogir, porq das ilhargas tinhão ho rio & ho mar. E vedo Fer¬ não'eanes que ho querião cercar, antes de o cercarem diífe aos feus q não auia mais que efperar q deífe Santiago nos immigos & afli ho fize- rão, & abalãdo fugirão os piães da terra: & os Portuguefes ficarão cento & cinquoéta, que não era nada pera tamanha multidão de mouros: &
  • Livro VI, Çapitolo XL 2l3 parece que foy milagre de noffo Senhor não fe fumirê todos antreles de muytas feridas que todos receberão dos primeiros encontros, & forão mortos cinco de caualo, & quafi todos os outros feridos, & antreles Fer- não eanes com hú zaguncho darremefo q lhe paffarão ho corçolete pela ilharga ezquerda & ho ferirão, & a hú Diogo de moraeis criado do Du¬ que de Bargança cortarã de hú pé quanto lhe faya fora do eftribo, & prouue a nolfo Senhor por fua piedade que ainda q Fernão eanes foy tão mal ferido nem por iffo defacorçoou, ãtes com muyto esforço feria nos immigos, ajudando os feus como bom companheiro, com que os esforçou tanto que não pelejauão como cento & quarenta & cinquo, fe não como que forão cinquo mil, ferindo & matãdo muytos dos mouros: & antreles foy ho feu capitão, pelo que os delia primeira batalha perdido ho esforço fe desbaratará logo & fogirão: & com ho impeto q leuauão derão na fegúda batalha que vinha pera tomar as coftas aos Portuguefes, & def- baratarão os que eftauão nela, que também fugirão cuydando q erão os Portuguefes que dauão neles, & afíi fugirão hús & outros: & era muyto pera louuar a nolfo Senhor ver como fogião fendo tantos: Fernão eanes não os quis feguir por eítar tam mal ferido como eítaua, & ter toda fua gente muyto ferida, & os caualos mortos: & quis nolfo Senhor que lhe não matarão mais q os cinquo que diífe, & dos mouros fegúdo fe defpois foube forão mortos mil, & os mais deles homés efcolhidos, como fe vio na riqueza das Cabaias das toucas & dos terçados que lhe forão toma¬ dos pelos Portuguefes defpois que ficarão feguros no campo: õde por fer ja perto da noyte Fernão eanes fe deixou eítar ate que amanheceo q hús aos outros como melhor poderão fe leuarão õde Antonio correa eftaua com as fultas: em que fe embarcarão muyto fracos, & fe os mouros acer¬ tarão de tornar nam efcapara nenhú. E Antonio correa os leuou pera Goa onde muytos morrerão defpois das feridas. E como Francifco pe- reyra não teue gente que mãdaífe á terra firme pera acabar de deitar dela os mouros: teuerão eles tempo vendo que não hia ninguém tomarão aquelas tanadarias que rendião cincoenta mil pardaos douro pera el Rey de Portugal: o que não acontecera fe o gouernador inuernara na índia, porque ouuera dinuernar em Goa donde logo focorrera com gente, & fe acodira em quente teuera pouco que fazer em deitar os mouros fora fegundo eftauão efpãtados do brauo pelejar dos Portuguefes. E ganhadas eftas tanadarias, mandou ho Hidalcão outro capitão que fez feu affento em Pondá: & porq efte tolhia que não folfem a Goa mãtimentos da terra firme, fez Francifco pereyra paz coele.
  • 214 Hiftoria da Índia GAPITOLO .XLI. De como húa das naos da armada de Fernão de magalhães que hia pera Efpanha arribou a Maluco, & foy tomada pelos Portuguefes. FAzendo Antonio de brito (como difle atras) a fortaleza de Maluco como os ares erão differentes dos da índia, & aífi os mantimétos, adoecialhe a gente, do que ele tomaua muyta paixão, & afli por não achar aquela facilidade que efperaua pera fazer a fortaleza, nem amizade na raynha de Ternate. E coifto adoeceo també, não que caifle em cama: mas húa roim difpofição do defcontentamento que tinha, & arrepédiafe bé de ter aceitada aqla emprefa. E andando afli foube que ao logo da cofta de húa ilha chamada Batachina cincoenta legoas da de Ternate andaua húa das duas naos dos Caftelhanos q partirão de Tidore, que arribara do caminho por fazer muyta agoa & nã poder fofrer ho mar, & de trazer doéte toda a gente andaua como perdida fem poder tomar terra. O que fabédo Antonio de brito, pedio a dom Garcia anrri- quez que fofle por ela, & ele foy no feu nauio indo em fua cõferua Ca- chil Daroes em húa corara, & em outra hia hú Duarte de refende efcri- uão da feytoria de Maluco, que defpois foy feytor & leuaua defafleys Portuguefes. E chegado dom Garcia onde a nau andaua achouha furta, & mãdou a ela Duarte de refende que chegado a ela bradou, & a géte eftaua tão doéte & tão fraca que ningué lhe refpõdeo, pelo que Duarte de refende entrou détro com a géte armada. E cuydãdo os Caftelhanos que os querião matar pedirão mifericordia, & ho feu capitão que fe cha- maua Gõçalo gomez da efpinhofa foy falar a Duarte de refende, & lhe contou fua delauentura: & ele ho fegurou & leuou a dõ Garcia, em cujo poder fe meteo com quantos eftauão na nao, & dali fe tornou a Ternate, & a entregou a Antonio de brito com todos os Caftelhanos que forão cu¬ rados & agafalhados como Portuguefes, & na nao forão achados liuros do aftrologo fam Martim q hia cõ Fernão de magalhães & faleceo na via¬ gem, & afli dous planifpherios de Fernã de magalhães feytos por Pero reynel, & outras cartas grandes do caminho dos Portuguefes ate a índia, & quarteiroés dela ate Maluco, & todos errados: & afli forão achados os liuros de todos os pilotos das naos daqla armada, & dos verdadeiros pa¬ receres daqla viagé: em q fe achou por eles mefmos fer Maluco & Bãda do defcobriméto del rey de Portugal: & todos eftes liuros & inftrométos forão entregues por Antonio de brito ao feytor: & tãbé foy achado nefta nao hú Gafpar rodriguez Português, q eftando em Ternate por feytor de
  • Livro VI, Capitolo XLII 2/5 muytos Portuguefes, ao tempo que os Caftelhanos chegarão a Tidóre fugio pareles, com a fazenda que tinha das partes, & fe hia com eles pera Caftela: polo que Antonio de brito ho mandou degolar, cõ pregão que pubricaua fua culpa. E eftando efta nao aqui furta deu á cofta afli como eftaua carregada com húa trouoada que fobreueo, & perdeofe com quanto tinha: & efta fim ouue a armada de Fernão de magalhaés & ele, q foy juizo de noffo Senhor pola treição q fez a feu rey em lhe qrer fal- famete tirar ho que era feu, & poffuya cõ tãto jufto titulo, & cõ ter gaf- tada niffo tãta parte de fua fazéda. E defpois q eftes caftelhanos forão fãos, os mãdou Antonio de brito pera Malaca: & leuouos dõ Garcia ãrriqz q partio pera lá na entrada de Ianeiro, de mil & quinhétos & vinte tres: onde foy ter em Setebro do mefmo anno. E dahi os mandou Iorge dal- buquerq pera a índia, donde lhes foy dada embarcação pera Portugal. CAPITOLO .XLII. De como os mouros da ilha de Tidore, matarão vinte tantos Portugue¬ fes. Pelo que fe começou a guerra ãtre Antonio de brito, & el Rey de Tidore. AO tépo que Antonio de brito começou de fazer a fortaleza, andaua hum tio del Rey de Ternate degradado da mefma ilha, ja do tempo de quando feu jrmão era viuo, que ho degradara por caufas que pera iffo teue. E como efte Ifãte foube que el Rey feu jrmão era morto, quifera que lhe fora leuantado ho degredo, & tornarfe a fua terra: ho que Cachil daroes eftrouou, temendo que fe ho outro tornaffe, que lhe tiraria todo ho mando que tinha na terra que era muyto grade. E vedofe efte Ifante fem remedio, defpois que foube q Antonio de brito fazia a for¬ taleza, quis ver fe por ele fe podia tornar a fua terra: pera ho q fe foy a cidade de Ternate & fe meteo na mezquita, donde mãdou dizer a An¬ tonio de brito q fe queria tornar Chriftão, cõ algús outros, que lhe deffe feguro pera entrar na cidade, porque fe temia de Cachil daroes que logo foy difto auifado. E fe foy a Antonio de brito & lhe difle: q por nenhú modo aquele home auia detrar na cidade, por fer nela muy odiofo, & fe querer leuantar contra ho Rey paífado, que por effa caufa ho degradara, & afli outras muytas rezões: por onde não era bem que tornafle, dando cor q fe ele confentifle que tornafle, & que fe leuantaria a terra contrele: ho que Antonio de brito temeo. E como ainda tinha a cerca da fortaleza por fazer, & tinha muytos doentes, não oufou de bolir configo: & pofto que lhe pefou muyto de não fazer aqle homé Chriftão, madoulhe que fe
  • 2i 6 Hifioria da índia folie, porque lhe não podia valer, & ele fe foy. E fe elte homé fe fizera Chriftão, em pouco tépo ho forão todos os daquela ilha, fegúdo auia pouco que erão mouros: & delta vez ficou a terra tão aluoroçada, q An- tonio de brito teue afaz que fazer em a tornar a pacificar, & affi tinha muyto trabalho em não auer na feytoria nenhúa roupa q gaitar pera auer por ela mantimentos & coufas neceífarias pera fe fazer a fortaleza, & muyto maior ho teuera, fe não chegara de Malaca hú fidalgo chamado dõ Rodrigo da filua é hú nauio, em que leuaua fazéda pera a feytoria, com q fe remedeou dalgúas neceffidades que tinha, & coelte nauio vierão també algús jungos de Malaca, & de Banda, & doutras partes, a bufcar Crauo como acoítumauão: ho que fabédo Antonio de brito, determinou de ho não confentir, porque queria q foífe todo ho Crauo pera el rey de Portugal, por effe fer ho fim pera q mandaua ali fazer aquela fortaleza: & mãdou pedir aos reys comarcãos em cujos fenhorios auia Crauo, que ho não cõfintifTem vender a outrem fe não ao feytor del Rey de Portu¬ gal, & iíto mandou efpecialmente dizer a el Rey de Tidore, porque foube que eítauão é feu porto certos jungos de Bãda, que com feu fauor deter- minauão feus donos de carregar, & iíto lhe mandou pedir & requerer por hú Antonio tauares, que foy em húa fuíta com vinte tantos Portu- guefes, & mandoulhe que quando el rey não quifeífe mandar ir os jungos de feu porto, que os fizeffe ir ás bonbardadas: ho q Antonio tauares fez com tanta exorbitância que el Rey & a fua géte ficou em extremo efcan- dalizada dele, mas por Antonio tauares eítar no mar & ter artelharia, não oufou el Rey de bolir coele: & eltando ele no porto pera acabar de efgotar outros jungos fe hi foífem carregar, deulhe húa toruoada com que a fulta deu a coíta, & Antonio tauares & os outros fe faluarão em terra com muyto perigo: mas aproueitoulhes pouco, porque como a gente eítaua efcandalizada, como os vio a(Ti desbaratados, remeteo aeles cõ fuas armas, & matarãonos a todos: & tomarão a fulta & artelharia. Ho que fabendo Antonio de brito, mandou logo prender algús carpinteiros del Rey de Tidore, que lhe épreltara pera fazer hú nauio que lhe faziã, & defpois de os préder, mandou dizer a el Rey de Tidore ho porque os prendera, requerédolhe que lhe mandaffe logo as armas dos Portuguefes, a fulta, & artelharia que lhes fora tomada, & os mouros q os matarão pera fazer jultiça deles, ao que não fatisfazendo el Rey, determinou An¬ tonio de brito de lhe fazer guerra: ho que lhe Cachil daroes cõfelhaua que fizelfe, pera ter dele mais necelíidade do q tinha, & dizialhe q fe dei- xafTe affi paffar aquele atreuimento del rey de Tidore que cada dia ho teria pera ho offéder: & que a raynha & feu filho ho ajudarião polto que ela foífe filha del rey de Tidore & ele feu neto: o q era contra rezão,
  • Livro VI, Capitolo XLII 217 nem a rainha ho quis fazer, & pofto que não foffe de praça fecretamente mãdaua aos feus que não ajudaffé a Antonio de brito cõtra el rey feu pay, & que fe leuantaffem contra os Portuguefes. Do q Cachil Daroes auifou logo Antonio de brito, & lhe confelhou que meteíTe a raynha & feu filho na fortaleza, & que coiffo feguraria a terra de todo. E fobrifto ouue Antonio de brito confelho coeffes fidalgos & caualeyros q eftauão coele, & os mais deles lhe aconfelharão q por nenhú modo bólide com a raynha nem cÕ el rey, porque metendo os na fortaleza fe leuantaria a gente contreles & Cachil Daroes não feria poderofo pera os apacificar, que melhor feria leuar a raynha por bé. E Antonio de brito não quis tomar efte cõfelho pola inftrução que tinha de Cachil Daroes: & querédo ho poer em obra foubeho a raynha & fugio pera húa ferra & dali fe paf- fou pera feu pay & ho rey ficou: & porque não fugilfe també recolheo o Antonio de brito na fortaleza tratãdoho como rey, que era cõ todo feu eftado fem lhe faltar coufa nenhúa. E com tudo vendo a géte da ilha como ho feu rey eftaua metido na fortaleza & ho não deixauão favr dela ficarão muy defcontentes parecédolhe que era prefo, & ouue algús aluo- roços em algús que Cachil Daroes apagou, mas não que a gente ficafle de todo bé com Antonio de brito nem ho querião ajudar na guerra cõtra el rey de Tidore por fer pay da fua reynha: do que Antonio de brito eftaua muy agaftado, porque por ter poucos Portuguefes & doentes, & tinha a fortaleza por acabar não oufaua de os apartar de íi, nem de os auenturar á guerra: & a que queria fazer a el rey de Tidore qrialha fazer com os Ternates cõ propoíito de lhe derrabar coeles feu poder: pera que quando os Portuguefes foffem teueflem menos que fazer, pera o que pe- dio confelho a Cachil Daroes que lho deu muyto bõ, & foy q mãdaffe pregoar polas pouoações da ilha que qualquer peífoa que leuafTe cabeça de Tidore a Antonio de brito, ou lho leuaffe catiuo que lhe daria por cadahú hú pano fino. E como erão cobiçofos por ganharem aquele preço começarião logo de fazer faltos na ilha de Tidore, como começarão, & erão tantos os q matauão que não auia panos que abaftaffem pera lhos pagar, & també dos Ternates morrião muy tos, & defejarem feus paren¬ tes & amigos de vingarem fuas mortes foy caufa de a guerra fe atear, & começoufe de fazer muy crua dambas as partes, & os da ilha de Ba- chã & de Geilolo ajudauão també aos Ternates por amor de ganharé os panos. E com toda efta gente que era contra el rey de Tidore defejaua ele tão pouco paz nem amizade com os Portuguefes pelo efcandalo que tinha deles que nunca a pedio a Antonio de brito, né fe lhe defculpou do paliado. E nefte tépo mandou Antonio de brito defcobrir outra nauegaçã pera Malaca pola via da ilha de Borneo, que lhe differão que era mais Tomo III aS
  • 2l8 Hijioria da índia breue que a da ilha de Banda, & mãdou a iffo é hú nauio hú Simão da- breu feu parente que partio de Ternate em Iunho: & porque não foube o que lhe fucedeo na viagé não direy mas fe não que chegou a Malaca em Nouébro hú mes defpois de dom Garcia anrriquez que fora pola via de Banda, & auia onze mefes que partira de Ternate. CAPITOLO .XLIII. De como dó Pedro de caftro pos a obediência dos re/s de Zan\ibar & Pemba as ilhas de Querimba que lhe dejobedecião. INui-rnando dom Pedro de caltro & Diogo de melo em Moçambique como atras fica dito chegarão ao alcayde mór da fortaleza hús ébai- xadores das ilhas de Zanzibar & Peba: pedindolhe que pois erão vaffalos dei rey de Portugal lhes deíTe ajuda pera fugigarem a feu fenho- rio as ilhas de Querimba que fendo fuas felhes reuelarão cõ fauor del rey de Mombaça, & nelas lhes tinhão tomados hús zambucos & morta algúa géte. Ouuida efta embaixada pelo alcayde mór por quanto não era poderofo pera dar ho focorro q lhe pedião requereo a Diogo de melo & a dom Pedro de caftro que focorreífem aqueles reys, porque feria grãde feruiço del Rey de Portugal. E por Diogo de melo não poder ir foy do Pedro fem ele, & foy no batel da fua nao cõ arrombadas, & efcolheo pera ir no efquife Chriftouão de foufa, de que faley nos liuros atras q hia por paífageiro & leuaua a capitania de Chaul, & coele & com dõ Pe¬ dro forão outros fidalgos & gente darmas em paraós da terra, & ferião por todos paífãte de cé homés dos noflos. E indo ao longo da cofta che¬ garão a húa das principais ilhas das de Querimba hú bõ pedaço antes de foi pofto, em q auia húa pouoação de mouros & eftaua em goarda dela hú fobrinho del rey de Mombaça com géte de goarnição & coela ajuntou toda a da terra que era muyta: & vendo vir os noífos cuydando q os engaDaíTem fayrão á praya cõ moftra de paz, mas quãdo virão os noífos armados recolheranfe pera a pouoação, & poédo em faluo as mo- lheres & filhos com outra gente que não podia pelejar, & afli ho mais que poderão deixarã fe eftar com fuas armas pera defendere a terra. E nifto chegarão os noífos a terra, & dom Pedro fez deles dous efquadrões, & ele com hú & Chriftouão de foufa cõ outro entrarã na pouoação cada hú por feu cabo em que acharão grande refiftécia: porque ho fobrinho del rey de Mombaça era esforçado & cõ a géte que tinha defendiafe bem, & afli fe começou a peleja muy braua efpalhandofe dõ Pedro & Chrifto¬ uão de foufa cõ os feus pola pouoação: & durando afli a reuolta, hú
  • Livro V, Capitolo XLIII 2ig fidalgo chamado Antonio galuão filho que fora de Duarte galuão, que ia com dom Pedro fe perdeo de fua companhia, & bufcandoo com outros que ho acompanhauão, foy ter cõ fete ou oito dos noffos, que pelejauão com muytos mouros, que por íeré muytos os tratauão muy mal com muy- tas feridas que lhes tinhão dado. E chegado Antonio galuao, ajudouos também que fez fugir os mouros, & foy ajudar a Chriftouão de foufa, que eftaua em grade aperto cõ hús mouros, dentro em húa cafa, onde ho Chriftouão de foufa fez muy esforçadamente matado muytos, mas ficou ferido. E nefte tempo na parte onde pelejaua dom Pedro, foy morto ho fobrinho del rey de Mõbaça, pelo que os mouros fe desbaratarão & fugi¬ rão, ficãdo muytos mortos: & dos noffos, forão feridos a fora Chriftouã de foufa, Gafpar preto feu criado, Nuno freire, Luys machado, & outros algús, & ja de noyte que fe a peleja acabou fe recolheo dom Pedro cõ os noffos a húa mezquita junto do mar onde efteue aquela noyte. E pór faber ante manhã, que entraua gente da terra firme na ilha a fe ajútar com os mouros, & tornaré fobrele, ho que fe podia fazer cõ a maré vazia, mã- dou a Antonio galuão que folie cõ algús dos noffos a lho eftrouar, & ele não pode ir logo, por eftar com febre, & defpois que foy bem de dia fe foy ajuntar com Antonio galuão, & derã nos mouros & matarão muytos, & fizerão fugir os outros. E roubada a pouoação em que fe achou def- pojo, que valeria duzétos mil cruzados, foy lhe pofto fogo & ardeo toda: fem dÕ Pedro querer muyto dinheyro q lhe os mouros dauão porque ho não fizeffe, & ele não quis porque ficaffem efcaramétados, & não fe leuan- talfem mais contra os reys de Zanzibar, & Peba, a cuja obediência os tornou, & aífi os outros das outras ilhas, que vendo eftes desbaratados & caftigados, fe tornarão a obediécia dos reys: & eftãdo ainda aqui dÕ Pedro alagarão fe os paraós, em que os noffos tinhão carregado ho defpojo que ouuerã dos Imigos & perdeofe todo: feyto iíto partiofe dõ Pe¬ dro pera Moçãbique, tedo mãdado diante Chriftouão de foufa & os outros feridos. E partido dali por ho batel fer muyto pefado & mao de remar & dar muyto trabalho, determinou de ho mandar a Merlinde, pera õde ho veto era a popa, & por ho batel fer grande fofria ho mar, & ele iria no efquife ao longo da terra pera Moçãbique, & deu a capitania do batel a Antonio galuão, & começando de caminhar, eftãdo dom Pedro furto é húa pequena enfeada, eftando ele dormindo defpois de comer, faiofe dÕ Chriftouão de caftro feu primo, & afli os outros em terra, onde ouue- rão hum recÕtro com muytos Cafres, que os tratarão tão mal, que os fizerã recolher ao efquife muyto feridos, & ifto por lhes acodir dom Pe¬ dro que acordou ao arroido, & fe não acodira todos forã mortos: & ven- dofe afli dom Pedro tornoufe pera ho lugar de q partira, Õde achou ainda
  • 220 Hijloria da índia Antonio galuão que não era partido, & aquela noyte morreo dõ Chriftoua de caftro, filho de Felipe de caftro, que foy hú dos feridos. E por dom Pedro fer parente Dãtonio galuão & muyto feu amigo, rogoulhe que dei- xaffe ho batel, & foífe coele no efquife, & afli ho fez: & no batel mãdou por capitão a dom Roque de caftro feu jrmão: & ele tornou a feu cami¬ nho pera Moçãbiq. • CAPITOLO .XL1111. Do que Antonio galuão fe\ em Cotangone tornãdofe pera Moçãbique. Eindo ao longo da cofta foy ter coele hú zãbuco carregado de man- timétos, em que ião Portugueles, & por algús refpeitos que pera ifiò ouue, mudou dom Pedro ho confelho de ir no efquife: & dei- xãdo nele por capitã a Antonio galuão, foyfe diãte no zãbuco. E Antonio galuão ficou no efquife, é q paliou affaz de trabalho, de fome & de fede, com todos os de fua companhia: & eftando tres legoas de Moçãbiq pare- ceo húa legoa ao mar, que era hú zãbuco, a que derão caça cõ ho efquife a vela, & fizerãna varar em terra, na praya de húa pouoaça chamada Cotãgone, pouoada de mouros que eftauão de guerra cõ os noffos. E quando Antonio galuão chegou a terra, ja os moradores dela defcarrega- uão ho zãbuco que logo deixarão, & remeterão aos nolTos e defembar- cãdo: & trauoufe antreles húa peleja, e que os noffos ho fizerão també, que leuarão os Imigos ate ho lugar a que logo poferão ho fogo: & por lhe os immigos acodirem deixarão os noífos, com que teuerão tempo de tornar ao zambuco & deitalo ao mar, & acharão nele algús mantimétos, & afli tomarão algús paraós q eftauão no porto. Ifto acabado que os nof¬ fos eftauão no mar, ex vê de terra um paraó cõ fete ou oyto homés que chegarão a bordo do zambuco ode eftaua Antonio galuão, a que hú velho que vinha no paraó aprefétou hú prefente de galinhas & fruytas da terra, & diflelhe por hú lingoa que trazia que era de Moçambique, que ho ia ver aos de fua cõpanhia: pera ver homés que fendo tão poucos teuerão tamanha oufadia que fayrão é terra a pelejar com tamanho numero dlmi- gos, & q afli lhe tomarão o zambuco fem nenhú perigo: & afli lhe ia pedir que lhe fizefle merce daquele zambuco & dos paraós q tomara na¬ quele porto, & que ficarião por feus pera fempre. E dizia ifto de ma- neyra que Antonio galuão entêdeo que dillimulaua pera lhe fazer algúa treição. E entédendo ifto fez que os queria prender, & difle ao velho q ele tinha fabido como os daquela pouoação erão Imigos dos noffos, & lhes tinhão feytos algús males. E pois ele fendo dela lhe fora falar fem
  • Livro VI, Capitolo XL V 221 feguro & pera ho enganar que ho engano auia de ficar coele, & ho auia de catiuar cõ os mais de fua companhia: do que ho velho & os outros que erão mancebos ficarão trefpaflados de medo, & deitaranfelhe aos pés pedindo mifericordia, & confeffando que vendo que por força ho não po¬ derão vecer quiferão prouar de ho fa4er por manha com ho deter ate que vazaffe a maré, que vazaua tanto que lhe auia de ficar ho nauio em 1'eco, & étão determinauão de ho tomar: pedindolhe que pois os Portu- guefes erão piedofos, & quanto mayores erros lhes fazião, tanto mais perdoauão, & eífa fama tinhão, que lhes perdoaffe, & que eles ficarião obrigados a feruirem quaefquer Portuguefes que ali foffem ter em quanto viueífem, & lhes acodirião em fuas neeellidades: & afíi ho deixarão en- comédado a feus decédétes q ho fizeífé. E Antonio galuão lhes perdoou com condição que lhe vendeffem algús mantimentos & que ho foltaria & aos outros. E prometendo ho velho que fi deixou os mancebos em arre- fens, & ele foy polos mantimentos, com que tornou trazendo muyta gente carregada de cabras, capados, galinhas, ouos & outras muytas coufas pera comer. E entregue tudo a Antonio galuão foltou os arrefens, & ficou ali dous dias refrefcando & neles fez paz com os da pouoação, pera que agafalhaífem os noífos quando ali foffem ter & lhes deffem ho neceffario, & pera iffo lhes alargou ho zãbuco & os paraós que lhes tomara. E dei¬ xando a terra pacifica fe foy pera Moçambique, Õde achou dom Pedro & os outros que ali inuernauão fazendo húa cafa de noffa fenhora que fe chama do baluarte. CAPITOLO .XLV. De como dom Pedro de cajlro chegou a Goa & fe perdeo a fua nao na barra. VInda a moução pera a índia fe partirão eftes capitães que ali inuer¬ nauão, Diogo de melo pera Ormuz, õde foube que eftaua ho go- uernador, & dom Pedro de caftro pera a índia & chegou aa barra de Goa em Agofto. E eftando a gente toda em terra, vefpera da Affum- pçã de noffa fenhora fe leuantou húa tão braua & medonha tormenta no mar que parecia que tudo fe fundia, & a nao de dom Pedro que fe cha- maua a Nazaré por fer velha começou dabrir & fazer agoa per muytas partes: o que fabido por dom Pedro acodio logo com algúa gente com quanto auia muyto perigo ao fayr da barra per os mares andarem muy groífos, & por a nao ter neceflidade de gente que lhe acodiffe fazia a Francifco pereira peftana capitão da cidade ir por força. E Antonio gal-
  • 222 Hijloria da índia uão fe embarcou em hum batel com feus criados & amigos, & feys ou fete que forão de feu pay, & foy dos primeyros que acodio, & era tama¬ nho ho marulho que andaua no rio por onde hia que não hião agoar- dando fe não quando ho batel auia de çoçobrar, pelo que hum Simão vaz pedio a Antonio galuão que ho mandaffe poer em terra, & ele ho fez com dó dele, & em ele faltando faltarão outros dous, & fe acolhe¬ ram. E não he defpantar, porque fegundo muytos me contarão ho mar & ho rio andauão tão efpantofos com ho furiofo vento que os reuoluia, que parecia que querião deftruyr tudo: & que era hum dos finais dantes do dia do juyzo, & affi ho achou Antonio galuão auendo vifta da barra em que andauão os mares tão altos que parecia que chegauão ás nuués. O que vendo algús moradores de Goa que ião no batel, requererão a Antonio galuão que não fayfe do rio porque fe perderia. Ao que ele ref- pondeo, que não cuydaífem que ia a nao por ter laa fazenda & a faluar que a não tinha, & não ia fe não ajudar a dom Pedro a faluar aquela nao que era del Rey de Portugal com quem viuia, por iffo q não auia de deixar dir por mayor tormenta que fizeffe que noflo fenhor os ajudaria, & eles infiftião que não podia ir nem auia dir porque fe perderia. E infil- tindo nifto o que gouernaua ho batel encaminhou pera terra, & Antonio galuão ho fez gouernar pera a nao ameaçandoho q ho mataria, & a quê diffeffe que não foffem por diante, & valeulhe os que leuaua da fua parte, porque fe iflo não fora fizerãno tornar pera terra, & poendo a proa na¬ queles mares & rompendo por eles com muyto perigo de fua vida por as ondas comerem ho batel, chegou tão perto da nao que lhe lançarão dela húa beta por onde ho batel foy alado a bordo, onde não podia che¬ gar com a grande refaça dos mares que empuxauão ho batel muy loge. E entrado Antonio galuão na nao com os feus achou dom Pedro com os que eftauão na nao em muyto grande afronta, por não poderem vencer a muyta agoa que ela fazia, nem preftou a ajuda que ele & os feus lhe derão. E vendo dom Pedro que a nao não tinha remedio fe não perderfe mandou acodir aa fazenda del rey que lhe lembraua mais de faluar que a fua, porque vendo hum feu criado quã pouco lhe ela lembraua a ref- peito da del rey, lhe diffe que a mandaffe oulhar porque fe perdia toda. Ao que ele refpondeo muyto menencorio: A del rey queria eu falua, que da minha não me dá nada que fe perca. E affi ho fez que deixou perder muyta parte dela por faluar a del rey em que leuou affaz de trabalho. E vendo por derradeiro que a nao não podia efcapar, mandou dar aa vela & varou em terra que era a maré chea: & coefte ardil fe aproueytou muyto do que ia na nao, & ela acabou ali, fem da cidade ufar ninguém dacodir cÕ medo do mar fe não Antonio galuão.
  • Livro VI, Capitolo XLV1 223 CAPITOLO .XLVI. De como ho governador mandou Baltefar peffoa por embaixador ao Xeque ifmael. EStando ho gouernador em Ormuz foy Raix xarafo certificado que algús capitães do Xeque ifmael não deixauão paliar as cafilas que ião com mercadorias pera Ormuz, dizendo que ho fazião porque el rey Dormuz deuia ao Xeque ifmael cinco mil xarafins de pareas que lhe não querião pagar. E porque delta reprefaria perdia el rey Dormuz muyto em fuas rendas, pedio Raix xarafo ao gouernador que mandaífe rogar ao Xeque ifmael que fizeffe alargar as cafilas pois el rey Dormuz era vaífalo del Rey de Portugal com quem ho Xeque ifmael tinha paz & amizade: & quanto ao que lhe el rey Dormuz deuia farião conta & lho pagaria: & fobriíto mandou ho gouernador húa embaixada ao Xeque ifmael com que foy hum Baltefar pelfoa caualeyro da Ordem de Santiago que foy bem acompanhado dalgús Portuguefes de caualo & piães pera os feruirem, & foy em fua companhia Abedala califa embaixador do Xe¬ que ifmael que nuca fe mais fora da índia. E partido Baltefar peffoa Dor¬ muz foy ter a húa cidade chamada Lara em terra de Perfia que era de hum fenhor mouro que fe chamaua rey como diffe no liuro terceyro: & era valfalo del rey Dormuz. E por ele não fer rey verdadeyro, Baltefar peffoa não fez dele tanta conta como ouuera de fazer, & mandoulhe hum prefente que.por fer de pouca coufa el rey não quis tomar. E com quãto Baltefar peffoa determinou em confelho de fe lhe ir moftrar, pera que el rey viífe ho aparato que leuaua: & a moltra auia de fer, não que ho foffe ver a fua cafa fe não palfarlhe pola porta. O que Abedela califa contra diffe: dizendo que não deuia de ir porq fentia q el rey eítaua efcãdali- zado dele, & que lhe podia acontecer algum perigo. E Baltefar peffoa por confelho dos noffos não quis fe não ir, & ele & os de fua companhia forão muy bem atauiados & acompanhados defpingardeyros. E fendo perto das cafas del rey em húa rua eítreita fayolhe hum corpo de mou¬ ros ao encõtro, & hum mouro lhe deu com húa porra de ferro na ca¬ beça cõ que o deitou muyto ferido do caualo abaixo. E niíto forão a^ pedradas tantas das genelas & as frechadas & zagúchadas, que por pouco que os noffos não forão mortos & todos fugirão por ode melhor poderão, & defpois que fe ajuntarão foy curado Baltefar peffoa & outros, & parti- ranfe & forão por fuas jornadas ao campo do Xeque ifmael, em que virão muytas & muy notaueis cidades, aíTi como a de Xiraz que he de lx. mil
  • 224 Hijloria da índia vezinhos & foy tamanha em outro tempo q era muyto mayor do q agora he ho Cayro, & daqui vem dizerem os mouros da Períia que quando Xi- raz era Xiraz, era ho Cayro fua aldea, & tornou affi por amor das guer¬ ras com que foy deftruyda, & a cidade de Tabariz da mefma grandeza, & affi outras muytas de muy nobres & fumptuofos edifícios, & pouoadas de gente muy luzida, como Antonio tenrreyro conta em ho feu Itenera- rio, em que largamete efcreue toda eíla terra. E daqui foy por feu cami¬ nho ate chegar a húa jornada do arrayal do Xeque ifmael, onde chegou hum recado a Baltefar pefloa do mórdomo da cafa do Xeque ifmael que em lingoa Períiana chamão Vaquil, que fe deixaffe ali eílar ate lhe man¬ dar recado que fofle. E ifto era fegundo fe defpois foube, porque naquele tempo fazia ho Xeque ifmael húa fefta que na fua lingoa fe chama Nouo- ruz, que quer dizer fefta da primauera, em que auião de ajútar quantos capitães & fenhores auia em feu fenhorio: & por querer que Baltefar pefToa & os outros noffos os viffem, os mandaua ali efperar por fer paflb por onde todos auião de paflar. E por efte recado do Vaquil fe deteue ali Baltefar pefToa dez ou doze dias, que tanto fe deteuerão os que digo em paflar affi de noyte como de dia: & foy coufa defpanto a gente que paflou de caualo, & os camelos carregados de fato. E paflada efta gente, & alojada no arrayal, ho Vaquil mandou dizer a Baltefar pefloa q fofle, & affi o fez. E ates de chegar ao arrayal obra de húa legoa ho forão receber certos capitães com ate cincoenta de caualo todos veftidos de fefta, & por fazerem honrra aos noffos conuidauãnos de quando em quãdo com muytas caixas de confeytos & outras fruytas verdes & com ,vinho que lhes trazião em garrafas de prata, & afli forão ate ho ar¬ rayal, onde alojados os noffos em fuas tendas, foy vifitado Baltefar pef- foa da parte do Xeque ifmael: a que mandou dizer que fua vinda fofle boa, & que defcanfafle porque lhe auia de fazer quanto lhe requerefle, & alem diflo muyta merce, porque queria grande bem aos frangues por aparecerem na índia, & a conquiftarem quando fe ele leuantara por rey em Perfia. CAPITOLO .XLVII. De como faleceo ho Xeque ifmael fem dar defpacho a Baltefar pejfoa: & de como hum filho q lhe fucedeo lho defpachou. PAssados algús dias defpois da chegada de Baltefar pefloa ao arrayal, veyo ho dia da fefta da primauera q ho Xeque ifmael auia de fazer, em amanhecendo foy alcatifado hum grande efpaço de chão diante das tendas do Xeque ifmael que tomaria dous tiros de béfta, & fobre as
  • Livro VI, Capitolo XLVII 225 alcatifas muytas fotas de feda em lugar de toalhas, em que forão poftas muytas & muy diuerfas igoarias & grande forna de garrafas douro & de prata cheas de vinho. E ifto porque ho Xeque ifmael daua aquele dia ban¬ quete geral a todos os mouros q eitauão no arrayal. E primeyro que fe alfentaífem a comer forao dados da fua parte aos reys & capitães vefti- dos de borcados, cetins, veludos & outras fedas forradas de forros de pelo muyto finos, & efpadas goarnecidas douro & pedraria, no que ho Xeque ifmael gaitou trezentos mil cruzados, & na os tinha em eltima por fer muyto liberal. E deltas peças forao também dadas a Baltefar peffoa & aos de fua companhia. E veltidos todos deites atabios, affenta- ranfe a comer: & Baltefar pelfoa com os noffos comerão em húa mefa hum jogo de malhão da do Xeque ifmael, que também comeo no ban¬ quete, & eítaua veítido em húa cabaya de cetim branco bordada de tela douro, & hum roupão encima de cetim laranjado bordado do mefmo. E ho eltrado que era muy rico eítaua cuberto de froles, & de todas as igoa¬ rias que lhe forão poftas mandou aos noffos por lhes fazer honrra. Aca¬ bado ho bãquete que durou muyto grande efpaço, paffoufe ho Xeque ifmael a hum pauelhão de borcado, junto do qual eítaua aruorado hum malto que tinha na ponta húa guindarefa pera fobirem & decerem húa lança que eítaua aruorada fobre efte malto, & tinha na ponta húa maçaã douro vazada tamanha como húa laranja que tinha trinta cruzados. E a efte malto arremeterão certos capitães & fidalgos que eftauão a caualo em feus poftos dúa parte & doutra, & ifto ao fom de muytas trombetas. E chegado quaíi ao pé do malto pararão & tirarão a maçaã que digo com feus arcos, & o que a derribou fe deceo do caualo & a tomou, & por honrra lhe mandou ho Xeque ifmael dar de beber, & defpois tornou a caualgar & a tirar com os outros a outra maçaã que logo foy polta, de que fe gaitarão muytas, & alfi acabou a feita da primauera. E defpois difto por o Xeque ifmael fer muyto doente de epelenlia ou por outra caufa que fe não foube ele nunca ouuio Baltefar peffoa antes ho andou detendo ate que morreo da mefma doença, & por fua morte fe foy Bal¬ tefar peffoa aa cidade de Tabriz, porque no arrayal não eítaua feguro de morto & roubado, nem em Tabriz ho não efteue fe não em húas cafas muyto fortes. E fepultado ho Xeque ifmael, focedeo em feu fenhorio hum foo filho que tinha chamado Thamaz çoltão de idade de quinze annos: & efte defpachou defpois Baltefar peffoa fem lhe conceder nada do que pe¬ dia nem fazer dele nenhú cafo, & afii fe tornou defcontente.
  • 22Ô Hiftoria da índia CAPITOLO .XLVIII. De como fe partio lio gouemador pera a índia, & de como chegarão as Jiaos de Portugal. DEspachado o ébaixador Baltefar peífoa, partiofe ho gouemador pera a índia, & ho primeyro lugar dela a que chegou foy Goa, onde achou Eytor da filueira filho do Coudel mór que partira aquele ãno de Portugal por capitão mór da armada pera a Índia, & forão feus capitães Manuel de macedo, Simão fodré, dom Antonio dalmeida, Francifco da cunha, Pero dafonfequa, Vicente gil: & quatro deites capi¬ tães inuernarão & Eytor da filueira paliou cõ os outros: & de Goa fe foy ho gouemador com húa grande armada a Cochim, & de caminho foy vifi- tando as fortalezas da cofia, que toda andaua chea de paraós de Mala- bares darmada & roubauão os Portuguefes que achauão defapercebidos. E a caufa difto era que como os reys & fenhores da índia eftauão de paz, & os Portuguefes nã tinhão guerra em q fe ocupar tratauão todos, & ho gouemador lhes daua pera iflò licença, dizendolhes quãdo lha daua que foífem a recado, porque os não mataíTem os mouros, de q não fe deuião de fiar pofto que ouuelfe pazes: porque quando as auia fe vingauão eles do mal que recebião na guerra. E ifto fabia ele por experiencia: & deitas licenças fe feguio muyto mal, porque os Portuguefes fe defauergonharão tanto que não fe contentauão com tratar, mas quando achauão naos de mouros noífos amigos pediãlhes dinheiro porque os nã roubaífem, & eles lho dauão por efcapar. E tanto foy ifto em crecimento que os de Calicut fe queixarão a feu rey que não era Nambeadarim que auia pouco que falecera, & o que lhe fucedeo queria grande mal aos Portuguefes, & por iífo & por ver quão mal fe lhe goardaua a paz: determinou de fe vingar dos Portuguefes, & mandou armar em todos feus portos, & fazer muytos paraós que feruiífem de leuar pimenta a Meca quando não pelejaifem, & andauão os Portuguefes tão diifolutos que os mouros os tomauão defaper¬ cebidos & matauãnos: o que não fe fabia ateli por os Portuguefes cuy- darem que os mouros auião de goardar a paz & eles não.
  • Livro VI, Capitolo XLIX 227 CAPITOLO .XLIX. Do q aconteceo a dom Pedro de cajlro & a Aiitonio galnão em Calicut. Eindo ho gouernador vifitando as fortalezas da cofta foy ter a Cali¬ cut ondeftaua do Ioão de lima por capitão da nofla fortaleza. E eftando no porto forão algús fidalgos jantar coele, & antre eftes foy dom Pedro de caftro, que defpois de comer fe foy aa cidade dos mouros com feys ou fete Portuguefes. E andando laa como os mouros andauão daleuanto, & tinhão diflimuladamente mortos algús, quiferão fazer o mefmo a dom Pedro: querendo armar brigas com os que hião coele. E ele fazendo que os não entendia começou dabalar pera a forta¬ leza: o que vendo os mouros apertarão coele & feriranlhe tres ou qua¬ tro, que logo deitarão a fugir. E indo afli acertoufe que Antonio galuão ia em bufca de dom Pedro, acompanhado de quatro homés feus criados: & quando vio os feridos conhecendo que erão de dom Pedro, pareceolhe queftaua em perigo pois os feus afli vinhão, & por iflò abalou correndo pera ho focorrer ou morrer coele, & a poucas pafladas ho achou rodeado de muytos mouros armados: & dom Pedro os detinha que não pelejaf- fem, dizendolhes que porque não goardauão a paz. E com a chegada Dantonio galuão fe pode dom Pedro retirar pera a fortaleza por húa rua eftreita, leuando os feus diante & ficando detrás cõ ho roíto pera os mou¬ ros, que os feguião batendo os efcudos & brandindo as agomias, & dando grandes cuquiadas com o que os afrontauão muyto: & nifto paffou a diante hú mouro grande de corpo acompanhado doutros muytos, & com muyta foberba fe chegou a dom Pedro pera ho ferir, & deteue a agomia por dom Pedro, & Antonio galuão & os outros leuarem de fuas efpadas: & porem afloberbauaos tanto que Antonio galuão com licença de dom Pedro ho defaffou que ele & outro fe mataflem cole foo. Mas ho mouro que vio tanta concrufam, refpondeo fora de prepofito, dizédo que no mar fe os foflem bufcar faberião pera quanto erão. E dom Pedro lhe difle q ho faberia logo fe ele paflafle dondeftaua: & ho mouro fe calou & dei- xoufe ficar com os outros, & dom Pedro fe foy em paz. E com quanto ho gouernador ifto foube não fez fobriflo coufa nenhúa, & foyfe a Co- chim, & leuou toda a armada fem deixar nenhúa na cofta. O q vedo os mouros de Calicut fe embarcarão logo darmada & paflarão a vifta de CochT: & pofto q ho gouernador ho foube diflimulou, cõ o q os mouros teuera tamanha oufadia que entrarão no rio de Cochim dando caça a algúas naos de Portuguefes mercadores, fem ho gouernador ter de ver
  • 228 Hiftoria da índia coiflo, & dizia q queria entregar a índia de paz ao gouernador q vieffe no ano feguinte: pelo q os mouros fe atreuerão a matar tantos Portugue- fes q nuca é tépo doutro gouernador matará tatos. E como ho gouerna¬ dor foy é Cochi defpachou Baftião de foufa & Marti correa a q tinha dada húa viagé pera Bãda, pera õde fe partirão & foy por capitão mór de tres nauios Baftião de foufa que foy e hú, & Marti, correa em outro & Aires coelho em outro. CAPITOLO .L. De como el rey Dacliem combateo a fortaleza de Pacem. EL rey Dache como atras fica dito qria tamanho mal aos Portuguefes q todo feu péfaméto era em fazerlhes ho mal que podeffe, & em tomar a fortaleza de Pacem pera fe fazer rey daquele reyno, & de toda a ilha de Çamatra pera dali conquiftar Malaca: & defpois que por amor da chegada de Martim Afonfo de melo coutinho a Pacem leuantou ho cerco da fortaleza, como també diffe tornou a ajuntar gente, & foy cercar a fortaleza de Pacem onde dõ Andre anrriquez eftaua ainda por capitão cõ a mais da gente que tinha doete, & a faã, & que podia pele¬ jar era muyto pouca, & por não faber ho numero dela nõ ho dos immi- gos ho não digo: nem menos ho modo que el rey Dachem teue nesta guerra, porque ho não pude faber per ordé: faluo q eftando el rey fobre a fortaleza chegou Baftião de foufa com os capitães de fua conferua, & furgio na boca do rio de Pacé que he húa legoa da fortaleza, não fabendo como do Andre eftaua cercado, & por fer tarde não defembarcou. E fendo el rey auifado de fua chegada, cuydou q era focorro que vinha á forta¬ leza : & antes que entraffe nela determinou de a tomar aquela noyte con¬ fiado na muyta gente que tinha, & alfi ho diffe aos feus capitães, enco- mendãdolhes que esforçaflem fua géte pera iffo, reprefentadolhes q como os muros & baluartes da fortaleza erão de madeyra & auia dias que fe fizerão auião deitar podres & com pouco trabalho os derribarião, & der¬ ribado qualquer lanço logo era etrada & os Portuguefes mortos por ferem muyto poucos. E coefte esforço forão os immigos cometer a fortaleza defpois que foy noyte, & deles com efcopros & macetes trabalhauão por cortar ho muro pelo pe', outros punhão efcadas & fobiã ao muro e ba¬ luartes, tirando muytas frechadas, outros trazião alifantes: pera defpois de cortado ho muro com os efcopros lhe poeré as teftas & ho derriba¬ rem. E a efta grãde reuolta acodio dom Andre, afli com os fãos com* com os doentes: & pera ver o que os Imigos fazião, mandou aceder muy-
  • Livro VI, Capitolo LI 22g tas bombas de fogo polos muros & baluartes, cÕ que os Portuguefes en¬ xergarão muy bem o que os ímigos fazião, & todos muyto esforçados lhes começarão de reíiftir, hús lãçando fobreles panelas de poluora & outros muytos arleficios de fogo, & outros tirando muytas eípingarda- das: mas como os immigos erão fem conto pera os poucos Portuguefes que fe defendião, quafi q nã auia defenfam pareles, porq os não podião cabçr polas efcadas qrião entrar polas bocas das bobardeiras a que os nofTos logo acodirão & os fazião tornar as eftocadas & lançadas, & alli durou a peleja hú gcãde pedaço, em que foy morto hum dos Alifantes, & tãtos dos immigos que os outros ouuerão por bé de deixar ho combate, aífi por veré ho grande numero dos mortos como por eftarem muyto feri¬ dos : & dos Portuguefes não morreo mais que húa molher que foy morta por defaftre com húa frecha heruada, & forão feridos algús, & hú deles foy Manuel medez de vafcocelos, & os outros homés baixos. E efta vito¬ ria foy milagre de noffo Senhor, porque fegundo os Portuguefes erão poucos, & os ímigos muytos, fe ele não acodira com fua mifericordia não poderão eles efcapar, porque afora os ímigos lerem muytos erão muyto esforçados, & auezados a pelejar: & esforçados por feu rey, que ficou muyto efpantado de os Portuguefes fe lhe poderem defender. CAPITOLO .LI. De como dom André anrrique{ defpejou a fortaleza de Pacem. AO outro dia cuydando dom Andre q os ímigos tornaffem a dar ou¬ tro cõbate, em amanhecendo foy vifitar a gente que eftaua nos baluartes & muro da fortaleza, a q vio encoftadas muytas efqua- das que os ímigos deixarão cõ prefla na noyte paliada, & dõ Andre man¬ dou a Simão tofcano feytor que cõ algús Portuguefes as foffe quebrar, & alli ho fez. E nifto chegou Baftião de foufa com os capitaés de fua cõ- ferua, que ião nos bateis com a mais de fua géte: & defébarcados étra- rão na fortaleza, & apartando dom Andre Baftião de foufa & os outros capitaés, lhes contou a grande mingoa que tinha de gente, & de manti¬ mentos, que erã tã poucos, que lhe não abaftarião dous mefes, & que não lhe podião ir outros dahi a feis mefes, & que a fortaleza era de madeira coufa muyto fraca, & que os ímigos a podião queimar húa noyte. E por¬ que não pude faber particularmente a concrufão que fe nifto tomou, nem ho confelho que fobrifto fizerão, né as rezões que derão ho não digo: fe não que fendo tantos Portuguefes que podião bem defender a fortaleza, a maior poder que ao delrey Daché, & tendo mantimentos narmada de
  • Hijtoria da Índia 23o Baftião de foula pera ho tempo que ho cerco poderá durar, defpejarão a fortaleza & a deixarão aos mouros: & tamanha foy a preffa de fe irem, que deixarão toda a artelharia, cuydãdo que corriã muyto perigo em a embarcarê, pola detença que niflo podião fazer: & afli deixarã a cafa da poluora chea dela, fem lhe poeré ho fogo primeiro por os Imigos não fin- tirê fua ida: pofto q é fe querédo ébarcar poferã ho fogo a hús formi¬ gueiros de poluora q ião dar na cafa do almazé dela, q começou de ar¬ der: mas os mouros ho apagarão logo. E quãdo virão a preffa que os Portuguefes leuauão polo rio abaixo, como homés que fugião, derão fogo a artelharia que lhes ficaua & tirarãolhe coela, dãdo coiffo grandes apu¬ padas: & afíi ficou elrey Daché pacificamente fenhor daquela fortaleza, tédo é muyto pouca cota os Portuguefes: & ficou tão foberbo, que dali a poucos dias tomou ho reyno de Pacem, porque ho gouernador dele vendo ir os Portuguefes não oufou de ficar fem eles na terra & leuou cÕ- figo el rey que era ainda moço. E delpois ganhou elrey Dachem ho reino Dauru comarcão defte: & elrey Dauru fugio pera Malaca, onde ele & ho de Pacé viuião muy probemente. E chegado dom Andre & Baftião de foufa ondeftauão os nauios, deteuerãofe tres dias: & defpois forãofe pera Malaca onde chegarão a faluamento. CAPITOLO .LII. De como el rey de Bintão mandou fa\er guerra a Malaca: & de como foy morto Anrrique leme & outros capitães. EL rey de Bintão que era Imigo mortal dos Portuguefes, não cuydaua nuca fe não como lhe faria guerra pera os deftruir & defarreigar de Malaca, pera o que de cotino fe apercebia. E tédo jutas oytenta & cinco lancharas fornecidas de muyta & boa géte, & dartelharia as en¬ tregou ao leu almirante Laqximena, pera que foífe fobre Malaca & lhe fizeffe a mais guerra que podeffe: & ele fe partio ao fazer. E indo húa tarde com fua armada ao logo da cofta oyto legoas de Malaca, foy vifto de Duarte coelho que ia é húa naueta fua a fazer prefas á cofta do reyno de Patane. E porque fabia que em Malaca não auia fofpeita daquela ar¬ mada porque não tomaflé os Portuguefes defapercebidos, como foy noyte fe fez na volta de Malaca: õde chegado cÕtou a Iorge dalbuquerq ao que ia. O que fabido por ele fez confelho, I que todos forão dacordo que fe foffe logo pelejar com aquela armada: porque não a desbaratando daria muyta opreífão á fortaleza andãdo no mar, & lhe tolheria os mantimétos que ião de fora: pera ho que logo partio dom Sancho anrriquez capitão
  • Livro VI, Capitolo Lll 231 mór do mar de Malaca, que foy em hú galeão de que era capitão leu jrmão dõ Antonio anrriquez, & forão coele Duarte coelho na fua naueta, & Manuel de berredo é húa galeota, & feis capitaés outros em feis lan¬ charas, que fe chamauão Anrrique leme, Francifco fogaça, Diogo louréço, Fernão daluares cafiados, Iohão de foria, & Afonío luys, & partio cami¬ nho do rio de Muar onde eítaua Laqueximena cÕ toda fua armada, & dõ Sãcho, Duarte coelho, & Manuel de berredo, porque os feus nauios erão grandes ião ao mar, & as lancharas muyto perto da terra, & indo afli armoufe húa toruoada do noroefte que lhes feruia a popa: o q vendo dom Sancho amainou & fez linal de confelho. E jútos os capitães, lhes propos dom Sancho como aquelas toruoadas vinhão com muyto grande vento, & pera entrarem no rio de Muar que era largo & fundo, fe a agoa deceífe faria tamanho efcarceo que os meteria no fundo, & mais q era tarde: por iífo lhe pareceria bé meteréfe no rio de Cação que era pe¬ queno, & eftaua primeyro q ho de Muar. Os q erão ãtigos naqla terra & fabiao be da guerra forã todos daquele parecer, & dizião q fe fizefle afli: & os outros que auia pouco q vierão de Portugal & não fabião da guerra, diíferão, q aquilo era medo & que não fe auia de fazer. E por fere mais que os outros & terem mais vozes, fe alfentou em tomarem feu parecer: dizédolhe os outros que quando fe viíTem cõ os immigos, então fe faberia qué auia medo. E em partindo, & fendo mea legoa do rio de Muar desfecha a toruoada & dá na nofia frota: dom Sancho, Manuel de berredo & Duarte coelho que hião de largo amainarão, & os capitaés das feis lãcharas derão cõfigo dentro no rio de Muar, & tres ião diante com a força do vento rompendo pela grande muralhada que ho rio fazia, forão dar antre a armada dos immigos, de que logo algús os aferrarão, & como erã muytos & os Portuguefes poucos matarãnos a todos: & cõ ho prazer que os mouros receberão de ver os Portuguefes daquela ma- neyra & teré por certa fua morte, leuãtarão tamanha grita q retenia por tudo ao derredor: & apos ela desfecharão feus finos, bacias, & outros inftrométos, que iflò abaltara pera alagar os Portuguefes, quanto mais ho grande efcarceo da agoa que alagou a lanchara de Francifco fogaça, & Dãrrique leme, que com quãtos ião cõ ele forão afogados, & afli os de Frãcifco fogaça faluo ele, & outros tres: & a outra foy varar é húa vafa onde fe meteo toda, & valeolhe q era ja noyte & fazia efcuro, & por iíTo os mouros os não forão acabar de matar: & quis noflo Senhor dar tama¬ nho esforço a Francifco fogaça & aos outros tres, que fe pegarão na lan¬ chara encomendandofe a nofia Senhora, & afli como a chamarão com muyta deuação afli ela lhes valeo, que as mefmas ondas que alagarão a lanchara, a leuarão a borda da vafa é que a outra fora varar, & ajuntan-
  • 232 Hiftoria da Lídia doíe Francifco fogaça & íeus cõpanheiros que eftauão nela, vazarão a íua da agoa q tinha, & cõ trabalho Imenfo a poferão em nado eftando ja ho rio manfo, & fizeranfe preftes pera que em amanhecedo fe foflem pera ho galeão de dom Sancho, porque doutro modo não tinhão faluação fegúdo a multidão dos Imigos: que fintindo como eftes Portuguefes efta¬ uão no rio poferanfe a lerta pera em amanhecedo dare fobreles, & afli ho fizerão: que é faindo do rio com a luz do dia, efpedenfe cinco lãcha- ras dos mouros depos eles remando a boga arrancada, & alcançãdos no mar os abalrroarão, acometendoos com brauo impeto de gritas & fõ de inftrométos, & muytas frechadas, lançadas, & arremedos, a que os Por¬ tuguefes refiftirão com marauilhofo esforço, & leuando fadiga grandidima em fe defender, & matãdo & ferindo muytos dos mouros, & morrédo deles algús & ficando feridos muytos, fe defembaraçarão dos mouros & fe acolherão ao galeão de do Sancho, que fabendo ho que paflaua man¬ dou recolher ao galeão os feridos, de que hú foy Francifco fogaça. E querendo dom Sancho vingar aquele dano, fem mais cõfelho mandou a Manuel de berredo, & ao capitão da lanchara de Francifco fogaça, que foffem furgir na boca do rio de Muar, parecendolhe que abaftarião pera deteré os Imigos que não faiíTem do rio, & que entretanto veria veto (porque era calma) & ele, & Duarte coelho fe iriã ajuntar coeles, & de- fenderião os immigos que não faiíTem do rio, & mãdaria recado a lorge dalbuqrque, que lhe mandafie focorro pera pelejar coeles: & Manuel de berredo & ho outro capitão, com quãto virão que dom Sancho lhes man- daua coufa muyto defarrezoada, porque pera a grãde multidão dos immi¬ gos, claro eftaua que ho perigo era muyto certo, & porque não pareceife que ho temião forão, porem ainda bem não chegarão a boca do rio, fem lhe os mouros daré lugar pera íurgirem os aferrarão, & em muyto pouco efpaço os fumirão matandoos a todos, & tomarã a galeota & a lanchara: & coeftes, & com os que morrerão dentro no rio afogados & a ferro, forão por todos fefenta & cinquo Portuguefes, & ãtreles morreo afogado Anrrique leme muyto esforçado caualeyro como atras difle, & dos das fuftas que fe alagarão fe faluou anado hum Thome lobo, que fe foy por terra a Malaca, & pos noue dias no caminho por andar de noyte fomente, & ainda pouco com medo dos Reymões, & doutras muytas & feras ali- marias que ha pola terra: & pola ocupação que os mouros teuerão em matar Manuel de berredo & os outros, não entenderão em dom Sancho, & em Duarte coelho, que fe os cometerão ouuerão de pafTar mal, ou per¬ der as vidas fegundo os mouros eftauão vitoriofos. E vendo dom Sancho a coufa como paífaua, & que não podia fazer nada que preftaífe contra os immigos, acolheofe pera Malaca com ho veto que lhe fobreueo. E La-
  • Livro VI, Capitolo LIII 233 queximena como era fabedor na guerra, & conhecia que o dano que fizera aos noífos fora mais por defaftre de mao regimento, que por couardia dos Portuguefes, & esforço de fua gente contentoufe com ho feyto, & não querendo efperar a vingança que os Portuguefes quererião tomar do paf- fado, partiofe pera Bintam. CAPITOLO .LIII. De como foy tomado hã nanio na cidade de Pão, onde forão mortos algfis Portuguefes. TOrnando dom Sancho a Malaca quifera tornar a bufcar os mouros, & por faber que erão idos fe deixou eftar. E Iorge dalbuquerque deu licença a hú Antonio de pina, moço da camara del Rey de Portugal, que foffe em hú jungo feu á ilha de Iaoa, a fazer fazenda fua & de partes, & forão em fua companhia tres Portuguefes, de que hú 1'e chamaua Bernaldo drago homé antigo em Malaca. E tornandofe da Iaoa pera Malaca, arribou com tempo á cidade de Pão fituada na cofta perto de Malaca, cujo rey fendo amigo dos Portuguefes, el rey de Bintão tomara por genrro dandolhe húa fua filha por molher: & a caufa que ho moueo a efte parentefco foy porque efte rey fizeífe guerra aos Portu¬ guefes q cõtinuauão muyto ho feu porto & a cofta do feu reyno. E efte cafamento foy muyto fecreto, porque em quãto não fe foubefle el rey de Pão fizeífe muyto dãno aos Portuguefes fecretaméte. E fem eles faberem a caufa como paffaua foy Antonio de pina ter ao porto defta cidade de Pão. E cuydãdo ele q el rey era amigo dos Portuguefes como dãtes, mã- dou a terra bufcar mãtimétos. E fabédo el rey como ho júgo eftaua no porto, mãdou pregútar a Antonio de pina, fe lhe era neceífaria de fua cidade mais algúa coufa, & q lha mãdaria dar de boa võtade, & mãdou- lhe muyto refrefco: & aqla noyte defpachou fete lãcharas cõ dozetos & oytenta homes de peleja, afora os remeiros, que erão ho dobro: que em amanhecendo abalrroarão ho jungo per todas as partes. E Antonio de pina, Bernaldo drago, & os outros dous Portuguefes pelejarão ate que mais não poderão, & defpois de mataré algús dos Imigos, foy morto ho fcriuão do jungo: & Antonio de pina, Bernaldo drago, & outros dous Portuguefes forão catiuos, & ho jungo tomado com quanto tinha, & tudo foy entregue a el rey de Pão, que muyto ledo mandou logo os catiuos a el rey de Bintão: que defpois lhes cometeo q fe tornafle mouros, fazendo- lhes grandes ameaças fe ho não quifeffem ler. E eles com muyta conftan- cia lhe refponderão que fizeífe ho quifefie, porque não auião de deixar a Tomo 111 3e
  • 234 Hijloria da índia lua Iey q era a verdadeira, por tomarem a fua feita que era toda falli- dade. E vendo el rey q eftauão firmes é feu propofito, mãdou meter cada hú por fi é húa bõbarda & defparar coeles, & alíi forão efpedaçados por confelfarem a noífa fanta fé, & morrerão mártires. E difto não fe foube em Malaca da hi a hú bom tempo. CAPITOLO .L1111. Dc como foy morto Andre dc bryto no porto dc Pão & outros Portu¬ guefes. E antes de ler fabido mãdou Iorge dalbuquerq a dom Sãcho que folie fazer prefas á cofta de Patane, & foy no galeã de que era capitão dom Antonio feu jrmão, em que leuaria bem trinta Portuguefes: & é outro nauio, foy Ambrofio do rego, que leuaria outros tantos: & ele partido, chegou da Índia a Malaca Andre de brito, que ia na fua nao que ja diífe atras. E como leuaua húa licença do gouernador que trataífe por onde quifelfe, cõ aprazimento de Iorge dalbuquerque fe partio pera Sião, leuando configo em fua companhia ate doze Portuguefes, & de caminho tornando de Sião furgio em Pão pera tomar mantimétos. E fabendoo el rey, mandou fobrele fuas lancharas, de q amanheceo hú dia cercado: & por os Portuguefes ferem poucos, forã logo abalrroados, mas fobre a en¬ trada dos mouros na nao, foy coufa efpantofa ver como os Portuguefes a defendião, ferindo hús, & matado outros, & não auédo parte na nao a q não acudiffem com prefteza marauilhofa: poré como erão poucos, & os mouros fem conto, que podião pelejar em roda viua, porq canfando hús etrauão outros, ho que os Portuguefes não podião fazer, começarão de cair hús mortos, outros quafi, das muyto grãdes feridas que tinhão, & affi forã poucos & poucos, ate que não ficou mais que hú jrmão Drande de brito (a que não foube o nome) q pelejaua com húa efpada dambas as mãos, com que fez coufas tão marauilhofas, q os Imigos cuydauão que era diabo, porque duas vezes axorou a nao deles com efpãtofa matança, & da fegunda védofe tão desfalecido das forças & tão canfado, que não fe atreueo a defcderfe mais, & por não fer catiuo, ou morrer a mãos dos mouros, atou muyto depreffa nos pés duas camaras de falcão & deitoufe ao mar: & deitado, tomarão os mouros a nao. E ifto foube defpois por hum Francifco de brito Chriftão da terra, que ia na mefma nao por fey- tor & lingoa Dandrade de brito, que por fer da terra ho não matarão os mouros, & foy defpois ter a Malaca.
  • Livro VI, Capitolo L V 235 CAPITOLO .LV. De como dõ Sãcho ãrrique& dõ Antonio ãrrique\ forão mortos no porto de Pao, & lhes foy tomado hã galeão. DOm Sacho que partio de Malaca, pera Patane cõ Ambrofio do rego chegou lá em paz, & defpois de fazer ao que ia, que não conto por extenfo polo não faber, tornoufe com Ambrofio do rego, & leuando a rota de Malaca: apartaranfe com hú temporal que lhes deu, & Ambrofio do rego que ia mais ao mar que dõ Sãcho feguio auante, & dom Sancho que ia mais á terra arribou, & foy tomar a barra de Pão õde furgio, cuydãdo que el rey era ainda amigo dos Portuguefes, & fe deixou eftar ate ho outro dia que abonançaífe ho tépo. E eftãdo ali ho mandou el rey vifitar com hú prefente pera faber quem era, & fabendoho ho tornou a mãdar vifitar com mais mageítade, mandandolhe a boa ora de fua vinda com muytos offrecimentos damizade, & algúas vacas & bu¬ faras & outros mantimétos, & tudo ifto foy ceuo pera ho tomar. E foy acerto que ao dia dantes fora ali ter Laqueximena, & determinando de tomar algús nauios noffos que fabia que tomauão aquele porto, meteofe dentro no rio & tinha efcondida fua armada, que era de trinta lancharas: & fendo auifado por el rey, de como dõ Sancho eftaua na barra, fayolhe em amanhecendo leuando em fua companhia dez lancharas del rey que erão corenta em que ião mil & duzentos homes de peleja, & os Portu¬ guefes erão trinta. E quãdo dom Sancho vio tanta géte fobrefi & que não tinha nenhú remedio fe não pelejar, diffe aos Portuguefes: Cõpanheiros com a efperança em noífo Senhor que nos dara esforço, não temos ou¬ tra faluação fe não pelejar bem, & da fua parte vos peço que queirais ãtes morte cõ honrra que catiueiro cõ vitupério. E coifto repartio aqles trinta é ambos os bordos do nauio, & a proa deu a feu jrmão, & ele ficou na popa, & em cada parte delias auia fete homes, faluo na proa & popa que auia oyto é cada húa, & os Imigos que os virão tão poucos começarão de gritar com prazer de os terem por mortos: & apartandofe quatro lancharas cercarão ho nauio polas quatro partes que digo, afer- rãdo por todas elas, & começafe húa medonha peleja, os mouros por en¬ trar, & os Portuguefes por lho defender: & ellas quatro lancharas efte- uerão hum pedaço aferradas fem a géte delas poder entrar no nauio, & foy morta algúa parte dela, & dos noffos muyto feridos & algús mortos: & não podendo os mouros mais fofrer a batalha apartarão fe pera che¬ garem outros de refrefco. E dõ Sancho vendo que fe os feus eíteueffem
  • 236 Hijloria da índia afli repartidos q os auião os mouros de desbaratar mais afinha, recolheos todos á tolda, porque ali tinhão mais com que fe fortalecer, & fe vinga- rião melhor dos immigos antes que morreífé, & alfi foy, que matarão tantos que ellauão hús fobre os outros: mas como os mouros erão fem coto, & entrauão hús de refrefco cada vez q outros cãfauão, & eles não podião fazer outro tãto: carregarão fobre eles tãtas feridas q muitos mortos delas, & outros de fracos do muyto fãgue q tinhão perdido, & cãffados do Iméfo trabalho da peleja cairão todos, & affi teuerão os mou¬ ros lugar de os étrar, & acabarão de matar os q eftauão meos viuos, que a nenhú perdoarão polo grãde dano que tinhão feyto nos Imigos: é cujo poder ficou ho nauio cõ muyta & boa artelharia q leuaua. CAPITOLO LVI. De como Iorge dalbuquerque mandou pedir /ocorro ao gouernador da índia & llio mandou. E de como ho gouernador foy ínuernar a Or- mu{. AMbrosio do rego como ho temporal que diffe q dera a ele & a dom Sancho indo de Patane arribou como difie, & foy por outro cabo ter ao eftreyto de Cincapura, onde efperou fete ou oyto dias por dom Sancho, & vendo que não ia pareceolhe que feria paliado, & q paífaria de noyte, & por iífo fe foy pera Malaca, onde tão pouco não achou noua dele: pelo que Iorge dalbuquerque, & dom Garcia anrriquez, que era chegado de Maluco prefumirão que feria morto. E nifto chegou Baftião de foufa, & [dom Andre ãrriquez, com todos os outros que ião de Pacem: & cõ a noua da perda daquela fortaleza foy grande trilteza em Malaca, por as coufas dos Portuguefes irem em tãta declinação na¬ quelas partes, & as dos mouros em tanto crecimento, & por el rey Da- ché fe ir fazendo tão poderofo que era quafi outro rey de Bintão, & ãbos eílaua certo darem muyta opreífão a Malaca. E porque Iorge dalbuquer¬ que fe temeo que el rey de Bintão mandafle fua armada correr a Malaca, com que lhe tolheria os mantimentos, mãdou a do Garcia anrriquez que fe foífe poer fobre a barra de Bintão, & que lhe fizefle todo ho mal que podelfe, & trabalhalfe porque a fua armada não faifle, & deulhe quatro velas, de que foffe por capitão mor .f. dous nauios ele capitão dum, & Aires coelho do outro, & dous caraueloes, a cujos capitaés não foube os nomes. E nefte tempo por fer ho mes de Dezembro que era moução pera índia, fe partirão algús nauios pera Cochim, em que Iorge dalbuquerque fcrcueo ao gouernador a guerra que auia em Malaca, & a necefiidade em
  • Livro VI, Capitolo L VII 23j que ficaua, aííi de gente, como de nauios, & todo ho mais que acontecera aquele anno em Malaca: & aífi lhe efcreueo como Antonio de brito não queria eftar mais na capitania de Maluco, pedindolhe que lha deffe pera dom Sancho feu genrro, ou pera dom Garcia feu cunhado, fe ele fofle morto: & tão bem lhe mandou hú maço de cartas Dantonio de brito, em que lhe pedia q proueífe Maluco de capitão, por ele fe achar doente, & enfadado naquela terra. E partidos os nauios que leuauão efte recado, chegarão a Cochim onde acharão hogouernador apercebendofe pera tor¬ nar a Ormuz. E fabendo a noua de Malaca, & ho que lhe Iorge dalbu- querque fcreuia, deu a capitania mór do mar de Malaca a hum fidalgo chamado Martim afonfo de foufa, jrmão de Iohão de foufa, fenhor da Ericeira, & ordenoulhe húa armada que leuafie de fete velas .f. tres na¬ uios redondos, de que forão capitaés ele, Andre de vargas, Aluaro de brito, & quatro fuftas, capitaés Antonio de melo, Andre diaz,Vafco lou- renço, & outro aque não foube ho nome, & deulhe duzétos Portuguefes. E defpachada efta armada partiofe ho gouernador pera Ormuz onde auia dir inuernar, pera arecadar ho dinheyro que Raix xarafo ficara deuendo a el rev de Portugal & ás partes, & leuou os galeões que não feruião na índia ho tempo que auia deitar em Ormuz por fer nela inuerno: & dei¬ xou a armada de remo que era necefiaria pera goardar a coíta, que não fe vazafle a piméta da coíta do Malauar: & efta deixou a dom Luys de menefes feu jrmão, com os poderes de gouernador em fua aufécia, & regimento que inuernaffe é Cochim, por eftar mais perto de Calicut: de cujo rey auia algúa fofpeyta q fe leuantafle cotra a fortaleza. CAPITOLO .LV11. De como partirão opto mos, & corenta parais, de Calicut carregadas defpeciaria pera Meca. VEndo os mouros de Calicut ho grande defcuydo do gouernador, que os não caftigaua por nenhúa coufa de quantas fazião, cobrarão muyto mais esforço do q tinhão pera fazer guerra aos Portugue¬ fes, & confelhauão a el Rey que fe leuãtaffe cõtreles & quebraífe a paz, pera ho que fizerão acabar muytos paraós, & oyto naos muyto grandes, que auião de carregar pera Meca naquela moução: & auião dir em fua goarda corenta paraós também carregados, & ifto fem pedirem licença a dom Luys, o q era cotra o cotrato das pazes: & a fora iífo determi- naua el rey de Calicut de mãdar húa grãde armada a pelejar cõ os Chriftãos de Crãganor: & da hi fendo tempo ir fobre Cochí, & ele auia
  • 238 Hijioria da Índia dir por terra pera tomar a cidade a ei rey de CochI como 5 outro tépo fizera hú feu ãteceffor como diffe no liuro primeyro. E quis noffo fenhor q tudo ifto foy fabido por dõ Ioão da filueira capitão de Gananor q ho efcreueo a dõ Ioão de lima capitão da fortaleza de Calicut q logo mãdou chamar CogebequI & dele foube q era certo, & q as naos & paraós q auião dir a Meca auião de fayr pelo rio de Chale (q faz a terra é ilha) por não leré viftas da noffa fortaleza. E pera mais credito foy moftrar eftes nauios ao feytor de Calicut: & coefta certeza ho mãdou dõ Ioão de lima dizer a el rey de Calicut eftranhandolho grandemête pois era cõtra as pazes. E el rey lho negou juftificandofe muyto. E cÕ tudo dõ Ioão m㬠dou fõdar ho rio de Chale, & achando q tinha fundo & largura pera en- traré nele galés & outros nauios, efcreueo todo o q paffaua a dõ Luys, confelhãdolhe q antes de fayr ho inuerno fe metefie no rio de Chale & tomafie as naos & paraós quando fayfem: porq fazédo ho adi atalharia aos péfamétos q el rey de Calicut tinha de fazer guerra á fortaleza. Mas dõ Luys não quis tomar efte cõfelho, pofto q era muyto bÕ, & as naos & paraós partirão pera Meca, onde forão ter carregadas de muyta efpecia- ria & droga, & affi forão outras muytas naos de todos efTes portos de Calicut fem auer quem lhes contrariafle. CAPITOLO .LV111. De como os mouros de Bintão queymarão no porto de Malaca ho nauio de Simão dabreu & matarão quantos ejlauão coele. COmo quer q todos os mouros comarcãos de Malaca foíTem muyto amigos del rey de Bintão na hora q ele fazia guerra a Malaca, fe leuantauão logo & não leuauão mantimentos á fortaleza, nem os de fora q lhos leuauão oufauão de lhos leuar cõ medo da armada del rey de Bintão q os nã tomaíTe: & por iffo como el rey de Bintão come¬ çou a guerra, começarão logo de faltar os mãtimétos. E porque quanto a guerra folfe em mayor creciméto eftaua certo faltarem mais, & não os poderem ir bufcar por amor dos immigos que andauão no mar: quis Iorge dalbuquerque mandalos bufcar cõ tépo, & como dõ Garcia q ho ouuera de fazer era a Bintão, pedio Iorge dalbuquerq a Garcia chainho feytor q ho fizeffe, affi por fer caualeyro muyto esforçado, como por fer defpois dele a fegúda peífoa na fortaleza. O q ele aceitou de muyto boa võtade pofto q a ida era perigrofa, & por não auer nauios em Malaca mais que ho em q Simão dabreu fora de Maluco, & hú jugo del rey que não feruião pera a ida, leuou quantas manchuas & balões auia em Ma-
  • Livro VI, Capitolo L VIII 23g laca que fam como boas almadias, & neftas acompanhado de algús Por- tuguefes fe foy ao longo da cofta ate ho rio de Muar cinco legoas de Ma- laca onde auia de bufcar os mantimentos. E andado os bufcãdo acertarão de chegar a Malaca quatorze lancharas del rey de Bintão, cujo capitão mór fabendo quão defapercebida eftaua a fortaleza, affi de gete como de todo genero de nauios de remo: & q no porto eftauão algús nauios grã- des, determinou de os queymar, pera o q entrou em rõpedo a alua fefta feyra dedoéças na baya da ilha das naos, a cuja fombra ho nauio de Si- mão dabreu eftaua furto, & ele eftaua détro cõ treze Portuguefes q cada noyte ya dormir ao nauio. E como era ja no quarto dalua em q ele & os feus eftauão defuelados dos outros quartos adormecerão, parecédolhes q eftauão feguros de rebates dlmigos, & por iffo não fintirão os mouros, q fe os fintirão defenderão cõ a artelharia que lhes não chegafiem como chegarão, & os forão aferrar quatro grandes lãcharas. E nifto forão finti- dos por Simão dabreu q bradou aos feus q acodiífem, & todos cõ fuas efpingardas acodirão muy preftes, & os q as não tinhão remeterão aos berços do nauio & defparãnos nos mouros que aífomauão ja aos bordos, & dão coeles nas fuas lancharas feytos em pedaços, & eftes efcarmenta- rão os outros de tal maneyra que não prouarão mais dentrar no nauio, & das fuas lancharas pelejauão com os Portuguefes muy brauaméte. E foy milagre euidente de noffo fenhor não os entrarem logo fegúdo erão muytos & eles poucos: & affi durou a peleja hú pedaço em que morre¬ rão algús Portuguefes & dos mouros muytos. O q vendo ho feu capitão moor, & q fe a peleja foffe auante daquela maneyra que lhos matarião todos bufcou outro ardil pera acabar mais afinha de matar os Portugue¬ fes & queymar ho nauio, & foy mãdar poer ho fogo a hú júgo que eftaua lem géte & fem carrega: & ho fogo bem acefo como a maré vazaua mandoulhe cortar as amarras & foftelo cõ cabos q lhe tinhão dados ate ho ajuntarem ao nauio de Simão dabreu, fem ele né os de fua companhia poderem refiftir q nã chegafTe a eles. E defpois de chegado os immigos ho atoarão á mefa da goarnição do nauio, & a outras partes pera que fe fofteueffe: & núca lhe os Portuguefes poderão contrariar por amor das muytas frechadas & efpingardadas q lhes os immigos tirauão: & també por amor delas os Portuguefes não poderão cortar as abalrroas com q ho nauio eftaua abalrroado, pofto q fobriflo morrerã quafi todos: q foy muy piedofa coufa de ver morrerem affi hús homés fem fe poderé defender: & muyto mais defpois q ho nauio começou darder juntamente cõ ho jungo que fazião húa efpantofa & medonha labareda com foarem détro os grandes gritos que dauão algús Portuguefes que ainda eftauão viuos: a que Iorge dalbuquerque não podia mandar focorrer por não ter
  • Hijioria da índia 240 em que fofle ho focorro, que tudo o que em que podia ir era fora como diffe: pelo que ele eftaua muyto trifte & tinhafe por mofino de lhe ma¬ tarem afli aqueles homés diante dos olhos fem lhes poderem valer. E como a magoa q tinha era grande, pareceolhe q lhes poderia mandar focorro em hú giropanco nauio da Ioao (que ferue de leuar mantimétos) que né tinha mafto nem velas, & com a preífa do focorro fem lhe man¬ dar meter artelharia, nem lhe lembrar que eftaua defaparelhado mandou embarcar nele obra de trinta Portuguefes de fetenta que teria, & mãdou- lhes que foífem focorrer ao nauio que começaua darder: & eles como erao obedientes & por não parecer que por medo ho deixauão de fazer fe embarcarão com quanto vião ho perigo em que yão por não leuarem artelharia & ho Giropãco ir tão defaparelhado como ya, & que eftaua certo matarénos os mouros fem poderem focorrer ao nauio: o q enten¬ dendo também hús dous capelães da fortaleza, reqrerão a Iorge dalbu- querq da parte del rey q não mãdafle os homés q mãdaua no giropãco, dãdolhe as rezÕes q digo pera os não mandar, & mais que ficaua tão pouca géte na fortaleza q mortos aqueles a gente da terra a tomaria & a daria a el rey de Bintão. E ele eftaua tão agaftado que não queria ou- uir nem entender ningué, & fez embarcar os trinta cÕ grãdes brados. O que eles fizerão, & como ho giropanco, nem tinha vela nem remos aco- dia mal ao leme & fazia muytos lós, & com hú que fez foy dar em 1'eco que parece que foy coufa de nofib fenhor porque fe chegara ondeftauão os inimigos todos ouuerão de fer mortos. E vedo Iorge dalbuquerque ho giropanco em feco mandou defembarcar os q yão nele: & entre tanto os que eftauão no nauio que ardia vendo que não podião efcapar lançaranfe ao mar cuydando que fe faluarião, & nele forão mortos polos immigos, & ho efcriuão do nauio que auia nome Francifco fernandez cuydando de lhe ir focorro, & que efcaparia não fe quis deitar ao mar & lobiofe na gauea & da hi ao maftareo, donde por derradeyro fe deitou ao mar & foy morto polos immigos que com ho prazer da morte dos Portuguefes fazião grandes alegrias, & afli com verem arder ho nauio & ho júgo que arderão ate horas de vefpera fem ficar nada dçles do que parecia fobre a agoa: do que os mouros ficarão muyto foberbos & teuerão os Portu¬ guefes em muyto pouca conta por lhe não poderem acodir. E ifto ganhou Iorge dalbuquerq de mandar fora toda a gente que tinha em tempo que lhe corrião os immigos, & por derradeyro Garcia chainho não trouue mantimétos que mataífem a fome dez dias & a fua ida fez tamanha perda.
  • Livro VI, Capitolo L1X 241 CAPITOLO .LIX. De como Laqueximena tomou na barra de Bintão dous carauelões da conferua de dom Garcia anrrique\. INdo as coufas dos Portuguefes de cada vez peor neftas partes dom Garcia anrriquez que eftaua fobre a barra de Bintão fazialhe quãto mal podia, & nã faya ne entraua vela nenhúa q ele na tomaífe, & fazia algús faltos e terra, o que el rey de Bintão fintia muyto & fe auia por muy injuriado, & tinha por mayor feyto efte de dõ Garcia que quã- tos os feus tinhão feytos contra os Portuguefes, & aqueixauafe cõ Laque¬ ximena de não tomar aqueles quatro nauios, & ele lhe dizia que não auia ainda tempo: porque era neceífaria muyta induftria pera os tomar, por¬ que por força não podia fer por os Portuguefes terem muyta auantagem aos Malayos, & que as fuas vitorias forão por defaftre & nã por eles ferem tão bõs homés de peleja como os Portuguefes. E Laqueximena trazia grandes efpias fobre dom Garcia pera ver 1'e ho podia tomar em difcuberto, ate que hú dia foube que fazia agoada em húa ilha junto da boca do rio de Bintão, & que os nauios grãdes erão os que tomauão agoa, & os carauelões eftauão em vigia: & como ho foube fayo do rio com algúas lãcharas de fua armada, mandando aos feus capitães que fe por ventura os dous carauelões os cometeffem que fizeffé que fugião ate os leuarem perto da boca do rio onde ficaua a outra armada com que os tomaria. E aífi ho fizerão, & como os capitães dos carauelões virão que as lancharas erão poucas, & eítauã coftumados a leuarem ho melhor de¬ las, cuydarão de fer affi daquela vez. E dãdo ás velas remeterão a eles, tirandolhes com fua artelharia, & os mouros como eftauão auifados de Laqueximena fizerão volta como que fugião. E os Portuguefes cuydãdo que era afli feguiãnos, & com ho vento que era frefco chegarão mais aíi- nha do que quiferão á boca do rio ondeftaua Laqueximena, que logo fayo com as outras lãcharas a remo com que cercou os carauelões & os afer¬ rou & entrou com fua gente, de que fe os Portuguefes começarão de de¬ fender com muyto esforço, mas aproueitoulhes pouco: porque temendo Laqueximena que acodiífe dõ Garcia & que lhos tiralfe das vnhas fe os achaífe fora do rio: em fe começando a peleja mandou a certas lancha¬ ras que rebocaífem os carauelões & os meteffem no rio, porque polos baixos q tinha bem fabia que dom Garcia não auia de poder entrar nele com os nauios por ferem dalto bordo, & os Portuguefes com ho tento da peleja não fintirão que os leuauão fe não quãdo fe acharão dentro no rio. 3i To«o III
  • 242 Hiftoria da índia E ifto fe fez tão depreffa q dom Garcia lhes não pode valer, poíto que logo acodio, mas deteuefle algú tanto em leuar a ancora fobre q eftaua lurto: & ifto foy caufa de ele nem Aires coelho chegarem a tempo, & ele fe agaftou tanto de ver leuar os carauelões, que aífi como ia á vela mandou meter ho nauio pola boca do rio bé contra vontade do piloto, q dizia que fe perderia, & afli ouuera de fer por ho rio fer é canais muyto cftreitos & em voltas & ter raftingas & arrecifes em q logo ho nauio foy varar, & por grãde milagre fayo. E fe Laqueximena não temera a fua artelharia, também ho tomara, mas vingoufe c tomar os dous carauelões com morte de quantos eftauão dentro que véderão muyto bé fuas vidas com morte de muytos mouros: mas ho prazer dos viuos foy tamanho de tomarem afli eftes carauelões & mataré quãtos yão dentro, que não efti- marão os mortos. E el rey de Bintão mandou fazer por iffo grandes fef- tas. E vendofe dom Garcia com aqueles dous carauelões perdidos, não quis ali mais andar & tornoufe a Malaca onde achou feyto ho grãde dãno que diflé. CAPITOLO .LX. De como el rey de Bílão mandou cercar Malaca por mar & por terra. VEndo el rey de Bintão quã bé lhe focedia a guerra q tinha cÕ os Portuguefes, determinou de lha fazer mais apertada por mar & por terra: parecédolhe q poderia tomar a fortaleza, pera o q mã- dou vlte mil homés, quatro mil q auião dandar por mar cõ Laqximena, & defafeys mil q auião de cercar Malaca por terra, de que deu a capita¬ nia mór a hú Português arrenegado q andaua coele q fe chamaua Aue- lar dalcunha. E chegados eftes a Malaca defembarcou ho Auelar é Hupe, õde affentou fuas eftãcias: & Laqueximena ficou no mar goardando ho porto que não entraflem nenhús mantimentos nem nenhús nauios outros. E Iorge dalbuquerque não lhe podia refiftir por não ter mais de dous na¬ uios, nem menos tinha géte, porq não aueria mais q ate oitéta Portugue¬ fes : pofto que auia muytos piães da terra a foldo del rey de Portugal: mas dos Portuguefes fe fazia conta pera coufa de feito. E per eles repar- tio Iorge dalbuquerque as eftancias pera as defenderé, & eftas erão da pouoação dos Portuguefes q eftaua fora da fortaleza antrela & a pote por onde fe feruião pera a pouoaçã dos quelins. E porq não foube como eftas eftãcias forão repartidas ho não digo. E erão os Portuguefes tão poucos pera goardaré a fortaleza & as eftãcias, que em algúas não auia mais que tres Portuguefes, fe não que tinhão configo muytos piães da terra. E com quanto erão tam poucos eftauão muyto esforçados pera refiftir aos
  • Livro VI, Capilolo LX 243 Imigos. E na cidade dos Quelins não pos Iorge dalbuquerque eftãcias, afli por não ter géte pera ifTo, como por fer cercada de muros de pao pola parte por onde os Imigos a podião cometer: & eftas a gente da terra as vigiaua de noite. E defpois de ho Auejar affentar fuas eftãcias, man- daua cada dia correr á cidade dos Quelins: & cada dia tinhão peleja com os Portuguefes, em que morriã muytos dos Imigos: & os Portugue- fes tinhão Imenfo trabalho com pelejarem cada dia, & vigiaré cada noyte, & morrere de fome, que não comião mais q arroz cozido c agoa: & quaíi todos eftauão doctes afli do trabalho & da fome, como de feridas. E era coufa de milagre poderem pelejar, & defenderfe aos Imigos, q erão tan¬ tos & tão folgados. E porq o Auelar ifto fabia fe queixaua muyto cõ os feus como nã fazião nada cõtra homés tão desbaratados: & húa noyte determinou détrar á cidade dos Quelins, cujos muros fabia q eftauã po¬ dres, & mãdãdo leuar muytos efcopros & maços foy cometer ho muro no quarto da modorra, de q cõ os efcopros foy derribado hú lãço dobra de fefleta pados: & como fazia efcuro nã forão viftos das vigias, fe não quãdo virão cair ho pedaço do muro q cayo cõ grande arroydo: & é caindo entrarão logo os Imigos, & acharã muytos dos da terra q acodi- rão ao eftrodo do cair do muro, & eftes forão todos mortos, & dali fe meterão algús a roubar. E nifto foy dado repiq na pouoação dos Portu¬ guefes, & dos primeyros q acodira foy Nicolao de fá q agora he conta¬ dor dos cotos del rey nolfo fenhor, que poufaua junto da ponte & leuaua cõfigo tres efplgardeyros Portuguefes, & afli acodio Aires coelho, & quãdo chegarão acharão os piães da terra pelejando cõ os immigos, & defédião q não étraffem por aqle portal mais dos q tinhão entrado, & os Portuguefes q digo os ajudarão cõ fuas efpingardas, de modo q os de- teuerão q não entraífem, & acodio a gente que eftaua nas eftãcias. E como os immigos fintirão a géte que acodia, foranfe leuando algús cati- uos, & os que ficauão nas cafas a roubar forão defpois todos mortos. E afli liurou noffo fenhor a fortaleza de fer tomada, que ho fora fe os im¬ migos entrarão todos na pouoação dos Quells. E como foy manhaã Iorge dalbuquerque mandou refazer ho boqueyrão do muro. E defpois difto tornarão os immigos a perfiar fe poderião étrar, mas não poderão, por¬ que os Portuguefes lho defendião, & durou efte cerco ainda hum mes: & porque dali por diante podia chegar focorro da índia leuantarão os immigos ho cerco da terra & foranfe a Bintão, & os do mar ficarão ainda algús dias ate que também fe forão.
  • 244 Hiftoria da índia CAPITOLO .LXI. De como Martim Afonfo de fonfa foy fa^er guerra a el rey de Bintão, & aos reys de Pão & de Patatie. MArtim Afonfo de foufa que ia pera Malaca chegou lá na fim de Iunho, onde achou que valia húa galinha cinco cruzados & hu ouo dous vintés & húa gãta darroz hu cruzado, & os homés q parecião deféterrados de nã teré cor, & fua ida deu grade alegria, afli aos Portuguefes como á géte da terra: & logo Iorge dalbuquerq lhe étre- gou a capitania mór do mar de Malaca, & a tirou a dom Garcia anrri- quez feu cunhado, a que a dera por morte de dom Sancho. E Marti Afonfo lhe deu húa prouifam do gouernador em q lhe daua a capitania de Maluco pera hú de feus cunhados. E por fe Iorge dalbuquerq defa- preífar da guerra del rey de Bltão, mãdou a Marti Afofo q fe foífe cõ cinco velas poer fobre a barra de Bintão dode não deixaria fayr a Laque- ximena, & tolheria q não entraffem por mar mãtimétos na cidade: & partio de Malaca cõ húa armada de cinco velas, de cujos capitães nã pude faber os nomes mais que a Vafco Louréço. E chegado á barra de Bintão elteue fobrela tres mefes em q lhe deu muyto grande oprefTam, tolhendo q não entrafle nenhús mantimétos nem mercadorias, & que não fayfe de dentro coufa nenhúa, que nem os pefcadores oufauão de fayr a pefcar. E em todo efte tempo nunca Laqueximena oufou de fayr a pelejar coele: & neíte tempo que Martim Afonfo ali andou lhe morreo algúa gente por fer aquela paragem doentia, & por effa caufa não quis ali andar mais & fe foy a fazer guerra a el rey de Pão pera vingar ho mal que tinha feyto aos Portuguefes, & ali queymou muytos jungos afli de Pão como da Iaoa, em que forão mortos bem feys mil mouros: & catiuou tãtos q nã ouue Português que a feu quinhão não ouueffe dez catiuos. E defpois de fazer deftruyção efpantofa foyfe aa cidade de Patane, cujo rey era tãbem im- migo dos Portuguefes, & no porto achou algús jungos que também quey¬ mou & antreles hum muyto grande que naquela hora chegaua da Iaoa, & vinha nele ho mefmo rey de Patane, que com bé duzentos mouros fal¬ tou ao mar com medo do fogo & todos forão mortos as lãçadas pelos Portuguefes. E vedo os da cidade elte deftroço no mar temerãfe de fer outro em terra, & por iffo defpejarão a cidade afli da mór parte da fazéda como de toda a géte: pelo q Martim Afonfo quando fayo em terra não achou com quem pelejar, & queymou a cidade toda ate não ficar mais que ho campo em que efteuera, & quantas ortas & palmares auia ao der-
  • Livro VI, Capitolo LXII 245 redor. E deixàndo ho nome dos Portuguefes com muyto credito & muyto temido por aqlas partes fe tornou pera Malaca, que efteue por hú tépo muyto profpera. CAPITOLO .LXII. De como foy começada a guerra ãtre Antoiiio de brito & el rey de Ti- dore: 6 de como foy morto Iorge pinto dajilua & outros. ATras fica dito como Baftião de foufa & Martim correa partirão de Malaca pera a ilha de Banda, õde chegarão ao lugar de Borinté & hi acharão Marti afonfo de melo jufarte q auia quatro mefes q eftaua de guerra co a géte da terra, em q milagrofaméte fe defendeo por não ter mais de fete Portuguefes & fetenta Iaos & Chis & os Imigos ferem muytos. E por não poder faber particularméte o q fucedeo nefta guerra a não efcreuo, & os Imigos como Baftião de foufa chegou alarga¬ rão logo ho cerco. E ficãdo Marti afonfo magoado da afrõta q recebera dos Imigos, pedio a Baftião de foufa q ho ajudafie a vlgar deles; do q fe ele efcufou, dizedo q ia fazer fua fazeda & fobrifto fe defauiarão ãbos q Baftiã de foufa fe apartou pera a cidade Dalutatã & hi fe apouíetou cõ Marti correa em húa tranqueyra que fizerão. E eftando afli chegou a Banda hum Gafpar galo é húa carauela de Maluco, que por mandado Dantonio de brito ia pedir a Martim Afonfo algúa fazenda & mantimen¬ tos de que tinha muyta neceflidade por amor da guerra q começaua com el rey de Tidore, pera o que lhe pedia q ho fofle ajudar co os mais Por¬ tuguefes quç efteueffem em Bãda, & que farião em Maluco muyto pro- ueito por auer aquele anno muyto crauo, & quando não teuefle manti¬ mentos que os tomaffe a quantos mercadores efteueffem em Banda, pera o que lhe mandou a carta dos feus poderes, em que lhe daua elrey a jurdição da ilha de Banda: & da hi a poucos dias q Gafpar galo chegou faleceo. E vagando a capitania da carauela, Baftião de foufa a quifera tomar & dala a hú Francifco de foufa feu fobrinho, dizendo q ele tinha ali jurdição por eftar por mãdado do gouernador da Índia, & Martim Afonfo ho não confentio & tomou ho leme & as velas da carauela pera fe ir nela a Maluco: como foy & leuou cõfigo outros dous ou tres júgos de Portuguefes, & foy coele Martim correa. E chegados á ilha de Ter- nate forão muyto be recebidos Dantonio de brito, que tinha defpachado hú fidalgo mãcebo chamado Iorge pito da filua natural Deluas pera ir fazer a guerra a el rey de Tidore em quãto fe ajuntauão os reys & fan- gajes q Antonio de brito tinha mãdado chamar a focorro, & eftaua em¬ barcado pera partir, & por Marti correa fer feu paréte fe foy coele a
  • 246 Hijioria da Índia terra, & deixado ho apoufentado fe partio em hú nauio, & ia coele em outro hú Lionel de lima paréte Dantonio de brito, & leuou hú batel & hú calaluz bé efquipados pera fazeré faltos c terra: & neftas velas irião bem corenta Portuguefes. E partido lorge pito foy furgir fobre ho porto da cidade de Tidore, & em pouco tépo lhe fez muyta guerra, tolhedolhe os mantimctos, & faindo muytas vezes é terra a fazer faltos de lhe cati- uar gente & tomar gado. O q el rey fentia muyto, príncipalméte a tomada dos mantimentos de q tinha grade neceffidade por a muyta gete q eftaua junta pera a guerra q efperaua: porq a fora os feus vaffalos, muytos vinhão por ho terc por homé fanto. E védofe el rey afli perfeguido de lorge pinto, inuetou hú ardil pera ver fe ho podia tomar, & foy meter em húa calheta q eftaua hú pouco afaftada da cidade húa boa armada de paraós que ficaua encuberta cÕ grande & bafto aruoredo q a cobria, & de noyte defpedio húa coracora pera ho mar, q em amanhecedo apare- ceífe da parte doutra ilha chamada Geilolo dõde lhe trazião mantimétos: pera q cuydãdo lorge pinto q a coracora os leuaua fe foffe a ela, & ela fugiria pera a calheta, em cuja entrada atraueffaua húa raftinga em q ho batel de lorge pinto por fer pefado encalharia, & fayrião os q eftauão détro & ho matarião. E pofto ifto é obra amanheceo a coracora no mar, & vedoa lorge pito cuydou q era de mãtimétos determinou de a tomar como tinha tomado outras, pera ho q fe foy em hú calaluz em que fazia aqles íaltos, & leuaua configo feis Portuguefes, & não quis dar rebate a Lionel de lyma parecêdolhe que ele fó abaftaua, & vendoho os da cora¬ cora ir pareles, fingirão q virauão as velas pera fugirem & que fembara- çauão, & nifto le deteuerão ate que lorge pinto foy perto: ,& então re¬ mando a boga arrancada fe acolherão á calheta onde eftaua a cilada, & entrou fem tocar na reftinga por demandar pouco fundo: & ho calaluz que demãdaua mais por amor da artelharia que leuaua encalhou em en¬ trando. E em os mouros da cidade ho vendo afii dão fobre ele cõ grandes gritas, & cercandoho por todas as partes tirauanlhe muytas frechadas, & arremefos fem conto. E com quanto fe ele vio em tamanho perigo, não lhe faleceo ho grande esforço que tinha, & esforçando os feus os aju¬ dou a defender tirando todos muytas lançadas & efpingardadas, mas não lhes aproueitou nada: porque os mouros erão tãtos que os ferirão tão brauamente q do muyto fangue que lhe faia das feridas enfraquecerão, de maneyra que ora hús, ora outros, cairão todos fem fe poderem ter. E nifto chegou Lionel de lyma em hú batel bem armado dartelharia, & fornecido de géte: & vendo ho calaluz naqle eftado não fe atreueo a focorrelo, & tornoufe pera ondeftauão os nauios. E fe apertára os immi- gos com a artelharia que leuaua, ainda faluara algús dos Portuguefes que
  • Livro VI, Capitolo LXIII 247 eftauão viuos. E vendo os mouros a pouca defenfão do calaluz entrarão dentro, & cortarão as cabeças aos Portuguefes, & a cincoenta ou feffenta mouros de Ternate que andauão com eles, & com as cabeças de todos enrramarão os feus paraós: & cõ grande prazer fe forão ao porto da cidade, onde forão recebidos del rey com outro tanto, por fe ver liure de tamanha opreífão. CAPITOLO .LXIII. Do que aconteceo a Martim afonfo de melo jufarte, cometendo hú lugar de mouros. SAbido efte defaftre por Antonio de brito, ficou tão agaftado que mandou logo chamar Lionel de lyma & que leuafie os nauios, & afii ho fez. E fe nefte tépo não efteuera junta na fortaleza a gete que era chamada pera a guerra, Antonio de brito defiftira dela, mas por fer junta profeguio auante. E e quãto fe Cachil daroes embarcaua coela, foy affentado que Martim afonfo de melo jufarte fofle com os nauios Por¬ tuguefes furgir fobre a barra de Tidore, & forão feus capitaés, Lionel de lyma, & Martim correa: & partindo húa noyte do porto de Talangane chegou em amanhecendo a Tidore, & furgio na calheta onde matarão Iorge pynto & os outros: & como auião ali deitar fem fazer nada ate ir Cachil daroes, determinou Martim afonfo com confelho dos capitaés & fidalgos, de ir dar em húa pouoação de mouros, que diífe hú Gafpar dal- meida que eítaua dali a húa legoa ao lõgo do mar q fe poderia queimar facilmente, & partio pera lá no quarto da modorra por não paliar de dia a vifta de Tidore, & fe foubefle onde ia, & com quanto partio afii cedo por ir contra vento & maré, era ja de dia quando paífou a vifta da cidade. Donde fofpeitando os immigos ao que ia lhe fairão em muytos paraós, que os noffos fizerão tornar voltado a eles ás bombardadas, & defapref- fados dos immigos forão furgir na pouoação, que não era mais de dez ou doze cafas com húa mezquita, & os mais moradores defpois que Gaf¬ par dalmeida vira aquela pouoação, fe mudarão pera ho pico de húa rocha muyto alta, cõ medo da guerra dos Portuguefes, & ali fe fortale¬ cerão: & pera eftrouarem a fobida aquem lá quifefie fobir contra fua von¬ tade, atrauelfarão dous paraós em dous paífos de húa vereda, que fe fazia muyto ingreme do pé da rocha ate o lugar, pera darem coeles pela rocha abaixo, & leuarem dencontro quantos fobiffem. E cõ quãto Marti afonfo vio que ho lugar era de muyto perigo na fobida, determinou de fobir pois ali eftaua, porque não pareceífe aos mouros que ho deixauão de fazer
  • 248 Hijloria da índia com medo: & porque ho tirar os papaós donde eftauão era ho mais, & quanto menos foflem a iffo tanto era mais feguro, acordarão que hú fó homem os foífe tirar, & efte foy Martim correa que fe ofereceo pera ho fazer, & foy: & por ho lugar eftar muyto alto, & os mouros terem tento no crepo da gente não ho virão fobir, & antes de chegar ao prymeiro paraó, foy ter coele hú clérigo que charnauão Gomez botelho, que def- forçado bufcou maneyra pera ir ter coele, & ajudalo a derribar ho pry¬ meiro paraó, & ho mefmo fez hú Francifco lopez bulhão, que os ajudou a derribar ho fegundo, & como efte eftaua mais perto do lugar, & ho eftrondo q fez indo pola rocha abaixo foy muy grande, fintirãono os mou¬ ros & acodirão a ver ho que era, vendo os tres pola rocha acima, & Martim afonfo cõ os outros ao pé dela pera fobir, começaão de facodir muytas pedradas, & de deitar grandes galgas, de que Martim correa, & os dous fe faluarão em húa lapa que fe fazia na mefma rocha: & ifto das galgas acabou logo, porque em fe os mouros moftrando, começão os efpingardeiros de Martim afonfo de tirar fuas efpingardas com que os fizerão recolher detrás de hú muro q tinhão daquela banda: & defemba- raçado ho caminho, começou Martim afonfo de fobir indo diante com feis ou fete homes & os outros apos ele. E vendo os mouros fua determina¬ ção, tornaranfe a defcobrir pera defenderem a fobida, & os efpingardei¬ ros tornarão a tirar, & hú que ia detrás de Martim afonfo tirou tão certo, que lhe deu pola efpadoa dereita, & paffando ho pelouro as armas etrou détro no corpo, & foy a ferida tão má que caio logo defacordado. E por efte defaftre tamanho não forão os Portuguefes mais por diante, & fe tornarão pera os nauios em que fe embarcarão com Martim afonfo, quei¬ mando primeyro a mezquita, & as cafas queftauão na praya. E dahi fe forão pera Ternate, por mandado Dantonio de brito. CAP1TOLO .LX1111. De como foy ferido Francifco de foufa, & outros Portuguefes. QUe dagaftado de quem mal lhe locedia a guerra a quifera de todo deixar, fe não fora por amor de Cáchil daroes, que vendoho afli lhe difte que ele queria fazer a guerra com a gente da terra, fómente'mandaífe hú capitão Português, com ate vinte Portuguefes de que le fizefíe cabeça: & que iria logo tomar hú lugar que fe chamaua Ma- riaco, principal lugar da ilha de Tidore: pera ho que lhe deu hú fidalgo chamado Francifco de foufa, & vinte Portuguefes, & partirão todos com grande frota, em que yão mil & quinhétos homens da terra, em que
  • Livro V, Capitolo LXIIII 249 entrauão muytos Mandaris, & os vinte Portuguefes. E chegados onde auião de defembarcar defembarcarão, & forãofe caminho de Mariaco, que he hú lugar muyto grande fituado em húa ferra quafi no meo da ilha, onde antigamente refidião os reys de Tidore: & delpois por fe pouoar a fralda do mar, fizerão affento na cidade que agora tem. Efte lugar era cercado de tranqueiras de húa face, & a lugares tinha algúa caua, & com ifto eftaua algú tanto fortificado. E chegados a efte lugar, tomoulhe Ca- chil daroes as feruentias é que pos algúa de fua gente, por lhe não poder yr focorro: & diífe a Francifco de foufa que ficalfe de húa bãda ao pé do lugar, & ele iria pola outra que era mais alta: & tanto que foífe em todo cima, daria a fua gente húa grita a que ele acodiria com os Portu- guefes, & dariao no lugar & ho tomarião. E proleguindo Cacil daroes pera ho lugar, fem fer vifto nem fentido dos moradores, por a terra fer cuberta de muyto abafto aruoredo, fayrão algús do lugar cuydando que ho podião fazer fem perigo, & eftes forã logo lentidos dos que goardauão as feruentias, que deitarão apos eles dando algúas gritas: com que fe Francifco de foufa enganou, cuydando ler Cachil daroes que daua no lugar pela banda por onde fora, ao que acodio logo pola fua com grande preífa. E como Cachil daroes não era ainda chegado ao feu combate, nem os mouros recebeffem opreífão, acodirão todos onde Francifco de foufa cometia, & ás pedradas & frechadas fe defenderão de tal maneyra que os Portuguefes forão todos muyto feridos. E ho mefmo efpingardeiro q ferira a Martim afonfo, ferio ali a Francifco de íoufa por húa coxa & ifto de defacordado, polo que lhe foy neceífario afaftar fe pera ho lugar em q ho deixou Cachil daroes: que fabédo o q paffaua lhe foy acodir, & muyto agaftado daquele defaftre, jurou em fua ley de não fe partir dali ate não tomar ho lugar, & alfi ho fcreueo a Antonio de brito, pedindolhe que não fe agaítafe polo que fucedera, porque erã defaftres de guerra, & que lhe mãdaffe Martim correa com vinte Portuguefes, porq ho tinha por tão esforçado & fabedor na guerra, que com ele acabaria muyto a fua honrra: & com efte recado mandou Francifco de foufa & os feridos. 3a Tono III
  • Hijloria da Lídia 25 o CAPITOLO .LXV. De como por indujlria de Martim correa, for tomado ho lugar de Mariaco. VEndo Antonio de brito quantos defaftres lhe acõtecião naquela guerra, determinou de a deixar de todo, & não mandar a ela ne- nhú Português, & éçarrarfe na fortaleza com cento & trinta Por- tuguefes que tinha, & efperar ate iré os jungos de Malaca: & não quis mandar Martim correa que folie ajudar a Cachil daroes, nem ho man¬ dara fe ho mefmo Cachil daroes lhe não fora pedir que ho mandaffe, & por iffo lhe deu licença que foíTe cÕ vinte Portuguefes. E efcreueo a Lio- nel de lima que eftaua no porto de Tidore, que ho folie acõpanhar com a mais gente que podeffe, tirando a do feu nauio que deixaria a recado: & dizia em húa carta q fe Martim correa fe quifeffe meter em algúa coufa # de perigo, q ele lhe requerelfe da parte del Rey que ho não fizeíTe, & não querendo fe não fazelo que lhe lélfe aquela carta, & requerelfe da fua parte aos que ho acõpanhauão que ho não ajudaffem. E recebidos por Lionel de lima eftes recados logo fe foy ajuntar cÕ Marti correa, leuãdo cõfigo quinze Portuguefes, que cõ os que Martim correa tinha erão trinta & cinco, q vendofe coeles, & cõ a gente de Cachil daroes aprelfouho que cometelfem ho lugar, polo ver ellar muyto frio niífo: & ele lhe diffe que ho faria quando lhe viefle vontade, porque ainda lhe não vinha. E por iffo determinou Martim correa de ho cometer com os Por¬ tuguefes, cõ tenção que vendo Cachil daroes a coufa trauada acoderia com fua géte. E dando diffo conta a Lionel de lima, ele lhe requereo da parte Dãtonio de brito que ho não fizeffe: & aos outros que ho não aju¬ daffem moftrandolhe a carta de Antonio de brito, em que mandaua que lhe não obedeceffem: & eles ho fizerão affi faluo hú lane mendez caua- leiro muyto esforçado, que fe lhe offreceo ao ajudar com fua peffoa, o q lhe Martim correa agardeceo. E dando a entender a gente que não que¬ ria cometer ho lugar pois ho não querião ajadar, falou aquela noyte com Ioane mendez, & concertou coele que ao outro dia pola menhaã come- teffem a tranqueira per húa parte, que ele fabia que eftaua fraca: & que irião ambos com dous feus criados: & oyto mãdarins dos de cachil da¬ roes, que conhecia por esforçados, & como foffem dentro que a fua géte lhes acodiria, & defta maneira fe defpacharião dali. E porque Martim correa fabia q por aquela parte auia húas caniçadas de fora da tran¬ queira: mãdou aos mandarins q as desfezeffem, & viffem fe auia eftre-
  • Livro VI, Capitolo LXV 251 pes, porq os coftumauão muyto naquela terra: & fabendo que as caniça- das erao desfeitas & que não auia eftrepes, ao outro dia em amanhe¬ cendo fe foy da fua eftancia com a copanhia que digo: que erão por todos doze pelToas: & chegados á tranqueira virão que auia por aquela parte pouca gente por auer de fora grande mato & má feruentia pera fe che- garé a ela: & eftaua da banda de detro húa cafa terrea coprida, & de- reito do meo dela erão os efteos da tranqueira ralos & curtos. E eftando affi vendo por onde auião de cometer, apareceo hú mandarim veftido em húa roupeta de graã, cõ húa gorra do mefmo: & nela húa pruma: que logo foy morto cõ húa elplgardada que lhe tirou Ioane mendez. E nifto acodirão algús homés a húa goarita q eftaua fobre aqla parte, dode lhes tirauão pedradas & outros arremeífos: & lhes deitauão tãta forna de terra que fazia tamanha poeira que não fe enxergauão hús aos outros. E como os de dentro vião q os de fora erão tam poucos, parecialhes que era im- pofliuel poderé entrar: & ja que entraíTem q erão tã poucos, que ele.s abaftauão pera os matar: & por iflo farião a coufa caladaméte, que não fe fintia fenão nas eftancias vezinhas: & tirauão fuas pedras & arremef- fos, & deitauão a terra cuydando de cegar os Portuguefes: & no que cuydauão que lhes fazião mayor dano os aproueytarão mais: porque como da terra que caya fe fizeífem grandes & grolfas nuués de pó, que cobrião Martim correa & os outros, teue ele tempo, de com fua ajuda arrancar hú pao da tranqueira que era tão grolfo, que polo lugar que ocupaua pode Martim correa caber dilharga & a pos ele Ioane médez, & defpois os outros: & tomarão hú terreiro que fe fazia diante da cafa, que eftaua ao logo da tranqueira. E como os mouros os virão dentro co- meçoufe antreles muy grande aluoroço, acodindo logo os das eftancias vezinhas dando grandes gritas porque os ouuiífem polo lugar. E como Lionel de lima eftaua perto, em ouuindo a grita acodio logo com todos os Portuguefes fofpeitando ho q era, & entrou polo portal q achou feyto: & ajuntoufe com Martim correa pelejando todos marauilhofamente, por- 4 que os mouros crecião muyto: & ouue ãtreles húa braua peleja, que du¬ rou hú pedaço primeyro que chegaífe Cachil daroes por eftar muyto def- canfado, & cuydar que não fe auia detrar tão afinha. E como ele chegou efpalhoufe fua gente por todas as partes, & derão nos mouros de que matarão todos, faluo obra de cento que fe acolherão fobre húas aruores, Õde os Cacil daroes mãdaua matar as efpingardadas, fe não fora Martim correa que lhe pedio as vidas, & ele lhas deu muyto pefadamente, dizendo que era feu cuftume inuiolauel, que em toda a batalha onde ya el rey ou que reprelentaífe fua pefloa, de morreré todos os immigos que não fe querião dar a merce antes da batalha, ou do combate. E em final que
  • 252 Hiftoria da índia Cachil daroes perdoaua aos que eftauão fobre as aruores, bebeo agoa pola pota do feu cris, que he final de perdão: & com ifto fe decerão os mouros, que como dilTe erão céto, & os mortos forão trezentos. E dos Portuguefes não morreo nenhú, nem dos q os ajudauão: & Martim cor- rea foy ferido em húa perna de hú arremedo: & os mortos todos forão mãdarls & os mais parentes del rey de Tidore: & outra gente não auia no lugar, porque tanto que lhe foy podo cerco ho defpejarão dela & das fazédas & por ido não fe achou coufa que foífe de roubar. E defpois do feito acabado eftando Martim correa defcãfando vio ir contra fi dous ho- mês hú deles Mandarim & velho, & ho outro de menos idade comitre de hú paraó, & efte leuaua dependuradas duas cabeças de mouros, & fugia do outro q lhas queria tomar, & chegãdo a Martim correa lhe fez queixume daquilo: & porq ho velho cÕ muyta inftãcia pedia a Martim correa q lhe delfe húa daqlas cabeças pera a depcdurar em hú paraó de q era capitã: & quileralha tomar & ho outro as aferrou gritãdo q lhe não tomade fua honrra q ganhara com muyto trabalho pera a dar ao mandarim, que em quanto durara a peleja do lugar efteuera dormido & coifto fe foy. E ali foube Martim correa que todo aquele que aprefentar ao rey fete cabeças dlmigos depois de dar algúa batalha que ho faz caua- leiro, & ho faz fidalgo, a q chamão mandarim, fe ho não he, & hão por muyto grande honrra apanhar muytas cabeças. E acabada" a matãça dos moradores do lugar foylhe poíto fogo, & ardeo todo fem ficar coufa algúa, & da fortaleza vio Antonio de brito, & os que eftauão coele as chamas do fogo: & poridò & por recado de Martim correa foy certi¬ ficado q o lugar era deftruido. CAPITOLO .LXVI. De como projjeguindo Martim correa & Cachil Daroes a guerra toma¬ rão muytos lugares que el rey de Tidore tinha na ilha de Maqueim. DEstruido efte lugar ouue Cachil daroes confelho cõ Martim correa que foliem aa ilha de Maquie, de q era ametade delrey de Tidore & a outra del rey de Ternate & a tomaflem: & affi ho fizerão. E ao primeyro lugar del rey de Tidore que chegarão, eftando no mar & tão perto de terra que fe poderia ouuir: deufe hú pregão na coracora do çamarao que em fua lingoa quer dizer almirante, que foubeffem os mo¬ radores do lugar q naquela frota ya certo numero de Portuguefes que que yão veftidos de ferro (& ifto polas armas) & que leuauão os paraós cheos de cabeças dos Mãdarins de Tidore, que bé podião vingalos: pore
  • Livro VI, Capitolo LXVII u53 que deuiao de dar obediência ao regedor Cachil daroes que ali ya, por¬ que lhes não fizeffem outro tanto como aos de Tidore. E a efte pregão fairão todos os do lugar á praya, & quando virão a multidão das cabe¬ ças dos mortos moftrarãofe muy efpantados, & determinarão de fe entre¬ gar, & adi ho fizerão logo ao outro dia pola manhaã, & cada hú leuaua algúa peça que aprefentaua ao regedor, & ifto de fua vontade, & não dobrigação: & dada obediência ao regedor, fe tornauão pera fuas cafas, ficãdo vaífalos del rey de Ternate: & deita maneira fe entregarão todos os lugares que el rey de Tidore tinha neíta ilha. E a caufa de lhe darem primeyro ho pregão q diffe, era por fer coítume da terra, que quando auião de fazer guerra a algúa gente pera que não difleíTe defpois que os tornauão a treição, lhe auião de noteficar como lhes querião fazer guerra, & a gente que tinhão, & as armas que leuauão, affi defeníiuas como ofé- fiuas, & fe fe entregauão, então dauão aquelas peças de fua votade, & não lhes fazião mal. E fe refpõdião que não auião medo & eltauão pref- tes pera fe defenderem, dali por diante os podião combater, & tomar por treição, & por todos os ardijs q podefle fem terem niffo culpa. E não tendo maft que fazer naquela ilha, fe tornarão a noffa fortaleza. CAPITOLO .LXVII. De como Martim correa, & Cachil daroes de/lruirão ho lugar Dogane, & fe tornarão a Ternate. VEndo Antonio de brito quão bem lhe fucedia a guerra, nã quis dei¬ xar de a profeguir. E porque ainda ficaua hú lugar a el rey de . Tidore, que tinha na grãde ilha de Batochina feflenta legoas de Ternate, tornou a mandar Martim correa com corenta Portuguefes, & coele foy Cachil daroes, & ho çamarao, que forão pola ilha de Cajoa pera fe ajuntar com eles ho rey dela, como ajuntou: & dali fe forão todos a ilha de Batochina fobre hú lugar chamado Gane, q feria de bé duzétos vezinhos, & as cafas todas fobre efteos de madeira cujas paredes erão de barrotes, & em lugar de tauoado tinhão por cima húas efteiras de ca¬ nas rachadas, & por de baixo das cafas auia algús alfentos pera fe a gente adernar de dia, & eftas cafas erão affi feytas, pera que no tempo da • guerra fe defendeffem melhor dos immigos, porque fobem ás cafas per húas efcadas leuadiças de canas, que como fão em cima as poé ao longo das paredes & ficão muyto feguros: & pera offenderem aos immigos fe lhes entrão ho lugar, enrolão as efteiras pera as ilhargas das paredes, & tirão per antre os barrotes aos que andão por baixo, com paos tofta-
  • 254 Hiftoria da índia dos, & pedras, & frechas, & com hús arpoes de ferro, aque chamão tãr- ranas, que trazem atados em muytas braças de cordel que enrolão no braço dereito pera que lhes fique fempre ho cordel na mão, & fe acertão, puxão pelo cordel ate chegaré ho homé a fi, & cortanlhe a cabeça: & eftas armas fam muy temerofas & perigofas: & de que fe feruê muyto quãdo lhe os Imigos entrarão os lugares, porq tem tã pouco engenho q lhes não Cabe cortar os elteos das calas & derribarias, nem oufam de fe chegar junto delas cõ medo deites arpões & doutros arremeífos: eíte lugar era cercado de húa banda de húa vala muyto alta per onde entraua ho mar, & ho alagaua quãdo era neceífario: & por outras partes era cer¬ cado delteiros & de vafa, de modo que eltaua muyto forte, & tinha a en¬ trada muyto perigofa. E cõ tudo Martim correa dilTe a Cachil daroes que ho cometeífem: & forão pera entrar pola bãda da vala, que não podião as corafcoras nadar por outra parte, mas logo encalharão fem podere paífar auãte cõ eltacadas q os mouros ali tinhão feitas, por onde as coraf¬ coras que erão grandes não podião caber: o q vendo os mouros fe mete¬ rão muy de preífa em paraos pequenos, & fe chegarã per antre as eíta- cas ho mais perto que poderã dos nofios, & tirauãlhes muytas frechadas, & arremeífos, & eles diffimulauão por rogo de Cachil daroes pera que fe chegaífem mais & lhes tiraffem com as efpingardas: de que os Imigos não labião nada por não terem nunca viíto Portuguefes. E vedo os Mar¬ tim correa be chegados defparou a fua efpingarda, & ho mefmo fez Ca¬ chil daroes, & outros que as tinhão: com que derribarão mortos muytos dos Imigos: & os outros como entenderão ho jogo fugirão, indo e feu alcanço muytos pelouros de berço, que lhes defpararão nas coítas, que matarão & ferirão elfes q alcançarão: & defpejada a eítacada foy logo cortada & arrancada. E tédo as corafcoras lugar pera étrar fe chegarão tam perto das cafas que lhes chegauão com os berços, mas como não lhe podiã dali fazer muyto nojo, faltou Martim correa em terra com dez Por¬ tuguefes que yão coele na coracora do çamarao, que tambe defembaroxi com os mouros de fua capitania, & porem acharão tanta vafa, & alé dela hú eiteiro tão alto que não poderão chegar ao lugar: & foy forçado em- barcarenfe outra vez, porq Cachil daroes não eltaua ali, & ya por outra banda, & de lá mandou chamar Martim Correa, que fe foy parele. E polo achar frio em cometer ho lugar ate os Imigos gaitarem os arremef- fos que tinhão, remeteo a eles cõ elfes Portuguefes & mouros que leuaua, ás efpingardadas, metédofe pola vafa, em que auia. muytos Itrepes, de que hú ho ferio em hú pé, mas ele não deixou de ir por diante ate che¬ gar a húa tranqueira que eltaua daquela parte que delpejou dos Imigos ás efpingardadas com os outros: & defpejada entrarão no lugar, & apos / *
  • Livro VI, Capitolo LXVIII 255 ele Cachil daroes cÕ os de lua capitania. E vedo os Imigos q na tinhã outro remedio derão cõfigo encima nas cafas leuãdo apos fi as efcadas, cuidado q fe auião de defender como outras vezes, mas não lhes derão os Portuguefes efle vagar, que logo atando bifalhos de poluora nas pon- tas das lanças lhos punhão encima dos telhados com murrões acefos, & deles fe pegaua ho fogo nos telhados que erão dola feca, em que logo fe acendeo muy brauamente & ateandofe de húas cafas em outras: acen- deofe hum efpantofo fogo per toda a cidade, & coela per toda ela fe ale- uantou húa grande & dorida grita que dauão as molheres & meninos de que as cafas eftauão cheas. E querendofe liurar do fogo remetião aas portas pera fe lançarem abaixo onde vião eílar os Portuguefes cÕ as lãças leuãtadas pera os receberé nelas, & cotudo fe deytauão: & affi morrerã muytos queymados do fogo, & outros a ferro: & forão catiuas bem do- zentas almas, & antrelas ho foy també ho mefmo fenhor do lugar, com toda fua cafa. E como teuerão deftruydo efte logar de todo, embarcarãofe Martim Corrêa, & Cachil daroes & tornarãofe a Ternáte, onde Antonio de brito deu a Martim correa a alcaidaría mor da fortaleza, & a capita¬ nia mór do mar, porque ficaífe coele mays tempo, por ver quanto era pera feruir el rey por feu esforço & valentia. CAPITOLO .LXVIII. De como cl rey de Tidore mandou pedir pa\es a Antonio de brito: 6 ele lhas não quis dar. COm a deítruyção defte lugar Dogane ficou el rey de Tidore muyto qbrado da foberba‘que tiuera contra os Portuguefes, & bé arre¬ pendido de ter guerra com eles, & cobroulhes tamanho medo, q não fe tinha por feguro emmenhúa parte: polo que mandou hú embaixa¬ dor a Antonio de brito, pedindolhe pazes, otfrecendofe a pagar a el rey de Portugal toda a perda & dãno que teuefie recebido por fua caufa: & lhe daria a artelharia que tomara na fufta: o que Antonio de brito não quis: & refpodeo que ainda não eftaua bé vingado dele. E dali a algús dias forão tomados no mar pelos Portuguefes duzentos homens vafialos del rey de Tidore, q Antonio de brito mandou matar de muy cruas mor¬ tes. O que não fomente punha grande temor com el rey de Tidore, mas em outros reys comarcãos daquele arcepelago: & todos fe liauão por amizade com Antonio de brito, & antreftes foy ho da ilha chamada Gram- bocanora, que mandou a Antonio de brito hús doze homés é hú paraó, a q naqla terra chamão Ourão foãgue q quer dizer homé diabo. E iíto
  • 256 Hijioria da índia porq por arte diabólica fe faze inuifiueis, & etrão por õde quere & faze muyto mal: & por iffo hão aqlas gêtes grandifíimo medo deles, & fe os acolhem logo os matão. E porque eftes ourões foangues fe fazem inuifi- ueis os madou el rey da Grãbocanora a Antonio de brito pera q lhe fof- fem fazer faltos á ilha de Tidore, & mataíTem nela muyta géte, do que Antonio de brito fez efcarnio, & eles forão por feys ou fete vezes fazer faltos em Tidore, donde trouuerão de cada vez muytas cabeças de ho¬ mens que matauao: do que a gete de Tidore andaua muyto efpantada & atormentada, & efpiarãnos hua noyte onde deixauão ho feu paraó & tomaranlho & eles ficarão embrenhados pola ilha, & cada noyte fazião fogos aos de Ternate que eftauão defrõte que foffem por eles, & por iffo forão & acharão onze, & ho outro nunca mais pareceo, pelo que Antonio de brito fez diífo muyto mais efcarnio que dantes, ainda que lhe Cachil Daroes afirmaua que era affi, & que fe fazião inuifiueis. E por Antonio de brito dizer que fe ele meteffe no tronco hum daqles que ele nã fe fay- ria lhentregou Cachil Daroes hum que lhe leuarão pera juíliçar. E Anto¬ nio de brito ho mandou meter em hum tronco pola cabeça, dizendo que fe fe dali fayffe que creria fazerfe inuifiuel, & mandou ho goardar muyto bem húa noyte. E quando foy ao outro dia não ho acharão no tronco, do que Antonio de brito ficou muyto efpantado. E porque el rey de Tidore não diffeffe que lhe fazia a guerra com arte diabólica, não quis que fof- fem lá mais os Ourões foangues, & mandaualha fazer continuamente polos Portuguefes com o que el rev viuia muy atormétado. CAPITOLO .LXIX. De como el rey de Calicut começou de fa^er' guerra aa fortaleza dijji- muladamête. PAssÁdose eftas coufas em Maluco, el rey de Calicut que eftaua de¬ terminado de fazer guerra á fortaleza dos portuguefes, apercebiafe pera iffo quãto podia, & affi os mouros de todo feu reyno, que ajuntarão quafi duzentos paraós darmada, de que corenta auião dir car¬ regados de efpeciaria a Meca em goarda das oyto naos que diffe atras, & affi outros muytos ate os poerem de mar em fora da cofta do Malabar. E ho capitão moor defta armada era hum valente mouro chamado Cu- tiale de Tanor. E da partida defta armada que foy logo na entrada do verão foy auifado dom Ioão de lima capitão da fortaleza de Calicut, per hum Português arrenegado que andaua cÕ os mouros chamado Baftião, filho de hum ourivez de Lisboa que fora moço da capela del rey dom Ma-
  • Livro VI, Capitolo LXIX z5j nuel, & por fer muyto amigo de dom Ioão (ainda que era mouro) lhef- creueo húa carta da partida defta armada, & que auia de paliar ao longo da fortaleza pera a tomar fe efteueffe pera iífo: o que logo dom Ioão como ifto foube efcreueo a dõ Luys que eftaua em Cochim, pedindolhe q mandaffe húa armada a goardar a cofta: o que ele não quis, nem fayo de Cochim fe não em Outubro indofe dereyto a Goa onde efperaua que ho gouernador foffe ter Dormuz. E vendo ‘dom Ioão de lima como lhe nã acodião de Cochim, fegurou a fortaleza do combate que fe lhe podia dar por mar, com fazer um baluarte de madeyra com que a porta da forta¬ leza ficaua também emparada da banda do mar: pera o que mandou pe¬ dir carpinteyros ao regedor da cidade, que como fabia a guerra q el rey determinaua de fazer aa fortaleza não queria dar os carpinteyros. E dom Ioão pola prelTa que tinha começou ho baluarte com ho condeftabre da fortaleza q era muyto égenhofo & infinaua algús Portuguefes a laurar a madeyra. O q vifto polo regedor, por dom Ioão não fofpeitar algúa coufa da guerra que eftaua determinada lhe deu os carpinteyros cÕ que ho baluarte foy muy afinha acabado. E não tardou nada que apareceo a frota dos mouros, & hum paraó dela fe chegou a terra pera ver fe pode- rião tomar a fortaleza: o que vendo dom Ioão lhe mandou tirar com tres tiros groífos, & hum efpedaçou ho paraó: & os outros arrombarão algús dos que yão ao mar. E vendo Cutiale quanto dãno recebia fem defem- barcar, conheceo o que receberia defembarcando, & por ilfo paífou auante. E dom Ioão 1'e mandou queixar ao regedor de Calicut da vifta que efta armada deu aa fortaleza: dizendo que fe el rey de Calicut queria guerra que lho decraraífe, porque afli ho fazião os caualeyros. Do que ho rege¬ dor fe lhe foy difculpar: & el rey de Calicut quãdo foube que dom Ioão ho entendia, mandou a hum Nayre que lho foífe matar. E como eles fam muyto obedientes a feu rey, determinou de o fazer: fingindo que leuaua hum recado del rey a dom Ioão. E indo ho Nayre coefte propofito achou ho affentado na ramada da fortaleza com algús fidalgos feus parentes, & infioufe tanto querendo chegar a ele que ho entendeo dom Vafco de lima que hi eftaua, & difie a dom Ioão que ho mataffem. E ele não quis, mas mandou aos alabardeyros da goarda que lho tomafiem. E aíft ho fizerão, & queixandofe ho Nayre que leuaua hum recado del rey a dom Ioão, que lho deixaífem dar, diflelhe ele que bem fabia que não leuaua recado, fe não que ya pera ho matar, & que ho não mataua como lhe merecia por não quebrar a paz, & mandou ho pera Calicut. E ainda outra vez intétou el rey de ho mandar matar por tres Nayres que fingirão leuarlhe outro recado: poré como ele jà andaua de fobre auifo entendeo os, & também os mandou préder por os feus alabardeyros, & diflelhes que Tomo III 33
  • 258 Hijloria da Índia difleflem a el rey que foubefle certo que ho não auia de poder matar por mais que fizefle: & fe queria guerra coele que lha declarafle & que ele fe defenderia, & fe não fora por quebrar a paz que ele lhe começara ja de fazer guerra pelo que entendia nele. CAPITOLO .LXX. De como os mouros & Nayres de Calicut começarão a guerra cõ dó'loão de lima capitão da fortaleza. COm quanto a guerra afli andaua bazcolejada, não deixaua dauer conuerfação ãtre os Portuguefes & os da cidade: nem os Nayres da feytoria não deixauao de feruir nela, & comúméte a géte de Calicut defejaua a paz, & fós os mouros a não querido polo grade odio que tinhão aos Portuguefes, & confelhauão a el rey de Calicut que fizefle a guerra. E eles matarão nefte tempo hum Gonçalo tauares que dom Ioão mandaua com hum recado ao regedor de Calicut, & afli outros dous Por¬ tuguefes que yão coele: fobre que ho regedor não fez nada, pofto que fe dom Ioão mandou queixar dos mouros. E vendo efles fidalgos que efta- uão com dom Ioão, & afli ho feytor & alcayde mór & os mais de effou- tra gente efte defauergonhamento: & que auia dous mefes que em Paran- gale lugar del rey de Calicut matarão outros mouros doze Portuguefes, confelhauão a dom Ioão que fizefle guerra a elrey de Calicut pois lha ele fazia: porque que mais guerra podia fer que matarlhe os Portuguefes poucos & poucos, & que em guerra difcuberta não lhe matara tantos, que não efperafle mais caufas pera quebrar a paz, que nã podiao fer mais. E pofto que a dom Ioão lhe não falecia esforço pera a guerra, não oufaua de quebrar a paz ate os immigos não cometerem a fortaleza, por¬ que afli ho tinha por regiméto: & por ilfo fufria todas eftas coufas. E fabendo ho regedor & ho Catual da cidade polos Nayres da feytoria o que os fidalgos confelhauão a dom Ioão, temendo que quebrafle a paz polo terem por esforçado, forãno ver por diflimular: & a vifta foy na ramada da fortaleza. E queixandofelhes dom Ioão das coufas pafladas, & eles dando fuas difculpas, tirarão dantre a fua gente certas efpingar- dadas: do que eles auendo grande vergonha bradarão com a gente, dizendo que eles faberião os que fizerão aquilo, & os caftigarião muyto bem: & porque não fizeflem outra tal mandarão toda a gente pera a cidade, & eles ficarão fós com dom Ioão, a que fizerão muytas moftras de lhes pefar do paflado com promefla de ho enmédarem com caftigo, que ele creo que feria afli: mas como tudo era fingido, logo dali a dous
  • Livro VI, Capitolo LXX 25g ou tres dias tomarão hús mouros certas molheres da terra Chriftãas que morauão na cidade, & leuauannas a Coulete. E não querendo elas ir com os mouros por ferem Chriftaãs bradauão polos Portuguefes q lhes valef- fem. E foy fobrifto a onião tamanha que ho foube dom Ioão, & mandou rogar aos mouros que as não leuaíTem, pois erão Chriftãas. E não que¬ rendo eles fe não leualas: mandoufe queyxar diffo ao regedor, & ao Ca- tual qual deles fe achaffe, mas nenhum fe achou, nem nayres da feitoria, pera que defendeflem aos Mouros que não leuaflem as molhere o que vendo dom Ioão mandou certos Portuguefes a defender eftas molheres, & ouuerão peleja cÕ os mouros & as tomarão. Sobre o que fe aluoroçou a gente da cidade, affi mouros como Nayres: & como tinhão determinado de fazerem guerra aa fortaleza, na mefma hora fe deixou ir correndo pera a fortaleza hum corpo de gente, que ferião trezentos homens os mais deles efpingardeyros, & por ferem tão poucos mandoulhes dom Ioão ao encontro hum caualeyro chamado Manuel de faria efcriuão da feytoria cÕ vinte cinco efpingardeyros: mas ainda eftes trezentos não chegauão aa fortaleza, quando todo ho refto da gente da cidade ya junta pofta em ar¬ mas, & com grandes alaridos fe forão corrédo aa praya pera darem de fupito na porta da fortaleza & toma rena. O que receãdo dom Ioão fayo logo fora com algúa gente pera recolher Manuel de faria, & mandou del- parar algús tiros por alto porque não fizeflem mal, porque ainda não que¬ ria quebrar a paz. E ho medo deites tiros fizerão deter os immigos, pelo que Manuel de faria fe recolheo fem afronta: & dom Ioão fazia grandes proteftações perante hum tabalião pubrico que ele não mandaua tirar aqueles tiros fenão por fe defender & não por quebrar a paz. E coifto 1'e recolheo aa fortaleza: & recolhido tornarão os immigos a profleguir pera a fortaleza, & chegarão ate hús pardieiros que eftauão perto dela. E vendo os dofh Ioão ali eftar fayo a dar neles com obra de cem homés, dando a dianteira a hum Aluaro do cunha feu fobrinho, que lauaua cin- coenta, & dom Ioão com os outros lhe hia nas coftas: & dando húa arre¬ metida aos immigos de que matarão algús, fe tornou a recolher na for¬ taleza: a que os immigos tirarã todo aquele dia muyta* efpingardadas & frechadas. E ao dia feguinte efteuerão quedos fem fazer nenhú reboliço de guerra. E por ifto Punacha hú nayre cunhado del rey de Calicut, que tinha certa tença cada anuo del Rey de Portugal, porque fauorecefle aos Portuguefes de que era grande amigo, teue tempo pera ir falar a dom Ioão, que ho deixou chegar á porta da fortaleza onde lhe falou. E Puna¬ cha lhe difle com o rofto muyto trifte, que não fiaffe del rey de Calicut, porque fem duuida lhe auia de fazer guerra, & ifto lhe dezia pola obri¬ gação que tinha de feruir a el Rey de Portugal. E defpediofe de dom Ioão
  • 2Õ0 Hijioria da índia chorando, & affi os nayres que feruião na feytoria que hião coele: & dei- tandofelhe aos pés lhe pedirão perdão de ho não poderem feruir naquela guerra, que fe começou dali por deante: & a dom Ioão não lhe daua nada dela por fer na entrada do verão, em que fe efperaua que folie gouerna- dor de Portugal que lhe 1'ocorreria: & por iffo não mandou recado a dõ Luys de menefes que eftaua em Cochim, & como os immigos fe lhe metião antre hús pardieyros que eftauão perto da fortaleza fayo algúas vezes a dar neles em q matou & ferio algús, & húa vez pos fogo aa cidade, de que quevmou hú grande lanço de cafas: & fobrifto teue húa braua peleja com os ímigos de que ficarão muytos mortos & feridos, & dos Portuguefes hú foo foy ferido. O que parecia milagre por fere os Portuguefes muy poucos & os immigos muytos em demafia com quanto el rey não eftaua na cidade, que fe efteuera forão fem coto: & dali por diãte auia muytos rebates dhúa parte & da outra, & 1'empre noflo lenhor feja louuado os Portuguefes leuauão o melhor. CAPITOLO .LXXI. De como dõ Vafco da gama conde da Vidigueira & almirante do mar indico partio de Portugal por vijo rey da índia, & de como chegou lá. SEndo ho tempo chegado de dom Duarte de menefes que gouernaua a índia fe ir pera Portugal, mãdou ho muyto alto & muyto pode- rofo rey dom Ioão ho terceyro defte nome de Portugal que então reynaua quem gouernafle a índia. E efte foy dom Vafco da gama cõde da Vidigueira & almirante do mar indico, a que deu a gouernãça da ín¬ dia com o titulo de vifo rey, & deulhe húa armada de quatorze velas .f. fete naos groífas, tres galeões & quatro carauelas. Das naos a fora ele forão capitães dom Anrriq de menefes filho de dom Fernando de mene¬ fes a que chamarão ho roxo que ya por capitão Dormuz, & na primeyra fubceflam da gouernãça da índia per morte do vifo rey, Pero mazcare- nhas que ya na fegúda & leuaua a capitania de Malaca, Lopo vaz de fam Payo que ya na terceyra, & leuaua a capitania de Cochim, Francifco de fá que leuaua a capitania que auia dir fazer na ilha de çunda, Francifco de brito que auia de fer capitão das tres naos do trato de Baticalá pera Ormuz, & Antonio da filueira. Dos galeões forão capitães dõ Iorge de menefes filho de dom Rodrigo de menefes de que faley no liuro quinto, dõ Fernando de mõrroi, & Afonfo mexia que ya por vedor da fazenda da índia. Os capitães das carauelas forão Lopo lobo, Gafpar malhorquim, Chriftouão rolado, & Ruy gonçaluez. E fornecida efta armada de muyta
  • Livro VI, Capitolo LXXI 261 & boa gente, armas & mantimentos, partiofe ho vifo rey coela a noue Dabril do anno de mil & quinhentos & vinte quatro, & leuou muyto roim viagem de tormétas, com que fe perderão da fua cõferua Franciíco de brito, Chriftouão rofado, & Gafpar malhorquim que nunca mais parece¬ rão. E ho Galeão em que ya dom Fernando de monrroi fe perdeo em Melinde, & nas outras velas morreo muyta gente & forão fempre efpa- lhadas, & quem chegaua primevro a Moçambique partiafle logo pera a índia: & perto da cofta dela húa noite dos feys dias de Setembro ao quarto da alua tremeo ho mar muyto rijo, & por bõ efpaço: & pola pri- meyra fe cuydou na frota q daua em algús baixos de penedia ate que cayrão no que era. E dali a poucos dias apareceo húa nao de mouros que yão Dadem pera a índia: & dõ Iorge de menefes a tomou fem outra ajuda quafi a vifta da frota, & os mouros fe lhe renderão cõ medo, & ele a leuou ao viforey q logo mãdou meter nela hú quadrilheiro & hú efcriuão pera verem o que tinha & oulharem por ela: & acharanlhe fef- fenta mil cruzados em dinheiro & duzêtos mil em mercadoria. E daqui a algús dias foy furgir na barra de Chaul, & hi fe declarou por viforey que afli ho leúaua por regimento: & aqui efteue tres dias fem fayr e terra, nem confentir que pelíoa algúa fayffe, faluo ho licenciado Ioão de foiro do defembargo na cafa da fopricação que ya cole por ouuidor geral da índia, & Baftião Luys q leuaua a efcreuaninha da matricula de Co- chim que ho vifo rey mãdou que foffem vifitar por ele a fortaleza de Chaul, & q mãdaffem apregoar em feu nome, que tirando os froteiros & cafados todos os outros fe embarcaffem logo & foliem coele fopena de ferem rifcados do foldo & mantimento: & mais lhes mandou que difíef- fem a Chriftouão de loufa q era capitão da fortaleza, q chegando ali dom Duarte de menefes que era em Ormuz quãdo de lá tornafle que ho não confentilfe defembarcar, nem lhe deffe mantimento mais que pera quatro dias: o que foy todo feyto. E aífi como ho vifo rey não quis que ninguém foífe a terra, não quis tampouco que pefloa algúa tirafle nenhúa fazenda da que trazia, no que deu muyta perda a muytos, porq ganharão muyto em a venderé ali, né menos quis deixar ficar nenhú doente de muytos que yão na armada, a que dera muyta parte da faude verenfe em terra: & eles bem ho requererão, mas não lhes aproueitou. E daqui partio pera Goa, & porque auia de defembarcar pera ver a cidade, & fazer algúas coufas que comprião a feruiço del Rey, & feytas ir fe a Cochim, enco¬ mendou a goarda da frota a dom Iorge de menefes, que ficou nela. E defembarcado no cays de Goa foy recebido com a folemnidade coftu- mada: & aqui em Goa lhe fizerão queyxume de Francifco pereira peftana, que eftaua por capitão da fortaleza, de muytas injurias que tinha feitas
  • 2Ô2 Hiftoria da índia á mayor parte dos cidadãos, & de muytas diuidas que deuia, que não queria pagar. Pelo que ho Vifo rey lhe tirou logo a capitania, & a deu a dom Anrrique de menefes, dizendolhe que còmpria a feruiço del rey fer- uila, pofto que foffe prouido da Dormuz. E a Francifco pereira mãdou ho prender pera fazer juftiça dele: & lhe fazia pagar o que deuia, com no mais outra proua, fe não com juramento do creedor. O que vendo Fran¬ cifco pereira: & que muytos lhe pedião mais do que deuia: mandou leuar a cafa do Vifo rey onde ele eftaua, eífe dinheiro que tinha: & pediolhe que não deífe juramêto a ninguê fe lhe deuia ou não, fe não que mandafTe pregoar que que quifeffe dinheiro de Francifco pereyra que lho foffe pe¬ dir, & que lho mãdaria dar. E com tudo ho vifo rey lhe fez pagar muyta parte do q deuia, porque de fua condição era muyto juftiçofo: em tanto que fabédo que forão na frota duas molheres folteiras as mandou açoutar metidas ambas em húa cãga. E ifto porque forão contra fua defeía, q mandou apregoar em Belem antes que partiffe pera a índia: que nenhúa molher folteira foffe na armada fopena daçoutes, por euitar muytos pec- cados que fe feguem de as leuarem como çu vi. E não aproueitou roga¬ rem ao vifo rey que não fizeffe efta juftiça, porq eftauão dous homês pera cafar com aquelas molheres, & que não cafarião fe as açoutaflem, & não quis. E também por lhe affi parecer bem defêdeo q não fe recolheffe no fpirital de Goa nenhú dos doentes que yão na frota, dizendo que el rey leu fenhor nã tinha neceffidade de ter na índia fpiritais: porque auendoos fe farião os homês fempre doentes, & por efta caufa morrerão muytos á mingoa, & outros que não tinhão de que fe mãter pedião por amor de Deos: o que ateli não fe vira na índia, & por ifto ho eftranhauão todos muyto. CAPITOLO .LXXII. De como lio vijo rey chegou a Cochim, & do que fe\. NEsta detêça que ho vifo rey fez em Goa fe lhe começou húa doença de que defpois morreo, & antes que foffe em crecimento fe partio pera Cochim, deixando por regimento a dom Anrrique de mene¬ fes que todo homem que ficaffe em Goa & não foffe coele tirando os cafados & ordenados á fortaleza foffe rifcado do foldo & do mantimento. E que de fua partida a dous mefes todos os Portuguefes que morauão no arrabalde foffem morar á cidade fopena de morte, & mandou aos defpen- feiros dos nauios de fua armada q a cada dous homês não deffem mais por dia q hú arratel de bizcoito, & mandou aos capitães dos nauios dalto bordo que não deixaffem meter a cada dous homês mais q húa arca do
  • Livro VI, Capitolo LXXIU 203 comprimeto de húa efpada. E logo ao mar de Goa achou dom Luys de menefes que ya pera Goa efperar feu irmão, & leuou ho coniigo pera Cochim, õde chegou na fim Doutubro, & foy recebido cÕ grande foléni- dade, & hi lhe entregou ho doutor Pero nunez ho officio de védor da fazenda, em que auia feys ãnos que feruia, & polo el rey dom Manuel achar muyto bÕ, fiel & diligete feruidor não quis mandar outro védor da fazenda defpois que acabou os tres ãnos, que he ho tempo coftumado, antes ho deixou eftar mais outros tres annos. E porque ele lhe requeria licéça pera fe ir por fer feu tempo acabado, ho deteue cõ muytas cartas de rogo, fauor: & fazendolhe muytas merces, & aífi ho muyto alto & muyto podèrofo rey dom Ioão nolfo fenhor, que a ambos feruio muyto bem e lhes aproveitou fua fazenda com muyta prudência fem lhes encar¬ regar as cõfciencias, né efcandalizar as partes, & donde dantes a pimeta quebraua em Portugal de trinta ate corenta quintais por cento, por a os mouros darem molhada, & cõ muyta terra & area de meílura. Ele vedo ifto lha não quis tomar, & mãdou chamar os Chriftãos de Cranganor que vendião efta pimenta aos mouros, & com afagos & dadiuas & muyto boas obras q lhes fazia fez coeles que não vendeffem a piméta aos mou¬ ros, & lha trouueffem polo preço de mil & quinze rs como eftaua aflen- tado, & eles lha leuauão limpa & feca: pelo que dali por diãte em todo feu tempo não quebrou a pimenta em Portugal mais que a fete por cento, . que acrecétou muyto no ganho da pimenta. E affi feruia elrey em lhe empreftar dinheiro por muytas vezes, affi pera a carrega como pera ou¬ tras defpefas, & affi em outras muytas coufas que não pude faber parti- cularméte. O q fabendo ho vifo rey, lhe fez muyta honrra & fauor, & entregou ho officio de védor da fazenda a Afonfo mexia que ho leuaua de Portugal. CAPITOLO .LXXIII. De como Geronimo de foufa foy goardar a cofia do Malabar. DEsembarcado ho viíp rey em Cochim, porque começou dauer ban¬ dos antre os muytos Portuguefes que auia na cidade, mandou por efcufar os males q fe deles feguem que ninguém defle mefa: do que fe feguio auer fome antre os foldados, affi por lhes fer mal pago feu foldo & mantiméto, como por auer na terra poucos mantimétos. E por efta caufa he muyto neceflario darem os capitães & fidalgos mefas, ne fe podem os foldados da índia fofter fem elas. E como a gente andaua indi- nada cõtra ho vifo rey acabou toda de lhe querer mal por tolher as me¬ fas: & muytos por fe liurarem dele fe yão pera Choramandel, & outras
  • 264 Hijioria da índia partes em q andauão fora do feruiço del rey, & ate os mouros auião tamanho medo dele que tremião quando ho nomeauão. E també fe yão de Cochim onde auia muyto tempo que morauSo. E efperando ho vifo rey de ir fobre Calicut & deftruyla pola guerra que el rey tinha cÕ x>s Portuguefes: & em quanto acabaua algúas coufas mandou diante a goar- dar a cofta a Ieronimo de foufa hú fidalgo de q faley nos liuros atras por capitão mór de húa armada de nauios de remo em que leuou trezétos Portuguefes. E chegado Ieronimo de foufa fobre Calicut achou de détro do arrecife coréta paraós de Malabares, de que era capitão moor hú mouro que auia nome Cutiale de Capocate, que tolhião os mantimentos que yão por mar aa fortaleza. E auendo Ieronimo de foufa vifta deita ar¬ mada foy pelejar coela, & começou ás bombardadas: cõ que também os mouros acodirão logo como homés de feyto: & erão as bõbardadas tãtas de fua parte, que nunca nenhú dos nauios da armada de Ieronimo de foufa pode aferrar nhú dos cõtrairos por mais que niffo trabalharão. E affi efteuerão duas ou tres horas ate q fobreueo a noyte que os apartou: & Ieronimo de foufa fe deixou eítar no mar com determinação de ao ou¬ tro dia aferrar com os Imigos ou os fazer fugir, & afli ho difle aos outros capitães. E acordados niíto, ao outro dia como amanheceo afli os Portu¬ guefes como os mouros tornarão a começar a peleja como ao dia dãtes. Porem os Portuguefes afli como tirauão, afli remauão pera fe chegarem aos mouros: rompendo por antre aqueles pelouros. E vendo os mouros fua determinação, não oufarão defperar com medo dos Portuguefes & foranfe retirando pera Coulete cõ as proas neles, mas os Portuguefes os apertarão de maneyra que virarão as popas & fugirão quanto podião, & com a prefla de fugirem não poderão tomar Coulete & paflarão a Cana- nor: & os Portuguefes que os feguião os acabarão ali de desbaratar com muyto grande dãno de mortos & feridos & paraós arrombados, & os ou¬ tros forão varar na praya de que a gente fugio pera a cidade, cujos mou¬ ros ficarão muyto trifttes, por terem perfuadido a el rey de Cananor que cercafle a fortaleza: que vendo efta vitoria defiftio defla determinação. E Ieronimo de foufa desbaratados os Imigos, ãdou goardãdo a cofta: vifi- tãdo ás vezes a fortaleza de Calicut, & prouendoa de mãtimêtos.
  • Livro VI, Capitolo LXXIIII 265 CAPITOLO .LXXIIII. De duas grandes vitorias que dom Iorge telo ouue dos mouros de Ca- licut. COmo os mouros do reyno de Calicut andaffem tão diffolutos como diífe atras polo pouco medo que auião aos Portuguefes, nã lhes abaftaua leuarem a Meca quãta pimenta leuauão, mas ainda effa que lá não podião leuar leuauão a Cambaya, & cada dia paffauão cõ muyto grande foberba a vifta da ilha de Goa, Õde não auia qué lhes con- trariaíTe, porque hú Luys machado filho do doutor Lopo darca que tinha a goarda daquela cofta, leuarão ho vifo rey a CochT, & por iíío não auia quem cÕtrariafie aos mouros: do q dõ Anrrique de menefes eftaua muyto agaftado & o auia por grande injuria. E eftando adi foy hi ter hu mer¬ cador é húa fufta, que lhe do Anrrique comprou, & armada dartelharia, & fornecida de gente mãdou nela por capitão a dõ Iorge telo feu fobrinho filho de do Ioão telo, que fofie efperar os paraós de xMalabares que yão com piméta pera Cambaya. E como dõ Iorge era hú dos esforçados & valetes caualeyros que naquele tempo andauão na índia, affi cõ tão pouca coufa como era aquela fufta em q ãdaua, começou de fazer fintir aos mouros que andaua ele por aquela paragem: & como ya quantidade deles com que fe atreuia perfeguiaos ás bombardadas, & a hús arrombaua ao lume dagoa, a outros defaparelhaua de maftos & déxarcias matando em todos & ferindo muyta gente: & como virauão a ele facilméte fe lhe efcoaua dantre as mãos pola ligeireza da fufta. E fabédo os mouros de Calicut como dom Iorge ali andaua, determinarão de ho tomar: pera o que armarão trinta & oyto paraós que carregarão de pimenta & de géte, & por capitão mór hú mouro chamado China cutiale pera tomar dom Iorge, que a efte tempo trazia ja duas fuftas & tres bargantins, a cujos capitães não foube os nomes, & traria neftas cinco velas ate fefleta ho- més os mais deles efpingardeyros. E andando aos ilheos queymados foy China cutiale ter coele com toda fua armada: & porque não pude faber a maneyra que dom Iorge teue em dar a batalha aos mouros ho nã digo fe não em forna, que com esforço lobre natural os cometeo, & cõ a ajuda de noflo fenhor os desbaratou matando os Portuguefes muytos mouros em fete paraós q tomarão carregados de piméta & dartelharia, & dous que fizerão dar á cofta & os outros fugirão, & dos Portuguefes não mor- reo nenhú & forão algús feridos. E recolhendo dom Iorge os fete paraós que tomou fe foy coeles a Goa: & deixada ali a prefa fe tornou ao mar, 34 Tomo III
  • 266 Hijloria da Índia onde dali a algús dias topou com húa nao de mouros de Calicut, em cuja goarda yão noue paraós muyto bem armados dartelharia & fornidos de gente, & dom Iorge pelejou coeles & matou com os seus tantos dos mou¬ ros que vararão cõ os paraós em terra, de que dom Iorge tomou tres. E também tomou a nao q não fe pode faluar, & coela & com os paraós fe foy a Goa, onde foy muyto feftejado por duas vitorias tamanhas: de que os mouros do Malabar ouuerão tamanho medo q não oufarao de tornar tão afinha ao mar: & aíli começarão de temer os Portuguefes. CAPITOLO .LXXV. De como crecendo a doença do vijo rey encomendou a gouernança a Lopo va\ de fam Payo capitão de Cochim. APercebêdose ho vifo rey pera ir a Calicut, creceolhe tanto fua doença que lhe tolheo entéder nos negocios da gouernança: & por iflo a encomédou a Lopo vaz de fam Paio capitão de Cochim, porque tinha nele confiança que ho faria bem. E também porq com a autoridade de fua peffoa & de feu cargo, apacificafle as dicéfões que fe começauão antre dom Luys & dõ Efteuão da gama filho do vifo rey que era capitão mór do mar fobre a gouernança da índia, porque dizia dom Luys que vindo feu irmão dom Duarte ele auia de gouernar a índia & não outrem pois era gouernador: & que nã fe auia dir pera Portugal em quanto ho vifo rey efteuefTe doente, porque fe morreffe ficaria gouerna¬ dor como dates. E como a gente da índia era afeiçoada a dom Luys tomaua por ele bando contra a que fora aquele anno de Portugal que era com do Efteuão, que dizia que não auia de gouernar fe não quem ho Vifo rey quifefie, & que dom Duarte fe auia dir pera Portugal como che- gaffe Dormuz: & fobrifto auia ajuntamétos & perfias, a que Lopo vaz de fam payo acodia corrédo a cidade de dia, & de noyte: & impedia não auer brigas. CAPITOLO LXXVI. De como dom Duarte de menefes, chegou a Cochim. ENtre tanto que ifto paffaua na índia, ho gouernador dom Duarte de menefes que eftaua é Ormuz fe partio pera a índia, & fem lhe acontecer coufa que feja de contar foy ter a Chaul, onde Chrifto- uão de foufa polo regiméto que tinha do Vifo rey não confentio que fayffe em terra: & afli lho mandou dizer: & em Goa lhe aconteceo ho mefmo
  • Livro VI, Capitolo LXXVI 26^ com do Anrrique, pelo que fe foy a Cochim. E fabendo ho vifo rey como eítaua na barra lhe mandou logo moftrar a provifam de Vifo rey da índia per Lopo vaz de fampayo, & lhe mãdou por ele húa carta meffiua q lhe leuaua del rey de Portugal: & affi lhe mandou que em feu nome lhe pe- difle entrega da índia, porque por fua doença lha não ya tomar, nem ele do Duarte podia ir a terra darlha, por el rey de Portugal lhe defender que não defembarcalfe por ho auer affi por feu feruiço, & que do mar dondeftaua fe poderia prouer do necelfario: & mãdou com Lopo vaz de fão paio, Afonfo mexia, vedor da fazenda, & ho licéciado Ioão de foiro ouuidor geral da índia. E chegados a dom Duarte, Lopo vaz de fam payo lhe deu a carta meffiua del Rey de Portugal que dizia. DOm Iohão per graça de Deos Rey de Portugal, & dos Algarues, daquem, & dalem mar, em África, fenhor de Guine', & da Con- quifta, Nauegação, Comercio, de Ethiopia, Arabia, Perlia, & da índia. Fazemos faber a vos dom Duarte de meneies capitão, & gouerna- dor da noffa cidade de Tangere, & noífo capitão mór, & gouernador nas partes da índia: que nos vos fcreuemos por outra carta, que auemos por bê que vos venhais é bóra pera eítes reynos nelta armada. Porem vos mãdamos que tanto que vos efta for aprefentada, entregueis a dita capi¬ tania mór, & gouernança, a dom Vafco da gama conde da Vidigueira, & Almirante do mar Indico, q enuiamos por noífo Vifo rei a eflas partes da índia: & não vfareis mais da dita capitania mór & gouernança, nem das coufas da juíliça, & de noífa fazenda, nem doutra algúa de qualquer qualidade & condição que feja que ao dito carrego toque & pertença, & que dãtes vfaueis por virtude do poder, jurdição, & alçada que tinheis, porque auemos por bem & noífo feruiço, como por outra carta vos efcre- uemos, que ho dito vifo rey feja logo metido de poífe de tudo, & vfe logo do podef, jurdição & alçada que leua per noífa carta patéte, fem mais vos entenderdes em coufa algúa. Porem declaramos que ho tempo q eíteuerdes na índia ate vos ébarcardes poífais eftar em CochI ou é Ca- nanor qual vos mais aprouuer, & que acerca de voífos criados & peífoas de voífa cafa, & dos criados do conde voífo pay que conuofco forão, & dos criados de dom Luys voífo irmão, & de voífos cunhados & peífoas fuas: que ho dito conde não entenda coeles em maneyra algúa, nem tenha lobreles nem fobre cada hú deles mãdo nem jurdição & alçada que tinheis pela carta de voífo poder & alçada: refaluando porem que fe vos ou os tais por algúas peífoas affi noífos naturaes como dos mercadores da terra, & quaefquer outros de qualquer eftado & condição que fejão, que lá ou- uerem de ficar & nã ouuerem de vir neíta armada em que vos aueis de
  • 268 Hijloria da índia vir fordes requeridos, citados & demandados, afli em cafos ciueis como crimes vos poffam a vos & a eles demandar perante ho dito code & ou- uidor que coele ha de ficar, & não perante vos pera fe fazer comprimento de juftiça. E fendo cafo q quando ho dito conde chegar á índia vos não ache nela por ferdes fora dela a prouer algúas coufas de noffo feruiço: nefte cafo auemos por bem que ele dito conde vfe logo inteiramente de todo poder, jurdição & alçada que de nos leua como faria fe vos achaffe, & vos aprefentaíTe efta carta pera lhentregardes a capitania moor & go- uernança, porq afli ho auemos por noffo feruiço, & fendo cafo que por impedimento de doença vos dito dom Duarte vos não poffais embarcar & vir nefta armada & ficaffeis na índia: nefte cafo auemos por be que vos fiqueis, & vos recolhais com todos voffos criados & peffoas de voffa cafa & criados dos fobreditos voffo irmão & cunhados que ficarem con- uofco em a noffa fortaleza da cidade de Cananor: & que efteis nela ate a voffa partida da índia & vfeis de todo ho poder, jurdição & alçada q tendes de capitão moor & gouernador da índia fobreles, & fobre ho ca¬ pitão, alcayde moor, feytor & efcriuães da feytoria da dita fortaleza. E de todos feus cafos ciueis & crimes conhecereis & os julgareis como vos parecer juftiça, fem fobre os ditos nem fobre coufa fua que lhe toque que feja dantre partes ho dito conde poder vfar do dito officio de vifo rey, nem poder, jurdiçã & alçada que lhe temos dada, porq queremos que tudo fique a vos dó Duarte ate a voffa partida da índia, & mandamos ao capitão, & ao alcayde moor, feytor & efcriuães da feytoria & a todas as peffoas que temos ordenadas na dita fortaleza de Cananor que vos obedeção, & cumprão voffos requerimentos & mandados como a nosso capitão moor & gouernador fobre as penas que lhe poferdes, afli nos cor¬ pos como nas fazendas: as quaes auemos por bem que deis a execução naqueles que nelas emcorrerem fegundo forma do poder, jurdição & alçada q vos temos dada, & he cõteuda na carta do poder dela. E afli auemos por bé q fe entenda & ho façais no cafo q vos foffeis fora da índia por noffo feruiço, & vieffeis a ola defpois da partida das naos pera eftes reynos, defta armada q leua ho dito vifo rey pera trazeré as efpe- ciarias, na qual vos aueis de vir. Refaluando poré que ho dito poder & alçada que vos damos fobre todos os acima declarados fe não entenderá em coufa que toq a noffa fazenda & tratos da índia: porque no que a eftas caufas tocar não aueis de entéder, nem vfar da dita alçada, & po¬ der que vos deixamos nos cafos fobreditos, porq ifto ha de ficar ao dito vifo rey pera neles fazer como vir que he juftiça & noffo feruiço, & vfar de todo feu poder & alçada. E da entrega que ao dito vifo rey fizerdes da dita capitania mór & gouernança, como por efta vos mandamos cobra-
  • Livro VI, Capitolo LXXVII 2Õg reis eftormento pubrico, em que fe declare as naos & nauios que lhe en- tregaftes, & a artelharia & armas que andã neles, & aífi as fortalezas & armas & artelharia & mantimentos que nelas auia, & gente que andaua neffas partes, & declarando a forte & qualidade dela, & todas as outras coufas que ao carrego de capitão mór & gouernador tocaré pera todo podermos ver. E como aífi lhe entregardes a dita capitania mór & gouer- nança, & cobrardes ho dito eftormento da dita entrega no modo que dito he, vos auemos por defobrigado de toda a obrigação em que nos fejays pola dita capitania mór & gouernança: & vos damos por quite & liure dagora pera em todolos tempos. E efta carta per nos alfinada & affelada do feio redondo de nolfas armas cÕ ho dito eftormento tereis pera voffa goarda. Dada em a noífa cidade de Euora a xxv. dias de Feuereiro. Ber- tolameu fernandez a fez, anno do nacimento de noífo fenhor lefu Chrifto de mil & quinhétos & xxiiij. CAPITOLO .LXXVII. De como dó Duarte de menefes entregou a índia a Logo va\ de fam papo em nome do vifo rey: & de como ho vijo rey faleceo. VIsta por dom Duarte efta carta, & aífi a outra q lhe el rey efcre- uia, Lopo vaz de fam payo lhe deu ho recado do Vifo rey que não defembarcafie, do que fe dom Duarte agaftou muyto: & diífe a Lopo vaz que não deuera de fer ho meífageiro daquele recado, poys ho conde prior feu pay fora o que ho armara caualeiro: pelo que não podia fer contrele, nem contra coufas fuas. E lopo vaz fe defculpou cõ aquilo não fer cotrele pois era feruiço del rey de Portugal, cujo vaffalo ele era. E fobre a entrega da índia teue dõ Duarte muitas duuidas, parecendolhe q por ho vifo rey eftar tão doéte poderia morrer, & ele ficaria ainda gouer¬ nador da índia: E acodindo ho ouuidor geral a eftas duuidas per via de feu oíficio dõ Duarte lhe chamou bacharel. E ho ouuidor refpondeo que Bacharel & doutor & caualeyro o auia ele dachar pera o que compriffe ao feruiço del rey. Ao que Lopo vaz de fam Payo acodio com ho védor da fazenda, eftranhãdo a dõ Duarte o que fazia. E defpois de todas as duuidas que pos, entregou a índia a Lopo vaz de fam Payo & ao védor da fazenda, em nome do vifo rey, & ho védor da fazenda lhe deu hú pu¬ brico eftormento do conhecimento afíinado polo vifo rey & por teftemu- nhas que dizia.
  • Hiftoria da índia 270 SAybáo quantos efte eftormento de conhecimento, virem: que no anno do naciméto de noffo fenhor Iefu Chriíto de mil & quinhentos & vinte quatro ãnos, aos quatro dias do mes de Dezembro do dito anno, em a cidade de fanta cruz de Cochim é a fortaleza del Rey noffo fenhor: eftando hi dom Valco da gama conde da Vidigueira, almirante do mar indico, & vifo rey das índias: diffe que ele recebia de dom Duarte de meneies gouernador que foy nelas antes dele vifo rey a gouernãça das ditas índias do tempo que a elas chegou & as começou de gouernar, fegúdo por fuas prouifóes & patentes lhe era mandado por el Rey noffo fenhor que as recebeffe & gouernaffe. As quaes índias ele recebeo, & diffe ter recebidas, aíli & da maneyra que as achou & elas agora eftão: & fe ouue por obrigado de dar conta delas a fua alteza, & ouue por defo- brigado ao dito dom Duarte da obrigação que tinha de dar conta delas. E em teftemunho de verdade lhe mandou delo fer feyto efte eftormento do recebimento delas. Teftemunhas q eftauão prefentes Lopo vaz de fam Payo capitão defta fortaleza, Fernão martiz de foufa, dom Pedro de Caf- telo branco, Afonfo mexia vedor da fazenda da índia, Pero mazcarenhas: & ho licenciado Ioão de foiro ouuidor geral da índia. E eu Ioão nunez efcriuão pubrico na dita cidade por efpecial mandado do dito fenhor vifo rey que efto efcreui, & aqui meu final pubrico fiz. Entregue dó Duarte defte conhecimeto, tornoufe Lopo vaz de fã Payo com os outros pera Cochim, onde fe também tornou dom Luys de me¬ neies irmão de dom Duarte, & differão que pera eftar lá com cor de fe fazer preftes pera a viagé de Portugal, mas que a verdade era pera que fe ho vifo rey morreffe apoffarfe da gouernança da índia pera do Duarte pois ele não podia lá eftar. E fendo Lopo vaz de fam Payo certificado difto, polo deferuiço de Deos & del Rey que diffo fe podia feguir fe foy a cafa de dom Luys cõ ho védor da fazenda & ho ouuidor geral, & lhe pedio muyto cortefméte que fe embarcaffe logo, porque afli compria a feruiço del Rey. E porque dom Luys não queria, lhe mãdou da parte del Rey de Portugal que fe embarcaffe, fe não que ho faria embarcar: então fe embarcou, & coiffo ceifarão muytos aluoroços que fe ordenauão. E porque ho vifo rey fabia ifto: & vedo que crecia feu mal, & que defef- perauão de fua faude & vida, não quis q per fua morte ouueffe algúa reuolta ate 0 abrir das fuceffões: & por iffo pedio a todos os fidalgos & capitães que obedeceffem por gouernador a Lopo vaz de fam payo ate q foffem abertas: & eles lho prometerão. E defpois difto faleceo ho Vifo rey em vefpera de natal do anno de mil & quinhentos & vinte quatro: fazêdo todos os autos de verdadeiro & fiel Chriftão, & foy enterrado na See de Cochim.
  • Livro VI, Capitolo LXXVIII 271 CAPITOLO .LXXVIII. De como foy aberta a primeira subcejjam: em q fe achou dom Anrique de menefes por gouernador. Elogo ao dia feguinte defpois de miffa ajuntarãfe na lee de Cochim com Lopo vaz de fam payo, ho védor da fazenda, ho ouuidor ge¬ ral : & aíli todos os fidalgos, capitães, & outra gente honrrada pera fe abrir a primeira fubceffam: & logo a moftrou ho védor da fazenda çarrada cõ cinco finetes: & dezia. Efta prouifam mãdamos que fe abra falecendo ho code almirante do Vafco da gama vifo rey da índia, que nolfo fenhor não mande. E ifto era affinado por el rey. E aberta efta prouifam leofe em voz alta polo fecretario: & dezia. Nos el Rey fazemos faber a todos os noffos capitães das naos & for¬ talezas da índia, capitães das naos & nauios q vão pera vir com a car¬ rega pera eftes reynos, fidalgos, caualeyros, géte darmas, que trazemos nas ditas partes da índia: & a todas & a quaefquer outras peffoas & offi- ciaes a q efte noffo aluara for moftrado: que nos pola muyta cofiança q temos de dÕ Anrique de menefes fidalgo de noffa cafa, que nas coufas que ho encarregarmos nos fabera muy bem feruir, & nos dara de fi toda boa cota & recado. Queremos & nos praz que falecendo dom Vafco da gama conde da vidigueira & almirãte do mar Indico noiTo vifo rey da índia, que noffo fenhor não mãde: ho dito dõ Anrique fuceda & entre na capitania mór & gouernãça da índia pera nos nela feruir cõ aquele poder, jurdição & alçada q tínhamos dado ao dito vifo rey. Poré volo notificamos afli, & vos mãdamos a todos em geral, & a cada hú em efpi- cial, que vindo ho dito cafo ho recebais por voffo capitão mór & gouer¬ nador neífas partes, & lhe obedeçaeis, & cumpraeis feus reqrimentos & mandados, afli como fazieis ao dito Vifo rey, & como fois obrigados de o fazer ao noffo capitão mór & gouernador, & em todo ho deixeis vfar do poder, jurdição, & alçada, que ao dito Vifo rey tínhamos dada por noffa carta: fem duuida nem embargo a elo poerdes, porque afli he noffa merce: & de ho fazerdes afli bem como de vos efperamos, fareis ho que deueis & fois obrigados, & volo teremos muy to em feruiço. Feyto em Euora a dez de Feuerevro, ho fecretario ho fez, de mil & quinhétos & vinte quatro. E efte aluara era aflinado por el rey dom Ioão de Portugal. E com quanto dõ Anrrique foy auido por gouernador de quantos ali efta- uão, pola promefla q fizerão ao vifo rey, não deixarão dobedecer por go¬ uernador a Lopo vaz de fam Payo ate que dom Anrique vieífe de Goa,
  • Hiftoria da índia 272 que logo mandarão chamar, & mandoulhe Lopo vay de fam Payo húa gale fotil com duas fuftas & dous bargantls em que vieffe. E affi foy dom lorge de menefes capitão do galeão fam Ieronimo. E Lopo vaz de fam Payo ficou fazendo preftes as naos q auião dir pera Portugal que erão cinco, & teue bé que fazer em fofter Cochim em paz, porque auia nela pafTante de quatro mil homés Portuguefes em q auia parcialidades pola ímizade que auia antre dom Duarte & feu irmão com os filhos do vifo rey que hi eftauão. E por efta ímizade auia também outras antre algús fidalgos & caualeyros q erão de cada hú deftes bãdos: & porque de noyte não fizeífem algú mao recado de pelejas, Lopo vaz de fã Payo nã dormia nenhúa: corrédo a cidade com ho ouuidor geral, & acõpa- nhado de muytos homés armados. E de dia também atalhava a brigas com palauras cortefes, de maneyra que nunca em tamanho ajuntamento as ouue: & em quanto forão chamar dom Anrrique de menefes, mandou por capitão mór de húa armada ás ilhas de Maldiua a hú fidalgo cha¬ mado Simão fodré, affi a fazer prefas, como pera dar goarda ao Cayro que dela vinha: & affi mandou a Ormuz quatro naos carregadas de fazenda del Rey de Portugal pera a feytoria, & fez capitão mór Antonio de miranda dazeuedo de húa armada que mandou ao cabo de Goarda- fum pera fazer prefas, que affi ho tinha ho vifo rey ordenado, & leuou tres galeões & húa carauela: & dos galeões forão capitães ele, Ruy pe- reyra, Fernão gomez de lemos. E mandou em hú nauio doytenta toneis a Fernão martinz de foufa q foffe bufcar breu a Melinde. E defpachado tudo ifto ate vinte de Ianeyro, partiofe também dom Duarte pera Portu¬ gal com cinco naos: & a nao em que ya dom Luys de menefes defapa- receo no caminho, que nunca fe mais foube dela, & dom Duarte chegou a Portugal com as quatro & foyfe perder em Cezimbra onde a fua deu á cofta. CAPITOLO .LXXIX. De como dõ Anrriq fabendp que era gouernador, fe partiopera Cochim: & do que fe\ primeyro. OS capitães q leuauão ho recado a dõ Anrrique de como era go¬ uernador chegados a Goa lho derão, com que ele deu muytas graças a noífo fenhor pedindolhe q foffe pera feu feruiço: porem aqueixoufe de Lopo vaz de fam Payo, & do védor da fazenda quãdo íoube das velas que tinhão defpachadas pera fora auédo na Índia tãta neceffidade delas, & da géte que leuauão por amor da guerra de Calicut & doutros reynos. & tãbé fe queixou de lhe não mãdaré toda a armada
  • Livro V, Capitolo LXX1X 273 que eltaua em Cochim pera fe defender de quãtos paraós de mouros an- dauão pela cofta: quãto mais q de caminho quifera darlhe bufca, & q lhe pagarão ho mal q tinhão feyto aos Portuguefes: & apos eftes capitães q yão por dom Anrriq chegou a Goa hú ébaixador de Meliqaz pera ho vifo rey. E efte era hú mouro q auia nome Cidiale, & cõ a gente q ho acom- panhaua ya em feys atalayas das de Meliqaz: & efte embaixador mãdaua Meliqaz pera defcobrir fe era ho vifo rey alfi como foaua a fama, porque afti como viffe aífi faria: mandandofe todauia offerecer por feruidor del Rey de Portugal, & defejofo de fua amizade, & em final diífo lhe m㬠daua hú prefente de peças darmas, cubertas de caualos & outras coufas ricas. E fabendo Cidiale q ho vifo rey era falecido & dõ Anrrique lhe fucedia, deulhe a embaixada que leuaua, & quiferalhe dar o prefente, q dom Anrrique não quis tomar, efcufandofe q não ya parele. E quãto á embaixada diffe q defpois refponderia: & ifto porq bem entendeo a ten¬ ção de Meliqueaz q era defcobrir terra, & també porq não queria ter paz coele por ele mefmo a qbrar em tépo de Diogo lopez de fiqueyra & defejaua de ho caftigar por iffo: & mais porque foube de dous Portugue¬ fes q yão com Cidiale q á fua partida de Diu ficauão hi duas naos car¬ regadas de madeira que Meliqueaz mãdaua a Iudá pera reformação das galés dos rumes q hi eftauão. E nã querédo dõ Anrrique declararfe cõ Meliqueaz, fe não vfar de manhas como ele vfaua: determinou de nã ref- põder ao leu ébaixador & detelo tãto ate q fe enfadaffe & fe foffe fem repofta, & leualo a Cochim. E ifto affentou com confelho de Frãcifco de fá, Eytor da filueira, Antonio da filueira & outros fidalgos. E porque as naos da madeira q eftauão em Diu pera ludá lá não foífem, mãdou logo a dous capitães de dous nauios q eftauão no porto de Goa q fe foífem a Chaul & diífeffem a Manuel de macedo q hi eftaua q fe foffe coeles em ho galeão em q andaua, & também a hú capitão de húa carauela, & q todos quatro foífem efperar as duas naos de madeira que yão de Diu pera Iudá & as tomaffem, porque não fe deífe aos rumes tamanha ajuda como aquela era. E logo eftes capitães partirão, & dom Anrrique deu logo a capitania de Goa a Francifco de fá por ler hú fidalgo ãtigo na ín¬ dia, & de muyto feruiço & homé de grãde confiãça. E tédo preftes fua partida pera Cochim, fe partio é duas galés & húa galeota, & fe não fora Ieronimo de foufa que fe foy a Goa pera o acÕpanhar cõ algús paraós q trazia darmada na cofta do Malabar ele fora bé fingela: poré neffas velas q leuaua ya bé acõpanhado de fidalgos & de caualeyros, & aífi ya coele Cidiale nas feys atalayas, mas efte o acÕpanhou pouco: porq logo ãtes de chegaré a Baticalá fe foy pera Diu fé licéça de dõ Anrriq, & foy dizer a Meliqaz tais coufas q ele não quis mais falar em paz. Tomo 111 35
  • 274 Hijloria da índia CAPITOLO .LXXX. De como dó Anrriq de menefes pelejou com hãa armada de Calicut & tomou de\oyto paraós, & de como mâdou enforcar Mamele em Ca- nanor. FAzedo do Anrriq fua viagé húa manhaa q fe Cideale achou menos fora ouuidos na frota muytos tiros de bobardadas, & eftes tirauão trlta paraós de mouros Malabares q tinhão cercado dó Iorge de menefes em hú galeão em q eftaua na barra de Baticalá, & trabalhauão polo meter no fundo & ele fe defedia muyto bé: & como do Anrriq ya perto chegou logo: os mouros q ouuerão vifta dele como tinhão perdido ho medo aos Portuguefes deixarão ho galeão e fizerãlhe rofto defparãdo fua artelharia & os Portuguefes fizerão ho mefmo. E porq particularméte não pude faber como foy efta peleja, não direy mais fe não q os mouros forão desbaratados & perderão dezoyto paraós q os Portuguefes tomarão cÕ muyta artelharia & catiuos, a fora outros q forão metidos no fúdo, & forão mortos muytos mouros & dos noífos algús feridos. E profieguindo daqui dom Anrriq pera Cananor achou Antonio de mirãda q ya pera ho cabo de Goardafum, & por lhe parecer affi feruiço del Rey de Portugal lhe tirou os capitães q leuaua & mãdou q ficaflem na índia faluo ho da carauela, com q mãdou q proffeguifTe pera ho cabo de Goardafum & lá fe recolheífe á fua bandeira os quatro nauios q tinha mãdados a efperar as duas naos de madeira q auião dir de Diu pera Iuda, & cõ as outras velas fe foy a Cananor: onde defembarcado foube do capitão da forta¬ leza como tinha prefo Mamale ho mouro q diffe no liuro quinto q el rey de Cananor por diffimular entregara prefo na fortaleza: & q fabia certo q el rey ho auia logo dir ver pera lho pedir por muyto dinheiro q lhe os outros mouros de Cananor dauão por iífo. E fabendo dom Anrrique a tenção com q ho el rey prendera & entregara prefo na fortaleza, não quis q vieffe a efeyto coufa tão fea: & que foubeífem os mouros q ja aquele tepo palfara, & qué fizefle o que não deuia q auia de fer muyto bé caftigado. E pera faber fe Mamale merecia de ho fer, pos as culpas q tinha em confelho logo naquele dia q chegou, & achando q erão muyto grandes na própria hora ho mandou enforcar na mefma fortaleza, por¬ que lho el rey de Cananor não pediífe & fe pufeífe em duuida fe erraua não lho dãdo ou dãdolho. E por não fer atentado com peitas como fabia que auia de fer, & fez conta que defpois apazigoaria el rey com boas pa- lauras.
  • Livro VI, Capitolo LXXXI 2j5 CAPITOLO .LXXXI. De como a requerimcto dei rey de Cananor mãdou o gouernador qttey- ttiar húa povoação de mouros de Calicut por Eytor da filueira. Equafi q não era ho mouro acabado déforcar quado chegou hú mef- fegeiro del rey de Cananor per q mandaua vifitar ho gouernador & faZerlhe faber que ao outro dia viíitaria por fua peffoa. O que ele não fez fabendo que Mamele era enforcado: & ho gouernador por diffimular coele, lhe mandou hú recado em modo de querer faber como tardaua. Ao que refpõdeo que ho não auia de ir ver pois lhe matara aquele mouro, porque não pareceffe aos outros que ho confentira. Ao que ho gouernador refpondeo, eftranhandolhe muyto pefarlhe da morte de hú mouro tão culpado em deferuiços del Rey de Portugal feu fenhor, cujo amigo & feruidor ele dizia q era: ãtes deuia de folgar de o ele man¬ dar matar por lhe os-outros mouros não rogarem que lho pediffe, & que outras coufas aueria é que ho feruifíe fe lhe fizera pefar naquela: & afii lhe mãdou fazer outros muytos comprimentos, com que el rey ficou fatif- feyto: poré teue dali por diãte ho gouernador em muyto grande conta, porque tendo prefo hum mouro tão principal como Mamale, & que lhe poderá render muyto fe ho pofera em preço, quis mais atentar ao que deuia ao feruiço del Rey de Portugal feu fenhor que a feu proprio pro- ueito. E bem conheceo que não era ho tempo que foya, & affi ho conhe¬ cerão os mouros que ficarão muy cortados & abatidos com a morte de Mamale: & virão q lhes era neceffario mudarem os coftumes que tinhão dantes, porque ho gouernador não auia de fofrer nenhúa coufa mal feyta, & que auia de caftigar quem ho mereceífe, & mandarão logo efta noua aos mouros de Calicut, que cÕ os de CochI ficarão aífombrados com a morte de Mamale, & teuerão por muy grande feyto fer fua morte daquela maneyra, & não querer ho gouernador quãto poderá auer por ele. E en¬ tendendo por efta moftra que não era cobiçofo, logo ho teuerão por bõ homem, & que auia de fazer muyta guerra: & ho mefmo teue el rey de Calicut a quem foy efta noua. E elrey de Cananor quando vio que não podia reftaurar a morte de Mamale, quis aproueitarfe dos oífrecimétos que lhe ho gouernador fizera, & mandoulhe rogar que lhe mandaffe quey- mar húa pouoação de mouros chamada Marauia, que eftaua alem de hú rio que apartaua ho feu reyno do de Calicut. E ifto porque eftes mouros n€o querião morar no reyno de Cananor morado nele dantes. E ho go¬ uernador por comprazer a el rey & fazer mal aos mouros que erão ami-
  • Hijloria da índia 376 gos del rey de Calicut, mãdou a Eytor da filueira a efta emprefa com trinta homens que foy em dous bargantins com regimento que queymafTe a pouoação fem fayr em terra. E Eytor da filueira foy lá, & lançou em terra certos marinheiros pera queymarem ho lugar, a que tendo pofto ho fogo fayrão tantos mouros q os embaraçarão, & punhão os em aperto: em tanto que foy neceííario a Eytor da filueira defembarcar com quantos leuaua, pofto que contra ho regiméto do gouernador. E os mouros como erao muytos quiferanfe defender & pelejarão com os Portuguefes hú pe¬ daço, & por derradeyro fugirão ficando algús mortos, & a pouoação foy toda queymada, & afli vinte dous paraós & zambucos q os mouros tinhão varados. E ifto feyto recolheofe Eytor da filueira, & tornoufe a Cananor, cujo rey ficou muyto ledo por lhe ho gouernador mandar fazer o que pe¬ dira. CAPITOLO .LXXXII. De como vendo el rey de Calicut quão mal lhe fucedia a guerra cometeo pa\ a dom Ioão de lima. DUrando a guerra que el rey de Calicut fazia a dõ Ioão de lima ca¬ pitão da fortaleza tinha ele & os q eftauão coele muyto grande trabalho, porque a fora os Imigos ferem muytos em demafia cor- rião cada dia duas vezes a fortaleza pera queymarem a feytoria & alma- zem que eftauão fora dela & afli a cafa da poluora, & de cada vez que vinhão faya dom Ioão a pelejar coeles, & fempre os nofios matauão muy¬ tos, no q leuauão muyto grande trabalho, porque fempre eftauão arma¬ dos, que né de noyte os deixauão os immigos & lhe dauão rebates por¬ que nã dormiífem. E quando dom Ioão faya a pelejar fempre ya na diã- teira & ao recolher na trafeira, porque eftes dous lugares não os fiaua doutrem fe não de fi, pofto que tinha configo muytos parentes, de que por feu esforço os podia fiar afli como dom Vafco de lima, Antonio de fá & Ruy de melo feu irmão & todos de Santaré: Iorge de lima, Lionel de melo, Fernão de lima, Diogo de fá & dõ Miguel de lima que todos erão muy esforçados, & nefta guerra fizerão feytos de muy aflinada valetia & matarão muytos mouros. E continuandofe à guerra fem el rey de Calicut- eftar na cidade, mandou a ela ho fenhor da ferra & hú feu fobrinho, & ho capitão do campo del rey de Calicut que auia nome Teninchiriledo todos tres valentes capitães, & em q el rey tiDha grande confiança, & leuarão muyta & muy luzida gente de peleja todos Nayres de que muy¬ tos erão efpingardeyros: & coeftes creo el rey de Calicut que os noflos auião de fer muyto apertados, & eles afli lho prometerão, & como forão
  • Livro VI, Capitolo LXXXII 377 em Calicut derão na noyte feguinte vifta aa fortaleza dando moftra de fua efpingardaria que fizera tirar, & dom Ioão em eles acabando man¬ dou tanjer as trombetas, & defpois deu moftra da fua, & a pos iffo man¬ dou tirar a artelharia, & ouue muytas gritas dúa parte & da outra. E logo eftes tres capitães com a foberba que trazião por amor do numero da gente que os acompanhaua, determinarão de queymar a feytoria, cafa da poluora & almazem. E coefta determinação remeterão hú dia aa for¬ taleza com toda fua gente que fazia moftra de quinze mil homes, & dom Ioão lhe fayo com obra de cincoenta, ele cÕ vinte cinco por húa parte & domVafco de lima, por outra com outros tantos, & derão na dianteira dos Imigos & começoufe a peleja muy grãde afii defpingardadas como de lãçadas & cutiladas. E andãdo a coufa bem trauada & ferida, hú dos ca¬ pitães dos Imigos que era ho fobrinho do fenhor da ferra, remeteo a An- tonio de fá, & ele lhe arremeífou húa lança com que ho paliou & deu coele morto. E Iorge de lima eftãdo cercado de muytos immigos, & muy mal tratado de húa pedrada q lhe derão, acodiolhe dom Vafco de lima & liurou ho com morte de muytos. E tudo ifto foy em húa conjúção: & com a morte deite capitão fobrinho do fenor da ferra q era muy esfor¬ çado, defmayarão os Imigos de modo que fugirão. E dõ Ioão fe recolheo cõ os noffos deyxãdo muytos mortos dos Imigos, & dos nolfos forão algús feridos, principalmente Iorge de lima q ho foy muyto: porque també ele ferio & matou muytos. E vendo el rey de Calicut quão mal lhe efta guerra fucedia, & tendo por certo q dõ Anrrique era gouernador & os paraós que desbaratara indo de Goa pera Cochim, pefoulhe de a ter co¬ meçada: & defejãdo a paz que tinha dantes mandou pedir tregoas a dom Ioão ate q ele mãdaífe recado ao gouernador como queria paz. E eftas tregoas mãdou pedir por Punacha feú cunhado, & por Carná ho regedor de Calicut, & polo feu Catual: q falarão todos tres com dõ Ioão, q lhe refpõdeo que era contéte das tregoas: & aceitaria a paz em nome do gouernador ate a ele cõfirmar, & q auia de fer cõ condição q lhe folfe entregue Patemarcar hú mouro principal de CochI: q defpois defta guerra fe leuãtara cÕtra os nofTos fendo vaffalo del rey de Cochim, & lhe fazia guerra por amor del rey de Calicut cõ certas fuftas q trazia por mar: & aíli lhe étregaria toda a artelharia q fora noffa, & alfi a fua, & todos os paraos q auia no reyno de Calicut, & alfi pagaria todos os danos & per- das que el rey de Portugal & feus vaífalos tinhão recebidos por caufa daqla guerra. E os tres differão q el rey faria tudo aquilo que ho gouer¬ nador mãdaífe: & em feu nome paffarão hú aífinado & ficou a tregoa affetada ate ir recado ao gouernador & ele mãdar o q queria, & alfi cef- fou a guerra.
  • Hijloria da índia 278 CAPITOLO .LXXXIII. De como 0 gouernador foy ter a Calicut, & fonbe a pa\ que el rey que¬ ria : & do que refpondeo. EStando ho gouernador em Cananor foube como no rio de Mãgalor, auate de Cananor indo pera Goa eftauão cento & tãtos paraos de Malabares de guerra q tornaua de Cãbaya onde forão carregados de piméta, & trazia arroz & outros mãtimétos, & q.efperauão q ho go¬ uernador partiífe pera iré apos ele. E por ho gouernador não poder então ir pelejar coeles, porq fe lhe não foífem mandou q lhes fofle çarrar a boca do rio a Fernão gomez de lemos q foy em hú galeão & leuou de¬ baixo de fua capitania duas galeotas, & foy capitão de húa Antonio da íilua & leuaria cincoenta Portuguefes. Ifto feyto partiofe ho gouernador, deixando por capitão da fortaleza Eytor da filueira & leuou configo dÕ Si- mão de menefes cuja a capitania era. E ifto por lho o mefmo dõ Simão requer, parecédolhe que andando cÕ ho gouernador feria capitão mór do mar, ou ao menos leuaria ho feu ordenado. Do q ho gouernador ho de- fenganou logo, dizédo que lho não auia de dar: & cÕ tudo não quis fe não ir. E partido o gouernador de Cananor foy ter húa noyte a Calicut, onde dom Ioão de lima ho foy ver ao mar & lhe difle as pazes q el rey queria fazer & com q condições. E q fe efteuelfe ali ao outro dia ho re¬ gedor lhe leuaria ho mefmo recado del rey. E como ho gouernadar fabia as métiras del rey & dos mouros: & q tudo o q cometião era pera eftor- uarem q naquele pedaço de verão lhes não fizeífe guerra, & que no inuerno feguinte fe fortalecerião mais, diífe a dom Ioão q diífelfe ao re¬ gedor que ele ya depreífa pera tornar logo pela cofta a fazer guerra a fogo & a langue, que fe -el rey de Calicut queria paz auia de fer com enméda do mal q tinha feyto & obra do q prometia, que teueífe preftes todo 0 que auia de dar & tendo ho falarião na paz, porq fe não ouuefle de comprir como fizera muytas vezes q elle não auia de perder ho tempo de fazer a guerra. E porq ho regedor ho não achaífe ali ao outro dia & ho deteueffe com palauras, partiofe logo acabando de falar com dom Ioão, que ao outro dia deu efta repofta ao regedor, que a mandou a el rey que le agaftou coela por ver quanto ho gouernador era de concrufam, & ele não efperaua de tomar nenhúa por amor dos mouros que ho eftoruauão, nem queria mais que antretelo que lhe não fizeífe guerra aqle pedaço de verão: porque no inuerno feguinte efperaua de tomar a fortaleza com quantos eftauão dentro. E pera mais diffimular cõ ho gouernador lhe
  • Livro VI, Capitolo LXXXIIII *79 efcreueo como foy em CochI, dizendo que tudo tinha preftes pera com- prir coele, pedindolhe que fe fofle logo a Calicut q hi acharia tudo o que lhe auia de dar entregue a dom Ioão de lima, & aífi ho fizera el rey, mas os mouros como digo ho eftoruauão por lhes pefar muyto da paz: porque fabião que fe a fizefle que não auião mais de morar em Calicut. CAPITOLO .LXXXIIII. De como ho governador deu em Panane, & da dejlruição que fe\. PArtjdo ho gouernador de Calicut foy ter a Cochim, onde foy rece¬ bido com toda a folénidade & cerimonias, & étregue da gouernãça da índia. E como leuaua muyto cuydado de tornar logo pola cofta de Calicut a fazerlhe a mais braua guerra que podeífe, não fe quis deter em CochI mais de dezafeys dias. E deixando outras muytas coufas que auia que fazer acodio a efta da guerra q ele auia por mais principal & importante que todas pera reftaurar ho credito q os Portuguefes tinhão perdido na índia. E fazendofe preftes lhe foy dada a carta del rey de Calicut fobre as pazes, offerecédofe muy largaméte a comprir logo as cõ- diçoes com q as pedia. Em tãto q logo dali a tres ou quatro dias ho regedor da vila de Panane lhe mãdou dizer ao gouernador que podia mã- dar receber certos paraós q eftauao naqle rio q el rey de Calicut lhe mãdaua entregar. E porq ainda ho gouernador tinha nifto duuida por faber quão incoftãtes eles erão nã quis mãdar receber os paraós fe nã por fua peffoa, pera q fe fofle métira começar logo a guerra. E partio de Cochim apercebido cÕ húa frota de Ivj. velas .f. duas galés, quatro nauios de gauea, cinco barcaças, dezanoue catures do Arei de Porquá, & vinte feys paraós, fuítas & bargantls da armada da ordenãça da índia. E os capitães delta armada forão Ioão de melo da filua q fora capitão de Coulão, & por ter acabado feu tepo fe quifera ir pera Portugal, & por o gouernador fentir & conhecer dele q por feu esforço, bõdade & defcrição era peffoa de muyta cõfiãça, & pera fe lhe encomédar ho fer- uiço del rey fenhor & ter neceflidade dos homes daqla qualidade pera iflo: lhe rogou q ficafle na índia, & deulhe húa das galés q digo em que andafle & ya na fua galé. Os outros capitães forã Pero mazcarenhas, dõ Simão de menefes, Ruy vaz pereyra, dó Iorge de noronha, Geronimo de foufa, Antonio peffoa, dom Afonfo de menefes, Rodrigo aranha, Ayres da cunha, dõ Iorge telo, Iorge cabral, Antonio da filueira, Gomez de fouto mayor, Frãcifco de vafcõcelos, Pero velho, dom Iorge de menefes, Antonio dazeuedo, Ayres cabral, Diogo da filueira, Nuno fernãdez freyre
  • 280 Hijloria da índia & outros a q ná foube os nomes. E ao outro dia q forão vinte clco de Feuereyro de mil & quinhétos & xxv. furgio na boca de Panane q he da largura & altura q difle atras no liuro fegundo. E furto ho gouernador madou recado ao regedor de Panane pera lhe entregar os paraós q lhe efcreuera. E ho regedor lhe refpodeo com delõgas: o q vedo ho gouer¬ nador, porq lhe começaua de falecer a agoa, madou fazer agoada détro no rio, porq não auia outra parte Õde fe fizelfe. E como a géte do lugar principalméte os mouros, fabião q el rey não queria paz cÕ ho gouerna¬ dor, quãdo virão os Portuguefes entrar no rio a fazer agoada, começarão de lhe tirar ás bobardadas de húa eftãcia q tinhão feyta ja cÕ propofito de teré guerra cõ o gouernador, & deféderlhe a defembarcação fe quifeífe defembarcar. Quando ho gouernador vio ho grãde defauergonhaméto dos mouros, determinou de lhe tomar as bõbardas q tinhão na eftãcia & def- truylos. E chamados os capitães & pefloas prlcipaes da frota lho difle, & todos diflerão q era muvto bé, & porq a géte não recebefle dãno de- fembarcãdo diãte da eftãcia, affétoufe q fofle a defembarcação em húa pota q fe fazia antre ho mar & ho rio, q ficaua a efta põta da bãda do norte, & ho mar da bãda do fui: & ifto porq eftaua abaixo da eftancia, & q ho gouernador & Pero mazcarenhas cõ cada hú feu efcoadrão de duzétos homés fayfl e de détro defta põta no rio, & dom Simão cõ outro efcoadrão de trezétos em q entrauão muytos efplgardeyros defembarcafle na cofta & coftas da eftãcia defpois q o gouernador defembarcafle. E ifto como digo por lhe a artelharia dos Tmigos nã fazer dãno. Ifto afletado no mefmo dia q forão vinte feys dias de Feuereyro fe ébarcou o gouer¬ nador & os outros capitães nos bateys & nauios fotis em q auião de de- fébarcar. E o gouernador & Pero mazcarenhas defébarcarão primeyro cõ fua géte õde lhes era aflinado acÕpanhados de muytos fidalgos. E dado final a dÕ Simão como ho gouernador era defébarcado, defembarcou logo na cofta cõ lua géte dú golpe, a q logo acodirã algús mouros & Nayres, & nã digo quantos por nã poder faber ho numero dos q auia no lugar: mas bé certo he q ferião mais quatro vezes q os Portuguefes. E eftes q fayrão a receber dõ Simão fizerão moftra de defender fua ftãcia, pelejãdo valéteméte cõ fuas lãças & frechas & efpingardas, mas afroxarão logo como lhe os noflos efplgardeyros matarão algús, & acolheranfe á fua eftan¬ cia õde fizerão rofto a dõ Simão q cõ os feus cometeo a eftãcia cõ tama¬ nho impeto q os Imigos ho nã poderão fofrer, & mais por lhe mataré & feriré muytos, & desbaratãdofe fugirão pera ho fertão, & a eftãcia foy entrada por dõ Simão. E nifto chegou o gouernador cõ Pero mazcare¬ nhas, & reformãdo ho efcoadrã de dõ Simão cõ géte de refrefco, ho mã- dou paflar da banda do rio, & a Pero mazcarenhas da bãda da cofta Õde
  • Livro VI, Capitolo LXXXV 281 dõ Simão defébarcara, porq a ãbas eftas prayas chegaua o lugar & fe eftédia dali pera ho fertão & ho gouernador ficou no meyo pera afli étrar ho lugar & ho queymar, & nã quis q os Portuguefes ho roubafle por fe não deter, & mãdouho roubar por eífes Nayres q yão diãte, & ele cÕ fua gête queymado cafas & cortado palmeiras. E forão feridos algús Portu¬ guefes q fe defmãdarã, & hú deftes foy lorge de lima q pelejou aqle dia cõ muyto esforço. E deftruydo ho lugar & recolhida a artelharia á eftã- cia, recolheofe ho gouernador á frota. CAPITOLO .LXXXV. De como 0 gouernador mandou queymar Calicut por dom Ioão de lima, t & do que lhe aconteceo. D Aqui fe foy ho gouernador a Calicut, Õde foube de dõ Ioão de lima q os regedores não cõprirão o q lhes el rey mãdara prometer a CochT, de lhe ter os paraós & artelharia preftes. E vedo q tudo erão palauras, determinou de lhe mollrar as obras cõ lhe qymar algúa parte da cidade, porq foubefle q nã eftimaua a fu^ guerra. E dãdo cota diíTo aos capitães, aífentoufe q ele cõ a bãdeira real & corpo da gête ficaffe na praya, & dõ Ioão de lima cõ a gête q tinha pofelfe ho fogo á cidade daqla bãda & nã entraífe détro, & ho fogo bé ateado fe recolhelfe. E afli fe fez ao outro dia: & algús fidalgos de dõ Ioão q yão cõ ho go¬ uernador forão coele, & é começãdo de poer ho fogo lhe favo ho rege¬ dor cõ muytos Nayres, de q algús erã efpingardeyros. E dom Ioão como era esforçado remeteo a eles & não podendo eles fofrer ho grande ím¬ peto dos noffos fe retirarão pera détro da cidade fazédo voltas a eles. E * como nelas os Portuguefes mataffem algús, goftou dõ Ioão diffo tanto que não lhe lembrando ho regiméto do gouernador que não entraífe na cidade, fe meteo por ela tãto que quando fe quis recolher foy cõ grãde afronta & perigo: porq os Imigos como forão dentro na cidade fe efpalharão me- tédofe por traueflas & paredes quebradas, por onde os Portuguefes auião de tornar, & tornãdofe os frechauão dali & lhes tirauão muytas efpin- gardadas. E nifto chegarã a húa mezquita, onde os efperauão bé mil Nayres os mais deles efpingardeyros: & dõ Vafco de lima q ya na diã- teira chegou primeyro a ela, & em fua cõpanhia Antonio de fá de Santa¬ rém, Antonio dazeuedo & Manuel de macedo. E em chegãdo começarão os Imigos de tirar de dentro cõ as efpingardas, & hú acertou a dõ Valco de lima é húa coxa, & ferirão fe não fora húa fralda de malha dobrada que leuaua: mas atormétou ho, & afli atormétado era tão esforçado q T«mo UI 36 (
  • 2 82 Hiftoria da Índia remeteo ao Nayre & matou ho atraueflando ho cÕ a lãça, & logo eftou- tros q digo remeterão tambe aos Imigos. E nifto chegou do Ioão, & difle q não fe deteuefle mais, & foy por diãte: & os Imigos yão apos eles tirãdolhes ho mais que podião, & os de dó Ioão também lhes tirauão de quando em quãdo, & affi forão ate a praya õdeftaua ho gouernador, que ouue grãde menecoria de dõ Ioão paflar feu regiméto & entrar na cidade: cõ quanto lhe ele & outros muytos jurarão q não poderá fazer menos, & que lhe não matarão nenhú dos q leuaua, ãtes matara muytos immigos & fizera grande dãno em queimar muytas cafas: & affi foy. E efte foy hú feyto honrrado, & de q el rey de Calicut ficou muyto corrido por não fe poder vingar. E cõ tudo ho gouernador nã perdeo a menecoria q tinha, dizedo que affi como dÕ Ioão efcapara affi fe poderá perder cõ quantos leuaua, & que não quifera fazer o q lhe mãdara: ^ fem mais efperar fe foy logo embarcar. CAPITOLO LXXXVI. . De como o gouernador chegou a Coulete. EMbarcado ho gouernador cõ determinação de profleguir a guerra contra el rey de Calicut, determinou de ir a hum lugar muyto grade de feu reyno chamado Coulete, & ho principal porto dele, & õde auia mais gente, mais paraós & mais naos q em outro nenhõ. E pera fer melhor enformado do fitio do lugar & dos nauios q hi eftauão mandou a Ioão de melo da filua que ho fofle faber & forão coele doze Catures do arei de Porquá, & cinco ou feys outros dos Portuguefes. E coefta com¬ panhia fe foy Ioão de melo a Coulete, é cujo porto fe fez húa baya de prayas darea, & das pÕtas da baya ao lugar q eftá metido por hú rio ha hú pedaço: & é húa parte da baya da banda do fui eftauão tres trãquey- ras, húa na ponta da baya outra mais acima, õde defembarcauão & ou¬ tra no meyo fornecidas de muyta artelharia, & no porto eftauão coreta grandes paraos muyto bé armados & efquipados, & neles & em terra aueria bem vinte mil mouros & Navres de peleja, & antreles muytos efpingardeyros, & eftauão affi fortes pera refiftirem ao gouernador fe quifefle pelejar coeles. E fabédo ho gouernador defta força q aqui eftaua, determinou de a deflruyr, & mãdou diãte Ioão de melo pera ver o fitio do lugar & partio apos ele ja noyte, & Ioão de melo chegou á baya de Coulete pola manhaã, dõde logo fayrão os corenta paraós, q digo, & como ele os vio tãtos, & també armados & cõ tanta gente, & leuaua muyto poucos Portuguefes: não os quis cometer por lhe parecer doudice,
  • Livro VJ, Capitolo LXXXV1I 283 & podo neles as proas dos feus Catures, & tirãdolhe muytas bobardadas fe foy fazédo pera ho mar cõ ceavoga, cõ tenção de os afaftar da terra. E como viffe algús nauios da armada do gouernador cometelos de ver¬ dade, & a armada do gouernador não parecia ainda porq fe fizera de noyte na volta do mar cõ ho terrenho. E os Imigos q a não vião, né cuy- dauão q erão mais q os Catures os feguião, tirãdolhes tãbé com fua ar- telharia, fenão quando aparece a galé em q ho gouernador ya, & coela outros nauios que yão demãdar a terra. O q vedo os Imigos nã quiferã. mais feguir os catures & voltarão pera terra. E chegados á baya poferãfe em ala antre as eftancias, cõ as popas é terra & as proas no mar & ape¬ lidarão logo a terra, & toda a géte de peleja q era a q diífe acodio ás eftãcias, & afli os de terra como os do mar fe poferão em fom de pele¬ jar, fazédo grande eftrõdo cõ feus atabales & outros inftormétos de guerra & cÕ fuas gritas, q tudo ho gouernador ouuia. t CAPITOLO .LXXXVII. De como o gouernador ajjetou cõ os capitães da frota de pelejar e/n Coulete. Evédo ele fua determinação furgio defrote deles pera efperar a outra frota, q quando chegou era tão tarde q mandou q furgiífe por não fer tépo pera fazer nada. E furtos os capitães, os mãdou chamar cõ todos os fidalgos & peífoas principais da frota: & jútos lhes pregútou a cada hú a maneyra de q deuia de cometer os Imigos, & hús differão q deuia de cometer fométe os q eftauão no mar com q podia pelejar fem defembarcar: porq pera fair em terra tinha pouca géte, & a dos Imigos era muyta endemafia, & pofto q mataffé algúa ho recolhiméto auia de fer cÕ muyto perigo, & no mar pelejarião mais a leu faluo, porq não auia de pelejar mais que com os do mar, porq os da terra não tinhão lugar pera que lhes ajudaífem por não caberem coeles nos paraós: ou¬ tros differão que deuia de pelejar em terra, porque pelejando no mar fomente todos os da terra auião dajudar aos paraós, & os dos paraós nã auião dajudar os da terra pofto que defembarcaffe, porque auião de cuy- dar que deixaua géte na frota, de q fe auião de temer q lhes queymaífe os paraós, & por iffo os não auião de defemparar, né auião dajudar aos da terra: pelo q deuia de pelejar nela. E vécidos os da terra aueria pouco q fazer nos do mar, outros differão que fe deuia de deixar aquela em- prefa pera quãdo ho gouernador tornaffe dos rios de Bracelor & de Man- galor a que ya tomar os paraós que lá eftauão, & defpois de tomados
  • Hijloria da índia 284 ajuntaria a fua ãrmada dous galeões & hú nauio & tres galeotas & hú bargãtim: com que eftauão em fua goarda Fernão gomez de lemos & Gomez martinz de lemos feu irmão, em q andauão mais de cento & cin- coenta homés, que fazião muyta mingoa pera os ajudarem naquela pe¬ leja, & Pero mazcarenhas foy hú deites: dizendo mais que não fe auião de cometer coufas em que parecia que fe atétaua noflo fenhor. E como ho gouernador não folie de nenhú deites pareceres, diflelhes. Bem vejo fenhores q volfos pareceres nelte feyto fam de tão esforçados caualeyros & tão efperemêtados na guerra como todos fois; & fe neles fôreis con¬ formes que não tinha eu mais q dizer fe não feguiruos, mas como foys diuerfos & cada hú diz 0 q entéde, fica me lugar pera tambe dizer o que entendo, q he não fazermos de todo em todo fundaméto de pelejar no mar com os imigos, porq tenho fabido por algúas pelfoas que ho lugar õde eítão feus paraos he aparcelado, & os podem ter encalhados na vafa, & nã poderemos be chegar a eles com os nolfos bateys & catures por amor do parcel: pelo que os nã poderemos aferrar, & farnos hão muyto nojo cõ a artelharia & noífo cometimeto por mar fera de balde, & por iífo os não deuemos de cometer no mar fomente, ne menos de todo em todo em terra defembarcando naquela praya darea que vedes, q parece fer lugar de boa defembarcação, porq fe os paraós dos Imigos eíteuerem em nado & nã for parcel como me dize, irfe hão como nos vire defem- barcados: o que eu muyto receo pelo medo que adiuinho que nos te: ou fey certo que he afii, que fe ho não ouuerão, eles acabarão de feguir a Ioão de melo quãdo lhe fayrão vindo ver a difpofição delta baya, & em vendo fe tornarão a recolher, o que não fizerão fe não ouuerão medo, porque a tantos mouros & tão cheos de foberba como eítes andão & que nos tinhão dãtes em tão pouca conta, pouca gente era a com q lhes podia refiítir quãdo me virão, & fe recolherão fe não fora ho medo, & por iíTo receo eu q védonos em terra fe vão fe elteuere em nado, & indo fe farão algú dãno na frota, em que pola pouca gente que tenho não poffo deixar fe não muy pouco. E por elta caufa me parece que os não deuemos de cometer fométe por terra, fe não por terra & por mar juntaméte. E iíto logo & não quando tornarmos dos rios & efperar que fe ajúte cõnofco a gente que lá eltá, que he tão pouca que muyto mais nos pode danar efpe¬ rar por fua ajuda que pelejar agora fem ela: porque agora temos aqui- os Imigos, que como digo he certo que nos hão medo, & fem oufarem de pelejar nos hão de fugir, & vendo nos ir fem os cometer crerão que he por lhe auermos medo, & fem nos vencerem ficarão com a vitoria que dirão de palaura q ouuerão de nos. E como aqles a que ho hão de dizer fam nofios Imigos hãolhe de dar credito, porque he em noífo per-
  • Livro VI, Capitolo LXXXVIII 285 juyzo: & fem fer vécidos por obra ho feremos por fama. E vede que tais ficaremos dizendo eftes mouros q ho gouernador da índia não oufou de pelejar coeles, que dara oufadia a todos os de Calicut pera nos iré buf- car a CochI, & fe leuantarem contra nos todos os que tem paz cõnofco: & por iffo ey por efcufado deixar a peleja pera quãdo tornar, fe não como digo logo é amanhecendo com ajuda he noíTo fenhor, em que todos deuemos de ter confiança que por fua facratiflima paixão nos ajudara como fempre nos ajudou, & dom Simão com trezentos homés cometera a prava q digo, em que defembarcara: & Pero mazcarenhas & eu cÕ ho refto da gente cometeremos os paraós dos Imigos. E'deite parecer foy ioão de%melo da filua, & difTe ao gouernador que por nenhúa coufa ho deuia de deixar de feguir: & que afli lho requeria da parte del Rey feu fenhor, porq a mór parte dos outros erão contra ele. E como ho gouer¬ nador tinha muyta confiança na prudecia e esforço de Ioão de melo, iníif- tio em feu parecer tédo ho de fua parte. E todos aflentarão que afli fe fizefie, pofto que lhes não pareceo bem. CAPITOLO .LXXXVIII. De como ho gouernador desbaratou os mouros que ejlauão em Coulete. ISto afli determinado mãdou ho gouernador chegar as gale's a terra ho mais q pode fer, pera tambe ajudarem com fua artelharia. E ate a madrugada gaitarão os Portuguefes em fe confeflar & encomédar a noífo fenhor, & aparelhar fuas armas: & defpois começarão de foliar & cantar & fazer grandes alegrias, porq quebraflem os corações aos im- migos, que toda a noyte derão muytas gritas & tangerão feus inítormen- tos, parecendolhes q coiifo fazião medo aos Portuguefes, & defparãdo també fuas bõbardas. E em amanhecendo aparecerão os feus paraós tol¬ dados & embandeirados, & da outra parte os Portuguefes embarcados é feus bateys, paraós, catures & bargantls armados de fuas armas. Dom Si¬ mão & Pero mazcarenhas defronte dõde auião de cometer, & ho gouer¬ nador no meyo cÕ a bandeira real: & écomédando os a Deos arrancarão hús & outros pera os lugares que lhes erão aflinados que cometeflem: ho gouernador & Pero mazcarenhas contra os paraós tios immigos que eítauão da ponta da baya para dentro, & dom Simão pera a praya, onde auia de defembarcar, remãdo todos cõ a mayor preífa que podião, por efcaparem das bombardadas dos Imigos, que erão tantas que parecia que chouião, afli dos paraós como das eítancias, porem a mayor fúria dos pelouros era fobre os que acompanhauão ho gouernador, porque lhes tira-
  • Hijloria da índia 286 uão duas das eftãcias & os paraós jútaméte. E fedo os pelouros tatos como digo, muytos dos capitães do efcoadrão do gouernador & do 4e Pero Mazcarenhas lhes auião medo & fe paíTauão ao de do Simão por lá não fer ho perigo tamanho. Ao que ho gouernador atalhou ho melhor q pode: remetédo aos paraós dos mouros, bradando aos Portuguefes q.não fe defmandaffem. E nifto algús dos q yão auiados pera chegar aos paraós chegarão a eles, & o primeyro que aferrou logo hú dos paraós foy hú Rodrigo aranha capitão de hú bem pequeno catur em que irião ate oyto Portuguefes, & os mouros que ferião bé feffenta acodirão logo a bordo pera lhes defenderem a entrada: & com.quãto erão tãtos, & pelejauão valentemente não poderão defender a Rodrigo aranha, q os não entrafTe primeyro que nenhú de feus companheiros que entrarão apos ele, & me- teranfe com os mouros ás cutiladas & efpingardadas: & nifto aferrarão com outros paraós, dom Iorge de noronha, Geronimo de foufa, Antonio pefloa, dom Afonfo de menefes, filho do conde dom Pedro, dom Triftão de noronha, & todos em aferrando entrarão dentro cÕ fua gente pelejando todos com muyto esforço como muyto efpeciais caualeyros que erão. Nefte tépo com a grande reuolta q ya, & cÕ os capitães q fe paliarão do efcoadrão do gouernador pera ho de dõ Simão ficarão tão longe hú do outro que lhe não podia ho gouernador dizer que defembarcaffe, porq lhe tinha mandado que ho não fizeffe ate lho não dizer, & defpois q de¬ fembarcaffe folie ao logo da praya ate os paraós pera ho ajudar por terra aos desbaratar, & dõ Simão não defembarcaua por efta caufa & eftaua efperãdo. O q vendo ho gouernador, determinou de lho mandar dizer por terra, porq por mar não podia fer pola grãde reuolta q ya, pera 0 que mãdou faltar em terra dous ou tres homes, que derão recado a do Si¬ mão que defembarcaffe. E ele defembarcou logo, & em defembarcãdo forão tãtos os mouros dos da terra q acodirão fobrele que por mais esfor¬ çadamente q pelejou com os q ho acompanhauão nunca pode paliar aos paraós como lhe ho gouernador tinha mãdado. E pelejando alB algús dos capitães do efcoadrão do gouernador q eftauão junto coele quando virão fair em terra os tres homés porque mãdou ho recado a dõ Simão não fe poderão 1'ofrer q ho não fizeffem pofto que ho gouernador lhes tinha de- fefo que não defembarcaffe, porque auião de pelejar no mar cõ os paraós, & eftes q faltarão em terra forão Diogo pereyra de fam payo, Manuel da gama, Ruy da cofta de Goes, Fernão de moura, filho baftardo de dom Pedro de moura, Gomez de fouto major, Ioão de betãcor, da ilha da madeira & outros ate vinte ou trinta aque não foube os nomes. E como os mouros erão fem conto, & em cada cabo auia deles affaz, aco¬ dirão ali logo muytos: & como os Portuguefes erão poucos pofto que
  • Livro VI, Capitolo LXXXVIII 287 pelejarão fem medo, & lhes fizerão muyto dano cÕ ferirem & matare muytos, tãb.é ho receberão, porq Diogo pereyra foy morto, & forã feri¬ dos mortalmente q morrerão defpois, Ruy da còfta, Fernão de moura, Iohão de betancor, & outros cinco homés baixos, & também foy ferido Manuel da gama, & outros não podendo fofrer ho grade impeto dos mou¬ ros, fe desbaratarão fe não lhes acodira Ioão de melo, & Iorge cabral, & outros dous fidalgos a que não foube os nomes que eftauão cõ ho mefmo Ioão de melo no feu bargantl: & vedo Ioão de melo ho desba¬ rato dos que pelejauão em terra, faltou nela coeftes que digo & com outros, & fofteuera os que yão desbaratados, & tornãdofe a peleja a refrefcar, erão tantos os mouros que recrecião, que foy neceffario ao gouernador acodirlhe, faltando em terra cõ algús fidalgos & caualeyros queftauão cõ ele, & ja a eíle tempo tudo era baralhado, & todos peleja¬ uão, aífi na terra como no mar, & auia muytos feridos de húa parte & doutra. E fabendo ho gouernador como dõ Simão ho não podia ajudar, por grande refiftencia que achaua nos mouros, vio que era neceffario mu¬ dar ho confelho que teuera no modo de como auia de pelejar com os mouros: & pois ja era em terra, que lhe compria de tomar a outra eftã- cia que os mouros tinhão no cabo dos paraós pera ho lugar, pera ho que tinha neceflidade de mais gente: & foy neceffario mandar a Pero mafca- renhas cõ algús dos feus capitães ho que logo fez: & foy com ho gouer¬ nador cometer a eftancia que digo, de que fe os mouros defenderão hú pouco & defpois fugirão, & com tudo os do mar fe defendião valente¬ mente, como homés que efperauã a vitoria, porque podendofe faluar em terra não ho querião fazer: & parece que era por achar algú vagar nos Portuguefes, porque como dos que eftauão limitados pera pelejar no mar defembarcarão muytos, não auia quem auiuaffe a peleja de nouo: & pe¬ lejauão fomente os que primeiro diffe que aferrarão. E affi hú Ioão fegu- rado criado de dom Fernãdo jrmão do conde de Faraão, que va por ca¬ pitão dum dos catures de Porquá, que aferrou com hum dos paraós que eftaua bem cheo de mouros, & em aferrando faltou dentro fó, & parece que os Naires que yão também no catur, de rols fizerão afaftar ho catur antes que os outros Portuguefes entraffem, & Ioão fegurado como .digo ficou fó antre tantos mouros de que não fe podia valer fe não lançandoífe ao mar, ho que ele não quis fazer como verdadeiro Português, antes fe arremefou ãtre os mouros q eftauã na popa do parao por onde étrou ferindo por onde fua efpada podia alcançar, & como erão tantos em de- mafia quafi q ho afogarão & lhe leuarão a efpada das mãos, mas não ho feu brauo coração com que andou tanto coeles abraços que fe lhe fayo dãtre as mãos bem ferido & recolheofe á proa do paraó feguindo ho os
  • 288 Hijloria da índia mouros & ferindo ho: & tão apertado fe vio que virou a eles & remeteo a hú que ho mais perfeguia, & chegoufe tato a ele que ho leuou nos bra¬ ços. E nefte tamanho aperto foy focorrido por outro muyto valente caua- leyro chamado Pedro Iorge capitão doutro Catur: & gouernador q vio de terra o que lhe acontecera ho mãdou também focorrer por outros, a que Pero Iorge tirou defle trabalho com defpejar os mouros do paraó, hús mortos & outros feridos. E vendo ho gouernador como os que pele- jauão no mar tinhão neceffidade de focorro, mandou a algús dos capitães que eltauão coele em terra que ho fizeíTem: & forão, & com fua ajuda tardarão os mouros pouco em fe desbaratar de que faluarão muy pou¬ cos, porq quafi todos quiferão morrer: & dos Portuguefes q pelejarão no mar não morrerão quafi nenhús & os mais forão feridos. E ho mefmo aconteceo a dom Simão, que defpois de fe lhe os mouros defenderem valentiffimamente quanto lhes foy poííiuel não podendo refiftir á furia dos Portuguefes ficando muytos feridos & algús mortos fe recolherão pera ho fertão, & ele fe foy pera ho gouernador, que deu muytas graças a noífo fenhor por aquela vitoria, & abraçou a Ioão de melo por quão bé ho fizera aquele dia, & por quão bõ cõfelho lhe dera. E alfi ficou de pofle das eftancias & dos paraós, em q forão tomadas duzentas & cincoéta bombardas groífas & miúdas, & delas que forão tomadas aos Portugue¬ fes, & muytas camaras & infindos pelouros de ferro coado & muyta pol- uora, & grande forna darteficios de fogo. E tudo ifto foy recolhido na noffa frota & alfi os coréta paraós, & entre tanto ho gouernador fez algús caualeyros eftando muyto de vagar fem os mouros oufarem de tornar fobrele como coftumão. E defpois de queymadas húas dez naos de carga que eftauão varadas fe recolheo o gouernador muyto a feu prazer. E coefte feyto q os mouros ouuerão por muyto grande cobrarão os Portu¬ guefes ho credito que tinhão perdido na índia: & el rey de Calicut co¬ meçou de perder o que tinha adquirido, & começou de fe eftender pela índia a fama do gouernador, & os mouros lhe começarão dauer medo. CAPITOLO .LXXXIX. De como forão dadas cartas ao gouernador del rey Dormu\ & de Raix xarafo: de queyxumes de Diogo de melo. EMbarcado ho gouernador foyfe a Cananor, onde chegou a õze de Março, cujos mouros achou muyto quebrados polo desbarato dos paraós de Coulete & dos outros q eles tinhão por inuenciueis, & cuydauão q auião de desbaratar de todo a noffa armada, & derãfe por
  • Livro VI, Capitolo LXXXIX 289 gaftados quando os virão tomados. E el rey fe deu por deftruydo, porq em Cananor auia algús paraós, & como foube que ho gouernador che¬ gou lhe mandou a boa hora de fua chegada, & hú colar douro & pedra¬ ria de preço q ho gouernador não quifera tomar, & tomou ho por lhe dizerem todos que ho tomaffe, porque era el rey tão defcõfiado que fe lho não tomaffe, cuydaria que eftaua coele de guerra, & por iffo ho tomou & ho deu defpois ao fpirital de Cananor pera fe gaitar com os doétes & em outras coufas neceffarias, & mandou dizer a el rey q lhe tomaua ho colar porque não cuydaffe q não era feu feruidor, & que não faria por ele quãto cõpriffe pera fe goardar a amizade q tinha com el Rey de Por¬ tugal feu fenhor, o que ele faria fépre fé dadiuas né prefentes, & nunca ho contrairo ainda que lhe deffe quanto auia no mundo, por iffo q lem prefentes lhe podia requerer o que foffe feruiço del rey feu fenhor, & que ele ho faria logo. Do q el rey ficou efpantado, porque dãtes tudo na índia fe acabaua com peitas: & logo foy vifitar ho gouernador á forta¬ leza, o que nunca ateli fizera nenhú rey de Cananor a nenhú vifo rey nem gouernador da índia, & vianfe em húa tenda que fe armaua fora da fortaleza. E ho gouernador não fez neóhú cafo daquilo: & el rey feftejou muyto de palaura a vitoria dos paraós, & diffelhe que lhe entregaria algús que auia em Cananor com toda a artelharia que tinhão, & lhe pro- meteo de não fe fazerem mais outros, & moítroulhe húa carta q tinha del rey de Portugal, em q lhe fazia merce das ilhas de Maldiua com cÕ- dição que folie obrigado a darlhe tanto cairo quãto lhe foffe neceffario na índia ao preço que cuftaua nas ilhas, de que el rey de Cananor reque- reo ao gouernador q lhe deffe a poffe por virtude daquela carta. E ho gouernador lha daua com cõdição que deffe ho cairo, de que lhe pedia cadãno mil bahares, q faze dous mil & oyto cétos & vintoyto quintais, q de tãtos era enformado que auia neceflidade na índia. E el rey as não quis com aquele encarrego, com o q ho gouernador folgou por fer pro- ueito del rey de Portugal, porque fabia q dos quintos do arroz q as naos que yão ás ilhas pagáuão, fe comprauão os mil bahares de cairo & mais, & le pagaua mãtiméto a trinta ou corenta homés que lá eftauão cõ hú feytor, & todos enrrequecião do mais que furtauão. E por iffo q fabia folgou del rey não querer as ilhas, porq ficaffem pera el rey feu fenhor, a que efperaua de dar nelas muyto proueyto cõ fazer nelas húa torre cer¬ cada de muro em que fe recolheffe ho cairo & fe podeffé defender os que hi efteueffem. E com quãto el rey de Cananor nã quis as ilhas de Mal¬ diua com as condições que digo, né por iffo deixou de mostrar que ficaua muyto feruidor del Rey de Portugal & amigo do gouernador, & entre- goulhe logo algús paraós que tinha: & os outros lhe pedio pera feruirem. Tomo III 37
  • Hijloria da Índia P » 2Q0 de carrega: que ho gouernador lhe cõcedeo cõ tanto q lhe auia de dar a artelharia q tinha & lhe auião de cortar os efporões: & leuãtalos mais & tirarlhe os remos, & afli foy feyto. E defta maneyra ficou Cananor feguro, õde ho gouernador achou hú mouro com cartas del rey Dormuz & de Raix xarafo pera ho vifo rey dõ Vafco da gama, q tanto q foube- rao q era na índia, credo q era homé jufto, & q os mãteria é juftiça lhe efcreuerao logo, dado graças a Deos q ho leuara á índia, Õde auia dele tãta neceffidade pera fazer juftiça: pedindolhe muyto q lha foffe lá fazer de muytos agrauos q tinha recebidos no tépo paffado de dõ Duarte de menefes, & recebião no prefente de Diogo de melo. E com quanto ho mouro que leuaua eftas cartas foube é Chaul que ho vifo rey era morto, determinou de as dar ao gouernador que hia bufcar a Cochim, & achouho em Cananor: & dãdolhe as cartas que leuaua pera ho vifo rey, pediolhe que as ouuefle por fuas, & que fizefle a juftiça que fe efperaua do vifo rey, pois tinha feu carrego. E deulhe hú prefente de húas poucas de pé¬ rolas & de panos ricos de Perfia, q ho gouernador não quifera tomar: & tomouho polas rezões que tomou ho colar a el rey de Cananor: & diffe ao mouro as mefmas palauras que lhe mandara dizer. E logo ho gouernador ho defpachou efcreuendo a Diogo de melo fobre. o que el rey Dormuz & Raix xarafo fe agrauauão dele, pedindolhe muyto por merce da fua parte & requerendolhe da del rey feu fenhor que ho não fizeífe, & que ho não meteffe em preffa de os feus trlta annos caftigaré os feus fef- fenta. E pera que fe tiraffe a Diogo de melo ho azo de agrauar eftes dous homés efcreueo ho gouernador ao ouuidor da fortaleza Dormuz que lhe mandafle prefo hú home, por cujo confelho dezião que Diogo de melo caya nas culpas em que ho culpauão. E tudo ifto efcreueo a el rey de Ormuz & a Rayx xarafo, affirmandolhe que quando Diogo de melo não fe emmendafle, que ho tiraria da fortaleza: & por nenhú modo os deixa¬ ria agrauar, poriffo que eftiueffem muyto firmes na amizade & no feruiço delrey de Portugal & lhe efcreueífem quanto paífaffe, porque logo acodi- ria: & que não acodia logo polo muyto que tinha íjue fazer na índia. E ho mefmo dilfe ao mouro que leuaua as cartas: que fe partio muyto con- téte do gouernador, & muyto efpantado de quão pouca ou nenhúa cobiça tinha. \
  • Livro VI, Capitolo XC 2 Q I CAPITOLO .XC. Do que fe\ Fertião gomei lemos no rio de Mãgalor. E de como ho gouernador fe recolheo a Cocht, & defpachou a Pero ma\carenhas pera Malaca. PArtido Fernao gomez de lemos de Cananor como difle atras, che¬ gou ao rio de Mãgalor cõ as quatro velas q difle pera ho goardar. E poíto na fua boca tapou a q na podeffé fayr dele os cento & tantos paraós de mouros q eílauão détro, q prouarao de ho fazer algúas vezes, & núca poderão cõ os muytos tiros dartelharia q lhe tiraua Fer- não gomez & os outros capitães. E vedo q fua porfia era por de mais deixarã fe eílar: & eílãdo Fernão gomez neíta goarda, fobreuierão hú dia húa boa forna de paraós de Calicut que yã® ali carregar. E como os mouros virão os Portuguefes na boca do rio, & fabião q détro eílauão os paraós, poferãfe a tiro dos noflos nauios & começarão de lhes tirar cÕ fuas bõbardas, & os mouros q eílauão détro acodirã aos ajudar, & hús dú cabo & outros do outro começarão dapertar muyto os Portugue¬ fes, & arrõbarlhfs os nauios principalméte a Antonio da filua a q muy- tas vezes arrobarão a galeota. E ele como muyto esforçado caualeyro q era efteue fempre qdo, ate q Fernão gomez parece q polo não meteré no fúdo leuou ancora & deu á vela pera ir pelejar com os paraós do mar, & ho mefmo fizerão os outros capitães. E ainda bé eles não erão leua- dos, quando a mayor parte dos paraós q eílauão no rio fayrão pera fora, & dãdo á vela cõ os outros fe fizerão na volta do mar & aColheranfe: & Fernão gomez não os quis feguir pera tomar a barra & não 1'e acabaflem de fayr os q ficauao détro: poré nã lhe aproueitou, porq os mouros de- íefperados doutro acerto como aqle, fe meterã polo rio acima ate õde encalharão. E eíla noua foy ter ao gouernador eílando é Cananor: & porq em tomar os paraós q ficaua fe arrifaua muyta géte por peqna vito¬ ria ouue por efcufado ir lá, & por fer ja meado Março, & faber q erão vidas naos de Malaca onde era neceífario mãdar géte cõ Pero mazcare- nhas, determinou de fe recolher a Cochim, & perq auia neceflidade dar- roz pera as fortalezas de Cananor, de Calicut & de Cochim, mãdou a dõ Simão de menefes q foffe carregar dele a Bracelor & a Baticalá, & mãdou coele algús nauios de carrega & húa galé & duas galeotas & algús catures & paraós ligeiros, & mãdoulhe q fecolheffe cõíigo a Fernão go¬ mez de lemos & a Gomez martinz de lemos cõ os capitães com q eíla- uão é goarda dos rios: & affi lhe mãdou q quando fe recolheífe a Cochim
  • Hijloria da índia 292 deixafie a dó Ioão de lima a géte de q teueffe neceflidade. E ifto feyto partiofe pera Cochim, Õde chegou a dezafete de Março, & entedeo logo ê defpachar a Pero mazcarenhas pera Malaca, pera õde partio a oyto de Mayo, & foy em hú galeão de q ya por capitão Ayres da cunha q auia de fer capitão mór de Malaca: & afii forão mais em fua cõferua hú nauio velho q viera de Malaca, & hú bargãtim & dous paraós. E nefta armada mãdou ho gouernador trezétos & cincoenta homés por faber a necefli- dade em q ficaua Iorge dalbuquerque. CAPITOLO .XCI. Do qfe\ dó Simão de menefes a môte Deli, & de como fe recolheo a Cochim. DOm Simão de meneCes defpois q partio de Cananor foy a Barcelor & a Baticalá carregar darroz como lhe ho gouernador mãdara, & fez ho mais que lhe mandou. E indo de Baticalá pera Cana¬ nor com noue velas darmada .f. a gale' em que ya, & ho galeão de Go- mez martinz de lemos, & a galeota Dantonio da filua, & outra galeota & húa carauela, & dous bargantins de que erão capitães Antonio pefloa & hú Domingos fernãdez & dous paraós, topou a monte Deli com fetéta paraós de mouros Malabares que yão também bufcar arroz aos rios de Bracelor & de Mãgalor. E como os Portuguefes ouuerão vifta dos mou¬ ros foranfe a eles, & eles vendo os de fupito, & polo medo que lhe tinhão das vitorias paliadas cuydarão que erão tomados & moftrarãlhes as po¬ pas fugindo quanto mais podião. E dom Simão, Antonio da íilua, Do¬ mingos fernãdez & Antonio peífoa & os outros capitães das velas de remo derão a pos os paraós feguindo os ás bombardadas, & cinco vendofe muyto apreffados de dom Simão, Dantonio da filua & doutros tres que os querião aferrar vararão na cofia & hi fe perderã & a gente fe faluou, & Domingos fernandez & Antonio peífoa que leuauão os nauios mais remeyros aferrarão dous paraós, & faltarão dentro & matarão neles muy- tos dos mouros, & os outros faltarão ao mar, onde também forão mortos & os paraós lhes ficarão, & dos outros que yão fugindo deles fe forão na volta do mar, & deles fe acolherão ao rio de Marauia que era defronte: donde fe toparão com dõ Simão, que vendo os meter no rio determinou dentrar coeles, & logo fez ébarcar a géte nos bateys & efquifes & nauios ligeiros da armada. E remando a boga arrancada cometeo a barra do rio com grandes gritas & eftrondo de trombetas, & foy recebido com outro mayor de muytas bõbardadas & frechadas que lhe tirauão algús paraós que
  • Livro VI, Capitolo XCI 2g3 ainda não erão de todo recolhidos no rio: & os Portuguefes que eftauão fauorecidos com as vitorias paliadas não derão pelos pelouros né frechas dos mouros, & rõpédo perãtreles trabalhauão cõ os remos por chegar aos mouros, & é chegãdo deitarão détro fete ou oyto panelas de poluora cõ que lhes poferão ho fogo. De que os mouros auendo grande medo fe lãçarão logo ao mar, & os paraos ficarão ardendo ate que forão de todo queimados. E nefta reuolta Domingos fernandez que era muyto valente caualeyro feguio no feu bargantim acompanhado de um parao de húa nao, outros paraos que fe acolhião pelo rio acima, de que quevmou dous com panelas de poluora, & tirou apos os outros: & temendo dom Simão que fe perdefie por ir tão foo, mandou a Gomez martinz de lemos que ya em hú efquife que foíTe apos Domingos fernandez & ho fizeífe reco¬ lher: & foy tão mofino que indo a iffo errou ho canal por onde auia dir, & deu em feco dõde não pode favr, & acodirão ali fobrele tantos mouros da terra que ho matarão ás frechadas, & a dom Miguel de lima filho de do Afonfo de lima com outros quatro. E Domingos fernandez defpois que ho bargantim não pode nadar fe recolheo pera a barra. E porque efte rio era do reyno de Cananor moftrou el rey quando ho foube que lhe pefaua muyto deftes feys Portuguefes que aqui matarão, principal- mente polo fazerem feus vaflalos & recolherem nofios immigos & os aju¬ darem & fe aluoroçarem cotra os Portuguefes. E por caftigo mandou defpois matar algús mouros & Nayres que niífo forão culpados, & man¬ dou leuar os corpos mortos dos Portuguefes a Eytor da íilueira, pera que os mandalfe enterrar: fazendolhe faber ho caftigo que fizera por fuas mortes, & dizendo q faria mais fe foffe neceffario. E tudo ifto fazia por¬ que ho gouernador não teueffe dele algúa fofpeita & por iffo lhe fizeffe mal. E recolhida per dom Simão fua gente, fe tornou a embarcar na frota, & ãdou por aqla paragem algús dias pera ver fe paffauão algús paraós de mouros a carregar darroz, porque ateli por amor que os rios eftauão çarrados cõ os nauios que difle não oufauão lá de ir nenhús, né fe poderão muytos fornecer de mantimétos como dantes fazião, que foy caula de no inuerno feguinte auer no Malabar a mayor fome que nunca ouue, principalmente no reyno de Calicut. E efta foy a mais perjudicial guerra que fe lhe podia fazer, porque como diífe no Malabar não ha arroz que efcufe fome fe ho não leuão de fora, & fe ho gouernador fe lébrara mais cedo daquela goarda dos rios mayor fome padecera ho reyno de Calicut. E vendo dom Simão que não paífauão mais paraós, & que ho inuerno começaua dentrar, recolheo fe a Cochim, porque depois não po- derião com as toruoadas & foyfe a Cananor: & prouida a fortaleza de feu quinhão darroz fe foy á de Calicut, a que tãbé deu ho arroz neceffa-
  • 294 Hijloria da índia rio, & quãdo foy pera deyxar algúa gente a dom Ioão de lima de que tinha neceífidade por fe efperar cerco naquele inuerno, não queria ficar nenhú home de qualidade, porq ho gouernador não aífinara os que ficaf- fem, & porque fe enfadauão do trabalho da guerra que eftaua certa. E vendo dom Simão que nenhú homem honrrado queria ficar, tomou ate cento & vinte homens defles baixos, & por força os deixou na fortaleza, & aíli ficou a fortaleza fem géte de vergonha fe não a que dom Ioão ja tinha que erão algús feus parentes, amigos & criados, & a outra fe foy inuernar a Cochim, onde efteue fem fazer nenhum proueito, & poderá fazer muyto no cerco que el rey de Calicut pos fobre a fortaleza, com que efteue muyto perto de fe perder: & milagrofaméte a faluou noflo fenhor como direy a diante. E prouida efta fortaleza como digo por dom Simão, foyfe a Cochim: onde chegou ho primeyro de Mayo encontrado de muytas toruoadas que lhe fobreuierão no caminho. E com tudo def- pois de ele recolhido a Cochim os mouros de Calicut pola neceífidade grandiffima que tinhão darroz fe auenturarão ao mar, & forão por ele a Bracelor & a Mangalor de q trouuerão algús paraós: que fe iífo não fora morrerão todos de fome. E porque os gentios a padecião por fua caufa lhes querião muyto grande mal, efpecialmente os Nayres: que lhes dizião cada dia que eles não fabião mais q fazer eftar mal a el rey de Calicut com os Portuguefes: & porem que não erão pera ho liurar da guerra que lhe fazião, & que eles os fazião padecer a fome que padecião & auião de fazer perder ho reyno a el rey: & alfi outras coufas com que os mou¬ ros andauão muy alauercados. CAPITOLO .XCII. De como foy morto Chrijlouão de brito, & os outros capitães desbara¬ tarão as fuftas de Dabul. QUando ho gouernador fe partio de Goa pera ir a Cochim tomar poífe da gouernança, deixou a Frãcifco de fá que ficaua por ca¬ pitão de Goa húa armada de quatro fuftas & feys bargantls que ho gouernador mãdara fazer de paraós pera goarda daqla cofta ate Da¬ bul. E a capitania mór defta armada fe deu a hú fidalgo chamado Chrif- touão de brito que era alcayde mór da fortaleza de Goa muy esforçado caualeyro, & por iífo defejaua de feruir naquela ãtes q eftar ociofo em Goa. E andando ele em goarda daquela cofta, ouue por vezes muytos recontros com frotas de mouros de' Calicut a que fez muyto dãno. E an¬ dando aífi foy hú dia ter aa barra de Dabul, Õde fendo fabida fua chegada
  • Livro VI, Capitolo XCI11 2gS ho Tanadar mandou logo encher de quatro cétos rumes fete grandes fuf- tas & húa galeota q eftauão muyto bem armadas dartelharia & efquipa- das de remeyros & por feu capitão moor foy hú valete turco cujo nome na foube que ya na galeota, & fayrão com determinação daferrarem com os Portuguefes que ferião ate cento & cincoéta & matarénos a todos, & aflt como fayrão do rio fe forão dereytos a eles, & ho mefmo fez Chrif- touão de brito: & com grande eftrondo de gritas & de tiros dartelharia & efpingardadas fe abalrroarão as capitainas & quatro fuftas dos rumes com outras tantas noffas, & começoufe húa braua peleja antre os Portu¬ guefes & rumes q todos pelejauão valentemente. E nefte cõflito forão dadas a Chriftouão de brito juntaméte duas frechadas no pefcoço q am¬ bas lhe paffarão hum gorjal de malha que tinha com quãto era fina, & deranlhe por tal parte que logo cayo morto, mas nem por iflo os Portu¬ guefes defacoroçoarão, ãtes com ho pefar da morte do feu capitão moor parece que fe esforçarão mais pera a vingar, & com hú brauo impeto derã tão rijo nos rumes que os etrarão por força matando hús & fazendo faltar outros ao mar, de que defpois os mais forão mortos: & outro tanto aconteceo aos outros quatro capitães dos quatro bargantins que aferrarão com as quatro fuftas dos rumes: q também os entrarão & axorarão, & os das outras vedo ifto não quiferão aferrar & voltarão, & por fe fãluaré dos Portuguefes q yão apos eles derão á cofta Õde fe as fuftas efpedaça- rão, & a galeota cõ as quatro fuftas ficarão é poder dos Portuguefes, dè que nefta batalha forão mortos cÕ Chriftouão de brito feys & todos os q aferrarão forão muyto feridos, & dos rumes forão mortos a mayor parte. E coefta vitoria q foy muyto grãde pera quão abatidos eftauão os Portu¬ guefes por aqla cofta, & quã foberbos eftauão os mouros cõ as vitorias pafTadas fe tornarão aqles capitães Portuguefes pera Goa, de q Frãcifco de fá mãdou a noua ao gouernador. CAPITOLO .XCIII. De hú milagrofo feyto q fi\erão vinte Portuguefes na ilha de CeylSo. ATras fica dito como desfeyta a fortaleza de Ceilã Fernão gomez de lemos q a foy derribar deixou étregues a el rey de Ceilão ho feytor q lá ficou, & ho efcriuão & quinze Portuguefes q ficauão coeles, porq alfi ficauão mais feguros. E tornado Fernão gomez á índia, foube Baleacé Jiú mouro de Calicut & prlcipal armador dos paraós q fe fazia naquele reyno como a fortaleza era derribada, & quão poucos Por¬ tuguefes lá ficauão, & pareceolhe que pois ficauão entregues a el rey de
  • 2ÇÔ Hijloria da índia Ceilão q lhos étregaria fe lhos pediffe. E coefta determinação partio pera lá em quatro paraós, em q leuou bé quinhétos homés de peleja. E che¬ gado a Colúbo foy falar a el rey & diffelhe q os paraós delrey de Cali- cut pelejarão cõ a armada do gouernador da índia: em q fora desbara¬ tado & morto cõ quãtos Portuguefes yão nela, pelo q el rey de CochI & de Cananor & todos os outros da índia tinhão cercados os Portuguefes q morauão é fuas terras. E por ifto fer afli el rey de Calicut lhe mãdaua rogar q lhe mandaífe aqles Portuguefes q tinha pelo mefmo Baleacê. Do q el rey ficou muyto efpãtado, & não ho creo por lhe parecer q os Por¬ tuguefes não podião fer vccidos tão afinha: & diffe q aueria feu confelho. E ido Baleacê mãdou chamar ho feytor & efcriuão & algús dos outros, & contoulhes o q Baleacê differa, pergútandolhes fe feria verdade q ho gouernador da índia era desbaratado. E eles lhe differão q em nenhõa maneyra podia fer, porq auia ãnos q não fe ajútara tãta gête na índia como êtão: & mais q o gouernador era muyto esforçado caualeyro, q ho não auião os mouros de poder desbaratar: & q os mouros por ferê Imi- gos dos Portuguefes aleuãtauão aquilo. E por affegurarê mais el rey, dif- ferãlhe q mãdaffe faber aa índia fe era verdade o q dizia Baleacê: & fe ho foffe q então fizeífe o q quifelfe. E como el rey era bõ homê pareceo- lhe ifto bê, & diífe a Baleacê q não auia dêtregar os Portuguefes ate nã faber certo 1'e era verdade o q ele dizia. E cuydãdo ele q el rey nã qre- ria tãto aueriguar aqla verdade, & q diria aquilo por fe efcufar dêtregar os Portugueíes: diffe q mãdaffe faber á índia o q lhe dizia. E el rey ho fez afli, efcreuêdo ao gouernador o q paffaua. E quando ho meffegeiro chegou a CochI, chegaua ho gouernador de deftruyr Coulete, & vio os paraós & artelharia q tomara. E vêdo Baleacem q el rey nã lhe queria dar os Portuguefes, determinou de os tomar por força: confiado q por a gête da terra fer fraca não lhe poderia refiftir. E porq não pude faber miudamente como ifto foy, não coto as particularidades q nifto ouue: fe não q el rey fe pos a todo rifco cõ os mouros por defender os Portugue¬ fes, a q deu toda a ajuda de gête q pode: & eles fendo vinte no mais indo muyto diãte da gête cõ que os el rey ajudou, forão cometer os mou¬ ros q erão quinhétos, & pelejarão coeles cõ hú esforço tão fobre natural, q era coufa defpãto grãdifliimo defenderéfe tão poucos de tãtos, quãto mais offenderénos cõ mataré bé cincoeta deles, & feriré tãtos q os def- baratarão & fizerão fugir como cabras, & os q efcaparão fe acolherã a dous paraós q tinRão no mar: q os outros dous eftauão varados & ficarã. E Baleacê fe foy muyto corrido de fer desbaratado de tão.poucos Portu¬ guefes & difculpauaffe q aqla vitoria fora milagrofa, & q Sãtiago os aju¬ dara na batalha. O que fe deue de crer fem duuida, porq não era pofiiuel
  • Livro VI, Capitolo XCI1II 2 97 q tão poucos desbaratafle tamanho poder de géte ficado todos viuos. E elrey de Ceilão ficou fora de fi vedo húa coufa tão fora de natureza, & não auia horra q não fizeffe aos Portuguefes, & afli ho fazião os feus, principalmente os q forão na batalha q mais fe ocuparão em recolher ho defpojo que em pelejar. CAPITOLO .XCIIII. Do q Antonio ide mirada da\euedo fe\ no cabo- de Goardafum & em .Xael. ANtonio de miranda dazeuedo que ya por capitão mór da armada q ya ao cabo de Goardafú, afii pera fazer prefas como pera tomar as duas naos de madevra q yão de Diu pera ho eftreito, ãdou tãto por fua viagem q chegou á paragé onde as auia defperar, & afii as naos que fayfem do eftreito. E poftos os capitães cada hú a feu cabo vigiauafe ho mar tédo teto no q podia vir. E andando afii, chegou húa fufta de mouros Malabares carregada de piméta q ya pera détro do eftreito, q foy tomada: & defpois hú zãbuco q faia do eftreito pera Diu carregado de mercadorias, & húa terrada cõ caualos, & tudo ifto fe tomou fé pe¬ leja. E neftes dias q os Portuguefes aqui ãdarão núca as naos de madeira paffarão ao menos q fofle viftas. E vedo Antonio de mirãda q fe lhe começaua de gaftar a moução & q as naos não yão, nã quis mais efpe- rar, & desferio vela caminho de Xael feguldo ho os outros nauios, porq ho mãdaua lá ho gouernador a pedir a el rey oytéta bõbardas q tinha de húa nao portuguefa q ali dera á cofta & fe perdera: & afii algúa arte- lharia q ali ficara a dõ Luys de menefes. E chegado ao porto de Xael, mãdou recado fobriflò a el rey, q né lhe mãdou fazer nenhú recebiméto, né lhe quis dar a artelharia por eftar ainda magoado do dãno q ali fizera dõ Luys de menefes. O q vedo Antonio de mirãda, determinou de fe vin¬ gar é doze naos de mouros q eftauão no porto: & cometendoas cõ os outros capitães de fua armada desbaratou os mouros q as quiferão defen¬ der, matando & ferindo muytos, & queimou fete naos, & as cinco forão tomadas a fora húa q deu á cofta, & neftas fe achou muy rica mercado¬ ria: & porq ho galeão de Manuel de macedo fazia muyta agoa & tinha neceffidade de fe tirar a mote, mãdouho coefta prefa a Chaul recolhida toda é duas das naos: & afii leuou a terrada dos caualos. E chegou a Chaul a faluamento: & Antonio de miranda com os capitães que lhe ficauão fe foy a inuernar a Mazcate. Tono ui 38
  • Hifloria da índia 2q8 CAPITOLO .XCV. De como Martim afonfo de melo jufarte chegou aa ilha de Banda. DUrãdo a guerra ãtre Antonio de brito & el rey de Tidore como atras difle entrou ho mes de Ianeiro de D. D. xxv. em q Antonio de brito defpachou quatro jungos pera Malaca: & foy por capitão mór Marti afonfo de melo jufarte e hú galeão q corregeo a fua cuíta pera fe ir: & foy ter a Bãda ao porto de Lutatão: & por amor da guerra paf- fada não folgou a géte da terra cõ fua vida, antes lhe pefou muyto: & não fe fiauão dos portuguefes, nê queriã fua cõuerfação: o q tãbé eles faziã. E eftãdo alli foube Marti afofo q na ilha de Mira húa das de Bãda eftaua hú jungo da cidade de Patane q eftaua de guerra cÕ malaca: par- tio logo pera lá no feu galeão cõ determinaçã de ho qymar. E no júgo eftauão muytos mouros q quãdo ho virão fe poferão em armas: & cõ quanto ele não leuaua mais de ate xxx ou xl. portuguefes mãdou q afer- rafem o júgo: & é chegãdo lhe deitarã muytas panelas de poluora, com q ho fogo fe acédeo nele: & começãdo de arder os mouros fe lãçarão ao már: & ardeo ho jungo cõ a fazéda q era muyta: & em tãto os noílos matarão algús mouros fifgandoos no mar: & como Marti afonfo eftaua efcãdalizado deíles de Bãda lhes começou de fazer guerra cõ que os tra- taua muyto mal. CAPITOLO .XCVI. Do q acoteceo a dó Garcia anrriqi: & a Marti afofo de melo jufarte na ilha de Bãda. ATras fica dito como dÕ Duarte de menefes fedo gouernador da ín¬ dia a requerimento de Iorge dalbuquerq capitão de Malaca, lhe deu a capitania da fortaleza de Maluco pera cada hú de feus cu¬ nhados. E vedo Iorge dalbuquerque q dõ Garcia ãrriquez q era hú deles nã podia feruir de capitão mór de Malaca por fer prouido deífe carrego Marti afonfo de foufa. E porq pola guerra q ele fazia a Blntão, Malaca eftaua pacifica, & dõ-Garcia podia ir fazer feu proueito: determinou de ho mãdar a Maluco cõ a prouifam q tinha de dõ Duarte pera fer capitão da fortaleza por lfje Antonio de brito ter dãtes efcrito que a queria dei¬ xar. E porque poderia fer q Antonio de brito fe mudaffe daquela võtade, & não quereria alargar hú arino que ainda tinha por feruir, & mais por a prouifam que leuaua fer confufa & pouco firme, mandoulhe que fe ho
  • Livro VI, Capitolo XCVII 399 tal acõteceffe: que ele fe tornaria a Banda & hi faria húa cafa forte pera que podeffe eftar hi algú tempo fazendo feu proueito: & apercebeo ho pera húa coufa & outra, dãdolhe dous nauios redondos & hú jungo de cuberta, & húa fufta em q leuaria ate fedenta Portugueles de peleja afora os marinheiros & bombardeiros, & partio pera Bãda em Ianeyro de mil & quinhétos & vinte cinco. E chegado a Banda achou Martim afonfo de melo jufarte que eftaua de guerra com os da ilha, de quem fez queixume a do Garcia pedindolhe que ho ajudade nela: o q fe ele offreceo a fazer de boa võtade por fer muyto esforçado, & lhe parecer q Marti afofo tinha rezão é fazer aqla guerra. E acordarão ãbos de dous q tomaífé a cidade de Lotir cabeça de todas as pouoações da ilha, porq ali era a força da géte, & aqla vécida ficaua toda a ilha em paz. E ifto acordado, aperce- berafe pera ilfo, & hú dia faltarão é terra perto de cé Portuguefes & po- ferão logo ho fogo a certos jungos que eftauão varados, que forão quey- mados, & entrãdo mais a diãte pera a cidade acharão na cercada de fortes trãqueyras, & algúa gente que as defendia, & dom Garcia & Martim afonfo poíerão diante algús efpingardeyros que leuauão, & cometerão détrar a trãqueyra, donde lhe tirauão muytas frechadas, pedradas & ar¬ remedos: porem chegãdo os noffos efpingardeyros fizerão defaliuar algúa géte da tranqueyra com que os Portuguefes começarão dentrar, mas forão muyto poucos pera a gente fem conto dos mouros que logo recreceo, & forão tãtas as frechadas fobre os Portuguefes que era efpãto, & adi muy- tos arremedos, & dú foy dom Garcia ferido no pefcoço por não leuar gorjal: & adi forão feridos outros da fua companhia, & por ifto não paf- farão dali & fe tornarão a ébarcar deixãdo feyto pouco dãno'aos Imigos, & não quiferão mais fayr é terra, & do mar fazião ho mal q podião aos Imigos: & adi efteuerão ate a moução pera Maluco como direy a diante. CAPITOLO .XCVII. De como Martim afonfo de foufa capitão môr do mar de Malaca pele¬ jou com Laqueximena: & de como foy morto com outros. SIntindo el rey de Bltão muyto a deftruyção que Marti afonfo de foufa fizera na cofta de Pão & Patane, determinou de fe vingar, & mais fabendo por fuas efpias como dõ Garcia anrriqz era partido pera Bãda cõ parte da armada de Malaca, em q tabé Ieuaua géte cõ o q ficou pouca é Malaca, & ao menos nã tãta como era necedaria pera a defenfam de Malaca. E por ifto lhe pareceo a el rey de Bintão q tinha tempo pera fe vingar: & determinando de ho fazer, armou vinte lancha-
  • 3oo Hijioria da índia ras grandes em que yão mil & duzentos homens de peleja apercebidos de muytas armas & petrechos de guerra, & mandou por capitão mór delas Laqueximena, que jurou de lhe leuar a cabeça do feytor Garcia chainho (q tão auorrecido era antre os mouros de Bintão) & afli hú par dos nauios da armada de Martim afonfo. E partio Laqueximena tão fecre- tamente que chegou a Malaca fem fer fentido: fe não quando húa manhaã dia de noffa fenhora de Março chegou de fupito & defembarcou na po- uoação dos Quells, onde a fua géte começou de matar & roubar na gente da terra, q falteados daquela maneyra começarão de furgir aleuantando muy grandes gritas, que logo forão ouuidas de Iorge dalbuquerque & de Martim afonfo de foufa & doutros que eftauão na igreja ouuindo miffa. E conhecendo q aquilo era rebate dimmigos, leuantoufe hú valente caua- leyro chamado Ayres coelho & diffe a Iorge dalbuquerque que acodiffem a aqla géte que os immigos matauão: & Iorge dalbuquerque diffe que li, & mãdou por terra Garcia chainho com oyteta Portuguefes & antreles forão Nicolau de fá, Antã daguiar, Frãcifco bocarro, Ruy lobo, Gafpar velho, Simao mendez, & obra de vinte homés da terra, & por mar man¬ dou que foliem Martim afonfo de foufa & Manuel falcão em duas fuftas que não auia mais nauios de remo & nelas forão fetenta Portuguefes em cada húa trinta & cinco, em q entrarão Ayres coelho, Francifco fernan- dez leme, Aluaro botelho, Garcia queymado, Francifco rabelo, Gafpar barbudo, Antonio carualho, Ioão ferrão, & partirão todos a húa, hús per mar outros per terra. E fmiindo Laqueximena que os Portuguefes vão, recolheo fua gente ás lancharas: & porque a noffa artelharia que eftaua c terra lhe não fizelfe nojo por eftar perto, & tãbem porque tirafle Mar¬ tim afonfo pera ho mar que lhe não podelfe efcapar fez que fugia, não fe alargando muyto dele, nem tirãdo nenhúa artelharia porque não defef- peralfe de lhe poder chegar & fe tornalfe. E Martim afonfo cuydando que lhe fugia ho ya feguindo muyto ledo, tirandolhe muytas bombarda- das & dando com fua gente grandes apupadas. E ledo afaftados de Ma¬ laca húa boa legoa que era o que Laqueximena queria: fez ele volta com feus capitães a Martim afonfo & a Manuel falcão, defparando neles toda fua artelharia: & alli como yão tirando afli os yão cercando de modo que -os tomarão no meyo: & dãdo grandes gritas começarão as bombardadas de fe amiudar mais dú cabo & do outro: porem como a artelharia dos immigos era mais, aflTi tiraua mais bombardadas, & erão tão baftas que eftando Antonio carualho, que agora he feytor da cafa de Ceita antre Ioão ferrão & outro forão eles leuados em pedaços de dous pelouros, & ele ficou faluo. E nillo os immigos fe chegarão tanto aos Portuguefes que abalrroarão com as fuftas, metédo as proas das lancharas por antre as
  • Livro VI, Capitolo XC VIII 3o i fuas apelações, ficando com os Portuguefes a bote de lança, & a golpe de efpada: & cada fufta eftaua aferrada de quatro lancharas & Martim Afonfo, & Manuel falcão começarão desforçar os feus, dizendo que na¬ queles perigos tamanhos fe via ho poder de noíTo fenor que fe encomé- daífem a ele, & que os esforçaria. E alfi foy que nunca os mouros os poderão entrar, & canfados hús afaftauanfe & chegauão outros, & todos tirauão muytas efplgardadas, frechadas de frechas eruadas, lãças darre- meffo de trinta palmos dafte & dous de ferro: azagayadas de paos dareca toftados, & de canas toftadas que fazem grande paliada. E tudo ifto era tanto em demaíia, que às fuftas dos Portuguefes eftauão todas pregadas, aífi nos maftos como nas vergas, tendais, coxias & amuradas, & muytos deles eftauão pregados nas mefmas fuftas por muytas partes do corpo, & ficauão em pé mortos que não podião cayr de pregados: & foy a mais braua & efpantofa peleja que nunca naquelas partes nem na índia fe vio, nem em q morreffem tantos Portuguefes, nem'que duraffe tanto: porque durou das duas horas defpois de meyo dia ate horas daue Marias, & forão mortos corenta & dous Portuguefes, & ãtreles forão Martim Afonfo de foufa, Ayres coelho, Aluaro botelho, & Francifco rabelo, & feridos oyto, & deftes o que menos feridas tinha erão tres, & efte foy Antonio carualho, & os outros ate dez, & dos mouros forão mortos duzentos & vinte, que de hum foo tiro da noffa artelharia morrerão corenta & dous, & foy arrombada húa das lãcharas. E fe a frota dos Portuguefes fora de mais velas não efcapara nenhum. E vendo Laqueximena morta tanta gente da fua & ferida, & a outro muyto canfatla, & efpaatada da valen¬ tia dos Portuguefes, mandou que ceífafle a peleja, & afaftarãfe pera ho mar: & afli liurou nolfo fenhor os Portugqefes que ficauão viuos. CAPITOLO .XCVIII. De como os Portuguefes que efcaparão da batalha tornarão a Malaca. AFastados os immigos derão os Portuguefes que ficauão viuos muy¬ tos louuores a noíTo fenhor por efcaparé de tão braua peleja como aquela foy: & eftauão tão cãfados os fãos & os feridos tão fracos que não auia quem fe podefle bolir: & pola neceftidade que tinhão fe esforçarão ho mais que poderão pera fe partirem como folie bem noyte, & trabalharem porq chegaffem a Malaca, dõde fe acharão cinco legoas que tanto os leuou a corrente. E Antonio carualho que eftaua menos ferido, diffe que gouernaria a fufta em que eftaua & a outra iria a pos ela: & alfi ho fizerã. E quis nolfo fenhor que as fuftas tinhão as vergas
  • Hiftoria da índia 302 dalto, que fem iflo não poderão dar ás velas, & forão cÕ ho terrenho ate húa legoa de Malaca onde furgirão q não poderão mais furdir por amor da maré que vazaua, & ali efteuerão efperando ate ho meyo dia pola viração. E nefte tépo tornou Laqueximena de mandar enterrar os feus mortos, que forão enterrados na ilha Dupe, & apareceo ao mar, & como não fabia a maneyra de cj os das fuftas ficarião, nã oufou de tornar a pe¬ lejar coeles, temendo que ho acabafTem de deftruyr: & ãdaua balrraue- teãdo a vifta deles, com que Iorge dalbuquerq fe agaftou muyto por ver quão perto os mouros andauã das fuftas & viaas furtas, & não fabia como não fe yão pera terra a remos. E parecendolhe aquilo mal, mandara de boa võtade ver o q era fe teuera algú parao ou fufta, mas não tinha mais que dous nauios redondos de gauea, que tinhão neceflidade de muyta gente, & receaua a armada dos mouros q andaua a vifta, & por ifto não oufaua de os mandar: & as duas fuftas efteuerão em muyto rifco de ferem tomadas pelos mouros fe as cometerã, mas como digo não oufa- uão. E vinda a viração, Manuel falcão mandou dar ás velas & foyfe pera ho porto de Malaca, & por confelho Dantonio carualho ya a artelharia das fuftas carregada, pera que a defparafiem em chegando ao porto: porq os da terra vedo efte final dalegria cuydaflem que yão os Portuguefes vitoriofos & não ouueffe antreles aluoroço de fe quererem leuantar. E chegando as fuftas ao porto que defpararão a artelharia, acodio Iorge dalbuquerque & ho alcayde moor com outros cuydando que ya Martim Afonfo muyto vitoriofo, fe não quando vio tantos mortos, & lhe contarão como paffara o feyto, & vio as fuftas como yão pregadas, chorou com trifteza & magoa de tamanho defaftre como aquele fora. E porque a gente da terra cuydaffe como cuydou q os Portuguefes ficarão com a vito¬ ria, não quis que tiraffem os mortos das fuftas fe não á mea noyte, & forão foterrados dentro na igreja. E coefte ardil fe encobrio ho desbarato dos Portuguefes aos da terra, a q dizião que Martim Afonfo de foufa & outros homes conhecidos que falecerão eftauão doentes, porque os não achaffem menos. CAPITOLO .XCIX. Do q Laqueximena fe\ no Colafcar: & de como fe foy pera Bintão. VEndo Laqueximena que os Portuguefes nã querião fayr mais a pe¬ lejar coele, determinou de fe vingar do mal que recebera na géte da terra, & foyfe a húa pouoação de Malaca afaftada hú pouco do corpo da cidade que fe chama Colafcar & defembarcou ali cõ toda fua géte. E quando os moradores do Colafcar que erão gétios virão os mou-
  • Livro VI, Capitolo C 3o3 ros fobre fi, receando que os mataffem, fe lhe entregarão com cõdição que lhes defTem as vidas & as fazédas, & q fe irião coeles pera õde os quifeflem leuar. E Laqximena os mandou embarcar na fua armada com molheres, filhos & fazenda. E defpejãdofe ho Colafcar foy Iorge dalbu- querque auifado difio por hú ChrLftão da terra chamado Iacome, & Iorge dalbuquerque mãdou a Garcia chainho que fofle com fetéta Portuguefes & deffe no rabo dos Imigos fe vifle tempo pera iflo: o q veria em che¬ gando a hú regato que corria por antre a cidade & ho Colafcar, & par- tio em anoytecendo. E chegando ao regato donde auia de defcobrir terra, leuauao os Portuguefes tamanho defejo de pelejar que núca Garcia chai¬ nho os pode deter pera faber o que fazião os Imigos: & paffando ho re¬ gato forãfe dereytos ao lugar dode os mouros fe acabauão de fayr tedo ja os gétios embarcados. E quãdo fentirao os Portuguefes cuydando q folfem mais, embarcaranfe cÕ muyta prefla & afaftaranfe pera ho largo. E tudo ifto virão os Portuguefes com ho grande luar que fazia, & não poderão fazer nenhú dãno aos mouros. O que vedo (íarcia chainho, man¬ dou meter ho lugar a faco, em q foy achado algú arroz com que fe ale¬ grarão muyto por auer grande falta dele é Malaca & fer muy caro: & aífi forão achados algús efpígardões & berços, & hú pouco de gado & afli algúa mercadoria. E coefta prefa fe tornou Garcia chainho a Malaca, õde chegou á mea noyte, & Laqueximena fe foy a Bintão deixando feyta em Malaca tamanha perda. CAPITOLO .C. De como Ballefar rodrigueç rapofo & Aluaro de brito desbaratarão Laqueximena & el rey de Draguim. D Aqui a algús dias não fabendo el rey de Bintão ho grãde dãno q a fua géte fizera aos Portuguefes, & cuydãdo q ela fométe ho re¬ cebera deles, determinou de fe vingar em el rey de Linga vezinho de Malaca por fer amigo dos Portuguefes, & lhe focorrer cõ mãtimentos, & mãdou fobrele el rey de Draguim feu genrro & Laqximena com cento & fefienta lancharas em que irião oyto mil mouros bem armados & aper¬ cebidos de muyta artelharia & de muytas munições. E eftes dous capi¬ tães cercarão el rey de Liga por mar & o apertauão muyto. E nã fe atre- uedo ele a liurarfe da opreífam que lhe dauão, mãdou pedir focorro a Iorge dalbuquerque, alegandolhe as boas obras q lhe tinha feytas em fua neceffidade. E como por efla caula el rey de BItão lhe fazia aquela guerra: & pofto que Iorge dalbuquerque eftaua em tanta neceffidade de géte por
  • 304 Hifloria da índia quão pouca tinha & effa ainda ferida. E canfada a mayor parte dela, de¬ terminou de lhe focorrer pola obrigação em que lhe era: & porque fofle exemplo aos outros amigos dos Portuguefes que folgafiem de os ajudar quando lhes foffe neceffario, poré como em Malaca fe fabia a grande frota que eftaua fobre el rey de Linga, & os Portuguefes eftauão canfa- dos & enfadados de tãta guerra: com muyta difficuldade achou quê lá quiíeffe ir. E com tudo forão cincoenta Portuguefes nos dous nauios que diífe, em que forão por capitães hum Aluaro de brito & hú Baltefar ro- driguez rapofo natural de Beja. E nauegando por fua uiagé, chegarão a húas ilhas que eftão a tiro de falcão da de Linga, & ali furgirão por va¬ zar a maré & as amarras das ancoras com q furgirão eftauão forradas de cadeas de ferro, porq lhas não podeffem os Imigos cortar. Laqximena & el rey de Draguim q virão os nauios dos Portuguefes ficarã muyto ledos, parecendolhes q lhes não podião efcapar, & mandarão fazer gra¬ des alegrias por toda a frota. E ás duas horas defpois de meyo dia mã- darão faber fe era baixa mar de todo pera irem pelejar cõ os Portugue- ies: o que eles entenderão logo vendo hú balão que ho ya faber, & fizeranfe preftes pera a peleja com muytas panelas de poluora, & rocas de fogo & ceuarão fuas efplgardas q todos tinhã, & porq os mouros os não podeífé aferrar cubrirã os nauios cõ húas efteiras de rota de bégala q chegauão das exarcias ate a agoa, & fomente as popas & proas ficauão descubertas. E fendo a maré vazia abalarão os immigos pera os Portu¬ guefes repartidos é duas batalhas cada húa doytenta lancharas: com grãde arroido de inftormentos de guerra, que tocauão de quando em quando. E ceifando os inftormentos aleuãtauão os mouros muyto grades gritas, & a pos ela cantauão em lingoa malaya ao fom dos remos. Ia vos jazedes peixes nas redes: porq criã fem duuida que afli eftauão os Por¬ tuguefes, que cõ quãto vião ir cõtreles tamanhas nuués de nauios q co- brião o mar, cõ tamanho eftrÕdo q ho fazião tremeter. Eftauão todos muyto esforçados cõ a efperãça em nolfo fenhor: & ho primeyro homé que pos fogo a hú falcão foi Antonio carualho que atras nomeey. E quis Deos que acertou em húa lanchara & arrombou a, a q os Portuguefes derão húa grãde grita, dizendo. Vitoria, vitoria: q Deos he cõnofco. E logo tirarão outros quatro tiros, & arrombarão & defaparelharão outras Õze, em q forão mortos muytos mouros. O q quebrou grandemête os fpi- ritos aos outros. Laqueximena & el rey de Draguim tambê mãdarão poer fogo á fua artelharia q erã muytos falcões de metal, & fazião remar muyto rijo pera chegare aos Portuguefes & os aferraré: q coiffo efpera- uão de os matar a todos & não cõ a artelharia, & quãdo forão pera ho fazer nunca poderão apegar os arpeos por amor das efteiras: q aqle dia
  • Livro VI, Capitolo C 3o5 defpois de noffo fenhor forão faluação dps Portuguefes. E bc parece q ele por fua mifericordia lhes infpirou aqle ardil, porq fe os mouros os aferrarão fegúdo erão muytos & eles poucos não efcapara nhú. E vedo Laqximena & el rey de Draguim q não podiã aferrar os Portuguefes def- honrrauão os feus de couardos & fracos com q eles fe desfazião em tirar frechadas fem coto de frechas eruadas, & muytas efplgardadas, & tãtos arremeífos de lãças & azagayas q cobrião ho ár, pelo q nenhúa parte ficou dos corpos dos nolfos nauios né dos maftos, né das vergas q não foífe pregada deles que parecião pórcos efpls, nem ouue amarra, né corda, nem enxarcia q não foliem trincadas. E os Portuguefes com quanto erão combatidos tão brauaméte, não perdiao ho esforço pera fe defederem, & parecia q noffo fenhor lho acrecentaua de cada vez mais, tirãdo hús muytas efpingardadas, outros com panelas de poluora & outros com ro¬ ças de fogo. E como os nauios dos Imigos erão tãtos não perdião nenhú tiro, que com todos fazião muyto mal aos Imigos: em tanto que defpa- rãdo cõ, hú camelo meterão no fundo dezafete lancharas em que morre¬ rão bem duzétos mouros: a que os Portuguefes derão húa grande apu¬ pada. Do que corridos Laqueximena & el rey de Draguim, apertarão com os feus que fe chegaffem muyto mais aos nolfos nauios: & affi ho fizerão ate fe pegaré coeles de todo. E a batalha fe renouou fe fe podia renouar, & a prelfa també fe acrecentou nos Portuguefes em fe defenderem. E tomando Antonio de carualho que eftaua na popa dú dos nauios húa pa¬ nela de poluora pera a deitar nas lãcharas q a tinhão cercada, rogoulhe hú Afonfo gil que lha deixaífe deitar por ellar mais a tiro, & ele lha deu: & em Afonfo gil a tomando dalhe nela da parte dos immigos húa azagaya, & quebrandolha cayolhe aos pés, & acendeofe ho fogo com q foy queymado em quantas partes eftaua defarmado, & o fogo fe ateou na mezena do nauio. E cuydãdo os immigos que ardia ho nauio derão húa grande grita, remetendo pera entrar pelas duas portinholas que goar- dão ho leme, a que algús dos Portuguefes acodirão logo, & coeles ho condeftabre do nauio que fe paífou diante de todos pera dar fogo a dous berços que eftauão nas portinholas. E como ja os Imigos eftauão fobre os berços & erão muytos não podia ho condeftabre poer ho fogo, & cõ menencoria apanhou polos cabelos hú deles que achou mais á mão, & com ho punho da efpada lhe quebrou os détes & os beiços, & deu coele entre os outros q eftauão nas lancharas pera entrar polas portinholas, que vendo aqle tão mal tratado nã quiferã étrar, & os que entrauão def- pejarão: cõ o q ho condeftabre teue lugar de poer ho fogo aos berços, que defparãdo fizerão húa efpãtofa borralhada nos immigos, leuãdo cabe¬ ças, braços & pedaços dos corpos de muytos q ali acabarão fuas vidas: 3g Tono UI
  • 3o6 Hijloria da Índia & outros ficarão feridos & aleijados, com que todos os outros da armada ouuerão tamanho medo q fe afaftarão & fugirão fé aproueitarem os bra¬ dos de Laqueximena, né del rey de Draguim pera que tornaífem a pele¬ jar: que defefperados de os prouocaré a iflo fe afaftarão, & fe forão coe- les, recebendo tamanha perda como digo de lancharas metidas no fundo, & arrombadas, & defaparelhadas, & mortos & feridos fem conto, fem dos Portuguefes morrer mais q hú que auia nome Luys pirez mercador muyto rico: & forão feridos dezafete. E fugidos os Imigos que ho porto ficou defpejadó, entrarão os Portuguefes nele ao foi pofto com muyto grãde alegria de gritas & bõbardadas: & furtos foy el rey de Linga com hú feu filho & gérro aos nauios. E era tãta fua alegria de fe ver liure, & de ver a fobre natural vitoria dos Portuguefes fendo tão poucos, q cho- raua de prazer: & os capitães lhe dizião que não fe efpantaííe, porque ho feu Deos tinha poder pera fazer mayores marauilhas que aquelas: & que a ele defle as graças de tamanho beneficio como aquele fora. E ele ho fez afli: & deixãdo ho os capitães feguro forãfe pera Malaca cõ muy- tas dadiuas que lhes ele deu & cõ lhes carregar os nauios de fagu que he hú pao de q fe faz pão, como difle, que pera aqle tempo era a me¬ lhor coufa que podia fer pola grãde fome que auia em Malaca. CAP1TOLO .Cl. De como el rey de Bintão tornou a fa\er guerra a Malaca: & do que Jiqerão feys Portuguefes. POsto q el rey de Bintão recebelTe tamanha qbra é fua armada como dilfe, nem por iífo defiftio da guerra q fazia a Malaca, porque fazia conta que ainda que não fizeffe mais mal aos Portuguefes que tolherlhes os mantimentos q efte era muyto grande. E não contente cõ mandar Laqueximena por mar cõ húa armada, por terra foy ho arre¬ negado que auia nome Auelar com obra de quatro mil homês q adernou feu arrayal obra de mea legoa de Malaca: o que deu muyto torméto a Iorge dalbuquerque, porq não tinha mais que ate cé Portuguefes & muv- tos deles doentes, & afli doentes os punha nas eftancias q ordenou pera fe defender dos Imigos, porq dali auião de pelejar a pé quedo. E eftando afli a coufa, derão os Imigos húa noyte de fupito na cidade dos Quelins pola banda q fe chama Campuchina q era cercada de muro de madeyra, que por auer dias que era feyto apodrecera a madeyra de comida do bicho, & os Imigos q ifto fabião arrombarão hú lanço dele dobra de fef- fenta pados, & quando cavo fez tamanho eftrondo que acordarão a gente
  • Livro VI, Capitolo Cl 307 que dormia, a q muytos acodirão pera vere o que era, & derão cõ os immigos que entrarão por aqle boqueyrão que matarão eftes que acha¬ rão diante & aífi outros: & porq a grita era grande pareceolhes q acodi- rião os Portuguefes, & por iífo fe recolherão pera fora leuãdo catiuos os que poderão. E nifto acodirão os Portuguefes, & dos primeyros forão Nicolau de fá, & dous outros q vigiauão coele a ponte: & affi acodio Garcia chainho, & outros muytos. E fazédofe em corpo no boqueyrão defenderão q não tornaflem os Imigos a entrar, q vendo q não podião fazer nada fe forão pera feu arrayal & Garcia chainho ficou goardando aqle boqueyrão ate q foy manhaã, que Iorge dalbuquerq ho mandou ref- taurar. E defpois difto corrião os Imigos muytas vezes á cidade, afli de dia como de noyte, pelo que era neceflario eftarem os Portuguefes fem- pre vigiãdo nas trãqueyras cõ as armas veftidas, quafi nã dormindo nunca, & comendo muyto mal pola grande falta de mantimetos q auia. E fe Garcia chainho não fora q daua de comer a muytos de todo não come¬ rão, porque como era muyto rico nã eftimaua dinheiro por auer manti¬ mentos, & ho mefmo fazia Iorge dalbuquerque, que auia muyto grande dó dos Portuguefes: a que chamaua mártires polo grande trabalho que leuauão, & dizialhes que não fabia com q lhes el rey pagaria tãto fer- uiço, & quãdo os via feridos cõfolauaos muyto, & dizialhes q prouuera a Deos que fora ele 0 que recebera aquelas feridas por feruiço de Deos & del rey. E coifto fe esforçauão todos & fofrião quanta fadiga padecião, & pelejauão de modo que vendo Auelar quão pouco fazia fe recolheo pera I^enagim hú lugar fete legoas de Malaca, & dali fazia ás vezes luas corridas. E durãdo affi efta guerra deu ho Auelar hú bãquete geral em que os principais do arrayal fe embebedarão, & defpois de bêbados fe tomarão as mãos, & fe derão a fé de irem correr a Malaca & cortar a cabeça a Garcia chainho, & a trazerem: & ifto polo grande odio q lhe tinhão pola caufa que diffe. Feyta efta promeffa, embarcarãfe eftes que digo com outros que forão por todos duzentos & felfenta homés é doze velas .f. lancharas, paraós & calaluzes. E chegãdo a hú rio duas legoas de Malaca, meteranfe nele por fer muyto cuberto daruoredo: & deixando ali fua frota efcondida foranfe a Malaca, & poftos em cilada mandarão correr certos mouções (que affi chamão aos almogaueres) & eftes forão matar certas vacas que andauão pacendo, pera os Portuguefes lhes fay- rem & eles os leuaré a cilada. E dado rebate na fortaleza, fayo Garcia chainho cõ eífes que poderão fayr, & os Mouções cõ medo fugirão tanto que os Portuguefes os não virão: & também cõ a grande baflidão do mato. E vendo Garcia chainho que não parecia ningué, tornoufe & todos os outros faluo feys que antes que ele fizeffe volta fe apartarão do corpo
  • 3o8 Hiftoria da Índia da gente per húa vereda, & por iffo não fintirão tornar Garcia chainho & paffarão auãte, & eftes forão Francifco correa, Ruy lobo & outros qua¬ tro a que não foube os nomes. E indo afli por aquela vereda forão dar na cilada, & vendo tanta géte como diffe q era, quiferã fugir fe não fora por Francifco correa, q alem de fer muy esforçado caualeyro ya doente & fraco & vio que fe os outros fugi (Tem que ele não auia de poder fugir & q ho auião de matar, & por iíTo fez coeles que não fugiffé & pelejaf- fem: dizendo lhes q fe eles efteuerão defcanfados que fora bé fugirem porque ho poderão fazer, mas tão canfados como vão q era efcufado, porq os Tmigos os auião logo de feguir & os auião dalcãçar & matalos: por iíTo q melhor feria pelejar fazendofe fortes debaixo daqlas aruores, & que poderia fer que lhes acodiria a outra gente. E parecendo ifto be aos outros, meterãfe todos debaixo de húas aruores q chamão ramboftei- ras que fe parece cõ larãgeiras & afli fam çarradas, & dali começarão de tirar aos Tmigos com duas efpingardas que tinhão, antre os quaes & eles ficaua hú peqno efcampado. E os Tmigos q virão aqueles poucos tirarlhes, crerão que ho corpo da outra gente deuia deitar ali & que fe encobria co ho aruoredo. E coiíto que crerão não oufarão de fayr todos a eles, & tirauãlhes donde eftauão muytas frechadas, & de lhes crecer a cobiça de de os matarem fayão de quando em quando hora fete hora oyto deffes que fe tinhão por melhores caualeyros. E os Portuguefes que os vião tão poucos remetião a pelejar coeles & fempre matauão algus co as lanças & com as efpingardas. E em efpaço de húa hora que durarão eítes come- timétos, forão mortos onze dos principais dos immigos a fora outros muytos que forão feridos, & dos Portuguefes morreo hum que era bom- bardeyro & foy morto por cobiça dum cris que quifera tomar a hum dos mortos & pregarãno com húa azagaya em cima do morto, & foy ferido Frãcifco correa de húa frecha que lhe atraueffou ho pefcoço, & afli pele¬ jou fempre muyto esforçadamente. E vendo os immigos quão mal es tra- tauão, ouuerão por feu barato de fe ir, & idos foranfe também os Portu¬ guefes pera a fortaleza leuãdo fobraçado Francifco correa: & cotarão a Iorge dalbuquerque o que lhes acontecera, & a ele lhe pareceo bem que foflem apos os immigos, & mandou a Garcia chainho, q foy leuando algús Portuguefes & gente da terra, & polo rafto do fangue que era muyto foy apos os immigos ate fayr do mato á praya onde eftauão, & tanto que virão Garcia chainho poferãfe em fom de pelejar, parecédolhes que Garcia chainho ouuefle medo & que os não cometeria: mas ele que não defejaua outra coufa fe não pelejar coeles, ordenou fua gente pera ir dar neles, o que eles vedo fugirão ao logo da praya & não forão pera ho rio porque os não entendeflem que tinhão ali armada: porem os Portu-
  • Livro VI, Capitolo CII 3og guefes os entenderão & a bufcarão, & achandoa mandou Garcia chainho arrobar os mais dos nauios, & os pequenos mandou os pera a cidade com a gente da terra. E iíto feyto tornoufe pera a fortaleza por terra em anoytecendo, onde chegarão ao outro dia pola manhaã, & dali por diante fazião os immigos fuas corridas aa cidade, aífi por terra como por mar: porem não fe fez mais feyto notauel que os que digo, & durou a guerra ate a chegada de Pero mazcarenhas, em que os Portuguefes paf- farão tanto trabalho & fadiga quanto não fe pode contar, vigiando fem- pre de noyte, & não dormindo de dia, & eítando de contino armados ás chuuas & vetos & outras vezes ao foi: & fem comerem mais que arroz: & carne ou pefcado de marauilha, porque pola eiterelidade dos manti¬ mentos não fe podião auer, & valia húa galinha tres cruzados & quatro, & fazia cinco quem a vendia aos quartos porque daua a delcaida por hú & fe não forão Iorge dalbuquerque & Garcia chainho que dauão mefa quafi que não efcapara nenhum Português, porque ainda afli morrerão duzentos & corenta Portuguefes a ferro & de fome, doença & trabalho defpois que Martim afofo de foufa foy em Malaca. CAPITOLO .CII. De como Pero mazcarenhas foy entregue da capitania de Malaca. PEro mazcarenhas q partio pera Malaca com a armada que diífe na- uegando por fua viagem topou cõ húa nao de mouros de Cambaya que foy tomada pelos Portuguefes, em que foy achada muyta riqueza. E Pero mazcarenhas fez capitão dela ate Malaca a Diogo chai¬ nho que ya por feytor de Malaca, a que chegou primeyro que Pero maz¬ carenhas. E fabido per Garcia chainho feu irmão como eftaua no porto foy por ele á nao em hum calaluz acompanhado de treze homens honr- rados, & ya veítido tão ricaméte que a efpada que leuaua com as cintas tinha dous mil cruzados douro. E em faindo do rio çoçobrou ho calaluz & morrerão quantos yão nele faluo hú negro: & afll acabou Garcia chai¬ nho tendo feyto tanto feruiço a Deos & a el rey, & ficou por fua morte grolfiífima fazenda: & de tudo Diogo chainho tomou poífe. E nifto che¬ gou Pero mazcarenhas & per virtude da prouifam que leuaua lhe entre¬ gou Iorge dalbuquerque a capitania de Malaca, & como foy capitão man¬ dou prender Diogo chainho por fe meter de poífe da fazenda de feu irmão fem mais autoridade de juftiça, & fendo fua fazenda obrigada a el Rey pelo officio q tinha ate dar cota. E defpois o mandou prefo aa índia, onde gaitou quanto tinha em fe liurar. E paliados algús dias defpois de Pero
  • 3io Hijloria da índia mazcarenhas eftar de poffe da capitania, como el rey de Bintão ho foube, & que era chegada géte de refrefco a Malaca, porque nã cuydaffem os Portuguefes que ele por feu medo dififtia da guerra tornou logo a ela, mandando géte por mar & por terra que foflem correr a fortaleza: & afli ho faziao. E os portuguefes tornarão aos trabalhos da guerra, & conti- nuaméte eftauão armados por quão continos erão os rebates que os im- migos lhes dauão, com que fayão a pelejar quaíi cada dia. E Pero maz¬ carenhas íaya muytas vezes a eftas pelejas: & fempre Deos feja louuado leuaua ho melhor dos Imigos, pofto que erão muyto mais que os Portu¬ guefes. E hú dia faindo Pero mazcarenhas a pelejar prendeo hú dos ca¬ pitães dos Imigos, & afli outro home, que ambos fe defenderão valente¬ mente: & defpois de prdfos ouuera ho capitão de matar a Pero mazcare¬ nhas cÕ hú cris, fe lhe não bradarão que fe guardalfe: pelo que logo Pero mazcarenhas ho mandou deitar do terrado da torre da menagem a baixo. E ho outro qrédoo meter em húa bombarda pera a defpararem coele fol- toufe, & matou ho condeftabre: & então ho matarão. E durando afli efta guerra por fe Pero mazcarenhas liurar dela, & dar que fazer a el rey de Bintão mãdou a Ayres da cunha capitão mór do mar que fe fofle poer na lua barra com hum galeão & certas fuítas com que lhe tolhia os man¬ timentos & as mercadorias, & deu aflaz que fazer a el rey. E também nefte tempo chegou a Malaca Martim afonfo de melo jufarte: da ilha de Banda donde inuernara: & Pero mazcarenhas lhe pedio que pois ho Deos ali leuara naquele tempo q fofle ftfzer guerra a el rey de Patane que eftaua leuantado como diffe atras. E com quanto Martim afonfo não eftaua fão do braço em que fora ferido em Maluco, por feruir a el rey aceitou a ida, & foy no mefmo galeão em que fora por capitão moor de Baltefar rodriguez rapofo que ya em hú nauio de gauia, & dú Luys brandão que ya em húa carauela & doutros quatro capitães que vão em lancharas. E leuando nefta frota duzentos Portuguefes fe foy dereyto ao porto de Pa¬ tane, onde achou dezafeys jungos carregados de gente & de mercadoria, afli da terra como doutras partes, & todos os tomou por força darmas matando & ferindo muytos dos immigos fem dos Portuguefes morrer ne¬ nhum. E vendo fe el rey de Patane afli apertado, mãdou pedir pazes a Martim afonfo: offrecendofe a pagar todas as perdas que os Portuguefes tinhão recebidas em feu porto, & obrigandofe a mandar a Malaca os man¬ timentos que ho capitão de Malaca quifefle de fua terra: & que Martim afonfo tornafle os cafcos dos jungos que tinha tomados. E ifto jurado & affirmado, fe comprio tudo: & Martim afonfo fe tornou a Malaca, donde fe foy defpois aa índia.
  • Livro VI, Capitolo CIII 3it CAPITOLO .CIII. De como dó Garcia anrrique\ chegou á fortaleza de Maluca. ENtrado ho mes de Mayo q era a mouçao pera Maluco, partiofe dom Garcia anfriqz da ilha de Banda ondeftaua com Martim afonfo de melo jufarte. E indo por fua viagé chegou aa ilha de Ternate a tempo que Antonio de brito queria mandar fobre ho lugar de Damafo q era del rey de Tidore. E furto dom Garcia no porto de Talangame que he ho porto dos jungos & naos, duas legoas da fortaleza, mandou notificar a Antonio de brito fua chegada & como ya por capitão de Ma¬ luco, por iffo que lhe defpejaífe a fortaleza porque não auia de defembar- car ate não fer defpejada. E Antonio de brito vendo efte recado tão feco efteue em lhe não dar a fortaleza. E cÕ tudo mandoulhe dizer que foífe a ela & que laa fe faria o que foífe feruiço del rey. E dom Garcia não oufaua dir fem primevro Antonio de brito lhe defpejar a fortaleza, por¬ que receaua que defembarcando antes de fer defpejada lha não entregafle, & mais lhe tomafie a armada que leuaua, & por ifto não defembarcaua, né defembarcara fe ho nã fegurara Antonio de brito, que ho recebeo com muyto grande fefta & ho leuou a comer coele, & afli ao feytor St alcayde moor. E acabando de comer quifera dom Garcia que vira logo Antonio de brito as fuas prouifões, & que lhe entregara a fortaleza, & Antonio de brito não quis. E defpois de dormirem as virão fendo prefentes ho feytor & alcayde moor & outros officiaes da fortaleza. E lidas as proui¬ fões, diffe Antonio de brito, que com quãto ele poderá não entregar a fortaleza a dó Garcia por aquelas prouifões leuarem algúas duuidas que logo apontou, que era contente de lhe entregar a fortaleza, mas que não auia de fer fe não no Ianeyro feguinte que era a moução pera fe ir pera Malaca. E porque dali a Ianeyro auia oyto mefes, dilfe dom Garcia que não queria tal entrega, & requereo ao alcayde mór & feytor que lhe fizeífem logo entregar a fortaleza. E polo não quererem fazer, & ver dom Garcia que era tempo perdido eftar ali mais, fez fuas proteftaçÕes & foyfe pera fua armada. E defpois de fer laa Antonio de brito fe con¬ certou coele, que por quanto tinha hum jungo começado que fe acabaria no Agofto feguinte, lhe entregaria então a fortaleza, & que entre tanto fe foífe pera ela, & eftarião ambos como era rezão. Do que dõ Garcia foy contente: & logo fe foy pera a fortaleza, & eftiuerão muyto amigos em todo efte tempo.
  • 3l2 Hiftoria da índia CAPITOLO .ClIII. De como entrado ho inuerno el rey de Calicut mandou fa\er guerra a dó Iodo de lima. EL rey de Calicut q tinha determinado de fazer guerra aa nofia for¬ taleza & tomala como diífe atras, por afTegurar dom Ioão que per- deífe a fofpeita dele mandou hú mouro chamado Lambeamorim com húa carta de crença ao gouernador fobre pazes, & que pofeffe ele as condições com que as queria fazer. E ifto também pera que ho gouer¬ nador perdeffe algú receo fe o tinha da guerra, & fe defcuydafle de pro- uer a fortaleza como era neceffario. E efte mouro chegou a CochI na fim de Mayo, & deu ao gouernador a carta de crença que lhe leuaua del rey de Calicut, & diflelhe o que leuaua por inftrução fobre as pazes. De que ho gouernador foy contente por amor da guerra que efperaua de fazer a el rey de Cabaya, & difie ao Lambeamorim: q ele não faria pazes com el rey de Calicut fe não coeftas condições, que auia de tornar toda a ar- telharia que tinha dos Portuguefes, & lhe auia dentregar quantos paraós auia em feu reyno, & nunca mais fe auião de fazer outros. E affi lhe auia dêtregar certos mouros que logo nomeaua, que forão caufa de certas trei- ções & mortes que fizerão a Portuguefes, & queymarão a igreja de fam Thome de Cranganor, & que auião de pagar ho dinheyro que cuftaffe a redeficar. E que hú grão fenhor gétio chamado Calurte canaire que aju- daua el rey de Cochlm na guerra q tinha cÕ el rey de Calicut, auia de ficar amigo del rey de CochI como era, & ho auia dajudar como ajudaua. Coefta repofta fe partio Lãbeamorim pera el rey de Calicut auer de con¬ firmar eftas pazes, & mãdar diífo hú contrato affinado por ele ao gouer¬ nador: & como tudo era fingido não ho mãdou el rey mais né nenhú recado outro, antes parecédolhe que tinha tempo pera começar a guerra por fer entrado ho inuerno, em que fazia cõta de não poder ir focorro a dom Ioão, mãdou fobrele ho feu capitão do campo & ho fenhor da ferra com doze mil homés de peleja, pera que entre tanto que ele ya cingirem a fortaleza de caua que chegalfe de mar a mar, & afli húa trincha, por¬ que a gente de fuas eftãcias fe emparaffe nelas da artelharia dos Portu¬ guefes, & coeles mandou hú Ceziliano arrenegado meftre de campo que era grãde official darteficios de guerra, & andara no campo do turco quando efteue fobre Rhodes. E chegada efta gente a Calicut foy hú dia dar vifta aa fortaleza, tirandolhe muytas efpingardadas & frechadas. E por amor da artelharia da fortaleza que começou de varejar não fe oufou
  • Livro VI, Capitolo CV 3i3 - de defcobrir muyto, & tirauão dantre cafas derribadas & paredes velhas que eftauão perto da fortaleza. E dom Ioão como era muyto esforçado, diífe aos principais que eftauão coele que fayfiem aos mouros, porque cuydaffem que os não temião: & aífi ho fez leuando diãte os efpingardey- ros que tinha, & deu tão rijo neles que os fez recolher pera détro da cidade, & ele tomoufe aa fortaleza, que tinha bem prouida com receo da guerra de muyto caruão pera poluora, & lenha pera fazer outro, de muyta pedra & madeyra pera repayrar os muros fe diffo ouueíTe neceífi- dade. CAPITOLO .CV. De como os immigos começarão de cercar a fortaleza de cauas pera ajfentarem fi/as ejlancias. Elogo ao outro dia ante manhaã começarão os Imigos com muyta gente de feruiço que tinhão dabrir húa caua que na guerra paliada começarão dabrir, q da banda da cidade começaua da rua dos torneyros & ya dereyta ás cafas de Duarte barbosa: & aífi começarão dabrir húa trincha que he caua em voltas, que começaua do cãpo dos mainatos & ya dereita á rua da China cota, & na largura delas cabia húa fieira doyto homés que cauauão: & era com determinação, como difle de cingiré a fortaleza de mar a mar. E dom Ioão que ho entendeo, trabalhaua quanto podia por lho eftoruar: dandolhes cada dia muytos rebates, é que fempre os Portuguefes matauão algús: & porem como eles erão muytos nã deixauão de leuar fua obra auante. E entendédo dom Ioão q era pera lhe tolherem ho focorro que lhe fofle, fez húa noyte con confelho dos fidalgos & caualeyros q eftauão coele húa coiraça de pipas cheas de terra que começaua da fortaleza & chegaua ate ho mar, & por cima delas húa trãqueyra muyto forte. E dali por diãte mandaua dõ Ioão vigiar de noyte efta couraça porq lha não queimai!?: & defpois dela feita porq a feitoria eftaua fora da fortaleza, & aífi ho almazé & cafa da poluora: & tudo o q eftaua dentro corria rifco de fer queimado, recolheo do Ioão tudo na fortaleza, fobre o q teue grãde peleja cõ os Imi¬ gos q lhe querião refiftir: mas fempre leuauão ho pior. E defpejadas eftas cafas fazião dali os portuguefes muyto dãno aos Imigos, tirandolhes por efpingardeiras muytas efpingardadas quando corriã a fortaleza, q era quafi cada dia: & acabado de fe afaftaré faltaua dom Ioão nas cauas q os Imigos fazião, leuãdo os feus muytas panelas de poluora com q quei- mauã muytos. E coeftes rebates fazia dilatar q não leuaíTem as cauas de mar a mar. E a fora efte mal recebiã os Imigos outros da noífa artelha- Tomo III 40
  • 3i4 Hiftoria da índia ria, que lhes fazia muyto dano. O q vendo ho Ceziliano q difle, mãdou cobrir de vigas muyto groflas, o q era aberto das cauas: & afíi como yao abrindo afli ho cobrião: & iílo porq a artelharia da fortaleza não podeífe fazer mal aos Imigos: nem també os Portuguefes lhe não podião fazer tãto dãno como dantes com as panelas de poluora. Porem dõ Ioão não deixaua de os faltear cada dia, & fe teuera mais gente da q tinha fegúdo era esforçado dera batalha aos Imigos, & os fizera de todo deixar as cauas, mas nã tinha mais de trezetos homés. E como cÕ tão pouca gente não podia fazer mais q dar picadas, leuauã os Imigos a trincha ate a rua da China cota ode acabou, & ficaua da bãda do fui. E por induftria do Ceziliano começarão logo de fazer ali hú repairo pera aflentaré nele hú trabuco com q deitaflem pedras muyto grãdes na fortaleza em quanto lhe não defiem bateria. E pofto que dõ Ioão não prefumiffe ho fim pera q era ho repairo, pareceolhe bé com cõfelho q fobriflo ouue de eftoruar q ho repairo não foffe por diãte: pera o q fayo fora da fortaleza cõ duzé- tos Portuguefes. E ficãdo em corpo com os cento, mandou a dõ Vafco de lima & a Iorge de lima q cada hú com cincoéta defiem por fua parte nos Imigos q eftauão em goarda dos q fazião ho repairo q ferião bé oyto cen¬ tos. E afli ho fizerão com tamanho impeto q derão logo no chão cõ muy- tos mortos defpingardadas, & outros queimados cõ panelas de poluora, & os viuos fe acolherão fugindo: & dos Portuguefes aprouue a noflo fenhor que não morreo nenhú, & fós dous forão feridos. E tornãdo os Imigos a profieguir no repairo cõ quaíi dobrada géte em goarda do q dantes eftaua: tornou dõ Ioão a dar neles pela ordé que dera da outra vez, & forão efcarmetados de tal maneyra q não oufarão de tornar mais ao rçpairo & ho deixarão. CAPITOLO CVI. De como defpois de el rey de Calicut fer na cidade dom Ioão de lima queimou as cafas dafeytoria & alma\em. GRande contentamito era ho dos mouros de Calicut de veré como ho cerco da fortaleza ya por diãte, porq eles erão os que confe- lhauão a el rey que fizefle efta guerra, & ho ajudauão muyto nela com determinação de tomarem a fortaleza, pera coifio tornarem a cobrar ho credito q tinhão perdido na índia, porque não oufauão de falar pe¬ rante os Nayres q lhes dizião mil injurias, & que não fabião mais q me¬ ter a el rey na guerra, & que ho não fabião liurar dela, & por terem guerra cõ os Portuguefes não tinhão que comer & morrião de fome. E
  • Livro VI, Capitolo Cl 3i5 cõ tudo el rey de Calicut fauorecia os mouros polo proueito que recebia deles & por iífo fazia a guerra, & por fe não ire de Calicut nem de feu reyno que fem eles ficaua de todo pobre: affi que por os mouros cobrará ho credito que tinhao fazião com el rey q fizeífe efta guerra, em q quafi todo ho gaito era á fua cufta deles. E porque fabião q com a vinda del rey de Calicut ho cerco da fortaleza auia de fer mais apertado, foranlhe algús pedir que fe foffe pera Calicut: & como ele eítaua apercebido do mais de que tinha neceffidade pera a guerra, & acompanhado de muytos reys & fenhores que ho ajudauão foyfe logo a Calicut, ojide chegou na entrada de Iunho, & achou que tinha noventa mil homens de peleja antre mouros & Nayres, & antreíles auia dous mil efpingardeyros & artelharia groífa & miuda q abaítaua pera dar bateria á fortaleza. E quãdo el rey chegou foy diflimuladamente aa fortaleza fem nenhú eítado por não fer conhecido, & lhe não tirar a artelharia: & vendo a fortaleza quão pe¬ quena era, diífe que pera que era mais detença fe não tomala logo. E ho feu capitão do campo lhe diífe que não fe podia aquela fortaleza tomar tão leuemête como lhe parecia, porq os Portuguefes a defendião também, que fe a ele tomaffe por efpaço de tempo creffe que acabaua hum gran- diffimo feyto. A que el rey refpondeo, que ele a tomaria: porque não ajútara tamanho poder de gente fe não pera a tomar. E coifto fe foy a feus paços: & efte dia deu vifta aa fortaleza húa boa foma de gente, dando grandes gritas. E dom Ioão lhe fayo ate a feytoria, donde lhe os Portuguefes tirarão muytas efpingardadas, & coelas & com a artelharia ficarão no campo bem cincoenta dos immigos. E ho Ceziliano por que¬ brar ho coração a dom Ioão, lhe diffe aquele dia que el rey de Calicut era na cidade, fazendolhe a fua gente mais do que era, & engrande¬ cendo muyto feu poder. E dom Ioão lhe diífe q folgaua muyto com fua vinda, porque dali por diante pelejaria com gofto, & affi os que eftauão coele, & moftrarião pera quanto erão: porque ateli como lhes parecia que pelejauão com os capitães del rey de Calicut auianfe por deshonrra- dos & não pelejauão pera mais que pera fe defender. Do que ho Cezi¬ liano ficou muyto efpantado por crer que era affi. E do Ioão poflo que lhe os immigos não correffem faya com os feus a dar nos que andauão nas cauas, affi de dia como de noyte, & ifto tão amiúde que .os- fazia efpantar de como com tão pouca gente como tinha fazia tanto, & porem feriãlhe muyta géte, pelo q não quis mais ir dar nas cauas: mas punhafe nas cafas da feytoria & almazem, & dali lhes mandaua tirar quãdo cor- rião a fortaleza. E vendo ho capitão do campo ifto, correo húa tarde cõ algúa gente, & como vio que os Portuguefes eftauão nas cafas que digo manda chegar todos os feus efpingardeyros, pera que combateffem as
  • 3i6 Hijioria da índia cafas com efpingardadas: & durou ho combate todo o q eftaua por paflar do dia & toda a noyte feguinte, reuezãdofe os efpingardeyros de maneyra que continuamcte tirauão as efpingardadas, que de ferem muytas que¬ brarão as noífas efpingardeiras, & fe não fora hú traués de madeira de que hús tiros varejauão os immigos, os Portuguefes fe virão em grande aperto: & forçadamente eíleuerão tanto tempo neftas cafas, porq corrião muyto grande rifco fe fayrão. E por derradeyro quis noífo fenhor, que affi com as efpingardas como com a artelharia matarão tantos dos Imi- gos que os fizerão afaítar: do que dom loão deu muytas graças a noffo fenhor de ho liurar daqle trabalho que teue muyto grãde de ver ho aperto em que os feus eíleuerão. E logo pos em confelho fe fe poderião foíter aquelas cafas da feytoria & almazem. E por todos foy acordado que não por amor do grãde poder de gente que os immigos tinhão, que ho mais leguro feria queymarénas & recolherenfe aa fortaleza. E aquela tarde foy logo feyto, fem lhe os immigos cotradizerem, porque folgarão muyto de verem queymar aquelas cafas de que recebião tanto dãno: & porque era caminho de os Portuguefes não quererem fayr mais da fortaleza, com que não receberião eíloruo em fazer as cauas & as acabarião. E recolhido dom loão na fortaleza, fez alardo & achou que tinha perto de trezentos homés, porq algús erão mortos & outros ellauão feridos, & an- trefta gete auia algús fidalgos feus parentes todos muyto esforçados & de grande confiança. E porq dom loão conhecia ho esforço deites & dos outros, tinha efperança em noífo fenhor que ho liuraria daquele cerco com lua honrra, & mandou fechar hú poço dagoa nadiuel q tinha a fortaleza, em q auia agoa pera hú anno fem beberé por regra. E fechou ho porque os efcrauos nã deitaífem nele peçonha, & tinha a chaue porque foubeffe quando fe abria: & achou que auia na fortaleza tanto arroz que abaíta- ria hú anno, poíto que comeffem largamente, porem doutros mantimen¬ tos não auia fe não pera poucos dias. Ordenou també dom loão as eítan- cias que auia dauer na fortaleza pera defenfa dela que forão feys, cujos capitães forão domVafco de lima, Iorge de lima, Antonio de fá, Ruy de melo feu irmão, loão rabelo feytor, Antonio de ferpa, & Manuel de faria efcriuães da feytoria. E dõ loão com algús parentes feus, & ho reíto da gente que fobejou das eílancias ficou por fobre rolda pera acodir ás par¬ tes mais fracas, & por fer a fortaleza conchegada podiãfe todos ajudar hús aos outros que foy grãde bé pera quã poucos erã.
  • Livro VI, Capitolo CVII 317 CAPITOLO .CVII. De como defpois de fe dom Ioão recolher na fortaleza, ajjentarão os immigos fuas ejlancias & começará de batei' a fortaleza. REcolhido dõ Ioão de lima na fortaleza & queymadas as eftancias que tinha fora dela: foy grande prazer nos mouros cuydando que aquilo era com medo, & afli ho diflerão a el rey, certificandolhe q auiao de tomar a fortaleza, & fazião muytos feros contra os Portugue- fes fazendo deles muyto pouca coufa. E logo na noyte feguinte derão tamanha fJreffa na caua & na trincha q çarrarão coelas no mar, aífi da bãda do fui como do norte, & erão daltura de húa lança, & ficauão da fortaleza a tiro de pedra, & podião andar por elas fem a artelharia da fortaleza lhes fazer nojo. E a rezã por que cercarão a fortaleza deitas cauas & as çarrauão no mar, era pera q onde çarrauão aíTentaíTem duas eftancias dartelharia pera tolheré ho focorro q foífe aa fortaleza por mar. E eftas adernarão logo em amanhecendo, em que auia tiros ençarrados, que quando não foífe tépo de jugarem pera ho mar tirafle á fortaleza, & alfentarão húa eftãcia da banda do norte em que afleftarão dous tiros groífos com que começarão de tirar á fortaleza, & dali por diante come¬ çarão de aflentar outras eftãcias pera baterem a fortaleza: & forão eftas. No lugar ondefteuerão as cafas da feytoria adernarão hú camelo que fora dos Portuguefes cuberto com húa manta & auia de bater a torre da pol- uora, & mais afaftada defta no mefmo lugar eftaua outra eftãcia com ou¬ tra manta em que auia quatro tiros de metal de camaras que tiraua cada hú pelouro de ferro coado tamanho como de húa efpera, & deite tama¬ nho os tirauão todos os tiros que tirauão pelouro de ferro coado. E efta eitancia auia de bater ho pano do muro que corria do baluarte da forta¬ leza ate a torre da poluora: fizerão outra da banda do fui, de que auião de jugar fete tiros quatro q deitauão pelouro de pedra de tres palmos de roda, & os outros de ferro coado: & efta auia de bater o pano do muro dantre ho baluarte do feytor & ho do almazem, & aos mefmos baluartes. Da banda de leite fizerão outra dentro na cidade, em que auia outras fete peças groífas & cinco deitauão pelouro de pedra, húa de fete palmos de roda & quatro de tres, & as duas de ferro coado: & efta auia de ba¬ ter ho pano do muro dantre ho baluarte do feytor & a torre da poluora, & á mefma torre, & ho baluarte, & a torre da menagem. E a fora eftas eftancias auia outras duas da banda do norte & da do fui cada húa de leys tiros encarretados que podião jugar pera ho mar fe foífe focorro á
  • 3i8 Hiftoria da índia \ 4 fortaleza, & ho outro tempo auião de bater os baluartes do alcaide mór & do almoxarife que eftauão daqlas bandas. E todas eftas eítancias efta- uão a tiro de pedra da fortaleza, a que começarão de dar bateria a treze de Iunho pola manhaa: que foy húa coufa bem efpantofa quando fe co¬ meçou com a muyto groíTa fumaça que fe leuantou de húa parte & da outra, & ho medonho eítrondo dartelharia que fazia tremer a terra & ho mar, & parecia que tudo auia de ficar deftruydo: & quafi todo ho dia que a bateria durou não fe enxergou nada com fumo, & defpois que def- cobrio apareceo a noffa fortaleza faã & a fua artelharia inteira & lem aleijão, que aprouue a noffo fenhor que nunca lhe os immigos poderão acertar com a lua pera a cegarem: & errarão todos os tiros dando por effes muros & baluartes, & outro mal não fizerão: & a noffa'artelharia que tirou em todo efte tempo lhes fez muyto dãno, porque como eles cuydauão que logo a noffa artelharia auia de fer cega, defcobriranfe muyto & por iffo os tiros pefcarão muytos. Do que el rey ficou muyto trifte quando ho foube: & aífi os mouros vendo que os feus bombardey- ros erão tão pouco certeiros. E dom Ioão & os feus ficarão muyto ledos, & derão muytos louuores a noffo fenhor & fe esforçarão muyto mais que dantes pera fe defenderem vendo a merce que lhes noffo fenhor fazia, & na noyte fegulte fizerão grandes alegrias de folias & tangeres pera que os immigos foubeffem que os não tinhão em conta, que eftauão diffo muyto efpantados. CAPITOLO .CVIII. De como os immigos começarão de fa\er húa albarrada. COm quanto os mouros virão quão pouco dãno os feus bombardey- ros fizerã na artelharia da fortaleza, nã deixarão de proífeguir a bateria pera ver fe a podião cegar: mas quis noffo fenhor que fempre a errarão, & dauão por effes muros & baluartes, a que começa¬ rão de fazer dãno, & de dia deixauão apontada a artelharia pera a tira¬ rem de noyte: & húa noyte ao quarto da prima tirou da banda da cidade hum tiro que tiraua pelouro de pedra de fete palmos de roda & leuou duas ameas do muro, & leuou ho fino da vigia em pedaços. E dom Ioão acodio logo ás ameas com feus fobre falentes que as refizerão: & eítes trabalhos erão continos defpois que fe começou a bateria. E vendo ho Ceziliano quão agaftado el rey de Calicut eftaua por não fe poder cegar a noffa artelharia: diffelhe que não fe agaítaffe, que ele faria hum artefi- cio cõ que os feus tomaffem a fortaleza & não tardarião mais em a tomar
  • t Livro VI, Capitolo CIX 3ig que em quanto fe acabaffe. E efte artificio foy húa albarrada a que por outro nome chamão montanha, de q o turco vfou no cerco de Rhodes onde efte Ceziliano fe achou como diífe. E eftas albarradas fão ferras darea, de pedras, & de rama, tudo mefturado q os gaftadores q andã nos campos leuão diante de fi com pás & enxadas ate as igoalare com os muros das fortalezas ou cidades que té cercadas: & ifto pera lhes emba¬ raçarem os pelouros da artelharia & eles fobirem a feu faluo, ou ao me¬ nos fem tamanho perigo como correm fobindo por efcadas por amor das panelas de poluora & outros arteficios de fogo que os immigos lanção decima aos que fobem. E nefta albarrada que digo começará logo de trabalhar tres mil homés de feruiço que chamão gaftadores, fazendo hum dos pés onde forão as cafas da feytoria, & ho outro junto da cafa que foy da poluora, & ambos a tiro de pedra da fortaleza. E quando dom Ioão vio começar efta obra, cuydou que era entulho com que os immigos que- riáo entulhar a caua da fortaleza com determinação de a efcalarem, & por iffo fe percebeo logo de muytas panelas de poluora & doutros arte¬ ficios de fogo. E efta fofpeyta pos dom Ioão em grande cuydado & adi aos que eftauão coele, por faberem de certo a grofTa gente dos immigos que eftaua fobreles, & que fe prouaffem de fobir ao muro corrião muyto rifco de os entrarem, & por iffo acordarão todos que dom Ioão mandaffe pedir focorro de cem homens ao gouernador, & afli de poluora: dando- lhe conta do que paffaua. E efte recado foy em húa almadia que não auia ' outra coufa em que foffe. CAPITOLO .CIX. De como dõ Ioão de lima mandou pedir focorro ao gouernador & lho mandou. AS nouas do cerco defta fortaleza de Calicut forão ter ao gouerna¬ dor, eftãdo ele efperando pola confirmação das pazes que lhe auia de mandar el rey de Calicut. E como era ja inuerno & a barra de Cochim eftaua çarrada, & as toruoadas erão muy grandes & perigo- fas na cofta não fe atreueo a mandar nenhum focorro: porem tédo apos efta noua outra que dom Ioão eftaua mais apertado, & que os immigos ho combatiao mais rijo que Malabares, começou de mãdar fazer preftes duas carauelas latinas que foy enformado ferem nauios, que melhor que outros fayrião pela barra. E nifto aos dez dias de Iulho chegou a Cochim a almadia em que ya ho recado de dom Ioão, que por milagre de noffo fenhor efcapou dos muyto groffos mares, & muy furiofos & rijos ventos
  • 320 Hijloria da índia que achou com que mil vezes efteue çoçobrada & mergulhou por debaixo dagoa: & porque não foube ho nome do que foy nela ho não digo, mas ele paliou ho mayor perigo que fe podia paliar por mar. E fabendo ho gouernador a verdade do cerco por efte recado de dom Ioão, & a necef- íidade que tinha de lhe focorrer com gente, começou de a mandar fazer. E fabendofe entre os que ali então eftauão, ho pera que era, fe lhe offre- cerão algús fidalgos pera irem focorrer a fortaleza, & antre eftes forão Manuel cernije, Chriftouão jufarte, & Duarte dafonfeca, porque como erão muyto esforçados & defejofos de feruirem el rey não recearão ho perigo que eftaua muyto certo, alfi no mar como na terra: o que lhe ho gouernador agardeceo muyto, porque eftes animarão outros a irem de boa vontade, & ajuntarãfe cénto & corenta homens que fe embarcarão nas duas carauelas que eftauão preftes, de que foy por capitão moor Chriftouão jufarte, & na outra carauela foy Duarte dafonfeca filho do doutor Femão dafonfeca, & ambos fayrão pela barra de Cochim com grande perigo a treze de Iulho: com regimento do gouernador, que che¬ gados fobre Calicut, chegaffem ho mais que pudeíTem as carauelas a terra, alfi de húa parte como da outra da fortaleza defronte das eftancias dos immigos que nelas eftauão, a que tirarião com a artelharia das cara¬ uelas, & entre tanto que tiralle andarião eles em dous paraós de naos Malabares que leuauão pera defembarcaré antre as carauelas, & anda¬ rião alfi ate verem recado de dom Ioão, & fem ele não fayrião em terra. E defpois de partidas eftas carauelas, receando ho gouernador que efgar- ralfem com algfia toruoada & não podelfem tomar Calicut, & a fortaleza ficaffe fem focorro, mãdou apos elas húa galeota com a mais gente que pode, de que foy por capitão Francifco de vafconcelos caualeyro de muyto esforço, a que deu em regimento que lendo cafo que achafle que a fortaleza não era focorrida fe folie com Duarte dafõfeca a Cananor, & diria da fua parte a Eytor da íilueira que focorreffe a fortaleza, porque de laa ho poderia melhor fazer que ho gouernador: & a Eytor da Íilueira efcreueo por terra ho cerco da fortaleza, & ho focorro de gente que lhe mandaua, pedindolhe que a focorreíTe por fua peífoa com mantimentos, & poluora, & gente fe a que mãdaua lá não podeífe ir.
  • Livro VI, Capitolo CX 3n CAPITOLO .CX. Be como os inimigos começarão de tirar com hií trabuco á fortaleza, & de como foy efpedaçado. DEspois de dom Ioão mandar pedir focorro ao gouernador vedo os mouros que auia detença em fe acabar a albarrada, fizerão por induftria do Ceziliano armar hú trabuco que ele fabricou, & foy armado nas cafas de Duarte barbofa pera deitarem coele na fortaleza pedras muyto grandes com que lhe derribaífem os baluartes & as cafas. E coefte trabuco começarão os immigos de tirar ho primeyro dia Dagofto, tirando á torre da poluora pera a derribarem, parecédolhes que ali farião mais dãno q em outra parte, & acertarãlhe com feys pedras arreo & erão as pedras tamanhas que logo lhe abrirão as paredes, & os immigos com prazer leuantarão muytas gritas. E dom Ioão como vio ho dãno q as pe¬ dras do trabuco fazião na torre, ouue medo q fe lhe acédeffe fogo na poluora, & por iffo no mefmo dia a mãdou mudar pera outro Baluarte, & foy mudada com trabalho immenfo & grande perigo das pedras que dauão na torre, com que em quatro dias continos que ho trabuco tirou lhe derribou húa efquina, do que dom Ioão eftaua grãdemente agaftado: mas efte agaftameto lhe tirou Diogo pirez ho cõdeílabre da fortaleza hú bÕ home & bé deftro em feu officio, que lhe diffe q não fe agaftaífe, por¬ que com ajuda de noffo fenhor ele efperaua de quebrar ho trabuco pera ho q ja tinha apotado nele hú camelo. E dó Ioão lhe prometeo merce fe ho fizeífe. E encomendandofe ambos muyto deuotamente a noflã fenhora cujo ho dia era, foranfe ondeftaua ho camelo apontado no trabuco: & dãdolhe Diogo pirez fogo defpara ho pelouro, & com feu medonho Ím¬ peto foy dar no trabuco que leuou em pedaços: & coeles & coligo matou tambe muytos dos Imigos q eítauão ao derrador do trabuco, oulhando muyto ledos a deftruyção q ele fazia na torre da poluora. O q vendo dom Ioão fe affentou em giolhos & chorãdo de prazer deu muytos louuo- res a noffo fenhor, & a fua gloriofa madre: por cuja interceffã tinha q lhe fizera merce tamanha & á fua honrra diffe logo a Salue com os ou¬ tros que també não cabião cÕ prazer: & dauão grandes apupadas aos immigos zombando deles. E dom Ioão lhes mandou dar rebate aquela noyte porque lhes pareceffe que os tinha em pouco, & forão a darlho dom Vafco de lima & Iorge de lima com corenta Portuguefes q fayrão per húas bombardeiras, como fayão outras vezes, que poucas noytes paf- fauão q nã fayffem, de que os immigos fempre recebião dãno, & fempre Tomo III 41
  • 322 Hijloria da Lídia eítauão fobre falteados, receando quando os Portuguefes dariao neles. E com quanto os tinhão cercados auiãlhes medo vendo fua oufadia & esforço. GAPITOLO .CXI. De como Chriftouão jufarte chegou a Calicut & êtrou na fortaleza cõ os que yão coele. PArtiros Chriftouão jufarte & Duarte dafonfeca pera Calicut, como então era a força do inuerno achará ho tcpo tão forte, que por milagre de noflò fenhor efcaparão de não ferê comidos do mar: & a fora a fadiga defcaparem de tamanhos perigos, a teuerão também muyto grande com todos os q yão coeles por lhes faltar agoa, que não tomarão em Cochim com a prefla de partirem, cuydando que no mar a tomarião da agoa do monte, que nã acharão & por iffo forão fem ela: & não teuerão outra fe não a que chouia, que como era de toruoadas não a tomauão fe não quando vinhão: & algúa que lhes ficaua ate tomarem outra fedia tanto & amargaua em tanto eftremo que quafi a não podião beber. E coefta afrição & anguftia forão vinte cinco dias, que tanto pofe- rão na viagem por amor dos contraftes que teuerão não fendo mais que de vinte ou dezanoue legoas. E com nauegação tão trabalhofa derão fim a feu caminho, chegãdo fobre Calicut, onde Chriftouão jufarte chegou primeyro a oras de vefpora & cÕ a viração q vétaua entrou logo no arre¬ cife, & Duarte dafonfeca chegou da hi a pouco, & por a viração acalmar não pode entrar & ficou de fora. Ecõ a vinda deftas carauelas foy grande aluoroço no arrayal dos Imigos cuydando q fofle ho focorro mayor: & logo os que eftauão nas eftãcias da parte do mar fe aperceberão pera receber os que quifeflem defembarcar, & na fortaleza foy ho prazer muyto grãde por vere ho focorro. E vendo dõ Ioão Chriftouão jufarte detro no arrecife, receãdo q quifeffe defembarcar acodio á porta da for¬ taleza pera lhe acenar q não defembarcaffe logo, porque feria duuida efcapar nenhú dos que faylfem coele fegúdo a multidão dos immigos era grande, & era fua tenção ficar pera de noyte: & pore Chriftouão jufarte como era muyto esforçado, & ho defejo que tinha dentrar na fortaleza lhe fez entender quando vio que dõ Ioão lhe capeaua que lhe dizia que defembarcaffe: & também ouue medo que como era inuerno fobreuielfe algúa toruoada de vento traueffam q deffe á cofta com a carauela & fe perdefie, & por ifto não quis efperar por Duarte dafonfeca né dilatar mais a defembarcação. E ifto determinado diffe ho aos que yão coele q erão oytenta Portuguefes, que vendo as muytas bombardadas que nefte
  • Livro VI, Capitolo CXI 323 tempo os ímigos tirauão de terra duuidarão muytos de fayr, & requere¬ rão a Chriftouao juíarte q goardaííe ho regiméto do gouernador, porq doutra maneyra perderfeyão todos: & ele os defenganou, q ainda que defembarcaífe fó que auia de defembarcar: por iíTo q quê quifeffe defem- barcar que fe embarcafle no paraó, & quê não que ficaíTe. E trinta & cinco fe offrecerão a ir coele, de q foy ho primeyro Manuel cernije & os outros ficarã, a q mãdou q em quanto defébarcaífe jugafie cõ a artelharia & laltãdo no paraó cõ os xxx. & cinco tira pera a praya que eftaua cu- berta de ímigos, frecheiros & efpingardeyros: & ele leuaua fua bandeyra no efporão do paraó & luas trombetas que tocauão de quando em quando: & elas acabando daua ele com os feus húa grande grita, & a efte fom remauão os remeyros quanto podião, gouernando dereytos á coiraça da fortaleza pera ali defembarcaré. E era coufa de muyto grande efpãto ver ir tão poucos meterfe antre immigos que não tinhão conto, que todos defparauão muytas nuues de frechas, & tãtas efpígardadas q os pelouros cayão tão baftos como faraiua quando caye do ceo. E nifto começa a ar¬ telharia dos immigos de tirar á fortaleza & a da fortaleza a eles: & a reuolta era muy grande & efpantofa em todas as partes do eftrõdo da artelharia & da grita dos ímigos & dos Portuguefes. E indo aífi Chrifto- uão jufarte, chegou a terra hum pouco defuiado da coiraça q ho defuiou a grande corrente & braueza daquela cofta: pelo que os ímigos teuerão tempo de ho apertar como defejauão, & não efperando que tomaffe terra de todo, nem receando as efpingardadas q tirauão os que yão coele, nem lançadas né cutiladas: remetem ao paraó com hú impeto beftial, dando- lhes ainda a agoa pelos peitos chouendo fobreles efpingardadas & fre¬ chadas, & arrebatão a bandeira que leuaua, & affi dous trombetas que yão tangêdo que leuarão fora do paraó, que os leuarã hú pedaço arafto, & outros dauão punhadas nos Portuguefes tão perto eftauão deles: po¬ rem nefte têpo pelejauão Chriftouão jufarte & os outros de maneyra que fizerão afaftar os immigos do paraó: & faltando todos nagoa começarão de fazer coufas tão milagrofas q bem parecia q pelejaua nolfo fenhor por eles. E cÕ tudo forão mortos quatro deles, dous homés do mar & loão de macedo, & Fernã de fiqueyra filho de Gonçalo de fiqueyra de Salua- terra, & quafi todos os outros forão muyto feridos & antreles foy Manuel cernije que pelejando como muyto valente caualeyro que era fe recolheo dos derradeiros, & por acodir a hú feu amigo q os mouros matauao, & ele o faluou foy ferido em húa perna, de que faleceo da hi a poucos dias. E pelejãdo affi Chriftouão jufarte tão esforçadamente como digo, foy rompédo por antre os ímigos ate chegar á coiraça onde ho dom loão eftaua efperando com oytenta homens & coele dom Vafco de lima. E
  • Hiftoria da índia 324 aqui foy a peleja muvto braua em demafia, porque os immigos entrauão de volta com os Portuguefes pela entrada da coiraça não temendo ne- nhúas feridas q recebeflem fobriflo né mortes, & carregauão tantos que era medo velos como arremetião denodados: & ifto com tenção dentraré com os Portuguefes déuolta na fortaleza, porq não fabião fe terião outro tam bõ tempo como efte. E dom Ioão & os outros que ho entendião fazião mais do que fe efperaua domes por lho defender, & pelejando com esforço milagrofo recolhianfe pera a porta da fortaleza. E era muyto pera Iouuar a noflo fenhor, de como os Portuguefes fendo tão poucos não forão todos efpedaçados dos immigos q erão tantos que parecia que os fomião antre fi: & com tudo chegarão á porta da fortaleza onde fe reco¬ lherão quafi fem efperança de não entrarem fem os immigos: & dõ Ioão foy ho derradeyro que entrou pelejando tão brauaméte que parece q def- pois de Deos ele foy o q refiftio aos immigos que não entraífem: & foy todo cuberto de frechas de que ho ferirão quatro. E prouue a noffo fenhor que nefte tão brauo conflito não morrerão mais que os q diffe, mas forão quafi todos feridos: & dos immigos morrerão tantos q ho chão ficou todo cuberto, & fe dõ Ioão paliou fora grãde perigo em pouco menos achou os que ficauão na fortaleza, porque muytos dos immigos vendo a braua peleja que ya fora, parecédolhe que todos os Portuguefes eftauão nela, & q não auia quem defendeífe a fortaleza poferão as efcadas em hú co- belo da bada da cidade, & começarão de fobir por elas, mas os q efta¬ uão nele acodirão logo a defendelo lançãdo panelas de poluora fobre os immigos: porem como erão muytos ainda que hús cayão queymados, outros fobião logo. E eftando nefta preffa chegou dom Ioão & foy ajudar a defender a fobida aos Imigos que forão tão mal tratados que deixarão a perfia de quererem fobir. E porque os mortos erão muytos & fe ficaf- fem ali poderião corrõper ho ar com ho fedor, mandou dõ Ioão dizer do muro por hú lingoa aos immigos que feguramente podião tirar dali os mortos, que ele lhes daua fua fé de não receberé por iffo dãno: & afli ho fizerão, & foy feyto grande pranto polos mortos. E el rey de Calicut fentio muyto ho dãno q os feus receberão de tão poucos Portuguefes, & muyto mais ho feu atreuimento de terem ho feu poder em tão pouco, que afli oufarão de defembarcar diante dele.
  • Livro VI, Capitolo CXII 3z5 CAPITOLO .CXII. De como lio gouernador mandou mais focorro a dom Ioão. VEndo Duarte dafonfeca o q fez Chriftouão jufarte, efperou ate que tornou a viração, com que ao outro dia entrou no arrecife & che- goufe a terra ho mais que pode. E porq ho dia paífado vira ho perigo que auia em defembarcar nã ho quis fazer fem faber de do Ioão o que faria, & per hú efcrito que mãdou lançar com húa frecha em terra lho preguntou. E auido ho efcrito per dom Ioão, pos em confelho o que lhe mandaria: & praticado ho rifco que correrão de os matarem a todos, & de lhes entrarem os immigos a fortaleza. E como eftauão muyto feri¬ dos, affentoufe q Duarte dafonfeca não defembarcaífe, porque como não folie hú corpo de quinhentos homés não podião defembarcar fem palia¬ rem ho perigo que paliarão & afli os da fortaleza. E q pera ho gouerna¬ dor lhe mandar focorro não podia fer de menos q de quinhétos homés que també erão muyto necelfarios por amor dos muytos feridos que auia, & pera refiftirem aos fortes combates que efperauão cegandolhes a caua como parecia que os Imigos querião fazer com ho entulho q ajútauão: & afli ho efcreueo dõ Ioão ao gouernador, & tãbé Chriftouão jufarte. E dei¬ tadas as cartas com húas frechas, partiofe Duarte dafonfeca leuando a outra carauela em fua companhia: & ainda perto de Calicut achou Fran- cifco de vafconcelos, que fabendo o que paliaua lhe deu o recado que leuaua do gouernador, pelo que Duarte dafonfeca lhe deu a outra cara¬ uela com que fe partio pera Cananor, & Duarte dafonfeca feguio fua via¬ gem pera Cochim, onde chegou cõ menos trabalho por fer quafi na fim Dagofto, & cotou o que paliara em Calicut ao gouernador, a que deu as cartas q leuaua. E vifto por ele quã mal Chriftouão jufarte goardara feu regimento, ouue muyto grande menencoria, mas perdooulhe por quão bé ho fizera. E vendo quanto importaua ho focorro da fortaleza: & porq fe temeo doutro defarrãjo no defembarcar, determinou defcolher algú ho¬ mem de confiãça pera ilio, & efte foy Frãcifco pereyra peftana homé fobre os dias, bõ caualeyro & rico que poderia leuar gente porq tinha q gaftar: & mandando ho chamar lhe deu conta do aperto em q eftaua a fortaleza, pedindolhe que folie ho capitão mór do focorro pois importaua tanto ao feruiço del rey, q Frãcifco pereyra aceitou por eífa caufa, pofto que eftaua pera fe ir aquele anno: & não fométe quis feruir el rey nefta jornada, mas ainda lhe empreftou dez mil pardaos douro que lhe ho go¬ uernador & védor da fazenda pedirão empreftados. E tendo ho gouema-
  • 326 Hifloria da índia dor a vontade de Frãcifco pereyra pera ir, fez logo a mayor parte dos quinhentos homés q fe embarcarão na mefma carauela de Duarte dafon- feca, & em hú nauio de q era capitão hú Pero velho, & e húa barcaça, & em duas galeotas: & mãdoulhe que Francifco pereyra foífe é húa das galeotas, de q era capitão Antonio da filueira. E faldo a galeota pola barra, quebroulhe ho leme, pelo q Francifco pereyra não quis ir nela, & diíTe ao gouernador que iria em hú galeão q fe deitaua ao mar pera ir com focorro a Calicut. E ho gouernador quifera que fora na galeota q logo fe concertou, mas ele nã quis: & porq o gouernador ho conhecia por de fua codição não quis perfiar coele, & deixou ho ir no galeão: q porque eftaua de vagar & ho focorro era neceffario de preffa & eftaua preftes, deu a capitania mór dele a Antonio da filueira ate Calicut, dan- dolhe por regimento que auendo neceffidade de lançar gente e terra a lançafle, & quando não q efperaífe por Francifco pereyra q ya apos ele no galeão. E porq ho gouernador era certificado polas cartas de dõ Ioão & de Chriftouão jufarte da manevra q os Imigos combatião a fortaleza, & dos petrechos q tinhão: começou de fe fazer preftes pera partir apos efte focorro. CAPITOLO .CXIII. De como os imigos ajfentarão dous trubucos, & de como foy queymado hú deles. OS mouros q eftauão cÕ elrey de Calicut ãdauão muyto corridos do pouco q fazião cÕtra os Portuguefes, & fizerão armar dous trabucos: hú nas cafas q forão da feytoria, & outro nas da fer¬ raria com fenhos baftiães diante de cada hú, porq a artelharia da forta¬ leza os nã podefle defmãchar como ao outro, & armados começarão de tirar coeles á torre da menagem & a outras partes em que fazião muyto dãno: & cõ medo das pedras q cayã a miude nã oufauão os Portuguefes dãdar pola fortaleza. E Diogo pirez ho condeftabre como era homé de cuydado, trabalhou logo de ter maneyra pera os defmanchar, porque cõ os baftiães q os encobrião não lhes podia tirar cõ nenhú tiro, & fez hús pelouros arteficiais que queymaífem Õde deffem cõ determinaçã de tirar ás cafas da ferraria, porq dali via fayr algúas pedras, & mais via de noyte ali candea, por õde lhe pareceo que eftaua hi algú dos trabucos. E apontando hú tiro, tirou lhe húa noyte dos quinze Dagosto dia da Af- função de noffa fenhora, & ho pelouro q era de fogo arteficial cayo on- deftaua ho trabuco & pegou fe no baftião & dali fe ateou ao trabuco: & os immigos núca ho poderão apagar com as bombardadas & efpingardas
  • Livro VI, Capitolo CXII1I 327 que logo começarão de jugar da fortaleza, & pefcauão os que fe defco- brião: & ifto por os Portuguefes os verem com bombas de fogo que tinhão acefas, & grandes fogueiras que auia no arrayal. E vendo os im- migos que não podião apagar ho fogo do trabuco, quiferanfe vingar dos Portuguefes, & cuydando de lhes fazer dãno tirarão com fua artelharia & efpingardaria a toda a fortaleza: a q os Portuguefes refponderão com a fua, & foy hú brauo jogo que durou todo ho quarto da prima, & forão mortos & feridos dambas as partes, principalmente da dos Imigos que ficarão muyto triftes por lhes arder ho trabuco fem lhe poderé valer, & afli ho ficou el rey. E parecendolhe que quebraria os corações aos Por¬ tuguefes lhes mandou dar moftra de toda fua géte, apartados hús dos outros, efpingardeiros, frecheiros, & os defcudos de lãça, & defpadas. E todos paffarão fem fe detere: & como erão tãtos como diffe era medo velos. E com quãto paífauão de prefla, a noffa artelharia que não fazia fe não tirar pefcou muytos. E dom Ioão entendédo a moftra que lhe dauão & a caufa porque, porque deffe a entéder aos Imigos que os não eftimaua mãdou logo embãdeirar a fortaleza & tanger as trõbetas, & fazer grandes feftas: do que el rey fe efpantou muyto quando ho foube, & jurou q fe tomaua os Portuguefes que os auia de matar a todos: & confoloufe cõ o outro trabuco que ficaua, que efte não pode Diogo pirez queimar nem defmanchar, por não ver donde eftaua, & porque ho não viffe nã tinhão de noite candea: mas efte não podia fazer tanto dãno como os outros por não eftar em lugar pera iíTo. ■ CAPITOLO .CXIIII. De como foy queimada lnia mãta dos imigos. TEmédo os mouros que com tam pouco como fazião contra os Por¬ tuguefes, fe enfadaífe elrey do cerco & ho deixafle, andauã muyto de prefla a inuentar ardijs com q lhe deflem efperança de lhes fazer mal, & ho antreteuefle na guerra: & por iflo nunca deixauão ho Ceziliano, q como fabia muytos lhos daua a miude. E o q lhes então deu foy minaré ho baluarte do feytor q eftaua da banda do fui, pera lhe darem fogo com q ho derribaífem, & defpois de derribado entrarião facilmente. E pera ho minaré milhor porq ao derredor da fortaleza era tudo area, & não fe podia fazer mina fem arrunhar: & mais por os Por¬ tuguefes a não verem & lhes não tirarem, ordenou húa manta fobre feys rodas com q fe encobriflem os q minaffem, & pera ter a area q não ar- runhaffe hús payneis de vigas q fempre auião de çarrar cõ a manta. E
  • 3z8 Hijloria da índia pera efta obra auer effeyto, leuarão mão da albarrada, & acodirão todos a ela: & como erão muytos forão logo acabados os payneis & a mata, & começoufe a mina húa noyte. E quis noflo fenhor que a outra dantes foy Baítião ho arrenegado cãtãdo pola caua em Português. Goarda debaixo, dando a enteder aos Portuguefes q fe goardaíTem da mina. E eftas pala- uras entédeo do Ioão o que querião dizer, quãdo ao outro dia vio a manta cÕ os painéis q logo eftranhou porq os não via dantes. E ifto entendido, pos em confelho ho modo q fe teria pera a mina não ir auante pelo muyto grande perigo q diffo fe feguia. E foy acordado que fe queymaffe, & por¬ que os Imigos não podeffem apagar ho fogo, q deitaffem por húa genela do mefmo baluarte do feitor hú calabrete q atarião em duas rodas da manta, & dali feria alada per hú cabreftante q ficaria armado no mefmo baluarte, a que ho calabrete eftaria dado. E pera fazer efte feyto foy efcolhido dom Vafco de lima, q de noyte fe poeria em Cilada cÕ corenta homés pera tolher aos immigos que não apagaffem ho fogo da manta. E affi foy feyto & ãtre os corenta que leuaua dõ Vafco forão Antonio de fá, & Fernão de lima, & Iorge de lima, & fayrão de todos per húa bom- bardeyra do muro, & recolheranfe ao canto dú traués q jugaua pera ho mar: & do Vafco, & Antonio de fá, Fernão de lima, Iorge de lima, ho condeftabre Diogo pirez & dous bombardeyros forão atar ho calabrete per duas afelhas nas duas rodas da manta. E feyto final aos q encima eftauão ao cabreftante q a manta eftaua amarrada, começarãna dalar pelo calabrete. E tudo ifto fe fez fe os mouros ho fintirem, affi polo grande efcuro q fazia como por eles eftaré ocupados com os fentidos em fuas ceas que fazião com grande fefta, por não comerem mais que a,noyte q era nefte tempo a fua corefma a que chamão remendão: & nunca fintirão nada fe não quando a manta começou darder com ho fogo arteficial que lhe foy pofto, a que acodirão logo pera ho apagar, & acodindo virão q lha leuauão fem vere quê, do q fe efpantarão muyto. E começando dou- lhar pera õde a leuauão, remete do Vafco cõ os q eftauão cole tirãdolhes muytas efpingardadas com q os fizerão deter que não paffaffem auante. E nefte tempo foy a manta impinada, & os Portuguefes ficarão quafi em- parados coela das muytas efpingardadas & frechadas q os Imigos come¬ çarão de tirar quãdo os virão: no que durarão pouco porq os fez fugir a artelharia q começou de jugar do traués q digo. E vendo dõ Vafco q a mãta eftaua em faluo, recolheofe pela bombardeira, por Õde fayo ja quafi no cabo do quarto dalua q tanto durou efte feyto: de q os mouros ficarão muyto corridos por veré em quã pouca conta os tinhão os Portuguefes, & quã facilméte lhes desfazião feus ardis. E el rey de Calicut eftaua efpan- tado de tamanho esforço domes, & de quã pouco eftimauão feu poder,
  • Livro VI, Capitolo CXV 32 g que dauão mil vezes rebates a fua géte: & parecia q nenhú trabalho os canfaua, & dizia aos mouros que fizera mal de tomar guerra cõ taes ho- mes. E eles ho cõfelhauão, dizendo que não fe agaftaffe, porq poucos contra muytos núca poderão durar muyto: & que os Portuguefes fe auião de deminuir tanto por quão poucos erão, q ou fe lhe auião dentregar ou os auia de tomar por nao fe poderem defender, & fizerão fazer outra manta pera minar pela mefma maneyra ho baluarte da poluora, & Diogo pirez lhefpedaçou a manta com hú camelo a cujo tiro eftaua. Do q el rey ficou tão aborrecido por tomar niffo agoiro que não quis que fizelTem mais minas, & mandou que tornaffem a trabalhar na albarrada. CAPITOLO .CXV. De como dom Ioão fe\ húa tranqueira fobre lio muro contra Ima albar¬ rada que os inimigos fabricando. Etrabalhãdofe nela cõ muyta diligencia, começou logo de crecer: o que daua muyto cuydado a dom Ioão, porq cuydaua q lhe querião os immigos entulhar a caua da fortaleza pera lhe fobirem a ela, o que receaua por amor da pouca gente que tinha. E porem muyto mayor perigo fe lhe aparelhaua na albarrada fe ouuera effeito: porq fem duuida fora entrado dos immigos, & morto com quantos eftauão coele, q fora coufa com q todos os mouros da índia fe leuãtarão logo contra quãlos Portuguefes auia nela. E porque os de Calicut não viffem efte prazer, & os Portuguefes não recebeífem tamanha defonra, parece que quis noífo fenhor q fe defcobriífe o fegredo da albarrada, & foy que falãdo ho Ce- ziliano com dõ Ioão lhe diífe como q lhe pefaua el rey de Calicut ho auia de tomar cõ quantos eftauão coele, fem lhes valer fua defenfam, o que difie em Caftelhano, do que dom Ioão deitou mão, & folgou de pra¬ ticar coele pera ver fe podia faber por ele algúa coufa da determinação dos Imigos: & muyto mais quando lhe difie que homé era, & dali por diãte falaua muytas vezes coele. E falando hú dia ho Ceziliano de ter por certo que dom Ioão auia de fer tomado com a albarrada lhe diífe o pera que era, moftrandofe muyto trifte por iflò. E dõ Ioão como era pru¬ dente diflimulou, & rindofe lhe diífe que bé fabia ho pera q a albarrada era porque ja vira outras, & porifiò a conhecera & bufcara logo ho re- medio pera fe deféder dela como veria quando fofle tempo: do que ho Ceziliano ficou muyto efpantado: & dõ Ioão deu muytas graças a noífo fenhor por lhe defcobrir aquele fegredo: & contouho a dom Valco & aos outros fidalgos com grãde prazer. E logo na noite feguinte com a mayor Tono m 43
  • 33o Hijtoria da Índia parte da gente da fortaleza começou de fazer húa tranqueira fobre ho muro da banda dõde fe fazia a albarrada: & efta trãqueira era de duas ordés de vigas muyto groffas metidas no entulho do muro com outras atrauefladas das partes de fora pregadas com pernos muyto groífos. E efta obra fe fez efta noyte cõ muytâ prefta & era pera fobrepojar por cima da albarrada, para que os Portuguefes defendeflem nela que não podeflem os Imigos entrar polo muro, o que fe auia de fazer cÕ húa an- daina dartelharia que fe auia daffentar nefta tranqueyra defpois dentu- lhada. E quãdo ao outro dia os immigos virão efte defafio derão húa grande grita, & ho Ceziliano pelo que ao outro dia paliara cõ dom Ioão logo entendeo o que era, mas não ho quis dizer por não dar defgofto aos mouros, & mãdou aquele dia apontar nas vigas hú tiro groífo, com que lhes tirarão na noyte feguinte andando dom Ioão com outros em prefta de a entulhar & ho pelouro acertou pela quadra de húa das vigas, de que leuou hú pedaço em rachas, com que forão efcalaurados nos roftos dõ Ioão, dom Vafco, Iorge de lima & Antonio de fá, & foy morto hú criado do fogro de dom Ioão com húa pedra do trabuco que també co¬ meçou de tirar cõ toda a mais artelharia dos immigos, q como tinhão muyta poluora nã eftimauã de a gaitar neftes tiros perdidos pera ver fe podião efpantar coeles os Portuguefes pois lhe nã podião fazer outro mal. E com tudo deranlhe grande fadiga toda a noyte, mas nem por ifío dei¬ xarão dacabar dentulhar a tranqueyra, em que logo forão aflétadas cer¬ tas peças dartelharia ao oliuel daltura que a albarrada podia ter com dom Ioão ficou feguro dela. CAPITOLO .CXVI. De como querêdo os mouros combater a fortaleza cõ húas manias de campo forão atalhadas. MLJyto agaftados ficarão os mouros de veré efta tranqueyra porq virão que era muy perjudicial pera ho effeyto que elperauão da fua albarrada. E preguntando ao Ciziliano fe aueria outro ardil pera fe a fortaleza tomar: ele deu logo ordem com que forão fabricadas duas mantas quafi ao modo das de campo daltura do muro da noífa for¬ taleza, & de largura de qulze palmos feytas de vigas de groftúra dú & dous dedos forradas de fora de coiros crus porq não fe lhe podefle pegar fogo, & eftauão empinadas cada húa fobre fua grade de vigas q andaua fobre doze rodas & das põtas das mãtas da bãda de détro tinhão hús tirã- tes de vigas que fe pregauão nas põtas das grades, & de tirante a tirãte
  • Livro VI, Capiiolo CXVI 331 fe fazia hú andaimo em que auião dir ovto efpingardeiros pera tirar por húas efpingardeiras feytas nas mefma matas aos que efteueffem fobre ho muro da fortaleza õde auião de chegar, & detrás deles auião dir os im- migos em fieras pera fe empararé da artelharia da fortaleza, a q chega¬ das as mãtas auião de fobir por efcadas. E coeftas mantas certificou ho Ceziliano q entrarião a fortaleza, porq os efpingardeyros defpejarião ho muro, que ho não podeffem defender delles quando fobiífem polas efca¬ das. E fegundo ho ardil era bõ & bé ordenado, & os immigos muytos em demafia & os Portuguefes tam poucos como erão, parecia claramente que deuia fer affi. E os mouros tendo ifto por muyto certo ho diflerão a el rey que ho creo, & derão poriflb ao Ceziliano muy ricas joyas. E logo fizerão fabricar as mantas detrás de húas cafas, porque as não vifiem os da fortaleza fe não quando foffem de todo acabadas. E crendo afli os mouros que daquela vez auião de fer tomados do Ioão & os outros an- dauão muyto ledos: & fegundo a coufa eftaua ordenada affi ouuera de fer fe as mantas ouuerão effeyto, mas noffo fenhor por fua mifericordia ordenou ho cotrairo: & Baffião defcobrio a dom Ioão ho fegredo das man¬ tas, & ho Ceziliano não oufou porque lhas dom Ioão não atalhaffe como a albarrada. E fabido ifto por ele vio as pontas das mantas que fobre- pojauão a altura das cafas detrás dõde fe fazião, a que logo mandou tirar com hú camelo que todo hú dia tirou ás cafas ate q deu coelas no chão & as mantas ficarão defcubertas, & húa delas eftaua acabada. E os Por¬ tuguefes derão grãdes gritas com prazer de as verem, porq efperauão de as defmanchar, & toda a noyte jugou ho camelo & affi a artelharia da¬ quela bãda que tolheffe aos Imigos que aquela noyte não andaffem com a manta por diante, & ho mefmo fizerão os Imigos, & né hús nem outros não dormirão, & teuerão toda a noyte muyto trabalho jugando ás bom- bardadas. E como amanheceo, parecedo aos immigos que fe vingarião dos Portuguefes os forão cometer cÕ a mãta q tinhão acabada poftos nela os efpingardeyros, & eles detrás dela em fieiras leuando fuas efcadas, & fazendo grandes matinadas de gritas & de feus inflormentos de guerra: & coifto defpararão toda fua artelharia, & ho trabuco juntamente lançaua fuas grandes pedras que quando cayão parecia que auião de fundir a for¬ taleza, & começafle hú bem brauo & medonho combate de tanta diueríi- dade de coufas pera fazerem mal aos da fortaleza, que be fe parecia goardalos noffo fenhor milagrofamente de todas, porque qualquer delas abaftaua pera os deftruyr de todo fegúdo erão poucos, & a fortaleza eftaua daneficada dos continos combates da artelharia, em que fempre dos Portuguefes morrião algús, ou de bobardadas ou defpingardadas: de que não digo per ordé os que morrião porque ho não pude faber, fe não
  • 332 Hifioria da Índia que a efte tépo erão mortos dos Portuguefes cincoenta & eftauão feridos céto ou mais, de que algús pelejauão com céto e feffenta que eftauã fãos. E começandofe efte temerofo combate antes q a outra artelharia da for¬ taleza começaffe de jugar, defparou ho condeftabre hu camelo com q acertou na manta, & feyta em pedaços a fez voar per efte ar, efpeda- çando també os efpingardeyros q yão nela, & os das fieiras que yão de¬ trás de que matou muytos. E feftejado efte tiro com muytas gritas dos Portuguefes, & muyto tanger das trõbetas, defparão lodos os outros com feu brauo impeto, & fazem acolher os immigos que eftauão defcubertos, polo que não receberão mays dãno nos corpos, mas na outra manta fi, que també foy feyta em pedaços, & afli ho forão també outras duas que eftauão começadas, que foy ho mayor mal que lhe então podião fazer, porque neftas mantas tinhão toda fua efperança de entrarem na fortaleza: & coifto ficarão de todo defefperados de ho fazer, principalmente el rey que com vergonha quifera leuãtar ho cerco. E tão auorrecido eftaua de íi que nunca mais quis que vfaffem de mais ardijs contra os Portuguefes por mais que os mouros ho perfuadirão pera que ho cõfentiffe, & dizia- lhes que era efcufado, porq erão grãdes feyticeiros, polo que não lhes podia empecer coufa nenhúa. E coefte defgoíto mandou logo que ceffaffe a obra da albarrada & fobre aquele entulho mandou fazer húa tranqueyra fingela de palmeiras cuberta defteiras. O que do Ioão teue por final de fua defefperação, & afli ho difle aos que eftauão na fortaleza, dizendo que fe alegraffem, porque dali por diante auiao de fer defaliuados do trabalho que padecião. E derão todos muytas graças a noffo fenhor, & embandeirarão toda a fortaleza, & tangerão as trombetas: do que os mouros fe efpãtarão muyto, & fe virão algús nauios no porto parecera- lhes que era vindo focorro: por terem cartas dos mouros de Cochim que o gouernador fe fazia preftes pera ir focorrer a fortaleza, por tanto que fe aprefiaffem em a tomar: & por iffo amiudauão tanto os ardijs pera a tomarem como difle. E vendo que el rey não quèria que vfaffem mais deles, combatião a fortaleza cada dia, & fempre matauão & ferião algús Portuguefes, & lhes dãneficauão os baluartes & muros, & os tinhão em fobrefaltos continos com tão amiudados combates afli de noyte como de dia com que os nunca deixauão repoufar: com que padecerão nefte tempo trabalho incõportauel de continuamente eftarem armados, & pelejando de noyte & de dia com tantos pelouros dartelharia tão medonhos que lhe tinhão a fortaleza furada por todas as partes, & com tão efpantofas pedras de trabucos, com tão baftos pelouros defpingarda, com tão brauos combates de não cuydados ardijs, com que de cada vez fe vião abraçados da morte, & com terriueis dores das mortais feridas que recebião, & por
  • Livro VI, Capitolo CXVII 333 derradeyro com eftranha fraqueza que lhes caufaua ho não comer, por¬ que em cinco mefes em que ya ho cerco não comerão a maior parte defte tempo fe não arroz cozido em agoa fem fal porque ho não tinhão: & en- faftiauãfe tanto dele, que pera ho poderem comer ho mandauão cozer aa noyte pera ao outro dia eftar azedo & lhe acharem algum gofto. E eílando do loão & os outros nefte trabalho, chegou hú dia Antonio da filueira fem nenhú dos outros capitães que partirão coele de CochI, que todos fe tornarão do caminho não podendo fofrer ho mar que os comia: & entrando no arrecife com a viração furgio: & cuydãdo os immigos q queria defembarcar, acodirão bé quinhentos efpingardeiros a húa eftan- cia junto do mar, donde tirauão muyto rijo. Surto Antonio da filueira efcreueo húa carta a dom loão, em que lhe mandaua preguntar q queria q fizeffe, & eíta leuou hú homé a nado, q núca pode daqla vez tomar terra com as muytas efpingardadas dos immigos, que matarão outro q tornou com outra carta: & outro foy de noyte com outra, & pode fayr & deuha a dom loão que efcreueo a Antonio da filueira que não defem- barcaffe: & fe lhe podefie mandar algúa poluora que lha mãdaffe. E ele lhe mandou tres barris dela, q forão dados de noite com muyto perigo de peleja, & lhe mandou dizer que esforçaffe que ho gouernador ficaua de caminho pera lhe focorrer com o que dom loão ficou muyto ledo, & dilfeo a todos, que fizerão por iffo muyto grãde fefta. E dada a poluora como Antonio da filueira eftaua fó & não podia fazer nada tornoufe logo pera Cochim, onde chegou muy alinha, por ir cÕ veto a popa, & contou ao gouernador o que fizera, & como ficaua a fortaleza & em Cochim achou os outros capitães q arribarão. CAPITOLO .CXVII. De como dom loão foy /ocorrido por Eytor da filueira: & defpois por Francifco pereira peflana. COm muyto perigo & trabalho (pola fortaleza do tempo) chegou Francifco de vafconcelos a Cananor pera onde partio de Calicut como difle, & chegado deu ho recado do gouernador a Eytor da filueira, que ja eftaua preftes pera iffo, & por falta dembarcação de na- uios grandes não partia. E tanto q Frãcifco de vafconcelos chegou, de- fembarcoufe cÕ algúa géte na carauela & na galeota: & leuou cinco paraós ligeiros carregados de mantimétos & de poluora: & deixando a fortaleza encomendada ao alcaide mór fe partio pera Calicut, onde chegou na fim Dagofto. E etrado no arrecife furgio: & cuydando dom loão que queria
  • 334 Hijloria da índia delembarcar lhe mandou fazer final que não defembarcaífe. E logo os Imigos cuydando que queria defembarcar lhe tirara muytas bombarda- das, & acodirã muytos á praya, & Eitor da filueira polo final q lhe foy feito fe deixou eftar ate que foy noyte: & então mãdou difparar fua arte- lharia afli da galeota em que hia como da carauela: & pos fe ás bom- bardadas cÕ os Imigos, pera q com iffo perdeífem ho tento dos paraós, que entre tãto partirão pera terra, & forãfe dereytos á coiraça, onde os do Ioão eftaua efperando, acompanhado de quarenta homés: & os pa¬ raós forã defcarregados, de bizcoyto, carne pefcado em jarras, cocos, & outros mantimentos necefiarios, & poluora de bõbarda & defpingarda. E fabedo dom Ioão ho focorro q lhe ya, & como ho gouernador fe fazia preftes pera ir logo, mãdou dizer a Eytor da filueira que não tinha necef- fidade de mais gente que a que eftaua na fortaleza pera fe defender ate a vinda do gouernador. E toda aquela noyte fe gaftou em fe recolherem os mantimentos, & em bõbardadas & efpingardadas. E porque não era neceflario eftar ali mais Eytor da filueira tornoufe ao outro dia pera Ca- nanor. E dom Ioão por quebrar ho coração aos Imigos conuidou Baftião cÕ tres poftas de carne de falmoeira, & tres molhos de betele frefco que lhe mandou deitar do muro. E baftião muyto efpantado de as ver, as moftrou aos Imigos que ficarã muy triftes: & então conhecerão q dom Ioão fora focorrido com mãtimentos: & ate li não cuydauão fe não que Eytor da filueyra não defembarcara por não fe atreuer: & eftauão por iífo muyto ledos: & conhecendo que os da fortaleza eftauão abaftados de mantimétos defefperarão de os poderem tomar, porque cuydauão que a fome os auia de fazer étregar, que be fabião pelos naires que feruião na feitoria que não tinhão mais q arroz. E fe não fora por eles nuca ho fou- berão, porq dom Ioão teue fempre tam boa vigia na fortaleza, que nuca nenhú efcrauo lhe pode fugir pera os Imigos. E partido Eytor da filueira ja na fim de Setembro chegou Francifco pereira peftana no galeão, que com achar ho veto por dauante & os mares muyto groffos fe ouuera de perder, & efteue muytos dias furto na foz do rio de Chatuá, que íe iffo não fora, perderafe: & chegado ele a Calicut furgio defora do arrecife pera efperar pelos outros capitães, que cuydou que foffem ter coele, & entre tanto como foy noyte mandou ho paraó do galeão a terra com man¬ timentos, & munições, cuydando q dom Ioão eftaua em neceílidade deles. E fabendo dom Ioão como ho paraó ya, por fazer luar muyto claro ho foy receber a coiraça, a que logo acodirão os immigos: & fobre ho de¬ fembarcar do paraó foy húa braua peleja, em que forão mortos cinco Portuguefes: & dom Ioão foy ferido de húa efpingardada e húa perna: & com tudo ho paraó foy defcarregado, & fe tornou pera ho galeão, com
  • Livro VI, Capitolo CXVIII 335 recado a Francifco pereyra que não defembarcaffe, porque como não fof- fem quinhentos homes juntos, era efcufado defembarcar outra gente. E dos immigos morrerão nefta peleja algús: & forão feridos tantos das noífas efpingardas, & queimados de panelas de poluora, que lhes coueo afaftarenfe. E dom loão fe recolheo á fortaleza defapreffado deles: & en¬ tão fe achou tão manco da ferida q tinha (que ateli não fentira com a furia do pelejar) que foy neceffario leualo Iorge de lima ás cofias, & foy- lhe neceffario deitarfe na cama porque a ferida não podia farar em pé, ho que ele fentio muyto por fer em tal tempo, & pola neceflidade que tinha fe deitou. CAPITOLO .CXVIII. De como os immigos tomarão o paraó do galeão com a carrega que leuaua. E de como cuydãdo el rey de Calicut q dom loão era morto ho mandou faber. D Au a tres ou quatro dias tornou Frãcifco pereyra a mandar ho paraó a terra com outra barcada, & mãdou ho pola feita, pare- cendolhe q era tempo de menos perigo porque eítarião então os immigos affeffegados, & não acodirião por lhes parecer que não iria a tal tempo, & forão nele cinco marinheiros Portuguefes pera ho remarem. E não efperãdo os da fortaleza por ele a tais horas não ho virão, & os immigos fi: & vedo ho perto de terra, & não íintindo reboliço na coiraça como das outras vezes, foyfe hú dos feus capitães com algús deles meter na coiraça, pera q em ho paraó chegando ho apanhaffem. E a vigia da coiraça começou de bradar que entrauão os Imigos nela, ao que acodirão dom Vafco de lima & Iorge de lima com feffenta homés, mas antes que chegaífé chegou ho paraó, & os Imigos ho apanharão logo, & ho leuarã carregado pera diante das fuas eftãcias cõ os cinco marinheiros q hião nele, hús mortos & outros feridos: & ho capitão que digo cõ muytos dos Imigos fe pos coeles á porta da coyraça quando a vio abrir pera defen¬ der a dom Vafco & aos outros que não fayffem, & foy fobriffo húa muy ferida peleja. E dom loão q ouuio a grita chamou pera faber o q era, & não lhe refpondeo mais que húa efcraua, que lhe diffe o que era, & q os Imigos erão muytos. O que ele ouuindo não fe pode ter que não fe Ieuan- taffe & affentoufe a húa genela de grades de ferro, donde via a peleja que era debaixo. E quando vio q não podia acodir começou de tirar aos Imigos com duas efpingardas que lhe a efcraua atacaua, & em quãto lhe ceuaua húa tiraua com a outra. E dali matou be trinta dos immigos em quanto durou a peleja, porq os tinha a tiro, & tiraua a faluo. E dom
  • 336 Hi/loria da índia Vafco matou nefta peleja ho capitão dos Imigos, paíTandolhe ho efcudo com húa lança, & a ele por derradeiro, & cayo morto. E com fua morte fe desbaratarão os immigos. E dom Vafco fe recolheo indo Iorge de lima ferido de húa efpingardada que lhe leuou a coroa do capacete: & ho mefmo capacete o ferio hú pouco fobre hú olho. E eles recolhidos dom Ioão fe tornou a deitar: & a perna fe lhe agrauou de maneira que lhe ouuerão de faltar herpes nela. E por Francifco pereyra não ter paraó não mandou mais nada a fortaleza, & deixoufe eftar: E os immigos fize- rão grandes alegrias pola tomada do paraó: & dali tornarão a ter efpe- rança q tomarião a fortaleza, & combatiãna brauamente: & mais por crerem que dõ Ioão era morto, porque como Baftião falaua muytas ve¬ zes com ele achauao menos. E preguntando por ele, foy lhe dito que eftaua ferido: o q ele contou a el rey de Calicut & aos mouros q forã coiffo muy alegres: porque crerão que do Ioão era morto: & os feus polo encobriré dezião que eftaua ferido. E pera laberem a verdade difto diffe- rão a Baftião q lhe mandaffe pedir licença pera ho ir ver. E dom Ioão quando lha ele mandou pedir lhe pareceo logo o q era, & por tirar aquela fofpeita lha deu: & quando vio Baftião lhe diffe o que entedia de fua vifi- tação, efcojurandoo muyto que lhe diíTeffe a verdade: & ele lha diffe, & que el rey de Calicut lhe queria tamanho mal que nenhúa coufa defejaua mais q matalo, por fe auer por muyto injuriado dele por fe lhe defender tanto tempo com tam pouca gente, tendo ele tamanho poder. E dom Ioão rogou muyto a Baftião que lhe diffeffe, que pofto q ele morreffe, que cada hú dos que eftauão na fortaleza erão pera ferem capitães & fabião da guerra mais que ele, & lhe auião de fazer mais mal do q lhe ele tinha feyto: poriffo que não ganhaua nada em fua morte. E poré que fe a tãto defejaua que cõbateffe em peffoa a fortaleza: & poderia fer q cõ feu fauor a entrarião os feus mouros de que fazia grãde cabedal, & q ho matarião: porq lhe certificaua q ho auião dachar na dianteira pera o tomar viuo & ho mandar prefo a el rey de Portugal pera lá pagar fuas treyções & mal¬ dades. E poré que pois não auia doufar de cõbater em peffoa a fortaleza que lhe rogaua q não fugiffe pera o fertão, porq ele ho mãdaria bufcar á cidade com a artelharia. E dom Ioão trabalhou muyto cõ Baftião que fe tornaffe pera noffo fenhor, & que ele ho leuaria pera Portugal & lhe aue- ria perdão del rey, & ele não quis. E dandolhe dõ Ioão de veftir ho def- pedio.
  • Livro VI, Capitolo CXIX 337 CAPITOLO .CXIX. De como os ímigos quiferão queymar hum baluarte de madeira da for¬ taleza & não poderão. BAstiÃo fe foy logo a el rey de Calicut, & lhe contou como achara dom Ioão & deulhe ho feu recado cÕ o que el rey fe indinou muyto mais contrele, & fazia combater a fortaleza de dia & de noyte que nunca dom Ioão nem outros tinhão nenhú repoufo & leuauão muyto tra¬ balho. E húa noyte poferão os immigos fogo ao baluarte de madeyra porq lhes impidia chegarem á porta da fortaleza. Dõ Vafco de lima q feruia de capitão acodio logo cÕ gete ao baluarte pera matar ho fogo, & os immigos lho defendião, fobre o que fe começou antreles húa braua peleja. E dom Ioão que foube o q paffaua pofto que eftaua ferido, mã- doufe leuar ao baluarte ainda que contra vontade de todos, porque receou que ardeffe ho baluarte, a que mandou logo leuar muyta terra pera apa¬ gar ho fogo porque cõ agoa não podia fer, nem os Portuguefes tinhão muyto lugar pera o apagarem pola dura refiftécia q lhe os immigos fazião, & ho fogo fe ya embrauecendo de cada vez mais. E eftando os Portugue¬ fes nefta fadiga quis lhe noflo fenhor Iefu Chrifto acodir com chegar na¬ quela hora Eytor da filueira, q eftãdo em Cananor por capitão como diffe em aufencia de dom Simão de menefes, defaueole dom Simão em Cochim do gouernador, & nã quis mais andar coele & tornoufe pera fua capita¬ nia. E vendo Eytor da filueira que não fazia nada em Cananor, pareceo- lhe bem ir goardar ho porto de Calicut pera fauorecer a fortaleza, & efperaria hi ho gouernador q fabia que eílaua de caminho, & embarcoufe na galeota de Francifco de vafconcelos, & leuou configo a carauela & algús paraós, & do mar vio ho fogo q eftaua acefo no baluarte: & conhe¬ cendo que era na fortaleza, chegoule a terra o mais q pode, & começou de defparar fua artelharia com q fazia grande eftrõdo. E ouuindo ho os immigos tão de fupito cuydarão que era ho gouernador por terem auifo dos mouros de Cochim que era ja partido pera Calicut em focorro da fortaleza. E com ho aluoroço defta fofpeita acodirão logo á praya, não fométe os immigos q defendião que não apagaffé os Portuguefes ho fogo do baluarte, mas outros muytos de todas as eftancias. E como os Portu¬ guefes q pelejauão forão defapreffados»da peleja, apagarão logo ho fogo: & os Imigos efteuerã toda a noyte em vigia, cuydando q os Portuguefes q eftauão no mar defembarcafiem, mas né então nem defpois não defem- barcarão, por recado de dom Ioão que lhe mandou lãçar húa carta é que 43 Tomo III
  • 338 Hijloria da índia lho efcreuia. E ao outro dia a noyte Eytor da filueira fe pos cora todos os nauios a tirar ás bombardadas aos immigos, & entre tanto madou muytos mantimentos, & poluora á fortaleza pela coiraça. E efcreueo a dom Ioão que ho gouernador fe ficaua aparelhando pera ho focorrer, & por iffo fe não auia dir dali, & auia defperar por ele, q fe fe viffe em ne- ceflidade de gente que lho mandaífe dizer & que logo defembarcaria. E dali a poucos dias chegou Pero de faria que ya por capitão mór de húa frota de fuftas q partio de Goa em focorro da fortaleza em que yão muy¬ tos cafados de Goa á fua cufta a feruir el rey, que como fouberão do cerco pofto q era inuerno pedirã embarcação a Francifco de fá & parti¬ rão quafi na fim de Iulho, & por ho tempo fer muyto forte não chegara mais cedo. E com a armada de Pero de faria fe ajuntou no arrecife de Calicut húa arrezoada armada, cÕ que os mouros fe agaftauão muyto porque vião que daquela vez nã poderião tomar a fortaleza, a q amiuda- uão muyto os combates: mas ja os que eftauão nela os não tinhão em conta: & também lhes tirauão muytas bombardadas, & alfi os q eftauão no porto com que os immigos eftauão muy afrontados, & os mouros muyto agaftados e enuergonhados de quão pouco tinhão feyto naquele cerco. E el rey de Calicut muyto corrido por tomar feu confelho: & cÕ tudo apercebeofe pera receber ho gouernador. CAPITOLO .CXX. I)e como ho gouernador focorreo a fortaleza de Calicut, & do confelho que teue fobre pelejar co os mouros. SAbendo ho gouernador quão be focorrido fora dõ Ioão de lima, def- cãfou algú tãto do cuydado q tinha de faber q eftaua cercado, & dos cobates q lhe dauão os Imigos. E determinou de ho nã yr focorrer fe não com tempo feyto, porque fofle com toda a armada q tinha, & tão poderofo como conuinha ao gouernador da índia, ho que não po¬ dia fer fem dar ho mar jazigo, porque não ho dando chegaria a Calicut com a armada efpedaçada & fem nenhú poder, ho que pera ho tempo era muy perjudicial: por el rey de Calicut eftar muyto poderofo, & os mouros cõ grãde foberba, & fe viflem ho gouernador com pequena ar¬ mada não ho terião em conta: & com grande & bé fornecida de gente & dartelharia acrecétarfelheya ho medo que dãtes tinhão dele. E porque ele ifto fabia partio na entrada Doutubro, em que ja ho mar eftaua feguro dos cotraftes do inuerno: & leuou húa armada em que forão mil & no- uecétos Portuguefes. E os principais capitaés forão dom Iorge de mene-
  • Livro VI, Capitolo CXX 33g fes, dom Iorge telo de menefes, dom Triftão de noronha, do Afonfo de menefes, dõ Pedro de caftelo branco, Ioão de melo da íilua, dom diogo de lyma, Antonio da filueira, Manuel de macedo, Anrrique de macedo, dõ Iorge de crafto, Iorge cabral, Antonio dazeuedo irmão de Martim lopez dazeuedo fenhor de Caures, Duarte dafõfeca, Fernão gomez de lemos, Antonio da íilua, Antonio de lemos, Iorge de vafcocelos, Antonio peffoa, Rodrigo aranha, & outros capitais de catures a q não foube os nomes. E coefta armada chegou ho gouernador ao porto de Calicut meado Outubro por chegar cõ a frota juta. E quando vio a q eftaua no porto, ficou muyto ledo de ver ho bõ cuydado dos Portuguefes no q copria a feruiço del rey. E foy ho arroido grãdiífimo da artelharia da frota q eftaua no porto que faluou ho gouernador, como da fua q faluou ela, & afli grãde fefta de gritas, & de muytas trõbetas: q foy tãto q cuydarã os ími- gos q ho gouernador defébarcaua: & acodirão á prava: fazédo jugar a artelharia q eftaua pera ho mar. E os Portuguefes tãbé lhes tirarão, & nifto fe paífou hú pedaço q eftaua por paífar daqle dia: & ao outro dia e amanhecédo por ho grãde poder q eftaua fobre a fortaleza, a cõbaterão os Imigos cõ toda a artelharia q tinhão, q toda tirou jútaméte & o tra¬ buco coela, & paffada efta primeyra çurriada, moftrarãfe todos na praya, os adargados diãte, & detrás os efpingardeiros & frecheiros, apartados hús dos outros, & afli tirarão pera ho mar cõ muyto cõcerto, & dãdo medonhas gritas q foy bé pera efpãtar. E afli fe efpãtarão os Portugue¬ fes q eftauã no mar de ver tãtos imigos jútos q núca virão tãtos: & erã nouéta mil homês, porq pofto q dos primeyros nouéta mil fofle mortos logo fe refaziã, & nuca faltauão defte numero. E ho gouernador folgou muyto de os ver porque foubefle que foma fazião, & deixandoos bé mof- trar, lhes mandou tirar quando fe recolherão: & eles recolhidos tornarão a cõbater a fortaleza, & durou ho combate todo ho dia. E vifto pelo go¬ uernador a grãde força de gente que os Imigos tinhão, & quão apercebi¬ dos eftauão, nem por iflo perdeo ho esforço com que partira de Cochim pera pelejar cõ eles, antes parece que fe lhe acrecentou, porque ifto era muyto natural nele, quanto as coufas erão de mayor perigo tanto menos as temia & defejaua mais de as cometer, & logo ao outro dia pelejara com os Imigos, ho que não fez, por ho regimento que tinha del rey lhe defender que não cometefle as coufas femelhantes fem fazer cõfelho ge¬ ral, & feguir a parte que teuefle mais votos. E por iflo juntos ao outro dia em cõfelho todos os capitaés & fidalgos & pefloas principais, lhes propos ho aperto é que eftaua a fortaleza, & a géte que a tinha cercada, & quão foberbos eftauão os mouros, & a gente q ele leuaua, pedindo- lhes feus pareceres. E forao que não fe deuia de pelejar com os Imigos,
  • 340 Hijioria da índia porque a fora teré muyto demafiado poder de gente & grande força dar- telharia, em cujas bocas auião de defembarcar, & a defembarcação era muyto rol, por fer cofta braua, & andar fempre ho mar de leuada, pelo que auião de defembarcar a nado, & os immigos que logo auião dacodir os matarião a todos fem peleja, & que fe perderia ho eftado q el rey de Portugal tinha na índia, que importaua mais que aquela fortaleza: por iflo que ho bom feria fazer pouco calo dela, & defpejala & deixala, & todos quantos eítauão no cõfelho forão defte parecer, fe nã Antonio da- zeuedo, Francifco pereyra peftana, Eytor da fxlueira, Manuel de macedo, & dom Ioão de lima, que mãdou por efcrito ho feu ao gouernador: & dizião eftes quatro que eftauão no confelho, que nííca ho eftado del rey de Portugal efteuera em tanto rifco de fe perder por não pelejarem como naquele negocio, nem nunca comprira tanto pelejarem pera ho fofterem como então, & mais fe perderia não pelejando que com pelejare, por quão perdido eftaua ho credito dos Portuguefes na índia, & quão aleuan- tado ho del rey de Calicut, que nunqua mais fora caftigado, defpois da morte do Marichal & do desbarato dafonfo dalbuquerq: húa ofenfa tama¬ nha pera Portuguefes. E pofto que ho não foífe por quão daneficado ficara Calicut, abaftaua que os mouros tinhão q era ofenfa, & fe então lhe deixaflem paffar fem caftigo aquela de fazerê guerra á fortaleza & poeréna em tamanho aperto, que defcrerião de todo dos Portuguefes, & os não terião em nenhúa conta, & logo fe leuantarião contra as outras fortalezas, porque verião que não perdoauão fe não ho que não podiam caftigar: & por iífo de neceflidade auião de pelejar, pera que ao menos moftraflem que fizerão ho que poderão, & que efperaflem em nolfo Se¬ nhor que os ajudaria, como ajudara a Duarte pacheco que tantas vezes desbaratara a el rey de Calicut fem ter gente. E pofto que a rezão deftes era muyto boa, & tal parecia ao gouernador, não tomaua feu parecer porque ho contrairo tinha mais vozes. E por não fe determinar de todo que não pelejaflem, leuãtou ho cõfelho deixando a coufa fufpenfa, parecê- dolhe que em outro confelho fe determinaria que pelejaflem: o que ele deiejaua muyto pera caftigar os mouros, porque auia por grande injuria fendo gouernador cercarem aquela fortaleza, mas como via tantos contra fi & não podia al fazer fe nã comprir ho regimento que tinha, que era irle cõ os mais pareceres não oufaua de fe declarar: efperando como digo que em outro confelho ouuefle outros pareceres nos que dizião que não pelejaflem: mas não os ouue em cinco ou feys confelhos q fez defpois defte. E todauia fempre os aleuantaua fem fe aílentar a determinação de não pelejarem, o não podia acabar configo. E nefte tempo dauão os im¬ migos muy brauos combates á fortaleza, por darem a enteder ao gouer-
  • Livro VI, Capitolo CXXI 34i nador q ho na temião, & ele mandaua cada noyte mãtimêtos á fortaleza. E indo húa noyte dom Iorge de menefes em hú batel carregado deles & de duzentos padefes de campo, em ho defcarregando carregarão fobrele muytos dos immigos, tirandolhe com fuas efpingardas & com muytas ro¬ ças & frechas de fogo, & era medo velas de noyte polo efcuro, & muy¬ tos fe metião no mar com croques com q puxauão pelo batel: mas como dom Iorge era muyto esforçado liuroufe deles com matar muytos & leuar feridos quantos yão coele. CAPITOLO CXXI. De como dom Ioão de lima deu hã rebate no arrayal dos immigos: & de como ho gouernador affentou de pelejar coeles. COntinuandose eftes confelhos acerca de pelejarem com os immigos em q os mais como diífe erão q não pelejaflem, Antonio dazeuedo a que parecia bem que ho fizeflem, pefaualhe muyto de ver cami¬ nho pera não pelejarem: porque tinha por fem duuida que auião os im- gos de fer vencidos, & que perdião os Portuguefes húa muyto grande honrra fe não pelejauão. E porque a não perdelfem, efcreueo a dom Ioão o que paífaua: pedindolhe muyto que fe foífe poífiuel deífe de dia hú re¬ bate nos immigos, que efperaua em noífo fenhor que auião de fugir: & que então veria ho gouernador quão errado era ho parecer dos que dizião que não pelejafle, & quão bem lhe dizião os que tinhão ho contrairo. E efta carta mandou per hú feu criado que foy de noyte a nado, & leuaua a carta metida em cera por não fe lhe molhar. E vifta efta carta por dõ Ioão, folgou muyto com ho confelho Dantonio dazeuedo, & tomando ho de algús deífes fidalgos que eftauão coele, aílentou de dar hú rebate em húa eftãcia dos Imigos q eftaua onde fe chama a China cota da banda do fui em q auia menos gente que nas outras: & ordenou que hú fidalgo chamado Iorge de Vafconcelos que fora cõ ho gouernador & eftaua coele, delfe ao outro dia pola fefta na eftancia q digo cõ cincoenta elpingardey- ros, & fe tornaífe logo a recolher: & q ele lhe iria nas coftas pera lhe acodir. O que foy feyto ao outro dia ás horas que digo: & entre tãto que Iorge de vafconcelos ya dar naquela eftancia, mandou dõ Ioão aos q ficauão na fortaleza q tiraífem efpingardadas ás outras: porq ocupados os immigos niífo não fintiffem Iorge de vafconcelos quando deffe nos que auia de dar, & não lhe acodifle: & afli foy. E como ele era muyto esfor¬ çado, & os que yão coele efcolhidos ferirão muy brauamete nos immigos com fuas efpingardas, & como fe virão cometer tão rijo & alfi tão de
  • Hijloria da índia 342 fupito forão tão cortados do medo que logo fe acolherão & deixarão a eftancia ficando algus mortos, & nela tomarão os Portuguefes tres berços & húa bombarda: & ho primeyro que chegou a ela foy hú fidalgo man¬ cebo chamado Belchior de brito da cidade de Beja, que faltãdo fobrela começou de bradar. Amores, amores. E tomando os Portuguefes eftas quatro peças pera as leuarem fizerão os immigos volta fobreles com ou¬ tros que logo acodirão tirãdo muytas efpingardadas & roças de fogo & dando grandes alaridos. E fe a efte tempo dom Ioão não efteuera cÕ lorge de vafconcelos que fe ya recolhedo, ele fe vira em grande afrõta, porque os Tmigos carregauão muyto, & húa efpingardada deu por hú ombro a dõ Ioão: & quis Deos que não lhe fez mais mal q leuarlhe quãto lhe alcançou do corçolete, & outras matarão ho almoxarife dos mantimentos da fortaleza que auia nome lorge diaz & hú amo de dom Diogo de lima. E ja nefte tempo a artelharia da fortaleza defparaua polas outras partes, & era a grita muy grande: & nifto fe recolheo dõ Ioão com algus feri¬ dos. E ho gouernador que vio o que dom Ioão fez folgou muyto, porque vio com quão pouca coufa os immigos fe começarão de desbaratar, & q fe fora mais força de gente q fe desbaratarão de todo: & gabou muyto aquele rebate, dizendo q bem vião todos que fe podia pelejar com os Imigos & por iffo q ele auia de pelejar. Do q todos os que erão contra iffo ficarão muyto corridos: & na noyte feguinte efcreueo muytos agarde- cimentos a do Ioão pelo que fizera, & aíli aos q fayrão: dizedo que lhes parecerão todos muyto gentis homés, & que lhe mandaffe dizer fe lhe parecia ainda bem q pelejaffem cõ os Imigos, porq ele determinaua de pelejar coeles: por iffo que lhe mãdaffe algú home que lhe diffeffe onde defembarcaffe. E dom Ioão lhe refpondeo, que ainda lhe parecia bé que pelejaffem, & q núca outra coufa diria. E ho homem q lhe mãdou foy lorge de lima que lho pedio, & foy em húa almadia remãdo ho hú ma¬ rinheiro que chamauão ho Guifado, & a almadia foy arrobada cõ hú tiro dos Imigos q toda a noyte tirauão, porq pefcaffem os q foffé a fortaleza, & arrobada a almadia lorge de lima & ho marinheiro forão a nado: & chegados á frota foy lorge de lima leuado ao galeão do gouernador, que toda a noite efteue falando coele, enformandofe do poder dos Imigos, & afii do que paffara no cerco. E ele lhe deu tão boa enformação, que ho gouernador affentou de todo de pelejar. E ao outro dia logo pela menhaã chamou a cofelho, não pera tomar mais pareceres, mas pera declarar a todos como auia de pelejar cõ os Imigos. E porque os q erão de parecer contrairo não ficaffem defcontetes diffelhes eftando todos juntos. Como quer q muytas vezes ho noffo juyzo fe engana, & julga por falfo o verdadeiro & a verdade por mentira: acontece outras tãtas fazer-
  • Livro VI, Capitolo CXXI 343 mos obras muy defuiadas de noffa tenção, pelo q eíta deue fempre de fer polia na vontade de nolfo fenhor, pera q por fua mifericordia guie ho efeito dela a feu feruiço & por iflo pus fempre nelle negocio de pele¬ jarmos cõ os Imigos minha tenção, na vontade daquele deos eterno todo poderofo, pedindolhe que ordenafle tudo como folie mais feu feruiço: & tendo nele eíla efperãça eltiue tantos dias fem me declarar fe tomaria voífos pareceres de não pelejar com os Imigos: que como fey pelo que vi & ouui q foys todos de muy affinada valétia, & vos achalles em fey- tos muy façanhofos, a que cõ fobre natural esforço deíles marauilhofo fim, receaua muyto de não tomar voífos pareceres, crendo que pois erão q não pelejaffemos, que vos mouia a ifTo licita caufa, & por outra parte pefando be as caufas que vos podiã mouer, que me não fatisfazião pera deixarmos de pelejar, pareciame que como ho voffo parecer era humano, que fe enganaua, porq fe vos fundaueis em feré os Imigos muytos & nos poucos: por muyto menos que nos quis noffo fenhor que fe ouueffem na índia & fora dela de quafi tãtos mouros & també apercebidos como eítes, tantas & tã famofas vitorias como fabeis: & poriflo volas não lébro. E de crer he que pois nos pelejamos por exalçamento de fua fancta fé, que affi nos ajudará como aos paliados, & tendo elta fé de vencermos fica tirado ho receo de fermos vencidos & de fe perder ho eltado da índia. AlTi que parecendome que vos enganaueis em voífos pareceres, efperey tantos dias a ver fe me moítraua nolfo feiíor fer iílo affi, & ele feja lou- uado que lhe aprouue de mo mollrar em os Imigos fugire onté tão afinha com ho rebate que lhes deu dom Ioão. E quãdo tam poucos & fem ordé os fizerã fugir? que faremos nos todos poítos em ordé, & cõ a efperança em nolfo fenor que os auemos de vencer: certificouos da fua parte, q ainda ey eftes por poucos pera os vencermos, & que em nos vendo lhes auemos de parecer muytos mais do que eles fam. Poriflo fenhores peço- uos q vos pareça be pelejarmos, porq eu niífo eítou. E vendo os q erão de parecer q não pelejaífem, fua võtade, diflerão todos que pelejaífem pois lhe parecia bé. E dandolhe ho gouernador por iflo muytos agardecimentos, alfentou com ho parecer de dom Ioão de lima que Eytor da filueira fe metefle na fortaleza cõ trezentos homés efcolhi- dos: & defpois de metidos logo na noyte feguinte darião nos Imigos ao quarto dalua, & no começo dele fe farião na gauia da capitania quatro fogos ê cruz & tiraria húa bõbarda grolfa, & defpois fe farião tres fogos pera que foubeífem na fortaleza que mouia o gouernador pera terra. E em acabando os fogos tocarião húa trombeta no baluarte de madeyra, cuja porta eílaria defatupida pera fayr logo Fernão de morais cõ vinte cõpanheiros efcolhidos & todos com panelas de poluora que deitarião na
  • 344 Hiftoria da índia eftancia do trabuco pera queymarem os immigos, & acodiré os outros ali: & no mefmo inftante fayria Eytor da filueira, que com os trezentos que leuara de refrefco eftaria na coiraça & daria nas eftãcias da banda do fui. E também do loão de lima com a gente da fortaleza que daria pola banda do norte: & ho gouernador ficaua da banda doefte, & pera a de leite auia de jugar a artelharia da fortaleza. CAPITOLO .CXXII. De como ho gouernador pelejou com os immigos q tinhão cercada a for¬ taleza de Calicut & os venceo. ISto aífentado como foy noyte mãdou ho gouernador a algús capitães q chegaífem os feus nauios a terra ho mais que podeífem, & que tiraífem com fua artelharia, porque impediíTem aos immigos q não acodiífem fobre Eytor da filueira quando defembarcaífe. E entre tanto q a artelharia defparaua defembarcou ele com cento & cincoéta homês: q não quis ho gouernador que foliem aquela noyte mais, porque fe deteuef- fem menos em fe meter na fortaleza, & entraífem mais fem perigo. E fintindo os Imigos a gente que defembarcaua, & que lhe não podião refif- tir por amor da artelharia defpararão também a fua, & tirarão muytas efpingardadas cõ que não fizerão nada. E Eytor da filueira fe meteo na fortaleza cõ os que yão coele fem perigo, & na noyte feguinte defembar- carão outros céto & cincoéta homês, cujo capitão foy dõ Diogo de lima, & étrarão na fortaleza pela mefma maneyra que os outros. E vedo os mouros quantos dias auia que ho gouernador eftaua no porto fem delem- barcar pera pelejar coeles: & que no cabo deles mandaua recolher aqla gente na fortaleza, pareceolhes que era pera fe ir, & que não oufaua de pelejar coeles, & affi ho difierão a el rey de Calicut, & lho fizerão crer, dandolhe pera iflo as melhores rezões que podião: & gabauanfe que auião de tomar a fortaleza como fe ho gouernador foffe por mais géte que dei- xaífe nela, & enfoberbecianfe tanto como que ho teueffem feyto. E meti¬ dos eftes trezentos homés que digo, logo na noyte feguinte q foy a de vefpera de todos os fãtos: os Portuguefes affi na fortaleza como na frota le aperceberão pera ho feyto que efperauão de fazer écomédandofe todos a nolfo fenhor. E começando ho quarto dalua, foy feyto ho primeyro final na gauia da capitayna, com que Fernão de morais & Eytor da filueira fe poferão cõ fua gente nos lugares que lhes erão affinados: & ao fegundo final começou ho gouernador dabalar pera terra a boga furda com mil & feys centos homés que leuaua de q deu a dianteira a do Iorge de me-
  • Livro VI, Capitolo CXXII 345 nefes filho de do Rodrigo de menefes, & a dom Iorge telo filho de do Ioão telo ambos muyto esforçados caualeyros, & leuaua cada hú a feu cargo feffenta homés com panelas de poluora pera queymarem os Imigos & os embaraçaré coiffo. E com ho gouernador yão todos efies capitães & fidal¬ gos da frota acompanhado a bandeira real. E tato q ho fegúdo final (que declaraua abalar ho gouernador pera terra) foy vifto na fortaleza, man¬ dou dom Ioão tocar húa trobeta no baluarte de madeira em que os Imi¬ gos não atétarão porque quafi toda a noyte na fortaleza tangião trombetas por fefta, & eftauão todos bc defcuydados de ho gouernador os cometer tão de verdade, nem efperauão por mais que polos rebates que lhes dom Ioão daua algúas noytes. E eftãdo coefte defcuydo, em começando de fe tãger a trombeta que digo fae Fernão de morais cõ os vinte das panelas de poluora do baluarte: & remetendo á eftancia do trabuco arremefiãm as panelas fobre os Imigos que canfados da vigia da noyte paflada come- çauão de dormir. E ho fogo que fupitamente fe acendeo & os começou de queymar, os fez acordar tão fora de fi que começarão logo de fugir, & mais começando Eytor da filueira de os ferir com a fua géte, q aili como Fernão de morais fayo fayo ele també dando os feus grandes gri¬ tas. E do Ioão cÕ a géte q tinha na fortaleza deu por outra parte cÕ muyto grande impeto defpingardadas & grande matinada de gritas q de- fatinauão os immigos, q logo fugirão das eftancias em q eftauão: poré os outros q eftauão alojados nas cauas fintído ho arroido que ya acodião cuydando q não foffe mais q algú rebate q dõ Ioão daua como das outras vezes & q ho farião recolher: mas os Portuguefes q não efperauão de ho fazer ate os Imigos não fere de todo desbaratados, refiftirão como homés que efperauão de leuar auãte fua determinação. E nifto defembarcou ho gouernador com grande arroido de trombetas & de gritas q fazião moftra de feré mais gente do q era a dos Imigos: & eles afli ho cuydarão prin- cipalméte defpois q ambos os dõ Iorges defembarcarão, q com os das panelas de poluora remeterão ás cauas & derã coelas détro cõ que fe acendeo hú fupito & efpãtofo fogo antre os Imigos de q muytos forão queymados. E em fe efte fogo acendendo chega ho gouernador com ho corpo da géte & começão as efpingardadas de defparar, & todo outro genero darmas dos Portuguefes de fazeré fuas obras, com q os Imigos ficarão defatinados porque virão que aquilo era mais que rebate, & que os cometião de verdade o que eles não efperauão: & como fe vião quey¬ mar do fogo, & atrauefTar das efpingardadas & ferir de lançadas, & de cutiladas: hús defatinauão & fugião, outros queriã refiftir aos Portugue¬ fes, & tudo era cheo de gritas, de feridas & de mortes. E era efpantofa coufa de ver como tudo andaua baralhado: & fobre tudo ver ho grãde Tomo IU
  • 346 Hiftoria da Índia milagre que noffo fenhor queria fazer em tão poucos Portuguefes vence¬ rem tantos milhares de mouros q eílauão tão apercebidos de munições pera os deílruire: & q efquecidos diífo fugião, & querião antes morrer fugindo q vencer pelejãdo. E os Portuguefes q viã a grãde merce q lhes noffo fenhor fazia, fabiãfe muyto be aproueitar dela, não perdédo mométo fem feriré & mataré tantos dos Imigos q era efpanto fazendo neles me¬ donha deílruyção, principalmente hús poucos q trazião efpadas dambas as mãos, em q entrauão Iorge de lima, dõ Vafco de lima dõ Ioão de lima ho moço Teu irmão, Antonio de fa, & Ruy de melo feu irmão, do Iorge de menefes, Fernão de morais, Belchior de brito & outros a que nã foube os nomes que eítes defpejauão brauamente os immigos por onde quer que chegauão fendédo hús pelo meyo ao comprido, & fazendo os em duas partes ao traués, & a outros cortando braços, decepando pernas, & apartãdolhes as cabeças dos corpos: o que era caufa de lhes parecer que os Portuguefes não erão homcs fe não diabos q erã ali vindos pera fua total deftrução, q affi fugião deles & defpejauão as cauas onde era toda efla peleja. E feguindo os Portuguefes fua vitoria, vio dom Iorge de me¬ nefes pola caua a diante hú magote dos Imigos que tinhão cercado hú Português que fe adiantara dos outros: & temendo que ho mataffem aco- dio lhe corrédo, pelo q ho não feguirão mais de dous Portuguefes. E ele com a elpada dambas as mãos que leuaua ferio nos Imigos que fe afaíta- rão & ho Português ficou liure. E recolhédofe dõ Iorge coele pera os ou¬ tros que ficauão atras virarão os immigos fobrele tão de fupito, ferindo ho muyto rijo, & cercãdo ho de modo que não fe pode feruir da efpada dambas as mãos, & com húa adaga fe defendia dos Imigos, que apertãdo muyto coele ho ferirão no rofto & em húa mão de q defpois ficou alei¬ jado. E nifto ho deixarão dous dos tres Portuguefes que eílauão coele fugindo com medo de ho verem affi apertado, & o que ficou auia nome Baltefar fernãdez criado de dõ Antão capitão de Lisboa, que nunca fe apartou de júto de dõ Iorge ajudando ho quãto podia. Poré dom Iorge não fe cõtétando de fua ajuda lhe pedio a fua efpada & tomandoa come¬ çou de ferir os Imigos cÕ tã brauo impeto q os fez afaftar, & não tardou muyto q não fugirão por acodirem outros Portuguefes a dõ Iorge q nunca deixou de pelejar cõ quãto eílaua ferido, & por feu grande esforço, & de todos os outros Portuguefes: de q não ouue nenhú q aquele dia não fizeífe coufas muyto alfinadas. E fobre tudo pola immenfa bondade de noífo fenor forão os Imigos deitados das cauas fugindo muy torpeméte. E não parando fora das cauas acõpanhados ainda do medo q tinhão, fe efpalharão acolhendofe hús por elTes palmares & outros aa cidade ficando bé dous mil mortos a fora os q defpois morrerão das feridas: & dos Por-
  • Livro VI, Capitolo CXXJ1I 347 tuguefes forão mortos corenta & feridos duzétos & cincoenta: & eles efta- uão tão encarniçados nos Imigos q os quiferão feguir & étrar na cidade. O q ho gouernador não quis por conhecer os Portuguefes por defmãda- dos, & recearfe de quererem roubar a cidade defpois de fere nela, & os Imigos tornare fobreles, & acõtecerlhe outra tal como ao Marichal, & por iffo não quis: q fe iffo não fora daqla vez poderá fer a cidade toda queimada. E ho gouernador fe contentou cõ decercar a fortaleza, & def- baratar tamanha força de géte como ali eftaua. E afli foy efte hú dos mayores feytos darmas q fe fizerão na índia, porq núca em outro nenhú fe ajútarão tantos Imigos, & tãbé apercebidos como aqles eítauão. E coefta vitoria ficou elrey de Calicut de todo defacreditado. & os reys da índia fe meterão todos por dentro cõ medo do gouernador, a que dali por diãte teuerão em muyto grãde conta. E foou tanto a fama deita vito¬ ria q foy ter ao turco, q ficou muy efpãtado: porq tinha por muyto po- derofo a el rey de Calicut, & mais fabendo a muyta gente que tinha. CAPITOLO .CXXIII. De como ho gouernador mandou defpejar & derribar a fortaleza de Calicut. DAdas muytas graças a nolfo fenhor pelo gouernador por efta tão milagrofa vitoria: & affi muytos agardecimétos a efTes principais por quão bé ho fizerão contra os Imigos, alojou fua gente ao der- rador da fortaleza: porq era fua determinação derribala pera o q fe auia de deter algús dias. E a caufa de a querer derribar era porq lhe não pa¬ recia feruiço del Rey auer fortaleza é Calicut eítãdo el rey de guerra, & q a gente que efteueffe nela eftaua é muyta auétura de a leuaré os Imi¬ gos hõ dia nas mãos. E fobre tudo ter affentado configo, de no cabo daqle verão ir á boca do mar roxo efperar os rumes, q tinha por noua certa q eftauão de caminho pera a índia, & podião vir a quinze de Mayo ou na fim Dabril: & queria ir lá pera inuernar é Mazcate, porq não vindo os rumes na moução Dabril & de Mayo, poderião ir na Dagofto & de Se¬ tembro, em q ele efperaua de fer na põta de Diu que eles auião de ir de¬ mandar & pelejar coeles antes q entraffem em Diu, & por ifto era necef- fario ir inuernar a Mazcate, porq inuemando na índia não podia fayr em Agofto & chegar a Diu em Setébro por amor do tempo q era contrairo, & quãdo nã ouueífe rumes fazia cota de tomar Diu antes q os mercado¬ res & gente eftrangeira que ho podião deféder chegaffem: porq era cer¬ tificado que antes de chegaré ho podia tomar por eftar em defpofição
  • Hijloria da índia 348 pera iifo. E porque pera efta emprefa lhe fazia muyto pejo ficar fortaleza em Calicut ficando de guerra, & muyto mais ficando de paz, porque fabia a pouca verdade del rey queria ele derribar aquela fortaleza, ho que não dilfe a peífoa nenhúa, & fingindo que efperaua que el rey de Calicut lhe cometelfe pazes fe detinha, & porq fe entre tanto os mouros correífem á fortaleza como era certo correrem, fe alojou com fua gente ao derredor da fortaleza, pera que eftando ali, efteueffe mays preftes pera lhe refiftir fe vieffem, & fortaleceo fuas eftancias, com a artelharia que tomou aos immigos: que toda lhes ficou em feu poder quanta tinhão. E vendo eles como ho gouernador fe alojara ao derredor da fortaleza, fe ajuntarão todos os efpingardeiros, & forão dar fobrele cuvdãdo de lhe fazer dano: & por detrás de húas balfas onde fe punhão, tirauão muytas efpingarda- das aos Portuguefes, & aííi por detrás de valos donde os perfeguião, & não lhes aproueitaua tirarem aos immigos porque eftauão eparados. E vendo ho gouernador a opreffã que os Portuguefes recebião, determinou de derribar os valos & balfas com que fe os immigos emparauão, & aílt ho fez: & ele mefmo foy a iífo em peífoa, & foy ho primeyro que come¬ çou de cortar as balfas com fua efpada fem temor das efpingardadas que os immigos tirauão, & logo fe todos chegarão, & acabarão de as decepar & derribarão os valos: & os immigos fugirão, & nuca mais oufarão de tornar. E como el rey de Calicut via ifto, & eftaua muyto quebrado, & via que por mal não fe podia vingar dos Portuguefes, mãdou pedir paz ao gouernador, offrecendofe a pagar todas as defpeífas q forão feytas naquela guerra, & que daria todos os paraós que auia no reyno de Cali¬ cut, & toda a artelharia. E ho gouernador q tinha a determinação que diífe, & queria derribar a fortaleza bufcou maneira pera el rey de Cali¬ cut não fazer a paz: & pediolhe mais que lhe auia dentregar ho Arei de Porquá, que fendo amigo dos Portuguefes fem caufa fe leuantara, & lan¬ çara cÕ el rey de Calicut & ho ajudara naquela guerra. E por el rey de Calicut ho não querer étregar, dizendo que ya contra feu coftume, não quis ho gouernador conceder a paz, & defpois diífo eftando em confelho com todos eífes capitães & fidalgos, & pelfoas principaes, lhes propos que el rey de Calicut não queria coele pazes, & pera terem coele guerra lhe parecia que não era feruiço del rey feu fenhor eftar na fortaleza em Calicut, porque a fora não fer de nenhú proueito, & gaftarfe nela hú conto & duzentos & vinte fete mil rs, em ordenados do capitão, feytor, & outros officiais, & mãtimentos dos foldados, ocupaua gente & artelha¬ ria, que poderião fazer proueito em outra parte, pelo q fe deuia de der¬ ribar, & afli pareceo bem a muytos: contra o que foy Eytor da filueira, dom Ioão de lima, & outros algús. Dizendo que el Rey de Portugal rece-
  • Livro VI, Capitolo CXXIII 349 bia muyto proueito em ter aqla fortaleza em Calicut, porque não podia fer mayor honrra pera fua alteza, que eftando el rey de Calicut coele de guerra ter aquela fortaleza em Calicut principal cidade de todo feu reyno, & tão principal em toda a índia, & onde el rey de Calicut refidia ho mais do têpo, & é q tinha todo feu poder: & fofter efta fortaleza cotra fua vontade era conferuarfe de todo, ho credito do poder del Rey de Portugal que ele reftaurara com vécer os immigos. E poderfe fofter aquela fortaleza eftaua claro pois fe defendera hum inuerno por tão pou¬ cos Portuguefes contra tamanho poder de gente que nã podia fer mayor nem melhor apercebido de petrechos & munições pera baterias & com¬ bates: & quãdo fe defenderão também no inuerno em que não podião fer focorridos, que muyto melhor fe defenderião no verão em que auião cada dia de fer vifitados & focorridos pela armada que goardaífe a cofta: & que nela não fe entedia fazer gafto pois tinha feus fronteiros limitados, & artelharia que não entrauão na armada da índia, & coeles fomente fe faria tanta guerra a el rey de Calicut, que ou ho deftruyrião de todo, ou fe entregaria fem nenhúa condição, ou lhe feria forçado defpouoar a cidade & fazer fua morada em outra parte, que feria ho mayor feyto que fe podia fazer na índia, pelo muyto credito que tinha nela de poderofo, & fama em muytas partes fora dela de feu poder fer inueciuel, & que efte era ho mór proueito que fe podia fazer cõ a gete que era ordenada á fortaleza, & mais q não tornaua quaefquer outras q fe podião fazer: antes feria muyto grande ajuda pera fe fazerem, porque ho medo de vere abatido tamanho poder como ho del rey de Calicut com tão poucos Por¬ tuguefes, quebraria ho esforço a outros reys pera fe defenderem & terem guerra coeles, antes lhes deixarião fazer fortalezas onde quefeflem: & mais que pera durar fempre a memória da muyto grande vitoria que lhe noffo fenhor dera contra el rey de Calicut eftando tão poderofo, era bem fofterfe aquela fortaleza, porque derribandoa fe apagaua de todo, & auião de dizer os mouros que por feu medo fora derribada. E dom Ioão de lima fe offreceo ao gouernador pera fer capitão dela, & a defender com feus parentes & amigos em quanto a guerra durafle. E ho gouernador pola determinação que tinha não quis fe não que fe derribafie a fortaleza: do que fe a gente comuú efpantou muyto quando ho foube, & dizião que não fe fizera mais fe os immigos vécerão: & culpauão muyto ho gouer¬ nador & os do confelho que tal coufa aconfelharão. E adernado pelo go¬ uernador que a fortaleza fofie derribada, mandou a logo defpejar & em- barcoufe, deixando em terra Manuel de macedo com algúa géte pera que a derribafie com minas que lhe mandou fazer & aportilhala é algúas par¬ tes. E quando fe deu ho fogo ás minas da poluora nas mais delas não
  • 35o Hifloria da Índia pode pegar, pelo que cayo muy pouco da fortaleza: & a mayor parte dela ficou em pé com a torre da menagé. Do q pefou muyto a todos os da armada, & dizião que não podia fer mayor injuria, nê abatimento dos Portuguefes q deixarem afli húa fortaleza fobre tamanha vitoria. E em¬ barcado Manuel de macedo com os q ficarão coele, ho gouernador fe partio pera Cochim, dãdo licença a dõ Ioão de lima que fofle a Cananor acopanhado de certos catures pera recolher algúa pouca de fazéda q lá tinha, porq ho mais gaftara ho todo no cerco, & ainda iffo ieuou ho de Portugal: porq como quafi todo ho tempo de fua capitania foy de guerra, nã pode multiplicar fua fazenda fe não gaftala, pelo que ficou muyto pobre. CAPITOLO .CXXIIII. Do que fe^ el rey de Calicut defpois de defpejada a fortaleza. PArtido o gouernador do porto de Calicut, os mouros que virão cair algús lanços do muro da fortaleza entenderão o que era, & a forão ver. E quãdo a acharão defpejada foy ho feu prazer muyto grande, & coele forão dar a noua a el rey de Calicut, louuãdo muyto ho confe- lho que lhe derão de fazer guerra á fortaleza, pois coela lançarão fora da terra os Portuguefes, & lhes fizerão defemparar a fortaleza, em que ganhara tanta honrra que mais nã podia fer. E afli lhe dauão outros muy- tos louuores, com q el rey ficou muyto foberbo: & afli ho ficarã os mou¬ ros, & não fómete os de Calicut mas os de toda a índia, fabédo como o gouernador defpejara a fortaleza de Calicut. E effes reys & fenhores em cujas cidades el Rey de Portugal tinha fortalezas, começarão de ter efpe- rança que as farião defpejar, & ho primeyro foy ho Hidalcão que lhe pareceo que poderia tomar Goa, ou que a faria defpejar cÕ muyta guerra: o que logo efcreueo a el rey de Calicut, dizédo que queria tomar exéplo dele: & dãdolhe muytos louuores pelo que fizera, pedindolhe q ho aju- daffe com a fua armada pera coela fazer a guerra per mar, porq també Meliquiaz capitão de Diu ho ajudaua com a fua armada: & que com tamanho poder de gente acabarião de deitar os Portuguefes fora da índia. Do q el rey de Calicut foy cotente, pera o q ajuntou logo toda lua ar¬ mada, de q fez capitão mór hú mouro chamado Pate marcar: & entre tanto que ho focorro não ya mandoulhe que foltafle os paraós pela cofta, & que fizeffe quanta guerra podefle aos Portuguefes. E afli ho fizerão, porem quis noífo fenhor q ho Hidalcão embaraçado com outras guerras que lhe mouerão feus vezinhos não pode entender naquela, pelo que não ouue effeyto: mas el rey de Calicute ficou muyto foberbo, & mãdou refor-
  • Livro VI, Capitolo CXXVI 351 mar a fortaleza que tinha em muyto grande eftima, pera poder dizer a todos como dizia que os Portuguefes lha deixarão com medo. CAPITOLO .CXXV. De como lio gouernador mandou Eytor da filueira ao cabo de Guarda- fum. CHegado ho gouernador a Cochim achou hua nao que auia pouco que chegara de Portugal, a cujo capitão nã foube ho nome. E efte difle ao gouernador, que aquele anno partirão de Portugal tres naos pera a índia, de que fora capitão mór Felipe de crallro, de que não fabia parte, nem do capitão da outra nao. E vendo ho gouernador que não yão mais naos de Portugal, deu ordé pera irem cõ a carrega eífas que hi auia, & defpois fe partio pera Goa. E como ele determinaua de ir inuernar a Mazcate, pera da hi tornar cedo fobre Diu & tomalo: def- pachou de Goa Eytor da filueira cõ fama de ir a Maçua por dom Ro¬ drigo de lima: & a ele difle em fegredo, q ho efperafle no cabo de Goar- dafú ate Março: & não indo que fofle a Maçua ver fe achaua dom Rodrigo, & deulhe quatro nauios de q a fora ele forão capitães, Francifco de me- doça, Fernão de morais & Frãcifco de vafcocelos. E partido Eytor da filueira, tornoufe ho gouernador á cofta do Malabar, pera andar hi dar- mada ate a entrada de Feuereiro, em q efperaua de fe partir pera a outra colta: & é Goa deixou recado q lhe fizefle muytos ceftos de cãpo, muy- tos picões, enxadas, efcadas, cadeas, & grãde forna de poluora de bÕ- barda, & defpingarda, & outras munições, porque de tudo tinha necefli- dade pera ho que determinaua. CAPITOLO .CXXVI. Do q aconteceo a Iorge dalbuquerque cõm hõ Arei de PÕrquá. VInda a moução de Malaca pera a índia, Iorge dalbuquerque que efperaua por ela fe partio é hú jugo feu, porq como era muyto amigo do feruiço del rey nã quis ir é nhú nauio Português, (pofto que lho daua Pero mafcarenhas) porq fabia quão neceflarios erão em Malaca: & naquele jungo forão coele corenta & quatro Portuguefes feus amigos & criados: & indo tanto auãte como Porquá faiolhe ho Arei grande Imigo dos Portuguefes, & andaua darmada cotreles, com vinte cinco catures muyto bem armados & efquipados, & leuou apos fi todos
  • 352 Hijloria da índia os do logar é almadias, aq couidou pera ho defpojo do júgo. Iorge dal- buqrque q os vio fezfe preftes pera pelejar, mandando ceuar fua artelha- ria q erão doze berços & hú falcão, & repartio a gente na tolda, popa, & na proa, & eftando preftes feria as noue horas do dia quãdo chegou ho Arei cõ fua armada dando grades gritas: & pos fe dabalraueto: porq ho jungo não podefle arribar fobreles, & cercarãno daquela banda pola proa & popa, & começão de defparar nele fuas bombardas, & da pri- meyra bõbardada lhe leuarão a ceuadeira c5 a verga & com ho mafto: & daqui forão as bõbardadas tão baftas que parecia q chouuião. E como ho jungo era forte, & tinha por détro fuas arrobadas, & as bõbardadas erão de tiros miúdos não lhe fazião nenhú nojo, & os Portuguefes a eles muyto, arrõbandolhe muytos catures, & matãdolhe perto de trezentos homés fegundo fe defpois foube com bombardadas & efplgardadas: & fizerãno aqui muy esforçadamente, a fora Iorge dalbuquerque, Antonio de melo que mora em Bucelas, Gomez do campo & Ruy lobo, q das portinholas da popa matarão muytos Imigos ás efpingardadas, & Fran- cifco bocarro, & Nicolao de fá cõtador dos cotos del Rey, & Antonio carualho feytor da cafa de Ceita, & ho cõdeftabre do jungo, que tirauão da tolda com dous berços, & hú falcão, com que fizerão grande deftrui- ção nos catures, arrombando os com morte de muytos imigos. E frãcifco fernãdes leme, & Baftião rodriguez marufim, & outros a que não foube os nomes, que da proa núca eftiuerão ociofos: & fazedo dahi jugar os tiros efpedaçarão muyta forna dTmigos, que com quanto mal recebião nunca deixarão de pelejar ate ho meo dia, então fe apartarão coefta perda que digo. E Iorge dalbuquerque não recebeo outra, fe não matarenlhe hú efcrauo feu porque fe defcobrio muyto. E nifto gaftou quanta poluora & pelouros leuaua: & afli fe foy a Cochim, onde ho gouernador que hi eftaua antes que fofte pera Goa, foube a fadiga em que eftaua ho jungo, & lhe mandou focorrer, & ja ho focorro não foy necefTario. CAPITOLO .CXXVII. Do q aconteceo ao almoxarife da fortaleza de Maluco indo pera as ilhas dos Celebes. DUrãdo a amizade antre dom Garcia anriquez capitão de Maluco, & Antonio de brito que ainda lá eftaua, pareceolhes bé de mãda- rem as ilhas dos celebes, que fam feffenta legoas da ilha de Ter- nate, porque tinha por fama q auia nelas muyto ouro, & pera faberem fe era afli mandarão ho almoxarife da fortaleza em húa fufta cÕ panos )
  • Livro VI, Capitolo CXXVII 353 & outras mercadorias, com que trataíTem cÕ os Celebes: & partio na en¬ trada do mes de Iulho: & chegado a húa deitas ilhas foy be recebido dos moradores dela, que fabendo a caufa de fua ida, que era ho ouro, recearão que por amor dele lhes tomafiem a terra: & por iffo determi¬ narão de matar ho almoxarife & quantos hião coele, & tomar a fuíta, parecendolhe que não irião lá mais outros: & afli ho quiferão fazer húa noite eftando os Portuguefes dormindo na fuíta, que tendo os Tmigos mea fora da agoa acordarão, & defenderãfe també q fizerã afaítar os Imigos. E tornada a fuíta ao mar fe forão a outra ilha, õde os não quiferão aga- falhar, né menos em outra. E vedo q não auia effeyto ho pera que forão, determinarão de fe tornar a Ternate, pera onde os ventos lhes erão con- trairos por fer gaitada a moução, & por iffo fe defuiarão tanto de feu ca¬ minho q forão ter a húas ilhas q fe chamão as do Meyo, de que não poderão aferrar nenhúa com a tormenta que leuauão, & cÕ as muytas agoagés que auia antrelas que correm muyto cõ que as efcorrerão todas, & fayrão a hú largo golfão de mar q he o que fe faz antre ho eílreito de Magalhães & as ilhas de Maluco & outras muytas. E como era defabri- gado & os ventos erão brauos correrão ali muy mendonha torméta com q andarão trezentas legoas em que muytas vezes 1'e virão quafi perdidos: & húa noyte cõ a braueza dos mares lhes faltou ho leme fora das femeas, & nunca ho poderão tornar a meter, & eíteuerão em muyto grande pe¬ rigo ate pola manhaã que fe acharão junto de húa ilha q feria de trinta legoas, em q fayrão dando muytos louuores a noffo fenhor por lha depa- . rar: & ali forão bé recebidos da gente da ilha que era baça & bem deí- poíta, afli homés como molheres & de fermofos roítos, & os homés tinhão as barbas pretas & compridas, & geralmente era ho feu trajo hús panos cingidos q chegauão ate os artelhos & erão de húas palhas como juncas, faluo q erão mais aluos & tã maflios como olanda, & cobrianfe com ou¬ tro pano tal como efte q lhes chegaua ate ho embigo: & doutro tal pano faluo q era mais delgado trazião húas camifas. A terra era muyto viçofa daruoredo em que auia muytos cocos, & figos como os da índia & inha¬ mes. E afli auia muytas galinhas & algúas cabras, & era muyto frefca de agoas, & muyto boas & daua algús ligumes. E fouberão os Portugue¬ fes por acenos que auia muyto ouro ao ponente defta ilha que era tão fadia que não auia hi nenhú doente né aleijado, & auia muytos velhos, & a gente tinha paraós em que pefcauão, & nauegauão ao lõgo da ilha, & cortauão a madeira cõ os oflos de peixes, & algús Portuguefes q yão doentes forão aqui logo fãos. E vendo eles ho bõ gafalhado que recebião daquela gente, & por lhes ferem os ventos contrairos pera tornar a Ma¬ luco fe deteuerão ali quatro mefes, que tornarão os ponentes com que fe Tomo III ^5
  • 354 Hijloria da índia partirão, fazendo crer aos da terra que fintião muvto fua partida que logo auião de tornar, q andauao defcobrindo terra, & chegarão a Maluco a vinte de laneyro do ãno de mil & quinhétos & vinte feys, onde cuydauão q erão todos mortos, & lhes tinhão vendidas fuas fazendas, porque a via¬ gem das ilhas dos Celebes era ao mais de mes & meyo ida & vinda & eles ya em fete que erão partidos. CAPITOLO .CXXVIII. De como Antonio de brito entregou a fortaleza da ilha de Ternate a dom Garcia anrriqueç. ATras fica dito como Antonio de brito & do Garcia anrriquez fe cõcertarão, que por quãto Antonio de brito tinha começado hú jungo que fe poderia acabar ate Agofto, efteuelfe por capitão na fortaleza ate então: & da hi por diãte eftaria em hú lugar chamado To- loco duas legoas da fortaleza, & dõ Garcia ficaria por capitão liure & defembargado. E como os Portuguefes que eftauão com Antonio de brito, efteueífem os mais enfadados da guerra, & teueffem junto muyto crauo que era ho que lhes mais lembraua que ho feruiço del Rey defejauão de íe ir daquela terra, & por iffo pedirão a Antonio de brito que os leuaffe em fua companhia: & ele lho prometeo. E como fabia que dÕ Garcia fe ho foubeífe lhes auia dimpedir a ida, & lhes auia dembargar as certi¬ dões do foldo q tinhão vencido, tirou as fecretamente antes que fe fofle: & pouco a pouco lhes mãdou lá leuar ho feu fato, dando a entender que era feu. E fecretamente mandou leuar os petrechos da ferraria da forta¬ leza, & ferro, & chumbo quanto pode, & mandou diante quantos car¬ pinteiros & calafates pode auer: & aíli poluora & pelouros, & tudo ho de q lhe pareceo que tinha neceffidade, pofto que via em quanto ficaua a fortaleza do que leuaua. E fem dõ Garcia difto fer fabedor, porq como os officiaes que tinhão eftas coufas erão mais amigos Dantonio de brito que do feruiço del Rey, dauãlhas muyto fecretamente. E vindo ho mes Dagofto em q Antonio de brito fe auia dir pera ho Toloco, entregou a fortaleza a dõ Garcia fem ho muro da banda do mar eftar de todo çar- rado, & ho da banda da terra por amear a mayor parte dele, & cõ hú baluarte da mefma bãda em altura de duas braças, & outro não tinha feyto mais q os aliceces, & a torre da menagê é altura de xl. palmos cõ dous fobrados, & do derradeyro ate ho telhado fem paredes fe não cõ caniçadas de canas fedidas forradas defteiras, & difto erão feytos os re- partimctos das camaras. E eftas erão as paredes que tinhão as cafas
  • Livro VI, Capitolo CXX1X 355 da feytoria, pelo q os porcos & cabras entrauão nelas quãdo querião: & aíTi fe goardaua a fazéda del Rey, & eíte cuydado fe tinha dela. E efta tão grade & funtuofa obra foy feyta é ires ãnos, & affi fe entregou dõ Garcia dela. E quãdo Antonio de brito fe foy, foranfe coele todos aqles que efperauão que os leuaffe de Maluco fazendo que ho acompanhauão porq fora capitão, & que logo tornarião. O q dó Garcia confentio cuy- dando q foffe affi, mas eles defpois que forão no Toloco não tornarão mais, nem Antonio de brito os mandou, porque folgaua de leuar compa¬ nhia pera ho mar. CAPITOLO .CXXIX. De como vendo dõ Garcia que Antonio de brito lhe não queria dar os homens que fe forão coele, lhe mandou tomar ho leme, & as bombas & velas de húa nao. YEndo do Garcia paliar algús dias, & que não tornauão os que forã cÕ Antonio de brito, pareceolhe mal: & poriífo lhe efcreueo pe- dindolhe que lhos mandaffe pois fabia que ficaua de guerra & lhe erã muyto necelfarios, com o que Antonio de brito deíimulou, refpon- dendolhe que be fabia a neceffidade que tinha deles & que lhos manda¬ ria : & que lhos não mandaua logo por lhe feré necelfarios ate acabar ho feu jungo, & pera leuarem a nao fanõta Ofemea que lhe ficara diante da fortaleza por feré agoas mortas, & efperaua de leuar pera onde eftaua como foffem viuas. E não fendo dom Garcia contente cÕ aqla repofta, repricou pedldolhe mais afperamente os homés q tinha: do que Antonio de brito fe efcufaua com palauras muy frias: no que do Garcia entendeo que lhos não queria dar: & també por lhe certificarem algús que ficarão na fortaleza que Antonio de brito não auia de querer dar os homês que tinha & q auia de defimular cÕ palauras ate fe ir & leualos, por ilfo que viífe o que lhe cõpria. E ainda íobre efta certeza dõ Garcia teue algús comprimentos cõ Antonio de brito pedindolhe muyto por merce que lhe mandafle os homés que tinha, reprefentandolhe a neceffidade que tinha deles pera feruir el rey, & quãto fe perderia de feu feruiço leuãdo os, lembrãdolhe que ho não deuia de fazer, affi por fua fidalguia, como por fer tão obrigado ao feruiço del rey. E vendo q fempre Antonio de brito refpondia fem effeito, deu conta de tudo ao feytor, & ao alcayde mór & aos outros officiaes da fortaleza & peffoas principais dela por cujo con- felho lhe fez hú requeriméto em que lhe nomeaua todos os Portuguefes que tinha cofigo que erão obrigados á fortaleza reqrendolhe da parte del
  • 356 Hijloria da Índia rey de Portugal que lhos deífe fazendo fobriffo grandes proteftações. E madoulho per hú efcriuão da feitoria, a q refpondeo q logo mandaria os homés: & dilatado de dia em dia de os mãdar: acordou dom Garcia com confelho dos que difle de lhe mandar tomar ho leme, bobas & velas da nao fanóta Offemea antes que a leuaíTe, porq fem ela não fe podia ir & por ela lhe daria os homés q lhe tinha. E mandadas tomar foubeo Antonio de brito, que quando le vio affi atalhado fez confelho com os que eftauão coele, & vendo que não tinhão em que fe ir, que não auião de caber no jungo, por ferem muytos: determinarão que foífem tomar a nao por força de armas, & que lhe farião leme, bombas & velas. E efta- uão todos tam danados da cobiça das fazendas que ja tinhão, que efque- cidos da lealdade Portuguefa, com aquela vontade fe armarão, & tomando fuas lanças & efpingardas, & outras armas offenfiuas partirão contra a fortaleza de feu rey & cotra feus vaffalos, cÕ tão brauo impeto como fe fora contra mouros, fazédo grãdes ameaças de prifam a do Garcia, & de mortes a quem ho quifeífe defender, & coefte rumor paífarão por diante da fortaleza: & com muyto grande defacatamento & diabólica oufadia fe forão todos meter na nao fanta Ofemia, cõ grandes brados de pefar de tal: quero ver quem nola defende, que lhe não tiremos a vida. Dom Gar¬ cia que os vio paífar, & vio o que yão fazer agaftoufe muyto, porque fe lhe reprefentou quãto mal fe aparelhaua: & por lhe atalhar mandou hú requeriméto a Antonio de brito & aos que eftauão coele, que não boliílem com a nao, nem lhe defobedeceífem pois eftaua por capitão daquela for¬ taleza em lugar del Rey de Portugal cujos vaffalos erão, & mandoulho pelo ouuidor da fortaleza, com que foy hú tabalião pubrico que lho pu- bricou. E em acabando de ho ler, os que eftauão com Antonio de brito fe rirão do requerimento, dizendo que não conhecião a dõ Garcia por capitão fe não a Antonio de brito, cujo tempo da capitania duraua ate fe ir, & q a ele obedecião & não a outrem: & fe dõ Garcia la foffe que lhe wrarião com as efpingardas. E tornãdo ho ouuidor coefta repofta, foy dõ Garcia aconfelhado que mãdaífe meter a nao no fúdo com bombarda- das, pera o q fe começou de fazer preftes.
  • Livro VI, Capitolo CXXX 357 CAPITOLO .CXXX. Da grâde defauêça que ouue antre Antonio de brito & dom Garcia: & de como Antonio de brito fe partio pera Bãda. EStando a coufa neftes termos foube ho Cachil daroes: & como ele era grande amigo Dãtonio de brito acodio logo, & foy falar a dom Garcia: eftranhandolhe muyto a rotura que auia antrele & Anto¬ nio de brito: porque deixando fer antre Portuguefes que tinhão fama de ferem muyto coformes no feruiço de feu rey fobre todas as outras na¬ ções, deuialhe lembrar quã apartados eftauão de fua natureza & ãtre homés differétes da fua ley, & que começauão de conuerfar: que lhe lem- braffe em quão má conta os terião vendo os defauindos & poftos em tamanha rotura. Do que dõ Garcia fe lhe difculpou com lhe cotar a caufa que tinha pera fazer o q fazia. E todauia como Cachil daroes era mayor amigo Dantonio de brito que de do Garcia, & lhe vinha bé ficar dom Garcia cõ pouca gete pera ter neceffidade dele, quis fer terceyro de os concertar. E defpois de falar com hú & com outro, fez de maneyra que Antonio de brito leuou a nao com prometer de mãdar logo os homés q eftauao coele, que nunca mandou, porque fabia a neceííidade q tinha deles pera fua viagé, do que naceo antreles mortal odio, principalmente por mexericos que nunca falecem onde ha defauenças. E vedo os Portu¬ guefes efta tamanha antre dom Garcia & Antonio de brito, trabalhauão pola fuftentar afli os que eftauao com hú como os que eftauao cõ ho ou¬ tro, parecédolhes que terião deles mais neceffidade, & farião coiffo me¬ lhor feu proueito. E começoufe a coufa demburilhar de maneyra que dos que eftauão com Antonio de brito fugião pera dõ Garcia, & dos que efta- uão coele fugião pera Antonio de brito: & todos leuauão nouas de húa parte a outra pera crecer ho odio ãtreftes dous homés. E deftes paffadi- ços teuerão algús tanto poder que prouocarão a Antonio de brito que matafle dõ Garcia: pera o q ho fizerão hú dia ir diffimuladamente aa for¬ taleza, & não podendo fazer ao que ya fe tornou. E fendo diffo dom Gar¬ cia auifado mandou logo tirar húa deuaffa cõtra Antonio de brito, & afli do mais que tinha cometido contra ho feruiço del Rey. E fabendo ho ele, & temendofe de lhe perjudicar, bufcou maneyra pera que dom Garcia lhe ficaffe pubricamente por Imigo, porque a deuaffa que tiraua não fofle valiofa: & foy fazer com hum fidalgo chamado Lionel de lima que era feu parente que fe fofle pera dõ Garcia, fazendo fe agrauado Dantonio de brito, & dizédo muyto mal dele, & que fe conuidafle a dom Garcia
  • 358 Hijioria da Índia pera lho matar: & Lionel de lima o fez affi. E entendendo dom Garcia ho ardil, moftroufe grande amigo de Antonio de brito, & q fe algúa coufa fizera contrele fora pelo q compria ao feruiço del Rey, & não por mal q lhe quifeífe: de modo q Lionel de lima não teue étrada coele & ficou ho ardil perdido. E porque nã paífalfe afli, & Antonio de brito fou- beífe q era entendido, efcreueolhe dõ Garcia húa carta fobriífo, & por¬ que lhe não mudafle a fuftancia, moftrou a primeyro a Martim correa alcayde mór & a outras peffoas contandolhe ho fobre a q efcreuia, & pe- dindolhe q teueffé memória do q dizia nela pera fua juftificação fe Anto¬ nio de brito diflefle outra coufa, porque afli ho fez ele defpois q lhe foy dada a carta, dizendo que dom Garcia ho mandaua matar por Lionel de lima como feu immigo que era, & por tal ho pubriuaca. E nefta defor- dem & defconcerto eíleuerão ate ho Ianeyro feguinte que fe Antonio de brito partio pera Banda deixando efcorchada a fortaleza da géte & do mais que diífe. E vendo dom Garcia quã neceflitado ficaua de tudo, mã- dou a Martim correa que foffe a Bãda & tomafle gente & fazeda pera a feytoria aos jungos ou a quaesquer nauios de Malaca que hi achafle, porque nem em Malaca, nem na índia não auia lembrança de mandar a Maluco nenhúa deílas coufas. CAPITOLO .CXXXI. De como ho gouernador andando na cojla do Malabar fe achou mal de húa perna, pelo que fe foy a Cananor. PArtido o gouernador de Goa foy correndo a coíta ate Panane fem achar nenhús paraós: porque pollo que andaffem no mar tinhão em terra fuas atalayas que lhe fazião fumaças que dauão final dos Portuguefes andarem na cofia, & metiãfe por efies rios onde fe efcondião. E tornando ho gouernador defrote de Calicut, mandou queymar ho lugar de Chale per dom Iorge de menefes & certas naos que hi eflauão vara¬ das : & ele ho fez afli. E tornando daqui pera Cananor chegãdo ja perto dele vio paflar quatro paraós de Malabares que fe apartarão da conferua doutros que yão bufcar arroz. E quando os vio, fintio muyto oufarem eles daparecer fabendo que andaua na cofia. E auédo aquilo por grãde defauergonhamento, determinou de os caftigar: pera o que mãdou deitar batel & armoufe pofto que andaua mal tratado dúa perna em que trazia húa chaga, & por iflo algús lhe dizião que não fofle que lhe faria mal: quanto mais que ho gouernador da índia não auia dir pelejar cõ quatro Malabares, que abaftauão quaefquer capitães de catures ou bargantls.
  • Livro VI, Capitolo CXXXII 35g Mas ele não quis deixar de ho fazer tão amigo era de pelejar, & mais auia de fer o que foy. E metido no batel com outros q fe meterão coele, & indo virão algús bargantins que forão aferrar os paraós, & os toma¬ rão matando quantos yão neles. E cõ tudo ho gouernador quis chegar a eles daluoroçado de ver a peleja, & defpois tornoufe ao galeão onde che¬ gou com a perna muyto inchada & agrauada de ir em pé ate os paraós, & tornar é pé ate ho galeão que foy caminho de húa legoa: & tabem com ho efquentamento das armas & do aluoroço, & logo aquela noyte lhe acodio febre, & achoufe tão mal que lhe foy forçado recolherfe a Cananor pera fe curar & recolheofe no mes de laneyro deixado por ca¬ pitão moor da cofta dom Iorge de meneies telo, que andado por ela foy ter com Pero de faria á boca do rio de Bacanor hú lugar del rey de Nariinga, onde eftauão carregando de pimenta cento & cincoeta paraós Malabares pera Cãbaya: & os fenhores dos paraós ajútarão ali a pimenta pera a carregarem fem ferem fentidos dos Portuguefes, que por fer a terra delrey de Narfinga que era feu amigo não atétarião niífo nem os eftoruarião. E os que eftauão nos paraós erão quatro mil homés, de que muytos erão efpingardeiros: & tinhão os paraós muy bem artilhados. E pofto que dom Iorge ifto foube não quis entrar dentro por ter pouca gente: & efcreueo ao gouernador q lhe mandaffe mais, que como não fabia quantos os immigos erão mandoulhe mais algúa gente de q foy ca¬ pitão moor dom Iorge de menefes, por quem efcreueo a dom Iorge telo, que fe com a gente que lhe mandaua podeffe pelejar com os immigos que pelejaífe, & fe não que efperaffe ate lhe mandar mais. CAPITOLO CXXXII. De como dom Iorge telo pelejou com os immigos no rio de Bacanor, & de como os desbaratou. CHegado dom Iorge de menefes á boca do rio de Bacanor ondeftaua dom Iorge telo deulhe ho regimento que lhe mandaua ho gouer¬ nador acerca de pelejar com os immigos. E quãdo dom Iorge ho vio, diffe que não fe podia goardar aquele regimento por não auer tempo pera fe leuar recado ao gouernador, que eftauão os immigos pera partir no dia feguinte, & era forçado pelejar coeles & defenderlhe a fayda, & por iífo ho pos em cofelho em que fe acordou que fe deuia de pelejar, com quãto não erão por todos mais de feys centos homés. E aquela noyte fe fizerão preftes encomédandofe todos a noffo fenhor, & toldando & em¬ bandeirando feus bargantls, catures & bateis em que auião détrar no
  • 36o Hiftoria da índia rio: em q entrarão ao outro dia em começando de repõtar a maré fazédo grandes alegrias de tangeres & gritas, & em pouco efpaço toparão com os immigos q decião com a vazante dagoa que acabaua então. E em os Portugueíes os vendo começarão de defparar muytas bombardadas en- chédo tudo de fumo & de toruões. E como os immigos não efperauão que eles os foífem cometer dentro no rio quando os virão de fupito: & de fupito ouuirão aquela efpãtofa toruoada de bombardadas & efcurecer ho dia com ho fumo delas, cuydarão que os Portuguefes não tinhão conto, & com medo fizerão logo volta polo rio acima: & ajudados da enchente dagoa & dos remos fugião quanto podião, indo os Portuguefes apos eles com a mefma prefTa, tirandolhes coela com fua artelharia, com que os forão dãneficando ate onde ho rio começaua de fer baixo, & ali começa¬ rão dencalhar aífi dos feus paraós como dos bargantins dos Portuguefes, ficando hús por hum cabo outros pelo outro: porem os immigos porq os Portuguefes os não aferraffem aflí como encalhauão fugião logo pera terra que não oufauão mais defperar. E era pera louuar a noífo fenhor de como fugião fem veré de que, porque os Portuguefes erão tão poucos como digo. Os nauios mais leues que podião nadar, aífi dos Imigos como dos Portuguefes forão remando ate onde ho rio eftreitaua tanto que fe paífaua por húa ponte, & ali encalharão todos: & dos nauios Portugue¬ íes nã chegarão mais que dous bateys em que yão ambos os dós Iorges & quatro catures, em que auia quafi nenhúa gente pera a muyta dos im¬ migos. O que eles vendo cobrarão coração, & fazendo rofto aos Portu¬ guefes começarão de lhes tirar cÕ fua artelharia & grãde forna de frecha¬ das com q os começarão de ferir principalmente no batel de do Iorge de menefes, que como vio q os immigos tornauão fobre fi porque lhe não mataffem a gente os quifera aferrar, & chegoufe a bote de lança. E dom Iorge telo que vio a grande multidão dos immigos & que de cada vez auião de fer mais, porque recrecião os outros dos paraós que ficauão atras encalhados, pareceolhe que era doudice aferralos fedo tã poucos como erã: & mais não lhe podédo focorrer os outros Portuguefes que ficauão encalhados, & pareceolhe melhor tornarfe pareles pera deípois todos juntos pelejarem com os immigos. E fazédo final de recolher, re- colheofe: & ao dobrar de húa ponta por vazar a maré ficou em fecó júto de vinte paraós dos immigos que também ali eftauão em feco, que vendo os Portuguefes daquela maneyra acodirão logo com fua artelharia por terra defparandoa neles que não fe podião valer tão bafios erão os pe¬ louros, & hum deu no payol da poluora dú catur em que fe acendeo fogo que ho queymou todo, & a géte fe faluou faltãdo no rio. E esfor- çandole os immigos coefte defaftre, pareceolhes como erão milhares pera
  • Livro VI, Capitolo CXXX1I 361 a pouquidade dos Portugueíes, que não fomente os podeffem matar mas q os tomaífem ás mãos: & dando muyto grandes coquiadas, & defpa- rando tanta forna de frechas que quafi tirauão a claridade ao foi lança- ranfe no rio, & rompendo pela agoa fe chegauão a eles. O que vendo dom Iorge telo começou de esforçar os Portuguefes, que de muyto esfor¬ çados muytos não quiferão efperar os immigos nos nauios & forãnos re¬ ceber com muytas efpingardadas, & começoufe antreles húa bem afpera & perigofa peleja pera os Portuguefes por quão poucos erão. E fe nofTo fenhor milagrofamente os não liurara, dãndolhes marauilhofo esforço pera fe defenderem não poderão efcapar: & todos pelejarão esforçadaméte com a ajuda diuina que fizerão retirar os Imigos pera terra ficando no rio algús mortos, de cujo fangue & doutros feridos a agoa ficou de cor de fangue, & dos Portuguefes também forão muytos feridos, & forão poftos é muyto mayor trabalho defpois de ceifar a peleja, porque de terra lhes tornarão a tirar os immigos como dantes, & fazião lhes muyto dãno tirãdolhes como a aluo, & eles não fe podião dali bolir por eftarem em feco: & fe aquilo durara ate tornar a maré não ficara nenhum viuo: mas quis noffo fenhor que naquela conjúção acertou de chegar ali hum capi¬ tão del rey de Narfinga com trinta mil homes que ya recolher a renda daquela comarca, & ouuindo ho eftrõdo da artelharia & as gritas dos im¬ migos, chegoufe a ver o que era: & com fuá chegada efteuerão os immi¬ gos quedos & fe forão, porque fabendo dom Iorge telo como aquele ca¬ pitão era del rey de Narfinga, mãdoulhe dizer que não deuia de confentir que aqueles Malabares pelejalfem com os Portuguefes na terra del rey de Narfinga, pois era amigo del Rey de Portugal. A q ho capitão refpon- deo que afíi ho faria: & por chegar naquele inftante & não faber nada deles eftauão ali. E caftigando de palaura os feus capitães pelo que fazião, os fez meter pelo fertão cÕ fua gente. E os Portuguefes ficarão defapref- fados, & acharão que erão mortos corenta deles. E determinando dom Iorge telo de os vingar, como foy tempo tornoufe á boca do rio a efpe¬ rar os immigos quando fayfTem, & fez em terra algúas eftãcias dartelha- ria, porque coelas & com a armada que tinha na boca fizeffe dãno aos immigos, & mandou dizer ao gouernador o que paífaua, mandandolhe preguntar o que faria. Tomo 111 46
  • 362 Hiftoria da índia CAPITOLO .CXXXIII. De como faleceo dom Anrrique de menefes. QUando efte recado foy ao gouemador, tinha ja herpes na fua perna, que lhe tirauão a vida de todo em todo. O que ele conhe¬ cendo, como fiel Chriftão que era tirou ho fentido das coufas múdanãs, & entendeo nas fpirituaes confeffandofe de feus peccados, o que em fáo coftumaua fazer a miude. E feytos todos os autos de verda¬ deiro Chrillão começou a alma de fe defpedir do corpo: & chamando ho nome de Iefu, & de fua gloriofa madre de quem era muyto deuoto ifpi- rou efte esforçado caualeyro em dia da Purificação de noffa fenhora do anno de mil & quinhétos & vinte feys, & foy feu corpo fepultado na igreja de Cananor com muyto grande fentiméto de todos, principalméte dos que erão amigos do feruiço de Deos & del Rey, porque fabião que perdiao nele eftas duas coufas hú grande executor, por tãbem fer delas muyto grade amigo: & que todo feu penfamento & cuydado era em fer- uir a Deos & a el Rey, em tanto que ifto lhe tiraua ho cuydado de fua fazenda, q auedo dous annos que eftaua na índia & cõ tão bos dous car¬ gos como teue não tinha de feu coufa algúa como fe vio claramente, em não lhe acharem na fua bueta mais que ate noue tãgas q fazião na moeda portuguefa feys centos & corenta rs, nem menos fe lhe deuia dinheiro, nem ho tinha mandado a outras partes empregado: que pofto que em Portugal quãdo partio pera a índia vendeffe de fua fazenda & arrendalíe luas rendas dãte mão pera leuar bõ emprego, como foy na índia & vio que não fe podia feruir el Rey com ter cargo de tratos os deixou logo, & gaftou iffo q leuaua fem mais querer aquirir outro, dizendo que fe viuefle que el Rey feu fenhor lhe faria merce, & fe morreffe a faria a feus filhos. Foy muyto esforçado & fem nenhú medo como fe ve nas ba¬ talhas & pelejas, em que fe achou na índia defpois de fer gouemador, & em África antes de ir á índia: & aífi como era esforçado, era muy amigo dos homés em que auia esforço, & louuaua os pubricamente, & fazialhes merce de dinheiro ou de ofícios fegúdo era a qualidade do feyto que fazião. E defte esforço q tinha naturalmente lhe vinha fer tão amigo de fua honrra que não fofria fazerlhe ninguém coufa que fofle contrela, o que fe via claramente, que dizendolhe ho vifo rey dÕ Vafco da gama eftando em Goa algúas palauras de que ele fe agaftou: lhe diífe logo que lhe nã diffefTe aquilo, porque em Portugal nã auia dous homés como ele pera injuriarem hum grande fenhor que lhe não falaífe muyto bem. E ho
  • Livro VI, Capitolo CXXXIII 363 vifo rey como era prudente & vio que dõ Anrrique tinha rezão deitar agaítado polo que lhe diflera, deitou ho feyto a zombaria, dizendo a algús fidalgos que hi eftauão que lhe acodiflem, que o queria matar dom Anr¬ rique, & ilto rindo. Foy tão ifento em fazer juftiça, que nem odio, nem temor, nem afeyção lhe toruarão que a não fizefle de quaes quer pefibas de que era bé que fe fizefle, & por iflo foy malquifto dalgús fidalgos da índia de que a fez, & dizião mal dele. Foy homem de boa eftatura & membrudo, de rofto bem proporcionado: foy de boa condição & difcreto Era fua determinação tomar Diu, & Adem, & fazer fempre guerra aos mouros: & afli ficarão eles muy defaliuados por fua morte.
  • Aqui faz fim o feyfto libro da hiftoria do defcobrimSto & cSquifta da índia pelos portuguefes. Feyto por Fernáo lopez de Caftanheda. E impreíTo em a muyto nobre & fempre leal cidade de Coymbra per Ioao de barreira empremidor da vniuerfidade. Acaboufe aos iij. dias do mes de Feuereiro de M. D. L1III.
  • TAUOADA DO QUINTO LI U RO. Capitolo i. De como Lopo foare\ entregou a gouernança da índia a Diogo lope\ de fequeira & fe partio pera Portugal. Pag. 3 Cap. ii. De como ho gouernador tornou el rey de Baticalá aa obediên¬ cia del rey de Portugal. 4 Cap. iii. De como Chrifiouão de foufa foy darmada fobre Dabul: & do que lhe lá aconteceo. 5 Cap. iiii. De como ho gouernador defpacliou certos capitães pera diuer- fas partes. 7 Cap. v. De como a raynha de Coulão deu confentimento pera fe fa\er fortaleza. ' 8 Cap. vi. De como Eytor rodrigue\ de Coimbra começou de edificar a fortaleza de Coulão. 10 Cap. vii. Dã grande feruiço q a raynha de Coulão fe\ a el rey de Por¬ tugal. 11 Cap. viu. De como ho gouernador foy ver hu pará que fe fa\ia antre hús Caimaes na terra firme, & do que acõteceo. 12 Cap. ix. De como mouros de Cambaya matarão a Ioão gome\ nas ilhas de Maldiua com outros nojfos. i3 Cap. x. De como defpois Dantonio correa focorrer Malaca fe partio pera Pegú a affentar amizade. 14 Cap. xi. Em q fe efcreue ho reyno de Pegú & feus cofiumes. i5 Cap. xii. De como Antonio correa ajfentou pa^es ê Pegú. 20 Cap. xiii. De como Antonio pacheco & outros forão calinos pelos Acliês & a caufa porq. 21 Cap. xiiii. De q ho gouernador fe\ em Cochim na entrada do verão: & de como Antonio de faldanlia chegou Dormu\. 22 Cap. xv. De como partio de Portugal por capitão mór da armada da índia Iorge dalbuqrque, & de como dó Luys de gu\mão arribou ao brafil por lhe qbrar o leme. 23 Cap. xvi. Das brigas que dó Luys de gu\mão ouue cõ ho feu piloto, & de como os brafis matarão perto de feffêta dos nojfos. 25 Cap. xvii. De como dó Luys de gu\mã fe aleuãtou cõ ho galeão de que
  • 366 Tauoada do quinto liuro. hia por capitão, & do q fe\ aos portuguefes q ho não quiferão fe- guir. 28 Cap. xviii. De como dó Luys mandou enforcar cinco Portuguefes: & do mais que fe\: & de como deixou ho galeão & fugio. 3o Cap. xix. De como os mouros matarão a Manuel de foufa & coréta dos nojfos em húa agoada, & como defpois fe perdeo ho galeão. 33 Cap. xx. De como lorge dalbuquerque com algús capitães de fua ar¬ mada inuernarão em Moçambique & outros pajfarão á índia. 34 Cap. xxi. De como 0 gouernador foy ver a fortaleza de Coulã. 34 Cap. xxii. De como Ioão gonçalue\ de ca/telo branco foy por embaixa¬ dor ao Hidalcão. 33 Cap. xxiii. De como indo ho gouernador pera a cidade de Iuda fe lhe perdeo a nao em q hia. E de como não podêdo ir a ludafoy furgir á ilha de Maçua. 36 Cap. xxiiii. De como ho gouernador chegou ao porto de Maçuá, & de como foube que Mateus era verdadeyro embaixador do Prefle. 38 Cap. xxv. De como ho capitão Darquico foy falar ao gouernador, & defpois ho forão ver noue frades do mofleiro de Bifam. 41 Cap. xxvi. Do fitio do mojleiro de Bifam, & da regra que goardão os feus frades. 42 Cap. xxvii. De como ho gouernador fe vio com ho Barnegais & jura¬ rão ambos de dous amizade em nome de feus fenhores. 45 Cap. xxvih. De como ho gouernador mãdou dom Rodrigo de lima por êbaixador ao Prefle. 48 Cap. xxix. Do q acõteceo a Gõçalo de loule indo pera Moçãbique & como ouue a artelharia do galeão de Manuel de foufa. 49 Cap. xxx. De como lorge dalbuquerque polo recado do gouernador fe partio em bufca dele cÓ algús capitães dos que inuernarão coele. 5i Cap. xxxi. De como lorge dalbuquerque mandou prender Raix xaba- dim regedor de Calayate, & do grande dãno q receberão os nojfos querendoho prender. 52 Cap. xxxii. Da grãde tormêta que ho gouernador pajfou faindo do ef- reito, & como fe perdeo a galé de Ieronimo de foufa, & dos que mor¬ rerão nela. 54 Cap. xxxiii. De como 0 gouernador foy ter a Calayate & dahi a Or- mu\ onde inuernou. 55 Cap. xxxiiii. De como foy por capitão mór da armada pera a índia lorge de brito, & do que aconteceo ao galeão de Ruy va\ pereyra com hã peixe. 56 Cap. xxxv. De como Antonio correa defpois de chegar a Malaca foy
  • Tauoada do quinto liuro. 36j fobre a tranqueira do Pago & a desbaratou & feçfugir os inimi¬ gos. bq Cap. xxxvi. De como el rey de BintSo com toda fua gête fugio do pago por medo Dantonio correa, & como foy queymada & dejlruida aquela força. 60 Gap. xxxvii. Do façanhofo feito que cinco dos noffòs fiçerão defenden- dofe de Raja çudamcci & de fua gente que matarão quafi toda & lhe tomarão húa lãchara. 61 Cap. xxxviii. De como fe leuantarão contra Eytor rodrigueç capitão da fortaleza de Coulão a raynha de Coulão & a de Comorim. 63 Cap. xxxix. De como a raynha de Coulão & a de Comorim quiferão tomar a fortaleza por treyção & não poderão. 66 Cap. xl. De como as raynhas mandarão cercar a fortaleza. 68 Cap. xli. De como dó Aleixo de menefes mandou jocorrer a fortaleça de Coulão per dom Afonfo de menefes. 70 Cap. xlii. Do q focedeo na guerra aos Portuguefes & aos imigos. 72 Cap. xliii. De como a raynha de Comorim pedio paç a Eytor rodri¬ gueç & fe leuãtou ho cerco da fortaleça. qZ Cap. xliiii. De como Cherinamarcar, & Patemarcar mouros eflorua- rão que a raynha de Coulão não ajfentajfe a paç que cometia, & de como fe feç defpois. qb Cap. xlv. De como ho gouernador partio Dormuç pera a índia & os nojfos tomarão duas naos de mouros, & do mais que paffou. 76 Cap. xlvi. De como Meliqueaç mandou hu embaixador ao gouernador pera faber fe fe apercebia pera ir a Diu. 78 Cap. xlvii. De como Meliqfaca & Hagamahmut fouberão que ho gouer¬ nador hia a Diu & de como fe fortalecerão. 79 Cap. xlviii. De como ho gouernador fe partio pera Diu, & chegou ao feu porto. 79 Cap. xlix. De como ho gouernador fe vio cõ Meliquefaca & com Ha¬ gamahmut. 81 Cap. l. De como ho gouernador fe mudou, do confelho que tinha de to¬ mar Diu: & de como mandou ver I10 rio de Madre faba pera façer hi fortaleça. 82 Cap. li. De como auendo ho gouernador dir inuernar a Ormuç deixou na índia em feu lugar a dom Aleixo de menefes. 84 Cap. lii. De como ho gouernador mandou pedir a Niça maluco fenhor de Chaul lugar pera façer húa fortaleça: & fe partio pera Ormuç. 84 Cap. uii. De como Diogo fernãdeç de beja ouue Fernão martinç, & os outros que ejlauão ê diu, & fe foy pera Ormuç. 83
  • 368 Tauoada do quinto liuro. Cap. liiii. De como partirão de Cochim Iorge dalbuquerq pera Malaca & Iorge de brito pera Maluco. 86 Cap. lv. De como dom Iorge de menefes foy em ajuda del rey de Co¬ chim contra el rey de Calicut. 87 Cap. lvi. De como fabendo el Rey de Portugal quã mal fe gajlauão as rendas do reyno Dormu\,, mandou recolher o que fobejaua do gajlo do reyno: & pera ho faber mandou que ouuejje officiaes Por- tuguefes nalfandega Dormu\. 88 Cap. lvii. De como tendo el rey de Narfinga desbaratado ho Hidalcão mandou di\er a Ruy de melo capitão de Goa que foffe tomar as ta- nadarias da terra firme, & de como as tomou & ficarão del rey de Portugal. 90 Cap. lviii. De como Raix xarafo prouocou ho Jogro del rey Dormu\ que ho fi\effe leuantar contra os nojfos. 92 Cap. lix. De como ho capitão mór Antonio correa pelejou em Baila¬ rem com el rey Mocrin & ho desbaratou. g3 Cap. lx. De como morreo el rey Mocrim. E de como Antonio correa mandou a fua cabeça ao gouernador com a noua da vitoria, & da • fepultura que lhe foy feita. 97 Cap. lxi. De como Iorge dalbuquerq chegou a Pacê, & determinou de refiituyr no reyno ho príncipe q leuaua da índia. 98 Cap. lxii. De como el rey Dauru foy fobre Pacê pera pelejar cõ o tirano q tinha 0 reyno ufurpado. 100 Cap. lxiii. De como Iorge dalbuquerq desbaratou & matou em hum combate ao Tirano que tinha vfurpado ho reyno de Pacem. 100 Cap. lxuii. De como ho príncipe foy recebido por rey de Pacê: & de como Iorge dalbuquerqite fe\ híta fortaleza em Pacem. 102 Cap. lxv. De como Iorge de brito foy morto em Achem com outros muytos de fua armada. io3 Cap. lxvi. De como por morte de Iorge de brito fucedeo na capitania de Maluco Antonio de brito feu irmão & do mais q pajfou. 106 Cap. lxvii. De como ho gouernador Diogo lope\ de fequeyra mãdou por capitão mór Diogo fernande\ de beja a Cambaya, & do que lhe aconteceo. 107 Cap. lxviii. De como Hagamahmut faio com algiias fufias de Diu a pelejar com os nojfos, & os desbaratarão: melêdo no fíido ho nauio de Gafpar doutel. 108 Cap. lxix. De como partio de Portugal dom Duarte de menefes por gouernador da índia, & de como chegou lá com toda fua ar¬ mada. ui
  • Tauoada do quinto liuro. 36g Cap. lxx. De como Antonio correa ouue a ilha de Baharê, & a forta¬ leza de Catifa: & fe tornou a Ormu\. 112 Cap. lxxi. Do confelho que ho pay del rey Dormu\ lhe deu q não fiqeffe treyção aos noffos. E de como a treição foy defcuberta ao gouerna- dor. ,,3 Cap. lxxii. De como ho gouernador mudou ho confelho que tinha defa- \er fortale\a em Madre faba, & a começou em Chaul. ii5 Cap. lxxiii. De como dom Aleyxo de menefes chegou a Chaul, & de como Hagamalimut capitão de Meliquiaz correo per mar aos nof¬ fos. 117 Cap. Lxxnn. De como os noffos pelejarão algúas rezes com Hagamah- mut: & de como ho gouernador determinou de fe partir pera Co- chim. 118 Cap. lxxv. De como defpois de os Imigos desbaratarem Andre de foufa chichorro, pelejarão com Diogo fernandez de beja & ho matarão. E de como ho gouernador deu a capitania do mar a Antonio correa & fe foy pera Cochim. 121 Cap. lxxvi. De como Iorge dalbuquerque capitão de Malaca & Anto¬ nio de brito forão fobre el rey de Bintão, & do que lhes aconte- ceo. 125 Cap. lxxvii. De como Antonio de brito fe partio pera a ilha da Iaoa. 127 Cap. lxxviii. De como Iorge dalbuquerq fe tornou pera Malaca: & de como Laqueximena lhe começou de fazer guerra. 127 Cap. lxxix. De como Ba/lião de foufa partio de Portugal pera fazer híia fortaleza na ilha de S. Lourenço. E o porq a não fez. 128 Cap. lxxx. De como fe leuantarão os Chins contra os Portuguefes que ejlauão em Cantão: & prenderão ho embaixador del Rey de Portu¬ gal, & os q eflauão coele. 129 Cap. lxxxi. De como Hagamalimut deu M combate a Antonio correa, & quifera tomar ho baluarte do outeyro & foy desbaratado. E de como dom Luys de menefes chegou a Chaul: & Antonio correa fefoy pera Cochim. i3o Cap. lxxxii. De como Raix xarafo & el rey de Ormuzfe leuãtarão có- tra os nojfos que ejlauão na cidade & na fortaleza. i33 Cap. lxxxiii. De como os mouros começarão de bater a fortaleza, & de como dom Garcia mandou pedir focorro á índia. i35 Cap. lxxxiiii. De como fabendo Manuel de foufa tauares q el Rey Dor- muz ejtaua leuantado, foy focorrer a noffa fortaleza: & do que fez em chegando. 137 Tomo III 47
  • Tauoada do liuro fexto. 3jo Cap. lxxxv. De como os mouros derão bateria á nojfa fortaleza, & do que os nojjos fi^erão. i3g Cap. lxxxvi. De como os mouros quiferão efcalar a fortaleza: & os nof- fos lhes quebrarão as efcadas com a artelharia, & de como vendo os mouros ho dano que recebido dos nojjos com medo do focorro da Ín¬ dia defpejarão a cidade. 141 Cap. lxxxvíi. Do que pajjou antre os nojjos defpois que os mouros def¬ pejarão a cidade. 144 Cap. lxxxviii. De como dom Gonçalo coutinho foy em focorro da for¬ taleza Dormuz. F de como el Rey Dormuz foy morto por mandado de Raix xarafo. 146 Cap. lxxxix. De como Diogo lope\ entregou a gouernança da índia a dom Duarte de menefes, & fe partio pera Portugal. 147 TAVOA DA DO LIVRO SEXTO. Capitolo i. De como dom Luys de menefes capitão mór db mar da ín¬ dia foy focorrer a fortaleza Dormuz, & de como partio pera Malaca Martim Afonfo de melo coutinho. i3i Cap. ii. De como ho gouernador deu a capitania de Chaul a Simão dandrade, & mãdou goardar a cofia de Cambaya. i52 Cap. iii. Do que aconteceo a Martim correa andando darmada. 153 Cap. iiii. De como dom Luys de menefes q liia em focorro Dormuz che¬ gou lá, & do que fez. 134 Cap. v. De como dó Garcia anrriquez & Iorge dalbuquerque chegarão ás ilhas de Banda, & discripção deflas ilhas. i53 Cap. vi. De como Fernão de magalhães fez crer ao Emperador Car¬ los rey de Caflela que as ilhas de Maluco erão de fua conquijla & de como as foy defcobrir. 156 Cap. vh. De como Fernão de magalhães moflrou hum regimento que leuaua do faleyro pera fe conhecer a altura de lefle a oefle. E do que hum ajlrologo que hia na frota & os pilotos dela acordarão. i5g Cap. viii. De como Fernão de magalhães paffou ho eflreito de todos os fanãos & foy ter á ilha de Cubo: & de como foy morto em hua bata¬ lha com dous capitães feus & outra gente. 160 Cap. ix. Da treyção que el rey de Cubo fez aos Cajlelhanos em que
  • Tauoada do liuro fexto. 371 matou muytos deles, & de como efcaparão fugindo. E do que paffa- rão ate chegarem aa ilha de Tidóre, Ma das ilhas de Maluco. 1Ó2 Cap. x. De como el rey Daternate foy cometido dos ca/lelhanos com ami¬ zade & a não quis, & de como carregarão duas tiaos de crauo & hlia foy ter a efpanha, & outra defpois de partir arribou a Maluco. i65 Cap. xi. De como Antonio de brito & dom Garcia anrrique\ fe parti¬ rão pera as ilhas de Maluco, & da difcrição dejlas ilhas. 166 Cap. xii. De como Antonio de brito affentou amizade com a mãy del rey de Ternate & com outros reys: & de como começou a fortaleza de fam Ioão de Ternate. 170 .Cap. xiii. De como Marti Afonfo de melo coutinho chegou aa China & a achou de guerra. 172 Cap. xiiii. De como Martim Afonfo de melo quifera tornar a reformar a pa{ com os Chins & não pode. 173 Cap. xv. De como ardeo a nao de Diogo de melo, & os Chis tomarão a nao de Pedromê & matarão a ele & a quãtos ejlauão dentro. E de como Martim Afonfo partio pera Malaca. 174 Cap. xvi. De como el rey Dachem mandou cercar a fortaleza de Pa- cem, & de como lhe focorreo Martim Afonfo de melo. 17S Cap. xvii. De como fe perdeo a nao de Duarte dataide, onde ele morreo com outros. E de como ho gouernador de Mascate acodio aos nof- fos. 176 Cap. xviii. De como dom Luys fe tornou pera a índia, & do mais que paffou. 178 Cap. xix. De como por morte de Raix xabadim, Raix xarafo fe aco- Iheo á noffa fortale\a cõ medo de ho matarê os mouros: & de como fe tornou a pouoar a cidade Dormu\. 179 Cap. xx. De como dom Luys de menefes dcfpachou ê Cochi certas ve¬ las pera diverfas partes & defpois fe partio pera ho ejlreito. 180 Cap. xxi. De como indo 0 gouernador pera'Ormu\ tomarão hús mou¬ ros de Diu Ma galé a Baflião de noronha. 181 Cap. xxii. De como o gouernador chegado a Ormuç foliou Raix xa¬ rafo. 182 Cap. xxiii. De como dó Luys indo pera dar na cidade de Xael lha def- pejarão os mouros, & do mais q fe\ ate tornar do ejlreito. 184 Cap. xxiiii. De como dom Rodrigo de lima partio caminho da corte do Prefle. i85 Cap. xxv. De como dõ Rodrigo chegou á corte do Prefle joã. 186 Cap. xxvi. De como ho Prefle mandou chamar ho embaixador & não lhe falou. 188
  • Tauoada do liuro fexto. 372 Cap. xxvii. De como dom Rodrigo falou ao Prefle joão. 190 Cap. xxviii. Das brigas que ouue antre Iorge dabreu & dom Ro¬ drigo. 192 Cap. xxix. De como lio Prefle defpachou dom Rodrigo de lima. 195 Cap. xxx. De como dó Rodrigo fe par tio da corte do Prejle, & da cattfa porque tornou a ela. 197 Cap. xxxi. De como dom Luys fe tornou a partir da corte do Prejle. 198 Cap. xxxii. De como foram mortos quatro Portuguefes e Arquico. E de como dó Luys de menefes fe partio de Maçua. ' 200 Cap. xxxiii. De como dô Rodrigo fe tornou á corte do Prefle & fe tor¬ nou a partir. 201 Cap. xxxiiii. De como dó Lui\ de menefes faqueou Dofar, & chegou a Ormu{. 202 Cap. xxxv. De como Antonio faleyro fe leuãtou com diffimulação de ir fa\er prefas ao cabo de Goardafum. 2o3 Cap. xxxvi. De como Antonio faleyro foy ter a Calayate & defpois a Dufar: & do que fe\. 204 Cap. xxxvii. De q acõteceo aos fete portuguefes q ião na nao q Antonio faleiro mãdaua pera Calaiate. 206 Cap. xxxviii. De como foy ter hu mouro cõ os tres Portuguefes q efla- uão no parao, & do remedio que lhes deu noffo fenhor pera efcapa- rem da morte. 208 Cap. xxxix. De como Antonio faleyro fe tornou pera a índia, & do que fucedeo aos tres companheiros que eflauão com 0 Xeque de Mete. 210 Cap. xl. De como os mouros ganharão as tanadarias de Pondá & de Saljetc. 211 Cap. xli. De como híia das tiaos da armada de Fernão de magalhães que hia pera Efpanha arribou a Maluco, & foy tomada pelos Portu¬ guefes. 214 Cap. xlii. De como os mouros da ilha de Tidore, matarão vinte tantos Portuguefes. Pelo que fe começou a guerra ãtre Antonio de brito, & el Rey de Tidore. 2i5 Cap. xliii. De como dó Pedro de ca/lro pos a obediência dos reys de Zan\ibar & Pemba as ilhas de Querimba que lhe dejobedecião. 218 Cap. xliiii. Do que Antonio galuão fe\ em Cotangone tornãdofe pera Moçãbique. 220 Cap. xlv. De como dom Pedro de caflro chegou a Goa & fe perdeo a fua nao na barra. 221
  • Tauoada do liuro fexto. 373 Cap. xlvi. De como ho gouernador mandou Baltefar pejfoa por em¬ baixador ao Xeque ifmael. 223 Cap. xlvii. De como faleceo ho Xeque ifmael fem dar defpacho a Bal¬ tefar pejfoa: & de como hum filho q lhe fucedeo lho defpachou. 224 Cap. xlviii. De como fe partio ho gouernador pera a índia, & de como chegarão as naos de Portugal. 226 Cap- xlix. Do q aconteceo a dom Pedro de cajlro & a Antonio galuão em Calicut. 227 Cap. l. De como el rey Dachem combateo a fortaleza de Pacem. 228 Cap. li. De como dom André anrrique$ defpejou a fortaleza de Pa¬ cem. 229 Cap. ui. De como el rey de Bintão mandou fa\er guerra a Malaca : & de como foy morto Anrrique leme & outros capitães. 23o Cap. liii. De como foy tomado hft nauio na cidade de Pão, onde fo- rão mortos algíis Portuguefes. 233 Cap. liiii. De como foy morto Andre de bryto no porto de Pão & ou¬ tros Portuguefes. 234 Cap. lv. De como dó Sãcho ãrrique\, & dó Antonio ãrrique\ forão mortos no porto de Pao, & lhes foy tomado hí7 galeão. 235 Cap. lvi. De como Iorge dalbuquerque mandou pedir Jocorro ao gouer¬ nador da índia & lho mandou. E de como ho gouernador foy m- uernar a 0rmu{. 236 Cap. lvu. De como partirão oyto naos, & corenta paraós, de Calicut carregadas defpeciaria pera Meca. -ibq Cap. lviii. De como os mouros de Bintão queymarão no porto de Malaca ho nauio de Simão dabreu & matarão quantos ejlauão coele. 238 Cap. lix. De como Laqueximena tomou na barra de Bintão dous ca- rauelões da conferua de dom Garcia anrrique241 Cap. lx. De como el rey de Bttão mandou cercar Malaca por mar & por terra. 242 Cap. lxi. De como Martim Afonfo de foufa foy fa^er guerra a el rey de Bintão, & aos reys de Pão & de Patane. 244 Cap. lxii. De como foy começada a guerra ãtre Antonio de brito & el rey de Tidore: & de como foy morto Iorge pinto da flua & ou¬ tros. 245 Cap. lxiii. Do que aconteceo a Martim afonfo de melo jufarte, come¬ tendo hú lugar de mouros. 247 Cap. lxiiii. De como foy ferido Francifco de foufa, & outros Portu¬ guefes. 248
  • 374 Tauouda do liuro fexto Cap. lxv. De como por induflria de Martim correa, foy Jornado lio lu¬ gar de Mariaco. 25o Cap. lxvi. De como proffeguindo Martim correa & Cachil Daroes a guerra tomarão muylos lugares que el rey de Tidore tinha na ilha de Maqueim. 252 Cap. lxvii. De como Martim correa, & Cachil daroes dejlruirão lio lu¬ gar Dogane, & Je tornarão a Ternate. 253 Cap. lxviii. De como el rey de Tidore mandou pedir pa\es a Antonio de brito: & ele lhas não quis dar. 255 Cap. lxix. De como el rey de Calicut começou de fazer guerra aa for¬ taleza dijfimuladamête. 256 Cap. lxx. De como os mouros & Nayres de Calicut começarão a guerra cô dó Ioão de lima capitão da fortaleza. 258 Cap. lxxi. De como dó Vafco da gama conde da Vidigueira & almi¬ rante do mar indico partio de Portugal por vijo rey da índia, & de como chegou lá. 260 Cap. lxxii. De como lio rifo rey chegou a Cochim, 6 do que feq. 562 Cap. lxxiii. De como Geronimo de foufa foy goardar a cofia do Ma- labar. 263 Cap. lxxiiii. De duas grandes vitorias que dom Iorge telo oiiue dos mouros de Calicut. 265 Cap. lxxv. De como crecendo a doença do vifo rey encomendou a go- uernança a Lopo vaz de fam Payo capitão de Cocliim. 266 Cap. lxxvi. De como dom Duarte de menefes, chegou a Cochim. 266 Cap. lxxvii. De como dó Duarte de menefes entregou a índia a Lopo vaz de fam payo em nome do vifo rey: & de como ho vifo reyfaleceo. 269 Cap. lxxviii. De como foy aberta a primeira subceffam: em q fe achou dom Anrique de menefes por gouernador. 271 Cap. lxxix. De como dó Anrriq fabendo que era gouernador, fe partio pera Cochim: & do que fez primeyro. 272 Cap. lxxx. De como dó Anrriq de menefes pelejou com húa armada de Calicut & tomou dezoyto paraós, & de como mãdou enforcar Ma- mele em Cananor. 274 Cap. lxxxi. De como a requerimêto del rey de Cananor mãdou 0 go¬ uernador queymar liúa pouoação de mouros de Calicut por Eytor da filueira. 27b Cap. lxxxii. De como vendo el rey de Calicut quão mal lhe fucedia a guerra cometeo paz a dom Ioão de lima. 276 Cap. lxxxiii. De como 0 gouernador foy ter a Calicut, & foubc a paz que el rey queria: & do que refpondeo. 278
  • Tauoada do liuro fexto 375 Cap. lxxxiiii. De como lio goueniadur deu em Panane, 6 da dejlruição quefe\. 279 Cap. lxxxv. De como o gouernador mandou queymar Calicut por dom Ioão de lima, 6 do que lhe aconteceo. 281 Cap. lxxxvi. De como o gouernador chegou a Coulete. 282 Cap. lxxxvii. De como 0 gouernador ajjetou cõ os capitães da frota de pelejar em Coulete. 283 Cap. lxxxviii. De como lio gouernador desbaratou os mouros que efla- uão em Coulete. 285 Cap. lxxxix. De como forão dadas cartas ao gouernador del rey Dor- mtq & de Raix xarafo: de queyxumes de Diogo de melo. 288 Cap. xc. Do que fe\ Fernão gome{ de lemos no rio de Mãgalor. E de como lio gouernador fe recollieo a Coclii, & defpachou a Pero man¬ car enhas pera Malaca. 291 Cap. xci. Do q fe\ dõ Simão de menefes a mote Deli, & de como fe recolheo a Cochim. 292 Cap. cxii. De como foy morto Chrijlouão de brito, & os outros capi¬ tães desbaratarão as fu/las de Dabul. 294 Cap. cxiii. De hii milagrofo feyto q fiqerão vinte Portuguefes na ilha de Ceylão. 295 Cap. cxiiii. Do q Antonio de mirada da\euedo fe\ no cabo de Goar- dafum 6 em Xael. 297 Cap. xcv. De como Martim afonfo de melo jufarte chegou aa ilha de Banda. 298 Cap. xcvi. Do q acõteceo a dõ Garcia anrriq\: & a Marti afofo de meio jufarte na ilha de Bãda. 298 Cap. xcvii. De como Martim afonfo de foufa capitão mór do mar de Ma¬ laca pelejou com Laqueximena: & de como foy morto com outros. 299 Cap. xcviii. De como os Portuguefes que efcaparão da batalha torna¬ rão a Malaca. 3o 1 Cap. xcix. Do q Laqueximena fe\ no Colafcar: & de como fe foy pera Bintão, 3o2 Cap. c. De como Baltefar rodrigue{ rapofo & Aluaro de brito desba¬ ratarão Laqueximena & el rey de Draguim. 3o3 Cap. ci. De como el rey de Bintão tornou a fa\er guerra a Malaca: & do que fiqerão feys Portuguefes. 3o6 Cap. cii. De como Pero maqcarenhas foy entregue da capitania de Ma¬ laca. 309 Cap. ciii. De como dõ Garcia anrrique^ chegou á fortaleza de Ma¬ luco. 311
  • 3y6 Tauoada do liuro fexto Cap. ciiii. De como entrado lio inuerno el rey de Calicut mandou Ja- \er guerra a dõ lodo de lima. 312 Cap. cv. De como os immigos começarão de cercar a fortaleza de ca¬ nas pera ajfentarem fuas ejlancias. 313 Cap. cvi. De como defpois de el rey de Calicut fer na cidade dom Ioão de lima queimou as cafas da feytoria & alma\em. 314 Cap. cvii. De como dejpois de fe dom Ioão recolher na fortaleza, af- fentarão os immigos fuas ejlancias & começarã de bater a forta¬ leza. 317 Cap. cviii. De como os immigos começarão de fa\er húa albarrada. 318 Cap. cix. De como dõ Ioão de lima mandou pedir focorro ao gouerna- dor & lho mandou. 319 Cap. cx. De como os immigos começarão de tirar com hii trabuco á fortaleza, & de como foy efpedaçado. 321 Cap. cxi. De como Chrijlouão jufarte chegou a Calicut & êtrou na for¬ taleza cõ os que yão coele. 322 Cap. cxii. De como lio gouernador mandou mais focorro a dom Ioão. 325 Cap. cxiii. De como os ímigos affentarão dous trubucos, & de como foy queymado hã deles. Cap. cxiiii. De como foy queimada húa mãta dos Ímigos. 326 327 Cap. cxv. De como dom Ioão fez húa tranqueira Jobre ho muro contra húa albarrada que os immigos fabricauão. Cap. cxvi. De como querêdo os mouros combater a fortaleza cõ húas mantas de campo forão atalhadas. 33o Cap. cxvii. De como dom Ioão foy focorrido por Eytor da filueira: & defpois por Francifco pereira pejlana. 333 Cap. cxviii. De como os immigos tomarão o paraó do galeão com a carrega que leuaua. E de como cuydãdo el rey de Calicut q dom Ioão era morto ho mandou faber. 335 Cap. cxix. De como os ímigos quiferão queymar hum baluarte de ma¬ deira da fortaleza. & não poderão. 33j Cap. cxx. De como ho gouernador focorreo a fortaleza de Calicut, & do confelho que teue fobre pelejar co os mouros. 338 Cap. cxxi. De como dom Ioão de lima deu hú rebate no arrayal dos immigos: & de como ho gouernador affentou de pelejar coeles. 341 Cap. cxxii. De como ho gouernador pelejou com os immigos q tinlião cercada a fortaleza de Calicut & os venceo. 344 Cap. cxxiii. De como ho gouernador mandou defpejar e derribar a for¬ taleza de Calicut. 347
  • Tauoada do liuro fexto 3n Cap. cxxiiii. Do que fe\ el rey de Calicut defpois de defpejada a forta¬ leza. 35o Cap. cxxv. De como lio gouernador mandou Eytor da Jtlueira ao cabo de Goardafum. 351 Cap. cxxvi. Do q aconteceo a Iorge dalbuquerque com ho Arei de Por- quá. 35i Cap. cxxvii. Do q aconteceo ao almoxarife da fortaleza de Maluco indo pera as ilhas dos Celebes. 302 Cap. cxxviii. De como Antonio de brito entregou a fortaleza da ilha de Ternate a dom Garcia anrriquez• 354 Cap. cxxix. De como vendo dõ Garcia que Antonio de brito lhe não queria dar os homens que fe forão coele, lhe mandou tomar ho leme, & as bombas & velas de hiia nao. 355 Cap. ckxx. Da grade defauêça que ouue antre Antonio de brito & dom Garcia: & de como Antonio de brito fe partio pera Bãda. 35q Cap. cxxxi. De como ho gouernador andando na cofia do Malabar fe achou mal de Ma perna, pelo que fe foy a Cananor. 358 Cap. cxxxii. De como dom Iorge telo pelejou com os immigos no rio de Bacanor, & de como os desbaratou. 359 Cap. cxxxiii. De como faleceo dom Anrrique de menejes. 362 Tomo III *8
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  • EDIÇÕES DA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE (extracto do catálogo) SCRIPTORES RERVM LVSITANARVM série a) Publicado: FERNAO LOPES DE CASTANHEDA.--História do descobrimento, e conquista da índia. Ed. revita pelo senhor Pedro de Azevedo, vol. i e n. -#>- DAI .IAM DE GOES. — Chronica do Felicíssimo Rei Dom Emanvel. Coforme a ed. princeps. Rev. pelo D.. David Lopes, 4 volumes. 8o#oo No prélo; DAMIAO DE GOES —Chronica do Principe Dom Ioam. Comforme a ed. princeps. DUARTE GALVAO. — Crónica de D. Afonso Henriques. Revista e prefaciada por Tomás da Fonseca. JOÃO DE BARROS e DIOGO DO COUTO. — Décadas. Ed. conforme a ed. princeps, revista pelo Dr. António Baião. FERNÃO GUERREIRO.— Relação anual do que fizeram os padres da Companhia de Jesus nas suas missões do Oriente, da África e Brasil nos anos de 1600 a 1610. Ed. completa das 5 Relações, dirigida?e prefaciada por Artur Viegas. Em preparação: Papéis relativos á guerra da restauração e independência de Portugal. série b) Publicados: I. — HIERONYMO OSORIO. — De rebus Emmanvelis gestis. 3 vols. 6o-)?>oo II. — Itinerários Quinhentistas da Índia a Portugal. — Rev. e prefaciados pelo Dr. António Baião, vol. 1 i8#>oo UI. — Comentários do grande Afonso d’Albuquerque — Conforme a 2.* ed. Rev. e prefaciada pelo Dr. António Baião, vol. 1 (Partes 1 e 11) e 11 (Partes 111 e iv). 35$oo Em preparação: ANTÓNIO GALVAO. — Tratado dos diversos e desvairados caminhos por onde nos tempos passados a pimenta e especiaria veio da índia as nossas partes, e assim de todos os descobrimentos antigos c modernos que são feitos em a era de i55o. série c) No prélo; D. FRANCISCO MANUEL DE MELO. — Epanaphoras de varia historia portuguesa. Ed. dirigida pelo Dr. Edgar Prestage. Em preparação': História Trágico-marítima.
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