SCRIPTORES RERVM LDS1TANARVM (série a) HISTÓRIA Descobrimento a Conquista da Índia pelos Portugueses POR FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA LIVROS III E IV 3.* EDIÇÃO CONFORME A EDIÇÃO PRINCEP S REVISTA E ANOTADA POR PEDRO DE AZEVEDO COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 1928
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HISTÓRIA DO DESCOBRIMENTO & CONQUISTA DA ÍNDIA PELOS PORTUGUESES
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SCRIPTORES RERVM LUSITANARVM (série a) HISTÓRIA DO Descobrimento & Conquista da Índia pelos Portugueses POR FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA LIVROS III E IV 3.* EDIÇÃO CONFORME A EDIÇÃO PRINCEPS REVISTA E ANOTADA POR PEDRO DE AZEVEDO COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 1928 %
COMPRA 238T9Í Desta edição tiraram-se 160 exemplares em papel de linho numerados e rubricados. A’.« //
PROLOGO NO TERCEIRO LIURO DO DESCOBRIMENTO & conquifta da índia, pelos Portuguefes Dirigido â muyto alta & Serenifíima Raynha dona Caterina de Portugal noíTa fenhora. Por Fernão lope^ de Cajlanheda. TIto livio hiftoriador romano muyto alta & ferenilíima Raynha N. S. Pola hiftoria que efcreueo da fundação de Roma & do mais que os Romãos fizerão na conquifta de feu Império, foy antreles tão celebrado, que por iífo ho teuerão em grande admiração nas proúincias eftranhas. Em tanto que muytos naturais delas, fendo Roma naquele tépo a mays notauel coufa do míído, mais hião a ela por ver a Tito liuio que a fuas grandezas. E ho mefmo fizerão outros muytos hiftoriadores de fuas coufas, que por ventura não forão tão famofas, fe aqueles que as efcreuerão as não fouberão tão bem reprefentar, Porque na fua elo¬ quência confifte muyto, ferem elas grandes ou pequenas, o que fentindo bem aquele grande Alexandre teue Achiles por tão be auéturado em ter Homero por efcriptor de fuas façanhas, como teftificão aqueles dous ver- fos tão notorios que diffe quando vio a ymagem Dachiles, & defeiou tanto que Homero fora em feu tempo pera efcreuer fuas coufas, que dizcdolhe húa vez hú feu q lhe leuaua húa grãde noua, pregútou fe era Homero refucitado. E vendo eu quã eftimados erão os hiftoriadores de coufas dignas de memória. Pofto que fique muyto abaixo do engenho de Homero & não chegue á eloquécia de Tito liuio. Deume oufadia a efcreuer o que os Portuguefes fizerão no defcobrimento & cõquifta da índia ferem as façanhas tays, que em grandeza, fama & admiração, teuerão muyta auã- tagem ás q efcreuerão Tito liuio & Homero. E tenho que ganhey muito em fer ho primeyro Português que na noífa lingoa as refufcitey, eftãdo mortas de cincoenta annos, & não fomente em Portugal, mas em outros reynos onde defeiauão muito de as faber. Do que he teftemunha impri- Tomo ii I
a Hijloria da índia mirfe agora em Paris em lingoa Frãcefa ho primeyro liuro defta hiftoria, que tornou na mefma lingoa meftre Nicolao, que ca foy lete dartes no Colégio Real & afora ifto fuv também ho primeiro que moftrey ho en¬ gano que muytos tinhão q na lingoa Portuguefa não fe podia efcreuer quanto quifeffem aíli como nas outras, fe ouueffe quem ho foubeffe fazer E aiudoume a moftrar efta verdade aquele grande poeta Português de muyto grande erudição ho doutor Francifco de fá, com as obras que tem comportas na noffa lingoa em profa & em verfo, outro Terécio de noffo tempo, outro Plauto. & outro Virgílio. E outro tão marauilhofo engenho como ho de cada hú deftes. E ho galardão que me derão algús voffos Portuguefes, foy acanharem me as obras de meus trabalhos diãte de fua alteza. Poendo nelas tachas, fem as nomearem pera que eu não foubeffe de que me auia de defender. Porque fe ho foubera eu ho fizera & farey fe ho fouber, que não fou eu de qualidade, ne tenho tão pouca obrigação donrra que não atente muito bem ho que faço. E mays em coufa de tãta importância que auia dir diante dos olhos de Sualteza, & fe me eu detiue vinte tantos annos em efcreuer efta hiftoria, foy porque a fizefe como auia de fer, principalmete na verdade. E efta certifico a V. A. que a não foube em minha cafa, nem a mãdey pregútar por efcripto aos que a fabião, porque me não refpõdeffem como facertafle, ou por occupação, ou por outra qualquer caufa. Mas que a fuy faber â índia paífando na viage bra- uas, & terriueis tormétas: com q me vi perto da morte & fem efperãça da vida cÕ trabalhos de grande fome & de muyto mayor fede. E lâ com mil perigos, em muy efpantofas peleias de bobardadas & efpingardas fem conto: E antrelas foube eu a verdade do que auia defcreuer de muytas coufas de vifta & outras douuida. E não de quaefqr peffoas, fenão de ca¬ pitães & fidalgos, peffoas de muyto credito que forã prefentes a elas, enformandome por mim mefmo dos mais que pude ho mais miudamete que mo podião dizer: E afirmandome de todos com iuramento, que fegundo fua lembrãça me falauam verdade. E pelo mefmo modo ho fiz defpoys de tornar a Portugal, onde me acabey denformar do que não pude faber na índia de muytos fidalgos & Capitães que eram ia vindos de lâ, que nunca deixey de ir bufcar onde eftauão, pofto que foffe longe. Que tambe me cuftou muyto trabalho, caminhando por calmas & por frios. O que duuido q outrem poderá fofrer. E bem pode fer que eftes aque pregútey lhes não lembraria de me dizerem algúas particularidades, ou pelo grande difcurfo do tempo fe efquecerão dalgús nomes proprios de Capitães ou doutras peffoas que dirião hús por outros. Porem a rea¬ lidade da coufa como paífou, foy verdadeyra polos muytos que cõforma- uão nela, e por achar que era afti em cartas mefliuas q algús efcreuião
Prologo 3 a outros do que paífaua. E aííi em trelados & lembranças que muytos curiofos efcreuerão do que fe fazia naqueles tépos. E foy me grande aiuda pera me nao contentar tudo o que me dizião ho tépo que andey na índia, & o que vi dela, que fe iflo nao fora bem me poderão enganar como a quê não tinha vifto a terra, nem fabia como fe podião ou não podião fazer nela as couias, nos lugares em q acõtecerão, E por ifTo qué ha def- creuer hiftorias ha de fazer as diligécias que eu fiiz & ver a terra de q ha de tratar como eu vi, que afli ho fizerão efTes hiftoriadores antigos & modernos. E bem fentia ifto el rey dõ Afonfo ho quinto de Portugal, quando mandou Gomezeanes dazurar cronifta deites reynos a Alcacere pera lá efcreuer como teftemunha de vilta, o que os noífos fizeffem. E foubefle ho íitio da terra de que auia defcreuer, & aprédefle as particu¬ laridades da guerra pera faber como auia de falar. Porque muyto fobre natural ha de fer ho engenho que ha de faber efcreuer do que nunca vio. O que fe me não pode dizer Porque vi tormentas, vi batalhas no mar & peleias na terra, & efpedaçar nauios, & bater muros & vécer a Imigos, & falo como efprementado, E fe ilto fouberão os que tacharão minhas obras, bem creo que ho não fizerão, antes me aiudarãç polo muyto q todos meus naturaes me deuem em ilultrar fuas honrras & de feus ante- ceffores que forão no defcobrimento da índia & em fua conquiíta, que eftauã.o & eíteuerão fepultadas, fe eu não fora. Mas não quero que me deuão ifto, afli polo prefente como polo futuro, fe não a V. A. Porque eu por efte defgofto de todos faberem tachar & poucos fazer eftaua determi¬ nado de da qui por diante, não fair a luz com meus trabalhos, fe não fora faber camanha & quam Angular merce me V. A. fez em fe auer por ier- uida dos dous liuros que emprimi, & dizer que não ouuera ho q vay neles deitar encuberto tanto tempo. E como ho fauor de tamanha merce não temi inueiofos, nem mal dizétes. E pubricarey ho terceyro, & prazendo a noflo fenhor pubricarey logo os outros debayxo do emparo de V. A. & por iflo a V. A. fe deue ho que fe daqui por diante fouber das coufas da índia, como fe deue outras muyto grãdes & mui aflignadas merces que faz cada dia a feus vaffalos, que fam muy largas de contar. De modo q fe fomos os mais bem auenturados pouos do vniuerfo, por ter ho mays excelente & fingular Rey dos que reynão em todo ele. Por nos defender das muyto grandes & enfofriueys opprefloes, que os outros pouos padece, como he notorio. Afli ho fomos em ter por Raynha & fenhora a V. A. cuias heroycas virtudes não tem conto & aquem outra nenhúa princefa he igoal.
LIURO TERCEIRO DA HISTORIA DO DESCOBRIMENTO & CONQUISTA DA INDIA PELOS PORTUGVESES Per mandado do inui&iífimo rey dom Manuel de gloriofa memó¬ ria, em que fe contem as coufas que forão feytas no tempo que Afonfo dalbuquerque a gouernou. CAPITOLO .1. De como dõ Fernando Coutinho Marichal de Portugal, determinou com ho gouernador Afonfo dalbuquerque, que foffem fobre Calicut: & de como forão auifados da difpojição de Calicut. MEtido Afonfo dalbuquerq de pofle da gouernãça da índia, do Fer- nãdo coutinho Marichal de Portugal (polto que no liuro fegundo por erro fe chama dom Francifco) que ja entendia na carrega pera Portugal, como trazia por regimento: deu húa carta delrey ao go¬ uernador, em que lhe fcreuia que era feu feruiço q ho Marichal deftruiífe Calicut, fe lhe bem pareceífe: & que acerca diífo feguifle ele gouernador feu parecer. E fobre tudo ho marichal lhe pedio que ho ajudaífe niffo, & ele lho prometeo dizendo que lhe parecia bé deítruirfe Calicut: & que a inftruçã de como fe poderia fazer lhes daria Cojebiquin là morador, tama¬ nho amigo dos Portuguefes, que por amor diífo fe perdera em tépo de Pedraluarez cabral (como diffe no liuro primeyro) Pera o q foy logo cha¬ mado, & foy fecretamente a Cochim, & lhes diffe q Calicut eftaua em defpofição pera fe lhe fazer muyto dano, por quanto ho çamorim era na ferra, & na cidade auia poucos nayres, a refpeyto dos muytos que auia quando el rey hi eftaua, & effes tinhão pouca lembrança de ninguém ir fobreles: & que toda a fortaleza da cidade era da banda do fui onde eftaua ho çarame delrey, q he ho feu pagode, que feria hú tiro de béfta
6 Hijloria da índia do mar, & ali auia húa tranqueira bem artilhada, porque como daquela banda auia boõ defembarcadoyro receauafe el rey que por ela fe entrafe a cidade, & por i(To a mandou fortalecer. Poré que da banda do norte donde a defembarcação era dificultofa não auia nenhúa fortaleza, & por iffo fe podia ali melhor defébarcar q na outra parte: & que ainda que não fizeífem mais q queimar vinte naos nôuas que os mouros tinhão 5 eftaleiro pera mãdar aqle ãno ao eftreyto carregadas defpeciaria, q feria muyto grande coufa porq nã poderiã tã afinha fazer outras, & q el rey de Calicut recebiria niffo muyta perda, por amor dos dereytos q perdia por não ter outra réda. Auida efta inftrução por Cojebiquin propos ho Marichal em confelho o que lhe el rey feu fenhor mãdaua acerca de Ca¬ licut, & a enformação q tinha. E vifta a perda q el rey de Portugal rece¬ bia de Calicut no feu trato da efpeciaria, & a defpofição em que a cidade eftaua, & ho muyto que fe ganhaua em lhe queimarem as vinte naos, que foífem fobrela & a deftruiffem. E ifto determinado por quanto ainda a mayor parte da armada da índia eftaua varada, & fe faria detença em fe deitar ao mar, affentarão que foffe a géte em tres naos da armada do Marichal que eftauão carregadas, & affi nas velas da índia que logo po- deffem ir. E fazendofe ifto preftes chegou a Cochim Vafco da filueira, que por mandado de Duarte de lemos hia (como diffe) a pedir a armada ao gouernador, a quem dando efte recado deu também ho terlado da pro- uifam de Duarte de lemos & ho feu regimento. O que vifto pelo gouer¬ nador ouue as prouifóes por boas, & diffe q lhe obedecia, & que logo dera a armada fe nã efteuera com ho Marichal de caminho pera Calicut, que da volta q prazendo a Deos tornaffem ele defpacharia logo a armada pera Duarte de lemos. E vendo Vafco da filueira a muyta honrra q fe aparelhaua naqla viajem, como ele era muy efpecial caualeyro offreceofe ao gouernador pera ir coele: o que lhe ele teue muyto em merce, porque o conhecia por tal. CAPITOLO .II. De como ho gouernador & ho Marichal partirão pera Calicut pera a dejlruir, & chegarão a ela. E de como ho gouernador defembarcou pri¬ meiro & a caufa porque. PRestes tudo o que era neceífario pera ho gouernador & ho Mari¬ chal hirem fobre Calicut, partiranfe na entrada de Ianeyro de mil & quinhentos & dez, & leuariã configo mil & feyfcétos homés pouco mais ou menos, & ho Marichal leuaua bandeira na gauia, & obe- diciãlhe os capitães de fua armada que erão os q diffe, & ao gouernador
Livro III, Capitolo II 7 obedicião os da armada da índia, que erão dom Antonio de rtoronha feu fobrinho capitão da fortaleza de Cochim, é cujo lugar ficou Antonio real alcayde mor & patrão mór da ribeira, Manuel paçanha, Fernão perez dandrade, Iorge da íilueira, Ayres da filua, Francifco pantoja, Iorge fogaça, Duarte de melo, dom Ieronimo de lima, Francifco pereyra cou- tinho, Manuel de lacerda, Antonio pacheco, Simão dandrade, Diogo men- dez, Vafco da filueira, Francifco de miranda chichorro, Felipe rodriguez & Simão martinz. E chegarão a Calicut aos dous dias de Ianeiro hú dia aa tarde, & as naos groffas furgirão de fora do arrecife & as de remo de dentro: & aqui fe paífarão ho gouemador & ho Marichal às duas ga¬ lés de que erão capitães Simão dandrade & Diogo mendez, & no porto não 'acharão nenhús paraos q lhe contrariaífem. Surta a noffa frota ho gouernador & ho Marichal fizerão confelho fobre a ordem que terião em dar na cidade, & antes que ho gouernador propofeffe, pediolhe ho mari¬ chal q pois ele tinha ganhada na índia muyta hõrra, & podia ainda ga¬ nhar muyto mais, que lhe pedia que lhe deífe a dianteira, naqle feyto pera poder ganhar algúa que leuaífe pera Portugal pois a hia bufcar tão longe. Ho gouernador lhe diífe q era contente de lhe fazer aquele fer- uiço, porque a ningue deuia tanto como a ele que ho liurara de feus im- migos & ho reftituira em fua honrra que fizeffe quanto quifeffe, porque ele era gouernador. E outorgada a dianteira ao Marichal foy determi¬ nado q defembarcaífem ãte manhaa, porque a artelharia dos immigos lhe não fizeffe tato nojo, & que foffe a defembarcação defronte do çarame delrey: & q ho marichal & ho gouernador defembarcaífem primeyro q nenhú dos capitães: & que ao Marichal feguiffem os capitães da armada de Portugal, & ao gouernador da índia. O q logo algús teuerão a mao final dizédo que como hi auia duas cabeças logo algúa auia darrar, que pera que era fe não feguirem todos ao gouernador, & ho Marichal leuaífe a diãteira. E ho principal a q ifto pareceo mal foy a Manuel paçanha, que a fora ho dizer diífe que pois aífi era q tudo feria morrer em feruiço delrey com dous filhos que lhe ainda ficauão. Acabado ho confelho, & recolhidos todos a feus nauios aperceberanfe pera ho que auião de fazer, que eftauã muy aluoroçados pera dar na cidade pola fama que tinhã deitar muyto rica. E duas oras antemanhaã toda a gente eítaua embarcada c<5 feus capitães, & caladamente arrancarão pera terra com a claridade da lúa que os alomeaua. E ho regedor da cidade por el rey de Calicut eítaua com fua gente preítes em fuas eítancias efperando polos noffos & tinha mais de trlta mil nayres, & os mais deles frecheiros, & começoufe an- treles muy grãde arroido, aífi da grita da geie como das bombardadas que defparauão como fentirão que os noffos fe chegauão: & erão os pe-
Hijloria da índia 8 louros tão baftos que algíís acertauão nas lanças dos noflos q hião aruo- radas, & a caufa porque não acertauã nos bateis, era porque as eftãcias da artelharia, & o çarame delrey eftauão tão altos que fenhoreauão por cima do màr, & os tiros paffauão por alto, & receado ho gouernador que por hirem aíli juntos como hião lhes fizeííe a artelharia muyto dano, mã- dou cõ confentimento do Marichal que fe efpalhaffem os bateis, porem que cada hú feguiífe a feu capitão môr, & afli fe fez. E como ho gouer¬ nador fe vio apartado do Marichal mandou apertar ho remo aos da fua copanhia pera defronte do çarame, pofto que tinha dada a dianteira ao Marichal: & como eles por lerê da índia fabião melhor a terra q os de Portugal, & mais leuauão feus bateis & paraos enfeuados & os remei- ros mais deftros no officio q os do Marichal, leuarãlhe tanta auantajem que chegarão primeyro a terra: & també porque como ho Marichal foífe defcanfado fobre ter a dianteira vendo que era muyto cedo deixoufe ir muyto de vagar, & por iffo defcayo com os feus abaixo do çarame hú boÕ tiro de berço. Ho gouernador que hia auiado pera terra tãto q che¬ gou poiou nela com fua gente, & não efperou pelo Marichal, vendo q não chegaua n? parecia. E rompendo por antre grãde multidão de bombar- dadas, & frechadas que os noffos não tinhão em cota remeteo com a tran¬ queira: & por muyto bem que os immigos a defenderão, pelejando muy esforçadamente os noffos a entrarão, matãdo & ferindo muytos deles, & por força lha fizerão deixar leuando os diante de íi desbaratados ate ho çarame, q eftaua dali a tiro de béfta, & por fua fortaleza eftaua cheo de molheres & meninos q fe ali recolherã, & guardauãno muytos rnayres com que fe ajuntará os que fugião, & fazendo coeles corpo fizerão roíto aos noffos, que nê por iffo deixarão de os cometer com muyto grande impeto chamando por San&iago: & alli fe começou a peleja, que foy muyto mais ferida que na tranqueyra, porque os immigos fe defendião como homes q determinauão de vencer ou morrer. E afli morrerião bem duzentos deles, & os outros fugirão, & dos noffos morrerá muy poucos: & entre tanto que a peleja duraua algús dos noffos poferão fogo ao ça¬ rame, & ardeo todo com quanto eftaua détro. E acabada a peleja, porq os noffos não entraflem a cidade antes que ho Marichal chegaffe mandou ho gouernador a dõ Antonio de noronha que com outros capitães tomaffe as bocas das ruas que fayão pera aquela parte & as teueffe, porque os não falteafle os immigos: & defpois difto veo ho Marichal.
Livro III, Capitolo III 9 CAPITOLO .III. Do que ho Marichal diffe ao governador, porque defembarcara pri- meyro. E de como ho Marichal entrou a cidade & fe\ grande, mortin- dade tios immigos: & de como foj morto, & os noffos forão desbara¬ tados. E Quando chegou aa tranqueyra vedo o q era feyto, & que não auia ali mais q fazer, dagaítado de lhe parecer que lhe nã goardara ho gouernador a palaura que lhe dera: da primeyra ctrada diffe logo muy foltamente, que mal lhe guardara ele o que lhe prometera. E dizendo outras palauras contrele muy afperas tirou ho capacete da ca¬ beça, & pos hú barrete vermelho que lhe leuaua hú paje, & tomou hú pao na mão: & fegundo eílaua apallionado cuydarão algús q queria ir efpancar ho gouernador, q a efte tempo eílaua armando algús caualev- ros: a que logo foy dito como ho Marichal era chegado, & que fe hia pera a cidade muyto menécorio porque não efperara por ele. A ifto dei¬ xou ho gouernador,os caualeyros, & foyffe pera ho Marichal, que che¬ gando ho gouernador a ele lhe diffe. Que he iílo Afofo dalbuquerque, a voffa palaura he hú pouco.de veto? direis que tomaíles Calicut. Eu ho tomey coefte barreto vermelho, & coelle pao, que nã he mais neceffario pera desbaratar os mourinhos da índia. Ho gouernador por ler Õde era, & tãbe por o marichal ter mais géte que ele, refpõdeolhe mãfaméte: verdade era q ele tomara Calicut, & q fua era toda a honrra: & q fe não efperara que defembarcaffe, fora porq ho vira defcayr muyto abaixo do çarame, & ele ficara tão perto de terra, que fe efperara por ele mata- ranlhe toda a gente com a artelharia: & por effa caufa defembarcara pri- meyro, & não por lhe vfurpar fua honrra. E ele fe não ouue por fatisfeyto coellas difculpas dizendo que erão palauras: & ainda muyto menencorio chamou Galpar ho lingoa, & preguntoulhe fe fe atreuia a leualo aos pa¬ ços del rey de Calicut, porq lâ acharia com que pelejar pois ho não achaua ali: & ele lhe moftrou ho lugar onde eftauão os paços, q feria dali mais de mea legoa porque era no cabo da cidade. E determinado ho Marichal de ir là mãdou defembarcar dous tiros dartelharia dos bateys chamados cães pera os leuar diante, & entregou os a Pedrafonfo daguiar: & mandando dar âs trombetas abalou pera os paços delrey, leuando obra de feyfcentos homés em que entrauão todos os feus capitães, & logo lhe ali differão algús que não deuia de ir aos paços del rey porque erão muy longe, & que a cidade era tão efpalhada, que pera matar gente não auião Tomo II ,
10 Hijtoria da índia de matar mais da que era morta: & que pois lhe tinhão desfeyta fua for¬ taleza, q era ho principal porq forão, & queymarlhe as naos q eftauã varadas, que lhas queymaffem, & recolheffem a artelharia da tranqueyra & do çarame, & roubaffem a cidade por aquela parte: & defpois de va¬ gar paffarião a diante. E ele eílaua tão menencorio que nunca quis fe não hir, mandando dizer ao gouernador onde hia, que fe ho quifeííe feguir que ho feguiffe. E pofto que lhe a ele não pareceo bem a ida do Mari- chal, vendo que hia quis ir a pos ele: & mandou a dom Antonio de no- ronha que ficaífe na praya, aíli pera a goardar como pera recolher a arte¬ lharia da trãqueyra, & queymar as naos dos immigos que eftauão varadas. E mandou a Rodrigo rabelo, & a Manuel de lacerda, & a Simão dan- drade que ficaífem coele com a gente de fuas capitanias, que feriã mais de duzétos homes. E começou logo dom Antonio de mandar fazer o que lhe ho gouernador mandara que fizeffe. Ho marichal que hia pera os pa¬ ços del rey, hia defarmado como dilfe, & dizendo. Quem cuydara agora que ho Marichal vay aífi caminho dos paços del rey & chegando a eles achou muytos nayres recolhidos com ho regedor da cidade, que fe aco- lhiã ali como a fortaleza, & ali foy a peleja muy grande dos noffos cÕ os Imigos, de que forão mortos oytéta, & os outros fugirã, & os nolfos en¬ trarão os paços, q logo começarã de roubar porque auia neles muyta riqueza, & defmandauanfe, efpalhandofe por muytas partes. O que vendo Manuel paçanha diffe ao Marichal q mãdafTe poer fogo aos paços & fe recolhelfe à praya, porque fe ho alTi não fizeffe terião os immigos tempo de fe ajuntar (que ho poderião fazer em breue por fer a terra muyto pouoada) & que fe afíi foffe lhes fariã muyto dano, porque auião dachar os noffos carregados de fato, & que fe não auião de poder defender. Ho Marichal não querendo tomar feu confelho, lhe diffe que bem fabia como pelejauão os mourinhos da índia, & que os fazião em Portugal muyto valentes a el rey feu fenhor, que ele auia de defcanfar & fe recolheria quando foffe tempo. Nefte inftante chegou ho gouernador aos paços, & quando foube que ho Marichal eftaua dentro não quis entrar, & com os feus capitães, & gente que trazia fe pos em hum terreyro que fe fazia diante dos paços pera defender que não entraffé muytos nayres que aco- diã pera entrar: & eftes quando virão ho gouernador le deixarão eftar nas bocas das ruas q ali fe fazião, & tirauão aos noffos muytas frechadas, de que ferirão algús, & hum deles foy Fernão perez dãdrade que foy ferido em húa perna, & por iffo fe entrou nos paços com outros. E affen- tandofe em hum alpendre, foy ter coele ho Marichal, que hia muyto can- fado & afrontado: & pedindo que lhe deffem de beber, hum dos noffos lhe deu húa cabacinha com vinho de que bebeo. E nifto lhe derão hum
Livro III, Capitolo III 11 recado do gouernador que dizia q fe recolheífe que era tempo, porque carregauão muytos immigos: & como dali à praya era longe que os poe- rião em afronta antes que lâ chegaflem. A que ho Marichal refpondeo, que fe foíTe ho gouernador entre tanto na dianteira, porque ele ficaua poendo fogo aos paços, & que lhe hia na trafeira. Ho gouernador man¬ dou logo os feridos diãte, porque não embaraçaffem os fãos fe ouuefTem de pelejar. E indo na trafeira de fua gcte abalou pera a praya, & ho Ma¬ richal mandou logo poer fogo aos paços, em que aueria bem duas oras que eftaua. O que vendo os mouros fe tornarão a fazer em corpo. E em ho gouernador abalando fe defcobrirão por bocas de traueífas, & por de¬ trás de valos dortas que enteftauão naquele caminho por onde ho gouer¬ nador hia, & outros fe defcobrirão junto dos paços, & tirauão aos noffos frechas fem coto fem fe bolir donde eftauão. O que fintindo os noffos começarão de bradar hús aos outros que fe recolheffem porq andauão efpalhados: que foy neles tamanha a cobiça de roubar q muytos eitauão metidos polas cafas dos mouros & deixauão as lanças ás portas pera hi- rem mais defpejados, & fe carregaré melhor, não lhe lembrando que podiã os immigos que erão muytos tornar fobreles, como tornarão & polas lanças dos noffos q vião ás portas conheciã os ímigos eftaré détro, & efperauãnos & ao fayr os matauã com as fuas mefmas lanças, & era a reuolta muyto grande, affi da grita da géte como do fogo que ardia muy brauo: & ho Marichal fayo ja com algúa afronta quafi nas coftas do gouernador, & ali ho cercarã os immigos tirandolhe muytas frechadas, & azagunchadas darremeffo, com que tratauão tão mal os noffos que fe começarão de desbaratar, & os immigos carregauão de cadauez mais fobre os noffos, ém tanto que foy forçado ao Marichal voltar a eles com ate trinta dos noffos, fidalgos & caualeyros porque ho defapreffaffem: & os immigos que virão tam poucos defcarregão fobreles com grande ím¬ peto, & antes que ho fizeflem dous nayres fe apartarão hum pouco do corpo dos feus, & ficando & ãtreles os noffos, poferão no chã os efcudos & agomias & fe abraçarão, como que fe efpedião hum do outro. E tor¬ nando a tomar as armas remeterão eles foos aos noffos, & matarã algús primeyro q os mataffem, & logo arremeterão os outros. E nifto bradarã Baftiã de Soufa & Ruy freyre (que erão dos que ficauão com ho Mari¬ chal) dizendo à gente que voltaffem, que pelejauã os capitães môres, por¬ que coifto acodiffem ao Marichal. Mas ninguém pode acodir, ou nã oufou, por os immigos ferem muytos, & porque os frechauão fem piedade, & todos fe queriaõ acolher: & fe ho gouernador não fora diãte todos fugi¬ rão fem vergonha, nem ho gouernador não pode acodir pola defordem que a géte trazia. O que vedo os immigos çarrarã de todo com ho Ma-
12 Hijloria da índia richal, & com os que ho ajudauão, & chegauanfe a eles tão fem medo que lhes decepauão as pernas por as leuarem defarmadas: & tamanho defejo tinhão de os matar, que com quanto os nolíos os atraueffauão com as lanças, affi palTados de parte a parte corrião por elas ate chegar a eles, & os decepauã. E adi decepados matará ho Marichal & Manuel paçanha muytos mouros, & defpois cayrão mortos. E bem pronifticou Manuel paçanha fua morte no que dilTe eftando no porto de Calicut: & affi acabou com quatro filhos que lhe ja tinhão mortos em outras bata¬ lhas, como contey atras, & de cinco que leuou á índia efcapou ho mais moço, que fe chamaua Ambrofio paçanha, que também aqui ouuera de acabar fe ho não mandara ho anno paliado pera Portugal, porque lho não mataífem como aos outros, & ficalfe dele algum filho que perpetuaífe fua geração. Morteo aqui também Vafco da filueira que ho fez como va¬ lente caualeyro, que ferido de muytas frechas fe topou na boca de húa traueffa com trinta nayres, & cometendoos com muito esforço matou tres com a lança, & paliando auante foy morrer com ho Marichal: com quem tambe os mouros matarão Ruy freyre, Pero fernandez tinoco, Francifco de miranda chichorro, Felipe rodriguez, & outros a que não foube os nomes ate treze todos fidalgos & caualeyros, que todos morrerão como muyto valentes homés, dando fuas vidas polas de muytos mouros que matarão primeyro que morreffem, fem lhe ho gouernador poder focorrer pola caufa que dilfe. E vendo ele a multidão dos immigos que carregaua, & por fer ho lugar por onde hia muyto eftreyto pera voltar tanta gente, & por os noffos começarem de fugir com medo do que acontecera ao Marichal não fe quis deter & profeguio auante palfandofe â dianteira por confelho dos fidalgos que hião coele pera ter a gente que fe defmandaua & fugia, & eles ficarão na trafeira. E ho confelho foy muyto boõ pera ho tempo, porque ainda cÕ fe ho gouernador paffar â dianteira, era ho medo tama¬ nho nos noffos que não deixauão fugir por os immigos os perfeguirem, & apertarem muyto de todas as partes, affi por abertas q fayão ao cami¬ nho como por de cima dos valos das hortas que enteftauão nele, que erão tão altos que os mouros ficauão fobre os noffos & os ferião: & tão bra- uamente carregarão fobre ho gouernador que ho. fizerão deter. E aqui foy húa braua & afpera peleja, em que foy morto Gonçalo queymado alferez, & affi outros muytos feridos & antreles ho gouernador de duas zagunchadas, húa no braço dereyto de que defpois ficou aleijado & outra no pefcoço, & efta foy pequena. E andando affi ferido veo hum pelouro de bombarda da parte dos immigos e deu-lhe nos peytos, & em lhe dando chamou ele por noffa fenhora de goadalupe, tão deuotaméte que rogou a noffo fenhor que lhe não fizeffe mal, como não fez mais que derribalo
Livro III, Capitolo III i3 no chão. E em memória deite milagre mandou éle defpois eíte pelouro (que parece que algú feu criâdo recolheo) a nofla fenhora de goadalupe, com mil cruzados defmola, pera fe comprar renda com que ardefle pera fempre húa alampada diante da imagem de noífa fenhora, & eftà elta alampada antre as alampadas dos reys. E os frades do mofteyro de nofla fenhora de goadalupe té eite milagre efcripto com outros muytos que noflo fenhor tem feytos por rogo de lua gloriofa madre, & ho leem aos eltrangeiros que ali vão em romaria, principalmente aos Portugue- fes. E caindo ho gouernador da pancada que lhe deu ho pelouro, em ele caindo acodirão muytos inimigos pera ho matar, & fizerãno fe não fora Dinis fernandez de melo, & Antonio de foufa de Santarém que ho defen¬ derão com rnuyto esforço. E bradando algús dos noffos que matauão ho gouernador, acodirão os fidalgos que hião na trafeira, & com lua che¬ gada fe afaltarão os inimigos. E ja a eíte tempo ho gouernador eítaua polto fobre hum pades, & tinhãno âs coítas hum Fernão caldeira feu paje & outros. E eítando ele em feu acordo dillé aos fidalgos que não era nada, & afli abalarão pera a praya. E coiíto que aconteceo ao gouernador aca¬ barão os noflos de fe desbaratar: & fem os fidalgos os poderem ter fugião a quem rnais podia^ & os inimigos a pos eles, ferindo & matando. E indo coelta afronta tamanha, hum fidalgo chamado lluy galuão filho de Duarte galuão tomou âs coítas hum Aluaro vaz que fe lhe encomendou, porque de ferido não podia andar: & ele como rnuyto esforçado caua- leyro que era ho faluou, leuando ho âs coítas ate a praya, nã lhe lem¬ brando ho perigo de fua vida, & valeo aos noffos que era a praya perto: que fe fora mais longe poucos ouuerão de efcapar dos noflos fegundo hião desbaratados: & ainda ouuerão de morrer os mais fegundo os mouros hião apertando, fe não fora por dom Antonio, Rodrigo rabelo, & os ou¬ tros capitães que eítauão na praya, que vendo os afli lhes acodirão logo, & Rodrigo rabelo foy ho primeyro que acodio a dom Ioão de lima & a Antonio pacheco que hião cercados de muytos nayres, & tão feridos que le não podião defender & também de canfados. E vedo os inimigos ho focorro que acodia aos que leuauão de vencida teueranfe com medo das elpingardadas que os do focorro tirauão, & afli da artelharia das galês que logo começou de jugar, & com quanto fe os inimigos teuerão hião os noflos tão defatinados, que muytos não parauão ate ho mar a que fe deitauão, que com defatino do medo não vião as galês a que fe podião recolher fem nadarem. E porque fe não lançaflem mais ao mar mandou dom Antonio a Simão martinz, & a Diogo mendez capitães das galés que le recolheflem a elas pera recolherem nelas a gente, & afli ho fizerão: & entretanto embarcarão ho gouernador rnuyto fraco. E como foy embar-
14 Hijloria da índia cado Fernao caldeira aruorou ho feu guião & começou de bradar muyto alto, dizendo que ho gouernador era viuo que fe recolheífem todos, & affi ho fazião: & também porque dom Antonio, & Ruy da cunha & Ro¬ drigo rabelo efteuerão na praya ate que os noífos forão todos recolhidos. E ho derradeiro que fe recolheo foy Iorge botelho do pombal que andaua com Rodrigo rabelo, que apanhou muytas armas daqueles que as deixa- uão pera fe lançaré ao mar: & vendo ficar hú arnes tornou por ele, porq não ficaffe aos Imigos. E por fer ho perigo grande que eftauão eles perto, & em terra não auia dos noífos fe não ele, começarão de lhe tirar lanças darremeífo do batel de dom Antonio, & do de Ruy da cunha porque fe tornalfe, & não querédo ele fem leuar todas as armas ho mandaua dom Antonio prender: o que Rodrigo rabelo não confentio, dizendo que antes perderia quanto tinha del rey que prenderenlhe aquele homem, & não lho prenderão. CA PI TOLO .1111. Do dano que receberão os noffos dos inimigos, & do que os immigos receberão deles, & do mais que paffou. ACabados os noífos de embarcar, que era ja bem noyte, defpois de curado o gouernador, & os outros feridos, q forão muytos, mãdou ele faber pela frota os que falecião, & achoufe que falecião fetenta & oyto homens .f. ho marichal, Vafco da filueira, Manuel paçanha, Ruy freyre, Lionel coutinho, Frãcifco de mirãda chichorro, Felipe rodriguez, Pero fernandez tinoco, & outros capitães, fidalgos & caualeyros ate vinte, & os outros erão homés não conhecidos. E porto q efta perda foy muyto grande, os immigos a receberã muyto mayor, porq lhe foy queymada a mayor parte da cidade: & nas cafas, & no çarame del rey forão quey- madas quinhentas & fetéta almas antre molheres & meninos, & forão mortos a ferro mil & cento & trinta homés de peleja, fegúdo fe defpois foube pelos mouros de Cochi, & de Cananor, q ho fouberã dos de Cali- cut: & foy tomada toda fua artelharia, & queymadas vinte naos nouas q eftauã pera ir a Meca. E fe não fora ho desbarato dos noífos ganharão eles muyta honrra: & todauia fizerão hú feyto notauel, porq defta vez ficou ho poder do çamorim abatido de todo, & os mouros da índia en- uergonhados, porq erão dantes tão foberbos cÕ Calicut, & confiauão tãto em fua fortaleza, que não fomente lhes parecia que a não auiã os noífos doufar de cometer, mas ainda falando & muytas vezes fem propofito dizião, hiuos a Calicut: Adi q recolhidos os noífos ho gouernador fe alar¬ gou de terra & furgio ao mar pera dali deípedir pera Portugal a Pedra-
Livro III, Capitolo V iS fonfo daguiar, que por morte do Marichal ficaua por capitão mór da fua armada. E refufando Pedrafonfo de fe partir dali, dizendo que tinha ne- ceffidade de tornar a Cochim pera defpachar fua armada, diffelhe ho go- uernador q era ja tarde, & que as naos que eítauão em Cochim por car¬ regar que erão muytas, & poderião fazer tãta detença, que por ler muyto fora de moução quando partiffem inuernariã em Moçambique, que feria grande deferuiço delrey íeu fenhor, por iífo q fe partiífe com tres que ali tinha carregadas, & q em CochI lhe defpacharia logo outras tres q no¬ meou, & q as outras era feruiço del rey q ficaífé na índia cõ a gente q fora nelas, & cõ a artelharia, por quanto Duarte de lemos q andaua na outra cofta lhe mãdaua pedir a armada, & dãdolha, ele ficaua fem nenhúa armada, o q feria caufa de fe perder a índia, por quã foberbo ficara el rey de Calicut polo desbarato dos nofios, & q fe ho vifTe fé armada hiria tomar CochI por iffo era feruiço delrey q lhe ficaffé as naos, & géte q dizia. Ao q querédo Pedrafõfo cotrariar, o gouernador lhe dilfe q ele hia cotra ho feruiço del rey, & que aíli ho auia de efcreuer a fua alteza: & mais q leuando a feu cargo dous cães pedreiros quãdo fora com ho Ma¬ richal aos paços del rey de Calicut os deixara lâ, & fugira q os auia de pagar: & coifto lhe pos outros medos, q não fométe Pedrafonfo fe calou a tomarlhe ho gouernador a armada, mas a tudo o que dali por diãte lhe quis tomar, q ate as trõbetas lhe tomou, & fe ele queria cotrariar pregú- taualhe logo pelos cães. E coefta armada que ho gouernador reteue ficou ele muyto poderofo, & pode cõ ajuda de nofio fenhor fazer as grandes coufas que defpois fez, o que não fizera fe ho Marichal não morrera, por¬ que lhe não ouuera doufar de tomar a armada, & fem ela ouuera de ficar hum pequeno capitão do mar, & não gouernador. E vendo Pedrafonfo daguiar que não podia leuar a melhor do gouernador deulhe tudo quanto quis, & partiofe com tres naos pera Cananor & dahi pera Portugal. CAPITOLO .V. Do que lio gouernador fe\ defpois que fo/ em Cochim. E de como fe perderão nos baixos de Padua Bafliã de foufa & Frãcifco de faa indo pera Portugal. DEspois de partido Pedrafonfo daguiar pera. Cananor fe partio ho gouernador pera Cochim, onde deu a capitania do nauio que fora de Vafco da lilueira a hum Antão nogueira cunhado de Duarte de lemos: a quem efcreueo por ele, que pelo defaftre de Calicut, & por a armada da índia eftar ainda varada não fe partia logo & lha leuaua:
Hijloria da Lídia 16 porem que fe partiria tanto que foffe deitada ao mar, & que là fe darião as galês como el rey feu fenhor mandaua. E efcreueo a dom Afonfo de noronha feu fobrinho capitão de çacotorâ que eftaua prouido por el rey da capitania de Cananor, rogandolhe muyto que partifle logo, & efcriuia a Duarte de lemos que lhe deffe embarcação fe lha ja não tinha dada. E partido Antão nogueira defpachou ho gouernador pera Portugal Baftião de foufa, & Francifco de faa, & Gomez freyre que tinhão fuas naos car¬ regadas: & indo por fua viajem Baftião de foufa & Francifco de faa que hião ambos juntos forão dar nos baixos de Padua, & por fer ho tépo bo¬ nança não fizerão as naos mais que abrir & aflentarfe na area, & antes que fe encheífem dagoa fe foy a gete nos bateys a hum ilheo que eftâ junto dos baixos, onde fe faluarão com muyto mantimento, & muyta fazenda. E eftando adi por quanto dali era perto a Cananor, & com a bonança que fazia poderião là ir nos bateys, determinarão os capitães de ir neles. E porque ouue deferença fobre quaes hiriã coeles, difle Fernão de magalhães, aquele que defcobrio ho eftreyto de Todos os fan&os, na- uegando de Seuilha pera Maluco, que bem vião que não podião ir todos juntos, & por fe efcufarem brigas que eftauão ordenadas, que foffem os fidalgos & homes principaes com os capitães, & que ele ficaria com os marinheiros & outra gente baixa, com tanto que lhe prometeffem eles de tornar por ele, ou fazer com ho gouernador que mandaffe: o que lhe eles jurarão, & com ficar Fernão de magalhães quis a gente baixa ficar, que doutra maneyra ouuera de auer brigas. E eftando ainda Fernão de ma¬ galhães no batel, ja que fe querião ir, diflêlhe hum marinheiro cuydando que fe arrependia de ficar. Senhor & não prometeftes vos de ficar cõ nofco, dilfe ele, fi, & vedes me vou, & foyfle pera eles, & ficou: em que moftrou muyto esforço, & confiança nos homens. CAPITOLO .VI. Do que aconteceo a Pedrafonfo daguiar em fua viajem, & de como chegou a Portugal. GOmez freyre ho outro capitão de fua conferua feguldo por fua via¬ jem chegou a Moçambique, onde achou ho capitão mòor fazendo agoada. E partido daqui tanto auante como ho cabo das corren¬ tes, fez húa nao chamada a galega húa agoa tão grofla que foy necefTario acodirlhe ho capitão mór, & meteolhe dentro vinte cinco homens, que não podião achar por onde fazia agoa, porque era por debaixo da car- linga: & defpois dachada foy tomada cõ grande trabalho, porem ho lugar
Livro III, Capitolo VII i7 era tão perigofo que pareceo a todos, que pofto que fe tomafle, que pera ficar fegura não fe efcufaua defcarregarfe a nao, porque fe nauegaffe fem lhe fazere efte remedio auia de tornar a fazer a mefma agoa. E por iífo fe determinou em confelho que tornafle a Moçãbique pera fe hi correger. E a gente da nao foy tão aluoroçada com efta determinação*parecendo- lhe que erão perdidos, que todos de hum acordo differão que não auião de confentir que a nao tornaffe a tras fem ho capitão môr tornar nela, & fe não que antes querião q os mataífem Portuguefes, que ferem comidos dos peixes. E vendo ho capitão môr efte aluoroço por não dar lugar a que fe mataffe aquela gente quis tornar na nao: & primeyro que partifle tomou ho nauio a Bras teixeira pera tornar nele, & deulhe a fua nao em q ho mandou pera Portugal, & tornoufe pera Moçambique, leuando con- figo a Gomez freyre, porque fe a nao fe foífe ao fundo fe faluaffe a géte naqueles dous nauios, & teue bem de trabalho ate Moçambique, porque tornou a nao a abrir a mefma agoa. E defcarregada em Moçambique, em a tirando a mõte fe partio pelo meyo que não aproueitou mais pera nada. O que vifto por ele, & que não auia outro remedio fe não deixar ali a carga: mãdou logo fazer dous fornos, em que fe fez muyta cal pera rebocar & argamaífar algúas cafas em q alojou a efpeciaria. E feyto ifto fe partio pera Portugal a oyto de Iunho de mil & quinhentos & dez, que era bem fora de tempo, & chegou a Lisboa cÕ Gomez freyre a dezanoue Doutubro do mefmo anno. CAPITOLO .VII. De como indo ho gouemador pera ho ejlreyto do mar roxo deixou a ida por faber que fa\ião turcos Ma armada na ilha de Goa. FEytas todas eftas coufas que digo, & fendo toda a armada da índia deitada ao mar difle o gouernador aos capitães, fidalgos caualey- ros, & peífoas principaes que andauão coele, que por comprir a prouifam del rey feu fenhor queria leuar a armada da índia a Duarte de lemos que andaua na outra cofta: & que não queria deixar nenhúa na índia por não auer dela neceífidade, por quanto as naos de Calicut que poderão hir a Meca com efpeciaria forão queymadas. E naquela moução eftaua certo: não poderé nauegar de Calicut pera ho mar roxo, porque em Feuereyro, Março ate meado Abril que ela duraua não auião os mou¬ ros de poder fazer outras naos. E todos aprouarão fua determinação, que pofto que afti a dilfelfe em pubrico, a verdade era q ele queria ir fobre Ormuz, & vingarfe da treyção que lhe hi fora feyta (como difle no fegundo Tomo II 3
j 8 Hijloria da índia liuro), & porque fe os mouros nã apercebeflem fabendo fua ida diffimu- laua com dizer que leuaua a armada a Duarte de lemos, & por iffo a leuaua toda & tanta gente. E aparelhandofe pera partir Iorge da cunha, Frãcifco de foufa macias, leronimo teixeira & Luis coutinho lhe differão que eles nao ficarão na índia, fe não por lhes parecer que por fer tarde não poderião paflar de Moçambique, & que por as fuas naos feré de mer¬ cadores eles não erão obrigados a feruir coelas a el rey de Portugal, fe não fe lhes pagaflem, por iflo fe queria que foífem coele que lhes auia de dar outro mantimento a fora o que leuauão de viajem. Ao que ho go- uernador refpondeo, que fe ele poderá fazer o que pedião que ho fizera de boa võtade, mas que bem fabião q não tinha comiffam del rey feu fenhor pera dar mais foldo do que cada hum trazia de Portugal, & por iífo lhes nã podia dar mais do que trazião: quanto mais que ele os não deteuera nem detinha, né ficarão na índia, pelo que compria a el rey feu fenhor, fe não por não terem tempo pera partir, & pois ficauão que não era muyto fazerem aquele feruiço a el rey: & mais que eles não folga- rião que ele foubeífe que ho não quiferão feruir. E defpois de eftes capi¬ tães perfiarem muyto q lhe deífem outro foldo, & não querédo ho gouer- nador dar lho ouuerão de ir coele: que fe partio de Cochim na fim de Ianeiro de mil & quinhentos e dez, leuando a via de Cananor, & deixou por capitã em Cochim Antonio real q era alcayde môr & patrão mór da ribeira, porque leuaua coníigo dom Antonio de noronha feu fobrinho, & leuaua vinte duas velas .f. dezafete naos, de que erão capitães ele, dõ Antonio de noronha, Fernão perez dandrade, Iorge da filueira, Ayres da íilua, Francifco pantoja, Duarte de melo, dom leronimo de lima, Frãcifco pereyra coutinho, Bernaldl freyre, Manuel de lacerda, Frãcifco de foufa maneias, Iorge da cunha, Francifco coruinel, Luis coutinho, leronimo teixeira & Garcia de foufa. E duas carauelas, de que erão capitães An¬ tonio pacheco & Iorge fogaça. E duas galés, de que erão capitães Simão dandrade & Diogo medez, & hum bargantim, de que era capitão Simão martinz. E chegando ele a Cananor deu a alcaydaria môr da fortaleza a Diogo mendez, & a capitania da fua galé deu a Diogo fernandez de beja: & eftando hi chegarã Baftião de foufa, & Frãcifco de fá nos bateis, em que partirão dos baixos de Padua, & differão ao gouernador ho perigo em que ficaua Fernão de magalhães com a outra gente. E pofto q ho gouernador foube q eles teuerã muyta culpa em fe perderem por não guardarem ho regimento que lhes dera, diflimulou coeles & empreftou- lhes dinheiro pera fuas neceífidades, & mãdou a Antonio pacheco por Fernão de magalhães, & polos outros, que os trouue todos a Cananor, onde ainda achou ho gouernador: q partido de Cananor foube a monte
Livro III, Capitolo VII >9 Deli q Frãcifco de foufa, Ieronimo teixeira, Iorge da cunha & Luis cou- tinho o querião deixar & irfelhe, Iduzidos por Ieronino teixeyra que fe foffem todos andar darmada de Ceylão pera dentro, porque ali fe carre- garião de prefas, o que ele fabia de quando fora a Malaca com Diogo lopez de fequeyra, & que dali fem tornarem aa índia fe hirião pera Por¬ tugal, como fizera Diogo lopez. E porque ifto não ouueífe efeyto tirou ho gouernkdor a capitania a Ieronimo teixeyra, & aos outros tomou as me- najens, que não foffem hús às naos dos outros, porque ali fe fazia a com juração, que foy desfeyta coefte atalho. E cofteando ho gouernador dali a cofia foy ter ao porto de Baticalã onde eftauão duas naos de mouros de Meca que forão tomadas pelos noífos capitães, & forão vendidas a hús mercadores da mefma cidade. E eftando aqui ho gouernador lhe foy dado hum recado de Timoja, que compria muyto a feruiço del rey de Portugal verfe coele, que lhe mandaffe logo dizer onde queria que 1'e vif- fem. E per confelho dos noffos capitães foy a vifta no ilheo Donor que eftâ ao mar dele onde fe virão. E Timoja lhe diífe camanho feruidor fora fempre del rey de Portugal, & affi ho era: & por iflò lhe dizia que ho çabayo fenhor da ilha de Goa, & no reyno de Daquem mandaua fazer em húa cidade que eftaua na mefma ilha vinte naos de caftelos como as noífas, de que cinco eftauão quafi acabadas: & affi tinha feytas algúas fuftas com fundamento de fazer húa groffa armada que andalfe por aquela parajem pera pelejar com a fua armada, & com as naos que foffem de Portugal, & com as de noffos amigos, de que ja tinha tomadas algúas, & que tinha artelharia, & muyta & muy boa gente branca todos turcos que fabião bem pelejar, & por iffo lhe confelhaua que não foffe fora da índia, & foffe logo fobre a cidade de Goa, porque eftaua em difpoíição pera a tomar fem perigo, porque ho çabayo era morto, & hú filho que lhe fucedera chamado tãbem çabayo, não eftaua na cidade que era na terra firme a fazer guerra a húa cidade que fe lhe rebelara, & que Ieuara a mayor parte da gente de goarniçã que tinha em Goa, que por efta caufa era muy facil de tomar, & querendo ir tomala iria coele, & leuaria a dianteira, & que as fuas naos poderião entrar no rio de Goa. E fabido ifto pelo gouernador chamou logo a confelho, & propos nele o que lhe Timoja differa: & per todos foy acordado que fe deuia de trabalhar por fe tomar Goa, quanto mais podédofe auer daquela maneira, & por ifto deuia ho gouernador de deixar dir onde hia & ir a Goa, que aquilo pa¬ recia ordenado por noffo fenhor. E de tudo ifto foy feyto hum auto per Lourenço de payua que era fecretario, em que todos aflinarão. E affi foy feyto outro fobre ho gouernador pedir a todos os capitães, fidalgos & caualeyros, que fendo cafo que ele faleceffe na tomada de Goa, que eles
20 Hiftoria da índia ouueflem por gouernador da índia a dom Antonio de noronha ate vir de çacotorà dom Afonfo de noronha feu hirmão, q elréy feu fenhor man- daua que lhe fucedeffe na gouernança, o que lhe todos prometerão, & affinarao ho auto que fe diflo fez. E affentado que fe tomafle Goa, cõcer- tou ho gouernador cõ Timoja que foffe por terra fobre a fortaleza de Cintâcora, em que eftaua hum capitão do çabayo com gente de goarni- ção toda branca, & que trabalhalTe por a queymar, porque aquela gente não foffe focorrer Goa. E concertado ifto, fe partio dali Timoja, & foyffe a Honor, onde junta muyta gete foy fobre Cintâcora indo por terra, & fua armada ho foy efperar ao cabo Darama. CA PITO LO .VIII. De como ejlâ fituada a cidade de Goa cabeça do fenhorio do çabayo. ESta ilha a que nos chamamos Goa, chamão os canarins, q fam os gétios naturaes da terra Tiçoari, foy do fenhorio do reyno de Da- quem, em cuja cofta eftâ a cincoenta legoas de Dabul: nauegando pera ho fui eftâ é dezafeys grãos da bãda do norte fera de fete ou oyto legoas de roda, pouco mais ou menos. Tem duas barras, a principal de que fe feruem eítà na foz de hú rio que fe chama Pangim, & ao longo dele duas legoas da barra eftâ fituada húa cidade que tem ho nome da ilha. E da barra pera dentro da banda da ilha eftaua hú baluarte, onde agora eftâ ho caftelo de Pangim: & da banda da terra firme eftaua outro baluarte & ambos com artelharia. E defronte da mefma ilha de Goa, onde fe chamaua ho vao de Gondalim, q fe chama agora ho Paffo feco fe faz-outra ilha antre a de Goa, & terra firme que fe chama Iúa & he defpouoada: & ho rio q fica antrela & a de Goa he tão eftreyto, & de tão pouca agoa, que com baixa mar fe paffa quafi a pê enxuto: porc ha nele muytos lagartos dagoa, que também ha nos outros rios. E defpois que ho çabayo foy fenhor defta ilha, per? a fortalecer, mãdou que todos os condenados â morte por juftiça foflêm lançados naquele rio com grande foõ de trõbetas & bacias, que os lagartos teuerão por final da ceua que lhe lançauão, porque comem homés, & acodião logo como ou- uião as trombetas, & daqui fe acoftumarão ali, de maneira que fe deixara ficar, & fizerão cafta q ha agora ali muytos, & quem ouuer dentrar por efte paffo Ido da terra firme ha de paffar a Iúa & dahi a Goa. Tem efta ilha outro paffo da bãda do leuãte obra de hú quarto de legoa defte Paffo feco, q fe chama Benaftarim, & dhú paffo ao outro era a ilha cercada de
Livro III, Capitolo VIII 21 muro & baluartes: & ao longo do muro da parte de détro era a terra alagadiça, de modo que ficaua muyto forte, & em Benaftarim eftaua húa pouoação de gentios, como ainda agora eftâ, & aqui he ho rio mais largo que no Paffofeco & vay alargado de cada vez mais ate outro palio q te a ilha que fe chama Agacim onde a trauelfa de mar que ha dela à terra firme, he mais de húa boa legoa, & aqui fe faz outra barra que fe chama Goa a velha, onde a ilha tem húa fermofa praya. E no tempo que efta terra foy de gentios efteue hi a própria cidade de Goa, q os mouros def- truyrão: & foy muyto grade & nobre, fegundo ainda então parecia na forna de cantaria laurada, & em muytos piares que hi eftauão. E nefta barra, ou pera melhor dizer, baya defronte Dagacim, fe vem meter hú rio que vem da terra firme por húa comarca que ha nome Salfete. A mayor parte defta ilha he cercada de rochedo & vafa: a terra é fi he muy fermofa e viçofa de muytos & grandes palmares q dã muito vinho, azeite, vinagre & jagra, q fabe quali como açúcar, & arecaes que dão areca com q fe come ho betele, & é tudo ifto fe faz muyto dinheiro, & tem agora muytos Portuguefes dilfo muyta renda. Ha também muytas hortas em q ha muytas & muy fingulares fruitas da terra, & muytas & muy fàdias agoas: ha muito arroz & outros ligumes & deles diferetes dos noífos & todos pera comer, & ha grãde foma de gergelim, de que fe faz muy bõ azeite q efcufa o noífo, & he em tanta abaftáça que fe faz em lagares como ho noífo. Ha nela muyto gado, de vacas & de bufaros, & muytos porcos & galinhas, & muyto & bõ pefcado, & adi outros muy¬ tos mantimentos da terra & do mar. He muyto pouoada de gentios que fe chamão canarins, hús bramenes & outros doutras calidades, tem muy¬ tas cafas doração de feus idolos a que chamão pagodes: & ha per toda ela muytos & grandes tanques feytos de ladrilho (em que pode nadar nauios) pera fe lauaré os gentios & mouros. Nefta ilha como digo duas legoas da barra pelo rio de Pangim acima, defronte doutra ilha chamada Diuari eftaua fituada a nobre cidade de Goa, não tão polida como agora, poré be arruada & de boas cafas altas de lobrados de pedra & cal & cercada de muros baixos, & tinha boa fortaleza & grandes almazés, & hús paços do çabayo: era pouoada de mouros mercadores eftranjeiros, muy honrrados & ricos todos brancos, & também de gentios naturaes da terra, & doutros filhos de mouros & de gêtias que fe chamauão nei- teás. Era cidade de grãde trato por fer de bõ porto & por hirem a ela muytas naos de Meca, Dadem & Dormuz com grande foma de caualos q pagauã muytos dereytos, q era a mayor parte da réda q rédia a alfan- dega de Goa. Efta ilha cõ as duas q dilfe, & outra chamada Chorão que eftà muyto perto dela erão do fenhorio do reyno de Daquem cujo derra-
32 Hijloria da índia deiro rey a deu cõ eftoutras tres ilhas, & com a terra do Balagate detro na terra firme a hú mouro feu vaflalo que fe chamaua çabayo por fer bõ caualeyro, & manhofo na guerra, pera q a fizefie a el rey de Narfinga feu vezinho: & defpois fe leuatou eíte çabayo como diffe contra el rey feu fenhor quando fe lhe leuantarão os outros capitães que lhe gouerna- uão ho reyno, & defpois que fe ho çabayo leuantou fortaleceo a cidade mais que dantes, & mandou fazer na entrada do rio de Pãgim os dous baluartes que diífe, & ambos bõ artilhados, & tinha neles alcaides & gente branca de goarnição que os goardauão, & adi na cidade em que de cõtino tinha hú capitão cõ muytos turcos de peleja, porq fe não fiaua doutros pera fazer coeles guerra: & tinha a ilha também goardada que ningue não entraua por mar nem por terra fe não cõ muyto grande re¬ cado de goardas que cftauão em todos os paífos q erão Pangim, Agacim, Benaftarini, Gondalim & Daugim. E neftes fe regiftraua todo ho homem que entraua na ilha, & lhe efcreuiã todos os finaes que tinha em feu corpo & donde era, & afti ho deixauão entrar. E ifto fazia ho çabayo porque lhe não fizeflem treiçã, & coela lhe tomafTem a cidade, & afti ho fazia ho filho defpois q lhe fucedeo no fenhorio. CAPITOLO .IX. De como o gouernador chegou â barra de Goa, & de como do Antonio de noronha tomou os dous baluartes da barra. PArtido Timoja, partiofe ho gouernador pera Goa, a cuja barra che¬ gou hú dia a horas de vefpera, & em chegando foy ter Timoja coele, & de caminho deu na fortaleza de Cintâcora, & a tomou & queimou, & nos ilheos de Goa fe embarcou em fua armada, q feria de ate doze cotias em q leuaua boa gente de guerra. Surto aqui ho gouer¬ nador acordou em cõfelho de mandar fondar ho rio pera ver fe poderião entrar as naos como dizia Timoja, & q hiria a iíTo ho piloto mór em hú batel com dom Antonio de noronha q auia de ir tomar ho baluarte q eftaua na ilha de Goa abaixo de Pãgim: & auia dir em húa fufta, & auião dir coele Simão dãdrade na fua, & Simão martlz no feu bargan- tim, & Iorge fogaça no feu batel: & q entretãto q dõ Antonio defle no baluarte da ilha, daria Timoja no outro da terra firme: & vifta a difpo- fição da barra que tornaffe ho piloto mór com recado ao gouernador. Ifto aflentado partirãfe os que auião dir, & tanto que aparecerão começarão os Imigos de tirar dos feus baluartes, & logo Timoja íe apartou com fuas cotias a cometer ho baluarte da terra firme, & dom Antonio cõ os outros
Livro III, Capitolo X 23 capitães cometeo ho da ilha é que eftaua çufogogi hú mouro capita de Goa, que tanto q foube polas vigias q tinha como a noffa frota parecia ao mar receãdo o que foy acodio logo cõ gente de caualo a focorrer a fortaleza de Pãgim, & dahi fe paffou ao baluarte da barra que eftaua abaixo dela, & mandou dar fogo a eífa artelharia que tinha: de que hú pelouro deu na proa da fufta de dom Antonio & leuou hú pedaço dela, & por muy pouco errou de ho matar. E cõ tudo ele com os outros capi¬ tães não deixarão de paflar auante & poiarão em terra, onde ho primeyro que poiou foy Iorge fogaça, & com ho íeu guiã fe meteo antre os immi- gos que erã muytos, & pelejauã cõ muyto esforço âs cutiladas & lãçadas, & os noffos tambe: & nifto foy ferido çufogogi em húa mão cõ húa 1'eta da noffa parte q lha paífou pela palma, & como a dor era mortal não pode mais efperar & faioífe da peleja: o que fintindo os feus fugirão logo & defempararão ho baluarte, ficando algús mortos. Defemparado ho ba¬ luarte os noffos ho entrarão, & tomarão algús mãtimentos, & armas que hi acharão, & dom Antonio mandou recolher os tiros que eftauão nele: & fazendofe ifto chegou Timoja, que també tomou ho outro baluarte, cõ matar algús dos immigos, & tomado o queimou. E ajuntado com dom Antonio fe forão à fortaleza de Pangim onde fe acolhera çufogogi, q vendo quã afinha os noffos tomarão ho baluarte, temendo que fizeffem aili â for¬ taleza por ele eftar tã ferido que nã podia eftar cõ fua géte na peleja caualgou & foiífe pera Goa ho mais fecretamente que pode. E cuydando os immigos que eftaua na fortaleza quiferão defeder a delebarcação aos noffos, & nã poderão por mais que trabalhará, & ferirã os noffos neles tã rijo q os fizerã recolher pera a fortaleza & entrarão coeles & matarão muytos & os outros fugirão fem morrer nenhú dos noffos. CAPITOLO .X. Be como ho gouernador fabedo o que dom Antonio tinha feyto entrou pera dentro de Pangim, & do recado que mandou á cidade. TOmada a fortaleza de Pangim foylhe pofto fogo, & afti à pouoaçã & ardeo grande parte de tudo. E por fer ja quafi noyte dom An¬ tonio nã quis paflar dali, & mãdou recolher a artelharia. E defpois de recolhida q era noyte mandou ho piloto môr com recado ao gouerna¬ dor, afti do que tinha feyto da difpofição da barra, & da fonda que tomara, & no caminho achou ho piloto mòr Nuno vaz de caftelo branco, que por mandado do gouernador hia em hú batel a faber o q era feyto, & õde ficaua dom Antonio: porque quando ele vio ho fumo da fortaleza de Pan-
Hijloria da índia 24 gim que ardia cuydou q era em Goa, por amor do outeiro que eftà fobre pangim, que parecia da barra onde ele cuydaua que era a cidade, por¬ que ainda não fabia onde eftaua. E com quanto Nuno vaz achou ho piloto môr, & foube ho recado que leuaua ao gouernador: todauia ho foy faber de dom Antonio, & fabido tornou ao gouernador, pofto que era pafiada grade parte da noyte. E eftando ja ho gouernador éformado de tudo, de¬ terminou de ao outro dia com a viração mãdar todos os nauios peqnos cõ a mais gente que podeflem leuar: o que logo mandou dizer Nuno vaz a dõ Antonio, & que fe poíeffe acima donde chamão Rabandar, que he auante de Pangim húa boa mea legoa da cidade, & q ali efperaífe ate ele ir cõ os nauios, porque as naos grandes entrarião defpois. E ao outro dia como foy tempo fe partirão os nauios pera onde eftaua dom Antonio, que era onde lhe ho gouernador mandara: & hião coeles muytos pagueres de Cananor, & paraos de Cochim que ho gouernador ali deteuera, pera lhe ajudarem a defembarcar a géte, porque tinha poucos bateys. E aqle dia a tarde defpois de ho gouernador faber q as naos grandes podião en¬ trar pera dentro, tedo tempo, que então falecia: & deixandoas a recado fe foy pera onde eftaua dom Antonio, & achou â fala coele húa cotia que fayra da cidade, em que eftauão algús mouros, que em feu trajo parecião homes honrrados, que como virão furta a galé em q hia ho gouernador, q era a de Diogo Fernandez de beja, abalrroando coela faltarã dentro, & forãfe deitar aos pés do gouernador, beijandolhos: & fazêdo os ele leuantar, lhe diíferão q erão mercadores Dormuz vaffalos del rey de Por¬ tugal, & nauegauão com feu feguro. E fabédo como ele eftaua na barra lhe leuauão refrefco, de galinhas, carneyros, & fruytas q lhe defpois de- rão, & lhe differão como ho capitã de Goa fora ferido na tomada do ba¬ luarte da barra: & por iíTo, & por os mouros veré tão afinha tomados os baluartes, & por auer qa cidade pouca gente darmas, & eftar ho hidal- cão longe defconfiauão os mouros de Goa de fe poderem defender, & de- terminauão de fe lhe entregar fe ele cometefle a cidade.' E por efta noua lhes prometeo ho gouernador aluiçaras, & deixando cõfigo algús deles defpedio logo os outros pera que fe tornaílem â cidade, & diffeífem aos moradores dela que ele não auia de fazer guerra 1'e nã a quem a quifeffe, & fe eles a não quifeífem q lha não faria, mas antes os deixaria viuer liures como viuião, & ainda mais fe mais podeffe fer, & os trataria como a Portuguefes: & lhes quitaria a terça parte dos dereytos que pagauão ao hidalcão. E todos os que tinhão terras, rédas & foldos do hidalcão, ho teueílem como dantes, & ho mefmo vfaria com os pagodes & mezquitas: & q afii mouros como gentios viueíTem liuremente em fuas feitas. Por iífo
Livro III, Capitolo XI 25 ho tere por fenhor, & a ele por amigo. Sabido efte recado por effes hor- rados da cidade, como ja eftauão abalados pera le dar? determinaranfe em ho fazer, & differão a çufogogi, que fe ele quifeffe pelejar cõ ho go- uernador que pelejaífe, porque ho não auião dajudar: dandolhe as rezões porque. E vendo ele ifto não fe atreuendo a defender fe foy da cidade, & paíToufe pera a terra firme, pera fe ir õde eftaua ho Hidalcão. CAPITOLO .XI. De como a cidade de Goa foy êtregue ao governador, & do q fe\ defpois dentrar nela. PArtido çufogogi effes mouros honrrados de Goa e nome de todos os moradores dela mãdarão dizer ao gouernador pelos mouros Dormuz, que eles lhe entregarião a cidade, com condição que alem de todas as feguranças que lhe daua, de q faria hú feguro affinado por ele, lhe feguraria também as fazendas & peffoas, affi dos mouros como dos gentios. O q ho gouernador fez, & ifto fométe aos mercadores & naturaes da terra, mouros, bramenes & canarins: porem que a fazenda dos lafcarins, turcos, & doutra qualquer gete darmas que nã entraffe nefte feguro, & foífe perdida pera el rey, & pera as partes. Do que os mouros forão contentes por não poderem al fazer, & lhe mandarão dizer que ao dia feguinte foffe tomar poffe da cidade: o q fabido por algúa gente darmas que auia nela fugio pera a terra firme. E ao outro dia com a viração fe foy ho gouernador pera a cidade que eftaua dali a tiro de bombarda, & chegãdofe parela começou de fe defcobrir ho porto, em que auia muytas naos de mercadores, & outras varadas & começadas de fazer, & muytas fuftas, & outros nauios. E pelos muros da cidade apa- receo muyta gete, que faya a ver a noffa frota. E antes que ho gouerna¬ dor chegaffe ao cays forão effes principaes da cidade etregarlhe as chaues dela, & fazendolhe fua reuerencia, lhe diffe hú em nome de todos. Efla tua fupita vida, & a tempo que efta cidade eftaua defemparada, affi do hidalcão que foy noffo fenhor, como dos lafcarins que a goardauão, nos faz parecer que Deus ta quis dar pera fe acrecentarem com tamanha coufa como efta, as outras muyto grãdes que tu & os frangues tédes fey- tas neftas partes. E pois ele quis mudar ho fenhor a Goa nos outros ho não podemos eftoruar, & ta entregamos. E doje por diante nos fomete- mos ao fenhorio del rey de Portugal, & nos metemos debaixo de teu em- paro, pera que nos trates como a feus valfalos, & nos fauoreças como a teus feruidores. E dizendo ifto lhe deu as chaues, que ho gouernador Tomo II 4
2Õ Hijtoria da índia tomou cõ muyto grade prazer, louuando o que fazião, & prometendolhe o que lhe pedião. E dado muytas graças anoífo fenor pola muy grande merce q lhe fazia: defembarcou no cays aos dezafete de Feuereyro do anno fobredito: & entrou logo na cidade pela porta da ribeyra cõ a gente feyta em efcoadrões, & a bãdeira real, & tanjedo diãte fuas trõbetas. E certo q era muyto pera louuar ho fenor deos vendo entrar os noffos ta pacificamete em húa cidade de mouros ta poderofa fendo os noffos tã pou¬ cos. Entrado ho gouernador na cidade rcpartio logo feus capitães, & gente pelas portas dela, & pelos muros, em q mãdou fazer eftãcias muy bem artilhadas: & a fortaleza deu a dõ Antonio de noronha, porque auia de fer capitão: & ele fe apoufentou nas cafas que forã do çabayo, em q achou muytas molheres do hidalcã, & moças q lhe ali ficarão, & pela cidade muytos & bõs caualos Darabia & da Períia. E é húas grãdes cafas dalmaze q eftauã ãtre a fortaleza & as cafas do çabayo, eftauão muytos mantimétos, muyto breu, muyta eftopa, pregadura & cordoalha pera as naos, & fuftas dos turcos q fe fazião pera a armada q fe orde- naua, o q fe pos em recado: nã fomente o que eftaua dos muros a den¬ tro, mas també no dos muros a fora, afli como na fuftalha, & naos q eftauã varadas, & outras q eftauã quafi feytas, & começadas de fazer: & antrelas eftaua húa quilha cõ codafte & roda, & muyta liação ja pofta, q dizião os noffos q acabada feria de mil & duzentos toneys fegundo ho fundamento da armação, & diffe fe q ja lhe ardera outra daqle tamanho que tinhã feyta na primeyra cuberta. E nefta armada pos ho gouernador grãde vigia, porque lha não queymaffem os mouros, q efperaua de fe aproueitar dela: & defpois difto ouue em feu poder todos os arrédamétos das tanadarias de Goa que tinha na terra firme, & defcobriolhos Crifnâ, q era então moço, & era filho doutro Crifnà, q fora rendeiro daqla terra: & afli ouue os jtés de quanto rendia a alfandega de Goa, & o q fe pagaua de foldo, & mantiméto aos lafcarins q eftauão na cidade. E achou q a alfandega redia doze mil pardaos douro, & as ilhas anexas a ela cinco mil & as tanadarias da terra firme .f. Cafte Antruz, & Bardes rendião feífenta & cinco mil, a fora outras muytas q auia. E vendo ho gouerna¬ dor quão groífa coula era Goa, louuaua muyto a noffo lenor por lha afli entregar, & dizia a feus capitães q da fua mão a tinha, & pois era húa coufa tamanha, afli na abaftança dos mãtimentos como na grãdeza da renda q era muy neceffaria pera conferuação do eftado da índia delrey feu fenor, & afli pera proueito de fua fazenda. E por tanto lhe parecia muyto neceífario q a goardaffem cõ todo ho boÕ recado, & diligencia q podeflem: o q fe não podia fazer fem q inuernaffem ali todos aquele in- uerno, porq cõ fua eftada faria a géte aífento, o q feria ao cõtrairo fe fe
Livro III, Capitolo XII 27 foffe logo por mais géte q deixaffe nela. E aprouado por todos efte pare¬ cer, mandou ho gouernador entrar as naos grandes pera détro, furgirão junto da cidade, & proueo os paífos da ilha, q fe chamão tanadarias, q em nofla lingoa quere dizer almoxarifados, q afli ho fam, porq os tana- dares que eftão neles arrecadão os dereytos das mercadorias q entrão por eles. E eftas tanadarias étregou a algús dos noffos, a que mãdou que nã deixaffem entrar na ilha, né fayr dela nenhúa peífoa fem leuar fua chapa como fe coftumaua dates. E efta chapa era como feio fe não que era aberta de parte a parte, & punhafle cõ almagra, & deu a eftes tana- dares efcriuães, & piães gétios, & afli algús dos noífos pera goarda dos paífos: & deu a capitania de Goa a dõ Antonio, & a feytoria a Frãcifco coruinel, & a alcaydaria mór a Gafpar de payua: & afli proueo outros muytos officios. CAPITOLO .XII. De como o gouernador mãdou duas embaixadas, húa a el rey de Narfmga, & outra a el rey de Vegapor, pera fa\er amizade coeles. PRouidos os officios da cidade, proueo ho gouernador as tanadarias da terra firme, afli pera fe não perderé, como pera fe arrecadar ho dinheiro que fe lá deuia ao hidalcão, q ho gouernador dizia q fe auia de pagar a el rey de Portugal, pois era fenor de Goa cabeça da¬ quelas terras do Balagate. E por quanto as tanadarias erão na terra firme, não oufou dauéturar nelas nhús dos noífos pera os ter là por tanada- res, & quis atétar ho vao cõ gétios, & mouros dos moradores de Goa, fazendo cota que naqles não fe auenturaua mais, que hirenfe cõ ho di¬ nheiro que eftaua ainda no mato, & nã era del rey feu fenhor, & nos noífos auéturauafe a vida, que lhos poderião matar a todos. E a cada tanadar deftes deu hú efcriuão gétio, & quinhentos piães, q todos auião de fer pagos do dinheiro q arrecadaffem: & encomendoulhes muyto q trabalhalfem por irazere a gente da terra a obediência del rey feu fenhor. E porque ele receaua, que por ho hidalcã fer muyto poderofo lhe fizeífe guerra, pera ver fe podia cobrar Goa, determinou de fe liar cõ elrey de Naríinga feu vezinho, pera q ou ho ajudaífe, ou fizeífe guerra, como fazia ao hidalcão, & coiífo lhe eftoruaífe que a não fizeífe a ele: & pera iífo lhe mandou a ébaixada, q lhe ouuera de leuar Pero fernãdez tinoco, q foy morto em Calicut. E fez ébaixador a hú Gafpar chanoca, homem de boa cafta, & caualeyro da cafa del rey feu fenor, que mandou bé acõpa- nhado, afli de géte de caualo dos noílos, como de piães da terra, & todos bé atauiados, & deulhe algús caualos q deffe da fua parte a elrey de Nar-
Hijloria da índia 28 finga. E a inftrução da embaixada q leuaua del rey de Portugal foy, q ele folgaua muyto de ho ter por ^imigo, & que aífi ho feria feu, & man- daua ao feu gouernador da índia que ho foffe, & ajudaífe fempre em fuas guerras contra feus Imigos, pedindolhe licença pera fazer húa fortaleza em Baticalà, porque ali lhe era muyto mais neceflaria que em outro ne- nhú porto dos que tinha, por amor da carregaçã que fe hi fazia pera Or- muz. E o gouernador lhe mãdaua dizer da fua parte, que el rey feu fenor lhe mandara que tomaífe Goa pera ho ajudar mais facilméte cõtra ho çabayo q lhe fizera fempre guerra, & por efta caufa tomara Goa: donde da parte del rey feu fenor lhe mandaua aqles caualos. E fe quifeffe en- téder em cõquiftar ho reyno de Daque, q ele ho ajudaria, & cometeria logo de fazer guerra ao hidalcão. E mãdou mais a Gafpar chanoca que de caminho foífe pela cidade de Vengapor, & falaffe ao rey dela, & lhe deífç de fua parte hú prefente de peças de borcado & dezcarlata, pedin¬ dolhe, que pola amizade que tinha cõ elrey feu fenor, lhe deixaffe cõprar em fua cidade duzentas feelas, & outras tãtas cubertas pera caualos, de que tinha neceffidade, & em companhia de Gafpar chanoca, mandou ho gouernador hú frade de fam Francifco chamado frey Luis, pera que vilfe fe podia conuerter el .rey de Narfinga a noffa f&ã fee. E indo Gaf¬ par chanoca por Vêgapor deu ho prefente a el rey, que 1’e elcufou de dar licença pera fe compraré as feias, & cubertas, dizendo que a não podia dar fem confentimento del rey de Narfinga. E profeguindo Gafpar chanoca feu caminho, chegou a Bifnegar, õde eftaua elrey de Narfinga, que ho mandou receber cõ grande folenidade, por fer embaixador de que era, & fezlhe muyta honrra, & recebeo cõ muyto prazer a ébai- xada, & prefente: & moftrou grande contentamento do gouernador ga¬ nhar Goa. Poré defpois fe foube que lhe pefaua porq auia medo aos noffos, & pareceolhe que tendo eles Goa lhe não hirião nenhús caualos Darabia, & da Perfia, como hião quando era de mouros, & tudo ifto diífi- mulou, mas não defpachou ho embaixador dali a grande tempo. CAPITOLO .XIII. De como fortalecendo ho gouernador a cidade de Goa ouue húa amotinação antre os noffos, & por cujo confelho. ENtendédo ho gouernador c fortalecer, afli os muros da cidade pera os fazer mais altos como a fortaleza, ordenou, que pera mais bre- uidade, & a obra fer mais forte que os noffos a fizeífem, & repar- tioha per quartos pelos capitães, a que mandou que defle a cada hú mefa
Livro III, Capitolo XIII 29 aos de fua capitania. E pera efte lhe ordenou hú tato e dinheiro gafto cada mes, fegundo a gente a q auia de dar mefa. E juntamente coefta obra mandou acabar as naos que eftauão começadas, & todas as defpefas deltas obras fe fazia do dinheiro q fe auia das tanadarias da terra firme que eítaua a obediência del rey de Portugal, porq aquela gente não he fe não de viua que vence, & tanto lhe daua pagarem aos nolíos como aos mouros, & por iífo pagauão fem trabalho, & liião a Goa tomar feguros do gouernador. O que ele vendo, & tendo a coufa por mais fegura tirou os tanadares mouros, & mandou em feu lugar algús dos noífos de baixa forte: & eftes arrecadauão os dereytos, & os mãdauã a Goa à feytoria. E vendo Timoja como as tanadarias eítauã pacificas por el rey de Por¬ tugal pedio ao gouernador q lhas arredafle, & que ele tomaria a goarda delas fobre fi, & cõ efla condição lhas arrendou ho gouernador por qua¬ renta mil pardaos douro. E andando ho gouernador ocupado neltas-obras que digo, começarãfe de agaltar algús capitães cõ ho trabalho que era muyto grande, porq nã fomete trabalhauão de dia, mas vigiauão de noyte, que ho gouernador nã fe fiaua da gente da terra. E dos capitães que fe mais agaftarão foy Ieronimo teixeira, Luis coutinho, Iorge da cunha, & Francifco de foufa maneias, q mais cõ vergonha que com vontade fegui- rão ho gouernador: a q apertauã muyto que lhes deífe liceça pera fe hire pera Cochim, porque tinhã neceffidade de inuernar lá, pera ho corregi- mento de fuas naos. O que ho gouernador dillimulaua, & dilataua a re- poíta, pola neceffidade q tinha deles & de fua géte. E affirmoufe que quando Iorge da cunha vio que ho gouernador lhe não daua licença, que lhe amotinou a géte ao que ho ajudauão dous da fua capitania, hú cha¬ mado Efteuão bayão, & outro Francifco de figueiredo. E prouocarão obra de nouecentos homés q nã comeffem âs mefas de feus capitães, & q lhes pediffem hú cruzado pera cada mes, & não lho querendo dar q roubaffem a cidade, & lhe pofeífem fogo. Do que fendo ho gouernador auifado deu em húa cafa, em q eftauão juntos quafi todos eftes cõjurados, de que pré- deo algús, & defpois por fer ho tépo que era os foltou, & por fe achar que Iorge da cunha era mais culpado que eles, pelo que fizera, & ho não auia de caftigar como merecia. E dali por diante nunca aqueles capitães ceffarã de fazer requerimentos ao gouernador, pera q os deixalfe ir: & por ele nã querer darlhes licença, fe pubricauão por muy agrauados dele. E durando eftas coufas teue ho gouernador recado q no porto de Bati- calá eftauã carregãdo certas naos de mouros fem teré feu feguro, & di- zédo feus donos que lho não auião de pedir: & por iífo ho gouernador as mandou tomar por Fernã perez dãdrade, Simão dãdrade feu irmão, & por Iorge da filueira, & eles não acharão mais de duas, & tomarãnas
3o Hijloria da índia carregadas darroz, & daçucar. E fabédoho logo ho gouernador, deu liceça a Ieronimo teixeira cõ fuas importunações q foffe inuernar a CochI, & tornoulhe a capitania da nao q lhe tinha tomada, & mãdoulhe que paífaífe por Baticalâ, & leuafle as duas naos de mouros q os nofTos tomará, & as entregaífe em CochI na feytoria: & ele ho fez |aífi, & foyífe coele Iorge da íilueira, ainda que foy contra ho regiméto que tinha do gouer¬ nador que era que tornaífe a inuernar a Goa, & diffe fe q Ieronimo tei¬ xeira lho fizera fazer: mas ele deu por efcufa q ho feu piloto, & medre fe nã atreuerã a leuarlhe a nao a Goa por fer ja luerno, & fer muyto mâ de bolina: & Fernã perez & feu hirmão tornara a luernar a Goa. CAPITOLO .XIIII. De como Antão nogueyra tomou húa nao de mouros no cabo de Goar- dafum: & de como leuando dô Afonfo de noronha pera a índia fe perdeo na cofia de Cambaya, & morreo dô Afonfo, & os outros forã catiuos. ANtÃo nogueyra que ho gouernador mandou de CochI cõ recado a Duarte de lemos, chegou a çacotorà, onde ho não achou, q era ido a Melinde muyto doente pera fe curar, por fer a terra de bõs âres, & çacotorá muyto doétia. E quando fe partio deixou mandado a Frãcifco pereyra de berredo capitão do nauio fam loão, q leuaífe pera a índia a dõ Afofo de noronha: & defpois de chegar Antão nogueyra de CochI fe perdeo ho nauio de Frãcifco pereyra cõ tempo que deu â cofta: & def¬ pois difio embarcou, dõ Afonfo, & Francifco pereyra cõ Antão nogueira pera hiré darmada ate q tornaífe Duarte de lemos de Melinde. E an¬ dando antre ho cabo de Fartaq, & ho de Goardafum, toparão húa nao de mouros de Cãbaya da cidade de Reynel. E vedo eles que os noffos os querião tomar poferanfe em deféfam, porque erã muytos, tirandolhe âs bombardadas, com que fe defenderão bé quatro oras q não lhe durou mais a poluora q trazião, & por lhe falecer os poderão os noífos abal¬ roar: & defpois de abalrroados foy a peleja muyto mais afpera que dan¬ tes com muytas pedradas, frechadas & arremedos de lanças que os Imi- gos tirauã, & os noífos trabalhauão quãto podião polos entrar, mas nunca poderão ate q aos mouros fe lhe não acabou todo ho almazé cõ que fe podião defender. E defpois que não teuerão cõ que tirar tirauão cõ peda¬ ços de jarras, & cõ panelas de manteiga quéte feruendo. E em quanto ouue cõ q pelejar fempre pelejarã: & de muyto feridos & canfados, forão entrados dos noífos, que em toda efta peleja não receberão nenhú dano.
Livro III, Capitolo XIIJI Sr Entrada a nao achoufe nela muyta & muy groffa riqueza, porque auia cinco ãnos fegundo os mouros dilferão que andaua tratando fora de Cam- baya. E por çacotorà não ter porto pera aquela nao inuernar fegura- mente, que era ja boca de inuerno, pareceo be a dó Afonfo, & a Antão nogueyra & aos outros que arribalfem â índia, & que là inuernariã. E auido eíte confelho, pera q a nao dos mouros folie fegura, paliarão ho capitão dela, & eífes mouros principaes ao nauio Dantão nogueyra: & na nao dos mouros poferão por capitão a Fernão Iacome cunhado de dó Afofo, & derãlhe algús dos noífos pera hire coele, & affi fe partirão cami¬ nho da índia, indo dõ Afofo no nauio Dantão nogueyra, que por a nao andar pouco efperaua por ela: & nillo fe deteuerão tãto, mais do que fe ouuerão de deter, que quafi começaua ho inuerno na cofta da índia. E indo alamar tanto auante, como Baticalà, deulhes hú téporal de vento por dauante muyto grande, & não podédo a nao fofrer ho payro ouuerã dar- ribar: & coefta preífa ho piloto mouro leuou a nao a Dabul, Õde fe per- deo na cofta. E Fernão Iacome, & os outros forã catiuos, & leuados ao tanadar de Dabul, que os mãdou ao Hidalcão feu fenor & ho nauio cor- reo ate a enfeada de Cãbaya, & perdeofe defrõte do lugar de Damão Õde deu em hú baixo, de q os nolfos ficarão fem efperança de faluação, por ler a terra de Imigos. E cõtudo temendo dõ Afonfo mais a morte do mar que a da terra, lançoufe logo a ele em húa boya do nauio pera efcapar nela, cÕ quãto lhe todos diíferão q ho nã fizeífe, porq ho rolo do mar era muy grande & que ho mataria, mas ele não quis fe não lançarfe: & dize que aconfelhado de dous mouros, que lhe dilferã que eles ho faluarião. E affi fe lançou tãbe hú frade de fam Frãcifco q hia coele de çacotorà, que fe chamaua frey Antonio do loureyro, q hia por cuftodio â índia pera lâ fazer mofteiros da fua orde. E indo dõ Afofo pera terra na boya, & che- gãdo a ela a refaça dagoa que era grande ho tornaua ao mar, & ho rolo que era muyto mayor reuolueo a boya fobrele & deulhe na cabeça, & tantas vezes lhe fez ifto que ho matou: poré frey Antonio efcapou & fayo a faluo. E affi Francifco pereyra, Diogo correa, & os outros que fe lãça- rão defpois que ho mar affeífegou, & foranfe a terra onde forão catiuos pela géte dela, por mãdado dhú capitão delrey de Cambaya que ali eftaua em húa pouoação, que os eftaua efperando. E efte capitão que fe cha¬ maua Miacoje, era cunhado do capitão da nao dos mouros em q fe per- deo Fernão jacome, q como diífe hia nefte nauio, & como ele deu em feco fugio a nado pera terra, & contou a Miacoje como os nolfos lhe tomarão por força a fua nao, & por ifto fe aluoroçou a gente da terra tanto contra os nolfos que os querião matar a todos, & efcaífamente Mia¬ coje os pode faluar em húa cafa, onde os mandou goardar por fua géte:
Hiftoria da índia 32 & ifto por amor de hú mouro granadi q ali eftaua q auia nome Cideale, q vedo os noffos fe foy a Miacoje, & lhe diffe q os não confentiíTe matar, nê que recebeffem nenhú dano, porq Meligupim fenor daqla terra, & grande priuado del rey de Cãbaya, ho não auia de auer por be, porq ele trataua cõ mais de trlta naos que lhe os noíTos podião tomar em vingança, & ainda por efTa caufa hiriã fobre aqle lugar, & ho queymariã, q lhes lebraffe o q ho viforey fizera 6 Dabul por menos q aquilo. E q tãbé el rey de Cãbaya por rogo de Meligupim mãdaria queymar aqle lugar, por iflo q não boliffe cõ os catiuos, fe não q lhes fizeffe honra: & porq fabia que el rey de Cãbaya & meligupl folgariã de faber q eltauão ali aqles catiuos fe hia logo a Chãpanel pera lho dizer. E por ifto q Cideale diffe a Miacoje, teue ele muyto grãde cuydado de goardar os noffos, & teue bê que fazer em os deféder da gente da terra, de q muyta parte fe foy â cafa onde eles eftauão pera a queymaré, & bradauão q lhos deffem: & os noffos eftauão em grande agonia vendo quanto fe trabalhaua por fua morte. E nifto os foy ver Cideale, & em entrando lhes diffe em cafte- lhano, Deos vos falue Chriftãos, esforçay, porq eu vos ajudarey em tudo o q poder, porq fey q foys de muyto preço, & homens hõrados: & efpero de fazer por vos mais do q fez Cideale ho torto pelos catiuos q catiua- rão em Diu, & eu não fam turco fe não granadi: & diffelhes como fe hia a Champanel a dar cota de feu catiueiro a Meligupl feííor daqla terra, & ho mais q differa ao capitão q os goardaua. E encomedãdo os a Deos fe partio pera Chãpanel, onde contou a Meligupim o q paffaua acerca dos noffos. E porq ele defejaua de feruir a el rey de Portugal, & ter amizade cõ ho governador, cõtou logo a coufa a el rey, & fez coele q mãdaffe pelos noffos, pera q efteueffem ê fua corte, & q lhes mãdaffe arrecadar a fazenda q os da terra ouuerão toda antes q fe ho nauio desfezeffe. E elrey de Cãbaya ho fez afli, & mãdou recado ao feu capitão q a ouuelfe: & ele fez grandes diligécias fobre a auer, & aos q foube q a tinhão m㬠dou dar muytos tormentos, afli pera confeffare fe tinhão mais como porq lha não derão pera el rey de Cãbaya pois era fua por coftume do reyno. E coefta diligécia fe cobrou toda a fazenda & fe pos é recado, & afli efteue ate q defpois fe entregou a feus donos quãdo fayrão de catiueiro (como direy a diante) E é quãto fe ela arrecadaua Miacoje mandou os catiuos a Chãpanel, faluo a Frãcifco pereyra de berredo q eftaua doéte, & a outros fete q ficarã coele: & a ele fazia Miacoje muyta honra por amor do capitão feu cunhado, q lhe rogou que afli ho fizeffe, porque quando hião pelo mar hú noffo marinheiro lhe quifera dar cõ hú pao, & Frãcifco pereyra lho tolheo, & ainda efpancou ho marinheiro & daqui ficou ho mouro feu amigo: & por iffo Miacoje lhe fazia muyto gafalhado.
Livro III, Capitolo XV 33 E eftando ali naquele lugar mandaua aos noflòs que apanhaífem os caua- cos de húas naos que fe ali fazião del rey de Cãbaya, & deu ho cuydado de mandar os outros a Francifco pereyra. E auendo dous mefes que erao catiuos forão leuados com os outros â corte del rey de Cãbaya, Õde efte- uera ate que fayrao de catiueiro, como direy a diante. CAPITOLO .XV. De como ho Hidalcão fe partio com grande exercito pera tomar Goa: & como Timoja foy lançado das tanadarias da terra firme. CHegado çufogogi capitão que foy de Goa em tempo dos mouros ao hidalcão, contoulhe como os noífos a tomarão, & como as tana¬ darias da terra firme eftauão por eles: o que ho Hidalcão fentio rnuyto por fer coula tão principal de feu fenhorio & temerle que dali lhe conquiftaífem a terra firme, & por ifto determinou de a tomar logo, o que lhe pareceo que poderia fazer facilméte porque tinha muy groífa gente, & ho gouernador rnuyto pouca: & mais que fe a géte da ilha foífe da fua parte, como efperaua q não auião os noífos de ter mantimentos, aífi por os não poderem auer da terra por ele fer fenor do cãpo, como por os não po- deré auer per mar, porq por fer inuerno não fe podia nauegar a coíla da índia, & tãbem por os noífos nã poderé fayr de Goa: por efta rezão fazia conta de os tomar a todos, & a frota q tinhão, & apagalos de todo na índia. E coefta determinação fez paz cÕ el rey de Narfinga, que foy diífo contéte, pofto q nefte tépo tinha ouuida a embaixada q lhe leuou Gafpar chanoca que não foube nada da paz do Hidalcão cõ el rey tão fecreta- mente fe fez, & el rey ho trazia em dilações fem lhe refponder ate ver fe ho Hidalcão tornaua a tomar Goa, pera q fe a não tomaífe étão acei¬ taria a amizade del rey de Portugal pelo dano que lhe podia fazer de Goa, & fe a tomaífe efcufaria a amrzade, porque fabia que lhe não era neceífaria fe os noífos teré Goa. E por efta caufa não quis tãbé el rey de Vengapor dar licença pera a compra das feelas & cubertas é fua terra. Feyta efta paz partiofe ho Hidalcão pera perto de Goa, & dali mandou recado aos mercadores de Goa, & a toda a outra géte da terra da deter¬ minação q leuaua, & as caufas que ho mouerão a tomar aquela emprefa, rogãdolhe q ho ajudaífem leuantandofe cotra os noífos. E eles lhe manda¬ rão prometer que entrando qualquer capitão feu na ilha fe leuantarião logo cõtra os noífos, porque eftauão os mouros rnuyto efcandalizados do gouernador, porque mandara matar hú feu caciz homé rnuyto horado atreles, & de grande credito, & mandouho matar polos feus alabardei- Toho 11 5
34 Hifloria da índia ros, porque foy certo q indofe húa moura fazer Chriftaã à cidade eíte caciz a afogou, porque a não pode tirar daquele propofito. E tédo ho Hi- dalcão certeza dos mouros & gétios que fe leuãtarião cõtra os noffos, abalou pera a fralda do mar cõ feu arrayal, que era de muyta gente & foy ter â ferra que fe chama Dogate dõde a terra firme de Goa fe chama Balagate. E eíta ferra he doze legoas de Goa & he tão alta que fe gaftã dous dias em fobir ao cume, onde he muyto chaã, & dali pera baixo muyto fragofa: & té certos paífos, & em cada hú húa fortaleza cõ géte de goarniçã. E da parte de Goa cerca eíta ferra as terras do hidaicão como muro, & quaíi ao pé dela eítà agora a cidade de Bilgão, õde ficou ho hidalcã cõ feu arrayal. E dali mãdou a Pulatecão feu capitão geral boõ caualeyro, & turco de nação, & aíli a hú capitão del rey de Narlinga cõ muytos turcos de caualo & gétios de pê que foliem lãçar Timoja fora das tanadarias que tinha arrédadas, & lãçado paffaffé auãte: & affentaf- fem é terra de Salfete defrõte da ilha de Goa da banda Dagaci, & de Benaítari, per õde principalméte entrariã a ilha fe podeffem, & affi por outros lugares. E é Pulatecão ganhar a terra que tinha Timoja, não ouue nada q fazer, porq a fua gente tanto que foube a ida dos Imigos fugio a mór parte dela pera Honor, & Timoja fe foy cõ a outra pera Goa, leuãdo algú dinheiro das rédas que tinha arrecadado q entregou â feytoria, de que fe affirmou que ele fonegaua a mòr parte. E tãto q ho creo ho gouer- nador, & por iffo ouue fecretaméte algú defgoíto antrele & Timoja, & nunca fe mais fiou dele. E fabédo ele a vida dos Imigos fobre a ilha, acordou cõ feus capitães, que pera eítar fegura era neceíTario goardarenfe per mar, & per terra os paífos do vao de Gondalí, de Benaítari & Da¬ gaci: & a goarda do vao que agora he ho Paffo feco deu a Francifco de foufa maneias, & a Francifco pereyra coutinho, e foy feyta húa trãqueyra bé artilhada, & no mar eítaua hú nauio pegado cõ a terra firme. A goarda de Benaítari fe deu a Garcia de foufa, q tinha em terra outra tranqueyra, & no mar eítaua Ayres da íilua no feu nauio. A goarda do rio Dagaci que era largo foy dada a Fernão perez dandrade, & forão coele Luis cou¬ tinho no feu nauio, & Diogo fernandez de beja na fua galè, & fayrão por Pangí, & entrarão por Goa a velha, & deitaranfe todos tres defronte Dagaci junto dõde fe ho rio eítreita pera Benaítari ho mais perto quç po¬ derão da terra firme, de maneyra que podião pefcar com fua artelharia qualquer coufa que deceíTe pelo rio de Salfete, onde fe efperaua q os Imi¬ gos fizeffem fuas jãgadas pera paífaré á ilha. E dentro no rio de Benalta- rim antre ele & AgacI mandou ho gouernador q eíteueffe Simão dãdrade na fua galé: & deu a goarda da praya de Goa a velha a jorge da cunha cõ feífenta de caualo dos noffos, & muytos piães da terra, de q era capi-
Livro III, Capitolo XVI 35 tão hú CanarI valente home, que auia nome Menayque. E a fernão perez mandou ho gouernador q mandaffe piães gétios â terra firme fem fabere hús dos outros a faber o que fazião os Tmigos: o q Fernão perez fazia cõ muyto cuydado, & ho gouernador ficou cÕ os outros capitães em goarda da cidade, & teue nela Timoja que nã quis q fofle aos pados, porque fe não fiaua dele. E como não fabia o q lhe fucederia mãdou aca¬ bar cõ breuidade húa das naos dos rumes, & deitouha ao mar, & pos lhe nome fã Ioã, & deu a capitania dela a Nuno vaz de caftelo branco. E nifto chegou Pulatecão, & aflentou leu arrayal na terra firme da outra banda do rio de Benaftarim detrás dhú oyteiro que eftà defronte da po- uoação, que logo os nollos fouberão. CAPITOLO .XVI. De como Pulatecão affentou arrayal fobre a ilha de Goa defronte de Benaflarl, & de algús recados q ouue atrele 6 ho gouernador. PAssados quatro ou clco dias defpois da vinda de Pulatecão, hú dia pela féfta apareceo fobre ho oyteiro q efta defrõte de BenaftarI hú mouro cõ húa bandeira de paz. E fabendoho Garcia de foufa lhe mandou moftrar outra, q era final que lhe daua feguro. Então deceo ho mouro â praya, & preguntou em português aos nofios q eftauão da outra banda, que eftaua por capitão naqle paffo. Garcia de foufa lhe difie o feu nome, & ele diífe q era Português, & auia nome Ioão machado, & fora degradado de Portugal na armada de Pedraluarez cabral, & q fora dei¬ tado em Melinde, dõde fora ter a Diu fabédo a arauia, & hi andara muyto tépo a foldo de Meliquiaz, & defpois fe fora pera ho hidalcão, dizédo q era turco, & affi ho cuydauão os mouros: & por iffo ho hidal¬ cão cõ quem viuia lhe dera húa capitania de géte brãca, & ho eftimaua muyto: poré que cõ tudo iífo lhe lembraua que era Chriílão, & Portu¬ guês, pelo q defejaua ho bé dos nollos. E por elfa caufa lhes dizia q Pu¬ latecão trazia muyta géte, & ho hidalcão ficaua muyto perto dali, cõ muyto mais pera fe ajútar coele, & q era por toda quaréta mil homens os mais deles turcos, & gente branca do eftreyto, & tinhão determinado de entrar a ilha: & q folgara muyto de dizer iíto ao gouernador, pera lhe acõfelhar q não quifefle guerra cõ ho hidalcão que era muyto pode- rofo, & mais em fua terra, & q lhe auia de tolher os mantimétos, & por fer inuerno lhe não auiã de poder ir de fora: & por iífo que ouueífe boÕ cõfelho, & lhe deixafle a ilha & a cidade antes de fe ver em perigo. Gar¬ cia de foufa lhe diUe que primeyro fe aqle rio tornaria de cor de fangue,
36 Hijloria da índia que os ímigos entraflem a ilha. E agardeceolhe muyto feu auifo, dizendo q ho mandaria dizer ao gouernador: que quando ifto foube pareceolhe manha de Pulatecão, pera ho efpantar cõ ho poder de gete que trazia: & pera lhe contraminar a manha, mãdoulhe hú recado por hú caualeyro q fora fobrinho de Ioão da noua, q auia nome Abraldez, & fabia arauia & outras muytas llgoas. E efte cõ feguro de Pulatecão, & arrefens que ficarão em Benaftarl, fe pafiou ao arrayal dos ímigos: & difle a Pulatecão da parte do gouernador, que ele fe efpantaua muyto do hidalcão querer guerra coele, q era capitão môr del rey de Portugal, com quê os mais dos reys da índia, & affi outros lenores folgauã de ter amizade & paz, principalmente feus vezinhos, pelo que deuia muyto de folgar de ho ter por amigo, & eftar coele em paz, porq tendo guerra bé fabia quãto mal lhe podia fazer em lhe tolher que não ouuefle nenhús caualos, porque os não podia auer fe não por mar, onde fabia bé quã poderofo era el rey feu fenhor, & tirandolhos, & deixãdo os ir a el rey de Narfinga, q ho deftruyria muy afinha, por ifio que viífe be o q fazia. Pulatecão refpon- deo que ho Hidalcã folgaria de ter paz, & amizade cõ el rey de Portu¬ gal, cõ tãto que não perdefle Goa, q era a principal coufa de feu fenhorio: que fe ho gouernador lha foltaífe em paz, que ele folgaria daceitar fua amizade, & q aceitãdoha daquela maneyra veria quanto a defejaua, pois podendoho danar ho deixaua de fazer: & ou lhe alargaílé Goa ou não, que lhe refgataffe as molheres & moças do hidalcão que tomara em Goa. Tornãdo Abraldez coefta repofta, Ioã machado que affi auia nome aqie Português que foy dar ho auifo a Garcia de foufa, fayo coele, dizendolhe que defejaua muyto de falar cõ ho gouernador, pera lhe dizer coufas de muyta importância, que lhe releuauão: mas pois não podia fer que lhe dizia em forna que oulhaffe be por íi, & que fe foffe em quanto podia, porque ho poder dos mouros era tamanho, q defpois de entraré a ilha receaua que lhe tomaffem a cidade fem fe poder valer. E tudo ifto contou Abral¬ dez ao gouernador, que confiaua tãto na goarda que tinha nos paflos, q lhe parecia q era impofliuel entrarfe por eles a ilha, pofto q os ímigos foffem em galés, quanto mais que não podião ir fe não em jangadas: & affi ho difle a feus capitães, por cujo confelho refpondeo a Pulatecão, que não auia de alargar Goa, nem refgatar as moças, nem as molheres, por¬ que as tinha por filhas, & efperaua de as tornar Chriftaãs, & cafalas cõ Portuguefes pera pouoar Goa coeles. E defta repofta ficou Pulatecão muy efpantado, porque fabia muy be quã pouca géte ho gouernador tinha, & paflou logo fua tenda ao lõgo do rio de Salfete, onde mandou fazer certas jangadas pera paliar nelas fua gente â ilha por quãto não tinha outros nauios em que a paflalfe.
Livro III, Capitolo XVII 37 CAPITOLO .XVII. De como as jãgadas dos inimigos forão acabadas, & do mais que paffou antrelas, & os noffos. E Porque fe temeo que fe os noíTos fentilíem q fe fazia as jãgadas, Jhas poderião ir queymar nos bateys é húa noyte muyto efcura q chouia, por fer entrado lio inuerno, mandou fazer na boca do rio húa eltacada, em q mãdou fazer húa eftãcia de artelharia miuda, fem os noffos ho fentiré por amor da torméta q fazia. E quando amanheceo q Fernao perez vio a obra q eftaua feyta quis cometer de entrar ho rio cÕ confelho dos outros capitães q hião é bateys .f. ele, Luis coutinho, Ber- naldl freyre, & hú Iorge dorta, q defpois q efteue na goarda, mandou ho gouernador q efteueffem coele, & Diogo fernandez lhes hia nas coftas na lua galê: poré os noffos por mais q trabalhará núca poderã entrar ho rio cÕ os muytos tiros q lhes tirauão os Imigos. E confiderando q receberião môr perda nos muytos q poderiã morrer em entrar ho rio, do q recebe¬ rião de proueito fe ho entralTem, não quiferão mais infiftir e ho entrar, & tornaranfe onde eítauão. E defpois difto acabarão os Imigos de fazer as jãgadas, que fam delia maneyra duas almadias grades cõ traues pre¬ gadas em ambas de duas muyto juntas, & taboas pregadas por cima, & é cada húa deitas cabia muyta gente: & nas proas & popas das alma¬ dias auiã dir os remeyros. Acabadas eftas jangadas, determinãdo Pula- tecã de etrar a ilha, mãdouas hú dia pola manhaã tirar do rio de Salfete pera ho rio Dagacim, tedo os noffos em tão pouco, que lhe parecia q de dia poderia entrar a ilha. E coelte penfaméto fe quiferã os feus paffar do rio DagacI pera ho de Benaftarl. O q vedo Fernão perez cõ os outros capitães fe partirão donde eltauão aboga arrãcada, & fe forão poer na boca do rio Benaftarl a efperalos: & por iffo os inimigos deixarão ho ca¬ minho q leuauã, & meteranfe ãtre hú ilheo q fe chama ho dos bugios, & a terra firme, & deixaranfe eftar. E quando Fernão perez fe foy pera a boca do rio efperando de pelejar cõ os Imigos, Luis coutinho nã quis ir coele, & foyffe meter no feu nauio, & deixou Fernão perez, q pregútou a Iorge dorta que farião, & ele refpondeo q fizeffe o que quifeffe, porq morreria coele. E vendo Fernã perez como os Imigos fe punhão em con- crufam détrar a ilha, mandouho dizer ao gouernador, q foy logo por terra a AgacI cõ gente de cauallo & de pê. E vendo da praya a coufa como eftaua, & q fe não podia fazer nojo aos Imigos, mãdou aos capitães q efteueffé como eftauã: & q mãdaria a dõ Antonio q fe foffe ajútar coeles
38 Hijloria da índia no feu batel, parecédolhe que abaftarião todos pera defender q os Tmigos não entraflem ho rio, & defeyto abaftarão fe eles entrara de dia. Ho go- uernador não fomente mãdou ajuntar cÕ os outros a dõ Antonio, mas acrecentou a gente em todos os palfos da ilha por onde parecia que fe podia entrar: & encomendou a Iorge da cunha q vifitaffe muytas vezes ho paífo Dagacim, & mandou algúas cotias que andaffem do Paffo feco ate onde eftaua Simão dandrade vifitãdo os paífos & os nauios, pera q lhe deífem recado do que paífafTe. E quando foy ao defpedir das cotias não as achou, & pregútando por elas, differanlhe algús gentios & mouros feus amigos, que ho Xabamdar as furtara, & as mãdara aos Tmigos pera paffarem â ilha, & mais q lhe fazia fogos 5 lugares fecretos. E xabandar he officio antre os gentios & mouros, como antre nos patrão da ribeira: & efte de Goa era gentio. E fabedo ho gouernador ifto dele, mãdouho chamar eftando à porta da ribeira, & preguntãdolhe pelas cotias, ele fe começou de embaraçar de maneyra que pareceo a roindade, & por ela fer tamanha, não lhe quis ho gouernador mais efperar, & mãdouho ma¬ tar pelos feus alabardeiros, o que os gentios fentirão muyto por fer prin¬ cipal antreles, & indinaranfe muyto mais do que eftauão pera fe leuantar contra ho gouernador em os mouros entrando na ilha. CAPITOLO .XVIII. De como çufolari, & çufogogi capitães do Hidalcão entrarão a ilha cÕ algús dos tmigos: & do que fi\erã nejla etrada Iorge da cunha, Fran- cifco de foufa maneias, & Frãcifco pereyra coutinho. VEndo Pulatecão que lhe contrariarão os noffos a entrada do rio de Benaftarim, nã quis mais cometer a entralo de dia, & determinou de ho fazer de noyte, pera o que lhe logo fobreueo húa muyto elcura, & de grãde tormenta de vento, & de chuua: & como ele a vio affi mandou a çufolari hú mouro valente caualeyro que foífe por capitão da gente das jangadas, que ferião ate mil homés, & que fe folie dereyto ao paífo de Benaftarim, & hi defembarcaffe: & ho meímo mãdou a çufo¬ gogi que fora capitão de Goa, que entralfe pelo paífo de çancalim, onde eftauão as cotias que lhe dera ho xabandar de Goa carregadas de gente, & que ele entraria defpois. E duas horas ante manhaã fazendo a tormenta que digo abalou çufolari cÕ as fuas jãgadas, remãdo aboga furda ao logo da terra firme, pera que nã foífem fentidos dos noffos bateys, que eftauão na boca do rio de Benaftarim da bãda da ilha. Poré Fernão perez que eftaua mais perto da terra firme os fentio logo, & mandãdo leuar fatexa,
Livro III, Capitolo XVIII 39 & dar fogo a hú falcão que tinha lhes começou de tirar, ao que logo aco- dirão todos os outros capitães q diffe que ali eítauão, & tirauão muyto a miude, de maneyra que fizerã deter os Imigos que não paffaffem da boca do rio de BenaítarI: porque como as jãgadas erão grandes acertaualhes a artelharia, & fazialhes muyto nojo. Poré çufolarl que tinha abocado ho rio, quãdo os noíTos acodirão, fem fer fentido teue tempo de paliar auante, & cuydãdo q ho feguiífem os noíTos, trabalhoupor tomar terra ho mais afinha que pode, & poiou antre a pouoação DagacI & a de BenaítarI cõ obra de trezentos turcos que leuaua em duas jangadas, q cõ ho grãde efcuro que fazia forã dar em húa vafa, õde atolarão, & fe encherão todos de lama: & quando fe affi virão não oufarão de paífar dali, porque não vião por onde auião de ir, & efperarão a manhaã. E não poderá eítar tão calados que Menayque ho capitão gctio q por ali andaua com feus piães os não fentiffe, porque fentia a reuolta q hia no rio, & logo lhe pareceo que os Imigos querião entrar a ilha. E fabedo a verdade q ali eítauão Imigos, como era amigo dos noíTos, & muyto leal mãdou logo recado a Garcia de Soufa, q era ho capitão q eltaua dali mais perto, & ele veo muyto de preífa cõ parte deífes q tinha, & os outros deixou a feu hirmão Pero de foufa pera goarda do paífo. E ajuntandofe Garcia de foufa com Menayque, erão tão poucos, & os turcos eítauão em lugar tão forte que lhe não podião fazer nada. E parecedo a Garcia de foufa, que fendo algúa géte mais os poderiã desbaratar, mãdou dizer por Menayq a Iorge da cunha q andaua em Goa a velha, que lhe acodiífe pera mataré aqles Imi¬ gos. E com quanto lho Menayque diffe, & quã poucos erão nunca quis ir coele, & fe fora, fempre os Imigos forão desbaratados: porq como os Imigos eítauão defefperados de focorro pola reíiltencia que virã fazer aos noíTos, vendo gente de caualo contrafi, & piães ouueranfe de desbaratar logo, & eítes desbaratados não ouuerão os da terra doufar de fe leuantar contra os noíTos, como defpois leuantarão pola entrada daqles: & não fomente não quis Iorge da cunha acodir a Garcia de foufa. Mas defpois que vio que a ilha era entrada fe foy caminho da cidade fugindo, como q os immigos forã a pos ele, indo rodeãdo por lugares perigofos fem re¬ colher os feus, q fugião como homés desbaratados. E fabendo Garcia de foufa q Iorge da cunha fe não queria ajuntar coele, acodio a Benaítarim, onde ouuia muytas bombardadas. E eíte era feu hirmão Pero de foufa, que cõ elfes q lhe ficarão pelejaua cõ çufogogi, que entrou por çancalim nas cotias, & veo a Benaítarim, onde achou muy dura refiítencia, aíli de bombardadas como defpois de lãçadas & cutiladas: poré como os noíTos erão poucos, & eles muytos não pode a refiítencia durar muyto. E a noíTa eltãcia foy entrada dos Imigos com morte de Pero de foufa, & doutros
40 Hijloria da índia noílòs que cõ quanto vingarão bem fua morte com muytas dos ímigos, eles ficara fenores da eftancia cõ hú camelo q tinha, & cõ outra artelha- ria. E quando Garcia de foufa chegou, q foy começando ho dia defcla- rer, ja achou os ímigos fenhores de Benaftarí: & como ho nã fabia ouue- rãno de matar fe não fora Ayres da íilua que lhe acodio no feu batel, & ho faluou com os feus. E ho defaftre de eftar efte paífo fem géte, pola ida de Garcia de foufa fez q os ímigos entraffe a ilha q doutra maneyra a nã entrariã eftes fòs, & os de çufolarl a entrarão, q os outros núca po¬ derão, porq dõ Antonio cõ os outros capitães & fua gete, matarão tãtos deles defpois q os abalrroarão, q a agoa fe tornou de cor de fangue, & aqles q efcaparão fugirão a nado pera a terra firme, & dos noffos não morreo nenhú, podo q algús forão feridos: antre os quaes foy Fernã pe- rez. E acabada dauer a vitoria, com que dom Antonio eftaua muyto ledo cuydãdo q tolhera aos ímigos q não entraífem a ilha, foylhe recado q era entrada, & por onde: & mandoulho dizer Menayque, q tãbem fe foy logo caminho da cidade, & vioffe em grande perigo ate chegar a ela, porq os da terra lhe fayão muytos pera os matar, & ele fe defendeo fempre muyto bé, no q ganhou muyto louuor. E fabida a noua da entrada da ilha por dom Antonio, ouue confelho com os outros capitãos fobre o que farião. E affentou, que por quanto podia fer que ho paffo de Benaftarim teria ainda algú remedio, que ele & Bernaldim freyre ho foliem focorrer nos bateys, & de caminho fe ajuntaria coeles Simão dãdrade na fua galê que eftaua dentro no rio. E que Fernão perez, Diogo femãdez de beja, & Luys coutinho ficaffem onde eftauã, & efperaffem ate verem recado do gouernador, & afti fe fez. E chegando dom Antonio com Simão dandrade, & Bernaldl freyre ao nauio Daires da íilua acharão q ja ele & Garcia de foufa, & outros muytos eram erã idos pera a cidade por lhe tirarem da eftancia de terra muytas bõbardadas, & ho nauio fer muyto pefado & auer dir de vagar. E vendo dom Antonio que não auia ali remedio, & que eftaua certo fer toda a ilha leuãtada, determinou de fe recolher com os outros â cidade, & que afti farião os que ficauão em Agacim. E por ho nauio Daires da filua fer muy pefado como diífe, & auer de ir muyto de vagar, & fer a preífa grande ho não quiferão leuar, & ho queymarão & meterão no fundo, defpejandolhe primeyro a artelharia na galé. E ifto feyto partiranfe pera ho Paífo feco, que eftaua também tomado dos im- migos que ho tomarão fem peleja: porque fentindo Francifco de foufa maneias, & Francifco pereyra coutinho que Benaftarim era entrado dos ímigos, embarcaranfe logo no batel do nauio que tinhão: & foy tamanha a fua preífa, que podédo faluar a artelharia da eftancia cõ a deitarem na praya do muro abaixo, dõde a poderão leuar no batel ao nauio a deixa-
Livro 111, Capitolo XIX 41 rão, & aííi húa efcada de tres troços que tinhão pera a feruentia do mar: & fe quando ouuirão as bombardadas da peleja de Benaftarim lhe forão acodir ainda lhe poderão valer, que ho na ganharão os immigos. E che¬ gando dom Antonio cõ os outros ao Palio feco Pero gonçaluez piloto do gouernador q eftaua no nauio que ali ficou de Francifco de foufa, diífe a dom Antonio o q ele & Francifco perevra fizerã: & porque ho nauio não podia ir fe não com a maré, efperarão dom Antonio & os outros ate fer prea mar pera ho leuarem, temendo que os immigos ho tomafle. E nefte tempo que efperarão efteuerã em grande perigo, porque os immigos lhes tirauão de terra muy rijo cõ a artelharia que tinhão na eftancia, & affi cõ muytas frechadas, & os noffos també a eles ate que veo a maré que fe forão. CAPITOLO .XIX. De como os mouros & gêtios da cidade fe leuantarão cõtra os noffos, & do que fi\erão Nutio va\ de cajlelo branco, & outros. E de como Jabendo ho gouernador q a ilha era entrada dos imigos fe recolheo â cidade. ENtrada a ilha pelos immigos, & tomados os paffos dela: ao outro dia pola manhaã foy dito ao gouernador que a ilha era entrada, & os palfos tomados. E como ainda não tinha efte recado dos capi¬ tães que eftauão neles não creo de todo aquela noua: mas mãdou logo repicar ho fino da vigia, & tanger as trombetas, pera que fe ajuntaffem os noffos, & afli os piães da terra, a que el rey de Portugal pagaua foldo, & como eles eftauão daleuanto não acodião como dantes, que logo fayão a qualquer repiq. No q ho gouernador foy conhecédo q eftauã leuatados, poré diflimulou, & mãdaualhes q fe foffem à preffa a Benaftarim, pera q indo lhe defpejafíem a cidade fem q entédeffem q queria q lha defpejafle, porque lhe derão trabalho fe a nã defpejarão: & eles fe forão por fe hirem ajuntar com os immigos. E determinãdo ho gouernador de focor- rer a Beneftarim, cuydando que ainda nã foffe tomado, mandou là Frã- • cifco de faa com trinta de caualo, & algús efpingardeiros de pé. E defpe- jada a cidade da gente da terra, ficando os capitães em fuas eftancias: nã lhe parecendo ao gouernador que a coufa eftaua tão danada tornoufe â ribeyra (onde eftaua quãdo lhe derão a noua) pera mandar por mar hú camelo a Benaftarim, & ele ir por terra a fauorecelo, por fazer crer aos Canarins que nã temia a vinda dos mouros: & Ido deixou a goarda da porta da cidade a Nuno vaz de caftelo brãco, & acompanhauãno Dinis fernãdez, Ioão teixeira, Baftião rolz da moeda, Antonio fernãdez homem Tono II 6
42 Hijloria da índia preto, Diogo goterrez, & outros q por todos era dez. E nifto hia calafa¬ tes, & marinheiros dos noflos q trabalhaua na ribeyra cõprar de comer à praça, q fe faz diante daqla porta da cidade. E os noflos que eftauão fobrela virão fayr certos turcos & canarls, & matarão hú calafate, & der¬ ribarão hú clérigo muyto ferido. E entã acabarão de conhecer q a gente da terra era leuantada cõtra os noflos, & foy logo dito ao gouernador: & ele mãdou a Nuno vaz q fayfle cõ obra de noue homés, & fofle dar nos Imigos, & fe recolhefle logo, porq não cuydaflem q lhes auia medo. E eles védoho fayr recolherãfe às boticas dos mercadores de panos dal- godã q ali tinha, &' té húa grande rua q fe chama dos bachares, porq afli lhe chamão na lingoa da terra: & os q fe acolherão âs buticas fecha¬ rão as portas, & por iflo Nuno vaz nã achou mais q o calafate que jazia morto, & ho clérigo que eftaua ferido. E vendo ele que lhe não fayã ne- nhús dos immigos paflou auante pera ver fe achaua algús: & defpois de ir boõ efpaço por aqla rua virou per húa trauefla, & foy ter a outra rua que hia pera a cidade, & indo por ela foy ter júto de húas cafas grãdes de pedra & cal que tinhão húa grande cerca, em que parecia aruoredo, como q era pomar: & por cima deita cerca parecião muytas pontas de zagunchos muyto luzétes. E em hú alpedere q fe fazia á porta deita cerca aparecerão algús turcos, & arabios com zagúchos & cofos. Nuno vaz que vio que erão muytos diflimulou que não hia pera lâ, por nã hire coele mais que noue dos noflos, a que difle que fe tornafiem: & tornandofe que queria abocar a húa trauefla q atraueflaua da rua, porque hia pera as cafas onde vio os immigos, aparecerão Dinis fernandez de melo, Baítiã rolz, Antonio fernandez, & Ioão teixeira, & outros que defpois ho gouer¬ nador mandou apos ele, que lhe bradará, dizendo, Acolheiuos q vos tomã a rua: & iíto pelos immigos que fayão da cafa que erão muytos, & forão rijo cõtra ele. E chegando ele á boca da trauefla, chegauã eles também, que nã teue ele mais tempo que pera abaixar a lança, & dizer Sãétiago, ferindo neles, & em ele dando per húa parte deu Dinis fernandez cÕ os outros pela outra, & apertauão com os immigos muy brauaméte, porem eles tinhão tanto esforço, & erão tão deítros no pelejar que tomauã nos cofos os botes dalgús da cõpanhia de Nuno vaz, & lançauanos de fi, & tomarão as lanças a dous, & derao coeles no chão: & ho mefmo quifera hú dos immigos fazer a Nuno vaz, querendolhe acolher a lança debaixo do braço e lhe tirando húa lançada, como defeyto colheho: & em a tedo aifi tirou Nuno vaz por ela tão rijo que deu com ho mouro aos pés, & foy logo fobrele & matouho com a elpada tendo a lança com a mão. E Dinis fernãdez por lhe acodir fe chegou tanto aos immigos que veo a bra¬ ços com hú deles, a que os outros acodirão, & ouueranno de matar fe
Livro III, Capitolo XIX 43 não fora por Baftião rodriguez & Nuno vaz que lhe acodirão ferindo muyto rijo nos immigos: & coifto foy a peleja tão trauada de efpingar- dadas & lançadas de parte dos noífos, & de zagúchadas & pedradas da parte dos immigos que era coufa efpantofa, & ajuntoufe muyta gente da fua parte, porq os mercadores gentios quando virão andar a coufa tão baralhada favão das boticas com arcos que tinhão efcondidos, & ajuda- uão os turcos, que contudo não poderão lofrer as efpingardadas dos noITos que os ferião mortalmente, & derribarão cinco mortos, & os outros co¬ meçarão de fe retirar pela rua dentro como que querião acolher là os noffos: & adi era porque tinhão muyta gente a que os noífos não poderá efcapar fe là forão. O que receando Nuno vaz, & também por ver quan¬ tos os immigos erão, & quão poucos os noífos os não quis feguir, & tor- noufe pera a porta da cidade indo ferido em húa perna, que lha paliarão cÕ húa frecha per baixo dhú giolho, & leuou a adarga empenada doutras muytas, & foy ferido muyto Baftiao rodriguez quando focorreo a Dinis fernandez, & também Diogo goterrez foy ferido em hú pé de que ficou aleijado. E por Nuno vaz ir alli ferido, & os outros mandou ho gouer- nador a Gafpar de payua que goardaífe a porta com outros: & nifto che¬ garão algús da capitania de Iorge da cunha cõ muytos piães da terra a pos eles pera os matar, & afli mouros com bobas de fogo que lhe vinhão lançãdo. E vindo aífi acodirão da cidade algús dos noífos efpingardeiros, que os liurarão dos immigos, & os recolherão. E eles contarão ao gouer- nador como Iorge da cunha vinha desbaratado: & a pos eftes vierão ou¬ tros, ora dous ora quatro fegúdo fe ajuntauão, & fempre os feguiã os ími- gos como aos primeyros, & por hiré alli efpalhados forão mortos tres de caualo & algús piães: o que não fora fe os Iorge da cunha leuara em hú corpo, & defta maneyra entrarão os Imigos a ilha paífados algús dias de Mayo q era ja inuerno. E fabendo ho gouernador como erão étrados por Benaftarim, pareceolhe que era efcufado ir là Francifco de faa com tão pouca gente como leuaua, & por iífo lhe mãdou recado que fe tornaífe, & quem ho leuou ho achou quafi enuolto com os Imigos, porque indo ele pera Benaftarim em chegando âs duas aruores vio os de traués per. outro caminho q hia pera Benaftarim, & logo endereytou pareles. E çufolarim que os vio ir mandou defpregar húa bandeira q lhe leuauão enrolada, pera que os noífos foubelfem q auia ali capitão. E cõtudo Francifco de faa não deixou de chegar aos Imigos: & começando os noífos de fe em- burilhar coeles, deufe ho recado do gouernador a Francifco de faa que logo recolheo os feus & fe foy pera a cidade: & os immigos ho feguirão de maneyra que a ele lhe foy forçado de voltar a eles muytas vezes cõ os feus, & aífi foy ate a cidade, & neftas voltas ouue algús feridos dambas
44 Hijloria da índia as partes. E quãdo Frãcifco de faa chegou, andaua ho gouernador na ribeira pera mãdar ho camelo a do Antonio de quem lhe foy recado do q tinha feyto, & como tudo era lâ entrado: & por iflo perdeo a efperança de poder fofter a ilha, & ajuntou a gente que tinha, & fayo coela diante da porta da cidade, pera recolher os noffos que fe acolheífem dos* paffos, & os defender dos Imigos fe fofTem a pos eles. E eftes erão os morado¬ res da cidade, que por ferem muytos fazião mais mal que os proprios turcos que ainda era poucos, & fe os da cidade fe não leuãtarão pouco aproueitara aos turcos por mais que forão entrare a ilha pera a tomar, que nunca ho poderão fazer fem ajuda da gente da terra, que também fe leuãtou vendo leuantados os moradores da cidade, fe não Alenayque & Timoja cõ todos os de luas capitanias. E eftando affi ho gouernador recolhendo os noffos q hião dos paffos fendo alda hú bõ pedaço do dia por paliar, decerão dous dos de Iorge da cunha per hú oyteiro abaixo, õde agora eftà nolfa fenhora do mõte pera húa porta da cidade que fe chama do mandouim, & hú fe chamaua dõ Anrique deça que hia diante, & outro Antonio vogado q hia detrás, & nas coftas lhes hião muytos Imi¬ gos. E e decendo pelo oyteiro matarão Antonio vogado, que fe defendeo primeyro muyto bé, & matou hú mouro: & ficãdo ele deixãdoho em po¬ der dalgús que ho acabaífem de matar, apertarão tanto os outros com dom Anrique que lhe deceparão ho caualo, & como era perto dhú elteiro que fe faz daqla bãda do mãdouim deitoufe do caualo em lho decepando, & com muyto esforço defendedofe dos immigos fe arremelfou na vafa do elteiro, & ali fe faluou, porque logo lhe acodirão da cidade. Affi eíteue ho gouernador ate bem tarde recolhendo os noffos, & goardando as naos & fultas dos turcos q eftauão em terra no varadoyro: & fabédo q lodos os dos paffos erão recolhidos fe recolheo â cidade, & mandou recado a dom Antonio que fe recolheffe cõ os outros capitães que eftauão no rio de Benaftarim: o que affi foy feyto. CAPITOLO .XX. De como Pulatecão entrou na ilha de Goa com ho re/lo da fua gente, & pos cerco à cidade: & do q ho gouernador fe\ defpois dijjo. SAbido por Pulatecão como os moradores da cidade, & affi todos os da ilha erão leuãtados contra os noffos por fua parte, & os feus recebidos pacificamente, paffoufe â ilha cõ todo ho refto da gente que lhe ficaua que ferião bem dez mil homens todos mouros & turcos géte brãca, & esforçada que fabia muy bem pelejar. E como foy na ilha
Livro III, Capitolo XX 45 mandou affentar feu arrayal õde chamã as duas aruores obra de mea legoa da cidade caminho de Benaftarim: & em quanto fe as tendas affen- tauão foy fua gente dar vifta â cidade, que polo pouco tempo que auia que eftaua em poder dos noffos, ainda ho gouernador ho não teuera de lhe mandar leuãtar os mouros, & eftauã baixos, & fracos como os mou¬ ros os tinhão, & algúa parte que fe refizera à noffa maneyra eftaua ainda por éxugar, de modo que a cidade eftaua be fraca. E porque os immigos ho fabiã confiados em fua multidão, & esforçados com a pouquidade dos noffos fe chegarã aos muros ho mais que poderão, tirando com muytas frechas: & aífi trazião efpingardoes com que tirauão muytos farpões, & outros tiros de bèfta, & efteuerão a moor parte do dia nèfte jogo fem os noffos receberem dele nenhum dano antes fizerão múyto aos mouros ate que lhes foy neceffario retirarfe pera feu arrayal. E vendofe ho gouerna¬ dor cercado, porque os immigos fe nã aproueitaffem das naos, & nauios de remo que eftauão varados dantes que lhe foffe entregue a cidade man¬ dou que lhe pofeffem fogo: & ou por lhe nã fer bem pofto, ou por os immigos acodirem logo a iffo, fezlhe ho fogo muvto pouco nojo, & eles ficarão fenhores da frota que eftaua varada. E porque fe ho gouernador receou que coela lhe queymaffem a fua que eftaua no mar, a mãdou muyto bem goardar por grã parte da fua gente, & com a outra fe reco- Iheo à cidade com determinação de fe fofter nela ate a fayda do inuerno, parecendolhe que pola guerra que cuydaua que ho Hidalcão ainda tinha cõ el rey de Narfinga não poderia mandar fobrele mais gente que aquela, & na entrada do verão chegaria a armada de Portugal, & com a géte que vieffe pelejaria com os mouros, & os deitaria fora da ilha. E ifto praticou com dõ Antonio feu fobrinho, & com dom Ieronimo de lima: a que parecendo afli bem ho gouernador: juntos todos os capitães, fidalgos & peffoas principaes de fua armada lhes diffe. Ainda que fenhores a etrada dos turcos á primeyra face nos ameace com muyto grandes tra¬ balhos & perigos immenfos, be creo eu que ho voffo esforço he tanto mayor do que eles podem fer por muyto grandes que fejão, que vos farà ver aquilo que não verão outros, em que ho medo teuer mais entrada q em vos, porque eftes taes affombrados dele nã vem mais que a fadiga dos trabalhos, que por derradeyro ac'aba coeles. E os taes como vos ainda que vem a fadiga que digo não deixão de ver quantos bés fe fegué dela, adi como merecimêto diãte de nolfo fenor em pelejar por exalça- mento de fua fancta fé diante del rey meu fenhor, pois coestes trabalhos lhe acrecentaes feu eftado, & diante dos homés por amor do bem comú: rezão tendes logo de vos arrifcardes por hú mal que acaba tão afinha a ganhar tantos bés que durão pera fempre, & polo que de vos conheço
46 Hijioria da índia como companheiro de tantos anos. Bem fey que ho trabalho q fe nos aparelha vos não impedirá que ganheis os bés q digo, & mais fendo eles ho fim pera que vieftes: deueis de efperar em noffo fenhor que nos ha de ajudar a alcançalo, efpecialmente nefta guerra, pera que vejão os mouros as grades marauilhas que fez com os noffos defpois que conquif- tão a índia, & que aflí como os ajudou em tantas guerras, como vencerão pelejando com tantos immigos que cobrião ho mar & a terra, adi nos ajudará, pera que defendamos cfta cidade, que he a principal coufa da índia, adi em fortaleza como em riqueza, & em que os mouros tem mais fua efperança: & por ido cõftituyão nela como viftes contra nos a cabeça da guerra. E fe a foftemos a efte impeto prefente, credeme que não tere¬ mos mais necedidade de pelejar na índia, & q todos os reys dela hão de ter nofla amizade em muyta eftima, & auerfe por muyto ditofos de ter paz cõnofco, & cõfirmarão por verdadeira a opinião que tem de nos de fermos mais valentes que os rumes, & fe a perdemos ficamos de todo em defcredito, porque os Imigos não nos hão de difculpar que tínhamos fracos muros, nem poucos mantimentos: antes hão de multiplicar todo ho de noífa parte pera engrandecerem mais fua vitoria. E crede que com ho esforço dela, & faberem que nos podem vencer hão logo de fazer todos liga cõtra nos, & nos hão de perfeguir ate nos tomar (o que Deos não queyra) aquilo que adentarão noffos antepaffados, fendo muyto me¬ nos que nos, & por ventura não també apercebidos. Lembreuos fenhores que temos âs codas toda a hõra da Chridandade dedas partes, & a do edado del rey noffo fenhor: & podo que percamos a vida fobre foder edas duas coufas que alcançamos gloria pera fempre: & fe fe elas perde¬ rem com ficarmos viuos, que nã temos defculpa que nos falue de muyto grande pena, & que ficamos com vida peor que morte: doãuos mais as feridas da hõra que as da carne, porque as da carne tem remedio, & as da honra não tem nenhum: que ainda que fe redaurem com fe faber a verdade nunca fe acaba de faber tão vniuerfalmente que fique a mentira notoria a todos. Por ido oulhay o que vos cumpre, que eu nã fey que mais diga, fe não que a defenfa da cidade não pode mais durar com trabalho que ate a vinda da armada de Portugal que fera daqui a tres mefes, & cõ bizcoyto & arroz que temos, & com ho gado que ha nas ilhas de Diuar & Chorão noffas vezinhas nos manteremos, em que pes aos moradores deita,' que fem caufa fe leuantarão contra nos: & que me digais que vira ho Hi- dalcão com grande poder de gente, & que nos não poderemos defpois fayr da cidade, eu fey certo que nã pode vir por amor da guerra que tem com el rey de Bifnegar, a quem por efia caufa mãdey embaixador, & a eftes immigos que nos tem cercados bem me atreuo conuofco a defenderlhes
Livro III, Capitolo XXI 47 a cidade ate ho fim do mundo. E pois fenhores eftais todos nefta repu¬ tação, não fomente comigo, mas com ei rey meu fenhor, & com todos os da índia: peçouos polo que deueis a efte credito que ho não percais: & porque conleruandoho com vos defender neíte cerco ficais em paz, & ganhais tantas coufas como difle. A efta pratica do gouernador ajudarão também dom Antonio, dom Ieronimo, & outros dous ou tres capitães, dizendo que era muyto bem efperar ho cerco, & trabalharé por fe fofter ate a vinda das naos de Portugal, & todos os outros fe forão com feu pa¬ recer, ainda que algús ho fizerão mais com vergonha que com vontade, como direy a diante. E aífentado que defendelTem a cidade, fortaleceoha ho gouernador ho melhor que pode, & fez feys eftãcias em cinco partes do muro que eftauão mais fracas, & deitas era muyto mais fraca que todas onde fe agora chama ho poftigo do mãdouim, Õde eftaua quebrado hú lanço do muro, & efta deu a dom Antonio de noronha, & outra â porta q fe agora chama de fancta Caterina deu a Ayres da filua, as ou¬ tras deu a Simão dandrade, Iorge fogaça, dom Ieronimo de lima, & a Diogo fernandez de beja: & adi ordenou quartos que vigiaffem de noyte, & de dia, & ele quis fer ho fobrerolda por a coufa eftar mais a recado. E porque tinha neceflidade de gente mãdou logo recado per húa cotia a Iorge da filueira & a Ieronimo teixeira que erão darmada a Baticalà, que na ora fe foffem a Goa pera inuernarem çoele fazendolhe a faber da ma- neyra que eftaua. E com quanto lhe ho recado foy dado, eles não quife- rão fazer o que lhe ho gouernador mandaua, dando por efcufa o que tenho dito a tras. CAPITOLO .XXI. De como Pulalecão combateo a cidade, & da refijlencia que achou nos nojfos. POsto que Pulatecão tinha por certo que a mayor dificuldade de tomar os nofios, auia de fer no étrar da ilha, porque tanto que en- traffe logo os tomaria: não ho teue alli delpois que os feus forão dar vifta â cidade na dura refiftencia que acharão: & por iffo mandou que ningue cometefle mais os noflos fem ele ir em peffoa, parecendolhe que fem ele fe não poderia tomar a cidade. E afientado feu arrayal hum dia pola manhaã fez feys efquadrões cada hum de quinhentos homés, & mandou que deflem combate aas eftancias que os noflos tinhão feytas: & ele com outra muyta gente hia nas coftas deites efquadrões pera os re- frefcar quando folfe neceflario. Os immigos como hião muytos, & com ho esforço que lhe daua Pulatecão chegaranfe quaíi ao muro, tirando muytas
48 Hijloria da Índia frechadas & farpões & quadrelos, & outros tiros que tirauão com efpin- gardoes: os noffos os receberão com muytas feetadas, efpingardadas, & pedradas, & tão brauamente lhe refiftirão que os fizerão quebrar do ím¬ peto com que vinhão. Ho gouernador nefte tempo corria com muyta pref- eza todas as eftancias èsforçando os noffos, dizendolhes que fe daquela vez fofteueífem a furia dos immigos, que dali por diante os acharião mais brandos. E eles recebião muy bem eftas palauras, & como digo as pu- nhão em effeyto, em tanto que era muyto pera elpantar como fendo tão poucos, & eftando com tão fraco emparo como era ho muro da cidade fe podião defender a tamanho numero de gente, que fomente ho retenir dos alaridos que dauão era pera fazer medo, quãto mais genero darmas com que os combatião. E eftando afíi ho combate em pefo, çufolarim que com¬ batia a eftancia de dom Antonio apertou tanto com os de fua capitania que os fez chegar ao quebrado do muro pera fobirem a efcala vifta: o que não podendo fofrer dom Antonio, mandou abrir hum poftigo que ali eftaa, & com algús fayo a pelejar com os immigos, & ele & os que ho acompanhauão ho fizerão tam bem que por muytos que os immigos erão os fizerão retirar com grande dano. O que vifto por Pulatecão mandou ceifar ho combate com muytas palauras injuriofas que difíe aos feus por¬ que não entrarão a cidade. E defpois de ho combate durar bem quatro horas fe recolheo pera feu arrayal, com muytos feridos & algús mortos, & dos noffos não morreo nenhum, pelo que ho gouernador louuou muyto a noffo fenor, & dando muyto louuor a todos os feus de quão bem ho fizerão mandou curar algús que forão feridos: & todos aquela noyte fize¬ rão grande fefta por lhes noífo fenhor fazer tamanha merce, que afíi fe defenderão dos immigos. O que Pulatecão fentio muyto, & parecendolhe que tinha necefíidade de mais do que ele cuydaua pera tomar a cidade, mandou fazer húa eftancia dartelharia no varadoyro das naos junto da porta que agora fe chama de faníla Caterina, & mãdou aflentar hi hum camelo que foy tomado em Benaftarim, & afíi algús falcões & berços que fe tomarão quádo a ilha foy entrada. E efta eftancia foy feyta de noyte, & quando amanheceo apareceo muyto medonha, & temerofa com os tiros que tinha, & com fer goardada de muytos turcos & rumes que fazião outro arrayal, & tinhão todas fuas tendas embandeiradas & fazião gran¬ des algazaras por quebrarem os corações aos noffos, & logo mandarão defparar a artelharia no noífo muro, principalmente na eftancia de Ayres da filua que como diffe eftaua fobre aquela porta: a que ho gouernador logo acodio & achou ja os noffos às bombardadas com os immigos, que também lhe tirauão cÕ algús berços que tinhão. E durãdo ho combate por efta parte chegou Pulatecão com ho corpo de fua gente, & mandou
Livro III, Capitolo XXII 49 combater polas outras, mas tão pouco fizera os feus como no dia paffado, pofto que apertarão muyto com a eftancia de dom Antonio por onde lhes parecia que poderia entrar a cidade: ao que ele com os que ho acompa- nhauão refiftia muyto valentemente, & aífi fe tornarão os immigos fem fazerem mais que dantes, de que Pulatecão eftaua muy agaftado, & pa- recendolhe que por ferem os feus poucos não entrauão a cidade, mandou recado ao Hidalcão, que ja fabia que vinha por caminho pera entrar na ilha que lhe mandaífe mais gente, & que aprelfaífe fua vinda dizendolhe ho aperto em que os noffos eftauão, & quão bem fe defendião. E entre tanto que eíle recado foy, ele não deixaua de mandar correr a cidade, & os immigos fe chegauão tanto ao muro, que não ho podendo ho gouerna- dor fofrer mandaua a Dom Antonio que fayffe a pelejar coeles, o que ele fazia com muyto esforço, que fempre leuaua ho melhor dos immigos, pofto que não auia dia que não pelejaífem: porque nenhum fe pafiaua que Pulatecão não mandaífe combater os noffos, & não abaftaua de dia, mas também de noyte, efpecialmente defpois que fabido polo Hidalcão feu recado lhe mandou mais gente, que lhe vinha cada dia: & por iffo como digo apertaua de cada vez mais os noffos pera ver fe os podia tomar antes da vinda do Hidalcão, pera ganhar tamanha honra como aquela fora: & por iffo não fomente os combatia de dia mas todas as noytes lhes mandaua dar rebates per todas as eftancias, principalmente pola de dom Antonio, & muytas vezes vinhão os immigos tão calada¬ mente & de fupito que os não fentião os noffos, nem os vião com ho grande efcuro que fazia ate não fobirem fobre ho quebrado do muro, donde dom Antonio com os feus os derribauão por força, & certo que fofreo aqui coeles muyto grande trabalho, porque não auia nenhúa noyte que não pelejaífem, de maneyra que nem de dia nem de noyte nunca defcanfauão, & não era ifto foo nefta eftancia, mas em todas, que nunca fe vio gente fofrer tanto trabalho corryo efta. Pois ho gouernador não fe pode contar quão immenfo era o que tinha, porque trabalhaua com ho fpirito em cuydar como fe auia de defender a tamanho numero de immi¬ gos, & abaftados de tantos petrechos pera ho entrarem, & ele pofto com tão pouca gente detrás dhum muro tão fraco & tão baixo, & fem artelha- ria & com poucos mãtimentos, & em inuerno que fe não podia fair por não fer ho tempo pera nauegar. E fobre tudo fem nenhúa efperança de focorro, fe aão dali a tres mefes & ainda. E pera defcanfar defta afrição que trazia no fpirito não tinha nenhum tempo, porque todo aífi de dia como de noyte gaftaua em correr as eftancias pera ver como as defen¬ dião, & esforçar os que eftauão nelas, & de não poder andar andaua a caualo, & aífi a caualo comia, porque os Imigos erão tão continos que Tomo II 4
5o Hi/loria da índia não dauao vagar pera mais. E coeftas oprefloes, & outras, Iorge da cunha & Francifco de foufa maneias que não eftauão bem com ho gouernador, começarão de dizer que ele queria fofter a cidade, o que não podia fer por nenhúa via por ho numero dos immigos fer muyto grande em de- mafia, & eles muyto poucos & mal apercebidos pera fe defender, que deuia dalargar a cidade & irfe antes que ho inuerno fofle mayor, porque defpois não fe poderia ir. E ifto nã no dizião ao gouernador, fe não nas eftancias onde eftauão, com que começarão daluoraçar algúa gente que dizia em pubrico que ho parecer daqueles capitães era muyto boÕ. E ainda que ho gouernador fov auifado defte aluoroço, diflimulou que ho não fabia, nem quis falar niffo por não poer em difputa fe era bem fofter a cidade ou alargala, porque fe vieffe a iflo poderia fer que aueria muytos a que pareceffe bé ho parecer de Iorge da cunha & de Francifco de foufa, & feria ho aluoroço mayor: & pera diftimuladamente apagar ho que fe leuantaua, rogou a dom Antonio & a dom Ieronimo de lima & a outros dous capitães de que fe fiaua, que como de fí eftranhaffem a Iorge da cunha & a Francifco de foufa o que fazião, & que diífeífem aa gente que ho gouernador faria muyto mal de alargar a cidade, porque melhor feria auenturarfe a defenderfe nela, que auenturarfe ao mar õde eftaua certo perderfe a armada: & eles ho fizerão afli, porem Iorge da cunha & Fran¬ cifco de foufa não fe quiferão defdizer do que tinhão dito, & affirmauão que ho gouernador fazia mal de fofter a cidade. CAPITOLO .XXII. De hum auifo que deu Ioão machado ao gouernador da determinação dos immigos contra os nojjòs, & do mais q defpois foy. COmeçandose efte aluoroço ãtre os noffos, húa noyte foy dito ao go¬ uernador que da bãda do Mandouim falaua hum homem em Por¬ tuguês, dizendo que era Ioão machado que lhe queria falar, que lho chamaffem, porque releuaua falarlhe. O que fabido polo gouernador, fe pos fobre ho muro daquela parte: & fofpeitando que feria algum auifo que lhe quereria dar do que os immigos ordenauão contrele não quis que ho ouuiffe nenhum dos circunftantes, & por iflo os mandou afaftar dali. Ioão machado lhe difle que Pulatecão determinaua de lhe queymar a frota com cotias cheas de lenha feca, de breu & denxofre: porque queymada a frota, lhe não ficafle em que fe podefle faluar, que bem tinha por certo que ho tomaria & a quantos eftauão com ele como chegafle ho Hidalcão que tinha junta muyta gente de caualo & de pee pera vir fobrele: & que
Livro III, Capitolo XXII 5i a gente que tinha era tão groffa que era efcufado parecerlhe que lhe po¬ deria reíiftir, & porque fabia que ho Hidalcão auia de vir muyto cedo lhe daua aquele auifo pera que fe recolheífe aa frota em quánto tinha tempo. Iíto dito foyfe Ioão machado, com lhe ho gouernador agardecer muyto ho auifo que lhe daua, prometendolhe por iífo muytas merces, & rogandolhe cÕ grande inftancia que ho auifaffe de tudo o que os immigos ordenaffem contrele. E ele lhe prometeo de ho fazer affi, dizendo que pofto que andaífe antre os mouros não deixaua de fer Chriftão, & defejar muyto de os noffos leuarem ho melhor dos mouros. Porem ho gouerna¬ dor não acabaua de crer que iíto era alli, & parecialhe que aquilo era ardil de Pulatecão pera lhe fazer medo, & que coele deixaffe a cidade, do que ele eftaua bem fora, porque lhe parecia que era vento a vinda do Hidalcão por amor da guerra que tinha com el rey de Naríinga, & fazia conta que fe a não teuera, que Gafpar chanoca que eftaua por em¬ baixador em Bifnegar lho efcreuera, que não faltarião pera iífo patama¬ res, que por lhe darem dinheiro trouueffem as cartas. O que Gafpar cha¬ noca não fez, porque como diíTe atras ele não foy fabedor da paz que ho Hidalcão fez com el rey de Narfinga por fer muyto fecreta. E com quanto ho gouernador fazia eftas contas coníigo, comunicou com dõ Antonio, & com dom Ieronimo de lima & Simão dandrade o que lhe diífera Ioão ma¬ chado, & ifto com juraméto que ho não defcobriífem a nenhúa peffoa porq não atiçaffem ho aluoroço que andaua antre os noffos, pera que defpejaf- fem a cidade: & affi lhe diffe a rezão porque não cria que ho Hidalcão auia de vir fobre Goa: ao que eles differão que fe não fiaffe niffo, porque como aquela cidade importaffe tanto ao Hidalcão que bem poderia fer, que pofto que perdeffe algúa coufa em fazer paz com el rey de Naríinga, que a faria, & que Gafpar chanoca ho não poderia auifar diffo por coufas que cada dia focedião fem homem cuydar nelas, & por iflo que bem po¬ deria vir ho Hidalcão fem ho ele faber, & que fe vieffe que auia de vir muyto poderofo, pelo que lhes auia de fer forçado de deixar a cidade, mas entre tanto que não vinha, ele a não alargaffe & fe defendeffem ho melhor que podeffem, pofto que auia de fer com muyto trabalho, princi- palmete pola falta dos mantimétos que tinhão, porque algús que poderião auer das ilhas de Diuar & Chorão, auião de fer tão poucos que auião de comer por regra, mas que tudo fe fofreria por não fe alargar a cidade aos immigos. E affentados nefte parecer, aífentarão também que auendofe a cidade dalargar que ho não diffeffe ho gouernador fenã na mefma hora em que ho ouueffe de fazer, porque fegundo os mais dos capitães erão de voto que fe alargaffe fentindo que ho gouernador imaginaua de a alar¬ gar em algú tempo, apertarião coele que a alargaffe logo, como de feyto
52 Hijloria da índia apertarão defpois que Ioão machado falou coele, & poíto que não foube- rão o que lhe diffe, parece que reuelandolhe a carne o que era. Dali por diante Iorge da cunha, Francifco pereyra coutinho, & Francifco de faa, & afíi outros fazião pubricamente requerimentos ao gouernador que alar- gaife a cidade em quanto ho inuerno não era tamanho que não podeffe fair da barra, porque defpois não poderia, & mais que fe não podião fal- uar na cidade por nenhúa maneyra. E não fométe os capitães fazião eftes requerimétos, mas também a gcte miuda induzida por eles, & bradauão ao gouernador, dizendo que os não matafle. E como ele tinha os princi¬ pais capitães por fua parte, que erão dom Antonio, dõ Ieronimo, Simão dandrade, Manuel de lacerda, Ayres da filua, Iorge da filua, Iorge fogaça & Diogo fernandez de beja, refpondia a todos eftes requerimentos, & a todos eftes brados que ele fabia bem fe fe podia a cidade defender ou não, & que em quãto a afronta não fofle mayor, que ele não auia dalar- gar a cidade, nem eles lho auião daconfelhar íe outra mayor caufa da que tinhão. E vendo ho gouernador como efte defauergonhamento de requeri¬ mentos hia tanto auante que lhos fazião pubricamente, porque os que lho fazião não defemparaflem a goarda das eftancias em que eftauão, reque- reo a cada hum dos que lho fazia que lhe defle a menajem de goardarem as eftancias em que eftauão, & de as não defempararem fe não por feu mandado, & ifto com lho requerer da parte del rey feu fenhor: que eles fizerão mais com vergonha que com vontade. E como ho gouernador ifto entendia, quafi que não dormia de noyte por roldar as eftancias, pera ter nelas os que as ajudauão a goardar aos que eftauão nelas por capi¬ tães, porque de noyte lhe dauão os immigos mayor trabalho com quere¬ rem entrar a cidade como ja diffe: & pera ho gouernador faber a verdade fe goardarião as menajés que -tinhão dadas aqueles de que não confiaua, antes das horas que os immigos coftumauão de vir mandaua fazer repi¬ ques falfos, & eftes taes os ouuindo fugião com medo, & deles faltauão do muro por fer baixo, & fazião coufas muyto vergonhofas pera Portu- guefes: o que ho gouernador diflknulaua, porque não fazia aquilo pera mais, fe não pera faber o que tinha neles.
Livro III, Capitolo XXIII 53 CAPITOLO .XXIII. De como Pulatecão cometeo cõcerto de pa\ ao governador, & ele ho não quis, & de como chegou ho Hidalcão ao arrayal. VEndo Pulatecão quão bem fe os nolTos defendião, & q os não podia entrar andaua agaftado de lhe fuceder tão mal aquela emprefa, em que ele cuydou de ganhar tanta honrra como fora tomar a cidade, porque efta era a conta que elle tinha feita quãdo viera cercar Goa. E porque fabia que a vinda do Hidalcão não tardaria, quis ver fe podia ga¬ nhar por manha a honrra que não poderá ganhar por força, & auer a cidade por concerto: & parecialhe que ho faria ho gouernador, affi por ter pouca gente como por não ter mantimentos cÕ que fe podeffe fofter. E pera efta negociação, efcolheo a Ioão machado, que foy ao gouernador com recado, ficando em arrefens a Pulatecão Abraldez ho galego de que fiz menção a tras. E ho.gouernador não quis que lhe falaffe Ioão machado na cidade, porq nã viífe quão fraca eftaua, que com tudo não fe podia acabar de fiar dele, & faloulhe na galé de Simão dandrade que eftaua aa porta do Mandouim, onde Ioão machado foy leuado em húa almadia. E eftando ambos íòs fem outra peffoa algúa, porque fe não foubefle ho recado q Ioão machado trazia, diffe ele ao gouernador que dizia Pulate¬ cão que fe lhe quifefie alargar a cidade q ho deixaria ir em paz com todos os nofios & leuar quanto tinhão na cidade, com condição que lhe pagaffe a valia de coréta caualos, & de certos alifantes que lhe morrerão quãdo decera da ferra de Gate. E efte partido lhe fazia porq defejaua de ter amizade coele, por fer tão boÕ caualeyro, & por faber q ho Hidalcão feu fenor folgaria também de a ter, affi como a tinhão todos os outros reys & fenhores da índia, que do mais bem fabia quão pouca gente tinha pera fe defender ao grãde poder que auia de trazer ho Hidalcão por quem efperaua cada dia, & que defpois que ele vieffe & foubeffe quão fraco eftaua, & quanta neceffidade tinha de mãtimétos como ele fabia, que lhe não quereria a cidade com nenhú partido, fe não tomalo. Ao que ho go¬ uernador refpÕdeo muyto diffimulado, que quem diflera a Pulatecão que ele tinha pouca gente & muyta neceffidade de mãtimétos que ho enganara, porque nas naos os tinha que lhe abaftaflem hú anno, & com a gente que tinha não auia medo ao Hidalcão por mais q teueffe: poré que por ele fer na índia hú fenor tão principal, & ele ter neceffidade dauer de fua terra algúa madeira pera corregiméto das armadas q el rey trazia na índia, aífentaria paz coele com condições mais arrezoadas do que erão
54 Hifioria da índia pagarlhe os feus caualos & alifantes, em cuja morte ele não tinha culpa, pois eftando daffeflego na cidade que fe lhe entregara, ho vinhão bufcar fem ele defafiar ninguém: & quãto ao que lhe dezia de elle entregar Goa lhe não parecia rezão por ella fer del rey de Portugal feu fenhor, de que tinha poder pera ganhar cidades, mas não pera as alargar defpois de ga¬ nhadas, pofto que perdefle fobriffo a vida. E que fe todauia fe ouuefle de falar na paz, q era neceflario auer tregoas ate fe acabar daffentar. Ioão machado diífe ao gouernador q ele diria aquilo a Pulatecão & ainda muyto mais pera abonação de quão feguro ele eftaua na cidade: porem que foubeffe certo que Pulatecão fabia muyto bem como eftaua pelos moradores da cidade, adi mouros como gentios que de attentarem muyto bem como ele eftaua, & de ho faberem mandarão eles aconfelhar ao Hi- dalcão, que mandalfe fobre Goa ou foffe pera fe tomar, & que fem duuida que não tardaria dez dias: & que não tendo Pulatecão tomada a cidade antes de fua chegada lhe auião de queymar a frota, como lhe ja tinha dito: & defpois tomar a cidade, & matar quantos eftauão dentro. E pera lhe defcobrir ette fegredo fizera ele por leuar ho recado de Pulatecão, & afli fe offreceo muyto ao gouernador pera ho feruir em todo o que po- deífe. E porque efperaua de fazer muyto feruiço, afli a noffo fenhor como a ele fe não hia pera a cidade, & fe deixaua andar antre os mouros, onde auia muytos annos que andaua contra fua vontade, mas que fempre fua tenção fora de fer Chriftão, & ho era. E ho gouernador lhe agarde- ceo muyto ho offreciméto que lhe fazia, dizendo que de cadauez que fe ele quifefle tornar pera os noffos que ele lhe faria muyta merce em nome del rey feu fenhor, & lha faria fazer, & que diflimulaffe muyto bem, como ateli que era mouro, porque afli lhe poderia mais aproueitar. E defpois que praticarão nifto hum pedaço tornoufe Ioão machado pera ho arrayal, & deu a repofta a Pulatecão: que quando a ouuio ficou muyto efpantado do coração do gouernador eftando como eftaua. E porem concedeo as tregoas por feys ou fete dias porque vifle fe ho podia atraer ao que ele queria, mas nunca pode. E nefte tépo chegou ho Hidalcão ao arrayal fem os noffos ho faberem, mais que verem finais diífo na multiplicação dos mouros em muyto grande quantidade, afli de pee como de caualo. E fofpeitandofe ifto erão tantos os requerimentos fobre ho gouernador que defpejaffe a cidade & fe recolhefle aa frota que fe não fabia dar a confelho, mas como vifle que os immigos não cometião a cidade como dãtes, parecialhe que ainda ho Hidalcão não feria vindo. E nifto ama- nheceo hum dia húa nao dos immigos metida no fundo que não parecia mais dela que hum pedaço do mafto, & eftaua no canal defronte do va- radoyro das naos. E na noyte do dia em que ela afli apareceo entrou na
Livro III, Capitolo XXIIII 55 cidade hú bramene de Timoja que ho gouernador trazia por efpia com outros no arrayal, & diffelhe como ho Hidalcão era vindo: & a caufa de fe aquela nao ali meter, era pera fe tapar ho canal, porque tapado nã podeffe fayr a noffa frota, que ho Hidalcao determinaua de mandar quey- mar com cotias cheas de lenha feca, & de breu & de enxofre, porque queymada a frota não terião os noffos em que fe faluar, & então os toma¬ ria: porque temia que querendo os tomar antes de fer a frota queymada fe acolherião a elaj & fugirião. E fabido ifto pelo gouernador communi- couho logo com dom Antonio, & com os outros quatro que ja diífe. E affentou com feu confelho, que pois a coufa hia daquela maneyra, & eftaua claro não poder defender a cidade, & a frota juntamente por não ter a gente que abaftaffe, nem artelharia, que lhe tomarão os immigos a mais quando entrarão a ilha: que ho melhor & mais feguro feria recolherfe à frota, & defenderfe nela antes que na cidade, porque os immigos não tinhão frota em que podelfem pelejar coeles. E na cidade como era fraca dos muros & eles muyto poucos, & e os immigos muytos em demafia podianlhos derribar & entralos, & como não teueffem frota em que fe acolher ficarião de todo perdidos: & ainda que por fer inuerno não po- deffem fayr da barra que paffarião o que ficaua do inuerno naquele rio de Pangim, & ali fe defenderião melhor dos immigos que na cidade. CAPITOLO .XXIIII. De como lio gouernador defpejou a cidade, & a caufa porque. TOmado efte aífento tão fecretamente que ninguém ho não foube, logo na noyte fegulte mãdou ho gouernador ao piloto moor que foífe em bateys ver fe poderia a noffa frota fayr por antre a terra, & a nao que os immigos tinhão alagada no canal: & achou q íi pofto que muy eftreitamente. Com que ho gouernador ficou muy defaliuado por eftar com grande medo que lhe teueffem ho canal çarrado. E logo man¬ dou embarcar ho cobre da noffa feytoria, & outra fazenda: & aíli effas poucas de peças dartelharia que lhe ficarão, mas não que ninguém fou- beífe ho pera que fe fazia, mais que dom Antonio, & os outros. Porem logo fe fofpeytou ho pera que feria, com o que todos que defejauão que fe defpejaffe a cidade forão muyto ledos, & ceifara de feus requerimentos. E ho gouernador q ja fabia ho grande poder de géte que eftaua fobrele, receando que fe foífe fentido que fe recolhia ho entraffem os immigos, com que os noffos fe verião em muyta afronta, mandou deitar por onde eles poderião entrar pães de cobre, & paftas, & fardos de pimenta, por-
56 Hijloria da índia que em quanto fe ocupaffem em apanhar efta fazenda fe recolheffem os noífos. E eftando nifto foylhe dito per Ioão machado que ho Hidalcão lhe queria mandar por ele hum recado que deffe arrefens entre tanto que lhe ele foffe falar. E dado Abraldez em arrefens foy ho gouuernador ouuir ho recado do Hidalcão aa galé de Simão dandrade como da outra vez: por que era tão refcatado que lhe parecia que ho Hidalcão, mais man- daua Ioão machado pera efpiar como eftaua, & que fazia, que pera lhe mandar recado: & com quanto tinha vifto nele algús finaes, ou muytos pera fe fiar dele.Todauia não podia acabar configo que ho fizelfe, por auer tanto tempo que conuerfaua com os mouros, & parecialhe que os auifos que lhe daua feria com medo que ho não prendeflé, & defpois que fe viífe antre os immigos lhe difcobreria ho feu fegredo: & por ifio lhe não queria falar fe não na galee, onde lhe ele diffe da parte do Hidalcão outro tal recado como lhe trouuera de Pulatecão. E defpois de lhe ter dito o que lhe mandaua, lhe difle que ho Hidalcão lhe não mandaua aquele recado fe não polo deter que não fugiífe em quanto fe fazia preftes pera lhe queymar a frota, & ja' que lha não queymaffe, nem ho podeffe tomar, queria ficar em paz coele pera lhe não tolher os caualos que lhe hião Dormuz, porque difto fe receaua muyto: porem que a verdade era que ho Hidalcão defejaua de lhe fazer todo o dano que podeffe. E nem por ifto lhe ho gouernador quis defcobrir como fe queria acolher aa frota, antes diffimulou coele, dizendo que auia de ver fe podia fofter a cidade ate ho verão que foffe a armada de Portugal & que quanto aa paz ele tomaria fobriffo confelho, & mandaria a repofta ao outro dia. E nefta pratica deteue ho gouernador a Ioão machado do meo dia ate quafi noyte, porque não diffeffe ao Hidalcão que lhe vira embarcar algúa artelharia, que fe nã pode efconder que ele não viffe. Partido Ioão machado, & re¬ colhido Abraldez, ho gouernador fez ainda recolher da feytoria a mais fazenda que pode: & defpois concertou com dom Antonio, que pera feu recolhimento fer mais fem reboliço ele fe embarcaffe primeyro na galè de Simão dandrade, & dom Antonio ficaffe na cidade, & mandaria matar quantos caualos auia nela, & defpois recolheria a gente á porta da ri- beyra, & fe embarcaria coela em corpo porque não ouueffe algum def- mancho. E ifto andou ho gouernador dizendo aos capitães pelas eftancias, pedindo a todos que fe recolheffem com grande affeffego, porque não fof- fem fentidos dos immigos, que foubeffem que andauão todos muyto alerta a efcutalos: & que fe fintiffem que fe recolhião que auião logo de efcalar a cidade, & entrarião coeles, & que lhes darião affaz de fadiga. E an¬ dando afll correndo as eftancias oulhaua a cidade moftrando a magoa que tinha por a deixar tão cedo: & ouue algús que lhe confelharã que man-
Livro III, Capitolo XXIIII 57 daffe pegar fogo aos paços do Hidalcão & ao almazem, em que auia muyta poluora, enxofre, & muytos tanques de azeite pera que os inimi¬ gos fe não lograffem daquilo. E hú caualeyro chamado Ioão gonçaluez de cafteJo brãco lhe diffe q ho não fizeífe porque pareceria defefperação de não tomar Goa, que ele efperaua de a tomar muyto cedo, & que me¬ lhor acharia então tudo que deftruylo ho fogo: & mais que fe os immigos viífem ho fogo que logo auião dadiuinhar o.que era e efcalarião a cidade, que melhor fe recolheria a gente com outro final que com aquele. O que pareceo bem ao gouernador, & mandou que fe não pofefle ho fogo, & que fe recolheífem os nolfos rédido ho quarto da modorra. E ifto aífen- tado embarcoufe, & defpejada a fazenda que fe pode defpejar da feyto- ria, & mortos os caualos que auia na cidade, rédido as horas que eftauão ordenadas que foy aas duas defpois de mea noyte começarão os capitães das eftancias de fe recolher com fua gente, & dom Antonio que lhes auia de ir nas cofias (pofto que ho gouernador tinha mandado ho contrairo) mandou dar fogo ao almazem. E como os immigos ho virão, & não ou- uirão ho fino da vigia, pareceolhes o que era, & entrarã logo algús per hum cano que eftaua da banda do mandouim, & outros pelo quebrado do muro. E vendo recolher dom Antonio derão auifo aos de fora, de que entrarão mais, & pegarão com os que fe recolhião às frechadas & lança¬ das: & dom Antonio, dom Ieronimo de lima, Manuel de lacerda, & ou¬ tros fidalgos que ficauão nas cofias, pelejarão também que fofteuerão ho impeto dos immigos ate que os que hião diãte fe recolherão à porta da ribeyra. Porem os immigos defpois que conhecerão claramente que a ci¬ dade fe defpejaua entrarão nela tantos, que fe todos ouuerão de pelejar com os noffos, eles fe não poderão embarcar: mas não pelejauão todos, porque muytos fe ocupauão em apanhar ho cobre, & a piméta que ho gouernador mandou deitar polas ruas, que aproueitou muyto. E cÕ tudo como eles erão muytos, & carregauão muyto fobre os noffos, embarca- ranfe eles com trabalho immenfo, prlcipalmente dos capitães que forão por derradeiro foftendo todo ho impeto dos Imigos, de que chouião pe¬ dradas, frechadas & lançadas, & foy a peleja muyto grãde: & quis noffo fenhor que fem nenhú dano dos noífos, fe não de algús feridos pouca coufa.
58 Hijloria da índia CAPITOLO .XXV. De como fabendo ho gouernador que não podia fajrr da barra fem grande perigo, affentou dinuernar no rio de Pangim: & do que aconteceo a Fer- não pere\ dandrade, & a dom Ioão de lima. DEspois de fe os noflos embarcarc que feria manhaã clara foy for¬ çado ao gouernador deterle todo aqle dia diante da cidade pera fe a frota leuar, porque era neceffario fazerfe de vagar por eftar toda bé amarrada: & fe não fora a muyta neceffidade que tinha de anco¬ ras mandara dar piques a muytas amarras, fegundo aquele dia os noífos forão perfeguidos dos immigos, porque em todo ele camanho foy nunca deixarão de tirar ou com artelharia, ou com efpingardões, ou com fre¬ chas, com que algús dos noífos forão feridos. E ao outro dia derradeiro de Mayo em q fazia tres mefes & meyo que ho gouernador eftaua em poífe da cidade: & em que auia vinte dias que os immigos entrarão a ilha começou a noffa frota de fayr com a decente dagoa pera Reban- dar, porque antrela & a cidade queria ho gouernador furgir, pera hi fe aparelhar porque não podia diante da cidade por amor dos tiros que lhe tirauão: & ho primevro capitão que fayo foy Francifco de foufa maneias, & a pos ele os outros. E em a frota emparelhando com ho varadoyro, õde os immigos tinhão a eftãcia com ho camelo, & outra artelharia pera combaterem a cidade, começarão de tirar coela aos noífos com que lhe fizerão muyto nojo, principalmente no rey pequeno, em que húa bombar- dada leuou dous negros em pedaços de quatro que eftauão dando â bomba, & na capitayna deu outra hú palmo do lume dagoa, & paffou ho coftado da nao cortando dentro hú liame, & quis nolfo fenhor que hia ja ho pelouro tão morto, que caindo em hum barril de poluora que eftaua desfundado, não fez nenhum nojo. E a nao frol da rofa, de que era capi¬ tão Bernaldim freyre, que eftaua bem pegada com ho muro da cidade quando fe leuou, recebeo tãta oppreffam de frechadas, & outros tiros que lhe tirauão com os efpingardões, que conueo ao capitão mandar alargar húa ancora, & deixala com ho cabre por fe acolher, porque doutra ma- neyra mataranlhe toda a gete. E como foy em Rabandar com a frota, fabendo ho gouernador o que lhe acõtecera, porque fabia que tinha muyta neceflidade da ãcora que lhe ficara, mandou a Nuno vaz de caftelo brãco q foífe no batel da mefma nao a tomala: & ifto porque Bernaldl freyre era ainda mancebo, & pareceolhe que não teria animo pera ir leuãtar a ãcora por quanto fe corria niffo grande perigo. E pofto que Nuno vaz
Livro III, Capitolo XXV 59 eftaua ferido aceitou a ida. E eftando leuando a ancora chouião as fre¬ chas fobre ho batel, & fe não fora a padeffada matarão quantos hião den¬ tro, porem ferirãlhe muytos, & a hú criado de Bernaldl freyre que hia com as coftas na padefTada da banda do muro foy ferido de hú ferro qua- drelo que tirauão os efpingardões, & paffando ho pades, & húa efpaldeira dhú corfolete com que eftaua armado ho trancou polas coftas ate lhe paf- far ho peyto, & alfi ho teue trancado ate que Nuno vaz fe tornou, porque vedo ele que por leuar aquela ãcora lhe auiã de matar quãtos leuaua a quis antes deixar que perdelos, & mais porque lhe tinhão feridos muytos dos marinheiros. E tendo leuantada húa braça do cabre fe tornou pera a frota, & deu conta ao gouernador do que lhe acontecera. E naquilo che¬ gou ho piloto mór, que vinha de ver a barra, & diffe ao gouernador que por nenhú modo podia fayr dela fem muyto perigo de fe perderé as naos por fer ja ho tempo muyto verde. E fabido ifto por ele chamou a confe- lho, & nele mandou ao piloto moor que diffeffe como achara a barra, & o que lhe parecia do perigo das naos, & ho mefmo mandou a todos os outros pilotos & meftres que ali eftauão jútos, & ho piloto moor: & eles differão que fem duuida eftaua mais certo perderenfe as naos ao fayr da barra que faluarenle. E fobrifto lhe pedio ho gouernador feus pareceres, que dados forão diuerlos, porque hús auião por mayor perigo inuernar naquele rio, que o que fe podia correr ao fayr da barra por amor da cõ- tinua guerra que lhe os inimigos auião de fazer de terra pola eftreiteza do rio: & que lhes auião de fazer muyto dano com a artelharia que lhes ficaua, & que auião morrer de fome, porque não tinhão mantimentos, nem agoa, que melhor feria trabalharem por fayr da barra & verem fe podião ao menos tomar a ilha Danjadiua que era perto, & onde ja inuer- narão naos noífas. E os defte parecer forão Francifco de foufa maneias, Francifco de faa, Francifco pereyra coutinho, íorge da cunha, Iorge fo¬ gaça & Ayres da filua. Os outros todos teuerão ho contrairo, dizendo que pofto que ho perigo da guerra que fe efperaua foffe grande, que muyto mayor feria perderenfe quaefquer naos da frota, porque fem elas não lhes ficaua faluação, nem tinhão em que fe defender, nem com que fizeffem guerra aos Imigos, porque lha não podião fazer fe não por mar: & que fe os mouros da índia os acolheflem na terra fabendo que não tinhão armada que fe ajuntarião todas contreles, & lhes poerião muy cruel cerco, & que fe não tinhão mantimentos que não podia fer, que por inter- cefiam de Timoja nã ouueffem algús da terra firme: & das ilhas de Di- uar & Chorão, & da mefma de Goa em que fariao faltos: quãto mais q a guerra duraria hú mes & meo & no mais que era bem pouco pera fe auenturarem a tanto como era perder a frota que tinhão. E defte parecer
6o Hijloria da índia foy ho gouernador: e efte fe goardou muyto contra võtade dos que tinhão ho côtrairo, efpecialmente de Iorge da cunha, que ele por li mefmo re- quereo ao gouernador da parte del rey que fe folfe, & não inuernaífe ali porque efcãdalizaua ho pouo. E tanto iníiftio naquilo que lhe diffe ho go¬ uernador que fe nã fizeffe procurador de concelho, porq ali auia dinuer- nar. E affentado ifto affentoufe que inuernaffem antre Rabãdar & PangI por fer ali ho rio mais largo, & as naos poderé hi melhor eftar. E afli foy affentado, q fe mandaffe Fernão perez dandrade no nauio fam Ioã, de que era capitão a Anjadiua a bufcar mantimentos, & folfe coele Timoja q era fenhor dela pera lhos fazer véder, & logo partirão ãbos. E coelte alfento mandou ho gouernador leuar ancora pera furgir onde digo: & def- pois que furgio tirou a capitania da riao a Frãcifco de foufa maneias, porq quando fe leuou de diãte da cidade Frãcifco de foufa foy demandar a barra de golpe fc faber fua determinação nc efperar por ela. Pelo que ho gouernador mandou a pos ele, pera q ho fizeífem tornar por força fe não quifelfe por fua vontade: & pera exemplo que outro capitão nã fizelfe ho femelhãte a feu capitã môr, lhe tirou a capitania da nao. E como ele efperaua de fer ali muyto cõbatido dos immigos apercebeofe darromba- das, & toldos em todos os nauios, & padelfadas nos bateys: & pos os nauios mais fortes onde fe efperaua mayor perigo, & os fracos onde ho poderia auer menos. E conhecendo ele ho defeontentamento que auia em algús por inuernar ali corria as naos, & esforçaua a gente, dizendo que muyto pouco tempo auiã de fofrer aqle trabalho de fe defender dos Imi- gos: porem não era efte o que a gente receaua, q pera a peleja do mar affaz auia dela, & artelharia, mas não auia mantimentos fe não hú pe¬ queno payol de bifcoyto na nao frol da rola, q ho gouernador goardaua pera os doétes que auia na frota, & afli hú pouco darroz & hú pouco daçucar: & Fernão perez que hia com Timoja por mantimetos a Anja¬ diua indo defronte do dente da barra, andaua ho mar tão groífo q lhe deu com ho nauio â cofta & perdeofe, mas faluoufe a gente & a artelha¬ ria, & defpois mãdou ho gouernador por tudo, & não quis mais auentu- rar outro nauio vedo como fe aquele perdera: ne Timoja não oufou de fe ir. E por na frota auer grande necelfidade dagoa por não fer ainda ho rio doce q chouia pouco, mandou ho gouernador a dom Ioã de lima no batel dhú nauio, de que era capitão que folfe da banda de Bardès a buf¬ car agoa, & que viífe fe auia agoada q abaftalfe â frota. E eftando dõ Ioão fazendo agoada por fer a terra toda cuberta daruoredo deu húa grande cõpanhia dos immigos fobrele tão de fupito que os não vio fe não em ho cometendo: & com quanto fe ele quifera defender deles cÕ os leus, carregarão eles tanto q os fizerão recolher ao batel, & quafi afoga-
Livro III, Capitolo XXVI 6r dos, porque os apreflauão muyto, & feriranlhe algús de frechadas: & com tudo dom Ioão leuou agoa, porem pouca a refpeyto da gente da frota. CAPITOLO .XXVI. De como ho gouernador foy cercado de ejiãcias dartelharia de Iodas as partes do rio, & do muyto grade trabalho que os noffos pajjauão, ajji de fome como de guerra. SAbendo ho Hidalcao como ho gouernador eftaua tão de vagar no rio de Pãgim, & vendo que queria ter hi ho inuerno, determinou de lhe fazer a guerra, & mandou logo fazer húa eftancia dartelharia na agoada de Bardès, onde dom Ioão tomara agoa, & deu ho cargo deita eftancia a çufogogi com gente darmas que ho acompanhaffe: porem ho gouernador não quis que fe tomaffe ali mais agoa, & nã por medo que os noffos pelejaffem cõ os immigos, mas porque a terra era cuberta dar- uoredo, & fem peleja lhe poderião os immigos fazer muyto dano. E auédo algúa neceflidade dagoa quis noffo fenhor que começou de chouer, & fezfe ho rio doce com a agoa do mote, & coiffo não ouue na frota ne- celfidade de fe tomar agoa fora: & fe ifto não fora não auia faluaçã nos noffos, porq como efta eftãcia foy feyta logo fe fizerã outras de todas as partes. Porq vedo ho Hidalcão que não era neceffaria na cidade a arte- lharia q fe tomara nos paços mãdouha leuar a eftas eftãcias. E ho ca¬ melo com outra artelharia fua & noffa foy pofta na fortaleza de Pãgim pera defender que nã podeffem os noffos paffar pera a barra, & em hum oyteiro que eftá fobre a fortaleza mãdou apoufentar Pulatecão com tres mil homes todos mouros eftrãjeiros pera goardarem aquela fortaleza. E como eftas eftancias forão feytas começou a artelharia de tirar â noffa frota q toda eftaua em lugar que lhe podião fazer nojo & hum tiro foy dar na nao de Bernaldim freyre, & matoulhe hú marinheiro, & quebrou húa perna a hú gormete: & dali por diante tiraua efta artelharia tão amiúde, que fométe ho camelo deitaua cada dia cincoéta pelouros pouco mais ou menos com que os noffos tinhão affaz fadiga, & recebião muyto dano, afli de mortos como de feridos, & não auia ninguém que oufaffe de andar polas pontes das naos, porque logo lhe tirauão com a artelha¬ ria, & hú dia matarão hú marinheiro na nao do gouernador que hia pola coxia da ponte. E como os immigos fabião que aquela era a capitayna por amor da bandeira que tinha na gauia tirauão a ela mais q a nenhúa outra, tanto que foy neceffario ao gouernador alargarfe dõde eftaua, & hirfe lançar pegado com ho rio q vem dantre a ilha de Diuar & a terra
62 Hijtoria da índia firme. O que vifto pelos immigos fizerão ali outra eftancia, onde poferão hú tiro, que também fazia muyto dano ao gouernador, porem não tãto como ho camelo: os outros capitães também fe mudauão por fugir do mal que lhes fazia a artelharia, o que era muyto grande trabalho por a gente eftar doente & fraca da fome q padecia, q como diífe por falta de mantimentos que auia era a regra muy apertada, & efta era darroz fo¬ mente que não auia carne né pefcado mais que algú que fe tomaua de noyte. E pera ho gouernador ver fe fe podia dar a ifto algú remedio, porque a gente não pafmaffe com defefperaçã faloufe com Timoja & Me- nayque que eftauão agaialhados na nao de Nuno vaz de caftelo brãco. E dizédolhe eles que na ilha de Chorão & na de Diuar fe poderia auer algum arroz & carnes, mandou là dom Antonio com outros tres capitães em feus bateys, & hú deles foy Ioâo Nunez de lião: & partirão húa ante- manhaã, & hia coeles Menayque com algús piães feus. E chegados à ilha de Chorão fayrão em terra, & Menayque hia diante defcobrindo: & como tudo eftaua leuãrado nao acharão os nofTos mais que hú pouco darroz, & cinco vacas, & ifto tomarão pagãdoho muyto bé a feus donos, & fem lhe fazerem nenhú mal por os não efcandalizarem. E coifto fe tornou dom Antonio à frota, mas aquilo não foy nada pera quanta gente auia nela, & por iífo tornou à ilha de Diuar, onde andauão algúas vacas, & tomou algúas pelejando, porque os immigos acodirão logo das eftancias ondefta- uão: & vedo que os nofTos hião tomar as vacas as afaftarão pera detrás do ovteiro, em q agora eftâ a hermida de noffa fenhora de Diuar. E coifto ficarão os nofTos fem efperança de auer mais carne, como defeyto não ouuerão: & a regra do arroz fe hia eftreytando de cada vez, pera que abaftaffe, & era a fome tamanha que fe armaua aos ratos, & comiãnos. E os que tinhão arcas encoyradas desforrauannas & deitauão os coyros de molho & comiãnos pifados, & os q ifto tinhã eftauão contentes, mas a gente baixa q não tinha mais que a fua regra fem outra nenhúa ajuda bradauão com fome, & dizião ao gouernador que lhes deffe de comer pois os queria ter ali: & ele fe via tão agaftado com magoa de não poder dar o que lhe pedião, que era pera auer dó dele. E cõ tudo fempre mof- traua grande animo, & dizia que esforçaffem que ele tinha que lhes dar muy largamente, que fe lho mais cedo diflerão que mais cedo lho dera. E determinou de fazer boa boca â géte com ho bizcouto de frol da rofa, & mãdou fazer rol de todos os que auia na frota pera faber quantos erão, porque ho bizcouto era tão pouco que pera abaftar era necefiario darle por onças: & porque pera ifto auia neceflidade de grande tento, não ho quis fiar de Bernaldim freyre, que era mancebo, nem de feu defpenfeiro, & deu a chaue do payol que ele tinha a Ioão gõçaluez de caftelo brãco,
Livro III, Capitolo XXVI 63 que era efcriuão da mefma nao frol da rofa, & mandoulhe que não deffe ho bizcouto fem feu affinado: & ifto lhe dilfe perante todos. E em fecreto lhe mandou que fempre deffe menos ametade ou a terça parte do q foífe no mandado, fegundo viífe que era a forna que lhe mandalfe dar, porque por ele esforçar a gente, & lhe não dizer quão pouco bizcouto auia mã- daria fempre dar o que lhe pedilfem: porem que ele fizeífe o que lhe dizia em fecreto, pofto que lhe mandalfe ho cotrairo em pubrico, & ainda q por fua peffoa lhe diffelfe que compriffe o que lhe mandaua, porque vendo a gente q ele mandaua dar quanto bizcouto'lhe pedilfem cuydaria que ho auia em abaftança & esforçaria, & fe le aqueixalfem dele que não queria fazer o q lhe mandaua que lhe não delfe dilfo, porque ele fabia a verdade do que lhe mãdaua, & q melhor feria dar a géte culpa a ele de não fazer o q lhe mãdaua, que faber a verdade de quão pouco bizcouto auia, & irfe pera os immigos com defefperação, & Ioão gonçaluez ho fez aífi. E vendo as partes que ele não compria os mandados do gouernador torna- uão logo a ele a fazerlhe queixume: & ele moftraua grande menencoria contra Ioão gonçaluez de nã fazer o que lhe mandaua pois auia bizcouto em abaftança. E como a fua nao eftaua perto de frol da rofa, bradaua logo por Ioão gonçaluez, & dizia que delfe ho bizcouto que mandaua dar, & q ho delfe logo: porem ele fazia o que tinha por regimento. E as ve¬ zes fe via ho gouernador tão enfadado coeftes queixumes que punha a culpa a Ioão gonçaluez, & dizia que não fabia que lhe fizeífe que era de fua codição: mas como a gente fe não latisfazia coifto, bradaua ao gouer¬ nador q ouueífe piedade deles, & que os não deixaife morrer, & âs vezes ho apertauão tanto, pricipalmete defpois q conhecerão quão pouco biz¬ couto auia, que ele dagaftado, & fem faber o que fizeífe tiraua polas barbas, & dizia. Tomay aqui que agora não tenho outro mantimento q vos dar, & confolaua os ho melhor que podia moftrãdo grãde magoa de lhes nã poder valer como defejaua: e partia da fua regra com aqueles que lhe parecia que tinhão mais neceffidade, pofto que todos a tinhão aífaz. E os capitães que lhe querião mal vendo a necellidade que a gente tinha incitauãna cotrele, q fe ele não inuernara ali como lhe eles dilferão que efteuerão fora daquele trabalho, & porque ho eles adiuinhauão, lhe confelharão que não inuernaffe: que era hú maniaco q os auia ali de ma¬ tar de fome, & mais que auião de vir os immigos em jangadas, & os auiã de matar a todos. E coifto & cõ a fome que a géte paífaua andauão todos muyto pafmados, & aífombrados com medo, & tres dos nolfos fu¬ girão pera os immigos, hú galego, hú afturiano & outro. E eftes defco- brirão ao Hidalcã ho grande trabalho que hia antre os nolfos, & ho medo que tinhão dos immigos hirem fobreles. E fabendo ho gouernador como
64 Hijloria da índia a gente começaua de fugir mandou vigiar grandemete fobriflo, tanto que mayor trabalho tinhão os capitães em ho fazer que em fe defender dos immigos, que fabcdo o que hia antre os noflbs os apertauão muyto, com que a gente baixa de cada vez auia mòr medo. E também ifto chegaua a algús dos honrados, & auia hi taes que de fifo confelhauão ao gouernador ardis pera que os immigos não tomaífem as naos com jangadas. E ele vendo quão encarnado andaua neles ho medo não oufaua de lho tirar com rezoes, porque via que lhe aproueitauão pouco, & que fe lhe hirião pera os mouros com defefperação: mas diflimulando com prudência agardecia- lhes os confelhos que lhe dauão aprouandolhos por muyto bõs, & dizédo que afli ho faria. E coefta manha os esforçaua, & foftinha em confiança de fe poderem defender dos immigos: & defpois difto metiaffe em fua camara, & oulhaua pera ho ceo chamãdo muy deuotamente a nolfo fenhor, & pedindolhe por fua paixão que lhe valeífe em tamanha agonia, & que tiraffe ho medo aos que ho tinhão por feus peccados, que a eles ho atri- buya & não a outra caufa. E na verdade não auia algúa pera ho auerem, porque a fua nao, & a de dom Antonio eftauão tão bem artilhadas, que elas íomête abaftauão pera pelejar com vinte naos de rumes. • CAPITOLO .XXVII. De como ho gouernador deu na fortaleza de Parigim, & desbaratou Pulatecã, & ho fe\ fugir, & tomou a artelharia da fortaleza. EStando ho gouernador cÕ todos os nofios nefta fadiga foylhe dado hú efcripto de Ioão machado, em que dizia que fabendo ho Hidalcão pelos noflbs q fugirão ho aperto que tinhão da fome, determinaua mandar cotias cheas de lenha feca acefas pera lhe queymar a frota, & que fazia preftes oytenta nauios de remo, pera que foflem nas coftas da¬ quelas balfas de fogo, & mataflem os noflbs que fe deitaflem ao mar def¬ pois que a nofla frota ardefle. Vifta efta carta pelo gouernador, moftrouha a dó Antonio & aos outros capitães, & inuentarão que pera q defuiaflem as balfas da frota mãdaflem poer nas proas dos bateys hús garoupezes como os das naos, fe não q foflem mais pequenos, & q teueflem hús ar- peos pera defuiar as balfas da frota. E ifto fe fez fem ninguém faber ho pera que, fenão os que digo, porque fe fe foubera fegundo a gente comum andaua aluoroçada com medo fugirão todos pera os immigos. Mas efte apercebimento dos garoupezes foy de valde, porque as balfas não vierão: & afli ho tornou Ioão machado a efcreuer ao gouernador, dizendolhe que todauia efteuefle apercebido, porque os immigos fe apercebião pera hirem
Livro III, Capitolo XXVII 65 pelejar coele por mar, & que viffe o que lhe cõpria porque erão muytos. Ho gouernador pelo medo que entendia q os noífos tinhão, & ho receo que tinha de lhe fugirem fe foubeffem que os immigos queria pelejar. Teue efte auifo de loão machado tão fecreto que ho não diffe fe não a do Antonio, & rogoulhe que pera mayor certeza do que auia de fazer que ele foffe ver aquela armada q fe fazia, & ele foy & achou que era aífi: pelo qual comunicarão ambos que feria boõ tomarfe a artelharia de PangI, porque na peleja que fe efperaua auião de receber dela muyto dano, & por iffo era neceffario tomarfe ou encrauarfe, porque nã podeffe tirar tão afinha. E praticado iílo primeyro com dom Antonio propolo def- pois ho gouernador em cõfelho com todos os capitães da frota, a que pareceo bem, & affentarão que fe fizeffe. Pera o que também foy aflen- tado que abaftarião trezétos homés que ho gouernador efcolhefle de hú rol que fe faria de todos os da frota. E porque Pulatecão não podeffe acodir com fua gente à fortaleza ordenoufe que ao mefmo tempo que fe delfe nela, que feria duas horas antemanhaã, fe deffe também no arrayal de Pulatecão que eftaua fobre hú oyteiro hú tiro de bèfta donde os noífos auião de defembarcar, porque uendofe ele afli cometer perderia o teto dacodir â fortaleza. E ho dar no feu arrayal foy encomendado a dom An¬ tonio, & a Simão dandrade, que com cem homens auião dir por efte oy¬ teiro que digo da parte do ponente, donde ficaua a cidade, & pela do norte auia de ir Simão martiz com algús efpingardeiros & bèfteiros a poerfe em hú paífo eftreito que ali eftaua, porque fe Pulatecão foffe focor- rer a fortaleza (que era aquele ho caminho) lho impidifle. E da parte do fui, de que ficaua a barra efteueffem no mar Diogo fernandez de beja na fua galè, & Afonfo peffoa na fua fufta bem pegados com terra defronte dhú reffio que ali eftaua pera que varejaífem cõ a artelharia & impedifle aos do arrayal, que podiã por ali focorrer aos da fortaleza, de que ho cometimento foy encomendado a Manuel de lacerda, que com Baftião de miranda, & Nuno vaz de caftelo branco cometerião ho muro hú pouco afaftado da torre da fortaleza, & pegado coela cometerião dõ Ieronimo de lima, & Ayres da filua, Iorge fogaça, Fernã perez, dom loão de lima, & outros capitães. E em quanto eftes pelejaífem, Dinis fernandez q auia dir em hú parao cõ coreta marinheiros, teria cuydado de recolher a ar¬ telharia, prícipalméte ho camelo, & coele os mais dos tiros q podeffe: & pera ho fauorecer auia dir ho gouernador no feu efquife. Ifto afli aífen- tado foy logo pofto em obra, & ho gouernador mandou embarcar os que eftauão efcolhidos pera efte feyto fem outros nenhús mais, pofto que muy¬ tos quiferão ir, & fe offrecerão pera iffo. E ho gouernador lho agardeceo muyto & cõtentauaos cõ lhe dizer q era mais feruiço del rey ficarélhe Tono II 9
66 Hiftoria da índia oulhando por fuas naos q hirê pelejar. Embarcados todos começarão de remar a boga furda, & partirão pera terra fem fere fentidos. E chegados a ela tangerão as trõbetas do gouernador, & os feus atabales, q mandou leuar no feu batel. E foy tudo tangido cõ tamanho aluoroço q parecia q era ali junto ho mudo todo. E em começãdo de tocar esftes inítormentos poyarão os noffos em terra cõ grãde ligeireza, & cada capitão foy come¬ ter o q lhe eftaua encomcdado. Dõ Antonio & Simão dandrade tomarão pelo oyteiro acima, q ja diffe caminho do arrayal dos Imigos. E chegãdo a eles cometerãnos cõ tamanho impeto, que cuydarão q era todo o mudo fobreles, & mais como acordauão toruados do fono, parecialhes q era afíi como digo: & fora de íi cõ medo começarão logo de fugir, porq na ver¬ dade os noffos apertauão muyto, matando & ferindo neles fem nenhúa piedade. Pulatecão q fe vio adi cometer, & ouuldo ho grãde arrovdo q fazião os atabales & trõbetas cuydou q toda a força dos noffos hia fobrele: & por iífo determinãdo de fe acolher à fortaleza, recolheo a mayor parte dos feus, & encaminhou parela. E chegando ao paífo onde eftaua Simão martlz, achoufe ébaraçado cõ as efpigardadas, & fétadas que os noffos começarão de desfechar, cõ que derribarão algús dos Imigos. E como Pulatecão vinha defcuydado de tal coufa, pareceolhe q eftaua cercado, & ho medo lhe fez crer q não tinha outra faluação, fe não fugir: o q pode be fazer por ir nas coítas dos feus, q fizerão como ele. E Simão martinz foy hu pouco a pos ele, matando & ferido algús, & nã quis ir mais auante por ter pouca géte, & os Imigos feré muytos. E tãbe porq a diante era a terra larga, Õde fe não podia tãbé ajudar como na eítreyta: mas poíto q eles efcaparão de Simão martlz, tornarão a cayr nas mãos de dom Antonio, de Simão dandrade, & dos feus q carregando muyto fobreles os fizerão fugir per outro cabo, por onde não eftaua Simão mar¬ tlz, & não acharão là tão pouco õde fe acolher: porq afíi como os noffos poyarão q cada hu cometeo Õde eftaua ordenado, remeterão logo ao muro Manuel de lacerda, Baftião de mirãda, & Nuno vaz cõ os q leuauão em fuas capitanias. E por fer ho muro baixo fobião polas lãças, Manuel de lacerda foy dos primeyros que fubio. E fentindo os Imigos q os entrauão, cõ quanto ho defacordo do fono 5 q eítauão lhe pos logo algú efpanto, & não deixarão dacodir ao muro, & cometerão muy rijo os noffos que eítauão fobrele, & com hum bote dazagúcho derão dele abaixo cõ Ma¬ nuel de lacerda. E nifto fobirão Bastião de miranda, Nuno vaz de caítelo brãco, & os que hião coeles: & também Manuel de lacerda que tornou logo a fobir, & aífi todos os outros capitães com fua gente. E começoufe tudo dencher de grande eflrondo que fe fazia dos brados, afíi dos noffos, como dos immigos, & do tom dos golpes que dauão, com que os immi-
Livro III, Capitolo XXVII 67 gos forão tão affombrados de medo que fe derão por perdidos, & toma¬ rão por remedio fugirem per húa porta da banda do fui, onde ficaua a barra. E ali defronte eftauão Diogo fernãdez de beja & Afonfo peífoa: & com quanto lhes ho gouernador defendeo que não faylfem em terra, era Diogo fernandez tão esforçado que vendo os immigos não fe pode fofrer que não foífe a terra na fua barqueta, & leuou configo oyto homens, & foy cometer aqueles primeyros immigos q fayrão da fortaleza. E como ainda erão poucos auinhaífe bem coeles, fe não quando faem muytos de roldão, & achando ho com tão poucos remeterão a ele pera fe vingar do mal que lhes era feyto, & tratauãno mal, & feriranlhe tres homens, pelo que foy forçado a Afonfo peífoa varar a fufta em terra & acodirlhe. E porem era ho focorro ainda tão pequeno pera quantos os immigos erão q tinhão a barba em tefo, & pelejauão com muyto esforço. E nifto aca- baranfe de defbaratar os immigos da fortaleza, & defpejando ha de todo derão lugar aos noífos capitães que podeffem fayr apos eles, & Manuel de lacerda, & Nuno vaz feguirão apos algús que tomarão pelo oyteiro acima caminho do arrayal, não lhe parecendo ainda que Pulatecão foífe de todo defbaratado. E dom Ieronimo de lima, dom Ioão de lima, Iorge fogaça, Fernão perez & os outros capitães feguirão apos os outros que fugirão pera onde Diogo fernandez de beja, & Afonfo peífoa eftauão pe¬ lejando, a quem os immigos defaprelfarão do aperto em que os tinhão cÕ a vinda dos noífos: & aíli os que pelejauão como os que fayrão da forta¬ leza fe defbaratarão de todo, & fugirão caminho da cidade, ficando deles mortos trezentos, & dos noífos nenhum, fomente forão feridos algús, an- tre os quaes forão Fernão perez dandrade & dom Ioão de lima. E eftes trabalharão muyto èm ajudar a Dinis fernandez a recolher ho camèlo, leuando ho quafi nos braços, & afii a outra artelharia. E defbaratados os immigos que os noífos fe ajuntarão todos, forão bufcar a fortaleza fe achauão nela algús mantimentos: & recolhidos algús poucos que acharão, & aífi algúas armas tornoufe ho gouernador pera a frota muyto ledo por desfazer aqla força q os immigos ali tinhão, de q recebião muyto grande dano.
68 Hijloria da índia CAPITOLO .XXVIII. De como lio Hidalcão cometeo amizade ao gouernador, & ele a não quis, & a caufa porque. MUyto efpantado ficou ho Hidalcão quãdo foube ho defbarato de Pulatecão, & a tomada da fortaleza de Pangim, & que os noffos leuarão toda a artelharia fendo tão poucos, & tão canfados da maa vida que tinhão, como ele muyto bem fabia. E efte defbarato de Pulatecão lhe fez perder dali por diante ho credito que tinha nele, & ho não encarregar mais de coufa nenhúa: & porque fe temeo que os noífos com ho fauor daquela vitoria não correffem ate a cidade, mandou fazer húa eftancia em Rabandar dalgúa artelharia fua: & deu a goarda dela a çufolarim, em que ja tinha grande confiança por ele fer ho primeyro ca¬ pitão que entrara na ilha, & deulhe a mefma gente que Pulatecão tinha em Pangim, & ho mefmo poder. Mas dali por diante não podião os im- migos fazer ho dano que faziã dantes aos noífos: porque a artelharia com que tirauão não tiraua tão furiofa como a nolfa que era de metal & a fua era de ferro. E vedo ho Hidalcão como os noífos eftauão defaliuados do trabalho dos combates, & que por derradeiro lhe não podia fazer nenhum mal. E que como ho tepo deífe vao q ho gouernador fe poderia ir liure- mente, & lhe ficaria por immigo, que lhe feria grande perda por amor dos caualos Dormuz que lhe hião a Goa, que lhe podia tolher tomando as naos que não foífem a Goa: & pola neceflidade que ele tinha deles feria neceífario auelos doutra parte, onde lhe auião de cuftar muyto ca¬ ros. E por efta caufa pois não podia danar ao gouernador, lhe pareceo bem telo por amigo, & fazer paz coele, o que ele cuydou que aceitaífe por a neceflidade em que eftaua de mantimentos. E deu ho cuydado de fazer efta paz a çufolarim que mandou recado ao gouernador por Ioão machado, dizendo que ho Hidalcão defejaua de fer feu amigo, como ho erão todos os reys & fenhores da índia. E pera fazer efta amizade lhe pedia q fe viflem ambos, ou mãdafle algú de feus capitães, pera que falandofe no mar a fizelfem. E Ioão machado diífe em fegredo ao gouer¬ nador a caufa porque ho Hidalcão defejaua aquela paz: & a fora eífa auia outra que lhe mais doya, que era dizerfe que el rey de Narfinga lhe queria tornar a fazer guerra, pera lhe tomar Ráchol, húa fua cidade que lhe ho Hidalcão tinha tomada, & fe afli foífe que fe não poderia de- »fer, & fe auia de partir, por iífo q fizeífe a paz a feu proueito: o que lhe ho gouernador agardeceo muyto, & refpondeo a çufolarim, que ele lhe
\ Livro III, Capitolo XXVIII 69 refponderia por hú dos feus capitães. E efte foy Fernão perez 3 fe vio coele, leuando húa inftrução do gouernador pera a maneyra de que auia daffentar a paz, que era darlhe ho Hidalcão húa das tanadarias da terra firme a mais perto de Goa pera el rey de Portugal feu fenor: & q efta não queria pera mais que pera mandar cortar nela madeira, & nã lhe fer neceffario pedila de cada vez que dela teuefle neceflidade: & que não cuydafle ho Hidalcão què ho fazia por amor da renda da tanadaria, por¬ que el rey feu fenhor era muyto rico, & não auia mefter mais renda. E quando não quifefle dar a tanadaria, que lhe deixaífe fazer húa fortaleza no paflo de Benaltarim, & coiffo ficaria fatisfeyto: porque tendo aquela fortaleza, como era tão perto da terra firme aueria facilmente a madeira que lhe foífe neceflaria. Ouuidas por çufolarim eftas duas condições com quanto ho gouernador as fazia muyto faciles não lhe parecerão fe não muy duras de conceder, porque bem vio que erão armarfe ho gouerna¬ dor pera tomar Goa, & difle logo que ele não tinha poder do Hidalcão pera fazer amizade com taes condições como aquelas, que lhe parecia que abaftaua pois ho gouernador eítaua tã apertado não lhe fazer mais guerra, & darlhe mantimentos & deixalo ir, & que fe deuia de contentar coiífo, & não querer coufas impoffiueis que ho Hidalcão não auia de fazer, & porque ho ele fabia lho daua logo por repofta. Fernão perez refpondeo que ho gouernador não pedia coufas impoffiueis, porque pera hum fenhor tamanho como ho Hidalcão, o que ho gouernador pedia era muyto pouco, & pofto que fora muyto que lho auia de conceder por ficar feu amigo, pois fabia que não ho fendo lhe podia fazer muyto nojo, impedindo que lhe não fofiem nenhúas naos Dormuz a Goa com os caualos, de que ho Hidalcão tinha tanta neceflidade como eles fabião, & que não cuydaffe que eftaua apertado, porque não ho eítaua qué fazia guerra aos que ho tinhão cercado: & fe ho dizia por algús maos homés que fugirão da frota pareles, que lhe dirião que tinhão grande neceflidade de mantimentos, que os não crefle porque iflo dizião por difculpa da maldade que come¬ terão em deixar ho gouernador em tal tempo. E cÕ todas eftas rezões nã pode parecer be a çufolarim ho dar da tanadaria nem ho fazer da forta¬ leza: porem ficou em aberto que falaria com ho Hidalcão, & que fe ele fofle contente que fe tornarião a ver, & fe não que lhe mandaria a repofta por Ioão machado. E foy que ho Hidalcão nã queria: & diflelhe Ioão machado que lhe não defle diflo, porque a guerra del rey de Narfinga era certa, & que ho Hidalcão auia dacodir por força. E mais que fe ho gouernador quifefle que ho podia catiuar facilmente, não indo a iflb mais que ate quinze caualeyros dos principais de fua frota: & que fe podia fazer, porque ho Hidalcão ficaua cada noyte foo na fortaleza da cidade
7 o Hijloria da índia com fuas molheres, & algús capados que ho feruião & toda a gente dar- mas fe recolhia â cidade, & a cafa em que ele dormia ficaua em húa torre da banda do mar, & ali tinha certos cofres de dinheiro em ouro, que fe também poderião leuar coele, porque indo os que ele dizia fobi- rião por húa efcada á torre, & primeyro que a gente acodifle da cidade ho poderião leuar com os cofres. E pera mais fegurança que foubeffe ele a noyte em que auia de fer, & que teria maneyra pera fechar de fora a porta da cafa em que dormia ho Hidalcão. E parecendo ifto bem â pri- meyra face ao gouernador fez fobriffo confelho, em que ho propos: & ouue algús que diflerao que não era bem que fe cometeffe: porque como auia de eftar ho Hidalcão a tão mao recado que adi fe podefle tomar, & q parece métira: & fe ho foffe como eftaua certo q ho era perderíião quinze homés, que pera ho tempo feria muy grande perda. Outros diffe- rão que fe deuia de fazer, porque affi como Ioão machado podia mentir, affi podia falar verdade: & fe ele quifera fazer treição differa q fora o gouernador ao feyto, mas pois dizia q foffem caualeyros, que falaua ver¬ dade: os quaes fe fe perdeffem por tamanho ganho como aquele feria que não era nada. Ho gouernador com quanto lhe pareceo bem a pri- meyra poerfe aquilo em obra, defpois que ouuio no confelho os parece¬ res foy da parte dos que dizião que não era bem auenturarenfe a perder quinze homens dos principais, que pera ho tempo feria muyto grãde perda. E ho receo de os perder lhe fez defconfiar que não feria affi o que dizia Ioão machado, & por iffo não quis que fe atentaffe aquele feyto, de que defpois Ioão machado deu muyta culpa ao gouernador, affirmandolhe que fem duuida fe acabara 1'e fe cometera. E então conheceo ho gouer¬ nador que fe enganara. CAPITOLO .XXIX. De como ho gouernador mandou enforcar hii caualeyro chamado Ruy dia\, & de como fe feguio por iffo prender certos capitães. NEste tempo foy difcuberto ao gouernador, por algúas peflòas e fegredo, que Ayres da filua & Francifco de foufa mãcias andauã damores com algúas moças mouras, que forão tomadas em Goa nas cafas do çabayo, que ele tinha com outras na camara do leme da fua nao, pera mandar a Portugal aa rainha, & erão ainda mouras que foy caufa de ele mais fentir o que Francifco de foufa & Ayres da filua fazião, & mais em tempo que tanta neceffidade tinhão de darem bõ exemplo de fi, & não fazerem coufa de que todos auião de receber muyto grande
Livro III, Capitolo XXIX 71 efcandalo, & porque tam graue crime não ficaffe fem caftigo, pofto que diflo lhe pefou muyto, os mandou prender ambos fobre fuas menajens: fobre o que ouue grande murmuração em toda a gente da frota, & os que não querião bem ao gouernador ho culpauão de prender aqueles ca¬ pitães em tal tempo, & daqui fe começarão muytos mexericos. E indo ifto affi foube ho gouernador que hum Ruy diaz natural Dalanquer filho dhum Ioão paçanha efcriuão da hi entraua de noyte na fua camara do leme pola parte de fora, & dormia com húa moça moura deitas que digo, pelo que ho gouernador ho mandou prender pera ho caítigar crimemente. E mandando proceder contrele, ordinariamente julgou com feu ouuidor, que fe chamaua Pero dalpoem, que Ruy diaz foífe enforcado, & man¬ dou ao feu meirinho que ho foffe enforcar aa nao de Bernaldim freyre. E como ifto foy 1'abido por Manuel de lacerda que tinha a Ruy diaz por parente, & ho agafalhaua por tal na fua nao, ficou diflo muyto agaftado, & mais porque fabendofe que ele era feu parente ho condenauão a húa morte tão ciuel & por iífo fe foy logo aa galee de Simão dandrade que tinha amizade coele, & com Fernão perez dandrade feu hirmão. E pedio- lhes que pois Ruy diaz era conhecido por feu parente, que pedilfem ao gouernador que ho mandaffe degolar, & não enforcar. E Fernão perez porque conhecia ho gouernador, & fabia que não auia de querer, quife- rafe efcufar daquele negocio, dizendo que eftaua ferido em hum braço, onde ho ferirão na tomada do camelo: mas não fe pode efcufar por lho rogaré muyto, não fomente Manuel de lacerda, mas todos os outros capi¬ tães que fe logo ajuntarão na galee como fouberão ho cafo, por ferem amigos de Manuel de lacerda. E todos juntos com Lourenço de payua que era fecretario do gouernador, confultarão que juntaméte foliem pedir que Ruy diaz morreífe degolado: & ifto difle defpois Lourenço de payua ao gouernador, mas outros dilferão que ho confelho era que Ruy diaz não morreífe, porque auia fofpeita que ho gouernador ho mandaua enfor¬ car de feu poder abfoluto, porque não dera conta dilfo aos capitães. E logo defpois defta confulta fe embarcarão no batel de Manuel de lacerda, ele, Simão dandrade, Ayres da filua, Fernão perez & Iorge fogaça, pera hirem aa capitayna: & porque entretanto que hião 1'e não enforcafle Ruy diaz que jaa eftaua na nao de Bernaldim freyre de caminho perlongarão coela, & pediranlhe que deteueffe ho meirinho, que não executaífe a juf- tiça ate não hirem falar ao gouernador. E Bernaldim freyre que eftaua agaftado de fe Ruy diaz enforcar na fua nao, diffelhes que também que¬ ria ir coeles ao gouernador a pedirlhe que mandaffe fazer aquela juftiça em outra nao, & que Francifco de faa que eftaua coele deteria ho meiri¬ nho, & affi lho rogarão eles. E ele defpois de idos por ho meirinho que-
72 Hifioria da índia rer enforcar Ruy diaz, lhe cortou ho baraço, & não confentio que ho en- forcaífe, requerendolhe ho meirinho da parte del rey que lhe deixaffe executar a juftiça, como ho gouernador mandaua, fazendo fobriffo gran¬ des proteftações, & a grita da gente da nao era muy grande, & affi ho aluoroço. O que vendo ho gouernador parecendolhe o que era, pera ir acodir meteofe no feu batel com quarenta homens armados, & querendo abalar chegarão os capitães que digo, & faltarão logo dentro no batel do gouernador Simão dandrade, Manuel de lacerda & Fernão perez, & co¬ meçarão de lhe pedir aquilo a que vinhão, & fegundo ho aar que ele moftraua criaífe que lhes concederia o que pedião, fe não quãdo entra Iorge fogaça muyto menencorio, & diífe ao gouernador que como man¬ daua ele enforcar hum caualeyro fem dar conta aos capitães, & fem lhes moítrar fuas culpas. E indo ho gouernador pera Iorge fogaça pera lhe refponder efcorregou em húa toíte do batel & cayo, & deu húa canelada, de que ficou logo como homem indinado, & diífe aos capitães que entraf- fem na nao, & que laa lhes refponderia: & defpois de ferem entrados todos dentro, lhes preguntou por que eftauão os feus nauios. E eles ref- ponderão rindo que por quem auião deitar, fe não por el rey de Portu¬ gal, cujos vaífalos eles erão pera fazerem o que ele mandaífe. Diífe então ho gouernador que por a onião q cometerão, & defafeífego compria a feruiço delrey feu fenhor que foffem prefos pois vinhão juntos em alca- tea. E por feus peccados era neceífario que ele foífe ho carcereyro: & logo os mandou meter todos debaixo da cuberta de fua nao prefos, & aíli a Frãcifco de faa, por quem logo mandou, & a Iorge fogaça mãdou deitar ferros por amor das palauras que lhe diífera. E iíto feyto mãdou enfor¬ car Ruy diaz: & como ho gouernador prendeo eítes capitães cõ paixão arrependeofe dali a dous dias, porque como erão os principais da frota fazianlhe muyta mingoa, & por iffo quifera reconciliar coeles, & cometeo ho por dom Antonio, o que eles nunca quiferão, & refponderão que pois ho gouernador os prendera que prefos querião ir ate Cochim, & dali ate Portugal, nem quiferão mais fayr debaixo de cuberta. E vendo ho gouer¬ nador que infiítião em eltar prefos, porque os feus nauios não podiã eítar fem capitães deu as capitanias a outros fidalgos. A galee de Simão dan¬ drade a Antonio dalmada, ho nauio de Manuel de lacerda a dom Ioão de lima, ho Dayres da íilua a Antonio de matos, & ho nauio de Iorge fogaça a outro.
Livro III, Capitolo XXX 73 CAPITOLO .XXX. De como fabetido ho governador que os inimigos auião de vir pelejar coele, mandou a dom Antonio que com outros capitães fojje primeyro pelejar coeles: & de como fe apercebeo pera iffo. COm a prifam deftes capitães, que erão os principais da frota, fe indinou muyto a gente cotra ho gouernador & diziam muyto mal dele, principalmente effes capitães que lhe querião mal, & dizião â gente que agora virião quão maniaco era, que em tal tempo prendia os capitães, de que tinha tanta necefíidade: & que não tendo mantimõtos não quifera amizade com ho Hidalcão que lha offrecera, & não queria fe não fazer fua vontade, que era matalos a todos: nem auia outro reme- dio, fe não morrerem com fome, pois nã tinhão que comer hum mes que ainda eftaua por paffar do inuerno. E ifto tudo fabia ho gouernador muy bem, mas difíimulaua por não prender tãtos. E eftando affi a coufa man- doulhe Ioão machado que fe fizeífe preftes, porque fem duuida tal dia hia çufolarim pelejar coele por mar, & que leuaua oytenta paraos cada hum com fua bõbarda na proa, & muytos mouros: & que auia dir em húa galee que ho vifo rey dom Francifco tomara aos rumes, que ao recolher dos noffos lhes ficara na ribeira, por não eftar ainda acabada de concer¬ tar: & que tinha prometido ao Hidalcão de defbaratar os noífos, & toma- los, & tinha cõuidados muytos pera que foffem ver como ho fazia. E mais q auia de leuar diante as cotias acefas pera queymar a noífa frota. O q fabido polo gouernador affentou cõ confelho de todos os capitães q foffem pelejar com os immigos antes que vieífem, porque vindo fe punhão em rifco de receber deles muyto dano por amor dos noffos bateys que erão poucos, & não fe podião repartir pera pelejar com os immigos, & defen¬ der as naos fe as quifeffem queymar: o q eftaua certo fazerem, porque como os feus paraos erão muytos hús podião pelejar, & outros dar fogo âs naos não auédo bateys que as defendeffem, por iffo era melhor bufcar os immigos que efperar. E també indo os noffos em fua bufca crendo eles que por canfados de fome, & de trabalhos nã eftauão pera iffo, lhes quebraria os corações, de manevra que com ajuda de noffo fenhor os def- baratarião, & ficarião liures de os mais não cometeré. E affentoufe q dom Antonio foffe fazer efte feyto cõ os outros capitães, & ho gouerna¬ dor com os doétes & feridos ficaffe na frota. E coefta determinação hú dia antes do que Ioão machado dizia em que os immigos auião de vir (tendo ho gouernador pofta fua frota em lugar que podeffe focorrer a Tomo II IO
14 Hijloria da índia dom Antonio fe foffe neceffario) em começado a viração defpois de co¬ mer, mandou Diogo fernandez de beja, & Antonio dalmada nas íuas galés, & Afonfo pefíoa na fua fufta, & Ioão gonçaluez de caftelo branco no parao de frol da rofa, que fe foflem deitar a Rabãdar a ver fe lhe fayã os immigos: & ifto pera ver quantos ferião, & ficauão os bateys preftes pera acodirem às galés fe lhe fayffem os immigos. E não fayndo mãdou ho gouernador que as galés & fuftta paflafiem auante ate ficarem da cidade a tiro de bombarda groffa, & Ioão gonçaluez chegaffe defronte da cidade pera auer vifta da armada dos immigos, & que moftra fazia a gente de fer pouca ou muyta: & mandoulhe q como viffe a frota voltaffe logo pera as galés, a q mãdou que fizeffem hú certo final a húa cotia de Timoja q eftaua a Rabandar pera lhe fazer ho mefmo final, pera coele mandar os bateys. As galés & fufta forão furgir õde lhes mandarão, & cõcertarão fua apelação de guerra, & Ioão gonçaluez paífou auante ao logo da ribeira bem efperto do remo, que afli lhe compria, porque em chegando ao varadoyro muytos paraos que ali eftauão bem apadelíados, & com as proas nagoa, & as popas ainda em terra lhe tirauão com fua artelharia, & por afli cftarem não fayrão a ele. E com todos eftes tiros não deixou de ir auante ate defronte do efteiro de Mandouí, onde eftaua outra foma de paraos, & a galiota pera çufolarim, & â reuolta q hia na ribeira acodio pelos muros muyta gete a velo. E vifto tudo por ele fem receber nenhú dano fe foy ajuntar com as galés, & como chegou fizeranfe os finais q eftauão ordenados, & coeles partio logo dõ Antonio, que foy no parao da capitayna, & forão coele Simão dandrade & Fernão perez dandrade, que com quanto eftauão agrauados do gouernador, vedo que a coufa importaua a feruiço de Deos & del rey não fe quiferão lembrar dagrauos & forão pelejar, & outro tanto fizerão os outros prefos, que todos forão com os capitães q mais lhe aprouue: & feriã por todos os que hfão com dom Antonio bem trezentos homés. E chegado ele onde as galês eftauão furtas com a fufta & parao, vio que eftaua çufolarim da banda da ilha de Diuar com obra de trinta paraos, & andaua muyto foberbo com ieu fombreyro, & mãdandofe abanar com hú rabo de boy: & da banda da cidade eftauão ainda os outros paraos, q erão cincoenta todos abicados nagoa, porem com toda a gente que auia de pelejar. Dom Antonio que vio afli os immigos dhúa parte & doutra, pareceolhe que ho querião tomar no meyo: & por iflo fez dos feus bateys dous eÊquadrões, & pera íi tomou hú de quatro com ho feu, & dos tres erão capitães dõ Ieronimo de lima, dom Ioão de lima feu hirmão & Garcia de foufa, ho outro era de feys, de que erão capitães Bernaldl freyre, Iorge da cunha, Luis coutinho, Antonio de matos & outros dous. E a
Livro III, Capitolo XXXI 75 eftes encomêdou que foflem pelejar com os paraos que eftauão da banda da cidade: & aífi a eftes como aos outros q auião dir coele pedio muyto que não defparaffem toda fua artelharia junta, fe não que acabãdo hú de tirar tirafle outro, & porq os tiros erão berços, que afli como foflem tirando lhes metefiem logo as camaras pera q fempre tiraflem, & que defte modo os não poderião entrar os immigos: porq doutra maneyra ferião logo defbaratados. E mandou que as galês & fufta fe leuaífem & foflem apos ele pera ho fauorecer. CAPITOLO .XXXI. De como dõ Antonio pelejou com çufolarim, & ho defbaratou: & do que fi\erão Sirnão dandrade, & Fernão pere\ dãdrade, & de como dom An¬ tonio foy ferido mortalmente. ORdenados afli eftes dous efquadroes, partiofe dom Antonio coeles pera a cidade, & em partindo começarão os immigos de deitar ao mar os paraos que eftauão abicados da banda da cidade. E os Imigos erão tantos na ribeira & pelos muros que tudo eftaua cuberto deles, & a caufa era porque çufolarim tinha conuidado a todos que fayf- fem a ver como tomaua os noflos, que em vendo abalar os Imigos arran¬ carão com grande fúria, remetendo cada efquadrão onde era ordenado. Dõ Antonio fe foy dereyto pera çufolari, q como digo fe chegaua parele muyto foberbo, fazédofe abanar como que efteuefle em fua cafa fem temer nenhú perigo, fe não quando ele começou de fentir camanho era efperar os noflos tiros, q tirando na ordê que difle começarão de varejar muyto furiofos por todas as partes leuando em pedaços algús dos remei- ros que hião defcubertos, & afli outros dos homés darmas que fe defco- brião. E pofto que os Imigos també tirauão com fua artelharia nã lhes aproueitaua porque defpararão todos juntos. E noflo fenhor parece q quis goardar os noflos que lhe nã fizelfe nenhú nojo, & por ifío cobrarão eles muyto mayor esforço do que leuauão, & dãdo grandes gritas tirauão auante quanto podião. E era muyto pera efpantar como quatro batevs noflos oufauão de cometer trlta paraos, & húa fufta cheos dartelharia & de gente branca muyto coftumada a pelejar, & a vêcer, & muy bem apercebida pera a peleja: & que vinha toda com propofito de não efca- par nenhum dos noflos de morto, ou de prefo: & a fora aqueles que eftauão daquela parte outros muyto mais da banda da cidade, & na terra gente fem conto, que fomente os gritos & eftrondo da artelharia erão pera efpãtar aos noflos, quanto mais faberé que fe não podião faluar fem
Hijloria da índia 76 ao menos defbaratarem quantos eftauão no mar, & afli ho dizia dom An- tonio aos feus esforçando os pera a peleja: ele mandou endereytar ho feu parao cõ a fufta de çufolarim determinando de a abalroar: o que çu- folarim com toda fua foberba não oufou de efperar, & fugio, & foyle na bolta da cidade pera fe meter no efteyro do Mandouim õde eftaua dan¬ tes : & ho mefmo fizerão os feus paraos, & não auia efperar hú por outro, fe não fugir quem mais podia, & os noffos depos eles. E os outros paraos que eftauão da banda da cidade que pelejauão cõ ho outro efquadrão dos noffos bateys, també eftauão em grande aperto, que lhe tinhão os nolTòs mortos muytos remeyros, & morta outra muyta gente. E como lhe fale- cião os remeyros, & vendo defbaratado ho feu capitão môr em quem tinhã fua confiança retiraranfe pera terra ate hirem varar nela, temendo que os abalroaffem os noffos: & ho mefmo fizerão os outros que fugião com çufolarim, tanto que poderão aferrar terra, & os que não poderão fugirão pelo rio acima. Os noffos que virão os immigos varar quiferão chegar a eles & aferralos, mas não poderão porque lhe tinhão atupido ho caminho com muyta madeira: & como os feus bateys demãdauão mais agoa que os paraos dos immigos não poderão nadar, & quafi que ouuerão de ficar em feco, & virãfe em grande perigo com os muytos tiros q lhes tirauão de terra, & aífi frechadas, & virotes com efpingardões. Nefte tepo dom Antonio que hia a pos çufolarl não ho deixaua, & man¬ dou apertar ho remo tanto que encaualgou a fufta & tolheolhe que fe não acolheífe ao efteiro onde leuaua a proa, & por iffo foy neceffario a çufo¬ larim mandar arribar ao logo da fortaleza, cujo muro & afli ho da cidade eftaua cheo de frecheiros & efpingardeiros, q feruirão muy bé a dom An¬ tonio que hia dando caça a çufolarim, que tiraua quanto podia caminho da porta que agora fe chama de fanóta Caterina. E paífando dom Anto¬ nio ao longo da porta da ribeira, tiraranlhe com húa bombarda groffa que lhe ouuera de quebrar ho parao em dous pedaços fe lhe dera em cheo, mas quis Deos que lhe deu ho pelouro em hú bordo de q lhe leuou hú pequeno: porem ele não deixou de feguir a fufta, que chegando à porta de faniíta Caterina bem efperta do remo pos a proa em terra, & ficou hú pedaço em feco. E como a gente que eftaua na ribeira era muyta & lhe acodio logo: a força de braço poferão mais dametade dela em feco, & tão ligeiraméte, que em a fufta enfecando, & em a gente puxando por ela, tudo foy hum. E também no mefmo tempo chegou dom Antonio rompendo por grandes nuués de frechas & feetas que lhe tirauã de fobre ho muro da cidade & fem nenhú dos feus receber algú dano pos a proa na popa da fufta, onde hião auiados pera faltar nela Simão dandrade, Fernão perez, Simão rangel, hú Ioão deiras, & hú arraes que fora paje
Livro III, Capitolo XXXII 77 do gouernador, & todos cinco faltarão logo na fufta, com cujo medo os immigos a defpejarão. E indo dom Antonio pera entrar apos eftes cinco em poendo ho pé na fufta veo húa frecha do muro, & ferioho no lagarto da perna ezquerda em difcuberto, & atormétouho de maneyra que não pode entrar, & cayo no feu parao, que com a grande pancada q deu na fufta fe alargou dela, ficando nela os clco q digo fem mais étrar nhú dos q hião no parao, porq como virão dom Antonio por lhe acodir não cura¬ rão dos que ficauao na fufta, fobre quê logo carregarão os Imigos, & os cercarão de todas as partes (faluo da banda do mar) tirandolhe como a aluo com zagunchos, com frechas, com pedras, & com fètas, & tudo tão bafto que os não errauão: & valialhes que andauão bem armados, efpe- cialmente os dous hirmãos, que eles erão ho emparo dos outros tres, de- fendendofe dos Imigos com muyto tento, & pelejando cõ grãde esforço, tanto que os immigos os nã poderão entrar com quanto erão tãtos como digo, & fobre ho muro muyto mais, q tãbé de lâ tirauão por a fufta eftar quafi ao fopê dele. E ali eftaua ho Hidalcão, q fe pofera cuydãdo q auia de ver tomar os noffos, mas violhe fazer coufas por õde os defpois teue em muyta eftima fegundo pareceo. E eles ho merecião por as coufas que fizerão por fe defender, principalmente Fernão perez, & Simão dandrade, a que nefte conflito derão por diante cõ hú zaguncho em hú corfolete que lhe paflarão ho delgado dele, & ho ferirão hú pouco, por onde fe pode julgar quão forçofos braços auia antre os Imigos, & quão boas armas tinhão. Em todo efte trabalho em que os cinco eftauão não auia quem os focorreffe, porque os do parao de dom Antonio fe afaftarão coele, porq virão que a ferida era mortal, que logo lhe derão grandes acidentes, & os outros bateys como digo que eftauão ao longo da ribevra, pelo canal eftar atupido não podião nadar, & por iffo não acodião: o que vedo hú meftre da nao de Luys coutinho que hia coele no batel como homem esforçado, difle que fe lhe defpejaifem ho batel, que não ficaffem mais que feys ou fete marinheiros que ho podeflem remar que ele ho faria nadar pelo canal, & hiria por Simão dandrade, & polos outros quatro. O que ele fez defpejandolhe ho batel, & indo achou q Diogo fernãdez de beja punha a proa da fua galè em terra pera poyar & focorrer aos nof¬ fos, & pera fe tornar a alargar alargou húa ancora por popa: e quando vio hir ho batel teuefle, & louuou muyto ho meftre pelo que fazia, que por ho batel fer pequeno, & ir defpejado ho leuou leuemente pelo canal por onde os outros não podião ir. E chegãdo à popa da fufta por onde não tinha ninguém que ho impedifle, foy focorrer os cinco com os fete marinheiros: & pelejando todos, fe recolherão com muyto trabalho ao batel, faluo Ioão deiras que fe deitou com os immigos, & ficou coeles:
Hi/toria da índia 78 & em fe os noífos recolhendo atarão hú cabo na fufta pera ver fe a po- dião leuar, & não poderão por eftar muyto em feco, então a deixarão, & fe forão ajuntar cÕ os outros bateis que eftauão ás bõbardadas com os Imigos, de que matarão muytos fem dos noflos morrer nenhú, fe não forão algús feridos: & pofto q efte feyto foy muy grande, muyto mayor fora fenão fora ho ferimento de dó Antonio, que fegúdo era esforçado & fauo- recido da vitoria não fe ouuera de contétar com a do mar, & ouuera de prouar auela na terra ou queymar os paraos. CAPITOU) .XXXII. De como faleceo dó Antonio da ferida q ouue na batalha, & de algãs recados que ouue antre ho Ilidalcão & ho gouernador fobre concerto, q por derradeiro não ouue effeyto. COmo os do parao de dom Antonio virão que ele eftaua ferido, & tão mal, leuarãno â galé Dantonio dalmada, donde recolhidos Si- mão dandrade & os outros fizerão final de recolher. E recolhidos todos partiranfe ja noyte pera Õde eftaua ho gouernador, que ficou muy agaftado quãdo vio dõ Antonio tão mal, que logo aquela noyte lhe acodio febre, & continuauão os acidentes. E eftando ele afli ao outro dia foy Ioão machado â frota a vifitar da parte do Hidalcão a Simão dandrade & a Fernão perez, & diífelhes que lhes mandaua pregútar como ficarão da peleja que teuerão na fufta, & que ficara tão contéte deles por quão bem pelejarão que ho terião por amigo pera o q lhe dele compriffe. E diífelhes Ioão machado que ho Hidalcão vira a peleja de fobre ho muro, & preguntara defpois a Ioão deiras q homês erão, & ele lho diífera, & feus nomes: & que ho Hidalcão fe moftrara muyto magoado de não ter algús vaífalos como aqueles, & dera é rofto coeles aos feus. E mais difle ao gouernador q os mouros vendo afli pelejar aqueles homés, & a proa da galè de Diogo fernandez pofta em terra, q cuydarão verdadeiramente que querião os noífos faltar nela. E ho gouernador lhe difle que ho não fizerão, porque ele lhe defendera que ho não fizeffem, & ifto porq lhe não queria dar tanto trabalho junto: & porem que lâ viria feu tempo. E não lhe difle como dom Antonio eftaua ferido porque ho não diífefle ao Hidalcão, & fe enfoberbeceífe coiffo. E dada repofta per Simão dandrade & Fernão perez a Ioã machado, ele fe foy pera ho Hidalcão, a quem contou o que lhe ho gouernador diífera, que eftaua muyto trifte, porq aquele mefmo dia acodirão herpes a dom Antonio, de q faleceo dahi a tres ou quatro dias. E fua morte foy muyto fentida, não fomete do gouer-
Livro III, Capitolo XXXII 79 nador que era feu tio, mas de todos quantos auia na frota, porque a fora fer muyto esforçado, & de muyto boõ confelho, era de tão boa condição que todos lhe querião bem: & com quãto auia a quebra que difle antre ho gouernador & Fernão perez dandrade, era ele tamanho amigo de dom Antonio que tomou cuydado de ho leuar a enterrar. E foylhe dada a fepultura na terra firme da bãda de Bardês debaixo dhú penedo perto do mar, donde defpois per mandado do gouernador foy leuada fua oflada â fè da cidade de Goa & enterrada na capela môr. E eftãdo ho gouerna¬ dor com efta trifteza da morte de dom Antonio, foube ho Hidalcão que era certo fazerfe el rey de Narfinga preftes pera lhe ir tomar a cidade de Rachol, & por iflo tornou a cometer amizade ao gouernador, & deu ho cuydado diífo a çufolarim que mãdou recado ao gouernador por Ioã machado a quem ele difle a verdade, porque ho Hidalcão cometia ami¬ zade, & mais que era a noua tão certa que ho Hidalcão era ja palfado à terra firme, & deixaua em feu lugar a çufolarl, por iflo que dilatafle ho concerto, que a ida do Hidalcão não podia tardar muyto. E tendo ho gouernador efte auifo mãdou a Pero dalpoê feu ouuidor q folie a terra pera falar cÕ dous mouros honrados, que çufolarim mandaua pera aflen- taré efte concerto. E os mouros eftauão em terra, & ho ouuidor no mar em hú batel. E eftando falando fobre ho concerto que digo Ioão deiras aquele que fe paflou aos Imigos vinha em cõpanhia daqueles dous mou¬ ros, & como era homem baixo começou de fe gabar aos marinheiros q hiã no batel, moftrandolhes quão bê veftido andaua, & aíli hú caualo em que vinha, & dizendo que tinha tanto ibldo cada mes, que aquela era a terra da verdade, que outro tanto deuião eles de fazer & não tirar pelo remo. O que ouuldo ho ouuidor difle aos mouros pelo lingoa, que pera que trazião ali aquele velhaco fugidio q ho mãdaflem calar: & não que¬ rendo eles mandalo, difle a hú Ioão dilhães bombardeiro que hia coele, que era muyto certo elplgardeiro que tirafle com a elpingarda a Ioão deiras, & que fe ho matafle que ele lhe faria fazer merce: o q Ioão di¬ lhães fez & derribou morto Ioão deiras, do que os mouros ouuerão muyto grande menencoria, & fe forão fem mais falar no cõcerto. E também çu¬ folarl ficou muyto agaftado, & mandou dizer ao gouernador que fe efpan- taua muyto dele mãdarlhe matar aquele homem indo cõ 1'eguro: & ho gouernador lhe refpõdeo que ele não 1'abia parte de tal coufa. E fegundo tinha fabido Ioão deiras fora morto por fua culpa pelo que diílera, & que não fe efpantafle de ho mataré, porque a ele mefmo fe tal coufa dif- fera ho matarão os feus caualeyros que não fufrião coufa mal feyta: & coifto ouue por algús dias interpolação no cõcerto. E delpois porque ho Hidalcão mãdou preguntar a çufolarim o que tinha feyto tornou a man-
Hijloria da índia 8o dar recado ao gouernador, a quem Ioão machado difle que lhe parecia que ho Hidalcão não auia' daceitar a amizade com as condições que ele queria, porq perdia niflo muyto: & também porque tinha por fama q ele não tinha nenhús mantimentos. E por ho gouernador não querer mais falar em concerto com çufolarí, fe não com ho Hidalcão, vierã dous mouros principais com poder do Hidalcão â nao do gouernador, & por arrefés deles & de Ioão machado foy leuado Abraldez ao Hidalcão, & efteue lá dous dias, q tantos eíteuerão os mouros cõ ho gouernador fem fe tomar nenhúa cõcrufam no concerto, porque na verdade ho gouerna¬ dor pedia muyto pola amizade. E porque os mouros creflem que ele eftaua muyto abaftado de mãtimétos banqueteou os naqles dous dias, como quê eftaua muyto be abitalhado, & quando fe forão mandoulhes dar hú par de facos de bizcovto, & hú barril de muyto boõ vinho, porque fe ho Hidalcão deixafte de lhe dar o que lhe ele pedia pela amizade, cuy- dando que eftaua em falta de mantimentos, q lho defle. E defeyto ho Hidalcão ficou efpantado quando lhe os mouros differão os banquetes, & ho mais que lhes ho gouernador dera, & poré núca quis aceitar a ami¬ zade com as cõdições que ho gouernador queria, porque perdia muyto mais do que ganhaua, & então ceifarão os concertos: mas em quãto fe falou neles nuca os noflòs forão a terra que lhes os mouros não enchef- fem os bateys de refresco, & algús que erão amigos do gouernador ho mandauão vifitar coele. CAPITOLO .XXXIII. De como ho gouernador mãdou os doétes q tinha a Anjadiua, & de como ouue mãtimétos. DEspois difto auedofe os immigos por defenganados, q auião fem- pre de leuar ho peor dos noflos não os quiferão mais cometer. E ainda q eles eftauão liures da guerra, tinha os a fome é tamanho trabalho que tomarão antes por partido ho da guerra, porque não auia dia que não adoeceflem & outros morrião. E não dando ainda ho tépo lugar pera que ho gouernador fayffe, determinou em confelho de mandar os doentes que auia na frota na nao de Nuno vaz de caftelo branco a Anjadiua, porque lhe dizia Timoja que fe a nao podefie là ir, que ele iria també nela, & lha carregaria ali de mantimétos, pera fe fofter em quanto lhe ho tempo não defle lugar pera fayr & ir a Cananor. E com quanto ho gouernador fabia que ho tcpo não era pera fayr, por esforçar a gente com efperança dauer algús mantimentos mandou carregar na nao os doé-
Livro III, Capitolo XXXIII 81 tes da frota, que erao trezentos, & mandou a Nuno vaz que fe podeffe fayr que fe folie a Anjadiua: & ali por dinheiro, & por refgate daígúas molheres bramenas aueria mãtimetos que lhe mandaria no nauio Dantonio de matos que iria coele, & ele fe iria cõ os doentes a Cananor. E en¬ tregues no efprital, fe iria a Cochim, & diria a Ieronimo teixeira, & a Iorge da lilueira que fe foffem parele a Cananor, & ho mefmo diria aos capitães das naos de Portugal, fe foffem chegadas, & tudo ifto lhe deu por hú regiméto affinado por fua mão. Nelte tempo tinha çufolarim mandado aífentar em Pangim húa bombarda groffa de camara pera mandar tirar aos noffos quando fe foliem, que bem lhe parecia que não auiã de tardar muyto: & eftaua na fortaleza muyta gente de goarnição. E porque ho gouernador fabia ifto, mãdou a Nuno vaz que partille de noyte, & que ho leualfehi à toa. E partiofe na étrada de lulho: & empa¬ relhado cõ a fortaleza de Pangim, parece que fentirão os immigos a nao, & defpararão a bõbarda, & acertou ho tiro na nao, & deu no cabreftante do conuès, & leuoulhe a cabeça, & matou hú dos noffos, & efcalaurou outros. E todauia Nuno vaz paffou auante & foy furgir em hú poço antre PangI & a barra pera ver ao outro dia por onde faya, & por lhe ho tempo não dar lugar pera fayr efteue ali ate meado lulho. E vindo hú dia no feu parao de dar rezão ao gouernador da caufa porque não • faya, lhe meterão da fortaleza dous pelouros no parao: & hú deles lhe leuou a fralda dhú caçote q leuaua veftido, & não lhe fez outro mal. E meado lulho abonançãdo ho tépo algúa coufa lavo Nuno vaz â toa: & indo defronte do baluarte da barra fe ouuera de perder, por lhe tirarem dele os immigos húa bombardada, com q lhe palfarão ho coitado da nao pelo cõues, onde algús dos noffos recolhião a toa do cabreftante, & deu é hús eftrés que jazião fobelos alcatrates õde jazia hú doente encoftado com que ho tiro deu no meyo da nao, & os que leuauão a toa foltarão com medo ho focayro, & a nao ouuera de dar á cofta fe logo não acodirã outros a tomalo, & Nuno vaz não pode furdir mais auãte que ate defronte dagoada, õde furgio por fe mudar ho tempo fupitamente, & ho mar tornar muyto groffo, tanto que ho piloto moor que hia em dous bateys das toas diffe a Nuno vaz que fe tornaffe & ele não quis. E vendo Timoja ho tépo tão forte fayofe da nao & tornoufe pera ho gouernador na fua cotia, nem tam pouco fayo ho nauio Dantonio de matos por efta caufa. Ali efteue Nuno vaz furto ate ho quarto da prima rendido, em que rédeo ho vento a loefte, & aloefnoroefte com que fayo âs voltas: & afli foy ate que em fe poendo ho foi aferrou Anjadiua, & furgio. E ao outro dia chegarão Antonio de matos & Timoja, que logo fe partio pera Ancolâ, que fam dahi quatro legoas, dõde mandou dizer a Nuno vaz que foffe lá com Tomo II u
82 Hiftoria da índia Antonio de matos, & ele foy deixando os doentes e Anjadiua, em Tedi- lhões, & em Ancolâ foy carregado Antonio de matos de muytos manti¬ mentos que Timoja tinha feytos. s. carnes de porcos montefes, & veados tudo falgado em jarras, e aífi muytas galinhas, & muito arroz: & difto fe leuaua também muyta forna aos doentes a Anjadiua. E feyto tudo ifto em quatro dias, partiofe Nuno vaz pera Anjadiua, & por achar ainda os doentes muyto fracos fe deixou eftar, & mandou a Antonio de matos que fe partiffe pera onde eftaua ho gouemador. CAPITOLO .XXXIIII. De como ho gouemador fe partio do rio de Pangim pera Anjadiua, & do perigo que pajfou ao sayr da barra: & de como chegarão naos de Portugal. QVe com iua chegada foy muyto ledo, pera refrefcar sua gente pri- meyro que faife ao rio cÕ aqueles mantimentos que mãdou re¬ partir polas naos. E acabado ho mes de Iulho como não fe corria tamanho perigo na nauegação da cofia da índia como dantes, determinou de fe partir, & irfe concertar a Cananor pera tornar fobre Goa, & tomala: o que então calou configo fem dar conta a nlgué. E vindos os quatro dias Dagofto, ele fe partio com toda a frota, que foy bem feruida de bombar- dadas, aífi ao paliar por diante da fortaleza, como por diante do baluarte da barra: & por fer ainda ho tempo algú tanto verde correrão as naos muyto rifco ao fayr dela, & milagrofamente lhe goardou noífo fenhor frol delamar, q deu muytas pãcadas na area, & ho cirne també tocou: & frol da rofa ficou em feco da banda da terra firme defronte de Pangim. E porque a gente cõ medo fe queria fayr dela & deixala por perdida, fe foy ho gouemador meter nela (por fe não perder) & muyto contra von¬ tade de todos os fidalgos & capitães da frota, que lhe fizerão grandes requerimétos que fe não meteffe na nao, porque como foffe fabido em Goa virião logo os Imigos em feus paraos, & verfehião em perigo de fe perderem todos. Mas ele não quis fe não irfe â nao de fora da barra onde jà eftaua, dizendo que por faluar aquela nao del rey feu fenhor pele¬ jaria com quantos mouros auia em Goa, & fe auenturaria a qual quer perigo, quanto mais que efperaua em noífo fenhor que os immigos não auião doufar de vir, porque bem fabião quã pouco auião de ganhar niífo. E metido na nao efperou nela ate vir outra marê com que fayo fora com a nao falua. E no proprio dia indo ao cabo da rama ouue vifta de quatro naos de gauia que vinhão demãdar a terra: & eftas erão de Portugal que *
Livro III, Capitolo XXXIIII 83 partirão aquele anno, & era feu capitão mòr hú fidalgo chamado Diogo mendez de vafconcelos que el rey mandaua a defcobrir Malaca, & erão íeus capitães Baltefar da íilua, Pero quarefma, & Ieronimo cerniche. E quando eftas naos virão a frota do gouernador tã perto do rio de Goa & os da frota virão a elas, & q hião demandar a terra, ouue grande aluo- roço affi em hús como em outros cuydando que foffem rumes: & todos fe poferão em armas pera pelejar. E ho gouernador mãdou dizer per Lou- réço de payua a Simão dandrade, Fernão perez, & aos outros capitães que ainda hião prefos na fua nao, & debaixo de cuberta (que affi o que- rião eles) que lhes pedia que fubiffem peracima, pera q cõ feu confelho ordenaffe de pelejar com aqlas naos le foíTem rumes, & eles não quiferão ir: refpondendo que com que ho gouernador ouuera confelho pera os préder q coeífe fe acofelhafe do q auia de fazer, q quãdo conhecefle q erão rumes eles fe poeriã nos feus lugares a defcder as naos del rey, & farião o q iepre fizerão ate morrer. E requererão a Lourenço de payua como fecretario que fizeífe hú auto do que lhes ho gouernador mandara dizer, & do q eles refpondião pera el rey de Portugal faber a verdade. E nifto forão conhecidas as quatro naos que erão Portuguefas polas cruzes das velas, & foy ho prazer muyto grande em todos. E Diogo medez foy ver ho gouernador, & lhe diffe como vinha de Portugal outra armada de cinco naos pera a carrega, de q era capitão mòr hú fidalgo chamado Gonçalo de fiqueyra, & erão feus capitães Iorge nunez de lião, Manuel da Cunha, Diogo lobo, & Louréço moreno que hia por feytor de Cochim. E indo ho gouernador na volta Danjadiua, foy ter coele Gõçalo de fiqueyra cõ duas naos de fua conferua, q as outras duas nã chegauão ainda. Coefta frota tamanha fe foy ho gouernador a Anjadiua, onde efteue obra de quatro ou clco dias. E nefte tempo lhe deu Diogo medez as cartas que trazia del rey parele, em que lhe dizia que mandaua Diogo mendez a defcobrir Malaca (fe ainda não era defcuberta) & aífentar lâ feytoria: & fe ouueffe dir a iffo, mandaua ao gouernador que lhe deffe piloto q ho leuaffe a Malaca, & afii lhe deífe confelho pera o que auia de fazer, & ajuda fe folfe neceífaria pera ho executar. E ifto mefmo trazia Diogo mendez por regimento que moftrou ao gouernador, que defpois de viftas as cartas falou cõ Nuno vaz de caftelo branco, cõ Garcia de foufa & com Francifco ferrão q forão a Malaca com Diogo lopez, que lhe difelfem o que lâ paífara pera que foubeffe o <)ue auia de refpõder a Diogo mendez. E fabido ifto mandou ajútar eftes tres com todos os capitães & fidalgos da frota, afii os que andauão na índia como os de Portugal, & perãte todos diffe a Diogo mendez q lhe trouuera húas cartas del rey feu fenor, em que lho encomedaua q lhe diffeffe perante aqueles fidalgos & capitães
84 Hijloria da índia q queria dele. Diogo mendez refpõdeo que ele era capitão mòr daquelas quatro naos, em cuja carrega el rey feu fenhor tinha parte, & a outra era de mercadores, & hia pera fazer o que dizia é feu regimento, como tinha dito. Em que lhe também lua alteza mandaua q indo ter onde efteuelfe fua fenhoria que lhe pediffe piloto, confelho e ajuda: & ifto era o que queria & lhe pedia da parte de fua alteza, & da fua. Mandou étão ho gouernador a Nuno vaz, Garcia de foufa & a Francifco ferrão que dilfeffe cada hú por li o que acontecera é Malaca a Diogo lopez. E ifto dito diffe ho gouernador a Diogo medez, que bem ouuia como indo Diogo lopez de fiqueyra a Malaca com mais nauios q os feus, & melhor armados de artelharia & gente, viera de là defbaratado cÕ lhe tomarc bateys, & gete que ficaua catiua fem ele poder refiftir aos Imigos: q como queria ele ir a Malaca com quatro naos tão podres como as fuas, & tão mal armadas cÕ artelharia de ferro & pouca gete: & pera lhe ele dar ajuda não podia fer por quanto vinha de Goa cÕ a cabeça quebrada, õde ficaua húa grãde armada de turcos, & fe criaua húa força muy prejudicial pera ho feruiço de Deos & del rey feu fenor, a qual ele determinaua de desfazer naqle verão, & q fe ho ele quifefle ajudar nifio ele lhe daria defpois toda ajuda q podelfe pera ho feyto de Malaca. O que pareceo muyto bé a todos os q eftauão prefentes: & Diogo mendez diffe que ele não podia refpõder fem falar com feus capitães: & pois todos eftauão de caminho pera Ca- nanor q là lhe refpõderia. E ifto alfentado, partiole ho gouernador pera Cananor. CAPITOLO .XXXV. De como indo Francifco pantoja caminho de çacotorâ pera trazer dom Afotifo tomou a nao meri: & de como Duarte de lemos fe parlio pera a índia. E Antes de fua partida mandou a Francifco pantoja q foffe a çacotorâ com carta fua, em que efcriuia a dom Afonfo de noronha feu fo- brinho (nã fabédo ainda q era morto) que logo fe vieffe pera a índia no mefmo nauio: & efcreueo a Duarte de lemos fe hi efteueffe a caufa porq lhe nã leuara a armada. E atraueífando Francifco pantoja aquele golfão da cofta da índia pera çacotorâ, lhe deu hú grãde temporal, & durando ele forão viftos no mar muytos fardos de roupa: & logo pareceo a Francifco pantoja q era algúa nao de mouros que alijaua cÕ tormenta, porque també em algús fardos que fe tomarão, fe conheceo q era roupa de cambaya, mandou então Frãcifco pantoja pelo rafto dos fardos, & foy topar com húa nao muyto grande que parecia fer doytocentos toneis, &
Livro III, Capitolo XXXV 85 era del rey de Cambaya, e auia nome meri: & era a maior nao q andaua naqle golfão, & muyto nomeada por fua grãdeza em muytas partes, & carregaua tanta mercadoria, que nao hia nenhúa vez a Ormuz que nao pagaífe de dereytos na alfandega de vinte mil xarafins pera cima, & andaua por capitão dela hú mouro chamado alecão paréte del rey de Cambaya, & trazia configo muytos mercadores honrados, & muyta gente de peleja. E a nao tinha ho mafto cortado q lho cortarão os mouros com a tormenta, & andauão tão cantados cõ os trabalhos dela, q como lhes Franciíco pãtoja mandou tirar logo fe renderão. Tomada efta nao Fran- cifco. pantoja fe foy coela a çacotorá, onde achou Duarte de lemos q hi luernara, & achou por capitão da fortaleza a Pero correa hirmão de Diogo correa q eftaua catiuo é Cãbaya, porq falecera Pero ferreyra fogaça q era Capitão, & por Antonio ferreyra teu tobrinho q era alcayde mòr, cuja era a fubcelfam da capitania eftar doente lha não deu Duarte de lemos, & a deu a Pero correa. E aqui foube Francifco pantoja como no Abril paífado partira dom Afonfo pera a índia, & os outros q ja diffe, & todos teuerão, q pois lâ não erão q fe perderião no mar, porque Alecão ho capitão de meri nã dizia como eitauão catiuos em Cambaya. E vendo Duarte de lemos a nao q Francifco pantoja trazia, & fabendo quão rica era quifera a mãdar defcarregar na feytoria: o q Frãcifco pantoja contra- diffe, & fe aqueyxou muyto: dizendo q aquela nao não pertencia à feytoria de çacotorá, né ele lha podia tomar pois nã era da fua bãdeira, fe nã da do gouernador Afonfo dalbuquerq, & que a ele a auia de leuar fazedo fobriffo grandes requerimentos & proteftaçoes: a q Duarte de lemos ref- pondeo que també ele era gouernador & capitão mór do cabo de Goar- dafum ate Cãbaya, em cuios limites ele tomara aqla nao, & por iífo q a ele pertecia: quanto mais q ainda q não fora capitão môr, q el rey feu fenor mandaua que na mais perto fortaleza donde fe tomaua a prefa fe étregaffe, & q ele ho» fazia affi. E mãdou defcarregar da nao o q lhe melhor pareceo, & ho mais cõ os catiuos deixou nela pera le leuar â índia: pera Õde fe partio logo pera ir pedir a armada a Afonlo dalbu- querque, porq bem vio pelo q lhe ele efcriuia, & pelo que foube de Goa q fe não ajuntaria ho gouernador tão cedo coele, nem lhe mandaria a armada. E partindo caminho de Cananor, leuou configo feu hirmão gafpar cão, & Frãcifco pãtoia.
86 Hiflor ia da índia CAPITOLO .XXXVI. Dalgíías coufas q fe fi\erão na cojla do Malabar ejlãdo ho gotiemador em Cananor: & de como chegou Duarte de lemos a Cananor, & forão foltos, Simão dandrade & os outros. CHegado ho gouernador a Cananor, fem fayr é terra mandou logo Simão dandrade, & os outros prelos que ia diffe a Rodrigo rabelo capitão da fortaleza, & q os não deixaííe fayr dela fem feu recado, & todauia não deixaua de trabalhar por recÕciliar coeles o q eles não querião, & refpõdião fempre a quê lhes niffo falaua q não erão eles os homés q fe auião dagrauar por muytos grandes erros, quãto mais por tão peqnos como fora o que fizerão: & que não ficarião na índia por nenhú preço, fe não q fe auião de ir pera Portugal. Do que pefaua muyto ao gouernador por eles fere homés antigos na índia, & fabião muy be as coufas dela, & erão muyto pera mandar & aconfelhar como capitães pru¬ dentes, & pera pelejar como caualeyros muyto esforçados, que tudo tinhão quando era neceflario: & por iífo o gouernador fentia muyto eftarem agrauados dele, & quereréfe ir em tépo q tinha deles neceííidade gran- diflima. E chegado ele a Cananor delpachou logo pera Cochí a Baftião de miranda pera ir là correger a galè que fora Dantonio dalmada que por fer morto lha dera: & afíi mãdou a Nuno vaz de caftelo branco que foffe mandar fazer na fua nao as obras mortas que lhe ainda falecião, & entregoulhe deífas molheres que tinha das que tomara em Goa, pera que as leuaffe a Cochí, & fe apoufentaffem é húa torre da fortaleza, & teria cargo delas hú Gonçalo afonlo mealheiro. E indo Nuno vaz a trauez de Calicut, achou Ieronimo teixeira, & Iorge da filueira que hião em bulca do gouernador: & fabédo que ficaua em Cananor forãfe lá. E chegãdo ho gouernador, mãdou prender a Iorge da filueira, & lhe tirou a capitania da nao, porque contra- feu mandado fe fora inuernar a Cochim, & lhe leuara muyta géte, de q defpois teue grande necefíidade no cerco de Goa. O q Ieronimo teixeira fentio grãdeméte por fer notorio que por feu indu- ziméto fora Iorge da filueira inuernar a Cochí, & por ifTo & polo palfado que fizera em Goa quis dali por diante mal ao gouernador: & també chegou a Cananor Francifco marecos no nauio bretão, q vindo cõ ho Ma- richal não paffou & inuernou e Moçambique, & affi fe hia ajútando pouco & pouco grãde frota pera ho gouernador tornar 1'obre Goa como determi- naua, & pera ifio fe aparelhaua quanto podia. E porque entretanto não partiffé as naos de Calicut cõ piméta pera ho mar roxo, mãdou goardar
Livro III; Capitolo XXXVI 87 a fua cofta a Simão mlz caldeira, aqle boõ caualeyro do tempo do vifo rey, & deulhe pera iffo dous nauios, de q ho fez capitão mòr: & pedio a Diogo medez de vafcõcelos de quê ja tinha prazme de ho ajudar no feyto de Goa, que cõ as naos de fua capitania andaffe darmada de monte deli ate Baticalà, pera tomar algúas naos fe fayfem de Goa pera qualquer parte. E 5 quãto hi ãdou não achou nada em que podeífe fazer prefa, & Simão martlz fi que tomou húa nao de Meca muyto rica, em q fe acharão muytas peças de grande preço, & forna de moeda adi douro como de prata: & antre os catiuos que fe nela tomarão forão dous judeus q def- pois ho gouernador fez Chriftãos, & a hú foy pofto nome Francifco dal- buquerque, & ao outro Alexandre datayde, que íayrão muy boõs homés & feruirão de lingoas. E pera melhor goarda daquela cofta mandou ho gouernadòr a Garcia de íoufa que cõ outros dous nauios a foífe goardar em outro cabo defuiado dõde andaua Simão martlz: & Ieronimo teixeira por dar defgofto ao gouernador meteo 5 cabeça a Garcia de foula q não era fua honra ir Õde andaua Simão martlz, que lhe nã auia dobedecer. E aconfelhoulhe que afli ho diíTeíTe ao gouernador, & foy coele a iffo, & ajudauao tanto q parecia fer mais ho cafo feu que de Garcia de foufa. E entédendo ho gouernador a cilada diflimulou, dizedo a Ieronimo teixeira q pera que falaua e obediecia pois Simão martlz andaua em hú cabo, & Garcia de foufa auia dãdar é outro, q não auia neceflidade de mais q de tomaré muytas naos. E infiftído Ieronimo teixeira, ho gouernador ho mãdou ir, & ficãdo foo cõ Garcia de íoufa desfezlhe a opinião que tinha, & fez q foífe onde ho mandaua: & ele por hú cabo & Simão martlz polo outro tomarão algúas naos, & por iffo não partirão pera Meca outras muytas que eftauão pera partir. E em quanto afli andauão na fi Dagofto ou na étrada de Setébro, chegou Duarte de lemos a Cananor: & pofto q a fua capitania não tinha vigor na índia, & fpube que eftaua ali ho gouer¬ nador nã quis tirar a fua bãdeira de capitão môr, o que lhe foy tachado. E cõ tudo ho gouernador lhe fez ho mais cortês & hÕrrado recebimento que pode: & como Duarte de lemos fabia da prifam de Simão dandrade & dos outros, pedio ao gouernador que os mãdaffe foltar, porq ele os queria ir ver, & não queria velos como aprefos. Ho gouernador alda q não tinha võtade de os foltar íe recõciliaré coele mãdou os foltar & ouue os por reftituydos é fuas capitanias, faluo a Iorge fogaça por a defcortefia q lhe diffe, & mãdou ho foltar fobre fua menajé, & os outros aceitarão as folturas, & não as capitanias, dizédo q fe auião dir pera Portugal, & por iffo as nã qrião.
Hijloria da índia 88 CAPITOLO .XXXVII. De como foube Duarte de lemos q elrey mãdaua q fefoffe pera Portugal: & de como ho gouernador mãdou recado a el rey de Cambaya fobre os catiuos que tinha. DEspois difto deu ho gouernador cota a Duarte de lemos da caufa porq fe não fora ajuntar coele. E como todos os capitães da índia, & fidalgos q andauão nela, lhe confelhauão q tornafle fobre Goa, & a tornafle, fe não que fe perderia a índia: & que Diogo medez de vaf- cõcelos q hia pera Malaca tãbê lhe dizia que ho ajudaria: o que pareceo be a Duarte de lemos. E pera mais ratificação fez ho gouernador outro confelho 5 que Duarte de lemos foy preíete, em q fe adernou por todos que vida a necedidade que auia de fe tomar Goa, & a q ho gouernador tinha de gete pera effe feyto. E por quãto a moução pequena pera Ma¬ laca, q he ê Dezébro era dahi a quatro mefes: & Diogo medez auia def- perar por ela, que ajudafle ao gouernador no feyto de Goa. E a fua ida pera Malaca feria no Abril feguinte q era a moução grãde & a melhor: & ido cÕ condição q ho gouernador lhe defie a ede tépo tudo aquelo de que teueffe necedidade q lhe podede dar. E adi lho prometeo ho gouer¬ nador: a quê també ali prometeo Duarte de lemos q ho ajudaria no feyto de Goa, & adi todos os capitães das naos de carga. E com tudo ho gouer¬ nador lhe não quis dizer fua determinação acerca de Goa, porq não queria q ningué entédede que defejaua de a tomar, porq fe temia q fe ho entédedem que muytos por lhes parecer q lhe danauão ho não qrerião ajudar, & por ido encobria tanto lua determinação, q nos cofelhos não fazia mais que propor as caufas que auia pera fe tomar Goa, & não daua feu parecer nc adinaua, mas fazia adinar aos outros os feus: & de tudo mãdaua fazer autos pelo fecretario pera que nlgué podede negar o q tinha dito & adinado. Nede tempo fe tinha dado a conhecer ao gouernador Alecão capitão da nao meri por paréte del rey de Cãbaya & trataua coele per meo de Krancilco pantoja amizade & paz pera el rey de Cãbaya cõ condição q ho foltade: o que ho gouernador não qria, porq efperaua que fem ido auia el'rey de Cambaya de querer paz coele por intercedam de Meliquiaz, q fempre fe modrara feruidor del rey de Portugal, & que Alecão fe refgataria por dinheiro. E nido foube dos nodos q edauão ca¬ tiuos é Cambaya, & pareceolhe q feria algú deles dõ Afonfo feu fobrinho (por aída não faber que era morto) & por iífo começou de lãçar mai.s mão pela amizade que Alecão requeria pera ver fe poderia auer por ele
Livro III, Capitolo XXXVII *9 os catiuos, diffimulando que não fabia q eflauão catiuos, né Alecão o queria defcobrir por nã auer rezão pera ie trocaré, porque não queria ele refgatarfe fe nã por amizade, & fobrifto ouue cartas del rey de Cãbaya pera ho gouernador. O que fabendo Duarte de lemos fe moilrou muyto queixofo contra ele, dizédo que lhe tomaua o q pertécia a fua capitania & perantele diffe a Alecão que ele era capitão môr de Cambaya: & por iffo a ele, & nã ao gouernador auião de fer dadas as cartas, & coele fe auia de fazer a amizade, & afli outras palauras muyto loberbas q ho gouernador diílimulou por amor que a capitania de Duarte de lemos che- gaua ate Cambaya, & por téporizar coele que lhe deixafle a armada ate tomar Goa, & diflelhe. Tiremos nos os catiuos que lá temos, & deixemos agora eífes mandos: fe me el rey de Cambaya aqui té por vezinho, & fabe q tenho naos, gete & poder del rey meu lenor, não fera boõ que fauoreçais vos efte feyto, & q lhe refpõdamos de maneyra q ajamos os Chriftãos fora de feu poder. E todauia Duarte de lemos aperfiou muy menécorio, q ele era capitão môr de Cãbaya, & que a ele pertécião as cartas, & coele fe auia de fazer a amizade, & defpois de feyta ele tiraria os catiuos. E agaftado ja ho gouernador dele, lhe difle q não ate Cãbaya, mas que ate Goa lhe deixaua feu poder: q lhe rogaua muyto q lhe cafti- gaffe os mouros de Goa, q lhe derão muytos couces no pefcoço: & coifto fe nã tomou nenhúa cõcrufam nefte negocio. E o gouernador fofreo tudo ifto a Duarte de lemos, & outras muytas fobrãçarias q lhe fazia, affi pola caufa q digo como pola prouifam q ele tinha de fer capitão ate Cãbaya, & não queria que pareceffe q defobedecia aos mãdados del rey feu fenor que fe ele prezaua de goardar ao pé da letra. E começãdo dauer def- goílos antre ho gouernador & Duarte de lemos, chegou húa nao da con- ferua de GÕçalo de fiqueyra, em q veo húa via de cartas pera o gouer¬ nador, & vinha nela húa pera Duarte de lemos, é que lhe el rey mandaua q entregaffe ao gouernador a armada que trazia, & fe fofle pera Portugal, & outra carta ao gouernador q lhe deffe ébarcação pera fe ir pera Por¬ tugal. E coefte recado ficou ele téperado, porq dãtes não auia quê ho fofrefie, nem ho gouernador podia coele. E não fe lébrando ele do paífado não deixaua de ho tratar tão hõrradaméte como dantes. E cuydãdo q todauia quifeífe ir coele a Goa como tinhã affentado, diflelhe que não defcobriffe a ningu? que el rey ho mãdaua ir pera Portugal, & que ele também ho faria affi, porque a gete que trazia lhe nã defobedeceffe, & fofle coele a Goa em hú corpo como andaua, pera que fofle mais hõrra- damente: o que lhe ele teue muyto em merce, & ho ouue por grande honra. E vendofe ho gouernador defembaraçado da fujeição de Duarte de lemos apreflòu mais ho cõcerto da armada pera ir a Goa, & entre- Tomo II I:
90 Hijloria da índia tãto tornou a falar com Alecão fobre ho negocio que dates trazião pera ver fe podia auer os catiuos a feu troco, & pera ifto rogou a hú chatim getio morador em Cananor, que lhe foffe com repofta âs cartas del rey de Cambaya, em que lhe refpondia que folgaria com fua amizade, & pedídolhe os catiuos a troco Dalecão. E encomendou muyto ao chatl que foubeffe os nomes dos catiuos, & quantos erão: & Alecão efcreueo também fobriffo a el rey de Cambaya. E coeftes recados fe partio ho chatim, e o que fez fe dira a diante. CAPITOLO .XXXVIII. De como hú príncipe de Cochi que andaua leuãtado fabedo que era morto ho rey velho que ejlaua no pagode, pedia ho reyno a el rey de Cochi que então reynaua, & de como querendolho el rey de Cochim entregar lhe foy contrariado pelos nojjos. PAssando ifto é Cananor, morreo é Cochi aqle boõ velho & leal amigo dos Portuguefes q fora rey ê tépo de Duarte pacheco q eftaua metido no pagode. E legúdo feu coftume como ja diífe ho rey q reynaua era obrigado por ley a meterfe nele & deixar ho reyno ao q auia de fer rey a pos ele, que era aquele príncipe: que quando el rey de Calicut foy fobre Cochi (por lhe el rey não querer entregar os noffos q lhe deixara ho conde almirante) não quis ajudar el rey de Cochi a defender ho reyno, & lançoufe cÕ el rey de Calicut q lhe prometeo de ho fazer logo rey, & dali por diante fempre andou cÕ el rey de Calicut chamãdofe príncipe de Cochi. Efte fabédo como ho rey q eftaua no pagode era falecido mandou dizer ao q reynaua, q fegúdo feu coftume fe foífe meter no pagode, & lhe deixafle ho reyno: & em lhe mãdãdo efte recado foyfe meter cõ algúa gente de guerra que tinha juta na ilha de Vavpi, & fezfe forte em hú pagode q hi efta, dõde tornou a mãdar a el rey de Cochi ho mefmo recado por algúas vezes de q el rey eftaua muyto agaftado, & mandou ho dizer ao feytor, & alcayde mòr, & afli aos outros officiaes, q derão cota de tudo a Baftião de miranda, & a Nuno vaz de caftelo brãco, q praticando fobre o q farião naquele negocio., determinarão de per todos os modos que podefie toruar que ho príncipe nã foffe rey de Cochi né entraffe nele, & fobriffo ho mataré por quanto lhe não pertecia ho reyno, & tinha perdido ho dereyto dele porq fora tre- doro a el rey, cujo fuceffor era é ajudar cõtrele a elrey de Calicut quado deftruyo & queymou Cochi, matando primeyro a tres herdeiros do reyno: & a fora ifto fe. ele foffe rey pola amizade que tinha cõ el rey de Calicut
Livro III, Capitolo XXXVIII 9* ho auia dajudar, & fauorecer cÕtra os noífos, & affi ho ditferão a el rey de Cocln, q folgou muyto coiffo, & ho mãdarão també dizer da própria maneyra ao prlcipe, q não deu nada por fuas ameaças, mas tinha juta fua gétc, & trabalhaua quanto podia por entrar em CochI. O que fabido pelos noffos, determinará de goardar os rios por õde ele podia ir. E forão a efta goarda Nuno vaz de caftelo branco, & Baftião de miranda enfenhos bateys armados dartelharia, & bé fornidos de gete darmas, & corrião aqueles rios de noyte & de dia. E vedo el rey de CochI como ho príncipe inliftia tanto é auer I10 reyno, & fabia q por feus coftumes ho deuia dauer fe húa vez entraua nas fuas cafas, porq logo ele & os feus regedores, & vedores da fazéda lhe auião dobedecer por rey, mandoulhe cometer pelo Caymal de Palurte leu vedor da fazéda, q ele lhe daria réda cõ que fe mãteueffe hõradaméte õde quifeífe tirado CochI, & q deílílifle de pedir ho reyno: & ho prlcipe não quis, ãtes lhe mãdou dizer q lhe delpejaffe as fuas cafas, & lhe deixaffe ho reyno q era leu de dereyto fegúdo feu cuftume. E coefta repofta ficou el rey muyto trifte, & logo defpejou as cafas & fe mudou pera outras. O q fabido pelos noffos fe forã logo a ele Nuno vaz, Baftião de miranda, & Diogo pereyra q era efcriuão da fey- toria, q le chamaua ho malabar dalcunha, que fabia muyto bé a lingoa: & quando chegarão a el rey de CochI acharão q eftaua coele el rey da piméta cõ muytos frecheiros & adargados. E el rey quãdo os vio moftrou coeles muyto prazer & lhe fez muy alegre recebimento, & lhes deu conta do q ho príncipe refpondera a feu recado, & como ho eftaua cotando ao rey da pimenta: então lhe diffe Diogo pereyra q por effa caufa vinhão ali. E lhe dizião da parte del rey de Portugal, & do feu gouernador da índia q ele fe tornaffe pera fuas cafas, & as não deixaffe, né fizeffe cõta q em CochI auia dauer outro rey fe não ele, & os q decédeffem dele por dereyto: porq pera iffo era ele rey por el rey de Portugal, & coroado por ele. E q ho tirano q queria vfurpar ho reyno, nã tinha dereyto nele polas rezões q lhe ja derão, & por iffo jurauão por feus juramétos verda¬ deiros q ho auião de matar onde quer q podeffem. Ao q el rey refpõdeo q ho tomalfem viuo fe podeffem, & ho não mataffem: & ho mais lhes agardeceo muyto, & lhes offreceo géte fe a quifeffem pera os ajudar. E vedo el rey da piméta efta amizade dos noffos com el rey de CochI, cÕ- firmou de todo a q tinha coele, & lhe deu obediécia de feu vaffalo cõ juramento de ho fer fempre, & ifto por amor dos noffos: & de tudo fe fez húa efcriptura que aífinou. Ifto feyto tornaranfe Baftião de miranda & Nuno vaz a goardar os rios: e ao outro dia pola manhaã ficou Nuno vaz õde fe chama ho pefo & Baftião de mirãda foy da outra bãda do rio de Crãganor. E eftando ali Nuno vaz vio vir contrele hú tòne grãde cõ
92 Hijloria da índia hú fombreyro aleuãtado: & cuydãdo que foffe ho prlcipe, foy logo cÕtra ho tône, & por força fez q fe deteueffe, & foube que hia nele hú fefior de Paliporto: que vilto por hú Chriftão da terra que hia cõ Nuno vaz pera conhecer ho príncipe, lhe difle que era aquele fenhor, & ouuera ho Nuno vaz de matar, fe não fora por hú dos feus remeiros, que affirmou nã fer aquele ho príncipe, fe nã hú fefior de Paliporto. E Nuno vaz ho deixou ir, fabcdo primeyro dele como ho prlcipe ficaua no pagode de Vaypl cõ tudo preftes pera fe ir meter é Cochí, & ficaua coele ho Mangate caymal, & també ho Nambiâ de Parau que fe ficaua embarcado pera ir vifitar el rey de Cochim, por fer grande feu amigo: o que cuydou Nuno vaz que feria manha do príncipe pera cõ ho nãbiâ meter géte em Cochí pera ho ajudar, & por iflo indo na volta de Vaypl õde topou cõ ho Nãbiâ q trazia configo tres tònes de guerra carregados de géte, não ho quis deixar paífar cõ aquele aparato, dizédolhe que a coufa não eftaua pera deixaré entrar géte eftranjeira em Cochí, que fe ele quifeffe ir acÕpanhado de ate trlta nayres q ho poderia fazer, & ho Nãbiâ não qria, & quifera forçada- méte paflar auãte, ao q lhe Nuno vaz refiftio. E niíto ouue tanta detéça q foy recado do Nãbiâ a elrey de Cochí, q mãdou dizer a Nuno vaz per Candagorâ, q Nãbiâ era feu amigo, q lhe pedia que ho deixaffe paffar, do q fe Nuno vaz agaftou muyto védo ho pouco recado que el rey tinha em Cochí a tal tépo que aífi deixaua étrar nele géte: & diífe a Cãdagorà q fe el rey queria cÕfentir q entraffe é Cochí pera ho defpoer do reyno, q ele né os outros noffos ho não auião de cÕfentir: & fe el rey queria defiftir do reyno q eles ho fofterião ate ho mandaré dizer ao gouernador que hiria tomar poíle dele. E cõtudo Cãdagorà infiftia que deixaffe ir ho Nãbiâ com toda fua géte: o que Nuno vaz confentio, cõ tãto que Cãda¬ gorà ficaffe em arrefés ate ho Nãbiâ ir a elrey & tornar. E fabédo ho príncipe a goarda q eftaua no caminho por õde ele auia dir pera Cochí não quis ir acõfelhado dos feus, & tornoufe a recolher no pagode, õde os noffos nã forão por não teré géte cõ que podeffé pelejar coele é terra: & por iflo acordarão q eles & elrey de Cochí efcreueffé ao gouernador o q paffaua, pedldolhe que acodiffe logo, & afli ho fizerão.
Livro III, Capitolo XXXIX 93 CAPITOLO .XXXIX. De como ho governador chegou a Cochim, & ho príncipe aleuantado fugio de Vaypl com feu medo-. & de como nenhã dos capitães q avião dir pera Portugal quifcrão ir com ho governador a Goa, & do que di^ião contrele. SAbido ifto pelo gouernador, embarcoufe logo na nao de Iorge da fil- ueira, & partiofe pera Cochim leuando configo a Gonçalo de íiqueyra, & aífi todos os outros capitães q auião de ir aquele anno pera Portugal, faluo a Duarte de lemos que ficou com a outra armada da índia com todo feu poder & mando, pera q teueffe tudo preftes, & foffem a Goa em ele tornando de CochI, E chegado ho gouernador a Cochim, ho alcayde mòr & os outros lhe derão cota da afronta em que eftaua el rey de CochI por amor do príncipe aleuantado que lhe pedia ho reyno. E 0 que Nuno vaz & Baftião de mirada tinhão feyto na goarda de Cochim pera ho prlcipe fe não meter de poífe do reyno, & como eftaua no pagode de Vaypl. El rey de Cochim como foube que ho gouernador era chegado ho foy logo ver, & lhe cotou ho trabalho em que eftaua, pe- dindolhe eftreitaméte que ho liuraffe dele. E antes que lhe ho gouernador relpondeffe, quifera q lhe fizera el rey de CochI duas coufas que impor- tauão muyto ao feruiço del rey feu fenhor, & ao proueito de fua fazéda, & a quietação de Cochim: a húa foy que vilto quãtos males os mouros de Cochim cometião contra os noffos confentiffe que el rey feu fenhor teueffe jurdição fobreles, & com aquilo ele mefmo ficaria mais fenhor deles: a outra foy que mandaífe aos mercadores de Cochim que deffem na feytoria a pimenta por cobre, & que ho deuia de fazer, pois por caufa da noífa feytoria ele tinha dobrada renda que dantes. E dambas fe el rey efcuíou moftrãdo como ho não podia fazer. E por ho gouernador eftar de partida não apertou muyto fobrifTo: porem prometeo a el rey de ho liurar da fadiga em q eftaua, affirmandolhe que não auia de confentir que outré foífe rey de CochI fe não ele, & que ele ho ajudaria, porque afli lho man- daua el rey feu fenhor, & não foy neceffario fazer ho gouernador nada contra ho príncipe, porq como ele loube que ho gouernador era em Co¬ chim fe retirou logo pera dentro das terras del rey de Calicut, õde os noffos não podião ir. E fabendo ho gouernador del rey de Cochim, & del rey da pimenta como auia carga pera as naos daquele anno, & pera as q ficarão do outro, & pera húa que trouuera Duarte de lemos: tornou a propor em confelho cÕ os fidalgos & capitães as caufas q auia pera
94 Hijloria da índia tomar Goa, pera ver o q lhe dizião. E eles differão o q tinhão dito, & affi o aílinarão: & ho mefmo tornarão a dizer em outro confelho, que lobriffo ouue. E defpois que aílinarão feus ditos, diffe ho gouernador que a ele tãbem parecia muyto bem ver fe podia tomar Goa, ou ao menos queymarlhe a frota quando a não podeffe tomar: & defpois de aífinar feu parecer diffelhes, Em coufa tão certa como he crer que cada hú de voffas merces tem tãto cuydado do feruiço del rey meu fefíor como das fuas coufas próprias, & que affi ho farão, parecia efcufado lebrarlhes que ho fação, eípecialmente vendoíe tão claramente que lhes lembra, como parece nos coníelhos que me derão tantas vezes que tome Goa, tirãdo fempre ao fito que tomada feria grande feruiço del rey meu fenhor, porque não fe tomando perderfehia o que te ganhado na índia. Mas quando vejo q efte confelho não vem acompanhado dofrecimento de fuas peffoas, & gente de fuas capitanias pera efte feyto, pareceme muyto neceífario lem- braruos fenhores que a gente que eu tenho não he coufa nenhúa pera hú feyto tão façanhofo como efte: & porque vos não pareça que falo de graça, eu não tenho mais que mil & duzentos homés, duzentos & cincoeta das naos de Diogo mendez, fetenta da nao de Iorge Nunez de lião, trinta & feys do nauio de Francifco marecos, quarenta da nao de Duarte de lemos, & cem malabares os outros fam da ordenança da índia. E eftes como digo he coufa muyto pouca pera cometer húa cidade, de que agora fahi deibaratado que ha deitar apercebida pera fe defender da vingança que fabe que auemos de querer tomar, porque efte credito temos na índia. E fe eu for pera iffo, & por falta de gente não poder com fua re- fiftencia, perderfeha de todo o que el rey meu fenhor tem ganhado na índia, com vir a lume a grande armada que hi faze os turcos, cujas fuftas ja não deixauão nauegar as naos de noffos amigos, & por iffo eu fuy a Goa & deixei a ida do eftreito. E a fora efta armada dos turcos que he tão boa gente de peleja como eu fey, farão logo corpo coela ho poder del rey de Cambaya, ho del rey de Calicut & ho do grão foldão, a que nenhú noffo poderá refiftir, os quaes todos eftão liados & confede¬ rados pera nos deitarem fora da índia, & com eu ir a Goa, de maneyra que cõ ajuda de noffo fenhor a tome desfarfeha efta liga, porque ho ça- bayo ficara deftroçado, & ho poder do foldão, né ho del rey de Cambaya, né ho del rey de Calicut nã terão onde fe ajuntar, nem onde fação corpo, porque não tinhão na índia outro lugar mais proprio pera iffo q Goa. E pois fenhores vedes ho pro & cõtra do feruiço del rey meu fenhor, da fua parte vos requeyro, & da minha peço muyto que me ajudeis nefte feyto cõ voffas peffoas, & com voffa gente: porque a fora fazerdes o que foys obrigados ao feruiço de S. A. ganhais muyta honra, que fem duuida
Livro 111; Capitolo XXXIX 95 fera toda vofla porque com vofla ajuda defpois da de noffo fenhor fe fara efte feyto tão honrado que mais não pode fer. A efta pratica do gouer- nador refpõdeo logo GÕçalo de fiqueyra: dizendo que ele dera fempre de fi muyto boa conta nos carregos que lhe forão encomendados, & q ele não fora á índia pera pelejar, por ido que não auia dir a Goa. E também que as coufas da guerra erão incertas, & muytas vezes fahia ho fim delas bé defuiado do que fe cuydaua, & fe gaftaua mais tempo em fe fazer hum feyto do que parecia antes que fe começaffe, & aflí poderia fer naquele, & q íe gaitaria ho tépo da partida pera Portugal, & q inuernarião na índia ou em Moçãbique no q el rey perderia muyto, por ilio que não podia ir a Goa. E ho mefmo diflerão os outros capitães, não lhes lem¬ brando o que tinhão prometido ao gouernador que irião coele fç foffe a Goa, parecendolhes que não foffe: o que lhes ele trouue a memória, & diífeihes q ho feyto de Goa prazendo a noffo fenhor fe podia acabar ate a entrada de Dezembro, & que ate a fim dele era ho verdadeiro partir pera Portugal, & que entre tanto que eles foffem a Goa ficaria recado ao feytor de Cochim, que com ho alcayde mor lhes carregalfe as naos, o que fe faria facilmente porque auia carrega em abaftança. E deita ma- neyra em chegando a Cochim da vinda de Goa 1'e partiriã logo. Porem como os capitães não defejauão nada a honra do gouernador, & lhes pa¬ recia que naquele feyto lha ajudárião a ganhar nuca quiferão ir coele por mais que niífo infiítio com grãdes requerimétos. E vedo que lhe não aproueitaua nada, determinou de fe tornar a Cananor, & fe encomédou a carrega a Gõçalo de fiqueyra, que deixou em feu lugar pera que a fizeífe cõ Antonio real alcayde moor & feytor de Cochim, & mandoulhes q fe carregaifem primeyro as naos qúe ficarão na índia do anno paffado. E iíto ordenado mandou chamar todos os capitães que auião dir pera Portugal, & perãte Gonçalo de fiqueyra & outros fidalgos lhes diffe, Senhores eu vos requeri da parte del rey meu fenhor, & pedi muyto por merce da minha que foffeys comigo a Goa por importar tanto a feruiço de S. A. como me tendes dito: digouos q me vou embarcar pera ir a Goa com ajuda de noflo fenhor, quem me quifer feguir figame. E logo fe foy embarcar na galè de Baítião de mirãda, q ainda não eltaua be aca¬ bada de concertar, & aili como ie embarcou fayo pola barra fora, não indo coele mais q Iorge da filueira na nao botafogo, que lhe ho gouer¬ nador deu pera ir aquele anno pera Portugal, & efte quis ir com ho gouernador a Goa, porque vio que auia tempo pera ir & vir. E chegado a Cananor achou Duarte de lemos muyto fora de ir coele a Goa, como lhe prometera, porque entre tanto que foy a Cochim não faleceo quem andaffe a Duarte de lemos com a cabeça ao derredor, & lhe diffeffe que
9<> Hi/loria da índia pera que queria ir a Goa ganhar honra pera ho gouernador, que fe ele fora capitão moor como era dantes que fora bem ir: mas capitão rafo que ho nã deuia de fazer, porque ho gouernador não ho auia de deixar ir da maneyra q lhe tinha prometido, nem auia de fazer cousa algúa por íeu cõfelho, antes ho auia dabater. E nefte confelho foy culpado Ieronimo teixeira, & não abaftou mudaréfe Duarte de lemos & outros capitães q eftauão é Cananor, mas faziã todos jútos confelho, contra o que ho gouer- tjador tinha determinado fobre a ida de Goa, dizendo que era impofíiuel tomarfe por fua fortaleza, & por eftar nela grande multidão de gente, & que não feruia de nada tomarfe pera o que compria ao feruiço del rey: & pofto q a ho gouernador tomafle, que a tornaria a perder como fizera da outra vez, & que eles não querião ficar cercados, & perder a viajem pera Portugal, & zobauão muyto daqla ida, & dizião muyto mal dele: & efcarnecião de Diogo mendez de vafconcelos, porque deixaua de ir a Ma- laca fazer feu proueito, & fe hia a perder com ho gouernador, & fe fiaua em fuas palauras. E tão danada andaua a coufa pera eftoruarem q ho gouernador não foffe a Goa, que foy dito ao fecretario é fegredo per Ieronimo teixeira q difleífe ao gouernador q diogo medez lhe queria fugir pera Malaca cÕ os feus capitães. E ifto era metira, & por tal lho teue ho gouernador quando ho foube, & diffimulou cÕ ho iecretario. E vedo eftes q nã podião eftoruar a ida do gouernador, amotinarão be quinhentos homés dos que auião de ir coele todos fãos, & os melhores da índia, que quãdo ho gouernador fe ouue dembarcar ficarão alapardados, & fe forão por eífes palmares fingindo que fugião porque ho gouernador os queria ter na índia por força. CAPITOLO .XL.* De como ho princepe leuãtado quifera tornar a Cochi defpois da partida do gouernador: & como foy defbaratado per Nuno va\ de cajielo brãco> & per Lourenço moreno. PArtido ho gouernador de Cochi, foube o ho prlcipe aleuãtado, & a determinação q leuaua de ir a Goa. E vedo ho tepo delpofto pera auer efeyto fazerfe rey de Cochi tornoufe a Vaypl cõ a gente que tinha dantes, & com outra que lhe deu el rey de Calicut. E fabido ifto por el rey de Cochim focorreofe logo a Gonçalo de fiqueyra, pedindolhe ajuda: & ele mandou logo goardar os rios a Nuno vaz de caftelo branco, que ficou em Cochi pera mandar acabar de concertar a fua nao, & aífi a Lourenço moreno, & a outro, & todos tres forão em bateys armados. E
Livro III, Capitolo XL 97 antes que foffem foy difcuberto a Gonçalo de fiqueyra como ho príncipe tinha dous tónes em húa enfeada cuberta daruoredo, pera fe embarcar fecretaméte com hú feu regedor, pera ao outro dia ante manhaã fe ir meter é CochI. O que fabido por Nuno vaz, Lourenço moreno, & polo outro fe deitarão fecretaméte hú de húa parte da enfeada onde eftaua ho principe, & outro da outra, que ie não vião os bateys por eftarem debaixo do aruorcdo, & ho outro eftaua mais afaítado, & tinhã antre fi feus finais, & ali efteuerão toda a noyte. E queredo amanhecer chegou ho principe com fua gente, & ele fe embarcou com ho feu regedor cada hum ém feu tòne com algús nayres pera ir mais diflimuladaméte, & partirão ficandolhe a outra gente â borda dagoa: E os nofíos em ho prlcipe emparelhãdo coele fizerão íeus finais, & remeterão aos tónes. E como ho principe cuy- daua que hia muyto fecreto, em os vedo deufe por perdido por quão pouca gete leuaua, & por iífo mandou remar pera terra cõ tenção de fugir, & tomou terra em húa grande vafa, por lhe tere tomado ho canal, & ali fe lançou na vafa onde os noffos não poderão chegar por os feus bateys demandarem mais agoa que os tónes: mas a preífa dos immigos foy tamanha que lhes ficarão os tónes que os noffos tomarão, & acharã neles as infinias do principe, que erão ho feu fombreyro de pè, fuas trom¬ betas de marfim, & feus atabales: & afli hús panos que fe chamão purauás que fam dalgodão muyto fino cõ lauores douro. E pofto que a gente do principe apareceo é terra os noffos não quiferão fayr a eles, porque não podião por amor da vafa, & tornaranfe pera a forteleza, onde foy ei rey de CochI a faber aquelas nouas, que forão parele de muyto contenta¬ mento por faber q ficaua feguro no reyno, pois o que ho pretédia per¬ dera as infinias que forão dadas a el rey de Cochim pera final de fua vitoria. E porque ho principe vio quão mal lhe focedera naquela emprefa, & por ficarem fuas infinias a feu immigo (que antreles he grande agoyro) perdeo a efperança de fer rey, & nã intentou mais de tornar a Cochim. E vendo Nuno vaz de caftelo branco que a fua nao tardaua em fe acabar de concertar, & que fe chegaua a partida do gouernador pera Goa, quis antes ir coele que efperar pola nao: & partiofe pera Cananor com recado del rey de Cochim, & de Gonçalo de fiqueyra fobre o que acontecera ao principe leuãtado: com que ho gouernador folgou muyto quãdo ho foube. E a efte tempo eftaua ele pera fe partir pera Goa, porq tinha auifo de Timoja que ho Hidalcão eftaua bem metido pelo fertão da terra firme, porque tinha guerra com el rey de Narfinga fobre Rachol, pelo qual auia de ter leuado muyta parte da géte q eftaua é Goa. E fabédo q todauia Duarte de lemos não auia de ir coele a Goa não quis deixar de lhe com- prir o que lhe tinha prometido, que era fazelo capitão môr das naos que Tomo II |3
gS Hijloria da índia ficarão do outro ãno pera hirem pera Portugal, que erão fete, & deulhe húa nao pera feu hirmão: & deulhe licença que fofie carregar a Cochim feu ordenado, porque de ho conhecer por aflomado não queria q fofie por nã auer là reuoltas antrele & Gonçalo de íiqueyra. E ele lhe deu fua fé de não entéder em CochT em mais, que em carregar feu ordenado: & com todas eftas boas obras, ele & os outros amotinarão os quinhentos homens q difle. CAPITOLO .XLI. De como ho governador partio pera a cidade de Goa, á do confelho que ouve [obre a cometer. PRestes ho gouernador pera fua partida, embarcoufe com mil & duzetos homcs de peleja, os mil & céto Portuguefes, & os cento* malabares q hião debaixo da capitania dhú nayre que fora goazil del rey de Cananor, muyto boõ homé & esforçado, & grade feruidor del rev de Portugal. E efta gcte fe embarcou em perto de trinta velas antre naos grofias, nauios redondos, carauelas & galés, cujos capitães a fora ho gouernador forão eftes: dõ Ieronimo de lima, dom Ioão de lima, Simão dãdrade, Fernão perez dandrade, Francifco pereyra coutinho, Ma¬ nuel de lacerda, Ayres da íilua, Garcia de foula, Duarte de Melo, Fran¬ cifco pantoja, Pero dafonfeca de crafto, Baftião de miranda, Antonio de faa, Diogo medez de vafconcelos, Gafpar de payua, Baltefar da íilua, Pero quarefma, Iorge nunez de lião, Anibai cerniche, Iorge da filueira, Manuel dacunha, Ruy galuão, Iorge botelho, Diogo fernãdez de beja, % Gafpar cão, Simão martlz & Antonio de matos. E partindo ho gouernador em Nouembro foy ter a Honor & hi foube de Timoja que Goa eftaua muyto forte, porq tinha húa tranqueira daltura de dez palmos, & de duas faces entulhada darea, que comcçaua onde agora fam as cafas Dantonio correa que fe chamaua naquele tepo ho efteiro de Timoja, & acabaua abaixo do cays da cidade em hú canto do muro que fe ali faz, onde eftâ hum baluarte antes da porta que fe agora chama de fancta Caterina, & auia nela muytas eftãcias dartelharia grofla & miuda, é cuja goarda eftauão muytos turcos, & mouros brancos do mar roxo que ho Hidalcão trazia a leu foldo: & daquela tranqueyra pera dentro eftauão as naos & fuftas dos inimigos, que por todos quãtos eftauão na cidade 1’erião ate noue mil homés, & ali cõcertou ho gouernador com Timoja que fofie coele a Goa pera ho ajudar a tomala, & q fofie por terra cÕ a mais gente que podefie. E faindo ho gouernador do rio Donor foy a torméta tamanha que fe lhe çoçobrarão dous bateys, em que fe afogarão algús homés, &
Livro III, Capitolo XLI 99 perderaníe muytas armas, & daqui foy ter á barra de Goa, onde quifera auer confelho fobre ho modo q teria em cometer a cidade: & foylhe dito por todos os do confelho q fe não deteueflem, & que entraífem logo pera dentro, & aífi como viffem affi farião: porque poderia fer q eftaria a cidade doutra maneyra do que dizia Timoja. E entrado dentro defpejou- felhe logo Pãgl, & os noffos que fayrão em terra tomarão ainda algús dos immigos & leuarãnos ao gouernador: & eítes ihe diíferão q ho Hi- dalcão eílaua na terra firme fobre a cidade de Rachol, que lhe el rey de Narfinga tinha tomada, & na difpofição de Goa, concertarão com o que Timoja tinha dito. E com tudo ho gouernador mandou a dõ Ioão de lima que foífe no feu batel ver a cidade, & forão coele dom Chriítouão de lima feu hirmão, & hú capitão da ordenança, & hú Antonio de moura. E começãdo dom Ioão demparelhar com a trãqueyra, começarão de chouer fobrele as bobardadas, & por fe cofer cÕ terra ho mais que pode não recebeo delas nenhú dãno: & fazendo remar muyto rijo foy perlõ- gãdo pola tranqueyra ate chegar â fortaleza defronte dhú baluarte que eílaua acima da porta da ribeyra q tinha as bobardeiras tapadas, & deí- tapandofe com a villa do batel lhe tirarão os Imigos com a artelharia, & chegou dom Ioão tão perto que os ouuia falar, & affi os que eítauão em terra & pelos muros, q erã muytos & todos gente limpa fegundo mof- trauão feus atabios. E vilto por dõ Ioão muyto bem ao que hia, tornoufe com muyto perigo, & da volta achou dom Ieronimo feu hirmão, & outros capitães que hião em bateys pera ho recolher receando que ho metelfe no fundo a multidão dos pelouros. E indo affi todos ouuera hú pelouro dhúa bombarda groffa de leuar a dom Ieronimo. E efcapãdo deite perigo & doutros chegarão õde ho gouernador eílaua furto acima de Rabandar defronte de Banganim, & ali fe paffou â nao de Manuel da cunha, porq foube q dela melhor que da fua veria de roílo a trãqueyra da cidade que eílaua dali muy perto, & affi a gente pelos muros & pelos oyteiros. E também eítauão coele os capitães da frota pera veré ho mefmo cÕ quãto a artelharia da tranqueyra varejaua amiúde. E fabédo ho gouernador de dõ Ioão de lima o q vira, ouue confelho cõ todos os capitães & fidalgos da frota: em q defpois de muytos debates, foy aifentado que por quãto fe não podia dar cõbate â cidade fe não do mar, donde era impoffiuel fazerfe coula que preílaífe: era neceffario tomarfe a tranqueyra, & fazela defpejar dos immigos, porque ganhada a ribeyra & a artelharia poderião mais á fua vontade efcolher lugar pera ho cõbate antes que os immigos foífem focorridos: & q ao dia íeguinte em amanhecendo defembarcaria ho gouernador com todos os capitães: de q Diogo mendez de vafconçelos, dõ Ieronimo de lima, dom Ioão de lima, Diogo fernandez de beja, Ma-
100 Hi/loria da índia nuel de lacerda, Simão dandrade, FernSo perez dandrade, Antonio ra- pofo, Gafpar de payua, Nuno vaz de caftelo branco, Manuel da cunha, Ayres da filua & Gafpar cão cõ ate quinhentos homes repartidos é tres efcoadrões cometerião junta mete a tranqueyra no meyo & nos cabos, & hiriao afli repartidos, porq tambe fe repartiffem os que a goardauão e tres lugares, & teueflé menos força: & nas coftas deites efcoadrões hiriao algús meítres dos nauios com marinheiros, & bombardeiros que leuarião rocas de fogo, pera que em os capitães entrãdo a tranqueyra pofeíTem fogo â frota dos Imigos que eftaua varada: & deita géte hiria por capitão Antão vaz ho meítre da nao de Diogo mendez por fer mais antigo que todos os outros. E entre tanto que eites capitães defembarcaffem, ho gouernador cõ os outros cõ todo ho reito da géte foberia por aqlas ladeiras onde agora eitão noffa fenora do rofayro & fanéto Antonio, & fe hirião dereyto â cidade pera a porta dos bachares, porque faindo por ali gente pera acodir â tranqueyra lhe atalhaffe, & fe não acodiffe, fe não pola porta de fãta Caterina fomente, pera lhe dar nas coftas, porque cometidos os immigos por diãte & por detrás foífem mais afinha defbaratados: & quando não foffe neceffario pera nenhúa coufa deitas bufcaria por onde entraffe na cidade daquela parte ate ho Mãdouim. E porque os immigos nao acodiffem todos aa tranqueyra, & fe repartiffem & teueffem menos força, ordenoufe que as galés, & ho nauio de Baftião de mirãda com outros que demãdauão pouco fúdo foífem furgir do cays ate ho Mãdouim, & tiraffem de noyte com a artelharia, porque cuydaffem os mouros que naquele lugar auião os noffos de defembarcar, & acodiffem ali & não fof- iem tantos na tranqueyra. CAPITOLO .XLII. De como ho gouernador tomou a cidade de Goa em dia de Jétâ Caterina com grande dejlroyção dos immigos. TOmado efte affento, pedirão todos os do cõfelho ao gouernador muyto eftreytamente que ficaffe nas naos, porq fendo coufa que noffo fenor não quifeffe que lhe aconteceffe algú perigo que ficauão todos perdidos, & fe perderia o q el rey de Portugal tinha na índia. E ele ref- põdeo que por nenhú modo auia de deixar de ir coeles, porque quando lhe acõteceffe o que eles receauão, cada hú deles era peffoa pera ter ho cargo que ele tinha: & que lhe não repricaffem mais niffo porque auia dir coeles, & afli ho fizerão. E tornandofe a feus nauios os que auião de furgir do cays ate ho Mãdouim ho fizerão com muyto grande perigo &
Livro III, Capitolo XLII ior trabalho, porque não tinhão conto os pelouros q lhe tirarão da trãqueyra. E furtos os noffos diãte da cidade no lugar que digo, dali a pouco ouuirao rumor de gente fobre ho muro daquela parte & crecia de cada vez mais, pelo que pareceo que os Imigos cuydauão q daquela banda auia de fer ho cobate, & por iflo acodião ali. E fazédofe os noífos preftes pera o .que auião de fazer, quãdo íoy antemanhaã vinte clco de Nouebro de mil & quinhétos & dez em dia da be auéturada fan&a Caterina de monte íinay, embarcoufe ho gouernador cõ todos os capitães em feus bateys, & em rõpendo a alua faltou em terra cõ a bãdeira real, cõ grãde eftrõdo de trõbetas & gritas: & tomãdo por aqlas ladeiras por õde auia de ir, começou de fobir por elas acompanhado deites capitães, Francifco pe- reyra coutinho, Pero dafonfeca de craíto, Antonio de faa, Baltefar da filua, Pero quarefma, Iorge nunez de lião, Iorge da filueira, Anibal cer- niche, Ruy galuão, Iorge botelho, Antonio de matos, Baítião de miranda, & Simão martlz, q todos leuauão a melhor géte q tinhão. E os bombar- deyros fomente & algfia gente do mar ficauão oulhando polos nauios: & ho mefmo fizerão os outros capitães que auião de cometer a tranqueyra, que juntamente defembarcarão é ho gouernador defembarcãdo, & a come¬ terão com grãde impeto do Ieronimo de lima, Manuel de lacerda, Diogo fernandez de beja: & dõ Ioão de lima no cabo que acabaua no canto do muro da cidade, Diogo mendez de vafconçelos, Gafpar de payua, Nuno vaz de caltelo branco, & Gafpar cão no meyo: & no cabo q acabaua no eíteiro de Timoja, Simão dãdrade, Ayres da filua, Fernão perez dandrade, Manuel da cunha & Antonio rapofo. E é os noffos defembarcando começa a artelharia dos Imigos a defparar da tranqyra, & cobrirfe tudo de fumo, & foar muyto grande toruoada das bombardadas, que os noffos parecia, q não tinhão em cota, affi rõpião por antre os pelouros, que fendo tão baftos não matarão nenhús deles (o que foy milagre de noffo fenor). E rõpendo os noffos por ãtre tamanhos perigos, chegarão â tranqueyra, a que os Imigos acodirão pela porta de fanóta Caterina, & cõ os primeyros acodio ho capitão da cidade, & parou ali, mandando â gente que acodiffe a todas as partes, porque em todas a peleja era muy crua: & como os Imigos erão fem conto pera os noffos, refiftiãlhe forlemente a entraré a tranqueyra, principalmete onde eftaua ho capitão, que aqui era a môr força da peleja. E també aqui os Imigos recebião mayor dano de mortos & feridos com feetadas, efpingardadas & lançadas. E paffada bé mea ora que pelejauão, começarão os do efcoadrão de dom Ieronimo de fobir a tranqueyra hús per troços que tinhão arrimados, outros por piques, & entrarão por força por mais que le os Imigos defendião: & ho mefmo começarão logo de fazer os outros efcoadrões, mas cõ tudo os immigos
10 3 Hijloria da índia teuerão esforço & tornarão de nouo a pelejar, tão bem que fe deteuerão hú pedaço fem fe retirar. E nefte efpaço 5 que muytos forão mortos aca¬ barão os noffos de romper a tranqueyra, & entrarão todos, & meftura- ranfe com os immigos cada hú por onde podia, que de muyto feridos (& mortos os que digo) fe começarão de retirar pera a porta de fanóta Ca- terina, que os de détro da cidade tinhão mea aberta pera os recolherem, & acertoufe que denuolta com algús que fe primeyro quiferão recolher, forão Diogo fernandez de beja, Dinis fernandez de melo, dom Ieronimo de lima, Vafco dafonfeca, Antonio vogado, Ioão lopez dalul, Gafpar cão, & outros ate dez. E recolhidos aqueles poucos de ímigos, que os de dentro quiferão fechar a porta porque os noffos não entraffem, chegou Dinis fernandez, & meteo por antre as portas húa chuça que leuaua & não a deixou fechar, ao que logo acodio Diogo fernandez de beja, & ajudou também a Dinis fernãdez, q por mais q os ímigos carregarão de dentro nunca a poderão fechar: & bradando Diogo fernandez, & Dinis fernandez q lhes acodiffem, & efteuerão é rifco de lhe não podere acodir, porq cõ os muytos mouros quafi que os noffos não podião romper nem podião ir fe não hú diãte do outro, & eftes forão dom Ieronimo & os outros, & hús trabalhauão por abrir a porta, outros pola defender dos ímigos que eftauão de fora & querião entrar. E vendo eftes como os noffos a defendião não curarão détrar por ela, & tirarão ao longo do muro pera a porta dos bachares, & outros fe hião pera ho oyteiro de fanõto Antonio: & quãdo os mouros de dentro que trabalhauão por ter os noffos q eftauão na porta os virão fugir, & virão que os noffos come- çauão de recrecer, defefperados de a defender a deixarão: pore como homés acordados, & que determinauã de fe defeder, porq fe retirauão cõ os roftos nos noffos, tirandolhe muytas frechadas, porque os mais deftes erão frecheiros. E cõ tudo afíi como a porta foy aberta étrou logo Dinis fernãdez, que ao entrar foy ferido em hú braço, de que defpois ficou aleijado, & Diogo fernandez de beja, dom Ieronimo de lima, Vafco dafonfeca, Antonio vogado, Ioão lopez daluim, Gafpar cão, & outros fidalgos & caualeyros ate dez, & em eles entrando começarão de vir muytas pedradas, frechadas, & azagúchadas que tirauão muytos immigos q eftauão fobre ho muro daquela porta, & tão amiúde q parecia que cho- uião & fazião ter eftes noffos que eftauão dentro, mas nifto entrou Manuel de lacerda & apos ele dom Ioão de lima, q ao entrar lhe derão tamanha pedrada na cabeça que lha fez incrinar, & ouueraho de matar fe não fora ho capacete: & affi entrarão Mendafonfo ho de tangere, & Ayres da filua que foy ferido de húa frechada em hú calcanhar, & ifto do muro, & coeftes entrarão algús de fuas capitanias, de que logo foy morto ho
Livro III, Capitolo XLII io3 meyrinho da nao Dayres da íilua & nas coítas deites forão Gafpar de payua, Fernao perez dãdrade, Manuel da cunha, Antonio garcês & outros, que feriao ate trinta, que cõ Ieronimo de lima & com os outros fe fizerão em hú corpo & derão nos inimigos tão brauamente que os fizerão retirar, porem com muyto concerto, & retirauanfe efpalhados, hús pera as caías do çabayo indo por onde agora he a orta de fam Francifco, outros pera a porta da cidade ao longo do lanço do muro que vay deita porta de fanéta Caterina parela, & outros ao longo do muro que vay da mefma porta pera a da ribeyra. E vendo iíto os noífos efpalharanfe tambe apos eles feguindo cada hú ho capitão que conhecia, porque ja a ordem das capitanias era peruertida, & feguião pelos mefmos lugares por onde hião os mouros. E indo dom Ieronimo ao longo do muro pera a porta da cidade com outros capitães adiantoufe deles, & defuioufe cõ Gafpar cão, Mendafõfo, Antonio vogado, Vafco dafonfeca, Ioão lopez daluim & outros ate qulze apos os mouros que hião fugindo pera as cafas do çabayo, & fobião per húa ladeira que fe fazia õde agora eítá a orta do moíteiro de fatn Francifco, onde a eíte tépo eítaua hú tanq & duas aruores, & mais acima õde agora he ho dormitorio deite moiteiro, fe fazia hum muro que corria dali ate as cafas do çabayo, de modo q cercaua ho terreyro, que agora he da íee, & deitas cafas que ficaua tão alto fobre aqla parte por onde hia dom Ieronimo, que fobião a ele per húa grãde efcada de pedra, & por iífo era a cidade ali muyto forte. E Ido dom Ieronimo cõ os que digo apos os inimigos vinhão ja outros de refrefco acodir a eítes, & aos que fugiao pelas outras partes, & derão de roldão fobre dom Ieronimo & os de fua cõpanhia junto do tanque que digo: & foy aqui húa muyto braua peleja, & bem pera efpantar: porque fendo os immigos tãtos, que auia bem trinta pera cada hú dos noffos, eles tinhão a barba em teio como homés que fe não lembrauão da morte, com quanto todos eítauão muyto feridos, principalmente Vafco dafonfeca que cayo morto, & dom Ieronimo que de fe lhe ir muyto fangue, & ferem as feridas mortais cayo defmayado: & como ele eítaua por efcudo dos feus retiraranfe em ele caindo, & também porque ho pefo dos immigos foy tamanho que ho não poderão foiter, com quanto aqui ja pelejauão Ayres da íilua, & outros algús que acodirão, & começando os noífos de fe retirar Mendafonfo de tangere que era muyto esforçado bradou, dizendo volta a eles, & Ayres da filua que eítaua pegado coele, lhe diffe que da boca lho tirara, & bradou q fizeffem volta: & eles ambos forão os primeyros que voltarã & os outros os feguirão, & apertarão com os immigos tão de verdade, ferindo os, & matando os que os fizerão retirar ate ho pé da efcada que digo indo apos eles, & dom Ieronimo ficou defabafado, & como aqui a
104 Hijloria da Índia reuolta fofle muy grande, afli pola peleja como pola grita dos immigos, que cuydauão q lhe não auião os noffos defcapar, acodirão hi eíTes capi¬ tães que entrarão primeyro: & dos primeyros q chegarão onde eftaua dõ Ieronimo ainda viuo, forão dom Ioão feu hirmão, Gafpar de payua & outros. E dom Ioão fe quifera deter coele polo affi ver tão ferido & fraco: & ele lhe diffe q nã fe deteueíTe, & fofle acodir aos noffos que pelejauão, & ele ho fez leuando as lagrimas nos olhos com magoa de ver como do Ieronimo ficaua, que acabou logo feus dias. E paflando dom Ioão auante foy ajudar aos noffos, dantre os quaes fayo húa voz que lhe diffe. A fenhor dom Ioão q efta he a de Calicut, & ifto porque fe vião tão poucos antre tantos immigos: & diffe dom Ioão que não feria fe não vitoria que lhe noffo fenhor daria. E a eíte tempo começarão de recrecer muytos dos noflos, porque os mais dos capitães que cometerão a trãqueyra erão entrados na cidade, & entrou coeles Diogo mendez de vafconcelos, fazendo tocar as trombetas pera esforçar os noffos q eftauão em muyto grãde trabalho, por fere todos tão poucos pera tamanha multidão dim- migos como auia na cidade, & Diogo mendez tomou pera a porta da ribeyra por onde vinha hú grande corpo dimmigos, & antreles algús de caualo: & Diogo mendez com os que hião coele, deu neles com tão grande furia que os fez retirar pera a porta da ribeyra ficando muytos mortos, & Ido muytos feridos. E fe depois de noffo fenor Diogo medez não acodira a efte tempo, & não fizera retirar os immigos, ouueranfe os noffos de ver em grande afronta & perigo fegundo os mouros recrecerão pera os tomarem antreles, & os que defédião ho pé da efcada, & mata- rénos a todos porque viã quão poucos entrauão dos noffos de fora pera os ajudar: & cõ a fugida deftes os que defendião ho pé da efcada come¬ çarão dafroxar, & retirarfe por ela acima pera as cafas do çabayo, & porem cõ grande teto: & a barafunda era muy grande, affi do arroydo da gente, como da braueza das frechadas, pedradas, & zagunchadas que os immigos tirauão indo fe retirando porque não foífem os noflos apos eles como hião com quanto forão aqui feridos quafi todos: & Manuel de lacerda foy ferido na maçaã dhúa face com húa frecha, de que ho ferro lhe entrou todo na carne, mas né por iífo deixou de ir com os outros ate cobrarem encima ho terreyro, onde forão ter coeles Fernão perez dan- drade que hia ferido & Manuel da cunha, que com algús dos noflos hião focorrer a dom Ieronimo (que virão dali decima onde ja andauão quando cavo) & defpois de feré encima no terreyro, vedo os immigos quão poucos erão, & que lhes nã hião mais nas cofias, remeterão a eles com hum geyto de homcs que auião vergonha de fugirem de tão poucos: & como os noffos ho erão não podendo lofrer ho pefo de tamanho corpo
Livro III, Capitolo XLII io5 como fazião os immigos retirarãfe pera hús degraos que eftão a modo de theatro ao longo das cafas do çabayo: & os immigos com quanto erão tantos & aífõbrauão muyto aos noflos não fe chegauão a eles, como que fe lhes punha diate algúa coufa de q auião medo. E defpois fe foube q vião hú homé muyto grãde de corpo armado darmas brácas de q auião tamanho medo que não ouíauão de chegar aos noflos: & creofe que efte homem era ho apoftolo San&iago, em que ho gouernador tinha muyta deuação & era caualeyro da fua ordem. E não oufarem os immigos de fe chegar aos noflos, lhes deu tamanha ouladia que tornarão fobreles, & derribarão morto hum de caualo que era abexim: & ho caualo deite foy tomado per hum criado de Manuel de lacerda, a quem ho deu, que logo caualgou nele trazendo ainda metido na face hú troço da frecha que ho ferio, & remeteo aos immigos de caualo, que ferião ate oyto, & andauão diante dos de pee, & com a lança derribou algús. E coifto & com Diogo mendez chegar ao terreyro defbarataranfe os immigos de todo & fugirão fem ordem hús pela banda do Mandouim & dali ate a porta dos bachares lançando fe porcima do muro os que não podião fayr pela porta, & antreftes foy dos primeyros ho capitão da cidade, & os noflos os feguião, não dando vida a ninguém, não fomete dos mouros mas dos gentios de qualquer genero & idade que fofiem, porq afli ho tinhão jurado por man¬ dado do gouernador, por amor da treyção que fizerão. E defpejandofe afli a cerca & fortaleza, vinha ho gouernador cõtra a cidade, & fem a ver nem faber o que hia nela, fe não ouuindo ho eftrondo da artelharia, & defpois a grita da gete, mandou faber por Simão martlz o que hia na cidade. E chegando ele aa porta de fanda Caterina achou algús dos noflos que fayão a dar a noua ao gouernador, que defpois de defpedido Simão martlz tirou a diante, & chegãdo quafl aa rua dos bachares achou os mouros que fugião da cerca & da tranqueyra, & afli outros & deu neles, & porque fe defenderão fe deteue ele todo aquele efpaço que os noflos efteuerão em perigo íem lhes poder acodir, & os noflos pelejarão também que poferão os immigos em defbarato & os fizerão fugir. E niílo foy dito ao gouernador o que hia na cidade, & querédo entrar pola porta dos bachares achouha fechada, porque quando os mouros fe defpejauão algús deles fe ajútarão & tornarão a entrar, & refiftiranlhe dõ Ioão de lima & Manuel de lacerda com outros, tão rijo que os tornarão a deitar fora, & porq outros não fizefle ho mefmo fecharão as portas. E abertas entrou ho gouernador na cidade com grande arroydo de trõbetas porq fe ajuntaflem os noffos. E entrãdo na cidade dando muytas graças a noíTo fenhor por tamanha merce como lhe fizera, que quatrocetos ou quinhentos homés forão os que a tomarã a noue mil turcos, coracones & outra gente Tomo II '4
io6 Hiflor ia da índia branca do mar roxo toda boa géte de peleja: & ele étrado na cidade, foy ela deípejada de todo dos ímigos, apos quem os noflos quiferão ir, mas ho gouernador não quis, dizendo q eles el^auão muyto canfados, & que fe os immigos voltaffem fobreles q fe virião em grande perigo, & pode- rião perder o q tinhão ganhado, que defpois de defcãfados ho farião fe os ímigos não quifeffem defpejar a ilha: & então fe apoderou da cidade, & mandou trazer os feridos, antre os quaes forão Simão dandrade, que ho trouuerão muyto ferido da tranqueyra que là ficou, & affi forão feridos Manuel de lacerda & dó Ioão de lima, a que ho gouernador beijou nas faces & os abraçou, dizendo. Filhos que não fey que vos faça, fe não q romperey as veftiduras diante del rey porq vos faça merce, q vos hõr- raftes a vos & a ml. E adi forão feridos outros muytos capitães & fidalgos, que chegarião quafi a trezentos, & morrerião trlta pouco mais ou menos: dos quaes forão do Ieronimo de lima, Vafco dafõfeca, Antonio vogado, & Antonio garcés, q primeyro q morrelfem matarão muytos mouros, de que nelta tomada morrerião perto de quatro mil almas. E defpois de tomada a cidade, armou ho gouernador muytos caualeyros, & hú deles foy Manuel da cunha, cujo padrinho foy Fernão perez dãdrade, & ambos de dous fizerão aqle dia tão boas coufas, q merecerão muyto bé ho nome de caualeyros, & não fomente eles mas quantos fe acharão naquele feyto, q fe começou em rõpendo a alua, & fe acabou às dez horas do dia, que foy como dilfe da bé auenturada fanéta Caterina, a cuja honrra & memória elta porta por onde os noffos entrarão fe chamou dali por diãte de fanéta Caterina, como agora fe chama. CAP1TOLO .XL1II. Do grande & rico defpojo que foy' achado em Goa, & do mais que ho gouernador fe\. ARmados pelo gouernador os caualeyros q diflé, mandou dar fogo ao arrabalde, polo ter aííi jurado por a treyção q lhe fizerã os cana- rins q morauão nele quando receberão os mouros da outra vez q fe lhe deu a cidade: & ho arrabalde foy todo queymado & arrafado, & ho mesmo ouuera de fer na cerca fe ho gouernador não teuera neceílidade dela pera gafalhado dos feus. E també mandou arrafar o arrabalde, porq fe os mouros foífem fobrele q não teueífem lugar é que afléntaííem eftãcia pera lhe daré bateria como da outra vez. Feyto ifto ordenou fuas eftancias dartelharia cõ capitães pelos muros, & baluartes da cidade pera goarda dela: & ho mefmo fez nas naos dos rumes, de q algúas achou acabadas,
Livro III, Capitolo XLIII IOJ & adi galeotas & fuftas: & a fora efta fazenda q fe tomou forra pera el rey de Portugal, fe achou dentro na cidade muyta artelharia, & muytas armas & munições, & grande foma de diuerfos generos de bõs mãtimétos. E affi foy achado muyto marfl & lacre, mercadorias de grade preço é toda a índia, & duzentos & cincoenta quitais de cobre, q també valião muyto, & a fora efta riqza & outra muyta de muyta diueríidade que fe repartio antre el rey & as partes, q todos ficarão ricos: fe tomarão catiuos pera el rey q renderão de refgate mais de vinte mil cruzados. E recolhido o gouernador â fortaleza õde auia de poufar, foy logo a ele Crifnâ pedir feguro pera os bramenes & géte da ilha, & adi pera os q fugirão da cidade cÕ medo dos noffos: & ho gouernador lho deu pera todos, saluo pera os mouros ou neyteâs, né pera nenhús defta cafta, porq determinaua de os deftruyr & defarreigar de Goa. E quando Crifnà foy pedir efte feguro leuou ao gouernador os liuros dos rédimétos da alfandega
Hiftoria da índia 108 porq cõ ajuda de Deos todo poderofo determinaua de fazer ali corpo de géte pera poder foftétar a índia: o q fe podia fazer muyto bé por efta terra ler própria del rey de Pdrtugal, & não empreitada como CochI & Cananor, & muyto abaítada de mãtimétos .f. trigo, arroz, carnes, & outros muytos q lhe hião da terra firme, como ja diffe. E por efta caufa determinou de a fazer muyto forte, & pera a deixar afli fe foffe fora da índia, como efperaua: & porq pera ido tinha neceflidade de géte, fez cõ Diogo mendez que ho ajudaffe cõ a fua, & q partiria pera Malaca na moução grande q era em Março: porq pera ho auiamento de lua partida pera Portugal, não montaua ir mais em húa moução que em outra, pois auia defperar na índia a cõ que partiffe pera Portugal, & que em fatis- fação do feruiço que faria a el rey feu fenor em dilatar fua partida pera Malaca, ele ho ajudaria como lhe tinha prometido, & mandaria logo hú feytor a Cananor pera que entretanto lhe fizeífe preftes as coufas neceflã- rias pera fua viajem. E ifto lhe diífe ho gouernador perante algús fidalgos, pedindolhe q ho quifeífe fazer. E vendo Diogo médez camanho feruiço fazia naquilo a el rey, cõcedeo a dilação de fua partida, & ajuda pera fazer a fortaleza: & a mefma ajuda cõcedeo tambe Iorge Nunez de lião, prometendo ao gouernador de fe não ir de Goa cõ fua gente ate não fer tempo de fua partida pera Portugal. E ho gouernador defpedio logo pera Cananor ho feytor pera as coufas de Diogo mendez, em cõpanhia de Manuel da cunha, a que deu a capitania de Cananor q vagaua porq Ro¬ drigo rabelo que eftaua nela por capitão auia dir pera a de Goa, por ter húa prouifam pera lhe fer dada húa que el rey mandaua fazer em Bati- calà ou outra qualquer que fe fizeífe. E chegado Manuel da cunha a Ca¬ nanor achou ainda hi a Duarte de lemos & os outros capitães que não quiferão ir cõ ho gouernador ao feyto de Goa efeufandofe com a partida de Portugal, & quando fouberão quão bem focedera: & como ho gouer¬ nador ficaua peloulhes a todos muyto de fuceder também, porq ficarão mentirofos no que quiferão adiuinhar que aquele feyto auia de fuceder mal, & com inueja de tanta honrra quanta fe nele ganhou, dizião q ho gouernador fizera mal de tomar Goa porq a não auia de poder fofter, & q lha auião de tornar a tomar como da outra vez, & q era coufa de q el rey não auia dauer nenhú proueito, fe não perda: não lhe lébrando q aflinarão clco cõfelhos em q acordarão que fem fe tomar Goa não fe podia fofter a índia, & dizião muyto mal do gouernador, aftacandolhe muytos falfos teftemunhos fé lho merecer, porq a todos tinha feytas boas obras: & fobre tudo muyto amigo do feruiço de Deos & del rey.
Livro 111, Capitolo XLIII1 iog CAPITOLO .XLIIII. De corno lio gouernador começou de fa\er a fortaleza & cerca de Goa, & do q fi\erão Fernão pere\ dandradc & Jorge botelho. CHegado Manuel dacunha a Cananor, étregoulhe Rodrigo rabelo a fortaleza, & partioffe logo pera Goa õde achou ho gouernador trabalhando na fortaleza q fazia muyto forte: & era ho meftre daqla obra Thomas fernãdez de q faley no liuro fegundc, & a pedra parela fe ouue de muytos & muy bõs edifícios de cato laurado q auia ao derrador da cidade, & por toda a ilha, que por nã feruiré aos noffos, & afli pola necefíidade que ho gouernador tinha os mãdou desfazer pera fazer a fortaleza & cerca. E todas eftas obras forão repartidas pelos ca¬ pitães q cõ a gcte de fuas capitanias trabalhauão nelas a quartos, afli altos como baixos, & hús erão cauouqueyros, outros fazião cal, & outros erao pedreyros, & quanto mais honrrados & fidalgos, tanto melhor tra¬ balhauão & fe prezauão do officio que lhe era dado polo gouernador: & ho defejo de ho fazerem lho fazia faber fem ho núca apréderem: & não lòméte tinham os noffos trabalho na fortaleza, mas também na ribeyra, trabalhãdo em acabar a armada dos immigos & deitala ao mar, porque fe tornaffem que não ficaffe a armada em terra como da outra vez. E a gente da terra fe efpantaua do muyto grande trabalho que tinhão: & também ajudauão a trabalhar em tudo: & as defpefas que íe gaftauão neftas obras não cuftauão nada a el rey, porque todas fe pagauão com ho grande defpojo que fe tomou na cidade de que lhe veo muyta parte, antes cõ pagarfe afli a gente do feu foldo, & mantimeto fe poupaua pera del rey ho dinheiro em que fe lhe ouuera de pagar, & ifto foy afli & nã como defpois algús quiferão dizer, cuydando q danauão ao gouernador q fizera mal de tomar Goa, porque auia mais de cuftar a fazer & a manter do que ela rendia. E ifto por lhe auorrecer ho trabalho que Ieuauão em fazer a fortaleza, que logo pola primeyra com ho aluoroço que tinhão lhe não pareceo nada: & defpois que ho efprementarão, & virã que a gente adoecia coele, então lhes pareceo mal a tomada de Goa, & peor fazerfe a fortaleza: & coifto dizião do gouernador mil males, que pofto que ho fabia diflimulaua, fazcdo a todos muytos fauores, afli com obras como com palauras, & porque naquele tempo era a moução da vinda das naos Dormuz a Goa pera trazerem caualos, & quiça que não virião por faberê que era dos noffos, no que fe perderia muyto, mandou a Fernão perez q foffe no feu nauio correr a cofta do Balagate ate Chaul,
110 Hiftoria da índia mandandolhe q quantas naos achaífe, afli com caualos como com manti¬ mentos, que a todos deífe feguro em feu nome & as fizeífe arribar a Goa, & trabalhafle por faber nouas Dormuz & do mar roxo fe auia rumes, ou fe efperaua que foflem â índia: & lhe mãdafFe logo as nouas como as foubelTe, & mãdou por feus capitães pera feguirem fua bandeira, Pero dafonfeca de crafto & Antonio de faa. E partido Fernão perez coeíte re¬ gimento foy ter ao porto de Dabul, dando caça a húa nao de mouros Dormuz que leuaua caualos, & os mouros não dizião que erão de lâ: & metidos no porto vararão a nao em terra, & faluaranfe em duas atalayas. O que vifto por Fernão perez, & que não podia tomar a nao, mandou dizer ao tanadar de Dabul, q lhe mãdafle logo toda a fazenda daquela nao, fe não que não fayria do porto nenhúa vela que a não tomafle. E ho tanadar não fométe mandou repofta, mas em furgindo tiraranlhe com algús tiros dartelharia dhú baluarte q eítaua na entrada da barra, & por iflo Fernão perez defembarcou com fua gente & ho tomou por força fé receber nenhú dano, & defpois ho mandou derribar, & recolher os tiros que tinha. E feyto ifto tornoufe ao mar, onde andou ate março: & entretãto que Fernão perez iflo fazia, Iorge botelho & Simão Afonfo bifigudo par¬ tirão por mandado do gouernador em duas naos pera andarem darmada fobre ho porto de Calicut, afli pera tomarem húa galé que ho gouernador fabia que auia de leuar pilotos ao mar roxo, pera que trouueífem rumes á índia que dizião que eílauão pera hirem, & pera que toruaffem que de Calicut não fofle nenhúa nao a Meca, & andarão ãbos ali quatro mefes fem fayr a galé, ne menos fayo nao nenhúa. E andãdo ali foy ter cÕ Iorge botelho húa nao grande que trazia muyta gente branca com que pelejou, & morrerão na peleja algús dos noflos porem dos immigos mor¬ rerão muytos, & a nao foy efpedaçada das noflas bombardadas que quanto hia nela fe perdeo, faluo algús fardos de roupa, & cento & vinte mil cru¬ zados em hú cefto: & afli fe eítoruou que não fofle nenhúa nao de Calicut ao mar roxo. E coeítas prefas & outras que os noflos fazião fe pagaua ho loldo, & mantiméto à gente que ho gouernador trazia.
Livro III, Capitolo XL V i ri CAPITOLO .XLV. Do q Duarte de lemos fe\ em Cochim, & do que Francifco de faa & Manuel da cunha fi\erão cm Cananor. A Vendo tãbé oyto dias ou dez q Goa era tomada, defpachou ho gouer- nador a Nuno vaz de caftelo branco pera q foíTe a Cochí acabar de cõcertar a fua nao que lá ficara, & acabada a carregafle de efpeciaria, & fe tornafle a Goa pera ir coele ao mar roxo, onde efperaua dir, & deulhe húa carta pera el rey de CochT, em que lhe efcreuia ho feyto de Goa, & pedia que defle auiamento á carrega das naos com breuidade. E efcreueo ao feytor q fizeffe acabar de cõcertar algús nauios darmada q eftauão em Cochí & lhos mandaíTe logo. E chegado Nuno vaz a Co¬ chim, foy dar a carta do gouernador a el rey, cõ quê eftauão muytos mouros mercadores deíles principais que ja tinhão noua da tomada de Goa, mas não muyto certa, & pefaualhes muyto. E el rey de Cochim folgou muyto douuir a tomada de Goa q lhe Nqno vaz contou: & ainda 3 Mamalemacar & Chirinamacar hirmãos mouros ho ouuirão, com ho pefar que diífo tinhão como homés defacordados preguntarão a Nuno vaz fe era verdade o que dizia: & ele lhe difle q fi, & q era ainda muyto mais do que tinha dito: & Mamale que era ho mais velho meteo ho dedo na boca defpantado (que aílí faze quando fefpantão muyto) & difle. Agora acabou ho gouernador de dar volta â chaue da índia é fauor de feu rey. E andando Nuno vaz occupado no corregimento da fua nao, mandoulhe ho gouernador hú regimento em que lhe mandaua que das moças q tomara em Goa a primeyra vez, que eftauão em Cochí como difle, tornafle vinte quatro que logo hião nomeadas, & as repartiflie por tres capitães dos que auião dir pera ho reyno, q erã Gonçalo de fiqueyra, Garcia de foula, & Ioão nunez pera as leuarem de fua parte â raynha, & que as outras mãdafle vánder em pregão & arrecadafle ho dinheiro como quadri¬ lheiro mór q era, & Nuno vaz ho fez afli. E eftas moças mandaua ho gouernador à raynha pera feu feruiço por ferem nobres & fermofas & as ter por virgés: porem nefte tempo le íoube que Duarte de lemos fendo elas mouras peccaua carnalmente com húa delas, & afli outros cõ outras. E ifto fe foube, porque indo hú dia Nuno vaz a velas pera lhes dar de veftir, fobindo pela efcada fentio que bulia hú degrao, & porq lhe pareceo mal & a efcada íer efcura mandou trazer húa tocha com que vio que ho degrao eftaua fendido, & encerado por cima da fenda por fe não enxergar: & parecendolhc aquilo algum mifterio porq Duarte de lemos poufaua é
112 Hijloria da índia húa cala pegada com a torre em que eftauão as moças, quis faber a caufa da fenda daquele degrao, & enceramento dela: & pera iffo mandou açoutar húa moura velha que tinha cargo de feruir algúas daquelas moças, que confeffou antes de a açoutarem, q Duarte de lemos defpregara aqle degrao, & por ele tiraua de noyte a moça que queria, & aífi outros dous que também tirauão as que querião, & as tinhã de noyte é fuas camas, & antemanhaã as tornauão: & ifto por húa cafa a que hião ter da em que poufauão per húa tauoa que tirauão dhú repartimento q as repartia, & a mefma confiffam fizerão outras molheres. O que Nuno vaz efcreueo ao gouernador a Goa: & adi de hú grande aluoroço que Duarte de lemos fizera é Cochl fobre a carregação da lua nao, porque querédo ho feytor carregar primeyro as naos que ficarão do anno paliado, como tinha por regimento do gouernador. Sabédoho Duarte de lemos foyfe ao pefo õde pelauão a piméta leuando cõfigo feu hirmão, & os capitães da lua capi¬ tania, & alfi outros homés, & diífe ao alcayde mòr & ao feytor que hi eftauão que fe não auia de dar carga a outré primeyro que a ele, & quando lha não quifeffem dar primeyro q a tomaria âs cutiladas. E ref- • pondedolhe ho feytor manfaméte que auia de comprir o que lhe ho gouernador mandaua: ele rnuyto menécorio começou de dizer que não tinha de ver com ho gouernador, né ele podia mandar na fua carga. E por aqui começou de fe foltar em muytas palauras foberbas & mal infi- nadas, adi contra ho gouernador como contra ho feytor, & contra ho alcayde mòr, & quafi q ouue arrancar das efpadas, & fe não acodira Gonçalo de fiqueyra ouuera de fer hú muyto mao recado, & ho alcayde môr fayo dali quafi arrepelado, & cõ a loba rafgada. E com tudo as naos que ho gouernador mãdaua fe carregarão primeyro: do que Duarte de lemos ficou muyto menencorio, & tão brauo q não podia ninguém coele, & fobre hús ferradores que ferrauão madeira pera ho corregimento da nao de Nuno vaz q ele quifera tomar, ouue també mâs palauras com ho alcayde mór, que lhe tolheo que os não tomalfe, & jurou que alargaria as eicoras aa nao pera que ie fizeffe em pedaços. E fobre ho mefmo cafo ouue també rezoes cõ Nuno vaz, & lhe dilfe q lhe daria cõ a nao à cofta. Porem não ouue os ferradores, né deu com a nao aa cofta: & tudo ifto com ho das moças efcreuia Nuno vaz ao gouernador, & alli ho alcayde mòr & feytor: & auifos de coufas de Calicut que erão neceffario q ho gouernador loubeíTe. E indo ter eftas cartas a Cananor, forã tomadas per Frãcilco de faa, & per Manuel da cunha capitão da fortaleza que era feu primo, & abrirannas, & virão o que diziáo. E como Francifco de faa era grande amigo de Duarte de lemos auifouho do que hia nas cartas cÕtrele: & não abaftou a Francifco de faa & a Manuel da cunha abrirem eftas
Livro 111, Capitolo XL VI 113 cartas & não as deixarem ir ao gouernador, fe não romarão também as que mãdauao ho feytor & alcayde mòr ao gouernador, em que hião coufas que releuaua muyto fabelas ele, pelo que compria ao feruiço del rey de Portugal. E ho mefmo fizerão a outras cartas que ho gouernador mandaua a Cochim: & affi abrirão húa via de cartas que ho gouernador mandaua a el rey feu fenhor, em que lhe efcreuia ho feyto de Goa, & como Duarte de lemos & os outros capitães não quilerão ir coele tendolhe prometido de ir. E tudo iíto Erancifco de laa efcreueo a Duarte de lemos com que ho fez eítar peor com ho gouernador do q eítaua, & dizer dele piores coufas do que dantes dizia, & affi os outros todos. E eíta via q foy aberta mandou ho gouernador a Manuel da cunha pera que a deífe a Gõçalo de fiqueyra q a leuafle, & ele lha não quis dar, & deu a a Fran- cifco de faa, q partio primeyro pera Portugal, q como digo a abrio, & vio os fegredos que hiã dentro: & deitas éburilhadas fe leguio muyto deferuiço de Deos & del rey, affi em todos eftes capitães que hião pera Portugal dizerem muyto mal do gouernador, & femearem grandes efcan- dolos antrele & a gente da índia cÕ que lhe leuarão pera Portugal algúa da ordenãça dela, de q ho gouernador tinha muyta neceffidade. E indo Gõçalo de fiqueyra & Duarte de lemos ter a Moçambiq quando hião pera Portugal, acharão hi hú Ioão íerrão que hia por capitão de duas naos pera a índia: & dizédolhe eles muyto mal do gouernador polo que efcreuia deles a el rey: ele lhes diffe q não curaffem diffo porque el rey eítaua muyto bé coele, & fe auia por muyto bem íeruido dele. E iíto os abrandou tanto que lhe efcreuerao, pedindolhe perdão do paífado, & pedindolhe que efcreueííe bem deles a el rey & mandarãlhe bem oytenta homés q lhe leuauão enganados pera Portugal. E iíto foube defpois ho gouernador por Ioão ferrão quãdo foy ter â índia. CAPITOLO .XLVI. De como el rey de Câbaya mandou ao gouernador Diogo correa & Francifco pereyra de berredo, & de como o gouernador tirou a capitania: de Cananor a Manuel da cunha. HO gouernador que nã fabia nada deitas cartas que fe tomauã em Cananor, eítaua muyto efpantado de lhe não refponderé de Cochim & julgaua mal quê ho não fazia atribuindolho a ter pouca lem¬ brança do feruiço del rey, & pouco temor de ho ele caítigar por iffo: fe não quando começou de lhe ir aas orelhas o que era que ele não podia crer por a coufa fer tão fea, que íe não efperaua dos que a fazião. E Tomo II iS
Livro III, Capitolo XL VII 1 ii> & foyfe à cidade, dõde defpois ho gouernador (por ela fer muy prejudi¬ cial pera feridas de pernas) ho mandou a Cananor pera fe hi curar, porq ho capitão era feu tio. E defpois difto fucedeo ir ho gouernador fora da índia, & por i(ío não mãdou mais recado a Cãbaya. CAPITOLO XLVII. Dos embaixadores que algús rejs & príncipes da índia mandarão ao gouernador afazer coele pa\: & como ho gouernador arredou as tana- darias da terra firme a Merlao hirmão del rey Donor. IA nefte tempo eftaua ho gouernador de poífe das tanadarias da terra firme da ilha de Goa, & tinha poftos nelas tanadares Portuguefes, & efcriuães homens conhecidos. Na tanadaria Dantruz eftaua por tanador hú Diogo camacho, & por efcriuão Diogo guifado: & na de Caftea pedral- uarez que fora paje do conde dabrãtes, & Gafpar machado por feu efcriuão: é Cintácora Bras vieyra criado del rey & Diogo de falas: & em outras pos outros homens de menos calidade porque erão mais peri¬ gosas. E determinando ho gouernador de fortalecer & ennobrecer Goa pera o que difle, começou de cafar daquelas moças que tomou em Goa, alfi mouras como bramenas que tinha feytas Chriftaãs & cafaua as cÕ homes Portuguefes. E pera comouer outros a fazerem ho mefmo daua a eftes que cafauão tanadarias dos paffos da ilha almoxerifados na alfan- dega, & na fortaleza: & afli efcreuaninhas deftes cargos, & dos da juftiça a hús perpetuos a outros por annos fegúdo lhe parecia: E a eftes & a outros em q não cabião officios daua da fazéda de raiz que fora dos mouros, & Neyteâs, & aos criados del rey pagaua també em cafamentos, & a algús mais ale do q era ordenado, & a todos daua grandes priuile- gios de prihiminécias de fuas peffoas, & de nã pagaré tributos: & afli muytos fauores mandandolhes cada dia prefentes, chamando filhas a fuas molheres, faindo a recebelas á porta da igreja quando lâ hiã & fazendoas affentar em feus lugares, & indo as a vifitar por fua peffoa muytas vezes, & tratandoas propriaméte como a filhas, pelo q fe comouião os homés a cafar: de maneyra que antes que ho gouernador partiffe de Goa, cafarã mais de cento & cincoenta homés, em que entrauão muytos criados del rey, & outros homés conhecidos. E era pera louuar a noffo fenhor a incli¬ nação com q cafauão fendo tão lõge de fua terra, & cõ molheres tão eftranjeiras de fua natureza, & é terra tão noua pareles & tão cercada de Imigos, onde ho perigo eftaua tão certo: & bé parecia que aquilo era ordenado por noffo fenor, pera que aquela cidade foffe a que agora he.
Hiftoria da índia 116 E a fora os officiais que ho gouernador pos na fortaleza, fez juizes de •que foy ho primeyro hú Frãcifco da madureyra cafado, & aífi vereadores & almotacés. E porque fendo Goa do Hidalcão fe lauraua nela moeda, mandouha ho gouernador tambe Iaurar, adi de prata como douro & de cobre, & mãdou apagar a moeda dos mouros, & q fe cunhaffe do cunho da Portuguefa, & a de prata fe chamafle efperas, & meas efperas por amor da diuifa del rey que era efpera, & a do ouro Manuéis, por ho nome fer Manuel, & a do cobre leais, por amor da lealdade dos Portu- guefes: & tiroulhe ho nome de bazaruco, como lhe chamauão os mouros a efta moeda de cobre. E coifto fe enobrecia a cidade de cada vez mais, & crecião as mercadorias, & a noua dos noifos a terem tomada: & do fundamento que ho gouernador fazia fe diuulgaua cada dia por effas terras comarcãs, & dahi mais auante. O q quebrou grandeméte os cora¬ ções aos reys & fenhores da índia, que todos cuydauão que com a armada que ali fazião, & com fe fazer em hú corpo ho poder do foldão, del rey de Cambaya, do Hidalcão & del rey de Calicut que lançarião os noffos fora da índia, & os defarreygarião dela, porque affi eftaua ho cocerto feyto antre eftes príncipes: & por iflo todos os outros da índia dauão ajuda pera a armada que fe fazia em Goa. E quãdo a virão é poder dos noffos ficarão enfreados de todo: & fabedo como ho gouernador queria fazer nela cabeça, defefperando de os noffos não fayré núca da índia, determinarã de pedir paz ao gouernador, & reformar as que tinhão dantes, & pagar as parias que pagauão. E ho primeyro foy el rey de Baticalâ que auia muyto que as não pagaua, mandou logo coelas feu ebaixador, offrecédo ao gouernador lugar pera fazer logo a fortaleza é feu porto, q fabia q el rey de Portugal defejaua de fazer. E o gouernador tomou as parias & cocedeolhe paz & amizade & não quis a fortaleza por não auer dela neceílidade. Ho fenhor de Chaul também mãdou embai¬ xador cÕ as parias q deuia do tempo do vifo rey, & affi mandou húa nao carregada de mantimentos: & ho mefmo fizerão, Meliquiaz capitão de Diu, el rey Donor, el rey de Vengapor. E el rey de Narfinga também mãdou feus ébaixadores, & como foube q Goa era tornada, não quis defiftir da guerra que fazia ao Hidalcão, nem lhe quis pagar parias que pagaua dantes. E era fermofa coufa de ver todos eftes ébaixadores quanto ennobrecião Goa, que parecia que eftaua ali húa grande corte, & ho gouernador os detinha pera q hús viflem os outros, & todos jútos viffem fazer aquela fortaleza, de que fe todos efpantauão muyto, & muyto mais a gete da terra de tamanhos principes terem neceílidade de paz cõ ho gouernador, & ja fe contentauão de ferem vaífalos del rey de Portugal. E defpois que ho gouernador vio que os embaixadores tinhão bé vifto a
Livro III, Capitolo XL VII 117 fortaleza que fazia, & lhe pareceo q não virião mais ébaixadores, começou de defpachar aqueles, concedendo a hús o que pedião, & refpondedo aos outros que ele refpõderia por leus embaixadores aos que os mandauao. Tambe nefte tépo veo ao gouernador hú embaixador de Merlao capitão gentio, & de grãde fama antre os getios, que era fobrinho daquele rey Donor q deu Mergeu ao vifo rey, & per fua morte pertencia ho reyno de dereyto a efte Merlao que digo: mas feu tio por defcontentamento que tinha dele lho tirou quãdo faleceo & ho deixou a outro hirmão de Merlao que era mais moço, que deípois que reynou nuca mais pagou as parias que feu tio pagaua, & era grande immigo dos noffos, & cõ medo da tomada de Goa mandou as parias ao gouernador como diíTe. E efte Merlao defpois da morte de feu tio efteue fempre com gete fua de pê & de caualo nas terras de Batecalâ por ferem perto Donor a que fazia guerra cotinuamente pera ver fe podia cobrar ho reyno q era feu de dereyto. E fabédo que ho gouernador tomou Goa, mandoulhe dizer por efte embai¬ xador que digo ho agrauo q lhe feu tio fizera em lhe tirar ho reyno, & a força q lhe feu hirmão fazia em lho ter: & q fe ho quifeífe receber por vaffalo em nome del rey de Portugal que ele feria muyto contente de ho fer, cõ tanto que ho fauoreceífe pera cobrar feu reyno, pera que não queria mais q arrendar as tanadarias da terra firme de Goa: & cobrando ele ho reyno que era feu, ele pagaria as parias que feu tio pagaua, & feu hirmão queria pagar, & feruiria fempre a el rey de Portugal como feu vaífalo & fua feytoria. E confiderando ho gouernador a valentia de Merlao, & ho poder que tinha & valia antre os gentios, & que coftumara fempre fazer guerra aos turcos, & per duas vezes os teuera cercados é Goa fendo capitão del rey de Narfinga, pareceolhe que compria muyto ao feruiço del rey feu fenhor lançar mão defte home & recolhelo: & que ele muyto melhor q nenhú dos noffos fabfcria gouernar a terra firme, & teria a gente aífelfegada por fer conhecido antreles. E refpodeolhe que era contente de fazer o que pedia, & mãdou por ele a Batecalâ, onde embarcou com fua gete & caualos, & foranno receber a Cintacorá, onde auia de deíebarcar dous capitães dos noffos com dous mil piães da terra pera que ho acõpanhaffem ate Goa, & mãdou cartas aos tanadares da terra firme por onde paífaíTe que ho recebeffem, & obedeceffem como a peffoa del rey de Portugal. E ifto porque Merlao folgaffe mais de fazer o que mandara dizer que faria, porque fazendo ho tinha por muyto certo acrecentar grãdemente no proueito da fazenda del rey fem lhe cuftar gente nem outro gafto. E todos os tanadares fizerão muyto bc o que lhes ho gouernador mandou. E vindo Merlao a Goa, lhe fez ho gouernador grande recebimento, & aífi a outro gentio chamado Içarao, que fora
Hijloria da índia 118 capitão pricipal del rey de Naríinga, & a ambos de dous deu caualos & Ioyas, & os mandou apoufentar muyto honrradamente, & fez cõtrato cÕ Merlao, q tirado tres meles de húa paga de foldo que a gente da terra ficaua deuédo aos turcos, dali por diante pagaffe da renda por as tana- darias q el rey de Portugal tinha na terra firme corenta mil pardaos douro, que pola nofia moeda erão trinta & oyto mil cruzados: & que lan- çandofe fora da tanadaria de PÕdâ Melicagi mouro capitão do Hidalcão que ainda eftaua nela, que ficafle tambe aquela tanadaria, & pagaria então cadano fefleta mil pardaos douro, que erão cincoenta & feys mil cruzados: & ifto pagaria é quatro pagas, como ho pouo era obrigado de pagar ao Hidalcão. Feyto efte cõtrato, & alfinado por Merlao & polo gouernador: ele mãdou ajuntar todos os veiquibaris, que fam capitães gétios, que antes da vinda dos mouros mãdauão a terra, & erão naturais dela, que os mouros tinhão lãçado fora do fenhorio, & defpois da tomada de Goa ho gouernador os recolheo, & agalalhou. E a eftes entregou ele Merlao pola mão, pera q ho teueflem por feu gouernador, dizendolhes ho cõtrato que tinha feyto coele. E todos ho receberão por feu capitão & gouernador cõ muytas feftas & tãjeres a fua vfãça: & perãteftes entregou ho gouernador a Merlao a gouernança das tanadarias da terra firme. Pera õde fe partio logo com Içarao acõpanhado de cinco mil piães da terra feus, & cincoeta homés de caualo. E chegado às tanadarias tomou polTe delas, & a gente da terra folgou muyto de fer gouernada por ele. CAPITOLO .XLVIII. De como determinando ho gouernador de ir ao mar roxo, mandou a Diogo fernãdez de beja derribar a fortaleza de çacotorà: & do que ho gouernador pajfou com Diogo mende\ de vafconcelos. '"1'^Endo o gouernador por noua certa que os rumes eftauão em Adé pera vir á índia a chamado del rey de Calicut, & do Hidalcão, & del rey de Cambaya, pera que todos é hú corpo deitaífem os noffos fora da índia, determinou de os ir bufcar & pelejar coeles, efperando em noffo fenhor de os defbaratar, & defpois tornarfe a Ormuz, & inuernar hi & acabar a fortaleza q deixara começada, porque fentia muyto a trei- ção que lhe fez Cojeatar. E eftando a fortaleza de Goa em tal ponto que lhe não falecia mais que a caua pera fe acabar, mãdou a Diogo fernandez de beja que folie diante efperalo a çacotorà, cuja fortaleza mandaria entretanto derribar & arrafar, & recolheria os noffos q eftauão nela, & affi a gente da terra q fe quifeífe recolher coele. E mãdaua a derribar
Livro III, Capitolo XL VIII "9 porque a gente da terra geralmete era mais amiga dos mouros que dos noffos & leuantauaffe muytas vezes cotreles quãdo lhe os mouros fazião guerra: & mais a terra era tão pobre de mantimétos que os noffos fe não podião manter & por iffo auião de fer muyto poucos, pelo que eítauão em grande perigo fe lhe os mouros, que auia rnuytos ao derrador fizeffem guerra que lhe não podião focorrer da índia tão afinha, & mais não leruia ali de nada aqla fortaleza, porque não queria el rey de Portugal trazer ali armada cotra ho eftreyto porque não podia inuernar em çacotorâ polas caufas q digo: & mandou mais ho gouernador a Diogo fernãdez que ho efperaffe em çacotorâ ate a fim de Mayo, & quando não foffe ter coele q fe foffe a Ormuz com cartas q lhe deu pera el rey Dormuz & pesa Cojeatar que pagaffem as parias a Diogo fernãdez, notificandolhe q era gouernador da índia, & que tinha tomada Goa, & dali fe tornaffe a Goa em Agofto, & fe ajútaffe com a armada que hi achaffe, & deulhe pera efta viajem ho rey grãde que foy de dom Ieronimo de lima, & afii a capitania mór de Antonio de matos, & de Gafpar cão que mãdou coele. E partido Diogo fernandez pera çacotorâ foy dito em fegredo a Diogo mendez de vafconcelos que ho gouernador ho nã auia de deixar ir a Ma- laca & ho queria leuar ao mar roxo. O que fabido por ele não ho pode crer pola promeffa que lhe o gouernador tinha feyta, & por quão bem ho tinha ajudado, que ele com a fua gente ajudou a fazer a fortaleza & cerca, & fez aquele Baluarte que eftá fobre a porta que fe chama ho de Malaca, por amor que aqueles q ho fizerão hião pera la: & cõ tudo Diogo mendez diffe ao gouernador perante algús fidalgos q ele tinha muyto bé comprido coele que fe chegaua ho tempo pera a fua ida de Malaca, que lhe pedia que ho ajudaffe como tinha prometido. E ho gouer¬ nador refpondeo que ele lhe prometera de lhe dar toda a ajuda que podeffe pera ir a Malaca, porque indo como hia não era feruiço del rey feu fenhor, polo grãde perigo a que fe auenturaua de ho matarem com quantos leuaua, & lhe tomarem as naos & mercadoria de que hião car¬ regadas, porque muyto mais gente leuara Diogo lopez de fiqueyra & mais naos, & melhor armadas que as fuas, & não oufara de pelejar com a armada de Malaca. E pera ir como compria a feruiço del rey feu fenhor, ho deteuera & pedira que foffe coele na tomada de Goa, cuydando que lhe podeffe dar ajuda, que lhe não podia dar por quãto as coufas fucederão doutra maneyra q ele cuydaua: porque bé fabia por quão certa fe tinha na índia a vinda dos rumes a ela. E pera feu affeffego & credito del rey íeu fenhor, era neceffario ir ele ao mar roxo a bufcalos pera pelejar coeles, donde não podia tornar a inuernar à índia, fenão a Ormuz, õde tinha mandado del rey q foffe acabar a fortaleza que ficara começada,
J 20 Hijloria da índia & affeffegar elrey Dormuz nas pareas que auia de pagar: & pera ifto não tinha ele tãta gente quanta lhe era neceíTaria, & ainda deffa que tinha de neceflidade auia de deixar em Goa, ao menos quatrocetos homés Portu- guefes, porque fe os mouros tornaíTem como da outra vez que achaffem quem lhes refiftiffe: & por efta rezão lhe não podia dar, não fôméte a ajuda que ele quifera mas nenhúa, do q lhe pefaua muyto pola obrigação em q lhe era: & pera ele ir a Malaca, afli como viera de Portugal, que lhe não parecia bem porque tinha cartas de Ruy daraujo, em que lhe dizia q ho Bendâra & el rey de Malaca efperauão que foffe lobreles grande armada a vingar o que fizerão a Diogo lopez: E coefte medo tinha tirado da prifam a ele, & aos outros: & apoulentado em húa cafa, em que lhes mandarão dar algúa mercadoria da q fora tomada na noffa feytoria, pera que Ruy daraujo começafTe de tratar cõ os mercadores da terra, & a fora ifto lhe fazia ho Bendâra cada dia mil auõdanças, dizédo q defejaua de fer vaffalo del rey de Portugal, & q por iflo caftigara muyto rijo os que fizerão ho aleuantameto cõtra os noftos. E eftando em Malaca coefte medo le ele foffe como viera de Portugal, perderião os immigos de todo ho credito dos noftos, & aluoraçarfehião pera fazeré o que fizerão da outra vez & começarião logo nos noftos q tinhã em poder. E fua ida a Malaca não feruiria mais que difto, por ifto q não deuia dir là. E porq ele não ficaffe defauiado, & pola obrigação em que lhe era, & a amizade q lhe deuia, lhe queria fazer hú de dous partidos qual ele mais quifeffe. Ho primeyro era que fe quifeffe ir coele ao mar roxo com luas naos que fe obrigaria a carregarlhe a fua camara, & as de feus ca¬ pitães & quintaladas de drogas. E as naos de pimenta q ho feu feytor faria preftes no inuerno: & em quãto as naos andaffem em fua compa¬ nhia, a fua gente feria paga de foldo aa cufta del rey, & ifto por as naos ferem de mercadores. Ho outro partido era que fe por canfado nã qui¬ feffe ir coele, que lhe daria aquela fortaleza de Goa onde ficaffe: poré que as fuas naos auiã dir coele com ho partido que dizia: & q nifto não sòmête faria a el rey muyto feruiço, mas que feguraria fua armada. O que ouuido por Diogo mendez, fe agaftou muyto, & refpõdeo que ele auia dir a Malaca como lhe el rey mandaua, pofto que foubeffe q os pe¬ rigos de là erão em dobro. E começou de fe aqueixar do gouernador: q muyto mãfamente lhe diffe que fe não agaftaffe, & que cuydaffe no que lhe cometia, & ho praticaffe com os feus capitães & com feus amigos: & auido feu confelho, lhe deffe ou mandaffe a repofta. Ao q Diogo mendez refpondeo que aquela lhe daua por final. & q logo fe aparelhaua pera fua partida. E porque ho gouernador fe começou dagaftar defta repofta meteranfe no meyo os que hi eftauão, dizendo a Diogo mendez que fe
Livro 111, Capitolo XLVII1 121 não agaftafle, que fem payxão mãdaria defpois dizer ao gouernador o q aíTentaua cÕ feus capitães, & logo ho fizerão ir pera a poufada: & ho gouernador ficou dizédo aos que hi eítauão por quãtas rezões vinha bem a Diogo médez ir coele, rogando a todos que lho confelhaflem, efpecial- méte a Fernão perez dandrade que era grande feu amigo, q ho fez affi, mas Diogo mendez nunca quis tomar feu confelho. O que fabido polo go¬ uernador, porque via claraméte que fe Diogo mendez fofle a Malaca no mais que com ho apercebimento que tinha, nao podia deixar de fe per¬ der: porque não parecefle que ho encõtraua comolmigo, pos aquele feyto em confelho, & propondo nele tudo o que differa a Diogo mendez, foy acordado por todos que ele nã foífe a Malaca da maneyra que eftaua, & que a fua armada ficaffe fobre ho gouernador pera dar cota dela, & da perda q recebeffe el rey ou as partes por não ir a Malaca. Ifto a que Diogo médez fugiíTe com a armada pos lhe pena de degredo, & perdi- mento da fazenda que fe não foífe de Goa fem fua licença & a cada hú dos pilotos de fua armada, mandou fopena das vidas, & perdimento das fazédas, que pofto que fe Diogo mendez quifefle ir eles não fofiem coele, & fob a mefma pena lhe defcobriffem fua ida como a foubeflem. E com tudo ifto Diogo médez determinou de ir a Malaca, & por fegurar ho go¬ uernador diífimulou coele fazendofe muyto efquecido de fua ida: & aíli fe fazia a todos, porq ninguém fofpeytaffe que ele fe queria ir: & deu cota de fua ida a feus capitães, & Pero quarefma lha contrariou, dizédo q era efcufado falar niíío, pois eftaua certo não poder fayr da barra fem ho gouernador ho faber, & como ho foubeífe auia de mandar apos ele, & pera fe defender feria neceffario pelejar, & farfehia hú muyto mao re¬ cado, por iffo que não curaífe de tal ida, & viffe fe podia acabar por bê com ho gouernador que lhe deffe licença pera ir. O que Diogo mendez não quis fazer, & difle que fofle o que quifefle que não auia de deixar de ir a Malaca: & Baltefar da filua não eftaua em Goa que adoeceo & foyfe curar a Cananor, & Diogo mendez infiftia em ir, porque ho piloto de Baltefar da filua chamado dalcunha ho pereyra, lhe dizia que ele ho tira¬ ria de noyte fora da barra & ho leuaria a Malaca, & não deixafle de ir porque fe faria lá muyto rico, & ho mefmo lhe dizia ho feu meftre. E efte piloto de Baltefar da filua, ho fora també Dafonfo lopez da cofta quando com os outros capitães fugio Dormuz ao gouernador, & ele foy o que lhes prometeo de os leuar â índia, & por efta promefla lhe deu Diogo mendez a capitania do nauio. E també Anibal cerniche difle a Diogo mendez que não deixafle dir, porque ele ho feguiria. E Diogo men¬ dez fez conta que fe os outros capitães não quifeflem ir, que faria capi¬ tães os meftres das naos, & faziaffe preftes quanto podia.
122 Hijloria da índia CAPITOLO .XLIX. De como querido Diogo mende\ de vafconcelos fugir pera Malaca foy prejo com outro capitão feu, & do mais q fe fobrijfo fe\. ORdenando Diogo mendez affi fua partida, foube o gouernador como hum Duarte tâuares efcudeyro do conde dabrantes que ele tinha por tanadar na ilha de Chorão, fora fazer hú falto na terra firme, onde ho catiuarão os inimigos: & cuydando ho gouernador q fe poderia ainda auer, mandou laa Diogo mendez, Manuel' de lacerda, Pero dafon- feca de crafto, & Nuno vaz de caílelo braço com a géte das fuas naos & nos feus bateys. E chegando eles ao pafTo de çancalim por onde Duarte tâuares paliara, poyarao na terra firme, onde auendo lingoa da terra fou- berao que Duarte tâuares era ja muyto metido polo fertão, que ho leua- uão ao Hidalcão. E vendo que não podião fazer nada nem leuauão man- timéto pera fazerem todos detença, acordarão que Diogo mendez, & Manuel de lacerda fe tornaffem pera a cidade, & Nuno vaz & Pero da- fonfeca ficarião e quãto lhes abaftaffe eífe mantiméto que tinhão: & affi fe fez. E tornandofe Manuel de lacerda & Diogo mendez pera a cidade chegarão ja noyte: & como Diogo tinha mãdado recado aos meílres das naos que efteuelfem a pique, porque aquela noyte auião de partir: não curou de defembarcar na cidade, & foyfe âs fuas naos que eftauão antre Rabandar & Pangim, & hi achou dos feus capitães Anibal cerniche fo¬ mente, que Pero quarefma não quis, & Baltefar da filua não era vindo de Cananor. E eftando as naos a piq, partiofe logo Diogo mõdez leuando os bateys as naos atoadas, & em toda a noyte não pode mais chegar que ate a baya da agoada, & ali lhe começou de vetar a viração que ho deti¬ nha, & affi Anibal cerniche & ho nauio de Pero quarefma, que ho de Baltefar da filua era ja fora da barra. Difio foy logo ho gouernador aui- fado por Manuel de lacerda que era goarda do rio de PangI, & acodindo à ribeyra defpedio Iames teixeira em húa fufta cÕ hú efcriuão perãte quê reqreflc da fua parte a Diogo mendez que fe não partiffe & fe tornaffe pera détro, & quãdo não quifefle que lhe tirafle por alto: & quando coilfo não quifeffe que ho meteífe no fundo, & ho mefmo mandou a Dinis fer- nandez de melo, q mandou em hú parao defpois de Iames teixeyra: & també forão outros bateys, antre os quaes foy ho de Manuel de lacerda, & mãdou a Simão dandrade que foífe por terra com gente de caualo, & fe pofeffe fora na praya, & fauorecefle os q mandaua nos nauios, & fe lhe parecefle bé que foífe falar cÕ Diogo mendez & lhe confelhalfe que
Livro III, Capitolo XL1X 123 não pofefle fua honrra no rifco em que a punha. E aíli mandou muytos bateys & paraos com gente pera que ajudaífem os que hião diante, de q chegou primeyro Iames teixeyra, & achou Diogo mendez que andaua âs voltas na baya da agoada pera fayr por lhe fer ho vento ponteiro, & achou na boca da barra Duarte da filua deluas capitão da galé que fora de Diogo fernandez de beja, & fazia requerimentos a Diogo mendez q fe tornaffe pera dêtro, & por não querer lhe tirou naqla hora hú tiro por alto, cÕ que lhe derribou a verga grande, & Iames teixeyra lhe mandou tirar outro, cõ que lhe matou dous gormetes. E vendofe Diogo médez fem reinedio de poder fayr amaynou & furgio: & mais porq lhe diííerão que eftaua ali ho gouernador, cõ que não queria pelejar, que cõ os outros be ho fizera. E entretãto ãdaua també Dinis fernandez âs bõbardadas cõ Anibal cerniche, que quãdo lhe fazião requerimentos da parte do ca¬ pitão mór que amaynalfe, refpondia que não conhecia outro capitão mòr fe nã Diogo medez de vafconçelos, cuja bãdeira lhe elrey de Portugal mandara q feguiífe, né quis nunca amaynar né furgir ate que não vio que Diogo medez amaynaua & furgia. Ho meftre da nao de baltefar da filua que andaua de fora quando vio furto Diogo mendez arribou a ele cõ a viração q vétaua & preguntoulhe em voz alta, que lodos ho ouuirão que lhe mandaua que fizeffe, & ele refpondeo q furgiffe, & affi ho fez. Surtas todas as naos, Rodrigo rabelo q eftaua em terra com muyta gente de caualo & de pê (& fora por mãdado do gouernador pera leuar Diogo mé- dez) fe foy â fua nao, & nela & nas outras prédeo os pilotos, meltres & efcriuães delas, & affi Anibal cerniche & defpois mandou apregor em to¬ das, q ho gouernador em nome del rey feu fenhor perdoaua aos outros todos, & lhes daua feguro de núca receberé pena por fere naqle feyto. E iíto fez ho gouernador por fe lhe não amotinar a gente com medo. Feyto ifto pedio Diogo médez a Rodrigo rabelo q comeffem primeyro que partiffem, porq era tarde pera fer antes de comer, & affi ho fizerão. E em todo efte tempo nunca Diogo medez fe queyxou do gouernador, né diífe nenhúa coufa contrele, & fempre fe moftrou muyto ledo & pra¬ zenteiro. E acabando de comer deixou Rodrigo rabelo nas naos pelfoas de recado, que ho gouernador mandaua que ficalfem por capitães ate q ele proueffe: & foyfe pera Goa leuando Diogo médez no batel de Ma¬ nuel de lacerda, & Anibal cerniche & os meftres, pilotos & efcriuães em outros a muyto recado, & no caminho acharão Nuno vaz de caftelo brãco, que aquele dia â tarde fe fora à cidade do paffo em que eftaua. E como chegou mãdouho ho gouernador na fua nao, & que fofte coele ho feu ou- uidor Pero dalpõem, pera q requereffe a Diogo mendez que fe não fofle, & quãdo não quifeífe que ho meteífe no fundo, & aos nauios da fua com-
124 Hiftoria da índia panhia: & vendo os Nuno vaz vir meteofe no feu batel com ho ouuidor & foyfe pareles: & afii forão de companhia ate a cidade, onde chegarão bem noyte. E leuado Diogo médez ao gouernador, & adi os outros, def- pois de falar coeles hum pouco forão poítos em bõ recado: & dali a pou¬ cos dias ho gouernador com votos dos do confelho, julgou com ho feu ouuidor que Diogo mendez foífe degradado pera Portugal pera õde feria leuado nas primeyras naos que partiffem cõ os autos de fuas culpas. E entretãto eitaria prefo fobre fua menajem na fortaleza de Goa, & q Pero quarefma perdeffe a capitania da nao, & fofTe degradado pera Portugal pofto que não quifera ir com Diogo médez, porque não diflerão ao go¬ uernador q fe queria ir como lhe ele tinha mãdado que diffeífe, & em quãto não foffe pera Portugal eíteueffe prefo em Goa. E que Anibal cer- niche fofTe degolado, & afli os meítres & pilotos das naos foífem enfor¬ cados & perdidas fuas fazendas pera el rey. E logo que a fentéça foy dada, fe veo a ela com exceição por parte de Antão vaz meítre de Diogo mendez, & do piloto Danibal cerniche, cõ priuilegio pera não morrere éforcados, & por iflò fe mudou q morreffem degolados, & entre tãto que durou a dilação deita excepção forão enforcados ho piloto de Baltefar da íllua & o meftre Danibal cerniche nas vergas das mefmas naos, em q cometerão aquele delito: o que a todos pos muyto efpanto, principal- mente a algús embaixadores que ainda eítauão em Goa, & todos fayrão a ver aquela juíliça: & quando fouberão a caufa porq fe fazia pareceo- lhes bem. E por amor deites embaixadores porque auião de faber a de- fobediencia de Diogo mendez a caitigou ho gouernador tão rijo & pera exemplo dos noffos, & affi era neceífario pera ho credito do gouernador: & defpois que aqueles dous forão enforcados logo fe ele moderou contra os outros, & deu fuas vidas a hú dos embaixadores q lhas pedio por confelho dos noífos, leuando os ja a padecer, & mudoulhe a pena de morte em degredo pera outras naos, & defpois reuogou a fentéça Dani¬ bal cerniche em degredo pera Portugal por quanto era eitranjeiro, & deu a capitania de fua nao a dom Ioam de lima, & a de Pero quarefma a Gafpar de payua, & a de Baltefar da filua a Iames teixeyra, & a de Diogo médez a Fernão perez dandrade, que cõ licéça do gouernador teue cõpri- méto com Diogo mendez fobre a tomar, & Diogo mendez foy muyto con¬ tente q a ele tomaife, & logo Fernão perez fe foy pera a nao & fe étre- gou dhú cofre que tinha quatorze mil cruzados pera a armação da nao, de q ho feytor dela auia de ter a chaue, mas não ho auia dabrir fem Fernão perez.
Livro III, Capitolo L 125 CAPITOLO .L. De como indo lio governador pera lio mar roxo achou lio veto cõtraj-ro, pelo qual mudou fua ida pera Malaca. FEytas todas eftas coufas, ordenou ho gouernador fua partida pera ho mar roxo, aífi polas caufas que diífe, como també por fe efcufar ho gaílo de mantimento & foldo que faria a gente que tinha, & por efcufar defpesa que as naos farião fe efteueffem é porto, porq de neceífi- dade fe auião de tirar a mõte, & elas eílauão ainda as mais pera naue- gar. E affentada fua partida deixou c Goa perto de quatrocétos homés com os cafados, em que entrauão oytéta de caualo: & os foldos delia gente fe auião de pagar das rédas da ilha q ficauão arrendadas por doze mil cruzados, & tãbé das rédas das tanadarias da terra firme, & afll de feyfcétos mil rés porque ficaua arredada a cafa da moeda, ho ouro & a prata fomente porq no cobre fe ganhaua muyto pera el rey, & a fortaleza ficaua muyto bé baftecida de mãtimétos .f. trigo, ligumes, arroz, mãteiga & carne: & bé prouida de muytas munições & de muyta artelharia, & por feu alcayde môr Francifco pantoia, & no mar ficaua por capitão mòr Duarte de melo cõ algõs paraos & fuítas, de q ficauão por capitães algús cafados, & aífi ficaua a nao lionarda, & ho rey peqno, & Sã&o fpiritu pera as corregeré: & aífi a rumefa que fora tomada é Diu & húa nao noua das de Goa que ainda eftaua e picadeiros, & outro nauio nouo dos turcos que feria doytéta toneys, cõ regimento aos capitães q no começo do mes Dagollo fayíe logo fora da barra pera goardaré ho mar & fazeré prefas, & aífi deixou encomendado ao capitão q fizeífe húa torre em Be- naltarim pera defender a entrada aos mouros fe quifeífem por ali entrar, & a traça da torre ficaua a Thomas fernãdez: & no mefmo paflo auia pedra laurada em abaílãça. E preftes todas as coufas pera a partida do gouernador, ele fe partio de Goa na fim de Março, & os capitães que hião coele, que hia em frol de lamar, forão Fernão perez na nao trin¬ dade, dom Ioão de lima na anunciada, Gafpar de payua em fanóto Anfo- nio, Iames teixeyra é Sanóta cruz, Baílião de miranda no bretão, Ayres pereyra na taforea, Iorge nunez de lião em Enxobregas, Dinis fernãdez de melo na nao çabaya que os mouros fizerão em Goa, Pero dalpõem em fancta Caterina, Simão dandrade na joya, Antonio dabreu em San- diago, Nuno vaz de caílelo brãco em fam Ioão: tãbé naos de Goa, Duarte da filua na galé grãde, Simão martlz na pequena, Afonfo peffoa em húa galeota de Goa, Simão Afõfo befigudo em húa carauela latina, Iorge bo-
Hijloria da índia 126 telho é húa redõda, Pero dafonfeca de craíto em fancta Maria dajuda, Simão velho de foure na garça: doutra fancta Maria dajuda Médafõfo de tangere, Antonio de faa do rofayro. E aos dous dias de fua nauegação q qria dobrar os baixos de Padua, achou ho vento tão ponteyro, & ho mar tão groífo que lhe foy forçado payrar. E fabedo ali por todos os pilotos & meítres que não podia ir a Ormuz por aquele vento fer geral, arribou a Goa, & na barra fez confelho, em que fe acordou: que por aquela ar¬ mada não fazer tamanho gaito como faria fe inuernaffe na índia, feria feruiço del rey ir a Malaca onde eítauão os noffos catiuos, & a fazenda del rey tomada. E feyto diíto affento que os do confelho aflinarão, man- douho ho gouernador dizer ao capitão de Goa, & mandoulhe mais algúa gente & dali fe foy a Cananor, onde deixando por alcayde moor da for¬ taleza a Ruy galuão foy a Cochim, onde fabendofe que queria ir a Ma¬ laca ficarão muy triítes Cherinamarcar, & Mamalemarcar hirmãos, por amor do trato que laa tinhão, & coeles também Antonio real & Diogo pereyra, porque indo laa ho gouernador, & aflentando feytoria ficauão eles fem mais trato: & por ifio determinando de ho eitoruar fizerão com el rey de Cochí que ho foífe ver aa nao, & lhe confeihaffe que não foífe a Malaca porque era a moução gaitada & perderfehia, & quando não quifeffe tomar feu confelho que lhe fizeíTe fobriifo requerimentos da parte del rey de Portugal, & eles não oufarão de os fazer, porque os ho go¬ uernador não entendeífe, porque fabião que era muyto prudente, & por iífo entendeo ele muy bem os requerimentos del rey de Cochim quando lhos fez & não quis fe não ir. E porque pera ir a Malaca algús nauios de fua armada que auião meíter corregidos corrião rifco de fe perdere por nã faber fe lâ aueria onde fe concertaífem, deixou os é Cochim cõ feus capitães, que forão eítes, Pero dafonfeca de craíto, Médafonfo, Si- mão velho, Antonio de faa: & aili húa nao noua que fe fizera em Cochim, cuja capitania tinha Diogo pereyra de Cochim, & também ficou Manuel de lacerda no cirne por capitão moor de todos com regimento que en¬ trando Agoíto foífe logo correr a coita de Calicut, & defpois fe foífe a Goa aiuntar com Diogo fernãdez de beja, pera quem lhe deixou proui- fam que com os feus capitães ho ouueifem por feu capitão moor, & alli Duarte de melo & os outros que ficauão em Goa: & por amor da gente que ficou aqui lhe não ficarão mais que oytocentos Portugucfes & duzen¬ tos piães gentios despadas, & efcudos, & frechas: com que fe partio a vinte Dabril.
Livro III, Capitolo LI 127 CAPITOLO .LI. Do que aconteceo ao governador indo caminho de Malaca, ate achar el rey de Pacem. PArtido o gouernador de Cochim, feguindo por fua viajem, q queria acabar de paliar a ilha de Ceilão, lhe deu hum temporal de vento com que fe perdeo a galé de Simão martlz, a que Fernão perez dandrade acodio tão alinha no feu batel que lhe faluou a gente toda, & aíli hú tiro dartelharia. E celTando a torméta que fe fazia lefte oeíte com a ilha de çamatra, topou húa nao de Cambaya que hia pera Malaca, & os nolfos a tomarão por hir fem feguro do gouernador, que vendoha foy muyto ledo, porque teue fua viajem por fegura de que hia muy receofo: que cuydaua pelo que lhe differão em Cochim que não feria a mouçao verdadeyra, & coeíta nao affentou que ho era: & delia parajem donde fe tomou eíla nao ate auerem vifta da ilha de çamatra, tomarão os noffos outras quatro naos també de Cambaya q hião pera Malaca fem feguros, & todas leuauao muyta mercadoria & de muyto preço. Tomadas eílas naos foy o gouernador aferrar ho porto da cidade de Pedir na ilha de çamatra como ja diffe, & el rey de Pedir lhe mandou noue Chriítãos dos nolfos q fugirão de Malaca, & hú deles era Ioão viegas, que deu ao go¬ uernador recado damizade da parte del rey, & lhe difle que era grande amigo delrey de Portugal, & bem ho mollrara no boõ trataméto que fizera a ele & aos outros noffos defpois que ali forão: & contoulhe como defpois de Ruy daraujo lhefcreuer, matara el rey ho Bedara por fe lhe querer leuantar com ho reyno, & mais queria ho matar, & na cõjunção de fua morte fugira de Malaca pera Pacem hum mouro principal dela que auia nome Nahodebeguea xabandar dos guzarates, que fora ho prin¬ cipal que fizera leuantar Malaca contra os nolfos, & defpois diífo quifera fugir Ruy daraujo & os outros catiuos, & forão fétidos na noyte em que ho querião fazer, & por iífo fe nã faluarão mais que ele cõ oyto, & Ruy darauio ficou com cinco, & que outros erão ja tornados mouros & leua- dos fora de Malaca. E affentada amizade com el rey de Pedir, partiofe ho gouernador pera a cidade de Pacc também na mefma ilha de çama¬ tra, & porque não pode fazer agoada em Pedir, mãdouha fazer no reyno de Aché onde eílaua húa pouoação de pefcadores, & forão a ilfo dom loão de lima, Antonio dabreu, & Nuno vaz de caftelo branco nos feus bateys: & dom Ioão & Antonio dabreu leuauao as pipas âs naos, & Nuno vaz ficaua é terra fazendoas encher a oyto marinheiros q eílauão coele.
Hijloria da índia 128 E partidos dom Ioão & Antonio dabreu com ho primeyro caminho, co¬ meça de fayr gente de hum mato, em que eftaua húa cilada de mouros & todos trazião armas. Nuno vaz como os vio fayr, mandou de prefla chegar as pipas que tinha ao mar, & cercandofe coelas lhes ficou detrás com os oyto que tinha pera fe defender dos immigos, de que fayo grade foma da cilada, & cometerão os noffos muyto rijo com muytas frechadas, & clco deles que erão befteiros fe defendião aas feetadas, que fe iífo & as pipas não forão não efcaparão fegundo a furia dos immigos era grande. E por Nuno vaz fazer final aa frota com húa bandeira, lhe mandou ho gouernador acodir, & dom Ioão, & Antonio dabreu vendo a bandeira fizerão volta aa terra, pofto que eftauão perto da frota: & quando che¬ garão aueria quafi húa hora que Nuno vaz & os outros fe defendião, & tinhãolhe ferido tres homens, & os noífos também ferirão algús dos im¬ migos, que vendo ho focorro que vinha fugirão, & os noífos acabarão de fazer a agoada. E feyta ho gouernador feguio fua rota & foy furgir no porto de Pacé, ode fe deteue algús dias pera faber fe auia carga pera as naos da armada de diogo médez q nã fe achou: e aífi pera auer del rey de Pacem Nahoda beguea, que ele defeiaua dauer, & el rey andou em dilações, dizédo que ho daria, ate que mãdou dizer que era fugido: & foubelfe que el rey ho deixara fugir pera ir dar auifo a el rey de Ma- laca, pera por iífo ho perdoar. E també tinha ho gouernador védidas duas naos das de Cambaya a el rey de Pacem por vinte cinco mil cruzados, & dilatoufe tãto a compra que entedeo que ho querião deter, & ficando coele é amizade fem mais detença fe partio. E nauegando ao longo da cofta de çamatra tanto auante, como húa ilha chamada Poluoreyra, ou- uerão os noífos vifta dhú iungo grande que fazia moftra de fetecetos to- neys, & por ho veto fer pordauante não poderão as naos ir a ele, & forão por mãdado do gouernador os bateys de dom Ioão de lima, de Nuno vaz de caftelo branco & de Dinis fernandez de melo fem os capitães hire ne¬ les, fométe dõ Ioão de lima, & affi foy ho batel do gouernador & ho de Pero dalpõem: & chegãdo ao júgo hús agora, & defpois outros fe ajun¬ tará ao derredor dele dizédolhe da parte do gouernador q amaynaífe, & mãdafle ho piloto â capitania. E o piloto q era ho capitão & fenor do jungo, & era jao & os que hião coele q ferião trezentos homés, diífe que nã podia ir á capitayna, mas que mandaria lâ dous homés, & não dei- xaua feu caminho apercebédo os feus pera a peleja, & os bateys hião coele. E vendo os noífos que os Imigos nã amaynauão, determinarão de abalrroar coeles. E chegãdo a efte tépo Afofo peífoa na fua fuíta, afer¬ rou primeyro por que era mais alta que os bateys: & fendo ele ho pri¬ meyro que quifera fobir ao júgo foy ferido em húa perna que os Imigos
Livro III, Capitolo LI l-9 lhe atrauedarão cõ húa lança, tirando decima cõ muytas & cõ outros ar¬ remedos, & defenderão que os noffos os não aferraífem: & nifto a nao de Pero dalpoem q edaua perto do jungo & lhe ficaua debalrrauento (que as outras eftauão ajudauéto) foy fobre ho jungo & quilera abalrroar, mas nã pode, & dize que por culpa do piloto & do que hia ao leme, & efcorrcdo ho jungo ficoulhe aiudauéto & não pode mais tornar fobrele, & adi anoyteceo. E fabcdo ho gouernador o que paflaua tedo ia tempo pera ido, ao outro dia âs dez horas ho foy aferrar, & entrarão os noffos os Imigos por mais que fe defêderão, & em entrãdo matarão obra de co- renta & ferirão muytos, & os noffos erão duzentos homés, de q morrerão tres. Os Imigos que fe virão tratar tão mal, ordenarão hú fogo artificial cõ azeyte de terra, & outros matereais que faze grãde labareda mas nã queyma tanto como parece. E ifto faze quãdo fe vê em taes apertos. E auifado ho gouernador diffo leuaua ho feu batel muy bé efquipado com hú cabo dado pelos efcouués, cõ tal recado que poédo os immigos ho fogo fe podeífe logo defaferrar, & adi ho fez recolhendofe os feus na nao. E defaferrado ho iungo os immigos apagarão ho fogo: & apartãdofe hú pe¬ daço da frota furgirão, & adi furgirão os noffos muyto perto deles. E nido apareceo húa pangueiaoa q fam hús nauios daqla terra copridos & rafteiros, veleyros & remeyros em eftremo, & neda hia Nahoda. E auédo os noffos vida dela, mãdou o gouernador a Nuno vaz, & a Ayres pereyra q a foffem tomar: & forão, & Ayres pereyra chegou primeiro no feu ba¬ tel: os marinheiros de nahoda vedo os noffos ir pareles lançarãfe logo ao mar q era perto de terra, & ele ficou fò & fò pelejou tão brauamente que ferio todos os noffos, & de muyto ferido cayo ainda viuo nem morreo ate que lhe não tirarão húa manilha que trazia em hú braço, & nela andaua hú offo que fe não pode faber de que era, fomente dizerfe que qué ho trazia nã podia morrer a ferro & parecia fer adi fegundo as grandes feri¬ das q tinha aqle mouro, cuja morte o gouernador tomou por boa edrea de fua emprefa, porque ele fora caufa de matarc os noffos em Malaca, & porque fe a panguejaoa não pode leuar ao gouernador foy queymada def- pois de a defpejaré. E edando os noffos adi furtos fem hiré ao jungo q eles chamauão brauo por quão bem fe defendera, apareceo outro q era de mercadores, que hião de Ceilão & Choramandel pera Malaca, & forão a ele dõ Ioão de lima no feu batel, & Anrrique de faa no de Nuno vaz de cadelo branco, & Badiã de miranda & Simão afonfo nos feus nauios, & ho jungo amaynou logo como lhe mandarão q amaynade & furgio júto da poluoreyra. E furto mãdou o gouernador meter nele a Ioão viegas q fez quadrilheiro pequeno, & achoufe que edaua carregado de roupa fina de Paleacate & de bégala, & doutras coufas q forã aualiadas em céto & Tomo 1! >7
HiJJoria da índia i3o cícoéta mil cruzados: & niíto pareceo outro ao mar, & Nuno vaz foy a ele por mandado do gouernador, & como era tarde não pode chegar fe não noyte, & os q hião nele nã quiferão amaynar. E aparelhãdofe Nuno vaz pera pelejar coeles, faltou ho capitão & outros muytos em hú parao grande, & em húa almadia q trazião por popa, & faluaranfe leuãdo hú cofre com quatorze mil cruzados, fegundo fe defpois foube doutros que forão tomados no jungo, em que ainda fe achou fazenda que foi aualiada em vinte mil cruzados. E leuado ho jungo ao gouernador, foube dalgús que ficarão nele que Ruy daraujo era viuo, & defpois da fugida dos ou¬ tros noífos el rey de malaca quifera por força fazer mouro a ele & aos que ficarão ate fanare algús deles, & q paffarã muytos tormentos porque negaífem a fé de nofTo fenor Iefu Chriíto. CAP1TOLO .L11. Do cõcerto que ho gouernador fe\ com el rey de Pace defpois de ho ter em feu poder, & de como chegou a Malaca. EM todo ho efpaço que ficou deite dia defpois que ho gouernador fe defaferrou do jungo brauo, ele né outro nenhú capitão o poderã tornar a abalrroar, & porq por a noyte que fobreueyo não podia fer fe não ao outro dia, encomendou a todos os capitães que vigiaffem com muyto cuydado que fe lhe não foífe, porque determinaua de ho quey- mar fe ao outro dia fe fe lhe nã étregaffe, & eles teuerão tãta diligencia em fazelo fazer, que parece que defefperando os do iúgo de fe faluar. E iabendo por Fernão perez dandrade que naquela frota hia ho gouerna¬ dor, determinarão de fe lhe entregar, pera o que ho outro dia quaíi aas dez horas fe meterão dous deles no parao do jungo, & foranfe ao gouer¬ nador, a que diíferão que não fabião que ele ali hia porque fe ho foube- rão logo fe lhe étregarão, & agora q ho fabião ho faziã: o q foubeffe q erão mercadores de Pacé que vinhão com mercadoria da outra banda da ilha de çamatra, q lhe pedião que goardaffe a paz & amizade que eftaua affentada com el rey de Pacem auia annos. Ho gouernador porque vira quão bem fe os do jugo defenderão, & q ho trajo daqles que lhe falauão não era de mercadores, pareceolhe q era gente q hia e ajuda dei rey de Malaca, & mais por a fofpeita que teuera delrey de Pacem q ho quifera deter, & por iífo apartou aqles dous homés, & preguntoulhes q gente erão, dizédo q lhe difieffé a verdade, fe não q ficarião obrigados a grãde caftigo, porq ele fabia algúa coufa do q preguntaua: eles parece- dolhes q era adi, lhe diíferão q naqle jungo hia ho verdadeyro rey de
Livro III, Capitolo LI1 i3i Pacé a pedir ajuda aos fenores da ilha Dajaoa, pera q ho reftituyfem 5 feu fenorio q lhe tinha tomado aqle que fe chamaua rey de Pacé, que fedo gouernador de çoltãzina (que afli fe chamaua ho rey q hia no jugo) fe leuãtara cõ a terra, porque çoltãzina queria gouernar ho reyno fem ele entéder niffo, o que ele não queria fenã q eíleuefTe metido em húa cafa como ftatua, & por iffo ho deitou fora do reyno cõ ho muyto fauor & ajuda q teue pera iífo: & q a detença q ho rey de Pacé quifera que ho gouernador fizera é fua terra fora porq não topafTe cõ çoltãzina, temendo q fe cõcertaífe coele, & fe fizeífe vaflalo del rey de Portugal porq ho ref- tituyfe em feu reyno. O q fabido polo gouernador folgou muyto cõ aqle acerto, & logo aflentou de reflituyr çoltãzina em feu eftado fe ele quifelfe ficar vaflalo del rey feu fenor & feu tributário. E coefta determinação ho mandou vifitar por Fernão perez dandrade, & por ele lhe mãdou hú pre- féte dandolfe por muyto feu amigo pera o q lhe dele cúprifle, & q ho mefrno fizera logo como ho achou fe fe lhe dera a conhecer, moftrando que lhe pefaua muyto do mal q fora feyto aos feus, o q lhe ele teue muyto em merce defculpãdofe de ho não ir ver por eftar doente. E por iffo, & porque ho gouernador o queria granjear pera ho atraher a refti- tuyrfe por ele em feu fenorio, & ficar por iffo vaflalo delrey feu fenor ho foy defpois ver, & ele lhe difle ho mefrno que lhe mandara dizer, & q teria a cidade a obediécia del rey de Portugal, & lhe pagaria cadãno pa- reas: & ho gouernador lhe deu palaura de ho fazer, porq a fora a caufa q ho obrigaua como difle, ficaua el rey de Portugal cõ grande credito naqlas partes, & mais era Pacé a prlcipal coufa de çamatra, & muy im¬ portante ao trato de Malaca por amor da pimenta. E aflentada efta ami¬ zade ficou çoltanzina por feguro na companhia do gouernador, q fé lhe acõtecer mais outra coufa q feja de cotar, feguio fua viajé, & foy demã- dar os baixos de Capacia, & não entrou por õde étrou Diogo lopez de fiqueyra quando foy a Malaca, fe não polo canal dos jungos q he de doze braças peracima, & dali foy ter ao porto de Malaca ho primeyro dia de Iulho, Õde achou muytos jugos de diuerfas partes daqla banda do fui de q Malaca he a mayor efcala, & afíi auia naos doutras partes da bãda do norte: & ho gouernador furgio júto da ilha das naos, que como difle eftâ hú tiro de bõbarda da cidade, Õde foy grande aluoroço cõ fua chegada, principalméte nos mouros que eftauão no mar, temédofe que lhes fizeffe algú dãno: o que ela poderá fazer, mas não quis por abrãdar mais a el rey de Malaca, pera que por bé ficaflem amigos, do que el rey eftaua bem fora, porque da ida de Diogo lopez de fiqueyra a Malaca perdeo muyto ho credito da valétia dos noflos. E com tudo porque não eftaua tão fortalecido como lhe era neceflario, diflimulou com ho gouernador man-
i32 Hijloria da índia dandolhe dizer que a ele lhe pefara muyto do que fora feyto aos noffos em fua terra, tanto que mãdara por iffo matar ho Bendàra que fora ho culpado nefte cafo, de que nunca foubera nada fe não defpois de feyto, que fe ho foubera não confentira que fe fizeffe. E porque quiça ele não faberia como ifto fora, lho mandaua dizer pera que ho nã culpaffe: & também pera faber fe hia de paz, ou de guerra, porque pera paz erão efcufadas tantas naos: & que ele eítaua muyto preftes pera a receber, & pera ter amizade cÕ el rey de Portugal. Ho gouernador pofto que lhe pareceo a difculpa enganofa, recebeo ha porque ouuefTe Ruy daraujo & os outros noffos que eftauão catiuos, & refpondeo a elrey que ele fabia bem que a morte de Bendára fora pola treyção que ordenara aos noffos, & fabia q ele tinha toda a culpa, & por iffo lhe não daua nenhúa no que era feyto, nem hia fe não pera paz & pera guerra a quem a quifeffe: & que as naos que trazia não erão de carga fe não da gouernança da índia: poré que leuauão muytas & muy ricas mercadorias, & q valiã muyto em Malaca, mas q e!e não auia de falar na paz nem affentar nenhúa amizade ate lhe não ferem entregues os noffos, & a fazenda del rey feu fenhor que fora roubada. Ao que el rey refpondeo fora de propoíito, dizendo que a fazenda que fe roubara fora muyto pouca, & que os Chriftãos deles mor¬ rerão & outros fe tornarão mouros, & erão efpalhados por diuerfas par¬ tes, que era neceffario tempo pera os auer: que ele faria de maneyra que tudo fe fizeffe â fua võtade, & nã fe paffou mais efte dia. E defpois q foy noyte forão falar ao gouernador cinco capitães chis de cinco jungos da China que eftauão no porto, & differãlhe que tanto que ele chegara, que logo el rey de Malaca lançara mão deles, & de todos os capitães eftran- jeiros que eftauão em terra, & afli de fua gente, pera que ho ajudaffem a pelejar cõ os noffos, & que eles teuerão maneyra pera fugir, porque não querião ajudar el rey, que lhes tinha roubada fua fazenda como tirano, & homem fem^verdade: & fobriffo lhe mandara aquele dia reter dous jungos pera a guerra que efperaua, & era certo que auia de querer, porque na cidade hauia vlte mil homés, & os dez mil muyto bõs de guerra & bc armados, & de laudeys, de laminas, defpadas & efcudos que lhe leuarão os guzarates, & a fora eftes vinte mil que erão naturays, em que também entrauão muytos jaos, auia muytos turcos, rumes cora- çones & perfianos, que erã muy bõs frecheiros, & mais tinha el rey vinte alifantes de guerra, & por iffo a não duuidaria quando a quifeffem coele. Ho gouernador folgou muyto com eftes capitães chis, & agardeceolhe muyto ho auifo que lhe derão, & prometeolhes de lhe reftituyr os feus jungos, quer el rey de Malaca quifeffe paz quer guerra, & eles fe lhe offrecerão pera ho ajudar.
Livro III, Capitolo LIII i33 CAPITOLO .LIII. De como Ruy daraujo auifou ho gouernador de tudo quãto el rey de Malaca determinaua, & do mais que fucedeo. DEspois deites recados dantre ho gouernador & elrey, fe paíTarão dous ou tres dias q lhe el rey nã mãdou nhú o q ele teue logo a mao final, mas diffimulaua pera ver fe podia auer por be os nof- fos. E neltes dias lhe mãdou Ruy daraujo recado por interceffã de Nina- chatu q fempre lhe fizera muyto boas obras: & por eíle lhe efcreueo q foubeífe certo q elrey de Malaca fabia quantos Portuguefes trazia & quan¬ tos malabares, & que tinha em muyto pouca cõta fua armada por amor do grande poder de gente que tinha que era tanto como lhe os chatins tinhão dito, & q todos os eftranjeiros trabalhauão muyto com el rey que nã fizeffe paz coele, porque não auia doufar de cometer a cidade com tão pouca gente, & que vinda a moução de fe tornar pera a índia fe tornaria: & poílo q oufafle de a cometer que lhe não deífe diffo pois tinha gente em abaftança pera fe defender, porque não auia ali nenhú que não mor- reffe fobriffo, & q não gaítaífe quãto tinha. E os mouros de Cambaya infiítião nilto grãdeméte, & pera ajuda da defenfa da cidade lhe derão corenta bombardas, & ajudauaos ho feu xabandar q era eílante de todos os mercadores de Cambaya, peffoa muy prlcipal é Malaca, & de muyto credito com el rey. E os mouros malayos lhe perfuadião ho mefmo per leus cacizes que fobriffo lhe fazião muytas pregações, dizendo que os noffos erão arrenegados, ladrões & querião fenherear todo ho mundo, & como aífentaffem em Malaca não auião mais de deixar tratar nela os mouros & auião de tomar a terra pera fi: porque deífa maneyra ho tinhão feyto na índia, por iffo que os não recebeffe em fua cidade nem fizeffe paz coeles. E a fora todas eftas perfuafões peitarão a el rey tão groífa- mente que a fora ele de fi fer mal inclinado pera os noffos, fe inclinou muyto mais, & defejaua de os deftruyr. E mandara logo recado ao feu lafamane, que era almirante do mar, que andaua correndo a cofia com grãde frota, que fe foífe a Malaca & deífe fupitamente na noífa & a quey- maffe, & que algúa de pãgueiaoas que eflaua da põte pera dentro fayria naquele inílante, pera q tomaífem os noffos no meyo & não ficaffe nenhú, & entre tanto el rey fe fortalecia de trãqueyras & cauas, & que a fora a géte que tinha & alifantes, tinha oyto mil tiros de fogo antre bõbardas & efpingardões, & pera ho deter ate que vieífe ho lafamane diffimulaua coele, por iffo que fe não fiaífe em fuas palauras, né falaífe na paz ate
**4 Hijloria da Itidia não fer entregue dele & dos nolfos que eftauã catiuos, & da fazéda que fora tomada, porque fem el rey fazer primeyro efta entrega não auia dauer paz nem amizade, nem fizeffe conta dela. E iíto vio ho gouernador claramente porque el rey infiftia em fazer paz fem entregar os noffos nem a fazcda, & tãtas vezes falou nefta paz fem fazer o que lhe ho go¬ uernador pedia, que ele lhe mandou dizer que lhe não parecia boõ final de paz ter por força os noífos, porq el rey de Pedir que tinha noue que forão ter coele fugidos, como fora em feu porto lhos mandara á nao an¬ tes de lhe falar em paz, & ele não queria mandar os q tinha q efcaparão da deftruição q BÕdara mãdou fazer neles. Ao q elrey deu algúa efcufa, & iníiftldo q fe fizeffé as pazes primeyro. E coifto armauãfe pãguejaoas, & fayão fora da põte como q fazião moftra & logo fe tornauão pera dé- tro, & em faindo defparaua muyta artelharia na cidade. E ho gouernador diffimulaua a tudo fazendo q ho não entendia. E hú dia porque foubeffe como fe auia dauer com a cidade fe vieffe a pelejar, mandouha ver por quatro capitães, que forão em quatro bateys armados ao logo da ribeyra, a q logo fayrão de détro do rio vinte panguejaoas armadas. Ho gouerna¬ dor que as vio, & fe temeo q pelejaffem cõ os nofTos, mandou em feu focorro outros, & cÕ fua ida fe tornarão as panguejaoas a recolher détro no rio: & defpois difto tornou ainda el rey a mandar ao gouernador os mefmos recados que dantes, & ele lhe refpondeo como das outras vezes: acrecetando mais que fe os nolfos forão tomados Õ guerra, ou por repre- faria, q fe não efpantara de os não dar, mas fendo tomados debaixo de feu feguro andãdo delarmados, & fem auer caufa pera que os efpedaçaí- fem que fe efpantaua muyto de não querer dar aqueles q efcaparão pois reqria amizade, & q ho defenganaua que não auia de falar nela ate lhos não entregar, & que foubeffe q leuaua muyto trabalho cõ os feus q ho importunauão muyto que pelejaffe pois não auia concrufam naquele nego¬ cio. Ao que el rey não refpondeo, & logo fe pafTauão tres ou quatro dias que não mãdaua recado. E ho gouernador ainda q entedia que aquilo era defprezo fofriao por amor do q digo, & aíli porque el rey de Portugal lhe mandaua q não fizeíTe guerra, fe não defpois q de todo não podelfe mais, que fe iffo não fora nem a ele lhe falecia juyzo pera entender ho pouco medo que el rey auia dos noffos, & q tudo o que fazia era pera efcarnio deles, né lhe falecia animo pera fe vlgar por guerra, & adi lho aconlelhauão eífes capitães homés mancebos defejofos de pelejar polo fer- uiço de Deos & del rey de Portugal, & dizião que fe não auia de fofrer tanto defprezo, & que tépo era que fe vingalfe a treição que fora feyta a Diogo lopez de fiqueyra. E ho gouernador didimulaua, alegãdo ho re- giméto que tinha, dizendo que quando de todo em todo el rey não qui-
Livro III, Capitolo LIIII i35 feffe o que lhe pedia q então fe vingaria. E vendo çoltanzina tamanha di¬ lação, cuydou q ho gouernador auia medo de pelejar com a cidade, nem menos teue que poderia efcapar que não fofTe tomado, & por iflo fugio & fe foy pera el rey de Malaca, & aííi fugio a mais da gête q eftaua coele, q ho gouernador fentio muyto, & logo foube que çoltanzina eftaua com el rey por auifo de Rui daraujo, q ho auifaua de quãto fe fazia na cidade: & ifto por meyo de Ninachatu. CAPITOLO .LIIII. De como FernSo pere\ dãdrade com outros capitães poferão fogo â ci¬ dade por mandado do gouernador, pelo q elrey lhe mãdou logo Ruy daraujo & os outros nojjos. ENtendhndo ho gouernador ho mao propofito del rey, & determi¬ nando de lhe fazer algúa moftra de guerra pera faber que forças erão as fuas, quis primeyro dar cõta diflo a Ruy darauio & aos outros, & esforçalos, temendo que receberião dos immigos algum dano: & efcreueolhe húa carta, cuia fuftancia foy, que ele era obrigado a mor¬ rer em iufta guerra, por feruiço de Deos, & del rey de Portugal, feu fenor & que aquela era muy jufta, pois via bem a determinação del rey, a que era neceffario defenganalo com lhe poer as mãos: & que fe por iflo ele com os outros correflem algú perigo que ouueflem paciécia. Ao que Ruy daraujo refpondeo como caualeyro, & como Chriftão, & dizia q não qui- feffe nofTo fenhor que a noffa armada recebeffe reues nem abatiméto por fe dar vida a ele & aos outros, q erão obrigados a morrer polo feruiço del rey de Portugal, cujos vaffalos erã: que qualquer perigo q padeceffe ho tomaua das mãos de noffo fenhor, & ho auia em boa ventura, que foubefTe certo que elrey de Malaca não queria paz por lho eftoruarem os eftranjeiros & os guzarates de Malaca, por iflo q lhe pofeífe as mãos, & que foffe logo, porque quanto mais tardafle, tanto mais daua lugar a el rey que fe fortaleceffe. Moftrada efta carta polo gouernador em confelho, pofto que ho parecer de todos foy q delTem logo na cidade, quis ele pri¬ meyro fazer hú requerimento a el rey, & apos iflo algúa moftra de guerra, refumindo no requerimento (q foy affinado por ele & per todos os capi¬ tães) o que fora feyto a Diogo lopez de fiqueira, & as delongas que fazia fobre a entrega dos noffos & da fazéda: certificandolhe que pois os não queria entregar q lhe auia de fazer todo ho mal que podeffe, defenganan- doho que as naos que leuaua na fua armada não agoardauão moução, nem perdião viajem, nem querião carga, né a deixauão tomar aos immi-
i36 Hijloria da índia gos del rey feu fenhor, porque como lhe mandara dizer erão da gouer- nança da índia, por iffo q lhe não daua eftar ali mais dous annos que dez, & que fe não quifeífe fe não guerra que folie certo que auia de per¬ der feu eftado, & que fua folie a culpa, porque não podia ter coele mais cõprimétos dos que ateli teuera, & que do que auia de fazer, lhe daua por final mudar hú anel dhú dedo ao outro, q logo mudou perante ho meffejeiro del rey de Malaca, por quem lhe mandou efte requerimento. A que el rey refpondeo q ho feu coração era boõ, & que ele não tinha em conta Ruy daraujo né os outros, & q logo os mandaria: & nã hião com a repoíta, porque lhes ficauão fazendo de veftir, & q entretanto mã- dalfe tirar as noífas naos diante do porto, pera lhe parecer que nã efta- uão de guerra: & adi outras palauras boas, de que ho gouernador fez muy pouca cota, porq todas lhe parecerão enganos. Porem porque el rey não tiueffe achaque de não entregar os noffos & a fazéda, mandou afaf- tar os nauios de diãte do porto, & efperou cinco ou leys dias fem el rey comprir o que differa, antes como ho gouernador foube por Ruy daraujo neftes dias, mandou adernar fua artelharia em todos os lugares, de que offender aos nodos. O que fabido polo gouernador, mãdou a Fernão pe- rez dandrade, em q tinha muyta confiança, que com dez capitães outros foffem em feus bateys a queymar algúas cafas dos immigos que eftauão metidas no mar, & adi a tres naos de Cãbaya, porq os guzarates per- defie a cõfiança que tinhão de leuar fua carga nem trabalhadem por eftor- uar a paz. E vinda a preamar, partiofe Fernão perez com os outros capi¬ tães, & pegados cõ as cafas deranlhe fogo: & começãdo darder mandou el rey com muyto grãde preda Ruy daraujo & os outros, mãdando dizer ao gouernador q lhe não fizede guerra, porque nã queria fe nã paz, & que a fazenda ele a mandaria logo, que mandade aos noffos que lhe nã quey- maífem a cidade. E Ruy daraujo dide ao gouernador, que tudo o que el rey dizia erão mentiras, & que a fua armada de panguejaoas não fayra a pelejar com os noffos bateys, porque ouuera el rey medo que entre tanto lhe folie ho gouernador tomar a boca do rio com os outros bateys, & com a galé & fuda, & forçadamente pelejaffem as panguejaoas: & que ele não queria que os feus pelejaífem no mar fem ho Lafamane. E com tudo por ho gouernador comprir de todo com el rey, mandou ceifar ho fogo das cafas, porem q fe pofeffe âs naos de Cãbaya polas caufas que digo, & adi foy feyto. E nefta reuolta mandou ho gouernador tirar os dous jungos dos chins donde os immigos os tinhão, & mãdoulhos dar: & dide aos capitães que eftauão liures pera fazeré o que quifelfem, mas que lhes pedia muyto que fe deixaffem eftar algús dias pera veré como pele- jauão os nofibs, & ho fim que auia dauer Malaca pera leuarem nouas a
Livro III, Capitolo LV 137 íua terra. O q eles fizerão dizendo que erão vaflalos del rey de Portugal, & que õde lhe feruirião feré remidos por feus vaflalos q eftauão preftes com íua gente que ja tinhão cobrada pera ho feruirem fe pelejafle, & que fe a vitoria ficafle coele & os noflos teueflem aflento em Malaca, que ca- danno virião a ela cem jugos carregados da China. CAPITOLO .LV. De como vendo ho gouemador que el rey de Malaca queria coele guerra, affentou com feus capitães de dar na Cidade. CObrado Ruy daraujo & os outros noflos, mandou ho gouernador dizer a el rey que dali por diãte tomaria concrufam na paz que aflentaria com certos apontametos que lhe mandou, de que erão os principais, que lhe auia de dar lugar pera fazer húa fortaleza, porque pelo que fora feyto a Diogo lopez não oufaria de deixar feytoria em Ma¬ laca, fe não em fortaleza, & q auia de pagar a dinheiro a fazenda que fora roubada na nofla feytoria: ao que elrey refpondeo que tudo faria, mas nunca o quis comprir, nem nunca mais mãdou fobriffo nenhú recado ao gouernador, & por leu mandado leuauão a vender â frota algúa efpe- ciaria & hú papo dalmizqre, & algflas galinhas: & âs vezes como q fazia efcarnio do gouernador hia hú daqueles q lhe leuarão ho derradeyro re¬ cado, & falaualhe em outras coufas muyto fora da fuftancia do recado que lhe leuara, & muyto efquecido de refponder a bem de feyto, & ifto tã fem nenhúa vergonha, como q ho gouernador fora algú doudo, & ele fe efpãtaua de tamanho defauergonhamêto, & de tanta foberba como el rey lhe moftraua, não fomente nifto, mas em fayre algúas vezes as pan- quejaoas fora da ponte com muytos efpingardões tirados por cada parte, outras apareciã todas as eftancias embadeiradas, & defparaua toda a ar- telharia, & outras vinhão echadiços da cidade, que diziã ao gouernador que auião logo de chegar ao porto tantos jungos armados, q el rey man- daua vir pera ho goardaré: & tudo ifto pera ho efpantar & fe ir. E tan¬ tas fobrãçarias recebeo, que não podendo mais fofrer, determinou de rõ- per a guerra com el rey, & pera faber q modo tinha de defenfam, & que forna de gente tinha, & onde eftaua fua artelharia aflentada, mãdou dar na cidade hú rebate com bateys armados de bõbardas groflas, & afli duas barcaças cõpridas q tinha tomadas. E nefte rebate fe vio que acodio da banda do norte onde eftaua a pouoação dos mercadores muyto mais gete, que da banda do fui onde moraua el rey, & que a ponte era ho lugar mais forte, & em que el rey tinha mais confiança, por ele eftar ali cõ a Tomo li 18
i38 Hijloria da índia fua principal gente de guerra & com feus alifantes, & eftar pegada cõ a pote a fua mezquita, que dizia Ruy daraujo que era hú lugar muy forte pera os Imigos: & também pera os noífos fe lha ganhaífem, porque po- diao fegurar fua embarcação cõ pequenas trãqueyras, & ficaua em fua mão poderem pelejar com a géte da pouoação grande, ou cõ a da pe¬ quena onde moraua el rey: & entrãdo por outro cabo acodiria todo ho pouo de Malaca, que era tamanho como ja diffe, & mais ganhada a ponte ficaua a força dos immigos partida em duas partes, & húa não podia focorrer a outra, fe não pola ponte, que cem homés poderião defender defpois de ganhada a quanta força de géte os cometefTe, fazédo como digo húa tranqueyra pequena. E dizia mais Ruy daraujo ao gouernador, que fe húa vez ganhaffe a ponte que não lhe feria necelfario pelejar mais porque el rey fe lhe entregaria: mas fegúdo fe defpois vio, não foy afii, ne Ruy daraujo não fabia ifto també como lhe parecia, & os capitães dos Chins que eftauão melhor inftrutos na força de Malaca, & vião a dos noífos quam pouca era a feu refpeyto por ferem as dezanoue partes da gente menos que os immigos: cõfelhauão ao gouernador q não fayle em terra, dizédolhe a grande força de gente que auia nela, que melhor toma¬ ria os immigos a fome, porque como na terra não auia mantimentos de fua colheita, íe lhe tolheífe ho carreto que lhe hia por mar, não terião que comer & entregarfelhehião. E porque ifto era coufa muyto cõprida, & ho gouernador tinha neceffidade de tornar â índia na moução não quis efperar tanto, & chamando a confelho, diffe aos que fe ajuntarão q lhe diífeífem fe auião de pelejar, porq ele tinha pera fi que não deuia de poyar é terra, fe não auendo de fazer fortaleza de qualquer maneyra que po- deffe fer, porque íe não podia fegurar Malaca doutro modo: porq pera affentar feytoria fem fortaleza é poder de tão maa gente como a de Ma¬ laca, lhe não parecia feruiço del rey feu fenhor, & lhe parecia muyto grande ter ele feytoria em Malaca por ela fer efcala de todo mudo & tão principal como fabião: por iffo que lhe diífeífem todos feus pareceres. E todos forão de comú acordo que fe deuia de caftigar el rey de Malaca, & derribarfe fua foberba, & fe fe podeífe fazer fortaleza, q fe fizeífe porq feria muyto feruiço delrey de Portugal. E coefte acordo, affentou ho go¬ uernador que no dia feguinte, que erão vlte quatro dias de julho vefpera do apoftolo Santiago, em que ele tinha fingular deuação, fe deífe na ci¬ dade, & antemanhaã como ouuiífem tanjer húa fó trõbeta fe ajuntarião todos abordo da capitayna embarcados com fua géte nos feus bateys, & afii na galê & na fufta, & q defébarcarião os capitães cõ a géte feyta em dous efquadrões, hú em q foífem dom Ioão de lima, Gafpar de payua, Fernão perez dandrade, Iames teixeyra & Baftião de miranda defembar-
Livro III, Gapitolo LVI i3g carião no cabo da pote dõdeftaua a mezquita & as cafas del rey, & ele cõ a bandeyra real defembarcaria no outro cabo da ponte da banda da cidade. E defembarcarião coele Duarte da íilua, Iorge nunez de lião, Si- mão dãdrade, Ayres pereyra, Ioão de foufa, Antonio dabreu, Pero dal- põem, Dinis fernandez, Simão martlz caldeyra, Simão afonfo befigudo, & Nuno vaz de caftelo branco, & que defembarcados acodirião todos ao meyo da pote, & q dali lhes diria ho tempo o que auião de fazer, porque como ele nã tinha vifto a cidade, hão fe fabia determinar no q faria. E fabido polos capitães dos Chis como ho gouernador tinha adernado de peleiar, offereceranfelhe cõ toda fua gente pera ho aiudaré, & ele lho agoardeceo, & não quis dizedo que a vitoria eftaua nas mãos de Deos: & que fe por ventura ele não fayfe coela, & eles ho aiudafle, poderião defpois receber mâs obras dos immigos tornãdo a Malaca, ou pelo melmo feyto tomarião vingança em algõa gete fua que ainda andaua em terra: & també não queria que foífem feridos em fuas peífoas ou mortos algús deles. Mas que lhes rogaua q fe pofeffem todos na galé que auia deftar mais perto dõde os noffos auião de pelejar, pera veré como pelejauão, & deffem diffo nouas em fua terra, & q lhe empreftaffem as barças dos feus jugos pera a delembarcação dos noffos, porque os bateys da fua ar¬ mada não abaftauão: & eles ho fizerão aíli. CAPITOLO .LVI. De como ho gouernador acometeo a cidade, & ganhou a póte & a mes¬ quita com grande dejlruyção dos mimigos: & de como fe tornou aa frota, & a caufa porque. AO outro dia q foy vefpera de fantiago, chegarãfe os capitães cõ fua gente a bordo da capitayna duas horas ante manhaã. E feyta per todos a cõfiffam geral a hú clérigo que os affolueo, abalou ho go¬ uernador coeles: & em amanhecendo que os immigos os virão ir, come- ção de tirar cõ fua artelharia q tinhão affentada em fuas eftancias, de húa & da outra bãda da pote, & era tanta & tiraua tão a miude que fazia tremer ho mar & a terra, & tudo era cuberto de fumo. E certo q nunca ate aquele dia defpois que os noffos começarão a conquifta da índia, co¬ meterão coufa tão forte como eftaua aquela ponte, ne em que efteueffe tanta artelharia, nem que teueffe tanta géte pera a defender, & tão deter- . minada a morrer fobriffo como efta: & jugando a artelharia dos Imigos, receberão os noffos dela algú dãno ate chegarem a terra, onde poyarão repartidos como eftaua determinado dando hús & outros húa grande grita,
140 Hiftoria da índia & tanjédo as trõbetas, & os inimigos derão outra, tocado também feus inftormentos de guerra, que fazem hú fom afpero & efpantofo, & afíi era a coufa muyto efpãtofa, porque os ímigos erâo muytos em demafia, & a môr parte deles bé armados darmas defeníiuas, & todos deoféfiuas, hús cõ arcos & frechas, outros cõ lanças & padefes tão compridos como os de Bifcaya, & outros com zarauatanas cõ que tirauao húas frechas curtas & delgadas emheruadas cõ tanta força que logo trancauao: & as feridas deftas fam fem cura. De todos eftes generos darmas forão os noffos be feruidos defpois que chegarão âs trãqueyras q eftauão dhúa banda & da outra da põte, & em ambas a peleja foy muy crua, & durou hú boõ pe¬ daço que os ímigos fe defendião valenteméte: & affi morrerão deles muy¬ tos, & muytos dos noffos forão feridos. E cõ tudo os q hião com ho go- uernador como erão mais q os outros que pelejauão na outra tranqueyra da bãda da mezquita entrarão primeyro, & fizerão recolher os ímigos â boca da rua principal da cidade, onde fe teuerão, & fe defendião com muyto esforço. Dõ Ioão de lima, Fernão perez, Gafpar de payua, Baftião de miranda & Iames teixeyra como entrarão a tranqueyra da banda da mezquita forão dar cõ el rey, que vinha cõ muyta gente & a principal que auia na cidade, & trazia feus alifãtes armados cõ grandes efpadas atadas nos dentes & feus caftelos encima cheos de frecheiros, & el rey vinha encima dhú deftes alifantes diãte de todos: & foy efte efquadrão tão medonho que effa gete miuda dos noffos auédo medo fe começarão de retirír, & Fernão gomez de lemos & Vafco fernandez coutinho fe dei¬ xarão eftar quedos, & poferão as lãças no alifante del rey, & feriranno tão mortalmente que por mais que ho meftre q ho mandaua o quifera fazer paffar auante nuca pode, antes ho alifante ho acolheo cõ a trõba, & ho lançou fora de fi, & cõ grande furia virou atras, & deu nos outros alifantes, & defbaratou os, & ele morreo: & aqui foy húa muyto grande briga, porque vendo el rey que ho alifante fugia, lançoufe fora dele, & começou de pelejar: porque os noffos erão ja muytos, que acodio logo dom Ioão de lima, & coele Martim guedez, & aíli acodirão Fernã perez, Baftião de miranda, Gafpar de payua, Iames teixeyra, & fua gente vedo que feus capitães pelejauão. Dos immigos també auia muytos, & peleja¬ rão muy brauamente, & forão mortos muytos, & el rey foy ferido em húa mão de húa laçada, & faluoufe polo nã conheceré, q doutra maneyra fora tomado, & forão feridos muytos dos noífos, principalmente os capi¬ tães & outros homés aflínados que pelejauão na diãteyra: & como el rey foy ferido q fugio, os feus fe retirarão logo pera ho oyteiro onde eftauão as fuas cafas, & fizerãfe ali em corpo: os noffos os não quiferão mais feguir, por acodire ao gouernador que eftaua em grãde aperto. Porq ao
Livro III, Capitolo L VI 14! tépo que os noffos começarão de pelejar cõ elrey, fe apartarão dele tres capitães feus cõ obra de fetecentos dos Imigos, & acodirão â pote pera a banda da cidade & derão na trafeira do gouernador q pelejaua cõ tama¬ nho pefo de géte dos Imigos, que né ele né os feus fe podião valer hús aos outros. E fentindo eles os Imigos que lhe dauão na trafeira, porq fe os feus não defbaratalfem, mandou a Ioão de foufa, Ayres pereyra de berredo, & a Antonio dabreu q cõ a géte de fuas capitanias fizeffem rofto aos Imigos: & eles ho fizerão cõ tanto esforço, que foíteuerão ho feu ím¬ peto que não paffaífem da pote. E eftãdo nifto acodirão os outros capi¬ tães que defbaratarão el rey, ouuindo a reuolta q hia na pote, & derã nas coftas dos Imigos cõ grãde grita, ferindo os muyto rijo. E quando fe eles virão tomados no meyo lançarãfe todos ao rio cõ medo da morte, cuydando de fe faluar, mas não poderão porq ho pefo da mõtante dagoa que hia pera détro os leuou todos a terra, & os noffos os matarão, & antreles forão os tres capitães del rey, de q hú auia nome Tuambãdam homem muyto principal & priuado del rey fobre todos. Feyto ifto torna¬ rão eftes capitães a acodir ao gouernador que eftaua pelejando com ho corpo da géte na boca da prlcipal rua da cidade porq os Imigos como erão muytos, & viã a pouquidade dos noffos faziãlhe rofto muy oufada- méte, & pelejauão cõ muyto esforço: & todauia os noffos os fizerão reti¬ rar pola rua a diante ate dar em bocas doutras ruas que fayão a ela, & os immigos fe meterão nelas. E vendo que aqui podião tomar os noffos no meyo, teueranfe muy rijo. O que vendo ho gouernador, como fabia que el rey cõ fua gente ficaua do outro cabo, & podia vir fobrele: & porq pera quão poucos tinha não podia entender em duas partes, reco- lheofe à ponte com determinação de fe fazer forte nela, & da bãda da cidade começou de fazer húa tranqueyra cõ a mefma madeyra que ali tinhão os immigos, & mandou affentar logo hum par de tiros também dos que forão feus que varejauão aquela rua principal toda ao longo. E en¬ comendou ifto a Nuno vaz de caftelo branco, & a Iorge nunez de lião, & q feyta a tranqueyra a goardaffem. E começando eftes tiros de varejar, os immigos, fe recolherão ás outras ruas da cidade: & porem não dei- xauão por outras partes por onde os tiros não varejauão de dar rebates aos noffos, & torualos do que querião fazer, & cõ muytos efpingardões que tinhão fobre os terrados das cafas lhe fazião algú nojo: & no cabo da ponte da banda da mezquita, quifera ho gouernador começar outra tranqueyra, mas não pode polos muytos rebates que lhe dauão os immi¬ gos. E os noffos andauão tão canfados de pelejar, & tão defuelados da noyte paífada que fe nã podião ter em pe, porque paífaua de meyo dia & a calma era muyto grande, affi pola fazer como por fe lhes dobrar cõ
142 Hiftoria da índia ho trabalho, o que os fazia enfraquecer, tanto que não auia quê os fizeffe trabalhar, porque ja a natureza não podia fofrer mais trabalho & desfa¬ lecia, & não auia cõ que lhes tornar as forças, porque como os bateys erão poucos pera a gente defembarcar não ouue neles lugar pera manti¬ mento, & também por ho gouernador polo dito de Ruy daraujo fe con¬ fiar que fe faria forte na ponte, & que dali mandaria por mantimêto aa frota quando lhe foffe neceffario: & mais q como ganhaffe a ponte el rey quereria paz. E quando vio que tudo era ao cõtrayro do que trazia ima¬ ginado, determinou de fe tornar aa frota, porque pera mandar laa por mantimento não podia fer fem ir laa algúa gente, & qualquer que tiraffe da que tinha, lhe fazia tamanha mingoa que mais não podia fer: & pera fe fazer forte na ponte não podia, porque gête tão canfada como a fua não podia fazer tranqueyras, e fem elas poftoq fe recolheífe na mezquita fem mantimêto, eftaua certa fua perdição, por quão certo tinha acodirem os immigos fobrele, & por iífo determinou de fe tornar aa frota. Mas nê por iífo deixou de prouar fe fe podia fazer forte, animando os noífos a trabalharem. E vindo a viração, mãdou a Gafpar de payua que com cento dos noffos pofeffe ho fogo aa cidade daquela parte que eftaua junto da ponte, & ho mefmo mandou a Simão martíz que fizeffe da banda da mezquita onde eftauão as cafas del rey: & ambos ho fizerão afli, & dhúa banda & da outra arderão muytas cafas, & nas del rey fe queymou ho feu eftrado, & húa cadeira dourada, & muytas alcatifas, & cortinas de feda borladas douro, & muyta riqueza. E être tanto ho gouernador deu conta a algús dos capitães de fua determinação de fe recolher, dizendo as caufas porque: & pois fabião por onde auião de defembarcar, & como auião dir apercebidos, que eíperaua em noffo fenhor de tornarem muyto cedo a ganhar a cidade & ficar fenhores dela. E parecendo bem aos ca¬ pitães o que ho gouernador dizia, mãdou fazer final de fe recolherem, & feria ao foi pofto, & ele foy ho primeyro q fe recolheo, porque vendo a gente q fe recolhia fe recolheffe logo, q fe defmandauão algús a rou¬ bar, que roubarão duas cafas del rey cheas de mercadoria, & ifto leuarão da cidade, & fetenta & duas bombardas que eftauão naquelas eftancias da ponte, delas de metal & outras de ferro, & húas tirauã pelouro de ferro cuberto de chumbo, & outras de pedra. E ifto feyto foy pofto fogo aa mizquita, de que ardeo ho telhado q era dola, & por dentro muytas obras que erão de madeyra: & afli foy queymada húa grande çafa de madeyra que eftaua aífentada fobre hum carro que tinha trinta rodas, cada húa tamanha como hum quarto. E efta cafa mandara fazer el rey de Malaca pera andar nela pela cidade el rey de Pão que ele cafaua com húa fua filha, & tinha pera iffo aparelhadas grandes feftas, & húa
Livro III, Capitolo L VII 143 das inuenções dela era efta cafa, que eftaua toldada de feda por dentro, & embandeirada por fora, & toda ardeo. E vedo el rey de Pão o que os noffos fizerão defta vez, fugio logo pera fua terra. Feyta efta deftruyção que os noífos fembarcauão, acodirão os immigos de todas as partes & fizeranlhe algum nojo de feridas, mas né então nem dãtes não morreo nenhú, & dos feridos tão pouco, fe nã dos que ferirão com fétas herua- das, de q morrerão algús a que não fizerão logo defenfiuos, porque a Fernão gomez & a outros a que os fizerão viuerão, & os feridos paliarão de fetenta, & dos immigos forão feridos fem conto & morrerão muytos. CAPITOLO .LV11. De como hfí mercador jao principal homê de Malaca mãdou pedir feguro ao gouernador, & lho deu, & de como ho gouernador mandou hum mef- fajeiro a el rey de Sião. NEsta cidade como diffe auia muytos Iaos, q fam os mais valentes homés, & mais determinados de todas aquelas partes, & antreles auia dous principais que auião nome, hú Vtetimutaraja outro Qua- tepatir: & eftes competião ambos fobre quem precederia na honrra, eftado & valia, & Vtetimutaraja leuaua fempre auãtajé em tudo por fer maiá rico de dinheiro, que tinha mais jungos que Quatepatir nem ne- nhú outro mercador de Malaca, & tinha moor trato, & mais poderofo de gente, porque tinha feys mil homés Iaos feus catiuos os mais deles cafados que morauão ao derrador dele, & dhú feu gérro & dhú filho que tinha. E era tão poderofo q el rey de Malaca lhe auia medo, & por iífo ho amimaua muyto, & ho deixaua ter pouoaçã fobrefi na pouoação dos mercadores, & por efta caufa valia muyto mais fem preço que Quatepa¬ tir & defprezauafe dele, que nunca lhe quis dar por molher húa filha que tinha folteyra, & por todas eftas rezões erão immigos. E vendo Vtetimu¬ taraja ho defbarato q os noffos fizerão na ponte, & que não aproueitou a el rey ter a gente que tinha pera lhes refiftir, temendofe que ho gouer¬ nador tomaffe a cidade, & deftruyfe tudo, quis fegurarfe pera iffo, & man- doulhe hum grande prefente de fandolos & outras coufas, mandandolhe pedir feguro pera toda fua familia, adi na terra como no mar. E por ho gouernador faber fua valia & poder & ho ter de fua parte, lhe concedeo ho feguro com condição que não foffe cõtrele: & pera ainda ho mais fegu- rar, & fazer dele amigo, ho mandou também vifitar com prefentes, & por amor dele não tocou em nenhum jugo Dajaoa. E pofto que teue coele todas eftas amizades, nem por iffo ele deixou de dar ajuda a el rey de
144 Hijloria da índia Malaca defpois deite feguro. E mandandolho ho gouernador eftranhar, refpondeo que ele daua ajuda a el rev ainda que era pouca, & que ho fazia por fer eítranjeiro, & não podia viuer em Malaca fe ho affi não fizelfe. E com tudo ho gouernador lhe manteue ho feguro por ter menos immigos com què pelejar. E fegundo fe defpois foube Vtetimutaraja nã pedia eíte feguro ao gouernador fe não pera fe poupar & ficar inteiro, porque efperaua cedo por hú grande fenhor Dajaoa chamado Patehonum, que auia de ir fobre Malaca cõ húa grande armada, que auia annos que fazia pera a tomar, & fazerfe fenhor dela, & pera ifto mandaua diante tantos jaos a morar nela, & hião poucos & poucos pera diflimulação, porque quãdo foffe teuelfe em terra grande corpo de gente que fe leuan- talTe contra os malayos, & por efta rezão queria Vtetimutaraia eftar in- teyro com leu poder: & também fazia conta que tão defbaratados podião ficar os noífos ou os malayos quaefquer que venceffem, que lhe feria facil coufa acabar de defbaratalos com ho poder que tinha, & fazerfe fenhor da cidade, antes que Patehanum chegaffe, & coeíta determinação quis ho feguro. E ho gouernador por ter também de fua parte mercadores de Malaca, lhes mandou dizer por Ninanachatu que não qria coeles nenhúa guerra, fenão paz & amizade, & por amor deles não deftruyra a cidade, & deixara de a roubar, porque efperaua de a fofter coeles, o que eles crerão ainda que não mandarão repofta: mas dali por diante aconfelharão a elrey que fizelfe paz com ho gouernador, & fe lhe offrecerão a pagar por ele a dinheiro a fazenda que lhe pedia. E el rey não quis afli por amor dos mouros eítranieiros lho contrariarem, como por ele fe auer por muyto iniuriado dos noífos lhe entrarem a cidade, & tornou a reformar todas as eítancias que tinha, & fazelas muyto mais fortes, & affentar nelas muyto mais artelharia da que tinhão dantes. E a rua principal da cidade que começaua da ponte, mandouha atalhar com húa tranqueyra, em que também mandou affentar artelharia, & polos lugares por onde os noífos defembarcarão mãdou meter muytos abrolhos heruados: & pera mais animar os jaos liures que auia na cidade, mandoulhes pagar foldo. E de tudo ifto foy logo ho gouernador auifado por Ninachatu, o que qui- fera ftoruar q não foife auãte cõ mãdar leuar hú jugo grãde cheo de gete & dartelharia: & mãdou a Antonio dabreu q hia por capitão q folie fur- gir junto da pote, & dali defedelfe cõ a artelharia q fe não fortificaífem os Imigos. E efte Antonio dabreu era hú fidalgo da ilha da madeira, & por ho júgo fer grãde não pode paliar do banco com quantos remedios lhe fizerão, nem menos outro mais pequeno, porque erão ja as agoas quebradas, & foy forçado efperar polas vivas. E vendo os Chins que a tomada de Malaca fe dilataua, pedirão licença ao gouernador pera fe hi-
Livro 111, Capitolo L VIII 145 rem, & pediranlhe arroz, porque da cidade por caufa da guerra não po- dião auer nenhum maiimento. E ho gouernador lho deu em abaftança, & aíli lhes deixou leuar a pimenta que tinhão nos feus jungos, pofto que fabia que era dhú mouro malayo. E coeftas honrras & fauores que lhes ho gouernador fez forão os Chins muyto contentes & dauão muytas gra. ças a Deos por os tirar do poder de tão maa gente como os mouros ma. layos, & prometerão ao gouernador, que fe os ele lançaffe de Malaca que viria nela tanta riqueza dos Chins que fe efpantaffe, porque polo mao trato que recebião dos mouros não vinhão ja tantos jungos como foyão. E porque hum fenhor deites jungos que auia nome Pulata auia dir aa cidade de Sião fazer mercadoria, lhe rogou ho gouernador que lhe leuaffe hum meffejeiro a el rey de Sião, que polos Chins fabia que era hum grãde príncipe muyto rico & poderofo de gente: & por iífo ho gouerna. dor defejaua de ho ter por amigo, alfi pera fe fauorecer coele como pera auer mantimentos de feu reyno, que era tão perto de Malaca como ja diífe. E ho meffejeiro que lhe mandou foy hum daqueles que forão cati- uos com Ruy darauio que fabia a lingoa, por quem lhe mãdou húa carta em que lhe dizia como ficaua no porto de Malaca, & o que tinha feyto, & o que determinaua de fazer, que folgaria muyto fe ho ele quifeffe fazer de mandar gente dos portos a pouoar Malaca defpois de tomada: & iíto lhe mandaua dizer porque fabia que el rey de Portugal feu fenhor pola fama que tinha dele, & faber que era gentio, lhe era muyto afeyçoado, & folgaria de ter coele paz, amizade & trato, & coeíta carta lhe mandou húa efpada rica. E coilto fe partio ho meffejeiro em companhia de Pulata. CAPITOLO .LVIII. De como ho gouernador fe apercebeo pera tornar a peleiar com os immigos, & como ajfentou com os feus que ho Ji^effe. DEterminãdo o gouernador de tornar outra vez a cometer a cidade & ir prouido pera a tomar, & não tornar atras, mãdou leuãtar algúas pipas pera coelas cheas de terra fazer tranqueyra fem tra¬ balho, & afli mandou fazer machados, enxadas, & picões, porque de tudo teue neceffidade da outra vez, & muyta forna dalmazem de fétas porque não auia nenhú. E iíto tudo & mãtimÕtos mandou carregar no jungo, porque coele determinaua dabalrroar a põte, & nele & nela fe fazer forte. E vindas as agoas viuas, porq ho iungo não podia ir fem muyto trabalho & perigo, mãdou a certos capitães (de que hú foy Fernão perez dandrade, pofto q eftaua ainda ferido) q foliem em feus bateys pera ho goardaré, & Tomo II >9
146 Hiftoria da índia pera ho leuarem â toa, & por a carrega que leuaua fer grande não ho poderão leuar fem le paíTarem niífo algúas marês, porque não podia ir fem a montante dagoa, & coela ainda furdia muy pouco efpaço. E vendo ifto os immigos, determinarão de ho queymar com balfas de fogo, o que ho gouernador foube logo por Ninachatu, que tinha muyto grade traba¬ lho de faber o que fe ordenaua contra os noffos. E fabido polo gouerna¬ dor ho ardil pera lhe queymare ho iúgo, mandou fazer preftes todos os bateys da frota cõ garoupezes*muyto compridos, & nas potas arpeos com cadeas de ferro, & mãdou aos capitães que foffem dormir iunto do iúgo. E na primeyra noyte em que os Imigos auião de lãçar as balfas com a decéte dagoa, vé polo rio abaixo tres barcos bem compridos que vinhão ardendo com húa chama muy forte, & furiofa que alomeauão tudo ao derrador por grande efpaço, a que os noíTos bateys fayrão logo dando a gente húa grande grita, & com os arpeos dos garoupezes defuiarão as balfas que não chegarão ao iungo, né lhe fizerão nenhú noio, & dali por diãte teuerão noue noytes efte trabalho, porque em todas arreo lãçarão os Imigos tres balfas em cada húa, & as vezes quatro. E cõ todas eftas balfas não deixauão eftar ociofa a muyta artelharia que tinhão com que tirauão ao iungo por todas as partes, & muytos dos pelouros acertauão nele & ho paffauão de parte a parte, principalmente defpois que paífou ho banco que eftaua hum tiro de beefta da ponte, & erão os pelouros de ferro cubertos de chumbo do tamanho dos defpera, & erão em tanto nu¬ mero, alli eftes como outros tiros defpingardões, que fe ho iungo não fora cercado darrõbadas nenhú dos q hião nele efcapara de ferido ou morto. E cõ tudo António dabreu foy ferido dhú tiro defpingardão que lhe deu polas queyxadas, & lhas paffou quebrandolhe a mór parte dos dentes & leuandolhe hú pedaço da lingoa. E fabendo ho gouernador mandaua poer 5 feu lugar Pero dalpõem & Dinis fernandez: do que fe ele agrauou, dizedo que eftaua ainda viuo, & tinha pés pera andar, & mãos pera pe¬ lejar, & lingoa pera mandar 0 que fe hauia de fazer, que em quãto teueífe vida nã auia dalargar ho lugar a ningué, que da cama mandaria o q fe fizeffe. E coifto não quis ho gouernador poer outros capitães no júgo: & vedo q ele eftaua ja perto da põte & Õ nado que podia furdir auante cõ qualquer toa, & que fe mais dilatafle ho cometiméto da cidade que lhe meterião ho júgo no fundo, ou lhe matarião quãtos hião nele, determinou de a étrar. E auédo dezaíTeys dias q a cometera da outra vez, chamou a cõfelho, & diíTe a todos os q nele eftauão. Deos noffo fenhor he muyto boa teftemunha, q da primeira vez q cõ fua ajuda, & por voffo esforço étramos a cidade: eu a tornei a alargar cõtra minha võtade, affi por não irmos prouidos pera ficar, como por vos affi parecer bem, porque doutra
Livro III, Capitolo LVIU *47 maneyra eu me não tornara aa frota, pofto que foubera perder a vida, porque nela não fe perdia nada pois cada hú de vos pode ter ho cargo q tenho. E em perderfe efta cidade, fe perdia muyto fem comparação, affi do feruiço de Deos nolfo fenhor, como del rey de Portugal, cujos vaf- falos fomos, porque ela he fonte de toda a efpeciaria, droga & riqueza de todo mundo: pouoada dos mais ricos mercadores que ha nele, viueiro do trato dos mouros que morão em todas as terras defcubertas na índia & fora dela, de que fe todos mantém, & com que fe todos foítem, por¬ que fem Malaca não podem tratar em tantas partes como tratauão, nem podem abaftar ho Cayro, Alexandria & Veneza de tanta efpeciaria, droga & riqueza, porque ela he a fonte de que corria pera Calicut antes que os noífos conquiítaffem a índia. E lançados os mouros fora de Malaca, não fomente fe apagara ho fogo da feyta de Mafamede que não laure mais por diante, mas ainda parece ho mais certo caminho que pode ler pera os mouros defpejarem a índia, porque defpois que lhe tirarão a mama de Calicut, fe lhe tiramos efta não tem mais com que fe mantenhão, pois em todas eftas partes fe não fabe outro de que fe tire efpeciaria, fe não defte que he a principal coufa com que tratão, & tomandolho nos com a def- pefa que fe fez na armada que irouuemos, efcufamos fazerenfe outras muytas, & muyto grandes em continuas armadas que fera neceífario an¬ darem no mar pera defenderem que não leuem a Meca tanta riqueza como leuão, o que podeis bem ver por oyto naos que aqui temos toma¬ das que leuão mais que vinte das noífas, pois que fara em quantas daqui partem cada dia a fora as dos eftranjeiros: & efte he ho caminho por onde hia mais pimenta a Meca que de Calicut. E com efta chaue de mea volta, que he tomar Malaca fe çarra efte caminho, & el rey meu fenhor fica fenhor de tudo: & pofto que Malaca feja muyto grãde, & pareça tra- balhofa de fofter, iffo feria fe ho rey dela teuelfe mais terra donde le podelfe reformar o que ele não tem, le não fe a perder fica de todo perdido, & que me digais que tomada por força fe defpouoara dos mer¬ cadores gentios, & defpouoada deles não prefta mais pera nada, ne auera hi mais mantimentos, porque por amor deles os trazem de fora. Digouos que abafta que fique Ninachatu, & feus parentes & amigos, a que por amor dele tenho dado feguro, que confiados nele hão de ficar, & eftes farão tornar os outros que eu fey que hão de permanecer, porque como eles eftauão coftumados a viuer debaixo do poder & tirania dos malayos, fem verdade & fem juftiça, defarrezoados & foberbos, & goftarem da noífa juftiça, verdade, & frãqueza, manfidão, & brandura, & a maneyra de que el rey meu fenhor manda que tratem aos que fe fazem feus val- falos neftas partes: & não digo eu tornarem eles a pouoar Malaca, mas
Hijloria da índia 148 da índia virão outros a viuer nela, & farão as paredes douro. Todas eftas coufas que ditas tenho vos pus diante, pera me dizerdes outra vez, fe vos parece bem fazermos fortaleza nefta cidade: porq he minha determinação de em quanto gouernar a índia não defembarcar com gente, nem pelejar fe não no lugar que ouuer de fofter cõ fortaleza, porque auenturar a per¬ der gente em coufa que não ha mais que tomala & deixala, não me pa¬ rece que he feruiço del rey meu fenhor, aueturar a perder hú homem por quanta riqueza fe pode ganhar. Ouuidas todas eftas coufas polos do confelho, a moor parte deles fe aífirmarão q fe deuia de tomar Malaca & fazer fortaleza, & iãçar os mouros fora, a outros lhe parecia muy dura coufa de pelejar cõ tanta gente quãta tinhãc vifto na cidade, & muyto mais dura fazer fortaleza, & dizião q vendo os ímigos que lhe entrarão fuas tranqueyras, as tornarião a fazer tão fortes que as não podeífem os noffos entrar fem muytos perderem primeyro a vida, & que os que ficaf- fem a perderião também defpois por fer muy demafiada a multidão dos immigos q auia dentro, que com as frechas heruadas os matarião todos: & pofto que fe tomafle a cidade, que os noíTos auião de ficar taes da ba¬ talha, que ficarião mais pera jazer em cama que pera fazer fortaleza, em que fe não deuia de falar per fer ho tempo muy curto pera tornarem a índia na moução: & que lembraffe ao gouernador quanto importaua tor¬ nar laa ãtes do inuerno por ho perigo em que ficaua Goa fe ho Hidalcão tomafle fobrela. E porem como os outros que dizião que fe tomafle Ma¬ laca erão mais, não fe tomou ho parecer deftes, & difle ho gouernador que ele tinha por fem duuida que noffo fenhor queria que fe tomafle Ma¬ laca, pera que ho feu fanéto nome ali fofle louuado & exalçado, & ho final que tinha diflo era, que fendo os mouros tão auifados & fefudos, & tendo prouadas fuas forças com ficar defbarados, & fem efperança de focorro de nenhúa parte querião ainda guerra, que noffo fenhor lhes ce- gaua os entendimentos pera que não entendeflem o que fazião. E aflen- tado que fe pelejafle, determinoufe que ao outro dia que era fefta feyra dez dias Dagofto, duas horas antemanhaã com a preamar cometeflem a cidade, & ho jungo abalrroafle a ponte, & juntamente poyafle ho gouer¬ nador em terra com fua gente da banda da pouoação dos mercadores, & que não fayfe em duas partes como da primeyra vez, porque os immigos eftarião melhor apercebidos pera fua defenfam do que então eftauão: & pera que a gente fofle mais aa fua vontade, fofle também a galee & a carauela latina. E pera que fe impidifle que os immigos não acodiflem tantos a defender a ponte, que hirião com ho gouernador duas barças com algúas peças groífas dartelharia, que como ho jungo aferrafle a ponte porfehião dambas as partes da angra a tirar aos ímigos que acodiflem,
Livro III, Capitolo LIX *49 & goardarião as coftas aos noflos que auião de trabalhar em húas tran- queyras que ho gouernador auia de mandar fazer pera fua fegurança. CAPITOLO .LIX. De como ho gouernador defbaratado ho poder del rej- de Malaca lhe tomou a cidade, & ho fe\ fugir dela. AO dia feguinte, dia do bem auenturado mártir fam Lourenço duas horas ante manhaã forão todos os capitães a bordo da capitayna com lua gente embarcada nos bateys, onde feyta a confiífam geral, & alfoltos per hum clérigo, partirão pera a cidade com preamar: & fe muytas bõbardadas & efplgardadas teuerão da outra vez muytas mais teuerão defta, porem nã deixarão de paliar auante, & ho jugo parecia húa torre com fuas arrobadas & feteiras, & artelharia por proa, & por ambas as bandas, & com hú malio & gauia, & nela muytas lanças, & arteficios de fogo & pedras, & em chegando â ponte abalrroou logo coela por mais que fe os immigos defederão, ãtre os quaes a reuolta era inuy grande, hús por defenderem a ponte dos que hião no iungo, outros por defender a defembarcação do gouernador: & erão as bombardadas & efpingardadas tantas da tranqueyra, a q os noflos hião defembarcar, que parecia que a cada pao eftauão duas bõbardas, & a cada bõbarda cinco efpingardoes. Com tudo ifto os noflos romperão auante, & poyarão em terra cÕ grande arroydo de gritas & tanger de trobetas: & nifto começão de chouer da trãqueyra grande multidão de frechas, de zarauatanas & darcos, & muytas pedradas, & lanças darremeflo, & ferirão bem oytenta dos noflos.: mas eles a fora ferirem fem cõto dos ímigos, matarão muy- tos, & como eles erão muito mais dos que os noflos podião ferir & matar, defenderanfe hú boõ pedaço primeyro que os entraflem. Entrada efta tranqueyra, apartaranfe logo Dinis fernandez, Iorge Nunez de lião, Nuno vaz de caftelo branco & Iames teixeyra, que por mandado do gouernador hião ordenados pera ganhar a mezquita com a gente de fuas capitanias, & afli fe apartarão outros q també hião ordenados pera cometer a tr㬠queyra que atalhaua a rua grande da cidade, porque não acodiflem ali os immigos, de que morrerão nela muytos pola defender, & por derradeyro ficou dos noflos. E deixando ho gouernador nela os capitães que digo cÕ corpo de gente, foy logo com a gente de fua bandeira dar coftas aos ca¬ pitães a q mandou tomar a mezquita, & eftes quando forão acharão ja defpejada a ponte por Antonio dabreu, que afli como abalrroou coela afli a axorou dos immigos que não oularão defperar os tiros que ho iungo
i5o Hijloria da índia leuaua por proa, & recolheranfe aa tranqueyra que eftaua daquela banda antre a ponte & a mezquita: & os noffos capitães que hião tomar a mez- quita, derão naquela tranqueyra, onde os immigos forão tão apertados, afti dos noflos por diante, como da artelharia das barças que jugaua por detrás, que alargarão a tranqueyra & foranfe retirando pera a mezquita, & os noffos apos eles: de maneyra que indo ho gouernador pera lhe dar coftas, achou que leuauão os immigos de vencida. E nefte tempo acodio também el rey de Malaca pera ajudar os feus, & hia fobre hum alifante: & quando foube ho termo em que a coufa eftaua, fez volta pera os feus paços, & hião coele obra de tres mil homens apadeffados os mais deles. E Dinis fernandez de melo q hia na dianteira dos noffos como chegou aa mezquita (que e/taua defpejada) não quis paffar auante, nem feguir el rey pofto q chegou perto de fua gete, porque tinha o gouernador defefo a ele & aos outros q não paffaffem da mezquita por coufa nenhúa: & também fegúdo fe defpois foube não quis Dinis fernandez, & os outros capitães feguir a gente que hia com el rey, porque por outra rua grande parecia infinda gente dos immigos que lhes ficaua nas coftas fe feguiffem el rey. E vedo ho gouernador ganhada a mezquita, deixou 5 goarda dela Nuno vaz de caftelo branco, Iames teixeyra, Dinis fernandez & Iorge nunez de lião, & tornoufe â pote a fazerfe forte, onde achou ja fora do jungo pipas, enxadas, pâs & cordas que Antonio dabreu tinha mandado tirar pera fe fazer das pipas cheas de terra húa trãqueyra no cabo da ponte da banda da cidade, & outra da banda da mezquita: & entre tãto que fe as pipas enchião entrarão pera dentro da ponte as barças com a artelharia, que poftas dhú cabo & do outro varejauão cõ os tiros fortemete & goardauão as coftas aos noffos que trabalhauão nas trãqueyras da cidade que forão feytas breuemente, porque não fométe os baixos, mas os altos trabalha¬ uão a que mais podia, & cõ muyto prazer cauauão area, & tomandoa âs coftas enchião as pipas, & delas & de algúa madeyra fizerão duas tranqueyras, & é ambas foy affétada artelharia: & forão feytos toldos na ponte & no jungo pera fe apoufentar a gete. E entre tanto que fe efta obra fazia, os Imigos fazião affaz de nojo aos noffos cõ fua artelharia & efpingardões, prlcipalméte da banda da pouoação grãde, onde tinhão as bombardas & efpTgardões poftos fobre os terrados das cafas, & a eftes não podia a noffa artelharia fazer nenhú nojo. O que vedo ho gouerna¬ dor por atalhar ao que fazião, mandou a Gafpar de payua, Fernão perez, Simão dandrade, Pero dalpõem, Antonio dabreu, do Ioão de lima, Ayres pereyra, Simão martlz & Simão afonfo, que repartidos em duas partes foffem com fua gente por duas ruas da cidade, & q a correffem toda, & não deífem vida a coufa nenhúa. E ele pera os fauorecer fe pos em corpo
Livro III, Capitolo LX i5r na rua principal com Baftião de mirada, Duarte da íilua, Ioão de foufa, Iorge botelho, & Afõío peffoa. Entrados eftes capitães pola cidade, achara logo algúa refiftecia nos immigos, cõ que apertarão tão oufadaméte que os leuarão de vencida, & metendofe pola cidade, matarão tanta gente do pouo que não fe pode crer, & com preífa fe lançarão muytos ao mar, parecendolhe que laa fe faluarião, & afogoufe a mayor parte, & a outra foy morta por algús dos noífos que acodirão em dous efquifes a fazelo: & defta maneyra forão defapreffados, & acabaranfe as tranqueyras. Re¬ colhidos os noífos capitães de fazerem efta deftruyção na cidade, mandou ainda ho gouernador tomar duas cafas junto com a pote da parte da po- uoação grande & -afleftar artelharia nos terrados, & baftecelas de gente com capitães: & ho mefmo fez na mezquita, & forão os capitães, Iorge nunez, Nuno vaz, Dinis fernandez de melo, lames teixeyra, Ayres pe- reyra & Baftião de miranda, & algús dos bateys mandou entrar pera dentro da ponte, porque goardaífem de noyte ho rio, & mandou aos q eftauão neles que tiraffem os tiros que podeífem em cada quarto da vigia, & os outros mandou os pera a frota, pera que a gente do mar que hia neles a ajudaffe a goardar aos bombardeyros q laa ficarão: & neftas obras que digo fe gaftou todo ho dia. E vinda a noyte que ho gouerna¬ dor fe auia de recolher na pote, foy primeyro vifitar os noífos feridos que eftauão agafalhados no júgo, q não forão mais que os q dilfe, & nenhu nã morreo, & dos immigos forão mortos fem conto. CAPITOLO .LX. Do q ho gouernador fe{ em Malaca defpois de a ter ganhada de todo, & do que el rey fe\ defpois que a perdeo. VInda a noyte q ho gouernador fe recolheo com a gente bé canfada de tanto trabalho como leuou aqle dia, aífentou com feus capitães de ao outro dia é amanhecendo cometer a pouoação onde el rey viuia, ele não cometeo no mefmo dia que ganhou a põte, porque em . a fortalecer fe gaftou a parte que ficaua por paífar defpois de ganhada. E como ho gouernador fabia ho grão poder de gente q el rey tinha con- ligo, & quão boa era de guerra, & quão bé armada: & ele quão pouca tinha, pareceolhe q era melhor irfe metédo pola cidade pouco & pouco a laluo da fua gente, que meterfe de roldão cõ perigo de fe perder. E aqla he a prudência do boõ capitão tomar por manha o q não pode ganhar por força: que fe ho gouernador quifera logo efbarrodar quiça q fe per¬ dera fegúdo os jaos com que auia de pelejar iam determinados, & mais
Hijtoria da índia 152 eftando a foldo del rey que os auia danimar a pelejará por amor do grade tefouro que tinha, & fabia que entrando os nolfos as fuas cafas lho auião de roubar. E ilto que os noflos fabião os fez muy aluoroçados pera ao ouçro dia cometerá a pouoação onde viuião el rey & ho príncipe com feus mãdarins, que fam os fidalgos. Porem el rey não quis efperar efte cometimento, que bem lhe pareceo que auia de fer como amanheceffe: & como fabia que aos noffos não fe tinha nada, não quis perder ho tefouro pois perdia a cidade. E aquela noyte ho mandou carregar á alifantes, & partiofe ãte manhãa cõ ho príncipe, leuando configo efles capitães que lhe efcaparão na batalha, & afli os gouernadores da terra & feus manda¬ rins, q todos leuarão fuas famílias, & foyfe el rey meter polo fertão á quintaãs coeíta gente ate ver o que ho gouernador determinaua, q lhe parecia q nã quereria mais q roubar a cidade & irfe. E partido el rey foube ho ho gouernador em amanhecendo, & acodio logo com grande preflã, mandãdo diante efles capitães com fua gente, q quando fobirão ao oyteiro onde el rey moraua virãno ir tão longe que delefperarão de ho poder alcançar, & por iffo ho não feguirão, & ficarão tão agaftados de fe lhes ir afli el rey com feu tefouro, que fe quiferão vingar em queymar as cafas del rey & do principe, & dos mãdarls, & poferãlhes ho fogo: do que pefou muyto ao gouernador porq fabia quanto fato auia dauer den¬ tro, & quando quis mãdar apagar o fogo ja era tudo ardido, & perdeofe ali muyto mouel & muy rico: & por iffo ele defádeo cõ grãdes penas q ninguá não pofeffe mais fogo, & como os mouros acabaffá de defpejar a cidade, q ele a mandaria roubar. E á algús dias q fe paffarão niffo, fápre o gouernador efteue na pote & no jugo, & á algúas cafas, e fápre armada a gête de dia & de noyte cõ grãde vigia, porq os Imigos como nã podião logo defpejar por ferá muytos dauã muytos rebates. Neíte tápo pedirã os mercadores Pegíis feguro ao gouernador pera hirem a fua obediácia, & derãlhe quinhentos cruzados porque lhes não mandaffe bufcar os feus jugos, que erã feys, & ficarão em fua amizade: & apos eles lhe foy Ti- mutaraja falar & ántregarfelhe por feruidor del rey de Portugal, & feu: & diffelhe que hú filho feu que fora na batalha fora muyto ferido. Deffa- preffado ho gouernador dos rebates dos Imigos, deu lugar que roubaffem a cidade, faluo as cafas de Ninachatu, q eftaua coele do primeiro dia q ganhou a ponte. E repartidos os noflos em quadrilhas roubarão a cidade, & com quãto fe não bolio com as cafas dos Quelins, nem dos Pegus, nem dos Iaos: fomente nas dos Malayos & Guzarates, & outros eftran- geiros, fe achou muyta & muy groffa riqza de mercadorias, & acharanfe foterrados trinta & cinco marcos douro & vinte cinco de prata, & em hú almazem del rey fe achou infindo metal, & afli forão tomados paffante
Livro III, Capitolo LX i53 de dous mil tiros dartelharia de metal & algús poucos de ferro: & antre efta artelharia de metal fe achou húa bombarda groffa, que dize que el rey de Calicut mandou a el rey de Malaca, & affi forão tomadas muytas armas: & com o que fe tomou na cidade, & mercadoria que fe tomou no porto, affi nas naos de Cambaya & em algús jungos, & algús jungos que fe venderão, & outros que ficarão pera el rey, & affi em clco mil fardos darroz, ficarão pera el rey pagas as partes da géte paífante de duzentos mil cruzados, a fora muytos efcrauos & efcrauas que fe toma¬ rão nefte defbarato & defpois dele. E porq ho gouernador affeífegaffe a cidade & fe tornafle a pouoar como dantes, fez gouernador & juftiça dos Chatls, qlls, a Ninachatu, & affi de todos os outros gentios de Malaca, & també por lhe pagar quanto feruiço fizera no fauor que dera a Ruv daraujo & aos outros catiuos, & affi naqla guerra é lhe dar auifos das determinações dei rey de Malaca. E dos mouros fez gouernador a Te- mutaraja, que feria homé doytenta annos, & coeftes dous fe aífelíegou ho pouo de Malaca, & fe tornou a pouoar como dantes de mercadores, faluo dos Malayos, q eftes não queria ho gouernador confentir na cidade, nê onde os noffos os achauão lhe dauão vida. Neíte tempo foube ho go¬ uernador como el rey de Malaca fe fora apoulentar oyto legoas de Ma¬ laca ao logo dhú rio q fe chama Muar, & deixou ho príncipe feu filho com feu arrayal, efperando como digo que deixaífe ho gouernador a cidade: & por ho arrayal do príncipe eftar perto do rio, mandou fazer nele eftacadas muy fortes porque os noffos bateys não podeífem lâ ir, & mais porque teue noua q Lafamane eftaua perto de Malaca com fua ar¬ mada, & affi el rey da ilha de Linga que era fugeyto a el rey de Ma¬ laca, caualeyro mançebo, & muyto esforçado, & vinha focorrer a el rey de Malaca, & quãdo fouberão que ho gouernador eftaua de poffe da cidade tornaranfe. E fabédo ho gouernador a eftacada que ho príncipe mãdara fazer, mandou logo là Gafpar de payua, Fernã perez, Simão dãdrade, Ayres pereyra, Frãcifco ferrão, Iorge nunez & Ruy daraujo, que afora a géte dos noffos leuarão mil & nouecétos homes da terra .f. mil Iaos q deu Temutaraja, feyfcétos getios q deu Ninachatu, & trezé- tos Pegús q derão os fenores dos iúgos de Pegú. E eftes capitães che- gãdo ás eftacadas as arrãcarão, & o prlcipe como o foube fugio pera õdeftaua feu pay & ãtes q fe Ieuãtafie o feu arrayal derã os noffos nele, & tomarãlhe fete alifãtes cõ feus caftelos de madeira & fuas feelas com andores deftado lauradas de marfim, & pintadas douro de pao muy bem affentado, & tltas de muytas cores, & leuarão tudo ao gouerna¬ dor, que andaua ocupado em fazer húa fortaleza de madeyra onde eftaua a mezquita, & por détro defta fortaleza no mefmo dia em que fe come- Tomo ii 20
>54 Hijloria da índia çou, mandou abrir aliceces doyto pês de largura pera ho muro dou¬ tra de pedra & cal, & quis fazer primeyro eíta de madeyra, porque fe auia dacabar primeyro que a de pedra & cal, que fe fazia de cantaria, adi de fepulturas nobres como da mezquita, & doutros edifícios de que ho gouernador não fabia parte nem Ruy daraujo lhe foube dar rezão de¬ les, & achoufe cantaria, & tão fermofa que não podia mais fer: & muy- tas deitas fepulturas q erão de reys antigos eítauão metidas debaixo do chão, que 1'orão tiradas com muyto grãde trabalho: & aífi acharã outra pedra de cabeça de que fe fazia cal. E pera eíta obra em que os noífos trabalhauão muyto, foy grande ajuda pera os aliuar do trabalho muytos malayos efcrauos, antre os quaes entrarão muytos efcrauos cafados com molheres, & filhos que forã del rey de Malaca, q os Iaos & Chatls hião bufcar por effes matos por mãdado do gouernador, & ãtreles trouuerã outros malayos principais que ho gouernador mãdou jufliçar por faber claramente que forão culpados na morte dos noífos que forão mortos em tépo de Diogo lopez. E vendo quatro mercadores dos principais de Ma¬ laca que eítauão com el rey ho fundaméto que ho gouernador fazia da cidade, & fabédo como fe tornara a pouoar tornarãfe parela fugindo a el rey, que neíte tépo eftaua em muyto grande necefíidade de mantimé- tos porque não auia dõde lhe foífem, & era a fome tamanha em Muar q os feus efcrauos lhe fugião pera a cidade, & ele & ho prlcipe fe ouuerão dapartar por jornada de tres dias hum do outro, & nã lhe aproueitou, que crecia a fome de cada vez mais. E vendo eles que a fua gente os deixaua por effa caufa, & defefperados de tornar acobrar Malaca tão afi- nha, porque não ficaífem fòs de todo foranfe pera ho reyno de Pão, cujo rey como diffe era gérfo del rey de Malaca, onde fegúdo defpois foy dito ao gouernador morreo elrey de Malaca de fruxo de fangue, & ho prín¬ cipe fe chamou dali por diante rey de Malaca, & fe tornou a Muar leuando muytos mantimentos & gente, & ali fe fez forte com tranqueyras, & com artelharia. CAPITOLO .LXI. De como o gouernador por apagar a moeda dos mouros em Malaca, mandou laurar moeda: & da solenidade com que foy pregoada. TOrnada Malaca apouoarfe como dantes, eítauão todos feus mora¬ dores muyto contetes da juítiça em q ho gouernador os mantinha, & da verdade q achauão nos noífos, & dizião que ateli nã ouuera nuca aquelas duas coufas em Malaca, & que eítauão feguros dos roubos paífados, principalmente ho pouo que era mais tirãnizado. E coeíte con-
Livro III, Capitolo LXI iSS tentaméto mãdarão os mercadores feus jugos carregados pera os portos onde os cuftumauão de mandar, & dali por diante hião muytos a Malaca carregados de mantimentos & defpeciaria, com o q ela eftaua muyto abaf- tada & rica, & porq nela não auia moeda fe não dos mouros, determinou ho gouernador de a mandar fazer, a(Ti pera apagar de todo a dos mou¬ ros, como pera que mandaffe poer na que fe lauraffe as infiniàs reaes del rey feu fenhor. E tomado fobriflo ho parecer dos Chatins gentios, & ou¬ tros homes honrrados moradores da cidade, mandou logo laurar moeda deftanho, & de duas moedas pequenas q fe chamauão caixas, mãdou fazer húa a que pos nome dinheiro, & de dez dinheiros outra, a q pos nome foldo, & outra de dez foldos, a q pos nome baftardo: & porque não auia moeda douro nem de prata, nem nunca a ouuera (fenão por pefo fazião os mercadores fuas compras & vedas) determinou cÕ cõfelho dos q digo de mandar fazer moeda douro & de prata, & â do ouro foy pofto nome ca- tholico & pefaua mil rs, & a de prata outro tanto, & chamoufe malaques, & ambas forão do mais fino ouro & prata q fe poderão afinar: porque auia homes que fabião fazer prata baixa & alta, & adi ouro. Acabada de fazer aquela quãtidade de moeda, que pareceo ao gouernador que abafta- ria pera começar dapagar a dos mouros, mãdouha apregoar defta ma- neyra. No alifante del rey cõ feu caftelo cuberto de veludo, hia aruorada a bandeyra real, & dentro no caftelo hião Antonio de foufa de Santarém, & hú filho de Ninachatu cada hú veftido à lua maneyra muyto ricos & galantes, & diãte deles algús alifantes adeftro com feus caftelos també cubertos de panos de feda, & diãte hião os nollos trombetas & outros muytos inftormentos da terra, & hião dous pregoeiros que pregoauão em lingoa malaya, que aquela moeda era a que mandara laurar ho muyto alto & muyto poderofo rey dõ Manoel rey de Portugal & de Malaca pera proueito dos feus moradores, & q ho feu capitão mòr & gouernador da índia mãdaua em feu nome que dali a vinte dias não correffe mais a moeda dos mouros fopena de perdimento da fazéda. E dando efte pre¬ gão tocauão as noffas trombetas, & delpois todos os outros inftormétos, & Antonio de Soufa com ho filho de Ninachatu efpalhauão decima do alifante a moeda afli douro como de prata & eftanho, & afli correrão toda a cidade acõpanhados de gente fem coto, que hião pafmados da grande folenidade cõ que efta moeda foy apregoada. Ifto acabado man¬ dou logo ho gouernador poer caibo da mefma moeda que fe apregoou, & coiffo foy apagada a dos mouros, & dali por diante correo a Portu- guefa.
i56 Hijloria da índia CAPITOLO .LXII. Em que fe defcreue lio grãde reyno de Syão, & de como el rey de Sião mandou hum embaixador ao gouernador. OS capitães chins que leuarão ho meffeieiro do gouernador pera elrey de Sião: partidos de Malaca fizerã feu caminho via da china, & daqla bãda paiTando ho eílreyto que fe chama de Cin- capura, entrarão em hú grande rio, & dahi fe forão nos paraos dos feus jungos pelo rio acima ate húa grande cidade q fe chama Vdiâ onde eftaua elrey de Sião, que he muy grande fenhor, affi de terra como de géte, & foy ja mayor porque começaua na cidade de Tenaçarim em paflando Pegu, & dali indo ao longo da cofia fe eftendia ate a pota de Cincapura, de modo que tomaua do mar da enfeada de Bégala ate a outra enfeada em que a cofta faz volta pera a China: & de TenaçarI cortaua dereyto pelo fertão ate a mefma enfeada, em que entraua ho reyno de Malaca, ho de Pão & outros reynos q fe lhe aleuantarão, & eftão fora de fua obe¬ diência. E com tudo he muy grãde fenor, & tem muytos & bõs portos em ambas eflas cofias, & todos fam grandes cidades em q fe tratão muy- tas & muy ricas mercadorias. Em todo efte reyno geralmente ha ouro, prata, beijoim q he rezina daruores, lacre, eftanho, a que os da terra chamão calim, almizqre, & a(Ti muytos mantimetos: chamaffe Sião por amor da principal cidade que fe chama affi, que ellâ metida pelo fertão trinta legoas ao longo dhú rio tão largo & tão fundo, que nadão nele jun¬ gos carregados, he cidade muyto grande & populofa, & de ricos & fer- mofos edifícios, & de muy groflo trato, abaítada em grãde auõdança de muytos mantimentos, he ho principal afíento dos reys deíle reyno, & tê aqui hús riquiffimos paços & muy deleytofos com jardins de diuerfo ar- uoredo, & de muytos generos deruas cheirofas, & de muytos canos dagoa & tanques muy apraziueis, & cafas douradas de dentro & de fora. Efle rey de Sião como digo he muy rico de thefouros, grão fenor de terra, muy poderofo de gente, affi de pé como de caualo, & te muytos alifantes de guerra, he gentio, & affi ho fam todos os de feu reyno tirando os dos portos de mar que fam mouros: & eíles fe vão negociar ao fertão não lhe conlentem leuar armas: té os gentios deíle reyno coílumes muy def- uairados das outras gétes. Dão as filhas a quem lhas gaba de fermofas, quando algum morre feus parétes ho come affado, & affanno em tres paos q eftão empinados, & juntas as pontas húas com as outras, & no meyo hú gãcho de ferro em que ho morto eítâ dependurado polas curuas
Livro III, Capitolo LXII i57 fobre húa grade fogueyra, & em quãto ho afiam ho chorão os filhos fe os tem, & defpois da fiado começão de comer & apos eles os outros, & queymao os oííos naquela fogueira: & a rezão que dão porque fazem ifto, dizem que porq fua própria carne não pode ter melhor fepultura que eles mefmos. E chegando os capitães Chins a efta cidade Dudiâ onde eítaua el rey de Sião, mandarãlhe dizer do porto como lhe trazião hú melfajeiro do gouernador da índia por el rey de Portugal q ficaua em Malaca, & logo foy aos paraos dos chins hú capitão del rey de Sião com duzentas lancharas cheas de muyta gête: & fabédo do noflb meífejeiro ao q hia mãdou o dizer a el rey, que lhe mandou que lho leuafle: & afii ho fez, & forão coeles os capitães chins acompanhados de toda a gête das lãcha- ras. Indo ho nofio mefiejeiro pela cidade, afii por ir com grãde fefta, como por fer home de nação, & trajo tão nouo naqla terra todos fayão auelo: & acompanhado de grande numero de gente foy ter aos paços del rey, que achou em húa grande fala afientado em húa cadevra alta deitado dourada, & a fala paramentada de borcados, & ele veftido muy ricaméte ao modo chim: & todas fuas molheres & filhas aífentadas dhúa banda & da outra da fala, acompanhadas de fuas damas atauiadas de borcados & de fedas & com muyto ouro & pedraria. E recebido ho mefiejeiro del rey com muyto gafalhado, deulhe a efpada & a carta: & com tudo folgou muyto, principalméte defpois que ouuio o que dizia na carta que lhe ho mefiejeiro Ieo, & preguntou muy miudamente pelo que ho gouernador fizera em Malaca, & por el rev de Portugal, & leu eftado de que ho mef- fejeiro lhe deu rezão, porque era difcreto: & por lhe el rey fazer horra lhe mandou moftrar toda a cidade, & afii hú alifante branco que não ha outro no mundo, & té el rey ilto em tãta eftima q fe chama fenor do ali¬ fante branco. El rey ficou tão contente do q o gouernador fez em Malaca, q determinou de ter amizade coele, & mãdarlhe feu embaixador fobriflo, & pera fazer coele paz em nome del rey feu fenhor, & defpachou logo ho meífejeiro que auia de tornar cÕ os capitães chis, & mãdou coeles feu embaixador. E afii fe partirão todos daqla cidade & forão por terra ate os baixos de Capacia, & ali fembarcarão e tres panguejaoas cõ que che¬ garão a Malaca, onde ho gouernador tinha os muros da fortaleza em tal ponto que começauão de fazer as ameas, & eftaua muyta artelharia aífen- tada. E os capitães chins lhe entregarão ho mefiejeiro, dizédo q tinhão comprido o que deuião. E ho meífejeiro lhe trouue húa carta del rey de Sião parele, & hú anel com hú robi, & hum eftoque douro, & húa copa douro. E a mãy del rey de Sião lhe mandou húas manilhas de pedraria & tres bucetas douro, & pera el rey de Portugal húa carta do mefmo rey de Sião felada & çarrada: & na carta do gouernador lhe daua el rey
Hijloria da índia i58 muytos louuores fobre ho feyto de Malaca, que tinha por muyto grade, offrecédo feu reyno, fua pefloa, fua gente pera feruiço del rey de Portu¬ gal, & afli os mantimétos & mercadorias que foíTem necefTarias de fua terra pera iffo, & dandofe por muyto grade amigo do gouernador, & ou¬ tras muytas coufas damizade. Ho gouernador fez muyta honrra ao em¬ baixador del rey de Sião, & ouuiolhe fua ébaixada, & por não fer tépo pera fe partir pera fua terra ho não defpachou logo: & afli fez muyta honrra aos capitães chins a q fez- merce em nome del rey feu fenhor. Apos efte embaixador chegou outro del rey da Iaoa, que he húa ilha grande q eítà da banda de leite da ilha de çamatra, & tão perto que fe apartão ambas per hú canal de dez ou doze legoas de largo que te muy¬ tas ilhas peqnas, & antrelas eítà çunda que he pedaço da de çamatra, em que ha muyta & muy boa piméta, & paffada çúda eftâ pera leite a ilha da jaoa, q jaz leite oeíte. A coita da banda do norte fera de céto & fetéta legoas, & a do fui não he alda difcuberta, & por iffo chamão os mari¬ nheiros ao q he difcuberto ho meyo deita ilha: te na parte difcuberta muytos portos q fam cidades grãdes .f. Tuba, Panaruca, Cidayo & AgacI, & eite he ho melhor porto & de moor trato. He eíta ilha a mais abaf- tada darroz, carnes, afli faluajés como domeiticas que fe fabe no mundo, & afli doutros mantimétos & todos muyto baratos, nace nela piméta, ca¬ nela inda que tão delgada como papel, gingibre, ouro & cobre. A géte do fertão deita ilha fam gentios, & os dos portos do mar mouros: fam os naturais da ilha baços, groffetes aparrados & mal feytos, poré as mo- lheres fão aluas & de boÕ carão, & de fermofos corpos, grãdes muficas & engenhofas, & tratanfe muyto bé. Os homés andão nuus da cinta pera riba fem nada na cabeça, trazem os cabelos tofões & arrepiados pera cima, & as barbas peladas, o que cuítumão por galãtaria: a mayor jura que faze he por fua cabeça, & dizem que não ha dauer fobrela nada, & matão quem lhe põe a mão fobrela, & por não andarem hús mais altos que os outros não faze cafa de fobrado. São muyto foberbos, métirofos & tredoros: fam muyto oufados & pelejão fem medo. Suas armas fam boas lanças compridas de ferro, de folha doliueira fem efpigão, traze ou¬ tras armas q chamão crifes que lhes ferué como a nos as adagas, traze cimitaras como turcos, & padefes de pao muyto leue & eitopento que os cobre dalto abaixo, traze zarauatanas cÕ que tirão frechinhas de palmo heruadas, & arcos tão compridos como arco de pelouro de corno de bu- faro de duas peças, não eítimão a vida por matarem hum grão fenhor, & fe adoecem promete a Deos de tomaré outra morte mais hõrrada fe lhe der faude, & como fam fãos vanfe polo lugar õde morão & matão quantos topão ate q os matão. São tã foberbos q defprezão todas as ou-
Livro III, Capitolo LXIII iSg tras nações do mudo, & cré q não ha nenhúa tão boa como a fua: fam todos muy engenhofos é officios machanicos & grãdes artilheiros, & por iffo os eftimão muyto na índia, & fazem poluora, & fam bõs bõbardei- ros: faze muyto boas armas lauradas de tauxia & de motamo, & fazénas em horas & potos por feytiços de que fabem muyto, & dize que que as traz q não pode morrer em batalha né fer vencido, & faze outras q ma- tão como auentão fangue: & eílas que faze cÕ feytiços eltão em as fazer dez annos pera efperar pelos pontos, em q as hão de laurar, & eílas eíti- mão os reys muyto. São grãdes monteiros & caçadores, té muytos caua- los, caés & aues de caça, & leuão a caçar & a montear fuas molheres em carretas cubertas cõ fermofos leytos de maçanaria & dourados. Ho principal rey deita ilha he gentio, & mora no fertão, & he grã fenor de terra & poderofo de géte. Pola fralda do mar ha outros reys q fam mou¬ ros & obedecem a eíte gentio, & as vezes fe lhe rebelão & ele os torna a fugigar. Elte rey fabendo q ho gouernador tomara Malaca ficou muyto efpantado, & determinando de ter coele paz & amizade, lhe mandou fobriffo feu embaixador, q defpois de chegado a Malaca & darlhe fua em¬ baixada, lhe deu hú preferite da parte del rey, que forão húa duzia de lanças com fundas de pao muy bé pitadas metidas nos ferros: hú pano tão cõprido como hú bejrame, em que eílauão pintadas todas as fuas ba¬ talhas cõ fuas carretas cõ caítelos de madeyra q tirauão caualos, & ali- fantes armados com caítelos do mefmo, & el rey naqlas carretas com quatro bandeyras, & pintado com feu eítado, & cada coufa deítinta por fi, & tão natural que não podia mais fer, & deulhe vinte finos pequenos de fua vfança que fam de fuzileyra, & não da feição dos noífos, & tan- genfe cõ paos como atabaqs, & tãgedores coeles, q os tãgião acordada- méte. E ho gouernador folgou muyto cõ a ébaixada deite rey e cõ fua amizade por amor dos muytos mãtimétos q auia é fua terra, de q Malaca tinha neceffidade polos não auer nela, & fez muyta honrra ao embaixa¬ dor, & mandouho muyto bem apoufentar. CAPITOLO .LXIII. Dos muytos ebaixadores que vierão ao gouernador dos reys comarcãos de Malaca. NEstes dias chegou ao gouernador hú meffejeiro del rey de Cam¬ par que he hú peqno reyno na ponta da grande ilha de çamatra defrõte de Malaca, não ha nele fe não matas daruoredos que dão ho lenho aloes, a que na índia chamão calambuco: as aruores fam gran-
Hiftoria da índia 160 des, & como fam velhas cortãnas & tiranlhe ho lenho aloes, q he ho leu amego ou cerne, & ho de fora fe chama aguila. E ambos eftes paos fã de muyto preço, principalmente ho calambuco que vai na índia a pefo douro, & dão cheiro fuauiílimo esfregado ho ãtre as mãos, & a aguila queimado. Efte meflejeiro del rey de Cãpar, pedio feguro ao gouernador de fua parte, & afll húa bandeira das armas reaes pera lhe ir falar, que queria fer vaífalo del rey de Portugal, & ficaua no rio de Muar com dez lancharas. E dandolhe ho gouernador ho feguro & a bandeira, foy el rey a Malaca, & fezlhe ho gouernador grandiffima hõrra por fer aquele ho primeyro rey que naquelas partes fe fazia vaífalo del rey feu lenhor por fua võtade, & deulhe muytas dadiuas. E ele lhe deu de prefente pera el rey de Portugal oyto fardos de lenho aloes & aguila, & dous de lacre. E feyto vaífalo del rey de Portugal, fe tornou pera fua terra muyto con- tétç com muytas coufas que lhe deu ho gouernador, que também defpa- chou ho ébaixador del rey da Iaoa, outorgandolhe paz & amizade da parte del rey feu fenhor, com cõdição que ele deixaffe trazer pera Malaca os mãtimentos q os noífos quifeffem trazer, & mandoulhe peças de ve¬ ludo & dezcarlata, & hú alifante pequeno porque os eftimauão lâ muyto. També ho almirante do mar del rey de Malaca que fe chamaua Lafa- mane, homé difcreto & boõ caualeyro de idade doytenta annos fabendo ho fundaméto que ho gouernador fazia de fofter Malaca, & q ho rey velho que fora dela era morto, & feu filho não tinha efperança de a co¬ brar, determinou de fe ir pera ho gouernador, & mãdoulhe pera iífo pedir feguro & bãdeira. E ho gouernador lha mandou, fazendolhe muy- tos offrecimétos por fer da qualidade q era: mas ele não veo, & diffelfe q por lhe efcreuerem de Malaca que fe não fiaffe do gouernador porque ho queria matar. E ifto lhe efcreueo quem receaua que vindo ele ho tirafiem do mãdo q tinha & ho darem a Lafamane, q receofo de fua vida não quis ir a Malaca, & deixoufe eftar em.Muar com a armada q tinha, & cada dia vinhão ao gouernador embaixadores de muytos reys comar- cãos, aífi da terra firme como das ilhas: & erão tantos que fe não fiaua deles parecendolhe q hião mais a efpialo que a pedir paz & amizade. E era tão prudente que fempre fazia crer a eftes eftranjeiros que tinha muyta gente de guerra, tendo ele muyto pouca & a mais dela doente, & poré todos trabalhauão: de que os eftranjeiros fe efpãtauão muyto. E tanto fe eftédia a fama do gouernador por aquelas partes, que não^auia nenhú rey nem fenhor que não quifefle fua amizade, & ele a daua a todos. E com ho gouernador ganhar Malaca fe desfez quafi de todo ho trato da efpeciaria dos mouros do mar roxo, porque efta era a principal fõte de que a leuauão & nã de Calicut. E ganhada malaca ficou aos mouros
Livro III, Capitolo LXIIII 161 algúa efpeciaria q auião de Calicut, que era pouca coufa (a refpeyto da q leuauão de Malaca) por amor das noffas armadas que goardauão a cofta do Malabar: & era Malaca tamanha coufa q tinha neceflidade dou¬ tro gouernador com gente & armada como a índia, porq muyto mais mouros & muyto mais groffa riqza ha de Ceylão pera dêtro, & muyto mores mercadores & mais ricos do que ha na índia. CAPITOLO .LXIIII. De como PulatecSo êtrou híía noyte na ilha de Goa cõ grade poder de gête: & da treyção q ordenou aos nojfos. SAbédo ho Hidalcao q ho gouernador era fora da índia, & q Merlao tinha pouca gente nas tanadarias ondeflaua, determinou de lhas tomar, & pera iffo mãdou Pulatecão feu capitão cõ tres mil homês em q entrauão muytos turcos de caualo. E fabêdo Merlao fua ida, lhe fayo ao encontro cõ quatro mil piães da terra & trlta de caualo, & del- baratouho. E feguindolhe ho alcãço os turcos de caualo q hião fazendo voltas aos de Merlao, matarão Içarao feu capitão, & cõ fua morte ouue nos feus tamanho defconcerto q os turcos que hião defbaratados fe tor¬ narão a fazer ê corpo, & voltãdo fobre Merlao ho poferão em defbarato com tanta gente morta, q lhe foy forçado fugir & deixar a terra, q co¬ brada por Pulatecã cuydou detrar a ilha de Goa como da outra vez, & mandou cometer a gente da terra que fe leuantaffe contra os noffos, no- tificandolhe fua determinação de tomar Goa. E como na cidade ja nã auia fe nã getios, & eftauão efcaldados da deftruyção q ho gouernador fizera neles pola treyção paffada, não quiferão conceder na q lhe Pulate¬ cão cometia que fizeffem, antes Crifnâ ho diffe logo ao capitão, & como Pulatecão eftaua de poífe da terra firme: pelo que ele & Duarte de melo entenderão em goardar os paffos da ilha cÕ fuftas & bateys que tinhão, & affi húa caraueleta & hú carauelão q poferão no paffo de Naroá, porq por ali podião paífar, da terra firme á ilha de Goa, pera o q Pulatecão fe apercebia quanto podia tédo feytas fuas jangadas q fez em Antruz, & affi algúas fuftas de cayro que fez, pos em obra fua paffaje à ilha que fez meado Março é húa noyte de grãde efcuridão & tépeftade de vento & de chuua, affi como da outra vez. E porque fabia a grande vigia que os noffos tinhão no rio de Benaftarim & no paffo Dagacim, não quis ir a nenhú deles por não fer fentido, & lhe embaraçarem a gête como fizerão da outra vez que fe ouuera de perder, & foyfe ao ilheo dos bugios que eftá defronte Dagacim & perto dele, & dali cofteãdo a ilha pera Goa a Tono II 21
IÕ2 Hijioria da índia velha, fe meteo por efteiros & açudadas darrozais, onde defembarcou com grande parte de fua gête fem fer fentido dos noffos q vigiauão ho mar por eftarem apartados dali, & por a efcuridão da noyte fer grande, com que parece q enganados os noffos q goardauão ho paffo de Naroâ no carauelão & na caraueleta q não virião os immigos, teuerão tão má vigia que não fintirão algús capitães de Pulatecão, q por feu mandado tambê entrarão por ali, & derão tão de fupito nos noíTos que os matarão, & lhe tomarão ho carauelão, & a caraueleta. E Pulatecão efpalhou atfi os feus, porque os noíTos não podêdo acodir a todos os paffos da ilha en- traflem por algú, & por iflo os mãdou também entrar por Benaftarim, onde forão fentidos do tanadar, que com os que eftauão coele por ferem poucos fugirão logo pera Goa, & ho mefmo fez ho tanadar Dagacim, & os q eftauão no mar defpois que foy manhaã q fouberão que a ilha era entrada dos immigos, que aquela noyte entrarão tantos que quando foy foi faydo tinha Pulatecão mais de mil & quinhentos homês configo, & os outros não fazião fe não paliar da terra firme & ajuntarle coele em corpo: os da terra que morauão por ali ao derredor lhe forão logo dar obediên¬ cia. E como ele fe temia que os noffos por ferem poucos fenão atreuerião a pelejar coele em batalha campal, & fe auião de querer defender dos muros a dêtro cÕ que não poderia auer effeyto fua determinação que era tomar a cidade, intentou hú ardil com que não fométe os acolheffe fora dela, mas que fe lhe não podeffem lá acolher fe os defbarataífe, & m㬠dou a hú pião da terra que foffe ihuyto correndo a Goa & diífeffe ao tanadar mòr que em Goa a velha eftauão obra de duzentos mouros que entrarão a ilha, & que os Gãcares darredor vendo que não erão mais fe ajuntarão & os tinhão cercados q foliem os noffos afinha & q os toma- rião, & matarião antes que fugiíTem. E quãdo ho pião chegou a Goa coefte recado que foy pola manhaã, achou ho capitão a caualo com obra de corenta homês dos prícipais que inuernauão em Goa, que queria ir focorrer a Benaftarim a pelejar coelfes mouros q lhe ho tanadar differa que entrarão na ilha, & defender a outros que nã entraífem: & tinha mandado a Diogo fernandez que era adail que foffe defcobrir dhú cabeço contra Banaftarim fe parecião os immigos & que gente era. E em quãto Diogo fernãdez foy fazer ifto com clco de caualo que forão coele, chegou ho pião canarim cõ ho recado falfo de Pulatecão, & deuho ao tanadar mòr q também eftaua a caualo com ho capitão. E porque com aquela noua ouue aluoroço antre os outros piães, que erão feylcentos, preguntou ho capitão que era aquilo, & ele diffe que não fabia o q dizia aquele pião que lho preguntalfe ele. E fabendo o que dizia, aluoroçoufe logo ho capi¬ tão como homem mancebo pera ir matar aqles mouros, & pregútou ao
Livro III, Capitolo LXV i63 tanadar mòr que faria: dizedolhe ele que não labia, não curou mais de ho preguntar a outrem. E fem tomar confelho fobre coufa de tanta impor¬ tância como aquela, né efperar polo adail & pelos outros, fe mudou do caminho que eftaua pera fazer a Benaftarim, & abalou pera Goa a velha cõ trinta & cinco de caualo com ho tanadar mòr & quinhentos piães, de que os trezentos erão canarins & os duzétos Malabares muyto bõs fre¬ cheiros, & era feu capitão hú que fora goazil de Cananor valete homem de fua peífoa & muyto amigo dos Portuguefes. E indo affi defcobrio ho pião CanarI (que leuara o recado falfo) aos outros piães a treyção que eftaua ordenada aos nofios, cõfelhandolhes que fugiflem, porque affi ho auia ele de fazer: & affi ho fizerão que todos os piães Canarins fe dei¬ xarão ficar poucos & poucos como que canfauão & efcondianfe, & tambe os Malabares ficauão atras de cãfados, que ho capitão leuaua tamanha prefla, que fobindo ao cume de húa ferra que eftà fobre Goa a velha não hião coele mais q treze Nayques que fam como cabos defquoadra dos piães: & eftes por ferem homés de vergonha & muyto amigos dos nofios. E chegando ho capitão ao cume defta ferra, vio quafi ao pê dela em hú campo obra de mil & quinhentos mouros bem armados todos fechados em húa pinha, & antreles cinco capitães a caualo com feus fombreiros & rabos com que os abanauão. Ho capitão que era mais esforçado pera pelejar, que repoufado pera capitanear, como vio aquela gente preguntou ao tanadar que farião: ao q ele refpõdeo que não fabia porq lhe parecia aquilo royndade, pois via quanta auantajem auia do numero daquela gente ao que lhe diflera ho pião que leuara ho recado que não parecia nem nenhú dos outros Canarins, que vifle ele o que queria fazer. CAPITOLO .LXV. De como o capitão de Goa pelejou com os immigos & os defbaratou: & como defpois foy morto & defbaratado, & do que os nojjos fi\erão dejpois dijlo. OUuida a reporta do tanadar, pregútou ho capitão aos nofios ho mefmo que lhe pregútara. E nã refpõdédo ninguém, difle ele. Senhores vos calaifuos, pois eu também fou bonito vamos auante. Ao que logo refpondeo Manuel da cunha como homem defejofo de ganhar hórra, auãte: então diflerão todos outro tanto. E dizendo ifto decerão todos pola ferra abaixo, q era tão ingrime q quafi q lhe corriã as feias iobre os pefcoços dos caualos, que fe os mouros teuerão acordo ao decer
164 Hijloria da índia os matarão todos. E chegados dous tiros de béfta dos Imigos pouco mais ou menos, deteueos ho capitão & fezlhes húa fala, dizendo. Bem vedes fenhores como eftes perros eftão quedos, que não he fe não cÕ medo de nos outros de nos verem tão determinados a cometelos, & pafmão de ver noíTaideterminação pola deferéça que ha de fua multidão á noíTa pouqui¬ dade. Efperemos em noffo fenhor que pera fua deftruyção nos trouue aqui: por iffo fenores como tiueftes oufadia pera decer da ferra, afli tende pera dardes neles. E lembreuos q os q morreré terão certa a gloria pera as almas, & os viuos a horra pera os corpos: & coifto moueo pera os immigos que nunca fe desfizerão da pinha em que eftauão. O que vendo ho'capitão, em chegãdo deles hum tiro de pedra deteueffe, mãdãdo ao tanadar que foffe com os feus a trauar coele. E diíTe Pero corefma ao ca¬ pitão,Jque fe auião deitar com os immigos aos ités q receberião deles muyto danno, porque no mais que húa frecha que cada hum lançaffe abaf- taria pera os matarem a todos, que deffem Santiago & não efperaffem mais. Ho capitão lho teue em merce, & louuãdo muyto feu confelho fez de todos húa fieira pera darem melhor nos Imigos, & correos duas vezes, esforçando os, & dizendo que auia de ficar detrás pera ver como cada hum fazia. E mandãdo tanjer as trombetas, dizendo Santiago foy ho pri- meyro que cometeo os immigos, & os noífos coele, & os romperão húa vez, & dando logo volta os romperão outra, deixando hús mortos & feri¬ dos das lanças, & outros pifados dos caualos, & dos noffos também forão feridos algús poucos, antre os quaes foy meftre Afonfo com hum zagú- cho: porem os immigos fe defbaratarão logo & fugirão contra ho mar júto'dondeftaua Pulatecão, recolhendo a fua gente que paffauão da terra firme em jangadas & fuftas, & ajuntauanfe ali em corpo coele que eftaua a caualo. E quando eftes virão vir fugindo os outros & os noffos apos eles, começarão de fugir fem aproueitar a Pulatecão esforçalos, & remeterão ao mar pera fe faluarem nas jangadas, & tão defatinados hião que fe afo¬ garão obra de trezentos, & os outros fe efpalharão pelo campo indo os noffos depos eles, & afli os piães Malabares que ja erão chegados, & eles às frechadas, & os noffos as cutiladas matarião bem quatrocentos dos im¬ migos, & tomarão os caualos aos capitães. Pulatecão q vio ho defbarato dos feus, como homem acordado determinou de fe fazer forte, porque bem vio que eftaua certo que fugindo, nem ele nem quantos foffem coele poderião efcapar, porque os auiã os noffos de feguir, & como os feus hiã defbaratados não auião de fazer volta aos noffos por mais que os esfor- çaffe. E porque ja não podia recolher todos por quão defmandados an- dauão, rccolheofe com os que mais preftes pode ajuntar, que forão oy- tenta turcos homens de preço, & que feruião muytas vezes de capitães,
Livro III, Capitolo LXV i65 & que eftauão bem armados, acolheofe coeles a húa mama de terra que fe leuantaua naquele campo, & era cercada de pedra com duas étradas, & antre húa & a outra eftaua hum padrão de pedra como que antiga¬ mente feruira de fortaleza. E vendo ho capitão fazerfe aquele corpo, co- nheceo pelos finaes que ali eftaua ho capitão dos immigos, & afli ho difle a Manuel da cunha, pregútandolhe o que faria, & ele difle que folfem auante, & ajuntou ho capitão configo & com Manuel da cunha ate qua- torze de caualo, Pero Corefma, Antonio correa, FYancifco de madureyra, Fernão caldeyra, Fernão correa, Manuel de foufa tauares, meftre Afonib, Baftião rodriguez contador & efcriuão da camara da cidade & outros quatro. Ho tanadar como vio a determinação do capitão, diflelhe que por nenhú modo fofle cometer aqueles que erão liões, q deixafle ajuntar os feus piães que ja começauão de chegar, & que eles lhos matarião aas fre¬ chadas ou farião que fe lhes entregaflem, porque a caualo não lhes podia fazer nojo pola colheita em que eftauão: do que ho capitão parece fe agaftou, & com foberba de fua grande & demafiada vitoria, difle que quem vencera mil & quinhétos homés não auia nada, que não auia de temer corenta ou cincoenta mouros fanados & alienados. E vendo ho tanadar que não queria feu confelho caloufe, & ho capitão cometeo os immigos, ele com Manuel da cunha, & algús deftes quatorze por húa parte do padrão & os outros pela outra: & pera ainda os immigos os mais conuidarem a cometelos, fayrão ate quafi ho padrão, & como ho capitão & Manuel da cunha (que forão os primeyros) entrarão foranfe recolhendo de vagar, & acolhendo os dentro da cerca, desfechão com feus zagunchos muy brauamente, & dos primeyros trancarão hum pelos pey- tos ao caualo do capitão que logo lho derribarão & tomouho debaixo fé fe poder leuãtar, & ao de Manuel da cunha deranlhe húa cutilada polas ancas com que tirou tantos couçes que deu coele no chão, & quafi que ho capitão & ele cayrão ambos a hú tépo, & logo forão mortos per algús dos Imigos, de que os outros ferirão muyto mal fete ou oyto dos nofios, & tanto que ouuerão por feu barato de fe fayr & não ir mais auante, efpccialméte vedo morto ho capitão & derribado feu guião. E aqui parece q noflo fenor quis goardar eftes porque fe Goa não perdefle & a Chrif- tindade da índia não recebefle tamanha quebra, q quando os nofios fay¬ rão da cerca afli apertados ne Pulatecão os feguio, né outros dos feus q ali eftauão juntos fe lhe poferão diãte pera os deter & mal tratar, mas vedo os vir denodados lhe derão lugar q fe fayfé. E quis noflo fenor q os nofios fe ajuntarão logo & forãfe caminho da cidade fé falecer mais q * ho capitão & Manuel da cunha: & poré ho feyto foy tão façanhofo q mais não pode fer, mas ho capitão não foube agardecer a noflo fenhor a merce
i66 Hijloria da índia que lhe fazia, & quis atribuyr tudo a fua valentia, não tomando ho con- felho do tanadar quando lhe dide q não cometefTe Pulatecão q os feus piães lho matarião. E efte tanadar ho fez ali muyto valenteméte, que a fora matar muytos dos Imigos ajudou com Pero corefma a meter os noífos é acordo de fe ajuntarem & hiréfe logo pera a cidade, onde chegarão indolhe os immigos ladrando ate as duas aruores q nunca oufarão de çar- rar coeles: né o q Pulatecão fez foy fe não como defefperado de fe nã poder faluar. E chegados os noffos â cidade, foy grãde aluoroço na gente cõ a entrada dos mouros, & com a morte do capitão pola guerra q fe efperaua, & quiferão logo todos fazer feu capitão a Francifco pantoja, q por fer alcayde môr era fua a capitania: mas ele a não quis por a terra eftar tão reuolta como eftaua, & adi ho diífe, o que lhe todos tacharão muyto. E vedo os officiaes da camara da cidade, & adi os da fazenda del rey, & todos efles fidalgos & caualeyros q auia em Goa como Erancifco pantoja não queria fer capitão, lhe fizerão adinar hú auto q fe dido fez, & adinado élejerão todos é camara por capitão a Diogo medez de vafcon- celos podo q eftaua prefo, vifta a necedidade q auia de capitão, & q pera ho tempo outro ho não podia melhor fer, adi por esforçado, como pru¬ dente & autorizado. E defpois de ho fazerem capitão Francifco pantoja fe arrependeo de ho não fer, & requereo que ho fizedem, mas não lhe aproueitou. E feyto Diogo mendez capitão, Crifnâ lhe dide que bem fabia q os turcos erão feus immigos por amor dos nodos, & que eftaua certo queymarenlhe as cafas & deftruyrennos, que lhe pedia que os recolhede na cerca, & que hi fe agafalharião nas ruas em tendilhões, do que ho ca¬ pitão foy contéte, & a Crifnâ deu cafas onde poufade com fua familia, & os outros agafalharanfe polas ruas da maneyra que digo, & hi tinhão fuas mercadorias, adi de panos como de mantimentos, de que na cidade auia poucos fe ho cerco fode perlongado, & por ido ho capitão mandou reco¬ lher na cidade quãto gado pode auer, fazendo conta que ho mandaria tirar apacer com goarda le os immigos não adentadem ho arrayal perto da cidade: & fe não que ho mandaria matar & falgar, que mayor medo auia aa fome que aos immigos cõ quanto não tinha mais q duzétos Portuguefes que fodem pera pelejar, antre os quaes auia corenta de caualo, & tinha feyfcétos piães Canarls & Malabares, & a outra géte que fe recolhia na cerca era muyta, & ho mãtiméto pouco parela, & por ido pos ele grãde goarda no q auia no almazé del rey pera a necedidade. E porque ho ar¬ rabalde a que étão chamauão vila velha (que era daquela parte onde agora eftâ a hermida de Santiago) não ficaíle defemparada, mandou ao tanadar moor & a Araulu branco hú valete canarim, que cõ feus piães a goardadé & vigiadem de dia & de noyte, & a defendedé dos immigos fe
/ Livro III, Capitolo LXVI 167 vieffem, & por os muros da cerca & baluartes, ordenou fuas vigias & roí¬ das, & proueo tudo como era neceffario. CAPITOLO .LXVI. De como Pulatecão ajjentado feu ar rapai em Benajlarim liia correr á cidade, & de como lhe os noffos Japão & leuauão a melhor. ENtrada na ilha toda a géte de Pulatecão que erão tres mil homés de peleja, turcos, coraçones, perfios & canarins, em q auia cento & cincoéta de caualo, recolheófe ele a Benaftarim onde affentou feu arrayal, aííi por fer ho paffo onde lhe podia mais afinha acodir focorro da terra firme, como por não fer mais de húa legoa da cidade & eftar a hi perto húa alagoa pera dar de beber aos caualos & ao gado. E como affentou feu arrayal, começou de edificar húa cerca de muro com algús baluartes cõ determinação de fazer húa fortaleza pera fe recolher nela & defenderfe do gouernador pofto que focorreffe a cidade, & q daqla forta¬ leza a poderia o Hidalcâo tornar a cõquiftar, & afli lho efcreueo. E tédo affentado feu arrayal, foy cõ toda fua géte dar viíta â cidade, & pos a mòr parte dela em cilada, & moftroufe cõ a outra aos noffos, porq pare- cedolhes poucos os prouocaífe a pelejaré coele, & que os leuaria ate a cilada como que fugia, & ali os mataria a todos, que não oufaua de pe¬ lejar cõ os noffos é batalha cãpal, por quão efcaldado ficou de ver tão afinha defbaratados os feus quãdo Rodrigo rabelo os foy bufcar a Goa a velha. E Diogo mendez como vio os immigos, & q erão poucos fayo a eles, poré doendolhe ho cabelo de lhe teré armada algúa royndade hia cõ grande této. E ifto lhe fez q chegando a cilada ho tomarão os Imigos apercebido, & pelejou coeles cõ tanto esforço, aííi feu como dos feus que os defbaratarão cõ matarem & feriré algús ficãdo os noffos todos fãos, & também ho tanadar môr & Raulu ho fizerão muy valétemente. E def¬ baratados os Imigos, recolheranfe os noffos a cidade, & forão recebidos cõ grande feita: & dali por diãte corrião os immigos muytas vezes a ci¬ dade, & pelejauão cõ os noffos por recõtros & com voltas & poendolhe ciladas, porq como diffe não oufauão doutra maneyra. E fempre noffo íenor feja louuado os noffos leuauão a melhor dos Imigos & matauão muy- tos, & dos noffos erão feridos algús: & logo como ho cerco começou, chegou a Goa Francifco pereyra de berredo é húa fulla, em que leuou trinta homés Portuguefes que lhe deu Diogo correa feu tio capitão de Ca- nanor Õde fe eíteuera curãdo de húa doéça q lhe dera é Goa ãtes que ho gouernador foffe pera Malaca. E fabédo ele q Goa eftaua cercada, diffe
i68 Hifloria da índia a feu tio q fe queria ir pera là, & ele mãdou coele aqles trinta Portu- guefes, cÕ que ho capitão de Goa folgou muyto por fer em tal tepo, & deu a goarda de húa eílancia a Francifco pereyra, pera q a goardaffe cõ os que trouuera de Cananor, & mandoulhe dar hú caualo pera quãdo ouueffem de fayr aos immigos. CAPITOLO .LXVII. De como ho Hidalcão deu a conquifla de Goa a feu cunhado Roçalcão, & do engano que Roçalcão fe\ aos noffos pera ho ajudare cótra Pulale- cão: & de como ho deitou fora da ilha & ele ficou nela, & cercou Goa. Sàbendo ho Hidalcão como Pulatecão ganhara as tanadarias da terra firme de Goa, & tinha fenhoreada a ilha & cercada a cidade, de¬ terminou de a tornar a cobrar, tanto q foffe defocupado da guerra del rey de Narfinga: & pera entre tanto começar de fazer ho alicece, mãdou a hú feu cunhado chamado Roçalcão boÕ caualeyro & turco de geração q foífe fazer húa fortaleza no paffo de Benaftarim porque receaua de a fazeré ali os noffos & lhe tolhere a paffajé pera Goa como ja diffe, õde defpois de acabada fe recolheria & faria guerra à cidade ate a tomar, pera o q lhe deu feys mil homês de peleja, turcos, coraçones, perfianos, arabios & abexins, & deulhe prouifam pera Pulatecão lhe entregar a géte que tinha & fe ir parele. E pera foftêtameto de tudo ifto lhe deu as re- das das tanadarias da terra firme. E coefte defpacho fe partio Roçalcão, & chegou defronte de BenaftarI da banda da terra firme, dõde mandou recado a Pulatecão, q nunca quis obedecer âs prouifões do Hidalcão, di- zédo q pois ele ganhara a ilha q auia de fazer a fortaleza & conquiftar a cidade. E vedo Roçalcão q não queria obedecer âs prouifões que trazia, determinou de ho lãçar fora da ilha por força, pera o q lhe pareceo que lhe era neceffario ajuda dos noffos, que determinou daueí por engano, a que deu còr com algús dos noffos q forão catiuos na nao em q hia Fernã jacome quando indo de çacotorâ deu â cofta é Dabul q ele trazia cõfigo, & andauão na capitania de Ioão machado q vinha coele: & afli andauão també Duarte tauares q fora catiuo na terra firme defpois do gouernador tomar Goa a fegúda vez, & por efte mandou Roçalcão dizer a Diogo médez, q ele vinha por mãdado do Hidalcão pera deílruyr Pulatecão q andaua leuantado cõtrele, & tomara as tanadarias da terra firme fe feu mandado, & como tredoro lhe comia as rendas, q fe ele o quifeffe ajudar a deftruyr q fe liuraria da guerra q lhe fazia: & q ele lhe prometia q fizeífe paz coele em nome do Hidalcão, & pera iífo trazia os catiuos q
Livro 111, Capitolo LXVI1 i6g digo, & em final diffo lhe mãdaua logo aqle: & adi outras palauras, mof- trando quanto defejaua a paz. E cuydando Duarte tauares que aquilo era verdade, afeyçoouho ainda mais quando ho diffe a Diogo médez como Roçalcão trazia os noffos q dizia, & com caualos & armas como liures & lhe fazia muyto gafalhado. E ouuindo Diogo mendez ifto, & vendo algúa moftra em lhe Roçalcão mãdar Duarte tauares, creo q falaua ver¬ dade, & adernou paz coele, & deulhe ajuda por mar contra Pulatecão que foy coela defbaratado, & deitado fora da ilha: no que Diogo men¬ dez errou muyto, porque fabendo que Roçalcão era cunhado do Hidal- cão, que fabia q defejaua de cobrar Goa não ho ouuera dajudar, fe não a Pulatecão que era auentureyro, & por fer foo, & não ter quem ho .aju- daífe, ouuera de folgar de fe fauorecer com os nofios & ouuera de fazer corpo coeles, & por ido fizera qualquer partido q lhe cometerã, & ouue- raho de manter polo que lhe releuaua. O q eftaua certo que Roçalcão não auia de fazer polas caufas q digo: & adi ho fez que entrado na ilha não deu os catiuos como foy cõcertado no adento da paz, antes mandou dizer a Diogo mendez q lhe deífe a fortaleza da cidade q era a cala do Hidalcao & cabeça de feu reyno, que fenão auia de dar a outré fe não a ele. E Diogo mendez lhe refpodeo que a cidade era del rey de Portugal, & que quando todos os q eftauão détro perdefie as vidas que então a dei- xarião. O q ouuido por Roçalcão, determinou de fazer guerra guerreada aos nofios, porque bé entédeo em fua repofta que os não auia de tomar facilméte, & mandaua correr a cidade de gente de caualo & de pê, & ido muyto amiúde pera que os nofios fayfem a pelejar coeles: & logo pola primeyra que os Tmigos hião todos, não queria Diogo mendez q lhe os nofios fayfem defcubertaméte, mas mandou os poer em ciladas antre valos & aruoredos q então auia daquela parte, que entrauão na vila velha indo de Benadarl, & os Imigos recebião muyto dãno dos nofios quando lhe fayão, porque como os tomauão de fupito podo que erão poucos fazianlhe muyto dãno de feridos & mortos. E vedo Roçalcão ho ardil de Diogo médez, mudou a feruétia do caminho por aquela parte, & entraua pola rua que agora he dos bachares, & també Diogo médez teue ali ho mefmo ardil de cilada & fempre os immigos leuauão ho peor: do que eles andauão muyto agadados, prlcipalméte os turcos q prefumião de muyto valétes. E edando hu dia híis poucos na téda de Ioão machado q era feu capitão, começou de falar na guerra, & diffe q não cuydaua q fe os noffos defendeffé tão bé, que auia neles muyto esforço. E auédo os turcos menécoria de Ioão machado gabar os noffos, differão que fe eles forão tão esforçados como tinhão a fama q ja ouuerão de fayr a pelejar coeles, & trabalhar polos lãçar fora da ilha, & não fofreré edar encurra- Touo II 22
Hifioria da índia 170 lados como gado, & por fere couardos ho fofrião, & qrião cõ manhas ganhar horra, & aífi diíferlo outras muytas palauras em defprezo dos noflos. E cÕ quato ifto pareceo mal a Ioão machado como a verdadeyro Chriftão q era, não oufou de refpõder como Chriftão por não dar de fi fofpeyta que ho era: mas diíTe aos turcos que mandafle hú defafio aos noflos de tantos por tantos, & q faberião fe erão valetes ou nã. E os tur¬ cos que defejauão de fe prouar coeles de corpo a corpo, mandarão logo hú cartel ao capitão, em q dizia q no arrayal de Roçalcão auia homes que defejauã de fe prouar cõ os noflos é batalha particular, que fe qui- fefle mandar algús a iflo que ho mãdafle dizer, & q quãtos quifefle que fayfem, tantos turcos acharião diante da cidade armados de terçados, adagas & cofos que auião de fer as armas com que auião de pelejar, & que as mefmas trarião os noflos. Eoq mais fobriffo fucedeo eu ho não pude faber: porem defpois que Roçalcão pos ho cerco aa cidade, ele fez a guerra mais apertada aos noflos do q Pulatecão a fazia, & não auia dia q lhe não correfle & defle cõbate: mas fempre os noflos cõ quão poucos erão lhe fayão, porque Diogo mêdez era muy esforçado & fem¬ pre leuaua cõ ajuda de noffo fenor ho melhor dos Imigos, & mayor medo auia da fome q deles porque erão poucos pera a muyta géte q fobreueo pera os gaftar como ja difle. CAPITOLO .LXVIII. De como cayo hã pedaço de muro da cidade cõ a tormeta do inuenio, & do grande trabalho que os nojfos teuerão em defender q os imigos não entrajjem por ali. NEstes dias começou dentrar ho inuerno com fuas tépeftades de grãdes chuuas & vetos como ha naqla terra, & cõ a força da tor- menta arrunhou da parte de fora hú lãço do muro da cidade da bãda do Mãdouim q eftaua alda velho do tépo dos mouros, & cayo todo aqle pedaço q arrunhou mas ficou daltura dhú homé, & quis deos que ifto foy de noyte, porq fe acertara de fer de dia q os Imigos ali efteuerão viranfe os noflos é muyto grande trabalho. E cõ tudo ho teuerão affaz em acarretaré algús falcões q aflentarão fobre ho muro quebrado pera fe de¬ fenderem dos Imigos ate bufcaré madeira pera fazeré ali húa tranqueyra porq a nã tinhão preftes. E defpois q foy manhaã q os noflos a andauão bufcãdo, fobreueo Roçalcão cõ fua gente pera etrar por aqle quebrado q logo ho foube: ho capitão eftaua ali cõ todos os q tinha que podião pele¬ jar, & mandou defparar os falcões q eftauão affeftados, q fizerão húa
Livro III, Capitolo LXVIII 171 grade efborralhada nos Imigos de muytos q cayrão mortos feitos e pe¬ daço, & outros aleijados: poré erão tãtos q nã deixauão de fe chegar a lança darremeífo, & os noflos fe defédião tambe q não lhes aproueitaua fere muytos. E aíli durou a peleja todo aqle dia em pefo fe núca deixaré de peleiar: & noífo fenor quis fazer tanta merce aos noflos q cõ quão poucos erão fempre teuerão ho rofto dereyto aos Imigos, de q matarão & ferirão muytos, & deles tambe morrerão algús & forão feridos, & hú deles foy ho tanadar, q foy ferido de húa efpingardada, de q defpois morreo dahi a hús dias, q foy muyto grande perda pera os noflos por fer muyto valete homé de fua peffoa, & grãde Imigo dos mouros, & q ajudaua muy be a matalos. E eftando afli na cama ferido, dizia q lhe não pefaua de morrer, fe não porq não morria às cutiladas, matando quantos mouros ele defeiaua de matar. Coefta grande perda dos feus, fe recolheo Roçalcão ja quaíi noyte, & tão deftroçado ficou q não pode tor¬ nar ao outro dia, cõ que os noflos teuerão tépo pera fazer húa tranqueyra naqle quebrado do muro, & fizerãna de palmeyras de duas faces entu¬ lhada de terra muyto forte, & aflentarão nela artelharia. E parecendo todauia a Roçalcão q poderia entrar por aquele lugar, & q tomaria os noflos de fobre falto, foy logo aquela noyte muyto caladaméte & chegou ao quarto da modorra, & cometeo a tranqueyra de fupito cõ grande grita dos feus: os noflos que ali vigiauão ouuerãfe tão esforçadaméte q lofte- uerão efte primeyro impeto dos Imigos. E nifto acodio ho capitão com a gente de.fua fobre roída: & porque fe temeo que os mouros coefta re- uolta cometeflem as outras eftãcias & entraffe por qualquer delas man¬ dou aos que eftauão nelas q por nenhú modo as deixaflem, & ele ajudou com os que trazia a defender a tranqueyra, q foy também defendida que fe afaftarão os Imigos que ja eftauão pegados coela: & efteuerão afli pe- lejãdo ate a madrugada recebendo muyto dãno dos noflos de mortos & feridos, & dos noflos nenhú. E vedo Roçalcão quão pouco os feus fazião, & ho dãno que recebião, recolheos & tornoufe ao feu arrayal, & tornou logo outra noyte com ho mefmo rebate, & fez tão pouco como efta. E vedo ho capitão ifto cuydando q os Imigos ho fizeflem mais vezes, man¬ dou logo fazer muytos abrolhos de ferro q mandou meter ao pé daquele muro por onde os immigos cometião, que tornarão ainda outras duas vezes de noyte, & como não vião os abrolhos eftreparãfe neles, & rece¬ berão muyto mayor dãno que das outras. O q vedo Roçalcão nã quis mais cometer os noflos de noyte, & porque lhes defle maa vida manda- ualhes tanjer húa trombeta donde a podeflem ouuir, porq ouuldoha cuy- daflem que hia ele & acodiflem à tranqueyra & não teueflem nhú repoufo: & afli foy que acodião logo & eftauão nela toda a noyte efperãdo polos
'7* • Hijloria da índia ímigos, fofrédo muvto grande trabalho, aíli deitarem armados como do vento & chuua que fazia, & os ímigos eítauão em feu arrayal defcanfados & rindofe deles, do q Ioão machado mãdou auifar ao capitão por efcripto, & mais que Roçalcão tinha âs duas aruores húa forna de piães q vigia- uão em húa eítancia pera darem goarda a aqla trombeta que mandaua tanjer, que fe os noffos deffem fobreles de fupito q matarião todos ou a mayor parte deles. E como Ioão machado era auido por verdadeyro antre os noffos polo q fizera quando ho gouernador eíteue cercado em Goa creolhe ho capitão o que lhefcreuia. E determinãdo de matar os Imi- gos que vigiauão as duas aruores, mãdou a iffo Diogo fernandez adail com algús noífos de caualo, & Araulo cÕ feus piães, q forão tão quieta¬ mente que núca forão fentidos dos immigos fe não quãdo derão fobreles, & cercãdo os de todas as partes matarão muytos & os outros fugirão pera ho arrayal de Roçalcão, & contarãlhe o que os noífos fizerão, & ele dali por diante não mãdou mais tanjer a trombeta: & os noífos ficarão defapreífados do trabalho que leuauão de noyte. CAPITOLO .LXIX. De como pelo grande trabalho q hia na cidade, affi de fome como dou¬ tras perfeguições da guerra algús dos noffos fugião pera os mouros: & de como Ioão machado fe foy pera os noffos. DEspois difto fabendo Roçalcão q feita era ho domingo antre os noífos, & como ho folenizauão & ouuião miífa pola manhaã, de¬ terminou de cometer a tranqueyra quãdo a ouuiífem, & deitoufe a noyte do fabbado é cilada perto da cidade, porq ho nã vifle os noífos fenão quando delfe neles. E ao domingo a horas q lhe pareceo q eítarião na miífa, fayo de fupito & deu cõ fua gête na tranqueyra, & como ela era muyta (& os noífos no mais q os ordenados á vigia) étrarãna quafi em a cometédo eífes q hião na diãteyra que ferião bem cem homens. O que viíto por Roçalcão começou de bradar a todos que entraífem antes q os noífos acodiífem, lembrãdolhe que fe aquele dia foíTém valentes homes q fe lhes acabaria nele ho trabalho dos muytos dias que auião de leuar íobre ganharem aquela cidade, poíto que todos morreífem fobrela: mas niíto acodio ho capitão com quantos auia na cidade, & derão nos immi¬ gos com tão grande impeto ferindo os cõ as lanças, & outros cõ efpin- gardadas & fêtadas que os fizerão tornar pola tranqueyra fora ficando algús mortos dentro, & dos noífos nã morreo nenhú, & todos ho fizerão ali muy esforçadamente: & fe aífi nã fora a cidade eíteue muy perto de
Livro III, Capitolo LXIX ij3 fe perder, & perderaffe fe entrarão mais mouros. E faydos os mouros, mandoulhes ho capitão tirar com a artelharia, & Roçalcão fe tornou muyto defcontente dos feus: & por fe vingar dos noifos mandou aífeftar hú camelo no oyteiro onde agora eftâ a forca da cidade, que he muyto perto dela, & dõde fe parece toda, & mãdaua tirar coele muyto amiúde, & deitaua muytos pelouros dentro, o que fazia muyto nojo, não fomente nas cafas mas na gente q fempre mataua algús, & ãdauão os noffos tão affombrados defte tiro que não fegurauão em nenhú lugar, porq nas cafas & fora delas fempre fazia dãno. E coifto corria Roçalcão a cidade muy- tas vezes, & como os noifos lhe fayão mandaualhes tirar com ho camelo & fazialhes muyto mal: & efte foy ho primeyro trabalho que começarão de fentir da guerra que era muy grande, & apos efte outro muyto mayor, q foy ho da fome que fobreueo defpois que fe gaitarão os mantimétos q tinhão os bachares da cidade gentios, que não ficarão mais que os que auia no almazé q fe dauão por muy eftreyta regra: & eftes erão arroz & algúa carne do gado q ho capitão tinha viuo pera eftas neceíftdades, & era a careftia tamanha que hú fardo darroz cuftaua mil rs & húa galinha hú cruzado, & por mar não podião ir nenhús mantimétos aos noifos, aíli por fer inuerno como por amor de húas fuftas dos mouros q eftauão em Cintacorà, com cujo medo os gentios darredor não oufauão dir, que bem ho podião fazer em paraos cõ hirem ao logo da terra: affi que por efta caufa de não poderem os mantimétos hir a Goa auia nela grande fome, principalmente antre a gente da terra, a q fe não daua règra do almazem fe não aos que pelejauão, porque fe a deflém a todos não auia remedio pera abaftar dez dias, & por iffo aos que pelejauão fe daua regra fométe, & os outros não comião mais que pefcado cozido em agoa tal, & efte frefco q cada dia ho pefcauão os pefcadores, & de não comeré outra coufa adoecião muytos de corréça & morrião. E era piedade velos deitados por eífas ruas doentes & mortos de fome, que não auia qué andaffe por elas coeles & com ho gado, & erão as mofcas tantas que não auia qué fe va- leífe, & também defpois que ho arroz faltou aos noffos adoecerão eles de corréça & morrião, & cada dia auia couas abertas, & coeftes trabalhos começarão algús dos noffos denfraquecer, & defefperar de poderem viuer, & pera efcapar da morte fugião pera os immigos deitãdofe de noyte do muro abaixo & eftes erão efpingardeiros & béfteiros pera os receberem cõ melhor votade, & como erão no arrayal dos immigos, preguntauão logo por Ioão machado nomeandoho por feu nome mourilco. E ifto cuy- dando que era mouro, & rogauanlhe que os aprefentaffe a Roçalcão, di- zendolhe que vinhão com muyta vontade de ho feruir naquela guerra com fuas béftas e efpingardas. E Ioão machado por fe encobrir fazia feu rogo:
174 Hijloria da índia & Roçalcão folgaua muyto coeles, & eles lhe dizião ho eftado em q efta- uao os noflos. E eíles por comprazer a Roçalcão fe tornauão mouros, & todos eftes erão entregues a Ioão machado, que era capitão da gente branca, que andaua muy agaftado por fe os noflos hirem pera os immi- gos & tornarenfe mouros. E indofe afli algús dos noflos pera os Imigos que ferião ate fefenta, húa fefta feyra dendoenças fugio hum caualeyro, q fe chamaua Fernão lopez homem de boa cofta. E vendoho Ioão ma¬ chado como andaua agaftado, preguntoulhe que dia era aquele antre os Chriftãos: & ele lho difle, & a rezão porque lhe chamauão afli: ao que Ioão machado difle que lhe parecia q goardauão muyto mal fua ley, & fe não deuião de lançar com os mouros em dia é q ho feu Deos morrera por eles. E não paflando mais fobrifto, determinou Ioão machado de é todo cafo fe ir pera a cidade pera esforçar os noflos, & darlhes maneyra como ouueflem mãtimentos, & moftrarlhe como os mouros não tinhão tanto poder que os entraífem por força. E efta determinaçã trazia ele de dias, & fobriflò fe vira algúas vezes no campo com ho noflo capitão, dif- íimulando que lhe daua recado de Roçalcão, & mandou â terra firme polo feu dinheiro que lâ eftaua, & que lhe trouueflem dous filhos peque¬ ninos que tinha de húa moura, & mandou os trazer com propofito de os matar, porque os não podia leuar configo fem fer fentido, & pareceolhe que fe ficaflem fem ele antre os mouros que fe farião mouros, que ateli erão Chriftãos que ele mefmo os bautizaua quãdo nacião, & lhes infinou defpois que forão de idade ho Pater nr & outras orações que infinão aos meninos, com propofito de fe ir ainda pera os noflos & leualos configo: & por a neceflidade que então auia de fe ir, não quis deixar de fe ir pofto que os não podefle leuar. E porque fe não feguifle o que receaua pedio perdão a noflo fenhor fe naquilo fazia peccado, & afogou os, & deu a entender que morrerão fupito fazédo por eles grande prãto. E como ja tinha feguro do capitão, tomou feu dinheiro & hú dia fazendo que hia folgar pola ilha, leuou configo todos os de fua capitania, & afli os noflos que andauão na terra firme, como os q fugirão da cidade. E chegando perto dela, difle aos noflos q de la fugirão fe querião tornar coele parela, principalmente a Fernão lopez, & ele nem nenhú dos outros nã quiferão fe não os q forão catiuos em Dabul q fe forão coele pera a cidade, onde foy recebido com prociflam, & afli foy leuado â igreja, & ali forão dadas por todos muytas graças a noflo fenhor por lhes fazer tamanha merce, como era trazerlhes aquele home em tempo de tamanha neceflidade. E certo que ela foy muy grande merce, porq fe Ioão machado não fora muy poucos ficarão na cidade que fe não forão pera os mouros fegúdo ho tra¬ balho q hia da fome & das doenças que dela nacião. E quando virão que
Livro III, Capitolo LXX 1? 5 ele que eftaua fora deles & em lugar onde viuia tato aa fua vontade fe vinha meter neles fem nenhú conftrangiméto, os que tinhão propoíito de fe ir pera os mouros fe arrepéderão, & os que ho não tinhão forão con¬ firmados pera ho teré nunca: & todos cobrarão nouo esforço pera fopor- taré a fome & fe defenderé dos immigos. CAPITOLO .LXX. De como defpois de pajjado Ioão machado pera a cidade apertou Roçai- cão mais ho cerco, & de como Frãcifco pereyra de berredo foy por mantimentos a Batecalâ, no que paffou grande perigo. MUyto fentio Roçalcão a ida de Ioão machado pera os noffos, & mais por fer em tempo que cuydaua que fe lhe auião détregar por amor da fome que auia antreles. E então duuidou muyto de os poder tomar, porque irfe Ioão machado em tal tépo não era fem grande mifterio, & pregútaua aos arrenegados fe fabião a caufa de fua ida, ou fe auia algú trato ãtre ho noifo capitão & ele, & eles dizião que não fabião, fomête q fe falauão alguas vezes no cãpo. E coiíto ficou Ro¬ çalcão mais temerofo, porq fe receou dalgúa treyção com quãto lhe os arrenegados dizião que não fe receaffe de nada, porque os noffos eftauão tão trabalhados da fome, que quãdo fe bem podeffem defender que não farião tão pouco, & q lhes correfle muyto amiúde, & que os tomaria ou fe lhe entregarião, & que ho camelo que eftaua na eftãcia da forca, não canfafle de tirar porque efte daua grande oprefam na cidade, em tãto que ninguém oufaua dandar por ela. E ouuldo Roçalcão iíto tornaua efperar de tomar a cidade & corrialhe quafi cada dia, âs vezes de madrugada, outras em amanhecendo, & à tarde, outras ao meyo dia & em anoyte- cendo, pera ver fe podia tomar os noffos de fupito & entralos: porem eles eftauão apercebidos a todas as horas q parecia q fempre ho efpera- uão. E vedo ho capitão quão amiúde vinhão os Imigos punhalhes ciladas por todas as partes, & como vinhão defcuidados diífo fazialhes muyto dãno fem receber nenhú. E cõ tudo Roçalcão não deixaua de mandar correr a cidade, & de cada vez cõ mais géte & ele hia coela as mais das vezes, & muytas fe chegauão os feus tanto aos muros, principalmente de noyte que fobião por efcadas q fempre trazião, & chegauão ate as ameas, & auia muy grandes pelejas, & os noffos pola virtude de noifo fenor fem¬ pre ficauão com a vitoria: porque fem fua ajuda não poderão eles tanto tépo refiftir â muyto grande força dos Imigos fendo eles ja muy poucos, porq a efte tépo os mais erão doétes q não podião pelejar, fe nã fazião
Hijloria da índia 176 gete nos muros. E eflés fSos afíi poucos como erão fazião grandes faça¬ nhas, mayorméte ho capitão Manuel de foufa tauares, ho adail Ioão ma¬ chado, Fernão caldeyra, Pero corefma & outros, de maneyra que fempre os Imigos leuauão ho peor. E cÕ tudo Roçalcão não deixaua de perfiar em os perfeguir de dia & de noyte cõ lhes correr, & cõ núca ho camelo da eftãcia da forca eftar quedo fem defparar, & pera q não arrebetafle cõ tantos tiros, resfriauãno a cada tiro cõ vinagre. E eftes pelouros que de contino cayão na cidade dauão muyta oprefam aos noflos com lhe da- neficar as cafas & matar algús. E os Canarins q eftauão agafalhados pelas ruas em tédas padecião dãno incõportauel defte camelo, porque não auia dia que não mataífe deles. E com todos eftes trabalhos que os noífos tinhão, teuerão outro que quãto hia mais ho inuerno por diante tanto lhe mais cayão pedaços dos muros com as continuas tôrmentas de brauas chuuas & furiofos ventos, & ifto por eftarem ainda frefcos. E eftes lanços que aíli cayão erão logo tapados com tranqueyras q os noflos fazião, & ho esforço que tinhão lhe daua forças pera iffo, que por via de natureza eles as tinhão aflaz deblitadas, afíi com comeré muyto mal como com dormirem peor, como com nunca deixarem de pelejar. E certo que não forão igoais aos trabalhos que leuarão nefte cerco os que teuerão os da cidade de mutina ne os da fome que fofrerão os de perofa. E viuendo afíi nefta fadiga, hum dia de fam Ioão pela manhaã (em que fazia tres mefes que ho cerco duraua) aparecerão obra de duzentos mouros de ca- ualo no oyteiro da forca com que vinha Roçalcão correr a cidade. E fabedo ho capitão fayolhe no mais que com os noflos de caualo que erão ate oytenta, & fayo tão depreda que tomou os immigos ao pé do oyteiro: & começando os noflos de trauar coeles efcaramuça, faem de detrás do oyteiro obra de feyfcetos de pè que Roçalcão tinha em cilada, & come- ção de os querer cercar, pera que ficaflem antreles, & os de caualo que ficauão cõtra ho oyteiro. O que vedo ho capitão apartou logo ametade, & mandou ao adail que cõ vinte, & a Ioão machado que outros tantos rompeffem os immigos de pee por duas partes, & que os fizeflem efpa- lhar, & étre tanto ele com os outros quaréta teria ho rofto aos immigos de caualo, que vendo vir os feus piães apertarão muy rijo cõ os noflos: porem ho capitão com os leus quaréta feytos em hum tropel refiftio cõ muyto esforço a feu impeto fazendo os ter com lhe os noflos matarem & ferirem muytos, & entre tanto ho adail & Ioão machado romperão os de pee per duas partes, derribando algús com as lanças & atropelãdo muytos com os caualos, & afíi como os romperão tornarão fobreles outra vez & os romperão, pelo qual eles ouuerão tamanho medo que fe efpa- lharão & foranfe ajuntar com os outros de caualo, & os noflos fe ajynta-
Livro III, Capitolo LXXX 177 rao também vendofe liures do que os immigos lhe querião fazer. E co quato nifto todos os noffos ho fizerão muy valenteméte: ho pefo dos im¬ migos era tamanho que forão feridos muytos, antre os quaes foy ho adail, & foy morto hum de faa fidalgo cujo nome não pude faber. E eftando os noífos em grande aperto, fouberãno na cidade & forão logo os piães em focorro: & fintindo os immigos fua vinda fugirão que nunca os Ro- çalcão pode ter: & ho capitão os nã quis feguir, afíi polos muytos feridos que tinha, como porque em começando os immigos de fugir, lhes come¬ çou a nofla artelharia de tirar, que ateli não tirara por os noffos andarem mefturados coeles, & a artelharia matou também muytos, que os virão os noífos leuar âs coftas aos viuos. E paílãdo ifto, & étrado I10 mes de Iulho por a fome ir de cada vez em mór creciméto & apertar mais os noífos cõ adoecerem cada dia, mandou ho capitão por confelho de todos que foffe Francifco pereyra de berredo, que era capitão de húa fufta a Baticalá, & trouueífe os mais mantimetos que podeífe, & fe achaífe algús paraos que lhos quifeífem trazer afrete que os tomaífe pera iífo, & co quanto a ida era muy perigofa por fer na força do inuerno Francifco pe¬ reyra foy de boa vontade, & quis Deos que nem da ida nem da vinda não correo nenhum perigo, fe não em chegando â barra de Baticalá que fe ouuera de perder com hum temporal, & defpois diífo negoceou també que leuou a Goa vinte paraos carregados darroz, & afli muytas galinhas & outro refrefco, com que os doentes forão muy remedeados, & os fãos tomarão hum verde, & ifto foy alda no mes de Iulho. E defpois difto em Agofto, mandou ho capitão a Baftião rodriguez da moeda efcriuão q então era da camara de Goa que foífe a Baticalá em outra fufta, & que a leuaífe carregada de cobre, pera que a troco dela trouueífe mantimetos & ho outro vendelfe, porque tinha neceftidade de dinheiro, & deulhe cartas pera dar aos capitães dalgúas naos que folfem de Portugal fe os achaífe da ida ou vinda: a que efcreuia o eftado em que eítaua, pedindo- lhes q ho foífem focorrer, & não achãdo nenhúas naos deixaífe as cartas nagoada Danjadiua, & ele ho fez aflt q não achou nenhúas, & paífando muyto perigo, afli da ida como da vinda, fez ao q hia, & leuou manti¬ mentos & focorro, & entrou pelo rio de Goa com a>fufta toldada de pano vermelho & ébandeirada de muytas bandeiras, & tirou muytas bombar- dadas. O que vedo os immigos fe lhes quebrou muyto os corações, pa- recedolhes que vinha focorro aos noífos, porque entraua ho verão. 23 Tono II
Hijloria da índia 178 CAPITOLO .LXXI. Do q fe\ Diogo fernãde\ de beja indo a Ormiq, & de como tovnou a Goa, & do /ocorro que veo a Goa defpois que etrou lio verão. ATras fica dito como antes que ho gouernador partifle de Goa, man¬ dou a Diogo fernandez de beja com tres nauios que ho fofie efpe- rar ao cabo de Goardafum, & q fe não fofie ter coele ate meado mayo, que fe fofie a çacotorá & derribafie a fortaleza, & recolhefie os Chriflãos da terra que quifeflem ir coele & dali fofie a Ormuz a pedir as parcas a Cojeatar & coelas fe fofie a Goa. E partido coefte regimento, indo por fua viajem tomou húa nao de mouros q fe lhe entregou em paz: & chegado ao cabo de Goardafum vedo que ho gouernador nã hia tor- noufe a çacotorá, & moftrou a prouifam delrey à Pero correa capitão pera fe derribar a fortaleza, & a do gouernador como lha mandaua der¬ ribar. E derribada a fortaleza & recolhida a géte & artelharia, foyfe a Ormuz & não achou hi Cojeatar nem el rey q erão idos aa ilha de Ba¬ ilarem que lha tinhão tomada feus immigos, & leuarão configo toda a gente de peleja, em tãto que não ficarão em Ormuz mais de duzentos homés que podeflem pelejar, & bem ho poderá Diogo fernandez tomar, mas não oulou por amor das pazes, & efperou a vinda de Cojeatar & del rey, q tornarão muy vitoriofos que cobrarão Baharé & mais húa cidade na cofia da Perfia q fe chama Catifa. E fabendo eles como ho gouernador gouernaua a índia derão logo as pareas que deuião. Coefte boõ auiameto fe partio Diogo fernandez pera a índia, & chegou a Goa em fim Dagofto, onde foy muy bem recebido, afli do capitão como de todos por chegar a tão boõ tempo cõ gente que era tão neceflaria como digo, que traria perto de cem homens & eftes fãos, & coeles fe reforma¬ rão as eftancias tirando os doétes & canfados que eftauão nelas, & poendo deftes, faluo os que erão da nao de Diogo fernandez (que ferião bem quarenta) porque eftes ho acompanhauão fempre: & ele lhes daua de comer, fazia corpo por fi por fer pefioa de preço & de muyto credito, afli cÕ ho gouernador como com todos, & porem obedecia ao capitão, que a efte tempo faya mais fem perigo aos immigos quando lhe corrião. E logo defpois de chegar Diogo fernandez lhe correrão hum dia hús poucos de caualo: a que ho capitão fayo com os feus de caualo & Diogo fernandez não fayo logo coele por andar a pee, que por não auer caualos pera os feus não quis ele andar a caualo. E defpois de ho capitão fer faydo da cidade que chegou aos immigos, fayo Roçalcão cõ todos quan-
Livro III, Capitolo LXXI H9 tos tinha com que eftauão em cilada. O que vendo ho capitão tornoufe a recolher pera a cidade donde Diogo fernandez ja faya acompanhado dos feus, & aífi dalgús piães da terra, & não fabendo ho grande poder de immigos que vinha por virem por antre valos & aruores que por ali auia feguio feu caminho dereyto pela eftrada de Benaftarim, & indo affi foy dar de fupito com os immigos, que como ho tomarão a pee pofe- rçinno em muyto aperto: & a coufa fe baralhou de maneyra que fe ferião com as efpadas tãto fe chegauão hús aos outros, & dos noffos forão feri¬ dos qulze nas pernas, antre os quaes foy Manuel de foufa tauares, que aquele dia pelejou muy valentemente. E com tudo fe ho capitão não aco- dira cÕ os de caualo Diogo fernandez & os outros eftauão em rifco de íe perderem, pollo que pelejarão muyto bem & ferirão muytos dos im¬ migos, & matarão algús. E recolhidos os de pee, tornoufe ho capitão cõ todos pera a cidade fem afronta, que não ho quis Roçalcão feguir. E defpois difto ouuerão os noffos muytas pelejas com os immigos, em que fizerão muytas valentias, que porque as não foube particularméte as não efcreuo principalmente, em hua peleja em que ho capitão foy ferido de húa frecha em hum artelho, & em quanto a peleja durou que foy hum boõ pedaço trouue metida a frecha, & defpois de fe recolher lha tirarão. E durando affi ho cerco, na entrada Dagofto chegou a Goa hum Ioão ferrão que fora de Portugal (com outro capitão que fe perdeo) a carre¬ gar de gimgibre â ilha de fam Lourenço, & por não achar carga fe paffou aa índia, & foy ter a Goa onde deixou da gente que leuaua. E nefte tempo foube Manuel de lacerda que andaua na cofta de Càlicut ho cerco de Goa, & por iífo partio logo pera laa, & com fua partida poderão par¬ tir feys naos de mouros de Meca que eftauão em Pandarane, porem per- deranfe cinco com tempo, & húa que arribou a Baticalà foy defpois tomada. E partido Manuel de lacerda, chegou a Goa com feys nauios grandes, de que erão capitães ele, Pero dafonfeca de crafto, Mendafonfo de Tangere, Francifco fodrê, Simão velho & Antonio de faa natural Da- lhandra. E com a vinda de Manuel de lacerda fe esforçarão os noffos muyto mais que dantes, porque forão coele bem cento & cincoenta ho¬ mens, & affi leuaua mãtimentos em abaftança. E fabendo Roçalcão ho focorro que era vindo aa cidade por lhe moftrar que ho não tinha em conta lhe corria mais amiúde, & de noyte daua rebates moftrãdo que a queria efcalar que trazião os feus efcadas & fobião ao muro: porem não fe poderão gabar difto, porque acodindo os nollos matauão muytos deles. E vendo Roçalcão q lhe não aproueitauão aqueles feros, deixou de os fazer & corria de dia, & também lhe fayão os nollos, & de todas as vezes faya Manuel de lacerda com fua gente acompanhãdo a bandeira real, &
Hifioria da índia 1S0 algúas não faya ho capitão defpois que veo Manuel de lacerda, & daua- lhe ho cargo de capitanear a gente por lhe fazer horra. E Manuel de lacerda ho fazia fempre muy bem, & affi effes principais que forão coele de Cochim: & antreftes erão Mendafonfo de tangere & Antonio ferreyra, & não auia vez que pelejaffem com os mouros que não matafTem muytos. E Roçalcão em vingãça difto fazia amiudar os tiros do camelo da forca, que era o q mayor oppreffam daua aos noffos q as corridas dos immi- gos, & fe os da cidade fe atreuerão a poder trazer ho camelo bé ho forão tomar, mas não fe atreuião por a diftancia fer grande. E paífandofe ifto afíi veo ter a Goa húa nao de Portugal, em que hia por capitão hum fidalgo chamado Criftouão de brito que aquele anno de onze partira de Lisboa a dezanoue Dabril com outro capitão doutra nao chamado dom Ayres da gama hirmão do conde almirante, & erão da conferua de dom Goarcia de noronha que no mefmo anno partira de Lisboa pera a índia por capitão moor de feys naos, ele de fanta Maria dajuda, Pero mazca- renhas de fanta Maria da luz, Manuel de crafto alcoforado de fam Pedro, Iorge de brito de fótã Ofemea, Chriftouão de brito em Belem dõ Ayres na piedade. E as quatro primeyras em que hia dom Garcia (que ao fayr da barra el rey foy ver em hum batel) leuarão tão mâ viajem que che¬ garão a Moçambique em Feuereyro do anno de doze, como direy a diante. E Chriftouão de brito & dom Ayres dobrarão ho cabo de boa Efperança a vinte tres de Iulho, & forão ter a Moçambique a treze Da- gofto, & dõ Ayres ouue vifta de Baticalá vefpera de Noífa fenhora de Setembro, & dahi fe foy a Cananor, & Chriftouão de brito foy ter a Goa onde deu noua da armada que ficaua a tras, & no tempo que hi efteue que forão algús dias, a primeyra vez que Roçalcão correo a cidade lhe fayrão os noffos, q foy hú boõ quinhão de gente: pelejarão tão rijo com os mouros, que defpois de matarem muytos os fizerão fugir & forão apos eles ate as duas aruores, & por os mais dos noffos irem a pee & canfa- rem fe tornarão pera a cidade. E efta foy a primeyra vez defpois que du- raua ho cerco que os noffos desbaratarã os immigos & os fizerão fugir, porq dantes não fazião mais que remeter a eles & recolherfe, & não que os desbarataffem, porque os mouros como fe vião acometer não querião mais pelejar & hianfe: & os noffos nã curauão mais deles por ferem pou¬ cos & recolhianfe. E deixando Chriftouão de brito ali da fua gente, fe foy pera Cananor, & da hi a Cochim.
Livro III, Capitolo LXXII 181 CAPITOLO .LXXII. De como Roçalcão acabou a fortaleza no pajfo de Benajlarim, & do mais que fe fe\ em Goa. VEndo Roçalcão ho focorro q cada dia vinha a Goa, & que a não podia tomar nem fazerlhe mais mal que tela cercada apreffoufe a acabar a fortaleza de Benaftarim, afli pera comprir o que lhe ho Hidalcão mandara, como pera fe fazer ali forte fe ho gouernador ho foíTe bufcar, que bem fabia que ho auia de fazer fe tornafle aa índia, & nem pola ocupação da fortaleza deixaua de dar rebates aa cidade como dan¬ tes: porem os noffos como diífe não ho fentião, & ja viuião defcanfados, affi por ferem muytos como por terem mantimentos em abaftança que lhe hião por mar, & ate Meliquiaz fabédo em Diu ho cerco de Goa por fe moltrar feruidor del rey de Portugal & amigo do gouernador, mandou duas naos carregadas de trigo & doutros mantimentos, mandando ao ca¬ pitão de Goa muytos offrecimentos, porque bem fabia que ho gouernador era fora da índia. E tão pouco fentião os noffos ho cerco, que deu ho capitão liceça a Fernão caldeyra paje que fora do gouernador & cafado em Goa, que foffe tratar pela cofta ate Chaul com hum nauio que ho gouernador lhe dera em cafamento com hum aluara que podeífe fazer prefas nas naos & nauios que não leuaffem feguros do gouernador ou não foífem vaffalos delrey de Portugal pera quem daria a quinta parte do que tomaífe. E eíla licença fe diffe que ho capitão dera, mais por danar ao gouernador que pera goardar feu aluara, porque ainda que ele deuia goardar feus mandados, entendiafe em outro tépo & não naquele em que Goa eftaua em tanta neceffidade de gente, & mais de tal homem como Fernão caldeira que era boõ caualeyro, & ho em que ho capitão fazia conta de danar ao gouernador era em acular a fua licença a Fernão cal¬ deyra, pera a ele executar em tal tempo, & mais que fe Fernão caldeyra fizeífe algum erro naquelas prefas, que ao gouernador fe auia de tornar a culpa & não a ele que era feu fudito, & auia de comprir feus manda¬ dos, o q ele não era obrigado a comprir em tal tempo. E affi deu ho ca¬ pitão licença a algúas peífoas que fe folfem pera Portugal, que não foy bem darlha, affi como a humGonçalo rabelo que rodrigo rabelo pofera por tanadar na ilha de Chorão, & fe foy fem dar conta do dinheiro que recebeo, nem ho entregar na feytoria, & mais roubou muyta fazenda a Rodrigo rabelo (cujo criado foy) defpois de feu falecimento. E nefte roubo foy hum aluara do gouernador q ficaua na mão de Rodrigo rabelo per
j82 Hijloria da índia que fazia feu fuceffor a Manuel de lacerda, fe noffo fenhor defpofeffe dele algúa coufa, & da capitania moor do mar a Diogo fernandez de beja. E todas eftas licenças que ho capitão deu forão contra ho regimento do go- uernador, que quãdo fe partio deixou com grandes defefas que a gente que ficaua em húa fortaleza fe não paffaffe pera outra, quanto mais ir tratar nem fazer prefas nem irfe pera Portugal. Também no tempo que ho gouernador efteue fora da índia fe fizerão algúas defordés com as mo- lheres deífes Portuguefes que cafarão em Goa, fem ho capitão as querer cafar: & dizião que ho fazia por ferem os cafamentos obras do gouerna¬ dor a quem ele queria mal pelo que lhe fizera como a tras diffe. E dizem que os desfauoreceo muyto no tempo que foy capitão, principalmente no começo do cerco, dizendo ele & Pero corefma & outros que bem efcu- fado fora cafar ho gouernador homens em Goa, nem fazer dela ho fúda- mento que fazia eftando tão vezinha no Hidalcão que era um fenhor tão poderofo que não auia de tardar mais em a tomar que em quanto fe não defocupaffe da guerra que tinha, & que ela tomada ficarião os cafados bem auiados fem terem com que fe manter, & cafados com mouras & com gentias. E pofto que ho Hidalcão não tomaffe Goa logo, que conti- nuamente lhe auia de fazer guerra ate a tomar, & os cafados auião de leuar todo ho trabalho por defender fuas fazendas: porque ho gouerna¬ dor não auia de poer outros fronteiros. Porem noífo fenhor que he pie- dofo quis que fucedeífe tudo ao reues. CAPITOLO .LXXIII. De como ho gouernador foube a treyçâo que Timutaraja ordenaua, & de como ho prêdeo & a outros que entrauão nela. PRosseguindo ho gouernador a edificação da fortaleza de Malaca: & ela pofta em ponto pera fe defender dos immigos foy ele enfor¬ mado que Timutaraja & feu filho, & mais hum genrro & hum neto fe carteauão com ho rey moço que fe chamaua rey de Malaca, offrecen- dole a ajudalo fe a quifeffe tomar. E pera melhor teftemunho da verdade, forão dadas ao gouernador duas cartas, húa de Timutaraja aflinada por ele, em que fe difculpaua a elrey de não poder fazer outra coufa, fe não eftar aa obediecia do gouernador, offrecendolhe fua peíToa & a de feu filho, neto & genrro, com toda fua gente pera ho ajudar a cobrar Malaca. E a outra era del rey em repofta defta, rogãdolhe que efteueffe preftes pera quando lhe efcreuefle que auia de ir fobre Malaca, porque efperaua de fer muyto cedo. E com quanto ho gouernador vio eftas duas cartas
Livro III, Capitolo LXXII i83 que erão proua abaftante pera caftigar Timutaraja fegundo merecia tama¬ nha treyção, não quis logo bolir coiffo pera ver fe por bem ho poderia affeffegar por nã fazer aluoroço na terra, de que fe defpois poderia feguir coufa que ho obrigaífe a muyto, pera o que ele não tinha gente que ho podefle ajudar, porque os mais dos oytocentos Portuguefes que trouuera eftauão doentes, & muytos erão falecidos, affi do trabalho que tinhão em edificar a fortaleza & em mal comer & peor dormir, como da mudança do clima em que eftauão & Malaca fer de fua natureza doentia. E fabendo Timutaraja a doença que hia antre os nofios tinha grande deligécia em mandar cada dia faber por peffoas de que fe fiaua quantos doentes auia & quantos morrião, & por faber que erã muytos & defprezar os que fica- uão viuos por ferem poucos & doentes, tomou oufadia de fazer treyção, não fomente ajuntandofe com el rey mas cõ fua gente & parentes quando el rey nã vieífe, & matar todos os noflòs & fazerfe fenhor de Malaca. E pera ter rezão de ho fazer, começou de querer ir contra as ordenações que ho gouernador tinha feytas acerca da gouernança da terra, & daua lugar que a moeda dos mouros correffe na pouoação onde ele moraua, por ele fer cabeceira principal nela, nem quis ir com feu filho, neto & genrro ao apregoar da moeda, com o que ho gouernador diflimulaua re- medeando tudo ho melhor que podia pera não vir a rompimento de caf- tigo, fe não quando foube que Timutaraja fem nenhum temor tinha tomada grão foma defcrauos, affi del rey como de feus mandarins que ficarão quãdo el rey fugio da cidade, & os tinha fonegados pertencendo eles por dereyto a el rey de Portugal, & afli com muy grande foberba & tiranica oufadia roubou ho pouo de Malaca quando a el rey defpejou, & affi aos mercadores que fe tornarão parela com feguro do gouernador: & affi atraueífou defpois todos os arrozes que vierão de fora, em tanto que ja ho pouo padecia neceffidade de mantimentos. E por derradeyro de todas fuas diabólicas maldades, indo ho noflo meirinho da fortaleza aa fua pouoação leuaua hum Nayre Chriftão que era feu pião: & parece que Timutaraja tinha dele algum queixume, mandouho tomar & prendelo com quanto lhe ho meirinho diffe que ho não prendeífe porque era Chriftão, que fe fizera algum nojo que ho mandafle dizer ao gouernador & que ele ho caftigaria: mas ele não quis fe não prendelo. E como fe determinou em fazer treyção, fez fortes as fuas cafas com cauas & paliçadas, & erão tamanhos os roubos que fazia & tão exceffiuas as tiranias de que vfaua, que quaíi que não auia dia em que os mercadores affi mouros como gen¬ tios não foliem com queixume dele ao gouernador, & ifto porem fecreta- mente, requerendolhe com grande inftancia que ho tiraffe da terra que era tredor, foberbo & reuoltofo, & que andara fempre em diuifam com
184 Hijloria da índia el rey de Malaca & tentara por vezes de fe lhe leuantar com a cidade, afirmando que eles não ficarião nela indofe ho gouernador fe Timutaraja ficaffe. E Ruy daraujo q també fabia de fuas maldades, dizia ho mefmo, & que fe hiria, dando muytas & muy euidentes rezões pera que desfizeíTe de todo fua cafa, moftrando por elas quão pouco neceffario era pera go- uernar Malaca. E ifto aconfelhou Ruy daraujo ao gouernador per muytos dias, em tanto fegredo que ninguém ho fabia fe não eles ambos. E fendo as maldades de Timutaraja tantas que fe não podião fofrer, principal¬ mente de atraueffar todos os arrozes, determinou ho gouernador de ho caftigar & prendelo com feu filho, neto & genrro. E ifto determinado con- figo mandou os chamar, dizendo que queria auer confelho coeles, & eles fe efcufarão fempre dir a feu chamado. E vendo ho gouernador que 1'e chegaua ho tempo pera fe partir andaua muy agaftado de ho não poder acolher fem lhe cuftar mais que prendelo com os que digo, & não aper- taua coeles que foffem a feu chamado porque nã lhes pareceffe o que era. E cuydando em algúa manha com que os prendeífe, acertou que hum mouro Perfiano morador na cidade chamado Cojeabrahem, & grande liado de Timutaraja & muyto feu amigo, pedio ao gouernador ho officio de catual da cidade: & como ho gouernador fabia a amizade q ele tinha cõ Timutaraja, determinando de ho acolher por efta via refpondeo a fua petição que não auia de dar os officios da cidade fem cõfelho dos homens honrrados que morauão nela, que os chamaffe todos pera iffo: & que pe¬ rante eles lhe daria ho officio que pedia. E Cojeabrahem diffe ifto a Ti¬ mutaraja, rogandolhe que quifeffe ir ao gouernador cõ feu filho, neto & genrro. E ele diffe que feu filho eftaua doente, & por iffo não poderia ir laa: porem que iria ele com feu neto & feu genrro. O que fabido polo gouernador, não quis fe não que foffem todos, porque os que não foffem prefentes não fe efcufaffem que ho não forão. E ouue fobrifto recados, & por derradeyro foy Mutaraja com feu filho, neto & genrro, por hum re¬ cado que lhe ho gouernador mandou per Simão dandrade que foy armado fecretamente com oyto capitães & outros fidalgos, pera que não querendo ir todos, os prendeffe. E porque a gente que foffe com Mutaraja não en- traffe na fortaleza, & não ouueffe algum aluoroço na fua prifã & na dos outros, efperou os ho gouernador quando ouuerão de ir em húa cafa fora da fortaleza, bem acompanhado de fidalgos armados fecretamente, & outra gente preftes, •& os quatro entrarão nela. E fentados, diífelhes ho gouernador que antes de falarem em outra coufa, lhes fazia faber que certos mercadores de Malaca q logo hi nomeou, fe lhe queixauão deles que lhes deuião certa forna de dinheiro que lhes não querião pagar. E por quanto ho coftume del rey de Portugal íeu fenhor era fazer juftiça,
Livro III, Capitolo LXXIIII i85 adi dos altos como dos baixos, porque niffo erão todos igoaes, afli como em nacer & morrer, era neceflario que ele como feu gouernador a fizefle deles, & por ido auião logo de pagar ou ficar na fortaleza ate que pagaf- fem, & auia de fer fem armas, & lhas auião de dar. E Mutaraja difle que verdade era que deuião ho dinheiro que ele dizia, & que logo man- darião por ele & pagarião: porem que as armas era coftume dos Iaos não as darem fem perder a vida: & feu genrro lhe difle que não era tempo de vfarem de feu coftume, fe não do dos Portuguefes, pois erão vafialos del rey de Portugal, & logo deu ho cris que tinha ao gouernador & ho mefmo fez aos dos outros. E em quanto Mutaraja mandaua polo dinheiro, leuou os ho gouernador pera a fortaleza, não confentindo que nenhú dos feus entraífe dentro. E defpois que entrarão, moftrou a Muta¬ raja a carta que ele mandaua ao rey que fe chamaua de Malaca. E con- feflandolhe que era ho final feu, mãdou a Ruy daraujo que a leffe alto pera a ouuirem aqueles fidalgos & capitães que eftauão coele, & affi a que el rey lhefcreuera. E ouuindo eles as cartas ficou fora de fi, & oulhou pera ho filho, q lhe difle em fua lingoa que esforçaffe, porque dos gran¬ des como ho gouernador, era perdoaré grãdes erros. E apos eftas cartas leo Ruy daraujo os capitolos das culpas de Timutaraja, que ele negou, faluo a carta del rey & a que lhe ele efcreuia, & quanto aos arrozes que atraueflara, difle que ho fizera pera ganhar neles & não a outro fim. Ho gouernador lhe diffq que ate fe aquilo prouar auião todos quatro deftar prefos na fortaleza, & entre tanto q mandaflem derribar as tranqueyras q tinhão & çarrar as cauas q mandarão fazer, & que ele lhes prometia de lhe goardar fua juftiça tão inteiramente como que forão naturais Por¬ tuguefes, & entregou os ao alcayde moor pera que os goardafle. CAPITOLO .LXXIIII. De como Timutaraja & hum filho feu & híí neto, & hú gêrro forão degolados por tredores. COm a promefla do gouernador moftrarã os prefos algum contenta¬ mento, & mandarão logo fazer o q lhes mãdou: & afli reftituyrão per feu mandado o que tinhão roubado a muytos mercadores, & todos os efcrauos que tinhão tomados que forão bem quinhentas almas. E logo ho gouernador entendeo em feu defpacho, & procefloufe tanto pelo feyto que fe veo a prouar contra os prefos tudo o que dizia nos ca¬ pítulos de fuas culpas. E foy dada fentença contreles que morreflem dego¬ lados com pregão na praça de Malaca que manifeftafle fua culpa. E dada
i86 Hiftoria da índia efta fentença, quis ho gouernador poer em cõfelho qual feria melhor ma¬ tarem eftes homens ou telos prefos, porque fe morreífem logo, erão muyto poderofos de gente & dinheiro, & fua gente fe poderia leuãtar & daria fadiga aos noffos por quão poucos erão, & mais eftando ho gouernador de caminho pera a índia, & tendo os viuos eftarião fora deitas duuidas & fua gente com receyo de lhos matarem eftarião fempre affeífegados, que feria grande be ate a terra fer de todo affentada. E poftas muytas rezoes de cada parte, os mais dos capitães acordarão que os prefos fof- fem degolados pera exemplo doutros: & pofto que ao gouernador pare¬ cia melhor que os teueflem viuos, mandou executar a fentença. E forão degolados na praça de Malaca pubricamete Timutaraja & feu filho, neto & genrro ao modo que fe coftuma em Portugal. E por mandado do gouernador efteue dom Ioão de lima com muytos dos noffos armados 5 goarda da praça em quanto fe efta juftiça fazia por fe temer que a gente dos mortos fizeffe algum aluoroço, mas não ouue nada. E os da terra vendo fazer juftiça daqueles quatro homens que erão tão poderofos fica¬ rão muv pafmados, porque fabião quãto erão timidos do rey que fora de Malaca: & todos folgarão com fuas mortes por fe verem liures da fojei- ção que efperauão defpois da partida do gouernador, & aíli algús embai¬ xadores eftranjeiros que ainda eftauão em Malaca ficarão fora de ft, & dizião que não auia homem tão esforçado como ho gouernador, nem de tamanho coração. E tinhão por tamanho feyto a morte de Mutaraja & dos outros, como desbaratar & vencer ho rey que fora de Malaca. CAPITOLO .LXXV. De como foy Antonio dabreu a dejcobrir a ilha das maças & as do crauo: & de como ho gouernador mandou hum embaixador a elrey de Sião. NEste tépo vierã ter ao porto de Malaca tres panguejaoas da terra de Menãcabo q eftâ no topo da ilha de çamatra da bãda do fui q he reyno onde cauão ouro, & o apanhão fobre a terra como ja diffe. Eftas tres panguejaoas trazião grande forna douro a vender a Ma¬ laca, & por iffo ho gouernador fez muyta honrra & fauor aos donos delas. E porque ifto era quafi na fim de Dezembro, que era a moução de Malaca pera as ilhas do crauo que agora fam as que chamam de Maluco: & affí pera a ilha de Banda onde ha a noz & a maça, defpachou ho gouernador húa armada pera ir defcobrir eftas ilhas, & deu a capitania môr dela a Antonio dabreu, que era tão esforçado caualeyro como ja diffe, & deulhe a nao fanta Caterina pera ir, & por piloto dela hum Luys botim, & por
Livro III, Capitolo LXXV 187 lota capitão Dantonio dabreu hum- Frãcifco ferrão na nao çabaya q íe tomou em Goa, & por feu piloto hum Gonçalo doliueyra: foi mais Simão afonfo bifigudo na carauela latina que ho gouernador mandou fazer re- dõda pera efta viajem, & ho feu piloto hum Francifco rodriguez. Ho fey- tor defta armada & das mercadorias que hião nela auia nome Ioão freyre, criado da raynha dona Lianor, & feu efcriuão hum Diogo borjes criado del rey de Portugal. Hião nefta armada cento & vinte Portuguefes & em cada vela vlte efcrauos pera a bomba, & todas muyto bem fornecidas de todo ho neceffario, & a principal coufa q ho gouernador deu ao capitão moor em regimento, & que lhe mais encomendou, foy que naquela via¬ jem não fizeffe prefas nem tomadias, nem arribafle fobre nenhúa nao, nem lhe delfe caça, nem fayfe em nenhum porto, faluo húa pelfoa ou duas, & em todos os portos a que chegalfe delfe prefentes aos reys & fenhores da terra, ou aos gouernadores delas, & pera iífo lhe deu efcar- lata baixa & outros panos fomenos, & veludo de Meca, q foi tomado em húa nao de Calicut, & àlfi que não toruaífe a carrega a nenhúa nao de Malaca nem doutras partes, affi nas ilhas do crauo como na das maças, ou foliem de mouros ou de gentios, antes lhes delfe todo fauor & ajuda que lhes folfe necelfario: & que do mefmo modo q eles carregaffem car- regaffe ele, goardando em tudo os coftumes da terra, & em Maluco nem em Banda não fayfem nenhús criados dos capitães nem outras peíToas, faluo ho feytor & feu efcriuão, & ate quatro peffoas que lhe pera iífo or- denalfe. E deu licéça a todos os darmada que podelfem refgatar ouro, prata, aljôfar & pedraria fem pagarem dilfo nenhús dereytos. Defpachada efta armada, partiole na fim de Dezembro de mil & quinhentos & onze, & o que lhe fucedeo fe dira a diante: & dous dias antes de fua partida, partio Nacoda ifmael chim em hum júco feu pera Maluco que ho gouer¬ nador mandou carregar de mercadoria delrey de Portugal pera fe vender em Maluco, porque não podia a armada leuar quanta era necefiaria, & deu parte da carga a Nacoda que tinha molher & filhos em Malaca, & ficou por feu fiador Ninachatu, a quem ho gouernador deu parte da mer¬ cadoria que mandou carregar em outro jungo, que mandou a Pacem a carregar de pimenta pera os Chins & Guores quando vieflem. E logo na entrada de laneiro do anno de mil & quinhetos & doze, defpachou ho embaixador del rey de Sião, a quê fez muytas merces, & afli aos capi¬ tães Chis q vierão coele, & mãdou é fua cõpanhia feu ebaixador a el rey de Sião, q foy hum fidalgo chamado Antonio de miranda, a que deu hum prefente pera el rey de Sião .f. húas couraças de veludo carme fim, & outras armas brãcas muyto boas & bem goarnecidas: húa adarga danta com hús cordões ricos & húa fúda de borcado, tres panos darmar gran-
i88 Hijloria da Índia des de veludo de cores & cetins antre talhados que forão del rey de Ma- laca, borlados douro, obra muyto rica & fermoía, hum bacio dagoa as mãos laurado de beftiães, húa caldeira de prata & duas albarradas, & duas taças, tudo muyto be laurado, húa béfta com feus tiros & gafa, & quatro ramais de coral muyto fino & groffo e húa peça dezcarlata: & com Antonio de miranda mandou cinco Portuguefes efcolhidos gentis homés a fora outros pera feruiço, de modo que hia hum honrrado embaixador. E também direy a diãte o que lhe fucedeo. E apos Antonio de miranda par- tio hum jugo de Pegú, em que ho gouernador mandou outro embaixador a el rey, que foy hum gomez da cunha que també leuaua prefente a el rey & carta damizade: & ifto porque nefta cidade auia muytos manti¬ mentos que podião ir a Alalaca. E aa partida defte jungo hum filho do piloto dele fe deixou ficar em Malaca, tão afeyçoado eftaua aos noffos, & ficarão coele fefeta Pegús que ho gouernador mandou affentar em foldo pera trabalharem na fortaleza. CAPITOLO .LXXVI. De como fe leuãtou Pataquatir contra ho gouernador, & de como ho go¬ uernador proueo Malaca querendofe partir pera a índia, & de como lhe fugio el rey de Pacê. DEspois de degolados Mutaraja & os outros, ho gouernador deu o cargo que tinha Mutaraja de gouernador dos mouros a hú loa, q auia nome Pajequatir morador em Vpe homem honrrado & prin¬ cipal, & compitidor de Mutaraja, com que eftaua mal, porque defpre- zando ho Mutaraja por auer que nã era tão rico como ele, lhe não quis dar por molher húa filha que lhe pedio, & daqui ficou Patequatir feu im- migo. E por efta caufa & por ao gouernador parecer que fendo Patequa¬ tir gouernador ficaria a terra mais affentada, lhe deu a gouernança dos mouros. E feruindo efte officio foy cometido pola molher de Mutaraja q fe quifeífe cafar com fua filha que lha daria por molher, & coela grãde tefouro, com condição que fizeffe guerra ao gouernador, & trabalhaffe por vingar a morte de feu marido, & que lhe daria ajuda de todos os feus efcrauos, & de todos feus parentes & amigos, que paífarião de feys mil homens: o que Patequatir aceitou. E aparelhado muy íecretamente pera a guerra, deu hú dia na pouoação grande a que começou de poer ho fogo & matar a gente, & a grãde grita acodio logo ho gouernador cõ os nof¬ fos: & foy húa grande peleja antreles & os Iaos, em q morrerão muytos & dos noffos forão algús feridos, & Patequatir fe recolheo pera Vpe, em
Livro III, Capitolo LXXVI 189 que fe logo fez forte com tranqueyras, & porque dali por diante corria a pouoação grande, conueo ao gouernador porque a não queymaffe de noyte mandar logo fazer húa tranqueyra, que começaua no mar, & che- gaua ate onde fe fazia a terra alagadiça q feria efpaço dhum tiro de bêfta & tolhia não poderem os immigos chegar aa cidade, & mais antre a tranqueyra & Vpe fazialfe hum efteyro que fe enchia dagoa cõ maré, & em quanto fe efta tranqueyra acabaua cada noyte mãdaua o gouernador vigiar a pouoação. E ela acabada deu a goarda dela a Afonfo peffoa hum boõ caualeyro, & deulhe feteta bêfteiros & elpingardeiros: & pera a tran¬ queyra eftar também goardada por mar, armou no cabo dela húa albe- toça com hú camelo & eftaua amarrada aa tranqueyra, & a capitania deu a Afofo chainho & deulhe dez dos noífos pera que ho acompanhaífem. E coefta tranqueyra affi goardada ficou Malaca muyto fegura de Patequatir, que vendofe atalhado daquela maneyra não curou mais de cometer a cidade, & mandou pedir ao gouernador que lhe perdoaffe & lhe deífe feguro, & que tornaria a fua obediência. E ho gouernador lho concedeo, mas Patequatir não fe fiou diffo, & não quis tornar & ficoufe affi. E por iífo & por fer a moução da índia, determinou ho gouernador de fe partir, porque a fortaleza era quafi acabada a que pos nome a famofa, a bar- reyra era em quadra pofto que ho corpo da fortaleza não folfe quadrado. A groffura do muro era doyto pés todo de cantaria: tinha a torre da me- najem fobre a ribeyra do mar junto do paço da ponte, & dagoas viuas podia ali chegar húa nao de duzentos toneys fem carga. Na quadra q a fortaleza fazia ao monte fe fazião duas torres que fenhoreauão a coroa dele, & em cada quadra das torres que goardauão ho pé do muro auia bombardeiras com artelharia, & porque ho fitio da terra ho requeria affi, & a mezquita que ali eftaua: era a fortaleza etulhada em altura de mea lança darmas, & mais a torre da menajem podia receber focorro por mar, & tinha detro em fi hú pedaço de cantaria, & outro é outra torre, & auia agoa pera fazeré outros muytos. A igreja dcfta fortaleza era da auocação de noífa fenhora danunciada. E determinãdo ho gouernador de fe partir com confelho deífes capitães, fidalgos & caualeyros que andauão coele, fez capitão da fortaleza Ruy de brito hú fidalgo de Santaré, & alcayde môr & prouedor da fazenda Ruy daraujo, & capitão mòr do mar Fernão perez dandrade. E porq antreles não ouueffe deferenças de que fe feguiflé muyto deferuiço de Deos & del rey feu fenor, mandou que Fernão perez deífe a menajem a Ruy de brito, & que com feus capitães lhe obedeceífem em tudo, & por tudo affi como a fua própria peffoa. E que fazendo noffo fenhor algúa coufa de Ruy de brito q ficaífe Fernã pe¬ rez por capitão da fortaleza, & por capitão môr do mar hum fidalgo cha-
19° Hijloria da índia mado lopo dazeuedo que ficaua por fota capitão de Fernão perez, que ficaua na nao de do Ioão de lima, & lopo dazeuedo na carauela de Iames teixeira: & ficauão mais eftes capitães, Ioão lopez daluim, que ficaua na nao de Gafpar de payua, Vafco fernandez coutinho no nauio de Baftião de miranda, Pero de faria filho do comendador Aluoro de faria na galee de Duarte da filua, Ayres pereyra de berredo na nao de Nuno vaz de caftelo branco, Chriflouão mazcarenhas na nao Santiago, Chriítouão gar- ces na nao de Simão dandrade. E ficarã por efcriuães da feytoria hum Francifco dazeuedo, Pero falgado & Ioão jorge, por almoxarife dos man¬ timentos hú Iacome fernandez & feu efcriuão Frãcifco cardofo, almoxa¬ rife do almazem Bras afonfo, & feu efcriuão Diogo camacho, que também ficou por prouedor dos defútos & do efpirital, & por meyrinho da forta¬ leza & da cidade, todos criados delrey de Portugal & de fua mãy, & da raynha fua hirmaã. Ficarão por gouernadores da terra (não tirãdo a fuperioridade ao capitão da fortaleza) Ninachatu dos getios, & dos mou¬ ros hú Caciz, dos Iaos Duperagunataraja, da pouoação da banda da for¬ taleza a Tuão colafcar jao de nação, & a Ruy daraujo por determinador de feus agrauos, & apagador de fuas defereças, & que fempre interuieffe em concerto antreles. Deixou dordenado ao capitão da fortaleza duzétos mil rs cadãno, & cincoéta quintais de crauo, de q pagaria é CochI a vin¬ tena, & em Portugal quarta & vintena, & ao alcayde mór duzentos mil rs & cincoenta quitais de crauo no primeyro anno, & da hi por diante trinta, & dos trinta auia de pagar quarta & vintena em Portugal, & dos cincoenta vintena, & a Fernão perez capitão mòr do mar céto & cin¬ coenta mil rs dordenado, de que fe ele agrauou muyto, & nã quifera ficar né os outros capitães por lhe nã deixar mais ordenado q certa coufa cada dia. E ho gouernador infiftio em ficare ate dizer que os prenderia: & por apacificar a Fernão perez, lhe deixou hú aílinado feu de fora em que dizia que não mandando dali a hú anno qué feruifie ho cargo que lhe ficaua q ele fe podeífe ir pera a índia, & hiria na nao em que ficaua por capitão mòr doutras duas q forão da armada de Diogo mendez, & que podeífe carregar a fua camara de drogas. E tendo ho gouernador deter¬ minada fua partida, que era caminho da índia foube ho çoltanzina rey q fora de Pacé, & mandou dizer ao gouernador q lhe dizião que fe quiria ir dereyto à índia, q lhe pedia que lhe lembralfe q lhe tinha prometido de ho reftituyr em feu reyno. A que ho gouernador refpondeo que bem lhe lembraua, & tinha muyta vontade pera ho fazer: mas que não podia fer daquele ferro, porque ele fe deteuera em Malaca mais do que cuy- dara, & que não podia perder a moução pera a índia polo muyto que lá tinha que fazer, que de laa ho reftituyria em feu reyno. E parecendo a
Livro III, Capitolo LXXVII *9' çoltanzina que erão aquilo delongas & receando que ho gouemador ho leuafie á índia, & qué nunca mais tornaffe a fua terra, fugio tão fecreta- mente q nunca fe foube pera onde fora. CAPITOLO .LXXVII. Be como os mercadores de Malaca confelharão & requererão ao gouemador que fe não fojje, & do que ele refpondeo. FAzendo ho gouemador preítes fua partida, foranno ver os morado¬ res, & eífes principais de Malaca, pera lhe perfuadirem q fe não fofle dela, porque fe receauão que ido ele fe ajuntaffe Quatepatir com el rey que fe chamaua de Malaca, & a tomaffem ou lhe deffem grande oprefã com que fe todos poderião perder, ou lhes feria forçado irfe dela. E hú deles é nome de todos lhe fez efta fala na fua lingoa. Não ha nenhum de nos outros que não eftee fora de fi com efpanto (muyto esforçado & famofo capitão mais que quantos temos vifto, & que quãtos ouuimos dizer) de tua fingular prudência, que tendo ganhada cõ trabalho tão immenfo & com vitoria tão fobre natural, a môr coufa q ha no mudo & mais rica de todas as riquezas dele, queres a defemparar fem ter ainda de todo tomado aquele affento que he neceffario pera per¬ manecer, porque fe a das por fegura cõ desbaratares el rey & ho fazeres fugir com tanta géte morta & ferida, & perdido de todo feu eftado & fobre tudo morto: ainda feu filho que reprefenta fua peífoa, & diz q he herdeiro de fua terra & da vingãça de fua morte eftá viuo, & oyto legoas daqui em fitio forte & com géte na terra, & grãde armada no mar, & muyto liado per parentefco & amizade com todos os reys comarcãos, q tudo ifto lhe da muyta efperança de eftando tu na terra fe reftituyr em feu eftado, quãto mais fe te vir ido, porque então todos feus parentes & amigos, que cõ receyo de tua preleça lhe negão fua ajuda, lha darão fem medo. E pera confirmação del rey fazer o que digo, não he mais necef¬ fario alegar fe não que quando Patequatir por vingar a morte de qué ho engeitou de parente, com géte empreitada fe atreueo aleuãtarfe cõtra ti, que fara el rey contra os teus que fabe certo que lhe matarão feus pa¬ rentes, feus vaffalos, & que lhe tem por força a terra que foy de feu pay: & pera mais facilmente os desbaratar, ajuntara configo Patequatir com feu poder, & que logo não tome a fortaleza a fome lha entregara, por¬ que por guerra fempre faleceo mantiméto em terra abaftada, quanto mais nefta que não tem fe não o que vem de fora. E pofto que por teu muyto grande esforço não tenhas tudo ifto em conta, & a faças q os Portuguefes
JQ2 Hijloria da índia tem fortaleza em que fe emparar, armada no mar pera fe defender & bufcar mantimêto. Lembrete que os mercadores fojem como do fogo dos lugares "em que ha guerra, & que fò a fama de a auer nefte fara fugir dele todos os mercadores q foyão de vir a ele fazer fuas mercado¬ rias, & ie elas fica ele hú deferto & terra eíterile, & coelas húa cafa de tifouro de todas as riquezas do míido, porque? que fe pode defejar delas, que fe aqui nã ache? ouro a motes? prata & outros metais fem conto, efpeciaria & droga le medida? Nã falo em lenho aloes, aguila, fandolos, almizquere, feda folta & tecida, beijol & outros perfumes, roupa branca, porcelanas & outras coufas muy deleitofas aos humanos, porque fam tan¬ tas que enfaftião a quem as tem em coitume, & por cima de tudo fer própria & ifenta del rey de Portugal & fem nenhú fobrolfo como fam as fortalezas da índia, q todas fã feytas dempreítado em terra alhea, onde os Portuguefes eftão como parceiros, & neita como moradores na terra de feu rey, õde ele fò reyna fem parçaria, em q fempre ha difcordia. E pois ha tantas rezões pera te não partires, te pedimos muyto de noffa parte, & te requeremos da delrey de Portugal que te não vas, porq por feu feruiço gaitaremos quantas mercadorias, quãtas fazendas & quanto dinheiro temos, com tanto q te não vas de Malaca. Ao q ho gouernador refpondeo cõ muytos agardecimétos dos louuores, & confelho que lhe da- uão, & dos offrecimetos que lhe fazião, & fobre tudo a boa võtade que entendia que lhe tinhão, & q ele conhecia quão bé ho acõfelhauão, porem que forçadaméte lhe era neceifario ir vifitar a índia, principalméte a ilha & cidade de Goa, que auia no mais de hú anno que ganhara ao Hidal- cão, q era tão poderofo como eles ouuirião dizer, & que eítaua tão vezi- nho dela: & fe lhe não tiuefie dada algúa opprefiam, no inuerno paffado q ele não eíteuera na índia, lha daria com cerco fe paflaffe outro fem ele eítar nela: & pera dar fauor a Goa hia vifitar a índia & não pera deixar Malaca, que bem fabia que era tudo o q eles dizião, & por iífo fazia dela muyto fundaméto: mas que né por iffo auia de deixar perder os lugares da índia que fe perderião com ele eítar muyto tempo aufente dela, & o que ele determinaua deitar de Malaca feria no mais que ho inuerno da índia, que com o q gaitaria em fua viajem ate tornar feria hú anno, em q fe muy bem poderia foíter a gente que auia de deixar na fortaleza & na frota que ficaua no mar. E que poito q não vieíTem nelte tépo mercadores a Malaca, da tornada que ele tornaife aflentaria a terra de maneyra q eles tornaífem como dantes, & que fe ele poderá efcufar de ir â índia folgara muyto, mas q nã podia por nenhúa maneyra: & afli lhe deu outras muytas rezões pera fua ida cõ grandes efperanças da tor¬ nada fer em breue, do que eles ficarão contentes.
Livro 111, Capitolo LXXVIII ig3 CAPITOLO .LXXVIII. De como nauegãdo lio gouernador pera a índia, fe perdeo a fua nao: & como foy morto Sirnão martin\ com outros noffbs: & do q aconleceo a Simão dandrade. EAo outro dia defpois difto deixando na fortaleza trezentos homés Portuguefes & muvtos piães da terra, & na frota duzentos, fe par- tio de Maiaca nao leuando mais q tres naos & hum jungo, & nele leuaua muyta fazenda del rey feu fenor q lhe coubera do feu quinto, & afli algúa fua que valia na índia: & hia por capitão do jungo Simão mar- tlz, & hião coele dez ou doze Portuguefes, & afli hião mais fefenta Iaos cafados, carpíleiros, calafates & ferreyros que leuaua pera a índia que erão del rey, & auião lá dinfinar outros efcrauos del rey a eítes officios. E a caufa porque ho gouernador não meteo aquela fazéda do jungo ne os efcrauos em frol delamar que era a capitayna, foy porque fazia tanta agoa que temeo que fe foffe ao fúdo, & por eíta caufa quifera ir na trin¬ dade q era húa das outras naos de fua conferua, & deixou de ho fazer porque vendo a gete a rezão porque ele fugia de frol delamar não fe que¬ ria ningue embarcar nela, & todos qrião ir nas outras naos, & porq ele defejaua de ir nela â índia pera a renouar embarcoufe nela, & nela nem nas outras não leuou mais gete que a necelVaria pera as marear. E con¬ tinuando por fua viajem indo atraues da ilha de çamatra defronte da coíta Dauru, deulhe húa grande toruoada, & por a fua nao fer podre & fazer muyta agoa que não podia nauegar fe não em tepo feyto, pareceo bem ao feu piloto que furgiffem, & aífi fe fez. E defpois de furtos foy ho mar tão groffo q fez caçar a nao, & foy ter fobre húa lagia, em que tocou, & como era podre fezfe em dous pedaços, & a popa com ho maíto grande que ficou mais fobre a lagia & aflentou nela ficou ali fem a cobrir a agoa: & ho gouernador cõ os que eftauão nela fe faluarão, & alfi algú fato, porque acodio logo ho batel da Trldade que eílaua mais perto furta com as outras, & faluou o que digo, & da proa que acertou fora da lagia fe não faluou nada, porque afli como fe partio fe foy logo a fundo. E foy coufa miferauel ver afli partir húa nao, de q a fora os q digo fe faluarão algús a nado com fe pegarem a arcas, & eftes forão ter a Pacem, porque a reuolta era tamanha por acodiré ao gouernador que ningué oulhou por eftes. E ho gouernador cõ os outros foy leuado a nao Trldade, & ali fe agafalhou pera ir ate a índia: & coefta mefma toruoada com q íe perdeo a capitayna, fe apartou Iorge nunez de lião capitão da nao Enxobregas, 25 Tomo II
194 Hijloria da índia do iúgo de que hia por goarda por mandado do gouernador, por recear ho gouernador que os Iaos fe leuãtaffem contra os noffos, que como diíTe não ferião mais que ate treze. E vendofe os Iaos apartados da nao, leuan- taranfe contreles atando crifes que leuauão efcondidos em paos compri¬ dos como haftes, & feytas lanças deles peleiarão com os noífos, que fe defenderão bem & por muytos que matarão dos Iaos forão mortos todos por derradeyro. E ficando os Iaos fenores do iúgo, fe forão â ilha de çamatra á cidade de Temião. E tornando ho gouernador a fua nauega- ção, paffou muyto trabalho com a gente no golfão que fe faz de çamatra a Ceylão, porque como a gente creceo na nao, & fe deteuerão mais dias dos que cuydarão, faltoulhes a agoa, & morrerão todos com fede fe lhes noifo fenhor não deparara húa nao de Dabul, q foy tomada por força, & achoufe nela muyta riqueza, & aífi catiuos, & agoa: & logo dali a pou¬ cos dias topou outra nao, que fe rendeo como lhe mãdarão que amai- naffe, & neíta também fe achou agoa. E ho dono defta nao diífe ao go¬ uernador que era de Chaul, & que não trazia cartaz, ou feguro, porq ho não trazião as naos dos lugares que pagauão pareas, & porq Chaul as pagaua ho não trazia. E porq ho gouernador temeo q ho dono da nao lhe não falaífe verdade, mãdou que ficalfe na lua nao com algús outros, & que a nao foffe em fua conferua ate Cochim pera hi faber fe era como ele dizia: & na nao mandou que foífe Simão dandrade por capitão, & mandou que folTem coele quinze dos noffos, & ho piloto & marinheiros da nao ficarão nela pera a gouernarem. E cuydando eles que os leuauão catiuos, por fe liurar húa noyte fendo tanto auante como ho cabo de Co- morim, gouernou ho piloto mouro a tal rumo, que fe apartou muyto da cõferua do gouernador, & em amanhecendo foy aferrar porto na ilha de Cãdaluz húa das principais das ilhas de Maldiua, onde eftauão muytos Malabares de Calicut, cõ cuja ajuda os mouros da nao prenderão Simão dandrade & os outros noffos, & os atormentarão com muytas injurias & males que lhes fizerão, & não oufarão de os matar por amor do dono da nao que hia em poder do gouernador que ho matarião, & roubaranlhe quãto leuauão na nao, & defpois diíto os deixarão ir pera Cochim, onde chegados acharão ja ho gouernador.
Livro III, Capitolo LXXIX 195 CAPITOLO .LXXIX. De como ho governador chegou a Cochim, & das nouas que achou da vinda dos rumes: & de como deu a capitania de Goa a Manuel de la- cerda. DO cabo de Comorim foy 0 gouernador ter a Cochim na entrada de Feuereyro de mil & quinhentos & doze, & hi foy recebido com grandes alegrias quando ho virão viuo, & fouberão como deixaua Malaca, porque muytos cuydauão que fofle perdido, afli polo que Lou- renço moreno & Antonio real diíferão quãdo partio pera lâ, como porq defpois de partido deitarão fama os mouros de Cananor & de Cochim que fe perdera com toda a frota, & que auião os rumes de vir muy cedo â índia, porque affi lho efcreuera Mirocem ho capitão môr q fora da ar¬ mada do foldão, que ho vifo rey dom Francifco dalmeyda desbaratou ê Diu, & ele fe acolheo á corte del rey de Cambaya que então reynaua, q núca ho mais deixou ir pera fua terra, & criafle porque não trouueífe rumes â índia. E defpois que efte rey morreo que foy no anno paliado de mil & quinhentos & onze, ho filho que lhe fucedeo, deu logo licença a Miroce que fe foífe, & quando fe foy efcreueo a el rey de Calicut, & affi a todos os reys da índia nolfos immigos, que fe não hia fe não pera trazer tantos rumes que deitaífem os nolfos fora da índia, pedindolhes que fe fizeífem todos preftes pera os ajudar. E os mouros de CochI & de Cananor forão os que mais alfoalharão eíta noua. E parecedo aos mouros de Cananor q ifto era verdade, & affi de fer ho gouernador perdido, co¬ meçarão de fazer duas naos de quilha pera mandarem a Meca carregadas defpeciaria, & tornare carregadas de rumes. E coefta reuolta que andaua na índia, deu a chegada do gouernador muyto prazer. E fabendo ele o q os mouros pronofticauão de fua perdição, mãdou foltar doze mouros horrados de Cãbaya & do Balagate & doutras partes q trazia catiuos de Malaca, q fe foffem por onde quifeffem pera que contaffem a tomada de Malaca & como eftaua na índia. E eles ho apregoarão por onde forão, & nas terras donde erão. E fabedo ho gouernador a étrada dos turcos na ilha de Goa & ho mais que era feyto despachou logo pera la oyto Catu- res Dantonio real carregados de gente, & mandou neles prouifam a Ma¬ nuel de lacerda pera fer capitão de Goa, & Manuel de foufa tauares alcayde moor, & Diogo fernandez de beja capitão do mar, & efcreueo a Manuel delacerda q lhe mandaua aquela gente em quanto não hia, por¬ que fe ficaua apercebédo pera ir ho mais de preífa que podeífe. E chega-
Hijloria da índia 196 dos eftes Catures a Goa, foy metido Manuel de lacerda na capitania, & Manuel de foufa & Diogo fernãdez nos outros carrgos. E vedo Manuel delacerda a carta do gouernador fobre fua ida, refpondeolhe logo que não deuia de ir, porque não tinha tanta géte que podefle tomar logo a fortaleza a Roçalcão, & pera eílar e Goa fem mais que feria grande aba¬ timento terenlhe os mouros húa fortaleza no rodo & ele não a poder tomar, por iífo que não foffe ate as naos de Portugal não chegaré que auião de trazer muyta gente, & q então hiria a Goa como cúpria ao eftado del rey de Portugal & a fua honrra, & entre tanto ele efperaua em Deos de a cidade não correr nenhu perigo, porque ele tinha feyfcentos Portu- guefes com que a defender, a fora os piães da terra. E por efte recado que foy em breue tépo ao gouernador, defiftio ele de ir a Goa & ficoufe em Cochim, onde achou bem q concertar em defmanchos que fe fizerão em quanto foy a Malaca. Primeyramete na juftiça em que Antonio real & Lourenço moreno fazião aufolutamente 0 que querião: & porque lhes foy dito que hum Simão rãgel natural de Coimbra praguejaua do que eles fazião degradaranno pera Goa, & mandarãno e húa nao de mouros mercadores de Cochim, que no caminho forão tomados por mouros de Calicut, que leuarão lâ Simão rangel catiuo, & hi ho venderão em pre¬ gão, & foy vendido a hum mouro do cayro q ho leuou pera laa. E não fométe fazião eítas coufas & outras na juftiça, mas outros muyto grandes exceffos na fazéda, fazedo gaftos muy defordenados, afti como em fazerem húa nao noua de que não auia neceflidade & deixaré perder a nao cirne que era ainda pera poder nauegar, & com fe correger efcufara ho gafto da nao noua: & afti achou que tratauão em mercadorias defefas polo re¬ gimento del rey, & gaftauão ho dinheiro que mandaua pera a carga da efpeciaria em outras coufas, & affacauão ao gouernador que ele ho gaf- taua: & porq ele quis apurar a verdade difto & atalhar q ho não fizefle mais, lhe quiferão dali por diãte muyto grãde mal, & defpois fez Anto¬ nio real capitolos dele como direy a diante. CAPITOLO .LXXX. Do q 0 gouernador fe\ em Cochim, & de como hu rey das ilhas de Maldiua fe fe\ vaffalo del rey de Portugal. TAmbem ho gouernador acodio a outros grandes males que auia em CochI na nolfa pouoação, que fe fazião por eftarem os gétios mef- turados com os Chriftãos da terra, & as molheres Chriftaãs da terra mancebas do múdo tinhão em fuas cafas de quinze ate vinte paren-
Livro 111, Capitolo LXXX 197 tes gentios todos, & péccauão coeles carnalméte, & outras Chriftaãs pec- cauão nas cafas dos gentios com mouros: & auia cafas em que pou- fauao gentios & mouros de fora de CochI que tinhSo por officio éganar efcrauos dos noffos q lhe fugiffem & os roubaíTem. E hia efte roubo tanto auante q muytos erão roubados de paffante de cê cruzados: & neftas mefmas cafas dos gentios tinhão muytos dos noffos parte com as gentias. E dando ho gouernador cota de tudo ifto a el rey de Cochim, ouue dele que lhe deífe demarcação pera a noífa pouoação eftar fobre fi: & auida, mandou que fopena de morte todo ho gentio, afli homem como molher fe defpejaffe logo da noífa pouoação nc tornaífe mais a ela. E feytò ifto tomaranfe Chriftaãs bem quatro cetas pefloas gentias, em que entrarão algíís panicaes & outros honrrados. E nefte inuerno mã- dou o gouernador fazer em Cochim trinta catures que fam nauios de remo mais pequenos que bargãtls, & ifto porque foube que entre tanto q ele foy a Malaca, mandou el rey de Calicut fazer hús fefenta nauios def- tes, & como as naos de Cochim fayão do porto hião a elas, & ou as tomauão ou as punhão em grande afronta, & tomauã paraos & pagueres que hião de Cananor pera Cochim pera a noífa fortaleza com coufas ne- ceífarias que os feytores mandauão de húas âs outras, & aífi que hião de Goa, & pera pelejare coeftes catures, fez ho gouernador os que digo & pera outras coufas neceífarias. Também nefte inuerno por induftria do gouernador fe tornarão é Cochim Chriftãos muytos moços filhos de ho- més honrrados, & pera fere melhor infinados na fê catholica & terem melhor criação, mãdou os infinar a ler & a efcreuer em efcola pubrica que ordenou pera ilfo, & achou obra de cem moços pera deprendere. E nefte inuerno lhe foy dada húa carta de quatro marinheiros noffos q fe perderão coele em frol delamar, em que dizião que forão ter a Ace hú porto del rey de Pace, que lhes fizera muyta hõrra, & os mãdara a Cho- ramandel em hú jungo de Chatins, que tambe por fere Portuguefes lhes fizerão muyto gafalhado, & mãdauão pedir feguro ao gouernador pera fuas naos & júgos irem a Malaca como coftumauão, & mais lho pedião pera hú jungo q hi inuernaua que leuaua roupa de algús mercadores de Malaca & afli do rey que fora delia, cuja parte lhe entregarião. O que ho gouernador lhes concedeo, & mais fez merce ao capitão do jungo da parte delrey, que valeria bé quinze mil cruzados, & nefte tempo lhe che¬ gou hú mefiegeiro de Merlao aqlle q lhe arrendara as tanadarias da terra firme de Goa, que era rey Donor por morte do hirmão q lhe tinha ho reyno por força: & mandoulhe por carta muytos agardecimetos da hõrra que lhe fizera em Goa, fendo hú pobre auentureiro. E afli ofrecimentos damizade & defejos de feruir a el rey de portugal com todo ho reyno &
Hiftoria da índia 198 cõ fua peffoa, & mandoulhe húa trepeça q fora del rey de Narfinga toda forrada douro & os pés feytos de torno, obra bé feyta & rica. E o gouer- nador lhe refpõdeo pelo meífejeiro, cÕfirmãdofe por muyto feu amigo c nome del rey de Portugal, & feu, & mandoulhe hú prefente: E fempre Merlao durou nefta amizade, & pagou bé a réda de Mergeu q feu hir- mão não fazia. Na entrada defte inuerno q foy é Mayo, chegou a CochI Pero mazcarenhas capitão dhúa nao da conferua de do Garcia de noro- nha, q aquele anno partira por capitão môr da armada da carga. E par¬ tido de Lisboa, chegou ao cabo de fanóto Agoftinho cõ toda fua frota, & por ho não poder dobrar tornou â coíta de Guine a bufcar veto pera na- uegar, & foy ter aa ilha de lam Thome, onde fez agoada, & hi lhe adoe- ceo & morreo muyta gente: & Ido dali cõ muyto trabalho parecendolhe q tinha dobrado ho cabo de boa Efperança, foy reconhecer a terra & achoufe atras dele. E tornando a fua nauegação q foy em eftremo traba- lhofa, chegou a Moçãbiq cõ toda a frota é feuereyro de mil & quinhctos & doze, & então paffauão por ali do Ayres & Chriftouão de brito q hião pera Portugal: & por fer ja boca dinuerno da índia & a géte ir muyto trabalhada, foy neceffario ter ali ho inuerno da índia, & deu licéça a Pero mazcarenhas que lha pedio pera fe ir â índia na nao fótã Ofemea de Iorge de brito q era nauio peqno, & por iffo dõ Garcia ho mandou â índia cõ noua ao gouernador de como ficaua em Moçãbiq. E partido che¬ gou a CochI na fl de Mayo & deu noua ao gouernador como dõ Garcia ficaua em Moçãbiq, & coela folgou ele muyto por dõ Garcia fer feu fobri- nho, & logo etregou a capitania de CochI a Pero mazcarenhas q a trazia por elrey de Portugal. E quafi no cabo do inuerno chegou ao gouernador hum embaixador dhú rey das ilhas de Maldiua q fe mãdaua offrecer por vaffalo delrey de Portugal, cõ tanto q lhe reftituyfe algúas ilhas que lhe tinha tomadas hum mouro principal de Cananor chamado Mamale cõ ajuda dhús hirmãos q tinha, & elrey de Cananor lhe tinha dado nome de rey. E ho gouernador aceitou efte offrecimento, & prometeo de liurar el rey do Mamale, & aífi ho fez defpois fazendo cõ Mamale que renú- ciaffe ho titulo que tinha de rey daqlas ilhas de Maldiua.
Livro III, Capitolo LXXXI *99 CAPITOLO .LXXXI. De como os imigos tomarão a barcaça que goardaua a trãqueyra da banda do mar, & de como os ttoffos desbaratarão os immigos & cobra¬ rão a barcaça com fio camelo que tinha. PArtido ho gouernador de Malaca, foy ho defmayo tamanho na gente da terra q todos poferão toucas pretas, o que Ruy de brito & Fer- não perez eftranharão muyto a Ninachatu, & prometeranlhe de fazere de tal maneyra a guerra a Patequatir que ho lãçaffem fora de Ma¬ laca: & nifto veo noua q Lafamane que eftaua em Muar, fe dizia que queria ir a Malaca pelejar cÕ a noffa frota. E fabido illo foy acordado q Fernão perez foffe bufcar Lafamane & peleiaffe coele, afli pera esforçar a gente da terra, como porq no rio de Muar por fer lugar eftreyto pe- leiaria melhor q no porto de Malaca q era largo. E em quãto Fernão perez lâ foy, veo Quatepatir de noyte, q fazia muy grande efcuro, & cõ muyta gente q trazia deu na noffa barcaça q eftaua no cabo da noífa tranqueyra, & tomãdoha fem fe os noffos poderé valer leuouha coeles & cõ ho camelo q tinha à fua fortaleza, & meteo ho camelo détro, & mã- douho affeftar defronte de húa porta q faya pera ho mar, pera que dali jugafle cõtra que a cometefle. E ao outro dia q ifto acõteceo, logo pola manhaã chegou Fernão perez que fe tornou por nã achar a armada do Lafamane: & fabédo a tomada da barcaça, diffe a Ruy de brito q lhe parecia q logo fe deuia de vingar aqla offenfa, porq fe afti fe não fizeffe Catepati cobraria mòr esforço do q tinha, & a géte da terra mayor def¬ mayo do q andaua neles, & perderião de todo o credito dos noffos. E eftas rezões deu no cõfelho q fe logo fez fobriffo: & algús lhas contraria¬ rão, dizendo q não era be pelejar cõ a fortaleza da trãqueyra, pois ho gouernador cõ a gente q tinha a não poderá desbaratar: & eles não erão mais fãos q duzétos & cincoéta Portuguefes. Ao q Fernão perez dilfe q o gouernador nã tiuera tãta neceílidade de cometer a fortaleza como eles tinhão, & q quãto era a feré poucos, q noffo fenhor os faria muytos no esforço, porq pera iífo erão Chriftãos. E ho parecer de Fernão perez fe aprouou, aíli polos noffos como polo Bédara & Catual q eftauão no con- felho, & fe offrecerão a ir cõ Fernão perez cõ mil & quinhentos piães da terra: & foy ordenado q foffe coeles ao lõgo do mar Afonfo peffoa com os efpingardeiros & béfteiros q tinha na tranqueyra: & Fernão perez auia de ir por mar ao lõgo da terra cõ feus capitães c bateys & em cala- luzes, & ferião os noffos duzentos: & hião afli ao lõgo de terra, porq fe
200 Hijloria da índia foffe coufa q fayfe os Imigos aos q hião por terra, os defendefé cÕ a ar- telharia dos bateys. E indo perto da fortaleza, mandou Fernão perez a Iorge botelho de põbal, q era hú dos capitães que hião nos bateys q def- embarcaffe primeyro q todos, '& pegafTe cÕ a trãqueyra, & viffe a difpo- fição dela: & ele ho fez afli. E em faindo ho noífo camelo, começa de defparar muy rijo, & como diífe eftaua na porta da tranqueyra defronte do mar, q eftaua aberta, & eftarião em goarda dele obra de ce mouros. E Iorge botelho & os q hiã coele como nã tinhão em cota os tiros do camelo, chegarão cÕ muyta preífa à porta dõde ele eftaua & entrarão: & começando de pelejar cõ os Imigos q eftauão em goarda, acodio Fer¬ não perez cõ os feus, & afli Afonfo peífoa cõ os q trazia por terra, & cõ fua chegada nã curarão os Imigos de mais reíiftecia & alargarão a porta, & os noffos entrarão todos: & Fernão perez mandou logo poer fogo, porq fe os noffos não carregaffem de muyta & muy rica fazéda q ali auia, & étre tãto vieffe Quatepatir cõ ho corpo da fua gente do q fe receaua, & os noffos não podefle pelejar cõ ho roubo & fe desbarataffem como ele ja vira acõtecer algúas vezes, & por iffo ele mefmo andaua mandãdo poer ho fogo cõ deixar os capitães cõ a môr parte da géte feyta e corpo, pera q refiftiífe a Patequatir fe vieffe, & fizeífé entre tanto recolher ho camelo aos bateys, & queredoho os noffos fazer acharão ho cepo do ca¬ melo cheo de fangue frefco: & foubeffe defpois q era do noífo cõdeftabre q fora catiuo na barcaça cõ os outros, a q Patequatir mandou q tiraffe cõ ho camelo quãdo os noffos forão viftos, & por ele nuca querer tirar lhe cortarão os Imigos a cabeça fobre ho cepo. E eftãdo nifto deixaranfe vir perto de quatrocétos mouros, & diãte deles tres alifantes cõ caftelos, em q hirião trinta ou quarenta frecheiros. E afli como os noffos os virão de fupito, começão de bradar. Alifantes, alifãtes: & coifto fugio a mayor parte deles pera os bateys, principalméfe os q eftauão mais pegados cõ a tranqueyra. E jorge botelho q eftaua na dianteira cõ obra de trlta dos do feu batel, fe teue efperãdo os Imigos, de q bé fefenta fe adiãtarão cõ hú dos alifantes q era ho mais peqno de todos. E Iorge botelho como os vio mandou aos que eftauão coele que deffem Santiago, & que não curaf- fem do alifante fe não do homem que ho regia que hia affentado na ca¬ beça, porque efte morto ho alifante fe desbarataria por fi mefmo: & aífi ho fizerão, & remeterão com grande grita ao alifante chamando Santiago, & leuão o que ho regia efpetado nas lanças. E afli como foy leuado q ho alifante não teue quê ho gouernaffe, atraueffoufe, & ainda fe bem não atraueífaua quando ho cõdeftabre que hia no batel de Iorge botelho def- para nele húa efpingarda & dalhe polo coração: & dando ho alifante hú medonho hurro cayo morto. E nefte inftãte acodio Fernão perez fentindo
Livro III, Capitolo LXXXII 201 a fugida dos noífos, & aífi por ele fobreuir como pola morte do alifante fe desbaratarão os immigos de maneyra que fugirão, & por a terra fer alagadiça & de vafa por amor dos muytos efteyros que ha nela, não quis feguir ho encalço, & mandou roubar muytos gudões, em que auia tanto crauo, noz, maça & fandolo, que de os nolfos ho nã poderem leuar todo forão chamar o pouo de Malaca que ho acabaífe de leuar. E faqueado tudo & recolhido ho camelo & outra artelharia que eftaua na tranqueyra, foylhe pofto fogo, & afli aa pouoação que eftaua defpejada, & tudo foy queymado fem nunca Patequatir oufar de acodir. E ifto feyto tornoufe Fernão perez aa fortaleza, onde forão dadas muytas graças a noffo fenhor por aquela vitoria, q foy muy grande pera quanta gente tinha Patequa¬ tir, & pera quão poucos os noífos erão, de que nenhum não foy morto, fomente ouue algús feridos, & dos immigos muytos & muytos mortos: & logo Patequatir fe mudou dali pera húa enfeada húa legoa abaixo, porque he ho coftume defta gente não eftarem mais onde húa vez fam vencidos. E neftoutro logar pera onde fe foy, fe fortaleceo de tranquey- ras muyto mais que dantes, & com fua ida ficou ho pouo de Malaca def- abafado, & com muyto credito nos noífos & fem nenhum medo de Pate¬ quatir. CAPITOLO .LXXXII. De como Fernã pere\ tornou outra ve\ a cometer Quatepatir, & da per da que recebeo. DEspois defta vitoria, pareceo bem a Ruy de brito & a Fernão pe¬ rez com confelho de todos os outros capitães & fidalgos, q Fernão perez tornaífe fobre Patequatir em quanto a vitoria paífada eftaua . frefca. E ifto acordado, partio de Malaca hú dia ante manhaã com os mefmos capitães & gente que leuara da outra vez, & chegado a Vpe, que aífi fe chamaua ho lugar onde eftaua Quatepatir, defembarcou com os feus fendo bem contrariado dos immigos, com que pelejou hum pouco na primeyra tranqueyra, porque erão tres ou quatro. E desbaratados com morte de muytos deixarão a tranqueyra, & Fernão perez a entrou com os feus, & chegando aas primeyras cafas mãdoulhes dar fogo: & por faber que a terra era alagadiça & de muytos efteyros, & não fe po¬ der andar fe não por minhoteiras que era grande ajuda pera os immigos que andauão leues & defpejados, & pera os noífos grande impedimento por andarem armados, determinou com confelho de feus capitães de não paliar mais auante & contentarfe com o que tinha feyto & recolherfe, & também porque os immigos erão muyto mais que da primeyra, por lhe Tomo II 36
202 Hifloria da índia el rey de Malaca mandar focorro, & defpois que queymou algúas lãcha- ras que eftauão em hum efteyro junto defta tranqueyra, começou de fe recolher & embarcarfe nos bateys muyto a feu faluo, bem que os immi- gos lhe hião nas coftas, mas fem fazerem coufa algúa. E recolhendofe afli acertou de fe embarcar tanta gente em hum parao, em que hia Ruy da- raujo por capitão, que não pode nadar com ho grande pefo dela, & por¬ que a maré vazaua. O que vendo os immigos & entendendo o que era, derão todos fobre ho parao com muyto grande grita, & começarão hús de tirar com lanças darremeffo & outros com frechadas, tratando muyto mal os noífos que eftauão nele, & como eftauão empilhados não fe podião defender: ao que Fernão perez que eftaua embarcado acodio logo bra¬ dando aos noífos dos outros bateys que eftauão de largo que acodiffem. E tornando eles pera ilfo, em chegando a eles arremelfanfe todos neles a quem mais podia & com muy grande defordem, & Ruy daraujo fe lan¬ çou também, mas em fe lançando ficou prefo em hum tolete do parao pola fralda de malha que leuaua, & como a preffa era grande & ho tempo pouco mataranno aas lançadas primeyro que fe podefle defembaraçar do tolete, & fobrilfo foy grande peleja dos noífos que acodião com os immi¬ gos que erão tantos que cobrião a terra & metianfe pola agoa a pelejar com os noífos, & tanto os apertarão que fe ouuerão de retirar, indo Fer¬ não perez ferido, Pero de faria & outros muytos, & ficarão mortos Ruy daraujo, Chriftouão pacheco, Antonio dazeuedo capitão dhúa carauela, que primeyro que jporreífe pelejou muy valentemente, & afli forão mor¬ tos outros: de modo que donde os noífos tinhão a vitoria tornoufe aos Imigos. De que Patequatir ficou muyto mais foberbo do que era, & man¬ dou logo efta noua a el rey que fora de Malaca, que lhe mandou diífo muytos agardecimentos, pedindolhe muyto que continuaífe a guerra, por¬ que coela efperaua de cobrar Malaca, & que ele ho ajudaria no que po- deífe: & logo mandou ao Lafamane que eftaua com lua frota no rio de Muar que he dez legoas de Malaca que fayfe fora & tomaífe os jungos que foífem pera Malaca ou quaefquer outras velas, & que fauorecelfe el rey Darguim, & ho Dujentana & outros: & afli andaua fazendo guerra a noífos amigos & fauorecendo noífos immigos.
Livro III, Capitolo LXXXIII 20 3 CAPITOLO .LXXXIII. De como Fertião pere\foy bufcar ho lafamane que ejlaua no rio de Muar pera pelejar coele, & do que fe\: & de como chegarão da índia Francifco de melo & Martim guede\. TOrnado Fernão perez a Malaca muyto defcontente polo que lhe acontecera, deufe a capitania da carauela Dantonio dazeuedo a Iorge botelho por feu boõ esforço & feruiço que naquela guerra fazia. E dali a algús dias fabendo Fernão perez como ho Lafamane era fora do rio de Muar, partiofe logo em fua bufca pera pelejar coele, porq ho defejaua muyto: & ale dos bateys leuou a galé de Pero de faria & ho nauio de Iorge botelho, q chegado perto do rio de Muar acertou dir diãte de todos, & por iffo foy logo vifto da armada do Lafamane, & não virão os outros porque a frota eftaua detrás de húa ponta. E fendo dito ao Lafamane que aparecia ho nauio, quis lhe fazer crer que lhe fugia, & meteofe pera dentro do rio & pos fe detrás da ponta que digo pera ho tomar mais afinha. E Iorge botelho que ho entendia em a nolta frota fendo tanto auante como a põta detrás de que ho Lafamane eftaua, me¬ teofe no rio & paffou a diãte da frota dos Imigos cÕ determinação de lhes atalhar que não podeffem fugir da noffa frota fe ho quifelTem fazer. Ho Lafamane pola téção q tinha deixou paffar Iorge botelho, fenão quando Fernão perez aboca ho rio cõ fua frota, dando os noífos grandes gritas, & começãdo de tirar muytas efpingardadas. Ho Lafamane conhe- cedo o q era, pofto q tinha coréta lancharas & muytos calaluzes, receaua tãto os noífos que não oufou de pelejar coeles: & pera que ho não po- delfem aferrar, mandou logou alagar algús calaluzes & lancharas q efta- uão afaftados da terra, pera que ficaffem em baftida antrele & os noífos: & como a marê vazaua ficarão logo alagados, & ele ficou feguro de lhe os noífos poderem chegar tão afinha. E nifto os tiros erão muytos de húa parte & da outra, aífi de frechas como de fetas, & efpingardas, & bõbar- dadas, de que os immigos tirauão em mais abaftança que os noífos por terem muyto mais bombardas, & aífi erão eles também muytos em de- mafia, porq a fora os q eftauão na [frota auia [muytos em terra q logo acodirão, & as frotas eftauão tão perto dela que podião os Imigos que eftauão nela chegar aos noífos cõ as frechas, de q ho ar andaua todo cuberto. E cõ tudo os noífos remarão auãte & chegarão a abalrroar os calaluzes & lancharas que eftauão alagadas, & dali faltarão em outras que ho não eftauão. E aqui foy a batalha em eftremo aspera, porque
Hijloria da índia 204 como os q andauão cõ ho Lafamane foliem Iaos que fam muyto oufados, chegauanfe tanto aos noíTos que fe ferião com as efpadas, & forão muy- tos deles mortos & dos noflos algús feridos. E porque nifto vazaua muyto a marê & não ficarem os noflos bateys em feco, foy neceflario mãdar Fernão perez que fe afaftaffem, & eles afaftados poderão a galê & a ca- rauela jugar com a artelharia, & fizerão muyto grande dãno nos Imigos, & os bateys entre tanto poferão fogo âs lancharas & calaluzes q tinhão tomados: & ifto porq por eftarem em feco os noflos as não poderão tirar pera fe aproueitar delas, poré ardeo delas pouco, porq em fe os noflos afaftãdo, os Imigos que erão é demafia muytos ho apagarão logo. E fobre- uindo a noyte nefte tepo, recolheofe Fernão perez â galé & â carauela pera curare hi os feridos, & duraria efta peleja be tres horas: & porque ao outro dia fe não podeflem fayr os Imigos com a maré, fez Fernão pe¬ rez húa baftida diãte deles dos bateys & da galé & da carauela que tomaua ho rio de terra a terra. O que entendédo ho Lafamane, & pare- cedolhe que fe perderia fe efperafle ao outro dia a peleja dos noflos, aqlla noyte varou toda fua armada, & fez diante húa tranqueyra de duas faces entulhada de terra em q alfentou fua artelharia, & coela ficou feguro de os noflos ho poderé entrar. E efta trãqueyra & varação de fua armada q ele mandou fazer aqla noyte, foy feyta tão caladamente q núca ho Fer¬ não perez íetio, & ele eftaua efpãtado de quão pouco arroydo fe fazia em terra, pelo q cria q ho Lafamane era ido cõ toda fua gente & deixara a armada vedo q a não podia faluar. E ifto fazia ele porq não ouuindo os noflos ho rumor dos feus lhe não tiraífem cõ a artelharia. E em amanhe- cédo mandou dar húa aluorada a Fernão perez de finos, & doutros inf- tormétos que os Iaos coftumão na terra, & defpois de bobardadas: do q os noflos ficarão efpãtados, & muyto mais da obra q eftaua feyta. E por Fernão perez ter tão pouca géte como tinha, lhe não pareceo bé poiar em terra & pelejar cõ os Imigos, & cÕtétoufe cõ lhe fazer do mar muyto
Livro III, Capitolo LXXXIIII 20S corregido & tornado ao mar: & Fernão perez fe foy aa ilha das naos onde eftaua cõ os nauios groflos todo ho tempo q não pelejaua, & ifto por goardar milhor ho mar, q não vieffé os ímigos por elle & tomaíTem a fortaleza de fupito: porq como todos os comarcãos ho erã, era necefla- rio eftar aa lerta, peraq també não lhe fezelTem treição que a gente da¬ quela terra vfa muyto. E fempre quando nacia ho foi & fe punha, tinha Fernão perez muy grãde vigia fe faya algúa vela donde eftaua Quatepatir ou da banda do eftreyto de Sabão: & a fora ifto tinha muyto grande tra¬ balho em ir muytas vezes bufcar os ímigos húas vezes os da armada do Lafamane, outras os de Patequatir, a q faya por effes efteyros nos bateys a queymarlhe fuas lancharas q lhe trazião por eles algús mantimctos que lhe mandauão feus amigos. CAPITOLO .LXXXIIII. De como Fernão per e\ foy bufcar mantimctos pera a fortaleza, & os trouue com grande perigo de fua vida, & da grande fome q auia antre os immigos. NEste tépo que eftes dous capitães chegarão da índia auia em Ma- laca muytos trabalhos, afli de doenças como de fome que hia em grande creciméto, por os mantimentos não acodiré como dãtes, q nenhús mercadores oufauão dir a Malaca por amor da guerra: & che¬ gou a pouquidade dos mantimétos a tãto q nã comião os noffos mais, q arroz cozido em agoa & fal, por regra, & no mais q húa vez ao dia, & a mefma efterilidade auia antre os ímigos, & por ilfo ceifou a guerra antre hús & outros, & a fome foy caufa de tregoas antreles fem falar ne- nhú deles. E vedo Fernão perez ho deftroço q hia nos noífos cõ a fome, determinou cõ confelho de todos de ir ao eftreito de Cincapura, por õde naqle tempo q era na fim de Setébro paífauão jugos da Iaoa carregados de mãtimétos pera partes õde tinhão valia: & deixando a mayor parte da géte de fua armada nos nauios groflos pera os goardar, fe partio indo no nauio de Marti guedez, era q ele també hia, & leuaua em fua cõferua Pero de faria & Iorge botelho, & afli outros tres capitães em tres lancha¬ ras: & ho timúgão de Malaca, q he o que arrecada as ancorajés das naos eftrangeiras, & efte hia por guia que fabia a terra. E chegado ao eftreyto, achou no canal de Sabão hú grãde jugo da Iaoa q eftaua furto, que em vendo a noffa frota fe quis fazer â vela, mas não pode porq Pero de faria mandou apertar tão rijo ho remo, q antes q desferifle eftaua metido an- trele & a terra, & impidiolhe q nã chegafle a ela cõ muytas bõbardadas
Hijloria da índia 206 que lhe tiraua. E nifto chegarão os outros capitães & rodearãno, & os q eftauão détro fe renderão porq os não meteflem no fúdo. Tomado ho jugo achoufe que era de Iaos q o leuauão carregado de mantimétos & darmas. E do fenor do jungo foube Fernão perez que leuaua aqueles mantimentos & aquelas armas a Patequatir, que efcreuera a Iaoa q lhe mandafTé: & nefte jugo hia hú feu filho, & por feu confelho fe réderão os do jugo cÕ determinação de fazeré o q defpois fizerão, & logo Fernã perez mandou baldear os mantimétos do jugo nos nauios da fua frota, & a ela mandou també pafiar a géte, & ho capitão dele &'efles horrados ao feu nauio, & ãdauão foltos porq lhes mãdou tomar as armas: poré ficarão a cada hú feu cris q trazião fecretos, efperãdo tépo pera fazeré o q determinauão, & foy mataré Fernão perez & leuantarfe cõ ho nauio, & cometeranno hú dia pela feita. E eítando Fernão perez encoftado, remeteo ho capitão do júgo a ele & ferio pelas cofias cõ ho cris q trazia efcõdido, & nã lhe deu mais de húa ib ferida, porq nefte tépo remeterão os cõpanheiros aos noffos, q lançando mão das efpadas & lanças q tinhão na tolda co¬ meçarão de ferir os Imigos, o q embaraçou ho feu capitão de maneyra q não pode dar a Fernão perez mais feridas q húa, porq també algús dos noffos fe abraçarão logo coele. E foy o primeyro Martin guedez, q antes de ho abraçar lhe deu cõ hú marrão da nao co que ho derribou, & nifto acodirão outros & tomarãlhe ho cris & prenderãno, & não ho matarão porq Fernão perez ho mandou afli. Os outros Iaos védo q não auia efeyto o q começarão, derão configo no mar efies q poderão, & faluaranfe a nado por fer perto de terra, & os outros forão mortos & catiuos. E afleí- fegado tudo, Fernão perez mandou meter a torméto ho capitão do júgo, pera q confeflafie co que fundaméto cometera matalo, & fe vinhão mais júgos é focorro de Quatepatir. E ele confeífou a caufa porq ho quifera matar, & q ainda ficauão tres jungos em Cincapura, & q nã auião de ir ate lhes não mandar recado. E afli difie como vinha ali ho filho de Qua¬ tepatir & moftrouho. Ifto cõfeflado, mãdou os Fernão perez prender a boõ recado pera os leuar a Malaca, pera õde logo partio cõ os manti¬ métos, & fez cõta q certos tinha os tres jungos q ficauão é Cincapura, pois não auião de partir fé recado do capitão do júgo. E chegado a Ma¬ laca foy grãdeméte feftejado por trazer tão boõ focorro, & em chegãdo logo defpedio pera Cincapura a Lopo dazeuedo & a Iorge botelho, pera q tomafle os tres júgos q lâ ficauão. E eles os tomarão fé lhes ficar géte algúa porq toda fugio primeyro, & coeles ficou Malaca bé abaftada de mantimétos. E tãbé chegou Gomez da cunha de Pegú cõ outro jungo cõ mantimétos, que deixaua afletada amizade cõ el rey de Pegú, & con¬ certado q mandafle mãtimentos a Malaca: & afli chegou Antonio de mi-
Livro III, Capitolo LXXXV 207 randa do reyno de Sião, õde foy muyto bé recebido. E nefte tépo fugio da prifam ho filho de Quatepatir, q eftaua em eftrema neceflidade de ma- timétos polos que lhe tomarão, & afíi muy falecido darmas & de gente, q né el rey de Malaca lhe podia focorrer por eftar da mefma maneyra. CAPITOLO .LXXXV. De como FernSo pere\ desbaratou Quatepatir & lhe tomou a fortaleza: & de como Quatepatir fugio pera a ilha da Iaoa. SAbhndo os noffos ifto, & parecendolhes q era tépo determinarão de o deftruyr de todo & deitalo fora de Malaca: pera o que fe orde¬ nou que foífe Fernão perez & leuaffe a galee de Pero de faria & a carauela de Iorge botelho, & os outros capitães nos bateys & calaluzes, em que hirião paffante de duzetos Portuguefes antre fãos & doétes, & por terra ao longo dagoa ho catual com mil & feyfcentos piães da terra, os mais deles frecheiros, & da banda do fertão ho feytor Pero pefloa, a que fe deu a feytoria defpois da morte de Ruy daraujo com obra de fetéta efpingardeiros & béfteiros. E confeffados todos os noffos, & recebido ho Sanótiflimo facrameto, partio Fernão perez de Malaca hú dia ãte manhaã, & tanto que foy perto donde effaua Patequatir, defembarcou Iorge bote¬ lho per íeu mandado com a gente de fua capitania, pera q jútamente com Pero peffoa cometeffem a fortaleza, é quanto ele hia defembarcar com toda a gente defronte da porta principal da primeyra tranqueyra, donde ja eftaua muyto perto Pero de faria na fua galé varejando com a artelha- ria tão fortemente que quafi não oufauão de fe defcobrir os immigos q hi eftauão. E ajútandofe Iorge botelho & Pero peffoa ambos derão Santiago cÕ grande grita, & achando aberta a porta defta primeyra tranqueyra, entrou logo Iorge botelho diante com ate oyto homens, rompendo por muytas frechadas que os immigos tirauão de dentro, & entrãdo por muy baftas lançadas que lhe arremeffauão. E vedo eles a concrufam de Iorge botelho que^ foy entrar, & vedo os que lhe hião nas coftas, que não fazião fe não defpender em efpingardadas, virão as coftas & arremeffanfe pera detro doutra tranqueyra que hia alem defta, cuja porta fecharão muy bem. A efte tempo era Fernão perez defembarcado com toda a gente, & cada hú cometia por onde podia pera entrarem a fegunda tranqueyra q eftaua muyto forte, & que os immigos defendião com grande inftancia, & a reuolta era muy grãde & perigofa: Iorge botelho & Pero peffoa que andauão dianteyros por aquela parte onde eftaua a porta que era pequena, remeterão ambos a ela pera ver fe a podião leuar fora do couce. E an-
208 Hifioria da índia dando ambos nefta ocupação, meterão os Imigos hú&lãça jaoa por debaixo das portas & ferio pero peffoa em hú pé, & como ele era muyto boõ caualeyro a menécoria difto lhe acrecentou a força de maneyra que ele & Iorge botelho derão com as portas fora do couce, & de detro apareceo hú muro de Imigos que tinhão feyta húa muy forte baftida de lanças com q forneauão fem defcanfar, & por cima delas vinhão infindas frechas aífi darcos como de zarauatanas, & os Imigos eftauão a(Ti medonhos porque eftaua ali Patequatir que os animaua. E com tudo Pero pelToa & Iorge botelho fe melhorarão dode eftauão, & paliarão da porta pera dentro auendo hú pouco q pelejauão, & afli todos os outros por todas as partes da tranqueyra que os Imigos defédião como homes que tinhão ali fua fal- uação & ela perdida ficauão perdidos. E vedo eles a porta entrada por Iorge botelho & Pero peffoa, por õde os noffos começauão de carregar, acodem com quatro aíifantes armados com feus caílelos. E os noffos que lhe tinhão perdido ho medo não fizerão conta deles, antes hú Francifco machado chriftão nouo & alfayate natural de torres nouas da capitania de Iorge botelho em vendo ho alifante dianteiro que fe chegaua a eles, foy ho primeyro que remeteo a ele & feriolhe ho ayo com a lança, & apos ele outros & derão coele morto, & fobre ho alifante forão tãtas as efpingardadas q ho ferirão, & a dor das feridas ho fez virar contra os feus. E coifto & cõ os noffos que entrarão de roldão apertare muy rijo com os immigos, os fizerão fugir desbaratados, & em virando os dian- teyros desbaratarão os trafeiros & fugirão todos & mais dous aíifantes, porque ho ferido morreo & outro foy tomado dos noffos, q nefta peleja matarão tãtos dos Imigos que ho chão ficou cuberto deles, & aífi de feri¬ dos q fenã poderão leuantar, & Fernã perez não quis feguir os viuos, alfi por os noffos eftarem muyto canfados, que durou a peleja hum pe¬ daço, em que ho todos fizerão muy bem, como por fer a terra alagadiça & de vafa que fe não andaua fe não por minhoteiras. E vencidos os immi¬ gos fem falecer nenhú dos noffos, fomente auer algús feridos, achoufe tanta riqueza de mercadorias que por aqueles que forão na batalha as nã poderem leuar todas, mandou Fernão perez chamar os que ficauão em Malaca pera acabarem de leuar tudo, & todos vierão aífi Chriftãos como mouros & gentios, que pafmauão de como os noffos poderão desbaratar os- immigos em coufa tão forte como aqla era cercada de cauas cheas da- goa que fe nã feruião fe não por pontes muy eftreytas. E roubado ho lugar, foy queymada toda a fortaleza: & carregados todos de muyto def- pojo, & alfi os nauios, fe tornou Fernão perez pera Malaca, onde foy re¬ cebido com grãde folénidade & forão dadas muytas graças a Deos polos defapreffar daquele immigo que tãta opreffam lhes daua, que ficou dali
Livro III, Capitolo LXXXVI 209 tão deftroçado & com tão pouca gete, & fem nenhúas munições de guerra, & fé lugar em q fe podeífe acolher, q defefperado de tudo tomou por re- medio acolherfe a fua terra aa ilha da Iaoa & fugindo per effes matos com fua molher & fogra & algús poucos de efcrauos, fe foy embarcar onde tinha algús nauios, & dali fe partio pera a Iaoa. O que fabendo el rey que fora de Malaca ficou muyto trifte & fem efperança de fe reílituyr em fua terra, & cÕ tamanho medo de os noflos ho hirem bufcar ao pago ondeítaua, que he húa fortaleza em hú ilheo húa legoa pelo rio de Muar acima, leuou fuas molheres & cafa a ilha de Bintão, onde fe começou de fazer forte, & dali hia aas vezes eftar no pago como fronteiro, & dali mandaua ho Lafamane com fua armada a fazer faltos quando podia. CAPITOLO .LXXXVI. De como Fernão pere\ foy ao eflreito de Cincapura, & de como Antonio dabreu que foy defcobrir Maluco tornou a Malaca. SAbido em Malaca q Patequatir era fugido pera a jaoa temendo Ruy de brito & Fernão perez que fe não foffe laa refazer de gente & tornaffe a fazer guerra a Malaca, determinarão q Fernão perez ho foffe efperar ao eílreyto de Cincapura por onde auia de paliar, pera onde fe partio logo no nauio de Marti guedez, & forão coele Iorge botelho no feu nauio, & outros homes principaes em lancharas, porque os nauios groífos ficauão com Lopo dazeuedo em goarda de Malaca, como ficauão fempre quãdo Fernão perez hia fora. E étrando ele antre as ilhas de Bin¬ tão, ouue hú dia vifta da armada do Lafamane que andaua efpalhada per antreítas ilhas, & ele bé defcuydado da vin andauão pefcando, q aquela armada era do Lafamane, paffoufe a húa lanchara pera chegar a ele pri- meyro que fe ajuntaffe a fua armada: & ifto por fe a lanchara remar & fer mais ligeira q ho nauio. E ajútando as outras cõfigo, ho Lafamane como ho vio ir que ho conheceo fugio logo a vela & a remos caminho do eílreyto de Cincapura, que he tão eílreyto, que fe 1'e húa nao atraueflar nele tomara de terra a terra, & por ali paffam todos os jungos q ve da China, Patane, Sião & de todas aqlas partes do fui pera Malaca: do q os noífos ficarão efpantados quando ali chegarão, & parecialhes que fazião muyto em paliarem coufa tão eílreyta cõ ho nauio & a carauela: & eltes forão os primeyros nauios noíTos que paífarão elle eílreyto. E vendo ho Lafamane a votade que Fernão perez leuaua pera lhe chegar, alargou húa pãguejaoa carregada darroz & munições de guerra, parecendolhe que oc- cupados os noífos naquele defpojo ho deixarião: mas não ho fizerão alfi, Tomo II V
210 HiJIoria da índia & fe não fobreuiera a noyte fempre ho alcançarão. E poíto que ho Lafa- mane fugifle tanto de pelejar com Fernão perez, né por iflo deixaua de fer muy esforçado caualeyro, & tão nomeado antre os mouros, que em quanto ouuer géte em Malaca fempre durara fua fama: poré conhecia q os noffos tinhão auantajem aos feus, & por iflo nã queria pelejar com Fernão perez, & quando fe queria louuar, dizia que muytas vezes come¬ çara de pelejar com os noffos & q não fora desbaratado, o que auia por muyto polo q digo, & por iflo fugia a Fernão perez, q como vio a noyte, & que lhe não podia chegar deixou de ho feguir & furgio. E ao outro dia fez volta pera Malaca, onde achou Antonio dabreu q chegara de defco- brir Maluco, a que não chegou por culpa dos tempos lhe terçaré mal, & ele cÕ Simão Afonfo não pode mais chegar que âs ilhas Damboyno q lãm perto das de Maluco, & hi achou algú crauo em poder de mercadores que refgatou, & Frãcifco ferrão foy ter perto de húa ilha das de Maluco, que fe chama Ternate, & hi fe perdeo a nao, & ele fe faluou com algús no batel da nao & nele foy ter a Ternate, onde lhe ho rey deita ilha fez tanta honrra & gafalhado, & lhe deu tanta fazéda, que ele fe deixou ali ficar & nao quis mais tornar a Malaca. E eíte Francifco ferrão foi o que mandou enformação, de Maluco a Fernão de magalhães, q fez defpois treyção aa cafa real de Portugal, querendolhe tirar eftas ilhas da fua cõ- quifta, & dalas â coroa de Caítela, metédo em cabeça a Carlos quinto emperador & rey dela que eítauão na repartição do mar, que coubera a Caítela. E Antonio dabreu que não fabia da perdição de Francifco ferrão, vedo q não vinha defpois de ho efperar muyto tépo, fe tornou pera a ilha de Banda, que he húa ilha grande, em que ha as aruores que dão a noz nozcada & a maça, que dize que fe parecem com os noflos peflegueiros, ao menos na frol, fe não que he branca, & as aruores fam mayores, & neíta frol nace a noz: & a frol he a maça defpois que fe feca. A gente he como faluajé & carece de toda policia humana, né tem rey, fe não gouernãfe pelos mais antigos: & neíta ilha achou també algú crauo. E carregãdo de noz & de maça fe tornou a Malaca, que cõ a deítruyçãô de Patequatir ficou pacifica, & abaítada de mantimentos que vierão dali por diante.
Livro III, Capitolo LXXXVII 211 CAPITOLO .LXXXVII. Do que pajjou em Goa fendo capitão Manuel de lacerda, & de como foy morto Medafonfo de tanjere em Benajlarim. EM quanto ifto paífaua em Malaca, Roçalcão q eftaua na fortaleza de Benaftarim fobre a cidade de Goa que tinha cercada por terra, lhe corria muytas vezes cuydando de afrontar os nolfos, que por ferem muytos os não tinhão em nenhúa conta, & fayanlhe fempre ao encontro & leuauãnos de vencida, & fizeranfe ncítas efcaramuças muy boas coufas da parte dos noffos, que os mais deles erão muy bõs caualeyros, princi- palméte efies homés conhecidos, alíi como Manuel de foufa, Médafõfo, Ioão machado, Diogo fernãdez ho adail, Diogo fernãdez de beja, Simão velho, Antonio ferreyra, Pero dafonfeca de crafto, & Diogo mendez, que fora capitão, que pofto q hia debaixo da capitania doutrem fempre faya aos mouros & fez muy boas coufas, principalmente húa vez que os noffos pelejarão com os Imigos antre os bachares, & fugindo os que acompa- nhauão Diogo mendez ficou ele fô fobre hú valado, & pelejou ali muy fortemente ate que lhe acodirão: & pofto q os immigos erão muytos de que ele fe defendeo também que nunca lhe poderão chegar pofto que ho ferirão de muytas frechadas. E outra vez que ho capitão faya aos immi¬ gos, em fe recolhendo diffe aos feus que le algús dos immigos que os feguião fe defmandaffem que teuefiem tento quando ele diffeffe volta que voltaífem logo, & nifto delmandarãfe obra de cento de caualo pera pegar cõ os noffos, que voltarão logo polo final que lhes tinha dado ho capitão, que em voltando efcorregoulhe ho caualo & cayo, & por fer ho perigo muy grande q carregauão os immigos poferanfe os nofTos diante do capi¬ tão ate tornar a caualgar, em q ouue detéça por lhe fugir ho caualo. E nefte efpaço pelejarão os noffos milagrofaméte, porque a peleja foy muy crua & chea de fangue, afli dos Imigos como dos noffos & todo ho chão eftaua cuberto de frechas: & tornando ho capitão a caualgar recolheo os noffos, com que os immigos eftauão tão pegados q forão coeles quafi ate a caua, & ali fez a artelharia muyto nojo neles, & coela fe afaftarão ficando muytos mortos & indo muytos feridos: & também dos noffos ho forão muytos, & afli os caualos. E muytos outros feytos em armas fe fizerão polos noffos nefte cerco, q não ponho particularmente porque os não pude faber por ordé, mas forão todos muy aflinados & de muyta fama, com que fempre os Imigos leuarão ho peor. O que vedo Roçalcão vingauafle em mandar tirar muyto amiúde com ho camelo da forca, &
212 Hijloria da índia cayão os pelouros tão baftos na cidade q hú dia eftando ho capitão a húa jenela da fortaleza cayo hú pelouro dos que tiraua ho camelo, & ele vendoho mandou a hú moço gentio que paffaua que lho trouuelfe, & ho moço lho leuaua porto na cabeça: & nifto vê outro pelouro & dalhe nele fem fazer nenhú noio ao moço, & ifto foy a vifta de muyta gente. E fendo nefte tempo dito ao capitão que.tinhão os mouros húas fuítas em Benaf- tarl, mandou ele a Diogo fernadez q folfe ver fe as podia tomar, & vilfe a diipofição da fortaleza pera mandar recado diflo ao gouernador que lho mandara pregútar. E Diogo fernandez foy leuãdo^configo os capitães de lua armada q hião nos bateys, armados & apadelfados, & bem efquipa- dos de gente, & forão pelo Paílo feco. E chegado diãte da fortaleza acha¬ rão húa muyto grãde eftacada, & virão que as furtas eftauam recolhidas ao rio Dagacim. E querendo Diogo fernandez lá ir, mandou remar muyto rijo, que arti era neceffario pera fugirem âs muytas bombardadas que os immigos tirauão dà fortaleza: & paliando os noffos com grande impeto, ve hú pelouro & deu em Médafonfo de tãgere q hia em pê na popa do feu batel bradando que remaffem, & matouho cõ outros dous. O que vêdo Diogo fernandez & quão loge eftauão as furtas, não quis paliar auante & tornoule ficando todos muyto triftes por a morte de Mendafonfo q era hú efpecial caualeyro. E fegundo fe foube ele foy muyto cõtra fua võtade a efte feyto por fonhar toda aquela noyte q fe via antre frades que cantauão refpõfo de finados: & carregado muyto coefte fonho nã qui- fera ir, mas foy por lhe não dizerem q deixaua dir por couardo. E dali por diante não fe fez mais nefte cerco coufa artinada, fe não fayrem os noffos quafi cada dia a pelejar cõ os Imigos que lhe corrião. E como Ro- çalcão teue acabada a fortaleza de Benaftarim, mandou paliar a ela ho camelo da forca & aífeftalo em hú baluarte fobre ho mar, com que os noífos ficarão de todo defaprelfados do cerco. E Roçalcão mãdou tirar ho camelo ta cedo porq fe receou q chegalfe ho gouernador de fupito & lho tomaffe. CAPITOLO .LXXXV1II. De como dõ Garcia de noronha, & Iorge de melo pereira capitães mòres das uaos da carga chegarão a Cochim, & de como ho gouernador fe partio pera Goa. NEste anno de mil & quinhentos & doze partio de Lisboa ê Março Iorge de melo pereira pera a índia por capita mor de cinco naos com a fua: & cõ Iorge de melo hia Gafpar pereira que fora fecre- tario do Vifo rey dom Fracilco dalmeida, & hia por proueedor da fazêda
Livro III, Capitolo LXXXVIII 2l3 del rey de Portugal na índia & por fecretario do gouernador. E chegado a Moçãbique com toda fua armada partirão ambos pera a índia com onze naos, & chegarão a cochim em Setembro, & forão muyto bem recebidos do gouernador que folgou muyto com fua vinda, affi por dõ Garcia fer feu fobrinho & por leuare muyta gente, de q ele tinha neceffidade pera ho feyto de Benaftarim: & parece que noflo fenor tinha cuydado dele, porq como auia de fazer algúa coufa pera q teuefle neceíTidade de gente logo lha ajuntaua, que afli foy quando ouue dir tomar Goa q lhe ajuntou vinte tantas naos. E vendo ho gouernador q Gafpar pereyra hia por feu fecretario, & faber q fizera naqle officio cÕ ho vifo rey algúas coufas que não ouuera de fazer, apontoulhe os erros que niffo cometera pera fe emé- dar deles & não fazer outros em feu tepo: & ele lho prometeo pedldolhe muyto q ho fauoreceífe. E logo nefte tépo pedio Garcia de foufa a capi¬ tania de Malaca ao gouernador por Iterceffam de Iorge de melo pereyra: & querendo ho hú dia ho fecretario defpachar, diffelhe o gouernador q Malaca era grãde coufa pera Garcia de foufa, & por iflo lha nã podia dar. E ho fecretario foy logo dizer ifto a Iorge de melo & a Garcia de foufa, auendoho de ter em fegredo. E Garcia de foufa fe começou dagra- uar do gouernador, pedindolhe licença pera fe ir pera Portugal fe lhe nã deffe Malaca. E fabido polo gouernador como a coufa hia, dille a Garcia de foufa q ao prefente não podia entéder em coufas de Malaca, que dei- xaffe vir recado do que lâ hia, & que então proueria: & coifto amanfou Garcia de foufa. E pondofe ho gouernador em ordé pera fe partir pera Goa, ho fecretario fe começou defcufar dir coele, dizédo que era doente, & que não podia ãdar apos ele né fofrer ho feu trabalho, & que pera lhe aturar era neceffario que defpachaífe em dias aprazados, & que não deffe repofta âs partes fem ho mãdar chamar primeyro. Ao que ho gouerna¬ dor refpondeo que fe efpantaua muyto de lhe ele reqrer tal coufa, que antes lho ouuera de repreder fe ho ele quifera fazer, pois fabia q ho def- pacho das partes era húa das coufas que na índia cõpria muyto ao fer- uiço de deos & del rey, por iífo q as não auia de deixar de defpachar õde quer q lhe pedifiem defpacho, ou lhe deflem as petições, q fe não podia ãdar apos ele, que ele lhas mandaria, pera q lhe pofeíle a viíla, & que defpois as aílinaria ele: porem que dias aprazados que os não auia de dar, porque gaftauão ho tempo de que na índia auia muyto grande neceíTidade. E por ifto fe quifera ho fecretario agrauar do gouernador & ficar em Cochi: mas ele não quis por atalhar a emborilhadas que enten¬ dia q comcçaua de fazer antrele & el rey de Cochi, & tãbé por ferem Imigos ele & Lourcço moreno & poderfehia recrecer diflo muyto grande deferuiço del rey & perda de fua fazéda. E vedo ho fecretario como ho
214 Hijloria da índia gouernador o qria leuar a Goa, fe agrauou muylo mais, & começou logo de afirmar q Goa nã era pera fe fofter fem el rey de Portugal eftar nela, & q não auia fua alteza dauer por bé que fe mataffe a gête Portuguefa fobre ho Cafteio de BenaftarI que eftaua muvto forte & não fe auia de poder tomar fem iffo. E tudo iflo diífimulaua ho gouernador, pofto que ho fabia, porq não pareceífe q fazia cafo diífo. E tendo ele prcftes fua partida, partiofe em Outubro de mil & quinhetos & doze, & ele hia na nao fanto Antonio de feyfcentos toneys que viera aqle anno, & afll leuou outras naos da carga pera lhe leuaré gête q leuaua muyta afli Portuguefa como Malabar, & hia coele dõ Garcia de noronha feu fobrinho q era a fegúda peífoa defpois dele, & hia Pero mazcarenhas, que não quis ficar em CochI dizendo ao gouernador que não ficaria indo ele a hú feyto tão hõrrado como aquele auia de fer. O q ho gouernador lhe teue muyto em merce, & prometeolhe de lhe dar outra capitania melhor q a de CochI pois a deixaua é tal tépo. CAPITOLO .LXXXIX. Do q ho gouernador fe\ em Cananor, & das nonas q foube da determi¬ nação do Soldão, & da do Hidalcão acerca de jocorrer a fortaleza de Benajtarim. PArtido ho gouernador de CochI foy ter a Cananor pera etregar a capitania da noífa fortaleza & Iorge de melo pereyra que a trazia de Portugal, & pera fazer q defiftiífe Mamale do titulo q tinha de certas ilhas de Maldiua por quãto ho rey delas fe fizera vaflalo del rey de Portugal coeífa cõdição, & em Cananor deu carta de vaffalajé a feu ébaixador. E metido Iorge de melo de pofTe da capitania de Cananor, negociou ho gouernador cõ el rey que fizefTe com Mamale, que defiftiífe do titulo q tinha de rey, & que tiraífe das ilhas a gente de guerra que lâ tinha, & não ho querédo fazer acodiria a iffo como era obrigado. E vendo Mamale como el rey das ilhas de Maldiua era vaflalo del rey de Portu¬ gal, & o gouernador entendia naquilo, defiftio do titulo que tinha, & mã- dou pedir feguro ao gouernador pera lhe ir falar, & leuoulhe húa pera dambar goarnecida douro & pedraria, & hús diamães & efmeraldas, que defpois ho gouernador mãdou a el rey de Portugal. E a fora Mamale de- fiftir do titulo que tinha perãte ho gouernador, prometeolhe de logo mã- dar vir a gente q tinha nas ilhas: & coifto fe partio ho embaixador das ilhas de Maldiua. E porque ho gouernador fabia que ho feytor de Cana¬ nor & outros officiaes da fazenda tinhão todos tratos com os mouros, &
Livro III, Capitolo LXXXIX 2t5 auia antreles grandes onzenas do q fe feguia muyto perigo â fortaleza, porque os mouros, que erão os que tomauão ho dinheiro a õzena não querião pagar, & fobriffo auia briga, & leuantauanfe, & auia fempre gra¬ des aluoroços, & erão os noífos defacatados: do q ho gouernador repren- deo muyto ao feytor & aos outros officiaes perante Iorge de melo, & deulhes por regimento q fopena de perdimento da fazenda & dos officios q nenhú homé não trouuefle feu dinheiro em cõpanhia dos mouros, né tiueflem coeles contas, né lhes deffem dinheiro ao ganho: fomente man- daffem fua fazenda em fuas naos apartada fobre fi, & cÕ fua marca. Aqui começou ho fecretario de querer femear odio ãtre ho gouernador & Iorge de melo, a quê diífe que não deuia de confentir q ho gouerna¬ dor reprcdeíTe em fua prefença ho feytor né os outros officiaes da forta¬ leza, que aquilo era feu pois era capitão, & q tinha muyta rezão de fe agrauar do gouernador, pois fendo ele húa pelfoa principal & tãto pera fe fiar em feu parecer & confelho, que não deuia de falar coufa nenhúa com os capitães fem ho primeyro praticar coele, & que affi ho ouuera de fazer fobre ho negocio das ilhas de Maidiua. E tãto ho perfuadio a crer ifto que Iorge de melo fe agrauou do gouernador, & efteue abalado pera vender a capitania a Francifco pereyra peftana, & deixouho de fazer por lhe ho gouernador não dar licença pera ifiò, & affi ho diffe ao mefmo Francifco pereyra que lha pedia. E daqui ficou Iorge de melo bazcole- jado cõ o gouernador, de maneyra q não quis ir coele a Benaftarim: poré ele não era obrigado a iífo por amor da fua capitania. E aífétadas as coufas de Cananor, ho gouernador fe partio pera Baticalâ, onde foube que eítaua metida húa nao de Mafamede maçari, q fe hia de Calicut pera ho cayro como ja diífe: & indo cõ tres naos atraues de çacotorá, lhe deu hú téporal cõ que fe lhe perdeo húa das naos, & arribando âs ilhas de Maidiua fe lhe perdeo outra, & outra arribou a Baticalâ, q foy efta q o gouernador hia bufcar. E fempre Mafamede maçari efcapou & fe foy ao Cayro, leuando Simão rangel catiuo, que cõprou em Calicut como ja diffe. E chegado ho gouernador â barra de Baticalâ, mandou dizer a Da- mechatl gouernador do lugar que lhe mandaffe entregar a nao pois era de Calicut que tinha guerra cõ el rey de Portugal: & DemachatI a mãdou logo Õtregar cõ a carga que tinha, que era de muyta efpeciaria & canela, & dali a mandou ho gouernador a CochI pera fe leuar a carga a Portu¬ gal. E eftando ele aqui, lhe foy falar hú judeu morador no Cayro de nação efpanhol que falaua Português, q lhe trazia cartas de cinco Portu- guefes q ellauão catiuos em Adé, & forão do BargantI de Duarte de lemos q fe perdeo como diffe no fegúdo liuro: & eftes lhefcreuião q auia fama naqlas partes q ho foldão fazia fúdaméto de tomar as portas do
2IÕ Hijloria da índia t eftreyto de Meca, & fazer hi húa fortaleza, & de tomar a cidade Dadem. E por ifto fer a coufa mais danofa q podia fobreuir pera a cõquifta da índia, apertou ho gouernador q lhe diífeífe a verdade daqlas nouas. E ele diífe que auia dous annos que partira do Cayro, & q então fe foaua lâ o que os noífos efcriuião, & que ouuira dizer que ho foldão mandara per hú embaixador pedir a el rey Dadé cê mil xerafins, & q lhos não quifera dar pelo q ho Soldão lhe mandara dez mil frechas cõ outros tãtos arcos, & húa arredoma de balfamo, mandandolhe dizer que cõ aqueles arcos & frechas ho auia de matar, & embalfamalo cõ aquele balfamo: & cõ tudo el rey não quifera dar ho dinheiro. E efte judeu confelhou ao gouernador que deuia aquele anno dir tomar Adé, & que em Honor efta- uão dous judeus que hú deles que auia pouco que viera do cayro, lhe daria nouas mais frefcas: & por iflo ho gouernador foy á barra Donor, onde lhe ho judeu foy falar leuando configo outro natural da cidade de Beja. E differanlhe que aquele mefmo anno partirão do Cayro, & que era certo fazer ho Soldão armada 5 çuez, de que eftaua feyta grãde parte, & era fua determinação ganhar coela as portas do eftreyto & fazer hi húa fortaleza, pera que lhe ho gouernador não podeffe entrar ho eftreyto, porque tinha dilfo muyto grande medo: & por efTa caufa queria tomar Ade, a cujo rey mãdara feus ébaixadores, como ho outro judeu lhe diflera, & que ele falara com ho derradeiro embaixador no fertão ondeftaua el rey Dadé. E por fer feu amigo, lhe dilfera q aquele anno podia ir feguro á índia, porq não auião dir aquele anno rumes, fe não pera ho outro, em que ho Soldão os auia de mandar pera tomaré a porta do eftreyto & Ade, polo medo q tinha de a ho gouernador tomar: & que no ãno feguinte não tornafle a Adé, porq fe foffe feria roubado, & q ele tinha ifto por tão certo q fe auia de tornar a Ormuz. E ele & ho outro aconfelharão ao go- gouernador, que é todo cafo tomaífe aquele anno Adé & as portas do eftreyto, & pediranlhe feguro pera iré a Ormuz, porq não oufauão de tornar a Adé. E ho gouernador lho deu: & ali lhe foy também falar el rey de Merlao, & lhe diíTe q fe apreflaífe muyto a tomar a fortaleza de BenaftarI, porq fabia certo q ho Hidalcão fazia preftes vinte mil homés pera mãdar em feu focorro, & por ifto fe ho gouernador deu preffa em partir.
Livro 111, Capitolo XC 217 CAPITOLO .XC. De como 0 gouernador chegou a Goa, & de como cercou per mar a fortaleza de Benajlarim & lhe deu bateria. CHegado ho gouernador a Goa, que fe enformou do fitio do caftelo de Benaftarim, & das eftacadas q os Imigos tinhão feytas, affi no rio Dagacim como no de BenaftarI pera os não entrarem por mar, & affi de como Roçalcão tinha feys mil homés, em q entrauão trezé- tos de caualo. Ouue logo confelho com efies capitães & fidalgos que an- dauão coele & com os q eftauão em Goa, em que propos quão neceífaria era Goa pera ho eftado del rcy íe fofter na índia, & quanto perjuizo fe lhe feguiria de fe perder, de q eftaua muy certo fe os Imigos permane- ceífem naquele caftelo que tinhão feyto, porque tinha fabido q ho Hidal- cão fazia preftes vinte mil homés pera mandar em feu focorro que farião muy grande difficuldade pera fe tomar ho caftelo, & fe ho eles tomafiem antes de chegar efte focorro ficaua Goa fegura de todo, & ainda q ho Hidalcão vieffe fobrela com quanto poder tinha, que não fométe fe defê- derião dele, mas ainda lhe fariã muyto dãno. E praticado ifto, & exami¬ nado polos do confelho, todos derão fua voz que ho caftelo fe deuia logo de tomar, faluo Frãcifco pereyra peftana, que dilfe que ho gouernador deuia de carregar as naos da carga & mandalas pera Portugal, porq a pimenta era o q queria el rey de Portugal & não cercar aquela fortaleza. E ho gouernador lhe diffe que lhe não preguntaua fe a cercaria, fe não como a tomaria: & fobriffo lhe diffe algúas palauras afperas: a que Fran- cifco pereyra refpondeo que lhas não diffeífe, porque ele não era Frãcifco pereyra coutinho a quem as diífera, fe não fam Frãcifco pereyra. E cõ tudo affentoufe que a fortaleza fe tomaffe, & q fe cõbateífe por mar & por terra, & primeyro fe cercaffe por mar, porq fe atalhaffe ho focorro q lhe podia vir, & affi os mantimétos q lhe trazião da terra firme, & cuy- daífem os mouros q per mar fométe os auião de combater, & ali pofeífem a força de fua deféfam & artelharia: & ho cõbate fe lhe podia dar por mar & por terra, porq auia géte pera tudo, que erão quatro mil Portu- guefes com os que eftauão em Goa, & affi Malabares & Canarins, & dos noffos erão quatrocétos da ordenança, de q erão capitães hú Ioão fidalgo & hú Ruy gonçaluez de caminha: & foy efta a melhor & a mais géte q fe núca ajuntou na índia ate aquele dia. Auido efte cõfelho ho gouerna¬ dor começou logo de fe perceber pera a execução, & mãdou fazer arro¬ badas muyto fortes ate meos maftos, affi ao nauio de Duarte de melo
2l8 Hiftoria da índia como â carauela de Ioão gomez cheira dinheiro, porq determinaua da- balrroar coeles a fortaleza dos immigos. E por os muros fere mais altos do que eles erão, & lhe eles não mataré decima a gente, mãdou os tol¬ dar todos de taboado trincado, & porq não çoçobraflem cõ a altura das arrobadas, mãdoulhe arriçar pipas vazias dambos os bordos: & mandou a dõ Garcia de noronha q foífe cõ certos capitães que hirião nos feus ba- teys, & afli coeftes dous nauios & entraffe polo paífo feco: & os capitães cõ fua gente cortarião tãto da eftacada q os mouros tinhão feyta daquela parte, que os nauios podeffem entrar & hirião abalrroar cõ a fortaleza. E em partindo dõ Garcia, partio ele cõ a armada pera entrar per Goa a velha, & dali ir ter ao rio de Benaftarim a outra eftacada que eftaua da bãda Dagacl. E indo dõ Garcia cõ os dous nauios & bateys ja perto de Benaftarim, deu ho nauio de Duarte de melo em húa lagia, em q abrio & foyfe ao fundo. E fabédo ifto ho gouernador, mãdou a dõ Gar¬ cia q fe tornaffe, & q foífe ter coele por Goa a velha, onde ho achou em muvto grande trabalho de fazer chegar os nauios â eftacada pera a cor- taré porque não podião ali nadar os nauios fe não cõ marés: & ho go¬ uernador andaua é húa fufta fazédo os leuar âs toas aos bateys em que andauão os capitães dos mefmos nauios cõ fua gente, & todos tinhão muyto trabalho & ãdauão é grande perigo, polas muytas & muy conti¬ nuas bõbardadas que os mouros tirauão, que vendo eles a perfia que ho gouernador tinha de chegar por aqla parte, pareceo a Roçalcão que por ela ho queria cometer, & por iffo mãdou ali paffar toda fua principal ar- telharia, que fazia muyto nojo aos noflbs, de q algús forão mortos, & a mayor parte dos nauios arrombados, efpecialmete do camelo q fora nolfo. E erão os tiros tão baftos, q andando ho gouernador húa vez em hú ca- tur pequeno de Malabares diante de todos os bateys, moftrandolhes por onde auião dir & animando os, vé, hú pelouro dhú tiro pequeno & pef- cou ho Malabar q hia gouernando ho catur & leuouho Õ pedaços, & çujou ho gouernador cõ ho fangue de maneyra q todos cuydarão que era morto. & parece que aífi ho cuydarão os mouros tão perto eftauão, & leuantarão húa grande grita. O que entendédo ho gouernador, fez dar outra aos feus, & leuantoufe em pé pera q ho viffem os Imigos: & trabalhou tãto naquele dia cõ os noíTos, q ao outro amanhecerão pegados de baixamar com a eftacada ho nauio de Pero dafonfeca de crafto, & a carauela de Ioão gomez cheira dinheiro, & eftauão arriçados a ela com muy groífos aparelhos. E foy coufa defpanto as bõbardadas q lhe tirauão da fortaleza, & eles tambe a ela, & começarão logo darrancar- das eftacas, q quãdo veo a preamar tinhão feyto lugar por onde caberia hú batel, & afli forão cõ algúas marés arrancãdo tãtas q ja podia caber a nao fam Pedro que
Livro III, Capitolo XC 2ig feria de trezetos toneys, q efta era a cõ que ho gouernador qria abalr- roar a fortaleza, & pera iífo a leuaua marauilhofaméte fortalecida cô ar¬ rombadas de tauoado muy groffo & balas de Cayro & pipas por fora das amuradas, que parecia mais mõftruo que nao, & a meyo mafto leuaua guindado hú batel toldado de toldo de coyros crus pera emparar os q hião detro das panelas de poluora & outros arteficios de fogo q os Imi- gos poderião deitar. E ao entrar delia nao, de q era capitão Ayres da íilua, foy coufa medonha ver as bõbardadas q fe tirarão, afli da parte dos mouros como da noffa, & mais quando eles virão q ela queria abalrroar cÕ ho baluarte em q eítaua ho camelo, q pera fazer mais nojo aos noífos tiraua ao lume dagoa, o q era grande impedimcto pera a nao poder abalrroar cõ ho baluarte: & porq a não meteffe no fúdo, a mãdou ho go¬ uernador defuiar dele, tédo ele ja cortado hõ braço dhúa vnha dãcora q leuaua por proa dhúa bõbardada q lhe ali acertou. E vedo ho gouernador ho impedimento q lhe fazia ho camelo pera nã poer a nao õde queria, prometeo hú grande preço ao feu cõdeítabre fe lho- quebrafle, & mandou- lhe pera iífo embarcar húa efpera em húa barcaça grãde cercada darrÕ- badas de cayro por dentro & por fora, pera que os tiros dos Imigos em- baçalfem nas arrombadas. E aparelhada ella barcaça, foy polia de noyte defrõte da bõbardeira do camelo, que como digo ficaua ao lume dagoa com a montante, & detrás da barcaça eílaua um parao a piq, pera que fe por cafo foífe arrobada recolhefle ho condeílabre & outros que ellauão nela. E quado veo ao outro dia que os Imigos virão a barcaça infiada com ho camelo & da maneyra q ellaua aparelhada, começão de lhe tirar cõ fua artelharia, & os nollos acode logo com a fua, & affi a barcaça, & começaffe ho mais efpantofo jogo de bombardadas que fe podia ver, de que faya tãto fumo que quafi fe não enxergauão hús aos outros, & durou todo aqle dia fem nunca ho condeílabre poder acertar ho camelo, porq como os tiros da fortaleza erão tão baftos não ho deixauão apõtar a fua efpera pera acertar: & por iífo lhe errou todo aquele dia, mas fez tanto dãno no baluarte q ho abrio todo, & fe ho dia mais durara ho pofera por terra, & os immigos tornarão a fazer de nouo na noyte feguinte & ficou muyto mais forte que dantes. E tãto q ao outro dia foy manhaã, aíli eles como os noífos tornarão ao jogo paífado, q durou muyto afpero ate a tarde. E tédo ho condeílabre acabada dapõtar a fua efpera, desfecha no camelo & metelhe ho pelouro dentro & feio em pedaços, matãdo ho bom¬ bardeiro dos Imigos, que era hú galego arrenegado q fugira da cidade, & affi dous ou tres homés que ho feruião naqle meíler: & a iíto derão os noífos húa grande grita de prazer. E quebrado ho camelo, mãdou ho gouernador chegar fem medo a nao íam Pedro, que fe chegou tanto que
220 Hijtoria da índia quafi punha a ponta do garoupez no baluarte. E defpois de eftar aqui furta, deixou ho gouernador encomendado a Ayres da filua que coela & cõ barcaças, & outros nauios que ficauão, deffe continuamente bateria á fortaleza, & foyíe a Goa pera lha ir dar por terra. E deixando tudo a muyto recado fe tornou por mar. CAPITOLO .XCI. De como fe ho gouernador tornou a Goa a fa\er prejles pera ir cõbater a fortaleza por terra, & do que lhe aconteceo com os mouros q forão correr a cidade. CHegado ho gouernador a Goa, começou de fe fazer preftes pera ir combater os immigos por terra. E andando nefta ocupação, húa feita feyra pola manhaã veyo Roçalcão dar vifta â cidade, por moítrar ao gouernador que ho não temia, & que ainda era fenor do cãpo, & trazia obra de duzentos & cincoenta de caualo & muytos de pê: & apareceo ás duas aruores, & hú facheiro q eftaua no oyteiro de noífa fenora do monte como os vio derribou ho facho. E ho fino da vigia da cidade começou de repicar, ao que logo fahio Manuel de lacerda cÕ a géte que tinha na cidade, q como diife ferião feyfcétos Portugueíes a fora os canarins. E a pos ele fahio Pero mazcarenhas com quatrocentos da ordenança. E aíli fahio dom Garcia com muyta gente & outros capitães, fem efperaré por mãdado do gouernador que andaua por antre a vila velha a pee, vendo que forna de géte era a dos mouros, & quando aíli vio ir os noífos fem efperarem feu parecer, mandou de preífa por hú ca¬ ualo em q caualgou & fe foy a pos eles pera os meter em ordé, poíto que diifo não auia neceffidade, porque Pero mazcarenhas & dom Garcia os meterão nela, & Ieuauão ordenadas fuas batalhas, & que aueria mais de dous mil Portuguefes a fora Malabares & Canarins: & Manuel de lacerda hia com os da cidade diante de todos. E quando Roçalcão vir ir os noífos naquela ordenança & tãtos, começou de fe retirar pera a forta¬ leza, fazendo roíto aos de Manuel de lacerda que pegauão com os leus, & apertarão tanto coeles que íizerão apartar hum grande magote deles pera húa vala dhúa alagoa que eftaua contra ho paífo feco: & em fe eftes apartando, foy fobreles Ralu branco nayque canarim muy valente homem, & com feus piães começou de pelejar coeles, & acolherãfelhe fobre a vala, & os feus fe metião fem nenhum receyo pola agoa pera lhes che¬ gar: o que vendo Simão dandrade & dom Ioão deça & Ioão nauarro, & outros de caualo que ferião ate dez, forão acodir aos Canarins, & fize-
Livro III, Capitolo XCI 22T rãno também todos, que fizerão faltar muytos dos mouros na alagoa, onde fe afogarão muyto§, & outros forão mortos aas lançadas & frechadas. E lançados dali os mouros, forão os noflos mefturarfe com os outros que andauão fobre ho oyteiro de Benaftarim aa calcada com os mouros que fugião ho mais que podião pera a fortaleza, onde por terem lugar de fe faluar, & que não entraflem os noífos coeles de meftura na fortaleza, po- ferão fogo a húa aldea que eftaua derredor dela, & tamanha preffa leua- uão que os primeyros que chegarão entrarão logo na fortaleza & fecharão as portas fem efperarem por algús que ficauão de fora, que chegados ao muro os alarão acima por toucas que lhe lançarão, & ifto a vifta dos noflos, que por amor do fogo fe deteuerão algum tanto que não poderão entrar com os mouros né chegar quando alauão os que ficarão de fora. E com a menencoria difto, remeterão afli como hião aos muros da for¬ taleza, a que dos primeyros q chegarão forão Lopo vaz de fam Payo & Pero mazcarenhas, que pos hum pique pera fobir ao muro, com os da ordenança que também querião fobir. E afli chegarão outros muytos fidalgos & caualeyros, muyto defejofos de pelejar com os mouros & lhes tomarem a fortaleza, & fegundo ho defejo que leuauão fizeranno fe tiue- rão efcadas por onde fobir, mas como a preffa foy grande de fayr a pe¬ lejar com os mouros, & não cuydarão de vir a tanto, não ouue a quem lébrafle de as leuar, & como eles não podião fobir, & os immigos tirauão muytas bombardadas, frechadas & pedradas, não feruio a arremetida dos noflos ao muro mais que de ferirem obra de vinte, de que forão feri¬ dos Lopo vaz de fam Payo de tres frechadas, & Ruy galuão & Manuel de lacerda que derribarão do caualo com hum penedo que lhe deu na cabeça, & acodiolhe dom Ioão deça que ho leuantou, & afli forão feridos outros a que não foube os nomes, & forão mortos de bombardadas Diogo correa, que fora capitão de Cananor, & Iorge nunez de lião capitão da nao Enxobregas, & hum Martim de melo. E vendo ho gouernador ho dãno que os noflos recebião fem fazerem nenhum aos immigos, mandou os afaftar, & recolheofe ao oyteiro, onde os recolheo a todos. E ali pe¬ rante todos beijou na face a Pero mazcarenhas porque quifera fobir ao muro polo pique, louuandoho grandeméte desforçado: & ifto porque lhe queria dar a capitania de Goa, & tirala a Manuel de lacerda. E afli ele como outros ouuerão grande menencoria do gouernador beijar na face a Pero mazcarenhas, & murmurarão diflo: a que dom Ioão deça difle rindo que fe calaflem, porque fe ho gouernador por coufa tão pouca beijaua na face a Pero mazcarenhas, auia dali a poucos dias de beijar a eles no tra- feiro por outras muyto grandes que auião de fazer. E recolhidos todos os noflos, ho gouernador fe foy pera Goa.
222 Hijloria da índia CAPITOLO .XCII. De como ho governador cercou a fortaleza por terra: & de como dãdo- Ihe bateria Jayrão os mouros húa noyte a darlhe rebate, & do que fi\erão. E acabado de aparelhar todo o que lhe era neceflario pera combater a fortaleza por terra, mãdou aífentar fua tenda, & as dos outros capitães ao derrador da fortaleza, com muytos dos noffos que as goardaífem ate ho outro dia, que foy acompanhado de tres mil Portugue- fes com os quatrocentos da ordenança: & hião coele eftes capitães, dom Garcia de noronha, dom Ioão de lima, Pero mazcarenhas, Manuel de lacerda, Simão dandrade, Diogo fernandez de beja, dom Ioão deça, Diogo mendez de vafconcelos, Lopo vaz de fam Payo, Iorge dalbuquerque, Gar¬ cia de foufa, Femão gomez de lemos, Duarte de melo, Ieronimo de foufa, Antonio de faldanha, Ruy galuão, Antonio de faa, Francifco pereyra de berredo, Gonçalo pereyra, Antonio ferreyra fogaça. E Anrriq homem, Ruy gonçaluez, Ioão fidalgo todos tres capitães da ordenança, & affi ou¬ tros muytos fidalgos & caualeyros: & a fora eftes noffos hião muytos piães Canarins & Malabares, cujos capitães erão Crifnâ & Ralu branco, & diante de todos hia a artelharia de campo em carretões, & affi mantas parela & bancos pinchados. E a goarda difto foy encomendada a Manuel de foufa tauares que era alcayde moor de Goa. E chegado ho gouerna- dor a Benaftarim, aquela noyte affentou fuas eftancias dartelharia que podeflem bater os baluartes & lanços do muro da fortaleza, de que efta- uão as eftancias no mais que trinta paffos, & todos tinhão mantas por¬ que os tiros dos immigos lhe não fizeífem danno. E porque ho também não recebeífem os bombardeiros antre eftãcia & eftancia, eftauão pipas cheas de terra, detrás das quaes fe eles acolhião. E detrás defta tran- queyra eftaua a tenda de dom Garcia, & mais abaixo a de Pero mazca¬ renhas com as dos capitães da ordenança & a gente dela ao derrador delas, & afti a dos outros capitães, & todos detrás do oyteyro de Benaf¬ tarim que as emparaua da artelharia dos immigos que lhe não podeífe fazer nojo. E quando amanheceo ao outro dia começou logo a noffa arte¬ lharia de bater ho muro & baluartes q eftauão naqla frõtaria, de que também lhe refpõderão os immigos muy afperamente porq tinhão ali aflentada parte da fua artelharia, & a outra tinhão da banda do mar, dode lhe os noffos també dauão bateria, pofto queftauão ali mais pera tolheré focorro de gente & de mãtimétos aos immigos, que pera lhes
Livro III, Capito lo XCII 223 darem bateria no mar, que por fe não dar dele bem a foy o gouerna- dor dar por terra: & era a reuolta muy grãde & medonha, porque fe os noífos tirauão, na fortaleza não eítauão quedos, & tão amiúde que nem hús nem outros fe enxergauão cõ fumo, & afli a fortaleza como ho arrayal parecia que ardião em fogo. Mas com tudo os noffos fazião muy pouco nojo na fortaleza, por os baluartes que eftauão naquela fron- taria das noífas eítancias ferem todos mociços, nem no muro que era de- tulho ate as ameas: porem dentro na fortaleza fazião os noffos muy grande danno com dous quartaos que tinhão nas eftãcias, com que lhe deitauão detro muytas pedras & matauão muytos. E coifto fe acharã os immigos muy falteados, & muyto mais com lhes faltarem os mãtimetos, porque lhes não acodião da terra firme como quando erão fenores do mar. E vendofe Roçalcão naquele eftado, & que não podia fazer nenhum nojo aos noffos de dia, quifera lho fazer de noyte mandando acender feixes de palha, a cuja claridade os arrenegados tirauão âs efpingardadas aos noffos quãdo paredão, & efte ardil tinhão quando fazia efcuro: & porem os noffos fe goardauão também que firião muy poucos. E vendofe Roçalcão defefperado com ho aperto do cerco, determinou com confelho dos arre¬ negados de cometer os noffos húa noyte & tomarlhes a artelharia, ou matar no arrayal muytos deles, ou ao recolher dos leus que os feguirião, & pera iffo mandou eftar preftes fua artelharia na noyte deite rebate que foy ao quarto dalua, porque então lhe pareceo q os noffos dormirião me¬ lhor por eftárem defuelados da vigia dos outros quartos, & quãdo aco- diffem teria ele acabado hú façanhofo feyto: & coefta determinação fayo com muytos dos feus ao quarto dalua fazendo grande lúar. E ficãdo ele aa porta da fortaleza, remete effes feus principaes capitães aas noífas eft㬠cias, cuja goarda tinha Manuel de foufa tauares, que logo acodio como muy esforçado caualeyro que era: porem como ho corpo dos immigos era grande, não pode refiftir a feu impeto, & mais porque foy ferido. E nefte cometimento algús dos immigos paffarão das noífas eítancias pera dentro & fem valer a dom Garcia acodir, ouuera de fer hú grande def- mancho fe não acodira Pero mazcarenhas com os da ordenança, que co¬ meçarão âs lançadas com os immigos, & aífi outros fidalgos & gente que acodio. E com tudo os immigos leuauão tamanha vontade de fe prouar com os noffos, que algús fem darem polos botes das lãças que lhes tira¬ uão, çarrauão coeles pera os matarem aas adagadas, o que fizerão fe não carregarão muytos dos noffos que os fizerão retirar pera a fortaleza, onde fe recolherão cÕ tanto teto que todos efcaparão. E os q eftauão no muro como os virão apartados dos noffos, desfecharão tãtas efpingarda- dadas, frechadas & pedradas q os fizerão recolher ao arrayal, onde antes
224 Hijloria da índia q chegaflem pefcarão algús cõ a artelharia, a fora outros q tinhão ferido do muro: de maneyra q ainda q não foy em todo, em parte comprio Roçalcão o que determinou: do que ho gouernador ficou muy agaftado, & mais porque fe lhe forão affi os Imigos fem fe vingar deles. CAPITOLO .XCIII. De como Roçalcão fe\ cõcerto com ho gouernador pera lhe dar a fortaleza, & de como lhe foy entregue. VEndo ho gouernador ho atriuimento dos mouros, logo na noyte feguinte mãdou fazer húa caua aa noffa tranqueyra, pera que lhe os Imigos não tornaffem a dar outro rebate, & fortaleceoha mais do q eftaua, & dali por diante amiudou mais a bateria, porque fe vingaífe do paffado. E entendendo que daquela parte era ho muro mociço & os baluartes, mandou mudar das eftãcias pera júto dhú eíteyro, onde fe fazia húa ilharga da fortaleza pera ver fe acharia ali ho muro menos forte: & achoufe que não era ali entulhado, porq dos primeyros tiros foy vazado em claro. O que vifto por Roçalcão defefperou de fe poder defender, porque a durar mais a bateria lhe darião com ho muro no chão & ho entrarião, que bem fabia ele que onde os noífos punhão ho rofto que hião auãte. E determinãdo de ver fe podia fazer paz com ho gouernador, m㬠dou pedir tregoas por hú dos arrenegados, que aparecendo antre as ameas cõ húa bandeira de paz, chamou Baftião rodriguez da moeda, que andaua falãdo com dõ Garcia, & diífelhe que diffeffe ao gouernador que Roçalcão pedia tregoas, pera ver fe poderia auer antreles paz, & que da fua parte pedifle a dom Garcia cj mandaffe ceifar a bateria em quanto fe leuaífe ho recado ao gouernador, & que ele também mandaria aos ieus que não tiraffem aos noífos. E affi foy mandado dhúa parte & doutra, & Baftião rodriguez leuou logo efte recado ao gouernador, a que foy dito por algús queftauão coele que não concedeffe as tregoas, porque Roçal¬ cão as pedia pera entre tanto fazer outro muro por détro: o que pare¬ cendo verdade ao gouernador, não queria cõceder as tregoas, nem as concedera fe dom Garcia não acodira que lhas fez conceder. E por amor diffo diffe defpois ho fecretario q Roçalcão dera feys mil cruzados a dom Garcia, & ifto por dizer mal dele, & nã por fer verdade. E affentadas as tregoas antre Roçalcão & ho gouernador, forão ordenadas peífoas pera q falaffem na paz. Da parte de Roçalcão, forão dous capitães turcos de muyto credito & autoridade, que forão entregues ao gouernador, em cujo poder auião deftar ate ho cõcerto da paz fer acabado: & da noffa parte
Livro III, Capitolo LXXXIIII 225 auia deitar em poder de Roçalcão Ioão machado com quem foy Baftião rodriguez pera trazer repofta do que lhe mandaua dizer per Ioão ma¬ chado, que era que viííe como eftaua fem remedio de faluação por não ter por onde lhe fofle focorro de gente nem de mantimentos, né menos muros com que fe emparafle dos noflòs. E pois fua vida eftaua no rifco que via que deuia de querer paz, que por ele fer peffoa de tanto preço, & tão boõ caualeyro lha daria, com cõdição que lhe entregaffe todos os noflòs que durando ho cerco fe lançarão coele, ou fofle m mouros ou Chrif- tãos, & lhe auia de tornar a carauela & ho carauelão que fe tomarão no paflb de Noroâ quãdo os Imigos étrarão a ilha & afora iflb lhe auia den- tregar todos os caualos & toda a fuftalha que teueffe, & fe ifto fizefle lhe daria a vida & a quãtos eftauão coele, & quãto teuefle na fortaleza, & lhe daria paflajé pera a terra firme. E ouuido efte recado por Roçalcão, ouue confelho cõ feus capitães & peflbas principaes: & cõ feu parecer refpõdeo ao gouernador q todas as condições da paz aceitaua, faluo tor¬ nar os arrenegados, porq lho defendia fua ley, & era por ela grande pec- cado. Mas ho gouernador nã quis outorgar a paz fé lhe entregarem os arrenegados, dizendo q por coufa do mudo os deixaria. E ifto era por¬ que erão efpingardeiros, & fazião aos noflòs muyto mal, & mais pera caftigo q outros não fizefle outro tanto. E tornandolhe Baftião rodriguez efta repofta, achou ho muyto trifte & tão canfado do fpirito q fe lhe pe- gaua a boca, & quaíi que não podia falar. E védo a determinação do gouernador, por confelho dos feus lhe outorgou a entrega dos arrenega¬ dos, cõ condição q lhes defle a vida: & coefta repofta mandou ao gouer¬ nador hú diamão de valia de noue mil cruzados, dizedo q lho mandaua em final damizade, porque lhe parecia q auia de ficar é feruiço del rey de Portugal, & auia de ter neceflidade do gouernador pera iflb: porq polo peccado que fazia em entregar os arrenegados, não oufaria dapare- cer diãte do Hidalcão feu cunhado. E védo ho gouernador ho diamão, nã ho quis tomar, & pelejou muyto cõ Baftião rodriguez porque lho tra¬ zia, & mais fem ho cõcerto fer acabado, q dirião q por amor do diamão ho fazia, & diífelhe q eftaua em põto de lhe dar cõ hú punhal polos pey- tos, & que logo leuafle ho diamão, & q diffeffe a Roçalcão que lhe pra¬ zia de dar a vida aos arrenegados. E tornãdo Baftião rodriguez coefta repofta, & dãdoa a Roçalcão paffaua de mea noyte, & como lhe foy dada perante feus capitães, leuantoufe fem falar palaura & foyfe a feu apou- fentaméto, donde logo fe paífou aa terra firme cõ algúas de fuas molhe- res, & cõ hú arrenegado, q fe chamaua Fernãdinho, muyto valéte de fua peffoa, de qué fe ele fiaua muyto, & a q fazia mais bé que aos outros, & ele lhe negociou a paflajem em húa almadia que tomou fazendofe que 29 Tomo II
22Ô Hifioria da índia era dos noffos, & por fer de noyte, & lhe ouuire falar Português ningué não atentou nele: & Roçalcão fe foy afli fem acabar a execuçã da paz, porq cuydaua q auia detregar os arrenegados, nã ho podia acabar cõíigo - polo auer por peccado grandiflimo, & por iffo fe foy fem ho dizer a nl- gué. E os capitães q eftauão coele, efteuerão efperando hú grande pedaço q vieffe, & vedo q não vinha mandarãno chamar: & quãdo fouberão que nã eftaua na fortaleza, & fe prefumia fer ido polos finais que auia diflo, ficarão tão triftes q não fouberão de fi parte, porq lhes parecia q por não fer a paz acabada dafTentar de todo ficauão em grande perigo, & q lhe não goardaria ho gouernador as cõdições pois Roçalcão era ido. E coefta trifteza fe foy cada hú deles a fua eftãcia determinados de morreré, & os arrenegados ficarão cÕ Baftião rodriguez, também muyto fora de fi como os mouros por tere ho mefmo temor que eles tinhão. E vedo os Baftião rodriguez daqla maneyra, lhes diffe q nã ouuefle medo, por q ho gouernador prometera de lhe dar as vidas, & q cria dele goardarlhes efta palaura, fe eles cofiados é fua piedade fe lhe fofie entregar aconfe- lhandolhes q afli ho fizeífem: o que eles fizerao de muy boa votade. E âs duas horas defpois de mea noyte fe fayrão da fortaleza com Baftião rodriguez, o q fizerão dificultofaméte porq os porteiros os não querião deixar fayr ate os capitães não mãdaré que layfem, prometendolhes Baf¬ tião rodriguez q ho gouernador auia de cõprir o que tinha affentado cÕ Roçalcão. E partido cõ os arrenegados, leuouos ao gouernador, a cujos pés fe lãçarão pedindo mifericordia: & ele diffe q ja lhes prometera as vidas, porem mãdouos arrecadar muy be. E fabedo o que Roçalcão fizera, & o q os capitães eftauão pera fazer, ao outro dia ordenou feus elquoadrões & foyfe chegãdo â fortaleza cõ determinação que fe os mou¬ ros fe ihe não entregaffem de não deixar nehú a vida. E vedo os capitães como fe chegaua â fortaleza, começarã de dizer hús q lhe abriffem as portas, q ele goardaria o que tinha prometido, outros dizião q fe defen- deffem. E afli cõtradizendo hús aos outros, forão abertas as portas da fortaleza, & ho gouernador entrou nela cõ todos os noffos: & como effa géte miuda ho vio entrar fe arremeffarão pera a bãda do rio, onde fe lan- çauão hús fobre os outros, & fobre taboas nadando, & outros pegados a rabos de caualo. E era grande efpãto de ver como fe lãçauão tão fem medo, & a braua reuolta q hia, em que muytos fe afogarã, & mais forão fe ho gouernador não acodira a iffo mãdandolhes dar embarcação eõ muyta preffa, & apregoar q fopena de morte nenhúa peffoa oufaffe de lhe tomar nenhúa coufa fua né tocarlhe nela, né fazerlhes nenhú nojo em fuas peffoas: & por iffo os que não teuerão tanta preflã de fe lançar a nado palfarão em paz & fem perigo cõ toda fua fazenda, & dos q mor-
Livro III, Capitolo XCIIII 227 rerão ficou algúa pouca, & quafi todos os caualos ou os mais deles, & os q efcaparão a qho gouernador deu embarcação, fe paliarão â terra firme, onde fe ajuntarão cõ muytos dos que forão a nado que eftauão cõ Roçalcão, que tinha afientado feu arrayal, & eftaua elperando repofta do Hidalcão, a q efcreuera ho feyto como paíTara, & pedldolhe perdão dalgúa culpa fe a tinha. CAPITOLO .XCIIII. Do recado que ho gouernador mandou a Roçalcão ejlando na terra firme, & da juftiça q fe\ nos arrenegados que fe lançarão cõ os mouros no cerco de Goa. DEspejada a fortaleza dos mouros & metido ho gouernador de poífe dela, deu cõ todos os noffos muytos louuores a noffo fenor por lha dar, porq coela ficaua a ilha de todo pacifica & fé fe temer de fer entrada, pofto q ho Hidalcão vieífe cõ todo feu poder. E ficãdo fenhor daqla fortaleza, acharão os noífos algú pouco de mouel q ficou cõ preífa, & aflí os caualos de Roçalcão quafi todos que ho gouernador tomou pera el rey por virtude do cõcerto que tinha feyto cõ Roçalcão, & mãdou logo r^payrar a fortaleza do dãno que tinha recebido da bateria, & deixoufe ali eftar pera faber o q Roçalcão faria, que be fabia ho recado q tinha mandado ao Hidalcão, *& q lhe hia tardãdo a repofta. E como fabia q ele eftaua muyto agaftado pelo q lhe acõtecera & temerofo do q lhe ho Hidalcão refpõderia, quis cometelo cõ hú partido, parecédolhe q ho aceitaria pois eftaua é duuida: & mãdoulhe dizer por Baftião rodri- guez que lhe pelaua muyto de fua ida fer tão fupita, porque lhe quilera falar, & offrecerlhe fua ajuda, porque pofto que ateli foliem immigos, dali por diãte determinaua de fer feu amigo. E como a quem ho tinha neífa conta, lhe acõfelhaua q fe não fiaífe ê nenhú feguro q lhe ho Hidal¬ cão mandaffe, porq pofto q folie feu cunhado tinha coele muyto grande priuãça çamalcão feu gouernador, & tanta q mãdaua aufolutamente todo ho Balagate: & efte era feu immigo mortal, & auia dafear muyto fuas coufas ao Hidalcão, & polo acolher & fe vígar dele lhe mãdaria mil fegu- ros, & por iffo ele os não deuia daceitar, mas irfe pera Goa pera eftar mais feguro, & q ho não matalfe algú dos feus a treyção por comprazer a çamalcão. E como ho Hidalcão eftaua defgoftofo dele polo defaftre q lhe acõtecera, nã lhe daria nada de fua morte: & q fe fe ele quifeífe tor¬ nar a Goa & ficar é feruiço delrey de Portugal, que ele lhe daria ajuda cõ que tomaffe as terras firmes de Goa cõ tanto q deffe ametade a el rey
228 Hijloria da índia de Portugal, & q a outra ametade cõ ho mais q ganhaífe fófle parele. E pera ho mais atraher a ifto, lhe mãdou por Baftião rodriguez hú bedé de pano azul muyto fino, cairelado, atorçalado & frãjado douro, & hú alaúde muyto boõ, & outras peças miúdas todas muyto louçãs & pera folgaré coelas. E chegado Baíliao rodriguez a Roçalcã deulhe ho prefente do gouernador, & defpois feu recado, a q ele difle q daria a repolla cõ con- felho de feus capitães, & entre tanto mandou agafalhar muyto bé a Baf- tião rodriguez, a q foy difcuberto lecretaméte q Roçalcão trataua cõ feus capitães de lançar mão dele, & dhú Português que fe chamaua Frutus de Ceyta q hia coele pera ho feruir & os tere reteudos ate q lhe ho go¬ uernador mandafie os dous turcos q dera é arrefés de Ioão machado, q ficarão la polo defarrãjo q Roçalcão fez, & afli ficou Ioão machado. E fabido ifto por Baftião rodriguez, mandou logo muy diflimuladaméte a Frutus de ceyta pera Benaftarim a dizer ao gouernador o q paffaua, & q ele não hia porq fe nã atreuia a faluar, & fe quando fe foífe algús mou¬ ros o quifeflem deter, diffefle q hia bufcar hú papel q lhe efquecera, em q eftauão hús apõtamentos de coufas q o gouernador reqria a Roçalcão: & coifto fe foy Frutus de ceyta. E fabédo Roçalcão como era ido, & que não podia reter mais que hú fô homé, mudoufe de fua determinação: & defpachando Baftião rodriguez, não refpõdeo nada ao q ho gouernador lhe mãdara dizer, fe não q lhe diffeffe q quãdo lhe concedera darlhe os caualos que lhe pedia, q não fora fua tenção darlhe os caualos Darabia & da Perfia, fe não os de Cambaya: por iffo q lhe pedia q lhe mandaffe os feus caualos, & os dous turcos q lhe dera em arrefens: & q não ho fazédo afli que aueria guerra antreles, porq tinha repofta do Hidalcão q fe deixalfe eftar, & q cedo lhe mãdaria gente & recado do que auia de fazer. E tornada efta repofta ao gouernador, ele fe foy pera Goa dei¬ xando a fortaleza a boõ recado, & não quis mãdar os dous turcos por amor dalgús arrenegados q andauã na terra firme, a cujo troco os efpe- raua dauer: & como foy em Goa, determinou de caftigar os arrenegados q tinha e feu poder, cõ tanto q não fofle matalos pola palaura q tinha dada de lhes dar a vida, & difle q lhes perdoara a vida mas não a juf- tiça: & isto refpondeo a algús q lhe diíferão que quebraua fua palaura. E ho prlcipal q ho moueo a fazer ifto, foy por fer exéplo a outros q não fizeffem outro tãto, & també por não ficar fem caftigo hú crime tamanho como aqle foy. E a juftiça foy cõ lhes mandar pubricaméte & com pre¬ gão cortar narizes, orelhas, mãos dereytas, dedos das ezquerdas, & en- tregalos aos moços que lhes depenaífem os cabelos das barbas & das cabeças, & q os enlameaflem, & injuriaffem, & a Fernão lopez fobre todos porq era de mais qualidade: & por derradeiro foy degradado pera
Livro III, Capitolo XCV 229 Portugal, & eu ho vi na ilha de fanta Helena, onde por feu rogo ho ca¬ pitão da nao que ho leuaua ho deixou fò: & ali viueo muyto tépo, fer- uindo a noífo fenor arrepédido do peccado q fizera. E diflerãme q aíli ele como muytos dos outros fofrerão eftes tormétos cõ muyta paciêcia, di¬ zendo q mais merecião pelo graue peccado que cometerão. CAPITOLO .xev. Do que ho gouernador fe\ em Goa defpois que tomou a fortaleza de Benaftarim. PElo muyto q ho gouernador tinha que fazer 5 Goa, não pode ir a CochI a defpachar as naos da carga pera Portugal, & por ifio man¬ dou dom Garcia que ho foífe fazer, & que leuaífe efTes nauios que lhe os mouros arrombarão & efpedaçarão em Benaftarim, pera que fe corregeflem em CochI em quanto duraffe a carregação das naos, & mã- doulhe també que defpois de corregidos ãdaífe fobre a barra de Calicut ate lhe mandar recado, & q entre tanto deixafle hi algús nauios q lhe deu pera iífo, porq tolhefle a ida das naos dos mouros a Meca, & foy coele o fecretario cõ achaq de ir a Cananor polo feu fato q lhe hi ficara: & como lâ foy mãdou dizer ao gouernador q era quebrado, & muyto mal defpofto, & que lhe fazia muyto mal ãdar no mar, q por iflò nã po¬ dia andar nele que eftaria em Cananor. E ifto tudo era por não andar cõ o gouernador, a q tinha odio polas rezões que difle. E ho gouernador q bé ho entendia, mãdoulhe defender q nã folie a Cochim, & ifto porq temia que dãnafle el rey de CochI contrele como começara de dannar. Porem ho fecretario não quis fazer o que lhe mãdaua, & foyfe a Cochim, onde fez o q direy a diante. E defejando ho gouernador de tornar a fazer Goa tão nobre como era dantes, mandou aos capitães defles nauios q ficauão coele em Goa q foffé ate Chaul & fizeffé arribar a Goa quãtas naos achaflem q trouueflem caualos, q fem eles nã fe podia ennobrecer, & por amor deles vinhão a ela os mercadores do reyno de Narfinga, & do reyno de Daqué que trazião muytas & muy ricas mercadorias, no q el rey de Portugal receberia proueito muy groífo em fua alfandega, & obrigaria a el rey de Narfinga & ao Hidalcão a quereré paz coele. E cõ a diligécia q ho gouernador fez em mandar eftas naos a fazerem arribar as dos caua¬ los a Goa, vierão a ela ter muytos, a q ele mãdou fazer eftrebarias em abaftança & deu muytos piães da terra pera lhe daré herua: & mandou ao feytor de Goa q lhes deffe todo ho mãtiméto necefíario, & que defpois faria conta com os donos dos caualos, & lhe pagarião o que deueflem, & man-
23o Hijioria da índia dou os apoufentar muyto bem, & darlhes todo ho neceffario pera concerto de fuas naos, & darlhe carga defpeciaria, maça, arroz & cobre: pelo qual as naos daqle anno forão mais ricas que outras nenhúas que fofie doutros portos. E tudo ifto fazia pera prouocar os mouros q folgaflem de ir a Goa, õde os mouros Dormuz q vinhão nas naos que digo derão noua q Cojea- tar era finado, & focedera em feu lugar Rais Noradl, & q os arabios tor¬ narão a ganhar a ilha de Baharé, & que el rey Dormuz tinha recebida a carapuça do Xequeifmael & hú liuro de fua feyta. De que ho gouernador ficou affaz agaftado, porq fe lhe ordenaua mais trabalho em tornar a ga¬ nhar Ormuz do q tiuera fe tomara dantes aqla emprefa, & fe nã fora terfe por tão certa a vida darmada do foldão âs portas do eftreyto pera fazer hi fortaleza, õde fe ele determinaua dir pera ho eftoruar, ele dei¬ xara de ir là por ir a Ormuz & ganhala antes q ho Xequeifmael fizera mais pé nela. Tãbé neftas naos que vierão com os caualos, foy achado hú mercador mouro chamado Cojeamir, a que ho gouernador da primeyra vez q tomou Goa entregou duas naos da terra carregadas de mercadoria del rey de Portugal, & cõ ho embaixador do Xequeifmael, & cõ ho mef- fejeiro q lhe o gouernador mãdaua como atras diífe, & por efle refpeyto foi Cojeamir bem defpachado em Ormuz. E fabendo ele em vindo pera a índia como Goa eftaua leuantada contra ho gouernador, fe meteo no porto de Dabul, & leuou os caualos q leuaua ao Hidalcão, & por ifto que ho gouernador fabia ho mandou préder em ferros & a hú feu filho, & tomou- lhe vinte tãtos caualos pelos que leuara ao Hidalcão. E a fama dos muy- tos caualos q eftauão em Goa forão nela em poucos dias mercadores do reyno de Narfinga a cõpralos pera el rey, & foy hú meffejeiro del rey de Vengapor cõ embaixada pera ho gouernador de grãdes defejos de paz cõ el rey de Portugal, & de ho feruir na guerra contra ho Hidalcão fe a qui- fefle emprender, & offrecimento de mãdar a Goa muytos mantimentos, & de gouernar as tanadarias da terra firme de Goa & dar por elas o que daua Merlao quando as gouernaua, pedindo ao gouernador q lhe deixaffe tirar cadãno de Goa trezentos caualos. E coefta embaixada folgou ho go¬ uernador muyto, & refpondeolhe por feu embaixador, que foy Gafpar chanoca, q mandou tambe cõ embaixada a el rey de Narfinga, de quem defejaua dauer Baticalâ, porque não teueffe onde lhe foliem caualos, & ficaffe em neceflidade de os cõprar todos em Goa, & mandoulhe dizer que deuia de dar Baticalâ a el rey de Portugal feu fenhor, pois todos os reys & fenhores da índia lhe tinhão dado lugares pera trato, & que lhe deixaria tirar de Goa todos os caualos que quifeífe. També vierão ao go¬ uernador dous ébaixadores do Hidalcão, por quem lhe mandou pedir paz & amizade, & licença pera cõprar caualos é Goa: & o gouernador fez
Livro III, Capitolo XCV 23j merce aos embaixadores & os defpachou logo, & em fua copanhia man¬ dou por feu embaixador a Diogo fernandez adail de Goa, & por feu lin- goa Ioão nauarro, & mãdou coeles ho filho de Gil vicente por efcriuão da embaixada, & todos bem veftidos & ecaualgados: & hia coeles hú ca¬ pitão Canarim cõ trinta piães pera os feruir. E por efte embaixador man- daua ho gouernador pedir ao Hidalcão as tanadarias da terra firme de Goa, & que fe as deífe que lhe feguraua Dabul, & não impidiria irlhe a gente branca do eltreito, & lhe deixaria tirar de Goa quantos caualos quifeffe. Nefte mefmo tempo chegou a Goa húa nao de Meliquiaz, que mãdaua ao gouernador carregada de mãtimêtos, & nela hú meflejeiro por quem ho mãdaua vifitar & dar ho prolfaça da tomada de Malaca & de Benaftarim: o que lhe ho gouernador agardeceo muyto, & defpachou logo ho meíTejeiro com prefente a Miliquiaz, com ratificação de grande ami¬ zade. E aífi defpachou hú embaixador delrey de Cambaya q auia fete mefes q andaua coele, & viera ter a Goa com os catiuos q eítauão em Cambaya q el rey mandaua ao gouernador, com quem determinadamente quis aífentar paz como foube a tomada de Malaca, porque fem ela não era nada ho trato de Cãbaya. E pera fe aífentar efta paz, mãdou logo os catiuos que feu pay ho rey paliado fempre dilatara de dar: & na verdade Meligopi ajudou a ifto muyto. E alfi mandou el rey ao gouernador hú terçado douro, & hú catle laurado de pedraria falfa, poré muyto rica & galante, com húas cortinas de feda brãca da China lauradas com ouro de pão. E não achãdo ele ho gouernador em Goa, efperou fabédo que era em Malaca, & como foube que eftaua em Cochim fe foy lâ, & lhe deu ho prefente & a embaixada. A q ho gouernador não refpondeo logo, por¬ que comó ho affento daqla paz era coufa de muyta importância, & por onde ele efperaua de fazer fortaleza em Diu quifera ir em peífoa aífentar efta paz & verfe com Meligupim em çurrate ou em outro porto, & fazia conta de ho fazer defpois da tomada de Benaftarim, & por iífo trouue ho embaixador configo: mas quãdo foube as nouas da armada do Soldão & quãto lhe releuaua ir ao eftreito, ceifou de fua ida a Cambaya, porq fe foífe perdia a nauegação do eftreyto, & fe mandaffe lâ dõ Garcia não podia acodir âs torres que fazia nos paífos de Goa, né ao corregimento dos nauios em Cochim, ne â carrega das naos do reyno. E auendo fua ida por impidada, lhe pareceo bé deixala pera quando ho noífo fenhor trouueífe do mar roxo, & que de caminho iria a Cambaya, & entre tanto mãdou por embaixador a el rey de Cambaya a Triftão degâ, hú caua- leyro fidalgo da cafa delrey de Portugal, & por efcriuão da ébaixada hú Ioão gomez, cuja concrufam foy pedir fortaleza em Diu. E efte êbaixador auia de ir na nao de Meliquiaz com ho embaixador del rey de Cambaya,
232 Hijloria da índia a quem & ao meffejeiro de Meliquiaz primeyro q fe foliem ho gouerna- dor mandou moftrar a fortaleza de Benaftarí que ele fazia muyto forte, & ho lugar por onde fam Pedro abalrroou coela: & ifto porque Meliquiaz teueffe pouca confiança no baluarte de Diu, & alfi lhe mãdou moftrar as eftrebarias dos mercadores, & as del rey, em que eftauão ate quatrocé- tos caualos, & auião deftar fempre pera qualquer necedidade que fobre- uielfe. E coifto lhes mandou moftrar muytas cubertas darmas q fe fazião pera eftes caualos, & duzentos efpingardeiros & outros tantos béfteiros que ordenaua e Goa pera eftarem em frontaria, aíli cafados como foltei- ros: & os ébaixadores fe efpãtauão muyto de como tudo eftaua concer¬ tado, & afli ho contarão em Cambaya defpois que lá forão. CAPITOLO .XCVI. De como ho gouernador fonbe q hu embaixador do Prejle que vinha pera el rey ejlaua prefo ê Dabul, & que era ho Prejle Ioão & onde teue feu fenhorio. DEspois da partida deftes embaixadores, lhe foy dado recado per hú mercador gétio, que em Dabul ficaua prefo hú Abexim que dizia fer embaixador do emperador de Ethiopia, a que nos chamamos Prefte joão & q lhe trazia fua embaixada, & chegando a Dabul ho pren¬ dera ho tanadar da hi: & q pedia muyto a fua fenhoria que lhe mandalfe pedir que ho foltaífe & deixalfe ir pera Goa, porque releuaua muyto a el rey de Portugal faber a ébaixada q trazia. E fabido ifto polo gouerna¬ dor, mandou a Lopo vaz de fam Payo que foífe na fua nao a Dabul, & mandalfe dizer ao tanadar da fua parte, q fefpãtaua muyto de préder ho embaixador q hia pera el rey feu fenor fem ter recebida nenhúa offenfa de fua armada, q lhe pedia q logo lho mãdalfe, fe não q feria necelfario fazer o que ele não queria: & não ho queredo fazer fe pofeífe na boca da barra de Dabul & não deixalfe fayr nenhúa nao q nã meteífe no fúdo. O q foy efcufado fazerfe, porque fabido ho recado do gouernador polo tanadar, logo entregou ho ébaixador & Lopo vaz fe foy coele pera Goa. E porq no liuro primeyro toquey breuemete que ao emperador da Etió¬ pia chamamos erradaméte prefte joão, direy agora como, fegúdo Marco paulo efcreue. Aqle q fe foya de chamar prefte joão, teue feu fenorio co¬ marcão cõ as terras do grão cão de Cathayo, que ficaua antrelas & ho grande reyno de Deli, bé dentro no fertão da índia, & era Chriftão, & foy vencido & morto em húa batalha q lhe deu ho grão cão de Cathayo q lhe ocupou feu fenorio, & núca mais ouue prefte joão: & fegúdo ifto o
Livro III, Capitolo XCVII 233 3 agora chamamos prefte johão ho não he, né menos té tal nome é íua terra, & afti ho diz Frãcilcaluarez no liuro q fez das coufas do fenorio defte prefte, onde andou muyto tépo & foube todas fuas particularidades, ne menos he bifpo, pera q fe diga que de presbiter nome latino, q quer dizer bifpo fe mudou em prefte, porque na terra do prefte ha hú pa¬ triarca q gouerna a igreja daqlas partes, & q ao prefte lhe chamão vni- uerfalmete em fua lingoa neguz & agacé, q na noffa quer dizer rey ou emperador. E tãbé lhe chamão preciofo joão, fegundo afirma Damiã de goys, homé de grande erudição & de marauilhofo engenho, & de curio- fidade fingular. E efte nome preciofo parece q fe corrõpeo em prefte, & daqui lhe chamão os noííos, & outros prefte joão. O q reynaua a efte tépo era Chriftão, & feus ãteceffores també teuerão a ley euangelica, ík procederão da raynha Candacia em Etiópia, cuja terra foy aquela que el rey Salamão deu a hú filho q ouue na raynha Sabba, onde defpois de Ierufalé forão os primeyros Chriftãos q fe conuerterão na primitiua igreja, de cuja conuerfam foy caufa ho apoftolo fam Felipe, porq indo ele por amoeftação do anjo cõtra a parte do meyo dia pelo caminho que vay de Ierufalé pera Gaza a deferta achou ho mordomo da raynha Candacia que vinha de vifitar ho téplo de Salamão cõ offerta da mefma raynha, & def¬ pois de lhe fam Felipe declarar húa profecia de Ilayas, da paixão de noffo fenhor que ele hia lendo, ou cantando, cõuerteoho à fétã fee catho- lica & bautizouho. E chegãdo ho mordomo a cafa da raynha, ela fe cõ- uerteo logo cõ toda fua familia, & deípois fez baptizar todos os de léu, reyno, õde fempre durou a Chriftãdade ategora, & os fuceffores defta f&ã rainha forã acrecétãdo fempre nefte reyno é tãta maneira q veyo alargarfe tãto como agora parece, no q tinha ho prefte q então reynaua. CAPITOLO .XCVII. Do fenorio do Prejle, & de feus cojlumes: & de como a mãy do prejle mandou liã embaixador a el rey de Portugal. QUe era emperador de Etiópia & fenor de qulze reynos muyto grã- des & todos juntos. Té efte feu fenorio da banda do 1'ul ho mar roxo, em q tinha algús portos pouoados de mouros, que eftauão leuãtados contrele, fe não hú que fe chamaua Maçuâ & eftâ em ilha, & da bãda do norte os montes da lúa, do leuante ho Egipto, & do ponéte os motes de Etiópia: a terra de fua natureza he groffa, & daria tudo o q femeaffem, mas a gente não he pera iflo, cõ tudo da muyto trigo & ceuada, & outros muytos legumes, como é noffa terra & doutros gene- Tomo II 3o
234 Hijloria da índia ros. Ha nela muytas carnes, & algú peícado dagoa doce, & do mar ne¬ nhú por eftaré os portos lÕge: ha muyto boas agoas, muytas minas douro, de prata, deftanho, de cobre. Em toda efta terra não ha nenhúa cidade nobre, né caftelos nem fortalezas, tudo fam aldeas & lugares grades, mas nã pafla nenhú de mil & quinhentos vezinhos, & nenhú não he cer¬ cado, as cafas comúméte fam redondas & terreas, cubertas de terrados ou de palha cõ currais ao derrador pera fe agafalhar ho gado. A géte defte fenorio he geralméte preta & baça & de boõ parecer, he magra & barbara, fraca & pera pouco: & affi té poucas armas & róis, não come mais q húa vez no dia & efta â noyte, bebem vinho de mel, porq ho não te duuas, comé no chão em húas gamelas grandes, & muytos comé carne crua, outros affada nas brafas. Tirãdo os fidalgos & religiofos todos an- dão nus da cinta pera cima, & húa pele de carneyro polas coftas atada do pê a mão: ningué nã morre por juftiça, & caftigão cõ açoutes ou mé- bro cortado, fegúdo a qualidade do crime, as demandas não fe tratão fenão verbalméte, não coftumão efcreuer hús aos outros, & por recados mãdão dizer o q queré. Nefte fenhorio os mais fam Chriftãos, porq tãbé algús fam mouros & gétios, poré eftes fam tributários ao prefte: os chrif¬ tãos té em fuas igrejas conegos & clérigos, & fam muytas & de groffas rédas, & por iffo fe lhe não paga dizimo: & afti té muytos mosteiros de frades & de freyras, també muyto ricos, afti de rédas como de jurdições, & fam da ordé de fanto Antão, né ha outra ordem em toda a terra do prefte, eftão todos fituados em motes & em vales, em muytos deles nã comé carne todo ho ano, & pefcado poucas vezes por ho nã auer na terra: os frades & os clérigos trazê as cabeças rapadas & as barbas cÕ- pridas, os clérigos e conegos podé caiar, & fe lhe morre a primeyra molher não cafam outra vez, morão todos em hú circuito q tem derredor das igrejas, & as molheres morã fora & lâ vão eftar coelas: os filhos dos conegos de neceífidade hão de fer conegos, & os dos clérigos não, fe nã por fua võtade: as demandas das peífoas eccleíiafticas fe tratão pe- rãte a juftiça fecular. As igrejas fam funtuofas, & os feus adros fam cer¬ cados & fechãfe nelas, & nos mofteiros fe reza ho officio diuino cõ falmos & profas em lingoajé caldeu, todas té húa cortina polo meyo da vflia cõ campainhas, & defta pera détro não entrão fe não os facerdotes: outra té polo meyo do corpo da igreja, & dela pera détro não entrão fe não peflòas dordés, & por iffo muytos fidalgos & peífoas hÕrradas fe ordenão pera entraré détro. Ha neftas igrejas muytas imagés de noflo fenor & de noffa fenhora & dos apoftolos, & não té nenhú crucifixo, porq fe ha a géte por indigna de ho ver: não fe diz cada dia mais q húa miffa, & efta cõ diácono & fodiacono, as epiftolas & os auãgelhos fe dizem âs portas.
Livro III, Capitolo XCVII 235 Ho pão de q fe faz ho facraméto da euchariftia he hú bolo cozido em húa grãde fornalha com grande cirimonia, né ho coze fe nã hú facerdote, & o q diz a miffa nã moftra ho bolo ao pouo defpois de cofagrado como fe faz antre os latinos. Todos os q ouué miffa hão de comúgar ou a não hão douuir, & ho facerdote lhes vay dar a comunhão â porta da igreja, q he do mefmo bolo q cõfagrou: não tomão lauatorio, mas lauão a boca cõ agoa beta, nenhúa peffoa fe ha daffentar nas igrejas, & por ilfo eftão fépre âs portas muytos caiados de traueffa pera fe encoftaré, né pode ningué entrar calçado ne cofpir, ne falar. Aveftiméta com q fe diz miffa, he feyta como camifa, & a eftola furada polo meyo pera a meteré pola cabeça, não té manipulo, ne amito, ne cito: os frades dize a miffa cõ os capelos nas cabeças, & os clérigos as té difcubertas. Nhúa miffa fe diz por efmola né por defuntos, quãdo fe fina algúa peffoa vão os clérigos cõ cruz & agoa benta & encenfo, & defpois de rezaré certas orações a leuão a en¬ terrar muyto depreffa, & ao outro dia leuão as offertas. Os Chriftãos defta terra fe çonfeffam em pê & affi os abfolué: os frades, clérigos & fenores trazem nas mãos cruzes peqnas de pao, & a gente comú peque¬ ninas ao pefcoço. Trazem també os clérigos & frades hús cornichos de cobre cõ agoa béta q deitão aos hofpedes cõ que poufam, & no comer & no beber deitão tres gotas. Celebrã as feftas mouiueis no mefmo tépo que ãtre os latinos, as outras húas, & outras não: ho feu anno fe começa a vinte noue Dagofto, & he de doze mefes, & cada hú tem trinta dias, acabados os mefes fobejão cinco dias, & no anno bifexto feys, & chaman- lhe cõpriméto do ãno. Ho ieium da corefma fe goarda muy eftreytaméte, môrméte os clérigos & frades q não comé mais de tres vezes na fomana. .í. terça feyra, quinta & fabado: nefte tépo não bebé nhú vinho: a outra géte a ieiúa toda, né come ningué carne, nem ouos, né leyte pofto q efté pera morrer. Todos os leygos, affi grãdes como peqnos jeiuão as quartas feyras & feftas do anno, tirando do natal ate purificação, & da Pafcoa ate a Trldade: Todos andão na fomana fanta veftidos de preto ou azul, né falão hús cõ os outros por dó da paixão de noffo fenor, dizédo q Iudas por beiio de paz trahio a feu fenor. Té muytas cirimonias iudaicas no goardar dos fabados, & é outras. Qndo fe da iuraméto a algué, vaiffe aqle q ho ha de tomar â porta da igreia, & vão coele dous clérigos q té hi encéfo & bralas. E poédo o q ha de iurar ambas as mãos nas portas da igreia, lhe diz hú dos clérigos q diga a verdade, & fe iurar falfo, q affi como ho lião come a prefa no bofquo, affi coma ho diabo a fua alma, & lhe moa feus offos como he moido ho trigo ãtre as pedras, & fe differ verdade q a fua alma eftê cõ os bé auéturados, & a cada coufa diz Amé: e ifto acabado toma ho iuraméto. E cõ tudo a géte popular diz pouca
236 Hiftoria da índia verdade, alda q he cÕ iuraméto, faluo fe iurão pola cabeça del rey. Teme tanto efta gente a excomunhão, q por não cayre nela farão qualquer coufa ainda q feia é feu periuyzo. Ha no fenorio do prefte hum patriarcha q na fua llgoa fe chama Abima, q na noffa quer dizer padre. E eíle da ordés, porq não ha outro nenhú bifpo. E falecido eíle, mãda ho prefte pedir outro ao patriarcha Dalexãdria. Ho prefte nã te lugar determinado em q more, ãda fempre no cãpo cõ toda fua corte, & traz no feu arrayal ate feys mil tédas antre boas & mas: a fomenos gete de caualo he de mulas, & auera cotinuaméte cincoeta mil de mulas, os de caualos fam tambe muytos, & os de pê não té conto. Te fempre guerra com os mouros feus comarcãos q faz por feus capitães, & quãdo ha neceflidade vay ele e pef- foa. Ho prefte q naqle tempo reynaua fe chamaua Dauid de idade de õze annos, & a raynha fua mãy gouernaua feus fenorios por fer muyto pera iffo. E gouernãdo ela a terra, forão ter â fua corte Ioão gomez hojardo, & Ioão fãches, & Cide mafamede, de q diffe no liuro fegúdo, q leuauão cartas damizade del rey dõ Manuel pera ho prefte, q lhe derão nouas do q os noffos faziã na cõquifta da índia. E ouuido q erão Chriftãos que hião de muy lõge, defejou de faber a verdade pera tomar coeles amizade & liança, & fazer iuntamete coeles a guerra aos mouros. E mãdou a faber ifto a hú mercador chriftão natural do Cayro q tinha coela grãde credito chamado Mateus: & a eíle mãdou muyto fecretamete q foffe â Índia, & hi falaffe cÕ ho gouernador, & da hi a Portugal a ver aqle rey que man- daua cõquiftar a índia, pera qué lhe deu húa carta é nome do Prefte feu filho, & afli.hu pedaço do lenho da vera cruz feyta em húa cruz peqna. E pera ir mais encuberto quis q foffe fô, porq nã podia fayr da terra do prefte por nenhúa parte q não foffe de mouros, que fe entederão q era embaixador, & onde hia matarãno, porq receauão que ho poder dos noffos fe aiuntaffe cõ ho prefte & que çarraffem ho mar roxo. & por ifto que a raynha fabia, determinou de mandar eíle embaixador fecretamente: E ele fe partio pera a índia, õde foy ter a Dabul, & hi foy prefo polo tana- dar, por faber q hia ao gouernador cõ recado do prefte. E mãdandolho ho gouernador pedir por Lopo vaz de fã Payo, lho deu: o q labedo def- pois ho Hidalcão, cuio vaffalo era ho tanadar, efteue pera lhe cortar a cabeça.
Livro III, Capitolo XCVIII 237 CAPITOLO .XCVIII. Do que di\ia a carta q a mãy do prejle mandaua a el rey de Portugal, & do mais que paffou em Goa. Efabido pelo gouernador como ho embaixador vinha & trazia a cruz do lenho, fayo a recebela cÕ prociífão muy foléne, & ele & todos a adorarão e giolhos dando graças a noffo fenor q permitira tão grãde coufa, como era vir êbaixador dhú fenor tamanho como era ho prefte & Chriftão. E foy leuada a igreja, õde defpois foy polia em húa cuftodia douro que lhe ho gouernador mandou fazer, a quê defpois do embaixador contar a caufa porq vinha, & tudo o q atras diífe, lhe mof- trou a carta q trazia do prefte pera el rey de Portugal, q dizia. Em nome do padre, & do filho & do Spirito f<5ló, tres peffoas em hú fô deos. A faluação & graça de noffo fenor & redéptor Chrifto Iefu, filho de N. fenora Maria a virgé, ho qual foy parido na cafa de Belé: a graça & bênção feja fobre o amado hirmão, ho Chriftianiflimo rey Manuel, ca- ualeyro dos mares, fugigador & forçador dos infiéis & deferidos mouros, profpereuos ho fenhor Chrifto, & vos de vitoria fobre voffos Imigos, & alargue & efteda voffos reynos: pelos rogos & deuaçoes dos meffejeiros do redemptor Chrifto, os quatro euãgeliftas, Ioane, Lucas, Marcos & Ma¬ teus, fuas fétldades & orações vos goardé. Fazemos faber ao amado hir¬ mão q a nos chegarão da voffa grãde & alta cafa dous meffejeiros, hú fe chamaua Ioane, dizédo q era clérigo, & outro Ioão gomez, & diíferã. Queremos mãtimétos & gentes. E pera efto enuiamos a vos noffo em¬ baixador Mateus hirmão do meu feruiço, cÕ liceça do patriarcha Marcos q nos da a bênção, & mãda os clérigos a Ierufalé, padre noffo & de todo meu fenorio efteyo da fé de Chrifto & da fétã Trindade. E ele enuiou por noffo mandado a hú volfo porto da índia, dizendo que vos daríamos tãtos mantimetos como os montes: & adi vos daríamos gentes tantas como as areas do mar, & foy nos dito q ho fenor do Cayro fazia armada de nauios pera mãdar cotra voffas armadas, & nos vos daremos tãtas getes q efte no eftreyto de Meca .f. Beb, Almandeb, ou pera enuiardes a Iudâ ou ao Toro q façais defterrar eftes mouros de fobre a face da terra & nos por terra, & vos hirmão por mar, que nos fomos poderofos em a terra, pera q os offrecimetos & offertas que fe aprefentão ao fepulchro fótÕ, não as dê mais a comer aos cães. E efte he ho tépo achegado da promeffa q diffe Chrifto & fanéta Maria fua madre, que differão q no der¬ radeiro tepo fe aleuantaria ho rey da parte dos frãcos, & efte daria fl
238 Hijloria da índia aos mouros. E eílehe prometimeto q diífe Chriíto & fua madre & todo o q vos Mateus noffo embaixador difler recebey como nofla pefloa & o crede, porq ele he ho principal q temos, q fe outro teueramos q foubera ou entedera mais que ele, nos volo enuiaramos, & quiferamos enuiaruos nofla embaixada pelos voflòs q ca enuialtes, & tememos de vos não apre- fentare nofTas coufas como queremos. E coeíte cbaixador Mateus vos en- uiamos húa cruz do lenho em q foy crucificado noíTo fenhor Iefu Chriíto é Ierufalé, q me foy de là trazido, de q fiz duas cruzes, húa nos fica. & a outra vos enuiamos cõ nofla embaixada: & ho dito lenho he preto, & leua húa argola peqna de prata, & quiferamos enuiaruos muyto ouro, mas cõ medo dos mouros q ho tomafiem nos caminhos por Õde auia de paffar, ho deixamos de fazer. E fe vos ouuerdes por bé, do q nos teremos muyto cõtentaméto quererdes nos dar voflas filhas pera noífos filhos, ou tomardes noffos filhos pera voflas filhas q fera mais rezão, no mais fe não q a faluação & graça de noffo redeptor Chriíto Iefu, de nofla fenora f<5tã Maria virge fe eítéda fobre voffos eítados, & fobre voffos filhos & filhas, & fobre toda vofla cafa amé. Mais vos fazemos a faber q fe orde- naífemos noffas gentes q encheríamos a todo ho múdo, mas não temos nenhú poder no mar. Chriíto Iefu vos queira ajudar, q certo as coufas que tendes feyto na índia fam milagrofas. E fe quilerdes armar mil naos, nos as abaflaremos de mantimentos. Viíta polo gouernador eíta carta, e a menção q fazia dos noflos, q ele mefmo lançara é Felix andãdo no cabo de goardafú, como ja diffe, deu fe ao q lhe diffe Mateus q era embaixador do Prelte, & q queria ir a Por¬ tugal cõ aqla embaixada. E prometeolhe q naqlle ãno ho mãdaria 5 húa nao: & foy em húa em q auia dir Bernaldim freire por capitão, q auia de partir mais tarde q as outras & logo lhe ordenou nela feu gafalhado & lhe fez merce é nome del rey pera fe aperceber, & encomédouho a Bernaldí freire. E andando nilto veyo da terra firme Diogo fernãdes, ho adail, q fora cõ embaixada ao hidalcão, fobre q foltaffe a el rey as tana- darias da terra firme, em q fe não tomou nenhúa cÕcrufam: aíll polo hi- dalcã não querer, como por auer defcõcerto antre Diogo fernãdez & Ioã nauarro q hia por fua llgoa, por mil defmãchos q la fez, ate dizer q era neto do turco, & q fabia fundir artelharia, & q não era chriltão fe não turco, & queria ficar cõ ho hidalcão. E coilto fugio pola terra firme dé- tro, & tornou fe mouro. E ho Hidalcão refpõdeo ao gouernador q ele alargaua de todo as ilhas de Goa, poíto q erão cafa de feu pay & cabeça principal de feu reyno: & as terras ele as não daua então, porque auia vergonha dos outros fenores do reyno de Daque, que lhe lançauão cada dia é roíto q os noffos lhe tomarão Goa, & que lha não poderá defender.
Livro III, Capitolo XCIX 23g E cõ tudo q vedo ele a amizade do gouernador aíTentada por algús dias, que não pareceffe q lhe daua as terras com medo & por força, q então faria o que ho gouernador pedia, que deixaífe afll eítar tudo ate que tor- naífe do mar roxo, & que os dereytos q as mercadorias pagalTem em Goa, faindo por fuas terras que não pagarião outro dereyto nenhú, né menos as q foffé de fua terra, ou doutras partes & paífaífem por ela pera Goa,' não pagarião mais dereytos que os q era coftume q pagaííem, & q não tolheria a feruétia de Goa pera a terra firme, né que lhe leuaflem muyta forna de mantimétos. E poré ho alargar das ilhas de Goa foy fazer de neceffidade virtude, porq bé fabia ele q a fora a fortaleza do paffo de BenaftarI, fazia ho gouernador húa torre em Pangim, & outra na ilha de Diuari, Õde fe agora chama ho paffo de Noroâ, & outra no paffo feco. E a pos a tornada de Diogo fernãdez, fe vio ho gouernador cõ Rocalcão no paffo de Benaítarim, por lhe ele mãdar muitas vezes requerer que fe vif- fem ali: & a concrufam deita viíta foy pedirlhe Roçalcão perdão de lhe não agardecer ho offrecimento q lhe mandara fazer por Baítião rodriguez quãdo fe fora de Benaítarim, & fazendo muyto grandes offrecimétos de feruidor del rey de Portugal, a q ho gouernador refpõdeo defapegada- mete q né os aceitaua né engeitaua. E defpois difto forão algús dos noffos ao feu arrayal, & alfi vinhão de lâ cada dia a Goa, & os moradores da ilha que fugirão pera a terra firme por amor da guerra acabarão de fe tornar, os gentios fomente, & tornarão a laurar & a proueitar a terra, & antreítes tornarão muytos ofíiciaes q fazião bombardas & efpingar- das, q també fugirão da cidade cõ medo que a tomaffem os mouros, & dali por diante fe fazião muytas bombardas de ferro, & tão boas efpin- gardas como em Bohemia. CAPITOLO .XCIX. De como dõ Garcia foy a Cocht fa\er a carrega pera ho reyno, & como Nãbeadari affentou coele pa\ antre o gouernador & el rey de Calicut, & com que cõdições. DOm Garcia que hia pera Cochim, afíi a fazer a carrega das naos do reyno como pera mandar correger os nauios que ficarão efpe- daçados do combate de Benaítarim, em paífando por Calicut dei¬ xou hi algús nauios darmada pera goardaré ho porto que não faiífem naos pera ho mar roxo, & daqui fe foy a Cochim, onde os nauios forão corregidos, & as naos carregadas com muyta diligécia. E neítas efcreueo ho gouernador a el rey feu fenor a vitoria de Malaca & ho feyto de Be-
240 Hijloria da índia naftarim cõ todo ho mais q fe paffara na índia, & aííi lhe mandou hu robi grade, de muyto preço q lhe mandara el rey de Pegú, & á raynha outro cõ as tres bucetas douro & manilhas de pedraria que lhe mandou a may del rey de Sião, & hús chagueres de coyro pera esfriar agoa, & fam de muyta eftima, porq as peles fam cortidas cõ húa cõpoftura q vai muyto, & ficão cõ hu cheiro muy fuaue, & mais húas peças de pano dal- godão branco finifiimo do reyno de Deli. E ao prlcipe mandou ho catele de pedraria q lhe mandara el rey de Cambaya, & hú punhal douro & pedraria, & dous moços Iaos peqnos, & afli outras peças ricas pera a infante dona Ifabel, q defpois foy emperatriz, & pera a duquefa de Bra- gãça hirmaã del rey. E andando dõ Garcia nefta ocupação, lhe foy dada húa carta de NambeadarI príncipe de Calicut, em q lhefcreuia q fe ho gouernador quifefle fazer paz cõ el rey de Calicut, que ele faria coele q a fizefTe. Ao q dõ Garcia refpõdeo que ele ho não fabia, porq el rey de Portugal mandaua ao gouernador q a não aceitaffe polas muitas vezes q el rey de Calicut a tinha quebrada: pore que cõ tal condição a poderia ele fazer, & tal fegurãça poderia dar q ho gouernador quebraria ho regi- meto del rey. E defpois de auer antreles algús recados fobrefte concerto, offreceofe ho príncipe de fazer com el rey q deffe fortaleza é Calicut no lugar q ho gouernador quifefle, & que lhe daria ametade dos dereytos que tinha dos feguros das naos q hião a feu porto. O que dõ Garcia efcreueo logo ao gouernador, do q ele foy muyto contente, & aflentou em ho fazer poíto q tinha recado del rey feu feííor pera deftruir Calicut: & ifto lhefcreuia el rey por induzimento del rey de Cochim & del rey de Cananor, a qué pefaua mortalmente de Calicut eftar em paz, porq eftando de guerra tinhão feus portos pouoados de muytos mercadores q trazião muytas mercadorias, & pagauão muyto grãdes dereytos, & por efta caufa ho nã querião eles deltruir, ainda q ho podião fazer ajútandofe ambos de dous, & diflimulauão fazédo q não podião, & eles mefmos ho foílinhão, mandãdolhe mantimétos nas fuas naos & armandolhe paraos, & etão efcreuião a elrey de Portugal q el rey de Calicut era ho mais mao homé que podia auer no mundo. E ho mefmo fazião efcreuer aos feytores das fortalezas de CochI & de Cananor & a feus efcriuães, & ao fecretario, & eles ho fazião porq os reys efcreuefle bem deles. E vedo ho gouernador quãto mais proueitofa era efta paz que a deftruyção de Calicut, determi¬ nou de a aceitar, & porq eftaua pera ir ao mar roxo, onde tinha necefli- dade de leuar grande armada, & deixando algúa fobre Calicut, nem dei- xaua coufa q lhe fizefle dãno, nem leuaua de que fe podefíe aproueitar no eftreito, & por iflo efcreueo a dõ Garcia q aceitaffe a paz, & 1'e fofle logo a Goa, porque auia dir ao mar roxo, & que fe chegaua a moução, &
Livro III, Capitolo XCIX 241 quando foíTe leuafle configo a Pero mazcarenhas, que auia de deixar por capitão de Goa cõ feu confentiméto, & auia de leuar configo Manuel de lacerda, polo auer affi por feruiço del rey feu fenor, & que ficaífe a capi¬ tania de Cochim a Iorge dalbuquerq. E do Garcia fe vio cõ Nambeada- rim é Cragalor, & aífentarão ambos q mandafle ho gouernador dous ho- més dautoridade pera acabarc daffentar cõ el rey de Calicut onde auia de fer a fortaleza. E concertado ifto, partiofe dõ Garcia pera Cananor, onde achou Bernaldim freyre & Francifco pereyra peftana que forão ali abarrotar. E defpois de partido dõ Garcia querédo hú dia ho embaixa¬ dor do prefte caftigar húa fua efcraua por algúa coufa que lhe fizera, bradou ela & gritou de maneyra que acodio ho capitão da fortaleza cõ muyta géte, & achando as portas fechadas as mãdou qbrar & étrou détro cÕ grãde onião, & a efcraua do embaixador como ho vio, lhe diffe q era molher do ébaixador, & que ele a queria matar & lhe daua vida que a não podia fofrer, nã por outra coufa, fe não porque ho reprédia de pec- car cõ hú feu moço no vicio cõtra natura, q lhe requeria da parte de Deos & del rey de Portugal q a tiraffe de feu poder. E deu por teftemu- nhas outras efcrauas q ho ébaixador tinha. O que ho embaixador con- tradiffe em tudo, affirmandoho cõ juramento, & q aquela não era fua molher, fe não efcraua: & fegundo fe defpois dilfe aífi era, porem ao embaixador não lhe valeo. E ho capitão lhe tirou a efcraua de cafa, & tambe as outras & entregouas a Bernaldim freyre, & ele & ho fecreta- rio q lhe aquilo fez fazer, diíferão logo que Mateus não era ébaixador do prefte fe não truão, mouro & efpia dos rumes & do Soldão, q o mã- dauão â índia a faber o q elrey determinaua de fazer, Não lhe lébrando q de Venezianos q andauão em Portugal, ou podião lâ ir, ho podia ho foldão laber mais diflimuladaméte ou por mouros mercadores q hião â índia, & dizião mais q fabédo ho gouernador ifto mãdaua Mateus a por- tugal como verdadeiro ébaixador, & q fe ele fora amigo do feruiço del rey q ho não ouuera de mãdar, fe nã queymalo, & por ifto não fez Ber- nald! freyre nhúa hõrra né gafalhado a Mateus antes toda a defonrra & vitupério, afii na viajé como em Moçãbiq, onde inuernarão: & é Por¬ tugal, ele & cartas q leuaua do fecretario pera el rey, quafi q lhe fizerão crer q Mateus era truão enganador, & por efta caufa. E efcreueo defpois el rey ao gouernador, dandolhe achaqs fobre lhe mãdar Mateus por ébai¬ xador, em tãto q foy necefiario ao gouernador efcreuerlhe muytas rezões por õde era verdadeyro ébaixador, principalméte defpois que deu é Adé, dõde fe lançarão na noffa frota certos Abexís catiuos do feytor q ho Sol¬ dão tinha em ajuda, que diíferão que conhecião Mateus, & que fabião certo que a mãy do prefte tinha nele muyta confiança, & ho mãdaua a Tono II 3i
242 Hijloria da índia muytas partes cÕ recados dimportãcia. E coifto perdeo el rey de Portu¬ gal a fofpeyta que tinha, & ho defpachou & mandou com Lopo foarez, como direy a diante. CAPITOLO .C. De como Pateonu\ foy fobre Malaca com hãa grojjijfima armada, & do que os nojfos ji\erão. PAssando affi eftas coufas na índia, Fernão perez capitão mór do mar de Malaca vedo q ela eftaua fegura de guerra, determinou de fe tornar pera a índia, & porq tinha recado do gouernador q fe foííe na moução de Ianeiro fe quiíeffe, & q leuaífe configo as naos de carga que leuara Diogo mendez. E eftãdofe apercebédo pera fua partida, veo noua â fortaleza que Pateonuz fenhor de Iapora na ilha da Iaoa paf- fara polo eftreyto de Sabão cõ húa grande armada, & affi era. E efte Pateonuz era mouro, & muy esforçado caualeiro & fora valfalo do rey gentio da Iaoa, cõtra quem fe reuelou como outros fenhores mouros que fe chamauão reys, & ãtes q o gouernador foífe a Malaca auia anos que fazia húa groffiffima armada, affi com feu cabedal como com ajuda dou¬ tros feííores feus parentes & amigos, & ifto cõ teção de ir fobre Malaca, & tomala ao rey q então reynaua & fazerfe rey dela: & coefta determi¬ nação mandaua ele muytos Iaos morar a Malaca pera os ter de fua mão quando foífe, & eftaua confederado cõ Mutaraja, aqle que ho gouernador mandou degolar, q lhe tinha prometida toda fua ajuda. E acabada a ar¬ mada não dififtio de fua determinação, pofto q foubeífe q Malaca eftaua em poder dos noífos, porque lhe differão q erão muyto poucos & que facilmente os poderia tomar, por amor da fua armada que era muy po- derofa, q feria bé de trezentas velas antre jungos, lancharas & calaluzes,* & chea de géte q era efpanto. E Pateonuz leuaua por fota capitão hú grã fenor feu paréte, em q tãbé auia muyto esforço, & ho jugo de Pateonuz era ho mavor q-fe núca vira naqlas partes, & ho fota capitão apos ele. E fornecida efta armada como digo, partiofe pera Malaca, & paliando ho eftreyto de Sabão foy vifto dalgús de Malaca, q ho forão logo dizer a Ruy de brito, q ho difle a Fernão perez, pera q foífe faber q armada era aquela, & fe era tamanha como dizião: & Fernão perez fe partio logo a ver fe via os Imigos, & forão coele Ioanes impolim em fanóto Antonio, & Lopo dazeuedo, Iorge botelho, Iorge de brito, Marti guedez, & Pero de faria nos feus nauios, & forão todos ate Sábão & não virão nenhúa coufa daqla armada, porq como fayo do eftreyto de Sâbão fe meteo logo por outro eftreyto que chamão dos Saués, & foy por ele ate fe poer de-
Livro III, Capitolo C 243 fronte de Malaca pera tomar ali lingoa & faber o q fazião os noífos, & por iflò não pode Fernão perez auer vifta dela. E crendo que era men¬ tira a noua de fua vinda, tornoufe a Malaca: & fazendofe preftes pera a viajem da índia, & eftando perto fua partida, pareceo ao mar hum dia aa tarde a armada, que era tamanha como diife, & como vinha efpalhada, quafi que cobria quãto os noífos alcançauão cõ a vifta: do q eles ficarão efpãtados, q não crião q fe podelfe ajuntar tamanha armada, & logo Fer¬ não perez fe foy a terra pera mandar embarcar a artelharia das naos de fua cõferua que ja tinha defcarregada pera fe melhor carregarê de mer¬ cadoria. E andando nifto, falãdo ele cõ Ruy de brito fobre fe pelejarião cÕ os Imigos, fe leuantarão de palaura 5 palaura, que Ruy de brito como fuperior de Fernão perez ho mãdou preder por lhe não querer obedecer como ho gouernador mandaua e feu regimeto. E prefo Fernão perez, de¬ terminou Ruy de brito de peleiar ao outro dia com a armada dos Imigos, & hila bufcar õde eftaua, porq lhes pareceffe que a não tinhg é cota, & por iífo fembarcou aqla noyte na galé de Pero de faria: & como lhe pa- receffe que tinha muyta neceffidade da aiuda de Fernã perez, mãdou ho foltar, mãdãdolhe dizer que fe foffe pera a fua nao: o que Fernão perez fez (pofto q eftaua muyto agrauado) porque vio que em tal tépo como aquele, & em que ho feruiço del rey eftaua em tamanho perigo, que os homés da fua qualidade por lhe acodir não fe auião de lembrar dagrauos del rey quãto mais de feus capitães, & por iffo fe recolheo logo â nao. E é amanhecedo a noffa armada fe fez aa vela pera ir bufcar a armada dos Imigos, q no dia paliado não pode aferrar porto, & cayo abaixo da fortaleza obra de tres legoas, & furgio ao longo de terra. E erão os nof¬ fos eftes capitães, Pero de faria, cõ quê hia Ruy de Brito, & Ayres pe- reyra de berredo, que era alcayde môr da fortaleza & ficaua nela por capitão: Fernão perez, Iorge de brito, Frãcifco de melo, Marti guedez, Ioão lopez daluim, Iorge botelho, Lopo dazeuedo, Antonio dabreu, Vafco fernandez coutinho, Chriftouão mazcarenhas, Chriftouã garces, Afonfo peífoa, & Simão afõfo bifigudo hia cõ Fernão perez, por fer ho feu nauio podre & não aproueitar de todo pera nada. E todas as nolfas velas hião embandeiradas & de fefta cõ trõbetas & atabales, fazedo grãdes alegrias por qbraré ho coração aos imigos, & ao longo da terra hia Ninachatu & Tuão mafamede cõ a gente dela pera ajudaré de terra fe podeífem, & quãdo não, pera q foubeífem os Imigos que tinhão os da terra contra fi, & que ajudauão os noífos.
Hi/loria da índia 244 GAPITOLO .Cl. De como os nojffbs começarão de pelejar com os imigos, & da caufa porque não acabarão. INdo os noflos cÕ efta orde forão ter cõ os Imigos vetado a viração cõ que fe eles começarão de fazer â vela, & eftauão todos embadeira- dos & cõ grãde alegria de gritas & fêftas & grãde eftrondo de feus finos & doutros inftormetos que coftumão na guerra, & era ho arroido tamanho q parecia deílruirle ho mudo, & fô ele abaftaua pera os noflos fedo tão poucos aueré medo, quãto mais tanta gete & tão be armada & atabiada doutros muytos & muy ricos atabios, q era fermofa coufa & efpantofa de ver. E ho mefmo efpãto punha ver a pouquidade dos noflos cometer tamanho numero de gente & tão fe medo, q parecia q os não tinhão em conta: em tanto que Iorge botelho que leuaua ho nauio mais ligeiro que os outros, fe adiantou & fô chegou primeyro aos Imigos, de que fe logo apartarão ate quinze calaluzes, & a remo endereytarão pa- rele dando grande grita como que ho tinhão nas vnhas, o q ele nã credo pos a proa neles & pafloulhes polo meyo fem lhe tirar ne fazer nenhfla moftra de peleja: & como hia á vela, & eles a remo nã lhe poderã che¬ gar. E paliando ele por eles, não parou ate ho jugo de Pateonuz, q co- nheceo fer a capitayna, adi por trazer bandeira na gauea, como por fer ho mayor de toda a frota: de maneyra que indo Iorge botelho pera abalr- roar coele, vio que a gauea do feu nauio não chegaua ao chapiteo da popa do jugo, & por ifiò deixou de ho aferrar, & começou de lhe tirar âs bobardadas q lhe ficauão ao lume dagoa, poré ho iungo era tão forte q os pelouros tornauão pera fora, & o mefmo fez aos da galé de Pero de faria q vinha a pos Iorge botelho, & tãbé fe pos às bobardadas ao iúgo. E nifto chegou ho refto da nofla frota, & a dos Imigos nefte tépo fe acabou de fazer aa vela, & fe çarrou toda como húa efpefa mata: o q vendo Iorge botelho & Pero de faria fe tirarão a fora porque os não co- lhefle no meyo, q os matarão todos ás frechadas & lãçadas pola grãde altura dos iungos, & por efta rezão nenhú dos noflos oufou daferrar com os Imigos, que cõ fuas gritas & eftrõdo q digo afli çarrados tirarão ca¬ minho do porto de Malaca, indo os noflos de pos eles âs bobardadas cõ que lhe fizerão afiaz de dãno ate ho foi pofto que furgirão os noflos pega¬ dos cõ terra, fe não Iorge botelho, que por fer ho feu nauio muyto ve- leyro & ligeiro ficou antre os Imigos esbõbardeãdo os & afli os outros ate noyte. E defpois danoytecer, aiutaranfe todos os noflos capitães & outras
Livro III, Capitolo Cl 24S peíToas principais da armada na galé de Pero de faria, & Ruy de brito lhes diffe q bé viã quã poderofa a frota dos ímigos vinha, & a géte mais esforçada q auia naqlas partes, & eles quão poucos erão, & metidos é nauios muyto peqnos a refpeito dos q trazia os ímigos: & q fe foífem desbaratados q fe perderia aqla fortaleza, & q tãbé pola multidão dos ímigos, q auia medo que fe repartiffem, & q em quanto hús pelejaífé no mar cõ a frota, pelejarião outros em terra cõ a fortaleza, em que não auia quê a defendeíTe por quã poucos lá ficauão, & eftes doétes & fracos, que fobrifto lhe deffem feus pareceres. E defpois q fobriílo ouue muytos & muy diuerfos, diffe Fernão perez que por fe efcufar ho perigo da for¬ taleza, Ruy de brito fe deuia logo de recolher a ela, & defendela cõ eífa gete que teueífe, aíli noífa como da terra, & q ele ficaria cõ a que eftaua na frota, cõ que pelejaria cõ a dos ímigos, q efperaua em noífo fenor de desbaratar, porq ainda q foíTem muytos & os feus jugos tão altos q fe não podião aferrar, ele os queymaria com panelas de poluora & meteria no fundo cõ artelharia, & que nifto nã tinha duuida porq os ímigos a não trazião: & q quando lhe acõteceífe algu defaílre, q a géte que eftaua na fortaleza abaftaria pera a defender ate q mandaífé pedir focorro á índia, o que feria em breue por fer a moução pera ir lâ & tornar da hi a fete mefes. E parecédo ifto bé a todos* & feyto diífo auto, & aííinado por todos, foy Ruy de brito leuado â fortaleza na galé em q eftaua, & defpois que foy lâ mudoufe do que deixaua aífentado cõ Fernão perez & cõ os outros capitães. E fazendo nouo cõfelho cõ os q eftauão na forta¬ leza, acordou coeles que a noífa armada não era poderofa pera refiftir ao pefo de tãtos como trazia Pateonuz, e por iífo os nolfos q eftauão no mar fe deuiã recolher â fortaleza, & q a galé & nauios peqnos fe géte do mar q abaftaffe pera os marear foífem pera a índia a dizer ao gouer- nador ho perigo em que ficaua a fortaleza pera lhe mandar focorro. E efte acordo aííinado por todos, foy leuado a Fernão perez & aos outros capitães cõ reqrimento q fe foífem pera a fortaleza. O q vifto por Fer¬ não perez, refpondeo cõ confelho dos outros capitães, q pois Ruy de brito dera a menajê ao gouernador por aqla fortaleza que a defédeife cõ a gente que tinha, & q ele cõ aqles fidalgos & caualeyros q ali tinha, & a armada q lhe ho gouernador étregara, efperaua é noífo fenor de desbara¬ tar os ímigos, & q afli ho verião como amanheceffe: & coifto fe tornou o que leuou ho requeriméto de Ruy de brito, & ele indo diffe Fernão pe¬ rez aos q ficauão coele. Não tenha fenores tãto poder a defcõfiança q té os da fortaleza q nos mude do propofito em que eltauamos de a manhaã cõ ajuda de N. fenor pelejarmos cõ os ímigos & desbaratarmolos cõ a ajuda, q eípero é fua mifericordia q nos dara pera iífo, do q oje vi gran-
Hijloria da índia 246 des finais & muy verdadeiros, q bé viftes quão pouco perfiarão é nos co¬ meter, fendo eles tatos & nos tão poucos, & vindo cÕ determinação de nos deftruir por faberé certo quão poucos éramos, pois fe feu esforço & valetia fora tãto quãto promete ho numero deles, & juntamete a võtade q trazião pera nos fumir: naqle primeyro impeto de fua chegada ho ou- uerão de executar cõ nos aferrar logo, porq fegúdo a opinião cÕ que par¬ tirão de fua terra, q os muytos vecé os poucos, auião de dar a vitoria por muy certa da fua parte, & pera ficare coela nos auião logo daferrar, & mais tedo muyta confiança de fi & nenhúa de nos. E pois ho nã fize- rão quando não fabião como noa defendemos, não ho farão fabédo como offendemos, antes nos hão de ter medo, porq muyto mayor ho hão dauer agora cuydando nas muytas bõbardadas, & efpingardadas de q efcapa- rão, do que ho terião quando andaífem em voltas na peleja: & ifto eftâ clara, porq ningue não ha medo ao perigo fe não quem fe vio nele. E eu tenho peraml q ho começo da noffa peleja doje foy obra de noffo fenor q quer q a Chriftindade permaneça neftas partes, & a manhaã ho aueis de ver craramete na vitoria q nos ha de dar cõtra eftes cães, q porq fam do diabo, teue ho mefmo diabo poder pera meter em cabeça a Ruy de brito & aos do feu confelho q era impoíliuel refiftirmos a tãtos Imigos, não atétãdo quão fracamete fe ouuerão oje no primeyro cometiméto. Por tanto fenores vos peço q ifto vos lebre cõ ho mais q vos tenho dito, & q não vos efqueça, q pois pelejamos por feruir a deos & a el rey, q noffo fenor he feruido de foftermos efta fortaleza, como quis q Duarte pacheco de q ja ouuirieis dizer fofteueffe a de Cochim cõ menos gente do q nos fomos cõtra ho poder del rey de Calicut q era tres vezes mais q ho de Pateonuz, & mais q ao primeyro jugo q lhe meterdes no fundo ha de fugir: & como fomos poucos, ho menos fúdamêto q aueis de fazer, ha de fer dabalrroar coele, fe não queymalos, & trabalhar polos meter no fundo. CAPITOLO .CII. De como Pateonu\ fem oufar de pelejar cõ Fernão pere\, lhe fugio com toda fua frota, & da grãde dejlruyção que os nojfos fi\erão nela. E acabadas coifto fuas rezões, cõ que todos ficarão perfuadidos pera a batalha. E affentado q deffe cõ aqla ordé, cada hú fe tornou a leu nauio, & fe aperceberão todos, afli das almas como dos cor¬ pos pera entrare naqla peleja, que certo era muy temerofa porq os noffos ao mais q podião fer, ferião trezentos homés, & os Imigos de vinte clco mil pera cima, & os mais esforçados & melhor armados, & mais deter-
Livro III, Capitolo CII 247 minados q auia do cabo de boa Efperãça pera dentro pera qualquer das quatro partes do mudo. E cõ quanto os noffos fabião ifto não os temião, antes a gête comQ parecêdolhe q os aífombraua, toda a noyte cantarão & foliarão, & dauão muytas gritas, & eles tambê lhe refpõdião cõ ou¬ tras, & cõ muyto tanger dos feus finos. E na cidade fe fazia o mefmo, em q auia grade duuida de poderê os nolfos efcapar daqle lãço: & aquela noyte todos efies Iaos principais da cidade, & tambê algús Malaios forão vifitar Pateonuz, q acharão em cõfelho cõ todos os feus capitães fobre o que farião contra os nolfos, porq receaua de pelejar coeles no mar pelo grãde dãno q recebera dos nolfos tiros, & parecialhe melhor defembar- car & cercar a fortaleza. E efies q digo q forão da cidade vifitalo, ouui- dos os pareceres de feu confelho, lhe cõfelharão q não pelejaífem cõ os nolfos no mar, porq tinhão muyta poluora & artelharia, & que os auião de meter no fundo: & tambê fe defembarcalfem ficando os nolfos no mar q lhe auião de queymar a fua frota & ficarião perdidos, porque tendo os nolfos ho mar, eles não podião fazer aa fortaleza nenhum nojo, antes ho receberião muy grande, porque os nolfos erão muyto esforçados, & fabião muytos ardis: & que o que deuia de fazer era meterfe no rio de Muar, & dali mandar recado a el rey de Bintão que lhe mandaífe fua armada que trazia artelharia, & ajuntada a fua coela desbaratarião a noffa, & defpoys tomarião a fortaleza. E parecendo ifto bÕ a Pateonuz, mandou q fe leualfe a fua frota toda ante manhaã. E aífi fe começou de fazer a voga furda, mas não foy tão calada q os nolfos ho não fintiífem: & fabe- doho Fernão perez, fe meteo logo no feu efquife, & correo os nolfos na- uios, dizêdo do mar aos capitães que delfem muytas graças a Deos, porq fem peleja lhe fugião os Imigos, q fe leuaífem porq fe lhe não folfé, & q lhes encomendaua muyto q trabalhalfem polos queymar & meter no fundo, & q nenhú deífe á vela ate lhe não ver desferir ho traqte: & alfi ho fizerão. E faido ho foi ambas as armadas tinhão as velas disfiridas cÕ ho terrenho q vétaua: & Pateonuz q vio a determinação dos nolfos, quiferaífe acolher, & começou de fugir cõ todos os feus, & os nolfos de- rão apos eles, & em os alcançãdo começão de lhe deitar panelas de pol¬ uora & outros artifícios de fogo com q os iungos começarão de arder. E como ifio foy tão de fupito & tãto cõtra a efperança q os Imigos trazião de fer a vitoria fua, por fere tãtos como erão, foy tamanho ho defmayo deites, em cuios iúgos fe ateaua ho fogo, q não teuerão acordo pera mais q pera fe deitarê ao mar, & recolherfe aos nauios de remo, & os outros tirauão muytas frechadas, porem não fazião mais que gaftalas deualde, & os nolfos empregauão bê feus tiros, que aífi como metião a hús nauios no fundo, alfi defaparelhauão outros & lhes ferião & matauão muyta
Hijloria da índia 248 gente. E vendo Fernão perez a coufa como hia, temendofe q falta de pol- uora lhe não fizeífe alcançar a merce q lhe nolfo fenor fazia, mãdoua bufcar â fortaleza & outras munições pera fauorecer mais fua vitoria, & mãdou chamar toda a gete da terra q foífe roubar ho defpojo que ficaífe dos Imigos, porq os noífos não auião de poder roubar tãto. E fabédo Ruy de brito a vitoria q os noffos hião alcançando, mãdou defparar a artelha- ria da fortaleza & fazer grandes alegrias. E fabendo a gente da terra a caufa%diffo, ficarão todos pafmados, porq por a grande valetia dos immi- gos, não fe lhe podia meter em cabeça que auião de fer vencidos, mas por mais valentes que erão de cada vez fe achauão peor & perdião mais gete. O q conhecédo Pateonuz, amarroufe cõ cinco jungos de feus pa¬ rentes porque neftes confiaua mais, & ho leu fota cap.itão fe amárrou cÕ outro iungo tédo q os noffos os aferrarião, & mandarão aa outra frota q ainda não era queymada, que os rodeaffe & lhes ficaífe como baftida: & ifto porque virão q não tinhão remedio pera fugir porq os noffos os alcã- çauão, & affi era q chegarão a eles antre as onze & as doze do dia. E parece q quis noffo fenor que fe aiuntaffem affi os Imigos, pera q os noffos fem andare a caça coeles fizeffem a efpantofa deftruyção q fizerão, & é chegando Marti guedez q foy ho primeyro os do feu nauio lhe deitarão panelas de poluora em húa pangueiaoa com q lhe fizerão faltar ao mar a gente q trazia, & apos iffo aferrarão cõ hú iungo & começarão de pe- leiar cõ os Imigos, peleiando muy esforçadaméte: & Ioão lopez daluim aferrou cõ outro q trazia obra de duzétos Iaos, & ele não trazia mais q trinta & dous homés. E cõ tudo abalrroou ho iungo por mais cõtrariado q foy dos q eftauão nele & entrou dentro, & dos outros capitães, hús aferrauão, outros queymauão, & não auia nenhú que não fizeífe brauezas núca cuydadas, & affi durou a coufa bé quatro horas ou clco, q de toda a frota dos Imigos não ficou mais por queymar q a capitayna, & fota capitayna cõ os iungos cõ que eftauão amarradas, q as outras affi velas de gauea, como de remo todas forão gaftadas do fogo, & morta muyta gente, & outra fe faluou nos iungos que digo. E por iffo & por eles fere alterofos e demafia, eftauão muy afoutos: 0 q conhecédo Fernão perez, mãdou paffar â fua nao os capitães de tres ou quatro nauios da. fua ar¬ mada, & coeles fua géte com determinação dabalrroar com Pateonuz, ou cõ ho feu fota capitão, porq pera quanta gente eles tinhão a q ele trazia era muy pouca, & ainda affi não era muyta. E ifto feyto feguio Pateonuz, que entre tanto que fe deteue nifto fe ia acolhendo, & os outros nauios hião apos ele: & como lhe o veto feruia a popa, alcançou a fota capi¬ tayna que hia mais trafeira, & determinando de a aferrar, mandou a * Frãcifco de melo capitão da nao fã Chriftouão q achou iunto configo q
Livro III, Capitolo CII 249 aferaffe pola proa, & ele aferraria por popa, & affi foy feyto, & cõ muyto grande perigo dos noffos, que como os Imigos foffem muytos & muy va¬ letes, peleiauã como homés q niífo tinhão fua faluação: & aíli ferirão muytos dos noffos & matarão algús, antre os quaes foy Simão afonfo be- figudo, & Fernão perez foy ferido tão mortalméte q cayo. E cõ tudo os noffos ho fazião tãbé que dauão que fazer aos immigos & tinhão muytos mortos. E eftando a coufa em pefo fem fe declarar a vitoria por nenhúa das partes, chegou Iorge botelho, & quando ouuio a reuolta que andaua no jugo, quifera abalrroar coele, mas não pode & por iffo aferrou com ho outro que andaua atraquado coele, & entra por ele com fua gente. Os Imigos q ho fintirão entrar, repartenfe logo é duas partes, & hús ficarão pelejando cõ os de Fernão perez, & outros acodirão de roldão a Iorge botelho, & como ele trazia poucos foy tamanho o pefo dos immigos que não ho podendo fofrer lhes foy forçado recolherle ao feu galeão, & os immigos forão de volta coele, & apertauãono rijo: mas niíto Fernão pe¬ rez que fe tornou aleuãtar, pelejou tão brauamente com ajuda dos feus q venceo os Imigos com que pelejaua: & ficando muytos mortos no jugo, fe lançarão outros ao mar, & eftes muyto feridos. E alfi como eftes forão desbaratados, acodio logo a Iorge botelho, & ambos de dous com fua gente tratarão os Imigos de maneyra que não efcaparão fe não algús muyto feridos q fe deitarão ao mar, que com feu fangue fe tornou logo vermelho: & affi como os dous jugos forão despejados, afli lhes foy pofto ho fogo: & ficãdo bem ateado, deu Fernão perez caça a Pateonuz que fe hia acolhendo com os cinco jungos, q lhe não ficauão mais de toda a ar¬ mada que leuara. E dandolhe os noffos caça, desfizeranlhe todos os altos âs bõbardadas: & indo Fernão perez pera ho abalrroar ja quafi noyte, deixaffe vir húa toruoada tão forte que os efpalhou a todos, & a noffa frota correo muyto rifco de fe perder, principalméte as naos grandes que era perto de terra, & furgirão em duas braças, & todas muyto efpalha- das & affi os outros nauios: & os jungos dos immigos também furgirão, & affi Iorge botelho que lhes hia mais perto que todos. E ao outro dia fe achou fô coeles, porque Fernão perez & os outros efgarrarão muyto, & como foy manhaã Iorge botelho fe pos a pelejar com os jugos que tinhão cercado ho de Pateonuz, & queymou os, & meteos no fúdo fem lhes valer frechadas fem conto que lhe tirarão, & quifera fazer outro tanto ao de Pateonuz, & nã pode por lhe falecer a poluora, do que ele tirou hú eftormento pelo efcriuão do galeão, pera que fe foubeffe que ho jungo não fe deixaua de queymar por fua culpa, & não aferrou coele por fer tão alto como diffe que era: & ainda q ho não fora, fora doudice afer¬ rar com vinte homés que ele teria ou pouco mais, com paffante de mil 3a Tomo II
Hijloria da índia 25 o homes que andarião no jungo. E feyta a diligencia q digo pera fua honrra, tornoufe a Malaca, onde Fernão perez chegara aquela manhaã cõ a frota, & ainda eftaua na ilha das naos, & dizendolhe Iorge botelho como dei- xaua ho iúgo de Pateonuz, & que hia por poluora pera ho acabar de queymar, mandoulha dar & logo fe Iorge botelho partio em bufca do iungo, que não achou, porque tanto que ele foy ido logo veyo gente da terra & tirouho á toa pera ho alto. E dali fe foy Pateonuz não leuando mais jugos que aquele de fefenta que leuara de fua terra, a fora os na- uios de remo, que tudo foy queimado & morta a mais de fua gente, que forão bem oyto mil homes, & ele foy ferido: & ainda aquele jungo hia tão arrombado de bombardadas que efcaífamente fe podia ter fobre a agoa, & leuaranno com grandiflimo trabalho a fua terra: & Pateonuz ho mãdou varar, & ho teue fempre bé goardado, & quãdo outros fenores ho vinhão ver & confolar de feu desbarato lhe dezia que elle eftaua con- folado, porq naquella viagé ganhara muyta honrra, pois pelejâra cõ a mais esforçada gente que auia no mundo, & que fe faluara naquele jugo, que ele teria fempre goardado pera teftemunho de fua honrra, que os Iaos ouuerão por tamanha q ainda agora falão nefte feyto, & por ele ho fizerão defpois rey de húa cidade chamada Adema. AÍIi que por fe Pa¬ teonuz, ir ho não achou Iorge botelho, & não ho achando fe tornou pera a ilha das naos, & fe foy dali cõ Fernão perez aa fortaleza, com os ou¬ tros capitães & gente que fora na peleja, de que forão mortos muy pou¬ cos. E chegados aa fortaleza, foy Fernão perez recebido, affi dos noffos como dos da terra, com tanta honrra & alegria que mais não podia fer, porq coefta vitoria ficarão todos liures de guerra & de fome, & com muyta abaftança. E porq a fortaleza ficaua fegura, & fe acabaua ho anno que Fernão perez prometera ao gouernador de ficar em Malaca, & por eftar defcõtente de Ruy de brito, partiofe pera a índia no mes de Ianeiro de mil & quinhentos & treze, & forão coele Lopo dazeuedo no feu navio & Antonio dabreu em fanto Antonio, & na fua nao foy coele Vaíco fer- nandez coutinho por fer desfeyto ho feu nauio, & a capitania môr do mar ficou a Ioão lopes daluim.
Livro III, Capitolo CIII 251 CAPITOLO .CIII. De como ho gouernador diffe a fens capitães que auia dir a Adê: & de como fe par tio. HO gouernador que eftaua em Goa fazedo a fortaleza no paflò de BenaftarI, lhe acabou a cerca em todo Ianeyro de mil & quinhen¬ tos & treze: & afli acabou húa torre de quatro fobrados toda de cataria com fuas goaritas em cada quadra, & outra torre pegada nefta, que ficaua daltura com ho ãdar do feu primeyro fobrado, & eftaua fobre ho rio, & era enmadeyrada fobre groííos piares, & cuberta a modo dei- rado que fazia rofto aa terra firme pera õde jugaua a artelharia groffa, & ao pê da torre grande eftaua hú poço dagoa. E afli mãdou edificar outra torre em Pangim, de q as paredes parecião fobre a terra, & outras no paffo de Noroâ & no paffo feco. E tédo ho gouernador ifto nefte poto, fabendo que vinha dõ Garcia, embarcoufe pera hirê ao mar roxo, & def- pois de ele vldo fez ainda detéça obra de cinco dias, em que defpachou a hú Francifco nogueyra, & a Gonçalo médez que fora feytor de Cana- nor pera q foífem ãbos de dous aífentar a paz cõ el rey de Calicut & lhes dar fortaleza como ho principe tinha dito a dom Garcia. E partidos eftes tendo ho gouernador juntos os feus capitães na fua nao, lhes diffe que as couías que ele tinha por regimento del rey, não as auia de poer em cõfelho fe as faria ou não, & por iffo lhes noteficaua que a determi¬ nação del rey feu fenhor era q foffe a Adem pera a tomar fe podeffe, & defpois entrar ho eftreyto de Meca. E cõ tudo fe ouueffe algús incõue- nietes pera aquela ida que lhos diffeffem: todos differão que não fentião nenhú, mas que era neceffario fazer aquela viajem que el rey mãdaua que fe fizeffe, & afli ho afíinarão em hú auto que fe diflò fez, & defpois fe tornarão os capitães aas naos & nauios da frota, q erão dezoyto com húa carauela. E os capitães a fora o gouernador, erão eftes dõ Garcia de noronha, Manuel de lacerda, Lopo vaz de fam Payo, dom Ioão de lima, dõ Ioão deça, Pero dafonfeca de crafto, Simão velho, Fernão gomez de lemos, Ayres da filua, Simão dandrade, Antonio rapofo, Duarte de melo, Ruy galuão, Iorge da filueira, Garcia de Soufa, Diogo fernandez de beja, & Ioão gomez cheira dinheiro. E hião nefta frota mil & lete cétos homes Portuguefes, & mil Canarins & Malabares: & deixaua ho gouernador quatro centos dos noffos é Goa a fora os da terra, & feys fuftas no mar, & por capitão môr delas Ioão machado, & na fortaleza de Benaftarim por alcayde môr Ruy pereyra, & afli ela como a de Goa muy bem bafti-
252 Hijloria da índia cidas dartelharia. E ao outro dia defpois defte confelho que digo, q era em Março de mil & quinhentos & treze, fe partio da barra de Goa leuado a rota do cabo de Goardafú, & por àchar bonanças no Golfam, fe deteue mais dias do que leuaua gizado, pelo q lhe faleceo a agoa, & por iffo a foy tomar a çacotorâ, dode algús mouros fartaquis que hi eftauão fugi¬ rão cõ medo da nofTa frota. E antes que ho gouernador furgiffe, mandou a Ioão gomez que foíTe efpiar a ponta de Calancea fe auia nela algú barco de Fartaque, pera. que ho tomaífe por não ir dar noua de fua ida ou algúa nao do eftreyto, q fizeffe hi agoada. E tornandofe Ioão gomez fe achar nada, topou húa nao de Chaul que hia pera ho eftreyto, q ho go¬ uernador reteue pera fe ajudar do feu piloto na carreyra Dadem porque ho não leuaua. E porque ele fabia camanha coufa era Adem, & quão preftes tinha ho focorro, quis ir dali determinado no modo que auia de ter no combate, porque pouco mais ou menos tinha enformação do fitio Dadé: & ajútando feus capitães, lhes dilfe. Todos fenores fabeis que em muyto mór medo põe ho perigo que fe não elpera, que aquele pera que homem vay apercebido. Ifto digo a propofito da cidade Dadem q himos cometer, do que feus moradores eftarão bem defcuydados, porque de lhes parecer que na índia teremos muyta ocupação, eftarão defcuydados da noffa ida: & quãto menos apercebidos efteuerera parela, tanto mayor efpanto terão de noffa chegada, q como louuado feja noffo fenor tem noua de quanto nos ajuda na índia, hão de crer que pois os himos bufcar, que auemos de fazer a eles o que fizemos a outros. E coefte credito muyto môr medo nos hão dauer fe os cometemos em chegãdo do que auerão fe ho dilatarmos, porque auédo dilação pode fer q entrarão em fi, & co¬ nhecerão q fam homés, & que té armas offenfiuas & defenfiuas, & que¬ rerão prouar dita, & mais tendo ho focorro tão perto que lhe não tardara nada. E por iffo não auendo algú impidimento que nolo impida, logo em chegando lhe ponhamos as mãos, ou polas portas com vay & ves fe as fecharem, ou polos muros a efcala vifta. E adernado ifto fe partio, & em faindo de çacotorâ, lhe deu hú temporal de veto fui & fuíuefte muy grande, em tãto q as noffas naos cõ a força dele perderão os catures que leuauão por popa, & forão afll ate aferrar a terra da cofta do cabo de Goardafum pera dentro. E cofteando dali foy a frota auer vifta Da¬ dem.
Livro III, Capitolo CIIII 253 CAPITOLO .CIIII. Do fitio da cidade Dade & de fua nobreza, & de que fenhorio lie. QUe he húa cidade porto de mar na coíta Darabia trinta legoas das portas do eítreyto de Meca, & eitá e doze graos da bãda do norte, a fua cerca era então mayor que a Deuora, & a pouoação de détro do tamanho de beja. Era muyto fermofa de cafas altas de fobra- dos & terradas por cima, de muytas genelas & chaminés a noífa ma- neyra, & tudo acafelado de geífo. E aífi os muros, torres, cobelos & ba¬ luartes, pelo q fe parece de longe. Eitâ quafi como em ilha íituada ao pé de húa ferra q vé do fertão acabar no mar, & he talhada a piq & nela çarrão os muros da cidade, & a ferra por fua fortaleza, efcufa ali tanto lanço de muro quanto ela ocupa, & por iífo ho não ha ali: & deita banda eítauão duas torres & hú baluarte bé artilhados. Eíta ferra que digo fe chama aizina & he toda de pedra fem nenhúa aruore né herua, ao pé dela fe faz ho porto da cidade, em que geralmente ancorão as naos eftrãjeiras & chamaffe focate. Té mais neíte porto ao pê da mefma ferra húa ilheta q fe chama Cira, & atraueífa dela hú molde ao porto q lho abriga dos leuantes, & no cabo deite molde té na terra firme hú ba¬ luarte muy forte: & eíta ilha não tem agoa. Tem eita cidade duas portas, húa da bãda do fertão outra da bãda do mar, tem outro porto q fe chama Hugufu detrás deita ferra da banda do leuante abrigado de todos os ven¬ tos & de boÕ fundo, mas não he de tanta feruentia como ho de focate: & deita banda fae do mar hú eiteyro cÕ que a cidade fica quafi em ilha, porq ho eiteyro não fe torna ao mar, mas fazfe em alagoas per hú campo, per que atraueífa húa grande eitrada a cidade, & ho eiteyro tem húa ponte grande & fermofa por onde fe ferue a cidade da terra firme, q fe chama Zebid, onde ho xeque Dadé eitâ ho mais do tépo. Deite porto de Hugufu a duas legoas defronte da ferra Dadé eitâ húa aldea chamada Rubaca, em que auera dezafeys poços dagoa, donde vay por canos cayr em hú grande tanque húa legoa da cidade, & não ha nela outra pera beber fe.não eita porque he a terra tão quéte & feca que logo fe faz dous tres ãnos que não choue, fe não fe ha algúa toruoada. Pela cumiada deita ferra daizina eitão muytos caítelinhos q parecem do mar, & fam tantos que parece que forão mais pera fermofura da cidade que pera fortaleza, & fazenfe neles fogos de noyte quãdo ha immigos, pera que focorrão da terra. E com quanto eita terra he feca, a cidade he muy abaítada de mantimentos ,f. carnes, trigo, fruytas como as noffas, arroz
254 Hijloria da índia que lhe vay da índia, & he ho feu porto de grade efcala, prlcipalmente defpois que os noffos ganharão a índia, porq as naos do eftreito de Meca cõ medo das noffas armadas não podião nauegar em feu tépo verdadeiro, & por fer tarde quãdo tornauão da índia não podião entrar ho eftreyto & ficauão em Adem, & por iíTo le forão hi morar muytos mercadores de Iuda, & coeftes & com os que dantes morauão fe fez de grande trato & ha fempre no feu porto muytas naos de Iudâ que lhe leuão cobre, azougue, vermelhão, coral, panos de feda & de laã, & aíli de Barbora & Zeyla com ouro & marfim, & do Malabar com efpeciaria & droga, de Cambaya cõ roupa dalgodão & muytas coufas ricas. He pouoada de mouros & dalgús judeus, fam todos brancos, affi homens como molheres, & comunmente bem defpoftos, falão lingoaje Arabica: he gête muyto viciofa & mimofa, & trataffe muyto bem no comer & no veftir, veftéfe de panos de algodão muyto finos, & de feda & de laã, não fam pera fazer guerra fora de luas cafas, mas fe os cometem defendéfe bem: os fidalgos andão a caualo, porque ha antreles muytos & muyto bõs, & affi camelos de q fe feruem nos feruiços de cafa. Tem fenhor fobre fi, que fe chama Xeq, grão fenhor de terras & de tefouros, eftaua fempre no fer- tão, como diffe em boas cidades. E em Adé tinha hú gouernador de na¬ ção Abexim chamado Mira mergena valente caualeyro com muyta gente de guerra. CAPITOLO .CV. De como lio gouernador furgio no porto Dadê, & fe apercebeo pera a combater. DEspois do gouernador auer vifta Dadem, que foy á quinta feyra da cea á noyte. Ao outro dia que foy fefta feyra dédoenças ao meyo dia, chegou ao porto, & com quanto hia determinado, que em chegãdo fe lhe delfe combate, não pode fer por vetar logo tanto leuante, & tão rijo que as noffas naos corrião rifco, & mais porque não poderão entrar no mais abrigado do porto, por amor das naos q ho tinhão ocu¬ pado, affi eftranjeiras como naturais, que ferião bé feffenta. E por iíTo aos noffos lhes conueo furgir quafi fora do porto, & com a tormenta que fazia fe deteuerão hú pedaço em fegurar a frota das amarras, que naos ouue hi que fe não fegurarão cõ menos de quatro ancoras. E efta tor¬ menta & detença, começou de fer caufa de fe não tomar a cidade, por¬ que fe a cometerão em chegãdo, eftauão os mouros tão medrofos da fupita vinda dos noffos que fe não ouuerão de defender, nem fômente tinhão portas à porta q eftaua da bãda do mar. E como Mira mergena
Livro III, Capitolo CIIII s55 vio q ho não cometião, mandou logo pedir focorro aa terra firme, & for- taleceofe ho melhor q pode. E pera antreter ho gouernador com enganos de paz, defpois dacalmar ho vento, mandoulhe preguntar per hú mouro de Cananor quem era, & que queria. E ho gouernador lhe refpondeo que era capitão geral, & gouernador da índia por el rey de Portugal, & q vinha ali pera poer aquela cidade a fua obediecia, & defpois ir bufcar os rumes a Iudá & a çuez pera pelejar coeles, porq lhe dizião os mou¬ ros da índia q fazia là ho Soldão húa armada pera a mãdar â índia cotra os Portuguefes. & por lhes efcufar trabalho & faberem quão pouco os temia os hia bufcar. E ho gouernador deu afii efta repofta, porque fabia que os mouros fam muyto reboloes, & hão grãde medo de feros. E Mira mergena algú tanto ouue medo deites, & mãdou hú prefente ao gouerna¬ dor de cameyros, galinhas & muytas fruytas, dizendo q a cidade era del rey de Portugal, & que fe auia de fazer nela tudo quãto ele quifeffe. Ho gouernador pera mais aflombrar os mouros, & os prouocar a fe lhe en¬ tregarem, fez que não queria tomar ho prefente, dizendo q os não auia de tomar ate não affentar amizade. E por ho meffejeiro de Mira mergena aprefiar que ho tomaffe, & que delfe a amizade por aífentada: o gouer¬ nador lhe diífe que oulhaffe bem o q dizia, porq cõ aquela cõdição tomaua ho prefente & q affi ho diífeífe a Mira mergena & que fe ele eítauá a obediécia del rey de Portugal que abriffe as portas da cidade, & rece- beífe fua bãdeira & géte, porque afii ho fazião os reys & fenhores da índia. E mandou dizer aos mercadores eítranjeiros & naturais, fenhores das naos que eltauão no porto que fe vieffem pera fuas naos, & que lhes daua feguro, & lhes faria tornar o que lhe os noffos tinhão ja tomado. E ifto lhes mandaua dizer pera os tirar fora da cidade & ficar menos gente a Mira mergena, porque vendofe com pouca fe êtregafle mais afinha. E poré como ele andaua com enganos, refpõdeo ao gouernador, q como ele eítaua naqla cidade por mão do Xeque, cujo gouernador era, não a podia entregar fem fazer coele algú comprimento, q ja lho tinha mãdado dizer, & que entre tãto lhe pedia q fe viffem ambos na ribeira da cidade cada hú com vinte homens. E os mercadores refpõderão que fe as fuas naos não forão ja entradas dos noífos que eles fe forão parelas, mas pois ho erão q melhor eftauão na cidade. E logo pareceo ao gouernador neftas reportas, que os recados paífados de Mira mergena erão diflimulações. E porque era tarde & não auia tempo pera nada, quis também diflimu- lar coele: & refpondelhe que era efcufado verenfe ambos, fe não dentro na cidade, & aos mercadores que lhes prometia de lhes mandar tornar tudo quanto diffeffem q lhes faltaua, por iflo que não deixaffem de ir pera fuas naos. E como Mira mergena vio que por aquele dia ho gouernador
256 Hijloria da índia não podia cometer a cidade, & que tinha tempo pera fe fortalecer, efcre- ueo logo húa carta pera ho defenganar, em q dizia que os mercadores naquela terra fazião o que ho fenhor dela ou feu gouernador lhes mã- daua, & por iflo a cada hú deles & não aos mercadores auia defcreuer, q eles lhe refponderião, & que mal poderá ele cuydar q indo os fran- gues pera tomar Adem, fe auião de contentar dhús poucos de paos. E entendendo ho gouernador por efta carta que auia de tomar a cidade por força, chamou a cõfelho os capitães da frota fométe, & diffelhes. Pois noífo fenhor por fua piedade nos quis fazer tamanha merce, q fofle- mos os primeyros Portuguefes que cometamos efta cidade, rezão he q confiados em fua mifericordia nos esforcemos, & façamos de maneyra que fe não poífa dizer por nos, que fe outros vierão ho fizerão melhor, & fe afti ho fizeremos vingaremos as brasfemias com q eftes perros offen- dem a mageftade diuina, & ganharemos fama, & aquiriremos proueito com tão boÕ feruiço, como fera ganhar húa cidade tão populofa, efcala de toda a nauegação dos mouros do mar roxo, & chaue de toda a forta¬ leza do eftreyto, que tomada tira toda a efperança ao Soldão de mandar armadas aa índia, & a nos de todos os fobre faltos em q nos põe cada dia a vinda dos rumes, & tirara a efperança dela aos mouros da índia, & acabarão de fe entregar por vaflalos del rey meu fenhor, no que rece¬ beremos grande defcanfo com ficar liures do trabalho da guerra: & pois acabada efta que temos antre as mãos fe acaba pera nos tanta fadiga, pofto que agora a leuemos cÕ pelejar não nos pareça fe não defcanfo pois coela ho alcançamos: & toda noffa vitoria confifte e pelejarmos tambe q ganhemos a porta da ferra, & fe a nã ganhamos não fazemos nada, por¬ que como fomos poucos, & ho focorro dos immigos efta certo fer muyto endemafia, tendo efta porta por fua tornarão a entrar facilmente, & por força nos hão de fazer recolher aas naos, & fe lhe tomamos efta porta por mais q venhão leuemente lhe defenderemos a entrada pola fortaleza do lugar por onde ha de fer. Por iflo fenhores vos peço .muyto que ifto leueis na memória, defpois de vos lembrar que pelejais por amor de noffo fenhor. Todos refponderão que afli ho farião, & que com fua ajuda efpe- rauão de poder acabar aquele feyto, & que do mais tinhão confiança em fua piedade que proueria tudo como era neceflario. E ali fe aflentou que a cidade fofle cometida pela banda do mar, que era hú lanço de muro tamanho como da porta doura de Lisboa ate a da ribeyra. & que os ca¬ pitães foliem repartidos em duas partes, & húa em que entrarião Manuel de lacerda, Ayres da filua, dom loão de lima, dom íoão deça, Garcia de foufa, Iorge da filueira, Duarte de melo, Antonio rapofo, loão gomez cheira dinheiro, & Iohão fidalgo capitão da ordenança, hirião com ho
Livro III, Capitolo CV 25j gouernador & efcalarião a cidade pela parte que digo. E os capitães que ficauão, que erão Simão dandrade, Diogo fernandez de beja, Lopo vaz de fam Payo, Ruy galuão, Pero dafoníeca de crafto, Simão velho & Fer- não gomez de lemos irião com dom Garcia, & em os que foffem com ho gouernador começando defcalar, cometerião a porta da cidade, que eftaua pera ho mar, nefte lanço por onde auia de fer ho combate, & alem delia porta efcalaria Ioão fidalgo com a fua gente da ordenança: & tanto que fobiífem ao muro, trabalhaífe logo por ganhar a ferra. E não pareceo bõ que a cidade fe efcalaífe por mais partes q por efta, porque os noífos erão poucos como diífe & tinhão poucas efcadas, & por muytas partes não poderião dhú golpe poer gente no muro que correífe por ele fem medo & deceffe â cidade, o que feria ao contrayro efcalando por aquela fô parte. E ifto alfentado, entéderão todos em fe confeífar: & nefta noyte ou na palfada fugio da cidade hú Abexim Chriftão, que fora catiuo dos mouros indo em romaria pera Ierufalé, & eftaua em Aden. E deite foube ho gouernador que Mateus ho embaixador do prefte que na índia dizião, que ho nã era, fe não efpia do Soldão, q era homé em que a mãy do prefte tinha muyta confiança, & q ho mãdaua cÕ recados a muytas par¬ tes. E afíi lhe deu muyta enformação do prefte & de feu fenhorio. E como eftaua catiuo nã lhe foube dizer nada do q os Imigos determinauão, fe não affirmarlhe que fe os noífos pelejalfem bé que a tomarião: & alli era, porq Mira mergena fe foube defpois que eftaua defcõfiado dos feus ho ajudarem, & toda fua confiança tinha nos eftranjeiros, & affi lho diífe, & os animou pera a peleja, lembrãdolhe quão pouco duraria fua ley na¬ quelas partes fe os noífos tomaífem a cidade, & que muy cedo tomarião a cafa de Meca & a deftruyrião, o que feria muy grande defonrra de fua ley. E aífentou coeles que toda fua força fizeífem em defender a ferra, onde fe recolherião íe os noífos entraífem a cidade, & que dali fe reftau- rarião com ho focorro que efperauão, & fizerão tranqueyras nas bocas das ruas q fayão pera a ferra, em que aflétarão artelharia, aíli taparão a porta do mar com lemes de naos, tamanha era a prelfa q não poderão com mais, & efperarão o que os noífos farião. Tomo II 33
258 Hijloria da índia CAPITOLO .CVI. De como a cidade Dadé foy efcalada pelos noffos, & do que llies aconteceo. AO outro dia ante manhaã, que foy vefpora de Pafcoa, fe ébarcou ho gouernador cõ todos os capitães & gete da frota, & em rom- pédo ho dia abalarão pera a cidade, & hú capelão do gouernador que hia coele no feu batel leuaua veftida húa fobrepeliz, & nas mãos ar- uorada húa cruz de prata com hú crucifixo, & dezia alto como aquela imagé que vião reprefentaua a de Deos verdadeyro crucificado por lhes dar a gloria do paraifo, por ilTo fe deuião desforçar pera exalçar fua fétã fe, & afli outras coufas cõ que mouia todos a deuação, & coifto chegarão a terra, em que poiarão fem nenhú trabalho, porque os immigos eftauão todos recolhidos na cidade, & algús aparecião fobre ho muro, mas tão poucos que não abaftauão pera refiftir aos noffos, que coifto receberão muyto grande danno, porque os capitães que hião ordenados pera efca- lar, ou por cobiça da gloria da primeyra entrada na cidade, ou por fe prezarem mais de bõs caualeyros que de bõs capitães quiferão fobir pri- meyro que a fua gente. E ho primeyro que pos a fua efcada no muro foy dom Ioão de lima, & logo fobio por ela com hú paje feu chamado Diogo eftaço natural Deuora que lhe leuaua ho feu guião, & hia diante dele. E vendo os mouros q eftauão fobre ho muro fobir eftes dous aco- dirão logo ali, & começarão de lhes tirar muytas frechadas, zagunchadas & pedradas: & de tudo ifto foy morto Diogo eftaço, & dom Ioão ferido de feys feridas & pifado de muytas pedradas, pelo q ningué quis fobir a pos ele. E vendo que ninguém fobia & que fó não podia refiflir aos que lhe cotrariauão tornoufe a decer, bradando fe auia algús caualeyros que quifeffem fobir por aquela efcada & pos fe ao pé dela. Acodio então dom Garcia de noronha & diffe que ele queria fobir: o que lhe dom Ioão eftoruou, dizendo que não era bem que fobiffe, porque acontecédolhe algú defaftre fe perderia muyto, & por iífo não lobio dom Garcia & fobirão outros. Nefte tempo tinha ja fobido ao muro Iorge da filueira, q foy ho fegundo que fobio a pos dom Ioão & hú criado feu coele, & fobio fé cõ- tradição por os mouros q eftauão fobre ho muro eftarem afaftados daquele lugar onde fobio, & logo aruorou feu guião, dizendo. Vitoria, vitoria. E os noffos que tinhão poftas as efcadas aluoraçaranfe tanto vendo ho fobre ho muro, que começarão muyto de preffa a fobir por elas, & fobio logo dõ Ioão deça, & coele Gafpar cão & hú Iorge dorta & outros ate oyto
Livro III, Capitolo CVI 25g homés: & ifto fem reíiftencia, por fer perto donde fobira Iorge da filueira. E com quanto os mouros que eftauão no muro erão poucos, não fugirão logo em vendo fobir os noffos, antes refiftião muy fortemcte, prícipalméte õde fobião Manuel de lacerda & Ioão gomcz cheira dinheiro & forão feridos algús dos noffos, antre os quais foy Antonio ferreyra fogaça, q foy derribado da efcada abaixo. E como os capitães erã os primeiros q fobiã & a fua géte ficaua fem quê os mandaffe, começa dauer tamanha defordé no fobir, & carregar tanta géte fobre as efcadas q começarão de quebrar, & a primeyra foy a de Garcia de foufa, Ido ele tão perto do muro que fentindo quebrar a efcada lançou as mãos a ele & ficou depé- durado. Ho gouernador eftaua ali muyto agaftado de ver a defordé dos capitães no fobir, & afli de fua géte, bradando a todos q fe não deforde- nalfem poré aproueitaua pouco, q ho aluoroço dos noffos era tamanho, & afli a defordé, que nem dauão polos brados do gouernador né polas pancadas q daua pera meter a gente em ordé. E védo ele quebrada a efcada de Garcia de foufa, mãdoulhe acodir cÕ outra por onde fe deceo: & Garcia de foufa não quis tornar a fobir ao muro por efcada & foyfe ao longo dele, & logo hi perto eftaua hú cobelo q tinha húa bobardeira rafteira cõ húa bõbarda q Garcia de foufa cÕ outros da fua nao afaftou & entrou por ali coeles, q ferião ate feieta homés, & apoffoufe do mefmo cobelo cõ determinação de fe fazer ali forte ate étrar mais géte, pera q feytos em corpo deceffé à cidade & pelejaffem com os mouros q pare¬ dão muytos & eftauão recolhidos pera a bãda da ferra íem oufaré ate então de reíiftir aos noffos, q como digo fe apreffauão muyto a fobir polas efcadas fem dar pelo q ho gouernador lhes dizia, q temédo o q foy man¬ dou aos alabardeiros da fua goarda q pofeffem as alabardas por forqui¬ lhas de baixo das efcadas pera as ajudaré a fofter q não québraffem, mas tudo ifto não aproueitou nada, & as efcadas qbrarão, & quebrarão as ala¬ bardas & os alabardeiros cayrão debaixo da géte, de que hús forão efca- laurados outros pifados, & cõ tudo aleuantaranfe logo. E nefte tépo que¬ brou també a efcada dos da ordenança, tendo ja fobido fobre ho muro Anrriq homé hú dos feus capitães cõ obra de cé homés, & Ioão fidalgo ho outro capitão eftaua ao pê do muro, a q ho gouernador logo mandou q foffe ao lõgo dele contra a ferra, & trabalhaffe por fobir a ela, & dali decer à cidade, Õde fe ajuntaria cõ Anrriq homé que també hia pera lâ. E mandandolhe ho gouernador ifto, tornou fobre os noffos onde quebra¬ rão as efcadas, & achou de poffe do cobelo a Garcia de foufa & cõ feu guião leuantado: & afli outros polo muro q eftauão encima qndo as efca¬ das qbrarão, q forão Vicéte dalbuquerq, Ruy palha de Sãtaré, Ioão gÕ- çaluez de caftelo branco, Manuel da cofta feytor das prefas, Ioão datayde,
2Ô0 Hijloria da índia & do Aluaro de crafto. E os noffos muyto aluoroçados q carregauão todos ao pé do cobelo pera entrar, & porq não cabião pola bõbardeira, mandou ho gouernador deftapar outra també rafteira q eftaua no muro apartada defta tãto efpaço quãto ocupaua a roda do cobelo: & por efta q ho gouernador mandou abrir aparecerão muytos mouros é hú terreyro q fe ali fazia, a q ho gouernador mãdou logo tirar pelos bêfteiros & efpl- gardeiros q os fizerão afaftar pera húa ilharga, & os noffos começarão detrar, & ho primeyro foy ho clérigo q leuaua a cruz, pedindo a todos por amor de noffo fenhor q entraffé, & logo entrarão, Ayres da lilua, Antonio rapofo, Duarte de melo com ate coréta homés. E nifto chegou ali do Garcia, q indo cometer a porta q lhe era encomédada q cometeffe, achou as portas muv bé fechadas q não erão fortes, & tinhão húas gretas porq fe via o q eftaua détro, q era pouca géte, né em duas torres q goar- dauão a porta dhúa banda & da outra. Bradarã então os capitães por hú vay & vé que do Garcia mandara leuar pera quebraré a porta, & os q ho leuauão poferão tão pouca diligécia q quãdo chegou tapauão de détro a porta de pedra & barro fem os noffos poderé eftoruar q a não tapaffé, & nas torres & fobre ho muro auia muytos mouros q derribauã de cima grãdes pedras, & cÕ húa derribarão a Simão dãdrade: & affi fe acabou a porta de tapar. O q védo dõ Garcia, & parecédolhe trabalho perdido eftar ali mais, por lhe nã mataré os noffos fe foy Õdeftaua ho gouernador, rogando aos capitães & â outra géte q eftaua hi toda júta q entraffé pola bõbardeira q mãdara abrir, & dõ Garcia també lho ajudou a rogar, mas nenhú dos capitães quis étrar. E a caufa diffo, foy porq dõ Garcia não entraua, q moftraua q era capitão môr & eles capitães pequenos, & ouuerão ifto por tamanha defonrra q não quiferão entrar, & fe dõ Garcia entrara, eles étrarão. E ho porq també deixarão détrar, foy com enueja de Garcia de foufa q entrou primeyro q todos, & fe fe tomara a cidade, ele ouuera de leuar toda a hõrra, & não querendo en¬ trar, não quis étrar a outra géte, q fe entrarão a cidade fora tomada, porq fegúdo parecia os mouros não oufauão de bolir configo. E bé fe vio, porq defpois dentraré Antonio rapofo, Ayres da íilua cõ outros que diffe alda q erão poucos, nã oufarão os mouros de os cometer. E efperando Ayres da filua q entraffe mais géte pera fe fazer em corpo & dar nos mouros q ali parecião polas bocas das ruas que erão muytos, poffe naqle terreyro q fe fazia diante do cobelo em q eftaua Garcia de foufa, & védo q tardaua a géte em entrar, requereo a Garcia de foufa que deceffe do cobelo & fe ajútaffé todos, & darião nos mouros. E ele lhe pedio q fobiffe & q fe farião fortes naqle cobelo ate entrar mais géte, porque affi ho fizera ho cõde de Monfanto na tomada Darzila, & q ifto feria melhor que
261 Livro III, Capitolo CVI iré cometer os mouros fendo tão poucos, pois dali a pouco os podião co¬ meter fendo muytos, & eftaua mais certo desbaratalos do q então eítaua. E Ayres da filua não quis, o q també foy caufa de fe a cidade nã tomar. E em quãto eftauão neftas praticas polos rogos q dõ Garcia fazia â géte q entraffe, pois os capitães não querião entrar. Hú homé que tinha ho guião de Manuel de lacerda (cujo nome não pude faber) fincou a lança na area, & arrãcãdo da efpada, & embraçãdo a adarga, diífe q lhe defle lugar q queria étrar, & entrou, & apos ele entrarão hú Ioão de meira & frey Chriftouão çarnache, caualeyro da ordé do fpirital de fam Ioão de Ierufalé, q agora he comédador de Poiares júto de Lamego, Baltefar mõ- teiro do porto, Anrriq figueyra filho dhú alcaide de Lisboa, & Ioão de caminha q agora he védor da ifante dona Ifabel: & eftes erão da capita¬ nia de Manuel de lacerda, q nã quis étrar coeles né entrou mais ningué. E cuydando eles que entraífem, pairarão auante, & forão dar Santiago nos mouros, affi Ayres da filua & os outros que eftauão coele, & então deixarão de tirar os noffos efplgardeiros & béfteiros porque os não ma- talfem. E cuydando os mouros que entraflc mais dos noffos, deixauãfe eftar com quanto erão muyto mais que eles, & defendianfe dali muy bem, & os noffos matarão algús deles, a fora muytos que os efpingar- deiros & béfteiros tinhão mortos pola bõbardeira. E eftãdo nifto, Anrri- que home que ficou no muro com os q difTe da ordenança foy correndo por ele ate chegar à ferra onde fobio pera decer â cidade, & os mouros que eftauão nela ho não deixarão, & refiftiranlhe tão fortemente cÕ fre¬ chadas, & galgas que deitauão pela ferra abaixo q ho fez fugir cÕ lhe matar algúa gente, & tão defmandada vinha que desbaratou a de Ioão fidalgo que queria fobir, & afli hús como os outros fe defordenarão de maneyra que alda que ho gouernador acodio pera os fazer tornar a fobir nunca pode. E entédédo Mira mergena ho desbarato dos da ordenãça que hião cometer a ferra, & que nem polo muro nem polas bombardei- ras não entrauão dos noífos mais que os que diífe, ouue os que eftauão détro por perdidos: & armado de húa laya de malha & de hú capacete encima de hú caualo, ajúta dos feus hú boõ golpe pera ir fobre os noífos. E paífando polo pé do muro onde eftaua Iorge da filueira, como ho muro da parte de dentro não era daltura dhú homem, lançou hú mouro mão da hafte do feu guião & leuouho: o que vedo Iorge da filueira como era caualeyro de muyto esforço, lançoufe logo do muro abaixo antre os Imi- gos pera cobrar o feu guião, & começou de ferir neles, em que fez muyto pouco danno porque acodio logo Mira mergena, & encontrouho cÕ ho caualo & derribouho, & ali foy morto: & també ho ouuera de fer dõ Ioão deça q eftaua abaixo do cobelo de Garcia de foufa, & laltou em baixo
26 2 Hijloria da índia pera lhe acodir, & quando ho vio matar retiroufe pera ho muro, donde lhe deu a mão hú bombardeiro chamado Gales, que ho ajudou a tornar a fobir, & dali fe defendeo com outros algús dos mouros que ali ficarão pelejando coeles. E Mira mergena paliou auante & deu em Ayres da íilua & nos outros nofibs que eftauão pelejando com os feus que cobrarão co¬ ração com a vinda de Miramergena, & derão tão rijo nos noffos que os fizerão retirar pera ho pê do cobelo onde eftaua Garcia de foufa, & nefte retirar forão muytos dos noffos feridos, principalmente Ayres da filua, que dizem que ficou quafi fem acordo & Ioão de meira, a quem quafi deceperão húa perna, & Ioão de caminha ouue húa frechada em hú dedo da mão dereyta de que defpois ficou aleijado, & ficarão tão mal tratados q fe os mouros apertarão coeles ouuerãnos de matar a todos, mas não oufauão de fe chegar muyto porq ficauão defcubertos da bombardeira por õde lhe os noffos efpingardeiros & béfteiros q eftauão de fora tirauão. E Garcia de foufa que eftaua no cobelo, ne os outros que eftauão fobre ho muro nã lhe podião acodir, porque tinhão be que fazer em fe defender dos mouros q nefte tempo os apertauão muyto cõ frechadas & pedradas, & eles lhe nã podião fazer nenfiQ nojo porq não tinhão lãças, q como auião defcalar não as leuauão, & també erão tantos, & ho cobelo tão pe- qno q fe nã podião reuoluer, & ne podião valerfe a fi né acodir aos q digo, q noffo íenor faluou milagrofaméte de nã fere todos mortos, porque eftãdo nefte cõflito, vendo os mouros que lhes não podião chegar cõ medo de fe defcobrir aos nolfos efpingardeiros, determinarão de os queymar, & foy com feixes de palha que algús poferão nas pontas das lanças pera lhe chegarem de longe & fe não defcobrirem. E efte ardil da palha in- uentarão por não tere nenhús arteficios de fogo, & ele foy o que fez fal- uar os noffos, porque pofto ho fogo na palha foy tão grande ho fumo que fe não vião hús aos outros. E vendo os nolfos como noffo fenhor os aju- daua, fayranfe com muyta prelfa, & os muyto feridos leuão os outros aas coftas & a rafto, & afli fe faluarão com fua ajuda, que ele parece que foy o que ordenou que os mouros os quifelfem queymar daquela ma- neyra, que doutra nenhú ouuera de ficar viuo.
Livro III, Capitolo CVII s63 CAPITOLO .CVII. De como morreo Garcia de foufa & fe Jaluarão os no£os que Jicauão no cobelo. COm tantas defordés, como polos peccados dos noffos aqui ouue pera não fe tomar a cidade, ficarão os mouros tão vitoriofos que logo fe ajuntarão todos diãte do muro & do cobelo, & cõ grãde furia chouiã fobre os nofTos pedradas, frechadas & zagunchadas, que vendo como eles os não podião ofender polas caufas que diífe, chegauanfe a eles tão fem medo q os ferião a bote de zaguncho. E Garcia de foufa preguntou ao gouernador (que bem via de fora ho aperto em q ele eftaua) q faria, & por ele fer tão esforçado caualeyro como era ainda em tama¬ nho perigo, não queria fazer coufa que fe podeífe chamar couardia, & por iffo fe não quis deitar do muro abaixo como algús fizerão por lhe dizerem de fora que ho fizeífem. E ho gouernador eftaua tão agaftado de perder afíi húa cidade, que por defordés perdera, que lhe não refpon- deo: & dõ Garcia ordenou cordas pera lhe daré com lanças atadas húas nas outras pera fe decer por elas com os feus. E vendo Garcia de foufa que lhe não refpõdia ho gouernador, parecendolhe que nã tinha faluação, quis antes morrer como caualeyro que como defefperado, lançandofe do cobelo abaixo que era muyto alto, & tomando coníigo a Gafpar cão, & a Diogo eftaço Deuora tio do outro Diogo eftaço, que leuaua ho guião de dom Ioão de lima, pos fe'diante de todos, & com grande furia lança¬ rão mão dalgús zagunchos dos immigos que lhes leuarão das mãos, & coeles fe poferão por efcudos dos outros, & certo que deféderão que não entraffem os immigos coeles: & Diogo eftaço foy ferido de húa pedrada no nariz q quafi lho quebrou, & ouuera de cayr da grande dor que fen- tio, & Gafpar cão foy ferido de húa frechada per hú hombro, a fora terem ambos as adargas empenadas de frechas, & afli Garcia de foufa, a que também derão húa frechada na tefta por debaixo da borda do ca¬ pacete que lhe chegou aos miolos, & dela cayo morto. E nefte tempo eftaua ainda dom Ioão deça fobre ho muro, que fe não quis deitar abaixo como os outros, pofto que lhe dizião que ho fizeífe em quanto fe não aca- bauão daparelhar as cordas. E ele não querédo, refpondeo a Manuel de lacerda que lho dizia, que o que feu pay né auôs núca fizerão não auia ele de fazer q fe ho quifeífé faluar que pofeflem húa efcada, & que de- ceria como íobira. E então fe remedeou húa efcada de pedaços atados & por ela fe deceo, & defpois de decido ele, deu aos do cobelo húa corda
264 Hijloria da índia pofta em duas lanças atadas húa na outra tão alto era ho cobelo. E tomada a corda que era tão comprida como ele foy atada nas ameas do cobelo, & por ela fe deitarão os noffos abaixo. E ja nefte tempo fe reco¬ lhia ho gouernador, & dom Garcia com os outros capitães, & fua gente com muyto grande defordem, & como por força porque recebião muyto dãno de dous tiros q Mira mergena mandou affeftar nas duas bombar- deiras por onde os noffos entrarão, & também porque começaua dêcher a maré cõ que fe cobria a praya da cidade. E coefta preffa fe embarca¬ rão logo os capitães como virão ébarcar ho gouernador & dom Garcia, & quafi que ficaua a gente por embarcar: & fe os mouros fayrão a efte tempo poderão os noffos verfe em grande perigo, o que vendo Manuel de lacerda, nã fe quis embarcar & deixoufe ficar ate fe embarcarem todos, & mais mãdou recolher todos os pedaços das efcadas, porque não ficaffem por teftemunhas do defarranjo dos noffos. E eftando nifto fendo os do cobelo todos deitados abaixo, apareceo fobrele Gafpar cão, que eftaua na efcada, õde fe pos defpois da morte de Garcia de foufa, & ali defendia a entrada aos Imigos, & tão embebecido eftaua na peleja que não fentio que fe recolhião os outros, & quãdo fe achou fô foy demãdar as ameas, onde as cordas não eftauão. E Manuel de lacerda & Antonio ferreyra fogaça q eftaua coele & outros, lhe bradarão q fe foffe onde eftauão, o que ele não pode entender por os mouros eftare quafi pega¬ dos coele, & a grita fer muy grãde de détro & de fora. E não achando ele as cordas, fez ho final da cruz & deixoufe cayr do cobelo abaixo, & quebrou húa perna, & polas feridas que trazia lhe arrebétou muyto fan- gue, & defpois morreo difto na ilha de Camarão, & apos ele faltou hú bombardeiro da nao de Garcia de foufa q trazia húa béfta debaixo do braço, & efte ficou fão. E defpois de todos ébarcados, fe embarcou Ma¬ nuel de lacerda fendo defpois de meyo dia, õde logo foy chamado do gouernador pera confelho, fobre fe hirião tomar ho baluarte do molde que atraueffaua da ilha de Cira aa cidade, de que os immigos tirauão aas noffas naos (que eftauão quafi pegadas coele) muytas bombardadas, efpecialmente aa nao de Manuel de lacerda que eftaua mais a tiro. E eftando ho gouernador em confelho com feus capitães como ho mandaria tomar, ho meftre da nao de Manuel de lacerda, que fe chamaua Aluaro marreyro fem faber ho confelho em que ho gouernador eftaua, começou de fe agaftar com as bombardadas que fe tirauão aa nao, & diffe que não auia ele de fofrer que lhe tiraffe hú negro: & ifto dizia polo bombardeyro mouro. E ajuntando os marinheiros da nao, faltão no efquife, & cÕ effas armas que tinhão, que erão lanças & efpadas, foy abalrroar ho baluarte, & como nele não eftaua mais que ho bombardeyro que tiraua como vio
Livro 111, Capitolo CV1II 265 os noffos fugio, & ho baluarte ficou em poder dos marinheiros, que acha¬ rão dentro vinte fete peças dartelharia de ferro, & antrelas auia algúas que tirauão pelouro de pedra do tamanho dos noffos camelos: & quãdo ho gouernador acabou ho cõfelho com os capitães que tomaffem ho ba¬ luarte: ele era tomado, de q ficou muyto ledo, & fez muyta honrra & merce a Aluaro marreyro & aos que forão caele naquele feyto, & man¬ dou recolher a artelharia. E com a tomada defte baluarte, a gente que eftaua muy efcandalizada de fe não tomar a cidade, fe aluoroçou de ma- neyra q dizia que lhe deffe bateria, & que defembarcafle pera iffo a arte¬ lharia, & coela derribaffem hú lanço do muro pera entrar. O que ho go¬ uernador não quis, dizendo que pera iffo era necefíario fazer detença, & que não tinhão agoa em abaftança, né a poderião tomar fe não na ilha de Camarão q eftaua das portas do eftreito pera dentro, onde não podião ir fe não com a moução dos leuantes q eftaua no cabo, & acabãdofelhe a agoa de neceflidade auião dinuernar naquele porto, & punhãfe em cõdi- ção de fe perder, & pera tornar a tras auião defperar dous mefes & meyo pera fe acabar ho inuerno da índia, & nã podião tomar nenhú porto dos noffos, quanto mais q naqueles dias que ali efteueffem poderia vir â cidade tamanho focorro q eles nã poderião coele, & por iffo lhes era for¬ çado não fe deterem. Porem a verdade era querer ir ho gouernador a çuez & a ver vifta da armada do Soldão & pelejar coela, ou quando não ir a Maçuâ pera faber a verdade do prefte, & fazer hi fortaleza fe a não podeffe fazer nas portas do eftreyto, & quãdo não podeffe, ir inuernar a Ormuz & tomala. Mas ifto nã dizia ele a ningué, & trabalhou dali por diante é reuocar a frota fora do porto â toa, no que fe deteue dous dias, em que mandou defcarregar effas naos que eftauão no porto & queyma- las. E afli mãdou defcobrir ho porto Dugufu per Simão dandrade, Ma¬ nuel de lacerda, Pero dafonfeca de crafto & Simão velho, q forão em feus bateys pelo efteyro ate fe poerem onde virão os piares da ponte q diffe. CAPITOLO .CVIII. De como ho gouernador fe partio pera ho ejlreyto, & da defcrição dejle ejlreyto. HO gouernador como tinha ê fegredo a fua ida ao eftreito tanto que teue a frota fora do porto Dadem a derradeyra ou fegunda oytaua de Pafcoa fe fez aa vela caminho das portas do eftreyto (que iam trinta legoas Dade) fem tomar parecer de pilotos nem dos capitães, do q todos teuerão muy grãde defcontétaméto. E os pilotos, fe ajútarão & 34 Tomo II
Hiftoria da índia 2 6 d lhe forão requerer que não foíle ao eftreyto, porque não podião laa naue- gar fe não com leuãtes, cuja moução não duraria mais que ate fim Da- bril, que feria muy cedo, & pera fe tornar aa índia que feria inuerno, & que a não poderião tomar, & q fe perderião: & pera inuernarem no eftreyto não tinhão fe nã a ilha de Camarão, q ainda que teuefTe agoa não tinha mãtimétos & que morreria a gente â fome, que oulhafle o q fazia porque fe hia a perder. E ho mefmo requeriméto lhe fizerão os ca¬ pitães. E ele relpondeo que fabia o que fazia, porque era por mandado del rey. E ainda q eles vião todos q era afli como dizião, & conhecião claramcte q hião a morrer, a lealdade Portuguefa os forçaua ir por fua võtade foltos fem ire prefos cõ quê fabião q os leuaua õde fe auião bc dauéturar á morte. E proffeguído fua viaje pos nela dous dias por amor do rol tempo q lhe fazia & achou q toda aqla cofta era lípa & parcel de boõ fundo pera furgir em qualquer parte, & ifto ate as portas do eftreyto a que os mouros chamão Babel Mandeb, q eftão em altura de doze graos & dous terços da bãda do norte: he aqui ho mar muyto eftreyto, & por ifio lhe chamão as portas. Da bãda do fui vay a Abexia terra do prefte a que os mouros chamão Ajé, & he na Ethiopia: & da banda do norte vay a Arabia deferta ou Petrea a q eles chamão a ilha darabia. Nefta boca ou portas do eftreyto eftâ húa ilha a que os mouros chamão Mihú & jaz atrauefTada nefte eftreyto da banda Darabia, he toda de pedra groffa, & miuda folta, não ha nela nenhúa agoa, ne aruore nem herua, & choue nela muy poucas vezes. Antrefta ilha & a terra firme fe faz hú canal daltura de doze braças de menos largura hú pouco que Dalmada a Lisboa, & paffam por ele todas as naos dos mouros que vão pera den¬ tro do mar roxo. E defrõte defta ilha eftà outra ilheta també fem agoa, em que morão os pilotos que leuão as naos que vão a Iudâ que os mou¬ ros chamão rubés, & fam grandes fabedores daquele mar no conheci¬ mento dos baixos, & leuão por cada húa ate trinta cruzados, & de Mihum a efta ilheta fe paffa de baixa mar a pê enxuto. Fazfe mais outro canal antre Mihum & a terra do prefte, que tem de fundo altura de vinte cinco ate trinta braças, & de largura como de Lisboa onde chamão de barra a barra, & por efte nauegão poucas naos: chamão os mouros a efte mar na lingoa arabiga baharquezú, que quer dizer na nofla mar çarrado, poré mar roxo como lhe nos chamamos he mais proprio vocábulo, por auer nele muytas malhas dagoa vermelha como fangue. E da caufa defta ver- midão não pude mais faber, fenão que fe caufa do reuoluiméto da agoa com as marés, no que parece q a lugares he ho fundo defte mar darea vermelha, & ainda fe affirma que ne todo, porque nele não ha correntes dagoas fe não mõtante & jufante que étra detro & fae pera fora, & por
Livro III, Capitolo CVIII 267 fer aparcelado & de pouco fundo, quando faz vento rijo fe he ponéte corre a agoa mais rijo pera fora, & fe he leuante pera dentro, & eftes dous vetos fam os naturais que curfam nefte mar, & terrenho poucas ve¬ zes, nem ha nele traueflões né toruoadas né outras nenhúas tormentas, & em todo tempo fe pode nauegar em hõs nauios peqnos q fe chamão geluas q andão a remos, & â vela fe lhe faz tempo pera iffo. Das portas defte eftreyto ate a cidade de çuez que he no cabo dele ha trezentas & cincoenta & cinco legoas, que he ho comprimento, & no mais largo té trinta legoas, em que os mouros faze tres repartições pera fua nauega- ção, & fazem defte mar doze gemas q fam tres fingraduras de dez legoas cada húa, & reparténas afti. Fazem quatro gemas (que he húa íingra- dura) de mar çujo ao longo da cofta Darabia ate çuez cÕ ilhas, baixos & parceis, que tem de fúdo de noue ate doze braças, & as noflas naos podé nauegar por ele cõ boõ teto de dia mas não de noyte, & outras quatro també de mar çujo ao longo da terra do prefte ate hú porto q fe chama coçaez, que eftà quafi norte fui cõ ho Toro na cofta Darabia ao pee do monte Sinay trinta legoas de çuez, & fazem outras quatro gemas de mar llpo pelo meyo do eftreyto a q chamão mar largo, que té fundo de vinte cinco ate coréta & cinco braças, poré he tão eftreyto que os q vão por ele vé terra dambas as bandas. E os rubães que fe tomão não fam pera efte mar limpo, fe não pera quando fam tempos contrayros, pera bufcaré qualquer das coftas & lhe darem furgidoyros, & antre aqlas ilhas & bai¬ xos: porque por efte mar largo mandão a via os pilotos que vão da índia, & nele a meyo eftreyto eftaa húa ilha que fe chama Zebelçocor, & alem dela contra Iudâ eftá outra que fe chama çeibão, & té boõs por¬ tos. Das portas do eftreyto ate a ilha de Camarão da bãda Darabia he tudo feiíorio do xeque Dadem, & ao longo do mar fam tudo aldeas, nem ha portos principais, fomente põtas, que húas abrigão de ieuãtes outras de ponétes: & da ilha de Camarão ate perto da cidade de Iudâ q fam cento & fefenta legoas, tinha feu fenhorio hú grande fenhor mouro cha¬ mado ho Xarife de gizem, q teria feyfcentos de caualo. E de Iudà ate Toro que fam céto & trinta legoas era de Xarife porcate fenor de Meca, & afti dalgús alarues que morauão por eftes defertos: & de Toro ate çuez ha trinta legoas, & era do fenhorio do Soldão. E nauegando ho go- uernador caminho das portas, mãdou diãte a nao de Chaul que leuaua em fua conferua, & vinte Portuguefes nela, pera q lhe tomafie hõ .rubão de que tinha neceflidade pera fua viajem: & afti ho fizerão. E ho gouer- nador chegou com toda a frota aas portas do eftreyto vefpera da vefpera da pafcoela. E dando muytas graças a nofio fenor de ler ho primeyro gouernador que fora ali ter com armada, & onde nunca chegara nenhú
268 Hijloria da índia Chriftão, madou faluar as portas com artelharia de toda a frota, & def- poys cÕ as trõbetas, cõ grades gritas & féftas de folias: & foy toda a frota embãdeirada & furgio das portas pera dentro no poufo dos leuantes. CAPITOLO .C1X. De como ho gouernador chegou aa ilha de Camarão. E porque leuaua pouca agoa não fe quis mais deter pera ir a Maçua onde defejaua de fazer fortaleza, por fer do fenhorio do Prefte, porque vio que era ali mais proueitofa que nas portas, nem em Camarão. E tomados os rubães de q tinha neceffidade feguio a rota de Zebelçocor, & porque de la por diãte auia de nauegar polo mar çujo da bãda Darabia, por onde as noflas naos não podião nauegar fe não de dia, mãdou pubricar pola frota q dali por diante auia de furgir duas horas ãtes de foi pofto, porq não fe fizeffe algú mao recado fe furgiífem de noite. E furgindo aqle dia tomarã os nofTos duas naos de Barbora & de zeila, q hião pera Iuda carregadas de mãtimetos: & da géte dela algúa foy tomada, outra fe faluou a nado. E defpejadas as naos forão qymadas, & aos mou¬ ros mãdou ho gouernador decepar as mãos, & cortar os narizes & ore¬ lhas, & mãdou os lãçar em terra q era do fenhorio do xeq Dadé, & affi ho mãdou fazer dali por diãte a quantos mouros tomou, fomete aos de Camarão. E profeguindo daqui fua viagé, queredolhe os rubes dar porto é húa enfeada dú lugar chamado Luia arribarão a terra: & ho rubão do gouernador qrendofe moftrar mais fabedor q os outros, bradou q folfem â orça quanto podeffem, & por aqle caminho não dobraua húa põta & reftlga detrás dõde auião de furgir. E indo fondãdo, mlgoaua ho cordel de tres & quatro braças de cada golpe, como fundo dalfaques, & não de par- cel. E nifto deu a nao em hú bãco queftaua em fundo de quatro braças & mea: & ho gouernador que fe vio naquele perigo, prometeo a noífa fenhora de mãdar fazer em Goa á fua honrra húa cafa da auocação de noffa fenhora da ferra, que aíli era ho nome da fua nao, & adi a mandou fazer defpois, & mandou ao feu piloto q furgiífe no baixo, cuydando que foffe mais baixo a diante. E não querendo ho piloto, lhe difle ho gouer¬ nador que lhe cortaria a cabeça. E ele refpondeo que cortaffe, porque fe furgiífe que fe perderia a nao, que logo fayo do baixo em cinco braças & meya, & então furgio, & affi furgirã Lopo vaz de fam Payo, dõ Ioão deça, Pero dafõfeca de crafto, Fernão gomez de lemos & Simão velho que hião na efteira do gouernador & dom Garcia, Simão dandrade, Manuel de lacerda & Aires da filua q hião ao pego, & todos lhe forão acodir em
Livro III, Capitolo CIX 26g feus bateys. E os outros capitães q hião diante não furgirão, pelo que ho gouernador auêdo diíTo menecoria, mãdou a Lopo vaz de fam Payo que ficaffe na fua nao, ordenando como fe tiraífe dali, porque ainda não eftaua fegura de todo, & foy é hú batel a pos os outros capitães & mandou os furgir, & forãolhe todos ajudar a tirar a nao do banco reuocandoa cÕ os bateys, & fayo fegura ao pego, & fem fazer nenhúa agoa, & dali mãdou diante a dom Garcia cõ algús capitães nos bateys de feus nauios, pera que fe pofeflem nos portos da ilha de Camarão que eftaua perto, & de- teueffem os mouros fe a quifeffem defpejar: & quando os noíTos chegarão acharão que os mouros a defpejauão, & fe hião pera a terra firme com medo do gouernador que fabião que vinha, & os noffos tomarão algúas geluas, em q catiuarão homés & molheres, & tomarão húa nao do Sol- dão & outra de mercadores q eftauão furtas & duas q eftauão varadas. E defpois difto chegou ho gouernador a Camarão q eftâ da bãda Dara- bia em quinze graos da parte do norte, & eftá tão longe da terra firme como de Lisboa a Almada: por antrela & a terra firme paffam as naos que vão pera fora do eftreyto, & pera dentro. Tem boõ porto & feguro de todos os ventos & boa tença das ancoras. A terra em fi he areofa, & fométe em húa parte que he alagadiça do mar, tem algú aruoredo de mangues, poré muyto pequenos, te muyta agoa, & em muytas partes, & é todas ha termedays derua tamanhos como hú punho, & efta cria I10 gado tãto como fe fofie muyta & viçofa, & aífi ha muyto na ilha & gordo, & no mar muyto & boõ pefcado. Aqui faze todas as naos que nauegão ho eftreyto fuas agoadas & carnajés, & era grande efcala DadÕ. Foy an¬ tigamente pouoada de muytos mercadores que tratauão na terra do prefte, de que trazião muyto ouro, & Darabia lhe hião muytos mantimétos de trigo, carnes & fruytas como as noífas: & alda ho gouernador achou muyto rafto de quão nobre fora em outro tepo, afti em edifícios antigos de cafas como de mezquitas, & tudo de cantaria, & aqui achou que vé- tauão jâ os ponentes, que erão cõtrairos pera paífar auante, & por lhe os rubaés dizerem q ainda auião de tornar leuantes, fe deu tanta preffa em fazer agoada, & carnajem, que a fez em fete dias, & neles forão toma¬ dos algús mouros que ficarão na ilha fem poderem paífar à terra firme, & antreles hú que fora xeq da ilha de Dolaqua, & da de Maçuâ, & da ê q fe pefca ho aljôfar, & hú feu fobrinho. E tomãdo os ponétes, ho gouer¬ nador fe partio muyto cotra võtade de todos os da frota, parecendolhe que podeífe chegar a Iudá. E era ho clamor da géte miuda muy grande cõtrele, dizédo que os leuaua a morrer, & ele bem ho ouuia, mas diíli- mulaua. E eftãdo de Iudâ no mais q quatro dias de caminho, tornarão os ponétes, & fobre perfia fe deixou ali eftar furto ate fe lhe acabar a agoa
270 Hiftoria da índia que tinha, & acabada fe tornou a Camarão a tomar outra, & fe tornou donde furgira dantes por lhe dizerem os rubaés que como fayfe da banda do fui húa eftrela a que eles chamão tária tornarião dous ou tres dias de Ieuantes & que ho poerião da bãda da terra do prefte, que era nauega- ção de dous dias & húa noyte, & ali defejaua ele de ir pera fazer forta¬ leza é Maçuâ por amor da amizade do prefte q era Chriftão & poderofo, & Imigo dos mouros, & q lhe daria focorro, afli de géte como de manti- métos. E efperando pola eftrela que digo, apareceo no ceo hú final de cruz muyta clara & refprandecente, fobre que veo húa nuuem que em chegado fe partio em duas partes fem tocar na cruz nem encobrir fua claridade. E ho gouernador com todos os q virão efta cruz a adorarão em giolhos chorãdo cõ deuação: & daquela cruz tomou ho gouernador final que queria noffo fenhor que folfe pera aquela parte, & alfi ho diífe a todos os capitães & pilotos que chamou pera iflo, & que bem poderião ir âs voltas. E os pilotos differão que não podião nauegar fem veto, & que afli como ho gouernador dizia irião dar em algús baixos onde fe per- derião todos, & então fe deixou ho gouernador eftar furto ate cj entrou Mayo. E vedo que não auia remedio pera tornaré Ieuantes fe não dali a dous mefes & meyo, tornoufe a Camarão, & defpois que chegou lhe ref- gatarão da terra firme os catiuos que tinha, q deu por mantimentos. E lhe foy dada húa carta de Mira mergena, em que dizia que fe efpantaua muyto de feré os frangues os homés que conquiftauão a índia, & tinhão tamanha fama: & porem que a tinhão porque pelejauão com homés mo- lharis, que como pelejarão cõ homés como erão os Dadé logo fe fou- bera a verdade. Ao q ho gouernador refpõdeo que a fama dos Portugue- fes era verdadeyra, & que não tinhão ganhada a índia a homés molharis, fe nã a turcos & a mouros do mar roxo, & fe as efcadas não quebrarão q ele perdera a vida & mais a cidade, & que em os noífos fobirem tãtos veria que homés erão, & como defejauão de pelejar. Porem ainda que Mira mergena ifto efcreueo, nem ele nem ho xeque Dadé eftauão fem muyto grãde medo defta entrada do gouernador no eftreito. E tanto que ho xeque Dadem foube que os noflos poferão as efcadas na cidade, logo ho mandou dizer ao Soldão pola pofta de camelos corredores, & foylhe ho recado em qulze dias. E ho Soldão lhe refpondeo q fe os frangues tinhão entrado ho mar roxo, que goardaflem bem feus portos, & q ele goardaria os feus: & efta repofta deu porque eftava mal coele. E Miro- cem que ifto foube, defpejou logo Iudá com medo dos nofTos, & ho Sol¬ dão ficou tão aífombrado coefta noua polo q fabia do que os noflos tinhão feyto na índia q partio logo pera çuez, cuydando q os noflos auião ali dir defembarcar. E no cayro ouue grande reuolta, porque foy logo fama
Livro III, Capitolo CX 271 que affi como ho gouernador entraua polo eftreito, alfi os Chriftãos da Eui»pa auião de dar por Alexandria entrando polo Mediterrâneo, & que ho Xeque ifmael era chegado com feu arrayal fobre Alepo que eftâ no cabo do deferto. E coefta noua ho gouernador de Damafco polo Soldão não quis ir a feu chamado, & fe leuantou: & os mouros eftauão todos muy affombrados, cuydando que fe lhe çarraua ho caminho per mar pera a cala de Meca, que perdia niflo grande perda, por as mais das esmolas que tinha lhe iré per mar em húa nao chamada mucumari, que tinha pera iífo. CAPITOLO .CX. De como não ouue effeyto a pa\ que ho gouernador deixou ajjetada cõ el rey de Calicut, & doutras coufas que fi\erão na índia. PArtido o gouernador pera ho mar roxo, foy é Cananor a defordé tamanha cõtra ho feruiço del rey de Portugal, que ho feytor noílo que então era tornou a dar dinheiro a Õzena aos mouros, ficândo defefo polo gouernador que fe não defle, & deu mil & quinhétos cruza¬ dos a Pocaracé, hú mouro principal de Cananor que tinha coprados ao feytor de Goa caualos del rey, em que fe montauão doze mil cruzados q auia dacabar de pagar defpois que os vendeffe. E eftando ele em Ca¬ nanor pera fe ir caminho de Naríinga a vender os caualos, receandofe 'ho feytor de Cananor q nã tornaffe de lâ, pediolhe ho dinheiro que lhe tinha dado: ao q ele diffe q não podia ate nã tornar de Narfinga pera Õde os tinha empregados nos caualos: do q ho feytor fe queixou ao ca¬ pitão, dizendo q Pocaracé fugia pera Narfinga, & q deuia aqle dinheiro a el rey de Portugal, & credo 0 ho capitão, mandoulhe q ho foffe préder à pouoação dos mouros, porque ho não pode auer em outra parte, o q foy contra ho regimento del rey, q mandaua que nenhú capitão de forta¬ leza prédeífe nenhú mouro né gétio principal da terra onde a fortaleza efteueffe: & ifto por fe a terra não aluoroçar cõtra os nolTos, como fe aluoraçou defta vez, porq indo ho feytor pera prender Pocaracé acodio a géte da terra com fuas armas, & derão fobrele, & fe não fugira mata- rãno: & a géte ficou tão efcãdalizada, q quatro dias efteue leuãtada cõtra os noffos, & ningué não oufaua de ir á pouoação dos mouros. E aíli ficara a coufa fe fe ho capitão não focorrera ao q fora goazil de Cananor, q ho gouernador fez tirar por fer Imigo do feruiço del rey de Portugal, & de¬ fendera ao capitão & officiaes da fortaleza que não falafiem coele por elfa caufa, né ho deixalíem ir a ela. E coefte fez ho capitão que fizefle cÕ el rey de Cananor q prendeífe Pocaracé: q prefo bradaua q não deuia
272 Hiftoria da índia nada q eíteueífem a conta, & moftraua as cartas q tinha comprados ca- ualos & ho feguro do gouernador pera os leuar a Narfinga, reqrendo q ho não prédeífem, porq por fua prifam fe perderião os caualos. E cÕ tudo não ho foltarão ate q não pagou ho dinheiro cõ todo feu ganho: & em quãto eíteue prefo foy roubado polo goazil, & por Mamele ho mouro q fe chamaua rey das ilhas de Maldiua, q ambos querião mal a Pocaracé, porq era feruidor del rey de Portugal & amigo dos Portuguefes cujos Imigos eles erão. E védofe Mamale fauorecido, não quis defiftir do titulo q tinha de rey como ficara ao gouernador: & tambc porque ho fecretario q eítaua em Cananor dizia q ele fabia certo q aquele anno auia de vir de Portugal outro gouernador, & q pera efte fe deuião de goardar os q ouueífem daffentar paz ou vaffalajé com el rey de Portugal. E como era fecretario criãno todos, & coefta fama q deitou fe deixarão de fazer muy- tas coufas do feruiço del rey de Portugal, & a principal foy a paz de Ca- licut que ficaua tão alfentada. E el rey fabédo o que Gafpar pereyra dezia da vida doutro gouernador, defpedio a Francifco nogueyra & a Gõçalo mendez, dizédo que pois auia de vir outro gouernador q coele alfentaria a paz. E adi defpois que ho fecretario foy em Cochí, diffe a el rey de Cochim tantos males q lhe vinhão deita paz, q lhe fez defejar de a eftoruar, & pera ho poder fazer ajudou a hú grão fenor cõtra el rey de Calicut q tinha coele guerra, porq fendo leu vaflalo ho não queria aju¬ dar é fuas guerras. E elta ajuda lhe deu el rey de Cochim, porq teueffe rezão de dizer ao gouernador q não fizeffe paz cõ el rey de Calicut por¬ que tinha guerra coele: & ilto porque eítaua no cõtrato de pazes que ele fez cõ el rey de Portugal em tépo do vifo rey, que el rey de Portugal ho ajudaífe fempre cõtra el rey de Calicut. E també Louréço moreno, Anto- nio real, & Diogo pereyra de Cochim erão cõ Gafpar pereyra em acon- felhare a el rey de Cochim que fizeffe ifto, porq querião todos mal ao gauernador, polos repréder de muytas coufas que fazião contra ho feruiço delrev feu fenor. E a mefma fama de vir gouernador deitou ho fecretario em Cochim: & em tanta diífulução hiã eftes quatro, que Lourenço mo¬ reno finãdofe em Cochí, Afonfo paffoa q viera de Malaca cõ Fernão perez dandrade, tomou húas cartas que ele trazia pera ho gouernador, em que lhefcriuião culpas de Ruy de brito, & abrio as cõ hú Iohão viegas, q també viera de Malaca, & mandou ho terlado das cartas a Ruy de brito cõ lhe dizer cujas erão, pelo q Ruy de brito fe vingou defpois de qué as efcreueo.
Livro III, Capitolo CXI 273 CAPITOLO .CXI. Como el rey de Bintão quifera por treyção tomar Malaca, & nã pode. VEndo el rey de Bintão que né a treyção de Mutaraja poderá auer effeyto pera tornar a cobrar Malaca, né ele tinha poffibilidade pera a tomar por força, andaua muyto agaflado por iífo & nunca em outra coufa imaginaua: o que entédendo hú mouro efcriuão de fua fazéda, Bengala de nação, diíTelhe q fe não agaftaffe, porq ele lhe prometia de lhe tomar a fortaleza de Malaca, com tanto que lhe delfe cartas fuas de credito pera homés principais da cidade. E fabédo el rey de Bintão ho ardil por Õde fe ho efcriuão fundaua, como fabia dele q ho faberia fazer, • deulhe as cartas de credito que lhe pedia, & affi muyto dinheiro cÕ que fe partio caminho de Malaca, fingindo q era mercador que fe hia de Bé- gala affentar lá, & moftrou logo aparato de ter grande & rico trato, o que foy caufa de fer logo conhecido do capitão & do feytor, cÕ que tomou muy eftreita amizade, & como era muy lagaz & manhofo nelfas copras & vedas daua muytos ardijs com que aproueitaua muyto a fazenda del rey de Portugal, & affi a do capitão, feytor & de todos os outros officiaes da fortaleza cõ o que teue grãde amizade com todos & muyta familaria- dade, principalméte cõ ho capitão & feytor com qué tinha entrada cada vez q queria, & parele nã auia neles ocupação nenhúa, & em todo ho tépo étraua na fortaleza, que era o que ele defejaua pera effeytuar fua treição. E como teue fegura efta familiaridade com ho feytor & capitão, defcobriofe a effes mouros principais de Malaca, pera qué trazia as car¬ tas del rey de Bintão, & deulhas dizendo pera o que vinha, & que el rey de Bintão lho encomédaua, porq fem fua ajuda não podia dar fim ao q defejaua, & diíTelhe a familiaridade q tinha com ho capitão & com ho feytor, & q a do feytor eftimaua muyto mais que a do capitão, porq não auia medo fe nã ao feytor que lhe parecia pera muyto, & por iífo deter- minaua de ho matar primeyro que ho capitão, que polo que conhecia dele fe ele ficaffe viuo, pofto q mataífe todos os outros da fortaleza, ele fô abaftaria pera a cobrar, & que ja tinha dentro na fortaleza quem ho ajudafle, q erão certos homés principais de Bintão que forão catiuos, & eftauão prefos no apoufentamento do alcayde môr, & tinha quem lhos foltaífe por peita, dando a entéder que era pera fugirem, & q não queria deles outra coufa fe não que lhe acodiffem como ho capitão, feytor & alcayde moor foflem mortos & ho liuraífem dos noífos que auião dacodir, 35 Tomo II
274 Hiftoria da índia & que teueflem pera iflo preftes a mais gente que podefiem. O que lhe eles prometerão, moftrãdo q folgarião muyto de fer Malaca tirada do po¬ der dos noflòs. E pofto q ho defejauão na oufauão de bolir coíigo, porq não tinhão cabeça q os regefle. E q fe ele acabafie o q dizia, ale de fazer tamanho feruiço a Mafamede como aqle feria, eles ho farião ho mais prin¬ cipal de Malaca defpois del rey. Animado coiílo ho efcriuão a fora a ou- fadia q tinha de feu natural pera fazer qualquer treyção, bufcou dia pera fazer eíta & nã curou defperar mais, porq nefta cõjunção adoeceo ho ca¬ pitão, não que efteuelfe 5 cama, mas não faya da fortaleza, & afientou de fazer o que determinaua hú dia ao meyo dia, q era ho tepo pera ido mais defpofto, porq então repoufauão todos. E ho capitão, & ho feytor eftauão fôs, & auia menos géte na fortaleza q em nhúa parte do dia. E tédo dado auifo aos mouros pera q efteuefle preftes, foyfe â fortaleza às horas q digo, & entrou logo détro & deixou â porta ate trinta homes q fempre trazia condgo, q fabião parte do feyto, & eftauão auifados que como ouuidem rumor matadem ho porteiro, & étradem & matadem dos noffos quãtos podeífem. E entrado na fortaleza, foyfe primeyro a cafa do feytor, & antes que entrade a ele pos fe a húa genela que eftaua pa¬ rede meos com húa cafa do alcayde mòr, onde os catiuos de Bintão efta¬ uão prefos, q por peitas que derão lhes foy aquele dia deixado ho troco aberto. E pofto â genela, tirou húa carta que trazia efcripta em fua lin- goa, em q dizia aos catiuos como hia matar ho feytor, que matadem eles etre tãto ho capitão que eftaua foo, & leoha tão alto q os catiuos a ouui- rão & entéderão & fizeranfe preftes: & ele entrou onde eftaua ho feytor foo em fua camara lãçado em hú efquife pera dormir a fefta, & começou de lhe dar conta de 1'eus tratos. E vindo fono ao feytor, rebolueofe pera a outra parte, & em fe reboluendo leua ho efcriuão dhum cris & dalhe húa crifada que ho paífou de parte a parte: ho feytor como era muyto esfor¬ çado & de grande acordo, dâ condgo fora do efquife & lançade por húa efcada abaixo caminho da porta da fortaleza, bradando. Treyção, treição, & ho efcriuão confiado nos q deixaua à porta que ho acabarião de matar não quis ir a pos ele correndolhe grandes enxurrados de fangue chegou à porta da fortaleza, & çarrou ho poftigo que eftaua aberto, metédo dous ou tres dedos do ferrolho polas armelas, bradãdo. Treyção, treyção, & não pode mais meter porque cayo morto. E ifto foy tão de fupito que os do efcriuão que eftauão de fora não poderão acodir, porque parece que quis noffo fenhor que defatentaffem da porta, & quando acodirão era fechada, & ainda algús meterão os crifes polas gretas, cuydando q ferif- fem que fechaua ho poftigo, que fe eles acodirão a fortaleza fora tomada. Os catiuos em ouuldo os brados do feytor, fairão logo dõdeftauão, & quis
Livro III, Capitolo CXI 275 Deos que acharão dous criados do alcayde moor com que fe deteuerão em os matar, & aos brados deites fe pos ho capitão em faluo, çarrando muy bem fuas portas. E fentindo efta volta tres noflos que eftauão na torre da menajé, bradarão muyto alto que auia treição na fortaleza, ao q logo acodirão oyto dos noffos affi defarmados como andauão q forão mor¬ tos polos do efcriuãò que eftauão aa porta da fortaleza, & eles também não viuerão muyto, porque como os noffos acodirão matarãnos logo. E bufcando maneyra pera abrir ho poftigo da porta da fortaleza, étrarão dentro, & matarão ho efcriuãò & os catiuos de Bintão. E ouuindo os mouros ho rume que hia na fortaleza, cuydando que teueffe ho efcriuãò fua treyção pofta por obra, acodirão todos com fuas armas pera fe leuan- tar contra os noffos, & quando os acharão fenhores da fortaleza & morto ho tredoro, diífimularão, & differão ao capitão que lhe hião acodir, & fizeranfe muyto de nouas da treyção do efcriuãò, & moftrarão folgar muyto com fua morte: poré a eles lhes pefou affaz de ele não leuar auante o que começou, que eles fazião conta que a fortaleza era del rev de Bintão, & aíli efteue ela tomada fe ho noffo fenhor não atalhara por lua mifericordia porque a fora a coufa eftar afli armada, auia nefte tempo pouca gente em Malaca, porque Ioão lopez daluim capitão moor do mar era aa Iaoa com tres nauios pera trazer certos bahares de crauo que hi mãdou Nacoda ifmael do emprego q leuou a Maluco, & fendo laa Ioão lopez, indo ter ao porto onde Pateonuz tinha varado ho feu júgo em que efcapara a Iorge botelho, mandoulhe grandes prefentes porque lho não queymaffe, & dizendolhe quanto fe honrraua de ho ter ali, & offrecédofe por muyto grande amigo dos Portuguefes. E Ioã lopez aceitou fua ami¬ zade, & prometeolhe de nã fazer nenhú mal ao jungo. E tomando ho crauo que hia bufcar tornoufe a Malaca, onde tãbem ao tempo defta trey¬ ção não eftaua Iorge botelho que era darmada fobre Bintão. E nefte mefmo dia pelejou com certas lancharas del rey, & as desbaratou cÕ morte de muytos mouros, & fem morrer nenhum dos noffos. E por amor defta treyção fe não fiou dali por diante de nenhum mouro na fortaleza, & quando entrauão nela era cõ muyto recado. E fabendo el rey de Bin¬ tão a fim q ouuera ho feu efcriuãò, perdeo a efperança por hús dias de poder tomar Malaca por nenhú ardil.
276 Hijloria da índia CAPITOLO .CXII. De como lio gouemador inuernou na ilha de Camarão, & das caufas porque não fe\ hi fortaleza. FIcando o gouemador aquele inuerno em Camarão, mandou dar pen¬ dor a todos os nauios da fua frota: & pera faber fe da pedra da ilha fe poderia fazer cal, mandou que fe fizefTe. E quando a gente vio que fe armaua forno pera iflo, & defpois fazer-fe cal, ficou toda paf- mada cuydando q queria ho gouemador fazer fortaleza, & darlhe nouo trabalho fobre o que tinhão paífado na viajem, & paffauão em inuernar naquela ilha fem teré que comer, & trabalharem no pendor que fe daua aos nauios da frQta, & affi ho dizião. E ho gouemador ho fabia, mas dif- fimulaua: & bem quifera ele poder deixar ali húa fortaleza, mas não fe atreueo a fazela, porque pera a deixar fegura tinha neceffidade de ver primeyro ho porto de çuez pera faber que força tinha criada ho Soldão, porque fendo grande ficaua a fortaleza em perigo de fe perder, ou era neceífario pera fua fegurãça ficar ho gouemador fobrela com toda a frota, porque pera ir â índia & mandarlhe de laa focorro, não podia fe não em Feuereyro, & ele auia de partir pera a índia em Agofto, & pera ficar com toda a frota em goarda da fortaleza não podia fer, que lhe era for¬ çado tomar aquele anno aa índia, porque quando partira de laa não fabia ainda nenhúa noua de Malaca, ne deixaua affentado de todo a Calicut nem a Diu, que vendoho tanto tépo fora da índia, fe poderião fazer em corpo & darlhe opprefam cõ tomar algúa fortaleza. Affi que fegurando ho eftreito com a fortaleza de Camarão, que não feguraua fem ver çuez arrifcaua a índia que era o principal daquela conquiíta. E pera também deixar parte de fua frota fem faber o que hia em çuez, era muyto pouca coufa pera pelejar com a armada do Soldão que fe dezia fer muy grande, & que leuaria nas vnhas a noffa que ficaffe, & ela leuada leuarião tam¬ bém a fortaleza. Affi que fe teuera fora a duuida de çuez, cuja vifta foy a principal caufa que ho fez entrar no eftreito, poderá fazer a fortaleza em Camarão, & deixarlhe no mar algúas carauelas latinas & nauios de remo, porque podem em todo tempo nauegar ho eftreito, & atraueffalo de húa banda a outra, & fenhorearão toda a cofta Darabia da porta do eftreito ate ho Toro, porque os lugares que jazem nefta cofta fam peque¬ nos & por fe nã verem deftruidos pagarão parias, corji que os noffos, affi os da fortaleza çomo da armada que lhe ficara forão pagos de feus foldos & mantimentos, & defta maneyra dera efta fortaleza grande trabalho aas
Livro 111, Capitolo CX.I1 277 terras do Xeque Dadem que jazião naquela cofta, porque lhes tolherão os mantimentos que lhes vão de Barbora, Zeyla & doutros lugares da terra do Prefte. E não aucndo armada do Soldão em çuez, não auia ou¬ tra que podeífe impedir a nofla, porque fe não podia fazer por não auer em todo ho mar roxo lugar em que aja madeira pera iffo nem ferro, nem outros materiais neceffarios pera fabrica de nauios, faluo das geluas que diffe que fam como grandes barças: E algúas naos groífas que, a Cam- baya & ao Malabar as vão fazer. Afli que por caufa do gouernador não auer vifta de çuez ouue por efcufado fazer fortaleza em Camarão por todas eftas rezões: & com quanto fe não fez fortaleza, a gente como digo leuou affaz de trabalho com ho pendor das naos & nauios da frota, & com grandes doenças, & com não auer na ilha que comer mais que algús camelos que ficarão amontados com a fugida dos mouros, que leuarão configo quanto gado auia na terra: & também com.ia a gente defle pef- cado que pefcaua. E paffado ho mes de Iunho, vendo ho gouernador que fe lhe chegaua a moução pera a índia, & que lhe era forçado não entrar mais polo eftreito deite ferro, mandou a Ioão gomez que foffe na fua ca- rauela fora ao mar & tomafle algúa gelua pera faber nouas do eftreito & da armada que ho Soldão teria em çuez, & que viffe le podia aferrar a ilha de Maçuâ ou a de Dolaqua, & Dolaqua eftaa em quinze grãos & meyo da banda do norte, & nouenta & cinco legoas da porta do eftreito da banda da terra do Prefte, de cujo fenhorio foy: he pequena, & não tem agoa fe não de cifternas, & eftas em abaftança, & aíli tem muytos mantimentos que lhe vão da terra firme que eftaa a vifta dela, afli como riba tejo de Lisboa. Tem efta ilha muyto boõ porto. E por lhe vir muyto ouro da terra do Prefte, era pouoada de muytos mercadores mouros que não obedicião ao Prefte com quanto a terra era fua. E partido Ioão go¬ mez, nunca pode topar nenhúa gelua, nem pode aferrar efta ilha na cara- uela por lhe fer ho vento contrairo, mas chegou tão perto que foy laa no feu efquife: & eftando quafi pegado com terra, vio nela muyta gente & toda armada de terçados, arcos & frechas, & preguntarão aos noífos que querião. E dizendo eles que faber, fe lhe comprarião algúas mercadorias, diíferão os mouros que não auia ali mercadores, fe não gente de guerra, que goardaflem fuas mercadorias. E coefta repofta fe foy Ioão gomez, & correo a ilha em redondo & defcobriolhe toda a cofta, & por lhe ho go¬ uernador não mandar que chegaífe aa terra firme não chegou, & não foy a Maçuâ porque eftaua dali dez legoas, & foy ver a ilha de Nura onde ie pefca ho aljôfar que eftaa derrador de Dolaqua. E ho aljôfar he muyto & muy fino, & dali fe tornou pera Camarão, leuando eftas ilhas pintadas pera ho gouernador as ver.
Hiftoria da índia 278 CAPITOLO .CXIII. Da canja porque ho gouernador não quis fa\er fortaleza na porta do ejtrefto, & do que fe\ em Adem. CHegado Iohao gomez a Camarão q foy meado lulho, partiofe ho gouernador pera a porta do eftreyto, onde chegado, fayo na ilha de Mihum pera ver fe fe podia fazer ali fortaleza, & por lhe não achar agoa, & por não ver çuez: & por amor do Xeque Dadem que eftaua muy perto, & por não ter dõde fe proueffe de mantimentos, lhe pareceo efeufado fazela. E pareceolhe melhor pera goardar aquele porto, mandar ali cadãno húa armada, em q aueria menos trabalho de fe prouer de man- timétos que húa fortaleza. E também confiderou que ainda que fizefTe fortaleza & lhe defie húa armada, que auia deitar ali ho menos do tempo, porque eftaua certo que defapegandofe da fortaleza pera algúa parte, ou dando caça a algúas naos de mouros, que auia de fer coufa muy traba- lhofa tòrnar tão afinha ao porto fe não com outros ventos, & entre tanto ficaria a fortaleza fô & em muyto grande rifeo. E por todas eftas rezoes a não quis fazer, & por final que fora ali ter, mãdou aruorar em terra húa cruz feyta de duas antenas, & mandou que dali auante fe chamaffe aquela ilha a da vera cruz, donde fe partio pera Adem: e em partindo mãdou a Ruy galuão (por ter dele experiecia desforçado caualeyro) que fofle por capitão moor de Ioão gomez a defeobrir a cidade de Zeila que eftá cinco legoas da porta do eftreito pera fora, na cofta da Ethiopia em onze grãos da bãda do norte, cuja comarca dâ muyto trigo, muyta ceuada & muyto milho: ha grande criação de gado groffo & miudo de q fe or¬ denha multidão de leyte, de que fe faz manteiga fem medida: & de tudo ifto fe carregão naos pera fora, & aífi de muyta cera brãca que ha na terra. Crianfe também nela muytos caualos, & nace infindo encenfo ma¬ cho. Efta cidade he de grande trato: he rafa & bem arruada, as cafas fam de pedra & cal, & de fobrados & cubertas de terrados: té as gene- las & portas lauradas de maçanaria: he pouoada de mouros, que pola mayor parte lam pretos, afli homés como molheres, & outros fam bran¬ cos, tratanfe muyto bem, afli no comer como no veftir, & andão a ca- ualo. Chegado Ruy galuão a efta cidade quifera auer pratica com os da terra como leuaua por regimento do gouernador, & por eles não quere¬ rem, lhes queymou quantas naos eftauão no porto, porq não leuaffem mantimetos aos lugares do mar roxo, que afli lho mandou a gouernador: & nifto ho fez Ruy galuão muy esforçadamente, & aqui fe deitou coele
Livro III, Capitolo CXIII 279 hú Abexim Chriftão q fora catiuo do feytor que ho Soldão tinha em Iudá. E feyta efta deftruyção no porto de Zeyla, partiofe em bufca do gouer- nador q hia caminho Dade, & chegou ao feu porto fem lhe acontecer no caminho coufa algúa. E furto no porto, achou muytas naos grafias & geluas varadas em terra bem pegadas ao muro, & afleftada nelas muyta artelharia, que logo começou de jugar em furgindo a nofla frota, & afli auia na ilha de Cira mais fortaleza que dates, & no alto da ferra defta ilha eftaua armado hú trabuco q tiraua pedras darrezoada grandeza, que também logo começou de lançar: porem quis nolfo fenhor que não fez nenhú nojo aos nofTos. E fegundo pareceo pelo muro da cidade, auia nela mais gente que da outra vez, & muyto mais artelharia & melhor, & dei- taua tamanhos pelouros como os noílos camelos, como fe defpois vio, que tornauao a tirar com os pelouros cÕ que lhe os noffos tirauão. E como ho gouernador furgio, os mercadores da cidade lhe mandarão co¬ meter refgate das naos que tinhão no porto. A que ele refpondeo que as não auia de dar, fe não por cinco Chriftãos Portuguefes que tinhão cati- uos em Adem, que forão catiuos no bargantim de Grigorio da quadra como atras difle. E os mercadores não mãdarão a ifto repofta, & fegundo defpois pareceo foy polo remedio que tinhão achado pera lhe não quey- marem as naos que tinhão em terra. E vendo ho gouernador que lhe não vinha repofta, quiferafe vingar dos mouros com tomar a cidade, & tam¬ bém porque auia defperar no porto ate a lua noua Dagofto, & mais qua¬ tro dias alem que erão obra de quinze dias de detença, & no cabo deles era ho verdadeyro tempo pera ir demandar a cofta da índia. E por todas eftas coufas quifera cometer a cidade, & ver fe a podia tomar. E chama¬ dos todos os capitães a confelho, propollhe fua determinação, que por todos lhe foy contrariada, dizendo que era coufa muy fora de rezão por vir na frota muy pouca gente & a mais dela doéte, que quafi não auia quem marealfe as naos fe não os fidalgos que eftes hião menos doentes, & na cidade auia dobrada gente da que acharão da outra vez, & ela muyto mais forte, de maneyra que parecia que fe perderião fe a come- teflem. E vendo ho gouernador que todos erão contrele no cometer da cidade, bufcou hú ardil pera cometer tomala fem parecer a ninguém que a cometia, & foy dizer que lhe queymaflem as naos que eftauão varadas, porque como elas erão os inftrumentos com que negociauão fuas fazen¬ das & tratauão coelas, tanto mõtaua queymarenlhas como queymarlhe a cidade, porque tão defabrigados ficauão fem elas como fem ela. E ifto dizia com tenção que vendo os mouros queymarlhes as naos fayrião da cidade a defendelas, & os noflbs lhes auião de querer refiftir, & dali fe trauaria a peleja antreles de que poderia refultar tomarfe Adem como fe
Hijloria da índia 280 tomou a Goa, o que poderá fer fe os noffos forão tantos como forão no feyto de Goa, & tão fãos. E porque os capitães fabião que não era aíli, forão também contra o que ho gouernador dizia, dizendolhe que pofto que os mouros ficaíTem perdidos de todo cõ perderem as naos, muyto mais fe perderia em perderfe hú fô dos noffos, pois eílaua certo ainda que hum foo podeffe queymar as naos correr muyto grande rifco, quanto mais indo tantos como ele dizia que foliem, que de neceffidade auião de morrer algús, & eftes auião de fer dos fidalgos q não auia outros, & que fe ele daria cincoéta naos por hú Português qualquer q fofle, como que¬ ria auenturar cincoenta fidalgos por quatro naos. E vendo ho gouernador como lhe contrariauão em tudo, ouue menencoria, & coela diffe que ver¬ dade era q daria cincoéta naos por hú Português, poré que auéturaria cincoéta fidalgos por quatro vacas, & que ele nã queria que os fidalgos queymaffem as naos, fenão os marinheiros, & que eles ho farião fem os homés darmas: & foyfe muyto agaítado pera a carauela de Ioão gomez que ja era chegado cÕ Ruy galuão, & ali ajútou obra de cé marinheiros cõ meftres & pilotos & deulhes por capitão a Ioão teixeira bõ caualeiro, & como foy noyte mandoulhe q faltaffe é terra & qymaffe as naos & é partido deitoulhes a béçãõ, dizédo. Meus caualeyros a bênção de Deos vâ conuofco, queymaime as naos defTes cães, que vos aueis de fazer me¬ lhor que os homens darmas. E coifto partirão muyto ledos indo ele em fua companhia no feu efquife, em que leuaua fuas trombetas, que tocarão cõ hum íòm muy efperto em os noffos faltando em terra, a que acodirão obra de trinta mouros que eftauão em vigia das naos, & os noffos como os virão, hús remeterão a eles, & outros aas naos a lhe poer fogo com poluora: porem não pegou nelas fe não tão pouca coufa que lhes não fez nenhum nojo, & ifto por os mouros as terem cheas dagoa receandofe de lhas os noffos queymarem. E vendo eles quão pouco danno lhes fazião, contentaranfe com matar os mais dos mouros que vigiauão, & fem aco- direm outros da cidade fe tornarão os noffos a recolher. E ho gouerna¬ dor lhes fez muyta honrra, principalméte a Fernãdafonfo meftre da nao fanéta Maria de ferra, & a Domingos fernandez feu piloto, & a Bertola- meu gonçaluez meftre da nao fam Gião que ho fizerão dauantajem dos outros.
Livro 111, Capitolo CXIIII ■281 CAPITOLO .CXIIII. De como ho governador chegou a Diu, & do que pajfou com Meliquiãy. VEnho ho gouernador que na podia fazer nhú mal aos Imigos, & que auia alda ali deftar tatos dias, trabalhou por tomar ho baluarte do molde que atrauellaua da ilha de Cira aa cidade, & tomado fez alfeftar no alto dele hum camelo noflo com que forão derribadas muytas cafas da cidade, & afii lhe defmãcharão duas vezes hú trabuco q os mou¬ ros tinhão armado: & ifto fez hú Ioão Luis fundidor dartelharia muyto boÕ bombardeiro. E afli mandou ho gouernador chegar bem ao muro da cidade ho nauio de Ruy galuão, que efcolheo pera iífo. E eftando cercado de grandes arrombadas, esbombardeou muy oufadamente as naos q efta- uão varadas, & lhes fez muyto danno, de modo que a cidade ficou aflaz daneficada. E fendo quatro dias Dagofto, partiofe ho gouernador com toda a frota pera a índia, & auendo vifta do cabo de Goardafum, correo a cofta do reyno de Vlcinde (que he a primeyra índia ate ho rio Indo). E chegando aa coíta de Cambaya, auendo vifta da cidade de Mãgalor & da de Pate, foy demandar a ponta de Diu, & por fer tarde a não quis dobrar, & furgio com toda a frota, fomente Simão velho & Ieronimo de foufa que hião diante, que dobrarão a ponta & forão furgir defrõte de Diu: do que ho gouernador ouue muyto grande menencoria, porque leuaua em tenção de tomar Diu fe ho achaífe em defpofição pera ilío, o que ele fizera fe aqueles dous capitães não forão diante, porque Meli- quiaz eftaua em húa quintaã fua duas legoas de Diu, & tinha configo toda a géte darmas. E tanto que os noffos nauios furgirão, foy lhe dado auilo per fumaças & recolheofe aa cidade com toda fua gente: & quando ao outro dia chegou ho gouernador não pode fazer nada do que trazia deter¬ minado, & prédeo Simão velho & Ieronimo de foufa por fe adiãtarê dele & furgire primeiro, & mãdouos meter debaixo da cuberta da fua nao, & mandou que perdeffem as capitanias dos nauios que tinhão. E defpois de paflada aquela menencoria os foltou & lhas tornou a dar. E furto ho go¬ uernador, Meliquiaz ho mandou vifitar, moftrandofe muyto ledo por fua vinda, & mandoulhe tanto pão, & tantas vacas & galinhas, & tantos car- neyros, & tanta 1'orna de fruita que abaftou a toda a frota, & mandoulhe dizer que lhe perdoaffe de lhe mandar tão pouca coula, porque ele não era mais que hum almoxarife delrey de Cambaya, & que ele ho iria ver aa nao. E ho gouernador lhe relpondeo que lhe não poderá mãdar coufa 56 Tomo 11
Hijtoria da índia 282 com que mais folgara que aquele refrefco, & que ho tomaua como dhum homem que tinha por muyto grande feu amigo, & que folgaria muyto de ho ver pera falar coele coufas que importauão muyto a ambos, & man- doulhe algúas peças, com que lhe pareceo que folgaria. Porem Miliquiaz não ho foy ver nem ao outro dia, nem em tres mais que ali efteue, por¬ que com quanto tinha paz coele, não fe fiaua dele pera ho ir ver aa nao, & cada dia ho mandaua vifitar com refrefco, & lhe mandaua dizer que ho iria ver: & mandoulhe pedir que lhe mandafle os capitães pera os ver & feftejar, pois ho não podia fazer a ele como defejaua. E ho gouerna- dor os mandou pera verem Diu & lua difpofição, & Miliquiaz lho moftrou & todos feus almazées com as munições de guerra que tinha, & aíTi lua armada de furtas, & banqueteou os & fertejou os ho mais que pode, & a • todos deu peças, & todos fe tornarão muyto contentes dele pera ho go- uernador, a que contarão que Diu não era tão forte como dizião, & que era mais fortificado com artelharia que por natureza de feu fitio, como diffe no liuro fegundo. E neftes dias que ho gouernador aqui efteue, con¬ certou com Meliquiaz por recados que deixalfe ali hum feytor com cobre & efpeciaria pera fe gaitarem em Diu & comprar roupa, & outras coufas que tinhão valia em çofala & em Malaca, & que podeffe ali mandar fazer húa forna de bizcoyto, por quanto auia trigo, & fe poderia fazer fem ne- nhúa oprefam: & deixou por feytor da mercadoria que auia de ficar a hum Fernão martinz euangelho & hum Iorge correa por feu efcriuão. E pera fazer ho bizcoyto a hum Chriftão nouo chamado andrade. E pefando defpois a Miliquiaz de fe fazer efte bizcoyto por lhe os mouros dizerem que era pera ho gouernador tornar coele ao mar roxo, ordenou de fazer como Andrade teuefle parte com húa moura com que fugio pera ho Cer- tão, & afli não ouue ho bizcouto effeyto. E vendo ho gouernador que Miliquiaz não ho queria ir ver aa nao, & entendendo bem ho porque, determinou de fe ir, & mandandofe defpedir, fe fez húa manhaã aa vela caminho da índia, & como ho Miliquiaz vio aa vela, fayo com toda fua armada que ferião bem cem nauios de remo todos artilhados & apadef- fados & fornidos de muyta gente. E fabendo ho gouernador que Mili¬ quiaz ho hia ver per húa fufta que mandou diante, virou fobrele com toda a armada, & faluando ho com toda a artelharia & grita dos noffos & arroydo de trombetas, chegou Miliquiaz a bordo da capitayna na mais peqna furta da fua armada, & ele mefmo a gouernatia: & ho gouernador fe pos a bordo & fezlhe muyta cortefta, & falarão hú pouco, pedindo ao gouernador muyto perdão de ho não poder feruir como defejaua, & q era feruidor del rey de Portugal, & leu. E dandolhe 0 gouernador muv- tos agardecimétos, lhe mãdou deitar na fufta quatro mouros de grãde
Livro 111, Capitolo CXV 283 reígate q leuaua catiuos, & cõ grandes otfrecimêtos damizade dhú & doutro fe deípedirão. E ho gouernador feguio a rota de Chaul, dizédo aos fidalgos da fua nao q acjle mouro fabia muyto, & q 1'empre tinha leuã- tado hú pé pera dar hú couce, & q ho não quilera ir ver â nao eftando furto, porq poderá ler q fe entrara dentro q ho não deixara fair, & q viera defpois de ir ã vela por lhe moltrar a fua frota. CAPITOLO .CXV. De como ho gouernador achou em Chaul Tri/lão dega com repojla da embaixada com que foy a el rey de Cambaya. PArtido o gouernador de Diu, mandou diãte a Antonio rapofo no leu nauio, que foffe dizer a Goa como hia, & a Ruy galuão & a Ieronimo de fouía ho mefmo a Cananor & a CochI. E ele 1'e foy dereyto a Chaul, onde Nizamaluco lhe mandou fazer grãde feíla, & mã- dou muyto refrefco & alfi as pareas q deuia. E por feu confentimêto deixou tãbé aqui ho gouernador feytoria com fazéda pera 1'e feytorizar, & mais deixou hú loão faleiro pera fazer duas carauelas: & alfi mãdou daqui leuar muyto falitre, enxofre, linho, trigo & arroz. E aqui achou Trilião déga que tinha mandado com embaixada a el rey de Cambaya fobre lhe dar fortaleza em Diu, & vinha coele hú meflejeiro do mefmo rey q deu de fua parte ao gouernador hú caualo muyto grande & fermolc com húas cubertas daceiro, & húa leia do mefmo â fua maneyra & húa adaga de fua peífoa, & pera el rey de Portugal húa douro: & alfi deu húa carta del rey ao gouernador, em que lhe dizia q faria tudo o que ele pedia por feu embaixador como lhe diria MiligupI em fua carta a que fe referia. E MiligupI elcreuia ao gouernador q el rey de Cambaya era con- téte de dar feytoria em Diu, & fortaleza, & que cadãno 1'e gallarião em Cambaya corenta mil quintais de cobre a preço de nouenta xerafins ho bahar, & alfi 1'e gaítarião outras mercadorias de Portugal, & das de Ca- baya darião ao feytor de Diu as q quiíeífe, & q el rey de Cabaya queria mandar a Malaca hú ftãte dos Guzarates, & que pedia leguro pera quan¬ tas naos de Cambaya lâ foflem: & q rogaua muyto ao gouernador que lhe mãdalfe a nao meri. E Trilião dega diífe ao gouernador que achara el rey de Cambaya na raya de feu reyno com hú poderofo campo de gente de pé & de caualo, & q tinha guerra cõ elrey do Mãdo feu vezi- nho, & que quando ho vira lhe fizera muv boõ recebimento, & ho man¬ dara agalalhar muyto bem, fe não que tardara bem tres meles em ho delpachar, dizédo que ele fabia que auia de vir outro governador de Por-
284 Hi/loria da índia tugal, & que ilto fabia certo, porque ho fecretario da índia ho diflera ao feu embaixador que mandara ao gouernador quando viera de Malaca. E fe tão cedo auia de vir outro gouernador, que pera que era fazer nenhú concerto pois o que vieffe ho defmãcharia fe lhe vielfe à võtade: & q def- pois de muyto trabalhofaméte lhe fazer perder ho credito de vir outro gouernador, nã auia remedio pera conceder fortaleza em Diu, fe não fey- toria, & ifto acõfelhado de Meliquiaz, a quem Meligupim lhe difTera que pefaua muyto de fe fazer fortaleza, & q el rey daua fortaleza em Maim, ou em húa ilha que efta no canal de Goga, onde outra vez a daua, mas o gouernador a não quis aceitar, & em Mal diHe Trilião dega que era muyto longe de Cãbaya, & q farião as mercadorias muyto cullo em as leuar 13, & que a ilha não tinha boõ porto pera as noflas naos. E por derradeiro dilíera el rey que ele diria a MiligupI o que efcreueflé ao gouernador, & pois ele efcriuia que el rey daua fortaleza em Diu que afli feria: porem não foy afli fegúdo direy a diante. E cofiado 0 gouernador que feria ver¬ dade, defpachou logo ho meflejeiro del rey de Cambaya, a quê efcreueo muytos agardecimétos da fortaleza em Diu, & que el rey feu fenhor por ho amor, amizade & trato que folgara de ter coele, não mandara núca fazer guerra a fua terra, & fe fuas naos & gente tinhão recebido algú danno, fora por ajudarem feus Imigos, afli como fizerão em Malaca & em Adé. E a MiligupI efcreueo agardecimétos da parte del rey feu fenhor mais miudamete por fazer bé as coulas de feu feruiço, dandolhe muyta efperança de receber por iflò grandes merces, & q diflefle a elrey de C㬠baya q ele tinha corregida a nao Meri pera lha mandar, & que logo lha mandaria: & pera a leuar ficou ho melfejeiro delrey de Cambaya com ho gouernador, & mandou eílas cartas a elrey. Defpachadas eítas coulas em Chaul, partiofe ho gouernador pera a vila de Danda que he de feu fenorio, onde fabia q eltaua metida húa nao de mouros do Cayro, q par¬ tindo de Calicut cÕ outras pera Iudâ arribarão com ho temporal que dilfe â cofta da índia & meteranle por efles portos de Cãbaya ate mõte deli. E ella vila de Danda eítá na cofta ãtre Chaul & Dabul: he muyto viçofa & aballada de mantimétos, & té hú muyto boõ porto em que podé entrar carracas quanto mais naos, tem defronte feys braças da terra firme húa peqna ilha em que os mouros (de que Danda he pouoada) tem húa for¬ taleza do tamanho dos paços de cima de Lisboa: he em fi muyto fermofa com muytos jardins de diuerfos aruoredos & de muytos tanques dagoa que a fazé grãdeméte frefca, & tem ao derredor grandes varzeas que dão muyta forna darroz, & de linho. E efta ilha foy a primeyra coufa que os turcos ganharão quando tomarão a éprefa do reyno de Daqué, & dali ho começarão de conquiftar. E chegado ho gouernador, mãdou dizer
Livro III, Capitolo CXV 285 ao tanadar de Danda que bé fabia. que aqla nao q ali eílaua era de mou¬ ros do Cayro noflos Tmigos que lha deuia détregar como a capitão môr del rey de Portugal, cujo vaífalo era Nizamaluco fenor de Chaul, q també ho era daquela terra: & cõ licença q ho tanadar de Danda mandou pedir a Nizamaluco pera entregar a nao, a entregou aíli cafco como aparelhos & toda fua carga q forão tres mil quintaes de piméta & gingibre. E em quanto ho gouernador ali efteue, andou cofteando aqla ilha de Dada de q tinha noticia, & defejaua de a tomar aos turcos, q fabia q era Ima das boas coufas q auia naqlas partes, & q era abatiméto leu teréna turcos, & fabia q tédoa q ficaua el rey de Portugal fenor de Chaul de todo & de toda fua comarca: & pera fe fofter aqla fortaleza na» erão neceffarios mais de cé homés que a mefrna ilha manteria, & a mais fe mais quiief- fem, & q eftaua perto de Goa: & defpois efcreueo fobrifTo a el rey feu fenor, mas não ouue effevto. E étregue ho gouernador da nao q digo, foube q os mouros leuarão per hú efteiro dali a ctco legoas hús coréta fardos de piméta, mãdou por eles a Iorge dorta, & a Afonfo Anrriquez é dous bateys armados, & os donos da piméta quãdo os virão ir não ou- farão de lhes rififtir, & fugirão deixando a pimenta q eles leuarão ao go¬ uernador, q fe partio logo pera Dabul, õde fabia que eftauão outras naos de mouros da conferua q digo, & mandou as pedir ao tanadar, q refpõ- deo q efcreueria fobriffo ao Hidalcão feu fenor & faria o que lhe mãdaffe. E porq o gouernador vio q auia dauer detéça ate ir recado ao Hidalcão & tornar, não quis elperar, & tãbé não quis tomar as naos por ter paz cõ ho Hidalcão, & delejar dauer dele as tanadarias da terra firme de Goa, & quis ter cõpriméto coele defperar fua repofta. E como digo porq auia dauer niffo dilação, & era neceffario não fe deter, deixou a Lopo vaz de fam Payo na fua nao furta na boca da barra de Dabul cõ regi- méto q não deixaíTe fair as naos nem outras nenhúas ate não ver feu man¬ dado, & mandou ficar coele a Vicente dalbuquerque na nao de Pero dal- buquerque feu primo: & mandãdo dizer ao tanadar que lhe leuafle a Goa a repofta do Hidalcão, fe partio pera lâ.
s86 Hijloria da índia CAPITOLO .CXVI. De como partio de Portugal Ioão de foufa de lima por capitão mòr das uaos de carga, & do que lhe acontecco. NEste anno de mil &Jquinhétos & treze, partio de Portugal por ca¬ pitão môr darmada da índia hú fidalgo chamado Ioão de loufa de lima. E os feus capitães a fora ele forão Anrriq nunez de lião & Frãcifco correa. E partindo de Lisboa a quatorze de Março, forão todos jútos ate ho cabo de^boa efperãça, Õde fe apartarão cada hú por feu cabo cÕ hú grande téporal q lhes deu naqla parajé. E feguldo a capi- tayna fua rota, foy ter fò a Moçãbique a vinte dous de Iunho da era fobredita, q foy a mais breue viajem q ate então fe fizera. E eftãdo ali elperando polas outras naos, chegou Anrriq nunez defpois dele dez ou doze dias: & vendo q não chegaua Francifco correa, não fe quis mais deter, porq tinha detença em Melinde, a cujo rey leuaua hú prefente del rey de Portugal, & cartas pera ho fofter em lua amizade. E partido pera Melinde, chegou lâ é obra doyto dias, & deu ho prelente a el rey, & affi a carta de muytas palauras damizade, q el rey de Melinde muy bé me¬ recia por quão fiel feruidor fora fempre del rey de Portugal, & quão ver- dadeyro amigo dos nofibs,^locorrédolhe íepre é luas neceffidades & aga- ialhando os como a feus vaflalos. E em quãto fe Ioão de foufa aqui detinha, Francifco correa q fe apartou dele cõ ho téporal feguio fua viaje pera Moçãbiq: & cuydando q fazia boa viajem hia por ilfo muyto foberbo, dizédo q metido em húa pipa leuaria húa nao ã índia. E indo affi, foy por fora da ilha de Iam Lourenço fem ho faber: & auendo vifta dela, cuydou q era Moçãbique, & foy a demandar. E chegãdo perto de terra conheceo a ilha, & como labia muyto em vez de tirar caminho da índia, rodeou a ilha pera ir a Moçãbique. E leuãdo elta rota defpois de rodear a ilha q hia bé épegado, foyiter âs ilhas de fam Lazaro: & indo por elas, começou daparecer hú fogo em terra, & algús dos noííos atétarão parele, dizédo q parecia final que lhe fazião. E ho piloto difle q não era nada, q não auia ali de que fazer final, & fem lançar prumo pera faber q fundo auia por ali, indo quali onde parecera o fogo (q auia húa hora q vião) fupitaméte foy dar a nao em hú parcel onde aífentou na area & abrio, & por fer a agoa baixa fe poderão os nolfos faluar no batel & no efquife da nao, a q fizerão arrobadas, & metédo ho mãtimento q poderão & ho cofre del rey fe partirão pera Mellde, Õde chegarão quafi mortos cõ fome & cõ medo de fe perderé no mar. E chegados a Melinde, remedeou os
Livro III, Capitolo CXVII 2g7 ho capitão môr cÕ foldo q lhes pagou dos cofres del rey. E vindo húa vez de terra Anrriq nunez de lião & Francifco correa pera as naos, fazia ho mar tamanho efcarceo cõ ho vento grãde q vétaua q çoçobrou ho efquife em q hião, & afougoufe Francifco correa cõ outros algús, & Anr¬ riq nunez efcapou ás cortas de hú marinheiro q ho faluou: & defpois difto partiofe loã de foufa pera a índia & coele Anrrique nunez, & chegarão a Goa quando ho gouernador eftaua no porto de Diu q vinha Dadê. O q fabido por Ioão de foufa, partiofe pera CochI, pera ele & Anrique Nu¬ nez defcarregaré a carga q as naos leuauão & carregarê defpeciaria. CAPITOLO .CXVII. De como ho gouernador onue as Jeys naos de mouros q arribarão á cojla da índia. CHegado ho gouernador a Goa, achou hi hú prefente dhús panos ricos da Perfia q fe chamão camarabãdos, q fã douro & feda, & hú anel dhú diamão de preço. E ifto lhe mãdou hú êbaixador do Xequifmael, q ele mãdara a el rey de Daquê & ao Hidalcão cõ grades & ricos prefentes, pera q tomaífê as fuas carapuças & os liuros da fua feita q eles não quiferão tomar. E efte êbaixador pola fama q achou do gouernador, & pola q auia dele no cãpo do Xequifmael, defejou de ter coele amizade & conhecimêto, & por iflo lhe mãdou aquele prefente, & não achando o q ho leuou ao gouernador, o deixou cõ recado parele q como chegaffe ho iria ho embaixador vifitar & tornoufe parele. Arti tam¬ bém achou ho gouernador em Goa hú judeu Português morador em Ieru- falem, que lhe deu da parte do goardião de fam Francifco de Ierufalé húas cõtas tocadas em muytas relíquias, & húa cãpainha da capela de norta fenora do mefrno morteiro com q tangião â milTa, & por ferê aqlas duas peças de muyta eftima lhas mãdaua. E efte judeu diffe ao gouerna- der q ho goardião ficaua no cayro, onde fora a chamado do Soldão, & arti achou húa carta do Hidalcão q lhe mandou por hú Bramene fendo ele ao mar roxo, & hú diamão rico & tres turquefas, & dizia na carta q mandafle hum homem de pefo pera fe acabar a paz q eftaua começada, porq Diogo fernãdez que là fora não leuaua mais poder q pera pedir as terras de Goa: õde eftãdo ho gouernador lhe fov dada outra carta do hidalcão, em q lhe pedia muyto q lhe quifeffe alargar as duas naos q efta- uão c Dabul, arti por ferem de mouros feus amigos, como por fe lhe fazer naquilo hÕrra muyto grande, pois fendo os mouros noffos Tmigos, valia ele tanto por amigo del rey de Portugal que elcapauão em feu porto. Ao
Hifioria da índia 288 q ho gouernador relpondeo que bem fabia de quanto os fenhores fentião fazeré os vaífalos coufas contra feu regimento. E que ele era valfalo del rey de Portugal & feu gouernador, & que no regimento que tinha nenhúa coufa lhe era tão encomédada como a deftruyção dos mouros principal- mente dos q quifelfem guerra coele, & os de Calicut (q erão os por que lhe rogaua) a quiferão lempre com os noffos, & â treyção matarão muy- tos deles em tempo de Pedraluarez, & por iffo não podia fazer o que lhe rogaua, & mais que oulhaífe ele fem paixão, q fe tendo a mefma caula que el rey leu lenhor tinha, hú feu capitão fizeífe o que lhe eie rogaua quanto folgaria coiffo, & que pena lhe daria fe ho fizeffe, & por hi veria fe era rezão que fizeífe o que lhe rogaua. E vifta polo Hidalcão efta re- pofta do gouernador, ouuefTe por fatisfeyto, porem quis que pois ho não fazia por feu rogo que ho fizeífe por juftiça, dizendo q aquelas naos por dereyto erão luas, & que forão â cofta com tépo, & pois eftaua ifto claro que como lhas queria tomar. Ao q ho gouernador relpondeo q ir â cofia fe chamaua quando húa nao fe fazia em pedaços, ou abria & 1'e perdia a mercadoria, mas que as naos eftauão faãs & com toda lua carrega, & que entrarão é feu porto como entrauão outras naos, & por ifib não erão fuas, q os dereytos da mercadoria bem os podia leuar como fenor do porto, porem que as naos & efpeciaria erão de nollos immigos. E pois ele defejaua a amizade del rey feu fenhor & lua, não deuia de receber feus immigos no feu porto. E vedo ho Hidalcão que nem por ali ho po¬ dia leuar, cometeolhe que fizeífe algú partido com os mouros, porque não ficalfé de todo deftruydos, & que nifto receberia muyto boa obra. E porq não pareceífe ao Hidalcão q ho gouernador chegaua ao cabo coele, & porque fazia ho proueito del rey feu lenor cõ fazer prazer ao Hidal¬ cão, fez concerto cõ os donos das naos que lhe deffem ametade da efpe¬ ciaria de graça, & a outra lhes pagaria com mercadorias. E efiando pera acabar efte cõcerto, veo ter à barra de Dabul húa nao de mouros de Ma- gadaxó, que auendo vifta dos noífos porq nã podião fugir encalharã cõ a nao em terra, pera õde logo fugirão, & Lopo vaz tomou a nao q achou carregada de cera & de marfim, cõ que pagou ametade da efpeciaria que auia de pagar aos mouros com mercadorias. E defta maneyra ouue de graça toda a efpeciaria, que foy tanta que a carregou na fua nao, & na em que eftaua Vicête dalbuquerque & fovle a Goa, onde ho gouernador fez ho mefmo partido q fizera com os mouros que eftauão em Dabul, com outros de Calicut que eftauão em C-angicar, por ler também porto do Hidalcão, & ifto fem lhe ele falar niífo pera ho obrigar. E em goarda defta nao de Cãgicar eftaua Antonio nogueira capitão de húa nao. E labédo ho gouernador q eftaua outra em Baticalá, mandou laa Antonio
Livro III, Capitolo CXVIII 289 rapofo com recado a DamechatI gouernador por el rey de Naríinga, que com medo do gouernador a entregou logo, & outro tanto fe fez em Man- galor, õde també arribara outra nao de Calicut, & foy là Fernão gomez de lemos. Afli que das feys naos que partirão pera Iudâ como difle ne- nhúa não paffou de çacotorâ, é cuja parajem lhes deu a tormenta com q arribarão à corta da índia, & todas forão tomadas & defcarregadas pera fe carregarem as naos que auião dir aquele anno pera Portugal, faluo duas q ho gouernador deu a el rey de Calicut que lhas mandou pedir, dizendo que erão fuas, & ifto quando lhe pedio paz & lhe deu fortaleza em Calicut. CAPITOLO .CXVIII. De como el rey de Narfinga mãdou hua embaixada ao gouernador fobre os caualos de Goa. Eeftando ho gouernador em Goa, chegou hú embaixador del rey de Narfinga, q lhe trazia fua embaixada lobre fazer paz & amizade com el rey de Portugal, cÕ determinação de fazer guerra ao Hi- dalcão, & a outros fenhores do reyno de Daqué: & alli que ho gouerna¬ dor deixaffe ir aos feus portos que tinha naquela corta os caualos Dara- bia & da Perfia q auião de ir a Goa. E a primeyra vez q ho ébaixador foy ver ho gouernador, lhe deu húas manilhas douro & pedraria, & alli algús aneys & outras joyas ricas, & panos de Bifnegar que lhe el rey de Narfinga mandaua de prefente, & a pos ifto lhe propos fua embaixada. E como ho gouernador defejaua muyto q el rey de Narfinga fizeffe guerra ao Hidalcão pera que fe fayfem os turcos do reyno de Daquem: ho pri- meyro põto da ébaixada fobre que praticou foy effe, perfuadindo com muytas rezões ao embaixador por Õde el rey de Narfinga deuia de fazer efta guerra, a que lhe ajudaria com todo ho poder del rey feu fenhor, & mais tolheria q não vieffe mais gente branca ao Hidalcão do eftreyto. O que pareceo bem ao embaixador, & lhe affirmou q el rey de Narfinga eftaua muyto abalado pera fazer efta guerra, & mais fe foliem os caualos a feus portos como pedia. Ao q ho gouernador refpõdeo que antes ele daria os caualos a el rey de Narfinga que ao Hidalcão, mas deixalos ir a feus portos, pola perda que el rey feu fenor perderia na renda dos de- reitos que tinha deles. Que darlhe os caualos ãtes q ao Hidalcão enté- diafe comprandolhe ele os dereytos, ou fazendo a iflo hú partido que forte boõ pera ambos, & com condição que ele teuefle com el rey feu fenor verdadeira paz & amizade. E ho embaixador difle que não trazia comif- fam pera ho cõcerto dos caualos: porem ho gouernador entendeo nele Tomo II 37
Hijloria da índia 2Ç0 outra coufa, & por iílo falou em al, o q logo fe pareceo porque dali a dous dias ho ébaixador tornou ao gouernador, & diflelhe que pofto que não trazia comiíTam del rey de Narlinga pera fazer partido coele fobre os caualos, que lhe daria polos dereytos de mil caualos feífenta mil par- daos, mas que os mercadores q os trazião os não auião de veder fe não a el rey de Narfinga, & que lhe auia de dar húa fufta das noflas q foffe em fua goarda ate Honor. E que el rey de Narfinga quando mandafle a Goa por eftes caualos, mandaria todas as mercadorias que foyão dir ao porto de Baticalà, & que as daria pelo preço q lâ valião. E ho gouerna¬ dor não quis, & pedia cem mil pardaos, & mais que auião os mercado¬ res de vender os caualos a quem quilelTem, porque nã fe fazendo affi efte partido,- elrey leu feiior perdia muyto nos dereytos dos caualos, & mais desfaziafle ho porto de Goa, q coeftes caualos ficaua dos melhores da índia, & mais affentãdofe Ormuz como ele efperaua em noffo fenhor, & el rey de Portugal quifefle que os caualos foliem a Goa & não a outro nenhú porto (o que podia tolher com a armada q trazia) fem nenhú ca¬ bedal podia ganhar tanto como na mina. E por iffo por mais que ho em¬ baixador apertou fobre ho gouernador afientar no partido dos feífenta mil pardaos nuca quis, & defpedioho com hú prefente pera el rey de Narfinga em nome del rey feu fenhor, & forão dous caualos Arábios de preço de fetecentos pardaos cada hú, & vintoyto couados de veludo preto & trlta de damafco, & feys barretes vermelhos. E primeyro q fe foífe, lhe mãdou o gouernador moítrar as eífrebarias & caualos que el rey feu fenhor tinha em Goa, & os alifantes: & affi as galés que mandaua fazer. CAPITOLO .CXIX. De como faleceo el rey de Calicut, & lhe fucedeo Nambeadarim feu irmão. SAbendo ho gouernador que não ouuera effeyto a fortaleza que dei¬ xara allentado que 1'e fizelfe em Calicut, & a caufa porque, como foy é Goa defpedio do Garcia de noronha q fe fofle a Calicut, & tornalle a reformar a paz que aflentara com Nambeadarim, q tinha pera ilfo comiflam del rey de Calicut, & que pediffe a fortaleza no lugar em q lha dãtes dauão, & dandolha começaíle logo de a edificar. E partido dom Garcia de Goa, foy ter a Cananor, onde foube as reuoltas que forão fobre a prilam de Pocaracé quãdo ho gouernador era ao mar roxo. E achou Pocaracem vfurpado de fua fazenda que lhe ho noífo feytor tomara por confentiméto del rey de Cananor que fauorecia contrele ho goazil q
Livro 111, Capitolo CX1X zgi era íeu Imigo por ele íer muyto amigo do feruiço del rey de Portugal: o que labédo dom Garcia ho fauoreceo, & difielhe que fe não agaíladé pelo que lhe fora feyto & pola perda q recebera, porq ho gouernador lhe faria juítiça & JJie fatisfaria fua perda, & leuouho cõfigo pera lhe ajudar no ne¬ gocio de Calicut, por quato era conhecido do çamorim & de Nambeada- rim & tinha credito coeles. E chegando ele a Calicut, foube que el rey de Calicut era falecido, & focederalhe Nambeadarim feu irmão q ãdaua occupado em adernar coufas do revno pelo que não podia entender no negocio a que dom Garcia hia, & por ilío ele fe ouue dir pera Cochim a fazer a carrega das naos que auião de partir aquele anno pera Portu¬ gal, & deixou Pocaracé em Calicut pera que quãdo vide tempo confelhaffe a el rey de Calicut, que pois ele fendo príncipe procurara tanto que el rey feu irmão fizede paz com elrev de Portugal & lhe dede fortaleza em Calicut, que agora q era rey ho fizede pois podia. E chegando dom Gar¬ cia a Cochim, foube como a el rey de Cochim lhe pefaua muvto da paz cõ el rey de Calicut, & muyto mais del rey de Portugal ter fortaleza na cidade, porque tendoha temia que tornade Calicut a fua prolperidade, & q fe desfaria ho porto de Cochim & ele perderia muyto de luas rendas, & tornaria a fer tão pouca coufa como dãtes. E adi foube q ele & elrey de Cananor, a quê pefaua também deita paz, cofelhauão fecretaméte a el rey de Calicut que não fizede a paz, nem dede fortaleza, & que fe qui- fede profeguir a guerra de feu antecelfor contra os nodos, q eles ho aju- darião com toda a defpefa q lhe fofie necedaria pera a guerra. E afii també foube que el rey de Cochim tinha muyto grande pefar de fe tomar Goa & fofterfe, que recebia nido grãde perda: porque não auendo hi Goa auião os da noffa armada inuernãdo na índia dinuernar em Cochim, & hi fe auia de reformar a armada, & pera ifto acodião muytos manti- métos a CochI, de cujos dereytos ele leuaua tres mil cruzados, a fora outras coufas em que ficaua muyto dinheiro dos nodos com que Cochim fe fazia muy rica, o q não auia de fer inuernãdo os noífos é Goa. E foy certo que el rey de Cochim induzido de Antonio real & de Lourenço mo¬ reno q querião mal ao gouernador efcreueo a el rey de Portugal muytos males de fe fofter Goa como lhe eles també efcreuerão, principalméte Antonio real em que el rey tinha muyto credito, por fe lhe ele moítrar em fuas cartas muyto dorido de fua fazenda & grande aproueitador dela. E aos capitães & homés que lhe parecia que auião de falar cõ el rey, modraualhe em Cochim as boas obras q ho gouernador mandaua fazer, & dizialhes que didedem a el rey que ele as fazia, & as q ele fazia que não erão boas, dizia q ho gouernador as mãdaua fazer: & coiíto fazia com el rey de Cochim que nas cartas que efcreuia a el rey que ho abo-
Hijloria da índia 2(j 2 nafle, dizendo quanto fe doya de fua fazéda & quãto aproueitaua fendo tudo ao contrairo. E em tãto ho abonaua el rey de CochI que efcreueo a cl rey, q quãdo ho principe herdeiro de Cochim quiiera tomar ho reyno q lhe refiftio Gõçalo de fiqueyra & os outros capitães como ja difTe, q Antonio real & Louréço moreno forão os q ho fofteuerão em feu eílado, o que fe foube pola repofta q el rey de Portugal efcreueo a efta carta q ho gouernador vio. E por eítas cartas taes q el rey de Cochim efcreuia a el rey de Portugal, & affi Antonio real, Lourenço moreno & Gafpar pereyra, mãdaua ele naquela armada q pofefTe ho gouernador em conle- lho com os fidalgos & capitães da índia, fe era bé fofterfe Goa ou não, & que lhe mandafle o gouernador os pareceres de todos, pera fazer o que foífe mais feu feruiço. E ifto cÕ outras coufas, mandou a Gafpar pe¬ reyra q ho diflefle ao gouernador, a quê Gafpar pereyra queria mal como diife, & por iífo fendolhe dadas eítas lembranças é Cochim, começou logo de dizer pubricamente que el rey lhe mandaua que foffe ver Goa, & que fe lhe parecelfe que não era pera fe foíter que a mandafle derribar: & mais que mandaua que fe não fizefle paz cõ el rey de Calicut antes ho deftruyfem: & ifto tudo por lhe parecer q dãnaua ho gouernador, & lhe fazia perder ho credito com a gente. CAPITOLO .CXX. Do q ho gouernador fe\ em Cananór. DEspachadas pelo gouernador em Goa as coufas que tinhão diflo necelfidade, partiofe pera Cochim. E eftando na barra de Goa ãtes de fua partida forão hi ter coele Femão perez dãdrade & outros fidalgos que ho hião ver, & pedirlhe licença pera fe irem aquele anno pera Portugal: & Fernão perez lhe deu cõta de como fora desbara¬ tada a grande frota de Patehonuz, & da dilpofição em que deixara Ma- laca. E feguindo daqui fua rota foy ter a Cananor, onde foy neceífario deterfe pera tornar a foldar muytas coufas que fe fizerão contra ho fer¬ uiço del rey feu fenhor em quanto ele foy ao mar roxo, affi como não de- liítir Mamele do titulo de rey das ilhas de Maldiua, & mãdar fazer guerra ao rey da ilha de Candaluz, & em fe tornar a Cananor ho goazil que ele tinha feyto cõ el rey que ho lançafle fora por fer immigo do feruiço del rey feu fenor, & querer grãde mal aos noflos, & também porque foube a morte do çamorim & da fuceflam de Nambeadarim no reyno de Cali¬ cut. E eftando aqui foube que era feyta húa conjuração antre Antonio real, Louréço moreno, Diogo pereyra de CochI, ho vigayro geral, & Gaf-
Livro III, Capitolo CXX 2Q3 par pereyra pera tratarem todos com a fazenda del rey feu fenhor & ga¬ nharem coela quãto podeflem, & afli ho fazião que aquele anno compra¬ rão oytocentos quintais de calaim & obrigarãfe a pagalo em pimenta a leus donos, & Antonio real compraua foldos aos noflos a cincoéta por cento & pagaualho em cobre, que lhe tornaua logo a comprar por muyto menos do que valião. E deita maneyra todos os portos da colta da índia erão cheos de cobre, & afli de muyta piméta que vendião aos mouros, o que era muyto defefo por el rey de Portugal. E afli Antonio real & Lou- renço moreno fazião que dauão ho cobre dante mão aos vendedores da pimenta pera a feytoria: & Diogo pereyra hiafe á ferra com dinheiro feu & compraua a piméta muyto barata, & na feytoria védia a polo preço que valia nela. E afli fazião outras muytas coufas cõtra ho regiméto del rey de Portugal é muyto feu deferuiço & deftruyção de fua fazéda. O que fabido pelo gouernador, deftruyo efta cõpanhia, & de Cananor mã- dou que ho vigayro geral fe fofle aquele anno pera Portugal, pera onde também ouuera de madar Antonio real fe não foubera que fe queria ir, & a Diogo pereyra madoulhe q não efteuefle mais em Cochim & fe fofle logo pera Goa, indo primeyro a Cananor pera fe ver coele, & mãdou chamar Gafpar pereyra pera ho trazer cõfigo pois era fecretario. E fe lhe não fora por dar defauiamento á carrega das naos de Portugal, ou¬ uera de priuar do officio de feytor a Lourenço moreno & mandalo pera lâ: & ifto fem nenhú deles faber a caufa porque, nem ho gouernador quis que a foubeflem porque os não auia de caftigar como merecião, por ho grande credito que tinhão com el rey feu fenhor, em tanto q os ifen- taua dele, & lhe mãdaua que não entendeffe miudamente em fua fazenda. E chegado Gafpar pereyra a Cananor como fe vio com ho gouernador, que foy na camara da fua nao, diflelhe das lembranças que el rey de Portugal mandaua que lhe fizefle, dizendo q não ouuefle por mal fazerlhe fua alteza aquela honrra & merce, & confiar aquilo dele, porque ho man¬ dara â índia com grandes carregos. E ho gouernador porq ho conhecia, & fabia que el rey não mandaua aquelas lembranças fe não por fua en- forrnação & dos outros q diífe, riofe do q lhe dizia, & diflelhe que ele não fe elcãdalizaua de lhe S. A. mãdar q fofle feu lébrador das coufas que comprião a feu feruiço, antes lhe fazia niífo a mayor merce do mundo, porque como ele era homé não podia acertar é tudo, & mãdou- lhe que lhe moftrafle as lébranças, que forão eftas. Que polefle em pratica com os capitães & fidalgos dà índia fe lhes parecia bem fofterle Goa, & lhe mãdafle feus pareceres. Que não fe tomafle nenhúa nao Dormuz, por quanto el rey pagaua pareas & era feu vaflalo.
Hi/loria da índia 2Q4 Que íe não occupaffem as naos da carga em coufa que lhes defuialfe não partirem a tempo, & que fe corregeífem com tempo pera fe não di¬ latar lua partida. Que dali por diante fe não deflem quintaladas fe não aos capitães, porq dantes dauanfe a outros officiaes. Que em nenhú lugar da índia fe não deíTem cafamentos a nenhum dos noífos que cafaffem neles. Que fe tiraflem os acrecentamentos dos foldos que dera ho vifo rey. Que fe fizeíTe paz com el rey de Cambava. Que fe cometeffe a Meliquiaz que deffe fortaleza em Diu, & q el rey ho faria fenhor de Diu. Que Timoja foffe recolhido pelo gouernador, & muyto bé tratado. Que não leuaífem os meyrinhos das fortalezas nenhúas penas. Que fe fizeffe paz com Malaca & ouueífe laa fevtoria. Que fe tomaffe Adem. Que fe aproueitaífe bem a fazenda de lua alteza. Que mãdaffe infinar dos efcrauos del rey a calafates, pedreiros, car¬ pinteiros & a outros oflicios machanicos de edificar. Que fe tomaífe alfento de paz com Calicut. Que fe fauoreceffe el rey de CochI contra el rey de Calicut. Que fe mandaffe Gõçalo fernãdez pera Portugal. Que fe prendeífe Fernão caldeira paje q fora do gouernador, & affi hú Nuno vaz, & que os mandaffe prefos pera Portugal, & que fe man- daffe pera laa Ioão ferrão que el rey cuydaua q eítaua ainda na índia. Que fe alfentalTe paz com toda a cofta do Malabar. Que fe bufcaífe algúa maneyra pera não auer tantaj defpefas na ri¬ beira de Cochim. Que lhe mandaffe certas joyas. Que fe proueífe el rey de Cananor de coufas de que fe agrauaua. Que lhe mandaffe os quadrilheiros & efcriuães que achara culpados em furtos. Que lhe mandafTe algús frades da terra do Prefte fe os ouueífe na índia. Que lhe mandaffe dizer porque fizera Antonio real a nao noua é CochI. Que fe fauoreceffe elrey Donor cõtra Merlao leu irmão. Que entendelfe em certas culpas q fe punhão a Diogo pereyra de CochI. Ouuidas eftas lembranças polo gouernador, diffe a Gafpar pereyra que bem fabia ele que as mais daquelas lébranças não auia necelfidade
Livro III, Capitolo CXXI sgS de lhas fazerem, porque as que podião auer effeyto ele teuera cuydado de as poer em obra: & quãto a Goa ele a tomara com parecer de todos os fidalgos & capitães da índia, que ho derão em quatro cofelhos que teuera fobriffo, & q ho tornaria a tomar fobre< o que el rey feu fenhor mandaua aos que eftauão em Cananor por fua pefloa, & aos q eftauão aufentes lho mandaria pedir por efcrito, & que ele faria as inftruções & cartas pera ver como fazia o que el rey feu fenhor mãdaua: & afli foy feyto. E quãto aos fidalgos & capitães que eftauao em Cananor, ho go- uernador os ajútou em confelho, & diffelhes eftando Gafpar pereyra pre- fente. CAPITOLO .CXXI. Do que fe determinou em confelho acerca do que el rey de Portugal queria faber de Goa. QLte a el rey feu fenhor fora efcripto da índia q recebia grande deferuiço em fe fofter Goa, afli pelas grandes defpefas que erão feytas nela, como por outras que parecia que fe auião de fazer de necefiidade, & por ler a terra muyto doetia, & morrer nela muyta gente, como porque ho Hidalcão & afli os rumes auião de trabalhar pola ganhar, & pera iflò lhe auião de fazer guerra cotinuamente: & que as rendas de que 1'e fazia fundaméto que S. A. teria nela como tinha do çabayo, era impofliuel podela ter, porq ho çabayo a tinha a poder de muyta géte de foldo q trazia na terra firme, q fua alteza não podia trazer. E tambe lhe fora efcripto da índia que Goa he porto principal pera íe meterem nele rumes vindo â índia, como eftauão metidos nele quando ho gouernador foy fobrela a primeyra vez que fe lhe deu, & que era muyto grãde incõueniente pera feu feruiço deixala, afli por iflò como por eftar tão perto de Cananor & de Cochim, cujas fortalezas podião receber dela grãde dãno fe fofie dlmigos, & mais por a ilha fer muyto fértil & poder manter quanta gente efteuefle nela, & fer abaftada de madeira & officiaes pera corregimeto das naos, & afli materiaes pera todas as mu¬ nições de guerra q fofie neceflarias. E mais lhe fora efcripto que ho Hidalcão folgaria de fazer qualquer boõ partido com ficar feu tributário, & q ficafle na ilha fua fortaleza forte & fegura pera fe defender, afli dos Imigos de fora, como dos da terra, com tanto que a ilha ficafle por fua. Propofto ifto aos capitães & fidal¬ gos que eftauão jútos, derão todos feus pareceres, & concluyrão todos que Goa fe deuia de fofter por eftas rezões. Porq el rey pera fofter as fortalezas da índia, & lhe auerem medo
2ÇÔ Hiftoria da índia os mouros dela & do mar roxo, & crerem que fazia fundamento de as fofter, era neceflario ter na índia hú corpo de gente em terra, afli pera fe tirar dos grandes gaftos que lhe fazia a armada q trazia, como pera dali acodir âs fortalezas fe teueífem neceífidade, porque trazer lomente armada a fora o que gaftaua, andaua auenturada a perderfe cõ húa tor- uoada que fobreuieífe, & parecia q não fazia fundamento da índia né de fofter as fortalezas que tinha nela, porque perdida a armada ficauão elas perdidas por não terem gente que as defédefle, e auendo hú corpo de gete em lugar forte, pofto que fe perdeffe a armada ficaua cabedal com que fe podeffe reftaurar, & cõ que fe defendeffem as fortalezas. E ho lugar pera eftar efte corpo não fe podia achar de Diu ate Ceylão mais conueniente que Goa, afli por leu boÕ porto como pola fertilidade da ilha, & pola abaftança que tinha de carnes, pefcados, trigo, arroz & doutros mantimentos, alli de lua colheita como das quatro ilhas de leu fenhorio, & doutras terras comarcãs, & fer muyto fadia, afli de agoas como de âres: & fe os noffos forão doentes fora com ho trabalho quando fizerão a fortaleza, & q ho fitio da ilha era muyto forte, & afli ho da fortaleza, porq não tinha combate fe não pela banda da vila velha que era a quarta parte. E da bãda do mar tinha as tres, & que não era trabalhofa coufa fofterfe, porque fempre fe fofteuera por muyto tépo a todo ho poder de gente q ho Hidalcão mãdara fobrela, de que fora morta muyta & dos noffos nenhús, & ja eftaua deíêganado de a poder tomar, & por ifib co¬ metia paz. E fegundo a experiencia que tinhão da guerra paliada, & cõ as fortalezas que Goa tinha nos pados abaftarião quatrocétos homes pera a defender a todo ho poder do mundo fem nenhúa oppreffam, & leuado cada hú deftes feyfcétos rs de foldo cada mes, & hú cruzado de manti¬ mento, faziao de gafto por anno doze mil cruzados, que fe pagarião do que Goa rédia, porque as quatro ilhas eftauão arredadas por treze mil pardaos fegundo ho gouernador moftrou por carta de Frãcifco coruinel feytor de Goa q lhefcreuera então: & em quãto fora ao mar roxo rende¬ rão os dereytos dos caualos cinco mal pardaos a fora os doutras merca¬ dorias, q forão dous mil & nouecétos, q erão vinte hú mil por todos no q elrey não punha nada de fua cafa: & mais q aqueles homés auião de fazer ho mefmo gafto, afli como afli eftando em outra parte da índia, & fem fazerem ho proueito q ali fazião, porque os q eftauão nas fortale¬ zas de CochI & de Cananor, não fazião mais q goardar o q lhe metião détro: e os de goa não fométe ho goardauão, mas fe elrey ali quifefle ter mais gente, poderia comer as rêdas das tanadarias de Cafte, Antruz & bardes, q fam na terra firme, que cõ as rendas de Goa, erão perto de dOzetos mil pardaos, cõ que fe podiã pagar todos os noffos q efteueflem
Livro III, Capitolo CXXII 297 em Goa, & fobejaria dinheiro, & el rey feria temido: & creria os mouros q fazia fundamento de ganhar a índia, & lio Soldão perderia a efperança que tinha de mandar armada pera lançar os noffos fora delia, porq das quatro cabeças (que erã elle, el rey de Cãbaya, elrey de Calicut & ho hidalcão) que determinauão de fe fazeré em hú corpo pera lançaré os noffos fora da Índia, ho hidalcão era a principal, & por fer fenhor de Goa, de que fe fazia todo fundamento, affi pera a frota como pera fe ajuntar gete por fua abaftança, & eftar em paraje, por õde de necellidade auiao de nauegar todas as naos da índia pera qualquer parte, & dali fazião conta de faltear com fua armada, affi as noffas q foffem de Portu¬ gal & a noffa armada da índia, & as naos de noffos amigos q por ali auião de paffar. E pois noffo fenhor dera a el rey húa coula tão boa & tão principal na índia como era Goa, & de q os immigos fazião tãto fun- daméto pera lhes fazer mal, q el rey a deuia de fofter pera lho fazer a eles, & mais pois era fua fé meftura de ninguém, como as fortalezas de Cochim & de Cananor, & feus vaffalos, & dali podia fenorear lem cõtra- dição ate Chaul, & ate Cintâcora, & lançar'fora do reyno de Daquem os turcos que ho fenhoreauão, q erão mais pera temer por eftarem na índia q os rumes que vinhão por mar & erão eftranjeiros. E por todas eftas rezões fe deuia de fofter Goa, & não alargarfe nem ao Hidalcão cõ fer tributário del rey & ficar fortaleza noffa na ilha. Tomada efta cõclufam, que fe affinou por todos os capitães & fidalgos, mandou ho gouernador fazer tres vias dela pera a mandar a el rey feu fenhor, como mandou por tres capitães que hião naquele anno pera Portugal .f. Ioão de foufa lima, dom Ioão de lima & Antonio dabreu. CAPITOLO .CXXII. De como ho gouernador affentou pa\ com el rey de Calicut, & de como fe começou de edificar a fortaleza. IA dantes difto ho gouernador tinha mandado falar a el rey de Calicut polo goazil q fora de Cananor, & por Pocaracem que acabaffem de fazer a paz que ficara começada com feu anteceffor, pedindolhe que pois fendo ele principe procurara tanto de a fazer, que a fizeffe agora que era rey. E ele bem defejaua de a fazer, mas tinha muytos que lhe contrariauão que a não fizeffe, não digo ainda de Calicut nem de feu reyno, mas de fora: & eftes erão os reys de CochI & de Cananor polas caufas que ja diffe. E todauia defpois que Galpar perevra foy fora de Cochim, que não matinou a el rey de Cochim que lhe pefaffe defta paz: 38 Tomo II
2g8 Hijloria da índia dom Garcia que ho perfuadia a lhe não pefar, ho achou mais obediente aa rezão que dantes, & afli ho efcreueo ao gouernador, que reprédeo Gafpar pereyra na camara da fua nao. E pera lhe moftrar quão mal fazião, ele & outros que prouocauão a el rey de Cochim que lhe pefaíle da paz com el rey de Calicut, moftroulhe hú capitulo de feu regimento, em que Uie el rey feu fenhor mandaua, que dandolhe el rey de Calicut fortaleza fizefie paz coele: & deulhe juramento que nã difiefle a ninguém daquele capitulo, porque el rey de Cochim não teueffe achaq de fe agra- uar del rey feu fenor, como tinha pera fe agrauar dele por a paz que fazia com el rey de Calicut, a quem ho gouernador foy falar duas vezes fobrefta paz fazendolhe grandes abaftanças de coufas que lhe el rey feu fenor faria fe deffe fortaleza & outras coufas q lhe pedia, q el rey de Co- chl, & el rey de Cananor, & algús dos noflos lhe fazião entéder que erão falias, que ho gouernador lhas prometia porque lhe deffe fortaleza, & def- pois de a fazer as não auia de comprir, porque auia de vir outro gouer¬ nador. E a fora el rey de feu natural fer boõ & fiel, & inclinado a toda virtude, prouocaranno muyto a não crer eftas coufas a raynha, que era a fua molher principal, & também húa fua irmaã delle: & não fomente não quis crer o que lhe elas dizião, mas ainda por lhe algús mouros de Cali¬ cut contrariarem que não fizeffe efla paz, os lançou fora da cidade & os não cõlentio nela, não eftimãdo os dereytos que lhe pagauão de fuas mer¬ cadorias, que erão muvtos, & a algús fenhores feus vaffalos que erão da mefma openião, rcfpõdeo que ele queria reftaurar Calicut a feu eftado primeyro, & não acabalo de deftruyr como feu irmão começara em ter guerra cõ os noflos, & iflo não fe podia fazer fe não por paz, & por ilfo a fazia, & não deixaria de a fazer pofto que lhe cuftaffe do feu: & afli ho fez, que deu fortaleza ao gouernador da fegunda vez que foy a Calicut no lugar em que ele quis, & que teueffe elrey hi feytoria, onde lhe daria pimenta quanta quifefle a troco de mercadorias que foy coufa que fe nunca vio na índia, & que ho gingibre fe compraffe na praça ao preço da terra, porq não ouuefle niflo nenhum égano, & que pagafle a valia da fazenda que fe tomara em tempo de Pedraluarez, & pagafle de tributo cadanno ametade da renda dos feguros das naos, de que cõ a paz auião dir ao porto de Calicut grande forna delas, & por iflo também a renda dos de¬ reytos auia de fer muyta. E a fora efta fortaleza de Calicut fegurar muyto ho eftado da índia a elrey de Portugal por Calicut fer húa das quatro cabeças da Índia que fazião conjuração pera deitare os noflos fora dela, com que ho Soldão que era a quarta ficaua de todo defefperado diflb, forraua el rey de Portugal ho gafto do caftelo de cima de Cochim que não foftinha 1'e não por amor da guerra de Calicut, & cento & cincoenta
Livro III, Capitolo CXXII 299 mil rs que daua cadanno ao fenhor de Repelim porque não ajudaffe a el rey de Calicut, & deixaffe vir de fua terra pimenta a Cochim, & tença que pagaua a Candagorâ, & a outros efcriuães gentios por negociarem a pimenta, & mais com a fortaleza & feytoria de Calicut, fe podia elcu- far ho gaito da feytoria de Cananor que era fem nenhum proueito: & também darfe eíta fortaleza foy hum grande açoute pera os mouros, & defefperarem de os noffos poderem fayr nunca da índia, a fora os que tinhão recebidos com a entrada do gouernador no mar roxo por laberem que não podião nauegar por ele feguros. E com a entrçga das naos dos mouros do Cayro que fe fez em Danda, Dabul, Cintâcora, Baticalâ, & Mang-alor, que virão que era de puro medo dos noffos que fe tinhão por tão arreygados na índia & tão poderofos nela, que conuinha aos revs & fenhores dela fazerlhe a vontade pera que os não deltruylíem: & por iíto que el rey de Calicut fabia folgou de dar fortaleza ao gouernador. E el rey de Cananor poíto que da primeyra lhe pefaua coefta paz & a eitor- uaua, por derradeyro lhe pareceo bem, & entrou nela pera a ter com el rey de Calicut, & mandou por leu embaixador aconfelhar a el rey de Cochim que fizeífe outro tanto, & deixaffe a guerra pois ho çamorim era morto. E affentada eíta paz de tanta honrra & proueito pera el rey de Por¬ tugal, começoufe a fortaleza de edificar perto do çarame del rey na ri- beyra do mar no poufo das naos de Calicut, & remanfo do arrecife, que lhe podião focorrer por mar fem trabalho. Era meítre da obra Thomaz fernandez, que ho foy das outras fortalezas: goarda delia, & dos nolVos Francifco nogueyra, a que ho gouernador prometeo que feyta a torre da menajem & a porta çarrada, fe chamaífe capitão dela. Feytor & pagador das obras hú Gonçalo mendez, & feu efcriuão Iohão Serrão. El rey de Calicut deu muyto grande ajuda nelta fortaleza, aili com muytos pedrey- ros, carpinteiros, como com muyta gente de trabalho, & aífi com grande forna de cal, & de pedra, & abaítança doutros materiaes neceífarios, moítrãdo fempre muyto boa võtade a efta obra: & fauorecendo os noffos com amor, & mandando aos feus que lhe fizetfem todo boõ gafalhado que podeífe fer. E pera mayor ratificação da paz que tinha affentada, nas naos que eítauão de caminho pera Portugal, mandou hum embaixa¬ dor a el rey de Portugal pola confirmação deita paz, porque coella con¬ dição a aífentou ho gouernador. E efcreueolhe, que defejando ele de ter coele paz & amizade defpois q reynara, deixara de proífeguir a guerra, & poito que a teueífe aifentada cÕ feu gouernador, pera mor firmeza que¬ ria que folfe confirmada por ele per carta ailinada de feu iinal & felada de feu feio, em que lhe pedia que fe poleffe que lhe mandaria quantas
3 oo Hijloria da índia mercadorias fe podeffem gaitar em Calicut, & que mandaffe hi carregar aigúas das naos que mandaua aa índia. E eítas que ouueífem de carre¬ gar em feu porto, foliem dereytas a ele fem defcarregarem primeyro em outro, porque ho aueria ele por grande merce, & que eíta carta & re- polta de fua embaixada, lhe mandaffe per hum homem honrrado, que lhe folie dirigido por embaixador, porque coiífo tornaria Calicut a feu pri¬ meyro eltado & cobraria ho credito que tinha dãtes, & que eíta merce lhe merecia pois fizera a paz de tão boa vontade & com as condições que ho gouernador quifera, & deixara por amor de fua amizade as mercado¬ rias dos mouros do Cayro, & as do Soldao, de que recebia muyto pro- ueito. E aíli lhe fazia neíta carta offreciméto pera lhe deixar fazer no rio de Chale as naos & galés que quifeífe porque era pera iffo: & coeíta carta deu ao embaixador hum prelente de muytas joyas douro & pedra¬ ria de preço. E também ho gouernador efcreueo a el rey, pedindolhe muyto que confirmaífe o que alternara com el rey de Calicut pois ho fizera com fua autoridade. CAPITOLO .CXXIII. De como ho gouernador foube que dauão capítulos dele a el rey de Portugal. FAzendose a fortaleza em Calicut, & eltando ho gouernador em Ca- nanor, lhe difie hú dia Antonio rapofo eltando foo coele q Gafpar pereyra mandaua capítulos dele a el rey de Portugal: & que a ma- neyra porque ho foubera, fora que ho mefmo Gafpar pereyra lhe defco- brira que dom Ioão deça, Manuel de lacerda, dom Ioão de lima, Fernão gomez de lemos, Ioão gomez cheira dinheiro & Gonçalo pereyra tinhão fevtos capítulos do gouernador, que affinaffe ele tãbem neles, ou efcreueffe a fua alteza fobriffo, & que ele lhe preguntara que auia de efcreuer. Ao que Gafpar pereyra refpondeo, que bem íabia ele que ouuera ho gouer¬ nador hum cofre cheo douro dos mouros de Benaítarim, & por iíTo os alargara fem confelho dos capitães, & que ningué não fabia parte diíto fe não dõ Garcia feu fobrinho. E que ilto fabia ele, porque eltando ho gouernador pera dar combate aa fortaleza, lhe mandara dizer dom Gar¬ cia que ja tinha acabado: & em lhe dizédo aquilo, differa ele a Gafpar pereyra q eítaua coele. Afaítaiuos aífi pera laa: & era porque não ouuilfe o que dom Garcia lhe mandaua dizer q lhe dauão q era ho cofre cheo douro como defpois foubera. E Antonio rapofo lhe dilfera, q ele ellaua a eífe tepo no mar na fua nao q não fabia parte diffo, mas q lhe moítraífe
Livro III, Capitolo CXXIII 3 o T os capítulos q auia daflinar, & ele lhos moftrara, & dizião q ouuera híi cofre douro é BenaftarI por deixar ir os mouros é faluo: q das prefas que tomaua não daua á gente luas partes fe não o q queria, que não daua de comer aos capitães, que não daua os ofiicios nem as capitanias aos criados del rey, q nunca falaua verdade cõ os reys & fenhores da índia, q deixaua gouernar a índia a Francifco dalbuquerque, & a Ale¬ xandre dataide chriílãos nouos q trazia por feus lingoas. E acabãdo ele Antonio rapofo douuir eftes capítulos, lhe diflera que queria ver os afli- nados deles, & por ventura os alfinaria, & q Gafpar perevra lhe refpõ- dera que não fizefle alTi, mas que efcreuefle fobriffo a el rey & ao biípo da goarda. E preguntando ele de q maneyra auia defcreuer, lhe diífera q efcreuefle a el rey, q bem fabia S. A. quantos defejos teuera fernpre de ho feruir, polo criar & ler fua feytura: & por ifio era obrigado a lhe defcobrir & dizer toda a verdade da índia, porq não ho fazédo afli, lhe parecia q erraua a Deos & a ele, & apos ifto poeria os capítulos. Ao que Antonio rapofo refpõdera que aquilo era coufa de muyto pefo, por iflo era neceflario cuydar niflo: & ifto pera lho defcobrir. E o gouernador lhe difle q fe calafle, & ouue dele a minuta dos capítulos, não pera os toruar, mas pera moftrar a verdade das coufas da índia, & a grande ma¬ lícia de Gafpar pereyra, a que defpois difto tomou em húa cala cõ do Ioão de lima, Ioão gomez cheira dinheiro, Iorge de melo & Diogo fer- nandez de beja: & diflelhes que lhe releuaua muyto, q lhe difleíTê húa coufa que eles fabião, & q lhes juraua pelo juraméto dos fanctos euãge- lhos, em q pos a mão de lhes núca ir mal por fua caufa fe lhe difleflem a verdade, antes os louuaria muyto. E dizédo eles q lhe dirião o q fou- beflem, diflelhes q Gafpar pereyra q ali eftaua dizia q eles cõ outros ca¬ pitães q nomeou fazião capítulos dele, q lhe difleflem fe era verdade, ou fe fabião quê os fazia, porq ele mandaua os mefmos capítulos a el rey leu fenor fe lhos eles nã quifeflem mãdar. E todos affirmarão pelo jura¬ méto dos euangelhos q tal não fizerão, nem fabião qué ho fizefle: leolhe então os capítulos. E tornãdo eles a jurar q os não fizerão, né fabião quem os fizefle, mãdou fazer hú auto do q paflaua a Antonio dafonfeca eferiuão dante ho feu ouuidor q eftaua prefente, & ouuio tudo: & aqles capitães ho aflinarão, moftrãdofe muv efpantados dos capítulos, & de di¬ zer Gafpar pereyra q eles cõ outros os fazião, & diflerão ao gouernador q lhe pregútafle dõde ho fabia. E ele difle q não era neceflario, q ele fabia o q auia de fazer. E fabido ifto pelos outros capitães, confelhauãno que mandafle Gafpar pereyra pera Portugal, cõ efereuer a el rey a caufa porq ho mandaua, & afli ho auto q fe fizera fobre os capitulos. E o gouerna¬ dor não quis, dizédo q faria primeyro tirar deuaffa pelos capitulos aa
302 Hijloria da índia mefmo Gafpar pereyra, & q coela ho mãdaria pera Portugal, pera q el rey lhe defle ho caftigo q merecefle: o q não pareceo be aos capitães, & dizião que pera affeffego da índia era bem mandalo a Portugal. E vendo ele q fe defcobria fua maldade, & q ho gouernador mandaua fazer autos dele pera os mandar a Portugal, começou de dizer que ho gouernador ho fazia por mal q lhe queria, polas lêbrãças q elrey mãdara q lhe fizeífe, & porq lhas fizera. E ho gouernador foy tão prouido que manhofamente lhe fez confeííar perante teftemunhas, o q lhe refpondeo quando lhe fez as lembranças, & fez tirar as teftemunhas & autuar feus ditos, porque fe temeo de mudar Gafpar pereira fua repofta em algú tempo. CAPITOLO .CXXIIII. De como foy difcuberto ao gouernador que Antonio real mandaua delle capítulos a el rey de Portugal. NEsta conjunção foy dito ao gouernador per hú Antonio madeira q ho anno paliado mandara Antonio real húa carta a el rey de Por¬ tugal que lhe efcreuera Diogo pereyra de CochI, cujo terlado lhe ele vira em hú faco, & a lera, & que dizia nela muyto mal dele a el rey. E fe lhe não parecera que ele eftimaua pouco os mexericos que Antonio real efcreuia a -el rey das coufas da índia, que ele terladara aquela carta & outras que vira que ele efcriuia a el rey, que lhe não lembrauão tambe como a do anno paífado, pofto que lhe não lébraua toda. E como ifto era coufa que tanto importava ao gouernador, rogoulhe q lhe diffefe o que lhe lembraua, & que fofle fielmente. E ele lhe diffe que efcreuera, q def- pois que ele gouernaua a índia não gaftara ho tempo fe não em guerre- jones com nigrinhos nuus & fem armas, & em fazer fortalezas em lugares de pouco proueito & de muyto gafto, & em matar gente fem neceflidade, & q fempre punha fua peffoa em faluo, & em lugar fem perigo: & que nunca fe fizera fortaleza de tão pouco proueito, & de tanto gafto, & de tantas mortes domes como a de Goa, & que lhe parecia mais feu feruiço- mãdala desfazer q foftela, porque ho Hidalcão comia as rendas dela & aproueitaua as terras, & el rey não tinha dela nenhum proueito, & ifto podia faber per feus feytores & efcriuães. E que não creffe el rey q os homés q ho gouernador cafaua na índia erão os que ele cuydaua, & que ate ho prefente não erão cafados fe nãa bargãtes que fugião cada dia pera os mouros, polos enganos & falfidades que lhe ho gouernador fazia nos cafamétos, que defpois de os ter cafa¬ dos, defcontaua a cada hum corenta ou cincoenta pardaos polas molheres
Livro 111, Capitolo CXXI1II 3o3 em feus foldos, & cuydando que tinhSo molheres, achauãfe cõ efcrauas, & como a taes as tratauão. E eftas fam as molheres que forão tomadas em Goa, & lio gouernador tinha aquela maneyra pera as vender & apro- ueitarfe delas. Que cafara ho gouernador hú criado feu chamado Fernão caldeira, a q deu em dote de caiamêto hú nauio cõ certas fuftas com regimento & poder, como fe fora gouernador: & por virtude do tal poder tinha rou¬ bada toda a índia & aluoroçada toda a cofta, & tinha tomadas muytas naos de Cãbaya & Dormuz, & doutros muytos lugares de paz, & lhe rompia os cartazes & feguros, & defpois as metia no fundo, & mataua a gente delas por não fer defeuberto: que vindo ho gouernador de Malaca, lhe fora feyto queixume dele, & por lhe não dizerem os mouros que lhe não fazia juítiça dele, ou fe não prefumir que confentia no que ele fizera, mandara tirar húa inquirição á fua votade por Pero dalpõe que era feu ouuidor, & por Francilco coelho feu eferiuão, que leuauão todalas par¬ tes que erão dos defuntos de Malaca, por ferem priuados do gouernador, & fazer coeles todolos enganos e falfidades que queria fazer na inquiri¬ ção, & por muyta fazenda que lhe Fernão caldeira peitou, ho liurou de tudo o que tinha feyto. E q ho gouernador nunca era farto de naos pera fazer guerrejones, & não tinha carrego das naos da carga, de q elrev auia dauer mais pro- ueito que dos guerrejones: & pera faber fe era aíli, lhe mãdara a nao nazaré pera fe ir nela, & a leuar carregada, & q ho gouernador a tomara fem neceffidade, fe não por lhe fazer mâ obra & toruar fua ida, & por le doer pouco da fazéda del rev, & não lhe lembrar a grãde perda que recebia em não carregar, & porq fazia fempre tudo a feu faluo, que fizera cõfelho com meftres & pilotos fe mãdaria efta nao ou nã, & todos lhe dilferão q mãdaífe q eftaua pera iífo. E ele lhes difiera que iria a feu rifeo de todos, por iífo que viífem o que fazião, & q a foífem bem oulhar outra vez, & outras ameaças, & eles então com medo fe difdiíTerão, dizendo que não era pera ir: & eftes erão os proueitos que fazia na índia. Que não fabia porq el rey não vlaua o coftume Ditalia, que era tomar conta a todo ho capitão & gouernador na fim do anno do que fizera nele: porque fabédo q fe lhe auia de tomar cota, não fazia as coulas que ho gouernador fazia, & que homé era Gafpar pereyra pera lhe tomar eíta conta. Que a iflenção que lhe elrey mãdara de Pero mazearenhas quifera q fora do gouernador, porque foubeífe el rey que qualquer capitão q elle- ueífe é Cochim deuia de fer ifento do gouernador da índia, porque dou¬ tra maneyra não fe faria a carga das naos a tépo diuido: porq ao tépo
304 Hi/loria da índia que elas auião de carregar fe hia ele darmada, & leuaua quãtos calafates & carpinteiros auia na índia & todalas coufas neceífarias pera adubio das naos & muy defneceffarias pera onde hia, nem menos deixaua em Co- chim barça nem batel pera a carregação das naos, fe não leuaua tudo pera os guerrejones. Que quando fe partio pera ho mar roxo lhe não deixou nenhúa gente da ordenada â fortaleza né que vigiaife, & q deixou a torre da menajé, & húa fala & duas torres cheas de putas, onde não entraua nenhú homem fopena de morte, & aqles erão os homés darmas que deixaua em goarda da fortaleza. Que quãdo viera de Malaca fe ajútara em Cochim com feflenta putas q mandara trazer de Goa e as tinha em húa torre, & aíTt como acabaua de comer fe metia fô coelas, o q fizera todo aquele inuerno, em que ne¬ nhúa pcífoa lhe poderá falar, nem defpachar cofcle, & que Mafamede não teuera mais deleyte com moças virgés do que ele teuera aquele inuerno, & que a gente andaua clamando fem a ele querer ouuir. Que não fabia pera que el rey queria que ouuefle na índia igrejas, nem pera que mãdaua là vigayros, pois não auião de valer aos homés: q Ioão Fernandez vigayro geral que laa mandara fora defonrrado & tirado da igreja pola defender. E que ho gouernador fizera vigayro de fua mão a hú frade bêbado bombardeiro chamado frey Iohão, porque lhe defco- bria as confifloes: & vendo os homés que lhe não valião as igrejas fugião pera os mouros. Que ho anno que ele fora capitão de Cochim, & Diogo pereyra fey- tor q fe correjerão muytas naos pera andar darmada, & carregarão muy- tas pera Portugal, & não fe gaitarão mais de trinta & tãtos mil cruza¬ dos, & defpois de Louréço moreno fer feytor erão gaitados cento & tantos mil, não fe corregendo ametade das naos que forão corregidas no tempo que Diogo pereyra fora feytor: q homé era Diogo pereyra mais fufficiéte pera fer feytor de Cochim que Lourenço moreno, & de feu cõ- felho, lhe deuia el rey de dar a feytoria, porque tinha mais cuydado de lhe aproueitar fua fazenda que denrriquecer, o que não fazião Lourenço moreno nem ho feu capitão môr. E que andando ele feruindo el rey em varar as naos, que mandara ho gouernador entrar de noyte em fua cafa dous rapazes feus criados pera lhe cafarem com duas efcrauas luas, como calarão, & lhe roubarão muytas coufas de cafa: & védo defpois que era mal feyto remetera ho feyto ao vigairo mais cõ vergonha que com vontade, & diffe q ho que dizia era ho terço porq ho mais lhe efquecia, & que dizia por derradeiro que goardaffe elrey as cartas que lhefcreuia, & que indo ho gouernador
Livro III, Capitolo CXXV 3o5 a Portugal lhas mandafle ler perãtele: & fe não proualTe tudo, q lhe mã- dafie cortar a cabeça, & q aqlas cartas forão nas naos fctã Maria da luz, & f£tã Maria dajuda, & hião cõformes cõ as que Ioão ferrão efcreuera a elrey fobre Fernão caldeira, & q feu filho de Ioão ferrão as leuara. E q ho notairo deitas cartas fora Diogo pereyra, porque Antonio real não fabia notar, fomente dizia a Diogo pereyra os cafos fobre q queria efcre- uer, & ele eicriuia com aquela cor que lhe parecia neceffaria. E as notas deitas cartas ficauão na mão Dantonio real, & dali as terladaua em boa letra hú Garcia gõçaluez que viera de Portugal com Gafpar pereyra, & que ele lera todas as terladadas por fer feu amigo. CAPITOLO .CXXV. De como ho gòueritador mãdou tirar tejlemunhas fobre os capítulos q Antonio real daua dele. SAbido iíto pelo gouernador, aífentou configo pelos capítulos que Gaf¬ par pereyra queria dar dele, & polos q Antonio real tinha dado, que por enformação dambos de dous lhe mandara el rey feu fenhor fazer as lembranças que lhe mandara fazer acerca de Goa & doutras coufas, & deu muytas graças a noífo fenhor por lhe defcobrir aquela mina de cartas, & donde lhe vinha ho mal pera ho remediar com tempo, ames que lhe fizeffe dãno. E pera fe mais affirmar 1'e era verdade o que lhe diífera Antonio madeira, mãdou chamar a fua cafa Diogo pereyra que eítaua em Cananor, & fegurandoho por juramento de nunca lhe fazer mal nem lhe fer feyto por fua caufa, lhe preguntou a verdade dos capí¬ tulos que lhe diífera Antonio madeira. Ao que ele refpondeo que bem conhecia que lhe tinha errado, q lhe perdoaífe polo amor de Deos, & que lhe diria a verdade. E dizédo ho gouernador que lhe perdoaua, lhe confeífou algúas coufas, falando como quem auia medo que não oufava de falar. O que conhecendo ho gouernador, lhe diífe que fe efpantaua muyto dachar Antonio real quem foffe por ele ao inferno, & ele não quem quileífe ir ao parayfo com dizer a verdade a el rey: & a iíto lhe tornou Diogo pereyra outra vez a pedir perdão. E perdoandolhe ho gouernador, & fegurandoho de não receber nenhú mal por dizer a verdade, lhe con- feffou todos os capítulos q lhe diifera Antonio madeira, & q era verdade que ele fizera a carta em q forão, & iíto com juramento, & q dizia muyto mais coufas que aquelas dos capítulos, & adi em outras que efcreuera ãtes dela. E ho gouernador lhe diífe q era neceífario auerlhe todos os 39 Tomo II
3o6 Hiftoria da índia terlados daquela.s cartas pera moftrar a el rey feu fenhor os enganos q lhe Antonio real tinha efcripto, fe não que feria neceffario mandar a Por¬ tugal a ele Diogo pereyra pera q deffe rezão de tudo a fua alteza, & por ele. fe tiraria húa inquirição de quanto tinha efcripto. E ouuldo ele ifto, lhe pedio por amor de noífo fenhor q não folie el rey fabedor de tal coufa, prometédolhe dauer os terlados que lhe pedia, & que ho da carta que dizia Antonio madeira lhe daria logo, & affi lho deu. E auido efte terlado, o gouernador mãdou ao bacharel Antonio de vilhana ouuidor da índia que cõ ho feu efcriuão tiralfe por teftemunhas Antonio madeira & Garcia gõçaluez acerca dos capitulos que virão que Antonio real man¬ dara dele a el rey na carta que lhefcreuera, & affi em outras, & ambos teftimunharão os capitulos que atras difle, & conformarão ambos em feus teftemunhos, 1'e não que Garcia gonçaluez dilfe mais que Antonio ma¬ deira, que na ida de Malaca & tomada dela morrerão ao gouernador fetecétas peífoas de doêça, de trabalho & de fome, & que ho proueito q el rey auia dauer ele ho veria: & que querendo ho gouernador partir de Malaca, lhe leuauão os doentes pera os mandar leuar â índia, & ele não queria mandar que os leualfem, & dizia que coeles auia de fofter Malaca pelo que eles morrião de pafmo, & quando fe fora pera a índia ninguém ho foubera, 1'e não quãdo fe fizera à vela, ao que a gente acodira à praya. E fora coufa efpantofa as pragas que lhe rogauão, & apupadas que lhe dauão por fe ir affi, & que a gête andaua cramãdo fem lhe núca dar as partes que lhes vinhão das prefas, ne lhes pagar foldo: & que as prefas erão de quê primeyro chegaua, & que alargara os mouros de Benaftarim porque lhe peitarão, & que faria el rey bem de mãdar por dous judeus que trazia, que fabião quãtas royndades fazia, & q erão feus lingoas, fecretarios & defpenfeiros: & que por eftes faberia como paffauão as coufas da índia. E tiradas eftas duas teftemunhas, foy também tirado Diogo pereyra por teftemunha le efcreuera aqueles capitulos a Antonio real, & jurou que fi. E defpois de tudo ifto eftar affi fevto, veo ter Anto- nio real a Cananor nas naos q fe hião pera Portugal q auião hi dabarro- tar. E ho gouernador ho mãdou chamar â camara da fua nao eftando coele muytos fidalgos & capitães, affi dos que hião pera ho reyno como dos que ficauão na índia, & eftaua hi ho ouuidor da índia & Antonio dafõfeca feu efcriuão, & Gafpar pereyra: & perante todos mandou ler os ditos das teftemunhas pelos capitulos. E lidos, lhe foy dado juramento por Gafpar pereyra, que ho mandou ho gouernador fe era verdade o que dizião aqles capitulos, & fe fabia quê os fizera: jurou que não fabia parte daqueles capitulos nem os mandara fazer, né era verdade o que fe conti¬ nha neles. E defpois difto mandou ho gouernador ler perante todos a
Livro 111, Capitolo CXXV 3o 7 carta que Diogo pereyra dilTera que Antonio real efcreuera a el rey: & lida ho ouuidor da índia deu juramento a Antonio real que juraífe i'e ef¬ creuera ele aquela carta a el rey, & alfi outra que lhe também efcreuera Diogo pereyra. E ele jurou que era verdade q Diogo pereyra efcreuera húa carta que ele mandara a el rey per Manuel de crafto capitão da nao fctã Maria dajuda. E dizendolhe ho gouernador que deífe o terlado dela, ele difTe que ho não tinha. E de tudo ifto que fe aqui paífou foy feyto hii auto pelo efcriuão do ouuidor, que ho gouernador mandou a el rey com os ditos das teftemunhas fobre os capítulos, peraq foubefle a verdade: & algús cuydarão que ele quileffe caíligar Antonio real, porem ele não quis né por todas eftas coufas lhe deixou de dar boa embarcação, nem a ele nem a Gafpar pereyra dilfe nenhúa mà palaura, fe não quando leo a carta pubricamente, lhes dilfe que fc efpantaua de ferem tão immigos das coufas do feruiço del rey leu fenhor, & tão enuejofos de as verem acaba¬ das com boÕ cuydado, que trabalhauão com feus enganos & falfidades de dãnar hú, homem que com tanto defejo & amor ho feruia na índia. E porque muytos dos fidalgos & capitães ifto fabião, tiuerão grande defcon- tentamento de ver a falfidade dos capítulos, & pera dizerem a verdade a el rey, lhefcreuerão os mais delès húa carta em que fe aflinarão, & qui- feranna meter no maço do gouernador pera el rey, mas ele nã quis porq não cuydaffe el rey que a pedira: & como Gafpar pereyra queria mal ao gouernador por lhe tornar efta carta em vitupério dizia que ele fizera fazer aquela carta aos capitães, não pera a mandarem a el .rey, fe não pera q enganaffem coela ao gouernador que não deteueífe aquele anno a Antonio real & ho deixaífe ir pera Portugal. E parecendo a Gafpar pe¬ reyra q faria pefar ao gouernador, conlelhou a Antonio real que antes de fua partida moftrafle ao gouernador pubricamente húa carta que tinha del rey aflinada por ele, & paliada pola chãcelaria da capitania de Co- chim, & outras duas cartas, húa pera fazer hú nauio, & outra pera.po- der tratar com pimenta: & ifto pera lhe moftrar quãta merce lhe el rey fazia & quanto folgaua cõ leu feruiço. O que ele fez eílãdo ho gouerna¬ dor bem acompanhado de capitães & fidalgos que forão coele ao mar roxo & leuarão lâ a vida que dilfe, que todos embrufcarão vedo tãtas merces a hú homem que leuaua boa vida é Cochim, & logo murmurarão daquilo: & por iífo pefou muyto ao gouernador do alardo que Antonio real fez de fuas cartas, & fecretamente ho reprédeo dilfo. E ele lhe difle q ho diabo ho tomara, & que Gafpar pereyra lho fizera fazer, & defco- brio ao gouernador ho concerto per juraméto, q ele, Diogo pereyra, Lou- renço moreno, ho vigayro & Gaípar pereyra tinhão feyto pera tratarem com a fazenda del rey, & ifto dizia porq fe hia pera Portugal. E acaba-
3o 8 Hiftoria da índia das as naos dabarrotar é Cananor, partiranfe pera Portugal & forao cinco bé carregadas defpeciaria. CAPITOLO .CXXVI. De como ho gouernador fe$ eteder a elrey de CochT q nã era agrauado 11a pa\ cõ el rey de Calicut. EStando ainda o gouernador é Cananor, chegou hi ho meffejeiro do embaixador do Xeque ifmael, q fora a el rey de Daquê, & ao Hi- dalcão, que como diffe ho fora bufcar 3 Goa & não ho achou por fer no mar roxo. E fabédo ho embaixador q era vindo, tornou ao mãdar vifitar, & não ho achando ho melíejeiro ho foy bulcar a Cananor, onde foube que eftaua, & deulhe ho recado do ébaixador, q era q fabendo ele as grandes coufas q tinha feyto na índia, defejaua muyto de ho ver, & por ho nã poder fazer ho mandaua vifitar, & offrecerfelhe por amigo. E defte meffejeiro foube ho gouernador, q afli ho embaixador pera el rey de Daquem & pera ho Hidalcão, como o que fora a elrey de Cambaya, leuaua cada hú cem écaualgaduras, & baixelas de prata de feu feruiço: & que os reys a que hião dirigidos não quilerão tomar as carapuças que lhes leuaua da parte do Xeque ifmael né os liuros da fua feita. E vendo ho gouernador que ho meffejeiro do embaixador era inclinado a ver as coufas dos noffos, mandoulhe moílrar a fortaleza, & porque eftaua de caminho leuouho cõfigo, & detendofe em Calicut, lhe mãdou também moftrar a fortaleza, que eftaua em tanta altura que podião affentar nela artelharia, & era quadrada & na quadra q ficaua na banda do mar efta- uão duas torres de fora do muro, & antrelas da parte de dentro eftaua a torre da menaje pegada no muro em que eftaua, & ao pé dela hú poftigo pequeno pera receber focorro por mar. Nos outros dous cãtos que fica- uão da banda da cidade tinha duas torres, & húa mayor hú pouco que baluarte & mais alta na porta da fortaleza que ficaua daquela parte, & fuas bombardeiras ao derredor, & as torres q goardauão ho pé do muro. E vifta efta fortaleza, em cuja goarda ficou no mar dom Garcia com parte da armada ate fer tépo de fe recolher, partiofe ho gouernador pera Cochim, onde defpachou ho meffejeiro do embaixador, & lhe deu hú pre- fente que lhe leuaffe, & fe moftrou muyto grande amigo do Xeque ifmael, & lhe mãdou pedir por fua carta q da fua parte fizeffe muytos offreci- mentos damizade ao Xeque ifmael, & q tudo faria por amor dele, por¬ que fabia q el rey de Portugal fe aueria por muyto feruido diffo. E por eftas palauras & boõ gafalhado, mãdou delpois ho xeque ifmael hú em-
Livro III, Capitolo CXXVII 3 o g baixador ao gouernador, como direy a diante, & defpachou bem hú Mi¬ guel ferreyra que lhe mandara com recado. E defpois q ho gouernador foy em Cochim, com quãto el rey fe daua por agrauado dele pola paz com el rey de Calicut, & porq lhe dizião que a carregação das naos auia lá de ler dali por date, foy ho ver. E praticando fobriíto, diffelhe ho go¬ uernador que não tinha rezão de fe agrauar da paz cÕ el rey de Calicut, porque el rey de Portugal lhe tinha bé fatisfeyto os feruiços que lhe fizera, & q a guerra que tinha dantes com Calicut era pola treyção que fizera ho çamorl, & pois era morto, el rey feu fenhor queria auer pie¬ dade dos mercadores gentios de Calicut, & del rey, que fe metia em fuas mãos, & mais não lendo lua téção de fazer guerra fe não a mouros, como fe via nos lugares que lhes tinha tomado, & por ifio fe el rey de Coulão fizeífe como el rey de Calicut també le lhe daria paz. E por efta fer a téção del rey feu fenhor, & ele ganhar coele, deuia de querer paz com el rey de Calicut & não agrauarfe, que bem via ele que ho preço da pi¬ menta de Cochim & os cultos que fazia ate Portugal, não deixauão ga¬ nhar nela coulá q abaltaífe âs defordenadas delpefas que fazia com a grande armada que trazia na índia por amor da guerra. Ao que el rey de CochI diffe que bé via tudo, poré que ele auia de ter guerra com Calicut, porque affi o queria feu coltume. E ho gouernador lhe relpondeo que fe a teuelfe pareceria contrariar as coufas del rey, como era Calicut pois tinha nela tanta parte: & q a obrigação pera lhe fazer guerra era muy pouca, ou nhúa, pois ho çamorim era morto q fora caufa da guerra. E a ilto preguntou el rey onde fe faria a carrega das naos, & ho gouer¬ nador difle que õde a efpeciaria folfe mais barata, que adi ho fazião os mercadores, & pois ho fazião, que affi ho auia de fazer el rey feu fenhor, q rezão era que teuelfe a fua mercadoria a liberdade que tinhão as dos mouros. E coeltas & cÕ outras rezões que ho gouernador deu a el rey de CochI, ficou ele defagrauado do gouernador, & ouue por bem a paz com que dantes lhe pefaua. CAPITOLO .CXXVII. De como ho gouernador deu a capitania de Malaca a Iorge dalbuquerq, & mandou Diogo fernãdeç de beja com embaixada a el rey de Cambaya. ENtrado Ianeiro do anno de mil & quinhétos & quatorze, quiferale ho gouernador fazer preíles pera ir a Ormuz a ver fe podia aca¬ bar é paz a fortaleza q lhe ficara começada, mas não pode porq achou que as naos & nauios de fua armada ãdauão todos tão abertos &
3:o Hijioria da índia fazião tanta agoa que fe hirião ao fundo fe nauegaffem, & que de necel- fidade fe auião de tirar a mote pera le corregerem. E vendo ele q não podia fayr aqle anno fora da índia, pos em confelho fe inuernaria em Goa, ou é Cochim pera fauorecer a fortaleza de Calicut, em que ainda aquele ãno auia que fazer. E chamando a confelho, foy acordado que dó Garcia por amor da fortaleza de Calicut inuernafle é Cochim com a gente cõ que lhe podeffe focorrer auendo diífo necefiidade, & q ho gouernador cÕ ho refto da gente foffe inuernar a Goa: & ifto porq em Cochim não auia dinheiro pera pagar mantiméto aos lafcarls, nem auia mercadoria pera lhe fer dada em defcoto, porque ho feytor a tinha toda védida aos mouros (com que tinha trato) fiada por tres annos, que enrriquecião coela, & el rey não tinha cõ que pagar aos q ho feruião: do q ho gouer¬ nador reprédeo ho feytor muy afperaméte, & lhe difle que como não tinha ele dinheiro pois deuia de ter ho cabedal de feys naos que fe per¬ derão & le faluarão os cofres, & q não tornarão pera Portugal, & afii diuidas dos mouros do anno palfado, que paffauão de quinze mil cru¬ zados, & de tudo ifto a armada não fizera nenhú gafto, nê fora nela hú vintém pera fe pagar foldo nem mantiméto aos Lafcarls, porq tudo fe pa¬ gara de algúa pimenta que ele leuara ao eftreito. Ao que ho feytor não refpondeo palaura, achandofe alcançado, & ho gouernador não apertou mais coele, porq lhe defendia el rey que não entédefle miudamente em fua fazenda, & ifto a petição do mefmo feytor & Dantonio real quando eftaua na índia, porq fe temião do gouernador que bem fabião quanto oulhaua pela fazenda del rey. E fabédo ele que auia dir inuernar a Goa, defpachou a hú feu parente que auia nome Iorge dalbuquerque por capi¬ tão de Malaca, porque por algús relpeitos que fentia ferem feruiço de deos & del rey, mandaua vir Ruy de brito pera a índia: & coefta capi¬ tania q deu a Iorge dalbuquerq, conuidou primeyro a Pero mazcarenhas, & pola nã querer lha deu. E ao mefmo Iorge dalbuquerque que deu hú regimento de coufas que auia de fazer em Malaca, & lhe deu algúa gente q leuaífe em húa nao em q auia dir. E deixandoho prouido de tudo, par- tiofe de Cochim, & de caminho vifitou a fortaleza de Calicut q eftaua em boa altura: & prouida também a de Cananor, fe foy caminho de Goa, & chegado a ela, porq por carta de Meligupim tinha promeífa de lhe'el rey de Cambava querer dar fortaleza & feytoria em Diu, pareceo- lhe bé com confelho de lhe mandar fobrifto feu ébaixador pera auer effevto. E ho embaixador foy Diogo fernandez de beja, & coele Iames teixeira por fota ébaixador, & hú Krancifco paez efcriuão da ébaixada, & llgoa Duarte vaz, & hião com Diogo fernandez per mãdado do gouerna¬ dor algús caualeyros criados del rey, & a todos ho gouernador fez merce
Livro III, Capitolo CXXVIII 3n pera fe atauiarem pera efta ida: & Diogo fernandez & eles auião de ir na nao rume, & ate Chaul auia dir em fua conferua a nao Enxobregas, que dali a auia Diogo fernãdez de mandar a Diu pera õde hia carregada de mercadoria que fe auia de entregar a Fernao martinz euangelho que laa eftaua por feytor, & de Chaul auia Diogo fernandez de ir defembar- car a húa cidade chamada çurrate na enfeada de Cambaya, donde lhe auia de fer dado caminho por terra pera õde efteuelfe el rey de Cam¬ baya. E tudo ifto era afii ordenado por MeligupI fenhor de çurrate, & primeyro que Diogo fernadez partiffe de Goa, q foy em Feuereyro, man¬ dou diãte pedir feguro a el rey de Cambaya por Pero queymado, & por hú bramene chamado Anagapatu, pera ele & pera toda fua copanhia, & ifto como que lho mandaua pedir de çurrate, porque quãdo hi chegaffe ho achaífe & fizeffe menos detença. E partido Diogo fernadez, defpachou ho gouernador a Pero dalbuquerque feu primo que foffe ao cabo de Gar- dafum fazer prefas, & deffe vifta a Adem, & da hi foffe a Ormuz a re- cadar as pareas que fe deuião de dous ãnos, & foubeffe del rey & do feu goazil, fe lhe deixarião acabar a fortaleza que deixara começada, & ter hi feytoria. E mais lhe mãdou que foffe defcobrir a ilha de Baharem de que tinha fama que era muyto rica, & deulhe a capitania moor de qua¬ tro naos, ele capitão de húa, & das outras Ruy galuáo, Antonio rapofo & Ieronimo de foufa. E defpachado, fe partio pera ho cabo de Gardafum. CAPITOLO .CXXVIII. De como Pero dalbuquerq foy a Ormu\, & do qlâ fe\. ONde chegado tomou duas naos de Meca que hião de Cambaya, & fentldoho os mouros arribarão a Ormuz bem cincoenta naos cõ medo dele, & na antrada de Mayo fe foy a Ormuz, em que ja não reinaua el rey çafardim, que ho mãdara matar Raix noradim por fer goazil defpois de morto Cojeatar, a quem cl rey çafardim não queria que fucedeffe no goazilado: & morto el rey çafardim fucedeo no reyno feu irmão Raix turuxa que fez goazil a Raix noradim, & deites foy Pero dalbuquerque bé recebido, & porq ele auia de ir defcobrir Baharem, não fe quis mais deter, & feguio fua rota pera efta ilha, que eftâ no fino per- fico, ou mar da Perfia duzentas legoas Dormuz em vinte tres graos & meyo: he ilha grãde, & muyto viçofa dagoas, ortaliça, & daruoredo. He pouoada de mouros que obedecião a el rey Dormuz, de cujo fenhorio foya de fer, & então a tinha tomada hum capitão do Xeque ifmael: nace ao derredor dela no mar muyto aljôfar & perlas que os morados dela
Sl2 Hijloria da índia pelcão & védéno.a mercadores eftantes que ganhão muyto, & ho fenhor da terra tem diffo grandes dereytos, & daqui leuão os mercadores cite aljôfar & perlas, não fométe per toda Perfia & Arabia, mas pera a índia. E fendo Pero dalbuquerque cõ fua armada tanto auante como eftaa Ba- harem, achou que os ponentes ventauão ja muyto, que lhe impedirão fua viaje, & porque pera efperar por leuantes feria muyto tarde pera tornar â índia ao prazo que lhe pofera ho gouernador, não fe quis deter & tor- noufe pera Ormuz, & chegando a Reyxer dous dias de caminho de Baha- rem, achou hi Mirabuçaqua hum capitão do Xeque ifmael que dali come- çaua de fazer guerra por mar a el rey Dormuz, & tinha tomadas vinte terradas que ele ali trazia darmada, & por rogo de Pero dalbuquerque as alargou. E ficando muyto amigos, partiole Pero dalbuquerque & tor- noufe a Ormuz, onde inuernou. E eítando aqui, falou com Raix noradim, & com el rey Dormuz, & pediolhes da parte do gouernador a fortaleza que hi deixara começada. Do que fe eles efcufarão, dizendo que el rey a tinha tomada pera fi & a metera com os feus paços: & pera que queria ho gouernador fortaleza naquela cidade, pois ela era del rey de Portugal & lhe pagaua pareas, que fe quifefle hi ter feytoria tão fegura podia eltar fua fazenda como em fua cafa, quanto mais que efperauão cada dia re¬ cado del rey de Portugal, que o que ele mandaffe que iífo farião, porque pareceria mal não efperarem por repofta da embaixada que mandara ho rey que falecera. Pero dalbuquerque vio que aquilo era efcula, & não quis falar mais niffo, & pedio as pareas que fe deuião, que erão dez mil xerafins que lhe pagarão: & também em quanto aqui efteue vendeo algúas prefas q fez nefta viajem, que tomou a mouros de Meca noffos immigos que nauegauão fem feguros do gouernador. E por' fazer eftas fem peleja as digo aíli em forna. E elas vendidas, alfomou ho dinheiro a trinta & cinco mil xerafins, que com os das pareas erão corenta & cinco mil a fora húa nao carregada de roupa branca que ficou por vender: & vindo ho tempo, fe partio coefte dinheiro caminho da Índia. CAPITOLO .CXXIX. De como chegou Iorge dalbuquerque a Malaca, & foy entregue da capitania. CHegado Iorge Dalbuquerque a Malaca, q foy em Iulho de mil & quinhétos & quatorze, moftrou a prouilam que trazia do gouerna¬ dor a Ruy de brito perãte todos os officiaes da fortaleza & outras pefloas principaes dela, & afíi perante ho capitão do mar & feus capitães,
Livro III, Capitolo CXXX 3i3 em que lhe mandaua entregar a capitania de Malaca, & que ele fe fotle pera a índia, a que Ruy de brito obedeceo, & lhe entregou logo a forta¬ leza, dandolhe lorge dalbuquerque hum conhecimento de como a recebia, & com quanta gente, & com quantas peças dartelharia, que foy feyto por hum tabalião pubrico. E como Malaca eítaua em paz & muyto farta, & abaftada, não teue lorge dalbuquerque q fazer logo pola primeyra mais que leuar boa vida, & Ruy de brito ficou em Malaca ate Dezembro que era a moução da viaje da índia. E eílãdo ele pera fe partir, chegou a Malaca el rey de Campar de que ja diffe atras que fora ho primeyro que pedio amizade ao gouernador, & fempre dali por diante foy muyto amigo dos noífos, nem então não hia fe não a vifitar ho capitão de Ma¬ laca, & faber fe tinha neceíTidade de fua ajuda, porque a daria de muyto boa vontade ate perder nifTo leu eftado. E recebendo muyta honrra de lorge dalbuquerque, & merce em nome del rey de Portugal, fe tornou pera fua terra defpois deftar algús dias em Malaca. E por efta amizade que lorge dalbuquerque entendeo nele, defejou de ho fazer bendara de Malaca, que era tamanho officio q no tempo del rey de Malaca era a fegúda pefToa depois dele: & fabendo dele que ho feria 1'e lho ho gouer¬ nador deííe, mandoulho pedir per húa carta que lhe efcreueo per Ruy de brito quando fe foy, dizendolhe que muyto mais ennobrecida auia deftar Malaca com fer bendara el rey de Campar que Ninachatu hum merca¬ dor, porque afti gentios como mouros fe defprezauão de fer mandados por ele, & não fe defprezarião de ho fer por el rey de Campar: & afti outras muytas rezões que fam largas de contar. CAPITOLO .CXXX. Em q fe efcreue ho reyno de Cambaya, & de quão poderofo he ho feu. rey, & dõde começarão os reys de Cambaya. DEspachado Diogo fernandez de beja, partiofe caminho de Chaul com fua companhia e Feuereyro, & por ho tempo fer ja quaíi contrairo a fua viajem, chegou laa em vinte fete dias, & dali mã- dou logo a nao Enxobregas a Diu, & ele feguio fua viajem pera çurrate hum lugar do reyno de Cambaya, que he dos principaes reynos da índia, confina do leuante que he polo fertão com dous grandes & ricos reynos, hum fe chama Mandou, outro Sangâ, & do ponente com ho mar Indico, & do norte com ho reyno de Dulcinde, & aqui começa a fua cofta em húa cidade chamada Mangolor: & dura ate quafi Chaul que he da banda do fui, que he ho primeyro lugar do reyno de Daquem com que Cambaya Tomo II 40
3,4 Hijioría da índia comarca por efta parte. E a cofta he de muytas Iegoas, & ha nela muy- tas cidades de bõs portos que fam muyto ricas. He geralmente muyto abaftado de todo genero de mantimentos, em tanto que em qualquer parte dele feys Iegoas de terra, podem abaítar de mantimétos fevs mefes a hum grande exercito. He terra muyto viçofa & de muytas caças, adi de monte como de ribeyras: he de grande criação de gado grofio & miudo. Crianle também muytos caualos, ainda que pequenos, de fora lhe vem muyto ouro & grande forna de prata: ha nele húa pedraria dalaque- cas, de que fe fazem muytos brincos que vão ter aas noffas partes. He pouoado efte reyno polo fertão de gétios, & nos portos de mar pola mayor parte de mouros, antre os gentios ha hús que fe chamão resbutos, que quando os reys defte erão gentios (porque agora fam mouros) erão caualeyros & defendião ho reyno, & ho gouernauã, & defpois que os mouros ho tomarão recolheranfe aas montanhas fem nunca fe lhe quere¬ rem entregar, & ali viuem, & dali lhe fazem guerra ás vezes & eles fe gouernão per fi que não tem rey nem fenhor que ho faça. Ha outros gen¬ tios a que chamão Baneanes, que não comem coufa nenhúa que padeça morte, & tem por ley de a não matar, nem ver quando a matão, & os pobres lhes leuão aues viuas & dizélhe que as querem matar, & eles as comprão por mais do que valem porque as não matem, & defpois as fol- tão, & também comprão os condenados aa morte pela mefma caufa, & tanto eftimão de matar que quando acendem candeas té nas em alenter- nas por fe não matarem nas candeas as berberetas. E fe lhe comem algús piolhos, mandão chamar outros da fua ley que viuem apartados do mundo como hermitães, & té nos por fantos, & eftes lhos tirão & os põe em fi por feruiço dos feus idolos. Eftes Baneanes tem os mouros em tanta ve¬ neração, que onde quer que os achão catiuos os refgatão logo, fam muyto namorados, & andão bem atauiados ao feu coftume, & cafam, & tem molheres muyto fermofas. Ha outros gentios que fe chamão Bramenes, que fam antreles facerdotes, & tem em grande reuerécia ho numero de tres, & confeffam auer hum foo Deos verdadeyro, criador de todas as coufas, & que fam tres em húa foo peffoa, & quando rezão, rezão tres vezes a eftas pelfoas, & tem que Deos verdadeyro tem outros muytos deofes que gouernão por ele, em que também crem, pelo que parece que aquela terra foy de Chriftãos, & por tempo fe veo a perder a Chriftin- dade nela. E eftes bramenes achandofe onde eftão noffas igrejas, étrão nelas & adorão as imagés, pregútando fempre por lanta Maria, como que tem dela conhecimeto. Deftes não cafam 1'e não os hirmãos mais velhos, & no mais que húa foo vez, & com húa foo mulher, nem ela não cafa mais morto ho marido. E ele a mata com peçonha fe lhe faz adultério,
Livro III, Capitolo CXXX 3i5 tirando fe ho cometem com os irmãos de feus maridos, porque a eftes he licito dormir coelas. Nefte reyno dizem que ha fefenta mil pouoações antre grandes & pequenas, & muytas fam cercadas & arruadas, & de cafas altas de pedra & cal como em efpanha: chamaífe do guzarate & também de Camba, por amor de húa cidade que tem ho mefmo nome, que he húa das principaes de todo ele, eftâ oyto legoas do mar por hum pequeno rio acima por onde lhe leuão as mercadorias que lhe vão per mar, & he muyto grande & fermofa com cafas lauradas por dentro de maçanarias & pintadas douro, & de diuerfas côres, & todas com jardins muyto frefcos, & tem derredor muytas hortas de íingulares agoas, & muy labrofas fruytas. Ha nela grandes mercadores, aifi gentios como mouros, naturaes & eftranjeiros, & todos muyto ricos, que tratão em todas as partes, & tem em todas muyto credito, & tem nelas feus feytores & eftantes. Eftes fe vefté de fedas & brocados, & calção no inuerno bro- zeguis, marroquis laurados douro, & çapatos de pontilha, & nas cabeças fotas muy ricas, & coftumão muyto cheiros & perfumes & outros deley- tes: ha muytos ofliciaes machanicos que fazem obras tão fotis como em Frandes, & tecem panos dalgodão brancos & pintados, brocadilhos, velu¬ dos, cetins, chamalotes & alcatifas. E adi ha grandes lapidairos & falfi- ficadores de pedraria. Coftumanfe nela húas carretas com leytos de tauoado pintados, & çarrados com porta, que tem pera vifta húas jane- letas de gelofia, & eftas carretas trazem caualos, & andão coelas homens a ganhar pola cidade em leuar pefloas de húas ruas pera as outras, affi a ver parentes, ou amigos, ou fêftas, ou pera ver a cidade, & ali vão muy fecretamente, leuando dentro mufica de vozes, & inftormentos aa fua maneyra com que le defenfadão. Ha também como difle outras muy¬ tas & muy ricas cidades pela cofta, & pelo fertão, & as mais da cofta eftão na enfeada que difle que faz efte reyno, que começa em Diu, & acaba em outra cidade chamada Damão. E nefta enfeada enche a maré & vaza tanto que efpraya duas & tres legoas & mais, & he muyto peri- gofa por auer nela muytos rochedos, & ha antreles grãdes pegos, em que 1'e as naos não ficão de baixa mar perdenfe nos rochedos, & por iffo he neceffario entrar nos portos defta enfeada com pilotos da terra. As naos de Cambaya fam fem quilha & cofidas com cayro como as do Malabai & carregão muyto, porque não tem cubertas. EI rey de Cambaya he mouro, & tem bem feyfcêtas molheres com que dorme, & feruefle com muyto grande eftado, & muy polidamente como os reys nas noflas par¬ tes: & por ler fenhor de tamanho reyno tinha muyta renda, & muyto grande tefouro, & trazia gente fem coto em fua corte, principalmente darmas de caualo, & fam bõs caualgadores, trazem efcudos redondos, &
3iG Hiftoria da índia algús fayas de malha, & os caualos acubertados. Antrefta géte darma» os mais fam eítranjeiros .f. Turcos, Abexins, Mamelucos, Coraçones, Tur- quimães, Arábios & Perfios, que fe ajuntão aqui, affi por a riqueza da terra, como polos grandes foldos que lhe pagaua el rey. Trazia também el rey muytos alifantes, que compraua por muyto dinheiro, com que fazia a guerra a feus inimigos: trazem neites alifantes caítelos de madeyra em que andão quatro & cinco frecheiros ou efpingardeiros, & fe os alifantes nã foífem tão doridos pelejão muyto bem, porque ferem os caualos & a gente dos immigos com os dentes: porem fe lam feridos fojem logo, & desbaratao os da fua parte. Eites reys de Cambaya auia pouco que grão reys, que foyão de fer capitães do emperador de Deli hum grandiílimo reyno no fertão da índia: & era 1'enhor deite reyno, & do de Dulcinde, & do de Sangâ, do Mando, do Daquem, de Narfinga, & deite de Cam¬ baya & tinha em cada hum hum capitão que ho gouernaua. E concertan- dofe todos de lhe tomarem ho fenhorio, fe lhe leuantou cada hum com ho reyno que gouernaua, & fe chamou rey dele, & ele ficou foomente com ho de Deli em que refidia. E eíte rey que então reinaua em Cambaya, era ho quarto contando do primeyro que fe lcuãtou: & hum deites foy criado com peçonha, que adi ho quis feu pay polo não matarem coela: porque os reys deitas partes coítumão muyto mandarfe matar hús aos outros coeíte genero de morte. E asYnolheres com que dormia por não morrerem lauauanfe todas com çumo de limões, & defpois comião ou¬ tras coufas cõtra a peçonha. CAPITOLO .CXXXI. De como Diogo fernãde\ de beja chegou a çurrate, & par tio da hi pera Cliampaitel. PRosseguindo Diogo fernandez fua viajem chegou aa boca do rio de çurrate por õde ela eitaa obra de duas ou tres legoas do mar: he húa cidade pequena raia com caias como ja diffe, & chegou aqui a quinze de Março. E 1'abendo na barra como não era ainda vindo Pero queymado com ho feguro del rey, ho mandou pedir ao regedor da cidade, que era mouro & chamauafe Deítrocão, que logo lho mandou, & que lhe foífe feyto grande recebimento, que adi lho tinha mandado el rey de Cam¬ baya que ho fizelíe, porque fabia que auia de ir ho nofio embaixador, & fayrão a recebelo Meâcoje & Meâbahu capitães del rey, & hum irmão de Meligupim acompanhados de muyta gente & leuarão caualos pera os noífos & carretas pera ho leu fato: & Deitrocão não fayo coeles por eítar
Livro III, Capitolo CXXXI 317 doente de boubas. E recebido ho embaixador com muyto amor dos capi¬ tães mouros leuaranno aa cidade a caía do regedor, de que também forão muy bem recebidos, & lhe mandou logo dar húa cabaya que he trajo da terra, & outras aos que hião coele que afli coftumão de fazer aos eftran- jeiros, porque veítindofe do trajo da terra parece hum grande final dami- zade, & que eftão feguros na paz, & ho embaixador as não queria tomar, dizêdo que não auião de tomar coufa algúa fe não do rey com que viuião. E dizendolhe ho regedor que elrey de Cambaya lhas mandaua dar, & que ho aueria por grande defonrra fe as não tomafle, as tomou & veftio logo com os de lua companhia, dizendo que ho fazia pois era del rey de Cambaya, & por eftarem em fua terra, & por comprircm feu coftume. E dali foy ho embaixador leuado aa fua poufada, que foy em húas cafas de Meligupim que erão grandes & ricas. E logo ao outro dia mandou ho embaixador hum prefente ao regedor por Duarte vaz & Francifco paez, & alíi por outros dos noffos, mandandolhe dizer que pois por lhe fazer honrra tomara as cabayas, que tomafle aquele prefente por amor do gouernador, & por lhe fazer a ele honrra, & que lhe perdoafe por ho prefente não fer fegundo feu merecimento, porque como era homem que andaua fempre com as armas aas coftas, que não podia dar coufas ricas: & afli mandou prefentes a todos os capitães, & ao irmão de Meligupim, & ao feu feytor, & todos os receberão de boa vontade & folgarão coeles, pofto que ho regedor fe encareceo em tomar ho feu. E mandados eftes prefentes, forão vifitar ho embaixador, ho filho herdeiro de Meligupim, & duas filhas por lhe fazer honrra, que he a mayor que fe pode fazer, & a eftes deu ho embaixador algúas peças ricas. E logo nefte comenos fe começou de foar que Meligupi/n eftaua agrauado del rey de Cambaya, & fe fora da corte por algús desfauores que lhe fizera, & que el rey partia muyto de prefla focorrer a húa fortaleza que fe lhe leuantara, & era muy longe. E fabédo ho embaixador ifto, não quis partir pera a corte ate mão faber a certeza de tudo, & por fe efcufar do regedor que lhe dizia que partifle, difle que não era vindo ho feguro del rey, com que chegou Pero queymado a vinte fete de Março, & trouue húa carta del rey pera ho re¬ gedor, em que dizia que defle aos noflos todo ho neceflario pera feu cami¬ nho ate a cidade de Madauá, onde ho .embaixador auia dir falar a el rey, & outra de Meligupim pera ho gouernador, em que fe auia por mofino de não eftar na graça del rey como dantes pera ho feruir, como fempre defejara. E ambas as cartas hião abertas, & ho embaixador as vio: & fabendo ele por Pero queymado ho desfauor de MeligupI, & que fe fora pera a cidade de Champanel, & el rey ido a focorrer ho caftelo que fe lhe leuantara que era muyto longe, quiferafe dali tornar por ter regimento
Hiftoria da índia 3i8 do gouernador que por nenhum modo inuernaífe em Cambaya, hora ou- ueffe concerto antre el rey & ele, hora ho não ouueífe. E que ho tempo da moução pera tornar aa índia, era ja tão curto que como abalalfem de çurrate auião por força dinuernar em Cambaya, pera o que não leuauão a delpefa neceffaria por ho gouernador fazer conta que não auião laa din¬ uernar, & fe ho fizeffe feria com feu grande abatimento & defonrra, & com paffar ho regimento que lhe ho gouernador dera: & por iífo deter¬ minou de fe tornar de çurrate tanto que chegalfe a nao rume, em que ho embaixador mandara ver per ho capitão delia os lugares em que fe podia fazer fortaleza. E determinando de fe tornar ho mandou dizer ao rege¬ dor, dizendo as rezoes que pera iífo tinha, que elle contrariou com dizer que como fe auia de tornar tendo feguro del rey, & eftar tudo preftes pera feu caminho por feu mandado, & que conta lhe daria fe fofie fem ir a ele pois vinha a iífo, & que fe de todo fe quifetfe ir que primeyro ho auia defcreuer a el rey, & vindo feu recado farião o que mandaífe. E vendo ho embaixador a vontade do regedor, & por não fer chegada a nao deixoufe eftar ate ver o que el rey refpondia ao regedor que lhe logo efcreueo, & ele efcreueo a Meligupim tudo o q paffaua, pedldolhe q lhefcreueffe miudaméte o q era bé que fizeíTe, & lhefcreueffe o q lhe mandara dizer é fegredo por Pero queymado, & a Ganapatu pera lhe ho gouernador dar a iífo credito. E nifto chegou a nao rume, & ho ébaixa- dor fe quifera ir, & nã foy por ho regedor lhébaraçar a ida dizendo que auia de efcreuer a el rey como a nao era chegada, & deulhe a entéder q fabia onde fora, & que fofpeytaua a que. E por entender no regedor que ho não auia de deixar ir, & dandolhe a entender que ficaua por fazer a votade a el rey de Cambaya ficou, & ho regedor mandou moftrar ao lin- goa & efcriuão da embaixada húa carta del rey, em que lhe efcreuera q em todo calo foífe ho ébaixador velo. E tédo preftes lua partida fe partio aos vintoyto de Março pera a cidade de Madauâ onde el rey eftaua. E ho regedor & feytor de Meligupim lhe derão trinta & tres caualos, que tãtos erão neceífarios pera os que auião dir a caualo, & doze carretas pera ho fato, & vinte piães da terra frecheiros, & hum capitão de géte de caualo chamado Meâçamadim. E com toda efta companhia que era muy grande começou ho embaixador feu caminho, & fendo húa jornada ou duas de çurrate, lhe derão a repofta de Meligupim â fua carta em que aprouaua fua ida a el rey. E delpois defta carta, mais a diante lhe foy dada outra fua, em que dizia que tãto que aquela viífe fe foífe a Cham- panel onde ele eftaua, que he húa cidade das mayores que el rey tem & a mais forte. Eftaa no fertão trinta legoas do mar fituada em hum grande campo, em que fe leuanta húa ferra pequena em redõdeza, mas muy to
Livro III, Capitolo CXXXII 3ig grade em altura, em tanto que pola parte mais baixa tem quatrocentas braças daltura, & he toda cercada de rochedo. Nefta ferra eftà fituada a cidade cercada de muros & torres, & dentro defta primeyra cerca té ou¬ tras feys & todas de muros muy fortes: a primeyra cerca náo tem mais que húa foo entrada por húa porta muyto alta feyta ao picão, & entrão por baixo do chão trinta ou corenta braças. E diãte deita porta eítaua húa caua muyto funda de largura de cem paffos com húa põte leuadiça. Nefta cidade eftão hús paços dos reys de Cambaya, que ocupão tanto efpaço como Euora, & fam cercados de muro, q fe ferue por tres portas de ferro, & dentro não poufa mais que el rey com fuas molheres, & os recebedores de fuas rendas que andão na corte, & os officiaes de fua cala, & eftão os almazés de armas & munições de guerra, & todo ho mais fam jardins que dão fruytas como as noflãs com fontes de jafpes, & eftão todos ao derredor de muytas cafas de prazer, de que as mais fam de hum fobrado, & as outras terreas, & quafi todas abertas por duas par¬ tes, & húas té as paredes lauradas douro & dazul, & outras brãqueadas com betume de gelfo & claras douos, & outras confeyções com que ficão tão aluas & refprandecentes que fazem perder a vifta, & ho chão he ladri¬ lhado dazulejos: feria efta cidade de cento & trinta mil fogos. CAPITOLO .CXXXII. De como ho embaixador fe vio com Meligupim na cidade de Chãpanel, & de como fe partio pera a corte delrey de Cambaya. A efta cidade chegou ho ébaixador aos quatro dias Dabril ao meyo dia, & deceofe em húa horta pera ali fe defpir dos veftidos de ca¬ minho, & ir ver Meligupim, que fabendo que era chegado, lhe mãdou caualos pera fua peffoa & pera os de fua copanhia, & mãdou muvta géte de caualo q ho acopanhaífe & muytos tangeres que ho acom¬ panharão ate a cafa de MeligupI, q ho fayo a receber â primeyra cafa das fuas, & lhe fez todo ho gafalhado que fe podia fazer: & ho embai¬ xador lhe deu ho prefente que lhe ho gouernador mandaua, & mais húa carta, & delpois lhe moftrou ho prefente que ho gouernador mandaua a el rey de Cambaya. E porque Meligupim ho ouue por pouco, confelhou ao embaixador que lhe acrecentaffe mais hum bacio dagoas mãos de prata dourado per partes, & húa albarrada do mefmo, & húa adaga for¬ rada douro, punho & bainha, & muyto bem obrada, & eftas tres peças erão do embaixador. E fabendo Meligupim como ho gouernador man¬ daua pedir a el rey húa fortaleza em Diu pera goarda da muyta fazenda
320 Hijloria da índia que el rey feu fenhor auia hi de ter: & pera conferuaçao da paz, diffe que era muyto bem pedir fortaleza, porto que Meliquiaz efcreuera muy- tas vezes a el rey que ho gouernador lhe pedia em Diu húa fortaleza, & que lha não deífe, porque a não queria fe não pera lhe tomar fua terra: & não lhe dando fortaleza, não ouuefle medo de lhe tomar Diu que eftaua muyto forte. E paffados tres dias, partiofe ho embaixador pera Madauà onde el rey eftaua, mandandolhe Meligupim dar caualos, & a Iames tei- xeira pera ho caminho, & outros que leuaflem a deftro pera a entrada dalgús lugares, & affi outras carretas, & quatro camelos que lhe leuaflem tedas fe lhe foflem-neceflarias: & afli mandou coele hum homem princi¬ pal de fua cafa & feu capitão ate Madauá cõ feys de caualo & vinte de pee, & ho auifou que não poufafle fe não õde lhe aquele feu capitão dif- íefle. E antes de chegar a Madauâ (que lie húa cidade mayor que Cham- panel & mais nobre de edifícios) foy aquele capitão dizer ao goazil moor del rey de Cambaya que fe chamaua Codamacão a vinda do embaixador. E por quãto el rey era aa caça, & não fe fabia certo fe tornaria aquele dia, mãdou Codamacão dizer ao embaixador que ficafle aquela noyte em húa fua horta junto da cidade ate lhe mandar recado. E ao outro dia logo pola manhaã, mãdou Codamacão hum turco principal de fua cafa com trinta de caualo, & diante muytas trõbetas & outros inftormentos, pera que fofle com ho embaixador a fua cafa onde auia de poufar em hum apoufentamento apartado fobre fi. E os noffos hião efpantados da multidão da gente que auia na cidade, afli de caualo como de pee, & todos com atauios muy cuftofos, & afli da nobreza dos edifícios da cidade, & a gente que fe ajuntaua a ver os noffos lhe impidia que não podeflem paffar, & deteueranfe muyto ate chegar a cafa de Codamacão, a cuja porta eftaua Melique quadragi filho do regedor de çurrate que era paje del rey efperando polo embaixador, a que fez muyto grande cortefia, & ho leuou a Codamacão. E defpois dê feu recebimento ho embaixador lhe deu ho prefente que lhe leuaua do gouernador, que forão duas peças de cetim, húa roxo outro pardo: & outras duas, húa de camarabãdo verde, & outra de damalco branco. Dezoyto couados de graã, & húa albarrada de prata, & alem difto húa taça que ho embaixador acrecentou piais de fua cafa, porque nele eftaua fer feu defpacho boõ ou mao por fer ho mais priuado que el rey aaquefe tépo tinha: & afli lhe deu a carta do gouer¬ nador. E moftrãdo Codamacão que folgaua muyto com ho prefente, reco- lheofe ho embaixador pera as fuas poufadas, que erão muyto boas & cer¬ cadas, & em que todos os que hião com elle couberão aa fua vontade. E Codamacão lhe mandou muyto largamente de comer: & ao outro dia antes de comer lhe mandou recado do paço que fofle falar a el rey, que
Livro III, Capitolo CXXXII 32 r alli ho mandaua, & pera hirem, lhe mandou muyto bõs caualos, & a todos os feus, & foy coele Melique quadragi, & muyta géte de caualo & de pé que forão do paço pera iflo, & com muytos & diuerfos inftormen- tos. E com muy grande aparato abalarão pera ho paço, indo ho embai¬ xador & todos os noflos muyto bé vertidos. E leuauão ali tres dos noffos ho prefente que ho gouernador mandaua a el rey, que era hum colar douro efmaltado, & hú punha! forrado douro, bainha & tudo, & anilado que parecia muyto bem, & a adaga do embaixador porta em húa are- lhana douro, & ho feu bacio dagoas mãos & albarrada, & húa peça de borcado verde da Perfia, & duas da China, & noue couados de veludo preto, & affi chegarão aos paços que erão terreos (que arti os tinha ho emperador de Deli quando fenhoreaua Cambaya.) F. entrando ho embai¬ xador nos paços com Melique quadragi, defpois de paflar por muytos pátios & cafas chegarão a hum muyto grande, onde a hú cabo em húa capelinha defronte da porta eftaua el rey deitado em hum catle vertido em húa cabaya branca de pano dalgodão fino, & na cabeça húa fota do meímo, & muyta gete em pee porta em ordem dhum cabo & do outro todos grandes lenhores & capitães de gente que tinhão muyta renda: & em ho embaixador ho vedo lhe fez húa mefura no norto coftume com todos os noflos. E logo ele & Iames teixeira por leu mandado fe chega¬ rão pera onde eftaua, & junto do catle, lhe fizerão cada hum fua mefura. E el rey os recebeo com muyto. gafalhadoj & portos ambos em pee junto de Codamacão & doutros fenores, forão os outros noflos de dous em dous fazer fuas mefuras a el rey que afli ho mandou ele, & dali fe tornarão onde eftauão, & moftrando a todos muyto boõ rofto, & dando a entéder que folgaua de ver a nofla corteíia. Feyto efte recebimento, lhe aprefen- tou ho embaixador ho prefente que digo, com que el rey moftrou que folgaua muyto, tomãdo algúas peças na mão, principalméte ho veludo preto, & oulhandoas & falando niflo com aqueles fenhores que hi efta¬ uão. E vifto ho prefente, tomou a carta do gouernador, q ele leo logo, & lida lhe difie como ho gouernador lhe mãdaua fua çalema, & eftaua a leu feruiço com toda a armada, & com todos os Portuguefes: folgou ele muyto coiflo, & preguntou polo gouernador como lhe hia & onde ficaua. E efta pratica foy defta maneyra, falaua ho embaixador ao feu lingoa, & efte falaua a outro del rey, & ho del rey falaua a outro que ho dizia a el rey, porque afli ho coftumaua, & fe coftuma ainda agora & téno por grãde eftado. Acabada efta pratica, mandòu el rey a Melique quadragi que leuafle ho embaixador & aos noflos a hú cabo do patio a darlhe as cabayas, as do embaixador & de Iames teixeira de brocado & as dos outros de veludo, & eles as veftirão, dizcdo ho embaixador q ho fazião Tomo II
322 Hiftoria da índia , por lho el rey mãdar, mas q aqle nã era feu coftume. Veftidas as ca- bayas, tornarão outra vez a fazer reuerécia a el rey ao noffo modo, & ele diíTe ao ébaixador q fe folTe embora pera a poufada, & q difTefTe tudo o q queria a Codamacã & q logo feria defpachado: & adi fe tornou acompanhado como fov, & fendo na poufada, chegou Melique quadragi, & coele hú homé que trazia hú bacio grande cheo de moedas de prata mourifcas, que fe chamão madrafaxaos, & deu os ao ébaixador, & a Ia- mes teixeira da parte del rey que lhos mandaua pera lauajem das cami- fas, & eles fe poferão em os não tomar, dizendo q ho não coftumauão. E por lhe ele dizer q el rey ho aueria por injuria, & lhe pareceria que defprezauão fuas coufas, & aueria muyto grande menencoria, os tomarão, & adi duzentas tangas q lhe el rey mandou dar cada dia para feu comer, que erão quinze pardaos douro. E tudo ho embaixador mãdaua entregar a Pero queymado pera q o gaftaífe. CAPITOLO .CXXXIII. De como ho ébaixador foy defpachado del rey de Cãbaya, & de como fe tornou a çurrate. AO outro dia falou ho ébaixador com Codamacão, & lhe diffe como ho gouernador mãdaua pedir a el rey húa fortaleza em Diu, por¬ que aííi lhe efcreuera el rey feu fenor q ho fizelíe, porque dando- lha aueria fua amizade cõ el rey de Cambaya, & lua fazenda eftaria mais fegura, porque auia de fer muyta, & ele auia de ter por iffo grandes pro- ueitos. Ao q Codamacão diffe, q como pedião agora fortaleza em Diu, fe ateli não pedirão fe não feytoria, & q el rey a começara de dar aTriftão degâ quando lá fora com embaixada, & pera amizade & trato abaftaua feytoria, porq nome de fortaleza era muyto grande coufa. Ao q ho em¬ baixador refpondeo que el rey de Portugal não auia de fiar fua gente & fazenda de nenhúa terra na índia fem fortaleza, & ainda muyto boa por não mataré a géte, & lhe roubarem a fazenda como fizerão em Calicut, Coulão & em Malaca, em q fe teuera fortalezas como então tinha em algús deles tudo efteuera feguro, & não fora quebrada a paz né a ami¬ zade: & porq el rey feu fenhor a queria ter verdadeira cõ el rey de C㬠baya pedia fortaleza em Diu, quanto mais q pera hú tamanho fenor como ele era não deuia dauer por muyto húa fortaleza em feu reyno fendo dhú rey feu amigo, & de que auia de ter muyta honrra & proueito. E aííi lhe deu outras muytas rezões pera fe lhe dar a fortaleza. E paffando fobrifto muytas miudezas, diffe Codamacão q por amor do gouernador ele diria
323 Livro III, Capitolo CXXXI1I tudo a el rey, & ho defpacharia ho mais cedo q podeffe, & allí ho fez que dahi a dous dias que forão a vinte Dabril lhe deu ho defpacho, dizédo que dizia el rey que pofto que ele tinha dada feytoria em Diu ao gouernador, & ate então lhe não mandara falar em fortaleza, lhe prazia dala em çurrate, ou feytoria em qualquer lugar de feu reyno onde a ho gouernador quifeffe. E illo difle ho Codamacão com hú contentamento como que tinha acabada grande coufa, ou ho fazia com malicia por tem¬ porizar com ho embaixador, que na verdade fe ele quifera el rey dera fortaleza é Diu, porem ele não quis por não encontrar a Meliquiaz que não queria ver lá fortaleza noffa. Ouuido ho defpacho polo embaixador, agardeceo a Codamacão ho trabalho que niffo leuara, & a boa vontade que tinha, & diífelhe que não auia daceitar fortaleza le não em Diu, que affi lho mandara ho gouernador, por Diu ter boõ porto & poderem as noffas naos entrar dentro, & que fe podião tirar a monte fe fofle necef- fario & inuernar hi, o que não podia ler em çurrate, onde a fora elles incõueniétes auia outro, que era ficare as noffas naos tres legoas do porto. Do q fe Codamacão moftrou muyto defcontente, dizédo que como não punha na cabeça o q el rey daua. E ho embaixador diffe que punha por lerem palauras del rey, mas que não podia aceitar fortaleza fe não em Diu, & que ele deuia de pefar muyto bem (pois era peffoa em q el rey cõfiaua tanto) quanto proueito & honrra era del rey de Cambaya o q lhe ho gouernador mandaua pedir, & que deuia daconfdhar a el rey que ho fizeffe, porque feus portos fe tornaffem a enobrecer, & a render o que rendião, & ainda muyto mais: & que as fuas naos lhe trarião fegu- raméte toda a riqueza do mudo & nauegarião feguras. E tatas rezões lhe deu, que ele diffe que por amor do gouernador tornaria a falar a el rey, & pera que teueffe diffo mais lembrãça & fauoreceífe, lhe mãdou ho em¬ baixador hú barnegal de prata & hú caftiçal que erão feus, dizendo que lhe mandaua aquilo por fer coufa de Portugal cõ que lhe parecia que fol¬ garia, & affi diffe ele que folgaua. E dali a quatro dias lhe diffe que dizia el rey, q polo irem ver de tão longe, era contéte de dar ao gouernador fortaleza em hú de quatro lugares, Bombaim, Çurrate, Mairn, Doubez, & feytoria é Diu ou onde quifeffe, & q efcolheffe húa coufa daqlas fe hia por paz, porq ele não auia de tornar a falar a el rey porque aueria grande menencorià, & que fe qualquer daquelas coufas não quifeffe, que lhe não parecia boõ ho coração do gouernador. E com tudo ifto ho em¬ baixador não quis aceitar nenhúa daquelas fortalezas, & deulhe as rezões que tinha dadas, porque a não aceitaua em çurrate. E corrédo por efta matéria de palaura em palaura, diffe Codamacão que fe auendo paz an- treles as fuas naos auião de nauegar feguras, não leuando nenhúa efpe-
324 Hijloria da índia ciaria pera Adem ou pera ho eftreito, fe lhe tolheria ho gouernador que não foflem lâ. Ao que ho embaixador refpondeo q não era rezão, que tendo el rey de Cambaya paz & amizade com el rey de Portugal mãdafie fuas naos a Adem & ao eftreito, com quem ele tinha guerra, porque a verdadeira amizade auia de fer amigo damigos, & Imigo dlmigos. E difto não podia fugir el rey de Cambaya, porq afli ho leuara defpachado Trif- tão degâ: o que Codamacão negou, pofto q lho moftrarão polo liuro do eicriuão de Triftão degí\, & difle q não fabia parte de tal defpacho nem doutro nenhú fe não teuefie a chapa del rey, q he ho feu feio, & mais que não fcibia que proueito vinha a el rey de Cambaya da amizade del- rey de Portugal fe lhe tiraua a nauegação do eftreyto donde recebia ho mayor ganho de fuas rendas, & fe ele ifto não teuefie, que não fabia q auantajem lhe fazião, pois a Meliquiaz q era feu efcrauo tinha ho gouer¬ nador dados mais priuilegios. E ho embaixador lhe difle, que pofto que elrey de Cãbava não podefle mandar ao eftreito, que podia mandar a Ormuz, a Malaca, Pegu, Martabão & Bengala, Õde fe fa-zia tanto proueito & mais que em Adem & no eftreito, & affi em outras partes cj tinhão paz com el rey de Portugal, & eftauão a feu feruiço: & q foubefle q ho gouernador eftaua preftes com a armada da índia efperando pola de Por¬ tugal pera ir logo fobre Adc, & a moução paflada deixara de mãdar lâ muytas naos por rogo de Meliquiaz, que lhe mandara pedir que ho fizefle afli por não fe perder Cambaya de q erão lâ muytas naos, & que ele faria c5 el rey de Cambaya que lhe defle fortaleza c Diu, & por iffo ho gouernador as deixara de mandar. E afli lhe difle, que fe Adem fizefle concerto com ho gouernador, que tendo el rey de Cambaya paz com el rey de Portugal poderião as fuas naos ir lâ não leyando efpeciaria. E com tudo ifto Codamacão difle que não auia de tornar a falar a elrey no defpacho: & defefperado diflo, ho embaixador lhe pedio que lhe mandafle 'fazer ho defpacho que lhe el rey daua pera ho leuar ao gouernador, & lhe dar rezão de fi. E feyto ho defpacho, fe foy ho embaixador defpedir delrey, q a fora as cabayas q lhe derão como da primeyra vez, lhe man¬ dou dar a ele & a Iames teixeira fenhas adagas ricas, & fenhas peças de camarabandos: & Codamacão lhes deu pera ho gouernador hum terçado rico & húas peças de baetilhas muyto finas do deli que antreles feruem de fotas, dizédo que aquilo mandaua el rey ao gouernador ê final dami- zade, & lhe mandaria húa alimaria chamada ganda, que lhe leuarião a çurrate.
Livro 111, Capitolo CXXXIII 325 CAPITOLO .CXXXIII. De como hu embaixador foy inuernar a çurrate, & defpois fe partio pera Goa. DEspeuido ho ébaixador, partiofe ao outro dia, q forão vinte feys Dabril auendo dez que eítauão em Madaual, & ele & os feus tor¬ narão nos caualos & carretas de Meligupim, q efperarão todo eíte tempo pera os tornar a çurrate, & no caminho achou hú Português cha¬ mado Antonio afonfo, q lhe ho gouernador mandaua com cartas & com dinheiro, & chegou a çurrate a oyto de Mayo, onde lhe foy forçado inuer- nar por amor dos ponétes, que erão ja^ao forçofos q derão â coíta cõ as naos & zãbucos, & mais não tinha embarcação em q podeífem ir. E auendo dez dias que era chegado, chegou a ganda, que era húa alimaria quafi da groífura de húa pipa & curta dos braços & das pernas, & toda cuberta de cõchas pelo corpo, faluo a barriga, & a cabeça como de porco, & no meyo da tefta hum corno muyto agudo de comprimento dhum palmo ou mais. E eftas alimarias le criã em defertos do fertão da índia, & chamanlhe os índios gandas, & cuydo q fam os Rinocerõtes que Dio- doro diz que pelejão cÕ os alifantes & os matão. Eíta trouue hú capitão del rey de Cãbaya bem acompanhado de gente, & affi a entregou ao em¬ baixador cÕ grãde feita de tangeres. E ho embaixador lhe deu húa peça de cetim branco, & dez pardaos em dinheiro. E inuernando ho embaixa¬ dor em çurrate em Iulho, mandou Pero queymado a Madaual com cartas a Codamacão fobre fete efcrauos Chriltãos q lhe fugirão do caminho indo pera çurrate, que foube q eítauão em fua cafa.' E lidas por Codamacão as cartas, nã quis dar os efcrauos, & diffe a Pero queymado q os tomaífe fe os achafle, & nem refpondeo ao embaixador nem menos a Melique quadragi, a quem efcreueo fobre ho cafo. E vendo ho embaixador que não tinha remedio pera auer os efcrauos, entendeo em bulcar embarca¬ ção: o q fabendo Meâbabu & Meâcoje, lhe difierão que não bufcaífe em¬ barcação, porq eles tinhão cuydado de lha dar quãdo foífe tempo, que affi lhe tinha mãdado el rey de Cambava, & q lhe diffelTem quantas naos auião meíter pera lhas fazerem prefles. E dizendo ho embaixador q os feytores de Meligupim tinhão cuydado de lhe bufcar a ébarcação por feu dinheiro, eles ho não quiferão confentir, & que auião de tomar a embar¬ cação que lhe el rey daua, pedindolhe que a tomaffem, porq lha darião muyto boa. E aconfelhandolhe os feytores que a aceitaífe, ho fez affi, & diffe q abaítaria húa nao de ate trezentos & cincoenta candis que he húa
Hifloria da Índia 326 medida que fe coítuma na terra, & outra pequena pera leuar a Ganda. E aos vinte dias Dagoíto fizerão trazer húa nao grande & boa ao cays de çurrate, q ho embaixador diffe que abaítaua pera tudo, & q não auia neceffidade de mais: & pedindo ho meílre da nao ho frete ao embaixa¬ dor, diflelhe que ho pediire a Meábabu & a Meâcoje, que tinhão cuydado de ho pagar, & mãdoulhes dizer por feu recado que não pagara ho frete pelo que lhe eles tinhão dito, & eles fizeraníe muyto menencorios do meítre & ameaçarãno, & mandarão dizer ao embaixador que fe laa mais foífe que ho lançafTe pola porta fora. E iíto tudo era falfo, porque eles quiferão q ho embaixador pagara ho frete, porque lhes ficara ho dinheiro que tinhão del rey pera ho pagar, & alli a mataloiajem que folfe necef- faria. E vedo que era neceífario pagar tudo pelo q tinhão dito ao embai¬ xador pois ele fe pegaua a iffo, fizerão fugir ho meílre da nao & os ma¬ rinheiros, & fingirão que lhe pefaua dilío, & fizeranfe muyto menencorios do embaixador, dizendo que ele os fizera fugir. E tãtas coufas fizerão, que defefperando ho embaixador dauer por eles embarcação, a ouue dos feytores de Meligupjm que lhes tinha mandado q lha deffem & afii tudo ho de q teueffe neceffidade pera fua viaje: & eles lhe bufcarão tres zam- bucos, q fe chamão cotubas â cuíta de Meligupim. E auédo Meábabu & Meàcoje menencoria diílo, mãdarão húa noyte lançar polas ruas de çur¬ rate bem cincoenta vacas mortas & acutiladas, & lãçarão fama ao outro dia que os noífos fizerão aquilo: & adi ho differão aos feitores de Meli- gupí, que erão Baneanes, porque os indignafle contra os noflos & lhes não deffem embarcação: porq fe não pode fazer mayor pefar aos banea¬ nes que matarlhe vacas, que elles adorão. Poré os feytores não ho cre¬ rão, porque fabião q os noffos fe fechauão com foi: & adi lho differão, & que fabião a verdade, q os mouros matarão as vacas. Que não conten¬ tes cõ eda treição, vendo que lhes não aproueitaua, quiferão deter ho embaixador com dizeré que lhe auião de ver ho fato quando fe embar- caffe: & elliuerão dous dias fem ho mandar ver, mãdandolhe ho embai¬ xador rnuytos recados fobrilfo, ate que foy Iames teyxeira falharlhe, aco- panhado de fete ou oito criados del rey, & leuou ho defpacho del rey, & ho feguro que lhe tinha dado, & faloulhes muyto afpero porq os não def- pachauão, & querião q perdeffem mais tempo do que tinhão perdido. E eles fe defculparão, & então apertarão muyto q lhes querião pagar a em¬ barcação. E defpois de gaitadas fobriffo muytas palauras, diffe Iames teixeira q a embarcação era paga per Manichete feytor de Meligupim que fe auieífem coele, cõ tanto q não ficalfe deicontõte. E coifto ficarão amigos, & lhe moftrarão húa carta de Meliq quadragi, em que dizia que el rey foubera como ho ébaixador fe queria ir, q dizia que fe folfe em-
Livro III, Capitolo CXXXV 3j7 bora cõ todos os feus, & q lhe mandaífem algús panos, & que lhos não mandauão porq adoecera Codamacão que os auia de defpachar, que fe os noilos quifeffem efperar q lhos mãdarião, & ho ébaixador não quis. E recõciliado com Meâbabu & Meâcoje cõ que efteuera de quebra polas coufas pafTadas, fe foy embarcar com os noífos, com ho mefmo aparato que foy recebido quãdo chegou, & partiofe pera a índia a treze de Se- têbro. CAPITOLO .CXXXV. De como Iorge bolelho, & outros capitães desbaratarão el rej* de Linga, & do ruais que paffou em Malaca. NEste tempo chegou recado do gouernador a Iorge dalbuquerque q mandaífe chamar elrey de Campar, & q ho fizeífe bédara de Ma¬ laca. E porque Iorge dalbuquerque fabia que Iorge botelho era muyto conhecido em toda acjla terra & fabia a lingoa, rogoulhe q foffe por el rey de Campar, & mãdou coele outro capitão que fe chamaua Al- uaro vaz, & deulhes húa furta & duas lancharas em que foffem com algús dos noffos & gente da terra. E indo Iorge botelho pera Campar, achou noua que el rey eftaua cercado por el rey de Linga vaífalo del rey de Bintão q era muy boõ caualeyro, & ifto por fer amigo dos noífos: & porq Iorge botelho foube que a gente que tinha era muyta, & a fua quafi nada mãdou ho dizer a Iorge dalbuquerque & pedirlhe ajuda, & ele mandou Trilião de Miranda, Antonio de miranda dazeuedo, Ayres pereyra de berredo todos capitães, & por leu capitão mór Francifco de melo, & a fora a gente Portuguefa que ferião cê homês, hião fete ou oyto lancharas cõ gente da terra. F. partidos de Malaca chegarão ã boca do rio de Cam¬ par õde eftaua Iorge botelho, & dali entrarão todos ho rio & forão por ele ate a êtrada dhum efteyro, onde ho rey de Linga tinha feyta húa tran- queyra muyto forte, & tinha ali fua gente & armada, & fazia a guerra a el rey de Campar, cuja cidade eftaua polo efteyro acima. E entrando os noífos por efte efteyro, acharãno tão eftreyto & cercado de ribas tão altas q fenão atreuerão a ir por ele, porque temerão q fabédo os immigos fua ida acodiífem logo, & os mataífem de cima das ribas fem fe eles pode¬ rem defender, & mais como ho efteyro era tão eftreyto poderlhe hião queymar a frota. E por ifto pareceo bê a todos q fe tornaffem, & fe po- leífem no rio largo á boca do efteyro, & ali tolherião os mantimêtos aos immigos, que por erta caufa fayrião a pelejar coeles, como fayrão tanto que ho fouberão, & era húa frota doytéta lancharas, em que andauão bem feys mil homcs os mais deles frecheiros, não fômente de frechas
Hijloria da índia S28 darco, mas de zarauatana, & os noffos ferião fetecentos homés, cê Por- tuguefes & os outros da terra. EI rey de Linga hia diãte a remos em húa lachara tamanha como húa grande galeaça & leuaua nela duzentos homés cõ padefes q os cobrião todos, & lanças muy boas, & como a maré decia rija hia a lachara a todo tira, & dâ de fupito com Iorge botelho q eftaua em húa lanchara na boca do efteyro com obra de vinte Portuguefes, def- plgardas, & bêftas, & algús frecheiros da terra: & em ele vendo a lan¬ chara del rey, mãda defparar fua artelharia que deu pelos remeyros de húa banda, & leuou algús deles mortQS, & os outros cõ medo deixarão ho remo, & baquearanfe que foy caufa de fe atraueffar a lanchara na boca do efteyro, & por fer eftreyto encalhou fé poder paffar, & as outras que hiao apos dela fe deteuerão nela, & ficarão amõtoadas, que parece que foy milagre de noífo fenor, porq fegundo a multidão de géte que erão, os noffos ouuerão de paliar mal. E como Iorge botelho vio aquilo, começa desforçar os feus, dizédo que Deos era coeles, & lhes daua os inimigos nas mãos, que os aferraflém: & afli fe fez, poré eles não oufarão defperar, que em os nòffos abalrroando le lançarão ao rio, por mais que el rey de Linga lhe bradou q ho não fizeffem. E vendo ele que lhe não aproueitaua, lãçoufe també & foyfe a terra nadãdo. E nifto acode Francifco de melo cõ os outros capitães, & étrão pola lanchara del rey & dão nas outras, q afli fe hião defpejando como os noffos entrauão, & todos fe acolhião a terra fem oufaré de os efperar. E tudo ifto como digo foy milagre de noífo fenhor, porq doutra maneyra não era poffiuel que tanta multidão de gente como erão os immigos ouueffem tamanho medo de tão poucos como erão os noffos, q ouuerão aqui muyto defpojo. E desbaratados os immigos, veo el rey de Campar q logo foube a noua, & derãlhe a lan¬ chara em que andaua el rey de Linga, que ele eftimou muyto por fe auer antreles por grande hõrra, & as outras, delas forão tomadas, & as mais queymadas. E fabendo elrev de Campar ho recado õ lhe leuauão pera ir gouernar Malaca, fezfe preftes ate ho outro dia com molher, filhos & toda fua cafa: & os noffos fe partirão coele, & na boca do rio acharão Ioão lopez daluim com certas lancharas que lhes aprefentou húa prouifam de Iorge dalbuquerque, em q lhes mandaua que lhe obedeceffem todos, & foffem coele 1'obre Bintão pera ho deftruyrem. E como todos os mais daqueles capitães erão fidalgos, defprezaranfe de ir debaixo da capitania de Iohão lopez a hú feyto tão honrrado como fora tomarfe Bintão, de q ele auia de leuar toda a honrra, & por iffo ordenarão como não foffem, & tornaranfe todos a Malaca. E por Iorge dalbuqrque entcder a coufa como fora, os prédeo a todos: & ao outro dia foltou Iorge botelho, & rogoulhe que foffe cõ Ioão lopez a Bintão, porque cõpria muyto a feruiço
Livro III, Capitolo CXXXVI 32$ del rey feu fenhor deftruyrfe aquela força q ali fe começaua de criar: & que fendo cafo q não podeífem entrar Bintão, que fe tornafle loão lopez pera Malaca, & ele ficaffe laa cÕ toda a armada, porq tolheffe os manti- métos a el rey, & lhe fizeffe todo ho mal que podeíle, & nã fe foífc da hi lem feu mãdado. E partido loão lopez pera Bintão, ordenoufe a coufa de maneira, que nem ele ho entrou, nem Iorge botelho ficou laa, & tor- naranfe pera Malaca, onde fabédo Ninachatu que el rey de Campar hia a Malaca pera fer bendâra, credo que ficaua defonrrado fe lhe tirauão ho officio, quis antes morrer honrrado, & matoufe com peçonha q comeo: & logo el rey de Campar foy leuantado por bendara com muyto grande fêfta, & muyto grãde prazer de todos, & defpois que ele gouernou fe en- nobreceo Malaca muyto mais q dãtes. CAPITOLO .CXXXVI. De como chegou aa índia Chrijlouão de brito capitão moor das naos da carga: 6 de como lio governador determinou de ir Jobre Ormu\. EStãdo ho gouernador em Goa, em Setébro de mil & quinhentos & quatorze chegou hi Chriftouão de brito, que partio aquele ãno de Portugal por capitão môr da armada pera a índia, de que forão capitães a fora ele Francifco pereyra coutinho, Luys dantas & loão de melo: & com Chriftouão de brito hia Nicolao ferreyra, que fora por em¬ baixador delrey Dormuz ho anteceffor do que reynaua, a el rey de Por¬ tugal fobre lhe confirmar fua amizade, & defcarregalo que não pagafie cadanno mais de dez mil xerafins de pareas, porque pagaua qulze mil, fazendofe muyto pobre, & que não podia pagar tanto. E ho embaixador como foy é Portugal, quis lhe noífo lenhor dar graça pera que fe fizeffe chriftão, & deixaífe de fer arrenegado como era dantes. E deixando a falfa feita de Mafamede, reconcilioufe com a fancta igreja catholica, o que foy feyto com grande fèfta que el rey mãdou fazer: & reconciliado dilfe a el rey a verdade Dormuz, & camanha coufa era, & quanto rendia, & quão tiranizado eftaua por Cojeatar: por iífo que não alargaífe coufa ne- nhúa das pareas, & q ho deuia de mãdar tomar. E el rey por temporizar cõ el rey Dormuz, refpõdeolhe acerca das pareas que na índia tinha feu gouernador fobre quem defcarregaua todos os negocios dela, q ele faria niffo o que lhe bem pareceífe que lhe mandafle recado. E ao gouernador efcreueo o que efcriuia a el rey, & que fe podelfe tomar Ormuz fem ho deílruyr que ho fizeffe, encomedandolhe muyto que fe là foífe q ficaffem as coufas da índia tão feguras que não recebeífem nenhú trabalho, por- Tomo II 4*
33o Hijloria da índia que cõferuar ho ganhado era mais q ganhalo de nouo: & tomando Or- muz fizeífe a igreja principal da auocação de nofla fenhora da conceição, adi como a de Lisboa. E vedo ho gouernador efta carta, pofto que eftaua determinado pera ir a çuez pelejar com a armada do Soldão, mudoufe defta determinação por eftas rezões, porque pofto q foffe grãde coufa des¬ baratar a armada do Soldão que cadãno abalaua a índia cÕ fua vinda, & eftoruar a romaria dos mouros a Meca, & cõcertarfe cÕ ho Prefte, não fundia mais nem aproueitaua, que tolhqr aos mouros as mercadorias que leuauão polo mar roxo que não indo ficauão as que hião de Portugal de muyto môr preço: & porem acabado do gouernador desbaratar a armada do Soldão, auiafe de tornar â índia, & pagar mãtiméto â géte das feyto- rias del rey, & foldo que fe lhe deuia, & elas ficauão muy defprouidas de dinheiro & mercadorias, porq a carga' das naos & ho mao cuydado dos feytores égolia tudo & a gente ficaua fem remedio. E indo a Ormuz, fenhoreãdoho de todo como efperaua em noflo feríor teria ali com que prouer a géte, & poderia efpalmar a armada, & efperar a dos rumes no tépo verdadeyro em q podia ir â índia, & ganharfehia tanto no trato dos caualos pera os leuar a Goa, q el rey de Narfinga & ho Hidalcão anda- uão a quem mais daria por eles, & ou aueria por iffo Baticalá, ou a terra firme de Goa: & a fora ifto melhorauafle grãdemete o eftado del rey na índia, cõ ter por feu hú reyno tão rico como aqle. E ele ganhado, dali poderia mais facilmente tapar ho mar roxo q da índia porq lhe ficaua mais perto, & fechandofe ho mar roxo, dauaffe faida â efpeciaria por Ormuz, do q refultaua muy groffa réda a el rey de Portugal, como o gouernador tinha por efperiecia no anno q entrou ho mar roxo, q forão a Ormuz mais fefenta naos do q dãtes hião. E por eftas rezões mudou a ida do mar roxo a Ormuz. E o q lhe fez ainda aífentar mais niífo, foy q chegou Pero dalbuqrq, & lhe difle q el rey Dormuz tomara a carapuça do Xeq ifmael, & a lua oração, & que Raix noradim goazil Dormuz Perfio de nação lhe parecera muyto inclinado a entregarfe Ormuz ao xe¬ que ifmael: & que era homé velho & tinha configo muytos filhos, & eftaua é fua mão ho tefouro del rey, & fua fazéda, & q ho Xeque ifmael começaua de fazer guerra a Ormuz, & contoulhe o q paliara cõ ho feu capitão que eftaua é Reixer. E diffelhe també das muytas naos q achara é Ormuz por amor de fua ida ao cabo de Goardafum, q cuydauão os mouros q auia détrar ho mar roxo. E afTentando ho gouernador de ir a Ormuz, calouho configo & começoufe daperceber pera iffo, dizendo q era pera ho mar roxo: & nifto chegou Diogo fernãdez de Cambaya, õde fora por embaixador & trouue a repofta que difie. E determinandofe ho Go¬ uernador em fua ida a Ormuz, partiofe pera Cochim pera ver a fortaleza
Livro III, Capitolo CXXXVI 331 de Calicut, q achou quaíi acabada, & era da maneyra que difle, & che¬ gado a CochI defpachou as naos pera Portugal, em que mandou a gãda a el rev & algúas joyas de preço deflas que lhe mandauão os reys & fenhores da índia. E prouidas as fortalezas, de CochI, Calicut & Cana- nor, tornoufe a Goa com toda a armada que auia de leuar a Ormuz: & porque lhe ho Hidalcão tinha mandado dizer, que lhe mãdafle hú homem de confiança por embaixador, & que adernaria coele luas coufas, porque por cartas não auião núca dacabar. Mandou ho gouernador a ido Ioão gonçalves de caftelo branco em que confiaua muyto, & deulhe fua indru- ção do que auia de pedir ao Hidalcão, que erão as tanadarias que auia de Banda ate Chandagará q erão vlte legoas, & quando não quifeííe que dede as de Antruz, Bardés & Salfete, & fe as não quifede dar liureraente q as dede, com condição que lhe dedem a terça parte do q elas rendef- fem, & que eda terça lhe pagarião em caualos ou alifãtes. E que alem de por efta caufa ficar paz perpetua & amizade antrele & el rey de Por¬ tugal, lhe concederia que os mercadores que trazião os caualos, os não vendedem a outrem fe não a ele, nó que ganharia cento & cincoéta mil pardaos. Poré elrey de Portugal ganhaua outro tãto fe lhe dauão eftas tanadarias, & adi hia na inftrução q Ioão gonçaluez fe deixade andar c5 ho Hidalcão ho mais tempo que podede. E partiofe de Goa em Feue- reyro acompanhado de dez Portugueles de caualo, & obra de cem piães da terra, porq como hia a negocio de tanta importância, mãdouho ho gouernador coede edado, pera q ho teuefle ho Hidalcão em muvta eftima, como teue defpois q lâ foy, & fezlhe muyta honrra & gafalhado. E Ioão gonçaluez lhe deu hum prefente que lhe mandaua ho gouernador, que era hú alifante & dous caualos & húas coyraças podas é veludo azul, & hú edoque, & hum punhal ricos, & duas peças de graã. E ho Hidalcão edaua e feu arrayal húa legoa de Vifapor a principal cidade de feu fenho- rio, Õde ainda que tem muytas he feu codume ajidar fempre no campo. E ho Hidalcão não tomou nenhúa concrufam cõ Ioão gonçaluez, dizendo que dera as tanadarias por lhe ho gouernador dar a compra dos caualos fe ele ouuera dedar na índia pera fempre, mas que auia de vir outro: & que fe lhe outrem deffe mais pelos caualos q lhos daria, & por iífo não auia dadentar partidp com nenhú gouernador fe não com el rey de Por¬ tugal, a quem queria mandar leu ébaixador. E eda foy a repoda que deu defpois de Ioão gonçaluez andar lâ onze meles.
33a Hifloria da Lídia CAPITOLO .CXXXVII. De como lio gouernador chegou a Ormir{. PRouida a fortaleza de Goa pelo gouernador de todo ho neceflario, & aíli húa armada de fete furtas que auia de ficar na corta com a nao rume, ébarcoufe com todos os capitães da frota, que erão dõ Garcia de noronha capitão da nao nazarê em que hia o gouernador, Av- res da filua da nao bota fogo, Diogo fernandez de beja da nao frol da rofa, Pero dalbuquerque da nao baftiayna, Simão dandrade da nao Enxo- bregas, Vafco fernandez coutinho da nao garça, Iorge de brito da nao fanóta Ofemia, Lopo vaz de fam Payo da nao fanta Cruz, Antonio rapofo do nauio ferros, Ruy galuão doutro, Pero ferreyra da taforea, Nuno martinz rapofo da carauela anúciada, Ioão de meira da carauela fam Iorge, Ioão gomez da carauela Santiago, Francifco pereyra da carauela fã Nicolao, Ioão pereyra da carauela Sãtiago, Fernão de refende doutra, Silueftre corço da galé grãde, Manuel da corta da galé Santiago, Iero- nimo de foufa da galé fam Vicente, Fernandeanes do bargantim Santiago, Pedro corço capitão doutro. E chamados eftes capitães a confelho, & afli dom Ioão deça capitão de Goa, & dom Sãcho de noronha alcayde môr, & Nicolao ferreyra ébaixador del rey Dormuz, perante ho fecretario Pero dalpõe lhes diífe q ele tinha fua armada preftes, & a gente embarcada, que íerião mil & quinhentos Portuguefes, & feyfcentos Malabares: & que el rey feu fenhor lhe mãdaua entrar ho mar roxo & fazer fortaleza em Adé, & que fobriífo lhe efcriuia cadãno, & afli fobre Ormuz, que defe- jaua de ho ter & fer fenhor dele, fegundo fe cõtinha mais largamente em húa carta q moftrou que fua alteza lhefcreuera aquele ãno, & que tinha por noua certa que el rey Dormuz tomara a carapuça do Xeque ifmael & fua oração, & q fe dizia antre os mouros (como fabia ho embaixador Nicolao ferreyra) que Ormuz fe auia dentregar ao Xeque ifmael. E por lhe el rey efcreuer muyto apertadamente fobre Ormuz, queria faber deles feus pareceres fobre efte feyto Dormuz, fe feria mais feruiço del rey ir com aquela armada feguralo do Xeque ifmael, ou ir fobre Adem & en¬ trar ho mar roxo. E dando cada hú deles fobrifto feu parecer q aflinarão, acordarão cõ ho gouernador que era muyto mais feruiço delrey ir fegu- rar Ormuz que a nenhú dos outros cabos: & q feguro Ormuz dele, fe podia mais facilméte tomar Adem, & entrar ho mar roxo que da índia. E adernado ifto fem ho faberem mais que os que forão prefentes no con¬ felho, partiofe ho gouernador pera Ormuz quarta feyra de clza vinte hú
Livro 111, Capitolo CXXXVIII 333 •dia de Feuereyro, de mil & quinhentos & quinze: & aos vinte feys de Março quafi foi porto foy furgir no porto Dormuz. E em chegando foy a ele hú mouro chamado Acem ale da parte del rey a darlhe a boa hora de lua vinda, & dizerlhe que vinha pera fua cafa, & mandoulhe por ele hú prefente de fruyta feca, & coufas daçucar. E ho gouernador refpon- deo a Acem ale, que fe aquilo afli fofle como lhe el rey mandaua dizer, que ele ho trataria como a filho, né vinha ali fenão pera cõferuação da terra. E porque não entraffe mais gente darmas da que eftaua na cidade, mandou vigiar a ilha per algús capitães, & que não étrafie nenhú nauio fem fer vilto, & achando neles géte darmas a matafiem: o que mandou dizer a el rey pera que ho mandafie pregoar. E auédo dous dias que era chegado, mandou a terra Nicolao ferreyra a dar a el rey a reporta de fua embaixada, ficando por arrefens hú fobrinho de Raix noradí. E a re¬ porta foy per duas cartas, húa em q el rey de Portugal remetia a reporta da petição de Raix çafardim ao gouernador, & a outra fobre ho mouro caçador da onça que el rey mandara coela ao papa. E fabendo ho gouer¬ nador q el rey dormuz não diífera nenhúa coufa a Nicolao ferreira fobre a reporta de fua ébaixada, per cõfelho dos capitães lhe mãdou pedir por Diogo fernãdez de beja & polo fecretario a fortaleza q deixara começada pera fe acabar: & lhe mandafie dar apoufentamento na cidade pera os capitães por quanto auia deftar nela oyto mefes, & que mãdafie abrir a porta da fortaleza q eftaua pera ho mar, & çarrar outra que eftaua aberta pera os feus paços. E el rey lhe mandou pedir a fortaleza que eftaua começada por eftar tão perto dos feus paços, & que lhe daria lugar pera fazer outra ode quifefie, & lha faria â fua curta: do que ho gouernador foy contente, com tanto q lhe defie el rey em arrefens hú filho de Raix noradim, & hú feu fobrinho de comprir o que prometia. E fobrifto ouue alda algús recados por fofpeitaré os mouros que pederia ho gouernador pera fazer a fortaleza as cafas del rey ou a mezquita. CAPITOLO .CXXXVIII. De como ho Xeque ifmael mãdou hú embaixador ao gouernador fobre amizade com cl rey de Portugal. EStando ho gouernador nefte porto Dormuz chegou hum Miguel fer¬ reyra q ele tinha mandado ao Xeq ifmael com cartas, em que lhe offrecia amizade & liança com el rey feu fenor, & fua ajuda cõtra feus immigos. E como ho Xeque ifmael tinha fama do que ho gouerna¬ dor fizera na conquifta do reyno Dormuz, & na índia defpois que come-
334 Hifioria da índia çou de a gouernar: & affi fabia ho gafalhado que fizera ao meffejeiro do ieu ébaixador, & os offrecimentos damizade que lhe mandara por ele» folgou muyto de ter por amigo hú rey tão poderofo como ho de Portu¬ gal, & a feu gouernador. E não fôméte defpachou bem a Miguel ferreira, fazendolhe muytas merces, mas ainda defpachou hum embaixador com cartas damizade pera el rey de Portugal, & pera ho gouernador: & afli prefétes de coufas ricas. Ç efte foy Coge alijão ho meífejeiro que ho foy a vifitar da parte do embaixador, que foy por feu mandado ao Hidalcão, em cuja companhia foy Miguel ferreira, & eftaua em Ormuz quãdo ho gouernador hi chegou. E fabédo ele per Miguel ferreyra como ho ébai¬ xador do Xeque ifmael eftaua na cidade, mandou por ele algús dos capi¬ tães da frota que forão nos feus bateys vestidos dos melhores veftidos que tinhão, & os bateys embandeirados, & com muytos atabales & trom¬ betas, de modo que ho embaixador foy leuado com grande féfta. E ho gouernador eftaua com todo feu eftado veftido darreyo cÕ quãtos eftauão coele, & a tolda da nao armada & alcatifada. E em chegando ho embai¬ xador, defparou a artelharia da nao, de que ele ficou efpantado, & afli de ver a muyto grande mageftade cõ que ho gouernador eftaua, que pa¬ recia hum muy poderofo principe, afli em fua peffoa como na companhia dos capitães & fidalgos que eftauão coele. E recebido ho embaixador por ele, que fe alfentou, lhe deu duas cartas em lingoa Perfiana, húa pera el rey de Portugal, & outra parele. E a pera el rey de Portugal tornada é noífa lingoa, dizia. Ao grande rey fenhor de grandeza, & fenhor dalta coroa, & da liõrra antre os reys. Efíeyo dos reys da ley do mexias: arreyo dos reys Chrif- tãos, rey grade & grande antreles, rey de grande coração, & fenhor bem auentnrado, caualeyro de Portugal & de fua grandeza, affi como rofas de boõ cheiro, affi fã fuas merces, & como almi^quere de boõ cheiro, cheira ho muyto amor com que vos efcreui tudo ijlo, porque lie affi, & todo meu coração & vontade lie que fernpre feiais grande & de alto ejlado, que voffo lugar lie alto. Façouos faber q em hum tépo boõ, lui de meus feruidores foy por onde ejlaua ho gi-ãde fenhor gabado & efcolliido dos reys: ho voffo grande gouernador, & arreyo dos gouernadores Chrif- tãos capitão moor, meus homês chegarão a elle. & lhes fe\ muy ta honrra, & lhes amoflrou amor & amizade, & os aiudou & defpachou bem, & mos enuiou. E não ha diiuida q ejle feyto foy damor, que noffos corações tinhão em aufencia, do que foy caufa ho voffo gouernador, & ho decla¬ rou, affi como ho foi he claro, & por iffo lhe mandei meu embaixador Coge aliião pera mais afirmar & enfortalecer ho amor & amizade, ajji como vos melhor quiferdes, & feia fernpre ejla boa ami\ade antre nos,
Livro III, Capitolo CXXXIX 335 & nojfos mejfeieiros, & cartas vão fetnpre & venhão, & aia fempre ca- dea damor. E a carta do gouernador, tornada tãbé da mefma lingoa Perfiana, dizia. Pera lio grande fenhor que té ho mando, & efleyo dos governado¬ res, & grandes da ley do Mexias. Caualeyro grade, & forte lião do mar de grande coração. Senhor capitão mór, que em meus olhos & mi¬ nha graça & coração, muyto me contentares. & fois grande em minha võtade: & ijlo he verdade, ajji como ho lie, q ha claridade quando ama¬ nhece, nem ha duuida nijjo, como a não ha em cheirar ho almi\quere, & quero que seiais fempre grande & aleuãtado em bê, & q Jeiais fempre alumiado em voffo caminho, affi como voffo coração deseia. Façouos faber como veyo Coge alijão, & me dijfe voffo amor, & vojfa boa vontade, & algtlas palavras q lhe diffejles, que paffarão antre vos & ele, mas diffe muyto bem ditas, & me obrigarão a acrecentar amor & ami\ade ãtre nos, & por tãto vos mandei Coie alijão, pera que vos diga algíias coufas que lhe diffe, & volas faça entender: & peçouos que façais o que vos ele pedir, & que ho nã detenhais, & ho dejpacheis cedo, & mo enuiay: & mandaime algíis mejlres bombardeiros, & eu os contentarey como elles quiferem. Ijlo vos peço por noffa ami\ade que lio façais, q toda minha efperança he em vos, & fempre vão & venhão noffos meffeieiros: qual¬ quer coufa que vos de mim cõprir mandaimo di\er, & cõjiay muyto em minha ami\ade. Lidas pelo gouernador eftas cartas, efteue cÕ ho embaixador hú grande pedaço praticando em muytas coufas, & difielhe que ho defpa- charia muyto cedo, & tornouho a mandar a terra pelos capitães que forão por ele. CAPITOLO .CXXXIX. De como Raix noradim goafl Dor mu \ entregou ao gouernador a fortale\a. ANdádo os recados del rey Dormuz pera ho gouernador acerca de dar a fortaleza pera fe tomar cõcrufam, foy Raix noradl falar ao gouernador, & forão por ele algús dos noffos capitães com grande folenidade, o que ho gouernador fazia por lhe ganhar a võtade & fazer a fortaleza em paz, como lhe mandaua el rey feu fenhor. E em arrefens de Raix noradim ficou na cidade Diogo fernãdez de beja: & por Raix noradim ter os pés muito inchados de corrimentos & não poder fobir aa capitaina, lhe falou ho gouernador na galé de Silueftre corço, cuja popa
336 Hifioria da índia eítaua alcatifada, & armado hú dofel de borcado, & ho gouernador aífen- tado em húa cadeira rica deitado, & tinha veítido hú pelote de damafco preto, & húa loba do mefmo aberta polas ilhargas, & húa carapuça de veludo preto, & calças deítamete de milão, & hú colar dombros que valia tres mil cruzados, que ele mãdara fazer pera ho eítado da índia, & na cinta húa efpada rica: & todos os capitães forão veltidos de fêita, & ailetados. E chegado Raix noradim, ho gouernador fe leuantou, & mandoulhe dar húa cadeira em que fe aífentou. E defpois de lhe dar as encomendas del rey Dormuz, diflelhe q tinha q falar coele algúas coufas de fegredo: & logo ho gouernador mandou defpejar a popa da galé. & não ficarão mais que dom Garcia & hú fobrinho de Raix noradim & Acem ale, & Alexandre dataide lingoa & ho fecretario. E ficando íòs, difie Raix noradim ao gouernador, que poíto q ele tinha feyto merce a el rey Dormuz da fortaleza que eítaua começada, com tanto q lhe deffe lugar pera fazer outra, porq os materiaes parela ferião muyto maos da- jútar, ele lhe tornaua a fazer feruiço da q eítaua começada como a feu pay (qúe neífa conta ho tinha) & adi efperaua q ho fizeífe coele como cõ filho, & mais fendo ele & todo ho reyno del rey de Portugal, & feu. E porem q pera mais fegurança da gete da terra, & dos mercadores ele lhe prometeffe cõ juramento em fua ley que foliem fempre amigos dami- gos, & Imigos dímigos, & ele juraria por parte del rey Dormuz outro tãto, & que fempre eítaria a obediecia & mãdado del rey de Portugal, & ao feu q eítaua em feu lugar, & alíi ho jurarão ambos cada hú em fua ley, & alfinarão hú auto que diffo fez ho fecretario. E iíto acabado deu o gouernador húa cabaya de brocado a Raix noradim que logo ali veftio, & mãdoulhe deitar ao pefcoço hú ramal de cotas douro groífas que tinha cem cruzados: & mandou dar a feu fobrinho outra cabaya de cetim cra- mefim com os botões douro, & a Acem ale cincoenta cruzados & cinco couados dezcarlata, & mandou a el rey per Nicolao ferreyra, que foy em companhia de Raiz noradl hú colar douro efmaltado, & por Acê ale húa bandeira das armas reais de Portugal, pera que a mandaffe aruorar fobre feus paços por final de paz & obediência. E aíli foy feyto cõ grande feita de defparar toda fua artelharia, a q a noífa frota refpondeo: & iíto fe fez ate ho meyo dia do derradeyro de Março, que foy vefpera de ramos. E logo dali ate noyte mandou Raix noradim começar dabrir a porta da torre que laya ao mar. E ao outro dia domingo de ramos a mandou ho gouernador acabar dabrir, & mãdou dÕ Aluoro de craíto & Antonio da- zeuedo com gente armada, pera q eíteueífem em goarda dos que abrião a porta, que foy aberta quafi ao foi poíto, & logo os noífos fe meterão na torre & ficou é feu poder: & como anoyteceo a foy o gouernador ver,
Livro III, Capitolo CXL 337 indo coele dõ Garcia & algús fidalgos & caualeyros, & â entrada fe affen- tou S giolhos de prazer, & deu muytas graças a noffo fenhor por lhe tor¬ nar aqla torre tãto em paz. E logo a fegGda feyra mandou cercar toda a ponta em que eftaua a fortaleza de hGa paliçada de certos cheos darea & fua padellada por cima, & ãtre certo & certo hGa bõbarda, & ifto pera a fortaleza ficar mais fegura fe os mouros quifeffem fazer treyção como da outra vez: & também pera fegurança dos officiaes que auião de tra¬ balhar de détro da paliçada, arti como pedreyros, ferreyros, & carpintei¬ ros, q logo começarão de trabalhar, & arti mandou arrãcar pedra, & cauar geífo q fe cozia pera fe fazer cal. E em goarda delta gente, por¬ que eftaua afaftada da cidade mandou eftar Frãcifco pereyra com ho feu nauio, onde fe recolhião de noyte os que trabalhauão na pedreira. E dali a dous dias fe começou de defcarregar mercadoria pera a feytoria. E dõ Garcia fe foy a terra pera eftar lá coeles & fauorecer a fortaleza, & ho gouernador ficou na frota cõ outros. E deita maneyra tinha ho mar & a terra muyto feguros, não fòmente da parte dos noflos, mas també da del rey Dormuz, q cada dia mãdaua de comer ao gouernador, & arti tinha cuydado dele como fe fora feu pay. E Raix noradl lhe acofelhaua q ho fizeffe, & folgaua muyto cõ a vinda do gouernador, porq efperaua de fer vingado por ele de húa muyto grãde treyção q lhe tinha feyta hG feu fobrinho chamado Raix hamet, q fendo ele goazil ho meteo dentro no paço cõ dous irmãos feus, & ho fez goarda mór del rey, a quê fazia que lhe fizeífe merce & hõrra. E auendo hG anno que eftaua no paço, come¬ çou de pedir a el rey Dormuz que ho fizeífe goazil, & lhe deffe as cafas que forão de Cojeatar. Do que fe elrey efcufou per muytas vezes: & polo tirar daquele propofito ho mandou darmada fora Dormuz, dizendo a Raix noradim a caufa porque. E porem Raix hamet não quis laa ãdar muyto, & tornou com ho meímo propofito, & com muyto maior foberba. E eftãdo Raix noradim doente em cama húa noyte de grande tempeftade com ajuda de feus irmãos que dormião dentro no paço, entrou na camara em que el rey dormia com fua molher tendo dentro no paço toda a gente q fora coele darmada. E tomandoho pola mão com hum terçado nuu fobrele, lhe diffe que fe via ele que ho podia matar. E el rey cõ medo da morte fe lhe lançou aos pés dizédolhe que faria tudo quanto quifeffe, & que ho não matafle. E ele lhe deu a vida com condição que auia de gouernar ho reyno, & ter em feu poder a ele & a toda fua cafa & fazeda & feu tefouro, & por fua mão fe auia de gaftar, & arti auia de ter ho feu finete, & q auia de fazer tudo quanto lhe mandaffe: & q Raix noradim teuefle nome de goazil, mas que não auia de gouernar nenhGa coufa. E arti fe fez por Raix noradim eftar doente & não poder acodir, & ele ter muyta 43 Tono II
338 Ht/loria da índia gente & fe apodar do paço, & ter el rey como prefo, que ho não deixaua fayr dele fem ir em fua cõpanhia, nem falar com ninguém fem eftar pre- fente. E como el rey Dormuz & Raix noradim andauão difto muyto fen- tidos, determinarão de fe vingar de raix hamet pelo gouernador, a quê Raix noradim ho mandou dizer por Alexandre dataide, pedindolhe q lhe fizeffe juftiça daquele tirano, & que fe ele quifeffe fazelo que el rey lho mandaria dizer, porque auia tamanho medo de Raix hamet q ate não faber fua vontade não queria bolir com nada. CAPITOLO .CXL. De como ho gouernador m&dou matar Raix hamet por feus capitães. Elogo ao outro dia, falãdo el rey com Alexandre dataide em coufas que lhe ho gouernador mandaua requerer, lhe diffe aa poridade que Raix hamet que hi eítaua ho tinha prefo, & fora de todo feu poder que ho difTefTe aíli a feu pay ho gouernador (que affi lhe chamaua por lhe ele chamar filho). E fabedo ho gouernador ifto, ordenou de fe ver em terra com Raix noradim como que auião de falar fobre feus ne¬ gócios, & mandou por ele a Antonio rapofo, & a Nuno martinz rapofo & ho fecretario, & acõpanharãno Raix madofar irmão de Raix hamet, & muytos mercadores honrrados naturais Dormuz, que beijarão a mão ao gouernador, que lhes diffe que pois el rey Dormuz era vaffalo del rey feu fenhor, q lhe auião ali de jurar, q auião de fer fempre fieis a el rey Dor¬ muz, 'obedecédolhe é tudo, & gaftãdo por ele as vidas, & fazedas fe cÕ- priffe, & q nã conheceffé por gouernador del rey, & do reyno fe nã a Raix noradl: & affi ho jurarão todos, & tambe Raix madofar, pofto q fe moftrou niffo hú pouco rigorofo. E ho gouernador lhes jurou de os man¬ ter em juftiça, & defender el rey de todos feus immigos. E ifto fez por¬ que nenhú daqueles obedeceffe mais a Raix hamet, & fe não aluoroçaf- fem quando o tiraffe de gouernador. E feytos eftes juramétos, ficou fô com Raix noradl, que lhe cotou perante ho fecretario & lingoa toda a treição de Raix hamet, pedindolhe muyto da parte del rey, & da fua q os liuraffe daqle tirano. E ele lho prometeo, & diffelhe que por ifto dera aquele juraméto aos mercadores, & concertarão ambos que fe viffe com elrey no madraçal õde poufaua Simão dandrade q era perto da fortaleza (& eftes madraçais fam como antre nos os eftaos), & que ali lãçaria mão de Raix hamet, & ho préderia: & difto lhe mãdaria a certeza do que elrey queria q fe fizeffe, porque ainda ho não fabia. E defpois defta vilta,
Livro III, Capitolo CXL 33g cocertarão polo fecretario & por Alexandre dataide, q ao outro dia que era quinta feyra folTe a vifta no madraçal como adernarão. & não eítauão cÕ ho gouernador mais que os capitães & fidalgos da armada, & eftarião defarmados, & ho feu paje lhe teria as íuas armas, & delta maneyra iria el rey. E a quarta feyra â noyte foy ho gouernador a terra a falar com dõ Garcia, & com os outros capitães, a q em confelho deu conta do q efperaua de fazer. E affentoufe que indo Raix hamet ali ho prendelfem logo, & pera ilto foliem todos os fidalgos & capitães armados fecreta- mente: & que Pero dalbuquerque foffe ho primeyro que lançalle mão dele, & q não deixaffem entrar com el rey mais que ele & Raix nora- dim, & Acem ale ho lingoa, porq o gouernador fe temeo q Raix hamet pola tirania q fazia fe temelfe dalgúa coufa, & leualfe armados fecreta- mente os que entraífem cõ el rey, & fe ho prédelfem, aueria hi algúa briga em que morrerião algús. E parece q ho gouernador adiuinhou, porque affi ho tinha Raix hamet determinado, & diífelfe defpois q pera matar ho gouernador & os nolfos capitães que foliem fem armas. E a fora ilto fe adernarão mais outras coufas que fe auião de fazer neíte feyto. E ao outro dia húa hora ante menhaã foy ho gouernador a terra com todos os capitães que eltauão no mar, & leuauão todos fua gente armada, & adi tinhão os que eltauão em terra: & també os Malabares edauão preítes com fuas armas. E toda eíta gente ficou na praya, & ho gouer¬ nador com os capitães & fidalgos armados fecretamente, & ecima velti- dos muyto ricos, fe meteo no madraçal de Simão dandrade. E vendo Raix noradim a nolfa gete armada, mandou armar a del rey, pregútando primeyro ao fecretario fe ho mandaria: & naquela gente del rey entrauão obra de duzétos de Raix hamet, q fe armarão de fayas de malha a fora os que auião de ir com el rey q as leuauão fecretas. E armados eltes de Raix hamet das armas defcubertas, pos elle hú terçado & húa adaga muyto ricos, & foyfe primeyro a cafa do gouernador, que ja tinha ouuido miífa: & como era foberbo entrou logo dentro como homé defalfegado, & foy ter ondeltaua ho gouernador, q ho recebeo. muyto bé, dizendo que folgaua cõ fua viíta, & preguntoulhe por elrey. E defpois de dizer que vinha atras, diffelhe .o gouernador q como trazia ele armas, pois eílaua no concerto q nenhúa das pelfoas q entraífe cõ el rey naqlla cafa auia de trazer armas, por iífo q as tiraífe. E ele dãdo a étéder q fe não entedia aquilo nele fayofe pera fora. E é faindo chegou elrey á porta, & Raix noradi & feu filho Raix xarafo, cõ muitos fidalgos a pé derredor del rey, & diãte as trõbetas & atabales do gouernador fazendo grande arroido. E em elrey defcaualgãdo, & entrando no recebimento do madraçal, achou Raix hamet, q lhe diífe q não entraífe, porq ho gouernador tinha détro
Hijloria da índia 340 homes armados. E fiandofe el rey no gouernador difle q auia dentrar. E ouuindo ifto Alexandre dataide, que eftaua pegado cÕ el rey, tomou pola mão a Raix hamet, & como que ho queria fegurar, diflelhe. Ora vem ca, quero que vejas que não he nada o que dizes, porque tudo he por feruiço del rey. E leuãdo ho affi pela mão, chegou coele aa porta da cafa onde ho gouernador eftaua, & fegurandofe Raix hamet com el rey que lhe iicaua nas coftas entrou logo, & apos ele el rey, com quem entrarão Raix noradim & Raix de lamixa feu filho, & Acem ale. E logo dom Gar¬ cia que goardaua aquela porta a mãdou fechar a Manuel velho & a Diogo homem que tinha configo, & não deixarão entrar Raix madofar irmão de Raix hamet, que quifera entrar dentro com a gente que leuaua armada fecretamente pera matar ho gouernador & os noífos. E quis noífo fenhor q pera fe aquele feyto fazer fem perigo, que entrou Raix hamet diante del rey, que fe entrara coele ouuera dauer briga fobre ho entrar dos feus, que quiferão entrar por força: mas dõ Garcia cÕ algús capitães fecharão muy bé as portas: & entre tanto Alexandre dataide chegou cõ Raix ha¬ met onde ho gouernador eftaua, que fe leuãtaua da cadeira pera ir rece¬ ber el rey: & vendo Raix hamet alda cõ as armas, diflelhe que as tirafle, q não vinha afli be: & dizedo ifto deteuefe. E raix hamet esforçandofe nos armados fecretos que lhe parecia que auião dentrar cõ el rey, parece que quifera fazer o q tinha determinado, & todo aluoroçado foy com a mão ao terçado: & ho gouernador q tinha olho nelle em ho vedo ir cõ a mão leuouho polo braço, & olhãdo pera Pero dalbuquerque, diflelhe. Tomayo lâ. E dizendo ifto abalou pera el rey. E pero dalbuquerque fe meteo rijo ãtre ho gouernador & raix hamet, q nefte inftante querendo poer em obra feu propofito lãçou mão ao gouernador dhúa beca de ve¬ ludo que tinha, & ele ho lançou de li dizendo a Pero dalbuqrque q ho tomafle. E em lançãdo mão dele acode todos efles fidalgos & capitães q hi eftauão, & juntaméte arrancão hús de punhaes, outros defpadas, & em hú momento ho paflarão todo, & derão coele no chão morto, fem ele po¬ der bradar: & alda não foy no chão quãdo foy defpojado de quãto trazia & ficou nuu & afli ho deitarã na praya por húa porta que faya a ella. E fora não fe ouuio nenhúa coufa do rumor q nifto ouue por amor das nof- fas trõbetas q tangião todas, que afli ho mãdou ho gouernador pera q com ho ruydo do tanger não fe ouuifle o rumor, & mais q não cuydafle a gente del rey que não deixarão entrar, q fe fazia algQ mal em fua pef- foa. E quando cayo Raix hamet eftaua el rey ja perto do gouernador: & vendo afli matar aquelle homé, cõ fe ver dentro fem ter dos feus mais dos que digo, afli ele como elles ficarão fem fangue com medo, & fe po¬ derão fugir fugirão. E ho gouernador que ifto entendeo, chegoufe a ele
Livro III, Capitolo CLI 341 cÕ ho barrete na mão, rindofe, & pedindolhe perdão de fe matar aquele tredoro em fua prelença, porque a fua defcorteíia de querer arrancar do terçado, & de lhe lançar mão da beca lhe fizera mãdar que ho mataflem. E por entender em el rey, que eftaua tão fora de fi que lhe não podia refpõder, ho começou dabraçar & esforçar, dizédo que não fizera aquilo fe não por feu feruiço, que aqle tirano lhe tinha tomado ho reyno & ho trazia catiuo, & por iflo ho matara. E a ifto difle el rey q fizera bem. E Raix noradim que conheceo q ho gouernador falaua verdade, ajudou tam¬ bém el rey a cobrar esforço. E nefte tempo a fua gente q ficou de fora, & afli a de Raix hamet fazião grande matinada, bradãdo & prouando fuas forças de quebrar as portas, & começauão de as picar cÕ machadi¬ nhas, & fempre fizerão algúa coufa fe não fobreuierão neíta conjúção os capitães da ordenança com fua gente, & metenfe por antre os mou¬ ros & a porta do madraçal, & ficarão fenhores dela fazedo apartar os mouros: que afli fe aífentara no confelho do dia paliado, que fe fizeífe tanto que el rey foffe dentro. CAPITOLO .CXLI. De como os irmãos de Raix hamet fe forão Dor mu 1, & ficou tudo em Pa\. ✓'■'X Uãdo os mouros virão vir os noíTos da ordenãça & fenhorearfe I 1 da porta, & virão que os nã quiferão deixar entrar com el rey, nem entrarão coele mais que tres peffoas, crerão que era morto ou prefo: & aífi ho diflerão efles feus, & ho mefmo diíferão os de Raix hamet por ele. E como ali eftaua junta a mór parte do pouo da cidade, começoufe defpalhar efta noua por eles, & aleuantoufe hú rumor tão grãde que era coufa deípanto, porque hús bradauão por el rey outros por Raix hamet, & Raix madofar os aluoroçou de maneyra (certificandolhe que elrey era morto ou prefo) que fe indinarão contra os noffos, & come- uão de querer trauar peleja coeles. E afli fora fe ho gouernador não aco- dira a iífo, q ouuindo os brados que hião fora, & imaginando o que os mouros auião de fofpeitar pelas caufas que ouue pera iflo, rogou a el rey que fe fobifle a hú terrado do madraçal, & difiefle a géte que eftaua em fua liberdade: & afli foy feyto, & fobio coeles Raix noradim. E vendo a gente el rey & Raix noradim, fizerão grandes alegrias, & ele lhes difle que efteueflem quedos & não bolifle configo fe não que mãdaria matar quem fizeífe ho contrairo: & mandou que toda fua gente fe apartafle a hum cabo, & ho mefmo mandou Raix noradim a hú feu filho que era
Hijloria da índia % 342 capitão de certa gente del rey, & affi foy feyto. O que vedo Raix mado- far, fe doeo de fer feyto algum mal a feu irmão, & começou de bradar por ele, & dizia que lho deflem ou lho moftraflem. E el rey lhe difle que ele com todos feus irmãos fe foffem logo fora da fua cidade, & do feu reyno, & lhe defpejaffé fuas cafas. Ao que ele refpondeo que fi faria, com tanto que lhe deffem feu irmão: & vendo que lho não dauão fe recolheo com fua gente aos paços del rey (onde Raix hamet deixou por goarda feu hirmão Raix ale) & apercebeofe pera fe lhe deflem combate, porque ele não fe temia del rey, nem deu por algús recados que lhe mandou fobre lhe defpejar os paços & fe fayr da cidade, nem ho fizera fe não fora com medo do gouernador que ho mandou ameaçar pelo embaixador do Xeque ifmael fe não deípejafle os paços, & fez moftra de ho mandar cÕ- bater cõ mandar trazer das naos todas as efcadas q trazião, & obra de cincoéta tiros encarretados q mãdou leuar ao terrado da nofla torre que eftaua pegado com os paços. E vedo ifto Raix modafar, & fabédo q feu hirmão era morto, não quis q lhe fizefiem outro tanto. E cõ feguro do gouernador & del rey que os deixauão ir com fuas molheres, filhos, pa- rétes, criados, & toda fua fazenda, & affi lhe darião húa pouca que tinhão mãdada á índia & lhe dauão embarcação & não mãdariã a pos eles, fe forão: indo primeiro ho efcriuão do thefouro del rey ver fe leuauão algúa coufa dele ou doutra fazenda fua, de que não leuando coufa algúa fe forão embarcar ao cabo da cidade, & partirão pera a terra firme. E quando foy ao defpejar do paço ho gouernador ho mandou entregar a hú filho de Raix noradim. E pofto que ho gouernador ho poderá tomar, & affi el rey q tinha em feu poder, não quis refpeitando a muytas coufas de que tinha neceffidade que lhe faltarião, aluoroçãdofe a terra, que eftaua certo aluoroçarfe. E por també goardar a fê a el rey, que fe lhe metera nas mãos: a que trabalhaua muyto por fazer crer que ele não fora a Ormuz fe não pera ho conferuar & acrecentar feu eftado. CAPITOLO .CXLII. De como fugirão fete dos nojfos pera a terra firme, & do que Raix noradim fe\ fobriffo. ESte negocio durou ate ho foi pofto: & todo efte tepo el rey efteue fobre ho terrado, em q fe foy moftrar à gente, & ali coroeo, & todos ho vião, & affi quanta cortefia & gafalhado lhe fez ho gouer¬ nador, & defpejados os paços & tudo pacifico, elrey fe foy pareles, indo diante os noffos atabales & trobetas, & as fuas, & apos elas a fua gete
Livro III, Capitolo CXLII 343 darmas, & logo elrey armado em húas coraças de veludo braço cÕ todas as outras peças darmas neceffarias q ho gouernador lhe deu quando efteue no terrado, por lhas ele pedir, q lhe parecerão bé algús dos noffos q vio armados daqla maneira. E hia a caualo, & detrás dele a pé dom Garcia & outros capitães & fidalgos dos noffos: & Raix noradim & outros fenho- res & fidalgos dos feus. E hú pouco acima do madraçal dõde el rey fayo, eítaua ho gouernador efperandoo cõ algús capitães dos noffos també a caualo, & adi muyta géte armada: & ajútãdofe el rey# coele cõtinuarão caminho dos paços. E era fermofa coufa de ver a gente fem coto q hia, & eítaua polas ruas, & fobre os terrados pera ho ver. E porque ho ca¬ ualo do gouernador era fazedor, não pode ir junto com el rey, & hia diante fazendo terreyro, que doutra maneyra não poderão romper polas ruas fegúdo a gente era muyta, & toda bradaua dando graças ao gouer¬ nador porq lhe leuaua feu rey tão honrradamente. E chegados aos paços q fam a fortaleza da cidade, ho gouernador perãte toda aqla gente, & ho embaixador do Xeq ifmael & feu capitão a entregou a elrey & a Raix noradim feu goazil. E eles cõfeffarão q a recebião de fua mão. E quãdo o gouernador fe efpedio del rey, ele fe lhe abaixou todo, dizédo q era feu pay, & como filho conheceria fempre aqla merce q lhe fizera: & por fer noyte ho gouernador foy dormir aa noffa torre. E defpois delta morte de Raix hamet ficou a cidade muyto affeffegada, & teue muyto credito no gouernador que queria fua cõferuação, & mais vendolhe fazer tanta honrra a el rey, & que lhe poderá tomar a cidade & a fortaleza fe qui- fera pois a teuera em feu poder. E ao outro dia mãdou ho gouernador logo pola manhaã vifitar el rey, que lhe mandou dizer que auia dous mefes que não dormira também como aquela noyte, & fez muyto gafa- lhado aos noffos, dizédo que leuarão por ele muyto trabalho no dia paf- fado. E Raix noradim lhe daua também muytos agardecimétos, & logo aqla noyte mandou el rey tirar a vigia que eítaua nos feus paços da parte da noffa fortaleza, & afíi as bombardas q tinha dantes daquela banda. E ao outro dia defpois da morte de Raix hamet que foy feita feyra, foy el rey á mezquita a fazer fua oração o que auia muytos dias q não fazia. E porq el rey tiraua delta oração do xeque ifmael algúa coufa q Raix hamet acrecétara nela, & ho embaixador fe aqueixou diffo ao gouerna¬ dor, dizédo que el rey ho fazia por feu medo, mãdou ele pedir que ao menos ate fayr ho embaixador do Xeq ifmael com que auia de mãdar hú dos noffos por ébaixador diffeffe a oração como dãtes, & alfi foy feyto. E também por rogo do gouernador forão degradados Dormuz muytos fodomiticos q auia na cidade que tinhão putaria dhomés, afli cçmo antre nos de molheres: & por feu rogo fez el rey cõprar obra de doze mil xe-
344 Hijloria da índia rafins da noffa mercadoria que erão neceffarios pera as obras da forta¬ leza, & não quis pedir dinheiro tão cedo a el rey pofto que ho deuia, porque não pareceffe q viera a Ormuz com neceffidade dele, & pera dei¬ xar criar mais rayzes na amizade, que el rey tinha de cada vez mais coele: & auendo quatro dias q fora a morte de Raix hamet, ho foy ver & leuoulhe diante hú prefente, em que entraua hú caualo felado cÕ húa feia goarnecida de prata, & hú terçado, & adaga, & cinta ricos goarne- cidos douro anilado, & duas peças de brocadilho & tres de feda, & pera dõ Garcia outro caualo felado & húa peça de brocadilho, & duas doutra feda, & pera cada capitão húa de feda, outra de brocadilho. E nefta vifta pedio ao gouernador algús mouros catiuos q andauão a remo nas galés, & ele lhos deu cÕ tanto que lhe defle remeyros a foldo. E defpois defta vifta por rogo do gouernador, mandou el rey apregoar que ningué não trouuefle na cidade arco nem frechas, & ifto cõ còr q fe temia dalgué ho matar por amor de Raix hamet. E a verdade era por tirar as frechas aos mouros, que erão as armas de que le mais temia. E porq ja tinha tira¬ das eftas armas, pera q ficaffe tão fenhor dos mouros que lhe não podef- fem fazer treição como da outra vez, & aífi pera que teueífe fempre fua gente preftes, pos em coftume q todos os feus capitães quando fayão fora de cafa leuauão fempre fua gente armada de lanças, adargas & efpadas, & mais q cada quatro dias ou cinco foffe cada hú per fi ver el rey, & leuafle a géte defta maneyra dentro ao paço. E el reylolgaua de os ver afli, & muytas vezes fazia merce de caualos aos capitães. E continuando fe afli ifto, aos dezoyto dias de Mayo achou o gouernador menos dos noffos Pantalião meftre dos calafates, Ioão afonfo calafate da nazaré, An- tonio frz marinheiro q fora a Malaca cõ ho gouernador, & hú galego feu homé da goarda, & outro q fe chamaua daluito q ja fora mouro, & dous homés da ordenãça & hú efcrauo Chriftão q fugirão todos pera a terra firme. E fabendo ele ifto mandouho dizer a el rey, pedindolhe muyto que lhos ouuefle, porque ele faria merce a quem lhos trouuefle. E el rey & Raix noradim poferão tal diligencia fobriffo que fe ouuerão. E aos vinte hú dia de Mayo trouue Iorge dorta fete da terra firme, õde foy por eles por mandado do gouernador, & ele os mãdou juftiçar muy cruamente, faluo a Ioão afonfo calafate, & a Antonio fernandez marinheiro, porq ho ajudarão a faluar na nao em que fe perdeo indo de Malaca pera a índia, & do efcrauo fez merce a Ieronimo de foufa, que também foy pera dar goarda a húa terrada em q foy Iorge dorta.
Livro III, Capitolo CXLIII 345 CAPITOLO .CXLIII. De como ho governador mandou a Fernão gome\ de lemos cô embaixada ao Xeque ifmael, & de como chegou ao [eu campo. ASsessegado affi efte aluoroço, porq fe chegaua ho tempo da partida do ébaixador do Xeque ifmael defpachou ho o gouernador muyto bem, & defpois de partido, porque ho Xeq ilmael lhe mandara rogar que lhe mãdaífe hú homé principal com que alfentaífe amizade, pera q a ouueííe por firme, lhe mandou hú embaixador pera iflo. E efte foy hú fidalgo chamado Fernão gomez de lemos, que por ir da parte de tão alto príncipe como era el rey de Portugal a outro dos mayores de toda Afia, quis que foffe bem acompanhado, affi de gente de caualo como de pé, & foy por lota ébaixador outro chamado Ioão de foufa, & por efcriuã do ébaixador hú Gil fimões moço da camara del rey de Portugal, & mãdou coeles hú boõ prefente, como direy a diante. E preftes de todo ho neceffario pera feu caminho q auia de fer por terra, partio Fernão gomez Dormuz cÕ fua companhia a hú fabado â tarde cinco de Mayo, & paliado á terra firme ao porto de Bander q eftá na terra firme tres legoas Dormuz, foy ter coele ao domingo pola manhaã Habrahem beque hú mouro capitão do Xeq ifmael, que auia muytos dias que eftaua em Or- muz, & fe hia pera a corte do Xeque ifmael, & Fernão gomez hia em fua cõpanhia. E efte era fenhor de húa cidade chamada Draguer, & paffoufe primeyro à terra firme q Fernão gomez pera lhe comprar came¬ los, & tinhalhe comprados coréta, que tantos lhe erão neceffarios pera as cargas que leuaua, & dali em companhia da Brahé beque partirão pera ho campo do Xeq ifmael q eftaua dali a muytas jornadas quafi no cabo da Perfia que eles andarão em tanto efpaço que a húa fefta feyra vinte dias de Iulho chegarão aa cidade de Caixão dez Iornadas donde eftaua ho cãpo. E â entrada defta cidade, os fayrão a receber Mirabuçaca, & os embaixadores del rey de Daquem & do çabayo, donde partirão todos jútos: & tédo os nofios andadas trezétas & vinte cinco legoas defpois que partirão Dormuz aos vinte tres Dagofto chegarão ao campo, donde os fayo a receber ho gouernador do Xeq ilmael acopanhado dalgús capitães, & leuaua dous mil & quinhétos de caualo. E entrados no mevo do campo onde eftauão as tédas defte gouernador, mandou ele armar junto delas as dos noffos: & defpois de ferem apoufentados, mandou ho xeq ifmael vifitar a Fernão gomez, mandandolhe a boa hora de fua vinda, & coiffo muytas truytas de que aquele dia fizera grande pefcaria. Tomo II 44
346 Hiftoria da índia CAPITOLO .CXLIIII. Em que conta como fe leuantou lio Xeque ifmael & lio feitorio que tem. ESte grande príncipe chamado Xeqifmael, a que comúméte chama¬ mos çufio, & e lingoa peafiana Xatamaz, & Xâ, veo a fer tamanho fenhor, & tão poderofo por efta maneyra. Seu pay foy mouro, & chamoufe Aidar, & foy xeque de húa vila chamada Ardeuil, & doutros lugares & aldeas na Períia: foy cafado com húa filha del rey de Guilão tambê em Perfia de q ouue quatorze filhos & cinco filhas, & antreftes foy ho Xeq ifmael, que quando naceo foy tirado feu nacimento por muytos aftrologos, que differão dele muyto grandes coufas, de q muytas forão defpois affi, & hú deles ho furtou a feu páy fendo de idade de dez annos, & ho leuou a hú lago q eftá em Arménia de comprimento de dez legoas, & de largura de feys, em que fe fazem tres pequenas ilhas muyto viçofas daruoredo, em que morão muytos religiofos arménios, & étregou o a hú deles pera que ho criaffe. E ele ho fez affi, & lhe infinou a fua lingoa, & a ler & efcreuer nela. E paífados algús annos fendo ho pay do Xeque ifmael morto em húa batalha por feus immigos, & prefos feus filhos, & tomada fua terra. Foy aquele aftrologo polo Xeq ifmael, & contoulhe a morte de feu pay & prifam de feus irmãos, & perda de fua terra, & que polo faluar deita deítruyção fabendo o que auia de fuceder ho pofera naquelas ilhas, onde tornaua por ele por fer chegado ho tempo em que auia de começar de fazer o que achaua por aftrologia. E certificandolhe que auia de fer hú dos grandes prlcipes de toda Afia, ho leuou ao reyno de Guilão, cujo rey era feu auô, a quem ho aftrologo contou todo feu nacimento, & por iflò lhe deu fua ajuda de gente de caualo, pera ir co¬ brar feu fenhorio, o que ele fez logo com grande deítruyção de feus Imi- gos, & quanto fe roubou tudo deu aos foldados que ho ajudarão, fem que¬ rer pera fi nenhúa coufa, & recolheo pera fi quantos mal feytores auia pola terra, a que fazia muytas merces, & não fomente os do feu fenho¬ rio, mas doutros algús q defpois tomou, & como todos ouuião a fama da nobreza que vfaua com os feus foldados, acodirão tãtos a receber feu foldo que em pouco tempo fe ajútarão coele coreta mil homés de caualo. E como fe vio affi poderofo de gete, quis fazer outra feyta que no modo de oração & algúas coufas outras era differente da de Mafamede, dizédo que affi ho mãdaua Ale, hú homem que os mouros teuerão por propheta fanto, de que ho xeque ifmael dizia fer ho parente mais chegado, que affir-
Livro III, Capitolo CXLIIII 347 maua fer mais fanto q Mafamede & mais eftimado de Deos, & contra- dizédo q Mafamede não fora propheta. E diuulgada efta feyta antre os feus pera fere conhecidos dos outros mouros que foffem da feyta de Ma¬ famede, mandou que todos os da fua trouueífem nas cabeças hús barre¬ tes ou carapuções vermelhos que terião doze verdugos ao comprido, & húa tromba em lugar de cucuruto que fayria fora hú palmo. E eftes ca¬ rapuções com os liuros da fua feyta mandou a todos os reys & xeques da Perfia, rogãdolhes q foffem de fua openião, ameaçado os q ho não quifeffem fer q os auia de deftruyr, como deftruyo a muytos q o nã qui- ferão fazer. E por defprezo da feyta de Mafamede derribaua os alcorões, & fazia eftrebarias das mezquitas, & desfazia as cidades, & mataua a géte cõ diuerfos generos de tormentos, pelo q muytos xeqs & reys cõ medo tomarão fua feyta, & fe fizerão feus vaffalos, & tributários, & c pouco tempo fe fez fenor de toda perfia & dãbas as arménias, & de grãde parte Darabia, & da índia primeyra, fem qrer q lhe chamaffem rey, né emperador, né quis nunca affentar em nenhúa cidade de feus fenorios, em q ha muytas & muyto grãdes & abaftadas, principalméte é Perfia: & andaua fempre no cãpo cõ hú arrayal de trinta & cinco mil tédas bran¬ cas feyto todo é ruas por tão boa ordé que parecia húa cidade muy bê aífentada. As tédas do Xeque ifmael eftauão no meyo do arrayal, & júto coelas as de fuas molheres, & ao derredor fe fazia hú grãde terreyro, q eftaua defpejado õde fayão as bocas das ruas principaes do arrayal. E cõ quanto aífi andaua no cãpo, feruiaífe cõ muyto grãde eftado, & tinha todos os officiaes de fua cafa, & corte, aííi mòres como peqnos, como té os príncipes, & todos tinhão muyta réda, & era ho feu cãpo húa muyto grãde & fermofa corte, em q andauão reys feus vaffalos & grãdes capi¬ tães. E os reys erão, el rey de Guilão, el rey de Xiruão, el rey de Ma- zãduão, & a fora eftes lhe pagauão pareas quatorze reys q não andauão coele no cãpo, & aífi tinha outros muytos q erão feus vaffalos, mas não pagauão pareas. Dos principaes capitães q andauão coele erão, Dormif- cão que tinha trezétos mil cruzados de réda, çoltanquiler fenor da cidade de Xiraz, & feu veador q tinha trezétos & clcoéta mil, Mirzahoté gouer- nador da cidade de Caixão q tinha duzétos & cincoéta mil: outros dous capitães eftauão fora do cãpo por frõteiros cõtra ho turco, & hú tinha trezétos mil cruzados de réda, & outro trezétos & cincoéta mil. & corenta & oyto capitães, outros de muyta géte q nenhú nã decia de clcoéta mil cruzados de réda. E todos eftes & os officiaes da cafa & corte do Xeq ifmael tinhão quafi tamanhas tédas como as fuas, & por détro entreta- lhadas de cetins & veludos de cores, & tinhão as cordas de feda q era fermofa couía de ver: & cada hú deftes capitães & fenores tinhão trõbe-
34& Hijloria da índia tas & atabales, q cada dia ao poer do foi tangião hora & mea por orde¬ nança q atroauão todo ho capo. Andauão mais nefte capo muytos embai¬ xadores de reys & grades fenores, & antreles hú del rey de Iorgia Chrif- tão q confina cõ as terras do Xeq ifmael: ãtre toda a géte defte campo q era fem coto, aíTi de caualo como de pé, tinha ho Xeque ifmael pera goarda de fua pefloa cinco mil de caualo, q chamão corchís, & deftes ho vigiauão cada noyte mil homés armados darmas defenfiuas & offenfiuas, & em pê, & cada hú tinha nas mãos dous feixos peqnos, & de quando é quãdo tocauão hús cõ os outros, começado hú primeyro, & refpodendo logo os outros q fazião grade matinada. E a eftes q afli vigiauão, fe daua ao outro dia de comer da cozinha do Xeq ifmael, q he cafado & té tres molheres prlcipais filhas de tres reys feus vaffalos del rey de Guilão, de Xiruão, de Mazãduão. E cada húa trazia cÕfigo noue noues de damas, filhas de grãdes fenores & homés principaes, a fora muitas efcrauas de muito preço q fão grãdes muficas afi de cãtar como de tanger harpas, frautas, & outros inftormétos de cordas. E eftas cõ fuas tédas logo junto das do Xeque ifmael. A efta apoufento chamão arame: & he muv fun- tuofo & rico porq todas as tédas fão de fedas de diuerfas cores com mui¬ tos entretalhos de borcado & tela douro & de prata. E cada húa delias rainhas tem noue fetes de camelos pretos de guedelha cõ muytos cafca- ueis pelos peitos & pelas mãos pera leuaré fuas tédas & fato. E afora efte arrayal é q fe apoufenta ho Xeque ifmael cõ fua géte de corte e de guerra: ha outro de cinco ou feis mil tédas em q andão quãtos oficiaes machanicos & mercadores fão neceffarios pera húa nobre cidade & efte fe affenta húa legoa ou duas deftoutro do Xeque ifmael. CAPITOLO .CXLV. De como Fernão gome\ de lemos deu ao Xeque ifmael a êbayxada & prefente q lhe leuaua. DEspois qle mãdou vifitar Fernã gomez lhe mãdou ho gouernador de cear & dali por diãte é quãto andou no cãpo dauã fempre de comer a ele & aos noffos à cufta do Xeq ifmael & afli pera feus caualos & velas de cera pera fe alomearé & tudo é muyta abaftãça. E ao outro dia que foy fabado foy ho Xeque ifmael à caça & irião coele oito mil de caualo ele no meio de todos q lhe não chegaua ningué cõ hú tiro de pedra fomente ho feu gouernador q hia falãdo coele. E efte dia deu ho gouernador bãquete a Fernão gomez & a todos os de fua cõpa- nhia & foy por ele à fua tenda el rey dos Lôres & foy tãbé cÕuidado ho
Livro III, Capitolo CXL VI 349 embaixador del rey de Gorgia. E ho embayxador cõ todos os feus erão homés de grades corpos & mebrudos & muyto aluos & atauiados pobre- méte de camifas colchoadas de groffura de quatro dedos por amor do grãde frio q faz 5 fua terra: ho mais erão roupas forradas de cabritas ate as carapuças. E calçauão botas ao noffo modo. Eftas tedas do gouer- nador erão muyto ricas, os q comerão no bãquete forão muytos & antre todos fe fez a hõrra principal a Fernão gomez & durou ate noite em que ouue muytos & diuerfos mãjares: & diuerfidade de vinhos & fruytas & em quãto^comerão lepre tocarão: muytos inflormetos de mufica ao noffo coftume: & antes de fe começar ho banqte deu ho gouernador a todos os noffos camifas de feda & cabayas de borcado, & veílidos delias roupas comerão: acabado ho banqte paffou ho Xeq ifmael q tornaua da caça & os noffos fairão fora das tedas pera ho ver & em ho vendo poferão todos as cabeças no chão & ho gouernador fe foi pareie com hú barrete dos noffos na cabeça, q ho Xeque ifmael folgou, muyto de ver & defpio hú roupão de cetl verde forrado de rapofos & mãdou o a Fernão gomez, & afíi muytas truitas de q fizera grãde pefcaria: A quarta feyra feguinte q Fernão gomez auia de dar ho prefente q leuaua ao Xeque ifmael forão porele â fua tenda muytos capitaes cõ muyta gcte de caualo q ho leuarão muy hõrradaméte & tãgendo diante muytas trobetas & atabales, & a tiro defplgarda da teda do Xeq ifmael foy defcarregado dos camelos em q hia ho preíéte q lhe leuauão, q forão hú falcão & hú berço de metal cõ todo feu aparelho pera poderem tirar: seys efpingardas com todo feu com- priméto, hú corpo darmas brancas todo inteiro com fua fralda de malha fina, dous corpos de coiraças pollos em veludo carmefim cõ fuas efcar- celas à redonda, húa efpada cõ ho punho bocal & conteira douro, & bainha de veludo preto cõ hús botões de fio douro & borlas de retros verde, com húas cintas goarnecidas douro, hú punhal douro, & anilado e húa arelhana dòuro, quatro bêllas com todo feu almazem, duas lanças com os aluados, & cõtos forrados douro batido, húa carapuça de veludo negro da feyção das do Xeque ifmael cõ cento & oytcta & hú rubis de preço encalloados é ouro, duas manilhas douro, húa muyto grãde cõ hú robi tãbé grãde, & feys peqnos, & vinte noue diamães, & a outra mais pequena com hú olho de gato grãde, & dous robis meãos, & vinte dous pequenos, & fefenta & dous diamaés de corja com tres efmeraldas meãs & íeys pequenas, quatro aneys douro, anilados os tres deles cõ tres robis grandes muyto finos, outro com húa çafira, & vinte fete robis ao derre¬ dor, húa joya de pefcoço com hú robi grande finiílimo, & tres meãos, & vinte pequenos cõ duas turqfas, & tres perlas da feyção de perinhas, & húa muyto grande, húa pera dambar com cem robis & feffenta diamaés
35o Hijloria da índia pequenos cÕ hua cadea douro darelhana, cinco portuguefes douro, & clco cruzados, & cinco catholicos douro da moeda de malaca, de mil & co- réta rs cada hú, & clco manueys douro da moeda de Goa de trezétos & coréta rs, & cinco toftoes, & trlta quintaes de pimenta, & vinte de gin- gibre, & dez de crauo, & cinco de canela, & vinte daçucar & hú de car- damomo, & dez deftanho, & dez de cobre, & duas faraçolas de bejoim, & leyfcentas peças de beatilhas de Bengala. E defcarregado tudo, ifto perante ho gouernador & as beatilhas mandou leuar a homes de noue é noue, & a outros as joyas & peças em bacios de prata: & outros leuauao nos braços as armas brancas & coiraças, & adi outros as outras coufas todos a fio, q occupaua grade efpaço: & nefta orde atraueffarão perante ho Xeque ifmael arredados hú tiro de pedra da fua tenda, q ho vio tudo muyto be. E paliado foralhe falar Fernão gomez & os q hião cÕ ele, em cõpanhia do feu vedor & do feu porteiro mor: ele eftaua em húa tenda étretalhada de borcado & veludo azul, affentado em hú eftrado de hú co- uado em alto, alcatifado de muy ricas alcatifas & almofadas: & tinha diáte de fi hú tanq dagoa em q andauão algúas truytas. Da fua mão de- reita eftaua elrey de guilão q parecia homé de feífeta anos: & júto dele o capitão da goarda irmão do gouernador da cafa do Xeq ifmael, & ou¬ tros dous capitães. E da parte ezquerda Dormifcão & el rey dos Lores, ho ebaixador del rey de Gorgia, & outros dous capitães, e outros detrás. E polo cãpo aueria .xxx. mil peífoas. Chegado Fernã gomez diãte dele beyjoulhe ho pé & defpois a mão: e outros primeiro q lha beyjaffem, beyjarão ho chão tres vezes. E defpois de lhe Fernão gomez dar a carta q lhe leuaua Dafonfo dalbuquerq, mãdouho affentar ãtre el rey de Guilão & ho capitão da goarda: & aos outros daqlla bãda. E alfentados pregú- tou ho Xeque ilmael a Fernã gomez polo feu nome & polos dos outros nofios, & ele lhos diffe: & o Xeq ifmael mandou aos reys & capitães q eftauão coele que lhos nomeaífem, & ele também os quis nomear, mas nem ele nem eles os poderão pronunciar, fomente ele pronunciou ho nome de Fernão gomez, & cayolhe tanto é graça que mãdou ao feu gouernador que da hi por diante fe chamaífe Fernão gomez de lemos: & ifto com muyto rifo, que aífi era ele homem rifonho & bem affombrado, & feria de trinta & cinco ãnos, groífo & deftatura meaã, aluo & cheo do rofto cÕ a barba rapada & ho buço comprido. E defpois de preguntar a Fer¬ não gomez polo noíTo Papa fe era viuo, & quantos reys auia na Chriftin- dade, & de que idade era el rey dom Manuel, & quantos filhos tinha, & fe era ho gouernador da índia rey, mandou trazer as armas brancas, coy- raças, lanças, efpingardas & bêftas, & tudo lhe pareceo muyto bem.
Livro 111, Capitolo CXLVI 351 CAPITOLO .CXLVI. De como Fernão gome\ de lemos & os nojjòs que hião coele comerão com lio Xeque ifmael. ACabada efta pratica em que ho Xeque ifmael não preguntou mais que o que digo, diífe ele a Fernão gomez q auia de jãtar coele: & antes que pofeflem a mefa ao Xeque ifmael, foy dado de comer à géte que eftaua de fora da tenda, & derãlho fem toalhas, & defpois de ho teré diante, derão agoas mãos ao Xeque ifmael em húa bacia de prata com hum agomil do mefmo, & alimpoufe à húa toalha de feda azul laurada douro, & defpois lhe eftenderão diante húa alcatifa, & fobrela húas toalhas redondas de feda liftradas & fobrelas muytas & diuerfas igorias em bategas de prata: & a efta mefa nã chegaua outra peífoa fe não ho trinchante que lhe cortaua engiolhos, & em outras mefas comerão Fernão gomez, & os de fua companhia com aqueles reys & capitães que digo na mefma tenda. E ho Xeque ifmael não começou de comer ate que as igoarias não forão poftas a todos os outros: & por fazer honrra a Fer¬ não gomez & aos noffos mandaualhes de todas as fuas igorias, pofto q todas erão húas, & fobre mefa vierão muytas fruytas verdes, & daçucar fobre que bebeo muyto vinho, que affi fe coftuma: & ho Xeque ifmael era o que mais bebia, & bebia por húa taça de pedra encaftoada e outra douro, & leuaria mea canada, & por húa porcelana douro q leuaria outro tãto, & ho vinho era puro, & ele ho deitaua por fua mão: & mãdou ao gouernador que deffe de beber aos noffos, & cada vez que lhes daua de beber lhes moftraua a taça, & fe não era bem chea mandaualha encher, & de cada vez que ele bebia moftraua a taça chea aos noífos, dizendolhes que ele fô bebia mais que eles, ao que Fernão gomez refpõdeo que bebi- ria, porque feria ho feu vinho agoado, & por iffo ho xeque ifmael lhe man¬ dou dar a porcelana por onde bebia chea como eftaua, pera que viffe fe era ho vinho agoado, & mandoulhe que a bebeífe, & Fernão gomez def- cãfou tres vezes em a beber: & defpois mandou dar aos noffos hum frafco de vinho que tinha diante, & afli efteue rindo & folgando coeles das dez horas do dia que começou o jantar ate a noyte, & mandoulhes dar cami- fas acolchoadas, & cabayas de borcado forradas de cetim: defpois difto fe mudou ho arrayal pera dali a quatro legoas, & os noífos forão cõ as molheres do xeq ifmael, & dos grãdes de fua corte que ferião be feis mil, & hião a caualo como homes, os mais deles brancos com xareis de bor¬ cado, & elas veftidas de fedas & borcados, correndo & efcaramuçãdo. E
352 Hijloria da índia em todo ho tempo que Fernão gomez efteue no arrayal recebeo muyta honrra do Xeque ifmael, & lhe fez muyta merce, porque fe gloriaua ele muyto de dizer que não fomente os fenhores mouros Dafia lhe mandauão feus embaixadores, mas ainda os frangues que habitauão em ponente lhos mandauão defejando fua amizade, & por iíTo fazia aos noffos muyta honrra. E eftando aqui ho arrayal, fez ho Xeque ifmael hum mote, & foy defta maneyra. Mandou cercar tres ou quatro legoas de terra muy fragofa, & de ferras muy altas, & ifto por muyta gente pofta em ala que leuarão diãte de fi muyta caça ate a ajútarem em hú grande campo, & ali foy cercada da gete como que efteuera em hum curral, & perante Fernão gomez que mandou chamar pera ho ver entrou naquela cerca em que aueria ate mil & quinhétas cabeças dalimarias .f. veados, gazelas, carneyros, bodes brauos, vlfos, adiues, lobos, & porcos, de q defpois de matar muytos ás frechadas, matou muytos com hum terçado, & fedia húa daquelas alimarias por grãde que foffe em duas partes dandolhe polo lombo da cabeça ate ho rabo, & aífi andou ate que canfou, & então etra- rão Dormifcão, & ho capitão da goarda, & ho gouernador, que acabarão de matar todas aqlas alimarias. E feyto ifto, bebeo ho Xeque ifmael fobre pipinos, & amoras de íilueira, & mãdou dar de beber a Fernão gomez, a que preguntou fe caçaua aííi el rey de Portugal: & diflelhe que ja lhe acontecera em dous montes matar de húa vez vinte mil cabeças, & dou¬ tra cincoenta & duas mil. E acabada efta caça que digo do Xeque ifmael, fe foy a pefcar truytas com húa tarrafa que deitaua por fua mão. CAPITOLO .CXLVII. De como ho Xeq ifmael defpachou a Fernão gomei de lemos, & de como mandou outro embaixador ao gouernador Afonfo dalbuquerque. AUendo hum mes que Fernão gomez eftaua no arrayal, ho gouerna¬ dor por mandado do xeq ifmael lhe deu a repofta de fua ébaixada, que foy efta. Que fe el rey de Portugal defejaua fua amizade, como lhe mãdaua tomar a cidade Dormuz que era fua, & lhe pagaua dous mil xerafins de pareas, q as palauras nã refpondião cÕ as obras. E com tudo que ele era feu amigo, & folgaria com fua amizade. E quanto a mandar embaixadores a Portugal a viajem era muy longa, afli por mar como por terra, & auer defperar a repofta feria coufa muy longa pera contra ho turco que ele determinaua dentrar aquele anno feguinte.
Livro III, Capitolo CXLVII 353 E acabando a guerra do turco, efperaua de entender na de Meca, pera o que tinha boa maneyra. , E pois ho gouernador da índia lhe prometia paífajé pera fua gente cõtra Arabia, que ele mandaria Abrahem beque, & Bedim jambeque feus capitães com doze mil homes pera tomarem Catifa, & Baharem que erão feus que fe lhe leuãtarão, que lhe pedia que lhe defle embarcação pera ella gente, & naquilo ho queria efprementar por amigo. E quanto aa fua gente que a mandaffe defender que não andaífe com ho çabayo, que ho çabayo era de fua ley, & trazia fua diuifa, que não pareceria bem defendelo: porem que mandaria rogar ao çabayo que fizeffe paz com ho gouernador da índia que era feu amigo, & fizeffe tudo o que lhe pediífe. E quanto ao que lhe mandaua dizer acerca de fuas fortalezas fron¬ teiras Dormuz, que elle elcreuia aos capitães delas que fizeffem tudo o que lhes ho capitão moor mandaffe, & q ao mais da embaixada, elle efcreuia miudamente ao gouernador. E coefta repofta deu ho gouernador da parte do Xeque ifmael a Fer- não gomez trezentos cruzados, & hu terçado goarnecido douro, & cento & cincoenta cruzados a Francifco de foufa, & outro tanto a Gil íimões efcriuão da embaixada, & ho mefmo a Gafpar martinz lingoa. E defpe- dido Fernão gomez & os noflos do Xeque ifmael pera fe partir, que foy aos quinze de Setembro, lhe mandou dizer que efperaffem na cidade Ta- briz, porque queria mandar outro embaixador ao gouernador: & aífi ho fez Fernão gomez, & ali lhe foy feyto grande recebimento, & deteuefTe ali vinte dias efperando polo embaixador que foy ter coele, que era hum mouro muyto hõrrado chamado Habedalá calipha, por quem ho Xeque ifmael mandou ao gouernador cinco caualos muyto fermofos, & húa féla douro, & muytos veftidos de borcado forrados de feda, & muytas peças de borcado & de fedas, & camelos carregados de fruytas, & de vinhos de xiraz que fam os melhores daquela terra. E partidos de Tabriz todos em companhia, forão por outro caminho defuiado do que Fernão gomez leuou quando foy com Habrahe beque: & chegados aa cidade de Lara onde fazem as tangas larins, cujo rey he tributário do Xeque ifmael, par¬ tirão pera Ormuz, onde não acharão ho gouernador, como direy no quarto liuro. Tomo II 45
354 Hijioria da índia CAPITOLO .CXLVIII. De como ho gouernador ouite em feu poder a artelharia del rey Dormu & de como mãdou os rej-s cegos pera a índia. COm todas as moftras damizade que ho gouernador via em el rey Dormuz, & em Raix noradl como atras diffe fempre fe recataua deles, porque a fora ferem mouros, & não goardarem nenhúa ver¬ dade, fabia que Raix noradim lhe auia de pefar em eftremo com a noffa fortaleza em Ormuz, porque auia de perder ho mando que tinha dantes, & por iffo a auia de contrariar fe podeffe, & mais tendo muytos filhos que ho ajudaffem, muytos parentes & muita valia, & como a rezão lhe fazia ter eita fofpeyta trabalhaua por atalhar a tudo ho de que fe podeffe feguir o que fofpeytaua, & por iffo quis auer toda a artelharia que el rey tinha. E fingindo ter neceffidade dela por amor dos rumes que elperaua, mandoulhe dizer por dom Garcia que bem fabia a noua que auia da vinda dos rumes que vinhão bulcalo, & porque ele cõ ajuda de noffo fenhor efperaua de pelejar coeles naquele porto & desbaratalos diante delle, mandaua recolher algúa artelharia que tinha na fortaleza: & porque não era rezão que ficaífe fem ella, lhe pedia que lhe empreítaffe quanta teueffe. E ho gouernador diffe a dom Garcia que fe não fayfe do paço ate a artelharia não ir diante dele, & quando a el rey não quileffe dar por fua vontade que lha tomaffe por força: & pera iffo mandou coele a mòr parte dos capitães com a gente de fuas capitanias armados os mais deles fecretamente darmas defenfiuas, & mandoulhes que afli como fof- fem entrando polos paços, afli foffem tomando as portas pera q fizeffem mais facilmête ao que hião. E elles ho fizerão afli, que quando dom Garcia chegou a el rey, ja todas as portas ficauão tomadas, & deulhe ho recado, não eítando mais prefentes que ho fecretario & Alexandre detaide lingoa & Raix noradim, & outros fenhores & fidalgos eftauão hi, porem afaftados que não ouuião. E dado ho recado, refpondeo Raix noradim que quanto el rey tinha tudo era do gouernador, & tudo lhe daria, & que fora efcufado pedilo por tal peffoa fe não pelo menor de fuacafa. E ainda que ele iffo diffe foy mais por neceffidade que por von¬ tade, porque bem entendeo o que lhe pedião, & como, & quifera dilatar com fazer que fe não achaua a chaue da cafa da artelharia, no que dom Garcia apertou tanto por fer tarde que fez quebrar os cadeados da porta do almazem, & tanto que foy aberta mandou logo tirar a artelharia & poela na praya, o que fe acabou paffadas tres horas da noyte. E era
Livro UI, Capitolo CXL VIII 355 fermofa coufa de ver, porque a fora ferem muytas peças erão todas groífas, & os falcões erão tamanhos como efperas, & tinha cada hum duas camaras, & daqui a mandou ho gouernador logo recolher: & ao outro dia lhe leuarão a artelharia que eftaua nas torres ao derredor da cidade, affi grolfa como miuda, de que a môr parte era de metal, & toda muyto boa. E affi mandou el rey por rogo do gouernador vir de Maz- cate, & Calayate húa galê & dous bargantins com toda fua artelharia que lâ andauão darmada. E auida efta artelharia, ho gouernador man¬ dou pedir a el rey algúas cafas velhas que eftauão junto da fortaleza da banda do fertão, dizendo que tinha neceffidade de as meter com a for¬ taleza, porq ho chão que tinha parela era muyto pequeno pera fe pode¬ rem alojar mil & quinhétos homes, & mantimentos pareles, & eltreba- rias pera cem caualos, & a feytoria que auia deftar dentro: & a fora iífo que a fortaleza era cercada dagoa com preamar dagoas viuas, & não podião ir aa cidade fe não per mar o que era muy grande opreffam pera os que moraífem dentro, por iffo que lhe auia de dar feruentia por aquelas cafas, & affi lhe mandou dizer que bem fabia como trazia muyta gente de foldo, & que lho pedião, & que a mercadoria que fe vendia efcaífamete abaftaua pera mantimento, & que lhe pedia que eíleueffem aa conta fobre ho dinheiro que lhe deuia das pareas, & que lho deífe, mandandolhe por apontamentos os annos que erão pagos, & a quem os pagarão, & quanto a cada hum, & os que tinhão por pagar. E eftes re¬ cados fe derão primeyro a Raix noradim que fofreo mal pedir ho gouer¬ nador as cafas dizendo q erão apoufentamétos del rey, & poufauão nelas muytos cegos de fangue real cõ fuas molheres. E defpois de muytas re- zões difle que a cidade & ho reyno eftauão nas mãos do gouernador, que fizeífe o q quifeífe, e quãto ao dinheiro das pareas, feyta a conta fe achou ferem diuidos oytenta & cinco mil xerafins, de q Raix noradim quifera tirar a quinta parte, dizendo que ho vifo rey lhe tirara cinco mil xerafias de quinze mil que auia de pagar cadãno, & por iffo, lhe auião de contar a dez mil por anno. E ho fecretario lhe diffe que era efcufado falar niffo ao gouernador, porq ho contrato que ele fizera cõ el rey çafardim ante- ceffor do que reynaua, lhe entregara ho reyno com condição que das ré- das dele pagaífe cadãno quinze mil xerafins a elrey de Portugal. & que bem fabia ele as muyto grandes defpefas que erão feytas naquela armada, & em outras que ali vierão que lhe auião de fer pagas aa cufta do reyno, que affi ho tinha ho gouernador proteftado a Cojeatar & a el rey çafar¬ dim quãdo fe lhe leuantarão com a fortaleza, & cõ os Chriftãos q lhe tomarão, que feria boÕ não lembrar eftas coufas cõ pedir a quinta parte do que diuia, & a Raix noradim lhe pareceo affi, & rogou ao fecretario
Hijloria da índia 356 que lio não diífeffe: porem o q ho fecretario refpondeo foy por inftruçao do gouernador, q logo fe receou de Raix noradim falar na quita que fizera ho vifo rey. E por derradeiro falado Raix noradim com el rey, deranfe as cafas ao gouernador, & ho dinheiro fe começou de pagar & foy pago pouco & pouco: & nefte tempo foy ho gouernador vifitar el rey ao paço, & primeyro que chegaffe fayo Raix noradf fora das portas a recebelo. E chegando a elas fayo de détro Raix delamixà porteiro moor del rey, & diífelhe que ele lhe entregara aquela porta, que eítaua ali como hum feu efcrauo. E el rey ho foy receber tres ou quatro cafas antes daqlla em que auião deitar: & em chegando a ele que fe abraçarão, foy pera lhe beijar a mão com prazer, ou com medo, & ele a tirou muyto rijo fazédolhe húa mefura quafi cÕ ho giolho no chão, & el rey ho beijou na cabeça, & ho leuou abraçado ate onde fe affentarão, chamandolhe fempre pay. & que não tinha outro bé fe não ele. E ho gouernador fazendolhe grandes offrecimentos. & quando fe foy tornou el rey coele ate onde ho fora receber, & ou porque ho gouernador ho liurara da tira¬ nia de Raix hamet, ou por lhe auer medo era lhe tão fujeito que ate quando auia dir aa mezquita lhe mandaua pedir licença, & nenhum dia palfaua fem ho mandar vifitar, & lhe mandar muytos prefentes de fruytas & outras coufas de comer: & Raix noradim ho vifitaua quafi cada dia, & falaualhe muytas vezes na morte de Raix hamet, dandolhe por iffo muytos agardecimentos, & todos os mouros comúmente lhe tinhão muyto amor, & por outras terras por onde hião dizião dele tanto bê, & engran- decião tanto fuas coufas que muytos reys & fenhores do fino perfico pera détro ho mãdarão vifitar per feus ébaixadores, pedindolhe amizade, & mãdandolhe grandes preíetes. E os primeyros forão el rey de Lara q lhe mandou dous caualos, & Mirabuçaca gouernador de Baharé polo xeq ifmael, q tãbé lhe mãdou caualos, & cada dia étrauão é Ormuz muytos deftes ébaixadores, & a corte del rey Dormuz fe énobrecia coeles cada- uez mais. E vendo ho gouernador que Ormuz eftaua tão alíentada que não auia coufa que a podeffe aluoroçar fe não os cegos de fangue real, de que fe poderia tomar algum filho que fe fizeífe rey, porque afli ho fazia quem em Ormuz queria fer tirano, mandou os pedir a Raix noradim & a el rey com diflimulação que os queria ver & falar coeles, & mandou- lhos, & erão por todos quinze que forão reys Dormuz, & cada hú tinha molheres, filhos & criados que era húa grande familia. Eftes todos man¬ dou defpois ho gouernador pera a índia na nao Belem em que fe foy dom Garcia muyto contra vontade do gouernador por fe ir em tal tempo, & forão entregues ao meílre, piloto, & ao efcriuão da nao per conheci¬ mento, pera que os entregaffem ao capitão de Goa & ao feytor que os
Livro III, Capitolo CXLIX 357 teueflem a boõ recado. E a fora ho gouernador mandar eftes pera Goa por não darem toruaçao no reyno, mãdou os porque fe apagafle a linha- jem real, & fe el rey Dormuz morrefle fem filhos ficaria ho reyno a el rey de Portugal, que tirados os gaftos que erão neceífarios fazerenfe nele recolheria ho refto do que rendeffe poendo hú gouernador que ho regefle. E com a ida deites cegos ficou a terra fem nenhúa fofpeita dauer nela aluoroço. i- CAPITOLO .CXLIX. De como el rey de Campar que era bendâra em Alalaca foy degolado por treyção del rey de Bítão. NEste tempo elrey- de Capar q era gouernador dos mouros & gen¬ tios em Malaca, fazia também feu officio que a nobreza da terra hia de cadauez em crecimento, & muytos fugião de Bintão & fe tornauão a morar a Malaca por amor del rey de Campar, do que el rey de Bintão tinha muyto grande dor porque fe via deítruyr fem nenhú re- medio, porque de quantos tinha bufcado pera atraer a el rey de Campar em fua amizade nenhum lhe aproueitaua. E como defefperado, pera fe vingar dele, mandou aos de fua armada que lhe tomaflem dous ou tres paraos de Malaca da gente da terra q hia tratar por eíTes rios, & toma¬ dos leuaranlhos, & preguntou aa gente donde era como que ho não fabia. E fabendo que erão de Malaca, qileixoufe com aquelles que os tomarão, dizendo logo em fua prefença, que pera que os tornauão que erão todos feus filhos pois erão de fua terra, & mandou os pera Malaca com lhes fazer merce, dizendolhes que fe foifem logo pera luas calas, & que diflel- fem aos outros moradores que cedo feria em Malaca, porque feu filho el rey de Campar lhe auia de dar a fortaleza. Chegados eftes a Malaca, difierão a muytos o que paflàrão com el rey de Bintão, & ho que lhe ouuirão. E ifto fouberão os filhos de Ninachatu, que como queriáo mal a el rey de Campar por amor que lhes parecia que fora caufa da morte de feu pay, diflerãno logo a Bertolameu perellrelo que chegara então da índia por mandado do gouernador pera fer feytor de Malaca, & proue- dor da fazenda, & coele feu irmão Rafael pereftrelo pera ir defcobrir a China. E com Bertolameu pereftrelo tinhão os filhos de Ninachatu muyta amizade, & por ifto lhe difierão 0 que ouuirão del rey de Campar, que ele logo difle a Iorge dalbuquerque, que enformandofe dos que ho ouui¬ rão a el rey de Bintão teue q era verdade, & confultou com Bertolameu pereftrelo de mandar cortar a cabeça a el rey de Campar que ele logo difle a Iorge dalbuquerque, que enformandofe dos que ho ouuirão a el
358 Hijloria da índia rey de Bintão teue que era verdade, & confultou com Bertolameu peref- trelo de mandar cortar a cabeça a el rey de Campar. E aftirmandofe nefte confelho com outros algús mais, cometeo a Iorge botelho que ho foífe préder, & ele lhe difle que oulhaffe bem o que fazia, porque bem fabia quão manhofo era el rey de Bintão, & q matara a feu filho pera ter coiflò entrada em Malaca, que lhe parecia que vrdira aquilo pera fazer matar el rey de Campar, porque lhe não queria dar a fortaleza por trey- ção, & que lhe lembrafle quãto el rey de Bintão perdia em elrey de Cam¬ par gouernar Malaca, por quãta gente fe lhe ia parele defpois que a go- uernaua, & por quão contente os da terra eftauão dele, & que ate aquele dia juraua q fempre conhecera dele muyta amizade cÕ os nolTos, & muyta lealdade pera ho feruiço del rey de Portugal: & q lhe deuia de crer ifto pois lhe mandara que foffe efpia, & que nunca lhe fentira tal coufa, & que aífentaffe bem no que auia de fazer, & que não ficafle aquilo com tão mao confelho, como fora ho com que ho gouernador mandara dego¬ lar Tuão timutaraja de que fe feguira tanta guerra a Malaca. E com tudo ifto Iorge dalbuquerque eftaua tão determinado em matar el rey de Cam¬ par, que mandou a Iorge botelho fopena de cair em crime de lefa majef- tade que o foífe prender, dizendo que não auia ninguém que ho fizeffe. E ifto tudo foy em caía de Iorge botelho, que vendo que não podia al fazer fe foy a cafa del rey de Campar, que pofto que entédeo que ho hia préder como não tinha culpa foyfe coele â fortaleza com muyto repoufo: & Iorge botelho ho étregou pola mão a Iorge dalboquerque, dizendolhe que não mataffe ho inocente, & adi outras coufas em feu fauor. E por Iorge dalbuqrque ter tirada a inquirição pelos que forão leuados a el rey de Bintão do que lhe ouuirão, parece que tinha dada fentença contra el rey de Campar q morreífe degolado, & logo dali ho forão degolar à praça cõ pregão que pubricaua a caufa de fua morte, que ele primeyro que ho degolaífem diífe muytas vezes que ho matauão fem culpa: & muytos ouue que diíferão que Bertolameu pereftrelo teuera a culpa de fua morte, pro- uocãdo a Iorge dalbuquerque que ho mandaífe matar. E fe foy affi ou nã Bertolameu pereftrelo não durou defpois mais de dezafete dias, & def¬ pois dele morto partio feu irmão Rafael pereftrelo a defcobrir a cofta da China em hú jungo, leuando dez dos noffos em fua companhia, & foy là, & tornou a malaca com fazer muyto grande ganho na mercadoria no que leuou.
Livro III, Capitolo CL 35g CAPITOLO .CL. De como Iorge botelho foy defcobrir ho rio de Siaca, & da treyção que lhe quifera fa\er el rey de Bintão. COm a morte del rey de campar ficarão os noíTos é grade defcredito com a géte da terra que todos afirmauão q el rey de Campar morrera fem culpa, & que fora treyção del rey de Bintão, & tinhão os nortos em conta de muyto cruéis, & por ifib muytos mercado¬ res fugirão de Malaca, & como íe foube por derrador não oufauão de ir a ela pelo que fucedeo na cidade grande fome, em tanto q muytos mor- rião dela, & ho arroz da fortaleza fe daua por regra muy ertreyta. E pera fe bufcar & auer antes q faltalfe de todo, determinou lorge dalbuquerque em confelho que fe defcobriífe hum rio chamado Siaca, que hia ter a Menancabo, porque não auia outro de que fe mais perto ouueffe manti- métos, porto que ho rey delle era fugeito a el rey de Bintão. E no mefmo cõfelho fe acordou que forte Iorge botelho delcobrilo, porque era muyto conhecido antre todos os daquelas partes, & tinha coeles grande credito, & fabia a lingoa, & foy no nauio fanta Helena com duas lancharas em fua companhia em que hião algús dos noffos, & os mais era gente da terra, & quãdo partio fizeranle por elles muytas orações em Malaca pola neceflidade que auia de trazer mantimentos. E chegado ao rio entrou por ele: & era fermofa coufa de ver, porque dhúa parte & doutra auia muy¬ tas quintãs, que fe chamão duções na lingoa da terra, em que auia muy¬ tos laranjais, & outras aruores de fruyto. E ho rio a lugares era de lar¬ gura de tiro de bombarda, & de berço, & de béfta. E não podcdo Iorge botelho tomar lingoa, porque toda a gente fugia com medo da noífa frota, meteo ê húa almadia obra de dez Chriftãos de Malaca que leuaua, & mandou os diante pera que tomaffem lingoa, o que eles fizerão, & toma¬ rão dous homés, & hum deles fora catiuo de Iorge botelho, que ho cati- uou andando darmada, & lhe deu defpois liberdade: & afli ho diffe ele a Iorge botelho, que lhe deu algús panos & outras coulas, & mandouho que foffe diante, & diffefle aos da terra que não fugiffem, porque não hia fazer guerra fe não paz com el rey de Siaca, & dali por diante nunca mais ninguém fugio, & quaíi cada dia hião falar a Iorge botelho, & lhe dauão nouas del rey de Siaca, & que tinha feu affento em húa pouoação â borda do rio onde era mais eftreyto. E chegado ali el rey, mandou logo faber dele o que queria, ele relpondeo que aflentar paz & amizade em nome do capitão de Malaca, & que hús de húa terra foffem feguros
36o Hijloria da índia a outra. E como aqui auia muytos da própria terra que conhecião a Iorge botelho, diflerão tantos bens delle a el rey que folgou daftentar a paz & amizade, que lhe offrecia, & defpois daflentada quifera Iorge botelho pairar auante ate Menãcabo, & verfe cÕ ho rey da mina grãde (que ha ali muytas douro como ja diíTe) pera aflentar coele trato & amizade, porq como ouueffe trato hirião os mercadores a Malaca com ouro, & leuarião também mantimétos, & querendo lâ ir foube como paflando dali era ho rio tão baixo que não auia de poder ir por ele: & por ido lhe efcreueo húa carta, em que lhe cõtaua fua determinação, pedindolhe q pois là não podia ir ouuefle a amizade por afietada, & mandafle os feus mercadores a Siaca a fazere coele mercadaria: porq leuaua muyta roupa, & mãdou coefta carta oyto chriftãos de Malaca, & húa guia q lhe deu elrey de íiaca. Partidos eftes coefta carta, chega ao outro dia hú embai¬ xador del rey de Bintão a el rey de Siaca fé o Iorge botelho faber. E era a ebaixada, q fe elrey de Siaca defle a cabeça de Iorge botelho a elrey de Bltão que ho cafaria cÕ húa fua filha, & partiria coele feu eftado pelo meyo, porq Iorge botelho era o q ho deftruya. E como efta pro- mefla del rey de Bintão era tamanha, venceofe el rey de Siaca: & deter¬ minando de a ganhar mãdou logo apos os que leuauão a carta de Iorge botelho pera os fazer tornar. E querendo noffo fenhor que ifto não ou- ueífe efieyto, ordenou q moraíTe naqla pouoação hú homé, que quando foy a batalha dos nofíòs cÕ Patehonuz, Iorge botelho tomou e hú jungo cõ fua molher & filhos q hia catiuo, & ho foltou cõ toda fua familia. E lébrado efte de tamanho beneficio, fabedo a treyção que fe ordenaua cÕ- tra Iorge botelho, logo naquella noyte fe foy a nado ao feu nauio fecreta- mente, & contoulhe o que paffaua: & que aquela noyte fe defpouoauão todos os duções da gente nobre q moraua neles, pera el rey confultar coeles como faria, & q auia de mandar pedir ajuda a el rey de Bintão quãdo ho não podeffem tomar. E dado efte auifo, tornoufe com muyto boa paga que lhe Iorge botelho deu por ele. E fabendo ele a treyção q fe lhe ordenaua, deixou ho nauio & meteofe em húa das lãcharas, & com as outras duas fe pos a fombra de terra porque ho não viffem: & reco- lhendofe os grandes da terra pera a pouoação, tomou hú parao grande em q achou hú vedor da fazenda del rey de Siaca, & prédeo o debaixo de cuberta, mandando dizer a el rey q ho mefmo auia de fazer a ele pola treyção que lhe ordenaua: & fe Iorge botelho leuara géte que ho ajudara, ele deftruyra el rey de Siaca.
Livro III, Capitolo CLI 361 CAPITOLO .CLI. Como Iorge botelho ajfentou amizade com el rey de Menãcabo, 6 de como Francifco de melo pelejou cõ húa armada del rey de Bintão, & a queymou. E vendo que não podia, & temendofe q lhe mataífé os feus meífejei- ros que mãdaua a el rey de Menancabo, determinou de ir a diãte ate onde podeífe nadar ho nauio, & as lancharas, & dali bufcaria maneyra pera mandar recado a el rey, fe os feus meífejeiros foflem mor¬ tos, que noífo fenhor lhe quis goardar por mais que el rey de Siaca tra¬ balhou por lhos matar. E indo ter coeles aqles que ele mandaua a iífo, ouuerãlhe medo porque le lhe defenderão muyto bé, & fizerãnos fugir, & a guia também fugio coeles. E vendofe os meffejeiros fem ela forãofe a Campar, que era hi perto õde auia muytos q conhecião a Iorge botelho: & algús deites fabédo q os meífejeiros erão feus, & onde querião ir leua- rãnos a el rey de Menãcabo, q como diffe he gentio & fenor de grande forna de minas douro, & quãdo foube que erão de Malaca, & vio a carta que lhe leuauão, fezlhe muyto gafalhado, & refpondeo a Iorge botelho que folgaua muyto de ter amizade & trato com os noífos, & pois ho feu nauio não podia chegar aa fua cidade, que ele mandaria laa os feus mer¬ cadores a tratar coeles. E afíi os mandou, & a mercadoria que leuarão foy ouro, & mantimentos & aguila, que na terra não ha outra, a cujo troco tomarão a roupa do nauio, & aífi quanto pano os noífos leuauão, que não lhes ficarão ceroulas, nem camifas que tudo lhes tomauão por ouro. E eítando aqui Iorge botelho, receandofe Iorge dalbuquerque que el rey de Bintão mandalfe fobrele, mandou a Francifco de melo ho ga¬ lego que ho foífe fauorecer, & deulhe a capitania mór de húa armada de noue lancharas, cujos capitães a fora elle, forão Francifco fogaça, Ioão falgado, Carlos carualho, Ruymédez, Diogo mendez, Criítouão diaz, Diogo diaz & outro cujo nome não foube. E fabédo elrey de Bintão como eíla armada hia é bufca de Iorge botelho, mãdou logo outra pera q foífe pelejar coela & a tomaífe: & affi _ho nauio de Iorge botelho, & foy de vinte qua¬ tro lãcharas. E leys delas erão muyto grãdes aque na fua lingoa chamão garopos. E fedo a noífa armada dentro no rio onde eftaua Iorge botelho, chegou a dos Imigos & entrou tãbé détro. E a duas legoas da foz achãdo q ho rio fe fazia em dous braços, & não fabédo por qual irião os noífos repartirãfe em duas partes de doze lãcharas cada húa, & huãs forão por hú braço & outras por outro, o que foy logo fabido por Francifco de Tono II 46
36s * Hijloria da índia melo. E chamando a confelho os outros capitaes acordarão de ir receber os Imigos ao caminho, aíli por lhe moftraré q os não temião & lhe qbrare coiífo os coraçoes, como por temer q a gete da terra fe leuãtaffe contreles vedo ho poder dos imigos q era grãde por fere be mil homés & eles q não chegauão a céto. E indo. em bufca dos Imigos derão cõ húa parte das lãcharas q hião todas encadeadas em ala, por cercarem todo ho rio q os noffos não podeflem fugir, q cuydauão eles q ho auião de fazer em os vendo. E eftando coefta foberba como virão os noffos derão húa grande grita & tocarão íeus inftrumétos de guerra & os noffos defpararão fua artelharia, & adi forão ate chegarem hús aos outros & loão falgado foy aferrar com hú dos garopos q trazia mais de cé homés & ele algús dez ou doze, & como os Imigos erão tãtos, entrarão coeles logo de roldão ferindoos de 'muytas frechadas & lãçadas, & por muyto bé que os noffos pelejauão forão todos feridos & mortos os mais deles lem lhe nenhú dos capitaés poderé acodir por todos teré affaz q fazer em fe defender dos Imigos q trabalhauão quãto podião polos aferrar, & eles porq os não aferraffem jugãdo cõ fua artelharia & tirãdolhe cõ muytas lãças de fogo & panelas de poluora q lhe lãçauam détro nos nauios com q fe pegou ho fogo neles, porque dos primeyros faltou nos outros por eftarem todos en¬ cadeados, & aíli fe ateou q fe não podia apagar: & arderão dez co os mais dos q eftauão détro & os dous fugiram quando virão fua deítruiçam & foram varar em terra, por onde a géte deles fugio, & a dos outros toda foy morta de fogo, & ifto fe fez do meo dia ate a vefpera, & os noffos a fora os mortos q diffe ficarão todos feridos, & muyto canfados. E auédo mea hora q ifto era paffado, quãdo acodem as outras doze lan¬ charas dos immigos, que parece q achandofe perto ouuirão ho tÕ das bombardadas, & acodião: & quando os noffos as virão ficarão muyto triftes por quão canfados & feridos eftàuão, & Francifco de melo os es¬ forçou, dizedo que efperaffem em noffo fenhor, que os não liurara dos primeyros pera os deixar morrer a mãos daqueles, & q lhe auia dacabar de dar a vitoria, pera q viffem os Imigos camanho era feu poder. E nifto chegarão os immigos, & começoufe a peleja muyto mais braua q dãtes, & os noffos não pelejauão fe não cõ a artelharia & cõ artifícios de fogo, & foy medonha coufa de ver a perfia que teuerão os immigos fobre afer¬ rar os noffos ftntindo que tais eftauão, & eles por fe deféder. E fobrifto meterão duas lancharas dos immigos no fundo. & arrombarão algúas das outras, & matarão muyta gente, & nifto fobreueo a noyte que os apar¬ tou, & por os immigos terem muytos mortos da noffa artelharia, & quey- mados dos arteficios de fogo. E fabendo o q acÕtecera ás outras doze lãcharas, não oufarão defperar & forãofe aqla noyte caminho de Bintão:
Livro III, Capitolo CLII 363 & he de crer q noífo fenor ho quis afli, porq fe tornarão a pelejar legudo os noflos eftauão canfados & feridos não efcapara nenhú. E morrerão ali logo & defpois na fortaleza trlta & cinco, & fcy muyto não morrere mais, tantas forão as feridas & tamanhas. E vedo Frãciíco de melo como os Imigos erão idos, & que Iorge botelho podia ficar feguro & acabar fua mercadoria q alda não tinha acabada, deixouho & foyfe a Malaca pera fe curare os feridos. E ficando Iorge botelho, fobejou ainda muyto ouro aos Menãcabos de q eles teuerão algú defgofto. E fmtldolho Iorge bote¬ lho, diíTelhe q fe foffem coele a Malaca, & q lâ ho acabarião de gaitar, & q fe lhe obrigaria a tornalos a trazer feguros, cÕ tanto q primeyro auião de coprar a roupa da feytoria q outra nhúa: & afli fe fez, & leuou os a Malaca Õde quãdo chegou ja não era capitão Iorge dalbuquerq, fe nã Iorge de brito copeiro moor q foy com Lopo foarez, como direy no quarto liuro. CAPITOLO .CLII. De como partio de Portugal por gouernador da índia Lopo foareç, & de como chegou laa. NEste anno de mil & quinhétos & quíze, ouue el rey de Portugal por feu feruiço q o gouernador Afonfo dalbuquerq defcanfaífe de feus trabalhos & fe foffe pera Portugal, & deu a gouernança da índia a Lopo foarez q là fora por capitão môr de húa armada, como diffe no liuro primeyro, & deulhe húa frota de treze naos grolfas, cujos capi¬ tães a fora ele forão Chriítouão de tauora, q leuaua a capitania de ço- fala, dõ Goterre caftelhano, q leuaua a de Goa, Simão da filueira, q leuaua a de Cananor, Iorge de brito copeiro môr, q leuaua a de Ma¬ laca, Diogo médez de vafcõcelos, q leuaua a de CochI, Afofo lopez da colta, Lopo cabral, Aluaro barreto, Simão dalcaçoua pera ir à China, Aluaro telez por capitão de Calicut, Francifco de tauora, dõ Garcia coutinho. E neíta frota foy Mateus ho ébaixador q mandou a mãy do prefte como diffe atras, pera q Lopo foarez ho mãdaíTe ao preíte cõ hú embaixador q lhe el rey de Portugal mandaua q foy hú fidalgo chamado Duarte galuão de muyto mereciméto por muyto feruiço q tinha feyto aos reys de Portugal do tempo del rey do Afofo ho quito ate aqle, afli é tomadas dos lugares dale, como em ir por capitão Õ armadas de focor- ros q eftes reys mãdauão a feus amigos, como é ir por ébaixador muytas vezes aos reis da Chriftindade, & ao éperador fobre coufas de muyta im- portãcia, em q moftrou fer muyto prudéte, negociando fempre a muyto cõtétaméto dos reys q ho mandauão. E por ifto q el rey dõ Manuel dele
364 Hijloria da índia fabia lhe daua a capitania de tres naos pera ir na mefma coníerua do go- uernador: o q ele não quis aceitar, dizédo q era velho, & não queria carregos q lhe defaffeffegafle ho fpú, & mais fazédo aqla viaje pera fer- uir a noffo fenor, & ajuntar a Chriftindade de Ethiopia cõ a nofTa. Coefta frota q digo, fe partio Lopo foarez a fete Dabril. & cõ toda a frota foy ter a Moçambique, Õde achou dous nauios, de que era capitão mór hú Ruy figueira q fora defcobrir a ilha de fam Louréço pera aflentar feyto- ria, & não a podendo aífentar fe foy a Moçãbique. E aqui deixou ho go- uernador a Chriftouão de tauora pera ir fer capitão de çofala, & deu a fua nao a Fernão perez dandrade q auia dir aflentar trato & amizade na China, & 5 Bégalâ, & auia dir por capitão môr de tres naos q logo leuara ordenadas de Portugal. E partido ho gouernador de Moçãbique, foy fur- gir na barra de Goa a dous de Setébro do mefmo ãno, eftãdo Afonfo dalbuquerq em Ormuz. E quando foy fabido ê Goa q hia outro gouerna¬ dor, afli os noffos como os getios & mouros ficarão muyto triftes, & di- zião q el rey de Portugal não qria a índia pois tiraua de gouernador Afonlo dalbuquerq, que parecia q noffo fenor fizera pera a gouernar. E não ouue na cidade nenhú aluoroço cõ a vinda do gouernador, q deixou é Goa por capitão a do Goterre, & tirou a dõ Ioão deça, & de Goa foy ter a Cananor, cuja capitania deu a Simão da íilueira, & viofe cõ el rey de Cananor, a q deu hú rico colar q lhe mãdaua el rey de Portugal: & de Cananor fe foy a CochI a defpachar as naos de carga, & deu logo húa armada a feu fobrinho dõ Ioão da íilueira, pera q foffe fazer prefas âs ilhas de Maldiua. CAPITOLO .CLIII. De como el rey de Baharê, & el rey de Baçorâ & outros reys & grandes fenores mouros mandauão vijitar o gouernador, & outros ho hião ver. REstituydo ho gouernador na cidade Dormuz, & feyta a fortaleza per q el rey de Portugal tornou a fer fenhor do reyno como era dates fem a el rey Dormuz aproueitar fer vaffalo do Xeq ifmael & pagarlhe pareas: foy ho efpãto difto muyto grãde per toda Perfia, & Arabia, & da hi por outras proulcias, & neftas duas não falauão os reys & fenores delas e outra coufa, & tinhã no por muy grãde marauilha: & não auia nenhú que não teueffe ao gouernador é muyto grãde cõta & eftima, por ho reyno Dormuz fer a coufa mais rica & poderofa de todas aqlas partes, & ho gouernador ir de tão lõge a cõquiftalo, & por iffo de- fejauão todas fua amizade & liãça. E os primeyros q lhe mãdarão fua ébaixada damizade cõ prefentes, forão el rey de Lara vaffalo del rey Dor-
Livro 111, Capitolo CLIII 365 muz, & el rey de Bahare, & de catifa é Arabia, tambe feu vaflalo, cujo ebaixador deu ao gouernador da fua parte tres caualos arabios, & húa carta que dizia na nofla lingoa. Pera lio grã de rey, & amerceador lio melhor dos reys nefte tempo o q lie nomeado em todas as lingoas, Rey do mar & fenlior de lugares, lio capitão moor a que Deos acrecête fua vida: de/pois das faudes & ami¬ zades, vos faço faber como ejlou de faude & pa\. Façouos Jaber como nos el rey lio lionrrado foubcmos de pouco tempo pera ca como viejles a Ormu\, & como foys amerceador & fazedor de iu/liça, & ajji vay vojfa fama por todo lio mundo, & folgay muyto que antre mi & vos Vão fem- pre mejfeieiros: La mando meu mejfageiro a voffo feruiço, & vos leua tres caualos, pojlo que não seião pertencêtes, fe acliar algus bõs logo vo- los mãdarey. Recebey a tenção do amor & da amizade, fe algíta coufa mandardes, mãdaimo dizer porque lio farey, enuiouos minhas encomen¬ das. E apos efte embaixador chegou outro de Mirabuçaca capitão geral do Xeq ifmael na frontaria de Arabia muyto grande fenhor em fua terra. E efte tendo tãbe fama do gouernador, pola võtade que fabia que lhe tinha ho Xeque ifmael feu fenhor lhe mandou por hú feu embaixador ofreci- mentos damizade cõ húa carta que dezia em nolfa lingoa. Ao grande fenhor de mando, gouernador & grande capitão dos grã- des, & mayor dos mayores, capitão de muytos capitães dejle tempo, lião bem auenturado, capitão mor & gouernador das índias. EJle fomenos feruidor & verdadeiro em amor, defeiofo de vos fazer muytos feruiços como feruidor: mil vezes vos enuio dizer que fou voffo feruidor & quero voffo bê: & digo a brados que fou voffo feruidor, & por iffo me foy ne- ceffario fazer ejla carta. La vos mãdo Coge alachatim Mafamede a voffo feruiço que vos diga o que llie diffe acerca de noffa amizade, & de fer¬ inos ãbos hii. Têdeo por firme & por certo, & não seiais efquecido de nos: efcreueime fempre qualquer coufa ou feruiço que de mi quiferdes, & mandaimo que eu ho farey, & niffo me fareis muyta merce: Não vos efcreuo mais, fe não que deos acrecête voffo efiado. E defpachados eftes dous embaixadores muyto bê, & mandado ho gouernador coeles feus embaixadores a eftes reys, defpois de laa fere lhe veyo outro embaixador del rey de Baçora em Arabia no cabo do fino Perfico, cujo embaixador lhe deu outra carta que dezia. Faço faber ao grã capitão, o que faz iufiiça & mãda no mar e na terra, & o que faz bê no mar & na terra: nofjàs vontades fam todas hiias, & nos a voffo mandar & obediêcia. Voffo fazer de iufiiça lie afji como todos lio querem, & de vos amerceador quero que nos liáreis como
366 Hifloria da índia hôrrajles a Bêjabeque, & a Mirabnçaca com cartas & meffagês. Nos que- refnos pa\es a vojfo feruiço, & tudo o que vos quiferdes em toda coufa, & em o que poder a terra lie vojfa, & os vajfalos vojfos, & os Jilhos vof- fos: & ê tudo o que mãdardes vos obedeceremos. La vay a vojfa mcrce Cide lio lionrrado Mafamede, em lugar de minha pejfoa: fe vojja mcrce mandar algíía coufa a ele lio diga, & ele nos efcreuera, & nos obedece¬ remos, ou mãday coele vojfo meffegeiro. Minha tenção lie, que não aue- mos mejler entre nos medianeiros, & o q mandardes a Cide, mandailho como fe ho mandaffeis a ml: & os vajfalos meus fam vojfos, não os etigei- teis de vojfa vi/l a. També a efte embaixador fez ho gouernador muyta honrra, & def- pachou ho muyto bé, fazendolhe merce, porq foubelfem os mouros quam bé acertaua quem ho queria ter por amigo. E os mouros de Ormuz fe efpatauão muyto deites reys & fenhores mandarem feus ébaixadores ao gouernador, & mais quando lhes eles cotauão a grade fama q hia dele por tuas terras, & coeftes ebaixadores & cõ outros era a géte tãta é Ormuz q não cabia, & parecia húa corte de hú grande rey, & não auia dia q ho gouernador não fizeífe merce a eítes ebaixadores, & os mouros da terra fe efpantauão como tinha tanto que dar. E vendo ho gouernador como os reys & fenhores comarcãos folgauão com fua amizade pera os prouo- car que folgaffem mais coela & a defejaffem, mandaualhes também feus embaixadores, mãdãdolhes prefentes de muyto preço, pelo q de todos era cada vez mais eftimado por os mouros feré muito inclinados a lhe daré: & dhus aos outros hia a fama, q não auia nenhú que nã delejaífe de ho ver, & muytos mouros honrrados vinhão de muyto longe a Ormuz no mais que a velo: & algús q não podião ir & affi fenhores mãdauão grãdes pin¬ tores q lho tiraffem polo natural, pera q ho viffem pintado. E todas eítas diligencias fazião pola grãde fama q auia antre os mouros de feus muyto grandes feytos nas armas, & de fuas íingulares virtudes: de modo que ho tinhão todos em muyto grãde eítima & veneração. E dos embaixado¬ res & doutros mouros q ho hião ver & tirar polo natural erão cada dia tãtos na fortaleza que fe não podião os noífos defeder deles, & 1'e os dei- tauão fora pedião com muyta piedade q lho deixaífem ver, porq não hião a mais q a velo. E efta importunação dauão porq ho gouernador faya poucas vezes fora por fe achar mal de camaras, & quãdo hia fora da for¬ taleza, erão fem cõto os mouros q ho eftauão efperando, & pera chegarc a ele, & ho verem bé, hús lhe fazião orações de feus grãdes louuores e fua lingoa, & outros lhe dauão algúa coufa, & lhe beijauão a mão com que a tomaua, & ele como os via detinha ho caualo pera lhe falare, & eles ficauao muyto contétes & dizião de cada vez mais bé dele. E hia fua
Livro III, Capitolo CLIII 367 fama em tanto crecimento, que nunca foy tamanha de capitão de nação algúa. E indo fua doença de camaras de cada vez peor, aos vinte feys dias de Setembro fez ajuntar todos os capitães de fua armada, & lhes diífe que bem vião q era velho, & doente de hua doéça q mataua eltando falãdo: & porq ele por effa caufa queria prouer a conferuação do reyno Dormuz & daqla fortaleza q fazia, lhes rogaua a todos q lhe deflem as menajés de obedecer a peífoa ou pefloas a q ele cometeífe feu poder def- pois de fua morte ate el rey feu fenor prouer. E todos diflerão q aquilo era muy bê feyto, & q noffo fenor lhe daria faude, como ele e eles defejauão. E dandolhe fuas menajés, fez 0 fecretario Pero dalpõe hú auto diffo q todos aflinarão. E cercandofe ja nefte tepo a fortaleza de muro, mandou fazer preftes lua armada pera fe partir pera a índia: & vindo ho mes Doutubro por fe achar peor, fez feu teftaméto. E aos vlte dias deite mes, mãdou dizer a Pero dalbuqrque feu fobrinho pelo fecretario, q por ele fentir dei rey Dormuz q folgaria q ele ficafle por capitão daqla fortaleza, & afli os nolíos, & tãbé pola ele merecer, lhe fazia merce dela em nome . del rey feu fenhor com quatrocétos mil rs dordenado cadãno, & duzentos quintaes de pimenta ao meyo, & dali por diãte teueife cuydado dela. Polo que lhe foy beijar as mãos ao outro dia, & ele lhe deu 0 regiméto que lhe auia de ficar. E aííi lhe étregou húa armada de tres nauios, & hua fulta pera feruiço da fortaleza, & goarda da colla dos noutaqs que fam coífairos. E os capitães forão dos nauios, Ioão de meira, Fernão de re- fende, Iorge dorta, & da fulta Antonio homem: & porque ho gouernador de todo nã podia fayr fora por fua doéça, fe mandou defpedir del rey Dormuz pelo fecretario, mandandolhe pedir perdão de ho não ir ver por fua doéça com muvtos offrecimentos. O que el rey lhe mandou muyto agardecer, moítrãdo muyto pefar de fe achar tão mal, & quiferão ir ver fe lhe ho fecretario não confelhara que não fofle, porq ho não auia de poder ver fe não no bacio, & por iflo el rey não foy, & mãdoulhe pedir que lhe não deixaífe por lingoa Nicolau ferreyra por quanto era homem reuoltofo, & que lhe poderia ordenar algúa coufa por onde el rey de Por¬ tugal perdefle ho credito dele. E ho gouernador ho fez afli, porque el rey lho merecia por quão feu amigo fe moítraua, que cada dia ho mandaua vifitar por Acem ale, mandandolhe fempre muytos prefentes, & acodindo- lhe fempre com dinheiro pera as defpefas da fortaleza, & mandandoho vifitar muytas vezes por Raix noradim.
368 Hiftoria da índia CAPITOLO .CLIIII. Das nouas que ho gouernador foube da índia, & de como faleceo de fua doença chegando aa barra de Goa. TEndo o gouernador preftes tudo o q era neceffario pera fua partida, partiofe aos oyto dias de nouembro, & ébarcoufe pola féfta na nao de Diogo fernandez de beja, & efteue o que ficaua do dia & a noyte feguinte defrõte da pedreira. E ao outro dia fe fez aa vela, & logo fabado foy ter coele Acem ale com duas terradas carregadas de refrefco •f. vacas, carneyros, galinhas & fruytas que el rey Dormuz lhe mandaua, & afli muytas conferuas & bizcoutos. E fegundo fe entédeo em Acem ale, ele hia ver fe era ho gouernador morto, porque como embarcou pela féfta, & ho não virão nenhús mouros embarcar, cuydarão que era morto, & aííi ho differão a el rey, & mais porque auia dias que ho não virão, né falara a el rey antes de fe ir embarcar: & porque defpois de fer no mar fe achara melhor, mandou q lhe falaffe Acem ale, que quãdo ho vio lhe beijou a mão com muyto grande prazer polo ver viuo, & diffelhe que lhe mandaua el rey Dormuz aquele refrefco, & faber como hia. E dando- lhe ele agardecimentos diffo, lhe mandou dizer como fe achaua melhor defpois que fora no mar, encomendandolhe muyto a fortaleza, porque era a melhor coufa q tinha no reyno pera cõferuação de feu eftado, & fez merce a Acem ale de trinta xerafins, & dez a cada hú dos meftres & pilotos das terradas q erão quatro, & mandou os conuidar com vinho de Portugal, & afli fe forão contentes a Ormuz, onde differão que ho gouernador hia viuo. E fendo ele tãto auãte como Calayate, pareceo húa nao de mouros ao mar que vinha da índia, & por faber nouas da índia, mandou, que a fizeffem arribar aa capitaina, & que lhe leuaflem ho capitão & piloto dela, & deu juraméto dos fantos euãgelhos a Alexandre datáyde lingoa, q nenhúa coufa lhencobrifie das nouas que os mouros deflem da índia: & ele ho fez afli, & os mouros hião de Cambaya, & defculparanfe ao gouernador de não arribarem a ele logo, porq lhes pareceo q não hia ali polas poucas naos que virão, & differão que lhe trazião cartas de Cideale ho torto, & hú embaixador do Xeque ifmael que eftaua em Cambaya, em que lhe efcriuião que era chegado â índia Lopo foarez por gouernador com húa armada de doze naos. E indo polas cartas, achoufe que era afli, & que todas as fortalezas da índia vinhão prouidas de capitães, & hú deles era Diogo mendez de vafconce- los pera Cochim, & Diogo pereyra por feytor que ele mãdara prefos
Livro III, Capitolo CLIIII 36g pera Portugal polos infultos que fizerão, como atras difle, & affi contaua os nomes de todos os capitães, & dizia na carta de Cideale q lhe não efcriuia Meliquiaz polo grande pefar que tinha de ho el rey de Portugal mãdar ir da índia, que lhe parecia que não feria bem irfe pera Portugal, pois el rey conhecia tão mal as fuas caualarias, & lhe galardoaua tã mal íeus feruiços. E defpois de idos os mouros, ho gouernador com grande paixão q teue del rey de Portugal mandar Diogo mendez & Diogo pe- reyra com carregos mandando os ele prefos, que era final que ho não ouuera por bem, difle muyto agaftado. Mal com el rey por amor dos ho- mes, & mal com os homés por amor del rey: acolhamonos á igreja velho coytado. E defpois que fe lhe foy ho impeto daquela paixão cõ algúas palauras confolatorias que lhe diflerão fobriflo, deu graças a noflo fenhor por em tal tempo chegar gouernador â índia eftando ele tão perto da morte, & não podia fer fe não q falaua el rey cÕ algú anjo, que ho aui- faua das coufas de que a índia tinha necefíidade: & q lhe parecia que noflo fenhor tinha cuydado dela pois a focorrera em tal tempo. E pri- meyro q fe os mouros partiífem, lhe mandou tomar todas as cartas que leuauão doutros mouros de Cambaya pera algús Dormuz, porque não fou- beflem que era chegado outro gouernador que temia que defle aquela noua toruação aa fortaleza. E dali por diãte fe achou de cada vez peor, de maneira que fabado quinze dias de Dezembro á noyte que foy furgir na barra de Goa auia quatro dias q trazia faluço, & eftaua tão fraco que logo arreueflaua quãto comia. E defpois de furto, veo ter coele frey Diogo vigayro geral da índia, q ele mandou chamar polo capitão do bargantim: & afli veo meftre Afonfo medico q lhe leuarão algú vinho vermelho frefco de Portugal q defejaua: & aqla parte da noyte efteue fempre e feu acordo falando com feu confeffor, & húa hora antes que falecefle fe lhe toruou a fala. E eftandolhe lendo a paixão de que era muyto deuoto, & em q dizia que leuaua fua efperança de faluação, deu a alma a noflo fenhor domingo ante manhaã dezafeys de Dezembro de mil & quinhentos & quinze, veftido em ho abito de Santiago, de cuja ordem era caualeyro, que fempre teue por patrão & auogado diante de noflo fenhor, a quem mu^to deuotamete pedio perdão de feus peccados antes de feu faleciméto. E falecido foy pofto na tolda da nao fobre hú catle que eftaua cuberto com hú pano de brocado, com húa almofada do mefmo â cabeceira, & como tinha ho rofto defcuberto parecia q eftaua dormindo, & nifto era ho pranto muy grande na nao, afli de feus criados como dos outros, & dali fe efpalhou polas outras naos, Õde todos tinhão grande fentiméto por perderé tal gouernador. E fendo menhaã clara chegou Simão dãdrade q ficara atras, & querendo entrar pera dentro do rio, mandaranlhe dizer çs Tomo II 47
Hiftoria da índia 37o outros capitães que efperaffe pera acõpanhar ho corpo do gouernador ate a cidade. E ele na quis fe não irfe, moftrando grãde prazer de feu faleci¬ mento, cuydando que daua niffo cotétaméto a Lopo foarez. CA PI TOLO .CLV. De como foy fepultado ho corpo do gouernador, & de fuas notaueis virtudes. DEspois que aprouue a noflo fenhor de Ieuar defta vida efte tão es¬ forçado & famofo capitão, foy aberto feu teftaméto, em que fe achou que mandaua que feu corpo foffe enterrado em noífa fenhora da ferra que eítá na cidade de Goa, Õde logo foy recado pera q os cléri¬ gos & leygos fe percebeffem pera as derradeiras hÕrras que auião de fazer a quem ganhou aquela cidade, Õde ho rebate de nouas tão triftes deu aífaz de toruação, efpecialméte ouuindo dobrar os finos, q a todos certificarão fer a noua verdadeyra, que ainda algús a não podião crer. E como tinhão amor de pay ao gouernador, hús polos cafar, & lhes dar fazéda pera fuftetaméto de fuas vidas, outros porque por natureza fe incli- nauão a iffo polas virtudes que auia nele, não ouue nenhú que não mof- traífe no rofto a magoa que tinhão no coração, & hús com os outros fazião ajútamétos por effas ruas falando na morte Dafonfo dalbuquerque, q tra¬ zia â memória a muyta honrra & louuor que ganhara na vida, affi em feruir a nofTo fenhor como a el rey, affirmando todos que núca iria aa índia outro tal. E nifto chegou ho feu corpo ao cays, onde ho eftauão efperãdo os clérigos & frades com fuas cruzes, & todas as confrarias com fua cera, & ho capitão da cidade com todos os fidalgos & gente outra q auia nela. E tirado no batel no catle em que hia, foy pofto em terra pera ho encomédarem. E como vinha veítido no habito de Santiago, & húa rede douro na cabeça com húa carapuça & beca de veludo negro, & a barba branca q lhe chegaua ate a cinta & ho rofto defcuberto com os olhos meyos abertos parecia viuo. & quãdo affi ho virão todos que conhe¬ cerão ho defemparo que ho eftado da índia recebia por fua morte, foy tamanho ho choro que todos aleuãtarão, que mais forão lagrimas que os clérigos chorarão que palauras q pronunciarão pera ho encomendar. E tomãdoho coefte pranto debaixo de hú palio que leuauão fidalgos, come¬ çarão de caminhar pera noffa fenora da ferra. E entrando pola cidade parecia que fe fundia toda cÕ gritos das molheres que ele cafara, que todas fayrão a velo. E poftas todas em cabelo, & dando cÕ as mãos nos rostos lamentauão fua orfindade, dizédo húas que perdião pay & outras
Livro III, Capitolo CL V 3?i fenhor: & afíi ho chorauão comunmente Chriftãos, gentios & mouros, & e toda a cidade fe não ouuia outra coufa fe não choros, foluços & iufpi- ros, & coeles foy aqle corpo leuado a nofla fenhora da ferra, Õde defpois de fe dizerem em húa pregação feus grãdes louuores foy fepultado, & pofta fobre fua fepultura húa elfa de veludo negro & damafco, por fe não achar veludo que abaftafle: & fobre a eífa foy dependurada a bandeira que leuaua nas batalhas, & fuas exequias durarão hú mes, & da hi por diãte fe lhe difle cada dia húa miíTa, que ele deixou pera fempre. E deí- pois de fer fepultado, ainda ho pranto durou na gête o que ficaua, do dia & toda a noyte feguinte, não fômente nos noífos, mas nos gentios & mou¬ ros, porque todos ho tinhão por pay: & alfi os emparaua ele, & os man¬ tinha em paz e ê juftiça, porq a fora ho esforço que lhe noífo fenhor deu pera a guerra, dotoulhe tanta prudência que nenhúa coufa lhe ficaua por faber que foífe neceffaria pera boa gouernãça da repubrica. E pofto que algús ho quiferão tachar de mal fofrido antes de fer gouernador, & dizião que era doudo, & por iffo acõfelhauão ao vifo rey que lhe não entregaffe a gouernança como el rey de Portugal mãdaua por fua prouifam, do que fe vio ho contrairo defpois que lhe foy entregue, que lhe fobejaua fofri- mento & paciência, em tanto que indo hú dia por húa rua, algús que lhe querião mal por lhe não pagar leu foldo, por mingoa de não ter dinheiro, lhe deitarão ourina de húa janela & ho molharão: & ele diflimulou fazêdo q ho não entedia, nem fômête quis entender aqueles que hião coele que lho differão. E outra vez hú homê por priuar coele, diífelhe q outros di¬ zião mal dele pubricaméte, & ho injuriauão cõ nomes muy infames, que feria bê que os caftigafle. E ele refpondeo q ho não auia de fazer, porq eles tinhão rezão pois continuamête trabalhauão, & ele lhes não podia dar ho galardão de feus trabalhos: & dagaftados diífo fe efpãtaua como lhe não fazião mal, quanto mais dizerêno dele, q folgaua muyto de que¬ brarem fua furia no que tocaua a fua peífoa, antes que no que tocaua ao feruiço delrey feu fenhor. Vindo outra vez a ele hú lafcarl cõ grãde ne- ceílidade fegundo moftraua a pedirlhe algú foldo do que lhe era diuido, não lho podendo ele dar polo não ter rogoulhe q por algús dias ho buf- caffe empreílado por feus amigos. E efcufandofe ho lafcarim, dizêdo q ho não achaua fem penhor, & que não tinha outro que defle fe não fuas ar¬ mas, q lho defle ele, & lançãdo mão â barba acertou de tirar quatro ou clco cabelos fem ho qrer fazer, & quando os vio moftrou que os tirara por fua vontade & por cõtentar ho lafcarim, deulhos dizendo que buf- cafle dinheiro fobreles, porq não tinha outro penhor que lhe dar. E ho lafcarim muyto ledo leuou os cabelos, & achou dinheiro fobreles com que fuprio lua neceflidade. E o que tinha os cabelos ê penhor, fabendo
3?2 Hijloria da índia q ho gouernador tinha dinheiro foylhe dizer q os defempenhafle: o que ele fez muyto ledo, & lhe fez merce por dar ho dinheiro fobre os feus cabelos. E eftas obras não erao fe não de quem por fifo, & nã por dou- dice queria temperar tantas vontades como auia na gente de fua armada. E coeftas manhas & com outras foube também granjear ho cargo que tinha, que eftando tantas mil legoas de Portugal, & com tão pouca gente como dilíe tomou aos mouros a cidade de Goa, & a de Malaca, & a for¬ taleza de Benaftarim, & fez a de Calicut, & conquiftou por força darmas ho reyno Dormuz, & defpois de fe lhe leuantar ho tornou a fugigar, & fazia tremer toda a índia, & tendo tão pequena armada a fabia repartir, de maneyra que continuamete trazia nauios darmada de Cochim ate Chaul que goardauão aquela cofta erri quanto duraua ho verão, de modo que nem hú grão de pimenta fe podia tirar da índia fem fua licença, né podia entrar na índia por mar nenhú eftrãjeiro que ho não foubefle. E era tão diligente no proueito da fazenda del rey feu fenor q fempre em Goa, & outros lugares que fe prefumia dauer cerco, tinha é fuas feyto- rias certas cafas cheas de trigo, arroz, carnes, pefcados & outros manti- metos, de q ele tinha as chaues: & quando via que não auia cerco, daua ho trigo & ho arroz aos cafados e defcõto de feus mãtimétos. E coefte regiméto não auia neceflidade dalmazem de mantimétos, nem fe gaftauão ordenados cõ os almoxarifes deles como agora. E hú homé de cada húa das feytorias tinha cargo de comprar eítes mantimentos. E a fora eítas coufas fez outras muytas que ferião largas de cotar, mas falando em forna nenhúa virtude lhe faleceo pera fer tão fingular capitão como ho forão os fingulares q ouue antre barbaros, gregos & latinos. E fobre tudo te- meo fempre muyto a noffo fenhor, & foy muyto amador de feu feruiço, & teue grande deuação na fua facratiffima paixão, & na fua gloriofa ma¬ dre noífa fenora, tanto que núca por menencoria que ouueffe jurou por eles, nem pos neles a boca irofamente, nem em nenhú fanto, nem dizia mais que renego da vida em que viuo. E por fer muyto amigo do feruiço del rey, teue muytos immigos, & foy muyto manifico nas coufas que com- prião a honrra del rey, & á fua, & muy liberal pera os pobres: foy muyto airoío, & bem apeífoado, difcreto, & tinha graça em tudo o que dizia, & foy muyto dado a dizer palauras fentenceofas, & folgaua de as ouuir. LAVS DEO.
FOY IMPRESSO ESTE TERCEIRO LIURO DA HISTORIA DA índia em a muyto nobre & leal cidade de Coimbra por Ioão de Barreyra, & Ioão Aluarez empreffores del rey mefma vniuerfidade. Acaboufe aos doze dias do mes Doutubro. De M. D. LII.
LIVRO QUARTO
\ t PROLOGO NO QUARTO & QUINTO LIUROS DA HISTORIA do descobrimento & conquifta da índia pelos Portuguefes. Diri¬ gido á fereniflima & excelentiííima Princefa dona Ioana noíTa fenhora. Por Fernão lope% de Cajlanheda. ANtiguo coltume he em Perfia, & q íe guarda e toda Afia lerenil- fima & excelentiííima Princefa nolfa fenhora, nenhúa peffoa vifitar fem prefente a elrey, nem a outras peíToas reaes: porque fe tem por grande final damor & obediência: cuftume muyto notauel & digno de fer víado em toda parte: porq fão noffos fenores na terra, & na que he lua viuemos: & temos noífas fazendas & nos dam leys per q fomos gouernados & regidos: & finalmete nos mantém em paz & em juftiça que he parte da bem auenturança deite mundo Polo que não fométe os deuemos de vifitar com prefentes do q temos, mas ter as vontades muy prõptas pera feu feruiço. E leguindo eu eíte cuftume auedo de vifitar .V. A. como leu vaífalo lhe quis fazer hú prefente: mas de q fe pode ele fazer a .V. A. princefa tão fingular dos bes dalma & da fortuna fobre todas tã excelentemente dotada, q cõ ho muyto q lhe deles fobeja podião outras fer bé auéturadas. Deyxo agora a nobreza & antiguidade de volfo efclarecido fangue de todas as partes, dos mais excelétes éperadores Da- lemanha, de tãtos & tão famofos & bé auéturados Reys do antigo & muyto nobre fangue dos godos, abafta fer .V. A. filha daqlles dous lumes do mudo, Carlos quinto rey dos Romãos & Emperador Dalemanha & rey de Caftela & doutros é efpanha & fora delia, & fenor de grãdes fenhorios: cuja boa fortuna foy em tãto creciméto q per leus capitães rompeo cõ eftrago elpãtofo ho cãpo de Frãcifco Rey de França, que nele eftaua em peffoa com poder que parecia inuenciuel, & ho desbaratou & predeo com muytos fenhores de Frãça: a quem ho Turco terror do 48 Tomo II
Hijloria da índia 3y8 mundo entrando com feu temerofo exercito por Vngria volueo as coftas & não oufou dir auante cõ medo de pelejar com fua mageftade que linha diãte: & cõ ardentiflimo zelo da gloria do eterno Deos todo poderofo & da religião chriftaã, efquecido dos immeníos trabalhos da guerra, pene¬ trou polas frialdades grandiflimas da alta Alemanha, & desbaratou aque¬ las duas cruéis & danofas beftas, cabeças & colunas da peflima & abo- minauel herefia luterana ho duque de Saxonia & ho Lanftgrauio: & fometeo todas aquelas terras que eftauão corruptas defta maluada herefia a fanta Se Apoftolica: & fez outras muytas & muy notaueis coufas, que deixo por não parecer que fcreuo hiftoria. Ho outro lume do mundo foy fua molher a emperatriz dona Ifabel voffa may, exemplo de todas as vir¬ tudes, q com tanto afTelfego gouernou Caftela, & os outros Reynos def- panha: em tantos annos que .S. M. foy aufente, que nunca feus vaffalos ho acharão menos, & pera que lhe não faltaffe nenhúa coufa pera fer a mais bem auenturada princefa do feu tempo, cafou com ho muyto alto Príncipe dom Iohão noflo fenhor herdeiro da real cafa de Portugal, & de íeus grandes fenhorios, nacido do voffo real tronco que não tem en- ueja a nenhú dos príncipes Criftãos afíi em fer zelofo do culto diuino, piadofo pera os pobres & necefiitados, manifico liberal & benigno pera todos: amigo dos caualeiros, & muy prõto e ouuir fuas façanhas: & muyto dado a todo eftudo das boas letras, em qué fe achão todas as boas & virtuofas inclinações que conuem a hú bom príncipe, & fobre tudo lhe deu noífo fenhor hú fingular dom, que he tão fogeito a rezão que pofto que lhe pareça q lhe té feitos grandes erros, com lhe darem rezão fica logo fatisfeito. E pera que me detenho eu em coufas tam notorias, nem pera que he ter ifto por muyto, pois não fe efpera menos de .S. A. fendo filho do muyto alto & muyto poderofo Rey dõ Iohão noffo íenhor, & da muyto efclarecida Rainha noífa fenhora voffos padres, que afli ho foube- rão criar & inftituir, que juntamente com a boa inclinação natural de que ho eterno Deos ho dotou fayo tal como he. Pois confiderando eu ferenif- fima Princefa a fingularidade & excelencia de voffa real peffoa & voffa manificencia, não achey de que lhe fizeffe melhor prefente que de coufas que fam de muyto mor preço que ouro, nem prata, nem outras riquezas. Eftes fão os milagrofos feitos e armas que os Portuguefes cujos defcen- dentes hão de fer voífos vaffalos fizerão no defcobrimento & conquifta da índia: porque de que tem os Príncipes & fenhores mais neceflidade que de bõs vaffalos, que os fazem fer amados de feus naturais & temidos de feus Imigos, que lhes fegurão feus Reynos, & acrecentão outros a feus fenhorios, com que os fazem ricos, & eftendem por toda a terra feu nome com muyto grande louuor & fama. E bem fentia ifto aquele grande
Prologo 379 Rey Dario quando diffe que queria tantos Zopiros como erão os grãos da romaã, por fer Zopiro tam esforçado & prudente na guerra que lhe conquiitou Babilónia, & aífi fizerão outros muytos & bõs vaflalos muy grandes & affinados feruiços a feus fenhores, como as hiftorias antigas & modernas dão teitemunho: que cotejados cÕ os que fizerão os Portu- guefes ficão muyto abaixo deles, pois os das outras nações acabarão, & os feus fempre permaneçem: os Affirios, os Medos, os Perfas, cujas mo- narchias forão de tantos Reynos, de cidades tam notaueis, de gente lem conto, emnobrecidas com tam groffas riquezas, fortificadas com tão me¬ donhos & efpãtofos exercitos que cobrião a terra & fecauão os rios, todos acabarão & fe desfizerão em pouco tempo: & eítes Reynos no mundo tam celebrados ficarão fugeitos a outros. A monarchia dos Gregos & dos Romãos que forão muyto mayores que eiloutras, & q pareceo que auião de fometer todo mundo a feu império quafi que não durarão nada pera ho começo que leuauão: & afli outras muytas de barbaros, gregos, & latinos, que fe apagarão: de maneira q não ha nenhúa memória delas. O que tudo foy por culpa dos vaflalos deites monarcas, que ou por trei- çoes ou por outras maldades forão caufa de fe apagarem & desfazerem. O que não fe pode dizer dos Portuguefesy que criãdo eíte Reyno de Por¬ tugal de tam pouca coufa como começou, leruindo a feus Reys cõ esforço & lealdade fobre as outras nações, não fomente ho engroflarã em Efpa- nha, nem fe contentarão de ho eitender por África: mas abrindo nouos mares & defcobrindo nouos mundos, dobrando aquele efpantofo cabo de boa efperança, eítenderão ho íenhorio de Portugal & ho fizeram conhe¬ cer em Ethiopia, Arabia, Períia, & nas índias. E não defcanfando ainda aqui feus brauos corações, ho leuarão ate a riquiflima China pela banda do norte: & ate as odoríferas ilhas de Maluco pela bãda do fui: coufa nunca cuidada em nenhú tempo, nem q entrafle em penfaméto humano pera fe fazer, & forão de geração em geração tam leais todos, que fem temor de imméfos trabalhos, fem receo de medonhos perigos foiteuerão ho fenhorio de Portugal neítas partes, arreigandoho de cada vez mais. Em tãto q parece que a terra, ho mar, & a gente fe cõuidão pera ho re¬ ceber. Rezão tenho logo fereniflima & excelétiílima princefa de fazer a .V. A. prefente das coufas de mayor preço que fe achão neltes reynos, q iam os milagrofos feitos em armas q fizerão os Portuguefes no defco- brimento & conquiíta da índia, para que faiba .V. A. que fam os melho¬ res vaflalos q pode fer: & como a tais os trate, fauoreça, empare & ajude. .
I AD INUICTISSIMUM LUSITÂNIA, & ALGARBIORUM Rege. Ioanem .III. &c. Ferdinandus Coronellus de hiftoria Indica nunc recens edita. 1 oanties, quem Turca íimet, quem Maurus adorat, Quemque pharetratce Perjidis ora tremit. Cui Parthus, cui cedit Arabs, cui púnica tellus Seruit, & occiduo terra fretumque solo. Inclyta perpetuis cur non tua gloria fajlis Crefcet, & cetherei furget ad ajlra poli ? Cum tua lyfiades acri gens afpera bello Aufa fil ignotam Jluctibus ire viam. Perque procellofum numerofis clajjibus cequor Cogat in affueto barbara regna iugo: Qua vagus Euphrates, quà deuius exit Orontes, Quaque jluit gelidis barbarus IJler aquis. lamque pererrato fuperejl nil denique mundo, Per freta longa tuus nauita vicit iter. Quaque patet domitis tua magna potentia terris, Intemerata dei crefcit vbique Jides. Rex igitur mérito tibi quis celeberrime regú Non grates imo pectore femper agat? Cum tua Jlent adeo facris onerata trophceis Limina, fint armis tot freta viãa tuis. Maximae rex regum tituli, injígnibus ambit Quem decor, & tantis ornat imaginibus. Viu£ diu patrice, nec te plaga lúcida coeli Auferat e nojlro ciuibus orbe tuis. Candidus ajlra peles fero, cum nulla superflnt In terris hominum quce dare iura queas. Tunc iam lyfiadafque tuos, gentemque beatam Afpicies fuperos promeruiffe Deos. Qui bene pro palria quondã cecidere fub armis, Qui bene pro Chri/li relligione iacent. \
Hiftoria da índia 3$a Felices animas, iam nunc ftiper cethera raptos, Non vos indecores dejinet ulla dies. Non vos liuor edax, non vos longceua uetujias Arguet in pátrio non cecidiffe solo. Dum Phcebus fuperos pulcherimus ambiet orbes, Dum Thagus auríferas in mare vertet aquas. Vix vnquam virtus fine nomine vejlra iacebit, Non erit in cineres fama fepulta fuos. Nam cafus rerum vários durofque labores Cajlanheda facro proferet ore potens. Vincet & eternis inimica Jilentia libris, Tollet & obfcuro nomina vejlra Jttu. Ille quidem patrice faãa immortalia nunquam Defraudata fuis laudibus effe finet. Quce tibi tot viâis rex inuiâtijfime terris Gratalur forti parta trophxa manu. L Eiufdem in authorem epigramma. luius hijlorice quondam celeberrimus author Duxit ab cclerna pojleritate decus. Dum fcribit Latium, commiffaque prcdia, nec non MiJJa fub hefperium Púnica regna iugã. Tu quoque lufiadum fcriptor facunde tuorum, Immortale tuú nomen ad afira feres. Nam licet exiguce landis res ipfe referres Te tamen at fandi copia proueherel. At cum faãa tuis fcriptis ingentia narres Eueniet mérito gloria fumma tibi. Amici cuiufdã Caftanhedíe ad ipfum. Tam uarijs exculta modis facúndia, tantã Dicendi ejl lumen, copia, vifque tibi. Vt licet exiguam rem fcribas, arte magi/lra sEternce facias pojleritatis opus. At modo quam fcribis tanta ejl, vt vel fine doão, Artífice, liaud vnquam thura timere queat. Ergo fcriptori cum res amplifjma par Jit Qiiod fcribetur opus dic fore qualle putas.
HO QUARTO LIURO DA HISTORIA DO DESCOBRIMENTO & CONQUISTA DA INDIA PELOS PORTUGUESES: no tempo que a gouernou Lopo Soarez, do confelho del rey dom Manoel de gloriofa memória: & capitão dos ginetes do Príncipe. Feyto por Fernão Lope^ de Cajlanheda. CAPITOLO PRIMEYRO. De como foy reformada a pa{ com a Raynha de Coulão. DEspois q ho gouernador foy ê Cochim como difle no liuro terceiro: entendeo logo na carrega da pimenta q auia de mãdar pera Por¬ tugal. E como parte dela fe auia de fazer em Coulão que algú tanto eftaua aleuantado, como difle no liuro fegundo: mandou ho gouer¬ nador lá certas naos pera que carregaflem. E foy por efcriuão defta car¬ rega hú Ioão aluarez de caminha. E juntamente mandou ho gouernador quem reformafle a paz com el rey de Coulão: mas a quê fe deu efte cargo não lhe foube ho nome: E quê quer que foy aflêntou a paz com húa irmaã del rey de Coulão que fe chamaua raynha: por ter algúa parte na cidade & afli em fua comarca: & gouernaua aquella terra por el rey q ho mais do têpo eítaa no fertão como difle. E os capítulos das pazes forã eftes, que a raynha mandáfle fazer aa fua cufta a igreja do orago do apoftolo fam Thome que os mouros queimarão & derribarão quando matarão ho feytor Antonio de Sá: como difle no liuro fegundo: & que lhe foflem tornadas as rendas que tinha afli de terras como de dereitos que lhe pagauão. E afli pagafle a raynha pola fazenda del rey de Portu¬ gal que fora tomada a Antonio de Sá quinhentos báres de pimenta: que
384 Hiftoria da índia polo noffo pefo fam dous mil quintaes: & que auia de dar carrega de pimenta ás naos que hi foffem carregar, polo preço de Cochim. E q el rey de Portugal mandaria ter em Coulão mercadorias que a gente da terra comprafie. E a tudo ifto fe obrigou per húa efcriptura a raynha, & aífi os regedores & pulás: q fam os fidalgos, de ho comprirem & goar- daré. E iíto fizerão por lhes fer muyto necelfaria efta paz pera conferua- ção da terra. E logo começarão de pagar, os dous mil qultaes: & foy dada carrega aas naos que defpois de carregadas fe tornarão a Cochim: donde partirão cÕ as outras pera Portugal. CAPITOLO .II. De como os mouros de Baticalá fe leuantarão: & matarão xxiiii. Portuguefes. VEndo os mouros da índia que era falecido Afofo dalbuqrque a q auião medo como a mefma morte: & que auia outro gouernador de que não tinhão experiencia: determinarão defprementar que tal era: & aífi como viffem que fazia, aífi ho temerião, ou não terião em conta. E os que logo começarão de fazer efta experiencia forão os de Baticalá: em cujo porto eftaua Simão dãdrade cÕ húa nao de que era capitão carregando pera Ormuz: & andando algúa gente defta nao em terra trauarão os mouros com eles brigas, em que forão mortos xxiiii. Portuguefes, & os outros efcaparão no batel. E não podendo Simão Dan- drade caftigar aqle infulto ho mandou dizer ao gouernador & partiofe pera Ormuz. CAPITOLO .III. De como ho gouernador vifitou as fortalezas -da cofia da índia: & do mais que fe\. PArtidas pera Portugal as naos da carga, defpachou ho gouernador pera Malaca a hú fidalgo chamado Iorge de brito que era copeiro mor del rey de Portugal, q hia prouido da capitania da fortaleza, & partio em húa nao, & foy em fua cõferua em outra Antonio pacheco que leuaua a capitania mór do mar: & ambos chegarão a Malaca a fal- uaméto, & forão entregues de feus carregos. E partidos eftes capitães partiofe ho gouernador a vifitar as fortalezas da cofta, que ateli não fizera por amor da carregação das naos. E a primeira q vifitou foy a de Ca- licu. Cujo rey eftaua muyto agaftadopola morte de Afonfo dalbuquerque:
Livro IV, Capitolo 111 385 & por fer ames de auer repofta da embaixada q mandara a el rey do Ma¬ nuel: & mays por ho gouernador não querer que mandaffe certas naos com pimenta a Adem, que lhe Afonfo dalbuquerque tinha concedido q mandaffe, porq era de fora do contrato que ambos fezerão fobre. as pa¬ zes, não ho queria ho gouernador confentir. E fobre ifto fe quis ver cõ el rey: & fobre a maneira de que auia de fer a vifta ouue grãdes alter¬ cações porque ho gouernador queria q lhe fofTe el rey falar á fortaleza, & el rey queria que fe viffem no çarame: & cada hú fe injuriaua de ir onde ho outro eftaua: & fobrifto fe gaftarão doze dias: & ho gouernador quifera quebrar a paz & recolher a gente da fortaleza fe lho não cõtra- riarão os capitães & fidalgos. E por fim de tudo virãofe antre a fortaleza & a cidade, não leuãdo cada hú mais de tres homés. E com tudo não tomarão cocrufam fe mãdaria el rey as naos ou não: & com tudo man¬ dou as defpois. E fe ele não defejara muyto de cõferuar a paz que tinha, ela ficaua quebrada. E daqui fe foy ho gouernador a Cananor, & dahi a Goa: & foy furgir no porto de Baticalá: & labendoho ho feu rey cuydou q ho hia deftruyr por amor dos Portuguefes que hi matarão os mouros: & por iffo quis temporizar coele, & mandoulhe muyto refrelco, & tres mouros velhos: dizendo que lhos mãdaua pera fazer deles o q quifeffe por quanto aqueles forão caufa do arroido em que matarão os xxiiii. Portuguefes. E coefte comprimeto fe ouue ho gouernador por latisfeyto, & fe partio pera Goa: o q deu grande oufadia aos mouros pera lhe per¬ derem ho medo. E dali por diante ouue ladrões pela cofta que roubauão os amigos dos Portuguefes, & a elles meímos fe os achauão defapercibi- dos. E Ido ho gouernador por fua viagem, lhe deu hum temporal com que fe acolheo a Anjadiua: donde mandou dõ Aleixo de menefes a Or- muz por capitão mór de fete naos carregadas de mercadoria pera a fey- toria, & mandoulhe q foubeffe fe auia noua darmada de rumes no eílreito pera os ir bufcar: & elle foyíe a Goa, cujos moradores principalmente os cafados fabendo que leuaua por regimento q a derribaffe fe achaffe q não era neceífaria, lhe derão por apõtamétos quanto rendia a alfandega, & quãto rendião as tanadarias dos palfos, & os dereytos dos caualos Dor- muz, & aífi as ilhas comarcãs. E coifto muy viuas rezões, de quão impor¬ tante era pera fe fofter na índia ho eftado del rey de Portugal, & offere- cendofe por cima de tudo a defédela & foftentala á fua cufta com lhe el rey fomente dar artelharia: & por amor difto não quis o gouernador poer em confelho fe era bé derribarfe Goa, & deixou ha eftar, & tornoufe a Cochim, onde auia dinuernar. Tomo II 49
386 Hiftoria da índia CAPITVLO .1111. De como Fernão pere\ daydrade partio de Malaca pera a China, & de como arribou com tempo. Ede Cochim efpedio logo húa carauela pera Moçambique cõ recado aos capitães das naos de Portugal que hi foliem ter ho âno fe- guinte, q fe foliem ajuntar coele em Iudá ate õde efperaua de ir bufcar os rumes, pera que ho ajudalfem fe ouueífe de pelejar, porq a gente que tinha era pouca. E partida efta carauela, defpachou ho gouer- nador a Fernão perez dandrade pera ir a Bégala & á China: & ouue an- treles desgofto muyto grande, porq não leuãdo Fernão perez de Portugal embaixador dirigido pera elrey da China fenão quê elle quifelfe: deu o gouernador elle officio a hú Thome pirez que fora boticairo do príncipe dom Afonlo, & deulhe ho gouernador eíte cargo por fer homem difcreto & curiofo, & pera conhecer muytas drogas q lhe dizião q auia na China, & com Fernão perez foy hú Antonio lobo falcão por capitão dú nauio. E nauegãdo por fua viagé foy ter a Pacé na ilha de çamatra, onde auia de carregar de pimenta pera a China, por fer lá de muyto preço. E pera fazer efta carrega eftaua ja em Pace Ioãnes impolim que fora cõ Antonio Pacheco na conferua de Iorge de brito: & hia fazer efta carrega a Pace por valer lá a pimenta mais barata que em Cochim. E chegado Fernão perez a Pace, achou q tédo Ioãnes a nao carregada lhe ardera. E vendo Fernão perez q não tinha carrega pera ir á Chiria, & q não podia carre¬ gar outra vez por fe lhe gaitar a moução determinou de ir a Bengala, & primeyro mãdou por Ioãnes a el rey de Pacé húa carta del rey dõ Ma¬ nuel em repofta doutra fua damizidade, rogãdo lhe q quifelfe confentir fua feytoria ê Pace, q lhe era necelfaria pera ho trato da China: & també lhe mãdou hú prefente. E fabédo el rey como lhe leuaua Ioãnes a carta & ho prelete, mãdou ho receber polos principaes de fua corte todos em cima dalifantes cõ grande mageftade, & per fua peífoa ho recebeo muyto bé, & fe moftrou muyto contente cõ a amizade del rey de Portugal, & de querer ter feytoria é fua cidade, pera o q deu confentiméto per húa efcriptura affinada por ele & por algús fenhores principaes do reyno. Ifto feyto, determinãdo Fernão perez de ir a Bégala foy primeyro a Malaca pera hi tomar a nao efpera, q era da ordenança da fua capitania: & che¬ gado lá não achou a nao q era darmada: E Iorge de brito capitão de Malaca quãdo foube q ele hia pera a China & queria ir a Bengala, lhe reqreo muy eftreitaméte q em todo cafo folfe á China por fe prefumir q
Livro IV, Capitolo V 387 eftaua lá prefo Rafael pereftrelo cõ os outros q forão no jungo, como diífe no liuro terceyro: & porto q lhe falecefle a nao efpera, lhe daria a nao fãéta Barbora. E cõ quanto Fernão perez/e quifera efcufar de ir por fer gaftada parte da moução não pode, & partiofe leuando a carrega de Malaca, & forão é fua cõferua Manuel falcão & Antonio lobo falcão e dous nauios, & hú Duarte coelho é hú jungo: & partio de Malaca a xv. Dagofto de mil & quinhentos & defafeys, & meado Setembro chegou junto da enfeada de Caucõchina: & foy de noyte com os outros capitães dar co terra, onde milagrofamete os faluou noífo fenhor q fe óuuerão de perder é hús baixos. E por lhe fer ja ho vento por dauante pairarão aqui doze dias. E vedo que era por demais por fer a moução gaftada, arriba¬ rão a Malaca, & Duarte coelho pedio licença a Fernão perez pera ir inuernar a Sião, que conhecia ho rey de quando lá fora cõ Antonio de miranda & fabia que hauia de fazer proueito. E tornado Fernão perez a Malaca achou Rafael pereftrelo que era chegado da China cõ tamanho ganho no emprego q leuou q fez de hú vinte & certificou que os Chis querião paz & amizade com os Portuguefes, & q era muyto boa gente. CAPITOLO .V. Do q acôteceo a Attrrique leme em Pegú. DEspois da partida de Fernão perez pera Malaca qn quifera ir a Bengala, vendo Ioãnes q não tornaua foyfe a Malaca na nao que hi ficaua carregando, cõ tenção de fazer lá a mefma feytoria que ouuera de fazer em Pacé. E ho capitão de Malaca, chegado elle lá, deu por rogo de Iorge dalbuquerque que ainda eftaua em Malaca a capitania da nao a hú Anrrique leme pera que foffe a Martabão porto de Pegú com fazenda del rey, & deulhe feífenta Portuguefes pera irem coele, & Ido tomou no caminho hú jungo de mouros mercadores de Pegú, & leuouho coníigo pera ho mandar a Malaca carregado darroz, & não po¬ dendo tomar Martabão arribou á boca do rio onde eftá Pegú, nouenta legoas por ele acima á borda dagoa: & a dezoito eftá hua cidade cha¬ mada Cofml que he ho porto de Pegú: onde por cõfentiméto do gouer- nador da terra foy leuada a fazeda que hia na nao com hú feitor, & algús dos noffos pera eftaré coele ate fe acabar de vender & Anrique leme ficou na nao a boca do rio, & com ho jungo em fua cõpanhia, & começandofe a nao de carregar fouberão os fenhores do júgo que os noffos tomarão que eftaua na barra carregãdofe darroz, & efcãdalizados difto fe forão queixar a el rey de pegú cõ grandes brados dizendo que os noffos fem
388 Hijtoria da Lídia nenhjí temor trazião ho feu jungo que lhe tomarão fem nenhúa rezão pois tinhão paz coeles, pedindolhe q lhes fizeffe juftiça, & os mataffe a todos pois erao ladrões que fe ho não forão, não tomarão ho jungo, nê lho trou- uerão diante dos olhos, & ouuido ifto por el rey, porque queria ter con- tétes os mercadores de que lhe vinha muyto. proueito mandou logo recado ao regedor de Cofml que mandafle tomar todos os noflos que eítauão na feytoria, & quãdo não que os mataflem. E ho regedor os quifera auer por mana, mas não pode porque ho feytor fe goardaua, que foy logo aui- fado per mercadores gentios do que el rey mãdaua. E vendo os mouros fenhores do jungo que eftauão em Cofmim, que fe não podia ho feytor né os noffos auer por manha, ajuntaranfe com outros muytos, & afii algús gentios, & derão fia feytoria com grande impeto, em que aueria quatro dos noflos com ho feytor & oyto Iaos efcrauos del rey de Portugal que logo acodirão á porta da feytoria com efpingardas, béftas & lanças defen- dendofe tão valentemente, que não fomente tolherão aos immigos que en- trafiem mas ainda matarão algús: o que vifto polos mouros poferão fogo á feytoria que logo começou darder por ferem as cafas cubertas de palha. E vendo ho feytor ho fogo, & que não tinha remedio fayofe por detrás das cafas em que batia ho rio, onde fe meterão ate a cinta, que logo os immigos acodirão fobreles com grandes gritas & frechadas fem conto, & pedradas. E era coufa defpanto, & milagre euidete como fe defendião todos doze fem os immigos lhes podere empecer em efpaço de quatro oras que durou efta briga. E no cabo chegou ho batel da nofla nao onde fe recolherão & fe forão á nao que eftaua no rio. E logo ao outro dia aparecerão por ele a baixo obra de quatrocentos paraós cheos de gente armada & com muytas jangadas de rama feca, pera que fe não podeffem tomar a nao a queymaflem coelas. E vedo os Anrrique leme, & conhe¬ cendo ao que vinhão deixou ho jugo defpejando a gente dele na nao, & em húa champana com que fe carregaua, em que mandou logo apõtar toda fua artelharia: & em os paraós chegando perto a mãdou defparar neles. E os immigos como erão muytos não deixarão de a cobater, tirando multidão de frechadas, cercando á nao de todalas partes. E paflando hú pedaço que a artelharia começou de jugar atrooufe toda a nao cõ a furia dos tiros, & por fer podre & paflada do bicho começa de cufpir ho breu por onde era furada, & ficauão os buraquinhos defcubertos: & fendo muytos, entroulhe tanta forna dagoa que nem com bombas, nem cõ bal¬ des fe não podia efgotar, o que deu aífaz de trabalho aos noffos, porq fe trabalhauão em efgotar a nao, falecião pera fe defender dos immigos que os combatião continuamente fem defcançar, que ho podião fazer por ferem tantos como difle: & fe fe querião defender deles entrauaos a agoa de
Livro IV, Capitolo VI 38g modo qife os metia no fundo: affi que não fabião a qual acodiffem, & tres dias continos teuerão eíte trabalho, que tãto durou a peleja fem nunca terem nenhú repoufo, porque comião pelejando: & toda a noyte vigiauão com medo que lhe não queimaíTem os immigos a nao. E cõ trabalho tão immenfo aprouue a noflo fenor de os tirar do rio, leuando os ho batel á toa, & affi hú calaluz de Malaca, & a champana. E vendo os immigos que os feguião que fayão pela barra tornaranfe, fendo húa hora ante do foi pofto. E os noffos ficarão tão canfados & tão roucos do muyto bradar que não podião falar nem deitauão mais que veto: & tudo ifto fe fez fem nenhú fer morto nem ferido, & dos immigos muytos, & muytos paraos arrobados, & outros metidos no fundo. E tudo ifto erão milagres de noflo Deos todo poderofo. E vendo ho capitão que a nao fe não podia fofter pola muyta agoa que fazia, repartio a gente dela & artelharia, & manti¬ mentos na champana, calaluz & batel que leuou a efte fim: & ainda a gente não era toda acolhida quãdo a nao fe.foy ao fundo & ficou a gauea por cobrir, & dali feguio fua rota pera çamatra, & no caminho fe perde¬ rão ho batel & ho calaluz com hú temporal, & morrerão neles vintoyto dos noffos & vinte Iaos. E ho capitão com os outros & algús mercadores de Cofml que fe forão coele pera viuerem em Malaca foy ter ao porto de Pedir em çamatra, & hi os recolheo ho rey & os teue cõ muyto ga- falhado tres mefes, ate Fernão perez tornar a Pace, onde tornou defpois darribar da viagê da China, como direy a diante. CAPITOLO .VI. De como dom Aleixo de menefes chegou a Ormu\ & prendeo Simão dandrade. PArtido dom Aleixo de menefes pera Ormuz com as naos de fua conferua chegou coelas a faluaméto, & mandou entregar a fazenda delas na feytoria. O que fauoreceo muyto os noffos que lá eftauão por eftarem muyto triftes pola noua da morte Dafonfo dalbuquerque que ja fabião, & temião que os mouros fe aleuantaffem. E eftando dom Aleixo em Ormuz daua mefa aos que querião ir comer coele, que erão muytos: & hú dia eftãdo comédo étrou hú fidalgo chamado Martim afonfo de melo ainda moço, & deu húa grande cutilada polo rofto a outro chamado Fran- cifco degá que comia á mefa de dom Aleixo. E fegundo fe defpois foube, foy a caufa de lha dar terlhe dado Francifco de Gá húa bofetada quando hião pera Ormuz, onde Martim afonfo fe aqueixou diffo a Simão dan¬ drade que ja lá eftaua, & a outros feus parentes q lhe aconfelharão que
3go Hijloria da índia fe vingaffe onde podeffe, & ele não achou outro melhor lugar que aquele: & affi como lhe deu a cutilada fe acolheo, & dom Aleixo com quantos eftauão á mefa foy apos ele ate a poufada de Simão dandrade onde fe meteo, & dali foy logo paliado por detrás aos paços del rey, donde foy porto em faluo, & por iffo ho não pode dõ Aleixo preder. E fabedo como quãdo fora a dar a cutilada fayra da poufada de Simão dãdrade, aquei- xoufe muyto coele polo confentir. E ele diífe que Martim afonfo fizera muyto be de fe vingar, & ele em lhe dar ajuda pera iffo, & afii outras palauras: pelo que dom Aleixo ho prendeo fem lhe querer goardar hú aluara do gouernador em que ho ifentaua de dõ Aleixo: & por mais re¬ querimentos que lhe fez Simão dandrade lho não quis goardar, & tomou- lhe a capitania da nao & deu ha a Frãcifco pereyra de berredo. E em quanto efteue em Ormuz ho teue prefo na fua nao: & affi ho leuou ate a índia, õde ho gouernador ouue por be feito o q fizera dõ Aleixo. CAPITOLO .VII. Da fegunda armada que fe\ ho Soldão pera mãdar á índia côtra os nojfos: & a caufa porque lá não foy. NO liuro fegundo foy dito ho desbarato da armada do Soldão, de que Mirocem foy por capitão mór á índia, & como ele fe foy def- pois da índia. E como ho Soldão tinha grande defejo de lançar os noffos fora da índia, & affi ho tinha determinado, não dififtio de fua determinação, & começou logo de mãdar armar outra frota mayor que a primeyra, que foy armada em quatro annos: & pofta no mar & apare¬ lhada pera nauegar fe affirma que cuftou oytocentos mil cruzados. E erão eftas velas feys galés reaes cada húa de vinte fete bãcos de tres remos em banco, & noue fotis cada húa de vinte cinco de tres remos em banco, & doze furtas, húas de yinte fete bancos outras de vinte cada húa de dous remos em banco: & fez pera efta frota feys mil homes de peleja em q entrauão fetecentos Mamelucos & trezentos Turcos, & mil mouros mogaueres de Tuneç & de Grada que falauão efpanhol, de que os qui¬ nhentos erão efpingardeiros, & os cento bombardeiros, de que os vinte erão meftres dartelharia & darteficios de fogo, & os outros fe chamauão feruidores, & dous mil frecheiros & outros tantos de lanças & efpadas. E deftcs os quinhentos armados de fayas de malha, & dez darmas bran¬ cas & cinco de coyraças: & antre toda efta gente auia cincoenta Chrif- tãos. A artelharia defta frota forão ceto & dez tiros groffos de metal, bafalifcos, cães, pedreiros & outros. E trezentos & vinte cinco berços de
Livro IV, Capitolo VII 3gi metal, & muyta poluora, & grande quantidade de pelouros de toda forte. Armada efta frota deu ho Soldão a capitania mór a hú Turco chamado çalmão rex que fugira ao Turco cõ fete gale's de que andaua por capitão, & lhas fora vender & aífentara coele viueda. E ja antes difto em tempo q Afonfo dalbuquerque gouernaua a índia, fabendo çalmão rex que ho Soldão queria mandar efta frota á índia foy lá primeyro por feu mandado pera ver a noífa armada, & hú nofio calafate ho conheceo que ho vio em Chaul, Sj ho diífe a Afonfo dalbuquerque. E tornado ele da índia, diffe ao Soldão que facilméte efperaua de desbaratar a noífa frota, porque era de nauios dalto bordo, que não podião nauegar fem vento, & a fua era de galés, que pofto que não ouueffe vento andauão a remos: & como tomaífe os nolfos em calmaria os auia de meter no fundo. E efta foy a caufa porque lhe ho Soldão deu a capitania mór da armada que digo, & mandoulhe que fofle pola cidade de Iudá & fe ajuntaífe com Mirocem que hi eftaua & faria o que lhe moftraífe per hú regimento que lhe tinha mandado. E partio de çuez no começo Doutubro de mil & quinhétos & quinze, & no caminho fe lhe perdeo húa das galés com cento & cincoenta homés: & chegou a Iudá a quatro de Nouembro, & a dezanoue partio dali com Mirocem que tinha duas naos que leuara de Diu que fez como as noífas, & hú galeão & dali forão ter a Camarão, Õde lhe Mirocem moftrou como ho Soldão mandaua que fizeífem ali ambos húa fortaleza, em que Mirocem ficaria com quinhentos Mamelucos. E paífados oyto mefes que a fazião, efcreueo Mirocem húa carta dameaço ao rey Dadé por eftar efcandalizado dele de fem rezões que lhe fizera quando paífara desbaratado da índia. E por amor defta carta mandou el rey Dadem que não vendeffem mantimentos aos de Mirocem, que por eífa caufa concer¬ tou com çalmão rex q fizeífem guerra a el rey Dadem, & Mirocem lha foy fazer com dous mil homens, & prometeo cem cruzados a cada hú fe tomaífem húa cidade chamada Zebit fobre que foy que eftá fete legoas pelo fertão. E com a efperãça da promelfa a tomarão, & na peleja ma¬ tarão hú filho del rey Dadem. E tomada a cidade apertarão os soldados com Mirocem q lhes compriífe fua prometia dos cem cruzados. Do que fe ele efcufaua, dizendo que lhos não podia dar pois roubarão quanto auia na cidade. O q lhe eles nã quiferão leuar em conta & quiferãno matar fe ele não pedira efpaço pera mandar pedir dinheiro a çalmão rex, que fabendo o que paífaua, porq não tinha dinheiro mandou dizer aos foldados que ele ficaua por fiador do dinheiro que efperaífem, & a Miro¬ cem que fugilfe: pera o que ele bufcou maneyra & fugio & foyfe pera çalmão rex, que defpois q ho teue mandou recado aos foldados q fe foí- fem embarcar, & q lhes pagaria: & que não efperaífem por Mirocê que
Hifioria da índia 392 era morto. E eles não quiferão fem lhes pagar primeyro. E determinando çalmão rex com Mirocem de ir fobre Adem, pofto que tinha pouca gente mandou rogar aos foldados, que pois ho não querião ajudar que deitaífem fama que ficauão em Zebit pera iré por terra a Adem Õde ele hia, & eles ho fizerão afli, & Salmão & Mirocem forão fobre Adé, a que derão com¬ bate, & tomarão hú baluarte, & derribarão hú lãço de muro: mas não a poderão tomar, & por não terem gente não quiferão paliar á índia & tornarãfe a Camarão. E ifto tudo foube dom Aleixo em Ormuz, q vindo ho tempo de fua partida fe partio pera a índia. CAPITOLO .VIII. Do que pajfou Fernão Caldeira com dom Goterre, & de como foy morto na terra firme. QUãdo ho gouernador hia de Portugal pera a índia, que chegou a Moçambique: hia na nao de dom Goterre hú Fernão caldeira que fora page Dafonfo dalbuquerque, q por mexericos fora prelo a Portugal, onde defpois de fe liurar lhe fez el rey merce, & lhe deu liceça pera fe tornar á índia, & foy na nao de dom Goterre que hia por capitão de Goa, onde ele tinha fua molher & cafa, & por auer húa defe- rença em Moçambique cõ do Goterre não quis ir mais coele, & tomou fecretamente hú nauio, & foyfe com outros caminho da índia, onde cuy- dou dachar Afonfo dalbuquerque que lhe valeria. E tomo foube que eftaua em Ormuz, & por amor da fortaleza que fazia não auia de tornar fe não tarde, defefperou de fe poder faluar de dom Goterre que auia de fer capitão de Goa onde auia de morar, & por ifto determinou de fe acolher á terra firme pera Ancofcão capitão de Pondá, & leuou muyta fazenda com que trataffe: & defpois de fer lá tomou Ancofcão coele tamanha amizade que não fe apartaua nunca dele & daualhe todos os proueitos que podia, de modo que fe fez muyto rico. E determinando dom Goterre de ho matar polo de Moçambique, defpois que foy em Goa trabalhou por iffo, mãdando algús que ho mataífem, principalmente hum Ioão gomez efcriuão da feytoria de Goa, homé esforçado que fez que hia agrauado de dÕ Goterre, & q fugia pera os mouros: & por fer Chrif- tão ho agafalhou Fernão caldeyra, & daualhe dos feus caualos em que andaffe: & fazia com Ancofcão que lhe fizefle honrra. E não dififtindo cõ tudo ifto Ioão gomez de ho matar efperou tempo pera iffo, ate que hú dia fayo Ancofcão a folgar pola terra a caualo, & fendo húa legoa do palfo de Beneftarim, adiantoufe Ioão gomez com Fernão caldeyra & ma-
Livro IV, Capitolo X 3g3 tou ho á treiçao com húa lança a viíta Dancofcão, que auedo diífo muyto grande menencoria mandou apos Ioão gomez que fe acolhia a Benaltarim, & foy tomado & trazido diáte Dancofcão, que por fua mão lhe cortou a cabeça. O que fabido por dom Goterre, ficou muyto mal com Ancofcão com que dantes eftaua be, & determinou de fe vingar dele. CAPITOLO .IX. De como forSo mortos quatro dos nojfos no ferJão de Cochim. INuernando ho gouernador em CochI, hú fidalgo chamado Gafpar da íilua foy folgar á terra firme & leuou em fua companhia feu irmão Chriftouão de foufa, Iorge de brito, Lopo de brito, Aires da filua, Pero ferreyra & Antonio ferreyra. E andãdo á caça de pauões como a gente da terra lhes queria mal faltou coeles hú caimal bem acompanhado de Naires, dizendo q matauão os pauões que erão dos feus pagodes. E pofto que os Portuguefes fe defculpauão q ho não fabião, não lhes valeo, & ho Caymal os quifera fnatar todos, & fizerão os recolher aos tones cÕ muyta afronta, ficando mortos quatro criados deites fidalgos, que forão prefos em chegando a Cochim per mandado do gouernador, porque forão fem fua licença. E nefte inuerno faleceo Diogo mendez de vafcõcelos ca¬ pitão de Cochim antes de ter acabado ho tempo de fua capitania. E por ho gouernador ter por elrey de Portugal eltas vagantes, deu elta ao fey- tor Lourenço moreno de que era grande amigo: do q fe Aires da filua aqueixou ao gouernador por entrar na vagante de Diogo mendez, & por lhe não desfazer feu queixume com lhe dar a capitania ficarão de que¬ bra. E paffado ho inuerno chegou dom Aleixo de menefes a Cochim, & contou ao gouernador o que foubera da armada do Soldão. CAPITOLO X. De como ho gouernador partio pera ho ejlreito a bufcar a armada do foldão. COm a noua que dom Aleixo deu ao gouernador da armada do Sol¬ dão, determinou ele de a ir bufcar ao eftreito como tinha em feu regimeto. E como ja começaua de deitar ao mar a armada q tinha varada, afíi como as velas erã aparelhadas afli as mãdaua caminho de Goa, Õde fe auia dajútar a frota q auia de leuar. E ele fe partio apos elas por derradeiro, & de caminho foy vifitãdo as fortalezas & prouédo 5o Tono II
3g4 Hijioria da índia as do neceffario. E por quãto ele determinaua de fazer húa fortaleza é Coulão pera ter fegura a feitoria q lá ouueífe deftar. E pera efte negocio era neceffario hú homem de íifo, efcolheo pera iffo hú caualeyro de Coim¬ bra chamado Eytor rodriguez, em que tinha muyta confiança, que eftaua prouido da feytoria de Cananor, & por faber que ele melhor que outro iaberia afTentar a terra de Coulão & tratar a gente dela, ouue por mais feruiço del rey mandalo lá por feytor que eftar em Cananor. E affi lho diffe, & ele ho aceitou por feruir el rey, que era feu criado & caualeyro de fua cafa. E dandolhe ho gouernador ho regimento do que auia de fazer ho defpachou de Cananor a feys de Ianeyro pera Cochim dõde fe partio pera Coulão. E ele partido, fe partio também ho gouernador: & chegado a Goa achou muytos mantimentos, muyta poluora & muytas munições que lhe dom Goterre tinha preftes. E fazendo aqui alardo da gente & dos nauios da frota achou menos Ieronimo de foufa hú fidalgo capitão dú nauio. E afientando que era fugido, & que não podia fer em outra parte fe não nas ilhas de Maldiua, determinou de ho mandar lá bufcar, porque por as ilhas eftarem de paz poderia hi fazer muyto dãno com as fazer leuantar: & mandou ho bufcar por dom Fernando morroi, a q man¬ dou que por ir por capitão dú nauio dalto bordo foffe pola banda do mar das ilhas, & affi por Ioão gonçaluez de caftelo brãco capitão de húa galé, a que por effe refpeito mãdou que foífe por antre as ilhas & a terra firme, & a ambos deu regimento que fe achaífem Ieronimo de foufa, & não quifefie tornar co eles que ho meteffem no fundo. E defpois difto ho gouernador fe embarcou pera fe partir, & eftando embarcado foube dom Goterre per gétios da terra firme que eftauão preftes quatro capi¬ tães do Hidalcão pera entrar na ilha como ho gouernador partiffe, pelo que dõ Goterre apertou com ho gouernador que lhe deixafie mais de quatrocentos homes que lhe deixaua, & mais artelharia que a que lhe ficaua. E ho gouernador lhe refpondeo que abaftauão os homens & a ar¬ telharia que lhe ficaua: & quando os mouros ho apertaífem tanto que deixaíTe os paffos da ilha & fe recolhefle á cidade, & defpois tornaria ele & os tomaria: o que ele não poderá fazer antes fe os mouros tomarão qual quer deles, tomarão também a cidade. E deixando ho gouernador Goa defta maneyra, fe partio pera ho eftreito na entrada de Feuereyro de mil & quinhentos & defaflete, cõ húa armada de trinta & feys velas .f. quinze naos com a fua em q hia por capitão dom Aleixo de menefes, dom Ioão da íilueira, dom Aluaro da filueira, dom Diogo da filueira, Al- uaro barreto, Antão nogueira, Antonio rapofo, Iorge de brito, Aires da filua, dom Garcia coutinho, Afonfo lopez da cofta, Francifco de tauora, Gafpar da filua, Duarte de melo, Gonfalo da filueira. E dez nauios & cara-
Livro IV, Capitolo X 3g5 uelas, de que forão capitães, Pero ferreyra, Antonio ferreyra fogaça, Ioão gomez cheira dinheiro, Triftão de gá, Lopo de vilhalobos, Garcia da cofta, Pero lopez de fam Payo, Francifco de gá, Fernã de refende, ho pintor: & oyto galés, capitães Lopo de brito, Chriftouão de foufa, Ioão de melo, Dom Aluaro de caftro, Dinis fernãdes de melo, Dom Afonfo de menefes, Antonio dazeuedo, Antonio de miranda dazeuedo, & hú carauelão, & hú bargantim. E hú jungo em que hroo quinhentos naires del rey de Cochim, & por capitão Diogo pereyra de Cochim. E nefta frota leuou tres mil Por- tuguefes, & Duarte galuão que hia por embaixador ao Prefte, & Mateus embaixador do mefmo Prelte. E partido de Goa foy fazer agoada a çaco- torá, & feguindo fua viaje pera Adem ouue vifta dela hú dia pola menhaa feys legoas alamar, & ali furgio & teue confelho com os capitães & fidal¬ gos da frota, a que declarou que auia de pelejar com os rumes fe efte- ueffem no mar & não na terra, porque afli ho leuaua por regimcto delrey feu fenhor: & deu a dianteira a dó Garcia coutinho. E fe os rumes na eftiueflem no porto que furgiria diante da cidade pera tomar pilotos que ho leuaífem ate as portas do eftreito, & ali mandou aos capitães das ca- rauelas & das galés que foflem ao longo da cofta, & que as velas que achaffem Dadé lhes não fizeflem mal. E chegado ao porto Dadem com toda a frota, não achando os rumes furgio dentro na baya, & faluou a cidade com a artelharia & com as trombetas, & os capitães fizerão def- pois outro tanto, o que durou bem duas horas, & da cidade não refpon- deo ninguém. E eftãdo pera fazer confelho do q faria, chegarão á capi- taina tres mouros hõrrados em húa barquinha com húa bãdeira de paz, & poftos diante do gouernador lhe derão as chaues da cidade da parte do regedor dela, dizendo q a cidade & ele erão del rey de Portugal. E ho gouernador as não quis, dizedo q por então não fe queria deter em aífentar amizade por quanto hia muyto de preífa em bufca dos rumes, que cuydando dachar naqle porto fora ali ter: & pois os não achaua auia dir bufcalos a Camarão & a ludá, pera q queria q ho gouernador Dadem lhe deffe pilotos, & da volta affétaria coele paz & amizade. Do que fe logo muytos efpantarão não tomar ho gouernador a cidade que lhe dauão em paz, nem tomar confelho fe faria ali fortaleza ou não. E tornãdo os mouros com efta repofta ao regedor Dade, ficou ele muy defaliuado do medo que tiuera, & mandou de noyte fazer muytos fogos polos muros & torres em final de fefta, & tanger muytos inftormetos. E ao outro dia mãdou ao gouernador tantos paraós carregados de refrefco que cobrião ho mar, & afli quatro pilotos q ho leuaffem ate as portas. E fem mais ho gouernador fazer confelho do que faria fe partio pera as portas do eftreito: ao domingo feguinte que era ho de Lazaro, mandando diante a Diogo pe-
Hijloria da índia 3g6 reyra no jungo pera tomar Rubaés, & hi tomou húa nao de mouros, com que efperou pelo gouernador, ho qual chegou quafi noyte ás portas, & logo fe partio q foy be mao confelho polos baixos & ilhas que auia dali pera dentro, & quando vay húa frota tamanha como aquela era, pera ir iegura ha de furgir das portas pera dentro com foi & leuarfe coele, & aííi lhe fobreueo logo hú teporal tão furiofo, que elteue toda a frota em rifco de fe perder. E a galé de dom «Aluaro de caítro defapareceo, & creofe que a comeo ho már: & ãtre os fidalgos que fe nela perderão foy Iorge galuão filho de Duarte galuão. E correndo a frota efta tormenta foy amanhecer fobre húas ilhas em q fe ouuera de defpedaçar fe não ama¬ nhecera. ' CAPITOLO .XI. De como ho gouernador foube que çoleimão rex era fenhor de Iudá: & tinha hi varadas as galés: & determinou de pelejar coele. DEstas ilhas tornou a profeguir fua viagem, & ora cÕ ponentes, ora com leuãtes chegou a vlte legoas de Iudá: & aqui apareceo húa gelua que tãto que vio a noífa frota fe foy dereyta a ela: dizendo os q hião nela que erão dezoyto, q erão Chriftãos que vinhão fugidos de Iudá. E leuados ao gouernador, diíferãlhe q erão calafates & carpintei¬ ros: & que trazião fete turcos, & que trabalhauão nas galés q çoleimão rex tinha varadas em Iudá. E contarão ao gouernador toda a hiftoria de Mirocem, & de çoleimão rex: & que partidos Dadem antes dabocarem ás portas do eftreito lhes dera hú temporal com que a galé de çoleimão fe perdera da frota & fora ter a Zeila: & Mirocem a Camarão: donde fem efperar por çoleimão fe fora a Iudá, & mandára varar as galés: & as duas naos & ho galeão ficarão por não lerem agoas viuas. E hi fou- bera como ho Turco desbaratara ho Soldão, & ho matara, & lhe tomara toda fua terra: pelo que quando Soleimão rex chegou a Iuda, Mirocem ho não quifera recolher na cidade, com medo de lha tomar por treição. E fabendo xarife parcate fenhor de Meca (que he como papa antre os mouros) a Imizade q auia antreftes dous, fez paz antreles: mas logo Mi- rocé a quebrou: querendo matar çoleimão com peçonha. Que fabendoho faltou em cafa de Mirocem pera ho matar: & ele fugio pera Meca: & por iflo çoleimão ficou fenor de Iuda, & leuãtou logo bãdeira polo turco: & efcreueo a xarafe parcate que logo lhe mandafle Mirocem, fenão que não feria amigo do Turco, porque aquele homé ho tinha muyto deferuido. E ele lho mandou prefo, auifando aos que ho leuauã que ho mataflem no caminho, como matarã. E defpois difto fe dezia q çoleimão rex queria
Livro IV, Capitolo XI ^91 ir ao cairo dar obediécia ao Turco. E q eítaua tã defapercebido de géte q não teria mais de cccc. ate ccccc. turcos: & Iudá eftaua fraca cõ hú muro baxo, & húa fortaleza peqna, q tomaria facilmté: por não auer lá verdadeira noua de ir o gouernador q fabendo como as galees dos rumes eftauão varadas em Iudá pubricou pola frota que as auia dir queymar. E na paragé onde foube eftas nouas lhe deu hú ponéte muyto brauo com que a nao Dantonio rapofo por fer velha fe foy ao fúdo, & apartaranfe da frota a nao de do Ioão da filueira & ho jungo de Diogo pereyra, que defpois forão ter a Camarão. E efte ponéte durou obra de quinze dias, & durando tãto fez crer a todos que era de todo a moução dos ponen- tes: & por iflo & por auer dias q na frota auia muyta falta dagoa cÕ que adoecia muyta gente dizião todos que arribaíTem a Camarão a tomar agoa. Do q ho gouernador fe indinou grãdemente, & dizia q os judeus & couardos dirião aquilo & não os caualeyros: jurãdo que não auia darri- bar a Camarão, mas q os auia de meter onde lhes não foífem boos os pés né as mãos, & ali auia defperar ate paffar ho ponente, & quando du- raffe tanto que arribaria a Camarão, & tornando os leuantes auia de tor¬ nar a Iudá & tomala, porq não partira da índia fe não pera iflo. E vedo a gente que adoecia, & q começauão algús de morrer: aqueixauãfe pubri- camente do gouernador & tinhãlhe odio, & brasfemauão delle: mas a elle não lhe daua diflo né queria tomar ho confelho de ninguém, & daua a entender que de feu poder abfoluto queria fazer tudo. E com quanto a géte via que ifto era mal, era tão obediente que morrião por não defobe- decer: & muytos fidalgos teuerão defgofto cõ ho gouernador fobrefta cÕ- tumacia, & hú deles foy Duarte gaiuão, que fempre difle que ele não auia de pelejar cõ os rumes, né queimar as galés. E andando coefte tem¬ poral, forão os mouros da terra dar auifo a çoleimão rex que eftaua em Iudá de caminho pera conftantinopla a chamado do Turco. E como fe foube na cidade a ida do gouernador, foy ho medo tamanho nos mouros q a começauão de defpejar. E como çoleimão ifto foube defembarcoufe de húa galee em q eftaua embarcado, & foyfe a terra, & deteue a gente cõ boas palauras: & ajútando a mais que pode dos alarues da comarca fortaleceo a cidade, alfeftando muyta parte de fua artelharia ao longo da praya: de modo que fe os Portuguefes pafTaífem lhes ficaflem de rofto & os meteffe no fundo.
3g8 Hijloria da índia CAPITOLO .XII. De como ho gouernador chegou á cidade de Iudá, & a caufa porque a não tomou. PAssados eftes quinze dias de ponete, acodio húa bafugé de Ieuante com q a frota chegou a Iudá, q he húa cidade na cofta Darabia célo & oyteta legoas das portas do eftreito & clxv. de çuez q he no cabo dele em vinte hú graos & meyo largos da banda do norte. A duas legoas do porto té muytos baixos, e q ha muytos penedos, & daqui tem dous canays per q entrão pera ho porto & vão e voltas, hú de leite oeíte, outro de nordefte fuduefte, & que vay por eles leua ho prumo na mão & fam tã eftreitos que efcaííamente cabe húa nao por cada hú: & por ifto efta barra he muyto perigofa. Ho fitio deita cidade he em terra tão feca, que não ha nenhú aruoredo nem verdura deruas, & muyto pouca agoa doce, porq choue poucas vezes: feria a eíte tempo de mil vezinhos. As luas cafas de pedra & cal fobradadas, & de muytas genelas & cheminés. He muyto abaftada de mantimentos que lhe vão de fora, & de muytas mercaderias porque ali fe ajuntauão todas as q hião da índia pera o cayro & Alexandria: & as deltas duas cidades pera á índia. A fete legoas deita cidade pera ho fertão eltá a maldita cafa de Meca, a que os mouros fazem fuas romarias (como os Chriítãos fazem ao fanóto fepulcro de Hierufalé) por eítar nela ho çancarrão, q chamão do abomi- nauel Mafamede. Chegado ho gouernador a eftes baixos que digo foy furgir com toda a frota húa legoa da cidade, a vilta dela na praya: donde tambc a frota foy vifta: & começarãlhe a tirar cõ a artelharia q eftaua na praya. E os pelouros erão tam furiofos que fazião chapeletas no mar, & todos de ferro coado: & muytos cayrã na frota. E na capi- taina fe pefou hú que pefaua fetenta arratés. E daqui mandou ho gouer¬ nador fondar os canaeis por dõ Afofo de menefes, & por Dinis fernãdes de melo: que defpois de fondados lhe forão dizer a maneira dos canaeis: & q bé poderião as galés entrar por eles, poré que fempre auião de ficar com os coitados de rofto com a artelheria dos Imigos, pelo q não auiã de poder jogar com a fua q leuauão nas proas, & por iifo não poderião fazer nenhú dãno coela, ãtes receberiã tãto da de terra, q ou os meteria no fundo, ou os mataria a todos antes que chegaífem a terra. O q ouuido polo gouernador praticou o q faria nifto cõ dõ Gonçalo coutinho: & cõ Afõfo lopez da cofta, que erão os dous mais ãtigos capitães da frota: & aífenlou coeles que fe podeífe mãdar encrauar a artelharia que os Imigos
Livro IV, Capitolo XII 399 tinhao na praya que deíTe na cidade: porq cõ a artelharia encrauada ho faria fem perigo. E quando não fe podeffe encrauar que não defle na cidade, porque eftaua certo matarlhe a artelharia quantos leuafe, quando lhe não meteífe as galés no fundo: & porq a artilharia fe podeífe milhor encrauar, que mãdafle queimar as duas naos, & ho galeão que eítauão furtos no porto: porq cõ a reuolta do fogo perderião os Imigos ho teto da artelharia. E ifto aflétado falou ho gouernador fecretamente co dous chriftãos q fugirão de Iudá na gelua, encomendãdolhes q quando foflem queimar as naos lhe foliem encrauar a artelharia dos Imigos. O que eles logo duuidarão de fazer auendo por inconueniente a muyto grande vigia q os rumes tinhão, & cõ tudo ho gouernador os mandou em húa alma- dia, de volta cõ certos capitães q forão em bateis co algúa gente a qimar as naos & ho galeão. E como todos os da frota eftauão aluoroçados & defejofos de dar na cidade, não fabendo a tenção com que ho gouernador mandaua queimar as naos cuydarão que fe qria contétar coiífo: & logo diflerão que não auia de dar na cidade (& aíli fe foube que ho difle So- leimão rex) & foy fobre iflo grande murmuração per toda a frota. E poílo q as naos forã queimadas os dous chriftãos não poderão encrauar a artelharia por a grande vigia que os mouros tinhão. E com quanto ifto foy muyto fecreto foúbefe logo, porq eles ho diflerão a Gafpar da filua, em cuja galé fe agafalhauão: & ele ho difle a outros de q fe rompeo. E fabedo o gouernador como fe a artelharia não poderá encrauar ficou muyto trifte & agaftado, por perder tamanho gofto como. trazia pera dar na cidade: & tamanha honrra como fora queimar a frota do foldão, & deftruir aqla cidade, onde ele fora ho primeiro capitão Português que chegára: & tão Imenfo trabalho como leuou co todos os da frota em che¬ gar a!i. E com muyto grãde magoa de tantas perdas, que não podia en¬ cobrir no rofto, aflentou de não dar na cidade, com receo de perder quantos leuaua. E pera ho dizer aos capitães, fidalgos, & pefioas prlci- paes da frota, ao outro dia ás noue horas chamou a cõfelho: & jútos lhes difle. «Bé fabeis todos como por mandado del rey meu fenhor viemos bufcar a frota do foldão pera pelejar coela, efperando é noflo fenhor de a desbaratar, & defapreflar a índia dos rebates q tinha cadãno co a efpe- rança de fua ida: & não a achãdo em Adé, ne em Camarão, nos foy for¬ çado chegar a efta cidade cõ tãtos trabalhos, fadiga & perigos com paf- faftes. E cuydãdo de a achar no mar a achamos varada, & os rumes em terra tão fortalecidos como vedes: & eu fey que eftão per dom Afonfo de menefes & Dinis fernãdes de melo, por quê mandey fondar os canaeis per q auiamos dentrar no porto: que me diflerão que fam em voltas: & tam eftreitos, que as noflas galés em q fazia conta dentrarmos não podé
400 Hijloria da índia entrar fe não húas diante das outras: & fempre com os bordos no rofto da artelharia dos Imigos, q primeiro que tomemos terra nos pode matar a todos & meternos no fúdo: & nos a eles não podemos fazer nenhú dãno, por não ficaré nunca a tiro da nofla artelharia que vay toda de proa. E ainda que eu tenho regiméto del rey meu fenhor que não pele- jafle em terra fe não no mar: cõfiãdo em noffo fenhor que nos ajudaria quifera pelejar coeftes rumes é terra, fe não fora ho perigo grandiflimo da entrada em q nos podemos perder. E refpeitando a ele, & não ao def- gofto que nos ha de ficar de não pelejarmos, não diga nenhú de vos o que diflerão os cayados, que pelejaflem pois ali eftauão: porq pofto que nofla vinda aqui fofle coefla determinaçã, não fe ha dauer refpeito fenão ao q podemos fazer a noffo faluo: porque cometermos efta cidade com ficarmos vencidos não me parece q he esforço pois lhe não podemos fazer nenhú nojo: & eles a nos tanto, que nos matarão antes que tome¬ mos terra: quanto mais q a gente que temos q pode pelejar he muyto pouca, afíi pola que morreo & he doente como pola que nos falece da nao de dõ Ioã da filueira meu fobrinho, & os malabares q nos auiã de fazer grande ajuda cõ fuas frechas. E ainda efta pouca q ha pera pelejar he neceflario que fe reparta, & fique dela goardando a frota: porque os Imigos a não queime em quanto formos. Afli q nos fica tão pouca gente pera cometermos a cidade que não faremos nada. E acõtecedo o q eu receo perderfea a índia porq não terão os feus reys q temer pera fe leuan- tar cõtra as noflas fortalezas, q fam as que importão ao eftado del rey meu fenhor, & qymar as galees do foldão nenhúa coufa, & tomar efta cidade menos ? porque elas achandoas no mar fam noflas: E ela pofto q não fe tome não fe perde niflò nada, pois por fer tão lõge da índia não fe pode fofter: & pareceme muyto mal auenturarfe gente em coufa que fe ha de deixar. E acabando de dizer ifto os primeiros q falarão forão dom Gonçalo coutinho, & Afonfo lopez da cofta: & fem dare feus pare¬ ceres, diflerão: q que tinha vifto mais coufas q ho gouernador, nem quê era mais esforçado & por el rey faber que era afli confiara dele a índia, & pois a cõfiaua, & a ele lhe parecia q não era be cometerfe a cidade, que pera q era mais cõfelho de nigue, fe não tomarfe ho feu que era ho principal. Do que todos os outros ficarão muyto efcãdalizados, porq cre¬ rão que ho gouernador tinha praticado ho cafo com aqueles dous, & por íeus pareceres fomete, & polo feu, não queria pelejar, fem tomar mais ho de ningue, & q deles fazia conta, & não dos outros. E os mais vedo a coufa como hia, fe forão cõ ho parecer daqles dous. E outros mais aze¬ dos forão cõtra iflo qrendo dar rezões por onde era neceflario pelejar dizédo. Que coufa vergonhofa feria, & com q os Portuguefes perderfão
Livro IV, Capitolo XIII 401 todo o credito, não pelejar húa frota tam poderofa como aquela parecia, com todo ho poder do foldão, quanto mais cõ tam pouco como tinhão fabido q eftaua naquela cidade. Porque os mouros auião de faber muyto bé a muyta gente q fe embarcara naquela armada, que paffauão de tres mil peffoas, & não auião de adiuinhar a q lhe morrera na viagé: nem a q lhe faltaua, nem a q eftaua doente: & vendo que não pelejauão crerião que era de medo: pelo q todo o que ateli tinhão dos Portuguefes auião de perder, & não os terião em conta, o que era tão neceffario que não foffe como fofter as fortalezas da índia, a que os mouros lego poerião cerco como perdefTem ho medo a qué as auia de defender: & por iífo fómente era neceffario pelejar, que pofto que fe correffe perigo no def- embarcar, não era tamanho, né tamanha perda morrerem niffo algús ho- més, pois não auião de morrer todos, camanho era perderfe ho credito dos Portuguefes & camanha feria creré os mouros como eftaua certo creré que por medo & não por outra caufa deixauão de pelejar. E mais que pera q era fazerfe tamanho cafo da artelharia dos Imigos, que pare¬ cia defefperar da mifericordia de noffo fenor, que tantas vezes liurara na índia os Portuguefes de muytos mâyores perigos que aqueles: & que affi os liuraria entã: porq não moftraua ele feu poder fe não õde ho humano desfalecia: & por iffo auião de pelejar. E cõ todas eftas rezões, como erão mais os que forão de voto q não pelejaffem, não fe tomou ho pare¬ cer deftes. CAPITOLO .XIII. De como ho governador fe partio pera Camarão, & da muyta gente q lhe morreo. PUbricado pola frota q ho gouernador não auia de dar na cidade, foy ho efcandalo tamanho em toda a gente q era coufa efpantofa: & dezião lem nenhú medo que não podia fer mayor judaria q aqla, não cometer húa cidade tão pequena com tanta gente & tão esforçada: & cõ tãtas munições: q tinhã poder pera pelejar cõ ho turco, quãto mais com aquela cidade: & outras coulas q a géte da guerra diz quando os feus capitães não faze as coufas que lhes parece bé. E os q erão do tempo dAfonfo dalbuquerq traziã á memória feus cometimentos fem medo: feu esforço & fuas grandes vitorias. E dezião todos muytas injurias contra ho gouernador por não cometer a cidade: & cÕtra os capitães porq lho confentião. E bé ho fabia elle, mas não oufaua de falar, & eftaua muyto trifte. E pera ver fe podia amanfar a gente deitou fama que auia dir com os nauios peqnos á cofta dAbêxia a leuar Duarte galuão ao porto de Ma- 5i Tomo II
402 Hifloria da Lídia çua: & affentar amizade com ho prefte. Mas né cõ ifto fe contentou a gente: & mais por amor que fe deteue ho gouernador algús dias por caufa do tempo que era contrairo pera a partida: & forã nefte efpaço os da frota muyto apreffados dos tiros dos Imigos. E paffados quatro dias fe lançou na frota hú Chriftão chamado Lourcço catiuo de Soleimão rex, que diffe na galé de Gafpar da filua onde foy ter primeiro, que porq não defembarcaua ho gouernador, & que efperaua mais, porq Soleimão rex eltaua cõ muyto grande medo dele: & afli quãtos eftauão na cidade: & a tinhão defpejada de fuas fazSd.as, pera que fe ho gouernador a étraffe as terc em faluo, & que fe ele defembarcara em chegando, q ainda achara tudo. E de tudo ifto q Lourenço dezia, não diffe mais nenhúa coufa def- pois q ho gouernador falou coele. E nefte tepo virão da frota poer em terra a borda dagoa húa vara aruorada cõ húa carta pendurada. E cuy- dando os Portuguefes que era algú auifo forão algús por ela, & derãna ao gouernador, que vio que era de Soleimão rex efcrita em caftelhano. E dizia que eftando ele de partida pera o cayro foubera fua vinda, pelo q deixara de partir, porq pera tal ofpede como ho gouernador, era neceffa- rio tal homé como ele pera o agafalhar: & tedolhe as poufadas preftes ho via partir iem querer poular, q folgaria de faber a caufa. E entendedo ho gouernador a rebolaria de çoleymão, & como zombaua dele. Refpon- deolhe por efcrito, dizendo q ele ho fora bufcar a Ade & a Camarão pera pelejar coele, no que perdera duas naos & húa galé, & polo nã achar fora ali ter cuydando de ho achar no mar Õde lhe moftraffe a võtade que trazia: & q ho achaua em terra onde não podia fayr, & por iflo não pele- jaua coele, mas q fe hia inuernar a Camarão, õde fe ele quifefle ir por todo Agofto veria quãto melhor gafalhado lhe fazia do q ele fazia a ele. E deixada a carta em terra foy tomada & leuada a çoleymão, que não repricou nem foy bufcar ho gouernador a Camarão, porque fabia q no mar os Portuguefes auião de leuar a vitoria. E defpois difto dous ou tres dias fe partio ho gouernador pera Camarão, dizendo q não queria ir a Maçua por nã partir a armada & ficar pouca coufa em cada parte: por¬ que çoleymão rex tinha armada, & fabédo que hião apartados fayria a eles, & darlhefhia fadiga. E proffeguldo fua viagem pera Camarão, efteue a gente em rifco de morrer toda de fede, por auer tão pouca agoa na frota, que pera abaftar não fe daua a cada peffoa mais de meo quartilho dagoa pera todo ho dia, fendo aqla parage tão quente de feu natural, q não podem os homes viuer fem fe lauarem todos muytas vezes & os aba¬ nar?: & mais era grande calmaria, com que fe deteue na viagem ho tres dobro do que fe ouuera de deter cõ que a gete mais defmayaua, & muyta morria de pura fede que fe lhe fecauão os bofes & outra adoecia. E era
Livro IV, Capitolo XIIII 403 medonha & piadofa coufa de ver os gemidos & clamores q todos fazião contra ho gouernador polos leuar a morrer fem fazer nenhú feruiço a Deos né a el rey: & affi chegou a Camarão em Mayo, que fe mais tar¬ dara hú dia quafi toda a gente lhe morrera, porq algús nauios chegarão fem bocado dagoa. E fe paliarão na viagé trabalho de fede, em terra paliarão imméfo de fome: porque como a ilha eftaua defpouoada não fe acharão mãtimentos, & na frota hião tão poucos que ninguém não comia mais que arroz cozido & húa vez no dia, & quê podia pefcar algú pef- cado mefturado coele: & coefta fome lhe morreo aqui grande forna de gente principalmente da do remo, & cayão mortos como que fora péfte, & de fracos não podião os viuos foterrar os mortos, & nunca fe tamanho desbarato vio de géte como efte foy. E cuydando ho gouernador q podeífe auer algús mantimentos da terra firme mandou lá, & os mouros q erão immigos & fabião como ho gouernador não pelejara em Iudá não fométe não quiferão dar os mantimentos, mas ainda matarão algús Portuguefes, & ho mefmo aconteceo na ilha de Dalaca, mandãdo ho gouernador ho carauelão a Maçua a faber fe poderia hi mandajr Duarte galuão pera ir da hi ao Prefte, & antre os mortos foy ho capitão do carauelão, por cuja morte deu ho gouernador a capitania ao piloto q fe chamaua Pero vaz deuera, & não foy necellario mãdar o gouernador Duarte galuão, porque foy noffo fenor de ho leuar defte mundo, nefta ilha tão apartada de íúa natureza, que foy grande perda por fer homé de tanto preço como diífe no liuro terceiro. CAPITOLO .XIIII. De como Eytor rodrigue\ de Coibra CÕ licêça da rainha de Coulão fe\ húa cafa de feytor ia em Coulão. EYtor rodriguez q hia por feytor a Coulão, defpois q partio de Co- chim chegou a Coulã ho primeyro dia de feuereyro de mil & qui- nhétos & defaífete, & logo foy falar á raynha de Coulão, a quê deu hú prefente q lhe leuaua da parte do gouernador, & outros aos feus regedores. E eftando jútos ela & eles lhes requereo como leuaua por re¬ gimento q per virtude da capitulação das pazes q eftaua feyta mandaffem logo fazer a igreja do apoftolo fam Thome, & pagalfem cento & felfenta & feys báres de piméta q ficarão deuédo do anno paliado dos. quinhétos que auião de pagar como diífe atras. E refponderão q eftauão muyto preftes pera cõprir toda a capitulação das pazes, porem que logo não podia fer porq a rainha eftaua pera partir ao outro dia a fazer guerra a
404 Hijloria da índia el rey de Tranuancor fea vezinho que a tinha defafiada, & por iffo não podia deixar aquela emprefa, & também por ter fua géte junta & os pulás que auião dir coela: & que em quanto foffe deixaria dada ordem pera que fe ajuntaffem os materiaes pera edificação da igreja q fe auia de fazer. E a mefma rainha diffe apartadamente a Eytor rodriguez que lhe rogaua q em quanto ela foffe á guerra não apertalíe fobre os dereytos & rêdas da igreja que le auia de fazer, que ela era obrigada a reftituyr por tudo ler dado a Pulás & Naires muy principaes que ho não auião dalargar fem ela ler prefente. E apertando fobriffo em fua aufencia poderia fuce- der hú mao recado de que lhe pefaria muyto, por iffo lhe aconfelhaua q efperaffe ate fua tornada, porque ela compriria tudo como era obrigada: & que nifto defcanfaífe, porque ela defejaua muyto de coferuar a paz que eítaua affentada, & que era grande feruidor del rey de Portugal. O que lhe Eytor rodriguez agardeceo muyto de fua parte, & fe lhe offereceo muyto pera a feruir: & vendo a boa vontade que achaua nela pera ho feruiço del rey de Portugal pediolhe apoufentaméto pera poular com feu efcriuão & homés da feytoria, em que podeffe bem agafalhar as merca¬ dorias q leuaua, & quando não ouueffe efte apoufentaméto lhe defle lugar pera fazer húa cafa pera iffo, que afíi ho leuaua por inftrução do gouer- nador, de quem fabia em fegredo que determinaua de fazer ali húa for¬ taleza trazendo ho Deos do eftreito, por iffo que fe lhe deíTem licença pera fazer a cafa a fizeffe em lugar que foffe boõ pera fortaleza. E a rai¬ nha lhe refpõdeo, que pofto que aquilo era fora da capitulação, das cafas, que ela defejaua tanto de feruir a el rey de Portugal, & de ter paz coele que era contente de dar lugar pera fe fazer a cafa õde lhe a ele parecefle bé, & ao outro dia lho aflinaria cÕ os regedores q a iffo auião de fer pre- fentes. E com quanto a rainha iffo prometeo tão leuemente, teue grandes contradições pera fe comprir: porq como os mouros da terra ho foube- rão & lhes pefaua em eftremo de os Portuguefes ali affentarem, porq tinhão certo deitalos fora, confelharão aos regedores q por nenhú modo cõfentiffem fazerle aquela cafa, porque com nome de feytoria fe auia logo de tornar fortaleza com q os Portuguefes lhe auião de tomar a terra, que alfi ho coftumauão os Portuguefes, & cõ nome de feytorias tinhão feytas todas fuas fortalezas, & fizerão com outra rainha q fe chamaua de Como- rim por fer irmaã del rey de Comorim, & com dous filhos feus q confe- lhaffem ho mefmo á rainha de Coulão e aos regedores. E com tudo nunca poderão mouer a ela ne a eles, porque ela por defejar muyto a paz os abrandou de maneyra que forão muyto contentes de dar licéça pera fe fazer a cafa: & também a grande diligencia que pos Eitor rodriguez em os peitar & perfuadir q lhe deffem lugar pera fazer a cafa. E juntos com
Livro IV, Capitolo XV 40S a rainha lhe derão a licença, moftrandofe todos muyto defejofos do feruiço del rey de Portugal: & porq ho lugar onde fe auia de fazer efta cafa foy deixado é efcolha Deitor rodriguez, efcolheho detrás do circuito da igreja que fora de fam Thome, & tão perto do mar que fe podia chegar a ele com húa pedra, começou logo de fazer hú grande cerco de taipa com hú poço dentro de muyto boa agoa. CAPITOLO .XV. Do rifco q correrão os Portuguefes que ejlauão ê Coulão em quanto ho gouernador foy ao ejlreito. ASsinado ho lugar em q Eitor rodriguez auia de fazer a cafa a rai¬ nha fe partio pera fua guerra deixando ho muyto encomendado aos regedores, q ho fauoreceflem & ajudaffem em tudo o de que teuefle neceflidade. E proffeguindo ele fua obra defpois de ter feyto ho cerco que digo, começou de fazer húa cafa fobradada cÕ as paredes de taipa & cuberta dola, & nã ficou pefloa em Coulão que a não folie ver quando a fazião: & os mouros dizião aos gétios q aquilo era fortaleza, & que dali auião os Portuguefes de tomar a cidade. E como os gentios cre ligeiramente qualquer coufa crião ifto, & indinauãofe muyto contra os Portuguefes principalmente defpois que a cafa foy acabada, & faziãihe mil fobrãçarias & dauãlhe encontros onde os topauão, & vindo ho inuerno íe defauergonharão mais a iffo, porque iabião que ho gouernador era ao eftreito. E os mouros lhes fazião crer q os rumes ho auião de matar com quantos hião coele: & tanto affirmauão ifto q paffando por junto dos Por¬ tuguefes lhes brãdião as efpadas nos olhos, pera os prouocarem a ira com que defembainhaffem coeles pera teré caufa de fe leuantarem, que doutra maneyra não oufauão com medo dos regedores que eftes fazião que fe teueffem em fi. E como Eitor rodriguez ifto entedia mandou aos Portuguefes q não foffem á cidade nem fayffem do cerco da feytoria, & diftimulaua com tudo por não vir a ropimento & lhe acontecer como a Antonio de fá. E afli efteue nefta oprelfam ate que vevo noua de como ho gouernador era viuo & ficaua em Ormuz: & q não oufarão os rumes de fayr de Iudá a pelejar coele: & ifto quebrou muyto os fpiritos aos mouros, & temendo que ho gouernador os cafligafle polo paffado, não vfarão de mais fobrançarias cÕ os noffos, & tambe os gentios. E nefte tépo veyo a rainha de Coulão de fua guerra que també fauoreceo Eitor rodriguez, & os que eftauão na feytoria & ficarão em paz.
4o6 Hijloria da índia CAPITOLO .XVI. De corno dom Fernãdo de monrroi & Ioão gonçaluez de cajlelo brãco tomarão duas naos de mouros nas ilhas de Maldiua. PArtidos dom Fernãdo de mõrroi & Ioão gonçaluez de caftelo branco em bufca de leronimo de foufa forão ler ás ilhas de Maldiua, & tomando a cada hú por feu cabo como leuauão por regimento do gouernador, não acharão leronimo de foufa, mas derãlhe noua q fora ali ter, & q fe fizera logo na -volta de Melinde, õde fe ouue tão mal com ho piloto & com ho meftre do feu nauio q lhes fez lembrar como ele hia leuantado, & a pena q tinhão por ire coele, pelo q determinarão de ho prender & leualo ao gouernador. E aífi ho fizerão, & prefo leronimo de foufa, fe partirão com ho nauio pera ho cabo de Goardafum õde efpe- rauão dachar ho gouernador: & nefte caminho por ho nauio fazer muyta agoa fe mudarão a húa nao, & nefta mudãça fe foltou leronimo de foufa, & foy defpois ter a Goa, & por iffo dom Fernando nem Ioão gõçaluez ho não acharão. E andãdo em fua bufca toparão duas naos del rey de Cambaya que auia annos que andauão fora de Cambaya tratãdo por muytas partes, & por iífo trazião muyta riqueza, & andaua por capitão delas hú mouro chamado Cogeaquim que foy catiuo cÕ quãtos vinhão nas naos q forão tomadas (pofto q el rey de Cambaya eftaua de paz) porq não leuauão cartazes. E defpois de Cogeaquim catiuo, comeo & durmio cÕ tanto repoufo, & tanto defagaftamento como fe eftiuera em fua cafa. E efpantandofe daquilo dõ Fernando & Ioão gonçaluez: diffelhes ele que não fe agaftaua porq aquilo era ventura (a que os mouros chamão nacibo) & q quando partira de fua cafa partira pera fer feu feytor & feu catiuo, por iffo q não fe auia dágaltar. E não achando dom Fernãdo & Ioão gon¬ çaluez mais prefas, & por fe chegar ho inuerno, partirãfe pera Cochim, & dali pera Goa, onde leuarão as naos. CAPITOLO .XVII. Do que fe\ dô Ioão de Monrroi indo darmada de Goa ate Chaul. EM quanto dom Fernãdo & Ioão gonçaluez forão ás ilhas de Maldiua mandou dõ Goterre capitão de Goa a dom Ioão de mõrroi leu fobri- nho com fete fuítas darmada ao longo da cofta ate alem de Chaul pera fazer prefas & fegurar a nolfos amigos q por ali nauegaífem & forão
Livro IV, Capitolo XVIII 407 por feus capitães domingos de feixas, Anrrique de touro, paios cerueira, Pero jorge & outros dous a que não foube os nomes. E indo afli darmada foy ter ao rio do pagode onde ate Baçaim tomou húa nao de mouros do mar roxo carregada de mercadoria, & os mouros efcaparão por fazerem varar a nao, & acolherãfe a terra fem pelejarem: & eftando na barra de Baçaim foy ter coele hú Aluaro da madureyra que auia dias que andaua leuantado & foraífe pera os mouros, & diífe a dom Ioão que fe queria tornar pera os noífos, q lhe fizeffe efmola dalgú dinheiro pera fe veftir. O que dom Ioão fez de boa võtade, & prometeolhe que fe quifeífe tor¬ nar pera os noffos de lhe auer perdão de dom Goterre do leuãtamente que fizera, & com o que lhe deu & ajuntou polos da armada forão du¬ zentos pardaos, com que Aluaro da madureyra dilTe que fe hia a Chaul atauiar do que tinha neceflidade, & que lá ho efperaria. Poré não o fez afli, antes fe foy a Dabul, & difle a Miralmelique onde dom Ioão ficaua com a armada & que auia de paliar a vifta de Dabul, que fe lhe quifeífe dar a capitania mór das fuas fuftas q erão quatorze que ele hiria tomar dõ Ioão & quantos hião na fua armada. E Miralmelique fabendo que Aluaro da madureyra era ja mouro & nã Chriftão, foy contente da ho fazer capitão mór das fuas fuftas. E não fabendo dõ Ioão diíto nada par- tiofe de Baçaim caminho de Goa & foy ter a Chaul donde em faindo achou a armada de Meliquias que era de quatorze fuftas, & andaua por capitão delas hú valente mouro chamado Xequegi que fora ali efperar dom Ioão pera pelejar coele, & em os noffos faindo do rio começarão de lhe tirar ás bõbardadas, & os noffos a eles, & apertarãnos tão rijo que lhes foy forçado poréfe de balrrauento dos noffos, & fugirem pera ho mar, Òt os noffos os feguirão hú pedaço & tomarão húa fufta de q a gente fe lançou ao mar, & afli fugio, & por os immigos fugirem não os quis dõ Ioão feguir mais & feguio auante caminho de Goa. E nefte mefmo dia indo alamar de Dabul foy topar com Aluaro” da madureyra que ho efperaua com fua armada toda encadeada como que queria pelejar: & dõ Ioão difle aos feus que os cometeffem, & logo arribarão todos pera os immigos com determinação de os abalrroar, & hião difparãdo toda fua artelharia, & os immigos parece que ouuerão medo de os efperar & def- encadearanfe, & poendofe hú pouco ás bombardadas cõ os noffos ficando de balrrauento, fugirão ao remo, faluo húa fufta q foy varar em terra & fugio a gete, & os noffos a tomarão com a artelharia que tinha. E vendo dom Ioão que nao auia por ali mais que fazer tornoufe a Goa com as duas fuftas que tomou.
408 Hijloria da índia CAPITOLO .XVIII. Da entrada que fe\ Dom Fernando monrroi na terra firme de Goa, & de como foy desbaratado & forã mortos muytos dos que leuaua. REcolhidos dÕ Ioão & dom Fernando a Goa, & começando de en¬ trar ho inuerno, determinou dõ Goterre de le vingar Dancofcão tanadar de Pondá por amor de Ioao gomez que lhe matara. E coelta determinação fez grande feita de touros & canas em dia do Spirito lanéto. E as feitas acabadas ajuntou a gente de caualo que ferião fefféta homés, & feyícentos piães da terra em que entrauão trinta dos noífos béfteiros & efpingardeiros, & faindo de Goa tomou ho caminho pera Be- naítarim ja de noyte. E chegando ás duas aruores fez deter a todos, & ali lhes declarou como hião a Põdá a deftruyr Ancofcão por comprir muyto a feruiço de! rey fazerfe affi, & mandou que fofle por capitão da gente de caualo dom Fernando leu irmão, & irião com ele dom Ioão leu fobrinho, & outros fidalgos. E da gente de pé fofle por capitão Ioã ma¬ chado que era tanadar mór da ilha de Goa. E diífelhes que os mandaua a taes horas, porque como Ponda era perto, podião lá chegar antemanhaã & dar no lugar, cujos moradores eitauão fem nenhúa fofpeyta de fua ida, & por iflo os poderião tomar ás mãos, principalmente ao Tanadar, que folgaria muyto q lhe leuaífé viuo: porem que fe lhes amanhecefle antes de chegarem a Pondá que não cometeflem nada, & fe tornaflem, porque ele não queria que pelejaflem nem que fe pofeflem a perigo, & coilto forão palfar a Benaftarim da banda da terra firme a gente em almadias, & os caualos a nado, & paliados abalarão dom Fernando & Ioão ma¬ chado com fua gete pera Pondá ficando dom Goterre com algúa gente em goarda das almadias, pera que quando feu irmão tornafle achafle em q palfar. E partidos dom Fernando & Ioão machado, Ioão machado q hia diãte chegou primeyro perto de Pondá & por iflo efperou por dom Fernando: & neíte têpo tomou dous piães de Pondá que vigiauão a terra, & deites foube que no lugar não auia nehúa fofpeita dos noífos nem fe temião deles. E chegado dom Fernando, diflelhe Ioão machado o que loubera dos piães, & pois a caufa principal de fua vinda era pera toma¬ rem Ancofcão que lhe parecia que os feus piães por irem defarmados & faberem a terra & a lingoa dela ho farião melhor que os noífos de caualo q hião armados & embaraçados com os caualos, & fe auião dembaraçar mais por fer ainda de noyte, & por iflo eltarião melhor em goarda dos piães: & q afli lhe parecia melhor que irem lá os noífos, & como dom
Livro IV, Capitolo XVIII 409 Fernando pretendia eíta honrra não quis que a ganhaífe Ioão machado, & diífelhe que pois a terra eftaua fem fofpeita de fua ida que bem pode- riao efperar que amanhecefle & verião o que fazião, & dariáo todos no lugar & farfehia ho feyto melhor que de noyte: & a ifto ajudarão Iero- nimo de foufa & Iorge de magalhães, & Ioão rodriguez peffoa, & Ioão machado lhe diffe que pois affi queria, que aífi fe fizeífe, mas que prou- ueffe a Deos que fe não arrepédelfe de não tomar feu cõfelho, q era muyto bÕ. Mas não ho tomou dom Fernando, porque auia de fer o que foy: & como ainda auia hú pedaço por paliar da noite não poderão os noflòs eftar tam calados que nã foífem fentidos: & foy dado auifo a Ancofcão, que fe leuantou muyto de preffa, & com a mayor parte da fua gente fe paffou logo alé de hú rio que paflaua por junto do lugar: & fez hú corpo de fua gente, efperando ate ver o que os noffos querião fazer, que em amanhecendo entrarão no lugar, cuydando dom Fernando que tinha muyto certo Ancofcão; & quãdo achou ho lugar defpejado vio quam mal fizera em não tomar ho confelho de Ioão machado. E nifto algús dos noffos affi de pe, como de caualo vendo eftar os immigos em corpo, creceolhes a cobiça de pelejar: & paliando a ponte conuidauãnos pera iífo, efcaramuçando coeles, porque também lhe fayrão algús que moftrauão ter boa vontade de pelejar. E vendo dom Fernando que aquilo não feruia de nada, mandou dizer a Ioão machado que eftaua diante com a gente de pe, que fizeffe volta porq fe hia. E dandolhe lugar paliou Ioão machado auante: & dom Fernando lhe ficou nas coftas. Ancofcão que vio que os noffos fe hião fem fazer mais nada, pareceolhe que era com medo, & com iífo cobrou mais esforço, & foy dar nos noífos, tirandolhe rnuyta foma de frechadas, & feriranlhe tam de rijo os caualos, & os que eítauão encima deles, que defmayarão, & começarão de fugir, & derão nos de diante, que tambe fe defmandarão. Os immigos os feguirão: & como fabião que auião de paífar por hum palfo eltreito polo pé de húas ribas, parte delles os forão efperar fobrelas, & outra parte os hia fe- guindo. E em chegando a aquele paífo, como os immigos que eítauão fobre as ribas ficalfem muyto fenhores dos noífos, apertaramnos tam brauamete, ajudandolhe os debaixo, que matarão muytos dos de pé, & dos de caualo ficarão quarenta antre mortos & feridos, & eftes que forão feridos ficarão ali catiuos. E antre os mortos forão Iorge de magalhães, Ioão Machado, & Ioão rodriguez peffoa. E foy tamanho ho medo dos noífos que os mais deles deixarão as armas pera fugiré melhor, & a dom Fernando mataranlhe ho caualo, & fe lhe logo não acodirão com outro ouuerãno de matar, & afli foy ferido ho caualo de dom Ioão, & fe os immigos feguirão ho‘alcanço aos noífos nenhú não ouuera defcapar: & Tomo II 52
4io Hi/toria da índia não os feguirao, porque ho primeyro morto dos noífos que acharão foy hú Ioão rodriguez pelfoa que cuydarão que era ho capitão por leuar boas armas, & por iífo não quiferão feguir os noíTos, que defpois que virão q os Imigos os não feguião fe ordenarão & forão até chegar onde dom Goterre eftaua efperãdo que lhe leuaífem Ancofcão, & fem ele fe tornou a Goa com tamanha perda como foy perderenfe corenta dos noífos. E vencida a batalha por Ancofcão recolheo ho defpojo que forão caualos, armas & catiuos, que ferião ate dezoyto, & nifto foy dado hú recado do Hidalcão a Ancofcão que ho foffe feruir em húa guerra que tinha com Nizamaluco fenhor de Chaul, & fendo forçado a Ancofcão de ir, temeo que ficando de guerra com dõ Goterre que lhe tomaria aquelas tanada- rias que auia pouco que lhe dera ho Hidalcão, & por iífo mandou dizer a dom Goterre q ele não tinha culpa no dano que fora feyto a do Fer¬ nando, & q queria fer feu amigo, & fe ho quifeífe também fer feu & ter coele paz como dantes que lhe daria os Portuguefes que lhe ficarão ca¬ tiuos. E pera fe ifto aífétar fe ho quifeífe auia lá de mãdar hú homem honrrado pera que ho alfentalfem. Do que dom Goterre foy contente por ver q tinha a culpa do paífado, & por Ioão goçaluez de caftelo branco fer homem de confiança, & ter conhecimento co Ancofcão do tempo que fora ao Hidalcão por embaixador, como dilfe no liuro terceyro, ho mãdou a Ancofcão com q alfentou de nouo paz & amizade, & entregue dos ca¬ tiuos q erão dezoito fe tornou a Goa. CAPITOLO .XIX. De como o gouernador queimou a cidade de Zeila, & do que lhe fi\erão e Adem. INuernÁdo o gouernador em Camarão cÕ tãtos trabalhos de fome, doenças & mortes como ja diífe: pola necelfidade dos mantimentos que ho apertaua fe partio na entrada de Iulho pofto q era cedo pera os ir tomar a Zeila, ou a Barbora ou a Ade. E leuando a rota pera Zeila, tardou algús dias mais dos coftumados por lhe ferem os ventos contrai- ros. Efta cidade eítá na cofta de Ethiopia a clco legoas das portas do eftreito de fora delas: eftá em onze graos da banda do norte. Na terra em que eftá íffentada ha muyto grande criação de gado afti groífo como miudo, de q he bem abaftada de manteiga & de leyte. Colhelfe també grade multidão de trigo, ceuada, & de milho, de maneira q he muy groífa de mãtimétos. Dá também a terra muyta forna dencenfo macho & de mel, de que fe faz muyta cera branca que leruê de mercadoria. A
Livro IV, Capitolo XIX 411 cidade he de bõ tamanho & rafa á borda do mar: he de cafas de pedra & cal & de fobrados cubertas de terrados como as Dadé. Seus morado¬ res fam mouros & mercadores de grande trato & pola mayor parte fam pretos, affi homés como molheres & algús brancos, & tratanfe bem. Eftes forão auifados por recado dos pilotos Dadê que hião cÕ ho gouer- nador como hião lá, & por iíTo a defpejarão eles de toda fua fazenda, molheres & meninos, & ficarão algús homés, & affi os fenhores de certas naos que hi eftauão de fora que tinhão configo algúa géte de peleja. E fabendo eles da maneyra que ho gouernador hia, determinarão de lhe não dar coufa algúa & defenderfe fe podeífem : & por iíTo lhe não mãdarão recado defpois de chegar, antes fe mofirarão pola praya com fuas armas, & por ilfo determinou ele de dar na cidade & deftruyla. E acordado niífo com feus capitães, ao outro dia em amanhecédo fe embarcarão todos com fua géte, & os primeyros que defembarcarão forão dom Gar¬ cia coutinho & dom Ioão da filueira: a que ho gouernador deu a dian¬ teira, & ele defembarcou por derradeiro: & porque tinha mandado que ninguém não boliflé coníigo ate ele não defembarcar, efteue a gente queda na praya, o que vendo os mouros começarão de tirar das naos que efta- uão varadas algúas bombardadas, & outros fe moltrarão nas bocas das ruas. O que védo ho gouernador efteue fufpenfo no que faria, porque parecia auer gente na cidade pois lhe não fugião: & por derradeiro mandou a dom Garcia & a dom Ioão que delfem cada hú por feu cabo onde parecião os mouros: mas não teuerão que fazer, porque detendofe ho gouernador tanto em fe determinar, não poderão Gafpar da frlua & Aires da filua, & Antonio ferreyra fogaça fofrer as algazaras q os mou¬ ros fazião, & remeterão a eles com fua gente, & elles lhe fayrão ao encotro como homés determinados: & vendo que os noífos lhe tinhão ho rofto como erão poucos retirarãfe logo pera détro da cidade, & os noífos carregarão íobreles & leuarannos ás lãçadas fora da cidade antes de chegarem dom Garcia & dó Ioão. E Simão dandrade mãdou dizer ao gouernador que podia entrar, porq a cidade era defpejada. Do q ho go¬ uernador ouue muyto grande menencoria, parecendolhe q Simão dan¬ drade lhe mandaua dizer aquilo polo injuriar: & que daua a entender q outré lhe leuara a honrra de defpejar a cidade, & diffe contrele muyto más palauras, & mandou defpois que fe paífaífe da nao de Francifco de tauora feu cunhado (com qué andaua prefo) pera a galé de Ioão de melo & ifto polo avexar. Entrada a cidade acharão os noífos prefo ho comitre do bragãtim de Grigorio da quadra capitão da armada de Duarte de lemos q fe perdeo como diffe no liuro fegúdo, & diífe ao gouernador que auia noue annos que eftaua ali catiuo. E recolhidos algús mantimétos da
Hijloria da índia 412 cidade, ho gouernador lhe mãdou logo dar fogo, porq fe a gente não embaraçaffe com ho roubo & tornaífé os mouros fobreles & os defbara- taflem. E pofto fogo á cidade ardeo toda em quatro dias q não ficou caía ne coufa nenhúa que não fofle queimada, & como ho gouernador eftaua no porto nunca os mouros oufarã dacodir ao fogo, & queimaranfe grande forna de mãtimétos que fizerão affaz de mingoa aos noífos. Queimada a cidade, que foy húa coufa be efpantofa de ver: partiofe ho gouernador pera Adem, & chegãdo mãdou dizer a Mira mergena que lhe mandafie vender agoa & mantimentos por feu dinheiro. E fabendo ele como ho gouernador vinha, & ho pouco que fizera em Iudá perdeolhe ho medo, & por fazer efcarnio dele deteueo dez ou doze dias cõ promeffa de lhe dar mantimétos, & polo deter daualhe cada dia tão pouca coufa, que quãdo fe defenganou achou que tinha gaftado do que trazia ho tres dobro do q lhe derão da cidade: & então conheceo ho erro q fez e fe não prouer em Zeila & queimar os mantimentos que queimou. E porque muytas naos de fua armada os não tinhão, ouue de tornar atras pera os tomar é Bar- bora. E Dadé atraueffou á cofia de Ethiopia, onde ela efta vinte legoas de Zeila: o que foy má pilotajem porque ouuera dir pola banda Darabia ate fe poer lefte oefte com barbora: porque daqla bãda fazião as agoas reueífa & hião brandas: & da bãda de Ethiopia erão as corretes tama¬ nhas que hião pera ho eílreito com os ponentes que afracauão naqle têpo (por fer fim Dagofio) q podia mais a agoa q ho vento, & não fe podia nauegar por aqla bãda. CAPITOLO .XX. De como defpois do gouernador partir Dadem lhe morreo muyta gente, & a frota foy ter a diuerfas partes: & de como ele foy a Ormu\. Epor iífo a nolía frota nã podia furdir auãte, & foy neceíTario pairai" o q foy com aífaz de trabalho da gente que morria de fede & de fome. E andãdo afli fobreueo hú dia húa toruoada de ponente: & como ho gouernador andaua enfadado dauer quinze dias que pairaua em dando efia toruoada que lhe feruia pera a viagem Dormuz, determinou de fe ir pera lá & não ãdar ali mais, & mãdou dar á vela fem fazer final que fe partia: o que vedo os capitães das naos groífas fe fizerão também aa vela os que poderão, & affi outros nauios que fe atreuerão a fofrer ho vento & leguirão apos ho gouernador q fe foy caminho Dormuz fem mais curar de Barbora, nem defperar polas outras velas da frota, q ficarão em grande rifco de lhes morrer quanta géte leuauão á fede,
Livro IV, Capitolo XX 4i3 porque as galés & outros nauios dalto bordo pequenos, & afíi algúas naos grafias que não poderão fofrer a vela com a toruoada ficarão com a neceflidade dagoa que digo & cada dia adoecia & morria gente, que era piedade ver como perecião cÕ fede: & ainda q hião ao logo da terra, ningué pola primeyra hia bufcar agoa, porq ouuirao dizer q fe não achaua naquela terra por fer muyto feca. E poré ho grande aperto em que efta- uão lhes fez ire ver fe auia agoa, & os primeyros q ho fizerão forão Gafpar da filva, Chriltouão de foufa, Aires da filua & acharão muyta agoa, afíi de chuuas q auia pouco que paífarão, como abrindo fontes. E a gete da terra os recebeo manfamente, & lhes venderão algúas cabras & carneiros, & apos eftes forão os outros capitães de q algús quãdo ifto foy não leuauão ja mais q mea pipa dagoa: & hú deites foy dõ Aluaro da filueira q acertou de ir foo fem outra copanhia a bufcar agoa, & pola nã achar fe meteo tanto no eltreito que quãdo quis fayr não achou vento q ho ajudafle q era paffada a moução, & por iffo ouue dinuernar no eftreito, & andou dú cabo pera ho outro a bufcar onde inuernafle, no q paífou affaz de trabalho & fadiga: & lhe fizerão da terra mil treições em q lhe matarão algúa géte. E foy ter a hú porto, õde achou hú mouro que fe chamaua Adão, por iffo lhe pos affi nome, & ali inuernou não tédo mais de vinte quatro peífoas de céto & trinta & quatro homés q leuaua quando partio de Iudá q todos os mais dos outros lhe morrerão de fede. E inuernando aqui faindo hú dia dõ Aluaro em terra a fazer agoada, ficando ele foo com hú Ieronimo doliueira filho Dantão doliueira goarda mór da rainha dona Lianor, & com hú Médafonfo criado do barão, foy morto por eles ambos por dizeré que tinha injuriado de palaura a Iero- nimo doliueira em vldo na nao como injuriaua a outros com fauor de fer capitão & fobrinho do gouernador. E defpois da morte de dom Al¬ uaro, Ieronimo doliueira & Mendafonfo ie tornarão á nao, onde não bolio ningué coeles por os q eftauão nela feré os mais doentes: & defpois da hi a dias como os da nao ouueffem por afronta andar afíi antreles qué lhes matara ho feu capitão, leuantoufe hú Ioão rodriguez pao, valente caualeyro, & tendo coftas é hú Marti correa & outros matou por fua mão ás punhalada^*a Médafonfo fem ho ninguém ajudar, & foy prefo Ieronimo doliueira, & afíi foy leuado á índia onde efta nao foy ter defpois de ho gouernador lá fer, & Ieronimo doliueira foy degolado por fentéça de Diogo lopez de fequeira q chegara de Portugal por gouernador: & afíi paflarão muyto trabalho todos os q ficarão no eftreyto, & lhes morreo muyta gente & forão deles ter á índia em diuerfos tépos defpois de ho gouernador lá fer, & outros forão ter a Ormuz, onde acharão ho gouer¬ nador q indo pera lá foy ter a Calavate, dõde mãdou pera a índia
414 Hijloria da índia do Aleixo de menefes cÕ poderes de gouernador, pera q foubeífê na ín¬ dia q era viuo: & cõ dõ Aleixo mãdou a Pero vaz deuora capitão do carauelão, com recado a el rey de Portugal do q lhe acõtecera no eftreito, & as caufas porq nã fora a judá, nem a Maçua, nê fizera fortaleza nas portas do eftreito que el rev de Portugal não ouue por boas. E de Ca- layate fe foy a Ormuz, deixãdo hi toda a frota, & em Ormuz achou tudo também affentado por Afonso dalbuquerque, que não teue que fazer mais que verse cõ el rey Dormuz, & deranfe prefentes hú ao outro, & ficarão grandes amigos. CAPITOLO .XXI. De como ho Hidalcão mandou çufolarim feti capitão com trinta mil homês Jobre a ilha de Goa. DEsacupado ho Hidalcão da guerra de Nizamaluco por cÕcerto que ouue ãtreles, determinou de tomar a ilha & cidade de Goa, parecendolhe que ho poderia fazer por ho gouernador fer fora da índia, & que não poderia fer focorrida por não auer gente pera iffo. E coefta determinação fez tríta mil homês de peleja, em q entrauão cinco mil de çaualo, & fez capitão deles a çufolarim, de q faley no liuro terceiro: parecendolhe que entraria na ilha aífi como da outra vez, & mandoulhe que a foffe tomar, dandolhe a capitania das tanadarias de Põdá & Salfete. E fabendo dõ Goterre q chegaua, onde claramente fe via q hia pera Goa efcreueolhe húa carta (porq dãtes erão amigos & fe efcreuião & vifitauão cõ prefentes) & dizia nela que foffe boa fua vinda, ' & q lhe fizeffe boa prol cõ as terras de Goa, que dizião que lhe dera ho Hidalcão: & que folgaua muyto polo ter por vezinho. E mandou ao portador defta carta que foubeífe o que çufolarim determinaua, & a cer¬ teza do numero da gente que trazia. Çufolarim recebeo bé efte portador, & por fofpeitar q hia efpialo mais q a leuarlhe carta deteueo obra doyto dias, porq dom Goterre não foffe auifado de fua determinação que era étrar na ilha de Goa da maneyra que entrou quando a cidade fe entre¬ gou a Afonfo dalbuquerq como diífe no liuro terceiro. E defpois de do Go¬ terre mãdar outro meífegeiro a çufolarim por ver que tardaua ho pri- meyro, lhe refpondeo elle por efcripto, dizendo que hia tomar Goa que ho Hidalcão dera a Afonfo dalbuquerque ate quando lhe aprouueífe. E fabendo dõ Goterre q a determinação de çufolarl, era entrar pelo paffo de BeneftarI, & polo caminho q leuaua auia dir ao longo do paffo de çancalim, mãdou lá dõ Fernando por mar cõ dez fuftas darmada, de q a fora ele forão por capitães Anrrique de touro, Paios çerueira, Domingos
Livro IV, Capitolo XXII 4i5 de feixas, Pero jorge, Pero gomez cafado é Goa & outros quatro, & leuaria perto de cé homês, & logo e chegado não virão nenhúa géte. E parecédo a dõ Fernãdo q ainda os Imigos não erão chegados quiferaffe tornar, fe não quãdo fae multidão deles dãtre ho mato dãdo grãdes ala- ridos, & fayrão tão de fupito que deitarã húa grãde nuué de frechas pri- meyro q os noflos defparaffem a artelharia, & matarão hú marinheiro, & os noflos lhe matarão muytos defpois q começou de jugar & efteuerão coeles hú bõ pedaço ás bombardadas, ate que fe retirarão pera o mato, & tirauão dãtrele muytas frechadas. E porq podiã fazer dãno aos noflos não quis do Fernãdo ali eftar mais: & contétoufe cÕ ho dano q tinha feito aos Imigos, & porq lho não fizeflem mandou afaftar as fuftas húa & húa: & tornoufe pera goa, õde partio na madrugada feguinte pera o rio Da- gacl: & indo ao logo das pravas do de Benaftarí, da bãda da terra firme achou muyto mais gente q ao dia dãtes, por ir ali çufolarl E os imigos vendo os noflos lhes derão húa çurriada cÕ efplgardoes & frechadas: & os noflos outra de bõbardadas, cÕ q matarão muytos: & antreles foy o que leuaua ho fombreyro a çufolarim, que fe foube deípois q fe baqou cÕ medo das bõbardadas, por nã ter por onde fugir, fe não por húa la¬ deira em que ficauão a melhor tiro. E em quanto os Imigos paffarão efteue ali dom Fernãdo: & matou muytos: & defpois fe foy poer na boca do rio Dagacim, pera goardar aqles rios. E por afli parecer bé a dõ Go- terre & feruiço delrey de Portugal tirou da alcaydaria mór do paflo feco a Ioão gonçaluez de caftelo branco quí eftaua nela: pera ajudar a feu irmão a goardar aqueles rios por faber bé da guerra pela muyta expe- riencia q tinha dela, & fer muyto esforçado. E mandou q húa noyte fofle ele com a metade das fuftas correr ho rio de Põda, & feu irmão ficaffe na boca do rio de Benaftarí com a outra metade: & outra noyte fofle feu irmão, & ficaffe Ioão gonçaluez. E ifto porque fe temia de os mouros entraré em jangadas por aqle rio, como no têpo dAfonfo dalbuquerque, como diffe no liuro .iii. CAPITOLO .XXII. Do que fe\ dom Goterre capitão de Goa defpois q fe vio cercado YEndo dõ Goterre como ho cerco não fe efcufaua dobrou logo a gente em todos os paffos da ilha. E porque fabia q quando Afonfo de Albuquerque deixara Goa fe lhe leuantara a gente da terra, porq lhe não fizeflem outro tãto a todos os cafados, gentios & mouros tomou as molheres & os filhos, & meteolhas na cidade, onde lhes deu
Hijloria da índia 416 galalhado: & a eles mandou q ajudafiem a guardar os pafios da ilha aos nofios, o que fizerão de boa vontade por amor das molheres & filhos q tinhão em penhor. E pera q tiueífe mantimentos em abastança & lhe não faleceflem, mandou tomar quãtos auia na cidade', affi aos da terra como aos nofios: & mandou os meter nas cafas que forão do çabayo: pera dali os dar de fua mão a feus donos: porq os não gaftaflem fé regra & defpois lhes faleceflem. E porq també os cocos fam mantiméto mandou apanhar quantos auia nos palmares & recolhelos nas cafas que digo. E cõ ifto mandou certas eípias ao arrayal dos Imigos pera ter auilo do que çufolarim determinaffe: & ele por terra vifitaua cada dia todos os palfos porque lhes não faltaííe nada pera fua defenfam: & daua esforço á gente, que não ouueffem medo aos immigos por mais que foflem, porq com ajuda de noflo fenhor os auião de defbaratar. E feu irmão dÕ Fernando por mar, & Ioão gonçaluez de caftelo brãco como difle corrião todos os rios fem eftaré nunca quedos. CAPITOLO .XXIII. De como çufolarim ajfentou feu arrayal 11a terra firme, & do ardil q dõ Goterre teue pera fe matarê muytos mouros. ENtre tanto que dõ Goterre ifto fazia aífentou çufolarim feu arrayal detrás daqueles outeyros, que vão ao longo do rio de Benaltarí, & chegaua ate a baya Dauacim, porq ali determinaua de mandar fazer jangadas pera paflar á ilha de goa, como fizera da outra vez, que paífou em tempo de Afonfo dalbuquerq: o que ele não pode nunca fazer, porq era tão efpiado polos nofios, que como as jãgadas erão ho mar logo dõ Fernãdo: & Ioão gonçalues fe lhe punha diãte com a fua armada. O q vendo çufolarim não oufaua de cometer a entrada da ilha: & com tudo não deixaua de moftrar que ho queria fazer, & daua muytos rebates de noite, a q dom Fernãdo & Ioão gonçaluez acodião logo, que cõtinuaméte eftauão no mar fofrendo Imenso trabalho de grãdes tormétas de chuuas & de vétos, que as armas & os veftidos lhes apodrecião nos corpos a eles & aos outros. E todo ho mes de Iulho fofrerão efte trabalho, cõ os que andauão coeles, fem nunca dormiré fe não de dia. E muytos fe acoftumarão a dormir em pé, como q dormiflem em cama. E vendo a gente da terra que eftaua cõ os nofios que çufolarim não oufaua dentrar perderã todo ho medo q tinhã que entrafie na ilha: & os piães pedião a dõ Goterre q os deixafie ir furtar ao arrayal dos Imigos, & q affi lhe farião a guerra, pois não podião doutra maneira. E ele lha deu, mandando
Livro IV, Capitolo XX1III 4H apregoar que por cada cabeça de mouro ou de turco daria hú pardao douro a quê lha leuaffe: & os piães pola ganhar hiãfe ao arrayal & como andauão do mefmo modo que os do arrayal, não os defenferéçauão deles, & podião andar por onde querião: & como vião tempo não fazião fe não matar nos Imigos: & tomadas as cabeças as leuauão a dõ Goterre, & dauãlhas cõ grãdes feftas de tangeres: & dom Goterre lhes pagaua logo: no q gaitou muyto, porq as cabeças erão muytas, que ho prémio que daua por elas fazia não fe eltimar ho perigo q cuftauão. E védo dom Go¬ terre ir tão de vagar a entrada de çufolarim, efcreueolhe que pera q tardaua tanto em entrar a ilha: & que fe determinaua de ho fazer q lhe mandaíTe dizer ho dia, & q lhe tiraria as furtas do rio & a géte da terra pera poder defembarcar: cÕ cõdição que auia de ir em peflòa com fua gente. E ele refpondeo por efcripto em letra q nunca fe foube ler. CAPITOLO .XXIIII. De como çufolarim começou de dar bateria á nojfa fortaleza. & como lhe os tiofos qbrarão hú camelo com q a dauã VEndo çufolarim que por nenhú modo não podia entrar a ilha pola defenfa q achaua nos nólfos a que não podia refiftir por não ter nauios em que fua gente embarcaffe, determinou de dar bateria á nofla fortaleza de Benaftarim & arralala por aquela maneyra. E como tinha muyta gente mãdou fazer húa noyte hú pedaço de muro defronte da nofla fortaleza que quando amanheceo apareceo feyto & afleftadas nele algúas peças dartelharia: & afli outras eftancias de bombardas ao logo do rio pera varejaré delas as noffas furtas. E como foy menhaã defpararão os immigos a fua artelharia do muro na nofla fortaleza em que não fez nenhú nojo por a artelharia fer pequena & de ferro, & por iflo mandou logo çufolarim a Bilgão por hú camelo de metal q lá tinha pera derribar coele a nofla fortaleza & derribada étrar na ilha. E fabendo dom Goterre que efta bombarda hia por caminho que a leuauão bois em húa carreta, mandou a hú Naique canarim chamado Ralu que lhos forte decepar, & ifto por fer homê esforçado: & ele ho foy fazer leuãdo con- figo dez piães, & decepou os bois defpois que entrarão pola ferra. E porto que ifto caufou dilação em ir a bombarda, todauia foy leuada com tanta goarda q Ralu não pode mais decepar outros bois. E artentado efte camelo no muro, começarão os Imigos de tirar coele, & do primeyro tiro deu em hú canto da torre da menagem, & meteo por dentro húa grãde pedra & feia tremer de modo que cayo quanto eftaua dentro. E a efte Tomo II 53
Hijioria da índia 418 tempo eftaua dom Goterre dentro na meíma torre, mandado affeftar dous camelos pera tirar a bombardeira defte dos immigos & quebralo, porque doutra maneyra arraiaria a fortaleza. E eles afleftados tirou ho con- deftabre com cada hú & dambos os tiros errou a bombardeira, mas defapontou ho camelo de modo que ao fegundo tiro errou a torre, & deu no muro de que derribou algúa parte que logo foy repairado com ma¬ deira: & do Goterre prometeo vinte pardaos douro ao condeftabre fe lhe quebraffe ho camelo dos immigos: & tirando ele ho terceiro tiro, lhe tirou ho cõdeftabre cõ ho noffo camelo, q parece que defparou a húa cõ ho dos Imigos, & no ár fe toparão os pelouros, & ho noffo lhe leuou húa lafca com que ho fez cair na praya, & paliando auante entra pola bom¬ bardeira, & pola boca do camelo & elpedaçou ho, & cõ os pedaços ma¬ tou quatro bõbardeiros dos Imigos, a que os noffos derão húa grande grita co prazer, louuando noffo fenhor. Quebrado eíle camelo mandou dõ Goterre alíêtar húa efpera em hú oyteiro que eftá júto da nolfa forta¬ leza pera dar bateria ao muro dos immigos com os dous camelos da fortaleza, & afli ho fazia, & de noyte mandaua armar trabucos cõ que deitaua pedras detrás do muro ondeftauão os immigos, de que mataua muytos, & dom Fernando & Ioão gõçaluez varejauão de dia as fuas eftan- cias, & dauãlhe tanto trabalho que mais fe podião os immigos chamar cercados que cercadores. CAPITOLO .XXV. Do que fi\erão fete dos nojfos no arrayal dos immigos, & de como ho Hidalcão mãdou leuantar ho cerco. E durando afli efta guerra ja em Agofto chegarão a Goa duas naos de Portugal, & em húa hia por capitão hú fidalgo chamado Ioão da filueira, que partira de Portugal ho anno paliado por capitão mór de tres naos, ele é húa, é outra Francifco de foufa mãcias, '& em outra Antonio de lima. E chegando a Moçambique, achou ho mandado do gouernador pera fe ir ajuntar coele no eftreito. E queredo Ioão da filueira cõprir efte mãdado, fe partio com os dous capitães pera Quiloa, & eftando hi lhe deu hú temporal muy furiofo com que a nao Dantonio de lima deu á cofta & saluouse a gente, & a capitaina efcapou cõ os maftos cortados, q se lhos não cortarão perderafle, & pera fe Ioão da filueira prouer de maftos foy neceflario inuernar em Quiloa, & inuernou coele Francifco de foufa. E prouido de maftos vinda a moução fe partio pera a índia & chegou a Goa nefte tempo da guerra, & cõ fua vinda fe
Livro IV, Capitolo XXV 4ig reformou dom Goterre de géte & fazia a guerra rnais aipera aos immi- gos, principalmente por mar com a frota de dom Fernando que nunca saya do longo de terra fazendolhes muyto mal. E hú dia eftando as fuftas ao longo de terra como coftumauão, diífe hú Duarte tauares que andaua na fufta Danrrique de touro a outros companheiros, q ele fabia que húa das eftancias dos Imigos tinha muyto poucos q a defendelTem que deífem nela, & que os matarião, & tomarião a artelharia. E eftes a que ho difle erão feys. s. Domlgos de feixas, Gomez muacho, Antonio ramos, Efte- uão diaz, Diogo dauelofa & Antonio Nunez ho cafre dalcunha: & fendo eles cõtentes fem ho dizer ao capitão faltarão em terra fupitamente & remetem á eftancia que eftaua defronfe da fufta õdeftauão ate doze rumes com perto de cé piães canarls, que vendo a oufadia dos nolfos fe retirarão algú tanto tirandolhes muytas frechadas, & cinco dos rumes que virão que não acodia mais géte chegaranfe pera os nolfos, que pelejarão coeles com tanto esforço que é pouco efpaço os derribarão mortos. E nifto Anrrique de touro não fazia fe não defparar fua artelharia, porque vendo ialtar os nolfos em terra tão supitaméte, ficãdo muy falteado fez afaftar a fufta pera fora & defparar fua artelharia pera os fauorecer & ho mefmo fizerão os capitães das outras fuftas: & ifto eftoruou que os outros Imi¬ gos acodilfem á eftancia em que os nolfos pelejauão, que defpois de ma¬ tarem os cinco rumes forão cometer os fete que eftauão retirados cÕ os piães que forão tão cortados de medo vedo a determinação dos nolfos, q fugirão & deixarão a eftãcia, & os nolfos cortarão as cabeças aos rumes pera as leuar a dõ Goterre, & recolheranfe á fufta fem nenhúa afronta: do que çufolarim ficou muyto injuriado quando ho foube. E continuando os nolfos a bateria ao feu muro, lho desfizerão em poucos dias, & labendo cada dia ho Hidalcão nouas do que focedia no arrayal, & quão pouco nojo çufolarim fazia aos noffos, & por fer ja verão mandoulhe que leuan- taífe ho cerco & fe foífe. E ele ho fez, & ficando a ilha decercada, os Canarins que eftauão nos palfos fe recolherão pera fuas cafas com fuas molheres & filhos que tinhão na cidade, & ficarão com grãde credito nos nolfos por quão be fe deféderão, & perdido todo quanto tinhão dãtes nos mouros por quão pouco fizerão. E leuantado ho cerco veofe logo pera a cidade ho embaixador do Xeque ifmael que eftaua na terra firme, onde fe \foy quando começou ho cerco fingindo que hia vifitar hú feu amigo, & ifto com medo de lhe parecer que por os nolfos seré poucos & os mou¬ ros muytos auião de vencer: & também chegou dõ Aleixo de menefes que hia de Mazcate, & deu noua do gouernador que ficaua em Ormuz, & foyfe logo a Cochim a fazer a carga pera as naos de Portugal.
420 Hijloria da índia CAPITOLO .XXVI. De como chegou á índia Antonio de Saldanha por capitão mór de cinco naos, & de como o governador chegou Dormufa & do que fe\ a Fernão dalcaçoua. DOnde efte ano de mil & quinhétos & defaflete partio Antonio de faldanha por capitão mór de cinco naos, cujos capitães forão a fora ele dom Triftão de menefes, Manuel de lacerda, Pero co- refma, & Rafael Catanho, & defpois Dantonio de faldanha poucos dias partio Fernão dalcaçoua hú fidalgo q el rey mãdaua á índia pera védor de fua fazenda ifento do gouernador, porque ele cõ ho cuydado & ocupa¬ ção da guerra não podia entender na fazêda como compria a ferviço del rey: & Fernão dalcaçoua foy por capitão mór de tres naos com a sua q era del rey, & as duas húa de dom Nuno manuel, & outra de Duarte triftão hú mercador, & efta arribou ao Brasil onde inuernou: & Fernão dalcaçoua dobrou cõ a outra ho cabo & dobrado achoufe cõ An¬ tonio de saldanha, & não querêdo ir coele fe apartou de fua conferua com tempo, & defpois fe ajuntarão em Moçambique, donde forão ter a índia & furgirão na barra de Goa: nã fendo ainda o gouernador vindo Dormuz. & Fernão dalcaçoua não quis efperar pelo gouernador q lhe deffe a pofle de feu officio & tomou a logo, tirando em Goa ho cuydado da fazenda del rey a dom Goterre que ho tinha & entendia em tudo o que ho feytor fazia. E nifto ouue antreles algú efcandalo, por interuirem mexericos que dom Goterre não fazia o q deuia, & daqui mãdou Fernão dalcaçoua hú Fernão martlz euãgelho a Diu cõ fazêda del rey pera a vêder lá como feytor. E partido Fernã dalcaçoua de Goa foy êtêdendo por eflas fortalezas no que tocaua á fazenda del rey ate Cochim. E nifto chegou ho gouernador a Goa que vinha Dormuz, & quando foube da vinda de Fernão dalcaçoua & ho officio que trazia, com que lhe tiraua a metade do mãdo que tinha, moftroufe diífo muyto agrauado, & dizia pu- bricamente que fe ele teuera parentes em Portugal que Fernão dalcaçoua não fora á índia aquele officio, mas que os não tinha, & logo lhe quis mal. E effes a que Fernão dalcaçoua tinha tirado dentenderem na fazêda indinauão ho gouernador mais cõtrele, dizendo que não era pera fe fofrer ter ele védor da fazêda que mãdaffe mais que ele: & affi ho fez ho go¬ uernador, q chegado a Cochim moftrandolhe Fernão dalcaçoua a proui- fam de feu officio, ele a beijou & mãdou que fe compriffe, mas por debaixo diffo tinha maneyra com q lhe tiraua ho poder dufar de feu officio, & todos
Livro IV, Capitolo XXVII 421 ho ajudauão a ifto porque por amor dele querião mal a Fernão dalcaçoua, •& não ho via ninguém. Do que ele andaua muyto acanhado & corrido, & não oufaua de boi ir configo. E tanto foy ifto auante que ainda que fabia que pera ho anno feguinte auia dir por gouernador da índia Diogo lopez de fequeira, diífe ao gouernador q fe qria tornar pera Portugal, cõ q ele folgou muyto & deulhe a nao é que fora Antonio de faldanha, com quem lhe também pefaua muyto na índia, porque leuaua a capitania mór do mar, & tiraua efte cargo a dom Aleixo de menefes feu fobrinho, a que ho gouernador ho tinha dado, & ifto fe dizia pubricamente. CAPITOLO .XXVII. De como Fernão pere\ dandrade tornou a partir pera a China, 6 da difcrição da China: & de feus cojlumcs. EStando Fernão perez dãdrade em Malaca defpois darribar da viage da China, ouue algú efcandalo antrele & ho capitão, porque Ioãnes . impolim feytor de Pacem que fe fora a Malaca pera eftar hi fe arrependia & queria tornarfe a Pacem com Fernão perez que auia dir lá carregar pera a China, & porque ho capitão não queria, ele fe acolheo por manha á nao de Fernão perez, onde ho capitão ho quisera mandar tomar por força. E tendo preftes pera iiTo a frota de Malaca, conheceo a pouca rezão que tinha & ho grande deferuiço del rey que feria, & arre- pendeofe. E defpois de partido Fernão perez pera Pacem faleceo de doença, & antes de feu falecimento entregou a capitania a Nuno vaz pe- reyra feu cunhado a quem tomou a menagem por ela & lha fez dar aos officiaes da fortaleza: do q Antonio pacheco capitão mór do mar fe agra- uou muyto, dizendo que a fuceflam da capitania era fua, porque quando Afonfo dalbuquerque tomou Malaca que fe foy pera a índia, deixou hú regiméto que falecendo ruy de brito patalim que ficaua por capitão lhe focedeffe Fernão perez dandrade que ficaua por capitão mór do mar, & que na feytoria eftaua hú aluara del rey de Portugal, em que mandaua que ate não verem regimento feu fe vfafle dos que Afonfo dalbuquerque deixara. E com tudo ifto Nuno vaz não defiftio da capitania, antes prêdeo Antonio pacheco & Pero de faria fobre fuas menagés por fazerem bando contrele. E porem Antonio pacheco não fe ouue por prefo, & eftaua na ilha das naos onde tinha fua armada, & faziaflç doête por não ir á forta¬ leza, que não queria ver Nuno vaz: com quanto ho ele mandaua vifitar & moftraua não fer feu immigo, fe não que ho que fazia era por fazer juftiça. E eftando a coufa nefte eftado, chegou Fernão perez de Pacem
42 2 Hijloria da índia pera ir á China, & nefle tempo que elteue em Malaca os quifera concer¬ tar & núca pode: & deixando os affi í'e tornou a partir pera a China no mes de lunho de mil & quinhentos & defalfete, & foy na nao efpera que feria de duzentas toneladas, & em fancta Cruz Simão dalcaçoua, & Pero foarez em fancto Andre, & Iorge mazcarenhas em Sanctiago, & foy tam¬ bém coele Iorge botelho em hú jungo dú mercador de Malaca chamado Curiaraja, & Manuel daraujo em outro de Pulata, & em outro feu Anto- nio lobo falcão, & era húa armada de fete velas com que partio pera a China, cuja cofia eítá pouco mais de quinhentas legoas de Malaca naue- gando pera lefte. He húa prouincia muy grade fegundo le diz, abaítada de todos os generos de mantimentos que fe podem pedir, & affi de todas as fruytas que ha em efpanha: ha nela muytas minas douro, prata & de todos os outros metaes, crialfe nela muyta feda & muy fina de que fazem muytos damafcos, cetins, veludos, tafetás, borcados & borcadilhos, reu- barbo, canfora & canela muyto fina, azougue, pedrahume, porcelanas: & em tudo iíto tratão os mercadores chins que fam muytos & muy ricos & nauegão em grandes jungos pera fora da China, & affi ha muyto almizqre, ãbar & he pouoada de muytas & grandes cidades cercadas de muros,, torres & cauas em que ha muy nobres edifícios, affi de templos como de cafas em que morão feus moradores, que todos fam gentios: pofto que em muytas coulas parece que ouue Chriftãos naquela terra. Adorão hú foo deus & teno por criador de todo mudo: & adorã tres imagés dome, & tal he húa como a outra, & todas fam hú homem soo. Adorão duas imagés de molheres que cré que fam fanctas, húa fe chama Nãma & téna os mareantes por auògada, & eles: principalmente lhe tem muyta deua- ção, & lhe fazem grande fefta, a outra fe chama Conhãpuça que dizem que foy filha dú rey da China, & que fe foy de cafa de feu pay a fazer vida folitaria em que acabou feus dias: efta dizem que goarda a terra,, tem a fua imagem húa pomba de bico vermelho. Tem também outras diuersas imagés que adorão & todas em fumptuofos templos, a que eles chamão varelas & fam da feyção que contão os hiítoriadores que forão as pirâmides do Egipto, & fam obrados muy ricamente, òt affi as fuas imagés que tem em altares da maneyra dos noífos. Neltas varelas mo¬ rão frades que feruem a Deos & celebrão ao pouo os officios diuinos a fua maneyra, & reueítenfe com ornamentos como quãdo antre nos os lacerdotes dizem a milTa, & fam tres & rezão era hú altar por hú liuro efcripto em lingoagem que antreles he como antrenos ho latim, porque não a entédem todos, & deites liuros tem eíles frades muytos. Neftas varelas ha dormitórios, craltas & outras officinas como nos nolfos moltei- ros, & tem relogios de lol, & finos de metal muyto bem feytos com letras
Livro IV, Capitolo XXVII 4*3 •douradas, & tangénos com martelos, & os frades veftem húas lobas com¬ pridas amarelas & andão rapados, & não tem mais renda que quanta Jhes he neceflaria pera comer, & deles não comem carne nem pefcado. E affi como ha varelas de frades, as ha também de freyras: tem os Chins iingoa própria. & no tõ da fala parecem alemães. Sam aífi homés como molheres aluos & bem defpoftos, ha antreles homens letrados em diuer- fas fciencias que fe lem em efcolas pubricas, & de que fe imprime muytos & bõs liuros, & fam os Chins homés de fingulares engenhos, affi nas artes liberaes como nas machanicas, porque ha officiaes de todos os officios que fazem obras muy primas como vemos nas porcelanas, cofres, ceftos & outras coufas muyto polidas que vem de lá. Vfaífe antreles geralméte toda a policia do mundo, & cuydão eles que a não ha em outra parte le não na China, nem tem por homem ho que não he chim. Tratanfe todos muyto bem affi no veftir como no comer: & comem em mefas altas cÕ toalhas, goardanapos & facas, & as igorias apartadas em prateis, & tudo o que comem tomão com garfo, e ifto por limpeza: fam geralmente homés fracos pera guerra, porem tem boas armas. f. corçoletes com fuas peças, terçados de ferro morto, alabardas, roncas, lanças & frechas & algúas bombardas de ferro. Ha antreles graos de honrra, & legundo fam honr- rados affi fe feruem: os fidalgos que fe chamão mandarins andão a caualo, & quando vão polas ruas defpejanlhas os homés baixos que eftão nelas. He gente muy obediente a feus mayores & goardão em eftremo os regi¬ mentos de feu rey, que não ha mais que hú em todo ho fenhorio da China, & he hú dos mores príncipes que fe fabe no mundo affi de tefouros como de gente, & he gentio, chamaffe filho de deos & fenhor do mundo: traz húa letra que diz que a paz ho fenhor de cima a deu, & que nunca a ninguém quis q a não achaffe: ho feruiço de fua peffoa he com capados: tem muytas molheres & muytas mancebas, & todas morão de détro de húa muy grande cerca õde el rey tem os feus paços, & ali tem cada húa feu apouíentaméto, & té molheres q as ferué & capados. Os reys da China foyão de fer antigamente por eleyção, & de pouco tempo pera ca herda ho filho primeyro de qualquer de fuas molheres & não das mancebas, os ■outros que não herdão eftão em cidades deputadas pera iffo metidos em fortalezas cÕ grãdes goardas & ali eftão cõ fuas molheres & té muytas maneyras de defenfadamentos, & não faem dali fe não com licença del rey & vão em andas que não vem por onde vão. El rey tem pofta ley em feu reyno que todo homé que for fora da China a outra terra não torne a ela fopena de morte, porque té que não ha no mundo milhor terra que a China né mais abaftada de todas as coufas neceffarias pera a vida humana, & qué vay a outra terra he pera lhe fazer treição. E os Chins
424 Hijloria da índia que tratão fora da China morão na ilha da Veniaga que eftá dezoyto legoas da cidade de Cantão principal da cofta da china & grande porto de mar. EI rey da China não defpacha nenhúa cousa da gouernãça de feu reyno, & pera todas as coufas té officiaes que gouernão por ele, na juítiça que he mór officio do reyno, te tres homés grãdes letrados que fe chamão colous: & hú fe chama colou grande, outro colou pequeno, outro mais peqno: eftes fam homés velhos & conhecidos por muyto bõs homés,, & vé a merecer eftes cargos por letras & por bõdade, & ferué primeyro em outros ofiicios mais baixos ate chegarem a fer tutões que fam gouer- nadores de comarcas: & defpois Achancis que fam fecretarios, & dali lobem a colous que he officio fupremo. E eftes officios de colous vénos a ter homés baixos, que não fe olha fe não que lejão velhos bõs homés & letrados. Ha outros officios que chamão tutões, & conquoes & compins: & eftes todos tres fe chamão confelho & gouernão cidades, & ho princi¬ pal deles he ho tutão: ha de fer homem letrado, velho, & bõ homem, ho compim he o fegundo & he capitão da guerra & não he letrado, ho con- quão he ho terceyro, & té cargo das couías da fazenda, & ho fomenos defte confelho. Coeftes anda outro que fe chama ceiui, que ha de fer letrado & conhecido por bõ homem, efte defpacha com ho tutão as coufas da juftiça & té cargo de tirar as inquirições & deuafias geraes que manda a el rey. E té grandes poderes, & ho feu officio não dura mais q hú anno, os dos outros durão por annos. Ha outros officios menores que eftes, q fe chamão puchancis, amechacis, toeis, itaos, pios que fam almi rantes & ticos que não foube de que feruião, & de cada hú ha tres, grãde, pequeno, mais pequeno. Eftes officiaes todos andão em andores & trazem fombreiros de pé, & cáda hú fegundo tem ho officio affi tem eftas infinias mais ricas ou menos & por elas fam conhecidos, & affi por húas tauoas que lhes leuão diante em que vão eferiptas as hõrras dos officios, & alli lhe leuão diãte maças húas de prata outras deftanho fegúdo he ho officio. Ho mais hõrrado sobreiro he o de feda amarela de tres rodas, & o mais baixo de tafetá preto de duas tres. Todos andão muyto ou pouco acom¬ panhados de géte darmas segúdo a dinidade do officio, & affi lhe fazê grãdes ou peqnos recebimétos quando entrão nas cidades em q gouernão, & affi lhe defpejão as ruas por onde paífam, porq quãdo vão por elas leuão diãte homés q bradão q lhas defpejé, & ao Ceiui as defpejão de todo fem parecer ninguém.
Livro IV, Capitolo XXVIII 425 CAPITOLO .XXVIII. De como Fernão pere\ chegou ao porto da ilha da veniaga, & de como fe lhe ouuera de perder a frota ejlando no porto. COntinuanto Fernão perez por lua viajem chegou ás ilhas da China em Agofto, & hú dia a tarde ouue vifta delas, & afli de húa ar¬ mada de doze jugos q ali andaua, & anda fempre naqle tépo pera goarda dos jungos que vão tratar a China, de Sião, Malaca, Patane & outras partes, q lhe nã fação mal os coflairos & ladrões de q na China ha muytos: aífi no mar como na terra. E Fernão perez não fe fobre fal- teou coefta frota, porque polos Chins de fua cõpanhia fabia q a auia da- char, & por fer tarde & auer de nauegar por antre ilhas não quis paflar auãte & pairou ali aqla noyte, em q diffe a feus capitães q mãdaflem fazer preftes fua artelharia, & folie a géte apercebida pera pelejar fe por vétura os Chins ho quifeílem fazer: pore que foffem de maneyra q eles ho não entédeflem, & q por nenhú modo fizeflem final de guerra fem feu recado, & q foliem como homés pacíficos cõ fuas naos ébadeiradas. E afli ho fizerão, & ao outro dia começarão de nauegar leuando os jugos de Malaca no meyo, & Fernão perez hia diante & Simão dalcaçoua de tras, & nas ilhargas hião Martim guedez & Iorge Mazcarenhas: & podião ir afli por fer ho mar brando & ho veto a popa, & nefta ordé tirarão dereytos pera a ilha da Veniaga. Os Chins eftauão cõ luas gauias polias & caftelos armados, & partindofe em duas partes tomarão os noflos no meyo, & Começarão de tirar algúas bõbardinhas q traziuo, & dãdo grãdes gritas chegauãse aos noflos: & vedo q eles não bolião cõfigo né fazião mollra de quererem pelejar afaftauanfe, & cõ quanto os Chins ifto fazião como os noflos diflò não recebião dãno deixauãfe ir como qué hia de paz & não de guerra, & afli forão ate chegaré á ilha da veniaga onde furgi- rao, & efta ilha está tres legoas da costa, & os Chis lhe chamão Tamão, & nos outros da veniaga: porq naquelas partes chamão ao trato da mer¬ cadoria veniaga: & nefta ilha fe faz ho trato da mercadoria dos merca¬ dores estrãgeiros q vão tratar á China que fe apoufentão em húa grade pouoação q hi ha, & dali nã pode ir nenhú a algú dos lugares da cofta fem liceça do confelho de Cantão húa cidade q eftá dali dezoyto legoas, & ainda quãdo vão não entrão dentro & poufam nos arrabaldes & ali faze feus tratos. E pera fe ifto afli fazer & armar as frotas q andão por aqla paraje, refide ho Pio, q he como almirante de toda aqla cofta é húa vila chamada Nantó q eftá tres legoas da veniaga, & dali faz faber ao 54 Tomo II
Hijloria da índia 426 cofelho de Catão os jugos q vê & dõde fam & o q quere, & q fazéda traze: ho confelho determina o q fe ha de fazer, & fe he coufa noua efcreue ho logo a el rey pera q feja auifado do q paíTa. Chegado Fernão perez ao porto delta ilha achou hi Duarte coelho q partira coele a pri- meyra vez q partio de Malaca, & inuernou em Sião como ja difle, & auia hú mes q chegara, & pelejou no caminho cÕ trinta & tres velas de coflai- ros q ho teuerão quafi rendido cõ lhe mataré muyta gente, & milagrola- mente ho faluou noffo fenhor & lhe deu maneyra pera poder fugir, & neíta peleja fez Duarte coelho façanhas q fe não pode efcreuer. E enformãdofe Fernão perez delta ilha por Duarte coelho, mandou dizer ao capitão moor da armada dos Chins q ele era capitão mór daqla armada del rey de Portugal, q defejando de ter paz & amizade com el rey da China lhe mãdaua feu ébaixador q ali trazia, & por iflo nã quifera trauar coele peleja, pedldolhe q lhe deífe piloto q ho leuafíe á cidade de Cantão. Ho capitão mór lhe refpodeo q folie muy bé vindo, & q polos Chins q forão a Malaca fe fabia noua dos Portugueles: & pois vinha por amizade q goardaffe os coítumes da terra q erão fazer faber fua vinda ao Pio de Nantó, & q elte lhe diria o q auia de fazer, porq a ele nã cõuinha mais q goardar ho mar. E tendo Fernão perez elta repoíta, lhe chegou logo recado do Pio, em q lhe pregútaua que géte erão, & dõde vinhão, & q bufcauão. Fernão perez ho difle ao meflegeiro, & q polas obras q ho go- uernador Afonfo dalbuquerq fizera aos Chins q achara no porto de Malaca quando a tomou poderia faber ho defejo damizade q el rey de Portugal tinha cõ elrey da China & iífo ho obrigara a mandarlhe feu ébaixador cõ hú prefente q lhe leuaua, pedindo muyto ao Pio que lhe defle hú piloto q o leuaífe a Cãtão pera mãdar dali ho ébaixador q trazia: ao' q ele ref- pÕdeo q mãdaria recado ao cofelho de Cãtão como era chegado, & segúdo a determinação do cõfelho afli faria, porq fe não podia fazer doutra maneyra. E cuydando Fernão perez que aquilo foífe logo, fayofe pera fora do porto com os nauios Portuguefes com que determinaua de ir a Cantão, & deixou dentro os jungos: & eítando afli de fora efperando por defpacho, fobreueo tamanho temporal de véto q fe ouuerão de perder todolos nauios cõ darem á coíta fe lhe não cortarão os maftos: & afli efcaparão pola mifericordia de noífo fenhor, & efte temporal não fez nenhú nojo aos jungos por eftaré dentro no porto. E ficando a nofla frota defenmafteada, quifera Fernão perez auer remedio de terra pera a émaftear, mas não pode porq nunca os Chins lho quiferão dar: & iflo porque não fabião o que ho confelho de Cantão determinaria. E vendofe Fernão perez fem remedio, remedeoufe cõ ho feu, & do mafto do nauio de Martim guedez enmafteou ho de Iorge mazcarenhas, & com ho da
Livro IV, Capitolo XXIX 4*7 nao de Simão dalcaçoua enmafteou ho nauio de Martim guedez: & a nao de Simão dalcaçoua émafteou com ho mafto da fua que mandou meter no porto, onde mandou a Simão dalcaçoua que ficaíTe por capitão mór em quanto ele hia a Cantão, pera onde logo partio indo no nauio de Martim guedez: & leuando em fua companhia Iorge mazcarenhas no feu, & afli os bateys das naos & dambos os nauios, artilhados & apadeflados, & partindo da ilha da veniaga foy furgir no porto de Nãtó que eítá na en¬ trada de hú rio de húa legoa de largo, & por ele acima eftá a cidade de Cantão obra de vinte cinco legoas de Nantó. CAPITOLO .XXIX. De como vendo Fernão pere\ que ho Pio lhe não queria dar defpacho fe partio pera Cantão, & do fitio de Cantão. SUrto Fernão perez ho Pio ho mandou vifitar & lhe mandou muyto refrelco, mandandolhe dizer que não podia dali paifar fem recado do conlelho de Cantão, & fazendo ho doutra maneyra lhe pareceria que vinha mais de guerra que de paz. E Fernão perez lhe mãdou dizer pelo feytor da armada que ja lhe mandara dizer pelo feu melfegeiro que a principal caufa que mouera a el rey de Portugal feu fenor a mandalo á China fora de defejar a amizade de feu rey, & pera fe alfentar leuaua ali hú embaixador, o que lhe parecia que nunca aueria effeyto com tama¬ nha detença camanha vfauão coele, & porque coela fe perdia muyto do leruiço del rey feu fenhor, lhe requeria da parte del rey da China, & da fua lhe pedia muyto por merce que lhe defle hú piloto que ho leuaífe a Cantão & licença pera ir lá: & difto lhe mandaífe logo a repoíta, porque fe lha não defle conforme a feu requeriméto, ele paliaria auãte & iria a Cantão como lhe el rey feu fenhor mãdaua, & proteílaua de não encorrer por iflò em nenhúa defobediencia contra elrey da China nem em quebra dos coftumes de feu reyno: & que ele Pio ficafle obrigado a toda a perda & a todo ho dãno que fobriflò recrecefle, pois não fazia o que compria ao feruiço del rey da China, não eftando ali pera outra coufa. E mandou ao feytor que cÕ a repofta do Pio ou fem ela tirafle hú eftormento cuja fuftancia fofie efte recado que lhe mandaua, & mandou ho feytor bé acompanhado de criados del rey todos veftidos de fefta, & diãte as luas trombetas. E coeíte aparato chegou ho feytor ao Pio, que ouuindo ho recado de Fernão perez & fuas proteílações fe efpantou de auer nos noflos tãta rezão, q fazião fuas coufas por tão boa ordé, porq os tinha por barbaros como os Chis té a todas as outras nações & refpondeo ao feytor
428 Hijioria da índia que difleffe a Fernão perez que ele lhe mandaria a repofta per feu melfe- geiro, & foy que efperafle Fernão perez ate ho outro dia que teria recado do Tutão de Catão que era feu fuperior, que o que ele mandaíTe iíTo faria. E parecendo ifto dilações a Fernão perez mandou dizer ao Pio que efperaria pola repofta do Tutão ate que a viração vétaffe, porque coela iria por diante, & afli ho fez & nos bateys que hião diãte dos nauios hia ho feu piloto fondando. O que fabido pelo Pio lhe mandou hú piloto que ho leuafTe á cidade de Cantão, que como difle he por aqle rio acima: que he fermofa coufa de ver por auer nele muytas ilhetas & delas fe cobrem dagoa com preamar, & todas fam verdes & viçofas derua: & feruem de pacerem nelas grãde multidão dadens & de patos que Ieuão ali em jangadas grandes q fam cerradas como cafas, & te húa porta por onde faem as adens & os patos voando, e ao recolher fe recolhem ao fom de hú fino que tem cada jãgada, que conhecem també, que ainda que tanjão quatro finos cada húas acodem ao de Tua jangada. Na terra de húa banda & doutra defte rio ha muytos lugares murados, que tem muy¬ tas quintas, hortas, & muytos parques, & toda a terra muyto aprouei- tada: & por iffo he muyto abaftada de todolos mantimentos. E junto da cidade he ho rio de largura de tiro de berço daltura de fete braças, ate tres: & ancorão ali grandes jungos & a cidade eftá perto dele, & ferá de cerca algúa coufa mayor que Euora: & tem os muros de largura de cinco braças, ambas as faces fam de cãtaria de pedra vermelha & mole, he entulhado de terra ate ho meyo, & ameado cõ ameas de feteiras & eftá fempre muyto limpo deruas por ordenança da cidade. Tem efte muro em roda fetenta & oyto torres de fua altura todas entulhadas: & em cada húa está húa vigia que tem hú mafto aruorado pera fe poer húa bandeira no tempo de fuas feftas. Tem mais efta cerca fete portas: & pola largura do muro: cada porta tem quatro portas, húa defronte da outra antes que chegue á derradeira. E cada portal té no muro hú poftigo de cada ilharga: & as portas fam forradas de ferro: poré lam mais fermofas q fortes. Sobreftas portas ha grandes cafas de vigia: em q cabe quinhentos homés, que tem ali fuas armas defeníiuas & offénfiuas: com que guardão aquelas portas de dia & de noyte. Ho muro da parte da cidade não he també repairado como da banda de fora: E por ele fer tão largo como digo ho entulharão de terra, & donde fe ela tirou ficou húa fermofa caua de grãde altura que fe enche dagoa da bãda do rio: & não do fertão porq vay por hú alto: & não pode fobir ali agoa. Esta caua té fete potes correlpõdétes á porta da cidade: & todas fam grãdes & bem obradas, & tomarão todas os dous terços da cidade q não té outra fortaleza fenão as cafas do Pu- chanci, q he o í} a gouema em aufencia do Tutão, eftas té algúa aparécia
Livro IV, Capitolo XXX 4*9 de fortes: & poré não ho fam & fam terreas, porq não ha na cidade nehúa cafa que ho não feja (a rezão não pude faber) & fam todas de taipa acafeladas por fora cõ cal de cafcas doítras, & forradas por dentro de madeira groífa, & pintadas fermofamente, & todas tem oratorios com retauolos & imagés dos idolos dos Chins. Tem todas pateos lageados de fermofas pedras, & poços dagoa que não he boa, & as mais delas tem aruores ás portas que fazem fombras, tem a cidade de feu muytas cafas pera os officiaes que a gouernão, & fam pera ver de fermofas: todas as ruas tem portaes nos cabos ou começos a modo de arcos triumphaes, & fam de madeira muyto bem laurados & pintados & ha deites mais de quinhentos. Ha também nefta cidade muytas varelas que fam as cafas doração dos Chins, afli morteiros como igrejas em que ha muyto íingu- lares agoas. Tem efta cidade hú arrabalde de mayor pouoação que a cerca, & eftendeífe ao longo do rio, & he muyto comprido & eftreito: & affi nele como na cerca ha gente fem conto, fidalgos a que chamão man¬ darins na lingoa Chim, mercadores & officiaes macanicos: & vendéfe aqui coufas tão lindas que he coufa defpanto. Por ordenança da cidade as fuas portas fe fechão em fe poendo ho foi, & abrenfe em faindo, & ifto por amor dos muytos ladrões que ali ha. E affi nifto como no mais he tam¬ bém regida que não tem enueja as milhores regidas Deuropa, & he ley do reyno não entrar da cerca pera détro nenhúa pefloa eftrangeira fe não fe for Chim, & por iffo ha no arrabalde gente fem conto como ja diffe, & no rio & na caua eftão continuamente de dez mil paraós grandes pera cima & todos cheos de gente & em muytos morão como em cafas, & he de maneyra que parece que quafi ha tanta gente no rio como na cidade, porque tudo he cuberto dela: & não he marauilha porq ali não ha peite, nem guerra, nem fome. CAPITOLO .XXX. De como ho capitão môr chegou a Cantão, & de como defpois chegarão ho Cõquam, Compim & ho Tutão. HO piloto q ho Pio mandou a Fernão perez não oufou détrar em nenhú dos noffos nauios nem nos bateys & foy em hú parao feu, & feguia ho a noffa frota & poferão tres dias em chegar a Can¬ tão, porque Fernâo perez furgia de noyte. E chegado ao porto da cidade furgio pegado com a ponte principal, ondeftaua hú cais de cantaria ao noífo modo, & dali faluou a cidade com toda fua artelharia, tédo os na¬ uios embandeirados, & ao eftrondo da artelharia acodio ao cais toda a
43o Hijioria da Índia gente da cidade a fora a que eftaua no rio em paraós como ja diffe. E eftando FernSo perez furto mandoulhe ho Puchãci grãde de Cantão dizer, que fe efpantaua muyto vindo ele de paz fegundo lhe tinhão dito, moftrar que vinha de guerra no q fazia contra as leys que tinhão que defendião nenhúa peffoa natural nem eftrangeira, não tirar diante daquela cidade nenhú tiro dartelharia, nem aruorar bandeira nem lança: & pois ele vinha de paz que afli ho deuia de fazer. Ao que ho capitão mór refpondeo, defculpandofe de não faber fuas leys, & por iffo vfara do noffo coftume que era tirar íua artelhar-ia em final de fefta & damizade, & por effa caufa embãdeirara íuas naos, & não por quebrar fuas leys nem coftumes, que ele ajudaria a goardar cqm todas fuas forças como vaffalo del rey de Portugal muyto grande amigo del rey da China, & por ifio mandaua affentar coele paz & amizade. E coifto ficou ho meffejeiro do Puchanci fatisfeyto, & diffe ao capitão mór que fe não agaftaffe de ho não defpa- charem logo, porque não podia fer ate não vir ho Tutão que era fobre ho Puchanci & fobre os outros, & efte ho defpacharia logo que ja erão a chamalo a húa cidade vinte legoas daquela polo rio acima como ja diffe. E também como os noffos chegarão forão preguntados os idolos dos Chins fe hião os noffos por feu bem ou não, & hús dizião que por bem outros por mal, porem que dali por diante goardaffem melhor fua cidade, le melhor fe podia goardar. E afli ho fizerão eles, & ho capitão mór não confentia q nenhú Chim entraffe nos nauios, nem que nenhú dos noffos foffe a terra, & ho refrefco que querião mãdauãno comprar aos paraos que eftauão no rio, nem ínenos confentio que nenhú jungo dos que entra¬ rão defpois dele furgiffem junto dos noffos nauios, & afli ho mãdou dizer ao Puchanci, que foy diffo contente. E afli ele como os mãdarins da ci¬ dade ho mandauão vifitar a miude com muytos prefentes. E paffados dous ou tres dias de íua chegada chegou a Cãtão ho Conquão grande, que como diffe he hú dos tres do confelho & da gouernança ho menor: & era capado como ho fam os deftes cargos, & veyo polo rio muyto acom¬ panhado, & fayo com grande aparato & da hi a cinco dias chegou ho Compim grande, também pelo rio & com muyto mor aparato que ho Conquão, porque também feu officio he mayor que ho do Conquam por fer capitão da guerra como diffe: & ho Conquão ho fayo a receber com toda a cidade. E íabendo ho capitão mór fua chegada ho mandou vifitar, com cuja vifilação ele moftrou que folgaua muyto, & afli com ver os noffos. E refpondeo ao capitão moor que fua chegada foffe embora, que como chegafle ho Tutão em que eftaua todo ho poder de feu delpacho que logo leria defpachado, & ele veyo leys dias defpois do Compim, a que fe fez muyto mais foléne recebimento que a nenhú dos outros. E
Livro IV, Capitolo XXXI 43r vinha ho Tutão pelo rio abaixo em hú parao marauilhofamente laurado de maçanaria & cozido todo em ouro, & toldado & embandeirado de bandeiras de fedas de coores, que alem de fer muyto fermofo era muyto rico. & acompanhauão muyta gete que vinha é outros paraós laurados da mefma maneyra & pitados douro & dazul, & toldados & embãdeirados pelo mefmo modo. E era a gente tãta que ho acompanhaua, & a diuer- íidade de inftormentos q trazia, que parecia étrar hú grade príncipe. E efte dia foy embandeirada toda a cerca da cidade, aíli polos muros como polas torres & é cada húa eftaua hú mafto groffo com húa verga atra- ueffada cÕ húa bandeira tamanha como hú papa figo de húa nao: & eftas de diuerías & alegres cores, & todas de feda, & afli as dos muros que erão muytas. Ho Cõquão, & ho Copl co todos effoutros officiaes sayrã a receber ho Tutão acompanhados de toda a gente da cidade, & todos veftidos de fefta. E em ele defembarcando no caes, defpararão cinco ca- maras de falcão que eftauão ceuadas pera iífo, porque ho tem por grande fefta. E fobido ho Tutão em leu andor foy rodeado de muyta géte darmas q antre os Chins le chamão laboes, & abalando pera a cidade hião algús deites bradãdo diante q defpejaffem as ruas q hia ho Tutão. E afli fe fazia, & com toda efta folénidade chegou ás fuas cafas onde ho deixou a gete que ho acompanhaua. CAPITOLO .XXXI. De como ho capitão môr mãdou recado ao Tutão, & foy efcripto a el rey de fua chegada. E de como deixãdo ho embaixador em Cantão fe tornou á ilha Daueniaga. SAbendo ho capitão mór q ho Tutão era vindo, mandoulhe recado pelo feytor da caufa de fua vida naqla terra, & do embaixador q trazia pera el rey da China, & do prefente que lhe auia de leuar, pedindolhe que ho defpachafle logo. Foy ho feytor bem atauiado com os q ho acompanhauão que erão muytos criados del rey & leuaua diante as trombetas do capitão mór. E chegado a cafa do Tutão que fabia que ele hia, achou ho acompanhado do Comquão & do Compim, & ho Tutão eftaua da mão ezquerda por fer hauido por lugar mais hõrrado antre os Chis & defronte deles eftaua ho Ceiui que tira as dcuaflas como ja difle. E de todos ho feytor foy muy bé recebido: & ouuido ho recado do capi¬ tão mór, refpondeo logo ho Tutão que fua vinda folfe muyto boa, & que tinha coela grande cõtentameto por eftar enformado de fua bondade & dos outros Portuguefes: & que el rey feu fenhor recebia muyta honrra
432 Hifloria da índia em ler viíitado de reys, que eftando no cabo do mundo querião fua ami¬ zade: que prazeria a Deos que feria pera bé, & cõtétaméto de todos: & coifto outras alegres & corteíes palauras, & cada hú dos outros officiaes fez fobrifto fua fala ao feytor, moftrãdo o cõtétaméto q tinhão pola vida do capitão mór, & pola amizade q el rey de Portugal qria cõ el rey da China, q íabião q auia de folgar coela, & q logo lhe efcreveriã: & ate nã veré fua reporta nã poderia ho embaixador partir de Cantão: & que entre tanto lhe mandarião dar todo ho neceífario, & ele & os que ouueffem dir coele comerião á curta del rey da China, porque afli ho coftumaua, & q ho mandafle logo pera terra cõ ho prefente que auia de leuar a el rey da China, pedindo também ao capitão mór que forte a terra pera ho ve¬ rem & fe alegraré coele. Do que fe ele efcufou, dizendo que não podia por nenhú modo por quanto el rey feu fenhor lho defendia, que fe iflo não fora ele folgara muyto de ho fazer, & por lhe elrey feu fenhor defen¬ der não podia confentir que fe defle de comer ao embaixador á curta del rey da China & aos que auião dir coele, q defpois de fe ele partir pera onde el rey eftaua étão farião o que quifeífem, & mãdou logo ho embai¬ xador a terra com ho prefente q auia de leuar. E efte foy metido em húa cafa deputada pera eftarem os taes prefentes, & a chaue dèla fe deu ao embaixador que auia nome Thome pirez & fora boticairo do príncipe dÕ Afonfo, & por fer difcreto & curriofo pareceo bem ao gouernador mandalo coefta embaixada, q el rey de Portugal não ho mandaua coela, antes cuydando q el rey da China eftaua perto mahdou a Fernão perez que mandafle lá hú dos feus capitães, ou quem lhe bem parecefe. E ho gouernador não quis fe não mandar efte Tome pirez, que mandou com confelho dos fidalgos & capitães da Índia, polas caufas q digo, & porque conheceria melhor que outro as drogas que auia na China. E dada a chaue da cafa do prefente ao embaixador, forão efcriptos os nomes daqueles que auião dir coele. E ho tutão, Conquão, & Compim efcre- uerão logo a el rey da China a chegada do capitão mór, & tudo quanto fez & lhe sucedeo defpois que furgio na ilha da veniaga ate chegar a Can¬ tão, & ho mefmo lhe efcreuerão o Puchãci, Ceiui, Amechacis, Toeis, Itao Pio & Ticos: & hús dizião bé dos noífos, outros mal, outros né mal nem bé. E partidas eftas cartas ho Puchãci por mandado do Tutão mandou apregoar na cidade que todos podeífem cõprar cõ os noffos & venderlhe as mercadorias q quifeflem, & que nenhú forte oufado de lhe fazer nenhum agrauo fob graues penas: & mandou dizer ao capitão mór que mãdafle recado aos nauios que ficarão na ilha da veniaga que fe vieflem pera Cantão, porque ali defearregarião, & carregarião melhor que lá. Do que ho capitão mór fe efcufou por os nauios eftaré lá mais feguros que em
Livro IV, Capitolo XXXII 433 Cantão. E tambe porque fe queria tornar*pera lá como afientaffe Õde auia deftar e terra a fazeda del rey, pera que lhe logo foy dada húa cafa, & íoy eftar nela hú efcriuão da feytqria, & aíTi outros nolTos pera teré car¬ rego da fazenda. De que ho capitão mór mandou leuar algúa, dizendo que como aquela foffe gaftada leuarião outra: & coifto fe começou ho trato antre os Chis, & os noífos, & affi grande amizade, & eles hião a terra & andauão lá muy feguros, & tantas coufas contauão ao capitão mór da grãdeza & riqueza da cidade, & de fua abaftança de mantimen¬ tos & nobreza de gente, q ele a foy ver defconhecido, & vio q lhe dizião verdade. E cÕ tudo Cãtão era aldea pera outras cidades que ha pelo fer- tão. E vedo Fernão perez quanto os da cidade fe contétauão com a con- uerfação dos Portuguefes, mandou pedir licença ao Tutão pera fazer húa cafa de pedra & cal na ilha Daueniaga, pera eftar nela ho feytor del rey de Portugal com fua fazenda & a teueffe fegura dos muytos ladrões que auia no.mar & na terra: & 0 Tutão lha deu. CAPITOLO .XXXII. Das armadas que ho gouernador mandou pera fora da índia. PArtidas pera Portugal as naos da carga ho gouernador mandou dom Ioão da filueira a fazer amizade com os reys das ilhas de Maldiua, & com el rey de Beqgala & deulhe hú nauio redondo em que foffe & húa galeota de que foy por capitão Ioão fidalgo capitão da ordenança em tempo Dafonfo dalbuquerque, & hú bargantim de q era capitão hú Triftão barbudo & húa carauela, & a cujo capitão não foube ho nome. E defpois da partida de dom Ioão, mãdou ho gouernador a Ioão gonçaluez de caftelo branco por capitão de húa carauela, q foffe correndo a cofta de Cochim ate Diu, & mandoulhe que tomaffe Baticalá, onde dei¬ xaria hú homem cÕ ho feytor pera comprar todo ho falitre que ouueffe, affi como em Honor & Mergeu, & q qualquer zambuco q achaífe no ca¬ minho affi com falitre como cõ cairo q ho mandaífe a Cochim pera lá lhe ler pago, & dahi fe iria a Chaul, & faberia do feytor como eftaua & affi a terra, & fe lhe compriífe eftar algús dias no porto pera affento da terra que efteueffe. E da hi fe iria a Diu pera faber noua da mercadoria del rey fe fe defpachaua & como eftaua, & que toda a nao de caualos que achaífe fizeífe arribar a Goa, metendo algús Portuguefes em cada húa, & que achando algúa em algú porto, ou defcarregando caualos q a tomaffe pera el rey feu fenhor, ate os mercadores ferem oiauidos: & ho mefmo faria a qualquer nao ou zambuco q achaífe com efpeciaria, ou droga. E Tomo II 55
434 Hiftoria da índia defpois da partida de Ioão gôçaluez foyfe ho gouemador á cidade de Goa, dode defpachou a Antonio de faldanha pera ho cabo de Goardafum a fazer prefas & dar vifta a Adem pera ver fua defpofição, & deulhe húa armada de ate dez velas, quatro naos groffas & outros nauios, & forão feus capitães Simão Gonçaluez de foufa, Antonio ferreyra fogaça, Fernão gomez de lemos, Nuno fernãdez de macedo, Antonio de lemos & outros a que não foube os nomes. E també defpachou ho gouernador Manuel de lacerda pera ir recolher algúas naos que ficarão da fua armada q leuou ao eftreito, & afli outros nauios de Portuguefes que trataflem per effes lugares de mouros & folie a Diu por Fernão martlz euãgelho, & mãdou coele a Garcia da cofta irmão Dafonfo lopez da cofta, & ambos forão em naos. E chegado a Diu mandou recado a Meliquiaz por Ioão fernandez de Santarém efcriuão da fua nao: & por Meliquiaz fer muyto amigo de Manuel de lacerda, folgou muyto cÕ fua vinda: & afli lho mandou dizer, mandandolhe muyto refrefco, & pedindolhe que não defembarcaffe ate que ho feu patrão do mar ho não foffe receber. E ao outro dia ho mãdou cÕ muytas furtas todas toldadas & embandeiradas & artilhadas, & com muytos tangeres: & quando Manuel de lacerda defembarcou, ho recebeo Meliquiaz com muyto prazer, & lhe fez muyta ferta todo aquele dia, por¬ que de noyte Manuel de lacerda fe recolheo á fua nao, & afli ho fez em hú mes que ali efteue, & ajuntaranfe aqui muytos Portuguefes, porq a fora a que trazia Manuel de lacerda eftaua ali Ioão gonçaluez de carteio branco na fua carauela & outros nauios. E eftãdo arti entrarão no porto de Diu algúas das furtas de Meliquiaz que vigiauão ho mar: & auendo vifta da armada Dantonio de faldanha que hia pera ho cabo de Goarda¬ fum forão dar recado a Meliquiaz, & quãdo virão em Diu tãtos Portu¬ guefes, & aquela armada no mar cuydarao que era algúa treyção pera tomar a cidade, & ho mefmo pareceo a Meliquiaz quãdo ho foube, & por iffo meteo na cidade maisgéte da que tinha: & efta que veyo de refrefco dauão muytos encotros aos noíTos que andauão na cidade, & faziãlhe ou¬ tras fobrãçarias. E não as podendo eles fofrer ho diflerão a Manuel de lacerda, que logo ho diíTe a Meliquiaz, pregútandolhe que era aquilo. E ele lho difle, dizendo que fe não efteuera na cidade que os mais dos Por¬ tuguefes forão mortos. E Manuel de lacerda lhe eftranhou muyto cuydar ele q per treição lhe auião de querer tomar a cidade, tendo amizade & paz: & diflelhe que el rey de Portugal não coftumaua de tomar as forta¬ lezas por treição, fe não por guerra quando fe lhe não querião dar. E coifto fe iegurou Meliquiaz & mandou defpejar a cidade: & paffado hú mes em q fe vendeo a fazenda que Fernão martinz feytorizaua, quiferafle Manuel de lacerda partir & leualo: mas ele fe efcondeo por não ir coele,
Livro IV, Capitolo XXXIII 435 & dizião que com medo do gouernador por eftar ali da mão de Fernão dalcaçoua. E vendo Manuel de Iacerda q ho não podia leuar, partiofe com todas as velas que eftauão em Diu & foyfe a Cochim, onde achou ho gouernador. CAPITOLO .XXXIII. De como ho gouernador foy íuernar a Coclií. DE Goa fe partio ho gouernador pera Cochim, onde auia dinuernar, & hi achou grãdes brigas antre Afonfo lopez da coíta & Lourenço moreno. E a caufa fora porq hú feu criado fabendo que ho com¬ prador Dafonfo lopez tomara hú pouco de pefcado a hú feu moço faltou na cozinha do mefmo Afonfo lopez & tomou quãto pefcado hi achou, pelo q Afonfo lopez ho foy efpancar á fua cafa: do que Louréço moreno fe ouue por muyto injuriado por fer homé honrrado, & dali por diãte an- daua acompanhado de muytos homés armados de lãças & doutras armas como que efperaua de vingar a injuria que dizia ter recebido, & húa noyte faltou com hú irmão Dafonfo lopez da coíta pera ho matar: o que não pode fazer. E vendo iíto algús fidalgos que eftauão em Cochim, porque a coufa não vieífe a mais & fe feguiífe mór mal, pedirão a Aires da íilua capitão da fortaleza que mandaffe a Lourenço moreno que não trouueffe homés armados, & quando não quifeffe fe não trazelos que ho prédelfe. O que ele fez: do que Louréço moreno fe ouue por muyto mais injuriado que dantes, & chegãdo ho gouernador a Cochim lhe fez queixume afli Dafonfo lopez como Daires da íilua, & ajudou I10 a iffo Diogo pereyra de Cochim feu amigo muyto grande & priuado do gouernador, & ambos lhe afearão ho cafo grandemente: & por iffo & por ele eílar algú tanto defcontente Dafonfo lopez, fem fe mais enformar da coufa como paífara, ho prendeo logo na poufada, defendendo que não poufaífem feus irmãos coele, & fem nenhúa ordem de juyzo tirou a capitania a Aires da filua & degradouho pera Malaca, pera onde determinaua de mandar dom Aleixo de menefes com poder de gouernador pera concertar a deferença qúe lá auia antre Nuno vaz pereyra & Antonio pacheco fobre a capitania da for¬ taleza: o que foube porVeriífímo pacheco irmão Dantonio pacheco que chegara então de Malaca, & lhe diífe que defpois da partida de Fernão perez pera a China, Nuno vaz fe concertara com Antonio paclftco, pera q gouernaffem ambos Malaca: no q fe ele fiando fe fora pera a fortaleza da ilha das naos donde eítaua. E defpois dalgús dias vindo hú dia am¬ bos da igfeja, ho tomarão vinte homes q Nuno vaz pera iffo tinha & leua- s rãno á fortaleza, onde Nuno vaz ho mandou meter na coua. E fabendo
436 Hijloria da índia ele veriífimo pacheco a prifam de feu irmão fe acolhera no nauio concei¬ ção de que era capitão, affi polo não préderem como pera vir dizer ao gouernador efte cafo como paffaua, & pera concertar efta deferença & meter de poffe da capitania de Malaca a Afonfo lopez da cofta que a trouuera de Portugal, queria ho gouernador mandar dom Aleixo. CAPITOLO .XXXIIII. De como dom Aleixo de menefes chegou a Malaca & achou q lhe fa\ia guerra el rey de Bintão. Epreftes a armada em que auia dir partio de Cochim 5 Abril, indo ele é Santiago menor, & Afonfo lopez da cofta na efpera peqna, & Duarte de melo q leuaua a capitania mór do mar de Malaca em hú jungo: & irião neftes nauios bé trezentos Portuguefes, & muyta artelharia & munições & mantimétos de que Malaca tinha neceflidade. E vendo Aires da filua que ho mandaua ho gouernador nefta frota degra¬ dado fe nenhúa caufa, determinaua de ho matar ás punhaladas & irfe pera os mouros: & tirarãno diffo Chriftouão de foufa, Francifco de foufa tauares & Manuel de lacerda. E todauia ãtes de lua partida quis pregun- tar ao gouernador a caufa porque ho degradaua, & foy lho pregútar indo coele eftes tres. E o gouernador ho não quis ouuir antes ho épurrou muyto rijo dizendo que fe foífe. E partido dom Aleixo em Abril de mil & quinhétos & dezoyto chegou a Malaca, onde achou que el rey de Bintão era vindo ao Pago hú lugar dezoyto legoas de Malaca pelo rio acima, & tinha feyta húa forte trãqueyra em Muar cinco legoas de Ma¬ laca no mefmo rio, & tinha hi muyta gente, affi na terra como no mar em lancharas, & por capitão hú valente mouro malayo chamado çanco- tea deraja: & efte corria a Malaca por mar & mataualhe os pefcadores que andauão pefcando, & affi outros noífos amigos q hião tratar cõ fuas mercadorias: de modo que ninguém oufaua de fayr fora, & não fomente fazia ifto no mar, mas também falteaua a terra muyto amiúde que nin¬ guém eftaua feguro. E chegado dom Aleixo foltou Antonio pacheco & meteo de poffe da capitania da fortaleza Afonfo lopez da cofta, & da do mar Duarte de melo, que logo fayo ao mar com fua armada, cujos capi¬ tães forão ele, Diogo pacheco, Pero de faria & affi outros, mas nem por iffo a armada dos Imigos deixaua de correr como dãtes, & ouue muytos recontros com a noffa armada & fempre lhe fugia leuando a peor. E affi andarão ate q Fernão perez veyo da China, como direy a diãte quando os noffos deftruyrão efta tranqueyra de Muar.
Livro IV, Capitolo XXXV 437 CAPITOLO .XXXV. Em que fe efcreuem as ilhas de Maldiua, & o que ha nelas. E de como dom Ioão da Jtlueira ajfentou pa\ & trato com el rey de Maldiua. PArtido dom Ioão da filueira de Cochim, feguio fua rota pera as ilhas de Maldiua, q fe affirma ferem feflenta legoas da cofta do Malabar ou pouco mais, & he hú grandiffimo arcepelago delas: & dizem os mouros nauegantes q fam doze mil & coreta & oyto, & co- meção ao mar de monte Deli õde eftão os baixos de Padua, & vão por aqla corda contra Malaca. E como diífe na difcrição do Malabar, te os mouros q eftas ilhas forão terra firme, & que fe fez em ilhas com ho mar q cobria a terra do Malabar, & correo pera efta & feia erp ilhas, & ho Malabar ficou terra firme. E ifto parece fer adi por quam juntas eftas ilhas fam húas com outras & quam pequenas, que andãdo eu antrelas ho vi: as primeyras fam quatro pequenas & rafas como ho fam quafi todas, & húa delas fe chama Maldiua, & defta fe chamão todas em geral as ilhas de Maldiua, & nefta ha hú rey & em outra ilha que fe chama Cãdaluz ha outro, & a eftes obedece a géte das outras, de que muytas fam def- pouoadas por amor da grãde multidão de mófquitos que ha nelas. E nas q eftão da banda do fui dizem que ha muyta prata & muyto boa, & em todas ha muytos palmares que dão coquos de cujas cafcas fe faz ho cayro, que he boa mercadoria pera toda a índia, em q fazem dele toda a cor¬ doalha que fe nela gaita, adi pera naos & nauios como pera outras cou- fas. Ha neftas ilhas muyto pefcado q feco lhe chamão moxama q leuão por mercadoria a muytas partes, & affi hús búzios brancos pequenos a que chamão caurls que ferué de moeda miuda em Bengala, porque fam mais limpos que ho cobre de que a auião de fazer, que dizem que lhe çuja as mãos. Fazefe nelas muytos & muy ricos panos douro & de feda, & dalgodão que antre os mouros valem muyto pera feu veftir: põe também aqui ás toucas os melhores viuoS douro & de feda q em outra parte do mudo, & afli ha muytas tartarugas cujas cõchas fam muyto boa merca¬ doria pera Cambaya. Achaffe também nelas ho mais ambar & ho mais fino que fe acha em outra parte algúa, & dize os feus moradores que fe faz defta maneyra. Bem dentro no arcepelago deitas ilnas, nas mayores delas ha muytas eruas cheirofas de que fe mantém húas grandes aues que fe crião neftas ilhas, & a que os moradores chamão anacangripafqui. Eftas aues fe ameijoão e húas rochas queftão nas mefmas ilhas ao longo do mar, & ali deitão feu efterco que he ho ambar: & he de tres qualida-
43S Hijloria da índia des, ho primeiro he brãco & efte he muyto fino, & achafTe nas mefmas rochas que fica pegado affi como as aues ho deitão, & chamãlhe os da terra ponáhambar, que quer dizer ambar douro, & vai mais que todos porque fe acha pouco, & com muyto mór trabalho que os outros dous que fam pardo & preto, que fe fazem do branco: que eftando neftas ro¬ chas que digo per tempo ve a cair no mar cõ grandes tempeftades de ventos, & caido efte ambar em grandes pedaços anda no mar ate q fae em algúas prayas, & chamanlhe cuambar, q quer dizer ambar dagoa, porque por fer muyto lauado tem perdido grande parte da fineza, & a outro chamão manimbar, que quer dizer ambar de pefcado, & he preto: porque tem que fendo pardo foy comido de Baleas ou doutros peixes muyto grades que ha antreítas ilhas, & não ho podendo difiítir ho torna¬ rão a lãçar afli preto, & efte vai pouco por ter perdida quafi toda fua vir¬ tude. Os moradores deitas ilhas pola mayor parte fam gentios & tem a lingoa malabar, mas em Maldiua & Candaluz ha muytos mouros mala- bares: fam os moradores homés pequenos & não preftão pera guerra, & afli tem poucas armas. Sam geralmente grandes feyticeiros, em tanto que viGuelmete lhes vem falar os diabos: tem como diffe dous reys que tem grandes tefouros de prata & dambar. E indo dom Ioão da íilueira por fua viagé defpois de fazer algúas prefas em naos de mouros noffos im- migos foy ter á ilha de Maldiua pera affentar trato com el rey, com quê fe vio em terra com arrefens que lhe derão. E el rey ho recebeo, com grande fefta eftãdo acompanhado de muytos fenhores feus vaffalos, & ele atauiado ao modo dos reys do malabar, que afli fe ferue em toda ma- neyra de feu feruiço, & afli tem os paços como eles. E vendofe dom Ioão com el rey aflentarão paz perpetua: & que ho gouernador podeffe man¬ dar affentar feytoria em fua terra, onde lhe mandaria vender todo ho cairo de que teueffe neceflidade, & afli as outras mercadorias que auia nas ilhas, onde dõ Ioão efteue efperando a moução pera Bõgala, & afli ficou ate q veo. CAPITOLO .XXXVI. De como ho capitão mór do mar Antonio de faldanha foy fa\er prefas ao cabo de Goardafum, & do que lá fe\. HO capitão mór do mar Antonio de faldanha que partio de Goa pera ho cabo de Goardafum chegou a ele com toda fua armada em que leuaria paffante de trezentos dos noffos, & hi fez algúas prefas neffas naos de mouros que fayão do eftreito pera a índia a com¬ prar fuas mercadorias: & como ho mais do que leuão quando vão he
Livro IV, Capitolo XXXVII 439 dinheiro, fez ho capitão moor com os outros capitães muy ricas prefas. E daqui andãdo a vifta da cidade Dadem foy ter ás portas do eftreito com determinação détrar nele & faber algúa noua da armada dos rumes, de que todauia fe tinha fofpeita que auia dir á índia. E poendo fua de¬ terminação em confelho com feus capitães, foy acordado que não entraífe no eftreito, porque fe entraffe feria forçado inuemar nele por fer tarde, & inuernando lhe morreria toda a gente: & por iífo ceifou de fua deter¬ minação & foyfe inuemar a Ormuz: & fazendo volta pera iífo fe deter¬ minou que deffe na cidade de Barbora que eftá dali a vinte cinco legoas tornando pera ho cabo de Goardafum na cofta de Ethiopia em onze graos da banda do norte abaftada de muytos mantimentos que ha na mefma terra, em que também ha muyto ouro, marfim & cera que lhe trazem do fertão: & por iffo he de grande trato, & vão a ela muytas naos Da¬ dem, & do reyno de Cambaya com fuas mercadorias, & leuão deitas da terra. Seus moradores fam mouros & todos falão arauia: tem rey fobre fi também mouro, & paga parias ao prefte & leuantafelhe aas ve¬ zes. E chegando ho capitão mór com fua armada ao porto defta cidade achoua defpejada de todo que os feus moradores fugirão com medo dos noffos-fabendo que tornauão das portas do eftreito: receãdo que defTem neles. E primeyro que fe foffem da cidade a defpejarão de fuas fazendas: & por iffo os noffos quando defembarcarão, nem acharão quem lhes reíif- tiffe, nem menos acharão que roubar, & não teuerão mais que dar fogo á cidade que ardeo toda. E ifto feyto tornoufe ho capitão mór a embar¬ car com fua géte, & partiofe pera Ormuz onde foy ter em Mayo & hi inuernou, & em Agofto fe tornou pera a índia. CAPITOLO .XXXVII. Em que fe efcreue ho grande & abajlado reyno de Bengala. DOm Ioão da filueira q eftaua em Maldiua efperando pera ir a Ben¬ gala, partiofe vinda a moução, & fem lhe acõtecer coufa que feja de contar a noue dias de Mayo de mil & quinhetos & dezoyto foy furgir na cidade de Chetigã cidade de Bégala, que he hú reyno dos mayores & mais ricos & abaftados reynos de toda a índia. Tem cento & vinte legoas de cofta pouco mais ou menos ao longo daquela enfeada a q os Cofmografos chamã figno gãgetico por amor do rio ganges que fe vay ali meter no mar Indico per duas bocas, & outras tantas legoas tem pelo fertão ao lõgo do Gãges, dúa parte & doutra: de modo que ocupa grande parte de terra, de que algúa he montuofa & a outra chaã: he ge-
440 Hijloria da Iudia ralmente muyto abaftado de mantimetos, & muyto mais que todos os ou¬ tros reynos da índia, affi de trigo como darroz, de gado groffo & miudo de que ha criação fem conto: & affi ha muyta caça de montaria & dalte- naria, & de muyto pefcado & fruytas, & tudo tão barato que parece coufa impolTiuel, porque hú boy por grãde que feja não vai mais que duas tan- gas que pola nofla moeda fam feys vinteis, húa duzia de boas galinhas húa tanga, hú fardo darroz que fam tres alqueires dez rs, & affi ho mais. Fazfe em todo efte reyno muyto & bõ açúcar, & leuãno é fardos pera outras partes, & fazenfe muytas conferuas de gengibre, de que ha muyto & de fruytas defpinho & doutras. Crianfe também nefte reyno muytos caualos do tamanho de facas Dingraterra: nace geralmete por toda elta terra muyta pimenta longa, & grande forna dalgodão de que fe fazem muytas fortes de panos muyto delgados, hús brancos & outros pintados, & todo ho fiado de que fe tecem he fiado em roda. Metefie por efte reyno como difle no mar ho rio gãges por dous braços & da foz dú á do outro ha oytéta legoas: os getios defte reyno tem a fua agoa por fanta, a rezão diffo não a pude laber, vão todos a lauarfe nele, & affi doutras partes: & he húa das grandes romarias que ha antreles, & crem que lauandofe com a lua agoa ficão limpos de todos feus pecados* em tanto que a*el rey de Naríinga porq não fe pode lá ir lauar lhe traze cada fomana pola pofta hú barril dagoa & lauaffe coela. Ho nacimento dele não fe fabe onde he: eftão íituadas ao longo dele dúa parte & doutra muytas e muy fermofas cidades, principalmente húa que ff chama gouro que eftá por ele acima cé legoas do mar, & ferá de bé feytas quatro legoas de com¬ prido, .& a largura he pouca: he rafa porem muyto forte, porque de diãte a cerca ho ganges, & por detrás húa alagoa grande & funda que nadarão nela naos de quatrocentos toneis: & detrás defta alagoa vão grandes matas em que fe crião muytos alifantes, tigres, onças & outras alimarias brauas: & porque eftas matas fortalecem a cidade não querem os reys de Bcgala que fe cortem, & por iflò fam muyto baftas. Ha nelas muytos & nobres edifícios, affi de mezquitas como de cafas de fenhores que andão na corte del rey de Bengala, que aqui tem feu affento em hús fumptuofos paffos q fam tamanhos como a cidade Deuora, as cafas fam terreas lauradas douro & dazul, & tem muytos pátios e jardins, & muyto abaftada de mãtimentos. He pouoada de mouros & de gentios, & morão nela muytos eftrangeiros, affi Perfianos como Coraçones, Rumes & Abe¬ xins, q vindo ali ter cõ fuas mercadorias fe deixarão ficar vendo a grof- lura da terra. Os Bégalas fam homés bé apeíToados, difcretos & muyto falfos: as molheres fam fermofas, & affi hús como os outros fe tratã muyto limpaméte em feu veftido, & fam muyto dados a comer bem & a
Livro IV, Capitolo XXXVIII 441 beber, & a outros vicios, & feruenfe nobremente, & os mais dos ferui- dores fam capados por amor das molheres de que fam muy ciofos, & pera lhe oulharem por fuas fazendas. Ha em Bengala muytas outras cida¬ des, affi polo fertão, como ao longo do ganges q aqui eítreita mais que em outras partes: & do gouro a vlte legoas polo ganges acima acaba ho reyno de Bengala em húa fortaleza chamada Gori que eltá da banda da¬ lém: & dizem os mouros q ainda dali a cem legoas fe nauega elte rio. Na coíta do mar não té elte reyno mais que dous portos em duas cida¬ des húa chamada Chetigão vinte legoas dúa das fozes do ganges: & neíte porto fe carregão & defcarregão principalméte as mercadorias que vé doutras partes a Bégala & de Bégala pera outros reynos: & a alfandega deita cidade rede muyto a el rey de Bengala: ho outro porto fe chama Sategao na outra foz do gãges oytenta legoas por mar de Chetigão, mas não he de tamanho trato nem a fua alfandega não rende tanto como eítoutra. El rey de Bengala he mouro & ferueífe com grãde eítado & muyta policia, & por eltado te tres generos de muficas, a do feu reyno, de Narfinga & de Cambaya, & de todos tem muytos muficos, & té hú cantor mór q tem doze mil cruzados de renda. Das portas a détro fe ferue com capados que por tempo faz grandes íenhores & gouernadores de cidades q na lingoa da terra fe chamão lafcares: no betele q come lhe lanção canfora de borneo, de q vai na índia a. cincoéta cruzados ho arra- tel, & delta cãfora que vay no cufpo que ele cofpe em hú cofpidor douro té ho feu camareyro dous mil cruzados de réda. He muyto mais rico de tefouro q nenhú rey da índia, & muyto poderofo de géte, affi de caualo como de pé, & por iffo lhe obedecé & pagão pareas algús reys & fenho- res feus vezinhos, & por ele fer mouro muytos gétios do reyno fe torna¬ rão mouros. CAPITOLO .XXXVIII. De como dom Iodo da filueira aportou na cidade de Chetigão, & do q lhe aconteceo. DEspois de dom Ioão da filueira partir de Maldiua pera Bengala foy aferrar fua colta a noue dias de Mayo de mil & quinhétos & de- zoyto, em q furgio na barra da cidade de Chetigão: muyto abaf- tada dagoa, tanto q por cada rua corre hú ribeiro & ferueífe por pontes, as cafas terreas & de taipa cubertas dela. Cidade de grande trato por auer nela muytos mercadores & todos ricos, & por iflo fe tratão muyto bé: & he gouernada por hú gouernador a q os da terra chamã lafcar, & he vaffalo del rey de Bengala. E fabendo ele q o capitão mór eltaua na
44* Hijloria da índia barra cõ medo de lhe fazer mal por fe achar defapercebido pera fe de¬ fender, lhe mandou pedir paz cõ hú prefente de refrefco. Ao q ho capi¬ tão refpõdeo q era contente de lhe dar paz, & por eftar doente fe não via logo coele pera a affentarÕ do modo q auia de fer, q como fe achalTe melhor fe verião & a affentarião. E fabcdo ho Lafcar q tinha efpaço pera fe fortalecer, fortaleceofe logo cÕ húa tranqueira de duas faces q mandou fazer diante do porto Õtulhada darea, & artilhada cõ algúas bombardas roqueiras cõ determinação de fe defender dos nofTos. E mandandolhe ho capitão mór dizer q lhe mandaífe veder algús mãtimÕtos. Refpondeo q os não auia na terra. O q ele tendo a mao final por faber q toda Ben¬ gala era muy abaftada deles, não quis gaftar mais tõpo, & mandou tomar perTriftão barbudo húa champana q eftaua furta no porto carregada dar- roz, q era dú Chatim da mefma cidade, & aos brados q derão os que eftauão na champana acodio groífa gete darmas da cidade á praya, & começarão de tirar frechadas aos noffos q leuauão a Chãpana, que vedo tanta gete junta deteueranfe tirandolhe bombardadas. E como fe a coufa alli trauou mandou dom Ioão em focorro de Triftão barbudo ho feu ba¬ tel cõ gente & artelharia, & affi Ioão fidalgo na fua galeota, & cõ fua vinda fe ateou a peleja de maneyra q durou ate noyte fem dos noffos morrer nenhú & dos immigos muy tos. Do q ho Lafcar ficou tão menen- corio q determinou de fe vingar, & logo aqla noyte mãdou fazer preftes cÕ calaluzes que tinha, & antemanhaã fe êbarcou neles cõ fua gete q feria obra de cinco mil homÕs os mais deles frecheiros. E fabõdo dõ Ioão ho apercebimêto dos Imigos por fuas efpias, apercebeofe tambÕ pera ho dia feguinte, & fez embarcar a mór parte de fua gete nos bateys do feu na- uio & da carauela, & no bargantim, & na galeota: & mãdou a Ioão fidalgo q vindo os Imigos foffe pelejar coeles leuando efta gete q ferião cõto & cincoeta homÕs portuguefes, & ele auia de ficar no nauio & na galeota pera lhe dar coftas & fazer tirar cõ a artelharia auõdo diffo ne- ceffidade: porq dali lhe auia de dar muyto mór ajuda q indo coeles á peleja. E como os noffos eftauão preftes pera receber os Imigos, em os võdo abalar ja menhaã clara lhe fayrão tirandolhe a galeota, & ho bar- gãtim q hião diãte muytas bõbardadas, & affi a capitaina & a carauela, & como os Imigos vinhão muyto jútos começão os tiros de dar por eles & fazerlhe algú dãno de que eles começarão dauer medo, & mais por não leuare artelharia que não tinhão outra fe não a q ficaua na tran¬ queira, que pofto q jugaua não fazia nenhú nojo aos noffos, q de cada vez lho fazião mayor, arrõbandolhe algús calaluzes dos diãteiros. E pa- recõdo ao Lafcar que por efta caufa os q hião diante auerião medo man¬ dou os mudar pera tras, & ele pos fe na diãteira cõ os trafeiros, & eftes
Livro IV, Capitolo XXXVIII 443 como vinhao de nouo, & cõ ho Lafcar q os esforçaua perfiarão hú pedaço por aferrar os noffos, fofrendo ho impeto da noffa artelharia q fez neles affaz de dano: & os noffos q bé ho vião não os deixauão aferrar, porq pera quantos os Imigos erão irlhes hia muyto mal fe os abalrroaffem, & por iffo ho não confentirão defparãdo fempre fua artelharia em roda viua: & rÕpcdo por antreles muytas vezes de q lhe arrombarão muytos cala- luzes, & lhe matarão & ferirão muyta gete, cõ o q defmayarão, de ma- neyra q por mais que ho Lafcar os esforçaua núca os pode ter & fugirão pera terra, & os noffos os não quiferã feguir por feré tãtos & eles tão poucos, & cõtétaranfe cõ 0 que tinhão feyto & cõ lhe tomaré cinco cala- luzes. E vedo ho Lafcar q os noffos ho não feguirão deixoufe eílar no mar pera ver o q mais fazião & eles não fizerão mais q tornarfe pera ho capitão mór, q lhe fez muita fefta por fua vitoria, & acrecentou fua ar¬ mada cõ os cinco calaluzes dos Imigos: & vedo ele q fe trauaua a guerra na quis eftar tão perto da cidade, receãdo que lhe pofeffem de noyte fogo á frota, & determinado de ir poufar júto dú ilheo q fe fazia ao mar mea legoa da cidade, mandou lá Ioão fidalgo na fua galeota a fondalo pera ver le tinhão bõ furgidouro. E ho Lafcar q ainda eftaua no mar vedo apartar a galeota da outra frota, defpois q vio pera Õde hia pareceolhe q a poderia tomar porq fazia calma, & nã lhe poderião focorrer a capi- taina ne a carauela, & esforçãdofe nifto & nos feus remeiros q remarião rijo, vedo q a galeota era quafi pegada cõ ho ilheo, arrãca do porto cõ toda fua frota a boga arrãcada, dãdo os feus húa grita cõ prazer de lhe parecer q tinhão a galeota tomada. O q vedo ho capitão mór mãdou logo ho bargãtl & os dous bateys a focorrela, a q os Imigos por ferem muy¬ tos é demafia apertarão tãto q por mais bõbardadas né efpingardadas q os noffos, tirarão não deixarão de chegar á galeota, étão fe feruirã os noffos dalgúas panelas de poluora q tinha mas forão tão poucas que logo fe gaftarão: & os Imigos os étrarão, pofto que fobrifto foy húa afpera pe¬ leja em que os noffos ho fizerão muy esforçadamente, derribando muytos dos Imigos: q como erão demafiadamente mais que os noffos os entrarão ferindo os todos de muytas frechadas. E durando affi a peleja, & eítando os immigos hús pelejando com os noffos & outros pegados cõ ho leme da galeota, & atoandoa pera a leuarem á cidade, pofto q os noffos pele- jauão chega Triftão barbudo & os bateis & rompem pelos Imigos como corifco, principalméte Triftão barbudo que chegou primeyro, defparando fua artelharia & lançãdo os feus muytas panelas de poluora q leuauão nos calaluzes dos Imigos que logo começauão de arder, & os Imigos com medo fe lançauão ao mar: & coefte ardil em muy pouco elpaço foy a ga¬ leota defapreffada dos Imigos que a tinhão cercada, & como Ioão fidalgo
444 Hijloria da índia & os feus ficarão fomente CÕ os immigos que eftauão dentro na galeota fogo os fizerao defpejar, que todos fe lançarão ao mar com medo, & ela ficou chea doutros muytos q os noíTos matarão: & aprouue a noffo fenhor
Livro IV, Capitolo XXXIX 445 rão ao mar & faluarãfe na terra que era perto. E fendo efta defpejada tornoufe Gafpar fernandez ao batel com os outros & remete a lanchara q vinha parele: & poré os mouros não oufarão defperar & forão varar em terra dõde forão as frechadas tantas fobre Gafpar Fernãdez & feus cõpanheiros que os tratarão muyto mal de feridas, & porque lhe não po- dião chegar virarão fobre as tres a que Triftão barbudo tiraua ás bõbar- dadas. E os mouros como virão que ho batel hia contreles tendo ja deí- baratadas as outras duas lancharas fugirão ho mais que poderão, & Gafpar fernandez as não feguio por eftar muyto mal ferido de húa fre¬ chada em húa perna q não fe podia ter, & aíli os outros també, de que morreo hú filho do mefmo Gafpar fernandez, que com a ajuda de nolfo fenhor foy 0 que defbaratou as lancharas com feus cõpanheiros, fem Triftão barbudo ter que fazer, pofto que fua vontade foy boa pera ho ajudar. E defbaratadas as lancharas fe forão pera dom Ioão a cuja vifta fe fez efte feyto, & a quem Gafpar fernandez leuou a lãchara que tomou. E proffeguindo ho inuerno por diante foy a agoa tanta que choueo que apodreceo toda a enxarcia dos nauios da armada, & dom Ioão com toda fua gente padou muyto má vida, alfi cõ a grãde inuernada como com fome: & vendo a frota fem enxarcia & que não podia nauegar mandou em húa aldea de pefcadores que eftaua hi perto tomar quãtas redes tinhão, & delas mandou fazer em terra cordas pera as enxarcias. E eftando nifto veyo ho Lafcar com muyta géte pera ho eftoruar, & ouue húa muyto grande peleja antreles & os noífos. E defpois difto tornou a auer paz antre ho Lafcar & dom Ioão, de q fe ele não fiou fem lhe o Laf¬ car dar arrefés, & étregue deles fe tornou ao porto õde ainda efteue quinze dias fazendo fazéda. CAPITOLO .XXXIX. Como vedo ho Lafcar de Chetigão q não podia tomar ho capitão mór lhe armou húa treição, & de como ho nojfo fenhor liurou dela. Enefte tempo que era ja no cabo do inuerno lhe chegou hú ébaixa- dor q dizia fer do fenor da cidade Darracão, & da fua parte lhe deu hú rubi que defpois foy aualiado em feyfcétos cruzados, & quatro paraós carregados de mantimentos, dizédolhe da parte do fenhor Darracão, que pola fama que tinha del rey de Portugal defejaua de ter amizade coele & que teueffe trato em fua terra. E fabendo ele que eftaua naquele porto, lhe mandaua pedir que quifeffe ir ao feu, onde acharia mais verdadeyra amizade que naquele, porque a géte daquela terra on-
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Livro IV, Capitolo XLI 447 dos feus, & não teue outro remedio fe não cortar as amarras com que eftaua furto, & com ho vento que ventaua acolheofe fem os immigos ho poderem alcançar, & dali fe foy & andou por outras muytas partes em que lhe matarão algús homés & catiuarão outros fem fazer nenhúa prefa, & por derradeyro tornoufe á índia onde gouernaua Diogo lopez de fe- queyra que lhe perdoou. CAPITOLO .XL. De como Iorge mazcarenhas foy a terra dos Lequios & do que lá pajfou. DEspois de Fernão perez eftar em Cantão foube que paffada a cidade de Cãtão hia húa terra muy grande ao fuefte q fe chamaua Le- quia: terra muyto rica douro & de prata, fedas foi tas & tecidas, porcelanas & outras mercadorias como na China: & por iífo auia lá gran¬ des mercadores. E pera faber fe era affi mandou laa Iorge mazcarenhas que foy ter a hua cidade chamada Chincheo, em que lhe pareceo que auia mais rica gente que em Cantão, & que vfauão de mais policia, & foube que dali hião cadãno quatro jungos a Malaca antes q fofle del rey de Portugal carregados douro & de prata em barras, & cõ outras mer¬ cadorias mais ricas q a da China, & trazião em retorno mercadorias da índia, & com medo dos noffos não forao laa mais: & dos Chins fe pro- uião das taes mercadorias, & por iífo cõprarão bem as que Iorge mazca¬ renhas leuaua, & ele os prouocou a dizerem que hirião dali por diante a Malaca. Mas não ho fizerão defpois afíi, porem em quãto ali efteue achou muyta amizade & boa cõuerfação na gente daquela terra, que he getia & alua & toda fermofa, & irataffe muyto bem. CAPITOLO .XLI. De corno fabendo ho capitão mór Fernão pere\ ho aperto em que ejlaua Malaca fe partio da ilha da veniaga, & de como chegou a Malaca. DEspois de partido Iorge mazcarenhas pera Lequía, chegou de Ma¬ laca á ilha da veniaga ho jugo de Iorge aluarez que deu recado ao capitão mór de como a fua partida chegara a Malaca dõ Aleixo de menefes cõ Afonfo lopez da cofta & ao q hia: & q Malaca ficaua apreífada del rey de Bintão por eftar no pago & trazer no mar grãde armada. E por ho capitão mór faber como ficaua Malaca, & a neceflidade
44& Hiftoria da índia que tinha de (ocorro, determinou de fe partir na entrada do mes de Se- tébro por fer etão a própria moução, porque no meyo auia grandes tem- poraes & çarraçoes: & também porque a efte tempo era ja chegado recado del rey da China que foíTe ho embaixador. Affi que por tudo ifto determinou ho capitão de fe partir pera Malaca, pera o que mandou por terra recado a Iorge mazcarenhas que eftaua na cidade de Chincheo que fe foffe á ilha da veniaga como foy: & ele vindo mandou ho capitão mór recado ao Tutão de Cantão como fe partia, encomédãdolhe muyto ho em¬ baixador q hi ficaua de caminho pera elrey da China. E ficando affi affen- tada a paz na China, & fabidas polo capitão mór muy miudamente as coufas dela pera as contar a el rey de Portugal que por iffo fe deteue quatorze mefes naquela terra, partiofe pera Malaca, na entrada de Se¬ tembro de dezoyto, leuando muyta riqza affi douro como doutras coufas, que todos os da armada hião grandemente ricos. E chegado ao eftreito de Cincapura achou hi húa nao noífa de q era capitão Diogo pacheco que dom Aleixo mandara ali darmada, pera que efperaffe Fernão perez & fe ajuntaffe coele pera ho ajudar fe lhe faifie a armada del rey de Bintao, porque fe temia que viefe defapercebido de gente & dartelharia. E ajun- tandofe Fernão perez co Diogo pacheco foyfe a Malaca, onde chegou eítando a fortaleza e muyta neceffidade, affi de mãtimentos como de di¬ nheiro & mercadorias que não auia nela coufa algúa: & Fernão perez deu deffas mercadorias q trazia .f. feda folta, damalcos, cetins, pedra- hume, cobre, pregadura, & outras coufas que em Malaca tinhão muyta valia, & logo fe venderão muytas delas a Guzarates, que eftauão em fuas naos no porto de Malaca, & do dinheiro que derão por elas fe pagou foldo á gente que coiffo fe remio em algúa maneyra da fome q padecia, & dali quifera Fernão perez ir a Bégala pera aífentar lá paz & trato como trazia por prouifam del rey de Portugal, vifto como em Malaca não auia neceffidade dele por auer hi géte que abaftaffe. E não foy por dom Aleixo lho defender por húa prouifam do gouernador, dizédo que era mais fer- uiço de fua alteza irfe dereyto á índia, & ifto por ter dada aquela ida a dom Ioão da íilueira feu fobrinho que lá foi como difle. E fabendo Fer¬ não perez como não auia dir a Bengalá, entregou a mercadoria que leuaua pera lá na feytoria de Malaca que fe vendeo aos Bengalas q ali vinhão naquele tepo, & coifto ouue dinheiro na feytoria por hús dias, & Fernão perez efperou em Malaca pola moução pera fe ir á índia com dom Aleixo.
Livro IV, Capitolo XLII 449 CAPITOLO .XLII. De como lio governador fe partio pera a ilha de Ceilão a fa^cr Ima fortaleza: & de como mouros de Calicut acõfelharão a elrey de Ceilão que llie não dejje fortaleza. HO gouernador como diffe inuernou em Cochim efte anno de de- zoyto, & nele fez preftes fua armada pera no verão feguinte ir fazer húa fortaleza á ilha de Ceilão como lhe el rey mãdaua em feu regimêto: & nefte inuerno mandou por terra ao capitão de Goa que na fim Dagofto mandaííe a Cochim a feu irmão dom Fernando monrroi com as oyto furtas de Goa pera ir coele a Ceilão. E tédo tudo preftes & prouida a fortaleza de Cochim fe partio pera Ceilão quafi meado Setê- bro. E aprefioufe tato a partir porque não chegaffe antes de lua partida Diogo lopez de fequeyra que efperaua que forte aquele anno por gouer¬ nador da índia, & fe foífe antes de fua partida ficaua ele cõ feu trabalho perdido. Afli q partindo como digo foy ele em húa galé de que era capi¬ tão Denis fernãdez de melo: & a fora efta galé hião outras quatro, de que hião por capitães Chriftouão de foufa, Gafpar da filua, Antonio de mirada dazeuedo, Manuel de lacerda, Lopo de brito & dom Fernando mÕrroi com fuas oyto furtas q hião debaixo de fua capitania, & afti leuaua mais outros capitães cujos nomes não pude faber nc ho numero dos nauios da armada, q leuaua doytocentos ate nouecentos homés todos Portugue- fes q não queria outros pera a guerra. E paffados quatro ou cinco dias q partio de Cochim, chegou a Ceilão com toda a frota: & indo pera tomar ho porto de Columbo fobreveolhe vento ponteiro, & por não querer pai¬ rar errou ho porto de Colúbo & foy aferrar ho de Gale, õde em outro tempo fora ter dõ Lourenço dalmeida como ja diffe, & nefte porto fe de- teue hú mes & meyo por amor do tempo que não terçaua pera poder ir a Columbo, & em todos eftes dias efteue fempre no mar, & dos noffos capitães layrão muytos em terra a fazer a carnajem. E andãdo hú dia Antonio de miranda & Manuel de lacerda em terra, fobreueo muyta gente armada & cometeo os noffos que fe poferão em fom de pelejar coeles, mas eles fe retirarão logo, & os noffos fe ajuntarão que andauão efpalha- dos & fe cõcertarão, & Manuel de lacerda fe pos diãte, & Antonio de mi¬ randa de tras, & coefta ordem fe forão ébarcar feguindo os immigos apos eles & os noffos fazião muytas voltas pera os fazer deter, & affi fe em¬ barcarão fem nenhú perigo. Defla maneyra efteue nefte porto ate que concertou ho tempo com que fe foy a Columbo, & furgindo aqui mandou 57 Tomo II
Hijloria da índia 45o recadcr a el rey dizendolhe da parte delrey de Portugal feu fenhor que polá amizade que tinhão auia dias, lhe rogaua muyto que lhe deixaffe fazer húa fortaleza em húa pota q tinha aquele porto, & não pera mais que pera ter fegúra húa feytoria que ali tinha determinado de affentar pera proueito dambos de dous, & pera ter gente com que ho ajudafle quando teueffe dela neceffidade, & a fegurança da feytoria não a queria dele nem de feus vaflãlos os q erão gétios, que bem fabia que todos erão muyto leaes & verdadeyros, fe não por amor dos mouros que erão im- migos dos noffos, & como tratauão em fua terra receaua que fizeffem o que fizerão em Calicut: & por efta caufa queria a fortaleza. Ao que el refpondeo que era contente. E nefte tempo eftauão em Columbo algús mouros de Calicut, & fabédo como el rey concedia a fortaleza ficarão muy agaftados vendo que de todo lhe cortauão as raizes nos melhores portos q auia na índia pera feus tratos, porque bé fabião da fortaleza q fe fazia em Coulão: & por ifto fe ajuntarão algús deffes principaes, & diflelhe hú deles. A amizade q ha tãto tempo que temos contigo, & a grande obriga¬ ção que fabes em que te fomos por boas obras que nos fizefte, nos da ou- fadia pera te reprender do q nos dizem que tés feyto, & pera te aconfe- lhar fe ainda podes tomar confelho: porque efte bem podes crer que to daremos bÕ polas caufas q digo. E efpantamonos muyto de nolo não pe¬ dires antes de conceder a fortaleza aos frangues que nos dizem que con- cedefle, o que não podemos crer pola p^uca neceffidade q tés dilfo ou nenhúa: porque fe tu foras hú reyzinho tãò pobre que ouueras denrrique- cer com a amizade dos frangues, nos mefmos foramos de parecer que os conuidaras com a fortaleza, & não q efperaras que ta pedirão: mas tu es tão grãde fenhor de terra, tão poderofo de gente, tão rico de tefouros que te não falta nada pera feres hú muyto grãde fenhor, muyto rico & muyto poderofo. E tudo ifto queres efcurecer & apagar com dar licença q gente eftrangeira tenha fortaleza é tua terra, que não he outra coufa fe não hú freo para te enfrearem de cada vez que teverem de ti defgofto, & mais os frangues de que temos tãta experiécia que ho fazem adi: que ja que fe eles querem affentar em tua terra hão deitar á tua võtade & não tu á fua, porque? qué ganha mais niffo tu ou eles: tu fem eles muyto bem podes vender tua mercadoria a tantos & tão diuerfos mercadores como ta cada dia vem bufcar, & eles não te trazé outra & té neceffidade da tua, nem podem viuer fem ela, & tu fem a fua: & ainda fe de tua terra ouuera nauegação pera outras & temeras que te tomaffem tuas naos cÕ que eles ameação a muytos, també por efta caufa parecera bem dares lhe fortaleza por te liurares de fuas mãos, mas não tendo nenhúa neceffidade
Livro IV, Capitolo XL1II 4S1 por húa via nc por outra de te meteres nelas & fazerelo es muyto de cul¬ par, & q digas que tomas exemplo em el rey de Calicut que lhe quis re- fiftir & nã pode, faze tu como ele fez, porque ja pode fer que te terce' melhor a vétura que a ele, & fendo afli ficas ho mais honrrado rey de toda a índia acabando aquilo em q muytos principaes dela faltarão, & não fendo não feras de culpar pois fizefte o q podefte: nem perdes nada, porq tua própria terra te da a renda que tés, & não ho mar como a el rey de Calicut, & os frangues não podé viuer fem tf, & tanto ás de ga¬ nhar coeles por paz como por guerra, antes em a tentares coeles pera te liurar de fujeição te terão em melhor conta, por iífo não lhe des forta¬ leza tão leucmente, & defendelhe a defembarcação, que tcs gente & po¬ der pera iífo, & nos te ajudaremos. E le os frãgues querem o que ha em tua terra venhão carregar a ela como fazem os outros mercadores, & não ta tomé com nome de tratar nela, porq nenhú dos que nela tratão te pe¬ dirão nunca fortaleza. Coifto q os mouros diflerão a el rey o perluadirão tanto que fe arrepédeo de dar a fortaleza, & fizeranlhe quebrar a paz: & tédo affentado de ho fazer afli andando ainda recados antrele & ho go- uernador pera fe afientar onde fe auia de fazer a fortaleza, mandou lan¬ çar mão dalgús noffos que forão a terra defla gente baixa, & mãdou os prender. CAPITOLO .XL111. De como ho gouernador fay0 em terra & desbaratou os ímigos & fe fortaleceo nela, & de como lhe el rey pedio pa\ & ele começou a for¬ taleza. Etãto que forão prefos como el rey tinha fua gente junta, & tudo preftes pera a guerra mãdou na noyte feguinte fazer na ponta que ho gouernador pedia hús valados que feruião de tranqueira, e lo- breles mandou aflentar algúas bombardas de ferro que lhe derão os mou¬ ros, & afli algús elpingardões & pos fua gente que era muvta em goarda daqueles valos, & os mouros coeles, & amanhecendo começarão de tirar coelfas bombardas q tinhão aos noffos q eftauão no mar. E fabido iflo pelo gouernador_cõ cõfeiho dos capitães & fidalgos da frota, determinou de fayr em terra a pelejar com os immigos & tomarlhe a ponta por força, & fazer a fortaleza, & híí dia ãtemanhaã fe embarcou com toda fua géte nos bateys, & em amanhecendo abalou pera terra, onde defembarcou pri- meyro que todos cÕ a bãdeira real, & defpois gs outros capitães. Os im¬ migos ncfte tempo não fazião fe não jugar com fua artelharia, defenden- dofe muyto rijo, & ferirão & matarão algús dos noffos, & hum deles foy
452 Hi/toria da índia Veriflimo pacheco. E cÕ tudo os noITos paliarão auante tirando muytas efpingardadas & fétadas, & chegarão aos valos, & pelejarão com os im- migos que fe defenderão hú pouco cÕ muyta viueza, & apertados dos noflos defempararão os valos & fugirão fe nenhú concerto: & Chriftouão de foufa os feguio com a gente de fua capitania ate hú ribeiro dagoa que era hú pedaço dos valos fazendo neles muyta deftruyção, & palfando os immigos ho ribeiro fizerão rofto aos noflos, & por fer hú pouco longe dõde ficaua ho gouernador, não quis Chriftouão de foufa paliar dali & tornoufe pera õde ele ficaua. E chegando a ele lhe difle. A fenhor que trazeis aqui caualeyros que cõquiftarão ho múdo. E ele em vez de os lou- uar mais, refpondeo que pelejauão como beftas. E por fer ja tarde & ho lugar não fer forte, não pareceo ao gouernador que os noflos ficarião ali feguros aquela noyte, & por iflo fe tornou á frota cõ propoíito de tornar ao outro dia a terra como tornou com toda fua gente, & achando defpejada a ponta dos immigos mandou fazer nela húa trãqueira q chegaua de mar a mar por ela fer eftreita. E feyta a trãqueira breuemente foy logo aflen- tada algúa artelharia pera a defender dos immigos fe vieflem, & os noflos fe alojarão detrás defta tranqueira q ficauão goardados de todo perigo. E labido por elrey a determinação do gouernador que pois fazia tranqueira determinaua de fazer por força a fortaleza, arrependeofe de ter tomado ho coníelho dos mouros: & vendo que em que lhe pes fe aúia de fazer a fortaleza, quis moftrar q era por fua vontade, & polo feu regedor man¬ dou dizer ao gouernador q ele conhecia ho erro que fizera em quebrar a palaura que lhe dera de fazer paz coele & darlhe fortaleza. E arrepéden- dofe de feu erro lhe pedia perdão, & pedia q lhe efquecefle ho paliado & foífem amigos: & q ele era muy contente de confentir que fizefle a forta¬ leza, & pera iflo lhe daria toda ajuda de que teueiie neceflidade. Ao que ho gouernador refpõdeo que pois el rey lhe não goardara a palaura q lhe tinha dada que não auia de fazer paz coele fem pagar algú tributo a el¬ rey feu fenhor, porque a fortaleza ele ganhara por força a terra em que a auia de fazer ainda que ele não quifefle. E vendo el rey que ho gouer¬ nador eftaua apoderado na terra, & que lhe poderia fazer muvto mal por a fua gente não fer boa de guerra, mandoulhe dizer que pagaria ho tri¬ buto fe folie coufa arrezoada & com que podefle. E ele lhe pedio dez ali- fantes cadãno, & quatrocetos bahares de canela, & vinte aneis cõ fenhas pedras finas das q fe achauã na ilha, do que el rey foy contente. E feyta diífo húa efcriptura que el rey alfinou, começop ho gouernador de fazer a fortaleza de pedra & barro pola acabar mais afinha, porque era deteça fazerle cal parela, fe lhe ia chegãdo ho tempo em q fe auia dir pera Por¬ tugal fe vielfe gouernador como efperaua: & por ter el rey contente, &
Livro IV, Capitolo XL V 453 que fe lhe não leuantaífe outra vez madoulhe algús prefentes com q ho cõfirmou é fua amizade. CAPITOLO .XLIIII. De corno Diogo lope\ de fequeira partio pera a índia por governador dela, & de como chegou lá. NEste ano de mil & quinhétos & dezoyto em que fe acabauão tres annos q auia q Lopo foarez gouernaua a índia, mãdou elrey de Portugal por gouernador dela a Diogo lopez de fequeira feu almo- tacé mór, que como difle no liuro fegúdo fora defcobrir Malaca. E defpa- chado de todo ho neceffario pera fua partida, partio de Belem a vintefete de Março do fobre dito anno leuâdo húa armada de dez naos grofias, cujos capitães forão ele, Garcia de fá, Ruy de melo que leuaua a capita¬ nia de Goa, dom Ioão de lima que hia prouido da de Calicut, dom Aires da gama irmão do conde almirãte: por capitão de Cananor Gonçalo rodriguez Dalmada, Ioão gomez cheira dinheiro, Pedro paulo filho de Bertolameu, Pero cabreira & outro. E toda efta frota bem fornida darte- lharia & de boa gente de peleja, porque leuaua ho gouernador por regi¬ mento q fizelíe húa fortaleza em Diu, & que foffe defcobrir ho porto de Maçuá & leuaífe lá Mateus que dizia fer embaixador do Prefte: & achando que era verdade mandafie coele outro ébaixador ao Prefte pois Duarte galuão falecera. E partido ho gouernador de Belem, chegou a Moçambiq, & aos fete de Setébro á barra de Goa & fem vfar do officio de gouernador, fe partio indo correndo eflás fortalezas em que tão pouco não vfou dele, porque fabia que Lopo foarez tinha húa prouifam que go- uernaffe a índia ate partir pera Portugal, & por iffo não fe quis étreme- ter nas coufas da gouernança nem. poular na fortaleza: o que lhe todos louuarão muyto & ho teuerão por muyto humano. CAPITOLO .XLV. De como Afonfo lope\ da cofia foy cõ os outros capitães pera tomar a tranqueira de Muar & fe tornou fem ho fa\er, & dã ardil com que el rey de Bintão quifera tomar Malaca. CHegado Fernão perez a Malaca com fua armada, & não ceifando a guerra que el rey de Bintão fazia aos noífos requereo Afonfo lopez da cofta a dom Aleixo que tinha os poderes do gouernador, que pois ali eftauão juntos tantos dos noffos que foffe fobre a tranqueira de
4*4 Hijloria da índia Muar & a tomafle, pera que lançaffe el rey de Bintão donde eftaua & a noíTa fortaleza ficaífe liure da guerra que lhe fazia. E dom Aleixo moítrou hú regimento do gouernador em que lhe mandaua q ele em peffoa não faiffe em terra a fazer guerra: porem que mandaria coele todos aqueles capitães que a folTe ele fazer. Pera o que fe logo aperceberão per mã- dado de dom Aleixo que ficou em goarda da fortaleza: & Afonfo lopez da cofta fe partio pera Muar hú dia de madrugada & hia em húa galeota, & hião coele Duarte de melo capitão mór do mar, Diogo pacheco, Pero de faria, Fernão perez dandrade, Simão dalcaçoua, lorge mazcarenhas & outros capitães em galeotas, lancharas, & em bateis todos artilhados & apadeffados, & leuão trezentos Portuguefes, & antreles cento & vinte fidalgos & caualeiros todos efcolhidos, & tres mil homés da terra: de que erão capitães ho Bêdara & ho Lafcar, & hia húa forna de gente pera fazer hú honrrado feyto. E indo adi chegarão a tiro de bombarda da for¬ taleza, & não poderão paffar dali por fer baixa mar de todo. Do que todos ficarão muyto triftes por irem muyto aluoroçados pera pelejarem cÕ os immigos com efperança em noffo fenhor que os defbaratarião. Afonfo lopez da cofia fe pos ê cõfelho cÕ aqles fidalgos & capitães & co ho Bêdara & Lafcar fobre o q faria, & difiêrão algús q feria bõ defem- barcar ali & ir,por terra ate a tranqira, & qos bateys foífem no mais q cÕ os remeiros & hú bombardeiro em cada hú pera poderem ir, & affi pelejarião com os immigos: o que ho Bendara & Lafcar contradifferão, dizendo que aquela terra era toda alagadiça dambas as bandas do rio, & os Malayos coítumauão muyto‘meter eílrepes vntados derua, & que affi lhe parecia que deuia deitar aquela, por iffo que não era íifo ir por terra, que ou auião dir abalrroar com a tranqueira ou fe auião de tornar. E coifto acordarão Afonfo lopez & os outros do confelho que efperaffem a maré, & coela irião aferrar a tranqueira, & entre tanto eftarião ás bom- bardadas com os immigos que lhe não auião de fazer nojo, polas arrom¬ badas que leuauão. E affi ho fizerão, & ás bombardadas começarão dúa parte & da outra, & algús dos noffos forão feridos que'morrerão defpois, & antreles foy hú fidalgo chamado Aluaro de foufa. E eftando nifto re- creceofe húa paixão antre Afonfo lopez da cofta & lorge mazcarenhas por onde fe defmanchou a determinação em que eftauão, & fem fazer mais nada fe tornarão pera a fortaleza, o que foy caufa dos immigos cobrarem mór coração contra os noffos, & os perfeguirem mais que dantes, & como a fua armada andaua fempre no mar não oufaua ninguém de tra¬ zer mantimentos a Malaca, pelo que veyo a fer a fome tamanha que coela & cõ ho muyto grãde trabalho da guerra começarão todos dadoecer, & não ficarão fãos mais que cento e vinte, & eftaua a fortaleza em grande
Livro IV, Capitolo XLV 455 perigo de fe perder fe el rey de Bintão fora fobrela, mas ele que ho não fabia, & parecendolhe que a não poderia tomar por guerra, aproueitoufe de feus ardis pera a tomar por manha. E pera faber que taes eftauão os noflos, porq não podia tomar lingoa que lho diffeffe mãdou feu embaixa¬ dor ao capitão fobre lhe cometer pazes: & pera mór diflimulação lhe mandou hú alifãte de prefente, a que mandou dar peçonha determinada que não duraffe mais de trinta dias, porque nefte termo efperaua daca- bar fua treição. E adi mandou pedir ao capitão que lhe mandaíTe feu em¬ baixador pera fe acabaré daífentar eftas pazes. E cuydãdo do Aleixo q ifto tudo era verdade polas moftras q via de fer afli, cõ confelho de todos aqles fidalgos & capitães q ali eftauão mãdou hú embaixador a el rey de Bintão cõ fota ébaixador, & deulhes inftrução dos capítulos das pazes. E chegado efte ébaixador a el rey de Bintão, efteue ele determinado de o matar & a quantos hião coele, & teue fobriflo cõfelho cõ os feus q lhe cõfelharão q o nã fizefle, porq fazédo o impederia dauer effeito o q linha ordenado pera tomar a nofla fortaleza, & por iflo o nã fez & fazédolhe muyta hõrra, & dãdolhe dadiuas muy ricas os tornou a mãdar a Malaca, cõcededolhe as pazes cõ quantas cõdições o ébaixador leuaua. E cuy- dando el rey que os noflos eftarião defcuydados, cofiados na paz que eftaua aífentada pos é obra fua treição, & logo defpois de poucos dias que ho noffo embaixador foy em Malaca mandou húa frota de fetenta lancharas bem fornidas de gente & dartelharia, em que hia por capitão mór hú que fendo regedor de Pacem matou ho rey q era noffo amigo & fe fez rey, & pera fe fegurar no reyno fe confederou com el rey de Bí- tão, & ho foy ajudar na guerra cõtra os noflos. E por terra mandou també el rey de Bintão muyta gente deitarfe em cilada fobre a fortaleza: o que pode fazer por a terra fer muyto cuberta daruoredo muy bafto, & de grãdes & altos heruaçais & fé nenhús caminhos, & por iffo fe a gente podia efconder fem fer vifta, & ainda q ho folie os da terra não ho auião de dizer, porque parecendolhe que os immigos eftauão dauantajem que- rião antes feguir a fua parte que a dos noflos.
456 Hijloria da Lídia CAPITOLO .XLVI. De como el rey de Bilão pos em execução hã ardil pera tomar a nojfa fortaleza, & de como os feus forão desbaratados pelos Portuguefes. POsta efta cilada acodirã os immigos por már, & húa manhaã muyto cedo fendo baixa mar chegarão á ilha das naos ondeftauão algús dos noffos, & adi nas naos que ali eftauã furtas: & aflí como os Imigos vinha auiados, de caminho defembarcarão muytos deles na ilha: & fupitamente derão fobre os noíTos q ainda dormião bé defcuyda- dos de tal vinda, por eftare cofiados nas pazes. E como os Imigos os tomarão de fupito poderão matar algús primeiro que entraffem c acordo de fe defender: o q os Imigos não efperarão, & recolheranfe logo. E em quanto ifto fizerão hús: outros fe chegarão ás nofTas naos & deitarão ne¬ las fogo, que por eftaré molhadas do orualho da noite paliada, & a me- nhaã fer muyto fria não pode pegar nelas mais q em algúas obras mor¬ tas. A grita da gente foy logo ouuida na cidade, donde não poderão acodir por fer baixa mar. E como ouue maré fayrão algús capitães nof¬ fos, fem ho capitão do már, com obra de quarenta homés em algúas lan¬ charas: & foranfe dereitos aos Imigos, que em os vedo abalar começa- ranfe de retirar pera ho mar, como q fugião: & ifto porq os noífos lhes parecia q erão a mór parte dos que eftauão na fortaleza: & os mais fãos, & q alargandofe eles ao mar fayrião os da cilada, & tomarião a fortaleza, & eles entre tãto tomarião a frota, & alíi ficarião fenhores de tudo. E porem os noffos pqrq vião que a frota dos Imigos era muy grande: & que no mar largo os cercarião & tratariã mal, por ferem poucos, não quiferão paífar auante: & tambê por fer tarde, & não terem ainda co¬ mido, & eftarem fracos. E vendo os immigos que os não feguião fizeranfe ao mar: & os noífos fe tornarão a Malaca, onde defembarcarão a tempo q os da cilada começauão de fayr pera tomar a fortaleza, & pera iíío vinhão todos ajuramentados, per juramento que fizerão a el rey de Bin- tão, que ou eles auião de tomar a fortaleza ou morrerem fobriífo todos, & pera fegurança de ho comprirem como lhe eles tinhão prometido, lhe deixarão luas molheres & filhos em penhor. E ja a efte tempo os noífos eraô faydos da fortaleza á pouoação dos da terra q eftaua alem da ponte, & repartiranfe polas-bocas das ruas, em q muyto de preíla affeftarão algús tiros dartelharia com q impedirão aos immigos que não chegalfem á fortaleza: & nifto chegarão os noífos que hião do mar, & ajuntaranfe coeles & teuerão os immigos que não paffaífem, & ajudauãnos os da
Livro IV, Capitolo XLVI 4^7 terra que 1'e ajuntarão logo coeles, & deixaranfe ali eftar porque vião q 1'e não afaftarião os ímigos como homes que todauia deterininauão de romper. E aífi era, porque efperauão por mais gente, que chegou aquela noyte cõ muytos alifantes, & cometerão a noffa tranqueira que eftaua daquela banda ao longo do mar: o que os nolTos virão por fazer luar muy claro, aífi os que eftauão em terra como outros que andauão em ba- teys armados ao longo da terra. E aífi hús como outros começarão de tirar com fua artelharia, que defparou nos alifantes que eftauão diante: que efpantados do eftrõdo das bombardadas & cõ medo delas fizerão volta muy rijo fem os feus ayos os poderem ter: & em voltando tomarão tão de fupito os que lhe ficauão detrás q derribarão muytos deles & os trilha¬ rão, & arrebentarão: paffando por cima deles, & ficauão tantos mortos & aleijados que era pafmo, & fe os noffos forão mais que poderão fair a eles matarão muytos fé conto, mas por lerem poucos não quiferão que faiflem, que eles bem fe conuidauão pera iífo. E coefta perda deixarão os immigos de cometer aquela vez os noffos, não porem que le afaftaffem de fua vifta, & fete dias com fuas noytes tornarão a cometer os noífos, que a tanto fe eftendia ho termo em que eles tinhão jurado a el Rey de Bintão que tomarião a nolia fortaleza, que todos quantos ali pelejauão tinhão ifto jurado. E os noffos ho fizerão tão esforçadamente ajudando os noffo fenhor q aqui fupria com fua milericordia, que fempre os fizerão afaftar, & por derradeyro fugir desbaratados ficando deles muytos mor¬ tos, & indo muytos feridos, & dos noffos não morreo nenhú. E não apro- ueitando nada efte ardil, tornoule el rey de Pacem muyto trifte pera el rey de Bintão: E por vingança ja que não podia empecer aos noífos em outra coula mandou matar alguus que eftauão tratando em Pacem, por onde fe foube que ele era leuantado. E porem el rey de Bintão não dei¬ xou por ifto de fazer guerra aos noffos & correrlhe com fua frota que con- tinuamente trazia por mar & daualhe alfaz de fadiga, & a mór era' dos mantimentos que lhes tolhia. Tomo 11 58
458 ' , Hijloria da Índia CAPITOLO .XLVII. De como Duarte de melo capitão mór do mar de Malaca foy com outros capitães fobre a trãqueyra de Muar & a tomou. E de como dom Aleixo mandou dom Trijlão de menefes a Maluco ajfentar amizade com os feus reys. EStando a coufa nefte eftado, deu noflò fenhor maneyra aos Portu- guefes pera tomarem efta tranqueyra de Muar, de que lhe fazião tanto dãno. E affi foy que nefte tcpo vinha da ilha Dajaoa hú grade lenhor Iao que com fua molher & caia hia morar a Malaca, parecendolhe que da hi trataria melhor q Dajaoa, & leuaua tres jugos carregados de fazenda & de feus efcrauos, que erão muytos & todos cafados: que aíli ho coftumão naquela terra como ja diffe. E em indo pera Malaca foy tomado da frota del rey de Bintão & ieuarãlho com fua molher, que por parecer bé a el rey de Bintão trabalhou por auer parte coela fé ho Iao fer diffo fabedor, & pera ficar coela mais á fua vontade lhe deu a capi¬ tania da frota que trazia contra Malaca, dandolhe efperança que ainda ho auia de deixar ir pera Malaca com fua cafa. E cuydando ho Iao que feria affi, aceitou a capitania & feruia a ho melhor q podia pera lhe ga¬ nhar a vontade que ho deixaffe ir. Do q el rey de Bintão eftaua bé fora por amor de fua molhar, & dilataualhe a licéça de dia em dia: o que en¬ tendendo ho Iao determinou de fugir pera Malaca, & fugio húa noyte do Pago õdeftaua com el rey de Bintão, & acolheofe em húas lancharas polo rio abaixo, & chegando á tranqueira que fe fechaua de noyte com portas chamou as goardas, & nomeãdole lhe abrirão, & ho deixarão ir cuydãdo que hia correr a Malaca como fazia outras vezes. E faido da tranqueira não tardou mea hora que chegarão certas lancharas que hião apos ele por mãdado del rey de Bintão que logo foube q era fugido, & por acha¬ rem que era ja fora da tranqueira ho não quiferão feguir, & ele não pa¬ rou ate Malaca & foyfe pera a noffa fortaleza, & deufe a conhecer ao capitão: dizédolhe a caula porque hia & contoulhe que a trãqueira não era tão forte com muyta parte da banda da terra como da banda dagoa, & que fe a cometefle por terra a tomaria, & que ele mefmo iria com a gente que foífe por terra, & que obrigaua a cabeça a tomarfe logo. O que foy pofto em confelho, em que algús diíTerão que aquilo parecia trei- ção das que el rey de Bintão coftumaua, & que fe fundaria em mandar gente ou tela em cilada como auia pouco que fizera pera tomarem a noffa fortaleza em quanto os Portuguefes foffem fobre a tranqueira, por-
Livro IV, Capitolo XLVII 4^9 que fabia que auião de ficar poucos, & pois eles erao tão doétes & os faos tão poucos, que feria muyto grande perigo repartilos é duas partes, q fe não deuia dir fobre a trãqueira fe nã goardarfe a fortaleza delrey q era o que mais importaua ate que a tranqueira fe podefie tomar fem pe¬ rigo: & outros dilferão que fe aquilo fora treição q ho Iao não oufara de vir com aquele ardil, porque tinha certo mataréno tanto q a treição fe entendeffc, & mais efiãdo ele em poder dos Portuguefes com que queria ir por terra a dar na trãqueira, que de neceflidade fe auia de tomar com ajuda de nolfo fenhor, porq doutra maneyra não podião fer liures do tra¬ balho q padecião, porque tomandoa, logo os Imigos fe auião de mudar pera outra parte como coítumauão, & não tinhão outra fe não ho pago que ja era mais longe, & lhe darião menos oprefiam, & mais que ja terião algú folego primeyro que os immigos lá affentaffem. E quanto ao perigo em que dizião q ficaua a fortaleza por fe a gente repartir que não irião fobre a tranqueira mais de cento & vlte dos nolfos, & os outros ficariã: que ainda q não foíTem todos fãos abaft^uão pera defcder as eftã- cias aos immigos, podo que vieíTem & ficaria húa lanchara efquipada pera que em vindo foliem chamar os que foffem fobre a tranqueira que por fer perto tornarião logo. E praticados eftes dous pareceres & bé exa¬ minados foy determinado que foífem fobre a tranqueira, porque fem a tomarem não fe podião defapreffar daquela guerra, & que não folfe lá ,mais que Duarte de melo com feus capitães que iria por mar com fef- fenta Portuguefes, & quinhentos frecheiros Malayos, & por terra iria hú fidalgo chamado Manuel falcão cõ outra tanta géte & iria coele ho Iao, & Afonfo lopez, dó AI eixo & os outros que lá forão da outra vez ficarião é goarda da fortaleza com ho refto da gente. Ifto adernado partiofe Duarte de melo indo ele em húa galé & leuaua hú batel grande cõ qua¬ tro falcões por bãda & hú tiro grolfo por proa pera aferrar a tranqueyra: & adi todos os outros capitães leuauão feus bateis & lancharas bem arti¬ lhados & com arrombadas, & por terra foy Manuel falcão cõ a géte que digo, & partirão vefpera de todos os fantios de noyte, a horas, que ao outro dia pela menhaã chegarão todos juntamente fobre a tranqueira, de que Duarte de melo defembarcou com fua géte obra de dous tiros de béfla, & mandou aos bombardeiros que a varejaffem dali com a artelha- ria, que tãbem começou de tirar cõ a fua aos Portuguefes, que né por ido deixarão de defembarcar & ajuntarfe com os outros q hião por terra, em que fe acharão com muyto trabalho & perigo por ela fer toda alaga¬ diça & chea deílrepes, & auer muvta lamá de grande chuua que fora na noyte padada, & ainda então auia algúa: & os nodos não tinhão por õde ir fe não por algúas veredas tão ellreitas que não podião ir fe não a fio,
46 o Hijloria da Lídia. & por iffo fe ferirão algús nos eftrepes de q morrerão por ferem erua- dos, & antreftes morreo ho Iao que hia cÕ Manuel falcão, que com quãto hú feu efcrauo ho leuaua ás cortas não deixou de fe eftrepar. Coefte tama¬ nho trabalho & perigo chegarão á traqueira rompedo per antre muytos pelouros q lhe dela tirauão, & dos primeyros q chegarão forão Manuel falcão, & Antonio lobo falcão feu fobrinho, & Manuel falcão foy logo ferido de húa bobardada q lhe efpedaçou húa perna, & cayo ao pé de húa palmeira quafi morto, & os noffos ficarão fem capitão, porque Duarte de melo ficaua com a fua géte detrás da de Manuel falcão q quando de- fembarcou ja ho achou diante, & por fer a terra tão apertada ficou detrás, & caindo Manuel falcão da manevra q digo, hú Ioão fernandez de San- tare efcriuão da nao de dó Aleixo que fe ali acertou difle a Diogo pa- checo q hi eftaua. Senòr pois ho capitão lie ferido, & vedes ho perigo em que eftamos façamos corpo couofco & day Santiago na tranqueira, porque fe tardarmos matarnos hão eftes tiros, & ele diffe q não queria tomar aqle cargo pois lho nã derão: pore q deífe Sãtiago & q pelejaria como lafcarim. E dizédo ifto ajútaranfe coele Manuel pacheco feu irmão, Antonio lobo falcão, Diogo brandão do Porto, Ioão guedez de Sãtaré, Ioão fernandez, & todos jútos na dianteira da outra gente remeterão á tranqueira com q ja os noffos nauios eftauão á bateria, & começoufe húa muyto braua & mui ferida peleja, porque dambas as partes erão os pe¬ louros tão baftos q fe não enxergaua nada cÕ ho fumo da artelharia, & as efpingardadas não tinhão coto, & as frechas, afli darco como de zara- uatanas cobriã ho ár, & ho chão cuberto de fangue dos feridos. E afli durou a peleja bé duas horas, porq os Imigos defendianfe como homês q querião antes morrer q perder ho lugar em q eftauão, & foubefe q du¬ rando afli ho cõflito da peleja, hú valete mouro chamado çançarná deraja difle ao feu capitão q da outra vez q os noffos vierão fobre a tranqueira q ele pelejara muyto valentemente, & q a ele capitão fe dera toda a hõrra & a ele não, q fe auia de fáluar é quãto tinha tempo & q ele morreria. E acabado de dizer ifto fugio, & parece q adiuinhou a morte do capitão, porque em pouco efpaço defpois de fua fugida foy morto de húa efpin- gardada q lhe tirou hú dos noffos chamado Gonçalo fernandez gancho, & ele morto os feus fe desbaratarão & fugirão, & a trãqueira ficou em poder dos noffos cõ grãde mortindade dos Imigos & antreles forão mor¬ tos quafi trezentos rajas que fam homes como antrenos cõdes ou outros fenhores de titulo q hião dar focorro a elrey de Bintão & forão catiuos muytos com hú filho del rey de Sião que hi eftaua também ajudando a el rey de Bintão. E defpois defte fer conhecido ho mandou ho capitão a feu pay que mandou por iffo hú júgo carregado de mantimentos com que
Livro IV, Capitolo XLVIII 461 fe os Portuguefes reílaurarão. E vendofe Duarte de melo com aquela vitoria feguio auante com propofito de ir ate ho Pago onde ellaua el rey de Bintão que era dali treze legoas, & deitalo fora, & a quatro ou cinco legoas pelo rio acima achou ho tão entulhado & atraueífadas nele tantas aruores que os immigos tinhão lançado a elte fim que nunca pode paliar, & por iffo fe tornou, & mandou deítruyr de todo aquela fortaleza em que achou feífenta tiros Õcepados & outras muytas armas. E coeíte defpojo & muyto grande vitoria fe tornou pera Malaca, onde foy recebido com grande folenidade. E com tudo el rey de Bintão não defiftio da guerra que fazia a Malaca, & fempre lhe corria fua armada que de cada vez era mais poderofa, & ele fez outra fortaleza no Pago õdeltaua: & dali fazião também por terra os faltos que dantes fazião. E defpois defta vito¬ ria de Muar ja em Dezembro defpachou dom Aleixo dom Trilião de me¬ neies, & mãdouho a Maluco no nauio Santiago em que Iorge mazcare- nhas viera da China, & deulhe cartas del rey de Portugal, & prefentes pera os reys das ilhas de Maluco que foífem feus amigos & lhe deixalfem ter trato em fuas terras pera auer ho crauo que lá auia. E defpachado dom Trilião partiofe dõ Aleixo pera a índia em Dezembro do anno de mil & quinhentos & dezoyto. CAPITOLO .XLVIII. Do que aconteceo em Malaca defpois da partida de dom Aleixo de menefes. Ecoele fe foy a mayor parte da gente que ellaua em Malaca por fabe- rem que ellaua muy efcandalizado Dafonfo lopez da coíla, que por fer de forte condição fe foltara em falar cõtrele algúas coufas em fua aufencia: o que ele fabia, & por iífo lhe não deu muyto da gête que fe foy coele. Do q pefou grãdemente a Afonfo lopez por quão pouca lhe ficaua ficãdo de guerra, & era tão pouca que por conto não chegauão a mais de fetenta Portuguefes. O que logo foube el rey de Bintão, & deter¬ minando de tomar a fortaleza & a noffa pouoação mandou cometer pazes a Afonfo lopez, & tão defapegadamente que fe gallarão algús dias fem auer cçcrufam, & os embaixadores delrey hião muytas vezes com embai¬ xada a Afonfo lopez q de cada vez que hião os mandaua faluar com a artelharia da fortaleza em que fe gallaua muyta poluora que defpois fez grande mingoa. E neítes dias delias embaixadas fez el rey mil & fete- centos homés, & por mar húa armada doytenta & cinco lancharas: & como quer que as embaixadas andauão fobre pazes parecia a Afonfo
462 Hijtoria da índia lopez que a coufa eftaua fegura. E efperando hu dia polo embaixador del rey de Bintão pera fe tomar concrufam nas pazes, ex q aparece na pró¬ pria manhaã a armada que digo cÕ quinhentos homés que derão logo no porto & poferao fogo a duas naos de mercadores que hi eftauão & a húa galé nofla defemmafteada fem lhe os noffos poderem acodir por fer a maré vazia & fem ela não poderem nadar os nolfos nauios pera irem ao porto. E eftando os noffos da banda do mar ouuirão húa grade grita no fertão da parte da noffa pouoação q eftá junto da fortaleza. E efta grita dauão mil & duzentos dos immigos que hião por terra cometer a cidade com muytos alifantes armados: & repartidos em duas partes auia de cometer húa a pouoação grande & outra a pequena que era a nofla, com que Afonfo lopez ficou muy agaflado por os noffos feré tão poucos como diffe: & por iffo & por não faber fe os da terra lhe terião ordenada algúa treição não oufaua de fayr da fortaleza em peffoa pera pelejar com os immigos que não lhe falecia esforço pera iffo: poíto q os feus erão poucos. E com tudo por moftrar aos immigos que os não temia, & que ho foubefle também a gente da terra, mandou a hú Fernão de lemos que com dez dos noffos fe foffe á entrada da ponte & acodifle á pouoação grãde, & a hú Frãcifco fogaça mandou que acodifle com doze pela parte da nofla pouoação, & afli hús como os outros cõ quanto virão a dema- fiada auantajem que lhe os immigos tinhão determinarão de pelejar coeles efperãdo que Afonfo lopez os focorreffe, & efperãnos com muyta oufadia, ajudando os també a gente da terra que logo acodirão ho Bédará & ho Lafcar cõ feus piães, & os Imigos fe forão emburilhar coeles ás frecha¬ das & azagayadas, & começoufe húa peleja muy trauada. E vendo Afonfo lopez como a géte da terra era em ajuda dos nolfos acodiolhe com a gente que lhe ficaua leuando diante dous berços encarretados com que fizerão muyto grande dãno nos immigos, matando muytos por andarem juntos, & coiffo os fizerão afaftar: & os noffos também fe retirarão obra dú tiro de pedra pera a fortaleza. E como nelle tempo começou dencher a maré, mandou Afonfo lopez a Duarte de melo capitão mór do mar que acodifle ao porto, & apagaffe hó fogo q andaua ateado nas naos, & deu- lhe trinta homés que fe repartirão por cinco lancharas & hú bragantim, hú batel grande de que erão capitães a fora Duarte de melo, Francifco fogaça, dom Rodrigo da filua, Diogo mendez, Fernão figueira, Carlos carualho, & Grauiel gago, & cõ tão pequena armada pera camanha era a dos immigos com a efperãça em noffo fenhor fe forão chegando a eles dãdo grandes gritas de prazer por parecer que os não temião. E chegando a tiro de berço começa de defparar a artelharia dú cabo & do outro, & acertou que em a lanchara de Grauiel gago tirãdo a primeyra bombar-
Livro IV, Capitolo XLV1II 463 dada fe lhe acedeo fogo na poluora com que abrio a lanchara & fe foy fupitamente ao fundo, & quantos ãdauão nela dos noífos fe afogarão por eftarem armados. E durado a peleja foy morto Diogo mendez capitão doutra lanchara de húa bombardada que lhe leuou a cabeça, & por der- radeyro os noífos ho fizerão tão esforçadamente que deitarão os immigos fora do porto, matando algús. E defacupado ho porto apagarão ho fogo que andaua nas naos & na galee. E aífi acabou a peleja daquele dia no mar & na terra, & com quanto os immigos fe retirarão não fe forão de todo, porq era fua determinação de tomar a fortaleza, & pofto que pola primeyra não leuaffem ho melhor dos noífos né por iffo ceífarã de fua emprefa, porq como erão muytos & os noífos poucos parecialhes q os vencerião por derradeyro, & que por poucos que mataífem os enfecarião. E por iífo os da terra aífétarão fuas eftãcias hú pedaço da cidade onde fe recolherão, & os do mar furgirão júto de húa ilha perto do porto a cuja fombra efteuerão: & como foy menhaã tornarão a cometer os noífos por mar & por terra, & pelejarão coeles ate as dez horas do dia que fe recolherão a fuas eftancias, & tornarã a pelejar da vefpera ate a noyte. E iíto fizerão dezafete dias continos em que derão muyto grande opreífam & trabalho aos noífos, q milagrofamete-faluou noífo fenor de ferem todos tomados fegundo andauão canfados, & feridos & defuelados de não dor¬ mir, porq vigiauão cÕ medo que os Imigos os não tomaífem, & de que fempre leuarão a vitoria pola piedade de noífo fenhor. E cuydando os immigos do mar q acabo de tanto tempo não eftarião os da noífa armada pera lhe refiítir, os quiferão aferrar, & acharão neles tão poderofa refif- tecia como fe aquele fora ho primeyro dia da peleja: & por iífo nã quife¬ rão mais brigas coeles, & fugirão que não tornarão mais, & ho mefmo fizerão os da terra, de que morrerão neftes dias muytos, q dos do mar acharão por conta que forão duzentos, & quinze q acharão foterrados na ilha em que fe acolhião, & dos noífos não morrerão mais de quinze é todas eítas pelejas. E com quanto el rey de Bintão foube quão pouco nojo os feus fizerão aos noífos nã defiftio da guerra, & foyfe aífentar em hú lugar q fe chamaua Pago donde a fazia de cada vez mayor affi por mar como por terra. Aqui faz fim ho quarto liuro da hifioria da índia. E feguefe ho quinto no tempo q a gouernou Diogo lopez de fequeira.
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TAVOADA DO LIVRO TERCEIRO. Capitolo i. De como dom Fernando couíinho mariclial de Portugal, determinou com ho gouernador Afonfo dalbuquerque, quefojfem fobre Calicti. E de como forão auifados da defpojição de Calicu. Pag. 5 Cap. ii. De como ho gouernador & ho mariclial partirão pera Calicu. E chegarpo lá: & de como o gouernador defembarcou primeiro & a caufa porque. 6 Cap. iii. Do que ho gouernador dijfe ao Mariclial, porque defembar- cara primeyro: & de como matarão ho Mariclial & os nojfos forão desbaratados. 9 Cap. iiu. Do danno que receberão os nojfos dos inimigos, & do que os immigos receberão deles, & do mais que pajfou. 14 Cap. v. Do que ho gouernador fe\ defpois que foy em Cochim. E de como fe perderã nos baixos de Padua Bajliã de foufa & Frãcifco de faa, indo pera Portugal. i5 Cap. vi. Do que aconteceo a Pedrafonfo daguiar na viagem, & de como chegou a Portugal. 16 Cap. vii. De como indo ho gouernador pera ho ejlreyto do mar roxo deixou a ida por faber que fa\ião Turcos húa armada na ilha de Goa. 17 Cap. viii. De como ejlâ fituada a cidade de Goa, cabeça do fenhorio do çabayo. 20 Cap. ix. De como ho gouernador chegou â barra de Goa, & de como dõ Antonio de noronha tomou os dous baluartes da barra. 22 Cap. x. De como ho gouernador fabêdo 0 que dom Antonio tinha feito entrou pera dentro de Pangim, & do recado que mandou á cidade. 23 Cap. xi. De como a cidade de Goa foy êtregue ao gouernador, & do q fe\ defpois dentrar nela. 25 Cap. xii. De como ho gouernador mãdou duas embaixadas, húa a el rey de Narfinga, outra a el rey de Vêgapor, pera fa\er amizade coeles. 27 Cap. xiii. De como fortalecendo ho gouernador a cidade de Goa ouue húa amotinaçã antre os nojfos, & por cujo confelho. 28 Cap. xiiii. De como Antão nogueira tomou húa nao de mouros no cabo Tomo II
466 Tavoada do liuiV terceiro. de Goardafum & de como leuando dó Afonfo de noronha pera a índia fe perdeo na cojla de Cambaya, & morreo dõ Afonfo, & os outros forão calinos. 3o Cap. xv. De como lio Hidalcão fe partio com grande exercito pera tomar Goa: & de como Timoja foy lançado das tanadarias da terra firme. 33 Cap. xvi. De como Pulatecão affentou arrayal fobre a ilha de Goa defronte de Benaflarí, & de algús recados q oiiue atrele & ho gouer- nador. 35 Cap. xvii. De como as jãgadas dos inimigos forão acabadas, & do mais que paffou antreles, & os noffos. Zq Cap. xviii. De como çufolari, & çufogogi capitães do Hidalcão entra¬ rão a ilha: & do que fi\erã nejla etrada Iorge da cunha, Francifco de foufa maneias, & Frãcifco pereyra coutinho. 38 Cap. xix. De como os mouros & gêtios da cidade fe leuantarão cõtra os noffos, & do que fi\erão Nuno va\ de cajlelo branco, & outros, & de como fabendo ho gouernador q a ilha era entrada fe recolheo â cidade. 41 Cap. xx. De como Pulatecã entrou na ilha de Goa com ho reflo da fua gente: & pos cerco à cidade: & do q ho gouernador fe\ defpoys diffo. 44 Cap. xxi. De como Pulatecão combateo a cidade, & da refijlencia que achou nos noffos. , 47 Cap. xxii. De hum auifo que deu Ioão machado ao gouernador da de- terminaçã dos inimigos, & do mais q defpois foy. 5o Cap. xxiii. De como Pulatecão cometeo cõcerto ao gouernador, que ele não quis, & de como ho Hidalcão chegou ao arrayal. 53 Cap. xxiiii. De como ho gouernador defpejou a cidade, & a caufa por¬ que. 55 Cap. xxv. De como fabendo ho gouernador que não podia fair da barra fem grande perigo, inuernou no rio de Pangim: & do que aconteceo a Fernão pere\ dandrade, & a dom Ioão de lima. 58 Cap. xxvi. De como ho gouernador foy cercado de ejlãcias dartelharia de todas as partes do rio, & do muyto grãde trabalho que os noffos paffauão, affi de fame como de guerra. 61 Cap. xxvii. De como ho gouernador deu na fortaleza de Pangim, & desbaratou Pulatecão, & ho fe\ fugir, & tomou a artelharia da for¬ taleza. 64 Cap. xxviii. De como ho Hidalcão cometeo ami\ade ao gouernador, & ele a não quis, & a caufa porque. 68
Tavoada do livro terceiro. 467 Cap. xxix. De como lio gouernador mandou enforcar híí caualeyro chamado Ruy dia\, & de como fe feguio por iffo prender certos ca¬ pitães. 70 Cap. xxx. De como ho gouernador fabendo que os inimigos auião de pelejar coele, mandou a dom Antonio que com outros capitães fojfe pelejar coeles: & fe percebio pera iffo. qi Cap. xxxi. De como dõ Antonio pelejou com çufolarim, & ho desbara¬ tou: & do que fizeram Simão dandrade, & Fernão pere\ dãdrade, & como dom Antonio foy ferido mortalmente. 75 Cap. xxxii. De como faleceo dõ Antonio, & de algús recados que ouue antre ho Hidalcão & ho gouernador fobre concerto, q não ouue cffeyto. 78 Cap. xxxiii. De como 0 gouernador mãdou os doêtes a Anjadiua, & de como ouue mãtimélos. 80 Cap. xxxiiii. De como I10 gouernador fe partio do rio de Pangim, & do perigo que paffou ao fayr da barra: & de como chegarão naos de Portugal. 82 Cap. xxxv. De como indo Francifco pantoja a Sacotorâ pera trazer dom Afonfo tomou a nao meri: & de como Duarte de lemos fe par¬ tio pera a índia. 84 Cap. xxxvi. Dalgúas coufas q fe fi\erão na cofia do Malabar ejlãdo ho gouernador em Cananor, & de como chegou Duarte de lemos a Ca- nanor, & forão foltos Simã dandrade & os outros. 86 Cap. xxxvii. De como foube Duarte de lemos q fe auia dir pera Portu¬ gal: & de como ho gouernador mãdou recado a el rey de Cambaya fobre os catiuos que tinha. 88 Cap. xxxviii. De como hu príncipe de Cochí que andaua leuãtado pedia ho reyno, & de como querendolho el rey de Cochim entregar foy contrariado polos nojfos. 90 Cap. xxxix. De como ho gouernador chegou a Cochim, & de como ne- nhã dos capitães da carreira quiferão ir a Goa com ho gouerna¬ dor. 93 Cap. xl. De como ho príncipe leuãtado quifera tornar a Cochí: & foy desbaratado per Nuno va\ de caflelo brãco, & per Lourenço mo¬ reno. 96 Cap. xli. De como ho gouernador partio pera a cidade de Goa. 98 Cap. xlii. De como ho gouernador tomou a cidade de Goa com grande dejlroição dos immigos. . 100 Cap. xliii. Do grande & rico defpojo que foy achado em Goa, & do mais que ho gouernador fe\. 106
Tavoada do livro terceiro. 4r>S Cap. xi.iiii. De como lio gouernador fe\ a fortaleza de Goa. E do q fi\erâo Feriião pere\ dandrade & Iorge botelho. 109 Cap. xlv. Do q Duarte de lemos fe\ em Cochim, & do que Francifco de faa & Manuel da cunha fi\erão em Cananor. 111 Cap. xlvi. De como el rey de Cãbaya mandou ao gouernador Diogo correa & Francifco pereyra de berredo. u3 Cap. xlvii. Dos embaixadores que os reys da índia mandarão ao go¬ uernador, & de como ho gouernador arredou as tanadarias da terra firme a Merlao liirmão del rey de Honor. 115 Cap. xlviii. De como ho gouernador mandou Diogo fernãde\ de beja a derribar a fortaleza de çacotorà: & do que ho gouernador pajfou com Diogo mende\ de vafconcelos. \ 18 Cap. xlix. De como querido Diogo mende\ de vafconcelos fugir pera Malacafoy prefo, & do mais q fe fe\. 122 Cap. l. De como indo ho gouernador pera ho mar roxo mudou fita ida pera Malaca. i25 Cap. li. Do que aconteceo ao gouernador indo caminho de Malaca, ate achar el rey de Pacern. 127 Cap. lii. Do cõcerto que ho gouernador fe\ com el rey de Pacê, & como chegou a Malaca. i3o Cap. liii. De como Ruy daraujo ailifou ho gouernador do que determi- naua el rey de Malaca, & do mais que fucedeo. i33 Cap. mu. De como Fernão pere\ dãdrade pos fogo â cidade, polo q elrey mãdou Ruy daraujo & os outros. i35 Cap. lv. Como vendo ho gouernador que el rey queria, guerra, affen- tou de dar na cidade. i3y Cap. lvi. Como ho gouernador comeleo a cidade, & ganhou a pote e fe tornou aa frota. i3g Cap. lvii. De como Timutaraja mãdou pedir feguro ao gouernador, & como ho gouernador mandou hum mejfegeiro a el rey de Sião. 143 Cap. lviii. De como ho gouernador fe apercebeo pera tornar a peleiar com os inimigos, & como affentou que ho fi\effe. 145 Cap. lix. De como ho gouernador desbaratado el rey de Malaca lhe tomou a cidade, & ho fe\ fugir dela. 149 Cap. lx. Do q ho gouernador fe\ em Malaca dejpois que a ganhou. E do que el rey fe\ defpois que a perdeo. i5i Cap. lxi. De como ho gouernador por apagar a moeda dos mouros mandou laurar moeda em Malaca & foy apregoada. 154 Cap. lxii. Em que fe efcreue ho grão reyno de Sião, & de como el rey de Sião mandou hum embaixador ao gouernador. i56
Tavoada do livro terceiro. 460 Cap. lxiii. Dos muytos êbaixadores que vierão ao gouernador dos reys comarcãos de Malaca. i5g Cap. lxiiii. De como Pulatecão êtroii hãa noyte na ilha de Goa: & da treição q ordenou aos nojfos. 161 Cap. lxv. De como ho capitão de Goa pelejou com os inimigos & os des¬ baratou: & como defpois foy morto. i63 Cap. lxvi. De como Pulatecão ajjentado [eu arrayal em Benajlarim hia correr á cidade, & como lhe os nojfos fayã. 167 Cap. lxvii. De como ho Hidalcão deu a conquifla de Goa a Roçalcão, & do engano que Roçalcão fe\ aos nojfos & deitou fora Pulatecão. 168 Cap. lxviii. De como cayo hu pedaço de muro da cidade, & do grande trabalho que os nojfos teuerão em ho defender. 170 Cap. lxvihi. De como polo grande trabalho q hia na cidade, algús dos nojfos fugirão pera os mouros. E de como Ioã machado fe foy pera os nojfos. 172 Cap. lxx. De como defpois de pajfado Ioão machado pera a cidade apertou Roçalcão mais ho cerco. E de como Frãcifco pereira de berredo foy por mantimentos, no que pajfou grande perigo. 175 Cap. lxxi. Do qfe\ Diogo fernãde\ de beja indo a Ormu\, & de como foy focorrida Goa dejpois que êtrou ho verão. 178 Cap. lxxii. De como Roçalcão acabou a forlale\a no pajfo de Benajla¬ rim, & do mais que fe fe\ em Goa. 181 Cap. lxxiii. De como ho gouernador foube a treição que Timuteraja ordenaua, & de como prêdeo a elle & a outros. 182 Cap. lxxiiii. De como Timutaraja & os outros forão degolados por tredores. i85 Cap. lxxv. De como foy Antonio dabreu a defcobrir a ilha das maças & a do crauo: ,& de como ho gouernador mandou hum embaixador a elrey de Sião. 186 Cap. lxxvi. De como fe leuãtou Patequatir, & de como ho gouernador proueo Malaca querendoje ir pera a índia, & de como lhe fugio el rey de Pacê. 188 Cap. lxxvii. De como os mercadores de Malaca confelharão ao gouer¬ nador que não fe fojfe, & do que lhes refpondeo. 191 Cap. lxxviii. De como nauegãdo ho gouernador pera a índia, fe per- deo a fia nao: & do q aconteceo a Simão dandrade. ig3 Cap. lxxix. De como ho gouernador chegou a Cocliim, & de como deu a capitania de Goa a Manuel de lacerda. 195 Cap. lxxx. Do q ho gouernador fe\ em Cocliim, & de como lul rey das ilhas de Maldiua fe fe\ vaffalo del rey de Portugal. 197
410 Tavoada do livro terceiro. Cap. lxxxi. De como os tmigos tomarão a barcaça, & os nojfos a tor¬ narão a tomar. 199 Cap. lxxxii. De como Fernã pere; tornou outra ve; a cometer Quate- patir, & a per da que recebeo. 201 Cap. lxxxiii. De como Fernão pere; foy bufcar ho Lafamane pera pe¬ lejar coele, & do /ocorro que chegou da índia. 2o3 Cap. lxxxiiii. De como Fernão pere; foy bufcar mantimêtos, & da fame q auia antre os immigos. 2o5 Cap. lxxxv. De como desbaratado Quatepatir por Fernã pere; fugio pera a ilha da Iaoa. 207' Cap. lxxxvi. De como Fernão pere; foy ao ejlreito de Cincapura, & de como Antonio dabreu tornou a Malaca. 209 Cap. lxxxvii. Do que paffou cm Goa, & de como foy morto Mêdafonfo de tangere em Benajlarim. 211 Cap. lxxxviii. Dos capitães móres da carga que chegarão a Cochim, & de como ho gouernador fe partio pera Goa. 212 Cap. lxxxix. Do q ho gouernador fe; em Cananor, & do q foube que de- terminaua ho Soldãol & ho Hidalcão acerca do focorro de Benajla¬ rim. 214 Cap. xc. De como ho gouernador chegou a Goa, & cercou por mar a fortaleza de Benajlarim & lhe deu bateria. 217 Cap. xci. De como lio gouernador fe tornou a Goa, & do que lhe acon- teceo com os mouros q liião a correr a cidade. 220 Cap. xcii. De como ho gouernador cercou a fortale\a por terra: & de como os mouros lhe derão rebate hGa noite. 222 Cap. xciii. De como Roçalcão fe; côcerto com ho gouernador pera lhe dar a fortale;a, 6 lhe foy entregue. 224 Cap. xciiii. Do que ho gouernador mandou di;er a Roçalcão, & da jujliça q fe; nos nojfos que fe lançarão cõ os mouros. 227 Cap. xcv. Do que ho gouernador fe; defpois que tomou a forlale;a de Benejlarim. 229 Cap. xcvi. De como ho gouernador foube q liíi embaixador do Pre/le pera el rey de Portugal ejlaua prefo ê Dabul, & quê foy ho Prejle & onde teue feu fenhorio. 232 Cap. xcvii. Do que de;ia a carta que a mãy do prejle mandou a el rey de Portugal, & do mais que paffou em Goa. 233 Cap. xcviii. Do que de;ia a carta q a mãy do prejle mandou a el rey de Portugal, & do mais que paffou em Goa. 2Íq Cap. xcix. Como dó Garcia foy fa;er a carrega a Cochí, & como Nã- beadari ajjentou coele pa;.
Ta voada do livro terceiro. 47i Cap. c. De como Patehonuç foy fobre Malaca, & do que os tioffòs fiçerã. 242 Cap. ci. De como os iiojjos começarão de pelejar com os Imigos, & por¬ que não acabarã. 244 Cap. cii. De como Patehonuç fem oufar de pelejar cõ Fernão pereç lhe fugio, & da dejlruyção que os nojjos fiçerã nele. 246 Cap. chi. De como lio gouernador dijje afeus capitães que auia dir a Adê, & de como fe partio. 251 Cap. ciiii. Do fitio da cidade Dadê & de fua nobreça, & de que fenho- rio he. 253 Cap. cv. De como lio gouernador furgio no porto Dadê, & fe aperce- beo pera a combater. 264 Cap. cvi. De como a cidade Dadê foy efcalada polos nojjos, & do que lhes aconteceo. 258 Cap. cvii. De como morreo Garcia de foufa & fe faluarã os nojjos que ficauã no cobelo. 263 Cap. cviii. Como ho gouernador fe partio pera ho eftreito, & da dif crição dele. 265 Cap. cix. De como ho gouernador chegou aa ilha do Camarão, & do que hi pafjou. 268 Cap. cx. De como não ouue efeito a paç que ho gouernador deixou afjê- tada cõ el rey de Calicut, & doutras coufas que Jefiçerão na Índia. 271 Cap. cxi. De como el rey de Bintão quifera tomar Malaca por treição, & nã pode. 273 Cap. cxii. De como ho gouernador inuernou em Camarão, & porque não feç hi fortaleça. 276 Cap. cxiii. Da caufa porque ho gouernador nãofeç fortaleça na porta do eflreyto, & do que feç em Adem. 278 Cap. cxiiii. De como ho gouernador chegou a Diu, & do que hi pafjou com Meliqueaç. 281 Cap. cv. De como ho gouernador achou em Chaul Trijlão dega com a repofta da embaixada que mandou a el rey de Cambaya. 283 Cap. cxvi. De como partio de Portugal Ioão de foufa de lima por ca¬ pitão mór das naos de carga, & do que lhe aconteceo. 286 Cap. cxvii. De como ho gouernador ouue as feys naos de mouros q ar¬ ribarão aa cofia da índia. 287 Cap. cviii. De como el rey de Narjinga mãdou híi embaixador ao go¬ uernador fobre os caualos de Goa. 289 Cap. cix. De como faleceo el rey de Calicut, & lhe fucedeo Nambeada- rim feu irmão. 290
47-2 Tavoada do livro terceiro. Cap. cxx. Do q ho governador fe\ em Cananôr. 292 Cap. cxxi. Do que fe determinou em confelho, acerca do que el rey de Portugal queria faber de Goa. 293 Cap. cxxii. De como ho gouernador affentou pa{ com el rey de Cali- cut, & fe começou a fortaleza. 297 Cap. cxxui. De como foube ho gouernador que dauão capítulos dele a el rey de Portugal. 3oo Cap. cxxiiii. De como foy defcuberto ao gouernador que Antonio real mandaua dele capítulos a el rey de Portugal. 3o2 Cap. cxxv. De como ho gouernador mãdou tirar tejlemunhas fobre os capitulos q Antonio real daua dele. 3o5 Cap. cxxvi. De como ho gouernador fe\ eteder a elrey de Coclii q nã era agi-auado na pa\ có el rey de Calicut. 3o8 Cap. cxxvi 1. Como ho gouernador deu a capitania de Malaca a Iorge dalbuquerq, & mandou Diogo fernãde\ de beja com embaixada a Cambaya. 309 Cap. cxxviii. Do que fe\ Pero dalbuquerq que foy por capitão mor ao cabo de Goardafum. 3u C vp.«cxxix. Como Iorge dalbuquerque chegou a Malaca, & fe entregou da capitania. S12 Cap. cxxx. Em q fe efcreue ho reyno de Cambaya, & dõde começarão os feus reys. 3i3 Cap. cxxxi. De como Diogo fernãde1 de beja chegou a çurrate, & par - tio da hi pera Champanel. 316 Cap. cxxxii. De como ho embaixador fe vio com Meligupim & de como fe partio pera a corte delrey de Cambaya. 319 Cap. cxxxiii. De como ho êbaixadorfoy defpachado del rey de Cãbaya, & fe tornou a çurrate. 322 Cap. cxxxiiii. De como ho embaixador inuernou em çurrate, & fe par¬ tio pera Goa. 325 Cap. cxxxv. De como Iorge botelho, & outros capitães desbaratarão èl rey de Linga, & do mais que paffou em Malaca. 327 Cap. cxxxvi. De como chegou aa índia Chriflouão de brito capitão moor das naos de carga: & de como ho gouernador determinou de ir tomar Ormu\. 329 Cap. cxxxvii. De como 0 gouernador chegou a Ormu\. * 332 Cap. cxxxviii. De como ho Xeque ifmael mãdou hã embaixador ao go¬ uernador, fobre amizade com el rey. 333 Cap. cxxxix. De como Raix norandim, goa\il Dor mui entregou ao go¬ uernador a jortaleia. ■* 335
Tavoada do livro terceiro. 473 Cap. cxl. De como lio governador mãdou matar Raix hamet per feus capitães. 338 Cap. cxli. De como os irmãos de Raix liamet feforão Dormu\, & ficou em pa\. 34, Cap. cxi.ii. De como fugirão fete dos noffos pera a terra firme, £• do que Raix noradim fe\ fobrijfo. 342 Cap. cxliji. De como lio governador mandou a Fernão gomei de lemos por embaixador ao Xeque ifmael, & cliegou ao feu campo. 343 Cap. cxli 111. Em que conta como fe levantou ho Xeque ifmael & do fe- fíorio que tem. 346 Cap. cxlv. De como Fernão gomei de lemos deu ao Xeque ifmael a êbayxada & prefentes q lhe leuaua. 348 Cap. cxlvi. De como Fernão gomei foy defpachado, & foy coele outro embaixador do Xeque ifmael ao governador. 351 Cap. cxlvii. De como Fernão gomei de' Lemos, & os noffos que liião coele comerão com ho Xeque ifmael. 352 Cap. cxlviii. De como ho governador ouve a artelliaria del rey Dor- mu\, & mãdou os reys cegos pera a índia. 354 Cap. cxlix. De como el rey de Campar que era bendara em Malaca foy degolado por treição del rey de Bitão. 357 Cap. cl. De como Iorge botellio foy defcobrir ho rio de Siaca, & da treição que lhe quifera fa\er el rey de Bintão. . 359 Cap. cli. De como Iorge botellio ajfentou ami\ade com el rey de Me- nãcabo, & de como. Francifco de melo pelejou cõ liúa armada del rey de Bintão, & a queimou. 361 Cap. clii. De como partio de Portugal por gouernador da índia Lopo foarei, & de como chegou laa. 363 Cap. cliii. De como el rey de Baharê, & el rey de Baçorâ, & outros reys mandauão vifitar ho gouernador, & outros ho hião ver. 364 Cap. cliiii. Das novas que ho gouernador foube da índia, & de como faleceo de fua doença, chegando â barra de Goa. 368 Cap. clv. De comofoy fepultado lio corpo do gouernador, & de fias notáveis virtudes. 370 Tomo 111 6o
~~4 Tauoada do quarto liuro. TAUO A DA DO QUARTO LIURO. Capitolo i. De como foy reformada a pa\ com a raynha de Cou- lão. 383 Cap. ii. De como os mouros de Baticalá fe levantarão: & matarão xxiiii. Portuguefes. 384 Cap. iii. De como lio governador vifilou as fortalezas da cofia da ín¬ dia: & do mais que fez- 384 Cap. iiii. De como Fernão pere\ dandradepartio pera a China, & ar¬ ribou com tempo a Malaca. 386 Cap. v. Do q acôteceo a Anrrique leme em Pegu. 387 Cap. vi. De como dom Aleixo de menefes chegou a Ormuz & prendeo Simão dandrade. 389 Cap. vii. Da fegunda armada que lio Soldão tnãdou á índia & porque laa não chegou. 390 Cap. viii. Do que pajfou Fernão Caldeira com dom Goterre, & de como • foy morto na terra firme. 392 Cap. ix. De como fiarão mortos quatro Portuguefes no fertão de Co- chim. 393 Cap. x. De como lio governador partio pera lio efireito em bufca da armada do Soldão. 3g3 Cap. xi. De como fabendo lio governador que a armada do Soldão ef- taua em Iudá determinou de pelejar coela. 396 Cap. xii. De como lio governador chegou a Iudá, & a caufa porque a não tomou. 1 ' 3g8 Cap. xiii. De como o governador fe partio pera Camarão, & da miyta gente q lhe morreo. ' 401 Cap. xiiii. De como Eytor rodriguez de Cotbra fiz húa cafa de fiyto- ria em Coulão. 4o3 Cap. xv. Do rifco q correrão os Portuguefes que efiauão ê Coulão em quanto lio governador foy ao efireito. • 405 Cap. xvi. De como dom Fernãdo de monrroi & Ioão gonçalueq de caf- ielo brãco tomarão duas naos de mouros nas ilhas de Maldiua. 406 Cap. xvii. Do que fiz dó Ioão de Monrroi indo darmada ate Chaul. 406
Tauoada do quarto liuro. 475 Cap. xviii. De como Dom Fernando monrroi foy desbaratado na terra firme de Goa. 408 Cap. xix. De como lio governador queimou a cidade de Zeila, & do que lhe fi\erão ê Adem. 410 Cap. xx. De como o governador foy a Ormu\: & da muyta gente que lhe morreo no caminho. 412 Cap. xxi. De como çufolarim foy fobre Goa. 414 Cap. xxii. Do que fe\ dom Goterre defpois q fe rio cercado. 415 Cap. xxiii. De como çufolarim affentou feu arrayal, & do ardil q teue dõ Goterre pera lhe matar muytos mouros. 416 Cap. xxiiii. De como çufolarim começou de bater a J'ortale\a de Benaf- tarim, & como lhe qbrarão liú camelo com q a daua. 417 Cap. xxv. Do que fi\erão fete Portuguefes no arrayal dos inimigos, & de como leuantarão lio cerco. 418 Cap. xxvi. De como chegou aa índia Antonio de Saldanha capitão moor da armada de Portugal, & de como ho governador chegou Dormu\. 420 Cap. xxvii. De como Fernão pere\ dandrade tornou a partir pera a China, & da difcripção da Cliina. 421 Cap. xxviii. De como Fernão pere\ cliegou ao porto da ilha da Be- niaga, & como fe ouuera de perder. 425 Cap. xxix. De como Fernão pere\ fe partio pera Cantão, & do fitio de Cantão. 427 Cap. xxx. De como chegado Fernão pere\ a Cantão: chegarão ho Cõ- quam, Compim & ho Tutão. 429 Cap. xxxi. De como ho capitão mór mãdou recado ao Tutão, & fe tor¬ nou á ilha da Beniaga. 431 Cap. xxxii. Das armadas que ho governador mandou fora da ín¬ dia. 433 Cap. xxxiii. De como ho gouernador foy iuernar a Cochí. 435 Cap. xxxiiii. De como dom Aleixo de menefes chegou a Malaca & achou q lhe fa{ia guerra el rey de Bintão. 436 Cap. xxxv. Em que fe efcreuem as ilhas de Maldiua. E de como dom Ioão dafilueira affentou trato com el rey de Maldiua. fòq Cap. xxxvi. De como Antonio de faldanlia foy fa\er prefas ao cabo de Goardafum. 438 Cap. xxxvii. Em que fe efcreue ho grande & abafado reyno de Ben¬ gala. 439 Cap. xxxviii. De como dom Ioão da f lueira aportou na cidade de Che- tigão, & do q lhe aconteceo. 441
4^6 Tauoada do quarto liuro. Gap. xxxix. Da treição que ho Lajear de Chetigão armou a Dom Ioão da Jilueira. 445 Cap. xl. De como Iorge ma\carenlias foy a terra dos Lequios & do que laa paffou. 447 Cap. xli. De como Feruão pere\ chegou a Malaca. 447 Cap. xlii. De como 0 gouernador foy fa^er lula fortaleza aa ilha de Ceilão. 449 Cap. xliii. De como vendo el rey de Ceilão desbaratada fua gente pe¬ di 0 pa\ ao gouernador. E de como começou a fortaleza. fbi Cap. xliiii. De como chegou aa índia Diogo lope\ de ftqueira que hia por gouernador dela. 453 Cap. xlv. De como Afonfo lope\ da cofia não pode tomar a tranqueira de Muar & dã ardil com que el rey de Bintão quifera tomar Ma¬ laca. 4?3 Cap. xlvi. De como el rey de Bitão pos execução hú ardil pera tomar a noffa fortaleza, & de como os feus forão desbaratados. 456 Cap. xlvii. De como Duarte de melo• capitão mór do mar de Malaca foy com outros capitães fobre a trãqueyra de Muar & a tomou. 458 Cap. xlviii. Do que aconteceu em Malaca defpois da partida de dom Aleixo de menefes. 461
IMPRENSA EDIÇÕES DA DA UNIVERSIDADE (extracto do catálogo) SCRIPTORES RERVM LVSITANARVM Publicado: série a) FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA. — História do descobrimento, e conquista da índia. Ed. revista pelo senhor Pedro de Azevedo, vol. i, u e m.. . -#>- DAMIAM DE GOES. — Chronica do Felicíssimo Rei Dom Emanvel. Conforme a ed. princeps. Rev. pelo D. David Lopes, 4 volumes. 8o#>oo No prélo: DAMIAO DE GOES— Chronica do Principe Dom Ioam. Conforme a ed. princeps. DUARTE GALVAO.— Crónica de D. Afonso Henriques. Revista e prefaciada por Tomás da Fonseca. JOAO DE BARROS e DIOGO DO COUTO. — Décadas. Ed. conforme a ed. princeps, revista pelo Dr. António Baião. FERNAO GUERREIRO. — Relação anual do que fizeram os padres da Companhia de Jesus nas suas missões do Oriente, da África e Brasil nos anos de 1Õ00 a 1610. Ed. completa das 5 Relações, dirigida e prefaciada por Artur Viegas. Em preparação: Papéis relativos á guerra da restauração e independência de Portugal. série b) Publicados: I. — HIERONYMO OSÓRIO. — De rebus Emmanvelis gestis. 3 vols.6o#oo II. — Itinerários Quinhentistas da Índia a Portugal. — Rev. e prefaciados pelo Dr. António Baião, vol. 1 i8#oo III. — Comentários do grande Afonso d’Albuquerque — Conforme a 2.* ed. Rev. e prefaciada pelo Dr. António Baião, vol. 1 (Partes 1 e 11) e 11 (Partes 111 e ív). 35;S>oo Em preparação: ANTÓNIO GALVAO. — Tratado dos diversos e desvairados caminhos por onde nos tempos passados a pimenta e especiaria veio da índia as nossas partes, e assim de todos os descobrimentos antigos e modernos que são feitos em a era de i55o. série c) No prélo: D. FRANCISCO MANUEL DE MELO. — Epanaphoras de varia historia portuguesa. Ed. dirigida pelo Dr. Edgar Prestage. Em preparação: História Trágico-marítima.