• SCRIPTORES RERVM LUSITANARVM • (série a) HISTÓRIA DO Descobrimento & Conquista da Índia pelos Portugueses POR FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA LIVROS I E II 3.* EDIÇÃO > CONFORME A EDIÇÃO PRINCEPS REVISTA E ANOTADA POR PEDRO DE AZEVEDO COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE I924
  • HISTÓRIA DO DESCOBRIMENTO & CONQUISTA DA INDIA PELOS PORTUGUESES
  • SCRIPTORES RERVM LUSITANARVM (série a) HISTÓRIA Descobrimento a Conotjista da Índia pelos Portugueses POR FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA LIVRO I E II 3.* EDIÇÃO > CONFORME A EDIÇÃO PRINCEPS REVISTA E ANOTADA POR PEDRO DE AZEVEDO COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
  • COMPRA 238791 Desta edição tiraram-se tóo exemplares em papel de linho numerados e rubricados AT.» //._ Ih. | o
  • INTRODUÇÃO i VIDA E FAMÍLIA DE FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA O Pecúlio de notícias relativas a Fernão Lopes de Casta- nheda é modesto, circunstância que se deve lamentar atendendo ao valor da História da índia, a qual se não é escrita com as galas dos escritores quinhentistas, tem em seu favor o não pequeno merecimento da veracidade das suas pala¬ vras. Diogo Barbosa Machado(i) em 1747 deu algumas notícias da vida de Castanheda possivelmente tiradas da Biblioteca Portu¬ guesa de Francisco Galvão de Mendanha (ou Mendonça), ma¬ nuscrito que em 1722 se conservava na livraria do Conde de Vimieiro e que continha notícias de seiscentos e setenta e sete autores. Como Galvão consultou em 1620 vários papéis de Cas¬ tanheda, podemos aceitar com confiança as notícias recolhidas por Barbosa. Segundo êste, nasceu Fernão Lopes em Santarém, como filho natural do licenciado Lopo Fernandes de Castanheda, o primeiro ouvidor de Goa. Môço ainda, entrou na religião dominicana, da qual saindo passou com o pai à índia, na armada em que foi Nuno da Cunha, nomeado governador daquele domínio, vindo a sair de Lisboa em 18 de Abril de 1 528. Voltando ao reino em ano que se não precisa, falto de saúde e de fazenda, não achou me- (1) Biblioteca Lusitana, II, pág. 39 e 156.
  • VI Historia da índia lhor ocupação que a de bedel do Colégio das Artes da Universi¬ dade de Coimbra e de guarda do respectivo cartório, falecendo naquela cidade em 23 de Março de 1559, sendo sepultado na igreja de S. Pedro em jazigo que tinha ainda gravado no tempo de Barbosa o seguinte epitáfio: «Aqui jaz Fernão Lopes de Castanheda escritor primeiro da historia do descobrimento da índia, o qual falleceu aos 23 dias do mez de Março de i55g». Um filho de Fernão Lopes chamou-se Ciricío (Ciríaco) de Castanheda, di-lo o mesmo Barbosa. Além da história da índia, escreveu um livro de cavalarias, sendo uma das aventuras ali contidas inserta na parte terceira do Palmeirim de Inglaterra. Diogo Kopke, segundo diz no Roteiro da viagem de Vasco da Gama, datado de 1838, p. xx, procurou notícias de Castanheda no cartório da Universidade: «tentamos immediatamente insti¬ tuir indagações na Universidade de Coimbra (onde Castanheda foi Bedel e Guarda do cartório) a fim de obtermos tanto fac- similes da letra usual de Castanheda, como da sua assignatura; mas tem até hoje sido mal-logradas (por motivos que escusamos apontar) os nossos desejos». Em 1859 Inocêncio, no seu dicionário, t. II, p. 284, apenas rectifica que já em 15 17 havia um ouvidor Pero de Alpoem (Goes, Chronica de El-Rei D. Manuel, III, cap. 6), não sendo, portanto, o pai de Fernão Lopes o primeiro ouvidor. Sendo Fernão Lo¬ pes ordinariamente exacto, esta rectificação deixaria mal colo¬ cado o historiador de mais a mais num ponto que tão próximo lhe tocava; mas os registos das chancelarias reais sem conservar o registo da nomeação de Lopo Fernandes de Castanheda, men¬ cionam como cargos diversos ouvidores gerais da índia e ouvi¬ dores de Goa, ofício que êste licenciado exerceu, pelo que diz seu filho e assim fica de pé o que diz a história. Deslandes publicou em 1882, nos Documentos para a historia da typographia portuguesa, p. II, pág. 9, documentos importantes
  • Introdução VII que Kopke não logrou conhecer. O mais antigo é um alvará de D. João 111 de 25 de Setembro de 1545, pelo qual êste rei no¬ meou Fernão Lopes de Castanheda, estudante da Universidade, bedel do Colégio das Artes, com mantimento ordenado de 10.000 reais anuais. No mesmo ano em diploma muito curioso sobre conservação de arquivos, datado de 5 de Novembro, é nomeado guarda do cartório e livraria da Universidade com mais 6.000 reais por ano de ordenado. Em conselhos de 1547 e 1 555 aparece Castanheda com várias reclamações a bem do serviço, havendo sido em 1548 aumentados os seus ordenados. São estes os tópicos da vida do historiador colhidos nos do¬ cumentos da Universidade. As chancelarias reais são omissas no que diz respeito a Fer¬ não Lopes de Castanheda. Na chancelaria de D. Manuel, liv. 6, fl. 69, há uma carta de legitimação dêste rei, datada de 18 de Ju¬ nho de i5o2, a um Fernão Lopes, filho de Lopo Fernandes, mo¬ rador no Pinheiro Grande, termo da vila de Santarém, que só muito temeràriamente se pode admitir que diga respeito ao es¬ critor. Não conhecemos o teor da nomeação do licenciado Lopo Fernandes para a índia, mas em compensação lemos as de juiz de fora de Estremoz e de Coimbra, respectivamente datadas de i5 de Janeiro de i5o2 e 20 de Janeiro de i5o3, registadas na chancelaria de D. Manuel, liv. 1, fl. 67 v. e 35, fl. 4 v. Possuímos do licenciado duas eruditas orações uma pronun¬ ciada por ocasião da primeira visita de El-Rei D. Manuel a Coimbra e outra em 2 de Junho de 1524 por ocasião da pri¬ meira visita, que El-Rei D. João III fez a Santarém com a Rai¬ nha D. Catarina (1). A avaliar por êste discurso o licenciado Castanheda era de (1) Está na Biblioteca Nacional, cód. 3.776, fl. 90; Alcobaça, cód. 478, cfr. apên¬ dices I e II.
  • VIII Historia da Índia instrução pouco vulgar e lido nos autores que trataram da Lusi¬ tânia. Não admira, portanto, que seu filho Fernão, a-pesar-de bastardo, mas vivendo em companhia do letrado, tivesse rece¬ bido educação mais ou menos primorosa, primeiro no estado de religioso, e depois na companhia do pai e finalmente como estu¬ dante da Universidade. Quatro anos depois de pronunciado o discurso de i528, en¬ caminhava-se o licenciado para a índia, onde por agora pouco sei dizer dos seus feitos nem dos de seu filho. O licenciado legou-nos algumas cartas que endereçou a El- -Rei D. Manuel. A mais antiga é de 27 de Agôsto de 1 5og, escrita em Coimbra (1) e conta que estando em Extremoz foi en¬ viado à correição da Beira e a outros logares, queixando-se de êle, mulher e filhos andarem peregrinando de logar em logar. Só a assinatura é autógrafa. A segunda é datada de 28 de Março de 1510 e de Pinhel. Só as últimas regras e a assinatura são do licenciado; e como a anterior trata dos negócios da correição da Beira (2). As cartas seguintes foram escritas de Grijó em 4 de Março de 1512, são autógrafas e tratam também da correição (3). Em uma destas se diz que o licenciado andara onze anos, isto é desde 15o 1 ao serviço régio e que estava esperando um quinto filho. Segue-se o largo intervalo em que o licenciado transita para a ouvidoria de Goa e de lá escreveu duas cartas em 17 de No¬ vembro de 029(4), sendo uma pequena, autógrafa, e a outra mais extensa escrita em letra bastarda ou italiana, circunstância que denota ser o escrevente pessoa instruída ou que andava nos estudos, sendo possível que seja do punho do filho do licenciado, o futuro historiador da índia ou então de seu sobrinho Amador (1) Arquivo Nacional, C. Cron. Parte I, m. 8, doc. 38. (2) Id. Parte I, m. 8, doc. 102. (3) Id. Parte I, m. 11, doc. 22 e 23. (4) Id, Gaveta 20, m. 2, n.» 28.
  • Introdução IX Leitão, que também o acompanhou à índia como veremos. A assinatura de Fernão Lopes de Castanheda é também em letra bastarda, como se conserva nos exemplares da história da índia. Nesta carta, que é a última de que há conhecimento, encon¬ tra-se o seguinte importante item relativo a Fernão Lopes: «Ao tempo que de laa parti pedi a V. A. me tomase hum filho que tenho que tinha pera o estudo que trouve comigo nam mo tomou por entam por a ordenaçam dos quatro anos; e ouve por bem que uiesse comigo com tres cruzados de soldo por mes, trou- ueo e qua serue V. Al. a que beiiarei as mãos por mo tomar como lhe pedi pois sam ia pasados tres anos e mais da ordenaçam e eu por meu seruiço lhe mereço esta merçe e outras maiores que espero que me faça. » A respeito do sobrinho lê-se: «Trouue senhor comigo hum meu sobrinho que se chama Amador Leitam que foi page de dom Diogo de Castro e traz soldo de seiscentos reaes, peço a V. Al. me faça merçe pera ele de soldo de dous cruzados como o tem os vosos criados, e que o aia do tempo que pera qua partimos e se asi o ouuer por bem me faça merce de hum aluará per que o aia.» No prólogo do primeiro livro da história de Fernão Lopes há elementos autobiográficos que se podem datar. Fernão Lopes diz ter gasto vinte anos nas pesquisas para a história, no fim dos quais estava tão pobre que teve de aceitar um emprêgo na Universidade e como a sua primeira nomeação foi em 1545 como já vimos, segue-se que encetou os trabalhos em 1525, três anos antes da partida para a Índia. Também se colige de outro passo do prólogo de Fernão Lo¬ pes o mesmo, que já ficou averiguado: «sintindo eu tamanha perda como fora perderse a memória de feitos tão notaueis que os Portugueses fizerão, & pelas mais rezoés que digo me dispuz a tamanho trabalho como leuey em a fazer, pera o que me aju¬ dou muito ir a índia, onde fuy com Nuno da Cunha em compa¬ nhia d.o licenciado Lopo Fernandez de Castanheda meu pay». Tomo I B
  • X Historia da índia Todavia não se deve admitir que Fernão Lopes se ocupasse na índia únicamente em ouvir as descrições mais ou menos apaixonadas e parciais dos que tomaram parte nos feitos na¬ vais e militares, e em trasladar os papéis dos fidalgos e soldados mais cuidadosos em fixar pela escrita o que tinham visto e ou¬ vido. Tanto naqueles tempos como ainda hoje sucede entre nós, não seria fácil atenta a penúria geral, que alguém se abalançasse exclusivamente com os próprios recursos a fazer investigações, qualquer que fôsse a espécie delas. Quem ia à índia ou ia em serviço do rei ou em serviço de mercadores nacionais ou estranjeiros audaciosos. Com o cruci¬ fixo, com a espada e com a balança todos trabalhavam ou me¬ xericavam. Assim devia suceder com Fernão Lopes, mas ao passo que os outros empregavam as largas horas de ócio nos prazeres que a quente terra da índia proporcionava, Castanheda indagava e escrevia. Não sabemos quanto se demorou na índia, só Couto na Dec. IV, liv. V, cap. I, afirma que andou ali quási dez anos, ou seja até 1538, data em que termina o livro VIII, o último pu¬ blicado da História e já póstumo. De regresso parece que se matriculou na Universidade, como se deduz do título de estudante que um documento lhe dá, a não ser que se refira a matrícula anterior a 1528; até que doente e sobrecarregado de família aceitou um pequeno emprego, com ajuda do qual conseguiu lançar ao prelo o resultado das suas pesquisas na Europa e na índia. O apelido Castanheda não é português, nem êle se encontra em Portugal como nome de localidade, o que concorda com os nobiliários nacionais, que são unânimes em admitir a origem castelhana, fazendo subir a entrada dêle no reino ao tempo de D. Afonso V. Em Espanha encontram-se numerosas localidades com o nome de Castaneda e Castanedo em Galiza e Leão; no sul da
  • Introdução XI França também há Castanet. Os nobiliários consultados (i) não explicam suficientemente o ramo dos Castanhedas a que per¬ tencia o historiador, não indo além do pai o licenciado Lopo Fernandes de Castanheda, que segundo alguns linhagistas teria passado a Portugal e teria sido então o primeiro da família. É possível que seus pais fossem castelhanos e havendo seguido o partido de Portugal, tivessem sido forçados a abandonar a pátria trazendo o futuro ouvidor de Goa, que na Universidade de Lis¬ boa teria seguido os estudos. Os linhagistas ignoram o nome da mulher do licenciado e só lhe dão por filho Fernão Lopes, sem notar a circunstância de ser bastardo; e os mesmos autores dão com hesitação ao historiador um filho chamado Rui Fernandes de Castanheda, que foi corre¬ gedor da côrte e casou com Filipa de Freitas de Macedo, mo¬ rando e tendo descendência em Santarém. Recorrendo ao códice 106 da Pombalina onde o Padre Mon¬ tês Matoso com o título de Memórias históricas, fez o extrato dos livros de notas dos tabeliães de Santarém desde o meado do século xvi, mais alguma cousa encontramos. A pág. 9 vem notícia de um assentamento feito em 4 de Ja¬ neiro de 1554 por Filipa Leitão, viúva do licenciado Lopo Fer¬ nandes de Castanheda, a António Fernandes de uma horta com olival junto da quinta das Manteigas. É o único documento que nos dá notícia do nome da mulher do ouvidor de Goa e pai do historiador. O Amador Leitão, já atrás mencionado, era por¬ tanto sobrinho por afinidade do licenciado. Segundo os nobiliários, mas com a reserva de parece, o his¬ toriador teve um filho chamado Rui Fernandes de Castanheda, que foi fidalgo honrado, residente em Santarém e corregedor da côrte. Deve, todavia, duvidar-se da paternidade, apesar do pa- (1) Biblioteca Nacional; Pombalina, cód. 274, fl.379, cód. 347, fl. 4.516, cód. 367, fl. 291; Fundo geral, cód. 992, fl. 77, cód. 1.001, fl. i33 v., cód. i.oo3, fl. i33 v., cód. 1.270, fl. 609.
  • XII Historia da índia tronímico Fernandes, e aceitar-se antes como filho ou parente próximo do ouvidor. No citado códice encontram-se duas menções de Rui Fernan¬ des de Castanheda, uma datada de 8 de Novembro de 1576 a fl. 3oo v., em que êle, sendo desembargador da Casa do Cível, é nomeado procurador de uma sua cunhada; outra de i3 de Maio de 1586 em que Jerónimo de Castanheda faz procuração para tratar de umas contas de seu pai o Dr. Rui Fernandes de Castanheda, certamente já falecido. A mercê mais antiga que se encontra na chancelaria de D. Sebastião, que diz respeito a êste licenciado, é a de juiz de fora de Coimbra em 27 de Julho de i562 (liv. 10, fl. 73). Foi ainda corregedor da Corte e de¬ sembargador da Casa da Suplicação. É muito para acreditar que a descendência do historiador se tivesse fixado em Coimbra, onde o chefe da família estava empre¬ gado e se enterrou em jazigo especial com epitáfio. Na região de Coimbra, em Penacova e Poiares, viveram Castanhedas de Moura, a um dos quais a imaginação do romancista Camilo faz figurar no romance O Judeu. No citado códice da Pombalina encontram-se também Castanhedas de Moura, parecendo de¬ monstrar que estes e a família do historiador viriam de um tronco comum. Como se sabe é o livro VIII, o último que nos chegou, dizen¬ do-se que a revisão foi feita pelos filhos do historiador, o nome de um dos quais nos conservou Barbosa Machado como já ficou registado, os quais deveriam para êsse efeito residir em Coimbra.
  • II O TRABALHO DE CASTANHEDA Historia do descobrimento & conquista da índia pelos Por¬ tugueses foi só duas vezes levada integralmente ao prelo, JL a primeira vez de 1551 a x 561; e a segunda em 1833. O primeiro livro foi reimpresso duas vezes, uma vez em vida do autor em 1554(1) e a segunda vez em 1797. A obra devia contar dez livros, dí-lo Castanheda no prólogo do primeiro livro: « acabey de compoer esta historia, que reparti em dez livros»; fá-lo dizer Castanheda a D. João III no privilé¬ gio: «me éuiou dizer que ele tinha feyto dez liuros da historia da índia», que é datado de 14 de Junho de 1552; e repetem-no os filhos do autor em 1561 escrevendo no prólogo do livro oitavo ao Rei D. Sebastião: «pedimos a V. A. queira tomar sob seu amparo este Liuro Octauo & com este o Nono & Decimo seguin¬ tes, que muy cedo se imprimirão ». Não há, portanto, dúvida ne¬ nhuma que Fernão Lopes escreveu os dez livros e que os últimos dois estavam prontos a entrar no prelo, depois de 1561, data da publicação do oitavo livro, impresso sete anos depois da saída do sétimo, ainda em vida do autor, que nesse mesmo ano de i554 reimprimiu o primeiro livro. Nesta segunda edição decla¬ ra-se que a história vai até «á morte de dom João de Castro». (1) No apêndice III reproduz-se o trabalho de Fernandes Tomás e o anterior de Kopke. '
  • XIV Historia da índia Não obstante estas repetidas declarações, é hoje desconhecido o paradeiro de qualquer exemplar dos livros nove e dez, não sendo, porém, de admirar que algum dia êle venha a aparecer. Diogo do Couto dá a explicação do desaparecimento na Dec. IV, liv.V, cap. i, dizendo: «Este volume nos dixerão algu¬ mas pessoas dinas da fe que el Rei dõ Ioão mãdara recolher a requerimento de alguns fidalgos que se acharão naquelle raro e espantoso cerco, porque falaua nelle verdades ». Couto não reparou que a proibição de correr o último volume da história não podia ser de D. João III que faleceu em 1557 e o último livro da mesma história que nos é conhecida tem a data de 1561. Portanto aquele acto é da regência de D. Sebastião e deu-se depois do falecimento de Castanheda. A descrição bibliográfica desta obra encontra-se nos Anaes da Biblioteca Nacional, vol. II, pág. 3o3. Em 1833 fez-se por ordem superior uma nova edição da his¬ tória de Castanheda, da qual se diz no Manual de Pinto de Matos, pág. i32: «E edição nitida e estimada». De facto a reprodução foi muito cuidada e na revisão a que se procedeu dos primeiros livros não se acha êrro de importân¬ cia. O editor desculpa-se em reproduzir meticulosamente a His¬ tória pelas seguintes três razões: «i.° Que he muito difficultoso e arriscado o fazer taes emen¬ das; e todos os Editores, que se mettêrão a faze-las cahirão em erros graves: quem quizesse, por exemplo, emendar o verbo des- jpor na significação de depôr, que se acha no Livro i.°, pág. 120, lin. 26, e noutros lugares, não reparava que assim se dizia na¬ quelle tempo... «2.0 Que isto pede hum sujeito mui versado na linguagem antiga com bom discernimento, vagar, e paciência para tal em¬ presa. « 3.° Que por muitos motivos convém que os Livros se repro- duzão taes quaes forão publicados por seus Autores, até para intelligencia dos Manuscritos antigos, e se formar juizo delles
  • Introdução xv cotejando-os com os impressos coevos.» Feliz hesitação esta; porque nos conservou um texto fiel. Para os erros evidentes organizou aquele editor uma tabela, justificando-a assim: «Mas pera de alguma sorte satisfazer os Leitores, vai huma 3.4 Taboa, que he das palavras, em que pa¬ rece haver erro typographico na Edição original; de outras em que se pode duvidar se o ha; e d’alguns lugares em que o sentido está imperfeito por falta de palavras: sem todavia affirmar que seja erro tudo o que nesta Taboa vai notado; antes o discreto Leitor fará o seu juizo como lhe parecer». Estas emendas foram acolhidas na maior parte na presente edição. O mesmo editor juntou ao primeiro volume um breve glossᬠrio que pouco alcança; mas felizmente para os termos asiáticos temos hoje o magnifico trabalho de Mgr. Dalgado intitulado Glos¬ sário luso-asiático, indispensável a todos os que estudam a expan¬ são dos portugueses nas regiões orientais. O primeiro livro da História, aparecido em 15 51, fez eco em tôda a Europa e dois ou três anos depois saíam traduções em francês e castelhano e preparava-se outra em italiano como des- vanecidamente diz Castanheda no prólogo do livro sétimo. O título da tradução francesa, impressa em Antuérpia é o seguinte: HHistoire des Indes de Portugal, contenant comment linde a este decouverte, par le commandement du Roy Emanuel, & la guerre que les capitaines Portugalois otit menee pour la conqueste dicelles,faict par Fernand Lope\ de Castaneda, & traduict de Por¬ tuguês en François par Nicolas de Grouchy. É curioso agora ler a apreciação que Grouchy, homem de alta cultura e orgulhoso da civilização de seus pais, faz no prólogo da língua francesa e do pobre bedel: «la langue Françoise est pour le iourdhuy en si haut degré de perfection, que ie suis contraint de confesser n’estre rien ou peu de chose, à comparaison des bons esprits qui pour le iourdhuy parlent & escrivent si bien le Fran¬ çois, que defia il se peult egaler à quelque autre langage que ce
  • XVI Historia da índia soit estant la langue Portuguese de soy assez rude & mal polie, & rescriuain Português homme ayãt beaucoup plus d’experience que de sauoir, principalement en lettres humaines, à grand peine ce pouuoit il faire que la traduction, voulãt de si pres suyure son original, n’en retint quelqu’ imperfection, tant aux paroles, comme en la disposition des choses contenues en 1’histoire». A estas palavras parece responder em 1552 Castanheda di¬ zendo : « Do que he testemunha imprimir-se agora em Paris em lingoa Frãcesa ho primeyro liuro desta historia, que tornou na mesma lingoa mestre Nicolao, que ca foy lente dartes no colégio Real e afora isto fuy também ho primeiro que mostrey ho en¬ gano que muytos tinhão que na lingoa Portuguesa não se podia escreuer quanto quisessem assi como nas outras, se ouuesse quem ho soubesse fazer. E ajudoume a mostrar esta verdade aquelle grande poeta Português de muyto grande erudição ho doutor Francisco de sá » (i). O testemunho de Castanheda em 1552, de que se estava im¬ primindo em Paris a tradução francesa do primeiro livro da sua História, parece dizer que a edição de Antuérpia de 15 54 seria a segunda. % Nesse ano de 15 54 publicou a casa de Martim Nucio, de Antuérpia, uma versão espanhola. Em i582 publicou Lichtfield em Londres uma versão inglesa do primeiro livro, havendo já aparecido em 1578 emVenesa a versão italiana de toda a obra. Apesar das imperfeições do seu trabalho, Lopes de Casta¬ nheda conquistou em poucos anos uma certa nomeada. Em 1588 João Pedro Maffei, Historiarum indicar um libri XVI, pág. 183, a respeito das façanhas dos portugueses escreve: «Quod si cui forte incredibile videatur; Fernandum Lupium historicum interroget (nam alii auctores nondum exstant) quippe is non so- (1) A respeito de Grouchy e da sua tradução leia-se o que diz o Dr. Teófilo Braga, 1.1, Historia da Universidade, pág. 524.
  • Introdução XVII lum aequalis eorum temporum fuit; sed etiam ad haecipsa com- mcntanda Indiam sese consulto peragrasse testatur». Ferdinand Denis, na Nouv. Biog. Universelle, pág. 82 do t. IX, datado de 1854, disse: « Castanheda est certainement plus exact ou plus sincère qu’il n’est éloquent. Ce fut lui qui enseigna à Ca- moêns les hauts faits qu’il immortalisa ». Varnhagen no vol. I da Historia do Brasil, 2.* ed., escreveu: «Bem alheias vereis sempre as Décadas da Asia, assim dos sopo- riferos contos de Castanheda e de Azurara, como das pregações homéricas do velho Fernão Lopes». Em 1862 Fernandes Pinheiro, no Curso elementar de litera¬ tura nacional, publicado no Rio de Janeiro, analisa detidamcnte Castanheda: « Posto que não possua Castanheda a magestade do estylo de Barros, nem a sua erudição, leva-lhe comtudo a palma em ser quasi um testemunho ocular do que narrava... Por ve¬ zes o colorido da phrase iguala, se não excede ao de Barros, e quando pinta as scenas que presenciava dir-se-hiam os seus qua¬ dros photographias... Não menos primorosas são as suas des¬ crições dos vários paizes por onde peregrinara, e onde se haviam passado os principaes sucessos da historia luso-indiana... Mais parco do que Barros em discursos e allocuções sabia-os Casta¬ nheda fazer, com arte, revelando perfeito conhecimento das re¬ gras da rhetorica... Era porem o estylo simples o que mais aprazia a Castanheda e no qual escreveu a maior parte da sua obra ... Não é a obra de Castanheda estrema de defeitos; e fal¬ tam-lhe muitos dos requisitos exigidos para o historiador. Gros¬ seiro é o crysol da sua critica, e apesar dos esforços que fez para possuir a verdade, numerosas fabulas se introduziram em suas paginas; mais imparcial porém do que Barros aponta os erros e mesmo os crimes dos seus compatriotas, e tacteando as chagas da índia feria por certo mais de uma susceptibilidade... A de¬ masiada extensão dos períodos e o gosto pelas inversões das phrases que já notamos nas Décadas de Barros encontram-se igualmente na Historia de Castanheda. Parece-nos contudo me- Tomo I c
  • XVIII Historia da índia nos pretencioso e systematico este ultimo autor e occupando-se mais com o assumpto do que com as galas com que o devera arrear. Algumas inversões de linguagem, e extraordinária con¬ fusão orthographica são maculas que a justiça pede que se não dissimule; talvez porem que possam ser ellas attribuidas á igno¬ rância dos copistas e ao atraso que ainda então se achava a arte typographica em Portugal». Teixeira de Aragão no Vasco da Gama e a Vidigueira (pág. 63 da 3.a ed.), refere-se em 1898 ao historiador nos seguintes ter¬ mos: «Sem possuir a eloquência de Barros, empregou os melho¬ res vinte annos da sua vida a compor a historia dos descobri¬ mentos, diligenciando acertar; averiguou os factos tanto na índia como em Portugal... Este escriptor tem sempre merecido o maior conceito, pela sinceridade da sua narrativa». O Dr. Franz Hummerich no mesmo ano, a pág. 134 do seu Vasco da Gama, escreveu a propósito da obra de Castanheda: «Der Forrn nach ungeschickt und wenig gerundet, ist es den- noch von hõchsten Wert, weil der Verfasser eine sehr ausge- dehnte Kenntnis der Quellen besass und denselben mit hõchster Treue und Gewissenhaftig gefolgt ist». Todas estas citações e outras mais que se poderão encontrar confirmam o juizo de Grouchy, que conheceu pessoalmente Cas¬ tanheda, de que êste historiador era homem prático e pouco eru¬ dito. De feito se Castanheda que de si diz: « que andey buscando per diversas partes, com muyto trabalho de minha pessoa & gasto disso pouco que tinha », o que corroboram os filhos no prólogo do livroVIII: «fez tantas diligencias por escrever a verdade, que com o fim da historia se lhe acabou a vida, que tinha muy tra¬ balhada de muytas indisposyções causadas de cõtino cuydado, & de continuas vigilias & leitura de muytos papeis que da índia trouxera », pouco tempo lhe ficaria para limar a linguagem e imi¬ tar os bons modelos da antiguidade. A sua história é mais narrativa do que pragmática, ainda que Castanheda diga no prólogo do livro I, que a história é « cousa
  • Introdução xix tão proveitosa pera a vida humana que insina o que façamos & do que avemos de fugir»; e no prólogo do livro II: « Os antigos reis de Egypto tinhão por costume terem cada dia lição da his¬ toria pera que dela tomassem doctrina de como auião de gouer- nar seus reynos na paz & na guerra». Neste mesmo livro diz Castanheda ao pai de D. Sebastião, que os reis devem saber a história para darem aos filhos dos que praticam grandes feitos as competentes mercês. Por isso Castanheda ofereceu os livros da sua história a El- -Rei D. João 111, ao Príncipe Real D. João, à Rainha D. Cata¬ rina e à Princesa Real D. Joana; e seus filhos ofereceram o oitavo a El-Rei D. Sebastião, não se esquecendo de pedir a retribuição de seus serviços. No prólogo do livro sétimo alega Castanheda «que mereço merce pois fuy ho primeyro Português que tomey tão honrrada empresa, & lhe dey fim tanto a minha custa como nosso senhor Deos he testemunha». Não é ocioso saber, pôsto que pela bôca do próprio autor, como foi recebida pelas pessoas reais a história da índia. O Príncipe D. João, conforme consta do prólogo do segundo livro «he digno de muyto louvor, pois em idade tã pequena quer ter esta lição dos feytos tã memoraueis como íizerão os seus Portugueses..., segundo se mostrou na continuação que teue de ouuir ho primeyro liuro que fiz da historia do descobri¬ mento & conquista da índia: no que recebi tamanha & tão sin¬ gular merce...». No prólogo do livro terceiro confessa Castanheda à Rainha D. Catarina que « estaua determinado de daqui por diante, não sair a luz com meus trabalhos, se não fora saber camanha & quam singular merce me V. A. fez em se auer por seruida dos dous liuros que empremi & dizer que não ouuera ho que vay neles destar encubertos tanto tempo». A fama de Castanheda entrava nos paços reais e no prólogo do quarto e quinto livros diz o seu autor que « auendo de visitar V. A. como seu vassalo lhe quis fazer hu presente... não achey
  • XX Historia da índia de que lhe fizesse melhor presente que de cousas que sam de muyto mor preço que ouro, nem prata, nem outras riquesas. Es¬ tes são os milagres feitos em armas que os Portugueses cujos descendentes hão de ser vossos vassalos fizerão... A alteza real a quem Castanheda visitou e presenteou foi a Princesa D. Joana. No prólogo do sétimo livro que é dirigido a D. João III, repete Castanheda as palavras de D. Catarina já relatadas no prólogo do livro terceiro: « Cousa de tanta admiração & tão digna de se pubricar, que quando a Raynha nossa senhora vio ho primeyro liuro, disse a dona Maria de noronha que lho deu. Que cousa tamanha como aquela, mais cedo se deuera de pubricar, & não ouuera destar escondida tanto tempo, & de ser auida por muyto miraculosa nos reynos estrangeiros». Eram já mortos D. João III e Fernão Lopes, quando os filhos dçste publicaram o oitavo livro e no respcctivo prólogo dirigido ao moço D. Sebastião lá se alega « a vontade com que el Rey dom João ho terceyro vosso auó (que está em gloria) aceitou o Primeyro liuro desta historia & quanta merce por isto fez a Fer¬ não Lopez de Castanheda nosso pay (que Deos té)». Mas ao passo que as pessoas reais se deleitavam com a lei¬ tura da história do descobrimento e conquista da índia, diverso era o parecer de outros leitores, quer por não ficarem colocados em atitude relevante os seus antepassados, quer por circunstân¬ cias que nos são omissas. Até o oitavo livro e graças ao alto pa¬ trocínio dos seus leitores, o azedume das famílias atingidas não teve éco, mas é de supôr e dí-lo categoricamente um autor quási contemporâneo, que os dois restantes livros não poderam circu¬ lar, se acaso fôram submetidos ao prelo, de que não temos ne¬ nhuma prova. (jTer-se-ia feito apreensão de todos os exemplares por uma orderh régia ou por parecer fundamentado do Desembargo do Paço? Quanto à má vontade crescente contra a publicação da his-
  • Introdução xxi tória, somos informados dela pelo próprio Castanheda nos prólo¬ gos dos seus vários livros. No prólogo do terceiro livro dirigido à Rainha D. Catarina confessou Castanheda que «ho galardão que me derão algus vossos Portugueses, foy acanharemme as obras de meu trabalho diante de sua alteza. Poendo nelas tachas, sem as nomearem pera que eu não soubesse de que me auia de defender. Porque se ho soubera eu ho fizera & farey se ho souber, que não sou eu de qualidade, nem tenho tão pouca obrigação donrra que não atente muito bem ho que faço», continua depois dizendo como chegou a apurar a verdade dos feitos que narra, o que se « sou- berão os que tacharão minhas obras bem creo que ho não fizerão antes me ajudarão polo muyto que todos meus naturaes me de- uem em ilustrar suas honrras & de seus antecessores que forão no descobrimento da índia & em sua conquista, que estauão & esteuerão sepultados, se eu não fora». Castanheda melindrou-se tanto pelas críticas feitas aos dois primeiros livros « de todos saberem tachar & poucos fazer», que esteve quási determinado a suspender a publicação, se não fôra a coragem que lhe incutiu a Rainha proferindo as palavras que já aqui ficaram registadas. Percebe-se fàcilmente que as críticas eram de ordem unicamente pessoal e Castanheda exaltando uns e deixando mergulhados outros no olvido prejudicava os interês- ses dêstes na concessão de mercês pelos feitos praticados pelos pais e avós dos preteridos. Também Castanheda por seu turno nos prólogos dos vários livros que compõem a sua história, pede instantemente mercês, como era uso do tempo e se prolongou pelos séculos seguintes. A obra de Castanheda passa como sendo a que ministrou a Luís de Camões o material histórico no que diz respeito à índia, para a redacção dos Lusíadas e ali encontrou o genial poeta no livro quarto os versos latinos de Fernando Coronel, em que êste fala em lysiades gens e no lusiadum scriptor, aludindo à nação portuguesa e a Fernão Lopes de Castanheda.
  • XXII Historia da índia Graças ao costume de autenticarem os autores com a assi¬ natura as obras que publicavam, possuímos alguns autógrafos de Castanheda. O final do livro quinto que existe na Biblioteca Nacional contém a assinatura completa de Castanheda, ao passo que o exemplar da segunda edição do livro primeiro da mesma biblioteca, que é datado de 15 54, um ano mais novo que o pre¬ cedente, trás só o nome e patronímico do historiador. A mão estava trémula e a assinatura diverge da que conhecemos com¬ pleta. A reprodução de Kopke, talvez por imperícia do grava¬ dor, também não se assemelha às que se reproduzem agora e vão aqui estampadas. PEDRO DE AZEVEDO.
  • APÊNDICES I ORAÇÃO QUE FEZ E DISSE O LICENCIADO LOPO FERNANDES NA ENTRADA DEL REI DOM MANUEL E DA RAINHA DONA MARIA EM COIMBRA DIRIGIDA AA DITA SENHORA Sereníssima Rainha e Senhora: posto que ante V. A. pera este auto he tam grande vossa excelencia que não sei que digua nem per omde comece: por que se as mui singu¬ lares e inumerauees virtudes de Vossa Ilustríssima pessoa quizer louuar a baixeza de minha limguoa ho não consente. E ellas são pello mundo tam pubricas que na terra nem no mar não ha cousa que não seja chea da experiencia ou fama delias e antigue- dade e nobreza de vossa Real linhajem e gloria dos Reis domde vindes suas grandezas seus estados seus grandes {feitos suas conquistas e suas victorias quisera dizer: mas nem o tempo me daa luguar pera isso nem ha memória humana que ho possa compre- hender se quiser dizer vossa bemaventurança neste mundo certo he que se nelle a ha vossa alteza ha tem,: porque quem ha nelle que se iguale conuosco: He V. A. Rainha molher de Rei tam catholico tam sancto tam justo tam vertuoso tam nobre tam grande tam esforçado tam poderoso dos seus tam amado tam temido do mundo como quem por suas grandes vertudes Deus nosso senhor tem tal amizade que o que a todos os outros reis e princepes do mundo neguou: soo a elle quis conceder e não quis que seu excelentíssimo nome fosse emçarrado em Europa e África omde estes seus mui nobres e antiguos Reinos senhorea mas que todas as tres partes do mundo sentissem seu juguo e que toda a Asia ouvesse delle noticia e elle de todas as terras reinos pro- uincias senhorios cidades montes promontorios mares rios portos reis senhores multi¬ dão de jentes diuersidades de nações condições e custumes delias e de todas as cousas e segredos que nelle haa a todos atee seu tempo ignotos omde lhe deu muitos e mui grandes reinos e reis e outros grandes senhores por vassalos que ho reconhecem por seu rei e senhor huns conquistados per armas outros com temor de ho serem e outros per sua liure vontade pella mui esclarecida fama de suas grandes bondades e fez seu mui poderoso nome tam grande que em pouco tempo será tudo seu e todas as índias ate seu tempo ao nosso mundo inconhitas ainda que mui nomeadas e desejadas de todos em que já tem grandes reinos e reis que com todas suas maravilhosas riquezas vieram a seu senhorio que mais bem ha no mundo que ser molher de tal Rei, ser se¬ nhora de tantos tam nobres tam ricos e tam grandes reinos ser tam amada como vossas vertudes e lealdade dos portugueses vos fazem ter filho princepe menino de tanta esperança herdeiro delle e ter outros filhos e disposição pera aver mais com que
  • XXIV Historia da Índia V. A. emchera ho mundo de reis que farão uossa fama immortal e durar pera sempre vossa excelente memória: passo por estas cousas que são muito notorias e per outros muitos e mui grandes louvores que de V. A. mui verdadeiramente poderia dizer que pera isso tevesse linguoa diuina porque nenhua humana abasta: direi soomente ho que esta mui nobre e sempre leal cidade quis que por ella dissesse e que eu com meus proprios olhos vi tanto que soube a vinda de V. A. a ella nenhQa idade nenhfla condição de homens foi que com ella nam recebeíse mui estremo prazer e não soomente aquel- les que tem saber pera isso mas ainda os moços e meninos nos berços se mostrarão alegres e assi como sua idade lhe dava festejauão e mostrauão grande alegria e foi sempre depois tam chea de continuas festas que todas as 'nações delia atee os muros torres praças casas e ruas pareçiam ser ledas e se este recebimento que se a V. A. faz nom he tal como aa grandeza de uosso estado se deue nem responde ao que os cida¬ dãos e pouo delia desejam: nam foi por al se não porque de seus mayores não lhe ficou tanto saber festejar como ho uso das armas e ho amor e vertude com que com ellas seruiram os Reis destes Reinos e com que sahindo delia com ellas os ajudarão a conquistar e guanhar das mãos dos mouros que os possuhião de que ficou sua nobreza perpetua lealdade nome e verdade da cabeça delles he escusado oferecerse pera vosso seruiço pois ella e as pessoas que nella ha com suas fazendas e todo o que tem sam vossas e em vosso poder e não tem cousa própria mais que a vontade que tem por elle a qual muito verdadeiramente oferece pede por merce a V. A. que ha tenha em sua guarda e encomenda e como sua ha fauoreça e ajude a conseruação de sua homrra e liberdade antigua que por seus seruiços e merecimentos com muito sangue na con¬ quista destes reinos guanhou pera que fiquem de uos sempre sucessores delles e nunca seja alhea dos primogénitos descendentes da muito alta linhagem real. Amen. Biblioteca Nacional, Alcobaça, cod. 297, (moderno), pág. 37 v.
  • Apêndices xxv II ORAÇÃO QUE O LICENCIADO LOPO FERNANDEZ DA CASTANHEDA FÉS A EL REI DOM JOÃO O . 3.° NOSSO SENHOR A PRIMEIRA VEZ, QUE ENTROU EM SANTARÉM COM A RAINHA DONNA CATARINA NOSSA SENHORA A . 2 . DE JUNHO DE . l524 . Tremo grandissimo Príncipe e poderosíssimo Rei nosso senhor temendo cair agora no que a Demosthenes e Marco Tulio aconteceo, dos quais hum ante Fellipo Rei de Ma- cedonia de todo emmudeceo e o outro na memorada causa de Millo em que se muito quis esmerar, quasi não disse nada; porque se estes Príncipes da grega, e latina elloquentia delia assi forão desemparados, o grego ante hum pequeno Rei encerrado na Europa, e o latino antre seus iguais, que rezão terei eu, delles muito inferior, de não temer o mesmo caso contemplando uossa grandeza, Príncipe mui exclarecido dos bens da alma e da fortuna sôbre todos tão excelentemente dotado, porque considero uossas uirtudes e ueio as tantas, que nenhúa uos fallece, e tam grandes, que excedem a humanidade e por isso me parece que estou ante pessoa diuina, olho a grandeza de uosso animo a profundeza de uosso saber, a força do uosso engenho, e todas as outras cousas que tendes do Rei mui excellente, e de homem em tudo perfeito e veio as tam postas no ceo que nenhum na terra se uos pode comparar com que não soomente a mui grão parte do mundo a uos sogeita mas toda a redondeza da terra podereis intei¬ ramente reger y guouernar e asi isto uos arreia que se fôreis no primitiuo mundo a antiga gentilidad uos chamara mais que Heroe, e depois de uida uos adorara por deos, mas o que he uerdadeiro uos quis guardar pera nos, pera ser nosso tempo bem auenturado com uosco vem me a memória uossos Ínclitos progenitores e veio em uos luzir a excellencia de uosso rreal sangue, cuja grande nobreza, limpeza e antiguidade a dos presentes e passados precede conhecidamente, uejo uossos muitos e verdadeiros titulos com que todo o mundo cingis, e acho uos tam grande que alem de uossos ricos e poderosos Reinos da Europa da uossa Cepta em África, ate os desertos de Camero mui grandes terras e gentes de Mafamede e de toda a marítima Ethiopiá; athe o gram Cabo de boa Sperança e alem do capricórnio pacificamente senhoreais, e delle pasando em Asia, a milhor das Arabias, com a Pérsia e índia ate o gram rio Ganges, e alem delle toda a uolta do mundo ate os Tartaros contra o norte em que haa mui gram diuersi- dade de terras de prouincias de reinos e mares, de ilhas, de portos, de riquezas, de gentes, de lingoas, de costumes, de crenças, de Reis, de grandes senhores, que são todos uossos vassallos e delles sois obedecido temido, e reconhecido por seu verdadeiro Rei e .senhor, e em sinal de vasalagem que uos deuem, e senhorio que nelles tendes uos pagão grandes tributos de que tendes suas firmezas authenticas selladas com sellos de Tomo I D
  • XXVI Historia da índia ouro e não soomente nestas tres partes do mundo se estende uosso império, mas o outro nouo uosso Brazil que até aguora foi a todos incognito he posto debaixo de uosso grande senhorio e ueio aqui com uosco coniunta per legitimo matrimonio por deus no paraiso primeiro instituído, a muito exclarecida e sereníssima Rainha nossa senhora de uosso muito alto sangue nacida, e Princesa em uirtudes e bondade muito perfeita, e em todas as cousas de uosso contentamento, e dos corpos em grande perfeição aca¬ bada cuias grandes e mui singulares excellencias e primores primeiro se acabara este dia que soomente comece a dizelos, e por isso hei por milhor não as tocar que que¬ rendo as dizer ficar muito aquem do começo delias da qual speramos em nosso senhor auerdes filhos e socessores e delles outros e outros, que perpetuem uossa memória, veio-uos cercado de lllustrissimos,e muitos grandes senhores;os Infantes uossosirmãos firmes colunas de uosso Império, e ueio a grandeza de uosso mui alto stado, e uossas riquezas tamanhas, que a quem as ouuir não cre? Parecerão impossíveis, ueio uos outras muitas, e muito notaueis cousas tantas, e tam grandes, que uemos claramente, que o que a fortuna tinha pera com todos repartir em uos soo o quis acumular, Rezão tenho logo de temer, e não recear seria temeraria ousadia, mas uossa grande humani¬ dade, Príncipe muito begnino, me tira ia o temor e daa lugar pera dizer, o que da parte desta nossa mui nobre, e sempre leal uilla de Santarém cidadãos e pouo delia me he dito que lhe diga, e per mim lha supplicão e pedem de cuia grande llealdade e no¬ breza, grandeza e potência e antiguidade as historias antigas são claras testemunhas, a qual repetindo hum pouco de mais alto foi hua das sinquo colonias desta uossa Lu¬ sitânia principais e pouoadas dos Romãos dos de Roma moradores, e de todo tributo isenta e húa das terras e cidades delia a que chamauão conuentos, onde se tratauão e iulgauam as causas de toda a prouincia per os seus Regedores e maiores presidentes da iustiça, os quais eram partidos por comarcas, e este que se chamaua escalabitano era cabeça da Estremadura. O Primeiro seu nome foi Moron. Chamou se depois Escalabis, e depois Julium Presidium, pola goarnição de gente darmas,que Julio Cacsar nella tinha pera se mais segurar desta terra, foi tomada de mouros no tempo da geral perdição de Espanha, que sendo delia senhores lhe chamarão Guibir Castro que quer dizer em nossa lingoagem grande monte (não por sua altura, que he pequena) mas por sua fortaleza, grandeza, nobreza e abastança lhe puserão este uerdadeiro nome de grande e despois os christãos, que a tomarão lhe chamarão Sancta Eiria por honrra da bemaventurada sancta deste nome sua padroeira, quando morta de Tomar ueio ter a ella pollo Tejo que a trouxe aqui, e tem milagrosamente em si sepultada e corrom¬ pido despois este nome do tempo a chamarão Santaren como agora se chama, tornou se despois a perder e ganhou a com grande mortindade de mouros que a tinhão, o bem auenturado Rei Dom Afonsso Anrriquez tronco dos Reis de Portugal uosso decimo auo, cuia tomada lhe pronosticou o prodigioso touro de fogo que antes que a perdessem uirão sobre ella no ar de que a Igreia de Maruilla, e esta povoação de cima tomarão nome de Marauilha, que despois se corrompeo em Maruilla como se nomea agora e nella chamando se Moron por sua grandeza, fertelidade, e gente mui bellicosa Bruto gallego capitão dos Romãos contra os lusitanos constituio a cabeça da guerra, e delia com seu fauor, e ajuda conquistou a Lusitania, nella com gente sendo iaa Santarém el rei Dom Garcia de Portugal, e de Galiza uenceo e prendeo em batalha a el Rei Dom Sances de Castella que o tinha desafiado e o uinha conquistar na qual o esperou, porque era a principal e moor de seus Reinos e de gente darmas mantimentos, e de todas as outras cousas pera a guerra necessárias mais abastada, donde uerdadeiramente
  • Apêndices XXVII se conclue sua grande antiguidade seu poder e sua grandeza e que de gentios mouros e christãos jaa antes do principio destes uossos Reinos era muito estimada, e auida por muito notável nella despois e com ella o inuictissimo Rei Dom Affonso Anrriques uenceo e matou no campo o segundo Miramolim de Marrocos com mais de trezentos mouros. Este matou em batalha Alboja Rei de Seuilha com grande poder de mouros, que a uinha guerrear despois, e com elle gente sem conto, que trazia pera uingar os grandes males e damnos que os mouros de Espanha delia cada dia recebião, e huns e outros com todo o poder de AfFrica desbaratou e pos em fogida mui torpe e em tanta reputação foi sempre auida, que sem o seu conselho e pendão que esperava el Rei Dom Affonso o quarto uosso quinto auo, não consentio que se desse a mui grande batalha do Salado de que em Castella foi uencedor, e com el Rei delia o esperou até que che¬ gou a elles, com o qual ouue logo dos mouros aquella famosa uictoria em toda Europa festeiada, e em África muito sentida em cuia memória em testemunha de tam gram feito seus cidadãos tem agora na sua camara em grande preço e estima o pendão que nesta batalha lleuarão, e he este uelho e pequeno da haste dourada que aqui sobre min estaa posto, e pello mui assinado seruiço que nella desta uilla recebeo lhe teue tanto amor que nella gastou despois o mais tempo de sua uida, na qual por ser tam auanteiada os muito famossos Reis Dom Affonsso o terceiro, que a Portugal acrecen- tou a segunda coroa do Reino do Algarue daquem, el Rei Dom Denis seu filho, que a elle aiuntou as uillas e castelos de Riba de Coa e de Riba Dodiana, El Rei Dom Fer¬ nando que no mosteiro de sam Francisco delia está sepultado, el Rei Dom Ioão o pri¬ meiro uosso tresauo, que ganhou dos mouros a poderosa cidade de Cepta em África, a que primeiro passou com armas de Espanha, El Rei Dom Afonso o quinto uosso tio que tomou aos mouros o mais do Reino do Alguarue dalem de que primeiro se intitu¬ lou e tomou por elle a terceira uossa coroa, e todos os mais excellentes reis destes Reinos fizerão nella habitação e a tiuerão por sua camara e soo do mui grande Rei Dom Manoel uosso Pai que por sua mor grandeza, a ouvera mais de fauorecer foi des- fauorecida com sua continua absencia, não porque nella ouuese causa, porque a elle e a todos os outros Reis destes Reinos ella tem feito muitos e mui assinados e gran¬ des seruiços e lhes foi sempre como he mui leal fiel e uerdadeira e em seu seruiço mui constante firme prompta e deligente e per isso foi delles sempre amada e estimada, fauorecida e honrrada, e tem pera seu mais preço, e maior estimação grande fertelidade de todos os fruitos e abastança das cousas aos homens necessárias e em tanta quanti¬ dade que soo ella mantém o mais de sua comarca, que sem ella se não poderia sos- tentar delia, como Lisboa, a que também supre outras necessidades, e uossa corte do muito que sempre delia ha mister he largamente abastada, tem asento muito fer- moso e ares mui saudaues, e tem o Tejo das areas douradas dos antigos tam cele¬ brado porque participa do már, tem campos mui graciosos, uales, matos, montes ribeiras todas muito frutíferas, e nelles grande criação de cauallos, de gados e de bestas, tem pera uosso desenfadamento muitas caças e montes reaes, e todas as outras cousas pera todos proveitosas em perfeição mui grande e por ellas o muito grande rei Dom Affonsso Anrriques a chamaua pera isso deleitoso. As quais com todas as outras que nella iuntamente concorrem não se achão asim iuntas em alguma outra uilla, ou cidade de uossos Reinos nem de Espanha nem de Europa e por isso não se pode negar que nellas de todo ella he a mais principal, e das uossas pera uosso stado e seruiço e mais necessária foi desemparada da pessoa real do anno de nouenta e hum, ate hoie porque se proua sem duuida que he pera muito pois sem ella tanto tempo se sosteue e
  • XXVIII Historia da índia manteue sem quebra de sua nobreza com tanta gente nobre tanto pouo tantos edefi- cios diuinos e humanos que crecem cada dia em tanta absencia de seu Rei sem cuja presença as grandes e populosas cidades se desfazem. Roma cabeça do mundo em quanto seus Emperadores nella habitarão com a mu¬ dança de Constantino a sua noua Roma em Tracia ficou mui damnificada e deminuida e depois pella absencia do Papa Clemente quinto que delia sua corte passou em França foi tam erma, e deshabitada, que nas ruas assi nacião eruas como nos campos. Ra- uena em tempo dos Reis godos e despois dos exarchos que nella constituirão seu assento, sendo cidade mui populosa como delia forão absentes fiquou pouco menos que aldea. Pauia com os Reis dos Lombardos que nella tinhão seu assento foi cidade mui principal, delles desemparada, perdeo sua grandeza, e porque sendo o esta uossa por mais longos annos como estas e outras muitas e muito notaueis não caia que a uos e a uossos Reinos seria perda inextimauel, o que a diuina prouidencia não permita pedem seus cidadãos e pouo a uossa Alteza Príncipe excelentíssimo a não desempare nem esqueça antes como seu Rei natural e senhor mui piadoso com sua sereníssima pessoa e muito excelente presença a uisite, empare e fauoreça e por esta porta da Tamarma per que segunda vez foi tomada aos mouros, e nella entrou a fee de Jesu Christo nosso redemptor entre aguora com uosco outra noua redempção e mui deseiado fauor, e emparo pera que floreça com uossa mui alegre uinda e estada, e seia pera uosso ser- uiço conseruada em sua nobreza e prosperidade, e depois de uossa mui longa, e bem- auenturada uida fique asi inteira pera uossos, que deus nosso senhor em quanto o mundo durar, queira por sua clemencia fazer perpetuos em uossos Reinos e senhorios- Biblioteca Nacional, Cod. 3.776, fl. 89 v.°, — Alcobaça, cod. 397 (Moderno), fl. 54 v.°
  • Apêndices xxix III ANAI.YSE E ESTUDO BIBLIOGRAPHICO DA I.a EDIÇÃO do i.° livro da Conquista da índia por fernáo lopes de castanheda É facto conhecido a raridade da i.* edição de 1551 do i.° livro da Conquista da índia por Fernáo Lopes Castanheda, conhece-se, e desde poucos annos um exemplar na bibliotheca das Necessidades e outro exemplar que possue o sr. José do Couto (i), comprado por uma bagatela em Paris. Temos fundamento plausível para soppôr que esta raridade não é casual, mas sim filha de proposito firme de ageitar a história às conveniências do momento. Como diz Couto — Dec. 4, L. 5, Cap. 1 —D. João 3.° mandou recolher o decimo livro da obra de Castanheda —, por requerimento de alguns fidalgos que se acharam ofendidos pelas verdades que ò dito author dizia. — Quem supprimio assim um livro por dizer verdades, dá direito a suppôr-se que o facto se repetiria — por iguaes motivos. Como explicar que publicando-se em i55i o i.° Livro de Castanheda, logo em 1554 se reemprimisse 0 dito i.° livro pela 2.* vez e os restantes oito pela i.*? O facto de se despresar a 1.* edição do i.° livro revela já uma causa forte e pode¬ rosa—, sem todavia se perceber qual fôsse. Note-se : i.°, que ambas as edições do i.° livro foram feitas em Coimbra por Johão Barreyra & Johão Alvares — Empressores del Rey na Universidade de Coimbra—; 2.0, que Fernão Lopes da Castanheda trabalhou 20 anos — na sua história; 3. °, que gastou todo o seu haver no apper/eiçoamento da obra a que se dedicou; 4. *, que regressando a Portugal pobre de fazenda e de saude para poder viver, teve de acceitar o logar de Bedel do Colégio das Artes na Universidade de Coimbra, e guarda do respectivo Archivo —, logar em que morreo no aho de 155g (Dicc.0 Bibl.°). Facilmente se conclue que estava em condições de não poder subtrahir-se á influen¬ cia real, nem esquivar-se a fazer o que lhe mandassem. A principal diferença entre ai.'e 2.* edição de Fernão Lopes de Castanheda é nos 1. #* capítulos. Na 1.* a narrativa deixa a principal honra da descuberta a D. João 2.0, na 2. * parece que, á inspiração de D. Manoel foi devida a descuberta da índia e que 0 acaso ali encaminhou Vasco da Gama. Na 1.* edição se vê, que a armada quando partio não ia ao acaso, o problema estçva meio resolvido pelos trabalhos e estudos anteriores. Esta e outras diferenças impor¬ tantes, umas devidas a influencias superiores, outras talvez como tributo á verdade, (1) (Deve ser o conhecido escritor José do Canto. — P. de A.]
  • XXX História da Índia merecem a attenção dos que se dedicarem ao estudo desta brilhante parte da nossa historia marítima. Noticia da i.‘ edição do descobrimento e Conquista da índia!... por Fernão Lopes da Castanheda. Formato em 4.0—Frontespicio uma portada com figuras alegóricas — tendo na parte superior, a meio, — a esfera armilar, — na parte inferior, no centro as armas por¬ tuguesas, — no vão da gravura tem no recto: Historia do descobrimento & comqui- sta da índia pelos Por- tuguezes Feyta por Fernão Lopes de Castanheda E aprouada pelos Senhores deputa¬ dos da Sancta Inquisição No verso do frontespicio diz = Prologo da Historia do- descubrimento — & Conquista da índia pelos Portu¬ gueses. Dérijido ao muyto alto & muyto poderoso Rey, Dõ Joaõ ho terceiro — deste nome, nosso Senhor, Rey de Portugal, & dos Algarves, Daqui & Dalem Mar, em África, Senhor de Guiné, & da Conquista, navegacaS, & Comercio de Ethiopia, Arabia, Pérsia, & da índia &c. Per Fernaõ Lopes de Castanheda Segue o prólogo que é diferente do que vem na edição de i833, e principia : «Era para mim tão estranho, muy alto e muyto poderoso príncipes Rey nosso Senhor, querer cometer um feito de tamanho peso, como foi escrever as milagrosas façanhas que fizeram os portugueses no descubrimento e conquista da índia, que es¬ tive muitas vezes para o deixar &c.» Continua nas duas páginas da folha seguinte, acabando nas ultimas t6 linhas com iguais dizeres aos da edição de i833.— A primeira página diz: — LIURO PRIMEIRO DA HISTO- ria da índia na qual se contS como foy descuber- ta por mandado do muyto famoso Rey dõ Ma¬ nuel de gloriosa memória. E a guerra q fizerão os capitães Portugueses a Çamorim rey d Calecut ate ho anno de mil & quinhentos & quatro No verso desta principia a numeração com o algarismo — a. Cap.° 2.0—«De como elrei dom Manuel ho primeiro deste nome mandou desco-
  • Apêndices XXXI brir a índia por Vasco da Gama.por outros capitães e de como partiram de Lis¬ boa » Principia o capitulo dizendo — « E como quer que el rei dom Manuel tinha mayor animo que ho grande Alexandre para cometer cousas que pareciaõ sobre naturaes, logo aos dois annos.». Segue como na edição de i833 — algumas linhas —; depois apparecem muitas variantes entre as quaes nota esta: «Aparelhados estes na¬ vios, estando elrey em Mõte moor ho novo com sua primeira molher a raynha D. Isabel no ano de mil & ccccxcvij deu a capitania moor deste descobrimento da índia a hú Vasco da Gama criado seu e que tãbõ ho fora delrey dõ Joaõ, natural da vila de Sinis....» O fim do Capitulo é idêntico em ambas as edições; a i.* porem, leva van¬ tagem á moderna em declarar a data da expedição. Capitulo 3.® da 1.* edição diz:—De como o Capitão moor...... Na edição de >833 diz: — «de como Vasco da Gama.....» Em todos os capítulos seguintes, a edição moderna substitue o nome proprio de Vasco da Gama —ao atributo de —Capitão mór — uzado sempre na >.* Continuam os Capítulos com os titulos mais extensos do que na edição de i833, mas uniformes no assumpto; o texto é idêntico com leves diferenças de ortographia, sendo notável que na edição de «551 em geral é a ortographia mais conforme com a moderna: assim no Capítulo XIIII linha 3.* a i.* edição — traz « em tanta maneyra.... &» e na da >833 —e tãta maneyra.» Do Capitulo XVIII da edição de «55« fizeram-se o >8 e 19 da de >554. O Capitulo XIX começa por differentes palavras — mas com o mesmo assumpto do Capitulo XX da edição de >833, e pela maior parte idênticas palavras em ambas.— Capitulo 20 idêntico — : no verso da pagina 65 está a numeração —79 —, em vez de 66; na seguinte 78, em vez de 67, na immediata 68, está certa, e continua exacta até ao verso da pag. 77, que tem 67, em vez de 78; a seguinte 69, em vez de 79; depois con- tinúa certa. Os Capítulos da 1.* edição continuam a ter a differença de mais uma unidade na numeração até ao Capitulo 29, comparados com os equivalentes da edição de i833. No Capitulo XXVI, correspondente ao 27 de >833, ha no fim redacção diversa, e tudo o que se acha na pag. 91 da edição moderna não está na 1.* — É esta parte um resumo da primeira parte do Capitulo XXVIJ pag. 86 e parte de 87; nela se omite a data e particularidades interessantes, dignas de se conservarem. Capitulo 27 da 1.* edição além do acima dicto, tem toda a matéria do Capi¬ tulo XXIX da edição moderna; e alguma coisa do Capitulo XXVIII moderno, tudo o que nesta se diz de profecias e das pedras achadas em Cintra — é novo (1). D’aqui em diante ha differença de duas unidades a mais no numero dos capítulos da edição moderna. Capitulo 28 da >.*, correspondente ao 3o da ultima, tem redacção diversa e idên¬ tico assumpto, havendo, porém, na penúltima linha divergência. A >.* diz: —que se apartou a náo de Vasco d’Athayde, — e na ultima — a náo de Luiz Pires». Capitulo 29 tem o titulo «De como o capitão moor foi ter a costa do Brazil e de como sosobraraõ quatro nãos de sua conserva — »; na moderna, e defeictuosamente, só se conservou a parte do titulo que está sublinhada; que é o capitulo 3i da moderna. (1) [Apianus publicou-as em >534, mas a referência deve ser i obra de Strada Epitomen thesauri antiquitatum, publicada em >553. Cfr. HObncr, Corp. Inscrip. Latinarum II, p. VI e IX. — P. de A.).
  • XXXII História da Lídia No texto da i.* edição ha períodos eguaes aos da ultima, mas contém mais parti¬ cularidades ; como dizer « que em terra deixaria dois degradados dos 2o que levava &. » Ha uma data trocada : na i.* se diz: — que Pedralvares Cabral partira do Brazil numa quinta feira 2 de Maio —, e na moderna se diz — trez de Mayo — A parte relativa ao naufragio das náos também é mais extensa na 1.* edição. Capitulo 3o — Tem mais 16 linhas no principio do que se acha na ultima edição no Capitulo 32. Capitulo 3i e 32 : quazi conformes em ambas as edições. „ 33 — Não traz a carta de D. Manoel ao Rey de Calicut — que está no Ca¬ pitulo 35 da edição moderna, mas contém com outra redacção o assumpto do Capi¬ tulo 36 moderno. Capitulo 34 (por erro tem XXXXIIIJ) jdentico ao 37 e aqui principia a differença do numero dos capítulos a ser de mais trez unidades na edição moderna. Os Capítulos 35 e 36 correspondem ao Capitulo 38 moderno, com variantes na redacção, ficando por isso a differença na numeração dos capítulos outra vez só ás duas unidades. Capitulo 37 — pouco varia do 39 moderno. » 38 — » » » 40. » n 39 — «De como carregando ho Capitão mór em Cochim veo ter cÕ ele hú clérigo índio christão da Cidade de Crangalor, para ir coele a Portugal. E do que lhe contou dos christãos desta Cidade». Este Capitulo foi todo supprimido na edição de i833. Capitulo 40; corresponde ao 41 moderno com variantes de redacção. * » 41 e 42 com leves alterações eguaes ao 42 e 43 modernos. » 43 com leves alterações eguaes ao 44 moderno. » 44, 45 e 46 incluídos no Capitulo 45 moderno com variantes. » 47 correspondente aos Capítulos 46 e 47 moderno com variantes. Tem mais uma carta do que este, e outros factos importantes. Capitulo 48 — Corresponde ao 48 moderno. » 49 — com pequenas variantes egual ao 49 moderno. b 5o — » » » » ao 5o modernoi i- 5i e 52 com pequenas variantes aos correspondentes 5i e 52 modernos. » 53 — tem no fim menos do que o 53 moderno. » 54 — com pequena differença egual ao 54 moderno. » 55 — varia em matéria do 55 moderno, e neste se falia em Antonio de Saldanha que não apparece na 1 .* edição, etc. Os capítulos até 64 são conformes em ambas as edições. Capitulo 65 — corresponde ao 66 moderno, havendo nesta edição o Capitulo 65 sobre António de Saldanha totalmente novo. Capitulo 66 até 69 conformes em matéria com os Capítulos 67 até 70 da edição moderna. Capitulo 70 — logo no principio tem redacção um pouco diversa do 71 moderno; do meio por diante a redacção é muito diversa, posto que o assumpto seja o mesmo. Capitulo 71 —a maior parte d'este Capitulo está no fim do Capitulo 71 moderno mais resumidamente; e por tal motivo tornam os capítulos do mesmo numero a con¬ cordar nas duas edições. Capitulo 72 — muito mais extenso do que o 72 moderno.
  • Apêndices xvx i Capitulo 73 — não corresponde ao 73 moderno. Do seu assumpto ha pequeno extracto no fim do Capitulo 72. Capitulo 74—com a mesma matéria e diversa forma do capitulo 73 moderno. 75 (Edição—i55i) corresponde ao Capitulo 74 (Ediçãò—i833). 76 77 78 79 80 81 82 83 75 76 77 78 79 80 81 82 83 84 e 85 » » 86 • » 87 » » 89 (Na edição moderna » 84 (Não existe, houve lacuna de n.° 84). » 83 (Repetido em vez de 84). » 85 » » » 86 ■> » > » 87 » » ‘ D 88 » » ■ existe a mais do que na antiga todo 0 capitulo 88). Capitulo 89 (Edição— 1551) corresponde ao Capitulo 90 (Edição— >833) • 90» » » » » 91 » » • 91 » » " • * 92 ” » 92 » » » » « 93 e 94 (O que neste capi¬ tulo se diz de Lopo Soares na 1.* edição se diz de Duarte Pacheco !) Capitulo 93 (com variantes). (Edição — t55i) Capitulo 95 (Edição— i833) » 94 » » » 1)96» » • 95 » • » *97” * e termina: Foy impresso este pri¬ meiro livro da Historia da Índia — em a muy nobre & leal cidade de Coimbra por lohão da Barreyra & Johão Alvar eç, empressores del Rey na mesma vniver- sidade. Acabouse aos seis dias do mef de Março. De M. D. L. I. — Tem o volume 267 paginas além do frontespicio e das tres enumeradas do Pro- logo. Todo o volume é impresso em typo romano e não em gothico como a edição de i554. Archivo Bibliográphico, Coimbra, 1877, pág. 2o5. Tomo I
  • XXXIV História da índia IV Desta i.* Edição do i.° Livro da Historia da índia por Fe mão Lopes de Castanheda existe um exemplar na Bibliotheca Portuense. Barbosa Machado na noticia que d’ella dá diz que «passados tres annos se reimprimio este livro em folha com differente de¬ dicatória ao mesmo monarcha (Dom João 3.'’) e com diversidade no principio do i.° ca¬ pitulo como em o numero delles- — mas da confrontação desta com a edição de i554 se colhe que as differenças e correcções são mais consideráveis que as apontadas. Dalgu¬ mas fazemos menção nas nossas notas, e aqui notaremos que a diversidade no numero dos capítulos (sendo 95 na edição de i55i, e 97 na de 1354) resulta das alterações que fez Castanheda para discorrer sóbre uma inscripção latina, profética da descoberta da índia, que no tempo de D. Manuel se disse ter sido achada em Cintra; e para inserir a Carta que o referido monarcha escreveo ao Çamorim de Calecut por Pedro Alvares Cabral, e o Brazão d’Armas que el Rei de Cochim deu a Duarte Pacheco. Como porem se fizessem traducções desta mesma Edição em lingoas estrangeiras — como em Ro¬ mance Castelhano, Anveres, 1554, (de que temos conhecimento d’um exemplar na Bib. da Univ. de Coimbra) forão de certo modo divulgadas as incorrecções e imperfeições da mesma; do que se encontra vestígios em alguns authores — tanto antigos como modernos. Sirva d’exemplo o dizer-se nesta 1 * Edição que da Ilha de S. Tiago Bartho- lomeo Dias voltou a Portugal; asserção que ainda que se corrigio na Edição seguinte para seguio o caminho da Mina apparece ainda hoje na Biographia Universal, e em outras Obras. O Compilador da Bibliotheca Lusitana, em seu «Summario» é inexacto e não es¬ creve o que Barbosa refere, quando dá a entender que tendo todas as obras de Casta¬ nheda sido impressas em 1551, sahiram accrescentadas e emendadas em os vários annos que aponta; sendo certo que sómente o i.° Livro fôra impresso em 1551 e que quando pela primeira vez apparecerão os livros 6.® e 7.® em i554 é que se reimprimio o 1.". O mesmo Barbosa Machado é inexacto em apontar que o 1.® Livro sahio com o livro de Osorio «De Rebus Emmanuelis» em Pariz, i58i, imprensa de Francisco Estienne, tradu¬ ção de S. G. S.; quando este traductor approveitando-se dos 12 livros de Osorio re- correo sómente aos últimos de Castanheda; como verificamos. Kopke, Roteiro da Viagem que... fe\ Dom Vasco da Gama, em 1497. Porto, i838, pág. 126. Em 1861 saiu outra edição, revista por Hcrculano.
  • PROLOGO NO PRIMEIRO LIURO DOS DEZ DA HISTORIA DO DES- cobrimento & conquifta da índia pelos Portuguefes. Dirigido ao muyto alto & muyto poderofo Rey dõ Ioão noffo Senhor deite nome ho terceiro Rey de Portugal & dos Algarues, daquem & dalem mar em África, fenhor de Guiné, Da conquifta, nauegação & comercio de Ethiopia, Perfia, Arabia, & da índia. Per Fernão Lope% de Castanheda. EM grande obrigação fam os homés aos hiftoriadores muito alto & muito poderofo Rey noffo Senhor, principalmente os princepes pera quem parece que é efpecial fe fez a hiftoria, cousa tão prouei- tofa pera a vida humana q infina o q façamos & do q auemos de fugir, o q conué muito mais aos princepes q aos outros homés, porq qualqr homé priuado q faça hú erro não he nada pois não dana mais q a fi mefmo, & hú princepe fe ho faz dana a todos os q té debaixo de fua gouernãça, porq dela fer boa ou mâ depéde ho bem & mal de todos os de fua Repubrica, Pelo q he muito neceffario ler ho princepe mais virtuofo, mais fabedor & mais prudente qúe todos, & pera que aprenda eftas coufas não té melhor preceitor q a hiftoria, porque ? que doutrina q difcrição q prudécia ha pera boa gouernança da Repubrica afli na paz como na guerra que a hiftoria não insine com experiécia de exempros, que fam muito mais do que hú homé pode ver em fua vida por mais comprida q feja, & poriffo todos effes princepes famofos afli Barbaros como Gregos & Latinos forão tão dados a ler hiftorias. E por a hiftoria fer tão neceffaria aos princepes efpecial as de feus anteceffores de q muito melhor hão de tomar exempro q dos estrangeiros foy inftituido q nos rey- nos ouueffe croniftas que fiel & particularmente fcreueffem os feitos dos Reys affi na paz como na guerra & os costumes & qualidades que teue- rão, pera que ficaffem por regiméto de feus fubcefores que viffem no q os Tomo I ,
  • 2 Historia da índia auião de feguir & do que fe auião de goardar, No q eles fe deuião docupar algúas oras do dia pois tato importa a fua boa gouernãça, & fem duuida q iffo abaftaua pera per fi fe confelharem melhor do que muitas vezes fão confelhados, porque hi & nas hiftorias acharão cafos conformes aos em que fe confelhão, em que elas como peffoas defapalTionadas dão mais verdadeiros cõfelhos que os confelheiros, que muitas vezes errão como humanos. Do que verdadeiramente fe pode colegir que a hiftoria he muyto mais proueitosa & neceffaria pera os princepes que pera os homens priua- dos, & conhecendo eu eftes feus proueitos, por feruir a. V. Alteza tomey ho trabalho de fazer efta, do descobriméto & conquifta da índia que os Portuguefes fizerão, affi por mandado do muito famofo & bem afortunado Rey dom Manuel voífo pay, como pelo de. V. A. & pera ferem diuulga- das pelo mundo as notaueis façanhas que fizerão com ajuda de noffo Se¬ nhor neite defcobrimento & conquifta, de que não auia nhúa lembrança fe não em quatro peífoas, com cuja morte se acabaria, & fendo fcritas durarião pera sempre como as dos Gregos & Romãos que ho forão, a que eftas dos Portuguefes & ás dos Barbaros tem grande & conhecida auãtage, porque as luas cõquiílas forão todas per terra, alTi como a de Semiramis, de Ciro, de Xerxes, do grande Alexãdre, de Iulio Cefar & doutros Barbaros, Gregos & Latinos & indo eles cõ fuas gentes. E a da índia foy feita por mar & por voffos capitães, & cõ nauegação dú anno & doito mefes & de feis ao menos: & não a vilta de terra fenão afalta- dos trezentas & feifcentas léguas partindo do fim do Occidente & naue- gando ate ho do Oriente fem verem mais que agoa & ceo, rodeando toda a Sphera, coufa nunca cometida dos mortais, nem imaginada pera fe fazer. Com ímenfos trabalhos de fome, de fede, de doenças & de pe¬ rigos de morte, com a furia & impeto dos vetos, & paliados eftes fe vem na índia em outros defpantofas e cruéis batalhas com a mais feroz gente & mais fabedor na guerra & abaftada das munições parela, q outra nhúa Daíia. No que també inuictiflimo Príncipe le conhece a muito grãde prof- peridade del Rey voífo pay & voífa, que fem vos bolir de voflas cafas defcobriftes & conquiftaftes per voffos capitães o que nhús Príncipes poderão pei* fi defcobrir nem conquiftar. E fintindo eu tamanha perda como fora perderfe a memória de feitos tão notaueis que os Portuguefes fizerão, & pelas mais rezões que digo me difpus a tamanho trabalho como leuey 5 a fazer, pera o que me ajudou muito ir à índia, onde fuy cõ Nuno da cunha em companhia do licenciado Lopo Fernandez de Cafta- nheda meu pay, que por mandado de. V. Alteza foy ho primeiro ouuidor da Cidade de Goa. E a riqueza que lâ trabalhey por alcãçar, foy faber muyto particularmente o que ate aquele tempo fizerão os Portuguefes no
  • Prologo 3 defcobrimento & conquifta da índia, & ifto não de peffoas quaeifquer, fenão de Capitães & Fidalgos que ho fabião muyto bem por ferem pre- fentes nos confelhos das coufas & na execução delas, & per cartas & summarios que examiney coeftas teftemunhas. E affi vij os lugares em q fe fizerão as coufas que auia de ícreuer peraque foífem mais certas : porq muitos fcritores fizerão grandes erros no que fcreuerão por não faberem os lugares de que fcreuião. E não fomente fiz efta diligecia na índia, mas ainda defpois em Portugal, por não achar nela quem me difeífe tanta diuerfidade de coufas & tão particularmente como queria faber. E alé de me todos affirmaré cõ juramento o q me diíferão me derão liceça pera os alegar por teftemunhas. E eftas peffoas com que faley em Por¬ tugal andey bufcãdo per diuerfas partes, com muito trabalho de minha peífoa & gafto diffo pouco que tinha: no que gaftey vinte ãnos, que foy ho melhor tempo de minha idade, & nele fuy tão perfeguido da fortuna & fiquey tão doéte & pobre, que por não ter outro remedio com que me mantiueffe aceitei feruir hús officios na vniuerfidade de Coimbra, onde no tempo que me ficaua defocupado do feruiço deles com affaz fadiga do corpo & do fpirito acabey de compoer efta hiftoria, que reparti em dez liuros que offreço a. V. Alteza, a que Deos noffo Senhor defpois de muytos & profperos annos ficando em feu lugar ho Príncipe noffo Senhor, leue do fenhorio da terra ao do çeo.
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  • HO PRIMEIRO LIURO DA HISTORIA DO DESCOBRIMENTO E CONQUISTA DA INDIA pelos Portugueses. Per mandado do inuictillimo Rey dom Manuel de Portugal de gloriofa memória deite nome ho primèyro: em que fe contem ho defcobrimento da índia per dom Vafco da Gama cõde da Vidigueira & almirante do mar Indico. E a guerra que fizerão os Portuguefes a el rey de Calicut no tempo que forão capitães móres Francifco dálbuquerque & Duarte Pacheco. Feyto per Fernão Lopes de Castanheda. GAPITOLO I. De como el Rey dom Ioão de Portugal ho fegundo dejle nome mandou defcobrir a índia per mar & defpois por terra. ANtes que a índia foffe defcuberta pelos Portuguefes, a mayor parte da efpeciaria, droga & pedraria dela fe vazaua pelo mar roxo donde ya ter á cidade Dalexandria, & ali a comprauão os Venezianos que a espalhauão pela Europa, de que ho reyno de Portugal auia feu quinhão, que os Venezianos leuauão a Lisboa em galés, princi¬ palmente reynado nos reynos de Portugal el Rey dõ Ioão ho fegundo deite nome: que como foífe de muyto altos penfamétos, & defejoso dacrecentar feus fenhorios & emnobrecelos a feruiço de noffo fenor, de¬ terminou de proífeguir ho defcobrimento da coíta de Guiné que feus anteceífores tinhão começado: porque por aquela coíta lhe parecia q def- cobriria ho fenhorío do Preíte Ioão das índias de que tinha fama: pera
  • 6 Historia da índia que por ali podeífe entrar na índia, donde per feus capitães podeffe man¬ dar leuar aquelas- riquezas q os Venezianos lhe yão vender. E coefta deter¬ minação mandou nouamente continuar efte descobrimento per mar, per hú Bertolameu diaz que foy almoxarife dos almazés de Lisboa, que mãdou por capitão mór a eíte defcobrimento, em que defcobrio aqle muyto grande & elpantofo cabo dos antigos não conhecido: que agora fe chama Cabo de boa Efperança, & paffou auante cento & coréta legoas ate ho rio do Iffante, & da hi fe tornou pera Portugal fem achar nouas do Prefte joão nem da índia: & naquela viagem pos em certos lugares algús padrões q leuaua com cruzes & as armas reaes de Portugal. E ho derradeyro foy e hú ilheo perto da terra firme quinze legoas atras deite rio do Iffante, a q pos nome ho ilheo da Cruz. E defpois da partida deite Bertolameu diaz, como el Rey tinha muytos grãdes defejos de defcobrir ho Prefte joão das índias pera ho conhecer por amigo, & por fua caufa ter étrada na índia, determinou de ho mandar defcobrir por terra: por onde ja tinha mandado hú frey Antonio de Lisboa frade de iam Francifco & hú leygo q chegarão ate Ierufale & da li fe tornarão por não faberé a lígoa Arabica. E pera efte defcobriméto da terra efcolheo hú criado seu que auia nome Afonío de payua natural de Castelo branco, & outro chamado Pero de couilhaã natural de húa vila deite nome: & a este diffe em íegredo q espe- raua dele hú grande leruiço, porq fempre ho achara bõ feruidor & leal, & muyto ditofo nos feruiços q lhe tinha fevtos. E ho é q queria q ho feruiífe, era iré ele & Afonfo de payua defcobrir & iaber do Prefte Ioão, & onde achauão a canela & a eípeciaria q ya da índia a Veneza por terra de mouros: rogãdolhe muyto q lhe fizeífe efte feruiço, q ele diffe q faria, & forão ambos deípachados em Santaré aos fete dias de Mayo, de mil & cccclxxxvij. per ante el Rey dõ Manuel q então era duq de Beja : & deu- lhes el Rey húa carta de marear q fora tirada de hú Mapamundi, pera que pofeffem nela os lugares do fenhorio do Prefte, & aífi o caminho por õde foffem. E pera lua defpesa lhes deu el Rey quatro cétos cruzados da arca das despesas da orta Dalmeirim: & tomãdo deles o q podeffé gaitar, foy posto ho resto no banco de Bertolameu florétim, & aifi lhes deu el Rey húa carta de créça pera feré focorridos em perigo ou necessidade é quaefquer reynos q fe achaiíem, porq em todos era el Rey conhecido. E partidos Pero de couilhaã & Afonfo de payua de Santaré chegarão a Barcelona é dia de corpo de Deos, dõde lhes cãbarão ho cambo pera Nápoles, a q chegarão dia de fam Ioão: & sendo lhes dado feu caminho pelos filhos de Como de medieis forão ter a Rhodes, em cuja religião não auia ainda mais de dous Portuguefes, hú chamado frey Gonçalo & outro frey Fernãdo com qué poufarão, & da hi paffarão a Alexandria
  • Livro I, Capitolo 1 7 como mercadores, & dali íe forão ao Cayro, & da hi em companhia de mouros de Fez & de Tremecé em trajos de mouros forão ter ao lugar do Toro ao pé de monte Sinay na costa Darabia no mar roxo: dõde per mar fe forão a çuaqué na cofta da bexia, & despois a Adé. E fabendo ja bé que aquelle rey Chriftão q el Rey dõ Ioão cuydaua q era ho Prefte Ioão das índias era senhor de Ethiopia, cõcertarão q lhe leualfe Afonfo de payua húa carta del Rey do Ioão & fe viffe coele. E por fer a moução pera a índia de q fabião a verdade Õdeftaua, q folfe lá Pero de couilhaã, & q a certo tempo fe ajútaffem ambos no Cairo. E partidos cada hú pera fua parte, Pero de couilhaã q ya é húa nao de mouros: foy ter a Cana- nor, & dahi a Calicut, q vio q era naqle tempo a principal efcala da cofta da índia, & dahi foy ver a ilha de Goa. & foy a çofala & á ilha que agora chamão de sam Louréço q os mouros chamauão da Iúa, & defpois á Dormuz. E tornado ao Cairo achou noua q Afonfo de payua era morto: & querédofe tornar pera Portugal cõ tão boas nouas como leuaua, soube como hi andauão em fua busca dous judeus Portuguefes, hú chamado Rabi habrão morador é Beja, & outro Iofeph morador em Lamego & çapateiro, q eíteuera em Babilónia & foubera nouas da ilha Dormuz, & do feu trato dõde -fora ter a Portugal algús dias defpois da partida de Pero de couilhaã & Dafonfo de payua. E cotou ifto a el Rey dom Ioão, que logo ho tornou a mandar cõ cartas a Pero de couilhaã, & coele Rabi habrã por feu companheiro: & dizia nelas que fe Pero de couilhaã tinha vifto & fabido tudo aquilo a q ho mandaua q se tornaffe a Portugal & q lhe faria merce. E se não tinha tudo visto & fabido q lhe efcreueífe o que tinha feyto, & principalmente foffe ver ho Prefte Ioão. E alé defta carta requererão os dous judeus eftreitaméte a Pero de couilhaã da parte del rey dõ Ioão q foffe ver ho Prefte Ioão, & moftraffe Ormuz a Rabi habrão. E logo Pero de couilhaã escreueo a el Rey tudo o q tinha sabido do Prefte, & õde era feu senorio, & affi o q vira da índia & Dormuz: & a carre¬ gação q fe fazia é Calicut defpeciaria, Droga & pedraria: & q Calicut & Cananor eftauão é cofta, & podiafe nauegar pera lá pela fua cofta & mar de Guiné, indo demandar çofala: dõde podião ir tomar a cofta de Calicut. E mãdada efta carta per Iofeph, partiofe cõ Rabi habrahão pera Adé, donde foy a Ormuz, & hi ho deixou pera fe ir a Portugal cõ outra tal carta fua pera el Rey dõ Ioão como leuara Iofeph. E determinãdo dir à corte do Prefte Ioão, foy ver a cidade de Iudá no eftreito de Meca: & Meca, & Almedina & mõte Sinay. E embarcado no Toro foy ate a cidade de Zeila na cofta da Abexia: & dahi tomou feu caminho pera a corte do Prefte Ioão, q he como diffe fenhor da Ethiopia. E chegado á corte deu a carta del Rey dõ Ioão a Alexãdre q então fenhoreaua a Ethiopia, q a
  • 8 Historia da índia recebeo cÕ muvto prazer por íer de rey Chriftão, & difTe a Pero de coui- lhaã q ho mandaria a fua terra có muyta hõrra. E nefte tépo morreo Ale- xãdre & reynou Nahu seu irmão que não quis dar licença a Pero de coui- lhaã pera fe ir, né menos feu filho Dauit q defpois reynou, em cujo tempo lá foy do Rodrigo de lima por ébaixador, como direy no quinto liuro q achou ainda Pero de couilhaã viuo de quê fe tudo ifto foube. E fe el Rey dõ Ioão ouue as cartas q lhe Pero de couilhaã mãdou pelos judeus eu ho não foube. E pafTados algús mefes defpois da partida de Pero de coui¬ lhaã, el Rey dom Ioão falou cõ hú frade da terra do Prefte q lhe foy man¬ dado de Roma, de que se enformou largaméte do fenhorio do Prefte & per ele lhe efcreueo. E também quafi nefte tépo chegou a Lisboa Berto- lameu diaz do léu defcobriméto: q contou a el Rey ate Õde chegara & o q vira. E determinando de profléguir efte defcobriméto, pera o q ordenou de mandar fazer dous nauios: & a madeira de q fe auião de fazer foy mãdada cortar per hú Ioão de Bragãça moço do mote q foy védor deita obra, & foy leuada a Lisboa no anno de mil & ccccxciiij. E querendo el Rey dom Ioão mãdar fazer os nauios, fobreueolhe a morte no ãno de mil & quatrocentos & nouéta & cinco a vinte cinco Doutubro na vila Daluor, & sucedeolhe el Rey dom Manuel de gloriofa memória o primeyro defte nome: a qué parece que a diuina prouidécia tinha escolhido pera efte defcobriméto, com q a fé catholica foy tão exalçada, & a real cafa de Portugal ganhou tãta fama & honrra. CAPITOLO II. De como Vafco da gama com outros capitães foy defcobrir a índia. EComo quer que el Rey dõ Manuel affi como fucedeo nos reynos a el Rey dõ Ioão, affi tãbé lhe sucedeo nos defejos q tinha de defco¬ brir a índia: logo aos dous annos de feu reynado entendeo no feu descobriméto, pera que lhe aproueitou muyto as instruções q lhe'ficarão del Rey dõ Ioão, & feus regimétos pera efta nauegação: & mãdou fazer dous nauios da madeira q el Rey dõ Ioão mandara cortar. E hú q era de céto & víte toneladas ouue nome sam Gabriel: & outro de cento fam Ra¬ fael : & comprou pera ir coeftes nauios húa carauela de cincoenta tone¬ ladas a hú piloto chamado Birrio de q a carauela tomou ho nome. E eftes tres nauios auia de mandar a efte defcobriméto & cõ a capitania mór deles cometeo hú Paulo da gama caualeyro de fua cafa filho q fora Defteuão da gama alcayde mór da vila de Sinis no campo douriq, em q tinha grande confiança por ele fer pera iffo. Do q fe ele efculou por húa doença que
  • Livro I, Capitolo II 9 tinha com q não poderia fofrer os trabalhos de capitão mór, pedindo a el rey q fizeffe merce daqle cargo a hú feu irmão mais moço chamado Vafco da gama q ho faberia muy bé feruir, & q ele iria també na armada por capitão pera o acõfelhar & ajudar. Do q el Rey foy contente por faber q era afli, & que era Vafco da gama efpremétado nas coufas do mar em q tinha feyto muyto feruiço a el Rey dom Ioão: & q era homé de grandes fpiritos: & muyto proprio pera dar fim a efte defcobri- méto, & aíli lho diffe quãdo lhe deu efte cargo, encomédãdolhe muyto q fatiffizeffe ao credito q tinha nele, porq fe afii ho fizeffe lhe faria por iffo muyto grandes merces, que lhe logo começou de fazer de húa coméda, & de dinheiro pera o apercebiméto de fua viagé. E pera irem coele defpachou també a Paulo da gama & a hú Niculao coelho am¬ bos criados del Rey & homés pera qualquer grande feyto. E por quanto nos nauios da armada não podião ir mantimétos q abaftaftem á géte dela ate tres annos, coprou el Rey húa nao a hú Ayres correa de Lif- boa q era de duzentos toneis, pera q foífe carregada de mãtimêtos ate a agoada de fam Bras, & ali fe defpejaria & a queymarião. Defpachado Vafco da gama em mõte mór ho nouo onde el Rey eftaua, partiofe cÕ feus capitães pera Lifboa: õde feyta fua armada embarcoufe a gente dela, q forão cento & corenta & oyto peftoas: é Reftelo, q fera húa legoa de Lifboa, hú fabado oyto dias de Iulho do anno de mil & ccccxcvij. E ao embarcar fayrão todos é prociífam de noffa fenhora de Belé: que he agora hú mofteiro da ordé de fam Hieronimo, & hião em pelote & cirios acefos nas mãos, & os frades rezando; & ya coeles a mavor parte da géte de Lifboa, & a mais dela choraua com piedade dos q fe yão em¬ barcar crédo q auião todos de morrer. Embarcados todos & Vafco da gama cõ os outros capitães, logo derão ás velas & fe partirão de foz é fora. E Vafco da gama ya na nao fam Gabriel, & leuaua por feu piloto a hú Pero Dalãquer q fora piloto de Bertolameu diaz quãdo fora defco- brir ho rio do lifante: & Paulo da gama ya em fam Rafael, & Niculao coelho na carauela berrio: & hú Gonçalo nunez criado de Vafco da gama ya por capitão da nao dos mantimétos. E na fua cõpanhia ya Bertolameu diaz é húa carauela ate a ilha do cabo verde, & dahi auia dir á mina. E Vafco da gama mandou a todos q fendo cafo q fe perdeffem hú dos outros q fizeífé feu caminho pera as ilhas do cabo verde, & ali fe ajun- tarião. E feguindo fua viagé dali a oyto dias ouue vifta das Canarias. E indo húa noyte atraues do rio do ouro foy de noyte a çarração tamanha & a tormenta, q fe perderão os nauios hús dos outros, & afli apartados feguirão a rota das ilhas do cabo verde per efpaço de oyto dias. E fédo ja jútos Paulo da gama, Niculao coelho, Bertolameu diaz, & Góçalo Tomo I 3
  • 10 Historia da índia nunez a húa quarta feyra a tarde toparão cÕ Vafco da gama, & faluãdo ho cõ muytos tiros dartelharia & trõbetas lhe falarão. E ao outro dia que forão xxviij. de lulho chegarão todos d ilha de Santiago: & lurgirão na praya de fanta Maria, onde íizerão agoada em fete dias, & forão cõcer- tadas as vergas dos nauios do dãno q receberão na torméta paffada, & húa quinta feyra que forão tres Dagolto fe partio Vafco da gama defpedin- dofe primeyro dele Bertolameu diaz: q dali fe foy caminho da mina. E Vafco da gama feguio por fua nauegação indo caminho do cabo de boa Efperãça, & cõ todas as naos de fua cõferua fe engolfou no mar, per õde nauegou Agolto, Setembro, & Outubro cõ muytas tormetas de vetos, chuuas & çarrações com q fe todos virão é affaz de perigo, vendo a morte diãte muytas vezes. E fendo ja tempo de Vafco da gama ir demãdar a terra, Ido na volta dela hú fabado quatro dias de Nouembro ás noue horas foy "vifta, de q todos forão muyto ledos. E juntos os capitães faluarão Vafco da gama veílidos todos de feita, & os nauios embãdeirados, & che¬ garão bé júto cõ terra & porque a não conhecerão mãdou Vafco da gama q tornalfem a virar na volta do mar, & forão nela ate a terça feyra feguinte q virarão pera terra ate q a virão, & forã ter a húa grande baya q por ter bõ poufo furgirão nela pera faz.ere agoada, & poferanlhe nome a angra de fanta Elena. E fegundo os nolfos defpois acharão, os homés q morauã no fertão daqla angra: fam peqnos de corpo, & feos de roíto, de coor baça, & quando falauão parecia q faluçauão: feus veílidos fam de peles dalimarias, feytos como capas francefas. Traze por armas húas varas dazãbujo toftadas, & nos cabos metidos hús cornos dalimarias tof- tados, q lhes ferue de ferros, & ferem coeles. Mantenfe elta géte de rayzes deruas, & de lobos marinhos, & baleas, de que aqla angra he muyto abaltada, & adi de coruos marinhos & gaiuotas: & tambe comé gazelas, & rolas, & cotouias, & outras alimarias & aues que ha na terra em que també ha cães como os de Portugal. Surta a armada mãdou Vafco da gama rodear a ãgra pera ver fe fe metia nela algú rio dagoa doce & achando que não mãdou Niculao coelho no feu batel ao longo da coíta pera diante que ho folie bufcar, & achou hú dali a quatro legoas a q pos nome Santiago, & dele fe proueo a frota dagoa. Ao outro dia fayo Vafco da gama em terra cõ os outros capitães & algúa gente pera ver que gente era a que moraua naquela terra & fe poderia faber quanto aueria dali ao cabo de boa Efperança, porque ho não fabia que fe não affirmaua ho piloto mór na certeza do q feria, porq quãdo foy cõ Bertolameu diaz não ouue vilta do cabo fe não tornandofe pera Portugal, & da ida fora de largo, & por iffo nã conhecia a terra. E com tudo faziaffe trinta legoas do cabo ao mais. Afli q defembarcado Vafco da gama, & andando pela
  • Livro I, Capitolo II ii terra tomarão os noffos hú homem dos feus moradores, que andaua apa¬ nhando mel aos pés das moutas, õde ho as abelhas fazião fem mais cor¬ tiços. E coele fe tornou Vafco da Gama muyto ledo ás naos cuydando que teria lingoa nele, mas não foy adi, que nenhú dos lingoas que leuaua ho pode entender, & mãdoulhe dar de comer, & comeo, & bebeo de tudo o que lhe derão. E vendo Vafco da gama que fe não entedia, ao outro dia ho mandou poer em terra bem vertido, o que parece q ele foy mof- trar aos outros, porq ao outro dia vierão obra de quinze onde eftaua a nofla frota: & Vafco da gama lhes moltrou efpeciaria, ouro, & aljôfar pera ver fe teria aqla gente conhecimento dalgúa daquelas coufas. E na pouca conta que fizerão delas conheceo q não tinhão nenhum, & etão lhes deu cafcaueis, aneis deftanho, & ceitis: & coifto folgarão muyto. E dali por diante até ho fabado feguíte vinhão muytos onde eftaua a nofla frota: & recolhédofe a gente da terra pera fuas pouoações, hú dos noffos chamado Fernão velofo, que defejaua muyto de ver a fua maneyra de vida pedio licença a Vafco da gama pera ir em fua companhia: que lhe ele deu mais importunação que por võtade. E indo Fernão velofo com eles tomarão hú lobo marinho, que logo affarão ao pee de húa ferra, & ho cearão todos. E fegundo defpois pareceo a gente da terra tinha orde¬ nada treyção aos noffos, porque aqla com que Fernão velofo ceou, tanto que teue acabado de cear ho fez tornar pera a nofla frota q eftaua perto. E defpois de partido focã a pos ele de vagar, & quando Fernão velofo che¬ gou a borda dagoa eftauão os noffos ceãdo, & ouuindo ho-Vafco da gama bradar, & vedo a gente da terra que ho feguia, pareceolhe que lhe queria fazer mal, deixou de cear & cÕ os de fua nao fe meteo logo no batel & foyfe a terra, & ho mefmo fizerã os outros capitães, & todos yão defar- mados parecédolhes que os negros não farião o que fizerão: & eles em aparecendo os noffos bateis deitarão a correr com grande grita, & afli fayrão outros que eftauão efcondidos no mato. E em os noffos defembar- cando derão fobreles tirandolhes cõ fuas azagayas: de maneyra que aos noffos lhe foy forçado tornarfe a embarcar com muita prefla, recolhendo todauia Fernã velofo. E védoos os negros embarcados tornaranfe, mas Vafco da gama foy ferido & afli tres homes. E ainda que os noffos ali efleuerão defpois quatro dias não tornarão mais os negros: & por iffo não fe pode Vafco da gama vlgar deles.
  • 12 Historia da índia CAPITOLO .III. De como Vafco da gama dobrou lio cabo de boa Efperãça, & do que lhe aconteceo ate pajfar lio rio do Iffante FEyta agoada & carnajem, partiofe Vafco da gama húa quinta feyra pela menhaã que forão dezafeys de Nouembro & fez feu caminho na volta do mar com fui fufuefte. E ao fabado a tarde ouue vifta do cabo de boa Efperança, & por lhe fer ho vento contrayro que era fufuefte, & o cabo jaz nordefte fuduefte tornou a virar na volta do mar em quanto durou ho dia, & de noyte na volta da terra: & ho mefmo lhe acõteceo ate a quarta feyra ieguinte q forão vinte de Nouembro, em q dobrou efte cabo, indo ao longo da cofta cõ veto a popa, com muyto prazer de folias & tanger de trombetas é toda a frota, porque todos efperauão em noífo fenhor de acharem o q bulcauao. E indo aili ao logo da terra vião andar nela muyto gado groífo & meudo, & todo muyto grade & gordo: & não parecião nenhúas pouoações, porque por efta terra não as ha ao longo do mar, fe não metidas pelo fertão, & fam tudo calas de terra & palhaças, & a gente he baça: & veltefe como a da angra de faníla Elena, & afli falão & da mefma maneyra vfam azagayas, & tem mais outras armas. A terra he muyto viçofa daruoredos & dagoas, & junto com efte cabo da banda do fui 1'e faz húa angra muyto grande que entra pela terra bem feys legoas, & na boca tera bé outras tantas. Do¬ brado ho cabo de boa Efperança, logo ao domingo feguinte que foi dia de fanta Catherina chegou Vafco da gama a agoada de fam Bras, que he feifenta legoas auante do cabo. He húa baya muyto grande abrigada de todos os ventos fométe do norte: a gente he baça & cobrefe com peles, pelejão com azagayas de paos toftados, & cornos & oífos dalimarias por ferros & cõ pedras. Na terra ha muytos alifãtes & muy grandes, & afli boys que fam muyto manfos & gordos em eftremo, & fam capados, & deles nã té cornos. E dos mais gordos fe feruem os negros pera andar neles, & trazénos albardados cõ albardas caftelhanas de tabua & fobrelas hús paos q faze feyção dãdilhas & nelas ãdão. E aos q queré refgatar metélhe hú pao defteua pelas vétãs. Nefta angra eftá em mar tres tiros de béfta hú ilheo em q ha muytos lobos marinhos, & deles fam tamanhos como vlfos muyto grandes, & fam muyto temerofos & té grandes détes, & fam tão brauos q fe vão aos homés: & té a pele tã dura q nenhúa lãça os pode paliar por grãde força q leue, & eftes dã hurros como liões & os peqnos berrã como cabritos: & fam tãtos q indo os nolfos folgar hú
  • Livro I, Capitolo II i3 dia a efte ilheo virã obra de tres mil ãtre grades & peqnos. Ha tãbé húas aues a q chamão fotilicavros q fam tamanhas como patos & não voão porq não té penas nas afas & azurrão como afnos. Surto Vafco da gama neíta angra, fez defpejar a nao dos mantimétos nas outras naos & mandouha queimar como leuaua por regiméto. E nifto & em outras coufas fe deteue aqui treze dias. E logo a fefta fevra feguíte defpois q a armada chegou, eítãdo os noífos nos nauios aparecerão obra de nouéta homés hús ao lõgo da praya, outros pelos oyteiros. E védo os Vafco da gama fe foy a terra cõ os outros capitães, & toda a géte ya armada, & os bateys com tiros dartelharia, porq lhes nã acõteceífe como na angra de fanta Elena: & chegados os bateis júto cõ terra, lançaua Valco da gama nela cafcaueis, & os negros os tomauão, & lhe yão tomar da mão outros q lhe dauão: do que fe ele efpantaua por faber de Bertolameu diaz q quãdo ali efteuera fugião dele. E védo a manfidão dos negros fayo é terra cõ os feus, & fez coeles refgate de barretes vermelhos por mani¬ lhas de marfim. E logo ao fabado vierão obra de duzétos negros antre homés & moços q trouuerão doze boys & quatro carneyros: & como os noífos forão a terra começarão eles de tãger quatro frautas acordadas a quatro vozes da mufica, q pera negros cõcertauão bé: o q ouuindo Vafco da gama, mãdou tanger as trõbetas & bailaua cõ os noífos. E nefta fefta & no refgate dos boys & carneyros fe gaftou aqle dia: & ho mefmo fize- rão ao domingo em que veo muyto mais géte q dantes, alli homés como molheres, & trouuerã muyto gado vacú, & tédo refgatado hú boy virão os noífos algús negros peqnos q eftauão efcondidos no mato & tinhã as armas aos grãdes, q parecendo treição mãdou Vafco da gama recolher os noífos & foyfe a outro lugar mais feguro q aqle, & os negros forão ate lá emparelhados coeles: & ali defembarcou Vafco da gama cõ os noífos q yão armados. E os negros fe começarão logo dajútar como pera pelejaré: o q entédendo Vafco da gama porq lhes não qria fazer mal le tornou a ébarcar, & por os efpãtar lhes mãdou tirar cõ dous berços, & eles fugirão tão defacordados q deixarão as armas: defpois difto mãdou meter em terra hú padrão cõ as armas de Portugal & húa cruz, que os negros tornarão a derribar eftãdo ali os noífos. Paífados eftes dias q Vafco da gama aqui efteue, partiofe caminho do rio do lífante húa fefta feyra oyto dias de Dezébro, q foy dia de .N. S. da cõceição. E indo por fua viagé dia de fanta Luzia lhe deu húa grãde torméta de uéto a popa com q correo a frota todo o dia cõ os traqte.s muyto baixos. E nella rota fe perdeo Niculao coelho da conferua, & na noyte feguinte fe tornou a ajútar. Palfada efta borrifcada aos .xvj. de Dezébro, ouue Vafco da gama vilta de terra Õde fe chamão os ilheos chãos, q eftão .lx. legoas da angra de
  • 14 Historia da índia fam Bras, & cinco alem do ilheo da Cruz, Õde Bertolameu diaz pos ho derradeyro padrão, & dele ao rio do Iffante auia .xv. legoas, & a terra era muyto graciofa, & bé aflbmbrada, & auia nela muyto gado, & de cada vez era melhor, .& de mais altos aruoredos, & yão os nolfos tão perto dela q tudo ifto vião. E ao fabado paffarã a vifta do ilheo da Cruz & por fere tanto auãte como ho rio do Iffante efteuerão á corda a noyte feguinte, porq ho nã efcorreffem. E ao domingo forão perlõgando a cofta cõ veto a popa ate oras de vefpera, q lhes faltou ho véto ao leuãte q era pelo olho, & por iffo fe fizerã na volta do mar, & andará aili payrãdo húa volta ao mar, outra a terra ate a terça feyra q forão .xx. de dezébro, q ao foi pofto lhes tornou ponéte q era a popa. E pera reconheceré a terra efteuerã aqla noyte á corda, & ao outro dia ás dez horas chegárão ao ilheo da Cruz, q era feffenta legoas a ré do q fe fazião, & difto forão caufa as grãdes corrétes q ali ha. E nefte mefmo dia tornou a frota a paliar a mefma carreira q tinha paffada leuãdo muyto véto a popa q lhe durou tres ou quatro dias com q rõpeo as corrétes q auião grãde medo de não poderé paffar & afíi yã todos muyto alegres por paffarem donde Bertolameu diaz tinha chegado, & Vafco da gama os elforçaua, dizédo q afli quereria Deos q achaffem a índia. CAPITOLO .1111. De como Vafco da gania chegou a terra da boa géte, â defpois foy ter ao rio dos bõs fmaes. E Prosseguindo por fua rota, achou dia de Natal q tinha defcuberto por cofta fetéta legoas é lefte, q era ho rumo a q leuaua em regi- méto q a índia jazia, & daqui andou tãto pelo mar fé tomar terra q lhes falecia a agoa pera beber, & faziaffe de comer cõ agoa falgada. E fédo ja a regra da agoa no mais q a quartilho por dia, húa quinta feyra dez dias de Ianeiro do ãno de mil ccccxcviij. foy nos bateis ao longo da terra pera auer vifta dela. E ãdãdo afli virão muytos negros ãtre homés & molheres & todos de grãdes corpos q andauã ao logo da praya. E védo Vafco da gama q moftrauã fer géte mãfa mãdou fair é terra hú dos noffos chamado Martim afonfo q fabia muytas lígoas de negros & coele outro homé, & forão ambos bem agafalhados daqla géte, & afli do fenhor dela que ali andaua: a que Vafco da gama mandou húa jaqueta, calças & carapuças vermelhas, & húa manilha de cobre com que folgou muyto: & diffe que daria da fua terra quanto Vafco da gama quifeffe. Cõ cuja licéça Martim afonfo porque entendia a lingoa, foy aqla noyte á pouoação
  • Livro I, Capitolo IIII iS deite fenhor acompanhando ho: & ele ya arrayado com a jaqueta, calças & carapuça: o que moltraua a muytos dos feus q ho fayrão a receber, & eles batião as palmas por cortefia: & ilto por tres ou quatro vezes. E afii andou pola pouoação de cafa em cafa moftrãdo aquelas peças cÕ grande prazer, & por derradeyro mandou agafalhar os Portuguefes muyto bem, & deulhes húa galinha pera cearem & papas de milho. E delpois de cea muytos do lugar os forão ver como a coufa noua. E ao outro dia mãdou com os Portuguefes muytas galinhas a Vafco da gama, mãdãdolhe dizer que ya moltrar as peças que lhe dera ao fenhor daquela terra, cujo vaífalo era. Aqui fe deteue Vafco da gama cinco dias: & a terra era muyto pouoada de gente, & a mais dela molheres, & os homés trazião arcos compridos, & frechas, & azagayas com os ferros de ferro, & punhais com goarnições deftanho & as bainhas de marfim, & nos braços & pernas manilhas de cobre, de que trazião pedaços depêdurados nos cabelos: pelo que parecia auer ali abaltança de cobre & deftanho. Pre- zaua efta gente tanto ho pano de linho que dauão por húa camifa muyto cobre: & por efta géte fer muyto domeftica com os Portuguefes & lhes fazer agoada lhe foy pofto nome a agoada da boa gente, & a hú rio onde fez agoada ho rio do cobre. E partiofe daqui aos quinze de Ianeiro, & nauegou ao longo da cofta ate os vinte quatro que furgio na boca dú rio muyto largo. E entrado nefte rio pera faber nouas da índia achou que de cada vez era mais cuberto de bafto aruoredo. E indo alli, ex que aparece certas almadias pelo rio abaixo carregadas de gente negra, & tudo ho¬ mens de bõs corpos fem outra cubertura mais de hús panos dalgodão cingidos. E chegados aos nauios entrarão neles fem medo como q conhe- cião os Portuguefes, poré não falauão 1'e não por acenos, por não enten¬ derem nenhú dos lingoas que Vafco da gama leuaua: que lhes fez bõ gafalhado, dandolhes cafcaueis, manilhas & outras coufas com q mol- trauão folgar. E eftes idos derão tão boa noua da conuerfação dos Portu¬ guefes que ya muyta gente velos, afli por mar como por terra de que os nauios eftauão perto. E auendo tres dias que eftauão nefte rio, forão dous negros ver Vafco da gama, q no aparato q leuauão parecião ler ienhores: & os panos que cingião erão mayores q os dos outros & hú deles leuaua na cabeça húa touca cõ hús viuos de feda, & o outro húa carapuça de cetí verde. De q vafco da gama ficou muyto ledo vedo q aqles vfauão algúa policia, & agafalhou os muyto bé, & mãdoulhes dar de comer, & deulhes de veftir, & outras coufas: mas eles parecia q não eftimauão coufa algúa: & e hú pedaço q efteuerão na capitaina, diífe hú dos negros q yão coeles per acenos a Vafco da gama que em lua terra, que era dali lõge vira nauios grandes como os noffos, com q fe acre-
  • Historia da índia j6 centou muyto ho prazer de Vafco da gama & de todos, parecendolhes q fe chegauão á índia: & muyto mais lho pareceo, porq defpois q fe eftes dous fenhores forão pera terra mandauão refgatar á frota hús panos dal- godão q tinhão húas marcas dalmagra. E por eftas nouas que Vafco da gama achou neíte rio lhe pos nome ho rio dos bos finaes: & mãdou meter em terra hú padrão a q pos nome fam Rafael, porque fe chamaua adi ho nauio q ho leuaua. E parecédolhe a ele por todos eftes finaes que digo que ainda a índia eftaua dali longe, ouue por bem com confelho dos outros capitães que tiraffem os nauios a monte, o que foy feyto em trinta & dous dias, & os concertarão muyto bé: & nefte tempo paífarão os noffos affaz de trabalho com húa doença que lhes fobreueo, (parece que do ár daquela região) que a muytos lhes inchauão as mãos, & as pernas & os pees. E coifto lhes crecião tãto as gengiuas fobre os dentes que não podião comer & apodrecialhe, de maneyra que não auia quem foportafle ho fedor da boca, & coeftes males padecião dores muy grãdes & mor¬ rerá algús: o que pos a gente em grãde defmayo. E em muyto mayor a pofera fe não fora por Paulo da gama q era de tão boa condição que de de noyte & de dia vifitaua todos, & os confolaua & curaua, & repartia coeles muy largamente deffas coufas de doentes que leuaua pera fua peíloa. CAPITOLO .V. De como Vafco da gama cõ toda a frota foy ter aa ilha de Moçambique. COncertadas as naos de todo o neceffario Vafco da gama tornou a leu defcobriméto: & partiofe hú fabado vinte quatro de Feue- reyro,.& aquele dia foy na volta do mar: & afli a noyte feguinte por le afaftar da cofta que toda era muy graciofa, & ao domingo a horas de vefpera aparecerão tres ilhas ao mar, & todas pequenas, & aueria de húa a outra quatro legoas & em duas auia grandes aruoredos, & a outra era calua: & Vafco da gama não quis que as tomaífem, por não auer diflo neceftidade, & foyfe na volta do mar, & como foy noyte payrou, & afli ho fez feys dias. E húa quinta feyra a tarde que foy ho primeyro de Março vio quatro ilhas, duas perto da cofta & duas ao mar, & por não ir de noyte dar nelas fe fez na volta do mar, porque determinaua de ir por antrelas, como foy, mandando diãte Niculao coelho, por ler ho feu nauio mais pequeno que os outros: & Ido ele a fefta feyra por détro de húa angra q le fazia antre a terra & húa das ilhas, errou ho canal, & achou bajxo, o que foy caufa de virar atras pera os outros nauios que yão apos ele, & em virando vio que fayão daquela ilha fete ou oyto
  • Livro I, Capitolo V 17 barcos á vela, & aueria deles ao nauio de Niculau coelho húa grade legoa & os noflos que yão cõ Nicolau coelho derão húa grade grita cÕ prazer de ver aqles barcos, & forão faluar Vafco da gama dizédo Niculao coelho. Que vos parece fenhor ja efta he outra gente. E ele lhe refpon- deo muyto ledo, que fe deixaffem ir na volta do mar, pera que podeflem aferrar aquella ilha donde fayrão os barcos, & que furgirião ali pera íaberé que terra era, ou fe acharião entre aquela gente nouas da índia. E com tudo os barcos os feguião fempre capeandolhes a géte deles q os efperaífem. E nilto furgio Vafco da gama com os outros capitães: & tãto que forão furtos chegarão os barcos a eles: & quãto mais fe chegauã foauão neles atabales como q hião de feita. A gente q vinha dentro erã homés baços & de bõs corpos, veítidos de panos dalgodão liítrados & de muytas córes, hús cingidos ate o giolho, & outros fobraçados como capas: & nas cabeças fotas cõ viuos de feda laurados de fio douro, & trazião ter¬ çados mourifcos & adagas. Eftes homés como chegarão aos nauios entrarã detro muy feguraméte como q conhecerão os Portuguefes, & alli cõuer- farão logo coeles, & falauão arauia: no q fe conheceo q erão mouros. Vafco da gama lhes mandou logo dar de comer: & eles comerão & be- berã: & pregútados per hú Fernão martinz q fabia arauia, que terra era aqla: diíferão que era húa ilha do fenhorio dú grãde rey q eítaua a diãte: & chamauafe a ilha Moçãbique, pouoada de mercadores q tratauão com mouros da índia, que lhe trazião prata, panos, crauo, pimenta, gengibre, aneys de prata, com muytas perlas, aljôfar, & rubis. E q doutra terra q ficaua atras lhe trazião ouro: & q fe ele quifeflé entrar pera dentro do porto q eles ho meterião, & lá veria mais largamente o que lhe dezião. Ouuido ilto por Vafco da gama, ouue confelho cõ os outros capitães q feria bõ que entraffem: alli pera vere fe era verdade o q aqueles mouros dizião como pera tomarê pilotos q os guiaffem dali por diante, pois os não tinhão: & q Niculao coelho folfe fondar a barra: & affi fe fez. E indo ele pera étrar foy dar na ponta da ilha, & quebrou ho leme: & quis noífo fenor q aflí como deu na ponta, affi tornou a fair pera o alto & não peri¬ gou: & achando que a barra era boa pera entrar foy furgir dous tiros de béfta da pouoação da ilha: que como digo fe chama Moçãbiq & eltá em quinze graos da banda do fui, & tem muy bõ porto: & he abaftada dos mantimétos da terra. A pouoação he de cafas palhaças, pouoada de mou¬ ros, que tratauã dali pera çofala em grandes naos, & fem cuberta né pre- gadura, cofidas cõ cayro: & as velas erão deíteiras de palma: & algúas trazião agulhas genuifcas, porque fe região por quadrãtes & cartas de marear. Coeftes mouros vinhão tratar mouros da Índia & do mar roxo, por amor do ouro q ali achauão. E quando eles virão os noffo's cuydarão Tomo I 3
  • i8 Historia da índia que erão turcos por a noticia que tinhão de Turquia pelos mouros do mar roxo: & aqueles que forão primeiro á noffa frota ho forão dizer ao çoltão, que affi chamauão ao gouernador do lugar, que ho gouernaua por el rey de Quiloa, de cujo fenhorio era efta ilha. CAPITOLO .VI. I)e como ho çoltão de Moçambique fe\ pa\ cõ Vafco da gama cuydando que fosse turco SAbido pelo çoltã a vida dos noflos: & como Niculao coelho eftaua lurto no porto, credo q foflem turcos ou mouros doutra parte, ho foy logo ver ao nauio acopanhado de muyta gente, & ele atauiado de panos de feda. E Nicolau coelho ho recebeo cõ grade horra: & como não auia lingoa por cujo meo fe podeiTem falar, não fez ho çoltão muyta detença no nauio. Porc bem entcdeo Niculao coelho que cuydaua ele q os noffos erão mouros, & deulhe hú capuz vermelho de q ho çoltão não fez muyta cota, & ele deu a Niculao coelho húas cotas pretas que leuaua na mão: & ifto por leguro. E quando fe ouue de ir pediolhe ho feu batel pera ir nele; & ele lho deu, & mandou coele algús dos noffos q ho çoltão leuou a fua cafa, & os cõuidou cõ tamaras & outras coufas, & mãdou a Niculao coelho húa jarra de tamaras em conferua, com q delpois cõui¬ dou Vafco da gama, & feu irmão, a qué ho çoltão mãdou logo vifitar credo q foffem turcos, & lhe mandou muyto refrefco, & pedir licéça pera ho ir ver. E Vafco da gama lhe mandou hú prefente de chapeos, marlotas vermelhas, corays, bacias de latão, cafcaueis & outras coufas muytas, q fegúdo diffe o que lhas leuou não teue em conta dizédo, que pera q era aquilo boõ, que porq lhe não mandaua ezcarlata, que iffo era o q queria. E cõ tudo foy ver Vafco da gama, que fabédo que ele auia de ir, mandou embãdeirar & toldar a frota & efcõder os doentes que leuaua, & paíTar á fua nao todos os fãos: & todos armados fecretaméte pera eftaré preítes fe os mouros quifeffem fazer algúa treição. E eftãdo afli chegou ho çoltão acopanhado de muyta gente & toda bé atauiada de panos de feda: & tan- gianlhe muytas trõbetas de marfim & adi outros inftrométos. Ele era homé de bÕ corpo & magro, leuaua vertida húa cabaya de pano dalgodão branco, que he húa roupa apertada no corpo: & cõprida ate ho artelho: & em cima defta outra de veludo de Meca: & na cabeça húa fota de feda de veludo de muytas cores & douro, & cingido hú terçado rico & húa adaga: & no§ pes húas alparcas de feda. Vafco da gama ho recebeo ao portaló da nao, & dali ho leuou pera a tolda: onde fe lhe delculpou de
  • Livro I, Capitolo VII 19 lhe não mandar ezcarlata, porq a não trazia: fe não coufas q defle por mãtimentos quando delles teueífe neceflidade. E diífelhe q ya defcobrir a índia por mandado de hú grade rey, cujo vaflalo era. E ifto lhe dezia pelo lingoa Fernão martinz: & apos ifto lhe mandou dar muy bé de comer deífas conferuas q leuaua: & do vinho: & ele comeo & bebeo de boa võtade: & afli os q hião coele, q todos forão cõuidados: & mof- trauão grãde amor aos noflos. Ho çoltão preguntou a Vafco da gama fe vinha de Turquia, porq ouuira dizer q erão brãcos afli como os noflos, & dizialhe que lhe moftraíle os arcos de fua terra, & os liuros de fua ley. Ele lhe difle q não era de Turquia fe não dú grande reyno q confinaua coela: & q os feus arcos & armas lhe moftraria, & os liuros de fua ley não os trazia, porq no mar não tinháo necefíidade deles, & moftroulhe algúas béftas com q mandou tirar. De que ho çoltão ficou efpãtado, & afli dalgúas couraças q lhe forão moftradas. E nefta vifta foube Vafco da gama que dali a Calicut auia noue cétas legoas, & q lhe era neceflario piloto da terra: porq hauia dachar muytos baixos, & q ao lõgo da cofta auia muytas cidades. E mais foube q ho Prefte Ioão eftaua dali lõge pelo fertão: & fabédo q tinha neceflidade de piloto pedio ao çoltão que lhe defle dous, porq fe hú mor refle ficafle outro: & ele lhos prometeo, cõ condição q os contétafle. E outra vez q ho çoltão ho tornou a ver lhe leuou os dous pilotos q lhe prometeo, & ele deu a cada hú trila miticaes, q he hú pefo douro q na terra ferue por moeda, & pela vinte hú vintés: & mar- lotas. E ifto cõ condição q daqlle dia por diãte auião deftar coele na nao, & quãdo quifeflem ir a terra fempre ficafle hú na nao, porq auia alda de fazer algúa detença naquele porto. CAPITOLO .VII. De como 0 çoltão de Moçambique quis fa\er treição a Vafco da gama: & do que fucedeo fobriffo. FEyto efte concerto: auendo muy ta communicação antre os noífos & os mouros vierão eles a entender que os noflos erão Chriftãos, pelo qual toda a amizade que tinhão coeles fe lhe tornou em odio & defejo de os matarem, & de lhes tomarem as naoí. E ifto concertaua ho çoltão de fazer, o q quis noflo fenhor que hum dos pilotos mouros defcobrio a Vafco da gama fendo ho outro em terra. E labendo ele ifto, & receandofe q ho pofeflem os mouros em afronta por feré muytos & ele ter pouca géte, não fe quis mais deter, & partiofe logo hú fabado dez de Março, auédo fete dias que chegara. E partido foy furgir cõ toda a frota
  • 20 Historia da índia junto cõ húa ilha q eftaua em mar húa legoa da de Moçãbique. E ifto pera q ao domingo fe dilíefTe miffa em terra, & fe confelíalfem & comú- gaíTem os nolfos, porq defpois q partirá de Lifboa núca o mais fizerão. E defpois de furta a frota, vedo Vafco da gama q a tinha fegura de lha não queimaré os mouros, q era o q também receaua: determinou de tor¬ nar a Moçambiq nos bateys a pedir ho piloto mouro q lhe ficaua em terra: & deixando na frota feu irmão com recado pera lhe acodir fe diffo teueffe neceilidade, partiofe leuãdo Nicolao coelho no feu batel, & leuaua tãbé ho outro piloto mouro. E indo aíTi vio vir cotrele feys barcos com muytos mouros armados darcos, frechas muyto cõpridas, & elcudos & lãças, q como virão os nofTos começarão de lhes capear q fe tornaífem pera ho porto da vila. E ho piloto mouro dizia a Vafco da gama q que- rião dizer os acenos q os mouros fazião, & confelhaualhe q fe tornalfe: porq doutra maneyra nã lhe auia ho çoltão de dar ho piloto que ficaua e terra: do q ele ouue grande menécoria, parecedolhe q ho piloto lhe acõ- lelhaua aquilo pera lhe fugir, & poriífo ho mandou logo préder: & mãdou tirar cõ as bõbardas q hião nos bateis aos das barças. E ouuldo Paulo da gama as bõbardas na frota, cuydãdo q foífe outra coula acodio logo no nauio berrio em q 1'e fez á véla: & védoo os mouros vir, como ja dãtes fugião fugirão muyto mais, & acolherãfe a terra: & não os podédo Vafco da gama alcãçar tornoufe cõ feu irmão onde as naos eftauão furtas: & ao outro dia fayo cõ a géte em terra & ouuio miífa: & todos comulgarão cÕ muyta deuaçã eftãdo cõfeifados da noite paliada. E feito ifto fe em¬ barcarão & partirá no mefmo dia: porq Vafco da gama defefperou de poder auer ho piloto q lhe ficaua em Moçãbique, & mandou foltar o outro q leuaua, q parece q por fe vingar dele, determinou de ho leuar á ilha de Quiloa q era de mouros, & dizer ao rey dela como aquela frota era de chriftãos pera q os mataífe todos: & difle a Vafco da gama q fe não agaftaífe por ho outro piloto porq ele ho Ieuaria a húa grãde ilha q eftaua dali cê legoas, q era pouoada a metade de mouros a metade de Chriftãos, q tinhão guerra hus cõ outros, & q ali tomaria pilotos q ho leuaífem a Calecut: & ele lhe prometeo grãdes merces fe ho leuaffe onde dizia. E feguído por fua viagé cõ veto muyto efcaífo á terça feira feguinte q forã treze de março a vifta de terra vinte legoas donde partira lhe deu cal¬ maria, q durou a terça & quarta feira. E na noite feguinte cõ vento leuante & pouco fe fez na volta do mar: & quando veo á quinta feira pola menhaã achoufe cõ toda frota a ré de Moçãbiq quatro legoas: & aqle dia ãdou ate a tarde q foy furgir iúto da ilha onde ouuióa miífa ho domingo paífado: & por lhe fer ho tépo por dauãte pera fua nauegação efteue ali elperãdo por vento oyto dias, & neles veo ter á frota hú mouro
  • Livro 1, Capitolo VII * 21 branco q era caciz dos mouros, q em nofla lingoa quer dizer clérigo, & difle a Vafco da gama q ho çoltão eftaua muyto arrepédido da paz q que¬ brara coele, & q tornaria de muyto boa võtade a confirmala & fer feu amigo. E ele lhe mãdou dizer q não faria paz coele, né feria feu amigo ate lhe nã tornar ho piloto q lhe tinha: & coefta reporta fe foy ho Caciz & nuca mais tornou. E defpois de ido efte Caciz veo hú mouro q trazia configo hú menino leu filho, & difle a Vafco da gama q fe ho quilefle leuar na frota q iria coele ate a cidade de Melinde q auia dachar naqlla rota q leuaua, porq ele fe queria tornar pera lua terra q era júto de Meca dõde viera por piloto é húa nao a Moçãbiq, & diflelhe q não efpe- rafle reporta do çoltão, q nã auia de fazer paz coele, porq era chriltão. E Vafco da gama folgou muyto coefte mouro, porq ho éformafle do eftreito do mar roxo, & afii dos lugares q auia pola corta por õde auia de nauegar ate Melinde: & mãdou ho agalalhar na fua nao. E por quãto o tépo tardaua pera fazer viagé, & a agoa da frota faltaua determinou com os outros capitães détrar no porto de Moçambique pera fazer agoada, & que eftaria com grande vigia, porque lhe não pofeflem os mouros ho fogo á frota. Irto determinado entrarão no porto a húa quinta feyra, & como foy noyte forão os bateys lançados fora pera irem por agoa, que ho piloto mouro de Moçambique diífe q eftaua na terra firme, & que ele a iria moftrar: & por iflo Vafco da gama ho leuou, & partio aa mea noyte indo coele Niculao coelho, & Paulo da gama ficou na frota. E chegado onde ho piloto dizia que eftaua a agoa nunca a pode achar: porque ho piloto como andaua mais pera ver fe podia fugir q pera moltrar a agoa, enleoufe de maneyra que nunca pode dar coela, (ou não quis) em todo aquele efpaço que eftaua por paifar da noyte. E vinda a manhaã- vendo Vafco da gama q nã achaua agoa, não quis mais elperar porque leuaua pouca gente, & temeofe q deílem os mouros fobrele, & quis fe ir refor¬ mar de mais gente á frota pera poder pelejar com os immigos 1'e lhe qui- feflem defender a agoa, porque fez cota que melhor a acharia de dia que de noyte. E tornandofe a reformar á frota, tornou coele Niculao coelho a fazer agoada: & leuando tãbem ho piloto mouro, que vendo q não podia fugir, moftrou logo ho lugar onde eftaua a agoa, que era júto da praya: na qual andauão obra de vinte mouros efcaramuçando a pé com azagayas, & fazédo moftra de quererem defender a agoa: & Vafco da gama lhes mandou tirar tres bombardadas pera darem lugar que os noífos podeflem faltar fora. E elpantados os mouros das bõbardas fe embre¬ nharão logo no mato, & os noífos fizãrão agoada pacificamcte, & quafi lol pofto fe recolherá á frota, õde acharão q fugira pera os mouros hú negro de Ioão de Coimbra piloto de Paulo da gama. E ao fabado que
  • 22 Historia da índia forão vinte quatro de Março, vefpera da Annúciação de noffa fenhor, logo pela manhaã apareceo hú mouro em terra bem defronte da frotaa & difle em voz alta, que fe os noífos quifeífem agoa que foffem por ela: & ifto com hú fom que eftaua lá quem os faria tornar. E com a menen- coria q Vafco da gama ouue deite defprezo fe lhe acrecentou a que tinha da fugida do negro do piloto: de maneyra que determinou de efbõbar- bear a pouoação dos mouros por vingãça. E dizendo ho a feus capitães fe embarcarão todos nos bateys armados, & coeffa gente q tinhão forão cotra a pouoação, Õde os mouros ao longo da praya tinhão feyta húa paliçada de tauoado tam bafto que fe não podião ver os que efteueflem detrás dela: & por fora deita paliçada antrela & ho mar andauão obra de cem mouros armados defcudos, agomias, azagaias, arcos, frechas, & fundas. E fendo os noífos bateys a tiro de funda lhe começarão de tirar ás pedradas: & os noífos lhe refponderão logo com muytas bombardadas, com cujo medo os ímigos deixarão a praya, & fe recolherão pera dentro da paliçada que com as bombardadas foy toda deffeyta, fugindo os ímigos pera a pouoação, de q ficarão dous mortos na praya. Deffeita a paliçada & defpejada, Vafco da gama fe tornou com os feus, & por ver q os mou¬ ros fugião daquela pouoação com medo que auião dos noífos & fe yão por mar pera outra que eítaua da outra banda, & defpois de jãtar fe foy nos bateys com feus capitães pera ver fe podia tomar algús mouros, cuy- dando que tomando os aueria por eles ho negro do piloto, & aííi dous índios que lhe difle ho piloto mouro que eítauão catiuos em Moçambi¬ que. E neíta ida fó Paulo da gama tomou quatro mouros em húa alma- dia, & poíto que muytas leuauão outros muytos, vararão em terra, & fugirão, lem os noífos os poderem tomar, & nas almadias acharão muy¬ tos panos finos dalgodão & liuros do alcorão de Mafamede. E com quanto andou aquele dia ao lòngo da pouoação, nunca pode auer fala de nenhú mouro, & não oulou de fayr em terra porque tinha pouca gente. E deter¬ minando ja de fe partir fem ho negro nem os índios, ao outro dia fez agoada fé lha ningué contrariar, & a fegunda feyra feguinte tornou a efbombardear a pouoaçaÕ dos mouros & deftruyo ha de maneyra que eles fe recolherão por dentro da ilha. E a terça feyra vinte & fete de Março fe partio do porto de Moçambique, & foy furgir junto dos ilheos de fam Iorge, que afli lhe pos nome quando ali chegou, onde ainda fe deteue por lhe fer ho vento contrairo pera fua viagem, & defpois de par¬ tido por fer ho véto fraco & as correntes ferem grandes tornou atras.
  • Livro I, Capitolo VIII 23 CAPITOLO .VIII. De como Vafco da gama fe par tio de Moçãbiq, & lio tiauio fam Rafael deu ê os baixos, q agora te lio mefmo nome. E Prosseguindo fua viagem muyto ledo porque achara que hú dos quatro mouros q Paulo da gama tomara era piloto q ho faberia leuar a Calicut, hú domingo primeyro Dabril foy ter a húas ilhas que eftauão bé junto da cofta, & á primeyra foy pofto nome a ilha do açoutado. E a caufa foy porque foy nela açoutado ho piloto mouro de Moçambique por dizer q aquelas ilhas erão terra firme, & como ja Vafco da gama ya inchado dele de quando lhe não quifera moftrar a agoada de Moçambique, como ho acolheo na métira das ilhas, parecendolhe que o leuaua ali pera fe perderé as naos antrelas, mandouho açoutar muy crua¬ mente, & ho mouro confeflou q pera fe perder ho leuaua. E as ilhas erão tantas & tão juntas que fe não podião eftremar húas das outras. E vifto como erão ilhas fez fe Vafco da gama a la mar delas, & afii foy & a quarta feyra que forão quatro Dabril fez fua rota ao noroefte: & antes do meo dia ouue vifta de húa terra grolfa, & de duas ilhas que eftauão junto coela, & derredor delas auia muytos baixos & chegado júto com efta terra que os pilotos mouros reconhecerão, diíferão que a ilha dos Chriftãos (q era a de Quiloa) ficaua a ré tres legoas, de que Vafco da gama ficou muyto agaftado, cuydando verdadeyramente que era de Chrii- tãos, & quifera pingar os pilotos, parecendolhe que a cinte a efcorrerão, porque a não tomafle. E elles fe defculpauão cÕ ho vento fer muyto, & as corrétes grãdes, & que fingrarão as naos mais do que elles cuydarão. E porem a elles pelou mais de a não tomarem que a elle, porque efpe- rauão de fe vingar ali dele & dos noffos, com morte de todos: de que os nolfo fenhor liurou milagrolaméte, que fe lá forão nenhú efcapara: porq Vafco da gama cuydando q a terra era de Chriftãos ouuera de fayr fora: & cõ ho pefar que tinha de a efcorrer quis tornar atras pera ver fe a poderia tomar: no que fe trabalhou bé aquele dia, mas nunca poderão por lhe fer pera iffo ho vento contrairo & as correntes ferem grandes. E então ouue Vafco da gama confelho com os outros capitães que arri- baífem á ilha de Mombaça, que os pilotos mouros lhe dizião que era pouoada de mouros & de Chriftãos em duas pouoações apartadas, o que dizião por enganaré os noffos, & os leuarem a matar, que a ilha era de mouros como ho era toda aquela cofta. E fabendo que dali a Mõbaça erão fetenta & iete legoas fez feu caminho pera lá, & acerca da noyte
  • 24 Historia da índia vio húa ilha muyto grande que lhe demoraua ao norte, em que os pilotos mouros dizião q auia duas pouoações húa de Chriftãos, outra de mouros. E ilto por fazerem crer aos noiros que auia por aqla terra muytos Chrif¬ tãos, & indo aíli cõ vento tendéte dahi a certos dias duas horas ante me- nhaã deu ho nauio fam Rafael em feco, em hús baixos q eítauão duas legoas da terra firme: & como deu naqles baixos fez final aos outros na- uios pera q fe goardafíé: & eles furgirão a tiro de bõbarda dos baixos, & lançando os baleis fora forão acodir a Paulo da gama: & virão q a agoa vazaua: pelo que conhecerão que tornando a encher nadaria ho nauio, & logo lhe lançarão muytas ancoras ao mar: & nifto amanheceo: & acabãdo a maré de vazar ficou o nauio de todo em feco na praya, q era darea, que foi caufa de ele não receber nenhú dãno, que varou por ela & eftaua dereyto com as ancoras q tinha ao mar: & os noífos fayrão na praya em quanto a agoa não enchia. E por fe ho nauio chamar fam Rafael polerão nome aos baixos, os baixos de fam Rafael, & a húas grandes & altas ferranias que eftauão na cofia defrõte deftes baixos, as ferras de fam Rafael. E eftando ho nauio em feco vierão de terra duas almadias, em que vinhão mouros da terra a ver os noífos nauios, & leuarã muytas larãjas doces & muyto melhores q as de Portugal, q derão aos noífos. E differãlhes que elTorçaífem, q como foffe preamar ho nauio nadaria & farião caminho: & Vafco da gama lhes deu algúas peças, afli pelo que dizião, como por virem a tal tempo; & dous deles fabédo q ele ya pera Mobaça lhe pedirão q os leuaífe lá, & ficarã coele, & os outros ie tornarão pera terra, & vida a prea mar fayo ho nauio do baixo & tor¬ narão todos a feu caminho com toda a frota. CAPITOLO .IX. De como Vafco da gama chegou aa cidade de Mõbaça, & do que lhe hi aconteceo E Seguindo lua rota, hú labado fete Dabril a horas de foi pofto foy lurgir de fora da barra da ilha de Mombaça, q eftá junto cõ a terra firme, & he muyto farta de muytos mantimentos .f. milho, arroz, gado affi grofio como meudo, & todo muyto grande & gordo, prí- cipalméte os carneyros, q todos fã derrabadas & té muytas galinhas. He també muyto viçofa de hortas em q ha muyta ortaliça, & muytas fruytas •f. romaãs, figos da índia, laranjas doces & agras, limões & cidrões, & muy fingulares agoas. Nefta ilha eftá húa cidade q tem ho nome da ilha em quatro graos da banda do lul, he grãde & fituada em alto õde bate
  • Livro 1, Capitolo IX 25 ho mar, fundada fobre pedra q fe não pode minar: te na entrada hú padrão, & á étrada da barra hú baluarte peqno & baixo júto do mar. He a mór parte deita cidade de cafas de pedra & cal, fobradadas & lauradas de macenaria, & toda bé arruada. Té rey fobre fi, & os mora¬ dores dela fam mouros, hús brãcos outros baços, afii homés como molhe- res: & prezanfe de bõs caualeyros, & andão muyto bé tratados: & aíli as molheres cõ panos de feda & joyas douro & pedraria. He cidade de grãde trato de todas as mercadorias: té bÕ porto õde ha fempre muytas naos, vélhe da terra firme muyto mel, cera & marfim. Chegado Vafco da gama aa barra delta cidade, não entrou logo pera dentro por fer ja quaft noyte quãdo acabou de furgir, & mandou embãdeirar & toldar as naos por feita, & fazer em todas grãdes alegrias. E afii eitauão todos muyto ledos crédo q na ilha auia pouoação de Chritãos, & que ao outro dia auião dir ouuir miffa a terra & q ali curariã os doétes q leuauão q erão quafi todos os q efcaparão da viagé, porq a mayor parte dos q partirão de Portugal erão mortos de doenças geradas do muyto trabalho q paíla- uão. E eítando Vafco da gama aqui furto, forão bé noyte obra de cé homés é húa barça grãde, & todos com terçados & efcudos. E em che- gãdo aa capitaina quiferão entrar todos cõ as armas: & Vafco da gama não quis, né deixou étrar mais de quatro, & eítes fem armas, & diífelhe pelo lingoa que lhe perdoaffem porq como era eítranjeiro não fabia de qué fe auia de fiar: & mandou os cõuidar cõ algúas conferuas de q eles comerão, & diíferãlhe que lhe não tinhão a mal o q fazia, & q eles ho vinhão ver como a coufa noua naqla terra, & q fe não efpantaffe de tra- zeré armas, porq fe acoitumaua naqla terra trazerénas na guerra, & na paz. E diíferãlhe q el rey de Mõbaça fabia de fua vida, & por fer noyte ho não mãdara vifitar, mas q ho faria ao outro dia, porque folgaua muyto cõ fua vinda, & folgaria mais de ho ver: & lhe daria efpeciaria cõ que carregaffe as naos. E diíferã mais q apartado dos mouros auia muytos Chriitãos q morauão fobre fi, com que Vafco da gama folgou muyto, & então acabou de crer q auia Chriitãos naqla ilha, védo q concertauão aqueles mouros cõ o q lhe tinhão dito os pilotos. E cõ tudo ele não deixou de ter algúa fofpeita q aqueles mouros vinhão ver fe poderião tomar algú dos nauios. E afii era porq el rey de Mõbaça bem fabia que os noíros erão Chriitãos; & o q fizerão em Moçãbique, & defejaua de fe vingar deles: & era fua tenção matalos a todos, & tomarlhe os nauios. E cõ eíte fundamento ao outro dia q foy dia de ramos lhe mandou dizer por dous mouros muyto aluos, q ele folgaua muyto cõ fua vinda, & fe quifeífe entrar pera ho feu porto lhe daria tudo ho de q teueife neceflidade, & por feguro lhe mandou hú anel & de prefente hú carneyro, & muytas larãjas, cidrões Tomo I 4
  • 2Õ Historia da índia & canas daçucar. E diífe aos mouros q lhe difleíFem q erão Chriftãos, & que os auia na ilha. O q eles fizerão cõ tanta diflimulação q os noífos cuvdarão que erão Chriftãos. E Vafco da gama lhes fez muyto gafalhado & lhes deu algúas peças, & mãdou agradecer a el rey ho offerecimento q lhe fazia, dizendo que ao outro dia entraria pera dentro, & mandoulhe hú ramal de coraes muyto finos. E pera mais confirmar a paz cÕ el rey, mandou coeles dous dos noífos. E eftes forão dous degradados dalgús que trazia pera auéturar coeftes recados, ou pera os deixar em lugares õde viífe q era neceífario pera que foubeílem o q ya neles, & os tomaífe da volta q fizeífe. Chegados os noífos a terra cõ os dous mouros ajun- toufe logo muyta géte a velos, & foy coeles ate os paços del rey, onde entrados antes q chegaífem a el rey paífarão quatro portas, & a cada húa eftaua hú porteyro cõ hú terçado nu na mão, & el rey eftaua cõ pouco eftado, mas fez muyto gafalhado aos noífos, & mandoulhes moftrar a cidade pelos mefmos mouros com q vierão. E indo eles pela cidade virão ãdar por ela muytos homés prefos cõ ferros: & como não entendião a lingoa, ne os mouros a fua: não pregútarão q prefos erão aqueles: & cuydarão q ferião Chriftãos que os auia por aquelas partes, & q tinhão guerra com os mouros. Tãbé eftes noífos forão leuados a cafa de dous mercadores índios, parece q Chriftãos de fam Thome: q fabendo q os os noífos erão Chriftãos moftrarão coeles muyto prazer, & os abraçauão, & cõuidarão: & moftrarãlhe pintada em húa carta a figura do Spirito Sanóto a q adorauão. E perãteles fizerã fua adoração em giolhos cõ geito domes muyto deuotos, & q tinhão détro o que moftrauão de fora. E os mouros diíferão aos noífos por acenos que outros muytos como aqles morauão em outra parte dali lõge, & por iífo os não leuauão laa: mas defpois q foífem pera ho porto os irião ver. E ifto dizião polos enganar, & os acolher no porto onde determinauão de os matar. E vifta a cidade pelos noífos, forão tornados a el rey: q lhe mãdou moftrar piméta, gin- gibre, crauo, & trigo tremes, & de tudo lhe deu moftra q leuaífe a Vafco da gama: a q mandou dizer por feu melfageiro q de tudo aquilo tinha muyta abaftãça, & lhe daria carrega fe a quifeífe. E alli de ouro, prata, ambar, cera & marfim e outras riquezas em tanta abaftãça q fempre as ali acharia de cada vez q quifeífe por menos q em outra parte. E quando ele vio a efpeciaria, & q el rey lhe mãdaua prometer carrega, foy muyto ledo, & muyto mais da enformação q lhe os noífos derão da terra & dos dous Chriftãos q acharão: & ouue confelho cõ os outros capitães, & acor¬ darão q entraífem no porto & tomaífé a efpeciaria que lhes deífe: & def¬ pois fe irião a Calicut, onde fe a não podeífé auer ficarião cõ a q ali ouueífem, & aífentarão détrar ao outro dia. E nefte têpo vinhão algús
  • Livro I, Capitolo IX 27 mouros á capitaina & eftauão cõ os noífos é tato affefego & concordia q parecia q os conhecião de muyto tepo: & vindo ho outro dia em come¬ çado a maré de repõtar, mandou Vafco da gama leuar ancora pera entrar no porto. E não queredo noffo fenhor q os noffos ali acabafle como os mouros tinhão ordenado defuiou ho per efta maneyra, q leuada a capi¬ taina nuca quis fazer cabeça pera entrar détro & ya fobre hú baixo q tinha por popa. O que vifto per Vafco da gama por não fe perder, man¬ dou furgir muy depreffa, o q també fizerão os outros capitães. E vedo algús mouros q eftauão na nao q furgia pareceolhes q não étraria aqle dia a frota no porto & recolherãfe a húa barça q tinhão a bordo pera fe iré á cidade. E indo por fua popa, os pilotos de Moçambiq lãçarãfe á agoa & os da barca os tomarão & forãfe, pofto q Vafco da gama bradou que lhe defle os pilotos. E quando vio q lhos não dauão, difle aos feus que lhe parecia q noffo fenhor permitira aquilo pera os goardar dalgúa treição que lhe eftaua ordenada. E como foy noyte pingou dous mouros dos q trazia catiuos de Moçãbiq, pera que lhe diffeffem fe lhe tinhão ordenada treição: & eles confeífarão o q difle, & q os pilotos fe lãçarão ao mar, parecedolhes q ele fabia a treição: & por iflo não quifera étrar no porto. E querédo ele pingar outro mouro pera ver fe cõcertaua coel- tes, deitoufe ao mar cõ as mãos atadas & outro fe deitou ao quarto dalua. Sabido per Vafco da gama efte fegredo deu muy tos louuores a noffo fenor por os liurar tão milagrofaméte: & differã todos a Salue na capitaina. E receãdo q os mouros os cometeffé de noyte ordenoufe q a vigiaffem toda todos armados: & a efte tépo fe achauão ja os doétes melhor, q como forão defrõte defta cidade fe acharão fãos, 0 q parece q foy milagre de noffo fenhor pela neceffidade q tinhão de faude. E nefta mefma noyte á mea noyte fentirão os que vigiauão no nauio Birrio bolir ho cabre de húa ancora que eftaua furta, & logo cuydarão que erão toninhas, fe não quãdo atentando bem virão que erão os Imigos, que a nado eftauão picando ho cabre cõ terçados, pera que cortado defle ho nauio á cofta e fe perdefle, ja q doutra maneyra ho não podião tomar. E logo os noffos bradarã aos outros nauios, dizédolhes o que paffaua pera que fe goardaffem. E niflo os do nauio fam Rafael acodirão, & acharão que algús dos Imigos eftauão pegados nas cadeas da enxarcia do íeu traquete. E vendo eles q erão fen- tidos calaranfe abaixo & cõ os outros que picauão ho cabre do Berrio fugirão a nado pera duas almadias q eftauão de largo em q os noffos fétirão rumor de muyta gente, & remando as cõ muyta preffa fe tornarão aa cidade, donde aa quarta & quinta feyra, q ainda defpois difto Vafco da gama ali efteue yão os Imigos de noyte a nado ver fe podião picar os cabres das ancoras: mas não poderão por a grãde vigia que tinhão os
  • a8 Historia da índia noífos: & com tudo derãlhe aíTaz de trabalho, & os poferao em muyto temor de lhes queymarem os nauios. E foy muyto não fayrem os mou¬ ros a eles nas naos, o que parece que foy com medo da noífa artelha- ria, que fabião q vinha na frota: porem ho mais certo he que noflò fenhor lhe pos elte medo pera liurar os nolfos, q faindo os immigos a eles ouuerão de ler todos mortos. CAPITOLO .X. De como Vafco da gama chegou á cidade de Melinde VAsco da gama fe deixou eftar ali aqueles dous dias pera ver fe podia auer pilotos que ho leuaflem a Calicut, porque fem eles auia de fer muv difficultofo poder lá ir, porque os noífos pilotos não a conhecião, & defpois que vio que não podia auer pilotos, partiofe aa fefta feyra dendoenças pela menhaã, vétandolhe pouco vento: & ao fair da barra lhe ficou húa ancora por os nolfos eftarem muyto canfados de leuar as outras, & não a poderem leuar: & achãdoa defpois os mouros a leua- rão aa cidade, & a poferão júto dos paços del rey onde a achou dõ Fran- cifco dalmeida ho primeyro vifo rey da índia, quando tomou efta cidade aos mouros como direy no fegundo livro. E partido Vafco da gama de Mombaça, fendo auante dela oyto legoas furgio húa noyte junto com terra por lhe acalmar ho vento: & em amanhecedo aparecerão dous zambucos (q fam nauios pequenos) ajulauento da frota tres legoas ao mar. E como Vaíco da gama defejaua dauer pilotos pera que ho leuaflem a Calicut, parecendolhe que os tomaria nos zãbucos em auendo vifta deles fe levou & arribou fobreles com os outros capitães, & feguio os ate oras de vef- pera q tomou hú deles, & ho outro fe acolheo a terra onde foy varar & neftoutro fe tomarão bé dezafete mouros, ãtre os quaes auia hú velho que parecia fenhor de todos, que trazia configo húa moça fua molher: & aflfi fe acharã muytas moedas douro & de prata, & algús mantimétos que Vafco da gama repartio pelos outros nauios. E nefte mefmo dia ao foi pofto chegou a frota defronte da cidade de Melinde que eftaa dezoyto legoas de Mombaça em tres graos da bãda do fui. Não tem bÕ porto por fer quafi cofta braua, & eftar de dentro dú arrecife em q arrebenta ho mar: & por ilfo he ho furgidouro das naos lonje da terra, eftá aflentada em hú campo ao longo do mar & parecefe com Alcouchete: tem ao derra- dor muytos palmares & arequaeis que todo ho anno eftão verdes, & affi muytas hortas com noras em que ha todo ho genero dortaliça & de fruy- tas, principalmente de larãjas doces que fam muyto grandes & goftofas:
  • Livro I, Capitolo XI 2 9 he muyto abaftada de mantimétos, milho, arroz, gado groíTo e meudo, & galinhas & tudo muyto gordo & barato: he grande & bé arruada, & de muyto fermofas cafas de pedra & cal, de muytos fobrados, & eyrados com muytas genelas. A géte natural dela he gétia preta & bem defpofta, & de cabelo reuolto: os eftrangeiros fam mouros arabios, que fe tratão muyto bem, efpecialmente os nobres, da cinta pera cima ãdão nuus, & pera baixo fe cobre cõ panos de feda & dalgodã muyto fino: & outros como capelhares fobraçados, & nas cabeças fotas de panos de feda & ouro. Traze adagas ricas cõ grades borlas de feda de cores, & terçados bÕ goarnecidos, & todos fam ezquerdos, & traze arcos & frechas, & fam grandes frecheiros, & prefumc de bõs caualeyros. Pofto q fe diga comú- mente caualeyros de Mõbaça, & damas de Melinde, porque as molheres daqui fam fermofas & andão todas ricamente atauiadas. Alorão tambe nefta cidade muytos Guzarates gétios do reyno de Cambaya, que he na índia, que fam grandes mercadores, & tratão em ouro de q ha algú na terra, & afli abar, marfim, breu & cera, que dão aos mercadores que ali vem de Cambaya, com cobre, azougue, & panos dalgodão, & hús & outros ganhão. Ho rey defta cidade he mouro, & feruefe com mór eftado & cõ mais policia que os outros reys q atras ficauão. Chegado Vafco da gama defrõte defta cidade, foy grãde prazer em todos os da frota por¬ que vião cidade como de Portugal, & derão por ilfo muytos louuores a noffo fenhor. E querendo Vafco da gama ver fe por algú modo poderia auer dali pilotos que ho leuaífem a Calicut, mãdou furgir: porque ate então não poderá faber dos mouros que tomou no zambuco, fe auia an- treles algú piloto que foubeíTe ir a Calicut, & fempre dizião q não, ainda que forão metidos a tormento. CAPITOLO .XI. De como Vafco da gama mãdou recado a el rej■ de Melinde, & do que lhe refpondeo. AO outro dia que foy dia de Pafcoa de refureyção aquele mouro velho cafado, q foy catiuo cõ os outros mouros diffe a Vafco da gama que em Melinde eftauão quatro naos de Chriftãos índios & fe ho quifeffe mãdar a terra cõ os outros q darião por fi pilotos Chrif¬ tãos, & mais lhe darião todo quanto lhe foffe neceffario: do que ele foy muyto contente. E mandando leuar ancora foy furgir mea legoa da cidade donde não veo ninguc aa frota, por auerem medo de os tomarem, que bem fabião do zambuco que os nolfos tomarão que erão Chriftãos: &
  • 3o Historia da índia cuydauão que erão nauios darmada. E a fegunda feyra pela menhaã man¬ dou Vafco da gama leuar ho mouro velho no feu batel a húa baixa que eftaua defrõte da cidade, dõde fazia conta que virião por ele. E afli foy que afaftado ho noffo batel, veo de terra húa almadia & levou o mouro a el rey: a quem deu ho recado de Vafco da gama. E como noífo fenhor queria que a índia fe defcobriífe, folgou el rey muyto coefte recado, & defpois de comer mãdou ho mouro em húa almadia & coele hú feu criado, & hú caciz: por quem mandou dizer a Vafco da gama q folgaria muyto dauer paz antreles, & que lhe daria os pilotos que queria, & mais qualquer outra coufa de que teueffe neceflidade: & coifto mãdou tres car- neyros & laranjas & canas daçucar. Vafco da gama refpõdeo a el rey pelo mefmo meífejeiro, agradecendolhe a paz que queria q ouueffe an¬ treles, & pera fe aflentar entraria ao outro dia pera détro do porto, & que foubeífe que era vaflalo dú rey Chriftão muyto poderofo da fim de occidente que defejãdo de faber ondeftaua a cidade de Calicut a man- daua defcobrir, & lhe mãdara que de caminho aífentafle amizade com todos os reys q a quifefle coele. E que auia dous annos que partira de fua terra. E q el rey feu fenhor era tal príncipe que ele auia de folgar de o ter por amigo. E mãdoulhe de prefente hú balãdrão vermelho que era trajo daqle tempo, & hú chapeo, & dous ramaes de corais & tres bacias darame, & cafcaueis, & dous alambeis. E ao outro dia cj foy a fegúda oytaua de Pafcoa, fe chegou a frota mais á cidade, & logo el rey tornou a mandar vifitar Vafco da gama cõ mór aparato: porque ouuindo de quão longe era, & o que bufcaua, teue a el Rey de Portugal por grande animo em ho mandar, & Vafco da gama em lhe obedecer: & eftimou ho muyto, & veolhe grade defejo de ver homés que auia tanto tempo que andauão no mar, & afli lho mandou dizer, & q fe queria ver coele ao outro dia: & a vifta feria no mar. E mandoulhe feys carneiros, & muytos crauos & cominhos, gingibre, pimenta, & noz. E cofentindo Vafco da gama que fe viífem, entrou mais para détro & furgio perto das quatro naos dos índios que lhe ho mouro diflera; & fabendo os donos das naos que os nolfos erão Chriítãos forão logo vifitar Vafco da gama que a efte tempo eftaua na nao de Paulo da gama, & erã homés baços, & de bõs corpos, & bem defpoftos: veftião húas roupas cõpridas de pano dalgodão branco de pouca fralda: trazião barbas grandes, & os cabelos da cabeça compridos como molheres, & entrançados de baixo de fotas que trazião nas cabeças. Vafco da gama lhes fez muyto gafalhado, pre- gútãdolhe primeyro fe erão Chriftãos, & ifto pelo lingoa q lhe falaua arauia, de que eles fabião algúa coufa, & differão q não era aqla a fua própria lingoa, fe não q fabião dela algúa coula pela comunicação q tinhão
  • Livro I, Capitolo XII 3r com os mouros, de que aconfelharão a Vafco da gama que não fe fiaffe, porq fempre auião de ter nas võtades outra coufa do que moftrauão. E ele por efpremétar fe erão Chriftãos & tinhão algúa noticia de noffo fenhor, mãdou trazer hú retauolo de noffa fenhora do prato em q eftauão també pintados algús dos apoítolos: & moftroulho fé lhes dizer o q era. E eles é ho vedo lãçaranfe no chão & adorarão ho retauolo & rezarão hú pouco. E Vafco da gama folgou étão muyto mais coeles, & pregun- toulhes fe erão de Calicut: & eles differão q não, & q erão doutra cidade mais a diante chamada Cranganor: & não fouberão dizer nada de Cali¬ cut. E dali por diãte em quanto a frota ali eíteue, yão eles cada dia ao nauio de Paulo da gama a fazer luas orações diãte daquele retauolo, & offerecião ás imagés crauo, pimenta, & outras coufas. E eftes indios nã comião vaca fegúdo os noífos fouberã deles. CAPITOLO .XII. De como el rey de Melinde fe vio cô Vafco da gama & affentou coele amizade, & lhe deu piloto que ho leuaffe a Calicut. ADerradeyra oytaua de Pafcoa defpois de comer fov el rey de Me¬ linde em húa almadia grade júto da noffa frota, & leuaua veílida húa cabaya de damafco carmefim, forrada de cetí verde: & na cabeça húa touca muyto rica. Vinha aífetado é húa cadeira defpaldas ao modo ãtigo, & era darame muyto bé laurada & fermofa, & nela húa almofada de feda: & outra tal como efta júto coele: cobriafe cõ hú fom- breiro de pé de cetí carmefim, & ya júto coele como pajé hú homé velho que lhe leuaua hú terçado rico cõ a bainha de prata. Trazia muytos anafis, & duas bozinas de marfim de cõpriméto doyto palmos cada húa, & erão muyto lauradas: & tãgiãfe per hú buraco q tinhão no meyo: & cõcertauão cõ os anafis. Vinhão cõ elrey obra de vlte mouros fidalgos atauiados todos ricaméte. E em elrey querédo chegar aos nauios fayo Vafco da gama no feu batel embãdeirado & toldado, & ele veítido de fefta co doze homés dos mais hõrrados da frota, õde deixaua feu irmão. E é chegãdo el rey perto dele, dilfelhe q lhe queria falar no feu batel pera o ver de mais perto: & logo fe meteo no batel, & fezlhe tamanha cortefia como fe fora rey como ele, & oulhaua parele & pera os outros, como pera coufa eftranha. E diffelhe q lhe diíTeffe o nome de feu rey, & mãdou ho efcreuer: & pregútoulhe muyto meudaméte por ele & por feu poder. E ele lho diffe: & q mãdaua delcobrir Calicut pera auer de lá efpeciaria: porq a nã auia é fua terra. E defpois de lhe el rey dar algúa
  • 32 Historia da índia eformação dela & do eílreito do mar roxo, & lhe prometer piloto q o leuaffe lá, lhe rogou muyto que foífe coele pera a cidade, & que folgaria nos feus paços, & q defcãfaria do trabalho do mar, & q ele iria tãbé folgar aos feus nauios. Vafco da gama lhe diffe q não trazia licéça del rey feu lenhor pera fair é terra, & q fe o fizeffe daria de fi muyto má conta. Ao q el rey refpõdeo que fe ele folfe aos nauios q cõta daria ao feu pouo ou q dirião: & porem q lhe pefaua muyto de não qrer ir ver a fua cidade, que eftaua a ferviço do feu rey, a quê mandaria feu embaixador, ou efcre- ueria fe ele quifeífe tornar por ali de Calicut: & ele lhe prometeo de tor¬ nar. E é quanto ali efteuerão mandou Vafco da gama pelos mouros q trazia catiuos & deu os a el rey, dizendo q fe lhe poderá fazer outro mayor feruiço q lho fizera: do q el rey foy tão contéte q diífe, que mais ho eftimaua q lhe dar outra cidade como a fua. E defpois de acabaré de falar & cõfirmar amizade antreles, ãdou el rey folgãdo por antre a noífa frota, dõde tirauão muytas bõbardadas, q ele folgaua muyto douuir tirar: & Vafco da gama andaua coele: & el rey lhe dizia q nunca vira homés q folgalTe tãto de ver como os Portuguefes: & folgara de os ter configo, pera ho ajudaré em guerras q tinha ás vezes cõ feus Imigos, porq lhe parecião homés pera muyto. E Vafco da gama lhe diffe q fe os efpremé- tara q muyto mais lho parecerão, & q eles ho ajudariã fe el rey feu fenhor mãdaífe fuas armadas a Calicut, como efperaua em Deos q man¬ daria: fe lha deixaffe defcobrir. E defpois q el rey afli ãdou folgãdo, pedio a Vafco da gama q pois não queria ir ver a fua cidade, q mãdaífe lá dous dos noífos a veré os feus paços, & q ele deixaria dous dos feus na frota pera q a viífé, & deixou hú feu filho, & hú caciz, & afli fe fez: & leuou cõíigo dous dos noífos, deixãdo cocertado cõ Vafco da gama, q ao outro dia foífe no feu batel ao logo da terra, & q veria feus caualeyros a caualo. E ele ho fez ao outro dia q foy quita feyra: & foy coele Niculao coelho & nos bateis q yão artilhados, forão ao longo da praya, onde ãdauã muytos homés, & antreles dous de caualo efcaramuçãdo & como Vafco da gama chegou perto da terra chegoufe toda aqla gente ao pé de húa efcada de pedra dos paços del rey qftauão a vifta, & ali tomarão el rey em húas andas, & leuarãno ao batel de Vafco da gama, a q diífe pala- uras de muyto amor: & tornoulhe a pedir q foífe a terra: porq feu pay que eftaua entreuado defejaua muyto de ho ver: & q em quanto fofle ele & feus filhos ficarião nos nauios. E cõ tudo ifto ele fe efcufou de ir a terra, & efpedindofe del rey ãdou hú pedaço ao lõgo dela. E das naos dos índios tirauão muytas bõbardadas por fefta: & quãdo eles vião paffar os noífos leuantauão as mãos, dizédo com muyta alegria Chrifte, Chrifte. £ com licença del Rey, lhe fizerão aquela noyte grãde fefta de foguetes
  • Livro I, Capitolo XIII 33 & tiros: & dauão grandes gritas. E edando Vafco da gama ainda nede porto ao domingo q forão vinte dous de Abril foy hú priuado del rey viíitalo, & ele edaua bé agadado por auer dous dias q não vinha ningue da cidade á frota: & temeofe q el rey eftaria agrauado dele porque não quifera ir a terra: & quereria qbrar a amizade que tinhão adernado, & pefaualhe diffo, porq ainda não linha pilotos. E quando vio q aqle feu criado lhos não leuaua teue má fofpeita del rey, & por iífo lho deteue'. E fabendo el rey a caufa diffo, mãdoulhe logo hú piloto guzarate chamado Canaqua, defculpandofe de lho não ter mandado: & adi ficarão amigos como dantes. CAPITOLO .XIII. De como partido Vafco da gama de Melinde chegou a Calicut, -â da gradeia & nobreza dejla cidade. PRouido Vafco da gama de todo ho necedario pera fua viagé, partiofe de Mellde pera Calicut húa terça feyra .xxiiij. Dabril, & dali come¬ çou logo datraueffar hú golfão de fetecetas & cincoéta legoas, porq faz ali a terra húa muyto grãde enfeada, & corre a cofta de norte a lul: & Vafco da gama foy em lede a demãdar a Calicut. E logo ao domingo feguinte virão os nofios ho norte, que auia muyto q deixarão de ver, & vião ho fui. E deulhes Deos tão boa vétura que fazendo ja rodo ho inuerno da índia, pelo q faz naqle golfão grãdes tormétas, ele não achou nenhúa, antes veto a popa. E húa feda feyra q forão dezafete de Mayo, auédo vinte tres q era partido de Melinde, & q não vião terra, ouuerão vida dela, indo a frota oyto legoas ao mar, & a terra era alta: & logo Canaqua deitou ho prumo & achou coréta & cinco braças & por fe arredar deda coda, como foy noyte fe fez ho caminho ao fuede, e ao fabado a foy de¬ mãdar: & não fe chegou tãto a ela que podeffe auer perfeyto conheci- méto dela, & ido pelos muytos chuueiros que acharão defpois q virão terra, que era ja inuerno na índia, cuja coda eda era. E ao domingo vinte de Mayo vio ho piloto húas ferras muyto altas q edã fobre a cidade de Calicut, & chegoufe tãto a terra que as conheceo & com muyto prazer pedio aluifaras a Vafco da gama: dizendo que aquela era a terra q defe- jaua de chegar, & ele lhas deu, & logo mãdou dizer a Salue, õde todos derã muytos louuores a noífo Senhor, & forão feytas grãdes alegrias nos nauios: & no mefmo dia a tarde forão furgir duas legoas abaixo de Ca¬ licut, legoa & mea da coda, defrõte de hú lugar chamado Capocate, com que fe ho piloto enganou, cuydãdo q era Calicut. E furta a frota acodio logo gente de terra em quatro almadias a faber q naos erão aquelas, Tono I 5
  • 34 Historia da índia porq núca virão outras daqla feição, ne ir em tal têpo a aqla cofta. E efta géte vinha nua, faluo que cobrião fuas vergonhas com hús pequenos panos, & erão baços, & algús etrarão na capitaina. E ho piloto Guzarate dilTe a Vafco da gama que aquela gente erão pefcadores, & que era gente mezquinha, que aíli chamam na índia a gente baixa & pobre. E toda via ele lhes fez gafalhado & lhes mandou comprar pefcado q trazião: & deles fe foube que ho lugar não era Calicut que era mais a diante & offerece- ranfe a leuar lá a frota, o q logo Vafco da gama quis q fe fizeffe, & as almadias ho leuarão a Calicut, que he húa cidade fituada na coíta do Malabar, húa província da fegunda índia. Efta prouincia começa no mote Deli, & acaba no cabo de Comorim que he efpaço de fetéta & duas legoas de comprimento, & tem doze, & quinze de largo, he toda terra baixa, & alagadiça, & de muytas ilhas, eftaa antre ho mar indico & húa ferra muy alta q põe termo antrela & hú grande reyno chamado Narfinga. E dize os Índios q efta terra do Malabar foy mar ém outro tempo & que che- gaua ate a ferra, & que correo pera onde agora fam as ilhas de Maldiua q então era terra firme, & a cobrio, & defcobrio eftoutra do Malabar: é que ha muytas & muy viçofas cidades, & ricas por trato: principal- méte a de Calicut que em viço & riqueza precedia a todas nefte têpo: cuja edificação foy defta maneyra. Antigaméte ho Malabar era todo de hú rey que tinha feu affento na cidade de Coulão: & reynando ho derra- deyro rey q ouue nefta terra que fe chamaua Sarranaperima (q a efte tempo aueria feys centos anos q era falecido) defcobrirão os mouros de Meca a índia, & forão ter ao Malabar por amor da pimenta & outra efpeciaria, & carregarão fuas naos na cidade de Coulão q era nefte têpo a principal de todo Malabar pouoada de gentios: & ho rey era getio. E defta vinda dos mouros tomarã eles a fua era como nos tomamos do na- cimento de noffo fenhor Iefu chrifto. Coefte rey tomarão os mouros tanta conuerfação, & ele coeles que fe cõuerteo a fua feyta, & deixou a q tinha. E foy tanto ho amor q teue a feita de Mafamede, que determinou de ir morrer aa cafa de Meca: & antes que partifle partio todo ho feu fenhorio cõ feus parentes: & tendo o dado todo q lhe nã ficauão mais de doze legoas de terra q eftauão ao derrador do lugar donde fe auia dembarcar, que era húa praya defpouoada deu ho a hú moço feu fobrinho que ho feruia de pajé: & mandoulhe que fizeffe pouoar aqle lugar em memória de fua embarcação, & deulhe a fua efpada & húa tocha mourifca q trazia por eftado. E mandou a todos eífes fenhores com quem repartira feu fenhorio que lhe obedeceffem, & ho teueíle por feu emperador, faluo aos reys de Coulão & de Cananor, & mãdou que ne eles ne outro nenhú fenhor no Malabar podefle mãdar laurar moeda faluo el rey de Calicut.
  • Livro I, Capitolo XIIII 35 E coifto fe ébarcou ali õde agora eftaa Calicut, em q os mouros tomarão tamanha deuação por fe aqle rey ali embarcar pera a cafa de Meca, q nunca defpois quiferão fazer fua carregação fe não naqle porto, & deixa¬ rão ho de Coulão q por iífo fe deffez, principalméte defpois q Calicut foy edificada, & muytos mouros aífentarão nela de viueda. E como erão gra¬ des mercadores & de muy groífo trato, veofe a fazer a mayor efcala & a mais rica de toda a índia, porque nela fe achaua toda a efpeciaria, droga, noz, & maça q fe podia defejar todo genero de pedraria, perlas, & aljôfar, canfora, almizquere, fandalos, & aguila, lacre, porcelanas, ceftos dourados, cofres, & todalas lindezas da China, ouro, ambar, cera, marfim, & alaquecas, muyta roupa dalgodão delgada, & groífa, alfi branca como pintada, muyta feda folta & retros & todo genero de panos de feda & douro, & brocados, brocadilhos, chamalotes, graãs, ezcarlatas, alcatifas, tafeciras, cobre, azougue, vermelhão, pedra hume, coral, agoas rofadas, & todo ho genero de cõferuas. De modo que nenhúa coufa de mercadoria de todas as partes do mundo fe podia pedir q não fe achafle nela. A fora ifto era muy apraziuel por fer fituada na cofta ao logo dú arrecife quafi cofta braua, cercado de muytas ortas em q ha muytas fruy- tas da terra & muyta ortaliça & muy fingulares agoas: & muytos pal¬ mares & arecais: na terra ha pouco arroz q he ho principal mãtiméto alli como antre nos ho trigo, & efte lhe ve de fora e muyta abaftãça, & adi te de todos os outros: he muyto grande, & efpalhada & toda de cafas palhaças: fe não as cafas dos idolos, mezquitas & cafas del rey q fam de pedra & cal & telhadas: porq por ley outré as não pode ter defta ma- neyra. Era pouoada de gétios de diuerfas feitas & de mouros grandes mercadores: & tão ricos q auia algús q tinhão cincoeta naos, & não auia anno q não vieífem a efte porto feys cetas naos & dahi pera cima. CAPITOLO .XIIII. Do grade poder del rey de Calicut, & de Jeus cojlumes: & ajji dos outros reys do Malabar, & da maneyra que viuem os Naires POr efta cidade fer de tamanho trato & tão pouoada, & afii a terra ao derredor crecerão as rendas de feu rey é tãta maneyra q veo a fer o mais rico rey do Malabar de dinheiro: & mais poderofo de gete: porque é hú dia ajuntaua trinta mil homés de peleja, & em tres cê mil, & chamauafe çamorim q em fua lingoa quer dizer emperador: porq afli ho era ele antre os reys do Malabar que não erão mais de dous a fora ele .f. el rey de Coulão, & el rey de Cananor; q pofto q outros
  • 36 Historia da índia fe chamauao reys não ho erão. Efte rey de Calicut era bramene, como também ho fam os outros: q antre os Malabares fam facerdotes, & por iífo hão todos de acabar fua vida em hú pagode que he cafa de oração dos feus idolos q tem deputado pera iíTo: & fempre nela ha dauer hú rey q os firua: & efte morto põe logo em feu lugar o que reyna: & no reyno põe outro q lhe fucede, & ainda q 6 que reyna não queyra entrar no pa¬ gode: morto o q eftá nele hão no de fazer étrar por força. Eftes reys do Malabar fam homés baços & andão nus da cinta pera cima & pera baixo le cobre com panos de feda, & dalgodão, & ás vezes fe veftem dhúas roupas curtas q chamão bájus de feda ou brocado & de graã cõ muyta pedraria, principalmcte el rey de Calicut. Fazem as barbas aa naualha & deixão hús bigodes compridos a maneyra de Turcos, feruenfe com pouco eftado, mórméte no comer que he muy pouco: Mas el rey de Ca¬ licut fe feruia então com muyto grãde. Eftes reys não cafam nem tem ley de cafaméto: poré té húa mãceba de linhagé de naires q antre os Mala¬ bares fam fidalgos: & efta tem em cafa apartada perto dos paços, & dan- lhe certa coufa por mes pera feu gafto: com q viuem muy abaftadamente: & cada vez que os defcontentão a deixão: & os filhos que faze nelas não os tem por filhos, nem herdão ho reyno, nem outra coufa fua: & como fam homés não té mais valia que a da parte da mãy: fam feus herdeiros feus irmãos fe os tem, & fenão feus fobrinhos filhos de fuas irmaãs, as quaes não cafam, nem té maridos certos, & fam muyto liures em efco- lheré qué lhe melhor parece, & fam muy eftimadas & té muy grandes rendas: & como chega algúa a dez annos que he a idade pera conhece¬ rem homés mandão feus parentes chamar fora do reyno algõ mancebo Naire, & rogarlhe cÕ prefentes q lhe vá leuar a virgindade: & quando chega ho recebem com muyta fefta. E defpois de a corromper atalhe húa joya ao pefcoço, que ela traz toda fua vida em muyta eftima por final da liberdade que lhe foy dada pera fazer de fi o que quifer, porq fem aquela cirimonia não podia conhecer homé. Eftes reys tem ás yezes guerra hús com os outros, & eles mefmos entrão nas batalhas & pelejão fe he ne- ceflario: quando morré queimãnos fora dos paços em hú refiio cõ muyta lenha de fandalo & aguila, & ao queimar fe ajuntão todos feus irmãos & parentes mais chegados: & todos os grãdes do reyno, & ate feré todos jútos fe efpera tres dias ãtes de ho queimaré, pera veré fe faleceo de fua morte, ou fe ho matarão, porq matandoho algué fam obrigados a vlgalo. Defpois que os queimão & que enterrão a cinfa rapãfe todos fem ficar cabelo nenhú, ate ho mais pequenino menino que feja gentio, & geral¬ mente deixão de comer betele, que he húa erua de q goftão muyto: & ifto por treze dias: & ao q ho come cortãlhe os beiços por juftiça. E neftes
  • Livro I, Capitolo XIIII 37 dias ho príncipe não manda né gouerna pera ver fe acodira algué que cõtradiga fer ele rey: & acabado efte termo os grandes do reyno lhe fazem jurar todas as leys & coftumes do rey paífado: & de pagar todas fuas diuidas: & de trabalhar por ganhar algúa coufa que efté perdida do reyno. E efte juramento lhe tomão tédo ele a fua efpada na mão ezquerda & a dereyta fobre húa candea acefa, metido nela hú anel douro em que toca com os dedos & ali faz feu juramento, & feyto lhe lanção hú pouco darroz, fazédolhe grãdes cirimonias em q lhe dize muytas orações: & ele adora tres vezes ao foi, & logo os Caimaes q fam fenhores de titolo lhe jurã na mefma cãdea de lhe feré leaes. Acabados os treze dias tornão todos a comer betele, & carne & pefcado como dãtes, faluo el rey q toma dó por feu ãteceflor: & o dó he q por efpaço de hú ãno nã come carne nem pefcado nem betele, nem ha de rapar a barba, né fazer as vnhas nem ha de comer mais q húa vez no dia, & lauafle todo antes q coma & reza certas horas do dia: & delpois de acabado ho anno faz húa cerimonia pela alma do rey paífado a maneyra de faymento em que fe ajútarão cem mil homés, em q da muytas efmolas: & acabada efta ceri¬ monia confirmão ho príncipe por herdeyro do reyno, & delpois fe vay toda aquela gente. El rey de Calicut, & afli todos os outros reys do Ma- labar tem hú regedor que té cargo da juftiça, & afli manda em outras muytas coufas como el rey propriamente. A géte de peleja q tem el rey de Calicut, & afli os reys do Malabar fam Naires, q fam todos fidalgos, & não tem outro oflicio fe não pelejar quando he neceífario, & fam gen¬ tios : traze continuamente as armas com q pelejão que fam arcos, frechas, lãças, agomias, & efcudos, & tem que andão coelas muyto hõrrados & galãtes: porem andão nus fomente com hús panos dalgodão pintados q os cobrem da cinta ate ho giolho: & defcalços com toucas nas cabeças. Viuem todos com el rey ou com fenhores de terra de que tem moradia, & fam tão ifentos em fua fidalguia & tão efcoimados, q fe não tocão com nenhú vilão, nem lhe hão detrar em cafa. E os vilãos fam obrigados quando vão polas eftradas de ir bradando que vão, porque fe os Naires vierem lhes digão que fe afaftem do caminho: & fe ho afli nã faze matãnos os Naires. Nem os reys podé fazer Naires fe não foré de linhagé de Nai¬ res: ferué muyto bem aqles com que viuem, afli de dia como de noyte, & não eftimão deixar de comer & dormir por feruir bé: fazem tão pouca defpefa que duzentos reaes que té de moradia por mes lhes abafta pera cada hú & hú moço que ho ferue. Eftes per ley do reyno não podé cafar, & por iflò não té filhos certos, porque os que tem fam de mancebas com que dormé tres & quatro, per concerto que fazé hús cõ os outros pera ho fazeçé fem auer briga antreles: & cada hú ha deftar coela hú dia
  • 38 Historia da Iitdia certo de meyo dia a meyo dia: & aqle ido vê outro. E adi pafiao fua vida fem os ouuir ningue, & manténa muy hõrradaméte: & qualquer deles q a quer deixar a deixa, & ela a eles: & eftas molheres ham de fer Nairas porq não podé dormir cõ vilaãs, & eftas també não cafam, & porq eles fam tantos a húa molher não tem por feus filhos os que hão nelas, ainda que fe pareção coeles, & os filhos de fuas irmaãs fam feus herdeyros. Efta ley de não poderem cafar os Naires fizerão os reys: porque não tendo eles molheres nem filhos a que teueflem amor podeífem aturar a guerra. E por eles feruire tãbe & fere fidalgos fão privilegiados de nã poderem fer prefos, né morrer por juftiça. E quãdo algú mata outro: ou mata vaca q antreles he grande pecado porque as adorão: ou dorme com molher baixa: ou come em cafa de vilão, ou diz mal del rey, fe ho el rey fabe certo, daa hum efcrito feu em que diz a hú Naire que com outros dous ou tres mate tal Naire porque pecou, & eles ho matão aas cutila¬ das õde ho achão, & defpois de morto põe fobrele ho efcrito del rey pera que faiba ho porque ho matarão. Eftes Naires não podem tomar armas, nem entrar em defafio antes de feré armados caualeyros: & como fam de fete annos logo os põe a depréder a jugar de todas as armas, & pera ferem niffo muyto deftros feus meftres os deiconjútão, & defpois lhes infi- não a jugar daquelas armas a que os vê mais incrinados. E as que 1'e mais coftumão ãtreles ião efpadas & efcudos. Os meftres que os infinão fam graduados naquele jogo darmas em q infinão, & chamanfe panicais na fua lingoa: & fam muyto venerados antre os Naires, & qualquer feu dicipulo, pofto que feja velho, ou feja grande fenhor ho ha dadorar em ho vendo, & ifto por ley: & mais fam obrigados a tomar lição dous mefes do anno em toda fua vida, pelo que fam muyto defenuoltos nas armas & prezanfe muyto dilfo. Quando algú quer fer armado caualeyro vayfe a el rey be acompanhado de feus parentes & amigos, & primeyraméte lhe offerece feíféta fanoes douro, húa moeda afli chamada que ferão tres cru¬ zados pela noífa. E logo el rey lhe pregúta fe quer goardar ho coftume & ley dos Naires: & dizédo ele que fi, mandalhe cingir húa efpada, & poédolhe a mão dereyta na cabeça diz certas palauras como que reza fem ho ningue ouuir: & defpois ho abraça, dizendo em fua lingoa húas palauras que na noífa quere dizer, goardaras os bramenes & as vacas. Ifto dito ho Naire adora el rey, & dali por diãte fica caualeyro. Eftes quando affentão viuenda cõ alguém, obriganfe a morrer coeles & por eles, o que goardão de maneyra que fe matão feu fenhor em algúa guerra pelejão tanto ate que os matão, & fe não fam prefentes vão defpois matar a que os matou, ou mãdou matar: fam grandes agoireyros, & te dias bõs & maos, adorão ho foi & a lúa, & a cãdea, & as vacas & qual quer coufa
  • Livro I, Capitolo XV 39 que fe lhe offrece é faindo pela menhaã de cafa: & cre leuemente qual¬ quer vaidade. Metefle ho diabo neles muytas vezes, & dizem que he hú dos feus deofes, ou pagodes, que afli lhe chamão, & faz lhe dizer coufas efpantofas que el rey cree, & ho Naire em q ho diabo entra vayfe cõ a efpada nua diãte del rey tremendo todo, & dando cutiladas em fi, & diz. Eu fou tal deos & venho te dizer q faças tal coufa, & ifto bradado com» doudo: & fe el rey duuida de ho fazer então dá muyto móres brados & gritos, & muyto móres cutiladas ate q ho cre el rey. Ha tãbe outros ge- neros de gentes no Malabar de diuerfas feitas & cultumes q feria proli¬ xidade dizelas, que todos obedece aos reys, fe não os mouros, q fam deles muy eítimados pelos grandes dereytos q lhe pagão de fuas merca¬ dorias. CAPITOLO .XV. De como Vafco da gama mandou recado a el rey de Calicut que lhe queria falar SUrto Vafco da gama fora do arrecife de Calicut nas mefmas alma- dias que ho ali trouuerão mandou hú dos degradados q leuaua a Calicut: afli pera que vifle que terra era como pera fazer experien- cia nele do gafalhado que lhe farião por fer Chriftão: porque cuydaua que auia Chriftãos é Calicut a cuja praya chegado ho degradado, come¬ çou logo de fe ajuntar a géte a velo como a homem eftranho: & pregun- tauão aos Malabares que yão coele que homem era. E eles dizião que lhe parecia mouro q vinha com outros naquelas tres naos q vião, de que os de Calicut fe efpantauão, por fer ho feu trajo muyto differente do q trazião os mouros que vinhão do eftreito, & yão muytos apos ele, & algús q fabião arauia lhe falauão, mas ele não refpõdia, porque não entendia: do que fe efpantauão, que fendo mouro não entendeffe arauia. E indo affi crendo que foffe mouro, leuarãno á poufada de dous mouros naturais de Tunez em Berberia, q forão ter a Calicut, & erão hi eftantes. E hú deles q auia nome Bõtaibo fabia falar caftelhano, & conhecia muyto bem os Portuguefes, fegundo defpois diffe que os vira em Tunez em tépo del rey dom Ioão em húa nao chamada a Raynha, q el rey lá mãdaua muytas vezes bufcar coufas de que tinha neceílidade. E é entrando ho degradado em fua cafa, diffelhe logo Mõçaide: & efte nome foy corruto pelos Por¬ tuguefes, & mudarãno em Bõtaibo como lhe chamauão todos os q forão nefta viagé, conhecédo ho por Português. AI diablo que te doy quié te traxo a ca: & defpois lhe preguntou de que maneyra viera ali ter. Ho degradado lho diife, & quantas naos yão. Efpantado Bõtaibo de iré por
  • 40 Historia da índia mar, lhe preguntou que yão bufcar tão longe: & ele lhe difle que yão bufcar Chriftãos, & elpecearia. E preguntoulhe mais porque não manda- uão lá também el rey de França & el rey de Caftela, & a fenhoria de Veneza. Refpondeo ele, que porque lho não confentia el Rey de Portu¬ gal: ao q Bontaibo difle que fazia muyto bé de lho não confentir. E aga- falhou ho, & mandoulhe dar de comer hús bolos de farinha de trigo, a que os Malabares chamão apas, & coeles mel. E defpois que comeo, difTelhe Bõtaibo q fe tornaffe pera as naos, & q iria coele a ver Vafco da gama, & affl o fez. E etrado na capitaina, começa de dizer a Vafco da gama 5 caftelhano. Boauentura, boauétura, muytos rubis, muytas efme- raldas, muytas graças deueis de dar a Deos: porque vos trouue a terra onde ha toda a elpeciaria, pedraria & toda a riqueza do mundo. E quãdo aíTi ho ouuirão falar eftauão todos pafmados, que não crião q ouuefTe ho¬ mem tão lóge de Portugal que entendeífe a noffa lingoa: & dauão graças a noflo fenhor chorãdo de prazer, & Vafco da gama ho abraçou & ho fez aífentar a par de fi, preguntandolhe fe era Chriftão: & como fora ter a Calicut: ele lhe difle donde era, & que fora ter a Calicut pela via do Cairo, & contoulhe de q maneyra conhecera os Portuguefes, & que fem- pre fora feu amigo por lhe fuas coufas parecerem muyto bem, & que afli ho feria ao prefente, & que ho feruiria em tudo o que podeíTe. O q lhe Vafco da gama agradeceo muyto, prometêdolhe de ho fazer coele muyto bem: certificãdolhe queftaua ho mais ledo homem do mundo em ho achar ali & telo de fua parte: & que cria que Deos lho deparara pera dar ho fim que defejaua a feu defcobrimento: porq fem ele pouco fruyto ouuera de tirar de feu trabalho, rogandolhe que lhe diífeffe que homem era el rey de Calicut, & fe ho receberia de boa vontade por embaixador del rey de Portugal. E ele lhe diífe q el rey de Calicut era bõ homem & muyto vão, & que ho receberia bem por embaixador de rey eftrangeiro: porem que muyto melhor recebido feria fe dilfelfe que era vindo a afTentar trato em Calicut, & Ieuaua mercadoria pera iflo, porque do trato refultaua a el rey grande proueito pelos dereytos que tinha, que era fua principal renda: & q eftaua então em Panane húa vila cinco legoas de Calicut ao longo da cofta, que lá lhe mãdaffe dizer como eftaua ali: o q pareceo be a Vafco da gama, & pela võtade que achou em Bõtaibo lhe deu algúas peças, & rogoulhe que fofle com Fernão martinz ho lingoa, per quem mandou recado a el rey de Calicut: o que ele fez de boa võtade. E che¬ gados diante del rey, Fernão martinz lhe difle per outro lingoa que hi eftaua, q Vafco da gama lhe trazia cartas del Rey de Portugal que ho não mandara a outra coufa fe não a iflò, que fe mandaffe q lhas leuaria. El rey antes de lhe refpõder mandou dar a ambos de dous fenhos panos
  • Livro 1, Capitolo XVI 41 dalgodao & de feda dos que ele cingia, que erão muyto bõs. E defpois de lhe terem dados os panos, pregútou a Fernão martinz que rey era aquele que lhe mandaua as cartas, & quão lõge era feu reyno. E ele lho diífe, dizendo também como era Chriftão & a fua gete Chriftaã: & ho trabalho que tinhão paflado no mar é chegar a Calicut. E de tudo el rey moftrou efpantarfe: & moftrou que folgaua muyto de tão poderofo prín¬ cipe como el Rey de Portugal & Chriftão lhe mãdar embaixada, & man¬ dou dizer a Vafco da gama q foíTe muy bé vindo, & que ele fofie ancorar fuas naos a Pandarane húa vila a baixo dõde primeyro furgira: que tinha porto mais feguro que Calicut, onde as naos corrião rifco de fe perde¬ rem: & de Pandarane fe 1'olfe por terra a Calicut Õde ja eftaria pera lhe falar, & mandoulhe hú piloto que ho leuaffe a Pandarane: que ho leuou lá, & quando foy ao entrar detro na barra, Vafco da gama não quis tanto entrar dentro como ho piloto quifera, porque não fabia o que fucederia defpois. CAPITOLO .XVI., De como el rey de Calicut mãdou por Vafco da gama a Pandarane. EStando nefte porto derãlhe hú recado do Catual de Calicut, que he como corregedor da corte, que ele era vindo a Pandarane com ou¬ tros homés nobres por mandado del rey pera ho acompanharem ate Calicut q podia defembarcar quãdo quifeffe. E por fer ja tarde fe efcufou Vafco da gama de ir aqle dia, & mais pera auer confelho com feus capitães acerca de fua ida aos quaes, & aífi a outros homes princi- paes da frota: diífe que queria ir verfe com el rey de Calicut & aífentar coele trato & amizade. O q feu irmão contrariou dizendo que não deuia de ir a terra, porque pofto q foffe de Chriftãos auia nela muytos mouros, de que fe deuia de crer que auião de procurar fua deítruyção pois erão feus mortaes immigos: porque quando os de Moçambique & de Mom- baça por fométe paífar por feus portos os quiferão matar, que farião os de Calicut fabendo que querião eftar coeles de meftura & ter trato onde ho eles tinhão & deminuirlhe coiffo feus ganhos & proueitos, q era de crer que com todas fuas forças trabalharião polo deftruyr, & credo que ho começo & cabo de fua deítruyção eftaria ê fua morte, não lhe auião de faltar manhas pera lha dar, & ele morto por mais que el rey ho íin- tiffe não ho poderia refucitar: quanto mais que como eles erão naturaes, & ele eftrãgeiro quê fabia quanto daria a el rey de fua morte, & o que feria deles defpois dela: & fe fe perderião todos & ficaria feu trabalho perdido. E pera fe ifto efcufar & eles eftarem feguros, era bem que não Tomo I 6
  • 42 Historia da índia foífe a terra: mas que mandaffe hú deles ou outrem que fizeffe o que ele faria, porque os capitães móres não fe auião de auéturar em perigos fe não com tanta neceflidade que fe não podeífe al fazer. E coeíte parecer fe forã todos, ao que Vafco da gama refpondeo. Eu ainda que faiba mor¬ rer não ey de deixar de me ver com el rey de Calicut pera ver fe poifo alfentar coele amizade & trato & auer efpeciaria: & outras coufas de fua cidade pera q fejão teítemunhas em Portugal que ho defcobrimento de Ca¬ licut foy verdadeyro, porque indo fem elas a cabo de tanto tempo fe nos Deos laa tornar feria duro de crer que defcobriramos Calicut: & eítaria fufpenfo ho credito de nofla honrra ate virem ca peífoas fem fofpeita que difleífem como era verdade o q diziamos. Pois pareceuos que efperaria eu antes a morte que efperar de fofrer tanto tempo como temos gaitado & auemos de gaitar que vielfem defcobrir a verdade de noífo mereci- meto, & entre tanto julgare os enuejofos como quifelfem. Certo que antes me deixaria morrer que efperar o que digo: quanto mais fenhores que me não auenturo a tamanho perigo de morte como vos parece, nem vos ficais em rifco de vos perderdes, porque eu vou pera terra õde ha Chrif- tãos: & negocear com rey que defeja de irem muytas mercadorias a fua cidade pelo proueito que lhe delas refulta, porque quantos mais merca- dçres tanto mayor crecimento de fuas rendas, & não vou pera me deter tãtos dias que tenhão os mouros tépo de me fazer treição, porque ho affento q ey de tomar com el rey fe acabara de tomar ate tres dias: & neltes eítarey fempre a recado. E a honrra deite aífento fe noífo fenhor quifer que ho eu tome não darey eu por nenhú preço, & el rey não ho poderá tomar com outrem melhor q comigo, porque mais honrra me ha de catar & mais vergonha ha dauer de mim fabédo que fam capitão mór delta frota & embaixador del rey de Portugal que a outra peíToa qual¬ quer que feja: quanto mais que qualquer que vá não fendo eu auerfeha el rey por injuriado, & parecerlhe ha que ou me defprezo dé lhe ir falar, ou defconfio de fua verdade, & cada húa deltas lhe fara não ter nenhú credito em nos outros. E deixadas eltas coufas não poifo eu dar tão largas inltruções a quem lá for pera que faça também o que he neceífario como eu: & fe por meus peccados me matalfem, ou prendeífem melhor fera acontecerme por fazer o que deuia: que ficar viuo fem ho fazer, & que me aconteceífe, vos fenhores ficais no mar, & em bõs nauios como ho fouberdes acolheiuos, & leuareis nouas de noífo defcobriméto. E niíto fe não fale mais, porque eu prazcdo a Deos ey dir a Calicut & verme com el rey. Quãdo todos virão fua determinação dilferão q foífe: & ali fe alfentou q foliem coele doze pelfoas .f. Diogo diz feu efcriuão & Fernão martinz ho lingoa, & ho feu veador, & Ioão de saa que defpois foi tefou-
  • Livro I, Capitolo XVI 43 reyro da cafa da índia, & hú marinheiro chamado Gõçalo pirez que fora de fua criação, & hú Aluaro velho, & Aluaro de Braga que defpois foy efcriuão dalfandega do Porto, & aflí outros a que não foube os nomes que coele erão treze: & que ficaffe na frota por capitão mór feu irmão, & que durando fua aufencia não recolheffe nela pelFoa algúa, & todos os que foífem a bordo efteueífem é fuas almadias: & q cada dia ho folfe Niculao coelho efperar a terra nos bateys. Ifto affentado, ao outro dia que foy fegúda feyra vinte oyto de Mayo embarcoufe Vafco da gama com os doze q digo todos atauiados ho melhor q poderão: & os bateis muyto crefpos com artelharia, & bandeiras, & trombetas, que fempre forão tangédo ate ele chegar a terra Õde ho Catual ho eftaua efpe- rando acompanhado de duzentos Naires, que ho acompanhauão conti- nuamente, & aíli outros muytos que nã erão de fua companhia, & toda a gente do lugar. Defembarcado Vafco da gama, foy recebido do Catual com muyto prazer, & aíli dos que ho acompanhauão, como que folgauão coele: & defpois de recebido foy tomado em hú andor que lhe mandaua el rey de Calicut pera ir nele, porque naqla terra não fe cuftuma andar a caualo, & andão neftes andores que fam como leytos dandas fe não q fam defcubertos, & quafi rafos tão baixas té as goardas. Cada andor deites quãdo ha de feruir he leuado por quatro homés aos hombros, & ifto alfi por nã auer beftas na terra, como por eftado: porque em outras partes em que ha beftas não os leuão fe nã homés, que também correm a pofta coeles fe os reys ou fenhores vão caminho logo & fe queré andão muyto em breue tempo. Podem ir alfentados ou deitados como lhe vem á vontade, & cubertos com fombreiros de pé, que lhe também leuão ho¬ més a que chamão boys, & alfi vão éparados do foi & da chuua. Ha também outros andores que tem por cima húa cana em arco, que por ferem muyto leues os podé leuar dous homés. Tomado Vafco da gama nefte andor, partiofe com ho Catual que ya em outro pera hú lugar a q não foube o nome, & os nolfos yão a pé, & leuaualhes ho fato eíTa gente baixa da terra que lhes ho Catual mandou dar, & no lugar que digo comerão ele é húa poufada, & Vafco da gama em outra, & os nolfos comerão pefcado cozido & arroz com manteiga & fruytas da terra, que fam differentes das noífas, porem muyto faborofas, & chamão a húas jacas, a outras mangas, & a outras figos: & beberão agoa muyto fingular como a ha por aqla terra, que não deue nada a dantre douro & minho. Acabando de comer foranfe embarcar, porque auião dir por hú rio acima que ali fe ya meter no mar. E Vafco da gama fe ébarcou com os noíTos em duas almadias juntas húa com a outra, que naquela terra fe chama jangada: & ho Catual com os feus embarcarão em outras muytas. E a
  • 44 Historia da índia gente que acodia ás prayas do rio a ver os noffos era fem conto, porque aqla terra he muyto pouoada. Irião por efte rio obra de húa legoa, & ao logo dele eftauão varadas muytas naos groffas. E defembarcados torna- ranfe aos adores & proífeguirão feu caminho, & a cada paffo lhe fayão milhares de gente: & tão enleuados yão em ver os nofTos q afli como as molheres fayão com os meninos nos colos, yão apos eles fem fentir ho caminho. Deite lugar que digo leuou ho Catual Vafco da gama a hú pa¬ gode dos feus idolos, dizendolhe que era húa igreja de muyta deuação: & afli o cuydou ele mais porque lhe vio fobre a porta principal fete finos pequenos, & diante dela hú padrão darame daltura dú mafto de nao & no capitel húa grande aue do mefmo arame q parecia galo, & a igreja era do tamanho dú grande mofteiro laurada toda de cãtaria & telhada de ladrilho, que prometia fer de dentro hú fermofo edifício. E Vafco da gama fe alegrou muyto de a ver, & pareceolhe que eftaua antre Chrif- taos: & entrado dentro com ho Catual, receberãnos certos homes nús da cinta pera cima, & pera baixo cubertos com hús panos ate ho giolho, & cõ outro fobraçado, & fem nada na cabeça, com certo número de linhas per cima do ombro ezquerdo, & lançadas per baixo do ombro dereyto, afli como os Diáconos trazem a eltola quando feruem á mifla: & eftes homés fe chamão Cafres & fam gêtios, & feruem no Malabar nos pago¬ des. Eftes deitarão agoa de húa pia com ifope a Vafco da gama, & ao Catual, & aos noffos: & defpois lhe derão fandolo moido para poerem nas teftas, como ca fe põe a cinza, & afli pera poerem nos buchos dos braços, Õde os noffos os não poferão por irem veftidos, mas poferãno nas teftas. E indo por efta igreja virão muytas images pintadas pelas pa¬ redes, & delas tinhão tamanhos dentes que lhe fayão fora da boca húa polegada, & outras tinhão quatro braços & erão feas do rofto que pare¬ dão diabos: o q pos algúa duuida nos noffos de crerem que era igreja de Chriftãos: & chegados diante da capela que eftaua no meyo do corpo da igreja, virão que tinha hú curucheo a modo de fé, també de cantaria: & em húa parte defte curucheo eftaua húa porta darame per que caberia hú homem, & fobião a ela per húa efcada de pedra, & dentro nefta ca¬ pela que era hú pouco efcura eftaua metida na parede húa imagem, que os noffos enxergarão de fora, porque os não quiferão deixar entrar den¬ tro: acenandolhe que não podião lá entrar fe não os Cafres: os quaes acenando pera a image nomeauão fanfta Maria, dando a entender que aquela era a fua imagem. E parecendo afli a Vafco da gama, affentoufe em giolhos, & os noffos coele & fizerão oração. E Ioão de faa que eftaua duuidofo de fer aquilo igreja de Chriftãos por ver aquela fealdade das imagês que eftauão pintadas nas paredes, em fe affentando em giolhos
  • Livro I, Capitolo XVII 45 diffe. Se ifto he diabo eu adoro a Deos verdadeyro. E Vafco da gama que ho ouuio oulhou parele forindofe. E ho Catual & os feus como forão diãte da capela deitarãfe no chão de bruços com as mãos por diãte, & ifto tres vezes, & defpois leuãtarãfe & fizerão oração c pé. CAPITOLO .XVII. De como Vafco da gama deu a el rey de Calicut a embaixada que lhe leuaua. D Aqui profléguirã feu caminho ate chegaré a Calicut, a cuja entrada leuarã Vafco da gama & os nolfos a outro tal pagode como efte: & quando foy ao entrar da cidade, era a gente tãta afíi da que faya dela a ver os noífos como da q ya coeles, que não cabia pela rua. E Vafco da gama ya efpãtado de ver tanta gente: & quando fe ali vio deu muytas graças a noffo fenhor por ho deixar chegar a efta cidade, pedindolhe q ho encaminhaffe de maneyra que tornaífe a Portugal com ho recado que defejaua. E defpois de hir hú pedaço por aquela rua por onde entrou, por a gente fer tanta q não podião romper os que o leuauão no andor fe meteo ho Catual coele em húa cafa: & ali foy ter coele hú irmão do Catual que era grão fenhor, & vinha por mandado del rey pera ho acompanhar ate ho paço, & leuaua configo muytos Naires, & diante muytas trombetas & anafis que yão tangendo, & afli hú Naire que leuaua húa efpingarda com que tiraua de quando em quãdo. E defpois de fe rece¬ berem Vafco da gama & efte fenhor com muyto prazer abalarão pera os paços del rey com grande eftrondo de tangeres & arroido da gente, q defpois da vinda do irmão do Catual deu lugar & fe afaftaua, & yão com tãto acatamento como que fora ali a peffoa del rey de Calicut, & irião bem tres mil homés darmas, & pelos telhados, & pelas portas das cafas não tinha conto a gente que eflaua. E Vafco da gama ya tão ledo de fe ver afli receber q diífe aos feus rindo. Quão fora eftão agora de cuydar é Portugal q nos fazem tamanho recebimento: & coifto chegou aos paços del rey cõ mais de húa ora de foi. Os paços tirãdo feré terreos erã muyto grãdes, & pareciã fer hú fermofo edifício, polos muytos aruoredos q pa¬ redão perãtre as cafas, & eftes erão de muytos & fermofos jardins q auia dentro, é q auia muytas froles & eruas cheirofas, & tanques dagoa pera recreação del rey, q núca fae dos paços fe não quãdo vay fora de Cali¬ cut. Dos paços fayrã muytos caimais & outros fenhores a receber Vafco da gama: & étrarão coele em hú terreiro muyto grande: & dali paífarã quatro pátios, & á porta de cada hú eftauão dez porteiros: & eftas portas
  • 46 Historia da índia paflarao por força de muytas pancadas que os porteiros dauão na gente pera fazeré afaftar, q não entraífe. E chegado á derradeira porta q era da cafa onde el rey eftaua, fayo de dentro hú homé velho & baixo de corpo, que era ho bramene mór del rey, & abraçou Vafco da gama, & leuouho détro cõ os feus. E nefta étrada carregou a géte tanto em demafia q fe afogarão algús. E não aproueitaua daré os porteiros muitas pãcadas de q muytos forão feridos: & coifto teuerão os noífos lugar de entrar. Deite terceiro patio étrarão na cafa onde el rey eftaua q era grãde & cer¬ cada ao derredor daffentos de pao hús acima dos outros a modo de tea¬ tro: & ho chão eftaua cuberto de veludo verde de pelo, & as paredes aparamétadas de panos de feda de muytas cores. El rey era homé baço & grãde de corpo & de boa idade, eftaua lãçado em hú catele cuberto de hú pano branco de feda & douro: & per cima hú ceo muyto rico. Tinhá na cabeça húa carapuça de veludo, feyta ao modo de celada an¬ tiga, cuberta de pedraria & perlas, & nas orelhas húas arrecadas do mefmo: tinha veftido hú baju branco, de pano dalgodão finiflimo, cõ bo¬ tões de perlas muyto groffas & as cafas de fio douro: tinha cígido hú pano brãco do mefmo algodão, que lhe chegaua ao giolho, & os dedos das mãos & dos pés cheos daneis douro com muyto fina pedraria, & nos bra¬ ços muytos braceletes ricos, & nas pernas manilhas douro. Iunto coefte catele eftaua húa batega de pé alto toda douro, que fão de feiçã de copos de Frandes chãos, fe não q fão mayores & menos couos. E nefta eftaua ho betele q el rey maftigaua cõ cal & areca, que fão hús pomos de tama¬ nho de nozes nofcadas: & comeffe ifto é toda a índia porq faz bõ bafo, & éxuga muyto ho eftamago, & mata a fede: & como he maftigado ian- çãno fora, q não ho engolem & tomão outro. E pera lãçar efte betele maftigado & cofpir, eftaua ali hú cofpidor douro, tamanho como húa bacia meaã tãbé de pé, & afíi eftaua hú guinde douro q he da feiçã da- gomil ou quafi, & eftaua cheo dagoa pera el rey lauar a boca quãdo aca- baífe de maftigar ho betele q afii fe coftuma. E efte betele lhe daua hú homé velho que eftaua júto do catele, & os outros que eftauão na cafa tinhão as mãos ezquerdas diãte das bocas porq não foffe ho feu bafo ter a el rey, o q hã por grãde defcortefia, & afli cofpir ou efcarrar, & por iffo nã ho faz nígué na cafa onde eftá el rey. Entrãdo Vafco da gama nefta cafa fez a el rey reuerencia fegúdo ho coftume da terra, que he abaixarfe todo tres vezes cõ as mãos juntas como qué louua a Deos efté- didas pera diãte: & el rey lhe acenou logo q fe foffe perto delle, & mã- douho affentar naqles affentos q diffe. E affentado étrarão os feus & adorarão a el rey adi como ele fez: & el rey os mãdou tãbe affentar defronte dele: & mãdoulhes dar agoa as mãos pera defencalmaré, porq
  • Livro I, Capitolo XVII 47 pofto q foffe inuerno não deixaua de fazer calma. E lauadas as mãos mandoulhes dar figos & jacas pera q comeffem logo, o q eles fizerão de bõa vontade & fem pejo, o q el rey folgaua de ver porq oulhaua pareles & riafe, & defpois falaua com ho velho q lhe daua ho betele. E muyto mais moftrou folgar quãdo os noífos pedirão de beber, q lho derão por guídes: & como fabião q fe coftumaua beber dalto por aueré os Malaba- res por çugidade tocar cõ os beiços no vafo por õde bebé quiferão beber dalto: & não fabédo ainda aqle modo de beber daualhes a agoa no goto & tuflião & outros errauão a boca, & cayalhes a agoa pelo rofto, entor- nãdofelhe pelos peitos, do q el rey muyto goftaua: & oulhando pera Vafco da gama, diífelhe por hú lingoa q falaffe com aqles homés honrrados q ali eftauã: & q diífelTe o q quifeífe q eles ho dirião. Do q ele não foy nada cõtéte, porq lhe pareceo aquilo defprezo: & refpõdeo pelo lingoa, q ele era embaixador del Rey de Portugal, hú rey muyto poderofo: & q os reys Chriftãos coftumauão de não receber as ébaixadas por terceyras peífoas fe não por fi mefmos: & inda perante muyto poucas peffoas, & eílas de muyta cõfiãça. E por fe ifto aíli coftumar nas terras donde ele vinha, não auia de dar a embaixada a outré fe não a ele. O q el rey diífe q era bé, & q afii fe fizelfe. E logo mãdou leuar Vafco da gama com Fernão martinz pera outra cafa q eftaua com outro cataie como aqle & afli aparamentada: & defpois q lá efteue foyfe el rey parela ficãdo os noifos na cafa de fora, & ifto feria foi pofto. E elrey como foy na camara, lançoufe no catele não eftãdo hi a fora Vafco da gama & Fernã martinz mais que ho lingoa del rey, & ho bramene mór, & ho velho q lhe daua ho betele, & mais hú feu védor da fazenda. El rey preguntou a Vafco da gama de que parte do mudo era, & q queria: ao que ele refpõdeo q era embaixador dú rey Chriftão do cabo do occidéte, fenhor dú reyno princi¬ pal chamado Portugal, & adi doutros muytos, pelo qual era muyto pode¬ rofo de gete, & muyto mais rico de todas as coufas neceflarias pera hú rey fer muyto mais rico que nenhú outro daquelas partes: & que auia feflenta annos que os reys feus anteceffores tédo fama que na índia auia reys Chriftãos & muyto grandes fenhores principalmente el rey de Cali- cut, mandaua defcobrir per feus capitães aqla cidade pera teré amizade com os reys dela, & os teré por irmãos como era rezão: & vifitarénos por feus embaixadores: & não porq tiueflem neceftidade de fua riqueza porq a q auia em fuas terras, douro, prata & outras coufas de preço lhe fobejaua: & q os capitães q yão a efte defcobrimento andauão nele hú anno & dous, ate q lhes falecia ho mantimento: & fem acharé o que buf- cauão fe tornauã pera portugal o q tinha cuftado muyto. E q el rey dõ Manuel q então reynaua, defejando de dar fim a efta emprefa que auia
  • 48 Historia da índia tato tepo q duraua, por lhe nã faltar ho mantiméto como dãtes lhe dera tres nauios carregados deles, & ho mãdara por capitão mór de todos tres, dizédolhe que não tornaffe a Portugal ate q lhe não defcobriffe aquele rey dos Chriftãos q era fenhor de Calicut, porque fe tornalfe fem iffo lhe mãdaria cortar a cabeça: & q fe ho achaífe q lhe deffe duas cartas fuas, q lhe daria ao outro dia por fer então ja tarde, & q lhe diffefTe que ele era leu irmão & amigo, q lhe pedia muyto q pois mandaua de tão longe buf- calo que quifelfe aceitar fua amizade, & lhe mandaífe feu embaixador pera a cõfirmar, & que dali por diante fe vifitaífem por feus ébaixadores, como fe coftumaua antre os reys Chriftãos. EI rey moftrou q folgaua cõ a em¬ baixada, & afti ho diffe a Vafco da gama, & q ele foífe muyto bé vindo: & pois el rey de Portugal qria fer feu amigo & irmão, q ele ho feria feu, & lhe mãdaria fobriffo feu embaixador: ho q Vafco da gama lhe pedio muyto q fizeffe: porq não oufaria daparecer diante del rey feu fenhor fem ele. El rey lhe pormeteo q ho mãdaria, & q logo ho defpacharia. E def- pois de lhe pergútar polo eftado del rey de Protugal, & quãto auia de fila terra a Calicut, & quãto fe deteuera na viajem, por fer ja muyto noyte lhe diffe q fe recolheffe: & pergútoulhe fe qria poufar cõ mouros fe cÕ Chriftãos, & ele diffe que cõ nenhús fe não fó, & el rey mãdou a hú mouro feu feytor q o foffe apoufentar, & lhe fizeffe dar todo ho neceffario. CAPITOLO .XVIII. De como Vafco da gama quifera mandar hú prefente a el rey, & lhe nã foi cõfêtido DEspedido Vafco da gama pera fe ir a poufada, pofto que feriã paf- fadas quatro oras da noyte, ho Catual & os outros q ho acõpa- nharão fe forão coele, indo todos a pé, & difto fobreueo húa chuua tamanha q as ruas yão todas cheas dagoa. E por iffo Vafco da gama mandou algús criados feus que ho leuaffe as coftas: & afti pola agoa, como pola grande detéça que fazião em chegar a poufada fe agaftou, de maneyra que fe queixou com ho feytor del Rey. Dizendo que fe ho auia ele de trazer pela cidade toda aquela noyte: & ele lhe diffe q fe não podia mais fazer porque a cidade era grande & efpalhada: & leuouho a fua cafa pera defcanfar hú pouco, & daualhe hú caualo pera ir nele, & por fer fem feia o não quis, dizendo que antes iria a pé: & afti foy ate chegar á poufada onde aqueles que ho acompanhauão ho deixarão bé apoufentado, & ja lá os feus tinhão todos feu fato. Aqui defcanfou aquela noyte com muito prazer de ver tão bõ começo naquela negoceação. E ao outro dia
  • Livro I, Capitolo XVIII 49 que era terça feyra determinado de mãdar prefente a el rey, porque fabia de Bontaibo que fe não podia mandar fem ho feu feytor & ho Catual ho verem primeyro, moftroulho, & erão quatro capuzes de graã: & feys chapeos, quatro ramaes de corais, doze alambeis, hú fardo de bacias de latão, em que auia fete peças, húa caixa daçucar, dous barris dazeite, & dous de mel. Vendo ho feytor & ho Catual eftas peças começaranfe de rir, dizendo que não era aquilo nada pera mandar a el rey, que ho mais pobre mercador que ya a feu porto lhe daua muyto mais, que aquilo que fe lhe queria fazer prefente, que lhe mandaíTe algú ouro: porq el rey não auia de tomar aquilo. Do que Vafco da gama ouue menécoria, & adi ho moftrou, dizendo q fe ele fora mercador ou fora tratar que leuara ouro: pore que não era mercador, fe não embaixador por iffo ho não leuaua, & que aquilo q queria mandar a el rey de Calicut era do feu, & não do del rey feu fenhor, porque não tendo ele certeza fe acharia el rey de Ca¬ licut, lhe não dera nada parele, & que quãdo tornalíe a mandar outra vez pela certeza que teria de ho achare lhe mãdaria ouro, prata, & outras coufas muyto ricas. Eles diíferão que aquilo feria aíli: porem que ho coilume daquela terra era que todo ho eftrangeiro que ya falar a el rey lhe auia de fazer prefente, & efte conforme á grandeza de feu eftado. Ao q Vafco da gama repricou, dizendo que era muy bem que fe goar- daffe feu coftume, & ele por fe goardar fazia aquele prefente, que não era de mór preço por as caufas que lhe dizia, q ho deixaffem leuar a el rey, & quando ho não quifeífe que ho mandarião pera os nauios: & eles diíferão que logo ho poderia mãdar, porque ho não auião de leuar a el rey, ne confentir que lho leuaíTem. E dado efte defengano de que Vafco da gama ficou aífaz agaftado, diffelhes q pois eles não querião que man- daífe aquele prefente a el rey, que lhe queria ir falar pera fe tornar a feus nauios (& ifto era cõ determinação de dar conta a el rey do q paf- faua acerca do prefente) & eles diíferão que era bé: porem q por quãto fe auião de deter coele no paço, & era muyto neceffario iré fazer hú pouco, q ho irião fazer & logo tornarião pera irem-coele, porque el rey não queria que foífe fem eles, por quãto era eftrãgeiro, & auia muytos mouros na cidade. E cuydando Vafco da gama que lhe falauão verdade no tornar logo, difle q efperaria por eles, mas eles não tornarão em todo aqle dia. Tomo I 7
  • 5o Historia da índia CAPITOLO .XIX. Do que os mouros ordenarão cotra Vafco da gama. CO.mo quer q nefte tépo os mouros de Calicut tinhão trato c Quiloa, Mõbaça & Moçãbiq por amor do ouro q fe achaua neftes lugares: que lhes ya de çofala por as naos q lá tinhão mãdado que torna¬ rão inuernar a Calicut & chegarão primeiro q Vafco da gama, fouberão quãto lhe acõtecera des q chegou a Moçãbique ate q partio: & no cami¬ nho, ate Mombaça & ate Melinde: & como dizia que ya bufcar calicut por amor da efpeciaria q hi auia, pera el rey de Portugal mandar hi car¬ regar fuas naos dela. E quando eles virão Vafco da gama: & fouberão q a caufa de fua vinda & a fuftãcia de fua embayxada era fobre o q lhes tinhão dito: & que el rey de Calicut ho ouuira a parte & moftrara con- tentaméto de fua embaixada ficarão muy falteados, porque fabião q el rey auia de folgar de iré muytos mercadores a Calicut, porq quanto mais fofle tanto mais baratas auião de vender fuas mercadorias, & tanto mays cara auião de coprar a efpeciaria o q fintirão muyto porq vião claramente quãto perdião do muyto q ganhauão tendo fós ho trato da efpeciaria: & mais ho defgofto grandiffimo q terião vedo mefturados coeles Chriítãos, a q tinhão odio mortal: & mais que os auião de ter por cõpetidores em feus tratos. E ifto bé cõfiderado & examinado por todos juntos em con- fulta, acordarão q trabalhaffé todo ho poíliuel cõ ho catual & cõ ho feitor del rey de Calicut q lhe fizeffem crer q Vafco da gama q era coífairo & não viuia fe não de roubos, & q ya efpiar a terra pera faber q naos yão a ela pera como foffe verão as ir efperar ao mar & roubalas: por iffo q ho nã deixaffe ir de Calicut. E ifto a fim q ficãdo ele na cidade cõ os q leuaua os matarião poucos & poucos porque não tornaffem a fua terra cõ nouas do defcobriméto de Calicut & lhes impediflem ho trato q tinhão. E pera q ho catual & feitor perfuadifle a el rey q creffe que Vafco da gama era coffairo cõtarãlhe o que fizera ê Moçãbique cõtra os mouros, & defpois q partira ate chegar a Melinde. Eles por amor da peita con¬ tarão logo tudo a el rey: & afíi o prefente que lhe Vafco da gama qui- fera fazer: no q fe parecia bé que nã trazia mercadoria, nem era merca¬ dor fe não coífairo. E como el rey era home incoftãte: & vedo q Vafco da gama lhe não daua prefente como os mercadores lhe coftumauã de dar, começou de crer o q lhe diflerão ho catual & feitor, & efteue pera ho mandar prender: mas parece q noíTo fenor ho eftoruou pera fe a índia defcobrir, & fe lhe fazer lá tãto feruiço como he feito polos irmãos da
  • Livro I, Capitolo XX 51 cõpanhia de Iefu: cÕuertedo tãto numero de infiéis á nofla fétã fé. E porifto em q o catual & feitor andauão não querião q Vafco da gama mãdaífe ho prefente a el rey, & trabalhauão q não lhe tornaffe a falar, porq não ho ouuindo fe indignaffe mais cotrele. E de tudo ifto derão conta aos mouros, que lho agardecerã muyto, prometédolhes muyto mais do q lhes tinhã dado fe leuaífé aquilo auãte. E por diífimularé forãfe á poufada de Vafco da gama leuãdo cõfigo Bõtaibo: & fingldofe feus ami¬ gos moftrarão q ho querião infinar no q auião de fazer. E diflerãlhe que quê queria negociar cõ el rey q lhe auia de fazer prefente, poriífo q lho fizefle fe qria fer defpachado: & Bõtaibo como amigo lhe diífe ho mefmo: & que não fomente ho auia de fazer a el rey, mas aos officiaes q ho auiã de defpachar, fe não que nunca leria defpachado. E vafco da gama fe lhes queixou que ao dia dãtes quifera fazer hú prefente a el rey: & q ho leu feytor & ho Catual lho não cõfentirão & fe forão, & q nunca mais tornarão. E moftroulhe as peças do prefente. E os mouros lhe diíferão que não erão aqlas peças pera dar a hú rey tão poderofo como ho de Calicut, nem lhas deffe, porq lhe pareceria q fazia efcarnio dele. E o mefmo lhe diffe Bõtaibo: & eítranhoulhe muyto não trazer outras coufas de preço, pois as auia em Portugal: & ele fe lhes defculpou cõ não fer certo de defcobrir Calicut: & Bõtaibo lhe cõfelhou q pofto q não deífe prefente a el rey, que trabalhaffe por lhe falar & auer licéça dele pera fe tornar aos nauios porq lhe não fizelfem os mouros algú mal, que come- çaua détender neles q lhes pefaua cõ fua vinda, & coifto fe foy coeles. CAPITOLO .XX. De como Vafco da gama ouue licença del rey pera fe tornar. aos nauios. CUydÃdo Vafco da gama no q lhe Bõtaibo diffe, & vendo q ho Ca¬ tual & feitor tardauão determinou fe não foífem coele ate ho outro dia a horas de comer de fe ir fem eles ao paço: mas eles vierão: & ele fem mais falar na tardãça lhes pedio que foífem falar a el rey. E parece q noífo fenor andaua abrindo caminho pera fe defcobrir a índia, porq cõ quanto eles qriã eftoruar a Vafco da gama q não falaffe a elrey, forãofe logo coele aos paços: & mandarão dizer a el rey q eftauão ali cõ Vafco da gama. E el rey por eftar traílornado algútãto ho não mãdou étrar fe não defpois dobra de tres horas q chegou, & q não entraífem coele mais q ho feo lingoa: do q ele ficou muy defcontête, porq lhe não pareceo bé aquele apartaméto. E entrado onde elrey eftaua, não foy rece-
  • Historia da índia 52 bido dele cõ ho gafalhado da primeira: & diflelhe fecamente q ho efpe- rara ho dia paffado, & q não fora a ele. Ao q Vafco da gama diffe q deixara de ir por fe achar muyto canfado do caminho. E não quis dizer ho porq, por não dar caufa a el rey de lhe falar no prefente, q bé lhe parecia que lhe não eftoruara ho catual & ho feytor de ho mandar a el rey fe não por faberé que ho aueria por coufa baixa: & mais q lhe auião de dizer como ho virão. Poré não fe pode efcufar de lhe el rey falar nele: dizédolhe logo que ele lhe dilfera q era de hu rey muyto poderofo & rico, & que lhe nã trazia nenhúa coufa, trazedolhe embaixada damizade, que nã fabia que amizade queria coele quem lhe não mandaua nada. Ao que Vafco da gama refpondeo, que fe não efpãtalfe de lhe,não trazer nada, porque não tinha certeza de ho ãchar, & agora que ho achara veria o q el rey feu fenhor lhe mãdaua, fe ho Deos deixafle leuarlhe as nouas de feu defcobrimento: & que fe ele quifeífe dar credito a luas cartas q ali lhas leuaua, & que nelas veria o que lhe dizia. E el rey e vez de lhe pedir as cartas, diflelhe que ou ho mãdaua ho feu rey delcobrir pedras ou homés, & fe mãdaua defcobrir homes como lhe não mandaua algúa coufa: & pois a não trazia que lhe diíferão q tinha húa faníta Maria douro que lha deíTe. Vafco da gama fe achou muy afrontado de lhe el rey eftranhar tanto não lhe leuar prefente, & mais de lhe pedir tão lem ver¬ gonha aquela imagem. E refpõdeolhe que a fanóta Maria que lhe differão era de pao dourada & não douro: & pofto que ho fora que lha não ouuera de dar por quanto ela ho goardara no mar: & ho leuara a fua terra. E el rey não repricou a efta repofta, & pediolhe as cartas que leuaua del rey: & ele lhas deu, húa em lingoagem Português outra em arabigo. E diflelhe que vinhão afli porque não fabia el rey feu fenhor qual daquelas lingoas fe entederia em fua terra. E pediolhe que pois a lingoa Portuguefa fe não entedia fe não a arabiga, & auia hi Chriftãos índios que a enten- dião que as mandafle ler por hú deles, porque por os mouros feré immi- gos dos Chriftãos receaua que mudaflem as palauras da carta. E el rey ho mandaua afli: porem não fe achou índio que foubefle ler a letra mou- rifca ou foy feyto acinte. E vendo Vafco da gama que a auião de ler mouros, pedio a el rey q fofle Bõtaibo hú deles, & ifto por lhe parecer que falaria mais verdade q os outros pelo conhecimento que tinha coele: & el rey mandou que a lefie com outros tres: & lida por eles prymeiro antre fi, a lerão alto declarãdo a el rey o que dizia: Que era q fabendo el rey de Portugal como ele era hú dos mais poderofos reys da índia & Chriftão defejara de ter coele amizade & trato, pera auer de fua terra efpeciaria que fabia q auia nela muyta, & que de muytas partes do mundo a yão ali comprar. E que fe ele lhe quifefle dar licença pera mandar por
  • Livro I, Capitolo XXI 53 ela que lhe mandaria de feus reynos muytas coufas que no feu não aue- ria, as quaes lhe diria aquele feu capitão mór & embaixador. E quando daquelas coufas não foífe contente, mandaria moeda douro ou de prata pera a cõprarem. E que aííi das mercadorias como das moedas lhe daria ho feu capitão moftra. EI rey ouuindo eftas palauras, como defejaua que pera acrecentamento de fuas rendas foffem muytos mercadores a Calicut, moftroufe cõtente cõ a carta, & fez melhor rofto q dãtes: & pregútoulhe q mercadorias auia é portugal. Ele nomeou muytas, & diífe q de todas trazia moftra, & affi das moedas: q lhe deífe ele licéça pera ir por elas aos nauios, & que deixaria na poufada quatro ou cinco homées dos feus em quanto lá foífe. EI rey crendo mais o que lhe ele dizia, que o que lhe os mouros tinhão dito, diífelhe q fofle embora, & que leuafle os feus con- figo que não era neceflario ficar nenhú em terra, & que trouuefle fua mercadoria, & que a vendefle ho melhor que podeífe. Coefta licéça ficou ele muyto ledo, porque fegúdo vio el rey mal aflombrado no começo da pratica, pareceolhe que lha não deífe. E coifto fe foy pera a poufada, acompanhandoo ho Catual por mandado del rey. E por fer aqle dia ja tarde fe não quis partir. CAPITOLO .XXI. De como tornando fe Vafco da gama pera os nauios ho deteue ho Catual em Pattdarane. EAo outro dia que foy ho derradeyro de Mayo mandou ho Catual hum caualo em offo a Vafco da gama pera ir nele a Pandarane. E por ho caualo vir daquela maneyra não quis ir nele, & pedio hú andor ao Catual, q lhe logo mãdou dar, & nele fe partio pera Panda¬ rane, & todos os íeus coele, & afli muytos Naires q ho acompanhauão. E quãdo os mouros ho virão ir, parecendolhe que fe ya de todo, ficarão tão magoados que fe forão ao Catual, & peitarãlhe muyto dinheiro por¬ que foífe apos ele & q ho prendefle defllmuladamente, & que eles terião maneyra como ho mataífem pera que ele ficaífe fem culpa. E pofto que lhe el rey quifeífe dar algúa pelo prender, que eles lhe auerião perdão. E fizerãno partir logo, & andou tanto que paífou pelos noífos que ficauão atras de Vafco da gama por ele ir deprelfa, & eles não poderem andar tanto que fazia calma & afrontauão. E chegado ho Catual a ele, diífelhe que porque andaua tão de preífa que parecia que ya fugindo: & ifto por acenos. O q ele bem entendeo: & diífelhe també por acenos que fugia da calma. E chegados a Pãdarane, porque os noífos não paredão ainda,
  • Historia da índia 54 difle Vafco da gama que não auia dentrar fem eles no lugar, & meteofe em hú eftao (que auia muytos por aquele caminho pera fe acolherem das chuuas) & hi efperou por eles ate quafi foi pofto, que tudo ifto tardarão por erraré ho caminho. E Vafco da gama fe queixou coeles, dizédo que não era aquilo tempo pera ho deixarem, & que ja fora nos nauios fe não fora fua tardança. E pedio logo húa almadia ao Catual pera fe ir aos nauios: & ele pelo que efperaua de fazer lhe difTe que era ja muyto tarde, & que os nauios eftauão longe & como fizeffe efcuro os poderia errar que melhor fe iria ao outro dia. Ao que ele diífe q fe lhe logo não deífe almadia pera fe ir que fe tornaria a el rey, porque el rey ho mandara ir pera os nauios & que ele ho queria deter, & que era muyto mal feyto fendo ele Chriftão como eles. E ifto difle muyto menécorio, & moftrãdo que fe queria tornar pera Calicut. E ho Catual por diflimular difle q lhe daria .xx. almadias fe tãtas quifefle q ele lhe acõfelhaua por bé q ficafle, q fe fe quifefle ir que fe fofle: & fez que mandaua bufcar almadias, & diffimuladamente mandou efconder os donos delas, porq as não deflem. E entre tãto que as yão bufcar leuou Vafco da gama ao longo da praya: & como ele ja tinha má fofpeita defta géte pelo q lhe fora feyto em Ca¬ licut, difle a Gonçalo pirez ho marinheiro, que cÕ outros dous dos noffos foífe diante ho mais q podefle: & fe achafle Niculao coelho com os bateis, lhe diffefle que fe efcõdeffe porque auia medo q ho Catual lhe tomaffe os bateis com a muyta géte que leuaua: Gonçalo pirez & os outros forão fazer ifto. E ho Catual fe deu tanto de vagar cõ a almadia por mais q fe Vafco da gama aprefláua, q fe çarrou a noyte de todo, & erão paffadas dela bem tres horas. E afli por ifto, como por não tornaré mais os q leuarão ho recado a Niculao coelho, fe deixou Vafco da gama ficar ali aqla noyte, & foy apoufentado é cafa de hú mouro. E ho Catual os deixou, cõ dizer que ya bufcar Gonçalo pirez & os outros dous, & foyfe: & nã tornou fe não pola menhaã. E tanto q tornou logo lhe Vaico da gama pedio alma¬ dias pera fe ir: & ele lhe difle que mandafle chegar mais pera terra os nauios, & que étão fe iria: do que fe ele agaftou muyto, parecendolhe que lho dizia, pera com a muyta gente que tinha, lhe ir tomar os nauios em almadias: & por ifto não quis. E refpondeo cõ grãde animo, que não auia de mandar tal coufa eftando em terra, porqlie fe ho mandafle, que pareceria a feu irmão que o tinhão prefo, & que lho fazião fazer por força, & que fe iria pera Portugal fem ele. Ho Catual & os outros falado todos juntamete muyto rijo lhe differão q fe ho não fizeffe ho não deixa- rião ir: ao q ele moftrandofe muy defagaftado: refpondeo que fe ho não deixaífem ir, que fe tornaria a el rey de Calicut, & lho diria, & quando ho ele quifefle deter em^fua terra, que folgaria muyto de morar nela.
  • Livro I, Capitolo XXII 55 Ho Catual diffe que fe foífe queixar. Porem não lhe daua lugar pera iffo, porque as portas da cafa eftauão todas fechadas, & ela toda chea de Naires com fuas armas, & não deixauão fair nenhum Português. E quis Deos que ho Catual não oufou de matar Vafco da gama nem os feus, que bem quifera fazelo, por amor dos mouros que lhe peitarão: & fendo ele muyto grande priuado del rey, tomoulhe tamanho medo dele que não oufou. E ho porq dizia a Vafco da gama que mandaffe chegar os nauios pera terra, era porque chegados os poderião os mouros tomar, & matar quantos eftauão dctro: & vendo q Vafco da gama não qria mãdar chegar os nauios pera terra, por ter caufa de ho ter & darlhe opreflão, ja q ho nã oufaua de matar, cometeolhe q lhe deífe as velas dos nauios & os lemes: do q fe Vafco da gama começou de rir, dizédo q nã auia de dar húa coufa nem outra, pois el rey ho deixaua ir fem nenhúa condição, que fizeífe ho que quifeffe, porque el Rei ho faberia & lhe faria juftiça. E cõ tudo eftaua muyto agaítado. E eftando afli chegou gonçalo pirez com recado de Niculao coelho q ho efperaua com os bateis: a q logo Vafco da gama mandou dizer que fe tornafie' aos nauios, noteficandolhe como ficaua, & afli ho fez Niculao coelho, & acolheofe com grande afronta, porque forão apos ele muytos immigos em almadias por mãdado do Catual pera ho tomarem, mas não poderão. O que fabido pelo Catual tornou a cometer Vafco da gama que efcreueffe a feu irmão que fizeífe chegar os nauios pera terra: & ele não quis, com dizer que ho fizera: mas que feu irmão não auia de querer, & pofto que quifeffe: q fabia muyto certo q a gente ho não auia de confentir. Ao q ho Catual repri- cou que não difleífe aquilo porque fe auia de fazer o que ele mandaffe. E com tudo Vafco da gama não quis efcreuer a carta, porque receaua de mandar chegar os nauios pera terra pela rezão que ja diffe. CAPITOLO .XXII. De como Vafco da gama fe foy pera os nauios, & do que fe paffou dejpois dijlo. NIsto fe paffou todo efte dia em q os Portuguefes efteuerão 5 grande agonia: & vinda a noyte os meterão em hú patim ladrilhado, & cercado de paredes baixas, & veo ho dobro da gente q os goar- dou de dia, pera os goardar de noyte. E Vafco da gama os efforçaua porque fentio q receauão de os apartarem hús dos outros no dia feguinte: & ele também receaua ho mefmo, mas não ho daua a entender: & mof- trauafe muyto confiado que como el rey de Calicut foubeffe que eles afli
  • 56 Historia da índia eftauão, que os mãdaria logar foltar. E por fe moftrar defagaftado ceou coeles galinhas, & arroz que mandou comprar de dia. E ho Catual eftaua efpantado de ver quão pouco lhes daua de os terem alii, & da conftancia de Vafco da gama não querer mãdar chegar os nauios a terra, nem con¬ ceder em nenhúa das outras coufas que lhe pedia: & pareceolhe que era por de mais telo prefo pera o fazer; & quis Deos que determinou de ho foltar com medo del rey faber q ho tinha prefo, fobre ho mãdar ir liure- méte. E ao outro dia q foy fabado dous de lunho, dilfelhe que pois dif- fera a el rey que tiraria fua mercadoria em terra que a mandafle tirar, porque ho feu coftume era: q qualquer mercador que vinha a Calicut punha logo em terra fua mercadoria & gente: & não tornaua aos nauios fe não defpois de a ter vendida: & que como a mercadoria vieíTe ho dei¬ xaria tornar aos nauios. E ainda que pareceo a Vafco da gama q lhe não falaua verdade, difielhe q logo mãdaria pola mercadoria, que lhe deífe almadias pera a trazerem: porq feu irmão não quereria que os feus bateis vieffem a terra ate ele não ir aos nauios. Do que ho Catual foy contente, porque elperaua de fe entregar na mercadoria, cuydando q erão coufas de muyto preço como Vafco da gama dizia, q defpachou hú dos feus cõ carta a feu irmão, q dizia como ficaua, & q não tinha outra má vida fe não eftar metido em húa cafa, q do mais a tinha muyto boa, & q lhe mãdaffe algúa pouca de mercadaria pera contentar ho catual que ho dei- xaffe ir: & q teueífe fua prifam por verdadeira fe ho não vilfe nos nauios defpois da mercadoria fer em terra: & fe alii foíTe q não agoardafTe mais & fe partiffe logo pera Portugal, & contaffe a el rey o q tinha feito & como ficaua, porq cõfiaua em fua alteza q lhe deífe tal armada de gete com q tornaífe a liuralo: q não ouuefTe medo q ho mataflem nefte tempo porq ele eftaua diffo feguro. E vifta efta por Paulo da gama mãdoulhe logo a mercadoria cõ outra carta, em q dizia q nunca deos quifeffe q tor¬ naífe fem ele a portugal, que quando os ímigos ho não quifefTem foltar, que efperaua em noífo fenhor de dar tãto efforço a effes poucos q eftauão na frota, q cõ a artelharia q tinhão ho foflem liurar, & que difto fizeífe conta & não doutra coufa. E chegada a mercadoria a terra, & entregue ao catual, & affi Diogo diaz q ficaua por feytor: & Aluaro de braga por leu efcriuão: & foife Vafco da gama aos nauios, & não quis mais mandar nenhúa mercadoria ate ver como fe vendia aqla, nc quis mais ir a terra por não fe ver noutra afronta, do q pefou muyto aos mouros por defef- perare de ho poderé matar. E não lhe podendo fazer outro mal zomba- uão da mercadoria que deixara é terra & fazião que não fe vendeífe: do q fe ele mandou queixar a el rey, & alfi do que lhe ho catual fizera, dizedo que por eífa caufa não fora mais a terra: poré q eftaua a feu fer-
  • Livro 1, Capitolo XXIII *7 uiço cõ aqla armada: & el rey fe moítrou muyto menecorio do q lhe fora feyto, dizédo q caftigaria aqles q lho fizerão: & quanto á mercadoria mãdou fete ou oyto mercadores gentios guzarates q a cõpralfem. E mã- dou a hú naire hõrado pera q efteueífe na feitoria, & q fe hi chegalfe algú mouro q ho matafle. Mas ou por ifto fer fingido, ou por os mouros pei- taré os mercadores, eles não cõprauão nenhúa coufa, ãtes a abaterão de q os mouros andauão muyto ledos & dizião que agora verião fe eles fós erão os que não querião cõprar a mercadoria dos portuguefes: & cõ tudo não oufarão mais de ir á feitoria, fabendo que hi eftaua ho naire por mã- dado del rey. E fe dãtes querião mal aos portuguefes muyto mais lho quiferão dali por diãte: de maneira q como algú ya a terra, parecendo- lhes q ho injuriauão nifio cospião no chão, dizcdo Portugal, Portugal. E eles q ho entedião riãfe, porq viífem quão pouco lhes daua diífo & afll lho mandaua Vafco da gama que ho fizeffem. E vendo ele q não cõpraua ningué a mercadoria, pareceolhe q era poreftar naquele lugar & q em Calicut fe venderia milhor, & ho mãdou aíli dizer a el rey pedindolhe licença pera a mandar lá: que ele logo deu, & por feu mandado & a fua culta foy la leuada: & cõ tudo núca Vafco da gama quis tornar a terra pela offenfa q lhe ho catual fizera. E porq Bõtaibo q ho ya ver muytas vezes lhe dezia q ho fizeffe affi, porq el rey era home mudauel, & poderia fer que os mouros ho mudarião da võtade q tinha pelo muyto credito q tinhão coele. E era Vafco da gama tão recatado que por fer mouro fe não fiaua dele, né lhe daua conta de nenhúa coufa que ouueífe de fazer, poré por ho ter de fua mão & lhe dar auifos lhe daua muytas peças & dinheiro. CAPITOLO .XXIII. De como Vafco da gama quifera deixar em Calicut hú feytor & efcriuão & el rey nã quis. POsta a mercadoria em Calecut ordenou Vafco da gama que todos os da armada foffem a terra pera veré a cidade e comprarc o que quifeffem, & cada dia mandaua de cada nauio hú home, & vindos aqles yão outros. E quando fazião efte caminho os gétios poreffes lugares por onde yão os chamauã a cafa, & lhes dauão de comer: & cama fe era tarde pera paffaré dali, & ho mefmo lhe fazião em Calecut & dauãlhe do q tinhão, & os noífos a eles do q leuauão, que erão manilhas de latão & de cobre, eftanho & roupa de veftir: & andauão tão feguros como 5 Lif- boa: & muyta géte da terra pefcadores & outros gentios yão cada dia aos nauios véder pefcado, & figos, cocos & galinhas, que dauão a troco 8 Tono I
  • 58 Historia da índia de bifcoito & por dinheiro. E outros muytos vinhão cÕ os filhos peque¬ ninos fem trazeré nada a vender, fe não a ver os nauios. E Vafco da gama os recebia a todos cõ muyto gafalhado, & lhes mandaua dar de comer; & tudo ifto por fazer paz & amizade cõ el rey de Calecut, & fer deles bem quiíto: & coiito erão eles muytos nos nauios, & fe deixauão tão de vagar eftar neles q fe çarraua a noite & não fe acabauão de ir ate q os noffos lhe dezião q fe folfem. E nifto fe pafTou ate dez dias dagofto que era começo do tempo q podião partir da cofta da índia, & fe ya aca- bãdo ho inuerno dela. E vedo Vafco da gama ho affelfego da gente da terra cõ os noffos, & a cõmunicaçã que auia antreles, & quã feguros an- dauão por Calecut fem recebere efcandalo dos mouros né dos naires creo q todo aquilo vinha por el rey querer amizade cõ el rey feu fenhor que fem fua autoridade não fora poífiuel q em perto de dous mefes q auia q os noífos conuerfauão em Calecut lhe não fizerão os mouros ou os naires algú efcandalo: & por ilfo determinou de deixar em Calecut o feitor que lá eftaua coeífa mercadaria que tinha, pofto q a menos dela era vendida: porq eftaria ja ho alicece feito pera outra boa que el rey feu fenhor man¬ daria, deixandolhe noffo fenhor leuar nouas daquele defcobrimento, & não feria neceffario tornar de nouo a fazer afiento de feitoria: & cõ con- felho de feus capitães & principais da armada mãdou hú prefente a el rey de Calecut dalãbeis, corays & outras coufas, mandãdolhe dizer por Diogo diaz que lho leuou; que lhe perdoaffe ho atreuiméto de lhe mãdar aqle prefente, porq defejo de lhe moftrar quãto era feu feruidor lho fizera mandar, & não parecerlhe que coufas tão baixas erão pera fe aprelentar a hú rey tão poderofo como ele era. E que fe ele teuera as que fe lhe podião aprefentar, que cõ muyto melhor vontade lhas mandara do que lhe mandaua aquelas. E por quanto dali por diãte fe chegaua ho tcpo pera fe poder partir pera Portugal, ele queria ordenar fua partida-. E fe auia de mandar embaixador a el Rey feu fenhor pera confirmação de fua amizade coele, ho podia mandar fazer preíles. E mais que confiãdo ele na que tinha affctada com .S. A. & afli nas merces que tinha dele rece¬ bidas queria deixar em Calicut aqle feytor com feu efcriuão com a mer¬ cadoria que tinhão, alíi pera teftemunho da paz & amizade, q deixaua affentada com .S. A. como pera penhores da verdade de fua embaixada, & do q el rey feu fenhor auia de mandar defpois que foubefle nouas dele. E tãbé pera teftemunho de feu defcobrimento, & ter credito em Portu¬ gal, lhe beijaria as mãos mandar a el Rey feu fenhor hú bahar de canela (que fam quatro quintais do pefo de Portugal) & outro de crauo & doutra efpeciaria, & como ho feytor fizefe dinheiro q lho pagaria, porq não tinha ao prefente pera o pagar. E primeiro q Diogo dias deffe efte recado fe
  • Livro I, Capitolo XXIII 59 paflarão quatro dias fem elrey querer q entraffe a lhe falar indo cada dia ao paço. E quando ho mãdou entrar diãte dele olhouho muyto carregado, & preguntoulhe que queria tão mal aífõbrado, que Diogo diaz ouue medo q ho mandalíe matar: & dandolhe o recado, quando lhe quifera d.ar ho prefente não ho quis ver: & mãdou que ho deffem a feu feitor. E a repofta que deu peraVafco da gama foy q pois fe queria ir fe fofle: mas que primeiro lhe auia de dar feys cetos xprafins (que vai cada hú .ccc. rs) q afti era coftume da terra. Tornãdo Diogo dias cõ efta repofta acõpanha- rãno muytos naires, q ele cuydou q era por bé: mas chegãdo á feitoria eles fe poferão á porta, guardando q não faiflé ele né outrem. E forão logo dados pregoes pela cidade, que fopena de morte nenhúa almadia não fofle a bordo da noífa frota. Poré antes difto Bõtaibo foy dizer a Vafco da gama em fegredo q não fofle a terra ne mãdafle, porq ele fabia certo dos mouros q fe fofle ele ou os feus lhes auia el rey de mãdar cortar as cabeças: & q todos aqles cõprimentos que ateli fizera coele afli de lhe dar cafa de feitoria em Calecut, como de bÕ trataméto dos nolíos forã diflimulações pera ho acolheré coeles é terra, & os matar a todos: & ifto por induzimeto dos mouros, q tinhão feito crer a el rey q erão ladrões, & andauão a furtar, & que não forão a feu porto fe não pera roubar os mercadores q fofle a ele, & efpiaré a terra: & iré defpois tomala cõ grãde armada, & ho mefmo diflerão a Vafco da gama dous malabares. E eftãdo ele cuydando no q faria por efte auifo q tinha por verdadeiro, ex q muyto de noite chegou á capitaina hú efcrauo de guiné de Diogo diaz q era Chriftão, & fabia be a lingoa Portuguefa: & difle como ele & Aluaro de braga ficauão prefos, e a repofta que el rey dera ao feu recado: & do mais que fizera a cerca do prelente: & dos pregões q mandara dar: & que Diogo diz teuera maneyra como ho mandara, dãdo dinheiro a hú pefcador que ho leuafle a bordo em anoytecedo & por não fer entendido não efcreuera. Vafco da gama q ifto ouuío ficou muy agaf- tado, & efperou pera ver é q aquilo paraua, & paflòufe hú dia fem nin- gué ir a bordo. E ao outro dia que foy quarta feyra quinze Dagofto, foy húa fó almadia a bordo da capitaina em q forão quatro moços que leuauão a vender pedras finas, & parecendo a Vafco da gama que yão por efpias pera verem o que lhe fazião, & pera fe faber como eftauão cõ el rey, os agafalhou como dantes, fazendo que não fabia nada da prifam de Diogo diaz, & nã quis lançar mão deites porque vieflem outros mais & de mais preço em que faria reprefaria, ate cobrar os feus que eftauão prefos em terra a quem efcreueo húa carta por eftes moços com palauras difíimu- ladas, que querião dizer como ele fabia fua prifam, porque fe fofle ás mãos doutrem que a não entendeífem. E os moços lhe derão a carta, &
  • 6o Historia da índia contarão a el rey ho bõ gafalhado que lhes fora feyto: que lhe fez crer que Vafco da gama não fabia da prifam dos noffos, cõ que folgou muyto, & tornou a mandar que foffem a bordo: & com grãde auifo que não def- cobriffem como ho feytor & os outros eítauão prefos, porque fazia cõta de deter afli Vafco da gama ate poder armar fobrele, ou que vielfem as naos de Meca & que ho tomarião. E dali por diante forão os malaba- res a bordo, & Vafco da gama lhe fazia bõ tratamento fem lançar mão de nenhú, porq não via homê de preço, ate q ao domingo feguinte forão feys homes honrrados com dezanoue que leuauão cõfigo em húa almadia. E parecendo a Vafco da gama que por eftes aueria ho feitor & ho efcri- uão, fez neles reprefaria, fomente deixou dos remeiros na almadia, por¬ quê mãdou húa carta efcrita em lingoa Malabar ao feytor del rey: em que lhe dezia que lhe mandafTe ho feu feytor & efcriuão & que lhe mã- daria os feus. E vendo ho feytor del rey a carta deulhe diffo conta: & ele lhe mãdou que fizeffe logo leuar os prefos a fua cafa, pera ali os man¬ dar chamar & fazer que não fabia nada de fua prifam, & dali os mandar a Vafco da gama, porque lhe deffe os Malabares, cujas molheres lhe yão chorar a prifam de feus maridos: & por iffo ele queria foltar os noffos, que ainda efteuerão algús dias em cafa do feytor. CAPITOLO .XXIIII. De como el rey de Calicut mandou Diogo dia\ & Aluaro de Braga, & do mais que paffou. VEndo Vafco da gama que lhe não mandauão os prefos, quis ver fe com fazer que fe partia lhos mandauão, & quarta feyra vinte tres Dagofto mandou leuar ancora & dar ás velas, & por caufa do vento q lhe era por dauante foy furgir quatro legoas a la mar de Calicut, & ali 1'e deteue efperando ate ho fabado pera ver fe lhe mãdauão os pre¬ fos. E védo q não auia diffo memória foyfe na volta do mar, & furgio tãto a ele q quafi q não vião a terra. E eftãdo furto ao domingo efperãdo pela viração foy ter coele hú Tone cõ certos Malabares, q lhe differão q andauão ê fua bufca pera lhe dizer como Diogo diaz & os outros ficauão e cafa del rey pera lhos mãdar & q eles ficauão de lhos leuar ao outro dia, & q lhos não leuarão logo por fe não deterê & o poderê alcançar: & não védo ele os prefos pareceolhe q erão mortos, & q os Malabares lhe mêtião & diziãlhe aquilo pera ho deter, & armaré em Calicut con- trele & tomarêno, ou q efperauão pelas naos de Meca q ho tomarião, & diffelhes que fe foffem & q não tornaffé mais a bordo fê os feus homês,
  • Livro I, Capitolo XXIIII 6r ou cartas fuas fe não q os meteria no fundo ás bõbardadas, & q fe logo não tornaffé cõ recado que cortaria as cabeças aos q tinha tomados. Coefte recado fe partirão, & vinda a viração Vafco da gama deu ás velas, & perlõgando ao lõgo da cofta foy furgir diante de Calicut é fe poedo ho foi: & ao outro dia chegarão a bordo da capitaina fete almadias & é húa vinhão Diogo diaz & Aluaro de Braga, as outras co muyta gente, de q nenhúa não oufou detrar nos nauios. E poferão Diogo diaz & Aluaro de Braga no batel da capitaina, q ainda eítaua por popa, & afaftaranfe logo efperando repofta de Valco da gama: a q Diogo diaz diífe q como el rey de Calicut foubera q era partido mãdara logo por ele a cafa do feu fey- tor, & lhe fizera grãde gafalhado como q não fabia nada de fua prifam, & q lhe pregútara a caufa da prifam dos Malabares q tinha prefos & fabida lhe differa q fora be feyto. E q lhe pregútara fe lhe pedira ho feu feytor algúa coufa, dizédo cõtra ho mefmo feytor q eítaua prefente q bc fabia ele q auia pouco tépo q mãdara matar outro feytor, porq leuara peytas a hús mercadores eítrãgeiros: & defpois dilto lhe differa, q lhe diffeffe q lhe mandaífe ho padrão q dizia q queria q fe pofelfe em terra, q tinha a Cruz & as armas reaes de Portugal, & q fe foífe cotente podia deixar a ele Diogo diaz por feytor em Calicut: & q fobre ilto lhe dera húa carta pera el Rey de Portugal aflinada por ele & efcrita por Diogo diaz em húa ola q he folha de palmeyra, em q coítumão de efcreuer as coufas q hão de durar muyto, & dizia. «Vafco da gama fidalgo de voffa cafa veo a minha terra, com q fol- guey muyto: é minha terra ha muyta canela, muyto crauo, gingibre, muyta pimenta, & pedraria: o q eu quero da voffa he ouro, prata, coral, & ezcarlata.® Vafco da gama que ja não fe fiaua del rey, não quis ref- põder a feus offrecimétos, & mandoulhe os feus Naires & os outros dei¬ xou, dizédo q ficauão ate lhe trazerem a mercadoria que ficaua âm terra, & mandoulhe ho padrão que lhe mãdaua pedir: & coiíto fe forão aqueles q leuarão Diogo diaz, & ao outro dia foy ter Bontaibo com Vafco da gama, & diífe q fugia de Calicut porq ho Catual lhe tomara per man¬ dado del rey toda fua fazenda dizendo que era Chriftão & q fora por terra a Calicut por mãdado del Rey de Portugal pera ho efpiar, & diffelhe mais q tudo aquilo vinha pelos mouros: & porq affi como lhe tomauão a fazéda lhe farião mal na peffoa fe acolhera antes que lho fizeffé. Vafco da gama folgou muyto coele, & diffelhe q ho leuaria a Portugal & lá cobraria em dobro a fazenda, a fora outras merces que lhe el rey feu fenhor faria: & mãdoulhe logo dar muyto bÕ gafalhado. E após iíto ás dez oras do dia chegarão a bordo da capitaina tres almadias carregadas de gente & encima das toftes vinhão algús alambeis dos noffos, como q %
  • Ô2 Historia da índia vinha ali a mercadoria, & a pos eftas tres vinhão outras quatro que fe poferão de largo: & das tres em q yão os alãbeis differão aVafco da gama que ali vinha a fua mercadoria, q a porião no feu batel: que man- daffe ele tambe poer os Malabares q tinha prefos, & q dali os tomarião. E parecendolhe a ele que ifto era engano diífelhes q fe foífem, porq não queria mercadoria fe nã leuar pera Portugal aqueles Malabares pera tel- temunhas de feu defcobriméto. E q fe viuelfe q ele tornaria muy cedo a Calicut, & então faberião fe erão os Frãgues ladrões como os mouros fizerão crer a el rey de Calicut, & por iffo lhe fizera tantas coufas mal feytas. E acabãdo de dizer ifto mandoulhes tirar ás bõbardadas e os fez fugir. O q el rey fentio muyto quando ho foube: & fe as fuas naos efte- uerão no mar ele mandara fobre Vafco da gama, mas eftauão varadas por fer inuerno: o q he de crer q noífo fenhor ordenou q os noífos foífem lá nefte tempo porq podeffe efcapar, & dar nouas do defcobrimento defta terra pera fe reftaurar nela a fan&a fé catholica: o q não fora fe os noífos forão no verão, porq poderá el rey de Calicut ajuntar feu poder que era tamanho como ja dilfe, & mãdar fobreles, & tomalos a todos q nenhú não tornara cõ nouas a Portugal, ou també os mouros de Meca q efte- uerão é Calicut os matarão a todos fegundo erão muytos & lhes querião mal. CAPITOLO .XXV. De como Va fco da gama fe partio pera Portugal, & do que lhe aconteceo ate a ilha Danjadiua. Ainda q Vafco da gama eftaua cõtéte de ter defcuberto Calicut, nã ho podia fer de todo por nã ficar em amizade cõ el rey pera tor¬ nar feguraméte a frota q el rey feu fenhor mãdaífe. E vendo q não era mais em fua mão, contentoufe com ter defcuberto o q tinha, & ter fabido da índia & fua nauegação quãto abaftaua pera poder tornar a ela. E cõ leuar moftras defpeciaria, droga, & pedraria, & doutras coufas q auia nela, como agora vemos: q tudo lhe ouue Bõtaibo. E não tendo mais q fazer, partiofe leuando os Malabares q tinha, porq por meo deles fe fizefle a paz cõ el rey de Calicut quando tornaífe outra armada. E logo a quita feyra ao meyo dia ãdãdo e calmaria húa legoa abaixo de Calicut forão ter coele obra de fetenta tones grãdes carregados de gente de guerra, com que parece q el rey de Calicut cuydou de ho' tomar, & vendo os mãdoulhes tirar com a artelharia: & fe ela não fora fempre eles che¬ garão aos noífos & os meterão em trabalho, porque andarão obra de hora & mea ladrãdo apos eles, & por húa trouoada que fobreueo, que por
  • Livro I, Capitolo XXV 63 força leuou os noífos pera ho mar, os deixarão os immigos, & fe forão: & os noífos feguirão caminho pera Melinde com grandes calmarias. E indo coelas ao longo da cofta fem andar quaíi nada, pareceo bê a Vafco da gama, que pofto que el rey de Calicut lhe fizeífe tantas roindades, q pola necellidade que os noífos que tornaífem defpois dele a Calicut, auião de ter de fua amizade, pera fe poder auer carrega defpeciaria, q feria bõ fazer coele algú comprimêto, & mais pois lhe não podia ja empecer, & que el rey folgaria coele fegundo ho vira amigo de honrras. E húa fegunda feyra dez dias de Setêbro lhe efcreueo húa carta em arabigo feyta per Bontaibo, em q dizia que lhe perdoaífe de lhe leuar os Malabares, por¬ que os não leuaua fe não pera teftemunhas do que tinha difcuberto como lhe mãdara dizer, & 1'e não deixara feytor ê Calicut (do que lhe pefaua muyto) fora por recear q ho mataflem os mouros, por amor de quê não fora muytas vezes a terra, mas nem por iífo deixaua de fer muyto grãde feu feruidor, & que el rey feu fenhor auia de folgar muyto com fua ami¬ zade, & mandaria muy cedo fua armada em que lhe mandaífe muyta abal- tãça do que lhe mandaua pedir, & que ainda ho trato dos Portuguefes em fua cidade lhe auia dacrecentar muyto fuas rendas. E efta carta deu a hú dos Malabares que leuaua pera que a leuaffe por terra onde ho mandou deitar: & defpois fe foube que a dera a el rey de Calicut. E continuando Vafco da gama dali fua viagem indo a vifta de terra no fabado feguinte a duas legoas dela foy ter com a frota a hús ilheos & dú deles que era pouoado acodirão fogo muytas almadias com gête a vender pefcado & outros mantimêtos. E Vafco da gama lhe fez muyto gafalhado, & lhe mandou dar camifas & outras coufas com que moftrarão muyto contenta- mêto: & pregútoulhes fe folgarião de deixar ali metido hú padrão com húa Cruz & armas del Rey de Portugal em final que os Portuguefes erão feus amigos. E eles differão que fi, & q coele affirmarião que erão os noífos Chriftãos: & então ho mandou meter, & chamauafe ho padrão de fancta Maria: & por iífo fe chamou aqle ilheo do mefmo nome. Daqui como foy noyte q ventou ho terrenho fe fez á vela, & indo fempre ao lõgo da cofta a quinta feyra feguinte dezanoue de Setêbro foy ter cõ húa terra alta muyta graciofa & de bos ares, & eftauão júto dela feys ilhas peqnas & ali furgio: & indo a terra pera fazer agoada achou nela hú homê mancebo, q preguntado fe era mouro fe Chriftão, dilfe q chriftão & iífo deuia de fer cõ medo q ho não mataífem, que por aqla terra não auia nenhús Chriftãos: & efte leuou os noífos por détro de hú rio & lhe foy moftrar húa fermofa agoada que nacia antre hús penedos, & por iífo lhe foi dado hú barrete vermelho. Ao outro dia pela menhaã vierão de terra quatro homés em húa almadia abordo da capitaina que trouuerão
  • 64 Historia da índia a véder muytas aboboras & pepinos: e pregútados fe auia naqla terra ca¬ nela ou piméta, diflerão que não auia mais que canela. E peraVafco da gama auer moltra dela, mandou coeles dous dos noífos, q lhe trouuerão dous grandes ramos daruores de q fe ela tira, & dizia q auia ali húa muyto grande mata delas, porem que era braua : & quãdo tornarão coela vierão em fua companhia vinte homés da terra cõ muytas galinhas abo¬ boras & leyte de vacas: & diflerão a Vafco da gama, q mandalfe coeles algús dos noífos, porque dali a hú pedaço tinhão muyta canela feca, & q tornariã ao outro dia coela, & com vacas porcos & galinhas: poré ele não lhe quis dar ningué, porq reçeou de fer aquilo treição. E ao outro dia antes de jãtar indo os noífos cortar lenha a terra, enxergarão lõge do lugar onde eftauão dous nauios pegados cõ terra. E eftãdo Vafco da gama pera ir faber q nauios erao, mandou ver da gauia fe parecião outros, & foilhe dito q obra de feis legoas ao mar parecião oyto naos grãdes q an- dauam em calmaria: & coefta noua deixou de ir faber que nauios erã os dous, & pofle apique a efperar as naos fe ho foflem cometer, & elas como lhes igoalou a viração tomarão de ló quãto poderão: & íedo duas legoas dos noífos q os podião ver, foifle Vafco da gama a elas: ho que vedo a géte q ya nelas começarão logo darribar pera terra a popa. E indo afli quebrou ho leme a húa antes de chegar lá, & a gente dela fe paífou logo ao paraó & fe acolheo a terra, & Niculao coelho que ya mais perto da nao a foy logo abalroar, cuydãdo dachar nela algúa riqueza, & não não achou mais q cocos & jagra q he açúcar de palmeiras, & tãbé achou muytos arcos frechas efpadas lãças & efcudos, & as outras fete derão é feco, & porq nas naos os noífos lhe não podião chegar, paífarãfe aos ba¬ teis & forãonas efbõbardear, & os Imigos fugirão deixandoas: & vendo iíto Vafco da gama tornoufe pera os nauios. E eftãdo furto ao outro dia chegarão a bordo fete homés da terra é húa almadia, & diíferãlhe q aquelas oyto naos erão de Calicut, q as mandaua el rey pera ho tomaré, & q ifto fouberão da gente que fugira delas. CAPITOLO .XXVI. De como Vafco da gama foy fa\er agoada a ilha Danjadiua, & de como prendeo hi hum mouro. SAbido ifto per Vafco da gama nã quis ali eftar mais, & foi furgir na ' ilha Dãjadiua, que era dali dous tiros de bõbarda em q lhe diflerão que auia agoa. He ilha pequena, & eftá húa legoa da terra firme, ha nela muyto aruoredo, & te dous tãques dagoa doçe nadiuel, & fão
  • Livro I, Capitolo XXVI 65 muyto grades & todos de cantaria, & hú deles era daltura de quatro bra- ças. Ha no mar delta ilha muyto pefcado & marifco. Antes que os mou¬ ros viefle aa índia era pouoada de gétios & auia nela grandes edifícios, principalmente hú pagode, & defpois da nauegação dos mouros do mar roxo que aqui tomauão agoa & lenha, forão deles tão mal tratados que ho não poderão fofrer, & a defpouoarão: & antes que fe foffem derriba¬ rão quafí todo ho pagode de q lhe não deixarão mais que a capela, & affi os outros edifícios. E cõ tudo ainda os gentios da terra firme (q he del rey de Narfinga) tinhão tamanha deuação nefte pagode que yão fazer nele fuas orações a tres pedras negras q eltauão no meyo da capela. E efta ilha foy chamada Anchediua q na lingoa Malabar quer dizer as cinco ilhas, porq ao derrador dela eftão outras quatro, & os Portuguefes cor- rõperão efte nome & ficou em Anjadiua como lhe chamão. Surto aqui Vafco da gama mãdou Niculao coelho a terra a defcobrir: e ele foy ar¬ mado cõ os feus, & achou tudo affi como digo, & mais húa praya muyto boa pera efpalmar os nauios. E porq Vafco da gama tinha ainda muyto caminho pera ãdar, & não fabia quando acharia outra praya tam boa, ouue confelho com os outros capitães q efpalmaffem ali. E ho primeyro nauio que tirarão a monte foy ho berrio: & cada dia vinha gente da terra a vender mantimétos aos noífos. E eftando nifto virão vir duas atalayas que fam como fuftas & vinhão ébandeiradas, & com eftendartes nos topos dos maftos & dentro foauão atambores & trombetas como coufa de fefta & vinha nelas muyta gente, & elas vinhão a remos, & é fua goarda fica- uão cinco ao longo da cofta. E dos Malabares que Vafco da gama leuaua, foube q aquelas fuftas erão de ladrões de q era capitã hú gentio chamado Timoja morador em hú lugar dali perto chamado Honor, & andaua a furtar com manha de moftra que era de paz, & defpois que entraua nos nauios fe via que os podia tomar os tomaua. E por iífo chegando os pa- raós a tiro de bombarda lhes mãdou tirar dos dous nauios que eftauão no mar ás bombardadas: & a gete começou de bradar. Tambarane, Tam- barane, porque affi chamão a Deos, & dizião q erão Chriftãos. E não lhe deixando os noffos de tirar fugirão pera terra. E Niculao coelho que eftaua no feu batel foy a pos eles ás bombardadas: & feguio os tanto que mandou Vafco da gama leuantar húa bandeira pera que fe tornafle, & tornoufe. E ao outro dia eftando os capitães em terra com quafí toda a gete da frota trabalhando no berrio, chegaraÕ dous paraós pequenos em q virião ate doze homés da terra, q é feus trajos parecião hõrrados, & derão a Vafco da gama hú feixe de canas daçucar, & logo é lho dãdo lhe pedirão que lhe deixafle ver os nauios porque núca virão outros: do que fe ele agaftou muyto, parecendolhe que erão efpias: & nefta pratica Tono I 9
  • 66 Historia da índia chegarão outros dous paraós com outros tatos homés. E os que vierão primeyro vendo q Vafco da gama fe agaftaua coeles diíferão aos que che- gauão que não defembarcafle & q fe tornafle, & tornaranfe todos. E efpalmado ho berrio eftando a capitaina a mote, & todos os capitães em terra, veo ter coeles hú homem em hú paraó & feria de idade de corenta annos, & não parecia daquela terra porque trazia húa cabaya de pano branco dalgodão que lhe chegaua ate ho artelho, & na cabeça húa touca muyto foteada, & na cinta hú terçado: & como defembarcou foy logo abraçar Vafco da gama como q ho conhecera, & ho mefmo fez aos ou¬ tros capitães, dizendo que era Chriítão leuantifco & que fora trazido àquela terra em idade muyto pequena, & que viuia com hú mouro cha¬ mado çabayo fenhor de húa ilha chamada Goa que eftaua dali doze legoas & de muyta terra no fertão, & que tinha corenta mil homés de caualo. E por quãto andaua antre os mouros goardaua de fora a fua ley, mas dentro em fua alma era Chriítão. E eftando em cafa do çabayo foubera que forão ter hús homés por mar a Calicut em naos de feyção nunca vifta na índia, & que ninguém entendia a fua lingoagé, & que andauão todos veftidos. E quãdo ele aquilo ouuira logo lhe parecera que erão Chriftãos & pedira licéça ao çabayo pera os ir ver, a quem diífera tanto bem deles que defejaua muyto de os ver, & lhe mandaua dizer q lhe daria tudo o que quifefte de fua terra: & fe andaífe enfadado do mar, & quifeífe morar nela lhe daria renda de que foffe contente. E por derra- deyro lhe pedio hú queijo, dizendo que o queria pera mandar a hú cõpa- nheiro que trazia, q com medo não quifera paífar da terra firme, & pera que ho não ouueffe & foubeífe que era viuo lhe queria mandar aqle queijo por final. E Vafco da gama lho deu & mais dous pães moles: & aten¬ tando Paulo da gama nifto, & no muyto q aquele homem conheceo que era efpia: pelo q preguntou a effes homés da terra q hi eftauão fe ho conhecião. E fabendo deles que era capitão das oyto naos que auia pouco que forão cometer Vafco da gama, diífelho. E ele ho mãdou logo meter na capitaina, onde por tormétos confeffou q era efpia do çabayo, & ya faber como eftaua apercebido: porq eftauão muytos nauios darmada por effes rios da cofta pera iré fobrele, & detinhãfe por coréta naos groftas que efperauão porque lhes não podeífe efcapar. E fabido ifto por Vafco da gama mãdou ho préder pera ho leuar a Portugal por teftemunha das coufas da índia. E receando que aquela armada foífe fobrele, partiole logo a húa feita feira cinco Doutubro. E dali a duzentas legoas confeífou aquele homé que ya prefo a Vafco da gama que era mouro, & ya por parte do çabayo pera lhos leuar: porq lhe diíferão q andauão perdidos ao logo da cofta. E efte fe tornou defpois Chriítão, & Vafco da gama q
  • 67 Livro I, Capitolo XXVII foy íeu padrinho lhe pos nome Gafpar á hõrra dú dos tres Reys magos, & deulhe ho feu apelido da gama, & defpois fe diffe que efte Gafpar da gama era judeu por fe achar q fora cafado com húa judia que moraua em Cochim. CAPITOLO .XXVII. Do q acôteceo a Vafco da gama ate a ilha Santiago. E Continuando Vafco da gama fua viagê pera Melinde defpois de bê engolfado achou grandes calmarias q dão no mar muyto grade fadiga como eu tenho vifto na viagê da índia. E paífados muytos dias de calmarias fobreuierão ventos cõtrairos com q lhe foy forçado pairar & andar ás voltas quãdo nã podião pairar no q paffauão immenfo trabalho: & ceifando eftes ventos tornarão as calmarias, & apos elas tornarão os vêtos, & hora húa coufa hora outra durou ifto quatro mefes com que a gête andaua pafmada crêdo que aqueles tempos erã ali natu¬ rais, & q não auião de poder paffar auante, & mais por adoecerem os mais deles de lhe incharem as gengiuas & lhes apodrecerê afíi como no rio dos bõs finais & faziãfelhe medonhas chagas nas pernas & nos braços de que morrerão trinta peffoas & os outros tanto montauão como mortos q não fe podião bolir, & coifto ya faltãdo a agoa & apertauale a regra. E pera mayor defcõfolação affirmauão os pilotos q aqueles tempos erão ali gerais & por iffo durauão tanto, que fe ho não forão ja fe acaba¬ rão: & adi ho cria a gête pelo q defmayarão de todo & fe derão por mortos, & bradauão todos a grãdes brados que arribaífem a Calicut ou ao outro lugar da Índia q melhor feria morrerem em terra que no mar: & requerião a Vafco da gama & aos outros capitães que arribaífem, & também ho requerião os pilotos & os meftres em muytos confelhos q Vafco da gama fazia fobriífo: & refpõdia com muyto efforço que não podia fer que aqueles têpos ali foffem gerais porque fe ho forão nã fe poderá nauegar por aquele golfão como nauegaua pera Melinde & outras partes, por iffo q creffem que aqueles têpos auião de ter fim: & dizialhes outras muytas coufas pera os efforçar, porê os pilotos não ficarão nada cõtentes, & fizerão todos cõjuração cõ os meftres, & marinheiros, & outra gente algúa, q como tornaffe vento q arribaffê cõ ele a Calicut. Ho q fendo difcuberto a Vafco da gama prêdeo os pilotos, & ele tomou ho cuy- dado de mãdar a via, & ho deu aos outros capitães em quãto andaffem naqle trabalho. E auendo noffo Senhor piedade dele: mandou vêto q em obra de dezafeis dias pos a frota a vifta da outra cofta diante da cidade de Magadaxo, q virão a dous de Feuereyro: & por fer de mouros ê paf-
  • €8 Historia da índia fando ao longo dela, lhe mandou Vafco da gama tirar muytas bõbarda- das. E a hú fabado cinco de Feuereyro defronte de húa vila chamada Pate lhe fayrão oyto nauios darmada que com medo da artelharia lhe fugirão, & dali foy furgir a Melinde onde fe deteue cinco dias por amor dos doentes que leuaua, & com licença del rey mãdou meter em terra hú padrão com húa Cruz & armas reais de Portugal: & partiofe a dez de Feuereyro leuãdo hú embaixador que el rey mandaua a el Rey dõ Ma¬ nuel, & aos dezafete de Feuereyro queimou ho nauio fam Rafael nos baixos defte nome alli por fazer muyta agoa como por não ter gente que podeffe marear mais de dous nauios: & Paulo da gama foy coele, & dali com Niculao coelho foy ter á ilha de Zanzibar q eítá em altura de feys graos dez legoas da terra firme. He grande & muyto viçofa, & abaftada de mantimétos, & os matos fam larãjais: he pouoada de mouros, gete fraca pera armas, tratanfe bem de fuas peífoas, fam os mais mercadores & tratão na terra firme: tem rey fobre fi que também he mouro. E fabedo el rey q Vafco da gama eftaua no feu porto aífentou coele amizade. E partido dali Vafco da gama foy furgir ho primeyro de Março aos ilheos de fam Iorge, & mandando meter hú padrão naquele, em que a ida ouuio miífa fe partio & aos tres de Março fez agoada & carnagem nágoada de fam Bras de lobos marinhos & fotilicairos que não auia outra carne, & efta leuou pera ho refto da viage per que profieguio fem nenhú contrafte nem tomar mais terra ate a ilha de Santiago. CAPITOLO .XXVIII. De como Niculao coelho deu ttoua a el rey dô Manuel que a índia era difcuberta. NAuegádo Vafco da gama & Niculao coelho pera efta ilha de Sãtiago, apartoufe Niculao coelho húa noite & foife caminho de Portugal pera ir diante dizer a el rey do Manuel como a índia era difcu¬ berta, & ganhar as aluifaras de tam boa noua como fabia q aquela auia de fer pera el Rey. E aos dez dias de Iulho do ãno de mil & quatro¬ centos & nouãta & noue chegou á vila de Cafcays. E fabendo hi como el rey dõ Manuel eftaua na vila de Sintra defembarcou & fe foy logo laa & contou a el rey quanto acotecera a Vafco da gama defpois q partira de Portugal & chegar a Calicut & fe tornar, do que el rey ficou tão con¬ tente como a quem fe daua húa noua de tamanho prazer como aquela era, & fezlhe por iffo muyta merce dacrecentamento de hõrra & de teça: pofto que muytos nã podião crer que a índia era difcuberta, & mais não
  • Livro I, Capitolo XXIX 69 vendo nenhúa moftra defpeciaria ne de nenhúa coufa da índia, porque tudo trazia Vafco da gama que crião que era morto pois não chegara com Niculao coelho, nem chegou fe não da hi a dous mefes. E auião todos por muyto impoftiuel efte defcobrimeto por auer feflenta annos que fe andaua a pos ele fem fe poder faber nem raftejar: & parece que por infpiração diuina começou ho Ifante dom Anrrique efte defcobrimento por mar mais q outro nhú príncipe da Europa q erão fenhores de muyto mayor eftado que ele, porque dele herdaflem os reys de Portugal que forão dali por diante efte defcobrimeto principalmente ho inui&iftimo Rey do Manuel, pera quem a diuina prouidencia tinha goardado ho effeyto dele que era a índia, cujo defcobrimento eftaua profitizado dantes pola Sibila Cumea fegúdo fe cota em hú autentico liuro que anda impreflò em latim que fe intitula da fagrada antiguidade, em que fe conte muytos letreiros antigos, q forão bufcados & achados é muytas partes Dafia, Dafrica & Deuropa, per mãdado do Papa Niculao quinto & dalgús feno- res ecclefiafticos tão curiofos deftas antiguidades, que com muyto grande defpefa as mandarão bufcar polo mudo. E antreftas foy achado hú letreiro fegúdo no mefmo liuro conta hú Valétino morauio: que diz q no anno de mil & quinhentos & cinco que foy leys ãnos defpois defte defcobrimeto, aos noue dias Dagofto nas rayzes do monte da lúa a que chamamos agora a rocha de Sintra junto da praya do mar forão achadas debaixo da terra tres colúnas de pedra quadradas, & cada húa tinha é húa das quadras cortadas nas mefmas pedras húas letras romanas, das quaes em húa das colúnas fe poderão ler por as outras eftare gaitadas do tempo, & ainda eftas que fe lerão forão as pedras em q eftauão cozidas com grande arte. * E eftaua húa regra como titulo que dizia em latim. Sibile vaticinium occiduis decretú. Que na lingoajc Portuguefa quer dizer. Proficia da Sibila determinação aos do occidente. E abaixo defta regra eftauão quatro verfos latinos que dizião. Voluentur saxa li ter is & ordine redis, Cum videas oriens occidentis opes, Ganges, Itidns, Tagus erit mirabile vifu, Merces cÕmutabit fuas vier que Jibi.
  • Historia da índia lo Que quere dizer na noffa lingoa. Serão reuoltas as pedras com as letras dereytas & em ordem, Quando tu occidente vires as riquezas doriente. Ho Ganges, Indo & ho Tejo fera coufa marauilhofa de ver. Que cada hú trocara cõ ho outro as fuas mercadorias. E ainda dizem alguús que poucos dias antes de Niculao coelho che¬ gar a Sintra forão achadas eftas colunas, & foy dito a el Rey do Manuel por cujo mãdado Ruy de Pina que a eíTe tempo era cronifta tirou em lin- goagem eftes quatro verfos & ho titulo. E quãdo el Rey dom Manuel vio o q dizião ficou muyto efpantado com todos os de fua corte, & ouue fobriífo diuerfos pareceres, porque hús ho crião outros dizião que por nhú modo podia fer, & que aquilo erão gentilidades a que não fe deuia dar nhú credito. E eítando a coufa affi em duuida, dizem que chegou Niculao coelho que a deffez com a noua que deu do defcobrimento da índia. E foy a profecia auida por verdadeyra: & como quer que os Por- tuguefes fabem melhor pelejar que grãgear antiguidades, não ouue qué fizefle mais cafo daquela, & as pedras ficarão na praya do rio de maçãs, & querem dizer que aquele Valétino morauio que diz q as achou, vendo que os Portugueles não fazião cafo diflo: quis atribuir affi a gloria de ele fer o que achara aquela antiguidade. E como quer que foy ela fe achou, & os verfos fam muy celebrados em Italia & auidos por autênticos, & que forão achados da maneyra que digo. CAPITOLO .XXIX. De como Vafco da gama chegou a Lifboa. ACHÁDoVafco da gama menos Niculao coelho, efperou por ele hú dia & vendo que não vinha feguio feu caminho pera a ilha de Sã- tiago, onde chegado fretou húa carauela pera ir nela a Portugal mais afinha que na nao em que ya, afli por fazer muyta agoa com que cortaua pouco, como por leuar muyto doente feu irmão Paulo da gama, & deixou por capitão da nao a Ioão de fá feu efcriuão. E partindo Vafco da gama defta ilha por ir a doença de feu irmão em creciméto, lhe foy forçado tomar a ilha terceyra, & tiralo é terra: & hi faleceo como muyto bõ Chriftão que era. E ele falecido, partiofe Vafco da gama pera Portu¬ gal, & chegou a Belé em Setembro do ãno de mil & quatrocétos & no- uenta & noue, auédo dous annos & dous mefes q dali partira com cento
  • Livro I, Capitolo XXX 7r & corenta & oyto homés de que não tornarão mais que cincoenta & cinco, & ainda forão muytos pera os immenfos trabalhos q paíTarão, de brauas tormétas & terriueis doenças, & daqui mandou Vafco da gama recado a el Rey dõ Manuel que era chegado. E recebédo el Rey contentamento grandiffimo coefta noua, mandou a dom Diogo da filua de menefes conde de Portalegre que fofle por ele com muytos fidalgos, como foy, & ho leuou ao paço onde não podião chegar cõ a multidão da gête q acodia a ver coufa tão noua como lhes parecia Vafco da gama, affi por ter feita húa coufa tamanha como era defcobrir a índia, como por cuydaré todos q era morto, & el Rey lhe fez tanta honrra como merecia quem com aquele defcobrimento daua tãta gloria ao eterno Deos & a ele immenfo louuor & fama por todo ho mundo, & proueito aos reynos de Portugal. E em galardão de feruiço tã afiinado como efte foy lhe fez el Rey merce de dom, & lhe deu por armas as armas reais de Portugal, & de trezentos mil rs de tença na dezima do pefcado na vila de Sinis cõ promeífa de ho fazer fenhor dela, por quanto era da hi natural: & em quãto lha não podeffe dar lhe daria quatrocentos mil rs de teça. E defpois que ouue em Lifboa cafa da índia lhos paliou a ela: & que alfentandofe trato em Calicut podeffe lá carregar duzentos cruzados defpeciaria fem pagar nhús dereytos em Portugal, & deulhe hú aluara de lembrança de ho fazer cõde: & affi lhe fez outras merces que ferião largas de contar. E por efte nouo defcobrimento acrecentou el Rey dom Manuel a feus titulos outros muyto famofos, como fam fenhor da conquifta, nauegação & co¬ mercio de Ethiopia, Arabia, Perfia & da índia. CAPITOLO .XXX. De como Pedraluare\ cabral foy por capitão mor de húa armada a Calicut. VEndo el rey dõ Manuel a muyto grãde merce que lhe noffo fenhor fizera em defcobrir a índia, determinou logo de mãdar lá hú fidalgo com húa groífa armada pera que aflentafle amizade cõ el Rey de Calicut, & affi húa feytoria naquela cidade onde ho feytor teueffe a fazeda que fofle neceffaria pera fe hi gaftar, & lhe carregafle defpeciaria as naos que a leuaflem: & alfi determinou de mandar qué lá pregafle a ley euan- gelica, affi pera reformação dos Chriftãos q lá ouuefle, como pera traze¬ rem em conhecimeto dela os gentios. E pera adernar efta amizade com el rey de Calicut & feytoria efcolheo a hú fidalgo chamado Pedraluarez cabral, que fez capitão mór da armada que auia de mãdar a Calicut q
  • 72 Historia da índia foy de dez naos & tres nauios redodos, cujos capitães a fora ele forão Sacho de toar q'' ya na fua fubceffam, Niculao coelho, Aires gomez da filua, Simão de miranda dazeuedo, Vafco dataide, Pero dataide. Simão de pina. Nuno leytão. Bertolameu diaz, & Diogo diaz feu irmão: que auião de ficar em çofala com húa feitoria q fe auia hi de fazer: de que auia de fer feytor hú Afonfo furtado. Ya mais por capitães hú Gafpar de lemos & hú Luys pirez. E hia també com Pedraluarez cabral hú frey Anrique frade da ordé de fam Francifco grãde letrado na fanfta Teojo- gia pera pregar: & yão coele cinco frades outros pera ho ajudaré. E hia por feytor deita armada hú Ayres correa que tãbé leuaua a feytoria q fe auia de fazer em Calicut. E hião por feus efcriuães Gonçalo gil barbofa de fantare, & pero vaz caminha. E forão feitos pera eíta armada mil & quinhentos homes: & chegado ho tempo de fua partida eítando em reítelo por el rey dom Manuel fazer honrra a Pedraluarez cabral foy 5 prociffam a noffa fenhora de Bele leuandoho configo & ho teue na cortina em quãto ouuio miffa, em que pregou dom Diogo ortiz bifpo de vifeu. E a mayor parte da pregaçã forão louuores de Pedraluares cabral por aceitar aquela ida: & acabada a milTa ho bifpo que a difle bézeo húa bandeira das ar¬ mas reaes de Portugal q el rey deu por fua mão a Pedraluarez: & aífi lhe pos na cabeça hú barrete beto que ho Papa lhe mandara. E deitando- lhe ho bifpo a béção ho leuou el Rey a embarcar, falãdo fempre coele ate ho mar: & hi lhe beyjarão Pedraluarez & os outros capitães a mão: & dãdolhes el Rey a bênção de deos & a fua fe embarcarão nos bateis, defparando toda a artelharia da frota cõ grãde arroido: & el rey fe tor¬ nou a Lifboa por não poder a armada partir aqle dia polo eítoruo do tempo, & ao outro q forão noue de Março de mil & quinhétos fez a capi- taina final as outras que fe leuaífem, o que logo fizerão: & poíta toda a frota á vela faio aquele dia de foz em fora, & profeguio fua viagem, & aos quatorze de Março ouue vifta das Canarias & aos vinte dous padou pola ilha de Santiago, & aos vinte quatro fe apartou dela com tormenta Luis pirez que arribou a Lifboa. CAPITOLO .XXXI. De como çoçobrarã quatro naos. DEsaparecida a carauela de Luis pirez efperou Pedraluarez cabral por ela dous dias, & aos vintequatro Dabril q foy derradeyra oy- taua da Pafcoa foy vifta terra, & q era outra cofta opofta á de África, & demoraua a loefte, & reconhecida a terra pelo meftre da capi-
  • Livro I, Capitolo XXXI 73 taina que lá foy, mandou Pedraluarez furgir pera fazer agoada & a def- cobrir, & por ho porto em q furgio fer bom, lhe pos nome porto feguro. E em terra forão tomados dous homés dos naturais dela, q por não fe entenderé com nhú dos lingoas que Pedraluarez leuaua os mandou foltar veítindo os primeyro á Portuguefa, pera q os outros foubeflem q era gente de paz, & folgaflem de ir a frota como forã dali por diante, leuando muyto refrefco, & fem nhú medo entrauão nas naos, & por iflo Pedral¬ uarez fe deteue aqui algús dias, & dia da Pafcoela ouuio miífa em terra, q foy dita em húa tenda cõ grande folenidade, & pregou frey Anrique, & em quanto o officio diuino foy celebrado fe ajuntou muyta gente da terra & fazião grandes fedas, & defpois de comer refgatarão em terra cõ os Portuguefes dos mantimetos que auia na terra, & barretes, & cha- peos de penas daues muyto fremofas, & algús Portuguefes forã ver as fuas pouoações, & virão a terra muyto viçofa daruoredo, & frefca com muytas agoas, & abadada de muytos mantimentos, & de muyto algodão, & por eda terra fer a que agora fe chama Brafil, que he de todos bem fabida não digo dela mais: & é oyto dias que Pedraluares aqui fez de detença foy vido hú peixe que ho mar deitou fora, q era da groííúra dum tonel, & era de cõpriméto de tres varas & mea, & era redondo, tinha a cabeça & os olhos como de porco, & as orelhas Dalifante, não tinha den¬ tes, & tinha rabo do cõprimento dú caualo. Neda terra mandou Pedral¬ uares meter hú padrão de pedra cõ húa Cruz, & por iffo lhe pos nome terra de fanta Cruz, & defpois fe perdeo ede nome & lhe ficou ho do Brafil por amor do pao brafil: deda terra mandou Pedraluarez a Gafpar de lemos na fua carauela com cartas a el Rey do Manuel, em q dizia ho que lhe ateli tinha acontecido, & mandoulhe hú homé daquela terra, & ao outro dia q forão tres de Mayo partiofe Pedraluarez cabral cõ toda a frota, leuãdo a rota do cabo de Boa efperãça, q fazião dali a mil & du¬ zentas legoas, & he hú golfã muy temerofo, por amor dos brauos vetos q quafi ali fempre curfão. E nauegando por ele aos doze de Mayo apa- receo no ceo da parte do oriéte húa cometa q durou dez dias, & fempre de cor de fogo: & defpois a hú fabado vlte tres de Mayo deu é toda a frota húa trouoada de nordefte, cõ q todos tomarã as velas, & correra quafi todo aqle dia aruore feca cõ ho mar muyto groffo, & fobre a tarde alargou ho veto, cõ q derão algúas velas & fizerã caminho, & afli forã ate ho dia feguinte, q tornou ho veto a efforçar, cõ q todos mefurarã as velas & agarrucharão os papafigos, & ãtre as .xj. & doze horas do dia começoufe darmar hú bulcã da parte do noroefte, com que acalmou ho vento que cairão as velas fobre os rnaftos. E como ainda os pilotos não fabião os fegredos daqueles bulcões, cuydarao que era calmaria verda- Tomo I \ IO
  • 74 Historia da índia deyra & deixauãofe eftar, fe não quando fobreuem hú peganho de vento tão furiofo, que não deu tempo pera amainarem, & çoçobrou quatro naos fem efcapar delas pefFoa algúa, de que erão capitães Bertolameu diaz, Aires gomez da íilua, Simã de pina, & Vafco dataide, & as feie ficarão meas alagadas, & ouuerão de çoçobrar fe lhe não rompera ho vento as velas, & faltandolhes logo ho vento ao fuduefte arribarã coele, & por fer muyto correrã aruorefeca ate o outro dia, q abrãdãdo ho vento fe ajútarã as naos q yão efpalhadas, & poré tornou logo a trométa com q ho mar fe ébraueceo muyto mais q dãtes, & durou vinte dias cõtinos cõ q a frota correo aruorefeca, & andaua ho mar tã groffo q parecia Ipofiíuel efcaparé as naos de ferem comidas, porq as Õdas fe leuãtauã tã altas q parecia q as punhão nas nuués & defpois no abifmo: cõ os vales que fe abrião, & de dia era a agoa de cor de pez, & de noyte de cor de fogo, & o arroido q faziã as éxarcias era muy medonho, & tudo era tão efpãtofo q ho nã pode crer fe não quê ho vir, & com a força do veto fe apartarã as naos, & cõ Pedraluarez foy Simã de miranda, & Pero dataide, & Niculao coelho. E Nuno leytão, com Sancho de thoar, & Diogo diaz arribou fó, & o que lhe aconteceo direy a diante. CAPITOLO .XXXII. De como Pedraluare\ Cabral fe vio com el Rey de Qúiloa. PRrosseguindo Pedraluarez Cabral, cõ aqueles dous capitães que arribarão coele paliando ainda muytas tromentas, fe achou com ho cabo de Boa efperança dobrado, & efcorrêdo çofala, ouue vifta das ilhas primeyras. A cuja fombra efiauão duas naos de mouros que leuauão ouro de çofala, que defpois de tomadas pelos capitães da armada, foube Pedraluarez que eram dum primo del Rey de Melinde, que ya ne¬ las, & por iíTo lhas tornou fem tomar delas nada, antes por fer primo del Rey de Melinde lhe fez muyta hõrra. E partindo daqui aos vinte de Iulho chegou a Moçambique, & feyta agoada & tomado piloto, tornou a fua viajem caminho de Qúiloa, que he húa ilha na cofta de Ethiopia cem legoas auante de Moçambique, he terra muyto viçofa dortas que dam muyta fruyta & ortaliça, & em que ha muy boa agoa, colhéfe nela muy- tos ligumes, & afii muyto milho, tem grande criação de gado groffo & miudo, & ho mar lhe da muyto & bom pefcado, eftá em noue graos da bãda do fui, tem húa cidade chamada Qúiloa, grande & populofa pera aquelas partes, de cafas de pedra & cal de muytos fobrados, & pouoada de mouros. Os naturays da terra fão pretos, & os eftranjeiros brancos,
  • Livro I, Capitolo XXXIII 75 todos falão arauia, & tratanfe bem no veftido, principalmente as molhe- res, que andão muy arraiadas de peças douro, fam os mais mercadores de groífo trato, que a efte tempo era a mayor parte dele em ouro que auião de çofala, & dali fe efpalhaua por Arabia felix & outras partes, de que aqui acodião muytos mercadores, de cujos nauios ho porto eftaua fem- pre muy ocupado, & eftes fão cofidos com cairo, & breados com encenço brauo, por não auer na terra breu. Ho inuerno defta terra começa é Abril & acaba em Setembro. Chegado Pedraluarez ao porto delia cidade chegarão também os outros capitães que fe apartarão dele, com ho grande temporal que difle atras, & defpois de chegados, viofe Pedraluarez com el rey de Qúiloa. Ele eftaua em hú batel toldado & embandeirado & cÕ fuas trobetas, acompanhado dos capitães da frota, & outra gente nobre, todos veftidos de fefta. E el Rey foy muyto acompanhado em muytas almadias, cõ grande arroido de trombetas, bozinas de marfim, & anafis, & em chegando ao batel de Pedraluarez, defparou a artelharia da frota, de que el rey & os feus ouuerão grande medo, polo não terem em cof- tume, & defpois de ele, & Pedraluarez fe receberem, & ele ver a carta damizade, que lhe el rey dom Manuel efcreuia, & fobre ter trato em fua terra, diífe que era contente, & que ao outro dia foffe a terra quem lhe difeffe as mercadorias que queria. E efte foy Afonfo furtado, que ya por feytor pera çofala. Mas el rey induzido pelos mouros eftranjeiros, a que pefaua de os Portuguefes ali tratarem, não quis comprir nenhúa coufa do que affentara com Pedraluarez, efcufandofe com dizer que não tinha ne- ceffidade de fuas mercadorias. E por Pedraluarez leuar por regimento que lhe nã fizeffe guerra, não lha quis fazer, & partiofe pera Melinde. CAPITOLO .XXXIII. De como ho capitão mór Pedraluarez Cabral fe vio com el Rey de Melinde. E Partido daqui foy furgir no porto de Melinde aos dous dias dagofto, & por amor del rey de Melinde não quis tomar tres naos de mou¬ ros de Cãbaya que hi eftauão carregadas de muyta riqueza. E fabendo el rey q eftaua ali, ho mãdou vifitar por dous mouros honrra- dos, mandãdolhe muytos patos, galinhas & carneiros, & outros refref- cos, mandãdofelhe offrecer pera tudo ho de q teueffe dele neceflidade, porque era tamanho amigo del rey de Portugal, que tinha por fuas as fuas coufas. Pedraluarez lhe mãdou logo por Aires correa húa carta del Rey dom Manuel, & hú arréo de gineta que lhe leuaua de prefente com
  • Historia da índia 76 outras peças ricas, & foy com grande mageílade de trombetas diante, & acompanhado de muytos homés vertidos de fefta. E el Rey ho mandou receber com grande folenidade com que foy leuado ao paço, onde foy recebido del rey com muyta honrra. E dandolhe Aires correa ho prefente que lhe leuaua, efteueho vendo peça & peça, & preguntando polo nome de cada húa, & defpois mandou ler a carta q lhe Aires correa deu del rey dom Manuel, efcrita de húa parte em arabigo, & da outra em Por¬ tuguês: & com licença de Pedraluarez ficou Aires correa cõ el rey a feu rogo, & em tres dias que lá efleue lhe preguntou el rey muy larga- mente por el rey dom Manuel, & pelo modo de fua gouernãça, & polos coftumes de feus Reynos. E el rey quifera que Pedraluarez fora a terra folgar pera ho ter por feu ofpede, & por fe ele efcufar diflo el rey ho foy ver ao mar, ate onde foy em hú caualo ageazado do arreo que lhe leuou Aires correa. E nefta vifta deu el rey hú piloto a Pedraluarez que ho leuafle a Calicut, & ele lhe entregou dous degradados pera que fe enformaflem do fertão daquela terra ate ho eftreito, & hú deles foy Ioão machado, que aproueitou defpois tanto aos Portuguefes como fe conta no Liuro Terceiro. CAPITOLO .XXXIIII. De como lio capitão mór Pedraluarez Cabral, chegou a Calicut. D Aqui fe partio ho capitão mór Pedraluarez cabral pera Calicut aos fete dagofto & aos vinte dous chegou a Anjediua, & hi fe deteue algús dias com efperança de tomar naos de mouros de Meca, que ali yão fazer naquele tempo agoada, & aqui fe confeffarão & comun¬ garão todos os da armada. E partindo daqui foy furgir ao mar, húa legoa de Calicut, a treze de Setembro: & os da terra lhe forão logo vender mantimentos. E el Rey ho mandou logo vifitar, com palauras damizade, rogandolhe que entrafle. E como ele nam podia aflentar amizade com el Rey fem falar coele, determinou de ir a terra, pera o que lhe mandou pedir por Afonfo furtado arrefés logo nomeados .f. ho Catual, & hú naire chamado Araxamenoca, & outro. E tãta foy a dificuldade em os dar que fe gaftarão tres dias antes de confentir niflo. Porque os mouros a que pe- faua muyto defta vifta pelo efeito dela, trabalhauão quanto podião com el rey que não defle os arrefens, dizendolhe que não fizefle tal coufa, que fe os defle ficaua niflo defonrrado, porque parecia que Pedraluares não fe fiaua dele, o que era grande abatiméto de fua pefloa. E com tudo el rey deu os arrefens, pondo primeyro em condição, que auião de partir
  • Livro I, Capitolo XXIIII 77 eles de terra em, Pedraluares abalando da frota. Iíto cõcertado aos de- zoyto de Setembro fe foy Pedraluarez a terra leuando configo trinta deffes principays da armada todos vertidos de fefta que auião deftar coele em quanto efteueffe em terra, & leuaua fua cozinha, copa & cama, porque auia deftar com grande eftado, conforme ao cargo que leuaua, & acom- panhauano todos os capitães da frota em feus bateys, que yão todos de fefta. E ao mar ho forão receber por mandado del rey de Calicut muytos nayres com muytas trombetas & outros inftormentos alegres & era todo ho mar cuberto de bateys, tones & almadias. E nifto forão leuados os arrefens á nao de Sancho de thoar, que chegados entrarão com grande difficuldade pelo receo que tinhão de os catiuare, & chegado Pedraluarez a terra achou gente fem conto que ho eftaua efperando: & do batel foy tomado em hú andor que el rey mandou pera iflo, & foi leuado a hú çarame, que he cafa terrea de madeyra que el rey mandou fazer pera fe verem, por Pedraluarez não ir aos feus paços que era longe. Ho çarame eftaua todo alcatifado, & no cabo eftaua húa capela pequena em que el rey eftaua aflentado em hum eftrado rico com hú doífel de veludo carmeíim. Tinha cingido hum pano dalgodão branco finiífimo, com muytas rofas douro que ho cobria da cinta ate os giolhos, & todo ho mais eftaua nú, tinha na cabeça húa coufa de brocado feyta a modo de capacete an¬ tigo, nas orelhas tinha arrecadas de diamães & pérolas finas, os braços cheos de manilhas douro dos cotouelos ate as mãos com pedraria fem coto de muyto preço, & ho mefmo tinha nas pernas, & cubertos daneis os dedos das mãos & dos pés de fina pedraria. E por grandeza tinha no dedo polegar de hum pé hú anel com hú robi grande, que luzia como brafa. E toda efta pedraria não era nada em comparação da que tinha em húa cinta que era coufa fem preço. E de todos os mebros de feu corpo em fe bolindo reberuerauão rayos. Eftaua junto coele húa cadeira real antiga toda de prata & douro laurada de pedraria, & da mefma maneira era hum andor em que el rey fora leuado ao çarame, ho cofpidor em que cofpia era de ouro, & do mefmo ouro eftauão ali muytos perfumadores, de que faya muyto fuaue cheyro. E por eftado tinha acefas feys tochas mourifcas douro. Eftauão no çarame vinte trombetas, de q dez & fete erão de prata & tres douro. Seys palfos defte lugar em que el rey eftaua, eftauão dous irmãos feus que fe chamão príncipes, porque herdão ho reyno: & mais afaftados eftauão Caymaeis Panicaeis & outros grandes, & todos em pé.
  • Historia da índia 78 CAPITOLO .XXXV. De como Pedraluare\ Cabral falou a el rey de Calicut. ENtrado Pedraluares cabral nefte çarame onde el rey eítaua foy efpantado de feu grande eítado, & feyta fua reuerécia ao nofTo modo, fezlhe el rey muyto gafalhado com ho roíto, & mandouho affentar junto dos Principes, que era a maior honrra que fe lhe podia fazer. E aflentado deu húa carta ao lingoa que a deffe a el rey, que lha mandaua el rey dom Manuel efcrita em lingoa Arabica, & em Português, feyta por hú fidalgo chamado Duarte galuão. E dezia. GRande & de muito poder Principe çamorim, per merce rey de Calicut. Nos dom Manuel por fua diuina graça rey de Portugal Daquem & dalem, mar em África Senhor de Guiné. &c. Vos en- uiamos muyto faudar, como aquele que muyto amamos & prezamos. Deos todo poderofo, começo, meo & fim de todas as coufas, por cuja or¬ denança curfam os dias, tempos & feytos humanos, affi como por fua infinita bondade criou ho mudo & ho remio por Chrifto Iefu noffo falua- dor. Afii em feu grande & infinito faber ordenou muytas coufas pera os tempos que auião de vir, pera bem & proueito da geração humana, inf- pirando polo Spirito fanéto nos corações. dos homes, quando aquelas coufas q por homés auiã de fer feitas foífem poftas em obra em tempos por ele limitados, & não antes nem defpois. E por ifto fer afii verdade & conhecida por experiencia, fe com fão & verdadeiro juyzo quiferdes con- fiderar a grandeza & nouidade & mifterio da ida de noflas gentes & na- uios que forão a vos & a eífas vofías terras. Deueys de fazer neflas partes Doriente, o que todos fazemos neftas do ponente, que he darmos muytos louuores ao fenhor Deos, porque em voffos dias & nos noffos fez tanta merce ao mudo, que por vifta nos podefiemos faber & ver & conhecer, & ajuntar & vizinhar por conuerfação, eftãdo as gentes deflas terras & deitas tão afaftadas húas das outras do começo do mundo ategora, & tão fem cuydado nem efperança diíto, que ho fenhor Deos quis que fofle, inf- pirando auera feflenta annos em hú noffo tio vaflalo noffo chamado ho Iffante dom Anrrique, Principe de virtuofa vida & fanótos coftumes, que por feruiço de Deos tomou propofito infpirado por ele de fazer efta naue- gação, & polos Reys noffos anteceífores foy ategora profieguida. E que-
  • Livro I, Capitolo XXXV 79 rendo noflo fenhor darlhe ho fim por nos defejado, quis que eítes noffos que ora la forão de húa fó viagem fizeflem outro tanto caminho ate che¬ gar a vos, quanto eitaua feito nas viagens paífadas de feffenta annos, fendo eles os primeiros que pera la mandamos tanto que por graça de Deos tomamos ho regimento de noffos Reynos & fenhorios. Affi que ainda que eíta coufa feja feyta per homens, não fe deue de julgar fe não por obra de Deos a cujo poder he poffiuel o que os homes não podem fazer. Porque do principio do mudo ouue em oriente & em occidente muy po- derofos reys & príncipes, de que contão eftoriadores terem grandes defe- jos ,pera fazerem efta nauegação: & leuarão niffo muyto trabalho: & não quis noffo fenhor darlhe poder pera iífo como agora nos deu, por fer affi fua vontade. E poys em quanto deos não quis que iíto foffe não teuerão os paífados poder pera ho fazere, não deue ningue de cuydar que agora que ho ele quis ho poffam homes contrariar, fendo agora muyto mayor injuria contra Deos querer refiftir aa fua vontade tam manifeíta do que dantes era perfiar contrela, que não era fabida, & antre as caufas porque principalmente damos muytos louuores a noffo fenhor neíte feyto, he por nos fer dito que ha neffas partes gentes Chriftaãs, que foy & he ho noffo principal defejo, pera nos concertarmos com vofco em amizade, amor & conformidade, como ha antre os reys Chriftãos, porque bé he de crer q não ordenou ho fenhor deos tã marauilhofa coufa como he eíta noffa naue¬ gação pera fer fométe feruido nos tratos & proueitos temporays dantre nos: mas també nos fpirituaeis & faluação das almas que mais deuemos de eítimar & de que ele he mais feruido, pera que a fua fanóta fé feja co¬ municada antre nos como ho foy por todo ho mundo be feyfcentos annos defpois da vinda de Iefu Chriíto feu filho ate q por peccados dos homés nacerão algúas feytas & herefias contra a fé Chriítaã, que Iefu Chriíto diffe primeiro que vieffem, pera proua dos bõs & pera cõdenação dos maos que não auião de crer a verdade pera ferem faluos. E eftas feytas & herefias occuparã antre effas voffas & noffas terras muyta parte da terra, por onde fe impedio a auer por terra communicação das gétes de ca com as de lá, que agora fe pode ter coeíta nauegação, que foy defcu- berta por Deos a que nada he impoffiuel. E conhecendo nos tudo ilto, & defejãdo de profTeguir & comprir como deuemos o que nos ho muy alto deos todo poderofo moítra fer tanto fua vontade, mãdamos agora lá noffo capitão cõ naos & mercadorias, & noffo feytor pera q la fique, & eíté com voffo aprazimento. E mandamos peffoas religiofas & doutrinadas na fee & religião Chriltaã, pera que celebrem ho officio diuino & meniítrem os facramentos, pera que poffais ver a religião & fé q temos, que foy inftituyda per Iefu chriíto noffo faluador: & dada a doze apoítolos & a
  • 8o Historia da índia feus difcipolos, per q foy geralmente pregada defpois de fua fanéta refur- reição & recebida é todo ho mudo. E dous deites apoftolos .f. fam Thome & fam Bertolameu pregarão nelfas voífas partes da índia, fazendo muy- tos grades milagres, tirando effas gentes do erro da gentilidade & idola¬ tria e que todo mundo eftaua dates,.& cõuertendoas á verdade da fancta fé Criftaã, que també ca foy pregada por algús de feus apoftolos: & con- fideradas eftas coufas & as rezões q ha pera crermos que efta noffa naue- gaçao & ida de noífas gétes a vos foy por vontade do muyto alto deos: vos rogamos como irmão q vos queirais conformar cõ feu querer & von¬ tade, & por fazerdes voífo proueito & de voífas terras aífi fpiritual como temporal tenhais por be de receber noffa amizade, & de ajuntar a voffa com nofco, & afli trato & conuerfação que vos tão pacificaméte aprefen- tamos pera feruiço de noffo fenhor: & queirais receber & tratar a noífo capitão & gete cÕ aquele fão & verdadeiro amor que volos mandamos: porq em rezão domes cabe folgardes muyto cõ gente q de tão longe vay bufcar voffa amizade, cõuerfação & trato, & q vos leua tãto proueito de noffas terras, que não podereis auer mais doutras nenhúas, pofto que por algúas vontades danadas, que nunca falecem achaífemos em vos ho con- trairo: o que per toda rezão não podemos efperar de voffa virtude. E com tudo noffo propofito he feguir a vontade de noffo fenhor Deos todo poderofo, antes que a dos homes, & não deixarmos por nenhúas contra¬ riedades de proffeguir & cõtinuar efta nauegação, trato & conuerfação neffas terras, tendo efperança em noffo fenhor que noffo trabalho não feja debalde, porque firmemente cremos & efperamos, que pois ele fez elfas terras & volas deu a poffuir & a gente dela, ele ordenará como no feu fe faça fua vontade. E como não faleça quê nelas acolha & receba noffa amizade, & noffas gentes que la vão tanto por fua vontade, & a que ma- rauilhofamente abrio caminho & deu poder pera ire a elas & ele mefmo he fabedor quanto defejamos que feja antes por boa paz & amizade, E a ele praza daruos fua graça pera conhecerdes & obrardes as coufas de fua vontade & fanéto feruiço. E acerca defto crede y day fee a Pedralua- rez cabral, fidalgo de noffa cafa, & noffo capitão mór em todo o que de noffa parte vos falar, requerer & com vofco tratar. De Lifboa ho pri¬ meiro de Março de mil & quinhentos. Dada efta carta a el rey foylhe logo lida pelo lingoa, & defpois lhe deu Pedraluarez hú prefente que lhe mandaua el Rey dom Manuel, q era deftas peças. Hú bacio de prata dagoa as mãos de beftiães dourado, & hú agomil & húa copa cõ fobrecopa. Duas maças de prata. Quatro almofadas deftrado, duas de brocado & duas de veludo carmefim. Hú
  • Livro 1, Capitolo XXXVI 81 eíperauel de borcado broflado de veludo carmeíim. Hú tapete muyto tino, & dous panos darmar de ras, hú de figuras, outro de verdura. EI rey moftrou q folgaua muyto coeftas peças, & pregútou de que feruia cada húa. E defpois difle a Pedraluares que fe fofle pera fua poufada ou pera a frota fe quifeffe: porq era neceflario mandar polos arretes que eftauão no mar pera comerê em terra, por feu coítume lhe defender q ho não fizeflem lá. E pedraluares lhe difle que ainda que mandafle pedir os arre- fens os não auião de dar porq auião de cuydar q era recado falfo. Ao q el rey difle que fe tornafle á frota & que lhe mãdafle os arrefés: & que ao outro dia tornaria pera aflentaré ho trato que el rey de Portugal que¬ ria ter é Calicut. Do que Pedraluarez ficou muyto agaítado porque lhe pareceo aquilo defprezo, & teue a el rey por homé incoftante. CAPITOLO .XXXVI. Do que aconteceo a Pedraluares cabral em Calicut. EM quanto Pedraluares eíteue falando cõ el rey de Calicut defejãdo os mouros de auer reuolta ãtreles, porq não ouuefle eífeito ho trato q Pedraluarez queria aflentar em Calicut: fizerão com hú efcriuão da fazenda del rey que fofle á frota a pedir os arretes da parte de Pe¬ draluares: & Ayres correa não os quis dar, porq ele deixara dito que pofto q lhos pediffé da fua parte que os não defle. E eftando nefta pra¬ tica ho efcriuão do mar em húa almadia & Ayres correa do bordo da nao, os arrefés polo q lhes ho efcriuão difle lançarãfe ao mar pera fe aco- Iheré na almadia & fugiré, o que fora fe lhe Ayres correa não acodira muyto preftes no efquife da nao com algús marinheiros que tomarão Ara- xamenoca & outro, & afli quatro malabares: mas ho catual fugio. E é Pedraluares faindo do çarame foube o q paflaua por hú Português: & com ho agaftamento que trazia del rey, & com o q ifto lhe deu não teue acordo pera recolher o fato que tinha na fua poufada, nem Afonfo fur¬ tado que lá eftaua com fete Portuguefes, & embarcandofe cõ grande prefla tirou caminho da frota a força de remo, & entrado na capitaina mãdou logo meter Araxamenoca & ho outro debaixo de cuberta, porq não fugif- fem, & mãdou fazer queixume a el rey do efcriuão pola reuolta q fizera: mandandolhe dizer que lhe não auia de mandar os arrefens fe lhe não mandafle os Portuguefes & ho fato q deixara em terra. E por fer noite quando efte recado foy a el rey ficou a coufa afli. Porem el rey não deu nenhú caftigo ao efcriuão, nem mandou nenhúa defculpa a Pedraluares, fe não mandoulhe ho feu fato com os Portuguefes. E os que lhos leuauão Tomo I ii
  • Historia da índia 82 nunca oufarão de chegar á frota cõ medo que os tomaffem, pelo que ao outro dia mandou Pedraluarez os arrefés por Aires correa, que os en- tregaffe aos Malabares afaftados da frota, & eftando juntos hú, & outros pera fazeré efta étrega, faltou Araxamenoca nagoa pera fugir, mas não pode, que hú marinheiro ho apanhou pelos cabelos & deu coele no batel, & ho outro fugio nefta volta, & acolheofe aos Malabares. E Afonfo fur¬ tado com cinco Portuguefes teue tépo de fugir pera Aires correa que fe tornou á capitaina & contou a Pedraluarez ho q paíTaua, q eftaua muy efpantado da pouca verdade dos Malabares & mais del rey, a que os mouros não deixauão de matinar com repetiré muytas vezes os males que lhe tinhã dito dos Portuguefes: & fazendolhe crer que fe forão pera paz, q não lhe pedirão arrefés, & íe fiarão dele como fazião todos os mercadores, & fem mais cautela fora Pedraluarez a terra & affentara trato, mas por ir de guerra pedia arrefés.pera fe fegurar. E coifto palia¬ rão tres dias fem el rey mãdar nhú recado a Pedraluarez, que auédo dó Daraxamenoca por auer tantos dias que não comia ho mandou a el rey liuremente, & ele lhe mandou os dous Portuguefes que ainda eftauão em terra, & ho feu fato. E defpois cõ prazme del rey, q deu é arrefés dous mouros honrrados netos dum mouro Guzarate, foy Aires correa a terra pera affentar feytoria, que afléntou com licença del rey, a que diífe que el rey de Portugal teria fempre nela outras tais mercadorias como os mouros de Meca leuauão a Calicut: .& nefta pratica lhe prometeo el rey de lhe fazer carregar as naos em vinte dias, & que a fua carrega feria primeyro q a de nenhús eftrãgeiros, porque deixaria todos por dar auia- méto a el rey de Portugal, & mãdou apoufentar Aires correa é húas cafas do guzarate auó dos arrefés, a que rogou q fofle lingoa & corretor Daires correa, & ho inftruiffe no modo de comprar & vender daquela terra, ho q ele não fez, porque logo os mouros de Meca ho fizerão da fua parte cõ muytas peitas que ihe derão, & lhe fazia cõprar a efpeciaria mais cara do q fe vendia aos mouros, & fazialhe véder a mercadoria de Portugal por menos do que valia: & quando Aires correa auia de falar a el rey faziaho faber aos mouros pera que folfem prefentes, & ho eftro- uaífem no que podeffem, & ho q Aires correa queria dizer a el Rey, mudauao ele ao reues, & coifto não podia Aires correa aproueitar a fazenda da feitoria ãtes perdia muito: & tudo ifto veo Aires correa a faber, per hum mouro chamado Cojebequim, homé muyto principal é Calicut, por fer cabeça dos mouros naturaeis da terra, que tinhão bando contra os do Cairo, & do Eftreito de Meca, de que era cabeça outro mouro do Cairo q auia nome Coje çamecerim, que gouernaua as coufas do mar de Calicut, & por efta diuifam que auia antre eftas duas nações
  • Livro I, Capitolo XXXVII 83 de mouros, & fer Cojebequim cabeça de hú dos bandos, quis ele tomar amizade com os Portuguefes pera fe fauorecer coeles, & por iffo tinha conuerfação cÕ Aires correa, & lhe defcobrio a treição q ho Guzarate lhe fazia, & mais que Coje çamecerl a rogo dos outros mouros de Meca por cuidarem que fazião mal aos Portuguefes, não deixaua ir á frota nhú dos que eftauão na feytoria: dizendo que aífi lho mãdaua el Rey que ho fizeffe, & coeífa cor não deixaua tornar á frota nhú dos que dela yão a terra. Ho que fabido por Aires correa ho efcreueo a Pedraluarez, affeã- dolhe muyto ho cafo, & dizendo que lhe parecia q os mouros querião fazer algúa treição: & cuydando Pedraluarez q feria afi], por fe legurar fe leuou do porto cõ toda a frota, & fe afaftou hú pouco pera o mar onde furgio, do q fe el rey efpãtou muyto, & fabido Da ires correa ho porq ho fazia: diffelhe q ele proueria como os mouros não fizeffem mais ho que fazião dãtes, porque folgaua muyto de os Portuguefes terem trato em fua terra: & fegurando Aires correa quanto pode fe tornou Pedraluarez ao porto, & el rey tirou de corretor & lingoa Daires correa ho mouro Gu¬ zarate polas falfidades q fazia, & deu ho mefmo carrego a Cojebequim, por faber que era amigo Daires correa, a quem pera que vendefle melhor a fazenda da feytoria deu húas cafas de CojebequT q eftauão junto do mar: & fez delas doação pera fempre a el Rey de Portugal pera ter ali fua feytoria: & a efcritura diflo foy feyta é húa folha douro batido. E porque todos foubeffem q ali era a feytoria del Rey de Portugal, mãdou a Aires correa que pofeífe fobrela húa bandeira das armas Reais, & afli fe fez: & dali por diante ho fauorecia muyto, & por iffo os da terra tinhão grãde amor aos Portuguefes, & tinhão coeles muyta conuerfaçam. CAPITOLO .XXXVII. De como Pedraluarez cabral, mãdou tomar Ima nao pera el Rey de Calicut. DUrando efta conuerfação antre os Portuguefes & os Malabares, mãdou el rey dizer a Pedraluarez cabral, q ele mandaua comprar hú Alifãte a hú mouro de Cochim chamado Patemarcar, & não lho quifera vender dandolhe por ele tanto quanto outrem lhe podia dar, & afora não lho qrer vender lhe mandara dizer algúas defcortefias, & antrelas fora q mãdaua ho Alifante a Cãbaya, & auia de paffar a vifta de Calicut q lá lho podia mandar tomar polos Portuguefes em que con- fiaua muyto: pedindolhe q pois a nao auia de paífar a vifta de Calicut que lha mandaffe tomar, porque compria muyto a fua hõrra tomarfe. Pe-
  • 84 Historia da índia draluarez como tinha a el rey por incõftãte, receaua que não lhe defie a carrega como lhe tinha prometido, fazia cota de ir carregar a Cochim, & por iffo defejaua deitar bem cõ el rey de Cochim, pelo que fe lhe fazia graue de tomar a nao, receado de ho anojar niffo, & alli ho difle aos capitães em hú confelho que fobriffo teue: & elles lhe confelharão que com tudo era neceflario tomarfe a nao, pera el Rey ter credito nos Portuguefes. E por iffo mandou Pedraluarez fazer preítes a Pero da- taide no feu nauio, & deulhe feflenta homcs, & mãdou a hú fidalgo cha¬ mado Duarte pereyra pacheco q foífe coele, & a outro que auia nome Vafco da filueira, ãbos valentes caualeiros. E hú fabado ao meo dia apa- receo ao mar a nao de Cochim que leuaua ho Alifante que era muyto grãde, & leuaria trezentos mouros de peleja. El rey de Calicut q ainda não fabia como os Portuguefes pelejauão, quando foube que vinha a nao faio á praia pera ho ver, cuydando que auia dir toda noffa frota a pelejar com a nao. E quando vio ho nauio de Pero dataide q era muyto pequeno, & foube que aquele fó auia de pelejar com a nao teueo por efearnio, & cuydando q Pedraluarez ho fazia dele, lhe mandou dizer, que fe lhe auia de mandar tomar a nao como lhe tinha prometido, que mandaíle outras naos, & não aquela tamanina: ao que Pedraluarez refpõdeo que ele fabia bem ho q fazia, & q aquela abaítaua pera tomar outra muyto maior q aquela, & pera faber ho que os Portuguefes fazião & como pelejauão, q mandaffe coeles algús mouros pera que os viíTem, & ainda q el rey não ficou fatiffeito coeíta repolta, mandou hú mouro cõ Pero dataide, q ya á vela apos a nao, & por fe deter e tomar ho mouro, fe alongou a nao muyto dele: a q tornou a feguir ate a noyte q lhe defapareceo, & per- dendoa da vilta pareceolhe que furgeria junto da terra & por iffo foy cof- teando, & ao quarto dalua foy dar com a nao, q eítaua dando a vela, & arribando fobrela pofto a fotauento mãdou aos mouros que amainaffem, & eles como que zõbauão dele derã húa grãde grita, & tocarão feus inf- tormentos, & tirarãlhe frechadas fem conto: & os Portuguefes vedo ifto lhe derão húa furriada de bombardadas, & húa dú camelo lhe fez na proa ao lume dagoa hú buraco cõ q lhe étrou muyta agoa, & as outras mata¬ rão algús mouros, & os nauios cõ medo doutra tal arribarão a Cananor, & meteranfe ja bem de dia 5 húa baya que tem, & pofferãfe antre quatro naos outras, aque chamão meter, em concha: Pero dataide entrou na baya & mandou efbõbardear as naos, & quafi que as tinha rédidas fe lhe não valerão certos paraós de mouros, com que pelejãdo os Portuguefes dei¬ xarão as naos & os paraós tãbem forão defbaratados fe lhe não anoite¬ cera: do que os mouros de Cananor & outra géte que forã ver a peleja eftauão efpantados. Pero dataide como foy noite de todo que não pode
  • Livro I, Capitolo XXXVIII 85 pelejar, faiofe da baya pera ho mar, porq lhe não queimaffem de noyte ho nauio, & achou que lhe nã tinhão feridos mais de noue homés, pelo q determinou com confelho, que pois não podia meter a nao no fundo de a aferrar, pofto que fofTe contra o regimento que leuaua, que era não afer¬ rar a nao mas metela no fundo, & como foy manhãa tornou a entrar na baya, & achãdo que os mouros dauão a vela pera fe acolherem, mandou defparar fua artelharia, cõ que arrombou a nao ao lume dagoa, & vendo os mouros que não tinhão faluação renderãofe, & a nao ficou em poder dos Portuguefes: do que a gente de Cananor q eftaua na praya ficou muyto trifte, & os Portuguefes os fizerão defpejar as bombardadas. Feito ifto partiofe Pero dataide pera Calicut leuãdo a nao & chegou la ao outro dia. E el Rey foy a praya a uer a nao, que teue por muyto grãde façanha tomarfe por tam poucos Portuguefes, & ficaré todos viuos. E Pedraluarez mãdou dar a el rey a nao cõ ho Alifãte que ele queria & outros que fe acharão nela, & aífi todo ho mais: mandandolhe dizer, que não teueffe por muyto tomare tão poucos Portuguefes aquela nao, porque outras coufas mayores farião por feu feruiço: do que lhe el rey mandou muytos agardecimentos, & por feu rogo lhe mandou Pedraluarez, Pero dataide, Duarte pacheco, Vafco da filueira, & outros dos que forã na tomada da nao porque defejou de os ver, & a todos fez muyta honrra & merce. E vedo el rey que tão poucos Portuguefes tomarão tão afinha húa nao a tãtos mouros, lhes ouue dali por- diante tamanho medo que defejou de os ver fora de Calicut, receando que lha tomaífem. CAPITOLO .XXXVIII. Do q pajfarão os mouros de Meca cõ el rey de Calicut, & de como fe leuãtarã cõtra os Portuguefes q ejlauã ê terra. COm a tomada defta nao fe ouuerã os mouros de Meca por muy afrontados, & ficarã muy defcõtentes del rey, porque fazia tanta conta dos Portuguefes que os tomaua pera vingadores de fuas offenfas ho q era em feu defprezo, & temerão que teueífem os Portuguefes tanta valia com el rey q lhes fizeflem perder a fua que era muyto grande, em tanto q mandauão os Gentios como fenhores da terra, & lhes toma- uão a piméta pelo preço que queriã, fem eles oufarem de lhes cõtradizer: & tão fogeitos lhes erã que muytas vezes não oufauão de fair das cafas com medo deles, & por eítas oprefioes q tinhão querião mayor bem aos Portuguefes que a eles, & folgauão de lhes vender antes a efpeciaria q a eles, mas não oufauão com medo: & os mouros que ho entendião, &
  • 86 Historia da índia vendo que tãbem el rey fazia conta dos Portuguefes, & mãdaua q carre- gaflem primeyro que todos os eftrangeiros, deranfe por defualidos & defa- creditados na terra, & mais vendo que os Portuguefes leuauão tantas mercadorias como eles & tão boas, & que comprauão tãta pimeta: & por iíTo determinarão deftoruar por quãtas vias podeflem que Aires cor- rea não podefie comprar nhúa pimenta, & dauão por ela mais do que valia, & porque abateffem as mercadorias da feytoria dauão as fuas por menos preço, & coeftas manhas de q vfauão, não pode Aires correa em tres mefes que auia que eftaua é Calicut auer carrega mais que pera duas naos, ho q Pedraluarez fentia muyto, porque bé fabia as roindades q faziã os mouros de Meca, & as manhas que tinhão pera não auer car¬ rega, & que tudo fazião cõ atreuimento del rey de Calicut: & polo fauor q lhes daua ho q fe parecia é quã remiffo era emos caftigar polos quei¬ xumes q lhe mandaua fazer deles, & fe nã fora ho rico prefente que lhe tinha dado, & ho muyto tempo que ali tinha defpefo ele fe fora a Co- chim, & aífentara amizade com el rey, de q tinha fama q era muyto melhor homé q el rey de Calicut: porem ho gafto q tinha feyto em Ca¬ licut ho conítrangia a não fe ir a Cochim. E por fer tarde pera carregar as outras naos q podeffe partir pera Portugal, na moução, determinou de mãdar aquelas duas que eftauão carregadas, & efcreuer a el rey do Manuel a verdade del Rey de Calicut, & quanto melhor fe faria a car¬ rega é Cochim, & ele ficaria 5 Calicut ate ver feu recado, ou ver fe podia auer carrega pera as outras naos. E cõ tudo mandoufe queixar a el Rey de Calicut do mao auiamento que lhe tinha dado, & de quã mal comprira a promeífa q tinha feyta de dar carrega a todas as naos em vinte dias & primeyro q a todos os mercadores, & q era dos derradeiros, & os mou¬ ros tinhão leuado tudo, fem querer obedecer a feu mandado. E moftran- dofe el rey muyto efpantado, refpondeo a Aires correa q lhe deu efte recado q tomafTe Pedraluarez a pimenta q achaffe aos mouros ainda q a teueífem carregada, & que lha pagaífe como a tinhão comprada. Ho q foy logo fabido pelos mouros de Meca, & como eles não defejauão mais q ter caufa pera pelejar com ho feytor, & matar quantos eftauão coele, parecendolhes q daqui naceria Tmizade antre el Rey & os Portuguefes pera q fe foflem & não tornafiem ali mais, concertarão de fazeré que Aires correa mãdaffe dizer a Pedraluarez q por virtude do que el rey tinha mãdado tomaffe húa nao de Coge çamecerl q eftaua carregada de pimenta, & que coela carregaria algúas das naos de Portugal, & ho mefmo Coge çamecerl q moftraua fer amigo Daires correa lho diffe e fegredo, moftrando q folgaria de tomar a nao, não dizendo que era fua, né Aires correa ho foube: & muyto ledo cõ o ardil ho mãdou dizer a
  • Livro I, Capitolo XXXVIII S7 Pedraluarez cabral, q como fabia a inconltãcia del rey, & ho credito que os mouros de Meca tinhão coele, & quãto valião & podião na cidade, temeo q fe tomaffe a nao q fe efcandalizariã & leuantarião contra os Por- tuguefes, & como erão muytos mataria logo os q eítauão na feytoria, & por iffo não queria tomar a nao mandado dizer a Aires correa a rezão porque. E não auendo ele por boa mandou fazer tantos requerimentos a Pedraluarez q tomaífe a nao porq feria grãde perda pera el rey de Por¬ tugal não fe tomar, que lhe foy forçado fatiffazer a feu requerimento, & com quanto eftaua doente de quartãs q auia ãnos q tremia & fangrado daquele dia, mãdou os capitães da armada nos bateis & com gente que deteuefle a nao que não partiffe & quando não quifefle por bem, que a deteueífem por força & a defcarregaffem. E Coge çamecerí & os outros mouros que eítauão preítes é lhe fazedo hú final que os Portuguefes que- rião deter a nao, dão rebate hús aos outros, & fae como cães danados cÕ fuas armas caminho da feytoria, & matarã logo effes Portuguefes que acharão pola cidade. E tinhão ordida eíta treição tão fecretaméte q nunca Coge bequT nem outros amigos dos Portuguefes ho poderão faber: & fai- rão tão de fupito, que não ouue tempo pera Aires correa fer auifado: fe não étrou muyto depreffa na feytoria hú veneziano chamado Micer benai- uito eítante em Calicut que conhecia Aires correa, & diflelhe q quê queria fazer mercadoria, nã tomaua a nao & deixaua a partir, & iílo pola nao q os Portuguefes eítauão tomãdo, & acabando de dizer iíto tornoufe a fair com a preíía q entrou fem efperar repoíta. E Coge bequí que foube o impito com q os mouros yão contra os Portuguefes, foy correndo pera auifar Aires correa, & os mouros lhe yão tanto nas coítas, q entrando ele muyto depreífa na feytoria todo enfiado, não pode mais dizer q Aires correa, Aires correa, leuantãdo as mãos como home agaltado. E niíto chegarão os mouros com grãdes gritas, & erão muytôs armados todos darcos, & frechas, lãças, terçados & cofos. E na feytoria eítauão fetenta Portuguefes com os frades, & tinhão fuas efpadas, & ate oyto beitas, fem mais outras armas defenfiuas, nem offenliuas, tamanha era a confiança no feguro del rey de Calicut, & tão pouco ho cuydado do q compria a fuas vidas: & cõ quanto os Portuguefes erão tã poucos & tinhão tã pou¬ cas armas, defenderãofe hú pedaço fem os mouros os poderem entrar, & nele mãdou Aires correa aruorar húa bãdeira fobre a feytoria, pera q lhe acodiífé darmada como acodirão os bateis que tinhão tomada a nao mas não preítou, porq ja Aires correa & os mais dos Portuguefes erão mortos, & os outros fugirã per húa porta q faya á praya indo os mou¬ ros apos eles onde acabarão de matar algús, & outros que forão ate vinte efcaparão muyto feridos lançandofe ao mar & tomarãnos os bateis
  • 88 Historia da índia & ãtreftes foy hú Antonio correa filho Daires correa que feria moço donze ãnos, que defpois em homé fez na índia coufas muy notaueis, como direy no liuro quinto, & aífi efcapou frey Anrriq, q defpois foy bifpo de Ceita. E acabada de fazer eíta deítruição pelos mouros, faluou Coge be- quí dous Portuguefes q efcõdeo é fua cafa: hú auia nome Fernão peixoto natural de Vila franca, & outro Ioão roiz. E el rey de Calicut folgou dos mouros fazeré ifto aos Portuguefes, pera tomar a fazéda que eítaua na feytoria que era muyta, & toda a ouue. CAPITOLO .XXXIX. De como Pedraluarez cabral fe. vingou do que os mouros fi\erão. SAbida por Pedraluarez a morte Daires correa, vio quã mal fizera em mandar tomar a nao dos mouros, & ficou muy agaftado de lhe acontecer tamanho defaltre a que na pode fugir vendoho primeyro: & por fer tã tarde, & nao ter onde carregar nem onde inuernar fe não Calicut, nao quis logo vingar aquela oífenfa, mas tcporizar cÕ el rey ate ver fe lhe mandaua algúa difculpa do q os mouros fizerão, porq coiíTo ficaria fatiffeyto por não ficar defauiado, & efperou todo aqle dia por efte cõprimento, que el rey não fez, porque lhe não pefou do q os mouros fizerão, ãtes ho ouue por proueito por amor da fazéda q ouue. E vedo Pedraluarez paífar aquele dia, & que el rey não mandaua nhúa difculpa, ao outro q forã dezafete de Dezébro mãdou por feus capitães tomar dez naos de mouros q eftauão no porto carregadas de fazenda & de gente, & forão tomadas por força darmas, & forão mortos feifcétos mouros, & outros feridos, fem morrer nhú Português. Tomadas as naos foy achada nelas algúa efpeciaria, & outra fazenda, & tres Alifantes q Pedraluarez mandou falgar pera mantimento da géte: & defpejadas ficarão nelas os catiuos atados de pés & de mãos, & adi forão queimadas a vifta de muyta gente da cidade q eítaua na praya pera lhes acodir mas não oufarão cõ medo da nofTa artelharia. E era efpantofa coufa de ver arder dez naos todas juntas, & fazerenfe caruões, & ouuir a grande grita dos mouros q eftauão dentro, & nifto fe gaitou todo aqle dia. E ao outro tédo Pedral¬ uarez chegadas as naos a terra ho mais que pode mandou defparar a artelharia q em todo ho dia não fez outra coufa, & fez muyto grãde dano por toda a cidade, derribando cafas, qbrando aruores, & matando géte fem conto. E a el rey de Calicut lhe foy forçado fairfe da cidade, porque júto dele efpedaçou hú pelouro hú Naire feu priuado: & da banda do mar não ficou nhúa cafa é pé nem a gente oufou defperar, & paffoufe da
  • Livro I, Capitolo XL 89 banda do fertão, pelo que Pedraluarez não teve ao outro dia em q os dani¬ ficar: & vendo que ali não tinha remedio, determinou de fe ir a CochI a uer fe podia fazer amizade cõ feu rey, de q tinha emformação que era muyto bom homé. E eítãdo pera partir, vinhã duas naos de mouros pera entrar no porto, & ele as feguio ate hú porto chamado Fundarane, onde vararão em terra, & por iífo as não pode tomar. CAPITOLO .XL. De como Pedraluarez cabral ajfentou amizade com el Rey de Cochim. DEste porto de Fundarane, profleguio Pedraluarez fua viajem pera Cochim com toda a armada & no caminho tomou duas naos car¬ regadas darroz, que yão pera Calicut & os que yão nelas efcapa- rão deitandofe ao mar. E defpejadas as naos forão queymadas: & defpois diito aos vlte quatro de Dezembro chegou a Cochim, que he húa cidade na cofta do Malabar dezanoue legoas auante de Calicut pera ho fui: & eftá em noue graos da banda do norte fituada ao longo dú rio que fe mete no mar cõ que a cidade fica em ilha, & muyto forte, porque não fe pode entrar fe não por certos paffos. Té bÕ porto & limpo q fe faz na foz deite rio: a terra ao derredor he alagadiça & feyta em ilhas, viçofa & frefca, mas dá poucos mantimentos. A cidade he de cafas como as de Calicut, & pouoada de gétios & de mouros eítrangeiros que fam grandes mercadores por amor da muyta piméta q ha na terra & muyto mais que em Calicut. Seu rey era gentio & tinha os coítumes do de Calicut: era pobre & fenhor de pouca terra & de pouca gente, nem podia laurar moeda, & mais de cada vez que auia rey nouo em Calicut defpunha de rey ho de Cochim, & eitaua em fua mão darlhe ho reyno ou nã: & mais era el rey de Cocfiim obrigado dir a feus parás que fam batalhas que dão a outros reys. Chegado pedraluarez cabral ao porto deita cidade, não quis mandar recado a el rey por Gafpar por recear de não tornar mais, & mandouho por hú gétio que fe tornara Chriitão eítando em Calicut, & queria ir coele a Portugal, q fe chamaua Miguel & por fobre nome Iogue que era antes de fer chriitão. E Iogues fam homés que tem húa certa religião antre os gentios, & andão polo mundo fazédo romarias a pago¬ des & cafas doração da fua feyta. Por eíte Miguel mandou Pedraluarez offerecer a el rey amizade del Rey dõ Manuel, & rogarlhe da fua parte q lhe mandaffe dar carrega de pimenta & doutra efpeciaria pera quatro naos a troco de mercadorias ou comprada por dinheiro. O q el rey outorgou, moítrãdo pefarlhe muyto da treição que em Calicut fora feyta 13 Tomo I
  • 90 Historia da índia aos Portuguefes, de que moftrou eftar bê enformado & eftimalos muyto. E pera q Pedraluarez mãdaífe a terra quem negociaffe a carrega das naos, mãdou em arrefes dous Naires principais, com cõdição q fe auião de reuezar cõ outros dous que ficarião em quanto aqueles foflem comer, porque não podião comer no mar. E Pedraluarez mandou logo a terra por feytor da carrega Gonçalo gil barbofa de Santaré, & por feu efcriuão hú Loureço moreno, & por lingoa hú Madeira com quatro degradados que os feruiflem, & nã quis q foflem mais porque fe perdeffem poucos fe acoteceffe algú defaftre como em Calicut. E ho feytor foy recebido com muyta honrra per muytos Naires que ho leuarão a el rey q eftaua nú, faluo q tinha cingido hú pano brãco q lhe chegaua ate ho giolho. E aflen- tado é hús degraos a modo de theatro acompanhado de pouca géte. Ho feytor lhe aprefentou da parte de Pedraluarez cabral hú bacio de prata dagoas mãos cheo daçafrão, & hú grande barnegal de prata cheo dagoa rofada & certos ramais de corais, pedindolhe perdão de lhe não mandar mais, porque aquilo lhe ficara do defpojo, & que não lho mandaua fe não por final damizade. O que el rey agardeceo muyto, & defpois de falar hum pedaço com Gonçalo gil fobre el Rey de Portugal ho mandou apou- fentar, & dali por diante ho fauoreceo muyto & lhe deu todo auiamento quanto pode fer pera fazer a carga: a que os gentios da terra ajudauão com tanto amor q parecia permiffam diuina a mudança de Calicut a Co- chim pera a igreja catholica multiplicar na índia como multiplica, & ho eftado del Rey dom Manuel fe acrecentar tanto, com proueito de fua fazenda. CAPITOLO .XLI. De como Pedraluarez cabral fe partio pera Portugal. COmo em Calicut fe ouue por muyto eftranha a ida dos portuguefes por irem de tão loge foou muyto por toda a terra, & afli ho rico prefente que el Rey de Portugal mandara a el rey de Calicut, & as mercadorias que mandaua pera a feytoria, pelo que não ouue nhú rey do Malabar que não ouueffe enueja a el rey de Calicut por tal gente ir carregar a feu porto, pelo grande proueyto que fabião que auia dauer, & todos defejauão que foflem carregar aos feus portos, & eítranharão muyto a treição que lhes fez el rey de Calicut, & fabédo que era de lá defauindo, & que eftaua em Cochí mandarãlhe logo embaixadores el rey de Coulão & el rey de Cananor reys principais do Malabar defpois del rey de Calicut: offrecendolhe amizade & carrega em feus portos. E Pe¬ draluarez aceitou a amizade & efcufoufe de ir lá carregar por quanto
  • Livro 1, Capitolo XLI 9i tinha começado em Cochí dandolhes efperança que doutra viagem ho faria. E ifto foube el rey de Cochí & ho eftimou muyto. E tendo Pedral- uarez as naos quafi carregadas, foy auifado por el rey de Cochí que el rey de Calicut mandaua cõtrele húa armada de vinte cinco naos groflas & muytos paraós em que vinhão quinze mil homés pera ho tomaré por¬ que lhe queimara as naos & lhe deftruira a cidade, offrecédolhe géte pera ho ajudar, o q Pedraluarez não quis, porq el rey vifle q não tinha necef- fidade de fua ajuda. E auendo vifta da armada q ya contrele, fe leuou do porto cõ toda a frota pera ir pelejar coela no mar afaftado da terra: & por vetar a viração nã lhe pode chegar, & ãdou ás voltas ate noite. E os mouros como lhe auiã medo, pofto q a viração lhes feruia a popa não fe chegarão muyto: & ao outro dia querendo Pedraluarez chegar a eles cõ ho terrenho q ventaua achou q a nao dc Sãcho de thoar eftaua muyto afaftada dele por defcair aqla noyte, & como ela era a prícipal da cõferua & q leuaua mais géte defpois da fua, cõfelharãlhe os outros capitães q nã pelejaffe fé ela porq eles leuauã muy pouca géte & effa doéte. E védo Pedraluarez q nã podia pelejar cõ os Imigos & que ho vento lhe feruia a íua viagem pera que eftaua preftes, não quis tornar a Cochim & fezfe na volta do mar pera ir a Cananor tomar algúa canela que lhe falecia pera acabar de carregar, & aífi fe partio leuando os arre- fens del rey de Cochim & deixando em terra Gonçalo gil barbofa & os outros. E os immigos vendo que fe ya moítrarão que querião pelejar coele & ho feguirão ate noyte, & aos quinze de Ianeyro de mil & quinhétos & hum foy furgir no porto de Cananor, que he húa cidade na cofta do Malabar trinta & húa legoa de Calicut da banda do norte: tem húa baya muyto boa que lhe faz ho porto muy feguro, a terra he viçofa & frefca, & de muyto boas agoas, & de poucos mantimétos, faluo de pefcado de que ha grande forna. Tem pimenta em abaftança, muyto gingibre, grãde multidão de tamarindos, mirabolanos, canafiftola & cardamomo que fam mercadorias que fe gaítão bem: ha nela grandes tanques dagoa em que fe crião lagartos como os de fam Thome, & comem homens, ho feu bafo cheira como algalia: nos matos ha cobras tão peçonhentas que matão com ho bafo, & outras não tão peçonhétas mas muyto grandes & ha morcegos tamanhos como minhotos que tem ho focinho como rapofa, & fabem tam bem que os gétios dão galinhas por eles. A cidade de Cana¬ nor he como a de Calicut, faluo que não he tamanha he pouoada de gentios & de mouros eftrangeiros. Seu rey he gentio, goarda os coftumes do de Calicut, não he tão poderofo de gente nem fenhor de tanta terra, nem té tanta renda. Nefte porto tomou Pedraluarez cabral quatrocentos quintais de canela, & por lhe el rey mandar mais & ele a nã querer por
  • Historia da índia 92 não ter neceífidade dela, cuydou el rey que feria por não ter dinheiro pera a comprar, & q lho tomarião todo quando fora a treição de Calicut: & como defejaua muyto a amizade del Rey de Portugal, & que mandaífe carregar em fua cidade, mandou dizer a Pedraluarez, que fe deixaua de tomar a canela que lhe mandaua por falta de dinheiro ou de mercadorias, que ele lha fiaria ate tornar aa índia. O que lhe Pedraluarez mãdou agar- decer & dizer a caufa porque não tomaua a canela, & moítrou ao meífe- geiro muyto dinheiro que ainda tinha pera a comprar fe teuera necefíi- dade. E el rey polo defejo que tinha da amizade cÕ el Rey de Portugal, mandoulhe hum embaixador com Pedraluarez cabral, que dali efcreueo a el rey de Cochim defculpandofe de fe partir fem lhe falar, & de lhe leuar os feus arrefcs, encomendandolhe muyjo os Portuguefes que ficauão em Cochim, a que efcreueo também. E os arrefens efcreuerão a el rey que folgauão muyto de ir a Portugal, & que Pedraluarez lhes fazia boa companhia. E cÕ tudo el rey ficou muyto agrauado de Pedraluarez por fe ir fem lhe falar & leuarlhe os arrefens, & dizia que ho enganara, porem tratou fempre Gonçalo gil & os outros muyto bem. CAPITOLO .XLII. Do que aconteceo a Pedraluare\ cabral tornando pera Portugal. DEste porto de Cananor, fe partio Pedraluarez cabral pera Portu¬ gal, & ho derradeyro dia de Ianeyro tomou naqle golfão húa grande nao de mouros carregada de mercadoria que deixou ir fem bolir nela por faber que era del rey de Cambaya & a(Ti lho mandou dizer, porque fua ida àquelas partes não era pera fazer guerra como dizião os mouros de Meca fe não pera fazer amizades & tratar, & fe fizera guerra a el rey de Calicut fora pola treição q lhe fizerão os mou¬ ros de Meca por feu cõfentimento. E eítes comprimentos fazia Pedral¬ uarez porque não efquiuaífem na índia os Portuguefes: & defpois difto deu a nao de Sancho de thoar em hõ baixo por má vigia & perdeofe, & efcorrendo Pedraluarez Melinde foy ter a Moçambiq, donde mandou San¬ cho de thoar em húa nao das da armada a defcobrir a ilha de çofala, mandandolhe que defcuberta fe folfe pera Portugal, pera onde fe ele partio defpois de dar pendor ás naos, & ate ho cabo de boa Elperança correo muytas tormentas com que fe apartou de fua conferua húa nao que nunca a mais vio em toda a viagem, & paliados muytos & grandes perigos dobrou ho cabo a vinte dous de Mayo. E continuando daqui fua nauegação foy aferrar ho cabo verde, onde achou Diogo diaz hum dos
  • Livro I, Capitolo XLIII 9* capitães que partio coele de Portugal que fe apartou dele com a tormenta com que çoçobrarão as quatro naos, & efte lhe contou como por erro do leu piloto fe metera no mar roxo, & hi andou muvto perdido, & perdera ho batel, & lhe morrera muyta géte. E não fe atreuendo ho feu piloto ao leuar aa índia, fe tornou pera Portugal, & no caminho lhe morrera tanta gente de fome & de fede que lhe não ficarão viuas mais de fete peffoas que auia muytos dias que milagrofamente mareauão a nao, & a trouuerão ali com ajuda de nofTo fenhor, porque doutra maneyra não poderá fer, & daqui fe partio pera Portugal, & chegou a Lifboa ho der¬ radeiro de Iulho de mil & quinhentos & hum & foy recebido com grande folénidade. E el Rey dom Manuel lhe fez muyta honrra, & defpois che¬ gou Sancho de thoar que defcobrio. çofala, de cujo fitio direy a diãte: & coefta derradeyra nao tornarão feys a Portugal de doze que forão na ar¬ mada de Pedraluarez cabral, & as feys fe perderão. CAPITOLO .XLIII. De como foy por capitão moor da fegunda armada da índia Ioão da noua. ANtes de Pedraluarez cabral tornar de Calicut, não fabedo ainda el Rey dõ Manuel nada do que lhe acontecera, & cuydando que tudo eftaua affentado mandou quatro naos as mais delas de armadores que mandauão fazenda & deu a capitania mór delas a hum Ioão da noua alcayde pequeno da cidade de Lifboa homem efforçado. E dandolhe ho regimento do que auia de fazer, fe partio de Lifboa coefta armada de quatro naos, de que a fora ele forão capitães Frãcifco de nouais, Diogo barbofa & outro, & hião nelas oytenta homens com a géte do mar, por¬ que como el rey cuydaua q tudo na índia eftaua em paz não quis mandar mais gente. E partido Ioão da noua de Lifboa fem lhe acontecer coufa que feja de contar foy ter a agoada de fam Bras, onde fe achou em terra hu çapato dependurado em húa aruore cõ húa carta dentro que dizia que palíara por hi Pero dataide que fora com Pedraluarez cabral, & contaua ho que lhe acontecera em Calicut, Cochim & Cananor, porq foubeífem os capitães Portuguefes que não auião dir a Calicut fe nã a Cochí. E vedo Ioão da noua efta carta nã quis por confelho dos outros capitães deixar Aluaro de Braga é çofala cõ ho nauio q leuaua por lhe ficar muy pouca gente, & defta agoada foy ter a Qúiloa, onde foube de hu Portu¬ guês degradado que hi deixou Pedraluarez ho mefmo que dizia na carta de Pero dataide, & outro tanto foube defpois del rey de Melinde, a cujo
  • 94 Historia da índia porto foy ter. E tendo efta noua por certa, atrauefiou ho golfão & foy furgir em Angediua: & eftando hi paliarão fete naos de mouros de Cam- baya que não oufarão de pelejar coele com medo de fua artelharia, & daqui fe foy a Cananor, onde védofe com el rey foy por ele certificado de todo o que acontecera a Pedraluarez em Calicut, & do mais que def- pois fez: el rey lhe offreceo carrega pera as naos que leuaua, que ele não quis tomar fem ir a Cochim & verfe com Gonçalo gil que Pedral¬ uarez cabral deixara por feytor, & logo fe partio: & de caminho tomou por força húa nao de mouros de Calicut & queymada chegou a Cochim, & Gonçalo gil barbofa ho foy ver ao mar, & lhe diífe que el rey de Co¬ chim ficara efcandalizado de Pedraluarez cabral por lhe leuar os feus arrefens, porem que fempre tratara be os Portuguefes que lá ficarão, & porq os mouros lhe poferão húa noyte fogo na cafa onde poufauão os recolhera aos feus paços, & fe de dia yão fora mãdaua coeles Naires que os goardafTem dos mouros que defejauão de os matar, & alli lhe diíTe que não tinha carrega defpeciaria pera lhe dar, porque a mercadoria da feytoria não fe vendia que eftoruauão os mouros a venda, & também aconfelhauão aos gentios que lhe não deffem nhúa pimenta fe não a troco de dinheiro, por iffo que não poderia carregar fe ho nã leuaua. E porque loão da noua nem os outros capitães ho não leuauão fe não mer¬ cadorias não fe quis mais deter, & tornoufe a Cananor pera ver fe pode¬ ria hi tomar carrega a troco delas. E fabendo el rey como ele nã leuaua dinheiro, diífelhe q por não tornarem as naos vazias de todo a Portugal ficaria por fiador de mil quintais de pimenta & de cincoenta de gingibre, & de quatrocentos & cincoenta de canela ate fe vender a mercadoria que leuaua, com condição que a deixafTe em Cananor cõ hú feytor & hú efcri- uão: & adi foy feyto, & mais deixou com ho feytor algús |Portuguefes. E carregada efta efpeciaria que digo, aos quinze dias de Dezembro apa¬ recerão ao mar oytenta paraós que paffauão pera mõte Deli: & eftes erão de húa grande armada que el rey de Calicut mandaua pera tomar loão da noua, & os que eftauão coele carregando em Cananor. O que el rey mandou dizer a loão da noua, & porque ele não tinha géte com que fe defendeffe que feria bõ defembarcar efta que tinha, & a artelharia, & que em terra fe defenderia melhor. E ele não quis, dizendo que efperaua em noífo fenhor de fe defender dos mouros com aquela pouca de gente que tinha. E ao outro dia dazafeys de Dezembro amanheceo a baya de Ca¬ nanor cercada da armada del rey de Calicut, que era de cento & tantas velas adi naos como paraós tudo cheo de mouros bem apercebidos, de frechas, de lanças, & defpadas & de muytos arremedos. loão da noua tanto que vio efta armada, chamou logo os capitães, & didelhes. Se os
  • Livro I, Capitolo XLIII 9-5- mouros nos aferrão fegundo fam muytos & nos poucos, não temos falua- ção: & pera nos faluarmos he neceftario com a eiperança em noffo fenhor refiftirlhes com a artelharia que nos não cheguem, por iffo fenhores tende cuydado, & ponhamos as naos húas a par das outras em proporção que todas juntamente poffam jugar com fua artelharia: o que logo foy feyto. E nifto começa a noffa artelharia de defparar com hum brauo eftrondo cubrindo tudo de fumo, & defaparelhando, & efpedaçando muytos nauios dos mouros, & metendo outros no fundo, & matando em todos muyta gente, o que os mouros não podião fazer aos Portuguefes por não terem artelharia, & toda fua peleja era com frechadas com que perfiauão detrar os Portuguefes como que efperauão de ho fazer, & alfi perfiarão ate ho foi pofto. E vendo que de cada vez recebião mais dãno, leuantarão húa bandeira branca em final de paz, que fe teuerão vento pera fugirem bem ho fizerão fegundo eftauão deftroçados: & Ioão da noua que também tinha a fua gente canfada & algúa ferida, & a mayor parte da artelharia arrebentada, folgou muyto quando vio a bandeira, & porem receou que os mouros farião aquilo pera verem como eftauão os Portuguefes, & receou tambe que refpondédolhe ele com bandeira de paz cuidarião que eftauão defbaratados, & por ilío a defejauão, pelo que trabalharião polos aferrar pera os tomare: & coefte receyo mandou leuantar ho feu guião não deixando de tirar fua artelharia. E os mouros q tinhão necefíidade tornarão a leuantar a bandeira branca: & parecendo a loão da noua que a paz era de verdade, mandou leuantar outra. E defpois difto affentarão tregoas ate ho outro dia com cõdição que os mouros defcercaffem a baya: & ela defcercada fayofe Ioão da noua pera ho mar & por vetar a viração furgio perto dos mouros fem poder ir mais auante, & de noyte lhe qui- ferão os mouros queimar a frota indo em almadias: o q fintido pelos capitães mandarão alargar as amarras & yão fe afaftãdo, & os ímigos os yão feguído, o que eles vedo tirarãlhes cõ a artelharia & os fizerão afaftar. E defesperados os mouros de poderé fazer dãno aos Portuguefes, em ventãdo ho terrenho derão ás velas & foranfe pera Calicut. E Ioão da noua deu muytas graças a noífo fenhor por lhe efeapar tanto a feu faluo. E deixando ho feytor que diffe com feytoria em Cananor, fe efpe- dio del rey & partiofe pera Portugal, onde chegou a faluamento fem mais carrega q a q diífe. E el rey de Calicut quãdo vio q a fua armada não pode tomar a dos Portuguefes por força, atentou de a tomar por manha, & per hú Fernão peixoto dos cativos q ficarão é Calicut de Pe- draluarez cabral, mãdou dizer a Ioão da noua, que lhe pefara muyto do q os mouros de Meca fizerão aos Portuguefes fobre o q dera grãde caf- tigo aos culpados, & q faria difto toda a fatiffação q lhe be pareceffe,
  • 96 Historia da índia porq defejaua muyto de fer amigo del Rey de Portugal, & q teueffe trato e fua cidade, & fe lá quifefle ir carregar q lhe daria carrega. E quando fe Fernão peixoto partio coefte recado, lhe diffe Cojebequim fecretamente que difleffe ao capitão mór dos Portuguefes, que por nhú modo foffe a Calicut, porque el rey ho queria matar, & a quantos yão coele, & por iflo Gonçalo peixoto fe deixou ficar em Cananor. CAPITOLO .XL1111. De como dô Vafco da gama tornou á índia por capitão mór de húa armada. SAbido por el rey dõ Manuel o q el rey de Calicut fizera a Pedral- uarez cabral, determinou de mãdar húa groífa armada pera fe poder vingar dele: & tendo dada a capitania mór dela a Pedraluarez cabral lha tirou por algús juftos refpeitos & a deu a dom Vafco da gama, que com ho regimento do que auia de fazer fe partio de Lifboa a dez de Feuereyro de mil & quinhentos & dous leuando em fua conferua dez naos grofias, das quaes a fora ele forão capitães dom Luys coutinho, Pero dataide, Francifco da cunha, Ioão lopez pereftrelo, Antonio do campo, Pedrafonfo daguiar, Gil matofo, Ruy de caítanheda, Gil fernan- dez, Diogo fernãdez correa que ya por feytor da armada & de Cochim, & cinco nauios redondos que auião de ficar na índia em goarda da fey- toria, de que forão capitães Vicête fodré, Bras fodré feu irmão, Antonio fernandez, Pero rafael, Diogo pirez & Ioão rodriguez badarças a quem fe auia de dar na índia húa carauela que ya laurada na mefma armada, & lá fe auia darmar, & a fora eftas quinze velas fe ficauão aparelhando cinco naos de que ya por capitão mór hú Eíteuão da gama primo de dom Vafco da gama que partio aos cinco do Mayo feguinte, a q não foube o que acõteceo na viagem. E dõ Vafco da gama defpois que partio de Lif¬ boa que dobrou ho cabo de boa Efperança, mãdou a Pedrafõfo daguiar do cabo das corretes com a mayor parte da armada pera Moçãbique, & ele ficou com quatro nauios em q foy a çofala & vio ho fitio da terra que era pera fortaleza, & refgatou algú ouro em vinte cinco dias que hi efteue em que afTentou amizade cõ el rey de çofala. E partindo pera Moçãbique fe perdeo ao fair do rio ho nauio Dantonio fernãdez com fe faluar a gente. E chegado a Moçambique, & deixando hi feytoria pera as naos que ali foliem acharc mãtimetos, fe partio pera Qúiloa, cujo rey leuaua em regi- méto q fizelfe tributário a el Rey dom Manuel pois nã queria fua ami¬ zade. E chegado a feu porto, chegou tãbê Efteuão da gama com as cinco
  • Livro I, Capitolo XL V 97 naos: & domVafco teue maneyra como ho rey de Qúiloa lhe foy falar ao mar, & como fabia q era métirofo não fe quis fiar em fua palaura, & prendeo ho & com ho mandar meter debaixo dagoa, lhe prometeo de fe fazer tributário del Rey dom Manuel & lhe pagar de pareas cadãno dous mil miticais douro, & polos daqle deixou é arrefens hú mouro prin¬ cipal que auia nome Mafamede alconez, a que queria mal fecretamente por fe temer dele que lhe auia de tomar ho reyno que ele tinha vfurpado ao proprio rey, & não mandando ele as pareas por cuydar que dõ Vafco mataffe Mafamede alconez, que vendo q tardauão as pagou aa fua cufta, & afli fe Iiurou. CAPITOLO .XLV. De como dom Vafcot da gama chegou ao porto de Calicut, & do que fe\. DE Qúiloa fe partio do Vafco da gama pera Melinde, & vifitado el rey proffeguio fua viagé pera a cofia da índia, & a monte Deli topou húa nao de mouros de Meca q yão pera Calicut, & ferião trezétos todos de peleja, a fora molheres & meninos, & efta foy tomada por força pelos capitães da frota em que os mouros pelejarão bé. E que- rédo os fenhores da nao & outros negar a dõ Vafco q não leuauão nhúa fazéda na nao, mandou deitar dous no mar, & logo os outros confeffarão q leuauão muyta & boa fazéda, de q a melhor foy entregue a Diogo fer- nandez correa pera el Rey que a tirou logo da nao, & a fomenos foy dada a efcala frãca aos Portuguefes, & os meninos filhos dos mouros mandou dom Vafco goardar & defpois os fez frades em noífa fenhora de Belem, & logo foy pofto fogo á nao eftando os outros mouros metidos debaixo de cuberta & fechados: & ifto por vingança do q os mouros de Meca fizerão a Pedraluarez. Os mouros como fintirão ho fogo, trabalha¬ rão tanto q fe foltarão, & ho apagarão cõ muyta agoa que a nao fazia polos buracos das bombardadas, que lhe derão na peleja. E domVafco que eftaua na nao defteuão da gama acodio logo & aferrou a nao dos mouros, que como homés determinados acodirão logo defendédofe cõ muyto efforço, & deles trazião tições acefos com q tirauã aos Portuguefes pera os queymarem & tãbem fe defendião que ainda q muytos forão mortos nunca lhes poderão entrar a nao, & por anoytecer cefiou a peleja, que mandou dõ Vafco que ceflaífe, & que delaferraffem a nao: & mandou aos capitães que a cercaflem com as fuas. E aífi a teuerão toda a noyte em que os mouros com grandes clamores fe encomendarão a Mafamede que os liurafíe: & como foy de dia domVafco tornou a mandar dar fogo ■3 Tomo I
  • Historia da índia 98 á nao por Eíteuão da gama, que lho deu có algús bombardeiros, por mais que lhe os mouros contrariarão: & ho fogo pegou de maneyra que ardeo a metade da nao, & parte dos mouros fe afogarão nela com fe ir ao fundo, & parte forão mortos no mar onde fe deitarão, & afli forão todos mortos. E daqui fe foy dom Vafco a Cananor, adi pera ver ho feytor q hi deixara Ioão da noua, como pera fe ver com el rey: de quê ho feytor lhe difle muyto bem, & q era verdadeiro amigo del Rey de Portugal. E defpois de lhe dom Vafco mandar ho embaixador que lhe leuara Pedral- uarez cabral fe vio coele, em húa cafa de madeira q el rey mandou fazer junto do mar pera efta vilta, cÕ hú cais muyto metido no mar todo tol¬ dado de panos ricos, em que dom Vafco defembarcou indo acompanhado de todos os capitães da frota, & de muyta gente darmas com muytas trombetas, & atabales, & bateis toldados & embandeirados, & el rey ho eftaua efperando á porta da cafa que eltaua rodeada de dez mil Naires todos com fuas armas com q faziã grande arroido. E el rey em dom Vafco chegando a ele abraçouho & foranfe aífentar ê duas cadeiras defpaldas que dõ Vafco mandou leuar pera iflo, & el rey fe aífentou na cadeira por amor de dom Vafco poíto que era contra feu coítume: & dom Vafco lhe aprefentou dous bacios dagoas mãos cheos de ramos de coral groffo, coufa fermofa de ver, & defpois aífentou coele amizade em nome del Rey do Manuel de Portugal: & defpois que affentaffe feytoria em Co- chim, a aífentaria em Cananor. E iíto feyto partiofe dõ Vafco & foy fur- gir no porto de Calicut pera ver fe podia auer reftituição da fazenda q fe hi tomara quando matarão Aires correa: & cm chegãdo tomarão os da armada ate cincoenta pefcadores que andauão pefcando: o q el rey logo foube & ficou efpantado de ver tamanha frota, & com medo q lhe faria muyto dãno fe quis faluar com mandar pedir perdão a dom Vafco cõ dif- culpa que os mouros de Meca fizerão aquela treição fem ho ele faber: pedindo a dõ Vafco que affentaffe trato & feytoria em Calicut como tinha começado: & mandou eíte recado por hú mouro da terra que foy veftido em hú abito de frade q ficou dos q yão com frey Anrriq: & em chegando a bordo da capitaina falou per Deo gracias, & então conhecerão que era mouro, que ateli cuydauão que foffe frade: & ele difie que vinha afli por lhe não tirarem com a artelharia. E dado ho recado a dom Vafco, ref- pondeo q não auia de falar é coufa damizade, ne de trato ate que el rey não pagalfe tudo quanto fora tomado a Aires correa. E fobre como iíto auia de fer fe gaitarão tres dias fem fe tomar concrufam, ate que dom Vafco dagaítado mandou dizer a el rey, que fe dali ao meo dia lhe não mandaua a fazenda que fora tomada a Aires correa que lhe auia de fazer guerra a fogo & a fãgue, & auia de começar em mandar enforcar os feus
  • Livro I, Capitolo XLVI 99 pefcadores: & a(fi ho fez porque el rey nã comprio, & em fendo meo dia a hú tiro que defparou húa bombarda forão enforcados todos os cin- coéta pefcadores q eftauão repartidos pelas naos, q muyto efpantou aos de Calicut que ho virão da praya: E defpois de mortos os éforcados lhes fora cortados os pés & as mãos, & forão Ieuados a terra em hú paraó com húa carta de do Vafco pera el rey em arabigo que dizia q lhe mã- daua aqle prefente por final de quão bé lhe auia de pagar as métiras que lhe tinha dito: & q a fazéda del rey feu fenhor ele a cobraria a cento por hum: do que el rey ficou muyto injuriado & corrido de não fe poder . vingar, né oufaua vedo tamanha frota. E dom Vafco chegadas as naos ho mais perto de terra que pode, mandou varejar a cidade com a artelharia q fez muyto gçãde dãno & deftruição, & derribou ho çarame del rey con- _ tra quem ho pouo fazia muyto grande cramor, pedindolhe que fizeffe paz com os Portuguefes. E feyta efta deftruição, dom Vafco fe partio pera Cochim & deixou húa armada de feys nauios naquela cofta pera que fizeffe guerra a Calicut tomãdo as naos que faiffem do feu porto & quifeffem entrar nele & ficou por capitão mór hú Vicente fodré feu parente q de Portugal vinha dirigido pera iffo, & os outros capitães forão Bras fodré feu irmão, Pero rafael, Diogo pirez, Fernão rodriguez badarças & Pero dataide. CAPITOLO .XLVI. De como dó Vafco da gama chegou a Cocliim, & do mais que pajfou. CHegado dom Vafco ao porto de Cochim Gõçalo gil barbofa, & Louréço moreno ho forão logo ver, & lhe differão ho efcandalo q el rey teuera de Pedraluarez cabral fe ir fem lhe falar, mas que fempre os tratara muyto bem. E el rey ho mandou vifitar, & dãdolhe arreies defebarcou & fe vio coele, & lhe deu húa carta del Rey dom Ma¬ nuel em que lhe agardecia o que fizera a Pedraluarez cabral: & afli lhe deu hum prefente, que era húa coroa douro, hú colar do mefmo, dous gomis de prata fobre dourados, dous tapetes grandes & finos, dous panos darmar de ras de figuras, húa peça de cetim carmefim & outra de tafeta, & húa tenda. O que el rey recebeo com muyto prazer: & armada a tenda dentro nela affentou amizade com dom Vafco & lhe deu húa caía pera feytoria, & afli afletarão ho preço a que auia de comprar a pimenta na feytoria, & de tudo fe fez hú contrato aífinado por el rey, q lhe deu pera el Rey dom Manuel dous barceletes de pedraria muyto ricos, húa tocha mourifca de prata de dez palmos de comprido, duas toucas de ben¬ gala finiflimas, húa pedra tamanha como húa auelaã, muyto proueitofa
  • 100 Historia da índia cõtra a peçonha que fe acha na cabeça de húa alimaria a que na índia chamão bugoldaf. E logo foy apoufentado na feytoria Diogo fernandez correa, que como difie foy de Portugal & forã feus efcriuães Lourenço moreno q ja lá eftaua, & hú Aluaro vaz q ya de Portugal, & do Vafco lhe deu hú lingoa & certos Portuguefes pera feruiço da feytoria, & come- çoufe logo de dar carrega á capitaina. E niíto mãdou el rey de Calicut a dom Vafco por hú bramene q lhe queria pagar o q fe tomara a el Rey de Portugal quando os mouros matarão Aires correa, que ho folie logo receber. Dom Vafco porq não fe fiaua del rey prendeolhe ho bramene pera lho pagar fe mentilfe: & porq a fua nao tomaua carrega foy na Def- teuão da gama, em q partio logo pera Calicut & não quis que outro nhú capitão foffe coele, polto que lhe todos aconfelherão q não fofle aíli por¬ que ya a muyto perigo & alfi foy, porque vendo el rey de Calicut quão defacompanhado ya quifera ho tomar com trinta & tres paraós darmada que derão fobrele ao quarto dalua, tão de fupito que fe não acertara deitar fobre húa ancora no mais fora tomado, & a eíta mandou ele logo cortar a amarra & juntamente defferir a vela, & cõ ho terrenho que ventaua efcapou aos paraós que ho feguirão tão apertadamente que ainda correo rifco de fer tomado fe lhe não acodirão Vicente fodré & os outros capi¬ tães q andauão na cofta, que pelejarão cõ os paraós & os fizerão fugir. E dõ Vafco fe tornou a Cochim & mandou enforcar ho Bramene del rey de Calicut. CAPITOLO .XLV11. De como el rey de Calicut mandou di\er a el rey de Cochim que não dejfe carrega a dom Vafco. GRandeméte fe ouue el rey de Calicut por injuriado de lhe dom Vafco enforcar ho feu Bramene: & vedo q não fe podia vingar polo medo q tinha da artelharia dos Portuguefes, quis atentar fe podia fazer com el rey de Cochim que não confentiífe na fua cidade a feytoria del Rey de Portugal, nem deffe carrega a dom Vafco, & mãdou- lhe por hú Bramene eíta carta. «Soube q fauoreces os frãgues, & os agafalhas em tua cidade: & lhe das carrega & mantimétos: & quiça que não ves quãto dãno nos vé diífo a todos, & quanto me anojas, rogote q te lembre camanhos amigos fomos ategora, & não queyras anojarme por tão leue coufa como he a amizade dos frangues, q fam hús ladrões que ãdão a roubar as terras alheas: & q por amor de mim os não acolhas, nem lhes des nhúa efpeciaria, que a fora fazeres niífo a todos boa obra, a fazes a mim: que ta pagarey no
  • Livro I, Capitolo XL VIII ror que mandares. Não te encareço ifto mais porque creo q ho faras tão leue- mente como eu farey por ti outras coufas de mór importância.» Vifta efta carta por el rey de Cochí como ele era muyto bõ, verda- deyro & prudente, não ho demouerão coufa algúa aqlas palauras: & ref- pondeo a el rey de Calicut por efta maneyra. «Não fey como poda fer que coufa de tamanho pefo como he lãçar os írangues fora de minha cidade, tédo os tomado fobre mim faça tão leuemente como dizes: tal coufa te não cometi nunca fobre os mouros de Meca, nem fobre outros muytos mercadores que aífentarão em Cali¬ cut. E e agafalhar os frãgues &. dar lhe carrega, não cuido que te anojo, nem a ninguém, pois fe coftuma antre nos véder noffas mercadorias a quem nolas compra, & fauorecermos os mercadores que vem a noffas terras. Os frangues me vierão bufcar de muy longe, & por iffo os recolhi & emparey, & nã fam ladrões como dizes, porq trazem muyta forna de moeda douro & de prata & de mercadorias, & falão verdade. Tua ami¬ zade eu a conferuarey fazendo o que deuo, & adi ho deues de querer, porque doutra maneyra nã feras meu amigo, & a ti nem a ninguém não deue de pefar q ennobreça minha cidade.» E ficando el rey de Calicut muyto agaftado defta repofta tornoulhe a efcreuer efta carta. «Pefame muyto do bordo que leuas comigo, porque vejo q queres deixar minha amizade pola dos frãgues que tenho por immigos, que fera caufa de ho fer teu: outra vez te torno a rogar que os não recolhas nem lhes des carrega, & não ho querendo fazer Deos acoime tua culpa: que eu protefto de não fer culpado no dãno que fe recrecer.» CAPITOLO .XLVIII. De como indo dó Vafco da gama pera Cananor foy cometido de vinte noue naos de mouros. DE todas eftas cartas nunca el rey de Cochim quis dar conta a dom Vafco fe não quãdo fe ouue de partir, dizendo q lho não dif- fera mais cedo por lhe não dar má vida é cuidar que faria o que lhe el rey de Calicut cometia, aflirmandolhe que era tamanho amigo del Rey de portugal que perderia Cochim fe foffe necelfario pera moftrar fua amizade. O que lhe dom Vafco agardeceo muyto, certificandolhe que el Rey dom Manuel ho ajudaria & fauoreceria de maneyra q não fomete teria fegura fua cidade, mas poderia conquiftar outras, & creffe que tudo aquilo del rey de Calicut erão feros, porque dali por diante auia de ter
  • 102 Historia da índia tanta guerra com os Portuguefes que faria muyto em fe defender quanto mais fazela a outrem. Então lhe difle a armada que auia de ficar na índia pera fazer guerra a el rey de Calicut, & de Cananor a mandaria pera Cochim, por iíTo que não receaffe os feros del rey de Calicut. E defpe- „ dido del rey,'fe partio pera Cananor com dez naos carregadas, porque lá auia de carregar as tres de treze que leuaua. E fabédo os mouros que leuaua as naos carregadas, cuydarão que não fe poderia ajudar da artelharia & que ho tomarião, & por iflo fayrão do porto de Panda- rane vinte noue naos que ho efperauão coefTa determinação, todas bem cheas de mouros apercebidos de fuas armas, & forãno cometer tres legoas ao mar: fobre que logo mãdou arribar feus capitães: & Vicente fodré que ya diante com Diogo pirez, & Pero rafael forão os primeyros q co¬ meçarão de pelejar com os inimigos, aferrando duas naos que também yão diante afaftadas das outras, & Vicente fodré aferrou com húa, & Diogo pirez & Pero rafael cÕ outra. E como os mouros virão júto de fi os Por¬ tuguefes, quis noffo fenhor que lhe ouuerao tamanho medo que fe deitarão ao mar, & porque ja fe chegaua dom Vafco com os outros capitães def- parãdo fua artelharia, de cujo eftrondo fe os mouros das outras naos efpantarão tanto que arribarão fugindo deixando as duas naos em poder dos Portuguefes, que nos bateys matarão os mouros q fe lançarão ao * mar que forão trezentos: & dom Vafco mãdou defcarregar as naos em que foy achada muyta riqueza, principalmente hú idolo douro q pefou trinta arratés de monftruofa figura, &' tinha por olhos duas finas efmeral- das com húa veftidura douro & pedraria com hú robi nos peytos do tama¬ nho da roda dú cruzado que daua grande claridade, & muytos guindes, & perfumadores & cofpidores de prata & feys talhas grandes de porce¬ lana fina de ter agoa. E queymadas eftas duas naos, partiofe dom Vafco pera Cananor, onde fe vio com el rey com que acabou daflentar a feyto- ria que tinha dada: & obrigoufe el rey de dar a el Rey dom Manuel toda a efpeciaria que fo(Te neceflaria pera carregação de fuas naos a hú certo preço logo nomeado, & que feria amigo del rey de Cochim, & não ajudar contrele el rey de Calicut fopena de os Portuguefes lhe fazerem guerra. E dom Vafco fe lhe obrigou em nome del Rey de Portugal de ho ajudar contra todos aqueles que por fua caufa lhe fizeffem guerra: & de tudo ifto fe fez hú contrato afinado por ambos, & em Cananor ficou por feytor Gõçalo gil barbofa, & por efcriuães hú Baftião aluarez & hú Diogo godi- nho, & por lingoa Duarte barbofa, & ficarão mais na feytoria Francifco correa, Ioão da vila q eu ainda conheci em Cananor, Gafpar homem & outros que por todos forão vinte, que el rey tomou fobre fi com a fazéda da feytoria. E carregadas aqui dom Vafco tres naos mãdou a Vicente fodré
  • Livro I, Capitolo XLIX io3 que fe foffe com a armada dos feys nauios que lhe ficaua pola cofta do Malabar onde andaria ate Feuereyro, & fe teuefle certeza que el rey de Calicut auia de fazer guerra a el rey de Cochim que inuernaffe em Co- chim & ho ajudaffe: & não auédo guerra foffe ao cabo de Goardafum a fazer prefas nas naos dos mouros de Meca que foffem da índia. E par¬ tido Vicente fodré, ele fe partio pera Portugal com treze naos a vintoyto de Dezébro de mil & quinhentos & tres, & no cabo das corrétes paífado Moçambique lhe fobreueo hú temporal de vento, com que fe apartou dele a nao Deíteuão da gama, & fem mais outro contraíle chegou a Lifboa ho primeyro de Setembro do mefmo anno, & todos os grandes da corte del Rey dom Manuel ho forão receber ao cays, & ho leuarão ao paço: onde ho el Rey recebeo cõ muyta horra, & lhe fez merce do almirãtado do mar Indico & o fez cõde da vila da Vidigueira. CAPITOLO .XLIX. De como foy fabido ê Cochim q el rey de Calicut lhe auia de fa\er guerra. VIcente fodré q ficou na cofia de Calicut, fezlhe a mais guerra que pode por mar: & cõ tudo el rey de Calicut não defifiia da deter¬ minação que tinha de fazer guerra a el rey de Cochim pera que fe foy a Panane por fer perto, & ali ajútar fua géte: o que logo foy fabido em Cochim polas efpias que el rey lá trazia, cõ que feus morado¬ res ficarão muy affombrados de medo por faberem quão poderofo era el rey de Calicut & quão pouco el rey de Cochim: & mais porque crião que não tinha rezão pois queria defender os Portugueles que erão immi- gos de fua ley, a q por effa caufa querião grãde mal & lhes rogauão pragas, & queriãlhe muyto grande mal, & algús priuados del rey lhe confelhauão que deuia dentregar os Portuguefes a el rey de Calicut, & que não quifeffe guerra coele pois era mais'poderofo: & não quifeffe per¬ der ho reyno. O que lhes el rey de CochI eftranhaua muyto, & dizia q elperaua em Deos de vécer a el rey de Calicut, porq fe lhe fizeífe guerra auia de fer fem rezão. E por efte aluoroço que el rey via nos feus tinha grãde goarda nos Portuguefes. Nefte tempo veyo ter ao porto de Cochim Vicente fodré com os feys nauios darmada que difle, cujos capitães erão Bras fodré, Pero dataide, Pero rafael, Diogo pirez & Fernão rodriguez badarças que ficou em lugar Dantonio fernandez q fe perdeo, & deixaua feyto grande dãno na cofta de Calicut, afli no mar como na terra. E cõ fua chegada perderã os Portuguefes ho medo que tinhão. E chegando ele
  • 104 Historia da índia ao porto, porq tardaua em defébarcar, lhe mandou Diogo fernandez cor- rea dizer por Lourenço moreno efcriuão da feytoria (q mo contou) a certeza que tinha da guerra q el rey de Calicut queria fazer a Cochim & onde eftaua, pedindolhe da fua parte, & reqrendolhe da del rey de Portugal que lhe deífe algúa da fua gente, & com a outra efteueffe no porto & não fe foffe dele, porq com fua eftada ficarião os Portuguefes & el rey de Cochim muyto fauorecidos. Ao q Vicéte fodré refpondeo, que era capitão do mar & não da terra, & por iffo não auia de pelejar fe não no mar, q fe el rey de Calicut ouuera de fazer a guerra por mar a Cochim, q ele ajudaria el rey, mas que por terra não tinha de ver coifTo, q queria ir defcobrir ho eftreyto do mar roxo pera que ficara na índia, o que lhe Diogo fernãdez tornou a mandar requerer q não fizeffe, nem fe foffe de Cochim, & q goardaffe a feytoria del rey de Portugal, pera que ficara na índia, & não pera defcobrir ho eftreyto: porq el rey de Calicut não fazia a guerra a Cochim fe não pera tomar a feytoria del rey de Portugal, & os Portuguefes q eílauão nela, & que el rey de CochI não tinha gente pera fe defender por iffo q não fe foffe, proteftãdo de fer obrigado a pagar a el rey de Portugal todo ho dano q recebeffe por fua ida: & com tudo Vicente fodré não quis fe não irfe, por efperar de fazer muytas prefas onde qria ir: & partiofe com os outros capitães, fem lhe lembrar ho perigo em q ficaua a feytoria, & os Portuguefes, & el rey de Cochim. E efta he a verdade, ainda q algús digão que Vicente fodré fe mandou offrecer a el rey de Cochim pera ho ajudar na guerra fe teueffe neceflidade, & fe não q iria defcobrir ho eftreyto. E que el Rey lhe ref¬ pondeo, que por fer entrada de inuerno lhe nã auia de fazer el rey de Calicut guerra, né lha poderia ja fazer na entrada do verão feguinte, quando ele auia de vir do eftreyto, por iffo q bem podia lá ir inuernar, q ho inuerno ho feguraua del Rey de Calicut lhe fazer guerra. E bem pa¬ rece q quem ifto diz não foy á índia, nem foube q ho melhor tépo q el rey de Calicut tinha pera fazer guerra a Cochim era é Março, Abril, Mayo, ate meado Iunho, em q fabia certo que nã auião de chegar á índia naos de Portugal, cõ cujo medo fabia que não podia fazer guerra a Co¬ chim fe não no tépo q digo. E bé fe moftrou nefta guerra que fez como direy a diante.
  • Livro I, Capitolo L 10S CAPITOLO .L. De como el rey de Calicut declarou aos fenhores que ho ajudauão, que queria fa\er guerra a Cochim. Despois que el rey de Calicut foy em Panane, fe ajuntara cõ ele muytos fenhores feus vaíTalos & amigos, que tinha mandado cha¬ mar pera ho ajudarem na guerra: & outros forão fem fere chama¬ dos, porque fabendo que aquela guerra era por amor dos noffos que eíta- uão é Cochim (que todos defejauão de ver lançados fora da índia) hião de muyto boa vontade a deítruir el rey de Cochim. Em tãto q ate os feus proprios vaffalos ajudauão elrey de Calicut, como forão ho Caymal de Chirabipil, & ho de Cãbalão, & ho da ilha grãde q eítá defrõte de CochI. El rey de Calicut tédo eítes fenores jútos, lhes difle. «Se de boas obras fe gera amizade antre as peffoas, eu & vos por minha caufa, '& é geral todos os malabares a deuemos de ter muyto grande com os mouros, por¬ que ha bem feys centos annos que entrarão no Malabar, & em todo eíte tépo ate oje nunca ninguém recebeo deles efcandalo, não auendo nhús eíirangeiros que os não fação quãdo nouamente ocupão algúas terras, antes como que forão noffos naturais fe derão com a gente com todo amor & amizade q fe deue dús naturais a outros com que a terra foy fempre prouida por eles de muytos mantimentos & mercadorias q foy caufa de ho pouo enrriquecer & as rendas do reyno irem em grãde creci- mento, principalméte neíta cidade em que os mouros fizerão a principal efcala de toda a índia: pelo que eu tenho muyta rezão de os fauorecer, & deffauorecer aos frangues que com tanto feu perjuyzo querem aífentar na terra, mais pera a tomarem & deftruyrem, que pera lhe fazerem pro- ueito: do que derão affaz de finais neffes poucos de dias que aqui eíteue- rão, affi como foy em me ho capitão mór prender os meus embaixadores, & em fazer nouas leys em minha cidade que carregaífe primeyro fuas naos que os mouros as fuas, & fobriffo lhe reteue húa nao que foy caufa de lhe os mouros fazerem o que fizerão, q eu cuydo que foy ordenado de Deos por fua foberba: & não lhe tendo eu niffo culpa me queymou dez naos em meu porto, & me deftruyo a cidade com fua artelharia, ate me fazer fugir de meus paços, & defpois alda me queymou duas naos, o que nã fizera fe viera pera tratar, antes me mandara fazer queixume dos mouros, & efperara que os caftigara & não fazer o que fez, que mais parece de ladrões como eles fam, que de mercadores que fe querem fazer pera coelfa cor fe poderõ fenhorear deita terra: o que el rey de Cochim Tomo I 14
  • Historia da índia 106 com quanto lho mandey dizer nunca quis entender: & fendo meu vaffalo, & fabendo o q me eles tem feyto, os recolheo, & recolhe, & lhe deu car¬ regação pera fuas naos, & agora lhe deu feytoria, o que lhe per muytas vezes mandei rogar q ho não fizeffe. Pelo que determino de ho deitruir, & pera ifTo vos mandei pedir que vos ajuntaífeis: & tãbé vos peço q me digais fe tenho rezão de ho fazer aífi.» O q a todos pareceo muyto bem, & louuarão muyto fua determinaçã, principalméte ho fenor de Repeli, porq tinha grãde odio a el rey de CochI por lhe ter tomada húa ilha cha¬ mada Arrul: & ho mefmo fizerão tres mouros prlcipais. Contra o que foy hú irmão del rey chamado Nambeadarim q era príncipe herdeyro por fua morte: & logo ali diffe a el rey. « Ho parétefco q tenho contigo, & outras muytas coufas te podem certificar que fobre todos quãtos aqui eftão ey de defejar tua hõrra & proueito, & por iffo ha de fer mais ver- dadeyro meu confelho que ho feu, porque eles como não tem tamanha obrigação pera te aconfelhar como eu tenho, mais parece que te cofelhão fegundo a vontade que te vem pera a coufa, fobre que te dão confelho, que fegundo a rezão que ha pera a fazeres. E fe eles fem lijõjaria, & tu fem ira quiferdes julgar a caufa dos frangues achareis que ainda ategora não ha nhúa pera não ferem muyto bem agafalhados nas tuas terras, & nas outras do Malabar, & nã deitalos delas como a ladroes o que fe lhe não pode chamar pofto que qua vieffem, pois de todas as partes do mundo fe ajuntão aqui a comprar as mercadorias que não ha nelas, & afli trazem as que não ha neita terra. E deita maneyra vierão os frangues, & fegúdo coítume de mercadores te trouuerão da parte do feu rey ho mais rico prefente que te núca foy dado, & afora fuas mercadorias trouuerã muyta moeda douro & de prata, o que não traz quem vem pera fazer guerra: que fe eles pera iffo vierão não diflimularão a fugida que quiferão fazer os arrefés, a que chamas embaixadores a que préderão porque querião fugir eftando ho feu capitão mór e terra, & reconciliandofe logo contigo como géte fem fofpeita forão tomar a nao que leuaua ho alifante, q te entregarão com quanto leuaua, o que os ladrões não coítumão, né menos pagar também, nem tratar tanta verdade como tratauão. Que nunca no tempo que eíteuerão em Calicut fe ninguém aqueixou deles, fe não os mouros que por fere feus ímigos, & com enueja de os verem participãtes no ganho que ganhauão, lhes aífacauão q tomauão por força a pimenta a feus donos, fendo eles mefmos aqueles que ho fazião, porque os frangues a não podeflem auer pera carregação de fuas naos. E por iíto fer muyto notorio lhe deite licença que lha tomaífem: & coeíta licença mandou ho feu capitão mór fazer reprefaria na nao dos mouros que eítaua carregada & tendo eles toda a culpa fe aleuantarão cõtra os frangues, & fizerão o
  • Livro I, Capitolo LI 107 que fe fabe. E com tudo eles como homens pacificos efperarão todo hú dia pera ver fe querias darlhe algúa defculpa: & vedo que não então fe vingarão, & não com treyção como os mouros, que não forão pera defen¬ der as naos, ainda que agora falão muvto, & te confelhão q faças guerra a el rey de Cochim, porq os recolheo em fua cidade: pera 0 q nã ha nhúa rezão, pois ele os não recolheo por te fazer pefar, fe não como a quaes quer mercadores q vão a feu porto, porque ho mefmo fez el rey de Cananor, & quifera fazer el rey de Coulão, o que eles não fizerão fe fentirão que os frangues erão ladrões. E fe os tu queres defarreygar da índia & por efla caufa qres fazer guerra a el rey de Cochim, he neceffa- rio q a faças també a el rey de Cananor: porque, de Cananor farão o que receas fazerem de Cochim: & fe não deixa el rey de Cochim: & não te digão que te atreues coele, porque he menos poderofo que el rey de Cananor.» E Nãbeadarim falou tão ifento a el rey, aíli por fer muyto bÕ homem & caualeyro muy efforçado, como por ter muyto credito coele, & muyta autoridade: & por iflo lhe tinha el rey acatamento, & tanto que fe os mouros & os Caimais & fenhores que ali eítauão fe não poferão muyto rijo contra ho feu. El rey tornara atras da determinação que tinha de fazer guerra a el rey de Cochim: porem todos perfiarão que feria grande abatimento feu ajuntar ali tanta gente como tinha, & tornar atras, fem cometer nhúa coufa, que ao menos deuião de proffeguir auante: por¬ que poderia fer que vendo el rey de Cochim que fe chegaua faria com medo o que não quifera fazer rogado. E coefte confelho, preguntou el rey aos feus feyticeiros que dia feria bÕ pera a partida, & eles lho afli- narão & lhe differão que auia de fer vencedor naquela guerra: & que ainda fe auia dajuntar coele mais géte. E coefta certeza dos feyticeiros que el rey de Calicut tinha por muy grande fe partio pera terra de Re- pelim quatro legoas de Cochim. CAPITOLO .LI. Do grande aperto em que ejlauão os Portuguefes cõ medo que el rey de Cochi os êtregajfe a el rey de Calicut. EL rey de Cochim fabia tudo ifto por efpias q trazia com el rey de Calicut: & andaua muy trifte não por medo da guerra: mas por não ter gente cõ que fe defendeífe, porque todos aqueles de que efperaua ajuda por vaffalajem & amizade erão da parte del rey de Cali¬ cut: que fe forão da fua bem certa tinha a vitoria. E aíli eftaua em du- uida porque tinha muyto pouca gente, & a mais dela ho ajudauão contra
  • Historia da índia 108 fua vontade, principalmente os moradores de Cochim q querião grãde mal aos Portuguefes, & dizião pubricamõte que el rey os deuia dentre- gar, ou lançalos de Cochim porque fe efcufaffe a guerra: & a fora ifto muytos dos moradores fugião & deixauão fuas cafas com medo da guerra. E coifto tinhão os noffos grande temor que bem vião ho grande perigo em que eftauão, com quanto os el rey feguraua. E ho feytor pedio em¬ barcação a el rey pera fe irem a Cananor, dizendolhe que hi eftarião feguros ate que vieffe a armada de Portugal: & que ele ficaria liure da guerra: & os feus defapreffados com que el rey moftrou muyto grande trifteza. E diffe ao feytor que bem fabia que de defconfiado lhe pedia a embarcação, & por iffo lha não auia de dar: & q lhe rogaua muyto que não defconfiaffe dele, porque ele lhe daua fua fee que lhe ya tanto em os ter viuos que antes perderia ho reyno & a vida que os entregar a el rey de Calicut: nem a outrem que lhes fizeffe mal. E quãdo fua defauetura foífe tanta que perdeffe Cochim: que lhe não faleceria õde fe acolheffem ate q vieffe a armada de Portugal: & pofto que el rey de Calicut vieffe muyto poderofo, ne por iffo tinha logo certa a vitoria, porque ela fe alcançaua mais vezes pelos poucos & efforçados, que polos muytos fem efforço: quãto mais que a juftiça que ele tinha da fua parte lha auia de dar: por iffo que defcanfaífem e rogaífem ao feu Deos que lha deffe. Coeftas palauras & com os Portuguefes entederem que el rey as dizia com animo de as comprir: ficarão defcanfados, & lhe quiferão beijar a mão, mas ele não quis, nem menos que ho ajudaffem na batalha, pera o que fe todos offerecerão: & ele refpondeo que os não auia de poer em parte perigofa, porque os queria ter viuos pera teftemunhas de quanto trabalhara por fua vida. E dali por diante encomendou a guarda deles a algús Naires de que confiaua. E porque affeffegaffe ho aluoroço que auia contra eles, mandou ajuntar effes fenhores que eftauão coele, & afli algús Naires principais dos que fazião ho aluoroço, & diffelhes. * Não poffo deixar deitar muyto trifte por vos ver tão defleais, & não me efpanto da gente baixa, pois fua baixeza lhes fazer vilezas: mas de vos outros que foys Naires, & foftes fempre leaes: eftou efpantado que me quereis fazer quebrar a fé que dei ao capitão moor dos frangues de lhe goardar os feus como a meus naturais, & por iffo os deixou nefta cidade em que me vos outros confelhaftes que os recebeffe: & agora por verdes que el rey de Calicut tem algúa mais gente que eu, confelhais me que faça húa coufa que fe eu fora tão mao que a quifera fazer mo ouuereis deftranhar: & vos ho julgay, fe eftando em poder doutro rey com feguro fe ho tirieis em boa conta fazendouos o que me cõfelhais que faça aos frangues: mór- mente tendo o que vos pediffe tão pouca rezão pera fer noffo immigo,
  • Livro I, Capitolo LII iog como tem el rey de Calicut, & ho rey que vos teueffe tão pouca caufa de vos entregar como eu tenho pera entregar os frangues. Pois fe ifto he adi, como me confelhais que faça aquilo que aueis de reprehender a outrem: não me dãdo pera iífo mais rezão que medo del rey de Calicut, fabendo que muyto mais pera eftimar he a morte honrrada que a vida com defhonrra: que não podia fer mor pera mim que quebrar minha fé, nc mayor pera vos que terdes rey métirofo, contra quem lhe tem dado tanto proueito, como me tem dado os frangues. E porque el rey de Cali¬ cut fabe que ho ouuera de ter fe eles teuerão feytoria em fua terra, com enueja bufca eftes achaques pera me fazer guerra: & porque lhe parece que poffo pouco quer vingar em mim a magoa que té do q perdeo: q fe ele quifeífe lãçar da índia os frangues & pelejar cõ quem os tem em fua terra, primeyro auia de começar em el rey de Cananor que eftá primeyro. Mas nã he fe não com enueja de meu proueito, & com foberba de lhe pa¬ recer que não poderey tanto como ele: & porque eu ifto fey, & fey que faço o que deuo em lhe não entregar os frangues, efpero em Deos que me ha de dar vitoria contrele, & vos afti ho efperay fe foys meus amigos.» E vendo todos fua determinação, efpantados de fua grande conftancia: lhe pedirão perdão do medo que teuerão, prometendolhe que ho não terião mais, & que morrerião todos por feu feruiço. O que lhes ele agradeceo muyto, & mandou logo chamar ho feytor & os noffos: & deulhe conta do que fizera, & perante eles fez feu capitão moor ao príncipe Naramu- him que era feu irmão & feu herdeyro, & mandou a todos que lhe obe- deceffem como a ele mefmo: & mandoulhe que com cinco mil e quinhetos Naires foffe affentar arrayal junto de hum paffo: que fe chama ho paffo do vao, por onde fabia que el rey de Calicut determinaua dentrar na ilha de Cochim. E nefte paffo com maré vazia da agoa pelo giolho. CAPITOLO .LII. De como ho prícipe de Calicut cometeo muytas ve\es dêtrar na ilha de Cochim pelo paffo do vao. Sabédo el rey de Calicut que Naramuhim tinha feu arrayal no paffo do vao per onde determinaua de entrar fua gente em Cochim receouho, porque fabia que era hum dos mais efforçados caualeyros que auia em todo Malabar, & muyto ditofo na guerra: & coefte receyo mais que com vontade de fazer comprimentos cõ el rey de Cochí, lhe mãdou efta carta. «Muyto trabalhei por efcufar efta guerra contigo, fe quiferas temperar tua foberba com fazer o que te pedi, pois era tão jufto & proueitofo pera
  • 110 Historia da índia todos: & porque efta nolia rotura fe não acrecente mais, te faço faber que fou vindo a Repelim com grande exercito pera entrar em tua terra a tomar os frãgues com todas fuas mercadorias. Porem querote primeyro auifar, pera q mos mandes: & fe ho fizeres perderey ho odio que te tenho pelo paliado: & fe não prometote de te tomar a terra, & meter a efpada todos os feus moradores.» EI rey de Cochim pofto que eftaua tão mingoado de gente, & via que poderia fer o que el rey de Calicut dizia não fe mudou de fua deter¬ minação, & refpondeolhe efta carta. «Se o que me pedes com tanta foberba, me reqreras por mais brã- das palauras não te teuera por menos efforçado do que cuydas que te poderey ter, porque onde ha faber ou efforço não ha defcortefia nem mao infino: eftas fam as coufas que Deos não fofre, nem eu ho tenho tão agra- uado q cofinta tãto é meu dãno, q a vitoria defte feyto nã feja minha, & deftes efforçados homés que eftão comigo, tu fejas muy bem vindo com todas tuas foberbas, que eu creo que elas com a jufta caufa que tenho abaftarão pera me defender de ti, & doutros meus immigos: que não acharas nunca tão fraco que faça coufa tão vergonhofa como me pedes: & fe tu coftumas tais entregas, eu as não coftumey nunca, nem as ey dacoftumar, dos frangues, nem de coufa fua não faças conta, porque os hey de defender: por iffo não me mandes mais recado.» Coefta repofta jurou el rey de Calicut que auia de deftruyr el rey de Cochim, & partiofe logo de Repelim, que foy ho derradeyro dia de Março, & entrou em terra del rey de Cochim, em que não fez nhú dãno por os fenhores daquelas comarcas ho ajudarem. E aos dous Dabril eftando ja muyto perto do vao onde eftaua Naramuhim algús capitães efforçados na muyta gente que tinhão quiferão entrar ho paffo, & ele lhes defendeo a entrada, matãdolhe muyta gente. O que el rey de Calicut teue a mao final: & com tudo defpois daflentar feu arrayal, mandou ao outro dia ho fenhor de Repelim com dobrada gente da que fora ho dia paliado, & muyta outra por mar em paraós, parecendolhe que tomaria ho palio, mas não foy aífi, porque Naramuhim ho defédeo cõ muyto efforço, & ajudouho Lourenço moreno com algús dos Portuguefes, que também ho fez como muy valente caualeyro: & afti em outras muytas pelejas que defpois ouue Naramuhim com os immigos, em que fempre foy vencedor, fazendolhes muyto grande danno de mortos & de feridos. O que vendo el rey de Calicut, como era incoftante arrependiafe de ter começada a guerra que cuydaua de logo em chegãdo ao paífo ho entrar. E por ifto mandou algús recados a el rey de Cochim fobre lhe entregar os nolios. Ao q lhe ele refpõdeo, que pois fora confiante em lhos não dar quando
  • Livro I, Capitolo LIII iii tinha rezão de recear feu poder, que faria então que eftaua muyto dauan- tajem, que oulhafle por fi: porque fe não auia de contentar com defender fua terra, fe não com ho defbaratar de todo, o que ouuera de ter effeito, fe os defleais de feus vaífalos ho não deixarão: coefta repofta ficou el rey de Calicut aífombrado, & quafi que perdeo a efperança da vitoria, & fe não fora por amor dos feus deixara a guerra, & confelharanlhe que man- dafle faltear algús lugares de Cochim que eftauão ao derredor, porque Naramuhim lhe mandaíTe acodir, & ficaffe com menos gente, & que aífi ho poderião defbaratar. E com todos eftes ardis não pode fer, porque Naramuhim era de marauilhofa diligécia neftas coufas, & afli acodia a tudo que parecia que nunca faltaua onde era neceffario, & de todas eftas vezes el rey de Calicut perdeo muyta gente. CAPITOLO .LIII. De como foy morto Naramuhim príncipe de Cochim por treyção del rey de Calicut. VEndo el rey de Calicut q não podião os feus capitães étrar ho paflò a Naramuhim ordenou de ho fazer entrar por treição: pera o que fe concertou fecretamente com hú Naire pagador do foldo dos Nai- res de Naramuhim a que deu muyto dinheiro, porque não mandaffe ao arrayal a paga do foldo que mãdaua cada certo dia, porque os Naires a foffem bufcar, & ficando Naramuhim com menos gente ele cometeffe ho paffo & ho étraffe. E afli ho fez ho Naire, mandando dizer aos do arrayal de Cochim que foffem receber ho foldo porque lho nã podia mandar, & eles forão húa noyte com licença de Naramuhim, encomendãdolhe muyto que tornaffem ante manhaã, o que eles não poderão fazer por lhe não pa- garé fe não bem de dia. E entretanto que eftauão em Cochim cometeo elrey de Calicut ho paflo com toda fua gete por mar & por terra, & com muyta artelharia que trazia: & como Naramuhim eftaua com menos ame- tade da gente que tinha & ho poder del rey de Calicut era mór do q nunca fora, étrou por força ho paffo. E defte impeto leuou Naramuhim ate os palmares: onde ele fez todos os feus em hú corpo & rompeo muytas vezes os immigos matando muytos, mas como tinha poucos cercarãno. E defpois de fazer muytas brauezas, foy morto de frechadas cõ dous feus fobrinhos também efpeciais caualeyros, & os feus fe defbaratarão logo, & ficarão no campo muytos mortos. E el rey de Calicut nã quis feguir os viuos por fer quafi noyte que ate então durou a batalha, & també dos feus forão mortos boa parte. E fabida efta noua por el rey de CochI,
  • 112 Historia da índia efteue hú pedaço fora de fi, & quafi q ho teuerão por morto: principal- méte os Portuguefes que eftauão coele, & os Naires não entenderão neles por acudiré a el rey, que doutra maneyra fegundo todos ficarão com aquelas nouas, & com ho mal que lhes querião nã fora el rey poderofo de os liurar da morte. E nifto tornou el rey a fi arrebentando em choro, & dizendo palauras que os noffos não entenderão. E tão defacordado eftaua que os não via, & preguntou por eles: & eles fe leuantarão então chorãdo com dó dele: que vendoos, lhes diífe que não ouueflem medo, porque nem aquela defauentura auia de ter poder pera ho fazer mudar do que lhes tinha dito, polo que lhe eles quiferão beijar a mão, & ele nã quis & fentindo ho aíuoroço que tinhão os feus contra os noífos, pera os aífeffegar lhes diffe. Agora que a fortuna fe moftra tanto cõtra mim, cuy- daua eu q como verdadeyros amigos & leays vaífalos auieys de trabalhar por me defagaftar: & vos como que feguis a parte del rey de Calicut acrecentais me a paixão que tenho, affi pela morte de meu irmão, & de meus fobrinhos como por ferdes contra os frangues, que vos tantas vezes encomendey, & que fabeis que muyto mais fétirey receberé qualquer offenfa de vos outros, de q fenti a morte de meus fobrinhos, porq eles morrerão defendendome, & vos com me offederdes perfeguis aos q eu tenho debaixo de meu emparo, & q me ficarão pera minha confolação, porque alfaz he grande pera mim em tamanha defauétura cuydar que me vem efte mal por fazer coeles o que deuo, & não creais que eles fam a caufa, ne que polos emparar fauorece Deos contra mí a el rey de Cali¬ cut, porque ho não faz fenão por offenfas q lhe tenho feytas, & quer que aja efta caufa pera as pagar, & que feja el rey de Calicut ho executor de fua juftiça, pera q tambe por outros peccados que fez os pague, por amor q me deftruye por goardar a fé aos eftrãjeiros & hofpedes (coufa a q todos temos tanta obrigação) por iíTo não vos pareça que por emparar os frangues recebo eftes caftigos, né cuydeis que el rey de Calicut me pode deftruir de todo, q ainda que me agora lançaffe fora de Cochim, nã tardara muyto a armada dos frãgues, & ho feu capitão mór me tor¬ nara a reftituir: & étre tãto recolhernofemos á ilha de Vaipí: & por fua fortaleza, & por ho inuerno que temos á porta efpero em Deos que efca- pemos del rey de Calicut. E pois eu que perco mais que vos me confolo coifto, cõfolaiuos vos, & não acrecéteys minha trifteza com ho aíuoroço que fazeys. Vendo os feus fua grande conftancia muyto efpantados dela affeffegaranfe do aíuoroço que tinhão contra os noífos, prometendolhe de comprir feu mandado, & alli ho fizerão. E foy tamanha a cõftancia del rey que mandandolhe ainda el rey de Calicut cometer q lhe defle os noífos, & que defiftiria da guerra, não quis: refpondendo q ele tinha a
  • Livro 1, Capitolo LIII 113 vitoria mais por treyção que por valetia: que fe fora por ela feu irmão, nem feus fobrinhos não morrerão, mas matarão a que os quifera matar: & pois eles erão mortos não fentia perder Cochim, porque os frangues que efperaua muy cedo ho reftituirião & vingarião dele. O que fabido por el rey de Calicut, mandou logo deftruir a terra a fogo & a fangue, de que foy ho medo tamanho nos moradores de Cochim, que os mais fugirão da cidade: & de volta coeles fugio ho terceyro príncipe de Co¬ chim, parecendolhe que el rey de Calicut ho fizeífe rey, & afli fugirão dous milanefes lapidairos que eftauão com ho feytor, que fabiã fundir artelharia, hum chamado Ioão Maria & outro Pedro Antonio: eftes difle- rão a el rey de Calicut ho medo que ya em Cochim, & quão pouca gente el rey tinha pera fe defender, pelo que determinou de ir fobrele, & par- tiofe logo: & el rey de Cochim lhe fayo ao encontro com a gente que tinha & com os Portuguefes que aquele dia fizerão coufas marauilhofas é húa batalha que os reys fe derão, em q el rey de Cochí foy ferido & defbaratado. E por ficar ferido & ter perdida a maior parte de fua gete nã quis dar outra, & paffoufe a húa ilha chamada Vaipim q eftá defronte de Cochim que os Malabares tem em grãde veneração por fer antreles coufa fanta: & era feu coilume que quem fe ali acolhia nã podia receber nhú mal, & leuou configo os Portuguefes & a feytoria. E vendo el rey de Calicut que era ali acolhido, nã curou mais dele, mas mandou quey- mar Cochim, & por étrar ho inuerno fe recolheo a Crãganor, deixando em Cochim gente de guarnição em tranqueyras que mandou fazer. E ficãdo os Naires de Cochim muyto triftes pela morte dos príncipes, & por feu rey fer vecido. Quatorze deles q ho mais íintirão determinarão de vingar efta injuria, & morrer fobriflo, & afli ho jurarão, & deixarã crecer os cabelos das barbas & das cabeças. E a eftes taes chamão na lingoa Malabar Chauer que na nofla quer dizer morto, & afli fe tem eles por mortos quando aflentão em tais determinações, & geralmente lhes chamão na Índia Amoucos, & eftes fã muyto temidos dos outros homês porque fabem que vão a morrer, & por medo da morte nã hão de deixar de matar quem quiferé. Eftes quatorze Amoucos partirã de Vaipim cõ determinação de fazere a el rey de Calicut todo ho mal q podeflem: & dando no feu arrayal que tinha em Cranganor lhe matarão muyta géte, & vendo que fe punhão em orde de lhes refiftir paflarão a Calicut: & entrãdo de fupito matarão muytos dos feus moradores & queimarão parte da cidade, & a gete matou onze deles, & os outros fe recolherão a húa ferra, õde andarão cinco anos, de que os de Calicut auião medo grandif- fimo, polos fupitos rebates que lhes dauão. E defpois de receberem deles muyto dãno acabarão as vidas. ■ 5 Tono I
  • Historia da índia 114 CAPITOLO .L1111. De como fe perdeo Vicente fodré & outros em Curia muria. PArtido Vicente fodré cõ fua armada do porto de Cochim fem querer dar ajuda a el rey, né aos noffos que eftauão na feytoria, foyfe na volta do reyno de Cambaya em bufca das naos de mouros q viefle do mar roxo a Calicut que vinhão muyto ricas. E na cofta de Cambaya tomou por força darmas cõ ajuda dos outros capitães cíco naos deitas que digo, em q em dinheiro fe tomarão paffante de duzétos mil pardaós, & a moor parte dos mouros forão mortos, & as naos queimadas. E dali fe foy a húas ilhas chamadas Curia muria que eftão ao mar do cabo de Goardaíu pera confertar feus nauios por fazeré muyta agoa & chegou a víte Dabril de mil & quinhentos & tres. E cõ quanto as ilhas erão pouoa- das de mouros fayo em terra, porq os moradores nã erão homes de guerra, ãtes cõ medo fizerão muyto bõ recebiméto aos Portuguefes védé- dolhes mãtimétos & cõuerlado coeles. E tedo Vicéte fodré húa carauela tirada a mote, dilTeranlhe q no mes de mayo fobreuinha ali tamanha tor- méta de veto norte q nã auia nao qfteuefle no porto q nã deífe á cofta & por iífo não paraua ali nhúa naquele tempo: & que afli ho deuia ele de fazer, & mudarfe pera a outra banda da ilha abrigada de norte: & paf- fada a tormenta tornaria a furgir ondeftaua. E cuydando ele que lhe qrião fazer algúa treyção por feré mouros, nuca fe quis mudar, dizédo q as naos que dauão á cofta erão as q tinhão ãcoras de pao, & as fuas erão de ferro, & por mais que os mouros ho tornarão a perfuadir nunca quis mudarfe: o que não fizerão Pero rafael, nem Fernão rodriguez badarças, né Diogo pirez que logo fe mudarão ho derradeyro Dabril: & Vicente fodré & feu irmão ficarão, & quando a tormenta veo as fuas naos derão á cofta, por mais ancoras que tinhão & forão efpedaçadas: & foy morta muyta géte: antre ela morrerão os dous irmãos & perdeofe tudo quanto eftaua nas naos. E os nauios de Pero rafael & de Fernão rodriguez & de Diogo pirez efcaparão õde fe acolherão & afli a carauela de Pero dataide que eftaua a monte. E bem lhes pareceo q a perdiçã dos dous irmãos, fora pelo peccado que fizerão é nã acodir a el rey de Cochim, & deixaré os Portuguefes em tamanho perigo como ficauão: & por iffo determina¬ rão de fe tornar a Cochim pera os ajudarem fe diífo teueflem necelfidade. E fizerão capitão mór a Pero dataide, & partirã na entrada de Mayo, & por ho inuerno da índia lhe fazer ja rofto paffarão na viagem muyto grã- des tormentas com que fe virão quafi perdidos: & não podendo arribar a
  • Livro I, Capitolo L V 7/5 Cochim tomarão Anjadiua: onde lhes foy forçado inuernarem por amor do tempo. E paífados tres ou quatro dias que ali chegarão, chegou tam¬ bém húa nao de que era capitão Antonio do campo, que indo com dom Vafco da gama lhe morreo logo ho piloto: & por iffo foy lepre ao longo da cofta, pelo que fe deteue tanto, & com muyto trabalho chegou a An¬ jadiua, onde inuernarão todos, com aífaz de fadiga, por não terem que comer. CAPITOLO .LV. De como partirão pera a índia por capitães móres de tres armadas Francifco dalbuquerque, & Afonso dalbuquerq, & Antonio de fal- danha. NEste anno de mil & quinhentos & tres, parecédo a el rey de Por¬ tugal, que ho Almirante dõ Vafco da gama deixaria adernadas pacificamente as feytorias de Cochim, & de Cananor, & que não aueria necelfidade de mandar grande armada, não quis mandar mais de feys naos repartidas em duas capitanias. Das primeyras tres foy capitão mór hú fidalgo chamado Afonfo dalbuquerque, que defpois gouernou a índia, como direy no terceyro liuro. E forão feus capitães Duarte pacheco pereyra de que faley atras, & Fernão martíz Dalmada que dize que mor¬ reo na viagem de gordo: & efte partio logo. Das outras tres naos foy por capitão mór Francifco dalbuquerque que foy feu primo Dafonfo dalbuqrq. Forão feus capitães Niculao coelho, que foy no defcobrimento da índia, & Pero vaz da veiga. Outra armada de tres naos partio també pera deí- cobrir ho eftreito do mar roxo, & efperar na boca dele as naos dos mouros de Meca: & defta foy capitão mór hú fidalgo Caítelhano cha¬ mado Antonio de faldanha, & forão feus capitães Ruy Louréço rodrigue2i rauafco, & Diogo fernandez peteyra. E eíla armada partio defpois das duas, de q a Dafonfo dalbuqrq partio a feys Dabril, & a de Francifco dalbuquerque a quatorze. E aífi hús como os outros paliarão no caminho muytas tormentas, cÕ que fe perdeo Pero vaz da veiga. E Francifco dal¬ buquerque q partio derradeyro chegou primeyro q Afonfo dalbuquerque cÕ Niculao coelho a Anjadiua em Agofto: onde ainda achou Pero dataide, & os outros capitães q hi inuernarão, de que fabendo a guerra que era declarada del rey de Calicut, & del rey de Cochim fobre os noffos, foy logo com toda a frota que era de feys velas, pera Cananor, pera hi faber o que paífaua e Cochim. E em Cananor fizerão os noffos grande fefta com fua vinda. E el rey foy falar ao mar a Frãcifco dalbuquerq, & cõtou- lhe o que fucedera em Cochim, & onde el rey eftaua. E fabido ifto par-
  • Historia da índia 116 tiofe logo pera Cochim, & chegou quafi noyte, a hú fabado dous de Setembro do mefmo anno. E logo foy vifto por el rey ter vigias, q ja fabia lua vida. E foy a feita rnuyto grande em Vaipim por fua chegada, não fomente em el rey & nos Portuguefes, mas em todos os moradores de CochI: & fazião grãdes tangidas, & folias: em que logo os de Calicut que eltauão nas tranqueyras atentarão. E fabedo a caufa diffo, como foy noyte fugirão pera Cranganor, & adi ho tinha mandado el rey de Calicut, que també fabia a vinda do capitão mór pela via de Cananor, dõde foy auifado. E ao domingo como foy manhaã Frãcifco dalbuquerque foy fur- gir na boca do rio de Cochim: & el rey ho mãdou vifitar polo nofTo feitor. E a fegunda feyra pela manhaã deixando Francifco dalbuqu'erque as naos a recado fe foy nos bateis armados a Vaipim: & aífi leuou configo as duas carauelas pera lhe ajudaré, fe vieffem paraós de Calicut. E indo hú pedaço das naos chegou Duarte pacheco: que fabendo ao que ya Fran¬ cifco dalbuquerque fe lançou logo no feu batel com algúa gente, & partio apos ele com tãta preffa dos remeyros, que ho alcançou antes de chegar a Vaipim, onde ho el rey de Cochim eítaua efperando á borda dagoa cõ os Portuguefes, & com quanta gente eítaua recolhida na ilha. E era ho prazer tamanho em todos, que vendo el rey de Cochim os noffos bateis começou de bradar alto, Portugal Portugal: & ajudouho toda a outra gente. E os Portuguefes dos bateys refpõderão pelo mefmo modo, Cochim Cochim a pefar de Calicut. E quando Francifco dalbuquerque faltou em terra, el rey ho leuou nos braços com as lagrimas nos olhos de prazer, dizendo que nã queria mais vida que ate fer reltituydo em Cochim, pera que foubeffem os feus quanta rezão teuera de paífar tanta fadiga por em- parar os noffos, & feruir a el rey de Portugal: em cujo nome lhe ho capitão mór deu muytos agradecimentos, & lhe prometeo vingãça de feus immigos: & de fua parte lhe deu dez mil cruzados pera gaitar entre tanto q não recolheffe fuas rédas: & iíto do cofre que leuaua. O que el rey de Cochim teue em rnuyto, porque eítaua muy pobre. E os feus teuerão aquilo por grandeza: & foy rnuyto falado antreles & ja lhes parecia bé fazer el rey o que fizera polos Portuguefes. E logo el rey foy leuado a Cochim, & entrou com grande alegria que fazião os feus: & os noffos que dali por diante forão rnuyto bé quiítos dos de Cochim. E não tardou nada que as nouas del rey eítar détro forão a el rey de Calicut, & dos cruzados que lhe dera ho capitão mór. E vendo que a guerra fe apare- lhaua mãdou algús Caimais pera fuas terras por confinarem cõ as del rey de Cochim.
  • Livro I, Capitolo L VI 117 CAPITOLO .LVI. De como Francifco dalbuquerque começou de fa\er guerra aos inimigos del rey de Cochim. MEtido ei rey de poffe de CochI, Frãcifco dalbuquerq fe defpedio dele, pera aída dali ate noyte lhe dar algúa vingança de feus im- migos, & foyfe á ilha que eftá defronte de Cochim. E como os moradores dela eítauão bé fora de ferem cometidos aquele dia, tomarã- nos os noifos de fobrefalto, & fizerão neles grade matança, & queimarão algúas pouoações, & defpois fe embarcarão fem nhúa afrota. E indofe Francifco dalbuquerque pera a frota, diffe a el rey o que fizera. E ao outro dia tornou á mefma ilha pera a deftruir de todo. E leuaua feyfcen- tos homes, que tantos tinha com os dos nauios q achou: & yão coele todos os capitães. E ho Caymal da ilha 0 eftaua efperãdo á borda dagoa cÕ obra de dous mil Naires, os mais deles frecheiros, & os outros de lanças, defpadas, & efcudos: que trabalhou quãto pode por tolher a de- fembarcaçã aos Portuguefes, q fem receberé nhú dãno fizerão muyto nos immigos com as fetas: & os fizerão fugir, indo apos eles ate a outra bãda da ilha: & forão tão apertados q não teuerão outro remedio fe não lan- çarfe ao mar. E ficando muytos mortos, & feridos: & não tendo os noffos com quê pelejar, poferão fogo ás pouoações da ilha, & deítruirãna toda. E ao outro dia foy Francifco dalbuquerque a outra chamada Charauai- pim, que era dú Caimal vaffalo del rey de Cochim, que fora é ajuda del rey de Calicut: porque por efpias del rey de Cochim fabia que eftaua ho Caimal bé apercebido pera fe deféder: & tinha tres mil Naires, fetecen- tos frecheiros, & corenta efpingardeyros: & fuas cafas fortalecidas cõ tranqueyras. E afíi tinha por mar algús paraós artilhados, que lhe dera el rey de Calicut. E eftes eftauão no porto, onde os Portuguefes auião de defembarcar, pera lhe tolher que não étraffem nele. E fobre iffo ouue grãde peleja de bombardadas: & os Tmigos por derradeyro fugirão, & os Portuguefes ficarã no porto, onde eftauão metidos nagoa ate á cinta grande numero dos Imigos, defendendolhes que não pojafTem em terra, tirãdolhe muyta forna de frechas, & de lanças, & infindas pedradas. Mas como a noífa artelharia começou de jugar, fe afaftarão pera ho fertão: & feytos ali em corpo, derão affaz q fazer aos Portuguefes no defembarcar: por¬ que fe defédião muy rijo. E por mais q apertauão coeles, nunca deixarã ho cãpo de golpe, fe não pouco a pouco fe forão recolhendo aos palma¬ res. E ali com ho embaraço que as palmeiras fazião fe defenderá hú pe-
  • 118 Historia da índia daço, & defpois fugirão fem nhúa ordé: & os noffos ho feguirã. E indo no encalço ho condeftabre de Francifco dalbuquerq, que fe chamaua Pero de lares fe achou fó cõ tres Naires que virarão a ele, & hú deles lhe deu húa frechada nos peitos: & por amor dhú peito q leuaua lhe nã fez nojo: & é ho Naire deffechando, deffechou ele húa efpingarda que leuaua de tres tiros, & todos ceuados: & deu ao Naire pelos peytos, & vazouho da outra parte: & logo deffechou outra vez em hú dos dous q ficauão & ma- touho: & nifto ho ferio ho terceyro cõ a agumia c húa perna, & quifera fugir, & Pero de lares ho matou cõ a efpada. E defbaratados os Tmigos, poffe Francifco dalbuquerque em caminho pera as cafas do Caimal, que tinha recolhida nela fua gente, & eftaua forte cõ tranqueiras. E leuaua os capitães repartidos por ãbas as bandas da ilha, cada hú cõ fua gente: & polo meyo da ilha a gente de Cochi. E nefta ordem yão todos quei¬ mando, fem auer quem lhes refiftiffe. E indo nefta ordenança fobriuierã algús paraós de Calicut da bãda da ilha, por onde ya Duarte pacheco: & por ferem muytos faltarã em terra, & pelejarão coele, de maneyra q foy neceffario acodir Francifco dalbuquerq com a gente de fua capitania, & por achar muyto mais dura refiftencia nos Tmigos do que cuydou: & fe temeo que acodiffe ho Caimal cõ toda a gente q tinha: que ho poeria em muyto grãde trabalho. E mandou a Niculao coelho, q cõ Antonio do cãpo, & Pero dataide, foffe dar nas cafas do Caimal, ho que logo foy feyto. E Niculao coelho foy ho primeyro q chegou ás tranqueiras q ho Caimal tinha feytas diãte das fuas cafas pera as ter mais fortes. E foy aqui a peleja muyto grande, que antre os immigos auia muytos frechei¬ ros, & cõ tudo os Portuguefes pelejará cõ tamanho efforço, que entrarão as tranqueiras. E ho primeyro q fobio foy hú Garcia mendez morador na vila de Santaré, efcriuã da nao de Antonio do cãpo. E entradas as tranqueiras, os noffos forão apos os Tmigos ate as cafas do Caimal, que hi foy morto defendédofe muy bem. E affi forão mortos & feridos muy¬ tos dos feus, & as cafas roubadas. E dos noffos forão feridos dezoyto, & hú morto. E no efpaço em que ifto paffou Francifco dalbuquerq, & Duarte pacheco defbaratarão os da armada de Calicut, ficando na praya muytos mortos, & feridos: & os outros fe recolherã aos paraós & fugirão. E per memória de tamanho feyto como efte foy, armou Francifco dalbu¬ querque ali algús caualeyros, que certo ho feyto foy pera iffo: porque de tres mil Naires q ho Caimal tinha, os menos efcaparão: & a ilha foy toda deftruida a ferro & a fogo. E affi ficou el rey de Cochim bem vin¬ gado do Caimal.
  • Livro I, Capitolo L VII ”9 CAPITOLO .LVII. De como Francifco dalbuquerque começou de edificar lio cafielo Manuel. DEspois difto, determinado Francifco dalbuqrque, de fazer guerra ao fenhor de Repelim, partiofe húa noyte cõ os outros capitães pera hú lugar feu, que efta quatro legoas de Cochim, onde che¬ gou ao outro dia as oyto horas. E eftauano efperando á borda dagoa bem dous mil Naires: de que os quinhetos erão frecheiros. E chegando a tiro de berço de terra defpararã fua artelharia, cõ que fizerão defpejar a praya aos immigos, & recolherfe aos palmares: & ali efperarão Fran- cifco dalbuquerq: que deíêbarcado cõ os noífos, os foy cometer, indo Niculao coelho na dianteyra, q logo cõ os feus deu nos ímigos, & apos ele outros capitães. E nefte primeyro encontro forão feridos algús dos noífos, de frechadas q os Tmigos tirauão detrás das palmeiras, cõ que fe emparauão: pelo que vendo os Portuguefes q lhe nã podião por diante fazer nhú nojo, cometerãnos de traues, tirãdolhe cõ as béftas, & efpin- gardas, & derribando algús os fizerão fugir pera ho lugar, ate onde os forão feguindo: & no lugar fizerão neles muyto mór deltroço que no cãpo, onde andauão efpalhados: porq ali tomauãonos juntos nas ruas, & podiã- nos melhor ferir: & matarão muytos, & outros fugirão. E ficãdo ho lugar defpejado foy qimado, roubãdoho primeyro os Naires de Cochim, a que Francifco dalbuquerq daua a faco todos eftes lugares, porq viffem os ími¬ gos, que não fazia a guerra por via de roubar, fe nã pera vingar el rey de Cochim. Que quando ele tornou coefta vitoria, lhe fez muy alegre recebimento: & rogoulhe que fe não pofeífe em mais trabalho, que fe daua por vingado. E ele lhe dilfe, q pofto que fe deffe por vingado, ele não eftaua fatiffeyto, que ho deixaffe pelejar, q nã auia por trabalho fer- uilo. E vendo quão contente el rey eftaua, pediolhe licença pera fazer húa fortaleza de madeyra: porq defpois q fe partiffe pera Portugal ficaífe a feytoria del rey feu fenhor fegura, & alli os noífos: & q efte feria ho mór feruiço que poderia fazer a el rey feu fenhor. Ao que ele refpõdeo, q a el rey de Portugal defejaua ele de fazer outros móres feruiços q aquele. Porque de fua mão fazia conta q tinha Cochim, pois ele q era vaífalo lha reftituira, que podia fazer fortaleza, & quãto quifeffe: & que logo a mandaria fazer á fua culta. Auida efta liceça, acordou cõ os outros capitães que fe fizeífe a fortaleza a borda do rio de Cochim, acima da cidade pera ho fertão, porq hi eftaua mais fegura: & defenderia que nã
  • 120 Historia da índia entraffem as armadas de Calicut. E por não terem pedra, né cal, né offi- ciais que a fizeflem, né outros materiays neceflarios, fizerãna de madeira, que el rey mandou cortar em abaílança, affi de palmeiras, como doutras aruores. E deu muyta géte pera fazer a obra, dizendo que nã queria q os noífos trabalhafTem: porq bé lhes abaítaua ho trabalho da guerra: & cõ tudo eles não deixarão de trabalhar. E os capitães fe repartirão cÕ fua gente: & começarão a fortaleza a vinte feys de Setébro do mefmo ãno, de mil & quinhétos & tres. E el rey ya muytas vezes ver como traba- lhauão, & folgaua muyto de ver a diligencia dos noíTos no trabalho, & dizia que nã auia tays homés no mundo, porq erão pera tudo. CAPITOLO .LV111. De como Afonso dalbuquerqne chegou a Cochim. AUendo quatro dias q a fortaleza era começada, chegou Afonfo dal- buqrque, q com tromentas & tépos contrairos não pode chegar mais cedo: pore trazia a fua gente faã, de que Frãcifco dalbuquerq ficou muyto ledo: & logo lhe deu parte da fortaleza pera a fazer cÕ os da fua nao. E com fua vinda fe acabou em breue tempo: & por fer de madeira era tão forte & fermofa, como podia fer outra de pedra & cal. Era feyta em quadra, & tinha o vão de noue braças de largo, & de cõ- prido as paredes erã de duas andainas de palmeiras, & outras aruores fortes metidas no chão percintadas, com percintas de ferro muyto fortes, pregadas cõ pregos muyto grandes: & ho vão dantre as andainas era entulhado de terra & area. E deftas andainas, tinha dous baluartes em cada canto, & todos bem artilhados, & era cercada de caua q fe enchia dagoa. E ao outro dia defpois que foy acabada fizerão Frãcifco dalbu¬ querq, & Afofo dalbuquerq húa prociffão, em q ho vigairo da fortaleza leuaua hú Crucifixo debaixo dú palyo, indo diante os trombetas tangendo cõ grande feita. E coefta folénidade entrarão na fortaleza, que ho vigairo benzeo: & lhe foy poíto nome Manuel, por honrra de noífo Senor, & por memória del rey dom Manuel, de qué erão vafTalos aqueles que a edifi¬ cará. Beta a fortaleza foy dita húa miífa cantada, & pregou hú frade de fam Francifco chamado frey Gaftão: & diffe quantas graças deuião de dar a noífo Senhor, por permitir que dú reyno tão pequeno como ho de Por¬ tugal, & da fim do occidente foffem Portuguefes a terra tão longe, como era a Indea, fazer fortaleza antre tanta multidão de Imigos de fanta fé catholica, q prazeria a noífo Senhor q aquela feria começo doutras muy¬ tas. E afli diffe a muyta obrigaçã q os noíTos tinhão a el rey de Cochim,
  • Livro I, Capitolo LIX 121 pelo que fizera por feruir a el rey de Portugal. Ho q el rey de CochI efti- mou muyto quãdo ho foube. E acabada a fortaleza tornarão Francifco dalbuquerq, & Afonfo dalbuquerq, a profeguir a guerra, contra os ímigos del rey de Cochim: & fora dar em húas pouoações que eftauã na borda dagoa cinco legoas de CochI, porq fabião por fuas efpias, q auia ali pou¬ cos Naires. E partirá pera lá cõ fetecétos dos noífos duas horas ante ma- nhaã, ás noue do dia chegarão ás pouoações, em q aueria pafTante de feys mil almas, afora os meninos, & os Naires de goarnição, que ferião trezétos, & todos frecheiros. Afonfo dalbuquerq defembarcou na primeyra pouoaçã cõ algús capitães, & Francifco dalbuquerq cõ os outros em ou¬ tras, hú tiro de falcão defta. E como tomarã os ímigos de fobre falto, fizerãnos logo fugir: & mais porq em defembarcando foy pofto fogo a tudo. E vendo os noífos fugir os ímigos, feguirão apos eles & matarão muytos, & canfando de os feguir deílruirão a terra, q nefte tépo foy toda apelidada pelos ímigos. E como he muyto pouoada ajútarãofe bé ieys mil Naires, & derão fobre os noífos ao embarcar, & apertarãnos muyto: principalmente a Duarte pacheco, que não achou ho feu batel onde ho deixou. E carregará tão rijo fobrele & fobre os feus, q lhe ferirã oyto cõ frechas, ainda q fe defendiã valentemente: & fazião grande matança nos ímigos. Mas como eles erã muytos ê demafia tratauãonos defta maneyra: & tratarãnos peor, fe na focorrerão os outros capitães móres, q eftando embarcados fe tornarão a defembarcar. Ho q vendo os ímigos fugirão, deixando ho chão cuberto de mortos & de feridos, que cairão cõ as efpin- gardadas, & fetadas. E fugidos queimarão os Portuguefes quinze paraós que eftauã varados, & tomarão fete q eftauão no mar, & forãfe, dando grandes apupadas como q zombauão deles. O que ho fenhor de Repelim cuja a terra era fentio muyto, & mais por quão mal prouido ho acharã. E temendo q os Portuguefes' foífem fobre outra pouoação q eftaua húa legoa daquelas pelo rio acima, a proueo de gente de guerra. CAPITOLO .LIX. Do q Duarte pacheco fe\ em Repelim, & em Cambalão. ESabédo Francifco dalbuquerq, & Afõfo dalbuquerq defte lugar, de¬ terminará de ho deftruir: & aqla mefma noyte partirão, & forão repoufar diãte da noífa fortaleza ate a mea noyte, porq chegaífem em amanhecendo ao lugar a que yão. E cõ quanto fazia efcuro partirã a eftas horas: & como fe não vião hús aos outros: receando Afonfo dalbu- querque de ficar atras, mandou apertar ho remo, & coifto fe adiantou Tomo I 16
  • 122 Historia da índia tanto de todos, q chegou ao lugar hú grade pedaço ante menhaã: & en- fadãdole defperar diffe aos feus q deffem no lugar, & ho queimaflem, porq por os immigos eftaré defcuydados de fua vinda ho farião leue- mente, & afíi ho fizerão. E fentindo os Tmigos ho fogo leuantarãfe logo & acodirãlhe: & indolhe acodir, derã os noffos neles & matará algús, & os outros fugirá, porq erã gente mezquinha & não tinhã armas. Pore os Naires q eftauão em goarda do lugar q erão dous mil acodirão logo, & começarão de pelejar muy brauamente, & tãto q conueo a Afonfo dalbu- querq mãdar recolher os feus, porq não feriã mais que quareta, de q lhe matarã hú, & os outros eftauão muyto feridos de frechas: & ouuerãlhos de matar todos fe fe não recolhera, o que fez cõ muyto grande trabalho, né ho poderá fazer fe os grumetes que ficarão no feu batel pofferão fogo a hú falcão, de cujo medo em defparãdo fe afaftarão os Tmigos, & nifto amanheceo, & chegou Frãcifco dalbuquerq: & quando foube o q paffaua, mãdou defparar toda a artelharia dos bateis, pera fazer afaftar os Tmigos que eftauã na praya. E eftãdo affi quifera Duarte pacheco defembarcar hú pouco afaftado dõde os outros eftauão, & indo pera defebarcar achou muytos Naires de peleja, q palfauão per hú paflo muyto eftreito pera ire ajudar. E como aquilo vio, mandou poer ho batel perto daquele paflo, & cõ a artelharia lhe tolheo q não pafaflem, ao q logo acodirão os noffos, & pojarão todos em terra, & dando nos immigos os fizerão fugir: & por não faberem a terra os não feguirão, & queimarã ho lugar. E Duarte pacheco & Pero dataide, fe apartarão com fua gente, pera irem queimar outro q eftaua mais acima, & de caminho defbaratarão dezoyto paraós darmada de Calicut, & queimado o lugar a que yão tornarãfe pera os ca¬ pitães móres. Que por fer ainda cedo fe forão a ilha de Cãbalão pera a deftruir: por ho feu Caimal fer immigo del rey de CochT, & queimarã húa grãde pouoaçã. E Duarte pacheco cõ feys paraós de CochT foy quei¬ mar outra, pelejando primeyro hú pedaço cõ muytos dos Tmigos, de q matou algús: & queimado ho lugar fe recolheo cõ os feus, de q lhe feri¬ rão fete: & recolhido pelejou com treze paraós de Calicut, q defbaratou, cõ ajuda de Pero dataide & Dãtonio do cãpo que fobreuierã. E acolhen- dofe os Tmigos em hú efteyro entrou coeles Duarte pacheco, & fez varar hú paraó, & tomouo: & entre tãto fe acolherã os outros. E por os noffos teré os remeyros muyto canfados os não feguirã, & tornaranfe pera os capitães moores: com q fe forão pera Cochim. E dando conta a el rey do q fizerão, ele fe deu por vingado de feus Tmigos, & lhes rogou q nã fizeffé mais guerra.
  • Livro I, Capitolo LX 123 CAPITOLO .LX. De como Duarte pacheco desfbaratou trinta & quatro paraôs. COesta guerra q digo não auia quem oufaffe de trazer grão de pi¬ menta a véder a feytoria, ne os mercadores fe atreuião a bufcala, & cõ quanto nilTo trabalharão, não poderão auer mais que trezétos bahares dela, & mandarão dizer aos capitães móres q foffem por ela a noue legoas de Cochi: ho que eles logo fizerão, acopanhados dos outros capitães, & por não ferem íentidos partirã de noyte, & no caminho def- truyo Duarte pacheco húa ilha, pelejando com feys mil Naires, acompa¬ nhado fómente da gete da fua capitania. E os capitães móres defbaratarão trinta & quatro paraós dos Tmigos. E acabado ifto, forão Duarte pacheco, & Antonio do cãpo deftruir húa grande pouoaçã na terra firme, defbara- tando primeyro dous mil Naires, de q forã muytos mortos & feridos, & dos noffos nhú: & coefta vitoria fe tornarão pera os capitães móres, q mandarão logo pela pimenta que eftaua dali perto: & ja noyte fe parti¬ rão pera Cochi, donde auião de mãdar ho tone que leuaua a pimeta, car¬ regado de mercadoria a troco dela, & pera ir feguro mãdarã em goarda dele a Duarte pacheco cõ tres capitães: & leuaua cada hú cincoenta dos noffos, & dos de Cochi quinhetos. E partido Duarte pacheco paffou ante manhaã pelo paífo eftreyto q ja diffe: & por iffo não foy vifto, & fendo o dia bem claro, paffou pela boca dúa enfeada, onde eftauão frecheiros fem conto, q lhe tirarão com fuas frechas, & fe os bateis não forão apa- deffados receberão os noffos muyto dano, porq ho rio he eftreyto, & che- gauãlhe as frechas. E vendoos Duarte pacheco eítar apinhoados parecen- dolhe q lhes poderia fazer mal, deixou hú dos capitães em goarda do tone, & ele cõ os outros dous, feguindo hos de Cochi, poferão as proas dos bateis em terra, em que auia melhoria de dous mil homés, & man¬ dando jugar os falcões q leuauã, por proa derã pelos imigos, de q efpe- daçarão muytos, & os fizerão retirar tanto da borda dagoa, que aos noffos lhes ficou lugar pera pojare em terra fé perigo: & afli ho fizerão todos. E como os mais leuauão efpingardas, & béftas, forão dar fantiago neles, q ja fazião rofto, tirãdolhe tantas frechadas, q parecia toparéfe no ar húas cÕ as outras, & pelejarão valentemente hús & outros, & durou ãtreles quafi hú quarto de hora. E cõ tudo fugirão os imigos ficando muytos mortos porq não trazião armas defenfiuas: & os noffos os forão feguindo ate hú lugar que eftaua perto: de que fairão tantos Naires, q ajuntados cõ os que fugião, voltarão fobre os noffos & poferãnos en muy grande
  • 124 Historia da índia aperto por ferem bem feys mil homes, & muytos deles trabalhauão por fe meter antre ho rio & os nolTos pera lhe tolher que fe nã acolheffem a ele, ho que os noífos não confentirão cõ affaz de trabalho. E afli como defédião ho rio fe chegauão parele: no que fizerão todos muy grades façanhas, & como forão perto dele os que eftauão nos bateis fe apartarão 5 duas partes ficando húa rua larga por onde os noífos fe embarcalfem fem lhes tocar a artelharia: com cujo medo os Tmigos deixarão embarcar fem nhú fer morto né ferido, q pareceo milagre, fendo os immigos tantos 6 eles tão poucos. E dali por diãte ate ho tone fer em faluo não achou Duarte pacheco mais perigo, & tornandofe pera Cochim quafi ás dez horas do dia chegou ao paffo, por õde paífou de madrugada & achouho todo çarrado de trinta & quatro paraós que eftauão encadeados, bem for¬ nidos de gente darmas: prícipalméte de frecheiros: & cada hú tinha feu tiro por proa: & em ambas as pontas do pafTo em terra eftaua muyta gente que credo q os noífos auiã de fer ali mortos: ou tomados acodião a velo. E em os noífos aparecendo derão os Tmigos húa grande grita. Duarte pacheco q os vio mãdou ter os bateis: & juntos dilfe a todos. Se não foubera fenhores q ha dous mefes que pelejais coeftes perros, & q fabeis fuas rebolarias: & q os conheceis, aída q vos tenho por muyto efforçados, parecerame q vos pofera é afrõta eftaré como eftão, pore nã digo eu ha dous mefes mas efta manhaã deos feja louuado teueftes vos a barba a perto de fete mil de q deixaftes o chão bê cuberto de mortos: & afli fareis a eftes cõ ajuda de noífo fenor, porq pofto q efté embarcados a nolfa artelharia lhe arrobara os feus paraós: & como eles fã mais alte- rofos q os noífos bateis nã nos poderá fazer a fua outro tãto: por iífo cõ a cofiãça é noífo deos demos neles leuãdo noífos bateis ecadeados. Ao q todos refponderão q afl! feria bé: & q nã ya ali nhú q ouueífe medo a tais perros. E ecadeados os quatro bateis & os paraós de Cochim detrás defparãdo logo fua artelharia a tiro defpingarda forão cometer os paraós, bradãdo todos por Sãtiago, & os Tmigos derão també grande grita, & poferão fogo a feus tiros q paífarã por alto o q os noífos não fizerão antes arrobarão algús paraós ao lume dagoa & os defencadearão. E acabãdo efta çurriada eftauão os noífos a tiro de lãça dos Tmigos, q parece q cõ medo dos noífos os abalrroaré lhes derão lugar pera q paífalfé: o q eles fizerão de boa võtade, porq não cuydauão q lhes auia de fer tã facil. E toda via tirãdo a artelharia & arremeífos: & como paíTarão por eles vira- rãlhe logo as proas porq fe os feguiflem lhes tiraífe cõ a artelharia, q defpois de Deos ela era fua faluação, & fegundo os Tmigos erão muytos ainda ela não abaftaua pera os defender: principalmete de dez paraós q os feguiã muy brauamete, & os outros trabalhauão por fe ajútar coeftes,
  • Livro I, Capitolo LXI 125 mas não erão remeyros: & ifto valia aos noflos, q de quãdo em quãdo fazião arremetidas aos ímigos, porq não cuydaífem q lhe fugião. O q lhe ouuera de cuftar a vida, porq neftas arremetidas os outros paraos os alcã- çarã, & cercarão é redõdo & apertauãnos cõ frechadas & arremeflos, & feriãlhe algús: o q vedo os de Cochí fugirão pera lá q era perto: & dif- ferã como ficauã os noífos: ao q os capitães mores acodirão logo: mas ja feu focorro foi efcufado: porq os noífos meterão dous paraos no fundo em q morrerão quantos eftauão neles: & como nos outros auia muytos feridos & mortos fugirão, & os noífos ficarão quafi todos muyto feridos: & por iífo Duarte pacheco os não quis feguir, & foyfe pera Cochí. E no caminho achou os capitães mores q os yão focorrer, & cõ muyto grande prazer chegarã a Cochí onde lhes el Rey fez grande feita, muyto efpã- tado do que fez Duarte pacheco, & a ele mefmo rogou q lho cõtaífe. E dali por diante o teue em muyta cota. CAPITOLO .LXI. De como Afonso dalbnquerque foy carregar a Coulão & ajfentou feytoria. DO desbarato deites paraós foy logo auifado el rey de Calicut, aíli como ho era de todas as coufas q paífauão neíta guerra: de que tinha muy grãde cuydado por defejar muyto de lãçar os noífos da índia: a que naturalmente queria mal cõ medo que tinha de lhe tomarem a terra. E por iífo defejaua de os lançar dela: & ho procuraua com tanta diligencia, & aíli em lhes tolher q não ouueífem pimenta. Porque fazia conta, que não a leuãdo pera Portugal, feria caufa de não tornaré á ín¬ dia: pois eífa era a cor que dauão a fua vinda. E dali por diante proueo as armadas q trazia nos rios cõ tamanha força de gente, & tantas muni¬ ções, que nunca os noífos poderão auer mais de mil & duzetos quintais de pimenta dos quatro mil bahares q os mercadores tinhão prometido. E eíta foy auida cõ aífaz bõbardadas & lãçadas, & cõ infindo derrama- méto de fangue dos ímigos. E por derradeyro el rey de Calicut teue ma¬ neira cõ os mercadores de Cochim, que não deífem mais pimeta ao capitão mór, efcufandofe com a guerra. E de tal maneyra eftauão fobor- nados, que nem rogos del rey de Cochí, nem peitas de Francifco dalbu- querque os poderão mudar, pera que deífem pimenta. E defefperando de a auer em Cochí, foy Afõfo dalbuquerq, cõ Pero dataide, & Antonio do cãpo, a bufcar carrega á cidade de Coulão: porq fabia q feus rege¬ dores defejauão lá noífa feytoria, pelo offerecimento q mandarão fazer a
  • 12Ô Historia da índia Pedraluarez cabral, & ao Conde almirante. E leuaua determinado que quando lhe não quifeffem dar carrega, q lhe fizeffe guerra. Partido Afonfo dalbuquerque de Cochim com os capitães que digo, chegou ao porto da cidade de Coulão, que efta doze legoas de Cochí. Efta cidade como ja diffe, ãtes da edificação de Calicut, era a principal do Malabar, & ho mais groflo & rico porto de toda aquela cofta. E cõ tudo ainda he grãde & fermofa, fuas cafas, pagodes, & mefquitas, fam como as de Calicut, & te muyto bõ porto he muyto abaftada de mantimentos, & fão como os de Calicut. Seus moradores fã Malabares gétios & mouros: Os mouros fão muyto ricos, & grandes mercadores: principalmente depois q ouue guerra ãtre el rey de Calicut, & os noffos, q muytos mercadores de calicut fe forã lá morar. Tratã pera Choramãdel, Ceilã, ilhas de Maldiua, Bengala, Pegu, çamatra, & Malaca. Ho Rey defta cidade, he muv grande fenhor de terra: em q ha grandes cidades, & muyto ricos portos de mar, em que te grandes dereytos: & por iffo he muyto rico de tefouros, & muyto poderofo de géte darmas: de que a mór parte fam frecheiros. Traz fem- pre é fua goarda trezentas molheres, que tãbem fam frecheiras, & muy deftras em tirar. E trazé todas nas mamas húas fúdas de panos de feda: com que as trazem tão apertadas q não lhe fazem nhú nojo ao tirar. Té ho mais do tempo guerra com el rey de Narfinga: & dalhe affaz q fazer. Ho mais do tempo eftá em húa cidade chamada Cale: & tem regedores em Coulão: em q efta húa igreja que milagrofaméte fez ho apoftolo fam Thome, vindo ali pregar a fanta fé catholica. E fegúdo a gente da terra té, foy defta maneyra: amanheceo hú dia no mar hum muyto grande tronco daruore q encalhou na praya. E porque fazia nojo mandou el rey tiralo: mas nem géte, né alifantes ho poderão tirar tamanho era, que né fométe ho mouião. E vendo ho apoftolo que defefperauão de ho tirar, preguntou a el rey, fe tirãdoho lhe daria hú pedaço de chão em que fizeffe húa igreja é louuor de noffo fenhor Iefu Chrifto, q ho ali mandara. El rey fe rio dele védoho tão fraco como ele andaua da muyta auftinen- cia que fazia: & ele lhe refpondeo que ho poder de Deos com q ele efperaua de tirar aqle tronco era muyto mór que ho feu. El rey lhe pro- meteo o que pedia, fe ho tiraffe. Então atou ho apoftolo hú cordão, q trazia cingido em hú efgalho do tronco: & tirãdo por ele leuouho ate ho lugar onde queria. Do que todos fefpantarão: & muytos fe tornarão Chriftãos: & el rey lhe deu lugar pera a igreja, que ele logo começou de edificar. E por fer coftume na terra, que quando fe começa algúa obra, antes que os officiaes lhe ponhão mão lhe dão certo arroz: & defpois q começão lhe dã cada dia á noyte húa moeda chamada fanão q vai dezafeys reays. Quãdo ho apoftolo ouue de começar a obra cha-
  • Livro I, Capitolo LXI I27 mou os officiaes, & deu a cada hú tanta quantidade darea quanta lhe auia de dar darroz, que por virtude de noffo fenhor fe tornou nele. E def- pois q começará de trabalhar daua á noyte húa cauaca a cada official, & tornauafe fanão: de que todos fefpãtauão muyto: & dizião que aquele homem era fanto, & chamauãlhe Martama: & cada dia fe conuertião muytos. E ainda agora antre os gentios deite reyno auera bem doze mil calas de Chriftãos, que de geração em geração procederão deites. E té antre fi algúas igrejas: & iíto no fertão. Afli acabou ho apoltolo a fua igreja, que mandou enmadeirar daqle tronco. E vendo el rey de Coulão quantos fe conuertião por feus milagres, mãdouho lançar fora de fua terra. E ele fe foy a húa cidade chamada Malaipur, na mefma colta, & do fenhorio del rey de Narfinga. E ainda aqui por fer períTeguido dos gentios, fegúdo dize os Chriftãos de Coulão, fe apartaua foo pelos ma¬ tos. E andando afli dizem que hú gentio que andaua caçãdo vio eftar muytos pauões jútos no chão: & antreles hú muyto mór que todos, q eftaua fobre húa lagia, a q ho caçador fez hú tiro cõ húa frecha, & atra- ueífouho: & leuãtandofe cõ os outros tornoufe no ár corpo domé. Do q ho caçador efpantado 1'e foy contalo á cidade: de que veo ho gouernador dela velo: & vio q aqle corpo era ho de fam Thome: & na lagia eftauã figuradas duas pegadas domé. E ho gouernador ho mandou enterrar em húa igreja que ali fabricara. E enterrarãno feu difcipulos: & eles ieua- rão a lagia que tinha as pegadas, & poferãna junto da coua. E quando ho meterão nela nunca lhe poderão meter debaixo da terra o braço de- reyto. E afli efteue por muytos annos ate que ali forão Chis em romaria por ho terem por fanto. E quiferanlhe cortar ho braço pera ho leuaré em relíquias pera fua terra: & é ho querédo fazer écolheofe ho braço pera détro & nunca mais foy vifto. Efta igreja onde foy fepultado he feyta como as nolfas cõ cruzes no altar: & húa grande no meyo da abobada com pauões por diuifa: & eftá muyto dãneficada & cercada de mato, porq a cidade he defpouoada, & hú mouro pobre té cuydado dela por não auer na terra derredor Chriftãos: & pede efmola aos q ali vão é ro¬ maria afli Chriftãos como gétios: & os mouros lha dão tãbé por eftar na fua terra. Chegado Afõfo dalbuquerq ao porto delta cidade, & fabé- doho os regedores forão afletar coele paz a fua nao, q fe fez cõ cõdição q os noífos teueífé feytoria na cidade: & q pera aqlas naos lhe deífem carrega: no q fe logo étédeo. E no tempo q aqui efteue em quãto húa nao carregaua andauão duas, duas legoas ao mar: vigiando as q paífauão doutras partes & a todas fazião por bé: ou por mal q foífem feus donos falar a Afonlo dalbuquerq, & darlhe obediência como a capitão mór del rey de Portugal: & não lhe fazia nhú dãno fométe ás dos mouros do
  • 128 Historia da índia mar roxo, & a eftas queimaua defpois de faqadas por vingança do que fizerão a Pedraluarez cabral: do que os de Coulão auião grãde medo. E acabada a cafa da feytoria, & carregadas as naos deixou Afonfo dalbu- querq nela por feytor a hú Antonio de fá com dous efcriuães. f. Ruy daraujo, & Lopo rabelo, & ho Madeyra por lígoa, & frey Rodrigo por capelão, & Ruy dabreu, Pero loureço, & Gõçalo gil: & outros que per todos forão vinte, & deixãdoos em paz, partiofe pera Cochim. CAPITOLO .LXII. De como fe ajfetitou pa\ antre Francifco dalbuquerq & el rey de Calicut, & como foy quebrada. MUyto pefou aos mercadores mouros de Coulão do aífento.da noffa feytoria porq a fora ho odio q tinhão aos noflos parecialhes que os auião de fazer ir dali & trabalharão quanto poderão com el rey de Coulão: q não confentiffe a feytoria, & não ho podendo acabar meterão por terceyro a el rey de Calicut a quem efcreuerão o que paf- faua. Mas tã pouco acabou como eles do que ficou muyto trifte: & mais conheceo que pera lãçar os noflos fora da índia lhe aproueitaua pouco não os acolher é feu porto, pois os reys de Cananor, de CochI, & de Coulão os acolhião nos feus & lhes dauã carrega. E vio claramente que não tendo paz com os noflos perderia fuas rendas, porq os mouros que lhas dauão nã tratauão como dãtes cõ medo dos noflos. E tendo paz coeles tornarião a .feus tratos: & ele cobraria feus dereytos, de que tinha per¬ dido muyta parte. Pelo qual é todo cafo lhe conuinha ter paz com os noflos. E deitada efta cota, não quis dar parte dela fe não a feu irmão, q lhe acõfelhou q afli ho fizefle, dãdolhe pera iflo muytas rezões. E fecre- taméte mandarão recado a Frãcifco dalbuquerque fobre as pazes, com cõdição q pagaria em pimenta a fazéda que fora tomada a Pedraluarez cabral. E cõ o parecer dos outros capitães, & del rey de Cochim foy aflentada a paz cõ cõdição q el rey de Calicut mandafle defpejar fuas armadas q trazia pelos rios: & pela fazenda § fora tomada a Pedralua¬ rez defle quatro mil & quinhentos quintais de piméta pera os leuaré naquelas naos. E que auia de mandar entregar prefos em ferros os Iti- lianos arrenegados: & q nhúa nao de mouros de Calicut podefle nauegar pera ho mar roxo: & q auia de fer amigo del rey de Cochim. E coeftas condições foy feyto hú contrato de pazes antre el rey de Calicut, & Francifco dalbuquerque: fómente fe tirou a entrega dos dous arrenega¬ dos, em que el rey de Calicut não quis confentir. E tirãdo efta cõdição
  • Livro I, Capitolo LX1I 129 aífinou el rey ho cõtrato. E iíto foy feyto tão fecretaméte nunca ho fenhor de Repelim, nem nhú dos mouros ho fouberão fe nã defpois de feyto: do q eles ficarão muyto efcandalizados, & tão fofpeitofos del rey q algús fe forão de Calicut. E efte legredo teue Nambeadarim, porq a paz ouueffe effeyto: porq nunca ho ouuera fe ho fouberão os mouros. AíTentada a paz, logo Nambeadarim fe partio pera Cranganor: porq hi fe auia de dar a pimenta que não quis q fe deíTe em Calicut, por fe efcufaré brigas, ou outras deferéças q poderião recrecer antre os nofios, & os mouros: & també pera dali poder logo recolher as armadas q andauão pelos rios. E a Cranganor mandou Frãcifco dalbuquerq Duarte pacheco pera leuar a piméta q podeffe na fua nao: & q leuaffe a hú caualeyro chamado Ro¬ drigo reynel pera feytor daquela pimeta, & coele dous efcriuães. Os quaes Duarte pacheco mandou a terra dandolhe primeyro Nambeadarim arrefens. E como ele defejaua muyto que efta paz foífe por diãte fez aos noífos todo ho bõ gafalhado q pode. E deu na carregação da piméta todo ho auiamento q foy poííiuel: & deulhe oytocêtos quitais de pimeta. E fabédo Frãcifco dalbuquerq a coufa como ya, porq fe deffe mór preífa, é quãto Duarte pacheco defcarregaua mãdou a Niculao coelho q foífe por mais pimeta, & é quanto hú defcarregaua ya outro carregar. E andando nifto, leuãdo hú dia hús Malabares hú tone de pimenta por dentro dos rios pera Cranganor, ho feytor de Cochim fem ho faber Frãcifco dalbu- querque ho mandou tomar por homés da feytoria, dizendo que el rey de Calicut cÕ diífimulação de dar pimeta aos noífos mãdaua ao mar roxo contra ho contrato das pazes. E a pimenta foy tomada, & morto hú dos Malabares: do que Nambeadarim fe aqueixou muyto a Duarte pacheco, porq conhecia a el rey feu irmão por tal que fe auia de querer vingar, fe Francifco dalbuquerque não deífe diffo algúa eméda: mas ele a não deu. O que fabédo el rey de Calicut mãdou a Nambeadarim que foltaífe pelos rios as armadas que tinha recolhidas, ate cobrar o que valia a pi¬ menta que lhe tomarão. E reuolueofe a coufa de modo que os mercado¬ res que leuauão pimenta á noífa feytoria de Cochim a não querião leuar. E Francifco dalbuquerque que via que tinha culpa naquilo, não oufaua de fe queixar a Nambeadarim das armadas que foltara pelos rios, & diíli- mulaua. E mandou dizer aos mercadores que leuaífem a piméta a hú certo paífo: & que ele a iria hi receber. E mandou lá Pero rafael na fua cara- uela, & hú batel armado em fua cõpanhia. E como forão no paífo forão logo fobreles corenta paraós, & pelejarão coeles, & ferirãolhe muytos. E tão mal tratada foy a carauela, que foy neceífario ao batel ir pedir focorro a Francifco dalbuquerque, q lhe foy logo acodir: & com fua ida fugirão os paraós, & a carauela ficou tão furada das bombardadas que a Tomo I >7
  • Historia da índia i3o leuarão ao porto da nofia fortaleza: & tirarãna a mõte pera a concerta¬ rem, & daqui ficarão as pazes quafi quebradas: & nã fe deu em Cran- ganor mais nhúa pimenta, nem Nãbeadarim não quis dar licença a Ro¬ drigo reynel: nem aos outros com quanto lha ele pedio pera fe ir pera Cochim, & diífelhe que fe não foffe porque as pazes não erão quebradas de todo q ele efperaua de as tornar a aífentar: & fazialhe ho mefmo fauor q dantes, cõ todo ho gafalhado que podia fer, & ainda que Rodrigo rey¬ nel efcreueo a Francifco dalbuquerque que ho mandaíTe pedir ele não quis, dizendo que fe deixaífe eftar, porque fe ho mandaífe pedir quebrar- feyão as pazes de todo: o que ele nã queria porq efperaua de as tornar a aífentar quando paffaffe por Calicut pera onde eftaua de caminho. CAPITOLO .LX111. De como Francifco dalbuquerque & Afonfo dalbuquerque fe partirão pera Portugal, & deixarão por capitão môr a Duarte pacheco em Cochim. EStando as coufas neftes termos foy dado hú recado a Francifco dal- buquerq de Cojebequim, mouro de Calicut q era grande amigo dos noífos como ja difle, q el rey de Calicut eftaua determinado de tornar fobre CochI defpois de fua partida pera Portugal: & tomalo & fortificalo de maneyra q defedeffe o porto a armada q vieífe. E pera iffo tinha aquirido todos os fenhores do Malabar: & que fe affirmaua que ho auião dajudar el rey de Cananor & el rey de Coulão, & os mercadores mouros lhes dauão grandes ajudas. E ho mefmo efcreueo Rodrigo reynel dahi a poucos dias, & que el rey de Calicut ajútaua gente & mandaua fazer muyta artelharia: & que os mouros de Cochim erão em fua ajuda, por iffo que fe não fiaffe deles. E dali a dous dias foy el rey de Cochim ver Francifco dalbuquerque & contoulhe ho mefmo que ho fabia de hús bramenes q vinhão de Calicut, dizédolhe que oulhaífem em que perigo ficaua de perder Cochí fe não ficaffe armada que ho defendeífe, pondo- lhe diante quantos dãnos tinha recebidos por fofter noffa amizade: & como por elfa caufa fe leuantarão os feus cõtrele & ainda lhe querião tornar a fazer a mefma guerra: & porem que ele confiaua tãto na ajuda dos noífos, q não queria outra pera fe defender de feus immigos: por iffo que lha não negafTem. Ao q Francisco dalbuquerque refpondeo, q fe ele foubeffe quãto tinha ganhado nos dãnos q recebera por fofter os noffos, q receberia outros muyto móres: fe mayores podem fer. Porque deixãdo a fama que ganhara de verdadeyro & magnanimo: tinha cobrado por
  • Livro I, Capitolo LXIII i3i amigo a el Rey de Portugal que era fenhor de taes vaflalos como vira, que també ferião feus pera ho feruir quando cõpriífe: & q com pouco trabalho ho farião fenor doutras cidades mayores q as de Cochi: & crefie q affi como ho eles reftituirã em feu eftado, q aíli ho cõferuarião nele: & que ele cria tão pouco c el rey de Calicut, q pofto que as pazes efteue- rão mais firmes do q eftauão não fe fora da índia fem deixar nela húa armada, porq be fabia quã pouco fe el rey de Calicut parecia coele é fer verdadeyro: & fe diftimulaua ifto, era pera ver fe podia acabar de carre¬ gar em paz: porque por guerra não acabaria nunca: & acabauafelhe a moução de fua viagem. Coeíta repofta ficou el rey fatiffeyto, & não po¬ dendo Francifco dalbuquerque auer mais pimenta que a q tinha que era bem pouca, determinou de fe partir pera Portugal, & primeyro declarar quem auia de ficar por capitão mór na índia pera que ho foubeffe el rey de Cochi. E como ele fabia q a ficada era muyto perigofa por a muyto pouca géte que podia deixar não oufaua de cometer a nhú dos capitães que ficaffe: & por derradeyro de a offrecer a todos, & eles a não que- reré a deu a Duarte pacheco que a aceitou de boa vontade mais pera feruir a Deos & a el Rey: que por lhe fer proueitofa: que bem fabia quão pouca fazenda auia de ganhar em ficar na índia da maneyra que fabia q auia de ficar: & fabédo el rey de Cochim como ficaua, ouueífe por contente diífo polo que dele fabia. E defpois difto fe partio Frãcifco dalbuquerque leuando toda a armada com dizer a el rey de Cochim que a leuaua ate Cananor por amor da armada de Calicut q ho não falteaífe: & por lhe nã fazer algúa roídade no feu porto Õde fe auia de deter: como deteue pera pedir Rodrigo reynel, & os outros q hi eftauão. E fabido por el rey fua determinação, lhe mandou dizer que ho não leuaffe: porq ele não auia as pazes por quebradas. E fe quifeífe efperar, lhe acabaria de dar a pimenta que auia de dar. E vendo ele ifto pareceolhe q não era verdade o que dizião do abalo del rey de Calicut: ou deu a entender que ’lho parecia afli, porque ficaflem de melhor vontade os que auião de ficar na índia. E nã quis leuar Rodrigo reynel, nem os outros: nem quis efpe¬ rar pera tomar toda a pimenta, porque era ja tarde. E vindo ali ter coele Afonfo dalbuquerque de Coulão fe partirão pera Cananor, onde lhes Ro¬ drigo reynel efcreueo que a noua da ida del rey de Calicut fobre Cochim era muyto certa, & que todos os cõprimentos que fizera forão por medo de lhe não queimar as naos que eftauão no porto. O q os capitães móres encobrirão, porque ho não foubeífe Duarte pacheco, a quem deixarão na fua nao, & mais duas carauelas, de q erão capitães Pero rafael, & Diogo pirez: & hú batel de húa nao, & deixarãlhe nouenta homes: porque tirando os de que tinha neceflidade pera marearem as naos, os mais
  • Historia da índia r.9s eftauão muyto doentes. E afli lhe deixarão a mais artelharia, & munições que poderão. E fabendo todos ho grande poder del rey de Calicut, efpan- tauãfe de querer Duarte pacheco ficar com armada tão pequena: & da- uãno ja por morto, dizedo. Perdoe Deos a Duarte pacheco, & aos que ficão coele. E ainda que ho ele ouuia não deixou de ficar, moflrando que ficaua muyto contente, nem nunca pedio mais gente que a que lhe deixa- uão. E defpachado partirãfe os capitães móres pera Portugal ho derra- deyro de Ianeyro de mil & quinhentos & quatro, partindo primeyro Afonfo dalbuquerque, & Francifco dalbuquerque, & Niculao coelho fe perderão no caminho, porque nunca mais ouue noua deles. E Pero da- taide foy ter a Quiloa: & na barra fe lhe perdeo a nao: & ele fe faluou com algúa gente com que fe foy a Moçambique em hum zambuco: & hi morreo de doeça. E primeyro q morreffe efcreueo húa carta pera qual¬ quer capitão de Portugal que hi aportaífe, em que contaua fua perdição, & como ficaua a índia. E Afonfo dalbuquerque, & Antonio do campo che¬ garão a Lifboa a vinte tres Dagofto do anno que digo. E Afonfo dalbu¬ querque contou a el rey como ficaua a índia & deulhe quatrocetos arratés daljofar & corenta de pérolas & oyto com conchas onde ho aljôfar nace, a que chamamos madre pérola, & hú diamão tauoleta tamanho como húa grande faua, & muytas joyas de pedraria, & dous caualos hú arabio & outro perfiano. CAPITOLO .LXIIII. Do que aconteceo a Antonio de faldanha & aos feus capitães ate chegarepi á índia. ATras fica dito como Antonio de faldanha partio de Lifboa por ca¬ pitão mór de Ruy Lourenço rauafco, & de Diogo fernandez peteira pera andar darmada no cabo de Goardafum & defcobrir defpois ho eftreito do mar roxo. Pois partido ele de Lifboa por culpa do feu piloto foy ter á ilha de fam Thome e daqui aquem do cabo de boa Efpe- rança, affirmandofe ho piloto q ho tinha dobrado, & achoufe atras dele onde agora fe chama a agoada de faldanha, que por Antonio de faldanha ir ali ter primeyro & fazer agoada em hú rio que fe ali mete no mar lhe ficou efte nome: & daqui fe partio Antonio de faldanha fó porq os outros dous capitães ja ãtes de chegar aqui fe apartarão dele cõ tempo, & no caminho paífado Moçambiq tomou tres naos de mouros que fe lhe ren¬ derão fem peleja, & coelas chegou a Melinde onde achou Ruy Lourenço rauafco, que apartado dele cõ ho temporal que lhe deu foy ter a Moçam¬ bique, dõde não achando Antonio de faldanha fe foy a Quiloa, & defpois
  • Livro I, Capitolo LXIIII i33 de ho efperar algús dias & não .vindo fe partio, & faindo do porto tomou dous zãbucos de mouros de Mõbaça que mandou dar a el rey de Quiloa por lhe fazer honrra, & por andar por ali efperando Antonio de faldanha fe foy a húa ilha que 1'e chama Zanzibar vinte legoas a ré de Mombaça, que tem rey & he pouoada de mouros, & antrela & a terra firme fe faz hú canal, õde fe Ruy Lourenço deixou eftar bem dous mefes em que tomou muytos zambucos carregados de mantimétos da terra, & defpois fe foy ao porto da cidade de Zanzibar Õde chegou ao foi pofto, & por iffo não pode fazer mal a algúas naos & muytos zãbucos q hi eftauão: & ao outro dia lhe mandou el rey hú recado, que fe ele era o que tomara os mantimétos que leuauão pera fua cidade q lhe perdoaua com tanto que lhe deffe a artelharia q leuaua & reftituiífe o que tinha tomado. Ao que Ruy Lourenço refpondeo, que fe tomara os mantimentos fora por lhos não quererem vender: & que não coftumaua de dar a fua artelharia né lha auia de dar: & que fe quifelfe fer amigo del Rey de Portugal q ho feria feu. Ouuida efta repofta por el rey, mandou embarcar muyta géte em paraós que tinha pera tomaré a nao: o que vendo Ruy Lourenço antes que os mouros acabaflém debarcar mandou lá hú Gomez carrafco por capitão do batel com trinta & cinco homés que com hú tiro q leuaua começou de facodir os paraós antes que faiífem do porto, com cujo medo os mouros os começarão de defpejar. E nitto chegou Gomez carrafco a quatro que ainda eftauão pejados, & aferrando coeles matou com os feus muytos mouros & os outros fez faltar ao mar, & tomãdo os paraós fe tornou á nao & em fe tornãdo chegou á praya hú filho del rey com qua¬ tro mil mouros os mais frecheiros que ya acodir aos paraós, & deixarãfe eftar como q goardauão ho porto. E Ruy Lourenço que os vio daquela maneyra, mandou deprefla paffar da nao algús tiros a dous zambucos que tinha em que mandou por capitães Gomez carrafco & Lourenço feo que leuando també ho batel fe chegarão a terra ho mais que poderão. E ho filho del rey vendo os ir, cuydãdo que querião defembarcar ajuntou fua gente onde leuauão as proas & eles fizerão delparar fua artelharia & da primeyra çurriada derribarão trinta & cinco mouros fegundo fe defpois foube, & antreles foy o filho del rey & ouue muytos feridos, & os outros fugirão & forão dar as nouas a el rey, que por não fer deftruido mãdou pedir paz a Ruy Lourenço que lha deu com codição que ficaífe valfalo del Rey de Portugal com pagar cem miticais de tributo cadãno & trinta carneyros. E ele foy contente, & pagou logo ho tributo daquele anno. Ifto feyto foyfe a Melinde é bufca Dãtonio de faldanha que não era ainda vindo: & achou q el rey de Mõbaça fazia guerra a el rey de Melinde por fer amigo del Rey de Portugal, & .que eftaua pera vir fobrele cõ muyta I
  • i34 Historia da índia gente, do que el rey de Melinde eftaua agaftado: & Ruy Lourenço ho efforçou, dizendo que ele faria tanta guerra a el rey de Mõbaça q ho deixaffe: & partiofe logo pera Mombaça & de caminho tomou duas naos & tres zambucos em q tomou doze mouros que erão os principais rege¬ dores dúa cidade daquela cofta chamada braua q alem de fe refgatare por muyto preço por faluarem húa nao que vinha atras em que trazião muyta riqueza fe fizerão vafialos del Rey de portugal com quinhentos miticais de tributo cadãno que logo pagarão. E chegado Ruy Lourenço á barra de Mombaça pos fe ali pera tolher ás naos que foffem de fora que não entraffem, & foube logo que el rey de Mombaça era partido pera Melinde, & afli era. E fabédo el rey de Melinde como ya ho fayo a rece¬ ber & ouuerão batalha. E não ficãdo a vitoria com nhú el rey de Mõbaça fe tornou logo, porque foube como Ruy Lourenço eftaua na fua barra & temeofe de defembarcar, & fazerlhe muyto dãno na cidade por a pouca géte que lhe ficaua: & andãdo muyto deprelfa chegou a Mombaça onde achou que tinha recebida muyto grande perda de feus dereytos por as naos que Ruy Lourenço eftoruara que nã foffem a feu porto, & vio que lhe não podia fazer outra mayor guerra que aquela. E nefte tempo che¬ gou Antonio de faldanha a Melinde. O q fabido por el rey de Mombaça temeofe que cÕ feu fauor lhe fizeffe el rey de Melinde guerra, & por iffo fez paz coele. E vendo Antonio de faldanha que el rey eftaua em paz, partiofe com Ruy Lourenço, & dobrado ho cabo de Goardafum forão ter a hú lugar grande chamado Mete fenhoreado por hú Xeque, com cujo confentimento Antonio de faldanha mandou fazer agoada, & fazédoha leuantaranfe os mouros contra os Portuguefes, que faindo bem da peleja com deixarem tres mouros mortos fe recolherão: & efbombardeado ho lugar, nã fe quis Antonio de faldanha ali deter mais, & atraueffou á cofta Darabia acima Dadem pera ir inuernar a húas ilhas que fe chamão de Canacani, & ãtes de chegar a elas tomou duas naos de mouros: & que¬ rendo fazer agoada na cofta não pode por lho cotrariarem os mouros per duas vezes, & tendo muyta neceflidade dagoa por as ilhas a não terem, fe partio pera outras que não pode tomar, pelo que lhe foy necef- fario irfe caminho da índia, & por fer já lá inuerno foy com muyto pe¬ rigo tomar a ilha Danjadiua, onde ho achou Lopo foarez como direy adiãte, & Diogo fernandez peteira também paffou muyta fadiga & foy ter a CochI no cabo da guerra que Duarte pacheco teue com el rey de Calicut como agora direy.
  • Livro I, Capitolo LXV i35 CAPITOLO .LXV. Do que ho capitão môr Duarte pacheco fe\ em Cananor indo pera Cochim: & do q lá paffoit com el rey PArtido Frãcifco dalbuquerq pera Portugal, Duarte pacheco que ficaua por capitão mór na índia, em quanto fe auia de deter em Cananor pera tomar mãtimentos, foy furgir fora da ponta de Ca¬ nanor: & dali mãdaua a Pero rafael andar de largo, & que lhe fizeffe arribar quantas naos podefle: & ele ficaua fó: porque Diogo pirez ficara em Cochim com fua carauela a monte. E Pero rafael fazia arribar as mais das naos húas por medo de as meter no fúdo com artelharia, ou¬ tras por fua vontade. Duarte pacheco fabia muv miudamente dõde erão, & pera onde yão, & o que leuauão, & fe achaua pimenta tomauãlha. O que fez a algúas naos que yão de Calicut. E tão rigorofamente ho fazia que era muy temido. E fazendo ifto húa noyte derão fobrele obra de vinte cinco velas tão de fupito, q lhe fizerão crer que era armada de Ca¬ licut por as atoadas q diffo trazia. E pola preífa em que fe vio mandou alargar a ancora pelo efcouuem que a não pode leuar pelo cabraftante. E dando ás velas fe fez na volta do mar pera fe poer a balrauéto daquelas velas, em que mandou defparar fua artelharia. E como erão zambucos carregados darroz, acolherão fe quanto poderão, & algus vararão é terra fe não húa grãde nao de mouros que vinha em fua conferua, em que irião bem quatrocentos que erão do reyno de Cananor. E parecedolhe que fe podeffem ajudar dos noífos andarão coeles ás frechadas, & bombardadas ate ho quarto dalua que differão qué erão tendolhe mortos noue homens, & feridos muytos. E porque ja nefte tempo não oufaua de palfar por ali nhúa nao com medo de fer tomada, partiofe Duarte pacheco pera Cochim, & no caminho pelejou com algúas naos de mouros, & delas tomou & queimou, & outras meteo no fúdo: & com muyto grãde vitoria chegou a Cochim á noífa fortaleza õde foube do feytor que a noua da guerra del rey de Calicut era verdadeyra, & que el rey de Cochim eftaua com grãde medo, & que os mouros de Cochim erão muyto contrairos a fofter a guerra contra el rey de Calicut. E ao outro dia foy ver el rey de Cochim leuando feus bateys apadeffados, embãdeirados & artilhados: & fezfe muyto de fefta pera que alegrafTe el rey de Cochim, que fabendo quão pequena armada lhe ficara não fe pode alegrar: & muyto trifte lhe difle q os mouros de CochT lhe tinhão dito q ele não ficaua na índia fe não pera recolher a fazêda da feytoria de Cochim com ho feytor, & os mais
  • i36 Historia da índia que eftauão nela, & leuar tudo a Cananor, ou a Coulão: que lhe rogaua muyto que lhe diffeffe fe era verdade, porque a ele lho parecia fegundo a pequena frota que lhe ficaua, nem ele não quereria ficar pera pelejar com tamanho poder como era ho del rey de Calicut, fe não pera fazer o que lhe os mouros dizião: por iffo q lhe diffefle a verdade, porque fe era aíli bufcaria feu remedio em quanto teuelTe tempo: pofto q ele ho tinha bem mao fe ho ele defemparaua, pois nã tinha outrem que ho ajudaífe: & conhecendo Duarte pacheco a defcõfiança del rey agaftoufe muyto, & refpondeolhe, dizendo. Muyto me efpanto de ti tendo tanta expericcia da lealdade dos Portuguefes pregútarme fe fiquey pera fazer tamanha trey- ção como feria fe fizefTe em tal tempo o que te dilferão os mouros: & crelos fabendo que fam tamanhos noffos ímigos como eftá notorio: & fabendo tudo ifto não deueras de poer é pratica húa coufa tão fora de rezão. Porque fe a Frãcifco dalbuquerque quifera fazer muyto melhor fora fazelo ele cõ todos os capitães, porque deixandome fó pera ho fazer corro rifco de me fair neffe mar húa grofla armada del rey de Calicut & tomarme. E querédo todauia que ficara pera ho fazer, ele to differa & que ho fazia por fe temer del rey de Calicut: porque te tinha por tão arrezoado que te não parecera mal fazelo por effa caufa: pois dela te re- fultaua proueito que ficauas liure da amizade del rey de Calicut, o que fe os mouros bem atentarão não dilferão tamanha falfidade, & cre q fe nos podeffem empecer em mais que ho farião, & a ti pelo amor que nos tés, & eu ho fey muy bem: mas não te de diífo, que pofto q percas a eles & aos outros de teu feruiço, cobras a ml & a quãtos Portuguefes qua ficão q morreremos todos por te feruir fe for neceflario: & pera iffo ficamos na índia, & eu principalmente: q ningué me obrigaua a iffo, fe eu nã quifera. Mas obrigou me ho defejo que tenho de te feruir pola fé que goardafte aos noffos ate perder Cochim, & ho ver queymado. Do que te deues de prezar muyto: pois por iffo fe eftendera tua grande fama per toda a terra; & ficara teu louuor pera fempre, que he ho melhor tefouro q os reys podem deixar: & porque mais trabalhão os bõs. E cré que el rey de Calicut ficou vencido em te queimar Cochim. E afli como fofte defpois bem vingado de teus ímigos pelos Portuguefes, afli feras agora ajudado, & emparado por eles: q ainda que pareção poucos, & a frota muyto pequena, eu te prometo q muyto cedo pareçamos muytos nas obras, que efpero em noffo fenhor que auemos de fazer em defender qualquer paffo, por onde el rey de Calicut quifer entrar: & q hi ho aue¬ mos defperar: & nos nã auemos de mudar de noyte nem de dia. E pera os paffos q fão eftreitos fobeja a noffa armada. E por iffo me nã ficou mayor, q pera os rios abafta efta. E pois me a mim efcolherão pera ficar,
  • Livro 1, Capitolo LXVI 137 cre que fabião q deixauão quem te efcufará de trabalho, & os teus de fadiga. E eu, & os que comigo ficão, auemos de ter fobre nos todo ho pefo da guerra. Tu folga, & defcanfa, q prazendo a noífo fenhor não ha de fer como da outra vez, q perdefte Cochim. CAPITOLO .LXVI. De como ho capitão mór Duarte pacheco fe\ que não defpouoajjem a cidade, os mouros de Cochim. ASsessegado coilto el rey, do aluoroço em q os mouros ho tinha pofto: foy ver Duarte pacheco os paffos de CochI, pera fortalecer os que teueflem diífo neceífidade, & achou que nhú a não tinha fe não ho do vao, em q mandou fazer húa eítacada pera ho çarrar, q não podeffe entrar nhú nauio dos Imigos. E nefte tempo foy auifado por carta de Rodrigo reynel, que çamalamacar hú mouro principal de Cochim, & aífí os outros trabalhauã quanto podião por fe defpouoar a cidade, por¬ que el rey ficaffe fó, & fobrifto fora çamalamacar falar duas vezes cõ el rey de Calicut, & lhe efcreuia cartas: do que Duarte pacheco ficou muyto agaftado: & por atalhar que não ouueife efeyto aqle ardil, pareceolhe q feria bÕ enforcar çamalamacar, pera q os outros ouueífem medo. E fabe- doho el rey de Cochim não quis, dizendo que fe enforcaffem aquele, os outros fe amotinarião logo, & não aueria mãtimentos na cidade, porque eles os mandauão trazer por mercadoria, por iflo q feria melhor diffimu- lar. E vendo Duarte pacheco q el Rey não queria, diífelhe que queria fazer húa pratica aos mouros: & q tinha cuydado hú ardil pera que fe não fofle ningue da cidade, q mandaífe aos feus que lhe obedeceífem no q lhes mandaífe. Ho q el rey mãdou perante ele mefmo: & isto man¬ dado, ele fe foy com obra de corenta dos noífos a Cochim a cafa de Be- linamacar, hú mouro mercador hõrrado q moraua perto do rio: & rogou- lhe q mãdaífe chamar certos mouros que lhe nomeou: porq lhes queria dar conta de húa coufa que releuaua a todos, a que os mouros forão logo, porq lhe auião grãde medo, & vindo eles lhes diífe. «Mandeyuos chamar hõrrados mercadores, pera vos dizer o porq fiquey na índia, porq quiça ho nã fabeis todos, & por iflo dize algús que fiquei pera recolher a feytoria, & leuala a Coulão: ou a Cananor: & por¬ que faybais que não he affi vos quero dizer a verdade. Eu não fiqi pera outra coufa fe não pera goardar Cochim: & fe for neceífario morrer com quantos ficarão comigo fobre vos deféder del rey de Calicut: & iíto ve¬ reis claramente fe ele vier, q vos prometo que ho hey de efperar no paflb Tomo I 18
  • Historia da índia i38 de Cãbalão, per onde me dizem q quer entrar: & ali fe oufar de pelejar comigo prédelo pera ho lcuar a Portugal. E ate que nã vejais ho cõtrairo difto, vos rogo muyto q não vos vades de Cochim donde fey que eftais abalados pera vos ir, & aluoroçais ho pouo pera iflo: & como foys os principais, tomão os outros de vos exemplo pera ho fazer: & eu me efpanto muyto de homés tã fefudos como vos, qrerdes deixar as cafas em q naceftes, & a terra em q morais ha tanto tépo, não cÕ medo do que viftes, mas do que fóméte ouuis, q ainda pera molheres he coufa fea, quãto mais pera vos, que fe vos quifereis ir com me verdes defbaratado, nã vos pofera culpa, mas fazerdelo fé me verdes dar batalha, ou he por couardia, ou por malicia: pois fabeis que ainda onté tão poucos Portu- guefes vecemos a eífes milhares dímigos, q agora nos hão de vir bufcar, & fe me dizeis q éramos mais do q agora fomos, affi então auiamos de pelejar em cãpo largo, onde era neceflario fermos muytos: & agora é paffo eftreyto tanto auemos de fazer poucos como muytos, pois fe eu fey pelejar, bem ho ouueries dizer: porq eu fuv ho que fiz mais dãno aos ímigos, & bé ho fabe el Rey de Cochim, q mais perderá q vos fe eu fofle vencido. E confiado é mí & nos q ficarão comigo, efpera ate ver em q para efte feyto que efperamos, & pois ele efpera, vos porque vos ireis. Lebreuos q eu & os que ficarã comigo, ficamos na Índia tã lonje de noffa terra pera deféder el rey de CochI. E vos feus vaífalos, & naturais da terra quereis deféparar a ele & a ela: coufa muy vergonhofa he efta pera poleás: quanto mais pera homés tão hõrrados como vos: peçouos muyto q nã façais tamanha defhonrra a vos mesmos, nem a mim tamanha inju¬ ria, em defcõfiar q vos defenderey, porque vos dou minha fé, q vos pofo defender doutro poder mayor q ho del rey de Calicut, & por ifto me efcolherã pera efte feyto: q bem fabiã os q me deixarã na índia a guerra que el rey de Calicut auia de fazer, & ho poder q tinha, por iflo vos torno a rogar que creais q fendo eu viuo que nunca el rey de Calicut metera pé em CochI. E rogouos q ningué bula configo, porq quem fizer outra coufa faiba certo q fe ho tomo que ho ey denforcar, & afli ho juro por minha ley, & fabe que ningué me pode efcapar: porq aqui ey deftar nefte porto vigiando de dia & de noyte, & agora veja cada hú o que lhe cúpre: & fe fizer o que lhe rogo termeha por amigo, & fe não por im- migo, & mais cruel do que efpera q ha de fer el rey de Calicut: & cada hú diga logo o que quer fazer.» E dizédo ifto acendeofe tanto é ira, que fem atentar por iflo falaua tã alto como q pelejaua cõ algué: & tinha o rofto tão vermelho que parecia verter fãgue, com que aos mouros fe lhe dobrou tanto ho medo q tinhão dele, que cuydauão q os queria logo en¬ forcar, & começarão de fe lhe difculpar do que lhes dizia. E ele os não
  • Livro I, Capitolo LXVII i3g quis acabar douuir, pera lhes fazer mór medo. E mandou logo furgir a nao defrõte de Cochim, & húa das carauelas, & os dous bateis, poftos é tal compaflo, que ningué podeffe fayr de Cochí per mar, que não fofle vifto: & tinha tãbem muytos paraós efquipados, com q de noyte vigiaua os rios q cercauão a cidade. E como era foi polto, tomaua todos os bar¬ cos q podião leuar gente & fato, & mãdauaos amarrar aos feus nauios, & faziaos vigiar: & pola manhaã os tornaua a feus donos. E continua- mente corria eltes rios, amanhecendo & anoytecendo em diuerfas partes: porq não teueffem dele nhúa certeza: & pera q lhe ouueffem medo, man- daua prender algús diflimuladaméte, & mandauaos acufar pelos noífos q fe qrião ir: & tinhaos prefos, cõ dizer q os auia de mandar enforcar. E andando vigiando húa noyte, topou quatro macuas, que fão pefcadores, pefcãdo fem fua liceça: & fez q fofpeitaua que fe quirião ir, & prendeos em ferros, dizédo q os auia de mandar enforcar. E fabendoho el rey, & credo que os auia denforcar mãdoulhos pedir: do que fe ele moítrou muyto menencorio, dizendo q não auia de fazer ley pera a nã goardar, por iffo que lhos não auia de mandar: & que os auia denforcar. E logo os mandou leuar pelo feu meirynho a húa ilha pera q os enforcafie: & fecretamente lhe diffe que lhos tornafle a trazer, & mandouos meter de¬ baixo da cuberta da fua nao: õde defpois de os ter efcõdidos algús dias, os mãdou a el rey muyto fecretaméte, porq fe não foubeffe que os nã enforcará. E coifto lhe ouuerã tamanho medo, que ningué oufaua de fayr de Cochim fem fua licença: & com ifto fe affelfegarã os mouros & gétios. E com todos eftes trabalhos q Duarte pacheco tinha, as mais das noytes faya em terra de Repeli, em que queimaua lugares, mataua gete, tomaua vacas, & barcos, & lhe fazia muytos outros dãnos: de q os mouros de Cochí fefpantauã muyto, como podia fofrer tanto trabalho, & dizião que era diabo. CAPITOLO .LXVII. De como o capitão mór Duarte pacheco fe\ liã falto em terra de Repe- lim, & de como fe partio pera fio pajfo de Cãbalão a efperar el rey de Calicut. NEste tempo foy certificado el rey de Cochim, q el rey de Calicut era chegado a Repelim, pera hi ajuntar fua gente, & irfe a Co¬ chim pelo paffo de Cãbalão. E o mefmo recado efcreueo Rodrigo reynel, que a efte tempo ficaua muyto doéte, & morreo defpois. E el rey de Calicut mãdou tomar quanto lhe acharão. E fabendo os mouros de Cochim q el rey de Calicut eftaua em Repelim, quiferã aluoroçar ho pouo
  • 140 Historia da índia pera q fugiflem: mas ninguém oufou de ho fazer, cõ medo de Duarte pa- checo. E ele que ifto fabia, por moftrar a todos quã pouco temia el rey de Calicut, nem a feu exercito & armada, deu húa noyte em húa pouoa- ção de terra de Repelim a horas q todos dormião & poslhe ho fogo. E ele bem ateado forão os noffos fentidos, & acodio logo grande multidão de Naires, afli do lugar como dos derredor. E Duarte pacheco fe reco- lheo aos bateis cõ muyto perigo, & ferirãolhe cinco homés: & dos ími- gos ficarão muytos mortos & feridos: & cõ tudo os viuos feguirão os noffos hú bÕ pedaço em fe tornando pera Cochí. E tãtas forão as frecha¬ das fobre os bateis que as padeífadas yã todas cubertas de frechas. E fabédo el rey de Cochim como era chegado á fortaleza foyho ver, por¬ que ouue por muyto grãde coufa oufar ele de faltear a terra, em que eftaua el rey de Calicut tão poderofo, & aíli lho difle. Do q Duarte pa¬ checo fe rio, & diffe que não queria fe não q acabaffe el rey de Calicut de chegar, & que rõpeífe coele batalha, & ali veria pera quanto erão os noffos. E deixãdo coifto aífeífegada a géte de Cochim, & tãbem com fazer húa fala aos principais, ordenou fua géte, que fe queria partir pera ho paíTo de Cãbalão. E na fua nao deixou vite cinco homés com ho meítre dela, q fe chamaua Diogo pereyra, q deixou por capitão em fua aufen- cia: & deixoulhe bem dartelharia & munições pera fe deféder. E os no¬ mes dos que ficauão coele erão, Chriftouão pirez efcriuã da mefma nao, Aluaro vaz, Afonfo aluarez, Ioã do porto, Ioão pirez, Ioão girarte, Ro¬ drigo afonfo, Simão aluarez, Bertolameu, Antonio vaz, Aluaro dobidos, Diogo de curuche, Frãcifco ramos, Afõfo do porto, Paulo genues: aos .outros nã foube os nomes. Na fortaleza ficauão trinta & noue homés, cujos nomes erão: Diogo fernandez correa feytor, & alcaide mór, Lou- renço moreno, Aluaro vaz, efcriuães da feytoria, Aires lopez alcaide pe¬ queno, ho vigairo Ioão de fantiago, Gonçalo fernandez, Simão mazcare- nhas, frey Gaftão, Diogo fernãdez, Ruy gomez, Ioão fernandez, Ioão pirez, Aluaro cotano barbeiro, Andre diaz, Goterre, Ioã pirez, Aluaro dabreu, Coronel, Pero fernãdez, Fernão foarez, Ioão de fogouia mercador Caftelhano, ho Teixeira, Lopo de carualhais, Ioão fernãdez, Triftão de repeda cirieiro, Baftiã dalmeida, Marti bõbardeiro, Chriftouão jufarte, Ioão caramenho, Manuel martíz criado da Ifante, Diogo fernandez criado do bifpo da Goarda, Ioão Luys, Pero ribeiro, Ioão do bafto, Rodrigo correa, Diogo rodriguez, Ioão marquez, Lião rodriguez. E os que Ieuou forão eftes, Pero rafael, q era capitão da carauela fanta Elena, leuaua vintequatro homés coele: que forã Duarte fernãdez efcriuã: Efteueanes meftre, Francifco fernãdez, Pedreanes, Ioão diaz, Louréço, darmada, Pero vaz, Iorge do porto, Gonçalo fernandez, Ioão fernandez, Francif-
  • Livro I, Capitolo LXVII 141 queanes, Niculao hires, Pero coelho, Pero bras, Maçarelos, Ioão de leça, loã de fantarem, Bautifta genues, Ifbrão dolanda, Pero alemão, bõbar- deiros, & dos outros não foube os nomes. Em hú dos bateis, em q mãdou que andafle Diogo pirez capitão da carauela fanta Maria, em quanto fe lhe concertaua, forão Rodrigo efteuez, Manuel gonçaluez meftre da cara¬ uela, Bras fernandez, Ioão de caminha, Pero mendez, Diogo de Bragãça, Saluador gõçaluez, Antonio delgado, Luys de maçãs, Ioão gonçaluez, Fernãdo de fam Pedro, ho Cardofo, ho Leytão, Domingueanes, Diogo de fam Pedro, Francifco Caftelhano, Afonfeanes, Adão gonçaluez, Fer¬ nando delmeralda, Fernãdo do meftre, Diogo rodriguez peqno, Aufbrote, Miguel afonfo bõbardeyros. Ho capitão mór foy em outro batel, em q leuaua eftes homés que erão coele vinte & hú .f. Simão dandrade, que era ainda moço, Afonfo anibal, Ioão fernãdez, Ioão do vale meirinho da carauela fanta Martha, Antonio gomez, Lopo de çãcal, Matheus bõbar- deiros, Pero vaz,Triftão fernãdez, Garcia afonfo, Inhigo de Portugalete, Marcos luys, Pedreanes carpinteiro, Iorge grego, Ioão gomez bojardo, Diogo fernandez, Diogo canario, Ioão de vila de conde, Ieronimo pirez, Fernão luis: & por todos erão fetenta & tres os da carauela, & dos bateis. E todos confefiados & comungados, fe partio Duarte pacheco pera ho paíTo de Cambalão em fefta feyra de ramos dezafeys Dabril de mil & quinhentos & quatro. E defamarroufe do porto com muyto prazer & fefta de tiros & folias. E chegando defrõte de Cochim foy falar a el rey que ho efperaua á borda dagoa tão trifte q ho nã podia ecobrir. E Duarte pacheco fazedo q ho não entedia, lhe difle, q ali yão todos cÕ muyto grãde votade pera ho defender del rey de Calicut: a que yão bufcar, porq não cuydafle q lhe auião medo. El rey fe forrio como por força: & deulhe quinhétos Naires de cinco mil que tinha, de q fez capitães Can- dagorá, & Frangorá feus védores da fazenda, & ao Caimal de Palurte, & ao Panical darraul, a q mandou q obedeceífem a Duarte pacheco como a fua própria peffoa. E acabado ifto oulhou el rey pera a noífa armada, & pera os feus Naires & entrifteceofe muyto, como quê via quão pouca coufa aquilo era em comparação do poder del rey de Calicut: & difle a Duarte pacheco. Lembrame ho perigo em que te vejo: & o q me acõte- ceo ho anno paífado: rogote q queiras o q poderes: & nã te engane o coração. E lébrete quanto perde el Rey de Portugal fe te perdes. E coefta derradeira palaura fe lhe arrafarão os olhos dagoa: do que fe Duarte pacheco agaftou muyto, & diflelhe q mais podiã poucos & effor- çados q muytos & couardos. E fe os nolfos erão efforçados bem ho tinha vifto: & quão couardos erão os immigos. E q no lugar onde os auia def- perar poucos abaftauão pera ho deféder: por ifto q fe não agaftaífe. E
  • 7^2 Historia da índia coifto fe partio, & chegou ao paffo de Cambalão duas horas ante manhaã. E não achado nhú final da vinda del rey de Calicut, foy dar é húa po- uoação do Caimal da mefma ilha, õde chegou é amanhecédo. E no porto eftauão é terra bé oytocétos frecheiros cõ algús efpingardeiros. E pofto q fobre os noffos chouião muytas frechadas, & efpígardadas, as padefTadas os defendião, q erão de tauoas de groffura de dous dedos. E chegando a terra defpararão fua artelharia, com q fizerão alargar ho campo: & eles defembarcarão. Porem logo os immigos tornarão fobreles, & teuerã- lhe rofto bé mea hora: & defpois fugirão ficando muytos mortos. E como ja os noffos tinhão pofto fogo ao lugar, & andaua bem ateado, recolheofe Duarte pacheco: & tornãdofe ao paffo matarão os noffos em terra muy¬ tas vacas q leuarão, pofto que bem contrariados pela gente da terra. E fendo ja no paffo, mandoulhe ho Caimal de Cambalão pedir pazes com hfi prefente q lhe ele não quis tomar, né fazer paz coele por fer Imigo del rey de CochI: donde lhe chegou recado per hum Bramene, q ao ou¬ tro dia lhe auia el rey de Calicut de dar batalha: & q eftaua injuriado de fe lhe ele poer naqle paffo por õde queria entrar. E diffelhe que fe affirmauão todos que el rey de Calicut ho auia de préder: ou matar na batalha. Ao que ele refpondeo que aquilo efperaua ele de fazer a el rey por amor do dia que era de grande folénidade pera os Chriftãos: q mal acertarão os feus feiticeyros de lhe prometerem a vitoria em tal dia. Hú Naire que vinha cõ ho Bramene ouuindo dizer ifto, diffelhe rindo como por efcarnio: q lhe via muy pouca géte pera fazer o que dizia, & que a del rey de Calicut cobria a terra & ho mar: q como auia de fer vécido. Do q ele ouue muyto grande menécoria, cuydando que foffe del rey de Calicut, & deulhe muytas bofetadas, dizédo que lhe fofle dizer que ho vingaffe: do que os outros ficarão com tamanho medo que nunca mais oufarão dabonar a el rey de Calicut. E aquela tarde lhe mandou el rey de Cochim quinhétos Naires de que ele não fez nhúa conta, nem dos ou¬ tros: porque fabia q auiã de fugir: & nos noffos defpois de noffo fenor tinha confiança. E todos aqla noyte fizerão grandes alegrias, porq fou- beffe el rey de Calicut q ho não temião, & moftrauã muyto efforço pera lhe dar batalha. Do q eftaua muyto ledo & antes que amanheceffe lhes diffe a todos. «Senhores & amigos meus o prazer & contentamento q vejo em vos tenho por muyto certo pronoftico da grandilfima merce que noffo fenhor auera por feu feruiço de nos fazer oje, & creo verdadeyramente q aífi como nos dá oufadia, pera q fendo tão poucos oufemos defperar a tantos milhares de gente como fam noffos Imigos: que afli nos ha de dar efforço pera lhe refiftirmos: & que quer oje fazer tamanho milagre como efte
  • Livro I, Capitolo LXVIII 143 fera, pera q feja conhecido feu poder: & fua fanta fé exalçada & da fua parte vos peço eu q alli ho creais, porque fem iffo ainda q nos foffemos tantos como os Imigos, & eles tatos como nos: todas noíTas forças não ferião nada pera os vencer, & fendo como digo toda a multidão dos Imi¬ gos vos parecera muyto pouca pera os vecerdes, & eles vos julgarão pelo dobro do q eles fam pera vos temer: & crede q fe vindo oje cõ tamanha prefunção por feré muytos: & tere por tão certo de vos tomar vos ouueré medo, daqui por diante lhes ficarão os fpiritos tão quebrados pera vos cometer, que fe ho fizeré mais ho farão por medo del rey de Calicut, que por votade q tenhão pera i(fo. Por tanto lembreuos q coefta confiãça aueis de pelejar pera vos nofio fenhor fazer tamanha merce como fera daruos vitoria cõ honrra fobre todos os Portuguefes: & fama antre os eftrãjeiros, & mereciméto diãte del rey noífo fenhor pera vos fazer mer- ces cõ que fuftenteis voffas vidas.» Ao q todos refponderão que no com¬ bate veria quam bé lhe lembrauão fuas palauras: & logo e giolhos diffe- rão a Salue regina étoada: & defpois húa Aue Maria cõ voz baixa. E niíto chegou Lourenço moreno da nofla fortaleza: & trazia quatro dos noffos efpingardeyros pera fe achar no combate, & Duarte pacheco fol¬ gou muyto cõ fua vinda por fer muyto efforçado. CAPITOLO .LXVIII. De como el rey de Calicut combateo os nojfos no pajfo de Cãbalão: & de como foy defbaratado. ESta noyte por confelho dos dous Itilianos arrenegados mãdou elrey de Calicut fazer húa eftancia de cinco bombardas defronte donde eftaua Duarte pacheco pera dali lhe daré combate quãdo ho deffem por mar, porq pola eftreiteza do paffo lhe podião fazer muyto dãno. E como amanheceo que foy domingo de ramos, abalou el rey por terra com corenta & fete mil homés de peleja antre Naires & mouros, & acom- panhauãno aqles reys & Caimais q ho ajudauão cõ fuas pefioas & gente .f. Betacorol rey de Tanor com quatro mil Naires, Cacatanãbari rey de Bipur, & de Cucurrão junto da ferra de Narfinga cõ doze mil Naires, Cocagatocol rey de Cotogão antre Cananor, & Calicut junto da ferra cõ dezoyto mil Naires, Curiuacuil rey de Curiua, antre Panane, & Cranga- nor cõ tres mil Naires, & afli Nambeadarim príncipe de Calicut, Nãbea feu irmão, & del rey de Calicut, Paranhira eratocol fenhor de Cranga- nor, Elancol nambeadarim fenhor de Repelim, Papucol fenhor de Cha- lião antre Calicut, & Tanor, Parinhara mutacoil fenhor da terra que eftá
  • *44 Historia da índia antre Cranganor, & Repelim, Benara nambeadarim acima de Panane pera a ferra, Nambari fenhor de Banalacheri, Papapucol fenhor de Be- pur ãtre Chani & Calicut, Papucol fenhor de Papuranguri: ho Caimal de Mãgate, Nara, & outros muytos caimais: q por ferem muytos os não efcreueo. Os inftormentos de guerra erão tantos, q quando tocauão pa¬ recia q furauão ho ceo: & a gente cobria a terra: & os que yão na dian¬ teira, chegando á eftancia derão fogo a artelharia, que fegundo eftaua perto da carauela, parece q foy milagre não lhe acertar nhú tiro. E dos noffos acertauã todos nos ímigos & matauão muytos: & ate ho foi faydo tirou a carauela trinta tiros: & então começou de fayr do rio de Repe¬ lim a armada dos immigos, que era de cento e feffenta nauios de remo .f. fetenta & feys paraos com arrombadas de facas dalgodão, que efte ardil derão os Italianos, porque lhe a noífa artelharia não fizeffe nojo: & leuaua cada hú duas bombardas, & vinte cinco homés, cinco efpingardei- ros, & os outros frecheiros. E vinte deftes paraos yão encadeados, & çarrados pera aferraré logo a carauela: yão mais cincoenta & quatro catures, & trinta tones de coxia com cada hú fua bombarda, & dezafeys homes de peleja de diuerfas armas. E a fora eftes nauios armados yão muytos outros com géte q cobrião ho rio: &*yão em todos dez mil ho¬ més, de que era capitão mór Nambeadarl, & foto capitão ho fenhor de Repeli. E certo q era coufa de grande efpãto ver tamanha multidã de ímigos por agoa, & por terra, q tudo cobriã & todos meyos nús, & hús baços, & outros negros. E o foi daua nas lãças & agomias q trazião muyto luzentes: & refprandecião muyto mais com ho foi reuerberar ne¬ las, & affi os efcudos q erão de muytas cores, & tã finas que parecião efpadas açacaladas. E pera mais efpantar os noffos aleuantauão grãdes gritas,. & apos eles tocauão feus inftormentos de guerra: & ifto tão ameude que nunca ceffauão cÕ húa coufa ou com outra. E os noffos efta- uão no meyo de tamanha multidão, q quafi fe não éxergauão metidos na carauela, & nos bateis, com q tomauão quafi todo ho paífo, cÕ cabos dados de hús aos outros: & as amarras forradas de cadeas por lhas nã cortaré, & todos muyto efforçados dãdo fogo aos tiros, com q receberão aos ímigos. E nefte tempo os del rey de Cochí fugirão todos, & ficarão fomente Candagorá & Frãgorá por eftarem na carauela & não os deixa¬ rem fugir, pera q viífem o que fazião os nofTos no combate, que andaua ja muyto trauado. E erão tantas as bõbardas & efpingardadas q nem auia qué ouuiffe, né viffe cõ ho fumo da artelharia, & a carauela, & os bateis ardião em fogo. E na primeyra çurriada arrombarã algús paraos dos ími¬ gos, & lhe matarão & ferirão muyta géte, fem os nofTos receberé nhú dãnò, eftãdo dos ímigos a tiro de lança: & como erão muytos & fem
  • Livro I, Capitolo LX1X 145 orde, hús toruauão os outros q não pelejaffem. E com tudo a çarraçada dos vinte paraós q eftaua diante, apertaua muyto os noiTos com a efpin- gardaria q trazião. E os noiTos fofrião muyto grade trabalho mais de can- fados, que de feridos. E auédo hú pedaço q duraua efta afrõta, mandoulhe Duarte pacheco tirar cõ hú camelo q ate étão não tiraua pera outras par¬ tes: & de duas vezes q tirou defmãchou a çarraçada & arromboulhe quatro paraos, q logo ficarão alagados: & coifto foy defbaratado & fugio. E logo outros paraos cõtinuarão ho cobate: de q os nossos meterão oyto no fundo, & arrobarão treze, & os outros fe afaftarão cÕ muytos mais mortos & feridos q os primeyros. E apos eftes entrou ho fenhor de Re- pelim cõ outro efcoadrão, & apertou muyto rijo os noffos: & afli el rey de Calicut de terra. E efte combate foy muyto mais rijo q nhú dos outros em q forão mortos & feridos muytos mais Imigos q dantes: q era ja a agoa de cor de fangue. E por mais q ho fenhor de Repelim bradaua q aferraffem a carauela núca oufarão antes fugirão, & afli fugirão os da terra. E feria ja defpois de vefpera, q ate então durou ho combate, em q dos Imigos afli na terra como no mar forão mortos trezétos & cícoéta homes conhecidos a fora os outros q paflauão de mil: & dos noflos não morreo nhú fomete algús feridos de frechadas, & algús efcalaurados dos pelouros dos Imigos: q com quanto lhe acertauão & yão muyto furiofos, & erã de ferro coado não fazião mais q efcalauralos como qualquer pedra darremeffo, porem as fuas arrobadas forão todas paffadas & qbra- das: & hú dos bateis foy arrobado: mas não de maneyra que não foffe concertado antes da noyte. CAPITOLO .LXIX. Do q fe\ ho capitão mór Duarte pacheco defpois dejle combate. I CAndagorá & Frangorá q eftauã cõ Duarte pacheco quãdo virão os Imigos defbaratados fem nhúa perda dos noffos ficarã muyto efpan- tados: & pedirãlhe perdão da defconfiãça q teuerão de poder re- fiftir aos Imigos, & cõfeffarãlhe q ouuerão tamanho medo q cuydarão de morrer, & q ja eftauão bé feguros de el rey de Calicut não poder étrar por aqle paffo: ele lhes rogou q afli ho diffeffem a el rey de Cochí & a fua géte: & q lhes fizefle perder ho medo que tinhão, & defpedios logo pera Cochí, õde eles acharão noua q Duarte pacheco fora defbaratado, q afli ho forão lá dizer os Naires q fugirão em fe começando ho combate. E fabédo el rey como paffara os caftigou de palaura muy rijamente: & mandou vifitar Duarte pacheco pelo principe de Cochí, & por não deixar Tomo I >9
  • Historia da índia 146 a cidade em tal tepo ho não fez por fua pefToa: & afíi lho mãdou dizer com outras muytas palauras damor. E coefta vitoria q noilo ienhor deu aos noffos crerão el rey de CochI & feus vaíTalos tanto neles q perderão ho medo del rey de Calicut, & não ouue quem falaffe em fe ir de Cochim. Duarte pacheco naquela noyte feguinte mandou aos feus q erão da vigia que a cada quarto fizelfem folias & muytas feitas de tangeres: porq os Tmigos foubeffem q ficarão muyto defcanfados: & q os não tinhão em cota: & fabendo ele que no dia feguinte lhe não auião de dar combate, defpois de comer foy cõ corenta Portuguefes fobre hum lugar do Caimal de Cãbalão em q matou muyta gente, & ho queymou fem lhe matare nem ferirem nhú dos feus. E ao outro dia foy pola outra carauela que eltaua concertada, & étregue a capitania dela a Diogo pirez acabou de çarrar ho paffo, & deu a capitania do batel em q andaua Diogo pirez a Chriftouã jufarte. E ate lhe el rey de Calicut dar outro combate fez fem- pre muyto dãno em Cãbalão, & a vefpera do cõbate correo ho rio dam- bas as bandas & fez grãde deftruyção. CAPITOLO .LXX. Do fegúdo combate que el rey de Calicut deu ao capitão moor Duarte pacheco. EL rey de Calicut ficou muyto magoado de nã poder defbaratar os Portuguefes daquele primeyro combate, cujo efforço deitou em roíto aos feus capitães & lafcarins defhonrrandoos grandeméte. E auido perdão dos feus pagodes que os Bramenes lhe fizerão crer que efta- uão menencorios dele, lhe dilferão ho dia em q auia de defbaratar os Portuguefes que acertou de fer em dia de Pafcoa, pera o q fez húa ar¬ mada mayor q a palfada de cem paraos & outros tantos catures & oytenta tones, em que fe embarcarão quinze mil homés: de que os cinco mil erão frecheiros, & duzentos efpingardeyros, & trezetos & oytéta tiros darte- Iharia, os mais deles de metal q lhe fazião os dous milanefes q por iffo os tinha em grande eftima, & lhe fazia muytas merces. E vído ho dia de Pafcoa cuydou el rey de Calicut de tomar por manha Duarte pacheco, & mãdou fefíeta paraos fobre a fua nao pera que indo lhe acodir deixaffe ho paffo defemparado, & ele podeffe entrar em Cochim. E eftes paraos forão fem os ver Duarte pacheco por hú efteiro de maré que fe metia no rio de Cochim, por õde tambe el rey de Calicut poderá ir fem paffar pelo paffo de Cambalã: & deixaua ho de fazer porque auia por injuria deixar de ir por aquele paffo por amor de Duarte pacheco que lho defen-
  • Livro I, Capitolo LXX *47 dia. E eftãdo ele efperando polo cobate efpantado de como tardaua tãto, fedo noue horas do dia lhe foy dito da parte del rey de Cochim q aco- difle á fua nao porq lha tomauão os paraos que eftauã fobrela. E enten- dédo ele logo ho ardil del rey de Calicut teue cofelho, c que foy acordado que fofle focorrer a nao com a carauela de Diogo pirez & ho batel de Chriftouão jufarte, porque tinha terrenho & vazãte de maré q ho auião dajudar a ir mais afinha: & que fe ho cõbate da nao fofle ardil pera os Imigos entraré ho paffo que não podia a fua armada fer tamanha pois eítaua repartida, que lhe nã defendeffem a entrada a carauela & ho batel que ficauã no paffo ate que ele tornaífe: que feria muy cedo com a maré & viração que começarião a efle tempo. E coefte confelho fe partio: & indo a vifta da nao deu a carauela em hú baixo com que Duarte pacheco fez algúa detença em a tirar dele: & como os Imigos a virão fugirão logo cÕ medo. E nifto vetou a viração cõ que fe Duarte pacheco tornou ao paffo Õde ja a frota del rey de Calicut eftaua as bõbardadas cõ a carauela & cõ ho batel por mar & por terra & tinhãnos é grande aperto. E cõ a vinda de Duarte pacheco que lhe deu nas coftas & os outros por diante forão tão mal tratados que fugirã, hús pelo rio acima & outros varãdo 5 terra. E nefta peleja perderão os Imigos dezanoue paraós queimados & alagados & forão mortos perto de duzetos deles & dos Portuguefes nhús: o que parecia milagre, porq a hú calafate Bizcainho q auia nome Inhigo de Portugalete deu em hú ombro hú pelouro de pedra do tamanho de húa grande laranja, & derribandoho paffou ainda lonje fem lhe fazer mais que húa pifadura no hombro & no rofto & efteue hú pouco atordoado: & a outro deu outro pelouro fe lhe fazer mal, & defpois foy dar na pa- deffada da carauela q era de boa groffura & paffouha. E outro defpois de dar em dous homes, a que nã fez nada paffou a amurada da carauela & afli outros. O q os Portuguefes tinhão por milagre & louuauão noffo fenor que lhes daua efforço pera refiftiré aos Imigos de q não fazião conta: & por iflo logo ao outro dia foy Duarte pacheco qimar hú lugar do Caimal de Cãbalão, & no caminho defbaratou quatorze paraós carre¬ gados de gete. E tornado ao paffo foy certificado por dous Bramenes q no dia feguíte lhe auia el rey de Calicut de dar outro combate, polo q lhe deu hú fardo darroz, que pera ho tempo era grande dadiua por a grande valia que tinha.
  • Historia da índia 148 CAPITOLO .LXXI. De como el rey de Calicut foy defbaratado no terceyro combate. CO.mo quer que el rey de Calicut tinha por muy certo leuar nas mãos os Portuguefes no primeyro combate: & vio q na pode no primeyro nê no fegundo arrepedeofe logo de fazer efta guerra & quifera deixala fe poderá, mas os mouros ho eftoruarão: & també feus vaflalos fe éfadauão coela cõ ho medo q auião aos Portuguefes, em tato que não fe querião embarcar pera eíte terceyro cõbate & embarcarãfe cÕ pregações dos Bramenes q el rey mandou que lhes pregaflem. E a armada cõ q deu eíte terceyro combate foy mayor q a do fegúdo, & de mais artelharia, & auia corenta mil homes por mar & por terra, & é terra húa eftancia dõze tiros dartelharia: & por conlelho dos dous milanefes forão os nauios da armada repartidos por efcoadrões pera q em canfando hús entraffé outros. E em amanhecendo começarão os de terra de dar ho combate eítando coeles el rey de Calicut que ho atiçaua cõ muyta preffa. Duarte pacheco porque os do mar fe chegaffe bé as carauelas, & lhes fizefle mayor dãno, mandou a todos q não fe moltraffem ate os Imi- gos não fere bé chegados. E eles cuydãdo q era cõ medo derão húa grãde grita dãdoos por tomados, porq aili ho differão os Bramenes da parte dos pagodes, & os immigos ho tinhão por tão certo q indo em boa ordem fe defordenarão cõ enueja de quem chegaria primeyro pera aferrar. E chegando a tiro de lãça defpararão os Portuguefes toda lua artelharia dãdo pelos da terra & pelos do mar, matando muytos Imigos, & meten- dolhe oyto paraós no fundo, de que ficarão tão falteados que fe teuerão fem paliar auãte. E como por compriré com el rey de Calicut que os via jugauão cõ fua artelharia. E vendo el rey quão pouco fazião, mandou afaftar ho fenhor de Repelim que eftaua na dianteira & meter Nambea- darim com lhe mãdar que aferraffe logo as carauelas mas tão pouco fez hú como ho outro, pofto que os de fua capitania trabalharão bé por afer- raré: poré os Portuguefes faziã marauilhas emjjfe defender. E era a peleja muy afpera dambas as partes, alfi darremeffos, frechadas & efpingarda- das que cobrião ho ceo, & muytas frechas cairão nas carauelas trancadas húas nas outras: por onde fe pode ver quantas erão que fe encõtrauão no ár: & coifto & com ho fumo da artelharia não auia quem fe viffe nem ouuille, & ver antre toda efta matinada & multidão dos Imigos quavo couíinhas tão pequenas como as carauelas & os bateis de que os Portu¬ guefes fe defendião também que os não podião os Imigos aferrar era pera
  • Livro J, Capitolo LXXI 149 louuar a noflo fenhor por tão milagrofamente moftrar feu poder, de ho dar aos Portuguefes pera alé de fe defenderem offenderé aos immigos com tãtas mortes, feridas, aleijões & deftruição de nauios, que de ho não poderem fofrer fe afaftarão do combate fem daré polos brados de Nam- beadarim né por feus ameaços: & braffemauão dos Bramenes que lhes mentião. E em começãdo de fe afaítar acendeofe fogo no batel de Chrif- touão jufarte, pelo que tornarão ao combate cõ grandes gritas cuydando de tomar ho batel, que não tomarão por lhe fer defendido muy rijamente, pelo que fe afaftarão de todo & fugirã, & ho mefmo fez el rey de Cali- cut com quãtos eftauão coele leuando a artelharia da eftancia. E ifto feria húa hora defpois de meo dia, & ho cõbate foy muyto mayor q nhú dos paffados: & defpois foube Duarte pacheco que forão dos immigos mortos feys centos, & q lhes meterão no fundo vinte dous paraós. E vedo ele que fugião foy apos eles nos bateis tirandolhes muytas bombardadas, & defpois faltou em terra & queimou dous lugares, & coifto eftauão os Imi- gos muyto efpantados, & dizião que ho Deos dos Portuguefes pelejaua por eles. E logo na noyte feguinte rendido ho quarto da prima foy Duarte pacheco com coréta & cinco Portuguefes nos bateis queimar húa grande pouoação por as efpias lhe daré auifo que ho podia fazer o que fez ate ho quarto dalua. E tornado ao paflo, mandou dizer a el rey de Cochim o q fizera aqla noyte, por onde podia julgar quão canfado ficaua com os feus do cõbate: por iffo que defcanfaífe & não lhe lêbraífe a guerra, & por ifto mãdou el rey fazer grandes feftas. E os mouros de Calicut q ho fabião tinhão por iffo grande magoa, & vendo que nã fe podião vingar dos Portuguefes que eftauão com Duarte pacheco, quiferão vígarfe dos q eftauão nas feytorias de Coulão & de Cananor efcreuédo a eftes dous reys que tal dia tomara el rey de Calicut as carauelas & matara os Por¬ tuguefes, & eftaua pera entrar em Cochim que mataffem os que eftauão nas fuas cidades como ho tinhão prometido a el rey de Calicut, o que eles quiferão fazer fe os não toruarão os Bramenes, dizendo que não ma¬ taffem tão leuemente homés que tomarão em fua goarda ate que el rey de Calicut lhe não efcreueffe, & afli ho fizerão: & logo fe foube a ver¬ dade, pelo que também ceifarão de fazer o que os mouros querião.
  • iSo Historia da índia CAPITOLO .LXXII. De como el rey de Calicut quifera deixar a guerra. ALgus daqles fenhores que ajudauão el rey de Calicut vendo quão mal lhe focedia a guerra, & quão bem a Duarte pacheco temerão q ho defbarataffe de todo, & porque fe aíli foífe ficauão perdidos por terem fuas terras ao longo dos rios que lhas tomaria: & por iflo de¬ terminarão de fe ir do arrayal & poerfe em parte que fe a el rey de Cali¬ cut lhe não foffe melhor reconciliarião cõ el rey de Cochim pera q Duarte pacheco eítcueffe bem coeles, & fe não tornarfeyão pera el rey de Cali¬ cut. E eites forão ho Mangate muta Caimal vaffalo del rey de Cochim, & hum feu irmão, & hum primo, que logo ao outro dia defpois deite derra- deyro combate fe partirão fecretaméte & forã fe pera a ilha de Vaipim. E quando el rey de Calicut ho foube íintioho muyto, & renououfelhe a magoa de fe ver defbaratado tantas vezes, & lembrandolhe quanto dãno tinha recebido defpois de ter começada aqla guerra não tinha nhua pa¬ ciência. E querendo ho algús daqueles reys & fenhores cõfelhar, lhe dizião que não fe agaítaffe por logo não vécer, porque os Portuguefes não fe defendião fe não como defefperados, & porem como erão poucos não lhes auia daproueitar, & que os auião de tomar por derradeyro, & q lhes parecia que fe não erão ja tomados que era por a fua gete os não ter em conta. E ficando el rey muyto agaítado deitas palauras, lhes ref- pondeo. «Ainda que cada hum de vos feja tão efforçado que vos pareça pouco ferem os frangues vécidos, não fou tão fraco que mo não pareça, nem me parece que vedes em mí temor pera me efforçardes coefas pala¬ uras, porque me podeis dizer que eu mais não finta: pelo que neite cafo me não podeis dizer coufa que me fatiffaça, & fe fintiffeys o que eu finto conheceríeis camanho feyto fera vencer os frangues que vos fazeis tão pequeno, & não ho hey por grande em ferem vencidos fe não em fe defen¬ derem como fe defendem, que parece que ho feu Deos peleja por eles, & que os faz inuenciueis: & quereis ver que he aíli, a noífa gente he muyta, & fe he efforçada & fabe pelejar viofe em muytas batalhas que venceo defbaratãdo grandes exercitos como fabeis, & defpois que peleja cÕ os frangues parece q perdeo ho efforço, & ho faber pelejar: & he ho feu medo tamanho q fendo fem coto a refpeito dos frangues, não oufam daferrar coeles: no q vejo o que todo homem de bõ juyzo deue de ver q eíta obra mais he de Deos q dos homes, pois quê ha de pelejar coele & quê lhe não ha dauer medo, & mais vendo que lho hão algús dps q nos
  • Livro I, Capitolo LXXII iSr ajudauão, q nos deixarão & fe forão. E també chegafle ho inuerno em que fera forçado recolherme, & na entrada do verão chegara a armada de Portugal & fara a que fez a do anno paffado, & núca fayrey de defa- uenturas com que me acabe de perder de todo: pelo que me parece que deuo de deixar a guerra, vede vos fe vos parece afli. » E logo o prfcipe Nambeadarim oulhando pera todos diffe. «Pois el rey nos pede confelho q deue de fazer no que lhe vay tanto, eu como que mais finte fua perda direy meu parecer: que he de fazermos paz cÕ os frangues & fermos feus amigos, porque como diz el rey, ho feu Deos peleja por eles, & eu afli ho creo: porq doutra maneyra ja forão tomados. E também me ajuda a crer ifto a fem rezão que fazemos em fazer guerra aos frangues pera def- troirmos el rey de CochI, a q fem nhúa caufa temos feyto tanto dãno, matandolhe ho anno paífado os feus príncipes, & quafi toda fua gente: & queimandolhe Cochim fem nhúa caufa como digo pois não foy por mais que por recolher em fua terra os frangues, que égeitados del rey de Calicut ho forão bufcar, não fomente égeitados mas mortos, & roubados, & lãçados fora de Calicut tédo feguro del rey, & recebidos é fua goarda, fem teré feyto porque recebeífem tanto mal: porque fe foy por deteré a nao de Cogeçameçadim nã tinhão culpa, porque el rey lhe mandou que a deteueffem. E fe étão fora de todos confelhado tão verdadeiramcte como ho foy de mim, os mouros ouuerão de pagar o q fizerão: & fe ho pagarão moftrarafe não ter el rey culpa no que eles fizerão pois a nã tinha, & ifto abaftara pera cõferuar a amizade dos frangues, & não fe forão de Calicut a Cochí, õde elrey por maos confelhos trabalhou tanto polos auer como que lhe teuerão feyto grandes males, fendo eles tã bos, tão verdadeyros, tão manfos & tão efforçados & agardecidos do bem q lhe fazem, que por amor del rey de Melinde que os agafalhou alargarão duas naos carregadas douro: bé viftes quão rico prefente trouuerão a el rey, q mercadorias tinhão & quanto dinheiro pera a carga: bé viftes como derão a nao dos alifantes a el rey, não faze ifto ladrões q lhe os mouros chamão, né no fam fe não homés pera folgaré de os ter por amigos: & mais pois el rey perde tanto em fuas rendas não tédo coeles amizade & fe lhe acrecentão muyto tédoa, porque nã a tédo como fam muyto pode- rofos no mar deféderã q nã venhã nhúas naos a Calicut, & el rey ficara fem nhúa réda: pelo q fe deue de fazer a paz.» E como quantos ali eftauã erã peitados pelos mouros q cõfelhaffé a el rey q nã defiftiffe da guerra, afli o fizerã eftranhãdolhe muito dizer q queria defiftir dela, abo- nãdoo de poderofo, louuãdoo de muy ciuel, poédolhe temor de infame fe defiftiffe da guerra. E os mouros lhe offrecerão logo fuas peífoas & fazé- das pera a guerra: & tãto fizerão hús & outros q el rey efcolheo a guerra:
  • 152 Historia da índia & logo ali fe affentou, q pois el rey nã podia paliar polo paífo de Cabala, q paffaífe por outro que auia nome palinhar lonje daqle, q por fer muyto forte & quafi impodiuel a paífagé por ele nã fe goardaua: & defpois del rey paliar por ele padaria a Cochí polo pado do vao como fizera ho ãno padado. E ido adentado, logo ao outro dia foy leuãtado ho arrayal, & el rey padou pelo pado q digo, & adentou feu arrayal é terra de Repeli & de Porquá fe ho faber Duarte pacheco, q nã teuerã fuas efpias tepo pera lho dizere fe não quando el rey de Calicut começaua de padar. CAPITOLO .LXXIII. De como el rey de Calicut deu ho quarto cõbate a Duarte pacheco. COmo Duarte pacheco fabia q não podia eftoruar a el rey a padajem por Palinhar por nã poder leuar la as carauelas nem os bateis por amor dos baixos q auia: porc fofpeitãdo q a padaje del rey por ali era pera étrar pelo pado do vao: determinou de lho defender, & porq não podia leuar lá as carauelas també por amor de baixos leuou as a outro chamado Palurte que efta dous terços de legoa do pado do vao, q he de largo hú tiro de béfta & de coprido hú pouco mais, & cÕ baixa- mar dá a mayor altura dagoa pela cinta, & ho outro he quafi defcuberto & cõ preamar nã fe pode padar por fer a agoa muy alta: & por eíte pado do vao fer tão perto do de Palurte fazia Duarte pacheco cota que ho goardaria na vazante da maré cõ os bateis, & ho de Palurte ficaria goardado cõ as carauelas. E chegado a efte pado, faltou na ilha Darraul em q foube que andauão quinhêtos Naires de Calicut & cõ fua gente matou muytos & catiuou cincoéta q deixou denforcar por lhos el rey de Cochim mandar pedir. E fabédo q ao outro dia que era ho primeyro de Mayo auia el rey de Calicut de cometer dentrar polo vao, deixou Pero rafael nas carauelas cõ hú final q lhe faria fe fe vide em afrõta: & ele foyfe antemanhaã cõ os bateis ao vao: & em chegãdo mandou dar aos feus grãdes gritas pera q os ímigos foubedem que era chegado & q os nã temia. E vedo q ho não cometião, tornoufe a Palurte cõ a enchéte dagoa & cõ a vazante fe tornou ao vao, & afli fe reuezaua de dia & de noyte nas vazãtes & échétes cõ muytas calmas & chuuas & cõ outros muytos trabalhos q padou cõ os feus em hú mes & vinte tres dias defpois q fe mudou do pado de Cambalão. E em quanto lhe el rey de Calicut nã deu combate fez grande deftruyção na terra: & nifto foy auifado que el rey de Calicut ho auia de cõbater no pado de Palurte & q ho fenhor de Repeli tinha a dianteira cõ quinze mil homês. E adi fez ele moftra da
  • Livro I, Capitolo LXXI1I i53 armada húa tarde vefpera do dia em qúe fe auia de dar ho cõbate, & tirou toda a artelharia, & dauão os Imigos fuas coquiadas, & Duarte pacheco mãdou fazer ho mefmo aos Portuguefes: & mandou arrafar a põta da ilha Darraul porq os Imigos não aífentaífem antre ho aruoredo algú tiro fecreto com q lhe fizeífem dano, & mandou dar cabos dúa carauela a outra pera fazer dous bordos fe lhe compriffe: & toda a noyte fez cõ os feus gran¬ des alegrias. E antemanhaã chegarão do vao Simão dandrade & Chriíto- uão jufarte, porq ficaua feguro cõ a maré que enchia. E defpois de todos comerem, lhes diffe. Bem fabeis companheiros q el rey de Calicut vem oje fobre nos determinado de nos entrar, ou por efte paífo, ou polo do vao: eu pela experiécia que de vos tenho não lhe hey medo. E fobre tudo com a confiãça na mifericordia de noffo fenhor que por fua piedade nos não ha de negar fua ajuda, onde importa tanto pera fua gloria, por cuja honrra pelejamos principalmente: & defpois pola del Rey noflo fenor. E deueis de crer q aífi como nos ajudou fempre nos ajudará agora & téde por final diifo fer oje baixa mar ao meo dia ate cujo termo não pode os Imigos cometer ho vao, & por a força de fua peleja fer ate eftas horas fe ate elas lhe defendemos efte paífo como efpero: eu vos dou por feguro o vao. E pera nos defendermos não vos ponhão temor feus feros, pois fabeis bê onde chegão: & lembreuos q o que ate agora tendes feyto pola mifericordia de noífo fenhor (ele feja louuado) he húa coufa tamanha, q pera muyto mais: & muyto mais gê te do q fomos fe pode cotar por mila- grofa. E pois ho noífo bõ Deos todo poderofo, vos quis cõ fua ajuda dei¬ xar fazer coufas tão milagrofas: encomendouos muyto como a verdadeyros Chriftãos ,q não queirais perder efta gloria por algúa pouca dafrõta q po¬ dereis oje mais receber q os outros dias: porq fera pera acrecentamento da honrra & fama q ganhaftes ategora. Ao que todos refpõderão, q aíli ho farião: & que todos eftauão pera ho ajudar ate morte. E fendo ho dia claro apareceo a põta da ilha cuberta de Imigos, pera daré dali combate com algúas bombardas q tinhão aífentadas em eftancias de terra, q os empa- raífe da noífa artelharia. E dali começarão logo de cõbater muyto rijo: & niflo apareceo a frota, q era de .ccl. nauios. E por vir ainda lõje & os Imigos apertaré de terra, fe meteo Duarte pacheco nos bateis, & a força de remo remeteo a ela: & fem temer os muytos tiros q lhe tirauão faltou nela cõ os noífos: de que os Imigos pola mifericordia de noífo fenor ou- uerão tamanho medo q fe recolherão detrás das fuas eftãcias, õde os noífos efteuerão pelejãdo coeles, ate q a frota chegou perto q fe tornarão a recolher. E vedo Duarte pacheco doze paraos q vinhão defmãdados diãte, foy pera os cometer: & por fe eles deteré, & nã oufaré de paífar auãte, os não pode aferrar: & por ja chegar toda a frota recolheofe ás Tomo I 20
  • 154 Historia da índia carauelas: deixado arrombados dous paraós. E recolhidos mãdou abaixar todos os feus, porque os não mataffem os tiros dos Imigos q erão muyto baftos: & chegarão fe logo corenta paraós encadeados muyto perto das carauelas que as querião aferrar. E niflo mandou Duarte pacheco dar ás trõbetas, & os nolfos fe leuantarão cõ húa grande grita defparando toda fua artelharia q defencadeou logo algús dos paraós. E por iífo ho fenhor de Repelim mandou ajútar coeles outros: & os tiros erão tantos dambas as partes q nhúa das frotas fe enxergaua cõ fumo ainda q dos Imigos morrião boa forna como erão muytos: ho fenhor de Repelim os fez paliar auante, que quafi chegauão as carauelas. E dãdoas por aferradas, ceifa¬ rão de tirar cõ a artelharia, & então fe acédeo a peleja mais braua q dãtes: & as frechas, & fetas, & lanças, & paos toftados erão em tanta auondança, q faziã fombra nos nauios: & erão os gritos & brados tantos, q parecia fundirfe ho mundo. E durou a peleja hú bÕ pedaço fem fe incli¬ nar a vitoria a nhúa parte: em q os nolfos fofrerão trabalho immenfo. Porq como os Imigos erão fem coto, como hús canfauão entrauão outros de refrefco. O q os nolfos nã podiã fazer, & de cada vez lhes era necef- fario terem nouas forças: no q fe pode crer fem duuida, q nolfo lenhor fupria ali com fua mifericordia: & aífi ho dizia Duarte pacheco aos feus trazendolhe a memória o q tinhão feyto, & o que lhe prometerão de fazer naqla batalha. E aíli ho fazião eles: & arrombarão, & meterão no fundo tantos paraós, & matarão tantos dos inimigos, que ja cõ medo nã que¬ rião pelejar, nem por mais promelfas q lhe ho fenhor de Repelim fazia: a que el rey de Calicut, que ellaua de terra combalendo os nolfos, mã- daua dizer muyto a miude que apertalfe com as carauelas, & as aferralfe. Mas nem por ilfo a gente ho queria fazer, tamanho era ho medo que auia dos nolfos. O q vendo ho fenhor de Repelim quis entrar ho palfo pera cõtétar el rey: ao que eles refiftirão muyto rijo, pofto que com afrõta grandiílima: porque os Imigos apertauão muyto por entrar: & como os paraós yã muy fechados, fez a noíTa artelharia muy grande deftroço neles, & nos immigos. E as carauelas também receberão muyto dãno, que todas forão palíadas, & as arrombadas efpedaçadas, & feridos muytos dos nof- fos. Mas quis nolfo fenhor, que ho fizerão tão efforçadamente, q eftes do mar fe afaftarão, & os que eftauão em terra deixarão logo a ponta com muyto dãno que receberão. E vendo el rey de Calicut que ho combate dos paraós celfaua, mandou dizer ao fenhor de Repelim que mal compria coele o q lhe prometera daferrar as carauelas, ou entrar ho palfo: & que ho via muy afaftado delas, & que feu irmão feria ja perto do vao: & ele eftaua lonje de ir laa. E coefte recado tornou ho fenhor de Repelim a apertar com as carauelas: & começou de chamar os feus: de que ho
  • Livro I, Capitolo LXXIII i55 feguirão algús que os outros auião medo: & com aqueles fez tanto como dantes. E eftando Duarte pacheco nefta fadiga, chegou Candagorá, & diflelhe da parte del rey de Cochim, que Nambeadarim ya ao vao com groífa gente: & que não tardaífe: porque el rey de Calicut lhe auia dir nas coftas. E vedo ele q ainda era muyta agoa por vazar, mandoulhe dizer, que fe na agaftaffe: que bem fabia ho tempo a que auia dacodir. Partido efte melfegeiro chegou logo outro com ho mefmo recado a Duarte pacheco queTefpondeo que os deixalfe; porque nã era aquele ho dia del rey de Calicut, nem era tempo de perder ponto, que fe aventuraria niffo muyto: & que não era ainda defembaraçado dos paraós. E pofto que Nambeadarim chegaífe ao vao, nã ho auia de poder paliar, por auer muyta agoa por vazar: que ele fabia quando auia dir. E como ja fe che- gaua a vazãte da maré, foyfe el rey de Calicut com a géte q tinha pera ajudar a feu irmão a entrar ho vao: & com fua ida os immigos fe afaf* tarão de todo, & fe forão. E deixando Duarte pacheco efte paífo feguro, partioie pera ho vao: onde auia de fazer pouca detença, por ali durar pouco a vazante da maré. E chegãdo lá foy baixa mar de todo, & a géte de Nambeadarim começaua de chegar & leuaua algús berços écarreta- dos: Duarte pacheco pos a proa neles, & entrou pelo vao ate dar em feco tirando cõ a artelharia & efpingardaria, & almazé de fetas, & arremeífos com que fez neles tanto dãno, q fe deteuerão fem paffar mais auãte. E como eles erão muytos, os noffos não podião errar tiro: & os Imigos não acertauão nhú: porq todos dauão nas padelfadas dos bateis. E nifto che¬ gou a força da gente de Nãbeadarim, q erão doze mil homés, & hús cometerão détrar ho vao, outros carregauão fobre os bateis que não na- dauão. E foy húa braua peleja fobre chegaré a eles: & os tiros & arre- meffos erão muytos dambas as partes: q certo não fe pode contar quão medonha coufa era ver os bateis q fe não podião bolir, & os noífos dentro cercados de tantos Imigos, q não trabalhauão por outra coufa fe nã por chegar a eles. E como Deos milagrofamente os tinha, q ho não podião fazer, antes muytos fe retirauão, & outros fe tinhão quedos, caindo muy¬ tos mortos, & feridos, que era a agoa de cor de fangue. E ifto duraria húa grande hora: & no cabo dela começarão os bateis de nadar. Os noífos que ho entenderão apertará tão rijo cõ os Imigos q lhes fizerão deixar ho vao, & acolherãfe a terra muyto cõtra votade de Nãbeadarim, a q nefte tépo chegou géte de refrefco, q lhe el rey mãdaua. E coela tornou a en¬ trar no vao, & tão aluoraçado que não atétou pola maré que crecia. E Duarte pacheco polo éganar moftrãdo q lhe auia medo fe retirou bé pera détro do vao, fé tirar fua artelharia: & cõ a géte abaixada. Os Imigos dãdo grãdes gritas entrarã apos ele com agoa pela cinta: & vendo os ele
  • iS6 Historia da índia bem metidos virou fobreles as bobardadas, & ferindo & matando algús os fez fugir. E mór dãno lhes fizera, fe os deixara entrar mais dctro. E não os deixou porq a géte de CochI começaua ja de fayr ao vao. E não quis q cuydafTem que ho ajudauão, nem menos quis que ho ajudafiem no começo: porq trabalhaua por lhes moftrar que os feus abaítauão pera defbaratar os Tmigos fé fua ajuda. E recolhidos os immigos a terra, que feria a horas de vefpera, fez lhe tanto dãno que fe meterão bé pelo fer- tão: & affi nefta peleja como na de Palurte lhe não matarão nhú dos feus: & dos Tmigos não fe pode faber ho numero dos mortos, fe não q forão muytos & perderão muytos paraós. E el rey de Calicut ficou tão agaf- tado, & trifte por ho fenhor de Repeli não aferrar as carauelas, né feu irmão entrar ho vao, que lhes difle a ambos palauras muyto injuriofas. CAPITOLO .LXXIIII. De como algús q erão da parte del rey de Calicut fe pajfarão pera el rey de Cochí. DEsbaratados os Tmigos, & chea a maré no vao tornoufe Duarte pachcco aas carauelas, que achou em paz. E el rey de Cochim lhe mandou preguntar como lhe ya, & aos feus: & ele lhe refpon- deo que bem, & que aíli lhe iria fempre, fe foubeífe que fe auia por fer- uido do que tinha feyto. Vécida efta batalha, ho Mãgate, & feu irmão que eftauão na ilha de VaipI perderão de todo a efperãça que el rey de Calicut ouueífe vitoria. E tedo mandado parte de fua gente a el rey de Cochim fe forão parele com a outra, com que Duarte pacheco não folgou nada, porque fe não fiaua deles pola deflealdade q tinhão cometida a el rey de Cochim ho anno paífado: & por lhe não quererem acodir com fua gente no começo daquela guerra fendo feus vaffalos: poré diffimulou ifto. Ao outro dia que el rey ho foy ver leuando os cõfigo & todos ho abraçarão defpois, & oulhauãno como efpantados do que tinha feyto contra el rey de Calicut. E entendendoos ele diflelhes que fe não efpan- taffem, porque ainda tornaria a fazer o que tinha íeyto, & que não ou- ueífem por muyto defbaratar a el rey de Calicut, porque a outros móres reys defbarataria com aquela gente. E os fenhores refponderão que fe não efpantauão de defbaratar a el rey de Calicut, fe não de como oufara de ho cometer: ao q ele difle que afli fizera el rey grande doudice niflo. E paífadas antreles outras muytas palauras de muyta honrra de Duarte pacheco, offrecerãfelhe ho Mãgate & outros fenhores por feruidores del Rey de Portugal: & defpois fe tornarão pera CochI, a q logo foy noua q
  • Livro I, Capitolo LXXV i57 no arrayal del rey de Calicut fobreuiera húa fupita doéça: que como hum homem adoecia morria logo, & aquele que mais duraua não paíTaua de dous ou tres dias, & erão muyto poucos os que durauão tanto, & a doença era como peite: fe não que nã nacião leuações: & morrião cada dia duzentos homens: & por iffo fe foy a mór parte da géte do arrayal, porque a doença durou muytos dias, & foy coufa de milagre que não morrião fe não no arrayal del rey de Calicut q com effes reys & fenho- res que ho ajudauão fe a faltou hú pouco do corpo da gente porq fe lhe nã pegaffe elte mal. E afli elteue é quãto durou, que fem duuida parece que foy'praga mãdada por noífo fenhor pera que os noffos teueífem tre- goas: & defcanfaffem, porque ceifarão os inimigos da guerra em quãto durou eíta doença: & os de Cochim eltauão coela muyto ledos. E neíte tépo forão ter a Cochim muytas naos dos mouros que hi morauão: que por feu mandado yão de Charamãdel inuernar a outras partes: porque não ouueífe em Cochim mãtimentos: & fe defpouoaffe. E parece que noífo fenhor não quis que iíto ouueffe effeyto & deu tempo nas naos com que lhes foy forçado arribar a Cochim, & ali inuernarão é que lhes pefou, & venderão os mãtimentos que trazião com que a terra foy muyto abaf- tada. CAPITOLO .LXXV. Como el rey de Calicut em pejjoa combateo ho pajjo do vao. TOdas eítas profperidades del rey de Cochim forão logo fabidas por el rey de Calicut q lhe acrecétarão mais a magoa q tinha de ver quão mofino era. E defcõfiando de feus capitães fazerem coufa boa, quis meter coeles fua peífoa pera étrar ho vao: & efquecido de quantas injurias diífera aos Bramenes. preguntoulhes qual feria bõ dia pera eíte cometiméto. E eles lhe diflerão q os pagodes eltauão muyto menencorios dele por as injurias q lhes diífera: & q em pédéça lhe mãdauão q fizeffe hú turcol no lugar da peleja: & q aueria vitoria, & q deífe a batalha a húa quita feyra feys ou fete de Mayo. Do q logo Duarte pacheco foy auifado por fuas efpias, & mandou fazer padeífadas nouas: & arromba¬ das, & rnuyta forna de dados de ferro pera meter é rocas de fogo com q tiraffem aos Imigos & affi muytos paos toltados agudos pera arremeífos, & muytas eítacas dareca de pontas agudas & fotis, pera meter no vao pera os Imigos fe eltreparé nelas: porq todos yão defcalços, & ja tinha metidos abrolhos de ferro: & por feré curtos acrauauãfe na area. E feyto iíto tornoufe pera as carauelas, õde deixou repoufar fua géte ate a mea noyte. E defpois de comeré deixando em feu lugar a Pero rafael, partiofe
  • i58 Historia da índia pera ho vao nos bateis: & chegou lá húa quinta feyra fete de Mayo húa hora ante manhaã dando fuas gritas, & fazédo fuas feftas coftumadas por efforçar os de Cochim: & porq foubeffem os de Calicut q era chegado, & achou trezentos Naires na eftacada, q lhe difTerão, q ao dia dantes def- pois de ele ido: fe forã dali muytos Naires do Mangate: o q lhe pareceo treyção & mandouho dizer por hú Naire ao príncipe de CochI, & q fe viefle logo pera a eftacada, porq ele eftaua ja no vao efperãdo por el rey de Calicut q feria coele em amanhecedo. Mas efte Naire não deu ho re¬ cado ao prlcipe, fe não a tépo q nã aproueitou. E em amanhecendo come¬ çou dafomar ho exercito dos Tmigos q vinha repartido por efta maneyra: yã diante trinta tiros dartelharia, & logo ho principe Nambeadarim cõ hú efcoadrão de dez mil homés, os dous mil frecheiros, & trinta efpingardei- ros: detrás dele ho fenhor de Repeli cõ outra tanta géte: & nas coftas el rey de Calicut com quinze mil homés, & obra de quatrocétos cõ machados pera cortaré a eftacada. E Duarte pacheco nã tinha mais q coréta homés em ãbos os bateis: & é cada hú quatro berços, porem bé prouidos de munições. Os Imigos q acõpanhauão a artelharia, q era hú bõ corpo de géte: em chegando começarã logo de tirar aos noflos. O q vedo Duarte pacheco foyfe a eles tirãdo fua artelharia com que lhes fez deixar a praya & recolherfe ao palmar ficando algús mortos. E dali efteuerão hú pedaço jugãdo as bõbardadas ate q chegou todo ho corpo dos Imigos, q cobrião toda a terra. Nambeadarim q tinha a dianteira mandou logo cometer os noflos cõ grande furia, & eles ho fizerão ter: adi cõ a artelharia, como cÕ as rocas de fogo q lhe lançauão, & os dados matarão muytos: & vé- doos os Imigos faltar ficauã muy efpãtados, & cuydauão q erão feytiços, & porq a agoa vazaua muyto rijo recolheofe Duarte pacheco pera ho alto por não ficar é feco, & mãdou a Chriftouão jufarte q tomafle a boca do vao & a defendefle, porq a não tomaflem os immigos, que cada vez aper- tauão mais pera entrar: & entrarão muytos, & fobre ifto foy húa muyto crua & efpantofa peleja, & forão tantos mortos & feridos dos Imigos, q fe teuerão por mais que NambeadarI lhes bradaua q palfaflem auãte, & era a prefla tamanha dos noflos em fe deféder pelo grande aperto em q efteuerão que não ouuio: q lhe diflerão algús que os Naires de CochI erão fugidos da eftacada, & a deixarão fó. E nifto fe auiuou mais a pe¬ leja, porq chegou el rey de Calicut, q Duarte pacheco conheceo por a bandeira, & fombreiro q Ieuaua, & mandou tirar cõ hú berço ao lugar Õde parecia com tenção de ho matar, & não foy morto por fe ele baquear do andor em q ho leuauão, & ho pelouro matou dous homés júto dele, & como ele ifto vio afaftoufe logo dali, com que os feus fe aluoraçarão tãto que fe meterão de roldão ao vao, & com a furia que leuauão fe en-
  • Livro I, Capitolo LXXV i5g crauarão muytos nas eítacas fem atétar por iflo: & cayão hús porcima dos outros, & embaraçaranfe de manayra que efteuerão quedos, & teue- rão os noflos tempo de os matar com fetadas & efpingardadas, mas nem por iflo deixauão de cobrir a agoa & a terra tantos erão. E nifto os dos machados derão na eftacada (fem os noflos atentarem com acupação que tinhão) & como a achara fem goarda por fere fugidos os de Cochim começarão de a cortar: & entrarão logo algús frecheiros dando grandes gritas, & tirarão aos noflos que ficarão cercados de todas as parles: de q os combatiã fortemente. Duarte pacheco q vio a eftacada entrada efteue em grãdes duuidas, porq fe lhe acodifle étrauão os ímigos ho vao & dãdolhe nas coftas ho tomarião ás mãos, & fe lhe não acodia entrarião por ela todos & irião deftruyr CochI fem lho poder defender. E por der- radeyro determinou dacodir á eftacada, porque nela fe poderia melhor emparar dos inimigos & offendelos, que do batel. E dizédo ifto aos feus, remeteo a ela defparando fua artelharia em rodauiua, & tirando cõ as rocas de fogo, & com outros arteficios, & arremeflos, & entra polos ími¬ gos que yão pera a eftacada, & tolheolhes q não paflaffem auante matando algús. E andando nifto quafi que ficou em feco por fer muyta agoa vazia. E logo Nãbeadarim carregou fobrele com dezafeys mil hornés, & dando grandes gritas chegarão tanto ao batel que lhe Iançauão mão dos remos, & a barafunda era tamanha q parecia que fe fundia ho mundo, & as fre¬ chadas dos immigos & arremeflos erão tão baftos q matauão a eles mef- mos, & os noflos fe defendião com grande efforço de detrás de fuas arrombadas, & por iflo os não podião entrar, porem afogauãnos por ferem tantos. E defta vez efteuerão quafi perdidos fe lhe noflo fenhor não acodira cõ fua mifericordia, porq tinhão rachado hú traueflam: & def- feytas quafi todas as arrobadas, & gaitadas as munições q durou a peleja mais tempo do q Duarte pacheco cuvdou. E eftãdo nefta afronta chega a maré q fe não via cõ a grãde reuolta: & pola falta q tinha de munições, & fe reformar da gente por ter ferida muyta lhe foy forçado chegar á boca do vao onde efperaua dachar tudo por deixar dito a Pero rafael que lho mãdafle, & leuou trabalho grãdiflimo em fayr donde eftaua, que nuca ho batel pode virar cõ os ímigos que ho tinhão cercado, & cercado deles fayo com a popa por diante, & afíi foy ate chegar a Chriftouão jufarte, q també teue aflaz de fadiga em deféder a boca do vao, & matou cõ os feus muyto grãde forna dos ímigos. E achando aqui o que ya bufcar, refezfe de tudo cõ Chriftouão jufarte: & leuouho configo por não fer ne- ceflario defender mais a boca do vao por amor da enchéte dagoa q ho fazia defpejar dos ímigos, & ho mefmo fizerão outros que eftauão na efta¬ cada polos apertarem muyto cõ a artelharia, & muytos forão mortos, hús
  • Historia da índia 160 de feridas, outros dafogados: & os noflos os feguirão ate a banda de Porquá onde eftaua el rey de Calicut muyto enuergonhado pelo que dif- fera a feu irmão & ao fenhor de Repelim & não fazia mais q eles: & apertados os Irnigos dos noflos fugirão todos. E indo el rey fugindo pela borda dú palmar defrõte das carauelas: mãdoulhe Pero rafael tirar com húa bombarda grofla, q lhe matou dú tiro treze homês & hú deles daua ho betele a el rey, & matouho tão perto dele q ho encheo de fangue: & el rey fe baqueou do ãdor cõ medo, ficandolhe na peleja morta gete fem conto, fem dos noflos morrer nhú, durando ela de pola manhaã ate ho meo dia. E quando el rey dõ Manuel de Portugal foube defpois eíta vito¬ ria por amor da lealdade q el rey de CochI vfou cõ os noflos na guerra paflada & nefta, & do feruiço que lhe fez lhe deu feys centos cruzados de tença de juro, q fe lhe pagão eÕ grande folénidade: & ho padrão defta tença lhe leuou defpois dom Francifco dalmeida primeyro viforey da Índia como direy no fegundo liuro. CAPITOLO .LXXVI. Do que Duarte pacheco dijje ao príncipe de CochI fobre a treyção q lhe foy feyta. DEspois que el rey de Calicut fugio, partiofe Duarte pacheco pera as carauelas fem querer falar ao principe de Cochim por amor da treyção q lhe fizera os feus Naires em deixarê a eftacada: & pareceolhe que ele fora em confentimento diflo pois não viera a tépo: & mandandolhe ele pedir q lhe falafle a borda dagoa, lhe mandou dizer q não podia por leuar fua gête canfada, & que pola manhaã lhe ouuera de falar quãdo lhe mandou dizer q el rey de Calicut ya pelejar coele no vao: & pois não fora nã tinha mais q falar q deixarlhe CochI feguro del rey de Calicut & coifto mandou remar rijo: & tirar bõbardadas, & dar gritas. E'parecêdo ao prlcipe aquela reporta afpera: & de quê eftaua agrauado dele, tornoulhe a mãdar pedir q lhe falafle, & ele de importu¬ nado lhe foy falar: queixandofe ho principe de fua reporta, lhe pregútou q culpa lhe daua. E ele lho difle, & que lhe parecia q aquilo fora treyção do Mangate & de feus parêtes: & porem que não crefle que lhe podia empecer: porq a defcõfiança que tinha dele & dos feus lhe faria lazer fuas coufas com melhor recado, & quê tão mal goardaua fua terra q leue- mête a perderia, & fe aquilo fora trato que pouco ganhara em fe ele per¬ der, & fe ho não era que nã podia difculpar os feus de fracos, ainda q fer a gente fraca, ou efforçada lhe vinha do capitão. Ao principe vierão
  • Livro I, Capitolo LXXVI1 161 as lagrimas aos olhos cÕ afpereza deftas palauras: & difle q lhe não deffe culpa no q dizia, porq a não tinha, ne creíTe dele o que dizia, porq feu recado lhe não fora dado mais cedo, nem foubera que el rey de Calicut auia dir ao vao, & q ho não julgafle por homem de tratos, & mais pera quê tantas vezes fe auenturaua a morte por amor del rey de Cochim, que fe lhe mais cedo fora dado feu recado, mais cedo fora: & coifto diífe outras coufas com q Duarte pacheco perdeo a fofpeita q tinha & ficarão amigos. E Duarte pacheco fe foy pera as carauelas õde el rey de Cochim ho foy ver faindo ele em terra a recebelo: & el rey ho abraçou cÕ muyto amor, & a todos os noífos: & affi mãdou q o fizeífé os fenores q yão coele. E qrédo el rey defculpar ho prícipe da culpa que lhe deu, diffelhe q não foubera que el rey de Calicut auia de ir ao vao fe nã quando ele mãdara chamar ho principe que fora ja tarde: & que não vira os Bramenes: porquem lhe mãdara dizer da vinda del rey de Cali¬ cut. Duarte pacheco lhe diífe, que ele quifera efcufar de falar naquilo, mas q pois vinha apropofito que lhe diria o q entendia: que era não lhe ferem ho Mangate, nem feus parentes tão leays como ele cuydaua, & que fe ho eles nã forão dãtes, como fio auião de fer querendo fua ami¬ zade mais por conftrãgimento de temor q por amor: & que era certo q eles fizerão que os Bramenes lhe deffem feu recado pois mandarão ir a tal tempo a fua gente da eítacada: & por a culpa que fabião que tinhão ho não forão ver, & pois não tinha neceífidade deles pera que os queria em Cochim, que os deixaífe ir pera el rey de Calicut: porque lá fe temeria deles menos que em Cochim. E que também os feus Naires ho deixarã ja duas vezes que não fabia q aquilo era, que fe lhes mãdaua húa coufa pe¬ rante ele: & outra em fecreto q ho defenganaffe, & que ifto lhe não dizia por neceífidade q teueffe dos feus: mas porque não conheceffem os immi- gos quão fracos erão. El rey de Cochim ficou muyto trifte do que lhe Duarte pacheco diífe: & difculpoufelhe tanto que ele ficou fatiffeyto: & outra vez tornou el rey a mandar aos feus que lhe obedecelfem como a ele mefmo. CAPITOLO .LXXVII. De como el rey de Calicut mãdou deitar peçonha nos mantimêtos que os nojfos auião de comprar. EL rey de Calicut ficou muyto efpantado de ver tantos mortos dú fó tiro: & teue por grande marauilha efcapar dali viuo: & porem ficou muyto corrido de não fazer mais que os outros indo ele em peffoa, & polo encobrir tornaua a culpa aos bramenes & feiticeyros que Tomo I 21
  • IÕ2 Historia da índia lhe confelharão q defTe a batalha: & diífelhes que erã muyto grandes mintirofos, que cada dia ho enganauão, & que os não auia mais de crer, que fe ho aífi fizera da primeyra vez q ho éganarão, que não recebera tanta perda como recebeo. E afii diffe muytas injurias aos Naires: & eftaua tão menécorio que parecia doudo. Os reys que ali eftauão lhe dif- ferão que não tinha rezão de os culpar de fracos: porque não ouuera outros homés que lhe refiítirão fe não os frangues que erã feyticeiros & com fevtiços podião tanto. Ao que ho fenhor de Repelim também quis ajudar. E el rey lhe diífe q fe eles erão pera tão pouco como lhe nã aferrara as carauelas cõ tão groffa armada como leuaua: & que lhe ma¬ tara tãta géte, & porq lhes não entrara ho vao: dizcdolhe muytas vezes q fe calaífe q não fizeífe tão pouco do q era tãto, q fe não podia vencer cõ tantos milhares de homés, q nã pofeffe a culpa de feré os feus vécidos aos feytiços fe não a feu pouco efforço: do q ele ficou grandeméte éuer- gonhado & diflimulou, & cofelhoulhe que mãdaffe deitar peçonha na agoa de q fe prefumiffe q os noífos podião beber: & aili os mãtimétos q lhe vedeffé & q mandaífe Naires a CochI, q mataífé fecretaméte dos noflos os mais q podeflem, & por efta m^neyra os apouquentaria pois não podia por outra. E efte confelho mandou logo el rey q fe pofeífe em obra: & ouuera dauer efeyto fe não fora por Charcanda hú Naire que fora criado do príncipe Naramuhim q ho defcobrio a Duarte pacheco, q rnãdou logo q fopena de morte fe nã tomaíTe nhúa agoa pera os noífos fe nã e fõte q cada vez fe abriíTe de nouo, porq na terra auia tanta agoa q abaítaua pera iífo. E pera os mãtimentos ordenou dous homés q os não compraf- fem fem primeyro tomar a falua quem lhos vendeffe. E pera os Naires que auião de matar os noífos proueo el rey de Cochim como era neceífa- rio, afii ficarão os ardis del rey de Calicut todos atalhados, a que defpois que ho foube foy confelhado pelos mouros que mãdaífe queimar Cochim fecretamente, & que mandaífe combater jútamente a nao & as carauelas, & que mãdaffe leuar cobras de capelo em panelas pera que as deitaífem nas carauelas & mordeífem aos noífos, & quando pelejaífem mandaífe deitar pelo ár pós peçonhétos que os cegaífem: & que tornalfe a comba¬ ter ho palfo do vao, & leuaífe alifantes armados pera traftornaré os ba¬ teis, & que não podia fer que coiíto nã defbarataífe os noflos: o que ele creo que feria afli. E começando de fe perceber pera iífo, foy dito a el rey de Cochim, onde fe leuantou grande rumor com ho medo que a gente ouue coeftas nouas: & el rey foy ver Duarte pacheco & lho diífe: do que fe ele rio dizendo q tudo aquilo erão feros del rey de Calicut que fazia fempre pera ver fe lhe auião medo, & em fim auia de fazer tão pouco como ateli. Porque ele tinha ordenada húa coufa que fe el rey viefle ho
  • Livro I, Capitolo LXXVIII i63 auia de prender, & tomarlhe os alifantes, & matarlhe quanta gente trou- ueffe. E que ja ho fizera, fe lhe lembrara mais cedo: por iflò que fe não agaítafíe, & que fe tornafle a Cochim, & que lhe mandafie quantas ca- deas, & amarras de naos lá ouueífe, porque lhe erão neceffarias pera o que auia de fazer. Do que el rey foy muyto ledo: & logo lhas mãdou. E Duarte pacheco fingio que queria fazer hú grande edifício, & dous dias não confentio que nhú de CochI fo(Te ao vao. E nefte tépo mandou abrir á borda dagoa grandes couas & altas: & trauefTar nelas grandes vigas. O que vendo os de Cochim, crerão o q lhes dizia: & perderão ho medo que tinhão, & defejauão que vieffe el rey de Calicut: a que forão as no- uas de todas eftas coufas, & do que Duarte pacheco dizia. O que os feus crerão, & ouuerão tamanho medo que por nhúa maneyra quiferão ir coele ao vao nem menos pelejar com as carauelas. E nã fez tão pouco quãdo os pode perfuadir que foffem pelejar com a nao de Duarte pacheco: o que ele fabendo mandou recado a Diogo pereira: & que fizeffe como ho¬ mem, que lhe não auia dacodir: porque fe temia, que mandar el rey de Calicut fobre a nao, era trato. E Diogo pereyra lhe refpodeo, que per- deffe o cuydado, q ele lhe daria boa cõta dela, & afíi ho fez: pofto q pelejarão coele oyteta paraós: de q alagou dous, & arrombou tres: & matãdolhe muyta géte os fez fugir. E eftes se forão a húa ilha q eftá hi perto, q fe chama a terra dos clco caimais: & refazendofe de géte forãfe a outra ilha del rey de CochI, q eftá quafi defronte da noffa fortaleza, & faltarã nela muytos dos Imigos, & poferãlhe fogo. E os moradores q erã gente baixa & não pelejauão fugirã logo, lançãdofe ao mar pela outra bãda da ilha: & forãfe a nado pera a noffa fortaleza. E Lourenço moreno quifera ir fobre os Imigos, mas ho feytor não quis, dizendo q erão muy¬ tos, & q ele ao mais q podia leuar dos noffos feriã quinze: & q yã e grãde rifco, q melhor acodiria Duarte pacheco. E mandoulho dizer: & qrédo ele lá ir, foube q os Imigos erão idos: & por iífo não foy. CAPITOLO .LXXVIII. De como ho capita mór Duarte pacheco pelejou cõ cincoenta & dous paraós dos inimigos. DEspois difto eftãdo Duarte pacheco hú domlgo jentando na fua ca- rauela q viera de vigiar aquela noyte, como fazia as outras, diffe- lhe hú homé que eftaua no topo do mafto, q pola bãda de Repeli vinhã dezoyto paraós de Calicut. E fabendo que não erão mais diffe aos feus: Ea filhos, vos outros eftais pera dar neftes paraós. Bem fey q eftais
  • IÔ4 Historia da índia canfados do trabalho delta noyte & doje: poré eftes fam os paraós q quei¬ mará a ilha de CochI, eles fã poucos & recolhéíe, & agora paífa de meo dia: fe dermos neles, efpero q noffo fenhor nos ajude, & q os leuemos na mão. Todos differão que eftauão preftes. E deixando recado a Pero rafael que lhe focorrelfe na fua carauela fe folfe necelfario, ébarcoufe nos bateis, & mandou a dous paraós de CochI q hi eftauão que fe adiantafle, porq erã mais remeiros pera q lhe fizelfé deter os Imigos: q vendo ir os nolfos contreles amainarão, & tomarão os remos, & deixaranfe ir pareles. E chegãdo aos nolfos a meo rio, fairão fupitaméte detrás de húa ponta deza- feys paraós, & apos eles dezoyto: & feytos cÕ os primeyros em tres efquadrões, poferãfe a tiro de bõbarda hús dos outros. Duarte pacheco q vio tantos pefoulhe de os ter cometido por quã íingelo ya, q não leuaua mais q corenta & quatro dos nolfos: & como ja nã auia outro remedio de¬ terminou de os aferrar: & efforçãdo os feus pos a proa é os primeyros, & tirãdolhe as bõbardadas arrobou dous. Ho q vendo os Imigos teueranfe, & os nolfos lhe derã húa grãde grita: & remetendo a dous q yão diante pera os aferrar, fentirã nas coftas hú dos outros efquadrões, q apertauão coele as bõbardadas. E por ilfo Duarte pacheco virou a eftes cÕ ho feu batel: & poédo a popa na do outro deixouho, pera q pelejaífe com os dous q ya aferrar. De que ho eftrouarão os Imigos que fobreuierão: & poferanfe hús com os outros as bombardadas, & os nolfos ficarão cerca¬ dos deles: porem eftauão mais feguros dos tiros que os Imigos, por amor das padelfadas que tinhã: & meterãlhe quatro paraós no fundo, & em outro arrebétou hú tiro, & matoulhe ho bõbardeiro, & outros dous ho- més, & os outros fe lãçarã logo ao mar & fugirão pera terra a nado. E os nolfos tomarão ho paraó, & outros fugirão, indo os nolfos apos eles as bõbardadas: & alcançãdoos júto cõ terra chegarãfe tão perto, q juga- uão as lançadas, tedo os Imigos as popas dos paraós é terra. E os nolfos os defbaratarão logo, fe nã fobreuierão por terra muytos e fua ajuda: & cõ tudo aferrarãnos. E os primeyros q faltarão é hú paraó dos Imigos forã, Ioão gomez bojardo, & Niculao hires, & cõ outros q faltarão logo fizerã recolher os Imigos a popa do paraó, onde fe defenderão hú pouco: & aíli nefte paraó como em outros foy a peleja muy grande. E dos Imi¬ gos hús pelejauão, outros fe lançauão ao mar & fugião pera terra: & por deradeyro adi ho fizerã todos cõ medo dos nolfos, que fizerão efte dia coufas marauilhofas. E fegúdo fe depois foube, nunca os Imigos teuerã por tamanho feyto nhú de quantos os nolfos fizerã nefta guerra como efte: nem ouue ate efte tépo outro q lhe tanto quebralfe os corações, porq afora ferem vencidos morrerá muytos: & dos nolfos ficarão algús feridos. Def- baratados os Imigos, os nolfos tomarão quatro paraós que nã poderão
  • Livro 1, Capitolo LXXIX i65 leuar mais, & acharão neles muytas armas, & treze bombardas, as qua¬ tro delas eram muyto boas, & húa era de metal, q tiraua ferro coado, & mais furiofo q hú falcão. E partido Duarte pacheco tornarão os ímigos a meterfe nos paraós, & feguirãno as bõbardadas, mas nã q lhe chegafle. E ele os leuou aíli ate as carauelas. E deixãdoos hi, tornou fobre os Imi- gos as bõbardadas, & arrobou algús deles, & os outros fugirão fé os poder alcãçar. E tornãdofe vio da bãda de Repeli grãde multidã dos Imi- gos q acodiã aos paraós. E da bãda de Cochi eftaua el rey coeffes fenhores q ho ajudauão: q indo vifitar Duarte pacheco chegou defronte das cara¬ uelas a tépo q ya de largo pelejar co os paraós, & por iffo vio a peleja, & fez grãde feita co a vitoria dos noflbs. E conhecédo Duarte pacheco q el rey de Cochi eftaua é terra, mãdou logo q fizeffé as carauelas preítes, pera ho feftejaré cõ a artelharia. E foyfe logo parele que ho recebeo bradando cõ todos os feus, Portugal, Portugal. E Duarte pacheco cõ os noffos, Cochim, Cochi. E apos ifto faluã as carauelas cõ a artelharia: & Duarte pacheco faltou é terra, & el rey ho leuou nos braços cõ grãde alegria: & os outros fenhores ho abraçarã defpois: & eíteuerão falando no que lhe acontecera cõ os ímigos. E credo el rey q fora pelejar com os paraós cõ os ter viíto todos diffelhe, q fe pofera e grãde rifco: & ele nã lhe qrédo dizer como fora, lhe difle q cada vez q fe achaffe cõ outros tãtos, pelejaria cõ eles: & q cometeria por feu feruiço outros móres feytos que aquele: & offreceolhe a prefa dos paraós que tomara, q el rey não quis: faluo quatro bombardas, & outras muytas armas: & fez Duarte pacheco perantele noue caualeyros: & dizedolhe el rey, como cada dia fe yã parele muytos daqueles que lhe forão reueis, que ajuda¬ uão a el rey de Calicut: ele ho auifou que fe não fiafle deles. CAPITOLO .LXXIX. De como os ímigos êtrarã na ilha de Cochim, & forã dejbaratados por certos poleás. MUyto trifte ficou el rey de Calicut pelo defbarato dos feus paraós, & por as bõbardas que perdeo: & diíte fobre iffo muytas pala- uras magoadas. E por não anojar os mouros não diíiftio da guerra, q temia iréfe de Calicut, & perder toda fua renda. E os mouros lhe confelharã q mandafle meter naos grandes pelo rio de Cranganor: que ya ter ao de Repeli, por onde yão ao paflo de Palurte: & como as naos erão muyto mais altas que as carauelas podelas yão aferrar. E el rey ho quifera fazer, mas não pode fer, por nã poderem as naos chegar
  • i66 Historia da índia ao pafTo por hús bayxos que eftauã no caminho & tornaranfe. E vendo os mouros ifto confelharão a el rey, q mandafle cõbater ho vao pelo prín¬ cipe, & pelo fenhor de Repelim tantas vezes que canfaflem os noffos, & os tomaffé: & ifto fe determinou. Do que fendo Duarte pacheco auifado, foy amanhecer ao vao, leuando com os bateis os quatro paraós que tomara, & poffe da bãda da terra de Porquá, onde faio a efperar os im- migos como coftumaua, porem eles não vierão: Porque fabendo ho prín¬ cipe, & ho fenor de Repelim como a noffa armada eftaua acrecentada, ouuerão medo de fere defbaratados, & não quiferão ir. E porque não an- daffem em delongas de pelejas, determinarão de entrar na ilha de Cochim por outro paflo que fe chamaua o de Palinhar húa legoa a baixo do vao que era muyto eftreyto: & era tão forte com vafa rnuyto alta, & efpinhey- ros muyto groffos e baftos, que parecia q era impoflivel poder entrar gente por ele. E por iffo ho mais do tempo eftaua fem goarda: & também por¬ que nunca os Imigos fizerão inclinaçã de entrar por ele: & como ho prín¬ cipe & ho fenhor de Repelim fabião q eftaua mal goardado, quiferão prouar de entrar porele: & mandaram ir diante muyta gente baixa, cÕ machados, enxadas, & ceftos, pera fazerem caminho aos Naires: & como o paffo eftaua fem goarda logo foy feyto, & os Naires começarão den- trar, & forão dar com muytos poleás, que fão trabalhadores, gente muyto ciuil antre os Malabares. E como virão entrar os immigos, & não virão quem lho defendeffe: defenderãho eles: & apilidarão logo a terra dando fuas coquiadas, aque acodirão hús com éxadas, outros com paos feytiços & pedras, porq não podé ter outras armas: & hús de ca, outros de la fizerão hú bom corpo de gente, & derão nos immigos, ainda que erão Naires, que lhe defendia a fua ley fopena de morte, que fe nã tocaflem coeles. Porq crem os Naires que ficão çujos: & tanto crem ifto, que ainda aqui com medo de fe çujare, vedo remeter os poleás a eles fugirão. E como os dianteiros derão nos trafeiros defbarataranfe, & fugirã tão defa- tinados que cayão hús por cima dos outros, & os poleás tomando as armas a muytos que matarão, as pãcadas matauã coelas outros: & afli os defbaratarão & lançarã fora da ilha: & os outros que eftauã por entrar nela não oufarão de paflar auãte, credo que andaua ali Duarte pacheco. E afli fe forão defbaratados ho príncipe, & ho fenhor de Repeli, com muyta gente morta, por fe os feus Naires não quereré tocar com os poleás de Cochim. E fabédo na fortaleza defta peleja acodiolhe Lourenço moreno cõ algús dos noffos, & ja nã achou que fazer, que era ho feyto acabado, que fe fez tão preftes que nem a gente que mandou el rey de Cochim em focorro não achou q fazer: mas poffe em goarda daquele paífo. Os poleás defpois que defbaratarão os immigos atauiarãfe per man-
  • Livro I, Capitolo LXXX 167 dado de Lourêço moreno, dos paos & armas dos mortos: & forão dar conta a Duarte pacheco do que tinhão feyto, que nunca foube da ida dos Imigos a Palinhar, fe não a tempo q nã podia focorrer. Porque pera ir por agoa auia baixos por onde os feus bateis não podião nadar. E quando vio os poleas que chegauão a ele, leuantoufe a recebelos, crendo que foliem Naires. Candagora que eftaua com ele lhe difle, que fe não ale- uantalfe porque erão os poleas que defbaratarão os Imigos. E ele folgou muyto cõ fua vinda, & fezlhe muyto gafalhado, & mãdouos aífentar, ainda que Candagora nã quifera, & mandauaos leuantar, & ele não quis, di¬ zendo q rezã era que fe fizeííe hõrra a homês que a tambê fouberão ganhar: & pois fizerã hú feyto tã hõrrado que ja não auião de fer poleas, fe não Naires, & que aíli ho auia de pedir a el rey. E logo Cãdagora lhe diífe que el rey ho não auia de fazer, porq não podia: porem Duarte pacheco os mandou todos aífentar e rol, pera pedir a el rey de Cochim que os fizeífe Naires, & affi lho pedio. Do que fe el rey efcufou, dizêdo que era feu coftume não poderê fer Naires, fe nã os que nacião Naires: que fe ho poderá fazer ho fizera de muyto boa vontade, que bem via q ho merecião: mas que os Naires fe leuantarião contrele, porq tinham por preuilegio antigo, que não podeffe fer Naire quê ho nã era de feu naci- mento. E infiftio tanto Duarte pacheco com el rey que lhe fizeífe Naires os poleas, que lhe diífe que pois lhos não queria fazer, que bufcaria quê lhos fizeífe. E el rey diífe que íe ouueífe rey na índia que o quifeífe fazer, q ele o faria. E vêdo Duarte pacheco q não podia fer, contentoufe que el rey deífe preuilegio a eftes poleas, & aos feus defcêdentes, q podeífem paliar pelos caminhos, poíto q pafaffem os Naires, fem terê por ilfo pena, & q podeífem trazer armas, & que foífem liures de todo tributo. E coifto que ouue fe acrefentou ho amor que lhe tinhã os de Cochim. CAPITOLO .LXXX. De húa treyção que hú mouro de Cochim quifera fa\er ao capitão mor Duarte pacheco. EL rey de Calicut q defejaua muyto dauer as treze bõbardas que lhe os nolfos tomarão, cõcertoufe cõ hú mouro de Cochim chamado çamalamacar mercador rico & honrrado q lhas ouueífe. E ele fe offreceo a iífo, por querer grande mal a Duarte pacheco, como todos os outros de CochI lho querião, pofto que dillimulauão. E pera auer as bom¬ bardas ordenou húa treyção, q ou as auia dauer, ou fe auia Duarte pa¬ checo de perder: & começou de a ordir, cõ lhe fazer faber por el rey
  • i68 Historia da índia de CochI que tinha cem bahares de pimenta pera vender na nofla feyto- ria: & por fe temer dos noflos que eftauão nos paffos do vao & Palurte, lhe era neceffaria húa bãdeyra que leuaíTe aruorada em hú tone, onde tinha ébarcada a piméta, pera que védoha os noffos ho na falteaffem. Duarte pacheco deu a bãdeyra, & diíTe q fe foffe neceffario que ele iria pelo tone: o mouro diffe que abaftaua a bandeyra, porq ele não fe temia tanto dos Imigos como dos noffos fem feu final. E efta palaura pareceo mal a Duarte pacheco, porq conhecia ho mouro por roim: & porq el rey era o corretor a não efpeculou bem. E como ho mouro teue a bandeyra mãdou dizer a el rey de Calicut que efteueffe toda fua frota detrás da põta de Repelim, & que vendo ir pelo rio abaixo hú tone com húa ban¬ deyra branca que tinha húa cruz vermelha, faifle a ele dez ou doze paraos & q ho tomaffé, pera q Duarte pacheco lhe foffe acodir cõ os bateis, a q logo fairia toda a armada, & q ho tomariã: & quãdo não, que pelo tone q tinha feyto crer que ya carregado de pimenta aueria as treze bom¬ bardas. E eftãdo el rey de Calicut muyto ledo cõ efte ardil, hú dia pela manhaã paffou ho tone: & por amor da bandeyra que leuaua deixouho Duarte pacheco paffar, fe não quando indo hú pedaço das carauelas vio fair a ele dez ou doze paraos. E vendo ifto acodiolhe com os bateis, & paraós, & hú catur em que ya Pero rafael. E indo ao longo da terra vio vir contrele hú homé correndo, & acenandolhe que efperaffe: ho que ele fez, pofto q nefte inftante os Imigos tomarão ho tone. E chegando ho homé que era hú Panical a borda dagoa, diffe a Duarte pacheco, que não paffaffe auante: porque detrás da ponta de Repelim eftauão cento & oy- tenta paraos de Calicut: & porque ho Panical & outros Naires que hi eftauão não cuydalfem q ele auia medo aos Imigos, diffe que bem fabia que eftauão ali, mas que não auia de fofrer tomare afli ho tone. E dizendo ifto pos a proa nos q ho tomarão, & fez que os ya demãdar. E mandou a Pero rafael que foffe defcobrir a ponta, & fe vilfe os Imigos que tiraffe hú tiro, & viraffe logo: & fe não que aruoraffe húa bãdeyra. E ele virou logo, tirando hú tiro porque vio os Imigos: & eles fairão apos ele, vendo que erão defcubertos: & tirauanlhe muytas bombardadas. E Duarte pa¬ checo lhe acodio logo, tirando do feu batel & dos outros. E fobre reco¬ lher Pero rafael foy hú afpero jogo de bõbardadas: & os Imigos apertauão os noffos muyto rijo, & cõ muyto trabalho fe ajútou Pero rafael cõ eles: & logo Duarte pacheco fe recolheo pera as carauelas com as popas por diante, & as proas nos Imigos por lhes poder tirar cõ a artelharia. E eles trabalhauão quanto podiã por lhe chegar fem temor da nofla arte¬ lharia : & as vezes chegauã a bote de lãça, & afli foy cõ muyta afrõta ate chegar as carauelas, õde fe recolheo cõ outra muyto mayor, & todos os
  • Livro I, Capitolo LXXX 169 feus: porq como os Imigos yão tã pegados coeles, paffarã os noíTos muy grãde perigo: & os Imigos ficará tão perto das carauelas como núca efte- uerã, & tudo foy pera mór feu mal, q como elas começarão de jugar cõ a artelharia fizerãnos afaftar com algús paraós arrobados, em q lhe ma¬ tarão algúa gete: & os noffos lhe dauã grandes apupadas, fazendo efcar- nio de quá pouco fizerão. E indofe ja os immigos, Duarte pacheco foy apos eles nos bateis, tirandolhe bõbardas cõ magoa do tone que vira tomar, que cuydaua que ya carregado de pimenta, como lhe differa çama- lamacar. Do que aquele dia atarde o defenganou ho mefmo Panical q lhe dera ho auifo da armada del rey de Calicut: & diffelhe a verdade do trato de çamalamacar, & a cilada q lhe tinha armada cõ ho tone, & diffe- lhe mais que fe não fiaífe de nhú mouro de' Cochim, porque todos erão feus Imigos. E por eftes auifos lhe fez Duarte pacheco merce: & ao outro dia eftando ele em terra, foy çamalamacar ao paífo com outros mouros, & moftroufe muyto trifte pela perda do feu tone, dizendo q ya carregado de pimenta. Duarte pacheco lhe difle q nã fe agaftaffe, porque tudo faria por ele nã perder fua pimenta. E ele refpondeo q fe cometeffé el rey de Calicut cõ os paraós & bõbardas q lhe tomarão q poderia fer que daria a pimenta a troco. Ao q Duarte pacheco difle, que pera tão pouca pimenta lhe parecia muyto grãde preço ho das bõbardas & paraós, & poré que tudo faria por ele fer fatiffeyto, & q foffe ver as bõbardas: & ifto dizia indofe coeles pera os bateis & chegando a eles diffelhe que étraffe no feu pera ir ver as bõbardas que eftauão nas carauelas. E ele cõ medo fem faber de que não quifera entrar: mas Duarte pacheco ho fez entrar por força: ao que os outros fugirão pera CochI. E chegado Duarte pacheco a fua carauela cõ çamalamacar, mandouho açoutar, & defpois picar com hú caniuete, dizendolhe q como lhe teueffe dado muytos tormentos ho auia logo de mandar enforcar, pola treyção que lhe quifera fazer, & contoulhe como a foubera, picãdoho fempre cõ ho caniuete: cõ ho que ho mouro pagou bem ho q tinha feyto. E eftando pera ho enforcar foy dito a Duarte pacheco da parte del rey de Cochim, que lhe pedia que não fizeffe nada ate ele ir, que ja ya de caminho: porque lhe ya muyto em fe fazer aíli. E a caufa defte recado lhe chegar tão cedo, foy acharéno no caminho os mouros que fugirão; que ya vifitar Duarte pacheco: de quê fe lhe queixarão, dizédo que leuaua çamalamacar ás carauelas pera ho matar, prometêdolhe fe tal foffe de fe irem todos de Cochim. E como efte era hum dos grandes medos que el rey tinha naquela guerra pola falta de mãtimétos que aueria mandou efte recado tão depreflã, & Duarte pacheco por amor dele não mandou enforcar çamalamacar, pofto q lhe pefou muyto de ho não ter feyto: & ate q el rey veo ho atormentou for- 22 Tomo I
  • Historia da índia lyo temente que nhu cabelo lhe deixou na barba. E chegado el rey cõtoulhe toda a treyção que ordenara, pedindolhe muyto que lho deixaffe enforcar: o q ele não quis conceder pela rezão que diffe, pedindolhe por iífo muytos perdões, & certificandolhe que leuara tanto gofto como ele em fer enfor¬ cado, porque ho merecia: & vendo Duarte pacheco ifto lho deu. E el rey ho leuou configo a Cochim reprendendoho muyto do q fizera. CAPITOLO .LXXXI. De como híi mouro inuentou a el rey de Calicut hus cajlelos de madeira, com que podejfem aferrar as tiojjas carauelas. VEndo el rey de Calicut quão pouco lhe aproueitauão feus ardis: & que cõ quanto poder tinha não podia fazer que tendo os noífos tão pouco deixaffem ho paffo, quifera leuantar ho arrayal, & irfe fe não fora pelos mouros que ho reprenderão diffo, & aíli effes reys & fenho- res que eftauão coele: & quafi q ho deteuerão por força, com lhe affir- mare que Duarte pacheco não podia eftar ali muyto: & q como fe foffe entraria ho paffo, & tomaria Cochim. E el rey eftaua ja tão quebrado dos efpiritos, que pofto que via que aquilo não auia de fer, deixauafe ir com o que lhe dizião. E fabédo Duarte pacheco o que differão a el rey de fua partida, pera que foubeffe quão de vagar eftaua, mandou fazer húas cafas em húa ponta que entraua muyto no rio: & mandou abrir húa caua pera que ficaffe em ilha, porq ho não podeffem entrar pola banda da terra firme. E na põtinha da ponta mandou fazer hum baftião muyto forte de terra, & de madeira cercado de caua, em que mãdou poer dous falcões com que varejaua ho rio: & ali junto tinha fua armada, em q faya muy- tas vezes aos paraós dos immigos, que por lhe fazerem fobrançaria fe lhe moftrauão: & quando lhe fugião os ya bufcar por effes rios, & efteiros: & fazialhes tanto dãno que os immigos não oufauão daparecer fe não muytos: & porem poucas vezes por eftarem ja muytos canfados & que¬ brados de vere tãtas vitorias aos noffos, & eles não poderê alcançar nhúa. E por iffo lhe não fayão fe nã quando lho el rey mãdaua: o que nã efpe- rauão da primeyra. E coefta fraqueza dos immigos tinhão os noffos tépo de fazer é fuas terras muyto grande deftruyção cõ ferro & fogo. Com que andauão os moradores tão efpantados que nã oufauão de dormir nos lugares, porque os noffos os falteauão de noyte: & yãofe dormir ao campo, por eftaré mais feguros: & tinhã tamanho medo que yão clamar a el rey de Calicut que lhes valefle, & que acabaffe de deftruyr os noffos, ou fizeffe paz coeles: porque ja não podião fofrer as fadigas daquela guerra:
  • Livro I, Capitolo LXXXI 171 & fe não q lhes feria forçado ire bufcar outra terra em que moraffem. E coifto eftaua muyto trifte, & nã fe fabia dar a cõfelho porque fe queria falar na paz, ameaçauãno os mouros, que fe irião de Calicut: o que ele temia muyto pola réda que niffo perdia: & doutra parte via perder fua terra com que perdia feu eftado. E fem fe poder determinar eftaua em grande agonia, & ela ho pos em tal eftremo que determinou de querer paz com Duarte pacheco, & tão fecretamente que fe não foubeífe fe não defpois de feyta. E a ninguém deu então conta de feu penfamento fe não a dous mouros mercadores de Cochim, de que hú auia nome Chirina marear, & ho outro Mamalle marear. E eftes inftruidos por ele diflimu- ladamente diíferão a Duarte pacheco antre outras coufas que fe ele qui- feífe paz com el rey de Calicut, q nã faria mais guerra a Cochim, & que logo fe iria cõ toda fua gente. E ifto dizião, dando a entender que el rey de Calicut não fabia nada diflb, fe não que fe ele quifeífe negociarião aquilo com el rey polo feruir. E ele que bem entendia fua roindade, lhes refpondeo muy fecamente: que não podia crer que hum rey tão poderofo & tão rico como fe cuydaua no Malabar q era el rey de Calicut, eftando tão acõpanhado de reys & grandes fenhores, & de tanta gete de guerra, quifeífe fazer paz cõ que não tinha mais q fetéta & quatro companheiros, né quifeífe deixar por feu medo o que tinha começado: & pois eles erão tamanhos íeus feruidores como fabia q não diífeífem coufa de que ele receberia tamanha vergonha, nem lhe deuião dacofelhar que deíiftiffe da guerra como fabia que lhacõfeihauão que não defiftiffe: porq a ele não lhe daua nada dela, nem queria paz ainda que el rey quifeífe, fe nã feguilo ate entrar em Calicut: o que foubeífem certo que auia de fazer ainda que fe el rey foífe, & que eles afli lho foffem dizer: porque lhe prometia que fe não fora por el rey de Cochim q lhe dera a paga dos tratos em que andauão, & que fe foífem logo, porque lhe não daua nada de ferem quão roins erão. O que eles fizerão mais rijo que de vagar, & teuerão em muyto irenfe fem outra pena: & não oufando de ir a Calicut mandarão dizer ifto a el rey: q coefta repofta defefperou de poder fazer paz, & não quis falar nela. E neftes dias tornou ao arrayal a doença q fe aleuãtara os dias paífados, & tornou a matar muyta gente, & cõ medo dela fugia tam¬ bém muyta: & efteue ho arrayal em rifco de fe leuãtar de todo. Porem os mouros mandarão trazer de Cananor & de Termapatão feys mil & quatrocentos homés os mais deles frecheiros, & algús efpingardeiros: & afli refizerão a frota com corenta paraós, q trazia cada hú duas bombar¬ das, & ainda defpois veo muyta gente. E porque com tudo ifto entendião os mouros que el rey tinha vontade de defiftir da guerra por quão mal lhe ya nela, acharão húa enuenção pera q podeífem aferrar as noífas
  • I 172 Historia da índia carauelas. E efta deu hú mouro de Repelim chamado Coge alie, que an¬ dara por muytas partes do mudo, õde vira muytas coufas: & por iflo, & por ter bÕ natural era de muy iòtil engenho. Efte fez hú caftelo de mar deira fobre dous paraós, lançado duas vigas da proa & popa dú, a proa & popa do outro, & de tamanho compriméto camanha auia de fer a lar¬ gura do caftelo que foy feyto em quadra. E antre eftas duas vigas yão outras tão jutas que fazião hú fobrado: & de cada quadra auia húa an- daina de vigas daltura dúa lança ou pouco menos, encaixadas as cabeças é conchas de madeira, & pregadas com grades pernos de ferro: & nos corpos das vigas auia tres ordés de furos fechados com barões de ferro, q ao parecer era coufa muy forte. E nefte caftelo podião ir ate corenta homes com algús tiros dartelharia, & por amor dos paraós fobre que era fundado podia ir polo rio & aferrar as carauelas por fua altura: de que el rey ficou muyto ledo quando ho vio, & fez muyto grande merce a Coge alie. E por a vitola daquele caftelo mandou fazer ainda fete pera q coeles aferraffem os feus as noífas carauelas: o que tinha por muyto certo que auia de fer afti. CAPITOLO .LXXXII. Do ardil que inuêtou Duarte pacheco pera q lhe não abalrroajjem as carauelas cõ os Cajlelos. DEstes caftelos foy logo Duarte pacheco auifado per fuas efpias: & mais q auia os immigos de fazer balfas de fogo pera queimarem as carauelas: & quando as não podefle queimar as aferrarião com os caftelos. O q ouuindo a gente de Cochim ho creo logo, & foy toda muy toruada de medo: & cõ o que lhe os mouros fazião, dãdolhe por certo ho defbarato dos noffos, & q auião os immigos de tomar Cochim aluoraçandofe pera fe irem. Do que el rey de Cochim foy aífaz trifte, & mais tão defconfiado que lhe parecia que com aqueles caftelos auião os noffos de fer defbaratados. E diflimulando ifto por amor dos feus, man- daualhes polos efforçar, que foflem preguntar a Duarte pacheco fe efpe- raua poder refiftir a el rey de Calicut: o que eles fazião afii pera verem o que ele dizia, como pera faberem de que maneyra eftaua. E ele lhes dizia, que porq lhe preguntauão aquilo: pois el rey de Calicut ja fora com outros medos tamanhos como aqueles & leuara a cabeça quebrada, que adi feria então, & que fefpãtaua muyto domes que fabião també quão couardos erão os de Calicut creré logo qualquer medo que lhes fazião: & que efperaffem ho fim daquele combate porq auia de fer como ho dos outros. E que quando não, que ainda terião tempo pera fe faluar: & com
  • Livro I, Capitolo LXXXII ij3 quanto eles vião que ele dizia bê era ho feu medo tamanho, que fe nã atreuião a efperar: & como que nã tinhão ouuido lhe preguntauão de nouo, fe auia defperar el rey de Calicut. E importunarãono de maneyra cõ eftas pregútas, que dagaítado efpancou tres deles, dizedo que fe lhes dizia húa coufa, & fabião por experiencia do paífado q lhes falaua ver¬ dade, porque ho na crião. E pera os mais efpantar, mãdou perante todos meter no chão hú pao muyto alto, & agudo, que antre os Malabares fe chamaua caluete, 5 que matã por juftiça a mais ciuel gente da terra: & efpetãnos nele. E porque matão aífi nele a gente ciuel, fe dizem a hú Naire. Naire caluete téno pola mayor injuria que fe lhe pode fazer. E pofto afll aquele caluete, jurou de efpetar nele el rey de Calicut fe lhe deffe combate: porque dizia que ja tinha achado hú ardil pera ho preder logo: & mandou a todos os feus que por defprezo del rey de Calicut dif- feffem com grande grita çamorl caluete: & eles começarão a dizer alli muytas vezes. O que a gente de Cochim teue por tamanha oufadia como tinhão, que era efperarem os noffos ho combate: & forão perdendo parte do medo q dantes tinhão: & dizião que auião defperar ho dia em que fe deffe ho cõbate. E como foy aruorado ho caluete, vão a velo todos os de Cochim: & antreles forão ho Mangate, & outros muytos fenhores q erão vindos nouamente em fauor del rey de Cochim, crendo q os noffos auião de fer defbaratados: & arrependiãofe de teré deixado el rey de Calicut: & nhú deles não podia crer q Duarte pacheco mandaífe meter aquele caluete por defprezo del rey de Calicut. E pera fabere aquilo certo ho forão ver, & differãlhe o que fe dizia em Cochim que daquela vez auião as carauelas de fer aferradas: por iffo que viffe bem o que lhe compria. E ele q entedia a tenção com que lhe aquilo diziã, refpõdeolhes, que ho q lhe cúpria pera fegurança de Cochim era não deixar aquele paífo, & íe iffo nã fora que no paífo de Cambalão agardara ele ho feu rei de Calicut pera ho não deixar paífar. E fe cuydauão que auia com os feus tamanho medo del rey de Calicut como eles auião, que eftauão niífo muyto éga- nados: porque não auia coufa em toda a índia que lho fizeíTe: por iffo não temia ho lião del rey de Calicut, nem fazia eílima dele ne de feus feros: & fe eles oufaffem defperar fua vinda ali ho virião defbaratar com toda fua armada. E creífem que fe ele ho foífe aferrar em peífoa, ou fe pofeffe em parte onde lhe ele podeífe chegar, que ho auia de prender, & defpois metelo naquele caluete que vião: porq pera iffo ho mandara leuantar. E ifto dizia cõ hú alpeito tão menécorio, que eles ouuerão medo que lhes fizeífe algú mal, & por iffo quiferão diílimular coele, dizédo q não crião eles que el rey de Calicut ho podeífe defbaratar: mas que ho auifauão como feruidores del rey de Portugal. E ele lhes diífe q fe forão
  • 174 Historia da índia feruidores del Rey de Portugal, como dizião q não ouuerão de mandar a fua gente que fe foífe da eftacada, auendolhe el rey de Calicut de dar batalha: & que auião dafleffegar a gente de Cochim do aluoroço em que andaua, & moftrarfelhe muyto efforçados: & não irem com biocos a ele & aos feus, que não erão fracos de coração, que por medo fizeffem o q eles fizerão ho anno paífado: & que fe ho não entendião que tornalíem defpois do combate, & lho declararia: & que ho deixaffem entender no que lhe releuaua mais. E eles fe forão fem refponder palaura, de medo q auião dele. E com quanto ele dillimulaua que não tinha em conta os caftelos del rey de Calicut, eles lhe dauão affaz de trabalho no fpirito que receaua muyto de ho aferraré, por amor da muyto pouca gente q tinha. E pera que lhe não podeffem aferrar fuas carauelas, mandou fazer hum caniço de maftos de naos chapados com muytas chapas de ferro: & era de largura do comprimento dos maftos, & de oyto braças de com¬ prido: & eftaua por proa das carauelas afaftado obra dú tiro de pedra, amarrado com feys ancoras, tres a montante e tres a jufante pera que efteueffe mais firme, & porque ficaffem as carauelas tão altas como erão os caftelos, inuentou Pero rafael hús chapiteos feitos de meos maftos, q eftauão impinados & pregados nas amuradas das carauelas, em cujos maftos çarrauão os fobrados dos chapiteos, que erão tamanhos que podião bem efpaçofamete pelejar feys ou fete homées em cada hú. E tendo ifto feyto a vefpera do dia que auia de fer ho combate, ho foy el rey de Co¬ chim vifitar. E ele ho recebeo com os feus foliando & cantando pera que fe alegraífe, que bem entedia pelo que conhecia dele quã trifte andaua, & quão cheo de medo. E com todas eftas feftas não fe pode alegrar, antes lhe vierão as lagrimas aos olhos com piedade dos noífos q daua todos por mortos: & abraçando com muyto gafalhado a Duarte pacheco, ho fez lambem abraçar a effes fenhores q yão coele. E ifto com hú geito de fer aquela a derradeyra vez q fe auião de ver. E defpois fe apartou coele, & com algús dos noífos: & como homem fora de fi lhe diífe. El rey de Calicut tem muyto grãde poder, & nos muyto pouco: & eu não tenho nhúa efperança de defender Cochim, ne menos os meus: & coifto eftão pera fugir como fores defbaratado. E pois eu eftou perdido, rogote que te falues em quanto tés tempo, porque defpois não fey fe ho auera. E como que fe lhe dera hú nó na garganta não pode mais falar. Do que fe moftrando Duarte pacheco muito agaftado, lhe refpondeo quafi cõ ira, dizendo. Que fraqueza he a q conheces em mim pera me dizeres que me ponha em faluo? Que aqui & em qualquer parte que efté, eftou muyto feguro, não fomente de me defender del rey de Calicut mas de ho defba- ratar por mais poderofo q venha. Não me dizias tu todos eftes dias, q
  • Livro I, Capitolo LXXXI1I 17S deos pelejaua polos Portuguefes? Pois como duuidas que ho não faça agora? Eu efpero nele q a menhaã me vejas poer naqle caluete el rey de Calicut. E nifto não tenho eu duuida, fe me ele efperar, né tu a deues de ter fe quiferes cuidar nas vitorias que nos noffo fenhor tem dadas tantas vezes, tendome el rey de Calicut a mefma auãtajem que me agora tem. E iíto deues de crer, & não o que te dizem os mouros de Cochim, q todos nos querem mal: nem os aluoroços que fazem os Naires que hão medo de qualquer coufa: pefete muyto do q me tés dito, & tornate pera Cochi, & tem a gente que fe não va, & deixame coefte paflo, que eu te darey boa conta dele. El rey por não lhe dar paixão fe moftrou muyto efforçado com aquelas palauras q lhe refpondeo: & tornoufe pera Co¬ chim, onde também por efforçar fua gente fe moftrou ir muyto effor¬ çado, & cofiado em os nolfos defenderem ho paflo, fegundo ho efforço q achara em Duarte pacheco: & affirmoulhe por fem duuida, que ho defe- derião & coifto afleflegou os Naires & toda a gente de Cochim do aluo- roço que trazião pera fugir, crendo que auião os noflos de fer defbara- tados. E ainda fobrifto atentarão os mouros de os fazer fugir, poendolhe grandes medos, mas nunca poderão. CAPITOLO .LXXXIII. De como el rey de Calicut deu combate aos uojfos com os cajlelos, & de como foy defbaratado. PArtido el rey de Cochim, Duarte pacheco fe foy pera a fua cara- uela diflimulãdo o defcõtétaméto q lhe ficou de ver el rey tã fraco de coração: o que podia fer caufa de defpouoar Cochi, de q ele tinha grãde receo. E querendo cear cõ os feus chegou Lourenço moreno cõ effes da feytoria, com q coftumaua de ir: porq como difle nunca errou nhúa batalha das q os Imigos derã aos noflos. Acabada a cea repoufarão todos ate a mea noyte, & cõfeífados & aufolutos pelo vigairo, Duarte pa¬ checo lhes diffe. Senhores & amigos meus, muyto alegre eftou de ver q vos lembra ho principal, q he a alma: porq fou certo q coefta lébrança tera noffo fenhor cuydado de vos dar vitoria de voffos imigos, não fométe por fatiffação de voflo trabalho, como por exalçaméto de fua fé catholica. E pera q faiba el rey de Cochi, & os feus que noffo feiíor he Deos ver- dadeyro, & poderofo fobre os poderosos: & nã defconfic do q lhes eu prometo em feu nome, afli como onté defconfiaua da vitoria q lhe prome¬ tia: q be viftes quã trifte & defcõfiado partio, q de nos ter por perdidos me dizia q me pofeffe é faluo. E nunca enxerguey nele tamanho medo,
  • Historia da índia 176 né nos feus ta grade defmayo. E ifto lhes faz teré ho poder del rey de Calicut por mayor do q he q pofto q foffe tamanho como eles cuida muyto mayor fem cõparação he ho de noffo fenhor: & vos bem ho viftes nos focorros paffados que nos mandou. E aifi efpero que feja agora: & coefta confiança venceremos a noffos Imigos: fuftentaremos a honrra q temos ganhada, que daqui por diãte crecera tanto que ficaremos no mundo por efpelho de valentia. E coifto tão temidos na índia, que nem el rey de Calicut, né outro nhú nos oufara de cometer, aífi que ganhando hõrra feguraremos repoufo pera os trabalhos que temos. E acabando refpon- derao todos que fem a vitoria na querião vida. E eftando nifto que feria duas horas defpois de mea noyte começarão de ouuir algúas bõbardadas que tiraua a frota de Calicut: começãdo dabalar: & el rey ya por terra acompanhado de paffante de trinta mil homés com feus tiros de cãpo como coftumaua: & muyto confiado, que auia de defbaratar os noffos, & coifto dobrada foberba da que tinha. E ya diante ho fenhor de Repelim com algúa gente que auia de fazer algús valos na ponta Darraul pera emparo dos imigos no combate & trazia grande vozaria de gritas, & tangeres. Duarte pacheco fe foy logo a terra muy caladaméte & posfe na ponta pera onde os immigos yão; a que defendeo que não fizeffé os valos: & fobrifto matarã os noffos algús. E fabendo el rey de Calicut que Duarte pacheco ho fora efperar mandou aos feus cõ grande menécoria que lho tomaffem viuo pera fe vingar dele á fua võtade. E fobrifto ouue grande peleja & morrerão muytos dos immigos: que nem ho prenderão nem poderão fazer os valos. E começando damanhecer que era dia Da- cenfam apareceo a outra frota q vinha perto, & nifto recolheofe Duarte pacheco aos bateis, & poré com muyta fadiga por a grãde multidão de Imigos que carregou fobre os noffos q todos fe embarcarão fem falecer nhú ficando dos Imigos muytos mortos & feridos. E defpejada a ponta poferanfe os immigos nela & começarão de combater os noffos com a artelharia,_a que eles também acodirão com a fua fazendolhe muyto grande dãno, porque todos os tiros empregauão nos immigos que eftauão delcubertos: & eles emparados, & por ilfo lhe não fazia a artelharia nhú mal. O que vendo el rey de Calicut, mandou recado aos da frota que fizeffem remar rijo, & acodiffem a defapreffalo dos noffos. E chegãdo aa frota vinha coufa muyto medonha, porque diante yão as balfas de fogo ardédo: & apos elas cento e dez paraós cheos de gente, & dartelharia, & muytos deles encadeados, & detrás cé catures da mefma maneyra, & oytenta tones de coxia larga, cada hú cõ trinta homés de peleja: & fem os tiros, & por goarda de tudo os oyto caftelos que ficarão pegados com a põta por não fer ainda de todo a decente da maré. Os immigos yão
  • Livro I, Capitolo LXXXII1 177 fazendo grades alaridos de gritas, & tangeres dãdo os noffos por toma¬ dos, & coifto tirauão tantas bombardadas q era coufa defpãto. As balfas q yao diante chegarão aos caniços q eftauão por proa das carauelas: & por iflo lhe não poderão chegar pera as queymaré, & nã fométe elas mas nhús dos nauios da frota, de q todos os q poderã caber na diãteira fe pegarão com ho caniço: & dali combatião os noffos, que fem duuida forão daquela vez aferrados fe ho caniço não fora. Com efte impeto q foy muyto grãde durou a peleja hú pedaço ate que a maré começou de decer: & neíte tépo receberão os Imigos muyto dãno: affi de paraós arrombados & metidos no fundo, como de muyta gente morta & ferida, & decendo a maré alargaranfe os caftelos da ponta, & ajudando os cõ cabos, porque os alauão forãfe dereytos pera as carauelas no mayor yão corenta homés de peleja, & em dous meãos trinta & cinco em cada hú: & nos outros trinta todos frecheiros & efpingardeiros, & a fora iffo leuauão bombar¬ das: & yão poftos em ala, & tão medonhos que erã pera lhe auer medo húa groffa armada, quãto mais duas carauelas & dous bateis. E efte foy hú dia em que noffo fenhor moftrou bem que tinha de goardar os noffos: porque né a vifta de tantos & tão foberbos artifícios pera os combate¬ rem, né húa tamanha frota & tã poderofa, nem a medonha grita dos Imi¬ gos, né ho brauo eftrondo da artelharia os fizerão efpantar. E chegãdo ho mayor dos caftelos junto com ho caniço defparou fua artelharia nas cara¬ uelas. Duarte pacheco lhe mãdou tirar com ho feu camelo q lhe deu em cheo mas não lhes fez nhú dãno, nem menos com outro tiro com que lhe logo tirarão: de que ficou tão trifte, q leuantou os olhos pera ho ceo dizédo. Senhor não me acoimes meus peccados e tal tépo. E ifto tão alto q algús lho ouuirã. Nefte tépo chegarão os outros caftelos, & poferanfe a par defte: & cõ fua chegada fe auiuou ho combate muy rijo de todas as partes, & forão as frechas tão baftas q fazião fombra: & algúas vezes nã parecia ceo nem terra, com a fumaça da artelharia. Duarte pacheco tornou a mandar tirar ao caftelo mayor com ho camelo: & como dos tiros paffados lhe tinhão abalados os fechos que erão delgados acabarão de quebrar, & leuou hú lanço de vigas cõ algús homés mortos: ao q os noffos derão grande grita. E Duarte pacheco pofto em giolhos deu graças a noffo fenhor: & tornãdo ho camelo a tirar outro tiro, leuoulhe outro lanço de vigas cõ muytos mortos & feridos. E carregãdo mais a arte¬ lharia foy todo deffeyto é pouco efpaço, & os Imigos fe afaftarão coele: poré os outros fe deixarão eftar pelejando muy forteméte: & afli eles como os noffos leuarã efte dia mór trabalho q em todas as pelejas paffa- das. E por derradeyro os noffos fizerão tanto dãno nos caftelos, & me¬ terão no fundo, & arrobarão tantos paraós que não ho podédo os Imigos Tomo I a3
  • iy8 Historia da índia fofrer fe afaftarão do cõbate & foranfe: & feria hora de vefpera q tanto durou começando pola manhaã. E dos ímigos morrerão muytos fegundo fe vio nos corpos q ficarão fobre a agoa: & dos noífos não morrerão nhús, né forã feridos mais q algús q ficarão efcalaurados dú tiro groífo que deu na proa da capitaina, & paflouha & ho pelouro deu per ãtre muytos q ali eftauão & nã lhe fez nhú mal. E vedo Duarte pacheco q os ímigos fe yã foy apos eles nos bateis, & paraós efbombardeandoos: & deu nos que eftauão na ponta Darraul cõ el rey & por força das bõbar- das os fez fugir, ficando mortos trezétos & vinte homes. E feyto ifto fe tornou pera as carauelas, õde aqla tarde ho foy ver ho principe de Co- chim da parte del rey q fe lhe mandou difculpar de ho não poder ir ver por fua peffoa. E ele lhe mandou dizer que lhe não auia de receber nhúa difculpa, ate não faber q nã eftaua trifte: & q lhe pedia q dali por diante creífe melhor é Deos: porq ja ho dia dos caftelos era paffado, & ele eftaua no pafTo como dantes cõ fua gete muyto preftes pera o feruir. E nefte mefmo dia ho forão tãbe vifitar algús fenhores dos q ajudauão el rey de CochI onde auia muyto grande alegria por efta vitoria. E afíi ho forã ver muytos mouros mercadores q lhe leuarão grãdes prefentes cui- dãdo q ganhauão fua amizade, & fazia a todos muyto gafalhado rogãdo- lhes q foffem leais a el rey de CochI porq coiffo feria feu amigo. E ao outro dia pola manhaã ho foy ver el rey de CochI & fizerão ãbos grãde fefta: & defpois defta vitoria perderão os de CochI ho medo del rey de Calicut & ho não tinhão em cota. CAPITOLO .LXXXIIII. De como el rey de Calicut quifera defbaratar com hú ardil ho capitão mór Duarte pacheco. MUyto efpantado ficou el rey de Calicut de nã poderé os feus caf¬ telos aferrar as carauelas. E auédo por impoífiuel poderéfe afer¬ rar nõ defbaratar Duarte pacheco, quifera defiftir da guerra & irfe pera Calicut fe os mouros não forão, & afli os dous Italianos mila- nefes que lhes derã hú ardil pera defbaratar Duarte pacheco: & efte foy q ho cõbateffe de noyte, & como era de noyte étrarião os feus ho paffo fem os Portuguefes os veré, q tãbê por fer de noyte não fe auião de de- féder també como de dia. E parecédo ifto bé a el rey & a todos os do cofelho, foy acordado q fe defle de noyte ho cõbate por terra fomete: & q ho prlcipe Nãbeadarim, & ho fenhor de Repelim cõ corenta mil homés começarião ho cõbate, & em começando certos Naires que terião fobre
  • Livro 1, Capitolo LXXXIIII i?9 palmeiras acenderião fogo, a cujo final acodiria el rey de Calicut com ho reftó de fua gente com cincoenta mil homés & cometeria dentrar polo paífo acima dondeftaua Duarte pacheco, q ocupado cõ a peleja do prín¬ cipe ho nã veria, & adi entraria na ilha de CochI, & a tomaria o q ou- uera de fer, fe noffo fenhor nã atalhara q ordenou q foubeffem iíto as efpias del rey de CochI que andauã no arrayal del rey de Calicut, & delas ho foube el rey de CochI que ho mãdou dizer lecretaméte a Duarte pacheco por Lourenço moreno, q ficou coele pera fer na peleja q auia de fer na noyte feguinte, pera o que logo Duarte pacheco fe percebeo, éco- médãdofe mui deuotaméte a noffo fenor cõ todos os outros porq fe lhes aparelhaua grade perigo né Duarte pacheco teue por tamanho ho cõbate dos caftelos como aqle por fer de noyte em q não podia ver tãbê como de dia, & viafe é grande afrõta. E cõ tudo como confiaua c noffo fenhor achou cõ fua ajuda hú ardil pera deffazer ho del rey de Calicut: & foy cõtraminarlhe ho final do fogo q lhe auião de fazer, & mãdarlhe fazer outro mais cedo pera q a fua géte fembaraçaífe cõ a do príncipe, & qre- ria Deos q coefte ébaraço na faria nada: pera o q em anoytecédo mãdou poer hfis Naires em húas palmeiras a q deu auifo do q auião de fazer, & mãdou efpias pera q lhe defie recado de quãdo ho príncipe de Calicut abalafle pera ho vao, q ho fizerão affi. E e ho prlcipe & ho fenhor de Repelim qrendo chegar ao vao mãdou ele fazer ho final do fogo. E os q eftauão cõ el rey de Calicut como tinhão ho teto no fogo q auia de ler lobre as palmeiras em ho vedo differãno a el rey, q muyto apreffado cuy- dãdo q tardaua abalou logo: & como ainda a gente do príncipe não era chegada ao vao & não efperaua a del rey fe nã defpois de começaré a peleja no vao, é a fintindo cuydou q era géte del rey de Cochim q lhe faya dalgúa cilada é q eftaua, & ajudou os a éganar, nã auer nhúa defe- réça antre hús & os outros, né na cor, ne nas armas, né nos trajos. E cuydãdo q foffem Imigos virão a eles offendendoos muy rijo cõ fuas armas: o q vifto pelos del rey cuydarão també que os do prlcepe erão Imigos q lhe fayão de cilada, poenfe e defenfam fobre q trauarão húa braua peleja q durou ate pola manhaã em que morrerão muytos dãbas as partes. E Duarte pacheco q ouuia ho arroido q fazião & não os via cometer ho vao eftaua muyto efpantado do q aquilo feria, & per dous homes q mandou a iffo foube o q era pelo q com todos deu muytos lou- uores a noffo lenor & vio claramête a merce grãdiflima q lhe fizera em os liurar de perderé Cochim q perderão fem duuida fe ouuera effeyto a determinação del rey. E rompédo a alua foyfe a terra nos bateis & pa- raós, & defparando primeyro fua artelharia nos Imigos, defembarcou & deu neles q ja fugião cõ medo dele & do defaftre q lhes acõtecera, q em
  • i8o Historia da índia amanhecédo conhecerão ho engano q teuerão & fugirão muy efpãtados. E Duarte pacheco achou muytos mortos no cãpo & cõ grande prazer fe recolheo ás carauelas & coele recebeo a el rey de CochI q logo ho foy ver, q ficou pafmado do q acõtecera a el rey de Calicut: & difle q nunca conhecera claraméte q deos peleja polos Portuguefes fe não etão, né teuera por certo q ho auia de liurar del rey de Calicut fe não então: & mandou fazer grande feita é CochI. CAPITOLO .LXXXV. Dú ardil com q el rey de Calicut quifera matar ho capitão mor Duarte pacheco. MUyto efpãtado ficou el rey de Calicut de ver quã milagrofo defuio deu noífo fenhor pera os noffos nã feré defbaratados como ele cuidaua, q nuca teue por tão certo de ho feré como daquela vez: & então defefperou de todo de ho feré: & por iffo affentou configo de difiltir da guerra fe os mouros foliem diffo contentes, & também os reys & fenhores que ho ajudauão: & juntos hús & outros lhes difle. Bé vedes quão pouco nos aproueita noífo poder cõtra os frangues, & quão pouco nos fundem quantos ardis inuétamos pera os defbaratar: & bem viítes quão defuiado fayo eíte derradeyro do que cuydauamos: que parece q Deos ho ordenou aíli pera que efcapaffem de nofla furia, no que he de crer q os fauorece pola pouca juítiça q temos neíta guerra o que nos moltrou no começo: & fe eu fora bé confelhado não a profléguira mais como os não defbaratamos no primeyro combate. E qreis ver como deos os fauorece & peleja por eles a fora as muyto grãdes vitorias que tem alcãçado de nos, & os muytos dãnos q nos tem feyto, q não ha poder na índia que fe nos poderá tanto defender fegúdo eítamos poderofos: & eítes q não té poder nem fam nada em nofla cõparação, defendenfe & offendé- nos como q forão mais q nos: & recebénos cõ feitas nas pelejas como q foliemos os poucos & eles os muytos, & a terra folfe fua & nos os eítrã- jeiros: pois q he ifto fe não q Deos os fauorece, & peleja por eles, & fegúdo eítão vitoriofos & ho credito q tem alcançado no Malabar hey medo q nos fação daqui aleuantar & nos deítruão de todo, & não fera muyto porque ho inuerno venfe & os rios crecé, & eles corrénos todos. E eltá certo q fe profleguimos a guerra q hão aqui de chegar, & q nos hão de fazer recolher cõ muyto dãno & defhonrra: & pois não fomos poderofos pera os defbaratarmos por guerra parece q deuemos qrer paz coeles & fazer deles amigos. E ho primeyro a q pregútou feu parecer foy
  • Livro I, Capitolo LXXXV 181 a feu irmão q agaftado del rey não tomar feu confelho no começo daquela guerra lho nã quifera dar, & importunado dele lhe deu feu parecer, dizendo q receaua q Duarte pacheco não quifeíTe fua amizade, & pera lha offrecer, & ele engeitarlha feria tamanha defhonrra como fer tantas vezes defbaratado como fora: & pois com a amizade não podia ganhar tanto como perderia engeitandofelhe que lha não deuia de pedir fe não deixarfe pera ho capitão mór que foífe de Portugal no anno feguinte: q vendo quão pouco lhe aproueitaua a guerra & como não fabia como lhe iria nela folgaria cõ a paz. E fobrifto porq não pareceffe q fugia cõ medo q fe deixaífe eftar & não fe foífe fe não quando pareceffe q fe ya por amor do inuerno. E defpois de ido, & que pareceffe q pola neceílidade do tempo fe fora, bé poderia falar na paz, & poderia fer que Duarte pacheco a quifeíTe temerofo de fe mudar fua boa vétura: & pera ho prouocar a querer amizade q lhe nã deffe mais cobate: & pois lhe não feruião de mais q de perder fua gente. Efte confelho de Nambeadarim foy repro- uado pelos reys & fenhores, & polos mouros principalméte q differão q el rey não fe deuia de ir, ne por mór inuerno q fizeífe, né por mais géte q perdeífe: & q auia de dar tãtos cõbates aos noífos ate q os tomaffe, & não fométe auião de procurar a deftruyção daqueles: mas também a dos que eftauão em Cananor & e Coulão, a cujos reys deuia logo de mãdar homes de credito com cartas em que affirmaífe que aferrara os noífos com os caftelos & os matara a todos & tomara as carauelas, por iífo que mataífem todos os noífos que lá eftauão como lhe tinhão prometido. E pofto que a el rey pareceo melhor ho cofelho de feu irmão que efte, tomouho por amor dos mouros que receaua irenfe de Calicut: & logo ele & os mouros efcreuerã aos reys de Coulão & de Cananor: o que fe affentou no confelho, mas não fe lhe deu fé por outra noua como efta que lá fora fer falfa: & com tudo por induzimento dos mouros que morauão neftes dous lugares forão os noífos poftos em afronta, & não oufauão de fayr das feytorias. E é Coulão foy morto hú ás cutiladas & os outros não, porque foy recado certo de Calicut que mandarão os gétios que os noífos erão viuos & ho que fizerão. Pelo que foy refpondido a el rey de Calicut que nã auião de matar os noífos em quanto os do paífo não foflem def- baratados que os defbarataífem & então compririão coeles. O que fabido pelo fenhor de Repelim & pelos mouros apertarão logo cõ el rey de Ca¬ licut que os combateífe. O que ele quifera efcufar por eftpr muyto que¬ brado dos fpiritos, mas não pode: & mandãdo dar ho combate per mar & por terra fucedeolhe como dãtes, & por iífo mais por importunação dos mouros q por fua võtade deu é peífoa outro cobate cõ os caftelos & cõ muyto mais géte & mais nauios q da outra vez: & durou ho combate
  • j82 Historia da índia mais efpaço, & també foy defbaratado & recebeo mór perda que dates. E coefta vitoria dos noffos ficarão os de Cochim feguros de todo dos im- migos, & adi el rey que foy vifitar Duarte pacheco em hú andor, & com mais eftado do que tinha defpois que começou a guerra o q logo foy fabido no arrayal dos Imigos, & effes reys & fenhores q eftauão cõ el rey de Calicut lhe differão que fe não auia de fofrer, que eftando ele tão po- derofo de gente, el rey de Cochim ho teueíTe em tão pouca cota que fe defle por liure dele. Ao que el rey de Calicut refpondeo que el rey de Cochim tinha rezão de fazer o que fazia pois ele eftãdo tão poderofo podia tão pouco q ho não defbarataua, que fe eles fintião o que dizião que pelejafTem cõ os noffos porque ele fe lançaua de mais entender na guerra, porque tinha por fem duuida q de cada vez auia de receber mór dãno, & parece que de muylo agaftado mandou a todos que ho deixaffem fó, & afli efteue hú grande pedaço muyto cuydofo: & defpois diffo man¬ dou a algús Naires em que tinha cõfiança que fe foffem diflimuladamente a CochI, & trabalhaffem por matar Duarte pacheco, & quaifquer outros dos noffos: & como os Naires fam homes que não tem mais fegredo na coufa que em quãto a cuydão logo fe ifto rompeo, de maneyra q ho foube Duarte pacheco, que logo teue mais recado é íi: & nos noffos do que dantes tinha, & pera auer os Naires que ho vinhão matar fez duas qua¬ drilhas de Naires de CochI de q fe muito fiaua húa que andaffe ao longo do vao & outra ao logo do rio que per quartos vigiauão de noyte, & de dia os que yão & vinhão. E durando afli efta goarda foube que era fua efpia hum Naire de CochI da caíta dos leros, & trazia configo algús Naires não conhecidos q parecião de Calicut o que fabido por ele fez de maneyra que logo lhos prenderão a todos: & trazendolhos mandou os açoutar muy brauamente perante os outros Naires de Cochim, & defpois mandou que os enforcaffem. O que vendo os de Cochim lhe pedirão q lhe defle outra pena pois erão Naires: & que lhe não fizeffe tamanha injuria. E não querendo ele fe não q os éforcaffem, lhe diíferão os feus capitães que ho não deuia de mandar, & que lhe lembraffe quanta perda & trabalho paffara el rey de Cochim por defender os noffos: & que fin- teria muyto enforcarem aqueles Naires pois os prendera em fua terra, porque era tomarlhe a juftiça: & moftraua aos fenhores de fora que efta¬ uão com ele que era rey empreftado: & pois lhe tiuera fempre grãde acatamento que ho não deuia deíacatar no cabo. O que pareceo bê a Duarte pacheco, & agardeceolhes muyto elte confelho: & logo mãdou polos Naires que mandara enforcar, de que dous eftauão ja meos mor¬ tos, & com os outros os mandou a el rey de Cochim: & lhe mandou dizer como lhe merecião a morte, & a caufa porque os não mandara en-
  • i83 Livro I, Capitolo LXXXVI forcar. O que el rey eftimou, porque lhos derão perate muvtos fenhores de fora, & algús mouros de Cochim, que por vituperarem el rey dizião que os noflos erao os que mandauão: & não ele. E dali por diante teue Duarte pacheco tal auifo: que ho ardil del rey de Calicut não ouue effeyto. CAPITOLO .LXXXVI. De como el rey de Calicut fe meteo em hã pagode: defpois fe tornou a fayr. SEndo ja na fim de Iunho, que ho inuerno ya em creciméto pareceo a Duarte pacheco que por efla caufa nã podia el rey de Calicut eftar ali muyto, & por iffo determinou de dar nele ao leuãtar do arrayal, porque a experiecia que tinha dos immigos das vitorias paliadas, lhe fazia crer q lhe faria muyto dãno. E eftando pera defencadear os maftos & poerfe a pique, foy auifado que el rey de Calicut mãdaua refor¬ mar os caftelos & fazer mayor armada pera ho combater. E efta fama lãçou el rey, porque bem lhe parecia pelo que tinha vifto Duarte pacheco que auia de dar nele ao leuantar do arrayal que determinaua de leuantar & irfe: & ifto tão fecretamente que ningué ho fabia fe não Nambeada- rim: & pola rezão que digo fazia moftra de querer combater ho palTo de Palurte: & ho do vao tudo juntamente, porque ocupado Duarte pacheco e os defeder ambos fe podefTe ele ir a feu faluo. E hú fabado a tarde vefpera de fam Ioão em q dizião que auia de fer ho combate, moftroufe a armada dos immigos como coftumaua. Duarte pacheco efteue efperando toda a noyte que ho auião de cobater, & em amanhecédo não ouuio nhú final de combate. E eftando fufpenfo no que feria, foube pelos Bramenes que el rey de Calicut leuantara ho arrayal & fe fora a Repeli, & que ja lá feria: do que ele ficou muyto magoado, & no meímo dia fayo em Re- pelim & pelejou com muyta gente dos immigos, em q fez muyta deftruy- ção: & tornandofe ao palfo ficou ainda nele algús dias pera mais fegu- rança de Cochim, q auia medo que el rey de Calicut tornaífe fe fe foffe logo. Do que el rey eftaua bem fora, antes ya tão corrido do pouco que fizera, & tão trifte e defcontente do mundo, que como paliou ho rio de Repelim, apartoufe com os reys & fenhores que ho acõpanhauão, & diffe- lhes chorando. ® A tão enuergonhado home como eu eftou, pequena vergonha fera deitar eftas lagrimas, que a magoa de minha defauentura me arrãca do coração que de muyto afadigado (porque ho não poderá fazer é pubrico) qr ir defabafar 'onde ho nlguê veja. Outra dor tenho també a fora a de
  • 184 Historia da índia minha defhõrra, que he não vos poder pagar a obrigação em que vos fou, que hey por tamanha que fe me vifie liure dela ficaria mais contente que de tornar a tomar CochI. E pois Deos não quis que ho tornaffe a ganhar & me pos em tamanha defhonrra, não qrera ele que eu mais viua em abito de rey, antes por enmenda de meus peccados quero acabar meus dias em hú turcol: ou viuer afTt ate deos tirar ho odio q moftrara nefta guerra q me tinha. Doje por diante podeis fazer o que quiferdes: & de minha terra & gente o q vos comprir. Não vos offreço minha peffoa, porque home tão defauéturado como eu nã ho deueis de querer em voífa copanhia.» E coifto acabou, & eles ho quiferão confolar, mas não pode¬ rão, nem tiralo daquela determinação, & foyfe meter em hú turcol com algús Bramenes que leuou cõfigo. E fabendo fua mãy como ali eftaua, lhe mandou dizer que ela nã eftaua menos trifte que ele, & q por feu ençarramento auia grande revolta em Calicut, & erão idos muytos mer¬ cadores, & outros eftauão pera fe ir, nem auia nhús mantimétos, porque os não trazião com medo dos noffos: & pois acertara tão mal em tomar guerra coeles (do q lhe a ela pefara muyto) que não deuia de tornar a Calicut ate não cobrar ho credito que tinha perdido: & proíTeguiífe a guerra com os noffos, & fe perdeffe nela de todo: ou vécefle. Coefte recado ficou el rey muito mais agaftado: & mandou logo chamar feu irmão, & encomendoulhe ho regimento do reyno, mas defpois fayo do turcol & tornou a fer rey. CAPITOLO .LXXXVII. De como muytos daqles reys & fenhores que ajudauão a el rey de Calicut pedirã pa\ a Duarte pacheco. AQueles reys & fenhores que ajudauão a el rey de Calicut, defpois que fe ele meteo no turcol fe deteuerão algús dias em Repelim, efperando fe fe arrependeria do que tinha feyto: & vendo que não cada hú fe foy pera fuas terras: porque como os mais as tinhão ao longo dagoa, & ela começaua de crecer cõ ho inuerno, ouuerão medo q Duarte pacheco étraffe pelos rios & lhas deftruifle: & perdedo a efperãça de lhas podere defender quiferão procurar dauer fua amizade. E tomãdo por interceífor a el rey de CochI q por fua boa condição ho quis fer, fem lhe lembrar I10 mal que lhe fizerão, & mãdoulhes feguro pera que podeffem ir a CochI, donde ya coeles a Duarte pacheco & lhe rogaua que os rece- beffe em fua amizade: o que ele fez por amor dele. E outros reys & fenhores que não poderão ir mandarão feus embaixadores a fazer eftas
  • Livro l; Capitolo LXXXVIII i85 pazes, aífi tambe muytos mercadores mouros moradores é Calicut pera poderem tratar fe forão pera Cochim de morada com licença: & outros fe forão pera Cananor, & outros pera Coulão: de modo q Calicut fe def- pejaua cada dia. E por a paffajem dos mouros pera Cochim fe deixaua Duarte pacheco eftar no paífo, & porque andauão muytos paraós de Ca¬ licut pelos rios pera os goardar com que pelejou algúas vezes: & lhe fez muyto dano, & aífi em terra de Repelim é q fayo a tomar vacas, & neftas faydas pelejou com muytos immigos em q fez grande deftruyção. E hú dia toparão certos dos nofios com algús tones dos immigos que eftauão em húa alagoa, & tirandoos de la & leuãdoos pera ho rio ouuerão com os immigos húa braua peleja, em q forão mortos muytos & dos noffos nhús. E defpois difto logo ho fenhor de Repelim fez amizade com Duarte pacheco, & fe vio coele & acodio com muyta pimenta que auia em fua terra. CAPITOLO .LXXXVIII. Das armas q el rey de Cochim deu ao capitão môr Duarte pacheco. EStando aífi Duarte pacheco no paífo foy ter coele húa noyte por dentro dos rios Ruy daraujo efcriuão da feytoria de Coulão que lhe diffe da parte do feytor como ele & os outros noffos que eftauão na feytoria ficauão cercados de muyta gente per mãdado dos regedores de Coulão, que primeyro que os mandaífem cercar lhe tomarã por força toda a pimenta que tinhão em Coulão, & em Caycoulão, & matarão fobriffo hú dos noffos. E tudo ifto por induzimento dos mouros da terra, per amor do recado que lhe fora de Calicut que os noffos erão defbara- tados. E porque ainda era neceffario eftar ali Duarte pacheco oyto dias fe não partio logo & mãdou a Ruy daraujo que efperaffe. E nefta detença lhe leuarão hú dia algús dos noffos tres Naires de Calicut que ho efpia- uão pera ho matar. Do que el rey de CochI foy auifado: & porque lhe pareceo que Duarte pacheco leuaria gofto em os mandar enforcar por ho cafo fer pera iffo, & por amor dele ho deixaria de fazer & lhos manda¬ ria: em fabedo que lhos leuauão lhe mãdou dizer, que lhe pedia muvto que fizeffe deles o que lhe bem pareceffe porque leuaria niffo muyto gofto, que nã queria outro fe não ho feu. E conhecédo Duarte pacheco que el rey de Cochim fazia aquilo por lhe dar contentamento, porem q não goardaua feus coftumes, mãdoulhe os Naires, dizendo que nunca Deos quiíeffe que ele por fua caufa deixaffe de goardar feus coftumes, que não dizia ele mandarlhe aqles tres Naires, mas que fe quifeffe lhe iria por outros a Calicut: porque tudo merecia ho feruiço que tinha feyto a el rey Tomo I 24
  • i86 Historia da índia de Portugal. E ifto eftimou el rey tanto como defenderlhe Cochim: & por eftas cortefias & outras de que Duarte pacheco vfou fempre com el rey, & ho muyto acatamento que lhe fempre teue como q efleuera em fua liberdade lhe tinha ele grande amor. E auendofe de todo por feguro, fe foy hú dia ao vao a rogar a Duarte pacheco que não leuafle rnais má vida, & que fe foífe pera Cochim que ja eftaua feguro del rey de Cali- cut, & por iflo fe foy Duarte pacheco aos tres dias de Iulho, auendo tres meies & meo q ali eftaua fofredo com os q eftauão coele tanto trabalho como nuca fofreo em nhú cerco dos mais apertados que forão no mundo, & fazedo tãtas façanhas como nuca outros nhús fizerão, aíft gregos como latinos né barbaros. E dando muytos louuores a noffo fenhor pola muy aífinada merce que lhe fez em lhe dar tantas & tão fobre naturais vitorias fe foy a Cochim, onde lhe el rey com todos os moradores lhe fez ho mais feftejado recebimeto q pode & dahi ho acompanhou ate a noffa fortaleza. E vedo el rey quãto Duarte pacheco fizera em fua defenfam lhe pedio muyto perdão de lho não poder fatiffazer como defejaua por caufa de fua pobreza, & daualhe grãde forna defpeciaria, que ele não quis tomar por faber quanta neceífidade el rey tinha, & diffelhe que ho trabalho que leuara por defender fua terra não fora por outro intereffe mais que por defejar de ho feruir, porque conhecia fua bondade & tamanho amigo era del Rey de Portugal feu fenhor & de feus vaíTalos. E vendo el rey q lhe não que¬ ria tomar nada, acrecentoulhe fua honrra com lhe dar dom & armas como rey que era, pera teftemunho de fuas façanhas: porque foube quanto fe eftas duas coufas eftimauão antre os Portuguefes, & a carta das armas vi eu em pubrica forma com ho blafam delas q foy tirada da lingoa Mala- bar em que a fez Chericãda hú efcriuão da fazenda del rey de Cochim, & tirouha em lingoajem Português Aluaro vaz efcriuão que era naquele tempo da feytoria de CochT fendo lingoa hú Teixeira lingoa da feytoria & ho mefmo Chericãda efcriuão da fazenda. E eu vi efta carta aflinada por el rey de Cochim & dizia. «Iterama maratlquel vnirramacoul trimum: parti rey de Cochim fe¬ nhor de Vaipim, & Darraul, & Charauaipil, & Narengate, Bramene mór, mediante os deofes tiuere pagode. Aos que efta minha carta virem faço faber que no ãno de mil & quinhentos & quatro, pela conta dos Chrif- tãos no mes de Março, el rey de Calicut veo fobre minha terra com toda a força & poder do Malabar com foberba indiuida cõtra vontade dos deofes pera me deftruir minha terra & gente, por eu acolher & fauore- cer os Portuguefes que a meu porto arribarão, & lhe dar carrega pera fuas naos, polo qual refpeito os mais dos reys & fenhores do Malabar me forão cõtrairos, & veo acompanhado de cinco reys de fua valia que
  • Livro I, Capitolo LXXXVIII 187 erão, el rey de Tanor, el rey de Curlor, ei rey de Cotogão, el rey de Bepur, & ele çamorim rey de Calicut cõ muytos Nambeadarls, & Cai- mais, & fenhores de terras com muy groífa gente, no qual tempo eu não tinha nhú focorro fome te ho dos deofes, por cuja graça & vontade me ficou húa pequena armada dos Portuguefes: da qual era capitão Duarte pacheco pereyra fidalgo da cafa del Rey de Portugal meu fenhor & irmão, & com fua armada & gente fofreo ho dito Duarte pacheco muy grandes afrontas & perigos em muytos combates & pelejas que ouue com el rey de Calicut em paífos & vaos de Cochim que lhe ele defendeo por¬ que não entraffe em minha terra: & fete vezes foy cercado & cõbatido por el rey de Calicut 5 peffoa & por efles reys & fenhores que coele erão, por terra & por os rios cõ grãdes frotas de nauios de remo: em os quaes combates & pelejas duas vezes ho vierão combater com oyto caftelos de madeira armados nagoa fobre dous nauios rafos: cada caftelo cõ bom¬ bardas groflas & muytos archeiros & efpingardeyros, cõ toda outra frota de nauios de remo com muyta gete & artelharia em hús paífos que ele por mim tinha no rio de Cochim: & ho dito Duarte pacheco cõ os feus ho defbaratou, & lhe ferio & matou muyta gente: & ouue dele a vitoria em todos os combates & pelejas que coele ouue, & cõ feus capitães & gente, & tres mefes & meo efteue em guerra com el rey de Calicut nos paífos de Cambalão, & Darraul, & Palurte fofrendo muy grandes afrõtas fauorecendo meu partido: ajudando me a fofter minha terra com mais rifco de fe perder a juyzo de todos, que de me poder focorrer nem fal- uarfe aíli mefmo, & por vontade & ajuda dos deofes fez ho dito Duarte pacheco tanto dãno a el rey de Calicut nefta guerra que ho não pode fofrer & lhe conueo aleuantarfe com feu arrayal & irfe cõ eífes reys & fenhores que ho ajudauão que eftauão ja muy defbaratados & mingoados de credito, & tinhão perdida muyta gente affi morta como ferida, em a qual guerra me ho dito Duarte pacheco tem feytos muy grandes & afli- nados feruiços: & no começo dela ele me prometeo de ir receber el rey de Calicut ao caminho no palfo de Cambalão: & aflí ho fez poendofe em rifco de fe perder. E coiffo & com as coufas que fez me fegurou minha terra, as quaes coufas Duarte pacheco fez cõ fua géte & algúa pouca mi¬ nha de que lhe tinha dado carrego, & muytas delas fez em minha pre- fença, que eu mandey todas efcreuer por peífoas autenticas, porque forão muy grandes fegundo fua pouca força & ho grande poder del rey de Ca¬ licut: & a juyzo de todos os Malabares mais parecião fuas couías feré feytas por mão & fauor dos deofes, q por rezão nem força humana: & porq eu fuy muy bem focorrido & ajudado por ho dito Duarte pacheco & fua gente, & me tem feytos muy grandes & aílinados feruiços nefia
  • i88 Historia da índia guerra, & defedeo a el rey de Calicut os pafíos, & vaos & entradas de Cochim, & me ajudou a defender minha terra queftaua em condição de a perder fe ele não fora, o q lhe não poflo negar que forão feus feytos muy notorios & gerais em toda a índia, né lhe poffo pagar feus grãdes feruiços como eles merece não querendo ele de mim tomar nada. Eu Ite- rama maratinquel vnirramacoul trimumpati rey de Cochí de meu proprio moto & liure vontade, & poder aufuluto: por memória & final de feus feytos, & das afrotas que por mim paffou nefta guerra, & por honrra de fua peffoa, & dos q dele decenderem lhe dou ho dom q foube que os Por- tuguefes tem por honrra, que ele fe poffa chamar dõ Duarte pacheco, & todos os q dele decenderem: & afii lhe dou por infinias & finais de feus feytos & horra que niffo ganhou hú efcudo vermelho por final do muyto fangue que derramou dos de Calicut nefta guerra, & dentro nele lhe dou cinco coroas douro em quina por cinco reys que nela defbaratou. E a bordadura defte efcudo lhe dou branca com ondas azueis, & nela oyto caftelos verdes de madeyra armados nagoa fobre dous nauios rafos cada caftelo, por duas vezes que ho combaterão cõ eftes oyto caftelos & dambas os defbaratou: & doulhe fete bandeiras de põta ao derredor defte efcudo, tres vermelhas & duas brancas, & duas azueis por fete combates que lhe el rey de Calicut deu por fua peffoa, & em todos fete ho defbaratou, & por fete bãdeiras que lhe tomou, das mefmas cores & feyção que abaixo irão: & doulhe hú elmo de prata aberto goarnecido douro & ho paquife douro & vermelho, & por timbre hú caftelo do mefmo teor com húa ban¬ deira vermelha de ponta nele: as quais infinias & armas ele poderá tra¬ zer mefturadas com as armas de fua linhagem, ou fem elas, ou como ele quifer cõ a dita bordadura ou fem ela, como lhe melhor parecer que eu de meu proprio moto & liure vontade, & poder aufoluto lhas dou como dito tenho cõ ho dom a ele & a todos os q dele decenderem por muy grãdes & afilnados feruiços que me te feytos como acima he declarado: & pera fua goarda & minha lembrança lhe mandey fer feyta efta carta por ml aflinada. Chericanda efcriuão de fua fazeda a fez em Cochim, & foy terladada por ml Aluaro vaz efcriuão da dita feytoria de Cochí & aílinada por el rey de Cochí. Feyta e Cochí aos dous dias do mes Da- gofto de mil & .ccccciiij. ãnos. ®
  • Livro I, Capitolo LXXXIX 189 CAPITOLO .LXXXIX. De como lio capitão mòr Duarte pacheco foy /ocorrer ao feytor de Coulão. SAbêdo Duarte pacheco a neceffidade que auia dir focorrer ao feytor de Coulão efperou ate q ho tepo não foffe tão verde como era: & pera ir mais feguro foy na fua nao & deixou as carauelas em Co- chim pera q goardaffem ho porto de Cochim, & deixou por capitão mór Pero rafael, & quis noífo fenhor que afaftado de terra achou ho mar brãdo & chegou fem perigo a Coulão: & com lua chegada ficarã os mouros muyto triftes por terem algús lançadas ao mar cinco naos que carrega- uão cõ grãde preffa porque fe partilfem antes que ho capitão mór che- gaífe, q bem lhes parecia que auia de ir na entrada do verão, mas não tão cedo porq repoufaria da guerra paffada: & muitos fe forão logo com medo. Os da cidade decercarão logo os noffos, & todos amigos forã re¬ ceber ho capitão mór ao mar, & leuarãlhe muyto refrefco, aíli os da cidade como os mouros: que ele recebeo muyto bõ diffimulando o que tinhão feyto por não aluoroçar a terra. E diífelhes que era ali vindo pera fazer tudo o que lhe compriffe & goardar a amizade & paz que eftaua aífentada antreles, & el Rey de Portugal feu fenhor. E porque húa das condições do cõtrato da amizade fora que fe não leuaffe pera fora nhúa efpeciaria ate q ho noffo feytor não compraífe a de que teueífe neceffidade pera carregação das noífas naos, que ele não auia de confentir que efta cõdição fe quebraíTe por fer muyto principal ãtre todas as outras: & por ifto nã auia nhúa nao de fayr do porto fem ,as mandar bufcar primeyro fe leuauão efpeciaria. O que os mouros fofrerão muyto contra fua võtade, porem confentirão polo medo que lhe auião, & por ele moftrar aos mou¬ ros que tinha cõprimento coeles mandou rogar aos fenhores das naos que eftauã no porto que não compraífem nhúa efpeciaria fe nã pera comer: & lhe deffem a que tinhão carregada: porque de toda tinha neceffidade pera as noífas naos que efperaua q erão muytas. E ifto das naos ferem muytas lhes dizia pera lhes quebrar os efpiritos, & mandoulhes q logo defcarregaífem a efpeciaria & a étregaífem ao noffo feytor. O que os mouros ouuerão por muyto graue coufa & não ho querião fazer & por iífo fe detinhão: o que ele vendo, & temédo que a tardança era pera fe fazeré fortes, mandou logo atraueffar a fua nao diante das proas das cinco q eftauão começadas de carregar & mandou fazer preftes os feus pera pelejarem: mãdando aos fenhores das naos que logo defcarregaífem a
  • 190 Historia da índia efpeciaria. E porq na praya andaua muyta gente & fe temeo que fofle focorrer as naos, mandou lá ho feu batel bem artilhado que ho defen- deffe & nele ya Ruy daraujo, aíTi pera iffo, como pera étrar nas naos & as fazer defcarregar: porq ja os fenhores delas cõ medo ho confentião. E defcarregadas as naos, mãdou dizer aos regedores da cidade, porque pareceffe que tinha coeles comprimento que nã ouueflem por mal o que fizera aos mouros, porq mais lhe merecião pola afronta em que poferão os noffos que eftauão na feytoria: & que fe auifaífem que não deixaffem fayr do porto nliúa nao fem lho primeyro fazeré faber pera as mandar bufcar, fe não que foubeflem certo que as mãdaria tomar pera el rey feu fenhor, o que lhe eles prometerão. E com tudo ele efteue aquela noyte em \wgia fobre as naos, & com ho feu batel ao longo da praya, pera que nhúa gente da terra foffe ás naos; & aíli efteue algús dias que ho tempo não deu lugar pera fair ao mar, & com fua licéça fayrão do porto tres naos dos mouros húa, & húa, & coefta diligecia ouue muyta efpeciaria: & tambe porque os mouros de Calicut como ho virão no porto fugirão com medo. E fendo ho tempo brando ja na entrada de Setembro, fayofe pera fora da barra a vigiar q não paffaffe nhúa nao com efpeciaria, & tomou algúas que mandou defcarregar: o que os mouros, & aíli os da cidade auião por muyto grãde fugeição. E entendendo ele ifto, porque não fe pofeffem coele em algú eftremo com que faria pouco proueito na fazenda del rey feu fenhor: deu licença aos mouros & aos regedores da cidade que pera Choramandel leuafle cada nao certos fardos de pimenta & mais não. Do que eles forão muy contentes, & lho agardecerão muyto. E auédo ainda os mouros ifto por opreífam, quiferão por manha deitalo dali, dei¬ tando fama que eftauão em Coulão homés de húa nao de Calicut muyto rica que ficaua em húa pequena ilha ao mar de Coulão porque indo em fua bufca carregaffem & fe. foflem. E querédo ele ir bufcala foy auifado do ardil dos mouros, & por os acolher na emprefa moftrando que ya buf¬ car a nao, foyfe a Caicoulão que he perto: & tornãdo achou na cofta duas naos de mouros que fe partião carregadas & tomouas. E vedo os mouros que lhe não aproueitara aquele ardil bufcarão outro, que fizerão hú patamar difiimulado q ya de Calicut: & dizia ãtre outras coufas que fe armauão em Calicut vinte naos pera irem fobrele: & ifto fe teue por tão certo que crendoho ho feytor lhe mandou recado, & tambê algús mouros feus amigos que ho forão ver lho affirmarão por muyto certo. E ele lhes refpondeo que vieflem com fuas naos quando quifeífem que ali ho auião dachar onde efperaua de as defbaratar. E dali por diante ho mais do tempo andaua de largo & de dia furgia, & de noyte andaua á vela, húa volta ao mar outra a terra por lhe não efcapar nenhúa nao como
  • Livro I, Capitolo XC r91 não efcapaua. E andando afíi húa madrugada tomou hú barco que faya de Coulão pera ir a húa nao que ele deixara ir & no barco tomou algús mouros de Calicut, & conhecendo que erão de lá: porque lhe pareceo que poderia fer culpados na morte daquele homé noíTo da feytoria que fora morto ás cutiladas mandaua que os enforcaflem: o q fe ouuera de fazer fe lhe os regedores da cidade não mandarão pedir que fobrelteueífe ate lhe fazerem certo como os mouros nã erão de Calicut fe não naturais de Coulão: & aflí ho prouarão, & por ifto efcaparã. E defpois dilto tomou duas naos & roubou as, & afíi como vigiaua 5 Coulão adi ho fazia Pero rafael em Cochim, & por iífo ouue aquele anno a mais fermofa carrega pera as noffas naos, que núca defpois ouue: o que fe fez cÕ muyto tra¬ balho & perigo, adi do capitão mór como dos feus. CAPITOLO .XC. De como Lopo foare\ partio pera a índia por capitão mór da armada que foy no anno de mil & quinhêtos & quatro. NEste anno de mil & quinhêtos & quatro fabêdo el rey de Portugal como el rey de Calicut ficaua de guerra com os nodos, madou em feu fauor húa armada de doze naos groflas, & deu a capitania mór delas a hú fidalgo chamado Lopo foarez, que em tempo dei rey dom Ioão ho fegundo fora capitão na Mina. E os capitães delta armada forão Pero de médoça, Lionel coutinho,Tridão da íilua, Lopo mendez de vafconcelos, Lopo dabreu, Felipe de craíto, Afonfo lopez da coíta, Pe- drafõfo daguiar, Vafco da filueira, Vafco carualho, Pero dinis de Setuuel todos fidalgos & caualeyros, & que forão por capitães naquela viagê da índia: & todos leuauão configo boa géte de peleja & bê armada. E def- pachado fe partio de Lifboa a vinte dous dias Dabril do mefmo anno: & continuando fua viagem aos dous dias de Mayo foy na parajem do cabo verde: & fazendo aqui ajuntar os capitães, meítres & pilotos da armada lhes fez húa fala, trazédolhes aa memória quão tarde partirão de Portu¬ gal: & por iffo tinhão neceflldade de terem grande diligécia & não faze¬ rem os defmanchos que fe ateli fizerão, & todos por mao recado, alfi como foy dar húa nao pola capitaina, & outras duas por outras: no que fe correra grande perigo & aíli não feguirem algús de noyte ho feu forol, & hús yão diante outros ficauão atras: & algús a balrauento por onde fe poderião perder hús dos outros: & por atalhar a iffo, & pera bõ regi- ments da armada fez hú poítura efcrita pelo feu efcriuão, & affinada por ele & por os outros capitães q todas as naos feguiíTem de noyte feu forol,
  • JQ2 Historia da índia ficando detrás da fua nao: & q em nhúa nao ouueffe de noyte outro fogo fe não a candea da bitacora, & détro na camara do capitão, & q vigiaf- fem os meftres & os pilotos, & teueffc grãde tento que húa nao não deífe por outra, & que lhe refpondeífem quãdo fizeffe final, & que ho faluaífem de dia, & não paffaffem diante deíe de noyte, & quem fizeffe ho contrairo pagaffe dez cruzados & foffe prefo ate a índia fem vencer foldo. E porq algús meftres & pilotos erã negrigétes & por fua culpa dauã húas naos pelas outras mandou os mudar das em que yão pera outras. E coefta diligecia que fez foy dali por diante a armada em boa ordem & não fe fez nhú mao recado. E indo afti no mes de Iunho que fe fazião na volta do cabo de boa Efperança fobreueolhe hum dia hum muy forte temporal de vento com que toda a frota correo dous dias & húa noyte aruorefeca com muyto grãde perigo de fe perderé: & era a çarração tamanha que mais parecia noyte que dia. E paffados eftes dous dias virão finais de terra que pareceo a todos que ferião perto dela: & por efTa caufa era a çarração ta¬ manha, q defpois de verem eftes finais foy muyto mayor. E por iffo man¬ dou Lopo foarez q a cada relogio tirafle na fua nao duas bõbardadas a que as outras refpondeífem: porque fe não perdeífem húas das outras. E aca¬ bada efta tormenta, achoufe menos a nao de Lopo mendez, que vendo Lopo foarez que não parecia feguio feu caminho. E logo a poucos dias deu húa nao tamanha pancada em outra que abrio tanto pela roda que fe via detro muyto bem, & entroulhe tanta agoa de roldão que fe ya ao fundo. Lopo foarez arribou logo fobrela & chegou tão perto que podião ouuir ho efforço que daua aa gente dizendo que trabalhaffem por tomar a agoa fem medo de fe perderem: porque ele lhes acodiria como acodio com gente que mandou no feu batel, pofto que ho mar andaua groífo & corria ho batel rifco de fe perder. E coifto trabalhou tanto a gente da nao, que quando anoyteceo acabou de tomar ametade da agoa: & pera fe tomar a outra que ficaua, mandou Lopo foarez que naquela nao fe fizeffe ho forol, & os capitães a feguiífem pera lhe acodirem fe teueffe neceftidade. E abonaçando ho tempo ao outro dia a agoa foy tomada de todo com hús couros que pregarão & brearão. Paffado efte perigo fem mais lhe acontecer coufa que de contar feja, chegou a Moçambique e dia de Santiago, onde ho xeque lhe fez grande recebimeto, & lhe mandou muytos mantimentos, & lhe deu a carta de Pero dataide que lhe deixou antes q morreffe, como ja difte. E fabendo per ela a guerra del rey de Calicut com os noíTos, concertada a nao que tirou a monte fe partio pera Melinde ho primeyro Dagofto. E chegado ao feu porto el rey ho mãdou vifitar por Adebucar hú mouro muyto honrrado, porque lhe mandou os dezafeys noffos que efcaparão da nao de Pero dataide. E paffados dous
  • Livro I, Capitolo XCI i93 dias partiofe caminho da índia & chegou a Anjadiua, onde achou Anto- nio de faldanha & Ruy Lourenço que hi inuernarão como difle atras, q quãdo virão tamanha frota cuydarão que era de rumes. CAPITOLO .XCI. Como ho capitão môr Lopo soare{ chegou a Cananor & fe vio com el rey. EStando aqui Lopo foarez veo hi ter Lopo mendez de vafconcelos que fe perdera de fua conferua cõ tempo, & defpois de vindo fe partio pera Cananor, õde chegou ho primeyro de fetébro: & ali foube do feytor a guerra delrey de Calicut: & como ele cõ os outros nolfos q eftauã em Cananor, fe virão per muytas vezes é perigo de morte. E ao outro dia defpois q chegou foy a terra pera fe ver cõ el rey de Ca¬ nanor: & forão coele todos os capitães da frota é feus bateis veílidos de fefta cõ os q os acompanhauão, & os bateis embandeirados & artilhados. Ho de Lopo foarez ya toldado & alcatifado, & ele affentado em húa ca¬ deira defpaldas de veludo carmefim com almofadas do meíino aos pés: leuaua hú gibão de cetim de cores feyto em enxadrez, & húas calças deíla maneyra, hús çapatos de veludo negro com muytas põtas douro miúdas, & hum barrete cõ outras groífas: húa roupa francefa de veludo negro apertada com hú cinto de fio douro, com hú punhal & bracamarte douro, & hú colar de tres voltas feyto dalcatruzes efmaltados, & nele hú apito douro efmaltado. Leuaua dous pajes veílidos como ele, & feys trombetas com bandeiras de íeda, leuaua hús orgãos que lhe yão tangendo em hum efquife junto do feu batel, & nele hum prefente pera el rey de Cananor q lhe mandaua el rey de Portugal .f. feys colchões dolanda, dous trauef- feiros enfronhados com fuas almofadas, tudo laurado douro: dous cuber- tores de veludo carmefim, & ho decima quartapifado de tres tiras de borcado: a do meo de largura dú palmo, & as outras de tres dedos: hú leyto dourado cõ cortinas de cetim carmefim com a forcadura de fio douro. E quando Lopo foarez fe defamarrou das naos defparou toda a artelharia & defpois tocarão as trombetas e atabales, & em acabãdo co¬ meçarão os orgãos que forão tangendo ate chegarem a terra õde auia grande multidão de mouros & de gentios que fayão a ver Lopo foarez, que defembarcado fe meteo em hú çarame q pera iífo eílaua feyto junto do mar: & nele foy armado ho leyto & feyta a cama, & junto coele hú eltrado em q fe ho capitão mór affentou. El rey de Cananor quando veo leuaua diante tres alifantes armados como pera pelejarem, & detrás hú Tono I aS
  • *94 Historia da índia efquadrã de tres mil Naires defpadas, & efcudos, & lanças: & outro de dous mil frecheiros. E detrás deites ya el rey em hú andor muyto rico. E chegando ao çarame defparou toda a nofla artelharia. Lopo foarez re- cebeo el rey aa porta do çarame: & defpois de fe abraçarem, lhe apre- fentou a cama: em que fe el rey logo lançou, & ele fe aífentou no eítrado, & ali efteuerão falando por efpaço de duas horas. E neíte tempo hú feu lebré quifera filhar hú dos alifãtes: & porq ho tinhão prefo daua faltos & huyuos q não auia que fe ouuiífe, né quê ho teueffe: o q foy caufa de fe el rey & Lopo foarez deteré menos do q fe ouuerão de deter. Defpois deita viíta cõ el rey chegou hú mouro de Calicut cõ que vinha hú moço Português que leuaua a Lopo foarez húa carta dos noffos q ficarão cati- uos do tépo de Pedraluarez, em que dizião que el rey de Calicut ficara tão quebrado da guerra que teuera com Duarte pacheco q fe metera no turcol dauorrecido no mundo: & que muytos mouros defefperados de terem trato em Calicut fe forã morar a outras partes: & por iifo auia em Calicut grande fome. Pelo que el rey de Calicut & ho príncipe & feus regedores, & afi] todos os moradores de Calicut defejauão de ter paz cõ os noífos. E determinando ja de a mãdar pedir, derão licença aos noffos q eítauão catiuos que lhe efcreueffem aquela carta -que lhe efcri- uião: alli pera lha darem, como pera lhe pedir que os tiraife de catiueiro. E ele viita eíta carta, quifera refponder a ela pelo mouro & que ficara ho moço: mas ele não quis, dizédo que de neceffidade auia de tornar cõ ho mouro: porque lhe derão licença pera leuar a carta com condição q nã tornãdo que cortaífem as cabeças aos noffos que ficauão em Calicut, a que Lopo foarez mandou dizer de palaura, que quando foife pera Co- chl furgiria ho mais perto que podeífe de Calicut, & que fugiffem eles de noyte pera a frota, ou a nado, ou em almadias: & iíto porq foube do mefmo moço que os catiuos andauão fem ferros pela cidade cõ dous Nai¬ res q os goardauão, & de noyte dormião em hú çarame. E defpois dilto partiofe pera Calicut, onde chegou hú fabado fete de Setembro. E como furgio foy a ele ho moço que lhe leuara a carta a Cananor & foy coele hú mouro criado de Cojebequim que lhe leuou hum prefente dos rege¬ dores de Calicut. De cuja parte lhe diífe, que fe quifeífe dar feguro a Co¬ jebequim que iria falar coele fobre ho concerto de paz. A que ele refpõ- deo que não auia de tomar ho prefente, né outra coufa algúa ate a paz não fer feyta, & quãto a Cojebequim que lhe poderia ir falar feguramente como feruidor del Rey de Portugal. E mandou dizer aos noffos que tra- balhaífem por fugir. Sabida eíta repolta pelos regedores, mandarão logo Cojebequim q leuaffe a Lopo foarez dous dos noffos que eítauão catiuos, crendo que coiffo ho prouocarião a fazer paz, pedindolhe que efperaífe
  • Livro I, Capitolo XCII iq5 quatro dias que el rey poderia tardar, porque ja erão a chamalo, & que fabião que faria quanto ele quifeffe. E ele refpondeo, que não auia de fazer coufa algúa ate lhe primeyro não entregarem os dous Italianos que fe lançarão em Calicut: & que fendo lhe entregues faria o que foífe bem. E não lhe mandou nhú recado fobre os catiuos, porque tinha pera íi que poderião fugir: mas não poderão, porque fabendo os Italianos como Lopo foarez os pedia, confelharão aos regedores q teueífem grande goarda fobre os catiuos: porque polos auer faria ele a paz com as condições que el rey quifeffe, porque erão muyto eftimados antre os noffos: & que os não auia de deixar por nhú preço. E crendo os regedores iíto, effriarão de falar mais na paz, & poferão os cativos em tal recado que não poderão fugir. E ficarão afii ate o tépo do vifo rey dõ Frãcifco dalmeida que fugi¬ rão algús: & os outros morrerão de doença. CAPITOLO .XCII. Da de/lruição que lio capitão môr Lopo joare\ fe\ em Calicut: & de como chegou a Cocliim. Venho Lopo íoarez q os regedores não tomauão nhúa concrufam coele: & defefperado de auer os catiuos, quis fe vingar em efbom- bardear a cidade hú dia & meo, em que fez nela muyto grande deítruição, que derribou ho çarame del rey, & parte dúa mezquita & ou¬ tras muytas cafas, & matou muyta géte q acodio á praya: de q ele eftaua perto com fete naos das mais pequenas da frota, & pegados com terra todos os bateis artilhados. Feyto ifto partiofe pera Cochim, õde chegou hú fabado quatorze de Setembro: & efte dia efteue no mar, & foy viíi- tado dos noffos. E ao outro dia defembarcou na noffa fortaleza da mefma maneyra que defembarcou em Cananor. El rey de Cochim ho eftaua efpe- rando á porta da fortaleza: & dali ho recebeo com grande fefta. E def- pois de fe abraçarem fe tomarão pelas mãos, & fe forão a húa fala: em que eftaua feyto hú eftrado real cõ húa cadeira defpaldas. E porque el rey fe affentou no eftrado fegundo feu coítume, q he affentarfe no chão: mãdou Lopo foarez afaftar a cadeira pera fora do eftrado, & affentoufe nela: o que lhe foy tachado per todos, & differão que fe ouuera daffentar no eftrado com el rey: a quem ele deu húa carta del rey de Portugal de muytos agardecimétos do que fizera por amor de feus vaffalos: offrecendo- felhe muyto por effa caufa: & el rey diffe que de tudo era pago, no que Duarte pacheco fizera por ele. E ao outro dia lhe mandou Lopo foarez húa boa forna de dinheiro que lhe el rey de Portugal mandaua, porque
  • Historia da Lídia 196 fabia que eftaua pobre. E defpois difto mãdou a Pero de mendoça, & a Vafco carualho q foffem darmada é fuas naos a goardar aquela cofta ate a de Calicut pera que tomaffem as naos dos mouros que fayfem com a efpeciaria. E aífi mandou Afonfo lopez da cofta, Pedrafonfo daguiar, Lio- nel coutinho, & Ruy dabreu q foffem carregar a Coulão por faber que auia la efpeciaria em auondança. E mãdou a Triftão da filua q foffe a Crãganor por dentro dos rios cõ quatro bateis armados pera pelejar cõ algús paraós de Calicut que andauão darmada: & Triftão da filua efbõ- bardeou algús: & afíi algús Naires que lhe fayrão em algúas pontas: & fem chegar a Cranganor tomou hú zambuco de Calicut carregado de pi¬ menta com que fe tornou a Cochim, onde carregou com os outros capi¬ tães que carregarão muy pacificamente: & foy a efpeciaria tanta que fobe- jou muyta. CAPITOLO .XCIII. De como Duarte pacheco fe partio de Coulão pera Cochim. DUarte pacheco que ãdaua na cofta de Coulão como la vio os capi¬ tães, & q era chegado capitão mór: porq não tinha mais q fazer, partiofe pera Cochim a vlte dous Doutubro: & indo por feu cami¬ nho ouue vifta de húa nao muyto a la mar, a que deu caça todo aquele dia & parte da noyte, que fe lhe acolheo a Coulão, onde auédo fala dela foube que era de noffos amigos, & que vinha de Choramandel, & q de¬ trás vinhão tres naos de Calicut: pelo que foy logo em fua bufca, & per- lõgou aquela noyte a cofta cõ ho terrenho. E em amanhecendo que ya na volta do mar ouue vifta de húa vela que lhe fugio tanto q a não pode alcançar fe não tarde perto da cofta, onde pelejou coela hú pedaço, por¬ que trazia muyta géte & defendiafe: & por derradeyro amainou, não fe atreuendo a defender. Rendida a nao, que os noffos a entrarão, mandou Duarte pacheco alijar dela algúa da gente em terra: & a outra mandou meter na fua nao prefa em ferros. E fabendo que efla nao era húa das tres de Calicut que ele ya bufcar, metedo nela dos noffos que a goar- daffem a leuou configo, & as outras duas. E fendo tanto auãte como Comorim, deulhe húa toruoada com que fe ouuera de perder: & paffada dela furgio na cofta húa legoa de terra & ali efteue aqla noyte em que lhe fugirão a nado trinta mouros, de que tomarão doze com ho batel: & defpois diffo andou doze dias as voltas efperando pelas naos. E vendo que não vinhão, né achãdo nouas delas, leuou a nao q trazia a Coulão. E defpois de a entregar ao feytor com toda a fazêda que era muyta, fe foy pera CochI.
  • Livro I, Capitolo CXIIII 197 CAPITOLO .XCIIII. De como lio capitão môr Lopo joare\ pelejou em Cranganor com híia armada de Calicut. ACabadas de carregar as naos que carregauã em Cochim; & chega¬ das as que carregarão fora pos Lopo foarez em conielho l'e daria em Cranganor por quanto era da parte del rey de Calicut, que ja eftaua em Calicut fora do turcol: & eftaua ho feu capitão mór do mar com oytéta paraós, & cinco naos: & em terra Nambeadarim com boa forna de gente. E auia noua q como fe Lopo foarez partiífe pera Portu¬ gal que auia el rey de Calicut de tornar a proffeguir a guerra. E acor¬ dado per todos os capitães q deífem em Cranganor, partio de Cochim húa noyte com quinze bateis & vinte cinco paraós de Cochim todos arti¬ lhados, & apadeflados: & húa carauela em que irião paffante de mil dos noífos, & mil Naires: & ante manhãa chegou a Paliporto q não pode mais andar por os baixos do rio: & os bateis erã pefados por amor das padeffadas & artelharia. E ali foy ter coele ho príncipe com oytocentos Naires, & hús per terra, & outros per mar partirão pera Crãganor, õdef- taua ho capitã mor do mar de Calicut e duas naos nouas: & tinha as écadeadas & artilhadas & baftecidas de muyta gete de guerra, os mais deles frecheiros: & detrás deftas naos, & das ilhargas eftauão os paraós também cõ muyta gente: & tinha configo dous filhos valentes homes. Che¬ gada a noffa frota começou de jugar a artelharia dúa parte & doutra: & Triftão da filua, Afonfo da cofia, Vafco carualho, Pedrafõfo daguiar, & An- tonio de faldanha que yão na diãteira abalrroarão com as duas naos fobre o que pelejarão hú pouco. E entradas as naos forão defpejadas, morrendo primeyro ho feu capitão mór, & feus dous filhos q pelejarão muyto valen- teméte & outros muytos: porque aqui foy toda a força da peleja, q nos paraós a quem os outros capitães cometerão ouue pouco que fazer, que logo que virão as naos entradas fe defbaratarão. Defbaratados os immi- gos do mar, mandou Lopo foarez que defembarcaffem os noífos: & defem- barcarão primeyro os cinco capitães que digo q leuauão a dianteira, a que Nambeadarim quis refiftir com algús Naires que tinha com quê os noífos pelejarão com tanto efforço que os fizerão fugir indo a pos eles, & poferão fogo a algúas cafas, que todo ho lugar eflaua defpejado dos mouros, & dos gentios, que bem fouberão como yão fobreles. E também Nambeadarim & fua gente adi como fugirão da praya vazarão logo fora. Duarte pacheco, & o feytor Diogo fernãdez correa defembarcarão por
  • Historia da índia 198 outro cabo cõ os outros capitães, & começarão de queimar. E Lopo foa- rez ficaua na praya tendo a gete que fe não defmandaíTe. Os Chriftãos da cidade que eftauão efcondidos pelas cafas como virã que lhe punhão ho fogo fayrão donde eftauão bradando aos noffos q os não mataíTem, que erão Chriftãos. E algús fe forão logo a Lopo foarez a pedirlhe por amor de noflo fenhor que mandafle ceifar ho fogo por fe não queimarem algúas igrejas de nofla fenhora, & dos apostolos que auia na cidade: & as cafas também que eftauão de meftura com as dos getios, & dos mou¬ ros. E por feu rogo mãdou ele que fizeffem ceifar ho fogo. E aili fe fez, mas com tudo erã ja queimadas muytas cafas, que por ferem feytas de madeira arderão logo. E apagado ho fogo forão roubadas as cafas dos mouros que forão muytas & delpois queimadas, & afli cinco naos & os paraós. E Lopo foarez quifera ir pelejar com Nambeadarim que eftaua hi perto, & indo ele lhe fugio & por iífo fe tornou: & feytos algús caua- leyros fe foy pera a noífa fortaleza, onde el rey de Cochim ho foy vifitar. CAPITOLO .XCV. De como el rey de Tanor pedio pa\ ao capitão môr Lopo Joare\. EDahi a dous ou tres dias chegou hú embaixador del rey de Tanor rey do Malabar & vezinho delrey de Calicut, que lhe diífe da fua parte que feria vaíTalo del Rey de Portugal fe lhe deffe ajuda con¬ tra el rey de Calicut q lhe fazia guerra: & que lha deuia de dar porque fabendo ele que el rey de Calicut ya em focorro de Cranganor fe pofera em cilada com quatro mil Naires, & lhe matara dous mil, & ho defba- ratara: pelo que el rey de Calicut não poderá focorrer a Cranganor. E logo Lopo foarez o recebeo por vaíTalo del rey de Portugal, & mandou Pero rafael em fua ajuda que foy na fua carauela cõ cê Portuguefes, que pelejarão tam bem q defbaratarão el rey de Calicut, & lhe matarão muyta gente: do que ficou mais abatido que com as vitorias de Duarte pacheco por fer cõ feu vezinho, q foy caufa de lhe os outros perderem ho medo, & fe leuantarem contrele, & por iífo os mouros de Calicut & de Crãga- nor defconfiarão de poderem tratar pera Meca q muytos determinarão de fe tornar pera fuas terras, pera o q carregarão dezafete naos groífas em Pandarane.
  • Livro I, Capitolo XCVI *99 CAPITOLO .XCVI. De como lio capitão mòr Lopo Joare\ pelejou com os mouros • em Paudarane. CHegado ho tcpo de Lopo foarez fe partir pera Portugal deixou pera fegurança de Cochí húa armada de duas carauelas & húa nao, de que ficou por capitão mor hú fidalgo que auia nome Ma¬ nuel telez de vafcocelos, & por leus capitães Pero rafael, & Diogo pirez. E de ficar efte Manuel telez & não Duarte pacheco pereyra, pefou muyto a el rey de Cochim, & fe não conhecera Lopo foarez por tão feco de condição fempre lhe pedira que ficara Duarte pacheco por capitão mor, & rogoulhe a ele que lho rogafle: do que Duarte pacheco fe efcufou. E conhecendo el rey a caufa porque ho fazia, não quis apertar coele que ho fizeffe: & não tédo nada que lhe dar offreceolhe grande forna de pi¬ menta, que lhe ele não quis tomar porque fabia a neceflidade q tinha dela: & deixando grãde foidade em el rey de Cochim & em todos os feus fe foy embarcar, & partiofe com Lopo foarez que por roim pilota¬ gem efcorreo ho porto de Panane que quifera 'tomar pera fe ver com el rey de Tanor. E dali por diãte mãdou a Pero rafael & a Diogo pirez que foffem diante da frota vigiando ho mar: & fendo eles tanto auante como Pandarane ao longo de terra, fayrãlhe do porto dez paraos de mouros da cõpanhia das dezafete naos que diffe: & de cuydarem que Lopo foarez nã oufaria de pelejar coeles por ire as fuas naos carregadas, lhe começará de tirar com a artelharia dãdo grandes gritas. Lopo foarez & os outros capitães q yão a la mar ouuindo as bõbardadas arribarão a terra, & chegarão tão perto que virão as dezafete naos que carregauão. E fabédo Lopo foarez que erão de mouros, affentou em confelho de pe¬ lejar coelas nas carauelas & nos bateis da armada que erão quinze: por¬ que as naos por irem carregadas não poderião chegar a terra onde as outras eítauão: & mais q em chegado a elas as aferraffem: & porq os mouros erã muytos & os poderião tratar mal em os aferrãdo pofeffem logo fogo. E embarcados todos forão contra as naos que eílauão de den¬ tro dú arrecife pegadas húas com as outras & as popas c terra, & os lemes atraueflados nas proas & tinhão boa forna dartelharia, & muyta gente a mais dela branca, & eítes frecheiros: & na boca do arrecife eftaua húa eftancia com dous tiros pera defender a entrada. E querendo Lopo foarez entrar no arrecife, vio que ãdauão as carauelas largas de terra por não auer veto & os bateis yão a remos, pelo q tornou pera as
  • 200 Historia da índia rebocar com ho batel em q ya. E os outros capitães pofto que ho virão não quiferão tornar & paffarão auante fazendo apertar ho remo: porq os pelouros chouião da parte dos mouros & as frechas erã fem conto. E como os bateis erão ralos, & as naos altas ficauão os Portuguefes em dif- cuberto & recebião muyto dãno. E com tudo rõperão per antre toda aquela multidão de tiros: & entrando no arrecife bradando por Santiago forão aferrar as naos: & ho primeyro capitão que aferrou foy Triftão da filua. E como a gente da nao era muyta derãlhe tantas frechadas, pedra¬ das & zagunchadas que ho fizerão defaferrar, & foy aferrar com outra em que por não auer tanta gete entrou logo cõ os feus a pefar dos mou¬ ros que lho quiferão defender, de q forão mortos algús & os outros lan- çarãfe ao mar. E Triftão da filua aferrando coefta aferrou Afonfo lopez da cofta com outra que parecia a capitaina, de que era capitão hú turco, & aífi os que eftauão coele q erão muytos. E ao aferrar foy a pedrada, & lançada tanta que era coufa defpanto: & foy acerto que antes dos noffos chegare a ela tirarãlhe os immigos com hú tiro do cõues, & com a força do couce que deu deffez hú pedaço da amurada da nao: & abriofe hú grande portal, em que os immigos não atentarão por acodirem á proa da nao. E ficando ho noffo batel ao longo daquela parte donde eftaua ho portal, entrarão os noffos por ele. E os primeyros que entrarão forão ho meftre Dafonfo lopez, & hú Aluaro lopez criado del Rey, que agora he efcriuão da camara de Santarém, & afti outros de que não pude faber os nomes: que todos juntos com outros que defpois entrarão pelejarão cõ os immigos: & matando muytos fizerão meter hús debaixo de cuberta, & outros faltar na agoa: de que fe afogarão a mór parte, porque ieuauão fayas de malha. Iuntaméte com eftes capitães aferrou Pedrafonfo daguiar cõ outra nao de húa bãda, & Lionel coutinho da outra: & afti Duarte pacheco, Vafco carualho, Antonio de faldanha, & Ruy lourenço, & todos ho fizerão muy efforçadamente. E afti como tomauão a nao, afti lhe pu- nhão logo ho fogo que fe ateou nelas com muyta fúria. O que fez grande efpãto nos immigos, & defmayarão de maneyra que os mais fe lançarão ao mar. E andando nifto chegou Lopo foarez com as carauelas: & en- trãdo no arrecife, q as deixou da toa hú dos tiros de terra deu logo com hú pelouro pola carauela de Pero rafael & matoulhe tres homés, & ferio- lhe dez. E por falta do vento a leuou a agoa que enchia, e deu coela na gorja de húa nao das que eftauão por aferrar, que tinha muyta gente. E como a nao era mais alta que ela, & a tinha debaixo da proa, em que os Imigos carregarão, tratauão muyto mal os noffos. E outra bombardada matou ho meftre a Diogo pirez que ya gouernando a carauela: & dei¬ xando de gouernar antes que lhe acodiffem ao leme foy dar fobre hús
  • Livro I, Capitolo XCVII 201 penedos, em q jouue ate a batalha fer acabada. E vedo Lopo vaz ho pe¬ rigo em q Pero rafael eftaua, mãdou q lhe acodiffem: & aífi ho fizerão entrado na carauela que eftaua chea de mouros: & os noffos ho fizerão também que os fizerão defpejar: porem os da carauela ficarão todos feri¬ dos. E entre tãto todas as naos dos immigos forão queimadas, & aquela por derradeyro e que ardeo muyta fazéda que eftaua ja carregada. E porque em terra auia muyta gente q fe ajuntaua quãto podia & dos nofios eftauão muytos feridos, fayofe Lopo foarez cÕ os feus capitães & foyfe ás naos: onde achou que forão dos noffos mortos vinte cinco, & feridos cêto & vinte fete: pore a vitoria foy muyto grande, porque a fora arderé as naos com muyta riqueza q tinhão, foubefe por mouros de Cananor q forão mortos naquela peleja duas mil almas. E coefte deftroço ficou el rey de Calicut tão deftroçado, q dahi a bos dias fe não pode reftaurar, porque perdeo ali muyto, & os mouros fe forão todos de Calicut: pelo que auia tamanha fome que fe defpouoaua a cidade. CAPITOLO .XCVII. De como ho capitão mór Lopo foare\ chegou a Lifboa, & da muyto grande hontrra que el rey dom Manuel fe\ a Duarte pacheco. AO outro dia que foy o primeyro de Ianeyro fe partio Lopo foarez pera Cananor pera fe abarrotarem as naos: & chegado foube do feytor q fua vitoria fora muyto fentida dos mouros, & ficarão coela tão quebrados que auia por feguros os noffos que ficauão na índia: por¬ que fegúdo a foberba que ate que fora a vitoria vira nos mouros de Ca¬ nanor fempre lhe parecera q auião de ho matar, & aos que eftauão em fua copanhia: & ho mefmo lhe diffe el rey de Cananor. E auédofe Lopo foarez de partir, antes de fua partida fez húa fala a Manuel telez & aos q ficauão coele fobre o q auião de fazer: trazendolhes á memória a Duarte pacheco: & não lhe quis deixar mais armada do que deixou Fran- cifco dalbuquerque & cê homés de peleja. Porem não ouue na índia guerra defpois de fua partida, por el rey de Calicut ficar como diffe. E partido de Cananor pera Portugal, chegou a Melinde ho primeyro de Feuereyro, onde fem ele fayr em terra Antonio de faldanha foy aa cidade por muytas e muy ricas prefas que hi deixara, que fez no cabo de Goar- dafum quando paffou pera a índia, & daqui foy ter Lopo foarez a Quiloa pera arrecadar as parias do rey dela, que ele nã quis dar. E dali partio a dez de Feuereyro, & fem lhe acontecer coufa que de contar feja che¬ gou a Lifboa a vinte dous de Iunho de mil & quinhetos & cinco annos, Tomo I 36
  • 202 Historia da índia com mais duas naos das que leuara quando partio pera a índia & todas carregadas de muytas & muy groflas riquezas, pelo que lhe el rey dõ Manuel fez muyta horra, & alli a Duarte pacheco fabendo o que fizera na índia, com que lhe fofteue as feytorias que la tinha, & ho credito de feu poder. E porque todos foubeífem feruiços tão aífinados, logo a húa quinta feira defpois da chegada do capitão mór mandou fazer húa folene prociflao como em dia de corpo de Deos: em q foy da See ate ho mof- teiro de fam Domingos, leuãdo cõfigo a Duarte pacheco. E pregou dom Diogo ortiz bifpo de Vifeu & diffe por ordem todas as coufas que Duarte pacheco fez na guerra contra el rey de Calicut. E não fomente fe fez ifto em Lifboa, mas no Algarue, & em todas as cidades & vilas notaueis de Portugal: & ifto por mãdado del Rey & ele efcreueo todo ao Papa per do Ioão futil, bifpo que então era de çafim q leuou as cartas, & adi ho efcreueo a muytos reys da Chriítãdade pera q foflem la fabidas façanhas tão notaueis. O que fe não acha q nhú rey neftes reynos fizefle por vaffalo. LAVS DEO. FOY IMPRESSO ESTE PRI¬ MEIRO LIVRO DA HISTORIA DA índia em a muyto nobre & leal cidade de Coim¬ bra, por Ioão da Barreyra impreílor del rey na mefma vniuerfidade. Acaboufe aos vinte dias do mes de Iulho. De M. D. LIIII.
  • LIVRO SEGUNDO
  • PROLOGO NO SEGUNDO LIURO DA HISTORIA DO DESCOBRI- menlo & conquiíta da índia pelos Portuguefes. Dirigido ao SereniíTimo & illuftriííimo Príncipe de Portugal Dom Ioão noíTo fenhor. Por Fernão lope^ de Castanheda. OS antigos reis de Egipto, tinhão por çoftume, Sereniflimo & Illuf- triífimo Príncipe, terem cada dia lição das hiftorias: não foomente de feus anteceffores: mas doutros reys eftrangeiros, pera que delas tomaffem doctrina de como auião de gouernar feus reynos na paz, & na guerra. Coftume de grande louuor, & muyto digno de fer notado: & que os reys & príncipes ainda agora auião de goardar, porque os que gouer- não bem, ho farião de cadauez melhor, & os que mal, fe enmendarião (pois nas hiftorias fe achão os melhores exemplos que podem fer pera qualquer eftado de vida) & por ilfo deuião eles de ter cada dia lição de¬ las, principalmente das de feus anteceífores, de que podem tomar a mais neceffaria doctrina pera boa gouernança de feus reynos que doutras al- gúas, por ferem daqueles a que naturalmente tem mais affeição que aos outros, afli polo parentefco, como pola igoaldade dos coftumes que tem mais necellidade de faber que os eftrangeiros pois hão de fer as regras por onde hão de gouernar fua repubrica. E a fora eftes & outros muy- tos proueytos particulares que calo da hiftoria por não fer prolixo. Tem também outro com que os reys deue muyto de folgar, que he faberem o que fizerão feus naturaes: pera que faybã fe forão bos, que té por vaffalos a feus filhos q fe hão de parecer cõ feus pays, & que os hão de feruir bé: & os anime pera iffo, com lhe fazerem merces (que he proprio dos príncipes) o que não faze muytas vezes por não faberé ho merecimento de feus vaffalos, que fe ho foubeífem lhas farião, o que polas hiftorias podem faber muy particularmente. E por todas eftas rezões deuião de
  • 20Õ Historia da índia ocuparfe ao menos húa ora cada dia em lição tão neceffaria & prouey- tofa. No q .V. A. principe muy efclarecido, he digno de muyto louuor, pois em idade tã pequena quer ter efta lição dos feytos tã memoraueis como fizerão os feus Portuguefes por mandado do inuidiifimo rey dom Manuel voífo auo de gloriofa memória, fegundo fe moftrou na continua¬ ção que teue de ouuir ho primeyro liuro que fiz da hiftoria do defcobri- mento & conquifta da índia: no que recebi tamanha & tão fingular merce, que a fora me ficar por galardão do immenfo trabalho que leuey em a fazer, me fez nouo defeio pera com mais breuidade do que poffo fayr a luz com os outros liuros, porque logrem de tamanha merce como fez ao primeyro, & os que hão de fer voífos vaífalos a recebão, em que Voífa A. fayba as façanhas que fizerão: não foomente com efforço & valentia, mas com confelho de muyta prudência, & de grande viueza de engenho. E fayba que fe em Athenas ouue hú Themiftocles, hum Alcebiades, & hú Miltiades, & em Macedonia hú Alexandre, & em Epiro hú Pirho, & em Thebas hú Epaminõdas, & em Roma hú Iulio Cefar, hú Fabio máximo, dous Catões, tres Scipiões, & outros muytos em geral, mas de cada hú dous tres em efpicial: q tem vaífalos, que não em hú, dous, & tres no particular: mas geralmente quando he neceífario, fam todos cada hum deftes Gregos & Romãos, affi no efforço, como no confelho, como na prefteza da execução dele, de que a mefma hiftoria dâ muytos teftemu- nhos. E pois noífo fenhor quer que voífa alteza fuceda em fer fenhor de taes vaífalos, como efperamos em fua grande mifericordia que ferâ, def- pois de muytos annos. Aíli auerâ por feu feruiço que fucederà em fe fazeré em feus tempos tão notaueys feytos darmas contra mouros, como fam feytos, & fe fazem cada dia no do muyto alto & muyto poderofo rey dom Ioão voífo pay noífo fenhor, que em grandeza, efpanto, & fama tem muyto grande auantagem aos de feus anteceífores.
  • LIURO SEGUNDO DA HISTORIA DO DESCOBRIMENTO E CONQUISTA DA INDIA Em que fe contem o que os Portuguefes fizerão, fendo delia Vifo- rey Dom Francifco Dalmeyda, do anno de mil & quinhentos & cinco, ate ho de mil & quinhentos & noue. E ajji ho que fizeram nejle tempo da cofia Darabia, & da Perfia fendo capitão mor Afonfo Dalbuquerque. CAPITOLO PRIMEIRO. De como par tio pera a índia por Vifo rey dela Dom Francifco Dalmeyda: & do que pajfou na tiiagem ate chegar a cidade de Qidloa. SEndo el rey de Portugal certificado q os reys de Cochim, de Cana- nor, & de Coulão eítauão certos em fua amizade: não foomente em feus reynos, mas em outros eítranhos fez grandes efmolas a muy- tos mofteyros & a outros templos, como que pagaua os dizimos dos frutos que lhe noífo fenhor daua de feus fanétos trabalhos. E pera que os negó¬ cios da índia foflem feytos com mores forças, & mais autoridade do que fe ateli fizera lhe pareceo bem de mandar a ela hú capitão mór & gouer- nador queíteueffe daflento por algús annos. E tendo efcolhido pera eíte officio hú fidalgo chamado Trilião da Cunha que cegou neíle comenos, efcolheo outro chamado dom Francifco dalmeyda filho do primeyro conde Dabrantes, que tinha feita affaz experiencia de fua pefloa em feitos que fez defforçado caualeyro afli na cõquiíta do reyno de Grada, como em outras partes em que fe tinha achado. E ellando ele a elle tempo na ci¬ dade de Coimbra cõ ho bifpo dela feu hirmão, bé defcuidado de tã honr- rado trabalho, ho mandou el rey chamar, com engeitar muytos fidalgos de fua corte que lhe pedião elle carrego q ele deu a dom Francifco cõ
  • Historia da índia 1208 palauras muy fauoraueis da confiança que tinha em fua peffoa: & lhe fez merce de grande ordenado des que partiffe de Portugal ate que tornaffe: & pera goarda de fua peffoa na índia lhe ordenou cê alabardeiros: & affi capela & outras coufas, pera q teueffe tamanho eftado como conui- nha ao grande cargo que leuaua: porque por fer ho primeyro q hia coele, queria que lhe não faleceffe nada pera parecer hú príncipe. E deulhe poder pera que em feu nome podeffe cadanno tomar certas peffoas no foro que lhe bem pareceffe, & conforme a ele lhes daria a moradia. E affi lhe deu mero & mifto império na juftiça, & na fazenda. E os capí¬ tulos de feu regimento forão eftes: que do dia q partiffe de Portugal ate que chegaffe à índia & fizeffe fortalezas em Cananor, CochI & Coulão fe chamaria capitão moor & gouernador: & feitas fe chamaria viforey, & efta cõdiçam lhe pos pera que pofeffe deligencia em as fazer & que de caminho deixaffe em çofala hú fidalgo chamado Pero danhaya (que auia dir coele) pera fazer hi húa fortaleza, & que fizeffe outra é Quiloa pera moor fegurança do trato de çofala, & inuernarem ali as fuas naos fe não podeffem paffar aa índia: & que fizeffe outra em Anjadiua porque fe a índia efteueffe de guerra lha fizeffe dali. Ou fe também os reys de Cananor, Cochim, & Coulão não quifeffe confentir as que mandaua fazer que terião os feus aquela onde fe acolheffem & dali os conquiftaria, & não auendo diffo neceflidade aproueitaria pera trazer ali algús nauios darmada que tomaffem as naos de Meca que hião pera ho Malabar, & pera os portos del rey de Narfinga que eftão naquela cofta .f. Baticala, Bracelor, Mangalor & Bacanor. E que na índia aueria dous capitães móres do mar, hú do cabo de Goardafum ate Cambaia outro de Cam- baya ate ho cabo de Comorim, ho do cabo de Goardafum pera goardar a boca do mar roxo pera que os mouros de Calecut não leuaffem lâ efpe- ciaria: ho outro pera goardar que os mouros de Cambaia não foffem a çofala nem ao mar roxo. E mais deu a dom Frãcifco prefentes pera effes reys da índia feus amigos antre os quaes foy húa rica coroa douro pera el rey de Cochim a que mandou ho padrão da teça de feis cétos cruza¬ dos de juro pola caufa que ja diffe no liuro primeyro. E affi hião outras coufas como direy adiante, & a fora grandes merces que fez a dom Fr㬠cifco polo feruiço que lhe fazia, as fez também a dom Lourenço dal- meyda feu filho que auia dir coele: & affi muytos fidalgos & caualeyros feus criados que hião naquela armada que foy de quinze naos & feis ca- rauelas, de que a fora ho gouernador forã por capitães, dom Fernando deça, Fernão foarez, Ruy freire, Váfco gomez dabreu que auia dandar por capitão mór do cabo de Goardafú ate Cambaya, Iohão da noua tam¬ bém capitão mòr do mar de Cambaya ate ho cabo de Comorin, Pero
  • Livro II, Capitolo I 20g danhaya que auia de ficar em çofala-& por capitão da fua nao dali pera a índia auia de ir hú Pero barreto de magalhães a que algús chamauão ho lião por amor de hu que matou em África, Baftiã de foufa, Diogo correa filho de frey Payo 'correa, Pero ferreyra fogaça que auia de ficar por capitão na fortaleza de Quíloa, Lopo fanchez, Felipe rodriguez, Ioão fer¬ rão, Antão gõçaluez alcaide de Cezimbra, & Fernão bermudez. Das ca- rauelas Gõçalo vaz de goyos, Gõçalo de payua, Lucas dafonfeca, Lopo chanoca ho grande, Ioão homem, & Antão vaz todos fidalgos & caualey- ros. E eftando ho gouernador pera partir foy el rey á fua nao pera ho ver partir cuydando que foffe aquele dia fua partida: (& não foi por fer ho tempo contrairo pera iflo) & aíli durou ate vinte cinco de Março fem nunca fegurar pera fe a frota poder partir. E nefte tempo fe perdeo a nao de Pero danhaya, & por iflo ceifou fua ida com ho gouernador, por fe não poder logo fazer preftes outra nao em que foffe: porem foy def- pois como direy adiante. E abonançãdo ho tempo ho gouernador fe par-' tio de Belem a vinte cinco de Março de mil & quinhétos & cinco, & el rey foy per mar a velo partir, & efteue ate ver deffirir a frota que fe defamarrou com grandes gritas & eftrondo de toda fua artelharia & afli da torre. E indo eíta frota polo rio abaixo, mandando os pilotos aos do leme que gouernaffem a bõbordo, & a eftribordo, como fe coftuma quando faem dalgú rio, embaraçauanfe os marinheiros por não ferem ainda ver- fados naqueles vocábulos, principalmente os da carauela de Ioão homé, & quando auião de gouernar a bõ bordo que he da mão dereita, gouer- nauão a eftribordo que he a ezquerda: o q vendo Ioão homé diffe ao piloto que falaífe aos marinheyros por vocábulos que eles fabião: & quãdo quifeffe que gouernaffem a eftribordo que difeffe alhos, & quando a bom¬ bordo cebolas; & a cada banda mãdou pendurar húa refte deftas coufas; & como ho piloto falou por aqueles vocábulos não fe embaraçarão mais os marinheyros, & gouernarão dereito. E feguindo fua rota a trinta de Março ouue vifta da ilha da madeira que he cento & cincoenta legoas de Portugal: & dali fez feu caminho pera as ilhas das Canarias & ouue vifta da Palma feffenta legoas deftoutra: & daqui feguio pera Bezeguiche onde auia de fazer agoada: & polo não poder tomar a foy fazer abaixo do Porto Dale na cofta de Guine, onde fe deteue noue dias & dali le partio a xv. dabril caminho da linha Equinocial que he trezentas & vinte legoas defte porto dale, & antes de a paffar andou em calmaria quatorze dias: & por algús juftos refpeytos que pera iflo ouue partio ho gouerna¬ dor a frota em duas partes & pera fi deixou húa de doze naos & a cara¬ uela de Gõçalo de payua pera que lhe leuaffe ho forol. E a capitania môr das carauelas, & a nao de Lopo fanches, & a de Baftiã de foufa deixou Tomo I *7 *
  • 210 Historia da índia a Manuel paçanha hú fidalgo fogro de Baftião de Soufa é cuja nao hia: & por ele fer peffoa de merecimeto & hir por capitão da fortaleza Dan- jadiua & fofpeitar ho gouernador que hia na fua fuceffão lhe fez aquela honrra. E feita efta repartição paffou a Linha a vinte Dabril, & aos vin- toyto começou de fazer caminho pera ho cabo de boa Efperança, & aos cinco de Mayo lhe fobreueyo grande calmaria: na qual a nao de Pero ferreira fomente com ho vanzear do mar abrio de velha per duas vezes húa agoa: & da derradeira foy a agoa tamanha que fem aproueitarem nenhús remedios fe foy ao fundo, & faluoufe toda a gente fem mais outra coufa íe não húa arca de prata da capela do vifo rey, & Pero ferreira foy ho derradeiro que fe fahio da nao, a qual quando fe meteo debaixo dagoa fez hú arroido muy temerofo, & tamanho q fe ouuiria a húa legoa. A efte tempo erão ja as frotas apartadas húa da outra, & não fe virão fe não dahi a quatro mefes. Ceifando efta calmaria, & tornando ho vento feguio ho gouernador fua via pera ho cabo: & auendo os pilotos medo dempeçar nelle fe meterão tanto debaxo do fui que fe puferão em qua¬ renta graos. E ali acharão que era ao meo dia ho foi ao noroefte, & a quarta do norte, que foy coufa que núca acõteceo a outra frota: & era a neue tanta que continuamente andauam homés a lançala fora das naos, & eram os dias tam pequenos, que leuantandofe muyto cedo a fazer de comer, anoytecia em acabando de jantar. E nefta parajem achou grandes tormentas, alfi de ventos como de trouoadas, & muyto grandes frios, com muyto grandes trabalhos & medos de toda a géte: foy ate a parajê do cabo que dobrou a vinte feys de Iunho, paffando alamar céto & fetenta & cinco legoas. E indo afli afaítado de terra aos dous de Iulho lhe deu húa muyto grande toruoada com hú pee de vento tã brauo que rompeo as velas da capitaina, & da nao de Diogo correa, de que forão tres ho¬ més ao mar: & hú deles que fe chamaua Fernã Lourenço aleuantou hú braço nadãdo & dizendo ao capitão que mandaífe por ele porq nadaria ate ho outro dia, deitaram entam ho efquife & tomarãno andando ho mar muyto brauo, o q fe ouue por milagre, & os dous fe afogarão: & todo aquele dia foy de tamanha çarração q fe nã vião as naos húas âs ou¬ tras. E tornando bonança achoufe menos a nao de Ioão ferrão, porquem ho gouernador efperou: & vendo que não vinha feguio auante. E aos de- zoyto de Iulho vio as ilhas primeyras que fam quinhentas & cincoenta & cinco legoas auante do cabo, donde mandou a Gonçalo de payua que foífe a Moçabique a faber nouas de como eftaua, & fe paliarão â índia as armadas de Frãcifco dalbuquerque, & de Lopo foarez & fe tornarão pera Portugal: & defpedido Gonçalo de payua feguio feu caminho pera Quiloa pera dar ordem â fortaleza que hi auia de fazer, porque vio que
  • Livro II, Capitolo II 211 Gonçalo de payua lhe ficaua atras mandou a Fernão bermudez que fofle faber a Moçambique as nouas q mandara faber a Gonçalo de payua, & ifto porque ho não queria tomar & paíTou a vifta dele: & ao outro dia ao quarto da prima, & aos vinte dous dias de Iulho chegou a barra de Quiloa. CAPITOLO .II. De como não querendo el rey de Quiloa pagar as parias que era obrigado, ho gouernador lhe tomou a cidade. CVjo rey era aquele a que ho code dom Vafco da gama fizera tribu¬ tário del rey de Portugal, & elte tinha vfurpado ho reyno ao ver- dadeyro rey de Quiloa, que faleceo defpois de fer lançado do reyno, ficando dele hú filho ainda mãcebo que moraua em húa ilha trinta legoas de Quiloa, onde viuia muy pobremente. E por eíte que reynaua ter affi aquele reyno tirãnicamente eftauão os da cidade de muyto mal, & pela mefma caufa ho eftaua também Mafamede alconez: aquele mouro que ficou por arrefens deite rey qufdo ho conde almirante ho prendeo, como diífe no liuro primeyro, & por Mafamede alconez não querer ler rey ho não era, que a gente mais contente era que ho ele fofle que ho que reynaua: & fabendo eíte tirano ifto, temeofe que fabendo ho gouer¬ nador como ele tinha ho reyno, não fôméte lho tirafle, mas lhe fizefle algú mal, & por iífo não oufou de ho yr ver nem defperar na cidade, & fugio tão fecretamente que ho não fouberão fe não algús criados feus. E fabida fua fugida na cidade logo os moradores fizerão corpo com Mafa¬ mede alconez, & lhe pregútarão o que fariã fe ho gouernador quifefíe en¬ trar na cidade, & ele lhes difle que ho efperaflem ate defembarcar, & fegundo viflem q affi farião: & fazendo alardo dos q erã acharanfe mil & quinhentas peífoas q podião pelejar, & eítes ficarão na cidade & os outros fe fayrão logo dela: & vendo ho gouernador que el rey lhe nã hia falar, tendolhe mandado dizer que yria, prendeo cinco mouros hõrrados que lho forão dizer: & parecendolhe que eftaua leuantado determinou de por força ho fometer a obediência del rey de Portugal, & affi ho diífe aos feus capitães com quem acordou que deflem na cidade ao outro dia feguinte, & que ele com trezentos homens cometeffe pela parte queltaua defronte da frota: & dom Lourenço defle mais acima com dozentos, & q todos fe foflem ajuntar nas calas del rey. E ao outro dia que era vef- pera do apoltolo Santiago em rompendo a alua eftauão todos os capitães embarcados com fua gête em feus bateis, & abfolutos pelo vigayro aba¬ laram pera terra, onde chegarão em amanhecendo, & como era prea mar
  • 212 Historia da índia chegaua a agoa junto das cafas, em que não parecião nenhús dos Imigos: do q fe ho gouernador muyto efpantou porque a aparecia da cidade pro¬ metia que ouueífe nela boa foma de gente, polo qual não aparecédo nhúa lhe pareceo cilada, & por iíTo mandou aos capitães de fua companhia q defembarcaífem com tento: & ele foy ho primeyro que defembarcou com a bandeira real, que alfi vinha ordenado, & defpois defembarcaram os outros capitães com fua gente, a que a agoa daua pela cinta, & mais acima. E vendo ho gouernador q toda via lhe não defendião os Imigos a entrada da cidade, a étrou repartindo as ruas aos capitães, & mandando- lhes que ainda que achaffem Imigos q lhes nã fizeffé mal fe fe lhe nã de- fédeffem: & ifto foy porque entrando vio algús fem armas como homés pacíficos: porc mais dentro fayrão outros armados & quiferão refiftir, mas não poderão, antes forão mortos, & coeles de meftura outros q fe nã defendiã. E nifto fe fayo Mafamede alconez com toda a gente da ci¬ dade & a defemparou: & não achãdo ho gouernador mais defenfam che¬ gou as cafas del rey, a cuja porta dom Lourenço feu filho ho eftaua efpe- rãdo acompanhado deífes que defembarcarão coele, & na entrada lhe focedeo ho mefmo que a feu pay: & ho primeyro que chegou âs cafas del rey foy Felipe rodriguez, & dom Lourenço não quis que ninguém entraife ate feu pay não chegar, que chegado mandou quebrar as portas com machados, & quebradas mandou a dom Lourenço que entraffe den¬ tro com parte da gente, & que fe achaffe el rey que ho não matalfe, mas que ho prendeffe, & dom Lourenço não achou a ele nem a outrem. E fabédo ho gouernador q não auia ningue nos paços foyfe pela cidade a bufcar fe auia com que pelejaífe, & não achando peífoa algúa dos immi- gos: jâ como fenhor da terra recolheofe a húa das melhores cafas que auia nela, donde ho fayrão a receber em prociffão, ho vigayro & os fra¬ des de fam Francifco q hião na armada, & leuauão duas cruzes leuãta- das: & defpois que ho gouernador & os feus as adorarão, começarão os clérigos & frades de cantar ho cântico de Te deum laudamus. E dando todos muytos louuores a noffo fenhor por lhe dar tão pacificamete húa cidade como aquela, & que eftaua tão bem prouida de gente: recolheofe ho gouernador a efta cafa que digo, & dali foltou a gente que foífe a rou¬ bar a cidade: mandandolhes que tudo quanto achaftem meteíTem em húa cafa iunto da fua, pera que defpois fe repartifTe, & aífi fe fez: & achoufe muyto & muy rico defpojo, aífi como ouro, prata, aljôfar, ambar, & muyta foma de mercadorias .f. panos dalgodã, fotas do Xeq Ifmael, encéfo, almecega, cera, marfim & outras mercadorias que não conhecião, & muy¬ tos mãtimentos da terra. E faqueada a cidade fez ho gouernador muytos caualeyros, antre os quais foy Fernão perez dandrade que agora he
  • Livro II, Capitolo III 2l3 armador môr, q então era de idade de dezafeys annos, & foy feu padri¬ nho dom Aluaro de noronha que hia prouido da capitania da fortaleza, que fe auia de fazer em Cochim. CAPITOLO .III. De como lio governador fe\ húa fortaleza na cidade de Quíloa, & de como fe\ nela nono rej\- AO outro dia que foy de Sãtiago pela manhaã ouuio ho gouernador miífa que foy dita com grande folenidade, & em húa pregaçam que fez ho vigayro meftre Diogo: encarregou a todos que deflem muy- tos louuores a noflo fenhor por tão affinada mercê, como lhes fizera em lhes dar aquela cidade tanto a feu faluo, & trazelos de tão longe pera fazerem nela morada em que ho culto diuino fofie celebrado. Acabado ho officio diuino logo ho gouernador cõ fua gente começou de fazer a for¬ taleza naqlas cafas etn q fe recolheo: as quaes eftauão na entrada da cidade da bãda do ponente tão pegadas cõ ho mar que batia nelas, & mandou primeiro derribar muytas qftauão ao derredor pera que ficaffe grande terreyro, & a fortaleza efteueffe defabafada: a que foy pofto nome de Santiago, por honrra do bem auenturado apoftolo, é cujo dia fe come¬ çou: & como quer que grã parte dela confiftia nas cafas que eftauão ja feitas furdio muyto em pouco tempo, & porque auia pedra, cal & ma¬ deira em abaftança. Em quanto íe a obra fazia fez ho gouernador con¬ certo com Mafamede alconez qi;e ho faria rey de Quíloa, cõ tanto que fizefie com feus moradores que fugirã que a tornaílem a pouoar, & que elle lhes daria feguro de não receberem nenhú dano, & lhes entregaria as fazédas que teueffem na ilha, & que ele auia de ficar por vafTalo del rey de Portugal, & lhe auia de pagar as pareas que pagaua ho rey ante- paffado. Feyto efte concerto logo Mafamede alconez le tornou pera a cidade: leuando coníigo todos os moradores queftauão fugidos: & no mefmo dia que vierão foy ele jurado & leuantado por rey: o que ho go¬ uernador quis que foffe com grande aparato: & deulhe efte dia húa mar- lota dezcarlata muyto fina, laurada toda, & goarnecida de fio douro: & mandoulhe felar hú caualo ao modo Português. E acompanhado de muy- tos mouros que hião a pê, veftidos muy ricamente, foy leuado por toda a cidade, & Gafpar hia diante dizendo por araúia aos mouros com alta voz. Efte he ho voflo rey obedeceilhe, & beijailhe os pees: efte ha de fer fempre leal a el rey de Portugal noífo fenhor. E defpois que ho alfi trou- uerão pela cidade, foy trazido ao terreyro da fortaleza, onde ho gouer-
  • 214 Historia da índia nador eftaua em hú cadafalfo affentado em húa cadeira pofta fobre hú eftrado muyto rico, onde el rey jurou em fuas mãos vaffalagem a el Rey de Portugal: & defpois lhe entregou ho gouernador ho reyno de Quiloa, coroandoho com fuas mãos. E dali ho leuou aos paços: onde ficou com grande prazer de todos, efpecialmente dos noífos por ferem vaífalos de hú rey tão poderofo que da fim do occidente, fazia rey em terra tão apar¬ tada da fua. E eftando nifto chegarão a Quiloa, Gõçalo de payua, & Fer- não bermudez que forão a Moçambique faber nouas dos capitães mores das armadas, que hião de Portugal pera a índia: & diíferã ao gouerna¬ dor que ho Xeque de Moçambique eftaua firme na amizade com el rey de Portugal, & que lhes dera cartas de Francifco dalbuquerque, como paffara pera Portugal auia hú anno. E afli de Lopo foarez que também era paliado com toda fua frota, & dos bõs acontecimentos q lhe acote- cerão na índia. E eftas cartas coftumauão então os capitães q hião a índia deixar em Moçambique quando tornauão pera Portugal, pera que os que foliem foubeffem fe eftaua de paz, ou de guerra. E logo apos eftes dous nauios chegou Ioão ferrão capitã da nao bota fogo, q auia dias q fe apartara com tempo da conferua do gouernador, & auendo dez dias que a obra da fortaleza fe continuaua. Em dia de nofla fenhora das neues foy el rey de Quiloa ao gouernador & lhe diífe que na terra firme mea legoa da ilha eftaua hú filho do rey q matara ho tirano que elle deitara da cidade, & que lhe vinh,a pedir ho reyno como dereyto fuceífor delle. E porque ele fora grande amigo de feu pay, & ho conhecia por feu filho, folgaria muyto que ainda q tinha herdeyro, de lhe fuceder por fua morte aquele filho que era do verdadeyro rey de Quiloa, & lho pedia muyto que adi ho quifeífe, & antes que fe dali folie ho fizeffe jurar por príncipe. Ho que ho gouernador lhe teue a muyto grande virtude, & lhe concedeo fua petição. E mandando a Ioão da noua polo filho del rey, ho fez jurar por príncipe herdeiro, defpois da morte de Mafamede alconez, ho qual feria de fetenta annos, jurando ho principe vaffalagem a el rey de Portu¬ gal, & auendo defafeys dias que ho gouernador aqui eftaua, acaboufe a torre da menajem da fortaleza que ali fazião, a qual era de tres fobrados todos argamaífados, & afli quatro baluartes coni fuas bombardeyras & feteiras, & no cerco da fortaleza auia cafas pera a feitoria, & almazem, & pera outras oflicinas da fortaleza. Cuja capitania ho gouernador entre¬ gou a Pero ferreyra fogaça que a trazia de Portugal por el rey: & por a fortaleza eftar ja de maneyra que fe podia defender determinou ho go¬ uernador de fe partir, porque tinha muyto que fazer a diante, & entre¬ gou os officios da fortaleza aos officiaes que os traziã, & deu fetenta ho¬ mens darmas ao capitão & dous clérigos pera dizerem miffa, & também
  • Livro II, Capitolo IIII 2l5 lhe deu toda a prouifam neceflaria pera fua defenfam: & deixou húa pro- uifam pera Manuel paçanha capitão môr da frota que ficaua a iras que deixaífe ali Gonçalo vaz de goyes na fua carauela pera andar darmada por aquela cofta. CAPITOLO .1111. De como ejlá fituada a cidade de Mombaça, & de como ho gouernador foy sobrela pera a tomar. FEyto tudo ifto partiofe ho gouernador com determinação de hir fobre a cidade de Mombaça, & toniala, & deltruyla: porque com fua deftruição ficaua Quíloa mais forte, & mais fenhora daquela cofia: & pera ho meterem na barra de Mombaça leuou configo dous pilotos mouros que a fabião bem. E partiofe a noue de Agofto, e logo na noyte feguinte, no quarto da prima fe achou tão junto com terra que fe fez na volta do mar, & tirando húa bombardada fez final que viraffe também: & nefta volta fe deteue tanto a nao de Fernão foarez que ficou foo a tras. E ao outro dia que era 'dia de fam Lourenço, eftando ela perto de terra acalmoulhe ho vento, & a agoa a chamaua pera terra: & por iffo ho ca¬ pitão mãdou furgir húa ancora, & não fe achou fundo fe não com quatro cabres de comprimento, & nefta altura furgio fobre húa pedra de que fe teue grande receyo que lhe cortafle os cabres, que por não auer outros ficaua a nao perdida fem eles: & ho mar arrebentaua em frol perto dela, & por iffo eftaua em muyto rifco de fe perder, & alfi fe daua a géte por perdida vendofe em tamanho perigo. E não tendo nenhú remedio de fal- uação, ho Capitão com toda a outra gente aífentados em giolhos pedirão a nolfa fenhora de Goadalupe que os liuraífe daquele perigo: & prome- teranlhe de mandar hú romeyro a fua cafa, ho qual tirarão logo: & tanto que foy tirado quis noffo fenhor por fua mifericordia, que acodio hú pouco de vento com que a nao foi afaftada da terra, & foy a ancora cobrada. E efcapando daquele perigo feguio a via de Mombaça, onde ho gouernador chegou a treze Dagofto & furgio na boca da barra, donde mandou a Gonçalo de payua q a foffe fondar, & forão coele os dous pi¬ lotos mouros que vinhão de Quiloa: & indo pola barra auante foy ter com hú baluarte donde lhe tirarão duas bombardadas, & hú dos pelouros paliou a carauela: & entrou détro o que vendo Gonçalo de payua man¬ dou dar fogo a fua artelharia & começou de ho efbombardear: & nifto acedeofe fogo na poluora do baluarte, de tal maneyra que ho não pode¬ rão os mouros apagar, & com medo de ferem queymados fugirão, & Gonçalo de Payua acabou de deftruir ho baluarte. E achando ele que a
  • Historia da índia 216 frota podia entrar tornou com ho recado ao gouernador, que entrou logo com toda a frota & furgio diante da cidade: & furto ouue confelho com feus capitães, & com os fidalgos & caualeyros, dizendo que lhe parecia bem que primeyro que fizeífem coufa algúa contra a cidade mãdaíTem recado a el rey de Mombaça fobre le querer fazer vaífalo del rey de Por¬ tugal, & quando ele não quifeííe que então lhe faria a guerra. E efte re¬ cado lhe mandou per hú dos pilotos mouros & leuouho Ioão da noua no feu batel: & antes que chegaffem a terra fe poferão a fala com algús mouros que andauão pela praya, que ho piloto pedio feguro pera ir falar a el rey: os mouros fe moftrarão muy menencorios cotrele chamandolhe cão, perro, que comia porco, & que era mais Chriftão q os Chriftãos pois os trouuera ali: & q foffe certo que fe faya fora lhe cortarião a ca¬ beça, & que dilTeffe aos perros dos Criftãos que Mombaça não era Qui- loa, nem tinha galinhas pareles que fe tornaffem. E fabendo ho gouer¬ nador efte recado mandou aquela noyte Ioão da noua & outro capitão nos bateis a terra pera que tornaffem lingoa: & andando â borda da praya differanlhe de terra em Português, que fayfem fora que feita tinhão a cea: mas que não oufarião como em Quiloa, porque ali auia homés, & preguntãdo Ioão da noua quem era ho que falaua, foylhe refpondido que era hú Português natural de Lifboa q ali ficara da nao Dantonio do campo & que fe tornara mouro. E Ioão da noua lhe rogou que foffe falar ao vifo rey, & que lhe perdoaria, & ele não quis. E andando afii cor¬ rendo a praya foy tomado hú mouro q acertou de fer criado del rey de Mombaça de dentro de cafa: & ho gouernador lhe prometeo a vida & liberdade fe lhe diffeffe a verdade, do que el rey determinaua: & ele lhe diffe que fabendo el rey como ele tomara Quiloa com receo de vir fobre Mombaça fe fortalecera ho mais q poderá & mandara fazer em hú paffo eftreito da barra ho baluarte que vira, & que tinha na cidade algúa ar- telharia: & affi quatro mil homés de peleja, em que entrauão muytos efcrauos como os de Quiloa, dos quaes quinhentos erão frecheiros: & no fertão tinha mandado fazer dous mil homens de peleja, & que quan¬ tos auia na cidade eftauão determinados de fe defender.
  • Livro I, Capitolo V 217 CAPITOLO .V. De como ho governador mandou por fogo a cidade de Mombaça, & de como foy queimada grande parte dela. ESta noua do focorro que el rey de Mombaça efperaua acrecentou muyto mays a prefla que ho gouernador tinha pera tomar a cidade: & logo ao outro dia que foy vefpera da affunção de noífa fenhora pela manhaã chamou a confelho, & fendo juntos lhes cotou o que fabia da difpoíição da cidade, & da gente que el rey tinha, & do focorro que efperaua: pedindo a cada hú feu parecer fe cometerião a cidade. Ao que todos refponderao que lhes parecia bem: faluo a Ioão da noua & Antam gonçaluez que ho contradifferam, dizendo que a não deuião de cometer, affi por ella fer muyto forte, como por ter muyto roim defembarcadoiro, que era coufa muy perigofa pera a gente: & mais fendo os Portuguefes muyto mal mandados ao recolher, o que fe vira em Maçarquibir, & em outras taes como aquela. E fendo cafo que lhe não fucedefie como elles efperauão: & aconteceífe algú perigo a fua peífoa, que feria hú mal muyto grãde pela perda & defhonrra que affi el rey de Portugal, como elles re- cebião. E vendo ho gouernador q os mais erã de parecer que fe tomafle a cidade diffe. Pois nefte feito quefperamos de fazer ha tantos pareceres taes como ho meu que he tomarfe a cidade: jagora fem receyo poderey dizer que a tomemos: ho que crede que não diífera fe vira algú perigo nefte feito daqueles que fe aqui apontara, porque ho principal que foy do roim defembarcadoiro que tem a cidade, & que ao recolhemos faria muyto dano fe nos fuceder ao reues do que efperamos. Bem creo eu q quãto mais roim for ho defembarcadoiro, tanto melhor ha de fer defen¬ dido dos Imigos, pelo qual fe cõ toda fua defenfam nos defembarcarmos, eu vos afirmo que auemos de ficar tão fenhores do campo que auemos de gaftar mais de tres dias é embarcar ho defpojo da cidade: & fendo ifto affi, como efpero em Deos que fera, não tenho de ver q os Portu¬ guefes fejão defmandados ao recolher: pois como digo prazera a noífo fenhor que fera muyto de vagar, & falóuos como homem que fou de cin- coenta annos dos quaes os quinze gaftey na guerra de que fey arrezoada- méte, & outra vez vos afirmo que fe não vira a cidade pera leuarmos auante o que nos parece que a não cometera, por iflo fenhores encomé- demosnos a noffo fenhor & a fua gloriofa madre, de cuja affunçã a ma¬ nhã a igreja faz fefta, porque em dia tão folenne & affinado cõ fua ajuda façamos hú feito tao notauel como efte fera: & no defembarcadoiro mais Tomo I 28
  • Historia da índia 218 perigofo quero eu q cometa meu filho, & apos ele Ioã da noua, pegada a gente de fuas capitanias húa com a outra: & entre tanto que a eles forem cometer daremos nos bateria. E coefte cocerto fe tornárão os capi¬ tães a feus nauios: & cada hú fe pos no lugar aftinado pelo gouernador pera cercare a cidade ao derrador, como cercarão: & logo todos defpa- rou a artelharia na cidade, & nos mouros de que auia muytos na ribeira, & eles também começaram de jugar com as fuas bombardas, que tirauão muy furiofamente, & muytos pelouros paffauão polas exarcias dos noffos nauios & por cima de muyta gete: & quis deos que não fizerão nojo a ninguém, & os noffos derribarão & atroarão algúas cafas. E eftando nifto chegou Fernão foarez que efcapara do perigo que diffe, & furgio junto do gouernador, a que foy logo ver: & ele lhe cotou ho que eftaua determi¬ nado, rogandolhe que verdadeyramente lhe deffe feu parecer a cerca diffo: & ele diffe q lhe parecia muyto bem o que eftaua affentado, & que lhe diffeffe ho contrairo que não era amigo de fua honrra. E poré que por quãto a cidade era muyto grande & a fua gente pouca, que antes que a cometeffe deuia de trabalhar que de noyte, ou de dia lhe foffe pofto fogo pera arder parte dela, porque defpois ao entrar teuefTem os noffos menos q fazer. Ho gouernador ho leuou nos braços com prazer, agarde- cendolhe ho confelho que lhe daua que ouue por muyto bom: & concer¬ tarão que ho fogo foffe pofto per duas partes, per húa Fernão foarez, Diogo correa & Ioão da noua, per outra dom Lourenço, dom Fernando deça, Ioão ferrã & Antão gonçaluez. Fernão foarez cÕ os de fua quadri¬ lha, íe ébarcarão em feus bateis com obra de trezentos homés os mais deles efpingardeiros, & befteiros. E partirão com prea mar q chegaua a agoa as cafas, & defembarcarão pela parte da alfandega da cidade, onde auia muytos mouros que os receberão com muytas frechadas & pedra¬ das: & os noffos lhe tirauão com as bombardas que trazião nos bateis, & afti efpingardadas, & feetadas: & era a barafunda muy grande da mef- tura q fe fazia de tudo. Entre tãtcf chegou dõ Lourenço a terra cõ os ou¬ tros capitães que hião coele, & cometerão pela parte onde eftauão os paços del rey, q era ho mais forte da cidade & mais perigofo: & por iffo cuidauão os mouros q os não cometerião por ali. E vedo chegar os noffos acodirão logo, ãtre os quaes forão muytos daqueles que defêdiã a parte dalfandega. E por iffo a defenfam daquela parte não ficou tão rija como dãíes: que fentindoo os noffos que ali pelejauão apertarão tão rijo com os mouros q os fizerão afaftar, & darlhes lugar pera que defembarcaffem, & em faltando em terra toda via com grande peleja, aqueles que leuauão cargo de poer ho fogo ho poferam logo com panelas de poluora em muytas cafas de madeira que eftauão antremetidas cõ as de pedra & cal: & nelas
  • Livro II, Capitolo VI 2ig íe acendeo logo ho fogo, & começou de arder muyto brauamente, aque algús mouros acodirão pera ho apagar: & outros acodiã aos que defen- dião a dom Lourenço q não defembarcafle, & era coufa delpãto ver os muytos que recrecião, porem por mays que forão, & por mays oufada- mente que fe defendião dom Louréço poyou em terra com os outros capi¬ tães & fua gente, dos quaes em defembarcando foy ferido Ioão ferrão de húa frecha que lhe atraueífou húa coxa: & outra deu pelos peitos a hú bombardeyro & logo cahio morto, & fegúdo fe defpois vio era eruada, & adi matou outra a hú criado do gouernador chamado Frãcifco correa, q tãbê morreo logo, & forã feridos outros muytos q os ímigos carre- gauã de cada vez mais em tal maneyra que a dom Lourenço lhe foy for¬ çado recolherfe aos bateis: & efte recolhimento fez ele como prudente capitão & valente caualeyro matando muytos mouros, & fempre com tamanho teto que os feus. fe recolherã fem perigo & nam forão mais feridos q ao defembarcar, & afli fe embarcou também Fernão foarez com os feus: porq nefte tempo era ja ho fogo muy brauo por toda a cidade faltando de rua e rua, & como de cada vez achaua mais em que pegar não ho podião os mouros apagar, antes muytos q muyto trabalhauã por ifTo chegãdofe a ele mais do neceffario forão queimados & morrerão, & foubefe q a fora eftes morrerão bem fetenta que forão mortos pelos noffos, afli onde cometeo do Lourenço, como onde cometeo Fernã foa¬ rez : & ho fogo que andaua na cidade durou toda aquela tarde & a noyte feguinte, & era efpãtofa coufa de ver,-porq parecia que toda a cidade era hú fogo, o qual fez grãde deftruição, afli nas cafas de madeira, que ar¬ derão todas, como nas de pedra & cal, de
  • 220 Historia da índia correa & Ioão da noua com a gente de fuas capitanias que era muyta & a principal da frota: & porque donde as fuas naos eftauão fe não via a capitaina ne os outros nauios, & auião de dar na cidade em amanhe¬ cendo, auia ho gouernador de fazer íinal com húa bombardada quando quifefle defembarcar, pera que defembarcaífem todos a húa. E nefte con¬ certo encomedou ho gouernador muyto a todos os capitães que mandaf- fem a fua gente fopena de treiçafn que ninguém fe não antremeteffe a roubar, ate q a cidade não foífe de todo defpejada dos immigos, porque fazendo ho contrairo feria muyto grande perigo, & poderfehião perder todos como acontecia muytas vezes: & que defpejada a cidade ele a mã- daria faquear de modo q todos ficaffem contétes. Coefte cõcerto que fe acabou ja de noyte le tornarão os capitães a feus nauios & notificarão a fua gete o queítaua determinado acerca do cometimento da cidade & todo ho mais que lhes ho gouernador encomendara. E duas oras ante manhaã fe embarcarão todos nos bateis & fe forão pegar com a terra, onde ainda ho fogo que andaua na cidade daua affaz de craridade cÕ que os noflos emxergauão tudo muyto bem & efpantauanfe de não verem nenhús dos imigos na praya pera lhe defõderé a defembarcação, do que eles eftauão bem fora, porque aíli com medo do fogo, como com medo dos noflos que os falteauão de noyte não oufarão os mouros de ficar daquela bãda do mar, & recolheranfe ho mais que poderão pera dentro da cidade pera a parte per que dom Lourenço auia dentrar, onde fazião conta de fe defen¬ der de cima dos terrados das cafas com muytas pedras que la tinhão, & aíli outras armas. E como as ruas erão tão eftreitas q fe não podião andar por elas fe não a fio: parecialhes que fe poderião defender ao me¬ nos ate que lhes vieffe ho focorro quefperauão da terra firme. E eftãdo eles coefte penfamento ho gouernador queítaua pegado com terra em amanhecendo mãdou fazer ho final da bombardada queítaua ordenado, & a pos elle faltou em terra com a bandeira real, a qual leuaua hú caua- leyro efforçado chamado Pero cão, & a pos ele defembarcou fua gente, & todolos outros capitães cÕ a fua, afli por efta parte como pela em que dom Louréço defembarcou, que era da bãda do fertão da ilha, onde eftaua a môr força dos mouros, & era a mais perigrofa entrada, & dom Lou¬ renço hia diante cõ fua gente & pegada coela hia a de Ioão da noua que hia na be goarda, & a pos ele hia Fernão foarez, & defpois Diogo correa, & todos a fio por a grãde eftreiteza das ruas: em tanto que começãdo dom Lourenço dentrar por húa: duas molheres cafras & algús mouros de cima dos terrados das cafas õde eftauão lhe impedirão a paflajem, derribãdo as cafras de cima cantos muyto grãdes & tirando outras muy¬ tas pedras mais peqnas, & os homes tirando infindas frechas & muytos
  • Livro II, Capitolo V 22 r zagunchos: & foy de maneyra que os noffos não tinhão tempo pera tirar com as elpingardas né com as bêítas: pelo qual lhe foy forçado acolhe- renfe debaixo das facadas que as cafas faziam pera fe empararé do dano que lhe poderiam fazer os arremeffos dos imigos: o que ho gouernador não teue nem menos os da fua companhia por yr coeles o mouro que Ioã da noua tomâra de noyte: & ate bé détro na cidade não achou quem lhe defendeífe a entrada, & dali por diante acharam refiltencia de cantos que lançauão os mouros dos terrados, & affi tirauão também muytas pe¬ dradas. Pore como as ruas erão muyto eítreitas & os mouros fe não oufa- uão de defcobrir cÕ medo das efpingardadas & feetadas que os noffos tirauão não deitauão os cãtos dereytos, & dauão primeiro nas paredes de¬ fronte, & affi fazião as pedradas: de maneira que quando decião ao chão ja trazião a força quebrada, & mais os noffos acolhianfe debaixo das faca¬ das, pelo qual as pedras lhe não fazião nenhú dãno, antes os inimigos ho recebião muyto: em tanto que defpejarão os terrados, & delles fugirão pera fora da cidade, na qual a reuolta era muy grande, porque não cuy- dauão que dos noffos efcaparia nenhú fe os acolhefle dentro. E fabendo el rey como os noffos fe hião chegãdo aos feus paços fem auer quem lhe podeffe refiftir, & ho deftroço que deixauão feyto nos mouros, não oufou de efperar, & fugio de feus paços, pelo qual ho gouernador quando che¬ gou a eles não achou nenhúa defenfa. E fabendo como el rey era ja fora não fe quis deter, & paffou a diãte com os capitães & gente. E porque os paços não foffem roubados dalgús mouros que ainda eftauão neles deyxou em fua goarda Ruy freyre, & Fernão Bermudez com a gente de fuas capitanias, & ele como digo paffou pera bufcar el rey. E ja por aquela parte não achou tanta refiítencia como a tras, porque dos immi- gos hús fugião pera fora da cidade, outros hião ajudar aos que defendião a entrada a Dom Lourenço: ho qual como diffe achou muy dura defen- fam naquela rua primeira affi polos mouros, como pelas duas cafras que atormétauão muy rijo os noffos, que fe virão tão afogados, que algús a q não foube os nomes poferão os hombros âs portas delta cafa em quef- tauão as cafras, & dando coelas fora do couce entrarão dentro, poíto que foffe contra a defefa do viforey. E como as cafras fentirão que as entra- uão remeterão â porta da efcada das cafas pera a defender, & hú dos noffos tirou húa fetada, & quis deos que deu a húa das cafras pela gar¬ ganta, & derribouha morta. E coiíto entrarão a cafa: & logo a outra cafra, & os mouros fugirão dali pera outras cafas: & nifto fe paffaria obra de mea hora. E defpejada efta cafa que os arremedos ceflarão, paf- farão os noffos auante: & os Imigos q os virão em paffando dom Lou¬ renço com fua gente, começãdo a de loão da noua de paffar, derribarão
  • 222 Historia da índia húa parede velha que ali eftaua. Pelo qual Pero vaqueiro que leuaua ho guião de Ioão da noua, & hia antre os feus diãteiros q hião pegados nas coftas dos de dó Lourenço, fe deteue debaixo dhúa facada: porque afli as pedras que cahião da parede que os Imigos derribauão como outras que lançauão de cima dos terrados & frechas, & zagunchos erão de ma¬ neira que paffando os nolTos auião de fer mortos: & como ho guião fe deteue logo a gête efteue queda. E Ioão da noua que hia na bêgoarda que não fabia a caufa de fua detença bradaua ao guião que paffaffe auante, porque a gête dos outros capitães que vinhão detrás dele começaua de carregar: mas por mais q bradaua ho guião não quis paífar auante: & os noffos fizerão ali reprefa, & quebrarão ho fio de dó Lourenço: que não fabendo nada diífo paffou auante, pelejando fempre com os Imigos que trabalhauão quanto podiã por lhe refiflir. E eftando os capitães q lhe ficauão a tras no aperto que digo, vendo ho cõtrameftre da nao de Ioão da noua ho dano que os Imigos fazião dos terrados determinou de fubir acima, & tomando configo dous feus matalotes, hú chamado Martim fernandez, que defpois foy feleyro del rey dom Manuel, & Ioão lopez que foy feleyro do Cardeal: & todos tres quebrando as portas de húas calas grandes fobirão acima, a que algús mouros acodirão: & vendoos tam poucos lhes quiferão defender a entrada: mas não poderão, porque os tres pelejarão tão efforçadamente, que os fizerão fugir, por húa efcada abayxo, & não os feguirão por não faberem as cafas. E nifto foy ter coe- les Fernão perez dandrade & apos elle ho feytor, & ho efcriuão da nao de Ioão da noua, & Duarte frz que defpoys foy tefoureyro del rey dó Ma¬ nuel, & aífi outros, que por todos ferião doze, & derão nos mouros q eftauão nas cafas que erão muytos: & com tudo os noffos matarão algús deles, & fizerão fugir os outros: & defpejada aquela cafa forã os nolfos por outras, de terrado em terrado pelejando com os mouros queílauão neles leuando os diante âs lançadas & cutiladas, & fazendo os defpejar, o que foy caufa de os immigos darê vao aos noffos que eftauão na rua de reprefa: antre os quaes a cõfufão & reuolta era tamanha, aífi de car- regare hús fobre os outros, como de fe qrerê goardar dos arremeffos dos Imigos que hús aos outros defarmauão as béftas com os encontros que fe dauão & eftauão tão apertados que fe não podião ajudar das lanças, porq não erão as cafas tão altas que não podeffem coelas chegar aos imigos fe fe punhão âs janelas. E durando a peleja dos noffos nos terrados Duarte fernãdez, & Ioão lopez que fe apartarão dos outros chegarão ao cabo dhú terrado pera paffar a outro ondeftauão hús poucos de mouros: antre os quaes terrados ficaua ho vão de húa rua que atraueffaua per antre aque¬ las cafas. E tamanha foy a vontade de pelejar com os mouros q vião que
  • Livro II, Capitolo VI 223 bufcarão hú pao ho mais groflo q poderão, & atraueffarãno de terrado a terrado pera paffarem, & Ioão lopez paffou primeiro tomando a lãça por júto do aluado do ferro, & tinha pelo cõto. Ho feytor da nao que che¬ gara a efte tépo, & Duarte fernandez tirauão aos imigos âs fetadas, que como fentião ja ho defbarato dos outros, não oufarão de efperar ali, & deceranfe a outro fobrado. E nifto paffou Ioão lopez com muyto grãde perigo por fer dali a bayxo grande altura q a irfelhe hú pè caira & efpe- daçarafe: & paffado elle paffou Duarte fernãdez indo efcãchado pelo pao. E fendo da outra bãda decerão ambos onde os mouros eftauão: nos quaes tinha entrado tamanho medo q logo fugirão: & os dous forão a pos eles ate os deytaré fora das cafas: & algús ficarão mortos, & os dous fe forão ajuntar cõ Ioão da noua, que ja quãdo os mouros forão defbara- tados nos terrados ■eftaua foo com a géte de fua capitania, porque Diogo correa, & Fernão Soarez e começando dabrandar as pedras dos terrados paffarão a diãte em bufca de dom Lourenço, que com affaz de trabalho rompeo pelos imigos, & chegou aos paços del rey, onde em chegando apareceo encima deles Fernão Bermudez com ho feu guião aleuantado, bradado alto, Portugal, Portugal. E ouuindoo dom Lourenço chegou aos paços, a cuja porta achou Ruy freyre, a q preguntou pelo gouernador, & ele lhe moftrou a rua por õde elle fora, & dõ Lourenço não quis mais deterfe e feguio por ela ate ho alcançar, & em chegãdo a ele acabaua ele de dar húa lançada a hú mouro queftaua fobre húa cafa baixa. E ja a efte tempo a força dos mouros era muyto quebrada por ferem os mais fora da cidade. Poré ainda ao gouernador lhe deram duas pedradas jutas, & a dom Loureço lhe deram outra em outro braço: & cõ tudo a rua foy defpejada dos mouros, & quafi todos forão mortos: & os noffos ho fizerão muyto be, afli ali, como no q ficaua feito a tras. E ifto acabado dom Lourenço cotou a feu pay como achara entrados os paços del rey pelos noffos: do que ho gouernador fe moftrou muyto agaftado dizendo que ele não deyxara Ruy freyre, ne Fernão Bermudez pera entraré os paços, fe nã pera os goardaré & mãdou a dõ Lourenço q fe tornaffe logo aos paços: & que leuaffe ho mouro criado del rey que Ioã da noua tomara de noyte, q ele leuaua por guia: & q efte lhe moftraria ho tefouro del rey que arrecadaria. E eftando nifto virão paffar por outra rua hú corpo de gete, em que aueria obra de fetenta homés de cabayas de graã & terçados ricos & frechas, & cofos & fotas ricas: & aqui hia el rey de Mombaça, o qual fe acolheo a hú palmar queftaua da cidade hú tiro def- pingarda, onde eftaua recolhida toda a gente q fogira da cidade. Ho go¬ uernador não quis feguir el rey por fentir nos noffos que andauão tão canfados, q quafi não podião andar, & dando por aquela parte húa rebufca
  • 224 Historia da índia aos mouros muyto de vagar, não achado nenhús fe tornou aos paços del rey quafi ao meo dia, onde dom Lourenço que ja la eftaua lhe difie que não achara nenhú tefouro que goardar, fomente dous cofres de latão onde parecia que efteuera ho tefouro, os quaes achara abertos na goarda roupa del rey, a que ho mouro ho logo leuara. Ho gouemador por não fer têpo pera outra coufa deflimulou com a roindade q lhe aquilo pareceo, & mã- dou aos capitães que ja eftauão todos juntos q faqueaífem a cidade cada hú pela rua que lhe affinou: & q leuaflem todo ho defpojo âs naos, pera defpois fe repartir por el rey & pelas partes. E em quanto hús faquea- uão, outros embarcauão a artelharia que fe achou na cidade, de q a mais foy de ferro, & antrela foy achada húa camara q cinco homês teuerão bê que fazer em a meter em hú batel, & diflerão que deuia de fer dhú nauio noífo que ali fe perdera que fe chamaua ho rey grande, & affi foy achada a ancora que ali ficou ao cõde almirante quando ali foy ter, indo defco- brir à índia. E ho gouernador a quifera mandar recolher, & a gente fe não atreueo de canfada, porq a fora ho eftar muyto da peleja ho eftaua tãbê de mataré & catiuaré muytos mouros que andando faqueando acha¬ rão ainda efcodidos pelas cafas, & coeftes & cõ os que morrerá na pe¬ leja ferião paífante de fetecentas almas, & forão catiuas perto de duzetas, das quaes forão muytas molheres brãcas de bõ parecer, & muytas moças de quinze annos pera bayxo. E afii forão catiuos os fenhores de tres naos de Cambaya que ali eftauão varadas: & dos nofios não forã mortos mais de cinco homês dos que leuaua dom Lourenço: & forão muytos feridos. E hú deles foy dõ Fernando deça de húa frechada no dedo polegar do pee dereyto que lho paífou: & efta trazia em lugar de ferro hú pao tof- tado encaftoado na afte, & vntado com húa vntura que fe não foube de que era, fe não que era peçonhenta. E algús dizião que ho mefmo pao de feu natural era peçonhento, & efta maneyra de frechas coftumã aqui grãdemête, & também as de ferro: mas eftas ainda que fam heruadas não fam tão peçonhentas como eftoutras: o que fe moftrou na frechada de Ioam ferrão que não morreo, & dom Fernando íi dahi a poucos dias. E depois de fua morte hú cirurgião que ho gouernador leuaua q fe cha¬ maua méftre Fernando, começou de curar as frechadas com méchas de toucinho, que metia nelas, & chupauão a peçonha & defpois que húas chupauão metia outras: & côifto fararão dali por diante todos os feridos. E efte remedio lhe infinou hú mouro que ho gouernador leuaua prefo de Quíloa, & infinouho pera que ho gouernador lhe fizeífe merce da liber¬ dade como fez.
  • Livro II, Capitolo VII 225 CAPITOLO .VII. De como Vafco gome\ dabreu foy ter a Môbaça & de como lio gouernador fe partio pera Melinde. VEndo ho gouernador como a fua gente acabara de canfar de todo com matar os mouros que ainda achârão elcondidos, mãdou que pofto que não tinhão faqueado fe não pouco que defcanfaffem, & que ao outro dia acabarião de faquear a cidade: & mãdoulhes dar de comer. E eftando affi defcanfando aquele dia â tarde, virão os noífos fayr do palmar q difle onde os mouros eftauão acolhidos, hú mouro que tra¬ zia ao pefcoço húa grãde cadea de prata que era final de paz que affi trazem ali os meffegeirosj & as cadeas fam daqueles que os mandam, & auido feguro do gouernador lhe foy falar & diffelhe. Mandate dizer hú grãde'homem que te ha tamanho medo que não oufa de vir diante de ti fem lhe dares arrefens, que fe lhos quiferes mandar que te virâ falar. Ho gouernador lhe refpondeo por Gafpar que era ho lingoa, que ele era vaffalo del rey de Portugal que era muyto grande fenor & que nunca differa mentira, nem ele que eftaua em feu lugar a não auia de dizer. Por iífo que aquele q ali ho mãdaua podia hír muyto feguro, affi da vida como da yda. E tornado ho mouro coefta repofta não tornou mais nin¬ guém: & prefumiofe q aquele recado mandaua el rey de Mombaça pera vír falar encuberto ao gouernador, pera aífentar paz coele, & por lhe não dar os arrefens que pedia não quifera vír, & ho gouernador nã lhos quis dar, por não ter nhúa neceffidade da fua paz, nem do porto da fua cidade, por quã perto eftaua Melinde de Quiloa. Vida a noyte mandou ho gouer¬ nador fayr toda fua géte da cidade pera ho cãpo daqla parte donde os mouros eftauão acolhidos: & poferanfe em eftancias q ali eftauão feitas, cada capitão na fua, & nã quis ficar na cidade porq fe auia a géte defpa- lhar & fe auia de deitar: & como andaua canfada auia de adormecer, & poderião vir os mouros porque ainda erão muytos, & ho meteriã em afronta: & eftando no campo auiã deftar todos jútos, & em pee, & poder- fehião vigiar & acordar que não dormiffem: & não ho poderião os mouros cometer que os não viffe primeyro. E ele & dom Lourenço com outros capitães & fidalgos roldarão & velarão toda a noyte, & a môr parte dela paffarã em pee: affi que fe de dia leuarão trabalho de noyte não lhes fale- ceo a todos. E ja bem de dia tornou a géte a faquear a cidade onde foy achado muy rico defpojo, affi douro como de prata em moeda & e bar¬ ras, aljôfar & muyta roupa de Cambaya, & muytos panos de perfia, Tomo I >9
  • 22Õ Historia da índia douro & de feda, que fe chamão camarabandos, & toucas do xeque ifmael & alcatifas, canfora, fandalos, marfim, cobre, latão, arame, & anfiao. E cÕ tudo os noffos não poderão roubar quãto auia na cidade porque eíta- uão muy cãfados, & por iffo ho gouernador mãdou que ceífafTem: & aquele dia ja perto da noyte fe recolheo a frota. E ao recolher quiferão os nolfos pegar fogo as naos de Cambaya, & ele não quis dizédo que ainda poderião fazer viagés: & os noíTos fariã nelas prefas. E em fe ho gouernador faindo da cidade com os feus pera fe recolher, entrarã os mou¬ ros pela outra parte q hião a ver o que os nofTos deixauão feito: & por muytos q erão auianlhes tamanho medo que nuca oufarão de os cometer. Recolhido ho gouernador â frota quiferafe partir aquela noyte, mas não pode por lhe fer ho vento por dauante: & delta maneyra durou fete dias: nos quaes chegou ali Vafco gomez dabreu na fua nao q era da conferua da armada q ficaua a tras. E indo falar ao gouernador lhe diffe como paffado ho cabo de boa efperãça fe perdera da outra frota cõ húa muyto grande torméta, em que lhe quebrara ho maíto grande: de maneyra q viera a gauia abaixo: & que de tres homens q eítauão nela que não peri¬ gara nenhú. E vendo ho gouernador que lhe não vinha veto pera fe par¬ tir mãdou tirar as naos & nauios pelos bateis â toa pera fora porque no pego lhe feruiria mais afinha ho veto. E como a fayda foy de noyte tocou a nao de Diogo correa em húa baixa, & eíteue quafi perdida: & efcapou com ho leme perdido, & nunca lho mais poderão achar, & fizeranlhe ou¬ tro: & de cada nao lhe derão hú macho dos outros lemes. CAPITOLO .VIII. De como lio gouernador não pode aferrar Melinde & do que aconteceo a Ioão homem na uiagem ate melinde. ACabado ho leme ho gouernador fe partio pera Melinde, & por as agoas correré muyto a efcorreo, & foy ter a húa angra que elta a diante cinco legoas 5 dia de fam Bertolameu. E neíta angra que fe chama de fanóta Helena achou as carauelas de Ioão home que erão em Melinde, & fora por terra, & também Lopo chanoca que era vindo fora lâ na fua carauela a bufcar refrefco: & não forão de caminho porq também a efcorreram, & os deita carauela lhe não fouberão dar nouas da outra frota: & lhe diíferão que em ele faindo da barra repartira logo pelos da carauela todo ho mantimento q fe poderá repartir, pera que cada hú goardafie o feu quinhão: dizendo que ele não auia de fer defpen- feiro, & que ho vinho & a agoa ho foífem tomar quando quifeífem. E indo
  • Livro II, Capitolo VIII 227 aífi húa novte fe perdera da frota antes de paífar ho cabo de boa Efpe- rança, & ifto com tormenta: & defpois quatrocetas legoas do cabo lhe differão ho meftre da carauela & ho defpenfeiro chorando que não auia mais que mea pipa dagoa com as larguezas que fizera, & que ele lhe ref- podera. Vilãos porque tendes tão pouca fee naqla fenhora que ali eftâ. (E ifto dizia olhãdo pera húa imagem de noffa fenhora do rofayro de que era muyto deuoto) porque não credes que vos dara agoa, pão, ouro, & prata: Ora calaiuos q ela nos dara mantimento. E que logo dali a hú dia amanhecerão ao focayro de húa ilha muyto alta, & decia dela húa grande ribeira: & era ho alcãtil tamanho q a carauela ajútaua ho bordo cÕ a terra, & q ali tomarão agoa: & matarão muyto pefcado cÕ redes: & ma¬ tarão muytos paffaros & muytos lobos marinhos em hú ilheo que eftaua júto da ilha, a q poferã nome a ilha de Ioão homem. E defte pefcado, paffaros & lobos fizerão falga que lhes abaftara ate Quiloa, & que trinta & noue legoas auãte dela tomara a ilha de Zanzibar, onde ho rey dela lhe fizera muyta hõrra & ho baftecera de mantimentos, & lhe differa que eftaua a feruiço del rey de Portugal. Defta angra quifera ho gouernador ir a Melinde, porque defejaua muyto de ver el rey: & aífi lho mãdara dizer de Mõbaça per hú capitão da fua conferua & o que fizera nela pofto que ho não diffe: & porem ele não pode ir por lhe fer ho veto por dauãte, pelo qual mandou a Diogo correa, & a Fernão foarez que lhe foffem em hú batel vifitar a el rey de Melinde: & por eles lhe mandou hú rico pre- fente que lhe leuaua del rey de Portugal. E húa das peças do prefete era húa copa douro muyto rico, & as outras não pude faber. E com Diogo correa, & Fernão foarez fe tornou Ioão homem: & em fua companhia Lopo chanoca. E el rey de Melinde efcreueo húa carta ao gouernador, em que lhe dizia ho prazer que teuera com a tomada de Mombaça, & a trifteza de ho não poder ver, & mãdoulhe muyto refrelco. Nefta angra teue ho gouernador confelho cÕ os pilotos da frota fe poderia ir â cidade de Magadoxo, porq defejaua de a tomar: & os pilotos lhe aconfelharão que não foffe, porque ela eftaua mea legoa do mar, & q tinha roim de- fembarcadoiro por a cofta fer braua, & que era fora do feu caminho: & fobre tudo que fe lâ foffe perderia a Moução pera atraueffar ho golfam: pelas quaes rezões que parecerão bem aos capitães, & fidalgos, & caua- leyros da frota não quis ho gouernador ir a Magadoxo. E a vite fete Da- gofto fe partio daqui pera a índia húa noyte, em que faleceo dõ Fernãdo deça. E ao outro dia deu o gouernador a capitania da fua nao a hú Ro¬ drigo rabelo caualeyro da cafa del rey por virtude dhú aluara que trazia pera lhe fer dada a primeyra capitania q vagaffe. E feguindo ho gouer¬ nador por fua nauegação atraueffou ho golfam cõ veto a popa, íaluo dous
  • 228 Historia da índia dias q lhe acalmou, bem a cem legoas da cofta da índia virão os noíTos andar fobela agoa cranguejos, & trinta legoas mais a diante virão muytas cobras com rabos como enguias, que eu também vi quando fuy com Nuno da cunha: & dize algus que vem da cofta da índia ter ao mar com as cheas dos rios que as trazem, outros q fe crião no mar, afti como fe ca crião cobras na agoa: & a mayor deftas não paffa de vara de medir de cõprimento. CAPITOLO .IX. De como ho gouernador chegou â ilha Dãiadiua & começou hi húa fortaleza, & de como chegou hi Bajliâo de foufa. SEguido afti ho gouernador fua rota pera a cofta da índia foy furgir no porto da ilha de Anjadiua a treze de fetembro de mil & qui¬ nhentos & cinco, onde achou hú patamar que antre os índios, fam como antre nos os correos. E efte tinha cartas de Gonfalo gil barbofa feitor de Cananor, & del rey da mefma cidade pera qualquer capitão môr, em q lhe dauão nouas que tinhão muyta efpeciaria: pera as naos que trouueffe, & que fe deteueffe ali algús dias com grande vigia no mar: porque fabião certo que naquele mes de fetembro efperauão é Ca- lecut por tres naos de Meca muyto ricas, & que trazião gente branca a foldo del rey de Calicut. Viftas eftas cartas pelo gouernador mandou com a repofta delas a Ioão homem, & que de Cananor forte a Cochim, & a Coulão, & diflefle fua vida aos feitores: & afli as naos que auia de tor¬ nar pera Portugal com carga pera que teueffem preftes a efpeciaria ne- ceflaria. E defpachou logo a Lopo chanoca, & a Gonçalo de payua que vigi aliem ho mar, & teueffem tento nas naos de Meca que auião de paliar pera as tomarem. E logo aos quatorze de Setembro começou de edificar a fortaleza junto do mar fobre os aliceces dhús edifícios q ali eftauão, como ja difle: & ele foy o que pos a primeyra pedra, ao que foy feita grande fefta com toda a artelharia que defparou, & com muyto tanjer de trombetas & cantando Tedeum laudamus: com fuas fobre pelizes verti¬ das : & era em todos ho prazer tamanho que ningué nã fentia ho traba¬ lho. Continuãdofe efta obra em húa quarta feira q forão vinte quatro de Setembro chegou Baftiã de foufa, em cuja nao vinha Manuel paçanha feu fogro capitão môr da frota que ficara a tras, & vinha coele Antão vaz na fua carauela: & Baftião de foufa contou ao gouernador que correra muyto grandes tormentas, & que mil vezes defefperara de poder efcapar, & que não ficarão coele mais que Antão vaz, & Gonçalo vaz de goyes, que por feu mandado deixara em Quiloa, & que nem hi nem em Moçambiq não
  • Livro II, Capitolo X 22g achara nouas de Lucas dafonfeca, nem de Lopo fanchez, que tinha medo de ferem perdidos, porque de todos os outros capitães achara recado, fe não deftes dous: & quanto a Lopo fãchez dizia verdade que fe perdera ao cabo das correntes, onde ho nauio deu a cofta com tormenta, & da gente fe faluou algúa, & a outra morreo afogada ãtre os quaes foy Lopo fanchez, & da que fe faluou ctirey a diãte. E Lucas dafonfeca defpois de Baítião de foufa pafTar por Moçambique foy hi ter tão tarde que não pode paliar a índia & inuernou. CAPITOLO .X. De como Pero danhaya partio com Ima armada pera Sofala, & do que lhe fucedeo na uiagem. ATras fica dito como quãdo ho gouernador partio pera a índia ou- uera de ir em fua cõferua Pero Danhaya pera húa fortaleza q auia de fazer em Sofala, & a caufa porque deixou de ir. E defejando el rey de Portugal que efta fortaleza fe fizeffe logo no mayo feguinte def¬ pois da partida do gouernador ordenou de mãdar Pero danhaya, & deu- lhe a capitania môr de feys naos, & nauios que mandou coele: cujos ca¬ pitães a fora ele forão Pero barreto de magalhães da nao fanôto Spiritu, Ioão leyte natural de Santarém da nao fanóto Antonio, Francifco danhaya do nauio fão Ioão, Manuel fernãdez que hia pera feitor doutro nauio, & Ioão de queyroos do nauio fam Paulo. E em çofala auia de ficar por ca¬ pitão môr do mar, Francifco danhaya feu filho de Pero danhaya, & em fua couferua ho nauio de Manuel fernãdez. E aífentada a fortaleza de ço¬ fala fe auia de partir pera a índia Pero barreto por capitão mòr das qua¬ tro velas. E defpachado Pero danhaia partio de Lisboa a dezoyto de Mayo do mefmo anno de mil & quinhentos & cinco em que foy dia da Trindade, & tanto auante como a ferra lioa indo con uento frefco, quis Ioão leyte fifgar hú dourado do garoupez do feu nauio & cayo ao mar, & afogoufe. E cõtinuãdo fua rota deita parajem forão tanto na volta do fui pera dobrar ho cabo de boa efperança que fe poferão em altura de quarenta & cinco graos: õde a neue era tanta que auia bé que fazer em a deitarem fora das naos, & coalhauafe a agoa, & também ho vinho: & os dias erão tão pequenos que quafi fe não podia fazer nada neles. E pa- decedo aqui a gente muyta fadiga cõ tamanho frio mandoufe ho capitã môr fazer na volta de lefte & de lefnordelte pera demãdar ho cabo. E neíta volta correo a frota grande tormenta hú dia & húa noyte fem fabe- rem hús parte dos outros, nem fe virão mais ate auerem viíla da terra
  • 23o Historia da índia de dentro do cabo. E a qua*tro de Setembro ho capitão môr paflou ho cabo das correntes & foy logo pera détro do parcel de çofala indo em fua conferua Francifco danhaya, & Manuel femandez, & furgio fobre a barra, & ali fe deixou eftar efperãdo pola outra armada. E eftando aífi chegou a nao fanéto Antonio & ho nauio de loão de queyrôs, em que hia por capitão hú fidalgo chamado loão vaz dalmada, q difle ao capitão môr que loão de queirós fora furgir na baya das vacas: & por cobiça de fazer carnagem fe fora obra de mea legoa pelo fertão com algús do nauio, & lã lhe fayra muyta géte da terra com fuas armas & pelejara coele, & na peleja matarão a ele, & ao meftre, & ao piloto do feu nauio, & outros. E Antão de gaa que era efcriuão dele efcapou muyto ferido, & a(Ti outros quatro que fe acolherão ao nauio, & partiofe: & na volta do mar toparão a nao fãílo Antonio, & pedirão a Iorge mendez feu capitão hú capitã pera os reger, & hú piloto pera mandar a via pois não achauão a ele capitão môr pera que os prouêffe, & que Iorge mendez lhe rogara que aceitaffe a capitania, & pera mãdar a via dera ho meftre da fua nao. E chegados loão vaz, & Iorge mendez chegou hú batel com certos Portu- guefes de que hia por capitão Antonio de magalhaés hirmão de Pero barreto, e diífe ao capitã moor que Pero barreto ficaua no cabo de fam Sebaftião, & por ho feu piloto nã faber ho parcel não oufara dentrar nele, pelo qual lhe mandaua pedir ho feu piloto pera ho leuar a çofala: & que indo ao logo da terra achara cinco Portuguefes do nauio de Lopo fanchez que fe perdera antre ho cabo das correntes, & a agoada de boa paz: & que aqueles cinco auia vinte dias que não comião outra coufa fe não can- grejos mouros crus: & eftauão tão fracos que quafi fe não podião ter nas pernas, & hú morrera logo. E fabédo ho capitã mór Õdeftaua Pero bar¬ reto mãdou lã a loão vaz dalmada no feu nauio, & que lhe leuaffe ho piloto de Francifco danhaya. E chegados todos tres a barra de çofala entrou ho capitão mór pera dentro nos quatro nauios, & as duas naos deixou de fora: porque por ferem grandes as não oufou de meter dentro. Entrado ho capitão môr no rio deu ordem como fe viffe com el rey çufe que afli auia nome el rey de çofala: & a vifta auia de fer nas cafas del rey que eftauã fituadas ao longo do rio junto com húa pouoação chamada Sagoe, de obra de mil vezinhos, antre os quaes auia muytos mouros mer¬ cadores, eftas cafas erão grandes & terreas, & as paredes erã de febes barradas porcima de barro, & erão tão lifas, como que forão de tauoas, & ho chão era argamaffado & erão cubertas dola: auia das portas a dé¬ tro muytos pátios cercados daruoredo, & as cafas erão cercadas defpi- nheyros muyto baftos pera fere fortes: el rey feria homem de fetenta anos & era ja cego, & fora muyto valente caualeiro, & muyto temido: &
  • Livro II, Capitolo XI a3r aíli ho era ainda cõ quãto era velho & cego. Ho capitão rr.ôr defpois q teue recado del rey pera lhe falar veftiofe dos melhores veftidos q tinha, & adi os fidalgos, & capitães da frota, & ho feitor, & officiaes da feito¬ ria, & afli a outra gente q hia armada, como por goarda, & diãte as trõ- betas de todas as naos tangedo: q a géte da terra folgou muyto douuir, & acodião todos a ver muyto efpantados. Chegado ho capitão môr âs cafas del rey: entrou dentro cõ certos fidalgos & afli ho feitor, & officiaes da feitoria, & a géte darmas ficou de fora: & defpois de paflar hú grãde patio entrou é húa cafa muy coprida & eftreita, onde eftauão affentados bem ce mouros homés baços todos mercadores com fotas de feda nas cabeças, & nús da cinta pera cima, & dahi pera baixo cingidos panos dalgodão, & de feda, & outros taes fobraçados, & nas citas hús cuytelos nús cõ tachas de marfim goarnecidos douro, a q eles chamão quifios: tinhão nas mãos hús ramaes dalambres ferrados pelo meyo com borlas de fedas de muy- tas côres, eftauão affentados dhúa parte & doutra em trepeças baixas de tres pês é triângulo, & os affentos erão de coyro com cabelo. Entrado ho capitão môr nefta cafa leuantarãfe os mouros & fizeranlhe grãde cor- tefia, & paflando per antreles foy ate ho cabo da cafa õde el rey eftaua em húa cafinha armada de panos de feda, & não era môr q quanto cabia hú efquife da índia em q el rey eftaua deitado fobre hú pano de feda: era homé de grãde corpo, mébrudo, & preto: eftaua atauiado da mefma maneyra q os mouros, fe não q os feus panos erã de moor preço, & tinha júto configo hú grande molho dazagayas. CAPITOLO .XI. De como Pero danhaya fe uio com el rey de Sofala, & ouue licença pera fa\er fortaleza & a começou. EL rey pofto que não via, fabendo que ho capitão moor ali eftaua fez lhe muito grande gafalhado & cortefia, & pelo lingoa lhe difle que folgaua muyto cõ fua vinda, porque fempre defejara a dos Portu- guefes a fua terra: ho capitão moor lhe difle que ho mefmo defejo teuera fempre el rey de Portugal feu fenhor de os mandar a ela, & de ter coele paz & amizade: & aflentar trato é fua terra que lhe rogaua muyto de fua parte que aceitaffe, & lhe deffe lugar pera fazer húa cafa forte em que teueffe fegura fua gente, & fuas mercadorias, porq tudo auia de fer pera muyto feu proueito: & tudo el rey concedeo, & diífelhe que tomaffe ao longo do rio ho melhor lugar que viffe pera fazer a cafa forte, por¬ que ainda que não foífe feu ho cõpraria pera lho dar. Affentado ifto def-
  • 232 Historia da índia pediofe ho capitão moor del rey pera fe tornar aos nauios, & fahio coele hú daqueles mouros que eftauão cÕ el rey grande feu priuado, & tido dele é mòr cota que nenhú dos outros, por fer bõ homé & difcreto, & chamauafe Acote & era cafre de naçã & tornarafe mouro: & vendo ele quão bem recebido fora del rey ho capitão moor, & como cõfentia ali feitoria, começou logo de fer da fua parte, & fezlhe muytos offrecimen- tos damizade que ho capitão mór eltimou muyto, & lhos agardeceo por faber a valia que tinha com el rey: a que defpois que foy nos nauios mandou hú prefente de coufas com que el rey muyto folgou, & mandou também outro a acote, que lhe mandou em retorno vinte Portuguefes que tinha, que forão ali ter daqueles que efcaparã do nauio de Lopo fanchez, & elrey lhe mãdou muyto refrefco, & algú ouro. E vendo ho capitão mór os Portuguefes folgou muyto: & eles lhe dííferão como forão ali ter por terra, pafTando muyto perigo de fome, & que aquele mouro os agafalhara dizédo que era grãde amigo dos Portuguefes por amor das coufas que ouuia dizer que fizerão na conquifta da índia, & lhe dera fempre muyto largamente todo ho neceífario. E efte acote aproueitou também muyto pera ratificar a amizade del rey com ho capitão môr, & lhe dar de me¬ lhor votade ho lugar pera fortaleza, que ho capitão môr efcolheo antre Iangoe, & outra pouoação dobra de .cccc. vezinhos que ficaua na boca da barra: & era hú chão grande com fete calas de palha, cercado da bãda do fui dhú grãde palmar, & do norte do rio: pofto q deitas cafas ao rio auia hú bõ tiro de bêíta, & do levante a pouoação de Iangoe, & do po- nete a outra da boca da barra: neítas fete cafas que digo fe apofentou ho capitão môr com ho alcaide mór, feitor, & officiaes da feitoria que logo foy affentada pera q fe começaffe o trato. E a vinte hú de Setébro do ãno de mil & quinhentos & cinco mandou ho capitão môr cercar aquelas cafas de caua de doze palmos de altura, & outros tãtos de largura: & auia de fer quadrada, porque dentro fe auia de fazer a fortaleza, & forão repartidos os quatro lanços da caua que era cada hú de cento & vinte paços em comprido, pelo capitã môr, Pero barreto, loão vaz dalmada & Francifco danhaya, pera q cada hú fizeffe ho feu com fua gente: mas Pero barreto não pode acabar ho feu lanço, porque durando a obra fobreueo grãde tormenta de vento com q a fua nao corria rifco de fe perder, & afii a capitania por fer coíta braua: & por ifTo fe partio pera Índia, & foy por capitão da capitaina Gonçalo aluarez, que fora por piloto môr da frota: & antes de fua partida fe perdeo ho batel de Pero barreto & afo- garanfe nele Faraufto da gama feitor da nao, & ho contra meltre, & os outros capitães não forão cõ Pero barreto, como hiã ordenados por a for¬ taleza não fer acabada. E acabada dabrir a caua mandou Pero danhaya
  • Livro I, Capitolo XII 233 fazer por dentro húa trãqueyra de duas faces, & entulhada darea: & era de vinte palmos daltura, & muyto forte, tãto que bem podia paflar por fortaleza: & Pero danhaya a fez ainda muyto mais forte com artelharia que mandou afletar nela. E foy acabada efta obra per todo ho mes de Nouébro do mefmo ãno com muyto grade trabalho dos nolfos q todos andauão ocupados nefta obra, & não auia nenhú que não trabalhaffe fem auer deferença de peífoas: & como ho trabalho era muyto de cauar: & cortar madeyra & acarretala âs coftas, & não auia nenhúa recreaçã pa- rele, & os ares da terra muyto róis & cõtrairos â compreição dos noífos, adoecerão muytos & morrerão bem quarenta deles, & outros chegarão muy perto da morte: & dos que ali leuarã môr trabalho forão Frãcifco danhaya, Ioão vaz dalmada, o feitor Manuel Fernãdez, Diogo dalcaçoua, Ioão rodriguez mealheiro, & Sancho tauares efcriuães da feitoria. CAPITOLO .XII. De como el rey Dlionor & Timoja, & J10 alcayde de Citacora mandarão pedir pa\es ao governador & ele lhas deu. PAssados dous dias que Baftião de Soufa era chegado, chegarão Lopo chanoca, & Gonçalo de payua cõ certos zambucos de mou¬ ros que tomarão, em que traziã muytos catiuos: & em fua compa¬ nhia hia hú catur de malabares, onde hia um Português cõ recado do feitor de Cananor, & diífe ao gouernador q das tres naos de Meca q efperauão era chegada húa a Calicut, em que forão quatro venezianos meftres dartelharia, que ho foldão mãdara a el rey de Calicut por lhos ele mãdar pedir, & que el rey eftaua cõ grande medo de fua vinda por faber a tomada de Quiloa, & a deftruição de Mõbaça, & q fe fazia pref- tes como homé que efperaua que lhe fizeflem guerra, & mais que em Cananor, Cochim, & Coulão aueria vinte mil quintaes defpeciaria. E fabendo ho gouernador como a nao de Meca era paliada tornou logo a mandar Lopo chanoca, & Gonçalo de payua a vigiar por amor das ou¬ tras que efperauão, & que hú andaffe ao pego, & outro ao longo da cofta: & os mouros catiuos q eles trouuerão tomou os todos pera pouoarem húa galê real de duas que trazia lauradas de Portugal, cujas capitanias tra- zião Ioão ferrão de húa, & doutra Lopo fanchez pera andarem ao longo da cofta: & efta primeyra galê que fe armou deu a Ioã ferrão, & foyfe nela ao longo da cofta da ilha pera goarda de coífairos q ali foyão de curfar. E fazédo fe alli a fortaleza veo ao gouernador hú embaixador de Merlao rey Dhonor húa cidade que eftaua dali doze legoas contra ho fui, 3o Tomo I
  • Historia da índia 234 fituada ao longo de hú rio que fe hi mete no mar húa legoa & mea por ele acima pouoada de muytos mercadores mouros & gentios, com os quaes tratauão os Malabares, & lhes leuauão efpeciaria: & efte Merlao pagaua parias a el rey de Narfinga hú grande rey no fertão, de cuja mão era fenhor daquela cidade em que el rey Merlao confentia acolherfe hú armador gentio chamado Timoja coífairo de toda roupa, porq lhe pa¬ gaua cadanno quatro mil cruzados de parias das prefas que tomaua cõ naos & gente que tinha pera as armar, & coeíte Timoja fe fez el rey Dhonor muyto rico, & fe fez muyto forte. E fabendo ele & Timoja como ho gouernador eítaua em Anjadiua, lhe mãdarão pedir paz por aquele embaixador que digo, & por ele lhe mãdarã hú bõ prcfente de manti¬ mentos: & ho gouernador lhe concedeo a paz, & por grãdeza lhe mãdou moftrar ao embaixador ho defpojo q trazia de Mombaça que ainda eftaua junto quãto fe tomara, & auia nele peças muy ricas & de muyto preço: & aíTi lhe mãdou moftrar a fua baixela, do que ele ficou muyto efpãtado & afli fe tornou pera fua terra, & dele foube ho gouernador que húa legoa dali na entrada dhú rio dagoa doce q fe metia no mar eftaua húa grande fortaleza de mouros chamada Cintacora, é que aueria bem mil mouros de pc & de caualo, & eíta era do reyno de Decão fronteira do reyno de Narfinga, q por aquele rio fe apartauão hú do outro, & que ho alcayde deita fortaleza era vaffalo do çabayo fenhor de Goa, de que faley no liuro primeyro, que tinha âs vezes guerra com ho rey Dhonor: & defpois da partida do embaixador mãdou ho gouernador a dom Lourenço a fondar a barra deite rio, & q trabalhaffe por faber a difpofição da fortaleza: & mandou coele Baítião de foufa, Ioã da noua: & Antão vaz, & todos hiã em bateis & leuauão bandeyra de paz: & chegados ao rio acharão que na foz tinha tres braças daltura & detro cinco, & virão que na entrada eftaua a fortaleza fobre hú oyteiro affaz Igrime, de que logo decerão mouros a praya vedo entrar os bateis, & fegundo ho corpo q fazião ferião mil homes todos brãcos, & gente limpa, & bem armada das armas que coftumão .f. arcos & frechas, lanças, efpadas largas, & elcudos redõ- dos q os cobrião da cabeça ate abaixo do giolho: & ê faindo da fortaleza húa bombarda que tinhão de camara tirou tres tiros, eíta géte q digo vinha a pee, faluo oyto q vinhão e caualos a baftarda, & muyto fermofos de gordos & grãdes. E vendo ho alcayde q vinha coeles como os noffos hião cõ bãdeira de paz mandou aos feus q não boliffem cõ armas. Che¬ gado dõ Louréço a borda da praya fez paz cõ ho alcayde pelo feu llgoa q mandou a terra ficandolhe dous mouros em arrefens. E feita a paz re- colheofe ho alcayde a fortaleza fem faber quê era dõ Lourenço & mãdou hú prefente pera ho gouernador de húa vaca, & duas cabras, & dous
  • Livro II, Capitolo XIII 235 ceftos hú de larãjas & de limões, outro de pepinos, & doutra ortaliça cubertos cõ mangericões, & adi mãdou coifto muytos cocos: mãdandolhe dizer q aquilo lhe mãdaua é final de paz, & q ele lhe mandaria feu mef- fejeiro, porq eftaua a feu feruiço, & q fe quifeffe ter trato coele lhe daria mãtimétos, & mais rubis, & diamaés. E dali a noue dias mandou feu ébaixador pera confirmar efta paz cõ dous zambucos carregados darroz, & trigo, & outros mãtimétos. E ho gouernador lhe confirmou a paz, & deu feguro pera poder tratar: & afli ficarão amigos. CAPITOLO .XIII. De como el rey Dhonor quebrou a pa\ q tinha affentada cõ ho gouernador, & a caufa porq. POrque nefta fortaleza Dãjadiua auia de ficar géte a que defpois feria trabalho auer as fuas partes do defpojo de mombaça quis ho gouernador partilo primeyro q fe dali foífe, pera o que fez qua- drilheyros a Fernã foarez, & a Nuno vaz pereyra hú fidalgo que vinha coele, & a outro chamado Guadalajarra que era caftelhano, & tudo o que foy tomado em Mombaça que veo a monte foy védido é Leilão, a qué por ele mais deu, faluo a roupa de Cãbaya q era boa pera ho trato de Sofala q fe tomou pera el rey é fua valia, & afli eftas peças, húa tenda de feda de cores muyto rica, húa alcatifa de feda carmefim, hú alquicê branco, & roxo muyto fino, húa marlota de brocado rico, húa peça de brocado de muytas cores, & outra do mefmo cõ liftras azuis & verdes, hú pano de feda de trezentas cores cõ viuos douro, outra marlota de ouro, & feda de muytas cores, húa touca de feda brãca cõ viuos douro, outra de feda & douro cõ liftras azuis cõ viuos douro, & daljofar, hú pano douro, & feda de muytas cores cõ viuos douro, hú mãdil finil- fimo, hú laudel de feda cõ fuas calças & luuas tudo acolchoado & forte q ho não pafla nenhúa eftocada, & he antre os mouros hú corpo darmas, como antre nos hú darmas brãcas, hú auano muyto rico, húa faca felada, com húa feela cuberta dalaquequas, & de feda carmefim do pelo da alca¬ tifa, & os outros areyos muyto ricos & feu azorrague, ou zeribando como lhe os mouros chamão, hú quadrãte, dous molhos de frechas her- uadas, ho feio del rey de Mõbaça: cujas eftas peças forão todas. E feita pelos quadrilheiros a cõta mõtarãfe nifto q fe tomou pera el rey, & no q fe védeo trinta mil cruzados a fora o q fe furtou q feria outro tanto, de q ainda fe ouue algúa coufa por as grãdes diligencias q ho gouerna¬ dor fez fobriflo. & pagas as partes andãdo ho gouernador pera fe partir
  • 236 Historia da índia virão os noffos atraueíTar húa nao de mouros â vifta da ilha, q fegúdo defpois pareceo era Dormuz a que logo fayrão algús capitães cõ lua gente em feus bateis: & apertará a nao de maneyra q os mouros por fe faluar poferão a proa em terra ja perto do rio Dhonor õde forão varar ate encalhar nela: & faltado logo fora da nao fe acolherão pelo fertão, & chegãdo os noffos a nao acharão dentro xix. caualos, os quaes deter¬ minarão de leuar nos bateis por não poderé defencalhar a nao: & andãdo os mudãdo pera os bateis fupitamente fe leuãtou grãde tempeftade de vento, & por fer baixo õde a nao eftaua fazia ho mar ali tamanho efcar- ceo q fe ouuerã os bateis de perder, pelo qual os noffos não curarão mais dos caualos, & cotentaranfe cõ noue q tinhã ja embarcados: & ainda eftes cõ a braueza do mar fe não atreuerão a leualos, & deitarãnos em terra, Õde ja acodião algús mouros de húa pouoação qftaua perto a ver como os noffos tirauã os caualos, & os capitães lhes rogarão q como vaífalos del rey Dhonor, cuja aqla terra era, & cõ que ho gouernador eftaua de paz, lhes goardaffem aqles caualos ate q abrandaffe a torméta que torna- rião por eles. E acabãdo de dizer eftas palauras, pera q ho tempo efcaf- faméte lhe daua lugar acolherãfe a Anjadiua, donde defpois tornarão a bufcar os caualos: lhes diíferão os mouros q os não tinhão, porq el rey Dhonor lhos mandara pedir, & não poderão al fazer fe não darlhos, pofto q lhe diíferão cujos erão: coifto fe tornará os noffos ao gouernador & lho diíferã, & ele mãdou dizer a el rey q fefpãtaua muyto de ter coele paz & tomarlhe os feus caualos que lhos tornaífe, porq doutra maneyra aueria a paz por quebrada & lhe faria guerra: ao que el rey refpõdeo difculpandofe, & que pagaria os caualos porque ja os não tinha. E não comprindo o que dizia determinou ho gouernador de ir fobrele, & mais porque tinha pouco que fazer na noífa fortaleza, que eftaua de maneira que fe podia défender, & por iffo a entregou a Manuel paçanha feu capi¬ tão pera a fazer acabar: & lhe deu muyta artelharia, muytos mantimé- tos, & oytéta homcs de peleja. Ifto defpachado partiofe pera Honor em húa quinta feira, dezafeis Doutubro: & no mefmo dia â noyte chegou â foz do rio daquele lugar, que como diffe eftâ legoa & mea. E a fefta feira pela manhaã mandou a Fernão foarez que foífe no feu batel fondar ho rio pera ver que nauios poderião ctrar nele. E tornado ele cõ recado diíTe ao gouernador que no rio não podião entrar fe não carauelas & outros nauios pequenos: & que auia muytas naos varadas, & delas tamanhas como as noífas: & que fegundo a gente que vira fe poderião ajuntar qua¬ tro mil homés de peleja em pouco efpaço, & q algús mouros mercadores lhe diíferão que lhe nã queymaífem fuas naos que ali tinhão, porque que- rião paz com ho gouernador, & que farião com el rey que pagafle ho preço
  • Livro II, Capitolo XII1I 23j dos caualos. E fobrefta palaura efperou o gouernador todo aqle dia, & não vendo nenhú efeito do que os mouros diíferão a Fernão foarez or¬ denou fua gente pera dar na cidade, & em cada nao deixou vinte homés, porque auião de ficar na barra: & a outra gente que ferião feyfcentos homés mãdou embarcar nos bateis, & nos efquifes, & em húa carauela, & com grande luar que fazia foy ter antemanhaã fobre a cidade. E por a efta hora fe poer a lúa, & ficar grande efcuro pareceo bé ao gouerna¬ dor que fe deteuefle a géte fem deiembarcar ate fer ho dia claro porq não fabião a terra: toda efta noyte os moradores da cidade não fizerão fe nã defpejala de molheres, filhos, & fazédas: & leuarão tudo a húa ferra q fe faz fobre a cidade: porque auião grãde medo que ho gouerna¬ dor a etraíTe: & bé quiferã que el rey pagaífe os caualos, porem ele não quis por fer muy cobiçofo, & fazia conta que os noflòs fe defembarcaífem q auião de queymar a fazéda dos feus, & q a terra q era fua auia de ficar inteira, & quem quifeffe morar nela que a auia de grangear, & pa- garlhe dereytos. E foubefe que ifto refpondeo aos feus apertandoho que pagaífe os caualos, por iffo q os pagaíTem eles. E ainda ao outro dia em amanhecédo forão dous mouros ao gouernador, & lhe difierã da parte dos mercadores, que querião paz, & que farião com el rey -que pagaífe os caualos: ao q ele refpondeo que pofto que lhos pagaífe que as naos, que eftauão no porto auião de fer queymadas, porq fabia certo que efta- uão ali algúas de Calicut, o que os mouros negarão, & fe forão & não tornarão mais. CAPITOLO .XIIII. Como ho gouernador dejlruyo a cidade Dhonor, & como defpois el rey lhe pedio pa\. ENtre tanto q durauã eftas dilações el rey Dhonor da ferra dondef- taua nã fazia fe não mandar gente pera pelejar cõ ho gouernador o que ele conheceo no crecimento dela. E agaftandofe coiífo man¬ dou a dom Lourenço que entretanto q fe não tomaua cõcrufam no que os mouros diziã, fayífe em terra cõ algúa géte & queymalfe as naos: & affi foy feito defparando toda a noffa artelharia em dom Lourenço defem- barcando cõ a gente de cujo eftrõdo os Imigos fugirão com medo: o que deu lugar aos noffos q mais afinha pofefem ho fogo âs naos que eftauã varadas, & algúas cafas hi perto. El rey quãdo vio ho fogo aleuantado mandou a efles queftauão coele que fe foffem ajuntar com os que ja tinha mandado â cidade, & que a defendeffem: & hús cõ os outros fazião mof- tra de quatro mil homés, de que os mais erã frecheiros; & os outros
  • 2 38 Historia da índia adargados, & deles de lanças: & todos muy esforçados, & coftumados a pelejar: & ajuntaranfe em hú campo que fe fazia no cabo da cidade. Ho gouernador que vio que ho corpo da gente dos immigos crecia mandou também da fua a dom Lourenço, pera q os foffe cometer: & ele deixoufe eftar nos bateis pera defender que não apagaffem os Imigos ho fogo das naos, ne o que andaua ja na cidade. Dom Lourenço que hia pelejar cõ os Imigos chegou a eles & achou os em muy boõ concerto: porque os adargados eftauão diante emparando os frecheiros que lhe ficauão detrás, & dali tirauão aos noffos fem fe defcobrir, & eftauão todos çarrados, & as frechas chouiã fobre os noffos, & das primeiras matarão hú delles que logo cayo morto: & em caindo derão os Imigos húa grande grita. Dom Lourenço esforçou os nolfos dizendo que não era aquilo nada q logo fe vingarião, como vingarão, apertandoos tão rijo com fetadas e efpingar- dadas que os fizerão retirar pera a fralda da ferra, derribando mortos treze que fe logo virão. Ho gouernador que tudo via dos bateis, vendo q os Imigos fugião, temeofe q os noffos os feguiffé mais do neceffario cõ a fúria que leuauão de que fe lhe recrecia perigo, pelo qual mandou dizer a dom Lourenço que fe recolheffe, & ele ho fez afti: & cuydãdo os im¬ migos que era cõ medo voltarã fobrele tirandolhe muytas frechadas, & os noffos também lhe faziã rofto pera os fazeré fugir, porem elles não fe apartauão tanto que não tornaffem logo fobreles, & nifto forão ate ho rio, onde os noffos acharã os bateis metidos pera dentro, & mandaraos ho gouernador meter porque não ficaffem em feco que vazaua a marê, & ifto foy caufa.de fe os noffos embarcarem pola agoa: & os Imigos hião tão pegados coeles que fe meterão coeles nagoa: poré fugirão logo cõ medo das bombardadas que os noffos começarão a defparar dos bateis, & dom Lourenço fe embarcou fem afronta: & achou ferido ho gouerna¬ dor de húa frechada q lhe deu no dedo polegar do pee ezquerdo ao re¬ colher dos noffos, & logo foy curado q era pouca coufa. E partiofe pera onde eftauão as naos deixando queymadas quatorze dos Imigos, & mor¬ tos vinte dous deles & muytos feridos, & queymada grãde parte da ci¬ dade: & dos feus não foy morto mais q hú, & ele foo ferido. E indo ao logo da terra começarã dous mouros q eftauã nela a bradar & diziã paz paz. E detédofe ho gouernador a eftes brados lhe differão q erã merca¬ dores: & afti eles, como outros q eftauão na cidade que nunca confenti- rão na guerra & fempre quiferão paz, & afti ho confelharão a el rey, q lhe pediã por amor de deos que lha deffe, & afti aos outros mercadores: & também lhe pedião por amor de deos q lhe nã queymaffem tres naos que tinhão junto da barra muyto grandes & boas, que pera la mandarão em quanto fe deteuera em pelejar com os da cidade. E coifto lhe offerecerão
  • Livro II, Capitolo XV 23g hú prefenie de galinhas, larãjas, & figos da índia: o gouernador ouue dô dos mouros, & deulhe paz: & prometeoihe de lhe não queymar as naos. E recolhido a frota aquele dia â tarde lhe mandou el rey dizer por dous mouros q ele eflaua muy arrepédido do que fizera, & que conhecia feu erro de quebrar a paz tornandolha a pedir, com condição que lhe pagaria os caualos, & fe faria vaffalo del rey de Portugal, & lhe pagaria parias: & q eles mefmos ficaria por arrefens de fe comprir o que dizião, & que fe ho dinheiro não vieífe ao outro dia que lhe cortaffem as cabe¬ ças. Ho gouernador refpondeo que ele não fentira tanto tomar el rey os caualos, como quebrarlhe a verdade que deuia de fer muyto gardada de todos, efpecialmente dos reys: & que fe lhe tornaua a conceder a paz era porque não queria guerra, fe não com quem a quifeffe coele: & poré que então nã podia affentar coele paz, porque tinha muyto que fazer a diante & era ja tarde pera iffo & que não podia deixar de fe partir logo, & def- pois que foffe em Cochim ele mandaria feu filho, & coele adernaria a paz & lhe pagaria os caualos: & entre tanto lhe ficaria húa bandeira cõ as armas de Portugal pera que a noda armada lhe não fizede dano, & deulhe a bandeira, & coela moftrarão os mouros muyto prazer, & diderã ao gouernador q fe quifede vinte naos pera ir a Meca q lhas dariã: & tornaranfe pera a cidade com a repofta do gouernador que fe partio no mefmo dia q forão .xviij. doutubro. CAPITOLO .XV. Do que Ioão homem fe\ a hús mouros de Calicut q ejlauão em Cottlão, & do mais q lhe acõteceo: & de como ho gouernador chegou a Cana- nor, & fe chamou vifo rey. ATras fica dito como da ilha Danjadiua mãdou ho gouernador a Ioão homé na fua carauela a dar recado de fua vinda aos feitores de Cananor, de Cochim, e de Coulão: & dado recado em Cananor, & CochI foyfe a Coulão, onde também ho deu ao feitor: que lhe dide que na terra auia muyta pimeta, mas que eílauão ali muytos mouros de Calicut que tinhão trinta & quatro naos pera carregarem, & ja forão car¬ regadas fe ele não fora: porque começando os mouros de carregar fe queyxara a el rey de Coulão dizendo q não compria o que eflaua affen- tado nas pazes, que fe não dede carrega a nenhúa nao de mouros ate que as del rey de Portugal não fodem carregadas, & q tinha por noua certa que ho gouernador trazia muytas, por ido que requeria q defen- dede q não vendedem a pimenta aos mouros fe não a ele: & que el rey
  • 240 Historia da índia lhe differa que aífi ho mandaria, & porem a Ioão homem não lhe pare- ceo bé efperar por aquele mandado, & aífi ho difle ao feitor: & que nã era neceílario falar mais com el rey, porq por derradeyro auia de man¬ dar o que foífe proueito dos mouros porq erão todos hús & pera q era mais q tomar os lemes & as velas das naos dos mouros, & como não podiã nauegar fé eles não poderiã partir fem lhos daré: & coiíto lhes impediria mais afinha a carrega, q com quãtos mãdados el rey mandaífe. Ho feitor fem mais pefar o q fe dali poderia recrecer, por fe vingar dos mouros rogou a Ioão homé q fizeífe o q dizia, o q logo fez, & ajudouho a i(l'o Pero rafael q tãbé a hi eítaua na fua carauela, fé os mouros oufaré de lhes refiftir cõ medo que lhes meteífem as naos no fúdo & calaranfe porque não vião a fua. Tomadas as velas e os lemes Ioão homem deu tudo ao feitor que ho goardaffe, com o q ele foy muyto ledo, crendo que ficaua muyto feguro com aqueles penhores que lhe cuítarão tão caro, como direy adiante, & pera que ouueífe melhor tempo pera iffo. Tanto q Ioão homem entregou os lemes & as velas partiofe pera ir ter cõ ho gouernador & darlhe conta do q fizera: & fua partida foy como de ho¬ mem pouco atentado, porque lhe deuera de lembrar o q fez aos mouros, & que erão muytos. E que defpois de ele ido fe poderião vingar no feitor que ficaua em terra cõ no mais q dez ou doze homés: & ouuerafe de deixar eítar, & mandar por terra pedir focorro ao gouernador, & fe ho fizera ouuerão os mouros medo de fazer o que defpois fizerão. Aífi q partido Ioão homem chegou a Cochim, onde não achãdo ho gouernador feguio auante : & na parajem de Cananor topou com húa nao pequena de mouros, que tomou por força: & deita maneyra tomou defpois outra. E prendendo os mouros dambas pos em cada húa tres Portuguefes pera que os gouernaífem & leuaua as aífi pera aparato, & receber coele ho gouernador fe ho topaffe no caminho, & ãtes de dobrar mõte Deli ho to¬ pou. E ainda os do gouernador vendo de fupito as tres velas cuydarão que erão Imigos, porque fabião que nã fora diante mais que a carauela de Ioão homem: que foy tão mofino q em ho defcobrldo ho gouernador, foltaranfe os mouros de húa das naos que hia afaftada dele alamar, & matarão os tres noffos & fugirã fem os poderé tomar. Do que ho gouer¬ nador ouue tamanha menencoria q logo quifera tirar a Ioão homem a capitania da carauela, dizendo que ho merecia pois por fua culpa forão mortos os noffos homés, & que ele os não podia meter na nao dos mou¬ ros: & fempre lhe tirara a capitania da carauela fe não forão muytos fidalgos que lhe rogarão que ho não fizeífe, & cõ tudo núca Ioão homé entrou mais em fua graça como dantes. E nefte mefmo dia que foy húa quarta feira vinte dous dias Doutubro chegou ho gouernador ao porto de
  • Livro I, Capitolo XV 241 Cananor com determinação de deixar hi por feitor a hú Lopo cabreira, que pera iffo vinha prouido de Portugal, & hirfe a CochT a carregar as naos que auia de mandar pera Portugal. O q fabido polo feytor -Goçalo gil barbofa que ho foy logo ver â nao, lhe diífe que não erão os mouros de Cananor homés pera ficaré em Cananor Portuguefes fem fortaleza: porque pofto que ho rey daqla cidade foífe muyto feu amigo não podia tolher aos mouros q não fizeffem o q quifeífem porque erão muyto ricos & poderofos: & que lhe certificaua q muytas vezes efteuerã pera ho ma¬ tar, no mais q por fer Chriftão, porq tinhão grãde odio a efte nome, affi por natureza, como pelo medo q tinhão q os noífos os auião de deitar fora da índia, & q em todos eftes perigos núca el rey de Cananor lhe poderá valer: por iffo lhe cõfelhaua q não deixaífe Portuguefes é Cana¬ nor, fe não em fortaleza que era ali muy neceífaria por a neceífidade q el rey de Portugal tinha daqla terra pera I10 trato da efpeciaria porque auia nela muyto gingibre, & não ho auia em outro lugar que foubeflem fe não em Calicut de que ho não podião auer por eftar de guerra. E que pera a fortaleza ele tinha ja começados os aliceces, fazendo crer a el rey de Cananor que erão pera húa cafa de feitoria que foífe forte, em q fe podeífe defender dos mouros. Por eftas rezões de Gonçalo gil que pare¬ cerão bem ao gouernador fe mudou ele do propofito que leuaua de ir primeyro a Cochim & fazer Iaa fortaleza, & defpois em Cananor, & é Coulão. E affentado nifto diífelhe Gõçalo gil que auia algús dias q ho eítaua ali efperando hú embaixador del rey de Narfinga ho mais pode- rofo de géte que auia rey na índia & mais rico, & q por auer dias que efperaua lhe queria logo falar ao outro dia. E por confelho de todos os fidalgos & capitães da frota foy acordado q lhe falaífe ao outro dia na nao, por quãto não tinha ainda em terra cafas pera ho eftado que conui- nha a tamanho oííicio como era ho feu: E mais foy acordado por todos que pois aquele embaixador era dhú rey tã rico & tamanho fenhor & ho gouernador reprefentaua a peífoa del rey de Portugal, que pera môr ma- geltade dela & decoro de feu eftado lhe chamaífem dali por diante vifo- rey, & lhe falaffem por fenhoria: pofto que diífefle em feu regimento que não vfaífe deitas duas couías ate não fazer fortalezas em Cochim, Cana¬ nor & Coulão, & que fupriffem em lugar delas as de Quiloa, & Dãjadiua, & a de Cananor que com ajuda de noífo fenhor eítaua tão perto de fe fazer: o que ho vifo rey agardeceo muyto a todos. E mandou a Gonçalo gil que trouueífe ao outro dia ho embaixador del rey de Narfinga: de cujo eftado & reyno direy primeiro algúa coufa. 3i Tomo I
  • Historia da Itidia 242 CAPITOLO .XVI. Do grande reyno de Narjtnga, & dos mais dos cojlumes de fua gente. HO reyno de Naríinga he na fegunda índia, & tamanho que dizem q na ha nela outro mayor. Cõfina de leuante com ho reyno de Deli, & do ponente com ho mar oceano Indico & com ho Mala- bar, & do norte cõ ho reyno de DecanI ou de Daqué como lhe agora chamamos, & do fui com ho reyno Doria he repartido em cinco prouin- cias. A primeyra fe chama Talinate: & começa da fortaleza de Cinta- cora, de que atras faley, per onde comarca com ho reyno de Daquem: & daqui fe eftéde ao longo do mar per efpaço de cincoeta legoas, pouco mais ou menos ate hú lugar chamado Ancolâ em que ha eítes lugares .f. Manjauarrão, Bracelor, Mangalor, Vdebarrão, Caramate, Bacanor, Bar- rauerrao, Baticalâ, Honor, & Mergeu que fam todos muyto grandes & bos portos. A fegúda fe chama Teãrragei & he no fertão, & tambe co¬ marca cÕ ho reyno de Daqué. A terceyra fe chama Canarâ, também no fertão. A quarta Choramandel: & eítendefe ao lõgo do mar da fim do reyno de Coulão ate húa ferra que ha nome Vdigirmele, q aparta efte reyno de Naríinga do reino Duriâ: & tem por efta banda perto de cé legoas de cofta, a quinta he no fertão & chamafe Telengue. Cada húa deitas proulcias he muy abaítada darroz, carnes, pefcados, & fruitas, & muitas caças de mote, & de ribeyra. E muyto viçofa de ortas & outros aruoredos, & de fontes, & rios: & em muytos deles ha ouro & pedraria. E na prouincia de Canarâ ha húa grãde pedreira de diamães de muyto preço, na qual fe achã muytos ja laurados, & fã peqnos & chamãfe de roca velha: & é todas ha muytas cidades & lugares, os do longo do mar pouoados de mouros, & os do fertão de gétios, fam deles baços & deles pretos, tem muytas & muy diuerfas idolatrias & crem muyto em feitiços & agoyros. Crem principalméte em hú deos, que confeffam fer fenhor de todas as coufas, & defpois nos diabos: & crem que lhes podem fazer mal, & por iífo lhes fazem muyta honrra: & fazem lhe cafas dedicadas aos diabos, a que chamã pagodes, de q ha muytos por todo eíte reyno & muy fumptuofos & de grãdes rendas: nos quaes em hús eítão homés religiofos fegundo fua feyta que fe chamão bramenes, é outros molheres folteyras de partido, que ganhão por feu corpo pera ho pagode & crião ali muytas meninas pera ganharem coelas defpois que fam de idade. Ha também outros homés que tem por fanítos, que fe chamão Baneanes, que trazem ao pefcoço húa pedra tamanha como hú ouo metidas certas
  • Livro II, Capitolo XVI 248 linhas por ela, & dize q aquele he ho feu deos. Eítes fam de todos muy acatados por reuerécia da pedra que trazem, a que chamão tambarane: & não comem carne nem pefcado, & andão feguros por todos os reynos: & paílam dhús aos outros muytas mercadorias & dinheyro de mercado¬ res, por lhe não fer roubado: cafam húa fô vez na vida, & quando mor¬ rem enterrãnos & as molheres fe enterrão coeles viuas. Fazem todos muyto grãdes feitas a eítes pagodes que digo, a que vão em romarias de muyto longe: tem jejuú certo tempo do anno, como nos a quarefma.Tem domingo que he a feita feira: cré que ha outra vida defpois deita, & que os bõs tem gloria & os maos pena: mas nã pera fempre, geralmente fe queymão quando morrem, & enterrãlhe a cinza. Os ricos cafam com quan¬ tas molheres podem mãter, & os pobres com húa fó: as molheres fe quey¬ mão viuas defpois da morte dos maridos algús dias, nos quaes fazem grandes conuites a parentes & amigos, & dão fua fazenda a feus herdei¬ ros, ou a outrem fe os não tem: & defpois vão encima dhú caualo branco per todo ho lugar onde morão com trombetas, & muytos cantares, & muytos jogos: & diante chocarreyros que vão louuãdo a honrra que aquela molher faz a feu marido: & iíto faz tres dias com grãde feita. E ao terceyro fe veíte dos melhores panos q tem & das melhores joyas, & defpois de andarem pelo lugar, vãfe ao lugar onde ho marido foy quey- mado: & hi eítâ feita húa coua, na qual eitâ ardendo muy ta lenha: & junto coeíta coua eíta feito hú cadafalfo de tres degraos, no qual fe de- cem eítas molheres. E eítando ao derrador toda aquela gente que vem coela, diz âs molheres q fe lembrem de quanto deuem a feus maridos, pera lhe dare aquela honrra: porque a fama dela duraua pera fempre, & a dor que elas podião receber paffaua em hú momento: & defpindofe lanção fuas joyas & panos a qué querem, & ficãdo nuas dão tres voltas ao redor do cadafalfo chorando com as mãos aleuantadas, & na derra- deyra lhe dã hú cantaro cheo de manteiga, & poito na cabeça olha pera ho foi, encomendãdofe a feus idolos: & virandofe pera ho fogo lãça nele ho cantaro, & defpois a fi. E em fe lançando feus parentes q eítã ao redor do fogo lanção nele muyto azeite & manteiga, pera que acrecenté a fortaleza do fogo que logo as faz é cinza: & as que não podem fazer eíta cirimonia por ferem pobres queimanfe logo com os maridos, & as que não fe querem queymar ficão defhonrradas, como que fizeffem adul¬ tério, porq ninguém as obriga a queymarenfe fe não fuas honrras. A géte deite reyno he toda bem defpoita & fermofa, principalmente as molhe¬ res, & tratãofe muyto bem em feu comer & veítir, coítumão muyto andar damores, & fazéfe muytos defafios por amor de molheres, em que muy¬ tos perdem as vidas: & os que fe defafião pedem campo a el rey, o qual
  • 244 Historia da índia lho da, & afli padrinhos: & fe fam homens de preço vay ver ho defafio, o qual faze a pê em húa praça cercada de grades, õde étrã nus & éca- chados cõ húas toucas, fuas armas fam efpadas & efcudos, & nas cintas adagas, & tem padrinhos & juizes que julgão a batalha, & fam os defa- fios atreles ta cuftumados: & folga el rey tãto coeles que a hú que fabe que he valente caualeyro mandalhe por no braço dereyto húa cadea de ouro por fer mais valente que todos, & efte fica obrigado a defendela por armas a quem quer que lha pedir fe não perdea, & quê ho quer de- fafiar diz a el rey que ho agraua, porque deu a cadea a aquele que não he tão bõ caualeyro como ele: ao que el rey diz que fe aqle que a traz lha quifer dar que ele lha da: & fe não que fe mate coele, & fobrifto en- trão ambos no campo, & fe ho que pede a cadea mata o q a traz dalha el rey & mais as fuas armas, & fe o que a tem vence fica cõ mais honrra: & eftes defafios tem também os ofíiciaes hús cõ outros fobre quê fabe melhor feu officio, & aili outras peífoas fobre qualqr manha das que os homés fabe, porq também ao que fabe melhor traz a mefma cadea, que fe chama berid, ate que venha quem lhe leue auantajé: coftumafe também nefte reyno q fe algúa molher moça defeja de cafar com algú homem q não pode auer por marido encomendafe a algú pagode de q he deuota, & prometelhe de lhe fazer hú grãde facrificio de feu corpo fe cafar com quem defeja: & fe cafa antes que tenhã copula ajuntafe em fua cafa muyta gete dode a leuão em hú pao alto metido em húa carreta q leuão dous boys, & ella vay dependurada pelos lombos em dous ganchos de ferro q a poffam ter que vão metidos nefte pao, & leua na mão ez- querda hú efcudo, & cõ a outra tirando laranjas & limões que leua em hú faquitel aos que vão coela, & cãtando, que parece que não fente ho fangue que lhe vay correndo das feridas dos ganchos, & a porta do pa¬ gode a decé & lha offrecé, & ali he logo curada, & defpois a tornão a feu marido com muyta honrra: ha também algúas molheres q coftumã de offerecer a virgindáde de fuas filhas a hú pagode que he deputado para lhas offerecerê: & como eftas moças fam de idade de dez annos, leuanlhas muy honrradamente como q as vão cafar, & â porta do pagode a q as offerecé eftâ hú padrão de pedra quadrado de altura de húa braça cercado de grades em que ha rnuytos candieyros que acendem de noyte, & nefte padrão eftaa metido hú pao agudo em que aqlas moças perdem fua virgindade depois de fuas mãys & outras molheres fazeré muytas ce¬ rimonias, & e quanto ifto dura eftão as grades cubertas com hú pano porq não poffam fer viftas. A môr cidade defte reyno, & a principal fe chama Bifnegar q eftâ na prouícia de Canara, feffenta legoas da cofta do mar, affentada em terra chaã cercada de duas partes douteyros em que
  • Livro II, Capitolo XVI 245 ha grandes rochas, & fica a cidade como é vale por onde corre hú grãde rio que cerca parte dela, he toda cercada de muro forte, & terâ húa boa legoa de cerco, he bé arruada, & te muytas praças, & muyto boas cafas de pedra & outras palhaças, & muyto grandes, & muy fermofos pago¬ des: ha nela tanta géte q não cabe pelas ruas, ha muytos mercadores gétios, & algús mouros q té muy groffo trato: porq todos os mercado¬ res do mundo pode ali vir feguramente cõprar & véder, ha nela toda a pedraria em môr abaftãça q em outra cidade algúa, & aljôfar, perlas, & coral Iaurado q vai muyto por toda Narfinga, ha muyto ouro amoe¬ dado em húa moeda q fe chama pardao douro que vai cada hú trezentos & fefenta rs, & afti em meyos pardaos, ha muvta efpeciaria, droga noz, & maça, muytos panos de cores de laã baixos, & de algúas graãs, muy¬ tos veludos, cetins, tafetas veludos de Meca, chamalotes, grande forna de canfora de borneo, daçafrão de verdete dazul, muytas agoas eftiladas cheirofas, muytas conferuas daçucar, muyto açúcar refinado, & muytas outras mercadorias que leuão dos portos de mar defte reyno & não paf- fam coelas fe não fe leuão caualos Dormuz da Perfia & Darabia q vão def- carregar neles, que vão feguros de ladrões, & francos de pagar dereytos e muytos lugares por onde paliam, q fe pagaffé eftes dereytos lam tantos q não ganharião nada, ou tã pouco que paífaria ho gafto pelo ganho, & efta liberdade da el rey de Narfinga aos mercadores q leuã caualos porq lhe leué muytos, & nã ao Hidalcão nem a outros fenores do reyno de Daquem cõ que ele te guerra porque não os tédo leue ele ho melhor de¬ les, & aífi lhe vã cadano dous & tres mil caualos: nefta cidade efta el rey de Narfinga quando não anda na guerra, & té nela hús muyto gran¬ des & muy funtuofos paços, affi de cafas, como pátios, jardís, & tanques, em q ha muyto pefcado: el rey he gentio & ferueífe cõ muy grãde eftado, & viue mais polidaméte é feu comer & veftir q os reys do Malabar, quãdo efta daífento fae fora dos paços muy poucas vezes, cõtinuaméte té goarda de muvta géte, & muytos porteyros, & falanlhe com difficuldade ate os grãdes fenhores: eftes reys não cafam, mas té trezentas mancebas & mais, porq fe deleitão muyto na luxuria, & fam todas filhas de gran¬ des fenhores do reyno, & eftão no paço aos mefes, & ho outro tempo eftão em cafa dos pays, & quando eftão no paço lauãfe cada tarde nos tanques q ha dentro, & el rey as ve lauar, & a q lhe melhor parece na agoa lançalhe húa joya em final que ha de jazer coele aqla noyte. Eftes reys quando morré queymãnos em fugueiras de fandolos daguila, & dou¬ tros paos muyto cheirofos, & queimãfe coeles todas eftas molheres, & quãtos priuados té, & todos os oficiaes de fua cala: & afli queymã muyta moeda douro crédo q tudo aquilo vay coele ao outro mundo, & q tem
  • 246 Historia da índia lâ neceffidade dele, faze eítes reys goardar a juftiça muy inteiramente aos eítranjeiros, principalmente aos mercadores, & cõ feus vallalos não goardão nhúa & fam muy tiranos, traze muyto grande corte de muytos fidalgos, & de muyto grades fenhores q tem mais terra que algús reys em Europa: & eítes té por fobre nome raos q antreles he como dõ é efpanha, eítes tem també grades & fermofas cafas de pedra & cal na cidade de Bifnegar, & andam pela cidade em andores, & trazem trezen¬ tos de caualo, & menos & mais fegundo tem a renda, & quando vão falar a el rey que eítão coele os de caualo, acompanhão os feus andores à porta do paço. E ha deites fenhores algús que tem de renda hú conto douro, & toda lhes el rey da, & por iffo lhe fão muyto fogeitos. E fe fazem algú erro q não mereça morte, mãdaos el rey açoutar fecretamente no paço eítando ele prefente: & defpois lhe mãda dar húa cabaya rica de fua guardaroupa, & mãdalhe que fe vã pera cafa. E defpois que eítes fenho¬ res tem feyto tefouro, fe el rey ho fabe aflãcalhe algúa coufa por onde ho mande matar: mas primeyro lhe ha de mãdar matar os filhos, & def¬ pois dele a todos os parentes ate ho quarto grao, porque não fique qué vingue fua morte, & recolhe pera fi toda a riqza do morto, & da as ter¬ ras que ho morto tinha a outro fidalgo. E deita maneira a fora eítes reys terem a mór renda que nenhú rey da índia, ajuntão grandillimos tefouros: & cada rey ha de fazer feu tefouro, & não ha de bolir com o que fez feu anteceffor: & iito tem por grande gloria. E com iíto he ho tefouro que eítâ em Bifnegar ho mayor que fe fabe em todo ho mundo, aíTi douro amoedado fem entrar nenhúa de prata: & riquiffimas joyas douro & pedraria: & tanta forna de pedraria folta que fe mede aos alqi- res. E ha aqui diamães & outras pedras tão finas que não tem preço. E eítãdo eu na índia ouui dizer a mouros mercadores que em hú aífento de pazes que então fizera el rey de Naríinga cõ ho Hidalcão lhe dera hú diamão por laurar, ho qual pefaua duzentos mangelins, que antreles fam como antre nos os quilates, fe não que hú mangelim he mais a metade q hú quilate: & que o lapidairo que ho lauraua dizia que ho feu preço era dinheiro q chegaífe ao ceo. E ho Hidalcão ho eítimou tãto que deu ao que ho laurou húa aldea que rendia duzentos cruzados. E em auerem eíta pedraria põe eítes reys grande diligencia, dando grãdes penas a qué vende pedras de certo preço pera cima fe não a eles, ou a qué a compra. E aífi como eítes reys ajuntão grãdes tefouros, aili fazem grandes efmo- las aos feus pagodes, & a bramenes q eítão neles que fam os feus facer- dotes. E ho anteceffor daqle que reynaua neíte tépo em húa doéça pro¬ meteu de fe pefar a ouro em hú pagode, & afli ho fez: & acabado de pefar deu os veftidos que trazia, (que erão muyto ricos) ao bramene do
  • Livro II, Capitolo XVI 241 pagode, & logo lhos fez veftir, & em os acabando de veftir cayo ho bra- mene morto, & os feiticeiros fizerão crer a el rey q ouuera de morrer da doença paíTada, & por aquela grande efmola que fizera ao pagode, matara ho bramene em feu lugar: & ele ho creo, porque cré todos muyto em feytiços: & nenhúa coufa fazem fem confelho de feiticeiros, & cré tato em agoyros q fe el rey eftaa pera partir cõ hú grade exercito, & em abalando voa por cima húa gralha, ou outra aue é que té agoyro, ceifa logo fua partida ate tomar ho parecer dos feyticeyros. Eftes reys té fempre guerra cõ reys feus vezinhos, pelo qual tem continuamente grande multidão de géte aífi de pee, como de caualo a q pagão foldo. E em feu reyno ningué tem caualos né os pode cõprar fe não ele, & tem cem mil caualos, & quatro mil alifantes, & todos manté â fua cufta: & de fua mão os entrega aos capitães q té, & eles os reparté polos lafca- rins de fuas capitanias, q aííi chamão foldados: os quaes laicarins fam recebidos em foldo com grãde exame, porq fe fam eftranjeiros defpenfe é húa cafa perante quatro efcriuães, os quaes efcreué quantos finaes té no corpo, & fua cor, & idade, & ho feu nome, & de fua terra, & de que nação he, & de que ley & defpois ho affentã em foldo de tres, quatro, ate quinze pardaos douro q vai cada hú trezétos & feffenta rs: & affen- tado em foldo fica obrigado a não poder fair do reyno fem licença del; rey, a qual ele da poucas vezes: & a fora feu foldo lhe dão hú caualo, & hú moço pera ho feruir, & húa efcraua pera lhe fazer de comer: & pera ho caualo mãda cada dia por de comer a cozinha del rey, a qual ha cõtinuaméte, ou em Bifnegar, ou no arrayal fe el rey anda no campo, ou em outra parte pofto que el rey laa não ande, & nelas fe faz de co¬ mer pera os caualos, & alifantes, de grãos, arroz & outros ligumes cozi¬ dos com jagra, q he açúcar de palmeyras, porq não ha naquela terra ceuada, & aos foldados, é cujo poder medrão os caualos que lhe dão, tomanlhos & dão lhe outros milhores, & pelo cotrairo fe defmedrão: & fe eftes Iafcaris ho fazé bem na guerra acrecentãlhe ho foldo, & fe def¬ pois ho fazem melhor danlhe capitania de gente, & afli vão acrecentando os bõs caualeyros qvé a fer grãdes capitães, & aífi tem cé mil homés de caualo, os quaes andão armados de laudeis acolchoados dalgodã muyto groffo, & ceruilheiras, & de coyros de bufaros, & deles fã as ou¬ tras armas, & té tãtas peças como os noffos arnefes, pelejão com ago- mias, lanças, & zagunchos: os piaés fam fem conto, porque logo fe ajuntão em hú exercito hú coto, dous cotos de homés por fer a terra muyto pouoada, & eftes nã té mais armas defenfiuas q efcudos, foomente os frecheiros que os não trazem, & por iífo morré muytos nas batalhas, nas quaes étrão também muytos alifantes armados cõ cubertas de coyros
  • 24X Historia da índia de bufaros, ou datas as quaes os cobre ate os pes & todas muyto pinta¬ das, & affi leuã tefteiras dos mefmos coyros, & cubertas as trombas de húas argolas largas de cobre ou arame, & nos dentes atadas duas efpa- das largas, & agudas de cada parte húa, pera q rompendo pelos Imigos os mate: fobreftes alifãtes vão postos hús caftelos de madeira em que cabe ate oyto homés que dali pelejão com frechas, & vão os caftelos apertados com húas cilhas, tãto que não podem cair por mais que os ali¬ fãtes corrão, & he muyto fermofa .coufa hú exercito coeftes alifantes, & com tanta gente. Quãdo eftes reys hão dir a fazer guerra em péffoa fae primeyro hú dia ao campo fobre hú alifante acõpanhado de muyta géte de pê & de caualo, & com feus alifantes acubertados de fedas & de bor- cados, & lâ caualga é hú caualo, & tira húa frecha pera a parte a q quer ir fazer guerra, & logo diz dali aquãtos dias a de partir & aífenta feu ar- rayal onde eftâ ate fe acabar ho prazo que põe: nefte tempo mãda def- pejar a cidade de quanta gente ha nela, faluo daquela que he ordenada pera a goardar que fica nos feus paços, & affi nas cafas dos fenhores, porq as da gete comú que fã palhaças fam todas queymadas defpois de defpejada a gente: & porque affi as queymão de cada vez q el rey vay a guerra as não faze de telha & a caufa porque as el rey mãda queymar he porq quer que todos vão coele a guerra com fuas molheres & filhos, credo q coeftes penhores que té no arrayal porq os não percão não fugi¬ rão aos Imigos: coftumão eftes reys de trazer em feus arrayaes ate quatro mil molheres folteiras de partido, a que pagão foldo primeyro q a nhúa outra gete, & dizé q coelas faze mais guerra que cõ feys tantos homes, porque por lua caufa pelejão os homes com mais esforço, & que os ca- ualeyros mãcebos fe chegã mais onde ha molheres que onde as nã ha: & antreftas ãdão molheres muyto ricas de dinheyro, & de joyas de pedra¬ ria, & cada húa traz cofigo muytas moças fermofas, & como afioytece vanfe as eftancias dos caualeyros mancebos, & tanjem, cãtã, & danção ao feu coflume que ho fabé muy bem fazer, & dãlhe por iflo muyto di¬ nheiro, & affi por lhe deixarem aquela noyte a moça que lhe mais con¬ tenta, & defta maneyra té fémpre eftes reys muytos lafcarls eftrãjeiros. E fabendo ho rey que reynaua a efte tempo as grandes façanhas que os noflòs tinhão feytas na cõquifta da índia cõ quanto era tão poderofo, & não tinha neceffidade dos noflos, nem eles lhe podião fazer nojo fe não naqueles portos de mar que tinha, defejou de ter paz & amizade cõ el rey de Portugal fobre que mãdou ho embaixador que diflerã ao viforey qftaua é Cananor.
  • Livro II, Capitolo XVII 249 CAPITOLO .XVII. Da embaixada que foy dada ao Viforey da parte del rey de Narfinga, & de como ho Viforey concertou com el rey de Cattanor que fi\effe for¬ taleza emfua cidade: & começada 0 uiforey fe partiopera Cochim. HO qual chegado ho viforey ao porto lhe foy falar ao outro dia a fua nao, onde ho eftaua efperando aífentado em hú eftrado real q eftaua armado na tolda q eftaua toldada & embandeirada, & afíi toda' a frota: ho viforey tinha veftida húa opa de borcado fobre hú pelote de cetim & hú rico colar dobros & hú paje lhe tinha hú eftoq rico, & acompanhauãno feu filho com todos os fidalgos capitães & caua- leyros que hia na armada, todos vertidos de fefta. E chegando ho embai¬ xador a bordo defparou toda a artelharia, de cujo eftrõdo ele & os feus fe efpatarão muyto, & quando entrou na nao tocarão as trombetas & atabales: ho viforey fe leuãtou ao receber fora do eftrado, & ho fez aífentar em outra cadeira como a fua: & aftentado lhe deu a embaixada, cuja cõcrufam foy, q el rey de Narfinga cria q a nofia fê era verdadeira, pelo q os nolfos tinhão feito contra tamanho poder como era ho del rey de Calicut, & doutros reys a que tinhão defbaratado, & ifto que fabia lhe fizera defejar de fer amigo del rey de Portugal, a quem de boa von¬ tade ajudaria cÕ muytas naos & em feus portos lhe confentiria fazer for¬ talezas tirãdo ho de Baticalâ, porq ho tinha arrendado, & pera as forta¬ lezas fe fe ouueffem de fazer daria todo ho necelfario, & que pera mais firmeza de fua amizade lhe ofrecia húa hirmaã que tinha pera cafar cõ ho príncipe feu filho, no q receberia muyto contentamento, & acabada de dar a embaxada lhe deu húa carta pera el rey de Portugal em que fe continha toda a embaxada: & mais lhe deu pera mandar ao príncipe hús colares douro & pedraria muyto ricos, & aneys & panos de muyto preço. E defpachado logo do viforey pera fe ir pera Narfinga quando quifefie fe tornou pera terra, onde ao outro dia defembarcou ho viforey pera falar com el rey de Cananor que ho eftaua efperando em húa tenda muyto rica, de panos de feda & douro, armada em hú palmar quafi pegada cõ ho mar: & dele ate ela eftaua feyta húa ponte de cõpriméto de dez pal¬ mos, cuberta & toldada de panos de feda. Leuaua ho viforey diãte fuas trõbetas, & detrás delas fua goarda veftida de libre: & a pos ela feus porteiros de maça, cõ maças de prata douradas, & logo ho viforey, & diãte dele hú pajé que lhe leuaua hú eftoque. Acõpanhauãno todos efles fidalgos & capitães da frota, & hia cõ grãde eftado de que os malabares Tomo I 3»
  • Historia da índia 2S0 eftauão efpantados: & chegando â tenda foy recebido del rey cõ muyto grande cortefia. E affentado deulhe ho viforey hú cofre em que hião pe¬ ças muy ricas do defpojo de Mombaça: com que el rey moftrou q fol- gaua muyto. E a pos eíte prefente lhe difle que defejando el rey feu fenhor de aíTentar por bé trato & amizade cõ os reys do Malabar, prin¬ cipalmente com el rey de Calicut, de que tinha mais noticia, não quifera ate entã moftrar feu poder, né vfar de rigor: mas ja que eftaua defenga- nado da contumácia del rey de Calecut em querer antes a amizade dos mouros de Meca que a fua, determinaua de lhe fazer conhecer quanto perdia niffo: & defcder cõ todas fuas forças que né as naos de Calicut leuaffem efpeciaria ao eftreito né as naos do eftreito trouueffem â índia a-s mercadorias que trazião, por nã abateré as fuas que erão taes como as q trazião os mouros de Meca, & todas ele auia de mandar em tãta abaftãça q as dos mouros fe não achaffem menos: as quaes queria ter em Cananor & em Cochim pera enobrecer eftas duas cidades & enrique¬ cer feus reys: & os defender de feus Imigos, em pago de receberé por bé fua amizade, & do bõ gafalhado que fizerão a feus vaffalos, q ja deuião de ter bé fabido q não erão ladrões, nem hião a conquiílar a terra como el rey de Calicut cria, mas q hiã aífétar trato & amizade como homés pacíficos. E pera fe poder tudo ifto fazer milhor & cõ mais poffança & autoridade ho mandara el rey feu fenhor é feu lugar pera eftar na índia em quãto foffe feu feruiço: & lhe encomendara muyto que de fua parte pediflé a el rey de Cananor que pera fegurança de feus vaffalos & de fuas mercadorias lhe deixaífe ali fazer húa fortaleza, por quanto os mou¬ ros erão muyto poderofos: & ja vira em quão pouco efteuera de lhe matar ho feu feytor, & os queftauão cõ elle & roubarlhe a feytoria, & q confideraffe ele bé quã proueitofa lhe feria ali a fortaleza, porq os feus teriã força pera lhe defender fua terra: & ho tráto de fuas mercadorias lha ennobreceria & faria rica. E pois lhe dali refultauão tantos proueitos q as mercadorias del rey feu fenhor, né dos feus que fe ali védeífem lhe não auião de pagar nenhõs dereytos nem das cjue coropraífem. O que el rey concedeo de boa võtade, moftrando muyto prazer com ho trato q el rey de Portugal queria ter em fua terra: porque como ele nenhúa coufa eftimaua tanto como feu proueyto conheceo bem camanho elte era pera ho crecimento de fuas rendas. Porque pofto que el rey de Portugal & os feus ao vender nem ao comprar lhe não pagaffem nenhús dereytos fazia cota que os mercadores da terra pagarião tudo por inteyro, & que da¬ quele trato fe ennobreceria muyto fua cidade: & que cõ a noffa fortaleza fugigaria melhor os mouros. Deste aflénto forão feytas duas eferituras aflinadas polo vifo rey & por el rey, húa ficou a hú & outra a outro. Ifto
  • Livro II, Capitolo XVII 251 acabado ho vifo rey fe tornou pera fua nao, & ao defpedir el rey lhe deu certos aneys de rubis de muyto preço, & a dom Lourenço, & aos capi¬ tães. E deite aflento que ho vifo rey tomou cõ el rey de fazer a fortaleza pefou muyto aos mouros, alli por ferem Imigos dos Chriítãos, como por¬ que viao que de cadauez fe fazião mais poderofos na índia, & que lhes auião de tirar a liberdade de nauegar por onde quifeffem: & também fabião que aquela fortaleza era muy perjudicial aos mouros de Calicut, porque daqueles portos de mar del rey de Narfinga que eftauão antre Anjadiua & Cananor mandauão eles leuar mantimentos, em que tratauã & ganhauão muyto: os quaes auião de paffar todos a viíta da noffa forta¬ leza donde lhos auião de tomar os noffos. E auido ho confentimento del- rey de Cananor pera fe fazer a fortaleza, logo ao outro dia pola manhaã que forão vinte tres Doutubro defembarcou ho vifo rey com toda a gente que leuaua com grande prazer & feita na ponta de Cananor, onde Gon- çalo gil barbofa com nome de cafa de feytoria tinha ja feytos aliceces pera fortaleza que parecião fobela terra, o qual lugar era muyto forte por fer húa pontinha muyto delgada cercada de penedia & de mar: & da bãda do fertão tinha a entrada dobra de vinte braças, & outras tantas eftaua fora dela hú poço dagoa, de que forçadamente os da fortaleza auião de beber, por dentro na ponta não auer nenhúa. Sobreítes aliceces que digo mãdou ho vifo rey profeguir a obra em que ele cõ todos os noffos trabalhauão fem auer deferença de fidalgos a piães, porque todos trabalhauão aos quartos. E também el rey de Cananor deu muyto grãde ajuda pera eíta obra, afli dos materiaes neceffarios como de pedreyros, carpinteyros, & outros officiaes: & como a gente era muyta’ em cinco dias foy polto ho muro da fortaleza todo â roda em altura que fe podia affentar artelharia. E polto neíta altura não fe quis ho vifo rey mais de¬ ter, porque tinha muyto que fazer em Cochim na carregação das naos que auião de ir pera Portugal & por fe começar de foar que matarão os mouros ao feytor de Coulã, & a quãtos eltauão coele: & determinãdo de fe ir deu a capitania da fortaleza, a q pos nome Sanótangelo a hum fidalgo chamado Louréço de brito, que trazia por el rey a capitania da fortaleza q fe auia de fazer em Coulão: mas ele quis antes eíta por eltar ja começada, & a alcaydaria môr deu a hú fidalgo caltelhano cujo fobre nome era Goadalajarra, & por feytor ficou Lopo cabreyra. E por frõ- teiros ficarão na fortaleza cento & cincoenta homés, & muyta artelharia, & outras munições: & no mar duas carauelas pera goardarem aquela coíta. E dada a traça da fortaleza a Lourenço de brito partiofe ho vifo rey pera Cochim a vinte fete Doutubro ja noyte.
  • 252 Historia da índia CAPITOLO .XVIII. De como ho feytor de Coulão & quantos ejlauão coele forão queymados pelos mouros de Calicut, & de como ho uifo rey mandou feu filho dom Lourenço a uingar efias mortes. PArtido Ioão homé de Coulão os mouros fenhores das naos a q ele tomara os lemes & as velas fe tornara a queixar a ei rey, dizendo q não era pera fofrer quereré os noffos fazer em fua terra tama¬ nha força, & mais eftando ele prefente: q bem dauão a entender q ho não tinhão em conta, & q ja lhe não faltaua nada pera fere fenhores da terra: & q cedo ho ferião de todo fe ele não acodiífe aos deitar fora antes q teueffem nela mòres forças, & q fizeffe como fizera el rey de Calicut, ou lho deixaffe fazer, porq eles tomarião fobrefi a vingança pois ho dano da injuria a eles era feyto: & tãtas coufas lhe differão q lhes deu licença q fe vingaffem. Auida efta licença cõ muyta gente da terra que os ajudou derão na feytoria õde ho feytor eítaua cõ doze Portuguefes, q vendofe afli cometer: porq a feytoria nã era forte, trabalhará por fugir pera a hermida de noffa fenora, õde fe acolherão. E defendendofe q os nã podião entrar por confentimento del rey, poferao os mouros fogo à hermida, & ela, & os noffos arderão todos. Pero rafael q eítaua no porto na fua ca- rauela não fe atreueo a focorrer aos da feytoria, & vedo como forã quei¬ mados, mãdou deitar fogo cõ húa panela de poluora é húa das naos q eftauão no porto: & dali fe pegou tão brauaméte em outras q arderão cinco q eftauão carregadas de piméta, & em quãto ardião efteue hú pe¬ daço cõ as outras âs bombardadas. E vendo que não era tempo pera mais partiofe pera CochI: onde defpois de chegado chegou ho vifo rey a trlta Doutubro, & achouho no porto com Manuel telez & Diogo pirez: q ho receberão cõ muyto grande feita de fua artelharia, & ho forão vifitar: & lhe derão conta do q os mouros de Calicut fizerão aos noflos em Cou¬ lão. Pelo qual determinou de mãdar logo fua armada a vingar a morte dos noffos, & queymar quãtas naos de mouros de Calicut & de Meca lâ efteueffem, afli por fazer mal aos mouros como pera lhes impidir q não leuaffem ao mar roxo a piméta q queriã leuar. E a capitania mór deite feyto deu a feu filho dõ Louréço q foy na nao de Ioão da noua, & forão coele Manuel telez, & Pero rafael, & todos os outros capitães da frota em feus nauios & naos, faluo a nao do vifo rey, & duas carauelas q ficarão em CochI. E defpachado dõ Louréço partiofe logo em anoyte- cendo, & foy tanta a breuidade porque os mouros não fe foffem primeyro
  • Livro II, Capitolo XIX 253 que ele chegaífe. E partido dõ Lourenço defembarcou ho vifo rey ao outro dia: & foube do feytor & alcayde môr q el rey de Cochim q per¬ dera ho reyno por amor dos nofTos ja não reynaua, porque fe metera no pagode por morrer outro q lâ eftaua: & q lhe fucedera hú fobrinho, q també era grande feruidor del rey de Portugal, & muyto amigo dos nof- fos. E mais lhe diffe o feytor q defpois que efte reynara temédofe q não foffe tão leal como feu tio, determinara de fazer húa fortaleza: & porq não foffe entendido lhe differa q bé via como a noffa fortaleza era de madeira, & q aura dapodrecer cõ a humidade da terra: & també el rey de Calicut por fer Imigo dos Portuguefes lhe poderia mãdar pegar fogo fecretamente, & q arderia, por iffo tinha neceflidade de fazer húa cafa forte de pedra & cal pera goardar nela a fazéda da feytoria, e os Portu¬ guefes eftaré nela mais feguros. E coefta diffimulação tinha ja feytos os aliceces na boca do rio de CochI muyto perto do mar: & q tinha come¬ çada húa torre de madeira no paffo do vao por fer ali muy neceffaria pera fua goarda. El rey de CochI como foube q ho vifo rey era defembarcado ho foy ver, & fe lhe offreceo por tamanho amigo, & hirmão delrey de Portugal como ho era feu tio: & també por grãde amigo do vifo rey & dos noifos. E ho vifo rey como quer q trazia a coroa q diffe pera a dar ao rey velho, não quis dala a efte ate não auer confelho fobriffo, & fe não determinar a qual a daria. O q fabendo ho rey velho que a trazia parele lha mãdou pedir, dizendo q ainda qfteueffe no pagode a não deixaria de receber. CAPITOLO .XIX. De como dó Lourêço queymou em Coulão uinte fete tiaos de Calicut, 6 defpois fe tornou a Cochim. DOm Louréço q hia cõ fua armada chegou a barra de Coulã, & porq não fabia fe eftarião no porto algúas naos de mercadores noffos amigos, mãdou dizer a terra q fe hi efteueffem algúas q fe fayf- fem, porque lhe não fizeffe mal: & pofto q hi eftauão algúas não fe qui- ferão fayr, confiando q os mouros de Calicut erão tãtos q lhe não auião os noffos de fazer dano. E fabédo eles q a noffa frota eftaua na barra en¬ cadearão as fuas naos q erão .xxvij. cõ pranchas laçadas dhúas às outras pera fe poderé feruir por todas, põdo as popas é terra, porq as noffas lhes não podeffem chegar. E fabédo dõ lourenço q as noffas naos não podiã chegar a terra deixãdo algúa géte é guarda delas fez embarcar a outra nos bateis pera os leuar cõ as carauelas. E mãdou pregoar q fopena de morte ningué foffe oufado de tomar coufa algúa das naos dos ímigos
  • Historia da índia 12.54 fenão q todos trabalhafTem polas queymar cõ quanto tinhão. Deitado efte pregão abalou pera as naos, de q eftaria mea Iegoa, & ê aparecendo, começou de defparar muyta artelharia dos Imigos, & muytas frechas: & affi tiraua da praya a gête da terra multidã delas fem cõto porque temião fe os noflos vêceífem q os auiã de deftruir. E cõ ajuda de N. S. rõperã por meo de toda aqla fúria dos pelouros, & per antre aqla baítidã de frechas, jugãdo cõ fua artelharia, efpingardaria, & cõ feus almazés de fetas, & chegarão às naos dos Imigos quafi todos a húa, & logo deitará nelas muytas lãças & rocas de fogo, de q fe ateou nas'nãos, & começa¬ rão darder muy brauamête cõ hú veto q vetaua pera fua môr deftruiçã. E vedo os noffos quão bê lauraua cõ a ajuda do veto q parecia q ho daua N. S. afuftarãfe a fora cõ grãdes gritas de Vitoria, vitoria que deos he cõ nofco. E poferanfe a tirar aos Imigos que punhão toda fua diligencia por apagar ho fogo o que era de mais, porque andaua tão furiofo que ja não tinha remedio. E nifto efteuerão os nolfos ate noyte: & nefte efpaço ma¬ tarão muytos dos inimigos, & dos noffos não morreo nhú, & forão algús feridos de frechas, que erão tantas que me jurarão homês, que húa pre¬ gou no âr hú minhoto que virão cayr nagoa pregado, & affi pregou outra húa taynha no mar: & a Ioão homé lhe deu húa bombardada fobre ho coração que lhe rornpeo a adarga & as couraças, & não lhe fez outro dano fe não pifarlhe a carne, de que andou hús dias mal fentido. E vedo dom Lourêço que ho fogo eftaua bê feguro de fe não poder apagar tor- noufe pera a fua frota onde a craridade do fogo chegaua tãto que cearão muytos dos noffos a ela: & affi durou toda a noyte & acabou dabrafar as naos, q todas eftauão carregadas pelo qual os mouros receberá perda grãdiffima, & affi el rey de Calicut nos dereytos que tinha fe tornarão a feu porto & affi ho fentio ele rnuyto quando ho foube, & logo determinou de fe vingar como direy a diante. Porem em Coulã ficarão os mouros muy aífombrados, porque não virão ainda queymar ho fogo dos noffos: & a gente da terra eftaua muy fora de fi, & muytos fugirão pera ho fertão, como fe defpois foube, cuydãdo que auião os noffos de fayr a queymar a cidade. E com tudo os regedores nunca mãdarã recado a dõ Lourêço fobre recõciliarê coele. E vêdo ele q não tinha mais que fazer partiofe pera Cochim: & fabendo quanto ho vifo rey auia de folgar cõ a queima das naos mãdou diante a Ioão homem que lhe foffe pedir as aluifaras, & ifto com tenção que ho vifo rey tornaria a recõciliar coele, porque fabia quãto lhe defcõtentaua pelo que ja diffe. E a efte tempo ho vifo rey eftaua rnuyto defcontente porque foubera a verdade que Ioão homé fora caufa de fazerem os mouros em Coulão o que fizerão na feytoria, por lhe ele tomar os lemes & as velas das fuas naos: & em chegando a Cochim lhe
  • Livro II, Capitolo XX 255 tirou a capitania da carauela, que deípois deu a hú fidalgo chamado Nuno vaz pereyra valete caualeyro, & íefudo. Afli que o que dom Lou- renço cuydou que aproueitaua a Ioão homé lhe fez moor perda: porq fe fora em fua companhia poderá ele rogar a feu pay que lhe não tirara a capitania, & fizeralho com ho prazer de fua vitoria: & indo fô não teue quem rogafle por ele, & aíli o dizia ele defpois a dom Loureço: que feguindo fua rota pera Cochim chegou là cõ todos os capitães q ho acom¬ panharão: & a ele, & a eles recebeo ho vifo rey cõ grande fefta. CAPITOLO .XX. De como ho uifo rey deu híia coroa douro que traria a el rey de Cochim, & feyfcentos cruzados de tença. E de como mandou dom Lourenço dar- mada ds ilhas de Maldiua. CHegaro dom Lourenço a Cochim logo ho vifo rey fez confelho, em que propos a qual dos reys de CochI daria a coroa douro que trazia, fe ao q eftaua no pagode, fe ao q reynaua: & por todos os q eítauão no confelho foy determinado que fe defle ao q reinaua, porq dando fe ao q eftaua no pagode era prouocalo a tirarfe dele, & tornar a reger ho reyno, o q ho outro auia de cotradizer, & naceria dali diuifã no reyno, de q a guerra eftaua na mão, & feria muy fea coufa fere os noífos caufa dela pois fefperaua q teuefiem a terra em paz, & que feria muyto grande deferuiço del rey de Portugal auer guerra no reyno de Cochim, & mais q ho rey queftaua no pagode era muyto velho, & fegundo natu¬ reza deuia de viuer muy pouco, & afli como afli o que reynaua lhe auia de foceder: & pois ja reynaua, & em reynar fe goardaua feu antigo cof- tume, que não era bé que ho quebraíTem por tão pouca coufa como auia de fer a vida do que eftaua no pagode, & mais com darem caufa â guerra, do que fe feguião tantos males: pelo qual a coroa le deuia de dar aó que reynaua. Ifto determinado, vindo el rey vifitar ho v.iforey, ele lhe difle que el rey feu fenhor por fe moftrar agardecido a el rey feu tio de quantas boas obras lhe fizera, lhas quifera galardoar pois ele lhe fucedera no reyno que a ele fe galardoarião. E que do dia que el rey de Calicut fora ven¬ cido por Duarte pacheco no paífo do vao, quando indo fugindo a bom- bardada lhe matara feu pajé do betele, & outros doze nayres, por cujo medo fe el rey de Calicut baqueara do andor: lhe daua pera todo fem- pre a ele & a feus fuceflores feys cétos cruzados de tença pera húa copa: & ho fazia rey de Cochim ifento de toda obediência & lugeição q os reys de Cochim deuião dãtes aos reys de Calicut: & lhe daua poder pera q
  • 256 Historia da índia podeffem mãdar Iaurar moeda por toda íua terra, afli douro, de prata como de cobre: & teuefle todos os outros mais priuilegios, liberdades & preheminencias que os reys tem. E em final de fer rey perfeyto lhe man- daua aquela coroa pera que a teuefle como infignia real que os reys de- uião de ter: & que lhe pedia muyto el rey feu fenor que afli como fuce- dera no reyno a el rey leu tio, & lhe fucedera no galardão que merecia por fuas boas obras, afli lhe fucedefle na amizade & lealdade que lhe fempre teuera, & no bõ trataméto q fizera a feus vaflalos. E que lhe lebrafle q ho reyno q tinha ou ho teuera ou não, fe el rey feu fenor não fora. E que os feyfcentos cruzados lhos mandaria a fua cafa. Ao que el rey de Cochim refpondeo cõ muytos agardecimétos de promeflas de per¬ der ho reyno & a vida por amor del rey de Portugal. E ho viforey lhe mãdou a fua cafa os .dc. cruzados por Lourenço moreno q auia de ficar por feytor na vagãte de Diogo frz correa: & leuoulhos e hú bacio de prata dagoas mãos, & diante muytas trombetas, & acÕpanhado de muyta gente: cõ que el rey folgou muyto & ho teue por muyto grande hõrra: E os naires afli ho tinhão, & ficarão muyto mais contentes que dantes da amizade dos noflbs. E defpois difto aos dous dias de Nouembro come¬ çou ho viforey de mandar carregar as naos q auião de tornar pera Por¬ tugal. E afli mandou algúas naos & nauios a fauorecer as fortalezas de Cananor & Anjadiua: & mandou a dom Lourenço q fofle no nauio de Felipe rodriguez âs ilhas de Maldiua q eftão feflenta legoas da cofta da índia a fazer prefas em muytas naos & jugos q tinha por certeza que paflauão por ali, afli de Malaca, como'de çamatra, & de Bengala, & dou¬ tros reynos da banda do fui, q trazião muyta efpeciaria, droga, pedraria, ouro, prata, & outra muyta riqza, & mandou coele Lopo chanoca, & Nuno vaz pereira. CAPITOLO .XXI. De como Femão foare\ capitão môr das naos de carga, fe partio pera Portugal: & de como defcobrio a ilha de fã Lourêço pela bãda de fora: & chegou a Lisboa. ACabadas de carregar as naos que auiã de ir pera Portugal, & def- pachado ho capitão mòr delas q foy Fernão foarez, partiofe de Cochim a .xxvj. de Nouembro cõ feys naos a fora a fua de que forão capitães Baftião de Soufa, Ruv freyre, Manuel telez, Antão gon- çaluez, Diogo correa, Gonçalo gil barbofa que fora feytor de Cananor, Diogo fernãdez correa alcaide mór & feytor do caftelo de Cochim. E neítas naos não foy mais gente que a neceflaria pera as marear, & na
  • Livro II, Capitolo XXI 257 paraje de Calicut lhes deu calmaria cõ que andarão tres dias fobre a cidade, & tão perto q enxergauão ho tamanho dos nauios q eftauão no porto, o que meteo a gente da terra em reuolta cuydãdo que hião fobre a cidade. E vindolhes veto forão ter a Cananor, donde partirão a dous dias de Ianeyro de mil & quinhétos & feys: & ho primeyro dia de Feue- reyro ouuerão vifta de terra, & afirmoufe q era húa ilha chamada Alioa, & ãdãdo junto dela com calmaria, hú fabado íete dias do mefmo mes fayrão dela dez almadias em q vinhão muytos homés baços de cabelo reuolto, & todos traziã lanças, efcudos, arcos, & frechas, & andarão der¬ redor das naos acenando, como que pedião feguro, & oulhauão como q núca virão naos: ho capitão môr mandou acenar a húa almadia que che- gaífe a fua nao, & chegou, & dela entrarão vinte cinco homés na nao: mas das outras não entrou ningué, & eftes hião todos nuus, & erão mou¬ ros: ho capitão môr lhes mandou logo dar panos com que fe cobriífem, cõ que moftrauão q folgauão muyto, & cõ nhúa das llgoas q hião na nao fe poderão entender, & defpois de lhe darem os panos lhes fov dado de comer, & comerão de boa votade, porem em acabando fem fazeré nenhú final de agardecimento fe embarcarão na fua almadia tão de fupito q os não poderão tomar, & arredãdofe da nao tirauão aos que eftauão a bordo. O que vendo os noffos poferão logo fogo âs bõbardas, & fizerão nos fugir fem tomarem nenhús por não teré bateis fora, né menos efquifes: & porq ho capitão mór vio ir algúas daqlas almadias pera nao de Ruy freire queftaua perto da fua mãdoulhe auifo no feu efquife do q lhe fize¬ rão os mouros, & que tomaffe os que podefle. O que fabido por Ruy freire, mãdou eftar preftes os feus, & em as almadias chegãdo a bordo faltarão dentro, & os mouros fe lançarão ao mar: & com tudo tomarão os noffos vinte hú, & dos outros ferirão algús. Paffado ifto feguio ho ca¬ pitão mór ao longo daquela terra, de q a môr parte era muyto alta, leuãdo fempre os pilotos grandes duuidas, fe era terra firme, fe ilha: & aíli forão ter a húa ponta defta terra, õde fe metia no mar húa ribeira cõ que moerião moynhos. E aqui eíteue o capitão môr quatro dias, & fez agoada. E em defembarcando hú dia pela manhaã a gente de hú batel em terra, auifou os húa atalaya que lhes iayão mouros de cilada, & eles fe acolherão ao batel feguindoos os mouros, & tirandolhes muytas fre¬ chadas, tão perto eftauão ja, & ferirão hú dos noffos, & não fizerão mais dano por amor da noíTa artelharia que começou de jugar & os fez deter. E defpois acharão os noffos dous mortos, & a terra toda tinta de fangue. Feyta agoada partiofe ho capitão môr, indo fempre ao lõgo defta terra com fofpeyta de não fer ilha, porque auia defafete dias q continuaua ao longo delia, & em todos eftes dias, tanto que ho foi fe punha leuãtauafe Tomo I 33
  • 258 Historia da índia logo hú veto muy brauo, & fobreuinhão chuueiros, & fazia grande tormenta que duraua toda a noyte: & fez fe noyte que correo a frota trinta legoas aruore feca: & húa quarta feyra que forã .xviij. de Feuereiro fobreuindo hú grande temporal de veto & de chuueyros, veo juntaméte hú toruão tão medonho que parecia abrirfe ho ceo, & cayp hú corifco na capitaina que deu pelo maíto do traquete dauãte & ãdou ao derredor dele, & dali faltou fobre cuberta, õde defapareceo fem fazer mais nojo que derribar algús pedaços de traquete dauante. E ao outro dia pela manhaã fe achou ho capitão môr no cabo deita terra, & ali foy conhecida por ilha: & acharão os pilotos que tinha por aquela banda .clxxxix. legoas: & pofe- rãna na carta de marear. E poíto q a então não conhecerão, eíta era a ilha a q os mouros chamauão da lúa, & a que antigamente chamauão Madeigaítar: & a que agora chamã os noffos a ilha de fam Lourenço. E eítes forão os primeiros que a defcobrirão pola parte de fora, & que leua- rão a Portugal gente dela. E daqui feguio ho capitão môr fua rota pera o cabo de boa efperança: & defpois de paífar húa grande tormenta ho dobrou hú domingo oyto de março, & fem lhe mais acontecer coula de contar chegou â coíta de Portugal a vime dous de Mayo de mil & qui- nhétos & feys: & ao outro dia foy ter a Lisboa a faluamento. CAPITOLO .XXII. Em que fe efcreuem as coufas notáveis da ilha de Ceilão affi no mar como na terra. PArtido dom Louréço pera as ilhas de Maldiua com os outros capi¬ tães, como os feus pilotos erão ainda nouos naqla nauegação não fe fouberão goardar das corrêtes q fam grãdes por aqla paragé, & elas os fizerão errar as ilhas & forão auer viíta do cabo de Comorí onde ventauão terrenhos, & coeles fe fez dom Lourenço na volta da ilha de Ceilão, onde lhe ho vifo rey mandara que foífe. E eíta querem algús dizer q he aquela a que antigaméte chamauão Taprôbana que eítâ fetenta & cinco legoas de Cochim: & apartafe da terra firme por hú parcel cha¬ mado Chilão: em que ha muytos baixos per antre os quaes fe faz hú canal muyto eítreito: & por elte paffo paífão todas as naos que vão da índia pera Choramandel, & dele pera a índia, & perdenfe fempre muy- tas neítes baixos por fer ho canal tão eítreito que com dificuldade fe pode acertar: & poriffo os mercadores índios hú dos perigos q rogão a deos q os goarde he dos baixos de Chilão. Dize que te eíta ilha de roda perto de .ccc. legoas. Os mouros Arábios & Perfios lhe chamão Ceilão, q em
  • Livro II, Capitolo XXII s5g fua llgoa qr dizer coufa de canal. Efte nome lhe poferão por amor do canal que a cerca da banda da terra firme. Os malabares & outros indios lhe chamão Hibenáro, que quer dizer terra viçofa: & afli ho he ela de muytas & muy boas agoas, & de muyto & diuerfo aruoredo, de que grão parte he das aruores de que fe tira a canela q té a folha como louros & a cafca he a canela q vé ca, q fe tira dos ramos defpois denxapotados & fecos, & ifto faz a géte baixa que a vede por muy pouco preço. Ha també muytas larangeyras doces, & antrelas húas q dam húas laranjas que tem a cafca tão doce como ho gomo: & afli ha todalas aruores defpinho, & outras muytas muy diferentes das noífas que dão diuerfas fruitas, & todo ho mato he deftas aruores: em que ha també muytas eruas cheirofas, afli como mangiricões, alfauacas, & outras. E criãfe nos matos muytos & muy grandes alifantes que tomão com outros manfos que prendem polos pees em aruores, & fazélhe derredor grandes couas que cobré cõ rama onde caem os brauos que fe vé pera os outros. E defpois de cairem nas couas os deixam eftar fete ou oyto dias vigiandoos continuamente, & falandolhe fempre que os não deixão dormir: & ali lhes deitão algúa rama q comé, & defpois vão pouco & pouco entulhãdolha cõ terra, & afli como lha vão lançando, afli ho alifante fe vay aleuantando: & ali na coua ho prendem polos pees com cadeas, & polas mãos porque não poffa fugir, & defpois de ferem fora da coua os deixão eftar fem comer hú dia ou dous pera que ajão fome & eítem fracos, & defpois lhe dão de comer falandolhe fempre, & afagãdoos. E eles tem tam bõ natural q vé a enten¬ der a lingoa, & tomão amizade com aquele que lhes da de comer: & def¬ pois de manfos & que entendem os leuão a vender ao Malabar, a Nar- íinga, & a Cambaya, & a outras partes onde os prezão muyto pera a guerra: & vendennos por couados que medé dos pés ate as ancas: & vai ho couado dos bõs & práticos na guerra a mil pardaos de ouro, & dos outros a feyfcétos, & a quinhentos. Nace també nefta ilha muyta pedra¬ ria, afli como rubis muyto finos, vermelhos & brancos, balais, jacintos, çafiras, topázios, jagonças, amatiftas, crifolitas, & olhos de gato, que os índios eftimão muyto. EI rey de Ceylão recolhe a milhor pedraria & a vende de fua mão: & a comú vende defta maneyra.Tem lapidairos que a conhecem també que trazédolhe hú punhado de terra, em a vendo logo dizem as pedras que acharão: & ifto fabido concertafe el rey com ho mercador em ho preço que lhe ha de dar por certa quantidade de terra em que poffa cauar & tirar a pedraria que achar, referuando a que teuer de tantos quilates pera cima que he pera el rey: & afli a tem toda efco- lhida, & feito dela grãde tefouro, antre a qual ho rey que reynaua nefte tépo dezião que tinha hú rubi de hú palmo em comprido & de groflúra
  • 2Ô0 Historia da Lídia de hú ouo, todo limpo fem nenhúa magoa, & que daua tanta craridade como húa vela. E efta pedraria não he toda de húa qualidade, porque cada genero de pedras tem fuas efpecias, húas rijas, outras frias, & ou¬ tras pefadas. E algúas ha que fam a metade rubis, & a metade çafiras na cor, outras a metade çafiras, a metade topázios. No canal que fe faz antre efta ilha & a terra firme, que he doyto & dez braças daltura, fe pefca grande forna daljofar grofio & meudo & per¬ las: & vem fazer efta pefcaria duas vezes no anno os gentios de Cale- care, que he húa cidade que efta dali perto, no tempo que ho rey dela folta a pefcaria, & irão ali de dozentas ate trezentas champanas que fam hús nauios pequenos em que vão vinte cinco & trinta homés cÕ mãti- mento pera ho tépo que ali andarem. Efta géte defembarca toda é húa ilha peqna & defpouoada q efta naqle parcel õde fe faz o canal, & dali vão pefcar ho aljôfar de dous em dous encima de tres paos feytos em triân¬ gulo, cubertos de tauoado, & quafi que vão nadando, & vay hú abaixo com húa tala nos narizes, & húa pedra atada nos pês, & hú redofole de corda ao pefcoço, a que vay atado hú cordel, cujo cabo tem na mão ho parceiro que fica nos paos que digo: & o q vay de mergulho anda de¬ baixo ate que ho enche de húas oftras que ali ha mais pequenas que as noflas & rnuyto lifas & fermofas, & cheo ho redofole deixa a pedra que té nos pês & tornafe acima, porque ela ho deté, & ambos tirã pelo redo¬ fole & ho alão acima: & efte encima vay ho outro abaixo, & tiradas as oftras lançãnas em terra ao foi ate que apodrece, & então as lauã, & apanhão ho aljôfar q cae delas. E as perlas grandes que fe achão antreles fam pera el rey, o qual tem hi que lhas arrecade: & adi feus dereytos que lhe pagão. E efta pefcaria perde elrey de Ceilão por não ter naue- gação, porq efta riqueza jaz no limite de feu reyno: & dizem q ho aljôfar fe gêra defta maneira: no inuerno fe fobem eftas oftras fobela agoa & recolhe em fi algúa da chuiua, & quantas gotas entrão dentro na carne da oftra, tãtos grãos fe gêrão & fe fazem perfeytos, & as q não entrão na carne ficão em meos grãos. No meo defta ilha fe leuãta húa ferra muy alta, & fobrela hú altif- fimo pico, em que eftà hú tanque dagoa nadiuel. E em húa lagia que eftâ junto dele eftâ húa pegada dhomé, que dizé os mouros que he de noffo padre Adão, a qué chamão Baba adão, & cré que dali fubio aos ceos, & por final diflb ficou ali aquela pegada. E junto defta lagia eftâ húa cafi- nha como hermida em q eftão duas fepulturas onde dizé q forã fepul- tados os corpos de Adão & Eua: & fobrefte tãque que digo eftâ húa aruore que dâ húa baga que fe parece cõ Amoras de filua quando deixão de fer vermelhas & fe querem fazer negras: de que agora os noífos fazem
  • Livro II, Capitolo XXII 26 r cotas defpois que fam fecas, porque ficão muito duras. Pola openião que os mouros té que defte pico fubio Adão ao ceo, de muyto longe vão eles ali em romaria em trajos de peregrinos, veftidos de peles dalimarias, cin¬ gidos com cadeas & leuão botões de fogo nos peytos, & nos braços, pera que leué chagas abertas por feruiço de deos & de Mafamede, & de Baba adão: & antes q chegue a efta ferra vão fempre por terras alagadiças em que ha multidão de fambexugas q fe pegão nas pernas, & todos leuão facas pera as defpegar, & ao pico não podem fobir fe não por efcadas de cadeas que eftão dependuradas ao derredor dele, & fam tão grolfas que he efpanto: & os degraos fam de paos que eftão metidos polos fuzis: & porque fe gaftão com a muyta gente que fobe por eles cada perigrino leua por fua deuação hú pao pera meter por degrao onde achar algú podre ou quebrado, & fobidos ao piquo lauanfe no tanque, & fazem luas ora¬ ções fobre a lagea, & dentro na hermida, & coifto creé que ficã abfolutos de culpa & pena de todos os peccados que tinhão. Antre os portos deftas ilhas ha fete que fam os principaes, & fam grandes cidades, principal¬ mente Columbo que he da banda do fui, onde fempre eftâ daffento elrey de Ceilão. Outras cinco eftão també da banda do fui .f. Panatore, Ve- rauali, Licamaon, Gabaliquamma, & Torrauair. E da banda do norte eftaa outra que fe chama Manimgoubo. E em todas eftas cidades que fam de calas palhaças fe vé meter no mar rios dos quaes fam algús muyto grandes & fermofos que correm pela ilha: & andã nelles lagartos dagoa. A todas eftas cidades principal¬ mente a de Columbo vã carregar muytas naos de canela, dalifantes & de pedraria, & leuão ouro, prata, panos de cãbaya, açafrão, coral, & azou¬ gue. E eftoutras cidades tirando a de Colúbo fam gouernadas por hus fenores que fe chamão reys: & afti tem eftado fegundo feu coftume: poré todos dam vaffalagem & obediência ao principal rey que eftâ em Columbo & a ele conhecem por fenhor. E todos fam gétios, & alli fam os mora¬ dores de toda a ilha, faluo q em todolos portos de mar ha muytos mou¬ ros mercadores q eftã a obediência dos fenores da terra. A lingoa dos gentios he Canarâ, & Malabar: eles fam homés que entende pouco em feytos darmas: porque a fora fere mercadores fam muyto dados a boa vida & effeminados: fam bé apefloados & quafi brancos, & os mais delles barrigudos: & té a barriga por hõrra. Andam nuus da cinta pera cima, & pera baixo fe cobré com panos de feda & dalgodão que chamão pato- las, trazem toucas nas cabeças, & nas orelhas arrecadas muy ricas douro & pedraria & aljôfar groflo, de tanto pefo que fazé eftirar as orelhas, tanto que chegão ao pefcoço. A géte pobre defta ilha coftuma venderfe, & dafe hú homé por duzentos & trezentos reaes.
  • 2Ô2 Historia da índia CAPITOLO .XXIII. De como dom Lourenço chegou a ilha de Ceylão & foy ter ao porto da gale, & do que hi fe\. E de como fe partirão pera Portugal Ioam da nova & Vafco gome\ dabreu. INdo dom Lourenço na volta deita ilha, foy ter ao porto de gabali- quãma, a q os noífos agora chamão ho porto de gale: & fabida fua chegada pelo fenhor da terra, temeofe de lhe queymar as naos queí- tauão no porto, ou de lhe deitruir a terra por quanto ele não tinha gente cõ que ie atreueffe a defender, pelo qual mãdou logo recado a dom Lou¬ réço cometendolhe. paz & amizade, & que faria tudo o que foffe rezão. E porque eite concerto fe não podia fazer fem algú dos noífos ir a terra, dãdo el rey arrefés pera fegurança de quê foffe mandou do Louréço a terra a hú caualeyro chamado Fernão cotrim pera que fizeffe ho concerto: & chegado âs cafas del rey achou ho queítaua no cabo de húa muyto grande cafa aflentado em hú eítrado muyto rico feito a modo dhú altar, tinha veítido hú bajo de feda, que he húa veítidura de feição de jaqueta çarrada, q era de feda, & cingido hú pano da mefma feda que lhe che- gaua ate ho giolho, & dali pera baixo defcalço com muytos aneis nos dedos das mãos, & dos pees: & em lugar de coroa tinha na cabeça húa carapuça com dous cornos douro, & pedraria muyto fina, & do mefmo tinha grandes arrecadas: de cada ilharga do eítrado eítauão tres dos feus fidalgos que tinhão acefas fenhas tochas de cera poíto que era de dia, & aíli auia acefas outras muytas tochas mourifcas de prata, de cada parte da cafa q eítaua chea de muytos fidalgos & nobres da terra, & ãtreles ficaua hú caminho pera ferventia, & por eíte foy Fernão cotrim onde el rey eítaua de q foy muy bem recebido, & defpois aifentarão ambos ami¬ zade & trato: & q elrey daria cada anno de tributo a el rey de Portugal cento & cinquoenta quintaes de canela, & iíto foy aíli afletado fe ho vifo- rey diífo foífe cõtente & logo eíta canela foy étregue a dõ Louréço: & em quanto fe carregaua mandou ele meter na praya por confentiméto del rey hú padrão de pedra com as armas de Portugal dhum cabo, & a diuifa da Sphera do outro. E iíto em final que aquela terra eítaua é paz cõ os Portuguefes. Acabadas todas eítas coufas, dõ Lourenço fe tornou pera Cochim & de caminho tomou algúas naos de mouros. E chegado a Cochim deu conta ao viforey do que lhe acontecera. E do que deyxaua affétado com ho fenor de Gale que ele cuydaua que era ho proprio rey de Ceilão, & folgou muyto cõ a canela pera a mandar a Portugal por
  • Livro II, Capitolo XXIIII 263 Iohão da noua: ou por Vafco gomez Dabreu, cujas naos fe começauão de carregar pera partire pera Portugal: porque vedo ho viforey que por amor dos carregos que trazião auião de ficar na índia õde era neceffario que luernaíTem ate os prouer pera que podeffem feruir, & inuernando era neceffario que fe tiraffem as fuas naos a mõte pera ho que não auia apa¬ relhos, & pera as meterem no rio auia medo q fe perdeffem: porque erão de quoatrocetos toneis cada húa, & ho rio não era tão alto como elas reqrião: pos em confelho fe feria melhor auenturalas a perderéfe ou man- dalas pera Portugal: & pelas rezões q ja difle lhe foy aconfelhado que as deuia de mãdar: & ifto acordado deu o viforey a efcolher a Vafco go¬ mez dabreu & a Iohão da noua fe queriã ficar na índia fem as naos & que lhes daria algús nauios ou irfe nelas pera Portugal: dandolhe todas as rezões que fe derão no confelho. E eles efcolherão tornarfe nelas pera Portugal, ainda que começaua de fer tarde pera dobraré ho cabo de boa Efperança: & aífentada fua partida por quãto a índia ficaua fem capitão moor do mar deu efte officio a dõ Lourenço feu filho, & logo ho defpe- dio cÕ a armada que foffe vifitar as fortalezas de Cananor: & Danjadiua. E correffe aquela cofia, & a guardaffe que não iaifiem dela nhúas naos de mouros cÕ efpeciaria. E deulhe húa prouifão pera recolher debaixo de fua capitania quãtos capitães lá andauão pera q lhe obedeceífem como a ele viforey. E defpois defpachou Iohão da noua, & Vafco gomez dabreu a q entregou hú alifãte pera leuar a el rey feu fenor por fer alimaria tão eftranha em Portugal, pera onde partirão é Feuereiro do ano de mil & quinhétos & feis, & Iohão da noua arribou do cabo de boa Efperança por fazer a fua nao tanta agoa que fe não atreueo a paífar auãte, & luer- nou na ilha de Zãzibar, & Vafco gomez inuernou em Moçãbique: porq era muyto tarde quãdo hi chegou, & vétauão ja os ponetes. CAPITOLO .XXIIII. De como dõ Loureço foy darmada â cofia do Malabar, & como Jòube em Cananor que fa\ia el rey de Calicut húa grande armada pera pe- leiar coele. DEspois de partido dõ Lourenço de Cochim foy correndo a cofia ate a índia, & fabédo que Manuel paçanha não tinha neceífidade de nada tornoule a Cananor & de caminho tomou algúas naos de mouros: & dcfêbarcou em Cananor pera cÕ a gente de fua armada aju¬ dar a Loureço de brito que eftaua acabãdo de fazer a fortaleza, porque qria ho viforey q fe acabafle de fazer antes do inuemo, que receaua q
  • Historia da índia 264 nele a cercafle os mouros: porq fabião que fe lhe não podia acodir. E ja em Feuereiro de mil & quinhétos & feis eftãdo dõ Lourenço hú dia def- pois de comer na fala da torre da menajem étrou hú dos noflos, & vinha coele hú homé branco veftido como mouro q fe deytou aos pees de dom Lourenço, & lhos beyjou dizédo que ouuelTe piedade dele q era criftão, & q lhe qria falar aparte: porq vinha de Calicut. Ouuido iflo por dõ Lourenço meteofe coele na fua camara, & metidos, ho homé lhe diffe que auia nome Luis patrício, & era natural de Roma, dõde auia anos q par¬ tira a ver múdo: & defpois de ter vifta a mor parte Dafia tornãdofe pera Europa fora ter a Calicut, onde lhe fora forçado deterfe por amor da guerra q auia antre os noffos, & os de Calicut: & no tépo deita detéça topara dous Milanefes q lâ andauão fugidos dos noflos auia algús anos: & lhes vira infinar aos Malabares como fizeflé húa galeota que fizerão muyto be feyta: & lhes vira fundir húa Bõbarda muyto grofla de metal q lãçaua hú pelouro muy furiofo. E eftes lhe diflerão q por fabere fundir artelharia erão muy eítimados del rey de Calicut, & lhe tinhão fundido quatrocentas peças dartelharia, & tinhão infinados algús gétios a fundila, & a ferem muyto bõs bõbardeiros. E q el rey de Calicut cõ todos os da cidade efteuerão cõ muy grãde medo quando ho viforey paffou de cami¬ nho pera Cochim q cometefle Calicut: & coefte medo ajuntara muyta gete de peleja, & grãde armada. E vedo q as não cometera, cobrara coração pera mãdar aos feus q pelejaflem cõ os noflos no mar, & efpe- rauão de os catiuar todos: porq fabião q a noffa armada andaua efpa- lhada, & que ele eftaua em Cananor: & tomados os que andauão no mar parecialhe que feria muyto pouco tomar os da terra. E porque fe iflo não foubefle auia grandes goardas em Calicut, & não deixauão fair pera fora a nhú eftrãgeiro ainda q fofle mouro: & ho mefmo fizerão a ele que cuy- dauão que ho era, ate que teuera maneira pera fugir fecretamente, & ir dar auifo ao viforey do q fe ordenaua em Calicut: E enformado dõ Lou- réço, be miudamente do que efte Luis dizia, mandou ho ao viforey na galee de Ioão ferrão, que éformado dele ho tornou a mandar a Cananor na mefma galee, efcreuendo a dom Lourenço que recolhefle a noffa ar¬ mada: & pelejafle cõ a frota de Calicut, & que lhe lembrafle q pelejaua pola fe catholica, & por fua hõrra, poriflo que fizefle como Chriftão, & como feu filho. E trabalhafle por auer os dous milanefes que ãdauão em Calicut. E que defle a Luis quanto dinheiro lhe pedifle pera efta nego¬ ciação, porque ele a auia de fazer. Porem não ouue efeito porque eftando os Milanefes demouidos per meyo de Luis pera fe tornar aos noflos forão fétidos dos mouros, & logo forão mortos muy cruelmente, & afli pagarão ho mal que fizerão.
  • Livro II, Capitolo XXV 265 CAPITOLO .XXV. De como dó Lourenço foy btifcar a grande armada de Calicut, & onue nijla dela. DEterminando dõ Louréço de pelejar cõ a armada del ray de Cali¬ cut como lhe ho viforey mandaua recolheofe â fua frota de q erão os capitães Felipe rodriguez na nao fpera, Rodrigo rebelo na Aueyro, q era nao de .cccc. toneis, & hia coele do Louréço, Fernão ber- mudez na taforea, Nuno vaz pereira, lopo chanoqua, Gõçalo de paiua & Antão vaz: é carauelas, Ioão Serrão & Diogo pirez amo de dõ Louréço em galês, & hú caualeyro chamado Simão martinz e hú bargãtim, & efte era tão valente homé de fua peífoa que dizia ho viforey que auendo de poer fua honrra em defafio que ho encomendaria a Simão martinz, & outro capitão com que fe çarraua ho numero de õze velas em que hirião ate oytocentos homés. E vendo Ioão homé que eftaua em Cananor em¬ barcar dom Louréço embarcoufe coele ainda que eftaua agrauado do vifo¬ rey por lhe tirar a capitania da carauela, como ja difle. E aos quinze de Março de mil & quinhétos & feis andando dõ Lourenço ao longo da cofta começou daparecer a frota dos Imigos que andaua em fua bufca, & era de duzentas & oytenta velas .f. oytenta & quatro naos groffas, & cento & vinte quatro paraôs grandes é q auia mouros & Naires de peleja le coto, q os mais erão frecheyros, & algõs efpígardeyros, & outros de lãças, efpadas & efeudos, & todos armados de laudeis de feda, & cela- das, & galhardos de coyros de bufaros laurado tudo de feda de cores, & muytos trazião manilhas douro & pedraria, & todas eftas velas muyto bem artilhadas de muyto boa artelharia, & como erão tantas como digo. E hião juntas a multidão dos maftos parecia húa mata muy efpeffa, & adi fazia fombra. E vendo dom Lourenço efta armada tão groffa entrou logo em confelho com os fidalgos & capitães & outras peffoas principaes de fua armada, em que moftrou a carta que lhe feu pay efereuera em que lhe mandaua q pelejaffe com os imigos. E fobriffo lhe difle que fe lembraflem de noffo fnor & que de boa vontade fe ofreceífem à morte por fua fanta fê, pois elle de muyto milhor padecera por os faluar, & que lhes lébraffe que era aquele hú dia em que fem feré rogados lhes deuia de lébrar os muy grandes tormétos que ele padecera por fua faluação, & não por intereffe q lhe niffo foffe, fenão pera q liurãdoos de feus pecca- dos os leuafle â gloria: poriffo q ho acõpanhafle muyto ledos pera pelejar com aqueles cães de que tiueffem por muy certa a vitoria, porque noffo 34 Tono I
  • 206 Historia da índia fenor tinha muyto grande cuydado dos Chriftãos, nem auia nuca de fofrer q a fua fanta fê foffe abatida. E em quanto ele hia fazêdo efta fala hu capela feu fe fubio ao chapiteo da nao, & moftrando hú crucifixo a todos os da frota dizia pregandolhes q fe lembraffem dos mandamentos de deos, & que ele perdoaua de fua parte os peccados a todos aqueles que fe arre- pedeffem de coração & cõ tenção: de pelejar por fua fãta fê, & dizia Ora filhos meus vamos cotra os imigos de boa votade com confiança que os auemos de vencer, pois leuamos por capitão a noffo fenor Iefu Chrifto crucificado por noffos peccados com ho grãde amor q nos tem. E ho fer- uor com que dezia eftas palauras, & juntamente a vifta do crucifixo co- moueo a todos que choraffem com deuação, & que defejaffê de morrer naquela batalha por amor de noffo fenor & affi ho dizião, & por iffo foy affentado que pelejaffem cõ os imigos & que dõ Lourenço, & Nuno vaz pereyra porq leuauão melhor gête & mais, aferraflêm cõ a capitaina, & fota capitaina dos imigos q erão as môres de toda a frota & hião diante de todas, & enquanto os noífos hião nifto os Imigos que leuauão ho vento a popa fe chegauão de cada vez mais pera os noífos que hião pela bolina: & não podião tanto furdir, & fendo dõ Lourêço a tiro de bom¬ barda das duas capitainas mãdoulhes tirar cõ a artelharia pera ver fe trazião os imigos muyta: & ho mefmo fez Nuno vaz pereyra: & eles derão tal moftra domes que vinhão bê prouidos, & por acalmar ho veto não ouue efte dia mais batalha. CAPITOLO .XXVI. Da muyto fatnofa uitoria que dom Lourenço, & feus capitães ouuerão da armada de Calicut, & como defpois dela fe partio dom Lourêço pera Cochim. EAo outro antes de ventar ho terrenho mandarão os capitães mòres dos Imigos algús recados a dõ Lourêço dizendo q eles hião pera Cananor a tratar em fuas mercadorias & com eíTe propofito hião & não de pelejar coele nem ho auião de fazer que os deyxaffe ir em paz, ao que dõ Lourenço refpondeo que ele era bem lêbrado de quam mal os mouros goardarão fempre a fê aos noífos, como erão teftemunhas os q matarão em Calicut, & os quatro mil cruzados que roubarão na feitoria: por iffo que fe não auia de fiar deles, q paffaffem fe podeffem, porque auia de fazer que foubeffem quanto pefauão os golpes dos noffos, & que esforço era ho feu, ao que os Imigos refponderão que pois aíli queria que Mafamede os defêderia & deftruiria feus Imigos, & começãdo de
  • Livro 11, Capitolo XXVI 267 ventar derão as capitainas dos contrayros as velas poendo as proas noffa frota que eftaua da bãda da terra obra dhú tiro de bõbarda de Ca- nanor, donde fe podia ver a peleja, & porque elrey delfa cidade a viffe & foífe teftemunha da valentia dos noflos, fofreo dõ Louréço efperar ali os Tmigos, & é quanto fe chegauão a ele fez almorçar os feus. E defpois lhes dilfe, Ora fus hirmãos agora he tempo que cada hú moítre feu esforço & valentia, & dizendo ifto como as duas capitainas eftauão ja a tiro de lança dele poé a,proa neles, ao que eles derão muy grades gritas que parecia que furauão ho ceo, & era coufa medonha de ver ho arroido das trombetas, & doutros inftrumétos que trazião, poré dom Lourenço que os não tinha em conta com a efperãça em noífo fenor que lhe daria vitoria foy abalrroar a mayor das capitainas q trazia feifcentos homés de peleja, & tres vezes deytou ho arpeo, & outras tãtas lho defaferrarão os immigos como homes que receauão de pelejar cõ os noíTos. Mas da quarta vez foy aferrada, & os noífos faltarão logo dentro muy oufada- mente, principalmente dõ Lourenço, Felipe rodriguez, Ioão homé, Fer- não perez dandrade, Vicente pereyra, Ruy pereyra & outros, & come- çoufe hõa crua batalha, & dõ Lourenço pelejaua com húa alabarda pequena com que fazia affaz de dano nos immigos, ferindo hús & ma- tãdo outros fem lhe valer a multidão de frechas que tirauão, & outras armas offenfiuas de que fe aproueytão, porque também os noífos vendo a valentia do feu capitão môr, por fe parecerem coele fazia coufas muy aífinadas: & de tal maneyra pelejarão que quãtos immigos eftauão na nao forão todos mortos. Porque cõ verem que erão muyto mais que os noífos fempre lhes pareceo que ficaífe coeles a vitoria: & ifto os enganou pera morrerem todos. E cõ tudo muytos dos noífos forão aqui feridos, antre os quaes forão Fernão perez dandrade, Vicente pereyra, Ioão ho¬ mem: & outros a que não foube os nomes. Vencidp efta nao foy dom Lourenço acodir a Nuno vaz pereyra que eftaua em grande perigo, por¬ que indo pera abalrroar a outra nao ficou atraues dela: & ho vento & a agoa ho deitarã debaixo da proa da nao por fer a carauela pequena em refpeyto da nao, que com ho arfar que fazia com a proa ouuera de meter a carauela no fúdo: & mais acodião todos os immigos â proa & como eftauão dalto podião ferir os noífos â fua vontade, & tratauão os mal. E eftando nefte perigo chegou dom Lourenço, & aferrou com a nao, & en- trouha. E fentindoho os immigos acodirão logo pera lhe defenderem a entrada, & ferião mais de quinhentos: & coifto ficou Nuno vaz defaliuado & pode entrar na nao, & entrou pela proa de maneyra que ficarão os im¬ migos antrele, & dom Louréço. E também aqui foy a peleja muy braua, & os immigos forã todos mortos fem efcapar nenhú. Os outros que virã
  • 208 Historia da índia defbaratadas eftas duas naos que cuydauão q ambas abaftauão pera def- baratar a noífa frota remeterão a ela com muy grade impeto, & como as fuas velas erão tantas como difle fizera as apartar húas das outras. E apartadas foy logo cada húa cercada de quinze ou vinte das dos immi- gos, & algúas de mais, de maneyra que quafi fe não enxergauão, môr- mete com as nuuens de frechas que os immigos tirauão, & com os infin¬ dos tiros dartelharia que defparauão. E era ho arroydo tamanho que não fe ouuia ninguém pofto que efteuefle muyto perto#hú do outro, & os nofTos com quanto eftauão tã cercados: & que auia mais de duzentos pera cada hú, & que trabalhauão muyto por entrar coeles. Daua lhes noffo fenhor tamanho esforço que fe defendiã dos immigos que os não entrafTem: & não foomête fe defendião, mas fazião grande deftruyção neles. E hú dos capitães que mais marauilhofamête a fez foy Ioão ferrão, o q algús aue- rão por impoffiuel. Porque lhe aconteceo por vezes achar fe cercado de cincoenta paraos muy bem artilhados, & tirarenlhe todos & não lhe faze¬ rem nenhú nojo na galê, nem lhe matarem nenhú dos feus, bem que lhe ferião muytos de frechadas. E durando aíli a batalha aconteceo que. ho bargãtim de Simão martíz fe apartou hú pouco da noffa frota pera ho mar, o que deu caufa a quatro paraos dos immigos ho hirem logo cer¬ car: & como ho bargantim era rafteiro & os paraos altos, alem de ho afogare antrefi ficauão os immigos dalto, & tratauão muyto mal aos nof- fos, de frechadas, & zagunchadas, com que todos forã feridos, o que eles lhe não podião fazer por quão baixos eftauão, né menos podião fazer nojo aos paraos por não teré poluora, que a tinhão gaftada dos muytos tiros q tinhão feytos: & em tanta eftreiteza fe virão que por força fe ou- uerão de recolher ao toldo do bargantim pera ali fe empararé dos arre- meffos dos Imigos: de que hús quinze faltarão no bargantim dando ja os noffos por vencidos. O q vendo Simã martinz como era muy esforçado não ho pode fofrer, & remete a eles cÕ a efpada leuãtada dizêdo muyto alto. O bÕ Iefu ajudanos porq tua 1'anCta fê nã receba defhõrra. E dizendo ifto entraua pelos immigos ferindo os tão de preíTa & tão brauamete que derribou feys mortos, & os outros efpantados de tal valétia derão cõfigo no mar & nadãdo fe forão a outros paraos, do que os que eftauão neles enuergonhados fe ajuntarão logo outros quatro paraos, & forão focorrer aos que tinhão cercado ho bargãtim, que com o que Simão martinz fez eftaua mais defaliuado. E vendo Simão martíz ho focorro que vinha co- brio muy alinha hú barril que fora de poluora cÕ hú pano grande pintado pera que aíli cuberio pareceffe que era algúa grande bombarda, & fez que lhe punha ho fogo pera a defparar, o que vifto pelos immigos, & cuydando que era verdade ouuerão tamanho medo de os meter ho tiro
  • Livro II, Capitolo XXVI 269 no fúdo q fe afaftarão. E liure Simão martinz de tamanho perigo teue lugar de fe tornar a ajuntar com dom Lourenço, que nefte tempo abalr- roara cõ fete paraos & ajudado dos feus os defpejara dos inimigos, ma¬ tando os mais deles: & cõ a artelharia meteo no fundo dez naos, de que húa hia carregada dalifãtes, & afli ho fizerão muy esforçadamente todos os outros capitães, & os de fuas capitanias, fazedo grades façanhas. E por iffo fe os immigos defbaratarão & fugirão cada hú pera onde podia. Pelo qual dom Lourenço deu muytos louuores a N. S. & mais porq em tamanho cõfiito como aquele fora lhe não matarão ningué, & ifto lhe fez dizer a todos q pois tinhã vencido que feguiflem a vitoria. E derã a pos os Imigos que fugião da noífa frota, como q ela fora de ce velas groffas & com quanto era ja noyte não ceffarão os noffos do encalço q durou quafi toda ela, porque ho luar os ajudaua, dandolhe claridade pera ve¬ rem os Imigos em que fizerão efpãtofa deftruição alli de mortos como de feridos, & meterão húa nao groífa no fundo com bõbardadas em que forão mortos quinhétos homés juntos & afli foy defbaratada a frota dos Imigos de horas dalmorço ate toda aquela noyte, fem dos noffos falecer peffoa algúa, & dos immigos morrerão paffante de tres mil aífi na frota como no alcanço, fegundo fe defpois foube per quem dom Louréço os mãdou cotar, & afora outros muytos que forão afogados no mar, de q cõ a marê fahião defpois tantos na praia que fe fazião deles bardas muy altas. E nas naos que os noffos tomarão que forão noue foy achada muyta riqueza, & forão tomadas duas bandeyras del rey de Calicut. Auida efta vitoria dõ Lourenço fe tornou a Cananor, & na ponta achou Lourenço de brito com todos os da fortaleza poftos em armas, & as portas dela fechadas, porque tãto que a batalha foy começada crendo os de Cananor que a vitoria auia de ficar com os de Calicut fe ajuntarão todos ao der¬ redor da fortaleza pera lhe darem combate como dõ Lourenço foífe def- baratado & por iffo mãdou Lourenço de brito fechar as portas, & eftaua afli apercebido, & quando vio dom Louréço tornar com a vitoria choraua de prazer com todos os outros, & os mouros de pefar por a deftruição que virão fazer em feus naturaes porque muytos dos q efcaparão da ba¬ talha forão varar em terra onde efcaparão. E fabida efta vitoria por el rey de Cananor cõfiderando ho grande esforço dos noffos começou de lhe querer muyto mayor bé que dantes, & telos em muyta cõta, & fe fora em fua mão ele tomara vingãça nos immigos que fe acolherão a fua terra, mas não podia, porque os mouros como diffe podião muyto. E foy logo vifitar Dom Lourenço: & dar lhe os prolfaças da vitoria com muytos louuores. E defpois defta milagrofa vitoria dõ Lourenço mandou edificar na põta de cananor em húa hermida de mouros q ali eftaua outra da auo-
  • 2 70 Historia da índia cação de noífa fenora da vitoria, a cuja honrra prometera de a fazer quãdo entrou na batalha, fe lhe deos deyxaífe fayr cÕ a vitoria. E algús dizem que deixou ho cuidado de fazer a hermida a Lourenço de brito, & que ao outro dia fe partio pera Cochim, onde ho viforey eítaua com grade fadiga do fprito, efperando a noua da batalha. E quando vio dom Lourenço viuo, nã cabia de prazer: & fez muyto grande feita a quantos hião coele, louuando muyto feu esforço. CAPITOLO .XXVII. Do que acõteceo a Frãcifco danhaya indo pera moçambiq. E de como Pero Barreto de magalhães com os outros capitães chegarão â índia. DEspois de acabada a tranqueyra de çofala mãdou ho capitão Pero danhaia húa armada a correr aquela cofta ate Moçambique como leuaua por regimento del rey de Portugal por quem hia prouido pera capitão môr defta armada Francifco danhaia, que foy no nauio em que fora de Portugal. E leuou em fua cõferua no nauio de Ioão de quey- ros, em que hia por capitão hú criado de Pero danhaia que ho auia íepre de feguir, & leuou mais em fua companhia ate Moçambique, a Gõçalo vaz de goios, & a Ioão vaz dalmada que dahi fe auião de ir {5era a índia & chegados a Moçãbique, que fe apartarão indo Frãcifco danhaia fô fem ho outro nauio tomou por força darmas húa nao de mouros de Cãbaia carregada de mercadoria em que catiuou feliéta deles, & indofe coeíta prefa a Moçãbique determinado de carregar coela ho feu nauio, & dey- xar hi ho outro, & tornarfe a çofala húa noyte por mâ vigia fe perdeo cõ a nao dos mouros em hú bayxo perto de terra, & de húa ilha â que com bayxa mar podião ir a pê enxuto, & neíta ilha fe faluou Frãcifco danhaya com os que leuaua que todos efcaparão, & perdeofe a mercado¬ ria fomente, & primeyro que fe acolheífe a eíta ilha mandou matar todos os catiuos porque fe lhe não leuãtaffem, & vedofe adi perdido ouue con- felho cõ a géte que fe foliem a Quiloa q eítaua perto, porque não tinhão outro remedio, & forão no feu batel a que fizerão grãdes arrombadas, & de caminho tomou hú zãbuco de mouros que hia carregado de Marfim que todos forão mortos & tomado efte Zãbuco mudoufe a ele parte da gente do batel, & aífi chegou à Quiloa em vefpera de Ramos do anno de mil & quinhétos & feis. E aqui achou Pero barreto & Gõçalo aluarez q não poderão paliar com os leuantes, & eítaua Lucas dafonfeca que fe perdera da armada do viforey, & inuernara ali: & eítauão també Gon- çalo de goios, & Ioão vaz dalmada, & fabendo ho capitão de Quiloa
  • Livro II, Capitolo XXVIII 27r como fe perderão no bayxo ho nauio de Francifco danhaya, & a nao de Cambaya mandou lâ tirar de mergulho a artelharia do nauio: & aíli fe tirou, & tãbem a mòr parte da mercadoria da nao de Cambaya, & vendo Francifco danhaya que não tinha embarcação em q fe tornafle a çofala, & q fe Pero barreto eftaua de caminho pera a índia determinou de fe ir coele, porq foy aconfelhado que ho fizeffe. E preftes Pero barreto pera fazer viaje partiofe de Quiloa pera a índia fegunda feyra da lomana mayor, & leuou debayxo de fua capitania môr Ioão vaz dalmada, Gon- çalo aluarez, Iorge mendez, & Lucas dafõfeca, & ao fair da barra deu a fua nao em hú bayxo, & perdeofe, & com tudo nam deixou de fe partir, & embarcoufe no nauio de Lucas dafonfeca, porque ja quando fe perdeo, Ioão vaz dalmada, & Gonçalo aluarez erão fora da barra, & poito que fouberão a perdição da capitania não poderão tornar atras por ferem as corrétes muyto grandes & ho vento contrairo pera tornar. Afli que par¬ tido Pero barreto de Quiloa chegou a Melinde na fegunda oytaua de Paf- coa, e hi achou Ioã vaz, & Gonçalo aluarez que ho eftauão efperando, & por vir menécorio deles parecendolhe que acinte fe forão diante por ho não acompanharem lhes tirou as capitanias fem lhe querer leuar em conta a difculpa que lhe derão de não poderé tornar atras, & tiradas as capitanias tomou pera li a nao de Gonçalo aluarez, & a de Ioão vaz dal¬ mada deu â Payo de foufa que era feu primo, & atraueífando de Melinde pera a índia paffou aquele golfão em treze dias, & chegou a ilha danja- diua a dezoyto de Mayo do mefmo anno: & temendo que a fua nao & a de Pero de foufa & de Iorge mendez lhe deífem a coíta fe pafTaífe a Co- chim por fer entrada dinuerno, não quis paflar, & ficou ali inuernando & Lucas dafonfeca por fer ho feu nauio mais peqno fe atreueo a paflar, & indo coele muyta gente das tres naos que ficauão em Anjadiua foy ter a Cochim, onde contou ao viforey tudo ho que difle atras. CAPITOLO .XXVIII. De como foy começada a fortaleza de Cochim, & de como ho uiforey mãdou tirar os olhos a hú Naire de Calicut por húa treyção que lhe quifera fa\er. A Este tépo eftaua feyta grãde parte da fortaleza de Cochim, porque afora a grande diligccia que ho viforey punha em a fazer foylhe grande ajuda achar feytos os alicefles, & algua coufa das paredes como ja difle. E afli deixou começada húa fortaleza de madeira no paflo do vao que era ali muyto neceflaria pera efcufar goarda de nauios, fe el
  • Historia da índia 272 rey de Calicut quifeffe tornar a fazer guerra. E efta fortaleza mandou ho viforey acabar defpois, & foy capitão dela hú caualeyro chamado loão pegas, & a capitaina da fortaleza de Cochim foy dada a dom Aluaro de noronha q a leuaua de Portugal. E neftas obras leuauão os noífos muy grade trabalho porque como ainda não auia géte da terra pera ho fer- uiço, affi fidalgos como caualeyros, & todos os outros dahi pera bayxo trabalhauão continuamente: & hús erão cauouqueiros, & cayeiros, outros pedreyros, & carpenteyros, & outros fazião caruão pera as ferrarias, & varauão os nauios, & tudo ifto fe fazia com tam boa.vontade que mais não podia fer. E a fora a terem todos de feu natural pera ho feruiço de feu rey: & ho viforey lha acrecentaua com fer muyto brando & benigno pera todos, & muyto cõuerfauel. E fe ifto não fora não poderá aturar tanto trabalho. Ho viforey tinha efta ordem, leuantauafe ante manhaã & ouuia logo miflã com toda a géte junta, & dali fe hia coela ao trabalho, que duraua ate oras de comer: & defpois tòrnauãofe a trabalhar ate noyte, & ainda nela os noflos não- tinhão defcanso, porque vigiauão os nauios queftauão varados por os não queymarem os mouros. Adi que nem de dia nem de noyte nunca eftauão fem trabalho, né tão pouco fe guardauão os dias de fefta por neceffidade q auia. E jútaméte cÕ efte trabalho .do corpo tinhã outro é comer muyto mal, q íòméte os que comião â mefa do viforey comião pão frefco de trigo, cada peffoa hú a 'cada comer, & muyto pequeno: & algúas galinhas, pefcado & arroz. Mas os q não co¬ mião a ela não matauão a fome mais que cõ arroz, fem outra nenhúa meftura. E affi hús como os outros não bebião vinho, porque ho não auia. E aqueles que não comião mais que arroz perdião a cor & andauão empãturrados & doentes. E defte trabalho dos noífos fe efpãtaua muyto a gente da terra. E el rey de Cochim não podia acodir cõ mantimétos por fer a terra muy pobre deles. E eífe arroz q ho viforey tinha toma- rãno os noífos neflas naos de prefas. E durãdo affi efte trabalho foy ho viforey auifado fecretamente per húa malabar gétia que paífando ela per hú dos paífos de Cochim vira eftar nele hú parao bé efquipado de Mala- bares de Calicut: & que lhe dilíerão que eftauão efperãdo por hú Nayre Chriftão morador em Cochim, & cafado com húa nayra Chriftaã. E por lhe não parecer aquilo bé: lho dizia né ho viforey menos não ouue aquilo por bé, porq fabia que ho Nayre era natural de Calicut, & viera ter a Cochim moftrando que por agrauos que recebera del rey: & por fer fua tornada daquela maneyra lhe pareceo ter algúa cor de treyção, & por iífo ho mandou prender: & vendofe ho Nayre prefo diífe logo ao viforey que lhe deífe a vida, & que lhe diria a verdade: & ifto cuydando que fe fabia ho que andaua pera fazer. E feguro da vida pelo viforey lhe diífe
  • Livro II, Capitolo XXIX 273 que fua vinda a CochI não fora cõ outro propofito íenao pera ho matar, & qymarlhe a frota: & ifto per mandado del rey de Calicut que grãde- mente defejaua eftas duas coufas, ou qualquer delas quando não podeffe ambas & pera melhor executar fua determinação fe fingira agrauado del rey de Calicut, & fingira tornarfe Chriftão, & cafar cõ Chriítaã pera fe fiaré mais dele: & parecendolhe que eftaua muy perto de alcan¬ çar ho fim de feu propofito mãdara pedir aquele paraô a el rey de Cali¬ cut. Ouuido ifto pelo viforey não ho quis matar por lhe ter prometida a vida, mas mandoulhe arrancar os olhos per Ioão delacamara cõdeftabre dos bombardeyros da fortaleza: & defta maneyra ho mandou cõ húa carta a el rey de Calicut: em que dezia que fe não fora eftimar ele a vida dú Português mais que todo feu reyno, que ele fora a Calicut a ma- talo & a qymarlhe a cidade: Mas porque eftimaua mais a vida dum Por¬ tuguês que tudo aquilo ho não hia fazer. E defte recado ficou el rey de Calicut muy aflombrado, & muy receofo de ho viforey ir fobrele, & for- taleceofe muyto bem, & eftaua iêpre apercebido pera fe defender. CAPITOLO .XXIX. De como os mouros de çofala induzirão a el rey çufe que fe leuantaffe contra os nojfos & ho fe\ pelo qual foy morto: & como defpois di/lo morreo Pero danhaya capitão de Sofala. NEste tépo os noflos que eftauão na tranqueyra de çofala eftauão é muyta paz cõ a gente da terra & auia grande refgate douro, ho q os mouros fentirão muyto porq vião que lhe tirauão os noífos ho ganho que dãtes tinhão & de cada vez lho auião mais de tirar fe lhe não atalhafíem com os fazerem lançar da terra. E pera ifto fizerão crer a el rey çufe q os noflos nã erão ali vindos pera refgatar ouro foomente, mas pera lhe tomar a terra, porque ficaflem de todo fenhores do ouro que auia nela, & pera lha poderé tomar mais facilmente fe aflentauão nela com cor de tratarem porque fe fizeflem poderofos: & que fe ele os queria lançar fora da terra que então tinha muyto bom tempo, afíi por eles ferem muyto poucos & doentes, como por não lhes poder vir focorro de nenhúa parte: & que quãdo outros vieflem teria ele a fua trãqueyra, & artelharia, onde fe faria forte & defenderia. El rey çufe como ouuio que os noflos lhe querião tomar a terra dando credito a iffo tomoulhes logo aborrecimento, & pareceolhe bem ho confelho dos mouros & apercebeo fua gente pera ho executar. O que fabido por Acote ho defcobrio ao noffo capitão, prometendo lhe de ho ajudar com todo feu poder, & fe ir 35 Tomo I
  • 274 Historia da índia parele tres ou quatro dias antes que os mouros & a géte del rey deífe fobrele: & que teuefle grande tento, porque os mouros determinauão de ihe poer fogo âs cafas da trãqueyra com frechas de fogo que lhe auião de lançar dentro. E ido Acote ho capitão fez ajuntar os feus, que ferião quarenta homens ou pouco mais todos doentes, & ele também, & difle- lhes. Se não foubera fenhores & cõpanheyros as muytas façanhas fobre naturaes que os Portuguefes tem feytas defpois do defcobrimento da ín¬ dia poferame em grande afronta o que agora me diffe Acote, que el rey çufe induzido pelos mouros que morão em lua terra he tornado noífo im- migo, & manda fua géte fobre nos pera nos tomarem efta tranqueyra. E ho principal ardil em que fe fundão he deitarennos fogo dentro cõ fre¬ chas, pera o que com ajuda de noífo fenhor ja lhe tenho bufcado reme- dio: & efte ardil atalhado não ha mais que temer ajudando nos noífo feííor como eu efpero. Porque pofto q os immigos fejão muytos & nos poucos & doentes temos húa tranqueyra muyto forte, & artelharia que abafta pera defender q não polfam chegar a nos, & eles não a tem pera nos oífender, nem tem com que fe emparar dos noífos tiros, & mòr dano lhe podemos fazer com hum foo de húa vez que eles a nos em dous me¬ ies, por iífo não aja qué não folgue coefta afronta por mais fraco & doente q fe ache: porque noífo fenhor ha de fer cõnofco. E vede que ainda bé não veo logo nos mandou ho focorro donde ho menos efpera- uamos, q he de Acote que fendo cafre & mouro que por rezão auia de fer mais amigo de feus naturaes que noífo: ele me delcobrio a treyção, & me prometeo de nos ajudar com fua gente. Pois que he ifto fe não milagre de deos noífo fenhor, que fem ho merecermos o quer fazer aífi com nofoutros, demoslhe por iífo graças & louuores: & confiemos que pois nos defcobrio a treyção q nos ha de liurar dela & coefta fee nos comecemos desforçar & aperceber pera nos defender dos immigos. Ao que todos refponderão que aífi ho farião, & moftrarão todos muyto es¬ forço. E logo per mandado do capitão forão cheas dagoa muytas tinas pera apagar o fogo: & mãdou fazer preftes fua artelharia, & defcobrir as cafas da ola cõ queftauão cubertas porq ho fogo dos immigos não pe- gaífe nela. E ao outro dia chegou acote muyto de preífa acompanhado de cem cafres, & diffe ao capitão que vinhão os immigos. E com a vinda dacote forão todos muyto ledos, & derão muytos louuores a noífo fenor: & ho capitã os repartio logo por fuas eftancias. E nifto aparecem os im¬ migos da banda do fertão per antre hú palmar muyto bafto, & ferião mais de mil homés. Ho capitão mandou q não jugaífe a noífa artelharia ate que todos fe não defcobriífem: o que não tardou muyto que não fize- rão. E remetendo â tranqueyra cõ húa furia beftial, hús tirauã com muy-
  • Livro II, Capitolo XXIX 27S tas frechas de fogo, outros querião atupir a caua com os pees: & como forão defcubertos defparou a noffa artelharia & matou muytos deles, o que fez afaftar os outros: não que deixaífem ho combate de todo, fe não dar remetidas tornauão achegarfe â tranqueyra, & deitauão dentro fre¬ chas de fogo, tições acefos, pedras, & paos toftados, & recolhianfe logo ao palmar: mas não podia fer tão afinha que os noffos tiros os não pefcaf- fem. E nifto andarão ate noyte fem poderem fazer nenhum dano aos nof¬ fos: & por derradeiro fugirão de puro medo muyto deftroçados, que todo ho campo ao derrador da trãqueyra ficou cuberto de mortos: com o que fe não cõtentou ho capitão queftaua muy magoado da treyção que lhe el rey quifera fazer fem ter rezão pera iflò. E prouocãdo os feus a vingança coeffes que eftauão fãos, & com os menos doentes fe embarcou ao outro dia em dous bateis bem artilhados, & foy dar em Iangoe onde el rey eftaua. E como os immigos eftauão atimurizados do dia paffado- em vendo os noffos fugirão logo & recolherãfe nas cafas del rey: onde teuerão com os noffos húa muy afpera peleja fobre a etrada: & todauia os noffos entrarão fazendo grande matança nos immigos. E vedo fe el rey entrado, & fentindo os noffos na cafa em que eftaua, com quanto era velho & cego não perdeo ho coração que fempre teuera, & começou de tirar com as azagayas q tinha a par de fi: & acertou de dar com húa no pefcoço ao noffo capitão & ferio ho pouco. O que vifto pelo feytor reme- teo a el rey & cortoulhe a cabeça, & com fua mòrte fe defbaratarão de todo os Imigos & fugirão, & os noffos ficarão fenhores das cafas & do lugar, a que ho capitão não quis fazer mais dano por fer ja morto el rey çufe: cuja cabeça ho capitão môr mãdou pregar no bico dhúa lança & aruorala diante da trãqueyra pera que os da terra a viffem, & le efcar- mentaffem pera goardaré lealdade aos noffos. E pera que os animaffe a iffo, & deffe a cote ho galardão q merecia feio rey de çofala, & coiffo ficou a terra de todo pacifica. E da hi a algús dias adoeceo ho capitão de febres, & morreo: & os noffos fizerão capitão ao feytor, que auia nome Manuel fernãdez, que como ho foy fez dentro na trãqyra hú cobelo de pedra & cal. E por efte feruiço ho fez defpois el rey dom Manuel fidalgo de fua cafa, & lhe deu apelido de menajem por amor do cobelo que fez. Deu lhe por armas húa torre de menaje azul em campo verde, & encima da torre húa cabeça dú rey negro por amor del rey çufe que ele matou, poré ho feytor durou pouco nefta capitania: porq fabendo ho viforey na índia a morte de Pero danhaia mandou por capitão a çofala a Nuno vaz pereyra, & por alcayde mòr a Ruy de brito patalim, & no mefmo nauio em que eles forão fe foy Manuel fernandez pera a índia, & não quis tornar a fer feitor.
  • Historia da Lídia 27 6 CAPITOLO .XXX. De como partio pera a índia Trijlão da cunha por capitão môr da frota que foy pera lâ no anno de /eis, & do que pajfou na uiagem, ate chegar a Moçambique. COmo quer que a el rey de Portugal lhe pareceffe que ho principal ponto em que confiftia ho alfento da índia era em lançar fora dela aos mouros do mar roxo, porq eles fazião aluoroçar os reys do Malabar determinou de bufcar maneyra cõ q lhe tolhelíe a nauegação que fazião pera a índia afli do mar roxo como do eftreyto da Perfia: & a maneyra q achou pera ifto foy mandar fazer naquelas partes algúas fortalezas prlcipalméte na ilha de çacotora fituada ãtre ho cabo de Far- taque & ho cabo de Goardafum que fora de Chriftãos & ao prefente tinha vfurpado feu fenorio el rey de Fartaq que era mouro. E tãbem naquela paragem determinou de trazer húa armada por quato os mouros que vinhão do mar roxo não tinhão outro caminho fe não por ãtre eítes dous cabos onde eftaua efta ilha, & pera fazer eíta fortaleza efcolheo a Triftão da cunha fidalgo de fua cafa a quem fez capitão mòr da frota que auia de mandar a índia no ãno de mil & quinhétos & feys que foy de oyto naos groffas & hú nauio de gauea e húa carauela. Das naos forã por ca¬ pitães a fora ele que hia na nao Santiago, Aluaro telez na garça, Lionel coutinho na leitoa velha, Ruy pereyra coutinho em fão vicente, Iob quey- mado na fua nao, Ruy diaz pereyra alferez mòr em fão jorge, Ioão gomez dabreu na judia, Aluaro fernãdez de íintra hirmão de Gafpar gõçaluez, na nao de lagos em que hia também Andre diaz alcayde pequeno de Lis¬ boa. E as mais deftas naos erão darmadores a quê as el rey fretou. Da carauela era capitão hú Triftão aluarez moço da camara delrey, & do nauio q auia nome fanto Antonio hú criado de Triftão da cunha: porq ho nauio era do mefmo Triftão da cunha com quem auia de ir Afonfo dalbuquerque, que cõ Francifco dalbuquerque fizera em Cochim ho pri- meyro caftelo. E por fer pefloa em q el rey tinha muyta confiança pola experiencia q tinha dele lhe deu a capitania mór da armada que auia dandar no cabo de Goardafú cõ poder de Mero & mifto império tirando que cometédo os capitães que ouueffem dandar coele, cafos por onde me- receífé morte lha nam daua, mas prefos com os autos de fuas culpas os mandaria a el rey que os caftigaífe & afli iria a chamado do viforey quãdo ho mandaffe requerer pera feruiço del rey, & por galardão do fer- uiço que el rey efperaua de aqui receber Dafonfo dalbuquerque lhe deu
  • Livro II, Capitolo XXX 277 hú aluara de fubceflao da gouernança da índia, acabando ho viforey tres annos que lhe erão ordenados pera gouernar, ou fe faleceífe primeiro, & efte lhe foy dado çarrado, & aíTelado: & dizia no fobrefcripto. Efte fe abrira quãdo Afonfo dalbuquerque ho requerer, & ho fobrefcripto afinado por elrey. E mais lhe deu outro q podeífe tomar em feu nome os que lhe bem pareceífe, & aífétalos em moradia, & ordenoulhe logo os nauios & capitães que auia de trazer em fua armada no cabo de Goardafú, os quaes forão afora ele que hia na nao Cirne em que tinha algúa parte, Francifco de tavora em húa nao grofla que fe chamaua ho rey grande, Manuel telez barreto capitão do rey peqno, Antonio do çãpo da nao San- tifprito, Afofo lopez da cofta dhúa taforea: & 6 Moçambique ou em Qui- loa lhe auia Triftão da cunha de dar outro capitão q fe chamaua Pero quarefma que partira de Portugal ho anno paífado, & andaua no trato de Quiloa pera çofala: & adi lhe auia de prefazer quatrocentos & cinquoéta homés q tantos queria elrey q trouuede em fua armada, pore Afofo dal¬ buquerque & feus capitães auião de ir debayxo da capitania de Triftão da cunha ate q fizeífe a fortaleza é çacotora, & pera mais breuidade de fua edificação el rey mandou laurar húa fortaleza de madeira que leuaffe Triftão da cunha que logo mãdafle armar pera q por dentro fe fizede outra de pedra, & a gente fe defendeífe, & feyto tudo ifto & fornecida a frota, partiofe Triftão da cunha de Lisboa a leis Dabril do anno de mil & quinhentos & feis. E por quãto a efte tepo morrião de pefte em Lis¬ boa foy a frota atormentada defta doença ate Bezeguiche onde fez agoada, & aqui forão deixados os doentes q trazia, & feyta agoada feguio ho ca¬ pitão môr fua rota cofteando a cofta ate fe fazer na volta do Brafil pera dobrar ho cabo de fanto Agoftinho, & na fim de Iunho ouue vifta do rio de São Sebaftião na mefma cofta do Brafil a rê do cabo de fanto Agofti¬ nho que núca pode dobrar cõ tempo contrayro, & arribou â cofta de Guiné õde ouue vifta do cabo do monte, & arribãdo afíi a mea boroa de- fapareceo húa noyte a nao de Iob queymado, que arribaua coele, & foy ter â ilha de fão Thome donde tornou a fua viage & cõ terrenhos, & vi¬ rações foy íepre ao lõgo da cofta, ho que núca aconteceo a nao nefta car- reyra, & afli foy ter a Moçãbique onde achou ho capitão môr que do cabo do monte tornou a fua nauegação*pera ho cabo de fanto Agoftinho & ho dobrou. E indo na volta do cabo de boa efperança hú domingo pela manhã ouue vifta daquelas ilhas q fe agora chamão de Triftão da cunha & afli lhe pos nome por fer ho que as difcubrira, & eftas eftão da bãda do fui em altura de trinta & oyto graos, & fão defpouoadas & té gran¬ des rochedos, & ha nelas muytos palfaros, principalmente coruos mari¬ nhos, & atraueífando delas pera ho cabo de boa efperança deu húa grande
  • Historia da índia 2j8 tormeta na frota, & as naos fe efpalharão per diuerfas partes, & delas dobrarão ho cabo cõ muyto trabalho é diuerfos tépos & ho capitão môr foy ter ao parcel de çofala de q mandou faber nouas per Afonfo lopez da cofta, & ele ficou no parcel onde andou algús dias em q lhe morreo algúa gente, & dahi foy ter a Moçãbique no mes de Dezebro, onde auia dinuernar por não poder paífar aquele anno â índia, & hi fe forão ajútar coele os outros capitães da frota, faluo Lionel coutinho que palfou & foy inuernar a Quiloa, & Aluaro telez que foy ter ao cabo de Goardafum, & hi fez muytas prefas cõ que enrriqceo, & dahi foy defpois ter a çaco- tora cõ ho capitão mòr: & Ioão gomez dabreu indo caminho de Moçãbiq foy ter a ilha de fão Lourenço pela bãda de dentro, a húa baía q fe agora chama a baía fermofa, & etrarão nela, ho faio a receber húa almadia em q vinhão dezoito mãcebos remando, & eftes baços: & erão da mefma ilha, & forãofe a nao muyto feguros, & entrarão dentro moílrãdo muyto prazer cõ os noífos: & vinhão nus, & ecachados cõ panos de palma & trazião algús inhames, & galinhas q derão ao capitão & alfi trazião húas coufas redõdas como bugalhos q cheyrauão a crauo, ho capitão lhes man¬ dou dar de veftir, & pregútoulhe fe auia daqueles bugalhos na terra & ifto por acenos que ali não auia quê os entendeffe, & dizendo os mance¬ bos que fi: tomou dous deles pera os leuar ao capitão môr cõ os buga¬ lhos : porq auendo là quê os entédeffe foubeffé fe erão os bugalhos crauo & aífi que terra era aquela, os mãcebos ficarão coele de boa vontade, & hú deles fe chamaua Olo, & coifto fe partio pera Moçãbiq onde achou ho capitão môr: & lhe fez relação do que digo & vendo ele que os bu¬ galhos cheirauão a crauo & por lhe dizerem algús da terra que naqla ilha auia muyto gingibre, & prata & que era muyto grãde determinou de ir faber dela ho mais q podefle, & dize que ele lhe pos nome a ilha de fão Lourenço por Ioão gomez ir dar coela e tal dia, & afora a caufa q digo porq ho capitão mór quis ir a ela, foy tãbem porque auia deílar em Moçãbique efperãdo a moução dos ponentes com q auia de ir a çocotora, que ventauão então os leuantes q era ho proprio tempo pera ir a elta ilha: & aífi ho difle a Afonfo dalbuquerque, & no cõfelho que teue fobre fua ida onde todos acordarão que foífe, & concertada fua ida partiofe pera lâ na fim do mes de Dezembro.
  • Livro II, Capitolo XXXI 279 CAPITOLO .XXXI. De como ho capitão môr foy a ilha de fão Lourenço de que lhe aconteceo, & a algús dos capitães: & fe tornou a Moçambique. OS capitães q hião coele forão Afonfo dalbuquerque, Antonio do cãpo, Manuel telez, Francifco de tauora, Ioão gomez dabreu, Ruy pereira coutinho, Trilião aluarez as outras naos ficarão é Moçãbiq faluo a DafÕfo lopez da cofia q não era ainda vindo de çofala & deixou ho capitão môr recado a Ruy diaz pereira que vindo ali ter Pero coreíma que atras difle que lhe tomaíTe ho nauio de q andaua por capitão, & ho deífe a hú Ruy foarez comendador da orde de fão Ioão que fora criado do prior de Crato dõ- Diogo dalmeyda que trazia húa prouifão pera lhe fer dado pera andar cõ Afonfo dalbuquerque. E dey- xou regiméto a Ruy foarez que fe foffe a çofala com a mercadoria que ho nauio trouueífe, donde fe tornaria a Moçãbique pera ir coele, & ficar com Afonfo dalbuquerque, & ho nauio foi dado a Ruy foarez, & foy a çofala: mas quando tornou nã achou ho capitão môr como direi adiãte. Afli que partido ho capitão mòr chegou a ilha de fão Louréço pela banda de détro, & deu em hú lugar chamado çada, & 5 outro q auia nome Lu- langane porq a gente da terra ho não quis receber & em ambos achou refiftencia porque pofto que a gente da terra anda nua te varas toftadas com hús offos dalimarias por ferros de q fe aproueytão muyto na guerra, & faze coelas grãde paliada: E deftruidos eftes lugares, foy o capitão môr cofteãdo a ilha pera dobrar o cabo dela per aquela bãda, & rodeala pela bãda defora pera ver fe achaua prata, gimgibre, ou crauo: porque ainda nã tinha achada nhúa coufa delias pela banda de dentro: & chegou ao cabo dela é dia de Natal: & por iífo lhe pos nome ho cabo do Natal, & ali lhe deu tamanho téporal de vento pordauante que nunca pode do¬ brar ho cabo. E coefta tormenta a nao de ruy Pereira que hia perto de terra fe perdeo na cofia & morreo muyta gente, & antrela ruy Pereira: & as outras naos efcaparã por iré alamar: & vedo ho capitão môr per¬ der aquela nao ouue medo de fe perder tãbem, & arribou pera Moçãbi¬ que fazédo final â frota que arribaífe como arribou toda, faluo a nao de Ioão gomez dabreu, que quando fobreueo a tormcta que digo tinha ja dobrado ho cabo da ilha, & faio fora, & indoa cofteãdo foy furgir na boca dú rio que fe chama Matatana pera efperar pelo capitão môr cuy- dando que vielfe que ele não fabia nada do que paíTara cõ a tormenta, & furto vierão logo â nao: obra de vinte almadias, & nelas géte da terra
  • sSo Historia da índia que trazia pefcado: & adi canas daçucar. Ioão gomez porque ho meftre da nao fabia arauia, & outras limgoas: mãdou q entraffe nas almadias pera fazer cÕ os negros que entraífem na nao, & mãdou que entraffe ele fô: porq os não efcandalizaffe, & tãto que foy dentro, derão eles fupita- méte ao remo, & forãofe pera terra leuãdo ho configo, de que Ioão go¬ mez ficou aífaz agaftado, & armandofe com vlte & quatro homés embar- coufe no batel que tãbem hia armado dartelharia, & feguio por onde vio recolher as almadias que vio tornar cõtrele chegãdo a mea legoa da terra, & chegarãfe ao batel como amigos, & tornarãlhe a trazer ho feu meftre, q vinha veftido ao vfo da terra com panos dalgodão, & trazia ao pefcoço húa cadea groífa de prata q teria ate trinta cruzados, & nos braços ma¬ nilhas, & nos dedos aneis, tudo de prata, & difle a Ioão gomez q aque¬ las peças lhe dera hú rey daquela pouoação onde os negros ho leuarão que lhe fizera muyto gafalhado, & lhe diífera que feria muyto ledo fe elle capitão quifeffe ir a terra, porq defejaua muyto de ho ver, & quãdo os negros ho leuarão não forão por outra coufa fenão pera que ho feu rey ho viífe, & pois tãbem defejaua de ho ver: q lhe pedia que ho foífe viíi- tar ao outro dia. Ioão gomez cõ ho prazer q tinha de cobrar ho méftre não teue juizo pera determinar fe era bé ir a terra ou não antes diífe logo .que iria, & que fe auia de ir: que milhor iria então pois eftaua tão perto de terra que hir á nao, & tornar ao dia feguinte: E adernado q foífe, foy, & chegando a terra mandou faluar com a artelharia que leuaua, & defembarcado foy recebido del rey cõ grãde feita, & efteue coele ate tarde: E nefte tépo fobreueo hú temporal muy brauo, & çarroufe a foz do rio com ho grãde efcarceo do mar, & adi ho achou Ioão gomez em- tãto que nunca pode fair pera fora, & defta maneyra durou quatro dias. E vedo os que ficauão na nao que Ioão gomez não tornaua cuidarão que era morto: porque por as bõbardadas que ouuirão pareceolhes que fegúdo hia agaftado pelo meftre que lhe os negros leuarão que pelejara, & que ho matarião & a quãtos hião coele quãdo virão que não tornaua: & apa- recerlhe ifto ajudaua também não faberem ho çarraméto da barra que não tinhão em que ir lâ. E defefperados da faude do capitão, & receando que deffem cõ aquele téporal â cofta determinarão de fe ir ainda que não tinhão piloto, porque fora com Ioão gomez. E eftando em confelho a cerca da partida diífe ho defpefeiro q fe não deixadem de partir por falta de quem mandade a via, porque ele a mãdaria, que bem fabia que demoraua Moçambique onde nacia ho foi, & que não eftaua dali mais que fedenta legoas pouco mais ou menos. E coifto fe partirão: & indo adi em grãde perigo defronte da ilha Dangoxa quarenta legoas de Mo¬ çambique toparão a nao em que andaua ho comédador Ruy foarez que
  • Livro II, Capitolo XXXII 281 hia de çofala pera Moçambique, a que ho feytor da nao requereo da parte del rey que tomaffe cargo daquela nao por quãto era de fua alteza, dizédolhe logo da maneyra que hião. O que fabedo ho comendador tomou a nao em fua companhia, & lhe deu ho feu piloto: & pos na nao por ca¬ pitão a hú Iorge botelho feu primo caualeyro da cafa delrey: & afíi forão ate Moçambique, onde ja nao acharão ho capitão mór Trilião da cunha: & o que mais lhe fucedeo a diante ho direy, por tornar a Ioão gomez que ficou cÕ el rey de Matatana: & ceifando a tormenta quifera ele tornar â nao, & não a achou. Pelo qual, adi ele como os de fua cõpanhia ficarão tão triftes, como a quem aconteceo tamanha delauentura: & cÕ quanto Ioão gomez afli ficou fempre o el rey hõrraua muyto, porem ele não po¬ dia perder a trifteza q tinha de fe ver adi ficar, de q lhe fobreueo húa doença de que fe finou, & também dos feus morrerão oyto. E dos deza- feys que ficarão determinarão os treze de fe ir pera Moçambique por cõ- felho do piloto, que lhes dide que pois ellãdo ali auião de morrer, que melhor feria auéturarenfe ao mar. Quãto mais que ele efperaua em nodo fenhor de os leuar a faluamento a Moçambique: & derão conta a el rey de fua determinação, & ainda que lhe pefou lhe deu licença pera fe yrem: & eles concertarão ho batel, acrecentando ho cõ arrombadas por amor dos mares que lhe não entradem, & meterão dentro os mais mãtimentos que poderão, & de muy grodas canas q ha na ilha fizerão canudos em que leuauã agoa, & erão tamanhos que leuaua cada hú perto dhú almude, & pera tomar ho foi fez ho piloto hum altrolabio de pao. E percebidos delia maneyra fe partirão dali, ficando el rey com grande foydade deles, & coele ficarão tres. E os treze como digo fe partirão ja no anno de mil & quinhentos & fete indo ao logo da ilha, & por lhes faltar a agoa no atrauedar do golfão a quiferão tomar em húa ilheta q era pouoada, cujos moradores lhe quiferão defender a agoa, e fobrido pelejarão os nodos coeles, & lhes matarão algús: & dos nodos os mais forão feridos daza- gayas & pedras que eltas erão fuas armas. E indo delia maneyra a tra- ues da ilha dãgoxa toparão com Lucas dafõfeca que hia da índia na fua carauela carregada pera çofala, & leuaua a Ioão vaz dalmada pera fer lâ feytor por mandado do vifo rey que lhe deu a feytoria defpois q Ma¬ nuel fernandez foy ter a índia: & Lucas dafonfeca os recolheo na fua carauela onde forão curados: & defpois fazendo volta de çofala os leuou a Moçambique, donde fe forão a índia. Tomo 1 36
  • Historia da índia 282 CA PI TOLO .XXXII. De como ho uifo rey mandou desfazer a fortaleza Danjadiua, & a caufa porque. ACabado ho inuerno, & vindo ho verão em Setembro de mil & qui¬ nhentos & feys partiofe dom Lourcço de Cochim a goardar a cofta do Malabar, porque não podeffem fayr de Calicut, nem doutros lugares pera ho Mar roxo nenhúas naos de mouros com efpeciaria. E fo- rão com ele os capitães que ja diffe, foomente Nuno vaz pereyra que ficaua pera ir por capitão de çofala, cuja capitania lhe ho vifo rey dera por faber que Pero danhaya era finado. F. partido dom Lourenço veo r.oua ao vifo rey por carta de Manuel paçanha capitão Danjadiua, que aquele inuerno ho teuerão cercado mouros da terra firme & ho poferão em grãde afronta: & lhe ouuerão de queymar hu bargantim, & as naos que hi inuernarão. E contudo q fayra a pelejar coeles algúas vezes, & que pola mifericordia de noffo fenhor fempre ficara com a vitoria. E por efta caufa, & por el rey de Portugal não receber nenhú proueito daquela fortaleza como dãtes parecia que auia de receber, antes recebia perda em ter ali géte auentu- rada a perderfe que fazia gafto efcufado, fe determinou em confelho que ho vifo rey a mandafTe derribar, como logo mandou a dom Louréço por feu recado: & efcreueo a Manuel paçanha, & ao feytor, & officiaes da fortaleza as caufas que forão dadas em confelho pera que foífe derribada. E pofto q fe derribaffe ele auia por feruiço de Deos & del rey, que affi ho capitão como ho feytor, & outros officiaes ouueffem feus ordenados pelo tempo que os auiã dauer como fe feruirão feus carregos: porque não era rezão que por fe fazer aquilo que compria a feruiço del rey ficaflem aqueles que ho feruião com perda. E coefta carta que ho vifo rey comprio não fentirã ho capitão & officiaes derribarfe a fortaleza. E em quanto fe ela derribaua vendo ho vifo rey que nã vinha a armada de Portugal, & que paffaua ho tempo de fua vinda, mandou pera laa a hú cide barbudo capitã dhúa nao que chegara defpois dentrado ho verão: & partira de Portugal no ãno de cinco em companhia de Pero quarefma que a tras diffe, & hião bufcar Pero de mendoça, & fua gente que fe per¬ dera da armada de dom Vafco da gama indo pera Portugal: & tinha el rey de Portugal por noua que fe faluara em terra do cabo de boa Efpe- rança com toda a gente, & por iffo mandaua eftes dous capitães a bufcalo. E mandoulhe que fendo cafo que ho não achaffem que paflaflem auãte, & Pero quarefma ficaffe em çofala pera andar goardando a cofta ate Quí-
  • Livro II, Capitolo XXXIII 283 loa, & cide barbudo fofie carregar a Cochim: & não achando eles ne- nhúas nouas de Pero de mendoça nem dos feus (no que fe deteuerão todo ho tempo que digo) fizerão o que lhes el rey mandaua em feu regi¬ mento. E por efte Cide barbudo efcreueo o viforey a elrey de Portugal o q fe fizera na índia defpois da partida das outras naos: mas fe elta nao chegou a Portugal eu ho não foube, & andado ho viforey nefta negoceaçã requereolhe el rey de CochI que lhe mãdaífe dar goarda a certas naos fuas q tinha mãdadas a cidade de Chaul cõ efpeciaria, porq tinha fabido que era lâ húa armada del rey de Calicut. E q receaua q lhas tomaffe por fere Imigos. Ao q ho viforey fatisfez, porque afli eftaua affentado no cõtrato damizade q fizera com el rey de Cochim, & mandou recado a dõ Louréço que foífe dar goarda as naos. CAPITOLO .XXXIII. De como dõ Lourenço quifera peleiar ê Dabul cõ a frota del rey de Cali¬ cut, & a canja porque não peleiou, & do mal que fe dijfo Jeguio. DEsfeyta a fortaleza Dãjadiua, dõ Louréço fe partio pera Chaul: & afora Felipe rodriguez é cuja nao hia forã coele eftes capitães, Rodrigo rabelo, Fernão bermudez, Francifco pereyra coutinho, Lucas dafofeca, Gõçalo dé payua, Lopo chanoca, Antão vaz, Ioão ferrão, & Diogo pirez. E Ido hús ao pego outros ao logo da cofta fez muytas prefas aíli no mar como na terra em q fahio per vezes a tomar lingoa & â queymar algúas pouoações, & de caminho foy furgir húa tarde na barra de húa cidade chamada Dabul, q eíta metida por hú rio acima, & dele fairão logo hús mouros de CochI q forão a dõ Louréço, & lhe diffe- rão q naqle rio eftauão muytas naos carregadas de mercadoria, aífi de mouros de CochI como de Cananor, os quaes erão todos vaífalos del rey de Portugal, & feus efcrauos. E por eífa caufa hú capitão del rey de Ca¬ licut que ali eítaua com húa armada os tinha deteudos pera os faquear, & lhes queymar as naos fegúdo tinhão fabido & fabédo os fenores das naos como ele ali eftaua, lhe pedião por amor de deos q como a efcrauos del rey de Portugal os fofTe focorrer, & os liuraífe das mãos dos de Ca¬ licut, de q a vitoria eftaua muy certa fe pelejaffé coeles, & afli ho pro- ueyto, porq eftauão carregados de muyta riqza, & que ganhãdo hõrra, & proueyto faria ho q deuia, dõ Louréço fe enformou de q velas feria a armada dos Imigos: & determinando de pelejar coeles difle aos mouros q lhe não podia refpÕder ate não falar cõ feus capitães porq ho viforey lhe defendia q nhúa coufa fizefle fé feu confelho. E por fer ja tarde q
  • 284 Historia da índia falaria coeles ao dia feguinte pola manhã. E cõ tudo ele fe determinou logo como digo détrar pera détro do rio fegúdo todos julgarão pelas pa- lauras q difle dahi a pouco eftãdo ceando cõ os q andauão coele: & foy que acertando a nao de fazer agoa, & lhe acodiífe Felipe rodriguez ficou dõ Loureço péfatiuo. E aqles qftauão a mefa cuidãdo que feria por amor dagoa q a nao fazia, lhe differão q não era a agoa perigofa. A q ele ref- põdeo, não cuydo niffo fenão fe cearemos amanhã jútos como agora efta- mos. E ao outro dia ãtes de vetar à viração chamou a cõlelho, & propos ho q os mercadores lhe mãdarão pedir pedido a cada hú feu parecer, ao q foy refpodido por Fernãõ bermudez, & Gõçalo de paiua q a petiçã dos mouros era jufta, & qjhes parecia bc q pelejaífem cõ os Imigos fe nã efteuerã metidos naqle rio, o q auião por grande inconueniéte polo ainda não faberem, porque quiça feria a barra perigofa, & fe ho foífe, & etra- uão, auéturauã muito mais do que ganharião e defbaratar os Imigos, & fe ao etrar da barra lhe acõteceífe algú defaftre eles erão os defbarata- dos & q não auia tépo pera fe faber fe na barra auia perigo por eftar tão goardada dos Imigos como eftaua, & q bc podia fer q como os mouros de CochI erão parétes, & amigos dos de Calicut lhe qrerião dar ajuda daqla maneyra pois não podião por outra, & fingiã aqle medo q lhe que- rião queymar as naos pera daré coeles em algúa cilada, porq como auia dauer q feus parentes & amigos lhe quifeffé então queimar as naos mais q em outro tépo tendo fempre tãto pera ho fazer, pelo q aqla noua Imi- zade lhe parecia fingida pera fazerê ho q fofpeytauão, & cõ tudo fe teue- rão certeza da barra fer le perigo q feu parecer fora q étrarão, & pele¬ jarão cõ os Imigos: mas pois não fabião qjanda era q não étraífé, & fe tornaífe pera Chaul a goardar as naos q la eftauão, que erão as próprias del rey de CochI, & muyto mais q aquelas q eílauão naqle rio, & fegu- ras as de Chaul verião fe podião fegurar aqlas quando tornaífe. E deite parecer forão Ioão ferrã, Rodrigo rabelo, Francifco pereyra coutinho. E Antão vaz, & Felipe rodriguez, Lopo chanoca, Lucas dafonfeca, Diogo pirez, & dõ Lourenço differão q lhe parecia ho cõtrayro: porque quanto ao perigo que podia auer na barra, iífo era coufa duuidofa: & q aífi po¬ dia fer muyto llpa, né podia ho perigo fer tamanho q eles não podefie entrar vazios como os mouros entrarão carregados, & alda que ouueífe algú que não podia fer tamanho q fe perdeffé todos jútos, & pofto q , perdeffé hú nauio que melhor feria perderfe cõ faberem na índia a caufa porq, que faluar toda a frota cõ perda de feus amigos, & mais fabédo a neceílidade em q eftauão, & que a treyção q dizião iffo não fe fabia, & fere os donos das naos feus amigos era pubrico, & pubrico ho perigo é que eftauão, & a treyção q eles querião fofpeytar muyto fecreta, &
  • Livro II, Capitolo XXXIIII 285 a fofpeyta q tinhão não os auia de liurar da culpa fe queymafie as naos aos de CochI, & mais auião de ficar tidos e cõto de fracos por não pe- lejaré cõ os ímigos, o q bé oulhado tãto vinhã pera iflo como pera dar goarda âs naos del rey de CochI, & pois hião pera fazer húa coufa, & outra ferião dignos de grãde caltigo fe as nã fizefle ãbas pois tinhã tempo, & q as naos q eftauão é Chaul não tinhã neceflidade de focorro, & aqlas li como vião por iflo q a elas auião de focorrer, & q abaftaua pera étraré no rio ho credito q perdião na índia, porq fe cuidaria q a vitoria q ouuerão da grande armada de Calicut fora mais por defaftre q por esforço ne valetia de coração. E crédofe ifto cõfiraífé bé quã aba¬ tidos ficauã, & q foberba cobrariã dali os mouros, & q alteraçã: por iflo q deuião de pelejar cÕ os ímigos. E cõ todas eftas rezões os outros ca¬ pitães não forão de voto q fe pelejafle, & infiftirão q fe não entralfe no rio, & porq do Lourenço trazia por regimeto q não fizefle fenão ho q lhe cÕfelhafle os mais dos capitães, principalmete Fernão bermudez, & Gõçalo de paiua nã quis feguir ho parecer dos quatro: & foyle cõ ho dos feis: do que Felipe rodriguez fe agaftou tãto que logo fe fahio do cõfelho e dãdo feu parecer, porq via ho que auia de fer, & e faindo virãno Fernão perez dãdrade, & Ioão rodriguez paçanha, & pregútando- lhe q hia la: refpõdeo. Vay tanto mal q prouuera a deos que núca la entrara. E fabido na frota que nam auião de pelejar cõ os immigos pareceo muyto mal aos q eftauão de fora do cõfelho principalmente aos fidalgos que ho eftranharão muyto a dõ Loureço dizendo q pera q os mã- daua ali ho viforey: & q coufa era eftaré ali os ímigos: & terem é poder as naos de feus amigos & deixarélhas. Ao q ele refpõdeo q lhe pefaua muyto de não pelejar, mas q tomaua ho cõfelho de qué lhe feu pay mã- daua, & pera fua goarda, & difculpa cõ ho viforey fenã ouueffe por bõ aqle confelho ouue por efcrito os pareceres daqles q ho derão aflinados por eles. E refpondeo aos de CochI q não podia deterfe ate ir a Chaul polas naos del rey de cochl q afli lho tinha mãdado ho viforey & q da vinda q tornafle os ajudaria. Ao q os mouros diflerã q fe ho afli fazia q os deífe por perdidos & cõ tudo não lhe focorrerão. E Ioã ferrão nefte tépo q fe ali deteuerão fayo em terra cõ fua gente, & pelejou cõ a quef- taua no Baluarte da barra & tomou o por força, & derribouho, & reco- Iheo a artelharia q tinha, & ifto feito por mais reqrimento q os mouros fenhores das naos fizerão q os não deyxafle em poder de feus ímigos q lhe auião de faqar as naos como faquearão logo que fe dÕ Louréço par- tio. E tudo ifto fe fez por culpa daqles que lhe confelharão que não étrafle no rio, q fe entrara defbaratara, & deftruira os immigos & os mouros de Cochim ficarão fem perda, & os noflbs cõ muyto grande ganho, afli de
  • Historia da índia 288 nes de q ha atreles muytos: & eftes não bebem vinho. Eftes Bramenes cré que ha hú ibo deos, porem não lhe faze honrra, porque dizem q deos he bõ que não faz mal a ningué, & por iíTo não te eles neceffidade de ho hõrraré: mas ao diabo fi, porq he ruim & faz mal, & porq lho não faça ho hõrrão, & lhe faze muytos terqplos a que chamão Pagodes. Cré que deos q dorme no inuerno, & entã fe cafão. Té a openião de pythagoras acerca das almas, que dizé que as almas dos mortos fe metem em outros quãdo nacem. Tem que ha paraifo, poré não como nos temos, porque eles cré que laa comé: & affi tem que ha inferno em q as almas pagã ho mal que cã fizerão: poré que nã padecé pera fempre fenão ate certo tempo, & defpois faé dali & fe metem nos que nacem, & que efte inferno he debayxo da terra. Té algúa fombra do nacimento de noífo fenhor & de fua payxão, & afcenfão, & dizem que ha muytos annos que naceo hú menino dhúa molher fdã, cujo pay fe não foube quem era: & efte menino quanto mais crecia tanto mais crecia em bondade: & defpois de homem por fer affi boõ ho quifera matar húa gente muyto rol: & ele fe efcõdeo, & que núca mais parecera, & que fua mãy chorara tanto por ele ate que morrera. Tem eftes Bramenes em grande veneração a noffa fenhora a que chamã fanta Maria, & fazem grande acatamento a fua imagem. Celebrão húa fefta a que chamão a fefta da linha que he a do feu bautifmo, & en¬ tão fe lauão. E eu vi em Goa fazer efta fefta em hú pagode que eftâ na ilha de Diuar que fe chama çapatu, onde vem de longe dali: & lauanfe nú braço de mar que efta entrãbalas ilhas: & eles cré que aquela agoa he lanta, & que vem ali aquele dia ho Pagode ãdar naquela agoa: & dey- tãlhe ali muyto betele, & figos, & canas daçucar: & cré q aquilo come ho Pagode. E chamafe efta fefta da linha, porque aos oyto ãnos deytão eles húas certas linhas aos filhos que trazem como tiracolos a carão da carne: & efte he ho feu bautifmo. E affi tem outras feftas muytas, & tem domígo q fazé em fefta feyra: & té quarefma q jejúam & comé a noyte como os mouros. E affi tem outras muytas cerimonias que fam muy lar¬ gas de contar. Eftes capitães defte reyno tem muyta gente de caualo, & alifantes de guerra com q a fazem a feus immigos.
  • Livro II, Capitolo XXXV 28g CAPITOLO .XXXV. De como ejla fituada a cidade de Chaul, & do que hi fe\ dom Lourenço, & de como Je tornou â Cochim. OPrimeyro lugar que tem em faindo de Cãbaya pera ho fui ao longo do mar, he a cidade de Chaul que efta em .xix. graos da linha da banda do norte, & eftâ cincoenta legoas da cidade de Diu, & húa com a outra eftão noroefte fuefte, eftà Chaul fituada na boca de hú grande & fermofo rio que fe ali vem meter no mar por onde podem entrar naos grandes, & tinhão os da terra metidas no porto grades efta- cadas pera amarrarem a elas as naos porque fão ali as corrétes grades. He efte lugar muyto viçofo de ortaliça. Hera fo pouoado de mouros & de gentios: fão baços aíli homés como molheres, como ja dilfe: tem lin- goa q fe parece cõ a dos guzarates q fão os do reyno de Cãbaya. Morão aqui muytos mercadores, & por iffo he lugar de grande trato: poré os principaes vé do Sertão & traze aqui fuas mercadorias, & dahi leuão as que lhe trazem os Malabares que fão efpeciaria & droga, principalmente pimenta, & cardamomo, & afli lhe trazem areca, cocos, açúcar de palma que chamão jagra, pedraria, aljôfar, ferro, & efmeril, & leuão em retorno algodão fiado, & panos dele brãcos & pintados. Também vem aqui naos doutras partes afora do Malabar que traze cobre, & fe gafta pelo Sertão em moeda & em vafos. E vai ho quintal vinte cruzados: & trazem ver¬ melhão, azougue, & coral q tudo vai muyto. E todos eftes tratos fe fazem em quatro mefes .f. Dezembro, Ianeyro, Feuereyro, & Março. E neftes fe faz toda a carga & defcarga das mercadorias que ali vé he ho tépo em que os mercadores do Sertão morão mais em Chaul. E toda a outra parte do anno ha poucos mercadores, & eftes leuão & trazé fuas merca¬ dorias é cafilas de bois que carregão como azemalas, & em afnos, & em carretas. E pofto que fe aqui pagão poucos dereytos pelo grande trato affomão a muyto. Chegado dom Lourenço â barra delta cidade mandou- felhe Nizamaluco ofrecer por valíalo del rey de Portugal: & mandoulhe hú grande prelete de mantimentos, ao que dom Louréço refpondeo que ele não podia afletar coele nada fem licença do viforey: ou lhe pagaífe de parias cinco mil cruzados cadano. E que entretanto lhe daria feguro como deu: & afli ficou. E carregadas as naos de Cochim partiofe dom Lourenço coelas para Dabul cuydãdo dachar ainda as naos dos mercado¬ res de Cochim & a armada de Calicut, & não achãdo nada fe partio pera CochI onde chegou era fim Dabril, & achou ho viforey muyto agaf- 37 Tomo I
  • Historia da índia 290 tado contrele & conira os feus capitães pelo que Maymame fizera aos mercadores de Cochim, & diífelhe palauras defcandalo culpando muyto a dõ Lourenço, & ele moftrou ho confelho que fizera fobre aquilo & os pareceres dos capitães, & regimento que leuaua, & vifto ifto pelo viforey mandou os préder & acufar & porque dom Lourenço fe achou fem culpa foy aufoluto, & adi Felipe rodriguez por prouar ho que diflera em faindo do confelho, & os capitães que aconfelharão que não pelejafiem como não teuerão defefa forão condenados em perdimento de fuas capitanias. E q foffem prefos pera Portugal na primeyra armada q partiffe. Dada efta fentéça ho viforey proueo logo os nauios de capitães, & deo a nao de Rodrigo rabelo a dom Lourenço, a taforea de Fernão bermudez a Pero barreto, a carauela de Gonçalo de payua a Antonio lobo teyxeyra, a Dantão vaz a Duarte de melo, a de Francifco pereyra coutinho a Fran- cifco danhaia, a galee de Payo de foufa a Ioão ferrão. CAPITOLO .XXXVI. De como ho capitão môr Triftão da cunha fe partio de Moçambique pera çacotorâ, & de como queymou no caminho ho togar de Hoia. HO capitão mór que arribou com a tormeta que lhe deu â trauês da ilha de fão Lourenço foy ter cõ toda a frota a Moçãbique. E hi foube per Afonfo lopez da cofta como Pero danhaia era fale¬ cido, & àchou Ioão da noua que partido da ilha de Zãzibar onde inuer- nou, arribou a Moçãbique do cabo de boa efperança por lhe a nao fazer húa grãde agoa cõ q fe ho piloto & meítre não atreuerão a profeguir fua viagem: & por I10 capitão mòr fer compadre & grande amigo de Ioão da noua lhe rogou que foífe coele â índia do que ele foy contente. E por iíío ho capitão mór mandou mudar a carga da fua nao â de lagos em que mãdou pera Portugal Antonio de faldanha que hia coele que folgou de tornar dali pera pedir a capitania de çofala, & ficando ho capitão mor em Moçambique efperando moução pera çacotora, vendo que não chegou ho comendador Ruy foarez q auia dandar debayxo da capitania Dafonlo dalbuquerque no nauio de Pero quarefma, por fazer boa obra a Afonfo dalbuquerque que lho pedio lhe deu em lugar de Ruy foarez a Ioão da noua, cuja nao era grande & bé amarinhada, & com a gente dela fe per- fazião os quatrocentos & cincoenta homés que Afonfo dalbuquerque le¬ uaua ordenados de Portugal pera trazer na fua armada, cõ que auia de guardar ho cabo de Goardafum, & vindo a moução de çacotora partiole ho capitão môr e Feuereyro de mil & quinhentos & fete. E forão coele
  • Livro II, Capitolo XXXVI 2Qi Afonfo dalbuquerque, Ioá da noua, Francifco de tauora, Antonio do campo, Manuel telez barreto, Afofo lopez da cofta, Ruy diaz pereyra, Iob queymado, & outros dous. E partido de Moçambique foy ter à Qui- loa, & hi achou ho capitão Pero ferreyra fogaça fora em parte do mando da capitania que lhe ho viforey tinha tirada por mexericos do feytor, & do alcayde mòr que lhe efcreuerão dele, do que fe ele queyxou a el rey de Portugal, & não auendo ele por bem ho que ho viforey tinha mãdado, efcreueo a Pero ferreyra que fe auia por feruido dele. E fez lhe merce de feffenta mil reaes que lhe mãdou pelo capitão mòr, a que mandou q tiraíle de Quiloa ho feytor, & ho alcayde mòr & os leuaffe prefos, & fazédoo ele aifi fe partio pera Melinde, onde achou Lionel coutinho. E hi fembarcou & foy vifitar el rev, & entregoulhe da parte del rey de Por¬ tugal hum mouro chamado Cide mafamede natural de Tunez que man- daua ao prefte cõ cartas damizade pera que dali ho mãdaffe & coele hú mourifco Chriftão q auia nome Ioão fanchez, & hú Português chamado Ioão gomez hojardo, & encargado el rey de os mãdar partiofe ho capitão mór pera hú lugar de mouros chamado Hoja vinte legoas de Melinde com cujo rey os gouernadores defte lugar que erão os mais velhos do pouo eftauão de quebra. E por iífo ho capitão môr ho quis deftruir fenão quifeffe fazer paz coele, porque tendoa coele a teria com el rey de Me¬ linde, & chegado ao porto defte lugar mãdou ofrecer paz à feus regedo¬ res, que por feré mouros & noffos immigos não quiferão fomente ouuir ho recado do capitão mor & logo fairão todos à praya em fom de guerra & muyto foberbos: & ferião bé dous mil homés os mais deles frecheyros, & os noffos mil, & vendo ho capitão mór engeitar a paz que ofrecia: pos em efeyto de deftruir ho lugar, & dando diffo conta aos capitães da frota deu a dianteyra do cometimento do lugar a Afofo dalbuquerque, que faindo em terra com muytos fidalgos, & outra gete foy cometer os mou¬ ros que moftrauão muyto esforço pelejando valentemente: & acabando os noffos de defembarcar todos q fe ajuntarão começoufe húa afpera pe¬ leja q durou pouco, porq os mouros não podédo fofrer ho impeto dos noffos acolherãofe ao lugar que era rafo, pelo que os noffos facilmente entrarão coeles matando quantos alcãçauão & poendo fogo ao lugar, ho que vendo os mouros como hião de vencida não teuerão coração pera fazer rofto aos noffos & vazarão fora do lugar, fugindo, & os capitães teuerão os noffos que os não feguiffem contentandofe com terê muytos mortos, & dos noffos nhú, & acabando de quevmar ho lugar fe recolhe¬ rão â frota.
  • Historia da índia 2Ç2 CAPITOLO .XXXVII. De como lio capitão mór Trijlão da cunha chegou á cidade de Braua 1 & ajjêtou com feus capitães de a dejlruir. DEstruydo ho logar de Hoja, profeguio ho capitão môr feu caminho pera húa cidade de mouros, chamada Braucha ou Braua como lhe os noffos chamão, oytenta legoas de Hoja cercada de muro bayxo, & de caua bem arruada de cafas altas de pedras & cal, cidade de grande trato, por iffo ha nela muytos mercadores. Não tem rev, & gouernaffe pelos mais velhos do pouo, & de caminho tomarão os noflos duas naos de Cambaya muyto ricas, & furto ho capitão mor cõ toda a frota no porto delia cidade, mãdou a terra Lionel coutinho com recado fobre ofrecimento de paz, & forão coele vinte dos noffos ficando todos os bateis da armada cõ as proas em terra cõ muyta gete pera lhe aco- dir fe lhe os mouros quifefle fazer mal, eles eítauã todos recolhidos na cidade, & quando virão que leuaua tão pouca gente fairão fora obra de cento. E hú deles preguntou a Lionel coutinho que queria, ele lhe refpondeo por hú lingoa, dizédo que ho capitão moor daquela armada que era del rey de Portugal: queria affentar paz com aquela cidade. E por iffo era ali vindo. Os mouros começarão logo de falar antrefi. E o lingoa diffe a Lionel coutinho que fe recolheffe, porq ho querião matar, & que iffo era ho que dizião, & dom Ioão de lima, fobrinho de Lionel coutinho que hia coele, & feria de dezoito ãnos quãdo iffo ouuio diffe que fe os mouros aquilo dizião que não efperaffem mais: & defle San¬ tiago neles, & não querendo Lionel coutinho efte confelho: diffe ao lin¬ goa que diffeffe aos mouros q ele não hia pera pelejar fenão pera afle- tar paz que ho deyxaffem tornar com reporta ao capitão mòr: & defpois teriã tempo pera pelejar, & afli lhe foy dito: & os mouros não deixa- uão de dizerem hús com os outros que ho mataífem, então fe reco- Iheo Lionel coutinho quafi pelejãdo com os mouros que ho feguirão ate ho mar Õde lhe focorreo Ruy pereyra coutinho com outros, & ambos voltarão aos mouros que fugirão logo, & Lionel coutinho foy ao capitão môr & lhe cotou ho que lhe acontecera, ho que fabido por ele chamou logo a cõfelho os capitães da frota & lhe propos o que mandara dizer aos mouros, & o que eles fizerão a Lionel coutinho é lugar de reporta. Afofo dalbuquerque diffe logo que pois os mouros não quiferão paz, & erão tão foberbos q refpondião daquela maneyra q fe deuia de pelejar coeles: & fazerlhe conhecer quã mal conlelhados forão, & defte parecer
  • Livro II, Capitolo XXX VII 29S forão Lionel coutinho, Ruy pereyra coutinho, & Francifco de tauora, os outros diflerão q não deuiã de dar na cidade, porq a fora eftar forte de muros, & de caua tinha muyta gente, fegundo virão nos muros, a qual a auia de defender, & que eles não traziã petrechos pera lhe darem cõ- bate, & tãbem que a deíembarcação era muyto perigofa, & que primeyro que tomaflem terra lhes auiam os mouros de fazer muyto dano. Ouuido pelo capitão môr ho parecer dãbalas partes, olhou pera aqles que dizião que fe não defle na cidade, & diífelhes Bem fey eu fenores que não vos parecer bem que demos na cidade que não he por mingoa desforço, fe- não por defejo de euitar ho perigo de voífa gente affi como ho deuem de fazer os valetes capitães como eu fey que todos fois, & que fe ametade dos que tédes forão da voífa qualidade que pofio que os mouros forão ho tres dobro, & os perigos muyto mores do que fão, que vôs faireis em ■terra, & tomareis a cidade. Mas porque receais que não tenhais parcey- ros que vos ajudem, tendes também receyo de não leuardes auante ho que começardes, & por efta caufa vos parece mal cometermos a peleja com os mouros. E bem creo eu que me confelhaes como homés efpre- mentados, poré eu que ainda ho não fou, ao menos neftas partes, quero ver como cometem os Portuguefes, & como fe defendem os mouros, os quaes fegundo eftão foberbos pola auentajem que nos tem no numero, não duuido eu que nos não fayã â receber fora da cidade, & fe fairé eu confio na mifericordia de noffo fenor que ele acrecentara ho esforço dos noífos de maneyra que os mouros os não poffão fofrer, & fe recolhão â cidade, & recolhendofe eu fico por fiador q os noífos entrem meílurados coeles. E fe fe não recolheré que não efcape nhfi com a vida. E quanto ao perigo do deíembarcar, & que nos farão os mouros muyto dano pri¬ meyro q defembarqmos, nos defembarcaremos tanto ante manhã que quãdo eles acodirem a praya iremos nos caminho da cidade. E ifto que digo vos peço que vos pareça bé porque eu aífi ho ey de fazer, & ainda que volo não pareça tenho por muyto certo que me aueis também daju- dar como que volo parecêra. Vendo os capitães fua võtade diíferão q em tudo ho feguirião, que fizeffe ho que lhe milhor pareceífe, & logo fe aííen- tou que deíêbarcaífem ante manhã, & que Afonfo dalbuquerque leuaífe a dianteyra cõ quatrocentos homés, & que foífem coele Lionel coutinho, Ruy pereyra coutinho, Frãcifco de tauora, & outros fidalgos .f. dom Afonfo de noronha, do Antonio de Noronha feu hirmão, Manuel dela- cerda, dom Ieronimo de lima, do Ioão de lima hirmãos, Antonio daze- uedo: & outros. E nas cofias de Afonfo dalbuquerque, hia ho capitão môr com feifcentos homcs em que entrauã os outros capitães.
  • Historia da índia 294 CAPITOLO .XXXVIII. De como ho capitão mór tomou a cidade de Brauha, 6 a dejlruio de todo. ASsentado ifto ao outro dia ante manhã fem nhúa contradição poia- rão em terra, & ja menhã clara mouerão pera a cidade, em que auia paffante de quoatro mil mouros fegundo fe defpois foube. E iabendo eles que os noffos hião contreles fairão perto de dous mil fora da cidade, & os outros ficarão no muro: & todos eftauão bem armados darcos, frechas, zagunchos, terçados & cofos. Afonfo dalbuquerque tanto q ouue viíta dos que ho faião à receber mãdou dar Santiago neles, ho que os noffos fizerão muy rijamete, ao q os mouros logo refiftirão cõ grande esforço, & defpois fe retirarão pera à cidade pelejando fempre muyto bé, & afli fe recolherão quafi todos fenão algús que ficarão pele¬ jando, porque os outros podeffem çarrar as portas como çarrarão & eftes que a defenderão forão todos mortos, & feridos. Nifto acabarão de che¬ gar Afonfo dalbuquerque, & ho capitão môr com todo ho corpo da gente, & etram pela caua, na qual como era darea folta cayrão logo na primeyra muvtos dos noffos de que algús forã feridos de frechas, & zagunchos que os mouros tirauão do muro, & cõ pedras & paos, & ate cõ cortiços dabe- lhas tanto trabalhauão por fe defender: mas os noffos fe leuantarão logo & remeterão com os outros ao muro com grande impeto, & parece que coele aprouue a nolfo fenhor que cayo hú pedaço do muro per onde logo entrarão effes fidalgos q hião com Afonfo dalbuquerque, & ele com ou¬ tros muytos dos noffos, de maneyra que quando os mouros quiferão aco- dir a defender aquele portal ja acharão os noffos antre ho muro & as cafas: mas nem poriffo deyxarão de pelejar com grande esforço por efpaço de húa ora pouco mais ou menos, em que aqueles fidalgos, & affi outros homés moftrarão bem a valentia de fuas peffoas, porque por força leuarão dali os mouros ate os meteré pelas ruas da cidade. E nefte tempo era ja détro ho capitão mór cõ todos os noffos: & aqui foy outra peleja muy braua, com que os mouros forão deitados fora da cidade: & ho capitão mòr mãdou que ninguc faiffe a pos eles, & mandou fechar as portas & vigiar ho muro, fazendo logo baftecer ho pedaço que cahio. E defpois difto mandou faquear a cidade, repartidos os capitães pelas ruas, por onde fe não podia quafi andar cõ os mouros q eftauão mortos q forão mil & quinhetos os q morrerã a ferro, a fora muytos feridos, fem dos noffos falecer nenhú, foomente algús qftauã feridos. Os noffos como digo-
  • Livro II, Capitolo XXXVIII 29S faquearão a cidade em q acharão muy groffa riqza, douro, prata, & muy- tas mercadorias: antre as quaes auia muyto ãbar: & como muytos dos noífos ho não conhecião quando ho achauão, cuidauão que era bofta de boys: & deixauãno, dizendo que não fabião peraque aqueles perros que- rião aquela bofta. E outros deífa gente miuda que topauão molheres com manilhas douro & de prata nos braços, & arrecadas nas orelhas, com prefia por fe nã deterem em lhas tirar, cortauãlhe as mãos & as orelhas: & deftas diz que fe acharão perto doytocentas ate que ho capitão môr defendeo que tal fe nã fizelTe.També nefte faco fe tomarão muytos cati- uos, & affi grande forna de mantimentos. E faqueada a cidade de todo foy queymada & deftruida ate os aliceffes: mas defpois a tornarão os mouros a pouoar. E acabando ifto que ho capitã môr fe queria embar¬ car fe leuãtou hú vento com que ho mar fazia grande efcarceo: & com quanto ao capitão mór por efta caufa lhe nã pareceo be embarcarfe, toda- uia fembarcou por não ter onde fe recolher, & correria perigo fe os mou¬ ros tornaflem fabendo que ele afíi eftaua, & por iffo a ébarcação foy muy trabalhofa, & ho batel do capitão mòr em que hia todo ho ouro, & a prata do defpojo da cidade deu a cofta, & perdeofe tudo, mas ho batel faluoufe, & differão que affi a riqueza q leuaua, poré a menos pareceo. E ebarcado ho capitão môr com todos os outros capitães deu a vela ca¬ minho de Magadaxo que he húa muy grande, & fermofa cidade, dezoyto legoas de Brauha na mefma cofta ao nordefte, & efta é tres graos da banda do norte, he lugar de grande trato de mercadorias, porque vem a ele muytas do reino de Cãbaya & Dade com panos de todas as sortes, & cÕ outras mercadorias defpeciaria. E daqui leuão ouro, marfim, cera, & outras coufas: ha tãbé nefta cidade muytos mantimentos. Os morado¬ res dela fam baços & outros brancos, fão mouros & falão todos arauia: fam homés de poucas armas, as mais fam frechas em que vfam erua, té rey fobre fi. Pera efta cidade defpachou o capitão mòr de Brauha a Lio- nel coutinho pera que chegafle lá primeyro, & affentafie pazes, ho qual como chegou foy logo a terra no feu batel, & porque fe não fiaua dos mouros pelo que lhacõtecera em Brauha: & fem fair em terra lançou fora hú catiuo dos q trazia pera por efte pedir feguro, & arrefens, & os mouros fegundo parece eftauão ja auifados da ida do capitão mòr, & apercebidos de gente de guerra, porque chegando Lionel coutinho ao porto logo fairão à praya trinta de caualos acubertados, & armados de fayas de malha, & per detrás de hú medão darea aparecia muyta gente de pê. E como ho catiuo que Lionel coutinho lançou em terra foy vifto pelos immigos foy logo tomado, & fem lhefcutaré palaura ho fizerão em pedaços, & chegarãfe aborda dagoa a falar com os noffos ameaçandoos
  • Historia da índia 296 que outro tãto lhe auião de fazer. E Lionel coutinho le afaftou, & che¬ gado ho capitão môr lhe contou ho que paífaua, & ouue cõfelho fobriíTo, & chamou a ele os pilotos da frota a que preguntou fe tinha ainda tépo pera ir a çacotora antes do inuerno, & elles lhe differão que não fe fe ali deteueífe que lhe cõpria muyto fazer dele grãde prouifão: porque gaftã- dolhe ho que tinha pera ir a çacotora que viria ho inuerno, & ele nam tinha por aquela cofta outro porto onde inuernafle com tamanhas naos como as que trazia: & que fe perderia, por iflo q fe não deteuefTe: & adi ho fez, & fe partio logo pera çacotora. CAPITOLO .XXXIX. Em q fe defcreue a ilha de çacotora. EA cêto & fetenta legoas defte lugar feguindo pela cofta adiante ao nordefte, & quarta do norte foi ter a hú cabo q fe chama de Goar- dafú õde efta cofta faz fim, & toma adobrar a loefte pera ho mar roxo, efte cabo eftâ na boca do eftreyto de Meca: & todas as naos de Cãbaya, do malabar, Ceylão, Choramandel, de Bengala, de çamatra, de Pegu, de Malaca, & da China vão demandar efte cabo, & daqui entrã pera dentro, delas pera Adem, & algúas pera Barbora & Zeyla & as mais pera Iudá. E a efte cabo as vem agora efperar as noffas armadas: & as tomão fe vão fem feguro do gouernador da índia, ou daqueles que lhos pedé dar. Eftâ efte cabo em doze graos da bãda do norte, & fica como digo da banda da Ethiopia, & da outra parte q he da Arabia fe faz outro cabo que fe chama de Fartaque queftà em altura de quinze graos: ãtref- tes dous cabos jaz húa ilha chamada çacotora trlta legoas de hú & trinta do outro que tem tres põtas húa fe chama Calancea, outra çoco outra Deberú. He de muy altas ferras ha nela muytas carnes, leyte, & tama- ras, que he bõ mãtimento da gente que he toda baça, affi homés como molheres que aqtigaméte foy Chriftã, & perdeofe a doutrina & enfinação Chriftaã, por mingoa de não auer nauegação pera efta ilha, & agora não tem mais q ho nome de Chriftãos nem fão bautizados, porem adorão a Cruz, & té muytas em altares da maneyra dos noífos, & chamãfe as mo¬ lheres Marias, Ifabeis, & Anas. E os homés dos nomes dos apoftolos. He géte que não tem nenhú trato nem nauegação com outros humanos: té lingoa fobre fi, & andão nus, afli homens como molheres, & cobré as partes vergonhofas de feu corpo com panos dalgodão que cõprão a algúas naos que ali vã ter que vão da índia pera ho mar roxo, a bufear fangue. de dragão de q ha muyto na ilha, & afti ho Aloes que fe chama çacoto-
  • Livro II, Capitolo XL 297 rino, por tomar ho nome deita ilha onde fe apanha, & hambar, & con¬ chas das que leuão pera a mina. Dizem os mouros que eíta ilha foy ja pouoada Damazonas, & que per tempo fe mefturarão coelas os homés. E algúa coufa parece diíto, porque as molheres meniítrão fuas fazendas fem os maridos niffo entenderem que fão froxos, & pera pouco, & conhe- ccdo iflo ho rey daquella terra de Fartaque, que he mouro, os fugigou, & mandou fazer nela húa fortaleza na ponta que fe chama ho çoco, & aqui tinha por capitão hú feu filho chamado Coje abrahem muyto valete caualeyro, & fem nhú medo, cõ cento & vinte homens de peleja todos Fartaquis que naquela terra & aíli onde fe achão fão tidos por muy esfor¬ çados, & por iflo os preza muyto quem os té de fua parte. E eítes eftauão muy bé apercebidos de laudeis de malha, efpadas, terçados, cofas, aza- gayas, zagunchos, pedras, & frechas. CAPITOLO .XL. De como Trijlão da cunha chegou â ilha de çacotora & peleiou com Xeque abrahê filho del rey de Fartaque, & ho defbaratou. CHegado ho capitão môr ao cabo de Goardafum, atraueflou pera çacotora onde chegou no mes Dabril que era então quarefma: & foy logo ter à pota de Calãçêa a tomar agoa, por não leuar a fua nao mais que húa pipa dela. E na mefma noyte furgio com toda a frota diante do çoco: & ao outro dia foy no feu batel ver a difpoíição da for¬ taleza: & forão coele nos feus bateis Lionel coutinho, & Ruy diaz pe- reyra: & coele hia hum mouro de Brauha pera lhe moftrar onde poderia defembarcar. E por efte mouro mandou ho capitão mór dizer ao Xeque abrahem que aquela frota era del rey de Portugal, por cujo mandado hia coquiftar aquela fortaleza, que da fua parte lhe requeria que lha entre- gafie, & que fazendoho affi feria feu amigo. E fe não que lha tomaria como fizera â cidade de Brahua: ao que Habrahé refpondeo que não tinha poder de feu pay el rey de Fartaq pera entregar aquela fortaleza fe não pera a defender ate a morte, & niffo eftaua determinado: q pois os noffos erão tão valentes q foffem a terra, & que a tomaffem fe podeffem, porq lha não auia de dar doutra maneyra. E no tempo que fe gaitou neftes recados vio ho capitão mór ho fitio da fortaleza, q eftaua em húa terra chaã perto de húa ferra que lhe ficaua da banda de lefte: eftaria do mar obra dhú tiro de béfta, era pequena & conchegada, com torre de menagé, & torre dalcayde, & algús cobelos no muro da bãda de fóra & ho lanço do muro em q eftaua a porta principal eftaua cercado de barbacaã & não
  • Historia da índia 2g8 tinha nenhúa artelharia: quafi pegada coela da bãda do fui eftaua a po- uoaçã da gete da terra, defrõte da qual eftaua furta a armada. E da bãda de lefte fe fazia húa feyção de baya na borda dhú palmar que ficaua da¬ quela banda ãtre a ferra & ho mar, que por fer baya eftaua ali quieto & chão. E da banda do fui defronte donde a frota eftaua furta, por fer prava & defcuberta fazia ho mar grande rolo, & era ali a defembarcação peri- gofa. E por iífo pareceo bê ao capitão môr cõ confelho Dafonfo dalbu- querque, & dos outros capitães defembarcar antes da banda de lefte na baya pofto que foffe hú pouco mais longe, por fer a defembarcação fegura, antes que da banda do fui polo perigo que tinha, pofto que foffe mais perto: porque como na fortaleza não auia artelharia que lhe tiraífe era melhor deterfe mais hum pouco em chegar a terra fem perigo que che¬ gar afinha coele. E vifta pelo capitão moor a difpofição da fortaleza, & ho lugar onde poderia defembarcar, tornoufe aas naos fem os mouros em todo aqle tempo fe moftraré nem fazere nhú aluoroço: porq Habrahem confiaua tanto na valentia dos feus foldados pela muyta experiecia q tinha deles, q zõbaua de nenhú poder do mudo lhe tomar por força a fortaleza, quãto mais a gente q vielfe naquela armada. E por iífo ouue por efcufado fazer nhúa moftra fe não ao tépo do pelejar. E vedo ele a vifta q ho ca¬ pitão môr dera à parte do palmar, & como fe deteuera ali mais q em outra, fofpeitãdo q hi auia de defembarcar mãdou logo na noyte feguinte fazer húa eftãcia dartelharia, & pos nela gente q a goardaífe. Ho capitã môr tanto que foy nas naos chamou a confelho, em q propos a determi¬ nação em q eftaua de dar naquela fortaleza, pedindo a cada hú feu pare¬ cer. E defpois que lho todos derão que era que ele deffe na fortaleza, affentoufe que defembarcaffe no palmar polas rezões que ja diífe: & que foffe ante manhaã, & que leuaffe a dianteira: & afli fe fez. E eftando todos enbarcados em rõpendo a alua mandou remar pera terra em de- reyto do palmar: & hião tendo coele Ioão da noua, Lionel coutinho, Ruy diaz pereyra, Iob queymado, & outros dous capitães. E Afonfo dalbu- querque hia a tras com os feus capitães .f. Frãcifco de tauora, Manuel telez Barreto, Antonio do campo, Afonfo lopez da cofta & hião nos feus bateis: & Afonfo dalbuquerque hia no feu efquife, porque deu ho batel a feu fobrinho dom Afonfo de noronha que hia nele com quarenta efpin- gardeyros, & leuaua no batel hum tiro dartelharia com húa cabria, & dous troços defcada pera fobirem ao muro da fortaleza. E indo afli vio Afonfo dalbuquerque com a claridade do dia que ho mar eftaua manfo, & que fe podia defembarcar fem perigo defronte donde as naos eftauão, não quis mais dilatar fua defembarcação: porque defembarcãdo ali por fer mais perto que ode ho capitão môr hia defembarcar, eftaua em rifco
  • Livro II, Capitolo XL 299 de ganhar toda a hõrra daquela emprefa em chegar primeyro à fortaleza, & mandou que defembarcaflem defronte dela, & adi foy feyto. E o pri¬ meyro batel que chegou a terra, & de que defembarcou gente foy ho de dom Afonfo, & logo a dos outros muyto â fua vontade, porque xeque Habrahem que eftaua efperando ho cometimento dos noflos, como vio en¬ caminhar ho capitão môr pera ho palmar acodio logo com todos a efpe- ralo. E eftaua tão foberbo que lhe parecia que abaftaua com os feus a defenderlhe que nã tomaffe terra: & fegundo a fua géte era esforçada poderá fer que fe fe deixara eftar na fortaleza que fe defendera ate lhe ir focorro: & que dera mao trato aos noflos. E indo efperar ho capitão moor ao palmar vio que Afonfo dalbuquerq defembarcaua pela outra parte, & acodio cÕ parte dos feus pera lhe tolher a defembarcação. Ele hia armado em hum laudel de laminas de cetim carmefim, & leuaua na cabeça húa celada antiga & húa adarga de coyro muyto forte, & na cinta húa efpada rica, & na mão húa azagaya darremeffo, & deu com os de Afonfo dalbuquerque, acabando eles de defembarcar: dom Afonfo de no- ronha que eftaua diante em vendo vir os immigos remeteo a eles com os feus efpingardeiros, que em chegando os facodirão tam rijo com as efpin- gardas q nunca xeque Habrahem pode ter os feus que fe nã retiraflem pera a fortaleza: o que ele vendo deyxoufe ficar nas coftas deles com obra doytenta frecheyros pera os ir emparando dos noflos q os hião feguindo, principalmente dom Afonfo, & algús marinheyros, que por irem defarmados podião andar mais que ele. E apos ele hião logo Iames tey- xeyra, & hú Pedraluarez que fora da copa del rey dom Ioão, & Nuno vaz de caftelo branco, & outro Pedraluarez que fora paje do conde Da- brantes: & afíi outros que ferião ate oyto, & apos eles hia ho corpo da gente. E eftes diãteyros que digo hião ferindo os immigos, os quaes fe não ajudauão bem dos pees por eftar naquele lugar ho jazigo dos mouros em que auia muytas fepulturas: porem Xeque abrahem os leuaua no me¬ lhor concerto que podia. E chegãdo perto da fortaleza fez volta aos noflos parecédolhe q os faria afaftar pera lhe daré lugar q fe recolhefle, ho que lhe fahio ao reues, porque em ele fazendo volta com os feus teue dom Afonfo tempo de paliar auante: & como hia defejofo de lhe chegar, fez tanto q fe igoalou coele. E ele ho efperou com muyto esforço confiando em fua valentia que abaftaria pera matar a dom Afonfo, mas ele ho ma¬ tou, & logo com fua morte os feus forã muy afinha mortos: principal¬ mente os oyto que voltarão coele, & em quanto fe ifto fazia defembarcou ho capitão mór a pefar dos mouros que trabalharão quanto poderão por lho defender. E ouue fobriflo feridos dambas as partes, & mortos algús mouros, que tanto que virão ho capitão mòr defembarcado, & que não
  • 3oo Historia da índia auia remedio pera lhe contrariar, virarão as coftas pera fe acolherem 3 fortaleza, indo algús dos noífos apos eles, & ho capitão môr fe deyxou ir de feu vagar acompanhandoho Nuno da cunha que era feu filho mais velho, & aífi outros fidalgos, & capitães. E os mouros que hião fugindo pera a fortaleza chegarão onde Afonfo dalbuquerque eftaua ao tempo que os noífos acabauão de matar Abrahem, & os feus. E achando pejado ho caminho pera a fortaleza rodearão pera entrarem nela, & foranfe ajuntar com os que hião com Abrahé que eftauão 3 porta da fortaleza pelejando com os noífos muy esforçadamete, porque não entraífem coeles de volta na fortaleza de cuja porta ho poftigo foomente eftaua aberto. E nefta re- uolta forão mortos muytos mouros, & obra de vinte & cinco ate trinta fe meterão na fortaleza, & porque os noífos não entraífem dentro fecha¬ rão ho poftigo, pofto que ficauão fora perto de trinta & cinco que defef- perando de poder entrar nem de fe poderem emparar dos noífos fugirão pera ho palmar & dali fe efpalharão pola ilha, & aífi fe faluarão. CAPITOLO .XLI. De como defpois de morto Xeque Abrahem fe recolherão algús mouros â fortaleza. È de como Afonfo dalbuquerque a entrou, & da dura refif- tencia que os nojfos acharão nos mouros. AFonso dalbuquerque com a tenção & defejo que tinha dentrar 3 fortaleza não quis q os noífos feguiffem os immigos: antes como os vio fugir, & que a porta da fortaleza ficou defapreífada che- goufe a ela acompanhado de todos aqueles fidalgos, & caualeyros, & ou¬ tra gente que com ele eftaua, com tenção de leuarem ho poftigo nas mãos por não eftar fechado de todo que parece que ho foabrirão os mouros parecendolhe que poderião ainda recolher os outros que ficauão de fora. E chegandofe aífi Afonfo dalbuquerque com a gente, começarão de cair muytos cantos, & arremeífos que deytauão os mouros dhúa goarita que eftaua fobre a porta, & aífi tirauão com fundas pela abertura do poftigo, & com húa coufa & com a outra ferirão muytos dos noífos. E a Afonfo dalbuquerque lhe deu hú canto na cabeça que ho derribou: mas não per- deo ho acordo. Porem afaftoufe, & fez afaftar os feus, & mandou pelo tiro com a cabria, & pelos troços, & aífi por machados pera quebrar as portas: & vindos os machados, & os troços que chegarão muyto primeyro que ho tiro, forão poftos ao muro per onde logo-fobirão, ho que leuaua a bandeyra Dafonfo dalbuquerque, que fe chamaua Gafpar diaz, & també fobio ho guião de Iob queymado: & aífi fobirão algús dos noífos. E vendo
  • Livro II, Capitolo XLI 3o t os mouros a bandeyra, & ho guião encima do muro defpejarãno, & a goa- •rita de fobela porta, & recolherãofe â torre da menajem queftaua çarrada com a torre do alcayde, & tato q defpejarão da porta da fortaleza teue- rão os noífos lugar de chegar fem perigo cõ os machados, & quebrarão as portas. E eftes forão, dõ Afofo de noronha, dom Antonio feu hirmão, Manuel telez barreto, & dom Ieronimo de lima. E quebradas as portas entrarão dentro, & affi a outra gente. E fentindo dom Afonfo que os mou¬ ros eftauão recolhidos na torre da menajem chegoufe â porta com feu hir¬ mão dom Antonio, james teyxeyra, Pedraluarez, & Nuno vaz de caftelo brãco: & ho outro Pedraluarez cuydando que cÕ fuas forças leuarião a porta nas mãos, mas não poderão. E dom Ieronimo de lima, Antonio dazeuedo, dom Ioão de lima, Manuel de laçerda, Manuel telez, & Afonfo lopez da cofta cõ outros fidalgos vedo a dificuldade que auia na porta forão bufcar pera verem fe achauão outra entrada, & virão húa efcada que hia do muro a efta torre per onde fobirão: & forão ter ao terrado dela fem nunca poderem dar com os mouros, por eftarem decima muyto bem fechados, & eftauão no fobrado debayxo donde defendiam muy bra- uamente a porta com muytas pedradas: & azagayadas: com que também ferirão algús dos noffos, mas ifto não durou muito, porque logo as portas forão quebradas com machados. E ho primeyro que quifera entrar foy dom Antonio de noronha que era muy esforçado caualeyro, & em que¬ rendo meter a cabeça per ho buraco que eftaua feyto lhe derão de dentro húa cutilada per cima do capacete, & lhe ouuerão de cortar ho pefcoço fenão fora húa adarga que lhe Afonfo dalbuquerque deytou muy depreda quando vio fobrele a cutilada. E acabada de quebrar a porta recolherãofe os mouros à torre do alcayde que era no fobrado do meyo, & feruiafe com a da menajem per húa efcada cuberta dabobada: & não erão mais de vinte & cinco, porem tão valentes homens que tinhão oufadia pera fe de- fenderé ate morte: & tanto que forão na torre do alcayde trancarão muy bem a porta que era pequena, & deyxaranfe eftar. E abalãdo Afonfo dal¬ buquerque pera efta porta chegou ho capitão môr cõ feu filho Nuno da cunha & outros fidalgos com ho refto da gente & logo Afonfo dalbuquer¬ que mandou quebrar as portas cõ os machados, & os mouros de dentro eftauão tanto alerta que afli como fe fazia abertura na porta, affi fahião logo por ela as efpadas com que dauão muy feras cutiladas fegundo fe pareceo nas adargas de Iorge barreto, & de Ioam fernandez ayo de Nuno da cunha, & doutros que fendo muyto fortes forão todas affatiadas de tamanhas cutiladas que lhe chegauão aos embraçamentos. E como a porta era pequena & eles fe defendião tão brauaméte nã os podião os noffos entrar. E vendo ho capitão mòr, & Afonfo dalbuquerque fua
  • 302 Historia da índia grande valentia, pefoulhes de morrerem tão efpeciaes caualeyros, & co- meteranlhes por hú lingoa que fe deflem, & que lhes darião as vidas: & eles eílauão tão emperrados contra os noflos que antes quiferão morrer, parecendolhes que primeyro matarião algús, & fendo os noflos defenga- nados que fe não querião dar: hum Ioão freyre paje do capitão môr quis fobir ao terrado da torre com tenção dentrar por ali: & fobio por hú pao: & porque ho terrado era cercado de peytoris altos, faltou deles no ter¬ rado. E parece que pelo falto foy fentido dos mouros, ou como quer que foy fairamlhe logo algús per húa portinha que fahia ao terrado que era tão eftreyto que Ioão freyre fe não pode ajudar dá lança que leuaua pera le defender dos mouros, antes fembaraçou de maneyra que hú deles ho pode matar ferindoho com húa azagaya. E ainda ele não eítaua bem morto quando Nuno vaz de caftelo branco, que também fobira faltou no terrado, & adi Dinis fernandez de melo ho mulato: & hú Antonio de lis, & logo os mouros em os vendo fe decerão ao fobrado onde os outros eíta- uão, & todauia defendendo valentemente ho lugar per onde decião que por fer muy perigofo, & por os mouros eftarem debayxo, & poderem matar ali os noflos as eftocadas, nam quiferão eles decer apos os mou¬ ros. E parecendolhes que decima lhes farião dano com húa bêíta que leuaua Nuno vaz fe deteuerão, & ele fez muy afinha no terrado hum bu¬ raco com hum punhal q trazia, & dali fez quatorze tiros que todos em¬ pregou. E com tudo não aproueytaua pera debilitar os mouros que eíta- uão como danados: & era pafmo ver ho que fazião, ho que vendo Afonfo dalbuquerque, & que fe aquilo fofle auante que era nunca acabar, mãdou trazer dous padefes bizcainhos q por fua fortaleza empararião os noflos fem os mouros os poderem offender, & leuandoos diante dous homens remetem à porta, indo outros muytos detrás deles, & aífi entrarão com os mouros, & como forão dentro matarãnos a todos em pouco efpaço. E mortos ficarão os noflos fenhores da fortaleza que foy tomada das feis oras da manhã ate ho meo dia. E morrerião dos mouros ate oytenta & cinco & não fe tomou viuo mais q hú q era piloto & auia nome Homar. E dos noflos morreo entã fomente Ioão freyre, & forão feridos obra de cincoenta, de que defpois morrerão fete. E tomada a fortaleza foy me¬ tida a faco, & por os mouros ferê frõteyros acharã os noflos pouco def- pojo de riqueza: & ho mais foy dalgús mantimétos & darmas antre as quaes forão achadas algúas efpadas com letras latinas que dezião é latim, Deos ajudame: no que parecia que Chriftãos as fizerão, & as venderão aos mouros. E na pouoação da gente da terra acharão os noflos mais algú defpojo q na fortaleza: por teré hi os mouros fuas molheres & as fuas calas, & não outras forão roubadas. E as molheres dos mouros
  • Livro II, Capitolo XLII 3oS na forão catiuas por fere naturaes da terra, cujos moradores ho capitão mór não qria anojar antes atrahelos a paz, & concordia com os noffos, pera que os que ficaffem na fortaleza efteueffem feguros. E por iffo def- pois de tomada mandou dizer â pouoação que lhes rogaua que não fizef- - fem nhú aluoroço por fua vinda: porque ele não vinha ali por mãdado del rey de Portugal fenão pera os liurar do poder dos mouros, porque fabia que erão Chriftãos como eles rogãdolhes muyto q por eífa rezão quifeffem fer feus amigos. Ho qual recado efles mais velhos que gouer- nauão a terra receberão com grande contentaméto, & ho diflerão a todos os da pouoação: que forão muyto contentes com a amizade dos noffos. CAPITOLO .XLII. De como defpois de tomada a fortaleza de çacotorâ àos mouros, fe\ o capitão mór amizade com a gete da terra, & do mais que fucedeo. OVuido ho recado do capitão môr logo os mais velhos da terra, & algús clérigos lhe forão falar aque ele diffe ho que lhes mandara dizer pelo lingoa. E eles lhe derã cõta de como eftauão fugeytos a el rey de Fartaque, & da gente que ali tinha cõ feu filho, & defpois de lhes ho capitão mòr dizer a caufa de fua vinda, & como auia de dey- xar gente naquela fortaleza pera fegurança da terra concertou coeles que ho ajudaffem com mantimentos, & que fe fizeífem Chriftãos fegúdo cof- tume da igreja Romana, como logo começarã de fazer na mezquita â que ho capitão mòr pos nome noffa Senora da vitoria, onde ele & todos os fidalgos, & capitães forão em prociffão, & leuarão com grande fefta os primeyros que fe fizerão Chriftãos. E affentado ifto, ho capitão mór en¬ tregou a capitania da fortaleza à dom Afonfo de noronha, q a trazia de Portugal & deulhe cargo de a fortalecer. E por quãto fe ele auia de hir pera a índia, & Afofo dalbuquerque auia de ficar por capitão mòr do mar deulhe cuydado do prouimeto da fortaleza, & pera q a géte da terra lhe conheceífe fnorio. Pelo qual Afonfo dalbuquerque foube logo quãtos erão os palmares que os mouros tinhão, & tomou os, porq erão dos mou¬ ros, & tomados os arrendou a homens da terra, pera que lhe pagaffem renda de tamaras: & de milho, que fão os principaes mantimentos da terra, & outros deyxou pera as mandar apanhar. E eftando afli nefta amizade os mouros q diíTe que efcaparão da tomada da fortaleza como querião mal aos noffos trabalharão por induzir como induzirão a gente da terra que moraua em algúas pouoações afaftadas da fortaleza que fe leuãtaffem contra os noffos fazendolhes crer q nã vinhão ali fenão pera
  • 304 Historia da índia lhes tomar a terra, & a eles leualos catiuos cÕ molheres & filhos: & q fe eles fe leuãtaffem contra os noffos, & lhes não deíTem mantimétos que não poderião fofrer eftar mais na ilha, & fe irião. E tomando os da terra efte confelho ho poferão por obra, de que fucedeo auer antreles & os noffos algús defcocertos de guerra que ainda que durauão pouco, foram muytas vezes. E ilto durou quafi todo ho inuerno que Trilião da cunha ali teue, por fer muyto perigofo atraueffar nele a índia, & as naos da frota inuernarão no mar: por fe não poderem tirar a monte, & elleuerão em húa ponta chamada Benim que quer dizer emperadora dos ventos, & fempre ho capitão môr dormia no mar cõ fua gente, por os mouros lhe não fazerem algúa roindade nas naos com lhe poerem fogo, & Afonfo dalbuquerque era ho que tinha quentender com a géte da terra quando fe leuantaua. CAPITOLO .XLIII. Como fe começou de leuantar el rey de Cananor contra os noffos q ejla- uão na fortaleza-& de como ho uiforey os mandou /ocorrer per dom Lourenço. NEste tempo reynaua em Cananor hú rey que fucedera no reyno per morte do que era amigo dos noffos. E eíle fora feyto rey cõ fauor del rey de Calicut, & era grãde noífo immigo & defejaua muyto de lãçar os noffos de fua terra. E andaua efperando tempo pera fe leuantar contra a fortaleza. E tomou caufa pera ho fazer por amor do capitão da nao que Gonçalo vaz de goios tomou a monte Deli que deytou no mar, na barra de Cochi. E morreo como ja diffe, do que ele mãdou aqueyxar a el rey de Calicut, pedindolhe ajuda de gente, & armas pera fe aleuantar contra os noffos. El rey de Calicut que auia dias que lhe cõ- felhaua, ho mefmo lha mandou logo affi de géte como de vinte & quatro peças dartelharia mandandolhe muytos agardecimentos do que fazia, & ofrecimentos pera mayor ajuda fe lhe folfe neceífaria. E alfi ho mandou muyto esforçar pera começar a guç,rra, & infiílir nela com cuja repoíla el rey de Cananor foy muy contente. E como era em Abril, & entraua ho inuerno, que era ho tempo que ele tinha por melhor pera dar feu de- fejo a execução começou de ho mollrar, porque fazia cota que no inuerno a fonaleza não podia fer focorrida, por quam perigofa he a nauegação daquela cofta em tal tempo. E antre a fua cidade, & hú poço dagoa que ellaua obra dhú tiro de pedra da fortaleza de que os noffos bibião, man¬ dou abrir húa caua que atraueífaffe de mar a mar: & mandou que dey- xaffem hú caminho muyto eftreyto pera ho poço, & não fabendo Louréço
  • Livro II, Capitolo XLIIII 3o5 de brito, ho pera que aquilo era, quis noffo fenhor que ho foube polo Príncipe de Cananor, & por hú feu tio grandes feus amigos que lho man- darão-dizer, auifandoho que fe goardaffe, & q foubeffe que ho caminho que ficaua da caua pera ho poço, ficaua pera feruentia de fe defender por ali a agoa aos noffos, & pelejar coeles: & que defronte dele fe auião de fazer eftancias dartelharia. E affi ho auifarão da grande ajuda que el rey de Calicut daua a el rey de Cananor, & que tinha pera aquela guerra feffenta mil homens. Lourenço de brito mãdou muytas peças ricas ao Príncipe & a feu tio por efte auifo, & prometendolhes outras muytas porque lhe deífem outros do que el rey determinaffe naquela guerra, ho q lhe eles prometerão, affi por ferem feus amigos como polo que efpera- uao, q fão muy inclinados a receber ho q lhes dão. E Loureço de brito efcreueo logo ao viforey pedindolhe focorro & entretãto mandou aos noffos q nhú não foífe a pouoação dos mouros. Ho viforey quando lhe chegou ho recado de Lourenço de brito andaua ocupado em ho proceífo contra os capitães que aconfelharão a dom Loureço que não pelejaffe com Maymame, & vedo a neceífidade que Cananor tinha de focorro def- pachou logo pera lá a dõ Lourenço em húa nao: & hião coele muytos fidalgos, & outra gente: & mãdoulhe ho viforey que obedeceffe em tudo a Loureço de brito, affi em ficar na fortaleza como e fe tornar. E che¬ gando dom Lourenço a Cananor Lourenço de brito fe carregou muyto coele, parecedolhe que hia pera inuernar hi: & diífelhe logo que fe auia ali de ter ho luerno que ele fe hiria pera Cochim: & dom Lourenço lhe difie ho que lhe feu pay mandara, por iffo que logo fe queria tornar. E affi ho fez deixandolhe a gente que trazia cõ que ficauão na fortaleza quatro cétos homés antre Portuguefes, & Malabares, porto que eftes erão os menos, & dom Lourenço fe tornou pera Cochim com muyto grande trabalho por achar ja muytas toruoadas, & tormentas. CAPITOLO .XLIIII. De certos capitães nioores de uiagem que partirão pera a índia no antio de M. Dvij. E de como foy Vafco gome\ dabreu por capitão môr de çofala: & de Moçambique. NEste anno de mil & quinhétos & fete ouue el rey de Portugal por bem que a armada que auia dir pera a índia forte repartida per tres capitanias mòres-q forão defta maneyra .f. Iorge de melo pe- reyra capitão da nao belé foy por capitão môr Dãrriq nunez de lião q hia por capitão dhú nauio chamado fanto Antonio, Felipe de crafto por capi- 39 Tomo I
  • 3o6 Historia da índia tão môr de Iorge de craíto feu hirmão, Fernão foarez capitão mòr de Ruy da cunha, de Gonçalo carneyro, & de Ioão colaço, & todos hião em naos groflas. E cada hum deites capitães mores affi como fe acabaua daperceber fe partia, & partirão todos ate Abril meado. Mandou també el rey por capitão mòr de çofala, & Moçambique a Vafco gomez dabreu que fora por capitão na armada do viforey, & mandaua fazer por ele húa fortaleza na ilha de Moçambique onde auia deitar feytor & alcayde môr: porque as armadas que ali hião fazer agoada achaffem gafalhado, & auia de fer feu fuperior Vafco gomez. E aili lhe deu el rey pera leuar configo a Ruy gonçaluez de Valadares capita do nauio fã Simã, & a Pero louréço do nauio fão Ioã, & a Ioã chanoca capitão dhúa carauela: & ho nauio em que auia de hir ho capitão mór fe chamaua fam Romão cujo capitão fe chamaua Lopo cabral. E eítes quatro capitães hião ordenados pera auerem de fazer pola coíta de çofala ate Melinde ho que lhe mandaífe Vafco gomez dabreu: porque era a teçam del rey goardarem aquela coíta que não leuaffem os mouros dela nenhum ouro pera o mar roxo, né pera a índia, né pera nhúa outra parte; & per eíta maneyra tolheria aos mou¬ ros a cõuerfação cõ os Cafres: & fe tornarião mais afinha a noffa fanta fê catholica, & a ele refultaífe tãbé mayor proueyto de çofala. E em cÕ- panhia de Vafco gomez forão tãbé dous fidalgos por capitães de duas naos, hú chamado Marti coelho capitão da nao fão Chriítouão & Diogo de melo da nao fão Ioão, & eítes dous capitães hiã dirigidos pera q andaifem na índia tres annos darmada, onde foffé mais neceífarios. E defpachadas eítas naos & nauios, partiofe coelas ho capitão môr Vafco gomez dabreu húa terçafeyra vinte dias Dabril: & aos tres do mes de Maio na coíta de Guine mandou â Ioão chanoca capitão da carauela que foffe diãte de toda a frota, & que leuaffe ho forol por fer ho mais peqno nauio dela, & mais veleyro. E indo aili diante fe perdeo húa noyte na coíta do reyno de Gelofo por mâ vigia: & faluoufe toda a gente por fer muyto em terra: & os outros nauios fe faluarão daquele defaítre por graça de nolfo fnor, q deu fentido aos que hião neles pera ouuiré toar ho mar, & conheceré quam perto eítauão de terra, que não fabião da per¬ dição da carauela, aífi pola efcuridão grande da noyte, como por a cara¬ uela ir mea legoa afaítada da frota pera a coíta, & conhecendo os pilotos ho perigo em que eítauão furgirão & aífi eíteuerão furtos ate ho outro dia, que ho capitão mòr foube como a carauela era perdida, & por a coíta fer roim, & quebrar ho mar muyto nela, & fer em terra de roim gente não oufou de mandar a terra: & também porquefperaua de fazer agoada em Bezeguiche queítaua dali perto, como de feyto fez: & quando chegou achou hi a gente da carauela, fenão ho capitão, & efcriuão, &
  • Livro II, Capitolo XL V 307 perto de qulze homés queftauão reteudos per mãdado del rey de Gelofo, os quaes correrão muyto rifco de os mataré, & os roubarão de tudo ho que leuauão, & ho capitão mòr os ouue com dificuldade. CAPITOLO .XLV. De como el rey de Cananor rompeo a guerra com ho capitão de Cana¬ nor, & do ardil que mejlre Thomas fernande\ teue pera que os noffos tomajjem agoa fem perigo. DEspois de partido dõ Louréço pera CochT, Lourenço de brito capi¬ tão da fortaleza de Cananor fe apercebeo pera a guerra quefpe- raua, & mandou fazer húa tranqueyra antre a fortaleza & ho poço, porem mais perto dele que da fortaleza, porque os noffos tiuefTc menos que ãdar, quãdo foffem tomar agoa: porque como digo não tinhão outra que bebeffem fenão aquela. E efta tranqueyra chegaua tãbe de mar a mar como a dos Imigos: & mandou deyxar húa feruentia com húa ponte leua- diça, que fe leuantaua: & abayxaua per duas cadeas. E afli nefta feruen¬ tia como na trãqueyra mandou fazer eftancias dartelharia, & hú pedaço de caua. El rey de Cananor como foube a maneyra de q fe ho capitão percebia, não quis mais dilatar ho rõpiméto da guerra q ateli tinha difli- mulado, & fez preftes fua géte q ferião bé fefféta mil naires, & mouros. E na étrada de Mayo fendo as tranqueyras dambas as partes acabadas, mãdou dar vifta à fortaleza com toda efta gente, & todos bé armados à fua vfança, hús de frechas, outros de lãças, outros defpadas & adargas. E como erão tantos cobrião toda a terra, & era efpanto velos: efpecial- mente que leuantarão grandes gritas: & pos elas defpararão efta artelha- ria que tinhão nas eftancias, â que os noffos também refponderão das fuas, que ho capitão tinha ordenadas, & repartidas por effes fidalgos que auia na fortaleza que não nomeyo, porque não foube ho nome de todos. E Lourenço de brito acodio logo a tranqueyra onde os noffos efteuerão aos botes cÕ os immigos, & tirandofe hús aos outros com frechas, fetas, & arremeffos, & efpingardadas, & durou efta peleja hú boõ pedaço que os immigos fe recolherão a fuas eftancias. E logo ho capitão repartio oy- téta homés per quoatro quartos que vigiaffem de noyte a tranqueyra, & a defédeffem fe os mouros vieffem. E afli ordenou outros que pelo mefmo modo vigiaffem a ponta de Cananor, onde a efte tempo eftaua a feytoria, & muytas cafas terreas cubertas dola em que morauão Portuguefes. E porque os Imigos tinhão armada no mar, fe temia que de noyte faltaffem em terra, & pofeffem fogo âs cafas, a mandou vigiar, & a géte q fobejou
  • 3o8 Historia da índia deitas vigias ficou pera ele focorrer coela quando foíTe tépo, & junto da porta da trãqueyra mãdou fazer húa cafa grande terrea cuberta dola, & cercada de bancos pera colheyta dos q vigiauão, quando choueffe, & pera dormirem quando não vigiauão. E daqui por diante pelejauão os noífos muytas vezes com os immigos, aíli na trãqueyra que eles vinhão cometer, como quãdo os noflos hião tomar agoa do poço: porque como os immigos fabião quanta neceflidade os noífos tinhão dela, trabalhauão com todas fuas forças por lha defender. E ho capitão que ilto fabia, por¬ que lhe não matarem muytos quando a fofTem tomar, mandaua primeyro fair fora da tranqueyra ao capitão de cujo era ho quarto com fua gente a trauar peleja com os immigos: & como era trauada, fahia ho alcayde mòr com ho corpo da gente, & engroífaua a peleja: & eítes embaraçauão os immigos que não toruaífem os que fahião a tomar agoa, que a toma- uão em quanto duraua a peleja: em que noífo fenor daua esforço aos noflos que não fedo mais que ate duzentos homes: & os immigos quando menos vinte mil foltinhão ho feu impeto, não receãdo a multidão de fre¬ chadas, lãçadas, cutiladas, & arremedos, & muytos pelouros dartelharia, em quanto fe tomaua a agoa: & ela recolhida le recolhião eles a tran¬ queyra, matando fempre dos immigos: porem cuítandolhe muyto, porque núca lahião a tomar agoa q não viefle muytos feridos, & algús ficauão mortos, & pola fua pouquidade fentiafe mais hú deles que cincoenta dos immigos, que fegundo erão muytos, era muyto ficarem no campo tão pou¬ cos dos noífos, que forçadamete fahião quafi cada dia a tomar agoa, porq como os que fahião a tomala erão poucos, & a tomauão cõ tamanho pe¬ rigo, não podião tomar fe não pouca: & nefta punha ho capitão muyta prouifão, & fe daua per tão eftreyta regra, que não auia que não pade- ceífe fede. E por iífo os noífos querião ãtes pelejar com os Imigos que com ho trabalho da íede, & importunauão ho capitão que os deyxafle fair muytas vezes: & como ele pelo perigo ho não cõfentifle, algús diziãlhe que fahirião ainda q ele não quifeífe. E por iífo lhe alargaua a redea com quanto lhe pefaua muyto dos que morrião. E auendo hú mes que ho cerco duraua, & vendo que fe os noífos leuaffem ho caminho que leuauão, que antes de acabar ho inuerno, que era ho tempo quefperaua q duraífe, aca- barião eles: deytoufe a cuydar no remedio que ifto teria: & pareceolhe que defpois de deos lho daria hú Thomas fernandez meftre das obras del rey na índia, que fizera eífas fortalezas que auia nela: & era homê de boõ faber em fua arte, & de futil engenho, a quê pedio remedio pera auer a agoa fem perigo. E cuydando meftre Thomas niífo inuentou de fazer húa mina que foífe da fortaleza ate ho poço. E começouha logo, & afli como hião cauando hú pedaço, aíli era logo cuberto darcos de pedra-
  • Livro II, Capitolo XL VI 3og ria: & deite modo foy a mina ate tam perto do poço, que não falecia mais de hú couto pera chegar a ele, & então ordenou per onde fe podia tirar a agoa, & a mina era de tanta altura & largura q podião ir por ela dous homés a caualo, & quando fe acabou, foy grande feita feyta na fortaleza, & derãfe muytos louuores a noífo fenhor, & a meítre Thomas por tão boa inuenção como aquela foy. E dali por diãte forão os noffos abaíttados dagoa & fora de perigo, & do trabalho que tinhão em a ir tomar, porq não fairão mais a tomala. E receando ho capitão que os im- migos com rayua de os noffos não fairem a tomaria, & os não poderé matar lhes deitaffem nela peçonha, (porque logo auião dentender que a tomauão por detro) por dentro da mina, mandou também fazer no meyo do poço hú fobrado com palmeyras, & rama delas, & fobrefte fobrado mandou arrunhar o poço: & afíi ficou, de maneyra que os im- migos lhe não podião fazer nhú nojo. CAPITOLO .XLVI. De como elrey de Cananor uendo que os noffos não fahião á tomar agoa: determinou de os tomar per cõbate, & de como ho Príncipe aui- fou di/lo ao capitão. VEndo el rey de Cananor que no tomar da agoa não podia fazer mal aos noífos, tomou confelho com os mouros de q maneyra lho faria: & eles lho derão, que mãdafle cõbater a tranqueyra muyto â miude, & alli fe fazia, mas não lhe aproueytaua nada, porque fempre ficauão no campo muytos deles, ho que vedo os immigos começarão de recear a tranqueyra, & não querião correrlhe por mais que lho el rey mandaua: & efteuerão bé vinte dias fem ho fazer. E a el rey não lhe deu difto, porque neítes dias lhe derão os mouros hú ardil pera tomar a tran¬ queyra. E entre tanto que fe fazião as coufas neceffarias pera hú com¬ bate q fe lhe hauia de dar, com que fefperaua q fe tomalfe, quis dar folga aos feus: & mandou os afaítar, & afíi a artelharia. E vendo ho capitã que os Imigos nã vinhão como fohião efpantoufe muyto, & pareceolhe aquilo algú mifterio. E por outra parte parecialhe que fe fora coufa que lhe comprira faber, que ho príncipe lhe dera auifo. Mas quãdo lhe lem- braua que ho parentefco que tinha com el rey, & a cõuerfação poderia mais que a amizade q tinha coele: & mais paífando de dous mefes que a não exercitauão, não 1'abia fe cõfiaffe nele: & andando neíta duuida de- fejaua de fe tirar dela, & faber ho porque os Imigos não cõbatiã â tran¬ queyra como dãtes. E hú carpinteyro da fortaleza, que era amo de
  • 3io Historia da Lídia Triftão da cunha vendolhe efta võtade de tomar lingoa, lhe diffe que ele armaria fora da tranqueyra hú cepo, com que facilmente fe tomaria lin¬ goa dos immigos fe vieffem algús: & aíTi ho fez. E pera que eles vieffem mãdou ho capitão obra de quarenta efpingardeyros que foífem contra Cananor onde os immigos eftauão: q vendo os noffos fahirã logo muytos a pelejar coeles, cuydando que os mataífem. Os noffos fe recolherão con¬ tra ho lugar õde eltaua ho cepo. E chegando perto dele fizerão duas vezes volta aos immigos: & da derradeyra fizerão que fugião. E cuydando os immigos que era de verdade apertarão coeles, & ho principal cahio logo no cepo. Os noffos que ho virão fizerão volta aos Imigos, & apertãdo coeles os fizerão fugir, & tomarão ho que caira no cepo: & leuarãno ao capitão q lhe fez preguntas da caufa porque os Imigos não vinhão correr a trãqueyra, & ho q determinauã: & ele diffe, que porque vião quã pouco lhe preftauam feus cometimentos, & que não fabia outra coufa. E porque efte Nayre vinha ferido ho capitão ho mandou curar: & dali â poucos dias ho Prlcipe de Cananor mãdou dizer ao capitão que fe percebeffe dhúa tranqueyra muyto forte, porque lhe auia de fer dado hum muy rijo combate com balas dalgodão que os immigos auiam de leuar diante pera embaçaré nelas os pelouros da noífa artelharia, & que determinauão de de lhes atupir a caua com muytos materiaes que trazião pera iffo, por iffo q oulhaífe por fi. E efte recado lhe mandou per hú criado feu que foy de noyte per mar à fortaleza en húa almadia, e que lhe leuaua da parte do Prlcipe galinhas, figos, & cocos. E efte recado tomou ho capi¬ tão fecretamente: & defpedio ho meffegeyro com muytos agardecimétos ao Principe: & afli com algúas peças ricas & ao outro dia diffe é fecreto a certos fidalgos o que lhe mandara dizer o Principe & apercebeofe pera efte combate, fortalecendo muyto mais a tranqueyra do que eftaua. CAPITOLO .XLV11. % De como os immigos derão hú combate â tranqueyra, & de como forão defbaratados. ACabadas de fazer as balas que os immigos fazião pera ho cõbate q auiã de dar aos noffos, propos el rey de Cananor a feus capi¬ tães ho grande defejo que tinha de deftruir os noffos: & apagar feu nome de fua terra dandolhes pera iffo todas as rezões que pode, & affi lhe reprefentou quanta honçra ganhaua em fe poer em obra feu de¬ fejo, & quanta defonrra fe fe não pofeffe, pois el rey de Calicut empera- dor do Malabar, & tam principal antre os reys da índia lhe dera a mão
  • Livro II, Capitolo XL VII 3n naqla emprefa auendo por certo que muyto melhor que ele mefmo rey de Calicut a poderia leuar auante. Ao q ho Prícipe contradiffe, dizendo que el rey de Calicut ledo em trefdobro mais poderofo que ele nunca poderá desfazer ho nome dos Portuguefes do paífo de Cãbalão não fendo ainda oytenta homés, nem tendo fortaleza em que fe defédeflem, fenao eftando em dous nauios podres: & magoado difto queria ver fe fe podia vingar a fua cufta dele rey de Cananor, & cõ meter tam pouco cabedal como era a ajuda q lhe tinha dada queria auéturar a ganhar tamanho ganho: ho que não podia fer: porque quando el rey de Calicut fizera tam pouco contra tam poucos Portuguefes tendo tanto poder, que faria ele contra tantos quantos entam erão, & també fortalecidos: que ouueífe boõ confelho, & que nam crefle as doudices dei rey de Calicut né os maos confelhos dos mouros, que mais pola ímizade que tinhão com os nofTos que por defejarem acrecentamento de leu eftado trabalhauão, porque ele fofteuefle a guerra: porque por derradeyro vendo que ela não focedia como eles defejauão não tinhão mais q perder q hirie viuer a outra parte, porq leuauão configo fua fazéda: & ele auia de ficar na terra que era fua, tão pobre & defbaratado como el rey de Calicut cõ a guerra que teuera com os Portuguefes, que tomaífe exemplo nele: porque ho fifo era efcar- mentarfe homé em cabeça alhea. E com quanto efte cõfelho do Prícipe era ho verdadeyro, os mouros teuerão tanto poder: & também a mâ in¬ clinação del rey que nunca pode feu juizo compréder quam boõ era: & todauia mandou a feus capitães que logo mandalíem fazer cafas doía ao longo da fua caua, porque foubeíie fua géte que fe não auião daleuantar dali ate não entrarem a nolía tranqueyra. E efte mandado foy executado com muyta prefteza tres dias defpois que ho Príncipe mandou ho auifo ao capitão: & chegarão os immigos húa tarde com muytos inftrumentos de guerra diante, que vinhão fazendo grande eltrõdo: & trazião fuas balas que erão mais altas que hum homé, & de vara & mea de cõprido, & erão de cairo & dalgodã, porque os pelouros embaçalfem nelas. Ho ca¬ pitão que os vio acodio logo vifitando cõ muyta prefteza todalas eftancias, afli da ponta como da trãqueyra em que os nolíos poferão fogo a elfa ar- telharia q tinhão, & derão pelos Imigos: em que nam fazia nhúa molfa os que a artelharia mataua: & afli efteuerão ate a noyte e nela acabarão os Imigos de fazer fuas cafas. E ho capitão em fe ela çarrãdo deu conta aos capitães das eftancias, & a efles homens principaes da determinação dos immigos, & ho pera que trazião aquelas balas. E porem que ele cõ- fiaua em noífo fenhor, & em feu esforço que tudo feria ao contrayro, & que a vitoria auia de ficar coeles. E porque fe temeo que em quanto os immigos deífem combate â trãqueyra, ho deflem outros â ponta, mandou
  • 312 Historia da índia aos capitães das eftancias dela: que por nhíía coufa fe tiraffem delas, & todos lhe refponderão que defcãfaffe. E defpois difto cearão & toda a noyte foliarão, & fizerã muyta fefta por dar a entéder aos immigos que os nam tinhão em cota: cujos capitães ante manhã fe começarão de poer em ordem pera dar ho combate: de modo q manhã crara abalarão pera a noffa tranqueyra com grandes gritas leuãdo fuas balas diante que erão tãtas que quafi ocupauão outro tanto efpaço como ho da tranqueyra: & com cada húa delas vinhão dous homens que as rolauão, & detrás vinha toda a gente emparada com elas. E era como diífe feu penfamento che¬ gar a noífa caua, & atopila eftando .detrás das balas, fazendo cota que como a caua foífe atopida que logo a trãqueyra feria étrada & affi era por ferem tãtos quantos erão. Os noffos q ja eftauão preftes polerão fogo a feus tiros, & ho primeyro foy hú camelo cÕ que lhe ho capitão mandou tirar, cuydando que arrõbaffe a bala em que defle; mas não foy aíli, por¬ que ho pelouro com quam groffo era embaçou nela ho que deu tanto prazer aos immigos que leuantarão grande grita: que parecia q fendia ho ceo, & fazia tremer a terra. E efte embaçar do pelouro teue tanto poder que fentio ho capitão em algús dos noffos que defacoroçoauão de fe po¬ derem deféder. E diffelhes bradãdo, Homes de que defconfiaes, tede muyta fê em deos que não vos liurou ele tãtas vezes das armas deites cães quando paífaueis per meo deles a tomar agoa pera vos defemparar agora. E dizendo ifto fupitaméte lhe lembrou que eftaua na fortaleza hú tiro de metal chamado íerpe, que era mais furiofo que ho camelo: & mandou logo por ele: porque fe mais tardara efte remedio, os immigos ouuerão demparelhar com a caua, & os noffos ouuerão de paffar perigo. E trazida a ferpe: & afeitada deulhe ho condeftabre fogo, & tirou tão furiofa que a bala em que ho pelouro acertou foy pelo àr, que os noffos derão hua grita tão efpãtofa pera os immigos, camanho efpãto foy ho que os entrou, vendo hir pelo âr os pedaços da bala, & ver quã pouca defen- fão tinhão nas outras contra os noffos: porque logo cÕ a mefma ferpe lhe começarão a desfazer as balas. E como os ímigos forãá defemparados das balas entrou a ferpe coeles, & dus leuaua as pernas, doutros as ca¬ beças, outros partia pelo meo, & os pedaços deles andauão voãdo pelo âr. E defpois cobriã ho chão, ho que fez tamanho medo nos viuos que fugirão: & deyxarão as balas os noffos affi como os virão voluer as coftas faltarão logo pela tranqueyra fora. E dão apos eles, & ate que os ençar- rarão na fua caua os forão feguindo, matando tantos deles que ho campo ficou cuberto de mortos & de feridos, fem dos noffos auer morto né fe¬ rido. E durou efte combate quatro ou cinco oras, mas não foube em que dia foy: fométe que era no mes de Iunho. E recolhidos os immigos ao
  • Livro II, Capitolo XL VIII 3i3 feu arrayal, recolherafe também os noífos à tranqueyra onde ho capitão com todos eles derão muytas graças a noffo fenhor pela merce q lhe fizera. E ho capitão a eles muytos agardecimétos polo esforço q tiuerão. CAPITOLO .XLVIII. De como per mãdado do capitão deu lio alcayde môr de noyte no ar¬ rayal dos imigos, que por ejfa caufa ho leuantarão & fe recolherão pera a cidade. AS nouas deite feyto forão logo a el rey de Cananor q não foomente ficou coelas trifte, mas com creciméto dodio cotra os noífos. E cÕ nouo defejo de os deítruir, & os mouros ho forão logo vifitar cõfolandoho, & fazendolhe muyto pouco ho defbarato das balas: & pro- metendolhe outro ardil pera tomarem a tranqueyra, dizédolhe que na guerra acontecia muytas vezes não fairé os efeytos dos ardis cõformes ao penfameto de quem os inuétaua, mas que nem por iífo fe defefperaua de fe não acharem outros que aproueytaífem. Por iífo que teueffe efpe- rãça que auia de fair com fua emprefa como ele defejaua, & que mãdaffe a feus capitães que não aleuantaífem ho arrayal, & fe deyxaífem eltar, & correífem a tranqueyra: & mandaffe també gete per mar cometer a ponta, & pegaffem fogo na 'pouoação: & dize que ele mefmo fov ao arrayal, & confolou os capitães: & os animou pera cometeré a tranqueyra, prome- tendolhe grandes merces. E affi as prometeo tãbem a outros que mandou per mar que cometeífem a ponta. E aífi hús como outros trabalharão por fazer feu mandado, mas não aproueytou nada, porq a trãqueyra defen- diãna os noffos, & a ponta ela per fi fe defendia cÕ a roim defembarca- ção q tinha. E com tudo ho capitão fe agaítaua muyto com a eítada dos immigos no arrayal, porque dauã muyto trabalho aos noífos, affi cõ a ar- telharia como cõ feus rebates a miude que os fazião eítar de dia, & de noyte com as armas veítidas, & não tinhão nhú repoufo. E ho capitão cuydaua que defbaratadas as balas não oufarião os immigos defperar mais. E mais fazendolhe a ferpe muyto nojo, com que lhe mãdaua fazer muytos tiros: & vedo que não aproueytaua pera os immigos leuantaré ho arrayal andaua muy agaftado. E entendendoo ho alcayde mór que era caftelhano, & fe chamaua dalcunha Goadalajara valente caualeyro, & muyto boõ homé diífelhe, que pera que fe agaítaua pelo que eítaua em fua mão fazelo fe quifeffe. E pois queria fazer leuantar ho arrayal aos immigos que ho fizeífe com as armas, & não com fe agaítar. E que lhe parecia que ho deuia de deyxar fair a dar nos mouros húa noyte, & que Tomo 1 40
  • 3i4 Historia da índia com cento & cincoenta homens que leuafle efperaua em noffo fenhor de dar tal varejo nos inimigos que eles ouueflem por feu barato de fe ir: & q ele iria com aqueles homés todos jútos: & muy caladamente ate che¬ gar ao arrayal onde darião todos a húa em ele dando hú brado: & que pofefle efte parecer em confelho, & fe pareceíle bem que fahiria logo na noyte feguinte. Ho capitão lhe teue muyto em merce feu confelho, & ofrecimento, & folgou muyto coele, & logo chamou a confelho, & pro- pos nele efte feyto, ho que pareceo bem a todos fazerfe, & fe ofrecerão a fer nele. E acertou logo que aquela noyte foy muyto efcura, & chuuofa de chuua miuda, & primeyro que ho alcaide mòr faiffe, mandou ho capi¬ tão poer muytas camaras ceuadas fobre a tranqueyra, pera defpararem em os noflos dando nos immigos, & fazerem a coulã mais temerofa. E a prima noyte fahio ho alcayde môr cõ os cento & cincoenta queftauão or¬ denados pera fairé coele: ãtre os quaes forão eftes fidalgos & caualeyros .f. Ruy pereyra, Fernão perez dãdrade, Vicente pereyra, Diogo pereyra, Ruv de fão payo, Sirnão dandrade, Francifco pãtoja, Pero teyxeyra, Fran- cifco de miranda, Iorge fogaça, Antonio paçanha ho baltardo, Aluaro de brito, Antonio rapofo, Pero fernandez tinoco, Gonçalo vaz de goies, Gil cafado, Ioão gornez cheyradinheyro, & outros a que não foube os nomes. E como fazia grãde efcuro: & chuuia núca forão villos nem fentidos dos immigos fenão quãdo derão neles grãde grita, & em ela começando, def- pararão todalas camaras que eftauão fobre a tranqueyra, & como era a noyte em fi temerofa com a efcuridão, & chuua & a grita dos noflos foffe muyto grãde & ho eftrondo: & ho arroido das camaras tamanho, q pare¬ cia que ho ceo & a terra fe fundião foy a coufa tão medonha que os noflos que eftauão fora do jogo pafmarão com medo: quãto mais os immigos fobre quem todos eftes medos cahião como pera quem fe fabricaua todo ho dano que deles refultaua. E pera os noflos lho fazerem ainda mayor do q ho eles fentião tirarãlhe cÕ hú camelo que eftaua afeftado em húa das pontas da tranqueyra que fez tamanha efborralhada nas cafas, & nos homés que ho não poderão os Imigos fofrer, & fugirão quem mais podia: & como ho efcuro era grãde, & a terra eftaua molhada: hús cahião ou¬ tros efbarrondauão per decidas. E afli fe acolherão deyxando ho arrayal defemparado, & ficando nele mortos paflante de trezétos deles. E os noflos fe recolherão a tranqueyra onde ho capitão deu muyto louuor ao alcayde mòr: & aos outros, & como foy manhã mãdou logo roubar ho arrayal em que foy achado muyto defpojo, prlcipalmente darmas antre as quaes fe acharão fete bombardas de ferro, poré também feytas, & tão polidas que parecião de metal, & roubado ho arrayal foylhe pofto fogo, & ardeo todo.
  • Livro 11, Capitolo XLIX 3i5 CAPITOLO .XLIX. De como per dejajlre ardeo a noffa feytoria, & todas as cafas da ponta forão queymadas. Em que ardeo a môr parte dos mantimêtos que auia na fortaleza. E da grande batalha que foy antre os nojfos, & os inimigos dia de Santiago. ESta deftruição tão fupita do arrayal dos immigos pos em grande cõ- fufão a el rey de Cananor, & lhe quebrou muyto a determinaçã que tinha de deftruir os noflos, vendo que lendo tão poucos oufauão de cometer hú arrayal tão poderofo de gcte como ho feu eftaua. E defef- perou de leuar fua emprefa auante, & com menécoria de lhe fuceder tão mal feu propofito defonrraua feus capitães, & mais porque ho defenga- narão que não auião de tornar a poer arrayal fobre a tranqueyra tão ame¬ drontados ficarão do deítroço daquela noyte, poré diííeramlhe que quanto a ir correr a tranqueyra, & tornarfe a recolher a fua pouoação que ho farião de boa võtade, porque alTi fariã algum proueyto. E eftando no ar¬ rayal não fazião mais que eftarem a perigo de os queymaré a todos húa noyte, porque os noífos erã muyto atreuidos, & fabião muytos ardis de guerra, de que fenão podião aproueytar correndolhe fòméte a tranqueyra, porq era de dia. E aos mouros lhe parecerão bem eftas rezoes: & ainda neíla pratica ho Principe trabalhou por ceifar a guerra, & el rey não quis por confelho dos mouros. E dali por diante não tornarão os Imigos a aífentar mais arrayal, & corrião a tranqueyra fomente que era muyto menos oprelfão pera os noffos, porq não lhe tiraua a artelharia q era ho que lhe fazia mais nojo. E eftando ja os noffos mais defapreffados do cerco, acoteceo hú grande defaftre, por onde fe virão em muyto mayor oprelfão que dantes. E foy que hú criado de Lopo cabreyra feytor que era de Cananor, deyxou de noyte húa cãdea acefa na feytoria, qúe então eftaua na põta em húas cafas cubertas dola, em que fe ateou ho fogo da candea: de maneyra que ardeo, não fomente a feytoria: mas quãtas cafas auia na ponta forão todas queymadas, com quanta fazenda auia nelas, & na feytoria: & afli muytos mantimentos del rey queftauão nela, & dos homés que eftauão nas outras cafas. E por mais deligécia q os noffos poferão nunca poderão apagar ho fogo: & afti fe perdeo tudo, de ma¬ neyra que os mais dos homens q ali tinhão cafas ficarão pobres. Porem ho que mais fe fentio forão os mãtimétos que arderão, affi os feus de que eftauão prouidos em fuas cafas, como os q el rey tinha na feytoria: pelo qual dali por diante foy a fome muyto grande na fortaleza, em que não
  • Historia da índia 3i6 auia outros mãtimêtos fenão os queftauão no almazê del rey, que por fer dentro na fortaleza efcaparáo. E eftes erão poucos pera a muyta gente que auia, & pera quão longo tépo era neceflario q abaftaffc. O q ho ca¬ pitão logo pola manhã trabalhou por encobrir, porq ho não foubefle a géte bayxa: & fugifle pera os Imigos, cõ defefperação, & lhe defcobriffem a mingoa q tinhão de mantimétos. E eftãdo a coufa affi, & os noflos aprelTados da fome q ja fe íêtia quis ho capitão auer lingoa dos inimigos: & pera iffo mandou dia de Santiago fora da tranqueyra a hú feu fobrinho, & a Fernão perez dandrade, & Pero fernandez tinoco, Francifco ferrão, Gonçalo vaz de goes com outros que ferião dez ou doze homens que fe pofeífem em cilada junto da tranqueyra: & coeles forão feis efplgardey- ros a cjue ho capitão mandou q folfem defcobrir ho campo, & fe moftraf- fem aos inimigos, & como folfem viftos, q os Imigos folfem pareles fe recolheffem pera onde eftaua a cilada, & pera que os que eftauão nela podeífem tomar lingoa. E affi como ho capitão mãdou fe fez, & defcu- bertos os noflos efpingardeyros pelos immigos, acodio logo hú capitão com quatrocentos Nayres, parecédolhe que tinha tomados os efpingar¬ deyros, que fe recolherão pera a cilada, tirãdo ora hús ora outros, porq affi lhe mandou ho capitão. Os Nayres que erão muytos, & vinhã muy denodados, com a furia de lhes lembrar q aqueles ferião dos que lhe fize- rão leuãtar ho arrayal, & os poferão é tamanho fobre falto como fentirão aquela noyte não recearão as efpingardadas, & rompendo pelos pelouros chegarão tão perto dos noflos que per cima das efplgardas cortarão húa mão a hú deles. E como ifto era perto da cilada acodio ho fobrinho do capitão, & os outros qftauã coele: & forão ferir nos immigos que os re¬ ceberão com muyto esforço, & cercarãnos. E porq ho fobrinho do capitão leuaua húas armas ricas cuydauão os immigos que era ho mefmo capi¬ tão: & apertarão coele muytos pera ho catiuarem: porem ele fe defendia valenteméte, mas não tanto que não fofle muyto mal ferido, principal¬ mente dhúa cutilada que lhe derão acima dos narizes ao traues: & foy tamanha que ho rofto dali pera bayxo lhe ficou dependurado fobelos pey- tos: os companheyros ho tomarão logo antre fi pera ho fofterem que não caifle, & pelejauão como liões porque os Imigos apertauão coeles braua- mente. Poré toda lua defenfa não aproueytara fe a efte tempo hú Gil afonfo q eftaua fobre a tranqueyra não bradara ao capitão que acudifle aos noflos porque os maiauão: & dizendo ifto lançoufe da tranqueyra abayxo, & foy ajudar os noflos. E efte Gil afonfo era priuado do capitão, & perderafe no nauio de Lopo fanchez, & viera per terra ter a çofala como ja difle. Ouuindo ho capitão ho que lhe ele diflera arrebatou logo húa lança: & pofle â porta da tranqueyra pera defender aos noflos (que
  • Livro II, Capitolo L 3i7 ja acodiao) que não faiífem, por não fairem defmandados, & fe fazer hú mao recado, porque os ímigos recrecião, & poderião entrar a trãqueyra. E quãdo os noífos virão que lhes era defefa a faida pela porta guinda- ranfe pelas lanças per cima da tranqueyra, & dauão conligo fora. O ca¬ pitão que os adi vio fair, & que ho deyxauão fò, receandofe do que podia acontecer, muy agaftado diífo lãçou mão dos cabelos, & oulhou pera ho ceo, dizendo em voz alta, Aa tredores a deos, a el rey, & amim, porque entregaftes efta fortaleza aos infiéis: mas né por iífo os noífos não dey- xarão de fair todos, & forão ferir nos immigos q doutra maneyra não efcapara nhú dos noífos queftauão antreles, porq ja Fernão perez, Pero fernãdez tinoco, & outros eftauão derribados de muyto feridos q em quanto fe poderão ter em pê ho fizerão muyto valentemete, júcando ho chão de aífaz de ímigos hús mortos outros feridos. E ho fobrinho do ca¬ pitão quafi cõ as pernas decepadas ho leuauão os immigos catiuo, cuy- dando como digo que era ho mefmo capitão. E os primeyros dos noífos que hião de refrefco que lhe acodirão forão tres, èí hú deles auia nome Ioam gregorio natural do Algarue, mancebo de vinte & cinco annos: & efte com os dous remeterão aos ímigos ferindo neles muy brauamente, & eles fe abrirão logo, & fizerão rua per õde Ioão gregorio & os outros entrarão, & tomarão ho fobrinho do capitão, & ho recolherão fem os im¬ migos oufarem de bolir configo. E feytos em bafíida dhúa parte: & da outra tinhão as efpadas altas, & os efcudos cofidos configo, ho que pare- ceo milagre: & fegundo fe defpois foube ali andaua Santiago, & ele era de quem os ímigos auião medo que não oufarão de bolir configo. E vedo ho capitão de cima da trãqueyra como feu fobrinho era recolhido, & quão bem os noífos ho tinhão feyto, bradoulhes que fe recolhelfem, & aífi ho fizerão, deyxãdo mortos dos immigos bem trezentos: & deles mor¬ rerão quatro, & hú deles foy Gonçalo vaz de goes, & forão muytos feri¬ dos: & deftes forão, Fernão perez, & Pero fernandez tinoco. CAPITOLO .L. Da grâde fome q auia antre os nojjos por falta dos mantimêtos que fe queymarão, & da grâde multidão de lagojlas que ho mar deytou na ponta de Cananor. POsto que cada vez mais via el rey de Cananor coufas pera que efperaíTe de lhe lúceder aquela guerra tão mal como lhe fucedeo, ho odio que tinha aos noífos lhe fazia de cada vez mais crecer a indinação cõtreles: & ifto ho cegaua pera não conhecer quam de balde
  • 3i8 Historia da índia era feu trabalho, & fe apartar de feu propoíito: Ao que tãbem ho ajuda- uão os mouros, que com falfas rezões lhe acõfelhauão que não deíiftifle da guerra ainda que feu fobrinho, & feus vafialos lhe confelhalfem ho contrayro poendolhe diante as vitorias dos noífos de cada vez que pele- jauão coeles: & vendo fua obítinação lhe não quiferão falar mais niflo. E todauia defpois que foy eíta batalha efteuerão hús dias quedos fem ou- farem de tornar â tranqueyra, & neles fe defcobrio de todo a falta de mãtimétos q auia na fortaleza, porq fe dauão per regra muy eitreyta. E não era mais que arroz que fe cozia em agoa tal fem mãteyga né cocos. E afli ho comião os noffos altos & bayxos, & algú pefcado q fe tomaua da ponta, de q todos começarão dadoecer, & auia grande trabalho ãtre- les. Do que os ímigos forão auifados per negros catiuos que fugirão da fortaleza com fome, & fe forão pareles crendo que achauão lâ de comer. E fabendo el rey de Cananor efta noua recebeo coela muyto prazer, pa- recendolhe que a fome lhe entregaria os noífos: & chamados feus capi¬ tães lhe deu parte de feu contentamento, dizendolhe a caufa porque ho tinha afirmando que aquele fogo com que arderão os mantimentos dos Portuguefes fora podo por feus Pagodes, cuja vontade era que foffem deftruidos, & querião que ho foífem per aquela maneyra, porque rece- befle mais pena em fua deftruição: & que agora que tinhão as forças de¬ bilitadas cõ a fome fenão defenderião também como foyão, por iffo que os foffem cometer, & lhe lançaffem diante hum par de vacas pera que eles faiffem a tomalas, & defte modo os acolherião fora da tranqueyra, & fe vingarião deles: ho que afli como foy dito, aífi foy logo feyto. E por iffo ho Príncipe não teue tempo de mandar auifo ao capitão, que nunca pode ter os noífos q não faiffem a tomar as vacas como as virão. E os immigos que eftauão a vifta remeterão logo, cuydando que per fra¬ cos os defbaratafiem, mas como eles núca enfraquecião fizerão fugir os immigos, & lhe tomarão as vacas que foy pareles affaz de dor, porque as adorão: & os immigos não quiferão fazer mais outra como aquela, ho que foy grande perda pera os noífos. Porq fazião conta que fe mãterião daquelas anegaças: & tornarão a padecer a fome como dãtes, porque defpois que os mantimentos forão queymados, foy tamanha em quanto durou ho cerco que não ficou na fortaleza cão nem gato que não foffe comido. E afli os ratos quando fe tomauão, & armauão laços aos adibes, & comiannos. E húas duas molheres da terra matarão hum lagarto pe¬ queno dagoa, & comerãno: & da pele fizerão húa alcancara com que tan- gião. E eíiãdo os noffos muyto trabalhados com a fome em dia de noffa fenhora Dagofto começoufe daleuantar ho mar muyto alto, & correo aífí aquele marulho pera a ponta: & defcarregou na praya grande multidão
  • Livro II, Capitolo LI 3ig de lagosftas que os noffos apanharão dando muytos louuores a noflo fenhor, & a fua gloriofa madre por cuja interceflao parecia que lhes daua aquelas Iagoftas pera feu mantimento, com que a todos fe lhe leuantarão os efpiritos. E ho capitão mandou logo leuar delas aos doentes que efta- uão no efpirital com que fupitamente fe começarão dachar bem, & coelas fe mantiuerão bem dez ou doze dias. CAPITOLO .LI. Do grãde combate que os inimigos derão aos noffos per mar & per terra. E como os inimigos forão defbaratados. OS mouros de Cananor eftauão muy triftes de verem quã pouco fruyto dera a muyta diligécia que teuerão em cõfelhar a el rey que fizeífe guerra aos noflos. E como fabião que fe chegaua ho verão: que era ho termo ate que poderia durar ho cerco da fortaleza, por¬ que então viria ho viforey ou mandaria focorro: pelo que crião que de neceftidade auia el rey de reformar as pazes com os noffos ou perderia feu eftado: & auendo pazes eles auião de ficar com a peor. E ifto os afri- gia muyto, & querendo ainda tentar a fortuna fe os ajudaria contra os noffos differão a el rey que bem via como tinhão ho verão a porta em que a nossa armada que vinha de Portugal auia de focorrer aos noffos. E por iffo ãtes que vieffe lhes deuia de dar hum combate não foomente por terra: mas também por mar, que ja abrandaua de fua fúria com a vinda do verão, afirmando que fendo ho combate defte modo, os noffos ferião vencidos, afli por não ferem tantos que podeífem acodir ao mar, & aa terra como por eftarem debilitados da fome, & pera ho combate do mar mandaffe fazer dous caftelos de madeyra pela vitola daqueles que el rey de Calicut mandara fazer contra Duarte pacheco: & que abalrroa- rião coeles a ponta fem lhe a artelharia dos Frangues poder fazer nojo. E que eftaua certo não fe poderem eles defeder, & que os tomaria a todos viuos. E com ho defejo que el rey tinha daquilo pareceolhe facil coufa de fazer, & logo mãdou fazer os caftelos. E em fe querendo acabar mandou ho Príncipe auifo ao capitão do combate que fe ordenaua, & que a moor força auia de fer per mar. E como ho capitão fabia quão maos os Nay- res fão de defembarcar, principalmente em roim defembarcadoyro, def- carregou ho muyto faber, que a principal força de combate auia de fer per mar, porq bem fabia quão maos defembarcadoyros auia na ponta. E cõ tudo mandou leuar laa húa efpera, porq coefte tiro por fer furiofo efperaua de defbaratar os caftelos dos Imigos. E afli acrecétou outra ar-
  • 320 Historia da índia telharia nas eftãcias q eftauão na ponta: & pos mais gente nelas do que auia dantes. EI rey de Cananor também andaua em fadiga de mandar os petrechos pera ho combate, & ordenar fua gente per mar, & per terra em que tinha cincoenta mil homens, porque el rey de Calicut lhe mandara a moor parte deles, & algús capitães, porem os mouros erão os meftres do dar do combate, & da ordenança dele, & ao dia que fe ouue de dar ante manhaã fe começou douuir na fortaleza ho eftrondo dos tangeres dos Imigos, & da fua artelharia. E ja a efte tépo ho capitão da fortaleza andaua viíitando as eftancias. E esforçando todos pera a defenfão do combate: mas eu não pude faber como forão repartidas as capitanias das eftancias. E manhã crara começão os immigos de mouer per terra pera a noíTa tranqueyra com grandes alaridos. E afli abalou a frota queftaua na baya a demandar a ponta, & erão muytos tônes, & almadias grandes enjangadas com arrombadas muyto groífas de cayro, & paraôs pequenos da mefma maneyra. E tudo muy bem armado dartelharia, & bem forne¬ cido de gente. E detrás defta frota vinhão os dous caftelos que erão tama¬ nhos que traria cada hú perto de cem homens. E também trazião algús tiros dartelharia. E certo que era medonha coufa de ver, porque ho mar era cuberto com a frota, & a terra com gente. E os nolfos no meo pou¬ cos, & todos muyto fracos da fome, & algús não bem fãos de feridas: & outros doentes dos grãdes trabalhos com que auia feis mefes que vi- uião. Porem adi como eles eftauão lhe não faltaua esforço com ajuda de noflo fenhor pera refiftir aos immigos, de que como os que vinhão per terra, trazião menos ébaraço pera andar que os do mar: chegarão pri- meyro â fua caua, não eftimando os muytos pelouros que lhe os nolfos tirauão da tranqueyra com a ferpe & com hum camelo. E como ali che¬ garão feruirão também falcões, & berços: & fov a bombardada tanta que os fez ali parar. E nifto começou a frota de fe chegar â ponta. E a artelharia que tiraua afti do mar como da terra fazia tamanho arroido que parecia que ho ceo fe abria, & ho mar, & a terra fe fundião. E tudo era cuberto de fumo, & de fogo, mas como a artelharia dos immigos não era tão boa como a dos nolfos, nem tiraua tão certo, fazia a dos nolfos grande deftruição nos immigos: efpecialmente a efpera contra cuja furia não aproueytauão as arrombadas das jangadas: porque a húas metia no fundo, outras arrombaua. E em todas fazia grande mortindade nos immigos, & afli a outra artelharia. E vendo eles ho mao trato que lhes dauão afaftaranfe pera hum cabo pera darem lugar aos caftelos que che- galfem como chegarão, mas fizerão tão pouco como as jãgadas, que com fauor dos caftelos tornarão a dar outro apertão aos nolfos de que per derradeyro leuarão ho peor. E ho mefmo que acontecia aos do mar acon-
  • Livro II, Capitolo LII 321 da terra, que por mais que fizerão nunca poderão entrar a tranqueyra, nem os do mar chegar à ponta antes querendo perfiar fobriffo forão os caftelos defbaratados com a efpera, ho que quebrou tanto os corações aos immigos que não teuerão oufadia pera mais agoardar: & deyxarão ho combate, & forãofe. E vendofe ho capitão defapreffado da banda do mar acodio â tranqueyra de cujo combate os immigos também afroxarão pelo grande dano que tinhão recebido. E fugirão dandolhe os noffos gran¬ des apupadas. Efte combate foy muy rijo, & aturado. E durou de pola manhã ate tarde, é que forão mortos muytos dos immigos affi no mar como na terra. E dos noffos não morreo nhú. CAPITOLO .LII. Da deflruição que ho capitão de Caitanor fe\ na pouoação dos mouros. E de como chegou Trijlão da cunha & deu focorro aos nojfos. E el rej' de cananor cometeo pa\es, & dalgús milagres que acontecerão no cerco. NAm fòmête defpoys defte combate acabou de crer el rey de Cana¬ nor q todo feu poder nã tinha vigor contra os noífos, mas come¬ çou de ter arrepédiméto da guerra q tinha mouida, porq então conheceo quã neceffaria lhe era a amizade cõ os noffos. Eqa guerra auia de fer fua deftruição fe mais fofTe auãte. E auendo ja os mouros por par¬ tes nefta coufa não lhe quis dar conta de feu arrependiméto, né ao Prín¬ cipe cÕ vergonha de não querer tomar feu confelho quando lho daua. Affi que dhús & doutros fe emcobria: & porem mandou a feus capitães que por hús dias efteueffem fem correr a tranqyra, & q deyxaffem folgar fua gente que eftaria canfada, & affi foy feyto. E difto ficarão os mouros muyto triítes. E porque també viã que craramente le parecia ja a malicia de feus confelhos, & a muyta perda que el rey tinha recebida por os feguir, não oufauão de ho apreffar que auiuaffe a guerra que ho noffo ca¬ pitão ja então auiuaua como homem vitoriofo. E a feita feyra feguinte defpois que foy efte combate mandou tirar â pouoação dos immigos com hum camelo pera a parte onde eftaua a mezquita que eftaua chea de mouros por fer efte dia ho feu domingo, & coeífa tenção lhes mandaua ho capitão tirar. E quis noffo fenor guiar os pelouros do camelo tão de- reytos que derribarão hum lanço da parede da mezquita, & matou muy¬ tos dos mouros que eftauão dentro. E affi fez efte camelo muyta deftrui¬ ção na cidade derribando muytas cafas: & matando muyta gente: com que a viua andaua muy affombrada de medo, porque vião que fe aquilo Tomo I 41
  • 322 Historia da Lídia foífe auante que lhe feria forçado defpejar a cidade, & bradauão a el rey que fizefíe paz com os noffos. E andando nifto aos vinte & fete Dagofto de mil & quinhentos & fete eftando ho capitão jantado derão os noffos que eftauão na ponta húa grade grita. E cuydando os que eftauão na for¬ taleza que erão os immigos que entrauão na tranqueyra acodirão rijo, fenão quando virão ao mar húa nao de Portugal, & por amor dela fe daua a grita com prazer de a verem a tal tempo, & mais porque logo apos efta parecerão outras. E eftas erão a frota em que Triftão da cunha partira de çacotorâ pera a índia. E conhecida efta frota q era de Portu¬ gal mandou logo ho capitão da fortaleza recado em húa almadia a Triftão da cunha de como eftaua pera que ho focorreffe com gente. E ele ref- põdeo que fe não partiria do porto ate que ele não efteueffe feguro dos immigos entenderem mais coele. E afli ho fez, o que vendo el rey de Cananor cuydou que aquilo era fazerlhe guerra. E parecendolhe então que era bom tépo pera pedir a paz que defejaua, faloufe com hum mouro mercador honrado & amigo dos noffos, & que nunca fora no confelho da guerra, & deu-lhe conta de feu defejo, rogãdolhe que ho ajudaffe, & per fua interceffão pois era amigo dos noffos lhe ouuefle a paz. E defpois de efte mouro ir algúas vezes ao capitão afletoufe q por quanto ele não po¬ dia affentar a paz fé dar cõta ao viforey q ele lhe mãdaria logo recado per Triftão da cunha: & q entretanto ouueffe tregoas, & afti foy feyto. E defpois que a paz foy feyta, foy grãde prazer nos gentios: & logo tor¬ narão a conuerfar com os noffos como dantes. E os Nayres pregútauão cõ grande eficacia por hú Português que durãdo ho cerco quãdo os noffos fahião a pelejar, andaua ãtreles. E efte era muyto môr de corpo que todos, & mais apeffoado. E que não auia dia que os noffos faiffé fora a tomar agoa q ele não foffe diante de todos, & não mataffe bé vlte dos Imigos. E dizião que ho trazião os frecheyros tanto é olho que per vezes fe ajuntarão quinhétos, & lhe tirauão todos juntos como a aluo por lhe ja terem tirados outros cada hú per fi fem ho poderé acertar: & q os quinhétos fépre ho errauão & ele 1'e recolhia fem fer ferido. E q efte foo é todalas pelejas q os noffos teuerão coeles no cerco, lhe fizera muyto môr efpãto q todolos outros jútos, efpecialméte é hú dia q fora ho de Sãtiago pelos finaes q eles dauão, no que os noffos conhecerão q aquilo era milagre. E q tamanhas vitorias como ouuerão nã podião alcãçarfe fem ajuda diuina. E algús teuerão pera fi q aquele por que os Nayres pregútauão feria ho Apoftolo Santiago. E poré differãlhe que aqle home por qué pregútauão ja ali não eftaua. E que não era Português fenão ho deos dos Portugueles: que era deos dos deofes, & fenor de todolos fenho- res. E os Nayres ho crerão: & differão que tãbem os mouros virão aqle
  • Livro II, Capitolo LIII 323 home. E que eftes auião alda moor medo dele q eles: & q dezião qúe aqle homé não era Português fenão deos dos Portuguefes. E fabédo os noffos ifto: derão de nouo muytas graças a noffo fenor pela merce que lhes fizera. E dali por diãte ficou el rey de Cananor mais firme q dãtes é noffa amizade, & affi os feus. E os mouros ficarão com mais medo dos noffos. E affentada efta paz cõ el rey de Cananor Triftão da cunha que ate então efteuera no porto de Cananor fe partio pera Cochim onde che¬ gou a faluamento com fua frota. E foy muy bé recebido do viforey, de q pofto q ele hia iféto per fuas prouifões affi nas coufas q tocauã a fua carrega como nas da juftiça fobre a géte de fua armada não quis vfar defta ifenção. E renunciou ao viforey ho priuilegio q trazia dizédo que não queria ter cargo de géte tão folta como era a da guerra. Ho q ho viforey lhe agardeceo muyto. E logo entendeo em fua carrega. CAPITOLO .LIII. De como Afonfo dalbuquerque que ficou por capitão moor na cofia da¬ lém fe partio de facotora a defcobrirt 6 cõquifiar ho reyno Dormu\, & de como chegou a Cal ay ate, & do q hi pajfou. AFonso dalbuquerque q ficaua na cofta dalé por capitão môr ficou com quatro naos groffas, & dous nauios cujos capitães forão, ele, Ioão da noua, Manuel telez barreto, Francifco de tauora, Antonio do cãpo, Afonfo lopez da cofta, & toda a gente q lhe ficou neftas feis velas forão quatrocétos, & fefenta homés de que os mais erão doentes. E antrefta gente auia muytos fidalgos, & caualeyros. E partido Triftão da cunha pera a india a dez Dagofto, prouida a fortaleza de çacotora dos mantimentos que lhe ho capitão moor pode deyxar entendeo em ir dar- mada por aquela cofta contra a ilha Dormuz pera a defcobrir, & cõquiftar & a todo ho que podeffe de feu fenorio: porque ifto auia por mais feruiço del rey de Portugal que andar âs prefas no cabo de Goardafum. E naue- gando por fua viagé ao logo da cofta Darabia chegou ao cabo de Roçal- gate q fe faz na mefma cofta, & efta é doze graos & dous terços da bãda do norte. E nefte cabo faz a terra volta pera ho eftreyto da Perfia ou fino perfico como lhe chamauão os ãtigos, continuandofe todauia a cofta Darabia que fica da mefma bãda do norte: & da outra q he a do fui fica a Perfia. E nefte eftreyto afli dhúa bãda como da outra té el rey Dormuz fnorio que é Arabia fe começa defte cabo de Roçalgate pera détro. E té, na Perfia q he de mouros muytos lugares que fão muy abaftados de trigo, ceuada, & de muytas carnes, pefcados, tamaras, & outros mãtimentos
  • 324 Historia da índia E affi na Perfia como na Arabia ha tãbé lugares é q ha muyto ouro, & prata, & muytos caualos, & camelos. E fão todos portos de mar, & de grande trato. Ho primeyro lugar q eftâ na cofta Darabia pera dentro fe chama Calayate q he húa cidade de muyta géte pouoada de mouros como o fão todos os lugares defta cofta. A efta chegou ho capitão mòr a vinte dias Dagofto ou pouco mais. E furto defrõte da cidade, mãdou recado ao Xeq dela dizédo q era capitão mor del rey de Portugal. E que hia pera deftruir aqla cidade fe lhe não pagafTe parias. Ho Xeq que bé fabia como çacotora era dos noffos, & como fora tomada, ouue medo de fe fazer ho mefmo a Calayate. E refpondeo q ele eftaua preftes pera fer amigo do capitão mor, & lhe dar todo ho que lhe fofte neceffario de fua cidade. E quanto âs parias lhe mãdaria dous mouros q tomaffê fobrelas affento, poré que lhe auia ele capitão mor de mãdar primeyro arrefés, porq fe eles não querião ir os mouros. Sabido ifto pelo capitão mor lhe mãdou logo os arrefés per Afonfo lopez da cofta, & per Ioão da noua q os leua- rão nos feus bateis. E forão Ioão eftão efcriuão da armada, & hú page do capitão mor q fe chamaua Machado & hú lingoa chamado Gafpar ro- driguez, & efte mãdou ho capitão mor difimulado pera ouuir ho que os mouros dizião acerca dele. E mãdou a eftes dous capitães q efteueífé a borda dagoa pera os recados que andaiTé dhúa parte pera a outra. Che¬ gados eftes capitães a terra entregarão os arrefés q leuauão, & receberão os mouros que auião dhir ao capitão mòr os quaes lhe mandarão. E ele fe pos deftado pareles, porq os mouros daqlas partes fegúdo vé que os homés fe tratão affi os eftimão: tinha veftido hú gibão de veludo pardo, & húas calças do mefmo, & húa roupa frãcefa de veludo carmefim for¬ rada de cetim pardo, & húa gorra na cabeça do mefmo veludo encima dhúa coyfa de rede douro, & hú colar douro efmaltado em q tinha depen¬ durado hú apito tãbé da mefma maneyra. eftaua affétado é húa cadeyra rica pofta fobre hú eftrado dalcatifas, & dalmofadas de veludo, & tinha fobre húa os pês, & fobre outra hú eftoq rico, eftauão ao redor dele todos os capitães da frota, & fidalgos: & caualeyros q vinhão nela armados: & a tolda da nao toda alcatifada, os mouros quando entrarão ficarão efpã- tados de ver a mageftade real cõ que ho capitão moor eftaua que parecia hú grãde Príncipe, & quiferãlhe beijar os pês, & ele não quis: antes lhe fez muyta honrra, & falando coeles na paz que vinhão aflentar, lhes difle que ele hia a Ormuz pera affétar paz com el rey, & por aquele lugar fer feu a queria logo hi começar & fauorecelo em todo ho que podeífe. E com tudo lhe auia de dar de conhecença húa certa coufa cadano, porque adi era ho coftume dos Portuguefes. Ao que os mouros refponderão que aquela cidade era del rey Dormuz, & por ifto ho Xeque não podia afien-
  • 3s5 Livro II, Capitolo LIII tar nhú partido fenão quando foífe ifento de feu fenhorio. Ao que ho ca¬ pitão mor repricou, & fobriíto teue algú debate cõ os mouros, & affen- toufe por derradeyro q ho que lhe ho Xeque auia de dar de conhecença ficaífe indeterminado ate ele capitão môr ir a Ormuz aflentar com el rey. E entretãto lhe darião pera aquela armada dos mantimentos da terra .f. tamaras, & algú gado, & deite partido foy ho capitão mòr contete fem mais infiítir que foífe fatisfeyto ao q ele queria, porque fazia cota que aquele lugar era pouco proueytofo pera ho feruiço del rey feu fenhor: & que lhe dauão mãtimentos que era ho de que tinha neceífidade. E afli foy mais aífentado que entretanto que ho capitão mòr foífe a Ormuz eltaria aqla cidade fegura de lhe os noífos não fazere mal a fuas naos. E tam¬ bém entrou nelte feguro húa nao de mercadores Dadem que eítaua no porto, os quaes derão por iffo ao capitão mor cé Xerafins. E com ho re¬ cado deite aífento foy hú dos mouros ao Xeque, que moítrou fer diífo contente, porque mais não pode & logo começou de mandar tamaras à frota, mas porq era cotra fua võtade mãdou q efcolheifé das mais roins. E coelas hia meíturado eiterco de gado fegundo fe defpois achou, & não fe foube logo: porq não forão viítos os fardos em q vinhão fenão algús adecima por fer ja noyte, & não fòmente fez iíto ho Xeque, mas os mou¬ ros. Em quãto eítes recados que digo andauão leuarão os noflos arrefens pela cidade com cor de lha moitraré: & leuãdo os affi lhe dauão outros algús encontros, & lhe dizião muytas injurias por fua lingoagem, ho que ho lingoa muy bem entendeo, & aífi ho mais que lhe fazião. E logo ho mandou dizer a Ioão da noua per hú gormete do feu batel, & aili à Afonfo lopez da coíta pera que ho fizeifem faber ao capitão mor: ho q eles não quiferão fazer. Acabado daffentar ho concerto, & trazidas as tamaras que foy perto da mea noyte, mandou ho capitão mór a Ioão da noua ho mouro que ficara na nao pera que com Afonfo lopez ho entregaifem, & cobraifem os feus arrefens como cobrarão, & tornarão coeles â frota, & logo ho capitão mor fe partio. E indo a vela foube do lingoa ho que os mouros fizerão c terra a ele, & aos outros q lâ ficarão, ho q ele fentio muyto, & ouue muyto grande menencoria dos capitães de lho não man¬ darem dizer, & fe não fora a vela ouuera de vingar aqla injuria.
  • 3s6 Historia da índia CAPITOLO .L1111. De como lio capitão mor tomou a uila de Curiate, 6 do mais que fe\. EProseguIdo feu caminho cÕ determinação de fugigar todos os prl- cipaes lugares daqla cofta q folTe do fenorio del rey Dormuz foy ter a Curiate lugar rafo q efta oyto legoas de Calayate em altura de vinte & tres graos, & dous terços da bãda do norte cercado de gran¬ des palmares da bãda do Sertão, antre os quaes auia outra pouoação: & em ãbas aueria perto de tres mil homens de peleja que ho tinhão bem fortalecido com húa forte tranqueyra defrõte do deíebarcadoyro, que eftaua mais dhú tiro defpingarda do lugar, & a tranqueyra com algúa artelharia, & de détro dela eftauão varadas cinco naos de Meca, & onze terradas. E mais abayxo em outro defembarcadoyro qftaua defronte dhú ilheo quafi pegado cõ terra, eftaua outra trãqueyra por eftar a mezquita daqla parte. Ho Xeque com toda a géte q tinha acodio logo âs tranqy- ras como vio chegar ho capitão môr que furgio lonje de terra por ho porto fer roim, & defpois que furgio mãdou hú lingoa a terra no feu efquife pera auer fala dos mouros, com q falou da borda dagoa: & fabédo eles q queria ho capitão môr paz, refpõderão que fe foffe a el rey Dormuz porque eles erão feus vaffalos. E infiftindo ho lingoa que fe não auia dir fem outra refpofta mais certa. Diflerãolhe q diffeffe ao capitão mòr que eles não erão os de Calayate pera lhe falarem fenão com as armas na mão, & que íe elas não auia de fer ouuido. Sabédo ho capitão mór efte defengano ouueffe por defenganado: & determinou de dar no lugar ao outro dia por fer ja tarde, & como foy noyte mandou Antonio do campo & Afonfo lopez da cofta nos feus bateis ao ilheo que diífe que eftaua quafi pegado con terra pera que viffem õde poderia melhor defem- barcar, ho que eles fizerão. E não poderão ir tão caladamete que não folTem fentidos dos Imigos que eftauão em vela, & tirarão logo algús tiros fem fazeré nhú dano aos dos bateis, que tornarão com recado ao capitão môr, & contaranlhe os defembarcadoyros que auia & as trãqueyras que tinhão os immigos, & fabido ifto por ele defcobrio aos capitães, & pef- foas do cõfelho ho que efperaua de fazer ao outro dia dizendo, pois fno- res eftes mouros nos tem dado ho defengano de quererem guerra con- nofco, rezão fera que lho demos de quam mal aconfelhados forão em não querere paz, & em crerem que por fermos poucos fe deíêbaraçarão de nos em pouco efpaço, ho que eu efpero em noffo fenor que fera ao cÕ- trayro, & q polos rogos do béauéturado apoftolo Santiago vos dara ho
  • Livro II, Capitolo LII1I 32J esforço que eu fey que vos dà nos taes tempos pera q ainda q eles fejão muytos vos fereis os efcolhidos. E bem fabeis quanto vay de poucos & boõs a muytos & maos como eftes fão. E não queyrais mais q ferem eles Tmigos de noffo fenhor lefu Chrifto, que aueis de crer que nos guiou a efta terra pera deftruição de fcus habitadores, que como tiranos lha tem ocupada, & brasfemão nela ho feu fanto nome, fendo criada por ele pera fer nela louuado, & porq nos lho auemos de louuar nola ha ele de dar. Por iífo fenhores não tardemos mais, & vamos ante manhã coefta fê, & fem temor da artelharia dos immigos, & rõpamos fuas tranqueyras, por¬ que eu fey per Antonio do campo, & per Afonfo lopez da cofta q temos boa deíebarcação. Ao que todos refponderão que aífi fe fizeífe. Aífentado iíto mandou ho capitão mòr pubricar pela frota que ao outro dia em amanhecédo auia de dar no lugar, pera ho que fe todos aperceberá. E ante manhã mãdou ele Afofo lopez da colla, Antonio do campo, & Ma¬ nuel telez barreto que com a gente que tinhão fe foliem nos feus bateis lãçar antre ho ilheo & a terra, pera q efbõbardeafle por aquela parte, & cuydaífem os immigos que por ali auia dacometer ho lugar, & acodif- fem hi todos, & que entretãto cometeria ele a outra tranqyra, aque aco- dirião tãto que viífem que ele defembarcaua, os capitães ho fizerão afli, & acharão boa refiltencia de bõbardadas, & quafi manhã defembarcou ho capitão mòr na tranqueyra das naos a que a môr parte dos immigos acodio cõ muyta prefteza: & achandoo pegado com a tranqueyra, come¬ çarão logo com muyta furia a defenderfe, & durarão affi hú pouco, & esforçãdo ho capitão môr, os noífos apertarão cõ os Imigos tão afpera- mente que não lhes aproueytando fuas lançadas ne frechadas, começão de cair muytos mortos, & feridos. E iíto os defmayou de maneyra que voluerão as efpadoas fugindo pera ho lugar que como digo era dali mais dhú tiro defpingarda: pelo qual os nolfos teuerão lugar de fazer neles matança. As molheres que ficauão no lugar como fentirão a fugida dos Tmigos defpejaranno logo deífas coufas melhores que tinhão, & fugirão. E os Imigos defpois que entrarão nele fizerão rofto aos noífos por pouco efpaço, & logo fugirão feguindolhe eles hú pouco ho écalço: que não quis ho capitão que foífé mais auante, & feios recolher ao lugar, & affi nele como fora, forão achados quareta & quatro mouros mortos, & dos noífos nhú. Defpejado ho lugar ficou ho capitão mor em fua goarda com certos fidalgos & caualeyros: & mandou a outra gente que ho faqueaffe: & afli ho fizerão, mas acharão muy pouca riqueza, porq a mor parte tinhã os mouros pofta é faluo. E de mantimétos fe achou muyta forna affi farinha como trigo, arroz, carnes, pefcado feco, & em jarras mel, manteyga, & tamaras de que fe a frota proueo pera boõs dias. E iíto em tres dias &
  • 32 8 Historia da índia duas noytes. E feyto tudo ifto qrendofe ho capitão mor recolher mãdou dar fogo ao lugar & a mezquita que era muyto grande, & fermofa. E afli as naos q eftauão varadas & as tranqueyras. E recolheofe a fua frota louuando noífo fenhor por a grande vitoria que lhe dera. CAPITOLO .LV. • De como ho capitão mor tendo ajfentada pa\ com ho regedor da uila de Mascate, ueo focorro aos mouros, & fe leuãtarão. DEstruida a vila de Curiate partiofe ho capitão mor pera outra cha¬ mada Mazcate, q he mayor que Curiate: & mais pouoada, & de muyto boÕ porto & de grande trato: & efta na mefma cofta dez legoas auante deftoutra íituada antre duas ferras em que ho mar faz húa baya, he de cafas altas de pedra & cal, & era regida por hum capado que fora efcrauo del rey Dormuz. E pofto que efta vila fofle rafa, eftaua muyto forte, porque da ponta de húa das ferras a outra tinha húa tran- queyra de madeyra de duas faces, & de naos entulhada de terra. E não tinha mais de duas feruentias pera ho mar, & tão eftreytas q não cabia por elas mais que hú homé, & fechauãfe com portas, & em cada húa delas eftaua húa bobarda da banda de detro, & auia outras na tranqyra. Ao porto defta vila chegou ho capitão moor aos dous de Setembro, & furgio detro na baya. E mãdou a terra Pero vaz dorta hú caualeyro honrrado, & criado del rey, & feytor darmada que fabia arauia que dif- feífe aos mouros q lhe foflem logo falar, & que podião ir feguros, & ifto diffe ele ao regedor q eftaua na praya com muyta gente, que logo mãdou hú mouro hõrrado ao capitão mor cõ refrefco: tamanho medo ouue da noífa frota quando a vio, q lhe não lebrou a fortaleza da vila nem a gente que tinha pera a defender. Ho capitão mor não quis tomar ho pre- fente que lhe ho mouro leuou, dizendo que ho não auia de tomar ate não faber ho que ho regedor queria affentar coele, porque fe teueífe rezão de lhe cortar a cabeça q lho não impediffe ho prefente que tinha tomado. E ifto difte com hú gevto como fe fora fenhor do lugar, do que ho mouro ficou muyto efpantado. E diflelhe que tomafle ho prelete: porque ho re¬ gedor & todos os grandes do lugar eftauão a feu feruiço, & farião ho que lhes mandaffe. Ho capitão moor diífe q afti lho confelhaua, porque fua võtade não era deftruir nhú lugar do reyno Dormuz fe lho não fizefle deftruir. E fe ho anojafle q não podia al fazer fenão deftruilo pofto q lhe pefaria muyto diffo por fer hú lugar tal como era. E contoulhe ho que paffara em Calayate, & ho porque ho não deftruira, & a caufa porque
  • Livro II, Capitolo L V 32Q deftruira Curiate. E eftas contas daua não por fe gabar mas por meter medo aos mouros: & affi lho meteo mayor do que tinhão, porq fabido pelo regedor ao outro dia mandou ho juiz da vila homé bem honrrado com ho mouro que leuara o prefente pera q fizeffé qualquer concerto que ho capitão moor quifelfe. E defpois de fazerem fua cortefia ao capi¬ tão mor: diííelhe ho juiz pelo llgoa, Parecia ao regedor, & moradores deita vila, muyto grande capitão, & fobre todos bemauenturado, que a fortaleza que ela tem affi de tranqueyras, artelharia, munições, & abaf- tança de géte bem armada: abaítaua pera refiftir a todo ho poder que viera fobrela, fe tu não foras ho capitão, q fegundo temos fabido não te falece difcrição pera ordenar, nem esforço pera cometer, nem dita pera bé acabar: & por iffo eitâ certo nhúa força te poder reíiítir. E tendo ho affi ho regedor delta vila & feus moradores quiferão efcarmentarfe cÕ ho que fizeíte em Curiate: querem fazer paz contigo com as condições que lhe forem poffiueis. E calandofe coiíto defpois de ho capitão môr ref- ponder ao q lhe diffe, foy concertado antreles, que pois ho capitão moor hia a Ormuz a fazer obedecer el rey a el rey de Portugal q folfe, & q eles prometião q não qrédo el rey Dormuz obedecer a el rey de Portu¬ gal q eles lhe obedecerião, & ferião feus vaífalos pera íêpre. E affi ho ferião alda que ele obedeceffe, & não querédo el rey Dormuz obedecer que eles acoderião com toda a renda que ali tinha a el rey de Portugal: ho q fe acõteceífe ele capitão mor poeria ali quê cadano arrecadafle aquela renda. E entretanto que ele não folfe a Ormuz pagarião cadano a qualquer armada noffa que por ali paífaífe certos fardos darroz, & de tamaras, & certos carneyros, & galinhas: & de tudo ilto, & de como erão vaífalos del rey de Portugal lhe querião fazer hua efcritura. E ele capitão mor lhe daria húa bandeyra cÕ as armas reaes de Portugal que eles terião com muyta honrra fobre a fua mezquita. Ho capitão mor lhes diífe que lhes deífem boõs mãtimentos, & não fizelfem como os de Ca- layate q lhos derão muyto roins, coeíte recado fe foy ho juiz ao regedor leuandolhe hú anel do capitão mor pera feguro dos que foífem a frota a vender ho que quilelfem. E em todo aquele dia forão lâ muytos: & leua- uão agoa a Granel em almadias, & ho regedor começou logo de mãdar os mãtimentos que auia de dar. E quando veo ao outro dia chegou do fertão hú capitão com mil homés de peleja. E elle cometeo ao regedor que pelejaífe com os noífos, & não fe lhe entregaffe afil, dizendo que em cada nao das noífas não podião vir mais de cé homés que erão por todos leis centos, & que foífem fete centos, que ele trazia mil homés, & na vila aueria tres mil: & erão quatro mil. E pois affi era como não auião de pelejar quatro mil cõ fetecentos, & não deyxarfe vencer deles fem peleja, Tono I 42
  • 33o Historia da índia que não fizeffe tal coufa, porque era muyto grade vergonha. E coifto fe aluoroçarão os mouros de maneyra que diflerão ao regedor q quebrafie a paz que fizera cÕ ho capitão moor. E fe leuantaífe contrele, & por ho regedor ho não querer fazer ho injuriarão, & ho meterão é húa cafa como prefo. E coefte aluoroço ceifarão logo os mouros.de leuar os mantimen¬ tos q leuauão aos noffos bateis pera os leuarem a frota, & começoufe muy grande rumor por toda a vila, determinando os mouros de pelejar com os noffos. E começarão de tocar atambores, & aparelhar armas. E hú Magote deles acodio â praya gritando, & começarão defpancar algús gormetes nofios que fazião agoada. E eles fe recolherão a hú batel dey- xãdo as pipas. E Pero vaz dorta qftaua no batel fe foy logo á capitayna a dizelo ao capitão mor. Ho que fabido por ele mandou aos nauios pe¬ quenos que eftauão mais perto da vila que efbombardeaífem: ho que logo foy feyto. E os mouros também tirauão de terra com fua artelharia. E vedo ho capitão moor que a da eftãcia da mão dereyta tinha pouca gente em goarda, mãdou Afonfo lopez da cofta capitão da taforea que a foffe tomar com a fua gente, que logo faltou em terra coela, & tendo tomado ho canto da ferra onde eítaua a eítancia, acodirão fobrele muytos mou¬ ros tirando muytas frechadas. E ferirão a ele & a cinco ou feis dos feus. E por ifto & por os mouros ferem tantos em demaíia lhe foy neceífario recolherfe com fua gente ao batel fe tomar as bombardas. E defpois de ho capitão moor ter cõfelho de pelejar ao outro dia com os mouros por fe lhe leuantarem, porque os canfaífe, & lhes fizeffe gaitar poluora de¬ balde, mãdou a Manuel telez barreto, & a Afofo lopez da cofta que tiraffem toda a noyte à vila ho mais que podeflem, & aifi foy feyto. E cuydando os inimigos que ho capitão moor queria defembarcar fizerão grandes fogos ao longo da praya' & nunca dormirão toda a noyte. CAPITOLO .LVI. De como ho capitão moor peleiou com os mouros, & os dejbaratou & lançou fora da uila, & a tomou. AO outro dia q era domingo cinco de Setébro em amanhecédo fez ho capitão moor tres efquadrões de fua gente, & cõ hú auião de dar Frãcifco de tauora, & Afofo lopez da cofta em hú cabo da trãqueyra. E com outro Ioão da noua, & Antonio do campo em outro: & ho capitão moor, & Manuel telez auião de dar no meo com a bandeyra real, & todos ébarcados affolueos hú clérigo que eítaua reueftido na popa da capitayna com hú crucifixo nas mãos encomendando a todos que fe
  • Livro II, Capitolo L VI 331 lembraffem que noffo fenor padecera polos faluar: & coefta lébrança não duuidarião de pelejar por feu feruiço. E acabando de dizer ifto tocarão as trõbetas, & os bateis começarão de remar pera terra poendo as proas nas partes da trãqueyra que auião de cometer: algús dos Imigos eftauão aborda dagoa tirando aos noflos muytas frechadas, & pedradas: & ouue algús que vendo que os bateis fe chegauão a terra, fe metiã pela agoa & hião jugar as lançadas com os noffos & tirauãlhe lanças darremeflo. E era a reuolta muyto grande de húa parte & da outra. E os immigos da- uão grandes alaridos por efpãtar os noflos que com tudo pelejarão tão esforçadamcte que delembarcarão, porem com muyto perigo, & grande opreflao dandolhe a agoa pelo pefcoço, & pelos peytos. E matando aqui algús dos immigos romperão por eles ate a tranqueyra: & dos primeyros q chegarão a ela forão dos de Francifco de tauora, & Dafonfo lopez da cofta, q afli como hús pelejauão outros punhão fogo que fe leuantou logo tão efpantofo que os Imigos ho não poderão fofrer & fugirão pera ho meo da tranqueyra onde a efte tempo combatia ho capitão môr, & como a força da gente carregou aqui toda da parte dos immigos teuerão os noflos ali mais que fazer, porque ho impeto da refiftencia era grande: & dura¬ rão os immigos nela muyto pouco: porque forão aqui mortos obra de céto de fetadas, & efpingardadas, & retiraranfe pera ho lugar, indo os noflos apos eles matando: & ferindo ate os lãçarem fora do lugar que foy ganhado, & defpejado em obra de tres oras. E dos primeyros que fugirão foy ho regedor que fe apartou cõ vinte frecheyros, & recolheofe per húa ferra acima que efta pegada com a cidade da banda do mar, & indo per húa ladeyra acima feguiãno obra de doze dos noflos marinhey- ros, & outros homes é cujas coftas hião do Antonio de noronha cõ outros homés hõrrados, & vedo ho regedor q ho apertauão como era gordo, & não podia andar tão deprefla como lhe era neceflario, pos as coftas em hú penedo & ho rofto pera os noflos q ho feguião, & faloulhes: mas não ho entenderão, porque não auia quê foubefle a lingoa: & deuia de dizer q lhe deflem a vida pois as pazes fe quebrarão contra fua vontade, porem aqueles marinheyros que ho feguião não lhe quiferão receber difculpa, & hú deles remeteo a ele com a lança, & matouho: & logo os outros noflos carregarão fobre os leus frecheyros, & matarannos a todos. Em quanto íe ifto fazia ho capitão moor q hia apos ho corpo da gente dos immigos foy apos eles ate ho cabo dhú defcampado queftaua fora do lugar: & não os feguio mais, porque fe meterão per húa ferra, & os noflos hião canf- fados: & nefte encalço fizerão também os noffos grande matãça nos im¬ migos & nhú fe pòde tomar viuo. E recolhendoffe ho capitão mòr ao lugar, mãdou a Nuno vaz de caflelo branco que ficaffe vigiãdo com oyto
  • 332 Historia da índia homés em húas cafas grandes que defcobrião ho defcampado ate onde feguira ho encalço, pera ver fe tornauão os immigos: que por ferem muy- tos fe temia de tornaré. E ho capitão moor com toda a outra gente fe foy a mezquita queftaua no meo do lugar, onde achou q nhú deles faltaua, & que dezafete forão feridos na batalha, q foy coufa milagrofa fegúdo a pouquidade dos noffos, & a multidão dos Imigos. E fegundo defpois fe foube noífo fnor fez ali milagre pelos noffos, porq defpois de partido ho capitão môr Ido â vela lhe pregútou hú mouro hõrrado q Nuno vaz de caftelo brãco tomara nas cafas em q ficara vigiando, que fe fizera dhú caualeyro que na batalha andaua é hú caualo branco armado darmas brancas com hú final vermelho no peyto, & q pelejaua cõ húa facha dar¬ mas, & que fazia tamanha matãça nos mouros que nhú oufaua de ho efperar. E q cria que com medo defte foo forão defbaratados. E por eftes finaes teue ho capitão moor pera fi que aquele era ho apoftolo Sãtiago em que ele tinha muyto grande deuação. E por não dizer ao mouro ho que era, & creffe que fempre aquele caualeyro ho ajudaua lhe refpõdeo q aquele caualeyro hia na frota, & era hú capitão que fe chamaua Ioão da noua: que tinha húas armas brancas aíli como as q ele dizia, de que ho mouro ficou muyto efpantado. E difle ao capitão moor q não era muyto vencer qualquer poder de gente, quem tinha taes caualeyros. Pois tomada a cidade ho capitão moor ficou nela oyto dias, em q a mãdou faquear: & ho principal defpojo foy de mantimentos. E afli mandou recolher a ar- telharia, & queymar a trãqueyra, & naos que eftauão varadas: & dar fogo â vila que ardia muy bem, & mãdoulhe derribar a mezquita, q era húa cala muyto grande daboboda cõ hú eirado por cima, & foítinhafe a aboboda fobre grandes piares de pedra. E andando tres bombardeyros cortando os piares pera lhe poerem barris de poluora, & não andãdo dentro outra nhúa peffoa, fupitaméte fe deyxou vir a aboboda ao chão q era pera matar mil homés fe tantos acolhera debayxo, mas parece que quis noífo fenhor que fe viffe quanto lhe aprazia de fer derribada aquela maldita cafa. E quis goardar os q a derribauão que fem os ninguém de- facaruar debayxo das pedras fahirão viuos, & fem aleyjão nhúa nem pifa- dura como q não caira fobreles coufa algúa: de que ho capitão moor, & todos receberão muyto prazer, & derão muytos louuores a noífo fnor por aqle milagre.
  • Livro II, Capitolo L VII 333 CAPITOLO .LV11. De corno a fortele\a de Jòar foy entregue ao capitão moor. E de como tomou por força a uila Dorfacão, 6 fe partio pera Ormu\. PArtido daqui ho capitão moor foy furgir aos dezafeis de Setébro diante de húa vila de mouros chamada çoar do fenorio del rey Dormuz pofta em cofta braua, q tinha húa fortaleza cercada de muro, bem prouida de gente de pê & de caualo. E ao prefente não eftaua nela ho proprio capitão q era ido a ver el rey Dormuz, & deyxou nela por alcayde hú feu cunhado: que ja fabia o que ho capitão mòr tinha feyto nos lugares a tras, & cÕ medo de lhe fazer outro tãto, determinou de lhe entregar a fortaleza ho mais a feu faluo que podeffe. E furto ho capitão mòr (que furgio ao mar por amor da cofta que era braua) man- doulhe preguntar per hú mouro que leuou húa bãdeira de paz, que era o que queria daquela fortaleza. Ao que ele refpõdeo q vinha per man¬ dado del rey de Portugal, cujo vaffalo era por defcobridor & conquifta- dor pera aflentar paz & amizade cõ quê a quifeffe com el rey feu fenor, que viífe ele fe a queria, & que logo lhe mãdaffe a repofta. Que tornou logo a mãdar polo mouro: dizédo que ele eftaua naquela fortaleza por hú feu cunhado que era alcayde mòr dela: & com tudo q folgaria cõ a paz poys ele lha queria dar. Ao que ho capitão mór refpõdeo que poys ele queria paz, que ele lhe daua fua fê de em nome del rey feu fenor lhe fazer todalas honrras & mercês q podeffe: & que creffe q acertaua muyto em fazer o que dezia, & que erraria fazendo outra coufa: porq acharia nele ho contrairo do q lhe mãdaua ofrecer. E a efta repofta mandou ho alcayde pedir feguro & arrefés, porque fe queria ver cõ ho capitão mór. E ele lhos mandou por hú fidalgo chamado Iorge barreto crafto. E entre¬ gues os arrefés trouue Iorge barreto ho alcayde ao capitão mòr que ho recebeo cõ muyto prazer & lhe fez muyta honrra. E ho alcayde lhe diffe pelo lingoa, Muyto forte no mar, & na terra, capitão moor do grande rey de Portugal, que he mais poderofo q todolos reis, a minha noticia veo a deftruição que fizefte em Curiate, & a quãtos mouros tirafte a vida em Mazcate, porque não quiferão aceytar a paz que lhe ofrecefte como piadofo, ho que eles de foberbos não conhecerão & ta engeytarão. Pelo qual a tua efpada fe tornou irofa contreles efpedaçando os de Mazcate, & ho teu fogo cõfumio os de Curiate. Que como perfiofos não querendo feguir aos de Calayate (que logo aceitarão tua amizade) ouuerão ho pago de fua contumácia, ainda que eftauão tão fortes que erão mais pera
  • 334 Historia da índia íeré temidos que pera temeré. Mas tu que es forte fobre os fortes derri- baíte fua foberba, & os tornafte como fracos: & fem nhú poder. Ho que parece mais ordenado per deos que feyto per homés: porq os mouros muyto mais géte erão do q he a tua. E eftauão detrás de fortes tran- queyras cõ mais artelharia do que era a tua. E vemos que tudo defba- ratas tudo vences & deftrues: pelo qual conhecendo eu que deos ho quer aífi: não quis pelejar contrele, porque querédote refiftir a ele refiftia. E pois he doudice querer refiftir contra feu poder, não me quis cofiar é minha gente né em minha fortaleza. E obedecendo a fua vontade venho affentar paz cõtigo em nome del rey de Portugal: por cujo vaflalo fico doje por diante com todos os de çoar, com condição que aflentãdo tu amizade com el rey Dormuz eu fique liure, & não aflentãdo por culpa del rey Dormuz: eu fiq vaflalo del rey de Portugal da maneyra que digo. Ho capitão mor folgou muyto douuir efta fala por fer dhú barbaro, & feu Imigo que bem via que a neceflidade lhe fazia fazer ho que fazia. E diflelhe q a principal coufa em que fe nefte mudo conhecião os homés fefudos, era em conhecerem os tempos, & andarem coeles: efpecialméte fe parecendolhe que conhecião a võtade de deos conformarfe coela. E porque ho ele aífi fazia era dino de muyto louuor por fua difcrição que por ela, & não por couardia eftaua craro fazer o que fazia, quanto mais que ne quantos pelejauão erão valétes* fenão os que ho fazião quando era neceflario. E que aqueles que pelejauão fem tempo mais fe podião cha¬ mar doudos que esforçados. E pois ele teuera tão boõ conhecimento ele veria quão boõ amigo achaua nele, & quanto melhor lhe era a vaflalajem que fazia que a refiftencia que lhe poderá fazer. E ali aflentarão logo que ele alcayde mandaria apregoar vaflalajem : aífi na fortaleza como na vila, & pera mais abaftança mandaffe ele capitão moor lâ húa bandeyra com as armas de Portugal a qual trarião quando deffem ho pregão. E que ficando a vila & fortaleza del rey de Portugal, pagaria de tributo o que podefle abaftar â gente de goarnição que a goardafle. E de tudo ifto foj feita húa efcriptura em arabigo, que tornada em português dezia, Enco- mendamonos a deos ho alcayde & moradores da fortaleza de çohar, & nos metemos nas mãos de Afonfo de albuquerque capitão môr del rey de Portugal, & fenhor das índias, que aos defafeys dias de Setembro chegou ao noflo porto pera nos deftruir, & nos nos fomos lançar a feus pês pedindolhe que nos não fizefle guerra, que queríamos fer vaflalos del rey de Portugal, & fe quifefle a fortaleza que lha entregaríamos logo pofto q foflemos delrey dormuz: mas pois nos não defendia, q queríamos fer vaflalos del rey de Portugal, que nos defendefle aífi del rey de Ormuz, como de quaefquer outros reys, ou fenhores q nos quifeífem fazer mal.
  • Livro II, Capitolo L VII 335 E ele nos recebeo por vaflalos del rey de Portugal, & nos deu feguro, & a fua bandeira que recebemos fobre noffas cabeças, & pofemos fobre a fortaleza. E doje por diante prometemos deílar aa obediécia del rey de Portugal, & fermos feus vaflalos, & entregarmos a fortaleza quando vir¬ mos feu mãdado, ou de feus capitães, & não obedecermos a outro rey fe não a ele. E afli prometemos de fazer fempre feruiço a fuas armadas dalgús mantimentos que tiuermos: & fazendo ho cõtrairo q ele nos pofla deftruir, com matar nofla gente, & queymar noffas fazendas. Porem con- certãdo ele capitão môr cõ elrey de Ormuz que obedeça a elrey de Por¬ tugal, obedeceremos a el rey de Ormuz, & fe não ficaremos por vaffalos del rey de Portugal. E quãto aos lauradores da terra ele capitão mòr lhe pode pôr ho tributo q quifer de mantimentos, porque não té outra coufa que pagar. E eles pagarã ho tal tributo âs armadas del rey de Portugal quãdo aqui vierem. E porque diíto fomos contentes mandamos fazer eíta carta que affinamos todos. E aflinada ho alcayde a deu ao capitão mòr: & ele lhe deu hú capuz dezcarlata de fua pefloa, & hú bacio grande de prata: & afli outras peças, que lhe derão os fidalgos & caualeyros que hião na frota. E Nuno vaz de caítelo branco lhe deu hú moçafo, que era hú liuro do alcorão de Mafamede, que foy aualiado é dozentos pardaos. E por fer ja noyte ficou a bãdeira que lhe auião de leuar pera o outro dia, que lha leuou Iorge barreto craíto acõpanhado dalgús fidalgos, todos veftidos de feita, & das trombetas do capitã mòr. E ho alcaide ho faio a receber bé acompanhado aa praya, onde afli os noífos como os mouros caualgarão em fermofos caualos, & com as trombetas diante abalarão pera a fortaleza: Ido pregoãdo diante, real real por el rey dom Manuel de Portugal: & dado hum pregão tocauão as trõbetas. Afli forão ate a fortaleza onde a bandeyra foy aruorada na torre da menajem, & afli ficou. E feyto de tudo hú auto pelo efcriuão da armada, & aflinado pelo alcayde, & prlcipaes da vila recolherãofe os noífos à frota. E porque aos frõtey- ros da fortaleza fe deuia algú foldo mandoulho ho capitão mòr pagar por finta que fe deytou aos moradores da vila, feyto iíto ho capitão moor fe partio pera outra vila chamada Orfacão: ainda na mefma cofia cercada de muros bayxos, & bé arruada, & de fermofas cafas: & nos muros auia algúas bõbardas roqyras. Era gouernada por hú regedor del rey Dormuz q eítaua bem acõpanhado de géte darmas: poré eítaua ja defpejada da principal fazenda nem no porto não auia nhúas naos. A efla vila chegou ho capitão mòr a vinte & hú de Setébro: os mouros]eílauão todos ao longo da praya, hús oulhando a nofla frota, outros andauão acaualo efca- ramuçando: & ningué não foy falar ao capitão mòr pelo que como foy noyte mãdou ele ho feytor em hú batel que foffe correr a ribeyra, & viffe
  • 336 Historia da índia fe lhe falaua algué, & que não falaífe não lhe falãdo, mas os mouros não quiferão falar. Ho que fabido pelo capitão moor mandou aperceber os noíTos, & ao outro dia cometeo a vila & não achou quem lhe defendeffe a ribeyra que ja erão fugidos ho regedor com os principaes da vila: & ficauão algús poucos q em começando os noffos dentrar fe acolherão cõtra húa ferra q eftaua fobre a vila. E feguirãnos algús dos noffos matãdo & catiuãdo muytos deles: & por hú vale da parte do fertão virão ir hum corpo de géte que hia fugindo cõ certos de caualo detrás. E vedo ho ca¬ pitão moor que no lugar não auia com quem pelejar mandou a dom An- tonio de noronha feu fobrinho que cõ cem homés feguiíTe aquele corpo de mouros, & ele lhe hia nas coítas cõ a bãdeyra cõ ho corpo da gente. E indo dõ Antonio apos os immigos, os de caualo lhe fazião rofto de quãdo é quãdo com algús de pê tirando muytas frechadas, & a outra gente miuda acolhiãfe quanto podião: & afli forão obra de húa legoa em que os noffos catiuarão bé vinte almas, homés & molheres que de cãfa- dos não podião andar, nem os noffos de muyto afadigados do trabalho de andar. E da calma , que fazia não poderão ir auante mais que húa legoa: & tornaranfe a recolher a bandeyra onde ho capitão moor eftaua, que com toda a géte fe tornou pera a vila: onde efteue tres dias defpe- jãdoa dos mãtimentos, & do fato q tinha, & defpois a mandou queymar. E porq nefta vila fe acabauão os lugares que el rey Dormuz tinha na cofta Darabia antes do Sino Perfico ou mar da Perfia determinou ho ca¬ pitão moor de fe ir a ilha Dormuz & afli ho decrarou a feus capitães, a que pareceo bem, & cõ feu parecer fe partio. E foy ter a hum cabo que fe faz na mefma cofta Darabia chamado ho cabo de Mocandomo que eftaa em vinte & feis graos, & hum quarto da banda do norte, & ateli chega ho fenhorio del rey Dormuz da banda Darabia. E defte cabo pera dentro começa a enfeada do mar da Perfia que faz fim na cidade de Baçora duzentas & vinte & cinco legoas da ilha Dormuz, & antre ho cabo de Mocandomo, & a terra da Perfia q he a boca do mar Perfio auera quinze legoas de trauefla, em que eftão húas pequenas ilhas de que húa que he mór que as outras fe chama Ormuz.
  • Livro II, Capitolo LVIII 337 CAPITOLO .LVIII. Em que fe efcreue a cidade Dormu\. E de como Coieatar que era gouer- nador do reyno fe apercebia pera peleiar com ho capitão moor. ESta ilha Dormuz eftaa tres legoas da terrâ firme. E em altura de víte & fete graos da banda do norte tera de roda tres ou quatro legoas, não he viçofa daruoredo, nem de fõtes dagoa nem de rios. Ha nela húa pequena ferra que dhúa parte he húa pedreyra de fel, & da outra he de veeyros déxofre: ho fal he tão aluo de dentro como neue & de fora ruyuo, & tirãno em pedaços afn como pedras da pedreyra. E as naos que ali vem de fora ho leuão por laftro outra coufa que aproueyte não dà efta ilha. E húa legoa da cidade eftão tres poços dagoa muyto boa: & não ha na ilha faluo de cifternas ou folobra. E com quanto a ilha he aíli efterile por eftar naquela paragem, & ter dous portos os melhores que podem fer, fundarão os mouros nela húa cidade a que poferão nome Ormuz, & fituaranna em húa pota da ilha, & os portos ficão em bayas, hú de leuante outro de ponente em que fe podem tirar a monte naos de quatrocentos toneis, pera ho q ha na cidade muyto breu, eftopa, & cor¬ doalha & todos os aparelhos q húa nao reqre. Efta cidade he rafa nem té outra fortaleza fenão as cafas del rey: he de muytas & muy fermofas cafas, & altas de pedra & cal, & geffo cubertas de terrados. E porque he muyto quete no verão té as cafas hús catauentos q fão como chami¬ nés, & fazénos no meo de húa cafa, & por eles lhe étra ho véto: & ali eftã pola calma: feus moradores té a ley de mafamede, fão Perfios & arabios: & falão arauia, & llgoa perfiana, os arabios fão baços, & os Per- fianos aluos & bé apeffoados: & fão todos muyto dados a deleytações, afli no comer como é outros apetites carnaes, principalmente na luxuria: fão muyto grãdes caualgadores & tanto que jogão à choca acaualo: fão naturalmente muficos afli de falas como de mãos, & trouadores & dados a lêr hiftorias antigas. Finalmente fão inclinados a todas as boas manhas, & tem as mais delas: fão muyto ciofos das molheres: & por iffo lhas ningué não ve & fão elas muyto fermofas. E quando algúa ora faé de cafa vão todas cubertas com hú lençol que tem hús buracos em dereyto dos olhos por onde vé, fão tãbem muyto luxuriofas. E elas & eles andão muy bé atauiados. Os homés trazé cabayas de pano de laã fino ou de feda ou de pano branco dalgodão, de que trazé debayxo camifas & ce¬ roulas, calção çapatos de põtilha de coyro ou de feda: nas cabeças trazé toucas foteadas fobre hús barretes vermelhos q té hús cucurutos de cÕ- <3 Tomo 1
  • 338 Historia da índia primento dhú palmo, & de groflura de húa afte de lãça, & afll como andao bem atauiados de veftidos affi ho andão darmas .f. terçados ricos, & adagas, arcos turquifcos, & frechas: & fão grandes frecheyros adi de pê como de caualo, & trazem hús efcudos a que chamão cofos, q fão de leda & dalgodão tão fortes que os não paífa nhúa frecha, eftas armas traze continuaméte na paz: & na guerra acrecentão lanças, & armas de- féfiuas de malha, & de laminas de ferro, & daço. São os moradores defta cidade todos mouros, & muyto ricos, porq todos fão mercadores de grande trato: & adi eftão aqui outros muytos eílantes de diuerfas partes do mudo: & por ido de todas elas vê ali muytas & muy ricas mercado¬ rias. Da índia lhe vê toda a efpeciaria, droga, & pedraria, & muyta roupa dalgodão, taficiras & alaquecas. De Malaca, crauo, maça, noz, fan- dalo, cãfora, porcelanas, beyjoim, & calaim. De Bengala, finabafos, bea- tilhas, chautares, mamonas, & rcbotins, q fão generos de panos finos dalgodão que fão antreles muyto eftimados. Dalexãdria & do Cayro, azougue, vermelhão, açafrão, cobre, agoas rofadas, borcados, veludos, tafetás, graãs, chamalotes, ouro & prata é barras, & é moeda, & alcati¬ fas. Da China, almizquere, reubarbo, & feda. E a fora eftas mercadorias q vê por mar lhe vê por terra da Perfia & doutras prouincias de Afia outras muytas que não té coto. E daqui leuão as naos é retorno aljôfar, perlas, caualos Darabia, & da Perfia, feda folta, retros, tamaras, paífas, fal, enxofre, & outras muytas mercadorias. E pofto q nefta ilha não ha nhús mantimetos, a cidade lie a mais abaftada deles q outra algúa q fe fayba no múdo, & todos lhe vé de carreto .f. trigo, arroz, carnes, mã- teyga, pefcados & todas as caças, & todas as fruytas que ha é Efpanha affi verdes como fecas, & em cõferua, & outras muytas diuerfas das nof- fas. E muytas maneyras de cõferuas daçucar & de vinagre q não ha antre nos & ate a agoa & lenha lhe vé de fora. E cõ tudo fempre nas fuas pra¬ ças fe acha feyto de comer muyto groflaméte pofto q feja de noyte: & fazéno os mouros muy llpaméte, & affão os carneyros inteyros, & por esfolar: & pelãnos como leytões: & afil cõ a pele he a carne mais fabo- rofa. E tudo fe vende a pefo ate a lenha por muy grande regiméto & taixa. E qualquer pefioa que não vende por taixa, ou falfa ho pefo he grauemente caftigada: & goardafe muyto a juftiça a todos. A moeda que fe aqui gafta he mourifca douro baixo: de prata muy fina & de cobre: a douro fe chama xerafim, & vai .ccc. rs.: a de prata tãga & vai tres vin- tés, pofto que os mouros lhe chamã larins, por fe fazeré em húa cidade da terra firme chamada Iara, a de cobre chamão faluz, & vai fete ceitis. Ha nefta cidade muytos defenfadamétos, antre os quaes ha hú pera ho- més curiofos, de feytos antigos: & he q é hú alpédere grãde a certas
  • Livro II, Capitolo LIX 33g horas do dia, pela menhaã & â tarde lê hú mouro velho coronicas anti¬ gas é Períiano aífi de Alexãdre, como doutros varões iluftres: & té por iffo prémio da cidade. E ifto faze pera os mancebos ire ali ouuir, & fe coftumaré bé. Efta cidade he cabeça do reyno, q dela toma ho nome que tem muytas cydades & vilas cõ fortalezas, aífi na cofta Darabia, como na da Perfia: & as mais delas muyto abaftadas de pão & de vinhas, palma¬ res, & pomares. E delas pagaua el rey Dormuz tributo ao Xeq ifmael, ou Sofio, como lhe ca chamão: que era muy grande fenor de terras é Perfia, Arabia, & na índia primeira, & em outros reynos. E os reys Dor¬ muz eftauão cotinuaméte nefta cidade, & nas outras tinhão regedores: & em Ormuz tinhão outro q defpachaua a mòr parte das coufas do reyno, porque os reys não entendião é coufa algúa da gouernãça do reyno, nc feruião de mais que pera fe gouernar ho reyno pacificamente. E fe que- rião entéder na gouernança, ou fer ifentos como os outros reys, toma- uaos ho goazil dormuz, que aífi fe chama ho regedor, & quebrados os olhos, ele com os principaes do reyno ho metião nua cafa que pera iífo eftaua deputada, & ali lhe dauão de comer das rendas do reyno: & leuan- tauão por rey algú filho fe o tinha, ou algú feu parente mais chegado, ao q fazião ho mefmo fe queria gouernar. E com ifto auia fempre reys cegos naqla cafa, & o q reynaua viuia fempre naquele medo. E tirando ifto el rey Dormuz era grãde fnor: & feruiaffe cõ grãde eftado afli fora como detro, & gaftaua muyto: & tinha fepre em fua goarda muyta géte de pê & de caualo a que pagaua grãdes foldos, & leuaua vida muy def- cãífada é todo ho genero de folgar: principalmente em húa ilha chamada Queyxome tres legoas Dormuz muyto viçofa dagoas: & daruoredos em que tinha grande coutada de diuerfas caças a que hia a montear. CAPITOLO .LIX. De como Coieatar ouue a gouernãça do reyno Dormu\ de que eftaua de pojfe quando ho capitão moor lii chegou. REynÃdo defta maneyra eftes reys Dormuz veo a fuceder no reyno hú chamado Tuxura que teue tres filhos de q ho mayor fe cha¬ mou Corgo! que feu pay é fua vida fez regedor de Calayate, & eftando lâ faleceo feu pay e Ormuz que deu caufa a hú de feus hirmãos fe leuãtar cõ ho reyno. E pera ter menos Imigos tirou os olhos ao outro hirmão. Sabido ifto por Corgol foyfe logo à ilha de Baharé de q direy adiante. E dali cometeo a hú rey de Arabia q lhe delfe ajuda pera tomar Ormuz & q ele lhe faria doação daquela ilha q era grande & rica. E
  • 340 Historia da índia mais de húa fortaleza chamada Catifa que eflà defrõte dela na coíta Da- rabia, o q el rey Darabia fez, & ainda lhe deu ardil pera que tomaífe feu hirmão a quê arrãcou os olhos. E feyto rey reynou trinta & tantos an- nos, & como hú feu filho mais velho defejaffe de reynar parecialhe que feu pay viuia muyto: & por iíto peytou a hús abexls grandes feus priua- dos q ho mataffem, & como ele foffe rey os faria grades fnores, ho q eles fizerão. E feyto ele rey arrancou os olhos a todos feus hirmãos: & afil a outros de q fe temia. E começou de tiranizar ho reino de modo q parecédo mal aos mefmos abexls q ho fizerão rey: eles ho matarão auendo dous mefes q reynaua, & eles gouernauão ho reyno. Eítas nouas forão a el rey de Lara q he no fertão da Perfia, fogro del rey Corgol, & pare- cédolhe que cõ qualquer géte poderia tomar Orrnuz pafToufe â ilha de Queyxome pera dali paffar a Orrnuz: o q fabendo os abexins forão é fua bufca cõ muyta géte. E como ainda el rey de Lara não teueffe a fua toda, os abexls ho defbaratarão, & matarãlhe & préderãlhe muytos: & torna- rãfe a gouernar Orrnuz. Neíte tépo eftaua por regedor é Calayate hú ca¬ pado natural de Bégala chamado Cojeatar q fora efcrauo del rey Tuxura, & grãde feu priuado, & é qué tinha tanta cõfiãça q lhe écomédaua coufa de muyto pefo de q ele daua muyto boa conta como homé fabedor & prudéte. E fabendo iíto dele el rey Corgol defpois q foy rey ho fez rege¬ dor de Calayate, onde fabédo ele o que paffaua em Orrnuz ajútou grãde frota, & foy fobrela pera a tomar aos Abexls q achou é Queyxome: & mãdoulhes dizer que bé fabião como era tão velho como cada hú deles é Orrnuz que lhe defle húa voz no reyno & q ho terião por amigo, & como ele ja tiuefle inteligécia cÕ aqueles de q os Abexls fe fiauão forão por eles cõlelhados q fizeffé ho q lhes pedia. E fizerãnos ir a falar coele ao mar, õde os ele prendeo: & leuou os a Orrnuz, & lhe deu muy cruas mortes. E porq parecefTe que não qria ho reyno para fi, & el rey de Lara não viefie fobrele, & lhe impediífe ho q determinaua de fazer, mor- tps os Abexls leuãtou por rey a hú moço cego filho del rey de Corgol, & neto del rey de Lara, q por eíta caufa não acodio a Orrnuz. E vendofe Cojeatar liure deite receo q tinha defpois de reynar ho neto del rey de Lara ho matou, & leuantou é feu lugar hú feu primo filho dhú hirmão del rey Corgol q era cego mãcebo de dezafeis ãnos. E coeíte fe fez Co¬ jeatar tirano do reyno Dormuz q ele gouernaua aufolutaméte porq eftaua muyto poderofo de géte: & de dinheyro que gaítaua muy largamétç nas coufas que cõprião à fegurança da fua tirania. E por iffo nlgué não podia coele: poíto q era muyto mal quifto por aíli tiranizar ho revno é que auia vinte mefes q eftaua de pofie tédo aqle aque chamaua rey como ca- tiuo. E Cojeatar fabia ja ho q ho capitão mòr tinha feyto nos lugares
  • Livro 11, Capitolo LX 341 Dormuz: & tinha tanta fama dos noíTos q lhe dizião q comião os ho¬ mens: & como foube q ho capitão môr andaua tão perto teue pera fi q iria a Ormuz. E por iífo falou cõ os fenores de obra de cé naos eítrãjey- ras qítauão no porto carregando, ãtre as quaes eítaua húa del rey de Cambaya chamada Meri que era de oytocêtos toneis, & trazia perto de mil homens de peleja, & outra tãbem grãde de hú filho del rey de Cã- baya, & bé artilhadas: & Cojeatar tinha algús nauios a que chamão ter- radas q fão tamanhos como galeões. Aos capitães daquelas duas grãdes naos, & aos friores das outras diffe Cojeatar como efperaua polos noflos, cõtandolhe o q tinhão feyto, pedídolhe que ho não deíeparaífé & ho aju- daffem: ho q lhe eles prometerão. E logo fe fizerão preítes pera tomar a noífa frota. CAPITOLO .LX. Como ho capitão môr Afonfo dalbuquerque chegou â cidade Dormu\. E dos recados que mãdou a el rey Dor mu\ fobre amizade. E de como Coieatar diffimulaua coele. ANdando Cojeatar apercebendofe chegou ho capitão môr Afonfo dal¬ buquerque a viíta Dormuz a vinte & cinco dias de Setembro hú domingo a oras de vefpera. E tãto que defcobrio ho forgidoyro das naos chamou â fua nao os capitães da frota pera faconfelhar coeles do que deuia de fazer. E no cõfelho ouue diuerfos pareceres, porq hús dezião que a armada q eítaua no mar era grãde é demafia, & q pela mefma maneyra deuia de ter a géte, porque craro eítaua q el rey Dor¬ muz auia dajútar quanta podeffe pera fe deféder pois auia de ter noua do que eles tinhão feyto por aqla coíta & mais que dado cafo que ven- ceífé a frota não tinhão gente pera fairé a pelejar c terra por fer a cidade muy grãde. E pois vencédo a frota le a cidade não fe ganhaua mais que mataré algús mouros. E não a vencendo fe auenturauão a perderefe, não fe deuião dauenturar a tamanha perda como era perderenfe cõ a armada, & perderé ho credito q tinhão ganhado. E perderfe a honrra del rey de Portugal & ho credito de feu poder, que nã foométe ficaua perdido na¬ quelas partes, mas na índia onde era tão neceffario foíterfe, por ganha¬ rem tão pouca coufa como feria a refpeyto do que diziã vécerfe a frota dos mouros: pelo qual deuião de deyxar ho de queítauão defobrigados, & não merecião culpa fe o não fizeffem. E ir fazer aquilo a que tinhão obrigação, & merecião pena fe o deyxaífé de fazer, que era tornarfe ao cabo de Goardafú & goardalo como el rey mãdaua. Ho outro parecer foy que poíto q a frota dos immigos folfe tamanha como parecia q pois
  • Historia da índia 342 ali fe achauão que fe não deuião defcufar de pelejar coela por nhú incon- ueniente, porq não podia fer nhú tamanho que o não fofle maior pera perderé os Imigos ho credito do poder del rey de Portugal, & a fê que tinhão da valentia dos Portuguefes, fenão ver que não oufauão de pelejar cÕ aquela frota vindo tão fauorecidos da vitoria de tantos lugares fortes como deyxauão conquiltados, hús per força darmas outros per vontade dos proprios moradores. E que eítas vitorias lhe auião dajudar muyto a quebrar os corações dos Imigos que eítauão naquela frota: porque quando fe eles vifle cometer mais afinha fe lhes auia de reprefentar diante a def- truição dos outros lugares pera aueré medo que a auétajem que lhe tinhão pera criare esforço. E mais fe os cometeífem cÕ feu impeto coítumado, que logo fe auião de defbaratar: & defbaratados os da frota poucos auião de ficar na cidade, & ja q ficafiem muytos, auião de ficar tão quebrados q auia de fer neceflario a el rey Dormuz fazer algú partido: & qualqr que fofle lhes auia de fer muyto hõrrofo. E deite parecer foy ho capitão môr & eíte fe goardou, & porq os que erão do outro não ficaffe defcÕten- tes os louuou muyto: dizendo que bem fabia que mais pelo proueyto comú que pelo interefle de fuas próprias peífoas derão feus pareceres, & que be fe via ao pelejar quão pouco eítimauão as vidas. E delta maneyra nhú não ficou cõ efcandalo. E aflentado que fe pelejalfe com a frota dos Imi¬ gos: aflentoufe mais que ho capitão moor deytaria húa ancora, boya com boya com a nao meri. E Ioão da noua cõ a do Príncipe, & Francifco de tauóra cõ outra que lhe parecefle q eltaua mais armada: & pelo meímo modo ho farião os outros capitães, & logo forão furgir afli como fe orde¬ nou. As naos dos immigos eltauão todas embãdeyradas que afli ho man¬ dou Coieatar tanto que ouue vilta dos nolfos, & que efcondeflem a arte- lharia que tinhão, & que em furgindo ho capitão moor tãgeffem feus atabales: pera que ele cuydafle que o recebião com feita q tinha deter¬ minado de ho enganar, & detelo ate ho outro dia quefperaua que lhe viefle mais armada da terra firme. Mas ho capitão môr não deu efle va¬ gar, & mandou dizer ao capitão da nao meri que logo lhe fofle falar fenã que ho meteria no fundo, & ele refpondeo que logo iria. Ho capitão môr como foube que ele auia de vir, pos fe de grande eltado pera autorizar ho carrego que trazia, & pera que os mouros ho teuefiem em muyta conta: & aflentoufe em húa cadeyra de veludo, & crauação dourada fobre húa alcatifa, armado de húas coyraças de borcado cõ bucetes & fralda de malha muyto fina & hum capacete douro. E dous pajes cada hú de lua ilharga hum cõ húa adarga & outro com hú eltoque, tudo muyto rico. E todos os fidalgos & capitães armados: & afletados ao derredor da tolda onde ele eltaua, & a gente da nao em pê toda armada: & eltaua
  • Livro II, Capitolo LX 343 com tanta majeftade que bé fe fentio no capitão da nao meri quando en¬ trou que ficou efpantado,' & debruçoufelhe no chão pera lhe beijar os pés. Mas ele não ho confentio, e leuantandoho pregútoulhe cuja era aquela grãde nao & ele lho diífe, & que ele era ho capitão dela, & q fe eftaua fazendo preftes pera fe ir. E preguntado mais fe era verdade que Cojea- tar era regedor Dormuz, & que el rey era ainda moço: refpondeo que fi: porq eftaua tão medrofo que nã oufaua de negar a verdade. E ho ca¬ pitão môr fazia todas eftas pregútas pera deter ho capitão que bé ente¬ dia ho medo que tinha, & tanibé pera fazer mayor mifterio no q queria mãdar dizer a Cojeatar, que foy que ele era capitão moor del rey de Portugal & feu defcobridor & conquiftador. E tinha coquiftado todos os lugares do reyno Dormuz na cofla Darabia: hús por força outros por vontade. E que agora vinha pera fazer Ormuz tributaria a el rey feu fenor ou deftruila que -viffe qual queria, porque fe quifeffe guerra que folgaria muyto, porque andaua tão coftumado a ela que lhe pefaua cÕ a paz. E mais que lhe feria muyto grande honrra ganhar por armas húa cidade tão nobre como aquela. E quando ele ifto dizia fazia hú geyto que pare¬ cia que ja eftaua pelejando: de que ho mouro eftaua quafi fem cor def- pantado do coração do capitão mòr. E diífe que ele leuaria aquele recado a Cojeatar. E foyfe a leuarlho & foubeffe que quando lho dera que lho reprefentara muy bé. E que lhe differa que olhaffe por fi, porque cÕ aquele homé não fe auia de jogatar. E que lhe parecia q ainda tinha ne- ceífidade de mais gente pera pelejar coele. E Coieatar lhe diífe que tinha mandado recado â terra firme pera lhe vir, & que ao outro dia efperaua por ela: & por iffo diftimularia entretanto cõ ho capitão moor: & lhe moftraria que faria quãto quifeffe. E pelo mefmo capitão lhe mãdou hú aluara aflinado por el rey & por ele, que dizião que prometião de fazer com ho capitão moor toda a paz & cõcerto que ele quifeffe. E coele hum prefente de muytas fruytas & conferuas, mandandolhe dizer q fua vinda foffe boa, & q folgaua muyto coela. Ho capitão môr tomou ho aluara, & não quis tomar ho prefente dizendo q não auia de tomar nada de homé a que fe compriffe auia de cortar a cabeça, & fezlhe tornar ho prefente: & diffelhe que lhe não daua defpaço pera tornar com repofta mais que ate ho outro dia as oyto oras, porq aquele dia era tarde. E ho capitão diffe que ele a traria, porem ele não tornou mais, porq aquela noyte aca¬ bou de chegar ho focorro q efperaua por mar da terra firme. E a armada que veo com a que ele tinha fua própria era de cé terradas que cõ as cé naos dos eftrãgeyros fazião duzentas velas. E afli nelas como na cidade auia trinta mil homens de peleja, com que Cojeatar ficou muyto ledo pa- recendolhe que não poderião os noffos efcapar, & mandou aos feus que
  • 344 Historia da índia fopena de morte não mataflem nhú fenão que os tomaffem viuos que os queria, porque fabia que erão valentes homens, & que ho ajudariao nas guerras que teuefle dali por diante, & mandou a fua armada que fe po- feífe ao longo da terra, pera que dali efteueflem as naos groflas como fortaleza, & pelejaflem: & as terradas que erão mais ligeiras acoderião pela bãda do mar, & cercariã os noflos, & affi não efcaparião. CAPITOLO .LXI. De como ho capitão môr pelejou com a grande armada de Cojeatar: & da grãde uitoria que lhe deu nojjo fenhor. AO outro dia vendo ho capitão mòr afaftada pera terra a armada dos immigos, pareceolhe aquilo mal: & mais porque vio abertas as portinholas da nao meri com a artelharia afeitada que era grofla, & outro tanto na nao do príncipe de Cambaya: & nelas, & nas outras eftauão per bordo muytas lanças, & em cada húa hú cofo. E quando ele ifto vio, porque pareceffe que os não tinha em conta mandou logo aos feus bateys que foílem aleuãtar as nofias ancoras que ficauão ao mar, dode fe as naos dos immigos arredarão: & que as foífem furgir nas fuas gorjas, & aíli foy feyto: & foy coufa marauilhofa de ver ho es¬ forço com que ho fizerão antre tã grande armada de Imigos. E feyto mãdou ho capitão mòr preguntar â nao meri como não leuaua ho feu ca¬ pitão recado, os da nao refponderão que era no paço que logo viria: & ainda defpois tornou a mandar preguntar, & refponderão que ainda não viera, que não podia tardar nada. E eftes recados dauão os mouros, por¬ que fe eftaua Cojeatar pera começar a batalha, porq logo dahi a pouco defpois da fegunda repofta começarão os mouros que eftauão na armada de brandir as efpadas & cofos, & dar grandes gritas: & coifto arranca¬ rão as terradas a remos, feytas em dous efquadrões, & forão fe dereitas aos noíTos pela banda do mar. E em húa fe foube defpois que hia Cojea¬ tar pera esforçar os que hião nelas. E pera mandar os que ficauão nas naos deixou nelas hum grande feu priuado. Ho capitão moor que as vio arrancar mandou logo tirar cõ hú camelo que tinha na tolda â náo meri, & ho mefmo fizerão os outros capitães âs outras, & elas também âs nofias fem fazerem nenhú nojo aos noflos que lhe fazião muyto: princi¬ palmente da capitayna que cõ ho primeyro tiro deu a meri em húa en- tena grofla que trazia de fora da amurada, cõ que matou & ferio muytos dos immigos: & cõ outro tiro que tirou apos efte. E afli fe começou da- tear ho jogo de húa parte & da outra que não auia quem fe ouuifle com
  • Livro II, Capitolo LXI 345 ho eftrondo da artelharia, nem fe enxergaua nhúa coufa de fora, porq tudo era cuberto de grade fumaça. Nifto fe hião chegando as terradas, & delas & das naos tirauão muytas frechadas fem conto aos noífos, de que feriao algús. Ho condeftabre da capitayna q vio que as terradas fe chegauão muyto tirou com hú tiro que fe chamaua ortiga que tiraua pe¬ louro de pedra, & deu pelas terradas que hião tão çarradas q efpedaçou feys ou fete, em que matou & ferio muytos, & outros ficarão na bãda. E afli como efte tiro defparou da capitaina, afii defpararão outros das ou¬ tras naos noífas, que todos fe empregarão bem, & fizerão grande deftruy- ção nas terradas: tanto q não oufarã de paífar auante, & teueranfe não deixando de tirar muchas frechadas: & outro tãto fazião as naos groffas. E era efpãtofa coufa de ver a grande reuolta q hia de gritas & ho eftrõdo dos diuerfos generos darmas cÕ que fe pelejaua: porq de húa parte vi- nhão pelouros, doutra frechas & fetas, em outras pelejauão com lanças, & cõ efpadas, & cõ arremeflos: & de tudo ifto os immigos leuauão ho peor, porq morrião deles tantos que as fuas naos eftauão cheas de cor¬ pos mortos. E afii ajudaua noffo fenhor aos noffos q os berços q tinhão carregados pelos bordos das naos & ceuados a labareda q fe fazia quãdo punhão fogo a artelharia groffa os fazia defparar, & hião os pelouros dar é terra & matauã muytos homes & molheres q eftauão védo a batalha. E muytas molheres prenhes mouerão cõ ho grande eftrõdo da artelharia: & muytos mouros mercadores hõrrados de barriga q não pelejauão fugião da cidade cõ medo do q vião, & fe acolhião a húa mezquita q eftaua na ferra em q tinhão grãde deuação, porq ali efperauão de fe faluar. E os noffos pofto q leuauão immenfo trabalho na batalha não enfraqcião põto, antes de cadauez fe esforçauão mais por alcãçar a vitoria. E porq ho principal em q ela confiftia era no defbarato da nao meri, & na do prín¬ cipe de Cãbaya, apertaua as ho capitão mòr muyto eftreitaméte cõ fua artelharia q hú põto não eftaua ociofa. E de hú tiro groffo foy a nao do prlcipe metida no fúdo, & a géte ficou fobre a agoa: o q vendo os immi¬ gos das outras naos & quã mal tratados eftauã começaranfe de deitar ao mar cõ medo pera q fe faluaffem a nado. Os das terradas como ifto virão começarão de fugir pera fora da ilha, fe não Cojeatar q fe lançou a terra, & foy varar diante de hú çarame del rey q eftaua defrõte dos feus paços, em q dize q el rey eftaua vedo a batalha. Ho capitão môr dãdo louuores a noffo fenor por tamanha vitoria mãdou logo q foffem os noffos nos ba¬ teis & efquifes aferrar cõ a frota dos Imigos, pera q os mataffem antes que fe lançaffem ao mar. E logo dos da capitaina fe meterão no feu batel obra de vinte .f. Iorge barreto crafto, Iorge da filueira, Iames teixeira, Nuno vas de caftelo brãco, Ioão teixeira, Gafpar diaz alferez do capitão
  • Historia da índia 346 môr, lane mendez botelho, Louréço da filua, Gõçalo queymado, ho piloto môr, lane mendez da ilha: & outros a q não foube os nomes, & tirarão pera a nao meri. Os mouros q ainda eftauão nela q erã muytos como virão os noffos ir pera a nao efcõderãfe. E chegados os noflos a bordo da nao acharão q era muy alta em demafia, & fem exarcia, q lhe fez a fobida muy trabalhofa, por não teré em q pegar. Ho piloto môr como era auezado a trepar em naos mais q nhú da companhia fobio logo pri- meyro, & fobido ao bordo q não vio nhú mouro cuydou q os não auia, & afll ho difle: pelo q dos q começauão de fobir, os que eftauão mais em baixo fe tornarão ao batel pera hiré a outra nao, & nifto os mouros q vião ho piloto môr fayrão dode eftauã cõ preíTa de ho matar, tirando lhe frechadas, o q dous dos noffos q eftauã ja encima do bordo virão, & bra¬ dará logo aos do batel q l'e não alargaffem da nao porq eftaua chea dími- gos. E dizédo eles ifto defparou da nao grãde multidã de frechas, & vedo as os do batel fe tornarão à nao, & logo começarão de fubir a ela Iames teixeira, Ioão teixeira, Gafpar diaz, Nuno vaz de caftelo brãco, lane men¬ dez botelho, Lourenço da iilva, & lane medez da ilha: & por a nao fer alta & não ter enxarcia tardarão hú pouco em fobir: & entretãto ho pi¬ loto mór & os dous q eftauão ecima paffarão muyto trabalho em fe defen- dere dos mouros q os apertauão rijo: & o piloto môr foy muyto ferido, & ouuerãno de matar fe não fobreuierão eftes q digo, porq cÕ medo deles fe acolherão os mouros â popa da nao q a tinhão fortalecida cõ atrauef- fare antrela & a proa a verga da nao & a vela: & coifto embaraçarão hú pouco os noffos q não paffaffem, tirando lhe muytas frechadas: & cõ tudo paffarão, & em paffando adiantoufe hú mouro & deu a Gafpar diaz húa frechada em hú braço, & ele com dor da frechada deu a pos ho mouro & ferioho: & faltãdo ho mouro hú perpao pera a tolda virou a Gafpar diaz ja debaixo dela, e cortoulhe a mão dereyta cercea a qual lhe deitou no chão leuando nela a efpada apertada afli como a tinha: & tornãdo o mouro com outro golpe pera ho matar, acodirão Gonçalo quey¬ mado, & Nuno vaz de caftelo branco q matou ho mouro. E nifto chegarã todos os outros companheiros & apertarão cõ os mouros de maneyra que a hús matarão outros fe lançarão ao mar com medo. E como ifto fizerão forão ajudar os outros da noffa frota que tinhão aferrado com os outros immigos, & feyta grãde deftruyção neles, fizerãlhe defpejar as naos, q ficarão todas em poder dos noffos, q de não tere cõ quê pelejar andauão nos bateis & efquifes das naos pelo mar a matar os mouros q fe faluauã a nado, alli das naos como das terradas & era ho mar coa¬ lhado de mortos, & a agoa parecia fangue. E não tendo ja a quem matar poferão fogo a algúas terradas das que tomarão: & em quãto elas ardião
  • Livro 11, Capitolo LX1 341 ho capitão moor fe meteo no feu efquife, & cÕ ho feu batel de cõpanhia ambos armados de berços fe foy ao çarame delrey em q ele eftaua & afli Cojeatar efpantados de tal deftruyção, como núca cuydarão de ver. Mas Cojeatar ainda teue acordo pera mãdar tirar ao batel & ao efquife cÕ algús tiros q ali tinha affeftados: & ho capita môr lhe mãdou refponder cõ os feus berços tão rijo q el rey & Cojeatar defpejarão ho çarame, & fe forão pera a cidade cõ medo de fayrem os noffos em terra: o qho ca¬ pitão môr não fez por não ir aparelhado pera iffo, que não hia a mais q a correr a ribeira, & afli foy correndo ao lõgo da praya, ate chegar ao varadoyro das naos, ondeftauão cento & quaréta cõcertadas & breadas pera as lançaré ao mar q era ja a moução pera nauegar: & coefte vara¬ doyro eftaua pegada húa pouoação q tinha húa mezquita forte como caf- telo: & ifto era hú tiro de bombarda das cafas del rey: & antre a cidade & a mezquita fe fazia ho varadoyro. Chegãdo aqui ho capitão mór che¬ garão també os outros capitães nos feus bateis & efquifes, a q o capitã mór mãdou q deffem na pouoação por fer perto, & eles ho fizerão afli: & tomarão a mezquita em qftaua recolhida muyta géte, q toda andou a efpada: & defpejada a mezquita foy pofto fogo â pouoação. E entre tãto ho capitão môr que ficaua ao varadoyro mãdou poer fogo às naos, & co- meçãdo de arder chegarã os capitães q forão qimar a pouoação, & falta¬ rão em terra dãdo os noffos grãde grita com ho prazer de ver arder as naos, & como hião ledos começaranfe de defmandar & entrar pela cidade, q quafi q os não podia ho capitão môr ter, & dizião q pera q era fe não queymar tudo pois ja ali eftauão. Poré como ele via quã grande era a cidade & quã pouca géte tinha temeo q fe perdeffem os feus fe os mou¬ ros tornaffem fobreles, & por iffo não quis: & mandãdo os recolher aos bateis deixou os de largo, & ele tornoufe às naos com tamanha vitoria como lhe noffo fenor deu em efpaço de feys oras, fem lhe mataré nhú dos feus, & feriranlhe onze & eftes muyto mal. E dos mouros fe achou defpois q forão môrtos perto de tres mil, afli no mar como na terra, & feridos fem cõto: & muytos fugirão da cidade cõ medo. E ouuerão os noffos muyto & muy rico defpojo de terçados ricos, & adagas, cofos, arcos, frechas, cabayas, fotas, aneis, & outras joyas.
  • 348 Historia da índia CAPITOLO .LXII. De como el rey Dormu\, & Cojeatar, mandarão pedir pa\ ao capitão mòr, & ele lha cócedeo, & cõ que cõdições. E de como foy manifcjlado o milagre q 110JJo Jenhor fi\era pelos nojfos na batalha. ESpantado eítaua Cojeatar de ver tão afinha deítroçado todo feu pp- der per hú tão peqno como trazia o capitão mór. E vendo q não tinha remedio, & q ho arrabalde da cidade começaua darder, donde por auer muytas cafas dola ho fogo fe atearia de maneira q fe pe- gaffe â cidade & a queimaria toda, porq os mouros cõ medo dos noflos q tornaflem a terra não oufauã de fayr a apagalo. E affi andaua ja o fogo ateado nas naos as quaes fe ardeffé ficauão as rédas da cidade de todo perdidas, porq a mór parte das q elrey tinha nela erão na fua alfãdega das mercadorias que vinhã per mar. E por atalhar a tamanhas perdas, confultou com Raix noradim q era goazil môr q mãdaffé pedir mifericor- dia ao capitão môr, pois a fortuna lhe fora tão cõtrayra, & mãdarão dous mouros cõ recado & hú deles era natural de Tunez q viuia na cidade & era hi cafado. E forão em húa almadia leuãdo húa bãdeyra de paz & poferãfe hú pouco de largo da capitayna efperãdo por feguro, que lhe ho capitão mandou por Gafpar rodriguez lingoa: & foy coele Nuno vaz de caftelo branco. E vendo os mouros ho feguro foranfe ao capitão moor a cujos pês fe deytarão: & defpois de leuantados porele, diffe ho mouro de Tunez é voz alta como quem trazia grande fadiga no efprito. He pera todos os defta terra & doutras, muyto esforçado & inuenciuel capi¬ tão tamanha a nouidade de tua fobre natural vitoria, que eftou em duuida le folgue mais defcapar com a vida pera viuer fe pera ver tua excelente peffoa: mas ja que a vida he a todos tão apraziuel, digo que tanto a eftimo pera te ver como pela caufa que a todos eftimamos: porque fegúdo vejo não fométe nos deuemos defpantar do esforço & valentia que oje moftraíle que tés: mas a beninidade com que recebes os teus vencidos, deuéte todos de auer por tão eftranha, quanto pela major parte ela ho he naqueles que os homens té por esforçados & valentes. E cuydaua eu que a oufania de tua vitoria te enfoberbeceria de maneyra que né as ali- marias deíTa cidade qrerias ver, quãto mais os homés: & defpois que vi a piedade cõ que me recebefte acabey de crer q eftauas no mais alto grao da valentia, pois he acopanhada de piedade que el rey Dormuz & Cojeatar te pedem que ajas deffa tão nobre & populofa cidade, porque ja ho fogo começa de laurar, fegundo podes ver do fumo que fe nela ale-
  • Livro II, Capitolo LXII 349 uãta. Oo muyto grande capitão doete da anguftia & afrição em que tés pofto a feus moradores. E ceife ja tua ira, & nã mandes fazer mais def- truiçao nela né nas naos que eftão varadas, porque elas fão ho ennobre- cimento da cidade por caufa das mercadorias que traze. E oulha que não he tanto alcançar a vitoria como he fabela conferuar, & conferuãdoa du¬ rara pera fempre tua fama: porque deítruindo efta cidade acabara coela tua gloria, porque não ficara qué diga que tu a deftruifte. E durando ela fépre fera teftemunha de teu louuor, porque nííca faltara quem diga que tu a fogigafte: que fedo el rey Dormuz tamanho Príncipe & fenor de tanta terra & gente & de muyto tefouro, & Cojeatar que todo ho gouerna quere fer teus vaffalos, fe lhe quiferes conceder paz: & ficarão debayxo da obediécia del rey de Portugal: & como a capitão de feu rey & fenhor te darão poífe de todo ho reyno. E ainda farão mais fe mais quiferes porque ja té efprementado que aífi he neceífario que ho fação. Ho capi¬ tão môr ficou muyto ledo quando lhe ho lingoa declarou o que ho mouro dizia. E diíTelhe que el rey Dormuz & Cojeatar tinhão culpa no que fe fizera, é não quererem aceytar a paz quãdo lha ele ofrecia. E poré pois lha pedião que lha não auia de negar, pofto que a vitoria ficaffe coele. E pois el rey Dormuz & Cojeatar conhecião ho mal que fizerão & qrião paz, que ele mandaria recado aos que queymauão as naos & a cidade que ceífaífé: poré q era neceífario q entretanto foffe ho outro mouro feu companheyro cõ recado a elrey: & lhe diffeffe da fua parte q ele era cotéte de affétar paz com as condições que lhe mãdâra dizer por feu menfajeyro: & mais que auia de pagar parias a elrey feu fenhor. E logo ho mouro partio coefte recado. E partio hum Português com outro aos capitães que eftauão fazendo poer fogo âs naos, & ao arrabalde, que ceflaífem & não fizefle mais dano, & a caufa por q. E ho mouro que foy cõ recado a el rey tornou, dizendo q ele aceytaua a paz & que mãdaria hú gouernador feu que a affentaffe: & q fe não mãdaífe aqle dia por fer ja tarde q ho mandaria ao outro pela manhaã: & entretanto efteueffé lâ os mouros é arrefens. E fe ho capitão moor efteuera tão poderofo q fe atreuera a tomar per fi poífe da cidade ele a tomara & não vfâra de coprimentos cõ cojeatar. poré como digo fua géte era tão pouca q não tinha hú homé pera cada rua. E porq os mouros não vif- fem efta pouquidade quis q fe lhe deffe poífe da cidade antes no mar q na terra. Mas Cojeatar q ifto não fabia & lhe parecia q ho capitão môr tinha ho mudo de géte, receando q fe arrependeffe daffétar a paz, logo ao outro dia mandou Raix noradim cõ comiflao pera aífentar a paz cõ ho capitão môr. Os quaes finalmente a aífentarão cõ eftas cÕ- dições. Que el rey Dormuz recebia da mão do capitão môr ho reyno &
  • 35o Historia da índia fenorio Dormuz de que ele capitão moor ho tinha deíepoflado per força darmas. E q fe fazia vaffalo del rey de Portugal cÕ lhe pagar dali por diante cadano de pareas vinte mil xarafins, que valefie cada xarafim hum cru¬ zado. E que pera as defpefas q fe fizerão naquela guerra, & aífi pera fe fazer pagamento ã géte que ho capitão môr trazia, el rey Dormuz lhe daria logo cinco mil xarafins q fofTe cadahú da valia dos outros. E que el rey Dormuz daria hú lugar fora da cidade que foífe a con¬ tentamento do capitão moor pera fazer hi húa fortaleza, & auer nela fey- toria em que efteueffem mercadorias pera fe gaitarem na terra. E entre¬ tanto que fe a fortaleza fizeffe el rey Dormuz lhe daria â fua cuíta húas cafas as milhores q fe achaffem mais perto do lugar da fortaleza, pera eítar nelas a feytoria. E de tudo iíto forão feytas duas efcripturas húa em lingoa perfiana pera ficar ao capitão moor, outra e lingoa arabia pera que mãdaffe a el rey de Portugal, & elta foy feyta em húa folha douro batido do tama¬ nho de húa folha de papel. E as letras erão abertas ao boril, & metida e húa caixa de prata feyta da feyção de hú liuro, a qual fe fechaua cõ tres brochas, & ambas erão aflinadas por el rey, por Cojeatar, & por Raix noradim, & e cada húa auia hú feio pédete: ho do meyo era douro, & eíte era del rey, os dos cabos erão de prata: ho da mão dereyta de cojeatar, ho da ezquerda de Raix noradim. A efcritura e lingoa Perfiana era efcripta em papel com letras douro: & os pontos dazul metida tambe é outra caixa de prata cõ os mefmos feios como a outra. E andãdo neftes cõtratos ao terceyro dia defpois da batalha quis noíTo fenor manifeftar ho milagre que fizera nela por parte dos noffos. E foy que começarão daparecer fobre a agoa do mar muytos corpos mortos de mouros, pre¬ gados de muytas frechas, ho que foy dito ao capitão môr, q efpãtado daquilo, mãdou tomar algús daqles corpos: & vio q verdadeyramcte erão de mouros, & as frechas taes como aquelas com que os mouros tirauão na batalha. E chorãdo de prazer difie a todos q ali conhecerião ho mi¬ lagre q noffo fenor fizera por eles, que as mefmas frechas que os mouros lhes tirauão tornauão fobreles & os matauão pelo qual lhe deuião de dar muytos louuores, & afil lhos derão fedo ele ho primeyro que fe pos é giolhos: E oyto dias a reo fairão eftes corpos fobre a agoa: & poriífo os mouros da cidade os poderão bé ver: & eftauão pafmados de tal coufa, & dizião que deos pelejaua pelos noífos. E ho capitão mòr mãdou cotar os mortos que fayão êcima dagoa, & achoufe que erão nouecêtos: & todos trazião terçados ricos & adagas, é que os noffos ouuerão outro defpojo.
  • Livro II, Capitolo LXIII 351 CAPITOLO .LXIII. De como ho capitão moor fe uio com el rey Dormu{ 6 cõ Coieatar, & do que cõcertou coeles. E do mais q fucedeo. F Erros eftes cotratos de pazes per efcripto, ordenoufe que pera cor- roboração delas & pera q fuas cõdições ouuefle efeyto q ho capitão mór fe viffe é terra cõ el rey Dormuz no feu çarame onde també eftauão Cojeatar, & Raix noradim. E vindo ho dia e que auia de fer a vifta ho capitão mor fe veftio de fefta, porq afil eftaua cocertado. E leuaua húa roupa frãcefa de cetl auelutado forrada de cetim aleonado, & húa gorra de veludo carmefim écima dhúa efcofia de feda negra, & hú gibão de veludo carmefim fobre hú cotão do mefmo: & calças defcarlata com chapins de veludo carmefim. E na cita hú eftoq rico. E júto coele hú paje veftido do mefmo que lhe leuaua húa adarga. Hião coele os capitães da frota, & afli os fidalgos todos cõ veftidos ricos, & afli hia a môr parte da outra géte: & foy no feu efquife: & hião tãbé os elquifes & bateis da armada: & cõ grãde tãger de trõbetas abalou pera terra, onde ho el rey Dormuz eítaua efperando no çarame acõpanhado de Raix noradim, & de Cojeatar, & ho feu goarda moor, & porteyro moor, & afli eftauão coele outros mouros principaes de fua corte & eftaua cõ grande eftado, que afli ho tem os reys Dormuz que fão grandes principes, afli de terras & géte como de riquezas. E fabendo el rey q ho capitão mor era defébar- cado fayo a recebelo a húa varanda do çarame cõ Coieatar, & Raix no¬ radim & outros poucos & ali ho efperou é pê. E é entrando, el rey mo- ueo logo parele & lhe abayxou a cabeça, q he a mor cortefia q lhe podia fazer: porque a não fazé os reys naquela terra fenão a outros reys. Ho capitão moor fe chegou a ele cõ muyto grande reuerencia, & lhe tomou as mãos q ãtre os mouros he final damizade. E tendoho por elas falou a Coieatar e a Raix noradí, que lhe fizerão tãbé muyto grãde cortefia, & logo fe affentarão jútaméte ho capitão moor em hú efcabelo que pera iffo eftaua, & el rey & Cojeatar & Raix noradim é húa alcatifa, por quanto he feu coftume affentarenfe como molheres: & defpois de aífétados efte- uerã perto de duas oras, nas quaes el rey Dormuz, & Cojeatar, & Raix noradí jurarão é fua ley que cõpririão as cõdições cõ q lhe ho capitão môr concedera as pazes: & affentarão õde auia de fazer a fortaleza, & que fe começaffe logo dentender nela: & q el rey deffe os oficiaes que foffé neceffarios pera toda a obra da fortaleza. E q deffe a cafa pera a feytoria, a qual foy logo aflinada ao capitão mor q defpois de tudo ifto
  • 352 Historia da índia aífétado fe tornou pera a frota, onde lhe el rey Dorrnuz mãdou hú pre- féte .f. húa cita douro & pedraria q foy aualiada em dous mil cruzados: & húa adaga do mefmo que valia quinhetos: & quatro aneis, cada hú cõ húa pedra de muyto preço: & hú caualo arabio fouueyro felado, & en¬ freado de fua própria peffoa, & duas peças de borcadilho. E adi mandou pera oada capitão da armada húa peça de feda. Ho capitão mòr lhe man- daua tãbe outro preféte diífo que tinha, & ao outro dia mãdou a terra Pero vaz dorta (que auia de fer alcayde môr da fortaleza: & feytor da feytoria, per húa prouifão del rey de Portugal que leuaua) pera fetregar da cafa é que auia deitar a feytoria, como étregou. A qual eltaua da bãda do mar perto do lugar e que fe auia de fazer a fortaleza, & hi fe apou- fetou com os officiaes, & homens da feytoria, & a fez forte: & tambe mandou tirar a mote a fua nao, & ho rey grande é que andaua Frãcifco de tauora: & os mantimetos que tinhão forão defpejados nos nauios Dã- tonio do cãpo, Dafonfo lopez da coíta: & no de Manuel telez. E é quãto fe ilto fazia mandou ho capitão mor tomar húa terrada das que tomara aos mouros & fazela toda de cuberta com hú toldo: & feyta a mandou artilhar de bõbardas de campo todas de metal, & muyto bé armada a mãdou ancorar júto cõ húa põta darea que fe faz na mefma ilha, pegada cÕ a cidade & cõ os paços del rey: na qual põta pera a banda do mar fe auia de edificar a fortaleza: & nelta terrada auia ele deitar de dia equanto a obra duraífe. Pera o que repartio fua gente per quartos, & a cada quarto ordenou certas capitanias, de que erão capitães os proprios da frota, & affi algús fidalgos dos que ãdauão nela. E deites hús com fua géte auião dhir cõ os cauouqyros a tirar pedra, outros a auião de trazer, outros auião de fazer cal, & outros betume de geffo & de terra & affi fe começou a obra, é que todos feruião cõ muyta diligêcia. E como ho ca¬ pitão môr folfe muyto atétado é tudo, & cõfiraífe o q lhe era neceífario, vio q fe os mouros entendelfé quã poucos os nolfos erão (q não erão mais de quatrocetos) q fe arrepéderião das pazes & fe leuãtarião. E por iífo mandou aos capitães dos quartos que de cada vez q folfé a terra leuaffé a fua gente armada de diuerfas armas: & eles o fazião affi: & ora a leuauão cõ lãças & adargas, coyraças, & fayas de malha, ora cõ beltas, ora cõ efpingardas. E cada vez q os nolfos fahião cõ hú deites generos darmas, cuydauão os mouros q vinhão outros homens. E cotando cada vez hús achauã q erão mil & duzetos, & diziãno a Cojeatar a qué pefaua grandemente de fe fazer a fortaleza, por q fabia que coela auia de perder todo ho mando que tinha é Ormuz: & aos mouros tãbê lhes pefaua. E como naturalmente querião mal aos nolfos acrecétauafelhes ho odio védoos Inores de fua terra: principalmente a elfes hõrrados, & a
  • Livro II, Capitolo LXIII 353 algús rumes q ali andauão: & hús & outros, porq fe não podião vingar pubricaméte faziãno cÕ diífimulação dado grandes encotros aos noffos, como q ho fazião por caufa da muyta gente q os apertaua, que aífi era ela muyta. Poré os noffos ho entéderão logo & aífi por outros defprezos q recebiao dos mouros: & differanno ao capitão moor, lhes diffe que não diífimulaffé nhúa injuria, & que logo fe vingaffé cõ punhadas & bofeta¬ das, porq não pareceffe q era guerra: & que daqla maneyra fe abayxaria a foberba dos mouros. Os quaes Ido por feus defprezos auãte, ouuerão dali por diãte a paga q merecião, qbrãdolhe os noffos os dentes cõ pu¬ nhadas & bofetadas: & como os mouros erão hõrrados magoauaos mais a injuria q a dor que recebiã & cõ grandes clamores fe hião ao capitão môr q eftaua na terrada, & ele lhes fazia muyta hõrra: & moftrãdo muyto efpãto & menécoria lhes pregútaua quê os injuriara. E quando lhe dizião q os feus, parecia q lãçaua os olhos é aluo dizédo. Eftes meus caualey- ros fão diabos: não ha trabalhos que os cãfe: ja andão menencorios, porque não pelejão: feu prazer não he fenão pelejar: ja me defobede- cem: & poré eu os ey de caftigar, chaméme ho meu meyrinho. E os mouros quando vião aífi ho capitão mòr, pregútauão ao lingoa ho q ele dizia: & ele lho decraraua: & eles crião q era aífi, & ficauão atonitos de tal cõdição de géte q não queria fe não guerra. E vindo ho meyrinho dizia ao mouro q lhe foffe moftrar qué lhe fizera mal: & mãdaua ao meyrinho q lho trouueífe: & q ho caftigaria. E fe ho mouro dizia q ho não conhecia, dizia q lhe pefaua muyto de ho não conhecer, porq logo lhe fizera juíliça: poré q viífe fe ho conhecia. E coifto hia ho mouro fatis- feyto & cõtéte. E quando lhe ho mouro dizia q conheceria qué lhe fizera mal fe ho vifTe, ou ho nomeauão, mãdaua ao feu meyrinha que ho foffe préder, & aos q lhe nomeauão mãdaua ho meyrinho logo auifo que fe goardaffé & aos q lhe os mouros moftrauão daua dolho q fugiffé (q aífi lho tinha mandado ho capitão môr) & aífi hús como outros fugião & fe fe efcõdião: pelo qual núca ningué era prefo & os mouros fe ficauão cõ feu mal. E cõ tudo pela diligencia q vião fazer ao capitão môr, & por quão menécorio ho viã do q lhes era feyto ficauão muyto cõtétes dele, & dizião que não auia tal capitão no mudo. E quando fazião queyxume a Cojeatar do mal q recebião dos noffos lhe contauão o q ho capitão môr fazia. Mas védo q lhes não aproueytaua vfarão do q lhe mais podia apro- ueytar, q foy não feré foberbos dali por diãte. E primeyro q ifto foffe fe paffarão dias: nos quaes é quanto fe ajútauão os materiaes de pedra, cal, & betume, mandou ho capitão mòr a Pero vaz dorta q mãdaffe começar dabrir os aliceces dhúa torre da fortaleza: os quaes ele fez abrir é altura de íeis braças, porq por fer area fe não pode achar a terra firme em me- Toko I 45
  • 354 Historia da índia nos altura. E fazedofe affi a obra ho capitão mòr como era manhã fe hia â terrada, ondeftaua ate noyte q fe recolhia a fua nao, & mãdaua aos noíTos q fe vigiafle affi no mar como na terra: em que també el rey & Cojeatar mandauão a quatrocétos dos feus frecheyros q vigiaffé & goar- daffé a noffa feytoria da bãda de fora. E ho q moueo efta goarda foy Raix noradim por eftar muyto bé cÕ ho capitão môr: porq lhe pedio neftes dias q lhe reftituiffe dous filhos q tinha q eftauão defterrados nas terras do Xeq ifmael, porq quiferão matar a el rey Dormuz: do qual hú dos filhos q fe chamaua Raix delamixa era porteyro môr: & o outro q auia nome Raix xarafo era goarda mor. Dizendolhe q pois ele era fnor do reyno por el rey de Portugal lhe pedia q lhes perdoaffe, & os mãdaffe tornar. E porq aquele cafo era tão graue, não ho quis ele fazer: mas pe¬ dio a el rey & a Cojeatar que ho fizeffé, & eles ho fizerão a feu rogo, & mãdarão feguro aos defterrados que eftauão com ho Xeque ifmael, pelo q fouberão lâ ho q o capitão môr tinha feyto e Ormuz. CAPITOLO .LX1111. De como fazendo ho capitão moor a fortaleza Dormu\ chegou hú emba- xador do Xeque ifmael a pedir pareas a el rei Dormu\. E do que ho capitão mor lhe refpondeo. IVntos todos os materiaes que erão neceflarios pera a fortaleza come¬ çou ho capitão mor de a edificar, & foy em hú dia Doutubro pela manhã, no qual fahio ele em terra cõ todos os capitães, & fidal¬ gos: & ele foy ho que pos a primeyra pedra no alicece, & em a pondo defparou toda a artelharia da armada. E os queftauão em terra fizerão grandes alegrias adi de tangeres como de cãtares, & era a fefta muy grade em todos, a que ele fauorecia cõ muyto rifo & prazer. E lhe dezia coufas muyto bem ditas fobre ho fazer da parede, porque pofto que auia muytos pedreyros da terra todos os capitães, fidalgos, caualeyros, & toda a outra géte ho erão també, & feruião em amafiar cal, & acarretar pe¬ dra: de maneyra q todos trabalhauão. E nefte dia mandou elrey Dormuz hú grãde almorço pera os officiaes, & hú abaftado prefente de fruytas pera ho capitão mòr, affi daçucar, como fecas, q ele repartio pelos fidal¬ gos q andauão na obra: é que pera fe dar mayor preffa affi como fe abrião os aliceces fe fazia a parede, q neles era de vlte pees: & era a tenção do capitão moor fazer húa torre de tamanho vão q atalhada pelo meo ficaffem duas torres cada húa de vinte & hú couados de vão em quoadra, afora a largura da parede q as partiffe, & auia húa das torres
  • Livro II, Capitolo LX1I1I 355 de ficar de dous fobrados cõ feu terrado & peytoril, & ameas: & a ou¬ tra auia de fobir lobrela dous fobrados, & auia de ter curucheo. E pare¬ cendo a obra fobre a terra chegou â terra firme da bãda da Perfia hú embaxador do Xeque ifmael, hú Príncipe que defpois do grão Soldão não auia naquelas partes outro mais poderofo do q ele era. E efte em¬ baxador vinha a el rey Dormuz per mandado do Xeque ifmael a pedirlhe pareas, as quaes lhe daua cadãno como feu tributário que era, & man- daualhas pedir cõ quanto fabia que ho capitão moor lhe tinha ja ganhado ho reyno, que ho foube pelos filhos de Raix noradim que andauão em fua corte, quãdo lhes feu pay mandou ho perdão del rey Dormuz & de Co- jeatar pera que fe tornaffem a Ormuz. E a vinda deite ébaxador deu muyto grande toruação a Cojeatar quando a foube. E logo ele & Raiz noradim forão falar ao capitão moor, & lhe contarão a vinda do emba¬ xador: & ao que vinha. E lhe difierão como fua vinda fora defpois do Xeque ifmael faber como ele tinha ganhado ho reyno Dormuz, pedindo- lhe que lhe diffeíTe ho q faria, porque ho ébaxador eltaua na cidade. Ele lhe diífe que não lhe defie nada da vinda do ébaxador, porque não era el rey Dormuz vafialo del rey de Portugal pera ho fer doutro rey né Prí- cipe, poíto que foífe ho mayor do mundo, nem temeffe que ningué ho anojaífe, porq ele ou feus capitães quaes quer que ali andaífem ho defen- derião de todo ho poder do mundo. E quanto â repoíta do embaxador que lhe não deífé outra fenão a que lhe ele mãdaffe fopena de ho anojaré muyto. E lhe dar por iffo caítigo como por outro crime muy graue. E que fe foffem embora, & idos mãdou ho capitão môr tomar algús pelou¬ ros de bobardas, affi grolfas como miúdas. E també defpingardas, & aífi fetas. E mandou os ao ébaxador do Xeque ifmael per hum caualeyro: mãdandolhe dizer que aquela era a moeda q fe lauraua em Portugal pera pagar pareas a quem as pedia aos feys & fnores que erão vaífalos del rey dom Manuel rey de Portugal & das índias, & do reyno Dormuz, & que affi ho diífeífe ao Xeque ifmael. E que foffe certo que ele capitão môr efperaua de ho ir bufcar, & a fuas cidades & vilas, & trazelas todas por força darmas a obediência del rey feu fenhor. E q entã fe poderia ver coele, & receber as pareas que mãdaua pedir. Da qual repolta ho embaxador ficou muy efpãtado, & caloufe que não refpondeo nada. E muyto mais efpãtado ficou quando Cojeatar lhe deu a mefma repofta, q como digo affi lho tinha mãdado ho capitão mòr, & por ilfo ho Xeque ifmael quando a foube ho teue é muy ta eftima por amor do que lhe m㬠daua dizer, & ho mandou defpois vifitar fendo gouernador da índia, & lhe mandou hum preíente. E dali por diãte não quis mais por amor dele pareas Dormuz ate que foube que Cojeatar fe leuantara contra ho capitão
  • 356 Historia da Índia môr, & que não auia Portuguefes em Ormuz, e então fez guerra ao reyno Dormuz. E tendo ho capitão môr mandado efte defengano ao embaxador do Xeque ifmael acertou de partir húa nao de mouros do porto Dorrnuz pera a índia, & por hú mouro mercador Dormuz que hia nela, efcreueo ho capitão môr ao viforey tudo o que tinha feyto des q partira de çaco- torà ate aqle dia: & chegada a nao a CochI, o mouro deu a carta ao vifo¬ rey q achou de caminho pera Panane. CAPITOLO .LXV. De como ho uiforey peleiou na uila de Panane cõ muytos mouros, & os defbaratou, & llie tomou a artelharia q tinhão. DEspois que Triftão da cunha chegou a Cochim que cõcertou as naos de fua armada eftãdoas carregando teue ho viforey por noua certa q em Panane húa vila porto de mar do reyno de Calicut quatorze legoas de Cochim, eítauão muytos mouros mercadores de Ca¬ licut que tinhão varadas fuas naos por hú rio acima que ali fe vinha me¬ ter no mar. E tinhão em terra muyta efpeciaria & droga pera leuaré a Meca. E que pera goarda deitas naos ate ferem fora da coíta da índia eftaua hú capitão del rey de Calicut chamado Cutiale valente caualeiro, que tinha cõfigo perto de fete mil homes de peleja antre mouros & Nay- res. E muytos paraos pera fua embarcação, & que os fenhores das naos eítauão todos rapados em final que auião de morrer fobre fua fazenda, fe os noffos foffem pelejar coeles, pera o que eítauão muy apercebidos de muytas eítancias dartelharia q tinhão feytas junto do lugar, que feria quafi húa legoa pelo rio acima, & affi na boca do rio por onde não po- dião entrar nauios dalto bordo, fenão galês & outros nauios rafos. Sa¬ bido iíto pelo viforey determinou de ir pelejar coelta armada. E Triftão da cunha também lho pedio porque defejaua de fer naqle feyto, porque dandolhe noíTo fenor vitoria fe fizefle caualeyro feu filho Nuno da cunha. E acabadas as naos de Triltão da cunha de carregar partirão todos pera Panane a vinte tres dias do mes de Nouembro de mil & quinhentos & fete. E os capitães da armada do viforey forão dom Lourenço, Pero bar- reto de magalhães, Francifco danhaya, Antonio lobo teixeyra, Pero cão, Duarte de melo, Payo de foufa, Diogo pirez, Felipe rodriguez, Lucas dafonfeca, Lopo chanoca, & Simão martls. Em toda eíta frota & na de Triftão da cunha hirião ate fetecentos Portuguefes. E chegados a Panane que foy húa tarde dous dias defpois que partirão de Cochim, & furtos na boca da barra, em anoitecédo chamou ho vifo rey a confelho, que foy
  • Livro II, Capitolo LXV 357 na galê de Diogo pirez onde hia. E ali veo Triítão da cunha, que hia na de Payo de foufa. E juntos todos os do confelho, ho vifo rey lhes diffe. Poys fenhores trazemos determinado de pelejar com os immigos: peço- uos muyto q vos lembre que pelejays pela fê de noflò fenhor Iefu Chrifto, & que tenhais confiança nele que vos dara vitoria, como vola deu em outras batalhas em q véceftes a eftes cães feus Imigos & voífos: & que vos lembre que nefte lugar eftâ agora toda fua faluação: & poriflo nela como em colheita muy fegura recolherão fuas riquezas: & affi como vos fempre esforçaftes vos deueis de esforçar pera os deftruir, & não ho fazendo aííi dareis lugar a que fe efcureça a muyto grande fama que tédes ganhada nas notaueis façanhas que ate agora tendes feytas. E por¬ que faybais pera onde aueys dhir, querouos moítrar ho lugar tirado pelo natural como ho eu mandey tirar pera que ho viffeys. E dizedo ifto mof- trouho em hú papel onde eftaua pintado affi como eítaua fortalecido: & tãbé lhes diffe a gente que poderião ter. E com quanto pareceo a todos queftaua muyto forte, todos acordarã que fe cometeffe, & que pelejaífem com os immigos. E foy aífentado pelo vifo rey que Pero barreto cÕ trinta homés bé armados foífe diante em hú batel pelo rio acima ate onde as naos eftauão varadas: & Diogo pirez foffe ê outro batel com outros tan¬ tos homés, & defembarcafTe defronte da artelharia dos immigos, que eftaua hú pouco acima da boca do rio, em paffando hú baixo q ali auia. E que a pos eles foífem dõ Lourenço, & Nuno da cunha cada hú em feu batel, & affi todos os outros capitães do vifo rey, & de Triftão da cunha: & que eles foífem nas duas galés, & que ningem não abalaffe fem as trõ- betas do vifo rey fazeré primeiro final. E antemanhaã eftando todos em¬ barcados em íeus bateys, hú crerigo capelão do vifo rey, homé religiofo & de boa vida fe pos da fua galé a pregar aa gente que eftaua nos bateys ao derredor dela. & nefta pregação trouue a todos â memória aquelas coufas que fazião alcãçar ao Chriftão a graça de noífo fenhor pera merecer a gloria do paraifo: afirmãdo que nenhúa podião ofrecer a deos que lhe mais proueytofa foífe pera apagar feus peccados q pelejar por exalçamento da fanéta fê catholica. E foy ho fermão per palauras tã deuotas que todos chorauão com deuação: & tinhão grão defejo de fe verem emborilhados com os immigos. E efcrarecendo ho dia todos muyto inframados com ho defejo de pelejar: ao fom das trombetas do vifo rey que fizerão final, acabada a pregação abalarão pelo rio acima, como efta¬ uão ordenados, fomente ho vifo rey & Triftão da cunha, cujas galês ainda nã poderã nadar por auer pouca agoa: & ficarão na boca do rio. Os Imi¬ gos eftauão com grãde esforço confiados na força que tinhão, aíli de muyta gente, como de artelharia que faziã defparar fortemente. E era
  • 358 Historia da índia coufa medonha ver a grade fumaça dos tiros & ho arroido que fazião, & a grita dos Imigos. E cõ tudo Pero barreto não deixou de chegar ao lugar q lhe foy ordenado & hi achou paffãte de vinte mouros dos rapados q tinha jurado de morreré ou véceré: & eftauão metidos nagoa efperãdo os noífos cÕ muy grade oufadia: & coela os receberá & fe trauou logo a peleja. E pero barreto e os feus ho fizera tãbé q matara todos aqueles mouros: pofto q muytos ficarão feridos: E foy morto hú caualeiro cha¬ mado Gilcafado: & defta maneira tomou Pero barreto terra. E nefte tépo defembarcou també Diogo pirez no lugar que lhe foy affinado, onde també achou outros tantos rapados como Pero barreto. E afli hús como os outros erão os fenhores das naos & capitães delas, que ho receberão da mefma maneira, & éburilhados os noífos coeles, acodio ho corpo da géte dos Imigos, fazédo grande refiftencia aos noffos. E nifto deícbarcou dõ Louréço com quê hião Rodrigo rabelo, Gõçalo de paiua & os outros a q ho vifo rey tirara as capitanias polo de chaul. E afli eles como todo- los outros capitães tomarão terra cõ grande afronta, porque os Imigos erão muytos & muy esforçados, & frechauã aflaz dos noffos. Poré eles pelejauã fem nhú medo, principalmente Dom Louréço cõ húa alabarda que trazia cõ que matou feys mouros, fem os ningué ferir fe não ele. E andando afli parece que hú dos Imigos tinha tomado a eftatura do corpo de dÕ Louréço, & finays de fuas armas (fegúdo fe defpois foube) pera o matar: & védoo foyfe a ele pera ho ferir: mas dom Louréço aleuãtou primeiro a alabarda, & deulhe: & como ho mouro fe emparaffe cõ ho terçado, foyfe dom- Lourenço ferir nele no colo do braço da parte de détro & chegou a ferida ate a cana do braço. Os que hião coele hús de- rão no mouro & matarãno, outros lhe acodirão logo, porque nã pode dar mais paílo por lhe acodiré engulhos de arreuefar: & não por mingoa de coração, que bé tinha moftrado que lhe não falecia, em matar é muyto breue efpaço feys mouros. E eftando ele afli ferido que ho leuauão â frota chegou Pero barreto, & difleihe, Senhor os amigos quando vé os amigos feridos não fe detem coeles, mas vão os vingar de quem os ferio: & afli ho fez ele: & paflándo auante feria neles muy fem piedade. E ja a efte tempo ho fogo andaua ateado nas naos que eftauão varadas. Porque de- tendofe dõ Louréço por caufa da ferida, Nuno da cunha que lhe hia nas coftas paffou adiante com fua cõpanhia: & foy poer fogo âs naos que erão treze. E també nifto teue affaz q fazer, por lhe os mouros refifti- rem poderofamente. E nefta enuolta foy derribado hú fidalgo chamado lorge fogaça dhúa zagunchada que lhe deu hú mouro, & paffoulhe as couraças fobelo coração, & entrou ho ferro do zaguncho pela carne obra de hú dedo, poré não chegou ao coração: & com tudo recebeo tamanho
  • Livro II, Capitolo LXVI 35g agaftamento que fe não pode ter e cahio: & ouuera de morrer affi difto, como dos immigos que carregarão fobrele, fe nã fora híx caualeiro cha¬ mado Aluaro do quintal que ho defendeo, pelejando cÕ tanto esforço, que fez afaftar os immigos, & ho leuantou. E eftando Iorge fogaça em feu acordo tornou a pelejar cÕ os Imigos que por fere muytos fofteueranfe hú pedaço contra os noffos ate q encheô a maré, com q as galés poderã entrar. E entrará defparando fua artelharia, com q os mouros começarão défraquecer, & mais com a defembarcação do vifo rey que faltou em terra cÕ a bandeira real.Triftão da cunha não defembarcou por fe achar doente, & a fua gente fe ajuntou com ho viforey: o qual deu nos Imigos que não podendo fofter ho impeto de fua vinda fe defbaratarao, & fugi¬ rão pera a vila: indo os nolfos a pos eles com grande matança que neles fazião. E ho viforey mandou poer fogo â vila porque os nolfos a não rou- balfem, q temeo de fe tornarem os Imigos a fazer em corpo & tornaré fobrele, & meteréno c afronta pelos muytos feridos q tinha, antre os quaes era Fernão perez dãdrade, que foy ferido no rollo. E dos Imigos forão mortos perto de duzentos, & feridos fem coto. Poíto ho fogo ao lugar ho vifo rey fe recolheo â praya, mandando primeyro recolher a ar¬ telharia dos Imigos q tomou toda. E por memória daqle feyto armou algús caualeyros, ãtre os quaes foy Nuno da cunha, & Luys patrício Ro¬ mano de q a tras fiz menção. E feyto ifto embarcoufe & foyfe a Cana- nor, affi por fer ja la leuado dom Lourêço pera o curare, como pera ver partir dahi Triftão da cunha, que auia de partir pera Portugal, donde partio a fete dias de Dezébro cÕ quatro naos de fua armada, & chegou a Portugal a faluamento. CAPITOLO .LXVI. De como Afonfo de albuquerq fa\ia a fortaleza ê Ormu\: & do q algús capitães ji\erão contrele uendo que não decraraua quê auia de fer ca- pitã dela. HO capitão môr Afonfo Dalbuquerque que eftaua em Ormuz fazendo a fortaleza, dauafe muyto grande prefla em a acabar: & ho mays do tempo andaua na obra com a géte, moftrandolhe ho muyto grãde gofto que tinha em a fazer: & dizendolhe muytas vezes o que el- rey feu fenhor teria dela. E fobre ifto polos animar ao trabalho que era muyto lhes dezia mil lijonjarias por lhe fazer fede dele. E certo que affi moftrauã todos tela fegúdo a diligencia que punhão em trabalhar, princi- palméte aqueles que tinhão em fantefia de fere capitães da fortaleza: &
  • 36o Historia da índia eftes erao Iorge barreto Crafto q vinha prouido de Portugal defpois de do Afonfo de noronha: & també Afonfo lopez da cofta, & Ioão da noua cuydauão que por feus feruiços a darião a cada hú deles. Poré ho capi¬ tão môr não moftraua mais vontade a hú que ao outro. E vendo eles que hia a torre fobela terra em altura de hú homé, & q fe nã decraraua quem auia de fer ho capitão pareceolhes q ho capitão môr a queria pera íi, & que fe leuantaria com ela contra el rey Dormuz, porque cõ a gente que tinha ho poderia fazer, a qual ficaria coele de boa vontade pola abaftãça da terra. E começarã de murmurar cõtrele, fazendo confelhos com os outros em que deziã, que ho deífem ao demo que a ele não lhe lem- braua Portugal, né auia lâ de tornar núca. Veloeis que ha de fer tredoro, & não faz efta fortaleza fe não pera fe aleuantar com Ormuz, & roubalo. Ifto não he bé que fe fofra, & mais fendo nos fidalgos criados del rey de Portugal & feus capitães, de quê ele confia ho feu feruiço, & aífi dizião outras muytas coufas de que ho capitã mòr não fabia parte né fofpeytaua que as difíefle. E vendo todauia os capitães que ele não declaraua capi¬ tão, eftando ja a torre em altura pera fe émadeyrar no primeyro fobrado, fizerãlhe hú requerimento per efcripto, cuja fuftãcia foy: q por quãto era vida a moução pera ele ir goardar ho cabo de Goardafum pera o q el rey de Portugal lhe dera a armada q trazia, pelo muyto q importaua a feu feruiço goardarfe: q lhe requerião da fua parte como feus capitães q erão, q ele ho fofle goardar, & não gaftaffe ho tépo é fazer húa forta¬ leza de que el rey não auia dauer nhú proueyto, né era feu feruiço fazerfe. E efte reqrimento lhe foy dado pelo efcriuão de fua armada, eftãdo os capitães prefentes. A q ele diffe q ho requeriméto fora efcufado, fenão fe lhe parecia mal o que fazia acofelharlhe como deles efperaua que ho não fizeffe. E poré pois vinhão per requeriméto q ho fizeífé éboora, que lhes não auia de refpõder, porque não lhe auião eles de tomar cota do que fazia fenão el rey feu fenor, a cujo feruiço ele fabia bé qual Tportaua mais, fe ir goardar ho cabo de Goardafú, fe fazer aquela fortaleza: por¬ que goardar ho cabo de Goardafú era pera fazer prefas, que eftauão em vétura de fe fazeré, fenão per crua guerra. E que o fim pera que fe fazia aquela fortaleza era pera fegurãça das pareas del rey Dormuz, & da fei¬ toria que ali efperaua de ter el rey feu fenhor: em q eftaua ho ganho mais certo que nas prefas do cabo de Goardafum: poriffo que ho dey- xaffé fazer. E efta repofta nã ouuerão eles por boa: porque na verdade ja que defefperauão de cada hú fer capitão da fortaleza, lembraualhes mais ho proueyto particular q farião no cabo de Goardafú nas prefas (de que fempre auerião fecretaméte a melhor parte) que o del rey que lhes ho capitão môr reprefentaua que fe faria é Ormuz. E por iffo infif-
  • Livro II, Capitolo LXVI 361 tirão em íeu requerimento, requerendolhe muy eftreytamente que ho cÕ- prifle. E ele cõ menécoria vendo q o não querião deyxar tomou ho reque- riméto, & rompeoho: & roto ho mandou meter debayxo de húa pedra do rebate da porta da fortaleza, íe lhes dar mais outra repofta: o q eles fentirão muyto. E vendo q não daua por feus requerimétos, né queria refponder a eles, crerão mais firmeméte que ele fe queria aleuantar cõ a fortaleza & que pera iífo a fazia, & affi ho dezião nos ajuntamétos que fazião cotra ele. E ele pelo que tinhão feyto não lhes moftrou nhúa mâ votade, antes os agafalhaua també como dãtes, & lhencomendaua ho fer- uiço del rey. Poré eles cõ quanto iíto vião, vendo que não podia auer effeyto feu requerimento, & q nifio não tinhão remedio, conceberão grande odio contrele, & procurauão de ho danar pofto que foífe acufta do feruiço del rey de Portugal. E não acharão melhor remedio pera lhe impediré que não foífe auante cõ a fortaleza, & ho fazeré ir dali, que metelo é odio cõ el rey Dormuz & cõ Cojeatar, que fe leuãtaffem cõtrele. E teuerão maneyra como foubeffe ho requeriméto que lhe fizerão pera que fe foífe: & que a caufa diífo era veré como fe perdia ho feruiço del rey de Portuga] que não lhe mãdara fazer ali fortaleza, fenão goardar ho cabo de goardafú. Cojeatar folgou é eftremo com aquela noua, por¬ que fe arrepédia muyto de dar lugar pera que fe fizeífe a fortaleza, & tinhão grande dor de a ver fazer, porque fabia que eftãdo ela em Or- muz, & aífi feytoria que auia logo de fer lãçado de todo ho mando q tinha. E como foube a diífenfão q auia antre ho capitão môr & os feus capitães pareceolhe que aquele era boõ caminho pera fe leuãtar. E poré porque não tinha artelharia não oufou logo de ho fazer defcubertamente. E viofe cõ ho capitã môr, & cometeolhe que fe foífe dali, porque el rey Dormuz como vaífalo del rey de Portugal acabaria a fortaleza é que po¬ deria deyxar a géte que quifeífe: & que ifto lhe cometia por quãto fabia q muytas naos de mercadores q vinhão pera Ormuz deyxauão de vir cõ medo dele: & como toda a renda del rey Dormuz era dos dereytos q lhe pagauão as mercadorias que vinhão per mar, fe elas não vieífé não teria ele cõ q pagar as pareas é que eftaua obrigado a el rey de Portu¬ gal. E ifto cometia ele não pola caufà que dizia, mas cõ téção de matar os que o capitão moor deyxaífe na fortaleza, & roubar a fazéda que ficaífe na feytoria. E afli como ho ele cuydou aíli imaginou ho capitão môr q podia fer: & não lhe quis conceder o que pedia, dizédo que el rey feu fenhor lhe defédia q fe não foífe dõde fizeífe fortaleza ate a não aca¬ bar: o que Cojeatar fofpeytou que podia fer. E pofto q fegúdo a danada téção que tinha poderá daqui tomar argumento pera rõper a guerra como defejaua, diflimulou por nã eftar aparelhado parela, prlcipalméte de arte- To*o 1 46
  • 3G2 Historia da índia lharia, fem q não podia fazer dano aos noífos. E andando nifto teue ma- neyra como aquirio dos noffos quatro fúdidores dartelharia .f. dous dar- telharia de metal & dous dartelharia de ferro: & tres erão gregos & hú Português mulato, & natural da ilha da Madeyra: & todos andauão nar- mada por marinheyros, & eftes lhe fundirão fecretaméte por muy groffas peytas algus tiros de metal & de ferro, & lhe defcobrirão mais larga- méte a diffenfao q auia antre ho capitão môr & os capitães fobre ho fazer da fortaleza: & quão poucos os noffos erão. Ho que deu oufadia a Co- jeatar pera fe leuantar. E pera auer 'caufa de fe rõper a guepra fez cõ aqles quatro que ficafle coele, & fe fofle pera a terra firme: & q fe ho capitão môr lhos mãdaffe pedir q lhos não daria: & fobriíto fe rõperia a guerra. E determinado nifto mãdou fazer gcte â terra firme, que entra- uão na cidade como mercadores. E tudo ifto fazia cõ tanta diflimulação q ho não entedia ho capitão môr. Efta diflimulação durou afli algús dias, não fométe 5 Cojeatar, mas nos mouros da cidade, que també le écobrião ate ver é que paraua a fúdição da artelharia que os quatro Chriftãos fun- dião. E como eles virão feytas algúas peças com ho aluoroço delas come¬ çarão logo de fe épolar cotra os noffos quando hião â cidade, dandolhe encotros, & encarãdo neles frechas embibidas nos arcos, então deyxauã- nas cair: & riãfe como que lhe qrião fazer medo: & afli lhe fazião ou¬ tras fobrãçarias, em q os noffos atentarão: & differãno ao capitão môr, q confirando o q lhe os feus capitães requererão acerca de fua ida, & o q lhe Cojeatar defpois diffo cometera, & o q agora os mouros fazião eftando dantes coeles muito cõuerfaueis, pareceolhe mal & creo que aquilo era vefpera dalgú aleuantamento, & q os mouros deuião de ter fabido quã pouca géte tinha: & por effa caufa lhe pareceo que era tépo de diflimular, & não mandar aos feus q fe vingaffem logo, como 3 pri¬ meira, fenã que diflimulaffé como cõ feus amigos, & afli lho mãdou: & eles afli ho fazião poré ele mãdou logo afeitar dous tiros groffos é dous paraos, & mandou os furgir junto da terra é que eftaua, fem dar conta a ningué da caufa porq ho fazia.
  • Livro II, Capitolo LXVII 363 CAPITOLO .LXVII. De como Coieatar fe leuãtou cõtra lio capitão mor & fe começou a guerra antreles. ANdãdo ifto affi os noflos q fúdiã a artelharia a Cojeatar, acabarão de fazer dous falcões pedreyros, & algús berços de metal, & ou¬ tros tiros de ferro. E pera fe Cojeatar aproueytar deles no q efpe- raua mandou abrir no muro das cafas del rey (queftaua da parte do mar) bõbardeyras pareles, ficado çarrada a face da parede da banda de fora, porq os noífos as não viffc & entédeffé o q determinaua. E como ja tinha mãdado auifo â ilha de Baharé & â cidade de Lara q lhe man- dafle armada, & ele tinha na cidade muyta gente & artelharia q lhe abaftaífe pera começar a guerra, pos é efeyto ropela. E pera parecer q a não ropia fem caufa, cometeo aos noflos quatro q fe foffé pera elrey Dormuz, & eles ho fizerão. Ho que fabido pelo capitão môr acabou de cõfirmar o q lhe parecia do leuãtaméto dos mouros: & diflimulãdo ainda mandou dizer a el rey & a Cojeatar pelo feytor q fe chamaua Pero vaz de caminha q lhe fugirão quatro Chriftãos pera a cidade o q ele cria que eles não fabiã, q lhes pedia q logo lhos mãdaffé. A efte recado el rey & Cojeatar fe fizerão muy efpãtãdos, dizédo q não fabião parte diffo: poré que logo ho faberiã, & caftigariã muyto bé quê os acolhera & lhos man- darião: & dali a dous ou tres dias mandou el rey dizer ao capitão mór que ele & Cojeatar mãdarão fazer diligencia fobre fe bufcaré os quatro Chriftãos q dizia q fugirão pera a cidade, & que acharão q forão lâ ter, poré que logo fe paliarão a terra firme, & dizião que cÕ receo de os ele mãdar pedir & lhos entregarem. Defta repofta ficou ho capitão môr muy defcõtéte: porq lhe pareceo efcufa de lhos não dare, q bé fabia que fabião fúdir artelharia, & por iflo lhe pefaua q adeuinhaua ho pera q Cojeatar os queria: & cÕ tudo diflimulou por fe achar cõ tão pouca géte como tinha, & daua prefla â fortaleza fe acabar: de que húa das torres era ja fobradada no primeyro fobrado: & tinha é quoadra víte & hú co- uados de vão. E nifto hú mouro mercador horrado q era grande feu amigo, & fe chamaua Coje abrahé lhe deu auifo muy fecretaméte do q Cojeatar determinaua de fazer, & da artelharia q lhe os quatro Chrif¬ tãos tinhã feyta, & quãta era, & da maneyra que eftauão as bõbardeyras, & como tinha os Criftãos: & que eles forão os q lhe defcobrirão quã pouca géte tinha, & a diffenfão é queftaua cõ os feus capitães fobre eftar ali: & q algús deles forão caufa de Cojeatar auer os quatro Chriftãos.
  • 364 Historia da índia Do que ho capitão môr ficou fora de fi dauer antre Chriftãos tamanha maldade, que por lhe aueré enueja ofédião tão grauemente a deos & a el rey. E poré calou efte auifo porque fabia quanto os capitães auiã de folgar cõ fe os mouros leuantaré: os quaes cada vez erão mais foberbos cõtra os noflos: & diziãlhe q não auia Mafamede de querer q tã poucos como eles erão fizeflc fortaleza em fua terra. Ho q fabido pelo capitã mór & afli o que fabia per Coje abrahc pareceolhe que era neceffario declararfe cõ el rey, poíto q diíTo fe feguiífe rotura de guerra antreles, porque fegúdo a coufa hia íe ho afli não fizefle ou os mouros lhe auiã de matar os feus poucos & poucos, ou a géte bayxa cõ medo fe lãçaria coe- les. E tornou a mãdar dizer a el rey & a Cojeatar q ele era certo que os quatro eftauão na cidade, mas não é que parte & que aqlas pefloas per quê os mandarã bufcar lhes não falarão verdade é lhe dizeré que erão paflados a terra firme: q lhe pedia q os mandafle bufcar, & q lhos mã- dafle. CÕ o qual recado Cojeatar moftrou mayor efpãto que cõ o pri- meyro, de eftaré os Chriftãos na cidade, & não lho dizeré. E moftrou q mandaua fazer grãde diligécla fobre os bufcaré, & não os acharão, & afli lho mandou dizer: pedindolhe muyto que não crefle que ele fabia parte dos Chriftãos, né menos el rey. E moftrauão pefarlhes muyto de não apareceré: do q ele ouue muyto grande menécoria, porq vio q de todo fe hia rõpédo a guerra por parte de Cojeatar: & mais porq os nof- fos capitães lhe dizião que não deuia tãto dinfiftir em pedir os quatro chriftãos, mas diffimular, porque Cojeatar nã tomaffe caufa de quebrar coele, & rõpeffe a guerra, que lhe deuia alébrar quã pouca géte tinha, & que lhe feria forçado irfe. E ele q fabia que aquilo defejauã eles, dizia- lhes q pofto q teueífe menos géte da q tinha não auia de fofrer a Cojea¬ tar nenhúa fobranceria, porq fòméte com ho cirne lhe faria a guerra quando não teueífe qué ho ajudaffe: & coefta repofta os fez calar. E do dia que mandou ho recado a Cojeatar não quis que fofle mais nenhú dos feus â cidade, né tãpouco dela lhe trouuerã dali por diante mãtimétos, né ho cõuerfauão como dantes: & ifto por mãdado de Coieatar o qual ho capitão môr entédia bem a dor que tinha porq fe fazia fortaleza, & q a não deixaria fazer, pofto q lhe alargaífe os quatro chriftãos: & por ilfo determinou de fazer o q podeífe. E mandoulhe dizer pelo feytor, que fabia certo q lhe tinha os feus homés, & que lhos não queria mandar, & q os tinha pera lhes fazer cõ eles a guerra: & que não era aquilo o q elrey dormuz e ele jurarão no cõtrato q fizerão coele, quando os ele tinha de todo defbaratados: & pois ele queria quebrar a paz q fizeflem o q quifefle porq lhe fazia a faber q fe ate dous dias primeiros feguintes lhe não mandafle os feus quatro Chriftãos, q ele auia de fer o primeyro
  • Livro II, Capitolo LXVII 365 q começafle a guerra. E que efperaua é deos pois tinha a juftiça de fua parte, q os auia de poer no aperto em que os pofera dates: & então ele fabia o que auia de fazer. Cojeatar moftrou muyto grade fentiméto defte recado, principalméte por ele qrer qbrar a paz. E refpõdeo que fefpã- taua muyto dele, ledo húa peffoa tão prudéte, crer q el rey & ele lhe auião de ter os feus homés, & rõper a guerra cõ quê ja tinhão efpremé- tado quã pouco ganhauão niffo, & pelo não tornaré a efpremétar perde- rião húa coufa de muyto preço, quãto mais quatro homés é que não ga- nhauã nada: q lhes pefaua muyto de lhes pedir o q lhe não podião dar: porque lhe jurauão em fua ley q daqueles quatro Chriftãos não fabião mais q o que lhe mãdarã dizer. E q crelfe q fe os poderão auer da terra firme que mãdarão poreles. E q não podião crer q por tão pouca coufa quifefle fazer guerra aos vaffalos del rey de Portugal, a qué fe mã- darião queixar per mar ou per terra fe ele quebraífe a paz que eftaua aflentada antreles. E rogou muyto ao feytor que de fua parte rogaífe aos capitães q tiraífc ho capitão môr da openião é queftaua cõtrele & cõtra el rey. E dize q neftes recados é que ho feytor ãdou lhe deu Cojeatar peçonha de que defpois morreo em çacotorâ. E a peçonha foy diamão moido. E quando ho feytor tornou coefta repofta ho capitão moor a re- cebeo perante todos os capitães com tenção de lhes dizer o que determi- naua. E eles ouuindo a repofta del rey & de Coieatar, eftranharão muyto ao capitão môr poer em tamanho abalo ho q tinha feguro por amor de quatro homens, que ainda que forão dez era pera diílimular por não virem a rotura de guerra. Ele lhes diffe que fe não fora mais que perder aqueles quatro homens, que fifo tinha ele pera os alargar, porem que Coieatar pofto que lhos alargafle não auia de deyxar de fazer a guerra & impedir a fortaleza, pola magoa que tinha de a ver fazer: porque coela ho auião de tirar do mãdo que tinha é Ormuz: que fe lhe pareceria q Coieatar ouuera de deyxar hir a fortaleza por diante que ele não pedira os Chriftãos. Mas pois que a não auia de deyxar acabar os queria pedir. E contoulhe tudo ho que lhe Coieabrahem diífera fenão ho em que os culpaua, pelo qual não auia duuida fenão que Coieatar eftaua leuantado, & tomaua aqueles homés por achar q pera romper a guerra: & por ele faber ifto não queria mais diílimular. E com quanto ele deu todas eftas rezoes, auia ali capitães que eftauão tão danados contrele, que todauia moftrarão parecerlhe mal não diílimular cõ os quatro homens, & deyxa- los. E com tudo ele affentou de ho não fazer & mandou recolher aquela noyte a fazenda que fe pode recolher da feytoria, que a outra ficou em terra por fe não poder leuar: & aíli mandou recolher elfes homens noffos que tinhão é terra cuydado dos trabalhadores, & toda a munição do tra-
  • 366 Historia da índia balho. E mandou q não foffe mais a terra nhúa peffoa da armada: porq ao outro dia pela manhaã aparecerão abertas as bõbardeyras dos Imigos: & os tiros eítauao chegados a elas. E quando ele os vio mandou chamar os capitães, & diffelhes q ja crerião a vontade q Coieatar tinha pera a paz, por iffo que fe aparelhaffé pera a guerra: & mãdou chegar os pa- raos é que tinha affeítados os tiros ao muro da fortaleza dos imigos: dos quaes parecerão logo muytos armados, adi no muro como écima das ca- fas del rey: como q dauão moítra da géte que eftaua na cidade. E porq fe não foííe affi mãdoulhes ho capitão môr tirar com os tiros dos paraos, & os Imigos refponderao com os feus. E começoufe hú afpero jogo de bombardadas dhú cabo & do outrò. E deita maneyra fe começou a guerra, auendo hú mes pouco mais ao menos que os nofios eítauão e Ormuz, porque a guerra fe rompeo quafi na fim de Nouébro, & a forta¬ leza fe começou em Outubro. E durando affi efte cobate mandou cojea- tar alar a terra certas naos que eítauão no mar, porque fe receou que lhas queymaffem os noífos. E não fe enganou porque ja a eíte tempo ho capitão moor mandaua a iffo ho feu efquife, & ho batel de Francifco de tauora: & leuaua cada hum feu berço: & fazendo feu caminho ao longo da ribeyra tirauanlhe os immigos com artelharia que ja tinhao affeftada em eítancias per aquela parte. E por iflo os noffos não faltauão em terra: & affi por os cotrayros fere muytos. Pore tirauãlhe cÕ os berços que leuauão, mas nãb foy muyto a feu faluo: porque das primeyras bobar- dadas lhe matarão os Imigos ho piloto de Francifco de tauora. E cÕ tudo o batel & ho efquife chegarão âs naos a que hião, & poferanlhe fogo & queymarãnas. E entretanto os outros bateis & os dous Paraos q eítauão diãte das cafas del rey lhe tirauão amiúde & fazião muyto dano nos Imi¬ gos, o que eles não fazião aos noffos por mais bõbardadas que tirauão: porq era bayxa mar, & os paraos & bateis ficauão tão bayxos q os tiros dos Imigos paffauão por alto. Affi durou ho cõbate atç noyte, e que os Imigos queymarão hú bargantl que ho capitão môr mãdara fazer, & eftaua começado. E hú dos quatro arrenegados q fe lançarão cõ os Imi¬ gos dizia alto, como que fazia efcarnio do capitão môr. Afofo dalbuquerq focorred al bargantl, que le quema maeítre Martin: q affi fe chamaua hú deles. E coiíto dauão grandes apupadas. E ho capitão môr lhe mandou tirar cõ a artelharia: & não mandou faltar é terra por auer nela grande multidão de Imigos: porq como Cojeatar fe temia diffo mãdou poer muyta géte darmas pera que goardafle as eítancias da artelharia, & defendeffé a faida aos noffos fe quifeffé defébarcar: que fe ho capitão moor ho po¬ derá fazer ele defébarcara & pofera fogo a cidade: mas via q não tinha gente pera pelejar é terra, & por iffo affentou de lhe fazer a guerra per mar.
  • Livro II, Capitolo LXV1II 367 CAPITOLO .LXVIII. Como o capitã mòr deu de\ dias bateria á cidade: e efbõbardeou a ri- beyra. E da goarda q pos pera q nã uiejjé mãtimêtos e o q mandaua fa\er aos mouros que tomauão. E Porque fabia pelo reqriméto q lhe os capitães fizerão, que lhe auiao de contrariar que fizeíTe guerra â cidade: não lhe quis dar conta de como a qria fazer, fenão logo ao outro dia pela manhaã man¬ dou dar bateria â cidade: da maneyra que fe lhe dera ho dia paliado: & não tanto por lhe fazer niffo muyto dano como por atormétar aos Imigos, que bé fabia q ho dano verdadeyro q lhe podia fazer era tolherlhe os mantimétos, que como diffe lhes vinhã todos de fora. E pera lhos tolher mãdou poer é tres paffos per onde entrauão a Manuel telez barreto, An- tonio do cãpo, & Afofo lopez da coita. E mãdoulhe q cõ os feus nauios goardaífem aqles palfos cõ muyto cuydado pera que não entraífé nhús mantimétos na cidade. Ao que eles refpõderão q ho regiméto del rey de Portugal q ele trazia não mãdaua q fizeíTe guerra a Ormuz nc menos era bé que lha fizeíTe cõ tão pouca géte, que era mais perder tépo q outra coufa: & gaftarfe debalde ho foldo q el rey daua â gente: a qual fe ainda fora muyta fe fofrera fazer a guerra porq fe efperara dela algu fruto: mas afli não fefperaua mais q ho q tinha tirado dauer dous mefes q fazia a fortaleza: & por derradeyro lhe fizerão os Imigos deyxar a obra védo a pouca géte q tinha: & q o tépo q ali gaitara fe ho defpendera no cabo de Goardafú como lhe elrey mãdara lhe fizera muyto proueyto em muy grolfas prefas q tomara. E pois aquele era ho fim pera que lhe el rey dera aqla armada, & affi o mãdaua no regiméto q lhe dera q de fua parte lhe reqrião q fe foffe ao cabo de Goardafú, & nã efteueffe ali gaf- tãdo tépo & dinheiro fem nhú proueyto: requerédo ao efcriuão darmada que de tudo o que requerião lhes deífe a cadahú feu eltorméto. Ho ca¬ pitã môr pofto q fabia deles quã culpados eítauão a deos & a el rey no que tinhão feyto, nã lho quis defcobrir né acoymar por fer ho tempo que era. E diífelhe que ele via bé quã amigos eles erão do feruiço del rey, & polto que ho q ele fazia lho não pareceífe tinha pera fi q fazia nilfo muyto feruiço a fua alteza a qué daria a cota quando lha tomaffe. E pois fazédoho ele mal a pena auia de fer fua, que o deyxaífé fazer. E que lhe requeria da parte del rey feu fenor q lhe obedeceífé como a feu capitão môr, & que foffé goardar os palfos q lhe mãdaua. E mandou ao efcriuão da armada q fopena de morte não deífe os eltormétos q lhe pediã. E alH
  • 368 Historia da índia fe paffarão outras muytas coufas. E cõ tudo eles fe forã goardar os pafiòs q lhe erão ordenados, & eftarião hú do outro húa legoa pouco mais ou menos. E como era noyte rodeauão os bateis a ilha, porque os mãtimé- tos que não entrauão de dia não entrafTé de noyte. E afli mandaua os efquifes aos quartos que varejafle de noyte cõ artelharia as eftancias dos Imigos q eftauão ao logo da ribeyra, cõ que os atormétauão grandeméte: porque na ora q aparecia a cãdea logo lhe tirauão. E porê tudo ifto não era nada a refpeyto da fadiga que os Imigos padecião defpois que lhes tolherão os mantimétos, cõ que forão tomadas algúas terradas que logo pela primeyra (antes de faberé a goarda que auia) vierão defcuvdadas dar cõ os noflos. E tomadas forão leuadas ao capitão moor, que mais pera efpanto dos moradores Dormuz (pera aueré medo) que por fer cruel de fua cõdição mãdou tomar efla gcte que vinha nas terradas: & aos que erão frecheyros ou marinheyros mandaua cortar os narizes, orelhas & as mãos, porque não podeífé mais tirar né remar. E aos q não erã do mar, nê frecheyros mandaua cortar os narizes & as orelhas, & hú pé pelo meyo, porque não podeífe andar: & de noyte os mandaua deytar na ri¬ beyra, cÕ efcritos em arabigo pera Cojeatar em que decraraua as caufas porque mandaua afli juftiçar aqles homés: cõ ameaço que afli auia de fazer a quantos trouueífé mantimétos â cidade: a que não auia de deyxar de fazer a guerra ate q não morreífé com fome quantos eftauão nela. E os primeyros mouros que amanhecerão na ribeyra poferão grandiflimo efpanto nos da cidade, afli nos moradores dela, como nos outros da Perfia que forão é focorro. E como padecião grande trabalho de fome & de fede, defefperados de fe remedearé pola goarda que auia nos pados, foranfe queyxar a el rey & Cojeatar: & dizião é vozes muy altas que lhe acodiífé â neceflidade q tinhã dagoa & de mantimétos, porque pere- cião por falta deftas duas coufas. E Cojeatar lhes difle que fe fofreffé q muy cedo chegaria húa armada que efperaua de Baharé & de Lara: & como viefle pelejaria cõ os noflos, & faria que leuãtafle ho cerco: & que entretanto lhe daria algúa agoa pera feu foportaméto. E efta era dos poços de Turúbaque, õde cõ medo do capitão mòr que lhos não mãdafle çujar tinha pofto em goarda hú capitão chamado Cidehamet cõ duzétos frecheyros & vinte & cinco de caualo que tinha afientado feu arrayal. E na ilha Dormuz como difle não auia outra agoa doce fenão efta, & dalgúas cifternas da cidade: mas toda quafi que não abaftaua pera molhar as lingoas dos q eftauã na cidade, tãtos erã. E por ifto farião eles cada dia grandes exclamações a Cojeatar: & mais védo q quafi cada dia amanhecião mouros na ribeyra juftiçados como difle: os quaes os noflos tomauã nas terradas, & as vezes em almadias em que
  • Livro II, Capitolo LXIX 36g le eles auenturauão de noyte defpois q fouberão ho perigo q corrião de dia. CAPITOLO .LXIX. De como ho capitão mór mandou çuiar os poços de Turúbaq & de como foy feito, & da matança q os nojos fi\erã nos tmigos. A Vendo dez ou doze dias que ho capitão môr continuaua efta guerra que digo, determinou de mãdar çujar os poços de Turumbaque pera que os Tmigos ficaflem cõ menos agoa da que tinha. E mã- dou a iffo Iorge barreto crafto que foy no batel da capitaina, & forão coele nos feus Afonfo lopez da cofta, & Ioã da noua, & hião coeles algús fidalgos & caualeyros. E dãdolhes inftrução do q auiã de fazer partirão todos tres pera Turúbaque húa antemanhaã, & leuarião todos ate feíféta homes. E indo perto de Turumbaque ainda antes q amanhecefle de todo mãdou Iorge barreto deitar em terra Iames teixeira, Simão velho, Nuno vaz de caftelo brãco, & Lourenço da íilua pera tomaré lingoa, de q fou- beífem o q hia na cidade, & eles tomarão dous mouros que diíferão a goarda que eftaua nos poços, & que inda hião pera lâ muytos frecheiros q hião a diãte em goarda de gente que hia por agoa. Sabido ifto pelos noffos capitães mandarão remar rijo pera q chegaífé aos poços primeiro que chegaífe a gente que hia da cidade, como chegarão e amanhecendo. E por fer manhaã eftauão os Tmigos dormTdo, parecedolhes q os não auia ninguõ de faltear, pelo q os noffos teuerã lugar de dar neles muyto a feu faluo, & matarão logo muytosj, & os outros fugirão, & antreles foy o ca¬ pitão, que. indo bé acõpanhado dos feus pera tomar per húa ferra arriba, faiolhe diante do Antonio de noronha q cõ algús dos noffos deíebarcara antes de chegaré os bateis âs tendas: & chegãdo a ele ho matou cõ deza- feis frecheyros q ficarão coele: porque todos os outros ho defempararão. E entretanto os noffos que derão no arrayal, defpois q não acharão quê matar tomarão os corpos dos mortos & deytauãnos nos poços dagoa, & encima deles os caualos & os camelos. E andauão os noffos tão encarni¬ çados nifto que ate os mouros viuos q tomauão os deytauão dentro. E por derradeyro deytauão húa mãy cõ dous filhos. E o mayor deles del- pois q vio a mãy deytada, & ho irmão pedio mifericordia, dizédo q abaf- taua q mataífé fua mãy & feu irmão que lhe deífé a vida & aíli lha derão, & Iorge da filueyra ho tomou. Feyto ifto recolheranfe os noffos aos ba¬ teis & tornarãfe pera onde eftaua ho capitão mór q acharão no caminho q os hia focorrer: porq vio q faya da cidade muyta géte darmas pelo ca¬ minho dos poços ”& cotandolhe ho que fizerão fe tornarão todos: indo Tomo I 47
  • Historia da índia 3jo ho capitão môr muyto ledo por daré os feus tã boõ defpacho ao q lhes encomedara. Mas porq vio q fe não pofeffe goarda nos poços q os torna- rião os mouros a allpar determinou de os mãdar goardar: porq eles efta- uão do mar hú pouco mais dú tiro de befta ao fopê dhúa ladeyra de hú oyteyro muyto ingreme que eftaua fobreles, & fez conta que neíte oy- teyro que poderia ter hú berço com obra de vinte homens que ho goar- daffé pera dali varejar os mouros que foliem aos poços, porque não po- dião hir pareles, fe não per hú caminho que hia pera a cidade per antre ho oyteyro & I10 mâr: & não auia medo que lhe tomafle os Tmigos ho berço defpois que ho lâ teueffe, porque dos poços pera o outeiro hia hú caminho tão eftreito & afpero cõ penedos que não fe podia ir por ele fe não hú homé diante do outro. E ifto aífentado cõfigo deu cota aos capi¬ tães de fua determinação: o que lhe eles contrariarão, dizendo que aquilo era guerra guerreada: & que ele não eftaua em tépo pera a fazer, ao menos na terra por não ter gente pera iffo: & que a goarda que ele que¬ ria poer pera fe não alimpare os poços não era tam facil como lhe pare¬ cia, & que pera fer como compria erã neceífarios ao menos ce homés, & ele queria mandar a iffo vinte, que vedo os mouros quã poucos erão, irião logo muytos, & por mais pelouros que o berço tiraffe os entrarião, pofto que fobre iffo morreffem algús, o que eles nã eftimarião por entrar cõ os noffos, por iffo que nã curaffe daquela goarda, né de fazer mais guerra à cidade, porq tudo era perder tempo, q a deixaffe pera outro em que teueffe mais poder, & q fe foffe goardar ho cabo de Goardafú, porque aquilo era o que mais importaua ao feruiço del rey de Portugal. Ao q ele refpõdeo que ja lhes tinha dito que fabia o que mais importaua, & q foubeffem certo q não auia de defiftir da guerra, & que fobriffo lhe não deffem mais confelho, porque ele ho tinha naquele cafo. E logo man¬ dou a Lourenço da filua que fe embarcaffe no batel Dafonfo lopez da cofta com vinte homés pera ir affétar ho berço fobre ho outeyro & goar- dalo. E mãdou ao mefmo Afonfo lopez q foffe tãbé no batel, & ho aju- daffe, & afli foy feito, & partirão a iffo húa ãtemanhaã. E ho capitão môr partio pela manhaã no feu batel bé acõpanhado da gente que pode caber nele fidalgos & caualeiros, & leuou em fua copanhia Ant° do cãpo no feu batel.
  • Livro II, Capitolo LXX 371 CAPITOLO .LXX. De como ho capitão môr quifera defender nos mouros que não alimpajfem , os poços de Turúbaque, & como nã pode. ANdando Afonfo lopez da cofta & Louréço da filua affentãdo ho berço q lhe ho capitão mòr mãdara forão viftos dajgús mouros, que leuara logo a noua a Cojeatar, q com grande preíteza mãdou muyta gente darmas pera q tomaífem os noffos, ou os mataffé quãdo mais não podeffem fazer: & entre tãto ele & elrey fe ficarão aparelhãdo pera lhe ire nas coftas cõ mais gente, como forã. E a primeira q partio foy a todo correr & chegou em pequeno efpaço: & como era muyta cer¬ cará ho outeiro onde os noffos eftauã, pela bãda do fertão: & quando Afonfo lopez & Louréço da filua virão a multidão dos Imigos q era grãde, & que determinauão de fobir ao outeiro não lhes pareceo bõ confelho efperalos, & tornarãfe a ébarcar no batel, leuãdo ho berço & deixarãfe eftar de largo: & os Imigos vendo os noffos recolhidos, decerãfe do ou¬ teiro pera a outra banda dõde não eftauã os poços. Em quanto fe ifto fazia el rey & Cojeatar caualgarão & cõ muyta géte de pee & de caualo partirão pera os poços pera os mãdaré allpar. E indo eles pera lâ per terra, hia tãbé ho capitã môr per mar. E vedo tamanho poder de géte mãdou remar auãte a boga arrãcada pera focorrer a Louréço da filua, q achou embarcado cõ Afonfo lopez da cofta, & com os outros, & lhe con¬ tarão o que fora. Ele defembarcou logo cõ determinação de toda via affen- tar ho berço onde dezia, & achoufe cõ cento & cincoenta homés pouco mais ou menos, & os mais deles efcolhidos, & por iffo lhe creceo mais a vontade que trazia pera pelejar com os immigos, com determinação que quando foffem tantos q não podeffe com eles que em fua mão eftaua recolherfe quãdo quifeffe, & afti ho diffe aos capitães, por iffo que foffem auante. E eles differão que fizeffe o que lhe bem pareceffe. E logo m㬠dou a Pero vaz dorta por fer bõ caualeiro & fabido na guerra q foffe diante cõ obra de trinta homés a defcobrir. E apos ele mandou dom An- tonio de noronha cõ obra de outros trlta, pouco mais ou menos: & an- treftes hiã Iorge barreto crafto, Iames teyxeira, Ioã teyxeira, Nuno vaz de caftelo branco, Iorge da filueyra, Diogo neto, Diogo guifado, lane mendez botelho, Ioão eftão, & hu paje do capitão môr, cujo nome era Chriftouã de figueiredo. Pero vaz dorta que foy diante defcobrir os Imi¬ gos, quãdo chegou acima ao outeiro como era homé groffo hia tão can- fado q lhe foy forçado defcançar, mas como fe dali defcobria a cidade,
  • 372 Historia da Iudia & outra muyta terra virão os feus hú mouro de caualo cÕ algús frechei¬ ros em hú vale ao pê do outeiro, que erão da cõpania de Raix delamixa porteiro môr del rey, que vinha diante dele, & de Cojeatar defcobrindo terra, & começaua de étrar por aquele vale. Os de Pero vaz como vira ho de caualo & os frecheyros, lançarãfe a eles, & eles lhe fugirão pelo vale adiante contra dode vinha Raix dilamixa, que traria obra de trinta de caualo acubertados, & trezctos frecheiros de pee. E ele vinha ar¬ mado em húa faya quarteada de laminas daceiro, & de malha toda dourada, & fua fota na cabeça & nas mãos hú pique pintado em voltas douro & dazul: & na cinta hú terçado rico, & no arçã hú arco com fua funda de frechas: & ho caualo acubertado de cubertas da maneira da faya, cõ fua teíleira & penachos nela, tudo dourado per partes. E indo Pero vaz a pos os immigos contra onde ele vinha: ex q chega dom An- tonio com os feus: & vendo os nolfos ir no encalço dos Imigos bota a pos eles. E niílo adiantaranfe dos de Raix delamixa oyto de caualo, & fairã aos noífos com as lanças baixas pera os enreílarê, & algús frechei¬ ros coeles tirando fuas frechas: & logo tornarão atras, porque Diogo gui- fado, & Nuno vas de caítelo branco q hião na enuolta dos outros fe adiantarão hú pouco, & começarão de tirar cada hú com fua béíta que trazião a deítro, & Nuno vaz pregou húa feta na tefta dhú caualo, & Diogo guifado outra nos peitos doutro de que os caualos virarão fugindo. Então fe deixarã os Imigos ir todos de roldão, & apertarão tão rijo com os noífos que os poferão em perigo, prlcipalméte a Nuno vaz & Diogo guifado que os frecharão muyto: & aíli efteuerão aos pês dhúas aruores defendendofe, ate q dõ Antonio chegou cõ os outros: & entã fe trauou a peleja de verdade, porq era ja chegado Raix delamixa cõ toda fua gente, & affi vinha de cada vez mays, da q vinha com el rey & cõ Cojeatar os quaes não paífarão a diãte, por lhes dizer hú feiticeiro q ho não fizeífem que lhes auia de hir mal fazendoho: & por iífo não paflarã dali. Mas como digo mãdauão fua gente que fe foffe ajútar com Raix dilamixa: que com os feus pelejou com os noífos hú bõ pedaço: & os noífos fe defenderão muy esforçadamente com quãto a multidão dos mouros era demaíiada. E valeolhe fer a terra darea, & atolarem os caualos dos immigos, que affi coiíto como com a grãde calma que fazia afrontauão de maneira que fenão podiã bolir, nê bolirão fe lhes não tirarã as cubertas. E em quanto fe os mouros detinhão niílo teuerão os noífos algú folego, & fe retirarão pera húas paredes velhas, & fempre cõ ho roíto nos Imigos, porque os de pê os perfiguião mortalmente: & affi os de caualo como fe defembaraçauão das cubertas. E nelle retirar derribou Ioão eftão hú mouro de caualo, a que acodio Raix dilamixa, & ho faluou, tomandoo nas ancas do caualo
  • Livro II, Capitolo LXX 373 com hú eftribo que lhe deu. E també os mouros matara ho paje do capi¬ tão môr: a que acodirão dom Antonio, Iorge da filueira, e Nuno vaz mas não ho poderão faluar: antes forão muyto feridos nas pernas, principal- méte dom Antonio de feys frechadas, Iorge da filueyra de dez: & Nuno vaz de duas, & aífi ho eftauão todolos outros ou pouco ou muyto. E cor¬ rerão todos rifco de fe perderé, fe noífo fenor não trouuera ho capitão mòr cÕ obra de oytenta homés, que eftando os noffos nefte conflito che¬ gou a húa affomada, a cujo pê fe pofera Raix dilamixa q fe fayra da ba¬ talha pera recolher os q Cojeatar mandaua. E quando ho capitão mòr vio tanta multidão de Tmigos arrependeofe de ter mandado goardar ho outeiro: & não ho deu a entender a Antonio do campo, & a Afonfo lopez, porque eítes forão o que lho mais contradiflerão. E pareceolhe que não era bÕ cõfelho paflar dali, nem pelejar cÕ os immigos, porque fe poderia perder & q o milhor era recolherfe aos bateis. E mandouho dizer a dom Antonio onde eftaua, & que trabalhaffe por fe ajútar coele pera fe reco¬ lherem. E diffe a Antonio do campo, que com trinta homés daqueles que trazia fe pofeífe antre ho outeiro & ho mâr, & que defendefle aquele paíTo porque lho não tomaflem os immigos, & lhe tolheffem a embarca¬ ção. E mãdou a Afonfo lopez que foffe aos bateys & os teueffe bé che¬ gados a terra com a artelharia preftes pera defparar nos immigos fe foffe neceffario quando fe ele recolheffe. E ele ficaria com ate vinte homés, os mais deles fidalgos: & afli foy feyto. E em fe eítes dous capitães apar- tãdo dele vio ele vir dom Antonio que fe vinha recolhédo parele com os feus muyto apertado dos immigos. Ho capitão fe foy logo ajuntar coele, & fez volta aos immigos chamando por Santiago: porem não fez nenhú nojo, porque como eles erão tantos como digo erão as frechadas tã baftas que pregauão nas lanças dos noflos, que a muytos lhes fenderã as aftes. E Gõçalo queimado que era alferez ouue húa frechada em hú olho, antre ho bugalho & a fobrancelha, mas não lho quebrou, nem ele foltou a ban¬ deira. E fe ho capitão môr não leuara húa faya de malha que cufpia as frechas ele ouuera de fer muyto ferido, porque todos os noflos ho forão. E tão rijo apertarão os immigos coeles, que não podendo os noflos fofrer ho impeto lhe foy forçado retirarenfe contra a praya: & não hião mais longe dos Imigos que a bote de lança. E indo afli cõ muyta afrõta, é de- cédo os noflos pera a praya q fe fazia ali hú releixo, chegou raix dilamixa diante dos feus: & ficãdo fobre o capitão môr lhe tirou cõ o piq, mas não o ferio. E ali fe deteue com fua gente que não quis paflar a diante, vendo quão perto os noffos eftauão do mar: & porq vio q pelos penedos da praya eftauão muytos mouros efperando ho capitão môr cuydando que lhe auião de tolher a embarcação. E eftes mouros impidirão a Anto-
  • 314 Historia da índia nio do cãpo, & a Afonfo lopez da cofta q não fizeffem o que lhes ho capi¬ tão môr mandou: & não fizerão tã pouco quando fe acolherão aos bateys, os quaes fizerão alargar de terra cõ medo dos mouros. E por efta caufa fe embarcou ho capitão môr com affaz dafrõta & não ficou nenhú dos feus q não folie ferido muyto ou pouco: & também dos mouros ouue affaz feridos. E raix delamixa foy ferido de hú falcão que defparou quando tirou com ho pique ao capitão mòr, & leuoulhe hú quadril. Affi fe reco- lheo ho capitão môr quafi defbaratado & fe tornou pera as naos: o que foy caufa de lhe tornarem os capitães a requerer muyto eftreitamente que fe foffe & defiltiffe daqla guerra: O que era voz & fama que eles não requerião tãto pelo feruiço del rey, como pelo proueyto que efpera- uão de fazer nas prefas do cabo de Goardafú: & porque ho ele fabia, & tambe porque vira craramete que fazendo a guerra per mar â cidade, & tolhendolhe os mantimentos, q Coieatar aueria por feu barato de confé- tir fazerfe a fortaleza, Ififtia na guerra, & não daua pelos requerimentos q lhe fazião. Antes mandou aos capitães dos nauios que eftauão nos paf- fos q fopena de tredores fe foffem pareles, & goardaffem os paffos: & eles ho fizerão affi. E fazendo o q dantes fazião fe paffarã algús dias que ho capitão mór não fazia mais que dar oppreffão â cidade pela parte do mar. CAPITOLO .LXXI. De como Vafco gomei dabreu chegou a çofala, & do que focedeo a algús dos capitães que forão coele de Portugal. VAsco gomez Dabreu que hia por capitão môr de çofala & de Mo- çãbique, defpois que fe perdeo a carauela de fua conferua no rio de çanagâ, como a tras diffe, tornou a fua viagem caminho de ço¬ fala, onde cõ muyto roins lépos que lhe focederão em fua nauegação, chegou com os nauios de fua armada aos oyto dias do mes de Setébro, de mil & quinhétos & fete: & aos noue fahio é terra, & achou por capi¬ tão da fortaleza a Nuno vaz pereira que ho viforey mandara por capitã por morte de Pero Danhaya. E nuno vaz lhe entregou a capitania: & ele ho mandou pera Moçambiq no nauio de ruy gonçaluez em copanhia de Diogo de melo, & de Martim coelho, que fe partirão de çofala aos deza- noue dias do mefmo mes: & na viagem teuerão muytos contraftes de ventos contrairos & das agoas que corrião contra eles, & affi de calma¬ rias. E indo a rê das ilhas primeiras dez ou doze legoas, aos cinco dias doutubro toparão com Iorge de melo pereira capitão da nao Belé, & hú dos tres capitães móres que partirão aquele anno de Portugal pera a In-
  • Livro II, Capitolo LXXI 3?5 dia. E ele lhes contou como não poderá dobrar ho cabo de fanóto Agof- tinho na cofta do Brafil, e dali tornara a demandar ho Cabo do mote na cofta de Guine, & defpois tornara a fazer fua viagem em que correra muytas tormétas: & não vira mais nenhúa nao das que partirão aquele anno de Portugal, & q trazia muytos doentes, & muyto pouca agoa re- querédolhe que ho nã deíeparaflem, & eles ho fizerão afli. E dali a fete dias tendo muyto roim tepo, por Iorge de melo ter tamanha neceflldade dagoa, foy ho feu piloto & ho do nauio de Martim coelho nos feus bateis auer hú rio pera bufcarem détro agoa, & as naos ficarão furtas ao mar: & ledo os pilotos a defcobrir ho rio, que era obra doyto legoas a rê das ilhas primeyras, fobreueo de noyte hú ponente que era boõ pera a viage de Moçambique, & polo perigo c que andaua a gente de Iorge de melo pela falta dagoa q tinha, pareceo bem aos capitães que por quanto efta- uão em ventura acharem os pilotos agoa que Iorge de melo fe deuia de fazer â vela com aquele vento pois era profpero pera fua viaje, & que Diogo de melo foífe em fua companhia: & que Martim coelho recolheífe os bateis, & affi fe fez. Mas ele os nã pode recolher por fer ho tépo con- trayro pera fairé do rio: & ele tão pouco os não pode efperar mais que hú dia por fer ho tempo muyto. Pelo qual fe partio caminho de Moçam¬ bique, onde chegou hum domingo â tarde a vinte & quatro dias Doutu- bro & dentro no porto achou a nao belé, & fão Ioão em que hia Diogo de Melo, & fão Simão em que hia Ruy gonçaluez, & fctõ Antonio em q hia Anriq nunez de lião da conferua de Iorge de melo. E foy ho prazer muyto grande em todos: & afli fouberã que ainda os outros capitães mo¬ res não erão paliados pera a índia. E ao outro dia logo chegou ho piloto de Iorge de melo que vinha no feu batel que cuydauã que era perdido & trazia a gente do batel de Martim coelho, porque ho batel fe perdera. E defpois de paflarem algús dias em q Martim coelho pos ho feu nauio a monte & ho corregeo, fe partirão ele & Diogo de melo aos dezoyto dias de Nouembro pera a índia: pera onde fe Iorge de melo pereyra não par¬ tio por ter muytos doentes & recear os leuantes que curfaffem ja, que erão contrayros pera a viajem da índia: os quaes Diogo de Melo & Mar¬ tim coelho acharão, & não poderão chegar mays que ate as ilhas de Ma- luane, onde vieram ter coeles dous zambucos de mouros, & forão toma¬ dos pelos noífos. E dali lhes foy forçado tornarem a Moçambique, onde chegarão em dia de fam Nicolao, a feys de Dezembro. E ainda não acha¬ rão nenhúas nouas das outras naos que aquele anno partirão de Portu¬ gal. E afli ficarão inuemando em Moçambique.
  • 376 Historia da índia CAPITOLO .LXXII. Da coniuraçã que algfis dos capitães dAfonfo dalbuquerq ji\erão contra ele. E de como Afottfo lope\ da cojla, Antonio do cãpo, & Manoel tele\ barreto fugirão pera a índia com os feus nauios. O Capitão môr Afonfo dalbuquerque que tinha cercada a cidade de Ormuz, defpoys q vio q não tinha gente pera que per nenhum modo podefle pelejar em terra com os mouros, trabalhaua por lha fazer por mar a mais cruamete que podefle, afli de dia, como de noyte, que nunca a fua artelharia eftaua ouciofa, ou efbombardeando as cafas del rey, ou as eftancias dos Imigos, ou tirando tiros perdidos â cidade cõ q fazia muyto dano. E rodeado de noyte a ilha, & vigiado q não entraflem mantimentos de que os noflos tomauã cada dia muytos & afli mouros que os traziã, a que ho capitão mór mãdaua a Cojeatar da maneira que ja difle. E afli a fome como a guerra daua tãta oppref- fam ao pouo da cidade, que de a não poderem fofrer, & vendo que ho não podiam dizer a el rey, nem Cojeatar quantas vezes querião, como era noyte fe hião poer derredor das cafas del rey, & cõ grándes gritas de molheres, & de meninos lhe pedião, & a Cojeatar que ouuefle piedade deles, porque fe nã podião ja fofter com fame, & que fizefle paz com ho capitão môr. Mas os fidalgos aconfelhauã que não: & ifto fazião com medo de Cojeatar, que fabião que não queria paz: & todos lhe auião medo por ho grande poder que fabião que tinha no reyno. E como ho capitão mòr fabia o q hia na cidade, deyxauafe eftar de vagar, porq tinha mantimétos em abaftança, afli pera fua frota, como pera mandar a çaco- tora, onde fabia que auia neceflidade deles: & eftaua pera mandar la Manuel telez barreto que os tinha no feu nauio. E como os capitães fabião tudo ifto, defefperauã de cada vez mays de ele aleuantar ho cerco: & não ceflauão de feus requerimentos, polo que ele daua pouco. Pelo qual eles determinarão de lhe defobedecer, & não irem a feu chamado, parecendolhes que por aqui ho obrigarião a leuantar ho cerco. E poré auia de fer com côr que a fua gente era a que não queria que eles lhe obedeceflem. E tendo ifto afli forjado, algús mouros defles que os noflos tomauão, confeflarão per tormento ao capitão mòr, que de Baharem erã partidas certas terradas grandes & armadas, que fe auião dajuntar em Lara com as outras que hi eftauão, que faziam per todas feffenta, & que auião de ir em ajuda da cidade, pera pelejarem coele no mar. E fabédo ele ifto mandou fazer final a Francifco de tauora, & a Ioão da noua pera
  • Livro II, Capitolo LXXII 377 iré a fua nao. Fràncifco de tauora que na era da liga foy: & Ioão da noua porque ho era em qrendo ir poferanfe os da nao abordo, dizédo que ho não auiao de deyxar ir porque não querião obedecer ao capitão môr q era hú doudo que nã tinha fifo pera capitanear húa almadia quãto mais húa frota como aquela. E dizendo outras muytas defcortefias q todas ho capitão môr ouuia por fer muyto perto da fua nao. E Ioão da noua bra- daua dizendo que não diflefle taes coufas porq ho auião de pagar muyto bé, & fazia que punha força pera fair da nao, e eles pegauão nele. Ho capitão mòr que via tudo como era difcreto, julgou pelos requerimentos dos outros capitães 0 que aquilo era. E meteofe logo no feu batel com algús homés armados & ele também hia armado, & foyfe à nao de Ioão da noua: & como entrou logo todos efteuerão quedos. E Ioã da noua fe foy parele aqueyxandofe da fua gente: & ele lhe difle que como a nao tinha melhor enfinada, & que muytas vezes os capitães tinhão culpa no mao éfino de fua géte. E dizendo ifto leuouho pelos peytos & prendeoho & ele começou de bradar que ho injuriaua & que ho prendia lem rezao: & que todos lhe foffem teftemunhas que lhe lançara mão âs barbas & lhas arrancara: & logo moftrou quatro ou cinco cabelos, os quaes ele parece q arrancou por lhe crerem que fe queyxaua de verdade: ho capi¬ tão moor difle q ele ho não injuriaua, mas q o prendia por qrer fer tré- dor ao feu capitão môr qftaua é peffoa delrey de Portugal & logo hi tirou certas teftemunhas, preguntadas pelo que lofpeytaua, & achou que era verdade, & por iffo pos na nao outro capitão, & leuou a Ioão da noua pera a fua. E vendo a coufa ir daquela maneyra não quis auer confelho do que faria fobre a vinda da armada dos Imigos porq fabia que 0 q lhauiã daconfelhar auia de fer que fe fofle. E mãdou dizer aos capitães que eftauão nos paflos que efteueflem fobre auilo porque vinha a armada. E vendo eles quã pouco aproueytauã requerimentos com ho capitã môr, porque não queria deyxar de fazer fua võtade, & que lhe não aproueyt|- uão ardis pera ho mudarem de feu proprofito: & vendo também como prendera a Ioão da noua ouuerão por bom confelho de fe não poerem coele mais é potos, fenão irfe pera â índia. E fabédo do piloto Dafonfo lopez da cofta que os leuaria là, partiranle húa noyte, fem lhe lébrar quanto niflò deíferuião a el rey porque fe le não forão & ajudarão ao ca¬ pitão môr a fazer a guerra q fazia, Cojeatar deyxara acabar de fazer a fortaleza. E não fòmente fizerão ifto mas ainda Manuel telez barreto leuou no feu nauio os mantimentos que ho capitão môr tinha pera man¬ dar a çacotorâ, a dom Afonfo que fabia que eftaua em eftrema necelfi- dade deles, & afli leuarão os que auia pera a frota. E não atentando mais que a feus apetites a deyxarão fem mantimentos & fem gente. E não 48 Tomo 1
  • 378 Historia da índia faltou que diffeffe ao capitão môr que também Francifco de tauora eftaua conjurado pera fe ir & deyxalo. E ou por ho capitão môr achar q era affi, ou pelo crer ho predeo, & étregaua a capitania da nao a dõ Iero- nimo de lima que hia na mefma nao, q por fer muyto parente de Fran¬ cifco de tauora a não quis aceytar: antes difle ao capitão môr que Fran¬ cifco de tauora não tinha culpa né podia fer tela, porq bem fabia que não auia de poder leuar auante tal penfaméto fe lhe vieffe, porque an- dauão coele taes fidalgos que lhe não auião de deyxar fazer o q não deueffe. E ho mefmo lhe differão dom Ioão de lima e dom Criftouão de lima, hirmãos de dom Ieronimo, & Manuel de lacerda, Antonio de fâ, Baftião de mirãda, & outros que andauão cõ Francifco de tauora. Mas não aproueitou que ho capitão mór andaua tão cheo de fofpeitas pelo q via, que fe fiaua de muy poucos. E todauia entregou a capitania da nao a Dinis fernandez de melo, que foy defpois patrã mòr da índia, pelo qual aqueles fidalgos que andauão nela não quiferão ficar nela, & fe forão pera a nao do capitão môr. GAPITOLO .LXXIII. De como ho capitão mòr deu húa antemanhaã na ilha de Qiieyxome, & do falto que fe\ nela. HO qual pofto que via todos eftes encontros pera a determinaçã que tinha de fazer guerra â cidade fe não mudou, antes a fazia como dantes, fe não que lhe daua fadiga a efperãça que tinha da ar¬ mada que lhe fizerão crer que auia de vir, o que parece que foy echa- dizo, cuydando que com medo de fua vinda aleuantaria ele ho cerco & fe iria. E vendo ele que não vinha a armada, & que tinha muyta falta de mantimentos polos que lhe leuarão os feus capitães, determinou de hir dar em húa ilha chamada Queyxome que eftaua obra de tres Iegoas Dormuz, onde auia hú lugar abaftado de mantimétos, porque os mãdaua elrey Dormuz ter ali todo ho ãno em muyta abaftança pera algúas vezes que hia lâ eftar. E pera goarda deles tinha hi hú capitão cõ trinta de ca- ualo, & dozentos frecheiros de pê porque os noffos não podeífem ir lâ tomar agoa. E na pouoação tinha el rey húas calas fortes que fuprião por fortaleza, onde fe ho capitão recolhia cõ a gente de fua capitania. E auendo ho capitão môr de ir a efta ilha perdoou a Ioão da noua, & tor- noulhe a fua nao, & afli a Francifco de tauora: & feytas as amizades partio húa noyte pera Queixome, leuãdo ate cem homés nos bateis das naos q tinha em que hiã os capitães. E antemanhaã chegou aa pouoação,
  • Livro 11, Capitolo LXXI11I 379 onde defembarcou muy caladamente: & quis deos que affi os moradores da pouoação, como a mòr parte da gente da goarda dormia fora, que foy caufa de os noífos teré tepo de matar neles mais â fua võtade. E fentindo os ímigos os noífos como acordauão defatinados de tal fobrefalto, defa- cordarão de fe deféder, & fugirão: deles hús pela ilha, outros pera as cafas del rey, onde eftaua ho capitão que ouuindo a grita & reuolta fe leuantou a recolhelos, & a defender que ho não entraflem os noffos. Ioão da noua foy ho primeyro que chegou âs cafas & cometeo logo de que¬ brar as portas com hum vay & vem & eftauão coele Iames teyxeyra, Iorge barreto, Ioã teyxeyra, Nuno vaz de caftelo branco & outros que erão vinte & cinco, porque os outros hião com ho capitão môr que hia apos a outra gente que fugia. E com quanto as portas das cafas erão fortes os noífos as arrobarão & entrarão a pefar dos mouros que as de- fendião muy rijo, & ao entrar foy morto hum homem de Ioão da noua, & defpois que os noífos forão dentro foy a peleja muyto mayor, porq os mouros tomauão as efcadas & as portas & ali fe defendião com muyto esforço, principalmente ho capitão que ao fobir de húa efcada ferio a Ioão da noua em hua mão & em hú braço, & deu coele pela efcada abayxo, & nifto acodiram Iames teyxeyra, Ioão teyxeyra, Nuno vaz & outros, & per força ho fizerão recolher a húa cafa onde eftauão outros mouros, & ali foy morto coeles, & aífi outros per outras cafas ate que as defpejarão de todo, & então forão em bufca do capitão môr que an- daua ainda apos os immigos, & defpois que não acharão a quem matar forão roubar a pouoação onde acharão tamaras, & arroz de que carrega¬ rão os bateis & duas terradas que leuauão, & alli dagoa: & daqui fe tor¬ narão pera as naos não morrendo dos noífos mais que o home que diífe, & ouue algús feridos. E Cojeatar quando ifto foube mandou logo mais gente a Queyxome. CAPITOLO .LXXIIII. De como ho capitã mòr fe\ outro falto em outro lugar da ilha de Queyxome. E de como fe partio pera çacotora. DEspois que ho capitão môr fez efte falto, teue noua como a forta¬ leza de çacotora eftaua em muyta neceffidade, alli por fome, como por guerra q lhe fazia os Fartaquis, dando muy tos faltos na ilha cõ ho fauor da géte da terra. E aífi por lhe hir locorrer como por ver que não tinha gente nem pera fazer a guerra por mar, porque fe vieífe armada dos immigos ho poeria em grande afrõta, determinou de fe.ir pera çacotora. E porque podelfe partir dos mantimentos cõ a gente da
  • 38o Historia da índia fortaleza, determinou de fazer outro lalto na ilha de Queixome em hú lugar chamado ho meloal onde lhe pareceo que nã aueria goarda, & pera dar nele 1'e fez preftes: & húa noyte partio pera lâ cõ os bateis da frota & duas terradas, & chegou ante manhaã: mas não achou a coufa tam fegura como cuydaua que efteuefle, porque no lugar eftauão apoufentados dous fobrinhos del rey de Lara que vinhã em focorro del rey Dormuz cõ quinhêtos frecheyros, & vierão àquela ilha pera dali paliarem a Ormuz, & fabédo como auia pouco que ho capitão mór fizera ho falto paífado eftauão a recado, & com fuas vigias poftas peraq fe ele tornaffe acodiflem eles: como acodirão fendo auifados q hia. E chegãdo ele a efte lugar de- lebarcou obra de mea legoa dele & leuaua .lxxx. homés. Os dous irmãos ho fairão a receber hú pedaço fora do lugar, poré os noífos não fe torua- rão cõ ver os Imigos q não efperauão dachar, & dõ Antonio de noronha
  • Livro II, Capitolo LXXV 38 r deu ho rebate no meloal: & nefte deu afTaz dafrõta a cidade. E então difle a feus capitães que fe queria ir & pera onde, & a todos pareceo bem. E logo ali lhe pedio Ioão da noua licéça pera fe ir caminho da índia & ele lha deu cõ condição q foífe coele ate em dereyto de Calayate, & que não fe apartafTe fem fua licença. E ifto porq tinha em penfamento de fe vingar da offenfa que lhe fizera ho xeque quãdo per hi paffara. També lhe pedirão a mefma licéça Iorge barreio crafto, & afli Gafpar diaz que fora feu alferez & lhe cortarão a mão na peleja da nao meri: & ele lha deu, & efcreueo per eles ao viforey fobre o q determinaua de fazer fe fe lhe os capitães não forão. E logo eftes fe paliarão pera a nao de Ioão da noua: & ho capitão môr fe fez húa noyte â vela, & fe partio na volta de çacotora, ja na fim de Dezembro, de mil & quinhentos & fete. E com quanto lhe Ioão da noua prometeo que fenão apartaria dele fe não em dereito de Calayate, & ainda com fua licença, indo a trauez de Mafcate defapareceo, & fe foy caminho da índia. E por efta caufa ho capitã môr não pos em obra o que leuaua determinado de fazer em Ca¬ layate, & fe foy dereito a çacotora, onde achou dõ Afonlo de noronha em grande necefíidade, & a gente da fortaleza muyto doente de fome, & perfeguida da guerra que cessou logo com sua chegada, & nã oufarão os Imigos de fazer mais faltos. E vendo ho capitão môr que os mantimétos que trazia ainda erão poucos pera os dar todos â fortaleza, partio coeles os q pode: & mãdou Francifco de tauora a Melinde na fua nao que os foffe lá bufcar. E ele fe foy na fua nao cÕ oytéta peffoas que leuaua ao cabo de Goardafú a efperar as naos dos mouros que poderião per hi paffar ate ho Março feguinte. CAPITOLO .LXXV. Em que fe contã os muyto grades dereylos que tinha ho grão Soldão no Cayro, & em Alexandria, da efpeciaria que os mouros de Meca leuauão ao mar roxo. E de como ho foldão mandou Jocorro â índia contra os tioffos. ANtes deite noffo defcobriméto da índia recebião os mouros de Meca muyto grãde proueyto com ho trato da efpeciaria. E afli ho grão Soldão por amor dos grãdes dereytos que lhe pagauão. E afli ga- nhaua muyto a fenhoria de Veneza cõ ho mefmo trato que mãdaua com¬ prar a efpeciaria a Alexandria, & defpois a mandaua vender por toda Eu¬ ropa, & era defta maneira. Eftes mercadores mouros morauã em Meca, & em Iudá & tinhão feus feytores em Calicut, de que lhe mandauã efpe-
  • 382 Historia da índia ciaria, droga, pedraria, & panos finos dalgodão em grades naos que fazia no malabar, porque no mâr roxo nã ha madeira pera fazere naos. E pera compraré a efpeciaria, & ho mais que digo que lhe leuauão da índia mandauao eftes mercadores a feus feytores, ouro amoedado em húa moeda que fe chama Xarafim dadé que vai cada hú quatrocentos & vinte rees, & adi ouro por amoedar, prata, cobre, eftanho, latão, vermelhão, azougue, pedrahume, verdete, açafrão, agoas rofadas, panos de laã de cores, chamalotes, veludos pintados de meca, borcadilhos, coral laurado e por laurar, & ouro fiado. E todas eftas coufas fe leuauão Dalexãdria ao cayro pelo nilo acima, & do cayro erã leuadas por terra é camelos â cidade de çuez q eíta no cabo do eftreyto do mar roxo na cofta Darabia, jornada de tres dias do cairo. E é çuez fe carrega eftas mercadorias e nauios peqnos q fe chamão Gelbas: & fe leuauão a Iudà céto & fefenta legoas de çuez, & hião neftas gelbas por irem mais feguras, porque em nauios grandes corrião perigo, por os muyto bayxos que ha de çuez a Iudà, onde as carregauão nas naos: & as leuauão a Calicut, donde feus feytores lhe mandauão em retorno o q ja diffe. E nefta viajem de ida & vinda ganhauão tanto que muytas vezes fazião dhú oyto. E ho Soldão ganhaua muyto mais, porque todos os mercadores que hião de Calicut a Iudà erão obrigados a leuar ho terço da carrega em piméta pera ho Soldão, & darélha pelo preço que lhe cuftaua em Calicut. E fe hum mercador leuaua tres mil cruzados em outra mercadoria que não foffe efpeciaria erão obrigados a darlhe mil cruzados de pimenta que com- prauãcí é Iudâ quando a não leuauão. E pofto que lhe cuftaffe muyto- caro dauãna ao Soldão pelo preço que valia em Calicut. E dos outros dous mil cruzados que lhe ficauão auião de pagar dez por cento, & fica- uanlhe mil & oytocetos, de que pagauão quatro por cento: de maneyra que ficaua deuendo aos feytores que ho Soldão tinha em Iuda duzentos & fetenta & dous cruzados, & fobreles lhe fazião os feytores pagamento do dinheyro q lhe auião de dar pola piméta. E em defconto do reíh> lhe dauão cobre a rezão de doze cruzados por quintal, q era ho mayor preço, porq os mercadores ho vendião em Calicut: & em Iuda valia a fete cruzados. E neftas trocas & partidos fazião grandes tratos fem auéturarem nada: & com ho cobre que lhes dauão os feytores do Sol¬ dão, & com outras mercadorias que comprauão, tornauão logo a fazer outra viajem a Calicut em que ganhauão o que diífe. E eftas mercado¬ rias da índia que aqui comprauão os mercadores de Iudà leuauãnas a çuez onde pagauão outros dereytos ao Soldão que erão cinco por cento a dinheyro de contado, & fenão leuauã dinheyro pera pagar, tomauanlho em bancos que alia auia, & pagauanlho no cayro feus refpondentes: &
  • Livro II, Capitolo LXXV 3X3 de çuez alugauão camelos ate ho cayro a quatro cruzados por camelo pera lhe leuarem a efpeciaria de que não leuaua cada camelo mais de quatro qultaes, porque leuauã mantimento & agoa pera ho fenhor da mercadoria & pera que ho guiaua q fem iíto não fe pode caminhar por fer deferto & tudo areaes: & curfã aqui as vezes hús vetos tão furiofos q faze correr a area de maneyra q alagão os camelos com os que vão ne¬ les, & matãnos. E deftes homés que aqui morre fe faz a Carnemomia a que chamão folda. E defpois defte trabalhofo caminho em que os merca¬ dores punhão tres dias, chegauã a húa grãde cafa que eftâ mea legoa do Cayro & ali defcarregauão fuas mercadorias q erão refiftradas per efcri- uães do Soldão, & refiftradas as leuauão ao Cayro, & hi védião ho bahar da pimeta por oytenta cruzados. E os mercadores que aqui comprauão a pimenta erã obrigados a tomar ao Soldão a fua pimenta por cfta ma¬ neyra, fe hú mercador leuaua dez quintaes dela auia de tomar hú bahar ao Soldão em ce cruzados, & tornauaho logo a vender por oytenta como valia na terra, & perdia vinte cruzados em cada bahar, & mais os de- reytos que pagaua ao Soldão que erã a cinco por cento. E os que com¬ prauão eftas mercadorias as leuauão em barças pelo rio nilo a hú lugar que eftâ húa legoa Dalexandria. E daqui as leuão em camelos a Alexã- dria a cujas portas erã refiftradas por efcriuães, & bufcados muyto bé to¬ dos aqueles que hião coelas porque não furtaffé dos dereytos que auião de pagar. E feytos eftes exames cõprauãnas mercadores venezeanos eftantes em Alexandria, & afli os védedores como os cõpradores pagauão de de¬ reytos a cinco por cento, & quãdo os venezeanos as tornauão a carregar pera Veneza pagauão outro tãto, & ho mefmo pagauão ao alcayde do mar por lhas fegurar. E das q leuauão a vender a Alexandria pagauão a dez por cento. E cõ todos eftes dereytos ainda fe ganhaua tanto que aos mou¬ ros & aos venezeanos foy muyto grãde perda perderem efte trato. E ho Soldão perdeo mais que todos em perder tantos dereytos como perdeo, pelo qual determinou de mandar â índia húa groffa armada pera deytar fora dela os noffos, pera o que fe afirmou que a fenhoria de Veneza lhe mandou muytos carpinteyros de naos: & calafates, & fundidores darte- lharia, pofto que auia antiga amizade antrela & a real cafa de Portugal. E auendo tão pouco tépo que el rey dõ Manuel tinha mandado em feu focorro cõtra ho turco aquela muy poderofa armada, de q foy por capitão môr dõ Ioão de menefes Conde de Tarouca, prior do crato, & feu moor- domo mór. E ainda fe afirmou que por os venezeanos perderem muyto em ho Soldão não ter ho trato da efpeciaria lhe acófelharão que fizeffem aquela armada, & porque na cofta do mar roxo não auia madeyra pera a fazer lhe derão induftria que a mandaffe leuar de Turquia, pera o q tãbc
  • 384 Historia da índia lhe derão grande ajuda, & lha leuarão per mar â Alexandria: & dahi em barças grandes ao cayro: donde laurada pera naos, galés & galeões, foy leuada em camelos a çuez: onde forão armadas quatro naos de gauia & hú galeão, & duas galês reaes, & tres galeotas, & todas eftas velas da ma¬ neira que fam as noífas &'forão leuantadas em efpaço de cincoenta dias. E eftando as aleuantando chegou da índia ao Soldão hú mouro chamado Maimame que el rey de Calecut & os outros reys da índia tinhão por lanéto, & por iffo mandarão dizer por ele ao foldão o que os noffos tinhão feyto na índia. Requerendolhe da parte de Mafamede que a focorreffe, porq os mouros nã foffem deílruidos pelos noífos, & a ley de Mafamede fe perdelíe na índia. Ouuida efta embaxada pelo Soldão, forneceo logo de gente a frota que eflaua feyta, & deu a capitania môr dela a hú Mame¬ luco feu parente chamado Mi roce que era fenor de Iudâ & deulhe dous mil homés é que entrauão muytos arrenegados afli Genoefes comoVene- zeanos & outros de diuerfas nações da Europa, & Mamelucos & mouros de grâda, todos armados de fayas de malha enlaminadas por dentro de laminas de ferro & de cornos, & outros de corfoletes. E muytos deles erão efpingardeyros, & os mais frecheyros & fornecida efta armada de muyta artelharia, & de muytos mantimentos partiofe Mirocem coela na entrada de Feuereyro do ãno de mil & quinhetos & feis. E hia coele Maymame em húa fufta ê que fora de Calicut. E forão inuernar â ilha de Camarão que eftâ das portas do eftreyto pera detro trezétas & vinte legoas de Iudâ, é q pos quatro mefes por amor dos muytos bayxos q ha por efte mar roxo, & dos roins tempos pera nauegar que nele curíão. E paífado ho luerno que dura da fim de Mayo ate ho cabo Dagofto, tornou Miroce a fua viajem pera â índia. E no atraueffar daquele golfão, apar- toufe ho galeão que leuaua da fua cõferua, & foy arribar a Dabul onde Rumecão patrão dele ho fez tirar a monte pera fe correger. E Mirocê cõ a outra frota chegou aos vinte de Setébro do mefmo anno à cidade de Diu, de que era fnor el rey de Cambaya: a que hia dirigido pera com feu fauor fair dali a pelejar cõ os noffos. E leuaualhe hú rico prefente da parte do Soldão, & outro leuaua pera Meliquiaz fenhor de Diu pera ho fauorecer cõ el rey de Cãbaya, porque era grande feu priuado & afli ho fez. E coefta frota do Soldão fe enfoberbecerão muyto os mouros da ín¬ dia crendo que defbaratarião os noffos de todo. E porque tomaffê ho vifo- rey de fupito tinhão ifto em grãde fegredo ate fe a frota reformar como reformou em Diu cõ ajuda de Meliquiaz, que a efte tépo defpois del rey de Cãbaya, era ho mòr fenhor de feu reyno: ele era tartaro de nação, & mouro na ley: era muyto boÕ caualeiro & de muyta experiencia & faber, afli na paz como na guerra, ho feu proprio nome era Quejaz, &
  • Livro II, Capitolo LXXV 385 ajuntaranlhe os mouros meli, que na fua lingoa quer dizer gouernador ou capitão, como ele era da cidade de Diu, que el rey de Cãbaya lhe deu por fer muyto grande feu priuado: & alem de Diu pera ho norte lhe deu as cidades de Mangalor & Patane, & na enfeada de Cambaya, Guoga, Çurrate, & Reynel, cidades ricas. E cõ fer fenhor delas & Almi¬ rante do mar tinha hú conto douro de reda, fua eftada era fempre é Diu, q he a melhor de toda a cofta de Cãbaya. Os Arábios & Perfes lhe chamã Diu, & os indios Debixa: eftâ fituada em húa das põtas da en¬ feada de Cambaya da banda do norte que ho mar cortou, & fez húa pe¬ quena ilha quafi pegada cõ a terra firme: & tanto que dela pera a cidade fe feruem por húa ponte de pedra: a cidade efta c vinte & tres graos feria do tamanho de Euora cercada de bõs muros fundados da banda do ponéte fobre húa grande & alta rocha em que bate ho mar, & da banda da terra tinha hú baluarte fúdado nagoa, de que atraueffaua húa cadea de ferro muyto groíTa aos muros da cidade, que fe leuantaua e abaixaua com cabreftãtes, & coela fe çarraua ho porto de maneyra que as naos queftauã détro ficauão muyto feguras, & não podião entrar nele outros eftrangeyros fem lhe abayxarem a cadea. São todas as cafas defta cidade de pedra & cal, & de fobrados, tem muyto bõ porto & limpo, faluo que té na entrada hú banco: he pouoada de muytos mercadores, mouros & gentios. E por iffo he de grande trato, & mayor que todas as cidades da cofta de Cambaya, que era caufa de reder muyto a el rey de Cam¬ baya. E as mais das mercadorias que ali hião, cõpraua Meliqueiaz que defpois as vendia aos mercadores do fertão, & as mandaua a outras partes õde valião, cõ que ganhaua muyto dinheiro, de que tinha grande tefouro que gaftaua largamente cõ muyta gente de guerra que tinha con- tinuamente a que pagaua grandes fòldos: & por iffo vinha muytos eftrã- geyros a feruilo. Tinha tãbem no mar grãde armada de fuftas grandes a que chamão atalayas bem fornecidas de gente & dartelharia: feruiaíe com mayor eftado que nhú fenhor daquelas partes, & mais polidamente. Quando hia ver el rey de Cãbaya leuaua nouecétos de caualo, & vinte caualos a deftro, & outros tantos pera dar a el rey de Cãbaya. Defpois que os noffos fenhorearão a índia & vio q tinhão raizes nela defejou fem¬ pre de ter paz coeles pera auer das noffas mercadorias, principalméte cobre. E muytas vezes cometeo a hú Português q lâ foy têr degradado de Melinde q lhe leuaffe recado ao viforey pera lhe mandar hú par de naos carregadas de cobre & defpeciaria pera ter trato cõ os noffos, & ho Por¬ tuguês não quis receando que fizeffe treyção. Tomo I 4S*
  • 386 Historia da índia CAPITOLO .LXXVI. De como dom Lourenço foy darmada a Chaul. E de como foube que os Rumes ejlauão em Diu. PArtido Triftão da cunha pera Portugal, logo na etrada de Ianeyro de mil & quinhétos & oyto, fe partio dom Lourenço cõ fua armada ao logo da cofta ate Chaul pera dar goarda âs naos de Cochim. E forão coele Pero barreto, Antonio lobo teyxeyra, Duarte de melo, Fe¬ lipe rodriguez, Frãcifco danhaya, Payo de foufa, & Diogo pirez. E na coíta do Malabar ficarão Garcia de foufa, Pero cão, Simão martinz. E feguindo dõ Lourenço feu caminho dos ilheos queymados por diante, en¬ trou em todos os rios, & portos q hâ naquela coíta: húas vezes cõ toda a frota, outras com os nauios raíteyros, & bateis: & neles tomou muytas naos de mouros húas per força, & outras que fe lhe entregauão cõ medo: & todas roubaua & queymaua: & não fomente no mar, mas em terra fez grande deítruyção, cõ que os mouros eítauão muy efpantados, & muyto defcõfiados de poderem os Rumes refiítir a noífa armada. E eítes erão os do Soldão q eítauão e Diu, que aíli lhe chamão na índia. E indo os noffos muyto ledos cõ fuas vitorias & cõ feus nauios embandeyrados & toldados, chegarão ao rio de Dabul em cujo porto entrarão fazendo grãde arroido dartelharia, & muyta feita com trombetas. E dom Lourenço leuaua determinado de fazer nelte lugar todo ho dano que podeffe em vingança da deítruyção que Maymame ali fizera nas naos de Cochim: & parece que receando iíto os mouros fenores dalgúas naos que eítauão no porto, mandarão logo cometer a dõ Lourêço por dous judeus q lhas refgataffe: o que foy feyto cõ cÕfelho dos capitães da frota. E recebido ho refgate dõ Lourenço deu a vela pera Chaul, onde foy furgir dentro no porto, porque auia defperar por vinte naos de Cochim que hi eítauão pera carregarem, & efperou por elas acerca dhú mes. E nelte tempo muytos dos noffos hião folgar a terra, & algús dos moradores dela que erão feus amigos lhes dizião que os Rumes eítauão em Diu cõ grande frota pera ire pelejar coeles, & que erão gente branca & esforçada, & q tinhão armas & artelharia como eles: poriífo que fe foliem. E dizianlhe donde os Rumes vinhão & por cujo mãdado, & ao que vinhão. E com quanto os noffos cuydauão que os Guzarates lhe dizião aquilo por lhes meter medo, todauia ho diíferão a dom Lourenço que fe rio diffo, dizédo que fe alfi fora, que de Cochim ou de Cananor ho diíferão a feu pay, & ele lho mãdara dizer: & ho mefmo refpõdeo ao tanadar de Chaul que
  • Livro II, Capitolo LXXVII 387 lho madou també dizer. E não ho querendo crer chegou Pero cão no feu nauio, & lhe difle como defpois de partido de Cananor fora dito ao vifo- rey a noua dos Rumes que à primeyra fazia diffo tanto efcarnio, q ref- pondia a quê lho dizia. Ve ve Rumes: ate que Louréço de brito lho man¬ dou dizer de Cananor, que ho foube per carta de timoja: & então ho crêra ho viforey, & fe fora logo na nao Sãtifprito a Cananor, Õde ouuera confelho fe fe iria ajuntar coele pera pelejarem cõ os Rumes: & lhe fora cofelhado que não, porque abaftaua a frota q eftaua em Chaul, fe os Ru¬ mes ho foffem bufcar. E por iffo lho mandaua dizer, & que ho mandaua pera ficar coele: & que lhe encomédaua que fe pelejaífe que fe ouueffe com muyto fifo: & que feguiífe em tudo ho parecer de Pero barreto, por¬ que fabia que lhe auia daconfelhar a verdade. Porem não ir ho viforey ajudar a feu filho, foy logo tachado de algús: & pronofticarão'o q def¬ pois foy. Porque fe ho viforey fora forão os Rumes defbaratados de todo. E fabendo dom Louréço a certeza dos Rumes, creo então que eftauão é Diu & mandouho dizer a feu pay: & começou de dar preffa aos de Co- chim q carregaffem fuas naos, porque fe queria ir & ele fe fazia preftes diffimuladaméte pera pelejar com os Rumes fe vieífem q aíli lho acõfe- lhauã os outros capitães. CAPITOLO .LXXVII. De como Mirocem fe partio pera Chaul pera peleiar cõ dõ Louréço. E do que fe\ em chegando. EStando Mirocem em Diu aparelhãdo fua armada pera ir pelejar com ho viforey, foube como dom Louréço eftaua é Chaul, & a armada que tinha com que logo determinou de ir pelejar parecendolhe que tinha muyto certa a vitoria, & que defbaratada aquela frota iria pelejar cõ eífoutras velas que andauão na cofta do Malabar, & que també as def- barataria, & defbaratadas todas tomaria muy afinha as fortalezas de Ca¬ nanor & de Cochim cõ ajuda del rey de Calicut, & afli defarraygaria de todo os noífos da índia. E deu difto cota a Meliquiaz, a quem prouocou q foífe coele com trinta & quatro fuftas bé artilhadas & fornecidas de muyta & boa gente, porque quafi lhe pareceo q aueria efeyto ho que dizia Mirocen: &-fe ho ouueffe efperaua de fe lhe atribuir a mòr parte daqle efeyto. E ajuntada a frota de Meliquiaz com a de Mirocen, que eram ambas de xlv. velas, em que entrauão quarenta fuftas & gales, & hfi galeão, & quatro naos, partiranfe de companhia pera Chaul, que eftaa fefenta legoas de Diu. E como Meliquiaz era manhofo não quis entrar
  • 388 Historia da Índia com Mirocé em Chaul, & deyxoufe ficar atras, fazédo conta que aíli como viffe que fucedia a Mirocem com dõ Lourenço affí faria: porque fe Miro- cen foífe vencido não queria que foubeife ho viforey que ho hia ajudar & ficaffe feu ímigo. E pofto que não quileife entrar cõ Mirocé no rio de Chaul, né poriífo receou Mirocem de entrar com fua armada fóméte: & ao meo dia de húa feita feyra entrou com a viração que fazia muy frefca. E a eíte tempo vinha ele hú pouco a la mar com as naos & galeão, & ficauão as galês antre elas & a terra, com que ficauão encubertas: & poriffo não ouuerão os noffos viíta mais que das naos & galeão, que erão cinco: & vendoas ouue antreles grande aluoroço, porque hús dizião que erão os Rumes, outros que era Afofo dalbuquerque, que vinha da cofia dalem, por quem efperauão cada dia: & nifto fe afirmauão mais, porque as naos hião correndo de longo da terra, como que hião pera Goa, & emparelhando com hú morro que faz a terra junto da barra, amaynarão as que hião diante pera efperaré por as que ficauã mais atras: & ajun- tandofe todas derão traquetes & mezenas, & entrarão pera dentro da barra. E hia toda a frota embandeyrada de bandeyras brancas, & verme¬ lhas & os oítais forrados do mefmo, & as galês toldadas de toldos tão cõpridos que chegauão a agoa, & nas bandeyras trazião húas luas pre¬ tas. A géte darmas hia toda armada como dilfe cõ cabayas de graã, & de feda fobre as armas. De modo q hia muy luzida: & coeíte aparato entrarão pelo rio tocando muytos inftrumétos de guerra, que cõ ho luzir das armas fazia a frota muy temerofa. E entrando deita maneyra acaba¬ rão os noifos de crer que erão os Rumes. Dom Lourenço mandou logo fazer final pera que os noifos que eítauã em terra fe recolhefle, & reco¬ lhidos fe poferã todos é armas. Dõ Louréço trazia na fua nao cem homés pouco mais ou menos, todos fidalgos & caualeyros: & por o que eitaua determinado q pelejaiTe com os Rumes fe vieifem: pos fe logo pera iífo: & ele & Pero barreto fe poierão fobre ancora diante de todos quafi a meo do rio, húa nao junto da outra: & os outros nauios polas fuas qua¬ dras com as proas defrõte donde os Rumes auião de paífar: pera os fuf- tigarem com a artelharia. E eítando afli Mirocé que hia diante dos feus como chegou a tiro de bombarda dos noifos, mandou defparar algúa ar¬ telharia & foyfe dereyto â nao de dom Lourenço & é chegãdo deulhe húa tamanha çurriada de frechadas que parecia que chouião, os noifos refpõderão logo cõ fetadas, efplgardadas & lãças darremeffo & fem fe afferraré fe trauou antreles húa peleja que foy bé ferida dãbas as partes, mas não durou muyto, porque achando Mirocé nos noifos muyto mais refiítencia do que cuydaua paifou a diante, & ho mefmo fizerão as fuas naos q cada húa pelejou com cada hú dos noifos nauios em quanto ele
  • Livro II, Capitolo LXXVII 38g pelejou com dom Louréço, & forão todos furgir acima da noffa frota junto da cidade, & nefte rencontro receberão affaz de dano da noffa artelharia, & os noffos ho receberão també das frechadas de que forão feridos bem trinta peífoas na nao de dom Lourenço & outras tantas na de Pero bar- reto: que neftas duas naos hia a frol de toda a gente da frota: nos ou¬ tros nauios também forão feridos algús antre os quaes fov hum Ruy pe- reyra fidalgo q era capitão do conues da nao de Duarte de melo: & nas galês dos immigos nã foy feyto nenhú dano, porque paííarã da outra bãda do rio cofidas com a terra. Dom Lourenço pofto que dos feus ficarão tantos feridos quifera abalroar com Mirocem, & pera ifto mandaua leuar ancora o que os outros capitães também mandarão fazer o que Mirocem entendeo, & por fe não atreuer a pelejar com os noffos fem Meliqueiaz mandou âs fuas galês que tiraífem com a artelharia aos noffos efquifes que andauão leuando as ancoras da noffa frota, & affi ho fizerão. E dos primeyros tiros foy ho de dom Lourenço arrombado q não poderão mais trabalhar nele. E afli por iffo como por fobreuir a noyte ceifou dom Lou¬ renço de fua determinação & deyxou a peleja pera ho outro dia & cura¬ dos os feridos ouue confelho fobriffo com feus capitães, em q foy acor¬ dado que pera que melhor foubeífé ho que auião de fazer, mandaffem a terra Baltefar filho de Gafpar que feruia de lingoa, com difíimulação de ir bufcar refrefco pera que foubeffe como eftauão os da terra com Miro¬ cem, & ho q ele determinaua. E Baltefar partio fogo & foube do tanadar, & dalgús mouros amigos de dom Lourenço que Mirocé eftaua preftes pera pelejar coele é chegando Meliqueiaz, por quem efperaua que trazia grande poder, & aconfelhauão a dõ Louréço que fe ouueffe de pelejar que foffe ao dia feguinte, porq dali por diãte chegaria Meliquejaz & dar- lhe hia bem que fazer. Sabido ifto por dom Louréço, & pelos outros ca¬ pitães affentarão de pelejar moftrando todos muyto esforço pera iffo. E determinarão que dom Lourenço & Pero barreto afferraffem ambos a nao de Mirocem porque era mayor que todas, & que ambos afferraffem por hum bordo, & que dom Lourenço abalroaífe do mafto pera rê por fer a fua nao mais alterofa que a de Pero barreto, & ele do mafto por dauante, & Felipe rodriguez, Pero cão, & Duarte de melo aferraífem com as ou¬ tras naos, & galeão, & os outros capitães com as galés, ifto aífentado recolheo fe cada capitão a fazerfe preftes, & a encomendarfe cõ fua gente a noffo ínor.
  • 3go Historia da índia CAPITOLO .LXXVIII. De como dom Lourêço teue defbaratado Mirocem, & a canfa porque lio não acabou de defbaratar. DEspois que foy noite trabalhou Mirocem por aquirir e feu fauor ho tanadar da cidade & os moradores dela pera ho ajudarem contra os noffos, & lhe darem mantimentos: & ainda coifto fe não atre- ueo a pelejar com dom Lourenço fem Meliqueiaz, fe não defenderfe fe ho cometefle, & pera iíTo ordenou fua frota acima da noífa, da parte da cidade junto de terra encadeadas todas as velas húas com as outras que ficauã como ponte, & deytadas pranchas pera fe poderem todas feruir: & porque a corrente da agoa as não leualfe, q era muyto grande quando decia a maré mãdou amarrar ê terra cabos, & rageyras, enmendados de tal maneyra que de cada vez que quifeífem fe podeflem arriar a eles, & ele ficou na dianteyra de todos. E vindo ho outro dia q era fabado em ventando a viração: dom Lourenço fe fez â vela dando traquetes pera fe chegar aos immigos, & ho mefmo fizerão os feus capitães. E porque a nao de Mirocem era mais alterofa que a fua, mãdou leuar a mea enxer- cia ho arpeo com que auia dabalrroar, porque a não erraífem ao deytar, & em os noffos desfirindo começa de jugar a artelharia dos Imigos & a noffa a refponderlhe, & fazerfe hú muy afpero jogo & aífi fobreuinhão grãdes nuués de frechas da parte dos Imigos defpois que fe os nofTos che¬ garão a eles. Mirocem que vio que dõ Lourêço fe chegaua parele aloufe polos cabos pera terra onde fabia que lhe não auia de poder chegar por fer ho vento ja tã fraco que lhe não auia de poder furdir a nao & aífi foy. E por efta caufa ho não poderão os de dom Lourenço aferrar que logo- mãdou furgir húa ancora tão perto da nao de Mirocem que fe chegauão de húa a outra cõ arremefios, & pelejauão mortalmente hús com os ou¬ tros, o que também fazião da nao de Pero barreto que não pode aferrar com Mirocê pela caufa que não aferrou dom Lourenço, & fez como ele. E ho mefmo aconteceo a Felipe rodriguez, Duarte de melo & Antonio lobo porem não ficarão tão perto das naos dos immigos. E com tudo com as popas na boca de fua artelharia que varejaua muy rijo, & fazião muyto dano aos nofTos, principalmête a dõ Lourenço que eftaua mais perto de Mirocem, cuja nao como era mais alterofa que a fua, não fe podião os noffos aproueytar de fuas fetadas, & efplgardadas quã bem fe os immi¬ gos aproueytauão das fuas frechadas & arremeffos com q ferião muytos dos noffos, antre os quaes foy dom Lourenço, porque fempre andaua na
  • Livro II, Capitolo LXXV1I1 3gi diãteyra. Effes fidalgos que andauão coele lhe differão então que fe afaf- tafle dali pois não podia abalrroar com Mirocem, & não fazia mais q ma- tarénos, & ele nã queria. Mas nifto lhe derão outra frechada no rofto: então fe afaftou alandofe por húa ancora q mãdou furgir pelo rio acima, & ficou a tiro de berço dos immigos, & outro tanto fez Pero barreto, aquem tambe tinhão ferida muyta gente: & poferãfe ambos âs bombar- dadas com os immigos. Em quanto fe ifto fazia as noflas galês & cara- uelas latinas aferrarão as galês dos immigos por mais bombardadas que lhe tirarão, & adi frechadas que forão tantas q os maftos da galé de Payo de foufa & da de Diogo pirez eftauão todos pregados, & muytos dos feus feridos: & com tudo eles não deyxarão dentrar os immigos. E os pri- meyros que entrarão da galé de Payo de foufa forã ele, Ambrofio paça- nha, Fernão perez dandrade & outros que todos forão feridos, fazedo eles grande matãça nos ímigos: de que os viuos por fe faluarem, fe lan¬ çarão ao mar & deyxarão aqlas duas galés em poder dos noffos. E aífi ficarão outras duas, & outras duas fugirão pelo rio acima; E nefta reuolta foy morto Maymame, ho mouro fanto de Calicut que fora leuar recado ao Soldão pera q mandafTe os Rumes. E eftando ele pedindo a Mafamede q deífe vitoria aos immigos, entrou hum pelouro pelo tédal da fua fufta onde fazia oração & matouho. E coifto aconteceo juntamente hum cafo muy eftranho, que eftãdo os nauios tão perto hús dos outros, tirãdo de hú dos noffos a outro dos immigos pera ho meter no fundo fobreleuou tãto ho tiro que ho pelouro lhe foy dar na gauea, & a fez em pedaços com quãtos eftauão nela. E cuydando os immigos que eftauão nas outras gauias que lhe farião outro tanto decerãofe delas, o q foy grande bem pera os nofTos por quãto mal lhe delas fazião. Nefte tépo ho mar andaua todo cuberto dos immigos que fugião a nado pera terra, o que vendo Francifco danhaya meteo a carauela & a fua barquinha antre os immigos & a terra: & mataua os âs lançadas, & fe ifto não fora ouuerão os Imi- gos de defpejar toda a fua frota, porque vendofe eles afli apertados, & que não fe podiã acolher a terra tornauãfe a fua frota, & os noffos que andauão nos bateis fe tornarão aos nauios. Payo de foufa & Diogo pirez leuarão as galés que tomarão a dom Loureço que eftaua com Pero bar¬ reto âs bombardadas com Mirocé & com os feus que eftauão tão defba- ratados que não oufauão daparecer. E a noffa gente bayxa os ameaçaua cÕ cordas com que dizião que os auião déforcar. E vendo dom Lourenço que a coufa eftaua nefte eftado pofto que eftaua ferido, & tinha muytos feridos quifera aferrar com os immigos: & que aífi ho fizerão todos os feus capitães. Porque ainda que não auia vento chegarã os nauios a toa com os bateis, & aífi lho diffe em confelho. A que eles refponderão q não
  • 3q 2 Historia da índia era bem fazerfe aífi por ele eítar muyto ferido, & a mayor parte da gete & toda muyto canfada: & que com qualquer refiftencia que achaflem nos Tmigos acabarião de canfar de todo. E que coefte fim poderia fer que fe os Imigos moftrauão tão deftroçados, o que eles não podião eftar, pois eftaua tão craro que não auião de ter tantos feridos como eles, que ho mais feguro leria meterelhe os nauios no fundo, porque tinhã neceíTi- dade deitarem defcanfados pera a batalha que efperauao com Melique- jaz, que polto q achalfe os Rumes defbaratados não auia de deyxar de pelejar, cuydando que os noffos eítariã canfados. E defte parecer não foy dõ Lourenço, dizendo que não era rezão que fe metelfem tão boos nauios no fundo como erã os dos immigos, que melhor os leuarião a feu pay que auia de folgar muyto coeles: & algús ouue do feu parecer: pelo qual fe debateo muyto pela parte dos que tinhão ho contrayro, que era ho mais certo. E fe os nauios fe meterão no fundo ficarão os noífos com a vitoria, & não fora o que defpois foy. E eftãdo os noffos nefte debate entrou Meliqjaz pelo rio de Chaul feria quafi foi polto & leuaua fua frota embandeyrada & toldada com grande eltrõdo de inltrumentos de guerra, & cada fuíta leuaua de trinta homes de peleja ate quarenta & tres peças dartelharia, & lê tirar nhú tiro foy furgir no lugar donde fe a noífa frota leuãtara aquele dia. Os Rumes como ho virão entrar cobrarão coraçã & os que fe acolherão a terra fe tornarão logo â frota fazendo grandes ale¬ grias, & dando muytas apupadas de prazer, ameaçando os noffos que agora faberião a quem auião denforcar. E os da terra derão logo os nolfos por perdidos & defcubertamente fe poferão de parte dos Rumes tirãdo aos nolfos muytas frechadas, com que a batalha fe tornou a renouar muy brauaméte. Entã conhecerão os nolfos ho mao confelho que teuerão em não meterem os Rumes no fundo ou os aferraré, & a batalha andaua muy baralhada: & tão viua como fe então fora ho começo, Meliquejaz també varejaua muy rijo com fua artelharia, & por fauorecer mais a Mi- rocem mandou a tres atalayas das fuas q fe paffalfem auante ao ajudar. E começãdo elas de ho fazer fairanlhe Payo de foufa, & Diogo pirez ao encontro, & arrombarão húa delas com a artelharia, & as outras lhe foy forçado varar em terra, & Meliqueiaz ficou tão alfõbrado difto que não bolio mais cõfigo, nem menos foy neceffario, porque fobreueo a noyte que os apartou a todos. E Meliquejaz fe foy ajuntar com Mirocem, & efpantoufe muyto de ho achar tão deftroçado fendo os nolfos nauios tão poucos & com tão pouca gente. E partio da que trazia coele, & affi das munições.
  • Livro II, Capitolo LXXIX 3g3 CAPITOLO .LXXIX. De como dom Lourenço & os capitães da frota ouuerã confelho que fe fojjê fem mais peleiar cõ os Rumes. E do que acõteceo â nao de dom Lourenço por culpa do feu mejlre. NEsta batalha, afli os Imigos como os noflos ficará muy deftroçados não fôméte de muytos mortos & feridos, principalmente da parte dos immigos, mas também dos nauios defaparelhados, & das mu¬ nições gaftadas fenão que aos noflos lhe ficou dom Loureço ferido a que acodio húa febre tão rija que foy neceflario fangraréno. Os capitães fe ajuntarão a confelho, & praticada a maneyra de que eftauão, & ho focorro que era vindo aos immigos & tudo muy be examinado, aflentarão que não era bem que tornaflem a pelejar coeles: & que fe foflem pois as naos de Cochim eftauão ja carregadas, & fobrifto dizião os mais, que pois fe auião de partir que partiflem como ventafle ho terrenho que era • da mea noyte por diante, porque os immigos os não fentiflem. Mas Pero barreto & principalmente Pero cão forão muyto cõtra iffo dizendo que pois que feus pecados querião que fugiflem, q ao menos não moftraflem aos immigos que fugião, porq fe não perdefle ho credito que os Portu- guefes tinhã na índia. E que fe partifle as naos malabares diante & eles partiflem pela manhaã, porque não cuydaflem os immigos que deyxauão ho campo cõ medo. E afli fe aflentou, & partindofe as naos malabares que foy da mea noyte por diante, logo os noflos capitães começarão de mandar leuar ancora, & aparelharfe pera a partida, fem as naos apita¬ rem nem çalamearé por não fere fentidos dos Rumes, mas não poderão deyxar de ho fer, porque Pero barreto como era esforçado não quis cor- * tar ho eftrem da ancora cõ que furgio primeyro junto da nao de Miroce & lá a mandou alar, indo ele no efquife a fazelo, tirãdolhe os immigos muytas frechadas & arremeflos, & todauia Pero barreto recolheo a ãcora & fe tornou â fua nao. E fentindo os immigos como os noflos fe hião leuantarao també fuas ancoras pera os feguirem fazédo tudo como os noflos muy caladamente: dos quaes dõ Lourenço foy ho derradeyro que fe acabou daparelhar pera fe fazer â vela que afli o quis ele pera ir de¬ trás de todos, & quando fe leuou quifera ele mandar pola ancora que eftaua júto da nao de Miroce, mas ho feu meftre a mandou cortar, por¬ que amanhecia & tinha medo dos immigos: & mandou dar a vela, & fe foy: & logo duas naos dos immigos q eftauão menos daneficadas derão ós traquetes & fe forão apos ele, & afli foy Meliquejaz com as fuas fuftas Tomo I 5o
  • 394 Historia da índia cercandoho de todalas partes, & tirandolhe muitas bombardadas, & tra¬ balhando por lhe quebrar ho leme, principalméte da fufta de Meliquejaz de que lhe derão húa bõbardada ao lume dagoa cõ hum camelete no payol do arroz, & pelo buraco lhe começou logo dentrar muyta agoa lem nhú dos noffos ho ver nem fentir, pela muyto grande ocupação que todos tinhão ê fe defender dos immigos & ofendelos. E indo aílí acalmou ho veto & como a corréte da agoa que decia foífe muy tefa, & nã auia vento que ajudaffe â nao, deu a corrente coela antre húa eftacada de pefcado- res q ho rio tinha da outra bãda, & era darequeyras, & a culpa deita nao ir aqui ter foy do meftre, porque quãdo deu aa vela com medo de paliar per iunto da frota dos Imigos, como ouuera de paliar indo cami¬ nho dereyto como as outras velas forã, mandou ir tãto de lô q fe afaítou pera a bãda da eftacada Õde foy logo cair como acalmou ho vento, o q lhe nã acontecera fe fora por onde forão as outras velas: e Payo de foufa que hia iunto da nao lhe mandou logo dar hú cabo pera a rebocar, mas não aproueytou, porque como a nao carregaua muyto de popa com a forna dagoa que leuaua nela, aleuãtaua de proa algú tanto quãdo cayo na eftacada, & por ilfo ficou caualgada per duas percintas dhúa bãda, & da outra fobre as pontas de duas eftacas, paliando per antrelas. E porifto nã aproueitaua a força que os da galé de Payo de foufa punhão ao remo pera tiraré a nao da eftacada. E atentando os noffos no que os encalhaua, & parecendolhe que erão fôméte as pontas das eftacas fobre que a nao caualgaua, acodirão logo a cortalas com machados: mas tam pouco lhes aproueytou, porque como a agoa que entraua na nao creceífe de cada vez mais, afli tambe carregaua mais, &'tornaua aífétar fobelas eftacas pofto que as cortauão. E vendo dõ Lourenço que a nao fe hia encodãdo de popa, & que não podia fayr, mandou abaixo ho piloto que folie ver o que era, & ele achou a nao alagada, & ho arroz todo a nado: & tor¬ nou a dom Louréço todo trefpaliado, & dilielhe a maneyra de que a nao eftaua, & que não auia remedio pera fe tomar a agoa, porque ho arroz impedia q a não podeífem tomar: & que não auia tempo pera o baldea¬ rem, nem gente que ho podelfe fazer, porque quafi toda eftaua ferida. E coifto fe meteo debaixo de cuberta, & dizem que morreo de medo. E com tudo dom Lourenço mandou ver fe fe podia a agoa vedar. E em quanto fe via Meliquiaz fe vinha chegando com fuas fuftas: & entendendo como a nao eftaua fazendo conta que a tinha na mão, mãdou apartar algúas fuftas pera que foliem tomar a galé de Payo de foufa, que tinha a nao de toa. E como todos os da galê eftauão muyto feridos, & não po- diao pelejar cortarão ho cabo, porque eftaua a nao atoada, & ifto fem ho ele faber, & dilferão que arrebentara com a força que punhão os remey-
  • Lm-o II, Capitolo LXXX 3g5 ros pera arrancar a nao: & pola agoa decer rija, como a galé ficou de- famarrada leuouha muy tefa polo rio abaixo: pofto que Payo de foufa mandou logo cear pera virar fobre a nao, com determinação de pelejar com os mouros, ainda que a fua gente eftaúa tam ferida como digo: mas a galé nunca pode virar com a corrente q a leuaua. E afli fe foy ate che¬ gar onde Pero barreto, & Duarte de melo, & Diogo pirez eftauão furtos, porque logo furgirão como virão que a nao de dom Lourenço não furdia, & ho mefmo fizerão Pero cão, Francifco da cunha, & Antonio lobo tei- xeyra, que eram ja na boca da barra da banda de fora. CAPITOLO .LXXX. De como foy morto dom Lourêço, & oytenta dos feus, & uinte forão catiuos, & a fua nao foy metida no fundo. DEsamarrada a galê de Payo de foufa da nao de dom Lourenço, as fuftas de Meliquiaz fe poferão atirarlhe âs bõbardadas. E vendo effes fidalgos que eftauão com dom Lourenço como a nao não tinha remedio pera fair dali, differão algús deles ao cotra meftre da nao que aparelhalTe ho parao cõ algús marinheyros que remaífem bem, & q faluarião nele a dom Lourenço. E tendo ho contra meftre ho paraô pref- tes differão os fidalgos a dõ Lourenço que pois a nao tinha tão pouco re¬ medio pera fe faluar, quão pouco eles merecião a deos por feus pecados, que fe falualfe ele pois e fua faluação eftaua a honrra ou defonrra dos Portuguefes, porq ele era ho preço de todos: & que eles pois deos afli era feruido ficarião pelejando ate q morreflem. O que ouuído dom Lou- réço lhes difle que bem fabia ho amor q fempre lhe teuerão: & porque lhe ele tinha ho mefmo que nunca deos quifefle que fe ele faluaffe ficando eles em perigo: que não defefperaffé da mifericordia de deos que era grande, & que os capitães da frota ho focorrerião. E porq os fidalgos quiferão repricar, difle que lhe não falafle ninguém em faluarfe, fe não que lhe tiraria com húa alabarda q tinha na mão com que pelejaua. E logo ordenou fua géte pera fe defender em quanto podefle, porem não tinha mais fãos que trinta homes: & os outros que erao fetenta muyto feridos: mas com a preffa todos fe leuantarão, & era piedade velos todos épraftados, q quafi fe não podião fofter nas pernas, & moftraré todos muy grãde coração pera pelejaré. Dom Lourenço os repartio per tres capitanias a da tolda tomou pera fi: & a do cõues deu a Ioã rodriguez paçanha filho de Manuel paçanha, & a Iorge paçanha feu hirmão. A do caftelo dauante deu ao feytor da armada q fe chamaua Frãcifco de no-
  • 3g6 Historia da índia uaes. E nifto fe vinhão chegando as naos dos Rumes tirando muytas bom- bardadas a dom Lourenço. E vendo ho contra meftre que eftaua no pa- raò como fe ele não queria faluar, não quis mais efperar com medo dos immigos, & foyfe pera onde eftauã os outros capitães furtos, que por a agoa decer rija & não auer viração não podião ir focorrer dom Lourenço: pofto que ho defejauão muyto, principalmete Payo de foufa que ainda então trabalhaua ao logo de terra fe cõ a reueífa dagoa ho poderia focor¬ rer. E Pero barreto que eftaua acima dos outros capitães que eftauão furtos fov ho primeyro que vio ir ho contrameftre no paraô, & pregun- toulhe como hia adi. E ele por na dizer que fugia diffe que lhe mandaua dizer dom Louréço que ho focorreífe: então chegou a bordo & lhe contou como ficaua. E logo Pero barreto fe foy no paraó â gale de Diogo pirez, onde tambe foy Duarte de melo: & fabendo como dom Lourenço eftaua, determinarã de ho ir focorrer na mefma galé: dizendo Duarte de melo a Diogo pirez que em fua mão eftaua a faluação de dom Lourenço q re- maffem todos & que lhe iriã focorrer, & faluarião a ele & a gente, & deyxarião a nao ou a eftarião defendendo ate que viefle tempo pera fe fairem. & Diogo pirez chorando muytas lagrimas pedia a todos que focor- reflem do Lourenço, o que he de crer pois ele ho criara: & que não po¬ dendo ir dereytos â nao por a corrente fer grande, atraueflarão a terra pera ir ao longo dela, parecédolhe que não feria laa a agoa tão tefa que os remeyros a não venceffem: mas não foy afli, porque como eles hiã muyto canfados do dia paflado, & deles feridos, não poderão fazer coufa com q furdiffem auante: ho que vendo Pero barreto & cuydando que ho faziã acinte começou de os ferir com a efpada, & não aproueytou que eles não podiã mays: & nifto matou obra de fete deles, & afli ferio algús dos noffos, que quifera fazer remar que tã pouco nã poderã, & étã nã curou de mais perfiar, & tornoufe pera a fua nao pera efperar a viração com que ele & os outros iriã focorrer a dom Lourenço, a quem em quãto a galé de Diogo pirez afli andaua, os mouros derão tãta bõbardada que lhe desfezerã todalas obras mortas da nao. E era coufa de pafmo como fe os noflos defendião a tanta multidão dlmigos & de tantas frechadas que cobrião ho ceo & afli de tantos tiros dartelharia, cuja fumaça era tama¬ nha: que tudo cercaua de neuoeiro, & a grita dhús & doutros era tam grande, que parecia que eftaua ali todo ho mundo. Mirocem que era che¬ gado com a fua frota eftaua efpantado da valentia dos noflos: & porque també lhe matauão dos feus com a artelharia os quifera abalroar, mas não pode, porque dom Lourenço com os feus lho tolherão, que pelejauão como homés que fe querião vingar antes q morrelfem, & matauão, & feriao muytos dos Imigos. E fe a outra frota os poderá ajudar aquele
  • Livro II, Capitolo LXXX 397 dia acabarão os rumes. E nefta reuolta foy dom Lourenço ferido dhúa bobardada que lhe leuou húa coxa, & cayo: os feus ho leuãtarão muyto tryftes por ho alfi veré: & ele os esforçou, & mandou que ho affentaffem em húa cadeira ao pê do mafto, & dali esforçaua os feus. E nifto lhe deu outra bombardada nos peytos que ho matou. E logo foy leuado junto do fogão, onde fe foy lançar fobrele hú feu camareiro chamado Lourenço freyre, chorando lua morte: & hi foy també morto. E a nao eftaua tã rafa que mais parecia pote que nao: & toda eftaua cuberta, afli ho cõues, como a tolda & a proa, de pernas & braços, & de muytos corpos mor¬ tos, afli dos noffos, como dos Imigos, q nefta peleja quatro vezes entrarã a nao & outras tantas os deitará os noífos fora: que aquele dia forão todos tam valetes, & fizeram taes finezas, que parece que as não crerá fe não quem as vio. E por derradeiro não ficando mais que muyto pou¬ cos dos noffos, & eftes muyto feridos, foy a nao ctrada dos Rumes que começarão de bradar, Canalha debayxo de cuberta fenão todos andareis a efpada, ho que algús dos noífos fizerão, & outros fe auenturarão a ficar encima. Entrados os Rumes na nao forãfe logo obra de cento & tantos debayxo de cuberta pera a roubar que não auia quem a defendeffe. E como ela tinha muyta agoa com ho pefo defta gente affentou na area, ficando defcuberta dagoa ho conues, tolda & proa: & por iflò os que ficarão encima forão faluos: & os que forão abayxo afli Rumes como noífos todos fe afogarão. Meliquejaz como vio a nao aífentada acodio logo, & faluou os noífos que forão dezanoue, & eftes eftauão tão feridos que não fentião nada: & Meliquejaz os tomou pera fi, & afli a hum mari- nheyro natural do porto chamado Andre fernandez que foy dos que ficarã encima de cuberta, & fe acolheo â gauia da nao onde todo aquele dia & parte do outro feguinte fe defendeo também dos Rumes, que nunca ho poderão tomar: nê nunca fe dera fe lhe Meliquejaz nã mãdara hum feguro â gauia. Afli acabou dom Lourenço & os oytenta Portuguefes que com ele morrerão, antre os quaes forão, Ioão rodriguez paçanha, Iorge paça- nha, Antonio de Ião payo, Diogo velho, ho feytor darmada, & hum hir- mão de Pero barreto. E afli outros a que não foube os nomes, & dos que efcaparão hum foy Triftão de Gaa: & outro Baftião rodriguez que agora he efcriuão da cafa da moeda.
  • 3g8 Historia da índia CAPITOLO .LXXXI. Do que fi\erão os outros capitães defpois da morte de dom Lourenço : & do mais que fi\erão os immigos. MEtida no fundo a nao de dõ Louréço duas naos dos Rumes pal¬ iarão logo auante pera ir pelejar cõ a noffa frota cujos capitães vendo fumir a nao de dõ Louréço ouue algús q leuarão logo an¬ cora, & derão âs velas & partirã, & eftes forão Antonio lobo teyxeyra, & Frãcifco danhaya: & algús querem dizer que picarão as amarras com preffa de fe ir parecédolhe que os auião os immigos de tomar. Mas nã ho fez afli Pero barreto, & eftandofe leuãdo, chegou Payo de foufa donde eftaua furto, vendo que ja não aproueytaua eftar ali mais: & diffelhe que fazia porq não daua â vela que ja não tinhão fobre a terra porque efpe- raua. Ele lhe relpondeo que bem ho fabia por feus pecados mas que não auia de deyxar nhúa ancora ainda que os immigos vieffem. E leuada an¬ cora, & dado ho traquete porq ho vento era fraco, deulhe Payo de foufa hum cabo pera ho leuar â toa, porque lhe não acõteceífe outro defaftre como a dom Lourenço. E indo afli adiantoufe húa nao dos immigos. E determinando Pero barreto de pelejar coela, difle a Payo de foufa que lhe alargafle ho cabo, & efperouha: ho que vedo os immigos furgirão, parece que com medo de pelejar com os noflos: de q ouue algús que em a nao amaynando fe lançarã no efquife, o que pareceo a Pero barreto q era com medo, & diffimulando, defpois que a nao dos Rumes furgio fez recolher os do efquife, & reprendeos da couardia que entendera neles: do q fe eles difculparão dizédo que ho não fizerã fenão pera reuocar a nao fe fora neceffario. Poré hú caftelhano que hia coeles, chamado Gon- çalo tareiro difle perante todos a Pero barreto, que todos ho fizerão com medo dos Rumes: porque ho feu fora tamanho q quifera ter afas pera voar, quãto mais batel pera fugir. E vendo Pero barreto que a nao dos immigos fe detinha, & q a fua frota fe chegaua tornou a dar ho traquete, & partiofe com Payo de foufa indo os immigos apos ele: & quando che¬ garão â barra virão ir os outros noflos nauios bem lonje dela. E fe mais tardarão hum pouco em fair não poderão efcapar a Mirocem, que pare- cendolhe que os noflos fe hião com medo creceolhe mais a foberba que tinha pela morte de dom Louréço: & quifera feguir os noflos cõ fua frota fomente, com determinação que fe os não podefle alcançar de ir inuernar â ilha de Goa: porque no verão feguinte fe achaffe mais perto do viforey pera pelejar coele: & teria de fua mão a cidade de Goa que tinha boÕ
  • Livro II, Capitolo LXXXI 399 porto, & era abaftada de muytos mantimentos. E fe alcançaffe os noffos & os defbarataffe ir fe a Calicut, & ajuntarle com el rey em hú corpo pera ficar mais poderofo. E ifto diffe a Meliquejaz, q lhe confelhou que ho não fizeffe, porq a fua frota eftaua muyto danificada da artelharia dos nofios, & como faiífe ao mar logo fe auia de ir ao fundo, que melhor feria repayrala pera a poder leuar a Diu, onde fe aperceberia pera ho verão feguinte, & aífi ho fez. E hi ouue algúa deferença antre Meliquejaz, & Mirocem fobre quem leuaria os catiuos que efcaparão da nao de dom Louréço: porque Mirocem os queria pera os mãdar ao Soldão pera tefte- munhas de fua vitoria. E Meliquejaz lhos não quis dar, & ficarão em feu poder. E a todos Meliquejaz mandou cu^ar muyto bem & tratauaos como a liures, porque os eftimaua muyto por faber quão bem pelejarão. E tra¬ balhou logo por faber fe era algú deles dõ Louréço: & fabendo q era morto moftrou que lhe pefaua muyto. E mãdou bufcar ho feu corpo pera lhe dar fepultura, mas não fe pode achar, & tãbem quifera tirar fora a fua nao & não pode, porem defpejouha da artelharia & de quanto eftaua nela per mergulhadores. E repayrada a frota de Mirocem pera poder fofrer ho mar ate Diu partirãfe. E chegando la lhes foy feyto muy fefte- jado recebimento. E aífi el rey de Cãbaya, como todos os principaes do reyno, os mandarão vifitar: & defpois todos os reys & fenhores da índia, que a todos foy ter aquela noua, & não que fora húa fò nao noffa metida no fundo, nem da maneyra que foy, fenão que fora a peleja com toda a noífa frota de q hia por capitão môr ho filho do viforey que morrera na batalha com todos os de fua companhia, & a fua nao metida no fundo & feus capitães defbaratados & fugidos. Porque os mouros da índia como querião mal aos noífos, & defeiauão de ver a terra leuantada contreles alargauão a coufa ho mais que podiã. E donde ate li tinhão na índia aos noffos por coufa monftruofa nos feytos de guerra, ouuindo dizer feu def- barato todo ho efpanto que tinhão deles ho teueram dos Rumes: & não fe falaua na índia em outra coufa fenão naquela vitoria: & foram feitas cãtigas & trouas em feu louuor. E Meliquejaz & Mirocem erão tidos em grande veneração. E todo ho inuerno ouue embaxadores dos príncipes da-índia e Diu: & ouue grãdes feftas. E Meliqueiaz moftraua aos que ho vinhão vifitar os noffos que tinha catiuos. E defpois de defcanfar os leuou a el rey de Cambaya pera que os viffe: & ele folgou muyto de os ver & lhes mandou dar cabayas a todos. E hú mouro granadi chamado Cideale, que viuia com el rey de Cãbaya diffe a Meliquejaz que goardaífe muyto bem os noffos, porque ainda lhe auião daproueytar pera por eles auer paz cÕ ho viforey: porque fabia certo que os noffos erão taes que auião de vingar muy be os que forão mortos. F. que do tempo q viuera
  • 400 Historia da índia é Grâda fabia que erão gente q nunca começarão guerra affi contra mou¬ ros como cõtra criftãos que a na leuaffem auante: & contoulhe muytas vitorias que os noflos ouuerão nas guerras que teuerão com Caftela. E cõfelhaua aos nolTos que fe não tornaífé mouros: porque ele lhes daria maneyra com que fe refgatafiem. CAP1TOLO .LXXXII. De como Pero barreto & os outros capitães acharão no mar os capitães que fugirão Dor muç a Afonso dalbuquerque: & a caufa porque nã tor- narã a peleiar com os Rumes. PArtidos Pero barreto & Payo de foufa da barra de Chaul teuerão bem que fazer em alcançar os outros capitães que hiã diante, & algús cõ tamanho medo de iré os immigos apos eles, q ho melhor de vela lhe parecia que andaua menos. E coifto fe alargarão tanto de terra Francifco danhaya & Antonio Lobo que a não virão mais ate que chegarão a monte deli. E Pero barreto & os outros forão ao logo da cofta. E logo ao outro dia lhe parecerão tres velas ao mar, & fegúdo fenxer- gaua na grandeza dos velames pareciã naos grolTas: no que affentarão que erã de Mirocem que os bufcaua: & fobrifto fe ajuntarão logo a con- felho pera determinarem ho que farião. E ouue algús q differão que fe fizelfe na volta do mar porque os não alcãçaífem os immigos ao longo da cofta: & fe os alcãçaífem eftaua craro acabarennos de matar por quã pouca gente leuauão, & quã ferida hia. Pero barreto fe pos muyto afpero contra efte parecer, dizendo que fefpãtaua muyto de taes caualeyros & a que fucedera tam bem na peleja com os Imigos auerélhe tamanho medo tédo rezã de os teré em pouco, pois ho defaftre q acõtecera mais fora por culpa da fortuna q por pouco coração dos noffos, né por fobejo es¬ forço dos imigos: que eles bé podiã fazer o que quifeffem, mas q ele não auia de deyxar ho caminho que leuaua. E que ainda que fe fizeífem na volta do mar que também os immigos auião de ir apos eles. E eftando neftas praticas as tres velas q vião fe chegarã tãto pareles que lhenxer- garão cruzes vermelhas nas velas, & conhecerá que erão de Portuguefes, & erão Afonfo lopez da cofta, Manuel telez, & Antonio do campo que fugirão Dormuz ao capitão môr Afonfo dalbuquerque. E fabendo eles o que acontecera a dom Lourenço quiferão q tornarão todos a vingar fua morte: & praticado ifto acharã que ho não podiã fazer porq não tinhã gete que podeífe pelejar por ir muyto ferida a que leuauão. E então toma¬ rão feu caminho pera Cananor. E a traues de Dabul acharão Garcia de
  • Livro II, Capitolo LXXXII 401 foufa na fua carauela que ho viforey mandou apos Pero cão pera ajudar a dom Louréço fe peleiafle com os Rumes. E forãolhe os ventos tão con- trayros por fer em Ianeyro que não pode chegar. E chegados eftes capi¬ tães a Cananor, lhes difle Lourenço de brito que não deuiã de tomar de fupito ho viforey com aqla noua: & por iffo lha mandarão diante por Francifco danhaya, que quãdo chegou a Cochim não oufou de dar a carta ao viforey, & mandoulha: & deranlha eftando falando com algús fidal¬ gos. E quando ele vio o que dizia nela olhou pera Manuel paçanha: & cõ as lagrimas nos olhos lhe difle, Voflos filhos & ho meu fam mortos: não me pefa fenão da honra del rey de Portugal que fica mazcabada, que eles nacerão pera morrer. E com efta derradeyra palaura fe leuantou chorãdo & meteofe na fua camara. E todos ficarão muyto triftes affi por os mouros ficare tão fauorecidos como ficauão, como pela morte de dõ Lourcço, porq de todos era muyto be quiíto por fua boa condição com que aproueytaua a todos: & não trataua os homés fenão como compa- nheyro & amigo. Ho viforey eíteue ençarrado tres dias fem ho ninguém ver. E defpois foy vifitado del rey de Cochim & dos fidalgos Portugue- fes, & algús lhe reprenderão moftrar em pubrico tanta trifteza por a morte de feu filho: & hum deites foi Manuel paçanha que lhe difle que não deuia de moftrar tanto fentimento pois feu filho morrera na guerra, & com tanta honrra como eítaua fabido: & q aos mouros deuia de mof¬ trar aquele fentimento em fe vingar deles, & não aos feus em o chorar, porque os não enfraqueceffe mais do que eítauão pelo paliado, como por ho verem tão triíte. Ho vifo rey lhe teue em merce aquele confelho: & dali por diante fe moftrou menos triíte. E ho primeyro dia que fe mof- trou difle a efles queítauão coele, Peçouos fenhores que me perdoes a fraqueza que ategora moftrey no fobejo fentimeto que tiue pela morte de dom Lourenço meu filho & voflo companheiro: porque ainda que ele fofle pera eftimar, todauia pera Chriítão excedi ho modo, em moftrar que não era contente com aquilo com que noffo fenor foy feruido: & de ho não ter afli feyto me acho tão comprehendido em culpa coele & conuofco, que hei por necefiãrio pedir perdão, a ele de lhe não dar graças, & a vos do defcontentamento q vos caufey com ho meu. Todos folgarã muyto de lhe ouuir eítas palauras, & fe lhe offrecerã pera a vingãça da morte de dom Lourenço. E defpois que fe pode falar ao viforey aqueles tres capi¬ tães que fugirão a Afonfo dalbuquerq lhe derão cõta do porq fe vierão Dormuz: dando toda a culpa de fua vinda a Afonfo dalbuquerque, reque- rendolhe da parte del rey que pera limpeza de fua honrra mandafle tirar deuaífa na gente que vinha coeles da caufa de fua vinda. E entregaranlhe dous mouros de refgate que tomarão no caminho em húa nao de Meca, Tomo I 5i
  • 402 Historia da índia que diíferão que darião por fi vinte feis mil cruzados: & Gafpar ho lingoa diífe que os poderia dar. E porque aqueles capitães vierão naquela con¬ junção em que auia deles tanta neceffidade, não quis ho viforey eítranhar- Ihe fua vinda & deixaré ho feu capitão môr: porem algús diíferão que ele folgara de fazerem aquilo a Afonfo dalbuquerque, porq lhe não pa¬ recia bem andar ele darmada na outra coíta, & aifi ho dizia. E dali algús dias chegou Ioão da noua com licença Dafonfo dalbuquerque. E diíTe ao viforey que fegundo as injurias que tinha recebidas dele, que íe lha não dera q fe viera fem ela. E moítroulhe os cabelos que dizia que lhe arran¬ cara da barba: & diífe como ho prendera na bomba da nao mas não a verdade do porq. E deulhe húa carta de Francifco de tauora, em q lhe dizia grandes males Dafonfo dalbuquerque: pedindolhe que ho mãdaífe ir pera a índia. E tantas coufas diziã ele & os outros Dafonfo dalbuquer¬ que que todos fe efpantauão. E com quãto Afonfo dalbuquerque não era preféte mãdou o viforey tirar as teítemunhas que eítes capitães requere¬ rão que fe tiraffem contrele, dizendo que também tiraria outras contra os capitães quãdo lho Afonfo dalbuquerque requereífe. CAPITOLO .LXXXIII. De como ho comendador Ruj■ Joare\ pelejou com hOa nao de mouros indo pera a índia, & do que lhe mais aconteceo. ATras fica dito como ho comendador Ruy foarez partio de Moçambi¬ que pera a índia, leuando em fua conferua a nao que fora de Ioão gomez dabreu, de que hia por capitão Iorge botelho, & por acha¬ rem ho vento cõtrayro inuernarão ambos é Lamo húa terra na mefma coíta: & eíteuerão ali fete mefes fempre no mar, & ho mais do tipo em peleja com os da terra que por força os queriã matar. E neítes fete mefes por lhes faltar ho mantimento não comião fenão ho peixe que tomauão, nem bebião fenão a agoa que chouia: & paífarão muyto grande trabalho & fadiga. E acabados os fete mefes q ouuerão de partir pera a índia a requerimeto do feitor da nao que fora de Ioão gomez paífarão a merca¬ doria que leuaua pera ho nauio do comendador, porque a nao não eítaua pera nauegar, & queymaranna por não ficar aos immigos. E partindo daqui por feu caminho toparão naquele golfam húa nao grãde de Meca que trazia bem quinhétos mouros brancos, que conhecendo a noífa nao, que trazia pouca gente foranfe a ela determinados de a aferrar. Ho co- médador fe apercebeo pera os receber, poíto que não teria mais de fetenta peífoas: & deu a capitania do caítelo dauãte a hú caualeyro chamado
  • Livro II, Capitolo LXXXIII 403 Gõçalo baixo: & ho conués a dõ Manuel pereyra: & ele ficou na tolda & chapiteo. E agrauado Iorge botelho de não étrar nefta repartição de¬ terminou de não pelejar & foyfe encoftar no feu catle. E nifto chegarão os immigos & aferrarão os noífos, & pelejarão coeles hú grande pedaço, em que lhe ferirão muytos: & não auedo quafi quem podeífe pelejar en¬ trarão os Imigos coeles pelo caftelo dauante ate ho cõués, em que os noífos atraueífarão húa entena com hú repoíteiro por cima de q fizerã tranqueira & ali fe defendião. E achando ho comendador aqui menos a Iorge botelho preguntou por ele, & fabendo ondeftaua entendeo ho por¬ que ho fazia, & foylhe pedir perdão de lhe não dar nhúa capitania na nao, & leuouho â peleja, em que ele ajudou de maneyra q forão mortos os immigos que eílauão na nao & dos outros não entrou mais nenhú: mas vendo que achauão tamanha reíiítencia, defaferrarão os noífos, de que não ficou nenhum que não foífe ferido. E partido dali ho comenda¬ dor deulhe tamanha tormenta por fer ja inuerno que efcorreo CochI, & foy ter ao cabo de Comorim, & acolheofe detrás dele. E por terra foy noua ao viforey que eítaua ali aquela nao, & não quem era ho capitão dela, & que tinha muyta gente ferida, & que eílaua em grande neceífi- dade. E pareceo ao vifo rey que feria Afonfo dalbuquerque: & porque fabia que não podia tornar a Cochim fe não em Setembro, & que auia dinuernar ali, rogou a Garcia de Soufa que foífe lâ leuarlhe mezinhas pera os feridos, & hú eílrem da nao de Ioão da noua pera a nao eftar mays fegura no mar. E com quanto a ida era muy perigofa q era inuerno, Garcia de foufa fe partio por fer feruiço del rey, & deulhe noífo fenhor tam bom tempo, que chegou onde eílaua a nao, & deu húa carta do vifo rey ao rey daquela terra pera que mandaífe dar mantimento aos noífos & lhes fizeífe bom gafalhado, & ele ho fez aífi. E de tudo iílo mandou Garcia de foufa recado ao vifo rey por terra. Que aquele inuerno fe aper- cebeo pera pelejar com Mirocem no verão feguinte, que ele dilatou, por¬ que não podia hir a bufcalo por terra. E por quebrar ho coração aos mouros, com cuydarem que tinha muyta certeza de vijrem aquele anno muytas naos de Portugal, & mais que tinha grande tefouro, mandou com licença del rey de Cochim lançar pregão em fua cidade, que quem qui- feífe leuar pimenta aa feytoria que lha pagarião logo, & que ninguém a deífe fiada aos mouros fopena de a perder. Com 0 que lhes a eles pefou muyto, aífi por cuydarem o que ho viforey queria que cuydaífem, como porque perdião muyto em fe lhe não vender a pimenta fiada, que tinhão em coítume de a comprarem aífi aos gentios, & defpois regatauão coela, & a vendião na noffa feitoria, onde ganhauão groífamente. E coeíte ardil ouue ho viforey aífaz de pimenta, & deu mà vida aos mouros.
  • 404 Historia da índia CAPITOLO .LXXXIIII. Do que aconteceo aos capitães môres que inuernarão em Moçambique. TRistã da cunha como atras fica dito partio de Cananor pera Por¬ tugal a fete de Dezembro, chegou a Moçãbique aos noue dias de Ianeyro de mil & quinhentos & oyto cÕ tres naos da fua frota, onde achou os quatro capitães môres que hi inuernauão. E a nao de Lio- nel coutinho que hia com Triftão da cunha fe achou tão aberta que por não ler pera nauegar a deixou em Moçambique com recado a Anrrique nunez de lião que baldeafle no feu nauio a carrega que ela leuaua, & fe foffe pera Portugal: pera Õde fe Triftão da cunha partio a dezafete de Ianeiro: & de caminho defcobrio a ilha da Afcenfam, & chegou a Portugal. E def- pois de fua partida chegou a Moçãbique Iob queimado capitão da fua cõ- 1'erua, & adi ho nauio fanôto Antonio: & partirão em companhia Danrri- que nunez de lião pera Portugal a onze de Feuereyro: & do cabo das correntes, arribou Iob queymado a Moçambique, & pos a fua nao a monte & tornoufe a partir a noue de Março. E antes difto eftando Iorge de melo pereyra, Diogo de melo, & Martim coelho que hi inuernauão efperando, pera com os primeyros ponentes partirem pera çacotorá a viíitar Afonfo dalbuquerque, chegarão Fernão foarez, que partira de Por¬ tugal ho anno paffado, por capitão mór de Ruy da cunha, & de Gonçalo carneyro que também chegarão coele. E Felipe de crafto capitão mòr de Iorge de crafto feu hirmão. E chegados eftes capitães, porq era em março & efperauão cada dia por ponentes com que podião nauegar pera ho cabo de Goardafum, & pera a cofta Dadem, acordarão todos que feria bem que fizefTem húa cabeça que os regefle, & foflem fazer algum feruiço a el rey de Portugal pois auião dinuernar feys mefes em Moçambique: & que foflem tomar Adem, como Triftão da cunha tomara çacotorá. Porem forão muy difcordes na eleyção que Fernão foarez difle que fofle a cabeça feita por vozes. Iorge de melo pereyra que por fortes, Iorge de crafto q gouernaffe cada hú deles âs fomanas pera que não ficafle nenhú defcon- tente, & coifto fe não poderão concertar. E também jurarão os meftres & os pilotos que não fabião yr a Adem, & que não tinhão ancoras né amarras & os capitães fe forão coeles, & afli não fizerão nada. E por ventarem ponentes partiranfe Diogo de melo, & Martim coelho pera ho cabo de Goardafum a treze de Março, cinco dias andados da quarefma: & Iorge de melo não foy coeles por ho feu piloto eftar doente, & ficou cÕ os outros capitães.
  • Livro II, Capitolo LXXXV 40S CAPITOLO .LXXXV. De como ho capitão môr Afonfo dalbuquerq inuemou em çacotorâ: & pajfado ho inuerno fe tornou a Ormu\,, & de como tomou a cidade de Calayate. DIogo de Melo, & Martim coelho q hião caminho do cabo de Goar- dafú, chegarão a Mellde vefpera de nofia fenhora de Março, onde acharão Francifco de tauora capitão do rey grande q Afonfo dal- buquerque mandou bufcar mantimentos, & efperarão por ele ate quatro Dabril q partirão dali todos, leuando cõfigo Cide Mafamede, & Ioão fan- chez, & Ioã gomez ho jardo, q ainda elrey de Melinde não tinha man¬ dado ao prefte: & leuarannos pera os Afonfo dalbuquerque mandar: & indo feu caminho aos fete dias do dito mes, tomarã todos tres húa nao de mouros defronte de Magadaxô: a qual fe lhe entregou fem peleja: & roubada a queymarão, & partidos dali chegarão ao cabo de Goardafú aos dezoyto Dabril, onde acharão furto ho capitão môr Afonfo dalbuquer¬ que, q hia em tres mefes que ali eftaua: & em todo efte tempo fe não tomara mais q húa fò nao de mouros que hia das ilhas de Maldiua pera ho eftreito: & hia nela por capitão hú turco que fem peleja fe deu a Iorge da filueira, & a Nuno vaz de caftelo branco que era quadrilheiro môr das prefas. E nefta nao foy tomado hú mouro mercador q defpois mãdou ho capitão mòr a el rey de Portugal pera lhe dar rezão do Cayro, & de Meca, & do Preftejoão & lâ fe tornou Chriítão, & el rey foy feu padrinho: & chamoufe Miguel nunez, como ho feu tefoureyro q entã era. Chegados eftes tres capitães ao outro dia que era quarta feira de treuas forão vifitar ho capitão mór â fua nao: & ele lhes fez muy alegre recebi¬ mento: & affi foy ele muy ledo por fua vinda. E fabendo ele como tra- zião Cide Mafamede & feus companheiros pera yrem ao Prefte ordenou de os mandar, como mãdou a fefta feira dendoenças que forão vinte hum Dabril, dandolhes cartas que tinha del rey pera ho prefte: & alfi lhes deu mais dinheiro do q trazião pera fua defpefa & per Nuno vaz de caf¬ telo branco os mandou leuar a húa pouoação de mouros chamada Felix, que eftâ tres legoas do cabo de Goardafum: & mãdoulhes que diífeflem que erão mouros que ele trazia catiuos, & que lhe fugirão naqle efquife: & aífi ho fizerã: & eftes homés forã ter ao Prefte, & per eles foube a raynha Helena mãy do Prefte que então era, como os Portuguefes ãdauã na índia, & mandou Mateus por embaixador, como direy a diãte. Par¬ tidos eftes pera ho Prefte, ho capitão môr fe deteue aída dez dias no
  • Historia da índia 406 cabo pera ver fe pafiaua algúa nao: & vendo que não vinha por fer ja entrada dinuerno, fe partio pera çacotorâ aos dous dias de Mayo, onde chegou aos quatro. E por Frãcifco de tauora não trazer de Melinde tan¬ tos mantimentos como erão neceflarios, mandou recolher as mais tamaras que pode auer da ilha, fobre ho que ouue algúa defauença antre os da terra & os noífos. E com tudo fe pacificou. E pafiado ho inuerno que teue em çacotorâ deixando a fortaleza prouida ho melhor que pode, fe partio em dia de noífa fenhora Dagofto caminho do cabo de Roçalcate, cõ determinaçam de tornar fobre Ormuz, & de caminho vingarfe do Xe¬ que de Calayate da defcortefia que lhe fizera quando per hi paífou da outra vez. E de caminho deu em feco de quatro braços perto da ilha da Maceira: & fe ouuera toda a frota de perder: & aos vinte cinco Dagofto foy ter a Calayate. E porque fabia que a cidade era grande & tinha muyta gente, & ele muy pouca quis vfar de húa manha. E obra de duas legoas antes de Calayate mandou a Nuno vaz de caftelo branco que era capitão de húa fufta q fez em çacotorâ, que foffe diante: & fe da cidade vieífem a ele que pregútaífe pelo capitão mòr del rey de Portugal, fe eftaua em Ormuz ou õde era, & fe acabára a fortaleza & que gente eftaua nela. E preguntaffe tambe por el rey Dormuz como eftaua: & fe lhe pregútaffem que naos erão aquelas, que dilfeífe que erã de Portugal, & que detrás vinha húa groífa armada: & que pregútaífe fe paliarão por ali algús nauios de Portugal. E mãdou que foliem na fufta dõ Antonio, Iorge da filueira, & outros: porq fe foffe coufa que quifeffem tomar a fufta que ouueífe quem a defendeffe. E indo Nuno vaz caminho da cidade achou a meyo caminho húa almadia em que vinhão dous mouros honr- rados, que mãdaua ho xeque da cidade a faber q naos erão aquelas. E defpois de fe faluarem hús aos outros, diffe ho comitre da fufta que fabia falar a lingoa perfiana, que fe chegaffe, porque aquelas naos erão de Portuguefes que erão gente amiga. E os mouros por diflimularem abor¬ darão com a fulta & efteuerã â fala. E por lhe ho comitre dizer ho que lhe ho capitão mór differa crerão os mouros que as naos vinhão de Por¬ tugal, & não fabião do que acontecera em Ormuz ao capitão môr. E ro- gãdolhe ho comitre que foífem falar ao capitão mòr daqla frota pera lhe darem nouas Dormuz, forão cuidando que coiffo ho enganarião, & ho farião ir a Ormuz pera ho matarem com quantos hião coele. Ho capitão mòr que vio a detença que a almadia fez com a fufta, & como vinha pera a nao, fez capitão môr de Francifco de tauora, & ele meteofe na camara. E étrado ho catual cõ ho outro mouro foy bé recebido per Fran¬ cifco de tauora, que defpois de ho mouro affentado lhe preguntou pelo capitão môr, & fe acabara a fortaleza Dormuz: ele lhe diffe que não, &
  • Livro II, Capitolo LXXXV 407 que defpois de a ter começada deixara hi clco homes (& ifto dizia pelos arrenegados) & afli fazéda: & fe fora, não fabia fe pera â índia, fe pera onde. Ho capitão môr que tudo ouuia fayo da carnara, & ho mouro em ho vedo ficou quaíi morto, porque ho conhecia da outra vez que efteuera em Calayate: ho capitão mór ho fegurou q não ouueífe medo prometédo- lhe merce fe lhe difleífe fe eítaua por regedor é Calayate o que eftaua quando ele por ali paífara: porq ele vinha pera fe vingar da roindade que lhe fizera, fazédolhe ele tãto bé: & que lhe prometia que quãdo en- traífe á cidade que mãdaria que em fua cafa fe não boliífe, né nas de feus filhos fe as teuefle: ho mouro lhe diííe que ho mefmo regedor q eftaua em Calayate era ho por quê pregútaua: & difculpoufe do que lhe fora feyto, dizédo que não fora diífo fabedor. E pedindolhe que ouueífe mifericordia coele: ho capitão môr lhe diííe que poftoque teuera toda a culpa lhe perdoara: & q creffe ho que lhe dizia porq lhe daua fua fé de lhe comprir o q lhe prometia. E detendo os mouros afli como hia a vela, mandou embarcar a gente nos bateis, pera logo defébarcar em furgindo antes que fe ho gouernador fizeífe preftes pera fe defender: que quando foube como ho catual entrara na fufta, & fe fora aas naos, defcanfou pa- recendolhe q não auia necellidade de peleja. E fométe com os frecheyros da fua goarda fahio â praya, & meteofe em húa mezquita grande qftaua pegada com ho mar. E ifto feria a oras de meyo dia. Ho capitão mòr em as naos furgindo mandou logo remar pera a cidade: & então virã os mouros a gente armada, mas ouue tã pouco efpaço antre os vere, & eles chegarem a terra q não poderã mais mouros ir â praya que aqueles da goarda do gouernador, que fugio logo. E os da fua goarda quiferão de¬ fender a defembarcação aos noífos mas não poderão. E fizerãnos recolher a mezquita, onde os noífos derão em faindo: & a defpejarã por força matando algús dos immigos & ferindo outros: & dali quiferão cometer a cidade & ho capitão moor nã quis por fer perto da noyte, & a cidade fer grande, & ter as ruas muyto eftreytas, & temerfe que dos terrados das cafas lhe mataífem a gente aas pedradas. E poriífo mãdou recolher os feus na mezquita pera paífar ali a noyte, em que os mouros defefpe- rados de le poderé defender dos noífos defpejarão eíTa riqueza que tinhão, & ho mais deyxaranno: & fairanfe com fuas molheres & filhos pera húa ferra que hi eftaua perto.
  • Historia da índia 408 CAPITOLO .LXXXVI. De corno os mouros quiferão faltear os nojfos & de como forão defbaratados. AO outro dia fentindo ho capitão moor que tinhã os mouros a ci¬ dade defpejada mandou poer atalayas pelos muros, pera verê fe defcobriao algús mouros, porque fe temia de lhe poerem cilada pera tomarem os feus dentro na cidade q era grade, & tinha as ruas eftreytas. E vendo q não parecião nhús mouros, & que a cidade eftaua defpejada, mandou aos capitães que com a gente de fuas capitanias a roubafle, tendo fuas vigias nos muros com fobre roídas: & ele eftaua na ribeyra fazendo recolher aos nauios os mantimentos, que foy ho princi¬ pal roubo que os feus acharão na cidade: & como os mantimentos foffem muytos detinhãfe os noífos em os acarretar. E vendo ho capitão môr q a detença auia de fer per algús dias, repartio as vigias per quartos, de q erã capitães os mefmos capitães da frota, & algús fidalgos dela, q hião vigiar â cidade: & ho capitão môr ficaua cÕ a outra gête na mezquita. E auedo clco dias q duraua ho roubo, determinará os mouros q fugirã de tornar pera ver fe poderião fazer mal aos noífos: pera o que fe ajuntarião bem mil deles, & entrarão húa noyte poucos & poucos pela parte do fertão, onde os noífos não hião vigiar por fer lõje da mezquita: & aca¬ barão dentrar ate o quarto da lua, que era de dõ Antonio de noronha a quem fucedeo Martim coelho, a quê os mouros cometerão, ido dõ Anto¬ nio: de cuja capitania ficarão atras quatro homês, que acertando de ver os immigos, forão logo dar auifo a dom Antonio que mandando recado ao capitão môr, foy contra os immigos com quem eftauão ja pelejando Martim coelho, & Diogo de melo q acertou ali de chegar com algúa gente de fua capitania. E os immigos fe ajudauão muy bem de fuas frechas que erão muytas, & tinhã os noífos em aperto. Mas chegando dõ Antonio cobrarão os noífos coração, pofto que não ferião mais que ate fetêta ho¬ mês, & os immigos mil, os quaes fe chegarão fem nhú medo, ate os ferirê com as lanças, com que começarão de derribar muytos: de modo que os fizerão retirar pelas ruas, porem os noífos os feguião matando & ferindo neles q os fazião defatinar & fugir quanto mais podião. E hião tão cheos de medo, q topandofe Manuel de lacerda, com quê hião feis homens, com hú boÕ magote deles, derribarão quarenta ate a porta per que entrarão, & por ela tornarão a fugir muytos. E outros appreífados dos outros ca¬ pitães que lhe não deyxauão acertar a porta deytauanfe pelos muros
  • Livro II, Capitolo LXXXVII 409 fora: & aífi per hum cabo como pelo outro forão mortos muytos. E nifto chegou ho capitão mór, porque a coufa foy feyta em tão breue efpaço q não pode ele chegar mais cedo: & vendo o que os noífos tinhão feyto fez muyto gafalhado aos capitães, & aífi aos outros dando a todos muy¬ tos louuores, & beyjãdo os nas faces. E deyxando ali fuas vigias fe tornou â ribeyra, onde armou algús caualevros dos que vierão então de Portu¬ gal: porque os outros ja ho erão. E defpois difto efteue ainda ali tres dias, em que acabou de defpejar a cidade dos mantimentos, & a quey- mou: & aos trinta dias dagofto fe partio pera a agoada de Teuhi, que he quatro legoas de Calayate, que he a milhor agoa que fe pode achar. E ali eftâ húa pouoação de mouros que fe chama Teuhi, onde os morado¬ res de Calayate forã ainda ter coele, & teuerã algúas pelejas dous dias que ali efteue fazédo agoada: & os mouros como fe vião apertados dos noffos: acolhianfe a húa ferra que a hi eftaua, donde deitauão muytas galgas aos noífos: & não que lhe fizeífem coelas mal: & dos mouros forão mortos algús. Feyta aqui agoada partiofe ho capitã môr pera Or- muz, onde chegou a treze de Setembro. CAPITOLO .LXXXVII. De como ho capitão mór cercou a ilha Dormu\., & das nouas que foube da cidade, & do mais que fucedeo. ETemendose Cojeatar q elle ali tornaffe, fez acabar a torre que dei¬ xara começada, & acaboufe em dous fobrados, & terrada por cima & bem artilhada da artçlharia que lhe fundirão os arrenegados. E mãdou tapar de paredes muyto fortes todas as bocas das ruas que fahiã ao már: de maneira que daquela bãda ficaua a cidade cercada: & aífi tinha feytas eftancias dartelharia ao longo da ribeyra & tinha muyta gente darmas que mandara vir de fora, aífi que eftaua bem fortalecido. Efte dia que ho capitão môr chegou efteue furto defronte de Turúbaque pera ver fe podia tomar lingoa, pera faber o que paffaua na cidade, & mandou a iífo ho feu batel, mas nunca a poderão tomar. E vedo que não podia ao outro dia pos cerco a ilha, & Francifco de tauora foy pofto da banda de Queyxome, & Martim coelho da banda de Turumbaque, por¬ que não vieífem por aquelas partes mantimentos à cidade, defronte de quem ele foy furgir cõ Diogo de melo hum pouco de largo, por quãto lhe tirauão de terra com artelharia. E daqui mandaua nos bateis & efqui- fes com gente aos quartos que foífe tirar de noyte âs eftancias dos mou¬ ros: & aífi onde quer que viffem lume: & deftes quartos erão capitães 5a Tomo 1
  • 4io Historia da índia Iorge da filueyra, dom Ieronimo de lima, Manuel de lacerda, & Antonio de faa, os quaes fazião muyto dano aos immigos: & matauão em terra muytos. E andando aífi húa noyte Iorge da filueyra no efquife da capi- tayna topou húa almadia q hia pera a cidade com refrefco, & fov apos ela: & vendo os mouros que não podiã efcapar vararão é terra & fugi¬ rão, deyxando a almadia defemparada fem Iorge da filueyra poder tomar nhú: & então a mandou alar per hú cabo pera ho mar, & andando niílo chegarão algús mouros pera ver fe a podião deféder, & não poderão que a acharão ja no mar. E dhú dos arrenegados que vinha cõ os mouros que era genues foube Iorge da filueyra que viera húa nao Dormuz q era na índia: & efta diífe q erão lâ os capitães que fugirão: & que aquela nao trouuera feguro do viforey, em que dizia que em cafo que ali tor- naffe Afonfo dalbuquerque que lhe não obedecefle, nem ele teueffe quen- tender com as naos dos mouros, & que podeffem nauegar por onde qui- fefiem. E por iffo que ho capitão môr fe deuia de ir pera a índia: & também porque a cidade eftaua muyto forte, & tinha muyta gete. E Iorge da filueyra refpondeo q ho capitão môr não vinha com propofito de fe ir fenão de fazer tãta guerra á cidade ate q Cojeatar pediffe mifericordia: & que afora aqueles dous nauios que vinhã coele que vierão aquele anno de Portugal efperaua por mais, que ficauão atras. E coifto fe foy Iorge da filueyra a capitayna onde leuou a almadia que hia carregada de ro¬ mãs, & doutra fruyta, & contou ao capitão môr o que lhe diífera ho arre¬ negado: mas ele não creo que ho viforey mandafle tal feguro aos mouros, antes determinou de lhe fazer cruel guerra. E porque pera fua eftada ali tinha neceffidade dagoa mandou a Antonio de faa que foffe goardar os poços da ilha de Laraque, q he legoa & mea Dormuz pera dali fe pro- uer dagoa, porque lha os mouros não çujaffem & mandou coele vinte efpingardeyros & befteyros, & leuou ho Nuno vaz de caftelo branco na fua fufta, porque ele auia deitar no mar. E eítando aqui hum dia em amanhecendo parecerão ao mar muytas terradas que vinhão de terra firme carregadas de tamaras, & vinhão pera entrar per antre a ilha Dor¬ muz, & a de Laraque, & as leuarem â ilha de Queyxome, pera dali as paliarem a Ormuz; parecédolhe q não auia goardas q lho eftoruafie. E auedo Nuno vaz viíta delas determinou de lhe fair pera ver fe podia tomar algúa porq a fua fufta eftaua bé efquipada, & faindolhe as terra¬ das fe fizerão na volta do mar, onde as ele foy alcançar, & andou coelas as bõbardadas de pola manhaã ate ho meyo dia fem núca poder tomar nhúa: porq erã muyto veleyras & remeyras, & muyto boas de balrauento. E acertando quatro de fe apartar das outras, feguioas Nuno vaz, & duas delas fe virão em tamanho aperto que vararão é terra na ilha de Quey-
  • Livro 11, Capitolo LXXXVIII 411 xome, & eftando ele alando húa delas ao mar veo ter coele outra q ho não via por jazer em húa enfeada, & tanto q ho vio fezfe na volta do mar. Nunò vaz foy logo apos ela deyxando.algús homés na terrada que tinha tomada, & andou coela âs bõbardadas fem fe lhe querer dar, & eftaua pegado coela, & não queria amaynar & ele mefmo com hú berço lhe matou quatro remeyros, & então a eueitio & entrou nela cõ os feus pelejando com os mouros que fe defenderão hum pedaço. E ifto fazia hum mouro honrrado capitão deitas terradas, que vinha na terrada grande priuado del rey Dormuz & de Cojeatar, & eíte vendo que não tinha re- medio pera efcaparem fe defpio dos ricos vertidos que trazia por não fer conhecido & veftiofe como remeyro, & ecaruoiçoufe & porte a hum remo. E como ifto fez entregarãfe os mouros a q Nuno vaz preguntou fe vinha ali algum homem honrrado, & eles diflerão que não, que tudo erão ma- rinheyros que leuauão tamaras a Ormuz: os noflos que entrarão na ter¬ rada andando a reuoluédo forão dar com os atauioS do capitão que erão muyto ricos & derannos a Nuno vaz que preguntou aos mouros cujos erão, & por eles reíponderem coufa que a ele lhe pareceo mentira man¬ dou meter hum a tormento, & em lho querendo dar confeflòu a verdade, & moftrou ho capitão. E vindo em feu poder por quanto era ja fobre a noyte não curou mais das terradas, & foyfe õde deyxara a outra, & tomandoas ambas a toa fe foy a Laraque: & ao outro dia ao capitão môr, & lhe contou o que fizera, & ele folgou muyto com as tamaras que erão muytas & lhe abaftarão ate a índia, & os mouros q fe tomarão em húa deitas terradas que erão quareta repartios pelas naos, & tomou hú deles com os narizes cortados & com as orelhas, & mandou ho dey- tar de noyte defronte das cafas del rey com hum efcrito que dizia como tinha ho mouro feu priuado, & que foubefle certo que nunca ho mais auia de ver, & que fe não auia dhir dali ate lhe nã fazer tanta guerra que lhe forte neceífario pedir mifericordia. E com as nouas deite efcrito forão el rey & Cojeatar muyto anojados por amor da prifão do mouro feu priuado. CAPITOLO .LXXXVIII. De como ho capitão môr Afonfo dalbuquerque deu em hum lugar chamado Nabande & do que hi fe\. PRoseguindo afli ho capitã mòr a guerra contra a cidade foube que ela fe prouia dagoa de certos poços dhú lugar chamado Nabande na terra firme tres legoas Dormuz pelo eftreyto détro & determi- nãdo de ir çujar eftes poços mãdou efpiar ho lugar porq fabia q tinha
  • 412 Historia da índia cojeatar é guarda deles hú capitão com duzentos frecheyros. E mandou efpialo por dom Antonio de noronha & pelo piloto môr que fora com Nuno vaz na fua fufta, & vifta a difpofição do lugar & fua grandeza & defembarcadoyro que era boõ pera ho capitão mòr defembarcar, torna- rãlhe cÕ reporta, & ele fe fez logo preftes pera ir, & foy na fufta de Nuno vaz. E dom Antonio no feu batel: & Francifco de tauora no feu, & a gente que leuaua feria per toda cento & trinta homés ou pouco mais, & partio pera lâ a húa fefta feyra â noyte treze dias Doutubro. E ao fabado no quarto da lua chegou a Nabãde & por fe ho piloto môr emba¬ raçar com hús edifícios que eftauão acima do lugar onde fohia de fer a pouoação, foy lâ ter duas oras ante manhaã, & defpois de conhecer q não era ali Nabande correo a ribeyra de logo. E nefte tempo forão aui- fados da ida dos noffos aífi ho capitão da goarda dos poços como outros dous capitães do Xeque ifmael que erã ali vindos com quatrocétos fre¬ cheyros fegundo fe foube, & chegarão defpois de dom Antonio ter efpiado ho lugar, & fabendo eles como os noffos hião recolheranle a húa mez- quita grande que eftaua defronte do defembarcadoyro, & quaíi pegada coele, & ãtre a mezquita & ho defembarcadoyro fizerão húa vala darea pera os noffos cairé nela quando quifeífem entrar na mezquita. E pera os emparar da noffa artelharia fe lhes tirafle, & eles tirarem de detrás dela com fuas frechas. E entretanto ho capitão mòr hia ao longo da terra: & os dous bateis hião ao mar defuiados dele, & chegando ele de¬ fronte da mezquita mandou deytar húa fateyxa per popa, & chegar a proa a terra & ali mandou deytar outra & correr prancha a terra. E ja as frechas dos Imigos começauão de chouer, & feriranlhe tres remeyros, & vendo ele ifto mandou aos feus que os adargalfem cõ as adargas: & mandou tirar com dous berços que tinha de proa, porem não fez nhú nojo aos immigos por eftarem detrás da vala que digo & dos peytoris do tauoleyro da mezquita dõde tirauão tantas frechas que em pouco efpaço juncarão a praya coelas, & ferião os noffos, & ho capitão moor não quis alargar a fufta, antes vendo que os bateis não vinhão não quis mais agoardar por eles & faltou em terra cõ vintoyto homés que nã leuaua mais, & foy fe dereyto â mezquita rompendo por aquelas nuucs de fre¬ chas que os Imigos tirauão. E chegando â vala parou pera paífar de va¬ gar. E porque os immigos fe fentirão mal das fetadas & efpingardadas que lhe os noffos tirauão alargaranfe da vala, & hús fe fobirão ao tauo¬ leyro da mezquita outros correrã ao logo dela per hum cabo & pelo ou¬ tro. E logo os noffos paffarão a vala & feguirão apos eles & cometerão ho tauoleyro pelas efcadas que os immigos defendião muy rijo, mas toda- uia fobirão os noffos. E dos primeyros forão Antonio de faa, Louréço da
  • Livro II, Capitolo LXXXVIII ' 4i3 filua, Iames teyxeyra, Simão velho, Gonçalo queymado, & outros: & fizerão recolher os Tmigos â porta da mezquita em que entrara deles & outros ficarão de fora por os noffos não etrarem coeles. E nifto chegou ho capitão môr que também teue affaz de trabalho em húa efcada per onde fobio, & ali derão húa frechada a Nuno vaz perante ho barbote & ho capacete que lhe quebrarão dous dentes, & indo polo tauoleyro deu cõ certos mouros q ho cometerão muy rijo: & hú deles lhe deu per de¬ trás húa cutilada per cima do capacete que ho fez ajeolhar, & querendo ho mouro tornar fobrele acodiolhe Nuno vaz & leuantouho: & ho capi¬ tão môr matou ho mouro com a lança, & Nuno vaz ferio outro em húa perna: & afll os fizerão fugir. E foranfe ajuntar com Antonio de faa, & cÕ os outros que eftauão â porta da mezquita pelejando com os inimigos de que matarão quatro, & os outros meteranfe na mezquita & fecharão as portas. E vendo ho capitão môr que não tinha ali mais q fazer por não ter aparelhos pera qbrar as portas da mezquita fayofe do tauoleyro & meteofe pelo lugar a dar nos mouros que fe meterão nele, que pofto que ainda não era manhaã por fer ho tempo claro os vião os noffos muy be: & como eles fentirão ho capitão mór deitarão a fugir caminho dos poços, & hião coeles dous capitães a caualo. E nefte tempo chegarão os bateis & a géte defembarcaua 1'ern ho capitão mór ho faber, & não cuy- dando que tinha mais gente da com que defembarcara não deyxou de feguir os inimigos coeffes q ho acompanhauão: & nefte encalço matarão os noffos quinze mouros, mas a mayor parte deles forão frechados, q os immigos com quanto fugião fempre voltauão atras. E feguindo os afll ho capitão môr chegarão aos poços que jaze em hú vale pegados com ho lugar, & tem derredor húa cerca de valos, & nã tem mais que húa en¬ trada da parte do lugar: & dhús poços pera os outros tem caminhos como talhos de marinhas por amor da lama. E détro defte cerco eftauão muytos mouros que receberão ho capitão môr com grande oufadia, & fe começou húa afpera peleja dos noffos coeles. E nefte tempo mandou ho capitão mòr a Nuno vaz que foffe â fufta per algúas rocas de fogo, & ho pofeffe ao lugar por fer de cafas palhaças, & ele ho fez adi. E por fentir que eftauão algús mouros na mezquita em tornando com as rocas ele com hú Gafpar machado, & outros quatro homes com hú pao groffo que acha¬ rão derão vay & vem a porta & a abrirão quebrãdo ho fecho de dentro: oyto mouros que laa eftauão acodirã logo a defedela. E por mais q fize¬ rão Nuno vaz & os outros os entrarão, & matarão ás cutiladas: & hú deles fe foube defpois q era hú dos capitães do Xeque ifmael, & ho outro foy morto nos poços por hú Lopaluarez, & da mezquita foy Nuno vaz poer fogo ao lugar & começou darder em grãdes chamas. E ifto & alfi
  • 414 Historia da índia a mortldade que os noflos tinhão feito nos immigos que pelejauão nos poços com ho capitão môr os efpantou de maneira que não teuerão cora- çam pera fe mais deféder, & fugirão: & ho capitão mòr mandou acabar de poer fogo ao lugar & aífi à mezquita: derredor da qual foy achada húa cafila de tamaras, & de farinha, & darcos, que auia quatro dias que chegara pera fe meter em Ormuz. E efia mandou ho capitão môr leuar à fufta, & aos bateis, onde fe recolheo defpois de mandar çujar os poços, & dos feus nam morreo nenhú, & forão feridos algús. E recolhendofe aos bateis fayrão do lugar hú homem, & húa molher velhos, & pedirão mifericordia ao capitã mòr, & ele folgou coeles porque nam poderá tomar nenhú viuo no lugar: & deites foube dos capitães do Xeque ifmael, & da cafila: & leuou os cõfigo deixando todo ho lugar abrafado, & afli queymadas algúas terradas que eítauã no porto. E tornando muyto ledo pera âs naos como foy noyte mandou ho velho & a velha em húa alma- dia, pera q deífem nouas a el rey Dormuz & a Cojeatar do que fizer» em Nabande, com o que eles receberão muyto nojo. CAPITOLO .LXXXIX. De como matarão Diogo de melo, & de como ho capitão môr fe partio pera a índia. NEm ho capitão môr ficou fem ele porque neíte mefmo dia que ele ouue a vitoria em Nabande, Diogo de melo que eltaua no paífo q guardaua determinou de ir fazer algú falto onde Nuno vaz de caftelo brãco tomara as duas terradas com refrefco, & pera iífo faloufe com hús mouros q tinha catiuos, os quaes por fabere que onde Diogo de melo dizia vinhão íempre ter terradas bem apercebidas pera ho matarem & fe liurarem do catiueiro em que eltauão, aconfelharanlhe que foffe, & que faria grande prefa, & que os leuaífe configo pera que falando enga- naífem os outros mouros & cuydaífem que eles ho erão. Feyto efte cÕ- certo meteofé Diogo de Melo em húa terradinha pequena cõ tres ou qua¬ tro dos noífos, & dous daqueles mouros: & partio de noyte, & foy ter a hú poíto antre Queixome & a terra firme, õde vierão ter coele quatro terradas grandes da cõpanhia de quareta que vinhão darmada em focorro Dormuz, & erão de Iulfar: & os mouros que ele tinha difierão aos ou¬ tros como ele eftaua. E como os mouros erão muytos, & a defenfa que ele podia fazer era muy pouca matarãno, & não fe foube como: ainda que defpois difierão que a fua terradinha fora çoçobrada, & ele morrera afogado com os outros. E quando ho capitão môr ho foube ficou muyto
  • Livro II, Capitolo LXXXIX 41S trifte & deu a capitania do nauio a dom Antonio de noronha: & fabendo ele como aquela armada de Iulfar era vinda, & andaua por ali mandou que fofTem pelejar coela: dõ Antonio no feu nauio, & Marti coelho no feu com feus bateis: & affi ho de Frãcifco de tauora & Nuno vaz de caf- telo brãco na fua fufta. E eles partirão a vinte tres Doutubro em bufca da armada, q fabião q eftaua furta na ilha de Queixome, & chegarão muyto perto dela & não lhe poderão chegar. E em os immigos os vendo fe fizerã logo à vela, & vedo que os noífos lhe não podiã chegar tornarão a furgir. E parecendo aos noífos que os efperauão fizeranfe preftes pera ir a eles. & Iorge da filueira fe meteo na fufta com Nuno vaz, & dõ Ge- ronimo de lima fe meteo no batel do rey grãde, & Martim coelho no feu & chegarão acerca deles ja de noyte, & os immigos derão logo ao remo & fugirão: & os noífos forão a pos eles tanto ate q os perderão de vifta com a efcuridão da noyte, & também por ho vento & a agoa fer con- treles. E afli efcaparão os immigos & eles fe tornarão cõ muyto trabalho pera onde eftauão os nauios, & dali fe forão pera ho capitão mòr, & lhe derão conta do que paliara. E defpois difto fe tomou de noyte húa terra- dinha perto da cidade, em que hião certos frecheiros, de que ho capitão moor efcolheo quatro pera mãdar a el rey de Portugal por ferem Angu¬ lares homes de feu officio: & aos outros, & afíi aos remeyros mãdou cortar meas mãos, & os narizes, & as orelhas & os mandou deitar na praya. E vendo ele como não tinha gente pera fair em terra a pelejar com os immigos, & que por toda eftoutra guerra Cojeatar lhe nã auia de dar a fortaleza, & tãbé por a fua nao fazer muyta agoa, q quafi fe não podia valer cõ as bõbas, determinou de fe ir caminho da índia. Pera onde fe partio aos tres dias de Nouembro. & perdendo a ilha Dormuz de vifta vio Frãcifco de tauora húa terrada grande, & foy a el$ fem ele ho ver por fer no quarto da lua: & indo a pos ela pera dentro do eftreyto efcaf- feoulhe ho vento, & furgio, & ficou là fem a tomar: & ífto foy caufa de não ir com ho capitão mòr, que cuydãdo que ho leuaua diãte feguio feu caminho. E logo ao outro dia que erão quatro de Nouembro antes de chegar ao cabo de Macendo ouuerão vifta doutra terrada que hia ao longo da terra: ao longo da qual também hia Nuno vaz na fua fufta, & foy a ela, & tomouha fe peleja q logo fe lhe entregou, & achou que vinhà car¬ regada de pedrahume & dalcaçuz, & afli lhe acharão húa forna daljofar. E dali feguldo ho capitão mòr fua rota fe foy caminho da índia.
  • 4i6 Historia da índia CAPITOLO .XC. De como foy feyta a torre de Moçambique, & fe perdeo Vafco gome\ dabreu com outros capitães. PArtidos Diogo de melo & Martim coelho de Moçambique chegou hi Duarte de melo que Vafco gomez dabreu mandaua de çofala pera começar de fazer húa fortaleza em Moçãbique, em q auia de fer feytor & alcayde môr da jurdiçã de Vafco gomez, q defpois de ho ter mãdado, deixado por capitão a Ruy de brito, fe embarcou: hús dizem q pera ir a Moçãbique a fazer a fortaleza, outros pera ir às prefas ao cabo de Goardafum. E como quer que foy, adi ele, como dous capitães q hião coele fe perderã no mar: mas em que paragem, ne como ningué ho foube: fóméte que a Quíloa foy ter hú mafto que parecia ho do nauio de Vafco gomez, & efta noua foy ter a Moçãbique depois de partidos pera a índia os tres capitães móres q hi inuernarã: os quaes com lua gete acabarã de fazer a torre de Moçãbique ate ficar em dous fobrados. E meado Agofto fe partirão pera a índia, onde chegarão a Cochim, & acharão ho viforey, q foy muyto ledo com fua vinda: porque ele nã podia fayr de Cochim fem eles virem, & ate não faber fe paffauão a índia as naos q partirão aquele anno de Portugal, por amor da carrega que auião de leuar, a q ele auia de fer prefente. E entre tanto q aífi eítaua efpe- rãdo, & não podia ir pelejar com os rumes, peraque os mouros foubef- fem ho propoíito que tinha mãdou húa armada q andaffe efperando de Calicut ate Batecala & goardaífe aqla cofta: & por capitã mòr dela m㬠dou Pero barreto de magalhães, & os outros capitães erão Manuel telez barreto, Antonio do cãpo, Afonfo lopez da cofta, Felipe rodriguez, Aluaro paçanha, Pero cam, Luis preto, Payo de foufa, Diogo pirez, Simão mar- tinz. E primeyro q efta armada fayffe de CochI fayo outra de Calicut que el rey mãdou a Diu a fe ajuntar com Mirocem, a que cada dia hião muy- tos rumes, & outros do mar roxo: fegundo ho viforey teue por noua certa de Louréço de brito, a quem Timoja deu ho auifo. E efta noua pos ho viforey em grade cuydado porque não tinha armada pera pelejar com a dos rumes, efpecialmête de naos groffas de q ele tinha necellidade & não oufaua de tomar nenhúa daqlas dos capitães mòres por hiré carregadas: & porque era quafi na fim de Setêbro & nã vinha a armada de Portugal. E eftando coefte cuydado chegou húa nao de Portugal q deu nouas das outras.
  • Livro II, Capitolo XCI 4H CAPITOLO .XCI. De como partio Iorge daguiav de Portugal por capitão mòr pera ho cabo de Goardafum, & feperdeo: & das naos que aquele anno chegarão a índia. ESte anno de mil & quinhétos & oyto ouue el rey de Portugal por feu feruiço que ho vifo rey acabafle ho tempo da gouernança da índia, & que ficaffe em feu lugar Afonfo dalbuquerq como atras fica dito, que traria na índia húa pequena armada com ate quinhentos homes, que tantos lhe dezião que abaftariã pera goardar a cofta do ma- labar que não faifie dela nenhúa efpeciaria pera o mar roxo, & na va¬ gante de Afonfo dalbuquerque andaria outro capitão môr no cabo de Goardafum com húa armada poderofa, cuja jurdição fe eftenderia ate Cambaya, ifento em tudo do gouernador da índia. Porq tinha el rey por enformação que feria mais feruiço de Deos conquiftar ho eftreyto de Meca pera deftruyr a ley de Mafamede que a índia, & q afli ficaria ela goardada de não podere os mouros ir là por efpeciaria: & ho eftreyto conquiftado que era a fonte prlcipal dõde eles manauão. E pera capitão moor defta armada do cabo de Goardafum efcolheo a hú fidalgo de fua cafa chamado Iorge daguiar, que hia em húa nao chamada fam Ioão, em q auia de ir ate Moçambique, & dali fe auia a nao de ir à índia pera leuar ho viforey pera Portugal, & por fota capitão de Iorge daguiar hia outro fidalgo feu fobrinho chamado Duarte de lemos capitão de húa na- ueta chamada fãda cruz. Os outros capitães que auião de ficar com Iorge daguiar erão Triftão da filua que hia na nao Madanela que era de carga & auia de ir nela ate a índia pera lhe étregar ho gouernador as duas galés q là andauão, & afli outros nauios q el rey aífinaua pera os leuar a Iorge daguiar, & andar coele darmada. E afli Vafco da fil- ueira que hia em hú nauio chamado ho rofayro, & Diogo correa, & Pero correa feu hirmão: hia também por capitão Francifco pereyra peftana na nao Lionarda por capitão de Quiloa: & nefta nao auia de ficar Iorge daguiar. Hião mais por capitães em naos de carga Vafco carualho em fda Maria do caftelo, Aluaro barreto em fanda Marta, Ioão rodriguez pereyra em bota fogo, Ioão colaço na judia. E primeyro q efta armada partiffe defpachou el rey outra pera a índia de quatro naos, cuja capitania mór deu a Diogo lopez de fequeira feu almotacé môr pera ir defcobrir a cidade de Malaca onde tinha por enformação q vinha muyto crauo, & droga: & que de caminho defcobriffe a ilha de íam Lou- Toho 1 53
  • 418 Historia da índia renço pera ver fe auia hi prata & gígibre como differão aTriítã da cunha, & fe era cõueniete pera fe fazer ali húa fortaleza. E os capitães que hião coele erão Ieronimo teixeira, Gonçalo de foufa, & Ioã nunez: & partio de Lisboa neíte ãno de mil & quinhentos & oyto a cinco dias Dabril, & lorge daguiar partio a noue. E nauegando ele pelo vai das egoas indo toda a frota em coferua lhe deu húa tormenta muy braua com que algúas das naos fe efpalharão: & húa delas foy a de Frãcifco pereyra peítana que lhe quebrou ho mafto grande com a braueza do vento, & por ifio fe tornou a Lisboa: donde defpois partio a dezoyto de Mayo do dito anno, & foy inuernar âs ilhas primeiras trinta legoas a ré de Moçambique, & a capitayna arribou à ilha da madeira, por lhe arrebentar ho maltareo da gauia grande pera fe ir hi aparelhar, & forão coela Triftão da íilua & outras algúas naos. E aparelhado ho capitão môr partiofe dali quarta feyra de treuas: & ainda na cofia de Guiné fe apartarão dele algúas naos com toruoadas. E feguindo daqui fua derrota indo na volta do cabo de boa Efperança perto das ilhas de Trilião da cunha, fe achou com Aluaro barreto, & ao quarto da prima fe leuantou hú vento rijo com que a nao Daluaro barreto que era pequena não pode fofrer tantas velas como leuaua, & amaynou delas, & ficou a tras da capitaina que por fer grãde fofreo as velas, & nã amaynou. E indo por aqle rumo Aluaro barreto fe achou em amanhecendo cõ as ilhas de Triílão da cunha & não vio mais a capitayna: fegundo as velas que leuaua indo també por aquele rumo poderia ir dar cõ algúa das ilhas ao quarto da modorra, & como fazia efcuro não a veria, & qbraria nela, & aflTi foy fegundo defpois pareceo. E das outras naos não ha mais q cotar fe não da de Vafco carualho que pera dobrar ho cabo de boa Efperãça fe pos em quarenta & fete grãos, onde no mes de Iulho achou tanta neue que com pâs a não podiã deitar fora da.nao: & ho frio era tamanho em eílremo que dele lhe falecerão oyto peífoas, que morrerão eítando affentadas falando húas cõ as outras: & daqui foy ter a Moçambique, & dahi a índia, õde ate a entrada de Nouembro forão ter cinco naos de carga deita armada, & a derradeira foy Daluaro barreto, que paliando per Moçãbique achou hi Duarte de lemos cõ os outros capitães que auião de ficar darmada, & lhe contou como fe apartara do capitão môr, & lhe deu a rezão porque fe temia de fer perdido: & por iffo Duarte de lemos fe deixou ali ficar ate ver daquilo mais certo recado. E Aluaro barreto fe foy caminho da índia onde che¬ gou a vinte noue Doutubro do dito ãno, onde ja achou em Cochim os outros quatro capitães .f. Ioão colaço, Triílão da filua, Aluaro carualho, Ioão rodriguez pereyra: & daqla armada nã fe perdeo outra nao, fe não a capitayna.
  • Livro II, Capitolo XCII 4i9 CAPITOLO .XCII. De como ho uiforey foube que el rey ho mandaua hir pera Portugal, & de como fe partio pera Cananor. PEr algús deftes cinco capitães forã dadas cartas ao viforey del rey Dom Manuel de Portugal, em que lhe efcreuia que auia por feu feruiço q ele fe fofle pera Portugal, & lhe fucedeffe na gouernança Afonfo dalbuquerque: & ho mais que auia de fazer faberia pola nao fam Ioão. E a(Ii efcreueo a Lourenço de brito capita de Cananor, que entre- gafle a capitania a Afonfo dalbuquerque, pera a dar a dõ Afonfo de no- ronha. E per eílas cartas foube ho viforey q elrey ho mãdaua ir, & ho fouberã todos os que eftauão em Cochim. Os quaes, affi pelo amor que tinhão ao viforey, como pelo medo q tinhão Dafonfo dalbuquerque fegúdo os males que ouuião dizer dele aos capitães que lhe fugirão Dormuz, fe começarão daluoroçar, & reqrer ao viforey q fe não foífe pera Portugal, poíto q vieffe a nao em que ho el rey mãdaua ir: & ele refpondia que não podia al fazer fe nã comprir ao pê da letra o q lhe el rey feu fenhor mandaffe. E por efta caufa, & affi polo grande trabalho q os Portuguefes fofrião na índia, muytos lhe pedirão licéça pera fe hire pera Portugal nas naos que fe carregauão, principalmente os q tinhão acabado ho tépo de feus officios: antre os quaes foy do Aluaro de noronha capitão de Cochim, do q pefou muyto ao viforey por fer peffoa de fingular faber, & caualeyro muy esforçado em quê cõfiaua muyto. E na fua vagante deu a capitania de Cochim a Iorge barreto craíto, por ter hú aluara del rey, que a pri- meyra capitania q vagaffe no mar, ou na terra q lha deflem: da qual dada Manuel paçanha fe agrauou muyto. E mais porq ho viforey lhe diffe q pois tinha acabado ho tempo da capitania Dãjadiua, q lhe não podia dar mais tempo ho ordenado dela. E por ilfo lhe pedio Manuel paçanha licéça pera fe ir pera Portugal, poré defpois reconciliarão & não fe foy. E fabédo ho vifo rey como cada dia vinhã rumes a Diu, & a neceffidade que tinha dalgúa nao groífa, vendo quãtas aqle anno vierão de Portugal pareceolhe bé tomar algúa das del rey pera q ficaffe na índia: o q pos em confelho, & nele foy acordado que fe fizeífe. E fe aflentou q ficaffe a nao Belé, de que era capitão Iorge de melo pereyra: q folgou muyto de ficar vedo a neceffidade que auia diffo fem lhe lébrar o perigo de fua vida q eftaua tão certo. E carregãdofe as naos que auião de ir pera Portugal chegou Nuno vaz pereyra capitão da nao Sanéto fpirito, q era na ilha de Ceilão a bufcar as parias, que do Louréço dalmeida affentara cõ ho rey deita
  • Historia da Índia 420 ilha que pagafle a elrey de Portugal: & não trouue parias né fez là nhú refgate q não quis el rey por induziméto dalgús mouros de Calicut q hi eftauão. També nefte tempo que era a quatro dias de Nouembro, foy dado recado ao viforey per hú mouro mercador de Cochim, q el rey de Coulão lhe pedia amizade, & que pagaria trezentos bahares de pimenta pela fazéda que fe là perdera na noffa feytoria. E efta paz aceytou ho viforey cõ codição que lhe deííe el rey de Coulão dous rubis muy ricos que tinha pera os mãdar a el rey de Portugal: mas ifto não ouue effeyto. E defpachadas fete naos da carga partirãfe duas primeyro, de q hia por capitão mòr do Aluaro de noronha & clco defpois de q era capitã mòr Fernã foarez. E vendo ho viforey que tardaua a nao em q el rey ho man- daua ir determinou de não agoardar mais, & irfe, porquãto ja as outras naos que auião de ir pera Portugal eftauão quafi carregadas: & húa delas era a de Triftão da íilua, q vedo como não vinha a prouifam pera lhe daré as galés & nauios que auia de leuar ao cabo de Goardafum, diffe ao viforey que fe qria tornar na nao em q fora, & tornoufe. E antes do viforey partir pera Diu ouue cõfelho fe indo de caminho daria em Cali¬ cut: & aflentoufe q não por ho perigo fer grande & ho proueito nhú. E ifto aífentado partiofe de Cochim pera Cananor a vinte cinco de Nouem¬ bro, onde achou Fernão foarez q fe eftaua acabãdo de carregar, & aqui fe deteue ho viforey efperãdo polas outras naos, & pera acabar de pro- uer fua armada que auia de leuar a Diu. CAPITOLO .XCI1I. De como /\fÕfo dalbuquerque chegou a Cananor & mojlrou ao uiforey a prouifam q tinha pera gouernar a índia na fua uagante: & como ho uiforej a não quis comprir. PRoseguIdo Afofo dalbuquerque fua vi age pera Índia, aos vinte oyto dias de Nouembro foy auer vifta dela. & a primeyra terra que vio forão os ilheos de Batecalà, Õde dõ Antonio tomou húa nao de mouros q vinha das ilhas de Maldiua, & dali a leuou â toa ate Cananor, onde chegarão húa terça feira cinco dias de Dezébro. E em defcobrindo Cananor foy grãde aluoroço, afli na armada Dafonfo dalbuquerque, como na do viforey, cuydãdo hús dos outros que erão rumes. E logo ho vifo¬ rey fe fez à vela cõ fua armada, & fayo da ponta contra Afonfo dalbu¬ querque pelo que cuydaua. E ele cuydando ho mefmo fe começou de fazer preftes pera pelejar, com quanto não trazia mais de tres nauios. E ho viforey chegou a meo caminho de mote Deli, donde fe tornou conhe-
  • Livro II, Capitolo XCIII 42 r cendo que erão velas Portuguefas: & os Dafonfo dalbuquerque repoufa- rão da fofpeyta que leuauão. E ele como foube que ali vinha ho vifo rey mandou emrolar a bandeira que trazia na gauea, & faluouho com fua artelharia & trombetas: ho viforey lhe mãdou refpõder pela mefma ma- neyra, & ho mãdou logo vifitar & cõuidar pera a cea, o que Afonfo dal¬ buquerque fez como furgio: & foy recebido do viforey com muyto prazer, & defpois de cea fe tornou a dormir a fua nao. E ao outro dia indo a. terra ouuir miffa com ho viforey pera jantar coele foube dos capitães que aquele anno vierão de Portugal, & affi de Loureço de brito a carta que ^inha del rey pera entregar a fortaleza a dom Afonfo de noronha, ou a Afonío dalbuquerq fe ele não efteuefle na Índia. E affi em acabãdo de comer ficãdo fô com ho viforey ele lhe diffe como el rey ho mandaua ir aquele ano pera Portugal, & que lhe entregafle a gouernança: & iíto era em hú capitulo dhúa carta miífiua, porque na nao fam Ioão vinha a via em que vinha tudo o que fe auia de fazer, & a nao pera fe ir nela: & que fe a nao vieffe que ele fe hiria pois lho el rey mandaua. Ouuido ifto per Afonfo dalbuquerque determinou de moflrar a prouifam que tinha, & requerer ao viforey que lhe entregafle a gouernãça da índia, & fe fofle: & mandando á nao por a prouifam, pedio a Lourenço de brito, Fernão foarez, & a Ruy da cunha q foflem coele ao viforey pera perãte eles & Dãtonio de Sintra, que feruia de fecretario por Gafpar pereyra que ficaua em CochI lhe dizer húa coufa que compria a feruiço del rey: & eles forão â nao onde ho viforey eftaua a quê Afonfo dalbuquerque diffe q ele tinha dito que el rey feu fenhor ho mãdaua ir pera Portugal, & que ele ficaffe por capitão mór & gouernador da índia: ao que ho vifo refpondeo que era verdade que em hú capitulo dhúa carta geral lhe dizia que auia por bem que aquele anno fe fofle pera Portugal: & com tudo que aquilo não fazia ao cafo porque ele mãdaua a nao fam Ioão em que vinha a via do q fe auia de fazer, q fe vieffe veria o q .S. A. man¬ daua, & aífi ho faria. Deu entã Afonfo dalbuquerq a fua prouifam a An- tonio de fintra, & diffelhe que a abrifle por virtude do fobrefcripto q dezia q fe abrifle aqla prouifam quãdo Afofo dalbuquerq ho requereffe: & ifto era affinado cÕ ho final del rey de Portugal, & a prouifam vinha çarrada & affelada. Abrio Antonio de fintra a prouifam que era pelo teor da do viforey, & com ho mefrrio ordenado q erão feyfcétos mil rs cadano, & que empregaffe dous mil cruzados defpeciaria cadãno carregados ao meyo: & q quãdo fofle pera Portugal podeffe carregar defpeciaria a ca- mara do cirne de q pagaria em Portugal quarta & vintena. Lida a pro¬ uifam per Antonio de fintra, ho vifo rey diffe o q ja tinha dito. E vêdoo Ant. de fintra agaftado diffe, q ainda q aqla prouifã vieífe çarrada, &
  • 422 Historia da índia foffe vifta, q fe calaffe, & q ele a tornaria a çarrar como vinha. Ao q Afofo dalbuquerq refpodeo q fe ele aquilo coftumara & coftumaua q não queria que ho coftumaffe naquela prouifam, porq os poderes & prouifões de S. A. quãdo fe abriã não fe auião de tornar a cerrar fem ho ele man¬ dar. Refpodeo então ho viforey q ele eftaua de caminho cÕ ajuda de deos pera ir pelejar cõ a armada do foldão q eftaua é Diu, ou onde quer q a achaffe: a qual efperaua é deos de defbaratar, & vingar a morte de feu filho, onde efperaua de fazer muyto feruiço a deos & a el rey: & q ainda corria ho tepo de fua gouernãça ate todo janeyro qra ho tempo q as naos da carrega tinhão pera poderé ir a Portugal, & q ainda eftauã na entrada de Dezébro. Afonlo dalbuquerq lhe diífe q quanto ao que dezia que que¬ ria efperar pela nao fam Ioão pera fazer o q el rey mandafTe, que iflò era efcufa pera o nã fazer, pois ho não fazia mandandolho el rey duas vezes, húa na fua prouifam, outra na carta q dezia que lhe efcreuera, a qual chamaua géral, que fendo del rey não mõiaua mais fer geral que efpecial pera fe auer de fazer o q nela mãdaífe, quanto mais que a vinda da nao eftaua muy incerta de fer aqle ãno porquanto nã tinha vindo ate li, fendo todas as outras naos vindas auia tanto. E que fe qria coprir ho mãdado del rey, tinha ali & em Cochí cinco naos de carga, & Belé que viera ho outro anno q era de cccc. toneis, é que podia ir bé agafalhado, & leuaria as outras debaxo de fua capitania, & q ele iria pelejar cõ a armada do foldã, & vingaria a morte de feu filho. E cõ tudo ho vifo rey refpodeo q não auia de ir fem vir a nao fam Ioã pera faber inteiraméte ho q el rey mãdaua q fizefle. Afonfo dalbuquerq difle que ja tinha dito o q auia de dizer, & recolheo fua prouifã, dizédo a Antonio de fintra q fizefle aflento do q requerera ao vifo rey, & afli foy feyto, & nã quis gaftar mais pratica fobre aquilo que vio q era por demais: poré ofreceofe ao vifo rey pera ir coele naquela viagé: & ele não quis, dizédo que vinha cãfado, que feria bé defcãfar ali em Cananor, onde ficaria na fortaleza, porq Louréço de brito folgaria de ir coele, ou é Cochí. Afonfo dalbuquer- que difle que como não foffe cõ fua fenoria que antes queria ficar em Cochim.
  • Livro II, Capitolo XCJ1I1 4^3 CAPITOLO .XCIIII. Como fe Afoiifo dalbuquerque partio pera Cochim, & pera Portugal os capitães das tiaos de carga. ASsentado ifto difle ho vifo rey q foffem coele Marti coelho, e dó Antonio nos feus nauios, & afli Francifco de tauora na fua nao q chegou dous dias defpois Dafonfo dalbuquerque, & trouue húa carta de dom Afofo de noronha ao viforey em q lhe fcreuia como ficaua muyto doéte, & cõ grande neceflidade de mantimentos, pedindolhe que ho focorrefie coeles. E logo ho viforey quifera mandar hú nauio cõ man¬ timentos a locorerlhe, mas diflelhe Afonfo dalbuquerque que não man- daífe: porq ate todo laneyro erão tamanhas çarrações de neuoa 1'obre a ilha q a não poderiã topar: & q ate entã fe poderia fofter a gête da for¬ taleza cõ ho mantimento q lhe deixara, que era milho & tamaras. E pra- ticãdo fe fobrefta fortaleza quão fem proueito era, & quão mao confelho fora poerfe ali gête confelhauão Lourenço de brito & Fernão loarez ao viforey q a mãdaífe derribar: ele diffe que ainda q lhe adi parecia q ho nã auia de fazer pois lhe elrey não mandaua que ho fizefle. E vendo ele como Afonfo dalbuquerq auia de ficar em CochI, & parecédolhe q ho requerimento q lhe fizera de lhentregar a gouernança era cõ neceflidade de dinheiro, ou quiça por ho afagar lhe mandou dizer por Antonio de íintra, q do ordenado & quintaladas q ele viforey auia dauer aqle ãno, lhe aprazia darlhe ho q lhe el rey ordenaua pera quãdo teuefle ho cargo de gouernador da índia: o q Afonfo dalbuquerq lhe mandou ter muyto em merce & o viforey, o qual fcreueo ao fevtor de CochI que lho deífe: & afli á Iorge barreto q fe Afõfo dalbuquerq quifefle poufar na for¬ taleza, q ho agafalhafle. E antes q Afonfo dalbuquerq partilfe pera CochI: mãdou ao viforey duas perlas muito ricas que lhe Cojeatar dera em def- cõto dalgúa parte das pareas que auia de dar. E ho viforey preguntou a Gafpar o q fora judeu que valião, & ele difle que muytas vira, mas não taes, ne de tanto preço: & que lho não fabia poer porq valião o q lhe pofeflem. E ho viforey tornou a mandar as perlas a Afonfo dalbuquerq, dizendo que as mãdafle a el rey fe lhe bé parecefle: & ele as étregou a Fernão foarez & afli os quatro frecheiros q tomou fobre Ormuz como a tras diffe, os quaes lhe deu veftidos de cabayas de borcadilho carmefim, & feus carapuções de cetim carmefim, & fuas fotas finas & adagas ricas, cõ baynhas de prata anilada & dourada: & afli erão as baynhas das limas das frechas, & as citas: & lhe deu mais hú fio de cõtas daljofar groflb
  • 424 Historia da índia pera a raynha. E ifto étregue partiofe pera Cochim leuando Nuno vaz na fufta: & fazia ho cirne tanta agoa que lhe entrauã peixes pelas coftu- ras, & feys bobas lha não podião quafi vencer a agoa, & leuaua por popa a nao que do Antonio tomou aos ilheos de Batecalà, pera fe partir em Cochim a carga q leuaua. E atraues de Panané o alargou cõ hú terrenho q lhe deu: & chegado a CochI não quis poufar na fortaleza, por não poufar cõ Iorge barreto, por algúa defauença q auia antreles, pofto q lhe acõfelharão q fe apoufétaffe nela, porqfteuefle de poffe quando ho vifo rey vieífe, poré não quis & agafalhoufe em húas cafas de Antonio real. E logo mãdou fazer outras pera poufar cõ os feus: & mãdou as cercar a redor dhúa eftacada forte. E como Gafpar pereyra foube a prouifam q trazia, porq queria mal ao vifo rey fe ajútou coele, dizédolhe q íeria de fua parte, & lhe ajudaria a reqrer ao vifo rey q lhe defle a gouernãça. Mas afonfo dalbuquerque diífe q não tinha neceflidade dajuda. & defpois de partido Afofo dalbuquerq pera Cochim, fe partirão os capitães que hião pera Portugal, & perderanfe Fernã foarez & Ruy da cunha q núca mais parecerão, & os outros chegarão a Portugal no ãno de noue & todas paífarão fe não Triítão da filua que inuernou em Moçambique. CAPITOLO .XCV. De como lio uijorey partio pera Diu em bufca dos rumes: & de como chegou á cidade de Dabul. P Atidas as naos pera Portugal, partiofe ho viforey pera Diu em húa fegunda feira que forã doze dias de Dezébro de mil & quinhétos & oyto, leuou dezoyto velas .f. cinco naos groffas de q erão capi¬ tães Ioão da noua, eífa era a capitayna, Iorge de melo pereyra, Nuno vaz pereyra, Francifco de tauora, Pero barreto de magalhães. E quatro nauios de gauea, de que erão capitães Garcia de foufa, Manuel telez bar¬ reto, dom Antonio de noronha, & Martim coelho. E quatro carauelas redondas, de que erão capitães Antonio do campo, ho comedador Ruy foarez, Felipe rodriguez, & Pero cã. E duas carauelas latinas, capitães Aluaro paçanha, & Luis preto. E duas galês, capitães Payo de foufa, & Diogo pirez. E hú bargatim de q era capitão Simão martinz. E em todas eftas velas irião mil & duzétos homés, pouco mais ou menos. Partido ho viforey de Cananor, foyfe dereyto a Batecalà e furgio na barra por amor de Timoja que lhe mãdou pedir que ho fauorecefTe contra el rey de Ba- tecalâ q lhe fazia guerra: & defpois fe concertarão, & por iífo ho viforey não teue que fazer: & dali fe foy a Honor onde fe Timoja vio coele, &
  • Livro II, Capitolo XCV 425 lhe leuou grandes prefentes de refrefco. E nefte rio forão queymados certos paraos de Calicut per Payo de foufa & Simao martinz, que ho fizerão per mandado do vifo rey, & matara obra de dozétos mouros q goardauão os paraos. E daqui foy ho vifo rey a Anjadiua a fazer agoada; & porq ele prefumia q poderia achar a frota dos rumes no caminho, teue aqui cõfelho do modo que teria em lhes dar batalha. E alfétou que ou os achaíTe no caminho, ou em Diu, q ele foífe ho primeiro que abal- roaífe cÕ a capitayna, & que é fua cõpanhia iria ho comédador Ruy foa- rez, q fora criado de feu irmão dõ Diogo dalmeyda prior do crato. E q fe a peleja foffe em Diu da barra pera dentro, que foífe diante dele fon- dando Diogo pirez na fua galé, por amor do baixo. E coefta determina¬ ção partio Danjadiua, & indo na volta de Dabul onde auia de dar pera começar de moftrar aos mouros a vingança que auia de tomar pela morte de feu filho, parecendo mal aos capitães fer ele ho primeiro que come- teffe os immigos porque ho poderião matar, por fempre naqueles pri- meyros impetos fer ho mayor perigo das batalhas, & que morrédo ele pofto que os immigos foffem vencidos ficauão os noffos defhonrrados: & mais perdiafe ho eítado da índia, fe ajuntarão todos os capitães & forão a capitayna, & Antonio do campo por fer ho mais velho propos ao vifo- rey em nome de todos o que querião, dando as rezoes q digo, & outras muytas pera que não foífe na dianteira. E ele com as lagrimas nos olhos do cÕtétaméto de ver ho amor q lhe tinhã, & da lébrãça da morte de feu filho lhes diífe, que bé fabia ho grãde amor q lhe tinhã, & q deos fabia ho cÕtétaméto q teria morrédo às mãos dos q matarão feu filho: porque efperaua de vingar primeiro muy bé fua morte: & pois lhe eles punhão diante ho eftado del rey de Portugal, que por iífo deixaria a dianteira que lhe tinhão dado, & a daua a Nuno vaz pereira: & que depos ele foífe Iorge de melo pereira: a quem feguiria Pero barreto de magalhães, & defpois os outros. E indo alfi caminho de Dabul, fahio Payo de foufa é hú lugar de mouros a fazer carnajem fem licença do viforey, & no lugar acertou deftar hú capitão com muyta gente que fayo de fupito a Payo de foufa, que foy morto na peleja & fua gente defbaratada. E per morte de Payo de foufa deu ho viforey a capitania da fua galè a Diogo pirez: & a de Diogo pirez a hú Diogo médez que vinha prouido dela de Portugal pera andar darmada com Iorge daguiar. E daqui foy ho viforey aportar a cidade de Dabul a trinta de Dezébro, que he no reyno de Da- quem, & eílà é dezoyto graos da bãda do norte, fituada ao pê de húa ferra em terra de pedra ao longo de hú fermofo rio q fe ali vay meter no mar de largura de tiro de bombarda. Té efta cidade de comprimento tanto efpaço como da porta da cruz de Lisboa, ate os fornos da cal de *4 Tono I
  • Historia da índia 426 boa vifta: & de largura como da porta da ribeyra à porta de fanóto An- tão: da bãda do rio eftaua toda cercada de húa tranqueyra de madeira muyto larga de duas faces, & entulhada darea com portaes per que fe feruia muyto be artilhada, & cercada de caua. Na entrada da barra tinha hú baluarte muyto forte com artelharia: & na largura do rio ate homeo dele da bãda do norte eítá húa baixa darea, que de baixa mar fica em feco, & por ido os q entrão fe encoftão a bãda do fui: & a fora a forta¬ leza da cidade tinha aqui ho Hidalcão fenor do Balagate cuja era, hum capitão mouro muyto valente caualeyro cÕ quinhétos turcos de peleja, & da gente da terra teria feys mil homés, & os mais deites frecheiros: & no porto eítauão quatro naos grãdes delrey de Cambaya em q tambe auia muyta géte de peleja. He efta cidade muyto viçofa de pomares & hortas, em q a aflaz de chorros de muyto gentil agoa, que decem da ferra. E na cidade ha muytos nobres edifícios de calas de pedra & cal & de mezquitas: he pouoada de muytos mercadores & por ifío he de grãde trato, & he muyto abaítada de mantimentos, que lhe vem dacar- reto, que os não ha na terra por fer ferrania. Ho capitão como foube q ho viforey vinha confiado na fortaleza da cidade & na muyta gente q tinha, mãdou trazer parela a fua prlcipal molher que eftaua fora, & afíi ho feu tefouro. E mandou apregoar q fopena de morte, & perdimento da fazenda ningue fofle oufado de fe fayr da cidade. CAPITOLO .XCVI. De como ho uiforey peleiou cÕ ho capitão de Dabul 6 0 deJbar atou & qfinou a cidade. SUrto ho viforey na barra de Dabul, mãdou fõdar ho porto da cidade aqla noyte, & fabida fua difpofição, determinou de dar nela ao ou¬ tro dia como a marê começaífe dencher. E antes de a cometer eftãdo jútos os capitães da frota & afti fidalgos & peflòas principaes dela lhes difle. He cõpanheyros muyto neceflario q não fóméte faybão os ru¬ mes, q ledo nos tão poucos & eles tãtos os temos e tã pouco q os himos bufcar: mas que nos temos por tão valetes que pofto que himos pelejar coeles não eftimamos eftoutros: & por ifío queria eu com ajuda de noflò fenhor & vofla, q tomaflemos efta cidade, em que a fora ganhardes feruir a Deos & a el rey, & alcançar honrra & fazenda, ganhais efpantar eftes ímigos que himos bufcar, que certo ficarão muy efpantados, fabédo que fabeis vos que eftando eles tão poderofos & foberbos com a morte de meu filho & dos outros, quereis indo os cometer moftrar primeyro voflas
  • Livro II, Capitolo XCVI 4*1 forças em outras emprefas: pelo qual vos rogo muyto que finta agora os cães defta cidade em vós tamanho esforço, que efioutros que principal¬ mente himos buícar percão o que té pera nos empecer: & crede q daqui fe ha de começar noffa vitoria. E defpois de nos a noffa artelharia fazer o caminho pera fayrmos, eu por húa parte & Pero barreto pela outra leuaremos a dianteyra, & moítraremos aos mouros o que ha em nos: & efpero em nofio fenhor que não oufem de nos agardar. Ifto aflentado cada hú dos capitães fe tornou a feu nauio, tedo os todos enbãdeirados & apadeffados & os bateis fora. E como a viração começou fe fizerão todos â vela & entrarão no rio, as galés diante: & a pos elas as caraue- las latinas, & defpois os nauios redondos & as naos, & os nolfos hião todos armados & preftes pera em furgindo defembarcarem logo. E ho viforey tinha mandado que ninguém pojafle em terra ate ele não defem- barcar com a bandeira real, & cmparelhãdo as galês com ho baluarte & com a trãqueyra deixalfe vir dambos húa grande corifcada de pelouros de bombardas que logo começarã de jugar, & tudo fe começou de cobrir de fumo: & as galés ardiã em fogo dos muytos tiros que tirauão & ajun- tandofe coelas as carauelas & as naos q não tardarão muyto, fazião tre¬ mer a terra & ho mar com ho grande eftrondo da artelharia. E em quãto ela jugaua ho viforey defembarcou defrõte da mayor força da artelharia que lhe não fez nenhú nojo, porem fezlhe algú a gente das quatro naos de Cambaya com muytas frechas que tirauão: & cõ tudo os noffos leua- rão ho baluarte nas mãos: ho capitão da cidade fayo a receber ho viforey fora da tranqueyra com toda fua gente, de que a mais erão frecheyros: & coeles por defprezo dos noffos vinhão hús fete mouros (que parecião honrrados) em andores com feus fombreiros de pè. Ho viforey quando os vio olhou pera algús dos noffos, dizendo que aquilo era pronostico da vitoria que nofio fenhor lhes auia de dar, & por aqueles mouros terem certo que auião de fer vencidos vinhão afli de feita. E com muy grande impeto ele por húa parte & Pero barreto pela outra derão Santiago com fua gente nos immigos: & os primeyros que morrerão forão os dos an¬ dores, & cõ fua morte os outros começarão de fugir por aquela parte: & com fua fugida defordenarão os que pelejauão com Pero barreto: & ficando no campo algús mortos & feridos, os outros fugirão pera a ci¬ dade: & ho viforey com todos os noffos entrarã coeles, & os feguirã ate as cafas do capitão, o q fe foube q foy dos primeyros q fugio da batalha, & fe acolheo à ferra, & a molher que hia a pos ele em hú andor foy tomada dos noffos junto das cafas, & logo foy morta pela gente miuda, que não perdoaua a nenhúa idade alfi polas cafas como pelas ruas. E algús auia que tomauão os meninos dos colos das mãys pelas pernas, &
  • 428 Historia da índia dauã coelcs nas paredes, & aíB os matauã: fínalmente que nenhúa coufa viua devxauão com vida. Dõde antre os indios naceo aquela maldição que dizem a ira dos frãgues venha fobre ti. E defta ira he a primeira coufa que os mercadores rogã a deos que os liure. Durou efta reuolta ate foi pofto, & forã mortos muytos mouros, pofto que pelejarão valétemente, & dos noífos nã faleceo nenhú: & por fer tarde nã quis ho vifo rey paffar da cidade, & recolheofe a húa mezquita com fua gente, & ali fe fez forte, & armou muytos caualeiros por hõrra daquele feyto. E por feu mãdado os capitães como foy manhaã fizerão eftãcias nas bocas das ruas pera fe defenderem fe os mouros tornaífem: & feytas foltou cada hú vinte homés por cada rua pera as roubaré: & tudo quanto tomauão leuauã â praya, pera fe meter é húa nao, & fer defpois repartido. E alfi roubarão as qua¬ tro naos de Cambaya em que forão tomados algús mouros q ho vifo rey mandou goardar: & as naos forão queymadas. E dizem que defpoys que ho vifo rey vio roubada grã parte da cidade, & q auia muyto mais por roubar, temédo q toda a gete fe não defmandaffe a roubar, & vieffem os mouros, & os achaffem embaraçados cõ ho roubo, & fe vingaífem, como l'e ás vezes acontece, mandou fe creta mete poer fogo â cidade, com que foy qymado tudo o que eítaua por roubar. E ho vifo rey por defimular, mof- trou pefarlhe do fogo: & pos diligencia em faber quê ho pofera. E dize que a tazenda q fe qymou valeria hú conto douro, a fora todas as cafas que arderão: & forão queymados muytos mouros que jaziã nelas efcõdi- dos, & alfi molheres & meninos & outros sayão meos queymados q forão mortos pelos noífos: & també ardco húa eftrebaria do capitão em que eftauão feífenta caualos felados, & outros muytos que arderã em outras cafas: & defpoys que a cidade acabou de arder, tornarão os noífos a re- bufcar a cidade, & ainda em couas & em poços acharão muyta riqueza q os mouros tinhão hi metida antes da peleja: & tambe foy recolhida a artelharia da trãqueira, & do baluarte. E defpois foy ho vilorey á ferra a pelejar com os mouros que fe lá acolherã, & pos os feus é fieyras adar¬ gados & detrás de cada fieira certos bêfteiros os quaes indo alfi fizerão grande dãno nos Imigos, por mais pedradas & lãçadas que tirauão de cima, & fizerãnos fugir, & faquearanlhe as cafas q la tinhão & queyma- ranlhas. E por algús catiuos que fe aqui tomarão dizeré ao viforey que dali a cinco legoas pelo rio acima eftaua hú lugar grande & rico, foy là nas gales, & no bargantim: & não achando tal lugar fe tornou: & da volta queimou muytas aldeas que eftauão ao longo do rio, & forã mortas muytas vacas que fe trouuerão às naos. E aqui lhe foy dada húa carta de Meli- quiaz em q lhe pedia amizade, & outra dos noífos q eftauão catiuos em Diu, em q efcreuião ho bÕ trato q lhe dauão, & a determinaçã de Mirocé.
  • Livro II, Capitolo XCVII 429 CAPITOLO .XCVII. , De como ho ui/o rey fe\ tributário del rey de Portugal a Ni\a maluco feitor de Chaul, e o q mais fe\ ate chegar a Diu. ACabadas todas eftas coufas cõ tanta hõrra, ho vifo rey fe partio de Dabul a cinco dias de Ianeyro, de M. & D. & noue, & porque determinaua de apertar cõ Nizamaluco fnor de Chaul que pagaíie parias a el rey de Portugal: porque fe não deteueffe lhe mãdou dizer diante por Pero barreto de magalhaés q lhas teuefie prefles .f. trinta mil cruzados a dez mil por anno. E não podendo Nizamaluco auer tanto di¬ nheiro, & efcufandofe que ficaria a terra de todo deítruida. Affentou com ho viforey quando chegou que fe contentafie com dous mil cruzados por ãno, porq ainda ifto não podia bé fuprir a pobreza dos mercadores, de que auia de tirar aquele dinheiro, pera o que pedio prazo de feys dias, & a fora os dous mil cruzados de parias cadãno: ele íeruiria a el rey de Por¬ tugal como leal valfalo, & cada vez q hi foífem fuas armadas lhes daria mantimentos, & fe obrigaria a fazerlhe cõprar das mercadorias de Por¬ tugal dez mil cruzados cadano: & que não tinha rezão de lhe fazer mal por ter feguro de feu filho dom Lourenço. E ho viforey fe contentou das parias cõ as cõdições que ho Nizamaluco dizia: & quãto ao feguro de feu filho que lho moftraffe & q ele lho goardaria. E por Nizamaluco pe¬ dir efpaço pera mãdar por ele onde ho tinha, & fe fazer tarde ao viforey pera fua viagem, não quis efperar & lhe mandou dizer que lhe teueífe tudo preítes pera quando tornaffe de Diu. Do q Nizamaluco ficou efpan- tado ter tamanha confiança q auia de tornar indo pelejar com homens q eftauão tão poderofos como os rumes: & ifto foou pela terra. E partindo daqui ho viforey foy ter ao rio de Mãy, hú domingo vinte hú de Ianeyro: & efte rio he na colta de Cãbaya: & logo hú pouco a diante pela entrada eftauão duas pouoaçÕes, húa da banda do norte, outra do lul, & efta era mayor que a outra, & tinha húa fermofa muralha. Ho vifo rey porq eftes lugares erao del rey de Cambaya com que defejaua de fazer amizade não lhe quis fazer guerra & mandou lã da boca do rio a Diogo pirez q por feu dinheiro pedilfe naqles lugares lenha, agoa & arroz, ou a troco de mercadorias, & Diogo pirez achou defpejada a pouoação da banda do norte, que ho medo da nofla armada & ho que fizera em Dabul a fez defpejar, & foyfe a banda do fui que també eftaua defpejada: mas ainda hi achou ho capitão a que deu ho recado do viforey: & ele fe efcufou dizendo que não tinha arroz: porem que mãdaria fora por algú. E pare-
  • 43o Historia da índia cendo ao viforey que aquilo era malicia, defembarcou no lugar, ode nã achou gente nem mantimentos, fe não algúas vacas que mandou matar: & vio a cerca do lugar que era larga, & tinha portas muy fortes laura- das de cataria: & dela auia no lugar muytos edifícios, principalmente húa muyto grande & fermosa mezquita com adro ao derredor como as noíTas igrejas, em q aueria cem mil cabeceiras. E andado os noffos a pos as vacas por palmares que hi auia acharão muytas cafas, & mezquitas cõ muytas cabeceiras, & letreyros nelas muy bem feytos. E preguntando ho viforey a caufa diffo a algús mouros catiuos dilferã lhe, que naquele lugar auia fcripturas antiquiflimas que ho capitã tinha em grande eftima, em que dizia, q Hercules ho grande viera ter a aqla terra, onde ouuera duas grandes batalhas campaes com ho rey dela: & que dos que mor¬ rerão dambalas partes q forã muytos, ficarão aqlas cabeceiras q vião, q de geração em geração forão fempre goardadas cõ muyto acatameto. Eu vi eltas cabeceiras indo cõ Nuno da cunha a primeyra vez q foy a Diu, & quafi que dizião ifto algús homens daquela terra. E eftando ho viforey pera fe partir, fe lhe mandou defculpar ho capitão del rey de Cambaya de quam defcortefmente ho fizera coele: & que fe achaua muy corrido de ho nã poder feruir com arroz porque não tinha mais que hú pouco que lhe mandaua com quatro carneyros, & algúas laranjas. O que ho viforey lhe mãdou muyto agardecer: porque era grãde amigo del rey de Cambaya: & mãdou veftir ho mouro que lhe trouue ho preféte, & deulhe pera ho capitão doze couados de graã, & cinco de cetim amarelo, & hú barrete vermelho: & mais lhe mandou húa carta pera el rey de Cam¬ baya. E feyto ifto fe partio pera Diu. CAPITOLO .XCVIII De como indo ho uiforey defefperado de aferrar Diu, foy ter ao feu porto: & de como Meliquia\ confelhou a Mirocem que nã fayffe da barra de Diu a peleiar com ho uiforey: & do mais que fe fe\ ejle dia. EPor fer enformado q dali pera Diu era boa nauegação ir ao longo da terra mandou ir toda a frota ao logo dela, indo fempre os pilo¬ tos fondando porque não deffem em feco: porem furdia a frota muy pouco, ou nada por ventarem ja os noroeftes q erão por dauante. O que vedo os pilotos diíTerão ao viforey que daquela man#yra não pode- rião chegar a Diu, que pera poderem ir era neceffario empegaréfe & aífi ho fizerão: & com os ventos que erão rijos & as correntes rijas en- golfaranfe no mar muyto mais do que quiferão. E fazédo volta á terra
  • Livro II, Capitolo XCVIII 431 pera fabere quanto eftauão dela não ho podião faber: & a rezão era por¬ que a cofta fe corre de norte a fui, & ho mar ficaua leite hoefte cõ a terra, & porque dhú ao outro fe não pode tomar altura por a não auer não a podião eles tomar, & como a não tomauão não podião faber onde eftauão: & pelo muyto que fe tinhão enpegado lhes parecia que tinhão efcorrido Diu, & q era impolfiuel aferralo daqla volta, & affi ho differã ao viforey: do que ele ficou affaz agaftado, & chamou a confelho. Em que ouuidas as rezões que os pilotos dauão pera daquela volta não pode¬ rem aferrar Diu, & pera ho terem efcorrido: & por fer ja na boca do inuerno S que a frota fe fe deteueífe muyto em tornar á índia corria rifco de lhe dar húa toruoada & perderfe. E mais porque fendo cafo que os rumes foífem em bufca do viforey com a fama do que ele fizera em Da- bul não auião doufar de ho efperar no mar, & fe meterião em algús eftei- ros õde a noffa frota não podeffe ctrar coeles, & por iffo não lhe auia daproueitar achalos: afíi que per todas citas rezões era bem tornarfe. E efpalhandofe eíta noua pela nao hú piloto mouro que hia nela catiuo, daqueles q forão catiuos em Dabul, ouuindo q ho viforey fe queria tor¬ nar por fe os feus pilotos não atreueré a ir a Diu, lhe mandou dizer que fe ho aforraffe que ele ho leuaria: o que I10 vifo rey lhe prometeo, & alem diffo de lhe fazer merce. E ho mouro mandou gouernar a fueíte que era ho rumo q feruia pera a nauegação de Diu, de que ho mouro diffe que não eítaua longe. E affi foy que aos dous dias de Feuereyro, que era dia da purificaçã de noffa fenora pola menhaã, bradou ho gajeiro da gauia da nao do viforey, dizendo que via húa cidade e terra, & naos ao mar dela: & ho mouro diffe q era Diu. Cõ a qual noua fe leuantou grande grita de prazer per toda a frota, & ho viforey mãdou logo dizer a falua: & forão dados muytos louuores a noffo fenhor pola merce que lhe fizera, que todos hião muyto triftes por fe tornaré fem pelejar com os rumes. E nifto pareceo claramente Diu, & as naos que eftauão ao mar: & quanto mais fe chegauão a ela, tãto mais fe enxergaua dela a noffa frota, que logo foy conhecida: porque cada dia eíperauão por ela, que bé fabia Mirocem que vinha ho viforey, & o q fizera em Dabul. E dizia ele mil rebolarias contra ho viforey, tachãdo os de Dabul de fracos & couardos: & ifto de muyto confiado no poder que tinha no mar q erão paffante de cé velas .f. a fua armada era de tres naos & tres galeões & feys galés, em q auia xx. peças dartelharia groffa a fora a meuda, & quatro naos muito grãdes de mouros de Cãbaya. E húa delas era de Me- liquiaz mais forte que húa fortaleza & toda çarrada por cima que fe não podia entrar fenão pelas portinholas, & a fora ter muyta artelharia efta¬ uão nela cccc. homés brãcos q todos forã capitães de Miliquiaz. As ou-
  • 432 Historia da índia tras velas erã as fuas fuítas, & paraos de Calicut que per todos chegauão a cento, & nenhúa não decia de tres quatro bombardas, & muytas delas groffas. Os rumes erão oytocentos & todos muy bem armados de fayas de malha fina, & laudeis de laminas de ferro & de cornos de bufaros, & outra muyta gente branca do mar roxo, & abexins: & defta era a mayor parte das fuítas de Meliquiaz, que na índia he gente de preço, & q fe eftima muyto pera a guerra. Pois os malabares também era géte de feyto: & afli húa, como outra era íe conto, não fòmente no mar mas em terra. E por iffo Mirocem como vio a frota do viforey lhe quifera logo fayr ao encontro. E Miliquiaz como era muy fefudo, & nã lhe faltaua nada pera fer mais esforçado q ele, lhe fez húa fala, dandolhe confelho per ante os feus capitães, & ho del rey de Calicut, & outros mouros principaes, dizendo, Se pelas moítras que fazemos fe julga o q temos na vontade, pelas que eu fiz em te ajudar contra os frangues, deues de crer que me não falece defejo pera os deltruir & defarreygar da índia, & pera te aju¬ dar a fazelo: por iffo deues de crer que o que te agora acõfelhar mais he por defejar a honrra & proueito dãbos de dous, que por querer pou¬ par os frãgues, com os quaes he meu parecer que fe não deue de pelejar, eu não digo tu foo com tua frota mas todos juntos, porque fe como pru- déte te queres aproueytar da experiencia (que he a q nos enfina) jà a tens da valétia dos frãgues quando em Chaul te tinhão defbaratado, & fe eu não focorrera te deftruyrão de todo, & vifte que defpois ho feu capi¬ tão môr pelejou foomente cõ fua nao com toda a noffa frota, & os que eftauã nela que erã tão poucos como fabes nos deitarão fora dela quatro vezes, & pelejarão com tanto esforço que quafi todos morrerã defenden- dofe: & os q tomey foy mais por falta de forças que de coraçam, & efta he a verdade. Pois fe tu iffo vifte, como qres agora pelejar cõ húa frota tão auantejada como efta vem daqueloutra, com hú capitão moor tão efprementado nos feytos das armas, & tã magoado da morte dhú foo filho que tinha, & tanto pera fentir: & que quãtos ho acompanhão vem também magoados. E pofto que não tanto defpois déuoltos na peleja ho feruor dela lhe acenderá a yra, lembrandolhe a deferença de noffa ley & da fua: & que nos fomos os que matamos a feus naturaes. O que por ventura defpois que foy a deftruyçam da nao em Chaul trazem tanto na imaginação que mouidos dela vem determinados de vencer ou morrer: & fe não vê o q fizerão em Dabul, pelo qual meu confelho he que fe não deue de pelejar coeles fenão eftarmonos quedos, & fe eles quiferem en¬ trar comnofco defendermonos. Mirocem diffe que feu confelho era muy bõ: poré que ho não auia de tomar, pofto que foubeffe perder a vida, porque ho foldão feu fenor ho efcolhera pera aquele feyto, & deixara de
  • Livro II, Capitolo XCIX 433 mandar outros muytos capitães: & não oufaria daparecer diante dele fe não fizeffe mais do que tinha feyto: & que auia de fayr a pelejar com ho viforey que o ajudaífe ele. Meliquiaz diíTe que ajudaria cõ fua frota, mas que fua peífoa não auia dentrar na batalha, por amor da amizade que mandara pedir ao viforey. E ifto adernado mãdou Mirocé às fuas ga¬ lés, & aos paraos de Calicut, & âs atalayas que fayíTem pera fora do baluarte do mar, & aífi ho fizerã: & por lhe acalmar ho terrenho com q fayão furgirão ao longo da terra, junto das quatro naos de Cambaya que eftauão auante do baixo pera fora, & aqui efperarão ho viforey. CAPITOLO .XCIX. De como ho uijorey & Mirocem capitão mòr do foldão fe aperceberão pera fe darem batalha ao outro dia. QUe també furgio com acalmar ho terrenho pera efperar pela vira¬ ção: & nefte efpaço fe afirma mais q ele chamou a cõfelho pera ordenar como auia de fer a peleja cõ os turcos: & vindos lhes dilie. Louuado feja noffo fenhor pera fempre que me deyxou ver efte dia, que podeis crer meus copanheiros que defpois da deftruiçã da nao em que fe acabou a vida de meu filho, nunca por ml foy outra coufa mays delejada: & pois efte defejo ouue efeito, efpero em deos noffo fenor que por fua mifericordia, & pelos merecimétos de fua gloriofa madre, em cujo dia me quis mostrar efta cidade, nos dé vitoria contra eftes cães Imigos de fua fanéta fê: por cujo exalçamento primeiraméte arrifeamos noffas vidas, & defpoys pola honrra & eftado de noffo rey, & pera vlgarmos a morte de meu filho, o qual vos peço que vos não efqueça q de húa vez com oyto nauios defbaratou a Mirocem com toda fua frota, em que auia tanta gente como fabeys: & outra com fua nao fomente fez tamanha def- truyçã na frota dos rumes como tendes fabido: & afli na de Meliquiaz, & q mais fe perdeo pelo que mereci a Deos, que por valentia dos im- migos: os quaes pofto que então foífem menos afli paliamos nos agora do dobro dos que meu filho tinha. E também ha muyta deferença de co¬ meter a fer cometido: & mais cometermos aos queftauão pera nos yr cometer, que fô ifto abaftara pera lhes quebrar os fpiritos com a vitoria q trazemos de Dabul. E pois ha tãtas caufas pera efperarmos a deftes, rezão temos pera confiarmos em noffo fenhor que nola dara. E crede que em vencer eftes vencemos toda a india, porque toda ela tem fua efpe- rança neftes, & eu efpero de fer ho primeiro que va aferrar a fuá capi- taina. Ao q todos refpõderã que não vinha ali nenhú que não defejaífe
  • Historia da índia 434 muyto de ho tirar daquele trabalho, nem partira de Cochim com outro defejo fe nã dabalrroar cõ os rumes, & q affi fe fizefle tãto q viefle a vi¬ ração & não perdeflem mais tépo. E ali fe aflentou os que ho auiã logo de feguir: & tomado efte alfento cada hú fe tornou a feu nauio a efperar pela viração q veo muy tarde, & muyto fraca. E por os nofTos nã ficarem fora da barra, em começando a viração de bafejar, mandou ho vifo rey desferir ho traquete, & ho mefmo fizerã os outros capitães: & affi foy ate fe poer hú tiro de bobarda grofla das naos dos rumes, & ali furgio por auer vifta do bayxo, & vazar a agoa tanto que em vendo ho bayxo acabaua ho piloto de tomar doze braças, & tornando logo a fondar achou feys, & como furgio, os nauios de remo dos Tmigos q fayrão pera fora fe leuantarão, & forã a remo furgir a tiro de falcão da noffa frota, & pofe- rãfe coela âs bõbardadas. E em começando de tirar fizerã outro tanto dos muros da cidade, & do baluarte do mar: & neftes dous lugares auia quarenta peças dartelharia grofTa, a fora a meuda: & pelos muros da cidade fe moftrou muyta gente, & pela praya. E nefte jogo de bombar- dadas efteuerã ate a noyte, & entã fe recolherão os nauios de remo dos Imigos pera détro do baixo. E nefta noyte fe afirma que pedirão os ca¬ pitães ao viforey que não fofle ho dianteyro, mas que ficafTe na trafeyra, dandolhe pera iffo as rezões que dilTe. E então deu a dianteira a Nuno vaz pereira, dizendo que lha daua porque ho tinha por amigo, & porque a fua nao era velha, & pofto que fe perdeífe, que fe perdia nela pouco, & pera que fe lhe acontecefTe algú perigo lhe acodir foffe coele Diogo pirez, & a pos Nuno vaz irião os outros, como ja he dito, & dous é dous abalrroarião as naos dos rumes pera os defpacharem mais afinha. E a galé de Diogo médez & ho bargantim, & ho carauelão de Aluaro paça- nha auião dandar per antre a frota pera acodir onde fofle neceflario & que ho viforey ficaria na trafeyra pera pelejar com a frota de Calicut, & cõ as atalayas. E ho viforey mandou q fopena do cafo mayor ningué fe fizefle à vela ate a fua nao não tirar húa bombardada, & que ho não liuraria da pena pofto que fayfle com a vitoria. Aflentada efta ordem que auião de ter logo fe paliarão da nao do viforey pera a de Nuno vaz pe- reyra, hú filho de Manuel paçanha a que não foube ho nome, & Antonio de foufa de Santarém, loão gonçaluez de caftelo brãco, & Ioão gomez cheira dinheiro & outros. E pera a de Iorge de melo Fernã perez dan- drade: & feu hirmão Symão dandrade pera a de Francifco de tauora, que era feu cunhado. E nefta noyte repartio Nuno vaz as capitanias da fua nao, a proa deu a hú fidalgo chamado Ruy pereyra: & teria doze homens .f. Ioão gomez cheira dinheiro, Anriq machado, Antonio de foufa de Santaré, Ioã gõçaluez de caftelo brãco de Colbra, Frãcifco da madu-
  • Livro 11, Capitolo C 435 reira, Francifco lamprea, Symão velho de Soure, dos outros não foube os nomes. A capitania do conuès deu a hú Ruy de nabaes: & a ele ficou a popa. E afli como fe os noflos aperceberão fe fizerão os immigos pref- tes. E Mirocé mudou ho propofito que tinha de fayr fora a pelejar cõ ho vifo rey, & pareceolhe melhor efperalo do baxo pera dentro, porque ali ho poderia ajudar a artelharia da cidade, & a gente que eítaua em terra, & ele fe pos na dianteira com fuas naos encadeadas de duas em duas, & a fua no meyo, & detrás as galês & atalayas & paraos, a que mandou q lhe acodiífem defpois deitar aferrado com os noflos: & as naos de Cã- baya, & a de Meliquiaz deyxou de fora do baxo como eítauão ao longo da terra. CAPITOLO .C. De como ho Vifo rey peleiou no porto de Diu com Mirocem capitão mòr do foldão, & com a armada del rey de Calicut, S cõ a de Meliquia\: & os defbaratou a todos. AO outro dia que era dia de fam Bras, em começando a viraçã que noflo fenor quis que começalíe âs noue horas do dia pera os noflos terem mais tepo de fazer ho deftroço que fizerão nos Imigos, man¬ dou ho viío rey fazer ho final da bõbardada, pera fe todos leuarem, o que logo foy feyto. E nuno vaz pereyra desferio com grande grita dos feus, que ferião per todos duzentos homés, ou pouco menos, os mais deles fidalgos & gente limpa. E aíli desfirirão os outros capitães pela ordé que eítaua aflentada, faluo Iorge de melo pereira que por culpa do feu meítre fe não pode leuar, & foy porque eítando a nao a duas ancoras mandou Iorge de melo leuar húa delas pera eítar mais a pique: mas por ainda decer a marê muyto rija caçaua a nao, de maneira que foy necef- fario tornar a lãçar outra ancora: a qual por ho meítre eítar mal coele, & defejar de fe vingar quis q foífe de forma, q era muyto mais pefada q nenhúa das outras: porq cõ a detéça q fizefle em fe defamarrar nã po- defle fer ho fegúdo no abalrroar cõ os immigos, como não foy: porque como os outros não eítauão mais q fobre húa ancora leuaranfe logo: pelo qual Iorge de melo nã pode aferrar com os rumes. Meliquiaz como vio desferir a nofla frota mãdou que jugafle a artelharia da cidade, & a do baluarte do mar: & jútamente defparou coela a da frota dos immigos, & era a fumaça tamanha que tudo eítaua coberto dhú groflo neuoeiro. E como détro foauã os eítouros das bombardadas, & apareceflem as laba¬ redas do fogo fazia a coufa tão efpantofa que mais parecia de diabos que de homés: & fobre tudo ho chouer dos pelouros, que quafi cayão tão
  • 436 Historia da índia meudos como quando choue pedras, e algús erão de maneyra, que hú que acertou de dar na nao de Nuno vaz matou dez homés juntos que hião caçando húa ezcota no conués, & hú deles foy Ruy de nabays. E cõtudo Nuno vaz não deixou de paflar auante indo fempre a galé de Diogo pirez pegada coele, cujo comitre hia Iodando. Nifto abriranfe as naos de Miro- cem, como que efperauão que a nao de Nuno vaz pafTaíTe por antrelas. E ele por ainda ficar húa atraueflada diãte da nao de Mirocem mandou a Ioão delacamara feu condeftabre que lhe tirafle cõ hú tiro groflo, & ele lhe tirou & deulhe por baixo da amúra ao lume dagoa & paffoulhe am¬ bos os cofiados. E cuydando os rumes que não era mais que hú poferanfe da outra bãda pera lhe darem pendor, o que ajudou a irfe a nao mais afinha ao (údo, & os mais dos que hião nela fe afogarão, ao que os noflos derão húa grande grita. E efta nao dizem que era a fota capitayna de Mirocem: & indo Nuno vaz muyto perto de Mirocem furgio, porq lhe fez Diogo pirez final que furgifle que auia pouca agoa. Mirocem receandofe q ho meteffem no fundo como a outra nao, vendo furgir Nuno vaz alar¬ gou a amarra, & dando ho traqte o foy aferrar, & ele que tãbé eflaua preftes pera fazer ho mefmo aferrouho per hú bordo, & as naos ficarã húa ao longo da outra, & logo Ruy pereyra, & os que hião de proa fal¬ tarão na proa de Mirocem, & cometerão os Imigos com tamanho impeto qu'e por mais que fe quiferão defender os leuarão ate ho conuês onde ja andauão outros noífos enuoltos com outros inimigos que ho defendiã per cima, & per baxo, porque a nao era cuberta de rede, & debaxo dela efta- uão tambe os Imigos que matarã logo Anrrique machado. E afíi fe come¬ çou a peleja muy braua: porque eles fe defendiã cõ muyto esforço: prin- cipalméte os Abexins q andauã cõ os rumes. E mais porq nefte tépo hú capitão dhú galeão da conferua de Mirocem, alandofe pela amarra, foy aferrar Nuno vaz pelo outro bordo de modo que ho tomarão no meo, & como erã muytos dauã que fazer aos noflos, que moftrauão be aos Imi¬ gos q erã pera os terem em mais eflima do q os eles tinhão dantes: & pelejauão com tãta fúria, que era coufá de pafmo, efpecialmente Nuno vaz que andaua na nao de Miroce, de que muytos com medo dos noflos fe lançauã ao mar: & tedo ha quafi rédida começou Nuno vaz dafrõtar de canfado de pelejar, & por trazer hú gorjal de baixo do barbote. E eftãdo abaixando ho barbote pera tirar ho gorjal vem húa frecha defman- dada & trancalhe ho pefcoço pela guela, & como a ferida era mortal cayo logo delatinado, & foy recolhido na fua nao por algús dos feus por¬ que os outros ho nã viflem, & ficou em feu lugar outro que tinha no¬ meado por capitão, a que nã foube ho nome. Nifto chegou Frãcifco de tauora: & cõ os feus fe arremedou dentro na nao de Mirocem cõ tama-
  • Livro II, Capitolo C 431 nho impeto que a rede fe foy coeles abaxo, onde derão cõ os immigos q là eftauão, & fe renouou a peleja q cada vez era mais afpera, não fométe nefta nao, mas em todalas outras. Porque ja Pero barreto eftaua aferrado cÕ outra nao de Mirocem. E Iorge de melo eftaua pelejando com as naos de Cambaya, que nao pode aferrar fe nã coelas por amor do feu meftre. E Pero Cão fe ajuntou também cõ hú galeão dos rumes, & fem ho afer¬ rar faltou fobela rede cõ os feus q não erão mais de vinte dous, & os Imigos eftauão debaixo da rede: & como a corrente era grande & ho ga¬ leão não eftaua aferrado, foyfe a carauela de Pero cão pela agoa abaixo, & Pero cão & os feus ficarão no galeã dos rumes , cõ que começará de pelejar, & eles os tratauã muyto mal por eftarem debaixo da rede, & os noffos lhe não poderé chegar. E affi aferrará os outros capitães como poderão: faluo ho viforey que ficava detrás & não palfou abaixo, donde meteo no fundo húa nao dos rumes. E ali teue ele que fazer mais q todos, & ficou no mayor perigo: porque como ho capitão de Calicut vio os noífos aferrados fayo dondeftaua, & as galés dos rumes, & as fuftas de Meliquiaz & começarão todos de defcarregar fua artelharia na noífa frota, & a Ui infinidade de frechas: & fizerão grãde dano fe não fora a nao do viforey: que ardia em fogo, porq tinha tres andaynas dartelharia. E dize que lançou de íi aquele dia mil & nouecétos pelouros: & nã feria menos fegúdo a diligecia que ho vifo rey punha: o qual trazia húas coi- raças de veludo carmefim, & fralda de malha & capacete & adarga: & ãdaua tã fragueiro & ligeiro, q parecia q em todas as partes da nao era fepre prefente. E ele foy o q fofteue ho mòr pefo da batalha, & ho mayor perigo dos tiros da terra & do mar. E a peleja fe ateaua cadauez mais aífi cõ ferro como cõ fogo & ho mar ãdaua tinto de fãgue de mui¬ tos dos Imigos que fe lãçauã a ele feridos por fugiré dos nofos: & ou¬ tros ficauã mortos nos nauios. E cõtudo núca mlgoauã porque meliquiaz os ceuaua fempre de terra, onde andaua ao longo da praya com hú ter¬ çado nu na mão, & como alguém vinha fugindo da peleja que ho ele via matauao logo. E eftando a batalha nefte conllito, Pero cão que eftaua no galeão que dilfe com os feus fe vio tão mal tratado dos Imigos q lhos matauão per baixo da rede, que determinou dentrar coeles pela janelada do galeão, porq não podia por outra parte, & deixando os feus pelejando foy pera ho fazer. E metendo a cabeça foy vifto pe'r hú rume que lha cortou. E pore forão os noífos focorridos & todos os Imigos forão mortos & ho galeão ficou em poder dos noífos. E nifto foy rõdida a nao de Mi- rocé cõ a môr parte da fua gente morta & a outra fe lãçou ao mar, & ele também muyto ferido. E os do galeão que tinha aferrada a nao de Nuno vaz a defaferrarão, & fugirão, & por algús dos noífos capitães ho
  • 438 Historia da índia feguiré le laçarão ao mar, & deixarão ho galeão defemparado, & como tinha dado ho traquete alfi ib com a viração & cõ a corréte fe foy pera détro, & hi efteue fem ninguém oulhar por ele, tamanho era ho deftroço nos Imigos, que como Mirocem fugio fe começarã logo de defbaratar: & os paraos de Calicut forã os primeiros q fugirã, & nã pararã ate calicut: & hião dizédo q ho viforey fora defbaratado. As atalaias de Meliquiaz tãbc fe recolherão pera détro, & afli as galés dos rumes: & é as duas primeiras fugido vioas o comédador Ruy foarez & mandou feguir a pos elas, & entrou per antrelas porque hião juntas: & ficãdolhe dãbos os bor¬ dos mandou deitar em cada húa delas húa ancora, & afli as teue: & fal- tãdo os noífos détro as axorarão dos Imigos, que fe lançarão logo ao mar, & ho comédador tomou as galés & as leuou ao vifo rey, que vio bem quãdo ele lançou as ancoras nelas: & pregútando qué era aquele capitão, & fendo lhe dito que era ho comendador, difle que feria, porque fora criado de feu hirmão ho prior do Crato, q fazia taes homés como aquele. E fugindo afli os Imigos algús dos noífos fe lãçaram aos bateys pera os mataré, & matarão muytos. E ho vifo rey mandou aferrar a nao de Me¬ liquiaz, de q muytos dos noífos forão aquele dia feridos: & como ela era toda çarrada por cima & forrada de coiros crús, & não a podiã entrar fe não pelas portinholas que difle, q auia de fer em pés & em mãos, nã a podiam os noflos entrar: & algús que ho quiferam fazer da maneira que digo forão feridos de frechas, q todos os mouros que eftauã dentro erão frecheiros. O que védo ho vifo rey mandou que lhe tiraflem ás bõ- bardadas, & foranlhe dadas muytas porque tinha os coitados tã groflos & taes arrobadas por détro, q quaíi a não podiã paífar os pelouros. E per derradeiro a carauela de Garcia de foufa lhe deu húa bõbardada ao lume dagoa, cujo buraco os mouros nã poderão tapar, & entam le lança¬ rão muytos ao mar, & outros fe deixarão ficar dentro, & hi forã mortos & a nao fe foy ao fundo: porem era tam alta que ficou algúa parte dela fobela agoa. E metida efta nao no fúdo ja noite, forã os Imigos acabados de defbaratar, que tinhão tã grãde poder como difle: & forã defbarata- dos do meyo dia ate noite. E nefte efpaço cõ ajuda de nolfo fenhor os noflos fizerã coufas tã marauilhofas em armas que fe não podem cotar, né ho trabalho que paffarã porq não ouue nhúa vela nofla em q fe nã achaflem pelouros de bõbardas: & nhúa não foy arrobada. E em muytas delas fe acharão pafiante de cinco mil frechas. E não forão mortos dos noflos mais de trinta & dous, antre os quaes foy Nuno vaz pereira, q faleceo dahi a tres dias. E dos Imigos fe foube defpois q forão mortos paflante de quatro mil: & dos Mamelucos nam elcaparão mais q vinte dous. E meteramlhe duas naos no fundo. E tomarãlhe tres & duas galês:
  • Livro II, Capitolo Cl 4*9 St duas naos de Cabaia. E metera no fundo a nao de Meliquiaz, & muy- tas das fuas fuftas, & algús dos paraôs de calicut. E neftas naos St na- uios que forã tomados foy achado defpois muy groffo & rico defpojo, aífi de moeda douro como de prata, & muytos borcados & fedas, & outras coufas ricas, & muyta roupa dalgodão: & muy tas armas & artelharia: St tres bandeiras do foldão cõ a fua diuifa, que era hú caliz com húa oítia metida nele St aleuãtada. A qual diuifa dizia que trazia por amor da cafa fan&a de Hierufalem, que tinha em feu poder. CAPITOLO .Cl. Como Meliquia\ pedio pa\ ao uifovey & ele lha concedeo. DEsbaratados os immigos, St não auendo no mar coufa com q le pelejafTe, correo ho vilo rey todos os nauios pera faber os q forão mortos, que forão os que ja difle, St fazer curar os feridos: St mãdou leuar Nuno vaz pereira a fua nao, q morreo dahi a tres dias. E porque da cidade lhe dauã muyta oppreíTam cõ a artelharia, St por fe temer de lhe laçarem balfas de fogo cõ que lhe queimaífem a frota, lhe pareceo bem fairfe pera fora, o que fez aquela noyte cõ muyto trabalho de fua pefloa St dos outros. E em faindo com a vazãte St terrenho, fayo també ho galeã dos rumes, que ainda eftaua fem ningue, St defamarrado. E cuydando ho viforey que erão rumes mãdou contreles algús capitães, que ho tomarão St lho trouucrão. E andando nefte trabalho, Meliquiaz fez logo defpejar a cidade da géte que não era pera pelejar: porque vendo ele a deftruyção da frota dos rumes, St da fua: St os malabares fugidos, teue pera fi que ho vifo rey auia de dar na cidade. E achoufe muy foo fem os rumes St fem Mirocem, que com medo q Meliquiaz ho entregaffe ao vifo rey, fugio logo pera el rey de Cambaya. Pois tendo Meliquiaz efte receyo logo ao outro dia pela menhaã mandou pedir paz ao vifo rey por Cide ale ho torto. E efte bradou de terra moltrando húa bãdeira branca. E foy por ele Ioão da noua cj ho leuou ao vifo rey: a que Cide ale deu húa carta de Meliquiaz, em que fe lhe defculpaua do acolhiméto que dera aos rumes: porq era coftume dos capitães 8t caualeyros taes como ele, acolheré a quê fe acolhia a eles: St que lhe daria os Chriftãos que tinha catiuos da nao de dõ Lourenço, St dali por diãte feria leal fer- uidor affi del rey de Portugal, como feu. Ho vifo rey pofto q poderá tomar a cidade, não a quis tomar porq não tinha gente pera a fofter jun- tamcte cõ as fortalezas da índia. E mais porq tinha certo fazer lhe logo el rey de Cambaya guerra, St não tinha poder pera lhe refiftir. E poriffo
  • 440 Historia da índia outorgou a Meliquiaz a paz q lhe pedia, cÕ condição q auia de jurar em fua ley que nunca mais acolheria em feu porto a armada do foldã, né lhe daria nenhúa ajuda né fauor, & cõfentiria que cada ano fe gaftaífem em Diu certos mil cruzados de mercadoria del rey de Portugal: & mais lhe entregaria a Mirocem, & os rumes q efcaparã da batalha, & affi as fuas quatro galés. E coifto defpedio Cide ale, a que fez merce de quatrocen¬ tos cruzados douro. E de todas as condições Meliquiaz foy cõtente, fe não da entrega de Mirocem & dos rumes: dizendo q viffe ho vifo rey fe entregaria ele homcs q fe acolheffé a ele, & fe fiaffem em fua fê, & fe ho ele fizeífe q ele ho faria, & que as galés lhe entregaria pera as man¬ dar queimar logo naqle porto antes q fe partiíTe. E vedo ho vifo rey que tinha rezão aprouuelhe difTo. E Ioão da noua foy pelos catiuos q erão defafete, que ja não auia mays, & vinhão todos veftidos de cabavas de feda. E perante Ioão da noua jurou Meliquiaz de cõprir as cõdiçoes da paz & logo lhe entregou as galês, que hi forão queymadas: & cÕ os cati¬ uos vinha hú moço mourifco Dafrica, que fora efcrauo de dõ lourenço, & era Chriftão: & quando ho vifo rey ho vio, folgou muyto coele, & pre- guntoulhe como íe não fizera mouro. E ele refpondeo, porque determi- naua morrer na fé de Chrifto: & que rogara aos chriftãos que não diffef- fem aos mouros que ele fora mouro porq ho não mataffem. Feyta a paz ho vifo rey defpachou logo pera çacotora a dõ Antonio de Noronha pera locorrer a feu hirmão dom Afonfo cõ mãtimétos que cõprou em Diu: & affi lhe mandou dar roupa de Cãbaya q fe tomara nas naos, pera a for¬ taleza. E partido, determinãdo ho vifo rey de tirar ho dô q trazia por feu filho, fez húa fala aos capitães & prlcipaes da frota, cõfolãdoos pela morte dalgús parétes & amigos q perderã na batalha, dizédo, Que pois noffo fenhor fizera tamanha merce como fora darlhe tã grande vitoria, que lhe deuião de dar por iflo muytos louuores: & que dos mortos fe não deuião dalembrar pera teré por eles trifteza, pois as vidas corporais que perde¬ rão eftauã tã be vingadas cõ a morte & deftruiçã dos Imigos: & tinhão cobradas outras perduraueis na gloria, onde fe deuia de crér q eftauão, pois morrerão martyres pola fé de Chrifto: pelo qual não devião de fentir trifteza, fe não muyto prazer como ele tinha com a vingança que ali tinha tomada da morte de feu filho, que lhe não lembraua pera mais que pera fer muyto contente de ho perder em tam bÕ officio como fora o em q falecera: que lhes rogaua muyto que dali por diante ho fizefTem affi todos, & fizeffé as barbas. E affi ho fizerão todos, & ele foy ho primeyro, & fe veftirão de borcados & fedas, & faziã grãdes alegrias. E porque ho vifo rey achou que não podia leuar todas as naos que tomou, deyxou .duas dos rumes pera leuar carregadas de mantimentos: & as outras, &
  • Livro II, Capitolo CII 44i as de Cãbaya mãdou vender no mefmo porto a mercadores, afli carrega¬ das de fazenda como as tomarão, pelas quaes ouue muyto dinheyro, que fe partio pelos foldados, & cõ ele & cÕ ho mais ficará todos muyto ricos, & ficando em paz & amizade cõ Meliquiaz fe partio 5 húa feita feyra a dez dias de Feuereyro, deyxando hi a trilião degâ pera carregar as duas naos de trigo, & doutros mãtimétos que lhe defpois leuou a Cochim. E partido ho vifo rey, Meliquiaz mandou tirar a fua nao que fora metida no fundo: & a mandou varar & cobrila de telha, cõ ho telhado tã alto q a podefle ver, & as bobardadas q recebera, & teuea afli muyto tempo por memória de nã fer vécida em tã braua peleja como aqla foy, & def- baratada tã grofla armada fem ho ela fer: porq fe a meterão no fúdo fora pelejando, & fazédo o q deuia. & âs molheres daqles q nela forão mortos, fezlhe muyta merce. E aos q fugirã mãdou os encher de mel & de pena, & leuar pelas ruas & praças â vergonha. E defpois foube ho foldão ho defbarato da fua frota, & o q fez fe dira a diãte. CAPITOLO .CII. De como tornãdofe ho uifo rey pera Cochim lhe pagarão algús fenhores daqla cojla pareas. PArtido ho vifo rey do porto de Diu, oyto dias a reo defpoys que partio virã os noffos no mar muytos corpos de mouros mortos dos que matará em Diu, no que. virão mais craramete a grã mortin- dade que fizerão neles, & chegado ho vifo rey a Chaul, q foy aos doze de Feuereiro, cõcedeo paz a Nizamaluco cõ as condições q ja difle, & logo pagou as parias daquele ãno, & ho vifo rey lhe deu carta de vaflalage. E afli ouue aqui ho vifo rey de Nizamaluco hú moço q tinha catiuo dos q catiuarão na nao de dõ Lourenço: & gaftados tres dias nifto tornou a fua viagé aos xv. de Feuereyro, & aos xix. chegou a Honor pera fe ver cÕ Timoja, & nã ho achou q era fugido cõ medo del rey de Narfinga q hi era vindo a fe pefar a ouro em hú feu pagode. E ali fe veo ver cõ ho vifo rey el rey dHonor, & lhe deu mais ccl. pardaos de pareas, a fora os mil q lhe daua & ho vifo rey ho fez amigo cõ Timoja. E daqui fe par¬ tio, & chegou a Batecalà a xxv. de feuereiro, & el rey deita cidade ho veo ver â praya, & fe fez tributário a el rey de Portugal cõ lhe pagar cadãno dous mil fardos darroz giraçal, & logo pagou os daqle anno, cõ que ho vifo rey folgou pera mãtiméto da gete: & daqui mandou a Gar¬ cia de foufa, & a Martim coelho a monte Deli pera andarem hi darmada, & ele le partio pera Cananor, & à viíta da fortaleza mãdou êforcar nas Tono 1 56
  • 44* Historia da Índia vergas dos nauios deffes rumes q trazia catiuos, & outros mãdou poer nas bocas das bõbardas, & coeles faluou a fortaleza. E os mouros por difiimularé ho pefar q tinhã do defbarato dos rumes, & moftraré que fol- gaua, fairano a receber ao mar em paraos enramados, & em acabando de fe faluar cõ a artelharia, leuantarã grande grita, & tirando às laranja¬ das aos nofios, entrara efles honrrados na capitayna; & viíitarão ho vifo rey da parte del rey de Cananor, dandolhe ho prolfaça da vitoria de que todos os mouros da índia, eftauão muyto efpantados, & quafi fem efpe- rança de nunca venceré os noífos. faindo ho vifo rey em terra co todo- los capitães & fidalgos, vertidos de borcados & fedas, & outras louçay- nhas & ricízas: achou Lourenço de brito que ho fahio a receber à praya em prociflam cõ toda a gente da fortaleza, cõ cruz & palio. E el rey de Cananor vinha ali, & abraçou ho vifo rey, & lhe fez muyta fcfta louuando fua vitoria. E aqui em Cananor mãdou ho vifo rey que ficaífem dom Ie- ronimo de lima, dõ loa de lima feu hirmão, Baftião de miranda, Manuel de lacerda, Antonio de faa, & outros fidalgos que vierão cõ Afonfo dal- buquerque dormuz, & mandoulhes q inuernaflem naqla fortaleza pera a goardarem, dizédo que fe receaua de cerco, o q eles não teuerã a bé, poré ficarã. CAPITOLO .CIII. De como ho uifovey chegou a CochJ, & de como Afonfo dalbuquerque lhe pedio a gouernãça, & ele lha não quis dar: & do q mais pajfou. DE cananor fe partio ho vifo rey pera CochI onde chegou a oyto dias de Março: & como furgio Gafpar pereira & outros officiaes que auiã de feruir cõ Afõfo dalbuqrque pelas prouifões q diflo tinhã del rey de Portugal, foranfe pera Afonfo dalbuquerq que ja dantes acõpanhauão como a feu gouernador, & ele acõpanhado de todos eles, & de feus criados, fov receber ho viforey â praya, q foy recebido muy folé- nemete. E Afonfo dalbuquerq lhe falou, dizédo q fua fenhoria forte muy bé vindo, & que ele eftaua muyto ledo de fua vitoria. E ho vifo rey lho teue em merce algú tanto carregado, & não fe lhe deu muyto, o que Afonfo dalbuqrque teue a mao final: & poriífo determinou de requerer logo fua juftiça, & chegando ho vifo rey à porta da fortaleza pera entrar fe lhe atrauertou diante, & lhe diffe que fua fenhoria lhe diflera q el rey lhe mãdaua q fe forte pera o reyno & ele tinha vfgada a morte de feu filho & que ho tempo de fua gouernança era acabado, que lhe requeria da parte del rey q lha entregaífe, pois lha ele tinha mandado entregar. Ho viforey refpõdeo que não era tempo pera fe falar naquilo, que ho
  • Livro II, Capitolo CIII 443 deixaífe defcanfar, & dar de jantar aos fidalgos & caualeyros que vinhão coele, & defpois falarião de vagar no que lhe dizia. Requereo então Afonfo dalbuquerque eftreytamente da parte del rey que lhe entregaífe a gouernança, fazédo grades proteftações, & mandando a Gafpar pereyra a que chamaua feu fecretario que fizefle auto do que via paliar: ho vifo- rey lhe difle que por amor de deos ho deixaífe ir defcanfar, & fe fofle pera fua cafa, porque ele não tinha fecretario nem era gouernador em quãto ele efteueífe na índia. E dizendo iíto lhe paffou por de baixo dhú braço & fe meteo détro na fortaleza, & os outros a pos ele & fecharão a porta. E Afonfo dalbuquerque ficou de fora, chamando por Gafpar pe¬ reyra, o qual & afli os outros oficiaes defaparecerão logo vendo o que ho viforey fez. Então chamou Afonfo dalbuquerque a Ioão eítão que fora efcriuão da fua armada, & diflelhe q fizefle hú auto cõ teftemunhas do q ali vira paflar. E coifto fe foy pera fua poufada, onde dali por diãte co¬ meçou de pagar aos da fua armada (que vierão cõ ho viforey) ho foldo que lhes era diuido, & daua mefa aos q vierão coele Dormuz na fua nao, que ferião bem oyteta homés: & da fua cozinha comerião coeíles cento todos muy abaftadamente & comião pão de trigo que ele trouuera de Calayate. E defpois que fez aquele requeriméto ao viforey quãdo veyo de Diu, efteue afli hús dias fé fazer mais nada. E todauia foy algúas ve¬ zes defpois douuir miffa falar com ho viforey â ribeyra acompanhado da¬ queles a que daua mefa, & ali fe apartauão & falauão fem ningue os ouuir. E dele ir afli acompanhado pefaua muyto a Ioão da noua, Antonio do campo, Manuel telez barreto, & Afonfo lopes da cofta, que erão feus Imigos, & receberão muyto contentaméto de lhe ho viforey não entregar a gouernãça, & bufcauão outros q lhes ajudafle a requerer que lha não defle: porque deíferuiria niffo muyto a Deos & a el rey: dando pera iflo todas as rezões que podião. E ho viforey lhes difle q ele nã auia dentre- gar a gouernãça fe não quãdo fe fofle pera Portugal porq afli lho dezia a fua prouifam, & não auia outra em contrayro pera a entregar. E efta re- zão era muy boa, & parecia muy bem aos immigos Dafonfo dalbuquer¬ que, & aos de fua liga: & zombauão dele hús com os outros, & arreme- dauãno: & nã fôméte faziã ifto em fua aufencia, mas ainda quando ele hia verfe com ho vifo rey à ribeira lhe chamauã da fortaleza muytos no¬ mes injuriofos, & tão alto q os ouuia, & com muyta paciência dizia aos que ho acompanhauão que ouuifle o q lhe dizião. E afli fabia a zõbaria q fazião dele antrefi, o que ele fufria com muyto fifo, & dizia que tudo aquilo era por feus pecados, & bé lhe parecia por quam defcubertamente feus immigos ho injuriauão, que era com fauor do viforey mas dilfimu- laua. E vendo ele que lhe não queria entregar a gouernança pareceolhe
  • 444 Historia da índia que fe queria ajudar de fua prouifam & eílar em poffe dela ate que fe foffe pera Portugal, & determinou de não falar mais nela, fe não pedir a armada pera a fazer concertar & a ter aparelhada pera o feruiço del rey. E por Pedromé efcriuão da feytoria de Cochim, mandou hú recado em efcripto ao vifo rey, em que lhe requeria q lhe mandaífe entregar a armada da índia pera a mãdar correger pera ho tépo neceffario, & quanto â gouernãça não falaua, porq ele lha entregaria quando foffe tépo. E de tudo ifto Afonfo dalbuquerq deyxou ho trelado. Poré o vifo rey não ref- põdeo a bé de feyto, faluo que dahi a hús dias mãdou dizer per Andre diaz que não era neceffario entregarlhe a armada, q efteueffe como eftaua. E Afonfo dalbuquerque diffe a Andre diaz, que não auia de tomar dele nenhúa repofta, por quanto não era efcriuão né official del rey, & pofto que feruiffe de tefoureyro de CochI não era por prouifam del rey que podia irfe embora, porque nas coufas dantrele & do vifo rey, & nas q cõpriffem ao feruiço del rey feu fenhor, não auia de dar repofta a quê zombaua dele como tinha fabido, & q affi ho podia dizer ao vifo rey, a quem Afonfo dalbuquerq logo mãdou dizer q dali por diante lhe não man- dalfe recado fenão por Pedromé, ou por Diogo pereira que erã efcriuães da feytoria, ou por outros efcriuães de quaefquer carregos porque Andre diaz lhe era fofpeyto, & por iffo lhe não refpondera por ele. CAPITOLO .CIIII. De como ho uifo rey mandou a Afonfo dalbuquerque que não fayffe fora de fua cafa, & de como mandou prendei■ a Gafpar pereira, & a Ruy daraujo, & a caufa porque. PArecendo bé ao vifo rey o q Afofo dalbuquerque dezia dali por diante lhe mãdaua recados por Pedromé, ou por Diogo pereira, & logo no começo era a coufa muy branda, porque ho vifo rey era brando de fua condição: no q pareceo que tudo o que fez nefte cafo, mays foy por maos confelhos, que por maa incrinação, porque os Imigos Dafonfo dalbuquerque nunca ho deixauã & não contentes com lhe impe¬ dir a gouernança, zobauã de a querer & pedir & de dar mefa, & andar acõpanhado, & arremedauanno como falaua, & tachauanlhe quanto fazia, & ho mefmo fazião outros feus amigos, q por amor deles querião mal a Afonfo dalbuquerque, o que ele muy bem 1'abia, & fufriao com muyta paciência, attribuindo tudo a feus peccados, fem nunca falar nenhúa mâ palaura em perjuyzo de peífoa algúa, & todauia feus Imigos 1'ofriã muyto mal velo andar acõpanhado daqueles a que daua mefa, & afli doutros
  • Livro II, Capitolo C11II 445 que ho hião efperar quando auia de ir à igreja, & afli faberé que os trom¬ betas lhe dauã aluoradas aos domingos & feftas, porque fe ceauão que dali fe vieffe a meter de pofle da gouernança. Pelo qual fizerão com ho vifo rey que lhe mandafle dizer, como mandou, q lhe pedia por merce que por fe efcufarem deíferuiços de deos, & del rey que fe feguião de fua ida à igreja, que ouueífe por efcufada fua ida lâ, & que em cafa poderia ouuir mifla. E afli I10 fez Afonfo dalbuquerque, refpondendo ao vifo rey, que pois ho aífi auia por bé que ele ho faria, do que feus Imigos fe ou- uerã por muyto vitoriofos, mas não ficarão fatisfeytos com efta quebra que crião que Afofo dalbuquerque recebia, porq auião por muy grãde de fuas peffoas, ter ele algúas na índia que teueífem fua uoz, & que foflem do feu bando. E porque ho fecretayro Gafpar pereyra ho era: & por iflo não queria feruir feus oflicios cõ o viforey, determinarão de ho deftruir: & fizerão com ho viforey que lhe mãdaffe que feruiffe ambos os officios .f. fecretayro & teforeyro mór. E mandandolho refpondeo ele q tinha jufta caufa pera ho nã fazer, porque el rey lhe mandaua em feu regimcto que feruiffe com Afonfo dalbuquerque, a quem mandaua que foífe gouernador da índia, & coele auia de feruir, & não com outré: & a fora iífo não auia de feruir porque ele viforey metia coele officiaes feus contrayros, & contra ho regimento delrey. Ho viforey pofto que ficou efcandalizado defta repofta dilflmulou então coela, ate ver confelho fobre o que niífo faria: & mais porque fe dizia que Gafpar pereyra fazendo cabeça Dafonfo dalbuquerque refpõdia tão oufado. Do que pefou muyto a Afofo dalbu¬ querque quando ho foube, porque em nenhúa coufa queria contradizer ao viforey, nem queria que ningué ho fizefle por fua parte, porq de todo foífe fé culpa nas fem rezões que recebeífe do viforey & de feus immi- gos. E mãdou dizer a Gafpar pereira por Nuno vaz de caítelo branco, que ele fabia que não queria feruir feus officios, que lhe pedia por merce q os feruiffe, porq fe fizefle ho contrayro feria grande deferuiço del rey feu fenhor, & perda de fua fazéda: & diífe a Nuno vaz que infiftindo Gafpar pereira em não querer feruir os oficios, que lhe diffeífe q lhe re¬ queria da parte del rey que os feruiffe & fe lho podia mandar lho man¬ daua. E afli ho fez Nuno vaz: & contudo Gafpar pereyra ho não quis fazer dizendo que encorrefle em quãtas penas quifeífe: ao que Afonfo dalbuquerque não repricou, vedo que nã auia daproueitar. E da hi a pou¬ cos dias tornou ho viforey a mandar a Gafpar pereira que feruiffe os offi¬ cios: & infiftindo ele em não querer, mandou ho prender em ferros, & metelo em hú cobelo, & aífi a Rui daraujo que por amor DafÕfo dalbu¬ querque não queria feruir de tefoureyro de Cochim, de que fora prouido de Portugal. Com a prifam deftes dous homens começou a negoceação
  • 44$ Historia da índia dantre ho viforey, & Afonfo dalbuquerque de fe encruar muyto, & a del- cobrirfe ho defejo de gouernar a índia, & ter mãdo fobre tantos fidalgos & caualeyros. E ja os immigos Dafonfo dalbuquerque dizião mal dele defcubertamente, o que ouuindo húa dia íorge de melo pereyra q era feu amigo lhes foy a mão principalméte a Francifco de tauora, com que fobriífo ouue tã màs palauras que ho mãdou defafiar: & indo Iorge de melo pera ho pofto que aflinara foy prefo por mãdado do viforey, a quem Frãcifco de tauora defcobrio ho defafio. E dali por diante ninguém oulaua de falar por Afonfo dalbuquerque, & quafi que nlgué hia a fua cafa, nem oufaua, vedo como a imizade do viforey hia coele tão defcuberta, pofto que ho vifo rey a encobria: & todo o que fazia dizia que ho fazia por lho requereré aqueles fidalgos & capitães, dizedo que aíli compria a feruiço del rey, & por lhe el rey mandar como tinha por húa prouifam que não entregafle a gouernança fe não quãdo fe embarcaffe. E como quer que Afonfo dalbuquerque folie priuado de ir á igreja, & polos incõueniétes q auia não queria ir a outra parte pera tomar algúa recreaçã & defabafar de quãta payxão ho cercaua, fayafe de cafa polas manhaãs & tardes pera onde chamão a cabeça feca perto de fua cafa, õde paffeaua ao logo da praya: & elfes que poufauão em fua cafa, & comião coele fe hiã pera ho acõpanhar. E porque ifto era ajuntamento em que fe fazia cabeça Dafõfo dalbuquerque, negocearão feus immigos q tambe lhe fofle tirado pelo viforey efte paflatépo defendendolhe que não fofle ali mais, porque ho ajuntamento que fe ali fazia era em defleruiço del rey. E Afonfo dalbu¬ querque não fayo mais de cafa: & de todas eftas coufas não tiraua eftor- métos, porque não auia que lhos defle que nenhú efcriuão oufaua de ho fazer cõ medo do viforey, que trazia por efpia do que fe dele dizia a hú homé chamado ho Timudo que ho auilaua de quãto fe dizia contrele. CAPITOLO .CV. De como Duarte de lemos ficou por capitão moor da armada do cabo de Goardafu per morte de lorge daguiar: & como inuernou em Me- linde. TEndo Duarte de lemos ho inuerno em Moçambique foube como Francifco pereyra peftana luernaua nas ilhas primeyras, onde ho mandou logo vifitar per hú caualeyro chamado Gregorio da qua¬ dra, que fora criado do marques de vila real, & mandoulhe mantimentos. E defpois defta vifitação foy ter Francifco pereyra a Moçambique a onze de Feuereyro de mil & quinhentos & noue: & eftauão cõ Duarte de lemos
  • Livro II, Capitolo CVI 447 eftes capitães .f. Vafco da filueira, Diogo correa, & Pero correa. E Duarte de lemos fabia por Aluaro barreto a maneyra de que fe Iorge daguiar apartãra dele, pelo que prefumia que folTe perdido: & acabou de ho cer- teficar porque lhe diífe Francifco pereyra que na parajem das ilhas de Triftão da cunha vira hú pedaço de nao que parecia quilha, & alfi muy- tas lanças & algúas arcas. E fabido ifto fez Duarte de lemos conlelho, & nele fe allentou pelo que Aluaro barreto, & Francifco pereyra tinhão dito, que Iorge daguiar era perdido, & q Duarte de lemos entrafle na fua va- gãte, & fe folie ao cabo de Goardafum cÕ a armada. E ifto determinado paffoufe Duarte de lemos â nao de Francifco pereyra peftana, porque vinha pera capitayna & deu a em que andaua a Vafco da filueira: & ho nauio rofayro de q ele era capitão deu ho a Diogo correa, cujo nauio deu a Pero correa feu hirmão, & ho de Pero correa deu a hú fidalgo chamado Antonio ferreyra, fobrinho de Pero ferreyra fogaça capitã de Quiloa: & mandoulhe que fe fofle diante a Quíloa onde leuaria Frãcifco pereyra peftana que auia dentrar na vagãte de Pero ferreyra, que por prouifã del rey de Portugal linha a capitania de çacotorà: & afli lhe man¬ dou que ficãdo Frãcifco pereyra em Quiloa tomafle a Pero ferreyra & ho fofle efperar a Melinde, onde prazendo a Deos elperaua logo de ir. E partido Antonio ferreyra deu Duarte de lemos a capitania do nauio fam Gião que ficara da armada de Vafco gomez dabreu a hú fidalgo chamado francifco pereyra de berredo: & leuãdoo em fua conferua, & afli aos ou¬ tros capitães que diífe, 1'e partio pera Melinde, onde chegou a faluamento, & por lhe não terçar ho tempo pera fua viagem inuernou ali. CAPITOLO .CVI. De como Diogo lope\ de fequeyra defcobrio a ilha de fã Lourêço pela banda de fora. E indo pera Malaca forçado do têpo arribou a Cocht. DIogo lopez de fequeira defpois que partio de Lisboa feguio fua rota per fua viagé, & dobrado ho cabo de boa efperãça foy ter a agoada de fam bras: & partido da hi chegou aos medaõs do ouro a vinte de julho, & hi fe deteue cinco dias por amor dos leuantes que ja vétauão. E ali foy ter coele Duarte de lemos que fe perdera de Iorge da¬ guiar com tempo & por erro fe tornaua pera Portugal: & fabendo como hia fe deteue pera ir na conferua de Diogo lopez. E eftando afli todos em dia de Sãtiago fe começou de fazer húa grande çarração & a pos ela veo húa tormenta grãdiflima de vento, chuua, relâmpados, & toruões: pelo q foy neceflario a Diogo lopez fazerfe à vela & fugir, porque não
  • 44$ Historia da índia defle â cofta. E coefte temporal atraueífou pera a ilha de fam Lourenço que eftaua dali duzentas legoas: o que Duarte de lemos parece que não quis fazer & foyfe caminho de Moçãbiq: & aos quatro dias dagofto ouue Diogo lopez com toda fua armada vifta da ilha de fam Lourenço, & aos dez dias defte mes amanheceo com bonança duas legoas dhú cabo pela banda de fora, a que foy pofto nome cabo de fam Lourenço. E indo afli foy ter a húas ilhas, onde veo a ele hú Português daqueles que ficarão na ilha de lam Lourcço da companhia de Ioão gomez dabreu: & efte lhe contou a defauentura de Ioão gomez, & como defpois fe forão os que ficarão coele: & efte Português q auia nome Andre não quis ali mais ficar, & foyfe com Diogo lopez, que feguindo daqui ao longo da cofta foy ter a húa pouoação grande de cafas palhaças, que auia nome Turouaya, & era reyno & tinha rey mouro, cõ que fe Diogo lopez vio: & aqui achou outro Português chamado Antonio q també leuou. E nauegãdo daqui foy ter a húas ilhas q eftão ao mar, da ilha obra dhú tiro de bõbarda, & eftão em altura de vinte quatro graos & meyo, & pos lhe nome as ilhas de fótã Crara: & entrou em húa baya q té abrigada de todolos vetos, & fayo c terra por ler muyto viçofa de aruoredo, & auer rauytas vacas & porcos montefes, arroz & inhames, q tudo lhe a géte leuaua a véder, por fer muyto mãfa & domeftica. Partido daqui uma íefta feyra .xiii. Doutu- bro foy aferrar terra no reyno de Matatana, õde defembarcou: & por fazer grande efcarceo fe lhe çoçobrou ho batel & morreo nele hú homem. E aqui forão ter coele dous dos noffos q ja dantes tinha mãdados por terra a defcobrir efte reyno: & dilferanlhe q andarão por ele cincoenta legoas, & que não acharão fe não hú pouco de gingibre q nacia por fi: & que toparão dous mouros de Cambaya q auia trinta annos que ali forão ter cõ tempo indo pera çofala, & forão tomados da géte da terra & morta toda fua companhia. E dali foy fempre ao longo da cofta ate ho rio de Matatana õde ficou Ioão gomez dabreu, & aqui cobrou outros tres Portuguefes dos que ali ficarão. E dali indo a diuerfas pouoações achou húa grande baya em que fe metião tres rios, & poslhe nome o porto de fã Sebaftião, por fer no dia defte fan&o. E fem achar mais outra coufa, fe partio leuando a rota da ilha de Ceilã, e por nã a poder tomar com tempo arribou a Cochim, onde chegou a vinte hú Dabril de mil & qui¬ nhentos & noue defpois de ter ho vifo rey mandado a Afonlo dalbuquer- que q não fayffe da poufada pera nenhúa parte: & foy muy bé recebido do viíorey, & agafalhado na fortaleza: & fuas naos forão corrigidas do t]ue lhes era neceífario.
  • Livro II, Capitolo CVII 449 CAPITOLO .CVII. De como Diogo lope\ de fequeyra, & Manuel paçanha aprefentarão hus capítulos cõtra Afonfo dalbuquerque pera não Jer goueniador, pelos quaes foy iulgado por inábil pera gouernar a índia. SAbendo Afofo dalbuquerq a chegada de Diogo lopez de fequeyra, folgou muyto, porque lhe pareceo homem de qualidade & idade que acõfelharia ao vifo rey que fe tirafTe do propoíito em que eílaua de lhe não dar a gouernança, & de lhe fazer as injurias que lhe fazia: & que não fauoreceria mais contrele aqueles capitães 1'eus Imigos, porque encobriífem ho deíeruiço que fizerão a Deos & a el rey, em ferem caufa do aleuantaméto Dormuz. E tudo ifto mandou dizer por efcripto a Diogo lopez, & ainda mais largamente, pedindolhe muyto que fe quifeffe ver coele. O que Diogo lopez não fez por rogo dos immigos Dafonfo dalbu¬ querque: nem menos lhe refpondeo coufa algúa. Porque fabendo eles que Afonfo dalbuquerque queria tomar por medianeiro daquele negocio a Diogo lopez, fizerã de maneira que ho tiuerão da lua bãda & fizerão que crefie Dafonfo dalbuquerque o q eles dizião. E como a coufa hia tão def- cuberta cõtrele que algús do pouo começauão datétar niffo, & dizião que era forte coufa não fe dar a gouernança da índia a quem el rey mandaua. Compilarão húa capitulação cõtra Afonfo dalbuquerque por confentiméto do viforey, porque leuaffe auãte o que tinha começado, porque tambê re- ceaua que vendo ho pouo como queria gouernar por força fe leuantaffem com Afonfo dalbuquerque, & ho defpofeífem de viforey. E os capitolos da capitulação forã, que ele era homé fora de rezão, & tão feyto de fua vontade q não queria tomar ho confelho de ninguém: & era de muyto mà condição, tãto que não auia quem ho fofrefle, & q era muyto def- manchado. E q não era pera fer capitão de húa almadia quãto mais pera gouernador: & que bem fe moftrara a verdade de tudo ifto em perder Ormuz, que fe não perdera por outra caufa fe não por feu pouco faber & mà condição, porque os capitães que andauão coele, lhe aconfelhauão que não quebraífe a paz que tinha affentada, & ele não quifera, antes por lho confelharem os prendera & injuriara: no que el rey de Portu¬ gal perdera a fora os quinze mil xerafins de parias mais de vinte mil q poderá ganhar cadãno cõ fua feitoria. Pedindo ao viforey que por todas eftas rezões ho ouueífe por inábil pera a gouernança como era & lha não deffe: & afli lhe requerião da parte del rey q ho fizefie: porq fe el rey foubera q Afonfo dalbuquerq tinha eftas qualidades nã lhe dera a go- uernãça. E nefta capitulaçaõ, & reqriméto aflinarão Iorge barreto crafto, To*« i 57
  • 45o Historia da índia Diogo lopez de fequeyra, Antonio do capo, Manuel telez barreto, Afonfo lopez da coíta, loão da noua, & Manuel paçanha, com lhe dizer ho vifo- rey que a ele auia dentregar a gouernança quando fe fofle, & não a Afonfo dalbuquerque: & aíli allinarão quafi todos os fidalgos que eftauão em Cocbim. E ate Lourêço de brito mandou por terra hú aflinado, em que dizia que fe auia por aflinado naquela capitulação, & requerimento: que defpois de aflinada foy offrecida ao viforey por Diogo lopez, & Ma¬ nuel paçanha, ao que ele refpondeo que determinaua de fe partir na en¬ trada do verão, & que então entregaria a gouernança a quem elrey man- dafle: porq ele eftaua na Índia muyto contra fua vontade. E a caufa de não fer ido pera Portugal fora não chegar a nao em que ho el rey feu fenhor mandaua ir, & fe não entregara a gouernança a Afonfo dalbuquer¬ que que ho fizera por lhe el rey mandar em fua prouifam que a não en¬ tregais em quanto efteuelfe na Índia: porem que feu propofito era irfe pera Portugal, ou de la viefle armada, ou nã: & coefle fundamêto varara certas naos pera fe ir nelas: & que no que lhe requerião ele não podia fazer nada, porque em parte parecia aquela caufa fer fua, & por iflo fe daua por fofpeyto: que ho confelho da índia ho julgaífe cõ fe dar pri¬ meiro a viíta a Afonfo dalbuquerq, & afíi lhe foy dada. Mas como ele entendia ho jogo, & fabia que ainda que fizeífe milagres não auia dauer que ho diflelfe tendo ele tão principaes immigos, como tinha. Não quis refponder, dizendo que não refpondia, porque tudo aquilo era compilado por feus immigos: & mais que aquilo não pertêcia julgarfe fe não por el rey feu fenhor, pera quem apellaua de tudo ho que fe julgafle por aquela capitulação. E todauia coefta repofta, & pelo que na capitulação dizia foy julgado per todos geralmête que Afonfo dalbuquerque era inhabil pera gouernar, & por tãto fe lhe não êtregaffe a gouernança. O que fabido por Afonfo dalbuquerque ho recebeo com muyta paciência fem fe aquei- xar do viforey, fe não atribuindo tudo a feus pecados. E ja a eíte tempo ninguém não hia comer coele, né oufaua de o ir ver. CAPITOLO .CVIII. Do que Duarte de foufa cõfelhou a Afonfo dalbuquerque que fi\effe contra ho uiforey, & do que fe fe\ fobrijfo. PAssados algús dias defpois defte acordo que foy feito cõtra Afonfo dalbuquerq. Eftando ele hú dia na fua poufada praticando com hú Simão diaz hefperico, & com hú criado feu, q tambc fabia da efpera, foy ter coele hú fidalgo chamado Duarte de foufa, que fendo de-
  • Livro II, Capitolo CVIII 451 gradado em Portugal Afonfo dalbuquerque pedira a el rey que lhe mu- daffe ho degredo pera a índia: & ho leuara na fua nao com hú feu filho muyto bé agafalhados, & fazendolhe mil hõrras: & defpois que começou a conquifta do revno Dormuz lhe perdoou ho degredo por virtude de fua prouifam, dizendo per fua certidão que fizera coufas por onde merecia perdã, & ho mãdou afTentar em foldo & tornarlhe a moradia de que eftaua rifcado: & lhe fez afTentar hú filho em moradia. Adi que tinha re¬ cebidas boas obras dele: porem defpois que forão as fuas deferenças cÕ ho viforey não ho vio mais, & por iífo Afonfo dalbuquerque como efpã- tado de ho ver em tal tépo, lhe diffe, Que nouidade he efla fenhor Duarte de foufa que ha tanto tempo q me não vedes, & todauia fazeis bem fegundo as coufas andã. E fem Duarte de foufa refpõder ao que lhe dizia lhe diffe. Venhouos fenhor dizer q fazeis pois foys gouernador & el rey mãda q ho fejais, & a géte & pouo ho quer, & não defejam fenão que moftre voffa merce feus poderes & vâ com híía bãdeira por hi fora & tome poffe da gouernança, & và prender ho vifo rey pois quer gouernar forçolamente. O q ouuindo Afonfo dalbuquerq & vendo quã fora de pro- pofito vinha, fofpeitou q aquilo era echadiço de feus Imigos pera q fazédo ele algúa coufa do q lhe Duarte de foufa cõfelhaua teueffem cÕ verdade a que fe pegar: & receofo defta fofpeita lhe refpodeo, E a iífo vindes, enganado eftays vos & os que iífo cuidão de ml, porque ainda que fe agora ajútaffem quantos ha em Cochim, & os clérigos vieffem com cru¬ zes, & as palmeiras viraffem as rayzes pera ho âr, & as frãças pera baixo, eu não tomaria por força a gouernãça, nem as fortalezas que me el rey manda entregar liuremente. E folgo muyto de me cometerdes iífo perãte eftes dous homés, porque ferão teftemunhas fe for neceífario: & fe me vos vindes coiffo não venhais aqui mais. E ifto diffe ja agaftado: & Duarte de foufa eftando muyto feguro lhe tornou a dizer que falaua de fifo, & q deuia de fazer o que lhe dizia, ao que Afonfo dalbuquerq lhe diffe que fe foffe embòra, & q lhe nã vieffe com tais hiftorias. E coifto fe foy Duarte de foufa. E dahi a algús dias cotou Afonfo dalbuqrque ifto a Nuno vaz de caftelo brãco q poufaua em fua cafa, a q eftãdo doente forão ver Gafpar diaz q na conquifta Dormuz fora alferez Dafonfo dalbu¬ querq, que por lhe cortare nela húa mão lhe daua dez mil rs de tença. E afli Duarte amado, & hú Ruy diaz q defpois foy enforcado no rio de Pan- gim em Goa. E eftãdo em pratica diffe hú deles a Nuno vaz como Duarte de foufa fizera queixume dele ao viforey: que na repartição das prefas que Afonfo dalbuquerque fizera na conquifta Dormuz, em que ele Nuno vaz fora quadrilheiro mòr fizera muytas coufas mal feitas, & q tiraua aas partes do que lhe cabia: & q feu filho fora hú dos a que fe aquilo fizera.
  • 452 Historia da índia E fabédo ja Nuno vaz ho aluitre cÕ que ele fora a Afofo dalbuquerque diffe. Eífe mao homé não fe quer ele emédar, prometouos que mãde cha¬ mar ho Timudo, & que lhe diga que diga ao vifo rey ho q ele veo dizer a Afonfo dalbuqrque: & diflelhe o q differa. E como quer q entã todos ou os mais q não tinhã medrãça a querião acquirir por mexericos, forã eftes tres contar ifto a Ioão da noua, & a Antonio do cãpo, & eles ho differão logo ao vifo rey, parecendolhe que feria aquilo coufa por onde fizeffem mais mal a Afonfo dalbuquerque do que lhe tinhão feito. E ho vifo rey mãdou chamar os tres que aquilo differão, & preguntãdolho lho tornarão a contar: & logo ali foy dito que Nuno vaz era amigo Dafonfo dalbuquerque, que comunicaua coele feus fegredos: & pois ele foltaua aquilo que mais era: & alTentarão que foífe tirado por teftemunha. E ho meyrinho ho foy chamar da parte do vifo rey: & indo ele a feu chamado achou â porta da feitoria Andre diaz, diogo pereira, & Francifco lamprea q era efcriuão do judicial: & Andre diaz lhe diffe que ho vifo rey era no varadouro das naos, & que lhes mãdara que foubeffem dele por jura¬ mento ho que Duarte de foufa paliara cõ Afonfo dalbuquerque, & ho que lhe Afonlo dalbuquerq defpois differa. E nuno vaz ho diffe cõ juraméto, & ho aflinou, referindofe aos dous q eftauão cõ Afonfo dalbuquerq Simão diaz, & Afonfo gomez, q também nefte cafo forão tirados por teftemu- nhas per mandado do viforey: & todos concordarão em feus teftemunhos cõ ho que Nuno vaz differa. E parece q como efta inquirição era mais pera faber fe Afonfo dalbuquerq era culpado que pera caftigar a culpa emque Duarte de foufa foffe cõprendido, não fe procedeo contra ele em coufa nhúa, pofto q foy achado em affaz de culpa: o q vedo Afonfo dal¬ buquerq começou de dizer que bé entendia ho jogo, & quê ho ordenara, & pois Duarte de foufa tinha tanta culpa que rezão fora que fe fizera nele algú comprimento de juftiça. \ CAPITOLO .CIX. De como forão dados tratos a Duarte de foufa fobre o q acôfelhara a Afonfo dalbuqrque côtra ho uiforey: & como não diffe mais do que as tejlemunhas tinhã dito. SAbido o que Afonfo dalbuquerq dizia por feus Imigos, pera encobri¬ rem aquilo & que pareceffe q fenão tirarão as teftemunhas fem caufa fizerão com ho viforey que mandaffe prender Nuno vaz de caftelo branco & Simão diaz & Afonfo gomez: & ele os mãdou prender & meter em hú tronco cõ ambos os pés: & a Nuno vaz porque era mais
  • Livro II, Capitolo CIX 453 amigo Dafonfo dalbuquerq foy deitado hú groflo grilhão cõ que fe não podia reboluer fenão jazia fempre de coftas. E defendeo q nhúa pelíoa falaíTe coeles, principalmente con Nuno vaz. E a caufa porque dizião que os préderão, era porque logo não difierão ao vifo rey ho q Duarte de foufa cõfelhaua a Afonfo dalbuquerque q cometefle contrele, chamãdolhe treição, & crime lefe maieftatis. E defpois difto foy prefo Duarte de foufa pera diffimulação, porque tédo ele tãta culpa ho meterão antre os outros que não tinhão nhúa: o que não careceo de foípeita, que foy cõ funda¬ mento q vendo Nuno vaz & os outros prefos que aquele fora caufa de fua prifão ho matafTem cõ ira, ou feriífem pera que fe fizeffe deles juíliça por aquilo, pois pelo al fenão poderá fazer, cõ quanto fe confultou cõtra Nuno vaz q deuia fer metido a tromento por não defcobrir logo ao vifo rey ho que foubera de Duarte de foufa, porquanto era treição, que tãto mõtaua como fer cometida contra el rey, pois era cometida contra ho vifo rey que eftaua em feu lugar. E a rezão que fe daua pera darem tratos a Nuno vaz, era porque poíto a tromento diria mais do que tinha dito em feu teftemunho, & affirmauafe que era treição calarfe com o que fabia de Duarte de foufa, polo nã defcobrir logo ou ao menos antes de palfare tres dias, que era ho termo que a ordenação del rey dà aos que fabé a treição que fe lhe ordena pera lha defcobrire pera não lere nela culpados & tudo iftp era dito de maneira q Nuno vaz I10 foubeífe: porq cõ medo difeffe ho mais que cuidauão que ele fabia Dafõfo dalbuquerq, pera q ouueffe caufa de ho mãdar pera Portugal, que ifto era ho fim a que feus Imigos fazião todas eftas coufas cõ ho vifo rey. E vedo que per aquela via Nuno vaz não qria dizer mais do q tinha dito, deitarãlhe algús feus amigos, ou que ele cuidaua q ho erão, pera q lhe confelhafiem q diífeffe ho mais que fabia naqle calo: & fe não fabia mais que mãdaífe pedir ao vifo rey que lhe perdoaífe, porque era tã manifico q vfaria coele de mi- fericordia & que eles ho diriã ao vifo rey. Ao que Nuno vaz refpondia q ele não tinha de que pedir mifericordia ao vifo rey, mas ele lhe deuia de pedir perdã de quanto mal lhe fazia: & que foubeífe q ainda que efte- ueífe ardendo no inferno, & podeffe fer por ele faluo ho nã qreria fer. E mais difie a hú q lhe dizia aquilo da parte Dantonio de fintra q feruia de fecretario q lhe difleííe que ele nã fizera porq pedifle mifericordia fenã a deos: & ele era ho q tinha rezão de a pedir é portugal a el rey, & que ele efperaua em deos de ir là, & liure & folto fe ir pera fua cafa & ele ir pera a cadea, & aífi foy. E fabêdo os Imigos Dafonfo dalbuquerq & ho vifo rey efta repofta de Nuno vaz não lhe mãdarão mais nhú echadifo com recado: & parecendolhe q feria grande diífolução dar tratos a Nuno vaz nomais q cõ a caufa que auia, não falarão mais niffo. E pera parecer
  • 4S4 Historia da Itidia juítiça o que eitaua feyto mãdarão os dar a Duarte de foufa: & deranlhos muyto brados, & neles confeflou o que difiera a Afonfo dalbuquerq, & ho que lhe ele refpondera. E por iffo foy cõdenado, & derribarãlha cafa & femearãlha de fal. E Nuno vaz de caftelobranco, Simão diaz, & Afonfo gomez forão degradados por fentéça pofta em efcrito pera a armada de Diogo lopez: & Nuno vaz a fora efte degredo que ho foffe també pera Portugal: & dizia na fentença q fe lhes daua efta pena por não defcobri- rem logo ao vifo rey o q Duarte de foufa diflera cõtrele. E afli forão de¬ gradados pera aquela armada Ruy daraujo por não qrer feruir feus ofti- cios, & hú meftre Anrrique q Afofo dalbuquerq leuara de Portugal por feu medico & cirurgião, & tomoulho ho vifo rey em Cochim: & por fe Afonfo dalbuquerq aqueixar diffo lhe foy aflacado que fe carteaua cÕ hús judeus de Crãgalor, q fão de húa geração antiga meftiços malabares & judeus, & que fe queria ir pareles tornar judeu, & pera terem rezão' de ho degradar lhe affacarão aquilo. CAPITOLO .CX. Do que Afonfo dalbuquerq pa(Jou cõ ho uifo rey: & de como Diogo lopei de fequeira fe partio pera Malaca. NEste tépo fe virão Afofo dalbuquerq & ho vifo rey no varadoiro das naos: mas pera q efta vifta foy eu a não foube, foométe q Afonfo dalbuquerq leuaua hú paje cõ húa lança & CÕ húa adarga. E apartaranfe ele & ho vifo rey a falar que ningué os ouuiffe: & fegúdo fe defpois foube nefta pratica difle ho vifo rey a Afonfo dalbuquerq que quãdo fora de Cananor a CochI leuaua determinado de tomar a fortaleza por força a lorge barreto q era capitão, & q ele lho dilfera. Ao q Afonfo dalbuquerque refpondera que fefpantaua muyto dele crer tal coufà, que antes queria hú nouilho no cãpo de Santaren que tomar por força as for¬ talezas que lhe elrev mãdaua étregar liuremente: & mais que fele qui- fera tomar a fortaleza que não deixara de poufar nela, pois ho ele m㬠daua agafalhar nela, & que afli como lhe dizião aquele falfo teftemunho, afli lhe deziã outros muytos as peífoas q lhe querião mal. E daqui vierão a taes palauras, que ho vifo rey lhe preguntou que pera que era aquela lãça & adarga que lhe trazia ho paje: & ele difle que pera feus immigos que fua fenhoria fauorecia cõtrele. A que ho viforey refpondeo.cÕ muyta cólera & alto, q fe aqueles fidalgos por quem ele aquilo dizia não oulha- rão a fazerem o que deuião ao feruiço de Deos & delrey feu fenor, que pouco lhe aproueitara fua lança nem fua adarga, & q fe fofie logo pera
  • Livro II, Capitolo CX 455 fua cafa. Ao que Afofo dalbuquerque não quis refponder, antes fe defpe- dio dele muy cortefméte & fe foy: porque fe deffe toda a culpa ao vifo rey de tudo, & viffem todos que elle não tinha nenhúa. E como ifto era ja em Agoíto que era moução pera fe poder ir a Malaca, defpachou ho vifo rey a Diogo lopez de fequeira pera que fe partiffe. E porque lua ar¬ mada lhe pareceo pequena acrecentoulhe a taforea q fora Dafonfo lopez da cofta, & fez capitão dela a Garcia de foufa, a qué mandou que carre- gãdo em Malaca fe fofle com Diogo lopez pera Portugal. E por efta tafo¬ rea ir afli ordenada & Nuno vaz de caftclo brãco eftar degradado pera Malaca, & pera Portugal mãdou ho viforey que folTe na taforea com os outros degradados: & mandou que os embarcaflem metidos em húa cor- réte como que teuerão feytos grãdes males: & querendo os embarcar mandou ho viforey que lhos leuaffem ao varadoyro onde andaua, & não faltou quem diíTeffe que ifto mandaua ho vifo rey por comprazer aos im- rr.igos Dafonfo dalbuquerque, que por fabere a amizade que Nuno vaz tinha coele folgauão de ho ver aíli mal tratado. E parecédo iflo aífi a Nuno vaz difle a hú moço da catnara que leuaua ho recado dizey ao fenhor viforey que não queira fazer tãto a vontade aos que tem feyto tãto deferuiço a fua alteza, que me mande leuar como tem mandado, porque eu nã hei dir là fe não fe me leuarem a rafto. E indo efte recado chegou ho meyrinho da armada dizendo da parte do viforey q como tar- dauão tanto os prefos que os não leuauão: ao que Nuno vaz difle q fef- pantaua muyto de fua fenhoria querer fazer a vontade (como lhe tinha mãdado dizer) aos que tinhão fugido ao feu capitão mòr, & ho deixarã na guerra: & a ele que ho ficara acompanhãdo quererlhe dar tanto tor¬ mento, que não auia dir lâ fe não fe ho mandafle leuar a rafto, & que afli lho dilleflem, & que aquilo parecia mais de cõtrayro que de quem gouernaua a juftiça. E coifto não foy mais recado que leuaffem os prefos ao viforey: & ho meyrinho os leuou a taforea, & os entregou a Garcia de foufa que deu conheciméto de como os recebia: afli que acrecentada efta taforea á armada de Diogo lopez que coela ficou de cinco naos ele fe partio de Cochim a dezoyto Dagofto de mil & quinhentos & noue. E aos vinte hú defte mes ouue vifta da ilha de Ceilão, dõde começou datra- ueffar ho golfão pera Malaca: & gouernando a lefte paffou a vifta das ilhas de Nicobar que fam duzétas legoas de Ceilão, & eftão em fete graos da bãda do norte, & ha nelas muyto & bõ ambar.
  • 456 Historia da índia CAPITOLO .CXI. Da grande ilha de çamatra: & de como ho capitão mòr ajfentou nela pa\ com el rey de Pedir, & com el rey de Pacem, & fe partio pera Malaca. VIstas eftas ilhas fizera os pilotos fua derrota pera a ilha de çama¬ tra, q he a própria fegundo fe crê a que os cosmographos ãtigos chamarão Taprobana: & he a mayor, & a melhor, & a mais rica que fe fabe no que do mudo he defcuberto: tem fetecétas legoas de roda cotadas pelos mouros que a nauegão, por abas as bãdas eftà noroefte fuefte. Atraueífa ha pelo meo a equinocial, he toda geralméte abaftada de muytos mantimentos: & por toda ela nace pimenta, & em algúas par¬ tes beijoim q he melhor que ho de Pegu, & muyta canfora: & adi hú como ho outro he rezina daruores, & em toda ela ha muytas minas douro: he repartida em muytos reynos, dos quaes os q fe fabé fam eftes, Pedir que he ho principal, & eftâ da banda do norte contra Malaca: & nefte nace muyta pimenta longa & redonda, & tão forte como a do Malabar, & adi ha muyta feda: & chamaífe Pedir por a principal cidade dele que tem efte nome. Outro reyno fe chama pacem também de húa cidade adi chamada que he ho melhor porto de toda efta ilha, & nele ha também muyta forna de piméta que carregão naos dela: ha outra que fe chama Achem també da bãda do norte que eftà em hú cabo defta ilha em cinco graos, outro ha nome Campar contra Malaca, outro Menancabo da banda do fui, & aqui he a principal fonte do ouro defta ilha, adi de minas como que fe apanha em pô de prayas dos rios, que he coufa de pafmo: outro fe chama çunda por húa cidade adi chamada que eftâ em quatro graos & hú terço da banda do fui. E nefte reyno ha também pimenta fem conto: outros dous ha que fe chama hú Andragide, outro Auru: & he no fertao, em que ha hús homés gentios que comé carne humana, principalmente daqueles que matão na guerra. Em todos eftes reynos ha muytas & muy grandes cidades porem rafas, & de cafas palhaças: as que eftão no fertao pouoadas de gentios, & as da cofta do mar de mouros: que fam todos grandes mercadores & nauegão pera todalas partes, & de todas vão tãbem outros a eftes portos cõ fuas mercadorias, em que fe ganha muyto, principalmente nas de Cambaya, & em coral, azougue, & em vermelha. Os mouros que viuem nela fam muy defleais, & muytas vezes matão os reys que te, & fazem outros: & adi eles como os gétios falão a lingoa jnalaya, & tem os coftumes malayos. E nauegando ho capitão mòr pera
  • Livro II, Capitolo CXI 4^7 efta ilha foy ter â cidade de Pedir que eftà fituada em cofta braua em húa enfeada, & defpois de furto fe foy no feu batel pegar com terra: & íabendo que era reyno porfi mãdou dizer a el rey quem era, & donde vinha, & como lhe queria falar. E por el rey eftar doente não lhe pode ir falar, & mãdoufelhe defculpar diífo por leu regedor, com quê ho capi¬ tão môr aífentou paz, & que podelfem os nolfos tratar é feu porto: & emfinal diífo foy leuãtado em terra hú padrão cõ as armas reaes de Por¬ tugal. E daqui fe partio ho capitã môr pera a cidade de Pacé vinte legoas de Pedir, que eftâ por hú rio dentro obra de húa legoa fituada na borda dele em terra alagadiça: & na boca do rio eítauão húas cafas de madeira, em que poufaua hú almoxarife que arrecadaua as ãcorajés das naos que ali aportauão. Aqui chegou ho capitão môr aos feys dias de Setembro, & logo q ele apareceo ao mar, feys naos q eftauão no porto fe fizerão â vela, & fugirão, & núca quiferão tornar: poíto que ele mandou a pos elas hú batel com húa bãdeira de paz, porque foubelfem em terra que ele não hia pera fazer guerra. E defpois dalgús recados ho capitão môr fe vio em terra com hú parente delrey por ele não poder vir, & aífentou coele amizade, & trato: & pos outro padrã como em Pedir. E el rey lhe mandou húa carta pera el rey de Portugal que dizia. Louuores a Deos que trocou os prophetas polos reys da terra em fuas prouincias pera fuas religiões, & reynos ferem regidos por eles. E ho lugar da folgança falue deos com fua paz, & os prophetas & meífejeiros: & feja louuado ho fenhor fempre. E defpois da paz efte he ho efteyo fun¬ dado fobre amor & amizade pofta é voífas mãos: os voífos chegarão a nos, alçarão bãdeira de trato, & moftrarão final damor: vierão â nolfa companhia, & nos os recebemos em noífas mãos cõ a melhor maneyra que podemos, agora ha entre nos & voífa amizade amor, & ho odio he lõge de nos. He concertado que mandeis cadano voífas naos & gente com mercadorias das voífas terras pera fe começar ho trato, proueito, & ganho: & tornaré cõ o que nos teueremos, & ouuer em noffa terra, & a paz feja fobre os que forem mercadores dela: & ho Deos q he verdade moftre ho caminho da verdade. E aífelada do feu feio a mandou aberta ao capitão môr pera que a viífe: & ele fe partio coela pera Malaca. Tono 1 58
  • 458 Historia da índia CAPITOLO .CXII. Em que fe efcreue lio filio da cidade de Malaca, & Jua grande riqueza: & como fe fe\ reyno. ESta cidade de Malaca eftà na cofta de hú grade reyno chamado Sião fituada na boca de hú pequeno rio q ali fe mete no mar c húa an¬ gra. Eftà em dous grãos da banda do norte, & tem muyto bõ porto: ao derrador ha muytas & boas fruytas, afli como vuas que vem de qua¬ tro em quatro mefes, & duriões que fam da feyção dalcachofres, & do tamanho de grades cidras: & de tão fingular fabor que diz a gente que naquele pomo pecou Adão. Ha também caftanhas, figos da índia & ou¬ tras muytas fruytas deferêtes das noifas, e ha muy boas agoas: & todo ho mais mantimento lhe trazem por mar doutras partes, porque não ha na terra mais que o que digo, & por fer tão viçofa he muy doetia. Efta cidade era a efte tempo do comprimento que ha Déxobregas ao mofteyro de Belem, & porem eftreyta: aueria nela perto de trinta mil fogos. Parte a ho rio é duas partes: & a feruetia de húa pera a outra he per húa ponte de madeira, de que fam muytas das cafas: principalmente da banda do mar, & as outras fã de pedra & cal muyto nobres. Em húa deftas partes da cidade que eftâ da banda do fui eftão os paços del rey fobre hú oyteiro, & nela eftaa a lua mezquita mayor, & morão todos os fidal¬ gos. E da banda do norte morão mercadores, a que chamã Quelins & ifto he onde a cidade he mais larga que em nenhúa das outras partes. Ho rey defta cidade he mouro, & affi ho fam os feus naturaes, & tem lingoa fobre fi que fe chama malaya q he muy doce & facil de tomar: fam todos brancos bem defpoftos, & be proporcionados, & viuem nobre- méte: naturalméte fam galantes, muficos, & namorados, & as molheres també: & pola mayor parte fam fermofas, & fam todos amigos de leuar boa vida. E quãdo fenfadão na cidade vanfe defenfadar a quintaãs que tem muyto deleytofas fora ao longo do rio. E com tudo ifto fam homens de guerra, em que fe feruem de lanças, efcudos, terçados, & frechas. Ha também muytos eftranjeiros mercadores, que como dilfe morão em po- uoação fobre fi, & fam mouros & getios: & os gétios principalmente de Paleacate que erão eftantes, & os mais ricos, & de mayor trato que fe a efte tempo fabião no mundo: & não aualiauão fuas fazendas fe não por bahares douro, & auia algús que tinha feflenta quintaes douro. E. não fe auia por rico ho mercador que em hú dia não atrauefiafTe tres & quatro naos carregadas de mercadoria muy rica, & as tornaua a carregar & pa-
  • Livro II, Capitolo CX1I 4$9 gar de fua própria fazenda: & por iffo era efte porto a mayor efcala & das mais ricas mercadorias que fe então fabia no mudo: porq aqui vinhão juncos da china q trazião ouro, prata, aljôfar, perlas, almizquere, reu- barbo, borcadilhos, cetls, damafcos, tafetás, feda folta, & retros, porce¬ lanas, cofres dourados: & outros brlcos & lldezas muyto mais polidos q os de Frades. E mais leuauão ferro & falitre: & fazião leu emprego é pimenta, panos de Cambaya, de Bégala: & de Paleacate, grãs, açãfrão, coral laurado, vermelhão, azougue, ãfião, droga de Cambaya, que cha- mão cacho & pucho: & outras mercadorias que hião pela via do mar roxo. Hião també júcos da ilha da Iaoa com muytos mantimentos, & com muytas & boas armas .f. lãças, azagayas, efpadas, terçados, crífis que fam como adagas, & rodelas: tudo de muy fino aço, & laurado de tau- xia de que fam grandes officiaes. E eftes júcos, que adi chamão âs naos daqlas partes fam muyto grandes & muyto defuiados de todas as naos do mundo: porq da mefma feyção lie a proa q a popa, cm cada húa té hú leme: & não té mais que hú mafto, & húa vela, & efta de rota de Bégala, q fam caninhas delgadas & anda ao derrador como debadoira, & por ifto nunca virão como as noflas naos. E quando amaynão nã tem neceflidade de fraldar a vela, porque cae toda junta: & coifto fam eftes júcos muy feguros no mar, & fam de muyto mais carrega q as nofias naos, & muyto mais fortes, & tem as amuradas tão grafias que as não paíTa hú camelo: porque de cada vez que os hão de renouar lhe lãção hú forro de tauoado nouo, & breãnos com hú betume branco, a que chamão gala gala: & ha junco que tem fete forros, & por ifto durão muyto. Vinhã també a efte porto paraos carregados douro em pô da ilha de çamatra do reyno de Menancabo, & muyta piméta da mefma ilha: & afti do Ma- labar. E afti hião mercadores de toda a índia, & de Choramandel, Ben¬ gala, Tenaçarim, Pegu com muytos mantimentos, & ricas mercadorias: & afti trazião aqui crauo de Maluco, canfora de borneo, maça & noz de banda, fandalos brãcos & vermelhos de Timor: pelo qual como digo era a mais rica efcala que fe naquele tépo fabia no mundo. E pofto que efta cidade eftaua no reyno de Sião não obedecia ao feu rey que he gentio, antes tinha rey fobre fi q era mouro como diffe. E ifto foy porque def- pois q os mouros eftranjeiros & tratantes affentarão feu trãto nela, enrri- quecerão tanto que fe fizerão muy poderofos, & leuantarãfe contra os naturaes da terra que erão gentios & fugigarã os, & defpois de fugeitos fizerão os da fua lei: & leuãtarão rey antrefi, que era o que reynaua a efte tempo: & como fe vio poderofo não quis conhecer fenhorio a el rey de Sião & ficou ifento dele. E parece que por el rey de Sião fer fenhor de muyta terra como he, & eftar metido pelo fertã não atentou pela
  • 460 Historia da índia perda daquela cidade: & el rey de Malaca defpois que fe vio pacifico fenhor da cidade, não curou mais que de leuar boa vida, & enrriquecer. E encomendou a gouernança do reyno a hum feu tio, homem muyto grande tirano & immigo de todo los homens que não erão mouros. CAPITOLO .CXIII. De como ho capitão mòr Diogo lope\ de fequeyra chegou ao porto de Malaca, & fe uio com el rey: & ajjentou trato, & amizade, & da treiçã que fe lhe ordenou. A Esta cidade chegou ho capitão môr com fua armada aos onze de Setembro de mil & quinhentos & noue: & em feu porto achou muytos júcos, antre os quaes eítauão quatro da China. E fabédo os chis fua vinda, por eítarem afeyçoados aos noffos pela fama que tinhão deles ho mandarão vifitar os fenhores dos júcos offpecendolhe fua ami¬ zade : & a pos iífo ho forão ver. E ele lhe deu conta do que hia fazer, & lhe moftrou as mercadorias que leuaua: & ficarã tão amigos que ao ou¬ tro dia foy comer coeles. E defpois de comer fizerão os chins faber a chegada do capitão mór a elrey de Malaca, & a feu tio ho regedor, que na lingoa malaya fe chama bendara: & eles moítrarão que folgauão com a vinda do capitão môr, & mais porque era pera aífentar trato. E logo foy cõcertado que ho capitão mòr fayffe em terra a falar com el rey, & aífentar trato coele & com ho bendara. E defembarcado ho capitão môr foy recebido de muytos fenhores malayos por mandado delrey & afli de quantos auia na cidade, que todos corrião ao ver: & da praya foy leuado aos paços encima de hú alifãte da peífoa del rey, que afli ho coítumão fazer aos grandes homens eítranjeiros, & hia com grande aparato de feita, & deitado: el rey & ho bendara ho receberão com muyta hõrra. E def¬ pois do recebimento affentarão paz perpetua ãtre el rey de Portugal, & el rey de Malaca: & q ele & ho bédara defiem húas caias pera el rey de Portugal ter nelas fua feytoria, & fua fazenda fegura: & que as fuas naos íerião primeyro carregadas que outras nenhúas, aili eítranjeiras como na- turaes, & que ho crauo, droga, & maça fe lhe daria pelo preço da terra compradas por dinheiro, ou a troco de mercadorias do que fe mais con- tentaffem. E de tudo iito foy feyta húa efcritura aífinada por elrey de Malaca, & pelo bendara: & foy dada ao capitão mór, que tornado â frota mãdou logo a terra Ruy daraujo que hia por feytor, & afii outros offi- ciaes da feytoria, & peífoas ordenadas a ela: & aífi Pero lopez do baito feytor das partes. E ho bendara deu logo húas cafas ao feytor alé da
  • Livro II, Capitolo CXIII 461 cidade pera ho fertão, pegadas com hú efteiro. E daqui por diante ouue ho capitão môr a paz por tão firme, & por tão fegura a ida dos noflòs a terra, que foltou geralméte a licéça a todos pera irem là, nem menos a negaua aos malayos pera irem a fua armada & afli a todolos outros eftrangeiros, a que pefaua muyto do afféto que os noflos tomauão naquela cidade, principalmente aos jaos & guzarates que recebião mayor perda que outros nenhús eftrãgeiros, & por iflo querião mayor mal que todos aos noflos, & defejauão de os deftruir. E comunicado efte odio com algús mouros de Calicut eftantes em Malaca, ordenarão de os defarreigar da terra, dizendoho ao bendara, & aconfelhandoho que ho fizefle, porq os noflos não hião pera tratar, fe não pera tomar a terra com côr de trato: & que lhe lembraffe que com aquela diflimulação fora a Cochim & a Ca- nanor onde logo fizerão fortalezas, & afli farião em Malaca: por iflo que os matafle em quanto podia, & que lhe tomafle fuas mercadorias. E pofto que não teuera outra caufa pera ho fazer, abaftaua ferem Chriftãos im- migos de fua ley. E o que mais infiftia nifto era hú mourò xabandar dos guzarates chamado Nahodabeguea: & afli outro mouro filho de hú jao homé muyto rico, & defpoys del rey ho mór fenhor de Malaca, que auia nome Timutaraja, tã rico que tinha feys mil efcrauos todos cafados. E como ho bendara de feu natural fofle tredoro & tirano, pareceolhe bem o que lhe aconfelhauão: & pera iflo falou com el rey, & fez com ele que també lho parecefle. E confentindo naquela treyção, concertarão pela de- uaffidão que vião no capitão môr, de lhe dar hú banquete em terra, & afli aos capitães & pefloas principaes da frota, com quem viria a mayor parte da outra gente, & que ali os matarião a todos. E ho filho de Ti¬ mutaraja fe ofreceo de matar por fífa mão ho capitão mor, & de leuar configo todos os catiuos de feu pay pera fazer coeles aquele feyto, & que não queria pera iflo outra gente. E pera ordenar ho banquete, começarão de fabricar hú muyto grande cadafalfo de madeyra no começo da pouoa- ção dos Quelins, perto da ponte. E como iflo foy aífentado, logo come¬ çarão de dilatar a carrega ao capitão môr, dando por efcufa que lhes tardauão dous juncos que erão a Banda, & a Maluco, por noz, maça, & crauo & por fua detença lhes faltauão eflas mercadorias, & que não tinhão a foma que antes cuydauão pera comprir coele, como també com algús mercadores eftantes de muyto tempo, a que tãbé erão obrigados a dar crauo & droga: & porem que farião o que podeífé & que lhe perdoafle fe a mercadoria que lhe defiem não fofle tam boa como a que derão no começo. E ifto porque algúa que então dauão era molhada & çuja. Ho capitão mòr como era de boa condição, cria eftas coufas que lhe ho ben¬ dara & el rey mandauão dizer não lhe lembrando que quando foy ho
  • Historia da índia affento do trato lhe differão, que lhe darião carrega pera feffenta naos, & que logo na primeyra lhe derão mercadoria muyto limpa & enxuta. E mais tendolhe mandado dizer os capitães dos Chins por hú dos noffos chamado Francifco ferrão que fe não fiaffe daquela gente, porque era muyto falfa: & ifto lhe mandarão dizer vendo quanto fe fiaua deles. Po¬ rem ele nunca quis dar credito a efte auifo. CA PITO LO .CXI1II. De como foy defcuberta ao capitão mòr a treição que os inimigos lhe ordeitatião, & de como a eles poferão por obra. E Querendo noífo fenhor que efta treição não ouuefle effeyto tão inteiramente como os immigos determinauão. Acertou hú duarte fernãdez chriftão nouo, & alfayate que labia a lingoa perfiana de poufar quando hia a terra em cafa de húa moura perfiana eftalajadeira: & parece que por efte Duarte fernãdez faber a lingoa ho agafalhaua, ou porque queria nolfo fenhor que por meyo defta moura fe faluaffe a moor parte dos noffos. Porque fabendo ela o que fe lhe ordenaua mandou dizer ao capitão môr por efte Duarte fernandez que defejaua de falar coele coulas q comprião muyto a lua vida, & de todos os da armada. E ainda ifto não abaftou pera gerar fofpcita nele do que fe lhe ordenaua: & muyto repoufado refpondeo que não auia de falar cõ a moura, que lhe mãdaffe ela dizer o que queria. E defta repofta fe queixou ela muyto, & mandou- lhe dizer que não auia de dizer nada fe não a ele, & fe quifeffe iria de noyte falarlhe â fua nao por que a não vide ninguém né conheceffe. E defte recado zombou ele muyto, & diffe, que entendida era a moura: & que todos aqueles fegredos auião de fer quererlhe trazer algúa filha que teria pera dormir coela, & porq não enxergalfe fe era fea lha qria trazer de noyte. E preguntou rindofe, fe tinha a moura algúa filha fermofa, & não quis que lhe falaffe, & vendo a moura que de todo em todo ele a não queria ouuir mandoulhe dizer a treyção que fe lhe ordenaua: o que ele não quis crer, & delpois os capitães dos Chins lhe defcobrirão ho mefmo, confelhãdolhe que fe el rey ou ho Bendara ho cõuidaffem pera ho banquete fe efcufaffe fazédofe doéte, dizendo todauia que ho faria achandofe melhor: & ele ho fez aífi, & não foy. E vendo os immigos que fua treiçã não podia ir auante, com aquele ardil inuentarã outro pera ma- taré os noffos no mar, & lhe tomaré a frota: & fizerão pera ifto húa muyto grande armada de juncos, lancharas, balões, & manchuas que fam nauios de remo, grandes & pequenos: & os balões & manchuas alaftra-
  • Livro II, Capitolo CXIIII 463 dos de frechas, arremeífos, & adargas, & porcima mantimentos. E po- ferã eítes nauios detrás dos juncos, porque os noífos os não viífem, & mandarão dizer ao capitão môr que pois não vinhão os juncos quefpera- uão, que querião comprir coele ãtes que com outré, & mais porque fe lhe acabaua a mouçã da índia: & que lhe querião dar a carrega toda junta pera mais breuidade, que mandaffe todos os bateis por ela cõ muyta gente pera a carregarem logo. E iílo com tenção de lhos tomarem, & ma- tarem a gente que foífe neles: & també a outra que eítaua na feytoria. E tinhão concertado que em começando eíta obra, fizeífem com hú fumo final â fua armada pera que tomaíTem logo os noífos que eítauão no mar. E ho capitão deite feito auia de fer ho filho de Timutaraja, & a gente que auia de leuar auião de fer os catiuos de feu pay & auia de ir coele Nahodabeguea, & durando ainda ho capitão môr na confiança que tinha nos immigos, mandou tres bateys a terra, & ficou ho da taforea porque lhe eítauão calafetãdo a cuberta, & ele feruia niífo cõ ho breu. E tanto que os bateys forão a terra que era hú dia em amanhecendo fayrão logo os balões & manchuas donde eítauão, & foranle â nofla frota cõ moítra de vender os mantimentos que leuauã & coeles cegarão os noífos que não viífem a grande forna de géte que hia nas manchuas & balões, que dãtes não coílumaua de ir. E eles mefmos os apreífauão que chegaífem a bordo: & chegauão tantos que não auia nao que não eíteueffe cercada de muy- tos balões & mãchuas, & os jaos hião como mercadores & coeles ho filho de Timutaraja, q entrou com os outros na capitaina. E pera mais enga¬ narem os noífos que não atêtaífem por quantos erão, dauanlhe tudo rnuyto barato: & em quanto hús védião, os principaes que digo fe fobiao aos chapiteos das naos pera os tomarem porque dali tomarião mais aíinha a nao. E andauão tão deífolutos que atentou niífo Garcia de foufa, & vio tan¬ tos na taforea que lhe pareceo mal, & mais vedo hú fobido no chapiteo: & recolheofe a fua tolda com obra de doze dos noífos desses principaes que trazia, pera fe aproueitar de hú cauide de chuças & lãças que hi eítaua, fe os Imigos boliflem configo: & dali lhes começou de bradar que fayífem da taforea, & mandou logo dizer ao capitão môr por Fernã de magalhães, que fe via ele a forna das manchuas & balões que eítaua ao derrador da noífa frota, & a muyta gente que trazião. E logo fez por força fayr os immigos da taforea, que fayrão por ferem poucos, & por não verem ainda a fua. E fernã de magalhães que foy ao capitão môr, achouho jugando ho enxadrez muy defcuydado do que fe lhe ordenaua: & fem nenhú fen- timento de oyto jaos queítauão dentro na nao, & hú deles era ho filho de Timutaraja, q hia pera matar ho capitão mòr que ouuindo ho recado de Garcia de foufa, diífe ao contra meítre ainda rnuyto de vagar que
  • 464 Historia da índia mandafle â gauea a ver fe vinhão os noffos bateys que erão em terra: mas com tudo não deyxou ho jogo. E ho contrameftre fubio logo à ga¬ uea, & delà vio que ho filho de Timutaraja, eftaua fobre ho capitão môr com hú cris meo arrancado, como que ho queria ferir, & hú dos outros immigos lhe acenaua que ho não fizeífe, como que ainda não era tempo: porem eles vião ja ho final do fumo em terra, onde nefte inftante os Imigos derão nos noffos que andauão pela cidade tão feguros como que fora de Poriuguefes, & matarão muytos deles: o que fe pode bem fazer por quam defcuidados efiauão. E també por não valerem forças nem esforço de tam poucos pera tantos, & por iffo os que poderão fugirão pera a feyto- ria, onde fe recolherão vinte com Ruy daraujo, & fe começará de defen¬ der da multidão dos immigos que eftaua fobreles, combatendoos forte¬ mente. E porque ho filho de Timutaraja adiuinhaua ifto polo final do fumo que via fe aprefiaua a ferir ho capitão môr pofto que tinha cõfigo tã poucos, & acenandolhe ho companheiro que não era tepo meteo ho cris na baynha: mas como eles fam muy determinados & via crecer a fumaça em terra, tornou a tirar o cris: & é ho arrãcãdo bradou o cõtra- meltre da gauea dizédo o q vira. A ifto fe leuãtou ho capitã mòr pofto em grãde alteraçã. E em ho jao ho vendo aleuantar daquela maneyra, pareceolhe o que era, & lançoufe logo aos balões que eftauão a bordo, & ho mefmo fizerão os outros. E todauia algús forão mortos pelos nof- fos, que vendo adi efcapar os Imigos lhe começarão de tirar cõ a arte- lharia pera ver fe fe podião vingar. CAPITOLO .CXV. De como Ruy daraujo, & os outros quejtauão cercados na feytoria fe entregai ão ao Bendara: & de como ho capitão mòr fe partio pera a índia. E Nisto bradou ho contrameftre da gauea que vinha hú batel noífo fugindo de terra, & que ho feguião muytas manchuas pelejando coele, & parecia que ho apertauâo muyto. E afli era como ele de- zia, & naquele batel vinha Frãcifco ferrão que quando os Imigos derão na feytoria fe faluou cõ ho piloto môr, e fe foy recolhendo pera os ba¬ teis, defendendofe dos Imigos que os feguião: & os noffos não leuauã mais armas que as efpadas & capas com que fe emparauão: & ho piloto môr hia tam ferido que não pode ter com Francifco ferrão, & ficou a tras, & matarãno: & nefte embaraço q eles teuerão teue Francifco ferrão tempo pera chegar aos bateys, & meteofe logo no da nao de Ioam nunez, l
  • Livro II, Capitolo CXV 465 onde eftauão tres gormetes: & cortando ho cabo do batel que eítaua em terra alargoufe dela: & os Imigos que a eíte tempo eítauão no mar acodi- rão logo, & tomara dous bateys noffos, & matarão os gormetes que eíta¬ uão neles, & outros muytos em manchuas & balões íeguirão a Francifco ferrão, defendendoíe ele cÕ a efpada íomente, & os gormetes com os remos que não tinhão outras armas. E indo neíta agonia chegarão a ou¬ tro noflo batel em que não eítaua mais de hú gormete, que em vedo eftoutro batel perto fe lançou dentro, & atoandoo por popa ajudou aos outros gormetes. E com quanto fe Francifco ferrão defédia valentemente com ajuda dos gormetes, os Imigos erão tantos, & apertauão coele tam rijo que lhe entrarão ho batel duas vezes, & dambas forão deytados fora com muytos mortos & feridos. E por derradeiro perdeo ho batel que hia atoado ao feu, que também lho ouuerão de tomar fe não focorrera ho da taforea, em que lhe forão acodir Fernão de magalhães, Nuno vaz de Caf- telo branco, Martim guedez, ho efcriuã da taforea, & hú efcudeiro de Diogo de mendoça, cujos nomes não foube. E chegando a tiro de berço dos Imigos, defpararão hú que leuauão na proa do batel, & dando por antreles matarão algús. E tambê começou logo de tirar a artelharia das naos, com cujo medo fe os immigos recolherão recebedo muyto grãde dano: & aífi efcapou Francifco ferrão, que leuado ao capitão môr lhe con¬ tou o que fora feyto aos noífos queítauão em terra. Pelo que fez logo confelho fobre 0 que faria: & muytos ouue que differã que foífem quei¬ mar a frota dos Imigos nos bateis cõ panelas de poluora, & que a arte¬ lharia os defenderia que os não abalrroaílem, & mais a das naos que hirião em feu refgoardo: & q compria muyto a feruiço del rey de Portu¬ gal fazerfe afli: porque fe aquela treição ficaffe fem vingãça perderião os nolfos todo ho credito que tinhão. E defte parecer foy contrayro Iero- nimo teixeira que era fota capitão dizendo q aquilo fora muyto bõ fazerfe fe ho poderão fazer com dous bateis: mas que dous bateis ainda que fof- fem muyto bé artilhados era tão pouca coufa pera os muytos calaluzes, lancharas, mãchuas & balões que tinhão os immigos q não aproueitarião nada: porque ainda que tiraffem por hú cabo virião eles pelo outro. Quãto mais que dous bateis cõ dous tiros cõtra aquela multidão de fuf- talha, que podião fazer que os não cercaífem em acabãdo de defparar os berços ãtes que lhes atacaífem as camaras, por iífo que era efcufado falar em queymar tantas velas com dous bateis. Mas que antes que fe os im¬ migos acabafle dembarcar fe deuião de fayr do porto & andarião âs vol¬ tas a vifta de Malaca pera verem fe podião aver por algum partido a Ruy daraujo, & os outros catiuos. E defte parecer foy ho capitão mòr: & afli fe fez, & fahirão 3 toa. E vedo ho Bendara que ja não podia tomar Tomo I 5g
  • 466 Historia da índia os noffos como tinha cuidado, determinou de os auer por manha: & foyfe â feytoria, onde fe Ruy daraujo ainda defendia com feus companheiros: & como q não fabia nada do que fe fazia fez apartar os immigos, & per meyo de Ninachatu hú mercador gentio rico, & de grande credito, fe lhe entregarão Ruy daraujo & os outros com feu feguro & del rey. E como forão entregues mandou hú recado ao capitão mor de grãdes difculpas de não faber do paffado, & moítra de lhe pefar de fer feyto: & q fe não efpantaífe de fe fazer. Porque como a cidade era grãde & auia nela muy- tos eftranjeiros, a que pefaua muyto cÕ a noffa feytoria, principalmcte aos jaos & Guzarates, que eles forão os que fizerão aquela treição, & q ja os tinha prefos pera os caíligar, pedindolhe que ho paífado não foífe caufa de fe quebrar a amizade queftaua aífentada, & que foíTe acabar de car¬ regar: & que no porto lhe mandaria entregar Ruy daraujo & os outros queftauão viuos & fãos. E per confelho dos capitães lhe refpondeo ho ca¬ pitão môr, que tinha por certo não fer ele em confentimento da treição q lhe fora feyta: & porem que fe quifeffe que tornalfe ao porto que lhe mã- daífe primeyro Ruy daraujo & os outros, & então iria. E leuada efta re- poíta ao Bédara tornou a repricar que foífe ho capitão môr ao porto, & que là lhe daria os feus & tudo ho mais que quifelfe. E ele lhe refpon¬ deo que pois lhe não queria dar os nolfos que ele andaria por ali âs vol¬ tas ate que lhe foífe focorro da índia, onde ho mandaria logo pedir pera ir fobre Malaca com tanto poder que a tomgífe, & entre tanto tomaria quantas velas foffem pera entrar no feu porto, & então faberiã os feus o que ganharão na treição que fizerão: ao que ho Bendara não tornou re- poíta. E vedo ho capitão môr que lha não mandaua ouue confelho fobre o que faria: & foy acordado que por quanto em Malaca auia húa armada tão poderofa, que era doudice querer cometer pelejar coela: não deuião de tornar ao porto, mas irfe pera à índia antes que fe acabaífe a moução pequena, porque fe começaua de gaitar: & fe não partiffem naquela auião defperar tres ou quatro mefes q auia ate a moução grande, & perderfe- hião por não terem onde efperar, & que melhor era perderenfe os que ficauão em terra que a frota toda, que não deixara de fe perder fe pelei- jara com a dos Imigos, q eftaua preítes pera lhe fayr fe a noffa fe mais deteuera.
  • Livro II, Capitolo CXVI 467 CAPITOLO .CXVI. Do que aconteceo ao capitão mòr ale a ilha da poluoreira, & de como fe partio pera Portugal do cabo de Comorim fem ir á índia, & a caufa porque. ISto determinado fez fe ho capitão môr á vela cõ os outros capitães & partiofe. E indo ainda a vifta das ilhas q eftão junto de Malaca a ho¬ ras de foi pofto vio hú junco peqno que vinha de contra a Iaoa. E como hia diante dos outros capitães, foy ho primeiro que chegou a ele quafi noyte, & indo pera o aferrar não poderão, & ele foy fua via: & querendo os outros capitães aferralo, bradoulhes que ho não fizeffem, & por iffo fe teuerão. E fentindo os Imigos que a noffa frota era de feus Imigos, por lhe fugir começou darribar fobre húa daquelas ilhas, o q vendo Garcia de foufa capitão da taforea, que hia detrás de todos, me- teofe antrele & a terra, & atalhado affi o junco furgio, & ho capitão môr furgio perto dele, & os outros capitães afaítados, q a nenhú quis ele dar licença que ho aferraffem, nem que furgiífem perto dele, parecédolhe que trazia muvta riqueza, porq lha não furtaffem. Os Iaos que eftauão no junco vendo os noíTos furtos, & que era tépo pera fugir determinarão de ir varar em terra pera onde a agoa échia, & por iffo alargarão a amarra, & tédoa be larga começarã de dar â vela pera fe acolher, ao que os ca¬ pitães bradará ao capitão môr, que era vergonha irfelhe aífi aquele júco, que ou ho aferrafTe, ou lho deixaífe aferrar. Então deu licença a Nuno godinz que ho foífe aferrar: & efte Nuno godinz era capitã do nauio de Gonçalo de foufa, a que ho capitão môr tirara a capitania dele, porq eflando no porto de Malaca dera húa bofetada a Ioão frz de beja feytor daquela armada. Os jaos vendo q os hião aferrar fizerão fua cerimonia de juramento q eles fazem ãtes que peleje, de fe não daré & morrerem todos quãdo fe não poderé defender de feus Imigos. E coefte juraméto os achou Nuno godinz, que todauia os aferrou: porém eles fe defêdiã como homés que tinhão determinação de morrer, antes que fe dar. E com quãto era noyte matarão logo dous bõbardeiros dos nofíos, q punhão fogo a hús berços queftauão de proa, por onde entrarão no noífo nauio, & comete¬ rão os noffos tão brauamente que os fizerão recolher ao conues: & nefte recolhiméto foy ferido Nuno godinz, que foy caufa de os noffos correré mayor perigo, & certo que eftauão em muyto grãde, fe a este tempo não focorrera Frãcifco ferrão no batel de Ioão nunez cõ algúa géte da fua nao, & cõ fua vinda fe esforçará os do nauio, de maneira q ho defpejarã dos
  • Historia da índia 4f>S Imigos q temédo q os noflos lhétraffem ho júco fe recolherão com fuas molheres, que tãbc trazião, a hú parao grade que leuauão de popa, & começarãfe dalargar pera a ilha. Ao q Francifco ferrã logo acodio arre- mefladofe no feu batel, & Frãcifco lopez filho de ruy lopez, veador del rey dõ Manuel: & dous bombardeiros: & ele hia na proa com húa lança nas mãos & húa adarga embraçada: & affi cometeo os immigos q eftauã de efcudos redondos, & lãças muyto copridas com ferros colobrinos de grande coprimento: & ho iuraméto que tinhão feyto os fez esforçar gran¬ demente pera fe defenderem dos noíTos, tirandolhe muytas lançadas, & ho primeiro que ferirão foy Francifco ferrão a que derão húa lançada per húa ilharga, & foy cõ tanta força que lhe cortou húa cofta, & deu coele nagoa. E quis deos que eftaua ali húa amarra de húa ancora que jazia ao mar, & nela fe pegou & fe faluou, & tanto que ele foy derribado entrarão os Imigos de roldã no batel por mais que le defendiã os que eftauã nele, & derribará antre as toftcs a Frãcifco lopez muyto ferido, & matarão quatro dos remeiros, & hú bobardeiro & ho outro ferirã muyto mal, & afli dous dos remeiros. E eftando eles fenores do batel chegou ho batel da taforea, ê que hião Fernão de magalhães, Nuno vaz de caftelo branco, Martim guedez & outros que por todos erão feys a fora os re¬ meiros. Os Imigos ainda que era de noyte enxergarão bé ho batel com a ardentia dagoa: & parecendolhe que por ir de refrefco leuaria gente que os pofeffe em afronta, recolherãfe ao feu paraô que eftaua pegado com ho batel de Frãcifco ferrão. Os que vinhão de refrefco poferão a proa do feu batel no paraò, & tomarãno de traues inueftldo coele, & foy tamanho ho encontro que lhe derã que ho fizerã ir a outra banda, & as molheres que també carregarão a ela ho fizerão péder tanto que tomou agoa por bordo: o que elas fentindo, cuydãdo q fe alagaua fe lãçarã ao mar, & a pos elas os homés por as faluar. O que vifto polos noflos fe meterão logo coeles â calcada, & matarão os mais deles. E ifto feyto porq não auia mais q fazer tomarão ho batel de Francifco ferrão, & leuarã os feridos à capitayna, & ao outro dia foy defpejado ho junco do que leuaua, que foy arroz, fandalo, aguila, & canela da jaoa. E porque no nauio que fora de Gonçalo de foufa, não auia gente q abaftafle pera ho marear, pareceo bé ao capitão môr paflar a géte pera as outras naos & queymalo, & coele ho junco: ho q fabido por Nuno vaz de caftelo brãco, lhe mandou dizer por Garcia de foufa, que a índia ficaua em muyta neceflidade de nauios & naos, por iflo que não queimaffe aquele, & que lho deflé, que ele bufcaria quem lho ajudafle a leuar. E ho capitão môr não quis fe nã mã- dalo meter no fundo: do que fe defpois arrependeo porque lhe fez min- goa. E feguindo defpois feu caminho ao lõgo da cofta a quatro legoas
  • Livro II, Capitolo CX VI 469 dele furgio cÕ tepo contrairo: & eftando furto metia ali grande mar: & coifto por fer a nao de Ioã nunez roim, de fobre amarra quebroulhe hú terço do mafto, & por não auer maneira pera fe cõcertar lhe enxirirão húa antena, onde fofria leuar húa pequena vela. E partido daqui veo ter com a frota hú junco, que fazia moftra de leuar carga de duzentas tone¬ ladas : & Garcia de foufa que hia diante foy ho primeiro que chegou a ele, & ho aferrou: & com quãto os Imigos quiferã defender a entrada aos noífos não poderão & forã entrados, & em os noffos entrando muytos dos Imigos fe lançarão ao mar, & outros fe meterão debaixo de cuberta, & abrirão logo hús rombos que trazem nos juncos pera eftes tempos, porque fe os immigos os entrã deftapão os rombos & alagão os juncos em que fe os Imigos afogão, & eles não porque fam grãdes nadadores, & tamanhos mergulhadores que fofré eftar debaxo dagoa por efpaço de húa hora: & cuydãdo eles de afogar os noífos deftaparã os rõbos: & quafi que ho ouuerão de fazer, porque effes que entrarão no junco, cuy- dando que eftaua defpejado dos Imigos, meteranfe logo a bufcar q rou- baffem: & andando nifto começoufe ho junco de ir ao fundo cõ a agoa que lhe entraua, no que atentando os outros que eftauão na taforea bradarão aos q andauão no júco, que fe acolheífem, como acolherão, & cõ quanto a preffa foy grãde, ja ho júco eftaua cuberto dagoa & Nuno vaz de caf- telo brãco fe faluou a nado cõ dous marinheiros, & os Imigos aíli como fentiã que ho junco fe hia ao fundo, afli furdião acima: & coefte ardil fe faluarã. E ao outro dia fendo a frota tanto auante como a húa enfeada q eftá oyto legoas de Malaca, fendolhe ho vento contrairo, veo ter coela hú junco muy grande, que fegúdo fe defpois foube hia muy rico, & a taforea como era muy veleyra hia fempre diante, & por ilfo chegou a ele primeiro q outra nao hú grande pedaço: & tiroulhe dous ou tres tiros pera amaynar, o q os Imigos não quiferão fazer, q foy caufa de Garcia de íoufa mandar que ho aferrafTem: & fobrifto ouue húa rija peleja dos noífos cõ os Imigos, & defpois de aferrado ao entrar, & erã as pedradas muytas, & lançadas, afli das gaueas como doutras partes: & cõ tudo ho junco foy entrado pelos noífos, de que forão feridos ate quatro, & dos Imigos muytos, & mortos dous ou tres. E os outros cõ medo lãçarãfe algús ao mar, por fer perto de terra, outros ficarão efcondidos por eífas peitacas do junco, que fam como camaras. E nifto chegou ho capitão môr, & muyto menécorio, cuydando que ho iunco era roubado dos noífos que eftauão dentro começou de lhes chamar ladrões, & q fe faiífem logo: & mandou dar hú cabo de fua nao ao iunco pera ho leuar â toa, que queria dobrar húa ponta, mas núca pode por fer ho vento contrairo, & fe dei¬ tou com a frota na enfeada que digo perto de terra, onde fe fazia hú def-
  • 410 Historia da índia cuberto, per que entraua tamanho vento que fazia ho mar grade efcarceo, & porque auia ali ho capitão môr de fazer detença ate abonançar ho tépo, mandou a Ieronimo teixeira q fe metefle no júco cõ vintoito homés pera o guardar, & pera ver o que trazia, & afli ho fez. E cõ quãto era de noyte & fazia grãde efcuro fe leuaua dele muyta mercadoria pera a ca- pitaina no batel da taforea. E rédido ho quarto da prima os Imigos def- taparão os rõbos do júco pera o meter no fundo como coftumauão. E fabendo ho capita môr como fe ia ao fundo, temendo q lhe leuaffe a nao coníigo por fer ali muyto fundo mãdou logo cortar ho cabo q lhe tinha dado, & alargalo de fi, & Ieronimo teyxeira, & os outros bradauão q lhes valeffem, porq ho júco era ja cheo dagoa, & foiífe ao fom do mar pera onde a agoa corria, que era pera Malaca, mas nem poriífo não quis ir ho capitão môr a pos ele, né menos a nao de Ieronimo teixeira, né a de Ioã nunez. E indo afli bradando Ieronimo teixeira, & os outros que fe acolherão a húa goarita na popa do junco, bradauão muy forteméte que lhes valelfem. E forão afaftados da taforea que jazia ao mar, onde fe ouuião craramente os brados cõ ho vento que corria da parte donde fe dauão. E ainda que cõ ho efcuro os da taforea não enxergaífé ho junco, enxergauão húa forna que prefumirão fer ho junco que fe defamarrara. E adernado que era ele pos fe ho capitão mòr em confelho fe lhe acodi- rião: porque pera lhe acodir era neceflario que cortaflem húa amarra que tinhão ao mar, & não tinhão outra nem menos as outras naos: & por efta rezão erão ho piloto & ho meftre muyto contrairos a fe lhe aco¬ dir. E eftãdo nefte debate differão Fernão de magalhães, & Nuno vaz de caftelo brãco, que pera não ficaré de todo fem amarra que meteflem dentro a mais que podeflem, & então a cortaflem pofto que não teueflem mais que húa, porque nã podião fazer melhor prela que faluar aquela gente que fe perdia no junco. E acordado ifto poferã dous marinheiros na gauea com húa agulha de marear pera demarcarem pera onde ho junco podia ir, mandandolhe que teueflem fempre olho naquela forna que parecia, & quando a perdeflem que fe marcaflem pela agulha: & logo fe meterã todos ao cabreftante, & muy alinha meterão détro todo ho aufte, & metédo ho fe fizerão á vela feguindo a via que eftaua demarcada pera onde hia ho junco: & como virão a forna tomarão a vela grãde & pondoa em torno defpada com ho traquete fe forão chegando ao junco amaynando pouco & pouco, & correranlhe por popa com muyto pouca vela, bra¬ dando aos noffos que todos fe pofeflem na popa: porque tanto que a tafo¬ rea emparelhafle com ho junco faltaflem nela: & afli foy feyto, & ho junco foy ter a terra, onde defpois os immigos faluarão a mercadoria. E faluos os noffos, & tornando ho capitão môr â fua viajem foy ter a Poluoreyra
  • Livro II, Capitolo CXVII 41i onde fez agoada, & fazédo fe daqui á vela querédo a nao de Ieronimo teixeira fayr de húa enfeadinha em que eftaua, tomou ho húa agoajem, & feio tomar por dauante de maneyra que foy dar de popa em terra: & deu de tal feyção em hú penedo queltaua debaxo dagoa q abrio a nao, & ficou enforcada, & a gente fe laluou: & affi muytos mantimentos, & artelharia, & ali ficou, mandando ho capitão môr defenxarciar: & por Ieronimo teixeira ficar fem nao, & ir por fota capita lhe deu ho capitão môr a nao de Ioão Nunez. E profeguindo daqui fua viaje em Ianeyro de mil & quinhétos & dez foy ter a Trauancor hú porto no cabo de Gomo- rim, onde foube que ho vifo rey era partido pera Portugal, & Afonfo dalbuquerque gouernaua a índia. E parecendolhe que Afonfo dalbuquerq tinha rezão deílar mal coele por quão cõtrayro lhe fora por parte do vifo rey não oufou de ir â índia: pera onde mãdou dali a Garcia de foufa & a Ioão Nunez nas fuas naos, que defpois forão là ter como direy a diante: & ele fe partio pera Portugal, & paliou per ãtre as ilhas de Maldiua caminho do cabo de boa efperança, & foy ter a Lisboa no ano de mil & quinhentos & dez. CAPITOLO .CXVII. Do que acouteceo ao capitão mòr Duarte de lemos indo pera çacotorá, £ do mais que fe\. PAssado o inuerno que Duarte de lemos teue em Melinde como diífe, ele fe partio cõ fua armada a vinte Dagoílo do anno de mil & qui¬ nhentos & noue pera çacotorá, pera meter de pofle da fortaleza a Pero ferreyra fogaça. E nauegando ao longo da colla foy ter a Maga- daxo, húa cidade de que faley a tras. E hia com determinação de a tomar fe vilfe que a terra eílaua em defpofição pera iffo: & por fer ja tarde não pode fazer mais aquele dia que iurgio na barra. E eítãdo a frota furta aconteceo que fe cortou a marra do bargantim de Grigorio da quadra eftando toda a gente dele dormindo, que por iffo ho não fentirão defa- marrar: & por fer pequeno & fazer efcuro não foy vifto de nhú da frota. E defamarrado fe foy com a corrente dagoa contra ho cabo de Goarda- fum: & quãdo os que hião nele acordarão que virão como hião não po- derã ver a noffa frota. E não fabendo ondeftauão deixarã fe ir ao longo da cofta, crendo que tornauão pera Magadaxo: & alli forão ate chegar ao cabo de Goardafum, que eítà cento & fetenta legoas de Magadaxo. E dobrando eíte cabo forão ter â cidade de Zeyla cinco legoas das portas do eftreito de Meca: & hi forão catiuos de mouros, de q a cidade he po-
  • 472 Historia da índia uoada, & Grigorio da quadra & outros forã leuados em prefente a el rey Dadem. E defpois de efte Grigorio da quadra ajudar a elrey Dadem em muytas guerras que teue cÕ os turcos no fertão foy ter a Ormuz em tépo do gouernador Lopo foarez de menefes, como direy a diante. E vindo ho outro dia defpois da noyte, em que aconteceo ifto que digo ao bargantim, ficou Duarte de lemos muyto trifte quando ho achou menos: & mais por¬ que ho não poderão achar algús bateis que mãdou em bufca dele ao longo da cofia. E eftando na determinação que trazia de dar em Magadaxo, ele é pelíoa foy no feu batel a ver que defembarcadoyro tinha, & pera ver fe veria moftra da gente que aueria na cidade: & quanto fe mais chegaua a terra tãto mais via nela muyta gete, afli de pê como de caualo, & toda muy luzida que parecia géte de feyto: & no meo da cidade parecia hum caftelo que moftraua fer grande & forte. E chegado ao defembarcadoyro vio que era muyto rol, por fazer ho mar grande efcarceo, & bem ho fen- tio ele: porque eftando ho vendo lhe deu hum mar tamanho que quafi lhe çoçobrou ho batel. E tornado á frota deu conta do que vira aos ca¬ pitães, que examinada bem a defpofição da cidade, & ho pouco nojo que lhe podião fazer, & quanto poderião receber defembarcãdo, acordarão q fe não defembarcafle & fe foflem, & affi ho fizerão, & partirão caminho de çacotorâ: & chegando fobrela carregou tanto ho vento contrayro pera a tomarem que nunca a poderão aferrar. O que vedo ho capitão mòr mãdou que foífem via Dormuz, onde ainda era goazil Cojeatar, & rey aquele que reynaua quando Afonfo dalbuquerque hi foy ter: ho capitão môr como furgio no porto mandou recado a Cojeatar, dizédo q ele era ali vindo por mandado del rey de Portugal feu fenhor com aquela ar¬ mada pera ho fauorecer & ajudar: & afli pera acabar a fortaleza que Afonfo dalbuquerque tinha começada, & pera aflentar feytoria, & fe com- prirem todas as mais condições do contrato de vaflalajem que elrey Dor¬ muz & ele erão obrigados a comprir como vaffalos del rey de Portugal. Coefte recado não foy Cojeatar nada contente, porque por nhúa coufa daria fortaleza nem deixaria aflentar feytoria pelo medo que tinha, q com qualquer dçftas coufas perderia ho mando que tinha em Ormuz, & cÕ quanto eftaua bem prouido de gente & artelharia & mantimentos não fe quis arrifcar a perdelo & vir a rotura de guerra: & refpondeo ao capi¬ tão môr q fua vinda fofle muy boa, e que ele eftaua preftes pera agafa- lhar os noflos, & darlhe todo o que lhe fofle neceflario daquela cidade como a amigos, & que ho íeruiria no que lhe mandafle: & que eftaua preftes pera pagar quinze mil xerafins de conhecença. Porque vinte mil que Afonfo dalbuquerq quifera que pagafle a terra não ho fofria, & leuan- tarfehia ho pouo: & que pera conhecença, como lhe Afonfo dalbuquerque
  • Livro II, Capitolo CXVII 473 chamaua abaftauão quinze mil xerafls fem opreffam do pouo, & de boa võtade. E ouuindo ho capitão môr efta repofta muyto fora do propoíito do que lhe mandara dizer tornoulhe a mãdar ho meímo recado que lhe mandou primeyro. E Cojeatar lhe refpõdeo como dantes, fe não que me- teo mais, que fortaleza noffa em Ormuz, & feytoria erã duas coufas, que fe não auião de poder acabar fem fangue. E cojeatar falaua afli afouto, porque fabia que Afonfo dalbuquerque não era gouernador da índia, & polo que lhe ho vifo rey fizera. E com todas eftas palauras mandou hú grande prefente de refrefco ao capitão môr: que vendo a repofta de Co¬ jeatar, & como não queria pagar todas as pareas, chamou a confelho os capitães, & principaes da frota, & diflelho: dizendo mais que bem viao quam pouca gete erão, pera começará de fazer guerra a húa cidade tão poderola como aquela eftaua, & mais eftando tão longe dode lhes podia ir focorro: & por derradeiro farião tão pouco como fizera Afonfo dalbu¬ querque no tempo que lhe fez a guerra, que ja não falaua na fortaleza, & feytoria: mas quanto às pareas lhe parecia que deuião de tomar as que lhe dauão: porque cinco mil xerafins que tiraua Cojeatar do que affentara com Afofo dalbuquerque não importaua nada ao feruiço delrey, & importaualhe muyto ter aquela cidade quieta, & pacifica pera as ar¬ madas que queria trazer no eftreyto. E vendo algús que a vontade do capitão môr parecia fer qrer tomar os quinze mil xerafins que daua Co¬ jeatar, & eftar em paz coele forão de voto, que afli fe fizefle. Porem Pero ferreyra fogaça como era muyto valete caualeyro foy.de parecer con- trayro, & difie q fe não auia de fofrer, que aleuantãdofe Cojeatar contra Afonfo dalbuquerque defpois de receber o reyno de fua mão tendo lho tomado por força darmas, & em jufta guerra, que lhe tomaffem menos pareas das que aflentara com Afonfo dalbuquerque: que ele não auia por feruiço del rey de Portugal fazêdo Cojeatar o que fizera tomarenlhe me¬ nos pareas das que era obrigado a dar: & mais fendo a cidade tão rica como era, que pareceria muy grãde cobiça tomarennas: & fobrifto ouue grãde debate, porque Pero ferreyra queria foftentar feu parecer, & ho capitão moor ho contrayro, & ajudauanno os capitãeç. E foy a coufa de maneyra que paffarão mâs palauras antre ho capitão moor, & Pero fer¬ reyra: mas não foy mais porque ouue logo apazigoadores. E com tudo acordoufe que ho capitão moor tomaffe os quinze mil xerafins que daua Cojeatar, & fe fofteuefle coele a amizade, por as rezões que diffe: & afli fe fez. E por não fer a moução pera ho capitão moor tornar pera çaco- torà ficou ali dous mefes. E nefte tempo foy tirado a monte ho nauio de Franciíco pereyra, & os nofios hião a terra, onde andarão fempre muyto leguros, & receberã bõ gafalhado dos mouros. E vinda a moução partiofe Tomo 1, 6o
  • 474 Historia da índia ho capitão mòr pera çacotora, & de Mazcate defpedio pera a índia a Vafco da íilueira a pedir quem gouernafle a armada q el rey de Portugal mandaua, que ele trouueffe no cabo de Goardafum: & na nao de Vafco da íilueira mandou també Diogo correa pera ir logo da índia por capitão dhúa das galês que là andauão, & Vafco da íilueira auia dandar por ca¬ pitão da outra: & hú Ántão nogueira cunhado do capitão môr auia de tornar por capitão deita nao de Vafco da filueira, & por iffo hia também coele. E partido Vafco da filueira de Mazcate partiofe ho capitão mòr pera çacotorà, õde chegou em Outubro, ou na entrada de Nouébro: & etregou logo a Pero ferreyra da capitania, & da alcaydaria môr a Anto- nio ferreyra feu fobrinho, por amor dele que lhe pedio que lho deixaífe ali pera companhia: & deu a capitania do feu nauio a Simão de lemos hirmão dele capitã mòr, & defpois difto adoeceo de febres: & por a ilha fer doétia fe foy pera Melinde que he lugar fadio pera fe curar là. E dei¬ xou recado a Francifco pereyra de berredo que leuaffe pera a índia na primeyra moução a dom Afofo de noronha, & a Fernão jacome feu cunhado: e como os leuou direy a diãte. CAPITOLO .CXVIII. De como ho uifo rej' mandou Afonfo dalbuquerque pera a fortaleza de Cananor. E como ejtando pera partir chegou de çacotorà dó Antonio de noronha feu fobrinho. PArtido Diogo lopez de fequeyra pera Malaca: não fe fabe porque caufa mandou ho vifo rey dizer hú dia a Afofo dalbuquerque, que lhe pedia por merce que fembarcaffe na nao Sanóto fprito, porque compria muyto a feruiço del rey feu fenhor irfe pera Cananor: porque fe apagaífe aqle fogo que andaua ãtreles. Afonfo dalbuquerque pelo que lhe tinhão feyto, & mandalo ho vifo rey pera Cananor fedo ho tempo ainda muyto verde & mãdando ho em húa nao tão velha como era Saníto fprito, prefumio que ho vifo rey ho mandaua ir pera que lhe deffe hú tra- ueífam na viajem que deffe com a nao ã coíta, & morreffe. E cõtudo dif- fimulou & fez que entedia q ho viforey ho mandaua prender, & foyfe logo à ribeira onde andaua, & diffelhe, Aífi fenhor que me préde voffa fenhoria. Ao que ho vifo rey refpondeo com ho barrete na mão, dizendo que não prendia, fe não que lhe pedia muyto por merce q fe foífe a Ca¬ nanor, porq aífi era feruiço de Deos & del rey. E todauia Afofo dalbu¬ querque infiítio que ho mãdaua prender, & pois aífi era q ele fe hiria â prifã: & logo fe foy embarcar na mefma nao q ho vifo rey dizia, & dela
  • Livro II, Capitolo CXVIII 475 mãdou pelo feu fato. E ifto fez pera mais fua juftificação, & porque não teueffem feus Imigos que lhe dizer: do que eles ficarão bem efpantados. E embarcado Afofo dalbuquerq, pedio ho vifo rey a Marti coelho q foíTe por capitão daqla nao, & defpois que pofefie Afofo dalbuquerq em Cana- nor, fofle a Honor por Pero frz tinoca q hia por ébaixador a elrey de Naríinga: & eftaua ali porq foube qftaua çarrado o caminho pera Bifna- gar por auer guerra ãtre ho çabayo fenhor do Balagate & el rey de Nar- íinga: & que pois não podia por efta caufa fazer feu caminho q ho trou- ueffe. E por quanto por fer ainda ho tepo verde não auia ninguém que le embarcaífe na nao, mãdou ho viforey embarcar ate quinze criados leus, os quaes goardauão Afonfo dalbuquerque dez ou doze dias que efteue no porto por não fazer tempo pera fua partida: nos quaes leuou muyto mâ vida de chuuas & ventos: & neftes dias eftaua Martim coelho em terra. E defamarrãdofe húa vez a nao com tormêta, & indofe pola agoa abayxo foy na fortaleza grãde reuolta pera que lhe acodiffem: por¬ que dizião os Imigos Dafonfo dalbuquerque que fugia, & fe leuãtaua cõ a nao, & fizerão com ho vifo rey q mãdáffe, como mandou muyta gente em paraos, & bateis: & chegãdo â nao que acharão o que era bem qui- ferão diífimular ao que vinhão: mas Afonfo dalbuquerque ho entendeo, & mandou dizer ao vifo rey que lefpãtaua muyto de fua íenhoria dar tãto credito a feus immigos, que crefle que fe auia daleuãtar em húa nao po¬ dre : & ho vifo rey mandou então embarcar Martim coelho, & que efte- ueffe fempre na nao pofto q não partiffe. E defpois difto chegou ao porto dom Antonio de noronha fobrinho Dafonfo dalbuquerque, que ho vifo rey mandara de Diu com hú nauio de mantimentos a çocotorà, onde inuer- nou com dom Afonfo de noronha feu hirmão, & era partido pera a índia quãdo la foy ter ho capitão mór Duarte de lemos. E achando dom An¬ tonio Afonfo dalbuquerque naquele eftado, & fabendo o que ho vifo rey lhe tinha feyto não quifera ir a Cochim, nem falarlhe, fe não irfe dali coele pera Cananor. Mas Afonfo dalbuquerque lhe pedio q lhe foffe falar, & lhe deffe conta do que fizera & ficaffe em Cochim defcanfando: porq ficãdo lhe aproueitaria muyto em lhe mandar auifos do que fe ordenaua contrele, porque não ficaua em Cochim de quê fe fiaffe: & afli ho fez dom Antonio. E fabendo ho vifo rey como não quifera ir com Afonfo dal¬ buquerque pera Cananor agardeceolho muyto cuydando que ficaua pera ho acompanhar: & prometeolhe a capitania de Cochim, porque fem nhúa duuida fe auia de ir aquele anno pera Portugal & que auia de leuar co¬ ligo a Iorge barreto crafto: & coefta promefa lhe pedio a capitania do feu nauio que lhe ele alargou, & ho vifo rey a deu a Fernã perez dandrade, & foy a primeyra capitania que teue na índia. E jâ a efte tépo Martim
  • 476 Historia da índia coelho era partido com Afofo dalbuquerque pera Cananor: & paffarão no caminho grandes toruoadas com q fe a nao ouuera de perder atrauès de Calicut. CAPITOLO .CXIX. De como aquiridos por Afonfo dalbuquerque os fidalgos que inuernarão em Cananor Je foltou, & do que pajfou com Lourenço de brito. E Chegados a Cananor defembarcou Afonfo dalbuquerq, & foyfe à fortaleza acõpanhado de Marti coelho, & dos q hião na nao: & de muytos daqueles fidalgos q inuernarão em Cananor, que fabendo que vinha como erão feus amigos ho fahirão a receber, & vendo ele a Lourenço de brito difielhe, Senhor aqui me manda ho vifo rei prefo por iffo tratayme como a prefo, & ele lhe refpondeo que nao hia fe não folto, & pera folgar naquela fortaleza onde lhe faria todo ho feruiço q podeífe, adi polo mereciméto de fua peífoa como por lho ho vifo rey mandar em húa carta que lhe moílrou. E Afonfo dalbuquerque q fabia que Lourenço de brito fora ho principal que aílinara nos capítulos pera lhe não darem a gouernança, diffelhe que não tinha de ver com palauras pois as obras que lhe fazião erão tão roins, como eftaua notorio na merce que lhe tira- uão q lhe el rey feu fenhor fizera da gouernãça da índia: & fobriffo inju¬ riado por tantas maneyras, & prefo: porq ele por tal fe tinha, & be ho adiuinhaua Afonfo dalbuquerque. Porque defpois q ele foy agafalhado na fortaleza Lourenço de brito lhe tomou fecretamente a menaje que não faiífe dela fopena de menos valer: & ifto porque fe não fizefle na índia algú aluoroço de que deos & elrey folfem defieruidos, & que lhe mãdaua ho vifo rey tomar a menajem affi fecretamente porque fe não foubefle: & porem que no mais que ho trataífe muyto bem, & aíli ho fazia. E Afonfo dalbuquerque goardaua bem fua menajem em não fayr nunca da fortaleza, fe não com Lourenço de brito: nem diffe a ninguém da mena¬ jem que lhe era tomada, & trabalhaua por acquirir a amizade de todos aqueles fidalgos qftauão na fortaleza pera os ter da fua parte, & daua a todos dinheiro q ho tinha muyto, & affi lho dizia por iffo que gaftaífem afouto: & coiíto aquirio a amizade de muytos, principalmente daqueles q andarão na fua armada da cofta dalem. E coeíta noua amizade ouue logo dous bandos hú Dafonfo dalbuquerque outro de Lourenço de brito, & começarão os mexericos de teçer & coeles começarão de nacer nouos defgoftos antre hú & outro, porem fecretos, que em pubrico parecia que erão os mayores amigos do mundo: & quanto paflaua em Cananor efcre- uia Lourenço de brito ao vifo rey, & era a negoceação tamanha que núca
  • Livro II, Capitolo CX1X 477 ho caminho da terra de Cananor pera Cochim eftaua fem patamares q leuauão cartas dauifos, affi pela parte do vifo rey como pela Dafonfo dal- buquerque, a que foy dada húa carta que ho vifo rey mandaua por ele, & pera iffo fe ficaua aparelhando Fernão perez dandrade. O que ho pos em grade trabalho & a feus parceaes, prefumindo q pois ho vifo rey man¬ daua por ele era pera ho mãdar pera Portugal. E auido fobrifto feu con- felho acordarão de ho não confentir, porque vindo a armada de Portugal que efperauão que auia de ir dirigida a Afofo dalbuquerque pois ho elrey tinha por gouernador, que melhor lhe obedeceria achandoho ali que em Cochim onde lhe ho vifo rey poderia muyto danar, porq como ho achaf- fem em polfe da gouernança obedecerlhião. E affi acordarão que pera fazer melhor o q lhe era neceflario não poufaífe mais dentro na fortaleza fe não fora, ainda que pefalfe a Lourenço de brito. E ilto affétado no do¬ mingo fegulte antes de jantar defpois de miífa andando Afofo dalbuquer¬ que paffeando de fòra da porta da fortaleza com Lourenço de brito, paífou hú efcriuão da feytoria a quem Afonfo dalbuquerque diffe que queria que ho ouueffe por feu capitão mòr, a q ele refpõdeo q como feria aquilo fe ho vifo rey eftaua na índia, q ele não podia obedecer a dous capitães môres. E fentindo Louréço de brito q Afonfo dalbuquerque dezia aquilo ao efcriuão pera fe decrarar coele, diílimulou, fazendo que ho não enten¬ dia, dizendo, Ande voífa merce & vamos jantar que fam horas: & tomou- lhe a mão, como que era por amizade. Afonfo dalbuqrque puxou por ela rijo, & tirouha dizendo que ho deixaffe. E logo Louréço de brito pegou nele pera ho leuar pera dentro da fortaleza. Ao que Afonfo dalbuquer¬ que chamou aque dos feus: & então lhe acodirão todos eífes feus amigos que erão muytos: & defapegarã dele Louréço de brito, que ho tinha bé aferrado, & bradaua da parte del rey q lho deyxaffem meter na forta¬ leza, porque eftaua prefo por mandado do vifo rey, & quebraua a mena¬ gem que lhe tinha dada. E os da parte de Lourenço de brito acodirão també: & ouuerafe de fazer hú mao recado, porque eles erã menos, & ouuerão de paffar peor fe a coufa viera a rotura: & porilfo Louréço de brito os apazigou, & também Afonfo de albuquerque aos de fua parte. E Louréço de brito lhe diffe que porque lhe nã goardaua a fè q lhe tinha dada: E Afonfo dalbuquerque refpondeo, que porq lhe não entregaua ele a fortaleza q lhe el rey feu fenhor mandaua entregar, & que ele nunca lhe dera tal fé: & mais q como lha auia de dar fe ele andaua folto & por folto lhe differa perante todos q ho recebia, & que affi lho mandara ho vifo rey por húa carta fua, que també lhe moftrara perãte todos. E coifto ho deixou, & fe foy pera a ponta onde fe apofentou em húas cafas de palha, júto de noffa fenhora da vitoria. E effes que ficauão com Lourenço
  • 478 Historia da índia de brito lhe differão que deuia de hir cõ mão armada prender Afonfo dalbuquerque: & ele difle que ho não faria, porque não foubelTe a gente da terra que erão tam mal fufridos que pelejauão hús com os outros eftando tã poucos em terra de immigos, & tão apartada da fua. E fe ifto não fora bem tinha Lourenço de brito coração e esforço pera fazer o que lhe dizião. CAPITOLO .CXX. De hua carta q ho nifo rey mandou a Afonfo dalbuquerque per Fernã pere\ dandrade, & de como fe foube que hia armada de Portugal. E Estando affi a coufa aqla tarde chegou Fernã perez dandrade a Cananor: & quando Afonfo dalbuquerque foube que vinha cha¬ mou logo todos os da fua liga, & animou os afazerem o q lhe tinhã prometido, & eles lho tornarão aprometer. E porq ele nã teueífe rezã de ir ver Fernã perez, fez fe doente. E Loureço de brito fabendo que hia Fernã perez ho foy receber ao defembarcar, & contoulhe o que Afonfo dalbuquerque tinha feito, & ele lhe difle q ja não tinha neceflidade déten- der coele, porq a determinação do vifo rey era entregarlhe a gouernãça da índia, & irfe pera portugal nas naos q tinha preftes fe fofle cafo q não chegafle a armada a tépo pera fe poder ir nela: & fobriffo lhe mãdaua húa carta que lhe trazia, & dali fe auia de ir darmada ate Baticalà, & íòméte pera dar aquela carta tomara aqle porto. E dali fe foy a ver Afonfo dalbuqrque fabendo como eftaua doente: & defpois de ho ele re¬ ceber cõ muyla feita lhe preguntou pola difpofição do vifo rey, & dizendo- lho Fernã perez lhe deu a carta que lhe trazia, em que Afonfo dalbuquer¬ que achou q ho vifo rey lhe certificaua fua ida pera Portugal, & que fe ficaua fazendo preftes pera iflo, & que então lhe entregaria a gouernança, pedindo lhe muyto por merce que não crede a quê lhe diflefle que fe não auia dir pera Portugal, porque prazendo a deos fe auia dir em todo cafo. Coefta carta foy Afonfo dalbuquerque muyto ledo, & difle q fempre efpe- raua do viforey que auia dufar coele de rezão: & difle dele mil bes, atri¬ buindo toda a culpa do que lhe era feyto a feus immigos: então fe leuan- tou, & fe foy pera Lourenço de brito, & lhe pedio perdão do que paflara coele, dizendolhe que ho mandafle pelejar, & que poria a bandeira onde quifefle. E Loureço de brito lhe difle que lhe não lembraua ho paflado: porem que fe os deos leuafle a Portugal que ainda lhe là auia de demãdar o que paflara antreles ambos que lhe não quifera comprir: ao q Afonfo dalbuquerque não quis refponder por efcufar brigas & falou em al. E partido Fernão perez que foy ao outro dia, chegou a Cananor feu irmão
  • Livro 11, Capitolo CXXI 479 Simã dandrade, & diffe que a monte Deli topara húa nao que vinha de Portugal cujo capitão fe chamaua Gomez freire & dele foubera como vinha de Portugal quatorze naos & por capitão môr de todas dom Fran- cifco coutinho ho marichal, & que não tardaria tres dias. Da qual noua Louréço de brito ficou muyto agaftado por íer o marichal muyto parente de Afonío dalbuquerq: & era muyto caualeyro, & auia deftranhar muyto o que lhe fora feyto. E Afonfo dalbuquerque foube logo efta noua pelo alcaide mór da fortaleza, pedldolhe aluifaras, & ele lhe deu mil cruzados, pedindolhe perdão de lhe não poder dar mais. E como quer, que Louréço de brito fe achaua muyto culpado contra Afonfo dalbuquerq não quis efpe- rar ali ho impeto do marichal & entregaualhe a fortaleza pera fe ir pera CochI, não lhe dizendo ho pera que: poré Afonfo dalbuquerque a não quis tomar. Então a entregou Louréço de brito ao alcaide mòr fecreta- mente: & adi fe foy pera Cochim com Simão dandrade q logo partio pera lâ, & per eles foube ho viforey a vinda do marichal, & que trazia por regiméto que defie em Calicut & que era fua võtade de dar logo nela. E por iffo defpachou na ora ao mefmo Simão dandrade na fua ca- rauela, & a Antonio pacheco em outra cÕ muytos fidalgos, & caualeyros efcolhidos, & bé armados: & mandoulhes que foffem receber ho marichal ao caminho pera ho ajudarem em Calicut: & mãdoulhe dizer que aquele era ho melhor refrefco que tinha pera lhe mandar. E coiíto fe partirão em fua bufca. CAPITOLO .CXXI. De como partio pera a índia por capitão mòr da armada dom Francifco coutinho marichal de Portugal: & como chegou lá, & do que fe\. NEste anno de mil & quinhétos & noue partio de Lisboa pera a índia húa armada de quinze naos a vinte de Março, de que foy por capitão môr dom Francifco coutinho marichal dos reynos de Portugal, caualeyro de muyto esforço a que el rey dõ Manuel mandou que fe ainda ho vifo rey efteueffe na india, que ho mãdaffe pera Portugal, & meteffe de poffe da gouernança da índia a Afonfo dalbuquerque. E deulhe pera fazer aquela viagem húa grande & fermofa nao, chamada noífa fenhora de Nazaré. E forã os capitães da frota eftes fidalgos & ca¬ ualeyros .f. Pedrafonfo daguiar na nao galega: & hia por fota capitão Francifco de faa em fam vicéte, Baítião de foufa em fam Iorge, Frãcifco de foufa mãcias em fam boauentura, Ruy freyre na garça, Gomez freyre no bretão, Iorge da cunha na Madanela, Francifco caruinel em Santiago, Rodrigo rabelo na baftiaina velha, Francifco marecos em outro bretão:
  • 480 Historia da índia & efte inuernou em Moçambique, Lionel coutinho em frol da rofa, Bras teixeyra no ferros, Luys coutinho no feu nauio, Iorge lopez bixordo em Santa cruz. E partidos eftes capitães de Lisboa todos, faluo Francifco marecos que inuernou, forão ter a Cananor em Outubro, fem lhe acon¬ tecer na viagem coufa que feja de contar: & chegada efta frota Afonfo dalbuquerq foy ver ho marichal â nao, & lâ lhe contou os agrauos que lhe forão feytos affi em Cochim como em Cananor, & como Lourenço de brito era partido, & deyxara a fortaleza ao alcaide môr. Sabido ifto pelo Marichal, pareceolhe bé fayr em Cananor, poílo que ho não trazia na votade, & ahi fe enformou muyto bé do que lhe Afonfo dalbuquer- que dilfera, & achando fer tudo aífi, eftranhouho muyto, principalméte não lhe fer dada a gouernança que el rey mandaua que fe lhe deffe. E affentou em cõfelho com feus capitães de ho leuar pera Cochim poys era gouernador, & as cartas delrey de Portugal, & inftruções que tra¬ zia vinhão dirigidas a ele. E eftando aqui em Cananor, forão ter coele Simão dandrade, & Antonio pacheco, & lhe derão ho recado do vifo rey, & ele folgou muyto de ver a boa gente que trazião. E não deu em Cali- cut por lhe Afonfo dalbuquerque aconfelhar que ho não fizeffe, fe não defpois de ir a Cochim, porque traria mais gente. E partidos de Cana¬ nor chegarão a Cochim: & em chegando, ho viforey mandou viíitar ho Marichal ao mâr, & offerecerlhe a fortaleza pera poufar nela, & ho ma¬ richal lho mãdou ter em merce, & dizer que auia de poufar com Afofo dalbuquerque. E â defembarcaçã do marichal ho fahio ho vifo rey a re¬ ceber à prava com todos os fidalgos que eftauão em Cochim, & outras peflòas principaes. E foy ho arroydo muy grãde da artelharia ao defem- barcar. E da praya fe tornou ho vifo rey pera a fortaleza, & ho marichal fe foy com Afonfo dalbuquerque a fua poufada acompanhados de todos os de fua valia, & dos que chegarão de Portugal que erã muytos. E paf- fados dous dias, ho marichal foy ver ho vifo rey: & perante ho capitão da fortaleza, feytor, alcayde môr, & outros officiaes, & muytos fidalgos & caualeyros lhe diffe, que ele hia dirigido de Portugal pera Afonfo dal¬ buquerq, a quem el rey feu fenhor tinha por gouernador: & q ho achaua defapoffado da gouernãça, & prefo: que folgaria de faber como aquilo era, porque trazia poder pera ho meter de poffe dela fe foffe necellario: & pera fazer a carga de fua armada, fem ho gouernador da índia enten¬ der niflo. E logo moílrou as prouifões que trazia. Ho vifo rey diffe que Afonfo dalbuquerque não eftaua prefo, nem nunca ho efleuera, que eftaua em Cananor por eftar mais a fua votade: porque não auia de gouernar a índia em quanto ele vifo rey efteueffe nela, como tinha por húa proui- fam delrey feu fenhor. Então deu as caufas porque fe não fora pera Por-
  • Livro II, Capitolo CXX1 481 tugal, como a tras fica dito: & afli difle como eftaua pera fe partir, pera o q tinha corrigidas tres naos, fe foffe caufo que não vieífem outras: & pois as deos trouuera que lhe daua muytos louuores, & eítaua preftes pera partir logo, porque tinha comprada carga pera aquelas tres naos. E tomou as prouifões do Marichal, & beijando as & pondo as fobre a cabeça difle que as auia por boas & lhe obedecia. E ali foy logo aflen- tado que por quãto el rey de Portugal fe obrigara a dar carga a muytas das naos que ho Marichal leuaua que erão de mercadores, & por fere muytas fe duuidaua fe aueria carga pera tantas: que das naos q tinha corrigidas pera leuar não leuaffe mais q a nao Belem, de que era capi¬ tão Iorge de melo pereyra, & as outras ficarião & hiriã em feu lugar com a carga que eftaua preftes duas da conferua do Marichal .f. a nao garça & a nao fandta cruz, & Ruy freyre & Iorge lopez que erão feus capitães fiarião com ho Marichal: & logo fe deu pendor a eftas duas naos. E aca¬ badas de concertar entregou ho vifo rey a gouernança da índia a Afonfo dalbuquerque perante ho Marichal & perãte todos os fidalgos, capitães & officiaes queftauão em Cochim. E efta entrega foy feyta à porta da fortaleza eftando ho vifo rey da parte de dentro & Afonfo dalbuquerque da parte de fora: & defta entrega da índia, & cÕ quãtas fortalezas, & quãtas naos, & nauios, & peças dartelharia, & quantos homés entregaua ho vifo rey a índia foy feito hú auto per hú tabaliã pubrico, & por ele mefmo foy dado conhecimento em forma ao vifo rey & aflinado por Afonfo dalbuquerque de como recebia a índia. E feyta efta folenidade ho vifo rey fe foy logo embarcar na nao garça em que auia de ir, & forão coele ate a nao quantos fidalgos andauão na índia moftrando todos muyto fentimento por fua partida: porque os mais fe auião de ir coele pera Por¬ tugal que nenhú não oufaua de ficar na índia por amor do q tinhão feyto a Afonfo dalbuquerque. E defpois do vifo rey fer embarcado foy a fua nao carregada & afli as outras duas: & em quanto aqui efteue fempre Afonfo dalbuquerque lhe cometia as coufas da gouernança da índia q ele não queria fazer & lhas tornaua a mandar. Porem por debaixo deftes comprimétos fempre ãtreles ouue muytos defgoftos emcubertos, fazendo Afonfo dalbuqrque quanto podia contrele: & ate os mãtimentos lhe tolhia diflimuladamente: & fobrifto foy hú dia acutilado hú cõprador do vifo rey & Afõfo dalbuquerque fe vingou em parte do que lhe ele fizera. E acabadas de carregar as outras naos de que erão capitães Iorge de melo & Lourenço de brito, partiofe coelas a dezanoue de Nouembro de mil quinhentos & noue, & foyíe a Cananor pera fe abarrotar. E no tempo que aqui efteue daria paflante de dez mil cruzados a algús fidalgos que hião coele por irem pobres & a todos daua de comer. E nefte tempo Touo I 61
  • 4$2 Historia da índia mandou logo ho gouernador Afonfo dalbuquerque fondar a barra de goa por lhe dizer o Marichal que trazia inftrução del rey pera ho fazer, & pera ver que naos podião entrar nela: & fõdada a barra não fe fez mais nada, do q os qftauao em Cananor cõ ho vifo rey zombara muyto & fize- rão fobriflò trouas, porque auiã por impofliuel tomarfe Goa, por camanha coufa era, & quão poderofa de gete: poré defpois fe tomou como direy a diante. CAP1TOLO .CXXII. De como ho uiforey fe partio pera Portugal: & de como ho matarão cafres na agoada de Saldanha, & a outros mu/tos fdalgos. ACabado ho vifo rey dabarrotar, & aíli os outros capitães partio fe de Cananor ho primeyro de Dezembro do anno fobredito. E naue- gando por fua viaje foy ter a agoada de Saldanha que he húa fer- mofa ribeira que fe mete no mar junto do cabo de boa Efperança, & ali fez agoada. E tedoa quafi feyta acertou de ir pelo fertão hú Diogo fernan- dez labaredas & foy ter a húa aldea pouoada de negros que fe tratão da maneyra que diffe no primeyro liuro: & efta era húa legoa da agoada, & dela trouue hum carneyro muyto grãde & gordo, como os ha por aquela terra, & deu o ao vifo rey, a que gabou muyto a terra & a multidão do gado que auia nela, q foy caufa de mouer ao vifo rey que mãdaffe lâ ref- gatar daquele gado pera fazer carnajem, & mandou a iffo ho mefmo Diogo fernãdez, & irião coele obra de doze homés dos nofTos. E chegando à aldea que os negros virão as coufas que leuauã pera refgatar agafalha- rannos muyto bem, & fizerãlhe hú banquete com hú carneyro. E eítando os nofTos de fora daldea, onde eftauão agafalhados, faluo Diogo fernãdez que andaua na aldea, dilTe hú que era parente de Ioam homé que feria bõ que tomafTem hú negro daqueles pera ho leuaré ao vifo rey que ho vefteria, & por iffo lhe darião os negros muyto gado, & ho leuarião a agoada. E parecendo ifto bê aos outros determinarão de ho fazer: & nifto veo hú negro com hús carneyros, & eles ho tomarão, & poferanlhe hú punhal nos peytos porque fe calaffe: mas todauia ele deu dous ou tres muyto grandes brados. E os noffos aífi polo não ouuire como porque fe recolheffe Diogo fernandez qftaua na aldea começarão de bradarlhe indofe com ho negro, & Diogo fernandez fe recolheo logo a eles: & védoho os negros ir, & também ouuindo os brados do q leuauão acodirão muytos a pos os noffos, tirãdolhe muytas pedras, de que fe grandeméte ajudão nas pelejas. O que nã parecia aos noffos né que os negros os perfeguirião tão 'brauamente como os perfeguirão, cercando os de todas as partes, & ferido
  • Livro II, Capitolo CXX1I 4&3 algús, principalmente a hú bombardeiro a q tratarão muyto mal. E vendo os noffos como a coufa hia de maneyra que fe durafle muyto nã efcaparia nhú deixará ho negro, parecédolhe que os deixauão os negros: mas não foy tão afinha, que ainda defpois os feguirão hú pedaço. E efcapãdo defta apertada, de que algús como digo ficarão feridos chegarã onde ho vifo rey eítaua, a quem contarão ho paffado, não dizedo que eles forão caufa de fe leuantarem os negros, fe nã que eles de fua própria malicia ho fizerão, & lhe não quiferão refgatar nhú gado: mas fobriflo fe leuan- tarão cotreles. Do que indinado ho vifo rey cotra os negros entrou em confelho fobre fe deftruyria aquela aldea. Em q Lourenço de brito, Iorge de melo pereyra, & Martim coelho forão de parecer, que não, porq offenfa feyta per homes tão beftiaes como erão aqueles negros não fe de- uia de fentir, & mais fendo de tão pouca impprtãcia como era não lhe darem quatro carneyros, & pofto que importara mais, não era pera fe tomar dela vingança com tamanho rifco como feria leuar gente por terra que não fabião, & de que não tinhão nenhúa noticia: & mais eftando a aldea húa legoa pelo fertão que era muy lõge pera géte que auia dir a pé, & pelejar logo no cabo da jornada, que aíii auia de fer neceffario pois não tinhão Õde fe agafalhar. Ao q Pero barreto de magalhães, Antonio do campo, & Manuel telez barreto cõtrariarão, dizendo que pofto que aqueles negros foffem beftiaes que né por iffo fe deuião de deixar de caf- tigar pelo que fizerão não tãto por amor do prefente como por amor do futuro: porque como daquela agoada fe auião de feruir muytas das ar¬ madas que foffem pera a índia, & tornaífem pera Portugal, & fe não efte- ueífe pacifica feria parelas grãde perda, porque muytas chegarião ali def- falecidas de carnes, & não as tomando pereceria a géte: & porque os negros ficaffem efcarmentados, & refgataífem com os que ali aportaffem fe nã deuia de paffar fem caftigo o que fizerão. E quanto a fe não faber a terra que os negros não erão tão deftros na guerra que lhe pofeífem effas ciladas, & que pera ate a aldea que bé auia qué foubeffe ho cami¬ nho : & pera não chegarem afogados & hirem muyto de vagar partirião em anoytecédo, & chegarião em amanhecendo: & pera quã curto era ho caminho era ho tempo q auiã de gaftar nele tão longo que chegarião def- canfados pera fazerem o que auião de fazer. E defte parecer forão todos os outros, & também ho vifo rey: & por iíTo fe affentou nele, & q foffem da mea noyte por diante por não hirem defuelados: & que os capitães hirião por terra com obra de duzentos homés, & ho vifo rey hiria nos bateis defembarcar no cabo daquela enfeada q era mea legoa menos da aldea que por terra, & afii fe fez: & quafi todos os noffos hião fem ar¬ mas defeníiuas porque não foffem carregados & ãdaffem melhor, & hia
  • Historia da índia 4^4 por fua guia hú chamado brita laças dalcunha. E chegarão a aldea em amanhecédo ho primeyro dia de Março de mil & quinhentos & dez: & Pero barreto, & Iorge barreto com a gente repartida é duas partes derão nela cada hú por fua parte, q afli hia ordenado. Os negros os fentirão logo & acodirao muy preltes cõ fuas pedras, de q trazião cheos fardeis de coyro de cabelo cingidos: & afli trazião neles muytos ferros da feyçã dos noffos farpões engaftoados em obra dhú palmo dafte, & eftes metião em varas toftadas do comprimento de azagayas em hús encafamentos onde os logo enxirião: & trazião eftas varas âs cofias em molhos. E pa¬ rece que eílauão ja ceuados do dia dantes, porque fe nenhú receo das lanças nem béílas dos noffos remeterão logo coeles às pedradas & aza- gayadas: & dos primeyros tiros matarão hú hirmão de Manuel de lacerda, cujo fobre nome era pereyra. E cõ tudo os noffos lhe tomarão muyto gado groffo que tinhão derredor da aldea: o que viílo pelos capitães man¬ darão recolher: & hianfe pera onde ho vifo rey eftaua com a bandeira real, que a eíte tempo eftaua ja defembarcado, & poferafe obra de dous tiros de béfta da aldea a efperar os noffos & os recolher quando foffem com ho gado, & deixou os bateis pera defpois fe tornar neles. E indo fe os noffos com ho gado pera õde ho vifo rey eftaua, ele que os vio parece- dolhe que eftaua a coufa fegura abalou pera onde deixara os bateys, que ja hi não eftauão, porque Diogo dunhos meftre da capitaina os tornara a leuar pera a agoada, pofto que como digo ho vifo rey os deixaua pera tornar neles: & não vendo ele os bateis tomou ho caminho pera a agoada, & hiafe diãte por não fe encher do pô que ho gado leuantaua, ho qual hia diante dos noffos, & leuauãno tres homés: & ho corpo da gente hia hú pouco a tras pera refiftir aos negros fe acodiffem. E indo afli eylos vem correndo com grande ligeireza, & foranfe dereitos ao gado que logo fizerão eftar quedo com lhe falarem: & nefta chegada matarão os tres que hiã coele, aque ho corpo da noffa géte que ficaua a tras acodio, & começoufe defpalhar: & os negros tambe fe efpalharã & começarão de pelejar com os noffos muy brauamente, & algús deles que ficauão com ho gado fe começarão de ir coele. E ifto era ja pegado com ho vifo rey, que vendo ho esforço dos negros & feu modo de pelejar, & como os nof¬ fos hião defarmados, & ho perigo que corrião, não quis tornar a tras, fe não acolherfe: & fazia que não via ho gado que lhe leuauão. Mas lou- renço de brito parecendolhe que ho não via lhe diffe tres vezes. Senor que nos leuão ho gado. E importunado ho vifo rey lhe refpondeo, Day ora ao demo ho gado, que nolo hão de leuar, & a nos coele. E coifto fez volta aos negros & os fez afaftar. E vedo a coufa como hia recolheo os noffos em hú corpo, & affi feguio feu caminho, & os negros ho tornarão
  • 485 Livro II, Capitolo CXXIII a feguir, perfeguindo os nofios muy fortemente de pedradas & azagaya- das, leuãdo ho gado antreles, pera coele fe defenderem dos noífos: & tinhãno aífi enfinado que eítaua quedo, ou ãdaua quãdo lhes era neceffa- rio, & coifto tinhão milhor maneira pera ferir os nofios: & como hião todos em pinha nunca os errauão, & erão as feridas tantas q algús come¬ çarão de cair, principalmente os que não tinhão criados que os ajudafle a fofter: & eftes afii como cayã afíi erão pifados, & afogados dos outros, que fe não podião valer, por não leuarem armas defenfiuas. E hião tam afadigados do aperto com que os leuauão que hião quafi defbaratados: & bé ho entendião os negros, & como a homés que não tinhão em conta lhe fazião muytos biocos & geitos medonhos pera os mais efpantar. O que vendo Pero barreto não ho pode fofrer, & remeteo a hú que os mays perfeguia coeítes biocos, & por lhe fugir foy tanto a pos ele que ho alcançou & vazou a lança nele, & derribou ho, porem ele també cayo morto das muytas pedradas & azagayadas q chouerão fobrele: o que ho vifo rey fentio muyto, & muyto mais nã lhe poder valer. E indo aífi com tamanho trabalho como digo, parece que adeuinhando ho vifo rey o que auia de fer, difle a Iorge de melo que lhe entregaua aquela bandeira delrey feu fenhor, como que era pera morrer fobrela, & que não ficaífe aos negros. E perto dagoada fahio dãtreles húa lança darre- mefio fem ferro, & deu pela garganta ao vifo rey, & pafloulhe a guela, que não leuaua barbote, & ele ajoelhou logo com as mãos na lança: & fentindo que fe afogaua foltou as mãos da lança, & leuantou as pera ho ceo, como que fe encomendaua a noflo fenhor, & aífi cahio morto. CAPITOLO .CXXIII. Dos cojlumes do uiforej' & de como defpois de fua morte ficou por capitão Iorge barreto crafio, & como chegou a Portugal. EM caindo ho vifo rey difle hú dos nofios a Louréço de brito, q de cãfado ho leuaua hú feu paje fobraçado. Snor ho vifo rey he morto. E vedo ele como era verdade, de muyto trifte por iffo, difle ao paje q ho deixafle, & deyxoufe cayr dizédo que poys ho vifo rey ficaua morto, que ele não queria ir viuo a Portugal. E ho mefmo difle Martim coelho que hia ferido, & també fe deyxou cair dizendo cõ grande magoa, O ca- ualeiros que direis em Portugal, porque não morreis, pois tudo he em¬ barcar, & tanto monta â tarde como pela menhaã. E carregando os negros fobre os noífos, como nã auia qué os esforçaífe, né metefle em acordo pera fe irem foftendo contra ho impeto dos Imigos, defbarataranfe
  • 486 Historia da índia de todo, & fugirão a quem mais podia pera a agoada, deyxando eftes dous capitães viuos antre os Imigos, a cujas mãos acabarão fuas vidas. E aífi ficou a bandeira real, que não ouue quem a defendeífe: & os ne¬ gros feguirão os noffos ate a agoada com tanto aperto que lhes foy necef- fario meterenfe pola agoa pera ire tomar os bateys, que eftauão tão longe, que a algús daua a agoa pelo pefcoço. E vedo os os negros embarcar tor- naranfe dali deyxando mortos feflenta & cinco, antre os quaes forã onze capitães com ho vifo rey, cuja morte pos grande efpãto por fer tã defaf- trada, & em lugar onde fe tão pouco efperaua que foffe, efcapãdo das muy perigofas batalhas que contey. E bem parece que pronofticaua ele que auia de fer fua morte fe niflo atentara, porque vindo pera aquela agoada hú dia ãtes de chegar a ela fez teftaméto, dizendo que ho queria fazer, porq não fabia fe lhe cairia húa polé na cabeça & ho mataria: & ele morreo deftoutra maneyra, fendo de pouco mais de cincoenta annos. Foy home de corpo meão & membrudo, & de roíto graue & de grande mageftade, foy muyto deuoto & amador de nofTo fenhor, & goardaua feus mandamentos fegundo parecia. Foy tam piedofo que nunca caftigou nin¬ guém que primeiro ho não reprendeffe trez vezes. Foy de condição muyto magnifica & liberal, fegundo fe vio nos muytos bes que fez aos homés em quanto gouernou, aífi â fua cufta como a del rey no que fe eftendia feu poder. Foy muyto ifento pera fazer o que lhe parecia bem, porem com cofelho: & foy muyto prudente & difcreto, & foy de tam altos pen- famentos que muytos lhe atribuyão a vaidade, principalmente feus ami¬ gos, & de feyto dizem q fe queria louuado, & que era tençoeiro com que lhe erraua, mas que ho fabia bem diffimular. Nas coufas da guerra foy fempre muyto atentado, com quanto era muyto esforçado. Teue por con- crufam, que por mais honrrado que hú homé foífe não deuia de deixar de fair ao defafio que lhe fizeífe outro, pofto que foffe muyto bayxo. E foy muyto cõtrayro a fe fazer na índia nenhúa conquifta ate a cofia do malabar não eftar de todo affentada. Em quãto gouernou a índia no tempo que eftaua em terra fe leuantaua cõtinuaméte ante menhaã & ouuia milTa, & em amanhecendo fe hia a ribeira a fazer trabalhar nos nauios, ou no trabalho da edificação da fortaleza de Cochim, onde andaua cõ a géte ate ho meo dia que tornaua a comer: E por animar a gente muytas vezes ajudaua é qualquer cotlfa. Comião coele â mefa de fidalgos ate moços da camara del rey, & os daqui pera bayxo comião cõ ho feu vea- dor que era tamanha mefa como a fua. Tinhafe tal ordem q em fe pondo a igoaria ao vifo rey fe punhã juntamente aos outros, defpois de comer fe recolhia obra de húa hora: & defpois vinhão os officiaes del rey da fazéda, & da juftiça a defpachar coele: & eftaua em defpacho ate quebrar
  • Livro II, Capitolo CXXIII 487 a calma que fe tornaua ao trabalho onde andaua ate a tarde que fe tor- naua a cear, & acabada a cea fahiafe pera ho terreyro da fortaleza com os fidalgos, capitães & caualeiros, & praticaua coeles nas coufas de guerra & exercícios dela, & nos notaueys feytos em armas dos antigos: & no modo dos defafios, ao que fe ajuntaua muyta gente, porque a fora a ma¬ téria da pratica fer muyto goftofa, folgauão todos muyto douuir ho vifo rey porque não dezia coufa que não foffe de notar. Cada anno quando vinha ho inuerno tiraua inquirição dos capitães dos nauios, de como tra- tauão a gente q trazião: & fe os capitães goardauão pera fi os mouros que tomauão de prefa, ou fe os vendiã. Afli que metidos os noffos nas naos, aquele dia â tarde forão Iorge de melo, & Iorge barreto, acompa¬ nhados de muyta gente pera enterrare ho vifo rey, que acharão defar- mado de húas couraças que leuaua de veludo carmefim: & eftaua aberto pelos peytos & pela barriga. E ele enterrado forã també enterrados algús dos mortos q eftauã perto da praya, & defpois fe tornarão pera as naos, onde ouue grande perfia antre Iorge de melo, & Iorge barreto, fobre quem auia de ficar por capitão môr. E por derradeyro ho deixarã no pa¬ recer da gente que hia na capitayna que diffeffe de qual era contete que ficafle por capitão môr, & q eífe foffe. E a gente diffe que a bãdeira auia de hir onde hia, & que Iorge barreto auia de fer feu capitão môr, & adi ho fóy. E ao outro dia que forã dous de Março fe partirão pera Portu¬ gal, onde chegado Iorge barreto, contou a el rey dom Manuel a morte do vifo rey. LAUS DEO. FOY IMPRESSO ESTE SEGUNDO LIURO DA HISTORIA DA índia em a muyto nobre & leal cidade de Coimbra por Ioão de Barreyra, & Ioáo aluarez empreflores del rey na mefma vniuerfidade. Acaboufe aos vinte dias do mes de Ianeyro. De M. D. LII.
  • TAVO A DA DO PRIMEIRO LIVRO. Capitolo i. De como el Rey dom Ioão de Portugal ho fegundo dejle nome mandou defcobrir a índia per mar e defpois por terra. Pág. 5 Cap. ii. De como Vafco da gama com outros capitães foy defcobrir a índia. 8 Cap. iii. De como Vafco da gama dobrou ho cabo de boa Efperãça, & do que lhe aconteceo ate paffar ho rio do Iffante. 12 Cap. iiii. De como Vafco da gama chegou a terra da boa gête, & def¬ pois foy ter ao rio dos bôs finaes. 14 Cap. v. De como Vafco da gama cõ toda a frota foy ter aa ilha de Moçambique. 16 Cap. vi. De como ho çoltão de Moçambique fe\ pa\ cõ Vafco da gama cuydando que fo ffe Turco. 18 Cap. vii. De como 0 çoltão de Moçambique quis fa\er treição a Vafco da Gama: & do que fucedeo fobriffo. 19 Cap. viii. De como Vafco da gama fe partio de Moçãbiq, & ho nauio fam Rafael deu e os baixos, q agora te ho mefmo nome. 23 Cap. ix. De como Vafco da gama chegou aa cidade de Mõbaça, & do que lhe Iii aconteceo. 24 Cap. x. De como Vajco da gama chegou á cidade de Melinde. 28 Cap. xi. De como Vafco da gama tuãdou recado a el rey de Melinde, & do que lhe refpondeo. 29 Cap. xii. De como el rey de Melinde fe vio cõ Vafco da gama & affen- tou coele ami\ade, & lhe deu piloto que ho leuaffe a Calicut. 3i Cap. xiii. De como partido Vafco da gama de Melinde chegou a Cali¬ cut, & da grãde\a & nobreza dejla cidade. 33 Cap. xiiii. Do grãde poder del rey de Calicut, & de feus cojlumes: 6 affi dos outros reys do Malabar, & da maneyra que viuem os Nai- res. 35 Cap. xv. De como Vafco da gama mandou recado a el rey de Calicut que lhe queria falar. 39 Tomo I 62
  • 49° Tavoada do primeiro livro. Cap. xvi. De como el rey de Calicut mãdou por Vafco da gama a Pan- darane. 41 Cap. xvii. De como Vafco da gama deu a el rey de Calicut a embai¬ xada que lhe leuaua. 45 Cap. xviii. De como Vafco da gama quifera mandar liú prefente a el rey, & lhe nã foi cõfêlido. 48 Cap. xix. Do que os mouros ordenarão cÕtra Vafco da gama. 5o Cap. xx. De como Vafco da gama ouue licença del rey pera fe tornar aos nauios. 5i Cap. xxi. De como tornandofe Vafco da gama pera os nauios ho deteue lio Catual em Pandarane. 53 Cap. xxii. De como Vafco da gama fe foy pera os nauios, & do que fe paffou defpois dijlo. 55 Cap. xxiii. De como Vafco da gama quifera deixar em Calicut hií fey- tor & efcriuão & el rey nã quis. bq Cap. xxiiii. De como el rey de Calicut mandou Diogo dia%, & Aluaro de Braga, & do mais que paffou. 6 Cap. xxv. De como Vafco da gama fe partio pera Portugal, & do que lhe aconteceo ate a ilha Danjadiua. 62 Cap. xxvi. De como Vafco da gama foy fa\er agoada a ilha Danja¬ diua, & de como prendeo hi hum mouro. 64 Cap. xxvii. Do q aconteceo a Vafco da gama ate a ilha Santiago. 67 Cap. xxviii. De como Niculao coelho deu noua a el rey dô Manuel que a índia era difcuberta. 68 Cap. xxix. De como Vafco da gama chegou a Lifboa. 70 Cap. xxx. De como Pedraluare\ cabral foy por capitão mor de húa armada a Calicut. 71 Cap. xxxi. De como çoçobrarã quatro naos. 72 Cap. xxxii. De como Pedraluare\ Cabral fe vio com el Rey de Qúi- loa. 74 Cap. xxxiii. De como ho capitão mór Pedraluare\ Cabral fe vio com el Rey de Melinde. qb Cap. xxxiiii. De como ho capitão mór Pedraluare\ Cabral chegou a Calicut. 76 Cap. xxxv. De como Pedraluare\ Cabral falou a el rey de Calicut. 78 Cap. xxxvi. Do que aconteceo a Pedraluare\ cabral em Calicut. 79 Cap. xxxvii. De como Pedraluare\ cabral, mãdou tomar húa nao pera el Rey de Calicut. 83 Cap. xxxviii. Do q paffarão os mouros de Meca có el rey de Calicut, & de como fe leuãtarã cõtra os Portuguefes q eflauã e terra. 85
  • Tavoada do primeiro livro. 491 Cap. xxxix. De como Pedr aluar e\ cabral fe vingou do que os mouros ^ fi\erão. 88 Cap. xl. De como Pedraluare\ cabral affentou ami\ade com el Rey de Cochim. 89 Cap. xlt. De como Pedr aluar e, cabral fe partio pera Portugal. 90 Cap. xlii. Do que aconteceo a Pedraluare\ cabral tornando pera Por- tugal. 92 Cap. xliii. De como foy por capitão moor da fegunda armada da ín¬ dia Ioão da noua. g3 Cap. xliiii. De como dó Vafco da gama tornou á índia por capitão mór de hua armada. gÇ Cap. xlv. De como dom Vafco da gama chegou ao porto de Calicut, & do que fe\. 97 Cap. xlvi. De como dó Vafco da gama chegou a Cochim, & do mais que paffou. gg Cap. xlvii. De como el rey de Calicut mandou di\er a el rey de Co¬ chim que não dejfe carrega a dom Vafco. 100 Cap. xlviii. De como indo dó Vafco da gama pera Cananor foy come¬ tido de vinte tioue naos de mouros. 101 Cap. xlix. De como foy fabido ê Cochim q el rey de Calicut lhe auia de fa\er guerra. io3 Cap. l. De como el rey de Calicut declarou aos fenliores que ho ajuda- uão, que queria fa\er guerra a Cochim. io5 Cap. li. Do grande aperto em que ejlauão os Portuguefes cÕ medo que el rey de Cocht os etregaffe a el rey de Calicut. 107 Cap. lii. De como ho prícipe de Calicut cometeo muytas ve\es dêtrar na ilha de Cochim pelo paffo do vao. 109 Cap. liii. De como foy morto Naramuhim principe de Cochim por trey-\ cão del rey de Calicut. 111 Cap. liiii. De como fe perdeo Vicente fodré & outros em Ctiria mu- ria. 114 Cap. lv. De como partirão pera a índia por capitães móres de tres ar¬ madas Francifco dalbuquerque, & Afonfo dalbuquerq, & Antonio de faldanha. n5 Cap. lvi. De como Francifco dalbuquerque começou de fa\er guerra aos immigos del rey de Cochim. 117 Cap. lvii. De como Francifco dalbuquerque começou de edificar ho caj- telo Manuel. 119 Cap. lviii. De como Afonfo dalbuquerque chegou a Cochim. 120 Cap. lix. Do q Duarte pacheco fe\ em Repelim, & em Cambalão. 121
  • 49 2 Tavoada do primeiro livro. Cap. lx. De como Duarte pacheco defbaratou trinta & quatro paraós. 123 Cap. lxi. De como Afonfo dalbuquerque foy carregar a Coulão & af- fetitou feytoria. 125 Cap. lxii. De como fe affentou pa\ aiitre Frahcifco dalbuquerq & el rey de Calicut, & como foy quebrada. 128 Cap. lxiii. De como Francifco dalbuquerque & Afonfo dalbuquerque fe partirão pera Portugal, & deixarão por capitão mór a Duarte pa¬ checo em Cochim. i3o Cap. lxiiij. Do que aconteceo a Antonio de faldanha & aos feus capi¬ tães ale chegarem á Índia. i32 Cap. lxv. Do que ho capitão mór Duarte pacheco fe\ em Cananor indo pera Cochim: & do q lá pajfou com el rey. i35 Cap. lxvi. De como ho capitão mór Duarte pacheco fe\ que não defpo- uoaffem a cidade os mouros de Cochim. i3q Cap. lxvii. De como o capitão mór Duarte pacheco fe\ hu falto em terra de Repelim, & de como fe parlio pera ho paffo de Cãbalão a efperar el rey de Calicut. 139 Cap. lxviii. De como el rey de Calicut combateo os nofjos no paffo de Cãbalão: & de como foy defbaratado. 143 Cap. lxix. Do q fe\ ho capitão mór Duarte pacheco defpois defle com¬ bate. 145 Cap. lxx. Do fegíído combate que el rey de Calicut deu ao capitão moor Duarte pacheco. 146 Cap. lxxi. De como el rey de Calicut foy defbaratado no terceyro com¬ bate. ' 148 Cap. lxxii. De como el rey de Calicut quifera deixar a guerra. i5o Cap. lxxiii. De como el rey de Calicut deu ho quarto combate a Duarte pacheco. i52 Cap. lxxiiii. De como algíís q erão da parte del rey de Calicut fepaf- farão pera el rey de Coclii. i56 Cap. lxxv. Como el rey de Calicut em peffoa combateo I10 paffo do vao. ibq Cap. lxxvi. Do que Duarte pacheco diffe ao príncipe de Coclii fobre a treyção q lhe foy feyta. 160 Cap. lxxvii. De como el rey de Calicut mãdou deitar peçonha nos man- timetos que os noffos auião de comprar. 161 Cap. lxxviii. De como ho capilã mór Duarte pacheco pelejou cõ cin- coenta & dous paraós dos inimigos. i63 Cap. lxxix. De como os imigos etrarã na ilha de Cochim, & forã def- baratados por certos poleás. i65
  • Tavoada do primeiro lim o. 4g3 Cap. lxxx. De húa treyção que híí mouro de Cochim quifera fa\er ao capitão mor Duarte pacheco. 167 Cap. lxxxi. De como hã mouro inuentou a el rey de Calicut hãs cajle- los de madeira, com que podejfem aferrar as noffas carauelas. 170 Cap. lxxxii. Do ardil que inuetou Duarte pacheco pera q lhe não abalr- roajfem as carauelas cõ os Cajlelos. 172 Cap. lxxxiii. De como el rey de Calicut deu combale aos noffos com os cajlelos, & de como foy dejbaratado. iqb Cap. lxxxiiii. De como el rey de Calicut quifera dejbaratar com híí ardil ho capitão mór Duarte pacheco. 178 Cap. lxxxv. Díi ardil com q el rey de Calicut quifera malar ho capi¬ tão mór Duarte pacheco. 180 Cap. lxxxvi. De como el rey de Calicut fe meteo em híí pagode: & def- pois fe tornou a fayr. i83 Cap. lxxxvii. De como muytos daqles reys & fenhores que ajudauão a el rey de Calicut pedirã pa\ a Duarte pacheco. 184 Cap. lxxxviii. Das armas q el rey de Cochim deu ao capitão mór Duarte pacheco. i85 Cap. lxxxix. De como ho capitão mór Duarte pacheco foy focorrer ao feytor de Coulão. 189 Cap. xc. De como Lopo foare\ partio pera a índia por capitão mór da armada que foy no anno de mil & quinhetos & quatro. 191 Cap. xci. Como ho capitão mór Lopo foare\ chegou a Cananor & fe rio com el rey. 193 Cap. xcii. Da dejlruição que ho capitão mór Lopo foare\fe\ em Cali- licul: & de como chegou a Cochim. 195 Cap. xciii. De como Duarte pacheco fe partio de Coulão pera Co¬ chim. 196 Cap. xciiii. De como ho capitão mór Lopo foare\ pelejou em Cranga- nor com húa armada de Calicut. 197 Cap. xcv. De como el rey de Tanor pedio pa\ ao capitão mór Lopo foare\. 198 Cap. xcvi. De como ho capitão mór Lopo foare\ pelejou com os mou¬ ros em Pandarane. 199 Cap. xcvii. De como ho capitão mór Lopo joare\ chegou a Lisboa, & da muyto gi'ande honrra que el rey dom Manuel fe\ a Duarte pa¬ checo. 201
  • 494 Tavoada do livro segundo. TAVOADA DO LIVRO SEGUNDO. Capitolo i. De como partio pera a índia por vifo rey dó Francifco dalmeyda, & do que paffou ate chegar á cidade de Quiloa. Pag. 207 Cap. 11. De como não querendo el rey de Quiloa pagar as pareas que era obrigado ho gouernador lhe tomou a cidade. 211 Cap. iii. De como ho gouernador feç híía fortaleça na cidade de Quí- loa, & de comofeç nela nouo rey. 2i3 Cap. iiii. De como ejlá fituada a cidade de Mombaça: & de como 0 go¬ uernador foy Jobrela pera a tomar. 215 Cap. v. De como ho gouernador mandou poer fogo à cidade de Mom¬ baça, & de como foy queimada grande parte dela. 217 Cap. vi. De como ho gouernador tomou a cidade de Mombaça. 219 Cap. vii. De como Vajco gomeç dabreu foy ter a Mombaça & de como ho gouernador fe partio pera Melinde. 225 Cap. viii. De como ho gouernador não pode aferrar Melinde, & do que aconteceo a Ioão homem na viagê ate Melinde. 226 Cap. ix. De como ho gouernador chegou â ilha Dãjadiua & começou húa fortaleça, & de como chegou hi Bafião de fotifa. 228 Cap. x. De como Pero danhaya partio com húa armada pera çofala, & do que lhe fucedeo na viagem. 229 Cap. xi. De como Pero danhaya fe vio com el rey de çofala, & ouue licença pera façer fortaleça, & a começou. 231 Cap. xii. De como el rey de Honor, & Timoja, & ho alcayde de Cíta- cora mandarã pedir paçes ao gouernador: 6 ele lhas deu. 233 Cap. xiii. De como el rey de Honor quebrou a paç q tinha affentada cÕ ho gouernador, & a caufa porque. 235 Cap. xiiii. De como 0 gouernador dejlruyo a cidade de Honor, & como defpois el rey lhe pedio paç. i'òq Cap. xv. Do que Ioão homem feç a hús mouros q eflauão em Coulão, & do mais q lhe acõteceo. E de como ho gouernador chegou a Cananor, & fe chamou vifo rey. 239 Cap. xvi. Do grande reyno de Narjtnga, & dos mais dos co/lumes de fua gente. 242 Cap. xvi. Da embaixada que foy dada ao viforey da parte del rey de
  • Tavoada do livro segundo. 49$ Narjinga: & de como concertou com el rey de Cananor que fi\ejfe fortaleza: & fe partio pera Cochim. 249 Cap. xviii. De como ho feylor de Coiilão & quantos ejlauão coele forão queymados, & de como ho vifo rey mandou feu filho dom Lourenço a vingar efias mortes. 252 Cap. xix. De como dó Loureço queymou cm Coulão xxvij. naos de Ca- licut, & defpois Je tornou a Cochim. 253 Cap. xx. De como ho vifo rey deu húa coroa douro a el rey de Cochim & feyfcentos cruzados de tença, & de como mandou dom Lourenço ás ilhas de Maldiua. 255 Cap. xxi. De como Fcrnão foare\ capitão môr das naos de carga fe partio pera Portugal, & de defcobrio a ilha de fã Loureço pela bãda de fora, & chegou a Lisboa. 256 Cap. xxii. Das coufas notaueis da ilha de Ceylão ajji no mar como na terra. 258 Cap. xxiii. De como dom Lourenço chegou à ilha de Ceylã, & foy ter ao porto de gale. E de como fe partirá pera Portugal Ioam da noua & Vafco gomei dabreu. 262 Cap. xxiiii. De como dó Loureço foy darmada â cofia do Malabar, & como foube que fa\ia el rey de Calicut húa armada pera peleiar coele. 263 Cap. xxv. De como dõ Lourenço foy bufcar a grande armada de Ca¬ licut, & ouue vifia dela. 265 Cap. xxvi. Da muyto famofa vitoria que dom Lourenço ouue, & como defpois fe partio pera Cochim. 266 Cap. xxvii. Do que aconteceo a Frãcifco danhaya indo pera Moçambiq: & de como Pero barreio de magalhães com outros capitães chegarão â índia. 270 Cap. xxviii. De como foy começada a fortaleza de Cochim, & de como ho viforey mãdou tirar os olhos a hã Nayre de Calicut por húa treiçã que lhe quifera fa\er. 271 Cap. xxix. De como os mouros de çofala induzirão a el rey çufe que fe leuantafje contra os nojfos, e morreo Pero danhaya. ifi Cap. xxx. De como partio pera a índia Trifião da cunha por capitão da armada do anno de feys, & do que paffou na viagem ate chegar a Moçambique. 276 Cap. xxxi. De como ho capitão môr foy a ilha de fã Lourenço & 0 que lhe aconteceo, & a algús capitães: & fe tornou a Moçambique. 279 Cap. xxxii. [De como ho uifo rey mandou desfa\er a fortaleza Danja- diua, & a caufa porque.] 282 b í’
  • Tavoada do livro segundo. 49 6 Cap. xxxiii. De como dõ Lonrenço quifera pelejar e Dabul cõ a frota del rey de Calicut, & a caufa porque não peleiou. 283 Cap. xxiiii. Em que fe efcreue ho reyno de Daqui., & como acabarão os reys dele, & como he agora gouernado. 286 Cap. xxxv. De como ejlá Jituada a cidade de Chatd, & do que hi fe\ dom Lourenço: & de como fe tornou a Cochim. 289 Cap. xxxvi. De como ho capitão mòr Trijlão da cunha fe partio de Mo¬ çambique pera çacotorâ: & de como queymou no caminho ho lugar de Hoja. 290 Cap. xxxvii. De como ho capitão mòr Trijlão da cunha chegou á cidade de Brahua, & affelou com feus capitães de a dejlruir. 292 Cap. xxxviii. De como ho capitã mòr tomou a cidade de Brahua, & a dejlruyo. 294 Cap. xxxix. Em q fefcreue a ilha de çacotorâ. 296 Cap. xi.. De como Trijlão da cunha chegou â ilha de çacotorâ & pe¬ lejou com ho xeque Habrahe Jilho del rey de Fartaque & ho defba- ralou. 297 Cap. xli. De como defpois de morto xeque Habrahem fe recolherão al- gfts mouros â fortaleza: & como Afonfo dalbuquerque a entrou, & a dura refijlencia que acharão nos mouros. 3oo Cap. xlii. De como defpois de tomada a fortaleza fe\ ho capitão mòr ami\ade com a gete da terra, & do mais que fucedeo. 3o3 Cap. xliii. De como fe começou de leuantar el rey de Cananor contra os noffos: & de como osfóy focorrer dom Lourenço. 304 Cap. xliv. De certos capitães mòres de viagem que partirã pera a ín¬ dia no anuo de M. D.vij. E de comofoy Vafco gome\ dabreu. 3o5 Cap. xlv. De como el rey de Cananor rornpeo a guerra com ho capi¬ tão de Cananor, & do ardil que mejlre 1'homas fernande^ teue pera que os noffos tomajfem agoa. 3oq Cap. xlvi. De como el rey de Cananor vendo que os noffos não fayão a tomar agoa determinou de os tomar per cõbate, & como o prín¬ cipe auifou dijlo ao capitã. 309 Cap. xlvii. De como os irnigos derão hu combate â tranqueyra, & forã desj bar alados. 310 Cap. xlviii. De como por mãdado do capitã deu ho alcayde mòr de noyte no arrayal dos inimigos: & fe recolherão â cidade. 3i3 Cap. xlix. De como por defajlre ardeo a noffa feytoria, & todas as cafas da ponta forão queymadas. E da grande batalha que os noffos teuerã o dia de Sanâiago. 3i5 Cap. l. Da grãde fome q auia antre os noffos por falta dos mantime-
  • Tavoada do livro segundo. 497 tos que fe queymarão, & da grande multidão de lagojlas que ho mar deytou na ponta de Cananor. 3\q Cap. li. Do grãde combate que os immigos derão aos nojfos por mar & por terra & de como forão dejbar atados. 319 Cap. lii. Da dejlruyção que ho capitão de Cananor fe\ na pouoaçã dos mouros: & de como chegou Trijlão da cunha, & el rey de Ca¬ nanor cometeo pa\, & dalgús milagres que nojfo feíior fe\ no cerco. 321 Cap. liii. De como Afonfo dalbuquerque que ficou por capitão môr na cojla dalem, fe partio de çacotorá a defcobrir, & côquijlar ho reyno Dormu\: & de como chegou a Calayale, & do q hi pajjou. 323 Cap. liiii. De como ho capitão môr tomou a vila de Curiate, & do mais que fe\. 326 Cap. lv. De como ho capitão môr tendo ajfentada pa\ com ho regedor de Mascate, fe lhe leuantou. 328 Cap. lvi. De como ho capitão môr pelejou com os mouros, & tomou a vila. 33o Cap. lvii. De como a fortaleza de coar foy entregue ao capitão môr. E como tomada a uila Dorfacão fe partio pera 0rmu\. 333 Cap. lviii. Em que fe efcreue a cidade Dormu\, & de como Cojeatar que era gouernador do reyno fe apercebia pera pelejar com ho capi¬ tão môr. 337 Cap. lix. De como Cojeatar ouue a gouernãça do reyno Dormu\, de que eflaua de poffe quando ho capitão môr hi chegou. 33g Cap. lx. De como ho capitão môr Afonfo dalbuquerque chegou â ci¬ dade Dormu\, & dos recados que mãdou a el rey fobre amizade, & como Cojeatar diffimulaua coele. 341 Cap. lxi. De como ho capitão moor pelejou com a grande armada de Cojeatar, & da grãde vitoria que lhe deu N. S. 344 Cap. lxii. De como el rey Dormu\ & Cojeatar, mandarão pedir pa\ ao capitão môr, & ele lha cõcedeo: & como foy manifejlo hú milagre q N. S.fe\ polos nojfos. §48 Cap. lxiii. De como ho capitão môr fe vio com el rey Dormu\ & cõ Cojeatar, & do que cõcertou coeles: & do mais q fucedeo. 351 Cap. lxiiii. De como fazendo ho capitão môr a fortaleza Dormu\ che¬ gou hú embaixador do Xeque ifmael a pedir pareas a el rey Dormu\: & do que ho capitão moor lhe refpondeo. 354 Cap. lxv. De como ho vifo rey pelejou na vila de Panane cõ muytos mouros & os defbaratou. 356 Cap. lxvi. De como Afonfo dalbuquerq fa\ia a fortaleza e 0rmu\, & Tomo I 63
  • 498 Tavoada do livro segundo. do q algãs capitães fi\erão contrele, vendo que não declaraua quê auia de fer capitão dela. 359 Cap. lxvii. De como Cojeatar fe leuãtou cõtra ho capitão moor, & fe começou a guerra antreles. 363 Cap. lxviii. De como o capitão mòr deu de\ dias bateria â cidade: & da goarda q pos pera lhe tolher os mãtitnêtos. 367 Cap. lxix. De como ho capitão mòr mandou çujar os poços de Turúbaq, & da matança q os nojjos f\erão nos tmigos. 369 Cap. lxx. De como ho capitão môr não pode defender aos mouros que não alimpajfcm os poços. iqi Cap. lxxi. De como Vafco gome\ dabreu chegou a çofala, & do que fu- cedeo a algãs dos capitães que forão coele. 374 Cap. lxxii. Da conjuraçã que algãs capitães dAfonfo dalbuquerq fia¬ rão contrele: & de como Afonfo lope\ da cofia, Antonio do cãpo, & Manoel tele% barreto lhe fugirão pera a índia. 376 Cap. i.xxiii. De como ho capitão moor deu hãa antemanhaã na ilha de Queyxome. 378 Cap. lxiiii. De como ho capitão moor fe\ outro falto na ilha de Qiiei- xome, & fe partio pera çacotorã. 379 Cap. lxxv. Em que fe contão os grãdes dereytos que tinha ho Joldão no Cayro, & em Alexandria da efpeciaria, & de como mandou focorro â Índia contra os nojfos. 38i Cap. lxxvi. De como dom Lourenço foy darmada a Chaul, & de como foube que os rumes ejlauão em Diu. 386 Cap. lxxvii. De como Mirocem fe partio pera Chaul a peleiar cô dó Lourêço, & do que fe\. ■ 387 Cap. lxxviii. De como dom Lourêço teue defbaratado Mirocem, & da caufa porque ho não acabou de defbaratar. 3go Cap. lxxix. De como dom Lourenço, & os outros capitães ouuerã con- fellio que fe fojfê, & do que acóleceo â nao de dom Lourenço por culpa do Jeu mejlre. 3q3 Cap. lxxx. De como foy morto dom Lourêço, & oylenta dos feus, & vinte catiuos, & a fua nao foy metida no fundo. 3g5 Cap. lxxxi. Do que fi\erão os outros capitães defpois da morte de dom Lourenço, & do que fi\erão os inimigos. 398 Cap. lxxxii. De como Pero barreto & os outros acharão os capitães que fugirão a Afonfo dalbuquerque, & a caufa porque nã tornarão a pelejar com os rumes. 400 Cap. lxxxiii. De como ho comendador Ruy foare\pelejou com hãa nao de mouros, & do que mais que lhe aconteceo. 402
  • Tavoada do livro segundo. 499 Cap. lxxxiiii. Do que aconteceo aos capitães môres que inuernarão em Moçambique. 404 Cap. lxxxv. De como lio capitão mór Afonfo dalbuquerq inuernou em çacotorâ, & de como tomou Calafate. 403 Cap. lxxxvi. De como os mouros quiferão faltear os nojfos & forã def- baratados. 408 Cap. lxxxvii. De como ho capitã mór cercou a ilha Dormu\, & do que fotibe da cidade, & do mais que fucedeo. 409 Cap. lxxxviii. De como ho capitão môr deu em Nabande, & do que hi M- 411 Cap. lxxxix. De como matarã Diogo de melo & de como ho capitão môr fe partio pera a Índia. 414 Cap. xc. De como foy feyta a torre de Moçambique: & fe perdeo Vafco gome\ dabreu com outros capitães. 416 Cap. xci. De como partio Iorge daguiar, por capitã mòr pera ho cabo de Goardafum 6 fe perdeo, & das tiaos que chegarã a índia. 417 Cap. xcii. De como ho vifo rey foube que el rey ho mandaua hir pera Portugal, & como fe partio pera Cananor. 419 Cap. xciii. De como Afonfo dalbuquerque chegou a Cananor, & mojlrou ao vifo rey a prouifam q tinha pera gouernar a india, como ho vifo rey a nã quis goardar. 420 Cap. xciiii. De como Afonfo dalbuquerque fe partio pera Cochim, & pera Portugal os capitães das naos de carga. 432 Cap. xcv. De como ho vifo rey indo pera Diu chegou a Dabul. 424 Cap. xcvi. De como ho vifo rey def bar atou ho capitão de Dabul, & qymou a cidade. 426 Cap. xcvii. De como ho vifo rey fe\ tributário Ni\amaluco fenbor de Chaul, e o mais q fe\ ate chegar a Diu. 429 Cap. xcviii. De como ho vifo rey chegou ao porto de Diu & do confe- Iho que Meliquia\ deu a Mirocem. 43o Cap. xcix. De como ho vifo rey & fe Mirocem perceberão pera a ba¬ talha. 433 Cap. c. De como ho vifo rey pelejou com Mirocem, capitão môr do Sol- dão, & com Maymame capitão môr del rey de Calicut, & cô a frota de Meliquia\, & os defbaratou. 435 Cap. ci. De como Meliquia\ pedio pa\ ao vifo rey & lha conce¬ de 0. 439 Cap. cii. De como tornãdofe ho vifo rey pera Cochim lhe pagarã al- gds fenhores daqla cofia pareas. 441 Cap. ciii. De como ho vifo rey chegou a Cochí: & de como Afonfo dal-
  • 5oo Tavoada do livro segundo. buquerque llie pedio a gouernãça, & lha não quis dar & do mais q paffou. 442 Cap. ciiii. De como lio vijo rey mandou a Afonfo dalbuquerque que não fayjfe de cafa, & de como forão prefos Gafpar pereira, & Ruy da- raujo. 444 Cap. cv. De como Duarte de lemos ficou por capitão môr da armada do cabo de Goardaju, & inuernou em Melinde. 446 Cap. cvi. De como Diogo lope\ de fequeira defcobrio a ilha de Jã Lou- reço pela banda de fira: & de como indo pera Malaca arribou a Cochí. 447 Cap. cvii. Como Diogo lopc\ de fequeyra, & Manuel paçanha aprefen- tarão lius capítulos cõtra Afonfo dalbuquerque, pelo que foy julgado por inábil pera gouernador. 449 Cap. cviii. Do que Duarte de foufa cõfelhou a Afonfo dalbuquerque que fi\effe contra lio vifo rey, & do que fe fe\ fobriffo. 45o Cap. cix. De como forã dados tratos a Duarte de foufa, fobre 0 q cõfe¬ lhou a Afonfo dalbuqrque, & como não diffe mais do que as tefiemu- nhas de\ião. 452 Cap. cx. Do que Afonfo dalbuquerq paffou cÕ lio vifo rey: & de como Diogo lope\ de fequeira partio pera Malaca. 454 Cap. cxi. Da grande ilha de çamatra, & de como ho capitão mòr af- fentou nela pa\ com el rey de Pedir, & com el rey de Pacem, & fe partio pera Malaca. 456 Cap. cxii. Em que fe efcreue ho fitio da cidade de Malaca, & fua grande riqueza: & como fe fe\ reyno. 458 Cap. cxiii. De como ho capitão mòr Diogo lope\ de fequeira chegou ao porto de Malaca, & affentou amizade & trato el rey, & da treiçã que fe lhe ordenou. 460 Cap. cxiiii. De como foy defcuberta ao capitão mòr a treyção & de como ouue efeito. 462 Cap. cxv. De como Ruy daraujo, & os outros fe entregarão ao Ben- dara, & de como 0 capitão mòr fe partio pera a índia. 464 Cap. cxvi. Do que aconteceo ao capitão mòr ate a ilha da poluoreyra, & de como fe partio pera Portugal do cabo de Comorim, fem tomar a índia: & a caufa porque. 467 Cap. cxvii. Do que acõteceo a Duarte de lemos indo pera çacotorá, & do mais que fe\. 471 Cap. cxviii. De como ho vifo rey mandou Afonfo dalbuquerque pera a fortaleza de Cananor: & como chegou a Cochim dó Antonio de no- ronha. 474
  • Tavoada do livro segundo. 5or Cap. cxix. De como acquiridos por Afonfo dalbuquerque os fidalgos que inuernarão em Cananor, fe foltou, & do que pajfou com Lourenço de brito. 476 Cap. cxx. De húa carta q lio vijo rey escreueo a Afonfo dalbuquerque: & como fe foube que hia armada de Portugal. 478 Cap. cxxi. De como partio pera a índia por capitão mòr darmada do Francifco coutinlio marichal de Portugal, & de como chegou lá. 479 Cap. cxxii. De como ho viforey fe partio pera Portugal, & de como ho matarão cafres na agoada de Saldanha, & a outros muytos fidal¬ gos. 482 Cap. cxxiii. Dos cofumes do viforey: & de como por Jua morte ficou por capitão Iorge barreto Crafio, & como chegou a Portugal. 485
  • CORRECÇÕES Pág. Lin. II 17 17 2 20 38 22 6 23 19 3o 3o 32 17 39 27 48 26 54 8 57 19 59 6 61 21 63 2 64 23 70 12 76 i5 81 1 82 3 86 i3 88 14 100 12 135 i3 i5o 24 153 20 228 22 233 20 244 36 254 6 » 32 256 i3 294 7 3 04 24 319 2 327 33 33o 12 Erros importunação Nicolau ouuióa efbõbarbear reconhecerão para folgara fe efpantauáo difto efcuro os pela ir fe coftumão caminho não achou devia lhe entregou efperavel hú emos fe não aconselherão rigorofamente coefas ate agora auia um depois por regedores por noffos que ele por capitão mor Emendas por importunação Niculau ouuira efbõbardear a reconhecerão pera • que folgara fe eles efpantauão nifto efcuro que os pola ir que fe cuftumão feu caminho achou deuia de lhentregou efparauel hús em os fe não em aconfelharão rigurofamente coeffas ategora auião hú defpois per regedores dela per noflos que fe ele per capitão mor moor
  • 5 04 Correcções Pig. Lin. 337 12 3.4O 28 » 3o 357 24 392 25 400 2 416 i3 » 29 421 i3 427 8 434 24 459 39 462 28 481 14 486 23 Erro» ilha pareceffe del rey do ningem de parte ' cristãos depois outros ano enbãdeirados dous trãto & fiarião lhe Emendas ilha outra parecelle del rey ninguém da parte christãos defpois outros mouros anno embandeirados de dous trato E ficarião lho Não vão apontadas algumas trocas de i e u pory e v, nem o emprego do til em vez de m e n, nem tão pouco o uso e omissão de h em artigos e pronomes, que come¬ çam por vogal.
  • EDIÇÕES » DA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE (extracto do catálogo) SCRIPTORES RERVM LVSITANARVM série a) Publicado: FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA — História do descobrimento e conquista da índia pelos portugueses. Ed. revista pelo Sr. Pedro de Azevedo. Livros i e n. A sair: FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA. — História do descobrimento, e conquista da índia. Ed. revista pelo Sr. Pedro de Azevedo. Livros m e tv. DAMIAM DE GOES. — Chronica do Felicíssimo Rei Dom Emanvel. Conforme a ed. princeps. Rev. pelo Dr. David Lopes. - Chronica do Príncipe Dom Ioam. Conforme a ed. princeps. Em preparação: JOÃO DE BARROS e DIOGO DO COU TO. — Décadas. Ed. revista pelo Dr. An¬ tónio Baião. Papéis relativos à guerra da restauração e independência de Portugal. série b) Publicados: I. — HIERONYMO OSORIO. — De rebus Emmanvelis gestis. 3 vols. 6oi£oo II. — Itinerários Quinhentistas da Índia a Portugal. — Rev. e prefaciados pelo Dr. António Baião. Vol. 20#>oo III. — Comentários do grande Afonso d’Albuquerque. — Conforme a 2.* ed. Rev. e prefaciada pelo Dr. António Baião. vol. 1 (Partes 1 e 11) e 11 (Partes m e iv). 3o#oo A sair; FR. PANTALEÃO DE AVEIRO. — Itinerário da Terra Santa. Rev. pelo Dr. An¬ tónio Baião. Em preparação: D. FRANCISCO MANUEL DE MELO. — Epanaphoras de vária história portuguêza. - História Trágico-Maritima. RUI DE PINA — Crónica de D. Alonso IV.
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