ACTA UNI VERSITATIS CONIMBRIOENSIS A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES E O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES Leitura e Notas de Armando Cortesão POR ORDEM DA UNIVERSIDADE 19 7 8
A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES E O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES
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ACTA UNI VERSITATIS CON1MBR1GENSIS A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES E O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES Leitura e Notas de Armando Cortesão 9r. J. CORDEIRO REREIRA Rue do Mercedo, 7, 2-G Telel. 280004-2740 CASCAIS POR ORDEM DA UNIVERSIDADE 19 7 8
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P RO ÉM IO Uma elas razões por que sempre tive predilecção especial pelo meu livro The Suma Oriental of Tomé Pires and the Book of Francisco Rodrigues, em edição da Hakluyt Society, a qual, embora datada de 1944, só apareceu a público em fins de 1945, é esta obra ter influído de maneira capital para que em 1946 os Drs. Julian Huxley e Joseph Needham me convidassem para ingres¬ sar na Comissão Organizadora de UNESCO, Agência da ONU, em que trabalhei de Outubro de 1946 a Maio de 1952—primeiro como Conselheiro para a História da Ciência e da Cultura, depois como Chefe de várias Divisões, e finalmente como Secretário Gera! da Comissão Internacional para uma História Científica e Cultural da Humanidade. Esse foi um período importante da minha vida em que, entre outras coisas, passei da quase miséria de longos anos de exílio político em Londres para a relativa opulên¬ cia de funcionário superior internacional em Paris. Quando, há muito tempo já, conversava sobre tudo isto com o meu bom e saudoso Amigo Professor Doutor Guilherme Braga da Cruz, desde havia muito Director da Biblioteca Geral, mostrou ele desejo de que a edição inglesa da obra fosse traduzida para português e publicada peta Universidade, pois não fazia sentido que obras tão importantes como a Suma de Tomé Pires e o Livro de Francisco Rodrigues estivessem publicadas em inglês, embora com o texto origina! mas com extensas «Introdução» e numerosas e até certo ponto importantes notas, numa edição, aliás excelente, mas de acesso pouco fácil e praticamente desconhecida do público português. Mais recentemente disse-me ele que estava decidido que essa publicação se fizesse de seguida, e em 6 de Março de 1977,
VIII por conseguinte cinco dias antes do seu inesperado e trágico faleci¬ mento, esteve ele bondosamente em minha casa (dada a quase imobili¬ dade total a que estou reduzido) para ultimar pormenores desta edição. Resolveu-se então que se na edição inglesa a Suma Oriental de Tomé Pires, dada a sua maior extensão e importância, precede o Livro de Francisco Rodrigues, na presente edição este precederia aquela tal como se encontra no códice de Paris, tendo a ordem das notas sido ajustada em conformidade. Além dos Apêndices que já constam da edição inglesa, ntais três aqui se juntam, com valiosas criticas ou opiniões de categorizados autores estrangeiros que possivelmente contribuirão para uma melhor identificação de alguns topónimos e outros nomes referidos por Tomé Pires. Também ficou assente que eu faria o possível por traduzir a Introdução e Apêndices, e que para a difícil e trabalhosa tradução das numerosas notas de rodapé seria solicitada a colaboração da Dr." D. Maria Armanda de Almeida e Sousa, (a quem aqui expresso mais uma vez a minha gratidão), da Faculdade de Letras, cuja inexcedível competência e escrupuloso cuidado já ficaram demons¬ trados na excelente tradução que há anos fizera do meu livro The Nautical Chart of 1424, editado pela Universidade em 1945 e agora (1975) publicada, também pela Universidade, no Vol. III dos meus Esparsos, igualmente por iniciativa do Doutor Guilherme Braga da Cruz. Estes foram, aliás, os menores de entre muitos e assinaláveis serviços que ele prestou à Cultura Nacional. Maio de 1977, Casa das Rosas — S. João do Campo. Armando Cortesão
PREFACIO Quando em 1937 regressei de Paris e disse ao Dr. Edward Lynam, Hon. Secretary da Hakluyl Sociely, que acabava de descobrir o há muito buscado códice contendo a Suma Oriental de Tomé Pires e o Livro de Francisco Rodrigues, ele imediata¬ mente sugeriu que eu devia preparar (edit) o manuscrito para a sua Sociedade publicar. Com grande satisfação aceitei o convite, pois nenhuma outra Sociedade erudita poderia tão apropriada- mente publicar esta importante obra quase completamente des¬ conhecida. Por outro lado, os Ingleses sendo os principais her¬ deiros do grande Império Lusitano do Oriente, têm tanto interesse como os Portugueses num documento de taI importância para a história dos primeiros contados regulares entre o Ocidente e o Oriente. O presente estudo permite lançar nova luz sobre a primeira embaixada europeia à China e o seu chefe, Tomé Pires, o homem extraordinário que, depois de ser boticário do desventurado Prín¬ cipe D. Afonso, filho de et-Rei D. João II, foi para a índia em 1511 como «feitor das drogas», viveu dois anos e meio na recém-con- quistada Malaca, onde escreveu a maior parte da Suma Oriental, e então foi enviado como embaixador à China, lá vindo a morrer depois de uns vinte anos de várias e penosas aventuras. Até agora pouco se sabia de Tomé Pires e da sua embaixada, e a escassa informação e documentos dispersos referentes tanto a um como a outra nunca haviam sido reunidos. A segunda guerra mundial desencadeou-se quando eu tinha quase concluída a longa tarefa de transcrever, dactilografar, e traduzir para inglês todo o manuscrito. Apenas em 1942 pude 0
X retomar o meu trabalho, e só por isso o não pude concluir tão cedo como prometera à Hakluyt Society e ao Congresso Internacional de Geografia, de Amsterdão, em 1938, onde apresentei um breve relato sobre o códice e anunciei a intenção de publicar a sua edição critica. A impossibilidade de trabalhar em arquivos portugueses ou em Paris, para esclarecer pontos duvidosos, e a remoção de muita bibliografia antiga do British Museum, causaram-me não poucas dificuldades. Além disso, quando todo o trabalho dacti¬ lografado estava quase pronto, as condições da impressão resul¬ tantes da guerra obrigaram-me a reduzir as minhas anotações em cerca de dois quintos. Tudo isto contribuiu para algumas das deficiências da presente edição. [Seguem-se referências e agradecimentos a vários eruditos, instituições, amigos e outras pessoas que, duma forma ou doutra, auxiliaram o autor.] Londres, Agosto de 1944. A. Z. Cortesão
A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES E O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES
ESTAMPA 1 ^-sS QW /£«//' ,w d- *uc£. òy rtrç.w& 'f'-v* **/*'** i^w1 ,h.^v ; »«£ r;.z€.^i}«£H sr.u C-t‘U^A V V. - Primeira página da carta original de Tomé Pires para Afonso de Albuquerque, escrita de Malaca em 10 de Janeiro de 1513.
INTRODUÇÃO O CÓDICE DE PARIS Não deixa de surpreender que documento tão importante para a história da geografia como a Suma Oriental de Tomé Pires — sem dúvida a mais importante e completa descrição do Oriente produzida na primeira metade do século xvi, pois foi escrita em 1512-15 — tenha estado esquecida e praticamente ignorada até agora: tanto mais porque incorporado no mesmo códice está o contemporâneo Livro de Francisco Rodrigues com as suas preciosas cartas geográficas que se tornaram mundial¬ mente famosas em meados do século passado. Quando o Visconde de Santarém reproduziu no seu Atlas datado de 1849 uma série de vinte e seis cartas sob o título geral Portulan dressé entre les années 1524-1530 par Francisco Rodri¬ gues, pilote portugais, qui a fait te voyage aux Moluques, ele não disse onde as cartas se encontravam. O Visconde de Santarém faleceu em 1856, mas muitas das notas que deixou sobre cosmo¬ grafia e cartografia, colhidas durante quase uma vida inteira de investigações em arquivos europeus, sobretudo em Portugal e em França, só em 1919 foram publicadas. Nessas notas encontra-se, sob a epígrafe «Portulano de Francisco Rodrigues», uma extensa descrição do Livro de Francisco Rodrigues que termina com a breve referência à Suma Oriental de Tomé Pires (1). Embora a descrição não seja muito correcta, dá-nos (1) Visconde de Santarém, Estudos de Cartografia Antiga, I, 148-56
4 Tomé Pires e Francisco Rodrigues em nota de rodapé uma indicação muito importante: ao tempo em que a descrição foi escrita (1850) o códice pertencia à «Biblio¬ teca da Assembleia Nacional», em Paris. Em 1933 escrevi para Paris tentando averiguai do paradeiro do códice, e foi-me dito que em parte alguma o encontravam, mas que talvez esti¬ vesse na Bibliothèque Nationale, catalogado sob qualquer título irreconhecível (2). Contudo, quando mais tarde estive em Paris, não consegui encontrá-lo na Bibliothèque Nationale nem em qualquer das outras bibliotecas onde o procurei. Ninguém dele conseguia encontrar vestígios e considerava-se perdido; mas não desisti, e quando em Setembro de 1937 de novo fui a Paris, tive a satisfação de encontrar no volume Paris, Chambre des Députés, do Catalogue général des Manuscrits des Bibliothèques Publiques de France, p. 471, a seguinte rubrica: «Journal de Francisco Rois, pilote de la flotte portugaise, qui découvrit les Molluques. Ouvrage divisé en deux parties, la première lemplie par des cartes, la deuxième contenant le texte proprement dit. Sur le plat intérieur est collé un Ex-libris du chevalier de Fleurieu xvie siècle. Papier. 178 feuillets et 124 pages. 380 sur 265 mil- lim. Rei. veau marbré, portant au dos le soleil de Fleurieu». Rois é a maneira antiga de escrever abreviadamente Rodrigues. A descrição não é muito correcta, como adiante se verá, mas deu-me a enorme satisfação de me conduzir ao lugar onde o precioso e há tanto tempo buscado códice jazia no esqueci¬ mento. O volume está encadernado em carneira com dourados, e no verso tem impresso o sol da família Fleurieu; na parte de dentro da capa está o ex-libris de «Mr. le Ch.er de Fleurieu», célebre hidrógrafo francês, Conde de Fleurieu (1738-1810), um antigo possuidor do códice. Certamente foi encadernado quando (2) Esta vaga informação levou-me a erradamente dizer na minha Cartografia e Cartógrafos Portugueses dos Séculos XV e XVI (ii, 124), publi¬ cada em 1935, que o códice se encontrava na Bibliothèque Nationale.
Introdução 5 na posse de Fleurieu, e infelizmente foi aparado com brutalidade ao encadernar, o que cortou paites das palavras nalgumas notas marginais ou adições, ou nas cartas, e a maior parte da numeração original das folhas. O volume contém, além de 4 folhas de guarda, 178 fólios de papel grosso medindo 263 por 377 mm. O Livro de Francisco Rodrigues, com os desenhos e cartas, todos no mesmo papel, ocupa os primeiros 116 fólios; a Suma de Tomé Pires preenche os outros 62. O papel dos 178 fólios é todo igual e com a mesma marca de água. Na foi. 5r. está escrita a pala¬ vra Osorio em letra posterior, pro¬ vavelmente a assinatura do célebre Bispo D. Jerónimo Osório, historia¬ dor e bibliófilo quinhentista, ao que parece um prévio possuidor do códice (3). A numeração original dos dois manuscritos desapareceu quase por completo quando o manuscrito foi brutalmente aparado ao encadernar, dela apenas restando Marca de água no papel de todo o Códice de Paris (Tamanho original). (3) Esta suposição, embora muito provável, é meramente conjectural, pois — por muito estranho que possa parecer — não se encontrou até agora, em arquivos portugueses ou noutra parte, qualquer documento com a assi¬ natura do Bispo Osório. D. Jerónimo Osório nasceu em Lisboa cm 1506 e faleceu cm Tavira em 1580. Estudou nas Universidades de Salamanca. Paris e Bolonha, tendo na capital francesa sido companheiro de Santo Inácio de Loiola. Em 1564 foi nomeado Bispo de Silves, depois de ter sido Pro¬ fessor na Universidade de Coimbra. Foi célebre e sábio autor de numerosos trabalhos, sobretudo em latim, sendo um dos mais conhecidos De rebus Emmanuelis Regis Lusitaniae invictissimi virtute et auspicio gestis libri duodecim, Olysipponc 1571. Houve um outro Jerónimo Osório (1545-1611), sobrinho
6 Tomé Pires e Francisco Rodrigues vestígios. Outra numeração foi mais tarde aplicada à Suma de Tomé Pires, e por fim. mais recentemente, o códice foi todo numerado de 1 a 178. A atrás mencionada nota de Santarém diz ainda: «Este precioso manuscripto parece ter pertencido ao celebre Osorio, bispo de Silves, historiador e contemporâneo d’el-rei D. Manuel, e do qual um grande numero de manuscriptos foram achados pelos inglezes a bordo de um navio portuguez, que elles captura¬ ram perto dos Açores, e que transportaram para Inglaterra. Em ultimo logar foi adquirido pelo famoso hydrographo francez Sr. de Fleurieu, cujas armas se vêem na capa. Pertence agora á Bibliotheca da Assembléia Nacional, e devemos esta communi- cação ao Sr. Bliller, seu bibliothecario (1850).» Não consegui averiguar a origem desta curiosa informação. Ao referir-se a Tomé Pires, Barbosa Machado diz na Biblio¬ theca Lusitana que ele escreveu «Summa Oriental começando do estreito do mar roxo até a Cltina, Dedicado a D. Joaõ III, foi. M.S.» Este seria um exemplar mais antigo que o MS de Paris, como adiante se verá, apesar da suposta dedicatória a D. João III, daquele, que foi cónego da Sé de Évora e também bibliófilo. Tem-se dito que quando em 1596 o Conde de Essex saqueou Faro ele levou consigo os livros do Bispo Osório, que depois ofereceu à Bodleian Library, em Oxford. Mas, o Bispo de Faro era então D. Fernando Martins Mascarenhas. Essex «‘quarted hymself on the bushopes hovvse', and two days later set fire to the town and sailed for home; but he saved the Bishop's library, and in 1600 made a gift of some 200 volumes to the Bodleian». Vide o interessante artigo de Miss K. M. Pogson. A Grand Inquisitor, and his Library, publicado juntamente com «A list of books presented by the Earl of Essex in 1600, still in the Bodleian». in The Bodleian Quaierly Record, ui, 239-44. Oxford 1922. J. B. Silva Lopes diz que «Entre os despojos, que (os Inglezes) levárão, foi a preciosa livraria do Prelado, composta de muitos livros, boa parte da qual se diz fôra levada para a Bibliotheca d'Oxford, e que nella entravão não poucos do sabio D. Jeronymo Osorio.» Memórias para a Historia Eclesiástica do Bispado do Algarve, 369. Lisboa 1848. Entre todos os livros presenteados por Essex apenas um é manuscrito; parece que nenhum deles tem a assinatura do Bispo Osório. Vide estampa II.
ESTAMPA II •&- !\ !fe%L &mÊmm h?ra(M ;’S°' | > e®s V ® / I iu- lip y trr, arSr&t. &5F, J’:s- jf⣠js4r r; ** ^ — & =£*& Primeira página do Livro de Francisco Rodrigues, onde se vê a assinatura do Bispo D. Jerónimo Osório
ESTAMPA III Carla de Rodrigues (foi. 18) da Costa Ocidental da Europa e Ilhas Britânicas
Introdução 7 cujo reinado começou em 1521. De facto Tomé Pires dedicou a Suma Oriental a D. Manuel, pai de D. João m. Mas não há dúvida que era um exemplar diferente. O Livro de Rodrigues foi escrito por ele próprio, e a Suma de Pires é uma cópia con¬ temporânea, como se torna evidente não só pela caligrafia de começos do século xvi, mas também pelo facto de o papel ser exactamente o mesmo em ambos os MSS. Além disso a palavra Osorio na fi. 5r do Livro de Francisco Rodrigues parece da mesma mão que, a fls. ,118v., 124v., etc., escreveu as notas referentes à ordem dos fólios da Suma de Tomé Pires. É provável que os dois MSS. fossem reunidos no mesmo códice pelo próprio Fran¬ cisco Rodrigues, ou pelo menos no seu tempo; certamente esta¬ vam juntos quando na posse de D. Jerónimo Osório, antes de 1580. De modo que o exemplar referido por Barbosa Machado não pode ter sido o mesmo, se não ele não teria deixado de men¬ cionar Francisco Rodrigues e o seu Livro, o que não faz. a presente edição — Embora as duas obras sejam muito distintas em carácter — uma um roteiro, um livro de marinharia e um atlas, e a outra uma descrição geográfica, económica e histórica — ambas são muito valiosas, foram escritas aproxima- damente na mesma altura, é de crer que tenham estado juntas desde então, e até certo ponto completam-se mutuamente. Ainda bem que o Conselho da Hakluyt Society concordou em publicar as duas obras juntamente assim como literalmente o texto ori¬ ginal português depois da versão inglesa, o que indubitavelmente aumenta o valor da presente edição. Este exemplar da Suma não é o original escrito por Tomé Pires, e o copista deixou muitos exemplos da sua falta de cuidado. O estilo de Tomé Pires está longe de claro, o que, acrescentado dos enganos do copista e da anárquica pontuação, ou sua total ausência, torna a interpretação do texto extremamente difícil: por vezes a tradução tem de ser muito livre, talvez mais suposição do que outra coisa. Contudo, sempre procurei apreen¬ der o verdadeiro significado do que o próprio Tomé Pires escre-
8 Tomé Pires e Francisco Rodrigues veu, não só comparando o MS de Paris com outro exemplar [o dc Lisboa] e com a versão de parte da Suma publicada por Ramusio, mas também estudando o contexto e outras fontes por ventura existentes. Em todos os casos mais difíceis busquei o auxílio e conselho de sábios especialistas tais como o Dr. Henry Thomas e o Prof. Edgar Prestage. Mesmo assim não estou certo de que tenha sempre conseguido interpretação correcta; mas o leitor, quando em dúvida, tem para referência o texto português fielmente reproduzido, e por ele pode tentar melhor interpre¬ tação. Não lhe faltará assunto para estudo e discussão. Aqui termina a minha limitada responsabilidade. A maior importância e extensão da obra de Tomé Pires tornou aconselhável imprimir a versão inglesa antes da do Livro de Francisco Rodrigues, invertendo a ordem em que se encon¬ tram no códice. Quando os dois manuscritos foram reunidos num só códice numa data recuada, alguns fólios da Suma Orien¬ tal ficaram mal colocados, ou por qualquer razão o texto não segue a ordem que Tomé Pires tencionava dar-lhe. Tudo isto foi ajustado na versão inglesa; mas para o texto português man- tem-se fielmente a ordem e disposição em que se encontra no códice de Paris. Tanto na versão inglesa como no texto por¬ tuguês a numeração dos fólios é dada como se encontra no códice de Paris; isto ajudará o leitor interessado a facilmente encontrar a parte que no texto português corresponde à versão inglesa. Ao anotar o texto procurei não só elucidar, quando possível, os pontos obscuros, mas também explicar ou destacar a importância de certas passagens para a história da geografia; isto justificará a extensão de algumas das notas. Nomes de pessoas e lugares orientais, cuja identificação nem sempre me foi possível, são frequentemente escritos com tão diversas grafias no texto português que a sua versão em inglês se torna problema complexo. Resolvi pois, como regra geral, dar os nomes orientais de pessoas e seus postos oficiais, como ocorrem no texto português, e explicar e dar as formas inglesas, quando possível, em notas. Quanto aos topónimos,
Introdução 9 são sempre dados na forma inglesa na tradução, quando podem ser identificados e há um nome inglês correspondente; mas da primeira vez que o nome aparece, e quando se repete numa forma diferente ou muito mais tarde no texto, a grafia portuguesa original segue entre parênteses. Antes de descrever a Suma Oriental em pormenor, traçarei agora um esboço biográfico de Tomé Pires; depois ocupar-me-ei semelhantemente de Francisco Rodrigues e do seu Livro. NOTA BIOGRÁFICA SOBRE TOMÉ PIRES Tomé Pires aparece como figura modesta quando com¬ parado com alguns dos homens que brilharam na história dos Portugueses no Oriente durante a primeira metade do século xvi. Entre os que nesse tempo lá viveram, contam-se, como os maiores de todos, Albuquerque, o grande capitão e administrador, fun¬ dador de um Império imenso, e Camões, o Príncipe dos Poetas Portugueses, que cantou a glória da sua Pátria e dos seus com¬ patriotas. Duarte Pacheco Pereira, D. João de Castro e António Galvão foram célebres como capitães, administradores e nave¬ gadores ou escritores, Garcia da Orta como cientista, Gaspar Correia e Castanheda como cronistas. Fernão Mendes Pinto, cuja Peregrinação só trinta e um anos depois da sua morte foi publicada, com várias alterações, foi o maior viageiro na história portuguesa e deixou-nos um relato admirável das suas maravilhosas aventuras. Muitos outros ganharam fama imor¬ tal como guerreiros, navegadores ou exploradores. Mesmo Duarte Barbosa se tornou mundialmente famoso, mas o seu Livro foi escrito pouco depois de Pires ter concluído a Suma Oriental—trabalho muito mais vasto. O Livro de Duarte Barbosa, cujo original se perdeu, foi logo traduzido para espanhol e para italiano, sendo pela primeira vez publicado por Ramusio em 1550, tornando-se largamente conhecido, ao passo que apenas uma menos importante parte da Suma de Pires chegou a Ramu¬ sio, que a publicou sem nome do autor, que ele aliás não sabia.
10 Tomé Pires e Francisco Rodrigues A grande obra de Tomé Pires esteve até agora esquecida. O humilde boticário que chegou à índia em 1511 e que graças a seus méritos foi escolhido para a importante missão de primeiro embaixador português à China, onde veio a morrer provavel¬ mente cerca de 1540, tem sido praticamente ignorado, embora a sua contribuição para o antigo conhecimento do Oriente seja da maior importância histórica. Contudo, ele é uma figura muito interessante e a Suma Oriental, além de ser o mais antigo e extenso relato do Oriente escrito por um Português, é também a primeira descrição europeia da Malásia, cujo pormenor não foi, sob muitos aspectos, ultrapassado durante mais de um ou dois séculos. Tomé Pires foi sobretudo um ávido observador, um curioso e penetrante estudioso, e um fiel, exacto e infatigável descritor, e embora o seu estilo literário seja pobre, ele não pode deixar de ocupar um notável lugar entre os primeiros Europeus que escreveram sobre o Oriente. fontes — A informação sobre Tomé Pires, desde pouco depois da sua chegada à índia até à sua morte, não escasseia, embora seja pouco completa; mas quanto à sua vida em Por¬ tugal apenas algumas poucas e vagas referências existem. Tudo o que sobre ele sabemos contém-se no seguinte: a presente Suma Oriental, quatro cartas por ele escritas, cinco outros documentos por ele assinados, uma carta assinada por ele e outros, oito cartas e outros documentos de contemporâneos que a ele aludem, e referências de cronistas e escritores antigos. Estes vão a seguir sumariados. Cartas de Tomé Pires: de Malaca, 7 de Novembro de 1512, para seu irmão João Fernandes, publicada em Cartas de Affonso de Albuquerque, Vol. vu, pp. 58-60; de Malaca, 10 de Janeiro de 1513(4), para Afonso de Albuquerque, ibid. 4-7: de Malaca, (4) Esta carta foi publicada com a data de 10 de Jan. 1512. Refere, porém, acontecimentos passados meses mais tarde, tais como a verificação por Tomé Pires das contas de João Freire, feitor da frota de António de
Introdução 11 10 de Janeiro de 1513, «A quem quer que tiver cargo de prover malaca», ibid., 66-7; de Cochim, 27 de Janeiro de 1516, para o Rei de Portugal. Esta última foi publicada pela primeira vez no Jornal da Sociedade Pharmaceutica Lusitana, Tomo n, N.° 1, pp. 36 seqq. Lisboa 1838; depois na Gazeta de Pharmacia. Lisboa 1866; e outra vez in Obras Completas do Cardial Saraiva, Vol. vi, pp. 419-28, Lisboa 1875. Este interessantíssimo documento encontra-se transcrito em Apêndice i, no fim do presente Volume. Outros documentos assinados por Tomé Pires: auto datado de Malaca, 12 de Novembro de 1513, em que ele figura como testamenteiro de seu cunhado Diogo Lopes, Cartas, vn, 99; recibo datado de Malaca, 24 de Dezembro 1513, ibid., 107; recibo datado de Malaca, 12 de Janeiro 1514, ibid., 112-13; recibo dotado da Malaca, 5 de Maio 1514, ibid., 121-2; carta «A elrey noso senhor — Dos oficiaes de malaca», 7 de Janeiro 1514, assinada pelos «espriuâes Pero salgado, Thomé pires. Garcia chaym, Pero pesoa.», ibid., iii, 89-91. Documentos que se referem a Tomé Pires: mandado de Rui de Brito, Capitão de Malaca, 4 de Novembro 1513, «a vos pero barbosa provedor dos defuntos ... que entregues a thome pirez toda a fazemda que ficou por morte de diogo lopez seu cunhado por que o deixou por seu testamenteiro e por que o dito tome pires he pesoa conhecida e abonada», ibid. vn, 97; carta de Afonso de Albuquerque para o Rei de Portugal, Cana- Abreu às Ilhas das Especiarias, que regressou a Malaca em Dezembro de 1512, assim como o intentado ataque de Pate Unus contra Malaca, que teve lugar no começo de Janeiro de 1513 (vide nota 259 pp. 271-2). Vide Est. I. [A carta foi igualmente publicada por A. B. de Bragança Pereira, Arquivo Português Oriental, I, 455-9, Bastorá 1937, também com a data «10.1.1512» e também referindo «Torre do Tombo. Corp. Chron., parte 1, maço 10. doe. 152». Evidentemente copiada das Cartas de Affonso de Albuquerque. que aliás não cita. Provavelmente a carta de Pires seguiu de Malaca para a índia com os três navios de Fernão Peres de Andrade que partiu em 11 de Janeiro de 1513. Vide Cartas, ni, 51.)
12 Tomé Pires e Francisco Rodrigues nor, 30 de Novembro, 1513, ibid., 141-50; carta de Rui de Brito, Capitão de Malaca, para o Rei de Portugal, Malaca, 6 de Janeiro 1514, ibid., in, 91-7, e in Alguns Documentos da Torre do Tombo, 345-50; carta de Rui de Brito para Afonso de Albuquerque, Malaca, 6 de Janeiro 1514, Cartas, m, 216-31; carta de Jorge de Albuquerque, Capitão de Malaca, para o Rei de Portugal, Malaca, 8 de Janeiro de 1515, ibid., m, 133-9; carta de Jorge de Albuquerque, Capitão de Malaca, para o Rei de Portugal, 1 de Janeiro 1524, ibid., iv, 35-42; duas cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo, Cantão 1524, e 10 de Novembro 1524(5). Cópias posteriores destas duas cartas, existentes na Bibliothèquc Nationale de Paris (Fonds Portugais, n.° 65(6) foiam publi¬ cadas — introdução, texto original e tradução — por Donald Ferguson no Indian Antiquary, Bombay 1901-2, sob o título Letters from Portuguese Captires in Canton/written in 1534 and 1536. No Arquivo Nacional da Torre do Tombo existem frag¬ mentos (Fragmentos, Maço 24) do original da primeira destas duas cartas (em tinta da China sobre papel chinês), que foram publicados pelo Dr. E. A. Voretzsch no Boletim da Sociedade Luso-Japonesa, n.° 1, Tokio 1929. Referências nas crónicas e outros livros antigos: Gaspar Correia, Lendas da índia, Vol. II, pp. 473, 528-9, 678, escrito em meados do século xvi; Fernão Lopes de Castanheda, His¬ toria do Descobrimento da índia pelos Portugueses, Liv. IV, caps. iv e xxxi, Liv. V, cap. Ixxx, l.a ed. 1554; João de Barros, As ia, Década III, Liv. II, cap. 8, Liv. VI, caps. 1 e 2, e Liv. VIII, cap. 5, (5) Embora estas duas cartas tivessem sido publicadas com as datas 1534 e 1536, isso foi um engano, como adiante se verá. (6) As duas cartas de Vieira e Calvo estão juntas com o MS da Chro- nica dos Reis de Bisnaga, publicada por David Lopes, Lisboa 1897. A com¬ pilação desta Chronica foi encomendada por João de Barros (cf. David Lopes, Introdução, p. Ixi), que ele utilizou, e assim as duas cartas, como fonte de informação, ao escrever a Terceira Década da sua Asia. [Na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa existe uma separata (Bombay 1902) do artigo de Donald Ferguson no Indian Antiquary, com dedicatória autógrafa do autor].
Introdução 13 1 l.a ed. I563; António Galvão, Tratado, l.a ed. I563; Damião de Góis, Chronica do Felicíssimo Rei Dom Emanuel, Parte IV, caps. xxiiii e xxv, l.a ed. 1567; Fernão Mendes Pinto, Peregri¬ nação, caps. Ixv, xci e cxvi, l.a ed. 1614; Manuel de Faria e Sousa. Asia Portuguesa, Tomo 1, Parte III, caps. 3 e 6, e Appendice, cap. 7, l.a ed. 1666; Diogo Barbosa Machado, Bibliotheca Lusi¬ tana, j.v. Thomé Pires, l.a ed. 1752. ANTES DA CHEGADA À ÍNDIA — MuitO pOUCO de positivo se sabe sobre os primeiros tempos da vida de Tomé Pires. Gas¬ par Correia informa-nos que Pires era filho do boticário de D. João II (1455-95), e Castanheda diz que ele «fora boti¬ cário do príncipe D. Afonso». Este era certamente o desven¬ turado filho de D. João II, nascido em 18 de Maio de 1475 e falecido em 13 de Julho de 1491. Houve também um Príncipe D. Afonso, sétimo filho do Rei D. Manuel (1469-1521), nascido em 23 de Abril de 1509 (7), mas ainda não tinha dois anos quando Pires foi para a índia, e dificilmente poderia ser o príncipe refe¬ rido por Castanheda (8). (7) Este Princípe D. Afonso, que faleceu em 21 de Abril de 1540. foi feito cardeal quando tinha apenas oito anos de idade. (8) [Numa conferencia A propósito do ilustre boticário quinhentista Tomé Pires, que em 1963 proferi na Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra, publicada no Boletim da Escola de Farmácia, em 1964 no Boletim do Centro de Estudos Geográficos, da mesma Faculdade de Letras, e ainda em 1975 incluída no Vol. II dos meus Esparsos, escrevi eu: «Casta¬ nheda é cronista sério e fidedigno, pelo que não hesitei em acatar a sua infor¬ mação. Contudo, o Dr. Jaime Waltcr, num pequeno mas valioso estudo, Simão Alvares e o seu rol das drogas da índia (in Stvdia, n.° 10, Lisboa Julho 1962, com separata), csforça-sc por demonstrar que a minha suposição está errada, pois o ‘príncipe' em questão só podia ser o ‘herdeiro do trono', ou seja o futuro D. João III. O raciocínio do Dr. Walter c meramente con- jectural, e de resto o Príncipe D. Afonso, filho de D. João II, também era ‘herdeiro do trono’. Não seria impossível, antes pelo contrário, que Tomé Pires tivesse sido boticário do Príncipe D. Afonso e depois do Príncipe D. João — hipótese admissível, que talvez tudo pudesse explicar. O principal argu¬ mento do Dr. Jaime Walter é que Afonso de Albuquerque, numa carta escrita de Cananor a D. Manuel, em 30 de Novembro de 1513, se refere a ‘Tomé
14 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Tomé Pires teria pouco mais de quarenta anos quando embarcou para a índia. Na sua carta de 10 de Janeiro de 1513 para Afonso de Albuquerque, Pires queixava-se que Pero Pessoa, o novo feitor de Malaca, nomeado depois da morte de Rui de Araújo, provavelmente no começo de Janeiro de 1512, antes da chegada de Pires, era «tam mamcebo» que ele de princípio não desejava servir como escrivão sob as suas ordens. Na mesma carta diz ele «grandíssima cousa he malaca se os negocios andassem em ordenança, nenhua cousa do mudo he tamanha como malaca queria ver nela tres ou quatro homès de barbas bramcas que êtrase na fazêda del Rey». Daqui se depreende que ele já não era jovem. O Príncipe D. Afonso casou em Pires boticário do príncipe', c conclui: 'Em face dos documentos, o gover¬ nador só podia referir-se-lhe pela função que lhe indicavam: boticário do príncipe, a designação sempre dada ao herdeiro do trono’, p. 127 (11 da sepa¬ rata). Este estudo do Dr. Walter refere-se a uma 'Informação que me deu symão allvêz buticayro mor delRey nosso sõr do nacymento de todalas dro- guas que vão pera o Reyno/. o quaal ha xxxix Anos q serve nestas partes da Imdia seu oficyo homc grandemente curyoso destas cousas’. A primeira página da 'Informação’ tem particular interesse para nós, pelas referências que faz a Tomé Pires: 'Na era de doze partimdo o sefior vyso rey dom garcya de noronha que samta grorea aja veyo tomé piz que ora esta na chyna pera fazer as droguas que eu faço e trazia de sua A. trymta myl ís e vymte quymtaes das mesmas droguas quaes ele quysese cada huu ano como mylhor se poderá ver per seu titollo que esta na matrycola e deste tempo ate vymda de V. S. as fiz eu sempre por mamdado dos goucrnadores por ele ser mamdado por afonso dalbuquerque a malaqua e depois por lopo soarez a chyna e eu me afirmo que ate vimda do gouernador nuno da cunha seus erdeyros lhe arecadarão sempre seus quymtaes que os tomou ele em canella por que huu manoel de marys do mesmo nuno da cunha os arccadou qua por ver- tude de huua precuraçào de huu Jam fernamdcz corryciro Jrmaõ do ditõ tome piz'. Esta ‘Emformação’ encontra-se no Livro que truta das cousas da índia e do Japão, precioso códice de meados do século xvi existente na Biblioteca Municipal de Eivas, que em 1957 foi publicado, com erudito estudo, pelo Dr. Adelino de Almeida Calado, no Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Vol. xxiv. O P.e de Witte também publicou uma breve noticia sobre o mesmo códice no Boletim da Filmoteca Ultra¬ marina Portuguesa, N.° 15. Lisboa 1960».]
Introdução 15 Novembro de 1490, quando tinha apenas quinze anos. É de crer que o então jovem Tomé Pires, filho do boticário do Rei, fosse nomeado boticário do Príncipe. Ele não teria menos de 22 ou 23 anos quando o Príncipe morreu em 1491. Isto é, aliás, confirmado pelo própiio Pires quando no fim da descrição das Ylhas de Pachãm diz: «E em purtugall bem avera vinte annõs q eu tenho vsado as ditas folhas em lugar do dito folio Jmdio que hee betelle». (foi. I58v.). Sendo assim, Tomé Pires nasceu circa 1468, teria uns 43 anos quando foi para a índia, e cerca de 70 quando morreu talvez um pouco antes de 1540. Na sua carta de 7 de Novembro de 1512 para seu irmão consanguíneo João Fernandes (9), ele também menciona sua irmã Isabel Fernandes, uma Maria Godinha, talvez a mulher de seu irmão, e uma Antónia, talvez uma sobrinha, que ele dis¬ tingue da «vosa casa, molher e filhos». Refere-se também a «Diogo lopez meu cunhado esta qua em malaca comigo, e come e bebe e dorme è minha pousada, algua cousa tem, he muito bom cavalleiro e muito bõ homem». A maneira como Pires se refere ao «meu cunhado» parece indicar que Diogo Lopes era irmão de sua mulher, a quem ele aliás não menciona na carta. Talvez Pires fosse viúvo, e possivelmente essa seria uma das razões da sua partida para o Oriente. A carta é dirigida «ao senhor o Senhor João fernandez defronte da porta da madanela, meu irmaão». A Porta da Madalena (10) não ficava longe do canto nordeste do antigo Terreiro do Paço, que correspondia mais ou menos à actual Praça do Comércio, melhor conhecida dos Britânicos por Black (9) Nada tem dc extraordinário que Tomé Pires usasse um nome diferente do de seus irmão e irmã. Embora não muito usuais, de tal não faltam exemplos. (10) Não consegui encontrar qualquer outra referência à «Porta da Madalena». Terá correspondido à velha «Porta do Ferro», também cha¬ mada «Porta da Consolação», que ficava no actual Largo de Santo António da Sé, por detrás da antiga Igreja da Madalena. Castilho. Lisboa Antiga, i, ii, 178 seqq., IV, 112 seqq.
16 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Horse Square, perto do fim da Rua Nova dos Mercadores, então a principal rua comercial de Lisboa, aproximadamente a actual Rua do Comércio. Havia várias boticas nesta rua e não é impossível que alguma delas ou outra perto do sítio pertencesse Tomé Pires, a seu irmão ou aos dois (11). Faria e Sousa diz que Tomé Pires deve ter nascido em Leiria, porque sua filha, em 1543 encontrada por Fernão Mendes Pinto na China, tinha de apelido o nome dessa cidade. Mas deve ser mera conjectura (12). Na mesma carta de 7 de Novembro de 1512 Pires refere-se duas vezes ao «Senhor Jorje de Vacõçelos ... por que tãto devo a elle pellos benefícios que tenho reçebidos de sua merçee, quamto devo a vos por rrezam do samgue». Jorge de Vasconcelos era o provedor da Casa da Mina e índia, estabelecimento onde se centrava a administração portuguesa de além-mar — um ante¬ passado do actual (1944) Ministério das Colónias. Diz ele também que enviava uma carta para o Doutor Diogo Lopes, talvez o cirurgião-mor do Rei, com quem Pires devia ter estado relacionado por causa do seu serviço como boticário do Prín¬ cipe D. Afonso. É muito natural que Tomé Pires tivesse ido para a índia sob a protecção destas duas importantes personagens. Nas suas duas cartas de 10 de Janeiro de 1513, dirigidas a Afonso de Albuquerque e «A quem quer que tiver cargo de prover malaca». Pires diz que em Lisboa o Rei — que escreveu a Afonso de Albu¬ querque recomendando-o para a primeira feitoria que vagasse — o despachara como feitor das drogarias, com 30.000 reais e 20 quin¬ tais de drogas, à sua escolha, cada ano, contando desde o dia (11) João Brandão diz no seu Tratado da majestede, grandeza e abas¬ tança da cidade de Lisboa, p. 82, que em 1552 «Também há na mesma Rua Nova boticas que em olhos de todos, segundo o muito que rêdem, cada botiqua delias pareçe que rende e vali dous mil cruzados». [Mas, como informa a referência no códice de Eivas, citado na n. 8 atrás, João Fernandes. o irmão de Tomé Pires, era correeiro.] (12) Quando a carta de Tomé Pires de 27 de Janeiro de 1516 foi publicada, o Cardeal Saraiva afirmou que ele era natural de Leiria o que não tem mais fundamento que a conclusão de Faria e Sousa, em que provavelmente se baseia.
Introdução 17 do seu embarque em Lisboa, e três homens para o servir, que ele levou consigo para a índia. Foi-lhe também entregue uma «botica», no valor de 4.000 ou 5.000 reais, que para lá era enviada. NA índia antes de seguir para malaca — A armada de seis navios sob o comando de D. Garcia de Noronha, sobrinho de Afonso de Albuquerque, partiu de Lisboa em Março e Abril de 1511. Antes desta partira de Lisboa, em Agosto de 1510, outra armada de três navios comandada por João Serrão; a armada seguinte partiu de Lisboa em Março de 1512. Uma das naus da armada de D. Garcia de Noronha, a Belém («que foi ua das mais formosas que o mar viu», segundo Barros), comandada por Cristóvão de Brito, partiu de Lisboa em 20 de Abril e chegou- a Cananor em 8 de Setembro de 1511 (13). D. Aires da Gama, irmão do Almirante D. Vasco da Gama, partiu ao mesmo tempo na nau Piedade, mas mais tarde separou-se da nau de Cristóvão de Brito, e depois de ter avistado Baticala em 7 de Setembro seguiu para Cananor. Tomé Pires foi para a índia num destes navios, os quais, segundo Barros, foram os únicos dois da armada de D. Garcia de Noronha que lá chegaram nesse ano de 1511. As cartas de Pires de 7 de Novembro de 1512 e de 10 de Janeiro de 1513 mostram que não havia muito tempo que ele estava em Cananor quando Albuquerque após a con¬ quista de Malaca voltou para Cochirn no começo de Fevereiro de 1512. Nas cartas para seu irmão e para Albuquerque, Pires diz que o Governador-Geral o chamara de Cananor, onde era «feitor das drogarias», a Cochirn. Na sua carta de 27 de Janeiro de 1516 para El-Rei D. Manuel, Tomé Pires diz: «Por Chris- tovam de Brito e dom Aires foy lá huma soma de erva lombri- gueyra, que foy comprada por Joham davilla, estando eu em purtugall: portanto saiba vossa Alteza, que nom foy por mim». Estas naus carregaiam logo que chegaram à índia e em Agosto (13) Barros, II, vi, 10. Castanhcda (III, lxxi) diz que Cristóvão dc Brito partiu de Lisboa cm 19 de Abril dc 1511 e primeiro se dirigiu a Goa; Correia (II, 197) diz que ele chegou a Cananor em Agosto.
18 Tomé Pires e Francisco Rodrigues de 1512 estavam de regresso a Portugal. É de crer que a refe¬ rida erva-lombrigueira não tivesse sido adquirida muito antes de enviada para Portugal, e se Pires ainda aqui estava nessa altura, e em fins de Fevereiro já estava na índia, só para lá podia ter seguido numa das naus de Cristóvão de Brito ou de D. Aires da Gama. Pode pois concluir-se com segurança que Tomé Pires partiu de Lisboa em 20 de Abril e chegou à índia em 8 de Setembro de 1511, ou um ou dois dias depois (14). Na sua carta de 30 de Novembro de 1513 Afonso de Albu¬ querque diz a el-Rei dos distúrbios e irregularidades por parte dos homens nomeados «quadrilheiros e tanadares e escrivães das presas» em Malaca. Em vista do que «e tamto que ho soube, mandey lá Tomé Pires, boticário do Primcipe, por me parecer homem solicito, que ele e Rui de Araújo [que Albu¬ querque deixara como feitor em Malaca] e o capitão tirasem inquirição sobre todo este feito». Tomé Pires partiu de Cochim para Malaca a bordo do Santo André (15), de conserva com a nau Santo Cristo, em Abril ou Maio de 1512, depois de oito meses na índia. Pela sua carta de 10 de Janeiro de 1513 para Albuquerque, parece que os dois navios tiveram mau tempo logo à saída de Cochim, tendo alguma carga sido lançada ao mar, entre a qual mais de 400 cruzados de «fazenda» perten¬ cente a Pires. em malaca — A Santo Cristo e o Santo André chegaram a Malaca em Junho ou Julho, pouco depois da morte do feitor (14) Quando a carta dc Pires, de 27 de Janeiro de 1516, foi publicada, D. Francisco de São Luís escreveu: Tomé Pires «passou depois à índia, c creio que fez esta viagem entre os anos 1512 c 1515». Mas trata-se de mera suposição infundada. (15) Navio dc 70 toneladas construído em Cochim por Gonçalo Eanes. Cartas, III, 128, 355; V, 492. Este navio fazia parte duma frota que em 1513 foi a Java com Tomé Pires como feitor, e da que em 1516-17 o levou para a China. O Santo André perdeu-se em Outubro de 1518 quando de regresso a Malaca. Barros, III, ii, 8.
Introdução 19 Rui de Araújo (16). A carta de 7 de Novembro de 1512 para seu irmão é o primeiro documento que temos sobre a estadia de Tomé Pires em Malaca. Nessa carta diz ele: «estou em Malaca por escrivão da feitoria e por contador e por veador das drogarias». Gozava de boa saúde e já estava rico, «mais do que cuidareis», apesar da sua fazenda, de valor superior a 400 cruzados, no Santo André ter sido lançada ao mar, e das queixas sobre o seu salário que mais tarde fez a Afonso de Albu¬ querque. Pedia a este mais 50.000 reais pelo seu serviço «com a escrivaninha», além de 30.000 reais como «feitor das drogarias que de Portugal trouxe». Também se queixava que estivera a maior parte do tempo de cama com febres. «Por eu estar muito doente dois meses em cama», segundo diz, o que mostra ter adoe¬ cido logo depois de escrever a carta a seu irmão. Diogo Lopes, seu cunhado, ainda vivia com ele em Novembro de 1512, mas em 4 de Novembro de 1513 já falecera e Tomé Pires foi seu testamenteiro. Em 6 de Janeiro de 1514 Rui de Brito, Capitão de Malaca, escreveu a el-Rei D. Manuel e a Afonso de Albuquerque dizendo- -Ihes que em Março de 1513 enviara a Java uma frota de quatro navios, comandada por João Lopes de Alvim, buscar especiarias. Três dos navios eram: São Cristóvão, Santo André e uma caravela, comandados respectivamente por Francisco de Melo, Martim Guedes e João da Silveira, «e por feitor da armada, Tomé Pires, escrivão desta feitoria e contador dela», acrescenta Rui de Brito. Partiram de Malaca em 14 de Março e regressaram em 22 de Junho de 1513, com cerca de 1.200 quintais de cravo (17). Pela (16) Numa carta escrita de Malaca a Afonso de Albuquerque em 22 de Fevereiro de 1513, F. P. de Andrade diz que o Santo André e a Santo Cristo chegaram durante os acontecimentos que ocorreram entre o dia de S. João (24 Junho) e o dia de S. Tiago (26 Julho), Cartas, III, 545. (17) Castanheda (III, exi) e Barros (III, v, 6) dizem que Alvim foi a Japara buscar algum cravo salvo do junco naufragado no ano anterior, quando voltava da primeira expedição portuguesa às Ilhas das Especiarias. Vide p. 455.
20 Tomé Pires e Francisco Rodrigues sua descrição de Java (fols. 148-55) — «Da melhor maneira que dela pude inquerir e investigar, verificando-me com muitos. E o que me parecia concordarem bem concordado isto escrevi» — se vê que Pires visitou a costa norte da ilha, pelo menos de Cherimon a Grisee. Ao referir-se a Baros, um porto na costa noroeste de Samatra, diz ele: «Eu fui já por detrás desta ilha obra de 15 léguas.» Essa foi evidentemente uma viagem dife¬ rente da de Java mas não sabemos em que data. Talvez tivesse escrito, ou pelo menos tencionasse escrever, outro livro como sugere quando se refere à «moeda e pesos de Java», dizendo que «destes pesos e medidas se falará geralmente em todas as partes em outro livro» (foi. 150v.); mas se o chegou a escrever, tal livro infelizmente está agora perdido. Dois documentos de 12 de Novembro de 1513 e três outros de 7 de Janeiro, 12 de Janeiro e 5 de Maio de 1514, mostram que Pires estava então em Malaca; em 27 de Janeiro de 1515, data da morte de Ninachatu, ainda ele lá estava, como se vê pela última página da Suma (18). Mas p.-ovavel r ente terá partido para Cochim pouco depois dessa data. De facto, na sua carta de 8 de Janeiro de 1515 para el-Rei D. Manuel, Jorge de Albu¬ querque, o novo capitão de Malaca, menciona a China e a Cochin- china, e os reinos de Sião, Bornéu, Lucoes e «Tanjunpura, onde é a mina dos diamantes, como Tomé Pires melhor leva todas estas coisas declaradas». Claro está que isto se refere à Suma Oriental. Parece que Pires partiu de Malaca ao mesmo tempo que esta carta, imediatamente após 27 de Janeiro de 1515, num dos dois navios que chegaram a Cochim no fim de Fevereiro. Sabemos da chegada destes navios por dois documentos datados de 30 (sic) de Fevereiro e 3 de Março de 1515, em que Pêro de Mascarenhas, Capitão de Cochim. dá ordem para que fosse (18) Pires diz: «e se por ventura eu não chegasse diante da pessoa de el-Rei nosso senhor ou do seu governador das índias, deve vir sem detença a Malaca com poder». Isto parece querer dizer que ele ainda estava a escrever em Malaca. Vide nota p. 441-2.
Introdução 21 abastecida uma atalaia (barco) que enviava a Goa com notícias de Malaca para Afonso de Albuquerque (19). REGRESSO À ÍNDIA E EMBAIXADA À CHINA — Pelas palavras atrás citadas da carta de Jorge de Albuquerque para D. Manuel se vê que Tomé Piies partiu de Malaca com intenção de regressar a Portugal. Mas a sorte de Tomé Pires estava por outras pala¬ vras escrita no Livro do Destino. Afonso de Albuquerque tinha partido de Goa para Ormuz em 21 de Fevereiro de 1515 e só regressou uns dez meses depois, para falecer à entrada de Goa em 16 de Dezembro. Entretanto o novo Governador- -Geral da índia, Lopo Soares de Albergaria, partira de Lisboa com uma armada de treze (ou quinze) naus no princípio de Abril, e chegou a Goa no começo de Setembro de 1515. Daí seguiu para Cananor e Cochim, onde chegou antes do fim de Setembro. Com o novo Governador ia Fernão Peres de Andrade, que el-Rei enviava como Capitão-Mor duma armada para ir da índia «descobrir a China» e levar lá um Embaixador português. Castanheda informa-nos «que el-Rei de Portugal não o (embaixador) mandava com ela, antes cuidando que el-rei da China estava perto mandou a Fernão Peres que mandasse lá um dos capitães, ou quem lhe bem parecesse. E o governador não quis senão mandar este Tomé Pires, que mandou com con¬ selho dos fidalgos e capitães da índia, e porque este Tomé Pires fora boticário do Príncipe Dom Afonso, e por que conheceria melhor que outro as drogas que havia na China.» Por outro lado Gaspar Correia diz que o Governador, depois de ir a Goa e voltado a Cochim em Fevereiro de 1516, «despachou Fernão Peres de Andrade para China, como vinha ordenado; e mandou com ele um Tomé Pire, filho do boticário de elRey dom João, que era muito de sua amizade, e por ele ser homem muito pru¬ dente, e muito curioso de saber todas as coisas da índia» (20). (19) Canas, vi, 252-3. (20) É estranho que Gaspar Correia parece ler esquecido que Pires 3
22 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Assim, parece que o Governador já era velho amigo de Pires, o que o deve ter influenciado na sua escolha para tão importante missão, apesar do boticário ser homem do povo, como os cro¬ nistas se não esquecem de salientar. Ele deve ter escolhido Pires ao encontrá-lo quando pela primeira vez chegou a Cochim em fins de Setembro. Pires certamente era então um homem muito rico, e gostaria de regressar a Portugal depois de uma ausência de quase cinco anos. Mas a ideia de ir ver por si pró¬ prio aquela grande e misteriosa China, de que tanto tinha ouvido em Malaca, com novas e excepcionais possibilidades de aumentar a sua riqueza, deve tê-lo fortemente seduzido. Além disso, ele sentir-se-ia agravado poi Albuquerque, que utilizou a sua com¬ petência mas nunca o promoveu acima do modesto cargo de escrivão, apesar das suas justificadas queixas e pedidos. Alber¬ garia era inimigo de Albuquerque, e, segundo Gaspar Correia, era amigo de Pires, que possivelmente lhe teria sido fortemente recomendado em Lisboa. Nessa altura Pires tinha acabado ou estaria prestes a concluir a Suma Oriental, que poderia ter impressionado não só o novo Governador como ainda os mui¬ tos «fidalgos e capitães da índia» referidos por Castanheda. Também se não deve esquecer que Pires, assim como seu pai, embora homens de condição humilde, tinham estado infima¬ mente relacionados com a corte, e certamente tinha melhor educação do que a grande maioria dos fidalgos portugueses então na índia. Na carta para seu irmão, Pires refere «as deli¬ cadezas em que me eu criei viciosamente». Barros diz: «o embai¬ xador ... havia nome Tomé Pires, que Lopo Soares, na índia, escolheu para isso. E posto que não era homem de tanta qua¬ lidade, por ser boticário e servir na índia de escolher as drogas de botica que haviam de vir pera este reino, pera aquele negócio já estava no Oriente quando acrescenta: «por isso veio com ele embarcado pera ir nesta viagem da China, que em Portugal se falavam grandes coisas da China que o Tomé Pires cubiçou de ir saber e ver, para as escrever, como depois foi, e adeante d’ele contarei». 11, 473.
Introdução 23 era o mais hábil e auto que podia ser; porque, alem de ter pessoa e natural descrição com letras, segundo sua faculdade, e largo de condição e aprazível em negociar, era mui curioso de inquiiir e saber as cousas, e tinha um espírito vivo para tudo». Assim, a escolha do modesto mas inteligente, industrioso, experiente e bem educado Tomé Pires para o importante posto de embai¬ xador àquela China desconhecida afigura-se menos extraordinária do que talvez tenha parecido a alguns cronistas posteriores (21). Embora Tomé Pires tenha partido de Malaca em fins de Janeiro de 1515 com a ideia de regressar a Portugal, a sua muito interessante carta de 27 de Janeiro de 1516 «sobre as drogas e onde nascem» (Apêndice I), mostra que ele já não pensava em regressar tão cedo. Daqui se pode depreender que Pires já então sabia da sua próxima ida à China. de cochim a cantão — Assim que Lopo Soares de Alber¬ garia regressou a Cochim em Fevereiro de 1516 logo despachou Fernão Peres de Andrade para a China com uma esquadra de quatro velas (22), em que ia o embaixador Tomé Pires. A esqua- (21) Osório, De rebus Emmanuelis, lib. XI, c Couto, Década XII, v. 4, referem-se à embaixada e ao embaixador, mas nem sequer mencionam o seu nome. Não sabemos se o códice contendo a Suma Oriental, agora cm Paris, estava na posse do Bispo Osório quando ele escreveu a sua célebre obra; mas parece que não estava, de contrário ele teria mostrado mais con¬ sideração pelo nome de Tomé Pires. (22) Góis (IV, ii) diz-nos que Albergaria chegou a Cochim c imedia¬ tamente despachou Andrade para a China; Barros (III, i, 2) informa que Albergaria partiu de Cochim cm 8 de Fevereiro de 1516 depois de ter des¬ pachado a armada de Andrade para a China; por seu turno Galvão diz que a armada para a China partiu de Cochim em Abril. Numa muito interes¬ sante e ainda inédita carta escrita de Malaca, 10 de Agosto de 1518, para el-Rei D. Manuel, Simão de Andrade diz que quando em 20 de Janeiro de 1516, vindo da entrada do Mar Roxo chegou a Goa, aí encontrou Alber¬ garia. (Torre do Tombo, Gaveta 15, Maço 17, N.°27). Tão pouco os cronistas são muito claros quanto à composição da armada. Barros (II, ii, 6) diz que el-Rei D. Manuel ordenara que a «frota havia de ser de quatro velas, que na índia se haviam de armar»; Correia (II, 473) diz que Andrade partiu
24 Tomé Pires e Francisco Rodrigues dra tocou primeiro no porto de Pacém, em Samatra, onde se lhe juntou o navio do comerciante Joannes Impole (Giovanni da Empoli), florentino ao serviço português, que lá se encon¬ trava carregando pimenta para levar para a China. Mas o navio de Impole incendiou-se e a carga perdeu-se, pelo que Andrade decidiu que, depois de escalar Malaca, iria a Bengala antes de seguir para a China. Porém o Capitão de Malaca, Jorge de Brito, insistiu em que Andrade devia ir à China sem demora, pois estava preocupado por causa de Rafael Peres- trelo, que no ano anterior lá tinha ido com outros Portugueses num junco. Embora com relutância, porque a monção já estava muito adiantada, Andrade fez-se à vela para a China em 12 de Agosto de 1516(23), na nau Santa Barbara, com António Lobo Falcão numa caravela, Manuel Falcão noutra nau, e Duarte Coelho num junco. A armada encontrou tempo adverso ao largo da costa da Cochinchina e os navios estiveram quase per¬ didos. Estava-se em meados de Setembro e Andrade decidiu regressar a Malaca. O junco foi a Sião, onde Duarte Coelho tinha estado anteriormente; os outros três navios, depois de fazerem aguada na costa, voltaram para sul passando por Pulo Condore e Patani. Quando Andrade chegou a Malaca encontrou Perestrelo de regresso da China com grandes proventos. Decidiu adiar a expedição a Bengala e em Dezembro foi a Pacém carregar de pimenta a fim de seguir para a China logo que a monção permitisse. Em Maio voltou a Malaca onde verificou que, tendo Jorge de Brito morrido, havia grande disputa entre Nuno Vaz Pereira, cunhado de Brito, e António Pacheco, Capitão-mor do Mar, pois ambos queriam suceder-lhe na capitania da forta- de Cochim «e em sua companhia Simào d'Alcáçova, e António Lobo Falcão, e Jorge Mascarenhas, e foi demandar Pacém». Mas Castanhcda (IV, iiii) e Góis (ibidem) mencionam Falcão apenas, «porque a mais companhia havia de tomar em Malaca». (23) Quase todos os cronistas indicam esta data, mas Castanhcda diz que foi em 15 de Agosto.
Introdução 25 leza. Depois de vãos esforços para os reconciliar, Andrade partiu de Malaca em Junho com uma frota de oito velas. Cas- tanheda refere-se-lhe assim: Andrade «foi na nau Espera que seria de duzentas toneladas, e em Santa Cruz Si mão de Alcáçova, e Pero Soares em Santo André, e Jorge Mascarenhas em San¬ tiago, e foi também com ele Jorge Botelho em um junco dum mercador de Malaca chamado Curiaraja. e Manuel de Araújo em outro de Pulata, e em outro seu António Lobo Falcão, e era uma armada de sete velas, com que partiu para a China». Porém, Barros diz que havia um oitavo navio, comandado por Martim Guedes (24). A armada chegou a Tamão ou Tumon(25), aproximada- mente a meio da entrada do Rio de Cantão, em 15 de Agosto de 1517, depois de encontrar uma esquadra chinesa cruzando ao largo da ilha, como protecção contra os piratas. Os Chineses fizeram fogo contra os Portugueses sem contudo lhes causarem qualquer dano, e Andrade não retribuiu o fogo, com todas as demonstrações de paz e amizade. Todos os cronistas descre¬ vem, por vezes muito pormenorizadamente, o que aconteceu a Andrade e à armada desde a chegada a Tamão até ao desem¬ barque do embaixador Tomé Pires em Cantão (26). Assim que ancorou em Tamão, Andrade enviou uma mensagem ao capitão daquela armada chinesa que, nas pinturescas palavras de Barros, «vinha ladrando trás ele, fazendo-lhe saber quem era, e como vinha com uma embaixada del-Rei D. Manuel de Por¬ tugal, seu senhor, a el-Rei da China». O capitão chinês deu as boas-vindas a Andrade e disse «que já por aquele navio de (24) Correia também diz sete navios, Galvão e Sousa oito, c Góis e Osório nove. O engano de Góis está cm ele dizer que Duarte Coelho foi num navio com Andrade; mas quando este chegou a Tamão, já havia um mês que aquele lá estava, pois tinha vindo dircctamente de Sião onde fora no ano anterior, quando se separou de Andrade na costa da Cochinchina. (25) Ilha Lin Tin. Vide foi. 16lr. (p. 362) e Apêndice IV. (26) Correia II, 524 seqq.; Castanhcda, IV, xxviii-xxxi; Barros, III, i, 8; Góis, VI, xxviiii. As citações que seguem no texto são de Barros.
26 Tomé Pires e Francisco Rodrigues sua companhia, que havia dias que viera ante ele, tinha sabido como ele partira de Malaca; e por os chins que a ela iam, tam¬ bém tinha noticia da verdade e cavalaria dos portugueses. Que qualquer coisa que houvesse mister, mandasse pedir ao Pio da vila de Nantó ... que servia um cargo como entre nós o oficio de Almirante do Mar, e era nome do oficio e não da pessoa» (27). Então Andrade enviou uma mensagem ao Pio — que entretanto mandara um mensageiro para saber quem eram e o que dese¬ javam — a informá-lo «fazendo-lhe saber quem era, e como vinha com uma embaixada del-Rei D. Manuel de Portugal, seu senhor, a el-Rei da China ... e que a principal causa da sua vinda era trazer um embaixador, que el-Rei de Portugal, cujo capitão ele era, mandava a el-Rei da China com cartas sobre assento de paz e amizade; que lhe pedia houvesse por bem de lhe dar pilotos, que com aquelas velas que trazia o metessem dentro na cidade Cantão.» O Pio respondeu com palavras muito amáveis, mas que a licença teria de vir dos governadores da cidade. Depois de muitas mensagens e demoras, Andrade decidiu não esperar mais e ir a Cantão com alguns dos seus navios, utilizando os pilotos chins que trouxera de Malaca. Mas assim que os navios saíram do porto foram assaltados por um grande temporal, e só com muita dificuldade e danos se pude¬ ram salvar. Os Chineses em terra recusaram qualquer assis¬ tência para a reparação dos navios portugueses, mas Andrade fez o melhor que pôde e «mandou aparelhar dois navios somente — o de Martim Guedes, em que se meteu, e o de Jorge Mas- carenhas — e derredor de si os batéis das outras naus, todos (27) «O Pci-wo (abreviatura do titulo Pei-wo Tu-chih-hui, coman¬ dante militar cuja função principal era guardar a costa contra as depredações dos piratas japoneses] em Nan-t’ou tinha autoridade para examinar todos os navios que fossem a Cantão... Pei-wo pronuncia-se pi-wo no dialecto do distrito costeiro, e de pi-wo temos a forma Pio nos relatos e manuscritos portugueses.» T'ien-tsc Chang, Sino Portuguese Trade jrom 1514 to 1644, p. 41. Sobre Nan-t’ou, chamado Nantoo por Pires e Nantó pelos cronistas, vide nota em p. 362.
Introdução 27 mui bem aparelhados, assi de guerra como de paz, e partiu-se para o porto de Nantó, deixando por capitão das outras velas a Simão de Alcáçova, com fundamento de mais perto mandar seus recados e requerimentos ao Pio, que o deixassem ir à cidade Cantão; e quando lho impedisse, tomar por si a licença. Che¬ gado a Nantó, mandou logo o feitor da armada Joanes Impole, mui bem acompanhado de gente limpa e trombetas, com um requerimento ao Pio, pedindo-lhe licença pera passar a Cantão, com recado e embaixador que levava». Depois de novas demoras «começou Fernão Peres a fazer seu caminho; ao qual o Pio, quando o viu partir, lhe mandou pilotos da terra, que o levaram ante a cidade Cantão ... aqui chegou, que foi quase em fim de Setembro com toda a pompa e festa que ele pôde». A jornada pelo rio acima levou três dias, porque Andrade não desejava viajar de noite. chegada a cantão — Cerca de dezanove meses haviam decorrido desde que Pires partira de Cochim até chegar em frente de Cantão — viagem que, em condições favoráveis, pode¬ ria levar cerca de quatro meses. Os cionistas nada dizem das reacções de Pires em face de tais demoras, contratempos e des¬ gostos que sofreu durante todos estes meses, mas pode-se ima¬ ginar o que seria o seu desespero, impaciência e aborrecimento. Mas isso ainda nada era comparado com o que o esperava na China, embora os primeiros contactos com os Chineses, através do Pio de Nantó, tivessem sido premonitórios do que lhe estava reservado. É natural que Andrade frequentemente pedisse a opinião de Pires e ambos agissem de comum acordo. Desfraldando bandeiras e salvando com toda a artilharia, os navios portugueses lançaram ferro em frente do cais prin¬ cipal, antes do posto de Huai-yuan (28). O Pu-chêng-shih ou (28) Esta informação consta dum relato chinês contemporâneo sobre a chegada de Andrade a Cantão em 1517. O relato, publicado sob a Dinastia Ming em 1621, bastante confuso e por vezes inexacto, foi traduzido por
28 Tomé Pires e Francisco Rodrigues tesoureiro provincial, Wu T'ing-chu (29), mais alta autoridade ao tempo em Cantão, protestou contra o que dizia serem violações do costume da terra da parte dos Portugueses, que além disso vinham sem consentimento oficial. Andrade respondeu que as salvas de artilharia e desfraldar de bandeiras eram devidas à sua ignorância, e significavam um sinal de respeito, e quanto à sua vinda sem autorização, que o Pio afinal o autorizara a ir e lhe enviara pilotos. O Pu-chêng-shih deu-se por satisfeito e, segundo os cronistas portugueses, enviou uma mensagem aos «Governadores» da cidade, o Tuiam, o Concam e o Chumpim (30), que estavam ausentes. Entretanto Andrade deu ordem para que nenhum Português fosse a terra nem qualquer visitante chinês fosse consentido a bordo dos seus navios. Pouco depois os três altos dignatários chineses chegaram a Cantão em dias dife¬ rentes e com grande cerimonial. Foi arranjado um encontro com os Portugueses. Andrade enviou a terra o feitor da armada. W. F. Mayers, com o título First arrival of lhe Portuguese in China, in Notes and Queries on China and Japan, I, 129-30. Hongkong 1868. (29) Chang, op. cit., p. 42. O Pu-chêng-shih é o Puchancij de Barros ou Puchãci de Castanhcda. (30) Estes são os nomes dados por Barros; Castanheda chama-lhes Tutão, Conquão e Compim. A questão de saber a que expressões chinesas correspondem estas antigas versões portuguesas tem sido objecto de con¬ trovérsia e ainda está em dúvida. Mas segundo Pelliot (Un ouvrage sur les premiers temps de Macao, p. 64), parece que eles correspondiam a Tu-t’ang, Tsung-kuan e Tsung-ping. O Prof. Moule diz-me que o significado destas expressões é: Tu-t'ang — propriamente um oficial no primeiro departamento da Junta de Censores, mas também um titulo dado comummente a um Vice- -rei (Tsung-tu) ou Governador provincial (Hsiin-fu); Tsung-ping — Bri¬ gadeiro-General, comandante das tropas num distrito chamado Chên: Tsung-kuan — comandante das tropas num departamento (ou condado) ou subdepartamento, fu ou citou; o cargo era muitas vezes exercido pelo gover¬ nador civil da área respectiva. Dalgado ocupa-sc destes nomes, mas as suas conclusões devem ser consideradas com toda a reserva. Glossário Luso- -Asiático, s.v. Tutão, Compim, Conquão. O Tutam ou Vice-rei era «Ch’ên Hsi-hsien, que então residia em Wu-chou na actual província de Kwang-si». Chang, p. 43.
Introdução 29 bem acompanhado «de gente vestida de festa e com trombetas diante, por ir com mais pompa, vendo que os chins nestas cousas eram mui fumosos, e que as celebravam com grande aparato». O feitor disse aos «Governadores» chineses como El-Rei D. Manuel de Portugal, desejando «ter conhecimento e prestança de amor e amizade com este tamanho príncipe, como era el-Rei da China, mandara armar alguns navios a ele, Fernão Peres, seu capitão, para trazer um embaixador com cartas e presente que ali vinha. O qual embaixador e presente ele, Senhor Rei, mandava que fosse entregue aos seus governadores de Cantão, que (segundo tinha sabido), por meio deles podia ser encaminhado à Corte, onde estava o seu Rei, e ele, Fernão Peres se tornasse para Malaca, e no seguinte ano tornaria lá outro capitão para trazer o dito embaixador, porque já nesse tempo poderia ser despachado». Os «Governadores» chineses «responderam com muitas palavras de contentamento ... E quanto ao embaixador, que logo se daria aviamento pera ser agasalhado em terra; e tanto que eles rece¬ bessem a entrega dele, escreveriam a el-Rei seu senhor a causa de sua vinda, pera saber o que mandava que nisso fizessem, porquanto sem recado seu não podia dali partir. ... Finalmente, no dia em que Fernão Peres de Andrade o entregou no cais de pedra com grande estrondo de artelharia e trombetas, e a gente vestida de festa, ele com sete Portugueses, que ficaram em sua companhia pera irem com ele a esta embaixada, foram levados a seu aposentamento. que eram umas casas das mais nobres que haviam na cidade. O qual foi logo visitado dos principais da cidade.» As casas eram aquelas em que vivia o Superintendente da repartição dos juncos comerciais, de nome Ying-hsiang (31). O presente para o Rei da China, que Correia diz «ia fechado, que se não havia de abrir senão ante el-Rey», foi levado para a mesma casa e fechado à chave, sendo esta entregue a Pires. O desembarque da embaixada deve ter sido em fins de Outubro de 1517. (31) Chang, p. 44.
30 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Depois de declinar várias solicitações para ir a terra, Andrade despediu-se dos «Governadores» porque tinha recebido notícias de que os navios portugueses em Tamão tinham sido atacados pelos piratas, ainda que sem êxito, e também porque alguns dos seus homens caíam doentes com febres e desinteria, nove dos quais morreram, incluindo Impole. Desta vez os Chineses ajudaram bem a reparar os navios portugueses, e Andrade des¬ pachou Coelho no junco para Malaca, onde chegou em fins de Março de 1518, «para levar nova a Malaca como fora recebido o embaixador que levara, e tinha assentado paz com os gover¬ nadores de Cantão, e como nossas cousas eram mui bem rece¬ bidas naquelas partes». Ao mesmo tempo Jorge Mascarenhas foi enviado à descoberta das Ilhas Liu Kiu. Depois de chegar a Chang-chou e Fukien, Mascarenhas foi por Andrade mandado regressar, pois este recebera notícias de Malaca, onde o auxílio da sua esquadra era necessário, e porque os «Governadores» de Cantão o informaram que o seu Rei lhes dissera que lhe podiam enviar o Embaixador Tomé Pires. Antes de partir, Fernão Peres de Andrade «mandou lançar pregões que se queria partir; que se houvesse pessoa que de algum Português tivesse recebido algum dano, ou lhe devesse cousa alguma, viesse a ele pera lhe mandar satisfazer tudo; a qual cousa foi mui louvada dos naturais e nunca entre eles vista, e houveram sermos homens de muita verdade e justiça». Então Andrade fez-se à vela com toda a sua esquadra em Setembro de 1518 (32), depois de quase catorze meses na China, e chegou a Malaca «mui próspero em honra e fazenda, cousas que poucas vezes juntamente se conse¬ guem», comenta Barros. De Malaca Andrade seguiu directamente para a índia, e passado um ano partiu em Janeiro de 1520 para Lisboa, onde chegou em Julho. Góis termina o capítulo «Da viagem que (32) Correia diz Setembro, Castanheda o começo de Setembro, Barros o fim de Setembro, e Góis diz Outubro.
Introdução 31 Femão Peres de Andrade fez à China, e do que lhe aconteceu até tornar ao Reino», dizendo que Andrade foi de Lisboa a Évora onde o Rei e a Rainha então estavam, «dos quais foi mui bem recebido, e el-Rei lhe perguntava muitas vezes pelas coisas da China, e das outras províncias daquela região, ouvindo-as com muito gosto, porque de seu natural era curioso de saber o que passava pelo mundo, pera disso tomar o que mais cum¬ prisse ao governo de seu estado, reinos, e senhorios.» (IV, xxiiii). Isto mostra o interesse que as pormenorizadas notícias da China, trazidas directamente por Andrade e sua gente, despertou em Portugal, e explica como os cronistas dispunham de tanto mate¬ rial para as suas longas descrições de Cantão, da chegada de Pires, e tudo que lá se passou com Andrade e a sua armada. em cantão — Barros diz que sete Portugueses ficaram com Pires em Cantão. Porém Cristóvão Vieira informa-nos na sua carta escrita de Cantão em 1524 que «a gente que fica em companhia de Tomé Pires» eram Duarte Fernandes, Fran¬ cisco de Budoia (33), Cristóvão de Almeida, Pedro de Faria e Jorge Alvares, todos portugueses; «eu próprio, persa de Ormuz», doze moços e cinco intérpretes; i.e., cinco portugueses, um persa lusitanizado, e dezassete outros. Apesar da mensagem enviada pelos «Governadores» de Cantão a Andrade, antes dele partir de Tamão, que o seu Rei lhes dissera que podiam enviar-lhe o Embaixador português, Pires e a sua comitiva tiveram que esperar para cima de quinze meses. Mais adiante Barros diz: «porque é tanta a majestade dêste príncipe e os negócios desta qualidade são tão vagarosos, principalmente quando gente estrangeira há-de ir a ele, por (33) Mais adiante escrito Bedois. Não conheço tal nome em portu¬ guês; sugere engano do copista por ‘Bulhões', nome não muito raro, ou ‘Budens’, aldeia algarvia perto de Lagos. (A. A. Cortesão regista «topó¬ nimo Bedonis» e o apelido «Bodonia» no seu Onomástico Medieval Por¬ tuguês. Coimbra 1903).
32 Tomé Pires e Francisco Rodrigues tudo ser resguardos e cautelas, que há mister muita paciência quem houver de esperar seus vagares. E contudo, sendo já idos três recados de Cantão a el-Rei, e ele ter mandado outros tantos aos governadores da cidade, perguntando mui miuda- mente por nossas coisas, mandou que fosse o embaixador». Quando Andrade deixou Pires com os «Governadores» de Can¬ tão disse-lhes que daí a um ano outro Capitão português viria com uma armada buscar o Embaixador. Andrade chegou à índia em fins de 1518, e o novo Governador, Diogo Lopes de Sequeira, que tomou posse do cargo em 27 de Dezembro desse ano, nomeou António Correia, seu sobrinho, para ir com uma armada à China, evidentemente com o propósito de trazer a Embaixada de Tomé Pires. Mas Simão de Andrade, irmão de Fernão Peres de Andrade, havia escrito a el-Rei D. Manuel a carta atrás referida, de 10 de Agosto de 1518, datada de Malaca onde era Capitão do Mar, enumerando os seus serviços e pedindo para ser nomeado capitão de alguma das fortalezas de Malaca, Goa ou Ormuz, ou que lhe fosse concedida qualquer outra mercê. Esta carta deve ter seguido juntamente com as notícias trazidas da China pelo junco de Duarte Coelho, que chegou a Malaca em fins de Março de 1518. O Rei certamente ficou bem impressionado com o êxito da visita de Fernão Peres de Andrade à China, e, embora não nomeasse Simão de Andrade para qualquer fortaleza, enviou autorização para a sua ida à China como capitão da primeira armada que lá fosse depois do regresso de seu irmão. Simão de Andrade apresentou a auto¬ rização real e foi enviado à China em vez de António Correia. Em Abril de 1519 partiu de Cochim com uma nau e em Malaca juntaram-se-lhe três juncos, cujos capitães eram Jorge Botelho, Álvaro Fuzeiro e Francisco Rodrigues, todos sob o comando de Simão de Andrade. A pequena frota chegou a Tamão em Agosto do mesmo ano. Contrastando singularmente com seu irmão, Simão de Andrade não só tinha pouco tacto como era vaidoso, capri¬ choso e violento, qualidades que os cronistas não deixam de
Introdução 33 salientar. A sua nomeação em vez de António Correia, homem melhor qualificado para tal missão, foi um daqueles pequenos mas fatídicos acidentes que por vezes ocorrem no decurso da história e que neste caso se tornou na causa principal do desas¬ troso fim da Embaixada de Tomé Pires e de todas as desgra¬ ças que os Portugueses sofreram na China durante mais de trinta anos. Simão de Andrade esperava, não sem razão, que quando chegasse a Tamão encontraria Pires de regresso da embaixada ao «Rei da China». Em vez disso verificou que o Embaixador ainda não partira de Cantão. Pires devia estar muito aborre¬ cido com as insuportáveis demoras chinesas, e naturalmente queixou-se ao Capitão português. Acostumado ao prestígio e respeito de que os Portugueses desfrutavam no Oriente, Andrade certamente ficou ressentido com o procedimento dos Chineses, que tomou como uma afronta à dignidade portuguesa. Não é de estranhar que a sua indignação e irritação fossem muito grandes. Isso sem dúvida contribuiu para o estado de espírito que o levou aos seus lamentáveis desmandos — um ponto a que os historiadores, tanto do passado como do presente, não têm prestado a devida atenção, embora tal me pareça neces¬ sário para o juízo sóbrio deste muitas vezes discutido passo histórico. Referindo-se às demoras de que a Embaixada de Tomé Pires foi vítima, Barros comenta: «é tanta a magestade deste Príncipe (o Rei da China), e os negocios desta qualidade são tão vagarosos, principalmente quando gente estrangeira ha-de ir a ele, por tudo ser resguardos, e cautelas, que há mister muita paciência quem houver de esperar seus vagares». Mas paciência não era virtude de Simão de Andrade, ele cometeu vários actos que as autoridades chinesas consideraram violação das suas leis, tal como a construção de um forte de pedra e madeira em Tamão, com o pretexto de se defender dos ataques dos piratas, e a erecção duma forca em que um marinheiro foi executado. Não sabemos se estes e outros actos mais repreensíveis, tal como a compra de crianças chinesas roubadas, foram praticados antes
34 Tomé Pires e Francisco Rodrigues de Pires seguir de Cantão para Pequim, mas sem dúvida foram ominosos e tiveram a mais desastrosa repercussão em aconte¬ cimentos futuros. de cantão a pequim — Cristóvão Vieira diz-nos, na sua carta de 1524, que Pires partiu de Cantão para Pequim em 23 de Janeiro de 1520 (34). Embora Barros utilizasse esta carta para compilar a sua pormenorizada descrição das aventuras da Embai¬ xada na China, ele recebeu informação de outra origem — talvez do próprio Pires. Pode ter-se como certo que Pires escreveu várias vezes informando sobre o progresso e acontecimentos da sua viagem depois que partiu de Cochim, e que pelo menos algu¬ mas dessas cartas chegaram à índia e a Lisboa. Correia diz mesmo que Pires «em tempo do Governador [D. Duarte de Menezes, que governou a índia de Janeiro de 1522 a Dezembro de 1524] lhe mandou um livro em que lhe dava conta das riquezas e gran¬ dezas do Rei da China, que pareciam duvidosas de crer» (II, 678). Infelizmente não restam vestígios de qualquer coisa que Tomé Pires tivesse escrito da China. A Embaixada começou a subir pelo rio acima em três galés chinesas, com toldos de seda e bandeiras portuguesas. Quando chegaram perto da cordilheira a norte de Kwang-tung deixaram as embarcações e seguiram pelo desfiladeiro de Mei-ling em liteiras, a cavalo e a pé. Duarte Fernandes, da comitiva de Pires, morreu nestas montanhas. Daí escreveu Pires a Simão de Andrade informando-o do progresso da viagem. Seguiram para norte e chegaram a Nanquim em Maio de 1520. O Impe¬ rador estava nesta cidade mas não quis receber aí o Embaixador, mandando-lhe dizer que seguisse para Pequim e lá aguardasse (34) Todas estas datas referentes à viagem de Pires até Pequim c volta a Cantão são dadas por Vieira e foram utilizadas por Barros. Góis (IV, xxv) diz, evidentemente cm erro, que Simão de Andrade chegou a Tamão em Agosto de 1518, e que Pires partiu de Cantão em Outubro de 1519 c chegou a Pequim em Janeiro de 1520.
Introdução 35 a sua chegada (35). Sabemos por Vieira que em 2 de Agosto foram enviadas cartas para Cantão, as quais foram entregues a Jorge Botelho e Diogo Calvo em Tamão. Vasco Calvo diz que as cartas eram dirigidas a D. Aleixo de Menezes, e que Jorge Alvares foi encarregado de as levar (36). Não sabemos a data da chegada de Tomé Pires a Pequim, mas já lá estava quando o Imperador entrou na cidade em Fevereiro de 1521 (37). Enquanto o Imperador esteve em Nanquim chegou aí um embaixador do ex rei de Malaca queixando-se contra os Portugueses, «ladrões do mar» que tinham tomado o seu reino, e pedindo ajuda visto ser vassalo do Imperador. Trouxera uma carta do seu rei, e o Imperador também recebeu carta de dois mandarins de Pequim e ainda outra dos mandarins de Cantão acumulando queixas contra os Portugueses, sobretudo por causa dos desmandos se Simão de Andrade. Além disso Pires levava três cartas para (35) [Curioso é o que Vieira diz na sua carta de 1524: «Nós em Nanquim vimos o Rei em pessoa, que andava folgando, contra estilo e costume da terra, que está em costume o Rei nunca sair de seus aposentos, e desde que a terra da China é terra pouco se acuida Rei de sair do estilo, nem estrangeiro ver Rei de China como digo que o vimos. Nos fez honra e folgou de nos ver. e jogou com Tomé Pires às távolas por vezes estando nós ao presente; assim nos mandou banquetear com todos os grandes; ao presente vemos por isto três vezes. Entrou nos paros em que nós íamos. Mandou sair todas as arcas fora, tomou os vestidos que lhe pareceram bem, e fez mercê a Tomé Pires, que nos fôssemos a Pequim que nos despachava. Mandou nos dar os melhores paraos que ha na terra da China e nos mandou honradamente como já disse. Chegou a Pequim, faleceu assim dizem.») (36) Foi. I30v. Calvo enganou-se ao escrever Dom Estêvão em vez de Dom Aleixo, como veremos adiante. Jorge Álvares não podia ter levado a carta porque morreu em Tamão cm 1521. Foi ele o primeiro Português que esteve na China, em 1513, e lá foi enterrado em 1521, como noutro lugar já mostrei. Expansão Portuguesa através do Pacifico, p. 164. Vide notas fols. 16Ir. e 177r. (pp. 361, 437). (37) Góis (IV, xxv) diz que Pires «foi de Cantão ter à cidade de Pequim, no qual caminho se deteve quatro meses», mas referia-se evidentemente ao tempo em que de facto viajou.
36 Tomé Pires e Francisco Rodrigues o Imperador: de el-Rei D. Manuel, de Fernão Peres de Andrade e dos «Governadores» de Cantão. A carta de Andrade tinha sido mal traduzida para chinês pelos intérpretes; eles escreveram de acordo com os costumes do país, dizendo absurdamente, entre outras coisas, que o Rei de Portugal desejava tornar-se vassalo do Imperador da China. A carta dos «Governadores» de Cantão fôra escrita e entregue a Pires quando eles ainda estavam sob a boa impressão deixada por Fernão Peres de Andrade. Quando a carta selada de D. Manuel foi aberta e traduzida no palácio imperial, achou-se que o seu espírito eia (naturalmente) muito diferente do da carta escrita pelos inter¬ pretes em nome de Andrade (38). Os intérpretes aceitaram responsabilidade pela carta de Andrade, mas foi aberto um inquérito e todos os membros da Embaixada foram proibidos de se aproximar do palácio imperial. Embora, segundo Vieira, o Imperador magnanimamente dissesse «esta gente não conhece os nossos costumes; gradualmente os chegarão a conhecer», mais queixas, algumas absolutamente absurdas, eram trazidas contra os Portugueses. Depois de dizer que uma das queixas era «que comprávamos moços, e moças furtadas, filhos de pes¬ soas honradas, e que os comíamos assados», Barros comenta: «as quais coisas eles criam serem assim, porque de gente que nunca tiveram notícia, e éramos terror, e medo a todo aquelle Oriente, não era muito crer-se que fazíamos estas cousas, porque outro tanto cremos nós deles, e de outras nações tão remotas, e de que temos pouca notícia.» (III, iv, 1). Alguns antigos historiadores chineses chegam mesmo a dar vívidos pormenoies quanto ao preço pago pelas crianças e a maneira como eram assadas (39). Entretanto o Imperador Wu-tsung morria três meses depois da sua chegada a Pequim, sucedendo-lhe Shih-tsung, um jovem (38) Vieira dá muitos pormenores sobre estas cartas. Op. cit., foi. 104 (39) Chang, p. 48.
Introdução 37 de catorze anos. A Embaixada foi então mandada sair da capi¬ tal e regressar a Cantão com os presentes destinados ao Imperador, os quais foram recusados. Alguns altos funcionários da côrte declararam que a Embaixada não era genuína, e desejavam que se procedesse energicamente contra os Portugueses, insistindo que deviam matá-los como espiões; mas por então a sua quali¬ dade diplomática salvou-os. Porém, segundo Vieira, dos cinco intérpretes, um morreu de doença e «os outros quatro foram decapitados em Pequim, por terem deixado o país e trazido os Portugueses à China» e os seus criados foram dados como escravos aos mandarins por terem pertencido a traidores. rkgrusso a cantão—Finalmente Tomé Pires e os seus companheiros deixaram Pequim em 22 de Maio e chegaiam a Cantão em 22 de Setembro de 1521, tendo Francisco de Budoia morrido durante a viagem. De Pequim foram enviadas ins¬ truções para Cantão mandando que o Embaixador e sua comi¬ tiva ficassem sob prisão, e que só depois de os Portugueses evacuarem Malaca devolvendo-a ao seu rei, vassalo do Impe¬ rador da China, seriam libertados os membros da Embaixada. Entretanto, depois da partida de Simão de Andrade, a nau Madalena, que pertencia a D. Nuno Manuel, vinda de Lisboa sob o comando de Diogo Calvo, chegou a Tamão com alguns outros navios de Malaca, entre os quais o junco de Jorge Alvares, que no ano anterior não pudera seguir com a armada de Simão de Andrade, porque tinha água aberta. Quando as instruções de Pequim contra os Portugueses chegaram a Cantão, juntamente com a notícia da morte do Imperador, os Chineses prenderam Vasco Calvo, irmão de Diogo Calvo, e outros Portugueses que estavam em terra negociando em Cantão. Em 27 de Junho de 1521 Duarte Coelho chegou a Tamão com dois juncos. Além de capturarem alguns dos navios portugueses, os Chineses, com uma grande frota de juncos armados, bloquearam a nau de Diogo Calvo e quatro outros navios portugueses em Tamão. Umas semanas mais tarde chegou Ambrósio do Rego com duas 4
38 Tomé Pires e Francisco Rodrigues outras naus. Como muitos dos tripulantes portugueses tinham sido mortos em combate, massacrados depois ou feitos prisio¬ neiros, já não restavam bastantes Portugueses para todos os navios, pelo que Calvo, Coelho e Rego resolveram abandonar os juncos para melhor tripular as três naus. Fizeram-se à vela em 7 de Setembro mas foram atacados por uma frota chinesa, conseguindo porém escapar, graças a uma providencial tem¬ pestade que dispersou os juncos inimigos, e chegaram a Malaca em Outubro de 1521. Vieira menciona outros juncos que che¬ garam à China com Portugueses a bordo; todos foram atacados, e as tripulações mortas em combate ou aprisionadas e depois massacradas. Da nau de Diogo Calvo ficaram Vasco Calvo, sete outros Portugueses e quatro servos, que escaparam à matança por dizerem que pertenciam à Embaixada de Tomé Pires. Mas muitos outros morreram na prisão, alguns de fome, muitos estran¬ gulados, «depois de levar cartazes dizendo que morreriam como ladrões do mar», um com a cabeça esmagada com um maço, e outros espancados até à morte. Pires e os seus companheiros chegaram a Cantão quinze dias depois dos três navios portugueses se terem escapado de TamSo, e encontraram-se numa situação muito difícil. Foram imediatamente chamados à presença do Pochanci (40) e disseram a Pires que escrevesse aos Portugueses em Malaca dizendo-lhes para restituírem o país ao seu ex-rei. Deixemos Vieira descrever o que aconteceu: «Respondeu Tomé Pires que não vinha a isso, nem convinha a ele em tal falar, que da carta que trazia lhe daria razão, que de al não sabia. ... nestas perguntas nos teve de joelhos quatro horas; acabado de se enfadar, mandou cada um à cadeia donde estava. Em 14 de Agosto de 1522 lançou o Pochanci a Tomé Pires cormas nas mãos, aos da companhia cormas e ferros nos pés, as cormas asseladas nos pulsos: e nos tomaram toda a fazenda que tínhamos. Assim, com cadeias (40) Pu-chêng-shih ou Tesoureiro Provincial. Cf. Ferguson. p. 5!.
Introdução 39 nos pescoços e por meio da cidade nos levaram para a casa do Anchuci (41). Ali nos quebraram as prisões e nos deitaram outras cadeias mais fortes nas pernas, cormas asseladas e cadeias aos pescoços; e dali levaram toda a fazenda, e mandaram-nos assim a esta cadeia. À entrada da cadeia morreu António de Almeida das prisões fortes que trazíamos, os braços inchados e as pernas roçadas das cadeias estreitas. Isto com determinação que dali a dois dias nos matarem. Antes de ser noite deitaram a Tomé Pires outras de novo e o levaram a ele só e descalço, sem barrete, com apupadas de rapazes, à cadeia de Cancheufu (Kuang-chou-fu) a ver a fazenda que nos tomaram que se havia de escrever, e escreviam dez e furtavam trezentos. ... A fazenda que nos tomaram eram: vinte quintais de ruibarbo, mil e quin- nhentas ou seiscentas peças de seda ricas, obra de quatro mil lenços de seda que os chins chamam xopas (cheu-pa) de Nanquim, e muitos abanos, e mais três arrobas de almíscar em pó, mil e trezentos papos de almíscar, quatro mil e tantos taéis de prata e setenta oitenta taéis de ouro e outras peças de prata, e todos os vestidos e peças de preço, assim portuguesas como chins, o pucho (raízes de incenso) de Jorge Botelho, incenso, roçamola (estoraque liquido), cascas de tartaruga, assim pimenta e cousas miúdas (42). Tudo isto foi entregue na feitoria de Cancheufu (Kuang-chou-fu) como fazenda de ladrões. O presente de el-Rei nosso Senhor que mandava ao Rei da China está na fei¬ toria do Pochanci» (fols. 106-7). Ferguson resume assim: «Depois de uma grotesca mostra de respeito pelos membros (41) An-ch’a-shih ou Juiz Provincial. Cf. Chang, p. 56. (42) Isto é dc acordo com os fragmentos da carta de Vieira, em Lisboa. Barros (III, iv, 2), seguindo o MS de Paris (ff. 106-7), dá lista um tanto diferente dos bens confiscados. Mas em vez de dizer, como Vieira, que a fazenda lhes foi tomada, diz foi tomada a ele (Tomé Pires). Talvez a esta alteração se devam os injustos comentários de Faria e Sousa (I, ii, 6). Nada tinha de estranho que toda esta fazenda pertencesse a Pires, que já tinha grangeado fortuna considerável antes de ir para a China; e afinal nem todos os bens lhe pertenceriam exclusivamente.
40 Tomé Pires e Francisco Rodrigues da embaixada, que se estendeu por mais de dez meses, eles foram todos encarcerados e tudo o que lhes pertencia assim como o presente do Rei de Poitugal para o Imperador foi confiscado, a parte de lião, como era de esperar, cabendo aos mandarins» (43). Fernão Mendes Pinto diz-nos que em 1541 viu o mandarim de Nouday «em cima de um bom cavalo com umas couraças de veludo roxo de cravação dourada do tempo antigo, as quais depois soubemos que foram de um Tomé Pires, que el-Rei D. Manuel de gloriosa memória mandara por Embaixador à China na nau de Fernão Peres de Andrade, governando o Estado da índia Lopo Soares de Albergaria» (44). Entretanto da índia, onde as notícias deste estado de coisas ainda não haviam chegado, outra armada de quatro naus sob o comando de Martim Afonso de Melo Coutinho partia para a China em Abril de 1522. Coutinho tinha saído de Lisboa um ano antes, encarregado por Dom Manuel duma mensagem amistosa para o Imperador da China, para o que levava consigo outro embaixador. Chegou a Malaca em Julho e aí soube das desgraças que tinham acontecido aos Portugueses na China. Não obstante, ele resolveu continuar a sua viagem, acompanhado por outra nau e um junco com Ambrósio do Rego e Duarte Coelho, que relutantemente e só sob grande pressão acedeu em voltar à China, onde no ano anterior tinha escapado por pouco, como atrás se viu. A armada de Coutinho, de seis velas, partiu de Malaca em 10 de Julho e chegou a Tamão em Agosto de 1522. Foram logo atacados por uma armada chinesa, sendo muitos Portugueses mortos e aprisionados, perderam-se dois navios e o junco, e depois de tentar em vão restabelecer relações com as autoridades cantonesas, Coutinho regressou com os outros navios a Malaca, onde chegou em meados de Outubro de 1522. Embora alguns cronistas ponham a culpa nos Chineses, Chang (43) Op. cil., pp. 18-9. (44) Peregrinação, lxv.
Introdução 41 cota fontes chinesas que afirmam que os Portugueses é que devem ser considerados responsáveis pelo começo das hostilidades (45). Segundo Vieira os mandarins tornaram a mandar que Pires escrevesse uma carta ao Rei de Portugal, que os embaixadores do ex-rei de Malaca deviam levar a Malaca, para que o seu país e povo fossem restituídos ao seu antigo senhor; se não viesse resposta satisfatória, o embaixador português não regressaria. Uma minuta da carta em chinês foi enviada aos prisioneiros portugueses, para que por ela escrevessem três cartas: parael-Rei D. Manuel, para o Governador da índia e para o Capitão de Malaca. Estas cartas foram entregues às autoridades cantonesas em 1 de Outubro de 1522. O embaixador malaio pouca vontade tinha de ser o correio, e não era fácil encontrar outro. Por fim um junco com quinze malaios e quinze chineses partiu de Cantão em 31 de Maio de 1523 e alcançou Patani. Na sua carta de 1 de Janeiro de 1524 para el-Rei D. Manuel, Jorge de Albu¬ querque, Capitão de Malaca, dizia que D. Sancho Henriques, Capitão-mor do Mar em Malaca, tinha ido bloquear Bintang no começo de Julho de 1523, e daí foi a Patani com Ambrósio do Rego e outro navio espeiar um junco português que estava em Sião «e saber novas da China, dos chins que aí vêm ter». Ambrósio do Rego voltou primeiro a Malaca com notícias, «que lhe dissera um língua que entre os chins e os portugueses tratava, quando estavam de paz. Disse-lhe que eram vivos (em Cantão) de oito até treze portugueses; e não se afirmam em quantos, porque uns dizem oito e outros dizem treze; e que diziam que o embaixador Tomé Pires que era ainda vivo. Veio um recado a el-rei de Bintam, do seu embaixador, o qual homem que o trouxe tornou logo a fama que el-rei de Bintam lançou pela terra que os chins haviam de vir sobre Malaca. Isto não é muito certo; porém são coisas que podem ser. Se vierem, grande dano farão, salvo se o capitão-mor (da índia) acudir a (45) 0/7. cit.. p. 59.
42 Tomé Pires e Francisco Rodrigues tempo, como lhe eu escrevo; porém, o meu parecer é que tal não farão, que também dizem na China que desejam paz conosco» (46). Este documento lança alguma luz sobre o assunto. É evidente que as três cartas trazidas no junco de Cantão nunca chegaram ao seu destino, tendo provavelmente sido retidas pelo ex-rei de Malaca, intriguista de primeira ordem a quem não faltavam razões para odiar os Portugueses, e talvez mesmo Tomé Pires em especial. O homem que trouxe a men¬ sagem ao rei de Bintang logo regressou, diz Jorge de Albuquerque. Vieira informa que o junco «tomou recado de el-Rei de Malaca e veio a Cantão a cinco dias de Setembro» (foi. 110v.). Não sabemos o que a mensagem dizia, mas pode-se imaginar, pois, como Vieira informa, «No dia de S. Nicolau (6 de Dezembro) no ano de 1522 lhes lançaram tábuas com sentenças que morres¬ sem em troncos por ladrões pequenos do mar enviados pelo ladrão grande falsamente vêm espiar nossa terra para virem sobre ela. Cortem-lhes as cabeças, sejam esquartejados. Foi recado ao Rei segundo a informação dos mandarins; confir¬ mou o Rei a sentença a 23 dias de Setembro de 1523. Foram estas 23 pessoas feitas em sete pedaços cada uma, a saber cabe¬ ças, pernas, braços, e suas naturas nas bocas, o tronco do corpo em redondo pela barriga em dois pedaços; pelas ruas de Cantão, fora dos muros, pela povoação, pelas ruas principais foram mortos, à distância de um tiro de besta uns dos outros, para todos os verem, assim os de Cantão como os do termo, por darem a entender que não tinham em conta Portugueses, por o povo não falar em Portugueses. Foram assim nos navios tomados às mãos por se não acordarem os capitães ambos; e tomados assim todos nos navios, a todos mataram, e as suas cabeças e naturas foram trazidas às costas dos Portugueses diante dos mandarins de Cantão, com tangeres e prazeres; foram vistas penduradas pelas ruas e depois deitadas nos monturos. E daí ficou não consentirem mais Por¬ tugueses na terra nem outros estrangeiros». (46) Carlas, rv, 41-2.
Introdução 43 A carta de Vieira, provavelmente acabada de escrever em Novembro de 1524, diz que de todos os Portugueses só ele e Vasco Calvo ainda viviam, e que «Tomé Pires faleceu de doença no ano 1524 em Maio» (foi. 112v.). Esta data, porém, não pode ser aceite sem muita reserva, como veremos. cartas de vieira e calvo — As cópias das duas cartas de Ciistóvão Vieira e Vasco Calvo existentes na Bibliothèque Natio- nale de Paris provavelmente foram feitas na segunda metade do século xvi. Embora as cartas nestas cópias sejam datadas de 1534 e 10 de Novembro de 1536, não é difícil provar que ambas foram escritas em 1524, sendo a de Vieira concluída um pouco antes de Calvo terminar a sua em 10 de Novembro. As duas cartas, além de muito importantes para a biografia de Tomé Pires, são elementos capitais na história das primeiras relações europeias com a China; a data em que foram escritas é por isso importante e já é tempo para que este ponto seja escla¬ recido. Em primeiro lugar, nenhuma das duas cartas refere qualquer acontecimento posterior a 1524; é extremamente improvável que durante os dez ou doze anos entre 1524 e as supostas datas das cartas nada digno de menção tenha acontecido. Há dois pontos nas cartas que sugerem terem elas sido escritas depois de 1524, mas trata-se de enganos de copista. Na carta de Vieira diz-se: «Na era de 524 fizeram armada de juncos de sal que tomaram por força; até era de 528 fizeram armadas» (foi. 119). 1528 será erro de copista por 1523. Mais adiante Vieira pede que seja enviada uma armada portuguesa à China, e acrescenta: «A primeira coisa é desbaratar a armada [chinesa] se a tiverem, que eu cuido que a não têm» (foi. 122v.). Erros semelhantes são frequentes. Por exemplo, o começo da carta de Vieira diz que Fernão Peres de Andrade chegou à China em 1520, embora ele tivesse chegado em 1517. Na foi. 108v. afirma-se que Mar- tim Afonso de Melo Coutinho foi de Malaca à China em 1521, mas na folha 121 diz-se correctamente que ele chegou em 1522.
44 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Na cópia de Paris diz-se que entre a fazenda pelos Chineses tomada aos Portugueses estavam «três mil e tantos papos de almíscar, quatro mil e quinhentos taéis de prata e setenta ou oitenta taéis de ouro e outras peças de prata e todos os vestidos e peças de preço» (foi. 107), mas nos fragmentos em Lisboa lê-se «mil e trezentos papos de almíscar, quatro mil e tantos vestidos e peças de preço». A cópia de Paris diz que «sessenta bem mor¬ reram no navio» (foi. 108v.), ao passo que nos fragmentos em Lisboa lê-se, correctamente, que «sete também morreram no navio». Onde a cópia de Paris refere «em 23 de Setembro de 1523» (foi. 109), nos fragmentos em Lisboa lê-se «Em 24 de Setembro de 1523». Onde a cópia de Paris tem «trinta léguas» (foi. 113v.), nos fragmentos de Lisboa lê-se «quarenta léguas». Onde na cópia de Paris se lê «obra de oito até dez léguas» (foi. 113), nos fragmentos de Lisboa lê-se «obra de vinte até trinta léguas». Noutro passo da carta de Calvo lê-se: «Sejam Senhor estas cartas mostradas aos seus capitães-mores; não se encubram, Senhor, que se Jorge Álvares amostra as cartas que levava a Dom Estêvão e de nós souberam, eu confio que não estivéramos aqui nesta cadeia vivos ou mortos. Em dois anos ou o Sr. Gover¬ nador houvera de mandar ou de Malaca houvera de ordenar coisa por onde daqui nos tiraram» (foi. 130v.). Ferguson (47) julgou que este «Dom Estêvão» era Dom Estêvão da Gama, filho de Vasco da Gama, que em 1534 era capitão de Malaca e em 1540-2 Governador Geral da índia. Mas há aqui outro engano: o copista escreveu «Dom Estêvão» onde no original estaria «Dom Aleixo». D. Aleixo de Menezes, sobrinho do Governador-Geral Lopo Soares de Albergaria, foi em 1518 com uma armada a Malaca e em 1520 era Governador-Geral interino da índia, quando o Governador-Geral Diogo Lopes de Sequeira foi ao Mar Vermelho (48). Em 1521 D. Aleixo estava em Cochim (47) Op. cit., pp. 29 e 157. (48) Barros, 111, iii, 10. Numa carta escrita de Cochim, 2 de Novem¬ bro de 1520, para El-Rei Dom Manuel, o Ouvidor Geral da índia, Pedro
Introdução 45 onde despachou vários navios para Malaca e China, entre os quais provavelmente se contava o navio de Diogo Calvo que chegou a Tamão em 1521. Não havia então «D. Estêvão» algum na índia a quem pudessem ser enviadas tais cartas. As cartas em questão poderiam ser aquelas que, como atrás se disse, foram em 2 de Agosto de 1520 escritas de Nanquim, ou de Pequim, e talvez algumas mais escritas de Cantão por Vasco Calvo. A referência a Jorge Álvares, que em 8 de Julho de 1521 morreu em Tamão (facto desconhecido de Calvo), como levando as cartas para «Dom Estêvão» (da Gama) que pela primeira vez chegou à índia em 11 de Setembro de 1524, é um anacronismo insuperável. Muitos erros do mesmo género foram cometidos pelos copistas. Por exemplo, na denominação da carta de Vieira escreveu-se que ela é de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo, e na denominação da carta de Calvo escreveu-se que é de Cristóvão Vieira apenas. Uma comparação da cópia de Paris com os fragmentos da carta original de Vieira, em Lisboa, revelam muitas de tais incongruências. Na passagem atrás cotada Calvo mostra a sua surpreza porque dentro de dois anos nada fora feito para o salvar e aos seus companheiros de cativeiro. É evidente que se referia às cartas escritas depois de ter sido feito prisioneiro, que supunha terem sido recebidas em 1522; por conseguinte ele escrevia em 1524. Vê-se pela sua carta que ele escrevia ao mesmo tempo que Vieira: «onde Cristóvão Vieira escreve» (foi. 132v.), diz ele «Conforme Cristóvão Vieira nestas cartas» (foi. 133); «do teor que vai nas cartas de Cristóvão Vieiia» (foi. 134v.); «Cristóvão Vieira escreve com pena nossa» (foi. 135v.). Outros pontos na carta poderiam Gomes Teixeira, diz que durante a ausência de Sequeira o governo ficava dividido entre «Dom Alcixo com o mando da fazemda e governança do mar e na terra da gente sobresalente, c o capitão Rui de Meio com sua terra c gente ordenada a ela». Este extenso e importante documento foi publi¬ cado pela primeira vez por A. Cortesão e H. Thomas, Cana das Novas, pp. 127-38.
46 Tomé Pires e Francisco Rodrigues ser interpretados como apontando as datas 1534 e 1536; con¬ tudo o seu exame cuidadoso mostra que eles não contradizem a data de 1524. Não há dúvida que o cronista utilizou as duas cartas na composição dos capítulos em que descreve estes acontecimentos. É o próprio Barros quem diz: «E segundo duas cartas que os nossos daí a dois, ou tres anos houveram dêstes dois homens, Vasco Calvo irmão de Diogo Calvo, e Cris¬ tóvão Vieira, que estavam presos em Camtão» (III, vi, 2). Isto é categórico, e conjugado com o que as próprias cartas dizem, não deixa qualquer dúvida sobre a sua data: foram ambas escritas em 1524 e talvez concluídas em Novembro: as datas 1534 e 1536 serão enganos do copista. Admira que Ferguson, depois de traduzir e comentar as duas cartas tão minuciosamente, não tivesse notado que as suas datas não podiam ser 1534 e 1536, embora mostre a sua sur¬ presa por alguns dos anacronismos e incongruências atrás men¬ cionados, que em vão tentou mas não conseguiu explicar. Tão- -pouco os que têm consultado e cotado o trabalho de Ferguson os notaram ou mencionaram. depois de 1524 — Embora Vieiia diga que «Pero de Freitas nesta cadeia e Tomé Pires aqui faleceram de doença, Tomé Pires na era de 1524 em Maio» (foi. 112v.), mais adianle pede que seja enviada à China uma armada de dez ou quinze navios, e que o seu capitão escrevesse às autoridades chinesas exigindo a libertação de Tomé Pires — «o embaixador seja a mim enviado antes de eu chegar a Cantão» (foi. 123v.). Isto, porém, poderia ter querido dizer que o capitão português pretenderia dar a entender que não sabia que Tomé Pires estivesse morto. Poderia também acontecer que a frase estivesse mal escrita ou mal copiada, como em muitos outros casos, e que o seu verdadeiio significado fosse — «Pêro de Freitas estava nesta cadeia com Tomé Pires, e ele (Pêro de Freitas) aqui morreu de doença...» Mas o signi¬ ficado mais provável é — «Pêro de Freitas morreu nesta prisão, e Tomé Pires morreu de doença [noutro lugar] em Maio de 1524.»
introdução 47 Na verdade Vieira mostra noutras partes da carta que parecia estar convencido de que Pires era já falecido. Apenas Vieira se refere, e não muito claramente, à morte de Pires em 1524. Barros diz que depois do navio de Coutinho se ter escapado de Tamão, os Chineses «leváram muita da nossa gente preza», e «acabáram de matar Tomé Pires, e assim os que com ele foram prezos, e ficou total guerra entre nós, e eles. E segundo alguns dos nossos depois escreveram, mais morre¬ ram na cadeia de fome, e mau tratamento, que lhe nela davam, que por justiça» (III, viii, 5). As execuções só foram levadas a cabo depois de em Setembro de 1523 ter chegado a Cantão a confirmação do Imperador. Embora Barros evidentemente se esteja a referir à caita de Vieira, ele não menciona a data da morte de Tomé Pires. Castanheda, que nessa altura estava na índia, diz que o rei da China «mandou prender o nosso embai¬ xador, e os outros que estavam com ele, e mandou que estives¬ sem apartados uns dos outros, e que lhe fosse tomada toda sua fazenda, escrita e avaliada; e dizem uns que com tristeza adoeceu, e morreu o embaixador; outros que morreu com peçonha. E por¬ que eu não pude saber as particularidades disto o digo assim em suma.» (V, lxxx). Mas Correia, que durante quase todos estes anos também esteve na índia, diz muito positivamente: «O que tanto lhe caiu na vontade (a el-Rei da China) que mandou prender o nosso embaixador, e levar a outra terra em que esteve muito tempo, até que a el-Rei se lhe foi a merencória, e folgou de falar com ele; mas nunca mais o deixou tornar, e lá morreu». Ora Fernão Mendes Pinto diz na Peregrinação que quando em 1543 passou pela cidade de Sampitay, na viagem de Nan¬ quim para Pequim, encontrou uma mulher cristã que, depois de mostrar uma cruz tatuada no braço e o convidar e seus com¬ panheiros para sua casa, lhes disse «que se chamava Inês de Leiria, e que seu pai se chamara Tomé Pires, o qual deste reino fôra por Embaixador a el-rei da China, e que por um alevanta- mento que um nosso Capitão fizera em Cantão, houveram os Chins que era ele espia, e não Embaixador, como ele dizia, e o
48 Tomé Pires e Francisco Rodrigues prenderam com outros doze homens que trazia consigo, e depois que por justiça lhe deram muitos açoites e tratos, de que logo morreram os cinco, aos outros desterraram, apartados uns dos outros, para diversos lugares, aonde morreram comidos de piolhos, dos quais um só era vivo, que se chamava Vasco Calvo, natural de um lugar da nossa terra, que se dizia Alcochete, por¬ que assim o tinha muitas vezes ouvido a seu pai, chorando muitas lágrimas quando nisto falava. E que seu pai lhe coubera em sorte ser seu degredo para aquela terra, aonde se casara com sua mãe, porque tinha alguma coisa de seu, e a fizera cristã, e sempre em vinte e sete anos que ali estivera casado com ela, viveram ambos muito catolicamente, convertendo muitos gentios à fé de Cristo» (49). Quando vivia em Almada, Fernão Mendes Pinto foi visitado, em Outubro de 1582, pelos padres jesuítas G. Maffei, J. Rebelo e G. Gonçalves, que dele foram colher algumas informações sobie a China e Japão. Maffei deixou uma nota registando a conversa que eles tiveram com Pinto, na qual se lê, entre outras coisas: «Ele diz que há alguns ves¬ tígios de ciistandade na China, que são relíquias de Tomé Pires, o primeiro embaixador que lá foi, e lá morreu, e de seus compa¬ nheiros. Ele diz que a filha de um destes homens (50) em memó¬ ria do ciistianismo de seu pai tinha uma cruz tatuada no braço, junto à mão, e quando encontrou alguns Portugueses arregaçou a manga e mostrou a cruz, dizendo em Português a única parte que sabia do Padre-Nosso, o que causou espanto e lágrimas nos outros. Ela era rica e abrigou-os em sua casa. Da mesma (49) Peregrinação, xci. (50) A versão portuguesa está longe de clara. Embora aqui não diga expressamente que o pai era Pires, a Peregrinação c absolutamente positiva neste ponto. A referida nota foi encontrada pelo sábio orientalista Rev. G. Schurammcr, S. J., entre os papéis de Maffei no arquivo da Com¬ panhia de Jesus. Schurammcr publicou-a pela primeira vez sob a epígrafe Um documento inédito sobre Fernão Mendes Pinto in Revista de História, XIII, 81-8, Lisboa 1924, e depois traduziu-a para alemão na sua obra Fernão Men¬ des Pinto und seine «Peregrinaçam», pp. 35-42, Leipzig 1927.
Introdução 49 companhia havia também na cidade Cansi (Kwang-si), antes de ser destruída pelos Tártaros, um certo Português casado com uma chinesa com quatro filhos.» Também Pinto descreve como em 1544 encontrou na cidade de Quansi, não longe de Pequim, um homem velho que, depois de algumas peripécias, lhe disse: «Sou, irmão meu, um pobre Cristão Português, por nome Vasco Calvo, irmão de Diogo Calvo, que foi Capitão da nau de D. Nuno Manuel, natural de Alcochete, que agora faz vinte e sete anos que nesta terra fui cativo com Tomé Pires, que Lopo Soares mandou por Embaixador a este Rei Chim, que depois acabou desastradamente por um desarranjo de um Capitão Português». ... Depois, «me relatou todo o discurso de sua vida, e de tudo o mais que tinha passado, desde que partira deste Reino até então, e assim da morte do Embaixador Tomé Pires, como dos mais que Fernão Peres de Andrade deixou com ele em Cantão para irem ao Rei da China, o que, segundo me ele contou, não se conforma muito com o que os nossos Cronijjas escrevem» (51). Faria e Sousa foi o primeiro cronista a utilizar as informações de Pinto num capítulo inteiro a rectificar o que, seguindo Bar- ros, escrevera anteriormente sobre a suposta morte de Pires em Cantão (52). Depois, em 1829, Abel-Rémusat (53) faz um relato das aventuras de Pires na China em parte baseado também na informação de Mendes Pinto. R. H. Major, na sua excelente Introduction (p. xxxvii) à History of China de Juan Gonzales de Mendoza, cita o relato de Rémusat a fim de completar a descrição que Mendoza faz da embaixada de Pires, que é mais (51) Peregrinação, cxvi. (52) Quando no final dos preliminares no Vol. l da sua Asia Por¬ tuguesa Faria c Sousa menciona os livros que utilizou, diz: «Fernando Men- dez Pinto Historia Indica dcl mismo tiempo (los dias del Rey D. Sebastian). De la verdad delia dudan muchos: y otros tantos que anduvieron por aquellas partes dizen que aun pudicra con ella dezir cosas mâs dificiles al credito. Yo lo tengo por muy verdadero, por muchas razones, que a cllo me sugetan. Però quando no lo sea, esso es en cosas que se quedan fuera de mis argumentos.» (53) Nouveaux Mètanges Asiatiques, ti, 203-6.
50 Tomé Pires e Francisco Rodrigues ou menos baseada em Barros, e defende Pinto a propósito da tirada de William Consgrave em Love for Love (1695) — «Fer- dinand Mendes Pinto era apenas do teu tipo, tu mentiroso de primeira grandeza» (54). Comentando a defesa que Major faz de Pinto, Ferguson escreve: «Surprende-me que um erudito tão categorizado como Mr. Major, na Introdução à edição de Mendoza pela Hakluyt Society, depois de se referir às supostas aventuras de Mendes Pinto na China, concluísse: "Julgamos que, no todo, as suas observações não deixam dúvida de que ele foi testemunha ocular do que regista'», (p. 36 n.). Para Ferguson tudo o que Pinto diz sobre Pires é «invenção», «descarada falsidade», «embuste». Não menos surpreendente é atitude semelhante de outio notável erudito, Henri Cordier. Depois de transcrever parte do relato de Rémusat sobie os encontros de Pinto com Inês de Leiiia e Vasco Calvo, Cordier, sem qualquer justificação, liquida toda a questão em seis palavras: «Pinto mentia e Rémusat enganou-se.» (55), Poderá este assunto ser liquidado tão sumariamente? Con¬ forme atrás se notou, Barros não menciona qualquer data para a morte de Tomé Pires, embora estivesse a seguir a carta de Vieira o qual declara que Pires morreu em Maio de 1524; e a cópia da carta de Vieira, publicada por Ferguson, está cheia de erros de toda a espécie. Castanheda, que em 1528 foi para a índia e lá permaneceu cerca de dez anos, mostra que nada de positivo sabia sobre a morte de Pires e ainda menos a sua data; mas informa que a ordem para a prisão de Pires e seus companheiros deter¬ minava «que estivessem apartados uns dos outros». Gaspar Correia, que em 1512 foi para a índia e lá viveu muitos anos (foi na índia, onde morreu, que escreveu as Lendas), ocupando (54) Deve notar-se que Consgrave pòe a graçola sobre Pinto na boca de Foresight, o pateta da comédia, «um sujeito ignorante, impertinente c teimoso, supersticioso, e pretendendo saber de astrologia, quiromancia. fisionomia, agoiros, sonhos, etc.». (55) Varrivée des Porlugais en Chine, p. 520.
Introdução 51 postos tais como o de secretário de Afonso de Albuquerque, diz muito positivamente que depois da sua prisão em Cantão Pires foi levado para outra cidade onde viveu muito tempo. Além disso o próprio Ferguson cita uma fonte chinesa, mencio¬ nada por Mayers em Notes and Queries, na qual se declara que «o interprete sofreu a pena capital e os seus homens foram enviados presos para Cantão, e expulsos para além das fronteiras da pro¬ víncia». Mayers diz em nota que o intérprete em questão seria o próprio Tomé Pires. Ferguson, baseando-se na carta de Vieira, declara que isto é um erro: «os interpretes indígenas é que foram degolados». Mas Cordier (p. 521) concorda com a interpretação de Mayers. O que parece mais provável é que a confusa referência queira dizer que os intérpretes foram dego¬ lados, e os Portugueses que escaparam à morte foram expulsos da província de Cantão. Como já se mostrou, parece, do que Vieira diz, que Pires se encontrava noutra prisão e não está claro ter ele querido dizer que também o Embaixador morreu. Além disso é bastante estranho que Vieira desse informação tão por¬ menorizada sobre a morte dos seus companheiros e fosse tão breve quanto à morte do mais importante dos Portugueses em Cantão — o próprio Embaixador. Ele nem mesmo diz o dia da morte, nem o que aconteceu ao corpo. Pires estava noutra prisão, e parece evidente que Vieira colheu a sua informação em segunda mão. Que Vieira e Calvo não estavam muito bem informados se depreende, entre outras coisas, da sua ignorância da morte de Jorge Alvares em 1521 em Tamão. É muito possí¬ vel que os Chineses tivessem propositadamente enganado Vieira, dizendo-lhe que Tomé Pires moriera, quando de facto ele tinha sido enviado para fora de Cantão, conforme as instruções de Pequim. Contra a dúbia informação de Vieira existe prova bastante positiva a mostrar que é injustificável classificar a infor¬ mação de Fernão Mendes Pinto como «descarada falsidade». Um ponto importante que Ferguson descuidou na carta de Vieira: «As mulheres dos línguas assim as de Tomé Pires, que ficaram em esta cidade no ano presente foram vendidas
52 Tomé Pires e Francisco Rodrigues como fazenda de traidores» (foi. 112). Se Pires tinha «mulhe¬ res» antes de 1524, e estava aproximadamente nos 50 anos quando em 1517 chegou a Cantão, nada tem de tão extraordinário que Pinto em 1543 tivesse encontrado uma mulher que lhe disse ser filha do desafortunado embaixador português e duma mulher chinesa. Quanto ao encontro de Pinto com Calvo, Ferguson baseia a sua afirmação de «embuste» principalmente na suposição de que a carta de Calvo tivesse sido escrita em 1536. Conforme se disse atrás é mais razoável assumir que Pinto foi verdadeiro do que dizer, como Ferguson: «Pode-se ter como absolutamente certo que Vasco Calvo morreu na prisão em Cantão dentro de um ano ou dois depois de ter escrito a carta de 1536» (56). Existe, porém, uma incongruência evidente quando Pinto informa que Inês de Leiria lhe dissera que sua mãe fôra casada com Tomé Pires durante vinte e sete anos, incongruência que se repete quando Pinto afirma que Calvo lhe dissera que havia já vinte e sete anos desde que ele e Pires foram aprisionados; como eles foram presos em 1522, apenas tinham decorrido vinte e dois anos, não vinte e sete. Esta inexactidão parece mais de estranhar porque Pinto mostra ter lido o que os cronistas sobre o assunto escreveram, e podia ter facilmente verificado a sua estimativa (57). (56) Op. cil., p. 38. Ferguson não diz a razão do seu «absolulamente certo». Na introdução à sua edição da Peregrinação (Lisboa 1908) J. I. Brito Rebelo já notara (p. xxiv) que Ferguson não fizera caso da referência na carta de Vieira às «mulheres dos intérpretes e também às de Tomé Pires» c a tão gratuita como peremptória afirmação sobre Vasco Calvo. A parcia¬ lidade de Ferguson contra Mendes Pinto é demasiado evidente. Sobre as referências de Pinto ao terrível massacre dos Portugueses em Liampó e Chang- -chou (Chincheo) em 1545 e 1549, Ferguson comenta: «Eu considero estas duas histórias pura ficção, sem qualquer fundamento de factos; e sinto-me mesmo muito duvidoso de que a tal ilha 'Lampacau' jamais tenha existido fora da imaginação do escritor» (p. 39). Pinto estava certo, porém, como já foi reconhecido pelo próprio Cordier (op. cil., p. 523) entre outros. (57) Pinto não começou a escrever a Peregrinação antes de 1569; ora o Livro V da Historia de Castanheda e a Década 11/ de Barros foram publicados pela primeira vez em 1554 e 1563 respectivamente. Brito Rebelo.
Introdução 53 Por outro lado, se Pinto desejasse inventar a história sobre Pires, com o propósito de enganar os seus leitores, podia facilmente fazê-la parecer mais verdadeira ajustando a sua descrição aos relatos dos cronistas e mencionando Vieira, sobre quem aliás nada diz. Que ele o não fez, é mais uma prova da sua boa-fé. Pinto regressou do Oriente a Portugal em 1558 e só onze anos mais tarde começou a escrever a Peregrinação; depois de tantas aventuras não é de crer que ele tivesse podido conservar um livro de notas, pelo menos daquele primeiro período (58). Ele escrevia de memória, e maravilhosa memória era a sua. Não é de admirai que devido a um lapsus memoriae ou mesmo um simples lapsus calatni ele escrevesse vinte e sete em vez de vinte e dois anos. Também o que Inês de Leiria contou, conforme o que Pinto nos transmitiu, carece de ajustamento num ou dois pontos meno¬ res. Quanto a inexactidões não se deve esquecer que ela falou a Pinto em chinês, porque apenas poucas palavras conhecia de português, e Pinto pode ser desculpado por ter cometido alguns, não muitos, erros quando passados vinte e seis anos escrevia de memória. Ele nem mesmo se recordava do ano em que Pires morreu, o que Inês de Leiria certamente lhe diria e Calvo também lhe deve ter dito; se realmente desejasse enganar, podia inventar mais uma data. A mãe de Inês de Leiria deve ter sido uma das mulheres de Tomé Pires, referidas por Vieira, que em 1524 «foram vendidas como fazenda de traidores». Quando em 1520 Pires foi de Nanquim a Pequim pelo Grande Canal, e também no seu regresso uns meses mais tarde, ele passou pela cidade de ainda convencido dc que Pires realmcntc morrera cm Cantão cm 1524, julga que quando o MS da Peregrinação foi «corrigido» antes dc ser publicado, «os correctores do livro transferiram para o pai o período de tempo que se referia à filha». Loc. cit. (58) Contudo Pinto refere-se nos capítulos cv, cvt e cvtt a «um livrinho, que trata das grandezas de Pequim, chamado Aquesgdo, que eu trouxe a este Reino». 5
54 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Sampitay, tal como Pinto vinte e três anos mais tarde. É de crer que numa daquelas ocasiões Pires tivesse encontrado a mãe da futura Inês de Leiria. Não sabemos para onde, em 1524, ele foi banido de Cantão, mas não lhe seria difícil dirigir-se a Sampitay, onde a mãe de Inês «tinha alguma coisa de seu». Embora Pinto não nos diga em que ano Pires morreu, parece pelo seu relato que este já morrera alguns anos antes daquele ter encontrado Inês de Leiria, talvez não muito antes de 1540. Pires certamente tentou comunicar com Malaca, mas segundo parece sem resultado, pois durante uns vinte anos depois de 1524 os Portugueses infelizmente não eram consentidos na China, e as comunicações com o mundo exterior tornaram-se muito mais difíceis; embora talvez não tivesse sido impossível a Pires enviar alguma carta ou outra mensagem para fora da China, decerto não era coisa fácil. sampitay. Quanto a Sampitay, é possível deduzir do relato de Pinto que corresponde à actual cidade de P'ei chou ou Hsin- -p'ei-chou. um lugar cerca do limite norte da província de Kiangsu. A frequência com que, através dos séculos, os nomes de lugares chineses mudam, torna extremamente difícil a identificação dos que são mencionados em antigos relatos. Tais perplexidades, como as que encontramos na descrição que Pinto faz da sua viagem de Nanquim a Pequim, aparecem em quase todas as narrativas deste género. A viagem de Pinto, conforme ele a descreve nos caps. lxxxvii-c da Peregrinação, pode ser suma¬ riada assim: com os seus oito companheiros portugueses e trinta ou quarenta outros presos, Pinto embarcou numa lantea (barco a remos rápido) e partiram de Nanquim uma manhã cedo. Ao pôr do sol chegaram à aldeia de Ninhacutem, donde era natural o homem deles encarregado, o Chifu, como lhe chamavam, onde ficaram três dias. Pinto refere-se à «impetuosa corrente» do rio (Yangtze) cujo nome era Batampina, que quer dizer «rio flor». Talvez por causa da «quantidade infinita» de peixe que nele há. No quarto dia de viagem chegaram a Pocasser, uma
Introdução 55 boa cidade, duas vezes tão grande ou maior que Cantão, onde havia um grande pagode. Partiram no dia seguinte e chegaram a outra grande cidade chamada Xilingau. Seguindo pelo rio acima viram grandes campos com muito gado vacum e outro, durante umas dez ou doze léguas, e chegaram à pequena cidade de Junquileu. Encontraram aqui o mausoléu do embaixador Trannocem Mudeliar, tio do rei de Malaca, que havia quarenta anos viera à China pedir auxílio contra os Portugueses (59). O rio era então mais estreito que em Nanquim. As margens* pelo rio acima são povoadas «de cidades, vilas, aldeias, lugares, fortalezas e castelos». Onze dias mais tarde chegaram à cidade de Sampitay, onde ficaram cinco dias. Depois de passarem por muitas outras cidades e lugares, e cidades inteiramente for¬ madas por barcos, chegaram a Pequim em 9 de Outubro de 1543. Examinemos agora esta parte do itinerário de Pinto. Diz ele que no quarto dia da sua jornada, e depois de ter parado (59) Esta cidade é referida nos Comentários (III, xxx) como Jan¬ il ui leu, e o embaixador nialaio chamado Tuão Nacem Mudaliar. O mausoléu tinha uma inscrição que os Comentários e Pinto dão praticamente nas mesmas palavras; mas as descrições que fazem do próprio monumento são muito diferentes, de modo que Pinto dificilmente poderia ter tomado a história dos Comentários (cuja primeira edição data de 1557, ao passo que a Pere¬ grinação só foi começada a escrever uns doze anos depois). Parece-me mais provável que algum dos companheiros de Pinto, ou ele mesmo indirec- tamente, tenha dado a informação utilizada pelo autor dos Comentários. É óbvio que Pinto escreveu qualquer coisa como Tuan nacem. que o editor da Peregrinação erradamente leu como Trannocem, como exactamente acon¬ teceu a muitos outros nomes exóticos. Não é fácil ajustar este nome — Tuam Nacem Mudeliar, ou Tuan Hasan Mudeliar — no complicado período da confusa história malaia antiga. Pires refcre-sc a Tuam Açem ou Tuan Hasan; mas parece que ele era primo coirmão, não tio, do rei Mahmud de Malaca, que em 1510 ordenou que ele e outros membros da sua famí¬ lia fossem mortos. Vide p. 407. Malaca foi tomada pelos Portugueses em 1511, de modo que a viagem do embaixador de Malaca à China fora cerca de trinta, não quarenta, anos antes.
56 Tomé Pires e Francisco Rodrigues três dias em Ninhaculem, chegou a Pocasser, que parece corres¬ ponder a Chinkiang (60). Ninhaculem não ficaria muito longe de Chinkiang, pois estava apenas a um dia de distância de Nan¬ quim, o que, graças à «impetuosa corrente», era bastante para cobrir os 70 Km. de rio que separam as duas cidades. Daí foi a Xilingau, que deve corresponder a Yangchow (61), a mais importante cidade no começo do Grande Canal a norte do Yangtze. 45 li (uns 26 Km) de Chinkiang. Pinto diz que um dia depois de passar por outro lugar 5 léguas além de Xilingau viu grandes campos durante 10 ou 12 léguas antes de Junquileu. O lugar 5 léguas além de Xilingau deve ser Shaopo, a cidade importante seguinte, que fica a 50 li (uns 29 Km) de Yangchow; Junquileu corresponderá a uma pequena cidade, a que Gandar chama Wei-kué-leou — Wei-ch'ueh-lou em inglês —, entre Fanshui e Paoying, cerca de 160 li (uns 92 Km) de Shaopo actualmente (62). (60) No cap. lxxxix Pinto refere-se à grandeza de Pocasser e no Cap. ccxxii menciona a libertação de «uns cinco Portugueses que havia mais de vinte anos que estavam presos na Cidade de Pocasser». Em ambos os casos Pocasser deve corresponder a Chinkiang. Dificilmente poderia ser gralha tipográfica. Mas não consigo encontrar qualquer explicação para o nome. O Prof. Moule diz-me: «No século xvi Chinkiang não era cha¬ mada coisa alguma parecida com Pocasser. A única hipótese c que algumas cidades ocasionalmente tinham nomes populares que não ficaram registados nas histórias oficiais». Poderá ser isso o que aqui acontece. Como, segundo Pinto diz, o Chifu era natural de Ninhaculem, uma aldeia perto de Pocasser, é muito natural que ele tivesse ouvido esse nome, como outros nomes ao longo do caminho, ao seu guarda indígena. (61) J. B. du Haldc na sua descrição do Grande Canal, indo de norte para sul, diz: «...la ville de Yang tcheou, l'un des plus célèbres ports de 1’Empirc. Peu après il (o Canal) entre dans le grand fleuve Yang tse Kiang, à une journéc de Nanking.» Descriplion de 1'Empire de Chine, III, 156. (62) Para estas distâncias sigo a importante obra de Gandar, Le Grand Canal. pp. 66-75, que descreve o itinerário do Canal de Hangtcheou (Hangchow) a Pequim. F. J. Maycrs, porém, dá um itinerário ou tabela de distâncias para esta parte do Canal, entre Chinkiang e Chunghing, cujo total perfaz 511 li. Record of a Trip in Norlh-Easl Kiangsu, October 1920, p. 29. As distâncias dadas por Gandar para a mesma parte do Canal montam
Introdução 57 Onze dias depois de Junquileu Pinto chegou a Sampitay a cidade onde provavelmente Pires morrera uns anos antes. Esta cidade deve ser Hsin P’ei chou (lat. 34° 25', long. 118° 6'), que hoje fica a pouco mais de nove quilómetros a nordeste do ponto mais perto na margem do Grande Canal, na vizinhança dum pequeno lago ou paul, num emaranhado de valas e pequenos canais. P"ei chou é Pingiu ou Piju de Marco Polo, a que ele chama «uma grande, rica, e nobre cidade, com grande comér¬ cio, vastas manufacturas e uma grande produção de seda. Esta cidade fica à entrada da grande província de Manzi, e aí vivem numerosos mercadores que deste lugar enviam carros com grande quantidade de mercadorias para diferentes cidades de Manzi» (63). É também mencionada num Itinerário de 1276, traduzido numa edição crítica por A. C. Moule. Yen Kuang-ta, o autor do Itinerário, diz que, viajando de barco, «parou à noite fora dos muros de P"i chou ... Todos os oficiais foram visitar a cidade de P’i chou. Os muros da cidade e as paredes das casas estavam desmantelados, e o povo vivia nas ruínas. Daí por diante todas as cidades por que passámos estavam na mesma condição. Ficámos de noite desabrigados na margem» (64). Parece que isto aconteceu depois da descrição de Marco Polo ou, mais provavel¬ mente, que a cidade foi recuperada antes dele deixar a China em 1292. P i chou, P'ei chou ou Peichow são os nomes que geralmente se encontram em cartas e livros modernos. Mas, por exemplo, numa carta de 1928 «Compiled by Messrs. The Asiatic Petroleum Co. (N.C.), Ltd., Shanghai» ele aparece como Sinpichow, e no China Postal Atlas, publicado em 1919 em Pequim, os caracteres chineses que indicam esta cidade têm o mesmo significado. a 485 li, com diferenças parcelares que chegam a 20 li (quase 12 km.). Um li é igual a 576 m. (63) II, lxiii. Yule, Marco Polo, 11, 141. Vide Moule, Hangchou lo Shang-tu. (64) Loc. cit., p. 397.
58 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Nesta edição do Postal Atlas a leitura correcta dos três caracteres é Hsin P"ei chou; além destes há depois outros caracteres entre parênteses que se lêem P"ei hsien. Hsien quer dizer distrito. Numa edição mais recente do Posta! Atlas (Nanking 1933) o lugar, a par dos dois caracteres chineses tem a palavra corres¬ pondente Pi hsien. de acordo com a moderna nomenclatura oficial chinesa, chou tendo sido mudado pela República para hsien, que significa «novo», muitas vezes se escreve sin ou, no caso de lugares no sul, sun. Por exemplo, um Cantonês leria sun o mesmo carácter que no norte se lê hsin ou sin. Sob a epígrafe Hsia P'ei, i.e., Baixo P'ei, um Dicionário Geográfico Chinês moderno (65) diz que a velha muralha de Hsia P’ei (ou antiga P’ei chou) ainda existe a leste da actual P’ei — três li a leste de P'ei chou, segundo Playfair (66). Do atrás referido Itinerário de 1276 vê-se que a cidade de P'ei estava então em ruínas, talvez como consequência da conquista mongol ou das terríveis inundações que no século xm forçaram o Rio Amarelo a mudar de curso e assim a correr através da região onde P'ei estava situada, ou como consequência de ambas. É evidente que no tempo de Pires e de Pinto uma nova cidade fôra há muito construída na margem do Canal, a oeste da outra arruinada, e talvez chamada Hsin (ou Sun) P'ei, i.e. Nova P’ei. Tai quer (65) Chung kuo ku chin ti ming tu tz’u tien (Dicionário Geral dos antigos e modernos topónimos da China), Shangai, Commercial Press, 1931. Segundo este Dicionário, no «Later Han (A.D. 25-220)» a sede do Governo do Reino Hsia P'ei era na «Velha Muralha de Hsia P’ei». «A Velha Muralha está a leste de P’ei Hsien no moderno Chiang-su» (Kiangsu). Embora a cronologia em casos tais nem sempre seja muito clara e por vezes mesmo contraditória, depreende-se dos quatro artigos referentes a P‘ci no Dicio¬ nário (pp. 48 e 537) que o nome e estatuto da cidade mudaram várias vezes através dos séculos; parece também que mais duma vez mudou de lugar. Nenhum dos quatro artigos refere quer a «velha» quer a «actual» cidade como Hsin, «Nova», mas pelo menos as duas cartas acima mencionadas são bem explicitas. (66) The Cities and Towns of China, 2549.
introdução 59 dizer «terraço» e t'i (ou Vai em cantonês) quer dizer «dique» ou «margem» (67). Atrevo-me a sugerir que no tempo de Pinto o lugar se chamava Hsin ou Sun P'ei t'ai, i.e., Sampitay, ou pelo menos que esse era o nome usual entre os barqueiros e por isso era o que lhe chamavam quando falavam com Pinto. Esta parte da província de Kiangsu, atravessada pelo velho curso do Rio Amarelo, tem sido através dos séculos cenário de cheias terríveis, consequentes mudanças na hidrografia da região e provavelmente no curso do Canal (68), sendo muito possível que depois do tempo de Pinto o Canal se tenha deslocado para oeste. Este ponto do Canal está a 480 li, ou 276 Km, de Wei- -ch’ueh-lou ou Junquileu, o que representa uma média de uns 25 Km diários durante os onze dias que Pinto levou para cobrir essa distância, com várias comportas ou açudes a atravessar (69), e a água correndo fortemente de norte para sul. Não admira que Pinto escievendo Sampitay dê uma melhor versão deste topónimo que em muitos outros casos. Não só ele aí se demorou mais tempo que em qualquer outro lugar durante a sua viagem, mas o encontro com Inês de Leiria e a história que ela lhe contou sobre Tomé Pires deve tê-lo impressionado mais do que qualquer outro acontecimento, e assim se deve melhor ter fixado na sua memória. É fácil encontrar várias inexactidões na narrativa de Fernão Mendes Pinto, mas em muitos pontos a sua boa-fé não pode ser posta em dúvida. Devemos, porém, admitir algumas inexactidões, devidas ao facto de que ele escrevia de memória muitos anos mais tarde, o que fez com que misturasse vários dos muitos nomes exóticos (67) H. A. Giles, A Chinese-Englisli Diclionary, 10.577, 10.914, 10.917. (68) Vide Gandar, op. cil., pp. 29 seqq. Numa carta publicada por Yule, Marco Polo, II, 144, Pcichau está situada na margem oriental do Grande Canal e apenas a poucos quilómetros a norte do velho curso do Rio Amarelo «de circa A.D. 1200 a 1853». (69) Gandar, op. cit., p. 26. W. J. Garnett, Reporl of a Journey ihrough rhe Provinces of Shantung and Kiangsu, p. 19. London 1907.
60 Tomé Pires e Francisco Rodrigues orientais, ao facto de que não conhecemos o manuscrito do seu livro e, certamente o responsável pela edição da Peregrinação (só publicada vinte e um anos depois da morte de Pinto) não pôde compreender a maior parte dos nomes de lugares e pessoas escritos por Pinto e provavelmente corrompeu muitos deles, como no caso de Tuam Nacem atrás referido. No caso de Tomé Pires, como em muitos outros, o estudo minucioso do problema tem mostrado quão inconsistentes e injustas podem ser as acusa¬ ções lançadas sobre Fernão Mendes Pinto pelos seus detiac- toies(70). Há ainda muitos pontos na Peregrinação aguar¬ dando que sejam destrinçados e explicados — talvez aguardando em vão — como tem acontecido com muitas narrativas antigas. Mesmo no Livro de Marco Polo, apesar dos estudos exaustivos a que tem sido sujeito, há pontos que não podem ser compreen¬ didos. Em quase todas as crónicas ou antigas narrativas de viagens se encontram nomes de lugares que não podem ser iden¬ tificados, afirmações contraditórias e datas erradas, como cons¬ tantemente se pode ver na sucessão de notas que acompanham esta edição da Suma Oriental de Tomé Pires. Contudo ninguém se lembra de dizer que Correia, Galvão, Castanheda, Barros, Couto ou qualquer outro escritor antigo mentiu, ou escreveu descaradas falsidades ou embustes quando o que dizem não corresponde perfeitamente à verdade estabelecida e provada. As andanças e aventuras de Fernão Mendes Pinto indubi¬ tavelmente constituem um dos mais maravilhosos capítulos na história de viagens, e o belamente escrito livro que ele legou à posteridade é na verdade uma jóia neste fascinante género de literatura. O grande viajante e escritor certamente merece um (70) Georgc Philips escreve: «Eu tenho cm meu poder um exemplar da edição do Marco Polo de Marsdcn, a qual em 1826 pertenceu ao Dr. Mor- rison, que disto oferece uma curiosa ilustração, porque no fim do livro encontro escrita a lápis a seguinte apreciação do carácter do grande viajante: 'Com toda a deferência pelo sábio Vcneziano, chego à conclusão de que ele é um consumado mentiroso.’» The Seaporis of índia and Ceylon, p. 215. Fernão Mendes Pinto ainda tem que achar o seu Sir Henry Yule.
Introdução 61 tratamento mais justo, e a sua memória deve ser invocada com mais respeito. Na verdade já não é cedo para prestar a Fernão Mendes Pinto a reparação a que tem direito (71). (71) Uma das muitas aventuras extraordinárias de Pinto, durante os vinte e um anos que passou no Oriente, foi a sua entrada em 1554 como noviço na Companhia de Jesus e tê-la abandonado em 1556 — grave e imper¬ doável ofensa, segundo alguns julgam. Cristóvão Aires, um dos seus bió¬ grafos, escreve: «A animadversão dos Jesuítas contra Pinto, a ponto de man¬ darem suprimir o seu nome de todos os seus registos, muito contribuiu para o sistemático descrédito da Peregrinação.» Fernão Mendes Pinto e o Japão. p. 3. Pinto escreveu duas cartas à Companhia, enquanto esteve ao seu serviço, uma de Malaca em 1554, e outra de Macau em 1555; os Jesuitas publicaram a primeira destas cartas mas não a segunda, e mais tarde o nome do autor foi apagado ou alterado em ambas elas. Vide o muito interessante e valioso trabalho de Jordão de Freitas, Fernão Mendes Pinto. pp. 57-60. Vários historiadores jesuítas utilizaram o manuscrito da Peregrinação antes de ser impresso; o primeiro deles foi G. Pietro Maffei na sua Historia Indica (1589), mas a menção do nome de Pinto foi cuidadosamente evitada. Na sua Historia da Igreja no Japão o Jesuíta João Rodrigues, de alcunha Tçuzzu (1561-1634), refere-se a Pinto apenas para rotular a Peregrinação de «seu livro dos fingimentos». A. Cortesão, Cartografia, I, 165-6; idem, A Expan¬ são Portuguesa através do Pacifico, pp. 170-2. A Peregrinação foi publi¬ cada pela primeira vez em Lisboa, 1614, depois de ser corrigida pelo cronista Francisco de Andrada. Francisco Fíerrera Maldonado, cuja tradução espanhola da Peregrinação foi em 1627 publicada em Madrid, diz na sua introdução: «Francisco de Andrada, Cronista-mor daquele Reino de Por¬ tugal, recebeu este escrito original de Fernão Mendes Pinto, para o ordenar, corrigir e arranjar antes de ser impresso ... mas ele deixou este livro tão imperfeito que em vez de o corrigir o danificou, de modo que o arranjo errado que lhe deu foi a causa de a sua verdade originar dúvidas e juízos entre gente de espírito acanhado» ... foi. lv. Isto explicará por que a Pere¬ grinação, depois de corrigida, não faz a menor alusão a acontecimentos tão importantes na vida de Pinto como os três anos que esteve na Companhia de Jesus, período durante o qual o Governador-Geral da índia o enviou como embaixador oficial ao Japão (1554-6). Tem-se dito que Pinto foi expulso da Companhia de Jesus «porque era marrano, i.e. de sangue judaico», e esta infundada fantasia já conseguiu mesmo entrar na Encyclopaedia Bri- tannica (í.v. Pinto, Fernão Mendes). Já noutro lugar mostrei que Pinto não foi expulso e que não era de sangue judaico. Fernão Mendes Pinto não era de origem judaica, in Seara Nova, N.° 842, 2 de Outubro de 1943,
62 Tomé Pires e Francisco Rodrigues resumindo — Demasiadas interrogações e dúvidas se encon¬ tram por toda esta tentativa de reconstrução biográfica de Tomé Pires, infelizmente. Mas, mantendo todas as reservas onde a prova é meramente circunstancial, a biografia do primeiro Embai¬ xador europeu à China pode ser assim esboçada: Tomé Pires nasceu cerca de 1468, talvez em Lisboa, onde deve ter vivido na Porta da Madalena, perto do canto nordeste da actual Praça do Comércio. Seu pai era boticário de D. João II, e o próprio Tomé Pires foi boticário do Príncipe D. Afonso. Em 20 de Abril de 1511, talvez então viúvo, Pires embarcou em Lisboa para a índia, onde chegou em 7 de Setembro ou uns dias mais Lisboa. [O sábio historiador Dr. Domingos Maurício Gomes dos Santos, S.J., escreveu a propósito da «suposta anatematização de Mendes Pinto pela Companhia de Jesus»: «O corte do nome ou das referências normais nas cartas de 1554 e 1555 e nos catálogos da Companhia de Jesus só se explica por inimizade ou pode ter explicação em evitar qualquer equívoco? O A. da Peregrinação foi simplesmente noviço e os Jesuítas não sentem inimizades por se averiguar que qualquer dos seus candidatos não tem vocação.» (Brotéria, Vol. 101, p. 237. Lisboa 1973.)] Se muitos Jesuítas no passado, e alguns no presente, atacaram Pinto, excepções se podem citar. Em 1710 o Padre Francisco de Sousa, S.J. escreveu no seu Oriente Conquistado: «...Pinto bem conhecido pelo livro das suas peregrinações, tão verdadeiro no juízo dos doutos como duvidoso na opinião do vulgo» (p. 106); em 1925 o Rev. L. Besse, S.J. c o Rcv. H. Holsten, S.J., escreveram: «A testemunha principal é Fernão Mendes Pinto, cuja veracidade sobre os acontecimentos da Birmânia entre 1545 e 1552 dificilmente pode ser posta em dúvida.» Father Manoel da Fonseca, S.J., in Ava (Burina) (1613-1652), p. 45, in Journal of lhe Asiatic Society of Bengal, vol. XXI, 1925. Embora muitos auto¬ res, tanto antigos como modernos, tenham verificado e proclamado a hones¬ tidade do autor da Peregrinação, o anátema foi lançado, e a calúnia nunca desapareceu de todo. Na última edição [1943, depois suprimido, tal como na última edição da Encyclopaedia Britannica, a referência acima citada) do RogeFs Tltesaurus of English Words and Phrases, «Fernão Mendes Pinto» ainda é dado como sinónimo de «embusteiro, mentiroso, charlatão, burro em pele de leão», etc. [Sobre Fernão Mendes Pinto e respectiva biblio¬ grafia vide a excelente e monumental obra de S. M. El-Rei D. Manuel. Livros Antigos Portugueses, II, 478-83. Londres 1932.)
Introdução 63 tarde. Em Lisboa ele fora nomeado «feitor das drogarias» na índia, mas depois de oito ou nove meses em Cananor e Cochim, Afonso de Albuquerque despachou-o para Malaca a fim de fazer um inquérito sobre algumas irregularidades, e também como feitor das drogarias, escrivão e contador da feitoria. Pires partiu de Cochim em Abril ou Maio e chegou a Malaca em Junho ou Julho de 1512. De Março a Julho de 1513 foi a Java como feitor duma armada. Deixou Malaca em fins de Janeiro de 1515 e chegou a Cochim em fins de Fevereiro. A maior parte da Suma Orienta! foi escrita em Malaca mas concluída na índia. Pires tencionava regressar a Portugal, mas o novo Governador- -Geral, Lopo Soares de Albergaria, seu velho amigo pessoal, escolheu-o, apoiado no conselho de outros capitães e fidalgos portugueses na índia, para ir à China como embaixador. Par¬ tiu de Cochim em fins de Fevereiro de 1516, fez escala em Pacem e foi a Malaca, donde em 12 de Agosto largou a caminho da China. Tempo adverso fez com que a esquadra que acompa¬ nhava Pires regressasse a Malaca; de novo partiu de Malaca em Junho de 1517 e chegou a Tamão em 15 de Agosto, e a Cantão em fins de Setembro, desembarcando cerca de um mês mais tarde. Depois de mais demoras desesperantes, Pires e a sua comitiva partiram de Cantão em 23 de Janeiro de 1520, chegaram a Nanquim em Maio, e antes de Fevereiro de 1521 estavam em Pequim, tendo viajado pelo Grande Canal. Depois de ter sido muito mal recebido pelos funcionários da corte, Pires deixou Pequim em 22 de Maio, sem ver o Imperador, e estava de regresso a Cantão em 22 de Setembro de 1521. Pires e os seus com¬ panheiros foram imediatamente presos, e em 14 de Agosto de 1522 ele foi posto a ferros. Banido de Cantão em fins de 1523 ou começos de 1524, Tomé Pires foi para Sampitay, uma povoação nas margens do Grande Canal, onde dois anos antes, quando viajava entre Nanquim e Pequim, ele encontrara uma mulher chinesa com alguns bens da qual tivera uma filha chamada ínês de Leiria. Pires deve ter morrido em Sampitay não muito antes de 1540, quando tinha cerca de 70 anos. Sampitay corres-
64 Tomé Pires e Francisco Rodrigues ponde à actual pequena cidade Hsin-P'ei-chou, Sinpichou ou Pihsien, perto da fronteira norte da província de Kiangsu. Tomé Pires dificilmente poderia tei imaginado que futuro lhe estava reservado ao aceitar a chefia daquela malfadada embaixada à China. Quando estava prestes a regressar a Por¬ tugal, feliz e rico, surge-lhe o que parecia uma oportunidade dourada de elevação em categoria social e aumentar enorme¬ mente a sua riqueza em conhecimentos e em dinheiro. Mas não só perdeu tudo o que tinha como, depois de terríveis sofri¬ mentos, ansiedades, humilhações e misérias, veio a morrer igno¬ rado, esquecido e sem esperança nalguma pequena cidade daquela longínqua sempre misteriosa e estranha China. Depois de se ler a Suma Oriental e saber como foi escrita nos pequenos inter¬ valos duma vida extremamente ocupada, pode ter-se a certeza que, desde a partida de Cochim em 1516 até a sua morte na China vinte e tal anos depois, Pires continuou a escrever. Por Gaspar Correia se sabe, conforme atrás referido, que antes de 1524 Pires enviou ao Governo da índia «um livro em que lhe dava conta das riquezas e grandezas do Rei da China». Mas nem vestígios hoje existem desse precioso livro, nem tão-pouco do livro que trata dos «pesos e medidas em todos os diferentes lugares» do Oriente, que o próprio Pires anuncia na Suma. A Suma Oriental e a carta de 27 de Janeiro de 1516 «sobre as dro¬ gas e onde elas nascem» podem dar-nos alguma ideia do que Tomé Pires teria escrito sobre aquela China que ele conheceu tão infi¬ mamente. Uma breve referência na carta de Cristóvão Vieira dá alguma ideia do rigor que Pires pôs no seu estudo da China — «Nanquim, dizia Tomé Pires que está em 28 ou 29 graus; Pequim, que está em 38 a 39» (72). A latitude correcta de Pequim é 39° 54' e a de Nanquim 32° 5'. Nanquim é evidentemente um engano de Vieira; talvez ele quisesse dizer Nan-chang (72) Voretzsch, op. cit., p. 62. O nome de Tomé Pires que aparece nos fragmentos de Lisboa da carta original de Vieira, foi aqui omitido na cópia de Paris (foi. H2v.).
Introdução 65 (lat. 28° 30’ N.), por onde Pires provavelmente passou na sua viagem entre Cantão e Nanquim. Foi uma grande perda para a história da ciência e da geo¬ grafia o desaparecimento do que Tomé Pires escreveu sobre a China, tanto o que ele enviou antes de 1524 como o que nunca conseguiu contrabandear para fora da China. A «SUMA ORIENTAL» DE TOMÉ PIRES o manuscrito DE lisboa — Além do MS de Paris há um outro na Biblioteca Nacional de Lisboa, sem nome de autor e contendo apenas uma porção da Suma Oriental. Esta cons¬ titui parte dum códice, MSS 299, que começa com uma Chrorlica geral dos reinos de Guzerate, fols. I-4!v., e é completado com a Soma horientall que trata do mar Roxo ate os chims, fols. 41 v.-98v. Faltam fols. 42-47. Segundo o índice no códice, anteriormente ele também continha uma Chronica troiana, que agora está no MS 298. Todo o códice está escrito claramente com a mesma letra de meados da primeira metade do século xvi. O começo é idêntico ao de foi. 118v. do códice de Paris, mas falta o texto desde «nacimento do njllo» até cerca do terceiro quarto da foi. 121 r, pois se encontrava nos últimos seis fólios desaparecidos; segue-se a descrição da Arábia, Ormuz, Pérsia, Noutaques, Ris- butos. Cambaia, Canará, Narsinga. Malabar, Bengala, Aracão, Pegu, Siâo, Camboja, Champá, Cochinchina, e China (73). Todo o resto — Ceilão, Choromândel, Arquipélago índico. Léquios, Japão, e a história de Malaca — falta por completo. Não só as epígrafes c ordem dos capítulos ou partes são diferentes nos dois MSS, mas ainda os textos diferem em muitos passos e (73) Os fólios nos MSS de Lisboa c de Paris correspondem da seguinte maneira: 41v. = 118v; 48r. a 59v. = 121r. a 125r.; 59v. a 63v. = I30r. a 131v.; 64 = 130r.; 65r. a 70r. = 132r. a 134r.; 70r. a 84v. = I25v. a I29v.; 84v. a 98r. - I34r. a 139v.; 98r. a 98v. = I6lr. a 162v.
66 Tomé Pires e Francisco Rodrigues é mais reduzido no MS de Lisboa, sobretudo nas descrições de Sião e da China. Algumas variantes entre os dois textos vão apontadas em notas de rodapé, quando necessário, mas muitas mais existem. O MS de Lisboa deve ser cópia de algum original agora perdido, que aliás não foi aquele de que se fez a cópia que cons¬ titui o MS de Paris. Embora as reduções no texto até Bengala pudessem ser explicadas como mero desejo de simplicar por parte do copista ou de quem mandou fazer a cópia, a mesma simples explicação se não pode aplicar ao muito reduzido texto depois da desci ição de Bengala. Por outro lado, o MS de Lis¬ boa. pelo menos na passagem referente a Malik ‘Aiyaz, acrescenta alguma informação à que é dada pelo MS de Paris (74); a data 1522 mostra que foi acrescentada muito depois do original ser escrito e não pelo próprio Pires. Não só aí se encontram pala¬ vras e passagens que estão erradas no MS de Paris e correctas no MS de Lisboa, mas vice-versa, palavras como agenb e çamar- cante naquele aparecem erradamente escritas neste. É possível que o MS de Lisboa seja cópia de algum relatório preliminar que Pires tivesse enviado não muito depois da sua chegada a Malaca. Ele deve ter recebido instruções, antes de partir de Lisboa, para enviar relatórios no género da Suma Oriental, sobretudo de carácter económico embora com um fundo his¬ tórico. Talvez Pires se referisse a este relatório preliminar, ou algum outro escrito pouco depois, quando na carta de Malaca de 7 de Novembro de 1512 diz a seu irmão: «A el-Rei nosso Senhor escrevo Iargamente das coisas de Malaca», e depois acrescenta que esta é enviada com outras cartas para o «senhor Jorge de Vasconcelos», o Provedor da Casa da Mina e índia, um antigo Ministério das Colónias. Durante a sua estadia em Malaca Pires deve ter podido colher muito mais informação sobre o Extremo Oriente, a ínsulíndia, e a própria Malaca com os países vizinhos, que mais tarde inclui na Suma Orientai Por outro lado não há dúvida de que a Suma OrientaI foi oficialmente (74) Vide nota 68, p. 165.
ESTAMPA IV As primeiras linhas referentes à China na Suma Oriental de Tomé Pires. Em cima - MS de Lisboa; em baixo - MS de Paris
ESTAMPA V Desenho panorâmico de Alor (foi. 43) por Francisco Rodrigues
Introdução 67 mantida secreta, e é muito possível que apenas da parte referente a matérias já do domínio público fosse pelas autoridades portugue¬ sas autorizada a transcrição e saída dos ciosamenle guardados arqui¬ vos oficiais; o MS de Lisboa talvez seja cópia de tal transcrição. a tradução de ramusio — No seu Primo Volume delle Navigationi et Viaggi, pela primeira vez impresso em Veneza cm 1550, Ramusio publica, depois do Libro di Odoardo Barbosa, o Sommario di tutti li Regni, Citta, & populi orientali, con li traf- fichi & mercantie, che iui si trouano, cominciando dal mar Rosso fino alli popoli dalla China. Tradotto dalla lingua Portoghese nella Italiana. A tradução foi feita dum original semelhante ao do MS de Lisboa (75), e contém a parte correspondente aos seis fólios que neste faltam. A tradução destas partes mostra muitas diferenças do MS de Paris; por exemplo, toda a secção desde a referência à escassez de chuva no Egipto até a descrição de Meca, em foi. 119v. do MS de Paris, falta em Ramusio. Mas também há diferenças entre o MS de Lisboa e a tradução de Ramusio; além de muitas outras menores, há uma longa omissão ao descrever o Golfo Pérsico. Após cinco linhas sob a epígrafe Del golfo Pérsico, Ramusio segue com os Naitaques, a que chama Motages, deixando de fora todo o conteúdo de fols. 54r.-57r. do MS de Lisboa sobre os lios Eufrates e Tigre, e acerca do Sofi. Quando se refere a Melique ‘Aiyaz, a tradução de Ramusio tem a mesma referência ao ano 1522 que o MS de Lisboa. Ramusio não sabia quem era o autor do relato que traduziu. No «Discorso di M. Gio. Battista Ramusio sopra il Libro di Odoardo Barbosa, & sopra il Sommario delle Indie Orientale» que precede a tradução de ambos, diz ele: «Do mesmo modo o sumário, segundo o que consegui averiguar, também foi com¬ posto por um cavalheiro português, que navegou por todo o (75) Conforme a Encyclopaedia Britanniea diz, o original deste Sumário de lodos os Reinos, Cidades, e Nações do Mar Vermelho à China nunca foi impresso ou notado em parte alguma. S.v. Ramusio, Gian Battista. 6
68 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Oriente, e tendo lido o Livro de Barbosa, desejou descrever quase as mesmas coisas à sua maneira e de acordo com a informação que recebera, e especialmente sobre aquela parte onde estão as Molucas, que têm para norte uma longa costa de terra firme, que alguns pilotos portugueses pensam, por informação colhida em Malaca, corre para leste; e segundo me disseram, ele tentou descrevê-la com mais pormenor do que era capaz, pois essa é uma das partes mais singulares e notáveis que o globo descreve, e completamente habitada e cheia de cidades e gente branca, dotada de bom intelecto e cortês, e havendo lá, além desta, muitas ilhas bem povoadas e abundando em tudo o que é preciso para o sustento humano. Contudo, quando ele regressou à pátria, se quis que o seu livro fosse visto, foi obrigado a dele suprimir toda aquela parte que, para o fim, trata das Molucas e das especiarias. E tendo eu nesse tempo ordenado, com grandes complicações e dificuldades, que o livro fosse transcrito mesmo em Lisboa, apenas consegui obter uma cópia, e mesmo essa imperfeita; e o mesmo fiz para o Livro de Barbosa em Sevilha. Tanto podem os interesses do príncipe. Eu bem teria querido que, assim como não deixei de ter todos os cuidados para obter estes livros, uma melhor fortuna os tivesse feito chegar às minhas mãos mais completos e mais correctos, e eu muito mais contente e rapidamente os teria impresso e publicado; não para qualquer outro fim ou propósito que não seja agradar aos estudiosos que têm prazer em tais leituras...» (76) Embora ele erradamente supusesse que o autor do Sommario tinha lido o Livro de Duarte Barbosa, que de facto foi escrito dois anos mais tarde, o relato de Ramusio é muito interessante. Vê-se que ele tinha obtido informação sobre a Suma Oriental, tal como a conhecemos pelo MS de Paris, mas não conseguiu obter uma cópia completa apesar de todos os seus esforços. (76) Esta tradução segue a edição de 1613 (I, 287v.). As palavras «i/uasi» e «& delle spetierie», e a frase «Tanto possono gl'interessi de! príncipe» não se encontram na edição de 1550 (I, 310v.).
Introdução 69 Quem quer que lhe forneceu a sua cópia incompleta teve de lhe dizer que o autor tinha sido forçado a deixar de fora toda a matéria referente às Molucas e às especiarias — uma história especiosa para disfarçar a sua incapacidade para conseguir melhor. O que era mais importante e interessante para Ramusio tinha ficado de fora, i.e., justamente a informação sobre as pre¬ ciosas especiarias, as Molucas e as outras ilhas da Insulíndia, de que nada mais se sabia além das vagas referências de antigos escritores, a fantasiosa descrição de Varthema, que nunca passou além da índia, o muito incompleto relato em segunda mão de Duarte Barbosa, e a excitante mas breve descrição de Pigafetta, tratando quase que exclusivamente da parte relativamente pequena que ele viu. É fácil de compreender a óbvia contrariedade de Ramusio. De acordo com a política de segredo em matéria de descobrimentos, seguida pela Coroa desde a primeira metade do século xv, as importantes informações sobre as Ilhas das Especiarias e as índias Orientais não podiam ser divulgadas. Embora a Espanha tivesse oficialmente desistido das suas pre- tençõesàs Molucas pelo Tratado de Saragoça (22 de Abril de 1529), os Espanhóis nunca desistiram, e os seus espiões não cessaram de tentar obter as informações que pudessem até 1580, quando começou aquele triste período da história portuguesa, em que Portugal esteve sessenta anos sob o domínio espanhol (77). Assim, a parte da Suma de Pires, que se consentiu transpirasse, ou que algum agente estrangeiro conseguiu obter — a que consta do MS de Lisboa e da tradução de Ramusio — nada mais con¬ tém do que informações relativamente pouco importante que toda a gente conhecia. O Sommario que chegou a Ramusio tinha sido expurgado de tudo o que fosse considerado segredo de Estado. (77) Vide o meu ensaio O Descobrimento da Australásia e a «Questão das Molucas», pp. 148 seqq. Tenho mesmo razões para crer que os Por¬ tugueses tinham já descoberto a Austrália em 1522, e que o segredo foi ciosa¬ mente guardado, como mostrei noutro ensaio — A Expansão Portuguesa através do Pacifico, pp. 155-9.
70 Tomé Pires e Francisco Rodrigues «Tanto possono gfinteressi del príncipe», como o célebre Vene- ziano tristemente diz. o manuscrito de paris — Já vimos que os 62 fólios contendo a Suma Oriental constituem a segunda parte do códice em que o Livro de Francisco Rodrigues ocupa a primeira parte. A cali¬ grafia é tão parecida com a das cartas de Tomé Pires existentes em Lisboa, que de princípio se pode julgar que a presente cópia da Suma foi escrita pelo próprio autor (78). Mas um exame cuidado mostra definitivamente que não foi feita pelo próprio Pires. Além das razões de ordem paleográfica, há muitas indicações no manuscrito que mostram tratar-se de mera cópia, a qual não podia ter sido escrita pelo próprio Pires. Por exemplo, na descrição da Pérsia, quem fez a cópia de Paris (foi. 122v.) escreveu Ydamca em vez de índia, que aparece correctamente no MS de Lisboa, e consequentemente na Iradução de Ramusio (vide n. p. 150). Quando se refere aos mercadores da Pérsia, o MS de Paris (foi. 124r.) tem cauo em vez de Cairo, o que está correcto no MS de Lisboa e em Ramusio (nota p. 158). No começo da descrição do «Reino de Cambaia» falta uma palavra no MS de Paris (foi. 125r.), mas no MS de Lisboa e em Ramusio a frase está completa (nota p. 163). Um pouco adiante o MS de Paris tem, erradamente, Dalmãs, que no MS de Lisboa é dado correctamente como gemte darmas, e igualmente em Ramusio (nota p. 163). Na descrição do «Reino de Narsinga» o MS de Paris (foi. 126r.) tem que, mas o MS de Lisboa dá correctamente porque, e o mesmo faz Ramusio; outro tanto sucede com arte num, e corte nos outros (notas p. 171). Quando se refere aos (78) O saudoso Cmte. Fontoura da Costa, a quem enviei algumas fotocópias da Suma Oriental para que pudesse comparar a caligrafia com a das cartas de Pires na Torre do Tombo, escreveu-mc dizendo que tinha con¬ sultado vários peritos c a primeira impressão era que a caligrafia da Suma «parece realmentc a de T. Pires». Mas investigações posteriores não deixam qualquer dúvida no meu espírito de que não é da mão de Tomé Pires.
Introdução 71 «Naires do Malabar», o MS de Paris (foi. 127v.) tem erradamente pequeno Douro, mas o MS de Lisboa tem correctamente pedaço douro (nota p. 178). Ao descrevei o «Reino de Cranganor» o copista do MS de Paris (foi. 128v.) saltou as palavras cõ a vimda dos portugueses he, que estão no MS de Lisboa (nota p. 187). Ao começo do Reino de Coniorim o MS de Paris (foi. 129r.) saltou as palavras O Reino de Coniorim cõfina, que estão no MS de Lisboa e semelhantemente em Ramusio; sob a mesma epígrafe parece que o copista do MS de Paris saltou toda uma linha — asy como nos chamamos a duques marquezes comdes & outros (nota p. 189). Na descrição do «Reino de Cochin- china» o MS de Paris (foi. 138v.) tem qoat0 Juncos, que é um engano por qoarenta, como está no MS de Lisboa e semelhante- mente em Ramusio (nota p. 250). Estas e outras divergências do mesmo género, algumas delas mencionadas nas notas, levam à mesma conclusão: o MS de Paris é uma cópia, que de modo algum se pode considerar feita pela mão de Tomé Pires. É possível que o códice mencionado por Barbosa Machado fosse o original. Infelizmente ele não diz onde se encontrava, mas talvez o tivesse visto na preciosa biblioteca real do Paço da Ribeira ou nos ainda mais preciosos arquivos da Casa da índia, que estavam no rés-do-chão do mesmo edifício, ambos destruídos pelo incêndio que se desencadeou quando Lisboa foi devastada pelo grande terramoto de 1755. Barbosa Machado publicou o Vol. ui da sua Bihliotheca Lusitana, onde se refere a Tomé Pires, em 1752. Não sabemos onde a presente cópia da Suma Oriental foi feita, ou como veio a ser encadernada juntamente com o Livro de Francisco Rodrigues. Contudo, quando em 1512 Rodrigues regressou da sua primeira visita às Molucas, Pires já estava em Malaca. Eles teriam gostos em comum, e talvez se tornassem amigos; poderiam ter-se encon¬ trado na índia antes de Pires partir para a China, e é muito possível que Rodrigues obtivesse uma cópia da Suma OrientaI — talvez para si feita especialmente. Mas mesmo que se não tenham encontrado na índia, certamente se encontraram em
72 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Cantão. Rodrigues era um dos capitães da armada de Simão de Andrade que em Agosto de 1519 chegou a Tamão, e Pires só em Janeiro de 1520 partiu para Pequim. É de crer que Pires, antes de partir de Cochim para a China, enviasse para Lisboa o original da Suma Orientai, de que certamente guardou uma cópia ou o primitivo rascunho. Quando os dois se encontraram de novo, Pires provavelmente mostrou a Suma Oriental a Rodri¬ gues, a qual este já teria visto na índia ou em Malaca, quando estava a ser escrita, ou Pires tê-la-ia mesmo entregue a Rodrigues, em vista das dificuldades e perigos que estaria antecipando. E se Rodrigues já não tinha uma cópia, então uma foi feita quando Pires ainda estava em Cantão ou pouco mais tarde. O facto é que o Livro de Rodrigues é da sua própria mão e a presente cópia da Suma Oriental está escrita na mesma qualidade de papel, o que fortemente sugere ter sido feita por ordem de Rodrigues e que esteve primeiro em seu poder. Pires introduz certa confusão na divisão da sua obra. Depois de dizer no «Proémio terceiro» que a «presente Suma será gizada de cinco rios principais — Nilo, Tigre, Eufrates, Indo e Ganges» — passa a afirmar que os cinco livros em que será dividido tratarão: o primeiro da Arábia a Cambaia, o segundo até Baticalá, o terceiro até Bengala, o quarto até a China, e o quinto será de todas as ilhas. Estas duas divisões não podem, claro está, ajustar-se uma na outra. Depois segue-se, sob a epígrafe «Divisão da presente Suma», uma nova divisão que não se ajusta em qualquer das anteriores. É também em cinco livros: primeiro — o começo da Ásia, da África até a Primeira índia; segundo — até o fim da índia Média; terceiro — da índia Alta até Odia; quarto — China, Léquios, Japão, Bornéu, Luções, e Macassars; quinto — todas as ilhas em pormenor, i.e. a Insulíndia. Parece que Pires seguiu aproximadamente esta ordem, mas o copista do MS de Paris, depois de começar a descrição do «Reino de Cambaia» (foi. 125r.) segue com os «Reinos na terra Canarim» (foi. 125v.), que pertence ao liv.° II e deve vir depois do «Reino de Goa»; o resto da descrição de
Introdução 73 Cambaia (fols. 130r.-131v.) vem depois da descrição do Malabar. Isto pode ser culpa do copista que escreveu ao cimo de foi. 125v. — «Aqui deixareis este e buscareis Cambaia que vai adiante», e também ao cimo de foi. 130r. — «Do Reino de Cambaia (é antes que os Reinos na terra canarim e após Cambaia os Canarins)». Parece menos provável que o engano partisse do próprio Pires; além disso, no MS de Lisboa e em Ramusio o texto segue-se na ordem devida. Sob a epígrafe «Patamares de Cambaia» (foi. 131r.) lê-se: «Atras na descricam do malabar achares que cousa sam». Mas o MS de Lisboa (foi. 62r.) diz: «Como adiante direy no malabar». Esta variante no MS de Paris será devida ao facto de o copista substituir adiante por atrás para ajustar a palavra ao arranjo da sua cópia. A mesma mão que escreveu Osorio na foi. 5r., também escreveu ao fundo de foi. 131 v.: «Aquj fenece o pr.° e atrás começa o seg° nos Canaris e baticala». Para ainda mais complicar, quando o MS de Paris foi reunido, as fols. 161r.-163v. (pp. 89-94 duma numeração anterior, talvez de quando o códice pertencia a Osório), con¬ tendo o resto do liv.° IV, que começa na foi. I39r. com o «Reino da China», foram colocadas depois do fim do liv.° V e o «Recon- tamento da Ilha de Ceilão», que conclui a foi. 160v. Também depois de terminar o liv.° V com o «Recontamento de todas as Ilhas», Pires escreveu sobre Ceilão (foi. 160), que não menciona em qualquer das divisões da Suma. Ele explica, porém, no começo do «Recontamento da Ilha de Ceilão»: «Por levar a costa da terra firme não curei de me entremeter na Ilha de Ceilão, e depois quase dela esquecido era, e não me pareceu coisa honesta deixar de falar nela, posto que seja em lugar entres- sachado fora de caminho, porém a míngua do papel mo fez e por não meter folha e quebrar a primeira ordenança». Isto mostra que ele tentou manter o seu plano original, pelo que a confusa disposição do texto no MS de Paris dificilmente se pode¬ ria considerar da sua responsabilidade. Por este motivo o «Recontamento da Ilha de Ceilão» vai no fim do liv.° II, na presente versão (inglesa), depois de «Reino de Comorim», o
74 Tomé Pires e Francisco Rodrigues mais meridional do Malabar e da índia. Os últimos quinze fols. do MS de Paris (164r.-178v.) contêm uma longa descrição histórica, geográfica e económica de Malaca, que dificilmente podia sei ajustada no esquema gizado por Pires, mesmo no liv.° III, embora depois de Pegu e antes de Sião inserisse uma nota, aliás nada clara, a qual poderia sugerir que noutro lugar se tratava de Malaca. De modo que esta é, não sem razão, dada como Iiv.° VI na presente versão (inglesa). A ordem de todo o texto foi pois ajustada na versão inglesa, mas o texto português é impresso exactamente na ordem em que se encon¬ tra no MS de Paris; como já se disse, a numeração dos fols., que se mantém no original e na versão inglesa, ajudará os lei¬ tores a encontrar os trechos correspondentes nas duas línguas. Em resumo, a presente versão da Suma Orienta! está geo¬ graficamente divida, nas linhas gerais, como segue: Liv.° I — Do Egipto a Cambaia, com o Mar Vermelho, Arábia, Ormuz e Pérsia; Liv.° II — De Cambaia a Ceilão, com Daquem (Deccan), Goa, Canará, Narsinga e Malabar; Liv.° III — De Bengala à Indochina, com Brema (Burma ou Birmânia) e Sião; Liv.° IV — China a Bornéu, com Lequeos (Liu Kiu), Japão e Filipinas; Liv.° V — Insulíndia; Liv.° VI — Malaca. ONDE E QUANDO FOI ESCRITA A SUMA ORIENTAL — Embora d maior parte da Suma Oriental fosse escrita em Malaca, é provável que tenha sido começada e concluída na índia. Durante os dois anos e sete meses que viveu em Malaca, Pires estava extre¬ mamente ocupado com as suas funções oficiais, como ele pró¬ prio diz no fim do Proémio terceiro: «não me apartarei de culpa de qualquer descuido que eu tiver em não falar assim distinto como convém, porque em coisas de fazenda de V. Alteza em
Introdução 75 que era encarregado me exercitava o principal tempo, e este desta obra era o de benesse». É improvável que ele estivesse tão ocupado quando na índia, antes de embarcar para Malaca, e durante os doze meses entre o seu regresso à índia e partida para a China. Durante os sete meses depois da sua chegada à índia ele deve ter coligido muita informação e começado a escrever a Suma; e pelo final do Proémio se vê que a concluiu na índia. Outras passagens há que levam à mesma conclusão. Na descrição de Malaca Pires refere-se várias vezes ao que será dito na descrição da China, Samatra, Java, Bengala, etc., o que mostra tê-la escrito antes de muito do que diz sobre Malaca; mas referindo-se aos «Portos do Reino de Sião» (foi. 137r.), escreve êle: «como já é dito no Reino e termo de Malaca». Depois, ao ocupar-se dos pesos e medidas de Malaca (foi. 176r), diz: «agora recontarei de como (Malaca) foi tomada e do que sucedeu até o tempo de minha partida para Cochim». Isto mostra que mais tarde, provavelmente quando em Cochim, ele acrescentou ao que já escrevera em Malaca. Embora parte do que escreveu sobre a China, Bengala, e Insulíndia deva ter sido escrito na índia, certamente escreveu a maior parte quando ainda em Malaca. Por exemplo, ao descrever a «Terra de Sura- baia» (foi. 154r.) Pires diz: «Este (Pate Bubat) escreveu já a esta fortaleza e a ele já lhe escreveram duas vezes». A maneira como Afonso de Albuquerque é mencionado no Proémio — que deve ter sido uma das últimas coisas escritas — mostra que Pires tinha concluído a Suma antes do falecimento do grande Governador (16 de Dezembro de 1515). Podemos concluir que a maior parte da Suma Oriental foi escrita em Malaca, e o resto em Cochim, durante os anos 1512-15. o valor da obra de tomé pires — A Suma Oriental cons¬ titui um relatório enviado a el-Rei D. Manuel, talvez em cumpri¬ mento dc recomendação feita a Tomé Pires antes de ele partir de Lisboa. O seu estilo está longe de claro, e sem dúvida se torna mais confuso devido aos enganos do copista, os quais por
76 Tomé Pires e Francisco Rodrigues vezes produzem palavras sem qualquer sentido, sobretudo ao referirem nomes ou expressões locais. Algumas passagens, como por exemplo no final da descrição de Java, são quase impossíveis de traduzir, pois o seu significado dificilmente se pode dedu¬ zir. Enganos semelhantes, cometidos por copistas descuidados ou pouco escrupulosos, aparecem noutros manuscritos contem¬ porâneos só conhecidos através de cópias em segunda mão, como no caso do Livro de Duarte Barbosa, e no do Livro de Marinharia. Mas a tradução do Livro de Duarte Barbosa é tarefa menos complicada, pois além da tradução de Ramusio, feita por uma cópia vista pelo próprio Barbosa em Sevilha, existe a impressão do manuscrito em 1821, tornada mais com¬ preensível graças à pontuação e revisão. O carácter da Suma Oriental, dedicada sobretudo a assuntos económicos, não oferece muitas oportunidades para brilho literário. Mas apesar da pobreza geral de estilo, Pires mostra certa cultura bem acima do que se poderia esperar dum homem da sua condição, e notam-se aqui e ali alguns lampejos ocasio¬ nais da sua pena. Isto nota-se especialmente no «Prólogo», onde ele mais se esforça, embora modestamente declare: «mas como eu seja lusitano, e baixo na gente plebeia cujo costume é dizer menos suas glórias do que são e o mal mais do que é, e por que o compor das sumas ou tratados é mais ofício de estran¬ geiros que de naturais, por saberem adoçar suas composições». Mas logo acrescenta: «como vemos falarem maravilhas nas cousas do mar Mediterrâneo, passagem de xv dias sempre à vista de terra, que fizeram se viram a famosa conquista do Oriente de todo o Mar Oceano, donde se contém cousas tão dignas de memória assim de honra àcerca dos homens como em mereci¬ mento acerca de Deus». Outras passagens há na Suma onde Pires se eleva acima da mera descrição: quando, por exemplo, escreve: «A cidade de Ormuz ... mui fresca ... de formosas mulheres alvas» (foi. 122r.); ou quando comenta o costume de em Bulambuam (Blanibangan) queimar vivas as viúvas, «aqui nesta vida perdendo os corpos e na outra ardendo as almas»
Introdução 77 (foi. 154v.). Nem lhe falta certo sentido de humor, como quando termina uma interessante referência à importância de Malaca dizendo que lá «achais o que quereis e às vezes mais do que catais». Ele nunca cessa de enaltecer Malaca, «fim de monções e começo de outras»; «não se sabe tão grossa escala como a de Malaca nem em que se tratem tão nobres e estimadas mercadorias. Aqui se acha da valia de todo o Levante; aqui se vende de toda valia de todo Ponente» (foi. 160r.). Sob a epígrafe «Razão da grandeza de Malaca», ele revela, a par do seu entusiasmo e talvez melhor que noutra qualquer passagem, a sua visão, espírito crítico e bom senso, terminando com pin¬ turescas e significativas sentenças: «e certo é que este mundo de cá é mais rico, mais estimado que o mundo das índias, por¬ que a menos mercadoria de cá é ouro que menos se estima e em Malaca têm por mercadoria. Quem for senhor de Malaca tem a mão na garganta a Veneza ... Quem isto entende favorecerá Malaca; não se ponha em esquecimento, por que mais prezam os alhos e cebolas em Malaca que almíscares, benjoins e outras coisas ricas» (foi. 178r.). Embora Pires termine a Suma dizendo que «capitão basta para reger e governar com governador con¬ forme as nações dos mercadores», não pôde deixar de escrever um pouco antes (foi. 177r.): «E para Malaca havia mister Salo¬ mão para a governar, e ela o merece». A nota de honestidade prevalece através de toda a Suma c sem dúvida muito aumenta o seu valor. Assim como, antes dele, Duarte Pacheco dissera que «a experiência, que é madre das coisas, nos desengana e de toda dúvida nos tira» (79), assim Tomé Pires diz no «Prólogo»: «nós cá tudo passamos, experi¬ mentamos e vemos». Ele não deixa de salientar os seus esforços para averiguar a verdade: «A grande Ilha de Java é acabada [i.e., o seu relato] da melhor maneira que dela pude inquirir e investigar, verificando-me com muitos, e o que me parecia concordarem bem concordado isto escrevi. E certo não vão (79) Esniertildo de Si tu Orbis, I, ii.
78 Tomé Pires e Francisco Rodrigues fora da ordem de que é» (foi. I54v.). Na descrição das «ilhas de Timor donde vêm os sandalos brancos», Pires afirma uma vez mais: «E eu perguntei e inquiri diligentemente se estas mer¬ cadorias havia em outra parte e todos dizem que não» (foi. 155v.). Quando não podia verificar por si próprio, ele diz francamente que escreve «de acordo com a informação que obtive». Refe¬ rindo-se às ilhas de Amboina e Banda e navegação entre elas, tem o cuidado de ressalvar: «se falando nestas Ilhas junto com Bandam for afastado dos pilotos eu não sou culpado, porque nisto me cometo a quem lá foi; isto tenho sabido por mouros, por suas cartas que muitas vezes vi. Se suas cartas foram ruma¬ das fora declaradamente; seja isto para ler e não para rotear» (foi. I56v.). Depois de mencionar a imaginária «cobra de bafo», acrescenta: «nunca vi homem que a visse» (foi. I28r.). Sobre a história dos «reis de Cambaia serem criados em peçonha». Pires acrescenta: «o que não creio, posto que o afirmam» (foi. 130v.). Sobre as mulheres da Ilha Nias que «emprenham do vento» ele nota: «esta opinião têm os destas partes ... Jaz esta fé no povo (como em) outros Amazonas e Sibila de Roma» (foi. 146r.). Dos Papuas, «homens das orelhas grandes, que se cobrem com elas», diz ele: «nunca vi quem visse outro que as visse. Jaz isto no pouco que é assim» (foi. 159r.). Os primeiros dois livros da Suma Orienta! têm apenas inte¬ resse limitado, embora tragam valiosa contribuição para o estudo dos países de que se ocupam; mas os outros quatro livros des¬ crevem o até então quase desconhecido mundo para além da índia, por alguém que viveu dois anos e meio no centro dos países do Extremo Oriente, alguns dos quais visitou. Deixando de lado as narrativas de viajantes europeus medievais, a Suma de Pires contém a primeira informação fidedigna sobre os países e ilhas entre Bengala e o Japão. A informação que dá sobre as terras que ele próprio visitou é, naturalmente, mais valiosa e vívida do que a obtida em segunda mão; mas mesmo esta é excepcionalmente valiosa para o tempo, devido ao local onde a coligiu e à sua posição oficial, que o punha em contacto directo
Introdução 79 com o mundo cosmopolita dos viajantes orientais, capitães de navios, pilotos e negociantes que frequentavam Malaca, não falando já das informações colhidas de muitos Portugueses. Não é preciso salientar o valor especial da grande riqueza de informação histórica, geográfica, etnográfica e económica sobre cada um e todos os países e povos com quem tratou — isso fácil e naturalmente ressaltará do próprio texto da Suma e, em muitos casos, das notas que o acompanham. Como exemplo, entre muitos pontos importantes, quatro se podem mencionar: encon¬ tra-se aqui, pela primeira vez, o nome Japão, que aparece sob a forma Jampon; a descrição que Pires faz de Samatra só uns dois séculos mais tarde foi ultrapassada em pormenor e exactidão; a informação sobre Java, derivada da viagem que fez à sua costa norte, é notabilíssima; o relato histórico de Malaca é também não só o mais antigo que se conhece, mas contém muita infor¬ mação que não se encontra em qualquer outra parte. Os descobrimentos portugueses, desde o primeiro quartel do século xv até o primeiro quartel do xvi, e a invenção da imprensa de tipo móvel cerca de 1450, foram os dois principais factoies que assinalaram o Renascimento — fundação da Civi¬ lização Ocidental. O período dos descobrimentos coincide com o século de ouro da história portuguesa. O espírito aventuroso dos Portugueses levou-os ao desenvolvimento da ciência náutica, que permitiu aos seus navios desvendar os mistérios dos grandes oceanos e buscar terras distantes, algumas das quais inteira¬ mente desconhecidas ou de que só havia vagas referências na Europa. Com os navegadores foram os guerreiros, os missio¬ nários, os comerciantes, e os homens de ciência e investigadores, como Duarte Pacheco, D. João de Castro, Garcia de Orta, Duarte Barbosa, Tomé Pires e muitos outros. Os seus escritos constituem monumentos imperecíveis (80). A agora felizmente (80) Só a Hakluyt Society já publicou uns 25 volumes com livros portugueses antigos de viagens e outros registos geográficos, e muitos mais que em parte se ocupam da nossa história marítima.
80 Tomé Pires e Francisco Rodrigues redescoberta Suma Orientai, cujo valor foi provavelmente ultra¬ passado pelos posteriores relatos, hoje infelizmente perdidos, que Pires sem dúvida escreveu na China, basta para lhe reservar um lugar importante entre os Portugueses que, estendendo e desenvolvendo o seu descobrimento do mundo, contribuíram assinaladamente para os conhecimentos e progresso da Huma¬ nidade (81). Acima de tudo, Tomé Pires foi o mais antigo Europeu que escreveu uma vasta, conscienciosa e fidedigna descrição do Oriente baseada na sua observação pessoal. Como aconteceu com muitos dos seus compatriotas, e muitos de outros países, ele pagou um preço elevado pelo privilégio de bem servir a sua pátria e a humanidade. (81) Marsden escreveu, mais de dois séculos e meio (1783) depois de Pires: «Sendo os Portugueses melhores guerreiros que filósofos, e mais empe¬ nhados em conquistar nações do que explorar os seus costumes e antiguidades, não surpreende que eles não tivessem podido dar ao mundo qualquer des¬ crição pormenorizada e justa de um país (Samatra) que devem ter visto com maus olhos». The History of Suma Ira. Preface. Claro está que Marsden não conhecia a Suma de Pires, e tão-pouco conhecia o Livro de Duarte Barbosa; ele mal menciona mesmo a descrição que Pinto fez das suas visitas a Sama¬ tra em 1539 (Peregrinação, xiii-xxxii). Contudo Marsden faz esta curiosa e honesta observação, hesitando entre a má reputação de Pinto e a sua exac- tidão e comprovada fidelidade: «Muitos acontecimentos do reino deste prín¬ cipe (cerca 1539 e 1541) são mencionados por Fernão Mendes Pinto; mas o que ele escreveu é demasiado duvidoso para permitir que os factos sejam registados sob a sua autoridade. Existe porém muito forte evidencia interna de que ele esteve mais intimamente relacionado com os países de que agora falamos, o carácter dos seus habitantes e os acontecimentos políticos desse período, do que qualquer dos seus contemporâneos; e afigura-se altamente provável que o que ele contou é substancialmente verdadeiro; mas há tam¬ bém motivo para crer que ele compôs a sua obra de memória, depois do seu regresso à Europa, e talvez não tenha sido muito escrupuloso ao completar com uma imaginação fértil as inevitáveis falhas dessa memória, ainda que ricamentc provida.» Ibid., 428-9.
Introdução 81 O PILOTO E CARTÓGRAFO FRANCISCO RODRIGUES Sabe-se tão pouco de Francisco Rodrigues que é impossível tentar mesmo um esboço biográfico. Além da informação que podemos colher do seu próprio Livro, ele é mencionado em duas cartas de Afonso de Albuquerque para el-Rei D. Manuel, escritas de Cochim em 1 de Abril e 20 de Agosto de 1512; nos Comen¬ tários, III, xxxvii; por Castanheda, III, Ixxv; por Barros, II, vi, 7 e III, vi, I; por Góis, IV, xxv. Mas todos estes apenas mencio¬ nam Rodrigues em relação com algum acontecimento em que ele participou, nada dizendo sobre a sua origem e resto da sua vida. A primeira referência a Rodrigues, de que tenho conheci¬ mento, consta de uma carta de Afonso de Albuquerque de 1 de Abril de 1512, em que menciona «um pedaço de padrão» que enviava a el-Rei D. Manuel, «que se tirou duma grande carta de um piloto de Java, a qual tinha o Cabo de Boa Esperança, Portugal e a terra do Brasil, o Mar Roxo e o Mar da Pérsia, as Ilhas do Cravo, a navegação dos Chins e Gores, com suas linhas e caminhos direitos por onde as naus iam, e o sertão, quais reinos confinavam uns com os outros: parece-me. Senhor, que foi a melhor coisa que eu nunca vi, e Vossa Alteza houvera de folgar muito de a ver; tinha os nomes por letra jaoa, e eu trazia jao que sabia ler e escrever; mando esse pedaço a Vossa Alteza, que Francisco Rodrigues emprantou sobre a outra, donde Vossa Alteza poderá ver verdadeiramente os chins donde vêm e os gores, e as vossas naus o caminho que hão-de fazer para as Ilhas do Cravo, e as minas do ouro onde são, e a Ilha de Jaoa (Java) e de Bandam (Banda), de noz moscada e maças, e a terra de el-rei de Sião, e assim o cabo da terra da navegação dos chins, e assim para onde volve, e como dali a diante não navegam. A carta principal se perdeu em Frol de la Mar. Com o piloto e com Pero de Alpoim pratiquei o sentir desta carta, para lá saberem dar razão a Vossa Alteza; tende este pedaço de padrão por coisa muito certa e muito sabida, porque é a
82 Tomé Pires e Francisco Rodrigues mesma navegação por onde eles vão e vêm. Mingua-lhe o arquipélago das ilhas que se chamam Celates, que jazem entre Java e Malaca» (82). Na outra carta, de 20 de Agosto de 1512, Albuquerque informa el-Rei de que tinha enviado uma frota às Molucas, sob o comando de António de Abreu, sendo um dos pilotos «Francisco Rodrigues, homem mancebo que cá andava, de mui bom saber, e sabe fazer padrões». Os Comen¬ tários, III, xxxvii, também referem esta viagem em que, como piloto da frota de Abreu, foi «Francisco Rodrigues, homem mancebo, que sempre andou na índia por piloto, e sabia mui bem fazer um padrão se cumprisse, e este era o fim por que o lá mandava.» Parte das cartas e todos os desenhos contidos no seu Livro foram feitos durante e em consequência da sua viagem a Banda. Francisco Rodrigues deve ter desenhado muitas cartas, mas infelizmente só até nós chegaram as que se contêm no códice de Paris, que me conste. A VIAGEM DE DESCOBRIMENTO DAS ILHAS DAS ESPECIARIAS — Depois de tomar Malaca em meados de Agosto de 1511 e regres¬ sar à índia em Dezembro do mesmo ano, Afonso de Albuquerque enviou navios com embaixadores a Pegu e a Sião, e uma frota de três velas descobrir as Ilhas das Especiarias. A frota era comandada por António de Abreu, na nau Santa Catarina, com Luís Botim como piloto; Francisco Serrão comandava a Sabaia, com Gonçalo de Oliveira como piloto; o terceiro navio era uma caravela comandada por Simão Afonso Bisagudo, com Francisco Rodrigues como piloto. Nesta frota iam 120 Por¬ tugueses, 60 escravos «para trabalhar as bombas» e dois pilotos (82) Ocupei-me dcscnvolvidamcntc destas cartas c de Francisco Rodri¬ gues como cartógrafo in Cartografia e Cartógrafos Portugueses dos Séculos XV e XVI. li, 122-30 [e in Portugaliae Monumento Cartographica, I, 78-84, com reprodução de todas as cartas e desenhos, Ests. 34-6).
ESTAMPA VI / A Viagem de Descobrimento de Francisco Rodrigues das Ilhas das Especiarias em 1512
ESTAMPA VII Viagem de Descobrimento de Francisco Rodrigues no Mar Vermelho.
Introdução 83 indígenas (83). Embora os cronistas mencionem Rodrigues em terceiro lugar entre os pilotos, e Correia diga que Gonçalo de Oliveira era o piloto-mor (84), Francisco Rodrigues logo no começo do Livro se intitula «Piloto Mor da Primeira Armada que descobriu Banda e Maluco». Como a Sabaia, cujo piloto era Gonçalo de Oliveira, naufragou pouco depois de Java e o junco em que Serrão regressava, talvez com Oliveira como piloto, também naufragasse pouco depois de partir de Banda, é possível que Oliveira — que afinal parece ter sido ineficiente ou com pouca sorte — não regressasse com António de Abreu, e que Francisco Rodrigues de facto fosse o piloto-mor da viagem de Banda a Malaca. A pequena frota partiu de Malaca talvez em Novembro de 1511(85). Todos os cronistas se referem, mais ou menos pormenorizadamente, a esta viagem, mas apenas Galvão e Barros, sobretudo aquele, dão informações que nos permitem traçar o itinerário da frota. Barros diz que de Malaca Abreu foi a Grisee (Agacim), Amboina, Banda, e regressou a Malaca. Mas Galvão escreve: «No fim deste ano de 511 mandou Afonso de Albu¬ querque três navios às ilhas de Banda e Maluco, e por capitão- (83) O próprio Albuquerque, Comentários, e Correia (11, 265) men¬ cionam dois pilotos indígenas; Barros (III, v, 6) diz que iam «além de pilo¬ tos portugueses, alguns malaios e jaos, que andavam naquela navegação». (84) Quando Albuquerque refere os três pilotos portugueses, menciona Gonçalo de Oliveira em primeiro lugar e Francisco Rodrigues em último, embora este seja o único distinguido com a referência especial — «homem mancebo de mui bom saber, e sabe fazer padrões». (85) Albuquerque diz que a frota de Abreu partiu «no mês de Novem¬ bro, dois meses e meio antes que eu partisse» (carta de 20 de Agosto de 1512). Embora Correia informe que Albuquerque partiu de Malaca para a índia cm 1 de Dezembro de 1511 (II, 268), Galvão e Castanhcda (III, lxxv) dizem que ele partiu em Janeiro. Os Comentários e Correia confirmam que Abreu se fez à vela em Novembro; Castanheda diz fim de Dezembro, Femão Peres de Andrade c Jorge Botelho (Cartas. IV, 151 e 156), dizem apenas Dezembro.
84 Tomé Pires e Francisco Rodrigues -mor deles António de Abreu, com um Francisco Serrão. Iam neles 120 pessoas, e não foram mais velas nem homens ao des¬ cobrimento da Nova-Espanha com Cristóvão Colombo, nem com Vasco da Gama à índia, porque Maluco, depois destas, não é menos em riqueza, nem se deve ter em menos estima. Foram pelo estreito de Sabangue, ao longo da ilha de Samatra, e à vista doutras que ficam da mão esquerda contra o Levante, que chamam dos Saliies (Salayat), até as ilhas de Palimbão (Palembang), Lusuparão (Lucipara), donde atravessaram pela nobre ilha de laoa (Java), foram a Leste correndo sua costa, por entre ela e a ilha de Madeira (Madura)». Depois Galvão descreve a gente de Java, e continua: «Além desta ilha da Java, vai-se ao longo doutra que se chama Baile (Bali) e outra a seguir que se diz A/ijano (Lombok), Simbaba (Sumbawa), Flores e Solor, Adunare e o Galao (Kawula), Mauluoa (Malua ou Alor), Viiara (Wettar), Rosolanguim (Rozengain) e Arus (Aru) — donde vêm os pássaros mirrados, que são muito estimados para pena¬ chos, e outras que jazem nesta corda da parte do Sul, em sete ou oito graus de Altura, e tão juntas umas com as outras que parece toda uma terra. Haverá nesta derrota mais de quinhen¬ tas léguas, os cosmógrafos lhes chamaram as Iaoas, ainda que agora têm nomes diferentes, como aqui vedes. Avante destas ilhas dizem que há outras de gentes mais alvas, que andam ves¬ tidas de camisas, gibões e ceroulas como Portugueses, e têm moeda de prata.» ... Depois desta digressão Galvão volta à viagem de Abreu de Maduia em diante: «António de Abreu e os que com ele iam, tomaram sua derrota contra o norte duma ilheta que se chama o Gumuapé (Gunong Api), porque do mais alto dela corre sempre c de contínuo até o mar ribeiras de fogo, coisa muito para ver. Daqui foram à ilha de Burro (Buru). e Damboino (Amboina), costearam a costa daquela (ilha) que se chama de Muar Damboino (Ceram), surgiram em um porto, que se diz Guli Guli (Guie Guie), saltaram em terra, tomaram uma povoação que ali estava, e acharam nas casas homens mortos dependurados, porque comem carne humana. Aí queimaram
Introdução 85 a nau em que ia Francisco Serrão por ser já velha, e foram ter a Banda, que está em oito graus da parte do Sul, donde carregaiam de cravo, noz e maça em um junco que Francisco Serrão aqui comprara. ... No ano de 512 partiram de Banda para Malaca, e nos baixos de Lusopino (Turtle Islands) se perdeu Francisco Serrão com o seu junco, donde se tornou à ilha de Midanao (M.indanao?) com nove ou dez Portugueses que com ele iam, e os reis de Maluco mandaram por eles. Estes foram os pri¬ meiros Espanhóis (i.e. Portugueses) que viram as ilhas do Cravo, que jazem da Linha contra o Norte em um grau, onde estive¬ ram sete ou oito anos. António de Abreu fez seu caminho para Malaca, deixando descoberto todo aquele mar e terra nomeados.» (86) Além dos elementos fornecidos por Barros e por Galvão, alguma informação mais se pode colher doutros documentos, sobretudo das cartas e desenhos do próprio Rodrigues. Na carta em foi. 36 encontra-se a inscrição pude homde se perdeo a ssabaia, correspondendo a Sapudi Island, que fica perto da ponta mais oriental de Madura. Dois dos desenhos (fols. 94 e 95) mos¬ tram a ilha Sapudi, com a inscrição aqui se perdeo a sabaia // & esta Jlha se cliama pude na ponta sudeste da ilha, que é reconhe¬ cível pela pequena Jlha de Raz (Raas) completa com os três ilhéus junto à sua ponta leste (87). No depoimento que fez no «Processo das Molucas», Diogo Brandão diz que, depois da perda do navio de Serrão, o outro navio e a caravela «sendo em Banda, não a poderam tomar, que a escorreram, por não servir o tempo, e foram invernar a um porto xxv léguas de Banda que se chama Gullygully (Guie Guie): e, servindo-lhe o tempo, (86) Tratado, ff. 35-6. (87) Estas informações de Rodrigues nâo podem ser postas em dúvida, porque ele estava lá e o que diz é confirmado pelos depoimentos de Diogo Brandão, Jorge de Albuquerque e Andrade, embora, além da informação de Galvão, também Barros diga que o navio de Serrão se perdeu entre Amboina e Banda.
86 Tomé Pires e Francisco Rodrigues passados três meses se foram a Banda» (88). Rui de Brito Patalim declara no mesmo «Processo das Molucas» que depois da perda do navio de Serrão, «as duas restantes naus foram ter a Banda, por não servir o tempo para Maluco» (89). Mais alguma informação, embora indirecta, se pode obter dum roteiro de Malaca a Java e Banda, que data da primeira metade do século xvi, contido no Livro de Marinharia. Diz que quando um navio chega ao Caho das Frolles (Cape Flores) ele deve rumar para a lllia de Balutara (Batu Tara ou Komba), uma pequena ilha 25 milhas a norte de Lomblen, seguindo para nordeste, e depois de passar Gilimão (Lucipara) deve seguir a rota nor- -nordeste que o levará a Buro, donde iumará para sudeste e «ireis dar em Banda sem nenhuma dúvida» (p. 267). O próprio Pires escreveu: «Daí (de Batutara) se toma a rota batida para Bandam (Banda) e para Ambon (Amboina); e porque as outras ilhas que correm pela corda de Solor não fazem a bem de mer¬ cadoria por serem fora de mão» (foi. 155v.). Esta foi, sem dúvida, a rota seguida por Abreu, e assim Rodrigues a registou na sua carta (foi. 37). Esta carta — que abrange o Mar das Flores, o Mar de Banda e as Molucas — tem apenas treze nomes e inscrições, sete dos quais dizem respeito à rota referida: Cabo Flores — Batu Tara—Buru — Amboina—Ceram—Guie Guie — Banda. Com estes elementos, o itinerário da expedição de Abreu de Malaca para Banda pode ser assim traçado: passando pelo canal entre a ilha Kundur e Samatra, e através do estreito de Banka, chegaram a Grisee no nordeste de Java, onde desembar¬ caram pela primeira vez; continuando para leste, o navio de Serrão perdeu-se na ponta sudeste da ilha Sapudi; avistaram Batu Tara e depois Gunong Api, desembarcaram em Buru e Amboina, navegaram ao longo da costa sul de Ceram, ancora- (88) Canas. IV, 170. (89) Ibid.. p. 167.
Introdução 87 ram em Guie Guie, onde os dois restantes navios ficaram demo¬ rados pelo mau tempo, e finalmente fizeram-se à vela para Banda (90). Aj foi comprado um junco para Serrão e, depois de carre¬ garem, os três navios encetaram a viagem de regresso. Pouco depois de partirem de Banda foram assaltados por uma tem¬ pestade e o junco de Serrão separou-se dos outros navios indo naufragar nos baixos e ilhéus de Lucipara. Eventualmente Serrão, e nove Portugueses que com ele seguiam alcançai am as Molucas, onde continuou a viver até a sua morte, que prova¬ velmente ocorreu em 1521. A nau de Abreu e a caravela prosse¬ guiram a viagem, tendo avistado uma ilha que Rodrigues repre- (90) No seu ensaio Voeuvre giographique des Reinei et ta découverte des Moluques, Hamy ocupou-se da viagem de António de Abreu, analisando a carta de Rodrigues e a descrição de Galvão. Segundo Hamy, em vez de navegar directamentc para Batu Tara e Gunong Api, seguindo para norte direito a Buru — como realmente fez — Abreu teria continuado ao longo da correnteza de ilhas, que ficam para leste, até Aru (530 milhas a leste do meridiano de Gunong Api-Buru), donde teria voltado para oeste, des¬ coberto Banda, ido a Buru (mais de 200 milhas a oés-noroeste), voltado outra vez para leste, indo a Gule-Gule, e daí regressado directamentc a Malaca. Esta estranha interpretação é devida à versão errada duma palavra na narra¬ tiva de Galvão. Depois de se referir ao povo de Java, Galvão escreve: «Além desta ilha da Iaoa vam ao longo doutra que se chama Baile» (Bali), etc., referindo-se a «a gente desta ilha da Iaoa», que menciona no parágrafo ante¬ rior, não a Abreu e seus companheiros. Quando Galvão se refere a «Antonio de Abreu e os que com ele iam», sempre emprega o pretérito «foram», «toma¬ ram sua derrota», etc. Hakluyt cometeu o mesmo engano, quando tra¬ duziu vam por «they sailed» (eles navegaram), engano por que Bethune parece não ter dado na sua edição do Tratado de Galvão publicada pela Hakluyt Socicty (p. 116). Hamy adaptara toda a sua interpretação à tradução de vam, o que o levou a outros enganos (vide nota p. 329), e o meu artigo O Iti¬ nerário de António de Abreu, in Seara Nova, N.° 796, 14 de Novembro de 1942, Lisboa). [Incluido in Esparsos, I. Coimbra 1974.] Abreu regressou a Malaca em Dezembro de 1512 e partiu para a índia, com F. P. de Andrade, em Janeiro de 1513 (Castanheda, III, cii), e então embarcou para Portugal, mas morreu nos Açores antes de chegar à pátria, segundo o depoimento de Sequeira no «Processo das Molucas», e Barros, II, v, 6.
88 Tomé Pires e Francisco Rodrigues senta no primeiro dos seus desenhos panorâmicos, com a ins¬ crição Esta ffoi a primeira terra que vimos quamdo vínhamos de hamda pera Mellaqua. Embora outra inscrição no mesmo desenho diga Compeço da Jlha de Sollote (Começo da Ilha de Solor), deve corresponder à ilha Alor. Continuaram para oeste ao longo da costa norte da correnteza de ilhas, sendo os desenhos panorâmicos traçados por Rodrigues conforme elas eram vistas do mar. Os últimos dezassete dos sessenta e oito desenhos correspondem a Java, e destes o último, que deve ter sido dese¬ nhado ao largo de Cabo Krawang, a nordeste da moderna Batávia, tem a inscrição: E ate aqui descobrimos da Jlha de Jaoa. Con¬ tinuaram para noroeste e chegaram a Malaca em Dezembro de 1512, um ano depois de terem iniciado a sua viagem. (Vide Est. VI). Dos 120 Portugueses que haviam partido para o des¬ cobrimento das Ilhas das Especiarias, só 80 regressaram a Malaca; 10 ficaram lá e 30 morreram durante a viagem. a expedição ao mar vermelho — As notícias seguintes de Francisco Rodrigues são dadas por ele próprio quando no Livro descreve o «Camynho qe fiz com Joham Gomez captam da caravela p.a dalaca &./.» (foi. 5v.). Esta viagem teve lugar em Junho- -Julho de 1513, quando uma esquadra portuguesa sob o comando de Afonso de Albuquerque entrou no Mar Vermelho pela pri¬ meira vez. Não sabemos exactamente o que se passou com Rodrigues quando ele regressou a Malaca em 1512, mas não ficou lá muito tempo, tendo provavelmente partido para a índia com Fernão Peres de Andrade e António de Abreu em Janeiro de 1513. Nessa altura Albuquerque estava em Goa reunindo uma armada de vinte velas em que, com 1700 Portugueses e uns 1.000 nativos (91), foi ao Mar Vermelho. Na sua carta (91) Todos os cronistas concordam quanto ao número de Portugueses, mas divergem no que respeita aos Malabarcs e Canarins; também estão de acordo quanto ao número de velas, exccpto Correia, que diz 24, e Cas- tanheda 19.
Introdução 89 de 4 de Dezembro de 1513, escrita de Cananor a D. Manuel, descrevendo longamente a expedição ao Mar Vermelho, Albu¬ querque não diz em que data partiu de Goa, e os cronistas diver¬ gem muito. Corieia diz 28 de Janeiro, os Comentários 8 de Fevereiro, Barros e Góis 18 de Fevereiro, e só Castanheda diz «Março de 1513». O facto de em Dezembro de 1512 Rodri¬ gues estar em Malaca, donde partiu talvez em princípios de Janeiro de 1513, e ele ter chegado a Goa a tempo de partir com a armada de Albuquerque, mostra que a data indicada por Barros e Góis, ou mesmo a que Castanheda refere um tanto vagamente, devem estar mais perto da verdade. A armada dirigiu-se para o Cabo Guardafui, foi a Socotorá, e daí seguiu para Adém. Depois duma tentativa infrutífera de tomar a cidade (27 de Março), Albuquerque fez-se à vela para o Mar Vermelho, onde entrou em Abril. A sua ideia era ir a Suez e destruir a armada que o Sultão do Egipto estava pre¬ parando para atacar os Portugueses na índia; mas a monção estava quase a chegar ao fim. A armada passou além da ilha de Kamaran, até que chegou às ilhas Okban, Kotame e Entufash, onde fundeou durante vários dias, aguardando vento favorável que lhe permitisse prosseguir; mas como o vento de feição fal¬ tasse e a água potável começasse a escassear, Albuquerque voltou a Kamaran no começo de Junho. Foi então que decidiu enviar a caravela de João Gomes, a que Rodrigues se refere, explorar até Dalaca e Maçuá. Na sua carta de 4 de Dezembro para el-Rei D. Manuel, Albuquerque informa: «Volvido a Camaram a segunda vez, feito fundamento de aparelhar nossas naus para no mês de Agosto sairmos fora, determinei de mandar a caravela fora ao mar, ver se podia haver alguma jelba (92), para sabermos alguma nova da terra, porque o estreito todo ano se navega com estas jelbas pequenas ao temo e à vela, e levou por deter¬ minação minha ver se podia haver a ilha de Dalaca e Maçuá. (92) Pequena embarcação indígena usada nas margens do Mar Vermelho.
90 Tomé Pires e Francisco Rodrigues e lhe dei um robão (piloto) da mesma terra; e não fiz mais pro¬ pósito nem fundamento nisto que mandar João Gomes e a cara¬ vela assim gastar alguns dias, e descobrir terra por esse estreito onde pudesse; e ele se deu a tão bom recado, e o fez tão bem, que houve a ilha de Dalaca e algumas ilhas por aí de redor, onde pescam o aljôfar, e não pôde tomar nenhuma (jelba) por¬ que são navios sotis e ligeiros, e meteram por esses baixos e cabeços de areia em tal maneira, que não foi pelo caminho da veidadeira navegação. E chegou a Dalaca, surgiu no porto, de fora de uns baixos que o porto tem, foi o esquife da caravela em terra à fala com a gente; não curaram de perguntar quem eram, porque dias havia que por todo o estreito era sabida nossa entrada e avisado o lugar, em tal maneira que certifico a Vossa Alteza, que barco nem almadia nunca navegou o mar, nem as aves não pousavam no mar, tão assombrado foi o Mar Roxo com nossa entrada e tão ermo. Somente lhe perguntaram que queriam. Disse-lhes João Gomes que vinha ali por meu man¬ dado, se queriam comprar algumas mercadorias, que lhas ven¬ deriam. Responderam-lhe que na terra não havia mercadores, senão gente de guerra. E assim se despediu deles, e correu a ilha e descobriu-a mui bem. E por não levar certa determinação minha, não se chegou à terra firme do Preste João, que se chama Arquico, que estava assim à sua vista como Ribatejo de Lisboa; e Maçuá jaz lá mais longe, dentro em uma enseada ao longo da costa, caminho de um dia (93). Acabado de ter tudo visto e descoberto todas essas ilhas por aí derredor, se tornou pelo caminho largo e de grande fundo por onde as naus dos mer¬ cadores navegam. E mais não fez que o que dito tenho, porque não levava regimento nem determinação minha, somente des- (93) Esta parte da carta de Albuquerque não concorda inteiramente com o que Rodrigues diz: «fomos correndo a costa da Abissínia nove ou dez dias sem acharmos barco nem sapato nem vimos maneira de porto nem onde houvesse desembarcação» (foi. 6v). De facto a ilha de Maçuá fica quatro ou cinco milhas a nor-nordeste de Arquico.
Introdução 91 cobrir o caminho, com fundamento da nossa ida lá, se algum vento nos viesse para podermos navegar; porque se fora de todo desconfiado do tempo mandara este feito melhor provido, e homens que tinha já ordenado com regimento e cartas para mandar ao Preste João, os quais puseram na terra firme em poder de capitães seus, que os levaram (i.e. levassem). E eu creio que ele fizera tudo, como homem de bem que ele é. E trouxe-me Dalaca pintada (numa carta), ilhas e mar, o melhor que ele pôde. Lá a mando a Vossa Alteza essa amostra» (94). Barros também diz que «o tal negócio João Gomes fez trazendo as ilhas arrumadas (numa carta) como jaziam» (95). O piloto da caravela de João Gomes era um tal Domingos Fernandes (96), de modo que Rodrigues foi provavelmente enviado por Albu¬ querque com a incumbência de fazer o esboço cartográfico daquela parte do Mar Vermelho. Embora das referências de Albuquerque e Barros, sobretudo daquele, possa parecer que o próprio Gomes fizera a carta enviada a D. Manuel, podemos agora assumir com segurança que Rodrigues foi o seu autor (97). Contudo, é de certo modo estranho que Rodrigues não men¬ cione tal carta ou que ele não tenha sido incluído no seu Livro. (Vide Est. VII). Em fins de Agosto Albuquerque estava de regresso na índia. Depois da expedição ao Mar Vermelho nada mais se sabe de Francisco Rodrigues até 1519, quando ele foi à China com (94) Cortas. I, 220-1. (95) Década II. viii, 2. (96) Comentários, IV, ix. (97) João Gomes que, como Barros diz (II, vii, 5), era «de alcunha Cheira-dinhciro», é frequentemente mencionado pelos cronistas, mas nunca como cartógrafo. Foi em 1519 morto nas Maldivas, onde tinha ido com a expedição para construir uma fortaleza na ilha Mafacalou (possivelmente uma contracção de Malc e Farukalu), mas pelas depredações e roubos que lá praticou certamentc justificou a alcunha. Góis, IV, xxxii; Correia, II, 568-70.
92 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Simão Peres de Andrade, como já vimos. Barros diz que em Malaca se juntaram à nau de Andrade três juncos, um dos quais era comandado por Rodrigues, mas Góis refere três naus em vez de juncos. A fiota chegou ao Rio de Cantão em Agosto de 1519. Na nota biográfica sobre Tomé Pires já me ocupei largamente desta desastrosa expedição de Andrade. Aí Rodri¬ gues tornou a encontrar-se com Pires, que já havia conhecido pelos menos em Malaca, quando em Dezembro de 1512 regres¬ sou da expedição às Ilhas das Especiarias. Isto é tudo o que se sabe sobre Francisco Rodrigues. O Vis¬ conde de Santarém diz que ele era um piloto natural dos Açores, que em 1553 servia com os Ingleses quando Thomas Windham (chamado Tomas de Gidom, ou Gidne, em documentos por¬ tugueses contemporâneos) atacou a Madeira (98). O nome é vulgar, e já foi mostrado ser altamente improvável que os dois pilotos fossem uma e a mesma pessoa (99) — mesmo sem atender ao desfasamento cronológico. M uitos outros homónimos de Francisco Rodrigues aparecem nas crónicas e documentos referentes à pri¬ meira metade do século xvi. mas nada têm de comum com o piloto, cartógrafo e capitão que legou o seu valioso Livro à posteridade. O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES O Livro de Francisco Rodrigues ocupa a primeira parte do códice de Paris. A numeração original foi cortada quando da encadernação, e a actual numeração, feita provavelmente quando o códice foi encadernado, começa na segunda folha de guarda e segue até 116. Os números indicados na tábua de matérias original não correspondem à numeração actual, o que (98) Quadro Diplomático, II, pp. lxxv seqq.; J. Blake, F.uropeaus in West África, 1450-1560, p. 321. (99) Sousa Vitcrbo, Trabalhos Náuticos dos Portuguezes, II, 252-5; A. Coitesão; Cartografia, II, 129-30.
ESTAMPA VIII iL â Desenho panorâmico de Sukur Island ou Rusa Linguette, vista do sul (foi. 58). Corresponde em todos os menores a uma descrição moderna.
ESTAMPA IX Desenho panorâmico (foi. 54) de parte de uma ilha, talvez Adunare, por Francisco Rodrigues.
Introdução 93 causa muita confusão. Por exemplo, as fols. 12 e 14 da tábua de matérias original correspondem às actuais fols. 9 e 10, e fols. 20 e 22 às 14 e 15, o que poderia indicar que Rodrigues chamava «folhas» ao que de facto eram páginas e que algumas folhas faltam. Mas, além da anomalia de alguns números pares corresponderem aos rectos das folhas, acontece também que a foi. 17 da numeração original corresponde à 11 actual, 22 à 15, de 26 a 34 às 18 a 26, e de 36 a 38 às 27 a 29. As 87 folhas seguintes não estão incluídas na tábua das matérias. Fols. 2v., 3v., 4v., 7v., 8r., 9v., 14v. e 16v., os versos de fols. 17 a 36, 38 a 85, e 87 a 112, 113r., e os versos de fols. 114 a 116 da actual numeração, estão em branco. Toda a letra, no texto, cartas e dese¬ nhos, parece ser da mão de Francisco Rodrigues. A palavra Ernna- nuel muito ornamentada ao alto da primeira página, mostra que Rodrigues dedicou o Livro a el-Rei D. Manuel. (Est. XI). regimentos náuticos — Fols. 7v. - 16r. e 86 contêm regi¬ mentos náuticos e tábuas solares. Os primeiros regimentos, assinados duas vezes Framcisquo Rooiz ou Roiz, são pata deter¬ minar a latitude ao meio-dia, sendo conhecida a posição do observador para com o Sol, em relação ao equador; estas regras são ilustradas por uma curiosa figura colorida para a determinação gráfica da declinação solar (Est. XII). Segue-se uma tábua para a declinação solar num só ano bissexto. A seguir vem um «Regimento para saberes quanto multiplicas cada grau por légua», calculado a 17 1/2 léguas num caso e a 16 2/3 no outro. O primeiro caso é ilustrado com uma rosa-dos-ventos colorida para medir um grau em léguas (Est. XIV). Finalmente, Rodrigues apresenta um regimento para determinar a declinação do Sol, com alguns exemplos assaz confusos, e conclui discutindo o assunto num «Capítulo para dar a entender como haveis de navegar por as sombras». Estes regimentos náuticos devem ter sido copiados de livros de marinharia manuscritos que depois do fim do século xv pas¬ savam de mão em mão entre os pilotos portugueses. Algumas
94 Tomé Pires e Francisco Rodrigues destas regras ou instruções encontram-se no célebre Regimento de Munich, como é conhecido, cuja mais antiga edição impressa de que se sabe data de 1509 (?) embora deva ter sido impresso antes, talvez já em 1495 (?). Tal é o caso com a primeira figura para determinar a declinação solar e a tábua solar para um ano bissexto. Todo este assunto é tratado com algum desenvolvi¬ mento nas notas ao texto (100). roteiros — A viagem que Rodrigues fez de exploração c esboço cartográfico de Dalaca, que o levou à vista da costa da Abissínia, é o primeiro roteiro no Livro. Já atrás me ocupei desta viagem e dela me volto a ocupar nas notas ao texto. O outro roteiro, aliás bastante esquemático chama-se «Caminho da China», i.e. navegação de Malaca para o Rio de Cantão, e é dis¬ cutido numa nota ao texto (pp. 123-4). Ainda voltarei a refe- rir-ir.e a eles nesta Introdução. cartas — O Livro contém 26 cartas, cada uma ocupando o recto duma folha. Também há quatro folhas que se desti¬ navam a cartas que nunca chegaram a ser desenhadas: uma tem apenas um sistema de rosas-dos-ventos, duas têm uma rosa-dos- -ventos central e um tronco-de léguas, e a outra mostra apenas um tronco-de-léguas. O Visconde de Santarém mandou fazer fac-símiles das vinte e seis cartas e reproduziu-os no seu Atlas dc 1849(101). Estes (100) Estas notas foram esboçadas em 1937 pelo falecido Prof. Cmte. A. Fontoura da Costa, autoridade cm marinharia portuguesa antiga. Foram até certo ponto ampliadas pelo Cmte. D. Gcrncz, da Marinha Francesa, agora (1944) cm Londres. Aquele tinha-se proposto escrever mais pro- menorizadamente sobre os regimentos náuticos dc Rodrigues, o que forma¬ ria uma secção especial desta Introdução, mas infclizmcntc faleceu em 7 de Dezembro dc 1940 (n. 9 de Dezembro de 1869). (101) Embora este Atlas seja datado de 1849, compreende as cartas publicadas nas duas edições anteriores, de 1841 e 1842, c ainda as cartas gravadas, ou distribuídas, entre 1845 e 1855. Já noutro lugar me ocupei
Introdução 95 fac-símiles, sobretudo quando coloridos, são belamente exe¬ cutados, mas das cartas com troncos-de-léguas e escalas de lati¬ tudes, só o número 4, correspondente à foi. 18, etsá completo; aos outros falta a escala de latitudes (excepto o número 16, corres¬ pondente à foi. 30, que tem parte dela), e a alguns também o tronco-de-léguas. Esta supressão de partes não-essenciais das cartas foi feita, evidentemente, para economizar espaço. Mas também há descuidos do copista; por exemplo, a rosa-dos-ventos no número 7, correspondendo à foi. 21, está incompleta, e no número 20, correspondendo à foi. 37 falta a palavra atnborn. A ordem das reproduções no Atlas de Santarém, numeradas de 1 a 26, corresponde à seguinte ordem das folhs. do MS: 116, 115, 114, 18 a 35, 37, 36, 38 a 42. In Estudos de Cartographia Antiga (ii, 148-56) encontramos a descrição das cartas feita por Santarém, por vezes muito minuciosa, mas com demasiadas inexactidões (102). desenvolvidamente do Visconde de Santarém e da sua obra monumental. Cartografia, u, 365-404; [idem, H. C. P., i, 8-25]. Além da nota (cuja data precisa não conhecemos) publicada nos Estudos de Cartographia Antiga, a primeira referência de Santarém ao Livro de Rodrigues e suas cartas encon¬ tra-se numa nota enviada de Paris em 12 de Outubro de 1850 ao Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa, que financiava a publicação dos Atlas, informando que acabava de descobrir «o portolano do piloto português Francisco Rodrigues, de 1529». Em 15 de Fevereiro de 1851 de novo escrevia sobre o andamento do seu trabalho, e em Novembro do mesmo ano infor¬ mava que quatro das cartas já estavam gravadas, c em 28 de Janeiro de 1853 comunicava que estava concluída a gravura das outras vinte e duas cartas de Rodrigues. Estes documentos foram em 1909 publicados por Jordão de Freitas, 0 2.° Visconde de Santarém e os seus Atlas Geographicos, pp. 114-23. Em 5 de Junho de 1854 Santarém enviou ao Ministério uma lista de 57 exem¬ plares do Atlas que ele havia oferecido antes de 9 de Abril de 1851 (novas folhas soltas foram enviadas mais tarde, ou supóe-se que o foram, con¬ forme iam sendo gravadas) a várias instituições e individualidades eruditas de vários países. (102) Por exemplo, a carta (foi. 22) com o traçado da costa brasileira é dada como «a parte ocidental da costa Sul da África». Muitos enganos, como este em especial, são possivelmente devidos a irresponsabilidade de 8
96 Tomé Pires e Francisco Rodrigues As cartas, seguindo a ordem que se encontram no Livro, podem ser divididas em seis grupos: (a) As primeiras nove cartas, da Europa à África Oriental, estão desenhadas na escala aproximada 1:13.000.000 e são mais ou menos copiadas de pro¬ tótipos portugueses já existentes; (b) as três do nordeste da África a Malaca estão desenhadas na mesma escala e contêm muita informação em primeira mão; (c) as seis de Samatra às Molucas. desenhadas em várias escalas, de 1: 4.500.000 a 1: 8.000.000, são inteiramente novas; (d) as cinco cartas desde Malaca ao norte da China, que são inteiramente novas, não passam de simples esboços; (e) as três cartas com o Mediterrâneo e o Mar Negro estão desenhadas na escala aproximada de 1: 6.000.000 e seguem protótipos já existentes. Com excepção das três últi¬ mas, todas as cartas têm norte, escrito em letra miúda, junto à extremidade da linha de rumo da rosa-de-ventos central que aponta para o Norte. Estas cartas, que aqui são pela primeira vez reproduzidas de fotografias, encontram-se descritas no Apêndice II. desenhos panorâmicos — Estes ocupam os rectos de 69 folhas — 43 a 85 e 87 a 112. Apenas o primeiro desenho é a cores; os últimos vinte e quatro só mostram os contornos de praias e quem fez a transcrição ou dificuldade em decifrar a letra de Santarém; mas outros devem-se indubitavelmente a este último. Dois exemplos: ao descrever o Golfo de Tonquim (foi. 38) ele escreveu: «Nos rumos dos ventos lê-se o vocábulo Varia, que parece indicar a variação da bússola nestas paragens, bem como o que se devia observar sobre as variações.» «Varia» é simplesmente uma leitura errada da palavra norte, que está escrita em 23 das 26 cartas, indicando o Norte. No esboço com o Rio de Cantão (foi. 40) Santarém escreveu: «No alto lê-se. cm caracteres chinezes, o nome d'uma cidade, e junto — Cidade da China.» Os «caracteres chinezes» são simplesmente uma letra A com floreados. Mas trata-sc de simples notas, publicadas postumamente, sem qualquer cuidado ou acerto; Santarém era demasiado escrupuloso e sério para as publicar sem prévia verificação. [Já Cristóvão Vieira se referia aos caracteres chineses dizendo que «são letras do diabo» (foi. 112v.)].
Introdução 97 montanhas, mas nos primeiros quarenta e cinco também figuram plantas, casas indígenas e os próprios indígenas. Todos estes desenhos foram feitos quando Rodrigues regres¬ sava de Banda a Malaca, conforme do mar via a terra, nave¬ gando ao longo da costa norte da correnteza de ilhas desde Alor até a Java ocidental. Os contornos de montanhas e costas marí¬ timas são contínuos em quase todos os desenhos, como se dese¬ nhos parcelares fossem cortados de um geral; isto constitui uma vista notavelmente exacta destas ilhas conforme iam sendo observadas do mar. A maioria das montanhas, baías e aldeias aqui mostradas podem ser facilmente identificadas se compa¬ rarmos os desenhos com, por exemplo, o Eastern Archipelago Pilot, Vol. ii. Por exemplo, o Pilot diz: «A ilha Sukur ou Rusa Linguette tem um topo conspícuo, 865 pés (263,7 m) de altura, no seu lado nordeste, provavelmente restos duma antiga cratera; o lado ocidental deste pico desce muito abruptamente para um lago de água doce. ... Na parte sudoeste a ilha é baixa e plana. Toda ela é arborizada, mas desabitada. Há uma praia de areia ao longo de toda a costa oeste, e a costa leste é rochosa. Uma rocha, com uma simples árvore em cima, fica entre os rochedos da costa, que se estende cerca de duas toesas da ponta sueste da extremidade da ilha.» (Vide Est. VIII). A nota de realismo dada a muitos dos primeiros 45 desenhos, com a figuração de vulcões em actividade, casas, plantas e indí¬ genas, é por vezes particularmente vívida, como na foi. 60. Esta sem dúvida representa a aldeia de Mausambi, na ilha Flores, que se vê no desenho mesmo a leste da Raja Island, e mostra um palácio ou templo indígena cercado por uma paliçada de estacas, casas, plantas e vários indígenas, um deles subindo a um coqueiro, o outro no topo dum monte disparando com um arco sobre estranha ave (talvez um nore, variedade de papagaio que Rodri¬ gues viu em Amboina, Ceram ou Banda) empoleirada numa alta montanha (provavelmente Olo Muku, 1.062 m.) de que apenas o topo é visível. Os desenhos são descritos no Apên¬ dice II.
98 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Um dos curiosos aspectos destes desenhos é a assaz artís¬ tica representação de plantas que ilustram muitos deles. Parece que Rodrigues desejou dar uma ideia da flora local, mas se assim foi a tentativa deixa muito a desejar, e os seus desenhos de pouco servem para identificar as plantas. O coqueiro (Cocus nucifera Linn.) é a única espécie que pode ser identificada com segurança; aparece em vários desenhos junto à costa. Uma erva que apa¬ rece em quase todos os desenhos é provavelmente a Imperata cylindrica Beauv., uma espécie com espigas prateadas, comum nas ilhas da Malásia e que provavelmente despertaria a atenção de alguém que desenhasse a flora local. Esta erva cresce abun¬ dantemente onde quer que o chão esteja desimpedido, e depressa se torna uma praga. Os Malaios chamam-lhe alang-alang. O seu desenho não é uniforme, mas parece que deve tratar-se desta espécie. Outra planta cuja identificação se pode consi¬ derar quase certa, é a Gynandropsis gynandra Briq., erva muito espalhada nos trópicos; esta vê-se desenhada na foi. 63. Uma planta com grandes folhas cordiformes, que se nota em alguns dos desenhos, parece ser a Alocasia macrorrhiza Schott, muito cultivada na Malásia. Além destas, não é possível fazer qual¬ quer sugestão com confiança (103). A DATA DO LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES — O Livro de Francisco Rodrigues, composto de várias partes distintas, foi escrito e desenhado durante um período de alguns anos. Quando o Visconde de Santarém reproduziu as cartas de Rodrigues no Alias de 1849 e as descreveu na referida nota in Estudos de Car- tographia Antiga, disse que elas foram desenhadas entre 1524 e 1530; mas não deu qualquer razão para o seu juízo. As pri- (103) Mr. J. E. Dandy, do British Museum (Natural History), a quem devo a informação acima dada sobre os aspectos botânicos dos desenhos, diz-me que Mr. I. H. Burkill, botânico com conhecimento directo da flora malaia, «julga que o autor dos desenhos, a avaliar pelo seu traço, era um tanto artista, e que jogava com as formas que via — de facto desenhando.»
Mausambi 7f)>s asttoce u reducta to cnt fourth C onjunto dc cinco desenhos panorâmicos (fob. 57-63) pot Francisco Rodrigues mostrando o moo da parte oriental da Ilha Flores (Samademga). com Palod ou Raja hland (Jtha de Nuça RaJa). A aldeia lofo a lote do Compe*. Da Jlha de nuca RaJa deve corroponder a Mausambi Na parte inferior do desenho encontra-se o contorno cor¬ respondente segundo uma carta moderna do Almirantado Britânico Raja I. (Uha de nuÇdRêjé)
Introdução 99 meiras nove cartas, das costas da Europa Ocidental, Brasil e África, e as últimas três, do Mediterrâneo e Mar Negro, são copiadas de protótipos hoje mais ou menos conhecidos e o seu interesse é limitado; mas as catorze cartas do Suez à China, sobretudo as do Extremo Oriente, que são inteiramente originais, assumem importância excepcional e a sua data tem muito inte¬ resse para a história da cartografia daquelas regiões; por isso merecem atenção especial. O problema de datar estas cartas das índias Orientais já foi estudado por C. H. Coote, E. T. Hamy, G. Collingridge, J. Denucé e E. C. Abendanon. Depois de na minha Cartografia me ter ocupado do assunto, cheguei à con¬ clusão «que se não pode dizer, como fazem alguns dos autoies citados, ser o Atlas (i.e. as cartas de Rodrigues da Insulíndia) de 1511-1513 ou ±1512, mas sim de pouco depois de 1512, não nos parecendo tarefa fácil determinar com precisão a sua data, a não aparecer qualquer documento que nos forneça elementos hoje ainda desconhecidos» (u, 129). Rodrigues desenhou ou completou as suas cartas em dife¬ rentes datas, como se pode verificar imediatamente pela parte que compreende os regimentos náuticos e as cartas até Malaca, referidos na tábua das matérias, e todos os outros componentes — roteiros, as últimas catorze cartas e os desenhos panorâmicos — nela não mencionados. A carta que mostra a parte oriental do Mar Vermelho (foi. 27) foi sem dúvida desenhada antes da expedição de Rodrigues a Dalaca e costa da Abissínia em 1513, senão teria nela representado as ilhas que viu, o que não faz. Por outro lado, a inscrição agoada de Joltani lopez dalluim / elle descobriu daqui ate Japara, na carta com o noroeste de Java (foi. 30), refere-se a uma viagem feita em Março de 1513 (vide p. 455). Isto mostra que a carta foi desenhada depois dessa data. Poder-se-ia argumentar que a inscrição foi acrescentada algum tempo depois da carta ter sido desenhada, mas tanto as inscrições como os topónimos que nela se vêem parece terem sido apostos na mesma ocasião. Não me é fácil encontrar nas outras cartas qualquer indicação que possa levar à determinação exacta da
100 Tomé Pires e Francisco Rodrigues sua data. A única conclusão a que posso chegar é que algu¬ mas dessas cartas, como as do Mar Vermelho e as da índia (fols. 27 e 28), ou pelo menos aquelas, foram feitas antes de Abril de 1513, data em que Albuquerque entrou no Mar Vermelho. Mas devem ter sido feitas no começo de 1511 ou pouco antes, porque não seria muito provável que Rodrigues, o «homem mancebo» referido por Albuquerque, tivesse oportunidade para as desenhar antes da tomada de Malaca em Agosto e da sua par¬ tida para o descobrimento das Ilhas das Especiarias em Dezembro do mesmo ano. As outras doze cartas orientais (entre fols. 29 e 42) teriam sido desenhadas em 1513 ou pouco depois, natu¬ ralmente com o auxílio de apontamentos e esboços feitos durante a viagem de 1512 e informações obtidas de pilotos orientais. Rodrigues certamente desenhou estas cartas antes da sua viagem ao Rio de Cantão em 1519. Podemos mesmo inferir que não foram desenhadas depois ou muito depois de 1513. O roteiro de Malaca ao Rio de Cantão, escrito no verso de foi. 37, em face da primeira das cartas relacionadas com o caminho da China, indica que foi acrescentado depois delas terem sido desenhadas. Este roteiro foi evidentemente baseado em infor¬ mações colhidas de algum piloto oriental, possivelmente chinês, antes de Rodrigues ter notícias directas dos primeiros Portugueses que foram à China em 1513 e regressaram a Malaca em meados de 1514 (vide n. p. 360), caso contrário não seria tão esquemático, e provavelmente as distâncias teriam sido dadas em léguas, não em jaos indígenas (nota pp. 123-4). Rodrigues estava na índia em fins de Agosto de 1512, de regresso do Mar Vermelho. Não sabemos se ele lá ficou ou voltou a Malaca, mas é de supor que ele colheu a informação solfre a viagem de Alvim a Java em Março de 1513 pouco antes ou quando estava desenhando as cartas da Insulíndia e do Extremo Oriente que se encontram no Livro. No regimento para determinar a declinação do Sol pelas sombras (foi. 86r.), Rodrigues dá um exemplo para o ano 1520, referido ao Almanaque Perpétuo de 1508, o que poderia sugeiir
Introdução 101 que esta parte do Livro foi escrita em 1520, depois de Rodrigues ter ido à China em 1519. Mas se assim fosse, mal se poderia explicar por que o Livro não contém um roteiro e cartas melhores registando a viagem de Malaca ao Rio de Cantão. O referido ano 1520 era, muito provavelmente, mero exemplo sem qual¬ quer ligação com o ano em que de facto foi escrito. Parece, de tudo isto, que o Livro de Rodrigues foi abrupta- mente enviado para Lisboa, talvez devido a algum urgente pedido oficial, pouco depois dele ter desenhado as cartas da Insulíndia e da China, ou seja c. 1514. De facto ele não teve tempo para completar algumas cartas para as quais as folhas foram prepa¬ radas mas nunca utilizadas, nem pôde concluir os desenhos panorâmicos de Java, apenas delineados mas que ele provavel¬ mente tencionava ornamentar como os outros. Embora escasseie a prova categórica e muita da dedução tenha de ser circunstancial, sou levado a concluir que o Livro de Francisco Rodrigues foi concluído o mais tardar em 1514 e que as cartas da Insulíndia e do Extremo Oriente, as mais importantes de todas, podem ser datadas c. 1513. VALOR DA OBRA DE FRANCISCO RODRIGUES — O Livro de Francisco Rodrigues é um documento importante para a história da geografia. Alguns dos seus componentes, como por exemplo os regimentos náuticos e parte das cartas, podem ser conside¬ rados como simples contribuições para o estudo dum assunto já bem documentado em fontes mais antigas; os estudiosos, porém, podem neles encontrar abundante matéria para espe¬ culação e discussão. Quanto ao roteiro da viagem a Dalaca e à rota de Malaca à China, as doze cartas da Insulíndia e costas do Golfo de Bengala à China, e os desenhos panorâmicos das ilhas meridionais da Insulíndia, trata-se de material inteiramente novo, e o seu valor e importância são capitais. Ambos os roteiros têm o interesse especial de serem os pri¬ meiros conhecidos, pelo menos numa língua europeia moderna, para qualquer viagem específica no Mar Vermelho e no Extremo
102 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Oriente. É deveras lamentável que os roteiros das viagens de Rodrigues às Ilhas das Especiarias em 1512 e à China em 1519, que ele provavelmente escreveu, não tenham chegado até nós. Custa a compreender por que ele não incluiu no Livro um roteiro da viagem a Banda. Talvez não pudesse acabá-lo a tempo, antes do seu trabalho ser repentinamente enviado para Lisboa. Quanto a uma carta do Mar Vermelho feita durante ou depois da expedição de 1513, pode admitir-se que ele a tenha dese¬ nhado e que ela foi enviada por Albuquerque a el-Rei D. Manuel, como atrás se disse. Com o gosto para escrever sobre as suas viagens e observações, e a habilidade que revelou na sua obra cartográfica, pode ter-se como certo que Rodrigues escreveu muito mais e traçou muito mais cartas, tudo isso agora infeliz¬ mente perdido. As seis cartas que representam a Insulíndia constituem a parte mais importante do Livro, porque são as primeira dessa parte do mundo jamais desenhadas por um Europeu como con¬ sequência da sua observação directa. A sequência de desenhos panorâmicos, embora relativamente menos importante, não parece que tenha rival e é interessantíssima com a sua notável fidelidade. O Livro de Francisco Rodrigues e a Suma Oriental de Tomé Pires, escritos na mesma altura, completam-se até certo ponto mutuamente. A sua inclusão no mesmo códice foi tão natural como a sua publicação conjunta na presente edição.
ESTAMPA XI Frontispício do Livro de Francisco Rodrigues.
O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES ENMANUEL Foi. 2r. Jhus Framçisquo Roiz Este liuro fez Frco Roiz Foi. 3r. PILLOTO MÕOR DA PIME1RA ARMADA QUE DESCOBRIO BaMDÃM & MaLLUQUO Framcisco Roiz [tábua de matérias] (1) [Coroa real encimada pela parte superior dum dragão coroado Foi. 4r. com as asas abestas.] Aas doze folhas achares os treze çirquolos que por eles podes ssaber/ quallqr decrinacam q vos fTor neçesairo//. r. As quatorze fTolhas Achares o Regimemto Da decinaçam//. r. A dozassete a decrinaçam/ r. Aas vimte Achares huma Agulha que vos dara A emtemder quamto vale cada grao/. & asy por ela podes tirar a decri¬ naçam com hum compasso/ r. Aas vimte duas Achares quamto vale cada grao r. Aas vimte & sejs ffolhas Achares a pimejra poma & nela Achares todo ponemte//. r. As vimte & sete Achares A Ilha da madeira & as caanarias & as Ilhas dos Açores./ r. As vimte oito fTolhas Achares o cabo Vde & as suas Ylhas/. (1) A numeração desta Tábua das Matérias não corresponde à actual numeração no Códice de Paris. Vide Introdução, p. 92.
104 Francisco Rodrigues t. As vimte noue ffolhas Achares A Ilha daçemçam/. r. As trimta ffolhas Achares o brasyle./ &c r. As trimta & huma Achares a Ilha de ssamtome ec//- r. As trimta & duas Achares o cabo de boa esperamça. t. As trimta & tres Achares As Ilhas de tistam da çunha r. As trimta & quatro Achares çofallaa & as ilhas pmeiras & Moçambiquei & asy a Jlha de sam louremço. t. As trimta & sejs Achares mais o cabo de goardafuy. & A boca do estreito de mequaa.//. t. As trimta & sete achares ormuz//. & toda a costa da Jmdia & de cambaia.// r. Mais as trymta & oito Achares o cabo de comorym & a Jlha De çeilam & a trauessia que ha de ceilam Ate gamjspollaa; & De gamjspola ate melaquaa/... [À EMTRADA DO MAR VERMELHO] Foi Sr. [Desenho à pena das Armas de Portugal com as quinas, mas um castelo apenas. Por baixo a assinatura Osorio.] (2). A duas legoas da pta do estreit0 esta hum castelo ècyma de hum monte qe se quer pareçer com palmeia (3) ahum a oeste (2) Esta palavra, escrita em letra posterior, é talvez a assinatura do célebre Bispo D. Jerónimo Osório (1506-80), provavelmente um prévio pos¬ suidor do Códice. Vide Introdução, p. 5, Estampa II. (3) Isto deve ser Turba, uma fortaleza ou castelo cujas ruínas ainda existem num promontório com 158 m de altura, em Huns Murad Point. que forma uma baía com boa profundidade, protegida de oeste. O Red Sea and Gulf of Aden Pilot (ed. 1932) diz: «7J amarras a nor-nordeste da ponta Warner fica Turba, um monte quadrado com 480 pés (146 m, 3) de altura, onde se encontram as ruínas de um forte (Lat. 12° 14' N„ Long. 43° 30' E.)». A correspondente Admiralty Chart mostra «Turba ruins» sobre a ponta «Huns Murad», e as sondagens mais cerca da baía vão de 7 a 17 braças. Esta baía fica exactamente a duas léguas (6,4 milhas) da parte ocidental da Ilha Perim, i.e. o começo do Grande Estreito. A cerca
0 ORIENTE DO MAR VERMELHO CONFORME FOI CONHECIDO DE FRANCISCO RODRIGUES UM ARRANJO DAS SUAS CARTAS SOBRE UM CONTORNO EM VERMELHO StatuteMiles 400 600 1000
O Livro 105 dele podes sorgir è dez braças è qualquer bamda q qizerdes sê nêho a Reçeo// ha muy bom pt° de ponête espremêtado chamasse narhãm he todo o fumdo lympo// ha neste port0 agoa esta hum tiro de bonbarda do mar//, t a ylha q esta a porta do estreit0 se chama a vera cruz (4) esta ê doze graos & dos terços tomados è tefta// no meo dela tê hum port° da bamda do sul a sua êmtrada seis sete & oit° braças// pode neste porto por hua nao de duzêtos tones por ê momte// esta norte & sul cõm zeyla// ha daly a bar- bora tnta legoas & de barbora a adê ha outros tnta de norte | E sul & de zejla a adê ha qõrenta legoas esta nordeste sudueste Foi. 5v. com aadê &. zejla esta ê omze graos largos// da ylha da vera Cruz a zejla de 1,6 milhas de Turba há um monte, Jabel Manhali, com 967 pés de altura. D. João de Castro diz, ao descrever a sua viagem de Socotorá a Adém: «A terra que vimos pela manhã, disseram os pilotos que parecia Dabiam, que é à ré de Adém 15 léguas». Roteiro do Mar Roxo. p. 27. Deve haver alguma relação entre Narhãm de Francisco Rodrigues e o presente Jebel Manhali ou o antigo Dabiam, embora quanto a este a distância de Turba a Adém seja muito superior a 15 léguas. Mas pareceria mais provável que Narhãm fosse uma corrupção de Huns Murad. Numa das cartas — Taboa das Portas do Estreito» — que ilustram o Roteiro do Mar Roxo, a ilha Perim e a costa até as proximidades de Adém estão representadas com notável fidelidade; na ponta correspondente a Huns Murad está desenhada a forta¬ leza ou castelo referido por Francisco Rodrigues. (4) A ilha de Vera Cru: foi primeiramente conhecida dos Portugueses pelo nome indígena, que ainda conserva, Melwm ou Miam, mas hoje é conhe¬ cida como Perim Island. Na sua longa carta de 4 de Dezembro de 1513 para el-Rci D. Manuel, na qual informa sobre a expedição ao Mar Vermelho, aqui referida por Rodrigues, Albuquerque diz: «Vindo o tempo da nossa partida de Camaram aos quinze dias de Julho [1513] saímos fora do porto, e caminhámos caminho da porta do estreito; passando a porta surgi logo detrás da ilha e as naus todas comigo ... descemos em terra c corremos grande parte da ilha ... pus uma cruz dum mastro grande na boca do estreito no morro que está sobre a entrada... e pusemos-lhe nome a Ilha da Vera Cruz». Cartas, I, 231-2, Na carta de Rodrigues em que se vê o Golfo de Adém e a parte oriental do Mar Vermelho, a Ilha Perim tem apenas a legenda — ilha que esta na boca do estreito de meca.
106 Francisco Rodrigues ha tnta legoas/ este porto desta ylha he muy bõm de todolos ventos estares ê sejs & sete braças & nõ veres por onde Entras¬ tes (5) tão bom he &//. [VIAGEM COM JOÃO GOMES. PARA DALACA] Camynho qe fiz com Joham Gomez captam da cara¬ vela p‘ dalaca &./. Foi 6r. Este he o camynho qe fizemos sayndo da ylha de çeybam (6) pa dalaqa // Fomos demandar çeybam aloeste// & de çeibam aloeste qnze legoas ou dezeseis fomos dar ê hQm baix0 qe ha nelle tres ou qtro legoas// ha nele de largo dous terços de legoa Jaz noroeste sueste/ ha no mãs alt° dele qatro braças & dy pa baix0 ate huma & mea// os baixos deste bamqo sã de pedra & darea & darea & o mays baix° he na põnta do sueste tomey o sol & achey q estava ê qymze graos vimos adiante tres ylhas aloes noroeste// ava cymqo legoas a ellas e jaze leste & oeste mt0 cerqa huuas das outras fomos a elas ê meo deste camynho topamos outro bamqo q he de compdo mea legoa/ & de larg° tera huu tyr° de berço/ ha no mays baixo dele sejs braças//. Esta ylha pmeira tê por marca hua mata darvores tamanha como huua nao & a par das arvores/ ha hua emsseada asy como a de camaram senã qe he muyt0 apareçellad0 fomos | Ao lomguo delias êm a dobramd0 pa o noroeste tem dous momtes de pedra// dissenos o Robã mouro qe levavamos qe era porto &.//. Dy fizemos nosso Camynho ao noroeste & a qarta daloeste por mandado do Robãm pylot° mour0/ ssurgimos aquela noute (5) Alguma desta informação é notavelmente correcta. A Ilha Perim está em 12° 14' N. e Zeila em 11° 15' N. As sondagens à entrada do porto de Perim dão 9 braças e dentro do porto 6 e 7. Entre Zeila e Bcrbcra há 32 léguas, e entre Zeila e Adém 37; mas de Berbera a Adém há apenas 43 léguas, c de Perim a Zeila só 25. (6) Ceyban ou Ceiban é Jcbcl Teir Island, que fica 45 milhas a oés- -noroeste de Kamaran. Embora Rodrigues comece de Ceibam a descrição da viagem, a caravela de facto partiu de Kamaran.
O Livro 107 è qymze braças por nos acalmar o vemt° Aoutro da pola menhãm/ achamonos cercados Dilhas de muytos baixos & Restimguas/ alevamtamonos por força por o vemto ser Rijo & gastamos todo o dia ê balRavemtear// ê sairmos dãtre aquelas ylhas nos ffFFez ds muyt* merceeê & Como ssaimos vimos a ylha de Dalaca q se nos Demoraua ao sul// aRibamos a ela por çyma dum pãrçcel de qatro & çimquo & seis braças como fomos tamt° avamte como a ponta da ylha achamos gramde fumdo & fomos ao lomguo da ylha q jaz leste & oeste ate hum ylhe0 & sempre acha¬ mos gramde fumdo de vinte ate tnta braças// Disse nosso Robãm mour° q aviamos de passar antre o ylheo & a teRa srya isto ao sol post0 semdo tant° avante como o ylheo// Fomos dar ê duas braças supt0// demos fumdo/ fomos somdar cõm o batell ate q achamos hum poço de sete braças/ ônde posemos a caravela ate q veo o dia// alevamtamonos com o ponènte nua volta & na outra & nõ pudemos ssayr daqle poço de sete braças torna¬ mos a surgir espamdo por vento larg0 cõm o qual ssaymos por hum canal de duas braças// deste ylheo ate o porto de delaq* ha duas llegoas// & ha sseys legoas a ponta por onde entramos a ylha de Dalaca/ Jaz leste & oeste ate o porto & do porto pa diante se vay lançando pa o nordeste (7). O fumdo qe ha na boca do port0 de dalaqua he duas braças Foi. 6v. & mea tres tres & ma/ & braça & mea tudo ssam mamchas de pedra & darea// ê meo do Canall a cymquo braças & çimquo & mea/ O canall he tãm Estreyt0 qe nõm poderá emtrar demtro nehflua nao nossa gramde salv0 com Rajeiros (?) porp° pa A sua amcora pstes demtro no p°rto ha tres braças ate Duas & ma & nõ ha hy nehuua segurãça salv0 abalRoamd0 huuas com os outros/ ha Demtro luguar pa tres navios amaRados a qtr° amaRas cõ estoutras tres naos Deçym08/ nom Ja per o porto nõ ser gramde mas he tudo apeçelad0 qe nõ ha hy hum Palmo dagoa De baixa maar// de prea mar avera huua braça poueo mais ou menos/ De fora do porto a húm tiro de bombarda ha qorenta braças (7) Devia ser noroeste.
108 Francisco Rodrigues çymqoenta braças he tudo pedra// foy o captão ê teRa ffallar com os mouros/ etc/. Pguntamos ao Roboam mouro se saby® algu port0 na teRa da abixya Respõmdeo q nõm ssaby® ssomte ouvira dizer qe ao noroeste avya hum port0 & qe punhã dous dias ê hir la Partimos dy & fomos coRemdo a costa da abixya nove ou dez Dias sê acharmos barco nê çapat0 nê vimos manejra De port0 nêm omde ouvesse desembarcação// Pguntamos ao Roboãm mouro pelo Camynho verdadejr0 qe as suas naos gramdes traziã de camarãm pa dallaqa qe nos levasse a ele pa o avermos de ssaber// por seu mãndado tornamos a v a ylha de dalaqa & dy fffizemos o camynho deleste ao lõngo Duua Restyngua qe nos fiquou Da bamda de bobord0 & viemos Demandar as ylhas cõm q topamos pmeir°// qe disse o Robam mour0 q este era o Camynho pomde as suas naos grãmdes vynhã// viemos asy ate noute qe nos acal- Fol. 7r. mou o vemt°/ ssurgimos ê fffumdo de doze | Braças ate o outro dia qe demos vella & vimos huua ylha a sotavemto de nos qe nos demorava ê lesueste// & disse o Robam mouro qe ao long° dela era nosso camynho da bãnda Do ssul/ & qamdo nos vimos Junto Dela/ começouse o mouro de fffffazer muyt0 espãntado qe nom era aqla a ylha por omde avyamos de vir & veo dar comnosco ê hum pareçel por omde viemos mais de tres legoas ate q viemos dar nas ylhas pmeiras pomde foramos daly pa dalaq3// aves Dir aloeste & a qarta do noroeste hires duas legoas ate qe chegues ao Canal & daly hires aloeste por qeste piloto mouro qiserase bem escusar damostrar este camynho se poderá & açaz trabalhou por ysso. A mym me parçeo qe o Camynho Verdadr0 se ade fazer com vemto feit0 asy pa naos grandes como pa peqenas/ porqe neste camynho achamos Dezesete ilhas afora grãm cantidade de Restimguas & çugidade & muytos parces// (8) (8) A rota seguida pela caravela foi muito provavelmente de Ceybam para os baixos quinze léguas a oeste, em Lat. 15° 20' N. As ilhas a oés- -noroeste seriam Mojeidi, Ancara e Dhu-l-leurash. Daí seguiram para
O Livro 109 [determinando a latitude] Neste capitollo abaxo esqto achares o Regimento destes Foi. 8v. trrezee cirquolos com o de ffora./. o quall p eles podes tirar a decrinacãm de quallqr dia quee vos ffor necessairo/ polos doze cirquolos questam de demtro podes sabr o affastamemto & ho achegamemto que o ssoll ffaz da linha quanociall &. Primeiramemte Aves. De sabe pera terdes Vdadeiro conhe- cimemto destes cirquolos que aquy estam per ffigura vos he neçesairo q tenhaes conhecimemto do mouymemto dos çeos/. porquee saberes que todo o ceeo he emMaginado por Respeito que em elle nam ha senam hum çirquollo poisado/, o quall se chama Zodiaquo/ o quall he posto lesueste & oesnoroeste A Res- peyto Do canoçiall q he leste oeste & p ele ssam emmagynados todos os outros çirquolos da espera. Este zodiaquo he Repar¬ tido em trezemtos & sassemta graos asy como aquy vedes p ffegura./. & tem de largura doze graos & m° de leste a huma lynha que se chama lynha eclyquytaa p ela Aamdaa o ssoll hum gaao & as vezes Menos Estes ditos çirquolos sam a verdadeira lynha ecliquytaa postos em corpo pano como aquy por ffigura vedes/. & asy mesmo No dyto zodiaquo vam postos os doze synos & cada hum destes synos tem trymta gaos em que o soll esta trymta dias por Respeito que amda cada dia hum gaao & desta manejra Acaba seu çirquollo em hum Annnõ E asy norcste e avistaram a parte nordeste da ilha de Dalaca, cuja ponta sudeste. Ras Shoke, dobraram, navegando ao longo da costa sul, que corre este-oeste e onde o mar tem mais fundo chegando a 85 braças. Avistaram o ilhéu Shuma, que fica a 7 */2 léguas de Ras Shoke e apenas 1 >/2 do porto Dahlak Kebir. Este porto é acessível apenas a pequenos barcos de fundo chato, e a sua entrada não tem mais de duas braças de profundidade. Depois nave¬ garam por noroeste procurando o porto que o piloto árabe dizia ficar nessa direcção; não conseguiram encontrá-lo, provavelmente porque tal porto era Maçuá que ficava mesmo a oeste. Continuaram ao longo da costa, cujo primeiro porto está perto de Surakin, mas voltaram a Dalaca e daí a Kamaran. Sobre toda a viagem, vide Introdução, pp. 88-91 e Est. VII. 9
110 Francisco Rodrigues mesmo neste zodiaquoo. hamdam as planetas/ & este zodiaquo ffaaz a deçrinaçã .s. quamdo o soll estaa em aqueles synos/ & deles tem pouca Decrinaçam & deles tem Muyta cada hum em sua cantydade Da decrinaçam he os graaos q vam da linha pa a Mao debax° & Atrauessa polo meo Dos cirquolos/. & se quyserdes tirar a Decrinaçam he vos Necessairo hum compasso & que vades a quem este ffez q volo emsynêe/. ou A outrem porque doutra manejra volo nam posso Daar A emtemdeer// & (9) Framcisquo/. Rooíz Foi. 9r. (Figura com círculos planetários e Zodíaco, com a inscrição: Domde ho ssoll procede Has claridades aos signos ee aos planetas asi aos superiores como aos ímferiores. La he allma do md.) [jesus] Foi. I0r. quamdo qr que qujseres tomar Altura do soll/ toma la es ao meo dia pumtualmemte & quamdo qr que A tomardes oulhares memtes De que parte he o ssoll./- se he da linha Canoçiall pa (9) Esta curiosa figura (foi. 9r.) é assaz semelhante à parte da figura impressa na penúltima página do Regimento do estrolabio Z do quadrante (cha¬ mado Regimento de Munique — Lisboa 1509? primeira edição 1495?), que contém a tradução da Sphera de Sacrobosco. A figura no Regimento, e as suas inscrições, foram em 1937 estudadas por Fontoura da Costa, A intri¬ gante penúltima página do «Regimento de Munique». A inscrição no topo é exactamentc a mesma no Regimento c na figura de Rodrigues, mas aquele tem outras inscrições e desenhos, embora não apresente o Zodíaco. A ins¬ crição no tôpo diz: Demde ho ssoll proçede has claridade aos signos et aos planetas asy aos superiores como aos ímferiores he a allma do mdo. Os seis circulos parecem representar Marte, Júpiter c Saturno (em cima), e a Lua, Mer¬ cúrio e Venús (em baixo), cada um dividido cm 36 partes (de 10 graus). A escala vertical na metade inferior do circulo zodiacal (que não aparece na figura do Regimento) está dividida em 23 'I2 partes, que correspondem aos 23 >/2 graus da obliquidade. Não é, porém, fácil ajustar a descrição de Rodrigues à figura. Ele próprio não estava muito seguro da sua explicação: não sabemos mesmo se compreendia o que tentava explicar. Talvez seja por isso que ele acaba por dizer ao leitor: «que vades a quem este ffez cj volo emsynée / ou A outrem porque doutra manejra volo nam posso daar A emtemdeer».
ESTAMPA XII Foi. 9r do Livro de Francisco Rodrigues. Figura para ilustrar o «Regi¬ mento para tirar a declinação»
ESTAMPA XIII jScmoeboiTollpjOíc fiemos ct aos píancrc f &e ' gn l etas combaosjnferiojee. bafclarioaoeaos aft-aosfupcrioies ^àbcalinaooiíiD £ftcbe:Sllfraganobo capoDf|conip:enoer j ws.lTooítcanuçue A penúltima página do Regimento de Munique
O Livro 111 a bamda Do ssull se pa a bamda do norte porque aves de ssabr que o ssoll Aamda .6. messes Da linha quanoçiall pa a bamda do norte .s. domzee De março ate quatorze De ssetembro. & de quatorze de De ssetembro. Ate omze de março Aamda da linha quanoçiall pa a bamda do ssull./. & assy cada vez que A tomardes/, oulhares memtes de que parte he o ssoll & asy ffares vossa comta./. (10) (10) Quando os Portugueses começaram a navegar pelo Oceano Atlântico, em busca quer das Ilhas quer do Cabo Bojador, deram-se conta da necessidade de conhecer a altura do polo acima do horizonte (a latitude) e tiveram de recorrer aos peritos do Infante. Nesse tempo já eram bem conhecidas as Regras dos Libros del Saber de Alfonso X, para em terra cal¬ cular essa altura pela altura meridiana do Sol. Estes Preceitos, assim como todos os que se lhes seguiram, requeriam o conhecimento, primeiro, da altura máxima do Sol, c segundo, da sua declinação. A altura do Sol era medida quer com o astrolábio quer com o quadrante; a declinação era determinada quer mecanicamente com o astrolábio, quer pelas Tábuas. Por conseguinte os técnicos do Infante tiveram de adaptar os Preceitos para uso no mar, e estes passaram a ser conhecidos como Regimento do astrolábio e do qua¬ drante e mais tarde como Regimento da declinação; tiveram também de adap¬ tar os instrumentos de observação (astrolábios e quadrantes) para serem utili¬ zados no mar, e além disso tiveram de simplificar as Tábuas de declinação para que pudessem ser utilizadas pelos marinheiros portugueses, gente simples e de pouca instrução. Assim como os Preceitos, a primeira regra refere-se à altura meridiana. Duarte Pacheco Pereira formulou, em linguagem mais polida, uma regra cm que toma em consideração as posições do Sol e do observa¬ dor cm relação ao equador. Esta é a primeira regra esboçada por Fran¬ cisco Rodrigues, e pode ser expressa pelas seguintes fórmulas: 1) Quando o Sol está entre o observador e o equador, estando o obser¬ vador a norte ou sul do equador: Latitude (N. ou S.) = (90° - Altura do Sol) + Declinação. 2) Quando o observador está entre o equador e o Sol, (a norte ou sul do equador): Latitude (N. ou S.) (Altura + Declinação) - 90°. 3) Quando o equador está entre o observador e o Sol, estando o observa¬ dor a norte ou sul do equador: Latitude (N. ou S.) 90° - (Altura+Declinação). 4) Altura = 90°; a) Declinação = 0o: Latitude = 0o. b) Declinação diferente de 0o: Latitude (N. ou S.) = Declinação (N. ou S.). 5) Altura + Declinação = 90°: Latitude = 0o. Deve notar-se que os resultados no terceiro caso não estão completos, ihitus.
112 Francisco Rodrigues Quamdo qr que achardes o ssoll amtre vos & a linha fiares esta comta adiamte espta/. Aves de sabr que se o ssoll estiuer amtre vos & a linha aves de tirar a decrynaçam daltura p esta manejra/. ponho per emxem- pro que tomastes daltura do ssoll./ ssatemta gaos/ oulhares memtes quamtos vos ffaleçem pa novêta cres q vos ffaleceram vimte botares fora os ssatemta que tomastes daltura do soll & os vimte que vos ficam aJumtares com a decrynaçam daquelle di em que estiuerdes & isso estares afastado da linha quanociaall. Se vos achardes amtre A linha & o soll ffares esta comta adiamte esptaa/. Saberes se vos achardes amtre A linha & soll tomares vossa altura com quadramte ou estrelabeo & A altura que tomardes aJumtares com a decrynaçam daquele dya em que esteuerdes & os que ssobejarem de Nouemtaa esses estares affastado da linha quanociall. SE a linha quanoçiall fora amtre vos & o soll fares esta comta adiamte espta. Saberes se a linha quanociall ffor amtre vos & o soll tomares vossa altura ao meo dya pumtuallmemte./. & altura que tomardes aJumtares com a decrynaçam daquele dya em que esteuerdes & os que faleçerem pa novemta aqueles estares affastado da Foi. lOv. linha quanoçiall | E Se ffor coussa que tomardes Nouemta gaaos daltura Do ssoll & nam achardes decrynaçam Nenhuma naaquele dia em que esteuerdes/. ssaberes que vos & o ssoll Estais em a linhaa quanoçiall & se alguma Decrynaçam achardes essa estares affastado da linha quanoçiall & se ffor coussa que aJumtamdo vos A altura que tomastes com a decrynaçam daquele dya & achardes Nouemta gaaos que nam aja mais Nem menos/, saberes q estais ê a linha quanociall Francisquo/ Roiz. pois (Altura + Declinação) pode ser maior que 90°, facto que nâo é men¬ cionado por Rodrigues. (Nota do Comte. A. Fontoura da Costa).
O Livro 113 [TÁBUAS DA DECLINAÇÃO DO SOL] (11) Março Abriu. Foi. llr. Dias Lugar GRaos Do do da deçri- mee- mes soll. naçã nutos Dias LlugaR graos Do do da deçri- mcc- mes soll. naçam nutos 1 20 2 21 3 22 4 23 5 24 6 25 3 3 3 2 2 2 59 35 11 48 24 0 2 3 4 5 6 21 22 23 24 25 26 8 8 8 9 9 10 14 37 59 21 43 5 (11) De princípio deve ter havido uma Tábua Solar Unica, i.e. uma Tábua apenas para um só ano bissexto, que podia ser utilizada durante os três anos seguintes, porque as pequenas diferenças em minutos não tinham importância, dado o carácter aproximado das alturas medidas com os ins¬ trumentos de observação contemporâneos. Esta Tábua, de que não exis¬ tem vestígios, teria possivelmente sido calculada por ben Verga que em 1457 vivia em Lisboa, sendo a Tábua, naturalmente, para o ano bissexto de 1456. José Vizinho traduziu e resumiu a muito notável obra hebraica de Zacuto, chamada Ha-jibbur Ha-gadoI (A Maior Composição), e publicou-a em Leiria em 1496 sob o bem conhecido título de Almanach Perpeluum. Vizinho deve ter conhecido em Salamanca a obra de Zacuto. Ele utilizou-a para calcular a Tábua Solar Única do Regimento de Munique para o ano bissexto de Março de 1475 a Fevereiro de 1476. Para cada dia de cada mês a Tábua dá o lugar do Sol (i.e. a Ascensão recta) apenas em graus e a sua declinação em graus e minutos; mas o marinheiro precisava de saber apenas — como ainda hoje — a declinação. Esta Tábua foi utilizada durante muitos anos. Rodrigues transcreveu esta Tábua Solar simples (fls. llr-13v.); não obstante ele deve ter notado que, quando compôs o seu MS., já existiam as Tábuas de Decli¬ nação para quatro anos, calculadas por Zacuto para as Tábuas Solares do seu Almanach Perpeluum, para 1497-1500, destinadas à viagem de Vasco da Gama. Foram depois utilizadas na viagem de Cabral e em várias outras viagens do começo ao século xvt. Estas Tábuas de Zacuto são reproduzidas, sem os lugares do Sol, na Suma de Geografia de Fernandes Enciso, e alguns seus vestígios (as posições e declinações do Sol) existem no MS. de André Pires (Fonds. port. n.° 40, Bibliothèque Nationale de Paris). Na transcrição de Rodrigues faltam os minutos da declinação para Julho. (Nota pelo Comte A. Fontoura da Costa).
120 Francisco Rodrigues Foi. 14r. Foi. 15r. Regimento pa saberes quanto multipli¬ cas cada Crao por legoa Foi. 16 (Uma rosa-dos-vcntos para medir um grau em léguas, corres¬ pondendo ao Regimento no fólio seguinte.) K linha dereita de norte & sul vai cada grao 17. legoas & m.a H pela pmeira quart8 amdas por grao 19. legoas & mea f pela pmeira mea partida qe ssã duas quartas amdaras por grao .21. legoas & mea/ * pelas pmeiras tres quartas amdaras por grao .23. legoas & ma * fazemdo o camynho pelo Rumo de nordeste sudueste amdaras por grao 25. legoas ' fazemdo o camynh0 polas çymq° quartas amdaras por grao trymta & duas legoas & mea * fazemdo o camynho polas seys quartas amdaras por gra° qoremta & seis legoas & mea//. ' fazemdo o camynho polas sete quartas amdaras por gra" novemta legoas & mea//. r Sesemta meudos// ffazem hu grao// Capitollo de huu quãrto dagulha Pera Saberdes quamto vaall./ cada grao & per elle podes SabR todollos outros/ Navegamdo Norte & sull Respomde o grao dezasejsl leguoas & dous terços & em cada legoa se momtam. —. 16/| tres meudos & trymta & sejs segumdos//. Navegamdo ao norte & a quarta do nordeste Respomde o grao. Dezasete leguoas & em cada leguo. se momtam tres meudos & trymta & hum segumdo & —.17. quoremta & çirnq0 terços & çinq°emta & tres quartos//. Navegamdo ao nornordeste Respomde o grao dozoitol legoas & em cada legoa se momtã tres Meudos &! —.18. vimte segumdos Navegamdo Ao nordeste & A quarta do norte Res¬ pomde o grao vimte leguoas & em cada legoa se —.20. momta tres meudos// — Navegamdo Ao nordeste Respomde o graao vimte & quatro leguoas & em cada leguoa se momtam dous —.24. Meudos & Trymta segumdos/.
O Livro 121 Navegamdo Ao nordeste & A quarta de leste Respomde o grao trymta legoas & em cada leguoa se momtam dous meudos Navegamdo em lesnordeste Respomde o graao quoremta & huma legoa & ma em cada legoa se momtam vimte & sejs segumdos & quoremta & quatro terços//. Navegamdo em leste & a quarta De nordeste Respomde o graao/ oitemta & tres legoas & em cada leguoa se mõtam quoremta & tres segumdos & vimte & quatro terços & vimte & quatro quartos// E toda esta comta Achares, mais embre em huua Agulha que Atras vos fica/(12). —.30. —.41. —.83. (12) Rodrigues apresenta dois Regimentos para determinar a dis¬ tância (em léguas) navegada segundo cada quarta, sendo de um grau a dife¬ rença dc latitude. No primeiro caso, calculando um grau de latitude à razáo de 17 */> léguas e no segundo a 162/j, ele dá à distância AC, hipotenusa do triângulo rectângulo ABC. No outro Regimento o grau é calculado a 162/3 léguas e dadas as distâncias AB e também os valores da mudança de latitude (em minutos, segundos, terços e quartos) para uma légua percorrida ao longo de cada quarta; alguns dos números dados estão errados devido a engano no cálculo dc AC, e há um na sexta quarta: «em cada leguoa mon¬ tam vinte e seis segundos c quarenta e quatro terços>\ pois foi omitido 1'. Também 41 em vez de 41 >/2 está erradamente escrito na margem. Os números devem, de facto, ser calculados pela bem conhecida fórmula: .... d’ latitude distancia —- cos (rumo) No primeiro Regimento, os números dados estão todos errados e diferem dos que se encontram no Regimento ile Munique assim como noutras Tábuas conhecidas; possivelmente Rodrigues teria obtido estes números quer dalgum exemplar anterior, quer medindo grosseiramente as hipotenusas de triângulos traçados numa escala reduzida. A tabela seguinte dá os números de léguas a 17 >/2 por grau, como se encontram no MS., e a seguir os números correctos; números seme¬ lhantes para o grau de 16 2/3 léguas, e, finalmente as mudanças em latitude A
122 Francisco Rodrigues Foi. 17r. 9 Fois. 18-30. Fols. 3 Ir. e 32r. Fols.33-42. (Sistema de rosas-dos-ventos preparado para uma carta que nunca chegou a ser desenhada.) (O recto de cada uma destas folhas tem uma carta.) (Rosa-dos-ventos no centro e tronco-de-Iéguas à esquerda, para uma carta que nunca chegou a ser desenhada.) (O recto de cada uma destas folhas tem uma carta.) CAMYNHO DA CHYNA Foi. 37v. De malaqa a pulo param a cymqo Jaãs & daly a piçâo outros cymqo & de pulo piçam a carymam tres Jaãs & de caryman a syngapura çinqo & de singapura a pedra bramca çTnqo & de apulo tymge çinqo Jaãs/ ao nordeste & per este camynho outros çinqo Jaãos a vjoma & de pulo vioma a pulo condor qorenta & çinqo Jaãos polo norte & a quarta do nordeste & de pulo para cada légua percorrida, como se encontra no MS, e com os valores correctos. /“ = 17 */2 léguas 1° — 16 2/3 léguas Rolas Distâncias Distâncias mudança em lat. para cada légua percorrida MS Corri¬ gidas Corri¬ gidas MS Corrigidas Norte ou Sul 1. " quarta IIo 15' 2. » quarta 22° 30' 3. » quarta 33° 45' 4. a quarta 45" 5. * quarta 56° 15' 6. * quarta 67° 30' 7. * quarta 78° 45' 17i/2 19 »/2 21 'h 23
O Livro 123 comdor a terra de champara trra vermelha qimze Jaãos ao nor¬ deste & desta terra vmelha ao lomgo da costa ate a pomta da berela qatorze Jaãos ao nordeste & da berela a pulo cotõm doze Jaãos plõ dito camynho & de pulo cotom a aynarn vinte & çinqo Jaãos ao nordeste & daquy a pulo cotom vinte Jaãos ao nordeste & pera partires de pulo cotõm derejt0 a barraa de timom as dir ao nordeste & teras sempre leste porqe as coRemtes te nõ lançêm na emsseada de cauchy &// (13). (13) Ao que se sabe este é o mais antigo roteiro escrito, pelo menos numa lingua europeia, da navegação de Malaca para o Rio de Cantão. Está inserto no verso do fólio que contem a carta das Molucas e Timor, e os esboços nos cinco fólios seguintes propõem-se representar algumas das costas e ilhas entre Malaca e a China. O roteiro, escrito pelo próprio Rodrigues, foi provavelmente obtido de algum piloto chinês e inserto depois das cartas terem sido desenhadas. pulo param deve corresponder a Pulo Padang e Pulo Bangkalis, sepa¬ rados por um canal muito estreito e jazendo muito perto da costa leste da Samatra central. A ponta nordeste de Bangkalis, chamada Tanjong Parit, dista 42 milhas de Malaca e 46 de Pulo Pisang. pedra branca ainda é o nome dum ilhéu na entrada leste do Estreito de Singapura. terra de champara, terra vermelha. Terra de Champara (vide nota p. 247), deve ser a baía Phan Ri, na costa de Annam. «Entre Guio Point (Lat. I Io 3' N.) e Phan Ri (11° 10') a costa consiste cm barreiras aver¬ melhadas», diz o China Sea Piloi, I. Um pouco mais para sul, logo a oeste de Vinay Point, também há um lugar marcado «Red Sand Hills» (10° 57') na Carta do Almirantado. A Baia Phan Ray fica a 220 milhas de Pulo Condore e cerca de 160 de Cape Varclla, ao longo da costa. Pulo Cotom é Pulo Canton ou Kulao Rè (Rai), um ilhéu 15 milhas a leste de Cape Bantan (15° 23'). Há também um rochedo Canton mais para norte (16° 10'), à entrada da baía Tourane, que de algum modo deve estar relacionado com o segundo Pulo Cotom mencionado por Rodrigues muito confusamente. Isto é sugerido pelos 25 jãos de Pulo Canton a Hainan e 20 jãos «daqui (Hai- nan) a Pulo Canton», embora a diferença de 5 jãos não esteja em proporção; neste caso, porém, ele deveria ter dito sudoeste, não nordeste, timom é o ro
124 Francisco Rodrigues Fols. 43- (Os rectos destes fólios têm desenhos mostrando a parte norte -85. de Ilha de sollor, Sollolo, Ilha de Samademga e Ilha de symbaua como vista do mar.) [regra da declinação do sol] Foi. 86r. O graao que achardes sobre os graaos de quallqr dos synoos: Das quatro tauoas em tam teres o verdadeiro lugaar do soll Tumon de Pires, ou Lin Tin Island, à entrada do Rio Cantão. Vide nota pp. 362-3. cauchy — Golfo de Cauchy quer dizer Golfo de Cochinchina, i.e. o Gulf of Tong-King (ou Tonquim). JÃo — F. Mendes Pinto (xxxxi) por duas vezes menciona o jao como medida de distância. Referindo-se ao perímetro de «um grande lago, a que os naturais da terra chamam Cunebcté, e outros o nomeam por do Chiam- may» (Tonie Sap?) na Cochinchina, diz que «tem em roda sessenta jaos, de três léguas cada jao». Depois diz (xcv) que a Muralha da China é dis¬ tância de setenta jaos, que por nossa conta, a razào de quatro léguas e meia por jao, sâo ao todo trezentas e quinze léguas. No primeiro caso o jao é igual a 15.446 m., no segundo caso é igual a 23.170. Na lista de distâncias dada por Rodrigues, o comprimento de um jão parece variar consideravel¬ mente. O seu total de 144 jãos até Hainan. correspondendo a 1.402 milhas, dá 15.607 m, por jão, o que praticamente corresponde às 3 léguas indicadas por Pinto no primeiro caso. Jõuh em Malaio quer dizer distância; mas as referências de Rodrigues e de Pinto parecem indicar que a palavra é derivada do chinês. Na sua análise da obra geográfica compilada por Ma Huan no principio do século xv, G. Phillips diz que a latitude de lugares «é mostrada pela Estrela do Norte sendo calculada em tantos dígitos e tantos oitavos de altura. Estes sâo em chinês chamados chih e chio [escrito chião na p. 225], que num caso corresponde ao árabe Issaba ou Terfe, que significa um dedo, c noutro ao árabe Zani. O Issaba é igual a 1° 36', e o Zam a 12'.» The Seaports of índia and Ceylon, p. 218. Por outro lado diz-me o Prof. Moulle que na China as distâncias pela água eram expressas em chia, em cantonês Kau, que quer dizer «nove». Embora o chinês chio. chiu chião e kau, ou o árabe Zam, sendo igual a 12', seja mais longo do que os 15.607 m atrás calculados para o jão, atrcvo-mc a sugerir que possa existir alguma relação entre estas expressões.
O Livro 125 & por escusar trabalho & Reteficacam de huma tauoaa. A quall achares na tauoa Da decrynaçam a mãao Direjta Na quall se mostra aquylo que avemos Dacçreçemtaar em cada huma Das ditas Rovulações que Am de vir./. & poor q isto seja mais decra- rado/ A quem o leer/. quero por por ffegura este emxempro/ que sabermos o Vdadeyro lugar: Do soll .ss do amno Do naci- memto de nosso semnor Jhuus Xpo de .1.5.2.0. annnõs/ Aos .1.5. dias do mees De marco & tirares dos ditos .1.5.2.0. a Raiz das tauoas que sam .1.5.0.8. amnos de maneyra que fficam .12. amnos. Dos quaes tirares todolos quatro quamtos Achares & fficar uos ham Na maao quatro amnos o quall vos amostrara que Aves Demtrar Na quarta tauoaa/ Do ssoll/ & emtam depois q emtrardes Na quarta tauoaa Aquele dia propiamemte .ss. a .15. dias de março Achares que o soll esta em quatroo graaos & 53 meudos & .31. segumdos/. os quaes sam p tres Reuoluçoês do ssoll/ que ssam passados segumdo. ho veres Na tauoa em direjto das .3. Reuoluçoes/ & des quee ho Achardes dires Vda- deiramemte que o soll esta em 4 gaos & .5.3. meudos & .3.1. segumdos & teram da deçinacam .2. /. Dous graaos & .20. meudos/. Asde ssabr que por amor Da decraraçam te quero amostraar como Vdadeyramemte conheças Da parte domde o soll Aam- dãar quer sejam Nos synos Da parte do norte qr nos synos Da parte do sull/ oulharãs com huma agulhaa que seja Vdadeira/ omde qr q se Alevamtaar o soll/. em quallqr tempo que seja/ & se se o soll alevamtaar em leste sera emtam o soll na metadee Da linha quanoçiall/ & se o soll tomaar Da quarta do nordeste, saberes quee o ssoll esta no syno Da parte do norte/ & se o ssoll tomaar da quarta do ssueste/ sera o ssoll no syno da parte Do sull.//. (14) (14) Este Capítulo está relacionado com um Atmanach Perpetuuni de 1508 e propõe-se mostrar, com um exemplo para 1520, como se deve determinar a declinação solar. O autor, porém, engana-se por vezes sobre os números dados. (Nota do Comandante A. Fontoura da Costa).
126 Francisco Rodrigues CAPITOLLO PERA DAR AEMTEMDER/. COMO AUES DE NAUEGAR POR AS SOMBÃS/. (15) Aves de sabr se qujgerdes sabr em quallqr parte que esteuerdes asy no maar como Na tera quamto estais affastado do quaanoçiall da parte do norte ou da parte do sull/ ou asy se estais Debaxo dela polia altura do ssoll saberes q vos he Necessairo que tomes prmejro Altura do soll com estrelabeo ou quadramte Ao meo dia pumtualmente/ & quamdo o ssoll ffor empynado. & tomares .8. graaos ou mais ou Menos/ & depois daltura tomadaa oulhares quamto vos mymgam pa .90. emtam hyuos ate o que temdes Dee Deccrinaçam Do ssoll./ em direjto daquele Mes achares em que graao do syno esta o ssoll & quamto tem emtam De decrinaçam. emtam Ajumtares os graaos & meudõs quee q vos Foi. 86v. mymgoã .pa .90. & mais aJurntares o quee ouver Aquele dia decrinacam. & aqujlo estares affastado do equanoçiall por Res¬ peito q a ssombra vaay ao norte & asy mesmo o ssoll esta nos synos da parte do norte & se isto for desdos .11. de março ate os .14. de setembro, q em este tempo o ssoll estaa Nos .6. synos que estam do equanoçiall pa a bamda do norte/, emtam ffares A comta como Dito he por amor da ssombra q vaay Ao norte/ & se per vemtura vos acomteçer que Naueegardes Ao sull do (15) Rodrigues volla a discutir a Regra do Sol em função da sombra. Desta vez novamente descreve cm parte a Regra do Regimento de Munique conforme o hemisfério em que o observador se encontra, a posição do Sol e a direcçâo da sombra. Eis as fórmulas dadas pelo autor: 1) Observador e Sol no Norte, estando a sombra também no Norte: Latitude N = (90o —Altitude) + Declinação. 2) Observador e Sol no Sul, estando a sombra também a sul: Latitude S = (90° — Altitude) - Declinação. 3) Observador no Sul, o Sol no Norte, estando a sombra a sul: Latitude S = 90° — (Altitude + Declinação). (Nota do Comandante A. Fontoura da Costa).
MM ESTAMPA XIV Rosa-dos-ventos, no Livro de Francisco Rodrigues, para medir um grau em léguas, nos diferentes rumos
ESTAMPA XV Carla de Francisco Rodrigues (foi. 20) da Costa Ocidental da África, com o Arquipélago de Cabo Verde e a Ilha de Ascensão
O Livro 127 » equanociall: aves De sabr que quamdo o ssoll esteuer nos outros .6. synos Da parte do ssull & vos ffizer a sombra da parte do ssull fares da propiaa manejraa quee ffizestes nos outros synos do norte .ss. desnee .14. de ssetembro ate .11. de março que entam o soll estaa nos .6. synos da bamda do sull/ & por este Respeito tee ffaaz a ssombraa Ao ssull / & pa mais decraraçãm disto te ponho aquy este emxenipro/ & diguo nesta manejra que Aos xx dias do mes dagosto tomastes o soll em sassemtaa & .5. gaaos daltura/ & a ssombra emtam Vaay Ao norte/, emtam oulhares o que vos ffalecem pa Nouemtaa-/. os quaaès sam. xxb graaos/ emtam hyuos A tauoa-/. & oulhares memtes Naaqucle diaa quamtos graos & meudos tem a deccrinaçãm & aJunta los es com os xxb. graaos & ffeita muyto bem toda A comta. Aqujlo estares apartado Do equanociall. da bamda Do norte. & se casso for que em este dito diaa/ te ffizer a ssombra o ssull & tomares os ditos graaos/. emtam Accrecemtares os graaos & meudos Da deecrinaçam Daquele dia ssobre A altura que tomastes & a somaa ffeita & nam achamdo & nam achamdo a novemtã Aqueles que nam achegam a Nouemtaa estares apar¬ tado do equanoçiall-/. da parte do sull-/ por Respeito que emtam vos ffaaz a sombra Ao ssull ecte(16). (16) Os rcctos destes fólios têm desenhos que mostram as partes norte Fo,s- 87' de Lombok, Bali e Java, conforme vistas do mar. -112. Tem um tronco-de-légoas. Foi. 113v. Os rectos destes têm cartas do Mediterrâneo e Mar Negro. Fols. 1/4. •116.
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A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES Ao muy Serenisymo primcepe muy alio & muy poderoso Foi. U7r. Rey ELRRRey noso Sõr começa ho prologuo sobre a suma oriemtallH. Naturallmemte os homees desejam saber como o testefiqa o mestre da filosofya asy tem este desejo promto E mais feruemte cada huu segumdo lhe conuem/ nom sem mérito hee que maior o tenha vosa Reall magestade que nenhuu out° primçepe no mumdo poys seus senhorios sam maiores/ quem ynora serem do primcipyo dafriqa athee os chys em que se comtem toda afriq® & asya & parte da europa pola bamda do maar oçeano com Jmfinjdade dilhas muy gramdes Riquos & muy populosos em suas comfromtaçõees em os qeês snurlos se contem mujtas proujncias he gram suma De Reynõs multidam de Regiõoes de que tudo vosa Reall alteza he Sõr com fermosas e espunauês fortalezas com muyta gemte Artelharias e ixerçiçios de guerra na terra soju- gamdo Regnos nas gemas da mourama-/ as armadas q traz quem doujda serem as morees do mundo que continoada memte amdam abastadas huuas na arabia outras na primeira Jmdija outras na segumda & na terçsa em tamto que em todo seu Srlo nenguem nom he poderoso navegar sem sua licença & os mouros tam atemorizados amdam nos cabos como no meio cousa por certo dina de gramde glloria que tam gramdes Reis & Ses como sam os desta comqsta comuem a saber o soldam do cairo o Rey dadem o Rey durmuz o xequesmaell. ou sofy homem mem- tado no mundo os naitaques Resputes cambaia daquem a Jmdya do malabar A proujmçia de choromamdell. E quelíjs o Reino dorixa de bengala Racan Peguu Siãoo queda. malaqa pahaõo
130 Tomé Pires talimganor patane terrãoo odia cãboy* cauchi china a china com todallas Jlhas gemtes poderosas asy no maar como na terra / comtra todos estes traz vosa alteza guerra levamtamdo suas bamdeiras ê suas terras pollo nome de noso Sõr Jhuu xpo de todos estes os que sam vasallos viuem asosegada memte & os que sam Reuees amdam atemorizados atormemtados E curam mais de sse fazer fortes que de cometer forças com suas armadas tudo yso causa o gramde poder que vosa alteza qa traz eixer- citado & guerreado pollo muy manifiquo E Jngemte cavaleiro afonsso dalboquerqe seu capitam geeraall. anjmosso astuçioso providemte na guerra E no all vmano prudemtisymo que com- tinoada memte com tamto trabalho ora na Jndia alta ora na arabia & no meio nom çesa guerreamdo o nome de mafamede/ craro he que ha onypotemcia de ds fauorece Jsto que qujs aRei- guar a xpidade em uosos Reinos//. E que estas cousas se facam com Jmmêsas despesas quaèes nunqa teue Rey xpaao por serem comtinoada memte. tudo se deue dauer por bem gastado por ser cousa que tamto eixallça acrecemta & aumenta nosa samta fee. catolliqa & q tamto abatimemto perda E dapno traz a fallsa opiniom diaboliq® do nefamdo Jmnomjniosso fallsso mafamede cabeça de toda vãa Relegiam mourisqua do quall vosa alteza tem gramde fama & omrra no mundo acerqua dos primçepes E diamte do muy allto ds Jmfymdo mereçimemto que estas coussas tem magnifiqua memte comecadas meadas E quasy acabadas//. Prohemjo Polias quãees cousas que bem avemturada memte soçedem primeiro/, ocupado eu em carguos a que vijm aas Jmdijas E out°s que me qua forom dados de muyto trabalho desejaua q se me ofreçese tempo ociosso em que podese escreuer alguua cousa verdadeira q aproueitase pa o pasar do tempo em que se lleese detremjnei de poor em obra esta suma oriemtall. E comecar do maar Roxo ou arabico athee os chijs com todas as Jlhas & desviarme da parte dafriq8 por serem cousas mais notorias em a qall suma nom me emtremeto com temerarja ousadija porque terja menos modéstia mas pedimdo que nas cousas em que nom for achado
A Suma Oriental 131 despeso seja Releuado por que meu jmtemto foy moujdo a bõoa fee por vèer cousas tam gramdes he salua ha paz dallguus que escreuerom sse deujam víjr alimpar de seus tratados onesta cousa me pareceo poor em escpto alguua parte de tamta gloria/ quem fose tam bravo (?) que tiuese o Jmtemto greguo E a Iim- guoa Romãa. E o despejo betiquo pa | Falar em cousas tam Foi. I17v. simplez também auemturadas como sam as oriemtaeês/ mas como eu seja lusitano E baixo na gemte plebea cujo custume he dizer menos suas glias Do que sam & o mall mais do que he E por que o compor das sumas ou tratados he majs oficio des- tramgeiros que de naturaes por saberem adoçar suas composy- çõees como vemos falarem maraujlhas nas cousas do mãar mjditeranjo pasagem de xv dias sempre a vista de terra, que fizerom se virom a famosa comqista do oriemte de todo o mãar oçeano domde se comtem cousas tão Dynas de memória asy domrra acerqa dos homêes como em merecimemto Acerqa de Ds se esta suma nom for asij põderosa como conuem Remeta ê ser naturall em outra arte q pa o tempo apremdy de que poderia dar melhor comta porque a necesydade me foy niso mais potemte que nesta obra a Rezam/ Se dos trogloditas E gemtes que matarom o VisoRey(l) prohemjo tiuera a velocidade pa caminhar & ver como tiue a diligemcia segumdo. de emquerir o q nom vy nom fora maravilha, mais copiosa ser esta brebe suma asy que quererme meter na medida da terra, pola bamda do maar oçiãno quem quer se poderja Rijr de mjm por me meter è vijnha alhêa. & fora de mjnha comdicam mas eu vemdo que os homees falam nas cousas alheas sem serem Repremdidos menos culpa me pareçeo que emcurria falar nas mjnhas/ por que do q quero falar srio he de uosa alteza e eu seu naturall a Rezam despeuer eu a tenho se me aJudase o que (1) D. Francisco dc Almeida, primeiro Vicc-Rei da índia. Foi morto pelos nativos em Aguada de Saldanha, Cabo da Boa Esperança, em I de Março de 1510, com sessenta e quatro outros Portugueses, dos quais doze eram capitães.
132 Tomé Pires phemjo terceiro ua Repar- ticam Foi 118r. compre/ se nom falar destimtamte como comvem mjnha hc a culpa, poijs nom sey dar Rezam de mjnha casa. he nesta suma nom somemte falarej da Repartiçam Das ptes provyçias Regnõs Regiõees & de suas comfromtacoèes mas aJmda do tracto E comerçio que humas tem com outas o quall trato de mercadoria he tam neçesario que sem elle nom se sosteria o mundo este he o q nobrece os Regnos que faz gramdes as Jemtes & nobelita as çidades & o q faz a guerra & a paaz/ No mundo he abito o da mercadoria limpo Nom falo no meneo dela avido em estima q cousa pode ser melhor que a que tem por fumdamemto a Vrdade/ o papa Paullo segumdo/ mercador foy primeiro E nom se desprezaua do tempo que nela gastou & os sabedores datenas por maravilhosa cousa a louuarom & oJe em dia è toda a Redomdeza se custuma. he mayor memte nestas ptes he avida em preço estimada em tamto q hos gramdes nom custumã qa em outas cousas ptiqar senom nela hc gostosa necesaria conuenjemte senom teuese Reveses os quaees a fazem majs estimada// Começo segimdo o que se cada dia custuma que se acha em todo oficio que prymro medem as obras & despois as cortam a pressemte suma sera gizada De cimqo Rijos primçipaes/ o njllo/ o tigris eufratees Jmdus & o gamges os qees sam nesta parte Dasya. o njllo deujde africa dasija E a persija dos arabios athee. o tigris Do tigris atee o eufrates a provymçia dos persas naytaques/ Do eufrates athe o Jmdo os Resputes | Cambaia daquem guoa do Jmdo ao gamges a Jmdia do malabar & a proujm- cia da quelijs em que emtra o Reyno dorixa ho ganges faz duas bocas huma em canboJa E a outra em bemgala que comtem em sy muytos Reinos como se ao diamte Dira & despois de CamboJa athee a china tratarsea do nacimemto de cada Rijo E sera a presemte suma deujdida em cirnq0 liuros./. o primeiro sera das arabias egipto psya athee cambaia o ssegundo sera de cambaia athee batiqla o terceiro sera de batiqalla athee bem- galla. o quarto sera de bemgala athee os chljs o qujmto sera de todalas Jlhas e sera a suma acabada//
A Suma Orienta! 133 Comuenyemte me pareçeo a presemte obra segijr o estillo Deujsam macanico que quaallqr artifiçe vsa. em ssuas obras gizar emtam da pre- cortar deuidese a suma oriemtall. em quatro partes ou liuros (2) semle a primeira sera do pincipio dasya. apartamdose Dafrica athee a primeira Jmdija'/ o segumdo sera da Jmdia pmra a thoda (?) Jmdija meyaa (3) o terceiro sera da Jmdia alta alem do gamges que sse acaba em odija o quarto Sera do Reyno dos chijs & das proujmçias a elle sogeitas com a nobre ylha dos lequeos Janpon burnej & os Iuçõees macaceres o qimto sera de todalas Jlhas particular memte deujdimdo asya pllos Rijos primcipaees Damdo nacimemto & fym a cada huu. & se na tall deujsaõo parecer alguua cousa supérflua ou mjmgoada ou Discrepamte a cosmogija fradansellmo (4) E tolomeu E out°s nom pareça noujdade por que os taèes mais por nouas que por ptiqa o sen- tirom nos qa tudo pasamos espememtamos & vemos & se esta Rezam nom for aceptauell deuese comsyderar q ho xastre em pequeno campo mujtas vezes nom acerta os talhos quamto mais defecultosso sera em camynho tam estemdido/ nom me apar- tarey de culpa de quall qr descujdo que eu tiuer em nom falar (2) 'Quatro' em vez de cinco é erro evidente. Há desde o princípio ao fim uma grande confusão na divisão da Suma e os três planos propostos por Pires nâo coincidem. Além disso, ele juntou, fora de sítio, matéria nova que não se adapta a nenhum dos cinco livros. Para complicar as coisas ainda mais, o copista nào parece ter seguido a ordem pela qual Pires escreveu c, ao ser encadernado o MS., alguns folios ficaram deslocados. Recompus o texto inglês, como ficou explicado na Introdução, p. 74. (3) Mais adiante Pires identifica a segunda índia com índia Média. (4) Fradansellmo ou 'Frade Anselmo', um frade franciscano que visitou a Terra Santa cm 1507-8, c cm 1509 publicou um panfleto — Des- criptio Terrae Sanctae. Está incluido in: Joannes de Stobnicza — Intro- ductio in Plolomei cosmographiam. etc., ff. 33-44, Cracovia e Henricus Cani- sius— Thesaurus Monumento rum, etc., vol. 4, p. 776-794, Antuérpiae, 1725. Desconhece-se a nacionalidade de Frade Anselmo, mas possivelmente era polaco. Pires devia ter tido conhecimento, ou possuiu uma cópia, do panfleto de 1509, mas parece tê-lo usado apenas nesta citação.
134 Tomé Pires asy destimto como comuem por que em cousas de fazda de uosa altza em que era emcareguado me eixercitaua o primcipall tenpo he este desta obra era o de benese como se vera pilo Recem- ceam'° das contas que em malaq8 tomey E dos carguos da fei¬ toria tudo por mamdado do capitam geerall que a jsso me mam- dou por seruiço (5) de uosa altez® de que fiz mais estemdidas leituras//. (5) Deve notar-se que os deveres executados por ordem do capitão- -geral eram tarefas oficiais e não ocupação dos seus ócios.
SUMA ORIENTALL Foi. I/Sv. que trata do maar Roxo athee os chijs copilada por thome piz (6) LLIURO PRIMEIRO [DO EGIPTO A CAMBAIA] [Descrição das três Arábias — Egipto — Pérsia — Cambaia — Canarim — Narsinga — Malabar — retoma a descrição de Cambaia]. [descrição das três arábias] Asia apartase dafrica polia bamda do maar mjditeranjo por Repart- alexamdria he da pte do levamte pilo Rio njllo E do maar tiçam oceano pilo meio dia segumdo a tall Reparticam se aparta da dasya com ethiopia abixia por ela & arabia felix (7). africa.l. o njllo Rijo primeiro & mui primcipall traz seu nacimemto naámento do cabo de boaa esperamça. E vem por meio da abixia em do njllo Rijos nom gramdes no fim dabixia Jumto com arabia felix se faz navegauell. pasa com ligeiro curso a egipto vayse ao maãr mediteranjo deujdido por braçõs dos qees ho principall he damjata pasa casy mea leguoa da cidade do cairo em Julho E agosto creçe he Regua a terra & as gemtes q viuem ha beira do Rijo (6) No lado esquerdo, ao cimo desta página estão as palavras: “Livro primeiro da summa Oriental discripssâo das tres Arabias, felliz, Petrea dczerta. egipto, Pérsia, atte Cambaja & do grão Cairo e Soldão". Pela tinta e cali¬ grafia esta nota parece ter sido escrita pelo mesmo punho que a palavra ‘Osorio’ na foi. 5r. (Est. II). (7) Esta frase confusa aparece exactamente assim no MS. de Lisboa, mas foi reformulada na tradução de Ramusio.
136 Tomé Pires Abixia. Mercado¬ rias dabixia. Foi. 119r. Maar Roxo. vam aos altos com seu guaado & fazemdas & como lhe ha augua daa lugar que começa a sequar semeam de setembro p diante. Dizem os de epipto que este milagre proçede dos abixíjs gemtes xpãas pilo quall sam framcos em toda a terra do solidam & sam estimados Dabixia core o Rijo vijolemtamemte & nom he bom de naveguar pa comtra abixia./. comfina Abixia da bamda do mãar Roxo com aRabija felix. da bamda do maar oçiano des guardafuy athe tamto como çofala nom se chegua ao maar com sesemta leguoas da bamda dafriça com os desertos & com parte Da ethiopija. sam xstaãos tem gramde terra & Jemte guerreira mercamtivell dela-/ ha mamti- memtos ouro em sua trra nom tem portos no maar vem fazer seus tratos em zeila he barbora. E demtro no estreito no portos Darabija. sam estas Jemtes comemeradas amtre os ethiopes todos sam de cabello Reuollto ferrados na testa em lugãr de bautismo tem saçerdotes patriarcas & out°s Religiosos/ Vam a Jerusalem E a momte Synaa em Romarias cadano/ sam ávi¬ dos nestas partes por leãees Vedad°s fiees cavaleiros & muytas vezes estes semdo estpauos vem ser Reis primcipall memte em bemgalla// Dadem de xãr(8) de fartaq de dalaq3 he cuaquem tratam com estes abexíjs valem na abexia aguoa Rosada Rosas sequas matamimguo panos baixos de cambaia E alguus de sseda comtas de toda sorte cristalino panos bramqos tamaras è fardos amfijãoo/ ouro marfim cavallos espauos mamtimemtos &c. conuenjemte he que daqui se faça noso Recomtamemto athee os chíjs polia parte dasya pola bamda do noso maãr oçiano vaa toda medida & RecontaDa tem este maar tres nomees maar Roxo mar arabiq0 estreito De mequa/ maar Roxo porque dem¬ tro no cabo Junto com çuez sam as barreiras Vrmelhas maar arabiq0 porque jaz cerqado dos arabios estreito de mequa por (8) Xãri. chamada a maior parte das vezes Xaer ou Xael pelos por¬ tugueses do século xvi. A actual cidade de Sheher ou Esh-Shihr na costa de Hadhramaut.
A Suma Oriental 137 que demtro nele jaz mequa casa de Romaria Dos mouros donde foy naturall seu mafamede mas o majs propijo nome he arabiquo/. Da porta deste estreito pa demtro athee çuez he cerqado medida este mãar de quatro prouijçias da bamda do leuamte jaz arabia deste petrea da bamda dabixia jaz a felix chega atee tamto como as maar- ylhas de dalaq8 a petrea casy a meq8/ da meca ao toro comeca arabia deserta eesta vay caminho do maar mediteranjo he deujde a proujmcia De egipto da terra de Judea do toro & de dalaca he provimçía De egipto .s. toma a pomta ou casy terceira parte do estreito tera este estreito em Roda-//- todo ho estreito he cerq8do das terras ssusoditas E casy tudo he deserto he desabitado he trra escaluada ssem fruto todo aRedor em sij tem alguuas ylhas pouoadas pouq° asij como camaram dalaca acuaquem que demtro nele estam demtro neste estreito ha mujta pedra Restinguas he mãao de navegar nom navegam senom de dia. sempre podem ancorar Da boq8 do estreito athee camaram he a melhor navegacam/. Ja he pior de camaram a Judaa./ & mujto peor de Juda ao toro/ do toro a suez he pasagem De barcos aJmda de dia de m"a q todo he çujo & mãao'/- tem este estreito vemtos quemtes que quall quer cousa que morre asy homem como anjmall nom comsemte podridam mas secase & destas partes se leuam destes anjmaees a nosas partes por momja a quall nom he que a momja he a vmjdade que corre dos corpos despois que estam abalsamados cõ aloees (9) cecotrino E mjrra. asy que o licor que de nosa carne mana he destes materiaees se chama momja (10). (9) Watt diz que ‘o alocs indiano parece ter sido mencionado pela primeira vez por Garcia da Horta (1563, Coll. II) como preparado especialmente em Cambaia c Bengala'. The Commercial Products of índia, p. 59. Embora, ao tratar do comércio de Cambaia, Pires não mencione o aloés entre os produtos exportados ou importados, ele refere-se ao aloés de Cambaia na sua carta de 27 de Janeiro de 1516 (Apêndice 1). (10) Na mesma carta de 27 de Janeiro de 1516, Pires refere-se minucio¬ samente a esta repugnante mistela que antigamente se supunha ter proprie¬ dades mágicas e medicinais; mas teve o cuidado de manifestar a sua descrença. n
138 Tomé Pires [egipto] Foi I I9r. Proujmçia De egipto. homde esta o solidam. A terra de egipto comeca do maar mediteranjo he vem tomar pte do estreito De meqa de huua parte a diujde africa & da outra arabia deserta de Judea toda he terra que se semea com acrecemte Do njllo & isto majs do cairo pa noso maar mediteranjo que do cairo pa o estreito he terra desaproueitada mas caminhase com menos trabalho que lia deserta ha nesta provimçia a cidade de tebas em que se faz opio tebaiqo que qua chamam afiam cousa mujto vsada qa comerse he em nosa terra mata nesta terra de egito nom choue saluo dano em anno ou De dous em dous huu dia ou menos hee aguoa que choue quemte. E nam aproueita pa se aproveitarem da terra quamdo o njllo crece tomam auga em açeqos pa despois Regarem as ortas toda esta proujmçia he mjngoada dauga De toda esta terra a mais pimcipall cidade he o cairo esta nela comtinoadamemte o solidam tem mujtos espauos que o gardam mamaluquos q na limguoagem da terra quer dizer gemte comprada por dr° estes seram athee çimco mjll. E tem a guarda de sua pa sam ha moor parte deles aReneguados que forom xpaãos. tem gramde copia de molheres nunca saee de casa nem he visto dos da cidade tem gouernadores Da Justiça que poucas vezes a fazem estes mamaluquos como se agastam do soldam emlegem huu pa o carguo & matam outro hade ser aRenegado E dizem que ysto se fez porque os xpãaos aRenegasem pa pode¬ rem alcamçar a dinjdade o que pode ser/ nom herda f° nem paremte mas pola maneira dita socedem hade ser xstaoo aRene- guado E quamtas majs vezes vemdido tamto tem mais pte no Regno sam mujto pobres os soldaees do cairo & mor mtr aguora chamanse os do Regno nestas partes maçarijs//.. (II) (11) Do reino de Maçaram, provavelmente Mekran segundo Danvers, The Portuguese in India. I, 314.
A Suma OrientaI 139 este em toda sua proujmçia nom tem Rey somemte capitaees tem guerra com este o sofy mouro perseano que qa se chama o xequesmaell como se despois dira na descricam dúrmuz E vay perdemdo pte dela mas como os f°s nom ham de soceder nom trabalham polia liberdade de sua patria/. Da obidiemçia Deste he Judea osiria alguua parte cuJa cidade pimcipal he damasquo caldea he também deste palestina aydumea/(12) De todas estas partes nom he mujto obedecido amõor Remda que tinha, de que se mamtinha era a Romagem do samto sepulcro & a pasagem Da especiaria pollo cairo ja aguora da pasagè da especiaria tem mt° pouco E prazera a noso sõr que do samcto sepullcro tera menos As outas Regioões aleuam- tanse cada dia com o xequesmaell que com elle comfinam/. A çidade de Juda he em huu Rijo mea leguoa do mar he cidade qasy tamanha como adem nom tam forte, nom de taees muros dizem ser cousa fraca/ tera çimqo mjll vezinhos he do soldam do cairo | cadano tem capitãoo espauo do soldam com Remda nom tem nenhuu mamtimemto nem fruitos de seu naturall somemte tamaras mujtas carnes pescados triguo aRoz cevadas mjlho lhe vem de zeila & barbora & das ylhas de çuaquem tem mujtos mercadores he cidade de gramde trato ma leguoa dela ancoram as nãaos & aquela ma leguoa athee a cidade he de baixamar de huua braça & com maree chea de três tem gemte de guarnjcam gemte de cauallo tem o porto auga em avomdamça. toda a mercadaria da Jmdia vai descarregar a Judaa. sera dadem viagem de dez dias/. De Juda camjnhamdo huú dia pola terra firme he a casa de meqa omde naçeo mafamede & ssua geeracam he a casa de meqa gramde bem fabricada tera mjll vezinhos mercadores mujtos chamase o capitao delia xecbarqate (13) he do soldam do cairo esta (12) Talvez Aidin, insignificante sultanato turco junto de Esmirna no século xv. Hoje é um vilaiete. (13) Barakat n, que foi xerife de Meca de 1497 a 1525, era vassalo do sultão do Egipto. çidade de Judaa. Foi 120r. A casa de meq
140 Tomé Pires almjdina. homde se faz a armada do soldam. xsiaaos da çim- lura (15). terra nom tem augua vem dacarreto de huu lugar a que chamam arefet huua leguoa de meca(14) os mamtimètos vem de Judaa//. Almidina he quoatr0 leguoas damdadura de meca camjnho do cairo alguu tanto desujado no deserto darabija deserta, sera lugar de çem vizinhos è huua torre q esta neste lugar Jaz mafamede E sua filha jemrro & companheiros he de gramde Romagem tem boas tamaras E pouqa auga do cairo ha medina quoremta dias de medina a meqa quoatro de meca a Judaa huu de Juda adem dez com vemto/. Do cairo a suez vem em tres dias suez he o cabo do estreito nom he porto nem cousa pouoada alij dizem que se faz huua armada para qua he este camjnho despouoado destes três dias nom tem fortalez8 nem pouoacam somemte o mãr que he de pedras & baixos a madeira de que se ham de fornecer hede vijr ao menos de fora de seus Regnos porq em toda sua terra nem darredor do estreito nom ha senom Junqos marjnhos que tem fremosos abrolhos A Jemte desta proujmçia he guerreira tem mtos cavallos acobertados tem artelharias sam destros a cavallo de lamças em punho & o freio na huua maão & trazem esporas asij o sam os dos arabios tem Camellos de duas corcouas & desta Jemte mujto asoldada & q peleja por que a outra dela viue por seus ofiçios & deles amdam a furtar a terra he de pouca Justiça por causa da Jemte da gerra por que huu nom se tempera com ho outro/ Ha nesta proujmçia & asy nos arabios mujtos xstãos deles circucidados & deles nãao os circuncidados chamamse Jacobitos os out°s malaqujtos tem Duas cooresmas huua em natall. & outa (14) Há um lugar chamado Kahwat Arafal, com uma nascente cons- picuamente marcada na carta da Arábia S.W., 1: 253,440, do War Office, umas 30 milhas (9 léguas) a leste de Meca. Esta nascente ainda hoje fornece Meca por meio de uma conduta de água coberta. (15) Cintura ou cintura—Além de significar cinta, cintura, scintura, ou escintura (do nosso verbo cindir, scindir ou escindir, em latim scindere) significava antigamente também corte ou golpe. Assim, neste caso, signi¬ ficaria ‘circuncisão’.
A Suma Orienta! 141 a nosa nom casam hos huus com os out°s & mujtos deles sam Jrmjtaees & de samta vida. & deles homees de fazemdas & sam muytos ha destes em Juda no toro e em meca sam amtre estas gemtes ávidos por boos homees// As mercadarias questes trazem as Jmdias sam de Jtalia Foi. I20v veneza vem aleixamdria he dos estamcos daly pollo Rijo vem trat0 aos feitores que estam no cairo & Do cairo vem em cafilas com destes na mujta gemte darmas vem ao toro mas nem he ysto mujtas vezes Jmdia por causa dos salteadores alarues & ham mester mujta gemte darmas pa guardar a mercadoria mas no tempo do Jubileu (16) que he cadano è mequa o primeiro Dia de feuereiro E vem mujta gemte com estes mamdam a meqa & Dhy vem a Judaa E de Juda vem aos estamcos que tem em adem & dadem se espalha por cambaya por guoa pollo malabar & bemgala peguu syaõo//. trazem panos de lãa de cores & sortes chapêoos xstalino de todas cores & sortes azernefe(17) vrmelhãao azougue cobre (16) Não é ceriamente o ano jubilar no começo do qual se efectuava a libertação de todos os escravos israelitas e a restituição de bens ancestrais. Pires refere-se talvez ao Haggi islâmico, ou grande peregrinação a Meca que é marcada para certos dias na primeira metade do mês de Dulheggia. Mas como a Hegira não tem data fixa correspondente no calendário gre- goriano, porque ela depende dos meses lunares que começam aproximada- mente com a lua nova, a Hegira ocorre cm qualquer período do ano. 1481 foi o ano mais próximo, em que o começo da Hegira caiu no 1." de Feve¬ reiro; em 1513, caiu a 7 de Fevereiro, em 1514 a 28 de Janeiro. Pode ser que a pronúncia de Dulheggia soasse a Pires como Jubileu. (17) Toda esta parte falta no MS. de Lisboa. A palavra azernefe repete-se mais adiante sob a epígrafe 'Mercadorias de Malaca para Sião', mas não foi empregada no MS. de Lisboa, ou porque o escriba não com¬ preendesse ou porque não conhecesse a palavra. Ramusio tradu-la em dois sítios como orpimâto, que significa orpimento, arsénico amarelo ou trisulfito de arsénico. A palavra azernefe não se encontra nos dicionários de português, mas numa carta para Afonso de Albuquerque, escrita de Malaca em 1510 por cativos portugueses, azernefe é mencionada como uma das mer¬ cadorias que seria útil trazer para ali. Cartas m, 12. Watt diz que orpi- tnent é um produto da índia e que também tem sido sempre importado da Birmânia e da China, o que está de acordo com a afirmação de
142 Tomé Pires merca¬ dorias que trazem a Jmdija. A rabia Felix. aço armas prata ouro amoedado amfiam almecegua toda sorte de comtas de vidro estoraque (18) liqujdo aguoa Rosada chama- lotes de mujtas corees & sortes fynos & doutros mujtas alcatifas E tapetes de boos lauores he fynos & de preço/ gramdes & peque¬ nos mujtos vidros despelhos// Arabia Felix se estemde Amte o mãar Roxo E abixia alguus dizem que chegua ha magadaxoo E corre athee tamto como as Jlhas de dalaqa E dizem que he toda aquella terra De gemte bramca. onde nom ha cabello Reuolto q he desta arabia. out°s querem que nom seja senom athee o cabo de guardafuy chamase felix porque nom he tam esterlij como as duas se athee maga- daxo se estemde. sabidos sam os portos dela se do cabo athee delaca. emtam tem Amte daboquar o estreito zeila & barbora & despois dabocado tem dalaqua & laçarj deste laçarij que he porto nom mujto pouoado em tres dias vam ao njllo e em dez embarquas ao cairo ysto poucas vezes pque os alarues nesta pasagem salteam & Roubam os camjnhamtes//. he a Jemte desta arabia limpa caualeirosa tem fortelezas he Jemte de cavallo tem guerra com abixia que he Junto a esta arabia. & fazem cavalgadas ê que tomam gramde cantidade dabixijs. & vemdennos aos asyanos. tem esta terra triguo & aguoa boa. De mujtas ptes vem tratar a estes portos De cambaia De toda arabia pmcipall.m*e da cidade dadem leuam panos baixos De mujtas sortes matamugos comtas outas de cambay* Dadem Pires. Parece que a palavra azernefe (possivelmente simples corrupção da palavra arsénico), significando orpimcnto, tenha desaparecido da linguagem portuguesa, como aconteceu com a palavra fruseleira, também usada por Pires, como adiante se verá. (18) O estoraque líquido, levado pelos árabes para a índia, é um bálsamo fragante fornecido pela Liquidambar orientalis Mill., da Ásia Menor. É um produto diferente do ‘estoraque verdadeiro', estoraque de benjoim ou goma de benjoim comercial, fornecido pela árvore de benjoim, Styrax benzoin Dryand., da península e arquipélago da Malaia. Na carta de 1516 (Apêndice I) Pires refere-se com pormenor ao estoraque líquido, que na sua opinião, não existia.
A
A Suma Oriental 143 leuam pasas dormuz tamaras Retornam ouro marfim espauos & fazem seu trato nos ditos portos de zeila & barbora. Doutras ptes tratã De qujlloa. melimde de braua de magadaxoo De mom- baça trazem p Retorno boõs cavãllos que ha nesta arabia. nom tem çidades nem Rey viuem em cabilas (19) he gemte de Rapina & mujto saluageni por estes dous portos Resfolegua toda abixia porque ao cairo vay pouca cousa A Rabia petrea a deujde da persya o estreito dormuz & Arabia do Rijo q vay a meqa (20) se deujde darabia deserta pollo porto petrea. de Judaa pola bamda da terra firm° medija Regiom populosa. E parte da palestina (21) chamouse esta arabia petrea porque he escaluada. esterilij de serranjas De pedra toda tem pouqa Aguoa. tem esta provimçia nas beiras do maãr alguuas cidades tem Judaa adem fartaque a maseira do cabo de Roscallhate pa demtro tem calahate mascate curiate: & out°s lugares pola bamda do mar do estreito De hormuz pasamdo a serra demtro na terra firme, tem boas çidades bem povoadas fermosa terra de mujta gemte. de todas estas cidades & lugares adem he a mais nobre Foi. 12lr. E cousa muyto forte chamamse as çidades da terra firme zebit taees beitall faquj camaram (22) cana çinam// (23) A gemte desta arabia he guerreira peleJam acauallo a nosa gujsa com esporas as Redeas em huuã maão & a lamça na outra. (19) Cabildas no MS. de Lisboa. Ambas as formas vêm do arábico kabã'it, plur. kabila, 'tribo' que alguns escritores árabes usam como sinónimo de berberes e que antigamente eram usadas pelos portugueses para designar as tribos mouras do norte de África. Depois foram por extensão aplicadas no Oriente a qualquer bando de mouros, quer pertencessem a uma ou mais famílias ou vivessem simplesmente juntos. (20) Wadi Fatima. (21) Pires confunde Arabia Petrea com Arabia Deserta. Os nomes estão devidamente colocados na carta desdobrável respectiva, aqui junta. (22) Este Camaram não pode ser a Ilha Kamaran, porque Pires se refere a “cidades da terra firme". A palavra pode ter sido mal copiada c estará em vez dos dois lugares Khramr e Arriram, ao norte de Sana, ou pos¬ sivelmente da cidade de Al-Makrana, que Varthema chama Atmacarana. (23) Çinam corresponderá a Jizam, que Varthema chamou Gezan.
144 Tomé Pires E tem gramde numero de homêes sam os cavallos desta arabia melhores que todos os out°s De todas estas partes tem grãde numero De camellos bois de que se seruè doutas alymarjas sam momteiros homes dados rnujt0 ao trabalho oufanos presuncuosos esta proujmcia tem Rey a que todos obedeçem Dizem que vasallo do soldam, este esta sempre na terra fyrme porque comtinoada memte tem guerra em sua terra, por que som alarues mujt0K E a terra he fraguosa. E nom querem estar em paz nem tem Remedeo senom furtar//. E porque desta Arabia somemte adem he a popullosa. E a chaue nem somemte Darabija mas de todo ho estreito asy pa os que emtram como Dos que saem Dela. Direy por.que ho all. tudo he enexo ou adem ou a hormuz E alguus viuem sobre sy Judaa E mequa sam da obidiemcia do soldam E dhy pa demtro/ nos portos do maãr he adem a chaue nom falamdo da seranja pa a terra fyrme//. Adem estaa ao pee de huua serra ella casy em chaão cidade pequen8 pero fortisyma asij de muros tores baluartes como de toda fabrica de casas de bombardeiras seteiras De mujtas artelharias & de rnujt8 gemte de peleja que comtinoada memte tem dela da terra dela asoldada afora que a quall qr Repique acode Jmfinjdade da da terra, tem demtro na cidade fermosa. fortalez8 tem capitam que nella estaa asy atabiado como compre porque de dez annos a este cabo sempre esta Receosa de nosas armadas & os mouros todos aJudam esta cidade que se nom tome temem como for tomada que cedo sera sua fym por que Ja agora lhe nom fiqua outra cousa, e esta ja ouue fremoso com¬ bate e emtrada se lhe acomtecera o desastre de quebrarem as escadas com o peso da gemte q sobia aos muros (24) E foy famosa cousa seu combate por que as taees cidades ham mister primeiro o camp0 tomado e esta esteue em comdicam de se perder dos mouros o quall feito dadem foy omrrado posto q se nom tomase (24) Assalto frustado de Afonso de Albuquerque a Adém, em Março de 1513.
ESTAMPA XVI Carla de Francisco Rodrigues (foi. 26) da Cosia Oriental de África, com Madagascar.
ESTAMPA XVII Carta de Francisco Rodrigues (foi. 27) da Costa Nordeste da África.
A Suma Oriental 145 a cidade nom ficou mujto alegre & os seus caçizes(25) semtem sua destruiçãm que sera çedo//. tem esta cidade gram trãcto asy com hos do cairo como com quem com toda a Jmdia & os da Jmdia com ella. tem Demtro fermosos tractã. mercadores de gramdes fazemdas & mujtos estamtes dout°s Reinõs cidade he emcomtradiça de mercadores esta he das quoatr0 do mundo que tem gramde trato trata demtro no estreito com Juda homde emtregua as sumas das especiarias & drogarias & Recebe as sobreditas trata com dalaqa com panos Recebe aljôfar trata com Zeilla & barbora com panos baixos E em njnha- rias & Recebe ouro cavallos espauos marfim/ trata com cocotora. leua panos palha de meca aloes caeotrino & samgue de dragão trata com ormuz traz cavallos & das mercadorias do cairo Retorna ouro mamtim,os triguo & arroz se o acha, especiaria aljôfar almjzquer seda E quall qr outra drogaria, trata com cambaia traz das mercadorias do cairo & amfiam Retorna gramdes copias De panos com q trata nas arabias & Jlhas & sememtes mata- mimgos(26) comtas de cambaia muj181* alaqeqas De todas cores & o primcipall. as espiciarias & drogarias de malaq* crauo maças noz samdallo cubebas aljôfar & cousas semelhamtes &c; traz a cambaia gram suma de Rujva & pasas E também a Foi. 12lv. ormuz trata com ho Reino De guoa traz todas mercadorias {rato cauallos E das suas & do cairo he Retorna aRoz ferro açúcar beatilhas (27) ouro em camtidade trata com a Jmdia do malabar homde tinha o primcipall asemto em calecut caregaua de pimemta gingiure & das cousas de malaca com bemgala. Retornaua mujtas sortes de panos bramcos & das merca Darias de malaq* (25) Caçiz ou Kashis enlre os arábcs e os persas significa sacerdote cristão. Todavia Pires, como outros escritores portugueses do século xvt, usa¬ ram a palavra para designar qualquer sacerdote, especialmente muçulmano. (26) Maiamingos, ou matamiigos como no MS. de Lisboa. Palavra antiga que significa contas de vidro. O lexicógrafo António de Morais e Silva regista as duas formas. Diccionario da Língua Portuguesa, 1.» ed. 1789. (27) Beatilha é uma antiga palavra portuguesa que corresponde a musse¬ lina fina, ou a uma espécie de tecido muito fino feito de algodão ou linho.
146 Tomé Pires as merca¬ dorias dadem com peguu Retornaua lacar beiJoy almjzqr & pedraria aRoz também De bemgala aroz De siam E as mercadorias De china que vem polia bãda De odia Desta maneira se fez gramde pros¬ pera Riqua & soo dadem Recebe o Rey todas suas Remdas por que o all nom he nada nom he duuyda soo a Rujva Remder ao Rey cem mjll czllos/. As mercadarias propias dadem sam cauallos Rujva aguoa Rosada Rosas secas pasas duvas amfiam & com os do cairo faz copias de todas estas partes ssussoditas vem a seu porto e elles vam a todos cousa he pa veer famosa rriqua estimada posto que tenha aguoa pa beber de carreto Recolhe todalas mercadarias & as que sam pa seu trato necesarias E para se gastarem na terra guardamse/ os mercadores estamtes Recolhem as espiciarias a maão E mamdam ao cairo desta maneira/ ptem dadem a camaram a dalaca. De dalaca as Jlhas de çuaquem domde podem hir pa todo o estreito deste çuaquem vam a huu porto que chamam loçarj da bamda darabia felix e em tres dias ao njllo he em dez ao cairo cometem este camjnho por causa dos ladroêes comti- noado despois de serem na Jlha de çuaquem (28) vam a Juda naveguamdo de dia E mujtos se perdem por q ho estreito he vemtoso de toruoadas por causa das terrãs E os que vam a Juda descaregam despois de serem em Judaa no tempo do Jubileu vem a meqa gramdes cafilas E naquele tropell vam em companhia, satisfazemdo os pincipaes da jente. athe o cairo Camjnho de setemta dias alguua vez a leuam de Juda ao toro por mãar mas poucas vezes porque toro nom he o camjnho Reall para o cairo he sam Roubados sempe/ o Rey dadem esta sempre na cidade de çanaa que he na terra firme homde tem sete ou oito cidades (28) Pires refcre-sc indiscriminadamcmc às 'ilhas' ou 'ilha' de Suaquem. talvez de acordo com a fonte da sua informação. Embora a cidade de Sua¬ quem ocupasse a ilha principal, «nesta entrada jazem outras tres Ilhas», como D. João de Castro já tinha escrito no seu Roteiro do Mar Roxo, [Obras completas de D. João de Castro, vol. 2, p. 258. Edição critica por Armando Cortesão e Luís de Albuquerque. Coimbra, 1968, 1971).
A Suma Oriental 147 gramdes E de mujta gemte & a mais da mourama deles sam Rafadis (29) segujdores da lee E o Rey nom ousa ja de os matar com medo do xeqesmaell Rey dos persas segidor dale nesta terra de cana ha. mujta aguoa Rosada E Rosas secas que valem nabíxía & ha nesta cidade as maís fijnas alaquequas que as de cambaia. E nom som em tanta Camtidade//. os que dadem querem pasar ao cairo viandantes vam a Judaa & de Juda ao toro he do toro a suez he em tres dias ao cairo e em cimq0 mais verdadeira memte. a bem amdar a cauallo que he deserto// Do toro nem de suez nom he pa falar por que nom som Suez toro portos nem pouoaçoes suez he nomeado de tres ou qoatro annos Juda a este parte porque dizem que he lugar, homde se faz armada nom tem casa nem daly a vimte leguoas he cousa herma desa¬ brigada terra escaluada sem erua de suez vimdo ao toro nom podem senom de dia he em cousas sotis tem mujta pedra E tudo baixo/ o toro nom he de vijmte casas açima estas sam de xstãos dos que acima disse as pouoaçoes sam mujto metidas na terra dalarues ladrõees vimdo do toro a Juda he camjnho casy como ho outro desauemturado toda aquella terra he maldita sem dela ser aproveitada nenhuua cousa. Judaa he porto de meqa cousa pequena de baixos em todo o estreito nom tem outra cousa senom Judaa. he em terra escaluada agora dizem que sse faz forte com medo tem gemte de garnjcam de Juda pa adem he camjnho priguoso mas nom tamto/. Despois dadem he fartaque as Jlhas de curia muria E amaseíra tudo ysto sam alarues gemte de trato E boa gemte de peleja, de fartaque vam mt08 por fromteiros a cacotora E a zeila. E bar- bora estes viuem também de trato mas he cousa pouca, do cabo de Roshallhate pa demtro he do srl° do Reino dormuz sam os (29) Rafadi, Rafazi ou Rafizi significa herético. É o nome que os sunitas maometanos (ortodoxos e tradicionalistas) desdenhosamente dão aos xiitas (separatistas), seita rival que considera Ali c seus descendentes como os sucessores legitimos do Califado.
148 Tomé Pires Foi. I22r. arabia deserta'/. hormuz Fartaqujs de fremosas espadas E de todo out° genero darmas sam homees ousados///. esta terra darabia deserta pollo estreito de meqa comeca de Judaa. athee o toro & vay ao maar mediteranjo E deujde a terra de egipto de Judea. alguns afirmam que meca he nesta terra he nom na petrea. desta nam ha que dizer tem alarues ladroees nom tem aruors nem fruitos nem augoa geerall memte saluo em luga¬ res dos alarues sabidos sam ladroees nã tem outa vida. gemte mali- çiosa fora de rrezam em cabilas amdam salteamdo omde ho acham/ por hordem se nos Represemta a polida Jlha dormuz com todo seu Regno & com a copya das Jlhas em seu estreito o quall Reino alem de ser Riq° E nobre he a chaue das persas Comfina com arabija petrea da bamda [em branco] (30) em que tem de seu senhorio cidades E da bamda de cambaia, com hos naitaques & da terra firme com ha gramde provimçia persy sam debaixo do Reino dormuz as ylhas de baharem he todas as do estreito dormuz E o Rey mouro de carapuça vermelha segidor da seita dale nouamemte feito a gemte Durmuz he de peleja de boãs armãs De cavallos sam polidos homèes domésticos estemdese este Reyno do cabo de Roscalhate pa demtro polo estreito tem gemte mujta de casas bem obradãs// A cidade Durmuz esta em huua Jlha casij pegada aterra persija obra de huua leguoa he de muros casas çoteas torres baluartes em sij muy fresca e esta huua das quoatro desta bamda desija em toda gemtileza De fremosas molheres aluas em trato nom da a vamtagem a sseus vizinhos se nas cousas Do comer se praticar nom lhe chegam hos framemguos nem framçeses de frujtos ê abomdamça. como os nosos tem em sy a cidade gemtes de mujtas partidas grosos mercadores somemte careçe Dauga esta Jlha/ tem a cidade mujtas çisternas & poços mas aguora da que comtinoadamemte bebem vem da terra firme ê almadias emJarrada & vali as vezes cara segumdo ho temp° porem se a (30) Neste caso, como em muitos outros, o copista do MS. de Lisboa omitiu simplesmente a passagem obscura.
A Suma Orienta! 149 da terra firme nom acudise tem aguoa nom mt° boa nem pa tamto pouoo tem Jlhas & Jumto comsyguo que também tem fermosas aguoas/ por Rezam do porto se fumdou esta cidade// comtinoadamemte tem naãos de fora que a ella vem com mercadorias e ela trata com todos do quall o Rey durmuz he gramdememte Rico dos dereitos durmuz he antig° hormuz asy em armas como em trato nestas partes he avido em estima he cousa muy necesaria seu trato nestas partes/ he a cidade muj populosa honrrada Riqua. Amtre arabia petrea he terra de persija vay huu estreito estreito de mãar pouoado de cada bamda em que ha fermosas pouoaçoees durmuz que se chama o estreito durmuz nom he todo nauegauell & pola mõor parte quem esta no meio vee a terra de huua das partes e em cabo Danbas he mais demtro nauegauell/ Durmuz nave- gamdo qoatro dias cimq° de vemto ha mujtas Jlhas as primcipaees se chamam de baharem omde se pesca o melhor aljôfar destas partes & he gramde mercadoria è ormuz e em camtidade Jeerall memte he mais alluo E Redomdo que doutra parte/. trata hormuz com adem cambaia E com ho Reino de daquê trato E guoa he com os ptos do Reino de narsymgua. E no malabar durmuz a primcipall mercadoria que trãz sam cavallos arabios e parses aljôfar salitre emxofre seda tutia pedra vme que se chama ale¬ xandrina em nosas partes caparrosa aziche sall em camtidade seda brãqa mujtas tamgas(31) sam moedas de prata de valia de sesemta & cimq0 Rs ap & almjzqr as vezes ambra E mujta fruita seqa triguo cevada & cousas a estas semelhants de comer/ Retornam pimemta crauo canella gemgíure todo outro genero despeciariãs he drogarias que se gastam gramdememte na terra da persya & arabia he também alguua vay adem quamdo he mujta. porque Ja dormuz sae cara nom creio q daly pase ao cairo pa vir a Jtalia. Retornam Jso mesmo aRoz qmt.° (31) ^ tanga de Goa valia 60 reis, a de Ormuz entre 62 34/«3 a 69 33/43 reis, o que está de acordo com Pires. Hobson-Jobson. í.v. Vide nota p. 259.
150 Tomé Pires podem beatilhas panos bramcos ferro fynallmemte que todo seu Jntemto de seu Retorno he pla aRoz & ouro tem os cavallos Foi. I22v. no Reino de guoa & de daquem & narsingua grãde | vallia pollo quaall cadano hormuz acode a estes Reinos com elles/ haa cavallo q vali setecemtos serafijs moedas de iije xx,e res cada huua (32) como sam boos os melhores sam arabios segundos perseanos terceiros terceiros De cambaia estes valem pouq0 como Despois se dira.//. [pérsia] Persija porque hormuz he vizinho a persija e ela ser terra firme de que leua pmcipio noso Recomtamemto nom me pareceo onesto ficar por falar Delia. E se larguo falar Da persya ela ho merece ao menos por ser a mafamede contraíra/ A gramde prouimçia Da persija nom tem mais no mãar ociãno que ho Reino durmuz De sua comfromtacam da bamda de cambay1 a parte os naitaques da banda Darabia ho estreito durmuz pola terra firme polas serranjas de delij he por armenja casy por babilonja. E por cima de medea he vem dar na ydamca (33) he deuydida. esta proujmcia em mais de qoremta Reinos E Regiõoes desta terra dela habitada & muj boa E dela he momtuosa & desabitada/ chamasse esta provimcia asy toda Jumta na lingoagem delles /agenb/ E nos dizemos persya na linguoagem de qa todos os dagenb/ (34) dizem parses a que nos chamamos persas ou persyanos/ (32) Segundo Nunes (Lyvro dos Pesos da Ymdia, p. 32), em 1554 o serafim de Adém valia 360 reis, o de Ormuz 300 reis. Cada xerafim valia cinco tangas de prata. Mais adiante ao tratar do sistema monetário de Malaca. Pires refere-se a 'xerafins de Cambaia c de Ormuz’, que valiam três cruzados. (33) Embora esteja escrito ydamca no MS. de Paris, deverá ler-sc ‘índia’, como está no MS. de Lisboa e na tradução de Ramusio. (34) Agenb corresponde a Al-Adjam, expressão árabe, ^iic se refere a todo o povo da Pérsia. Agenb aparece como agens no MS. de Lisboa e como Azemini em Ramusio.
A Suma Oriental 151 As melhores proujmcias ou Regnos desta persija sam quoatro .s. coraçonj/ gujlanj taurjnj/ xitaçy/ E nestas quoatro proujmcias ha iiij0 cidades mujto primçipaees .s. /tauris/ xiras/ çamarcante-/ coracane na Regiam de coraconj/ sam os que chamam Rumes (35) E nos de gujlam sam deles turqimaêes guerreiros & de peleja gemtes amtrestas ptes estimados e estes dizem q trazem ho naci- memto De xpãaos/ os De tauris & xiras sam como em framça paris sam domésticos gemtijs homêes cortesaõs E sobre tudo se louuam as molheres De xiras De fermosas aluas Descretas atabiadas domde os mouros dizem que mafamede nunqa qujs hir a proujmcia de xiras porque gostamdo dele numqa fora ao paraiso despois de morto aJumtase também a estas qat° a prou¬ jmcia de media que qa chamam /mjdonj/ (36) que tem também huuã prínçypall cidade que se chama /ssusan/ que também he enexa a persya-/ aguora desta cidade (37) em ester/ se comtem (35) Barros, Décadas Lisboa, Livraria de Samcarlos, 1973, IV, iv, 16, p. 459 escreve que «os Mouros da índia, como nâo sabiam fazer divisão destas Províncias de Europa, a toda Tracia, Grécia, Esclavonia, e Ilhas cir- cumvizinhas do mar Mediterrâneo chamam Rum, e aos homens delias Rumii, sendo este nome proprio dos naturaes daquella parte da Tracia em que esta Constantinopla, que do nome que ela teve de nova Roma, tomou a Tracia o de Romania. E assi são differentes nações Rumes, e Turcos; porque estas tem a sua origem de Província Turchestan, e os Rumes da Grécia, e Tracia. e como taes se tem por mais honrados que os Turcos». Depois da tomada de Constantinopla o termo Rúm foi aplicado pelos árabes a outros povos do Oriente principalmcnte aos turcos do Império Otomano. Era esta a posição quando os portugueses chegaram à índia, como descreveram Tomé Pires e mais tarde Orta, Barros e Couto, embora não muito claramente. Orta chega a dizer que apenas os turcos de Constantinopla se chamavam Rumes e não os de Anatolia, embora esta fosse a pátria do Império Rúm. Mesmo hoje aos gregos que vivem em território otomano ainda se chama Rúmi. Os vários usos do termo através dos séculos torna-o bastante inde¬ finido c têm conduzido a considerável confusão que, mesmo em tempos recentes, não tem sido explicada satisfatoriamente. Não admira que Pires seja pouco claro. (36) O MS. de Lisboa tem mudini. Omitido em Ramusio. (37) No MS. de Lisboa esta passagem foi alterada: Ramusio suprimiu-a. Prouim- çias da persija & çidades 12
152 Tomé Pires crara memte sobre asuero & sua molher '/vasti-/ todas estas proujmcias asenhorea o xequesmaell. que la nas Regioèes detrás do vemto chamam Jguoalador/ ou çofij/ E porque se tratou na descricam Dormuz que o Rey tem a carapuça vermelha que he o sinall deste xeque bem he que delle se diga domde teue primcipio ele & sua ley/ E toda a bamda Da europa se chama qua gemtes detrás do vemto/ sam os persyanos homees de cauallo armados De todas armas de fremosas garnjções Despadas bem obradas sam homêes De nosa coor corpo & feiçam sem duujda os Das carapuças sam homès que mais parecem portugueses q doutas partidas as carapuças sam altas de doze verduguos no de cijma estreitas athee o emcaixamêto na cabeca & darredor touqas o xequesmaell esta a mõor parte Do tempo em taurjs que he durmuz cinq°enta dias damdura ê camellos a trra Da persya tem todo ho genero dalimarias mansas das que ha em nosa terra Ea terra de persija tem mujtas omças liões tigrers// Sam os persas mujto dados a toda deleitaçam em seus vestidos muj10 comcertados De mujtos porfumes vmtamse daloes dim- goemtos cheirosos de valor tem mujtas molheres Seruemse de capados & vem a ser gramdes Sres os capados que tem carguo das molheres sam homêes ciossos todollos mouros gerall memte E asij geerall memte os mouros sam putos homde meto os persya¬ nos E os Dormuz com toda sua gimtileza E nom ho am por alheo de sua comdiçãm nem sam poriso castigados he aJmda ha lugares públicos homde se exerçitam por dr° E os que deste negoçeo padecem no auto sam desbarbados vestidos a gujsa De molheres E asij amdam E Rijnsse os mouros De nos quando lhe acrimjnanios a torpeza deste pecado/ Foi. 123r. esta terra da persija he a mais amtiga E mais nobre de toda a asia houue nela sempre monarchas gramdes Srês esta soJuz- guou sempre mujtas proujmçias notorias sam os q obtiuerom este Jmperio de nabuca de nosor E seu filho çiro/ E dario asuero E os xersses E outs° nesta tera ouue o gramde alexamdre seus estendidos vimçimemtos/ nom he asij esterle E momtuosa como alguus estoriadores comtam mas avomdosa de todos deleites
A Suma Oriental 153 dhomeès domésticos em toda cortosija he vistido E no feito das armas magnanjmos E esfforcados de fremosos cavallos sam momteiros caçadores de todas aves E a terra de xiras he o ama- guo da persija tera avomdosa de triguo vinho carnes fruitos E nom careçe de nozes castanhas figuos pasados como nosa terra propija-//. Em o tempo de mafamede mouro arabío teue por Jemrro Naci- ale que era seu sobrinho he casado com sua ffilha fatema avia memto da na companhia de mafamede quoatro companheiros ahuu deziam sei,a du /otuman/ E outro /bulbucar/ E outro /hamar/ E out° hacabar (39) so^‘<;!81 estes forom aJudadores do alcoram /. depois de morto o mafa¬ mede emlegerõ por capitam a bulbucar por mais velho o ale nom sofreo de boa vomtade a tal emleiçã mostraua pertemcerlhe a sij por sobrinho como por jemrro (40) ficou de fora ha obi- diemcia do bulbucar E este morto E otuman foy primcipall E asij todos E despois ho alee estes todos quoatro forom xpãaos segumdo dizem E todos estam emterrados em almedina luguar em arabia distamte de meca por tres Jornadas em desertos//. destes quoatro que forom despois de mafamede sairom quoatro maneiras de mouros huus se chama xafij ,malad|- anafij. (38) Sofi ou Sophy foi durante muito tempo o nome dado pelos euro¬ peus ao Xá da Pérsia. Este 'Sofi' era Safi-ud-Din (que significa 'Pureza da Religião’) grande pilar da doutrina mística do Islão — o Sufismo. datando do segundo século da Hegira — de acordo com o qual pela meditação, êxtase e observância rigorosa da disciplina nos podemos erguer por nós próprios quase até à divindade e com ela identificados. O nome Sufi, ou Sophy, tirado do nome da doutrina foi dado a este antepassado, e o de Safavi à dinastia, que começou com Ismaíl em 1499 c durou até 1736. (39) No MS. de Lisboa os quatro nomes são dados como Tamão, Bulbacar, Hamaar e Acamar. Todo o capitulo sobre o Sophy é omitido em Ramusio. Os quatro primeiros califas que sucederam a Maomé foram Abu Bakr, Ornar, Othman e Ali, que morreram respcctivamente em 634, 644, 656 e 661, todos eles discípulos e companheiros do Profeta. Suponho que este Hacabar ou Acamar seja erro do copista. Não consigo encontrar nome algum que pudesse propriamente sugerir Hacabar. (40) Ali era primo e genro de Maomé, não sobrinho.
154 Tome Pires hambarj. (41) cada hum discripaua da propia temcam de mafamede como morreo E queria também atrebujr a sij esprito de pro¬ fecia falsa, como ho mafamede dõde oJe em dia ha nesta parte, athee o pressente estas quatro maneiras de mouros distantes em cousas dos huus aos out°s no modo do creer/ ho ale quamdo lhe veio a vez do gouernar Começou também a fazerse profeta he maior que os pasados E fez huu liuro em que dizia maall de seu sogro E dos companheiros afirmamdo asy melhor espirito de profeçia que aos out°s E apomtamdo cousas que desfazia (42) nelles he mamdou que dhij por diamte em sua oracam nomeasem ale E nam mafamede dizd0 que por sua lamca ganhara mujta terra E que os doze Signos do çêeo eram com elle he Jumtos em seu nacimemto o fezeram Cavaleiro E gramde profeta E que nom qeria q nenhuu mouro creese o que seu sogro disera que metera o soll na mamga. E cousas que desfazem autoridade de mafamede que os mouros sabem/ domde sairom loguo hos segujdores dalee que se chamam zei- dis (43) /E Rafadis sam mouros que gardam a opynjam Dale E dos Rafadijs he o xequesmaell/. depois de morto ho ale por ser forte em sua guouernamça alguus dos seus se mudarom ao pareçer de mafamede E out°s (41) Xafij, malaqi, anafij e hambarj aparecem como xafim, malaquj, anafy c ambari no MS. de Lisboa. Estas quatro escolas de leis dos Sunitas datam do século ix. O Islào está dividido em três seitas principais, cujas diferenças são essencialmente acerca do cargo do califa — Sunitas, Xiitas e Khawarij. Os Sunitas, que sustentam que o califado deve ser provido por eleição e que o Califa não é infalivel, constituem a maior parte dos muçul¬ manos — são actualmcnte cerca de 150 milhões dum total de 235 milhões. (42) Seniences of A!i, traduzidas por W. Yule, Edinburgo, 1832. Contém colccções de provérbios e versos, sob o nome de Ali. (43) Zeidis aparece como Zeylldes no MS. de Lisboa. Os Xiitas de Shi'a — 'o partido de Ali', são de importância secundária em relação aos Sunitas. Aqueles sustentam que Ali e seus descendentes são os califas legítimos e que o Califado não é um cargo de eleição, mas antes dado por Deus, sendo o Califa infalivel. Existem hoje cerca de doze milhões de Xiitas, principalmente na Pérsia.
A Suma Orienta! 155 teuerom o dalle. vierom a crecer tamto os de mafamede que pronunciarom leis que todo o que fose segujdor dale morresse dizemdo que nom fora profeta nem samto mas que fora bom cavaleiro em seu tempo domde se Recreçeo Daquelle tempo athee aguora mujtos mouros segidores Dale morresem por Jus¬ tiça nas terras dos mouros por Jreges de maneira que os seguj- dorès dale os ouuerom por fora da ley E nam vam a mequa E porem com quamto eram ponjdos por ale antre os mouros sempre ouue mujta gemte destes secreta athee o tempo Deste xeqesmaell ho xequesmaell he naturall persiano da Região de xiras fidalguo de naçam desse gramde xeas homes que desprezam ho mundo he viuem solitaria memte porque mamtem pobreza foy o pay deste xeqe homem amtre os mouros avido por homê de boa vida E que decemdia da casta dale he teue tres filhos o xequesmaell he o do meio/ (44) he todos sam viuos soia o pay do xe esmaell falar mujtas vezes com elRey de xiras he eram amigos mujtas vezes praticamdo de maneira que o Rey de xiras se escamdalizou do xe E o matou alguus dizem que ho xe amoes- tou a elRej de xiras que se emformase das cousas dale E que sseguise seu parecer out°s Dizem que ouuerom Desputa E que o Rey De xiras fauorecia mafamede & o xeque fauorecia alee de mana que o xe foy alij morto & o xeque morto/ Dizem que tinha estes fs° de huuã molher xstaa. armenja molher De boõs paremtes E que ha tijnha comuertida a opinjam Dale E despois De morto o pay do xe ismaell esteue o xe ismaell com sua may & com huu seu tijo xtãoo armenjo cinquo annos//. morto ho pay nom he duujda o filho estar em casa de sua may da ydade de dez annôs de q era quamdo matarom ho pay eesteue athee xb como o moço foy de xb segujo ha companhia dos xpãaos sseus paremtes com os quaes esteue seis annos os (44) Ismael era o mais novo dos três irmãos, não o do meio como diz Pires. Naci- memto do xr ismaell ou çofij/. Foi. I23v.
156 Tomé Pires xstaos lhe dauam de comer E o emssinavam tomou Delles o que lhe bem pareçeo he semp lhe foy obidiemte de maneira que foy o moco crecemdo em uomdade E discriçam que com com- selho dos paremtes xstaos mandou huua carta a elIRey De xiras que lhe dese de comer pois lhe matara seu pay foy Respomdido com huu caJado he huuas comtas por modo de zombaria que aquillo lhe pertemçia. pois era xeqe homê pobre/ ho moço Jmdi- nado com hos paremtes Jmsijnado em nosa fee foise a hum Rey Jumto com xiras que ho aJudase comtra elle pois o Rey era seu Jmiguo & q lhe emprestase alguu dr° E com outro que lhe dauã seus paremtes queria matar elIRey de xiras foy aJudado E por sua Jndustria ajumtou dous mjll homês E fazija saltos pola terra. Despois Roubau» Detremjnou comtra vomtade dos que trazija comsyguo huua sesta feira emtrãr De dia na çidade/ emtrou he dizem que matou sessemta mjll homêes E ouue a cidade a mãao & a Roubou (45) E que sse pos em trimta mjll De peleja com os qeês fez a guerra sete annos ou oyto que tem toda a proujmçia. Da persija com todollos Regnos p sy//. os Dous mjll ornes que aJuntou o xequesmaell iij° eram De cavallo Dos quaees Duzemtos eram xstaos armenjos paremtes da may Do xeque os cento eram paremtes Do pay a gemte De pee era destes/ o dr° que tinha era pa mamtim10 E nom teue mais gemte no primcipio De seu cometimento E agora nõ tem numero sua gemte/ quamdo emtrou na cidade De xiras tinha oitemta mjll combatemtes leuaua seis mjll De cavallo//. todas as cousas que faz he p comselho destes xstaõos segumdo dizem nom derriba casa de xstaos nem mata nèhuu xstão Dizem que trara comsiguo Dez mjll homês xpaãos armenjos & doutas naçõees com os quaes comete as cousas gramdes he todollos Rex se lhes dam & obedecem/ as Jgreias nosas Reforma. Des- (45) “Ismael atacou Tabriz, que se rendeu, e foi proclamado Xá". Sykes, A Hisiory of Pérsia, II, 159. Pires não é muito claro; parece por vezes confundir Shiraz com Tabriz.
A Suma Oriental 157 truj toDa casa De mouros que seguem a mafamede a nenhuu Judeu nom daa vida. honde ho acha tem guerra com ho soldam E com gemtes De turq'a vaise fazemdo gramde aos Reis mamda a carapuça vermelha, se a tomam sam amiguos senam ficam capitães Jmiguos// (46). este xeque sera homem de xxxla athee xxxij annõs esta dasemto a moõr parte em tauris he pequeno De corpo de fortes membros traz a carapuca (47) elle mesmo amtigam,e os mouros segujdores desta seita nom traziam carapuças este as mamda trazr alguus Dizem que secretamemte se emtemdem os doze debruus pollos xij apllos (48) mas o mais çerto que ele pubrica mujtas vezes que louua ale por profeta mayor q todos E que hos synos do ceeo ho serujam que poriso traz doze debruus he que haDe ser vermelha em synall que o que a nom quiser tomar Do propio samgue seu se lhe ha de fazer sua carapuça vermelha, dizem que he omê gracioso liberall he todo mouro De mafamede se sabe que bebe vinho mamda matar E aos Das carapuças lhe da licemca ê tamto q em toda a persya Ja nom ha homê q nom seja De sua seita, hos omrrados trazem carapucas os pobres se nom tem por homde nom ha trazem porem todos seguem alee/ (46) Quando Pires escreveu isto, a grande derrota infligida por Selim o Terrível, Sultão da Turquia, em 1514, ao Xeque Ismael, da qual este esca¬ pou com dificuldade depois de ser gravemente ferido e quase feito prisio¬ neiro. não tinha ainda ocorrido. (47) Mestre Afonso, que veio da índia para Portugal através da Pérsia, em 1565-6, refere-sc a esta carapuça como se segue «Todos os mais destes mouros.... exccpto os parentes de Mahomet que trazem os cabelos compridos entrançados com suas toucas nas cabeças, trazem carapuções, que são feitos de pano vermelho como barretes redondos grandes acolchoados dalgodão c do meio da cabeça para cima lhe sai um corno direito contínuo co barrete do mesmo pano, a que eles chamam carapuçâo de comprimento de dous palmos e grossura de um braço, repartido ao comprido em doze verdugos, em lembrança e veneração dos doze filhos de álly cuia seita guardam». Yti- nerario de Mestre Affonso, p. 192. (48) Estes doze Apóstolos eram os doze Imans, que descendiam de Ali, origem da importante seita dos Xiitas — os Dozes.
158 Tomé Pires dizem que he caualeiro de Sua pesoa. tem ja fs° tem mujtas molheres/ nas terras dos mouros .s. na Do soldam & do Rey Dadem se aleuamtam muytos nesta seita. E nom hos ousam a matar E cada dia se tornam pa a bamda dale muj,os dos de mafamede tem Ja mujta gemte Dos mouros da siria. comuertidos a seita dale he alevamtamse capitaees seus caDa Dia na opinjom Dalle pollo qual os mouros ho tem a maao synall/ ho xeqe he mouro çircunçidado segujdor dale posto q mujtos mouros Dizem que he xstão este mamda aos Rex mouros letrados seus Des- putar a seita dale comta a opinjam de mafamede. & os embai¬ xadores que este xeqe mamda. vem antorizados De mujtos de cauallo bem vestidos homees De feicam Dazemalas baixelas De pata E douro nos qees se vee a gramdeza do xeque a todolos Rex mouros mamda Dadivas presemtes letrados pa que syguam sua ley Diz que nom hade Repousar athee ê seu têpo nom fazer todollos mouros da bamda dale E despois sera o que ele sabe Deve ser esta a niourama com este novo xe E mujto mais agas- Fol. I24r. tada com o poder De uosa alteza/(49). ha nesta terra De persya gram suma De mercadores E a terra he em sy de gramde trato porque tem trato Desdo cauo (50) coremdo a terra athee os armenjos em que se comtem mujtas proujmçias muj nobres E Riquas/ E da turquja pola siria vem gramde trato a persija/ tem a terra De xiria (51) & outas/ mujta seda de que se fazem Ricos pannos E mujtas sortes De chamalotes de cores fijnos he muj10 boos/ tem tutia em gramde camtidade mujta pedra vme caparrosa E alcofoll que os mouro vsam/ tem mujtos cavallos (49) No MS. dc Lisboa cstc parágrafo termina de maneira completa- mente diferente: «e depois diz q sera o q ele sabe c q sera fazer-se cristão / como dizem q escõdido he//. (50) No MS. de Paris está nitidamente escrito cauo, que pode signi¬ ficar 'cabo'; mas no MS. de Lisboa lê-se cayro, e Cairo em Ramusio, embora neste a formulação do parágrafo fosse um tanto alterada. (51) No MS. de Lisboa Xiria foi erradamente copiada por Riq" (Riqueza).
A Suma Oriental 159 mujtos mamtimemtos tem mujtas torquesas que naçem em a trra de xiras tem mujta çera mell. mamteiga todas estas sam naturaes da terra/ pola bamda De delj por tras a serra pareçe vijr põr vya De siam de Reino em Reino almijzqr Rujbardo agujlla ou lenho aloees de botiqua camfora todas estas cousas E outas mais vem todas a hormuz tapetes gramdes alcatifas panos De laa mujtos de mujtas cores chapeos barretes ha sua guisa armarias sem numero bem garnjdas/ Retornam gram suma De espiciarias E draguorias primcipallmemte pimemta. que se gasta m,a na persija porque sam homèes De potagees mais q alemaêes que he amtreles gramde mercadoria que ha espalham por seus comarquãaos compram alIJofar aRoz panos brancos beatilhas beiJoy E cousas a estas semelhamtes Esta terra da pérsia com todas suas Regiõees estam antre dous Rijos .s. tigris he eufrates alguus afirmam que estes dous Rios nom vem ter ao mar oçeano mas que na pérsia fazem seus termos E que emtram no syno pérsico em huu maar ou laguo gramde Daguoa salgada nauegauell que ha na persya cercado todo De terra De fremosas abitaçõees na proujmcia De gujlam E que sera De traueca vimte leguoas em a qual ha tormemtas & mujto pescado que salgado se Reparte pola persija homde pode hir & o outro sequo/ out°s Dizem ser moor este mãr mas eu me certefiquey por mtos he me dixerom ser esta a medida, a quall me parece ser gramde ysto he aRedado mujto Dormuz por mais De dous meses Damdadura è camellos/ out°s Dizem que o tigris vem pola syria E vem acabar casij Jumto com ho mar Do estreito Durmuz obra De xij leguoas & que vem Ja pequeno porque se espalha enbraços core violemta memte E he estreito nom navegauell em lugares se pasa a pee. eem outs° em madeiros E barquas a sua guisa ha seta em parse chamase /tir E pola ligeireza do Rijo se chama tigris// (52). (52) Sobre a palavra persa tir. que significa sela, e a sua conexão com o nome do rio Tigre, vide Hobson-Jobson, s.v. Tiger, nota.
160 Tomé Pires Naitaques o eufrates tem o nacimemto na Armenja E dizem que vem sair ao mãar oçiãno E que deujde os naitaques dos Resputes E os de cambaia chamam a este Rijo frataa he que vem pollo estremo da pérsia E que por homde vem este nom he a terra mujto aproveitada he gramde Rijo nom vem tam ligeiro como o tigris este he demtro navegauell. de barças sotias q nauegam os destas partes por homde corre//. Deixada a pérsia caminhamdo pa a Jmdia polo mar ociano emtramos na tra dos naitaques/. Sam os naitaques (53) vizinhos de huua bamda com hos persas & da bamda de cambaia com os Resputes E da terra firme terra momtuosa. Da proujmcia de delij & da outa tem o mar ociano sam estes naitaques gemtios nom ha amtrelles mouros he mujta gemte he gramde terra estemdense pola terra demtro nom tem Rey vivem em cabilas nunca nèhuu destes Recebeo o nome De mafamede tem lingoagem sobresy nom tem çidades tem pouoacoes em serras momtes eeste Rijo (54) os faz mujto fortes porque alagua a terrã chaa/ he a terra em sij de mujtos mamtimtos triguo cevada fruitos estes a mor parte Delles sam cosairos trazem barças sotis sam frecheiros athee Duzemtos saem ao mãr E Roubam qmdo acham tempo E alguuas vezes chegam athee ormuz eemtrã Dentro no estreito a fazer salto & disto viuem/ os taees trazem arcos espadas lanças E nam som homes mujto Domésticos mujtas vezes com tempo vam ancorar ha foz deste Rijo he he emseada com Restimguas (53) Noutaques no MS. de Lisboa; Motages na tradução de Ramusio. Barbosa não se refere a este povo, mas Dames diz numa nota sobre Sheikh Ismail que os Noutaques, a que vários autores do século xvt se referem, são da tribo Nodhaki dos Balochcs, no que está de acordo com Barros. Esta região corresponde aproximadamente a uma parte da província persa de Kamir e ao Baluqucstão. (54) Pires não diz que rio c, mas deve referir-se ao Rio dos Noutaques, que aparece em várias cartas portuguesas do século xvt. É possivel que este rio melhor corresponda ao actual Rio Dasht, como parece indicado mais claramente, por R dos noutaces na carta de L. Homem de 1554.
A Suma OrientaI 161 E pedra os naitaques apanham qllqr naò q alij vem alguuas vezes & as mais vãao ao Reino De carnbay8 a seus portos E se acham furtam por homde podem nom teme nlguè nê tem acolheitas de rrios ê suas terras & sam mujtos nestas ptes/ sam conhecidos por homêes desta mana/ os que na terra estam semeamdo E lauramdo tem muj108 Foi. 124v. cavallos E mujtas eguoas em que amdam como alarues tembem furtamdo por homde acham tem estes paz E amizade com os Resputes E cousa de mouros nom lhe perdoã E de quall quer outra gemte/ tem mujta afynjdade lios naitaqes he Resputes he viuemdo antre mouros cercados De suas terras tamtos tempos nunq° hos poderom soJugar. sam valemtes homêes salteadores/ a terra dos naitaques he mor E mais gemte que os Resputes peroo os Resputes he gemte melhor como se dira adiamte ê seu lugar// hos Resputes (55) da bamda da persija sae os naitaques Resputes/ & da de carnbay8 a mesma cambaya. Da terra firme terra de dely E da outra o mar oceano som estes Resputes gemtios sem auer amtreelles mouros nom tem Rey tem sõr a q obedeçem tem a terra Destes fortalezas fortes E lugares fortes sam valemtes homees Caualeiros tem mujtos cavallos & pola moõr pte tem eguoas em que pelejam a terra destes he abastada. E mujto boa. De mujtos mamtimentos E aproueitada & forte ê sy E nom he mujta a terra porque lha tem tomada he melhor gemte esta de gueerra que seus vizinhos comtinoadamemte tem guerra com ellRey De cambaya mujtas vezes lhe fazem Dapno & o poem em desbarato porq sam estuciossos sabedores E com pouca gemte nam somemte se ssostem mas Ajmda dam comti¬ noadamemte fadig8 Aos cambaesses/ nom som posamtes pa em campo poderê em azees pelleJar com cambaia mas seu Emtemto he Rebates cavallgadas fazem presas catiuanse huus aos outros sam estes Resputes homees Destros na guerra Robus¬ tos gramDes frecheiros//. (55) Risbutos no MS. de Lisboa; Rebutes na tradução de Ramusio.
162 Tomé Pires tem estes tanbem saida ao mãar em que tem navios De Remo & fazem presash por homde acham asij como os naitaques mas seu poder todo he na terra. Alguus afirmam que destes Resputes & naitaqes eram os que tinham açeso as amazonas que de huua parte Da terra firme comfínam com estes & com cambaia como se dira na Descricam De cambaia (56) pola bamda de delij a terra Destes estemdese na terra firme por gramdes serranjas Ja esta Regiam teue Rey E pouco ha que o matarom he nom se fez Despois outro tem este Reino fermosas cidades De /ara/ crodi/ vamistra/ argengij/ (57) o capitam prim- cipall De todo este Reino chamase pimpall (58) varaa/ E huua Jrmãa deste que se chama bibi Rane (59) he casada com ho Rey De cambaya que lha deu o pai por partido amtes que mor- rese & dizem q he fremosa. * (60). (56) No MS. — p. 58v. de Lisboa: «allgús afirmão que estes Rjsbulos erão os que tinhão cò (vinacào) cõ as allmazonas que ha hua parte da terra firma cõfinão cõ cambaja». (57) ara é Herat, a cidade do Afganistâo ocidental. Aparece também como Hara, Harah. Eri, Heri ou Heriunilis em velhos relatos de viagens asiáticas. Cf. Cathay and lhe Way Thither, I, 190, 293; m, 22. crodi — Crode no MS. de Lisboa, Crodi em Ramusio. Talvez Kotri, cidade no distrito de Karachi. vamistra — Vamiste no MS. de Lisboa, Vamistaem Ramusio. Vamans- thali, antiga cidade e capital, junto de Girnar e a moderna Bilkha. em Kathiawar, Bombaim? !mp. Gaz. of índia. s.v. Girnar. argengij — Argemgij no MS. de Lisboa, Argengo cm Ramusio. A cidade de Arguda. da Geografia de Ptolomeu, ou Argandi, a sudoeste de Kabul? Cunningham, The Anrienl Geography of índia. p. 38. (58) Vara apenas, no MS. de Lisboa e Ramusio. (59) Bibi significa senhora cm persa c Rane ou Rani é ou a consorte dum rajá hindu, ou rana, uma rainha. Aparece como Biberade no MS. de Lisboa c em Ramusio. (60) No rodapé desta página estâo as palavras; ‘aquy acaba o pr° ly'. Esta nota, escrita pelo mesmo punho que a da Foi. Il8v. e depois riscada, está ao lado de um asterisco que parece corresponder a um aste¬ risco similar do fim do texto da página seguinte.
A Suma Oriental 163 [cambaia] O Nobre Reino de cambaia confina de huua banida Da parte da persíja com a Regiam dos Resputes E da banida da Jmdia segunda com ho gramde Reino De daquem Da terra firme com ho Reino de delij E da bamda do [em branco] como ho mar oceano (61) apartase este Reino com o de daquem amtre maymj E chaull. he o Reino em sij gramde mujto abastado De todo genero Do triguo çevadas mjlho legumes fruitos E de mujtos cavallos alifamtes aves De caca. E outsa mujtas em gayolas De diuersas feiçoèes E prezadas terra mujto abytada De fermosas çídades no maar E na terra firme E De gramdes pouoações sam cavaleiros tem mujta artelharia. E todo eixerçíçío De guerra, tem mujtos cavallos acubertados armas De suas p“ fremosas asy De lamjnas como de malha lamcas De fremosos ferros com¬ pridas espadas adarguãs bem guarnjdo tudo he gramde ho pouoo tem mujta Jemte Dalmãs (62) Jemte de guerra De fora tem maçarls aRabios turqujmaes Rumes persianos conuem saber gujlanes coraçones abixijs toda gemte limpa com que comti- noadamemte peleJa com os Reinos comarcãaos com que tem guerra amtrestas nações ha mujtos xstãaos aRenegados & As primcipãees cidades que tem no mãr he çurrate/ Ranei/ Dio/ cambaia tem outs™8 portos. De pouoacoees .s. maymj/ damanã/ patan guogua (63)/ diu. he guoga he mamj ou may (61) Segundo o MS. de Lisboa. (62) Embora esteja escrito Dalmãs no MS., deve ser 'de armas’, como no MS. de Lisboa c em Ramusio. (63) ranei — Reneri mais adiante. Rjnell no MS. de Lisboa, e Reiner e Reinari em Ramusio. Em Barbosa e nos cronistas portugueses encon¬ tra-se Reynel, ReineI ou Reiner. As cartas de Ribeiro de 1527 e 1529 apre¬ sentam Reine!, como em Barbosa. Isto explica-se pelo facto de Ribeiro e Centurione quando em Sevilha, onde as cartas foram desenhadas, traduzirem para o italiano o Livro de Duarte Barbosa. Corresponde à moderno Rander, na outra margem do Tapti River, quase em frente de Surat. maymj, Maymi or May — Aparece como Mejmym ou Majm no MS. de Lisboa. Corresponde a Mahim ou Kelve Mahim, actualmente um Foi. 12Sr. Regno de cambaia Içidades no mar E na terra./
164 Tomé Pires sam da guouernamça. De melequiaz (64) mouro persiano gujlanj de naçam//. Damana/ çurrate Ranei/ sam da Jurdicam de dasturcan (65) mouro naturall de cambai8 fidalguo na terra patan he da guouernamça. Do filho do Rey de cambai8 que sse./ chama soltan xaquendar (66) a cidade de cambaia he da Jurdiçam de sey debiaa p8 pmcipall mouro Da terra homem fidalguo De preço amtreeles/ as cidades primcipaes Da terra firme he champanell/ & medadaue/ varodrra/ baruez/ (67) tem estas cidades gramdes vazeris ou capitãees homees com quê se gouerna todo ho Regno/ este meliquiaz foy homem de pee pequeno porto a meio caminho entre Dahanu e Agashi. Não se deve con¬ fundir com o Maimbij que corresponde a Mahim ou Mahikavati na ilha de Bombaim. Veja nota da p. 195. patan — Paião no MS. de Lisboa, Paiam em Ramusio. Aparece como Patan, Patane e Pate em muitas cartas e crónicas portuguesas do século xvi. Deve corresponder ao moderno Veraval. guogua ou Cuogarj aparece como Goga ou Gogary no MS. de Lisboa e como Goga e Gogari em Ramusio. Está escrito como Porto de goga na carta de Rodrigues da parte ocidental da índia. É Gogha, porto do Distrito Ahmadabad na costa ocidental do Golfo de Cambaia. (64) Todos os cronistas portugueses, incluindo Albuquerque nas Cartas e outros autores do século xvi se referem com pormenor a Melique Az, ou Malik'Aiyaz, c suas relações com os Portugueses. Melique do árabe Malik, rei, significava também príncipe, governador e chefe, no Oriente. (65) Dastur Khan. (66) Sikandar Khan, o filho mais velho de Muzaffar n. que só em 1525 se tornou sultão. (67) champaner — Champanell no MS. de Lisboa, Campanel em Ramusio. ‘O nome corrccto é Champãnêr'. Damcs, i, 123. Cidade em ruinas vinte e cinco milhas a norte de Baroda, no sopé nordeste de Pavagarh, colina poderosamente fortificada. The Imp. Gaz. of índia, s.v. medadaue — Madadune no MS. de Lisboa, Madadune em Ramusio, Andava em Barbosa. Trata-se de Ahmadabad. varodrra — Barodria no MS. de Lisboa, Zarodria em Ramusio, isto é Baroda. baruez — O mesmo no MS. de Lisboa, Banues c Barmez em Ramusio. Corresponde a Bharoch ou Broach, o porto mais importante entre Cambaia e Surat.
A Suma Oriental 165 frecheiro foilhe dada ha gouernamca da bamda de dio por ser a menos cousa De cambaia (68). & casy matos ante do noso Descobrimemto das Jndias E porque os portos de daquê andauam sempre sopeados se fez dio gramde com nosa amizade aguora he cousa homrada homde se guarda mais a Justa que em outa parte do Reino tem ê sua estrebaria iijc cavallos q mamtem a custa das Remdas da terra & De dio a champanell ha amdadura de oito dias De cambaia a champanell amdaDura De dous Dias De currate & Renerj a champanell. Amdadura. De cimquo Dias por terra todo/. A melhor cidade do sertãao he champanell nom he gramde he pulida & bem obrada-/ E a cidade De mais mercadoria he a cidade De cambaya. estaa na emseada he de baixos ao menos huuã braça/ o mais quatro/ esta tem melhores mercadorias/ he casy todo o trato Desta De gemtios as outas cidades sam de bõos portos E fortelezas nelles/ o Reino de cambaya na terra firme he pequeno//. A moeda meuda desta terra he- de cobre mais grosa que cèitys tem moeda de prata que se chama mastamudes vali cada huua tres vijmtees tem também outra que se chama mada- forxas (69) De prata. Da mesma valia ho ouro corre E em barras por sseus toques he valias/- Distam- cia das cidades do mãar a cham¬ panell pimcipaes çidãdes Moeda (68) O copista do MS. de Lisboa (p. 59) acrescentou mais algumas informações: «este he meliquas o quall morreo ho ano de 522, foi homõ frecheiro e amtes de ser frecheiro foi capitão e mujtas vezes vemdido foi lhe dada a governação de dio por ser a menos cousa de cambaia.» (69) ceitil —Antiga moeda portuguesa, valendo apenas um sexto de um real. mastamudes — O mastamude de Pires corresponde à antiga moeda persa, de prata, mahmudi, chamada mamude pelos cronistas portugueses e no MS. de Lisboa, que circulava em Cambaia e no Gujarat. vintém — moeda portuguesa igual a 20 reis, ou 1 dinheiro (inglês) ao par. madaforxas — madrafaxuos no MS. de Lisboa, antiga moeda de prata ou ouro, que circulava em Cambaia e no Gujarat, designada pelos cronistas portugueses por madrafaxos, madrafaxas, madrafaxaos ou madra- faxões.
166 Tomé Pires Foi. I25v. Regnos na lerra canarjm Portos no mãar [canarim] Aqi deixares este & buscares cambaia que vay adiamte/* (70) Aguora sam no vitimo Reino Da primeira Jmdía que se chama a proujmcia dos canaríjs apartase de huua bamda pollo Reino De guoa p amgadiua E da outa pola Jmdia meaa/ ou Jmdia do malabar pola terra firme he ellRey de narsimgua que he cabeça desta terra a limguoagem da q he canarim he defe- remte da do Reino De daquem E do Reino De guoa tem nas beiras Do maãr Dous Rex E alguuas pequenas Regioèes sam todos gemtios obediemtes a ellRey De narsimgua sam homes polidos guereiros eixercitados nas armas asij no maar Como na terra Das terras que o Rey de narsimgua tinha nesta pma Jndia nom lhe fiquou somemte esta de que aguora hee o presemte Recomtamemto he terra ha proueitada De boãs pouoaçõees//- Na terra dos canaríjs comeca p amJediva athe mamgallor mjrgeu onor baticala baçalor baira vera bacanor vdipiram (72) (70) Estas palavras, ao cimo da página, são pelo mesmo punho que o MS. e foram obviamente acrescentadas depois do copista ter escrito o texto. Sobre a confusa articulação das folhas do MS. e a presente recomposição do texto, veja-se a Introdução. (71) Canaríjs ou Canarins são os habitantes de Kanara, mas, segundo Dalgado (s.v.) os portugueses designaram erradamente por este nome o povo de Goa. Dames diz, aliás sem muito fundamento, segundo creio, que o termo é aplicado à ciasse a que chamamos dos euroasiáticos e que o termo anglo-indiano Karãni é provavelmente derivado de Canarim. (72) No MS. de Lisboa estes nomes são como segue: 'mcrgeo batccala bacalor baira/ vera / bacanor vydeperão mãgalu.’ mjrgeu — a moderna Mirjan, na foz do Rio Gangawali, a norte de Honawar. Mergeo em Barbosa, nos cronistas portugueses e na carta de Reinei de c. 1517, Mergueo na carta de Reinei de c. 1518 e Mergeo em cartas posteriores. onor — Honavar ou Honawar. Omitido no MS. de Lisboa e em Ramusio. Honor em Barbosa e Onor nos cronistas e cartas portugueses. baticala — Bhatkal. Baticalla na carta de Rodrigues (foi. 28). baçalor — Corresponde a Basrur, aldeia em Coondapur. ou Kun-
A Suma OrientaI 167 mamgallor/ todos estes portos sam De trato/ Donor mjrgeu athe amgediua he delRey de garçopa. fromteiro De guoa. por el Rey De narsimgua. baticala com baçallor. E outas villas na terra firme tem Rey os out°s quoatro portos tem capitaees todos sam obediemtes ao Rey De narsymgua E lhe acodem com as Remdas/ ho Rey de garçopa he pesoa homrrada & de mujta gemte De cauallo athee tres mjl homès segumdo afirmam garçopa esta pollo Rijo Donor cimqo leguoas demtro he cyDade peqena fresca he timoJa (73) era sua abitaçam em onor por que tinha afini¬ dade cõ ellRey de garçopa este esta mujtas vezes na corte DellRey De narsimgua he seu vasallo obidiemte este Rijo Donor he de dapur, no Distrito meridional de Kanara, situada a sul de um grande estuário para o qual convergem três rios. Ainda aí se vêem as ruínas de um velho forte português. Braçalor em Barbosa, Barcelor e Bracelor nas crónicas e cartas portuguesas. baira vera —Como Pires indica todos estes nomes por ordem geo¬ gráfica, parece que Baira Vera deveria estar entre Baçalor (Basrur) e Bacanor (Barkur, no Rio Sitanadi). Mas entre o estuário do Coondapur e a foz do Rio Sitanadi não há nenhuma interrupção na linha da costa que pudesse ser chamada porto. Há o pequeno porto de Baindur, na foz do Rio Baindur, mas esse fica entre Bhatkal e Basrur. Bacanor corresponde à aldeia de Barkur, no lado norte de um estuário de vários rios, sendo o mais impor¬ tante o Sitanadi ao norte e o Swarnanadi ao sul. Cerca de uma milha para sul de Barkur, entre os dois rios, fica a aldeia de Brahmawar, e é possível que seja esta a Baira Vera de Pires, talvez a Barrauerrão situada por Casta- nheda (II. xvi) entre Bacanor e Baticala. bacanor — A antiga aldeia de Barkur, no Kanaresc, a capital tradicional de Taluva (Imp. Gaz. of índia, s.v.) corresponde a Malayalam Fakanur ou Vakkanur, a Bacanor de todos os cronistas e cartas portugueses. vdipiram — Udipi, a principal vila junto do rio, fica no interior, a cerca de duas milhas c meia do Malpe ou Mulpi, que está na foz do Udiya- vara Hole (rio Mulpc), cerca de trinta milhas para norte de Mangalore. Deve ser Vdebarrão, um «muito grande e bom porto» que Castanheda (II, xvi) situa perto de Mangalore. (73) Timoja era um pirata, mais tarde utilizado por Albuquerque que o nomeou aguazil de Goa em 1510. Mostrou-se desleal, tendo-se antes da sua morte em 1511 bandeado com Adil Khan. '3
Tomé Pires balicala 168 muj gramde pouoaçam he De naujos aquj fazija timoJa sua armada em que amdau» salteamdo Daquj athee ho cabo De guardafuy Domde fazija gramdes presas era temido este timoJa dos navegamtes E era ajudado Do Rey de guarçopaa/ EIlRey de baticala he Jemtio canarim maior Rey que o donor E garçopaa tem mt* terra ffirme em seu Reino batecala he porto Despois De guoa E chaull/ muy homrrado E de gramde neguoçeaçam he aguora Domde seo Reino De narsijmga serve & tem os cavallos tem a cidade mujtos mercadores asij gemtios como mouros he gramde escalla De mujtos mercadores he gramde porto ho Rey esta sempre na tra firme tem por guouer- nador Da nação dos Jemtios Damj chatim pa primçipall Em fazemda E gramde mercador he tem por gouernador Da nacam dos mouros /caizar/ mouro capado que foy criado De coJatar (74). ho Durmuz ha nesta cidade mouros De todas naçõees foy cousa mujto gramde amte da tomada de guoa pilo capitam Jeerall Ja aguora he demenuyda// De todos estes portos dos Regnos Dos canaríjs a mais homrrada cousa era baticala p Rezam Dos mujtos mercadores que tinha. E vinham mujtos cavallos De todas partes aquj Desembarcar E outras mercadorias mujtas estes cavallos se comprauam pa o Reino De narsimga. de que se pagauam gram¬ des dereitos Retornavam os mercadores Desta terra Dos canaríjs aRoz em mujta cantidade o melhor De todas estas partes .s. gyracall que he mais meudo & mais branq0 E de mais preço E mais estimado E depos este chambaçall. E depos ho cham- bacall he o pacharill De guoa. & do Reino De daquem (75) Retornauam asy mesmo ferro E mujto açúcar, qua ha nesta terra E mujtas comseruas dacuqr que se fazem em baticala ysso (74) Cojatar ou Co/e Alar—Khwa.ia Atar, vizir de Ormuz sob o xeque Ismael. (75) Muitos escritores portugueses antigos se referem a estas três espécies de arroz indiano. A descrição de Pires é deveras correcta. Dalgado (s.v. Arroz) trata pormenorizadamente das várias espécies de arroz da índia
A Suma Oriental 169 da terra E dos mercadores da bamda malabar athee malaca tinham mujtos que hy vinham têer. De maneira q era sua neguoceacam gramde esta he a cousa mais estimada q ho Rey De narsimgua tem nesta parte Do canarim//. qmto aos lugares de biara vera bacanor vdipiram mamgalor todos sam lugares portos de mercadores he de naaos que tratam com cambaya he com ho Regno De guoa & de daquem E hor- muz leuamdo das mercadorias Da terra trazemdo outas ha nestes portos capitãees homrrados com gente De guamjçam acodem com has Remdas ao Rey de narsijmgua tem ho | Rey nesta tera Foi. 126r dos canarljs asy nos portos do maar como na terra firme gramdes Rêdas E tem estas beiras do mar com fortalezas a sua guisa mas a mor fortaleza, sam as barras Dos Rijos he tudo terra muyto aproueitada grosa E boa de mujtos mantimêtos De muyta Jemte. asy de cauallo como de pee tem muyto betelle E areca tem a terra dos canarijs templlõs De suas oraçoees gramdes E omrrados tem mujtos bramenes De mujtas sortes E ordees delles castos delles nam como no Regno de guoa custumase queimarem as molheres polia maneira q he dito nos out°s gemtios// Estas terras proujmcias .s. dacanjs do Regno de daquê conconjs do Regno de goa Canaris Do Reino de narsijmga cada huu tem sua proujnemciaV-s. E porque estas terras sam do Rey de narsingua detremjney De tratar a
170 Tomé Pires de guoa & esta parte he canarjm cuJa çidade pmcipall he biza- naguar. homde o Rey esta. dasemto Da bamda De gamges na sayda Do ntar. comfina com alguuã parte do senhorio Do Reino de bemgala E com ho Reino Dorixa Da bamda da terra fijrme com as serranjas De delly Da bamda do maar ociano com as provimcias Do malabar & de choromãdell & benua qujlim// (77) Amtigamemte ho Regno De narsijmga era mujt0 maiõr do que ora he senhoreava qasy o Reino De daquem athee bem¬ gala e emtrando aquj orixa./ emtrando aquj todallas projncias marítimas aguora nom he tamanho que daqem (78) E guoa & o malabar E orixa tem Rex com tudo he gramde cousa, dei- xamdo ho Reino De dely esta he a moor proujmcia. destas partes segundo Dizem das Jndias peus, tais como Beejanugger, Bidjanagar, Bichenegher ou Bijanagher — nos séculos xvi e xvii a um grande reino ao sul da índia. Bisnagar ou Bisnaga é corrupção de Vijayanagara, nome de uma dinastia que reinou até cerca de 1487. A capital do reino era a cidade de Vijayanagar, fundada cm 1336, cujas ruínas existem ainda no distrito de Bellary, em Madras, con¬ servadas pelo Governo Britânico. Em 1487 a dinastia de Vijayanagar foi substituída por Narasinha, príncipe que reinou até 1508. Quando os Por¬ tugueses chegaram pela primeira vez à índia chamaram a essa parte do país o reino de Narsinga, nome derivado do então seu governante. (77) Choromandel era a designação geralmente dada pelos Portugueses à costa oriental da índia, desde Ceilão em direcção ao norte até ao rio Kistna na actual Madras Residency. Segundo Dalgado (i, 313; n, 484) a ortografia correcta é Choromandel, tal como escrevem Pires e Barbosa (embora este prefira Choramândel e Yule Coromandel), sendo o c/i pronun¬ ciado como em ‘church’. Pires não faz em qualquer parte da Suma uma des¬ crição especial de Choromandel. Mais adiante, ao tratar de Bengala men¬ ciona cinco portos, desde Cultarey (Nellore?) até Negapatam, ‘tudo ysto sam portos na bonua «Jlim terra De narsymgua’. Veja nota p. 223. Ao tratar do comércio de Malaca refere-se aos doze ‘portos da costa De choro- mandel' de caile (Old Kayal) até Paleacaie (Pulicat). Veja notas pp. 188 c 424-5. Contudo, na sua carta de 27 de Janeiro de 1516, Pires diz que 'Choro- mandell se estende desde os baixos (de Chilã) até Cunjmeyra (Pondicherry)'. (78) No MS. de Paris esta palavra lê-se que; mas no MS. de Lisboa está porque, e igualmentc em Ramusio. O copista do MS. de Paris deixou o por de porque, tornando a frase ininteligível.
A Suma OrientaI 171 ho Rey he Jemtio canarim de nação E doutra parte quelim è sua arte (79) amda a lingoagem trauada em sua arte amda a limgoagem trauada mas seu naturall he canarim he este Rey guerreiro amda mujtas vezes em campo com mais de qoremta mjll homês de cauallo gemte de pee gramde numero tera quj- nhemtos alifamtes Dos qees seram ijc de peleJa (80) tem sempre guerra ora com orixá ora com daquê ora na propia terra tem gramdes capitaèes tem mujta gemte a soldo quamdo Repousa he em biznagar cidade De vimte mjll vizinhos (81) Jaz amtre Duas serrãs as casas nam sam geerall memte mujto adornadas as casas ou pacos do Rey sam bem obradas gramdes E o Rey bem acompanhado De fidalguos gemtes de cauallo tem gramdes senores consiguo he mujto acatado amdam è sua corte mjll moças Jogrãees E omèes Do mesmo oficio quoatro cimqo mjll estes sam quelijs he nom canarijs porque os naturães Desta proujnçia De talimg°(82) sam mais autos nas graçaas E arre¬ medar q em outras partidas Daquij se espalham pa nestas tres Jndias mujta Jemte destes ho mais se dira na Descricam do out° seu senhorio// Acabada a primeira Jmdía por mangalor terra De canaris Jmdia ètrado sam na segda ymdia ou meya que se começa de mayciram meyãa primeiro porto da terra Do malabar E acabarsea no Rijo ganges polas comfromtacoees do Reino de bemgala E sera esta terra, de que he o presemte Recomtamento diujdida em duas ptes na primeira se dira da terra do malabar quam gramde he quamtos (79) O MS. de Paris tem arte. Mas no MS. de Lisboa está corte, e igualmentc em Ramusio. (80) O MS. de Lisboa diz 300.00 mil homens a cavalo c 800 elefantes. Ramusio está de acordo com o MS. de Paris. (81) O MS. de Lisboa diz 50.00 habitantes. Ramusio está de acordo com o MS. de Paris. (82) Talingo, Telinga, Tclingana ou Kalinga é um grupo de pessoas de laia télega de raça dravídica do Sul da índia. Segundo Yule (Hobson-Jobson) Kalinga é um nome muito antigo dado à costa de Telugu da Baía de Bengala, i.e., a costa que fica entre os rios Kistna e Mahanadi.
172 Tomé Pires Foi. I26v. Proujmcia do malabnr Serras que deujdem o Malabar de nar- synga portos tem em q ha naãos quamtos Rex tem com que custumes viuem quem he moõr nesta proujnçia E também se dira do trato deste/ malabar E de quamtas naãos tem Na segumda parte (83) se tratara do Rey de narsimgua & de sua terra com quem peleJa que gemte tem de cauallo E alguma cousa de seus costumes he tam bem Da camtidade do Reino falamdo alguu pouco do trato que também tem seus portos// E despois Dirsca do Reino dorixa ou odia (84) & sera nosa Jmdía segunda ou meya Explanada segumdo a posybilidade/. [malabar] A prouimcia do malabar começa De mayçerã porto Dell Rey de banignar q comfromta com mamgalor terra De canarijs Dell Rey De narsimgua E acaba no cabo de comorjm terra Dell Rey De coulão que comfromta com o dito rreino De narsym- gua na proujnçia De talímguo/ pola bamda da terra firme he cerqaDa toda esta terra De serranjas que a Diujdem Do dito Reino de narsingua sera toda esta terra polas beiras do maar De cemto & dez atee cemto & vimte leguoas E pola bamda da terra firme athee serra, a lugares sera cimquo leguoas & a lugares xb E desta maneira corre sem ser menos nem mais Sam estas terras tam altas que nom comsemtem os nor¬ destes he lestes pasar a costa da Jmdia. nem polo comtrairo os suduestes & oestes nom vemtam no rregno De narsijmgua -s- se vimdo De ceilam pa a costa da Jmdia com ventos frescos Dos sobreditos chegamdo çesam se da Jmdia pa choromandel partem com hos ponentes tamto que abocam o canal De ceilam nom vemtam Domde se segujo que ho malabar por careçer (83) Esta é uma das muitas confusões na divisão da Suma; na verdade Narsinga foi imediatamente descrita antes de Malabar. (84) Oriõa ou Orissa, correspondendo ao vernáculo Odisa. dai Odia. que neste caso não deve ser confundida com Ayuthia, que foi também escrita Odia por Pires e outros escritores portugueses do século xvi. Vide nota p. 237.
ESTAMPA XVIII Carta de Francisco Rodrigues (foi. 21) da Costa Ocidental da África, entre 8 e 5° N.
\\\ ESTAMPA XIX Carta de Francisco Rodrigues (foi. 22) da Costa do Brasil
A Suma Oriental 173 De vemtos sequos he fresca E graciosa E a proujmçia De choro- mandell por careçer dos humedos he esterile sem aruore pequena, nem gramde como se mais larga memte Dira em sua Descriçam abaste quanto a isto/. Todo malabar cree a trimdade como nos padre filho espu samto tres pesoas huu soo ds (85) verdadeiro/ Desde cambaia athee bemgala todo gemtio tem ysto como se dira mais larga- memte na descriçam da terra Domde Jaz sam thomee apostollo//. Nom me deuia meter nas cosas Do malabar por ser tam notorio a vosa alteza em q tem tam fermosas tres fortalezas gramdes he homrradas ,s. a de calecut E a de cochim com muj gramde albacar feito tudo ysto de quaall De cascas de meygeas E a de cananor De fremosas cavas E bem asemtada/ mas por a ordem Do prometido hijr ao cabo faço de todo memçam nesta viagem A gemte do malabar he preta & delia baça parda, som todollos Rex Jemtios bramenes ou De casta De seus sacerdotes a limguoagem he toda huua. casy/ asy como em Jtalia Diferem em pouca cousa he toda a terra muyto pouoada avera neste malabar cemto & cimqoemta mjll naires (86) homees De peleJa Despada he adarg3 E frecheiros sam homèes que adoram o seu (85) Dames (I, 115; II. 37) diz que a 'Trindade' também descrita por Barbosa se relaciona com o Hindu Trimurtti ou o deus trino de Brama. Vixenu e Xiva. Ao descrever Cambaia, Castro [edição critica de Armando Cortesão e Luís de Albuquerque, vol. 2, p. 90] diz que é «habitada de uma gente que se chama gusarates... Entre eles há uns certos homens como filósofos e reli¬ giosos que se chamam Brâmenes, os quais crêm na santíssima trindade. Padre, Filho, Espírito Santo, c em outras muitas cousas de nossa sacratíssima lei.» Birros (I, iv, 9; II, v, 1) também se refere à «Trindade» brâmane, mas faz notar que é «muito diferente» da Trindade cristã e é também rejeitada pelos maometanos. (86) Os Naires eram aborígenes do sudoeste da índia, onde formavam a casta nobre e militar correspondente aos Cxatrias, a seguir aos Brâmanes em importância. Actualmcntc. «Nair ou Nayar é um título acrescido a quase todos os nomes da raça e é, como Mister ou Esquire, assumido como um direito de nascença por qualquer membro respeitável da raça que não enha outro». Balfour, The Cyclopaedia of índia, j.v. Cremça do malabar
174 Tomé Pires Rey E por casso o Rey morre em batalha sam obrigados a morrer E se o nom fazem Diferemse da terra. E ficam JmJuriados pa sempre/ sam os naires leães nom tredores/ primeiro que huu Rey do malabar peleJe com out° lho hade fazer saber primeiro q se preceba/ he asij seu costume todo naire nom pode amdar De sua casa fora como he pa tomar armas sem suas armas tamto que nom he licito ao naire amdar sem ellas aJmda que seja De çem annos. & quamdo esta pa morrer sempre tem Junto com- siguo a espada & adarg® tam perto q se lhe comprir que a posa tomar costumam todos fazer gramde Reuerêçia aos mles q hos emsinam em tamto q ho melhor dos naires se achar huu /maquaa/. (87) se alguã cousa lhe emsinou. se o emcomtra faz lhe a Reueremcia. emtam vayse lauar//. se o naire acha em huu camjnho outro naire mais velho adorao & dalhe ho camjnho se esteuerem Dous tres quatr° Jrmãos ho mais velho ha destar asemtado E os out°s em pee//. . 127r. E porque a Jemte primçipall do malabar sam os bramenes domde os Rex decemdem E sam mais fidallguos por causa de seu sacerdoçio se dira primeiro delles he Despois dos naires E das outsa geraçoêes/ Bramenes sam sacerdotes que trazem huua linha depem- durada do ombro ezquerdo p° De baixo Do braço dirto (88) he de vimte sete fios feitos em tres a melhor geracam destes sam chatrias E depois patadares E apos estes nambuderis & os mais somenos namburis (89) trazem estes bramenes o nacimemto (87) Um nome dc casta aplicado aos pescadores da costa do Malabar. do dravidico mukkuha, 'mergulhar’. Mukkuvan é o nome geralmcnte usado, mas Mucua (no plural Mucuar) encontra-se também frequentemente. (88) Este fio sagrado, chamado punul, c sempre usado pelos Brâmanes. (89) «Algumas das famílias principescas do Malabar reivindicam ser puros Cxatrias... Racialmcnte, sem dúvida, os Cxatrias eram originariamente Naiares». C.A. Inncs, Malabar Gazetler, p. 112, Madras, 1908. Os Cxa¬ trias estão imediatamente abaixo dos Brâmanes na hierarquia das castas. O nome genérico para os Brâmanes do Malabar é Nambúdiri. Além dos Nambúdiris — que na sua maioria sâo proprietários e se mancham com o
A Suma OrientaI 175 mujto amtitjsymo sam de samgue mais limpo que os naires/ tem estes carguo Destar no turuqois (90) rrezamdo sam emtem- didos nas cousas De sua creemça os mais homrrados Destes estam com ho Rex do malabar sam homees q nom comem nenhuua cousa que fose viua De samgue he por esta causa pro- nunçiarom os antiguos delles que nom fose nimguê poderoso no malabar comer vaq® sopenna De morte E de gramde peqado a Rezam seria p° comerem o leite as bramjnas pois emgeitarom a carne Domde procedeo tanto a estima nas vacas que em mujta parte de gentios adorã a vaq“ como cousa santa, estes bramenes tem poder Descomungar & absoluer nenhuu nom trãz armas nem vay a guerra nen se mata por nenhuu caso por que o mereça framcam,e amdam por homde qerem posto q seJa em guerra// Mujta Jemte do malabar asij naires como bramenes & suas molhêres & também na gemte baixa geerall memte a quarta ou qmta parte de todos tem as pnas mujto grosas & Jnchadas de gramde grosura E morrem diso he he cousa feea De Vr Dizem que procede Das augas por homde pasam por que a terra he apaulada chamamse perícaees na linguoagem Da terra E toda esta Jmchacam he Jgoallniemte Dos giolhos pa baixo E nom tem door nem se semtem da taall Jmfermidade/. (91) Na terra Do malabar no AJumtamemto seu tem por costume que a femea tem os olhos na cama E o macho no telhado E Jsto contacto de todas as outras castas abaixo deles e com a aproximação de todos os que forem inferiores aos Naiares — há duas outras classes do Br⬠manes, chamadas Pattars e Hmbrándiris. Nambudiri e namburi são formas malaias para Nambutiri. Os comentários dc Pires são assaz confusos, embora ele não esteja longe da verdade. (90) Turucol. Turicol ou Turco! — templo ou pagode do Malabar. segundo Dalgado, s.v. Mas Góis (I, lxxxix, exii) diz — «um Turco!, que são casas dc oração, onde vivem religiosos, como frades entre nós», sugerindo tratar-se de um mosteiro. (91) Perical ou Panicale —- Do malaio perikkal, «perna grande» — elefantíase; também vulgarmente chamada «perna dc Cochim» ou, na índia, «perna de S. Tomé».
176 Tomé Pires físicos do malabar/ JmJuria no malabar/ geerall memte amtre gramdes & pequenos E o all tem por estra¬ nho E alheo de suas comdicoees E alguns portugueses trosna- dos (92) (?) na terra nom lhe pareçe feeo/ Nas Jmfirmidades nom comem carne hos doemtes somemte pescado tem por dieta o primcipall Remedio he tamgerenlhe atabaquees & out°s sõos dous tres dias q dizem que tem Vrtude. se tem febres comem pescado & lauanse mujtas vezes se vomjtam lauanlhe a cabeça com augua fria E he bom vaise logo se tem fruxo gramde bebem aguoa De lanha, que he quoquo nouo estanq“ lloguo se querem purgar bebem folhas de figueira de Jnferno(93) pisadas ou o cumo ou a sememte E purgam mujto & com a purga se lauam se som feridos De gramdes feridas azeite De quoquo qemte escorrer huuã ora he Duas oras sobre a ferida cada dia Duas vezes & sam sãos/ os nosos homees com febres comem galinhas gordas E bebem v° & sam sãoos a mujtos acom- tece Jsto & os q se poem em a dieta gastamse// A cousa que se no malabar estima por pior he que a quem quero mall se lhe quebro huua panella noua a sua porta he gramde Jmfamja:/ ou pasamdo pola Rua se lha aRemesam & que quebre Jumto com a tall pa he pior / sam casos de morte (92) Se bem que no MS. de Paris esteja escrito trosnados (palavra sem sentido), o MS. de Lisboa tem custumados c Ramusio assim o traduziu. (93) Embora alguns dicionários de português-inglês refiram a figueira do inferno como Palma Christi ou planta do ricino, é incorrecto. Palma Christi ou planta do óleo de ricino é o Ricinus communis Linn., e a Figueira do Inferno é Dai ura Slramonium Linn. Ambas as plantas se encontram em Portugal assim como na índia, e embora pertençam a famílias distantes há alguma semelhança entre elas. A Datura, cujos efeitos foram pitoresca- mente descritos por Garcia da Orta (xx) cm 1563, é por vezes misturada na índia com intoxicantes tornando-sc deste modo «muito condenável e mesmo perigosa para a vida. Além disso sabc-se que as sementes entram na com¬ posição de certas bebidas alcoólicas, tornando os consumidores destas lite- ralmente loucos». Watt, p. 488. Pires refere-sc sem dúvida ao Ricinus communis, embora pareça um pouco estranho que ele tenha confundido uma planta com a outra.
A Suma Oriental 177 estes pa o que o comete E o que o pasa fica desomrrado pa sempe//. hos Rex do malabar todos sam bramenes Destes fios delles De geracam mais fydalguos delles menos porque ho costume do malabar he que o filho do Rey nom socede o Reino somemte o Jrmão ou sobrinho E porque estes sam bramenes he nom podem casar com naires por ser defesso catam dos mais hom- rados bramenes Daquella geeraçam pa fazerem casta nas Jrmãas pa o mais velho soceda he Desta mana os bramanes dormem com as Jrmãas do Rey & delles saêe os Rex do Malabar o Rey de cochini como seJa samgue mais apurado E nom aVr na terra com quem case se ha patamares bramenes de cambaya que sam amtiguos paremtes do rrey bramina q em outs° tempos foy naquelas partes samto destes escolhem pra geracam & qmdo nom tomam a da terra dos mais fidalguos bramenes neste costume estam Desde trimta mjl annos seg° comtam & Os Reis do malabar casam quamtas vezes querem & despois de terem as molhèrs as dam em casamemto a guisa da terra a pesoas homrradas os fs° dos Rex sam naires como os outs° nom herdam nada mujtos dos Rex casam por arras as vezes os tem sempre athe ssua morte / se quall quer Rey do malabar quer a molher Do mais homrrado samgue q tenhã caimaees vem de boam,e & os taees Caimãees ficam mujto homrrados (94) mujtas vezes os gramdes senhores dam Dr° aos patamares por que leuem a virgumdade a suas molheres e estam os patamares mas tamto me dares// todos os bramenes sam casados herdam seus fs° suas fazem- das sam as bramjnas molheres castas nom tem ajuntamento (94) Caimal ou Kaimal — Duarte Barbosa diz: «certos condes a quem chamam Caimal». Dames (li, 13) traduziu condes mais genericamente por 'nobres'. Segundo Dalgado (i, 172), às vezes é moda corrente de trato, empregue no Malabar pelas classes baixas, ao falarem a algum Naiar ou a indivíduo da casta militar. Mais à frente Pires refere-se outra vez a Caimaes com mais minúcia (p. 189). Foi. 127v. Costume dos Reis do malabar
178 Tomé Pires Inaires do malabar] somemte com seu marido E a bramjna sempre ho he E seus filhos nom se mesturam pode a bramjna dormir com naires qmdo qser(95) E o naire nom com bramjna//. hos naires nenhuu nom tem pay nem filho nom casam as nairas qmtos mais amiguos tem tamto sam mais homrradas Desta maneira huua molher naira tem huua fa duas ou tres escolhe huu naire pa cada huua ê tempo De sua virgimdade E casaa com elle pa a Romper fazem festa em q ho naire gasta segumdo hee esta quoatro dias com eila è synall De a Romper larnca lhe huu pequeno Douro ao pescoço De valia de xxx"* Rs chamase /quete/ (96) vaise este vem out°s naires comcer- tamse huu lhe da hua cousa outro outra quamtos mais tem tamto mais homrrada he também os naires tem suas Despesas espalhadas por out“s polia mor parte nom comem os naires em casas Delias & por ysto nunca naire teue pay nè f° porque cada huua tem dous athee dez os sabidos de que tem merecimento amtre elles também ha naires q vemdem azeite & peixe E mujtos sam ofyciaees macanjquos/ Se quallquer naira se fose fora de sua casa E lhe tocase huu homê da casta dos poleaas com ha maão ou com huuã pedra fica pa o matarem ou vemderè E se o tall lhe tocase Jmdo em companhia De naire nom fica empoliada ysto se fez por nom Jrem catar a gemte baxa se o que ha toca se toma morre (95) Os MSS. de Paris e de Lisboa estão de acordo nesta frase. Mas a tradução de Ramusio. que segui [na edição inglesa], parece mais correcta do que os dois textos portugueses. (96) De acordo com o MS. de Lisboa, que, tal como Ramusio, lhe chama também quete. Muitos escritores do século xvt descrevem esta ceri¬ mónia de casamento c este adorno, mas nenhum outro lhe chama quete. Alguns deles chamam-lhe tali ou tale. Dalgado regista quete como signi¬ ficando cm Ceilão uma mão-cheia ou uma pequena porção. Contudo, o Talikettu ou Tali-Kettu Kalyanam é o nome dado entre os Naiares e entre algumas outras castas malaias à cerimónia do casamento realizado com raparigas, muito na linha descrita por Pires. Iyer, The Cochin Tribes and Castes, li, 22-8; Thurston, Caste and Tribes of Southern índia, s.v.
A Suma Oriental 179 pollo tall crime/ nenhuuã virtude sabem as nairas do malabar nem eyxercicio De coser nem laurar somemte comer & folguar//. No malabar nom pode ser o filho mais homrrado q ho /Gera- pay De maneira q ha bramina seus fs° o sam & o naire sempre (õees Do o hee E todo oficiall mecanjquo ou Jograees camtores feiticeiros ma,abarl o filho segue o oficio Do pay De necesyDade & A mais baixa sam páreos q comem vaq88 sam letrados feiti- çeitos os poleas sam lauradores & os beituãas/ os mainates lauam- deiros os yravas pedr°s os ploeaas sam tangedores nos turu- coees o em festas/ os canjares sam balhadores nos templlos & paguodes os macuaas pescadores os canacos fazem sall Depos estes carpinteiros orivezes & todo out° oficio macanjq0 & depos estes hos Jrauaas homees q fazem os vinhõs (97) todos estes nom pasam polas estradas Dos naires E fogem delias sopena de morte he em caso de neçessidade hos naires & o Rey asy como na guerra e è doemcas e em esgrimas Joguos Despadas lam- ças se podem toquar com elles & lauamse & ficam limpos e em qualquer cousa que comprir ao naire desta gemte se neguoçea seu proveito nom tem pecado todas estas naçõees o filho herda a fazemda do pay E sam casados cada huu com huuã molher//. Acerqua das out^ meudezas desta proujmçiã que tem gram- des Jdolatrias E feitiçarias E fortes gemtilidades nom me amtre- meto por que Ja dela tera sabido todas suas comdiçoees E por nom ser materea tocante ao presente Recomtamemto/. (97) Barbosa menciona dezoito castas diferentes do Malabar, que Dames (n, 71) reúne numa tábua comparando os nomes dados por ele com os da tradução de Ramusio e os espanhóis, juntamente com as formas moder¬ nas. Os Yravas e os Canjares nào estão entre elas, a não ser que os últimos sejam ou os Chaliyans, tecelões, referidos por Barbosa como Caletis, ou os Kusavans, oleiros, referidos como Culavem. Sc bem que os Yravas ou trauaas sejam mencionados como pedreiios ou vinhateiros, Dalgado (í.v. Iravá) cita-os apenas sob a última profissão. Barbosa refere-se aos Poleas, Poleahs ou Pulayans apenas como agricultores de arroz, aos Betunes ou Vettuvans como fabricantes de sal, e aos Canaqnas ou Kaniyan como astrólogos.
180 Tomé Pires Foi. 128r. Cobras xslaaos nesta proujmçia. Terra do malabar q tem Rijos Ha nesta proujmçia cobras de capello E de bafo (98) as de capello sam pequenas pretas de grosura de huu dedo poleguar tem de compimemto tres quoatro palmõs tem presas tem sobre ha cabeça o coiro froxo quamdo se emcrespa faz maneira de cobertur® a que chamam capello se estas mordem matam loguo as de bafo dizem que sam deste tamanho & de grosura do collo do braço sem capello E que soo do ãr matam nunqa vy ornem q ha vise as de capello trazem feiticeiros em panellas asy gemtios como mouros E com certo som as fazem no chãm amdar bulimdo tomannas com a maão sem medo com palauras q lhe Dizem & se as vezes hos mordem morrem se amdam brauas no mato estes feiticeiros as tomam e emcamtam/ ho naire & bramenes nom podem por ley matar as cobras Dizem que sam cousas samtas em suas ortas tem lugares apartados pa ellas// em q lhe dam aRoz cozido/- ha nesta proujmçia do malabar qinze mjll xstaõos do tempo de sam thome apostollo Dos quaees dous mjll seram homees homrrados cavaleiros mercadores gemte estimaDa & os out°s sam oficiaêes gemte pobre sam na terra privilegiados E tocamse com os naires abitacam destes xstaoos he de chetua atee coulam fora daquj nom ha xpaaos dos amtiguos nom fallo dos que som tornados em tempo de vosa altez® nem nos q se tornam cada dia q sam mujtos/. Nesta terra do malabar he huua parte que tem gramdes Rios em sy que a fazem forte em que pescam/ a lugares alto & baixo em que nauegam em gramdes tones .s. de panane athee coulãoo he esta terra a outra do malabar he enxuta & boa pa camjnhar por terra & esta entones catures/. (99) (98) Estas «cobras dc bafo» nâo puderam ser identificadas. Devem ser produto da imaginação dos nativos e Pires diz muito honestamente que nunca as viu. (99) Tone ou lona é um pequeno barco com uma vela e remos, usado no sul da índia. Catur é também um barco comprido e estreito, antigamente muito usado na índia. Parece provável que o moderno inglês ‘cutter’ derive
A Suma Orienta! 181 comecamdo de mamgalor pa comorím estes sam hos Rex na proujmçia. Do malabar/ elRey de bangar ellRey Dacata (100) elIRey de cananor ellRey De calecut elRey de tanor ellRey de cramganor ellRey De cochim ellRey de caya coulam ellRey de coulam ellRey de trauamcor ellRey De comorim tem esta terra gramdes caimães que delles sam mayores q mujtos Reis destes mas nom tem titollo De Rex Delles bramenes delles naires des¬ tes Reis o maior em terra he Jemte he o De coulam em fidallguja o de cochim em titollo o de calecut em gemte depos coulam Cananor E depos cananor o de caia coulam os melhores homees De peleJa sam os do Reyno de calecut/ hos portos do maar nesta proujmçia è que ha pouoaçõees E naãos sam os segujmtes/ mayçeram/ mayporam/ combula/ coty coulam/ njliporam/ hyeri/ balea patanam/ cananor/ tarma- patam/ marlarjanj/ combaa/ pudopatanam/ tiricorij/ bairacono/ coulam/ aquechamam/ pamdaranj/ capocar/ calecut/ chaliaa/ para purancorj/ panane/ bely/ ancoro/ chetua/ cramganor/ cochim/ caya coulam/ coulam bilínJão/ comorim/(101) de eaiur. Pires dá adiante mais pormenores acerca desta embarcação, usando sempre os dois nomes cm conjunto, aparentemente para representar uma única embarcação. (100) Bangar — Bangar no MS. de Lisboa. Provavelmente Ban- dadkar, no interior, entre Mangalor e Cananor. cota — Provavelmente Kottayam, o distrito oriental de Cananor. (101) No MS. de Lisboa estes nomes Icêm-se como segue: «maiçeram/ maiporam/ combula/ cotecoulã/ nilixorão/ eriballcaa/ patanam/ cananor/ tumapatam/ murlariom/ combaa/ pudy patanam/ tericori/ baicarom/ coulão a q chamão pamdarane capocar/ calequiu chalc/ parapurãocole/ tanor/ panane/ betiamcor/ chatuaa/ chamganor cochym caicoulão/ coulão/ bebur- gam & o comorym». Mayçeram — Provavelmente Manjeshvar ou Manjeshwaram, nove milhas a sudoeste de Mangalore: o Mangeiram situado por Barros (I, ix, I) entre Mangalore e Kumbla (Cumbata). Aparece como Mamgesirão e Magi- cera em várias cartas portuguesas do século xvi. mayporam — Nenhum local se pode encontrar agora entre Manjesh- *4 /'Reis no malabar/. Portos de maar nesta proujmçia
182 Tomé Pires Auera nesta proujmçia De malabar nos Regnos & portos Ja ditos quoatrocemtas naõs de cargua Delias gramdes Delias pequenas sam naãos ladas largas por baixo carreguam mujto waram e Kumbla a que se possa chamar porto, sendo a costa, ininterrupta c lisa, uma mata contínua de coqueiros. combula — Kumbla, a sete milhas e meia de Manjeshwaram; Cumbola em Barbosa, Cumbata cm Barros. coty coulam — Kattakulam, local moderno no sul do Kanara, segundo Dames, 11, 79. Coterolam em Barbosa, Cóta-Coulão em Barros. njliporam — Poderá ser «hoje representada pela aldeia de Nileshwar ou Nileshweram. a sul de Kasaragod», como foi sugerido por Cordier. Cathay and Way Thilher, tv, 74. Minaporam em Barbosa, Nilichilão em Barros. hyeri — Lugar que existiu na baia ao sul de Mount Dely, ou Jelly Paud. Corresponde a Eli de Marco Polo, nome que Yule diz sobreviver «no de Mount Dely, propriamente Monte d'Ely, o Yeli-mala». Marco Polo, III, xxiv. Na carta de c. 1510 aparece como ely. Na carta de Rodri¬ gues (foi. 28) está registado como monte dally; e o Livro de Marinharia (p. 224) diz que mõte dEly está a cinco léguas de Cananor. bali-a patanam — Baliapatam. Valarpattanam ou Azhikkal, pequena povoação c porto na margem sul do rio do mesmo nome, cinco milhas a norte de Cananor. Balaerpatam em Barbosa, Bolepatan em Barros e Balea- patão em algumas cartas portuguesas. Tarmapatam — Durmapatan ou Dharmapatna, sete milhas a sudoeste de Cananor. Tremapatam cm Barros c na carta de Rodrigues. marlarjanj — Talvez o Maraiiel de Barbosa c o Marabia de Barros. de Correia e das cartas portuguesas, que Dames (ii, 79) identifica com «o local conhecido por Madayid (também chamado Pazhayangadi)». Combaa — Chombakulu, pequeno porto duas milhas e meia a sudeste de Mahé, a antigo colónia francesa na foz do rio do mesmo nome. pudopatanam — Puthupanam ou Puthupattanam, no Kotta River. Pedirpatam em Barbosa, Puripatan em Barros. tiricorij — Tricodi. Tircore em Barbosa. bairacono — Lugar desaparecido, talvez na pequena baía entre Kada- lur Point e Vcllarakkad, outeiro cerca de 2 milhas para oeste. coulam — pamdaranj — Coulam é o pequeno porto Kollam, a cerca de três milhas de Kadalur Point, e Pamdaranj é Pandaláyini, local junto de Kollam. Pandanare em Barbosa, Pandarane nas crónicas. Talvez seja o paudacar na carta de c. 1510. Aparece como ilheos de pamdarane na
A Suma Oriental 183 & demamdam menos fumdo(102) que as de qujlha ysto se fez porq geerall memte o malabar naueg3 na provimcia De talímguo em que sam as Regiõees De comorim athe paleacate E porque ceilam faz canall com esta trfa E no meio he de baixa mar De braça & mea que se chamam os baixos chilam (103) foy necesario carta dc Rodrigues. No Livro de Marinharia diz-sc que Pamderanne está a cinco léguas de Tramapatão. Pandarani está já registado nas cartas dc Reinei de c. 1517 e c. 1518. capocar — Deve corresponde ao pequeno porto dc Kappatta, entre Kollam e Calecute. Capucate em Barbosa, Capocate nas crónicas. chaliaa — Chaliyam, local à entrada do rio Chalium ou Chaliyar, onde os Portugueses tinham um forte a quatro milhas e meia para su-sueste de Calicut Creek ou Kallayi River. Chiliate em Barbosa Chála em Barros. para purancorj — Parappanangadi, o pequeno porto a oito milhas e meia para sul. Propriamguary cm Barbosa, Parangaie nas crónicas. tanor — Tanore, Tanur ou Tánniyúrnagaram, a quatro milhas e meia mais para sul. bely ancoro — Veleankode ou Velijangod à entrada do Kannira- mukker River, quatro milhas a sudeste de Ponnani. Baleancor em Barros. chetua — Chetwayi, cidade moderna numa ilha dentro da foz do rio do mesmo nome. Chatua em Barbosa c nas crónicas. cramganor — Cranganor, Cranganur ou Kranganur. caya coulam — Kayankulam, a cerca de cinquenta milhas para su-sueste de Cochim. Cale Collam em Barbosa. Caecoulam, Cale Coulão e Caicoidão nas crónicas e nas cartas. bilinjão — Vilinjam, a cerca de quarenta milhas a sudeste de Kayan¬ kulam. Berinjam em Barros, Brimgão, Brijào e Brimgiam nalgumas cartas. (102) Lada palavra antiga portuguesa para designar a margem de um rio ou «caminhos d'agoa, por onde os navios, ou quaisquer outras embar¬ cações (que então indiferentemente se chamavão navios) podião navegar». Cf. Viterbo, Elucidário, s.v. Lada. As naos ladas dc Pires talvez signifiquem neste caso naus de pouco calado. (103) Baixos de Chilam ou Chilão era o nome dado pelos Portugueses aos bancos dc areia movediços com canais intricados, agora conhecidos por Adam’s Bridge, entre a ilha Mannari, ao largo da costa ocidental dc Ceilão, e a ilha Pamban, ao largo da costa da índia. Ao referir-se aos baixos de Chilão, o Livro de Marinharia (p. 231) menciona «a pomta de Chilão darea»
184 Tomé Pires /aRo: domde vemI Foi. I28v. Repar¬ tição dos portos aos Reinos EIIIRey da cota fazerêmse ladas/ esta he a causa nom nauegam estes em golfão/ saluo com gramde medo/ Dout°s navios pequenos a que chamã pagueres (104) que carreguam tamto como carauellas tem mais dout°s tamtos & toda esta proujmcia do malabar careçe daRoz E de seu natural nom tem casy nada Da bamda de tanor athee maiçeram se forneçe de guoa he narsing» Da bamda dos canaris/ este aRoz he frio E vali atee tanor De tanor athe coulam vem Da proujmcia de talinguo por choromandell este aRoz he quemte & gastase atee tanor/ domde he de saber que homde tem valor o a arroz De choromandell nom vali o de guoa & canarjs asy polo com- trairo homde vali o de canarijs nom vali o out° a terca & ma parte menos//. ho porto de mayceram E mayporam sam dellRey de bãm- gar aquj se começa ho malabar he este Rey vizinho dos canarjs he terra abastada Darroz pescados a gemte deste Reino posto que seJa pouca he guerreira sam gramdes frecheiros as setas De ferros compridos larguos Defemdem sua terra E as vezes tem guerra com hos canarijs he Reino pequeno estes dous ptos De maar tem alguuas naãos E pouoacoees tratam com os desta provjnçia/ Ho Rey de cota nom tem no mãar porto seu poder he na terra firme he Reino como ho de cima tem guerra com cananor faz este moeda comtra vomtade Dos Rex do malabar sem temer que fica a oes-sudoeste, vindo do norte; isto corresponde à ponta Chultram, na extremidade oriental da ilha de Pamban, agora término do South Indian Railway. A passagem através dos baixos de Chitão era perto desta ponta onde a água não é tão baixa. Há contudo, na costa ocidental de Ceilão, embora um pouco mais para sul a pronunciada ponta c porto de Chilaw, que os portugueses primeiramente designaram por Celabão ou Ceiauam e mais tarde por Chilam ou Chitão obviamente ligados ao nome dos baixos. Barros (III, ii, I) e Couto (V, i. 7) dizem, aliás erradamente, que dos baixos de Chitão vem o nome de Ceilão para a ilha. (Veja nota sobre Ceilão, p. 356-7). (104) Antigos cargueiros do sul da fndia, muitas vezes mencionados pelos cronistas. Dalgado, s.v. Paguei.
A Suma Oriental 185 nenhuu delles sam gramdes Jmiguos E este he o Rey de cananor he a Jemte forte Deste he a terra E daqi sam os fanoes(105) Da cota//. Ho porto De combulaa/ coti coulam njliporam hieri balca Regno de patamam Cananor tarmapatam mailariavij sam Dell Rey De cananõr cananor. todos estes portos sam cousa pouca, ssomemte ho porto De cananor que he gramde nobre homrrado De grande cidade & trato he este Reyno De cananor gramde De mujta gemte a terra he boa tem boos ares E boas auguas tem mujtos mouros a cidade de cananor tem mercadores caudellosos/ se o poder de .v. a. nom fora sobre este Reyno Ja fora de mouros por que huu mamalle mercar (106) se fazija Ja poderosso ha nesta terra mujtos espimgardeiros frecheiros naires Despada & adargua ho Rey he bramene De barba mujto comprida sinall mais mourisco que De sacerdote gètio malabar/ ho porto De combaa/ pudupatanam/ tírícorj pamdarane Regno de capocar calecut chalia pariporãary sam Do Reino De calecut calecut sam portos pequenos todos estes tem naaos E mercadores E boas pouoaçooes chamase o Rey De Calicut çamorim quer Dizer Sõr de todos os malabares comfyna este Reino com cana (105) Cota fanões significa 'fanões dc Kottayam’. O fanão era unia pequena moeda usada antigamente no sul da índia, valendo entre vinte e quarenta reis e dc peso médio equivalente a seis grãos de ouro. (106) Mamalle ou Mamale é uma contracção de Maonté Ali. Cf. David Lopes, Historia dos Portugueses no Malabar .... p. 69 n. Mercar é o Mercaire que Pyrard de Lavai diz significar «lugar-tenente ou vice-rei». Voyage I, 350. Segundo Dalgado (i.v.) Mercar ou Marcar, do malaio marakkãn, significa piloto ou homem do leme, ou, em sentido figurado, chefe ou comandante. Muitos documentos c cronistas contemporâneos, entre 1501 e 1525, referem-sc extensamente a este ambicioso e aventureiro Mamale, importante mercador mouro do Malabar, e à sua hostilidade contra os Portugueses. Por fim, as mãos foram-lhe decepadas e ele foi enforcado na muralha do forte português de Cananorc, cm Janeiro de 1525. Correia, II, 862-3; Castanheda, VI, lxxx, Ixxxi. Barros (III, ix, 3) diz que o mouro enforcado foi Bala Hacem, mas em face da descrição circunstanciada de Correia parece que isto deve ser engano.
186 Tomé Pires Regno de tanor. nor De huua bamda E da outra com tanor Digo com estes Reinos o porto De calicut nom he boom por ser emcosta De maar a cidade he gramde De mujta gemte & mujto trato De mujtos mercadores asy malabares como quellijs chetíjs E estramgeiros De todas partidas asy mouros como gemtios he mujto nomeado porto he a melhor cousa De todo ho malabar aquj tinham gram- des cassas De feitorias mujtas nações cada huu trazja aquj suas mercadorias E aquj se fazia gramde comerçio troca escambo he lugar gramde memtado, he em toda esta bamda Dasya por cousa homrrada enterra he este Reino menos que no De cananor tem melhor Jemte De guerra he terra bem asombrada fazem aqui mujtos panos de seda E comseruas/ Este Rey posto que tenha ho nome gramde nom lhe obedeçem mais q em seu Regno E as vezes mall E porque nom comto estorias nom faço fumdam10 Deste títollo somemte Dizem os malabares q ouue neste malabar huu Rey De toda a terra malabar E que embutido por mouros se foy camjnho de meqa fezse mouro este morreo em o Reino De tufar (107) amte Dabocar ho estreito (108) Ja partijo do malabar fora de seu syso Repartijo toda a terra E despois de a ter dada cheguou huu paremte seu a pedirlhe Deulhe a terra da cidade de calecut que era cousa pouca he ho titollo ficou atheeora chamarse asy por Rezam da neguoceacã se fez ho Reino De calecut cousa homrrada/. tanor tem mujtas naãos nom tem outro porto de mãar he Rey homrrado de boa terra nom tamanho como qualicut /• tem mujta Jemte he Rey paremte dos Reis de cochim tem mujtos moradores ê sua terra, he Rey bramene homrrado/. hos portos de panane/ beli/ amcoro/ chetuaa. com as terras que cada huus tem sam portos De naãos E mercadores & de boas pouoações sam de senhores bramenes E caimaees pas homr- (107) Dofar, Diufar ou Dhofar, na costa sul da Arábia. (108) Trata-sc do rei Chcruman Perumal, cuja história é relatada com variantes por Barbosa e outros cronistas portugueses. O próprio Camões o cita nos Lusíadas (vit, 32), ao descrever o Malabar.
A Suma Oriental 187 radas as vezes se emcostam com quemq uerem as vezes nam Amtigua memte mais segujam ho bamdo de calecut aguora cada huu por sy ou como lhe vem a vomtade sam cada huu destes gramdes como algus Rex do malabar & do pouo De cada huu sam chamadõs Rex mas nam dos out°s Reis & senhores//- Ho Regno de cãganor De huua parte se aJunta a terra de chatua & da outa ao Reino De cochim cramganor foy amtiga mente homrrado he bom porto tem mta gemte & boa terra a cidade De cramganor he homrrada De trato gramde ante De se fazer cochim (109) nobre este Rey ora se emcosta a cochim por que tem cochim deste Reyno parte nas Remdas ora a calecut as vezes a nenguê he paremte DelRey De cochim nom he Reino mujto gramde//. o Reino De cochim he cousa mujto pequena E muy10 gramde ho Reino nom he mais q ha Jlha de vaipl (110) E a de cochim que ambas teram sejs mjll homèes naires tem senhores Junto com estes Reino tamanho & mayores que ho Reyno todos estes aguora sam vasallos dellRey De cochim pollo poder que tem De vosa alteza he he aguora mor que todos E cabeça De toda a terra Do malabar E mais homrrado q todos E mais estimado tem boa cidade he bom porto he mujtas naãos trata gramde- memte he a melhor cousa que ha nestas partes he o Rey bra- mene amtre todos maior he sumo pomtifiquo Desta terra traz (109) O copista do MS. de Paris saltou algumas palavras que aparecem no MS. de Lisboa. (110) Encontrei esta Ilha de Vypin, Vypeen ou Vaipim mencionada pela primeira vez num documento datado de 22 de Fevereiro de 1509, como Vaypy, lugar onde os portugueses do forte de Cochim iam buscar madeira para reparar e construir os navios. Cartas, II, 430-8. Contudo, os cronistas relatam como, em 1503, o rei de Cochim, depois de ser derrotado pelo Samo- rim de Calicute se retirou para a ilha de Vypin com os portugueses que esta¬ vam na feitoria de Cochim «E porque esta ilha de Vaipim dizem que foi a primeira terra que o mar descobriu que ficou como senhora de todas as outras que se depois descobriram». Correia, I, 361-3. Castanheda, I, liii; Barros I. vii, t; Pyrard de Lavai, I, 435. / Regno de cram¬ ganor! Foi. I29r. Regno de cochim!
188 Tomé Pires Reino De cay couiam Regno de coulão Regno de Iravamcor Regno De comorím comsyguo sempre muytos caimaèes pesoas mujto homrradas E mujtos bramenes// ho Reino De caya couiam De huua parte comfyna com terras dos senhorêos do Reino de cochim E da outra com ho Regno De couiam he Rey gramde de terra como calecut E maior tem alguu trato em sua terra E alguuas naãos E mercadores nom mujtos he Rey homrrado De mujta Jemte he pa estimada he Riq« E gramde sôr tem mais naãos que coulão//. o Reino De coulão de huuã bamda comfyna com ho Regno de caya coulão & da outa com ho Reino De travamcor tem alem do porto de couiam o porto de bilinJao este Rey he maior Do malabar em terra E gemte tem este a cidade de couiam he gramde escalla De naãos De mujtos mercadores De diuersas partes tratam gramdemente neste Reino he gramde sõr tinha este por vasallo ellRey De çeilam ho primçipall se lhe pagaua em cada huu anno De pareas he trebuto quoremta alefamtes os qees nõ Recebe Ja aguora despois Do poder De vosa alteza ser na Jmdia he gramde o trafig0 De Regno. De couiam tem mujtas naãos//. o Rey de trauanqor De huua parte he com qoulam & da outa comfynam com o cabo De comorim nom tem no mar somemte poucas casas na terra firme he grande sõr & pesoa homrrada. De boa terra De gemte guerreira compra este mujtos cavallos & deste Reino vam pa o Reino De narsimgua tem mujta gemte he boa nas beiras Do maar tem pouoacoes de maquas q da noua na terra da chegada das naaos E seruem no Desembarcar dos cauallos// De huuã parte com travanqor (111) & da outra atee qaíle (112) (111) Segundo o MS. de Lisboa e Ramusio. (112) Qaile mais tarde escreve-se Caile c aparece como Calle na carta de 1516 e como Cale no MS. de Lisboa. Este lugar era muitas vezes men¬ cionado pela sua pescaria de pérolas. Outrora porto famoso no extremo sul da fndia, frente a Ceilão, é hoje «representado pela localidade deserta, agora conhecida como Palayakayal ou Old Kayal», entre as lagunas do delta do Tambraparni Rivcr. Dames, it, 122-3; Yule, Marco Polo. ii, 371-4.
A Suma Oriental 189 que he seu ho pmcepe de comorim he Rey De coulao p morte Do Rey De coulam tiramdo a terra do Reino de travamcor esta terra De comorim Ja nom he boa como as outas nom tem palmeiras saluo cousa pouqa/ Todos os Reis q viuem no malabar huus com out°s tem comtínoadamle guerra na terra por que o naire nom pode comer no mar porque lhe he defeso por sua creença. salluo com licemça de seu maior bramene em casso De mujta necesidade os bramjnes mujto menos entrã no maãr// ha nesta terra do malabar tones catures bateês de Remo compridos cerados por cima quamto huu ornem pode emtrar Dilhargua voga cada huu de dez ate xxte Remos sam ligeiros & ha gramde soma Destes è que amdam frecheiros sam De maquas arees(113) sam estes arees maquas p^ De gemte Riqos E a mujtos nesta costa E se acham naão em calmarias a Remo a leuam homde querem comtra võtade Dos da naão porque sam gramdes frecheiros/ he a Jemte baixa do malabar mujto pobre E sam gramdes ladroees/ mais gemte ha no malabar De naires he bramjnes q das outas naçooes//. Em todo o malabar nom pode nenguè cobrir casa De telha, saluo se for turicoll ou mezqujta ou casa Dalguu gramde caimall por mercee/ & isto por se nom fazerê fortes na terra E isto gar- dam os Rex Do malabar gramdememte/ chamanse Caimaees Senhores De terras E vasallos (114) ha no malabar caimall De dez mjll naires E outs° De cemto & Duzemtos Naires/ A terra Do malabar tem Jmfynjdade De palmeiras are- queiras ao longuo Do mar E nom se estemde pa a terra firme somente a leguoa & ma & o mais athee Duas o fruito da pal¬ meiras chamam quoquos & nos nuçes Jmdie & o fruito Das arequeiras chamam areqas he nos avelana. Jmdie tem Destes (113) Arees, plural de arei, chefe dos pescadores, piloto ou capitão do porto, no Malabar. Do malaio arayal. (114) Talvez o copista do MS. de Paris tivesse saltado uma linha, por¬ que no MS. de Lisboa c em Ramusio está como aqui se transcreve. Trato de merca¬ doria no malabar
190 Tomé Pires Foi. 129v. merca¬ dorias do malabar Jmfinjdade tem mujto betelle tratam os mercadores deste mala- bar Da bamda da persya athee cambaya & Resputes/ Da bamda de choromamdell athe paleacate e em ceilam E nas Jlhas de diva (115) neste malabar todollos mercadores q tratã no maar sam mouros he estes tem o trato em peso sam gramdes merca¬ dores | E boos comtadores tem estes mercadores naires a solido que os acompanham he destes naires alguns sam seus espuaães E sam melhores comtadores que os mourõs// alguus dos mala- bares se tornauam mouros a primeira Ja aguora nom//. copra que sam coquos sequos sem casca coquos maduros aReqa betelle açuqr de pallmeiras a que chamam Jagra azeite De coquo cairo pimemta gingiure tamarimdos mirabulanõs a pimemta avera no malabar atee vimte mjll bahares(lló) E naçe de chatua athee o Reino De caya coulam E alguuã pouca por coulam por cramganor E cochim he a escala Desta pimemta a mais perto E omde mais ganham a levam aJmda que seja com trabalho cramganor nem cochy nom tem pimemta em suas terras mas os Sres q viuem Jumto com estes dous Reinos a Recolhem & vendem a q nacee no senhorio Do Reino De cochim e melhor// Gíngivre avera nestas partes De malabar cada huu anno De dous mjll qintaês pa cima naçe De calecut athee cananor (115) Pires é o único escritor português que usou a forma Diva ou Diua (veja nota p. 211) para as Ilhas Maldivas. Barbosa chama-lhes Ilhas do Maldio e todos os cronistas Maldivas. Contudo, a forma Diva era usual entre os escritores antigos, pelo menos a partir do século iv inclusivé. Desde o século xvi até aos dias de hoje vários escritores têm tentado explicar a eti¬ mologia de Maldivas ou Maldives. Por certo diva significa ilha e é derivada do sânscrito dvlpa; mas para mal ou mate, as opiniões sào muito divergentes. A mais provável de todas as explicações é que deriva do sânscrito mãlõ, significando «uma grinalda ou colar», o que parece bastante apropriado à configuração cartográfica do Arquipélago das Maldivas. (116) Bahar é um peso antigo usado em transaeções comerciais na índia e no Arquipélago Indonésio. O seu valor variava muito com a loca¬ lidade, mas era geralmente calculado como igual a quatro quintais ou 400 libras avoirdupois, segundo Yule (Hobson-Jobson). Vide pp. 431-2.
A Suma Oriental 191 a da terra De calecut he moõr & melhor E sem fios o De cananor he somenos a força deste he de calecut & o menos De cananor// Mirabulanos cetrinos Jndios qublicos beleriqos (117) ha nesta proujncia hos matos cheos geerall memte por toda & tam¬ bém ha alguus tamarjndos//. quoquos As palmeiras he a força do Regno De cananor athee birinJao no Regno De coulam De birinJao pa diamte athee choromamdell he cousa q se poderá comtar por ser cousa muj pouca E cassij nada/. Caregamsse destes quoquos sequos muj*°* pa fora he boa mercadoria todallas naãos os levam fazem Delles azeite & tam¬ bém comemse Areca he mjt0 gramde mercadaria de que todos carregam geerall memte pa cabaia porque pa choromandell a moõr parte vay de ceiam como se dira ê ceilam ha mujta neste malabar leuase seqa em camtidade a força dela nestas partes nace De cochim atee cananor E disto carregam polia maior parte & dos quoquos// Ho quaíro também he da terra chamamos qa quairo ao esparto q dizemos/ somemte o cairo he da lanugem ou cobertura das nozes Jndicas sobre a casca maçada he fiada a sua guisa a obra deste cairo he boa sostem todo trabalho E nom se dana se nom com ser molhada dauga doçee com ella apodrece qua nõ se vsam outas emxarçeas nem amarras saluo de cairo he boa mercadoria nestas partes/ Das Jlhas de diva vem mujto como se dira è seu luguar// (117) Na sua carta dc 1516 (Apêndice i), diz Pires que «os mirabu¬ lanos sào de cinco espécies». Na Suma nomeia apenas quatro das cinco espécies que menciona na carta. A quinta é o mirabulano êmblico ou Phyl- lanthus Emblica Linn. O citrino ou mirabulano amarelo é Terminalia citrina Roxb.; o indio ou mirabulano negro é Phyllanthus disticus Muell.; o mira¬ bulano qublico ou quibuly é Terminalia Chebula Retz.; o mirabulano beieriqo é Terminalia belerica Roxb. Orta (xxxvn) trata desenvolvidamente das cinco espécies.
192 Tomé Pires De maneira que os malabares mouros navegamtes & tra- tamtes da bamda de Diu trazem suas mercadorias E da bamda de choromamdell ceilam & diua E tem bom trato em o malabar primcipall memte ê calecut acodem as mais mercadarias//. [retoma a descrição de cambaia] Foi. I30r. Do Rejno de cam- baya (he antes que os Reinos na terra canarjm e apos cam- bay° hos cana- rts) (120) chamase o Rey De cambaya coltam madaforxaa (118) a seu pay chamauã coltam mafamud(119) tem este Rey guerra com ellRey De mandao E com ellRey Jmdo & com os Resputes he alguua com delij portamto falarey nestes huu pouq0// Este Rey de dely Jaz na terra firme Antígamemte era a terra deste a moõr que qa avija era De ssua Jurdicam os Resputes cambay" he parte do Regno De daquê ellRey de mãdao ellRey dimdo vay a terra Deste cimgemdo toda a provimcia de narsymga he vay fazer comtinoada memte guerra aos bemgallas & aos Reis do sertaõo que comfinam com orixa E com orixa era gemtijo de cemto & cimqoemta annos sam os Reis de delij mouros ê todos estes Regnõs tinha capitaees cada huu se alevamtou & se fez Rey asij ho fez o de cambay4/ metense amtre cambaia & delij grãdes serranjas (121) De maneira que nom pode vijr sobre cambaya somemte metese huu paso na terra que ho tem huu Jogue guzarate que nom comsemte emtrar ha gemte De delij em cambay* E quamdo esteRey espeue ao Rey de cambay" chamalhe ao meu vazir ou capitam este Rey de delij tem gramde (118) Mudhaffar ou Muzaffar Shah II, chamado Soltão Madrajaxa no MS. dc Lisboa c Soltam Moordafaa por Barbosa. (119) Mahmud Shah I, chamado Soltão Mafamede no MS. de Lisboa e Soltam Malta mude por Barbosa. (120) As palavras aqui postas entre parênteses foram acrescentadas pelo mesmo punho do manuscrito original, mas com tinta e pena diferentes. (121) O Planalto de Malwa, limitado ao sul pela Cordilheira de Vindhya e a noroeste pela Cordilheira de Aravalli.
A Suma Oriental 193 terra mujto môtuosa. estas serranjas que pasam por sua terra he ho momte / caucaso De que falam os cosmoguafos tem a terra Deste mamtimemtos sem comto Jemte cavallos alifamtes tem Jmfinydade de gemtios sem numero è seus Reynos estem- dese seu Regno pola terra demtro mujto este se chama Rey das Jmdias tem este Rey continoadamemte Demtro na terra sua abitacam & Na frallda desta serranja (123) comfinamdo com as terras De cambay“ he o Reino De mandao este he o Regno omde amti- guamemte peleJauam as molheres que nos Dizemos amazonas aguora nom vsam da meliçia/ ficoulhe aJmda ho caçar acavallo com esporas he bursegijs a sua guissa dize q tera este Rey aJmda molheres que cavallgam com elle (124) atee duas mjll tem este Rey mujta gemte he a terra sua fraguosa & forte/ também com- fyna mamdao com os Resputes he obidiemte a ellRey De delij este Rey de mamdao/ he este Rey mouro ha pouco tempo// O Regno dimdo he Ja comuertido ao Reino de cambay* sam Ja todos mouros he cousa pequena, he terra momtuosa Rey de mam- dão (122) Regno dim¬ do (\25) (122) Mãdou no MS. de Lisboa, Mandou ou Mandó nos cronistas portugueses, corresponde a Mandu ou Mandogarth, agora cidade arruinada no Estado de Dhar da índia Central, «no cume de uma colina achatada na Vindhyan range». Irnp. Gaz. of índia. s.v. (123) Cordilheira de Vindhya. (124) Na sua carta de 27 de Jan. 1516, Pires refere-se outra vez a estas amazonas do Mandau, «mulheres belicosas que hoje em dia pelejam a cavalo». Apêndice I. (125) A origem dos nomes Indus, índia. Hindus e outros do mesmo grupo etimológico é o sânscrito Sindhu. ‘o mar'. Em muitas línguas asiᬠticas a palavra Sindh indica realmente o mar ou um rio importante, daí o Rio Sindh. Plínio fez referência a «O Indus, chamado Sindus pelos habi¬ tantes.» McCrindle, Ancient índia as descrihed by Megasthenês and Arrian, T- 143. Os maometanos antigos distinguiam Sind e Hind como partes dife- entes de toda a regiào que nós chamamos índia, sendo este nome aplicado í região para lá do Indo. Parece que o Reino de Indo de Pires, que ele diz ser «cousa pequena», fica na actual Rajputana, algures entre o Punjab e Cambaia. Hobson-Jobson, s.v. índia e Sind.
194 Tomé Pires Portos de cambaya Atee daquè dizem q daquj vem ho anjll & que nace neste alguu lacar pouco/ & dos Resputes mamdao & delij vem mujtas mercadorias das que se acham em cambay® e espalha por estes também suas mer¬ cadorias por que os out°s sam firmes este De cambaya tem ho mar digo por delij mamdao Jmdo & out°s//. Este Regno Jmdo foy amtigamemte mujto nomeado esta na terra firme he Deste Regno corre huu Rijo q vem sair ao maar que se chama çimdy outs0 lhe chamam Jmdy E os do Regno Jmdios/ este aparta os Resputes De cambaia foy este reino cabeça De cambay8 Daquj se comecam as Jndias E por causa Deste Reino se chamou elIRey De cambay8 Rey da primeira Jmdia he Rijo gramde na saida q faz no maãr tem gramde pouoacam de mujtas naaos mercadores gentios mouros he guouernador dela huu Jemtio Jmdo/ /Jmdi/ Carapatanj/ patan/ Diu/ manna/ tata telaya/ guem- darj/ guogarj/ cãbaya/ baruez/ çurrate/ Reneri/ Dionj/ agagy/ baxa/ maimbij//(126) (126) No MS. de Lisboa estes nomes lêm-se como se segue: «Imde/ barapatão/ patão/ dio/ manuaa/ tatelaya/ guãdari/ gogary/ cambaia/ baruez/ Rejnell/ çurrate/ diuny/ agazy/ baxaa/ maimby/.» imdi — Nas cartas de P. Reinei de c. 1517 e c. 1512 — as mais próximas da data em que Pires escrevia — lê-se daulcinde junto de um rio que parece corresponder ao moderno Porali River, mas deve ser a foz mais a ocidente do Indo. A carta de c. 1540 tem diull e diu(l)çimde. Este rio das cartas de Reine! aparece em cartas posteriores, dos meados do século xvi, como R. dos guzarates e R. simde, algumas delas apresentando diul ou diuli (L. Homem, 1554) na margem direita, junto da foz. É o Diul ou Diulsinde de Barbosa e de outros autores e cartógrafos portugueses antigos. Barros refere-se a «Diul situado na primeira foz do Indo, da parte do Poncnte», I, ix, i. Diul é a forma portuguesa de Dcwal ou Daibul, que segundo Yule foi «outrora uma cidade c porto de mar célebre de Sinde, mencionados por todos os geógrafos árabes e que se supõe terem existido no local, ou junto, da moderna Kãrachi». Hobson-Jobson, í.v. Diul-Sind. DiuI-Sind pode também ser o porto Sonmiani, na foz do Porali River, importante locali¬ dade antes de Karachi nascer, através da qual muito do comércio da Ásia Central passava via Kalat. Imp. Gaz. of índia, s.v. Sonmiani. Se bem que não seja fácil explicar porque Pires escreveu Indi por «Diul-Sind», parece
A Suma Oriental 19í> Avera trezemtos annos que o Reino de cambaya he tomado dos Jemtios mas aJmda ha em cambaia, mujtos gemtios cassy a terça parte do Regno he majs/ homees que tem por fee nom matarem cousa viva nem comerem cousa q teuese samgue haa Jmfinijdade destes/ chamamse os Jemtios de cambaya vaneanes Delles sam sacerdotes de fremosos templlos a moõr pte | sam bramenes homèes dados a Relegíam E outs° sam patamares (127) que queria significar este último visto não haver nenhum outro porto impor¬ tante antes de Kharepatan. carapatani—Kharepatan. The Imp. Gaz. of índia (n, 33, 1908 ed.) refere-sc a «chapas de Khãrcpàtan contendo o registo do Silãhãra prfncipe Rattarãja do ano 1008 A.D.» Na foz do Hab River havia um porto cha¬ mado Kharak, com considerável comércio. A entrada para o porto de Kharak ficou bloqueada de areia e os seus habitantes migraram para um local chamado Kalachi Kun, no outro lado do rio, junto de Karachi, de recente formação. Cf. Imp. Gaz. of índia, s.v. Karãchi City. Pauan significa «um porto» em língua hindi, que combinado com Kharak parece ter dado Kharepatan ou o Carapatani de Pires. manna — Deve ser Manar, no Manali River, entre Telaja e Gogha. tata telaya — Telaja. guendarj — A velha cidade de Gandhar, na foz do rio Dhadar, no golfo de Cambaia, que aparece como gandar ou r. de gandar em várias cartas portuguesas do século xvi. É o Guindarim de Barbosa. diony — É a moderna Dahanu, que fica a trinta e duas milhas a su-sudoeste de Damão. Dinuy em Barbosa, Danu nas crónicas e em várias cartas. No Livro de Marinharia (p. 223) Danu está situada a oito léguas de Damão. Existe ainda uma velha capela portuguesa em Dahanu. agagy — Agacim ou Agaçaim nas crónicas portuguesas, corresponde a Agashi, que dá o nome à actual Agashi Bay, a vinte e oito milhas de Dahanu, onde desagua o Waitarna River. baxa — Corresponde à moderna Bassein. Baxay em Barbosa. Baçaim e a sudoeste Basaim nas crónicas e cartas portuguesas. maimbij — Majmby no MS. de Lisboa; também chamada Mayambu ou Mombaym pelos portugueses. Isto é Mahim ou Mahikavati, a primeira cidade construída na ilha de Bombaim, talvez nos fins do século xm. O nome ainda sobrevive em «Mahim Bay», no extremo norte da ilha. Castro refere-se à «Ilha de Bomhai ou Maiyam. que é o mesmo». Roteiro de Goa a Dio (1538-9), p. 81. (127) Sc bem que Pires escrevesse patamares, ele quer dizer os patares. /.Gemtios de cambaya/ Foi. 130v.
196 Tomé Pires Rey de cambaia & Reino bramenes mais homrrados outs0 sam mercadores como se dira despois sam os Jemtios de cãbaya gramdes Jdolatras gemtes molles fracas sogeitos ha amtre estes/ homèes em sua Relegiam De boa vida castos verdadeiros homees De mujta austinêçía creem em nosa Sra(128) E na trimdade nom he Duujda em outro tempo serem xstaõos & foise pdemdo a fee por Rezam dos mouros estes gemtios espuem Dereito a nosa gisa quamdo estes morrem as molheres se queymam as que sam homrradas ou estymam suas omrras na cambay® ha Destes gemtios aJmda gramdes Sres homees q mamdam ho Regno amtres os qaes he huu mjlagobím (129) bramjne pa m10 estimado em syso & em dr° mais avamtaJado que todos hos homees deste oriente he homem mujto nomeado & de gramde credito sam estes gemtios todos de cabellos compridos ha geraçoees amtre estes De barbas compridas que as nom podem fazer outs0 de cabellos compridos tem diuersas seitas & creemças sam sogeitos aos mouros & O Regno De cambaia tera de costa de maãr setemta ou oitemta leguoas he De demtro nom he mujto gramde como nobre E abastado & pulido de gramDes cidades bem muradas uma classe de brâmanes. Mais adiante, ao tratar dos brâmanes do Malabar, escreve a palavra como paladares (foi. 127r). Referindo-se aos patares de Cambaia, Pires diz que «estes são os que passam as cartas se vem de correos por q são seguros dos ladrões» (foi. 131 r). Há aqui possivelmente uma curiosa confusão através de certa associação de ideias. Segundo Dalgado (í.v.). Paladar ou Patamar é uma palavra luso-indiana proveniente do con- canim patiemar (um correio), que significa um estafeta, um correio, ou um barco ligeiro, veloz. (128) Esta crença de que os hindus foram outrora cristãos e vene¬ ravam Nossa Senhora parece ter sido corrente entre os portugueses da índia daquele tempo. Barbosa (I, 115) também o menciona. Sobre a Trindade vide nota 85, p. 173, foi. 126v. (129) Mencionado também mais tarde como mjiaguobim e mjligobim. Ao descrever Surat, Barbosa (I, 149) diz que «Até agora mandava e gover¬ nava nela um gentio por nome Milocochim, que el-rei de Cambaia mandou matar por má informação que dele teve, o qual era muito amigo dos por¬ tugueses.»
A Suma Orienta! 197 & torrejadas fortes os Sres mouros viuem omradamemte tem mujtos cavallos ha Sõr em cambaya que tem qujnhemtos seis cemtos cavallos E o mais sam eguoas casas paçoos gramdes & bem obrados o Rey nom he bem obedecido por causa do pouo estramgeiro Jeerall mente he o pouoo De cambaya pobre & os gramdes Ricos o Rey sera homè de qorêta annos chamado çoltam madaforxaa./ Dizem & afirmam os Rex De cambaia serem criados è peçonha por serem mujto luxuriosos em tamto q se mosqua se chegua a elle morre/ suas molheres se criam no mesmo manJar se cospe he peçonhemto se outrem veste seus panos dizem q morre supitam"* (130) o q eu nom creio/ posto q ho afirmam/ he este Rey dado a toda maneira de viços em comer & luxuria, no all Dizem q he sesudo à moor pte estaa atordado Damfiam Recolhido com suas molheres/ Ho Regno de cambaia tera trimta mjll homees de cauallo tera trezemtos alifants dos quaees seram cemto de peleJa nas beiras do maar a melhor cidade de edifiçios E de Jemte de guar- njcam hee diu/ E que tem mais estramgeiros das cidades do sertão he champanell homde he comtinoada memte o asemto dos Reis de cambay3 tem fremossos paços champanell de mujta Jemte limpa os primcipaes Sres depos o Rey he/ mjlaguobim gemtio Despois he/ chamalc malec/ E outro/ asturmalec/ E o quarto codaudam (131). estes quoatro com ho Rey gouernam tudo he cada huu Destes De mujtos de cauallo quamdo vay ao (130) Barbosa referc-sc com grande pormenor ao Xá Mudhaffar que foi criado no veneno. Varthcma menciona a mesma coisa. Parece que a história era corrente nos princípios do século xvi. Cf. Dames, 1,121-2. Na Miscellanea de Garcia de Resende, publicada pela primeira vez em 1554, há a seguinte estância sobre Samatra: «Há Reis que sâo costumados / peçonha sempre comerem, / de meninos ensinados, / em muy pequenos bocados / te se nela converterem; / e se lhe dão a comer / não lhe pode empecer, e se alguém bebe seu vinho, / ou mosca come seu cuspinho, / morre sem poder viver.» (Est. 91). (131) Estes nomes aparecem no MS. de Lisboa como «milagoly, camlemalle, asturmallee, cadãodão».
198 Tomé Pires /traio de camba/’/ Foi. I31r. pata¬ mares de cambaia paaço E sam mujto acompanhados sam Senhores naturaes do Regno e em que se Reuolue a Justiça & gouernamça Do Reyno E fazemda do Rey e estes sam eleitores do Regno quando morre o Rey sam estes todos Sres de titollo/ tem o Rey molheres & mamçebas athee mjll chamase o Rey Rey da primcipall Jmdia E porque este Regno nom he nobre senom por Rezam do trato necesaria cousa me pareçe fallar delle//. chegado som a falar no trato de cambaya estes sam Jtalianos em saber & tratar ha mercadoria. (132) toda a mercadoria de cambaia he em maão dos Jemtios chamanse guzarates/ o nome gerall/ despois se deujdem em Jeracoes vaneanes bramines pata¬ mares/ certo sem duujda estes tem o traoto em sumo sam homês sabidos na mercadoria tem ho sõo & armonja dela como compre/ em tamto q diz o guzarate que toda a JmJuria sobre mercadaria he de pdoar ha estants guzarates por todas as partidas fazem huus por out°s & outs0 por out°s sam homees diligemtes soltos em trato comtam por algarismo como nos com as nosas propias letras/ sam homees q nom vos dam do seu nem qerem nada de cada huus/ pollo quall sam athee o presemte estimados ê cambay8 De ssua gemtilidade vsamdo porque nõbrecem mujto o Reyno pollo dito trato | haa também em cambaya mercadores do cairo estamtes E dadem dormuz mujtos coraçones E gujlanes que todos fazem mercadaria gramdememte nas cidades Do mãar em cambay8 mas todos estes em comparacam dos gemtios nom vem a comto E moormemte do saber alij deujam dapremder nosas Jemtes que querem ser espuaes E feitores porque ho oficio de fazemda ciemcia he sobre sy que nom Jmpede todo outro nobre eixerçíçío mas aJuda mujto// sam os patamares de cambaia bramenes mais homrrados Amtigamemte decemdem Dos Reis de cambaia porque no tempo pasado eram os Reis bramenes como o som oJe no malabar estes pasam as mercadorias polia terra & os mercadores sam (132) No MS. de Lisboa lc-se: «me parecem mais q italianos no saber e toda a mercadoria.» Ramusio omitiu a referência aos italianos.
A Suma Oriental 199 mujt0 estimados aJnda q pasem por terra de ladrõees como os mercadores vam com huu destes nom nos Roubam e esta priminemcia tem nestas partes E se os Roubam matanse ou feremse com adaguas & os out°s bramjnes com o seu samgue vmtam as Jmagees E arrastãmas athee lhe fazerem Justiça E fazem lha & tornanlhe o seu/ os bramjnes he Jemte mujto esti¬ mada amtre os gemtios/ e estes sam os mais homrados nom comem cousa que fose viua. estes sam os que pasam as cartas se vem de correos (133) por q sam seguros dos ladroêes/ atras (134) na descricam do malabar achares que cousa sam// Asij que os guzarates com os estamtes que estam em cambaya feita cabeça de mjligobím nauegam mujtas naos pa todas as partes adem a ormuz ao Reino de daquê guoa baticalla a todo ho malabar ceilam bemgala peguu syam pedir paçee malaqua onde leuam mujtas mercadorias E Retornam outsa de maneira que fazem cambaya Riqa homrrada primcipall memte cambaia lamca dous braços com ho dereito aferra adem E com o out° malaqua como navegações mais primcipaes E aos outs0 lugares como a menos principaes// hos mercadores do cairo trazem as mercadarias q vem ditalía Como & de greçia de damasqo a adem como he ouro prata azougue trata vermelham cobre auga Rosada chamallotes grãas pannos De geerallmu laa de cores cristalinos vidros armas he cousas semelhantes// lcair°l Adem traz as sobreditas E mais Rujva pasas afiam aguo com ae]e,n. Rosada prata ouro em camtidade & cavallos que adem tem de zeila & barbora & das Jlhas De çuaquem que estam no estreito & dos darabia & vem fazer seu trato ha cambay" Retornam todalas cousas de malaq® crauo noz maças samdallos brasijll panos de seda alJofar almjzqr porcelanas & o mais se pode ver nas mercadarias De malaqa/ & das da terra aRoz triguo sabam (133) Vide nota 127 (pp. 195-6). (134) O copista talvez tenha substituído atras por adiante, como está no MS. de Lisboa a fim de ajustar a palavra ao arranjo da sua cópia. Vide Introdução p. 73.
200 Tomé Pires anjll mamteiguas (135) azeites alaqequas maiegua(136) de sortes baixa como sevilhana todos panos pa trato De zeila barbora cacotra qujloa melimde magadaxoo & lugares outs0 Darabia E este trato he neguociado por naos dadem & por naos de cam¬ baia mujtas De huuas & mujtas De outras/. E com todas as outras partidas ditas trata trocamdo huuas mercadorias po outsa Emtamto que huuas sem as outras se nom podem sosteer quem melhor quiser veer em cada terra as mer¬ cadorias sabera o que Retornam E nom ho exprimo aq1 porq em cada terra se veera a mercadoria que cada huu tem Merca- tem todos os pannos de seda que ha nestas partes todollos darias de dalguodam q serã vimte sortes de panos todos De mujta valia tem cambay aiaqUeqUas anjll pouqa lacar naturall da terra pucho cacho (137) (135) Pires usa a palavra manteigas, que pode significar simplesmente manteiga ou manteiga e banha. (136) Malegua, como aparece no MS. é uma palavra portuguesa que antigamente também se escrevia malega (como no MS. de Lisboa). Hoje escreve-se malga e significa usualmente uma taça ou prato para sopa. Neste caso significará «louça». (137) As duas palavras pucho e cacho usadas por Pires, correspondem a pachak e catcchu. Por vezes os copistas juntam as duas palavras, como por exemplo na edição portuguesa do Livro de Duarte Barbosa (p. 289), onde estas duas drogas aparecem numa simples palavra cacliopucho. Isto levou Dames a crer, depois de ter discutido o assunto com pormenor (i, 155; ii, 173, 234) que era cajeput, «óleo de essência fragrante produzido espe¬ cialmente em Celebes e na ilha vizinha de Bouro» IHobsom-Jobson, s.v.). O nome caieput é derivado do malaio Kayu-putch, que significa «madeira branca»; o produto vem principalmcntc de Melaleuca leucadendron Linn. «grande arbusto ou árvore, havendo muitas variedades, encontra-se desde Tenassarim até às Molucas», também chamada árvore de casca para papel, a madeira da qual é muito procurada na Malásia. Cf. Burkill, A Dictionary of lhe Economic Products of tlie Malay Península, pp. 1431-3. Não se encontra nenhuma referência ao cajeput em qualquer obra antiga portuguesa. Cachopu- cho é referido por Barbosa como um produto vindo de Cambaia para Malaca e China, dizendo mais adiante diz: «cacho e pucho (que são drogas de Cam¬ baia)». Watt não menciona cajeput. Orta trata extensamente de pucho (xvn) e de cacho (xxxi). Pachak é costus, a raiz de Saussurea lappa C. B. Clarke. Catechu ou cutch é uma goma amarelo-claro da Acacia catechu Wild.
A Suma Oriental 201 afiam mujto & bom erva lombrigra(138) tincall alguodam sabam em mujta camtidade pelles cortidas solas mell cera/ De mamti- memtos triguo ceuada mjlho (139) azeite de gergelim aRoz mam- teigua carnes cousas a estas semelhamtes/ malegua baixa de sortes todo de seu naturall E quem vem por demtro da terra firme dos Reinos vizinhos// Hos durmuz trazem a cambaia Cauallos prata ouro seda pedra vme aziche(140) capaRosa alJofar Retornam Das mer- cadarias da terra & das q tem de malaqua p que todo ho trato De malaqua Das suas mercadorias se vinham buscar A cambay1* Retornam hos dormuz aRoz mamtimemtos por primcipal e especiaria trazem Dormuz tamaras moles emfardeladas E outas em Jarros & outas sequas de tres quatro sortes// trata com ho Reino De daquem & guoa & com ho malabar temdo feitores em todalas partes q viuem e estam dasemto como ho fazem os genoeses em nosas partes/ asy em bemgala/ peguu/ Foi. 131 v. trata com hormuz com daquem & guoa com ho mala¬ bar & com out°s (138) Há várias espécies de vermífugos ou erva lombrigueira de Pires. Uma que se encontra em Portugal é a Artemísia variabilis Ten. Coutinho A Flora de Portugal, p. 636. Dames (I, 154), como também vários dicio¬ nários de português-inglês, identificam a erva lombrigeira com o abrótano ou Artemísia abrotanum. Diz, contudo, que o abrótano a que se aludia era «provavelmente a Artemísia indica ou lombrigueira indiana». Watt (p. 93-4) refere-se a várias espécies do género Artemísia encontrado na índia, mas nunca à A. variabilis ou à /I. indica. (139) A palavra milho usada por Pires corresponde hoje em Portugal a maís ou milho indiano, Zea Mays Linn. Certamente não é deste que se trata, pois o nosso milho vulgar teria ido da América para a índia tra¬ zido dali directamente pelos portugueses. Cf. Watt, p. 1132. Há também em Portugal o «milho zaburro» — Andropogum Sorghunt Linn., «milho meudo» — Panicum miliaceum Linn., c «milho painço» — Selaria italica Linn. Coutinho, pp. 65, 67. Pires queria dizer, em vez de milho, o sorgo — painço ou milhetc graúdo, jowaur ou juar e Pennisetum typhoideum Rich. — Junco, ou milhetc espigado, largamentc cultivado em Cambaia e noutras partes da índia. (140) O aziche (vitriolo) do MS. de Paris aparece como azinhaura (aloés) no MS. de Lisboa.
202 Tomé Pires Itrato com malaca/ trato com Jaãoa syam/ pedir/ paçee/ quedaa/ Retornado De huuas mercadarias a suas terras trazemdo a cada huuã as da valia delia emtanto q nom ha lugar De trato omde nom seJam vistos guzarates mer¬ cadores a estes Reinos vam em cada huu anno naõs Do guzarate a cada lugãr uaão Rota batida tinham em calecut os guzarates gramdes feytorias// Em malaca fazem mercadores de cambaia mais fumda- memto q em outra nemhuuã parte amtigamemte avíja ê malaqa mjll mercadores guzarates E doutrs0 guzarates homees Do maar que hiam & vinham quoatro cinq0 mjll homees nom pode viuer malaca sem cambay8 nem cambay8 sem malaqa pa serem mujto Riquas E mujto prosperas/ toda a Roupa & cousas do guzarate sam Da valia De malaca & dos Reynos que com ella tratam pois as cousas De malaqa nom somemte Deste mundo sam estimadas mas do outro quê Duujda serem desejados/ mais larga memte se falara na descricam de malaqa Das suas merca¬ darias se se tolher a cambay8 o trato com mallaq8 nõ viuera por q nom tem omde desabafe suas mercadorias// Hos guzarates forom melhores homees do mãr & que mais navegarom que outas nacoees nestas partes E asij sam em naãos mais avamtaJadas de grandez8 he em Jemte Do maar tem gram¬ des pilotos & sam dados mujto ao navegar hos Jemtios De cam¬ bai8 E amtigamemte os guzarates tinham q nom am De matar nemguem nem em sua companhia nom avia damdar homê Darmas/ se os tomauam & os queriam matar a todos nom Reses- tiam esta he a ley do guzarate nos Jemtios aguora trazem suas naaos mujta Jemte Darmas mouros pa defemsam das naaos estes tratauam amte Do descobrimemto Do canall De malaq8 com a Jaõa pola bamda do sull da Jlha De camotora emtrauam antre çumda & a pomta da Ilha de çomotora E navegauam agracj domde traziam as cousas De maluq° & de timor he do ouro (141) E Retornauam mujto Riquos nom ha çem aníios (141) No MS. de Paris está escrito do ouro. mas o MS. de Lisboa tem bamda e Ramusio Bandam.
A Suma Oriental 203 q deixarom esta nauegaçam em agracij estam as qujlhas amcoras & cousas das naõs guzaratas/ q mostram & dizem que ficarom do tempo dos guzarates//. Porque este Regno de cambaia tinha este trato com rnalaq® vinham estas nações De mercadores tomar suas companhias com os guzarates em suas naãos pa laa E Delas mamdauam suas mercadorias ficamdo estamtes na terra & delles hiam em pesoa .s. maçaris & Jemtes do cairo mujtos arabios dadem prim- cipallmente he com estes abixljs ormuzanos de qujloa melimde magadaxo mombaça persianos .s. Rumes turqmaees armenjos gujlanes coraçones De xiras destes ha mujtos em malaqa E do Reino de daquem mujtos tomauam sua companhia em cambaya/ he gramde trato o de cambaya leuamdo panos de mujtas sortes he boos em cããos (?) (142) & Roupas baixas sememtes .s. alipiuri comjnhos ameos allforua Raizes como de Rvy pomtiz a que chamam puçha & terra como lacar a q chamam cacho (143) (142) Depois de he boos, o MS. de Paris tem as palavras em cããos, cujo significado não consigo encontrar. As duas palavras foram omitidas no MS. de Lisboa c em Ramusio. (143) nigela — A palavra alipiuri usada por Pires é o velho nome português alipivri para as sementes de nigela, pequeno funcho ou cominhos negros — Nigella saliva Linn. Watt (p. 811) diz que esta planta «originária do sul da Europa», usada pelos nativos como remédio ou condimento, é «largamente cultivada na Índia por causa das sementes.» Burkill (p. 1556), contudo, faz o comentário: «Watt afirma que a cultura é larga em algumas partes da índia, mas isto é pouco correcto, sendo raro encontrá-la fora do extremo noroeste do país». Isto inclui totalmente Cambaia. cominho — Cominhos de Pires é o verdadeiro cominhos — Cumicum Cyminum Linn., planta mais ou menos cultivada na maior parte das pro¬ víncias da índia. ameos — Orta (xi) refere-se aos ameos (ânuos ou amis em português moderno) chamando-lhe cominhos rusticus. Isto deve corresponder à erva de bispo a umbelifera Ammi majus, que, como o cominho, pertence à tribo Amminea. Ficalho (Coloquios, I, 148) sugere que Orta «podia dar este nome (ameos) a alguma das Umbelliferae de sementes aromáticas, que são fre¬ quentes na índia.» A palavra foi omitida no MS. de Lisboa e cm Ramusio. fenacho ou fenugraec, a allforua ou alforva de Pires é a Trigonella Os mer¬ cadores que vem a fazer suas compa¬ nhias aquj P a malaca
204 Tomé Pires estoraq* liqido & outsa bofanjnhas Retornauam carreguados de todallas mercadarias Riquas De maluqo bandan china & tra¬ ziam mt0 ouro hos guzarates sam as Jemtes a que mais pesou ser malaqa de vosa alteza & os que hordenaram a treicam q foy feita a Dioguo Iopez de seqra(144) E oje se camta em malaq“ nas praças dapagua que ouue malaqa pollo q fezerom hos malayos por comselho dos guzarates//. (145) foenum graecum Linn. «Unia robusta planta medicinal, anual, expontânea em Kashmir, no Panjáb e na planície do Alto Ganges (Upper Gangetic Plain); cultivada em muitas partes, cspecialmente nas regiões mais altas». Watt, p. 1081. Orta XIII. É também uma planta indígena de Portugal. rampion, Rvy pomtiz ou ruiponliz de Pires (que em português se chama também ruiponto, rapúncio, rapôncio ou raponço), é a Canipanula Rapim- culus Linn., planta de raiz tuberosa comestível. «Ruipòn/o — Farmacologia. ‘Raiz do ponto’, que se parece com o ruibarbo, vem da Ásia», diz Morais, Dicionário da Lingna Portugueza, s.v. (Lisboa, 1789). Isto explica porque Pires diz que pachal; (pucho, que o copista aqui escreveu puçha) é «raizes como rapôncio». catechu — Houve tempo em que se supôs que o cacho ou catcchu era uma terra natural c quando chegou à Europa via Japão, no século xvn recebeu mesmo o nome de Terra Japonica. Vide nota sobre catechu p. 200 (nota 137), foi. 131r. O copista do MS. de Lisboa talvez não conseguisse compreender este trecho da escrita de Pires e simplesmente suprimiu o que não compreendeu. (144) Vide nota p. 388, foi. 165v. (145) No rodapé desta página, pelo mesmo punho tardio das notas prévias, está escrito «aquy fenesse o pr° Io e atras compeça o segio nos Canaris e baticala. Debaixo da última palavra está um asterisco*.
A Suma Orienta! 205 [LIVRO SEGUNDO [DE CAMBAIA A GOA] [Decào — Goa] [dhcão] No gramde E beliçosso Regno de daquem sera noso Recorn- tamemto apartase Do Reyno de cambay® por Junto com maymj ou may(I46) & do Regno de guoa por cara patanam pola terra firme com EIlRey De narsimgua E com ho Reino dorixa por huuã pomta estreita & da bamda de cambaya por cima com as serranjas q estam antre a India & delij he este Reino abastado De mamtimemtos terra mujto aproueitada moor Regno que ho De cambaia De melhor Jemte de gueerra naturall da trra he a gemte desta terra Dacanarjm cavaleiros De ssuas pesoas E a pijonaJem gemte q sofre bem ho trabalho tem este Reino muyta Jemte bramq* avera duzemtos & cimquoemta annos que este Reino he gamçado aos Jemtios De Rumes he turqos & parses como o Regno de cambaia/ tem muJtas cidades na terra firme he mujtos portos no maar// Nauegamdo De maym para ho Regno De guoa sam os portos Do Reino De daquem hos segujntes /chaull/ damda/ matalenj/ dabull/ sangizara/ carapatanam/(147) < 146) Kelvc Mahim. (147) MS. de Lisboa estes nomes lêem-sc como se segue: «chaull dãda matai ine/ dabull/ samgisarra/ carepatão/.» CAULL — Chaul ou Cheul é um lugar antiquíssimo, outrora um dos portos de mar mais importantes na índia Ocidental; chamado ainda Port Chaul nas Admiralty Charts. Como Pires diz adiante, o porto de Chaul já estava em declínio no seu tempo. Está situado no lado norte do largo Foi. 132r. Reino De daquem portos no maõr
206 Tomé Pires cidades primci- paees na terra firme As cidades do Reino de daquem seram vinte Das quãees porto formado pelo estuário do Kondulika Rivcr ou Roha Crcck. Regis¬ tado na carta de Rodrigues como chanll. danda — Há um lugar chamado Dandc no lado norte de Rajpuri Creek, na parte leste do porto de Janjira que deve corresponder ao Danda de Pires. Na carta publicada por J. S. King na sua History of the Bahmani Dynasty (The Indian Antiquary, vol. 28, Bombav, 1899) o lugar aparece como Danda, mas situado no lado sul da angra. Mais para norte na costa, entre Roha Creek e Rajpuri Creek, há um outro local chamado Dande. O nome sobrevive também na aldeia Revadanda, onde existe ainda o forte cons¬ truído pelos portugueses. Chaul e Revadanda têm-sc estendido agora tanto, um cm direcção do outro, que são chamados com frequência Chaul de Cima c Chaul de Baixo. Castro diz que «este Rio de Danda é um dos maiores c mais afamados desta costa ... apartasc 4 léguas de Chaul c de Goa 57», Roteiro de Coa a Dio, p. 48. Nas cartas de Reinei de c. 1517 e c. 1518 Danda aparece ao sul de Dabhol, mas em todas as outras cartas antigas está localizada imediatamente a sul de Chaul. Cifardam na carta de L. Homem de 1554. matalf.ni — Este nome não aparece em nenhuma crónica ou carta portuguesas. Castro (p. 39-48) refere-se a três rios entre Dabhol e Danda, do sul para o norte, o Quelecim, o Beiçoim e o Cifardam. Cifardam corres¬ ponde a Srivardham ou baía de Shrivardham, que Castro acertadamentc situa cinco léguas a sul de Danda. Quelecim é o Bhária, que ele localiza sete léguas a norte de Dabhol e cerca de uma a sul de Beiçoim, dizendo que fica precisamente a dezoito graus de latitude (a lat. exacta é 17° 56' N.) Beiçoim é o Savitri River, o mais importante dos três, do qual ele dá uma carta rigorosa, onde agora fica Port Bánkot. Isto corresponde com certeza à Mataleni de Pires, talvez o rio Mandaba, situado por Barbosa entre Danda e Dabhol c identificado por Dames (I, 164) com o Savitri Rivcr. Mandaba não aparece em nenhuma crónica ou carta. sangizara — A Cinguiçar de Barbosa c Zamgizara de Castro é San- gamcshwar ou Shastri Joygad Rivcr. carapatanam — Castro (p. 23-31) faz uma descrição minuciosa e uma carta fiel do Rio de Carapatão que corresponde exactamente à entrada do porto de Vijaydurg ou Vijayadurg, à entrada do Vághotan River. Ele diz que «é o mais nobre rio c bem assombrado de todos os que correm nesta costa da índia; c é tamanha a sua bondade, que nenhuma suficiência abasta para se acabar de louvar». Segundo o West Coast of India Pilot, Vijaydurg é hoje um porto de pouca importância. Deve estar relacionado com o Arapatam referido por Barbosa. Dames (I, 169) tomou os nomes Arapatam e Muruary como significando duas espécies de legumes que ele tenta relacionar
ESTAMPA XX A Costa Ocidental da índia de acordo com Tomé Pires.
ESTAMPA XXI Carta de Francisco Rodrigues (foi. 28) representando a Costa Oriental da Arábia, parte oriental do Golfo Pérsico, Costa Ocidental da índia. Ceilão e as Ilhas Lacdivas.
A Suma Oriental 207 estas sam as mais pinçipaees em Jemte/ bider/ visapor/ çidapor/ solapor Rachull/ çagar/ quellberga queher/ bayn/(148) chamase o Rey coltan mahamud xaa Depos ho Rey Jdalhan Nome do njza malmulc/ cupall mullc/ hodauan/ mjliquj dastur(l49 estes Rey & dos senores com dois nomes de plantas indianas, arburrah e mohri on mahasúri. Dalgado P‘"ç'P°es (II, 455, 507) também diz que Arapatão é o arburrah ou ervilha vulgar. Pisam salivam Linn., e que Muruary é mulayari. palavra malaia para «talo de bambu, que é usado cm várias partes como género alimentício». Embora a pontuação defeituosa da edição portuguesa de 1821 (p. 293) possa justificar esta con¬ fusão, parece mais provável que Barbosa atribua as palavras Arapatan e Muruary a «outros pequenos lugares que são também portos de mar» c não «legumes». O nome sobrevive ainda na aldeia de Kharcpatan, na margem esquerda do rio, a vinte milhas da foz. (148) No MS. de Lisboa estes nomes lêem-se como se segue: «badir vesapor çidapor solapor Rachull eugar/ quell/ berguaqueiher bain». BiDtR — Bidar, no Estado de Hyderabad. Tanto Barbosa como Barros mencionam Bider. visapor — Bijapur. Bisapor em Barros, Visapor cm Castanheda. solapor — Sholapur, na Bombay Provincc. rachull — Raichur, em Hyderabad. çagar — Sagar, em Gulbarga District, Hyde¬ rabad. Calbergá, em Barros. queher — Koyer ou Kohir, no Bidar Dis¬ trict, Hyderabad. Querhij, em Barros. bayn — Bhaja, pequena cidade antiga em Poona District, Bombaim? Ou Badami, uma outra cidade antiga no Bajapur District, Bombaim? Vay. em Barros. (149) mahamud xaa — Mahmud Shah, Bahmani, Rei do Deccan. idalham ou Idalcam— Adil Khan, significando «O Senhor justo». A forma usual entre os cronistas portugueses era Idalcão, Adilchan, Hidalcão c Hidal- chan; mas Orta (X) chama-lhe Adelham, o que se assemelha mais ao Idalham de Pires. Este título foi estendido pelos portugueses a todos os reis da dinas¬ tia maometana dc Bijapur. niza malmulc — Nizam-ul-Mulk, «O Regu¬ lador do Estado». Barros (II, v, 2) dá os nomes dos principais «capitães» dc Mahmud Shah. que detinham o poder no Deccan quando os Portugueses chegaram à índia, entre eles os quatro mencionados por Pires. Este foi chamado Nizamaluco por Barros assim como pelos outros cronistas, cupall mullc —Kutb-ul-Mulk, «A Estrela Polar do Estado»; chamado Coianaluco por Barros e Cotalmaluco por Orta. hodanan ou Hodan an han. Talvez Kwaja Mukaddan, o Coje Mocadam de Barros e o Mohadum Coja de Orta. miliqui dastur ou Milic Dastur—Malik Dastur ou Malik Dinar Dastur-i Mamalik, o Abexi capado de Barros, mais tarde referido por Pires como um «escravo abexim do rei». No MS. de Lisboa estes nomes apare-
208 Tomé Pires quoatro senhores mamdam ho Regno & os q em seus titos soçe- dem este Jdalhan de naçao he turqo de torquja seu pay foy espauo do pay deste Rey he pollo achar homem de preco ho fez çabay0/ este nome de cabaio he nome do siao asy como capitam da guarda do Rey com ha guouemamça Da metade do Regno o que tem tall carg° chamase cabay°(150) he da esemçia Do Reino oficiall cabayo he mujto gramde sõr o que tem esta dinjdade e este menjstra o Rey de tudo o que hã mester/ neste carguo viueo o pay deste que ora hee// foy o cabaio pasado caualeiro muj‘° estimado E dizem que ouue quoremta batalhas campaees E que nas trimta foy desbaratado & as dez vemçeo morto este ha pouco tempo o filho chamouse Jdallcam que qr Dizer capitam Jeerall em todo o Regno E lamçou maão do Rey E apousemta o homde o Jdal- cam ao coltam mahamud xaa/ algum tamto lhe faz cortessia teue este atrevimemto ho ydalham comtra vomtade dos quat" & do Rey por ter de sua Jurdicam toda a Jemte branqa Do Reino pola mor parte por ser estramgeiro & turqo & teer taall ofiçio chegaronse os asolldadados a elle Eicerto/ bider/ todas as cidades Do Regno pola moõr parte sam Da Jurdição do Jdallcan/ emquanto este era cabaio eram estoutros senhores tam validos E omrrados como elle Despoijs que se chamou Jadlcan ficarom todos debaixo & por estes estarem escamdalizados tem comti- noadamemte guerra como se dira adiamte/ os portos do maar Deste Regno sam todos do cabaio eiçepto chaull & damda// o sõr de chamase o sõr de chaull & damda njza mall mulec seu pay chaull & deste era turq° de nacam seu espauo Do pai do Rey de daquem damda cem bastante misturados: «mamedxa/ idalham niga/ mall malet/ odanam/ melique destur/». (150) Çabaio. Tem havido bastante especulação acerca da origem e do significado deste titulo Çabaio ou, como mais frequentemente escrito pelos cronistas portugueses, Sabaio. Barros (II, v, I) diz que quando os Portugueses chegaram à «índia, era Senhor desta cidade Goa um Mouro por nome Soay Capitão de EIRei do Dccan, a que comumente chamamos Sabayo». Dames (I, 172-4) já tratou extensivamente desta questão.
A Suma Orienta! 209 E fiquou gramde sõr & tem mujtos lugares na terra firme tem este mjll homees bramcos da persija de peleja mjll de cauallo/ Este cupall mulec he gramde sõr outros lhe chamam cutell mamaluq0 he naturall do Reyno De daquem nom foy catiuo he homem De mujto preço mujto estimado na terra Dizem que tem este Domeês bramcos de cavallo perto De mjll & qnhemtos & Este he natural do Reino como o de cima E de tamta Jemte he terras Eeste mjlic dastur he abixij escpauo DelIRcy tam homrrado casy como cada huu destes he fromteiro com narsingua esta em quelbergua tem Jemte de guarnjçam esta cidade ho cabayo lha tomou E ora estam de guerra hos quatro senhores de cima Juntos em acordo tem de cavallo asy dhomeês bramcos como Da terra perto de doze athe qujnze mjll homeês estes sam Juntos comtra ho cabayo ho cabayo que ora he Jdalcan tem outa tanta Jente E tem comtinoadamemte guerra huus com outros sam os soldos desta terra mores q nenhuus destas | partes aas vezes sam mall paguos/ Tem este Regno aJmda mujtos Jemtíos naturaees da terra E mujtos bramenes estimados todo o Jemtio deste Regno qmdo morre he costume se tem molher queimarse por hir dar companhija a seu marido homde estiuer se o nom faz fica desomrrada nom somemte ella mas seus paremtes todos E as vezes nom tem ellas mujta vom- tade & os paremtes & os bramjnes as mouè a se quejmarê por tall q seu costume nom se quebre// O Regno De daquem he cavaleiroso tera de cavallo trimta mjll de pionaJem sem comto Jeerall memte neste Reino & no de guoa vinham estas Jemtes bramcas a q chamamos Rumes ganhar soldo E omrra. este Rey daua nomes como mjliqes (151) .s. fuão mjlic E o de mais homrra he han ou can (152) E vinham (151) Mjlique ou Mjlic — Ma/ik, que de facto significava rei, mas era usado como significando governador ou senhor. (152) Han ou Can-Khan, que significa príncipe. /cupall mulec/ /hodau an han/ mjlic dastur. Foi 132v.
210 Tomé Pires Mantimen¬ tos Trato do Regno de daqem ganhar estes t°s sam os cãns aquy m*° prezados & homrrados digo caees de can nom por anjmaes de çaça he a Jemte deste Regno soberba presumtuosa/ ho Rcj he dado ao amfiam & as molheres njsto pasa seu tpo E o seu Jdalcan nom he menos sera elRey de qoremta annos & o Jdalcan de trimta. homêes ambos guordos & bem gordos que se dam a todo viçio avera no Regno De daquè De turquos & Rumes & arabios atee Duzemtos de persijanos avera Dez ou doze rnjll homêes De peleJa quem neste Reino mais Jemte bramca tem mais poderoso he tera cimcoenta alifamtes este Regno/ tem os cavallos arabios & persyanos gramde valia/ q se nom poderá creer// Tem ho Regno de daqem aRoz em gramde auomdanca alguu triguo Carnes tem mujta arequa & mujto betelle//. Amtiguamemte teue gramde trato primcipall memte dabull era escalla Riqua nobre E homrrada bom porto de mujtas naõos E vosa alteza tratou tam mall a estes portos q ficarom destrujdos E diu se fez de matos gramde com fauor de uosa alteza// tem aJmda gramdes mercadores he faz trato nom a decima parte Do que soya eram estes portos escala dadem athee elles & delles athee malaq3 tratauam todas mercadorias ê grosas naãos De mujtos mercadores estauam estes no meio bõos portos terras fartas/ de mta agoa desembarcauam aqui a moõr parte dos cavallos que Recolhia ho Regno De daquê eram estes portos Ricos & dos dritos delles era o Rey de daquê & o seu cabayo & o nazimall mulec De gramde drt° & isto lhe fazija/ daar gram¬ des solldos mas aguora que o capitam Jerall (153) tem mudada esta neguoçeaçam ao polido Regno De guoa o Reino De daquem nom pode mujto durar è sua homrra ho Camjnho estaa aberto pa se perder sem Remedio ou guoa pa ser a moor cousa Do mumdo(154) todas estas cousas mostra ho tempo amdamdo a (153) Afonso de Albuquerque. (154) O tempo provou de facto que Pires tinha razão na sua profecia — no que respeitava ao Oriente.
A Suma Oriental 211 Rezam De asy ser vista crara esta sem comtradicam/ a q se faziam em dabull gramdes tratos E mujto Riquos/ memtado na parte Dassija foy o porto de chaull & dabull. Dabull nom foy tamto por Rezam da aguoa que tem solobra// soprados amdam os seguidores De mafamede vaise gastamdo o Redicall a estes q tanto prosperarom//- Tem este Reino De daquem as mercadorias segujntes/ Merca- beirames pannos bramcos & de cores Jmfinjdade beatilhas De dorias que Jerall memte os mouros & quelijs fazem touquas gram suma que abasta ho munido Destas duas sortes fazem também neste Reino matamunguo preto que vali pa diua(155) & pa abixia/ a força do betelle que se chama folio Jmdo(156) vay da
212 Tomé Pires Foi. 133r. Regno de guoa Iportos de Imaãrl [goa] Aguora se nos faz ho camjnho pilo soberbo Regno de guõa. chaue das Jmdias pma & seg"a Diujdese Do rregno De daquem por çarapatanam no maar Rijo majs pincipaall Da Jmdia E da bamda Donor por cimtacora/ pola terra firme com ho Regno de daquè E com ho Regno De narsijmgua a limgoaJem que se fala neste Regno he conconjm ffoy o Regno De guoa sempre mujto estimado polia melhor cousa q ellRey de narsyng3 tinha asij honrrada como proueitosa os Do Regno de daquê lhe ganharom pte Deste Reyno E despois o cabaio velho pay do que oJe viue o acabou de ganhar dos Jentios avera quoremta & cimq0 annos este Reino he do cabay0 & tamto que se aJuntou ao Regno De daquê foy guoa cabeça de todo o Regno de daquè E guoa/ a limgoaJem Deste Regno De guoa nom he como a de daquem nem como a de narsimgua he sobre sy he a Jemte Deste Regno esforçada avisada E que sofre gramdemente o trabalho asy homees Do maãr como Da terra//. tem ho Regno de guoa no mãar Jumto com çarapatanam/ damdriuar/ bamda guoa velha/ E noua/ aliga/ ancoll/ vpale Rijo de sall a ponta darrama cimtacora amJadiua/ (157) amtre (157) No MS. dc Lisboa estes nomes lêm-sc como se segue: «damda/ mujbamda/ guoa a velha/ & a nova alimga/ amola/ paçc/ o Rio do Sall/ apomta da Rama/ çimtaçora/ amgediua/.» damdriuar — Devgad ou porto Devgarh. Três léguas ao sul de Carapaião. Castro (p. 33) situa o Rio dc Tamaraa. com «huma bahia muito fcrmosa casy em forma çircular», que corresponde ao porto Devgarh ou Damdriuar de Pires. Cerca de dez milhas para o interior, na margem direita do rio que desagua cm Devgarh, há uma aldeia chamada Tamhara. A carta de c. 1510 tem dendbasya entre dabull e goa. Um dos portos mencionados por Castro pode ser o Muruary de Barbosa (Vide nota pp. 206-7), talvez o Damdriuar de Pires. banda — Para o sul o único porto importante antes de Goa é Vcn-
A Suma Orienta! 213 estes portos ha rrios E naãos amtigamemte E aguora navegam guria, dezasseis milhas a és-sueste da qual fica a cidade interior de Banda. Banda é também referida por Barbosa e Barros como um porto de mar, aparecendo como banida nalgumas cartas portuguesas, sempre a sul de Goa. guoa velha — Velha Goa. noua guoa — Nova Goa ou Pangim. Já cm 1433-4 Ibn Batuta escrevera: «Há na ilha (de Sãndabúr, ou Goa) duas cidades, uma antiga, construída pelos pagãos; a segunda construída pelos muçulmanos quando conquistaram a ilha pela primeira vez». Cf. Hobson-Jobson, s.v. Sindábur. aliga — Este deve ser o Kalinadi ou Liga River, chamado por Barros «rio Aliga de Cintacora» (I, ix, 1); mas, vindo imediatamente depois de Goa, parece estar mal colocado. ancoll — Sugere a cidade de Ankola, numa angra treze milhas a sudeste da foz do Liga ou Kalinadi River. Ankola é a Ancôla que Casta- nheda (III, xxxiii) diz ficar a quatro léguas de Anjediva, e que é mencionada por outros cronistas. Ancola aparece entre cintacala e mergeo no atlas de D. Homem de 1558. Mas há também, depois de Goa, na costa sudeste da península de Mormugâo, um local chamado Colla ou Culua, na foz de um pequeno rio em Colla Bay, a que os portugueses chamam Mar de Colla. Talvez que a Ancoll de Pires corresponda à «tanadaria de Colator», porto de mar no Distrito de Goa, mencionado por Barros (II, v, 2). vpale—Há um pequeno local chamado Pale, Palee ou Paula no lado leste de Colla Bay. Como todos estes portos são indicados sucessivamente, de norte para sul. parece que Ancoll, de facto, corresponde a Colla, embora possa haver alguma confusão com Ankola e a má colocação de Aliga. rijo de sall —Sal River, a dezasseis milhas para sudeste de Pale. Aparece em algumas cartas antigas portuguesas. ponta darrama — Cabo de Rama ou Cape Ramas, quatro milhas e meia a sudoeste de Sal River. Aparece também em várias cartas antigas portuguesas. cimtacora — Castanheda diz que «uma légua dali na entrada de um rio de água doce que se metia no mar estava uma grande fortaleza chamada cintacora» (II, xiii). Quase todos os cronistas se referem a Cintacora como um local fortificado ou como um rio, muito próximo da ilha Anjediva. Barros (I, viii, 10) chama a este rio Aliga de Cintacora c refere-se à origem da fortaleza. O rio é o Kalinadi, antigamente Liga River. «No lado norte do rio, precisamente dentro da entrada, no cimo de uma colina de 66,4 m estão os restos de um velho forte e numa colina a cerca de um quarto
214 Tomé Pires E porque estas cousas sam do Regno de guoa somemte se dira de guõa Da bamda da terra firme tinha cidads E villas mujtas tenadarias (158) de gramdes Remdas E de terras muy aprouei- tadas que Jmda estam em poder de mouros mas pois a gram çidade de guoa que he chaue de tudo he em poder & seruiço do muy alto ds o all nom tardara mujto//. Asij como as portas sam defensam das casas asy os portos das proujmcias & Rcgnõs sam pa emparo susidio primcipall guarda os quaêes tomados soJuzgados em gramde agonja sam postos os taèes & com quall qr Discordija que em sij tenham ou com seus vizinhos lloguo se perdem por nom serem socorridos quanto mais q estos Regnos nom tinhã outa saluacam se nom a çidade he porto de guoa como cousa mais primcipall/ coua de ladroees turquos Rumes E Jemte q morre comtra nosa fee era guõa aparelhauase guoa pa gramde perda pa os xstaõos E o Juizo de ds mudou a perda a elles que plía tomada De guoa nom he duujda a mourama dar gemjdos guoa era lugar des- posto pa se fazerem ligeira memte as armadas è huu anno dos mouros que em suez nõ se faram em vimte// dc milha para leste estão as ruínas de um outro forte. A cidade de Sadas- hivagarh (Sadashivgad) fica situada pouco a norte destas colinas.» West Coast of Índia Pilol. Toda esta localidade ainda se chama Chitakuli ou Chitakul, o que corresponde à Ciniacora dos portugueses. Esta deve ser a Cinlabor do atlas marítimo Mediei (1351) ou a Chinlabor da carta catalã (1375-81), que tanto intrigou Yule (Calhay. tv, 65, etc.)c Damcs (i, 171-2, 182). Já aparece como Rio de cimlacolla. ao sid das ilhas de gao, na carta dc Rodri¬ gues da costa ocidental da índia, como Cymtaquola na carta de P. Reinei de c. 1517 e Cimtacola noutras cartas antigas. amjadiua — Ilha de Anjcdiva. aJadiua na carta de Rodrigues (foi. 28). (158) Tanadaria. O posto do lanadar, significando na realidade «chefe da policia local», no Industâo. A palavra foi adoptada pelos por¬ tugueses na índia que a usaram num sentido mais lato, para a autoridade militar de uma cidade pequena, ou recebedor de impostos e direitos alfan¬ degários. Tanadar ou Thanadar está ainda cm uso na índia britânica no sentido civil.
A Suma Oriental 215 quem duujda que a Jemte no desbarato do Regno de guõaa se tomarom naõs que os mouros tinham pa comnosquo pele¬ jarem que despois forom a bamdan carreguar de maças pa nos/ a Juizo De noso sõr he Jncomprensyuell E cada huu atemta- memte Julge que mor perda Receberom os mouros por guoa do que pode ser quamdo perderem adem guoa nom somemte sopea o Reino de daquem/ mas aJmda ho de cambaya tem afo- guado/ maoo vizinho tem os mouros em guoa. os mouros pola maneira que forõ guanhamdo os Regnos hos vam perdemdo o Regno sem portos casa he sem portas noso sõr he o que qr ho perdimemto de mafamede E Joane(159) o espíuão o faz trigoso Ja he tempo/ Ja nas bamdas das Jmdias nom faça nen- guê fundamèto de mouros somemte Dos que andarem a laurar nas serranjas tem ho Regno de guoa as Jmdias adrjto aJmda que nom queiram he pulido de famosos vergeiís aguoas cousa mais fresca das Jmdias E mais abastada esta de mamtimemtos domde se costumou amtre os Rumes E Jemtes brancas prati¬ carem vamos ao Regno de guoa gostar das sombras E aruoredos E tomar o sabor do doçe betelle/ nom he Duujda o Regno de guoa ter betelle mjlhor q em outra parte ssuaue gostoso mujto estimado E de guoa Jerall memte se carregua delle pa adem ormuz & canbaya areça ou avelana Jmdia(lóO) tem mais & melhor que out° luguar/ aRoz ai) se carregua & da terra firme de Regnos mujto alomgados emtrauam em guoa grãdes cafilas De bois carregados De mercadarias se estas cousas forom no tempo pasado qmta mais Rezam sera dai) por diamte/ sem duujda q se fara gramde escalla moor Do que nunca foy E os mercadores folgaram com nosa Justiça mãis que com a q lhe fazem os mouros// Ho Regno de guoa numqua Deu a vamtaJem a chaull tratava Foi. gramdememte tijnha mujtos mercadores De todas nacoees (159) São João, autor do Apocalipse? (160) A noz da Areca catechu Linn., a noz de areca ou a noz de betlc era chamada pelos portugueses «avelã da índia» ou avelana Indiae.
216 Tomé Pires trato. Jemtes de gramdes cabedaèes era gramde o trato delia sempre tinha mujtas naaõs tem bom porto & nam somemte ysto mas na neguoceção das armadas que se nelle faziam era luguar des- posto por Rezam da madeira & dos ofiçíaees & por ser mujto abastado mujto forte sempe mujto acompanhado de Jemte bramqa chêa de soberba E nom sem causa por que ho Regno de guoa Jaz no amaguo de todas as Jmdias aquj se celebrauã gramdes festas ao profano mafamede que sam mudadas ao nome de Jhuu xpo hee a cidade De guoa tam forte como Rodes tem quatro fortalezas outas muj Riqa memte obradas pollos lugares necesarios em dano do nome de mafamede//. De todos os Regnos Darabija petrea dormuz da persya do Regno de cambay3 traziam cavallos a guoa E daquj se espa- lhauam pa o Regno De daquê & de narsijmgua amtigamemte/ Despois de guoa ser tomada dos mouros avja narsymgua cavallos por baticala E asy Recolhia guoa todallas mercadarias Destas partes Retornauam beirames biatilhas aRoz arequa betelle he m,os pardaos & orãos porque aquj valem os cavallos mujto ha cauallo q vali oitocemtos pardaõos moedas De trezemtos trinta cimq° Rs (161) cada huuã// Recolhia mujtas especiarias & mercadorias destas outas bamdas em camtidade// Tinha o Regno De guoa mujtas Naãos q Nauegavam pa mujtas partes he as naõs De guoa eram estimadas fauorecidas em todas as partes por q ha mourama tinha toda sua fortaleza nestas partes em ho Reino de guoa a gemte q navegava he naturall da terra os Do maar porque ho Regno de guoa tem boa Jemte de maãr que sostem o trabalho asy que nauegamdo os de guoa (161) pardaos — Nome popular entre os portugueses para moedas de ouro ou prata da índia Ocidental com o valor de 360 reis e 300 reis rcspec- tivamente. Os 335 reis indicados por Pires como o valor do pardao do seu tempo corresponderiam hoje [1943] a cerca de treze xelins, com quatro ou cinco vezes o seu poder de compra, oraos — Moedas também chamadas horaos ou oras pelos portugueses, equivalentes a pagodes (Hobson-Jobson, s.v. Pagoda c) ou pardatt de ouro (Dalgado, s.v. Orá).
A Suma OrientaI 217 em outs0 lugares E os das outsa partes em guoa era seu trato gramde domde se Recolhiam gramdes Remdas dos drrtos Das mercadorias das amqoraJes & dos drrtos da terra das tenadarias eu ouuj mujtas vezes dizer q guoa com seu termo asy, dos drrtos de tudo o que vem a ella como de seu naturall Remdia cada huu anno quoat° cemtos mjll pardaoõs E segumdo suas cousas parece ser asy//. Neste Regno de guoa ha mujtos Jemtios mais q no Regno jemtios De daquem delles muj homrrados & de gramdes fazemdas E na deste mão destes Jazem todo o Regno casy/ porque sam naturaêes Regno E tem as terras & acodem com as Remdas sam Delles homees fidallguos de gramdes Jemtes & terras suas p®8 mujto estimados viuem em suas posiçoes cousas mujto alegres & viçosos Riqos hos Jemtios Do Regno De guoa sam mais validos q hos do Regno de cambay3 tem fermosos templlos seus neste Regno tem sacerdotes ou bramjnes de muj(as maneiras ha amtre estes bramjnes geraçooes mujto homrrados delles nõ comem cousa q tiuese samgue nem cousa feita por maão doutrê sam estes bramjnes em toda a terra acatados moor memte amtre Jemtios servem De levar mercadorias E cartas segura memte pola terra como os De Cambaya os pobres que os Riquos tem primjnencia de gramdes sres sam agudos avisados letrados em sua creemça nom se fara huu bramjne mouro que ho facam Rey// As Jemtes do Regno de guoa por nenhuu tormemto com- fesam cousa q façam sofrem gramdememte so em ser atormem- tados de diuersos tormemtos amte morrem que comfesarem o que Detremjnam de calar E as gemtis molheres de guõa sam geitosas no vestir/ as q dançam & volteam o fazem com melhor maneira que todas as destas partes//. custumase gramdememte neste Regno de guõa, toda molher Foi. I34r. de Jemtio queimarse por morte de seu marido amtre sy tem todos ysto em preço & os paremtes delia fiquã desomrrados quamdo se nom querem queimar & elles com amoestacoes as fazem queimar nas q de maa memte Recebem o sacrefiçio E as q de todo pomto se nom queimam fiquã pubricas fornjcarias
218 Tomé Pires E ganham pa as despesas & fabricas dos templlos Domde sam freigesses he nisto morrem estes gemtios tem cada huu huuã molher por hordenanca mujtos bramenes prometem Castidade & sostenna sempre// Nos out°s portos do Regno De guòa se carrega mujt0 aRoz sall betelle areqa em que tratã cada huu Destes Rios tem povoa- çoêes aRedadas daguoa com temor/ os q Destes sam seguros nauegam os que nam perdemse. estam Da maõo do cabay0 com capitaees q Recolhem as Remdas da terra & delles com Jemte De guarnjcam de cavalo por que tem comtinoadamemte guerra com as terras da província de narsymgua//.
A Suma Oriental 219 [LIVRO TERCEIRO] [DE BENGALA À INDO-CHINA] [Bengala — Aracâo — Fcgu — Sião Birmânia — Camboja — Champal — Cochim-China] [bengala] hos bemgalas sam mercadores de gramdes fazemdas honièes que nauegam em Jumcos viuem em bamgala gramde numero De parses Rumes turqos arabios mercadores de chaull E dabull he de guoa a terra he mujto abastada de mujtos mamtimemtos De carnes pescados arrozes triguo barato ho Rey dela he mouro homem de peleJa tem gramde nome antre hos mouros/ ha Jète que tem a gouVrnamça do Reyno sam abixíjs estes sam ávidos por cavaleiros sam mujt0 estimados os Rex seruense em suãs Camaras Delles sam estes pincipaêes capados estees taees vem a ser Reis E gramdes Sres no Regno os que nom sam capados sam homees da guerra a esta nacam hobedeçe o Regno por medo despois do Rey em bemgala se custumã os capados mais que em outra parte do mundo he gramde parte Delles capados/ os bemgalas pola maior parte sam homees pretos nedeos Jemtis homêes agudos mais que todas as nações sabidas & ha aguora setemta E quoatro annos que em bemgalla se vsa ho costume de paçêe que quem quer que mata o Rey fica Rey tem E creem que nenhuu nam pode matar o Rey sem con- semtimemto de ds E aquelle fica por Rey E desta maneira Duram hos Reis muj10 pouco. Reynam sempre Deste tempo athèora. abixijs hos que sam gramdes pryvados do Rey asij se faz ysto que o Reyno nom Recebe aluoroço hos mercadores viuem asose- guada mamte he Ja custume/ Damtes nom se fazija asy mãs era de pay a filho tomarom este Custume de paçee & sosteno gramdememte//. bemgalas sam gramdes merca¬ dores E mujto soltos emsinados na merca¬ doria sam homees domésticos os merca¬ dores sam fallsos todos/l. H Manei¬ ra do soçedi- memto Do Regno! i.
220 Tomé Pires Estado do Rey. Reis tribu¬ tários ao Rey de bemgala. Ho Rey de bemgala he poderoso (162) tem muj,a Jemte De cauallo/ tera em seu Regno cem mjll homês de cauallo peleJa com Reis gemtios gramdes senhores E moores que elle mas ho Rey de bemgalla por caussa de ser mais chegado Ao maãr tem mais eixerçiçio De guerra he pervalece sobre elles he mujto dado aas armas he mujto Mouro De vomtade ha trezemtos annos que os Reis deste Regno se tornarom mouros he terra mujto Riqua // Comfijna EU Rey Dorixa com bemgalla Da bamda De choro- mamdell. he gramde rrey este he he seu trebutario Este tem mujtos alifamtes he he Rey primcipall he Riq° desta terra sam os boos Diamamtes//. Comfyna Da bamda de peguu com bemgalla Raçam(163) este tem muj,os cavãllos he he guerreiro e esta sempre com elle em guerra E este he também trebutarjo ao dito Rey De bemgalla// ElIRRey de coos(164) he Jemtío Dizem que tera setemta mjll homèes De cavallo & também he trebutario a elle/ Este Regno De cõus tem mujta pimemta & mujta seda he amfiam// EIlRey De típura(165) também he Jemtio no sertão E tre- (162) No tempo de Pires o soberano maometano de Bengala era Alauddin ou Ala-ud-Din II, que reinou de 1499 (?) a 1511. (163) Este é o Arcattgil de Barbosa e Arraçam, Aracani, Arracão. Aracão ou Racão dos cronistas e das cartas portugueses. (164) Coos ou Cõus. Caus no MS. de Lisboa. Na sua descrição de Bengala, Barros (IV, ix, 1), depois de se referir ao Reino de Arracam, men¬ ciona o Reino de Cou. É provável que Coos corresponda ao Cou de Barros. Ele escreve «dizem os Bengalas que. fizeram-se cm liga os Tiporitas com os do Reino de Cou, também inimigo de Bengala, com que lhe levantaram a obediência; e segundo este Reino de Cou é grande, e tem mais gente de Cavalo que nenhum de seus vizinhos e é áspero por as muitas serranias que tem, pudera por si só conquistar Bengala, quanto mais ajudado dos Tiporitas que é gente mui belicosa». (165) O estado de Tripura, em Bengala, que aparece como Reino de Tipora na carta de Bengala de Lavanha, por ele, em 1615, acrescentada à sua primeira edição da Década IV de Barros. Bocarro chama-lhe Tipara. ch. xeix.
ESTAMPA XXII Carla de Francisco Rodrigues (foi. 24) mostrando Ceilão, Ilhas Nicobar e o Estreito de Malaca.
ESTAMPA XXIII Carta de Francisco Rodrigues (foi. 33) do Golfo de Bengala, com parte de Ceilão c as Ilhas Andamani e Nicobar.
A Suma Oriental 221 butario seu este he de muj,os alifãtes E sôr De todos estes quatro /este Reis sam gramdes Srês seus vasallos nos Regnos destes se fazem tipura as cousas Ricas que ha em bemgala E porque nom podem viuer ,em[ sem ho maãr obedeçenlhe por causa De dar saída a suas mer- m“''° algodaml cadorías aguora avera tres annos q sam aleuamtados comtra jmfjmí/0i bemgala tem gramde guerra E nom lhe obedeçem//. tem guerra ElIRRey de bemgala sempre com o Rey de dely Foi. 134v. E peleJam os capitãees & Jemte De huu E Doutro sempre o Rey De dely hc mujto mor senhor que ho Rey De bemgalla mas esta afastado De bemgalla por Jornada De quinze dias E o camjnho nom tem muy,a aguoa E por esta causa nam he obidiemte o dito Rey De bemgalla ao dito xaqedarxa (166) Rey De delij Este Rey he Jemtio gramde Sõr E mujto temjdo De gramdisymo numero De cauallos alifamtes & de Jemte// Ho primcipall porto he o da cidade de bemgalla (167) Domde portos De bemgalla (166) Sikandar Lodi, que reinou até 1517. (167) «A cidade de Bengal» era a antiga capital de Bengala, a grande cidade histórica de Gaur ou Gour. As suas ruinas, estendendo-se sobre uma imensa área. ainda existem a algumas milhas para sul do Bazar Inglês, na margem oriental do velho canal do Gangcs. Quando Pires escreveu esta informação, Gour estava em pleno esplendor; tinha sido. embora com altos e baixos, um grande centro durante alguns séculos. A identificação da chamada «Cidade de Bengala», a que Varthcma c Duarte Barbosa tam¬ bém se referiram tem levantado muita controvérsia. As opiniões têm-se dividido principalmente entre Gaur, Chittagong c Satgaon além de vários outros locais. Estudando c discutindo novos dados, extraídos principal¬ mente da Suma de Pires, das crónicas portuguesas e cartas antigas, tratei deste assunto interessantíssimo, pormenorizadamente, cm conjunto com o de Satgaon (Sadegam), cm dois artigos — The 'City of Bengal' in carly reports c A ‘Cidade de Bengala no século XVI, publicados respectivamentc no Journal of the Royat Asiatic Society of Bengal e no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa. Cheguei às seguintes conclusões: (I) A ‘Cidade de Bengala' dos escritores dos princípios do século xvt era Gaur. Há muitas razões a favor desta identificação, mas o argumento decisivo é o facto de Tomé Pires mencionar a ‘Cidade de Bengala’ e Satgaon como locais dife¬ rentes e dizer que aquela grande cidade de 40.000 fogos, fica a dois dias
222 Tomé Pires ho Regiio tem ho nome vam ê dous Dias Da foz pollo Rijo a çidade E dizem que no mais baixo De maree vazija tem tres braças a cidade sera de coremta mjll vezinhos o Rey tem seu asemto nesta cydade sam casas Dola todas somemte ha do Rey he De adobes bem obrada este Rijo he o ganJes Dizem os bem- gallas q vem do çeõ/ Ho outro porto he sadegam(168) comtra orixa he bom porto tem boa foz he boa cidade Riqua homde ha mujtos mer¬ cadores sera de dez mjll vizinhõs estas sam as primçipaêes cidades De bemgalla De mercadores na terra firme ha outas mas he cousa pequcnã he muj10 forte E de Jemte De guerra E do scrtaõo com- tinoadamemte tem guerra// orixa que he no Regno Doríxa he porto da cidade doríxa esta Junto com ho maãr cultarey arjamom/ paleacate/ naãor/ nagapatam do gramde E nomeado turucoll De narsijmgua/ tudo ysto sam portos na bonua qlim terra De narsymgua// (169) de viagem rio acima, o que exclui Chittagong. (2) Mais tarde, contudo, quando os Portugueses se fixaram em Bengala, a designação de ‘Cidade de Bengala' correspondia a Chittagong como se prova com vários cronis¬ tas portugueses e cartógrafos do século xvt. (3) Tanto quanto é do meu conhecimento a designação ‘Cidade de Bengala' nunca foi aplicada pelos Portugueses a qualquer outra cidade ou porto de Bengala. (168) Satgaon é hoje uma cidade arruinada a noroeste da cidade moderna de Hugli, a vinte e três milhas para norte de Calcutá. Foi a capital mercantil de Bengala desde os dias do governo hindu até à fundação de Hugli pelos Portugueses em 1579. Os Portugueses dizem O Goli ou O Golim, exacta- mente como dizem O Porto. Deste resultou Oporto; do mesmo modo aquele deu Hooghly ou Hugli. (169) No MS de Lisboa estes nomes lêm-sc: «callcari/ ariamão palea¬ cate na ornaga/ patamto/ turo coll/.» porto e cidade de orixa — Tal como Gour corresponde à Cidade de Bengala, assim também Cuttack, a capital histórica de Orissa, deve corres¬ ponder à cidade doríxa. Cuttack, a principal cidade de Orissa fica na mar¬ gem direita do Mahamadi River a cinquenta e cinco milhas da sua foz, no vértice do delta. Deve ter sido um bom porto antigamente, mas os leitos
A Suma Oriental 223 Vem De benigalla a malaca cadano huu Junco E dous as vezes vali cada huu oitenta nouemta mjll czdos trazem Roupa dos rios deltaicos têm sido desde há muito assoreados e as suas saídas obstruídas por baixios e bancos de areia. Barros (I, ix, 1) diz que a costa do reino de «Orixá, devido à sua rudez, tem poucos portos, apenas Panacoie, Calingam, Bazapátan. Vixáopatan, Vituilipatan, Caliithápaum, Naciquepatan, Puluro. Panagate e Cabo Segógora». Muitas cartas antigas mostram apro- ximadamente na latitude de Cuttack (20° 29' N), um porto chamado Calecota ou Casecota; por vezes um outro nome, Casegate, aparece logo a norte de Calecota. cultarey — Este deve corresponder a Caleture, mencionado por Barros como um dos sete lugares importantes na costa entre S. Thonté de Meliapor e Guadavaij (Godávari). Aparece com nomes semelhantes nas cartas antigas a cerca de 14° 30' N, correspondendo talvez a Nellore (14° 27') no Penncr River, ou a Allur na sua foz. Contudo, o principal e mais seguro porto natural na costa do Choromandel a norte de Madras é Cocanada, em 16“ 57' N. arjamom — Aremogam em Barros e semelhante em várias cartas antigas. Corresponde a Armagon Shoal, 13° 55' N: o porto de Blackwood fica entre o Armagon Shoal e a costa. paleacate — é assim que está escrito em todas as crónicas e cartas antigas portuguesas. Corresponde a Pulicat, 13“ 25' N. naãor — Aahor em Barros. Corresponde a Nagore, porto a três milhas a noroeste de Negapatam. nagapatam — Negapatam. «O grande e famoso turucol» não pode ser localizado na própria cidade, onde o mais antigo templo data de 1777. «A única outra cidade considerável (em Negapatam Taluk) é Tiruvalur, notᬠvel pelo seu templo e carro ídolo». Imp. Gaz. of Índia, s.v. Negapatam Taluk. «Há (em Tiruvalur) um templo muito rico, que é frequentado por peregrinos». Idem, s.v. Tiruvalur. Deve ser este o turucol ou templo a que Pires se refere. O idolo no carro era anualmente levado em procissão através de certas partes da cidade de Negapatam, dando lugar a cenas de auto-imolação semelhantes às do famoso festival Juggurnaut de Puri, em Orissa. bonuaqlim ou Bonuaquelim, e também com a grafia Benuaquelim—Bonua, corresponde ao malaio banuwa, que significa terra, país. Qlim, ou quelim, do malaio Keling ou Kling, era o nome dado pelos Portugueses aos nativos que vinham de algures da costa do Choromandel para negociar ou viver em Malaca. Bonuaquelim significa, pois, «Terra dos Klings». Vide p. 170.
224 Tomé Pires Naue- gam estes em malaq" he em paçêe quatro cimqo naaos & Juncos cadano he aguora aJmda gramde- memte/ Retorno de malaca Va hemgala. branca fyna synabafos de sete sortes chautares De tres sortes beatilhas beiJramês (170) panos outs0 Ricos trarã atee vimte sortes Delles trazem aço Riquysymos çeòs De camas Dantre- talhos Dc todas cores E mujt0 fermosos paredes De casas como panos Darmar E asy mesmo comservas Dacuqr de diuersas maneiras Em mujta abastamça todos os mjrabulanõs em com- serua gengíures laranjas pepinos cenoyras Rabõos limõecs azam- boãs figuos aboboras combalengas E outsa mujtas fruitas & destas também em vinagre trazem mujta copia De vasos De barro pardo mujto cheirosos q se estimam mujto nestas ptes & valem baratõs//. A Roupa de bengala vali mujto em malaca por q he da valia de todo leuamte pagam em malaca sejs por çemto sam pesoas q sabem mujto na mercadoria E Daquj Dc malaqa empregam todo seu dr° E outro q tomam em Retorno pa bengala em que fazem mujto proueito o que em pacee nom podem fazer somemte pimemta E seda// A primçípall mercadaria q leuani pa bemgala he camfora de burney & pym,a Destas duas gramde copia crauo maças noz mozcada samdallos seda alJofar gramde soma porçelanas bramcas mujtas cobre estanho chubo azougue porcelanas gramdès Vrdes dos leíjos amfiam dadem he alguu pouco De bemgala Damas- quos bramcos & Vrdes em Rolados (171) da chyna barretes Dc grãa alcatifas valem crises & espadas Da Jaõa//. (170) sinabafo — Pano fino dc algodão branco feito cm Bengala. chautar — Grande peça de tecido, manto ou xaile, branco ou cor. beirame — Tecido de algodão fino dc várias cores. (171) Enrolado. Esta palavra é muito frequente nas crónicas e alguns dicionários portugueses registam-na como significando «uma espécie de antigo tecido indiano» ou uma «espécie de tecido de lã». Dalgado (s.v.) não conse¬ guiu determinar o que era este tecido ou a razão do nome. Resende men¬ ciona «enrrollados que são finos como hofetas» (uma espécie dc tecido zefir). Livro do Estado da Ilidia, foi. 321 r.
A Suma OrientaI 225 Todo mercador q vay a bemgala ha De paguar De oito três he este drrto asy Desordenado acham que he bom por causa que estas mercadorias valem tanto na terra E o Retorno he em cousas De tamta valija E de tam pouquo balume q afirmam com huu se ganham Dous & meio & três vemdida a mercadoria a saluamt0/ partem daqij na emtrada dagõsto he em trimta dias sam em bemgalla estam 11a fazemdo mercadoria partem de laa ao pmeiro de feuer™ E poem outro tanto ate malaq8// quamdo querem Desomrrar huu homê chamamlhe bemgalla sam gramdes tredores sam mujto agudos em malaq8 ha gramde numero De bemgallas homees E molherês sam homêes pescadores & oficiães alfaiates os mais Delles he alguus trabalhadores mujto maõos De trabalho//: Em bemgala vali mais ho ouro a sejsta parte que em malaq8 E a prata he mais barata em bengala que em malaqa a qujmta parte E as vezes a quarta parte a moeda da prata chamase tanqat pesa meio taell que sam casy seis oytavas vali esta moeda em malaq8 vymte calaijs vali em bemgala sete cahon cada cahon vali dezaseis pon cada pon vali oitemta buzèos De maneira q cada cahon vali mjll ije & oitemta buzèos E vali cada tancat oito mjll E nouecemtos & setemta buzèos sae ao calaim quoa- trocemtos & coremta & oyto q he preço por que dam huuã g8 boa E por isto se poderá sabr o que poderã compar p° ellse chamanse os buzèos em bemgala cury//. (172) Drrtos que se paguani em bem¬ galla. Foi. I35r. Tempo Da mon¬ ção & IMoecla de bem¬ gala por homde/ se faz a merca¬ doria/ (172) tanqat — A palavra tucka ou táká é ainda usada em Bengala para rupia. Do sânscrito tankaka, «dinheiro de prata cunhado». calaim — Calay, significando estanho no Oriente. Embora geral¬ mente utilizado neste sentido, foi também usado como significando moeda estanhada. Referindo-se à tomada de Malaca por Albuquerque em 1511, Barros (II, vi, vi) afirma que «não houvesse outra moeda lavrada senão de estanho». Ao descrever o dinheiro corrente no Rio Cuama, Fr. João dos Santos escreve: «Também é moeda corrente estanho, a que chamam calaim, feito em pães, cada pão de meio arraiei, e chamam a estes pães pondos e •7
226 Tomé Pires Homde Hos buzeos correm por moeda em oríxa e em todo o Regno valem de bemgalla he em Raqã he em martamane (173) porto do Regno & correm j)e pegQu hos buzeos De bemgala sam maiores com huuã beta estes buzeos _ p° moeda/ cada um pondo destes vale duas langas, que são seis vinténs». Ethiopia Oriental, I, ii, viii. Pires disse postcriormcnte, ao tratar da moeda de Pegu, que «o calaim vale onze reais e quatro cetis»: e ao tratar da moeda de Sunda fala de «tresentos calaims, que são nove cruzados», fazendo o calaim igual a doze reais ou reis; confirma isto ao tratar da moeda de Malaca. cahon — As tábuas de Cowry, datadas de cerca de 1778 c 1854, mostram os seguintes valores — «4 kauris = 1 ganda; 20 gandas = I pan; 4 pan = I ãna; 4 ãnas = 1 kãhan.» Hobson-Jobson, s.v. Cowry. Esta tábua de valores concorda exactamcnte com os dados de Pires. pon ou pone—Pan, a antiga designação Bengali para oitenta cowries, do sânscrito pana, «trocar géneros», daí o panam malaio e tâmil, panam 'dinheiro', e, segundo Hobson-Jobson (s.v. Fanám) e Dalgado (í.v.v. Fanão e Pone), o fanam ou fanão, uma antiga moeda de ouro e prata usada na índia pelo menos até o século passado. Nunes (p. 37) diz que os Cauryns «são correntes em Bengala, 80 cauryns fazem um pone: 40 a 50 pones são dados por uma tangua larym.» Tratando dos «Pesos da China», Pires afirma que o picoll contém um cento de cates, o cate dezasseis taeis, o tael dez mazes e o maz dez pons. buzeo ou cury — Cowry ou Kauri. Castanhcda (IV, xxxv) diz: «Há nestas ilhas (Maldivas)... búzios brancos pequenos a que chamam cauris que servem de moeda miúda em Bengala, porque sam mais limpos que o cobre de que a haviam de fazer, que dizem que lhe suja as mãos». Os copistas dos MSS. de Paris c de Lisboa, assim como também Ramusio, cometem todos, um pouco por falta de cuidado, o mesmo erro, ao dizerem que o tankat vale 8970 buzeos. Ramusio faz um outro erro ao dizer que o calaim vale 458 buzeos. (173) Martanianc mais adiante: Martahane no MS. de Lisboa e em Ramusio. Aparece como martabane na carta chamada de Cantino, como Martauão em várias cartas portuguesas dos meados do século xvr, e como cidade de martabam na carta de L. Homem de 1554. Embora a forma usual nas crónicas do século xvi fosse Martabam, Giovanni da Empoli, contem¬ porâneo de Pires, numa carta de 1514 escreveu também Martaman. Archivio Storico Italiano, III, Appendice, p. 54. Firenze, 1846. «Este é o nome convencional de um porto a leste do Delta Irawadi e do estuário Sitang, antigamente de grande comércio, mas agora em relativa decadência», na Birmânia. Hobson-Jobson, s.v. Martaban.
ESTAMPA XXIV Carla dc Francisco Rodrigues (fl. 34) da Península Malaia e parte norte de Samatra.
ESTAMPA XXV Carta dc Francisco Rodrigues (fl. 30) da Costa Nordeste de Samatra, Ilhas Linga e Banka, e Costa Noroeste dc Java.
A Suma Orienta! 227 amarela pollo meio estes valem em todo bemgalla E tomanos em grãDe camtidade de mercadorias asy como ouro e em orixa nom valem estes em outa parte E sam mujto prezados nestes dous lugares/ Dos de peguu E Racain se dira qndo se dos lugares falar vem estes estolhidos Das Jlhas de díua em muyta cãtídade/ Ho pesso De bemgalla chamase dalaa(174) he braço de /Maneira pão sem comçhas & nas pomtas atam a mercadoria E asy se Do peso! faz E com hos mercadores se leuaes peso lamcam lhe a comta E fazes preço por elle E fazes vosa mercadoria Dizem q dez ou doze p“-s leuam hos drrlos cada huu o seu que sam ofiçiaees Díso E que ao Dizimar fazem agrauo aos mercadores E tiranjas gramdes // Dizem os mercadores bemgalas q este Rey De bemgalla que se chama çoltam vçem xaa(175) que nom he benjuollo aos mercadores E que sse ssaem mujtos pa outsa partes/ tem este Rey De suas mamcebas vjmte & quoatro fs° machos he muj138 fas//- [aracXo] Ho Regno Derracam he amtre bemgala he peguu he Rey Reyno de Jemtio muj'° poderoso no sertão tem no maar huu porto bom Racão (174) Dila no MS. dc Lisboa; daiia em Ramusio. O sânsciito dãi significa «dividir». «Dáli [Hindi]. Um tabuleiro ou par de tabuleiros, unidos por umas fitas a cada uma das extremidades de uma vara, levada aos ombros». G. C. Whitworth, An Anglo-htdian Dictionary. Segundo o Dicionário de D'Rozario paiiá é balança em Bcngali. (175) Sollão bamxar no MS. de Lisboa; Soltam vamxoa em Ramusio. Neste caso, como cm muitos outros, mal se pode imaginar o que Pires escreveu originariamente, ou o que ouviu c como o escreveu: Este Vçem Xaa pode ser um dos «gentios mui poderosos, cuja geração sào estes que agora cha¬ mam Venezaras» (Orta, X), identificada por Ficalho (I, 129-30) e Yule (Hobson-Jobson s.v. Brinjarry) como Banjaras, Vanjaras ou Brir.jarries, gente que, habitualmente, se deslocava dc um lado para o outro, levando os seus rebanhos c mercadorias para diferentes mercados. O rei ou sultão de Ben¬ gala era também conhecido por Alauddin Husain Shah no tempo dc Pires.
228 Tomé Pires Domde vem ho almjzqr & Rubis fijnos/l Foi. 135v. homde tratam hos peguus & bemgalas E quelijs nom de mujto trato chamase o porto mayaJerij (176) Jumto com este porto tem o Rey huuã fortaleza De adobes forte amtre ellês// Na terra De Raquam ha mujla Jemte De cauallo & mujt0B alifamtes ha alguuã prata, ha tres ou quoatro sortes de panfios Dalguodam De que vestem os comarquaaos sam panõs De suas guisas E traJos E alij os ha mais q em outas ptes & vem alij p° ellês// Comfyna o Regno De rraquã no sertam lomje com a serra gramde q se chama capelamguam (177) homde ha mujtas pouoa- çoes de gemte nom mujto domestiqa estes trazem os almjzqueres he Rubijs a gramde cidade Dava (178) q he a pimcipall cousa do Regno De Racam & daly vem teêr a peguu & de peguu se espalham j pa bemgalla Narsijmgua E pa paçêe he malaqa Deste capelamguã he a mjna Dos Ditos Rubijs os melhores que ha nestas partes ho almjzqr he dalymarias como cabras esfolam as E a carne pisada com ho samgue fazem Do coiro hos bisalhõs a que chamamos papos (179) e esta he a Vrdade Do almjzqr he nom Da postemas E se os olhardes bem mujtos achares ajmda com hos osos// (176) Malagery (?) no MS. dc Lisboa; Maiarani em Ramusio. Isto deve ser Myohaung, no Distrito Akyab da divisão Arakan de Burma. «Myo- haitng Village (‘cidade Velha'), antigamente a capital do antigo reino de Arakan. As ruínas do forte existem ainda». Imp. Coz. Índia. s. v. (177) Capelamgam no MS. dc Lisboa; Capelangam em Ramusio. «Este é o nome dado por vários viajantes do século xvi, que foram até a montanha da Birmânia, donde, conforme se dizia, vinham os rubis vendidos cm Pcgu. Hobson-Jobson, s.v. Capelan. Capeiam cm Barbosa. Yulc rcferc-sc a «Capclang, a região dos rubis ao norte de Ava, nome con¬ servado até data muito mais tardia, mas agora não detectável». Cathay, I, 177. (178) Ava. «O nome da cidade que durante vários séculos foi a capital do Império Birmanês». Hobson-Jobson. s.v. Ava. (179) A expressão «papos de almíscar» era corrente na índia e encon¬ tra-se mencionada no Roteiro de Vasco da Gama (1498), p. 112.
A Suma Oriental 229 A moeda Desta terra he cãça q qr dizer fruseleíra (180) /corre em pedaços asy como se dira Delia em peeguu qmdo se Delle neste falar E também buzeos bramcos como os De peguu he Regno Regno muj10 abastado De carnes aRozes E cousas de seu comer//: buz,os^ [pegu] Peeguu he Regno De Jemtios he terra mais farta que todas /pegOul as q temos vistas he sabidas/ he mais farta que syão casy tamto como a Jaõa tem no mãr tres Portos com tres guouernadores que na limguoaJem Da terra se chama Guouernador toledam ho porto mais chegado a terra he Racam he copymy este tem ho trato Da bamda de bemgalla he bonua qlím ho outro he (180) Ao descrever a moeda de Pegu, Pires diz que a fresuleira ou cança de cobre e estanho é melhor do que a de cobre, estanho e chumbo, e a pior é a de cobre e chumbo. Ao tratar da China, a palavra é escrita fusaleira. Nunes escreve (p. 38): «Neste Reyno de peguu não ha dinheiro amoedado, e o de que se usa e pratica he de bategas, bacios e outra cousas de serviço, que são de huum metal como frosyleyra, quebradas, que se chama gamça». «Neste reino (em Pegu) não se lavra moeda, & correm por ela umas bacias velhas que se serviram e são de fusilelra». Castanheda, v, xi, p. 19. Um documento datado de Cochim, 8 de Setembro de 1511 men¬ ciona vasos e um castiçal de fusaleira da terra. Cartas, III, 26. 30. Nos Comentários (III, xviii), frusseria é mencionada como mercadoria trazida para Malaca. A cãça de Pires e a gamça de Nunes derivam do malaio gansa, do sânscrito kansa, «metal de sinos». Vários escritores antigos têm-se refe¬ rido a esta substância como uma mistura de cobre e chumbo, cobre e estanho ou cobre, estanho e chumbo. Os sinos também podem ser feitos de latão ou de uma mistura de cobre e chumbo, principalmente no caso de sinos pequenos. Mais adiante Pires menciona os «sinos de cobre e de fuseleira» de Java (p. 303), foi. 150v. Parece que fruseleíra, frosileira, freseleira, fuse¬ leira, fusileira ou frusseria è hoje palavra portuguesa esquecida, nem sequer registada nos dicionários portugueses. Contudo, os bons dicionários de espanhol registam ainda a antiga palavra fruslera (do latim frustillum, peça pequena), que significa um «ingote feito de aparas de latão». A grafia cor- recta em português deveria ser fruseleíra.
230 Tomé Pires dogÕ(181) este he porto gramde De gramde çidade & de mujtos mercadores he o toledã Dele he mayor que hos out°s neste porto se fazem hos Jumcos por caso Da madeira mujta & boa que tem/ ho outro porto he apartado De martamane homde vame hos De malaq® & os de paçee e também he boa cidade gramde (181) Copymy — Copeny no MS. dc Lisboa; Copini em Ramusio. Pires escreveu Coximin, como aparece mais adiante, c o copista trocou o x por um p, sendo as duas letras bastante semelhantes. Deve tratar-se de Cosmim, cidade, porto e rio mencionados por vários escritores antigos. Cas- tanheda e Pinto referem-se a Cosmim várias vezes. Numa relação antiga onde se diz que «Estes são os Rios com as alturas que estão de Bengala para Malaca» (Livro de Marinharia, p. 238), o rio Pesmim fica situado a 16° 30'. Este é pois o Bassein River. Pesmim sugere Palhein, o nome nativo para Bassein. Em 1586 o viajante inglês Ralph Fitch «entrou pelo Bassein River (braço ocidental do Irawadi) e seguiu pelo rio acima durante três dias até Cosmin... Parece que correspondia à moderna cidade de Passein». Dames, u, 156. Yule menciona «Cosmin, o porto que representa o moderno Bas¬ sein até ao princípio do século passado, mas o local exacto hoje é des¬ conhecido». «Calhay i, 177. «Bassein tem sido durante séculos um centro comercial de alguma importância; e se não se pode identificar com o antigo porto de Cosmin, referido por Cesare de Fcderici e Gaspar Balbi, é possível que Cosmin estivesse dentro dos limites do actual Distrito», diz o Imp. Gaz. Ind., s.v. Bassein Town (Palhein). Pires estava certo ao descrever Copyny, ou Cosmin, como «o porto (dc Pegu) mais chegado a terra de Rakan». Algu¬ mas cartas antigas portuguesas representam o que deve ser tomado por Bassein River como ramificação dc um amplo delta correspondente aos actuais rios Irawadi, Rangoon, Pegu e Sitang, todo o conjunto sob o nome de Cosmim ou Rio Cosmim, como aparece mais claramcnte na carta de Eredia da Baía de Bengala (foi. 73). Esta é a razão por que Castanheda, num outro local diz que «...à boca do rio onde está Pegú, noventa léguas por ele acima à borda de água: e a dezoito está uma cidade chamada Cosmi que é o porto de Pegú» (IV, v). É óbvio que ele confunde Cosmim com a antiga Dagon ou Rangoon. Correia (li, 474) faz a mesma confusão. Pinto (cxc) men¬ ciona na mesma frase a cidade dc Cosmim e o rio dc Digum (Dagon) como totalmente distintos. A carta de Fra Mauro regista Chesmi. A mais antiga carta portuguesa em que encontrei Cosmj é a anónima de c. 1540. Dogõ— Dagon, o nome original de Rangoon. No MS. de Lisboa escreve-se Degoni. Aparece como Digum na Peregrinação de Pinto. cxc.
A Suma Oriental 231 de mercadores a Jemte baixa Deste Regno he em sua terra trauesa fora sam mamsos bõos trabalhadores Jemte symprez// Ho prímcipall he aRoz vimram cadano a estes dous lugares he a peedir qnze Dezaseis Jumcos vimte trimta pamgaJauas (182) De cargua como navijos trazem mujto lacar E beyJoym almjzqr pedras Rubijs prata manteyguas azeytes sall çebollas alhõs mostarda (183) (?) & cousas a estas semelhantes De comer par¬ tem em feuerro vem em março na fym & p todo abrill sam homêes q vemdem sua mercadaria mansa memte a guisa da terra apcçã sete oyto mercadores a mercadoria por yso estam & vemdenna// Todo mamtimemto nom pagua nenhuu Drrto em malaqa nem em paçêe som,e presemte a sua cortesya segumdo a terra estaa em costume Do all pagam Seis por çemto he gramde ho ganho De peguu a malaq8 no aRoz & no laqa E em tudo ho all// He a primcipall cousa porcelanas baixas de sortêes E de lauores Vmelhos/ azouge muyto/ cobre/ vermelhão Damascos emRolados escuros De frores que vem logo de china pa elles po que pa outrem nom seruem estanho Jmfimdo fruseleíra em pedaços qebrados E saãos ysto sobretudo que he moeda he porcelanas De sortes levam Jmfimdas aljôfar pouquo ouro// empegam todo seu Dr° E mais se o teuesem nisto/ crauo pouquo noz moscada maças pouqa cousa partem Daq ao primeiro De Julho & vam a paçee carreguar De p,a e em agto vam a marta- mane// Hos Drftos que pagam cm peguu hos ditos mercadores sam doze por cemto he Disto nom qujtam nada se aves De falar com ho guouernador aves de leuar psemte E asy he o costume De ma!aqa segumdo a causa asy aves de peitar, ho porto De martamane he priguoso tem pilotos da barra que se obrigam metervos dentso a saluamemto pagamdolhes seg° costume da Merca¬ dorias q vem de peguu a malaq11 E a paaçe/l Hos Drrtõs q paguam em malaq*/ Retorno De malaq’ pa peguuI Drrtos q paguam em peguu/ (182) Pangajana, ou pangajava, do malaio pe'njajap. Era um antigo barco de guerra, comprido e de pouco calado. (183) Esta palavra mostarda (?) difícil de ler no MS. de Paris, foi suprimida no MS. de Lisboa e cm Ramusio.
232 Tomé Pires Foi. 136r. Moeda de pegãu I Valia da viça de camçaj terra nam entrã nas agoas creçidas nem mortas tomanlhe meyo temp° pa seguramca//. A moeda de peguu pò homde se faz a mercadoria he frese- leira que se chama cança desta fruselra huua he melhor E outra somenõs a fruseleira De cobre e estanho he melhõr a de cobre estanho E chumbo a peor/ De cobre he chumbo a cança De martamane he a melhor esta pasa por toda ha terra a dez calaíjs tres aRates he cimquo homças a viça que he cate & m° Da Romãa gramde de malaq3 Estes sam Do peso nouo E a outa vali menõs vali ho calaím homze Rs E quatro ceitijs a Rezam De çem caljas por tres cz1108//(184) Vali a Viça da dita camça dez calajs emtam Dizes qmtas Viças de tall mercadorja me Dares pola viça da cança ou qmtas viças De camça queres pola vica de tall mercadoria E cada vica destas tem çem tiquas(185) estas çem tiquas valem tamto como huua viça// (184) Arrates—O arrátel (pl. arráteis) é um antigo peso português equivalente, primeiro a 14 e depois a 16 onças. Vide nota p. 430. Viça — Peso usado no sul da índia e na Birmânia, cujo valor é dado desde 40 onças (Nunes, Castanheda, Bocarro, etc.) até 53 onças. Yule (Hohson-Jobson, s.v. Viss) diz que «na Birmânia o viss = 100 likals = 3 Ibs. 5 5 */j, que é aproximadamente o valor dado por Pires. Cate — O caie ou catty é um peso variável introduzido da China em Malaca e agora fixado em 625 gramas, ou 22.9 onças. Os portugueses consi¬ deravam-no igual a 20 ou 28 onças, mas alguns autores descem-no mesmo até 4 onças, ou sobem-no até 30 ‘/2 onças. O cate aqui indicado por Pires seria igual a 35,34 onças; mas mais adiante, sob a epígrafe «Moeda, peso e medida de Pcgú» e «Moedas e peso cm Passe», foi. 141 v. diz que 5 cales são iguais a 12 arráteis, o que faz o caie igual a 38,4 onças. Ao tratar dos pesos e medi¬ das de Malaca Pires diz que «o caie da mercadoria pesa 32 3/< onças e 25 grãos». Cruzado — Antiga moeda portuguesa de ouro (mais tarde de prata) que no tempo de Pires valia 390 reais. Contudo, de acordo com o relato de Pires parece ser igual a 375 reais. O cruzado do tempo de Pires devia valer hoje cerca de 285 escudos. Cf. Azevedo, Épocas de Portugal Económico, p. 488. (185) Tiqua — «O peso quase-standard da prata corrente (nã cunhada)» na Birmânia. Um pouco mais do que três oitavos de uma onça. Hohson-Jobson e Dalgado .?.v. Tical.
A Suma Oriental 233 A prata he em aRuellas marquadas Da marqa de syam porpue Dela vem toda chama se o pedaço na aRuelia caturna (186) ho peso Delia he huu taell E meio que sam duas onças E huua oytaua E huu quarto vali em peguu quoatro ma E aqem malaq® vali huu taell De tijmas (187) que sam sesemta E quoatrocalijs (188) ho ouro tem a valija em peguu q vali em malaq“ levase gramde cam- tidade De prata a bemgãlla De peguu la vali mais alguua cousa//. A moeda pequena De peguu sam buzeõs pequenos bram- quos Jeerall memte valem em martamane qinze mjll huuã viça que sam Dez calajs/ quamdo sam baratõs dezaseis mjll quamdo sam mujto carõs quatorzemjll he geerall qinze mjll vali ho calaim mjll E qujnhemtõs/ por quoatrocemtos & ^inhemtõs Dam huuã galynha he por este preço as cousas semelhamtes a estas/ se em peguu nom correm os ditos buziõs senam em martamane E por esta maneira correm em Racam vem os buzêos das Jlhas de diva Domde fazem as toalhas em gramde copija & asy vem das Jlhas de bagangã (189) & de burney E trazenos a malaca E daquj vam a peguu// Ho dachim(190) De martamane Do bahãr he menos q ho (186) Esta frase não se encontra no MS. de Lisboa nem em Ramusio. (187) Mais adiante, ao tratar da moeda de Malaca, Pires diz que limas significa estanho. (188) Oitenta e quatro no MS. de Lisboa e em Ramusio. (189) Bamgamjam no MS. de Lisboa: Bandam em Ramusio. Talvez uma das pequenas ilhas Balambangan ou Banguey, ou a cidade de Bongon ou o porto de Jabongon na costa norte de Borneu. Vide p. 456. (190) Parece que dachim, dalcliin ou dachem era uma balança romana ou balança de braço, mas era também tomado como significando um peso (100 cates cm javanês). Segundo Nunes (p. 39), cm Malaca «o haar do Dachem grande tem 200 cates; cada catee tem 2 arrateis, 4 onças, 5 oitavas, 15 grãos, 3 dezavos.... O baar do Dachem pequeno tem 200 cales; cada cate pesa 2 arrateis». Marsdcn diz que cm Achin, para os pagamentos de ouro em pó «se está provido de pequenas balanças de braço, chamadas daching». Hislory of Sumaira. p. 401. Mais adiante, ao tratar dos pesos e das medidas de Malaca, Pires diz que verificou o dachim c que ele «justa- mente pesava três qintaes & tres arrobas & vimte seis arrateis», pp. 430-1. Moeda douro & de prata Moeda meuda peso & medida de peguuI
234 Tomé Pires Naãos guia- ralas a pegão Rey & pesoas princi- pãeesl de malaq® vijmte catês ho de martamane tem cemto & vimte viças que sam cemto E oitemta cates E o de malaqa tem duzemtos E estes cates sam Da Romaa gramde// Ho aRoz he por toõs tem cada tom Dez guamtas(191) Das De malaca afiladas Da terra/: Vem cadano huua naao das naoos do guzarate ao porto de martamane & de doguõ trazem Destas mercadarias cobre Vrmelham azougue anfiam panõs E leuam grãde camtidade De lacar/. que vali barato na terra aas vezes a quoatro viças o bahar as vezes a cimq° E seis & a sete E leuam beijoim pta pedras & tornanse & as vezes se pdem na barra//. Ho Rey estaa sempre dasemto na çidade de peeguu que he o sertãao da cidade ao porto De dagam he amdadura de huu dia E huuã noite E a martamane quoatro dias E a coximjm oito Dias/ Depos o Rey em valija he o braJa (192) que he seu capita & g*101, do Reyno E despois ho toledam de dogom E depois ho (191) Toõs — O mercai ou mercar, medida de grão em uso na Madras Presidency, também conhecida por loom. Hobson-Jobson, s.v. Mercáll. Nunes (p. 36, 59) refere-se ao mercar como medida de arroz no Negapatão, de capacidade variável, mas que «hum mercar de manteiga e azeite tem 2>/2 canadas». Ganta — A giianla, gama ou gamou é uma medida de capacidade da Malaia. Vários escritores portugueses do século xvi dão o seu valor como igual à canado portuguesa (1.4 litros), mas Nunes diz que era uma medida de arroz equivalente a cinco quartilhos (1.75 litros, sendo o quartilho um quarto de uma canada) em Malaca. Ibid. p. 39, 40. Mais adiante, ao tratar de pesos c medidas de Malaca, Pires diz que descobriu que o arroz contido numa gama «pesava três arráteis c dez onças do peso novo». Vide notas p. 304 c 430. Como o toom de Pcgu mencionado por Pires continha dez gamas de Malaca, era cerca de três vezes maior do que o toom ou mercar de Ncga- patam. O gamon ou gantong ainda hoje é uma medida de capacidade na Malaia, equivalente ao galão (4,543 litros). N.B. Dcnnys, A Descriptive Dictionary of British Malaya, p. 419. (192) Cobrajem no MS. de Lisboa: Cobrai em Ramúsio.
A Suma Orienta! 235 de martamane & loguo ho de xoij (193) tem gramde copea Dali- famtès tera sejs ou sete mjll no rregno todo/ todo peeguu fidallguo E outra Jemte segumdo he Riq° ySso dos trazem em sua natur3 casquavees os Sres trazem atee noue Douro S"' & ouf De fremosos toõs De tipres & contras tenores Do tamanho Jem,e Dameixeas (194) alvares De nosa terra E asy os q nõ | podem Foi. I36v. Douro E de prata por pobres trazem de chumbo & de fruseleíra. E os douro he pta soam mujto mais q estoutros de chumbo & fruseleira//(195). (193) Pesim no MS. de Lisboa; Pizim cm Ramusio. Talvez Pires escrevesse ou pensasse cm escrever Cosmim. (194) Uma variedade porluguesa de Prunus domestica Linn. (195) Barbosa refere-se a esta prática extraordinária com mais por¬ menores, terminando, contudo, com estas palavras: «E não digo mais deste costume pela desonestidade», n, 154. Galvão também o menciona: «presam-se de trazer cascáveis em suas naturas, a eIRei e religiosos é vedado». Ed. Livraria Civilização, p. 166. Na Miscellaitea de Garcia de Resende há esta estância (88): «Há também costumes tais em Pegu, q homês copctem, a qual delles terá mais em seus membros genitais cascavéis, onde os metem, ha sua carne cortando; e por tempo se soldando ficam dentro entremetidos: dizem q sani mais queridos das femeas assi usando.» O próprio Camões alude em Os Lusíadas a este costume de Pegu: «Aqui soante arame no instrumento Da geração costumam, o que usaram Por manha da Rainha que, inventando Tal uso, deitou fora o erro nefando». Canto x, est. 122. Pigafctta faz também uma curiosa descrição desta prática, com os por¬ menores mais extraordinários, mas refere-se a Java, local a que ele nunca foi, confundindo-o, evidentemente, com Pegu. Edição de Robertson, ti, 169. Parece que a prática — se alguma vez existiu e não foi «uma mera
236 Tomé Pires A Manei¬ ra dos corpos he vistidos dos pe- gàus & de suas molhers As molhe- res sam mais brancasI Hos peguus sam homees De meaaos corpos sam sobre ho groso parrados & boos trabalhadõres De gramde forca amdam sempre trosqujados darredor solapados ha mea cabeça e emcima mais creçidos hos cabellos Do betelle trazem sempre os demtes negrõs trazem sobre as coxas gramde copea De pano bramquo E na cabeca panos bramcos a feiçam De mjtra casy// As molheres sam mais bramcas q elles sam asy mesmo Dos corpos delies sam fremosas mais Desemuoltas trazem o cabello a guisa da chijna como se dira na descricam dachijna as nosas malayas folguam mujto com a vimda dos peguus a tra E sam mujto afeiçoadas a elles a causa disto sera sua Doçe armonjã/ certo delas sam muj10 estimados E nom sem causa/ he esta Jemte mansa De boa vemtura aquj em malaca em sua terra Dizem q he soberba.//. invenção imaginativa» — nunca foi registada por qualquer outro escritor moderno. [Contudo, já no século xv o florentino Paggio Braciolini, des¬ crevendo a viagem do veneziano Nicolò dei Conti à índia, no começo desse século, faz um relato ainda mais pormenorizado e pitoresco da tão estranha prática: «Em esta çidadc (Ava, cidade principal de Arakan) soo as molheres vendem cascauees pequenos, assi como as muj pequenas aucllaãs de ouro e prata e arame, aas quaes molheres vaã os homes que querem casar. Ca de outra maneira seriam engeytados em ho casamento, e assi mercam dos ditos cascavees. e deixamse abrir a pclle em a sua vergonha de huu cabo e outro das ditas molheres. e chantamlhes dentro hua dozea daquelles cas¬ cavees ou mais cm diuersos lugares do dito membro, e despois aquella pelle bem coseita. dally a poucos dias som saãos. E esto fazem pera comprir a vooatade das molheres. porque segundo dizem, que ellas leuam grande gosto no membro assi hinchado e chco daquelles noos. E muytos delies andando se dam de gjolho e fazem soar aquelles cascauees. assi que os podem ouuir. Da qual cousa este Nicolau daquellas molheres muytas vezes foy requerido de ho assi fazer, e faziam escarnho delle porque ho tinha tam pequeno, porem elle nom quis que a sua door fosse prazer de outrem,» foi. 83r. O Livro de Marco Paulo — O Livro de Nicolao Venelo... é a versão portuguesa da edição latina de 1492, publicada por Valentim Fernandes em 1502. Reim- presão da Biblioteca Nacional, com Introdução por Francisco Maria Esteves Pereira, Lisboa 1922. Vide A. Cortesão, História da Cartografia Portu¬ guesa, l, 287-90. Coimbra 1969.]
A Suma Oriental 237 pois himdo pa malaca seg° a ordem deste liuro se atrauesa syam no camjnho Rezã hee q delle se digua posto que da bamda da china aJmda outa vez o emcomtremos no Rijo Dodiaa//(196). [sião] No Regno de siam Da bamda de peguu tem tres portõs E da bamda de paão & champãa ten mujtos todos sam do dito Regno E da obidiemçia Do Rey De syam a terra De siam he gramde E mujto farta De mujta Jemte he cidades De mujtos Sres he de mujtos mercadores EstramJeiros E a mor parte Dcs- tramJeiros sam chijs porque o trato De syam he gramde na chyna/ a terra De malaca se chama terra De syam E toda a de Siam champã E hy se chama da chyna// He o Regno de sijam Jemtío a Jemte he casy a limguoaJem tem semelhamça da de peeguu he avida por Jemte avisada E de boom comselho os mercadores sam mujto èsynados na merca- * daria sam homêes gramdes baços Da trosquja De peeguu ho Regno se Rege em Justiça o Rey estaa sempe Dasemto na cidade Dodiaa he caçador aos estramJeiros faz gramde estado aos naturaes he mais comuersauell tem mujtas moheres De qujnhem- tas pa cima elle tem Rey por morte a pa Do samgue pincipalm1® sobrinho f° De Jrmãa se he pa iso E se nom p vezes hacordos & Juntamemtos de quê sera melhor/ guardase gramdememte amtre elle ho secreto sam no que lhe conpre homees Calados (196) Odia ou Ayuthia, antiga capital do Sião, foi destruída pelos birmaneses em 1767, depois de um cerco de dois anos. Barros escreve Odia e Hudiá. Couto (VI, vii, 9) faz uma descrição interessante da «cidade de Odia. Principal do Reino de Sião, que é esta sobre que o Bramá está, fica pelo rio acima quarenta léguas» (Mcnam Chao Phaya). A Odia chamou-se algumas vezes Judea ou ludia. Hobson-Jobson. s.v. Judea. (197) (MS. de Paris). Segue-sc por um punho muito mais recente: «Siam Royaume de Siam et ses Ports.» Regno De siam & seus por¬ tos! I (197)
238 Tomé Pires Foi. I37r. Dereitos E moedas De siam. portos De syam Jmdo pa malaq“ Da bamda de peguu falam com modéstia bem emsynada hos momrrados tem grande obediemcia ao Rey Cumpem gramde memte seus embaixadores ho Recado//: Aos Mercadores estramJeiros q vão a sua terra E Regno com sotílezas lhe fica ha mècadaria na terra E maall paguos E Jsto a todos E menos aos chíjs pola amjzade que com ho Rey Dos chíjs tem E por esta causa nom vam a seu porto tamtos como Jriã comtudo pola terra ser Riqa è boas mercadarias sopor- tam alguuãs cousas por Rezã Do ganho como mujtas vezes se acomteçe aos mercadores p° q douta maneira nom seria merca- darija// Em syam ha mujto poucos mouros nom lhes querem os sya- mes bem comtudo ha arabios parses bemgallas mujtos qujlijs chíjs E doutras naçoees he todo seu trato de syam he da bamda Da chijna he em paçee pedijr & bemgalla nos portos do mar ha os mouros Estam a obidiemçia Dos senhores seus/ E fazem guerra sempre aos syames ora no sertão ora pahão he Jemte De guerra nom mujto guerreiros// sam os ditos syames De cas- quavees como hos peeguus E nom menos nada senom qmto os Sres trazem alem Dos cascavees Diamantes de pomtas E outas pedras Ricas em suas naturas seg° a pa ou fazemda asy traz a pedra//. Pagam os mercadores estramJeiros em siam De noue dõus E os chíjs de doze dous ho bahaar he do peso Da china nem mais nem menos ho cate De syam Do ouro E da prata tem huu cate & meyo De malaqa corre por moeda meuda em toda a terra buzêos Dos que corre em peguu E nas grosas ouro E prata vallem estas moedas ho preço que se dise em peguu. E da saida das mercadorias pagam De qnze huu nom pareça duujda porq a Vrdade hee que paguã de tudo ê syam de dez dous drrtos Ho mais perto a terra De peguu a martamane he tenaçarj E despois ho Juncalom & despois terrãm(198) E quedaa E e (198) Toda a foi. 137r. do MS. de Paris foi omitida no MS. de Lisboa
A Suma Oriental 239 porto Do Reino De queeda que trebutarjo a elle E de quedaa atee malaq1* tudo sarn lugãres Destanho como Ja hee Dito no Regno E termo De malaqua//. Comecamdo De pahãao/ E talímgano/ ciam/ tam say/ patane/ lugor/ martarã/ callnansey/ bamcha/ cotinuo (?) / pepe- rim/ pamgoray (199) / tudo sam portos de senhores Da terra c em Ramusio. Por isso estes nomes nào podem ser cotejados como nos outros exemplos. Juncalom — Junkseylon, ilha c porto antigo ao largo da costa oci¬ dental da Península malaia. É referido por Galvão c Pinto e aparece pela primeira vez no atlas de Diogo Homem de 1558 como jãsalã. Terrãm— Trang, Tarang ou Klong Trang, rio, porto e cidade mais para sul, na lat. 7o 18'. É mencionado por Barros (I, ix, I) como Torrão. A carta de c. 1540 tem toram. Alguns cartógrafos, como Dourado, colo¬ caram rorao ao sul de Kedah; nas cartas de D. Homem e Berthelot torãque ou Torram está também ao sul de Kedah. Neste caso querem significar talvez o actual Trong, na lat. 4o 40', que aparece na carta de Rodrigues (foi. 34) como Rio do trom, i.e. Kuala Larut, entre a Ilha Singa Besar a norte e a Ilha Trong a sul. (199) Mais tarde sob a epígrafe «Rei c Senhores do reino de Sião», os nomes destes portos foram escritos como segue: «pahãm / talímgano / chantansay / patane / lugoumai / taram calnãsey banq3 chotomuj pepory pam¬ goray» Barros (I, ix, t) diz que ao longo da costa até ao rio Mettão (Menam ou Bangkok) há as seguintes cidades notáveis: «Pão, que é cabeça do Reino assim chamado, Ponticào, Calantào, Patane, Lugor, Cui, Perperii, e Bam- placot, que está na boca do Rio Menâo». Ele menciona também as seguintes «cidades que são portos de mar» desde Hudiá (Bangkok) até Malaca: «Pan- goçay, Lago, Patane, Calantam, Talingano ou Talinganor c Pam». III, ii, 5. Clamtam — Corresponde ao Kota Bharu, na entrada do Kelantan Rivcr. O Calanlão ou Calantam mencionados por Barros. O atlas de Dourado de 1580 tem R" de calamtào, que também se encontra em cartas posteriores. Say — Corresponde a Saiburi na entrada do Telubin River, em 6o 42' N. A carta de 1554 de L. Homem tem sera patane a norte de calatam; no atlas de D. Homem de 1558 está r. serra entre catalã c patane, e lei nos atlas de Dourado. Aparece depois, numa carta de Hcrédia (foi. 27) como Sea Rio, entre calantan Rio e PATANE; o atlas de c. 1615-23 tem Sea entre calantam e patane; a carta de Berthelot de 1635 tem Sey entre R. de calantam e Patane. J. V. Mills diz que o "Sai River", como aparece numa antiga carta chinesa portos Do Regno De syam da bamda da chyna ys- to ouuera de ser am- tes De fa¬ lar q" pa leuar bordem 8
240 Tomé Pires De syam he destes sam Reis todos tem Jumcos nom Do Rey de syam sam dos mercadores E Sres dos lugares & depos estes portos esta o Rijo de odia Domde vam a cidade Rijo homde emtram naãos & navios larguo & fremoso//. de qedaa he Regno mujto pequeno De pouca Jemte & poucas 3/ casas hee por huú Rijo demtro ha nelle pymemta cadaiio obra De quoatroçemtos baharês esta pimemta vay polia vya de siam a china com a que também traze De pacee E pedir quamdo alguuã não vem a tenacarj E aos portos De syam vem a quedaa Wu-Pei-Chih, «representa o que agora se chama o Telubin River. A carta europeia mais antiga que marca o rio é a de Homem (1558) que lhe chama «Sciia» [deturpação da leitura do r. serra como se apontou em cima]. Nomes semelhantes aparecem em todas as cartas em que o rio é nomeado, pelo menos até 1850: o nome ‘Telubin' não aparece até depois dessa data». Malaya in the Wu-Pei-Chih Charls, p. 36. O nome sobreviveu, contudo, em Saiburi. Lugor — ancoradouro e cidade de Lakon. A carta de c. 1540 tem logor. Martarã— O porto importante a seguir, para norte, é Bandon. Mas ainda mais para norte há uma ilhota chamada Matra, junto da costa, em 10° 24' N., a sudeste de M. Chum Pon. Terá alguma relação com Martarã de Pires? Callnansey — Bang Kamma Sen, pequena aldeia na costa em 1 Io 2' N.? Bamcha—Bang-taphang ou Bang Sabhan, em 11° 12' N.? Banagh no Mohit. Pinto menciona várias vezes esta cidade ou porto de Banchã. Cotinux — Chamado mais adiante Cholomuj. Koh Ta kut, em 12" 15' N.? Peperim — Rio e cidade de Pechabury. O Pcrpcrij de Barros. Perpji na carta de c. 1540, e Peiper na carta de Berthelot. Em várias cartas poste¬ riores aparece como Piperi (vide cartas in L. Fournereau, Le Siam Ancierí). Numa carta portuguesa do princípio do século xvitt, de José da Costa Miranda (in Aires, Fernão Mendes Pinto e o Japão) está Piper, correspondendo à cidade de Pechabury, em 13° 6' N. Na carta em 1857 publicada por Sir John Bowring, The Kingdom and People of Siam, fim do vol. n, aparece ainda Phiphri, ao norte da entrada do rio Pechabury em 13° 16' N. Pamgoray — Este deve ser o Pangoçay mencionado por Barros como o primeiro porto quando se vai de Bangkok para Malaca. Pangoçay foi identificado por Campos como Bang Plassoy, Early Portuguese Accounts of Tliailand, p. 11.
A Suma Orienta! 241 vemder também sua mercadoria E os dos lugares Do estanho compram & leuam ouro por que quedaa he terra De trato & polia terra vem em tres quoat0 Dias a terra De syam & leuam De queda as mercadorias a syam// Este Regno De quedaa comfyna De huuã bamda com terrão casy & da outa com ho termo Do Regno De malaca & com baruaz (200) trata quedaa com paçee/ & pedir/ & os de pacee & pedir vem a quedaa cadano/ vem do guzarate huuã naõ aos portos de Syam E vem a quedaa E carrega De pímemta Da que ha na terra & daly torna aas vezes a pacee E a peedir acabar De tomar sua cargua/ & de baruaz çalamgor & mjmJam (201) leuã ho estanho//: qeda he da obidiemçia DellRey de syam & pollo Rijo De queda vam a siam tem quedaa aRoz em camtidade pimemta (200) A foz do rio Bruas ou Sungi Bruas está em 4o 28' N. Uma das aldeias junto do mar chama-se hoje Pengkalen Bahru, e mais acima a montante do rio há a aldeia de Bruas. Pires diz mais tarde, ao descrever Baruaz, que no «rio de Baruaz há duas povoações». Pinto (cxuv) afirma que em 1544 «espiei toda a costa deste Malaio, que são cento e trinta léguas até Junçalão, entrando em todos os rios de Barruhaas, Salangor, Panágim, Quedá, Parlés, Pendão e Sambilão Sião.» Ao tratar de Malaca, em 1614, Bocarro (xliv) menciona Barvas. A carta de c. 1540 tem broes, entre queda e puto cãbilam; a carta de 1554 de L. Homem tem baruas entre demdam (Penana) e pulo sambitam (Sembilan); os atlas de Dourado e outras cartas portuguesas têm baruas entre toram (Trang) e p. sambilaõ; a carta de Herédia da Península Malaia (foi. 27) tem baruas imediatamente a norte dum cabo que corresponde a Dindings; o atlas de Janssonius (1658) tem ainda Baruas. O Malacca Strait Pilot diz que «Sungi Bruas é um pequeno rio de em frente dum banco de lodo numa extensão de 5 a 9 milhas a pouca distância da costa», mas navegável por canoas durante quase 60 milhas. Parece que o antigo porto de Baruas ou Bruas desapareceu por assoreamento. (201) Mjmjam — A carta de c. 1540 tem micham imediatamente a norte de cãlagor (Selangor, em 3° 21'). O nome ainda sobrevive em Mehe- gan Point, o ponto sul da foz de Dinding River (4o 14') que «tem uma entrada profunda e clara e se diz ser navegável por embarcações com calado de 15 pés (4m6)... numa distância de cerca de 7 milhas». Malaca Strait Pilot. Vide adiante p. 414.
manti- mètos merca¬ dorias Merca¬ dorias De malaq° pa syam Foi. I37v. quito tempo ha que os syames nom Vierõ a malucai! % 242 Tomé Pires enqeda se gasta mujta mercadaria Da chijna & quedaa nom tem Juncos tem Iamcharas he terra pequena tem bom trato por Rezam dos termos vali em queda a Roupa q vali em malaqa/: Aguora nos pasaremos a bamda De siam pola parte da china E acabado falar De siam dalguus portos seus êtam emtraremos ao Regno De camboJa// Mercadorias q ha em siam q vinham a ma!aqa no tempo que tratauã com ella//. Ha em siam aRoz em mujta camtidade & mujto sall peixe seq° salgado oraquas (202) legumes & disto vinha a malaqa atee vimte trimta Juncos cadano//. Vem De syam lacar beiJoy brasill (203) chumbo estanho prata ouro marfill cana fistola trazem vasos de cobre & ouro fumdido anêes De Rubíjs & diamamtes traze gramde copia De panos baixos syames De pouco preço pa a Jemte proue & Dizem que a pincipall mercadoria que leuam de malaqa pa syam sam espauos he Espauas/ que leuam em camtidade samdollos brancos pymemta azougue vermelham amfiam azernefe crauo maças noz synabafos gramdes & pequenos he panos quelij s ao cus- tume De siam chamallotes aguoa Rosada alcatifas brocados De cambaya caurijs bramqos çera camfora De burney pucho sam Rayzes como Ruy pomtuo sequo gualhas E asy vallem as mer¬ cadorias Da china q dela trazem cadano// Haa vimte E dous annos que os syamêes nam tratam em malaqa ouuerom deferença p° que os Reis De malaqa tinham obidiemçia aos Rex de syam porq malaqa dize q he da terra De syam Dizem que he sua E que avera & dõus annos q este Rey (202) Arrack, aqui álcool destilado dc uma palmeira. Nalguns casos Pires parece refcrir-sc à própria palmeira. (203) Pau do Brasil ou madeira de sapão, Caesaipinia Sappan Linn. Na sua descrição de Malaca, Resende refere-se «a um sapam que é um pau vermelho para tinturas não muito inferior ao do Brasil». Resende, Livro do Estado da índia — MS. foi. 377v. Duas das mais importantes espécies brasileiras são a Caesaipinia Brasiliensis Linn., e C. echinata Lam.
A Suma Orienta! 243 q perdeo malaca se aleuamtou com esta obidiemçía/ Dizem também que pahão se aleuamtou comta syam pola mesma manra & q os Reis De malaca fauoreciam os De pahão pollo parem- tesco q ha amtre ellês conta os Syames & que também esta foy a causa De seu Descomçerto// Dizem que também foy sobre os lugares do estanho q estam Da bamda de qdaa que amtigamemte obidiciam a quedaa E que malaqa q hos tomou & por estas cousas todãs quebrarom E a pincipall Dizem q foy polo aleuantamemto da obidiemçia Des- pois Disto os syames armarom sobre malaqa E os syames forom destroydos polos malayos E que foy capitam lasamane De que fiquou Daquelle tempo ateguora Em gramde honrra// Hos syames tratam na china cadafio seis sete Juncos tratam com çumda & palimbaão & outsa Jlhas tratam com camboJa & champar & cauçhy & na terra firme com brema & Jamgoma (204) quando estam em paz// trata asy mesmo syam Da bamda De tenaçaríj com pacee/ pedir/ com qedaa com peguu com bengalla & os guzarates vem a seu porto cadano trata Ricamente pa fora & liberall memte em a terra mas sam tiranos grandememte// Ho Rey pchayoa (205) quer dizer sõr de todos he despois (204) Cauçhy, Cauchij ou Cauchy Chyna — Cochin China, chamada Kuchi pelos malaios, donde a forma portuguesa Cauchi e Cochinchina. Cf. Hobson-Jobson. Na parte oriental da carta chamada de Cantino está champocochim e chinacochim. A carta de Rodrigues (foi. 38) tem coçhim da (liina ao cimo de um longo e estreito golfo. Vide nota sobre Champa (p. 247). Brema — Birmânia. Mencionada por Barbosa e outros escritores portugueses do séc. xvi como Berma. Jangoma — Mencionada por vários escritores portugueses do séc. xvi. «Cidade e estado do Laos Siamês, chamada Zimmé pelos birmaneses, cha¬ mada Xieng-mai ou Kiang-mai, &c. pelos siameses». Hobson-Jobson. s.v. Jangomay. (205) Rey pchayoa ou prechayoa. Perclioaa no MS. de Lisboa; Perchoa em Ramusio. Isto poderia surgerir Rei Phrachai ou Prajai; mas UHomde tratam aguora os syames!I Rey & Sdo Regnuo De syãm
244 Tomé Pires do Rey o aJa capemtit he o viso Rey Da bamda De peguu & camboJa E faz guerra a bremaa & Jamgomaa este aJa capètit (206) tem mujta Jemte De peleJa De seu lijmjte esta terra hee como Rey Delia//: Ho segumdo he o viso Rey De loguor chamase poyo- hya (?) (207) este guouernador he de pãao atee oDiaa/ pahãm/ talimgano/ chantansay/ patane/ lugoumai/ taram calnãsey banqa chotomuj pepory pamgoray E outs0 portos que cada huu tem senhores como Reis Delles mouros Delles Jemtios e em cada porto ha Juncos mujtos & estes navegam com camboJa champaa cauchy & com Jaõa & çumda E com malaqa paçee pedir & com os Dandarguerij palimbão &/ (208) ele reinou depois de 1534. No tempo de Pires o rei de Sião era Rama Tibodi II, que morreu em 1529. Phra — «É o tratamento na corte para o rei», na Birmânia e no Sião. Supõe-se que seja uma corrupção do sânscrito prabhu. título honorifico que significa «senhor ou chefe». Hobson-Jobson., s-v. Pra e Parvoe; Dalgado s.v. Precheu. Segundo Pinto (clxxxix) parece que Prechau era um título do rei de Sião, o que está de acordo com Prechayoa: «O mais alto título do Rei c Prechau Saleu, que na nossa linguagem signi¬ fica membro santo de Deus». Gerini diz que o Prechau de Pinto é «P’hrah Chau, o Senhor Sagrado, i.e. Sua Magestade; alguma coisa como 'Santo Tzar’». Hislorical Retrospect of Junkceylon Island, p. 13. (206) Agii capitemte no MS. de Lisboa; A iam campetit em Ramúsio. Oya Kampcngpct, o Governador de Kampengpet ou Kamphengphet, a velha cidade siamesa em 16° 30' N. Uma carta portuguesa, bastante com¬ pleta, por Miranda, do começo do século xvm (em Ayres, Fernão Mendes Pinto e o Japão) tem Campeng. (207) Perajoa no MS. de Lisboa; Peraia em Ramúsio. Talvez Pra Oya, significando ‘Senhor Governador’. Segundo Campos algumas cidades e portos tinham um governador com o título de Oya ou Pliya. Op. cit., p. 11. Pinto (clxxxii) referc-se ao «Oyas, Conchalês e Monteos, que são dignidades supremas acima de todas as outras do reino» de Sião. Mas refe¬ rindo-se a Lugor diz (xxxvi) há ali «um vice-rei a quem chamam Poyho na sua linguagem». (208) Todos estes nomes de Camboja a Palimbão foram omitidos no MS. de Lisboa e em Ramúsio. Barros (II, v, 1), menciona Andraguerij. Albuquerque (Comentários, III, xvii) refere-sc a Dandargiri e Castanheda
A Suma Orienta! 245 E destes lugares a patane tem pimemta cadano atee setecemtos oyto cemtos bahares & cada huu destes portos sam pincipaêes & tem mujto trato & mujtos se Reuelam comtra syam E este viso Rey he mujto Riq° & pesoa mujto homrrado quasy como o out° capemtit// Ho outro he vya chacotay (209) este he viso Rey Da bamda de tenecary terrão & qedaa he pa pincipall tem a Jurdicam sobre todos he capitam perpeto de tenaçary he sõr de muy a gemte & de terra avomdosa De mamtimemtos/ E outro he o paraa (210) he sacretario do dito Rey todas as cousas pasam por este & pollo comqusa q he tesoureiro & dizem que aguora com o Rey de syam este para & o comqusa sam \ De gramde autoridade ambos posto que o comcusa he homem de baixa comdiçãm he De maneira no Regno De syam que tudo pasa por estas Duas pesõas/ paraa/ & concusa e estes dous espeue- rom a malaqa com elRey De syam [BIRMÂNIA] Ho Regno de brema comfyna Da bamda do sertaão Da parte De peguu & Racam tem seus termos/ & da bamda Da chyna com Jamgoma & Jamgoma comfyna com brema he com camboJa (II, cxi) fala de Andragide como reino de Samatra. As cartas de Ribeiro de 1527 e 1529 têm adaragire. Andarguerij corresponde ao Indragiri River, que desagua na costa oriental de Samatra em Io S. (209) A jau chacotai no MS. de Lisboa, Aia Chatoteri cm Ramusio. Oya Socotai, o governador de Socotay, Sukotai ou Sukhothai, a velha cidade siamesa em 17° N. A carta de Miranda tem Socotay a noroeste de Campeng. (210) Uparat era um título que significava literalmente «Segundo Rei» ou «Vicc-Rei» no reino de Sião. «Era, de facto o Príncipe Real» diz Wood, A History of Siam, pp. 92-3. (211) Segue-se por punho muito mais recente: «(Jangoma) Royaumes de Brema et Jamgoma». Foi. I38r. Reyno De brema & Jamgo- «*»//< 211)
246 Tomé Pires Merca¬ dorias destas Regnõs Merca¬ dorias q valem nestes Regnos De brema & Jam- goma Estes dous Reis Jemtios do sertaão tem guerra com peguu & com Raqã & com bemgala & com camboJa primcipal memte com syam por que lhe matou certos fs° a estes// outs° comtam que somemte brema toma os termos de peguu atee camboJa no sertaão he Detrás Deste Reyno dos edetrias (212) he Jam gomaa emtam êtrã em a terra Da china E por que vem estrei- tamdo a terra nom ha duujda asy ser// Em bremaa Dizem ser a mjna Da pedraria que dalij vay a çidade de aua que he ê Racam & que tem mujto beyJoym & lacar & que dalij vem ter a syam & a peguu & o almjzqr vem Do Regno De Jaam guomaa & do Reyno dos [em branco] (213) & que Daly vay também almjzqr a chyna// Afirmam & parece Rezam que por via De peguu & syam pola terra firme hijr teer ha p,a & samdallos a chyna na bamda Do sertão da chyna porque os peguus & syames tratam com brema em Iamcharas & paraos(2!4) por Rijos que ha nos ditos Reynos he os mercadores q asy vam Dizem o que quere/ & dalij a huu mes tornã/(215). Pymemta samdallos bramqos synabafos peqnõs azougue Vmelham Damasquos cetijs brocados Roupa branca De bemgalla & desta Jemte Destes Regnos ha mujtos homees em syam peguu camboJa//. Sam os homees Destes Regnos cavaleiros tem cavallos alí- famtes trazem botas tè por costume cortarem os narizes a todo catiuo & pincipallmemte aos de camboJa q prymeiro ysto vsou//. (212) Esta palavra é omitida no MS. de Lisboa c cm Kamusio. (213) Falta aqui uma palavra c em Ramusio também. No MS. de Lisboa, foi. 94v., lê-se «e o almiscar vem do reino de Jangoma dizem que também dali, vem almiscar à China». (214) Pequena embarcação malaia. Hobson-Jobson, s.v. Prow; Dal- gado, s.v. Parau. (215) Esta frase obscura foi omitida no MS. de Lisboa e em Ramusio.
A Suma Oriental 247 [camboja] Pasamdo de syam camjnho Da chyna pola costa do maãr he o Regno de camboJa q vay comfynar pola Dita vija com champaa he o dito Rey gemtio caualro metese sua terra mujt0 pollo sertaõo tem guerra com os De brema & com syam & as vezes com champaa E nom obedeçe a nemguê a Jemte de camboja he gerreira A terra De camboja hee De mujtos Rijõs Demtro tem muj,as lamcharãs q vam navegar a costa de syam Da bamda de lugor E amdam mujtas vezes darmada comtra toda Roupa he a terra De camboJa De mujtos mamtimemtos ê camtidade he terra De mujtos cavallos alifamtes//: Tem a terra De camboja mujto aRoz & bom carnes pescado & vos a sua guisa & Tem esta tera ouro tem alacar mujtos Demtes dalifamtes peixe seq° aRoz Roupa branq3 De bemgalla fyna pimemta pouqa/ crauo Vrmelhão azougue estoraque liqdo comtas Vrmelhas// Nesta terra se queimam os senhores por morte do Rey E as molheres dos Reis & as outas molheres p morte de seus mari¬ dos E amdam trosqujadas polas orelhas p° Jemtilêza [champa] Alem da terra De camboJa segundo a costa do mar pola terra firme he o Regnõ De champaa// a terra he gramde & de (216) Segue-se aqui por punho muito mais recente: «Camboja Royaume de Camboja». (217) Champaa ou Champa — «O nome dum reino que já foi de grande poder e importância na Indochina, ocupando o extremo sudeste daquela região. Uma parte limitada do seu solo é ainda conhecida por esse nome, mas de resto como a província Binh-Thuãn da Cochinchina» Hobson-Jobson, s.v. Champa. Barros (I, ix, i) diz: «Passado este Reino Cam Regno De Cam- boJa (216) Mamti- memtos/ merca¬ dorias q valem è camboja Regno de cham¬ paa (217)
248 Tomé Pires Foi. I38v. mujto aRoz carnes & outs0 mantimemtos | Nesta terra nom ha portos pa Jumcos gramdes tem alguuas pouoaçoêes por Rios emtram Demtro com maree cheea navios q demamdam braca & meya De maree vazija ficam as emtradas em sequo navegam em syam atee pahaão mujtas lamcharas/ He o Rey Jemtio tem muj,a Jemte he Riquo viue por suas lauoíras todos tem cavallos tê guerra com outs0 Reis primcipall memte com o Rey De cauchychyna/ calambac As mercadorias De champaa a primcipall he calambac (218) que he o lenho aloêes ho Vrdadeiro a melhor espeçía Delle/ por que o que laa em portuguall se vsa he guaro De que qua ha matos tem gramde Deferemça o calambuc em cheiro he sabor & odor/ asy como ouro a chumbo em ualía E deste calambac em champa ha o melhor & a fomte delle/ he gomoso De veas bramqas & pretas he paão mole vali em malaqa cada dous aRates seis sete cz°os & a tall q vali Doze & qmto ho paão em prefeycã & mõr asy sobe em valija do pequeno posto q seJa Da mesma vomdade//. Tem ouro De toque do de menancabo (219) em boa camti- boja, entra o outro Reino chamado Campá, nas montanhas do qual nasce o verdadeiro Lenholoe a qual os mouros daquelas partes chamam Calambuc, com o qual confina o Reino, a que os nossos chamam Cauchij, China, e os naturais Cachó». Camões (x, 129) também menciona «a costa que Champa se chama». A carta chamada de Cantino tem champocachim na sua parte oriental. O nome desapareceu depois das cartas portuguesas, para se encon¬ trar de novo no atlas de c. 1615-23: Champa, leste de Camboia; na carta de Bcrthelot de 1635: Costa df. Champa, leste de Cambodia. Semelhantemente noutras cartas posteriores. (218) Aquilaria Agallocha Roxb., Calambac, Agallochum, Aloe ou pau de áquila. Vide Burkill, p. 197-205. (219) Menancabo é o antigo Reino de Mcnang-Kabau no interior de Samatra. A carta escrita de Malaca para Albuquerque, em 6 de Fevereiro de 1510, pelos cativos portugueses, menciona pela primeira vez «de redor de Malaca há duas outras minas de ouro, e destas e da terra dos gores dizem que tiram aqui cada ano nove dez behares de ouro, e uma destas minas está na terra de pão, e vão daqui lá em sete oito dias por mar e por terra, e outra
ESTAMPA XXVI Esboço dc Francisco Rodrigues (Foi. 38) do Golfo dc Tonquim, com Hainam.
ESTAMPA XXVII Esboço de Francisco Rodrigues (foi. 39) de parte da Costa Sul da China e algumas ilhas possivelmente as Filipinas
A Suma Oriental 149 dade q vem Da mjna q mesmo Vay a cauchy os Dechampaa tem por mercadaria ouro em sua onesta valya lie ouro em pedaços grosos// Trazem delia a inalaq® peixe seq° salgado aRoz ouro alguua pta por q na terra nom ha outra mercadoria a terra nom he de muj10 trato em malaqa porq de syam lhe acodem mercadarías// A pncipall he areqa com que comem o betelle panos bramcos de bemgalla synabafos gramdes & peqnos panchaujlizes (220) panos qelijs poucos pimemta crauo noz pouca cacho pucho pouq° estoraqe liqdo//. A moeda meuda sam caixas (221) da chyna & por merca¬ doria ouro & prata vali o ouro ê champaa a qujmta parte menos q em malaq3 & a prata a seista parte /. No maãr he fraqua tem mujtas lamcharãs q demamdam pouq0 fumdo por Rezã Da aguoa ser pouqa navegam na terra que he gramde/ nas mercadorias da terra E nos panos De seus traJos que ha na terra vam a syam & a cauchy nom tem porto nomeado/ non tem mouros em seu Regno//: [cochim-china] Ho Rey De cauchy china he Rey de maior terra que champaa & mais Riqa he o Regno amtre champaa E a chyna este na terra está em Menambo da banda de Samatra, c vão daqui por mar e por um rio em nove dez dias» Cartas, m, 10. Na carta de Cantino está manjeabo a N.W. da Ilha de Taprobana. A carta de c. 1540 tem manacãbo sobre Sama- ira, na 2-3° S. Os atlas de Dourado e o atlas de c. 1615-23 têm manãcabo como nome de um rio a sudoeste de Samatra. Uma das cartas de Herédia (foi. 24v.) tem MINAS: DE: ORO do Monancabo no sudoeste de Samatra. Fcrrand (Ma/aka le Mayalu et Malayur, xn, 51-82), c Dames (li, 170-1. 186-7) trataram extensivamente de Mcnangkabau e de Mcnangkabos. O por¬ tuguês Tomás Dias foi o primeiro europeu a visitar o interior de Mcnang¬ kabau. em 1684, e um escritor moderno holandês chama-lhe «o maior explo¬ rador de Samatra». Schnitger, Forgotten Kingdoms in Samatra, p. 55-64. (220) Talvez o mesmo que pachavelões, pano estampado em Choro- mandel. Dalgado, s.v. Pachavelão. (221) Caixa — «Nome aplicado pelos europeus a algumas moedas de baixo valor cm várias partes das índias». Hobson-Jobson, s.v. Cash: Dalgado, i.v. Caixa. Mam- Em'"' merca¬ dorias q valem em champaa Moeda da I terra Gemte & navios/ IRegno de cauchy chyna/
250 Tomé Pires Foi. 139r. IMerca¬ dorias que ha na terral De cauchy chyna /Merca¬ dorias q valem em cauchy chyna/ he poderoso guerreiro tem mujtas lancharas terra atee qoat0 Juncos (222) tem a terra gramdes Rios navegacam nelles nom tem povoadores Junto com ho mãr mujtos estemdese sua terra mujto pola terra fyrme chamase sua terra em malaqa cauchy chyna por Respeito de cauchy coulam & EIRey he Jemtio E toda sua gemte nom sam amíguos de mourõs estes nom navegam em rnalaq8 navegam na china e em champaa he gemte mujto fraqua no maãr todo seu feito he na terra/ tem gramdes senores hee Jumto este ao Rey Da chyna por casamemtos & por este Rey nom fazer guerra a chyna traz sempre embaixador na corte Del Rey da chyna aJmda q nom qeira o Rey De cauchy ou leue Diso Descomtemtamemto por¬ que he seu vasallo como se dira nas cousas Da chyna he cauchy terra De mujtos cavallos Hee este Rey dado mujto a gueerra E tem Jmfimdos espim- gardeíros & bombardas pequenas gastase mujto gramdisyma copia de poluora em sua terra asy na guerra como em todas suas festas & prazeres De dia & de noyte asy o vsam todos os gramdes De seu Regno & pas omrradas gastase cada dia asy em foguetes como em todo out° eixerçíçio de prazer poluora como se vera nas mercadorias q la valem//. Pincipalmemte ouro pta muj*° mais que em champaa calam- buc nom he Tamto como champaa tem porcelanas & baçios delas De gramde vallya & dalij vaõo a china a vemderèse tem de todas sortes de tafetas mjlhores mores & mais larguõs & fynos q em todallas outas ptês qua & nas nosas/ tem as melhores sedas soltas de cores q qa haa em gramde avomdamça & tudo ysto q asy tem he fyno & óerfeito sem falsydade que tem as cousas doutas ptes he também alJofar & nom muj*0//: A cabeça Da mercadoria em cauchy prezada he emxofre (222) Embora o MS. de Paris, foi. 138v.), diga «quatro juncos», é, obviamente erro; o copista escreveu «terra atee qoat0» onde Pires teria escrito «trinta ou quarenta». O MS. de Lisboa e Ramusio têm «trinta ou quarenta».
A Suma Oriental 251 & deste vimte Juncos se tamtos lhe mamdarem laa & vali bem emxufre Da china a malaq“ mujto Jmfimdo vem das Jlhas De solor alem Da Jaaõa como se dira qmdo se delas falar & daq vam a cauchy// vali asy mesmo gramde copia De salitre & da china lhe vem /selitre & mujta camtidade & todo se vemde laa// valem Rubijs Diamamtes pedraria/ çafiras toda outa pedraria fyna & alguu amfiam pouquo pimemta pouqa & asy das outas cousas q valem na chyna estoraqe liqido vali bem//: Estes poucas vezes vem a malaq® em seus Juncos vam a china a quamtom que he cidade gramde tomar companhiãs De chijs emtam vem por mercadorias com hos chijs em seus Juncos & a pinçipall cousa que trazem he ouro E prata & cousas q com¬ pram na chyna//. A moeda Das despesas De mantimemtos sam caixas Da moeda da chyna & por mercadoria ouro & prata//. ,erra
252 Tomé Pires [LIVRO QUARTO) [DA CHINA A BORNÉU E ÀS FILIPINAS] [China — Java — Ilhas a Sudeste — Banda, Ccram, Amboina — Molucas Ilhas Centrais — Ceilão — Liu Kiu — Japão — Bornéu — Filipinas] [china] Regno da chij- na (223) Foi. 139v. Segundo o que as nações de qua deste leuamte comtam fazem as cousas da china gramdes asy na terra como Jemtes Riquezas pompas estados/ & contas outrsa que mais se creria com uerdade averemse em noso portugall q nom na chyna (224) he gramde a terra Da chyna De fermosos cavallos & mulas seg° dizem he em gramde numero//. Ho Rey da china he Jemtío de gramde terra he Jemte he a Jemte da chyna branq* da nosa aluura vestem os mais panos pretos Dalgodam & diso trazem sayos de cimq° qtos De nesguas asy como nos somemte sam niujto larguos trazem na chyna nos Jnuernos feltros nas pernas a maneira De peuguas he em cima botas bem obradas que nom cheguã Do giolho pa cima & trazem suas Roupas forradas De pelles cordeiras & doutas pelitarias trazem delles pelicas trazem coyfas de Rede de seda Redomdas como peneiras pretas de noso portugall | tem huu Jeito Dalemaaes (223) Segue-se aqui por punho muito mais recente: «Royaume de Chine». (224) O Prof. A. C. Moule chamou-mc a atenção para o facto de como esta pretensão moderna da superioridade ocidental constitui um interessante contraste com a admiração medieval pela superioridade do Oriente.
A Suma Oriental 253 tem na barba trinta quoremta cabellos çalçam capatos framçeses De pomta De ladrilho muyto bem feitos// Comem todollos chijs porquos vaquas E de todas outas alimariãs bebem gètill memte De toda sorte beberaJes gabam mujto noso vinho embebedamse grãde memte he gemte fraqua & para pouco esta q qa se vee em malaqa sam De pouca ^edade & furtam ysto a gemte baixa comem com dous paaos & altamja ou porcelana na maão esquerda Jumto com a boqa & com os dous paõs sorvr esta he a guisa Da china// (225) As molheres parecem castelhanas tem sayas de Refeguos /Molhe- E coses & sainhos mais compridos que em nosa terra os cabellos res da compridos eniRodilhados compridos emRodilhados p° gemtill china maneira em cima Da cabeça E lamcam nelles mujtos preguos Douro pa os ter & aRedor Da pedraria quem ha tem E sobre a moleira Joyas Douro E nas orelhas & pescoço/ poem mujto aluayade nas fases he arrabiqe sobre elle E sam alcoforadas q seujlha lhe nom leua a vamtaJa he bebem como molheres De terra fria trazem capatos de pomtilha de seda he brocados trazem todas avanõs nas maaõos sam Da nosa aluura & delas tem os olhos pequenos & outsa gramdes. E narizes como ham de ser//. A terra Da china he de muj,as cidades fortalezas todas homde o De pedra & quaall a cidade omde o Rey estaa chamase cam- Rey estaa bara (226) (...çidade esta ... yno da chyna ... Rey esta ... s (225) Esta é a mais antiga descrição europeia, conhecida, dos pauzi¬ nhos com que os chineses comem. «Também uma descrição muito boa», comenta o Prof. Moule. Hobson-Jobson. s.v. Chopsticks, nada tem anterior à descrição de F. Mendes Pinto, c. 1540. Barbosa (ii, 213) também se refere aos pauzinhos; o relato de Pires, contudo, é melhor, talvez por que tenha visto realmcnte os chineses a comer em Malaca. (226) Na margem deste parágrafo há um acrescento, pelo mesmo punho, acima dado entre parênteses, representando talvez algumas linhas omitidas primeiramente pelo copista depois da palavra cambara. O manus¬ crito foi brutalmente aparado ao ser encadernado, tendo sido cortadas parte das palavras. O texto pode, todavia, ser reconstituído como segue: Esta cidade está no reino da China, cujo rei está lá às vezes como... Cambarra, *9
254 Tomé Pires Reis vasallos ao Rey da china seos tribu¬ tários q lhe pagam pareas/ Reis vasallos sem obri- gacam de pareas somemte presemtel vezes como ... arra aqual ... ma peqim estas çidades ... onJe de qato ... ra firme) he de gramde pouo & de mujtos fydallgos De Jmfinjdos cavallos o Rey nunqua he visto do pouo nem dos gramdes salluo de mujto pouquos por asy estar em costume Dizem q mulas tem sem conto como se fosse em nosa terra// EIlRey De champa elIRey De canchy china elIRey dos lequjos elIRey de Jampon adyamte se fara memcam Destes//. EllRRey de Jaaoa elIRey De siam elIRey de paçèe elRey de malaqa estes mamdam seus embaixadores com o sello Da china a elIRey Da chyna De cimq0 em cinq° anfios & de dez em Dez annos & cada hufl lhe mamda do melhor De suas terãs do q sabem que laa querê// De malaca lhe mamdauam pímemta E samdallõs brancos alguu pãao de boa grãDura E asy De garo (227) que he lenho a qual se chama Pequim. Estas cidades estão longe de Cantão, na terra firme. Cambara ou Pequim. O Cambaia ou Cambaluc de Marco Polo, e Cambalech de outros escritores medievais. Embora várias cidades tivessem estado no local ou junto de Pequim, este nome foi primeiro usado em 1403 pelo Impe¬ rador Ming Chêng Tsu (mais bem conhecido pelo seu título de reinado Yung- -Lo), que para ali transferiu a sua corte em 1420. Pequim, naturalmentc. significa «capital do norte». É de crer que Tomé Pires fosse o primeiro europeu a chamá-la por esse nome. Tem de se dizer, contudo, que o livro Comentários (III, xxx) compilado dc documentos contemporâneos de Pires, também se refere a Pequim como a cidade onde estava o rei da China. Nas suas duas longas cartas de 1524, Cristovão Vieira e Vasco Calvo referem-se com frequência a Pequim. A sobrevivência até essa data dc Cambara (Cam- halu dc Polo) é dc interesse considerável. Poderia sugerir que Pires conhe¬ cesse o Livro de Marco Polo, embora Cambarra c Cambalu sejam tão dife¬ rentes na ortografia, e ele não mencione o famoso viajante veneziano em qualquer parte da Suma. Mais notável é ainda a identificação de Cambara com Pequim. Quase cem anos depois. Ricci considerou uma descoberta «il Cataio esser la Cina c la corte del re del Cataio esser Pachino». Opere storiche. vol. i, p. 546. Sobre a provável representação de Pequim na carta de Rodri¬ gues (foi. 40), vide Apêndice II (p. 457). (227) Garo. que mais adiante se escreve garuu — o malaio garu ou gaharu para aloés. Orta (xxx) diz que os malaios chamam à qualidade
A Suma Oriental 255 aloões De butiqa anees De pedras fynas pasaros (228) q vem De bamda mortos & cousas a estas semelhamtes chamalotes he cada huu segumdo tem estes embaixadores podem emtrar na chyna & sair.//. Estes embaixadores qmdo vam ao Rey nom o vem somemte ho vulto do corpo Detrás huua cortina & daly Respomde estamdo sete espuaes espcuemdo a palaura qmdo a diz asynam aqujllo os oficiaes mamdaris sem o Rey põor a maão nem ser visto tor- nanse a vjr E se levam De presemte mjll faz lhe merçee do dobro & os embaixadores em peitas leixam tudo laa & tornanse sê verem ho Rostro nem a pa Do Rey esta he a ^rdade & nom como diziam q estavam quoatro homees asemtados a vista & falauã com todos sem saberem quall he o Rey e estes embaixa¬ dores podem amcorar em a cidade de quantom Como se dira no Diamte//. As Jlhas que se chamam gamispolla sam duas ou tres & majs Jumto com a terra de achey & lambry auera obra de dez ou qujnze Jlhas de tres quat0 Ieguoas ê Redomdo & o mar amtrel- las he de duas tres quoatro Ieguoas & Jumto com a terra (230) tem vymte trimta bracas// inferior garro e à mais fina calambaca. «Valenlyn afirma ser o gahru uma espécie inferior... e diferente do verdadeiro kalambak". Marsden, History of Sumatra, p. 160. Gaharu — do sânscrito garu, «pesado» —é palavra mercantil e indica madeira pesada fragrante. Burkill, p. 198-9, 202. O Dr. Lionel Giles informa-me que o nome chinês para garo é ch'ên-hsiang. «incenso que se afunda», assim chamado por nâo flutuar na água. (228) Talvez as aves do paraíso de Aru e Nova Guiné, e os papagaios de cor brilhante das Molucas, que eram levados para Malaca, como Pires refere mais adiante. Os chineses importavam também o calau e usavam o bico para gravar vários ornamentos. Cf. Moule, Some Foreign Birds and Beasts in Chinese Books, p. 259. (229) Embora no texto português se leia: «Junto com pom atrà de Ilha de çomotora», deve ser erro do copista. Pires provavelmente escreveu: «Junto com a ponta da Ilha de çomotora». (230) Marco Polo (II, 300,307) menciona «uma pequeníssima ilha que se chamava Gauenispola». Mas Gamispola era o nome dado ao pequeno maneira dos embaixa¬ dores com ho Rey Foi. 140r. Ylhas que emlestam com achey paçee Jum¬ to (229) com pom atra da Jlha de çomotora
256 Tomé Pires Guamjs- polla Regno Dachey & lambry he a trra De War//.(231) Sam estas Jlhas alguuas delias abitadas de pouquos mora¬ dores tem auga & mujto pescado & lenha tem todas emxufre em camtidade de que se fornece paçee & pedir//. Sam estas Jlhas dellRey dachey E os moradores delias estes pouq08 que sam estam a sua hordenamca prymcipall memte a moõr que tem mujt0R mres (?) E tem alguu trato nestas Jlhas vem da Jlha De çomotora a fazer pescarias & pescam mujto peixe que he mercadoria è alguus lugares de camotora//. Achey he a pimeira terra Da bamda do canall da Jlha de çomotora he lambry he peguada com ella he estemdese ao sertão E a terra De biar estaa amtre achey E pedir E aguora estas terras sam soJeytas ao Rey Dachey E elle as senhorea & delias he elle so o Rey arquipélago não longe da ponta mais setentrional de Samatra. «E estas ilhas de Guanispola são muitas», diz um antigo roteiro português. Livro de Marinharia, p. 243. Os nomes modernos das quatro ilhas maiores são Wé, Broeh ou Bruas, Dobad e Bunta e há várias ilhotas. A carta chamada de Cantino tem Gãspola; a seguir a carta de Rodrigues (foi. 29) tem as ilhas de gamispolla; ganyspora na carta de Reinei de c. 1517, e, assim, em cartas posteriores. No atlas de Luís de 1563 e nos atlas de Dourado de 1568-80, gamispola aparece já transformada em gomes pola ou gomes polia, que se encontra também cm cartas mais tardias, até ao século xvnt. Bowrey (p. 227-8) menciona Pullo Gomus. As quatro ilhas maiores chamam-se Gomes Pulo ou Pulo Gomes nas cartas posteriores. A carta na «Hislory of Sumaira de Marsden tem ainda P° Gomez aplicado a Bunta, ilhota mais a sudoeste do grupo. (231) achey — Atjey ou Achin, forma hoje um governo autónomo abranjendo toda a parte norte de Samatra exccpto a extremidade mais seten¬ trional de Kuta Raja, através da qual corre o rio Achin. Pires é o primeiro escritor europeu a mencionar Achin, e a carta de c. 1540 é a primeira a regis¬ tar achey, exactamcnte com a mesma grafia de Pires, lambry — O Lamuri, Lamori ou Lambri dos árabes. Marco Polo, Frei Odcrico e outros viajantes medievais. Couto rcfcre-sc aos Lambri mencionados por Polo, dizendo que «ainda hoje conserva o nome naquela Ilha em Samatra». IV, iii, I. Yule diz numa nota que «a maior parte dos dados sobre Lambri torna muito difícil distingui-la de Achin». mas na mesma nota Cordier cita a opinião de Groeneveldt (Notes on lhe Malay Archipelago, 98-100) de que Lambri
A Suma Oriental 257 Este Rey he mouro homem caualeiro amtre seus viz08. Vsa de furtar qmdo vee tempo tera obra De trimta quoremta lam- charas com as quaes amda de armada qndo esta em sua terra vive por suas noujdades de seus aRozes E mamtimemtos tem Rijos q vem teer no canall que emtram por sua terra E na emtrada sam De pouq° fumdo/ Tem estas terras carnes aRozes & vinhõs a sua guisa & out°s mantim'08 tem pimemta nom mujta o Rey de peedir tem sempre guerra com este E este lhe faz dapno mujto em sua terra//. Peedir na Jlha de çomotora foy homrrado Riquo & de Regno de trãto & senhoreou Ja os Regnos sobreditos E também a terra pee- de eilabuu & o Regno de lide & o Regno De pirada E tinha ^í232) guerra com pacee & foy Ja pedir sõr da boca do canall E tinha o trato em peso E com elle nauegavam mais que com paçee//. ficava «no ou junto do local da actual Achin.» Marco Polo, 11, 300-1. Dames, contudo, é de opinião que «talvez possa ter sido junto de Achin, mas tão perto que se possa confundir com ela» (n, 182-4), no que é confir¬ mado por Pires. Cordier sugere que a aldeia chamada Lamreh, situada em Atjeh, junto de Tungkup (mencionada pelo capitão M. J. C. Lucardie, Merveilles de Vinde, p. 235) talvez fosse um resto da região chamada Lãmeri». Marco Polo, II, 301; Cathay, II, 301; Calliay, n, 146. Vide G. Schlegel, The Old States itt lhe Island of Sumatra, p. 79. biar — Não consigo des¬ cobrir qualquer vestígio claro do nome desta terra, situada por Pires entre Achin e Pedir, com uma costa marítima correspondente à actual Krung Raya Bay c Blang Raya. (232) Pedir. O nome sobrevive em Pedir Point (lat. N. 5o 30’), Kuala Pedir, que é a foz da corrente principal desta parte da costa, e na grande aldeia de Pedir, onde há ainda «uma velha fortaleza portuguesa em ruínas». Malaca Strail Pilot, p. 40 (cd. 1924). «A ponta de Pedir está em — 5| — graus e faz uma enseada que mete dentro ao sul uma légua c meia onde está o porto de Pedir e corre-sc esta ponto com a de Pasem sueste noroeste e há aí de rota 17-léguas a ponta da banda do loeste. «Ho porto de Pedir estaa em — 51 — graos e faz húa barra que da bamda daloeste mete ao sudoeste hua legoa e mea e a bamda de leste bota uma pomta . E o rosto desta pomta he apraçclado atcc Pasc hOa legoa da terra e esta pomta e rio se chama Jambuar». Livro de Marinha¬ ria, p. 243.
258 Tomé Pires Athee a era De qujnhemtos & dez annõs teue sempre trato sua cidade he por huu Rijo demtro obra de meia leguoa// ha barra de maree chea tem duas braças tem a cidade mercadores de todas naçõees aJmda aguora posto q sempre teuesse guerra com seus vizynhõs aJmda nom he mujto descaydo// do que soyaII Tratam com pedir cadano atee duas naãos de cambaya & de bemgala & huua De benua quelím & outa de peguu. os q saem com os prymros vemtos athee vymte Juncos pequenos & lamcharas com aRoz/ trata com elles terrãao & tenaçary quedaa baruãz depois da tomada de malaqa nom teue tamto trato por caso da guerra que teue maior mente por morte Dell- Fol. I40v. Rey madaforxa q morreo & ficaromlhe | dous Filhos pequenos E leuamtaromse outs° com ho Regnrio he esteue sempre dc guerra que he comtraira a mercadoria// As mercadorias que pedir teue & terra daq' por diamte como a guerra acabãr & tornar ao seu cadano seis sete athee dez mjll bahares de pimenta Dizem q Ja teue obra de qujnze mjll bahares/ tem seda bramqa beiJoym em sua terra & na de seus vizinhos tem ouro q vem também a pedir por vya do sertaão & por causa da pymemta Recebya gramdes mercadorias & Retornos de huus & out°s que nobreceo seu Regno & sua cidade// E de quatro annos a esta parte tera pedir dous tres mjll bahares de p,a cadano E mais nom dizem que Ja a terra vay tornamdo adante: por causa da guerra que se aleuamtou E polia guerra que athee q teue se Sayrom muytos mercadores// Regna em pedir agora huu capitam Do Rey & lamçou huu fylho do Rey fora que ora esta em paeçe fora do seu Regno tem pedir por moeda meuda caixas destanho como çeytijs tem dramas (233) (233) Havia na índia uma velha moeda de pouco valor chamada dramo, registada em alguns dicionários portugueses c em Dalgado (í.v. Dama). Os dramas dc Pires poderiam sugerir dracmas, mas mais adiante, sob o epí¬ grafe «moedas e peso dc Pase» ele especifica claramente que dramas é o nome local para certas pequenas moedas de ouro. Num livro chinês, Ying-yai Shêng-lan (Descrição geral das praias do Oceano), escrito em 1416 por Ma
A Suma Oriental 259 douro q valem noue huu czd0 tem tamgas (234) de prata das De syam peguu & bemgalla E corre na terra ê sua valija & nas mercaDorias De mujta comtia ouro em poo ho peso do bahaãr he como ho de paçee// A terra q se chama aeilabuu estaa polia costa do maãr alem atila¬ dos termos De peedir este luguar teue Ja Rey E aguora tem buu{235) mamdarim capytam vasallo do Rey de peedir tem este lugar daeilabuu cidade honde se trata alguuã mercadoria pouca tem pimemta este lugar ê cantidad E a cidade he Jumto com ho mãar tem mamtimemtos pa sy// Ho Regno De lidee he alem daeilabuu E comfyna com udee (236) pirada o Rey Desta terra soya ser De pedir aguora nom// tem lugares Jumto ao mãar em que se trata alguua mercadoria/ tem Huan, afirma-se que «o dinheiro usado (em Samatra) sào moedas de ouro e estanho. As moedas de ouro são chamadas dinar contêm sete décimas de ouro puro, são redondas, têm diâmetro de 5 fên medida oficial (1.6 centí¬ metros) e pesam 2 fên (aliás ch'ien) 3 li (cerca de 10 gramas)» Groeneveldt, Notes on the Malay Archipelago and Malacca p. 87. Não é talvez impos¬ sível que grafia chinesa aqui transliterada como dinar soasse um tanto como drama que Pires escreveu. (234) Tanga. O nome de uma moeda usada na índia e noutros países orientais. Era feita de diferentes metais e tinha valor variável. A tanga foi uma unidade monetária na índia Portuguesa equivalente a sessenta reis. Hobson-Jobson e Dalgado, s.v. Vide nota p. 149. (235) Aeilabu corresponde a Kuala Ayer Lebu, a foz do rio Tiro, quinze milhas sudeste de Pedir. (236) A dezasseis milhas este-sul-este de Ayer Lebu desagua o rio Ulim ou Olim; a pequena aldeia de Ulim está situada a uma milha da sua foz. O que pode sugerir a sobrevivência da Lidee de Pires. E. H. Parker, seguindo Groeneveldt, escreve — «a oriente e pegado a Lambri os registos de Ming dizem que havia um estado subordinado a Sumoltra chamado Li-fah (ou Li-tai) ficando a ocidente de Nagur c Sumoltra [ou Nakur e Samúdra]. Esta é a posição cxacta de Lide segundo a enumeração de Barros dos estados do Petty que ele visitou» (sic). The Island of Sumatra. p. 141. Segundo Schlegel o chinês Li-fah está em vez de Li-te (in A.D. 1416), i.e.. Lide de Barros ou Lidee de Pires. Prova também que «oeste» está erradamente em vez de este, como é óbvio. Op. c/7., p. 65-8.
260 Tomé Pires /Pira¬ da/ (237) Foi. I4lr. Regnno De pa- çee (240) mercadores trata peeguu com ella E outs0 lugares a terra De lyde he boa de mamti mentos tem pymemta & seda è sua terra he amiguo DellRey de peedir aguora tem este Regno lamcharãs que navegam & tratam mercadoria este pa os vizos defemdese he forte em sua terra faz sempre esta terra fumdamemto de pedir sam paremtes os Reys este he Rey mouro tem mamtimemtos pasy//. Ho Regno de pirada he de mais Jemte que a tera de lidee E o Rey mais poderoso era amtigamemte vasallo de pedir aguora nom/l tem duas pouoaçoões Jumto com o mar huua se chama medina (238) & outa [em branco] tratam mercadaria tem pymemta seda q Ieuam a pedir E asy leua lyde laa a sua/ tem estes feitores em pedir & daly se fornecem sã paremtes do Rey de pedjr tem ouro//, tem mamtimemtos pirada ê sua terra tratam com ella de mujtas partes tem trato nom muyto he poderoso pa se poder defemder de paeçe posto que a Jemte de que se agora fala | he mais manhosa que poderosa. & dizem que os de pirada, sam gramdemête maliciosos treedores & gemte de pouca verdade amdam a furtar as vezes no maãr tem guerra com os cafres (239) na terra firme//. Ho Riquo Regno de pacee he de muijt0 pouco E trato com- (237) Cinco milhas a este de Ulim fica o Cabo Pedada, e a uma milha para oriente fica o rio Pedada com uma aldeia do mesmo nome junto da costa. Sete milhas para sudeste há um outro rio Pidada e um local do mesmo nome. Qualquer destes pode corresponder à Pirada de Pires. (238) O Mohit (p. 72) menciona o porto de Mandara na costa oriental mais ou menos à mesma latitude de Pedada e Pidada. Um outro local, Madina. situado por Mohit (p. 87) muito mais para sudeste, corresponde à actual Medan. É possível que Pires confundisse a ordem dos locais ao colher as suas informações. (239) Do árabe Kafir. «infiel ou incréu», significando qualquer pessoa nâo maometana. «Um pagão ou cafre» diz Pires mais adiante. «Gen¬ tios a que os mouros chamam cafres», diz Barbosa (I, 10). Os próprios ingleses, pelo menos uma vez em 1799, foram chamados «Cafres»! Cf. Hob- son-Jobson, s.v. (240) O nome sobrevive no rio Pase, na Lat. 5° 9' N. Aparece pela primeira vez nas cartas de Rodrigues (foi. 34), como Pacçem, e depois em
A Suma OrientaI 261 fyna de huua bamda ao Regno de pirada segumdo Ja he dito & da outa com a terra de bata de que he Rey ho tamjano he terra a de pacee ao lomguo do maãr nos termos da bãDa do sertãao da Jlha comfyna com os termos do Rey de manicopa q saee a outa bamda do maãr com que alguuas vezes tem guerra//. E aguora depois de malaqa ser castíguada E peedir amdar em guerra o Regno De paçee faz se prospero Riquo de mujtos merçadores de naçoees DiVsas mouros qujlijs que gramdememte tratam amtre os qees os mais pinçipãees sam bemgallas tem Runnes turqos arabíos parseos guzarates qlijs malaios JaÕos syames// He a Jemte de paçee polia moõr parte bemgalla/ & os natu- raees desta Jeraçã Deçemdem E por desta sememte ser tem a terra em costume como se adiamte dira por que nom he duujda no mumdo aver vill manra tall como pacee vsa acerqa do seu Rey//. Ho rregno de pacee tem a cidade que se chama paçee E /cidade de allguus lhe chamã ca motora porque em toda a ylha nom ha paaçell cousa tam homrrada denomjnou se a dita cidade a toda a Jlha asy que por quallquer destes nomes se nomea esta cidade nom tera menos de vymte mjll mres//: Tem asy ho Regno de paçee pouoaçoèes gramdes & de mujla Jemte contra o sertão domde viue a gemte homrada limpa porque suas noujdades que tem a p,a seda beiJoym/ aas vezes discordam estes com paçee mas afirmase q a vomtade destes nas deferemcas pervaleçe a paçee & nestas pouoações moram gramdes fidallguos do Regnfio que se chamam mandaris & a gemte de defemsam//. ■r. J. CORDEIRO PEREIRA _ Rua do Mercado. 7. i-G T«l«l. 280006-2750 CASCAIS quase todas as cartas até ao século xvm. Castanheda refere-sc à «cidade de Pacõ vinte léguas de Pedir, que está por híí rio dentro obra de uma légua situada na borda dele em terra alagadiça.» II, cxi. Há de facto 84 milhas entre Pedir c a moderna Pase, que fica a 20 milhas mais do que as 20 léguas de Castanheda. Vide nota anterior sobre Pedir.
262 Tomé Pires Modo de Reinar & quamto ha q ha Reis & de que seytas/l. Foi. 141 v. Paçee foy de Reis gemtios E auera aguora cemto sessemta annõs q gastarom os ditos Reis por estuçia dos mouros mer¬ cadores que avya no Regno De paçee E ouuerom os ditos mouros as beiras do maãr he aleuamtarom Rey mouro da casta dos bemgallas E des aquelle tempo atee guora sempre forom os Reis de paçee mouros somemte os do sertãao nom nos poderom ate aguora comVrter & porem nestes Regnõs que ha na Jlha De çomotora os de Junto com ho maãr todos sam mouros da bamda Do canall de malaca. E os que aJmda ho nom som do pouoo fazem nos cada dia mouros E nom he amtreelles Jemtio avydo em nenhuuã estyma nom semdo mercador// asy que os bemgallas despois de leuantarê Rey foy com comdicam que quall quer que podese matar o Rey fose Rey posto q fose de | quall quer estado & comdiçam semdo mouro esta empresa tomarom des aquelle tempo hos gramdes de paçee que quem mata o Rey fiqua Rey E afirmanse que em huu dia ouue sete Reis em paçee porque huu matava o out° & out° o out° E levam por groría morrer Reis & nom se gardam q dizem que tall hordenança he por ds De maneira que os Rex nom duram muyto tempo em seu estado & tamto que huu mata o out° Emterra ho morto com toda solepnjdade Reall porque asy estaa a terra em costume E a cidade nè pouoo & mercadores nom Recebem aluoroço nenhuu posto que matem o Rey ou viua // E por que os bemgalas tall hordenamça aleuamtarõ qujs a terra de bemgalla vsar o semelhamte como se vera no Recom- tamemto de bengala q de setemta annos a esta parte se vsa asy em bemgala he nõ se acha terra homde este custume dure & aJa somente em bemgala E em paçee//. Em tres meses vierom embaixadores de paçee duas vezes tomar vasalagem & obidiemcia a malaq“ De como erã mortos dous Reis ê paeçe p duas vezes que fosem emparados dos purtu- gueses q a trra & gemte he Reis eram espauos Del Rey noso sõr/ como comtinoadamemte a vem pedir com outs° Reis soce- dem & o Rey que ora Regna he filho DellRey de pirada//.
A Suma Oriental 263 He a cidade de paçee pollo Ryo dentro obra de m® leguoa. E o Rijo sera como o de peedir daquela maneira alguu tamto mais larguo pouqa cousa ambos os Rijos tem padroees nosos nas emtradas Tem pimemta cadanno athee oyto dez mjll bahares a ptó desta ylha nem he da bomdade da de cochim he moõr mais vãa dura menos nom tem a perfeicam do gosto E nom he tamto aRomatica// tem seda E beiJoym de sua terra E am pace achares todallas mercaDarias q ha em toda a ylha por q acodem aly//. Ha moeda meuda como ceitíjs sam drrs destanho com nome do Rey que Reyna. ha dr°s douro pequenjnos a que chamã dramãs estes valem noue huu cz?0 E cada huu destes creio que vali de qujnhemtas caixas acima tem ouro em poo & pta ho seu bahar da pymêta he menos q o de rnalaq® cimq0 quates que sam xij a Rates menos// Hos mercadores que em paçee tratam sam guzarates quijlis bègalas peguus syames queda baruaz & destes Ja sam Repartidos tantos ha | paçee e tamtos a peedir E o Rastamte a rnalaq3 do leuante nom tratã com paçee somemte com a populosa cidade De rnalaq® que de çidades como paçee se podiam fazer dez do pouo De malaca no tempo de seu castíguo quamdo Recebeo emmenda do erro q cometeo.//. Asy este tall nobrecimento q paçee Recebeo pollo acom- tecido em rnalaq® Reformada rnalaq® como cada dia se faz tor¬ nara paçee a fiqar no seu & peedir com a aJuda do muy alto ds os Rex de paçee pedir Pryncipallmête E todos os comteudos nesta Jlha seram trebutarios & vasallos de cuJa malaqa aguora hee por q dout® mana è huu anno nom avera paçee nem peedir & elles q ho emtendè se fazem vasallos pm° q hos Requeira//. Tem paçee ho drrto do peso de toda a mercadoria por bahar huu maz(241) da sayda & tem ancoragem segumdo he a naão Merca¬ dorias de paçee!. H moedas & peso De paçee/ Merca¬ dorias q tratam è paçee è Juncos & naoos/l Foi. I42r Drrtos em paçee (241) Um peso de ouro usado em Samatra, equivalente a uma décima sexta parte de um tael ou onça. Mais adiante, ao tratar da moeda de Malaca,
264 Tomé Pires Regno de bala (243) ou JumcoII de mamtimentos nom paguam nada somemte pre- semte das outas mercadorias q vem Do ponemte seis por cemto & todo espauo que vam la vemder cimq0 mazes douro & de toda mercadaria que tira pa fora ora seja pymemta ou outa qll qf paguua por bahar huu maz// paçee nè pedir nõ tem Junco nenhuu tem lamcharas ate duas tres quoatro de carga estes vinham anitig3 memte comprar Juncos a malaq3/ os mercadores de paçee compram Juncos a out°s mercadores q doutas ptes la vã tratar por que em paçee nom se fazê por Rezã Da pouqa madeira (242) q ha na terra De paao Jaty que he forte pa os juncos//. Ho Regnno De bata de huua pte comfyna com o Regno De paçee & da outa com o Regno de daruu// chamase o Rey desta terra RaJa tomjam (244) Este he mouro Caualeiro amda Pires diz também que o lael pesa dezasseis mazes. Mas o valor do maz era variável no Extremo-Oriente. Vide nota sobre maz p. 366. (242) Jaty. Teclona grandis Linn., ou teca, «o orgulho das florestas indianas.» As palavras Kayu jati significam «a verdadeira ou autêntica madeira». Burkill, op. cil., p. 2127. Embora Corner (op. cit., I, 706) diga que a teca foi introduzida na Malaia, vinda da Birmânia, Sião, Java oriental, e das Filipinas, parece que no tempo de Pires já era desde há muito conhe¬ cida em Malaca. (243) Na mesma linha e com letra muito mais recente, seguem-se as palavras: «Bata (à Sumatra)». Os Batas. Battas ou Bataks eram os habitantes das terras do interior da Samatra do norte. Barros refere-se aos Bátas que habitam a parte de Samatra mais próxima de Malaca e «os quais comem carne humana, gente mais agreste, e guerreira de toda a terra» (III, v, i). Galvão (p. 108) e Hcrédia (foi. 23v.), entre outros, também se referem ao canibalismo dos Batas. O atlas português, anónimo, de c. 1615-23 tem bala a noroeste e na carta de Berthe- lot de 1635 tem R. dos baias na costa nordeste de Samatra, na Lat. 3o N. (244) Raja Tomjam. ou Tamjano como anteriormente escrito, é com certeza ‘Raja of Tomjam'. Pinto rcferc-sc a «Timorraja, rei dos Batas» (XIII). Castanheda diz que os sobreviventes do Frol ta Mar foram «à ilha de Samatra à cidade de Temião» (III, Ixxviii) e Barros informa-nos que o naufrágio foi em frente de «uma ponta chamada Timia no reino de Aru» (II, vii, i). Este rio de Tuyão está em 4'/3 graus, como afirma correctamentc o Livro Marinharia, p. 243. Isto deve corresponder a leinaoa na carta de
A Suma Oriental 265 a furtar no maãr mujtas vezes este he Jemrro DellRey daruu este Recolheo a naão Froll de la mar (245) q com tormemta se pdeo Davamte sua terra & dizê q Recobrou tudo qmto aguoa nom podia danar Do quall Dizem q he mujto Riq° he bè Riq° segumdo dizem este tomjano//: Este tomjano tem muytas vezes guerra no sertãoo as vezes peleJa com o sogro aas vezes com paaçee & quem vee mais pode¬ roso aJuda & de todos Recebe dizem que sempre os Reis de batar teuerõ este costume// tera atee trimta ou quoremta lam- charas bem atabyadas q saem ao canall por Rijos que sua terra tem por q Junto a o maãr nom tem mais moradores q espias pa saber quem pasa tem a dita terra de bata aRoz & vinhos fruytas tem breu de q faze muytas camdeas & vam la carreguar Delias tem muyto mell & çera tem camfora pouqa De comer tem a pincipall mercadaria canas que chamã Rotaãs (246) ê c. 1540, e R. themian na carta de Berthelot, no nordeste de Samatra — o pequeno rio Tamian ou Tamiang (há também um promontório e uma colina chamados Tamiang, Lat. 4o 25' N.). Aparentemente o nome ocorre como Dalmyan num MS. persa de 1310 e como Tumihan num MS. javanês de 1365. Ferrand, Relations de voyages, p. 261 e 652. Uma descrição chinesa de 1436 diz: «Tamiang está ligada ao território de Aru. Está cercada por montanhas por todos os lados e possui uma enseada que conduz a uma grande corrente interior, impetuosa, durante umas mil milhas, que se precipita no mar.» Schlegcl, op. cit., p. 86. (245) Depois da conquista de Malaca, Albuquerque voltou à índia, com uma pequena frota de quatro navios, cm 1 de Dezembro de 1511, a bordo da Frol de ta Mar. Quando os navios navegavam ao longo da costa nordeste de Pase foram apanhados por uma violenta tempestade e a Frol de la Mar. uma velha nau, foi destroçada nuns baixios, com grandes perdas de vidas e de todos os tesouros trazidos de Malaca. O próprio Albuquerque escapou com grande dificuldade. As crónicas não estão totalmente de acordo quanto ao local cm que a Frol de la Mar foi destruída, mas o próprio Albu¬ querque diz na sua carta de 20 de Agosto de 1512, escrita de Cochim ao Rei de Portugal, que a Frol de la Mar foi destruída junto de Pase». Carlas t, 67. [«frol de la mar apousentouse junto com pacee»]. (246) Rattan, a palavra malaia rolan, um junco. Estes juncos são feitos de certas variedades de palmeiras, especialmente do Calamus Linn.
266 Tomé Pires Foi. I42v. Regnho de da- ruu (247) gramde camtidade que he boa mercadoria porque servem de cabres & de fyo em tudo//. Ho Regno de daruu he Regnno gramde moõr que nenhuu dos que athe agora sam Ditos em çamotora E nom he Riquo por mercadorias & trato que o nom tem este tem mujta gemte mujtas lamcharas este he o moõr ladram De todo çomotora E mais poderoso em saltos de furtos he Rey mouro víue no sertaão tem Rios è sua terra muytos a terra ê sy he alagadiça que se nom pode emtrar//. Este esta sempre dasemto em seu Regno os seos mamdarís & seu povo amdam no maãr a furtar & partem com elle por que da armada alguuã pte he a sua custa Des ho primcipio de malaqa teue sempre guerra com malaqa & & lhe tem tomada mujta Jemte saltea huuã aldea & levalhe tudo atee os pescadores & sempe os malayos se vigiam gramdememte dos daruus por¬ que tem esta Reixa Ja abitada he fiquou pa sempe domde saio o Rifam daruu com malaqa/ achey com pedir/ pedir com quedaa & syam/ pahão com syam da outa banda/ palimbam com lim- gua/ calates com baJus (248) &c/ & cada huuã destas nacoes (247) Scgue-se com letra muito mais recente: «Ara (à Sumatra).» Daru é um genitivo [de e Ara]. Pires usou também a forma Dura na sua carta escrita de Cochim em 27 de Jan. de 1516, em que ele se refere ao Regno de daru; mas é errado escrever «de daru». O reino ou o estado de Aru, como muitos dos mencionados por Pires, desapareceu há muito das cartas. Mas o nome sobrevive em Aru Bay, na costa nordeste de Samatra. c nas Ilhas de Aroa, grupo de ilhotas quase a meio do canal entre a costa dc Samatra c o Cabo Rachado. As cartas de Reinei de c. 1517 e c. 1518 são as primeiras a mostrar aRu e irra daRu. imediatamente ao norte e ao sul do equador; a carta dc L. Homem de 1554 e o atlas de D. Homem de 1558 têm R. daru e irra daru situadas na região do moderno Rokan River. O rio Aru corresponde ao moderno Deli River, cm que está a cidade de Aru. (248) «Cellaies est un néologisme portugais formé avec le mot malais sélái ‘détroit'. II a le sens de 'gens du détroit, population maritime vivant dans le détroit», diz Ferrand Malaka, xt, 434. Pires, foi. 143r, é, contudo, absolutamente explícito ao dizer mais adiante que «celates que quer dizer na linguagem malaya ladrões do mar». Crawfurd é mais brando, chamando
A Suma Oriental 267 peleJam huua comtra outa E muy poucas vezes tem amj- zade//. He a Jemte de daruu presumtuosa guerreira de quem se nom fya nenguè se nom furtam nom viuem E portamto nom tem amjzade com ella tera cem paraoos & mais cada vez que qr/ nam mujto grades cousas mais sotijs pa cheguuar q pa leuar cargua//. tem a terra De daru muy to aRoz & mujto aluo & bom e em m,a camtidade tem mujtas carnes pescados v0K a sua guisa fruytas em mujta abastança tem camfora de comer em boa camtidade tem ouro tem m‘° beiJoym he bom tem lenho loees de butiqa tem Rotaãs breu çera mell espauos homees molheres tem alguus mercadores pouquos alguuas destas mercadorias se gastam por vija de paeçê & pedir & outas por vya de pamchur por que a terra de daruu. Delia he na terra De menancabo & laa tem gram- des Rijõs por demtro por homde toda a Jlha de camotora se navegua & destes luguares tem hos pannos pa seus vestidos & outas cousas Tem daruu na terra darqat huua pouoacam homde em certos meses faz feira despauos homees molheres & framqua pode quem quyser laa Jr segura memte & vay lia mujta gemte a compar estpauos E alguuas pesoas mamdam comprar seus fs° & fsa as maiès & maridos as molheres E também nellas se tratã outsa mercadarias he asy se vsa com os celates como se dira qmdo se dos celates ladrões falar em seu luguar//. aos celates «ciganos do mar». Dictionary p. 50 Bajus ou Bugis era o nome dado pelos malaias à raça dominante dos Cclebes. Nos séculos xvn e xvih os bugis estabeleceram-se na Peninsula Malaia e noutros locais do Arqui¬ pélago Malaio. Crawfurd observou que «os bugis, agora os mais empreen¬ dedores de todas as tribus nativas do Arquipélago, não são nunca men¬ cionados pelos escritores europeus mais antigos», tais como Barbosa e Barros; e que eles se contam entre os mais avançados povos do Arquipélago». Dictionary, s.v. Mamti- memtos & H merca¬ dorias! I Hfeira na terra desteI
268 Tomé Pires Regno De arcal (249) Foi. I43r. l/lerra de Jr- can/(250) Regno de Ru- pal (252) Ho Regno de arcat comfyna de huuã pte com daruu & da outa com yrcam ho Rey he mouro tem pequena terra tem paraõs pequenos nom he de trato mujt0 / he vasallo Dell Rey de daruu. a Jemte deste Regno nas beiras do mãr sam ladrõees celates & os da terra dentro viuê p suas novidads//. Tem esta terra ouro tem aRoz vinhos pescados & carre- guam de pescado seq° E salguado aq ha terra deste nom emtrã nella senom paraõos muj10 pequenos por esteiros he paremte o Rey do Rey de daruu//. A terra de Jrcan he amtre arcat E o Regno de rrupat esta terra nom tem Rey tem mamdary este he vasallo DelRey De malaq* que foy a Juda uão no tpo Da guerra com Remeíros & Jemte darmãs hos quaèes aviam de serujr graçíosa memte. somemte pollo comèr. esta gemte sam delles mujtos celates que quer Dizer na limguoaJem malay® ladroèes do maãr//. tem a terra De purím(25l) ouro aRoz tem este a pescaria dos sauees Domde os trazem a malaca em gramde camtidade & também ha nesta terra feira despauos q elles furtam E outs0 ladroèes & vem nos vemder a este luguar & também a purím// O Regno de Rupat comfyna de huua parte com Jrcan & da outa com purim he Regno pequeno a mõr pte da Jemte sam ladroèes ê paraõs pequenos tem este a mesma obrígaçã a malaca que tem a terra de Yrcan socorre com Jemte na guerra/ tem (249) O mais importante ancoradouro entre os rios Deli e Rokan fica numa baía em que três rios — o Kualu, o Bila c o Panai — desaguam. Esta baía é limitada a ocidente por um promontório chamado Pertandangan ou Perapat. Será, talvez, remnisccncia do Arcai de Pires? (250) Jrcan corresponde ao Rokan River. As primeiras cartas em que encontro este rio sâo a de Hercdia (1613) e a de Berthelot (1635), onde é dado como Aracan. (251) Embora o MS. tenha Purim, em vez de Jrcan, trata-se, obvia- mente, de um erro. (252) Seguem-sc em letra muito mais recente: «Aru (à Sumatra)». Pulo Rupat, uma grande ilha mesmo em frente de Malaca.
A Suma Oriental 269 yso mesmo aRoz pouquo vos fruytas & tem pescaria de savees ê gramde camtídade & do out°s pescados//. A terra de purjm comfyna De huua bamda com Rupat nterra De & da outa cõ ciac tem mamdarim esta terra pesoa poderosa he P“- vasallo de malaqa pola maneira que se dixe De Jrcan & Rupat rimH *253) acode com Jemte Remeíros ê gramde abastamça he a mõr pte da Jemte deste luguãr sam çelats ladroèes he criamse no mãr E sam gramdes Remeiros//. Este purim tem feira dos espauos que furtam mõr que os dous lugares De que falamos tirando arcat tem asy mesmo estee purim mujtos savees & out°s pescados em mujta camtidade tem alguu ouro aRoz \os carnes E outs° mamtimemtos este mam¬ darim de purjm he pa pncipall E gramde guerreiro//. O Regno De çiac de huuã bamda comfyna com purim Regno de & da outa com campar o Rey daq1 he mouro esta terra tem trato çiac (254) & mercadoís alguus he ciac terra que tem aRoz mell çera Rotaãs lenho aloes De butiqa tem mais ouro q hos tres lugares q díxe- mos tem vos he outs° mantimentos// Este Rey tem boa valia na terra he paremte Dell Rey de malaqa he do Rey De campar he trebutario a elle & o Rey de campar trebutario a malaq3 por sy & pello out° defemdese a terra deste por demtro tem Rios gramdes q vam por detrás pola terra firme este Rey tem paraos mujtos E fazemse em sua terra p causa da muj,a madeira que hy ha//. Ho Regno De campar de huua parte confyna com ciac Foi. 143v. & da outa com campom tem esta terra Defromte de sy as Jlhas Regno De cam¬ par (255). (253) A próxima ilha a sudeste de Rupat é Pulo Bcngkalis (o Bam- callis do atlas de 1580 de Dourado e de outras cartas mais tardias). A extre¬ midade nordeste desta pequena ilha chama-se Parit, talvez uma reminis¬ cência do Purim de Pires, que mais adiante também se escreve Porím. (254) Ciac corresponde ao Siak River. A carta de c. 1540 tem Cjace; o mesmo em cartas posteriores. (255) Segue-se em letra muito mais recente: «Campcr, (à Sumatra)». Campar corresponde a Kampar River. As cartas de c. 1517 e c. 1518 de Reinei têm campar: o mesmo cm cartas posteriores. •jo
270 Tomé Pires de carjmom & de çelaguy guy/ E De sabam (256) que comecam a fazer canall pa Jaaõa. & outas bamDas// amtre as Jlhas E a terra de campar chamase o canall de campar por que daly começa//. Estes Rex de campar sam paremtes do Rey que foy de malaqa & o que aguora he casado com huuã sua fa se chama RaJa audela// Junto com ho maãr nom tem seu Regno pouoa- çõees emtra por huu Rijo De cirnq0 seis sete bracas E neste Rijo se faz huQ macareo grãde AJuntamse as aguoas de muytos Rijõs no larguo he em pouq° espaço sobe agoa em gramde altura. (256) carjmom — Ilhas Karimun. São duas, a Great Karimun e a Little Karimun, separadas por um fundo canal de meia milha de largura. çelaguy guy — As ilhas Sugi, a leste da ilha Kundur? Entre Kari¬ mun e Kundur fica a pequena ilha Temblas, a Ambelas dos antigos roteiros portugueses (Lat. Io N), e várias outras mas nenhuma sugere Çelaguy Guy ou Çelaguym gum. Pires, contudo, identifica estas ilhas com as Celates (P- 379). sabam — Ilha Kundur. Seguindo numa carta moderna as rotas do Livro de Marinharia, p. 244-67, descobrimos que a ilha de Sabam é indubi¬ tavelmente a ilha Kundur. Há ainda um pequeno lugar chamado Sawang na costa ocidental de Kundur, frente ao canal. As cartas de c. 1517 e c. 1518 de Reinei têm sabã ao sul do equador, na entrada norte de um canal entre Samatra e um grande arquipélago (o actual Rhio Archipelago) ao sul de sangapura. As cartas de L. Homem (1554). D. Homem (1558), Dourado e outros, têm «saída do canal de sabam» escrito na costa de Samatra, também a sul do equador. Todavia, o Canal de Sabam, entre a costa samatriana e as ilhas de Karimun e Kundur, fica bem na dirccçâo norte do equador. Mas umas das cartas de Herédia (foi. 45) tem as ilhas cariman, ambilas e SABAM, formando com Samatra o estreito: sabam (marcado com linhas ponteadas) situado a norte do equador apenas a alguns escassos minutos da latitude correcta. Apesar das opiniões modernas em contrário, não há dúvida de que esta foi a rota dos navios portugueses ao navegarem de Malaca para a costa sudeste de Samatra e mais além. Na realidade as sondagens na parte menos funda do canal, entre o sudoeste de Kuntur e Mendol são de quatro braças e três quartas; mais para sudeste, entre a costa samatriana e Pulo Wahu (N. W. de Pulo Durei), a parte menos funda é apenas de três braças e uma quarta.
A Suma Oriental 271 & sobymdo derama vagas de mana q soVrte & espedaça qll quer cousa que acha & se os que emtram Demtro nom tem aviso de catar tempo pa emtrar pdemse(257) mujtas vezes//. He esta terra de campãr esteríle de pouq0 proueito corem pollo Rijo sete & oyto dias & laa sam as pouoaçoees nom mujtas o Rijo corre violemta memte & he maão De navegar com as corremtes casy no cabo Jumto com a deradeíra pouoaçam do dito Rey se apartam os Rijõs o de campar & o De menancabo & o de ciac & a emtrada da foz dout0 Rijo que campar tem se fazout0 Rijo (258) gramde que vem fazemdo/ ciac/ purjm/ Rupat/ Jrcan Jlhas & vem sair defromte De rnalaq0 pilo quall veio paty onuz com marêes por q hos vemtos eram Ja com- trairos no canall pa cheguar a malaqa porem elle tornou a popa com vemto & fresco fogeo nos Juncos o quall feito Durara mujto tempo p° memória// (259) (257) O Malacca Strait Pilot diz que «devido ao macaréu que se realiza e à rápida corrente das marés, se torna necessário o conhecimento local» no Kampar River. (258) Não há nenhum outro rio entre o Siak e o Kampar. É possível que por este «outro rio grande» Pires quisesse referir-se ao estreito e longo canal entre as ilhas Bengakalis, Padang e Tebing Tinggi de um lado e ao continente de Samatra do outro, que poderia parecer um grande rio. Ele pensava que a grande ilha muito próxima da costa de Samatra, em frente de Malaca, com canais estreitos e os rios Rokan, Siak e Kampar formavam o enorme delta de um só rio. Esta ideia errada foi comum a muitos car¬ tógrafos e geógrafos, como se vê em cartas e descrições antigas da África, Ásia e América, quando as suas terras do interior eram quase, ou inteiramente, desconhecidas. (259) Em Janeiro de 1513, Paty Onuz, Patih Yunus ou Pate Unus, tentou surpreender Malaca, trazendo uma centena de navios com 5.000 homens, javaneses de Japara e Palembang; «derrotado, Patih Unus navegou de novo para a pátria e fixou na praia o seu navio de guerra como monumento de um combate contra homens a quem ele chamou os mais corajosos do mundo; por causa desta sua façanha obteve alguns anos depois o trono de Demaa.» Winstedt, A History of Malay, 70-1 (seguindo Castanhcda, III, cii). Quando Alvim visitou Japara, em 1513, Pate Unus, mandou-lhe presentes, pedindo
272 Tomé Pires Merca¬ dorias tem este Regno mujt0 lenho aloêes de butiqa chamase em malay0 garuu E na Jmdia agujlla tem ouro breu tem çera mell comfyna no sertão com os Reis De menamcabo & trata com elles aos portugueses que não queimassem o famoso junco, que não foi danificado. Numa carta a Afonso de Albuquerque, de Cananorc, 22 de Fevereiro de 1513, Fernão Pires de Andrade, capitão da frota que derrotara Pate Unus, diz «o junquo de pate umuz he o mor que ate gora os homes daquelas partes tem visto, e trazia mill homes de peleja dentro cm sy, e crea vosa senhoria... que era cousa façanhosa de ver, porque o nociada [Anunciada] a par dele. nam parecia nao; metemos nos com eles as bombardadas, nenhuma bom¬ barda grosa nam emtrava do lume dagoa pera baixo, que a espera [espécie de grande canhão antigo] que cu levava na nao emtrava dentro mas nam pasava, per aqui pode vosa senhoria julgar que cousa hera, porque hera de tres foros, e todos pasauam de hum cruzado de grosura, e certo que era tam mostroso como nunqua os homes viram outro, e asy ho fizeram por mor e mais façanhoso que nunqua se vyo, esteve tres anos em ho fazer, como vosa senhoria ouueria em malaqua falar neste pate umuz, que fez esta armada pera vir ser rey de malaqua». Carlas, III, 59. Barros, II, ix, 4. Correia diz que Pate Unus apareceu em frente de Malaca numa manhã de Janeiro de 1512 (II, 277) e Castanheda descreve o acontecimento como se tendo efectuado em 1512 (loc. cit.); mas estão obviamente equivocados, a não ser que, cxccpcionalmente, o ano tivesse sido aqui contado como come¬ çando na Páscoa, o que não parece ser o caso. Malaca foi tomada em mea¬ dos de Agosto de 1511, e Albuquerque voltou à índia em Dezembro; entre a partida de Albuquerque e a vinda de Pate Unus muitos outros aconteci¬ mentos bem conhecidos se verificaram (descritos por Barros, II, ix, I e 2, Castanheda, III, Ixxxi-lxxxvi e o próprio Correia). Além do mais, Andrade diz na sua carta que tiveram as primeiras notícias da chegada de Pate Unus no Dia de Natal de 1512, e Barros diz correctamcntc que a frota inimiga apareceu em frente de Malaca «na entrada de Janeiro do anno de quinhentos c treze». Mais adiante, ao descrever a «Terra de Dcmaa», Pires diz que Pate Unus «veio pelejar [contra Malaca] na era de qnhentos e doze» (foi. 151 v.); embora não expressamente declarado, isto refere-se, de certo, à sua partida de Java. Ao descrever Japara e o primeiro estabelecimento dos portugueses cm Malaca, Pires refere-se a este caso com mais pormenor. Dames pensa que Patendra ou Pate Udora mencionados por Barbosa se identifica com Pate Unuz (II, 190-1); mas, posteriormente, a descrição de Pires mos¬ tra claramente que Pate Unus e Pateudra, ou Pate Andura são pessoas diferentes.
A Suma OrientaI 273 Tem aRozes carnes pescados v08 tampõis de tudo ysto tem- peradamte p aguouernar sua terra estes trazem suas mercadorias a malaqa Retornam panos qelijs & do guzarate q sam da valia de toda a Jlha E em menamcabo pincipall memte bretamgíjs Vrmelhõs A terra de cãpocan he amtre campar & amdarguery esta terra amtyga memte tinha Rey De dez aniios a esta parte tem mamdarym he terra pequena e este mamdarim he da obediemcia de malaq1*/ tem esta terra alguus mercadores trazem ouro a malaq® levã pannos qujlis & do guzarate//. Tem esta terra De campocan ouro tem lenho aloes de butiqa tem çera mell breu Rotaãs & cousas de que tem cãpar he terra pequena he boa tem defromte de sy | as ylhas de buaya (261) que fazem o canall por que asy como a costa de comotora vay huu luguar E outro comtamdo asy as Jlhas//. De mamtimemtos tem pa sua terra avomdosa memte aRozes carnes pescados vinhos fruytas he muytas esteiras peixe sequo Em camtidade//. Ho Regnno Damdarguerij de huua parte tem por termos a terra De campocam E Da outa tem com a terra de tunqall he amdarguery Regno homrrado//. Da gemte mercantiva tem onestamemte & de mujtos lugares vem a elle fazer mercadaria. he primcipall porto de menamcaboo//. Os Reis damdarguery sam paremtes dos Reis de malaq3 & de campar & de paõ a terra nom he mujto gramde mas he de Jemte domestiq3 ao trato da mercadaria nom som maall tra¬ tados os mercadores que laa vam damdargery vem a malaq3 por que amdarguery he da obidiemçia de malaq® asy como campar// (260) Entre os rios Kampar c Indragiri há o pequeno rio Kateman, a parte superior do qual se chama Simpang-Kana; esta corresponde, talvez, à Campoquan, Campom ou Campocan de Pires. (261) Pulo Buaya fica a noroeste de Linga, no meio de várias ilhotas (Lat. 0« 10' N.). (262) Segue-se em letra muito mais recente: «Andargiri (à Sumatra)». Mamti¬ memtos Terra De campo¬ quan (260) Foi. I44r Regnno Damdar¬ gue¬ ry (262).
274 Tomé Pires Terra de tuii- call (263) Terra De Jam¬ by ( 265) Faz amdarguery comerçio e trata com certa parte da terra De menamcabo no sertaão pollo quall acolhe muyto ouro a maão de que compa muj,os pannos E desta maneira faz sua mercadoria// tem em sua terra as mercadorias que tem campar he em mais avomdamca & asy os rnamtim103 E carnes tem amdar- guecy defromte de sy as ylhas De limgua//: A terra De tumcall aJumtase de huua parte com amdar- gucry & da outra com a terra de Jamby esta terra nom tem Rey nem mamdary he terra obydiemte a malaca por tributo he terra pequena também comfyna com menamcabo// Tem as mercadorias que tem amdarguery nome em tamta camtidade tem bem de mamtimemtos pa sy & pa outrè tem defromte as Jlhas De calamtigua//. (264) A terra De Jamby he de huu cabo apeguada com a terra De tumcall & da outra parte com a terra de palimbão no sertão com menamcabo & defromte tê as ylhas de pullo berella(266) Esta terra tinha amtigamemte Rey he da sorte Damdarguery (263) Tuncall — Há um rio Tongkal entre Indragiri e Jambi. A carta de Bcrthelot de 1635 tem Toncal. (264) Doze milhas a ocidente de Pulo Singkep há um grupo de três pequenas ilhas, cada uma com algumas ilhotas à volta, das quais a do centro é Pulo Alang Tiga. Estas sâo as Ilhas de Calamtigua de Pires, a que ele anteriormentc se refere como Tigua. Aparecem claramente assinaladas na carta de Rodrigues (foi. 30) como carãtiga. (265) Segue-se em letra muito mais recente: «Jamby (à Sumatra)». Os territórios de Jamby, através dos quais corre o «maior e mais belo» rio de Samatra, o Jambi River, formam hoje uma província, tendo a cidade de Jambi como capital. A carta de L. Homem de 1554 é a primeira a indicá-la como jamvim. (266) Este Pullo Berella parece corresponder a Pulo Singkep, a ilha mais a sul do grupo Linga. O nome sobrevive no Berhala Strait, entre Singkep e Samatra. Há, contudo, um Pulo Berhala na parte norte do Estreito de Malaca, a que os portugueses chamaram Ilha da Polvoreira. Diz Barros II, vi, 1 e 2: «huma Ilha, a que os nossos chamam a Polvoreira, e os da terra Barala». Uma polluoreira aparece pela primeira vez na carta de Rodri¬ gues (foi. 29).
A Suma Oriental 275 & despois que os mouros Jaõos se comecarom a fazer poderosos que tomarom palimbão tomarom Jamby E nom forom mãis chamados Reis mas chamamse pates (267) q em malaqa quer dizer mamdari]s e em nosa limguoaJem Vrdadeiramtc guoVrna- dorês com poder De ciuell E cryme capítall memte em toda pa De suãs terras tem toda a Jurdicam somemte pderom o nome De Reis & mudaronse em patês como se decrarara fallamdo da gramde Jaõa//. Tem a dita terra de Jamby lenho loêes de butiqa & ouro & as mercadarias De tumcall E os outs0 lugares tem Ja mais mamtimêtos he da obidiemçia de pate Rodim sõr de demaa/ Ja a gemte da terra de Jamby tem mais pte De palim- boes & Jaõs q de malaios he trra farta & Riqa ê sua guisa// todos os Regnos que temos dito Des arcat atee quy tem Foi. 144v. mujtas lamcharas todos tratam em malaq3 todo anno E tudo he terra De menamcabo & todos sam malayos A terra gramde de palimbão de huua parte comfyna com //terra de Jamby & da outa hee aa Pomta & cabo da ylha de çomotora palim- bam/1(268) (267) Esta é a primeira explicação da palavra pate ou patih, pelo menos por um escritor europeu. Muitos escritores do século xvi, mais tardios, definem este termo, mas nenhum tão completamente como Pires. Este titulo é ainda usado para alguns dignitários nativos de Java. (268) Segue-se em letra muito mais recente: «Palimbau (à Sumatra)». Os territórios de Palembang formam hoje uma província da Samatra do sul, através da qual corre o Palembang ou Musi River. A cidade de Palembang é a capital e a sede do representante do Governo. A carta de Rodrigues (foi. 30) é a primeira a registar Palembang como as tres bocas de pallambam, colocando-as com exactidão. O rio Palembang tem na rea¬ lidade três bocas — a entrada principal é Sungi Sunsang (Musi), navegável até Palembang para naus que podem atravessar a barra, uma distância de cinquenta e quatro milhas; as duas embocaduras orientais, Sungi Saleh e Sungi Upang, não são navegáveis. Os Comentários de Afonso de Albuquerque (III, xvii) e Barros (II, ix, 4 etc.) mencionam um outro Polimbão ou Polim- bam em Java, (vide G. Ferrand, Malaka, I, 412-4); alguns cartógrafos por¬ tugueses, como o autor anónimo da carta de c. de 1540, L. Homem, D. Homem, Luís, Dourado e Lavanha inserem também um Polimbam no nordeste de Java. Pires foi mais exacto.
276 Tomé Pires que se chama tana malay° E do sertão & costa Do maãr que torna camjnho de pausur ou pamçhur vay comfynamdo com caupõ tulumbavam amdallõs & no sertão com terra De pyra- mam que he na terra De manamcabo/ tem palimbam Defromte de sy no canall as Jlhas de monomby (269) & as Jlhas De bamca & palimbam de pate Rodím sõr de demaa he a mõr pte De Jemte de palimbam gemtija de Jemte baixa & também mujtos pates Jentios A terra De palimbam tinha em sy Reis Jemtios & era da obidiemçia do Rey cafre Da Jaaõa & depois q hos pates mouros Da Jaõa se asenhorearom das beiras do maãr fezerom guerra mujto tempo a palimbão & tomarom a terra & nom teue mais Reis somemte pates & de pates pmcipaês tem palimbam dez ou Doze tem palimbão obra de dez mjll dos qeês mujtos dei- xarom as vidas na guerra de malaq* comtra nos//. A tera de palimbão he a melhõr cousa que o pate Rodim tem melhor que sua terra E he aguora destroyda por nos todos seus Juncos & champanas (270) & mortos os sres De palimbam no desbarato de pate onuz posto que os palimbaeês de maa vomtade vinham peleJar a malaqa porem morrerom todos os q vynham// & porque esta verdade nom hee pa este paso torno a descricã & Recomtamemto de palimbam &c Trata palimbão em malaqa & trata com pãhao grosa memte tem palimbã mujtos Juncos & pamgaJavas De carregua viryam cadanno a malaca dez e qujnze Juncos Darroz bramq” & bom legumes muj,0R & este aRoz he mercadoria pmcipall tem asy espauos mujtos p° mercadoria tem gmde copia Dallgodam tem Rotaãs em gramde camtidade tem alguu ouro aRoz por pilar muyto tem breu ferro tem mujta çera mell vos mujtos carnes (269) Junto da extremidade ocidental da ilha de Banka erguc-se a colina de Menumbing ou Momopin (455 metros); este acentuado relevo aparece pela primeira vez na carta de Rodrigues (foi. 30) como moHopim. (270) Champana. do malaio sampan, é um pequeno barco da índia Oriental.
A Suma Oriental 277 atee alhos cebolas trazem Jmfimdas que he boa mercadaria tem mujto beiJoym preto em muy,a camtidade que se gasta na bonua qlim e em marcaçar tamJompura hc nas outsa ylhas// Gastase em palimbão gramde camtidade de Roupa dos guzarates da baixa & dos qujlijs todo seu dr° das mercadorias empregam em rnalaq® & mais o que traz em ouro como fazem todos os que a malaqa vem carregam de mercadorias levam gramde copea de Roupa dos qujllijs// Defromte de ciar as Jlhas de pulo picã defromte de campar Ylhas que as ylhas de carimam dos çelates E sabam estes tem mamtimêtos fazem o pouqos & tem moradores Defromte de capitam//(271) as ylhas canal1 de buaya defromte de amdarguery as ylhas de limgua//. As ylhas De limgua como seJa disse nas terras Da Jurdição Do Regnno de malaqua sam mujto pouoadas tem Rey sam estes cabaees cavalros tem atee quoremta lamcharas tem m,as lamcarías/ (272) tem limgua lenho aloees De butiqa tem mujto aRoz E mamtimemtos he boa terra | Defemdese dos comtrairos Foi. I45r. este he como Rey dos çelates he temjdo poderoso mais que campar he a terra semelhamte tem sua terra trato terã quoatro ou cimq° mijll homèes estas ylhas & pola pomta delas comtra as ylhas de buaya se faz ho canall pa pahão & bymtã & pa syam & todas estas outsa ptes E defromte de tumcall estam as tres Jlhas que sse chamam calamtigua estas sã desertas E nom tem moradores tem aguoa boa-// (271) É possível que o rio Katemam, que de facto desagua em frente de Pulo Buaya, corresponda a Capitam; ou talvez seja simplesmente uma outra grafia de Campocan. (272) Lançarias ou lançarias, de lança, podem significar lancciros. Contudo, há nas índias Orientais uma árvore de fruta chamada lanceira (Lansium domeslicitm). Alem disso, Orta (xxtv) rcfcrc-se ao lancuaz que se encontra em Java. É a Aipinia galanga Willd., galanga-grande ou de Java. Mas esta dificilmente poderia ser as lançarias de Pires, porque na sua carta posterior, de 27 de Jan. de 1516, ele refere-se à galanga e aos seus paises de origem, sem mencionar nem o nome de lancuaz nem nenhum das regiões das índias Orientais.
278 Tomé Pires E defromte das Jlhas de berella também sam desabitadas alguus celates se acolhem a ellas as vezes tem muyta aguoa// E defromte de palimbam na prmeira terra as Jlhas de monomby estas ylhas sam de tamta pouoacam como limgua E em alguuã maneira obedecem a pate onuz mas nom muyt0 tem mamdaris tem mujtas Iamcharas tem lenho aloeês de butica tem çera mell tem mujtos mamtimêtos em abastamçã toda he huua terra monomby & bamca he de pate onuz de Japera alem de monomby Defromte da derradeira terra de palimbão estam as ylhas De bamca estas tem pate sam de patee onuz mouro Jaão tem estas Jlhas obra de mjll moradores amtigamemte teuerõ sete oyto mjll// tem lenho aloés de butiqa tem çera mell ferro alguodam tem mujtos mamtimemtos//. Defromte de tana malaío esta a Jlha que se chama luçe- parij (273) esta he no cabo do canall Desta Jlha comtra lesnor- deste sam tudo ylhãs E Restimguas he comtra leste he o canall pa maluq0 E comtra Iessueste atee ho sudueste he a Jaõa E do sudueste atee ho este he o Regno de cumda & desde lucepary atee a pmeira terra de Jaõa que demorara a Iessueste ou ao sueste seram cemto & vimte leguoas a prymeira terra que se toma na Jaõa & a Jlha de mamdalica que he peguada com a terra de Jarapara três ou quoatro léguas do porto De patij onuz se neste capitollo nom for mujto certo Reportome aos capitollos por lhe nom vsar por seus ofiçíos De lucepary a terra de Japara naõs nosas yram em tres dias com suas noites vento de monçã Tana No cabo da terra De palimbam esta a terra que se chama ma- laio (274) (273) Luceparíj—Lucipara. A carta dc Rodrigues (foi. 30) tem muçapare (Mas Paris em malaio). (274) Tana malaio ou Tana Malayu significa a região malaia. Fer- rand parece decidir-se por «1'identité dc 1'ancien Malayu et du Minankabaw actuel. Plus vraisemblablement encore, le Minankabaw était 1’État sou- verain de 1'ancien royaume de Malayu dont faisait égalemcnt partie Palem- ban...» Malaka, le Malayu et Malayur, II, 79. Segundo a descrição de Pires, Tana-Malayu corresponde à parte sudeste da actual sede residencial de Palembang.
A Suma Oriental 279 tana malay° tem defronte De ssij as Jlhas de luçeparij E a esta Jlha tem dous canaêes huu da bamda de palimbam & out° melhor comtra as ylhas de bamca. E comfyna esta terra com terra De çacampom tem esta terra pate tem alguodam mujto tem Rotaãs breu tê mujtos mamtimemtos em abastamça tem alguu ouro Desta terra dizem q sairom hos fumdadores de malaqua paramjcura como Ja he ditõ//. Aguora comecamos de tornar pola Jlha casy camjnho doeste çacampom he terra gramde tem de huua bamda a terra que se chama tana malaio & da outa tulimbauã he esta terra farta tem pate trata este em çumda & na Jaaõa & he gramde trato o desta terra com çumda Dizem q estaa a vista de çumda tem a terra deste gramde copea Dalguodam tem ouro pouquo tem mujto mell çera breu Rotaãs tem alguua pymemta & boa dizem/ tem mujto aRoz carnes pescados vinhos frujtas este pate seg° dizem he cafre & sua Jemte he | no sertão Deste sam cafres como he çerto que casy toda a Jlha de comotora no sertão sã gemtios & estes nom sam obidiemtes a nenguê atravesam a Jaõa em tres dias Em lamcharas out°s Dizem que em huu Dia vam a terra De Çunda// A terra De tulumbauã De huua parte comfyna com çacam¬ pom & da outa com amdalaz no sertão comfyna com Reis cafres Terra de çacam¬ pom (275) Foi. 145v. Terra de tulimba- vam (276) (275) Çacampom corresponde a Sungi Sekampung (Lat. 5o 35' S.) «a maior corrente da costa sudeste de Samatra» a sul de Tanjong Sekopong (Lat. 4o 56' S.), «uma saliente ponta arredondada». China Sea Pilot, n. A carta de Java, de Lavanha, na sua primeira edição (1615) da Década Quarta da Ãsia de Barros indica o canto sudeste de Samatra. no qual Çacampã fica situado ao sul de Palimbã. De facto, a costa dirige-se directamente para sul, e não quase «em dirccção ocidental como Pires afirma». (276) Tulimbavam corresponde ao Tulang Bawang (Lat. 4o 24' S.), quase o maior rio nesta costa a norte de Sekopong. Deste modo é neces¬ sário alterar a situação relativa dos nomes, porque Pires colocou Tulimbavam a sul de Çacampom. Isto confirma-sc quando diz que Camcampom «está à vista de Sunda» e que de Çamcampom para Sunda se gasta um dia para a travessia e de Tulang Bawang para Java gastam-se dois dias na travessia.
280 Tomé Pires terra De amdal- lor (277) Regno este também dizem que he Jentio ou cafre tem a terra Deste pimemta tem ouro & as cousas que tem çamcapõ tem lamcharas tem muj,os mamtimemtos tem gramdes Rios em ssuas terras por homde tem suas pouoaçõees por estes lugares he trra forte porque nom tè senom huua braça daugua nas êtradas dos Rios tratam na Jaãoa e em cunda estes e è sua terra nom tratam com elles ellês leuã suas merdadarías lia tem gramde Camtidade Dallguodam & Daq1 atrauesam a Jaõa em dous ds O Regno De amdallor De huua pte comfyna com terra de tulumbauã & da outa com o Riquo Regno De piramã & no sertão com os Reis de menancabo defronte de sy amdadura de huu dia & huua noyte ten a terra de çumda & amtre andalor & cumda he maãr & pôs este soyam vijr os guzarates a Jaõa E a agracy tomar carregua Do crauo noz maças & samdallos bramcos cubebas etc/ porq Diziam q amtre este amdalor E cumda que tudo eram baixos & de Restimguas & que se nom navegaua ysto diziam a nos/ o que nom hee asy amte he fumdo he de boa navegacam E amtigamemte sempe se naveguou dos guzarates amtes q malaq® asy Recolhese suas mercadariãs omde todos acudiam e emtam leixarrã os guzarates esta navegacã posto q a navegacã com a moncã era boa porq emtrauam por cumda & corriam a costa de chemano & pemano chorobam toda a (277) Andallor em vez de andados ou andalaz deve ser erro do copista; antes estava bem escrito. Segundo a descrição de Pires, a costa de Andalaz era a praia norte do Estreito de Sunda. Andelis ou Tanalt Andalas (Terra de Andalas) foi o nome dado, por vários escritores antigos, à parte sudeste de Samatra, onde existem ainda dois lugares chamados Andalas, ou mesmo a toda a ilha. Fcrrand, Malaka, 1, 455, 456, 483. No centro de Mcnan- gkabau, sede do representante do Governo na costa ocidental, há uma aldeia Andalas (Lat. 0o 55' S., Long. 100" 54' E.). Na carta de 1554, de L. Homem, na parte mais a sul de Samatra, lê-se andrelas, o que, indubitavelmente por engano, está em vez do andalas ou Andalaz de Pires; o atlas de 1558, de D. Homem, tem também andrelas e os atlas de Vaz Dourado têm aindrelhas. mas mais para norte.
A Suma Oriental 281 terra De demaa Japara & tornavam sobre tubam (278) & dally a agacij o q tudo faziam com huu vemto//. Do Regno Damdalor torno a terra viramdo ao noroeste Regno De ate dar nas Jlhas q cstam Junto com gamjspolla E comecamdo pyramã a virar nos mostra a terra o Regno De piramam// comfyna pira- mam de huua bamda com amdalor & da outa com tico & do sertam com menamcabo este Regno he de Jentios E o Rey Jemtio aquj se aJuntam nesta costa tres Regnõs .s. piramã tico/ & pamfur ou pamchur ou barus estes todos sam Riquos & aq‘ vem cadano hos guzarates com huuã nao duas tres com mercadorias Des- pachanas & Ieuam seus Retornõs como se dira acabamdo de falar nestes tres Regnuõs tem o Regno de piramã mujtos cavallõs que vam vemder comtynoada memte ao Regnuo de cumda//. tem esta terra De piramam muj10 ouro lenho aloes de butiqa camfora de duas maneiras beiJoym seda cera mell/ tem mamti- memtos em abastãça pa sua terra tem gramde trãto com a terra De çumda// (278) chemano —O rio Chi Manuk que desagua na costa norte de Java. Barros (VI, i, xii), diz que este rio Chiamo ou Chenano dividiu Java em duas partes, como um canal natural, de norte a sul, e assim foi repre¬ sentado na carta de Java, de Lavanha. pemano — Talvez Pasuruan, na costa norte de Java, o Estreito de Madura, que a carta de Lavanha representa como Panian. chorabam — Chcrimon, lugar na costa norte de Java, que aparece pela primeira vez como cherbom na carta de c. 1540. dfma e japara — Lugares a meio da costa norte de Java. A carta de c. 1540 tem os dois nomes pela primeira vez, mas (tema, ou a moderna Dcmak, está erradamente situada a leste de Japara. Japara encontra-se pela primeira vez na carta de Rodrigues (foi. 30) — gepara lagar de paie Nuz — assim como também num dos desenhos de Java, de Rodrigues, (foi. 108) — Japara porto de pate Nauz. tubam —Tuban, porto a leste de Japara. Tubam nas cartas (foi. 30) e desenhos de Rodrigues (foi. 103). (279) O rio, o porto e a cidade de Priaman estão situados mais ou menos a meio da costa ocidental de Samatra. Prim. na carta de 1554, de L. Homem, e Priamão na carta de 1635, de Berthelot.
282 Tomé Pires Terra do Regno De rico (280) Foi. 146r. Regno de baris (281) O Reyno de tiquo de huuã parte se aJunta com piramã & da outa se aJunta com terra & Reino de pamchur do sertão se aJunta com a trrã de menancabo este Rey dizem que he Jemtio & out°s Dizem que he mouro tem este as mercaDarias q dise- mos de piramã que tem bem pamsur tem este Reino muj,a Jète & tem grande trato com os guzarates//. Aguora se nos chegua a maao Falar no Riquisemo Regnõ de barus q por outro nome se chama panchur ou pamsur a naçam dos guzarates chamanlhe panchur E asy parses arabijos quelijs bemgallas etc (281) camotora chamalhe baruus tudo he huu Regno nom sam dous comfijna este com tiqo de huuã bamda & da outa com terra do Regno De qujnchell no sertaõ tem seu trato com os menãcabos & diamte de sy no maãr tem a ylha de mjnhac barras de q se dira// Este Regno he cabeça do trato destas cousas de toda a Jlha de çomotora por q esta he a escalla por homde se o ouro vay & a seda beiJoym camfora em cãtidade lenho aloes de butiqa cera mell E outas cousas de que este Regno he mais abastado q nemhuu dos outs° Ja ditos//, na Jlha De çomotora o beiJoym de barus tiq° piramã he muj'° & alujsymo//. Estes tres Regnõs que avemos contado .s. pamchur tiquo piramão tem a chaue Da terra. De menameabo E asy p todos serem paremtes como por estes terem as beiras Do mãar E os guzarates virem alij cada (280) O ancoradouro e a cidade de Tico ou Tiku ficam situados na costa ocidental de Samatra (Lat. 0o 25' N), onde desagua o rio do mesmo nome. A carta de 1554, de L. Homem, tem ticos; Tico na carta de Herédia c nos atlas de c. 1615-23. (281) O, outrora famoso, porto de Barus ou Baros, na costa noroeste de Samatra, é hoje um local sem importância, embora saudável e sede resi¬ dencial permanente do representante do Governo. A carta de 1554 de L. Homem tem bairos c o atlas de 1558, de D. Homem, tem baros. ocorrendo a última forma em outras cartas mais recentes. Aparece como Fansur no Mobil. G. Schlegel diz que «Fansur ou Pamsur representa o nome malaio Pantjur, a água jorrando de um pantjuran, caleira ou aqueduto». «Fansur é a pronúncia árabe do malaio pantjur.» Op. cit. pp. 9 e 79.
A Suma OrientaI 283 huu annõ & fazem gramde mercadaria & aJurntase nestes Regnõs as mercadorias & fazem seu trato com os ditos guzarates/ vem cadano huua naõ duas três vemdem toda sua Roupa Recolhem mujto ouro & seda mujto beiJoym mujto lenho aloís camfora de Duas maneiras Mujta de comer/ mujta cera muj‘° mell os guzarates despachã toda sua mercadaria porque he da valia Da terra E o pouo he mujto & daly vay pa çumda & pa as Jlhas de diua porq as Jlhas de díua vem cheguar defronte de çumda & vam por diamte De toda camotora Da bamda daloeste atee gamispolla & atee cananõr & destas partes em cimqo dias vam as Jlhas De díua segumdo afyrmam os mercadores/ o que (?) trazem de diua & Asy que feita sua mercadaria os guzarates tornamse Riqos E vemdem E tratam a sua vomtade Dizem os pilotos que de baruz pa çumda que o camjnho nom he muj10 linp° E que ate baruz he limp0 semp Jumto com terra Eu fuy Ja por detrás desta Ylha obra De xb leguoas & Jumto com terra achavamos vymte cinq0 bracas Defromte deste Regmo De baruz estaa esta Jlha que se chama maruz mynhac tem mujta Jemte tem azeyte de peixe E mujt0 pescado sequo & aRoz Dizem q Defromte de piramã esta huuã Jlha [em branco] 283) ê q nam ha senom molheres (282) Em frente de Baros fica Nias, a maior das ilhas ao largo da costa ocidental de Samatra. Marsden diz que «no lado ocidental de Nias, e muito perto, há um grupo de pequenas ilhas, chamadas P° Nako-nako [Arquipélago de Naku], cujos habitantes são de uma raça designada por Maros». History of Sumatra, p. 478. O nome indígena para a ilha de Nias é Tano-niha (terra do povo). É como se Maros e Tano-niha estejam combinados no Maruz Mjnhac ou Mjnhac Maruz de Pires. O Mohit (p. 71) referc-se a muitas ilhas chamadas Mtcâmârôs, que ficam ao largo da costa noroeste de Samatra, que corresponde claramcntc ao Mjnhac Maruz de Pires. Uma das cartas de Herédia (foi. 24v.) tem Putomãs. embora ao sul do equador, e a carta de Berthelot tem P. miaes. (283) Esta deve ser Siberut, a maior e mais a norte das Ilhas Mentawai. Pigafetta conta uma história semelhante: «O nosso piloto mais velho disse- Ylha q se chama maruz mj¬ nhac. (282)
284 Tomé Pires Regno De qin- chell (285) Foi. I46v. Regnno De mameopa nam tem homeès & que emprenha dout°s q la vam tratar E que se tornã loguo & q outas emprenhã do vemto esta opynjam tem os destas partes como no momte de malaqa que se chama gulom leydam (284) a Raynha emcamtada/ Jaz esta fee no pouo/ como no pouo out°s amazonas & sebilla de Roma//. Ho Regno De qinchell de huua parte comfyna com o Regno De pão (286) & da outa com ho Regno De mameopa ou Daya & da bamda do sertão com Jemte Rebusta salvaJem bestiall que comem omêes he este Rey Jemtio tem este beiJoym seda p,a alguua ouro pouq0 tem lamcharas pequenas tem Rios he cousa nom mujto Riqa em todo este Regno Dizê que come homès dos Jmigos De paçee tratã aquj e em os Regnos De baruz tico piramã//. O Reino De mãeopa ou daya(287) tem estes Dous nomes -nos que numa ilha chamada Ocoloro, que fica abaixo de Java Maior, não se encontram senão mulheres e que estas ficam grávidas com o vento». Edição de Robertson, n, 169-71. Marsden diz que na Samatra de sudeste «acreditavam que os habitantes da ilha Engano eram todos femininos, que engravidavam pelo vento». The Hislory of Sumatra, p. 297. Yule refere-se a esta antiquissima fábula e sugere que o Ocoloro de Pigafeita c Engano são talvez o mesmo. Marco Polo, li, 406. (284) Gulom leydam corresponde ao monte de Gunoledam de Herédia, «uma montanha elevada cerca de meia légua (9022 pés) de altura, um pouco mais de uma légua à volta da base e completamente isolada», para onde, «segundo a fábula rnalaia, essa Rainha Putry. companheira de Permicuri, que fundou Malaca, se retirou, ficando imortal por arte mágica até ao dia de hoje» (foi. 32). Putri significa princesa. Duas cartas de Herédia (fols. 11 c 13) têm o Gunoledam Monte situado correctamcntc. Este é o Monte Ophir (Gunong Ledang a montanha imensa), 4187 pés de altura, prccisamcntc a nordeste de Malaca. (285) Quinchell, ou chinquele. como se escrevia anteriormente — O rio Singkcl desagua na costa noroeste de Samatra, perto da angra Singkel c da ponta Singkcl. A carta de Bcrthclot tem Senquil. (286) Embora no MS esteja escrito Pão, trata-se obviamente de um erro do copista. (287) Mancopa corresponde a Melabah, um porto e cabo na costa noroeste de Samatra (Lat. 2° 46' N). Barros diz que quando Diogo Pacheco
A Suma Oriental 285 comfyna de huua parte com qnchell & da outra bamda vem casy daar nas ylhas q estam pegadas com a terra De lãbry he este Rey Jemtíjo// no sertam comfyna com Jemte Rubusta bes- tíall Da serra q vay sobre paçee & pedir he gramde terra a deste Rey demtro na terra he Rey poderoso guerreiro os q toma comemse dos Jmiguos tratam nelle de pacee pedir nom comê omeês somemte os com que tem guerra tem este seda beyJõym & cousas daquella parte os q la vam em paraõs peqnos leuam panos De cambaya dos baixõs/ E porque Ja he feito ho Recomtamemto de toda a Jlha de camotora aRedor seg a promessa Da primeira naçam aguora nom pareceria bem ficarem os Reis de menãcabo sem delles se dizer pois sam fauoreçidos douro metall que ds escolheo Sam os Reis de menamcabo tres ho mais primcipall se chama RaJa çunci terás que he a pouoacam de seu asemto o segumdo se chama RaJa bamdar Jrmaõo do Rey Ja dito o terçeiro se chama rraJa bomço ou RaJa buus (289) estes sam os Rex De menamcabo o pmeiro Dizem que he mouro ha pouco tempo obra de xb anfios os Dous dizem que sam aJmda Jemtios estes mujtas vezes sam discordes he tem guerra ho mais Do temp0//. Da bamda de malaca começa ha terra Darcat atee Jamby se chama terrã De menamcabo posto que mais verdadeira memte seJa o sertam & da outa bamda da Jlha De çomotora comtra ho sull he piramam tico & pamchur por estes portos se despemde foi descobrir as Ilhas do Ouro. navegou à volta do norte de Samatra em direcção a Baros e chegou cm frente do «Reino de Daya, que ficaria a umas vinte léguas do de Achem, que fica na direcção ocidental no cabo da Ilha» (III, iii, 3). (288) Segue-se em letra mais recente: «R.racs de Menancabo (Sumatra)». (289) As duas principais minas, a seguir mencionadas por Pires, ficavam situadas numa região em que as minas de ouro de Samatra são hoje cm maior número. Isto corresponde melhor à localização de Menangkabau de Pires (entre Arcat, Jambi, Priaman c Baros). Parece que os três lugares ligados por Pires com os nomes dos reis de Menangkabau podem ser: Sun- gidaras (0° 12' S.— 100» 20' E.) Bandarpitiak (0° 25' N. — 100° 30' E.) e Banjol (0o 3' S. — 100° 13' E.). Regnos De menan¬ cabo (288) Portos vizinhos a menan- qabu E que terra se chama menan¬ cabo 21
286 Tomé Pires lugares he mjnas Douro na terra de menam- cabo Maãr na terra De menam- cabo Foi. I47r. todo ho ouro Da terra De menamcabo he sem Duujda aquj he o primcipall da Jlha toda omde o ouro naçe posto quem toda a Jlha ha pouco ou mujto porem tomamdo darcat atee Jamby & de piramam a baruz ou pamchur com os tres Reis de menãcabo aquella se chama mais propia mète terra De menamcabo//. A pmcipall mjna domde se tira mais ouro E mais groso he a terra homde pasa o Rio que se chama çuençynjgujs E a segumda omde se acha mais ê poo chamase marapãlaguj (290) Dizem q huuã mjna E outa todos os tres Reys sobreditos podem apanhar o que hee hordenamça da terra que nenhuu mouro nom pode Jr as mjnas somemte os Sres Jemtiõs tem as mjnas e elles ham o ouro & daly se espalha aos Rex de menamcabo & dos três Reis se espalha a out°s he a camtidade do ouro q se cadano tira das ditas mjnas dizem que tiram Dous bahares Douro E mais segumdo os mouros dizem//. Dizem os que Ja forom na terra De menamcabo que ha huu maãr daguoa Doçe que cera seis leguoas em Redomdo & duas em larguo & que Daredor delle ha mujtas pouoacoês & que navegam no dito mãar & que este maãr se faz daguoa que vem de huuã serranja gramde & que ha grãDe pescaria Demtro E que o peixe apodreçe em pouq0 espaço como o pescam & que este laguo he da Jurdicam De todos tres Reis//. Segumdo dizem parece com Rezam a Jlha de comotora têer a Redor setecemtas leguoas comecamdo Das Jlhas De gamis- (290) çuençynjgujs — Além do vulcão Soenggirik (Lat. I" S.), há bem no interior de Menangkabau, um pequeno rio, o Si Njnje, afluente do Kampar, que poderia sugerir o Çuençynjgujs de Pires. marapãlaguj — Os nomes de muitos lugares em Menangkabau come¬ çam com a palavra Muara ou Mora, que significa confuência ou foz de um rio. Combinado com outras palavras designa um lugar situado na foz de um rio, ou mesmo o nome de um distrito ou região. Há um Muara (Lat. Io f S., Long. 100° 56' E.) na confluência de uma pequena corrente com o rio Palanghi, afluente do Indragiri. no interior montanhoso de Menangkabau, a ocidente do vulcão Soenggirik.
A Suma Oriental 287 polia ate tornar a ellas cercando como dito hee E nam he Duujda teêr as ditas setecemtas leguoas & mãis(29l) Muy,os Reis Jemtios que ha na Jlha de comotora E mujtos srês no sertão Demtro Da Jlha mas como nom sam p“-s De mer¬ cadoria E conhecidos nom se faz deles nenhuuã Daqui por diante se falara Da ylha de Jaõa he çunida E lleuarsea seu Recomta- memto hordenadamemte//. Nom pase por esquecimemto esta Jlha de çomotora ser de tamto pouoo homde se gastam gramdes camtidades De rrou- pas Dos quelijs & guzaratès os qees amdamdo as cousas em hordenamça como Damte era todos estes vinhã a malaca polia moõr pte trazer as mercadarias De toda a Jlha E leuar os panos & outsa mercadarias a suãs terras segumdo o costume De cada huu [java] Sera o primçipio Do Recomtamemto do Regnno De çumda E Dalij nos termjnaremos è bulambuam que he o cabo das terras sabidas que tem pates & despois de se falar Dos srês que víuem nas beiras Do maar emtam se falara do gramde Rey Jentio De demtro do sertão da Jaaõa & do seu capitam mor guste pate E do Regno De cumda se dira Em pmçípio o que se delle ofrecer//. Pimeíra memte o Rey de çumda a ssua gramde cidade de dayo a pouoacam he terras & porto De bamtam o porto De pomdam/ o porto de chegujdee o porto De tamgaram o porto de calapa o porto de chemano ysto hee cumda por q ho Rijo De chemano he estremo Dambollos Regnos//. (291) Barbosa (II, 181) e Castanheda (II, cxi) dizem que «Çamatra tem setecentas léguas de roda contadas pelos mouros que a navegam por àbas as bãdas.» Sem dúvida a informação de Pires é duma fonte semelhante árabe ou malaia. Setecentas léguas, i.e. 2.240 milhas ou 4.144 quilómetros é um cálculo surpreendentemente cxacto para aquele tempo. O circuito da ilha está calculado em 2300 milhas. Marco Polo tinha já dito que «tem um compasso de duas mil milhas ou mais». Meedyda Jlha de comotora a Redor. Descricam & Recom- tam‘õ da prospera he soberba E Rica E caualei- rosa ylha Da Jaaoãl & çunda o que delia se pode saber estas sam as terras Da Jaaõa que tem pa¬ tes senho¬ res & go- uernadorès & asy em çunda/l.
288 Tomé Pires aguora vem a Jaa¬ õa E falar - sea Do Rey de demtro do sertão/ Medida da terra De çumda. Foi. I47v. Rei & Jemte da çumda. A terra De cheroboam a terra De Japura a terra De locarj atrra De teteguali a trra De camaram a terra De demaa a terra De tidumar a terra de Japara a terra De Ramee aterra De tobam a terra de cedayo a terra dagacij a terra de curubaya A terra De gamda a terra de bulambuam a terra De paJarucam a terra de camtã a terra De panarunca a terra de chamdy & ysto acabado falarsea da gramde ylha De madura// (292) O Regno De çumda segumdo alguus afirman toma a metade de toda a Jlha De Jaõa outsro a que mais autoridade se daa dizem que o Regno de çumda sera a parte terçeira Da Jlha E mais huu oytavo dizem que teraa a ylha de çumda em Roda trezemtas leguoas tremjnase çumda pollo Rijo chemano Dizem que ds hordenou. Des os prymeiros tempos a ylha De Jaaõa Da de çumda E a de çumda a De Jaaõa pollo Dito Rijo o qll Rijo tem arvores de huu cabo & do outro & afirmam que as aruores de cada bamda se encosta a cada terra com as Ramas no chãoo semdo aruores gramdês & de fremosa altura//: O Rey de çumda he Jemtio & todollos Sres De seu Regno hee çumda de Jemte caualeyrosa guerreira no maãr Dizem que tamtos por tamtos mais que os Jaãos sam homês De bõos corpos homèes baços Robustos o f° Do Rey herda o Regno E quamdo nam ha f° ligitimo he por eileycam Do gramdes Do Regno custu- mase em çumda qmdo ho Rey morre qeymarense suas molherês & fidallguos seus & asy qmdo qll qr Dhy pa baixo morre ê sua casa também se faz outr0 tamto E ysto se querem nom p° q pa iso as molheres se Jã comuertidas por pas a morerè somemte as q De seu moto qerem & as q nam sam beguynas (293) seguem (292) Pires não cumpre a sua promessa, porque só fala de Madura muito mais tarde, no fim da descrição de todas as ilhas do Arquipélago Oriental. (293) Beguinas, não significa necessariamente mulheres que pertencem a alguma ordem ou comunidade religiosa. No tempo de Pires a palavra também significava mulheres que viviam em pobreza e penitência. Todavia, Barros diz: «As casadas (javanesas), quando lhes morrem seus maridos,
A Suma OrientaI 289 apartada Vida E nam casam delias/ outas casam tres quoatr0 vezes sam estas poucas estranhas na terra// Tem a terra De çumda atee quoatro mjll cavallos que lhe vem de piramam E outas ylhas a vemder tem atee quoremta alifamtes estes pa o aReo Do rrey hee o Regnno De cumda Regido em Justiça sam homês verdadeiros fazem em sua terra boa companhia aos mercadores os das beiras do maãr. Sam domésticos a mercadaria esta gemte de çumda mujtas vezes vem ha malaq® fazer mercadaria trazem lamcharas De cargua navijos de cemto he cimqoemta toneês tem çumda ate sejs Juncos & das lancharas m1*8 ao vso De cumda trazemdo Mastos como cabrja (?) & antre huu & o outr° escadas E he asij gemtill navegar// Despois Do Rey de cumda q se chama Samg bríamg E o seu viso Rey q se chama cocunam E despois o seu bemdara q na terra se chama mãcobumj Despois sam os Sres capitaees De cidades & lugares & portos asy como em Jaõa os Sres se chamã patês chamamse em linguaJê de çumda paybou. .s. foam paibou de tall luguar por que a limguoagem de cumda. nom hee a de Jaõa nem a de Jaõa De çunda posto q he huua soo Jlha a quall Devide o Rijo chemano a lugares mujto estreito porem a terra he Junta & tudo he huuã ylha E tem o dito apartamemto que a corta he trespasa q ficam em Duãs mas ysto vera quem estever na terra por q as arvores Dos estremos a lugares tocam os Ramos de huuas a out®s// A cidade homde o Rey estaa ho mais tempo do anno he çjdade a gramde çídade de dayo (294) tem a cidade as casas dolla & homde o Rey estaa hão dc morrer com eles por honra; e sc temem a morte, então se metem naqueles mosteiros [como os que existiam cm Java] como religiosas» IV, i, 12. Vide descrição dc Pires dos «Tapas de Java», p. 299. (294) Barros diz que «A principal cidade que tem este Reyno [Sunda] se chama Daio, metida hum pouco no sertão» (IV, i, 12) e está representada nesta posição na carta de Java, de Lavanha. A carta de 1554, de L. Homem e o atlas de 1558 de D. Homem têm chodaio logo a seguir c a leste de Sunda calapa (Batávia); os atlas de Dourado têm odaio com idêntica situação. Crawfurd diz: «Que espécie de local era Daio, se é que existiu, é impossível
290 Tomé Pires Merca¬ dorias do Regno de cumda. Foi. I48r. mamti- memlos madeira bem obradas dizem que a casa do Rey he de trezemtos E trinta esteos De pão da grosura de huu tonell he Daltura De cimqo bracas cada huu De fremoso Emmadeiramto sobre os esteos E muyto bem obrada casa. esta cidade esta do porto pincipall q se chama calap* dous dias Damdadura ho Rey he gramde caçador & momteíro tem sua terra çervos sem comto porquos touros Sam dados a ysto ho mais Do tempo tem o Rey duas molheres primçipaees de seu Regno E mamcebas atee mlll a Jente De cumda dizem ser verdadeira//. Tem pimemta melhõr que a de cochím alguua cousa atee mjll bahares cadãno tem pimemta lomgua mujta tem tamarimdos pa carreguar mjll naãos tem por primcipaes mercadarias Espauos & espauas que sam de sua terra | E out°s que trazem Das Jlhas De diva porque de çunda aas Jlhas De diua vam ê seis sete dias tem por primcipall mercadoria aRoz çumda tem também ouro de toque Doyto mates (295) tem mujtos panos a sua guisa, baixos que também vem a malaqua Tem aRoz que çumda pode vemdr cadano atee Dez Juncos legumes sem medyDa tem carnes sem comto porcos cabras carneiros vacas em gramde camtidade tem vinhos tem fruytas he tam abastada como ha Jaaõa E de cumda vam vemder aRoz conjecturar, visto que nenhum lugar semelhante ocorre na topografia java¬ nesa.» Diclionary. í.v. Sunda. Mas segundo a descrição de Pires, Daio ou Dayo ficava situado algures perto do local em que hoje fica Buitenzorg, doze milhas a ocidente do qual fica a colina chamada Dahoe (939 metros). Veth afirma «Sem dúvida que reconhecemos em Daio (de Barros), a palavra sundanesa para cidade, i.e. dajuli. Por ela não se pode significar nenhuma outra cidade senão Padjadjaran.» Java, I, 278-9. Contudo, a segunda carta no fim deste volume da obra de Veth tem Dajuh no próprio sítio cm que está situada a moderna Buitenzorg — vinte e oito milhas para o sul de Batávia. Segundo Crawfurd, «Pajajaran é o nome de um antigo reino de Java, a capital do qual estava situada no distrito de Sunda de Bogor, cerca de quarenta milhas a leste de Jacatra ou Batávia. Os alicerces de um palácio e uma pedra monumental indicam o local.» Diclionary, s.v. Pajajaran. (295) Mate — Nome oriental que indica a percentagem de ouro puro.
A Suma Oriental 291 E mamtimemtos mujtas vezes a Jaõa E De malaca vam a çumda cada huu anno Duas tres Jumcos por espauos aRoz & pímemta/ De çumda Vem pamgaJauas a malaqa com as ditas mercadarias E Retornam pa çumda o segujmte-//. Vallem synabafos bramcos gramdes E pequenos synhavas pachauelezês balachos atobalaçhos/ sam estes panos brãmcos/. vallem panõs qujlís emrrolados de ladrylho gramde E pequeno que lloguo sam da vallya E compram mujtos vai pucho caçho alepivry & sememtes De cambay* valem bretamgis & Roupa de cambay® turias tiricamdies caydes (296) & disto mujto & (296) balachos c atobalaçhos — Na sua descrição de Negapatam, Pedro Barreto de Resende diz que havia na região «Muitos tecidos estampados, assim como também brancos, e de todas as qualidades e baratos; os brancos chamavam-se enrrollados, que são finos como bofetas; ballachos, cotonias, de dois fios; e os estampados, muitas espécies de tafessiras de fio de algodão, sarasas e muitas outras espécies deles». Livro do Estado da índia, foi. 321r. Vide Dalgado, s.v. Bofetá, Cotonias, Tafecira, Saraça. Cotonias era «uma espécie de tecidos possivelmente de seda, ou uma mistura de seda e algodão» Hobson-Jobson, s.v. Cuttanee), entre as quais havia os balachos e atobalaçhos. A tecelagem é ainda uma das principais indústrias de Choromandel. ladrilho — Enrolados de ladrilho quer dizer enrolados aos quadrados ou tecidos de lã aos quadrados. Vide nota p. 224. Dalgado regista a palavra Ludrilho, significando talvez pano «crú ou grosseiro», mencionado num documento de 1601 que se refere a Moçambique, Ludrilho pode ser uma simples corrupção de Ladrilho. bretangis — Tecidos de algodão (azuis, pretos ou vermelhos), antiga¬ mente exportados de Cambaia. Dalgado, s.v. Bertangi. turias, tiricandies, caydes — «Tiirundam, conforme os tecelões, significava «uma espécie de pano para o corpo», derivando o nome da pala¬ vra árabe tiiruk «uma espécie» c de uma persa undatn «o corpo», é uma musse¬ lina que outrora foi importada sob o nome de terendam para este país». J. A. Taylor, A Descriptive and Histórica! Account of the Cotton Manufacture of Dacca, in Bengal, p. 46. London, 1851. Apud Yulc, Hobson-Jobson, s.v. Piece-goods (Terindams). Tiricamdis talvez corresponda aos «tucamdya nylora, que sam panos verdes e vermelhos de pymturas de pasarraos»; Caydes talvez corresponda aos «candya azares, que sam panos de Coraçones, o dote grossos»; Lembranças de Cousas da índia em 1525, p. 49. merca¬ dorias que vallem No Regno De cumdall.
292 Tomé Pires /moeda de çumda Portos De çumda Bau- tan (298) o porto de pom- dãg (299) de toda a outa Roupa de cambaya em gramde maneira gasta se llaa mu delia E compraua por ouro// vali em çumda arequa auga Rosada E cousas destas//. por moeda meuda caixas Da china sam como çeitijs furados pollo mey° pa se Emfiarem de çemto em çento valem cada mjll vinte cirnq0 calais de malaqa por moeda grosa corre ouro da terra De toque doyto mates q vali a tumdaya (297) que sam qujnze oytavas bem peasadas trezemtos calais q sã nove cz*108 & O Regnno De çumda tem seus portos o primeiro he o porto de bautan neste porto amcoram Juncos he de trato tem boa çidade no Rjo tem capitam a çidade pesoa mujto homrrado trata este porto com as Jlhas De diua com a terra de comotora Da bamda de pamchur he este porto casy dos pmcipaes De todõs tem Rijo Jumto a o mãr tem mujto aRoz E mamtimem- tos & p *“// O segumdo porto do dito Regnno De çumda camjnhamdo pa Japara he pondang que he Ja menos porto que bautan/ tem gramde pouoaçam tratam neste porto os que tratam com os de çíma este porto he em Rijo Jumto com ho mãr dizê q amcorã (297) Quando se referem às moedas cunhadas por ordem de Albu¬ querque em Malaca, os Comentários dizem: «pareceo a todos bem que a' moeda douro pezasse hum quarto de tundiá, que tem de valia mil reis antre nós» (III, xxxiii). Como nesse tempo o cruzado valia 400 reis, o valor de 9 cruzados, ou 3.600 reis, mencionados por Pires não anda longe dos 4.000 reis dos Comentários. Mais adiante Pires refere-se ao «tundaia ou tael» de Java». (298) Barros menciona Baniam e Lavanha, editor da primeira edição da Quarta Década, dá alguns pormenores numa nota marginal acerca deste porto e povoação a que ele chama tanto Bantã como Banta. (IV, 8, xii). No Livro de Marinharia, p. 251, chama-se Sumdabãta e Sumdabamta. Apa¬ rece distintamente pela primeira vez como banta na carta de L. Homem de 1554. (299) A extremidade oriental da baía de Bantam é formada pelo delta do Pontang River; e algumas milhas do interior situa-se a aldeia de Pontang. Embora bem conhecida dos portugueses, e mencionada por Barros como Pondang (IV, i, 12), aparece pela primeira vez na carta de Lavanha como Pondang e na carta de Berthclot como Pontan.
A Suma Oriental 293 demtro Juncos & que he porto De trãto tem aRoz mamtimètos pymtó// Ho terceiro he o porto de chigujde asy pollo camjnho que 0 porto de he dito este porto também tem pouoacam E boa tratam nelle cheguj- os que avemos dito he piramam E amdallos E tulumbauã E caça- de *300> pom E out°s lugares amcorã nelle Juncos tem capitam homrrado tem aRoz legumes pim,a muytos m'08 Ho quarto porto he o de tamgara he porto como hos sobre- 0 porto de tamga- - ra (301) (300) Na sua enumeração dos portos de Sunda, Barros coloca Che- guide entre Tangaram e Pondang. IV, i, 12. Crawfurd diz que a Cheguide de Barros é «provavelmente indicada por Chitarum, «Índigo ou rio azul». Dictionary, p. 422. Mas o rio Chitarum desagua na extremidade oriental da baia de Batávia, e, segundo a enumeração de Pires, Cheguide ficava situada muito mais para o ocidente, antes de Calapa (Batávia), tal como aparece na carta de Lavanha. O velho roteiro português de Malaca para Sunda diz, com muita exactidão, que navegando de Pomta de Charnão (Tanjong Pontang) «e partindo desta pomta fazemdo o caminho de Ieste-8-legoas (vinte cinco milhas e meia) achareis hua Ilha/ (Middelberg) e nã vos fallo nas muitas que estão da bamda do mar/; ... e desta Ilha obra de — 2 — ou — 3 — as em lessueste vereis/ outras Ilhas hirvoseis a terra delas e asy vereis hua pomta (Tanjong Pasir ou Untung Java) que faz a terra da Jaoa e nela hua restimgua muito comprida/ nã vos espanteis por que ao lomgo dela he o voso verdadeiro caminho e nesta pomta estaa hu rio ao mar e nele pos Francisco de Saa outro padrão (vide nota mais à frente sobre Calapa) por el Rey de Portugal aos-30-dias do mes de junho na dita hera atras de — 1527 —/ E pos nome este rio homde pos este padrão o rio de Sã Jorge / charnão os negros Çidigy/.» A seguir, três léguas para lá de uma pequena ilha está o porto de Sundacalapa. Livro de Marinharia, pp. 251-2. Este rio Çidigy. ou o Chi Sadane — «o único rio (entre Tanjong Kait e Tanjong Pasir) de alguma importância, que entra pelo mar por cinco desembocaduras» segundo o Pilot do Almirantado — tem de ser o Cheguide de Pires. Uma das prin¬ cipais ramificações do Chi Sadane, o rio Muli (Muli River), desagua por duas desembocaduras exactamente onde fica o banco referido no toreiro. (301) Há dois lugares entre Pontang c Batávia que podem corres¬ ponder ao Tamgaram ou Tamgara de Pires: a aldeia Tangora, na costa, seis milhas a oriente de Pontang e Tanara, localidade situada a uma milha para o interior, no Chi Durian, um par de milhas mais para oriente. O melhor ancoradouro fica ao largo de Tanara, com a profundidade de duas a quatro
294 Tomé Pires ditos tem boa pouoacam E trato tem capitam he lugar de trato como cada huu dos sobreditos tem as cousas que os out°s tem//. Foi I48v. Ho porto de calapa Este he magnifiq0 porto he o pmcipal Ho porto de cala¬ pa (302) braças. Se um desles lugares corresponde ao Tamgaram de Pires, deveria ter sido mencionado antes de Cheguide. Du Tamgaram corresponderá a Tangerang, importante localidade a oriente de Batávia, oito milhas para o interior no Chi Sadanc, e a ele ligada por uma ramificação do Chi Angké, que desagua entre Cheguide e Calapa. Para complicar o problema ainda mais, há uma aldeia chamada Muara Tangerang, uma milha para o interior das desembocaduras do rio Muli (Muli River), a ramificação do Chi Sadanc na foz do qual ficava Cheguide. (302) Calapa corresponde à moderna Batávia. A carta de c. 1540 tem os seguintes nomes no noroeste de Java, lendo-sc do oriente para o oci¬ dente: aguada dalaim, Calupu, aguada do padrã, Cumda; a carta de L. Homem, de 1554, tem aguada de sigide, chodaio. Sumia calapa; de modo análogo nos atlas de Diogo Homem e Vaz Dourado. Na carta de 1635 de Berthelot chama-se já Batávia ao local. Ao enumerar «os seis portos mais notáveis de Java», Barros não menciona Calapa; no seu lugar põe «Xacatara, também chamado Catavam.» IV, i, 12. Xacatara é Jacatra ou Jakatra, outrora a cidade principal do Império hindu-javanês de Pajajaram; Caravam é iden¬ tificado por Crawfurd como «Krawang, um lugar diferente», a saber o carnão mencionado no Livro de Marinharia, p. 252. Mas Barros no capítulo a seguir rcfere-sc duas vezes a Calapa, sem mencionar outra vez Xacatara ou Caravam. No velho roteiro, faz-se referência a «hu porto que se chama Sumdacalapa e tem um ryo», cuja situação corresponde a Batávia. Loc. cit. In A hrief Description of a Voyage performed by certain Hollanders to & from the East-Indies, with their Adventures and Success (1595-7), há a seguinte afirmação: «o principal porto na ilha (Java Maior) chama-se Sunda Calapa» c mais adiante «...Icatra, uma cidade a cerca de 10 léguas de Bantam», «...Icatra (Jacatra) que é apenas notável pelo seu rio, e a região à volta muito fértil pelos seus frutos e provisões. Chamou-se, no passado, Sunda Calapa, que fora uma rica cidade mercantil, mas em algumas ocasiões e por qualquer motivo, os mercadores eram maltratados e retiram-se dali; por isso, agora há pouco ou nada Aue fazer». A Collection of Voyages and Traveis, li, 404-13, London, 1745. Segundo Crawfurd (Diclionary, p. 44) o local da velha cidade é o da velha capital nativa, Sund-Kalapa ou «Sunda dos Coqueiros», denominada em linguagem polida, do sânscrito Joyakarta, popularmente Jacatra, significando «trabalho da vitória». A Encyclopaedie van Neder- landsch-lndie diz que «os chineses conservadores mencionam sempre Batávia
ESTAMPA XXVIII Carta de Francisco Rodrigues (foi. 23) da Costa Ocidental da África, entre 5o N. e 16° S.. com as Ilhas do Golfo da Guiné
ESTAMPA XXIX Carta de Francisco Rodrigues (foi. 24) da Costa Sul da África Mli//. V IkÍ
A Suma Oriental 295 E melhor que todos este he omde o trato he moõr E domde nauegam todõs os De çomotora E palimbão laue tamJompura malaq8 macaçar Jaaõa E madura E out°s lugares muj,os E tam¬ bém Estas naçoèes tratam nos out°s portos este porto estaa dous dias damdadura Da cidade de dayo homDe o Rey estaa sempe dasemto asy que este he o de que se hadc fazer fumda- memto estaa casy apeguado com a terra da Jaaõa somtc se mete no meyo chemano & De chemano a este he huu dia E huua noyte com bom vemto aquj a este porto acodem as mercadarias De todo ho Regno hee este porto De boa hordenamça tem Juizes Justas espiuaês Dizem q por espto tem Ja quem fezer taall avera tall por ley do Regnno amquorã neste porto muytos Juncos// Ho porto de chemano he o seisto porto este nom he porto Ho porto q nelle amcorè Junqos Demtro somemte na barra segumdo dizem de out°s Dizem q sy neste viuem mujtos nouros ho capitam he chemano gemtlo he do Rey de çumda aquj se fez o estremo Do Regnno he chemano de bõo trato trata a Jaõa também com elle he de boa pouoacam gramde/ Estes Sres capitãees Destes portos sam pesoas mujt0 pinçi- paees he cada huu mujto temido & gramdememte Reveremçiado como Kalapa, mantendo deste modo a tradição dos seus antecessores que ali se estabeleceram no século xvt ou mais cedo», s.v. Soenda Kalapa. Em 1522 o capitão de Malaca, Jorge de Albuquerque enviou um navio sob o comando de Henrique Leme para um porto de Sunda com um presente para o rei local e protestos de amizade; foi assinado um tratado em 21 de Agosto e os portugueses foram autorizados a construir ali uma fortaleza, e um padrão ou pilar foi erigido no sitio escolhido para a construção da fortaleza. Daqui vem certamcntc a aguada do padrã na carta de c. 1540; o facto de estar inscrita entre as palavras Cumda e Calupu mostra simplesmente confusão da parte do cartógrafo de c. 1540, ou de um cartógrafo anterior, que pode ter utilizado mais do que um original diferente, dando três topónimos ao que de facto é um e o mesmo local — Calapa. A agoada de Joham lopes dalluim, na carta de Rodrigues (foi. 30), é a aguada da laim da carta de c. 1540 e aguada de sigide das outras cartas, correspondendo a Tanjong Sentigi. Vide Apêndice II. Chodaio, junto de Sunda calapa é talvez erro de orto¬ grafia de Ho Daio (O Daio).
296 Tomé Pires dos moradores dos taès lugares sam gramdes momteiros amdam o mais do tempo em prazerês tem cavallos bem aJaezados estes compitem gramde memte com os Jaaõs & os Jaãos com estes dizem que a Jemte de çumda he mais valente q ha de JaÕa Estes sam boõs homees & verdadeiros E os Jaaõs sam diabólicos he ousados em treiçoees E tem vaydade Doufanja do nome de serem Jaos Hos De cumda E de JaÕa nom sam amiguos nem Jmiguos cada huu garda o seu tratam huus com outros & também se se acham no maãr cosairos qem mais pode comete E asy se vsa ca/ por mais amizade que aJa antre elles E mais paremtesquo//. He Regnuo De cumda nom comsemte mouros em sy somemte poucos p° q se temem que por suas manhas nom se fara è elle o que hee feyto em Jaõa porq hos mouros sam manhosos & por manha se asenhoream das terras porque poder nom tem Des- cubertamemte/. acabase o Regfio De cumda aguora Emtraremos no Regnno Da Jaaõa & dela se contara o q tenho semtido//. Ylha de Jaaôa A Redor comecando de choroboam Atee bulambuam & primeiro se falara do Rey Jentío Do sertão & do seu capitam moõr guste pate he despois Dos pates mouros Das beiras do maãr por hordem A Jlha de Jaaõa Amtigamemte Dizem que senhoreou atee maluco da banda Do leuamte E gramde parte Do ponemte E que teue debaixo de sua obydiècia casy a Jlha De çomotora E todallas Jlhas sabidas aos JaÕs E que tudo ysto tiuerom Desde gramde tempo atee obra De cem aniios a esta prte se comecou a demenujr seu senhorio atee o poõr no estado que aguora hee como se adiante dira//. pollo quall poder E mujta valia que a Jaaõa tinha E por navegar ha m,as partes E muyto lomgue porque se afirmam q nauegava atee adem & q seu trato primcípall era na bonua qlim Foi I49r. & bemgalla paçee e que de todo tinha | o trato em peso neste tempo todollos navegantes eram Jemtíos de maneria que acolheo asy nas beiras Do maar mercadores tam gramdes & de tam gramde trãto q se não sabia em partida aver tam groso E de
A Suma Oriental 297 tamta fazemda// delles eram chijs delles arabios parses guza- rates bemgallas & de mujtas naçôees & forom em tanto crecimto q mafamede E os seus sagazes Detremjnarom Dempremder suas seytas nas beiras Do mãar na Jaôa com fazemdas//. A Jlha da JaÕa he gramde terra em rroda quoatrocenitas terra Da leguoãs comecamdo de chemano E cercamdoa pola bamda de Jaaõa bulambuani tornamdo pola outra bamda a outr0 estremo nom falaremos nas beiras Do maãr somemte aguora do sertão/ he terra bem asombrada nam alaguadiça mais Da feyçam de pur- tuguall/ E muyto sadia/. He o Rey da Jaõa Jemtío chamase batara voJy (303) aya estes Rex da Jaõa sam de gramde famtesya tem que sua fidal- guja nom tem pãr sam grandes galamtes os Sres Jaãos gemtíos sam de gramdes atabiõs De suas pesoas & de gramdes Jaezes De cavallos sam de cryses espadas lamcas De muj,as maneiras todas lavradas de tauxias douro sam gramdes momtêiros caval- gadores estribos todos de tauxia Douro selas marchetadas nam tem o mundo em nada sam tam Sres tam Emlevados em Sres Jaos que certo nom ha naçom que a elles se posa comparar Em gramdes partidas nestas parts por Jemtilez3 amdam trosqados ha ma trosquia E sempre correm a mão polos cabellos Da testa pa cyma he nã como nos & disto se prezam muyto//. Sam os Sres Da Jaaõa tam Reueremceados como deoses de gramdes acatamemtos E de gramdes çumbayas hee a terra Da Jaaõa Demtro mujto pouoada de mujtas cyDades E muyto gramdes amtre as quaes he a gramde cidade de dayo homde o Rey Estaa dasemto E aly he a sua corte Dizem que hee sem numero a Jemte q anda na corte os Rejs nom se mostram ao (303) Batara Vojyaya, ou Batara Vigiaja como está escrito mais adiante, corresponde a Batara Browijaya. Browijaya era um dos titulos assumidos pelos soberanos de Majapahit, o último reino hindu de Java antes do advento do maometanismo na ilha. Nos fins do século xhi os Browijaya assumiram também o titulo de Batara, do sãncrito A vaiara, a incarnação. Raffles, The History of Java, I, 299, II, 148. 151; Campbell, Java. p. 63.
298 Tomé Pires pouoo somemte huua vez duas no anfio Estam em seus paacos como os Reis De cochim na cova E aly estam com todos os prazeres & com festas com gramde copia De molheres suas E man¬ cebas dizem que pa serujço destas molheres tem o Rey da Jaaõa mjll homees capados E estes amdam vestidos como molheres E tem os cabellõs como diademas Da propia feicam//. E porque os Jaaõs comfiados em suas pas E dados a esta vida tem perdida grãde parte de suas terrãs os Rex nom mam- dam nem sam ávidos somemte o seu visoRey E capitam mõr que cada huu tem E o que aguora ReJe a Jaõa he guste pate (304) seu visoRey E seu capitam moõr Este he conheçido E acatado por Rey a este obedeçem todos os Sres Da Jaõa a este acatam este g*101, mamda em tudo Este tem o Rey da Jaaõa De sua maão Este lhe manda dar de comer o Rey nom emtemde em nada nem lhe compre// aos Jaaos nom lhe apomtes ã a maão Do Jmbiguo pa çyma nem açenes chegarlhe com a maão ha cabeça por ysto matam//. Guste chamase o viso Rey da Jaaõa E seu capitam mõr guste pate pate amtes se chamava pate amdura (305). Este he o que mamda toda a Jaõa nos lugares & terrãs dos Jemtios E outrem nenguê nam/ he guste pate sogro do Rey da Jaõa este guste pate he ornem Caualeiro anda senpe na guerra tem sempe guerra com os mourõs Das beiras Do maar pmcipall memte com ho sõr de dema qndo vay a guerra dizem que leuara Duzemtos mjll homêes de peleJa dos qees seram dous mjll de cavallo E espim- gardeiros quoatr° mjll ysto me contou o Rey de tubam & por¬ que sam gramdes amiguos & o sr de tubão he seu serujdor acre- (304) Guste era um título honorífico dado a uma alta personagem, tal como um regente ou príncipe de sangue. (305) Esta è a tradução mais provável, mas poderia igualmcnte ser: «O primeiro chamava-se Pate Andura». Dames supunha que «provavel¬ mente Pate Udora (ou Patendra) se identifica com Pate Umur». II, 191. Mas a descrição de Pires mostra que Pate Andura, Udra ou Udura e Pate Unus são pessoas diferentes.
A Suma Orienta! 299 cemtara em seu estado sam os Jaõs cacadores tem librèes mtos & fremosos de coleiras E arganees douro & de prata//. Sam os Jaaõs homees que se espeuem huuã vez atee nom averem Reposta nom escrevem outra posto que mujto lhes Releue E ysto em enbaixadas & cousas semelhamtes sam hos Jaos homèes ousados & detrenijnam a morrer sam tafujs Jugadores Jogam gramde memte a sua arte e emtamto que aas vezes fjcam os fs° no Jogo//. Amtre as Nacoes Nom ha homèes amoqos como a dos Jaaõs amõquos quer dizer homèes detremjnados a morrer delles o fazem Despois De tomados do vinho E ysto he a Jemte baixa porem os fidallguos tem Desafios E custumanse gramdememte amtre elles E morrem por cousas De suas Deferemçãs he asy custume da terra/ Delles se matam a cauallo E delles a pèe segumdo seu comcerto// He custume da Jaõa e das terras que despois Diremos que quamdo se o Rey fyna mujtas de suas molheres E mamçebas as pmcipaes se queymam & allguuã Jemte do Rey E asy se faz quamdo os Sres morrê E quallquer out° ornem homrrado ysto he amtre os Jemtios E nam amtre os Jaõs que sam mouros he as molheres que se nam queymam afogamse por sua vomtade com tamJeres he festas E as mais pmçipãees molheres E omêes como sam fidallgos quamdo seus maridos morrem morrem aas crisadas E asy o fazem os fidallguos que querem morrer com ho Rey a Jemte mais baixa se afogua no mar ou se queyma//. Tapas quer dizer ouservamtès como begujnos sam em Jaõa Destes obra de cimqoemta mjll Sam amtre elles tres ou quoatro hordês huus Nam Comem aRoz nam bebem vynho Sam todos virgêes nom conheçem molhêres trazem na cabeça huu çerto traJo que sera De huua gramde braçada E na pomta Revira como baguo E tem no emcaixamemto Da cabeça cimquo estrellas bramcas E a tall Emuenicam he Da maneira dos panos Das píneíras pretas & estes sam adorados também dos mourõs E crem gramde mente nelles Dam lhe esmollas folguam dos taeês virem a suas casas nom comem em casa De nenguem senom Foi. 149v. amocos Costume na morte dos Jaaõs tapas Da Jaõa
300 Tomé Pires costume dos da obser- vameia das mo- Iheres Jaõas/I. momos Da Jaõa boys da Jaaõa no campo amdam dous por hordenança e três E nã amdam sõos na quellas Mitras nom lhe toquam Dizem que sam sagrados Eu vy na Jaãoa Destes p vezes Dez ou doze//. Muitas molheres Jaõas nam casam E virgèes tem casas Nos momtes E alij acabam suas vidas outras despois que perdem hos pmeiros maridos se fazem begujnas as que se nom querem queimar E destas Dizem q ha na Jaõa gramde numero que serani mais de cem mjll molheres E despois fazem a vida casta memte E morrem níso & tem casas em lugares pa o taall apartamemto E asy as molheres como hos homees pedem de comer p amor de ds// A terra Da Jaõa he de momos & de caratulas De diuersas feiçoêes E asy o sam molhêrs como homees sam damtremêses De dameas Destorias comtrafazem trazem vestidos De momos E todos seus traJõs/ sem duujda sam graciosos tem musyca de synos tamJem como orgaõos o som de todõs de todas vezes// estes momos de dia E de noyte Sam De mjll gimtilezas a estas semelhamtes/ De noyte fazem sombras de Diversas feiçoêes como beneditos (306) em purtuguall//. tem os Jaõs bois destado anafados como ginetes de cornos laurados E casqos E estes trazem Dous em carreta E armada sobre a carreta camaras De fremosa macanaria De marfíjs/ & dout°s paõos E alij paseam quarndo querem sam os bois ensij- nados propia memte como cavallõs E amdam com a cornadura pa diamte do teatro (307) E amdam Recamdo E ysto he traJo limpo E parece mujt0 graçioso E he cousa destado E as merca- darias todas se trazem em carretas de bois por toda a Jlha de Jaõa (306) Esta palavra está ligada ao sambenito ou sanbcnito (saccus benedictus), usado antigamente pelos penitentes. É possível que o tápih, espécie de saia interior, usado pelas graciosas bailarinas javanesas, sugerisse a comparação a Pires. (307) Embora o uso da palavra teatro neste caso não seja fácil de explicar, é possfvel que Pires se referisse ao corpo ornamentado da carroça.
A Suma Oriental 301 Custumase gramdememte na Jaõa capados amdam vestidos ao traJo das molheres trazem os cabellõs por cima De meio Da cabeça De maneira De diadema estes servem da guarda das molheres por que os Jaaos sam homees mujto çiosos E nem- gem nom lhe vee as molheres senõ a Jemte baixa./ mas todo fidallguo caualeiro homem Ríquo gardase de serem vistas suas molheres De nenguè E sobre isto sam mãis promptõs a morrer que sobre tudo esta a terra em ysto tam abituada que nam perdem nada Dc seu costume E ysto gardam Jntamète Qmdo o Rey hade sair he lamcado pregam na çidade que o Rey vay follguar ou caçar todo fyDallguo De quall quer estado E comdiçam nom saie de casa nem nenhuu homem omrrado/ o Rey saie com dous três mjll homes De lamças daluados Douro E de prata estes vam diamte Emtam suas Mançebas em carrõs E postas por muj fresca maneira E cilas muy bem ataviadãs/ E despois suas molheres em alifamtês adornados ha maneira de veiros E cada huua das mancebas E molheres leuam detrás sy a pee vimte trimta molheres cada huua segumdo hee// E detrás ho Rey com seu guste pate vam paseamdo E levam libreès E gal- guõs E out°s quaêes levam lanças De caça de tres pomtas De fremosas tauxíãs o que se acha na Rua por homde o Rey hade hir ou vijr morre por iso posto que seJa quem quiser nom semdo molhèr ou moço de ydade atee Dez annõs// Desta propia maneira sãem os Sres Da Jaõa os que ssam Sres ê suas terras sopeniia De morte/ o dia que vay a caça nom tem menos acatamemto em sua terra que o Rey na sua asy matam como se fosem Reis este he o costume da Jaõa ouvy ysto em tubam Desta propia maneira Nam somemte do sõr De tubam mas este estado tem seu Jenrro que herda tubam por sua morte E asy vy em çedaio// todo homem da Jaõa ora seJa Riquo ou pobre ade teer em sua casa crís he Iamca he adarga nom sam todas adarguas de pão Redomdas// E nemhuu ornem de Jdade De Doze annos atee oitemta nam hade sair de casa sem cris na cimta trazeno nas costas como se custumavam hos punhaees em purtugall IFol. ISOr.l Capados Da Jaõa Custume do Rey da Jaaõa quamdo sae fora a follguar com suas molheres1/ horde- namça Da Jaõa acerq" dos mora¬ dores
302 Tomé Pires Maneira Da cor- tesija de Jaõa Foi. I50v. Portos que obedecem ao Rey da Jaaõa E a seu guste merca¬ dorias da Jaõa E mantim'0' porq as armas valem baratas em Jaõa E a terra estaa neste custume// Aos pates se faz a Reveremçia e cortesia Delatría as maãos em çíma Da cabeça os seus naturaees/ E huus a out°s poem a mão Dereita nos peitos & qmdo falam cruzam as maõs & ysto a Jemte baixa com os Sres E falam de lomge obra de quoatro cimquo pasadas E as mais vezes por terçeíras pesoas porq este he o cortesão costume aos fidalguos falarlhe por terceira p!1 qmdo esta acompanhado as cortesyas Do sertaõ Da Jlha De Jaõa Da corte Do Rey eu as nam vy/ nas beiras Do maãr nas terras dos mouros vy/ Estes pates mouros como se Despois dira sam gramdes Sres E quamdo falam ê cortesyas E Jemtilezas Dizem que na corte he tudo E rriquezas// E falam com gramde acatamemto nas cousas Do guste pate Dizem que os Jaos Ja tíuerom Amtígamemte afenídade com os chíjs E que huu Rey da china mamdou a Jaõa huuã sua fa pa casar com batara Raja çuda/ E que a mamdou a Jaõa com mujta gemte da china E que lloguo mamdou a moeda das caixas q ora corre E dizem que era huu Junco Delas carregado E que aquelle Rey era vasallo Do Rey Da china nam trebutario E que os Jaos matarom os chijs todos ê Jaõa por treiçam outs° Dizem que nom foy taall mas q nunca teue paremtesco nem conhecimto huu com outr° Rey E que as caixas Da Jaõa traziam chijs a Jaõa por mercadoria põq Ja amtes De malaq3 ser tratavam os chijs na Jaõa aguora De cem annos a esta pte nunca la forom//. Tres portos sam os que obedeçem ao dito Rey huu he de mouros & o outr° de Jemtiõs E o out° he huu f° De guste pate .s. tubam que he daria timã de RaJa este he de mouro vasallo obyDiemte ao ditõ Rey E outro he bulambuam que de pate pimtor E o outro he gamda que hee Do filho De gustepate’//. Tem a terra Da Jaõa somemte a dos Jemtíos aRoz sem cornto de quoatro cimq° manras hee mujto alluo melhor que de nenhuuã pte outa tem bois vacas carneiros cabras bufarõs sem numero/ certamemte porquõs toda a terra he chêa tem mujtos veados & de gramde gramDura fruitas mujtas pescados nas
A Suma OrientaI 303 beiras do maar mujto he terra mujto abastada mais q nenhuua que qua se saiba he terra De fremosos arês tem aguoas mujto boas tem gramdes serranjas gramdes chapas vales terra como a nosa he a Jemte mujto nedea E luzida sem borbulha. De boõs corpõs como a tall terra Requere sam homeês nam pretos mas sobre aluõs que sobre pretos E asy como nos afagamos os cabellos pa baixo asy o fazem elles ao Reues por gemtileza ysto nom he deste capitollo mujto a preposyto// tem mais a Jaõa vinhos a sua guisa gostosos E mujtos azeytes nom tem mamteigas nê qeyJo nom o sabem fazer//: Tem a Jaõa ouro em boa camtidade De toque doito mates E oyto & meio tem mtos estopazios tem cubebas atee vimte trimta baharès cadano E nom nas ha em outa pte tem pimemta lomga tem tamarjmdõs pa carreguãr mjll naaõs os matos sam de muj boa cana fistola tem cardamomo nom muj'° aRoz que he a pmcipall mercadoria legumes espauos por mercadaria tem Jmfi- njdade De panos Jaos que traze a vemder a malaqua ha mais Na Jaõa mjna destopaçíos tem synos de cobre he fruseleira que abastam a estas partes hee gramde mercadoria/ Todo panno De cambaya E qmtas mercadarias Delia vem a malaq3 todas valem em ha Jãoa pannos qlijs emRoIladõs De ladrilho gramde E pequeno taforio topitis (308) E doutsa sortes De pannos De bemgalla synabafõs De todas sortes curados he cruus E de todas sortes outas De maneira que se deue notar qmtos se gastaram Em tam gramde pouo E todos estese Repairã De malaca E alguua cousa pouca alcamçam por vija De pamchur alguuã ora mas nom he nada he valê mujto Rabos De bois vaquas bramcõs q vem de bemgalla E do guzarate//. A moeda da Jaõa sam caixas (309) Da china vallem cada (308) taforio — Parece não existir em português tal palavra. Pode estar em vez de tafecira, designação antiga para vários tecidos orientais como o chintz, quer de seda, quer de algodão. topitis — Pano grosseiro de algodão do Ceilão. Do singalês tupatii. Escrito topetijs ou lopetins, mais adiante. (309) Nunes refere-se às «caixas que vêm da Java, que são de cobre, merca¬ dorias q vallem na Jaõa E vam De malaquaj. moeda E pesos Da Jaõa
304 Tomé Pires mjll vimte cimq° calais dos de cemto por tres cruados o nome de mjll chamase puou E por mjll vos dam menos trymta que asy he custume Da terra tiram aquelles trimta de dereytos pa o senhorio Do tall lluguãr E por estes se faz toda mercadoria a Jaõa nõ tem moeda douro nem de prata folguam mujto com nosa moeda pmcipalm,e com a moeda dos purtugueses Dizem que a terra homde se tall faz q deue de ser como Jaõa//. A tumdaia ou taell da Jaõa he mõr a qarta pte que a de malaqa vali a tumdaya Douro doito mates doze mjll caixas q valem noue cz*108 a Rezam de mjll & trezentos he trimta & três E huu terço por huu ctP° trazemdo o ouro da Jaõa a malaqua ganhase em cada cimquo huu//. Pesam cada cemto E quoremta caixãs huu aRatall dos nosõs de dezaseis oncas tem o cate Duzemtas E quoremta caixas de Jaõa por que o bahar de Jaõa tem Duzemtos cates E pesa quo¬ remta E oito mjll caixas mas eu nom comprey senom pollo q leuava//. A guãnta de Jaõa do aRoz E legumes he mais pequena que a de malaqa vymte cimq° gantas De Jaaõa fazem vimte Em malaqa(310) E destes pesos he medidas se falara geerall memte Em todallas ptes em out° líuro// nom se ganha casy nada nas mercadarias q de malaqa vam a Jaõa somemte nos Retornos se ganha bem//. Foi. isir. Hos custumes dos drrtos que se paguam em Jaõa das mer¬ cadarias que a ella vam por maãr o primcipall hee o díreyto mayores que ceitis, furadas pelo mêo». Lyvro dos Pesos, p. 41. Pires disse atrás, ao tratar da «moeda de çumda»: «por moeda meuda caixas Da china sam como ceitijs furados pollo mey°». Mais adiante, ao tratar da moeda de Malaca, diz que «cada cem caixas he huu calaim & pesa trinta & tres omças cscasas», valendo o calaim 12 reis. (310) Segundo Nunes a gania de Malaca era igual a 5 quartilhos (1.75 litros) e a gama das Molucas era maior, igual a 5 >/3 quartilhos (1.86 litros). Lyvro dos Pesos, pp. 40, 58. Não menciona a gania de Java, mas seguindo a informação de Pires era igual a 4 quartilhos ou a uma canada (1.4 litros). Vide nota p. 234.
A Suma Oriental 305 Damcoragem & por este se pagua presemte E da mercadaria que se vemde na terra se pagam De Drrtos de cada dez mjll caixas quoatrocemtas//: Ja tenho Ditõs senhores da Jlha aguora começarey De comtar dos pates mouros q estam nas beiras Do maãr os qeês sam poderosõs na Jaõa E tem todo ho trato p° q sam Srès Dos Jumcos & de gemtes// No tempo que Jaaõa era de Jemtis Na beira do maãr vinham mujlos mercadores parsês arabios guzaratès bemgallas malaios E doutsa nacoees arntre os qeês avia muj,os mouros comecaram tratar na terra E fazerse Ríquos teuerom maneira de fazer mezqtas E vierorn De fora parte moulanas De maneira que vierom em tamto crecim'° que os fs° Destes taes mourõs eram Ja Jaõs E Riquõs que teuerom maneira como Dobra de setemta annos a esta parte em alguus lugares os propeos Sres Jaos Jemtiõs se tornarom mourõs E estes matauanõs E os mouros mercadores apoderavãse Dos taèes lugares outs0 tinham maneira De forta- leçer os lugares em q moravam & tomavam gemte Da sua que em seus Juncos navegavam E matauam os Sres Jemtiõs E faziamse Sres & desta maneira se asenhoreavã das beiras do mãr E ficarom com o trato & poder Da Jaõa//. Os quaes senhores pates Nam sam Jãos damtígujdade da terra somemte deçemdem de chijs de parses E quelis & das nações que ja dixemos porem crados estes nas oufanjas Dos Jaaõs E mais pollãs Riquezas que de seus amteçesorês lhe ficarom tem mais a fidalguja & estado Jaõo Em peso que os de demtro E cada huu he Reueremciado em sua terra como se fose outa cousa mujto mõr aguora se comecara a dizer de cada huu E de sua terra, as terras Destes estemdemse na terra atee as serranjas q seram sete ou oyto leguoãs// Porque noso Recomtamemto vem drrta memte polia costa de cumda a emtrar nas trrãs De Jaõa atee chemano seg° he dito aguora tornarsea a falar de choroboãm E acabaremos è bulam- buãm falamdo de cada huu o que he mouro E que Juncos he Jête tem E pmeira memte falaremos de choroboãm//. Dereilos que se paguam em toda a Jaoa he pesemtes Dos que la vam tra¬ tar com merca¬ dorias p viageês/l De como se fizerom mouros os Sres Jaaos Nas beiras do maãrll
306 Tomé Pires Choro¬ boam ( 311) Foi. 151 v. Terra De Japura A trra De choroboam he Jumto com cumda chamase o Sõr delia lebe vça he vasallo De pate Rodim sõr De dema este choroboam tem porto bom E nelle avera tres quoatro Juncõs tem muj'° aRoz E mujtos mantimemtos tera atee dez lancharas pequenas Dizem que aguora nom tem tamto/ este lugar de choro¬ boam tera atee mjll vizinhõs neste lugar de choroboam mora pate qdir (312) o que estava em vpe alevamtado avera em choro¬ boam mercadores como pate qdir cinq° ou seis porem todos fazem honirra ao pate qdir E o sõr de choroboam porque o tem p° mercador ousado & caualeiro este lugar de choroboam avera quoremta amos q era de Jemtíos E o sõr De dema q emtam era tinha huu espauo dagacij & fez o*Dito espauo por capitam corntra choroboam E tomou choroboam & o sõr de dema lhe deu o titollo De pate de choroboãm E este seu espauo dagaci q foy sor de choroboam he avoo deste pate Rodim que oJe (313) he sõr de demaa//. Este luguar de choroboam pollo Rijo Demtro obra de tres leguoas emtram dètro Jumcos segumdo dizem nom he cousa forte este lugar he de melhor madeira q nenhuu lugar Da Jaaõa pa fazer jumcos posto que a Jaõa toda nom he de m,a madeira//. A terra De Japura comtermjna De huua parte com choro¬ boãm & da outa com a terra De locary(314) he terra de dous mjll moradores em pouoaçoes he de pate Rodim/ chamase o (311) Segue-se em letra muito mais recente: «Tsierlbon (ile de Java)». (312) Pate quedir, ou Patih Katir, combateu contra os Portugueses em Malaca em 1592. Fora nomeado por Albuquerque, em sucessão de Timuta Raja, como chefe de Vpe. ou Upeh, um subúrbio javanês na margem do Rio de Malaca, em frente da cidade de Malaca. (313) Se Crawfurd estiver certo, isto concordaria com a sua opinião de que a mãe de Pate Rodim não era uma princesa de Champa, mas «mais provavelmente uma crioula descendente dum homem de raça chinesa». Vide nota p. 308. (314) Japura corresponderá ao Chi Sangarung, que desagua em Tanjong Losari. Três milhas para o interior há um lugar chamado Losari, num pequeno distrito com o mesmo nome.
A Suma Oriental 307 pate de locary pate codia tem este luguar atee cimquo Iamcharãs tem dous Juncõs tem muj° aRoz este lugãr E çera mell mamti- memtõs a gemte de Japura sam lavradores he o pate Deste lugãr cavaleiro pmo com Jrmão De pate Rodim tem obidíemcia ao dito pate Rodim sõr de demaa estaa casy como capitão seu no dito luguãr este lugar De Japura tomou ho pay Deste pate Rodim por manha e emtam ficoulhe na maão ate oJe// tem p°to & vay p° Ryo a povaçãm/ A terra De teteguall comfyna de huua pte com Japura & da outa com camaram tem este luguar mais aRoz q nenhuu lugar da Jaõa Destes Das beiras do mãr o pate deste lugar he huu tijo De pate onuz he da obidiemçía Do sõr de dema tem porto & Rijo homde carreguam De muj'° aRoz E doutros mam- timemtos tem este huu Jumco E as vezes nom tem nada. tem lamcharas pequenãs// a terra de teteguall dyzem que he terra de quoatro mjll vizos viuem em pouoaçoèes nom mujto Jumtas o lugãr de teteguall terra obra De mjll E quinhemtos vizinhõs tem este lugar atee sete ou oyto mercadores//. Camaram Juntase de huu cabo com teteguall E do outro com a aterra De demaa chamase o pate De camaram pate mamet hee sogro de pate Rodim sõr De dema he da obidiemçía De dema tem porto nom mujto boõ tem aRoz E mamtimemtos tem este lugar tres Jumcos he quoatro ou ciniq0 lamcharas tem obra De tres mjll moradores/ aguora nom tem Jumco nem .lumca (?) he terrã sem nèhuuã cousa pa pode naveguãr porque os q tinha lhe queimarom em malaq3 E nom tem poder pa fazèr out°s seguindo todos dizem & A terra De dema comfina de huua pte com camaram E da outa com a terra De tidanã a terra De dema mor que as que sam ditãs de choroboam atee Demãa tem a cidade sua obra de oito atee dez mjll casãs segumdo afirmam he sõr desta terrã pate Rodim Este he o pmcipall pate. da Jaõa deste fazem cabeça Terra De teteguall. terra De cama¬ ram (315) terra De demaa (315) Segue-se em letra muito mais recente: «Samarang (Ile de Java)».
308 Tomé Pires todos os Sres da Jaõa os que sam Seus amiguos foy o pay de pate Rodim caualeiro pa de gramde sysõ & o dono de pate Rodim foy huu homè dagaçij huus Dizem q era espauo do sõr De dema em cuJo tempo elle veio teèr a dema out°s dizem q era mercador/ mais autoridade se daa este espauo//. Este pate Rodim he muij‘° aparemtado com os Sres da Jaõa por que sey pay & avoo tem mujtas fsa E todas as casou com os pates primçipães/ tem este tamto poder que soJuguou toda a trra De palimbam E de Jamby E as Jlhas de menamby E mujtas outas ylhas comtra tamJompura E todo trouxe a sua obidiemçía// hee de gramde acatam10 Este pate Rodim Das terras deste vem o arrõz E out°s mamtimemtos a malaqua foy homem ho pay deste que de suas terras poderá aJuntar quoremta Jumcos aguora nom ajuntara dez porque este pate Rodim fiquou moço E aguora sera De Jdade de trimta annõs E deuse a cousas de mamcebas E sua terra quebrou mujto Do que dantes era//. (316) (316) Pate Rodim, ou Ráden Patáh, é por alguns julgado tratar-se dum neto de Angka Wijáya. Batara Browijaya de Majapáhit. Seu pai era Aria Damar, Príncipe de Palembang eni Samatra, filho ilegítimo de Angka Wijáya. Aria Dámar casou-se com uma princesa chinesa de Champa, ante- riormentc casada com seu pai, que lha deu quando ela estava grávida. Aria Dámar e a princesa de Champa tiveram dois filhos, Ráden Patáh, o mais velho, e Ráden Húsen. Mais tarde foram enviados por seu pai para a corte de seu avô o Batara, cm Majapáhit. Mas Ráden Patáh, quando cresceu, recusou-se a viver cm Majapáhit e mais tarde fundou Demak, declarando guerra a seu avô. Este enviou um exército contra ele sob o comando de Ráden Húsen, mas Ráden Patáh, depois de ser derrotado, acabou por bater o exército do Batara. c Majapáhit, «a grande c magnífica capital de Java, caiu em 1475 tomando-sc um ermo», e o Batara fugiu. «Ráden Patáh Adipáti Jimbum» foi o primeiro monarca maometano de Demak, tendo reinado de 1477 a 1519, quando morreu de idade avançada, Raffles, History of Java, 78 seqq. Mas Crawfurd rejeita «a história da princesa de Champa, e do nascimento de Raden Patáh». Chama-lhe «uma chinesa, ou mais provavel¬ mente uma crioula descendente dum homem dessa raça ... alguma mulher humilde, clandestinamente levada de champa, e adquirida para o harem do
A Suma Oriental 309 E mais o que lhe ficou todo lhe foy destruydo em malaqa qmdo pate onuz seu cunhado veyo peleJar na era De qnhentos E doze/ tem este mujta Jemte de peleJa tera em Jaõa trimta mjll homêes e em palimbaõ tera dez mjll este tem comtinoada- mente guerra com ho gustepate & com o sõr de tubam tem despa mujta gemte na guerra he he pobre èê dema nom tem somemte cirnq0 ou seis pangaJavas & nom tem Junquo nêhuu & se este nom pede misericórdia a malaqa de vasalaJem pa se emparar E ssuas mercadorias terè furo sera de todo pdido porque por avèr três ou quoatro annõs que nam trata | he gastado gramde- Foi. I52r. memte asy que de necesydade lhe comuè ser trebutarío a mala- qua pa sua Redemcam E o pouo Ja se vay De sua terra pa outras por nom aver trato de mercadorias// todas as Noujdades de suas terras este despendia em malaqa asy que elle mamdaua em seos Jumcos E pamgaJavãs como mercadores de malaqa em Juncos hiam a sua terrã do qual trato avija gramdês copias de mercadorias elle a sua maão E tinha gramde proueito he porq Jsto nom faz aguora hee despeso E dizem q Despamdeo mais de cem mjll cz008 elle E pate onuz na armada que veio sobre malaca nom he duujda estar gastado p° q asy se afirma/ este nom tem vida se nõm faz fumdamemto de malaqa// gastanse nas terras deste gramdes copias de merca- darias asy dos guzarãtes como dos qlíjs E da china & bemgalla Das quaês aguõra a terra he falecida polias Rezoêes que sam rei de Java». «Esta mulher foi repudiada pelo monarca Javanês, quando grávida de Raden Patah, e passada a Arya Domar, chefe da colónia java¬ nesa de Palembang, em Samatra, que se dizia ser o próprio filho do Browijaya. Raden Husen era o autêntico filho de Arya Damar, da mesma mãe». His- tory of the Indian Archipelago, II, 310-13; Campbell, op. cit., p. 129. Muito do que Pires diz sobre Pate Rodim discorda de certo modo de vários escritos sobre história javanesa. Por exemplo, ele diz que no seu tempo Pate Rodim tinha trinta anos, mas parece que seria muito mais velho. Pires escreveu de acordo com o que ouviu, e apesar de possíveis inexactidões a sua infor¬ mação em muitos casos não é menos valiosa.
310 Tomé Pires terra De tida¬ nã (317) terra de Japa- ra (318) ditas// Dema tem Riq" Rijo nom emtram nelle Jumcõs senõ de mare ceha A terra De tidanã detremínase de huua pte com dema E da outra com Japara este pate chamase pate orob/ he tijo De pate onuz Jrmãao de seu pay Dizem q nam obedece a nemguem este he ornem sesudo segundo dizem aguora nom tem Jumco tem duãs ou tres pamgaJavas tem Rijo bom nom emtram Juncos demtro tem esta terra muyto aRoz & mujtos mamtimentos terra a terra de tidanã dous ou tres mjll homêes E peleJa este mujtas vezes com os do sertão E aJudao a gemte do pate Rodim porque o gustepate vem mujtas vezes sobre demãa E tidonam Japara E faz dano nos da terra Este dizem que guouerna o pate onuz E o pate Rodim por comselho & a elle hobedecem como a paremte mas cada huu he mais poderoso que o dito pate orob//. Aguora somos emtrados Na terra De pate onuz ho caualeiro de que os Jaoos falam p° q Dizem que he na JaÕa gramde homem de peleJa E gramde sesudo E ouue mujta terrã a sua maão este pate onuz/ seu avoo foy homem trabalhador Das Jlhas de lavee e esteue è malaq* com muj pouca fidallguía E menos fazemda e em malaq8 casou E ouue o f° que foy ho pay de pate onuz E em malaca foy avemdo dr° he trataua na JaÕa E avera obra de quoremta annos ou mais cimquo que por estuçia matou o pate Japara que era cousa fraqa & pouca cousa de nouenta ou cem Vizinhos E asy tomou a terra De tidanã Despois & por sua estuçia foy taãll q ha pouoou & liouse foy o mais nomeado sõr da JaÕa em força e em boa companhia aos seus naturães//. O porto de Japara estaa ao pee do gramde momte E mujto alto que se chama [em branco] (319) a terra de Japara comfina (317) Tidanã ou Tidonam. Algumas milhas pelo rio Scrang acima, o qual desagua no mar 17 milhas a nor-nordestc de Samarang, há a aldeia de Tidunan. Tidamar, como escrito atrás (foi. 147r), será engano do copista. (318) Seguc-sc cm letra muito mais recente: «Japara (ile de Java)». (319) Esta montanha, cujo nome foi deixado em branco no MS, corresponde às montanhas Muria, a umas 12 milhas da costa. O seu pico mais alto (1595m) é Sutorengo.
A Suma Oriental 311 De huuã bamda com tidonã & da outra com a trra De Rame Japara he emseada de fermoso porto tem diamte do porto tres Jlhas como as Dupc (320) E podem emtrãr gramdes naaos Demtro os q nauegam pasando davamte Japara veem toda a pouoacã este he o mjlhor porto que atee quj avemõs Dito E na melhor paraJem todos os que querem hir a Jaõa E a maluq° vam dar comsiguo na terra de Japara he bem a sombrada terra/ foy huu homê tam ousado que trouxe a sua Jurdição a Jlha de bamqa E a de tamJompura ha laue E outas Jlhas E fez sua terra gramde teue Ja Japara muj,os Juncos & era casy tam grãde sõr como o sõr De dema/ he certo que por cavaleiro tem Japara & demais Jemte E demais terra dema E o f° pate onuz quis aJuntar qmta fazemda fiquou de seu pay E quamta fazemda tinha pate Rodim E detremjnaua de tomar malaq* ao Rey que foy De malaqa por huu descomtemtamemto que tomou por nom fazerem em malaca homrra a huu capitam de huu Junq° seu como esperava// E neste meio tempo se ganhou malaca pollo guoVrnador das Jmdias a° dallboquerq E quamdo ysto souberom Jumtos os mouianas & p8* q avia pmcipaes// diserom q homde podia ser maJs Justa sua Empresa que tomarem a cidade aos portugueses & este acordo acabarõ | Sua Armada Em cinq° annos com aJuda Foi. 152v. de palímbão E vierom sobre ma!aqa obra de cem vellas q a menos das çento nam seria de menos carga q naaõ de duzemtos tonêes & forom Recebidos Davamte o porto De malaq® omde nom (320) Aproximadamentc duas milhas c meia para oeste da foz do Rio de Malaca fica o ilhéu Upeh, a norte do qual estão uns rochedos que emergem na maré baixa. Uma das cartas de Herédia (foi. IV), que mostra a região em volta de Malaca, tem este Puto Vpe e um dos rochedos. Não há três milhas em frente do porto de Japara. Há a ilha Panjang, que fica junto da entrada sul do porto de Japara, a umas duas milhas da foz do Rio Japara, que poderia lembrar Pulo Upeh; mas não há quaisquer outras ilhas. Talvez Pires se refira a alguma parte dos rochedos que se estendem de Kelor muito para norte; a península de Kelor (projcctando-se da costa principal em frente de Panjang) fôra anteriormente uma ilha. Ilha e recife ter-lhe-iam embrado Upeh e os rochedos vizinhos.
312 Tomé Pires Terra De Ramee esteuerom amcorados mais que obra de seis oras amcoraram ao primcipio Da noyte E a meia noyte com o terrenho se forom E tornarom obra de sete ou oyto a sua terrã E as outas ficarom queimadas E alagadas E outas tomadas morrerom obra De mjll homèes E cativarom outs0 tamtos// E aJmda o pate onuz no porto seu Japara nam estava segro & dizia que os purtugueses se ouueram bramda memte com elle// E aguora amda a momtear/ hee pate onuz mãcebo De Jdade de vinte cimq° annõs// cm fidalguja e em presuncam mais q todollos Jaõs Este estaa aguardamdo se lhe cometem pãz/ hee certo q elles ha hãde cometer pollo q lhe compre aguora tem Jampara tres Juncos & duas ou tres pamgaJavas tem sua terra mujto aRoz gastase em sua terra o que Ja Disemos da Jaõa he casado com huuã Jrmaa De pate Rodim E pidia a ellRey q foy De malaqa huua fa em casam'0 E mamdou êbaixadores sobre yso//. He o porto de Japara ao pee De huua Serra muy'° alta. E faz esta serra chapa de tres qoatr0 leguõas E ao pee de huua chapa estaa Japara em terra chaã nom alagadiça mas muy boa E bem asombrada Dizem que tem fremosas carnes E mujtos pescados hee Japara çertamemte a pareçer chaue De toda a Jaõa por que Jaz na pomta he he meio De toda a Jaõa porque tamto ha dalij a choroboam como a agaçij he lugar de m'° trato por que he porto & dizem que dalij se espalhauã os mercadores aas out^ ptes nom falamdo em agaçij//. A terra De rramee he apeguada de huu cabo a Japara E do outro a terra De caJongam he por que caJongam (321) he Des¬ truída por guste pate nom teue mais moradores Rame leuou Delia E tubam asy que diremos q Da outa pte se aJunta a terra De tubam chamase o pate de Ramee pate morob este he tijo De pate onuz E pate onuz f° de sua Jrmãa Esta terrã tem mujto aRoz E tem madeira pa Juncõs F. alij se faziam antyguamente (321) Possivelmente Saranjawa, aldeia na foz de um pequeno rio, a meio caminho entre Rembang e Tuban.
A Suma Oriental 313 aguora Dizem q nom tem nenhuu he tera duas pangaJavas porque acorreo a pate onuz è sua Detremjnaçam comtra rnalaq8 E cada huu perdeo o que nieteo na armada//. Tem este guerra com os Da terrã De demtro Dizem que lie omè q tera è sua terra quoatro mjll homeès sam lavradores viuem por suas Noujdades hee a terra Deste De gramdes baias he bem asombrada na terra Deste tem pate Rodim grã De pedaço de terra Da de caJomgã também he o pate Rodim sobrinho deste alguua Desta terra he mato E nam hee aproueitada por causa que tubam vem sobre ella E destruía E asy o fazem out°s eu vy gramde pedaço desta terra De gramdes palmares & outas aruorês/ & sem moradores porq também se temem dos baJuus pola destruyçã da dita terra de caJamgã fogirom// os mercadores que tem dr° vam fazer os Juncos a esta terra De Ramee//. A terra de tubam he de huua bamda chegada A terra caJon- Tu- gam E Ramee segundo Açima hee ditõ// E Da outa parte com bam(322) çedayo E nas costas tem o emparo Do guste pate/ chamase o pate De tubam pate vira agora por homrra lhe Deu ho guste pate o nome danatimao De Raja que hee nome mujto omrrado tubam tem a sua villa hum Joguo De barreira de beesta do mãr hee çercada de parede/ De ladrilho delle cozido delle cruu sera de dous palmos è larguo E em alto sera De qinze tem darredor dos muros da bamda De fora alaguõas dauga E da bamda da terra firme tem gramdes carapeteiros (323) E syluados pegados ao muro & o muro amcado de bombardciras & sete118 E de demtro tem andaimõs de pão ao andar dos muros/ esta tubã ê terra chaã & Sera tubam demtro da cerqa De mjll Vizinhos tem Foi /5jr cada pa homrrada. seus cerquos De tígollo suas portas bem feitas E demtro as cassas Dos seus segumdo o que tem cada huQ// a huu tiro De bombarda grosa da terra amcoraes em duas bracas (322) Segue-se cm letra muito mais recente: «Touban (Ile de Java)». (323) Carapeteiro 6 o nome dado em Portugal a um arbusto espi¬ nhoso, a subespécie Piraster do Pirus communis Linn. É evidente que Pires se referia a alguma planta espinhosa indígena que lhe lembrou o carapeteiro.
314 Tomé Pires & tres E quatro E a tiro de berço (324) sera De huuã braça E mea E na maree vazia tem escarçeo E quamdo vaza espraya a dous tres tiros de beesta E tem aguoa Docee De maree vazíja E bem doce em fomtes E se metes os pees nom vemdo as covas atolaes atee o embíguo// asy he este sõr de tubam obidiemte ao guste pate E este he o mais perto porto da cidade de daya (325) homde he o asemto do guste pate E sam asy comcertados q ho guste pate lhe socorre com dez vinte mjll homèes aquamdo vem Jmiguos sobre tubam porque todos os pates da Jaõa mouros lhe querem mall por ser amíguo do cafre sam os homes de tubam cavaleiros mais q todõs os da Jaõa/ nemuu sõr Da Jaõa tem amjzade com elle por ter sua villa forte E maao desembarcadoiro & ser liado a ho guste pate nom teme nenguê E De todos tem ho melhõr.//. Este por ser acheguado E amíguo Do guste pate tem as cousas Ricas de tauxiãs em suas terras tem os crises lamças de mujtas maneiras tem armas de caça de tres pomtas tem ginetes guarnjmemtos tem alifamtes três tem mjll lebres de caça outs0 De busqua tem Dozemtas molheres mamçebas ssuas tem Riquas casas & bem obradas homde mora cavalga cada dia polia menhãa (324) Antigo canhão curto, muito mais peueno do que a bombarda. (325) Daya, ou Dalia. como escrito mais adiante, embora a Ency- clopaedia van Nederlandsch-lndie diga que Daha, capital do Império Hindu do mesmo nome em Java, era «algures entre Panorogo c Madioen», que corresponde à face ocidental das montanhas Willis. Crawfurd (Dictionary, s.v. Dãa) afirma que este antigo reino de Java corresponde «à moderna pro¬ víncia de Kadir», que é na face oriental daquelas montanhas. Campbell é categórico ao identificar Dáha com Kediri (Java, pp. 60-3), e uma carta datada de 31 de Dezembro de 1889, publicada por Verbeck, tem Djaha, uma cidade de Kediri, Tuban é de facto o porto mais próximo, na costa norte de Java, de Kediri, que fica 55 milhas mesmo a sul através duma região quase plana. Tuban dista 49 milhas de Djalia. Isto também condiz com Pires, quando diz um pouco mais adiante que «à cidade de Daha irão em dois dias a bom andar terra de carretas boa bei assombrada». A carta de Lavanha tem daia escrito perto da costa, entre Agaci e Passaruani.
A Suma Orienta! 315 Em carros de gramdes maçanariãs a niuj10 limda maneira pa trra nam saye como se emçarra se nom bem tarde as vezes cavailga ê alifamtes outas vezes em cavallos estaa tres dias na villa E outs0 tamtos fora a momtear a terra he bem asombrada De mujto aRoz q vem de demtro da terra firme he de mujtas maneiras De mujto vinho E mujto pescado & de boã aguoa-//. tem mujtos tamarimdos Muj,a pimemta lomga alij vem tèer as cubebas/ Carnes de vaquas porquos cabritos/ cabras veados galinhas fruitas sem comto De tudo ysto he abastada terra E mostrase gramde seujdor delIRey noso sõr// os seus lhe falam de mujto ionJe a nos abracanos E tem esperamça que sera com sua Vrdade & boa mais pincipal na Jaõa sera homem De cimqoemta E cimquo annõs atee sesemta/ este he Jão de naçã seu avo era Jemtío E depois foy mouro este nom me pareçe mujto emcarnado è mafamede// o qerda a terra p sua morte he f° de huua sua Jrmãa E casado com huua sua filha este me nom pareceo tam bem como o sõr velho De tubam/ ha cidade de daha Jram em dous Dias a bom amdar terra De carretas boa bem asombrada. como a nosa nom allagadiça camjnhos mujto pouoados tem Demtro na villa gemtiõs viuem è baíro sobre sy hee a terra bem pouoada de Jemte E de casãs homrradas tem tubam mujtos cavaleirõs Eu vy em tubam huu gemtio q veio da corte hy a vemos Diziam q era homem fidallguo trazija tres ginetes de Jemtijs garnjmêtos Destribos todos de tauxías De panos todos bamdados Douro Ricamemte atabiado De fermosos guarnjmeôtos trazija com- siguo atee Dez homees de Ricas lamças era Robusto gramde lemtiJoso os cabellos Rcfoufinhados pa çima emcrespados E todos lhe faziam Reueremçia E nam veio senom a ver que homèes éramos & pousava fora da villa E nom saya senom huua vez no dia comtra a tarde E eu faley muytas vezes com elle/ ho sõr de tubam pratiqua mujtas vezes q elle foy o que primeiro aceptou E mamteue amizade dos portugueses he diz q nam quer outa cousa pa lembramça de seus fs°/ hee bom homè E sua amizade fiel! E mereçe merçee sempre certam,e// Sera tubam De seis 23
316 Tomé Pires terra de çe- dayo.(326) Foi. I53v. Terra da- gãçij (327) ou sete mjll homès De peleJa aJuntamdose toda sua terra nom tem Junco nem pangaJavas de Cargua suas// A terra De çedayo De huua pte peguase com a terra de tubam E da outra com a terra Dagaçij chamase o sor de cedayo pate amíza he sobrinho De pate morob sõr De Rame E he pmo com JrmaÕ De pate onuz E pmo segumdo de pate Rodim Este he ornem mamcebo De Jdade De vinte annõs he casado com a fa do sõr Dagaci tem comsyguo huu Jrmão de seu pay q se chama pate bagus eu faléy muj,as vezes com estes em çedayo este pate bagus ReJe a trra ho mancebo anda com suas mamcebas a momtear//. çedayo nom he terra De mercadoria he menos que tubam tem sua vila çercada de muro como tubam he cousa pobre de pouca Jemte tem homês homrrados q viuè por suas novidades sera homem De dous mjll vasallos Defemdem sua terra/ he em costa mão desembarqar tudo pedras tem aRoz E mamtimêtos nom tem Jumco nê pamgaJavãs dizem que dent0 hee sua terra boa/ hee a Jemte de cedayo mais Rústica q nenhuã Das q ate q1 sam ditas E he a terra gramde parte de Jemtios Este estaa è amizade com ho sõr De tubam Chegados somos agraçij ho gramde porto de trato o melhõr De toda a Jaõa omde os guzarates/ E calecut/ bemgalas/ syames/ chijs/ lequjos/ amtigamemte soyam naveguar esta hee a gema da Jaõa no porto da mercadoria Este he o porto Reall homde as naõs estam amarradas seguras Dos vemtos com os garoupezes em cima das casas/ porto de mercadores se chama chamase amtre os JaÕs o porto da Jemte Riqa/ parte agacij com çedaío E da outa pte com curubaya E De fromte tem a gramde Jlha De madura a v,a//. (326) Çidaio numa das cartas (foi. 30) c Rio de çidaio num dos dese¬ nhos (foi. 99) de Rodrigues. (327) Agãci ou Agraci corresponde a Grisse ou Geresik. Agraçi na carta de Rodrigues (foi. 37) e desenho (foi. 96).
A Suma Oriental 317 Agraci bate ho mãar nelle E tem duas pouoações as qeês aparta huu Riacho peqno q de maree vazijã fiqua qasy em sequo De huua das pouoações maior & de mais moradores he sõr pate çuf E da outra parte zeynall estes tem comtinoadamemte guerra E de huua parte nom vam a outa nem da outa a outa sopena de morte he as vezes tem tregnõas Em tempos de suas noujdadês E no tempo que vem Juncos ao porto & despõis ficã em sua Jmizade a muj10 tempo q dura ysto/ o zeynall presume De cavaleiro o outrH tem mais gemte cada huu se defemde huu do outro E viuem com vegias desta maneira pate cuçuf he naturall malay° o dono de pate cuçuf chamase [blank] E seu f° chamase pate adem este pate adem veio fazer seu asemto a malaca tinha em malaq8 suas casas E tratava de mercadoria casou ê malaqa com huua malaya de que ouue pate cucuf & viueo o dito pate cuçuf muyto tempo em malaqa morto o dono foy pate ADem pa agarcij tomar pose De sua terra & dhy a gramde tempo mam- dou chamar o filho a malaqa o quall se foy laa com sua casa toda/ morto o pay q se chamaua pate adem fiquou o dito pate cuçuf è agarçij este tinha o trãto de maluquo & bamdam amti- gamemte è quamto teve Juncos a dona deste pate cucuf era Jrmãa De cerina de RaJa pay do bemdara que aquj o Rey man¬ dou Deguolar E elIRey que foy De malaq3 era tambè neto deste bendar3 pay do que matarom De maneira que pate cucuf he seg
318 Tomé Pires He este pate cucuf mercadõr E muyto dado ao trato da mercadaría tem muj,os mercadores em sua terra he homem de bom syso sera Didade De cimq°emta anos foy seu porto De mujtos juncos & de mujtas pangaJavas de carregua aguora nom tem nada tem mujtos calaluzes E naviotes (329) de salto asy como tem os out°s pates da Jaõa que todos tem gramde numero De calaluzes mas nom sam cousa pa se desabrigar Da terra sam lavrados de mjll feiçoêes De vultos de serpes & dourados sam darrêo cada huu tem destes mujtos E mujto pimtados E certo parecem bem E feitos em mujto polida maneira E sam pa Rejs folgarè nelles de seus Repartimemtos de Jemte baixa Remamse de Remos de maão/ devianse de vsar em purtuguall q estam destado// tera a terra dagarcij seis ou sete mjll homees em sua terra//. Gastamse na terra dagacij mujtos pannõs de todas sortes e em gramde camtidade porque dagacij se gastam pa gramde parte de Jaõa & pa outas Jlhas mujtas he por Rezam que tinha a navegaçã de maluco E bamdam comprava elle & seus merca¬ dores gramdes copias E faziamse gramdes tratos em agaçij E por a destrujcam de malaca elles nom navegam nem tratã nê outra irmã de Sri Nara Diraja, não a mãe de Muzaffar Shah; senão Pires tè-lo-ía provavelmente mencionado, e o parentesco seria ainda muito mais complicado. Em todo o caso, Pate Cuçuf, sendo neto duma irmã de Tuan Ali Sri Nara Diraja, era segundo primo consanguíneo do rei Mahmud de Malaca. Os Malay Anuais referem-se à visita deste «nobre javanês Pateh Adam» a Malaca, e seu aventuroso casamento com Tuna Manda, filha adop- tiva do Dato Sri Nara Diraja, que era irmão de Tuan Mutahir. Wilkinson, The Malacca Sulianaie, pp. 60 e 50. De modo que Pires uma vez mais está certo, embora a mãe de Pate Cuçuf fosse apenas filha adoptiva de Dato Sri Nara Diraja. (329) calaluz — Rápido barco a remos usado no Arquipélago Indonésio. naviote — Esta palavra, desconhecida no português de hoje, deve corresponder a naveta, palavra antiquada que significa pequeno navio ou embarcação.
A Suma Oriental 319 tê Junco porq a mor parte dos Juncos da Jaõa sam de peguu que os mandauã la fazer os Jaõs E out°s que compauã ê malaq“ porq os peguus trazem as mercadorias E os Juncos todo por mercadoria E acabado de vemder | as mercadorias vemdiam Foi. 154r. os Juncos E porque Jsto ha Ja cimq0 annos que çesou E o gououer- nador Das Jmdias queimou & desbaratou todos os Jumcos dos Jmigos ficarom todos deçepados E nom tem Junquos//. E desta maneira que dito hee estaa a Jaõa soo & sem Juncos E os Srês q dantes Da destruiçam tinham Junquos aguora estam sem elles E os que poderom Recolher trouxe pate onuz E por seu Desbarato nom tornou senom três de maneira que nam tem toda a Jaõa E palimbam atee dez Juncos & dez pamgaJauas de carregua que sam como navijos Jaõa hee mais de calaluzes he pamgaJauas pequenas que de Juncos gramdes por que peguu forneça todos De Juncos pedir paçee pahão & Jaõa E palimbam estes os mais sam de peguu// ê Jaõa allguns se fazem mas sam poucos E estas compras as mais se faziam em malaq8/ nom sam poderosos os Jaos pa em dez annõs fazerem dez Junquos// Ja hee dito das cousas de pate cucuf sõr da pincipall pouoa- cam dagracij fiqua aguora pate Zeinall E porque sua terra he mais de suas noujdades E peleJam no sertão da Jlha com seus comtrairos nom hee cousa pa se nelle Despemder tempo põr q no maãr nom tem nenhuua cousa na terra Defemdese como seus vizinhos este pate zeynal Dizem os Jaõs que he cavaleiro he mais velho que todollos pates da Jaõa. este he mujto aparem- tado he tijo De pate amiza de çedayo & de pate omuz & de pate Rodim o velho Jrmão em armãs/ E aguora De pate Rodim o f° também o hee/ hee de mujta fãtasya E pobre este dise que quamdo o capitam moõr fezese paz com o sõr de dema q hos senhores da Jaõa a fariam por força casy dizemdo q no sõr de dema estava toda a Jaõa A terra De çurubaía de huua parte comfína com terras dagraçij Terra De çuru- baia. (330) (330) Aparece como ssurubaia na carta de Rodrigues (foi. 37) e como Surubaia no desenho (foi. 96).
320 Tomé Pires & da outra com terras de gãda chamase o Sõr De çurubaya pate bubat E aguora lhe deu o guste pate o nome de Jurupã Galacam Jmteram quer dizer o avamteJado capitão Este he cavaleiro E muj10 autorizada pesoa mais homrrado por armas que nemhuu Das beiras Do maar Jaaõs mouros Dos que aguora sam vivos E neste estribam todollos Jaõs De sua pessoa E conselho tem gramde terra E tem mujtas vezes guerra com ho guste pate E as vezes sã amiguos/ no mar tem mujtos calaluzes de guerra este he Jrmão em armas com o sõr Dagraçij Dizem que o dono Deste foy gemtio espauo Do avoo de guste pate out°s dizem q era seu avoo De çumda fynall memte he mujto estimado terra em sua terra seis ou sete mjll homees De peleJa//. Tem este comtinoadamemte guerra E nom he dado a outro eixerciçio Deste Recebem comselho E aJuda os Jaoõs seus vizi- nhõs hee mujto aparemtado dos pates mouros tem gramde guerra com ho pate de bulambuã que he Jemtio seu comtrairo os Jaõs mamdam também aJuda a este quamdo o outro vem sobre elle porq o de bulanbuã E gamda sam mais poderosos/ por causa deste sempre ter guerra hee muj10 estymado// tem sua terra mamti mentos como as outas da Jaõa porque toda a terra Da Jaõa os tem as mercadarias vam dagraçij este deseJa mujto que se faça amizade com malaqa E dizem que o trabalha mujto Este espeueo Ja a esta fortaleza he a elle Ja lhe espeuerom duas vezes hee este pate pobre sua terra nom tem Juncos nê pangaJauas viuè por suas noujdadês como fazem out°s na Jaõa as vezes amdam seus capitaes a saltear pollo maãr// Terras de A terra de gamda hee gramde De huua pte aJuntase com gam- curubaía E da outa com terras de canjtão panarucam paJurucam/ da (331) chamase o pate de gamda pate sepetat hee gemtio f° do gramde (331) Como o porto dc Surabaya está na foz do Kali Mas, braço norte do delta do rio de Surabaya, será possível que Gamda de Pires estivesse situada na foz do Kali Brantas, o ramo mais meridional do mesmo delta, a umas vinte milhas daquele. Perto da foz do Kali Brantas encontra-se a aldeia Djangan.
A Suma OrientaI 321 guste pate da Jaõa ate quj chegaram os mouros Ja E forom lam- cados fora pollo guste pate E deu estas terras a huu seu f° Daquy por diamte nom ha mouros saluo em maluq» & os de bamdam hee a terra Deste muj'° abastada De mujta Jemte de guerra E peleJa sempre com çurubay® Dizem que este f° do guste pate he cavairo E pa homrrada por Rezam de seu pay E mujto esti¬ mado he casado com a fa de pate pijntor sõr de bulambuã he também he ; casado com ha filha Do gramde sor De madura tem este muj** Jemte de cavallo he m,os Sres da Jaõa Estam com elle/ tem calaluzes no maãr//. E este com aJuda do sogro ha gramde tempo que os mouros nom poderom passar de curubaia adiamte tem a terra Deste mujtos mamtimêtos nam he terra de trato todos estes viuè homr¬ rada memte por suas noujdades E todos sam abastados De deleites & prazeres sera a terra De gamda De dez mjll homeês// Estas tres terrãs nomeadamemte tinham senhores pates E srs muj'° homrrados E De mujta autoridade/ Avera oito annõs deles E outs0 cimquo que sam destroydos he canjtam Junto com ganda E canjtam com panarucam E panarucam com paJarucã E paJarucam com bulambuãm Estes pates faziam cabeça de pate pular sõr De canjtam E porque Dizem que queriam dar emtrada ao sõr de Çurubaya Demtro forom estes tres pates mortos & suas terras tomadas pa o sõr De bulambuãm E aguora (332) canjtam, ou Canjtão, como escrito anteriormcntc. Há um lugar e um rio Kraton, umas milhas a sudeste de Kali Brantas, perto de Pasuruan, que poderia sugerir Canjtam ou Camtã. Como Pires diz, todos estes lugares estavam situados na foz de rios. panarucam ou Panurucâ corresponde a Pajarakan, hoje um pequeno lugar que o Eastern Archipelago Pilot — II refere como Tanjong Pajarakan, 17 milhas a leste de Probolonggo e 34 milhas para oeste de Panarukan. Con¬ tudo Pires situou, erradamente, Pajarucan depois de Panarucam. Padjara- kam é o único lugar registado entre Pasoeroean e Panaroekan, correctamente situado na parte leste da baía, numa Schetskaart van Oost-Java en Madoera, do século xvn, in Mac Leod’s, Atlas behoorende hij de Oost-lndische Com- pagnie. N.° V. Pageruca na carta de c. 1540. Foi. ! 54 v. Terras De canjtam/ panaru¬ cam paJuru- cam/ (332)
322 Tomé Pires Terra bulam- buam nom tem patês E sam da Jurdiçã de bulanbuã he Dizem que cada huuã Destas terras três he tam homrrada casy como cada huua Das que sam Ditãs asy como cedayo estam nas beiras do mãr os Rijos/ sam terras de mujtos mamtimemtos E forom Ja De gramde povoo//. De A terra de bulambuam Detreminase de huuã parte com as terras Ja ditas de canjtam panarucam paJarucã E da outra parte com chamda (333) no sertão E dahij p° diãte tudo he terra serrã atee dar nas terras do Rey da Jaõa que mais deuê de chamar (?) do guste pate com verdade chamase o pãte de bulambuã pate pimtor este he grande sêr gemtio Caualeiro temjdo E mujto acatado na Jaõa primcipall memte dos sres Jemtios este teue os mouros em peso De nom poderê pasar adiamte hee a terra Deste De mujto pouo E também tem mujta fustalha no maãr alem deste nom ha mais pates he Jemtc Rustiqa como de mom- tanhãs E he da obidiemcia Do guste pate// He este sõr De bulambuam tam emleuado por aver asy as terras de canjtã & panarucã paJarucam E as terras de chande que todos o temem gramdememte este he f° De huuã Jrmaã Do guste pate hee homem este que por suas noujdades viue homrrada memte tem em suas terras mujtos cavallos mais elle soo que todos os sres Da Jaõa mouros Juntos// a gemte de bulam¬ buã he de guerra hee a terra abastada De chande nom he necesario falar porq hee na terra firme & o tem asy tomado// Das terras deste vem mujtos espauos E espauas ha vemder a toda a Jaõa tem multidam delles na terra deste quamdo seus (333) bulambuam corresponde a Blambagan, a ponta mais sudeste de Java. Balambuão ou hallambuao nos atlas de Vaz Dourado. Chamda, Chandy ou Chande, deve corresponder a Jamber ou Djem- ber, uma povoação e distrito na província Bcsuki, a parte mais oriental de Java. Isto é talvez o que Diogo do Couto chama o «Reino de O Valle» (IV, iii, 1) e Lavanha inscreveu na sua carta como o vale. Provavelmente refere-se ao grande Vale entre as duas montanhas Hiyang (3088m) e Raung (3332m), 29 milhas para leste.
A Suma Orienta! 323 Sres morre elles leuã suas molherês ao foguo aquy nesta vida pdemdo os corpõs E na outra ardemdo as almãs E asy he em gamda qamdo o sõr morre suas molheres se matam ou qeymã ou afogam no maar como Ja dise//. Acabada hee a gramde Jlha da Jaõa Da melhor maneira que delia pude emquerir E emvestiguar verificamdome com mujtos E o que me parecia comcordarè bem comcordado ysto espeuj E certo nom vam fora da hordem de que he E nõm hee Duujda as cousas da Jaõa serem mais E mais homrradas do que as comtam E de suas fidalgujas oufanjãs Detremjnaçoees ousadias homde com verdade se achara nestas partes asy atee aguora Eu nom ouuj/ os malaíos soberbos sam mas tem a soberba apremdida dos JaÕs nom se deuem fazer comparacoês por q os JaÕs tem em sustamçia a soberba E oufanja E os outros por açídemte ou arte pois se onesto fose neste Recomtamèto falar das Matronas JaÕas nom he memtira que sam tam emleuadas que por quall qr descomtemtamêto se matam as crisadas por sy mesmo E ellas as vezes matam os maridos E hee custume da Jaõa a molher ser buscada primeiro qe se lamçe com seu marido por q trazem crises secretos ysto se custuma amtre os fidallgos//. E porque nom seJa a oufanja mais conhecida q em Jaõa Foi. 155r. haa duas limgoageês huua amtre fidallguos E outra do pouoo nom difere como cortesão amtre nos mas out°s sam os nomes Das cousas amtre os fidallguos & outas no pouo sem duujda hee ysto em tudo//. As molherês fidalguas Javãs seus aparatos seus vestidos suas coroas & dyademas Douro homde se custuma senã na Jaõa quamdo saem trazem estado E aparemçias amgelicas nam ha duujda no mumdo aVr èleuadas molheres E Daquj vem a mujtas morrerê virgeês em suas casas quamdo nom acham seu com- temtamemto pa casar com pesoas granides pois estas taès oufanjas De que poçedem senom do naturall Da terrã pois qmdo as molhe¬ res asy êleuam que faram os Jaõs anafados soberbõs que o pay nem a may nã sam ousados por prazer poer a maão na cabeça
324 Tomé Pires ao f° nem ho marjdo a molher a molher pode por ao marido por Rey da terra// E destes pates q sam em Jaõa na beira do mãr que aJmda nom tem a fidalguja tamto em peso como os de demtro por que haa tres dias q vem descrauagem E De mercadores estes sam tam emleuados que cada huu delles he acatado como se fosem Sres do mumdo cada huu sae tam êleuado a montear & a follguar nom pasam tempo senam em prazerês com estados de tamtas lanças Dallvados douro pta como ferro amtre nos De tamtas tauxias de tamtos gallgos lebreès E out°s caêes sam de tamtos Retauollõs pimtados De Jmages E caças os pannos seus bamdados douro os crises espadas facas cutellos todos cozidos em tauxias douro a copia das molheres mamcebas & ginetes alifamtes bois de carro de macanaria douro de pim- turãs amdam em carros triumfamtes & se amdam pollo maãr Em calaluzês pimtados tam limpos he lavrados com tamtos seõs os Remeiros nam sam vistos do sõr limdos Repartimemtõs pa suas molheres out°s asemtos pa os fidalguos que vam com elles certamemte tudo comforme a suas famtesijas/ homeês q mujt0 estimã suas homrras//. [ilhas a sudeste] porq noso Recomtamemto vaa hordenado sem amtremjsa alguua correremõs ate bamda & porque bamdam he a temçã do falar por ser o lugar do mais das Jlhas q no meio estam nom sera o Recomtamemto estemso mas breue pois nom sam prouei- tosas .s. he loguo peguado com a Jaõa as Jlhas de baly & de bombo a Jlha de cimbava a Jlha de byma a Jlha Do foguo a Jlha de soloro/ malua/ lucucamby/ çitor batoJmbey/ mujtas out“s que nesta corda (334) estam//. (334) No começo do século xvi havia alguma informação sobre Sannatra, Java, as «Ilhas das Especiarias», c alguns outros lugares do Extremo
ESTAMPA XXX c*ii»rro n,*>m bm„, moto n\ Tambora Volcano SaPe Satonda Cunong Api Sangeang (Ylhs do ffoyo) U9*E Conjunto de três desenhos panorâmicos de Francisco Rodri¬ gues (fols. 83-5). de Sumbawa. mostrando o Cabo da Jlha
í*
A Suma OrientaI 325 As Jlhas de baly/ & bombo/ & çimbaua/ a pimeira Jlha Junto com a Jaõa he baly & a outra bombo E a outra cimbava todas estas tem Reis he cada huuã de mujtos portos E mujtas aguõas mujtos mamtimemtõs mujtos espauos espauas// sam ladrões tem lamcharas amdam a salteeãr sam todos Jemtiõs tem tratos com a Jaõa trazem mamtimemtõs & panõs a sua guisa p° mercadaria E mujtos espavõs E mujtos cavallos q leuam a Jaõa a vemder//. Oriente, através dos relatos de Marco Polo, que tocou cm Samatra em fins do século xiii, Frei Odorico, que visitou Samatra, Java, e talvez Bornéu, uns anos mais tarde, e alguns viajantes árabes. Mas tal informação era escassa e vaga; e ainda mais vaga, se alguma de facto havia, sobre a cadeia de ilhas que se estende para leste de Java. Pires é quem primeiro dá noticia definitiva destas ilhas para além de Java; até certo ponto essa noticia é com¬ pletada pelas cartas e desenhos de Rodrigues. Embora escrevendo um pouco mais tarde, Barbosa está muito menos bem informado do que Pires. Depois deles vêm as cartas de Pedro Reinei de c. 1517 e c. 1518, o mapa- -múndi de Jorge Reinei de 1519, o atlas de L. Homem de 1519, e a carta Reinei de c. 1524. A Primo viaggio intorno aI mondo de Pigafetta, tem vários desenhos mais ou menos cartográficos de ilhas visitadas pela expedição de Magalhães e outras de que obteve informação. Quase todos estes desenhos se referem à viagem depois da expedição ter chegado às Filipinas até ter partido de Timor, por entre o Arquipélago Oriental, o que, para nós, dá interesse especial a esses desenhos. O manuscrito original de Pigafetta, escrito talvez em 1524, perdeu-se, mas existem quatro cópias que datam da primeira metade do século xvi; uma em italiano, na Ambrosiana, cm Milão; duas cm francês na Bibliothcque Nationale de Paris, N.os 5650 e 24224; um em francês, pertencente à Phillips Collection, Chcltenham [hoje na Yale University Library], Depois há uma falha nas fontes de informação, que só recomeçam com a carta de c. 1540, e outras posteriores. Mas a disposição destas numerosas ilhas, por vezes com linhas costeiras muito irregulares, como a do norte de Sumbawa, e o precário conhecimento que cronistas e cartógrafos delas tinham, contribuíram para grande confusão na sua des¬ crição e cartografia, de modo que por vezes várias ilhas aparecem como uma só e uma só como duas ou mais. Para aumentar a confusão sucede ainda que escritores e cartógrafos contemporâneos deram nomes diferentes aos mesmos lugares, segundo a sua fonte de informação, ou os escreveram de diversas maneiras; e copistas de protótipos anteriores, muitas vezes defor-
326 Tomé Pires AJlha De byma. A Jlha De byma alem destas he Jlha gramde De Rey gemtío tem mujtos paraõs E mujtos mamtimemtos em gramde abas- tamça/ tem carnes pescados tem mujtos tamarjmdõs tem mujto brasyll que trazem a malaq» a vemder E de malaqua vam la maram a grafia de nomes indígenas, do que resultou alguns se tornarem irreconhecíveis, ou a sua origem extiemamente difícil de determinar. Isto aconteceu, por exemplo, com Pires c Rodrigues. baly, que está registado na carta de Rodrigues (foi. 36) como Bllaram. aparece como banclia na carta Reinei de c. 1524, e mais tarde como bale na carta de L. Homem de 1554, e Baile nos atlas de Vas Dourado. O Livro de Marinharia tem Bamcha c Vamcha correspondendo a Bali (p. 264). Sobre a representação de todas estas ilhas nos desenhos de Rodrigues, vide Apên¬ dice II. bombo corresponde a Lornbok. Rodrigues tem Lomboquo na sua carta, mas nenhuma outra carta antiga a regista. Nos desenhos Rodrigues chama-lhe amJane; Galvão tem Anjano; o roteiro refere-a como Amjane. A carta Reinei de c. 1524 tem amgeane. Este nome deve corresponder ao alto Monte Rinjani (3764m), que é o maior vulcão de todo o arquipélago, mesmo no meio da parte norte da ilha. cimbava, byma e ilha do fogo — Pires refere-se à ilha de Sumbawa como se fossem duas ilhas: Cimbava e Byma. A ilha deriva o nome da aldeia de Sumbava, na «costa norte da parte ocidental da ilha. Bima, em Bima Bay, está situada na costa norte da parte oriental. A carta de Rodri¬ gues tem ssimbana; Barbosa chama-lhe Jaua menor e Çindoaba (Vide Dantes, ti, 194); o atlas de L. Homem de 1519 também tem iava minor insvla, que Denucé já identificara como Sumbawa (Les Origines, pp. 120, 134); nas cartas de Herédia (foi. 28r) toda a ilha é chamada bima. Entre os desenhos de Rodrigues há três da sua costa norte, todos chamados Simbana ou Sym- bana. A carta Reinei de c. 1524 tem bima, moio c amajam; a carta de L. Homem de 1554 tem aram; aramara no atlas de D. Homem de 1558; arao arao nos atlas de Vaz Dourado. Estes últimos também têm bima. As cartas de P. Reinei de c. 1517 c c. 1518, c a carta de J. Reinei de 1519 têm ilha do fogo; a carta de c. 1540 tem ganuape; a carta de L. Homem de 1554 e o atlas de D. Homem de 1558 têm gulnape no roteiro esta ilha é chamada Gunapim, e é correctamente situada «mais ou menos 12 léguas de Ar rã arrã». soloro — Soloro de Pires não significa apenas a pequena ilha de hoje, ou mesmo o pequeno grupo das Ilhas Solor, mas também a grande ilha d Flores. A carta seguinte de Rodrigues (foi. 37) mostra parte duma grand..
A Suma Oriental 327 por elle porque he da valia de china E o brasill De byma he mt0 dellgado vali na china menos q ho de siam por que o De siam he mais groso E melhor tem asy mesmo a bima gramde numero descrauõs. E mujtos cavallõs q leuam a JaÕa Esta Jlha tem trato ilha que também é chamada Solor. tendo Cabo das frolles na sua extremi¬ dade oriental. Mas catorze dos seus desenhos são chamados quer Sollote quer Solloro. A ilha que está representada a seguir a Sumbawa, nas cartas de P. Reinei de c. 1517 e 1518, tem cabo da frroresta, corruptela evidente de cabo de frolles; o atlas de L. Homem de 1519 tem candin ins., o velho Sandji de EI Edrisi (Denucé, op. cit., p. 120), correspondendo a Flores; a carta de c. 1524 tem c. do ferro, Solor e a entrada do solor (o estreito); a carta de c. 1540 tem c. das //., e para leste J. de solor; a carta de L. Homem de 1554 tem lucarãge (Nusa Raja) e c. do feros (?) no meio da ilha; os atlas de Vaz Dourado têm dos ferros, llasartaia (Nusa Raja), llusatâsete (Rusa Linguette), c. das froles, todos na Ilha Flores, e para sudeste, bastante bem situada, osolor. Tudo isto mais uma vez mostra como os cartógrafos, copiando de carta para carta nomes que não conheciam, os podiam desfigurar até se tornarem quase irreconhecíveis ou mesmo sem sentido. malua corresponde à Ilha Alor ou Ombai. O nome ainda sobrevive em «Malua passage», entre Alor c Timoi. Aparece pela primeira vez na carta de Torreno de 1522, como malua, e depois na carta (anónima) de c. 1523 (cm Turim), no Globo de Mercator de 1541, e em duas cartas do Islario de Alonso de Santa Cruz (14 e 101, cd. Real Sociedade Geográfica, Madrid 1926), como consequência da informação trazida pela nau Vitoria, da expedição de Magalhães, que chegou a Espanha em Setembro de 1522. Galvão chama- -lhe Mauluoa. lucucamby corresponde à ilha Kambing, a norte de Timor, entre Alor e Wetta. Aparece como Nossocamba (MS da Ambrosiana) ou Nosso- cãbu (MS de Paris 5650) no desenho de Timor por Pigafetta, e como luca- cambiu numa das cartas de Herédia (foi. 48v.). citor — Não consegui descobrir, por este nome irreconhecível, coisa alguma que pudesse sugerir o que Pires tinha em mente ou o copista des¬ figurou como çitor. batojmbey deve corresponder à Ilha Wetta, Wetar ou Wctter, que na carta de c. 1540 aparece como batubor, e como Batuombor (MS da Ambro¬ siana) ou Batuambar (MS 5650 de Paris) nos desenhos de Pigafetta. Noutras cartas antigas está inscrita como terra alta (terra lata na carta Reinei c. 1524). Batu significa rocha ou pedra em malaio-javanês.
328 Tomé Pires Foi. I55v. A Jlha tio Foguo A Jlha de Solor. Ylhas de tij- mor (335) domde vem os samdollos hramcos he gente baca De cabellos corrediõs tem esta Jlha mujtas pouoaçoes & bem asy mujta gente & mujtas matas aqi fazem escala os q vam pa bamdam E maluco & compam aqi mujtos panos q sam da valija de bandam E rnaluq" tem esta Ylha alguu ouro valem nella as caixas da Jaõa//. Junto com esta Jlha estaa a Jlha gramde do foguo mujto alta pouoada de mujta gemte estes Audã a saltear tem mujtos portos E de mujtos mamtimemtos E mujtos espauos pa vendr: Esta Jlha tem feira De ladroes que vem vemder aquj os furtos q fazem polas out°s Jlhãs hee De Rey gemtio E todos sam gemtios faz na emtrada Do camjnho de timor de que se falara Despois De soloro/. A Jlha de Soloro he mujto gramde tem Rey gemtio he de muj,os portõs E de mujtos mamtimêtos Em gramde abastamça tem Jmfynidade De tamarimdos tem mujto emxufre E por esta mercadoria he mais conhecida que por outrã Desta Jlha trazem gamde cãtidade de mamtimemtos a malaq® E trazem tamarimdos e emxufre he este èxufre he tamto que o leuam por mercadaria de malaqa a cauchy china por que esta he a primcipall merca¬ doria que de malaq® vay pa laa. amtre esta Jlha de solor & a de byma he o canall pas Jlhas de timõr homde ha os samdallos De que logo se díra nestas Jlhas Ja ditas valem as mercadorias que valem è Jaõa// Amtre as Jlhas de byma E de solor se faz huu canall gramde por homde vam as Jlhas Dos samdollos todalas Jlhas de Jaõa pa diamte se chamam tymor por q na limgoaJê Da terra timor quer dizer levamte como se disesem as Jlhas de leuamte por pincipall se chamam as Jlhas de timor estas duãs Domde vem os samdollos// as ylhas de timor sam de Reis gemtios nestas duãs ha gramde soma de samdalos brãquos valem mujto barato por que os matos nom tem outa madeira dizem os mercadores (335) Por «Ilhas de Timor» quer-se dizer a grande Ilha de Timor, e Sumba ou Ilha de Sandalo, como ainda é chamada. A carta de Rodrigues (foi. 37) tem A Jlha de timor homde naçe o ssamdollo.
A Suma OrientaI 329 malaiõs que ds criou timor De samdallos & bamdam de maças E as de maluco de crauo E que no mumdo nom he sabido outra parte em q estas mercadarias aJa somemte nestas E eu preguntey & emquery deligente memte se estas mercadorias avja Em outra parte & todos dizè q nam Deste canall atee as Jlhas De maluco nauegamdo com bom vemto vam em seis sete Dias sam estas Jlhas Doemtias a gemte nom he mujto Vrdadeira a esta Jlha vam De malaca & de Jaõa cadanõ E vem os samdollos a malaqa he bõa mercadoria è malaca por que emtre todallas naçoêes De qua se custumã mõrmête amtre os Jemtios// Leuam laa sinabafos pamchavílezes sinhauas balachos cotobalachos que sam panos bramquos valem em tirnõr panos de cambay8 baixõs E por pouca mercadoria carregam os Juncos de samdollos hee Riqua a viagem De timor he doemtía partem de malaca na mouçam & tempo q vam a bandam nese torno Dizem que amtre as terras De byma E solor ha pedras E que se pdem Juncõs senom vam polo canall E ysto sera obra De mea leguoa homde haa este priguo E que he bòo abocallo De dia//. De fromte das Jlhas de solor esta a Jlha q se chama batutara he Jlha de Jemtios de m,os mamtimemtõs Daly se toma a rrota abatida pa bamdan & pa ambon E porq as outas Jlhas que corre pola corda de solor nom fazem a bem de mercadoria p° serem fora de maão nom faço delias fundamêto sam todas de gemtios laDroêes tem mamtimentos mujtos aRozes çaguus somemte (336) Batutara — Batu Tara ou Ilha Komba (7o 47' S, 123° 36' E.) lica umas 25 milhas para norte de Lomblen, a maior ilha do grupo Solar. A carta de Rodrigues tem Batutara. Navios que iam de Malaca para as Ilhas das Especiarias seguiam a rota Java — Batu Tara — Buru; daí iam quer a Banda quer às Molucas. E assim a rota vem descrita no Livro de Marinharia, (p. 267). Foi deste modo que Rodrigues veio a registar Batutara na sua carta pois por lá passou quando foi a Banda com António de Abreu em 1512. Hamy (op. cit., p. 175) identifica Batutara de Rodrigues com a ilha Wetter ou Wetta, engano talvez devido ao facto de Galvão se referir a Vitara, provavelmente querendo dizer Wetta, depois de Malua. merca¬ dorias que valem em tymõr Batu¬ tara (336)
330 Tomé Pires Ylhas de bam- dam (337) agora falarey De bamdam pois nosa Jmcrinaçã hee tamta aos fruytos de suas terras//: [banda, ceram, amboina] As Jlhas de bamdam sam seis cimquo tem maças e huua he de foguo a pincipal chamase pullo Bamdam esta tem quoatro (337) A carta dc Rodrigues (foi. 37) tem um grupo de sete ou oito ilhas, de tamanhos diferentes, com a inscrição «Jlhas de bamda Homde Naçem as maçes.» As cartas dc P. Reinei dc c. 1517 e 1521 têm «Jlhas de babãy; aqui são as maces», babãy sendo evidentemente uma deturpação de bãda; a carta de L. Homem — Reineis de 1519 tem y. de bamda; a carta de Torreno de 1522 tem Y“s de bandam; a carta Reinei de c. 1524 tem banda; a maior das cartas posteriores antigas, têm quer Banda quer Bandam. A ilha de foguo (referindo-se ao vulcão) é Gunong Api. pullo bandam é Lontar ou Great Banda lsland. Dos quatro portos desta ilha mencionados por Pires, Calamom corresponde a Selamo ou Celam- mon, que fica do lado oeste da parte norte da ilha; talvez seja Zoroboa de Pigafetta, nome dado à maior das ilhas no seu desenho do arquipélago de Bandan. Olutatam, a que Barros chama Lutatam (III, v, 6) designando-o como o posto principal, corresponderá a um lugar chamado Ortata ou Gt. Waling, no lado norte da ilha, em frente dc Neira. Bomtar (talvez engano do copista, que tomou o / por b, como no caso de bombo ou Lombok), corres¬ ponde a Lomtar, que dá o nome à ilha e fica no lado norte, em frente de Gunong Api. Comber é Komber, entre Ortata e Selano. pulo aee é a ilha Ai ou Ay, que fica para oeste dc Lontar. É chamada Pulac por Pigafetta e Ay por Barros. pulo rud ou Run, a ilha mais ocidental do grupo. Pigafetta chama-lhe Pulurum e Barros Rom; aparece como P. rond na carta dc Berthelot de 1635. Esta é a primeira carta com uma representação razoavelmente completa do grupo de Banda. Além dc Banda e P. rond. também representa P. caPaz, ou Ilha Kapal, que fica a noroeste da ponta norte dc Lontar, e P. Soangin, ou Ilha Suangi, treze milhas a noroeste de Gunong Api. Ai, Gunong Api c Rozengain (esta última muito perto dc Lontar)estào também representadas, mas sem nomes. pulo bomcagy, possível engano do copista, deve corresponder a Rozen¬ gain, a que Pigafetta chama Rosaghin, c Galvão c Barros referem como Rosolanguim; fica cinco milhas a és-sudeste de Lontar. lanacaqe deve corresponder à ilhota Nailaka, que fica junto à costa norte de Run lsland. Pigafetta chama-lhe Lailaca.
A Suma Oriental 331 portos .s. calamom/ olutatam/ bomtar comber. Esta Jlha em comparacam Das outras tem macas ê mais camtyDade tem estas pouoaçoes nom tem rrey Regense por cabillas & pollos mais velhos | Sam os das beiras do mãr mouros mercadores haa trimta Foi. I56r. annos que se comecam a fazer mouros nas Jlhas de bamdam tem alguus gemtiõs demtrõ na terra a gemte de todas estas ylhas seram obra de duas mjll E quinhemtas pas atee tres mjll em todas as maças sam fruyta como peseguõs ou albequorqes E camdo sam madurãs abrem E a polpa de cyma cae E o de demtro fica Vrmelho que sam as maçãs sobre a noz & colhênas & lamçanas a seqar todo o anno ha este fruyto Em todollos meses se colhe avera em todas as ylhas obra De quinhemtos baãres De maças cadano & ate bje E de noz avera sêjs sete mjll baharês E ysto cadano ora mais ora menos nã he sempre de huuã sorte E dizem que Ja teuerom estas ylhas mjll baharês De macas esta soo Jlha que se chama bamdam hee mõr que todalas outas Jumtas outa ylha chamase neira esta he porto omde amcorã os JaÕs chamase porto neyra esta tem macas E as outas tres ylhas .s. pulo aee & pullo Rud & pulo bomcagy sam tres Jlhas pequenas que tem macas nom tem portõs pa nelas amcorarè estas trazem suas maças a Jlha de bamdam todas estam a vista perto huãs Das outas na Jlha (338) nom fallo p° nom ser De mercadaria nê outa Jlha pequena q se chama lanacaqê que tem çaguu// A Jemte destas Jlhas he de cabello negro corredio h aguora Riqa mais q Damtês porq aguora vemdem melhor E de melhor preço suas macas E amte os Jaaõs E malaios nauegauã a estas Jlhas cadano E levauam pouquos panos & dauam comsyguo na Jaõa E alij faziam escalla vemdiam o mais & melhõr de sua Roupa por caixas E por outras cousas de baixa sorte E daly partiam pa cimbava & pa byma E as mercadorias q leuavã De Jaõa vemdiã nestas duas Jlhas em que Ja faziam proueyto asy (338) Esta ilha é Gunoug Api; é evidente que a palavra Fogo falta no MS. 24
332 Tomé Pires merca¬ dorias que leuamos a hamdam Foi. 156v. no que vemdiam ê a Jaõa como no que Da Jaõa leuavã aas Ditas Jlhas De byma E cimbaua & nas Jlhas comprauã pannos Da valia De bamdam E por elles E por caixãs Da Jaõa comprauã as maçãs & tamto q o Jumco chegaua a bamdam tomauam a guouernamça da terra E emquamto hy estavam comprauam como queriã E quamdo os De bamdãm aviã panno bõo a maão era gramde novidade a elles & elles lhe punham o preço aos da trra & eram adorados os capitaèes Do Jumquo Do pouoo//. Aguora despõis que estas Jlhas De bamdam sam da naue- gacam & Jurdicão DellRey noso sõr nam se faz asy mas sam os de bamdam Sres Das Roupas Riq^ he em mujta camtidade E a maiores preços Recebemdo sempe merces & dadiuas & boa companhija pollos purtuguesès homde vam comprar por ouro he cousas Ricas o que os mouros compram por palha/ E aJmda mall comtemtes De nosas companhiãs// Synabafos de todas sortes E todo outro genero de pannõs bramcos delgados De bemgalla todo pannõ De bonuaqlím .s. panos em Rolados de ladrilho grãde meão pequeno topetíjs E pannõs do guzarate de toda sorte/ de maneira q bem avem- turada se deue de chamar a gemte de bamdam E nam sem causa os Reis De maluq° sabedores das cousas de bamdam sospirã por nos como se díra quamdo Das nobres Jlhas se falar. E os mercadores q damtes la nauegavã cõpram p° panelas velhas E brinqos & comtas de cambaya & por outras semelhantes domde nom he duujda bamdam ter aguora mais Riqueza-//- tem tam¬ bém bamdam crauo que vem de carreto De maluq0 a ambono & dambon a bamdam ysto em doze quinze Dias com mouçã vali ho baãr Do crauo como huu baar De maças E huu de macas como sete de noz E nom vos vendem senom macas he noz Jun¬ tam,e .s. se queres huu baar De macas aves de comprar sete de noz porque Doutra maneira nom poderia a mercadoria sofrer que se pderia a noz se a nõ vemdesem desta manra// | A pim- cipall mercadoria pa bamdam sam os pannos do guzarate .s. bretamgíjs Vrmelhos E pretos caçutos maindis bramcos & pretõs panos de coraçones patolas E despois estes pannos de bemgalla
na ESTAMPA XXXI Carta de Francisco Rodrigues (foi. 36) mostrando as costas leste e norte de Borneu, extremidade leste de Java, Madura Bali, Lombok e Sumbawa.
ESTAMPA XXXII Carta dc Francisco Rodrigues (foi. 37) da parte oriental da Insulindia.
A Suma OrientaI 333 E depos bemgalla Da bonua qujlim/ do guzarate lamedares mujtos sabones/ (339) lamcada a comta custa cada bahar de macas tres czdos E tres & m° segumdo as mercadarias por que compraes & tall ha que custa quoatro qmto a Roupa he mais fyna qmto mais caro compraes por que seu emtemto he Roupa baixa pa a gemte E porque de gramdes partes dilhãs de fora vem ha bamDam comprar a Roupa bamdã de bato ymbo (340) ate papua (34!) de papua ate maluq° E outas mujtas Jlhas compram em bamdam pollo peso do bahar De rnalaq0/ qem la vay leua o peso E pesa framca memte em bamdam/ tem bamdã demtes de marfim E ouro que trazem Doutas ylhas a vemder// (339) maindis e panos de coraçones. Não está claro se «maindis brancos e pretos» (cujo significado não consigo apurar) são o mesmo que panos de coraçones, ou se são duas espécies diferentes de tecidos. Por outro lado, panos de coraçones poderá significar quer «panos de Khorasan» quer «panos com corações» (estampados ou bordados), patola era um pano de seda, por vezes bordado ou com mistura de algodão. Ao referir-se às «Ilhas de Bamdam», Barbosa menciona «Patolas que são panos de Cam¬ baia» (p. 371, ed. 1867). sabones poderá significar sabões. Ou será o nome de algum outro pano? O período parece todo bastante confuso. (340) Bato Ymbo deve corresponder a Balo china, antigo nome por¬ tuguês para a península meridional de toda a Ilha de Gillolo ou Halmaheira. Uma das mais altas montanhas em Gillolo c Monte Ibu (1.260m), donde corre o Rio Ibu. Batu quer dizer rocha ou pedra em malaio. (341) A carta de Rodrigues tem a norte de Ceram uma grande ilha, cuja situação sugere Gillolo, com a inscrição — Jllia de papoia e a Jente delia sam cafres. A carta de c. 1540 tem as jllias papuas a leste de Gillolo: os atlas de Dourado têm a costa norte duma vasta terra denominada Costa dos papuas (c. 1573), ou simplesmente os papvas (1580), junto à costa de Gillolo que corresponde à costa nordeste da Nova Guiné; no atlas de Lázaro Luis de 1563, aliás anterior aos de Dourado, a mesma costa já é chamada nona guinea. A palavra malaia papuwah significa «cabelo encarapinhado», i.e. os cafres mencionados por Rodrigues. É de crer que Pires, assim como Rodrigues, se referissem à parte noroeste da Nova Guiné, embora a infor¬ mação que tinha sobre as ilhas a oeste de Banda c das Molucas fosse incom¬ pleta e assaz confusa. Mais adiante, na sua descrição da ilha de Batochina (Gillolo) Pires refere-se à «ilha de Papua, que está a cerca de oitenta léguas de Bandá».
334 Tomé Pires As Jlhas de bamdam nam tem mamtimêtos casy nada as Jlhas darredor lhe traze os mamtimemtos a vemder E os Jumcos q la vam leuam aRoz de byma & cousas De comer çaguu hee a moeda da terra çaguu he pam de feiçam de ladrilho he feito De meolo de pao E mujto bizcoytado E traze mujto das Jlhas comarcãas aas Jlhas De bamdam e emtam corre por moeda tam- tos çaguus por tal cousa asy como è paçee pimemta tem gramdes Jlhas bamdam a Jornada de dous três ds Domde se fornecem sam de gemtios. E todos sam lavradores//. Tres Jlhas estam perto de bamdam da Jlha de papua vem os papaguãios nores (342) os mais prezados Das Jlhas que se chamam daru (343) vem os pasaros que traze mortos que se chamã pasaros de ds E dizem que vem do çêo E que lhe nõ achã naçimemto E destes os turqos E parses fazem penachos sam pa o tall vso conuenjemtês os bemgallas os compram hee boa mercadoria he vem pouquos & Nauegacam de dous dias E menos estaa a pomta da gramde Jlha de ceirã (344) he Deixar ambon porque ambom estaa pegado casy com as Jlhas de ceiram as Jlhas de ceirã começam da Jlha (342) Nore ou lory, do malaio nitri. «nome dado a algumas varie¬ dades de papagaios habitualmente coloridos que se encontram nas Molucas e outras ilhas da Arquipélago». Hobson-Jobson, s.v. Lary; Dalgado, s.v. Nore. A carta de Rodrigues tem escrito / dos papagaios, entre Buro e Ambom. (343) As ilhas Daru de Pires ainda hoje são chamadas Islands of Aru. A carta de c. 1540 é a primeira a registar aru; que novamente aparece nos atlas de Dourado. (344) Ceram ou Scrang. A carta de Rodrigues mostra uma grande ilha em que estão escritos os nomes ambom e gullegulle; entre esta ilha e certas ilhas pequenas para leste está escrito çeiram tem houro. Não há dúvida que esta inscrição se refere a Ceram, porque Guie Guie ai está situado. O atlas de L. Homem de 1519 tem uma Seilam Insula com forma mais correcta. A carta Reinei de c. 1524 tem ceilam, indicando uma pequena ilha a és-nordeste de Ceram; a carta de c. 1540 tem J. de cajlom. Mas no atlas de D. Homem de 1568 a ilha tem escrito através baiachina de ambo.
A Suma Oriental 335 De guram (345) & vem casy apomtar Junto com maluq0 & e estreita esta Jlha E nauegase asy pola bamda de dentro por ambom como por de fora E asy De huuã parte como da outa he pouoado De portos he pouoacoes por demtr0 sam os portos de guie guie/ bemuaor/ cejlam/ E outros atee bamdã & por detrãs sam tana muãr/ olu/ varam (346)/ E dizem que por detrãs (345) Goram ou Gorong fica a sudeste de Ceram. De facto deno¬ mina um grupo de três pequenas ilhas —Goram, Panjang c Manawoka. (346) gule gule — Depois da carta de Rodrigues ter registado gullegulle, o porto que ele em 1512 visitou com Abreu, quase todas as cartas portuguesas mostram o nome correctamente situado na extremidade sudeste de Ceram. Ainda existe um local Gule Gule, ou Goele Goele, do lado sul dessa extremidade. Gule Gule fica no canto duma lagoa que separa a ponta sudeste de Ceram do resto da ilha. Hamy situou Gule Gule em Piru Bay, na costa sudoeste de Ceram: «au fondde la baie de Tarouno, oú la rivière Kolli-Kolli parte encore le nom que le commandant portugais attribue à son mouillage (Guli-Guli)». Op. cit., p. 167. Embora haja um pequeno ribeiro chamado Kole Kole no lado oriental da baia Piru, o nome Gule Gule ainda sobrevive onde todas as cartas portuguesas antigas correctamente o situaram — na extremidade sudeste da ilha. bemuaor — Parece como se a descrição de Pires esteja seguindo a costa sul de Ceram, de leste para oeste. Bemuaor corresponderá a Bemu, ancoradouro junto à foz de um rio — Wai Babot — no lado oriental da grande Baía Teluti, aproximadamente a meio da costa sul de Ceram. A última parte do nome, muaor, estará relacionada com muar, que em malaio signi¬ fica «foz de um rio». cejlam — No fim da Baía Elpaputi, na costa sul de Ceram, um dos principais lugares é Paulohi ou Poeleh; nalgumas cartas holandesas de Ceram, um dos lugares principais é também chamado Sahoelaoe ou Saholaoe Lama, cuja pronuncia não fica longe do português Cejlam. É curioso notar que toda a Ilha Ceram se chama Seilam no atlas de L. Homem de 1519, e /. de cajlom na carta de c. 1540. A carta Reinei de c. 1524 tem uma pequena ilha chamada ceilam ao largo da extremidade nordeste de Ceram; os atlas de Dourado têm a mesma pequena ilha sob os nomes cailam, cailao ou caillao. tana — Há um bom ancoradoiro em frente da aldeia Tanah Gojang, na Baía Piru. Mas também existe Tanjong Tanduru ou Tananurong, o canto noroeste da ilha, que poderia sugerir Tana ou mesmo Tana Muar de Pires. muar — Galvão diz que depois de Buru e Amboina os navios de Abreu «costearam a costa daquela (ilha) que se chama de Muar Damboino, sur-
336 Tomé Pires hc bem segura a nauegacã e em breve as Jlhas dambon sam estas ambom ytaqoay vulmiçalao// se falamdo nestas Jlhas de Junto com bamdam for afastado dos pilotos eu nom so culpado por q nisto me cometo a quem la foy ysto tenho sabido por mouros por suas cartãs que mujtas vezes vy E se suas cartas foram aRumadas fora decrarada mète seJa ysto pa leer E nom pa Rotear & He a Jemte de bamdam asy estuçíosa que tem pouoaçã na serrã homde se acolhè qmdo suas pouoacoes das beiras do mar se semtem em alguuã afromta & laa Recolhem tudo a serra & bamdam cousa pequena & fraca & taall q estaa a guouernança De quallquer Junco q la vay ora seJa De Jaõs ou de malaíos E Despois de bamdam nam hay mais q dizer Detremjno pasarme a maluqo homde noso emtemto hee pmcipall// pollo camjnho de ambom & Ylhas He ambom huuã Jlha E Junto com ella estaa yta cuaij vull dambon nucalao (347) e estam todas case peguadas com a costa de ceiram giram em um porio, que se diz Guli Guli». Não consigo relacionar Muar de Pires com Muar Damboino de Galvão, que parece referir-se a Ceram, mas certamente alguma relação haverá entre as duas designações. olu — Existe uma povoação, rio c cabo Uli na costa norte de Ceram. varam — Deve corresponder a um lugar chamado Wairama, na baía Hatiling, junto ao porto de Wahai, o mais importante na costa norte de Ceram. É possível que a palavra originariamente estivesse escrita Uaram com o v de Taram substituído por //. (347) ambon, ou Amboina, está na carta de Rodrigues representada juntamente com Ceram como se fossem uma só ilha. Albuquerque diz na sua carta de 20 de Agosto de 1512 que os navios da expedição de Abreu «irem espalmar a um cabo que se chama ambam. de uma ilha grande que está quatro dias de caminho das ilhas do cravo» (Carlas, t, 68); nos Comen¬ tários (iii, xxxvii) Amboino é substituído por ambam. O atlas de L. Homem de 1519 tem ambonyo bem separada de Ceram, embora para sudoeste de buyo ou Buro (também chamada Buyo, no Livro de Marinharia, talvez por alguma antiga forma de r ter sido facilmente confundida com um y); a carta de Torreno de 1522 tem ambuon a sudeste de geloto, entre buiro c y” S de bandam; a carta de Reinei de c. 1524 tem anboina (?) na parte ocidental de
A Suma Oriental 337 da ylha he Jemte de cabello Revolto bestiall nom tem mercadoria E tem porto nom mujto bom nõ tem trato he lugar De gemte prí- Ccram; a carta de c. 1540 tem uma ilha junto à parte sudoeste de Ceram. correspondendo ao grupo Amboina, mas J. danobiieno está escrito sobre Ceram; cartas posteriores têm usualmcntc amboino. Os Holandeses ainda chamam Ambon à ilha Amboina. ita — Embora esta palavra deva estar ligada à seguinte, de modo a formar Ytaqoay, as duas palavras estão aqui bem distintamente separadas como Yta e cuaij. Yta deve corresponder a Ito ou Hitu, talvez referida a Pires como uma ilha distinta de Amboina, que praticamente é formada por duas ilhas de tamanho desigual, paralelas uma à outra e unidas uma à outra num ponto, por um istmo de areia baixo com menos de uma milha em lar¬ gura. A peninsula setentrional e maior chama-se Hitu. O porto de Amboina está na península meridional, que forma com a costa da península setentrional, a oeste do istmo, a grande e funda baia de Amboina. Guerreiro (1601) refere-se ao porto, povoação e ilha de Ito, como distinta de Amboino onde os Portugueses tinham o principal estabelecimento e fonte. As outras ilhas do grupo por ele mencionadas, são Orna (Haruku), Oliacer (Saparua ou Honimoa), e Rossalau (Nussa Laut). Relação Anual, II, 2, xvi, xvii. A carta de Bcrthelot de 1635 tem luto na costa norte de Amboena. Segundo Crawfurd (Dictionary) os indígenas chamam Hitu à ilha, sendo o nome usual derivado do da povoação principal — «Ambun». cuaij — Deve corresponder a Orna ou ilha Haruku, a seguinte a leste de Amboina, da qual está separada pelo estreito Haruku. Na parte oci¬ dental da costa sul de Haruku encontra-se a aldeia de Orna, para leste da qual ficam outro lugar c cabo chamados Waisoi ou Wasai. vull — Como no caso de Ytaqoay, o copista escrevera anteriormente vullmjçalao como uma só palavra; mas aqui as duas palavras estão separadas. Vull deve ser Oliacer, ilha Saparua ou Honimoa, a terceira das ilhas maiores no grupo Amboina, que fica a leste e muito perto de Haruku. Talvez esta corresponda a nuicilloell, que se encontra nos atlas de Dourado a sudeste de amboino c é referida por Castanhcda como Nunciuèl (VIII, cc). É possí¬ vel que tal esteja por «Nusa Vcl». nucalao — Nusa Laut, a ilha mais oriental do grupo Amboina, a sudeste e muito perto de Saparua. Talvez seja o allaon ou aliam que se vê nos atlas de Dourado, próximo de mucilloel. Assim as posições relativas de Amboina, Haruku, Saparua e Nusa Laut seguem a ordem por que Pires menciona os quatro nomes.
338 Tomé Pires Foi. I57r. guosa que tem Diligemçia de pasar | a maluquo ficam alij o que he sabido se quisesem pasaríam mas por que os mouros nom tem amcoras de metall E nam sam homês do maar que põr qllqr afromta deyxam tudo & vanse a nado nom fazem suas navegações como deuem de malaqa a bamdam E a maluq" senpe se punha dous três annõs & perdemse mujtos Jumqos E nam hee despamtar por que os mouros destas bamdas nam tem nêhuu saber E sam espauos os mareamtês E tamto lhes daa ê Jaõa como em maluquo nam tem necesydade depresa portamto fazem suas viageês lomgãs/ agora me paso a malu¬ quo De cuJa obidiemcia ambom hee//. [molucas] Ylhas de chegados somõs aas Jlhas de maluq0 (348) porque noso maluq° emtemto nom sera pasar daq por diamte pois pa iso nam ha (348) Francisco Serrão, capitão de um dos navios da expedição às Ilhas das Especiarias, foi o primeiro Europeu que visitou as Molucas, onde chegou em 1512, e lá viveu até morrer provavelmente no começo de Janeiro de 1521. A armada de Abreu estava de regresso a Malaca em Dezembro de 1512, e Rodrigues partiu para a índia no princípio de Janeiro de 1513, por conseguinte antes de poder ter sabido da primeira informação por Serrão enviada de Ternate, a qual só chegou a Malaca em meados de 1513. É por isso que na carta (foi. 37) de Rodrigues as Molucas têm apenas a inscrição — estas quatro Jlhas Azues sam as de malluquo homde ttaçe o crauo. A carta de P. Reinei de c. 1517 e a de c. 1518 têm «ilhas de Maluco onde ha o cravo»; o atlas de L. Homem de 1519 tem MALVC9 INSVLE: a carta de J. Reinei de c. 1519 tem «ilhas de Maluco donde o cravo vem». A carta de Torrcno de 1522 e o planisfcrio de c. 1523 (Turin) —ambos desenhados em Espanha depois da chegada da Vitória, único navio sobrevivente da expedição de Magalhães, a qual tinha passado pelas Molucas em 1521 —são os primeiros a registar os nomes individuais das ilhas. A carta de Torreno tem terranate, tidory, maqujan, bacltiã e Insula de Gelolo; o planisfério tem Tarenate tedore aqui cargarõ, mo til, maq..., gilolo; o manuscrito de Pigafetta tem Tarenate, Tadore, Mutir, Machiam ou Machin, Bachiam ou Bachian, e Giai-
A Suma Oriental 339 neçesidade somemte das Jlhas do crauo he daqi me tornarey pa casa// As Jlhas de maluco sam cimq0 que dam crauo .s. a primcipall se chama ternate & a outra tidore E a outra motes/ E a outa maqujem E a outra pacham he também no porto De Jeilolo na terra da Jlha do batochina/ ha mujto crauo agreste// as Jlhas de maluq0 segundo se afirma De cimqoenta annõs a esta parte sam o começo dos mourõs os Rex das Jlhas sam mouros nam mujt0 emcarnados na seyta mujtos sam mouros sem serê cir- cumçidados E nam sam mujtos os mourõs os Jemtyos sam De quoatro partes as tres E mais// he a gemte Destas Jlhas baça sam de cabellos corredios tem guerra o mais do tempo huus com out°s sam casy todos parètes Teram estas cimquo Jlhas cadano pouquo mais ou menos seis mjll baharês De crauo as vezes tem mais mjll as vezes menos mjll segijmdo a verdade a mercadorya q se em malaca compra por qnhemtos Rs por ella se compra em maluquo huu baar De crauo he o bahar De peso De malaqua por que a ese Respeito o pesã E os mercadores leuam ho peso/ por que as vezes vali menos E mais pouca cousa tem o crauo cadano seis novidades// De malaca amtigamête soyani hir ha bamdam E a maluq° oyto Juncos E tres quatro dagacij & outs° tamtos de malaq® os De malaca eram De curia Deva (349) chatim mercador E os Dagacij de pate cuçuf q tinha la o trato & com estes metiam outs° mer- lonlo, Giailolo, Giaiallo ou laialolo. A primeira caria portuguesa conhe¬ cida a registar os nomes de cada ilha é a de c. 1540, que tem teriiaie, montell, maquiam, bacham. Varthema descreve a viagem que diz ter feito à «ilha de Monoch onde cresce o cravo», e refere-se a «muitas outras ilhas vizinhas... desabitadas»; mas como se sabe o célebre Bolonhês nunca lá esteve. Bar¬ bosa menciona Pachel (Pacham ou Bachiam), Moteu, Machiam, Tidor e Ternate. Mas Pires é o primeiro a dar uma descrição certa das Molucas, e Rodrigues o primeiro a representá-las numa carta, embora de facto nenhum deles lá tivesse estado. (349) Segundo Barros (II, ix, 4) este Curia Deva era inimigo dos Por¬ tugueses e contra eles incitou Pate Quedir e Pate Unuz.
340 Tomé Pires A Jlha de tarnate nosa amiguei cadorês asy Jaõs como malaiôs mas estes dous eram os pinçipães mercadores em o quall trato cada huu ganhou/ gramde soma Douro valia è malaca sempre o crauo quamdo era mujto a noue cz*108 ho bahãr E a dez E quamdo pouco a doze cz*108 ho baãr/ A primçípal Jlha de todas çimquo hee a Jlha de ternate he o Rey mouro chamase coltã bem acorala (350) Dizem que he bom homem tem sua Jlha cadano mjll E qnhemtos bares De crauo E daquij pa çima// poderam ancorar no porto desta Jlha duas tres naõs esta he boa pouoaçam/ tem este Rey alguus mer¬ cadores estrangeiros è sua terra a Jlha Dizem que sera De dous mjll homêes E seram mouros atee Duzemtos este Rey he pode¬ roso amtre seus vizinhõs tem sua terra farta de mãtymemtos Da terra posto que aos Rex de maluquo doutas Jlhas lhe vem mujtos m,os como se despois dira chamase somète o Rey de ternate çoltã os out°s chamamse RaJa tem este guerra com seu sogro RaJa almamçor (351) Rey da Jlha De tidore tem este atee çem paraõs sera a Jlha è Roda seis leguoãs tem esta Ylha no meio huu piquo que Daa mujto emxofre q arde em muj,a can- tidade// (352). Tem este Rey de ternate a metade da Jlha de motei por sua domde lhe lhe vem mujtos mãtimemtos ternate he terra mais Domestica que nenhuua das outrãs posto que outra tem melhor porto E mais trato por causa delle este Rey dizem q faz Justiça tem sua gemte obediemte Diz que folgaria de ver caçizes xstaõs (350) Barbosa chama-lhe Soltam Binaracola, e Pigafetta raya Abuleis. Contudo. Barros diz que «Havia nome este Rei de Ternate (que ajudou Scrrào), Cachil Boleise. homem de muita idade c grande prudência, e havido entre os mouros quase por profeta nas coisas que dizia». (III, v, 6). (351) Barros (III, viii, 9-10) refere-se largamcntc a Almançor, rei de Tidore, e às suas desavenças com os Portugueses. Pigafetta chama-lhe raia sultan Manzor. (352) De facto a ilha Ternate. com oito milhas de comprimento norte-sul c seis milhas de largura, compõe-se quase exclusivamente de um vulcão, com 1.580 m. de altura, há mais de 300 anos em actividadc constante.
A Suma Oriental 341 porq se lhe bem pareçese nosa fee que se alomgaria Da sua seyta E tornasya xstão// este Rey de ternate por ser homê de boõ syso quamdo soube Foi. I57v. que framcisq0 serrão estava em ambon mamdou por elle E por out°s purtuguesês q se pderam na viagê damtonjo Dabreu E Recolheõs a sua terra E fezlhe homrra E espeueo o dito Rey carlãs a malaq“ de como elle he suas terras erãm espauõs Dell Rey noso sor como mais largamête se veera por suas cartãs que trouxe amtonjo De mjramda que foy a bamdam he mamdou a ambom homde as cartas vierom tèr as quães trouxe frcC0 serrão & tor- nouse pa ternate por asy ficar acomçertado/(353). Sam os de ternate caualeirõs amtre os malucos sam omèes que bebem de vinhos a sua gsa tem boas auguãs ternate he terrã sadia & de boõs arês tçm o Rey de ternate das portas suas adem- tro quoatroçemtas molherès todãs filhas dalguõ tem mujtas fas delias// o Rey quamdo vay a guerra saie com coroa douro E os fs° asy as traze por denydade sam estas coroas temperadas em valijã//. Tem crauo a terra/ de fora das Jlhas de bemgaía (354) vem merca¬ dorias q ha em (353) Barros diz que em 1513 «foi António de Miranda de Azevedo ternate com uma armada às Ilhas de Maluco e Banda carregar de cravo». (III, v, 6). Patalim, que então era Capitão de Malaca, também diz no seu depoimento no chamado «Processo das Molucas» de 1524, que ele «mandara a Maluco António de Miranda, com três navios, os quais foram ter a Banda c, dali, foram a Maluco, onde acharam Francisco Serrão, com todos os homens que com ele iam, c tinham muito cravo para lhes carregar as naus». Carlas, iv, 167. Amboina era então considerada parte das Molucas do sul, o que poderá explicar a informação assaz confusa prestada por Barros e Patalim. Con¬ tudo Pires, que escrevia em Malaca pouco depois do regresso de Miranda, é mais claro. A sua informação é confirmada pelo muito minucioso e pre¬ ciso depoimento de Brandão no mesmo «Processo das Molucas», que informa não ter Miranda passado além de Banda. Ibidem, p. 170. No ano seguinte, 1514, Miranda voltou a Banda, mas só em 1515 dois juncos sob o comando de Álvaro Coelho chegaram a Ternate, regressando a Malaca carregados de cravo. (354) Banggai Island é uma das mais importantes do arquipélago Banggai, que fica 300 milhas a sudoeste de Ternate, ao largo da península
342 Tomé Pires merca¬ dorias q valem em Ternate/ Como naçe o crãuo mujto ferro em ferro machados cuytellos espadas facas vem ouro Doutas ylhas tem alguu marfym pouquo tem panos baixos a sua maneira vem muj,os papagaiõs das Jlhas de mor (355) E de cerã vem os papagaios bramqos//. Vali è maluquo a Roupa baixa De cambaia E da fyna vali todo panno de Bonna quelím em Rolado & de ladrilho gramde meão pequeno patollas todo pannô baixo he bramquo asy como synhauãs balachos pamchavelizès cotobalachos porem a cabeça da mercadaria he Roupa de cambay8 E Rabos de bois E vacas bramcõs que trazem de bemgalla//. Ho crauo tem seis noujdadês no anno Dizem out°s que o ha todo o anno mas q em seis tempos do anno ha mais// Despois da froll he verde & despois tornase Vrmclho emtam ho colhem Delle a maõ delle vareJado E asy vermelho ho Deitam a emxugar em esteiras E tornase preto sam aruores pequenas ho crauo naçe como mortinhõs naçem mujtas cabecas Jumtas estaa todo este fruyto na maão Dos Jemtiõs & de suas maõs vem todo as beiras do mãr por q esta Jlha de ternate he a mais lomgue de todãs dam- bom & deuera de ser a ordem loguo Da mais Junta ambom q he pachão porem por ser ternate a melhor cousa se fallou pmeiro delia E asy por ser Rey vasallo delRey noso sõr E aguora me Jrey chegamdo a ambom comtamdo as Jlhas//. Banggai, na costa leste de Cclcbes central. Barbosa diz: «Não muito longe destas (Celebes) acha-se outra Ilha dos Gentios ... chama-se Tendaya (ou Bangaya, na versão espanhola), acha-se nela muito ferro, que se leva para diferentes portos», (p. 373, cd. 1867). Dames julgou que «é indubitavel¬ mente a ilha Banggi que fica ao largo do ponto mais setentrional de Bornéu», (ii, 205). Na carta de Berthelot de 1635, a ilha Banggai está correctamcnte situada mas chamada Pangara. (355) Morotai ou ilha Morti fica a treze milhas da ponta nordeste de Gilolo, tendo perto a pequena ilha Rau e alguns ilhéus. Ao descrever mais tarde a ilha Batochina, ou Gillolo, Pires diz que as «ilhas de Mor» limitam Gillolo a norte. A carta de Berthelot tem morotay correcta- mente situada.
A Suma OrientaI 343 Partimdo De ternate pa ambom navegamdo tres leguoas se mostra a Jlha de tidora he huuã ylha terra Dez leguoas em Roda hee o Rey desta Jlha mouro Jmiguo DelRey De ternate & seu sogro/ tera este elIRey em sua terra dous mjll homeês Dos qeês os Duzemtos seram mourõs os out°s sã Gemtios cha- mase o Rey RaJa almamçor tem mujtas molheres & fs° tera a terra Deste mjll & qoatrocemtos bares de crauo cadano na Jlha deste nõ ha porto pa amcorarè he Rey poderoso este tamto como ho de ternate sempre tem guerra// estes dous sam os mais homrradõs de maluquo/ E compitem tera este em sua terra oytemta paraõs tem este Rey por vasallo a elIRey De maqiem//. Tem este Rey obidiemte asy ametade da Jlha de motei tem sua terra mujtos mtos DaRozes carnes pescadõs Dizem que hee ornem de bom syso este Rey deseJa m'° o trato comnosquo por que as Jlhas de maluq0 perdemse E o crauo ha tres annos q se nam apanha senam pouqo por causa Da navegaçã q nom ha da tomaDa de malaqa a esta parte//. Navegamdo desta Jlha de tidore amdadura de seis leguoas estaa a Jlha de motêi esta ylha tera em Roda quoatro ou cimquo leguoãs tem huua serra no meyo a meia ylha obedeçe a elRey De ternate a outra metade ao de tidore tem caca huu posto seu capitam em sua terra Esta Jlha he toda de gemtios tera seiscêtos homèes tem esta ylha cada huu anno mjll E duzemtos bares de crauo tera cada capitam destes quoatro cimq° lamcharas pequenãs tem esta ylha mujtos mamtimemtos & cada parte socore a seu senhõr. sam os capitaes destas Jlhas gemtios homèes cava¬ leiros & pas homrradas E amiguos huu do outr0//. Asy o Rey de tidore como esta ylha de motei trazem seu crauo em parãos a Jlha de maquyem a vemder por qmto aly hee o porto homde vem os JumquÕs ancorar Da Jlha de motei a cimquo leguoas pareçe a Jlha De maqujem esta Jlha de maqujem tem em Roda oyto ou nove leguoãs tera tres mjll homeês tem cemto & trimta paraos/ tera De crauo cadanno mjll E qujnhemtos baarês chamase o Rey RaJa Vçem he mouro E obra de trezemtos homeês em sua terra tem esta Ylha de tidora. Foi. 158r. Ylha de motei Ylha de maqujem
344 Tomé Pires Ylhas de pa- chãm (356) Jlha de maqiè mujto bom porto esta he a Jlha omde os Junqõs carreguã E de todas as Jlhãs aquj trazem o crauo a vemder somemte De ternãte q vam também laa por causa do porto è q podem amcorar/ tem mujtos mamtimètõs he Rey casy como os outros & tem gemte mais q tidore E paraõs//. Este RaJa Vçem Rey desta Jlha de maquiem he pnio com- Jrmaão do RaJa almãçor Rey de tidore E alguuã obidiemçia tem este Rey ao dito Rey de tidore tem este porto alguuus estram- geirõs estes deseJã mujto nosa pãz dizem q este he bom homc he esta he a terra De mais trato que as outas E tamto que os Juncos vem aqi ha amcorar he seu porto seguro E bom casy toda a Jemte hee Jemtia vem a esta Jlha De mujtas Jlhãs com mercadorias tem mamtimemtos em abastança he augua boa E a Jemte Dizem q he domestica a das beiras do maar & Desta Jlha de maquyem que dise a as Jlhãs de pacham avera quatorze leguoas estas ylhas de pacham sam dez ou doze a ylha q se chama pacham tem crauo as outas nam chamase o Rey desta Jlha RaJa cuçuf tem mõr terra E mais Jemte q nenhuu dos Reis de maluq0 E majs paraõs este Rey he meio Jrmão Del- Rey de ternate sam gramdes amiguõs he toda a Jemte case gem- tiõs tem boos portos aquj vem a Vr vista desta terra os q ham de carregar em maluquo E Daquy vam a outsa ylhas hee pacham corda dilhãs que vam ter comta ceiram sobre ambon tera esta Jlha qnhemtos baares De crauo cadano tem mujto breu nom tem mujtos mamtimètõs mas das outas ylhas os trazem ê abas- (356) Bachian Island é a maior e mais meridional das cinco Molucas verdadeiras. Há muitas ilhas acerca de Bachin, as maiores das quais são Great Tasvali ou Kasiruta, e Mandioli perto da parte ocidental; a cerca de quinze milhas para noroeste ficam as ilhas Ombi, oitenta milhas a norte da parte noroeste de Ccram. Parece que Bachian foi de princípio conhe¬ cida dos Portugueses como Pacham. Além da referência de Pires, há pelo menos um outro documento contemporâneo — o depoimento de Barto- lomeu Gonçalves no «Processo das Molucas» — onde a ilha é várias vezes chamada Pacham. Canas, IV, 163-4. Pachel de Barbosa está certamentc relacionada com Pacham.
A Suma Oriental 345 tamça, tratam em sua terra gramdememte tem esta ylha papa- gãyos esteiras E outras cousas q a ella vem comprãr//. Segundo tomey emformaçam ha mujto pouquo tempo que ho crauo desta terra era syluestre asy como brunhos a ameixias ou zambuJo a oliueira he q amtigua memte este crauo nom se gastaua dizem que por estarem estas arvores ê lugares braviõs abafados E que dez aniios a esta parte he feyto crauo bom como quall quer do outro & que se vay acrecemtando muyto o cravo nesta Jlha haa desta Jlha a Jlha dambom quoremta leguoãs Ao mais todo o crauo Destas cimquo Ylhãs he De huuã mesma bomdade se o colhem semdo perfeitamemte maduro//. Também nesta Jlha sequam os Ramos das aruorès com muj4*8 folhas hee mercaDaria por que na nosa parte deiropa se gastam as ditas folhas em lugar De betele E por que o betelle sequo nom tem sustançía De odõr em seu | lugar metem as folhas Foi. I58v. hee mercadoria q Amtiguamemte levam a veneza pola vija Dalexamdria E em purtugall bem avera vinte annõs q eu tenho vsado as ditas folhas em lugar do dito folio Jmdio que hee betelle// (357) Feito o Recomtamemto das cimquo Jlhas de maluquo vimdo de ternate pa ambon E se asy nom for em hordem torne a comtar de ambom pa ternate começamdo De pacham nam diguam que a nauegacam de malaqua pa maluquo seJa priguosa (357) Já vimos (p. 211) que Pires se enganava ao identificar folio índio como betei. Mas parece que as folhas da árvore do cravo (Caryophyllus aromaticus Linn.) eram usadas como substituto do folium indicum, embora Orta (Col. xxiii) não esteja de acordo. Linschoten diz que «as folhas chamadas Folium Indum ... têm um aroma quase como Cravo». Hak. Soc. ed., ii, 130-1. Embora não tivesse estado mesmo nas Molucas, Pires certamente conheceu bem as folhas do cravo, e a sua informação é sem dúvida muito interessante. Na carta de 8 de Janeiro de 1515 para cl-Rci D. Manuel, Jorge de Albuquerque, então capitão de Malaca, diz que António de Miranda chegara de Banda, donde foi a Amboina ao encontro de Serrão, e ele enviava um ramo com folhas da árvore do cravo; depois acrescenta que Tomé Pires explicaria todas estas coisas. Cartas, iii, 136-7. 25
346 Tomé Pires porque hee bom camjnho he pa as nosas naõos comuenjemte E nauegase com vemtos de monção em huu mes a bamdam ou a ambom & daly a maluq° em huu dia & dous nosas naos bem aparelhadãs nom faram detemça em ambom pasarseam a maluq° qmto mais qem teue maneira De sabr e emvestigar de purtuguall vijr da maluquo em tam pouco tempo trabalhamdo cada huu è seu tempo como he sabido tera maneira qem quiser ter zello das cousas se acabarem a seruiço dellRey noso sõr nom fazer o camjnho De maluquo pola vya da costa da Jaõa/ Somemte por symgapura E de symgapura a burney & de burney as Jlhas de butum (358) E lloguo a maluquo pa quem naueguou a maluquo mujto limpo camjnho achou sempre este em huuã mouçaõ he presto o camjnho da Jaõa pa maluquo foy avido por provisão Desta maneira/ anos vem bem ho camjnho De burney pa maluq° & aos mercadores de malaqa o de Jaõa anos o De burney porq nom fazemos escala De trra ê terra/ vemdemdo aq1 vemDemdo qua ganhamdo em cada lugar De maneira que se alomga ho tempo E com pouco cabedall E os nauegamtes sam espauõs fazem suas viagês compridas & prouei- tosas por que De malaqa leuam mercadarias da valia Da Jaõa & da Jaõa mercadorias da valia De byma & cimbava & destas Jlhãs levam pannõs pa bamdam E maluq0 E os q leuam Rese- ruados de malaq* ADoram os de bamdam & maluq° nellês E asy fazem suas mercadorias o q nom poderiam fazer pola vya de burney E butum E macaçar//. Nos nam somos asy proueitosõs pa aumemtar a fazemda de sua baixa manra nem menos somos do seu vaguar por que trazemos agemte a soldo som,e tomamos noso furnymemto larguo & de boa Roupa cometemos noso camynho fazemos nosa mercadoria como portugueses nam domestiqos a ella & (358) A ilha Buton aparece como se fosse um prolongamento da península sudeste de Celebes. Banda fica mesmo a leste da parte norte de Buton. Buton na carta de Berthelot.
A Suma Oriental 347 os panos anychelados/ dos Reaes mercadores estam empapelados porque semtem a mercadoria E desta maneira fazemos noso camjnho prestes portamto o camjnho de burney nos conuè pa melhor por q he Ja sabido ds seJa louuado bom he E asaz prouey- toso/l Despois de maluquo tenho falado de cimquo ylhãs aguora também quero Dizer da Jlha de bato chijna por amor do porto de Jelolo q tem nrujto cravo E esta perto de ternate noso amiguo//. A Jlha de bato china he huua corda de terra gramde de Ylha de huua bamda vem sobre ambom E ceiram & da outra estemdese boto chy- comtra o norte as ylhas de mor/ he gramde mujto toda he de (359) gemtios tem mujtos mamtimentos he muyta gemte E muytos paraos delles amdam a furtar delles amdam de merca Doria asy como toda outa nacam ha seis leguoas de ternate a esta ylha este he o porto que se chama Jeilolo demtro nesta ylha de bato chyna este porto somemte/ tem Rey mouro tem o porto deste mujtos mantimêtõs hee Jmigo DelRey de ternate & fazem huu a out° saltos & tomadias tem esta terrã De Jeilolo muj‘° crauo brauo como a Jlha de pachã dizem q trabalha de o fazerê bom tè esta Jlha bom porto & he a Jemte Ja mais branqa alguu tanto q ha de maluquo// outras Jlhas muj,as estam aRedor de maluq0 polia vya do Foi. I59r. norte que sam as Jlhas de mõr & chiaoa tolo bemgay® ao ponemte (359) Batochina ou Batochina do Moro era o nome antigo dado pelos portugueses à ilha de Gillolo, ou Halmahcira, que tem o comprimento de cerca de 190 milhas de norte a sul; a sua largura pelo centro é cerca de 40 milhas. A baía c a angra de Gillolo e a aldeia de Gillolo ficam cerca de 20 milhas a noroeste de Ternate. «Ilha de Moro, a que também chamam Batochina, ao longo da qual jazem as Ilhas de Maluco», diz Barros (VI, i, 16). Cas- tanheda refere-se à ilha de Batochina do moro (VIII, cxiii). Na carta de c. 1540 a ilha chama-se Batachj. Nos atlas de D. Homem de 1558 e 1568 chama-se abachotina, embora o nome não esteja escrito na ilha, mas ao largo na sua costa oriental; no atlas de 1568, porém, a ilha Ceram chama-se bata- china de ambo (?).
348 Tomé Pires de celebe (360) çolor em as quaès ha mujtos mamtimemtos vè a maluq0 tratar trazem ouro também alguuas destas Jlhas tem (360) chiaoa, junta com Mor ou Morotai, como no caso presente poderia sugerir Tanjong Salawai, a ponta nordeste da península nordeste de Gilolo, que fica umas trinta e cinco milhas a sul de Morotai, c poderia ter sido tomada como uma ilha. A Chiaoa de Pires, porém, deve corres¬ ponder a Siau, uma pequena ilha a norte da ponta nordeste de Cclebes, a que Pigafetta chamou Ciau e aparece como chiau na carta de c. 1540, e Ciao ou Ciaos em cartas posteriores. tolo ainda sobrevive em «Gulf of Tolo», formado pelas duas penín¬ sulas orientais da Celebes Central; na extremidade norte ficam as ilhas bang- gai. Porém, o Gulf of Tolo e as ilhas Banggai ficam a sudoeste das Molucas. çolor corresponde ao arquipélago de Sulu, que fica a norte da Celebes, e não a oeste, como Pires diz. As cartas de Ribeiro de 1527 c 1529 têm çolo; solar na carta anónima de c. 1540; osolar e osollor em cartas posteriores. celebe — Esta é a primeira vez que Celebes é mencionada. O pri¬ meiro registo cartográfico do nome encontra-se na carta de Reinei de c. 1524, onde está escrito çelebes; a carta de c. 1540 e o atlas de Diogo Homem de 1558 têm pia dos celebres; os atlas de Dourado têm p: dos selebres. Pia. de Celebes é aplicado à ponta nordeste de Celebes, ou North Cape. O atlas de Lázaro Luís de 1563 é o primeiro que tem Ilha dos celebres, embora várias cartas portuguesas posteriores continuem a aplicar celebres ou selebres apenas à ponta norte. A carta de Rodrigues tem uma longa ilha a oeste das Molucas — que muito provavelmente corresponde à peninsula nordeste de Celebes — com a inscrição: Ilha Vdama Z tem ssamdollo. Vdama será corrupção de Menado, um lugar importante na ponta mais nordeste de Celebes, que apa¬ rece como manado ou manade em L. Homem (1554), cartas de D. Homem e Dourado. Mais adiante Pires menciona a ilha Vdama, a seguir a macaçar, entre as que comerciavam com Malaca. Abendanon julga que o nome Celebe, Celebre ou Celebres foi de princípio dado à ponta nordeste e depois estendido a toda a ilha, Celebe ou Celebre correspondendo à palavra bugi sêllihê (em que o h é por vezes pronunciado como r) e significando «corrente»; assim. Pia dos Celebres significaria Ponta ou Cabo de Correntes. Sur la signification du nom de Pile Celebes, pp. 361 seqq. Seja qual for a origem da palavra Celebe, ela foi de principio usado no singular (aparece também como Celebe nas vetsões espanhola e de Ramusio do Livro de Duarte Bar¬ bosa), e mais tarde no plural, Celebes, talvez porque os Portugueses a con¬ sideravam mais como um grupo de ilhas do que uma só ilha.
A Suma Oriental 349 gemte case bramca mas por que noso emtemto nom he espeuer destas ylhãs por que seria necesario espeuer doutras çem mjll nom faço particular nem gerall mcmçam delias aq somemte q na Jlha De papua que sera oitemta leguoas de bamdam Dizem que ha os omeès das orelhas gramdès que se cobrem com ellãs numca vy que vise out° q as vise Jaz ysto no pouco q hee asy//. Recapitoladas as cousas de maluq° segumdo dizem que Ja sam daq1 pa diamte nom serei ousado pasar somemte atequj foy meu emtemto/ quem sera poderoso escreuer o gramde numero E emfynjdade dilhas que haa do estreito de campar atee bam¬ dam E do estreito de syngapura atee as Jlhas de Jampom q sam alem da china & desta Jlha cortamdo a bamdam E nestes meios q seram mais de duãs ou três mjll leguoãs em Roda qem sera poderoso nellãs fallãr & he certo que mujtas delas merecem que delas se fale porque mujtas tem ouro porque seria nunqua acabar e emfastiar/ somemte nesta tanta copia espeuerey alguuas com que De malaq® comonjcã E também no tempo pasado E geeral memte tocarey ê outas De maneira q mjnha temçam se acabe E se mjnha temcã nam for De peso seJa perdoado//. estas sam as Jlhas amtre todas com que malaqua trata e ellãs tratam com malaq® .s. tamJom pura/ a Jlha dalaue/ que- domdoam/ sam per/ bilitam/ catepamucã/ macaçar/ vdama/ madura/ afora as que tenho ditas segumdo atras vam decrarada memte/ em burney & nos luções nom falarey porque Ja he dito delias na descriçã Da chijna [ilhas centrais] A Jlha de tamJompura he Jlha que com moução partimdo 4 yiha de malaq® em xb dias vam nella pollo canall de symgapura E polo tamJon- pura (361) (361) «A ilha» Tamjompura de Pires corresponde a Tanjong Puting, na costa sul de Bornéu. Quando Pires escreveu a Suma, os Portugueses
350 Tomé Pires de campar tomam o camjnho Jmto com limgua amtre as Jlhas de limgua & monomby esta Jlha he de Jemtios hee casy sogeita a pate onuz senõr de Japara tem esta Jlha pate guouernador sõr Da Jlha hee Jlha de cimqoemta leguõas em Roda tem mujto ouro & aRoz E out°s mamtimètos tem mujtos diamamtês tem Juncos pangaJavas tem mujta gemte de malaqua vam merca- darías panos da valia da Jaõa pnçipall memte bretamgis Vmelhos pretos & Roupa de bemgala bramq0 de pouq0 preço trazem mamtimemtos & diamamtês & ouro nom se sabe parte omdc aJa Diamamtês senoni no Reino de Rixia Jumto com bemgala estes sam os melhores E despois os desta Ilha de tamJonpura & despois os de laue em outro cabo nom se acham// hee Jemte a desta Jlha mercantive tem espauos mujtos q lhe traze doutras Jlhas & também de sy/ tem mujl° mell & çera//. Ylha de esta Jlha De laue he quoatro dias he quoatro dias dam- laue (362) ainda não tinham visitado Bornéu e Ceebes. Ele estava mal informado, ou interpretou mal a informação que lhe deram, sobre estes lugares que refere como «ilhas»; de facto na sua maior parte eram simples portos de Bornéu ou Celebes. Barros diz que Gonçalo Pereira, que havia sido nomeado para a capitania das Molucas, partiu de Malaca cm Agosto de 1530 via Bornéu, onde esteve em Tanjapura, entre outros portos daquela ilha. Acres¬ centa ele que «junto da cidade de Tanjapura nascem diamantes mais finos e de maior valia que os da índia» (VI, vi, 19). Castanheda repete exacta- mente a mesma informação (VIII, xxi). Orta menciona a «Roca velha» dos diamantes «no estreito detanjãpur nas bãdas de malaqua» (col. 43). As car¬ tas portuguesas antigas ajudam-nos a identificar a situação de Tamjompura. Aparece pela primeira vez na carta de c. 1540, como tajàpura; depois na carta de L. Homem de 1554 como Tamjampura; laiampur no atlas de D. Homem; taiopuro nos atlas de Vaz Dourado, sempre na costa sul dc Bornéu. Se estas cartas ainda deixassem qualquer dúvida sobre a situação cxacta de Tanjampura, a carta de Berthelot de 1635 é bem explicita: nela Tanjompura já está escrito Tan Jaõ Pule e corresponde a Tanjong Puting, exactamcntc na mesma latitude (3° 3l' S.). No interior, a norte dc Tan Jaõ Pule está escrito: Aqui he a roca velha dos diamantes. Vide nota sobre Bornéu, p. 374. (362) Embora escrito lane, isto é evidentemente engano do copista em vez dc laue, como aparece em cartas e referências antigas. Nas passa-
A Suma Oriental 351 dadura alem de tamJompura hee tamanha como a de çima tem pates tem mujta Jemte todos sã Gemtios tratam com Jaõa & com malaqa he tamto da Jaõa case como de malaq8 tem diamantes tem Juncõs ouro em mais camtidade que tamJompura tem mer- gcns onde se refere a Tanjopura, Barros também menciona Lave e Castanheda Lane, como dois dos principais portos marítimos em Bornéu. Quando diz que Lane é «além de Tanjompura», Pires parece querer dizer que fica para leste desse lugar. Contudo, todas as cartas portuguesas antigas que têm Lane o situam a oeste de Tanjompura. A carta de c. 1540 tem lane (ou lane); la(u)e, na carta de L. Homem de 1554; laue onde foi dõ manoel de lima, no atlas de D. Homem de 1568; llaue dode foi dom manoell de lima, nos atlas de Vaz Dourado. As crónicas não mencionam esta viagem de D. Manuel de Lima a Laue. mas Castanheda diz que em 1537 ele estava em Malaca (VIII, clxxviii). Laue não se encontra nas cartas modernas. A carta de Berthelot tem Laban, logo a norte de Sucadana (Sukadana), no sudoeste de Bornéu e a carta de Hamilton de 1727 (apud Dames; n, 207) ainda tem Laua, a sul de Sukadana. Depois da morte de Magalhães em Sebu, os navios da sua armada foram a Palawan e Brunei em 1521. Ao descrever Brunei (Burne) Pigafetta refere-se a «uma grande cidade chamada Lave, que está situada no fim (in capo de) desta ilha na direcçâo de Jave Major, que foi saqueada e destruída porque se recusou a obedecer a este rei (de Burne), mas sim ao rei de Java Major». Esta passagem tem deveras intrigado os comentadores de Pigafetta nas suas tentativas para identificar Lave. Craw- furd disse que Lave era «provavelmente algum lugar em Banjarmasin», no sudeste de Bornéu. Diclionary, s.v. Brunain-Town. Mosto, embora cha¬ mando a atenção para o Lao no Theatrum orbis lerrarum de Ortelio e para o Lave no Atlas de Mcrcator, situado no sudeste de Bornéu, conclui: «Forse corrisponde all odierno paese di Laut Bumbu con isola annessa, sulla costa sud-est di Borneo verso lava». Pigafetta, p. 87. Esta opinião é mais ou menos partilhada por Robertson, Magellarís Voyage around tlie World, ii, 199, por Dcnucé, Pigafetta. p. 164, e pelo Visconde de Lagoa, Fernão de Magalhães, ii, 129. Contudo as cartas portuguesas antigas, acima men¬ cionadas, não deixam dúvida sobre a situação de Laue ou Laoe na costa sudoeste de Bornéu. O desenho que Pigafetta apresenta da costa de Burne mostra que, embora ele não tivesse ideia do tamanho da ilha, também colocou Laoe na sua costa sudoeste. O globo de Mcrcator de 1541 também tem Lao na costa sudoeste da ilha, evidentemente seguindo o desenho de Piga¬ fetta. A maneira como este escreve Laoe mostra que Pires tinha razão quando escreveu Laue e não «Lave». Vide nota sobre Bornéu, p. 374.
352 Tomé Pires as ylhas de que- domdoam & de sam per & de bylitam E de cate & de pamucã & de ade- ma/l (363) Foi. 159v. cadores hee terra De mujtos mamtimemtõs he de boa gemte valem nela as mercadarias q sam ditãs em cima valem panos quelijs he terra De bõo trato nom hobedeçe a nemguè sam estes homeês casy da maneira dos Jaõs Rebustos valemtes homes de suas p“ tem mujta çera// estas seis Jlhas que aquj sam esptas sam em torno das duas de çima a navegaçam De tres quoatro diãs huuãs das outas sam ylhas gramdes de mujta gemte sam de gemtios de patês tem Juncos pamgaJavas tem estas Jlhas todas ouro tem mujtos | mamtimemtõs tem delias búzios que he boa mercadoria ha nesta terra mujta erva De besteiros e em muyta camtidade a destes lugares he a melhor q se sabe nestas partes sam os homees desta Jlha guerreiros & gramdes ladrões salteã por mujtos lugares qem vay de mercadoria vam a Recado nos portos Do maãr sam domésticos a outra Jemte hee Rústica tem estas Jlhas Jmfy- nidade Desteiras de tres quoat0 sortes tem Rotãas nam muytãs tem peixe sequo breu mamtimemtõs mujtos legumes tem vinhos nauegam estes em Jaõa e ê malaq3// os Jaos vam comprar Jumcos a terra destes & estes qmdo vem a Jaõa vemdem os Juquos na terra sam gramdes frecheiros trazem estes mujtos espauos & ouro valem as mercadorias nas terrãs Destes as que se dise nas outas ylhas vali beyJoym preto de palimbam// por detrás destas Jlhas vay o camjnho pa maluquo (363) quedomdoam— Na enumeração acima, Pires coloca Quedom- doam depois de Lauc, e assim entre este e Tanjompura. Há um pequeno porto chamado Kandavangan, a norte de Cape Sambar, que corresponderá ao Quedomdoam de Pires, samper — Deve corresponder a Sampit Bay, a leste de Tanjong Puting. bylitam é a ilha Billiton, a leste de Banka. cate — Pulo Laut, uma ilha junto à costa sudoeste de Bornéu, cujo lugar mais importante é Kota Baru? Ou corresponderá a Kutci, uma vasta região a meio da parte oriental da ilha, que aparece como Caly na carta de Berthelot? pamucã corresponde a Pamukan ou Pamkan Bay, no sudeste de Bornéu. Pamocan na carta de Berthelot. vdama — O copista primeiro escreveu Vdama. mas depois Aderna — um dos seus muitos e embaraçosos enganos. Vide nota p. 348.
A Suma Oriental 353 pola vya De macaçar & butum & vay tratar destas com burney & com os luçoèes// As Jlhas De macacar sam alem das Jlhas que avemos ditõ amdadura de quoatro cimquo Dias estam no camjnho De malu- quo sam mujtas Jlhas he gramde terra de huuã bamda vem dar comsyguo em butum & sobre maDura & da outa estemdese mujto ao norte sam todos Jemtios dizem q tem mais de cimquoemta Reis estas Jlhas tratam com malaqa & com Jaõa he cõ burney & com syam & com todollos lugares q estam de pahão atee syam sã homees mais parecemtes a syames que a outas naçoêes sua limguoaJem hee sobre sy desviada das outas sam homes gemtios todos Rabustos gramDes guerreiros tem mujtos mam- ti mentos// Sam estes homeês Destas Jlhas os mores ladroees que todollos do mumdo & sam poderosos & tem mujtos paraos nauegam Roubamdo de sua terra atee peguu & de sua terra atee maluquo & bamdam por todalas Jlhas por Jaõa & no mãr trazem molheres (364) Macassar ou Mangkasar c o nome do povo que habita a extre¬ midade mesmo da peninsula sudoeste de Celebes. O nome foi de princípio aplicado a toda a ilha ou à península sudoeste, mas agora limita-se ao seu porto principal e capital. Numa das cartas (foi. 36) Rodrigues chama a Bornéu A gramde Jhla de maquaçer, o que mostra o confuso conhecimento que muitos antigos cartógrafos tinham do arquipélago. A carta de c. 1540 tem os macaçaes, a carta de L. Homem de 1554 tem os magasares, e os atlas de Dourado têm os magamsares, em letra minúscula como os outros topó¬ nimos ordinários, mesmo a sul do equador; mas a ilha como um todo não tem nome. O globo de Mercator de 1541, seguindo alguma carta portu¬ guesa de que hoje se não sabe, tem uma longa ilha de oeste para leste cha¬ mada Macace, a sul de Burneo e norte de Sumbawa (Bima, etc.). Na carta de Hcrédia (foi. 47v) o nome Macazar é dado a toda a ilha. Nesta carta a ilha, bastante correctamcnte situada mas sem mostrar as características longas penínsulas, está dividida em três regiões: Celebes regiam, no norte; Buguis regiam, no centro; Macazar regiam, no sul. O atlas de c. 1615-23 tem a ilha semelhantemente representada c chamada Macasar. Na carta de Bcrthclot de 1635 a ilha toda já é chamada Çelebes, c apenas a península sudoeste se chama macassa. as Jlhas De maca¬ çar (364)
354 Tomé Pires a Jllia madira tem feiras omde despacham suas mercadariãs que furtam & vemdem os espauôs que tomã correm toda a Jlha de çomo- tora aRedor sam cosairos cabidoaes os Jaos chamanlhe baJuus & os malaios ysto lhe chamam E calates trazem seus furtos A Jumaia (?) que he Jumto com pahão homde vemdem & tem feira comtinoada memte//. os q nam seguem este estillo de furtar vem em suas pamga- Javas gramdes bem feytas com mercadorias trazem mujtos mam- timemtos aRoz mujto bramq0 trazem alguu ouro leuam bre- tamgijs & Roupa de cambaya & de bemgala alguua pouqa & dos qelis/ leuam beyJoym preto em mujta camtidade emcenço tem mujto povoo estas Jlhas E mujtas carnes hee terra mujto abastada trazem todos crises sam homees de boõs corpos correm ho mumdo & todos os teme por q sem Duujda todos os ladroèes com Rezam obedeçê a estes trazem mujta erva he tiram com ella/ nom tem força conta Juncos q todos se lhes defende mas todo outro naujo da terra leuã na mão/ de A Jlha de madura he gramde Jlha esta estaa defromte da Jaõa & a vista dagaçy tem mujta gemte & tem Rey esta ylha de madura estemdese gramdememte dizem q tera em Roda oytemta ou cem leguõas hee o pate de madura caualeíro pesoa muyto pincipall hee Jemtio chamase [em branco] he casado com huuã fa do guste pate da Jaõa dizem q madura tera cimquoemta mjll homeès de peleJa daq sam os melhores cavaleiros que da Jaõa sam muyto temjdos os de madura dizem q elles sam Jaõs naturaès & tem gramdes famtesyas tem mujtos saçerdotes de Jemtíos pesoas mujto estimados hee terra De mujtas lancharas sam homees bem apesoados a terra he de mujtos mamtimemtõs tem mujtos cavallos gastamse na terra de madura gramdes copias de panos q se fazem na mesma Jlha & outs0 q de fora vem que elles vsam nom tem outa mercadaria senom aRoz & mamti- mêtos & mujtos espauos tem alguu ouro Do trato que tem as Jlhas q atras sam ditãs & comfynam delas com madura tem este paz com agaçij nom tem mouros esta Jlha de madura & sam nosos amiguos &
A Suma Oriental 355 Haa outra Jmfynidade dilhas nom he Rezam mais falar somemte que todas tem ouro espauos E huuas tratam com outas & fazem as pequenas nas mores que dytas sam & as mores tratam com malaqua E malaqua com ellas despemdemdo & comutãDo aas mercadorias/ as mais destas Jlhas tem ouro & também tem todas cosairos & ladroêes q nam viuè doutra cousa nom nave¬ gam os cosairos senom em paraõs sotijs & portamto nom emprem- dem Juncõs & destes cosairos os mais cheguados a pahão fazem è paho suas escalas E os cheguados a maluq0 E a bamdam fazem as escalas em byma & cimbava & capee (365) & os cheguados a nõs fazem feira e escalla è daruu & em arcat Rupat trazem mujtos Jmfimdos espauõs E portamto se vsa a camtidade des- pauos ê malaca por que todos vem a ella têr pollo gramde trato que sobretodos os Reynos & portos destas bamdãs tem E asy se chama Rijo bem avemturado he çerto ca gramdes partidas nam se sabe tam grosa escalla como a de malaqa nem em q se tratem tam nobres e estimadas mercadarias/ aquy se acha Da valia de todo levamte aquy se vemde de toda valia De todo ponente nom he duujda que as cousas de malaqa sam de gramde peso & mujto proueyto & gramde omrra hee trra segumdo seu sytio nom pode demenujr mas sempre acrecemtar he fym De mouçoees homde achaêes o que queres E as vezes mais do q cataêes//. [CEILÃO] por leuar a costa da terra firme nom curey de me emtre- meter na Jlha de ceilam he Despois casy delia esqueçido era/ (365) Sapeh (Çapee) é um lugar desabitado na costa leste de Sum- bana, que dá o seu nome a uma baía c estreito entre as ilhas Sumbawa c Komodo. O desenho de Rodrigues (foi. 83) mostra o porto de çape, com várias casas c árvores, na extremidade oriental dc Simbaua; a carta de c. 1540 tem Cape, embora o nome esteja deslocado para o meio da ilha. Bima não é uma ilha separada, mas apenas uma parte da ilha Simbawa. Vide nota p. 326. Foi. I60r. Recom- tamemlo de todas as Jlhãs Recom- tamemto da Jlha de çellam
356 Tomé Pires & nom me pareceo cousa onesta deixar de falar nella posto que seJa em luguar amtresachado fora de camjnho porem a mjm- guõa Do papell mo fez & por nom meter folha & quebrar a pmeira hordenança/. A fremosa Jlha de ceilam Jaz setuada defromte de comorím estemdese atee casy naõr q seram bem cemto & trinta leguãs de costa// tanto avamte como o cabo de comorim se afasta por trimta & cimq0 leguoas ao maar & dhy por diamte se vay mais cheguamdo atee se ajuntar espaço de xb leguoas ho menos & amtre esta ylha & a costa De choromamdell navegam todalas naõs do malabãr somente as q cometem bemgala ou peguu syam estas vam por fora da Jlha da banda do sull A Jlha de ceilam he gramde sera de trezemtas leguoas em Roda mujto mais compida q largua he mujto pouoada tem mujtas pouoacoes & casas gramdes doracam de esteos de cobre & cubertos os tectos de chumbo & cobre/ os Reis de ceilam sam cimqo todos sam gemtios sam entre malabares & qujlijs De tudo tem a terra abastada somemte daRoz hee mjmguoada dos out°s mamtimemtos he abastada// A melhor parte da Jlha he na pomta q esta de fromte de calee (366) atee comorim & aquy esta o primcipall Rey & as melhores pouoacoes & nesta pomta se fazem gramDes serranjas E aquj nacee a pedraria na terra deste Rey homde haa todo o trato he a Jlha De nauegacã & trato portos da O pimcipall he columbo/ out° nygumbo & celabão & tena- Jlha de varqe & balimgão/ (367) o rey tem seu asemto Jumto com o ceilam (366) Gallc, já chamada Gálle por Barros e Gale por Castanheda, corresponde à moderna Point de Galle e porto de Gallc no extremo sudoeste da ilha. Registada pela primeira vez na carta de c. 1540 como Galee. (367) A chamada carta de Cantino, de 1502, é a primeira a representar Ceilão na sua posição aproximadamente certa. Tem na costa oriental três nomes de lugares: morachitu (Mullaitivu), traganamelee (Tricomalee) e pananio (Panawa?); ao largo da costa sudeste da ilha tem a inscrição: «aqui crescem caneleiras e muitas outras espécies de especiarias e aqui pescam pérolas. O povo desta ilha é idólatra e negoceia com Calicute». A seguir vem a
A Suma OrientaI 357 porto de columbo meia leguoa do porto & polia mõor parte tem esta Jlha as mercadorias seguintes Tem todo genero de pedraria eicepto diamamtes esmeralldas merca- troquesas/ todalas outas tem em camtidade as pedras nom se dorias de verndem sem licemça do Rey toda peDra q valer na terra cim- cei,a"' coemta czdos he do Rey estaa asy por hordenanca sopenna De morte a quem a teuer & da maão do Rey se vemde a quem laa vay comprar//. carta de Rodrigues (foi. 28), a primeira em que a ilha é chamada Ilha de çeillam; uma inscrição suplementar explica: o propo nome destaa ilha se chama iranary. Barros (III, ii, I) diz que o nome próprio da ilha é Hanáre, que os portugueses não conheciam, por isso lhe chamaram Ceilão, nome tirado dos baixos de Chitão. Vide nota p. 183. «Os malabares & outros indios lhe chamão Hibenário (sendo o b um erro óbvio em vez de /], que quer dizer terra viçosa». Castanheda, II, xxii. Illenáre significa «o reino da ilha» na língua malabar. Couto V, i, 5. Mas nenhum deles tinha razão. Parece que Iranary ou Iianáre vem do tamil Ilan-nádu, «a terra de Ceylão». Hobson- -Jobson, s.v. Ceylon; Ferguson, The Discovery of Ceylon by lhe Portuguese in 1506, p. 380, e Hislory of Ceylon, pp. 30-3; Dames n, 109. Uma outra nota na carta de Rodrigues de Ceilão diz: lê alifames aRoz esta tem canella asi muylos Robis outra pedraria. Esta carta tem os seguintes nomes de lugar: ticanamalee (Trincomalee), malicalab (Batticaloa), baligaoo este he iraua (Weligama, este é liana), bagicancla (Galle) alicano (Alutgama), peno- tore (Pánadure), colunbo (Colombo); entre os dois últimos nomes está escrito: outros qatro falecê aq pera por. Uma outra carta de Rodrigues (foi. 33) representa os dois terços norte da ilha com as seguintes inscrições e nomes: A Ilha de çeillam homde toda pedraria muyta canella muylos allifamtes //. o propo nõme desta ilha se chama Iranary //. Ianapanapatatiam este tè alifames este he bancane; ticanamalee este tè aRoz nele; malicalab este tè alyfantes / he macua; desta Ilha a Ilha de gamysspolla ha duzemtas llegoas; alicano (a parte superior desta palavra foi cortada quando o volume foi encadernado) (Alcitgana), penotore (Pánadure). Calitore (Kálutara), colunbo (Colombo), mogutuarã (Maguhare?), nygonbo (Negombo) e celauam (Chilaw). Além de calee (Galle), columbo, nygumbo (Negombo) celabão (Chilaw) e balimgão (Weligama), Pires menciona Tenavarige, que corresponde a Dcwun- dara (ou Dcvundara ou Dcwinuwara) no Dondra Head, a península de Ceilão mais a sul. Esta é a Tanabaré de Barros (III, ii, I) e a Tanavarè, Tancuarem ou Tanaverem de Couto (V, vi, 3; X, iv, 12; X, x, 15).
358 Tomé Pires Foi. !60v. merca¬ dorias q vale è çeilã moeda da terra Tem gramde copia dalifamtes & de marfim tem canella os alifamtes vemdense a couodos da pomta Da mãao atee a pomta da espadoa se medem a canella vali a cz1'0 o baãr geerall memte o bahar he do tamanho do de cochim de três qintães he trimta aRatês tem a terra mujta arequa q se chama avelana Jmdia è latim comese com ho betelle he mamtimèto & vaal mujto barata Vemdese em choromamdell-/. trata ccilam com todo choromamdell & bemgalla paleacate com alifamtes canela marfym & arreqa Retorna aRoz & sam- dollos bramquõs alJofar panos he outas mercadorias/ ARoz prata cobre azougue pouquo aguoãs Rosadas sam- dollos bramcos he panos de cambaia caçutos pouqos mam- tazes vispiçes (368) mujtas vali todo ho pano bramco & alguuã Roupa pouca De paleacate pimemta pouqa & asy crauo & nõz/ Tem fanoees de prata q valem quatro huu fanam de cochim dos q valem xbiij huu czd0 corre moeda douro em ceilam De toda parte è sua vallya// tem çeilão boõs oficiaêes macanjquos oriuezes ferr°s car¬ pinas torneiros pimcipall memte/ hee a Jemte de çeilã sesuda bem emsynada os grandes fazem pouca homrra aos estrangeiros & nom furtam se nom podem tem amtre sy Justiça Jnteira// Tem o Rey gramde presumcam de lhe nom falarem senom mujt0 ao lomge foy sempre trebutario ao Rey de coulam em coremta alifamtes cadano & despois q foy o do ftor q la matarom ê coulã dizem q ho Rey de ceilam lhe nom paguou maís trebute/ a terra De ceilam he fremosa bem asombrada tem mujta gemte de guerra da terra frecheiros lanceiros tem de seu pouqas naõos tratam de coulam De bemgalla atee cambaya pincipal memte tratam no porto de columbo por ser maís pimcipall//. (368) caçuto era um tecido indiano, talvez preto ou escuro, de ori¬ gem persa. mantaz era um tecido de Cambaia, talvez de algodão. vispice era um tecido grosseiro de algodão, da índia. Dalgado. s.v.v. Caçuto, Mantaz e Bespiça.
A Suma OrientaI 359 Com os out°s Reis nom tratam porq nam tem portos & alguus se tem sam baixos mas sam abastados Reis/ & vem trazer os alifamtes & canella a terra Deste & aly se faz comçerto de suas mercadarias estes Reis tem alguu aRoz ê suas terras todos sam paremtes & amiguos// Tem a Jlha de ceilam mujtos homêes Religiosõs asy como frades momges begujnos castos & todo malabar ou gemtio tem em veneraçam as ouservamçias Dc ceilam os templlos seus sam Ricamète ornados & os sacerDotes vestidos de bramquo nom ao custume do pouo querem mall a mouros & a nos pior Dizem as Naçoèes que se Regem todos em Justiça//. Ho Rey da china nom soçede De pay a filho Nem sobrinho somemte por eleicam do coselho de todo ho Regno amda semp na cidade De cambara omde o Rey esta & o mandarim q se por estes aproua fiqa Rey//(369) Nom pode sair nenhuu chim pa a banida De siam Jaãoa rnalaq3 pacee & dhy adiante sem licemca dos Regedores de quam- tom & polias asynaturas da licemça De poder sair he tornãr lhe leuam tamto que ho nom podem soportar & nom saem & se alguu estranJeiro estaa na terra Da china Ja nom pode sair somemte senom he por licemça do Rey & por esta licemca se he Riq° fiqa sem nada/ & quallqr Junco ou naão que pasa os termos que lhe sam postõs pa amcorar pdese a fazem da pa ellRey E a Jemte morre por yso// Comecamdo dos termos De cauchy pa a costa Da china ha fortalezas a pma aynam honde se acha o alJofar que vay a chyna E nantoo E quantom E chamcheo (370) E out°s somente (369) Toda esta informação é decerto, absolutaniente incorrccta. (370) Tem havido alguma discussão sobre o Chamcheo ou Chincheo dos portugueses que tem sido identificado com o Zayton dc Marco Polo, o magnifico porto de Zaiton da carta de Fra Mauro (1459), correspondendo ou a Ch’uanchou ou Cang-chou, ou a ambos, na província dc Fukien. Tien-tsê Chang afirma que pelo nome de Chinches «os portugueses queriam evidentemente incluir ambas as perfeituras de Ch’uanchow e Changchow». Sino-Portugnese Trade from 1514 to 1644, pp. 70, 85. Outras autoridades. Foi. I6lr. Como fazem Rey Regi- memto do rregho a cerqa dos que navega pa out°s Regnos// lugares do maãr Do Regno da chyna
360 Tomé Pires Digamõs De quamtom que he mòr que todos E omde he o trato Destas ptes/ este aynam he emsseada (371) ê costa sê Rio tè huuãs ilhas contudo, não estão tão seguras de que o Chincheo dos portugueses corres¬ ponda a qualquer outro lugar que não seja Chang-chou; cf. Paul Pclliot, Un ouvrage sur ies premiers lemps de Macao, pp. 66, 92, em que analisa o livro de Chang. O Prof. Moule diz-me que «Zayton ou Zaitun era certa¬ mente Ch’uan-chou, não Chang-chou; mas isso não evita que Chamcheo seja Chang-chou. Poderia pensar-se que originariamente Chamcheo fosse Changcheo, e que Chincheo fosse Ch’uan-chou; mas é natural que desde logo houvesse confusão. Para os chineses, numa data bastante anterior, Ch'uan-chou era o porto para o comércio estrangeiro» Yule tinha já notado que nas «velhas cartas do século xvu ... Chincheo é realmente Changchau». Marco Polo, II, 239. Pode-se acrescentar que as cartas portuguesas do século xvi, tais como as de Homem de 1554, de Dourado de 1568-80, e outras mostram claramente que Chincheo é Chang-chou, situado na extremidade interior de uma baía salpicada de várias ilhas. A grafia do Cliancheo de Pires sugere um pouco Chang-chou. A carta de c. 1540 é a primeira em que encontro C. de chimcheo; o globo de Mercator de 1541, reproduzindo uma carta portuguesa mais antiga, tem também C do Chimcheo. Cartas mais recentes têm chimcheo ou o chimcheo inscrito na extremidade da baía. (371) A carta catalã de 1375-81 é a mais antiga a representar a Hainan Island, que é chamada caynam, por influência do Cheynan de Marco Polo. A carta de Cantino tem uma ylha ana na extremidade do que pode corres¬ ponder ao golfo de Cheynan de Polo com Amu num lado (que em alguns textos é Ania); mas nem Ana, nem Amu podem ser Hainan. Uma das cartas de Rodrigues (foi. 38) indica o golfo de Tong-King, com Hainan devidamente colocada a leste da entrada do golfo; na península de Lei chou está escrito nam llimom. Nam está em vez de Hainan. llimom deve corresponder a King-Mên ou Lin-mun (pronúncia cantonesa), que significa «portão da cordilheira», nome de uma povoação em Hainan. Num Lexique gêogra- phique des noms de lieux du Lei-K'ioung Tao, publicado por Cl. Madrolle, encontra-se «Ling-Mên. — Porte de la montagne. Ling-Moun (cantonais); Neing-Moun (local). Bourg dans la région montagneuse de Hai-nan, dis- trict de Ting-an, hien». Hai-nan et la côte continentale voisine, p. 113. Lei K’ioung Tao, ou Lei-ch‘iung Tao, é o circuito (tao) compreendendo as regiões (fu) de Lei chou, i.e., a península de Kuang-tung oposta a Hainan, e Ch'iung chou, a parte norte da própria Hainan. Lei chou e Ch’iung chou foram assim designados durante as dinastias de Ming e Ch’ing. Ting-an é um
ESTAMPA XXXIII Esboço dc Francisco Rodrigues (foi. 40) da entrada do Rio Cantão e provavelmente Pequim. 26 \
ESTAMPA XXXIV Esboço dc Francisco Rodrigues (foi. 41) da Costa Nordeste da China, com uma ilha Parpoquo. que talvez corresponda ao Japão.
A Suma Orienta! 361 ao mar Perto omde se pesca o alJofar he gram ssoma delle & //. A cidade de quamtom (372) he omde o Regno todo da china Descarregua suas mercadarias todas E asy da terra firme como do mar mujtas a cidade De quamtom he a boca da foz de huu gramde Rijo que tem De prea maar tres bracas & quat0/ a cidade que se vee da foz esta asemtada em terra chãa sem momte tem toda a casaria De pedra & çerqada de muro q dizem distrito (hsien) a sul da cidade de Ch'iung chou, possivelmente nas encostas ocidentais da montanha Ch’iung. As cartas de Ribeiro de 1527 e 1529 têm C. daytam — erro óbvio de cópia de alguma carta portuguesa anterior — escrita numa peninsula que corresponde à Hainan Island, que aparece como prolongamento da península de Lei chou. O mesmo acontece na carta de c. 1540, que tem Y. daniã, e junto dela a tinhosa. O Golfo de Tong King está claramente bem desenhado nesta carta, muito melhor do que nas cartas posteriores do século xvi. A carta de 1554 de L. Homem, o atlas de 1563 de Luís representam Hainan como uma ilha separada, mas sem nome; con¬ tudo, têm /. tinhosa. Dois relevos unidos por um istmo de areia formam a ilha ainda chamada Tinhosa ou Tai chau, separada do costa oriental de Hainan por um canal com a largura de três milhas. Tinhosa que fornecia bom abrigo e provisões de água, lenha e pesca era um porto de escala quase obrigatória para os navios que navegassem para e de Cantão ou qualquer outro porto mais para norte. Isto acontece ainda hoje em certa medida. Cf. China Sea Pilot, III (1923 ed.). (372) Este é o mais antigo documento, conhecido, em que aparece Cantão, a forma moderna do nome da grande cidade ao sul da China. Tinha sido mencionada como Hânfu (provavelmente = ao chinês Kuang fu. i.e. Kuang [chou] fu) por Sulayman, e Sin-ul-Sin por Idrisi, no século xn, e como Sinkalán por Ibn Batuta, e Censcalan (Chinkalan) por Frei Odorico, no século xiv. Uma das cartas de Rodrigues (foi. 40) representa o Rio Cantão. Vide nota sobre Pulo Tumon, p. 362. As primeiras cartas a registar o nome Cantam são, contudo, as de Ribeiro de 1527 e 1529. Pensava-se, até recen¬ temente, que a viagem de Jorge Álvares num junco até ao rio Cantão, a primeira visita portuguesa à China, fora em 1514. Há, porém, vários documentos que provam categoricamente que a viagem de Álvares se rea¬ lizou em 1513. Pires também confirma o ano desta viagem quando, ao escrever antes ou nos começos de 1514, menciona a China como um dos «lugares homde os nosos Juncos e naãos foram» (foi. 177r).
362 Tomé Pires que he De sete bracas De larguo E outsa tamtas dalto E da bamda da cidade Dizem que he alcamtilado ysto dizem luçoês q Ja alij estiuerom & tem portos homde estam mujtos Juncõs Gram- des vigiase a çidade fechamse as portas sam fortes estes Reis q disemos que tem sellos quamdo seus embaxadores fazem a mercadaria em a cidade Demtro E senom fazem fora obra de xxx13 leguoas De quamtõ & de quamtom lhe leuam a mercadaria De quamtom a cidade huus dize q ha quoatro meses de amdadura E outs° dizem quoatro E out°s asy a verdade he q em vinte dias a bõm amdar podem amdar ho ditõ camjnho//. Ylhas Aquem De quamtom pa malaq3 trimta leguoas estam huuas homde Jlhas Junto com a terra firme de namtoo (373) homde estam ancora os p0rt0s ja Detremjnados De cada nação .s. pulo tumon (374) os Juncos De _ malaq"! (373) Nantoo ou Nanió, como é designado por outros escritores por¬ tugueses antigos, é Nan-t’ou ou Nam-t’au (pronúncia cantonesa), «impor¬ tante povoação no distrito de San On [Hsin-an] precisamente fora dos actuais limites britânicos». J. M. Braga, The 'Tamão' of lhe Portuguese Pioneers, pp. 428, 429. San On, segundo Braga, é o distrito de Hsin-an que se cha¬ mava antigamente, e se chama ainda, Pao-an. Nan-t’ou é: ou (a) o dis¬ trito de Pao-on ou (b) o posto militar «no distrito de Pao-an». Vide nota a seguir. (374) Pulo Tumon, Timon, Tamon e Tamão ou Ilha da Veniaga (Ilha do Comércio) dos antigos escritores portugueses foi durante muito tempo identificada com a Ilha de Sanchuan, mas de maneira tão pouco convincente que o problema tem provocado sempre uma boa dose de controvérsia. J. M. Braga demonstrou mais recentemente que Pulo Tumon é a Ilha Lin Tin, que fica mais ou menos a meio do Chukiang, o Cantão, ou entrada do (Pearl Rivcr) rio das Pérolas, mais próxima da margem norte. Parece provável que o Tumon ou Tamão dos portugueses corresponda a T’un-mên ou Tuen Moon O, antigo nome chinês de um ancoradouro ao largo da Ilha Lin Tin, cuja pronúncia cm cantonês tem som semelhante à versão portuguesa. «Este seria o nome dado a todo o ancoradouro e os portugueses poderiam ter muito facilmente aplicado o nome do ancoradouro à ilha ao largo da qual eles ancoravam». The 'Tamão' of lhe Portuguese, p. 431. O Prof. Moule diz-me, contudo, que «um dicionário geográfico recente, c de uma maneira geral, digno de confiança, (Ku chin ti ming ia tz'u lien) dá Nan-t'ou como nome da cidade do distrito de Pao-an no continente. T’un-mên
A Suma Oriental 363 E out°s E tamto que os ditos Juncos ali amqorã ho sõr de nantoo ho faz saber a quamtom & vem Iloguo mercadores estimar a mercadoria & tomã seus drrtos como se dira ao Diamte entam lhe trazem a mercadaría feita de huua pte he da outra tornase cada huu pa sua casa// Afirmam que todos os que trazem mercadarias De quamtom aas Jlhas ganhã tres qatro cimquo p° dez E os chijs tem este costume asy por lhe nom tomarem a terra como po Receberem os drrtos das saidas Das mercadarias alem da emtrada E o pincipall he p° medo de lhe nom tomarem a cidade por que se diz q he Riqa cidade a de quantom he vê cosairos mujtas vezes Jumto com Man" dos capitãees da terra he mar em quam- tom/l (também chamada Pei-tu) é o nome de uma ilha ao sul de Pao-an; e havia um posto militar chamado antigamente T’un-mên, mas na dinastia Ming chamava-se Nan-t’ou, que ficava no ancoradouro ou enseada sudeste de Pao-an. Assim, o texto parece estar correcto ao chamar ilha a Tumon e é mais provável que o porto fosse nomeado de acordo com a ilha do que vice- -versa. O «Senhor de Namtou» pode ser o magistrado de Pao-an (= Nan- -t’ou), ou o comandante da guarnição no posto militar de Nan-t’ou». Mais à frente Pires diz que Tumon é 20 ou 30 léguas distante de Cantão (Correia e Castanheda dizem 18 léguas): A Ilha Lin Tin fica na realidade a cerca de 65 milhas ou 20 léguas de distância de Cantão, pelo rio. Pires diz também que Tumon fica a uma légua (3.2 milhas) de Nant'ou, no continente. A dis¬ tância mais curta entre Lin Tin e a Península de Nan-t'ou é cerca de cinco milhas. Castanheda, Barros e Góis dizem que Tamão ou Tumon distava três léguas do continente, mas como o ancoradouro ficava no lado ocidental da ilha e Nan-t’ou fica a oriente, a informação de Pires não é tão inexacta como parece à primeira vista. A carta de Rodrigues (foi. 40) é a primeira a mostrar esta ilha, mas tendo apenas a inscrição: «ao largo desta ilha ancoram os juncos da china», referindo-se aos juncos que iam de Malaca para o rio Cantão. Estava situado mais junto à margem norte de um grande rio, que tem escrito na sua foz: «a foz do estreito da china». Não conheço nenhuma carta com o nome Tumon, ou parecido, embora Jlhas da veniaga e Jlhas de Cantam, que incluem Tumon, apareçam pela primeira vez na carta de 1554 de L. Homem. A informação de Pires prova que Tumon, antes de ser o ancoradouro dos navios portugueses, já era o ancoradouro dos navios vindos de Malaca; nisto é confirmado pela carta de Rodrigues.
364 Tomé Pires Foi. /6/v. Merca¬ dorias q valem na china q vam De malaq° ella he capitam desta cidade hi taão (375) pa pinçípall E cadano he huu capitam por hordenamca Do Rey & nom pode maís estar haa out° capitam Do maãr casy como ho da terra com Jurdicam sobre sy ambos sam mudados caDano//: Dizem que os chijs fezerom esta hordenamça de nom poderè hir a qmtom por Reçeo Dos Jaaos & malaios que he çerto que huu Jumco Destas naçoees desbaratam vinte Juncos De chijs Dizem que a chyna he de mais De mjll Juncos que cada huu trata homde lhe bem vem mas he Jemte fraqa & segumdo ho medo que tem a malayos he Jaãos bem certo sera que huua naão De iiije tonees faria despouoar qmtom a qll Despouoada teria a china gramde perda// Nom tiramdo a groria a cada terra bem parecem as cousas de chijna serem de terra homrrada & boa & Riqa mujto & pa o soJugar o guouerfiador De malaqa a obidiencia nosa avija mester nom tamto como Dizem por que he Jemte mujto fraca he ligeira De desbaratar E afirmam as p“® capitãees que mujtas vezes forom la que com Dez naãos soJugaria ho goVrnador das Jmdias que tomou malaca toda ha china nas beiras Do maãr// E a chijna pa as nosas naaos he viaJem de vinte dias ptem Daq na fym De Junho pa boa viagem e em xb Dias Jram com vemto De mouçam Da chijna ha noua memte navegacã pa burney & dizem q vam Iaa em qnze dias & q Ysto sera sera De qujmze annos a esta pte//. A pimcipall mercadaria he pimemta De que comprarã dez Juncos cadanno se tamtos la forè De crauo noz pouqa puçho cacho mais alguã cousa/ emcemço compraram mujto Demtes Dalifamtes estanho lenho aloêes de butiqa cõparã mujta camfora De burney comtaria Vrmelha samdallos brancos brasyll Jmfimdo paão do que naçe em syngapura preto compra mujtas alaqueqas (375) Hi Taão, i.e., o Hai Tao, oficial encarregado da defesa da costa. Chang (p. 54) diz que era o comandante da frota de Cantão. Parece que Pires misturou as informações obtidas.
A Suma Orienta! 365 De cambay® chamallotes escarlatas panos De laas De corês Deixamdo a p,a todo o all sam cousas De benese// Vam hos ditos Juncos De malaq3 amcorar a Jlha de tumom como Ja he ditõ xx,e leguoas De quamtom estam estas Jlhas Junto com a terra De nantoo huuã leguoa alamar Da terra firme alij amcorã os De malaqa no porto de tumom & os de siam no porto De hucham(376) o noso porto he mais perto pa a china tres leguoas q ho de syam E prneiro vem as mercadarias a elle q hao out°// Ho sõr De namtoo vemdo os Juncos faz lloguo sabr a quam¬ tom como sam Juncos emtrados nas Jlhas saem hos estimadores de quantom a estimarê as mercadorias Recebem seus drrtos trazem mercadaria tanta q abasta/ casy a terra estaa em costume De tamto valler tanto sabem De vos as mercadarias que queres E trazem as// De pimemta pagam vimte por cento De brasill cimq°emta por çento & do pão de sijmgapura outro tamto & ysto estimado tamto poderá ter huu Junco soldo a liura Recebem seus drrtos Das Das outas mercadarias a dez por cemto E nom vos fazem apresam tem Vrdadeiros mercadores em seus tratos sam gram- dememte Riqos todo seu emtemto he pimemta vemdem seus mamtimentos onesta memte Despachados tornase cada huu a sua terra a Jemte baixa he pouco cheguada a Vrdade E as cousas baixas de seus ofíçíos sam toDas falsas E comtra feitas// A china he o nome De cem cates chamase piquo entam fazes voso preço qmtos piquos De pimemta por huu de seda ou qmtos de tall mercadarias por huu De p,a E asy hee E no almjzqr qmtos cates De pimemta por huu dalmjzqr alJofar o picoll (377) tem cem cates cada cate tem dezaseis taêes cada Drrtos na china aos mer¬ cadores q vam De mala- qita/l. pesos da china gramdes & peqnos (376) Talvez algumas das ilhas que formam ou estão contiguas ao canal Lantau, tais como Chung-chou, que fica cerca de quatro milhas e meia a sul de Lin Tin, na dirccção do mar. (377) Piquo ou pico, picoll ou picul malaio e javanês, «um carrega¬ mento de homem», nome dado ao peso chinês de 100 catties, igual a 133 '/s libras ou cerca de 60 kgs.
366 Tomé Pires Manti- mtos da- Roz triguo carnes g°‘ pescados/ Foi. I62r. Merca¬ dorias q vem da chyna. taell tem Dez mazes cada maz(378) tem dez pon/ cada cate tem vimte & huua onça de noso peso cada trezemtos doze cates de vimte E huua omça fazem huu baar de malaqa Da Romãa pequena//: todas estas mercadarias se vemdem a peso .s. tamtos pesos de tall por huu De pta & os mercadores quamdo a leuam haa na terra amtre elles tamtos pesos De tal mamtimemto por huu de caixas De fuseleira q corre na terra como ceitis E nas merca¬ dorias gramdes & outsa compras ouro E prata p° moeda// A primçípall mercadaria da chyna he seda branq® crua em muj,a camtidade & sedas soltas De cores mujtas em camtidade çetijs de todallas cores damasqos em Rolados de tauoleiro De todas as cores tafetas & out°s panos De seda Rallos a que chamã xaas (379) & doutas sortes mujtos de todas corres aljôfar gramde copia De diuersas feições polia mõr parte Desyguall trazem também Redomdo E groso he esta a meu parecer he tan pincipall mercadaria na china como a seda posto que elles contam a seda por cabeça de mercadoria/ almjzqr em poo & em papõs mujto & bom certamemte/ que nom Dcue nada ao de peguu// camfora De botica em gramde camtidade abarute pedra vme selitre emxo- fre cobre ferro Rujbarbo & todo nom vali nada/ o que ate o (378) O valor do ma: era variável nos diferentes paises do extremo- -oriente. Maz ou «mace era adoptado na linguagem dos comerciantes euro¬ peus na China para denominar a decima parte do liang h'inês ou lael de prata». Hobson-Jobson. s.v. Vide nota pp. 263-4. Pires indicou estes pesos com perfeita exactidão. Caiiy é o Kati malaio, lael (através dos portugueses), o tola indiano, mace o masha indiano e pon o fên chinês (também chamado can- dareen do malaio Kondrirí). (379) Xaas, sah ou shash, do árabe shãsh, musselina — «tira de fino tecido usada enrolada à volta da cabeça como um turbante pelos orientais». Oxford English Diclionary, s.v. Sash. O Prof. Moulc diz-me, contudo, que o sba chinês «gaze» é, pelo menos, tâo antigo como a dinastia Han (206 a.c.- a.d. 200). O i de xaas na versão de Pires é provavelmente um plural. Haverá alguma conexão entre o arábico shash c o chinês sba? Aparente¬ mente não; mas xaas (se o sé plural) poderá ser simplesmente chinês.
A Suma Orienta! 367 presemte tenho visto vem podre Dizem q damtes vinha fresco eu o nom vy vasos de cobre de fuseleira tachos de ferro ffundido bacios bacias Destas cousas sem numero cofres avanõs agulhas De cem maneiras Delias mujl° sõtijs & bem obradas em abas¬ tança he boa mercadarja E cousas mujto De baixa sorte como de framdes vem a portugall manjlhas de cobre Jmfínjdas vem ouro & prata E nom vy mujto & brocados a sua gsa mujtos De porcelanas nom se fala no numero/ Destas cousas que da china vem delias sam da terra da china delias de fora de huuas de lugares nomeados mjlhores q dout°s Destas taes mercadarias empregaes nas q queres voso Dinheiro somemte no almjzqr nom se acha tamto// Dizem que poderá vijr cadano atee huu baar da china entodollos Juncos/ tem gramdc camtidade dacuqr aterra da china he bom// ay huu lugar q se chama xamçy ê qe ha hy almizcar tê pouco & bom (In the margin in the same hand:) "a çidade de q veê o almizqare se chama xãnbu a qal he na chyna &•// dizê q è çançy (380) ha as alymaryas de q tira o almizcare”. vem os ditos Juncos da china a malaqa E nom paguam Drrtõs somemte presemte & estes presemtes asy os dam segumdo for hordenanca Dos xabamdares das taes naçoees xabamdar (380) xamcy ou Çançy ambos parecem representar a província de Shensi, cujos caracteres se pronunciam Shansi. Em inglês escreve-se Shensi para indicar a província no noroeste da China a fim de, simplesmente, dis¬ tinguir esta da província Shansi no norte da China, separadas pelo Yellow River (Rio Amarelo) que corre no sentido norte-sul. O Prof. Moule diz-me que isto c devido a antigos missionários — portugueses (?) e certamente franceses — para quem Chen c Chan davam conveniente diferença sem alte¬ rar seriamente o som. xanbu pode muito bem ser Si-an-fu, capital de Shensi, o Kerjanfu de Marco Polo (II, xli), que faz realçar a sua importância como uma «cidade de grande comércio e indústria». Vários escritores antigos referem-se ao almiscar da China como vindo das regiões vizinhas de Shensi, tais como da província Szechwan e do Tibete. Vide Yule, Marco Polo, i, 279, ti, 35, 49: Cathay, t, 246, 316, etc.
368 Tomé Pires da china lequios & cauchy champa era o lasamane & deste oficio sam Riquos hos xabamdares porque Despeitam os mercadores gramdememte & por os ganhos serem grosos tudo seportam & também por a terra estar è costume de aasy fazer E ssoportar// Os postos das mercadorias a seda bramca crua he de chan- cheo sedas de cores de cauchy damasquos cetijs brocados xaas loos(381) De namqim (In the margin in lhe same hand:) "neste nanqm a todolos panos dalgodã& gramdes mercadores ha de peqim a nãnqy por Rios hu mes damdura & ”& damqm (382) alJofar de aynã camfora de botica De chamcheo & porque os postos nom satisfazem porque as taes mecadorias té seu conhe- cimemto a vta nom vou por aq1 mais discorremdo// O sall he gramde mercadoria amtre os chíjs Da china se espalha pa estas partidas & he trato De qujnhemtos Juncos que o vem comprar & da china se carrega pa out°s cabos sam os tratantes delle mujto Riquos E amtre sy dizem a out°s/ soes vos mercador de sal pa falardes//. Alem do porto de quantom esta outro porto que se chama oquem (383) he amdadura p° terra De tres dias E por mãr huu (381) Crooke, numa lista de Madrasta de 1684, faz referência a «loes, padrão de flores douradas» que se supõe ser um «nome inventado na ocasião para descrever algum tecido de seda trazido das ilhas de Liu Kiu». Hobson- -Jobson, p. 514. Mas, sem dúvida, a palavra existiu realmente; tanto a província de toes em inglês, como a de loos em português têm o mesmo valor. O chinês lo significa «seda grosseira». O s do loos de Pires pode ser o plural português, tal como em xaas. O Dr. Lionel Giles sugere que a palavra loos poderia ser derivada do chinês lo-ssii, significando uma espécie de seda fina. (382) Damqm ou de Amquem poderiam sugerir o Unken — ou Vnquem de Marco Polo, como aparece no primeiro Marco Polo português (Lis¬ boa, 1502). Unken, contudo, não tem sido identificado com nenhum nome similar chinês, por isso a semelhança ocasional de Amquem não parece ter muito significado. Esta parte da costa chinesa chama-se costa de ucheu na carta de Homem de 1554. Vide nota sobre Foqem, pp. 371-2. (383) Oquem corresponde a Foquem ou Fukien. O Prof. Moule diz-me que o som local de Fu é Hok, com um h que poderia facilmente ter caido, tal como aconteceu com o h de Hainan. O viajante italiano Francesco
A Suma Oriental 369 dia & huuà noite este he o porto dos lequjos he Doutas nacoees mujtos portos tem alem q sera largua cousa De comtar que ao presemte nom fazem em noso caso somemtc atee qintom porq esta he a chaue do Reino De chyna//. Dizem que na terra De china amda a Jemte da tartaría E chamanlhe tartall & a tall gemte he bramca mujto De barbas Ruyvas amdam a cavallo sam guerreiros he Dizem que da china vam a terra dos tartaros em dous meses & que na tartaria traze cavallos ferrados com ferraduras De cobre & ysto deue ser porq a chijna vaise estemdemdo a bamda Do norte E bombardeiros nosos Dizem que em alemanha ouuijrom Ja dizer daquella gemte & de huua cidade q hos chijs nomeam q se chama (384) E que lhes pareçe q poderam hir pola tall via a suas terras em pouco tempo & afirmano mas a terra por Rezam do frio Dizem q he despouoada ha certos lugares amtre os chijs & os tartaros sam os guores (385) & despois da tartaria Roxia dizè os chijs//. E porquamto alem da china na terra Firme nom se sabe ao f0/. I62v. presemte aq1 mais terras com q malaca trate faço pomto (386) (...direij das ...nas as qaes ...è camçy & ...s// & as ...adamasca ...faze em cauchy chyna & di vê a malaqa ...outro cus ...a se nõ fa ...uns dizê ...zè de pedra ...re outros ...e fazem ...a q ...pedra q he ...& branca e o ...e// & as ...as de porçe ...finas como ...s & louça ...te se fazê ...de forma ...//) daquj por diamte Carletti trouxe para a sua pátria, cm 1603, um atlas chinês em que Fukien foi copiado por ele como Ochiam. Cf. Moule, A Note on the Chinese Atlas in tlie Magliabecchian Lihrary, p. 393. (384) Que se chama ou q se chama, como aparece no manuscrito. É possível que Pires escrevesse uma ou mais palavras, correspondendo ao nome chinês, para uma cidade da Tartária, que o copista transformasse cm q se eliama. (385) Quem eram estes guores? Neste caso dificilmente seriam os lequeos. O Prof. Moule interroga-se se não seriam os mongois (moguors). (386) Uma linha aqui marca o começo dum aditamento (entre paren- teses acima) ao texto, escrito na margem pela mesma mão. O códice foi brutalmente aparado ao encadernar, tendo sido cortadas parte das palavras.
370 Tomé Pires se falara das Jlhas & somente daquelas com que malaca navegua porque se de todas ouuese de dizer nunca acabaria por Rezam da ymfynjdade delas / E aguora se dira dos lequjos & Jampom burneus & luçoees// [L1U KIU] la Ylha Os lequeos chamanse guores por quallqr destes nomes (387) dos sam conheçidos lequíos he o pnçípall he o Rey gemtijo & toda lequeos/ (387) A mais antiga referência europeia aos gores está numa carta escrita, cm 6 de Fevereiro de 1510, de Malaca para Albuquerque, por Rui de Araújo que tinha sido feito prisioneiro quando do traiçoeiro ataque contra os primeiros portugueses que ali foram em 1509. Alguns Documentos, p. 223. Ferrand menciona dois manuscritos árabes, datados respectivamente de 1462 e 1489, em que a ilha Ghur é referida como significando Liu-Kiu ou For¬ mosa (L'ile de Ghur = Licou-K'icou Formosa). Segundo Ferrand, o MS. de 1462 diz: «Parmi les iles célebres [du monde habité], on compte 1’ile de Likyu, qui est généralcmcnt connue sous le nom de Al-Ghur»; o MS. de 1489 tem: «On y trouve des mines de fer [appelé] al-ghuri... Son nom en langue djawi (neste caso o chinês) é Likiwu». Malaka, II, 126 seqq. Isto explicaria a associação do nome gores com lequeos. Tanto quanto sabemos, os primeiros europeus a visitar as ilhas Lequeos foram Fernão Mendes Pinto, Diogo Zcimoto e Simào Borralho, quando foram ao Japão em 1542. Pere¬ grinação, cxxxit. Alguns meses mais tarde Pinto foi outra vez da China às Lequeos, onde naufragou: dá uma descrição da Ilha Lequia e das suas aventuras ali no cap. cxxxvii-cxlvii do seu famoso livro. C. R. Boxer supõe que os gores que foram para Malaca, como está mencionado nos Comentários. foram tidos por japoneses. Some Aspects of Portuguese Influence in Japan, 1542-1640, p. 14. Crawfurd, Dictionary, s.v. Japan. Dcnucé diz que gores é um «nom d'originc probablemcnt chinoisc et qui parait dériver de Coriai, les Corécns» (Magellan, p. 164); segundo Chassigneuse, durante a primeira metade do século xv numerosos coreanos procuravam refúgio no arquipélago de Liu-Kiu. Pica de Oro et Rica de Plata, pp. 76 seqq. Qualquer que seja a origem da palavra gores, Pires foi o primeiro europeu a identificá-la com os lequeos, ou os habitantes do arquipélago Liu-Kiu, nome chinês para as actuais ilhas japonesas Ryukyu ou Loochoo. A Formosa é, contudo, incluída entre estas ilhas nas velhas cartas chinesas e cm algumas cartas antigas por¬ tuguesas; c muito do que se disse aqui parece referir-se mais à Formosa do
\r: ESTAMPA XXXV Esboço de Francisco Rodrigues (foi. 42) de uma ilha que deve representar a Formosa.
ESTAMPA XXXVI Carta de Francisco Rodrigues (foi. 35) mostrando a extremidade oriental de Samatra. a extremidade ocidental de Java, a extremidade sudoeste de Borneo, e a Ilha Banka.
A Suma Oriental 371 a gemte/ he vasallo do Rey dos chijs trebutarjo/ a Jlha sua he gramde he de mujta Jemte tem nauetas pequenas a sua guisa Juncos tem tres ou quoatro q comtinoamemte compam na chyna E nom tem mais tratã na china e em malaqa E as vezes em com¬ panhia dos chijs/ as vezes por sy na chijna tratam no porto de foqem (388) q he na terra da chijna Junto De quamtom naue- quc propriamente a Loochoo. Na sua carta de 10 de Agosto de 1518, S. P. Andrade diz: «Há no mar [longe] da índia outras terras, que sào ilhas chamadas as Ilhas dos Lequeos, que chegam até aos tártaros, onde há grandes minas de ouro e todas as mercadorias que existem na China, ao largo [da costa] das quais ficam afastadas duzentas léguas; sáo gente branca como os germânicos». Torre do Tombo, Gaveta 15, Maço 17, N.° 27. Sobre a representação das Lequeos nas cartas de Rodrigues (ff. 39, 42), vide Apên¬ dice ii. As cartas de Ribeiro, de 1527 e 1529, têm a ocidente da Ilha Para- gua, a inscrição: «estes baixios têm canais através dos quais os lequios vão para Bornéu e outras partes». A carta de Penrose tem à volta uma quanti¬ dade de ilhas chamadas as lecqaas a oriente de Cantão, entre 17° e 20° (lati¬ tude correcta 24° — 30° N.). A carta de Homem, de 1554, tem a oriente de 1. fremoza um grupo de três ilhas chamadas Ilhas dos lequios, e a nor- -nordeste destas uma outra ilha chamada lequios; além disso, todas estas ilhas e um vasto arquipélago imaginário para o oriente são chamados, em letras grandes. Os lequios. Os atlas de Homem, de 1558 e 1568, têm uma representação similar, excepto para o arquipélago imaginário e as letras grandes a nomear o conjunto. Os atlas de Luís e Dourado têm um grupo de três grandes ilhas, na direcção SSW-NNE, que parece corresponder à Formosa, sendo chamada a mais a norte, lequio pequeno; mais para nordeste outras ilhas correspondendo ao grupo Tsubu Shoto, chamam-se lequio gramde; entre os dois grupos há algumas ilhas pequenas chamadas Reis magos, correspondendo ao grupo Nambu Shoto, a norte de lequio gramde está a I. do fogo, e correspondendo a Nakano-shima ou Suwanose-shima, duas ilhas com vulcões activos. As ilhas Reis magos e I. do fogo aparecem pela primeira vez na carta de 1554 e depois noutras atrás mencionadas. (388) Foqem ou Foquem deve ser. certamentc, Fukien a capital, da qual Foochow é a capital e porto principal. Mas o porto em questão não é necessariamente Foochow, que fica a alguma distância acima do River Min e que seria menos conveniente para os comerciantes do que lugares como Amoy, por exemplo. A distância de Cantão para o ponto mais pró¬ ximo da costa marítima da província Fukien é de 350 milhas por mar e cerca
372 Tomé Pires gaçam De huu dia & huuã noyte Dizem os malaiõs aa gemte De malaca que de purtugueses he llequjos nom ha deferêça somemte que os purtugueses compram molheres o que os leqos nom fazê//. os lequjos tem cm sua terra somemte tríguo E aRoz & vinhõs a sua gijsa carnees pescados em gramde avomdança são homèes gramdes debuxadores he armros fazem os cofres dourados avanos mujto Riquos & bem obrados espadas mujtas armas de todas sortes a sua guisa asy como falamos è nosos Rcgnõs em mjlam falam os chijs & todas naçõees nos lequjos sam homees de mujta Vrdade nom compam espauos/ nem vemdem huu homem dos seus por todo o mundo E sobre ysto poderam morrer// Sam os lequjos Jdolatríos se nauegam & se acham em for¬ tuna dizem q escapãDo compram huuã moça fremosa pa sacreficio & deguolana na proa do Jumqo com outas cousas semelhantes a estas sam homees bramquos bem vestidos melhor que os chijs mais autorizados nauegam estes na china & trazem as merca¬ dorias q vão de malaq® a china & vam a Jampon que he Jlha de sete oito dias de nauegaçam e Resgatam ouro cobre que ha na dita Jlha polas mercadorias sam os leq‘os homes q liberall- memte fiam sua mercadaria E ao Recadar se lhe memtem aRe- cadana com a espada na maõo// de 250 milhas por terra em linha recta. Foochow é ainda 250 milhas mais longe. Por outro lado, o grupo principal das ilhas Liu Kiu está à distância de 500 milhas, na mesma latitude que Foochow, que parece apontar para este importante porto chinês, ou algum outro porto da província Fukicn, como o mais provável a ser frequentado pelos lequeos. Além disso, nas suas duas cartas escritas de Cantão em 1526, Vasco Calvo refere-se ao comér¬ cio dos lequeos com Fukien, mas não menciona Cantão (pp. 156, 163). Parece que Pires baralhou as informações recebidas e que o seu Amqm, Oquem, e Foqem correspondem a Fukien, talvez Foochow, que é designado Fucheo por Pinto e nos atlas de Luís e Dourado. É curioso que o mapa- -mundi de 1569, de Mercator, e o Atlas de 1570 de Ortelius têm um lugar chamado Fuquian, junto da costa, mas não porto de mar, entre Cantan e •Chinchco.
A Suma Oriental 373 A pincipall he ouro cobre & armas de todas sortes cofres caxonjas de folhaJes douro avanos triguo E ssuas cousas sam bem obradas ouro trazem muito sam homees De Vrdade mais que os chijs he temjdos trazem gramde soma de papell & seda de cores traze Almjzqr porçelanas Damasquos trazem cebolas & legumes mujtos//: leuam as mercadarias que os chijs leuam partem daquj em [em branco] E cadano vem a malaca huu dous tres Juncos & leuam mujta Roupa de bemgalla Amtre os lequjos he mujto estimado o v° de malaqa carre¬ gam delle gramdememte de huu q he como agoa ardemte com que os malayõs se fazem amoquõs trazem os lequjos espadas de preço de trinta cz*108 cada huuã & destas mujtas// [japão] A Jlha de Jampom (389) segundo todos os chijs dizem que he mõor que a dos lequíos & o Rey mais poderoso & maior (389) lampon é apenas um dos muitos nomes do Extremo-Oriente que se encontram pela primeira vez numa forma europeia na Suma de Pires. Dahlgren, seguindo Teleki e Gezelius, escreveu em 1911: «La première fois que le nom du Japon (Giapam) se retrouve cn Europe, est sur la carte de Gastaldi de 1550. Les débuts de la Cartograpliie du lapon, pp. 13-15. Yule (Hobson-lobson) que menciona uma ilha Saponin, para onde o rei de Cali- cute enviou um navio à procura de alguns instrumentos astrológicos; ele julga, embora aparentemente sem qualquer fundamento, que a ilha em questão era o Japão. É extraordinário que entre as datas de Pires e Gastaldi nenhum documento existente mencione a palavra Japão. Segundo Yule, «o nosso lapão foi provavelmente tirado do malaio laptin ou lapáng». O «Chipangu de Marco Polo representa o Jih-pen-kwé, reino do Japão, o nome Jih-pên [à letra raiz do sol, nascer do sol) c de pronúncia chinesa». Marco Polo, II, 256. Vide Crawfurd, Dictionary, s.v., Japan. Deste modo a origem do lampon de Pires é óbvia. Sobre a possível representação do Japão na carta de Rodrigues (foi. 41), vide Apêndice II. A carta de Homem de 1554 é o primeiro documento português em que a palavra japam aparece depois de Pires. A primeira carta especial do Japão por um europeu encon- IIMerca- dorias que os lequeos trazem a malaq*/ l/Merca- darias q leuam de malaq• p" suas terras! í Ylha de Jampon 27
374 Tomé Pires & nom he dado a mercadaria nem seus naturães he Rey gemtío vasallo do Rey da china tratam na chijna poucas vezes por ser lomge & elles nom terè Juncos nem serem homees do maãr//. os Iequjos em sete oito dias vam a Jampon & levam das ditas mercadorias he Resgatam ouro & cobre todo o que vem dos lequeos trazem os leqos de Jampon he tratam os lequeos com os de Jampon em panos lucoees (390) & outas mercadorias/ [bornéu] a Jlha de Burney sam mujtas Jlhas grandes & pequenas (391) cassy humey todas sam de Jemtiõs somente a primcipall he de mouros ha tra-se no atlas de Dourado de 1568. Apesar de todas as controvérsias sobre os nomes dos primeiros europeus que visitaram o Japão, pode-se afirmar que os descobridores foram Fernão Mendes Pinto, Diogo Zeimoto e Simão Borralho e que a descoberta foi feita em 1542, como já provei algures. (390) Panos lucoees pode significar panos luções; mas na sua des¬ crição dos luções Pires não menciona quaisquer panos, mas em qualquer caso, não era provável que os lequeos levassem panos para o Japão. Parece mais provável que lucoees, i.e. luções, seja o plural de lucão, antiga palavra portuguesa para rede de pescar. (391) O facto de Pires mencionar várias ilhas à volta de Bornéu, e Tamjompura, Laue, Quedomdoam, Samper, Cate e Pamucã como ilhas sepa¬ radas— embora as últimas sejam provavelmente partes da própria ilha de Bornéu — indica que ele pensava na realidade ser exacto ao dizer: «Burney sam mujtas Ilhas grandes & pequenas». Na maior parte dos casos, porém, quando Pires menciona Burney quer dizer simplesmente o porto de Brunei. Sobre a representação de Bornéu nas cartas de Rodrigues (fols. 35, 36) vide Apêndice II. Na sua carta de Malaca ao rei de Portugal, de 6 de Jan. 1514, Rui de Brito escreveu, talvez depois de Pires ter escrito as suas referências a Bornéu: «burneu he ylha grande, jaz entre a china e Maluco, no golfam das Ylhas, a gente da ylha chamam-se lucoees». Carlas, iii, 92-3. Bar¬ bosa refere-sc às Ilhas de Bornéu, colocando-as também demasiado a norte, mais além da ilha de Solor (arquipélago Sulu). A carta de 1522 de Torreno tem uma ysla de burney obviamente inspirada por algum desenho semelhante ao de Pigafctta (vide nota sobre Laue. pp. 350-1) e o mesmo se aplica à carta
A Suma Orienta! 375 pouco tempo que ho Rey he mouro pareçem homès De mer¬ cadoria os mercadores sam homêes meãos nom mujto agudos estes tratam Drltamemte a malaqa cadano he terra abastada de carnes pescados arrõz & çaguu// trazem ovro E mujto baixo em qujlates mais que todo outro destas partes trazem camfora cadano atee dous tres baares De mujta valia vali o cate Dela segumdo he grosa ha cate de doze czd08 atee xxx,a coremta Descoremdo por suas sortes & bom- dades tem em sua terra mujtos mjrabulanos qebulos que trazem avemder//. trazem çera mell aRoz he çagu he mantimêmto Da Jemte baixa he mjollo de pão/ feito a maneira de comfeitõs E vali/ trazem orracas//. Nom pagam em malaqa drrtos pagam presente que la vay tèer porque quem tem carrego de os apresêtar que o xabamdar elle lhe ordena o presemte que dam//: Leuam Roupa dos qujlijs & de bemgala .s. panos emrrolados de ladrilho purauaas (392) de sortes synabafos de toda sorte/ pamchaujlizes synhavas leuam manjlhas De latom da chyna leuam matamumguo De cambaya mujto De cores E comtas margaridas peguntam por comtaria Vrmelha & com estas vam polas Jlhas Domde ha o ouro E Resgatonno pollos panos & somète pola comtarja// tem cadanno duas mouçõees pa vijr E out®s duas pa hijr vam De malaqa a burney em huu mèes E tor- Merca- darias q trazem os burneus a malaq° Foi. I63r. merca¬ dorias q leuam de malaqa pa burney de Turim de c. 1523, em que há também o porto de bruney, na isla de bruney. A maior parte das cartas portuguesas do século xvt não indicam a costa oriental de Bornéu e outras, em que a linha costeira da ilha aparece com¬ pleta, são muito fantasiosas. A primeira representação cartográfica, de Bornéu bastante exacta e completa encontra-se na carta de 1635 de Berthelot, em que a costa oriental da ilha tem a inscrição: «Esta ilha de Borneo foi circum-navegada por Pedro Berthelot no ano de 1627.» (392) Puravá ou purauaa, como Pires escreve é um pano indiano de algodão.
376 Tomé Pires Ylhas dos lu- çoies(393) nam em outro os seus Junqos parecem os burneos homeês mamsos// : [FILIPINAS] Hos luçoeès sam alem de burney obra De dez Dias de naue- gaçam sam casy todos Jemtios nõ tem Rey somemte Regemse pollos mais vclhõs em cabillas he gemte Rabusta de pouqa vallya Em malaqua nom tem Juncos atee Dous tres trazem as mer¬ cadorias a burney & daly vê a malaq8// (393) Esta é a primeira referência europeia ao Arquipélago das Fili¬ pinas, nome tirado de luções, a ilha maior, mais a noroeste. As Ilhas Fili¬ pinas são chamadas «pelos indianos Litçon, nome tirado da ilha principal que se chama Luçoit», como Pyrard de Lavai (ti, 171) diz que aprendeu com os portugueses. Galvão (p. 239) informa-nos que em Junho de 1545 um português chamado Pedro Fidalgo deixou a cidade de Borneo num junco e foi arrastado para norte por ventos contrários, onde encontrou uma ilha entre nove ou dez graus, a que chamavam dos Luções. por causa dos seus habitantes assim serem chamados. Esta viagem é registada nos atlas de Luís e Dourado, numa inscrição sobre um fantasioso desenho a que cha¬ maram Costa de luções (Luís, 1563) ou os lvcois (Dourado, 1580) que reza: costa de luções e laos omde p.° fidalgo viindo de borneo num Junco de chis e coreo com temporal ao lomgo delia foi tomar llamao (Luís; identicamente com Dourado). Deixando de parte a possível representação de Luzon pelo Llouçam inscrito por Rodrigues (carta foi. 36) como um porto na costa norte de Bornéu (vide Apêndice II), é esta a primeira vez que Luções aparece numa carta, embora a parte sudeste das Filipinas tenha já sido representada na carta de Torreão de 1522, como consequência da expedição de Magalhães. Depois desta, a carta de Penrose e a carta de c. 1540 representam muito melhor a parte sul do arquipélago, que gradualmente melhorou em suces¬ sivas cartas. Galvão dá a data da primeira visita conhecida a luções, mas é muito provável que algum outro navio português, na viagem para a China, tenha feito, anteriormente, escala em luções, ou de propósito, ou acidental- mente. O «Account of the Gcnocsc Pilot» (Leone Pancaldo) diz que, cm Março de 1521, quando a expedição de Magalhães chegou à pequena ilha de Malhou nas Ilhas Filipinas de sudeste, os indígenas informaram que «jálly aviam visto outros homes como elles», o que faz supor que, possivel¬ mente, mesmo antes de 1521, os portugueses tivessem visitado o arquipé¬ lago (edição do Cardeal Saraiva, Obras Completas, VI, 125.)
A Suma Oriental 377 Os burneos vãm as terras dos Iuçoêes Resgatar ouro E out°s mantimemtos E o ouro q trazem a malaca he dos Iuçoêes & das outas Jlhãs Darredor q sam sem comto & todos tem trato De huuãs as outras pouquo ou mujto E p estas Jlhas q tratam tem ouro De baixa sorte E muyto bayxa// Tem os luçoees em sua terra mujtos mamtimemtos E çera mell leuam daq1 as mercadorias que levam os burneos he casy a Jemte huuã & em malaq®/ nom tem apartamento antre sy Em malaq3 nom estcuerom nunca como aguora somemte ho tomunguo q aq1 fez o goVrnador das Jnidias comecava Ja a Juntar mujtos delles he faziam Ja casas & asêtos gramdememte he gemte proueitosa sam trabalhadores//. Desta Jeracam ha aguora em malaq® os fs° do tumungou E sua molher E sogra & curia RaJa & tuam braJy que casou com a molher do tumun- guo// Em mínJam avera qujnhemtos luçoees Delles homêes homr- rados & boos mercadores q DescJam vijr a malaq® E nom lhe dam licemça os De mjJam por que aguora se detremjnarom a bamda Do Rey que foy De malaca nom mujto descubertamemte Sam malaios os de mjmJam// E o porq da terra firme he comtado Des cambay® atee chyna & dalguuas Jlhas Jumto com a chijna aguora comecarey a comtar Da gramde Jlha de comotora fazê Do ho camjnho De malaca atee maluq0// A primeira sera a Jlha de comotora E aRedor de gamispola pola bamda Do canaall & tornar polia banda De panchar atee gamispola//. E despois sera o Recomtamto Da Jlha De Jaaõa & do Regno de çumda decrarãdo os portos E sres delles/ Juncos & pamgaJavas q he em cada huu// E despois da Jlha de solor & de tymor & de byma cimdaua çapee/ & despois Jmdo pa maluq0//. ect//
378 Tomé Pires Foi. 163v. Regnos na Jlha de comoto- ra (394) ! LIVRO QUINTO [samatra] Discriçam ou Recomtamemto Da gramde Riqua he populosa Ylha De camotora & das Jlhas q Daredor dela estam E falarsea Delia ao rrcdor toda comecamdo De gamispolia pollo canall E tornaindo por pamchur a gamispola. E comtarey primeiro quamtos Reinos tem Despois ha maneira de cada huu & o trato & q mercadarías ha na dita Jlha E quam gramde hee E o que ha de lamcharas & Jumcos/ Comecamdo de gamispola he o Regno dacheí E bíar lam- (394) Nesta descrição de Samatra Pires menciona, além de Gamis¬ pola c outras ilhas, dezanove reinos e onze terras: Reino de Achey e Lambry, Terra de Biar, Reino de Pedir, Terra de Aeilabu, Reino de Lide, Reino de Pirada, Reino de Pacee, Reino de Bata, Reino de Daru, Reino de Arcat, Terra de Yrcan, Reino de Rupat, Terra de Purim, Reino de Ciac, Reino de Campar, Terra de Campocam, Reino de Andarguerij, Terra de Tuncali, Terra de Jambi, Terra de Palimbão, Terra de Tana Maiaio, Terra de Çacampom, Terra de Tulim- bavam, Reino de Andallos, Reino de Piramã, Reino de Tiquo, Reino de Barus, Reino de Quinchell, Reino de Mancopa ou Daya, Reino de Menancabo. Nesta sua descrição da ilha, Barros diz: «ao tempo que nós entramos na índia, estava repartida em vinte e nove Reynos... E começando da ponta da Ilha mais ocidental, c austral, e indo rodeando-a pela parte Norte, o primeiro se chama Daya; e os que se seguem, assi como a costa vai, são Lambrii, Achem, Biár, Pedir, Lide, Piradá, Paccm, Bára, Darú, Arcat, Ircan, Rupat, Purii, Ciáca, Campar, Capocam, Andragucrij, Jambij, Palimbam, Taná, Malayo, Sacampam, Tulumbauam, Andalóz, Piriáman, Tico, Bárros, Quinchel, c Mancópa, que vem cahir sobre Lambrii, que he vizinho de Daya, o primeiro que nomeámos». (III, 5, 1). Todos estes (nomes) são dados como «reinos» embora Pires discrimine entre «reinos» e «terras». Além de algumas varian¬ tes gráficas — como Bata, que aparece em Barros como Bára — Terra de Aeilabu e Terra de Tuncali de Pires são suprimidas em Barros, Tana Maiaio é dada como dois reinos separados, e Mancopa e Daya parecem ser reinos
A Suma Oriental 379 bry ho Regno de pedir ho Regno De pirada ho Regno de paçee o Regno De bata ho Regno Daruu ho Regno De darcat ho Regno de Rupat o Regno De ciac ho Regno De campar o Reyno De tuncall o Regno damdargery o Regno De capocam ho Regno de trimtall o Regno De Jamby o Regno De palimbão as terras De çaçanpom tulimbavam andallos pirjaman tiquo panchur baruez chínqele mancopa Daya pirim este comfyna com lambry E com as Jlhas q estam Junto com gamjspolla E de ciac ate Jamby E da outra parte De piriman ate panchur he a terra De menamcabo que tem tres Reis estes sam no sertaao Da sertaao Da ylha E nesta terra De menamcabo ha huu maar .Daguoa Doçe como se dira qmdo se falar De menãcabo// Pullo piçam cariman Jlhas Dos çelates que se chamam çelaguym gim sabam buaya linga tigua pullo baralam bamca E monomby Destes se dira em seu lugãr//. Tem ouro em mujta camtidade camfora de comer De duas maneiras pimemta seda beiJoym lenho aloes De butica tem mell diferentes. O reino de Menancabo é mencionado por Barros noutros passos. Todavia, a semelhança entre as duas listas de nomes (mesmo Daru, que Barros noutros lugares escreve de Aru, é aqui indicado como Pires o escreveu) é de tal maneira impressionante, que faz sugerir que Barros usasse o trabalho de Pires, directamente ou em segunda mão. Alguns dos lugares aqui cha¬ mados reinos ou terras, eram simples povoações de alguma importância comercial, como Pedir, Aeilabu, Lide, Pirada e Pacee, numa costa de apenas oitenta c quatro milhas em linha recta. Muitos destes ou desapareceram totalmente ou sobrevivem no nome de algum pequeno rio ou aldeia sem importância. Embora Pires visitasse muitos portos na costa de Samatra, ele sabia muito pouco das terras do interior e formava a sua opinião, na maioria dos casos, pelas informações que colhia em Malaca. Mas a sua descrição não é de modo algum de menos valor. Todos os outros escritores antes de Pires, tanto europeus como asiáticos, mencionam apenas alguns lugares ao tratarem de Samatra; mesmo Barbosa, que escreveu um pouco mais tarde, não menciona mais do que sete lugares — Pedir, Pansem, Achem, Compar, Andiagao (Indragiri), Macaboo (Menangkabau) e Ara (Aru); passa¬ riam ainda dois séculos antes que fosse escrita uma descrição mais completa e exacta de Samatra. Ylhas que fazem ca¬ nal! Des cam¬ par athee palimbão por homde se nauega para Jaaõa bamDam maluco/1. Estas sam as merca¬ dorias que tem a Jlha De camatora naturaes Da própria Ylha/I
380 Tomé Pires Manti¬ mentos Da terra. Seitas E creemças Da Ilha de çomotoraU çera breu emxufre algodam mujtas Rotaãs que sam canas de que fazem estrêes serue como cairo ou esparto & serue De fijo com que atam todallas coussas Tem mujto aRoz bramco & por pillar tem mujtas carnes E pescados amtre os qees ha Savees em camtidade como azamor tem azeites vinhos mujtos a sua guisa antre os qes ha tampoy (395) como ho noso vinho casy tem fruytas em gramde numero amtre as quãaes sam os fremosos E gostosos Durjoèes mais q todas outas fruytas sem Duujda// Na Jlha de comotora alguus Reis sam mouros os mais E alguus sam Jemtiõs he na trra Dos Jemtios alguus homees custumam comer Dos Jmiguõs quamdo os tomã os Rex Da bamda Do canall Dachey atee palimbão sam mourõs & os De palimbam tornamdo a gamjspola gemtios pola mor parte & os do sertaão E que viuem Demtro sam gemtios//. (395) Tampoy é o fruto da árvore tampoi, uma espécie de Baccaurea (Euphorbiaceae) com frutos arredondados de casca grossa, poucos em cada cacho. Entre as várias espécies deste género, Burkill menciona «B. malayana King, árvore grande que se encontra em Samatra, e em partes da Península Malaia ... as tribos da selva fazem da estação da maturação dos seus frutos ocasião de festa e preparam um licor fermentado do fruto». Op. cit., p. 279. Os frutos de uma outra espécie Baccaurea Motleyana Muell.-Arg., encon¬ trados em toda a Malásia ocidental, podem também ser fermentados, dando um licor. Ibid., p. 280. Comer identifica a tampoi com Baccaurea Grif- fithii, árvore malaia. Wayside Trees of Malaya, I, 240. Dalgado (s.v.) diz que tampoi é o nome do fruto de uma árvore de Malaca. Artocarpus Gomeziana de que se faz um licor muito doce. A. Gomeziana Wall. é, con¬ tudo, a tampang ou tapang indígena, não a tampoi. Vide Burkill, p. 253. Herédia, precisamente cem anos depois de Pires, descreve a tampoi desta maneira: «E o Tampoe he outra árvore da mesma altura e tem a fruta de casca grossa de cor de canela, e no interior e concavo estão bagos doces como dentes de cabeça de alhos com caroço, e por ser doce e mais caloroso dele estilão vinho como Moscatel». Fols. 16r. 19v.
ESTAMPA XXXVII Carta de Francisco Rodrigues (foi. 25) com as Ilhas de Santa Helena e Tristão da Cunha
ESTAMPA XXXVIII Carta dc Francisco Rodrigues (foi. 114) do Mediterrâneo Ocidental
A Suma OrientaI 381 LIVRO SEXTO [malaca] Este he o primçipio da pouoacam de malaqa por Diuersos autores E a verdade se decrara do q se mais afirma/ (396) Segumdo opinjam dos Jaaõos dizem malaq11 ser pouoada nesta maneira a quall elles tem em coronjqua sua E o vereficam gramde memte. Afirmam os Jaaõos aver em Jaõa na era de mjll (396) O relato de Pires sobre a antiga história de Malaca tem muita informação inédita e, embora no essencial condiga com alguns dos outros relatos conhecidos, difere consideravelmente de todos eles. Ferrand coligiu no seu Malaka, le Malayu et Malayur o que alguns autores orientais, os cronistas portugueses (Barbosa, Comentários, Corrcia, Castanheda, Barros, Couto e Herédia) e o holandês Valentyn escreveram sobre a história antiga de Malaca; Schlegel em Geograpltical Notes, XV, Winsted em A History of Malaya, e Wilkinson em The Malacca Sultanate, ocuparam-se largamente do assunto, tentando relacionar a informação contida em The Sajarah Malayu (Malay Atmals) com alguns textos chineses e portugueses. Os Comentários são contemporâneos de Pires, mas o autor, filho do grande Afonso de Albu¬ querque, nunca esteve no Oriente; Herédia, embora nascido em Malaca, escreveu um século e Valentyn dois séculos depois de Pires; os outros autores portugueses escreveram com informações em segunda mão. Mas Tomé Pires escreveu a maior parte da Suma mesmo em Malaca, o que dá valor especial à sua informação. Poderão alguns dizer que Pires foi parcial, sobre¬ tudo na apreciação de pessoas relacionadas com acontecimentos posteriores à chegada dos Portugueses a Malaca; mas o autor de «a olla-podrida do Malay Atmals» (Winstedt, p. 35) —«o melhor registo que temos» (Wilkin¬ son, p. 69), embora escrito quase um século depois de Pires — um descendente do próprio Bendara não era menos parcial na direcção oposta. A com¬ paração destes textos com o de Pires seria muito interessante, mas não pode¬ ria ser feita neste lugar. Quem estiver interessado neste capítulo da his¬ tória do Extremo Oriente, tão intrigante como confuso, encontrará aqui um vasto campo para investigação e controvérsia. Foi. I64r. de malaca
382 Tomé Pires Sc trezemtos & sesemta annos trazemdo sua comta a nosa huu Rey na Jaaõa que se chamaua RaJa quda que qr dizer Rey dos cavallos o quall fez huu filho que se chamaua RaJa baya ou por out° nome/ sam agy Jaya baya que na linguoagem de Jaaõa quer dizer sõr gramde de pouõos este ouue huu f° que se chamou sam AJy dandan gimdoz que qr Dizer na dita limguoaJem moõr que seus amtecesores/ & este ouue huu f° que se chamou sam aJy Jaya taton que quer dizer sõr de todos. Este Sam aJy Jaya caton morreo sem filhôs E o pouo Jumto aJumtou dos pimçipãees mandaris E fezerom huu Rey & muda- ronlhe o nome/ de Sam aJy & chamouse batara que quer Dizer Rey limpo Este batara tamaríll (397) fez huu filho a que chamarom biatara curipan q socedeo ho Reino Da Jaõa no tempo Deste se aleuamtou-/ o quarto da terra Da Jaõa. E aleuamtou huu mamdarj E chamouse biatara caripanam çuda como se dira em seu luguar//. Este batara caripan em cuJo tempo se perdeo o quarto da terra de Jaõa ouue huu f° que soçedeo em seu luguar que Despois se chamou bataram matarã e este foy gramde Justiçoso//. E este fez huu f° que chamarom bataram Sínagara e este dizem que foy doudo & foy dado o Regno a huu seu filho que se chamava como ho dono bataram matarã este batarã matarãm fez huu filho que aguora ê noso tempo Regna em Jaãoa que se chama batara vígíaJa/ que quer dizer o Rey gramde sesudo cuJo capitam he o gustípate como se tratara largamemte na des- criçam da Jaoõa.//. Dizem os Jaaos q no tempo do batara tomarjll Rey das terras & sõr Das Jlhas tinha por trebutarios sam agy simgapura que era Rey daquelle canall seu tributário & vasallo/ E avera da Jaaõa a simgapura duzemtas & R,a lcguoas pamtre Jlhas//. (397) «Bataratamurcl (? Batara de Tumapel)». Winsted, p. 38. Vide nota sobre Balara Vojyaya, p. 297.
A Suma Oriental 383 E q asy era sam agi palimbaao que qr Dizer o sõr De tudo seu vasailo trebutario E avera De palimbaão a Jaõa çem leguoas/ E casy golfom he ysto na parte mais lomge porq na mais perto comfynamdo com çunda Avera vijmte leguoas/. E era seu vasailo tributário sam agy tamJompura, que qr Dizer sõr Das pedras E avera da Jaaoã a tamJompura setemta leguõas esta he a terra dos diamãtes Morto sam agi palimbaao ficou huu filho seu gramde cavai10 & ornem muyto guerreiro a que chamavam paramjcura/ que qr dizer na lingoaJè de Jaaõa palimbaão q he mais ousado era casado com huua sobrinha Do batara tamarill/ que se chamaua paramjcure (398) o quall como se vijo tam nobrememte casado E que senhoreava nas Jlhas gramdememte que comfinauam com elle & eram da obidiemçia de seu cunhado alevamtou ha vasalaJem & obidiemçia E chamouse o gramde Jsemto//. Auemdo a tall noua batara tamarill Rey da Jaaõa como Foi. I64v. sam agy palimbão mudara ho nome & se chamaua para mjçura que qr Dizer Jsemto detremjnou com seu poder E aJuda dell- RRey de tamJompura hir sobrelle & tomarlha terra De palim- baõo E o matarem & destroirem & Ysto acordado Jumtou sua Jemte em naujõs & deu sobre a Jlha de bamca q esta Jumto com palimbaão E a destroyo omde diz q matou todos por q era gemte de palimbaão E que mataria na dita ylha mjll moradores & daly foy a palimbaão que sera huuã leguoa ou duas & comecou desbaratar os lugares E quamdo paramjçura Rey de palimbaão isto vijo aJumtou ê Jumqos & lamcharas obra de mjll omêes com suas molheres e embarquoos & elle fiquou com obra de seis mjll omêes em terra pa daar bata¬ lha ao Rey de Jaaõa seu cunhado//. (398) «Paramcswara significava Príncipe Consorte e era o tratamento dado a alguém casado com uma princesa de classe mais elevada que a dele próprio». Winstedt, p. 30. Paramiçure ou Parameswari é o feminino de Parameswara. Cf. Ferrand, Malaka, xi, 414, 447.
384 Tomé Pires Emtrados na batalha de parte a parte foy fogimdo paramj- çura E Recolheose aos Juncos & frota que tinha no Rijo E ficoulhe toda a Jemte q tinha pa se Defemder em poder Do cunhado & somemte a gemte q tinha embarquada com elle/ naveguou a symgapura homde cheguou com seus Juncos & Jemte domde foy Recebido do sam agy symgapura. E pousarom ambos & E do dia de sua cheguada a oito diãs foy morto ho sam agy de symgapura. p° ymdustria de paramjçura E ficou ho canall E pouoacoes a obidiemeia de paramyçura. E era sõr de tudo E guouernaua o canall & Jlhas q podia aver & aquerir p° sua ymdustria a sua maão & Regra a terra em Justiça E nom tinha trato alguu somemte semeava sua Jemte aRõz & pescauam & Roubauã dos Jmigõs & disto viujam no dito canall de sym¬ gapura//. E ellRey de siom que era sogro do sam agy de symgapura casado com huuã sua fya De huuã manceba sua. ffylha de huu primcipall mamdarj de patane// qmdo ouujo as nouas de seu Jenrro detremjnou De vijr sobre elle & fez aJuntamemto De Jemte E fex capitam mõr o dito mamdari pay da molher do sam agy de symgapura o quall veio tam poderoso que o dito paramjçura nom ousou de o espera E fogijo com obra De mjll homèes E meteose no Rijo De muãr & avija çimq0 annos q estaua ê symgapura.// Como o dito paramjçura emtrou em muãr com sua molher paramjçure he com mjll homèes começou a talhar matos & fazer campos pramtar arvores & fazer duçoees (399) E qujmtaas pa seu soportamemto homde esteue seis annos E alij pramtaua cousas de sua vida & pescavam & as vezes furtauã & Roubauã champanas q vinham tomar auga doce ao Rijo De muãr q vynham (399) Dução, pl. duçôes, do malaio dusum, quer dizer «village, bour- gade, campagne, endroit cultivé et habité dans la forêt». Favre, Dictionnaire matais-français, s.v. Apud Ferrand, Mataka xi, 436. «E pelo rio acima, e esteiras, recolhiam tudo no sertão nas quintas, a que eles chamam duçôes». Barros, II, vi, 3.
A Suma OrientaI 385 com Junqos da Jaoãa E da china como se dira na descricam de cada terra qmdo Nauegavã & pa omdc //. Em este meyo tempo asy do Regno de batara tumarilll Rey de Jaaõa & das Jlhas mujtas em cuJo tempo estaua// paramj- cure fogído paiimbão è muar como de sua fortuna avemos Recom- tado/ morava em rnalaq8 a gemte de que agora diremõs pa vir¬ mos ao fundamemto de malaqa E a sua amtigidade & de q gemte foy pouoada primeiro//. Neste tempo & segumdo verdade da estoria dos Jaãoos E asy se afirma agora pollos malaios & todas geraçoèes comar- cãas/ qmdo os çelates q sam cosairos ê pequenas barças sotíjs como diremos è seu titollo qmdo se delles falar sam homèes q em suas barças amdam a furtar & pescam & andam asy ora em terra ora no maãr dos qaees Jmda agora ê noso tpo ha gnde copia/ | trazem zervatanas com suas seetas sotíjs derva de bes- rol. I65r. teiro que se avemtam sãge matam como fezerom aos nosos purtugueses muytas vezes na empresa he Destruiçam da famosa cidade De malaqa muyto nomeada amtre as nações Estes celates baJuus homees q veviam Jumto com symgapura he também Jumto com palimbam qmdo o paramjçura fogijo de palimbam elles seguirom sua companhia E andauam delles trimta JumtÕs sostemdo sua vida/ no/ tempo q ho pramjçura esteue ê paiimbão serviam de pescadores despois de vymdos a symgapura elles moravam ê carjmam Jlha Jumto com ho canaall & no tempo que o dito paramjçura veyo a muar vierom estes trimta a viuer homde aguora se chama rnalaq8 que avera de muar ao lugar de rnalaq8 cinq° leguõas/. Viuemdo estes celates E ladrõees que aas vezes pescauã pa seu soportam10 com suas choças em terra E ssuas molheres & filhos Jumto com ho momte que aguora se chama rnalaq8 homde esta a famosa fortaleza de rnalaq8 ho tempo q paramjçura vivia em muar estes celates eram sabedores da terra como homèes que andauam esperamdo vida pa seu Repouso pescava no Rijõ q corre pilo pee da fortaleza/ p espaço de quoãtro ou cimq° annos & comjam & dhy buscavam sua vida/.
386 Tomé Pires Amdamdo estes mujtas vezes pollo dito Rijo de malaqa pescamdo huuã ieguoa/ afastados do mar & duas virom huu lugar gramde e espaçoso de gramdes campos fremosas aguõas & virom como tall lugar era desposto pa gramde povoacam & se podiã nelle semear gramdes campos darroz pramtar qintaãs paçer guaados as vezes custumauã De leuar laa suas molheres & fylhos & ahy Recriavam suas pas E detremjnauam De alij fazer seu asemto he poseronlhe nome bietam (400) q na lim- guoagem dos celates qr dizer campo estemdido/. E amtes que se pasasem pa o dito lugãr detremjnarom todos acordados De fazer saber a paramjçura que estava em muar q mamdase ver ho dito luguãr se lhe pareçia ser pa elle conuen jemte & nom estar è muar porq nom tinha la tam boa estamçia E quamdo forom todos fazerlhe esta fala levaronlhe huu cesto de fruyta he huã aruore q estaua Jumto com as casas dos çelates ao pee do momte omde ora esta a fortalez3 a quaall o dito paramj- çure Reçebeo com pazer dos ditos celãtes E lhes pregumtou a q vinham e elles lhe dixerom o que acordado o tinham acerqa De lhe fazer saber do dito lugs De bjetam se se queria mudar pa elle q lhes parecia a elles bõm lugãr honde o dito sõr poderia Repousar-/. Dixe o dito paramjçura aos çelates Ja sabèes q em nosa limguoaJê ho homem q foge se chama malayo E pois amjm fogido trazes taall fruyta chamese a ese lugar ma!aqa que qr Dizer furtado fogido E pois vosa temcam foy tall que quisestes buscar luguar pa meu Repouso eu o mamdarey Vr & se for tall eu me pasarey a elle com mjnha molher & casa & deixarey ê (400) A mesma história é contada, com mais ou menos variantes e pormenores, em vários escritos antigos. Este lugar, que mais adiante aparece grafado Bretão ou Bretam, é chamado Bintão nos Comentários, Bintam por Barros e Brelan por Hercdia. O nome sobrevive em Sungi Bcrtam, um afluente superior do Rio de Malaca, e em Bertam Ulm, um lugar na margem sul, a noroeste de Malaca, como aparece correctamcnte situado nas cartas de Herédia (fols. 11-12).
A Suma OrientaI 387 muar a qarta parte de mjnha gemte pa se aproueitarè da terra em q tamto trabalho todos temos leuado è a amansar//: Respomderom os celates nos também somos de teu senhõrio amtiguo de palimbam sempre amdamos comtiguo se te a terra parecer boa he Rezã q nos faças esmolla De nosas boas vomtades E noso trabalho nom seJa sem gualardam Diselhes o paramjcura que asy seria & os | çelatês pamte todos diserom que se a terra Foi. 165v. lhe parecese bem & se a ella qisese pasar q se fezese E chamasc Rey por tall que lhes podese a elles dar homrra & esmolla ofre- ceose elle a yso & dise q asy era sua vomtade fazerlhes/ Mamdou o dito paramjçura vèr o dito luguar De bjetão pollo Rijo acima por p“-s q pa iso hordenou E virom o dito campo cercado De fremosas serras & gramdes agoas cercado do Rijo q vem teèr a malaq® De mujtas avees alijmarias domde ha lijões tigres & outas De diuersas feiçôecs como De fejto nom he duujda em gramde partida se achar tam fremoso campo q dure três ou quoatro leguõas & aguora tam aproueitado do quaall os q ho forom Vr ficarom mujto comtêtes E asy o diserom ao dito paramj¬ cura e elle ouue gramde pzer E toda sua Jemte pa viuerem mais a sua vomtade larga monte-/. Mudado o dito paramjçura ao dito luguar de bretão E Repou¬ sado começamdo ha aproueitar a terra E delia gostamdo os celates forom a elle que Ja emtam nom eram mais q dezoito E lhe diserom se era lembrado como elles forom êventores da dita terra & com deseJo De seu Repouso elles Deixarã suas molheres & fs° & se forom amuãr a fazerlhe saber de tall lugar homde Ja estaua gozamdo q lhe pidiam que comprise em lhes fazer merçêe Dalguuã esmola Domrra a qll pitiçam o dito paramj¬ çura os fez mamdaris que qr Dizer fidallguos a elles & seus fs° E molheres Dalij pa sempre domde ficarom asy q todos os mam¬ daris de malaca vem destes E os Rex das partes de suas mãis seg° na terra se afirma// Feitos por mãao Do dito paramjçura os ditos pescadores mamdaris acompanharom sempre o dito Rey E asy como o dito Rey os acrecemtou em fidalgía elles também Reconhecerom 28
388 Tomé Pires ha merçêe que lhes fora feita acompanharam gramdememte o Rey E o serujrom com gramde fee & lealldade De bom cora- cam sua amjzade & desta maneira senpre o amor Do Rey acerq® Delles como ho Vrdadeiro srviço E zello que os ditos nouos mamdarys tinham E trabalhauam de o comprazer & durou sempre sua honrra atee a vimda de dioguo Ilopez de sequeira a malaq8 que o qujmto neto delles era ho lasaman® E o bemdara que ordenou a treiçam sobre o dito dioguo lopêz de sequeira (401) que despois morreo deguolado as maãos do Rey que perDeo malaq8 porque a Justiça de ds E treiçoêes ao Rey feitas nunqa se pdem nem vam sem o castiguo//: Morremdo o dito paramjçura no dito lugar do bretão asaz a seu comtemtamemto em lugar tam fresco & de tamto viço & de tam boa vida como oJe em dia se poderá veer quem vier a malaq8 que certo he huua cousa das do mundo he fremosos vergeus daruores & sombras mlas fruitas gramdes aguoas doçes que procedem da serra dos emcãtados que estaa a vista de malaqa segumdo afirmam os naturaêes De gramdes momtarias dali- famtes brauos mujtos de liõees de tigres he Doutros anjmaãos mostruosos E alijmarias de casa nom como as nosas somemte servos//. temdo este paramjçura huu Filho que ouue em symgapura q era Ja casy homem casado com a filha primcipall dos mamdaris (401) Diogo Lopes dc Sequeira foi o primeiro europeu a visitar Malaca, onde chegou com uma armada portuguesa de cinco navios em 11 de Setem¬ bro de 1509. Alguns têm suposto que a armada chegou a Malaca em 1 de Agosto, mas Castanhcda (II, cxiii) e Góis (III, i), que são mais precisos na cronologia — bastante divergente nas várias crónicas — da viagem de Sequeira — ambos concordam na data 11 dc Setembro. Os Malaios tentaram matar os Portugueses traiçoeiramente e apoderar-se dos navios, mas a traição foi descoberta na altura em que o filho dc Timuta Raja se preparava para apunha¬ lar Sequeira, quando este jogava xadrês a bordo da sua nau. Sequeira então fez-se à vela, mas poucos dos Portugueses que se encontravam em terra con¬ seguiram escapar; alguns foram mortos e 19 feitos prisioneiros, entre os quais Rui de Araújo, que em 1511 foi o primeiro feitor português em Malaca.
A Suma Oriental 389 fidalguos que Damtes foram çelates que se chamaua o filho/ chaquem daraxa (402) andando | A caça no dito lugar do bre- Foi. I66r. tam com quãees como acostumaua cada diã he as mais vezes huu dia veyo Depos os cãees E gualguõs que ha nestas partes mujto boõs E vinham os ditos caees corremdo Depos huua aly- mãria como lebre que tem os peês De gamjto E o rrabo curto (403) das qeês alimárias os cãees matauam cada dia Dez doze vimdo asy depos ella athee chegãr ao maãr sobre o momte de ma!aqa omde ora esta a fortaleza delIRey noso sõr tamto q se a dita aljmaria vijo sobre o momte virou aos cãees & elles comecarom a fugir/ quamdo o dito xaquem daraxa vio tal cousa & q a dita aljmaria Recobrara taêes forças sobre o momte pareceolhe outa cousa E tornouse pa bretam omde seu pay estava a comtarlho dizendo ao dito paramjçura seu pay/ sor eu oJe Jmdo a caça fuy depos huuã lebre athee o momte dos vosos mamdaris homde ha a fruita dos malayõs & alij a lebre sobre o momte virou ou porq o mar tocava no pee do monte ou por alij cobrar forças E todos meus cãees se tornarom fugimdo & põis q daquellas aljmarias elles matauam cada dia dez doze como foy aqla pode¬ rosa pa se defemder todollos cãees sem se poderê a ella cheguãr he porq ysto nom he sem aiguu mjsterio vos venho comtar ysto & Roguovos sõr q vades Vr este momte & veremos se achamos alij outa vez esta alimãria E se vos quiserdes q eu alij faça mjnha morada eu folgarey mujto//. Ho paramjçura Nom qujs Agrauãr ho filho E foy laa & Jmdo por sua guja amostramdo ho camjnho o seu gramde mam- (402) Chaquem Daraxa, Xaquem Daraxa ou Xaquem Darxa, como aparece escrito cm vários lugares, corresponde a Muhammad Iskandar Shah, o segundo governador de Malaca. (403) Mr. R. I. Pocock, F.R.S., do British Muscum (Natural History), quando lhe mostrei esta passagem de Pires, escreveu-me imediatamente a seguinte nota: «Um género de pequeno veado comum em todo o Oriente e conhecido dos caçadores ingleses como Muntjack ou Barking Decr (veado adrador). O seu nome científico é Muntiacus».
390 Tomé Pires darj sogro de seu f° por causa do espeso arvoredo que ha do dito bretão ao momte De malaqa como oJe ha posto que nom seJã mais de duas leguoas E cheguamdo o Rey vijo tres momtes quasy Jumtos a tres & a quatro tiros de beesta depoJada .s. o momte de boqua china De fermosas augas & muj doçes & o momte dos alacras que he na banida De tuam colaxcar mouro Jaao & o momte Daljmaria (404) homde ora esta a fortalez® famosa/ dixe o paramjçura a seu filho xaquem daxa omde queres teer asemto & o f° lhe dise que neste momte De malaq® dixe o pay que asy fose he fez no dito tempo suas casas no momte em çima homde atee o presemte tempo foy morrada E asemto dos Reis de malaq®//. Asemtado no dito momte o dito xaqem darxa com muj Riqas casas a guisa da terra sobre o momte & no chãoo dalem da pomte omde ora estam os gudoêes dos almoxerifes// o asemto de seu sogro cõ obra de trezemtos moradores & outs0 estauã no bretam com seu pay trabalhaua De pouoar malaq® qmto podia comecava a vijr Jente da bamda daruu/ E douts° lugares homees como celates Iadroees & outs0 pescadores em tamto q se fez malaq® do tempo de sua estada a tres annos lugar de dous mjll vizinhõs E siam mamdaualhe aRozes//. Em este tempo adoeçeo paramjçura he morreo fiquou ho Regno ha seu filho/ xaquem darxa E mamdou a Jemte do bre¬ tam vijr som,e deixou la homeês como caseiros & deu por asemto aos çelates mamdaris todos a frallda Do momte De malaca pa sua guarda como athe o presemte athee a tomada de malaq® hos ditos lugares eram dos ditos mamdaris E cavai1’0’1 que tinham (404) Boqua China é Bukit China, chamada Buquel. China nas cartas de Hcrédia (foi. 9) e corrcctamcnte situado junto a Malaca, a es-nor- deste. A carta de Herédia (foi. 9v.) tem dois montes: Buquel. Plato, que corresponde a Bukit Piatu, a nordeste de Buquel. China, e buquel Pipi, que corresponde a St. John's Hill, a leste de Malaca. Alacras talvez corresponda a alacraus, ou escorpiões. O Monte da Alimária é, natural¬ mente, o moderno St. Paul's Hill. Vide Estampa XXXIX.
A Suma Oriental 391 a guarda de sua pa e este trabalhaua p° pouoar a terra fazija Justiça pollo qll vinhã doutas ptes alij viure & pouoar/. Asy que morto ho paramjçura E feito Rey seu filho xaquem Foi. I66v. darxa Jaa com seis mjll vizinhos em malaca mamdou huu seu cunhado a syam cõ embaixada E mamdoulhe dizer como elle por caso fortuito viera teêr aqella terra homde tinha tamto trabalho leuado que lhe pedia q semp lhe acudise com mamti- memtos por seu dr° que a terra era sua & q ele seria sempre em conhecimêto como homê q viuja ê sua terra E que lhe aJudase a pouar a terra q era sua// Ho dito Rey de siam lhe mamdou Jemte E mamtimemtos mercadarias de sua terra Dizemdo que asy folgaua de se pouoar E que elle o ajudaria aproueytamdose a terra como dezija/ fynall memte que o embaxador foy tanbem despachado E veio com tam bom Recado que o xaquemdarxa, deu de mercee ao dito embaixador, q era seu cunhado que de sua Jeracam fosem os embayxadores E nom de outa dalij em diamte como se costu¬ mou atee o presente dia da tomada de malaqa pllos portugueses & nom podia ser embaixador senom de taall Jeraçam E os embai¬ xadores de malaqa nom som mais poderosos que apresemtar as cartas nom podem outa cousa dizer nem fazer como eu mujtas vezes vy em suas embaixadas por asy ser costume// AJmda neste tempo Regnaua em Jaãoa batara tamarill Rey de Jaãoa ao quall o dito xaquemdarxa mamdou embaxador pedimdolhe q Ja seu pay era morto q lhe Rogaua que fosem amiguos & as diferemcas pasadas acabasem & pois lhe tinha a terra de palimbão que dalij p° diãte quisese tratar em sua terra E que alij poderia despejar suas mercadarias E que sua terra se Jria gramdememte pouoamdo E cada vez seria mais por quamto tinha sabido que asy avia de ser & o tinha espirimê- tado por dez annos que alij faziam fim as mouçoêes de huu cabo & do out° E que com menos Risq° poderiam nauegar seus Junqos por causa dos baixos q avija pa paeçe & pa outs0 lugares omde sua Jemte & pouoo navegaua E que lhe Rogaua q asy o fezese//
392 Tomé Pires Respomdeo o Rey da Jaãoa batara tumarill que avia gram- des tempos q seus Juncos nauegavam em paçee E que era mujto liado com elle em amizade homde seus mercadores Recebiam boos Retornos de suas mercadarias he homrra e eram fran¬ queados E asy vasallo o dito Rey de paçee seu que elle mamdase laa se asy fose sua vomtade q douta maneira elle nom faria ho comtiro por que nom avia de quebrar ho costume tam amtiguo • como amtre elles era acordado tanto tempo avija//. tornado o dito embaixador trouxe sua Reposta pollo quall o dito Rey xaque darxa mamdou Recado ao Rey de paçee pedim- dolhe que elle quisese dar Iuguar he nom aver por mall que Jaoa tratase em malaqa & que a elle asy o Rogaua q quisese mamdar seus mercadõres a malaq3 com mercadorias dizemdo q em sua terra avija ouro para Retorno E que sua terra seria mayor ao que comprise ao dito Rey de paçee & que elle espeuera ao Rey da Jaãoa & q lhe Respomdera se sua vomtade fose q lhe apra- zeua muyto// Ao quaall o dito Rey de paçee mamdou embaxa- dores ao dito xaquendarxa dizemdo que elle era comtemte dboa Foi. I67r. vomtade ao que elle pedia conçederlho | se elle quisese tornarse mouro E do que detremjnase lho mamdase dizer Jnteiramte pa fazer prestes sua vomtade/ ho dito Rey xaquem darxa nom Recebeo bem os embayxadores que de paçee vierom E os prem- deo & Reteve no bretão gramde tempo rretemdo fazemdo lhes bom trato E mujtas vezes vinham pesoas omrradas de paçee com Recados ao ditõ Rey de malaq3 asij sobre a soltura dos embaixadores como certeficarse da terra E como a noua pouoa- cam se fizera tam prestes tamanha posto que o pmcipall asemto era no bretão homde se elle hija Recriãr o que se fez sempre athêe o dia de sua tomada// Reformouse gramdememte em amizade casij vasallo com batara tumarill Rey da Jaaõa por Rezam dos mujtos Juncos & forte gemte da terra q emtam navegauam gramdes partidas como se dira na descriçã Da Jaõa & sempre lhe mandaua ali- famtes E dadiuas pollo quall sem embarguo do Rey de paçee comsentír alguus Juncos vinham a malaq11 posto q fose pouca
ESTAMPA XXXIX Malaca e regiões vizinhas segundo Tomé Pires
ESTAMPA XL Carla de Francisco Rodrigues (foi. 19) da Cosia Noroeste da África, com os Arquipélagos dos Açores, Madeira c Canárias
A Suma Orienta! 393 cousa porq a escala era toda è paçee das mercadorias como se dira qmdo se tratar da Jlha de comotora & das cousas de paçêe// Acabados tres annõs ho dito xaquem darxa deixou tornar os embaixadores a paçeê homrrada memte & fezerom os Rex amjzade E tratauam de pacee è maiaqa he alguus mercadores mouros Riquos se mudarom de pacee a malaqa asy parses como bemgalas & mouros arabios que destas tres Naçõees avija naquellc tèp° gramde suma De mercadores E muj Riquos de grosos tratos & fazemdas e eram estamtes alij das Ditas partes fazemdo suas mercadorias E asy vijmdos trouxerom comsiguo moulanas & caçízes letrados na seita de mafamede pincipalmte arabios q nestas partes sam estimados no saber da dita seita-//. chegados hos ditos mercadores diserom ao dito Rey xaquem darxar que tinhã sabido de sua Justiça & misericórdia q vsara com os de paçee e pois eram amigos os Reis q elles queriam tratar de pacee em malaq® E queriam vijr a terra & se se nela podese fazer mercadoria E se abrise camjnho q estariam nella F pagariam os drrtos que hordenasem por quamto lhes diziã q a Jemte da Jãoa queria tratar E vijr com mercadarias q elles aviam mester q era crauo maças noz & samdallos p°q neste tempo era do trato da Jaôa como se dira qmdo se tratar da Jlha de Jaaõa//. Ho dito Rey xaquemdarxa folguou mujto com os ditos mercadores mouros fezlhe homrra deulhe lugares pa seus apou- semtamemtos lugar pa suas mezqitas & os ditos mouros como ouuerom o dito Iugãr fezerom fermosas casas a vsamca da trra & pouoacã/ gramdememte começauase a fazer trato pincípall- memte por causa dos ditos mouros serem Riquos do quall Recebia o xaquem darxa Rey de malaca gramde proueito E comtemta- memto & deulhes a elles Jurdição sobre sy E os mouros eram mujto validos acerqa do dito Rey E acabauom qmto queriam//. Em este meio tempo acudirom aquelles mercadores que estauam em paçee he mais mercadores mouros & tratauam em rnalaq3 E de malaq8 em pacee he hiam aumemtamdo a terra de malaq8 & ysto nom se semtia em paçee por causa do gramde
394 Tomé Pires numero de gemte que avija no dito lugar como se dira em seu lugar & vinham doutas partes de comotora gemte a trabalhar & ganhar sua vida & de symgapura & das Jlhas comarcaas de celates & outra gemte E o dito Rey xaquendarxa p° ser homem de Justiça & combenjuollo aos mercadores folgauam com elle Foi. I67v. De maneir8 q neste meio tempo vierom dous Juncos da chijna que hiam a paeçe E o dito Rey fez Represa em alguuã Jemte por tall que quisesem alij tratar he vemderom alguuã mercadoria aos ditos mercadores E muyta outra leuarom a paçee//. Ja neste tempo ero ho Rey xaquemdarxa velho E a terra trataua mercadoria & avija mujtos mouros E mujtos moulanas que trabalhauã por fazer ho dito Rey mouro & asy o deseJaua gramdememte ho Rey de paçee/ por casso veio o dito xaquen¬ darxa a qrer semtar os ditos caçízes E folguar com elles avida esta notíçía ho dito Rey de paçee avisado pollos cacizes q la tinha mamdado secretamemte mamdaua outs0 mais autorizados a embutillo E desviallo de seu nacimemto & Jemtelidade & con- Vrtello E ysto por Jmdustria & nom pruujcamemte//. Amolefiquado o Rey xaquemdarxa ou por vija dos cacizes ou por quall qr outa manra se comtratou com ho dito Rey de paçee que tratarom casamemtos huuas fas do dito Rey de paeçe com ho dito xaquemdarxa com tall comdicam q se tornase mouro como elle era E que sempre seriam è huuã damdolhe a emtemder pllõs ditos moulanas qmta onrra lhe vinha do tall ajuntam10 & afynjdade do grande Rey de paçee elle se tornar mouro avemdo amtre elles gramdes Recados he trabalhamdo os mouros no dito casamemto//. Fynall memte que o ditõ Rey xaquemdarxa semdo de Jdade de setemta & dous annos se tornou mouro E todollos de sua casa E casou com ha filha do dito Rey de paçee E nom somemte elle se tornou mouro mas aJmda fez pertempo toda sua Jemte & desta maneira se fez o dito Rey mouro E dalij por diamte forom atee a tomada De malaca E viueo casado oito annõs çerqado de moulanas E ficoulhe huu f° Ja homem que se também
A Suma Oriental 395 tornou mouro filho de sua primeira molher que herdou o Regno E se chamaua modafarxa-//. (405) Este Rey xaquemdarxa semdo de ydade de quoremta E cinq0 annos qujs hir achína em pesoa a ver o Rey da chiná E deixou o Regno em poder dos mamdaris dizemdo que queria hir veer o Rey que tinha a Jaõaa E Siam a sua obídícmçía & paçee com largamemte se tratara na descriçam da china E foy homde o Rey estaua & falou com elle E fezse seu vasallo trebutario E tomou em synall de vasalagem o sello da chyna E o meo de malaq8 como todos tem foilhe la feita mujta homrra E despachado com dadivas E festejado gramdememte he tornou ha malaq® E pos no camjnho yda & estada & vímda tres annõs//. E veio em companhia ho ditõ xaquemdarxa de hum capi¬ tam gramde que o trazija por mamdado do dito Rey da china o quall capitam trazija huuã fa fremosa chijna E vimdo asy o dito xaquemdarxa em malaq® por fazer homrra ao dito capi¬ tam casou com ella posto que nom fose molher de linhagem & nom se espamtam os Jemtios serem casados com mouras porque he costume qa he mais folgam os mouros de casar as molheres com Jemtios que elles com gemtias porque fazem os maridos mouros/ este he o costume destas terras a este xaqem- darxa deu o Rey da china poder que podese leuar moeda des- tanho a malaq® q he como çeítís// Ho ditõ Rey xaquemdarxa ouue desta china huu filho que se chamou RaJapute (406) domde decemdem os Reis de paão E campar E amdargerj como se dira despois o qll foy mujto bom homem E ouue fs° & fsa & despois foy morto as mãaos De elIRcy madafarsa seu sobrinhõ como se dira na vida do dito Rey/: madafarx* Este Rey madafarxa ouue muj,as molheres fsa de Reis comar- quaõos este dizem ser melhor Rej que todos os damtes Refir- (405) Muzaffar Shah ou Mudzafar Shah. (406) Ratljn pulili, i.e. «Raja Branco». Cf. Ferrand, Malaka, xi, 421.
396 Tomé Pires mouse gramdememte com syam he com Jaõa & com os chijs E lequjos foy homem de mujta Justiça daua gramde aviam1'1 ao nobrecimemto De malaq* comprou & fez Junqos & os man- daua fora encompanhia de mercadores pollo quall aJnda oJe em dia os mercadores amtiguos Do tempo do dito Rey moda- farxa ho gabam gramdememte & sobretudo de gram Justiçoso//. Foi. I68r. E este Rey modafarxa aquerío a malaqa terras .s. da bamda de queda ouue MimJam q he huu luguar bom & tem huu Rijo nam mujto gramde na quall terra se faz estanho he trebutario a malaca como mais largamemte se dira qmdo se tratar dos lugarês que a malaca pagauam pareas E asij tomou çalamgor que qr Dizer estanho também bom luguar E também o fez tre¬ butario asymesmo como ho outro & destes lugãres trazem a malaqa alguus mamtímemtos que seram dez legoas De malaq3//. Tomou asy mesmo a pouoacam de cheguaa que he o Rijo fremoso (407) alem de muãr pa a bamda de sijngapura Rijo gramde omde podem emtrar mujtas naãos em o quall Rijo ha aRoz pouco/ carnes pescados tem vinhos da terra he espaçosa Ribra tem gemte de peleJa dizem que de muãr E de cheguaa saee gemte esforçada huu destes lugares he do bemdara E out° do lasamana a Jurdicam tem cada huu do ciujli E crime ou tynham em seu tempo//. E este madafarxa saia mujtas vezes a peleJar pesoallmemte E ficaua seu Jrmão RaJa pute por paduca rraJa (408) que quer (407) Rio Fremoso, ou Rio Formoso, é o Sungi Scmpang Kunun, também chamado Sungi Batu Pahat, do nome da povoação perto da sua entrada, que corresponderá a Cheguaa de Pires. O pico mais alto dos montes na margem leste da foz do rio chama-se Mount Formosa (467m). A carta de Rodrigues (foi. 34) é a primeira a registar Riofermosso, que depois apaiecc em quase todas as cartas até o século xvir. (408) «Padãka — tratamento afectuoso — bem-amado, querido». Marsden, Dictionary. Segundo Ferrand a palavra malaia pãduca é um tratamento dirigido à realeza ou príncipes, tal como «Vossa Majestade» ou «Vossa Alteza». Malaka, xi, 460. «Havia com Malaca cinco digni¬ dades principais: a primeira é Pudricaraja, que quer dizer visorei, e depois
A Suma Oriental 397 dizer visoRey peleJou este com ellRey daruu mujtas vezes E tomoulhe o rregno de Jrcam q esta de fromte de malaqa na terra de daruu/ e este emqmto viuco sempe lhe fez guerra segundo afirmam// Tomou este o canall de simgapura com a Jlha de bímtam & trouxe tudo a sua obydyemçia athee oJe omde ora esta acolheito fugido E sobre o dito canall teue gerra com ellRey de pahãoo E de talimgano E de patane E sempre leuou a melhor he com- tudo ficoulhe a terra & obidiemçia E cassou huuã sua Jrmaã mais velha com ho dito Rey de pahãmo que noua memte era feito mouro & avera ysto cimqoemta & cimquo ou sesemta annos/ Ao mais o qual se tornou mouro ha Rcquerimemto do dito moda farxa E que casaria a dita sua Jrmaã com elle//. Este fez guerra a campar E amdarguerj E peleJou mujto tempo com estes dous Reynos que sam na terra de menamcabo domde o ouro vem a malaqua he por tpo tamto os apresou o dito modafarxa por ser Riqo E nauegarem em seu porto nações e por Ja ser liado com os Jaaòs he chijs & syames he em paeçe q por sua propia Jmdustria casou duas fsa de RaJa pute seu Jrmaão huuã com o Rey de campãr E outra com ellRey dam- darguerj E tornaronse mouros os ditos Rex & a Jemte a elles mais Domestiq3 porque toda a outa aJmda permaneçe ensua do rei este c o maior; a segunda é Bcndará, este c veador da fazenda, e governa o reino: às vezes o Bcndará tem estes dois ofícios, de Pudricaraja e de Ben- dará, porque nunca se concertam bem dois nestes dois ofícios: a terceira é Lassamanc, este é almirante do mar: a quarta é Tamungo, este tem cargo da justiça da gente estrangeira; a quinta é Xabandar, e destes havia quatro, cada um da sua nação: um da China, outro de Java, outro de Cambaia, c outro de Bengala. E eram todas as terras repartidas por quatro homens destes, e cada um tinha sua parte, e o Tamungo era juiz da Alfandega sobre todos estes. Pode-sc dizer com verdade, que Malaca no facto, e trato da mercadoria, é a maior coisa do mundo». Comentários tio grande Afonso de Albuquerque, III, xviii. Vide adiante pp. 417-18.
398 Tomé Pires gentilydade E asij forom feitos mouros avera cinquoemta aniios ao mais//: E por esta homrra que ganhou em fazer asy estes tres Reis mouros trebutarios soar tamto seu nome que teue rrecados & presemtes dos Reis dadem & dormuz & de cambaya de bemgala & mamdarom mujtos mercadores de suas partes a morar ha malaq» E chamouse/ çoltan que nesta terra quallquer sõr se chama rraJa somte pacee E malaqua bemgalla se chamam çol- tanes E nisto tenha gramde tento que quamdo de purtugall viese carta pa qaall quer Rey de qua/ que diga do çoltan de portugall pa tij RaJa/ foam/ Trabalhou este mujto com seu poder pa vr se destruiria daruu posto q daruu pmro foy mouro o rrey que nenhuu Destes nem que o de pacee segumdo afirmam mas porque dizem que nom he bem creemte em mafomede & viue no sertão tem mujta Jemte E tem mujta fustalha amdam sempre a furtar e em quall qr lugar q saltam euam tudo & disto viuem & Ja ysto nunca se pode emmemdar porque a trra de daruu he desta maneira E de daruu atrauesam a terra de malaqa em huu Dia & os daruu sam homes mujto temjdos E desde modafarxa athee o tempo da tomada de malaq® pollo gouernador das Jmdias sempre forom Jmiguos he oJe em dia ho sam//. Este modafarxa mamdou a Jaõa embaixadõres ao Rey Jemtíjo E dizem q por Jmdustria secreta teue maneira como Foi. I68v. por seus cacizes comuerteo gramdes homês | das beiras do mãar a fazerse mouros estes que ora sam pates disto se tratara na descricam De Jaõa/ era vasallo o dito modafarxa do dito Rey de Jaãoa E lhe mamdaua alifamtes E cousas da china E rroupas Ricas das que a seu porto vinham e emqmto viueo sempre com o dito Rey teue sua amizade & de Jaõa acudia gramde copia de mantim'08 Enobrecia mujto o porto De malaqa//. Em este meio tempo morreo a molher deli Rey de pahão & o dito modafarxa casou cõ elle huuã sua sobrinha filha de rraJa pute seu Jrmaão E ficaua liado o dito rraJa pute com pahão & campar andargerj E o povoo De malaqua cria Ja mujto em
A Suma Oriental 399 RaJapute que era mais velho que modafarxa segumdo dizem & por ser f° de mãceba casy molher nom erdou outs0 dizem q era mais mancebo da moça china naçido como quer que seJa tinha gramde autoridade era bom homem mujto sesudo acataua gramdememte ao Rey seu Jrmãao moraua no lugar bretão De que Ja falamos E também laa morauam os Reis mas acudiam algus Dias a çidade omde tinham seu asemto sobre o momte como Ja disemos p° q em huuã ora com a maree decem de bretão cm malaqa//: Neste tempo malaqa tinha gramde copia de mercadõres de mujtas nacoees he comecava Ja paçee de nom ser asy gramde como o era E os mercadores & tratamtes no maãr conheciam qmta diferemça avia do naveguar a ma!aqa que com todos tem- poraes eram seguros amcorados & que dos outs° podiam tomar quamdo coujese (?) comecauani de todo vijr a malaq8 pois achauam Retornos o rrey de malaq8 aviase com elles mamsamemte & temperado que he cousa que mujto cria os mercadõres mor- memte na nacam estramgeira folgaua destar na çidade mujtas mais vezs q Damdar a caça por ouijr & detremjnar agrãuos tiranjas q malaq® cria p° Rezam de seu gramde sitio & trato// Este modafarxa ouue huu filho de sua molher que ouue nome mansuisa (409) este amdaua em guarda do tio RaJa pute era emsynado E guardado pollo rraJapute sempre como seu ayo he eram Dados ambos a prazer E o pay trabalhaua nas cousas que lhe compriam asy que neste meio tempo veio o dito modafarxa a estar doemte em cama E o filho mamsursa veo a estar com o dito seu pay na cidade obidiciam ao moço mamsursa//. no bretam tinha RaJa pute autoridade faziam o que lhe elle mamdaua o madafarxa agastauase de sua doemça he também por nom saber por sua morte que mudamça faria o Regno em que tamto trabalho tinha leuado Rogaua a RaJa pute e emcomem- daualho que asosegada memte ho emtreguase a mamsursa o (409) Mansur Shah.
400 Tomé Pires rraJa pute dise que asy farja o moço era Ja de vimte annõs segumdo dizem ou pouquo menõs faleçco ho pay madafarxa comecou ho moço de fazer seu ofíçío a morte do pay E seu emterramemto homrradamemte como era Rezam E também por comselho do RaJa pute//. Depois de leito o emteramemto Recolheose o RaJa pute ao bretão E mamsursa comecou sesudamemte a Reger seu Regno tomamdo comselho dos amtiguos segumdo hordenãça Vrtuosa açerqua Da Justiça e comservaçam da terra aJuntou gemte// neste tenp0 parece q veio a noticia Do moço que RaJa pute seu tijo ou por ser velho ou por ser tam liado na terra & fora que o desacataua em o nom vijr Vr como a Rey que era saltou huu dia la homde estaua o dito RaJapute E achouo em huu balecy (410) que sam como Ramadas Rica memte obradas com mamdaris & p^ homrradas q com elle estauam// Vímdo o dito mamsursa aleuamtaromse todos E semtouse E ou rraJa pute Jumto o quall costume nom he qua que o f° nom se asemta junto com ho pay posto q seJa herdeiro salluo se o filho for casado rey como se dira nos costumes dos malaijos em seu lugãr Dise o moço RaJa pute ha tamtos dias q te nom vij estaas doemte/ dise q mall semtido fora Dise o moço pois mall semtido amdas rèx meteo o cris nelle tres ou quatro vezes E ficou alj morto lloguo ho RaJapute E por esta causa temeo gramdememte sempre a gemte o dito Rey mansursa E foy mujto temjdo E acatado aJudado qmdo queria seus naturaes//: Foi. lf)9r. Começou ho Rey mamsursa a leuar ho camjnho do pay asy em Reger o pouo anjmar sua Jemte a guerra gramdememte era pacifiquo aos mercadores E ornem benjuollo este trouxe a obidiemçia de malaq8/ calangor/ vernam/ mjJam/ pirac/ que sam lugares destanho he pertiçè ao Regno de qucdaa & sobre (410) Balecy deve corresponder ao malaio baley. Marsden dá. entre outros significados desta palavra: «Uma casa de campo ou de veraneio; uma moldura, bancada, armação (para se sentar, curar peixe, etc.)». Dic- tionary, p. 34.
A Suma Oriental 401 yso teue guerra com queeda semdo terra do Regno de syam E a terra ser toda do Regno de syam veio ê escolha destes lugares com quê queria estar em obidiemçia diserom que com ellRey mamsursa Rey de malaq® & ficarom athe a tomada de malaca sempre nesta obidiemçia paguamdo pareas como se despois dira Iargamête// Ho dito Rey mamsursa por seus capitãees na terra de daru tomou por força a villa de rrupat q he defromte de malaca E o Regno de ciac/ fez seu vasallo o xeque de porim tudo ysto na Jlha de camotora os quaêes vierom presos a malaq® e em seu tempo os tornou a suas terras he sempre estiuerom em sua obi- diemcia atee o dia que foy tomada pollo gram capitam das Jndias & Em tempo Deste mamsursa Reuelarom comtra elle ellRey de pahãm & de campar & de amdarguerij pola morte de rraJa pute seu sogro que elle matara/ & asy p sua p® como p seus capi¬ tãees os tomou E vemçeo E dobrou as pareas E os fez debaixo de seu trebuto E com elles fez pãz & casamentos E casou o dito mamsursa com huuã f» do Rey de paão E o rrey de pahão com huã sua Jrmãa De mamsursa E casou out® sua Jrmãa com ellRey de menancabo semdo gemtio he o tornou mouro out°s afirmam Jmda oJe o dito rey nõ ser mouro Vrdade he ser mouro cõ obra de cem omees toda a out® Jemte he Jemtia//. teue por mamçeba este mamsursa huuã filha de RaJapute seu tíjo & por molher teue a f® do seu lasamena foy este mans- sursa cavaleiro E gramde luxuríoso Justiçoso vasallo sempre verdadeiro dos Rex dos chijs E do rrey De Jaoa & de syam he de como esta vasalaJem era se dira ao diamte//. os mouros de malaq® dizem q foy o melhor Rey mamsursa que todos seus antecesors este larguou liberdades aos estram- geiros mercadores teue sempre gramde feruor de Justiçã Dizem que em pessoa corria a çidade D noyte Dizem q dormja pouquo Jugaua mujt0 aos dados era gramde gugador de tauollas a nosa guisa q hos chijs Jogam em sua terra este mamsursa fazija os homees de nada hera seu veador da fazemda huu qujlím gemtio que dizem q valia tamto com elle que nom fazija mais do que 29
402 Tomé Pires elle quèria E p esta maneira huu cafre de palimbão q era seu espauo valeo tamto que diziam que o conuertiam a gemtilidade pmeira fynall memte vierom emtamto crecimemto estes homees ambõs .s. o qujlim & o palimbão que se tornarom mouros em tempo de mansursa E o bemdara q aqi degolarõ que foy na treicam De dioguo lopez de seqra era seu neto e era Ja moõr q ho Rey em poder E o neto do palimbaõo he o lasemana que oJe amda com ho Rey q foy de malaq0 E tamto creciam estes dous homêes em tempo deste Rey mansursa q vierom a tam gramdes dijnjdades/ Como se despois decrara q cousa he bendara & que cousa he lasemana//. Este Rey mansursa era casado com huuã filha deli Rey de pahão sobrinha deli Rey de syam & disto secopaua tamto o dito Rey que avia seus f°s por mayores q todos seus amteçesores era homem mansursa mamso liberall tafull luxurioso E com ysto fazija Justiça todallas fas de mercadores parses fremosas & de quelijs que bem pareçesem tinha por mamçèbas tornavas mouras quamdo as avya de casar E casauas com f°s De mamderijs & lhes daua casamemtos o quall costume nom se estranha em malaqa casarem leis comtra leis//. Este Rey mansursa fez a fremosa mjzqta que estaua homde oJe he a famosa fortaleza de malaca a quall era a melhor que avia nestas partes sabida. & mamdou fazer pomtes no Rijo Riqa memte obradãs este fez os dereitos das mercadariãs mais baixos como se dira em seu luguãr pollo quall foy tam estimado dos naturaes he estramgeiros que alcançou gramde Riqueza & fez gramde tesouro dizem q he ornem de cemto & vijmte qin- taèes douro & de gramde pedraria E q detremjnava de hir a mequa com gramde copia douro em huu Junq° que Ja tinha mamdado fazer em Jaãoa E out° em peguu de gramde gramdura . I69v. E que se o nom atalhara ha | Doemça que la ouuera de hir tinha Jaa gramde gasto feito E mujla Jemte pa a viaJem teue este mamsursa firme obediemcia sempre aos Jaãos chijs & syames E sempre os visítaua com alyfamtes porque os matos de malaqa criam mujtos & aviaos em gramde maneira & segumdo ha terra
A Suma OrientaI 403 asy lhe mamdaua as cousas de seus gostos mas nom lhe mamdaua dr° como se dira qmdo se decrarar em q forma he esta obidiemçiã que a estes tres Regnos tinha & Este Rey mamsursa teue dous filhõs & duas fsa o f° mais velho se chamou/ alaoadín/(411) que socedeo & outr° filho morreo amdamdo a momte as fas casou huuã com ellRey de campar E a outra com ellRey de pahãmo Ja velho adoeçèo esteue mujto tempo doemte & Regia ho Regno ell Rey alaoadím seu filho & Regemdo casou este Rey com huuã fB de huu mãdarij primcipãll a prazimemto do pay E morreo ellRey mansursa foy emterrado na sepultura dos Reis segumdo costume sobre o momte omde ora esta a forqa por despeito De sua vaidade E omrra q no tall lugar tiuerõ//: Este Rey alaoadin do primcipio de seu Regiiar casou com huuã filha del Rey de campar q era sua prima comJrmaã este aquerjo a malaca gramde numero dilhas de celates q sam cosairos a sua arte em parãos pequenos este por seus capitães tomou as Jlhas de limgua que estam aqem de bamca casy defromte de palimbaõ domde sam os caualros cabaêes que nom podem morrer a ferro como se dira na sua descricã das Jlhas de limgua he fez o Rey delias vasallo ao dito Rey alaoadin como he Jmda aguora fogido porem nõ se vee huu ao outr° porque ambos tem Reçeo huu do out° & out° do outr°//. este teue pemdemça com os daruus E foy no mãar desbara¬ tado delles este dizem q era mais dado aas cousas da mjzquita que a outas e era homem que comja mujto afiam que he opio E alguuas vezes nom era em seu acordo era homem apartado e estaua pouquas vezes na pouoaçam E acrecemtou este mais Riqueza em seu tempo & Jurou De hir a mequa a comprir a Romaria do pay e elle se prometeo la com cousas q aparelhaua (411) Sultão Alauddin ou Alacdin. Alaoadím é a forma portu¬ guesa do nome árabe ‘Sla’u'd-din\ «a elevação da religião», diz Ferrand numa nota da sua tradução da história de Malaca contida in Comentários. Malaka XI, 422.
404 Tomé Pires pa iso este Rey aloadin trazija sempre comsiguo os Rex de paão & de campãr & amdarguerj em malaqa como em corte E paremtes seus e elle emformauaãos nas cousas de mafomede porque delias sabia. out°s dizem q estes Rex víerõ aos casamemtos que fez com ellRey de paão que lhe tomou huuã sua fa por mõlher & tinha ambas que asij se custuma seJam Recebidas podem ter quoatr0 & o f° Da primeira herda o Regiio//. Como quer que os ditos Rex amdasem em malaqa Amdauam porque todas as cousas & terras & comaracs em comparaçam de malaqua nom eram nada por causa de malaca ser porto de cabo de mouçoees omde vem gramdes copias De Junquos & naãos & todos paguam dereitos & os que nom pagam dam pre¬ sentes que he casy como dereitos & por este caso pollo Rey da terra meter em cada Jumquo que pa fora vay seu qujnham he cousa pa os Rex de malaq® alcamcarem gramdes copias de dr° E njsto nom ha duujda os Ditõs Rex de malaq® sam Riquisy- mos & Temdo este Rey detremjnado de pasar em meqa estamdo no bretam quis vir a malaqa acabar De se perceber, he em sete ou oyto dias Morreo De feures(412) ficaromlhe dous fs° & tres filhas o pimeiro era RaJa caleman (413) E este era f° da molher fa De ellRey de paão E as filhas tres huuã era da molher de paão E ouue RaJa mafamut (414) que perdeo malaca E este era da filha do mamdarjm E as fsa tres huuã era Da molher De paão Ja dita. E as duas Da molher fa deli Rey de campar por estes ficarem mocos tamto q morreo o dito Rey alaoadim Regia ho (412) Segundo Wilkinson (pp. 54, 62), Alauddin era um homem forte, que morreu (envenenado pela seu próprio irmão, o Sultão Maimud Shah de Pahang) na flor da idade, quando teria o máximo trinta anos. (413) Çaleman (Sulayman). Nos Comentários diz-se que Celeimão era filho de Alaoadim; mas Winstedt (p. 51) diz que eles eram irmãos, «como está provado pelo seu túmulo recentemente encontrado em Sayong Pinang, num remoto afluente do Rio Johor». (414) Mahmud Shah.
A Suma OrientaI 405 bemdara ho Regno athe os mocos virê a ser mayõres alguus fauoreciam o RaJa çaleímam o bemdara fauorecia ho RaJa mafamut que era seu neto f° de sua fa mas ho Regno nom per- teçia somemte ao RaJa çaleman por ser f° de Rainha porq as outas sam De menos valia, posto que seJam Recebidas pa o herdar dos f°s Neste tempo pasarom quoatro ou cimq0 annos E os gramdes mamdaris comecarom a fazer parçealidades E bamdos paão trabalhaua por sua pte pa seu neto herdar o Regno o bemdara era poderoso na terra E poderá aVr o Regno pa sy mesmo se o nom quisera pa o neto tinha o çerto pa o RaJa mafamut seu neto he pa isto | tinha gramde valia E paremtesquo pa o fazer Foi. nor. como dito hee posto q em cima diga que este Rey mafamut era neto do bemdara que degolarom nom era senom neto De seu Jrmaaõ filho De huuã sua fa E esta he a verdade que despois o tirei a linpo//.(415) Aleuamtarom o dito Rey mafamut por Rey de malaqa E no prinçipio de seu Regnado p° fazer paz com pahaão casou com huuã fa (416) delIRey De paão E foy este Rey de menor Justiça que nenhuu Dos pasados gramde luxurioso cada dia (415) A fim de compreender este complicado parentesco deve-se dizer que, segundo Wilkinson e Winstedt, o Sultão Mahmud, ou Mafamut era filho de Tuan Senaja, mulher de Sultão Alauddin. Tuan Senaja era irmã de Tuan Mutahir (o Bendara assassinado em 1510 por ordem de seu sobrinho Sultão Mahmud), ambos filhos do Bendara Tuan Ali Sri Nara Diraja e Tuan Kundu (primeiramente casada com Sultão Muzaffer Shah), irmã de Tuan Perak que sucedeu a Tuan Ali Sri Diraja como Bendara. Parece que Pires, como não é de estranhar, misturou todos estes complicados paren¬ tescos. Mahmud era de facto sobrinho de Tuan Mutahir, o «Bendere que eles degolaram» (é mais de crer que foi simplesmente morto com o kris), e neto de Tuan Ali Sri Nara Diraja (que não foi morto) e Tuan Kundu, irmã de Tuan Perak que também foi Bendara. Vide nota sobre Pate Cuçuf, pp. 317-8. (416) O rei de Pahang era Sultão Mahmud Shah, filho de Sultão Mansur Shah, por conseguinte tio do seu homónimo em Malaca.
406 Tomé Pires bebodo Damfiam era presumtuoso por força trazija os Rex de pahaão & de campar E ardagíríj em malaq® era tam Reue- remçeado que lhe nom falauam senom de mujto lomge E mujto pouqas vezes era gramde comedor E bebedòr criado em boa vida E viciosa era temjdo os out°s Rex quamdo lhe falauam era com gramdes çumbayas cortesyas a sua gisa chamauase coltam inafamut//. Este por sua soberba leuamtou loguo a obidiemçia a ell- Rey de syam he nom qujs mais mamdar embaxador a sua terra nem menos a Jaõa somemte fiquou na obidiemçia Da china Dizemdo como avia malaq8 de ser obidiemte aos Reis obidiemtes a china pollo quaãll avera qinze annõs que ellRey de syam moueo gerra comt8 malaq8 os seus capitãees pollo mar E saio o lasemana DellRey de malaq8 E os desbaratou a Jlha De pulo píçam(417) homde emcomtrarõ hos syames De maneira que des o dito tempo nunq8 mais teue paz com syam & avera vimte & dous annõs aguora que sam quebrados & nunca mais vierom a malaq8 sya¬ mes senom aguora em tempo que malaqa he nosa-//: Ho Rey de Jaaõa nom curou De malaq8 nem de sua obi¬ diemçia porque nom lhe Relevaua por quamto os portos Do maãr sam Ja tomados De mouros tem o sertãoo he nom pode fazer guerra a malaq8 porque nom tem poder no maar como largamemte se Recomtara qmdo se falar na nobre Jlha Da Jaaõa E de suas cousas he gemte he comdiçõees E de como os mouros sam Ja em pose das beiras do mãr fez alardo o dito Rey mafa- mut em malaq8 quamdo peleJou com os capitãees de ellRey de siam E acharomse nouemta mjll homèes pa poder tomar armas disto foy tam soberbo E desaRazoado E tam presumtuoso q Dizia q elle soo abastaria pa destroir ho mundo E que o mundo tinha necesydade de seu porto por ser cabo De mouçoees e que em malaq8 avija De fazer meq8 & que nom avija De ter opínjam (417) Pulo Pisang aparece pela primeira vez como puto picã nas carias de P. Reinei de c. 1517 c c. 1518.
A Suma Orienta! 407 De seus amtepasados De hir a mequa & por esta causa dyzem os mouros letrados E os pouos que pola soberba deste pecado se perdeo he querem lhe todos mall/. Este Rey mafamut ouue medo de se leuamtar RaJa caleman com ho Regno he mamdouo matar em malaqua E trazija com- siguo em malaca RaJa Jalím (418) pay deste moco que era Rey de campar aguora & se chamaua RaJa andela/(I49) Dizem todos q este rraJa Jalim era mujto bom homem E porque o vijo de suas casas pasear por huuã rrua bem acompanhado Dixe Ja aqujllo he pa me tirar o Regno que dira que lhe ptemce soube ysto o RaJa Jalím E fezse Jrmjtaão como homês que desprezam ho mumdo E comtudo ho mamdou matar com peçonha sabida memte semdo seu primo com Jrmaão E matou RaJa bunco seu sobrinho as crisadas por que se queria hir a daruu Dizem q era este de mais preço q RaJa Jalím// Matou Jso mesmo a Jrmaã de RaJa Jalím que era sua molher may deli Rey amet (420) seu f° aas crisadas sem causa somemte por lhe vijr asy a vomtade quamdo esta» bebodo com o afiam he ornem este mujto mudauell De crudelisymo diabolico/ no tenp° deste despois destas cousas serem pasadas E ter morto outs0 homees mujtos cheguou Dioguo lopez de seqra nos Naujo matou tuam porpate(421) mujto grãde mamdarim & seu filho tuam açem (422) que eram como o rraJa bumco e estes aas cri¬ sadas// (418) Raja Zainal-Abidin. (419) A quem Barros chama Abedelá (II, ix 7) e Góis Abbadella (III, Ixiii). Em 1515 foi feito Bendara de Malaca, em lugar de Ninachatu, c degolado uns meses mais tarde, devido a intriga de Mahniud. o ex-rei de Malaca. Vide nota pp. 443-4. (420) Ahmad. (421) Tuan Perpatch Puteh, irmão de Tuan Perak, a quem sucedeu como Bendara. Tuan em malaio quer dizer «patrão, senhor, dom, senhora, dama». Marsden, Dictionary, s.v. (422) Tuan Hasan. Segundo Wilkinson (p. 59) este era filho de Tuan Mutahir, não de Tuan Perpatch Puteh.
408 Tomé Pires Cheguado dioguo Iopez de seqra devamte o porto de rnalaq* neste tempo avya em malaca. segumdo Vrdadeiramemte se afirma Foi. I70v. mjll guzarates mercadõrs [ Amtre os quães avia gramde copia Delles De gramde cabedall Riquos & out°s erã estamtes por out°s E desta maneira dizem que avja aq1 de parses & bemgallas he arabios mais de quoatro mjll homèes amtre os qeês emtrauam mercadores Riq°s & out°s feitores Doutros//. Auja asy mesmo qujlis mercadõres gramdes & de gramde trato & de mujtos Junquos esta he a nacam que mais nobreçe malaqa tem estes a masa nas maãos como ao Diante se dira/ primeira memte os guzarates se forom ao dito Rey mafamut com gramde presemte E asij parsês & arabios E bemgallas E mujtos dos qujlis Jumtamemte fezerom sua fala ao dito Rey como os portugueses eram chegados ao porto & pois asy era que Ja aviam De vijr alij cada vèz E que alem de Roubarem ho maãr E a terra espiauam pa aver de tornar a tomala como Ja toda a Jmdia era em poder dos portugueses a que qa chamam framgès que por qmto portugãll era lomge que os Deviam aquj De matar todos E que a noua nom poderia ser tam çedo em purtugall ou nunqa E que rnalaq8 non se pderia nê seus merca¬ dores emcarecemdolhe o caso de maneira que o Rey Respomdeo q elle falaria com ho bemdara & elle Detrimjnaria o que njsso pareçese os da fala forõ ao bemdara leuaronlhe o presemte dobrado E a mor parte era dos guzarates conuerterom ho bemdara a sua comJuraçã E mais lhe diserom ao ditõ bemdara que pedise ao Rey a naão capitayna pa sy que trazia mujtas bombardas//. Ieuarom hos sobreditos mercadores presemte ao lasamane que nisto os aJudase E assij o fezerom ao tomungo que era Jrmaão Do bemdara & falarom ao f° de vtemuta RaJa (423) Jaão que aquj degolarom que fose niso & que pedise huuã naão daquellas Estauam asy todos emformados & abalados athee Vr q era a vom- tade Dell Rey neste meio tempo lamçou dioguo lopez mercadaria (423) Timuta Raja.
A Suma Oriental 409 fora em gudoèes pa fazer sua carga a quall cousa Dizem q deu crecimemto a treiçam pa apanharem a mercadaria pa ellRey & bemdara//. chamou o dito Rey a comselho o bemdara & o lasemana E o tumungo cerina De rraJa (424) que Dizem que era o mais sesudo homem de malaca E chamou tuã mafamut q despois morreo as nosas maãos que era pesoa primcipaall E outs0 Ja hordenados do comselho & propos ho dito Rey a fala a todos o q se deuja fazer sobre o que diziam as Jeraçoões dos merca¬ dores sobre a vimda Do tall capitão/ Diserom o bemdara E o tuam mafamut & os out°s mamdaris ao dito Rey que era bem que os matasem a tõdos & que log° era feito q elle cataria maneira pa íso preguntou o Rey ao lasemana E ao tomunguo q lhe pareçia, Dixerom ambos q nom erã em tall comselho mas que fosem bem despachados & comtemtes E com sua merca Doria pois vinham a salua fee a seu porto & se taees homêes & tam mãos eram como diziam que lhe disesem que se fosem embora & q nom estiuesem no porto//. Dixe o Rey vos out°s nom emtemdeès o caso destes homêes elles vem espiar a trra pa virem com armada Despois como sey & vos sabes q amdam tomamdo ho mundo & destroimdo E apagamdo o nome de noso samto profeta morram todos & des¬ pois se qa vierem outa alguua Jemte sera a que nos destroyremos no maar & na terra gemte Juncos ouro he em noso poder mais q em outro/ purtugall he lomge matemse todos// chamarã os (424) Parece que mais uma vez Pires misturou as suas informações. Segundo Wilkinson (pp. 55-67), Tuan Tahir, o Sri Nara Diraja (irmão de Tuan Mutahir, o Bcndara Sri Maharaja) era o Tesoureiro Chefe; o Tumungo ou Tcmcnggong era Tuan Hasan (filho e sucessor de Tuan Mutahir no cargo de Temenggong). Todos três, com outros membros da família, foram em 1510 mortos em conjunto por ordem do Sultão Mahmud e instigação do Lasemana Khojc Hasan, um favorito do Sultão e inimigo do Bendara. Mas pelo que Pires diz não parece que o Lasemana fosse muito favorito do Sultão. Provavelmente ao referir-se a Tumungo Cerina De Raje, Pires queria dizer Tuan Tahir Sri Nara Diraja.
410 Tomé Pires mercadores & diselhes elIRey que Ja o bemdara tinha a Reposta que falasem com elle//: Dizem que dise elIRey ao Iasemana & ao bemdara vos lase- mana dares no mãr com uosas lamcharas E matayos todos & nom se metam as naoos dos portugueses no fumdo E aRecadem a artelharia pa mjm E a naão capitayna E o bemdara Dara em terra nos q estiuerem ao peso por que os faremos todos sair E no maar temde bom Recado posto que vos soo abastaries pa Dez tamtas naãos quem destroyo os syames no maãr larguo Foi. 17Ir. homde avija | Cemto pa huu dos nosos que fara a cousa tam pouqa sobre amcora que os q vam ha vemderlhe galinhas abas¬ taram pa ellês que nom som homèes de peleJa segumdo sam emformado//: Dixe o Iasemana este neguoçio he comtra Justiça E eu nom queria ser nelle he vos dig° que amte tomaria pemdemça com mjll tamtos homeês que com estes nom porq hos tema mas por¬ que mjnha alma nom he na semelhante detremjnaçam atraue- souse o f° do bemdara & dixe sõr eu Jrey se Iasemana nom qser Dise elIRey que lho agradeçia Respomdeo Iasemana yde q se uoso neguoçio vay adiamte eu Nom sey nada E todos qmtos ha em malaqa nom som poderosos pa tomarê estas naãos nem ha causa nom ho comsemte// Fiquou o Rey escamdaloso desta fala comtra o Iasemana E quisera o mandar matãr por lhe fazer de huu caso tam pequeno tamanho E mamdou q nom saise de sua casa foy o bemdara & o f° seu mayor E o filho De vtamutarraJa E o capitam dos guzarates Juntos nisto/ dizem que cada huu qeria huuã naão E que se desavinham sobr o escolher delias E por no se emganarè como mujtas vezes fazem tiuerom mana De averem a Jemte em terra que aviam de Recebr crauo em diuersas ptes deçeo a gemte em terra foy feito q todos sabem & no maãr (425) o q noso sõr estoruou//. (425) Vide nota atrás, p. 388.
A Suma Oriental 411 Despois da partida do dito Díoguo lopez do porto tornaram armar pa Vr se o poDiam acolher finallmemte fiquou o rey mujto descomtemte he mamdou chamar o lasemana E diselhe que lhe pareçiã as cousas pasadas & o lasemana lhe dise q maal E que curase De se fazer forte que os portugueses vimriam sobre malaca E que emtam saberia quem a defemdia dos homês franques sem medo E que tinham ho mumdo soJugado pollo quall ho bemdara fiquou daly maall com ho Rey E mujto & por esta causa ho matou como se adiãte dira & tudo he Justiça de ds//. Ho Rey mafamut comecouse a fazer forte por comselho do lasamana he alguu tamto nom fazija gasalhado como soya ao bemdara./ cerima rraJa-/- que era casy tamanho em poder como o dito Rey & dizem q se comecou apoderar da terra secreta memte out°s dizem que nam mas despois Dell Rey o bemdara. he o segundo como ao diamte se dira Despois disto asy este bemdara fanou çertos homeês nosos p força com as maaos atadas E huu morreo sobre o caso E outrs° escaparom com peitas paguas por njna chatu (426) bemdara secretamemte// Comecou o Rey a fazerse forte ouue coceguas do bemdara aleuantarse com ho Reino porque o Rey nom era conhecido em comparacam do bemdara/ & as crisadas matou ho bemdara/ cerima RaJa/ tuam açem/ & tuam zeynar seus fs0/ & tuam zedij amet E tuam Racan seus netos que eram estes mores q Reys de pahaão E campar/ matou cirjma rraJa Jrmaão do bemdara. E tuam adut alill & tuã aly E tuam amet filhos do dito cirjma (426) Nina Chatu ou Nina Chetu era um grande amigo dos Portugueses, referido com apreço por quase todos os cronistas. «Um mercador gentio, que ali [Malaca] estava de assento, natural do Quelim, a que chamavam Nina Chetu, porque este mitigava com peitas os autores do mal que eles (Rui de Araújo e 18 Portugueses com ele presos) recebiam c assim lhes matava a fome e socorria em quanto podia». «E verdadeiramente que na esperança, que se a ele teve de galardão, não se enganou connosco, porque tomada a Cidade, Afonso de Albuquerque lhe pagou esta sua obra com honra, e mercê que lhe fez, a qual foi causa da sua morte voluntária», como adiante vere¬ mos em seu lugar. Barros, II, vi, 3. Vide nota pp. 441-2.
412 Tomé Pires Foi. 17 lv. I termo da cidade de malaq°! de rraJa tumungo q todos erã seus paremtes Das quaees cruezas fiquou o dito Rey mall quisto E avorecido de todõs posto q esta casta o mereçese polo comselho q conta dioguo lopez de seqra ordenarom//. A todos estes que matou tomou as molheres & fs° pa sy sobre todos tomou a fa (427) do bêDara que matou por molher de que ouue huu f° tomou as fazemdas de todos estes pa sy De que ouue gramde copia douro dizem q meteria ê sua casa Desta feita cemto & vinte molheres fremosas E cimqoemta qintaes douro E outsa peças E gramdes Joyas E dizem q hos mortos nom forom merecedores De tall morte porq nunqa se soube tall treiçam//: Duramdo este tempo E afortalezamdose o dito Rey de fortes trãqueiras & de mujta artelharia pollo medo E temõr que tinham do que fezerom a nosos portugueses qujs fazer alardo de sua Jemte em todo seu Regno & senhorio com seus mamdaris E oficiaees seus | com seus capitaêes E porque amte que a isto venhamos sera necesario Recomtar da cidade de malaqa E seu termo E de seu Regno & despois dos lugares De seu Srl° por mostrar sua gramdeza segumdo a terra de que pa despois se saber sua destrujcam//: Malaqua da bamda dupe q he comtra qedaa tem por termo acoala penaJy (428) que he huu Rio q vem ao maar avera da (427) Tuan Fatimah, «uma rapariga muito bonita», que casou com seu primo Tuan Ali (Tuam Aly de Pires), filho de Sri Nara Diraja. Quando o Sultão Mahmud foi ao casamento entusiasmou-se com a beleza da noiva, «sentiu-se desconsiderado pelo seu Bendara, por este mostrar abertamente que o não desejava para genro». Parece que daí veio o ódio de Mahmud pela família do Bendara. Cf. Winstedt, pp. 65-7. (428) Acoala Penajy deve corresponder a Kuala Lingi, a foz do Sungi lingi (kuala cm Malaio quer dizer foz dum rio) que faz parte da fronteira entre o Estado de Ncgri Sembilan e o Estabelecimento de Malaca, uns 11 km a leste do Cabo Rachado e a uns 39 km da cidade de Malaca — quase o dobro das 4 léguas indicadas por Pires. Kuala Lingi é o primeiro porto com alguma importância a noroeste de Malaca. Nas cartas de Herédia (fols. 11-12) Sungi Lingi é denominado Rio Panagrim. Imediatamente a oeste de Kuala Lingi está Tanjong Panjang. Vide Est. XXXIX.
A Suma Oriental 413 fortaleza de malaca a esta foz quoatro leguoas he da bamda diler (429) comtra muãr tem por termos acoala caçam (430) & averra da fortaleza a este termo tres leguõas e emtam vimdo pola terra firme de huu termo a outro pello pee Do momte q se chama golom leidam que he termo da terra firme se çerra & acaba ho Dito termo de malaqa em o qll termo ha gramde numero De madeira pola mor pte Dereita que se vay ao çeèo pa mastos & outsa obras & tem gostosas auguas//. Tem o dito termo de malaq8 segumdo Ja he dito por seus límjtes mjll he cemto he cimqenta qujmtaãs a que chamam duçoees delias de palmeiras delias Dorraquãs Delias de frujtas de diuersas maneiras & boõas amtre as quaèes tem afruita dos duryões q he a melhor fruita q ha no mundo// sem duujda tinha malaca desde acoalapenaJy atee o Rijo De muar ao lomguo Do maãr huu cate domèes Darmãs q podiam peleJar que sam cem mjll homêes// estes tinha ao tempo do capitam mor vijr ha malaqua quamdo a tomou// tem este termo de malaq8 alifamtes brauos mujtos E mujtos tigris cervos seis ou sete Jeraçooêes asy como bois & nam o sam//: Ho primeiro luguar hee cinyoJum tem a guouernamca delle huu mamdary Este pagaua ao rrey que foy De malaqua quoatro (429) Herédia diz que Yler era uma aldeia fora dos muros de Malaca, «deste lado do rio (de Malaca) para sudeste» (foi. 6), e assim aparece nas suas plantas da cidade (fols. 8-9). Corresponde à parte sudeste da cidade de Malaca, hoje chamada Banda Hilir. (430) Kuala Kesang forma hoje a fronteira oriental entre o Estabe¬ lecimento de Malaca e o Estado de Johore. Herédia chama-lhe «o belo ryo de Cassam de lagartos e crocodilos» (foi. 10), e tem-no nas suas cartas como Casan. Segundo Herédia o «distrito português de Malaca» estendia-se desde o Rio Panangim (Lingi) até um pouco a leste do Rio Muar, numa distância de doze léguas de circuito. De facto há aproximadamcnte 80 km. entre Kuala Lingi e Kuala Muar, ao longo da costa, e Kuala Kesang está a 29 km de Malaca — quase o dobro das três léguas indicadas por Pires. No tempo de Pires os limites do território de Malaca eram muito aproximadaniente os que são ainda hoje. (431) Sungi Jugra é o segundo rio digno de nota entre Kuala Lingi e Klang. Ilqujtn- taãs que ha neste termo de malaqua/ E que Jemte Darmas tinha//. I/Regno de malaca desde acoala penaJy atee qedaal/. tudo ysto sam terras destanho a que chamam tijmasll. cinjo- Jilm. (431)
414 Tomé Pires ciam (432) I Ver¬ tiam/ (433) /Mim- Jam/ baruaz Foi. 172r. pirac (434) mjll calaíjs cada huu anno postos em inalaca sera lugar por huu rrio acima De duzemtos vizos Sam malayos// Outro luguar Das timas ciam alem deste se chama /ciam/ pagua outro tamto em malaqua E asy da pouoacam Do outro sam malayos como os de çimã De cínjoJuu Outro luguar ha alem deste em outro Rijo que se chama calamgor paga em malaqua em cada huu anno sejs mjll calajs em tijmas este he moor luguar De mais gemte sam malaios//. Ho outro luguar he vernam este pagua em cada huu anno outro tamto como ciam E çinjoJuu E sera dous tamtos moradores como os sobreditos// Outro luguar se chama mjmJam este he de mais estanho que todos he mõr q hos sobreditos pagaua em malaqa cadano oito mjll calais q valem dezaseis mjll porque tem o dobro estes// este duas pouoaçoees tem mjmJam he de malayõs E a outra mais acima he de luçoèes & mujtas vezes estam devisos & tem cada luguar sua Jurdiçam E asy he oJe em dia//: Outro he baruãz este nom tem tamto estanho mas tem mais gemte E he luguar De trato tem mujtos paraoõs E gemte & no rrijo de baruaz ha duas pouoaçõees este baruaz tem mujto aRoz sam malayos pagam cadano sejs mjll tijmas em malaqua os deste lugar presumem mais soos q todos os outs0 esta por capitam delle tuam açem mamdarim de malaqa & A outra pouoacam chamase pirac pagaua quoatro mjll tijmas em cada huu anno em malaca sera da pouoaçam como ciam sam também malayõs// Aos guouernadores destes lugares chamam mamdaliquas (435) (432) Klang é uma povoação não longe da foz do Rio Klang. R. de Calam na carta de Pierre Berthelot de 1635. (433) Rio Bernam. Bernan na carta de Pierre Berthelot de 1635. (434) Rio Pcrak. Pera no planisfério de L. Homem de 1554, no atlas de D. Homem de 1558, e nos atlas de Vaz Dourado. (435) Talvez do malaio mantari (conselheiro, ministro de estado), ou do árabe makam (um chefe designado, residente, governador provincial) e malik (rei).
A Suma Oriental 415 .s. mamdaliqua De tall luguar tem em suas terras ciuell E crime os píaees vem tratar sempre a malaq3 em paraoos pequenos tra¬ zem timas E arroz galjnhas cabras figuos canas dacuqr oraquãs E cousas semelhamtês a estas/ he Jemte proue ha destes lugares viuem desta man“ & os daruus salteanos E as vezes leuam todõs E sempe estam estes de tramqueiras & Ho primeiro luguar he muãr esta he a primcipall cousa Depois de malaq3 sera ha pouoacam de dous mjll homêes tem huu Rijo mujto bom tem fremosas qntas he tem aRoz pa sy tem mamtimemtos enavomdamça mujtas oracas a gemte de muar sam cavalleíros tem mujtos mamdaris he da Jurdiçam Do bemdara tem parãoos & fremosa Ribeira Darvoredos E pescados he fresca cousa//. Este Rio fremoso he moôr Rijo que muãr mujto nam tem tanta Jemte a lugares he pouoado pouq3 cousa tem Demtro mujtas boquas podem emtrar nelle naõs tem fremosa madeira mujtas orraquas fruitas Jmfimdo pescado este lugar dyzem que he dos Reis De campar por comtratos amtigamemte// Alem he o canall De sijmgapura tem alguuas pouoaçoèes De çelates he pouqa cousa Dhy por diamte nom se estemde mais lomge o dito Regno pola terra este canall he cousa de pouca Jmportamçia Diguo os moradores Delle//. Este Reyno De malaq3 que atee aguora se dixe todo Jaz na terra de syam agora Diremos dos senhorios que obedeçem a malaq3 Delles acodem com parias Delles com Jemte comecase na Jlha De comotora pola costa camjnho de palimbaão//. Jrcaõo he tera Jumto com daruu soya ser sogeito a ellRey De daruu & aguora he De malaca he Regno & tem Rey este Regno de malaq• da banida de paão IRijo fermoso! Singa¬ pura (436) Jrcaào (436) É esta a primeira vez que o nome aparece escrito como ainda hoje se escreve em português — Singapura. Os dois primeiros documentos europeus, mais antigos ou contemporâneos deste, onde Singapura é men¬ cionada, sâo a carta de Rodrigues (foi. 34), que regista samgepura, c a mis¬ siva em 22 de Fevereiro de 1513 por F. Peres de Andrade escrita de Malaca a Afonso de Albuquerque, que três vezes menciona singapur. Cartas, ut. 51-65.
416 Tomé Pires Rupai Içiacl /Pur/m/ campar Foi. 172 v. Amdar- guerj pahãmo nom pagua parias somemte he obryguado na guerra D o aJudar com Jemte De graçaa//. Rupat he luguar alem deste segujmdo ho direito camjnho he sôr Delle huu mamdarj he obidiemte ao dito Rey De malaq8 polia maneira q acima se dixe de Jrcão/ çiãc he Regno tem Regno he pequena terra he obidiemte asy mesmo ao Rey De malaca/ nestas terras viuem por suas lauoíras nam som homees De trato vem a malaca comprar pannõs E de malaca os vam vemder trazem ouro em Retorno// Purjm he luguar casij de çelates he o xeqe delle obidiemte ao dito Rey de malaqua este luguar tem mais paraos E sam ladroêes/ estes homees neste luguar vam fazer feira os ladroees dos furtos que fazem// daquj saem Remeiros pa malaqua ha neste lugar gramdisyma copia de sauees// mais q em azamor & dovas Delles vem a malaqa gramde camtidade Ho Regno de campar he forte/ a terra he deserta mujto & proue/ tem ouro tem lenho alões De butica tem mujto breu mell çera tem arroz que abasta hos moradores este Rey de campar decemde de rraJa pute sam primos com Jrmaõs delRey de malaq3 tem gramde líança este pagaua ao dito Rey de malaqa amtiga- memte quoatro cates douro q valem seis cemtos & vimte & cim- quo cz*108 todos quoat0//: Ho Regno de amdarguerj he como ho De campar he De mais mercadores tem mais ouro que campar tem asij paremtesquo com ho Dito Rey de malaqua como ho De campar & com o de campar// tem em sua terra as mercadorias que ha em campar por que tudo he huuã terra que se chama menamcabo posto que aJa Rey de menamcabo esta terra se chama toda asy esta tem ouro melhor que aquij haa he Rey mãis chegado ao trato o damdarguerij porque tem melhor foz emtram Juncos Demtro pagua ao Dito Rey de malaqua out°s quoatro cates Douro por anno//: Pahãao he na terra de siam tem Jso mesmo gramde parem¬ tesquo com ho rrey de malaq® he com hos Reis de campar he amdargerij este tem em sua terra as mercadarias q hos out°s
A Suma Oriental 417 tem he tem ouro em boa camtidade que se chama de pahãmo he em poo & De menos valia q ho de menãcabo he mor rrey ellRey de paão que cada huu destes e este tem ellRey de talim- gano trebutario ha paão/ & paão he trebutario ao rregno De malaqa em out°s quoatro cates douro em cada huu anno este tem pedra vme he emxufre alem das outas mercadoriãs tem bõa cidade peleJa sempre com os de sijam tem pahão mamdaris homêes De peleJa he terra q daa homees guerreiros tem trato De mercadorias tem mais mercadores em sua terra que amdar- guerj he seu porto bõm E sua gemte Domestiça a mercadaria//: A terra de tucall he alem damdarguerj na costa do mãar he de xeqe he obidiemte a malaq8 acode com Jemte he terra douro tem as mercadarias damdargerj he cousa pequena nõ he obidiemte a outrem senam a malaq8 sam boõs homêes no mar tem paraos pequenos/ limgua sam huuas quoatro Jlhas gramdes que estam defromte de tuncall casy no pma terra de palimbão defromte/ tem Rej chamase RaJa limgua este terra quoremta paraos E lamcharas he Jemte mais guerreira que toda outa De malaq8 nem sm seu Regno E senhorios Daquj saem os cabaees como se delles dira qmdo se falar ê Jso este RaJa limga he mujto q‘sto dos çelatees//: celates sam cosairos ladroêes amdam em parãos pequenos pollo mãar a Roubar homde podem sam obidiemtes a malaca fazem cabeça de bímtam estes seruem de Remeiros qmdo sam rrequeridos Do rrey de malaca De graca somête pollo mamti- mento & o gdor De bimtam hos apresemta qmdo ham de seujr çertos meses do anno-//: hos Rex de malaq8 aas vezes fazem capitaees Jeraêes a que chamam paduca RaJa sam estes como visorreis este tall he des- pois Do Rey a taall pa fazem todollos mamdaris çumbaia he bemdara E lasamana asy a fazem a este tall paduca RaJa//. qmdo nom ha o sobrDito emtam he o bemdara ho moõr (437) Esta é a primeira descrição europeia dos altos funcionários de Malaca — Bendara, Laksamana, Tumungo e Xabandar. Vide Hobson- Tuquall llimgual Çelãtes lofiçiaees do Rey de malaq"! Bemda¬ ra (437) 3®
418 Tomé Pires /lasa- manal lumungo Foi. 173r. xabam- darès Como soçedem os Reis de malaq“ do Regno bemdara he como Justa moôr/ em todo caso ciuell E crime tem asy mesmo carguo de toda fazemda do rrey de quaall quer sorte E comdicam que seJa este mamda matar qual qr pa do pouo se he fidallguo ou estramgeiro faz primeiro emfor- macam ao Rey he ambos ho Detremjnam com comselho Do lasamana E tununguo//: lasemana he como almjramte do mãar he capitam de toda armada que se fizer no maar toda a Jemte Do maãr E asij Juncos lamcharas sam da Jurdição deste he guarda do Rey todo caua- leiro mamdarjm he da obidiemçia deste he casy tamanho como ho bemdara nas cousas de guerra he mujto moõr E mais temjdo//: Tumunguo he alcaide moõr da cidade tem carreguo da guarda tem mujta Jemte de sua Jurdiçam a este vem todollos casos primçipiarse De prisõas & deste vam ao bemdara | E amda sempre este carguo em pesõas de gramde estima este he também o que Recebe os dritos das mercadarias//: ha em malaq8 quoatro xabamdãres sam ofícios da cidade sam homêes que Recolhem os capitaees dos Juncos cada huu segumdo he dessua Jurdiçam estes hos apresemtam ao bemdara catamlhe gudoèes aviam suãs mercadarias apousemtanõs se trazem cartas dam hordem aos alifamtês/ haa xabamdar dos guzarates mais primcipal que todos ha xabamdar da bunua qujlím bemgãlla peguu passee/ ha xabamdar dos Jaos maluquo bamdam palimbãao tamJompura burney E dos luçõees ha xabam¬ dar dos chíjs lequeõs chancheo champa/ cada huu'acode a sua naçam quamdo vem a malaq8 com mercadorias ou Requados//: Ho rregimemto de malaq8 he que se o Rey tem filho mais velho de sua molher casa o de qinze annos ao diamte E se o tall f° ouue De sua molher f° ou filha que o Rey tem neto Disiste De sy a guouernamça E fiqua o filho no Regno & Ja o pay nom •Jobson, s.v. Bondara, Laximana, Toomongong e Shanbuder; Dalgado. s.v. Bendara, Lassamane, Tamungo e Xabandar; vide também a nota sobre Paduca Raja. pp. 396-7.
A Suma OrientaI 419 vsa de Rey dahij p° díamte com tudo hee acatado como Damtes mas nom Rege nada Nemguem nonpode vístír pano amarello senom elle sopena De morte E se quer sair he poor outro pano emtam mamda apreguoar a cõor E nenguem nom saee de tall coòr sopena De morte saira no anno tres quoatro vezes de praça que o veJam todos se vay por terra o alifamte vay cuberto atee os olhõs De panno amarello & se traz Rey consiguo vay no pescoço e elle vay no meio E o seu paJe vay nas amcas sombreiro Da chijna nom o pode trazer senom sua pa//: Qmdo vay em parão ou lamchara leua quoatro uaras bramqas de compmemto de sete oyto braças Duas por popa E duas na prõa chamamse guallas (438) estas varas estas varas pode trazer huuã De proa ho lasamana outro quall quer Rey pode trazer duas huuã De popa E outra De proa & esta he a mõor homrra q ha amtre elles a esta maneira nom se pode quebrar amtre os malaiõs E sobre cousas destas se mataram melhor que sobre outas estas varas vam aleuamtadas asy brancas sem outra cousa//. Hos cabaèes sam homêes fidalguos tem dado a emtemder a todòs que nom podem morrer a ferro sam cabaèes homees que trazem huu graão daço E outs0 metaees tamanho como grãoos de comer/ no bucho Do braço drrto & qmdo este Recebem com Juramemto De morrer como cavalleiros ha poucos cabaees sam mujto temjdos ha terra Domde saem melhores cabaees sam das Jlhas de limgua E apos estes de burnee & de paão E os somenos sam De malaqa// Amocos sam caualeiros amtre estes/ homèes que tomam Detremjnacam de morer he vã com ella adiamte E morrem esta (438) Malaio gãlah, uma vara, um longo pau, um pau de suporte, bicheiro ou croque». Marsden, Dictionary. s.v. (439) Malaio Kãbat, «invulnerável ... uma palavra de feitiço para tornar a pessoa invulnerável». Marsden, Dictionary, s.v. Os Comentários (III, xv) e Barros (II, vi, 2), porém, dizem que cabal era, o nome dum animal do Siâo ou de Java, cujos ossos tinham a virtude de evitar que o sangue humano corresse duma ferida. A orde- namea que o Rey tem acerqa de seu vistir E sair fora Ydado Rey por maãr caa- baèes(439) Amoquos
420 Tomé Pires A Justiça De malaq* Foi. 173v. \Ho que o Rey herda qmdo alguu morre de seu pouol Maneira dos casa- memtõs tall Detremjnacam se chama amoquos (440) destes ha mujtos em malaq3 E por estas partes todas/ nom se podem fazer sem mujto vinho pmeiro Destes se dira qmdo se falar Da Jaaõa por¬ que dela saem amoquos pncipaes Quamdo alguu mamdarim hade morrer por Justa vam a sua casa & dizem asde morrer E o mais cheguado paremte ho mata as crisadas ho morto se laua pmeiro E faz sua oraçam emtam Danlhe o cirj a que chamã betelle (441) E asy morre ou se esta presso esta he a mais homrrada morte: E se he piam leuãno a Rua & mandano matar ou espetar ou asar ou as punha- das nos peitos segumdo a calidade Do cryme E a fazemda de todos estes he do Rey se nom tem herdeiro de linha dereita E se o tem leua a metade//: Qmdo alguua pa ou mercador morre sem herdeiro De dríta linha leua ho Rey sua fazemda E se o morto fez herdeiro emtam partem a fazemda de promeyo fazem pmeiro as esmollas E ose- qujas Do momte moõr & pagamse quaesquer Dividas q ho morto Devija II: Como sam pesoas homrradas nom casam sem o fazer sabr primeiro ao bemdara. se he antr mercadores tamto hade leuar o marido como a molher & ysto amtre os qujlijs q casam em moços E se he amtre mouros ho homem hade dar a sua molher Dez taèes & sejs mazes Douro Darras estes ham sempre De ser viuos em poder Delia & se o marido a quer Deixãr ficamlhe as Ditas arrãs & os vestidos E pode cada huu casar com quem lhe bem vier E se a molher fez com ho marido viaJem pollo maar Emtam lhe emtregua o dr° ao marido E se se Dalij apartam em tall caso acode ho marido com hos dez taèes & o ganho delles (440) Outra vez, este c o primeiro registo cm qualquer língua da palavra amoquo ou amoco, c a primeira descrição do que a palavra implica. Vide p. 299. (441) Sirih é a palavra malaia para betei. Marsdcn, Dictio- nary, s.v.
A Suma Oriental 421 Se alguu homem faz adultério se o marido pode matar ao adultero & sua molhf ambos Demtro em casa fica liure se mata huu & o out° E nam tem peniia E se alguu fogio E o matou fora Jmdo De casa tem penna De morte som,e o pode premder & dhy por diamte nom pode fazer vida com sua molher acusado o out°H qmdo alguu homem JnJuria out0 ou molhêr a penna he a metade pa o Rey a metade pa parte nom podem Requerer sua Justiça sem a pesoa Requerente leuar alguuã cousa ao Juiz segumdo a calidade do q se demamda he disto sam mujto Riquos hos bemdaras// Todo mamdarij qmdo vay ver o Rey nom se chega a elle a dez pasadas he allevamta as maãos ambas em cima Da cabeça tres vezes e emtam beiJa a terra & falalhe o que qr por terceiras pas E ao despedir outro tamto ysto os dias que sabem que o Rey se mostra a elles E outro tamto fazem ao primçepe tem todos grãDe acatamemto ao Rey E as suas cousas E o pouo qmdo pasa por Jumto com as casas Do Rey a ellas fazem Reue- remçia//. Todo mamdarjm qmdo falia com out0 nom se asemta em pee por Rezam dos asemtos saluo se o asemto he Jguoaall como bamquo ou casa De huu teeor E quamdo acenam a maão ezquerda apertada com o dedo polegar estemdido E a maão Dríta sobre a ezquerda asy falam por cortesya. todo homè tem suas casas mais baixas Do amdar pa os serujdores q nom estem tam altos como hos senhores quamdo com elles falarem/ ao malayo nom lhe aleuantarès a mãao Do Jmbiguo pa cima he gramde cortesy Disto se dira nas cousas Da Jaõa porque delia tomarom este custume//: Hos malaios sam homèes çiosos E asy toda a Jemte homr- rada da terrã nom lhe aves De ver suas molheres nunca nem saem fora saluo alguuã ora se sam p“ pa iso saem em amdores cubertos & mujlas molheres ysto alguuã ora tem cada huu huuã molher & duas De mamcebas qmtas querem viuem em paaz esta a terra nesta hordenamça gemtlos casam com mouras & A maneira sobre os adul¬ térios/ Maneira Da JnJuria A maneira que tem os mamdartjs qmdo falam com ho Rey Maneira dos asemtõs A ma¬ neira de suas mo¬ lheres &
422 Tomé Pires que Jemle he a que trataua è malaq" E de que parlidasl/. Foi. I74r. primeiro dos guza- rates & dos mer¬ cadores q em suas nãaos tratam a malaqua mouro com gemtia por suas cerimonjas c em seus prazeres & festas sam mujtas vezes tomados do vinho sam homêes De momos & as molherès a guisa Da Jaãoa//: Mouros do cairo/ De mequa/ Dadem/ abixijs/ De qujlloa/ De melímde/ Durmuz/ parsios/ turqos/ turqujmaes/ armenjos/ xstaos/ guzarãtes/ De chaull/ Dabull/ De guoa/ Do Regno De daquem/ malabares/ E quelíjs/ mercadores dorixa/ De ceilam/ bemgalla/ | Derraquam/ peguus/ syames/ De quedaa/ malaíos/ de paõo/ patane/ camboJa/ champar/ cauchy/ china/ Da china/ lequeos/ burneis/ luçoes/ tamJompura/ laue/ bamca/ limga/ tem mjll Jlhas outras/ maluqo/ bamdan/ bima/ tímor/ mamdura/ Jaõa/ cumda/ palimbã Jambj/ tuncall/ amdarguerj/ capo/ cam¬ par/ menamcabo/ çiac/ Rupat/ arqua/ daru bata terra Do tomjano/ paçee/ pedir/ Diva//: Afora gramde camtidade dilhas outas Regioêes De que vem mujtos espauos E arrozes nõ sam lugares De mujto trato E portamto se nom faz delles memçam somemte dos sobreditos q vem a malaq® com Juncos & pamgaJauas E naãos & os q nom vem vam la De malaca como se dira meudamemte no tit° de cada huuã finallm,e que o porto De malaq® mujtas vezes se acharam nelle oitemta & qoatro limguoaJes cada huuã p sy segumdo afirmam em malaq® os moradores E ysto estantes em malaca porque no arcepeleguo Das Jlhas que comecam em symgapura he carymam atee maluquo ha quoremta lingoaJès sabidas q he Jmfinjdade dilhas & porque os Do Cairo E meq® & dadem nom podem cheguar em huQa moucam a malaq® E asy os parses & dormuz & Rumes turqos & Jeraçoes a estas semelhamtes como sam armenjos a seu tempo vem ao Regno Do guzarate E trazem suas copias De mercadarias gramdes & de valija & vem ao Dito Regno Do guzarate tomar suas companhias em as ditas naãos Da terra E tomam as ditas companhias grosa memte trazem também dos ditos Regnos a cambaia mercadorias da valia Do guzarate De que fazem mujto proueito os Do cairo trazem as mercadorias ao toro E do toro a Judaa & de Juda a adem E De adem a cam-
A Suma Oriental 423 baia homde vendem na terra as De sua valia & as outas trazem a malaqa por companhias como dito he//. Hos do cairo trazem as mercadarias que as galeaças De veneza trazem/ sam mujtas armaas grãas panõs De laã De cores corall cobre azougue Vmelhã pregaduras prata comtarias cris¬ talinos vidros Dourados// Hos De mequa trazem gramde copia Dafiam aguoa Rosada & mercadorias casy como estas estoraque liqujdo mujto/^ Hos Dadem trazem ao guzarate gramde copija Dafiam pasas Duuas Rujva anjll agoa Rosada prata alJofar E outas timtas que sam Da valia De cambaya//. Nestas companhias vem os parses turquos tuqmaees E armenjos & vem tomãr Suas companhias por seu frete a guzarate E dali embarquam em março E partem Camjnho De malaq“ Rota batida E da torna viaJem vam polas ylhas de diua//. Vem cadano Do guzarate A malaq® quoatro naãos vali a mercadaria De cada naão qujnze mjll cz*108 vinte mjll trimta mjll ho menos he qnze mjll E da cidade De cambaia vem cadano huua esta vali setemta oitemta mjll czdos sem duujda nenhuuã//. A mercadoria que trazem sam panos de trimta sortes que sam da valia destas partes trazem asy mesmo pucho que he Raiz como Rujpontuo he cacho he como barro trazem aguoa Rosada amfiam De cambaia & dadem trazem sememtes grãos alcatifas emçenso mujto trazem quoremta manras De mercadorias// o Reino de cambaia & de daquè ate honor se chama Jndia pma E asy se chama cada huu destes Rex ê seus titollos Rex da Jndia ambos sam poderosos De gramde Jemte De cavallo & de pee//. De iije annos a esta parte tem Rex mõuros estes dous Regiios o Regno de cambaya he demais avamtaJem q ho daquem em tudo/ Ho Retorno primcipall he crãuo maças noz nozcada sam- dallõs alJofar porçelanas poucas almjzqf pouco leuam Jmfímdo lenho aloes De botiqa leuam alguu beiJoym fynall memte q destas espíciarías carreguã E do all leuam meãa memte E o all leuam ouro seda Jmfímda brarnq® leuam estanho mujtos damas- Merca- dorias que trazem os do cairo & os Dadem E mequa Foi. I74v.
424 Tomé Pires Cananor calecul cochim coutam q se chamam mala- bares/ /. quos bramqos fazem mujt0 por ellês seda de cores pasaros q vem de bamdan pa penachos pa os Rumês E turcos & arrabiõs valem laa mujto estes tem o primcipall trato De malaqa paguam De drjtos seis por çemto E se querem orçar as naãos por avalia¬ dores paguã o que se Julgua asy se custuma Dos guzarates por escusar sogeiçoees De mamdaris por que alem de sejs por cemto paguam ao bemdara lasamane tumunguo & o xabamdar de cemto huu pano E a cada huu segumdo cada huu qem hee o que os mercadores ham por gramde apresam E portamto fazem orçamemto Da naão & ao menos a naão Do guzarate he avaliada em sete cates De timas (442) que sam vymte & huu mjll czd0!i E disto paguã a Rezam De seis por cemto//. os de chaull & dabull E guõa vem tomar suas companhias a bemgalla & dalij vem a malaca/ E também as tomam ê calecut Destes se dira qmdo se falar Das cousas de bemgalla Estes malabares fazem sua companhia na bonua qlím que he choromamdell he paleacate E vem em companhiãs mas o nome he qlíjs E nom malabares// choromamdell E paleacate E naõr estes sam os portos da costa De choromamdell ho primeiro he/ caile/ he calicate/ adaram/ patanã/ naor/ turjmalapatam/ carecall teregam parj/ tirjmalacha/ calaparaoo/ conjmjrj paleacate//. (443) (442) Isto devia ser «sete cates de calains de timas», ou 700.000 calains, visto um cate ser 100.000, e 100 calains valer trcs cruzados; ou então, «setenta cates de timas», ou 70.000.000 de timas, visto 100 timas caixas fazerem um calaim. Vide pp. 414 e 428. Assim, 69 libras (ou 33,3 calains, segundo a conta de Pires) de estanho valiam um cruzado, ou cerca de £2 17s segundo o actual (1944) valor do antigo cruzado. (443) O Choromandell de Pires vai aqui de Caile (8o 40' N.) a Paleacate (13° 25' N.); mas na carta de 27 de Janeiro de 1516, Coromandcl vai dos baixos de Chilã a Cunjmeyra (Pondicherry). Modernamente a «Coast of Choromandel» corre de Calimere Point (10° 18') a Godávari Point (16° 58') segundo o Admiralty Piloi. Todas as crónicas, roteiros e cartas, portuguesas seiscentistas, dão limites diferentes (16° 58') segundo o Admiralty Pilot. Todas as crónicas, cartas e roteiros portugueses quinhentistas indicam limites diferentes para a costa do Coromandel e mencionam aí topónimos diferen-
A Suma OrientaI 425 Hos malabares vem tomar suas companhias a paleacate les. Vide nota na p. 170. Caile ou Qaile, como escrito antes, corresponde a Old Kayal, um lugar hoje desaparecido, entre as lagoas do delta do Rio Trambraparni. Vide n. p. 188. Calicate corresponde a Kalicare (9o 15'). É chamado Calecare por Barros (I, ix, 1), c aparece como calecare nos atlas de D. Homem de 1558 e de Vaz Dourado de 1571. «E estaa Calecare em 9 2/i graos» diz o roteiro no Livro de Marinharia (p. 225). Adarampana corresponde a Adirampatnam (10° 18'); que «é considerado um porto de refúgio para barcos indígenas entre Maio e Setembro», segundo o Bay of Bengal Pilot. Naor corresponde a Nagore. Vide nota p. 92. Turj- malapatam corresponde a Tirumalarajanpatnam (10° 53'). Chamado Triminapatam por Barros; aparece como lainalã no atlas de D. Homem e como tremapatão no atlas de c. 1615-23. CarecaU é Karakal (10° 55'). Chamado Clierecalle por Barros, e Quilicare por Barbosa; aparece como calecam no planisfério de L. Homem de 1554, e como calecã no atlas de D. Homem de 1558. Tereganparj corresponde a Tranquebar, ou Tarangampõdi no vernáculo, (11° 2'); Barros chama-se Tragambar. Tirj- malaclia corresponde a Tirmelwassel (11° 13'), como escreve o Admirahy Pilot e respectiva carta, ou Tirumullaivãsal, conforme se lê na «1-inch to a mile map of índia». Esta diferença nas duas modernas e autorizadas grafias ajuda-nos a compreender as por vezes surpreendentemente díspares grafias usadas por Pires (que para mais só conhecemos através do seu copista) e outros escritores e cartógrafos antigos. Tirimalacha deve ser aquilo a que Barros chama Triminavaz e o que aparece como trimilauas no atlas de Vaz Dourado de 1571. O Roteiro diz que «de Neguapatão aos baixos de Triminava há 12 léguas e tem um rio grande» (p. 228), que deve ser o Coleroon River, braço maior e mais septentrional do Cauvarey. Calaparaoo — talvez Cuddalore (11° 43'), a que Barros chama Calapate e aparece como Kadatur no Mohit. Conjmjrj. a que Pires chama Cunjmeyra na sua carta de 27 de Janeiro de 1516, corresponde a Pondicherry (11° 56'). Tomaschek (Mohit, Tafel xviii) dá Conijmie como um nome português correspondendo a Conho- meira, topónimo frequente em muitas cartas portuguesas e que Barros situou entre Calapate e 5. Tomé ou Maliapor (Mailapur, praticamente um subúr¬ bio da parte sul de Madrasta). O roteiro diz que de Sam Thome a Conhomeira haverá cerca de 25 léguas, o que é exactamente a distância entre Pondicherry e Madrasta. Conjmjrj ou Cunjmeyra de Pires deve ser «um porto que lhe chamam conymate (?) da outra banda de cliolomander», mencionado por Gaspar da índia numa longa carta escrita de Cochim em 16 de Novembro de 1506 para o Rei de Portugal. Cartas de Afonso de Albuquerque, II, 377-8.
426 Tomé Pires Retorno De malaq" pa a bonua qllm Drtjos que se pagam da mercadoria do ponemte em malaqua Foi. 175r. trazem mercadãrias do guzarate E os de choromamdell trazem Roupa quelím baixa vem cadano a malaq® três quatro nãos valera Cada huua Doze qinze mjll cz110* E de paleacate vem huua naão E duas vali cada nãao oitemta novemta mjll czdos ou Junco nom vali menos trazem trimta sortes de pannos E rriqos De mujta valia pagam em malaq® seis por çemto estes quelljs tem a mer- cadaria em peso E o trato De malaq® mais que outra Jeracã// Retornam ho primcipall samdallos bramcos por que os vermelhos naçem na bonua qlím he vali ho baar huu czd0 E avera Dez naãos cadano se as quiserè he leuam camfora de pam- chur que he da bamda do sudueste E na Jlha de çomotora vali menos esta he de comer pedra hume seda bramq® alJofar pimemta noz pouca maças poucas he pouco crãuo cobre mujto estanho pouco fruseleira da mais baixa calanbac damasqos brocados da china ouro/ pagam demtrada seis por çemto E da saida nada partem daquj em Janeiro E tornam em outubro poem huu mes de yda E outro de vimda he alguuas vezes vaão daq1 a paleacate em Juncos dos de malaq® E os qujlijs sam Do Reyno De narsin- gua sam Jemtios//. Porque Ja o Recomtamemto & descriça das terrãs hee feyto Resta aguora falar dos drjtõs que os mercadores do ponemte pagauam em malaca quamdo vinham com suas mercadorias .s. mercadores dadem & com os dadem os de meq® & dormuz parsès cõ estes todo ho guzarate chaull dabull o Regnno De guõa E caleçut o Regno do malabãr çeilam caile choromamdell paleacate todo o Regnuo dos qlijs que he narsymgua o Regnõ Dorixa bemgalla Racam peguu syam/ este peguu & syam pagauã dritõs das mercadorias & dos mamtimètos presemte todo mam- timemto he de presemte em todas estas terrãs Da bamda de tanary qedaa pedir paçee estes se chamã do ponemte estes todos pagam em malaqua de çemto seis E sem estas companhias | vem mer¬ cadores malaios ou dout®s naçoèes que tem molheres & asemto em malaqua paguam tres por çemto E alem deste drjtõ Reall de seis por çemto ao estramgeiro he tres ao naturall se pagua presemte ao Rey E ao bemdara E ao tumuguo & xabamdar da
A Suma Oriental 427 tall nacam e estes presemtes valeram huu por çemto E dous segumdo o xabamdar o detremjna asy o dam os mercadores por que os xabamdares sam comformês aos mercadores he Das mesmas nacoes dos mercadores E as vezes dam mais segumdo os xabamdares qerem estar com ho Rey & mamadarijs E ysto feyto vemdem liuremle o seu//. tem tãbem outra maneira nas Naõs gramdês as vezes a comsemtímemto do Rey avaliações Ja se sabe não de tall lugar traz mercadaria que vali tamto chamam dez mercadores cimq0 quelíjs & cimq0 doutra naçam E pamte o Juiz da alfamdegua que era o tumungam Jrmao Do bemdara avaliam & Recebem os drjtõs & presemtes & por que se ysto nom fazija cada huu tiraua E o trato he tam gramde que os guardas furtam he por escusar furtos & tiranjas se fazia ysto E também se achaua que os avaliadores erã grosamemte peytados E por ysto se osaua poucas vezes//. He custume amtiguo de malaqua que tamto que chegauã os mercadores descarregauam & pagauam seus drjtõs ou presemtes como se dira/ aJumtauãse dez ou vymte mercadores com ho sõr da tall mercadaria E estauam aas vezes he por os taes mer¬ cadores se detremjnaua o preço e por elles se Repartia por todos segumdo cada huu era & por que o tempo era curto & as mer- cadarias mujtas erã Despachadõs e emtam os mercadores De malaq11 Recolhiam as mercadarias as suãs naõs & vemdiam a seu prazer do que Reçebyam os tratamtes despacho & ganho E os mercadores da terra faziam seus proueytos & por este custume vyvija a terra em hordenamça & tinham despacho & ysto se fazia asy ordenadamemte que nom compraziam ao mercador da naõ nem se partia com escamDollo por que a ley das merca¬ darias em malaq* sam mujto sabidas & os preços & Todo levamte nom pagua Drjtõs Das mercadarias somemte presemtes ao Rey E as pessoas nomeadãs .s. pahão & todollos lugares atee china todalas Jlhas Jaõao bamdam maluq0 palim- bão & todos os da Jlha de çomotora & os presemtes sam Razoada memte compridos querem pareçer drjtõs/ avia taxadorês que outra maneira de dizymãr maneira de como se fazia os preços em malaqaH terras q paguam somemte pre- Semles & nam
428 Tomé Pires OUlS° Drjiõs & Drjlõs Da terra Foi. 175v. Moeda de malaq1' he valia das tymas & do ouro & prata xarafijs czAos orçavam ysto se custumaua geêrall memte & os presemtes da chijna erã mores q de toDas partes & estes presemtes Releuã gramdememte por que hee gramde a comtía dos nauegamtês que pagauã presemtes & se em malaq11 vemdiã Juncos emtam se pagaua De drjtòs duas tres tumdaias douro por casquo E esto he do Rey de malaqa & despois se ordenou que de cada iije czdos se pagasem de drjtõs quymze czdos & ysto Recadauã os xabamdares das naçoès pa o Rey todos mamtimètos pagã presemtes & nam drjtõs// nom pode nemhuu homem vemder casa nem quymtãa sem licemça do Rey da terra ou do bemdara & da vemda da qmta polia licemça do tall casall emcabecado se paguaua presemte segumdo era tinha também malaca das vemdedeiras tanto por mês & ysto era dado aos mamdarijs/ polias Ruas aRuadãs de tall mãdarij tall & tall doutro porque em malaca em todalas Ruas vemdem & ysto era esptall de p*8 pobres de samgue/ & por gramde merçe se daua ao moradõr que podese ter diamte De sua porta temda pa poder vemder ou aluguãr tem também dritos das fruytas & pescados/ ysto era pouca cousa//. Alem dos dritõs o pmcipall dritõ que tinha hee o peso do dachím de toda a mercadoria q emtraua & saya De cada cem calais que valia em mercadoria se pagaua huu & disto tinha o Rey espiuaes & Reçebedores & tudo se pesaua atee camdeas de breu & ysto Jmportaua ao dito tempo muyto//. A moeda de malaqua se fez por calãjs em timas tymas cha¬ mam estanho a moeda Destanho meuda sam caixas valiam cada cemto homze Rs & quoatro ceytis a rrezã De cem calais em timas por tres cz"08 cada cem caixas he huu calaim & pesa trinta & tres omças escasas E toda a mercadaria se faz por calais & pagam por estanho & por ouro as caixas sam como çeytljs como ho nome do Rey q emtam Reyna & também corre as dos Reis pasa- dos as pecas do estanho sam oytemta & valem cem calais tres czd08//. Tem malaqua serafijs de cambaia & dormuz correm & noso cz*10 cada serafym vali vymte sete calais que sam iije xx,e
A Suma Oriental 429 ris o cz**° vali trimta & tres & huu terço a Rezã de tres por cem calais corrê Dramas de paçee & modas de prata// o menos ouro que vem a malaqa he o de burney he de quoatro mates & m° & cimquo & cimq° & meyo & seis & depois de laue he de sete mates sete m° & despois o da Jaoã doyto mates & doyto & m° & o de pahãm hee desta valia E mais alto alguuã pouca cousa & o de menamcabo hee De noue mates & o dos quelijs he de noue & huu terço & de noue & meyo asy he o de cauchy- china este he o melhor ouro destas partes he ouro De cz*10 he de noue mates & m° esforçados casy dous terços//. o peso de malaca he taeell também se chama tumdaya tem esta tumdaia dezaseis mazes tem cada maz quoatro cupões tem cada cupom vimte cumderis (444) pesa esta tumdaya Do noso peso onze oitauas & ma menos seis graõs & m0/ A valia do ouro hee segumdo tem os mates o mate tem o dobro dos calajs desta maneira o ouro De quoatro mates vali o maz o oyto calais & o de quoatro mates & m° vali ho maz a noue calajs E o de cimquo mates vali ho maz a dez & o de dez matês vali ho maz a oyte calajs a esta Rezam fazes a comta desta maneira o ouro doyto mates vali o maz a xbj calajs dezaseis vezes xbj sam ijelbj calais a Rezam de çem calais por tres cz"08 se faz ha comta// o cate do ouro De malaq® tem vymte taèes fazes vosa comta vimte vezes duzemtos & cyquoemta & seis sam cimq0 mjll E çemto & vymte & por esta manra se trata a valia do ouro & sam (444) Referindo-sc às medidas e pesos de Malaca, António Nunes diz: «O peso por onde se pesa o ouro, almiscar, aljôfar, coral, calambuco, maniscas [rubis ou pedras preciosas em geral, do Mal. manikam], se pesa por cates que tem 20 taes, cada tael 16 mazes, um maz 4 cupões um cupáo 5 cundurins». Lyvro dos Pesos da Yndia, p. 39. Há uma falta evidente no MS. de Pires. É possível que o copista saltasse algumas palavras, as quais fariam com que a última parte da frase se lêsse: «cada cupão pesa cinco cumderis de modo que cada maz pesa vinte cunderis». Vide Hobson-Jobson. s. v. Candareen; Dalgado, í.v. Cupào e Condorim. valia do ouro Taell ou tundaya valia do ouro
430 Tomé Pires Valia da prata pesos de malaq" no tempo pasado/. cate de merca¬ doria tocadores do ouro postos pollo Rey E tinha o Rey dado este ofiçio a quem lhe Daua cadano meio cate douro E nam leua ao Rey nem a mandarijs por tocar ouro nenhuua cousa & ao pouo leuaua de cada taell huu calaim que sam xj ris afora o q leuaua na pedra que he pouco menos dout0 calaym porque sam pedras de barrocos autas a esta Rapyna & out° nom podia tocar ouro senom este e este he em malaqa bom ofiçio E vay muyto nelle porque he de gramde credito// A pata de peguu valiam tres taèes cem calais E prata de syã & da china valia o taell no tempo pasado a quoremta calais aguora valem as cousas mais alguuã cousa vynha mujta prata a malaqa/. o taell De malaqa ou tumdaia hera de xj oytauas & ma o cate tem vynte tundaias a Rezam de cyma menos graõs & m° vali o cate do ouro vymte & oyto onças & meia por este cate se pesa ouro pta alnijzquer camfora de comer calambac he alJofar// o cate da mercadoria tem vymte & tres taêes Dos que ave- mos ditõ pesa xxxij onças & tres qtas & vimte & cimquo graõs/ a faraçola de malaq3 tem dez cates (445) destes deste cate E destas mercadarias quamdo compraêes por bahar dam duzemtos catès .s. de almjzqr è papos seda bramca & de corês amfyam azougue cobre vermelham alaqeqas E outras mercadorias a estas seme- lhamtes pesa o bahar darrates do peso velho tres qmtaes duas arrobas & vinte arrates & seis omcas & huu terço de ma//. (446) (445) A faraçola de Malaca pesava então 20 Ibs. 6 oz. 285 gr. (9.268 gramas). Mas o peso da faraçola variava localmente por todo o Oriente, de cerca de 20 a cerca de 30 Ibs. Vide Hohson-Jobson. .v.v. Frazala; Dalgado, s.v. Farçóia. (446) Barbosa diz no seu Livro, ad finem: «O Arrátel de peso velho tem 14 onças, o arrátel de peso novo tem 16 onças. Oito quintais velhos fazem sete quintais novos, e cada quintal novo tem 128 arráteis c 16 onças. Cada quintal velho sào três quartos e meio de quintal novo, e é de 128 arrᬠteis de 14 onças cada um. Uma Farazola tem 22 arráteis de 16 onças e mais 6 onças e dois quintos. Vinte Farazolas fazem um Bahar. Um Baliar são 4 quintais velhos de Portugal. Todas as Especiarias e Drogarias, tudo o
A Suma Oriental 431 E a ley de malaqua no peso do bahãar das mercadoriãs deste titollo qmdo compraês baar hade dar duzemtõs & cimquo cates pimemta crauo nõz maças beiJoym lacar emcemço brasyll pedra vme mjrabuianõs emxofre pucho E cousas a estas seme¬ lhantes E tem este bahar segumdo tenho lamçada comta como dito he Acreçentãlhe maís cimquo cates/ tres quymtaêes tres aRobas sete aRatês nove omçãs & trinta & tres graõos este he o da ley de malaq8 segundo a comta q lhe fiz & polia melhõr manra que lha pude lançar// & asy ficou este dachym/ qmdo o guouernador das Jmdias se partio De malaq8 mamdou horçar por Ruy darauJo o dachim gramde da espeçiaria que ficaua na feitoria foy detremynado por asemto que o dito dachim pesaua tres qujmtaes & tres aRobãs E seis arrates do peso velho & asy he espta a especiaria em despesa q se pesou// qmdo eu vym a malaca por espuam da ditã feytoria & com- tador detremjney de tomar certidam do dachim & tomey Jnteira memte & achaua que o dito dachim pesaua Justamte tres qujm- tães & tres aRobas & vymte sete arrates do peso velho nunca me foy crido trabalhey tamto que se mamdou a cohcim por chumbo o peso de huu bahar mamdarom dizer de cochim q Justamète pesaua o dito dachim pollo peso de cochim tres qin- taes & tres arr8s & vimte seis arrates eu me afirmo q nom foy bem pesado asy esta aguora detremjnado que tamto pesa diguo Foi. I76r. Outro bahãar bahaar Da feitoria de malaq'' que vem da fndia pesa-se em Portugal a peso velho, enquanto mais se vende a peso novo». No século xv os pesos em Portugal dividiam-se da seguinte maneira: o quintal tinha 4 arrobas; a arroba 16 libras; a libra 2 arráteis; o arrátel um marco e 6 onças; i.e. 14 onças; a onça 8 oitavas; o marco (usado quase exclusivamente para metais preciosos), i.e., 8 onças, continham 4608 grãos. Mas o valor de alguns pesos, sobretudo o arrátel, variava segundo a mercadoria para que era usado, como ainda hoje, nalguns casos, acontece na Grã-Bretanha. D. João n (1455-95) tentou uniformizar estes pesos, e D. Manuel (1469-1521) decretou, talvez em 1499, que o novo arrátel conteria 2 marcos ou 16 onças. Este «novo arrátel» corresponde a 459 gramas. A arroba equivale hoje em Portugal a 15 Kg. Costa Lobo. História da Sociedade em Portugal no Século XV. 244-55; F. A. Corrêa, His¬ tória Económica de Portugal, I, 124-6.
432 Tomé Pires medida da gamtaa Do aRoz azeyle vinhos vinagres- ysto pa o diamte Respomder è cochim & também a q he pesada q levaua a orçamêto de três qujmtaêes & três aRobas & seis arratês porq perdera elIRey noso sõr vinte a Rates ê cada baãr/ por q nom temos medidas pavermos de medir pesey o arroz q leua huuã gamta Da ley de malaqa achey q pesaua Justamête DaRoz três arrates & dez omças Do peso nouo se laa este peso se lamcar ê huuã vasylha bem se poderá ver polias medidas qmto tera dazeyte ou doutro liqor/ [ocupação portuguesa] Ja dito he largamemte das cousas de malaqa no tempo pasado/ posto que mujto mais do comtado se comtenha em malaca porque sem duujda nom sey no que toca ao trato da mercada- ria (447) ysto nom pode deixar de ser perto De cabo & fim De mouçoêes & pincipio doutas aguora Recomtarey de como foy tomada & do q socedeo atee o tempo de mjnha partida pa cochim & dos Reis q aq1 sam vasallos & out°s amiguos & das terrãs que aquj tratarom & de como se a cidade vay Recobrando & Refor- mamdo de mercadorês & de que partes vierom & despois da tomada de malaqa aquy tratãr cheguou a° dalboquerqe capitam moõr & g1108 das Jmdiãs na emtrada do mes de Julho na era De mjl be & omze a malaca com dezaseis vellas gramdes & pequenas ê q viriã pouco mais ou menos mjll bje omeês de peleJa (448) em o quall tempo se (447) A completa ausência de pontuação torna estas passagens sus- ceptiveis de várias interpretações; mas parece que faltam aqui algumas pala¬ vras, possivelmente omitidas pelo copista. (448) Albuquerque surgiu diante de Malaca no primeiro de Julho. Na sua carta de 20 de Agosto de 1512, escrita de Cochim para el-rei D. Manuel, diz ele que a armada era composta de 17 navios, que especifica; como uma das galés se perdeu ao largo de Ceilão, conforme ele mesmo diz, chegou a Malaca com 16 dos navios com que partira de Cochim. Carlas. I, 67. Nos Comen-
A Suma Oriental 433 afirma malaqua ter çem mjll homees Darmãs Des coala penagy ate certam (?) & caçam que he o termo da cidade de malaq1* & tinham os malaios tranqueiras m,as & fortes & no maar avya mujtas lamcharãs & paraos em o Rijo & no mar mujtos Juncos & naos guzaratas que estauam prestes pa peleJar porque estaua emtam ê malaca huu capitam dos guzaratês & trabalhaua pa a guerra se fazer pareçeèdolhe q elle soo abastaua pas nosas naõs & gemtes qmto mals a Jmfynijdade Da gemte da terra posto que a gemte nom era da emtemcam do Rey de malaq* por q nas terras de trato homde o pouo he de diuersas nacoeès nom podem estes taes ter amõr a seu Rey como tem o pouo naturall sem mistur» doutras naçoês ysto gerall memte se vee & poriso o Rey de malaq* nom se pode sofrer posto q os seus mamdaris peleJarom ê yso qmdo poderom & asy que cheguado o dito capitam mõr com sua frota se deteue Foi. 176v. alguus dias em Recados de paz escusamdo a guerra quamto a tários diz-se que Albuquerque partiu de Cochim para Malaca com 18 velas (III, xiv); Barros (II, v, 9) e Góis (III, xvii) diz 19 velas, e 1400 combatentes, sendo 800 portugueses e 600 malabares; Correia diz 18 velas, «e nelas até 600 homens de armas e do mar, e valentes escravos, levou marinheiros da terra» (n, 183); Castanheda menciona 18 velas com «800 Portugueses e 200 peões gentios» (m, 1). Todos estes cronistas, excepto Correia, men¬ cionam a galé perdida ao largo de Ceilão. Também dizem que a armada capturou cinco navios guzaratês (quatro segundo Correia) entre Ceilão e Samatra, e que foram com a esquadra para Malaca (Correia diz que dois foram queimados depois de tomados), assim como um ou mais juncos toma¬ dos entre Samatra e Malaca. Albuquerque chegou pois a Malaca com pelo menos 16 dos navios com que partira de Cochim, mais uns 4 ou 8 outros navios e juncos tomados no caminho para lá. Por isso não é fácil de expli¬ car porque Pires, que devia estar bem informado, diz simplesmente que Albuquerque chegou a Malaca com 15 velas, grandes e pequenas. Quanto ao número de combatentes, há algumas divergências entre os cronistas, embora Barros, Góis e Castanheda concordem que eram 800 Portugueses e o resto indígenas. Mas na sua carta, escrita da fndia em 1513 para o cronista Duarte Galvão, ao referir-se à expedição a Malaca, Albuquerque diz: «éramos por todos setecentos homens brancos & trezentos malabares; toda a outra gente e capitães ficaram na índia». Cartas, i, 397. 3l
434 Tomé Pires elle foy posyvell porem a Ieujdam dos malaios & oufanja nom pesada & comselho soberbo dos JaÕs & sua pesuncã he coracam Emdureçido/ & luxurioso tirano soberbo do Rey porque noso sõr lhe tinha orDenado a pagua da gramde treicam que comtra os nosos cometeo Junto todo ysto Ja nunca qserom comsemtir na vomtade da paz somemte com Recados malaios se detiverom afortalecemdose qmto podiam parecemdolhe q nam era gemte no mudo poderosa pa os destroir asy q trabalhamdo o dito gouernador ouue a maão Ruy darauJõ E os que com elle estauã catiuõs/ o Rey numca qujs a paz acomselhado pollo seu lasa- manê que o fizese & põr ho bemdara & por o seu cerina de RaJa mas segundo ho comselho seu & de seu f° q despois matou & de tuam bamdã & tuam mafamut & de vtamutarraJa & de seu f° pate acoo & dos guzarates & patiça e dout°s fidallguos man¬ cebos q ao Rey se faziam cabaeês amoquos Ja nurnq» qs êtem- der em cousa de paz dizemdolhe os caçizes que a nam fizesem & os seus moulanãs q pois a Jmdia era Ja nas maos dos por¬ tugueses que o nom fose malaqua com gemte Jmfiell Devul- guouse a temçam do Rey & foy cousa necesaria nã ficar o dito Rey se castiguo do que fez & do mão comselho q tomaua//. O guouernador avido comselho saltou com sua Jemte em terrã tomou a cidade & o Rey fogio & sua gemte/ tornouse o capitã mor a Recolher as naãos è ese dia & nom comsemtio que lhe fizesem dano pa vr se deçíría ho Dito Rey de sua Detremj- naçam ostinada. nom qujs o Rey fynallmente que tornou o dito gouernador ê terrã Ja com detremjnacam de tomar a cidade & de nom aVr Ja amizade com o Dito Rey/ tomou a cidade & ouuea a sua maão foy fugimdo o Rey De malaq“ & as fas & todos seus gemrros Rey de campar & de pahaõ foromse ao bretão q he o asemto dos Reis & o capitam mor se apode¬ rou da cidade foy a cidade he maãr esbulhada & feytos ofi- ciaes diso// Começou ho capitam mor De fazer fortaleza de madeira por nom aVr pedra & caall & neste meio tempo se deu hordem
A Suma Oriental 435 pa a call (449) tornouse a desfazer a da madeira & fezerom a famosa fortaleza Demtro na sua mezquita gramde omde ora estaa forte com dous poços dauga doçe nas torres a Redor out°s dous ou tres De huu cabo Da o mar nella & dout° o Rijo os muros da fortalez8 sam de gramde largura a torre Da menagem poucas achara omde se ellas costumam taeès & asy de cimqo sobradõs Joga artelharia de todas quoatro bamdas grosa & meuda neste meio tempo forom degollados vtemuta RaJa & seu f° & seu Jenrro & huu seu paremte por serem achados ê dameas malaias & íjererem escureçer o crauo//. o Rey foyse do bretam a muar & alij quisera matar o Rev audela Rey de campar & seu Jenrro & o moço fogio pa campar & atee oJe nom forom mais amiguos a noso parecer/ o Rey foyse ao Regno de pahão & la o f° do Rey de pão qsera matar o Rey q foy de malaq® pa lhe tomar o tesouro que leuaua que aJmda tem fogio o Rey pa bimtam homde ate aguora estaã Deixemõs q em muar foy Desbaratado vymdo pa vpe por que sam cousas q destas sam feitas ê malaq8 muytas q se nom espeuem //. (449) Correia (II, 250-1) diz que Albuquerque mandou desmanchar alguns juncos de Mouros, e com a sua madeira e pipas cheias de terra foi construída uma paliçada, na qual se colocaram algumas peças de artilharia. Depois mandou cavar as fundações da fortaleza para cuja construção encon¬ traram muita pedra e cal. Também Castanheda (III, Ix) diz que Albuquer¬ que mandou «fazer uma fortaleza no sitio em que estava a mesquita, e por dentro desta fortaleza no mesmo dia em que se começou, mandou abrir alicerces de oito pés de largura para o muro de outra de pedra e cal, e quis fazer primeiro esta de madeira, porque se havia de acabar primeiro que a de pedra c cal, que se fazia de cantaria, assim de sepulturas nobres como da mesquita». Os Comentários (II, xxxi), porém, informam que Albuquerque «mandou desembarcar a fortaleza de madeira que trazia, para recolhimento da gente que havia de trabalhar na obra, e fazer prestes cal, pedra, cantaria para se começar». Segundo os Comentários, Castanheda e Barros (II, vi, 6), Rui de Araújo havia erradamente informado Albuquerque que em Malaca não havia nem pedra nem cal, mas encontraram fartura de pedra c alvenaria, de alguns antigos sepulcros, assim como obtiveram cal de conchas.
436 Tomé Pires Foy a terra Reçebemdo os mercadorês & vierom se mujtos foy dada a guouernãça Da nação quelim ao bemdar“ njna chatuu com o oficio de bemdara foy daDo a regimo de RaJa mouro lução a guoVrnança dos luçoês parses malaíos foy dado a elle o ofiçio De tumunguo foy Dado a tuam colaxcar a goVrnança diler foy dado a pate qdir a gouernanca dupe o pate qdir Jaão alevamtouse com ho djr° de vtamutaRaJa & fez a guerra ê aqll Foi. I77r. morrerom | alguus purtugueses amtre os quaeès foy Ruy darauJo despois foy destruydo & lamcado fora o pate qujdir fogio & tornouse pa Jaõa & matou mlos mercadores Dupe & Roubou qmto elles tinhã despois disto foy asesegamdo a terra & começou a Repousar tornaramse mujtos homèes a pouoar a terra & dalij por diamte se melhorou/ neste meio tempo aJumtou a Jaõa todo seu poder & veio diamte de malaca com çem vellas em que vinriã quoremta Juncos & sesemta lamcharas & çem calaluzes & traziam cimq0 mjll homeles (450) sairom a elles as nossas naaõs de que os Jaõs se agastarõm & tornarò se cõ a maree. & Ieixarom todo & Recolherom se nos calaluzês E saluaromse no Junquo grande & em out°s dous todollos outros forõ qey- mados & a Jemte nelles & out°s afoguadõs E outros catiuõs (450) Nos Comentários diz-se que a armada de Pate Unus contava «noventa velas em que viriam dez mil homens, (tirando os Juncos grandes, que deixou no rio de Muar)» (IV, xx); Correia refere-se a «trinta juncos grandes c sessenta pequenos, e outros barcos, e neles meteu 15.000 homens de guerra» (n, 277); Castanheda diz «bem trezentas velas entre juncos, lanchas e calaluzes, e cheia de gente que era espanto» (III, c); «que certo era mui temerosa porque os nossos ao mais que podiam ser, seriam trezentos homens, c os inimigos de vinte e çinco mil para cima, e os mais esforçados e melhor armados, e mais determinados que havia do Cabo de Boa Esperança para dentro para qualquer das quatro partes do mundo» (III, cii); Barros refere «noventa velas, de que a maior parte eram navios pequenos de remo de toda sorte, e os mais juncos ... viriam doze mil homens, com muita artilheria feita em Java» (II, ix, 6); Góis diz «haveria trezentas velas, entre juncos, lanchas, e outros navios de remo, com muita gente de guerra» (III, xli). Vide nota pp. 271-2.
A Suma Oriental 437 E nom hee duujda ser esta a mais fremosa frota q purtugueses nunqa virom na Jindia nem De gemte tam homrrada E forom desbaratados mujto mais fremosa mete Do quall noso sòr seJa louuado pa sempe porque tall feyto nom he c nosas maaõs & porque noso sõr nom tarda com sua Justiçã amamsada foy a Jemte da Jaõa & morta a de palimbão que veio com pate onuz da qll cousa nom Recebeo mujto descomtemtamèto o guste pate Da Jaõa nem o sõr de tubam// EllRey de pão & de campar & de amdarguery vasallos tre- butariõs amyguos vasallos q espeuem q sam espauos DellRey noso sõr/ os Reis De menamcabo de daruu de paçee de peguu/ amiguo ellRey de syam/ os Reis de maluco por espauos se com- tam & asy o tem espto os pates Da Jaõa o sor daguaçíj De tubam de cadao/ o sõr de curubaia amiguo vasallo q se daa por espauo/ o Rey de çumda out° tamto o guste patee Da Jaõa & dout°s Reis & srès cartas embaixadores cada dia o Rey de burney espauo se chama/ Víerom guzarates malabarês quelijs bemgallas peguus paçee daruu Jaos chíjs menamcabo De tamJompura De macaçar de burney luçoeês as nosas naõs a Jaõa a bamdam/ a china (451) Junco E a paçee a paleacate/ aguora vam a timor por samdollos & vam a outras partes foy Ja noso Jumco a peguu ao porto de marta- níane//. Reis tra- butarios a ellRey noso sõr & out‘s amiguos vasallos/ lugares de que vem a malaq* a tratar S no¬ so tempo/, lugares homde os nosos Juncos & naãos forom// (451) Isto refcrc-se à viagem dc Jorge Alvares à China cm 1513, a qual é confirmada por outros documentos. Também numa carta dc 7 dc Janeiro de 1514, que escreveu dc Malaca para el-rei D. Manuel Pires diz: «Partiu daqui um junco para a China, de vossa alteza, cm companhia de outros que vão lá também a carregar, é a fazenda dele, a metade sua e a metade de bcmdara nina chatu (Bcndara Ninachatu), e assim de permeio os gastos que são feitos e se fizerem agora; daqui a dois meses ou três esperamos por ele». Cartas, in, 90. Este é um ponto importante, pois até recentemente julgava-se que a viagem de Jorge Alvares com um junco à China não se realizara antes de 1514. Vide nota p. 361.
438 Tomé Pires nacoes de merca¬ dores q ha em malaqa a maneira que tem os merqa- dores que nam tem Juncos & carregam pa fora è alheõs/l. Foi. I77v. cumda muytos mercadores qujlijs alguQs Jaòs parses bemgallas De paçee de pahão chljs he doutras nacoes lucoes burneus ho pouoo he de mujtas mesturãs & vay creçemdo nom pode malaca Deixar de tornar ao que era E mãis avamteJada porque tera nosas mercadarias E mujto mais folgam os tratamtes comnosquo q com os malaios por Rezã Da mais verdade & Justiça que lhe fazemos/ malaqua vaise melhoramdo em Juncõs compram os mer¬ cadores de malaq® Juncos fazem gudoêes noua memte vay a terra em crecimemto comecanse a cheguar & a mester Regra E õdenanca neste primçipio & leis pa sempre E pa malaqua avya mester salomom pa a guouernar & cila o mereçee// Trato da Jaõa o senhorio aparelha seu Juco de todo o que lhe he necesarío se queres huuã peitaca (452) ou duas metes dous ou tres homês pa oulharè por ela & tratar & marcar o que leuaes & qmdo tornaès a malaq“ pagaês de cemto vymte do q meteis em malaqa no Junco E pagaees vos dono da mercadarja presemte Do que trazêis/ & se metestes em malaq* cem czdos a torna viagem aves Duzemtos amtes de paguar ao senhorio Do Jumq0//. Se eu mercador que estou em malaq® dou a vos srio do Jumco çem czdOR em mercadoria pollo preço q emtam vali em malaqa tomamdo meu Risquo a torna viagem me Dam çento & quoremta sem mais outra cousa & pagam segundo horde- namça De malaca Da chegada do Junco ao porto a quoremta & qoat0 dias// A ViaJem da Jaõa hee no pincipio de Janeiro a pimeira moução e tornam de mayo è Diamte atee aguosto setembro daquelle anno// pa cumda vos Dam cimcoemta por çemto porque podem trazer pimemta e espavos hee terra De mais mercadoria & trato/ he mais o ganho pouca cousa ho tpo Da viagem he todo huu// (452) Peitaca, do malaio Pètak, «uma divisão ou compartimento (como no porão dum navio)». Marsden, Dictionary, s.v. Dalgado, j.v.
A Suma Orienta! 439 todos estes quoatro lugares vos dam cimqoemta por çemto tomamdo o q mete o Risq0 Do maãr sam as viageês todas de huu tempo casy/ pagam pola maneira q he Ditõ//. estes tres lugares paguã segumdo ley da terrã trimta & cimqo por çemtõ de vyagem he mais segura a nauegaçam// & mais em breue// Siam peeguu sam de cinqoemta por çemto a Risquo como dito hee & se metèes mercadoria aves de huu dous a torna via¬ gem pagamdo todo o drjto fica huu por out° & as vezes mais & detense nas viages oyto noue meses/ estes dous lugãres fazem a viagem dano em anfio destes dam huil por outro segumdo hordenamça & oytemta por çemto & nouemta & quem carregua pa estes dous lugares as vezes ha tres por huú// china he boa viaJem E mais & quem carregua tomamdo peitacas as vezes ha tres por huu e è boas mercadarias q se des¬ pacham loguo//. E porque este meter nos Juncos he cousa em q se faz gram- dememte proueyto por partirem por mouçoes hordenadas ho rrey de rnalaq3 se aproueytava muyto dam ao Rey huu terço que a outa & o Rey faz aaquelle q leua seu Dinhr° franco de drjtos De maneira que se achaua que por o tall meter nos Juncos se alcamcava gramde copia douro & nom pode ser menos & aquj vinhã os Reis de paão & campar & amdarguery & out°s por seus feitores meter dr° nos ditos Juncos Jsto Jmporta gram- dememte pa quem teuer cabedall porq malaca despacha Juncos pa fora & out°s emtram & sam em tamta copia q nom podia leixar de ser o Rey Rico/ & o tall mercador q leua o dr° do Rey ha partido cobra oufanja & liberdade & Recebemno de boa vomtade he pagam ha seu tempo disto tinha o Rey oficiaees De Receber as mercadarias & daar os taes drjtõs & ysto era enexo alfamdegua de que tinham carreguo çeryna De RaJa Jrmaão Do bemdara//. Se quamdo se acaba o tempo o dito mercador nom tem ouro pa paguar paga na mercadoria pola valia da terrã & quamdo Tam- Jompura paçee pedir quedaa Siam pegiaV bemgala palcacale çhyna partido que faziam ao rrey De malaqua Do que metiam no Junco custume da pagua
440 Tomé Pires Foi. I78r. Rezam da gram- deza de malar? paga em inercadorya he mais proueito pa quem estaa dasemto asy he custume se vos nom comtratastes de vos pagarem em ouro mas o tratamte nom quer ouro senom mercadoria por que de huu dia pa o out° sobem as mercadorias & por que o comerçio de todo o mundo De quall quer maneira se faz em malaq*// E quem quiser semtir qmto proueyto ellRey noso sôr deue de percallçar com malaca a sua fazemda çerto que apagada a autoridade q este malvado rrey que foy de malaqa aJmda semea & também visytada hua | vez a Jaaõa por seguramca dos anjmos dos tratamtes he nauegamtès E de Reis que aJmda estam com credito Das palauras falsas Do Rey de bymtão que huu dia espalha çizanja nos paremts que nom podemos apaguar em huu anno// hee malaq8 de tamanho peso & proueito q me pareçe que no mundo nom tem sua Jguoall//: Note cada huu que a vir pesoa que em malaca seJa a bas- tamte pa cadano mamdar Jumco a chyna E outro a bemgala & outro a paleacate & outro a peguu & nestes tomamdo com¬ panhias os mercadores de malaca & pa as outas ptes/ a vir feitor dei Rey noso sõr que carregue Dr° & mercadoria tamto por cento como dito hee E a vir outra pesoa pa ter carreguo da allfam- degua De rreceber drjtõs com ofiçiãees quenpode duujdar que em malaqa fara baares douro E nom avera mester Dr° da Jmdia mas daq Jra pa 11a E nom falo de bamdam & maluco porque hee a menos cousa Do mundo hir laa toda a espiciaria sem custar nada por que malaq® paga soldos mamtimemtõs & fara tesouro & mamdara toda especiaria se for frangeada tratada & Regida & teuer gemte como mereçe// as cousas gramdes nom se podè sostemtar com pouca gemte/ Deuese malaca favorecer com gemte meter huua & tirar outa fauoreçella De manjficos oficiaês sabe¬ dores Das mercadorias amiguos da paz nom soberbos nem alta- rados nem Desmamdados nem luxuriosos mas comtinemtes a velhos que malaqa nom tem oficiall De cabellos bramcos// a criamça cortesaa & o trato da mercadoria nom se comformam & pois ysto se nom pode douta maneira fazêr ao menos seJa
A Suma OrientaI 441 Ja a Jdade pois o all se nom pode achar nom podem os homês estymar a vomdade De malaca por Rezam De sua gramdeza proueytosa/ malaca he cidade que foy feyta pa a mercadoria mais auta que todallas Do mundo cabo de mouçoees primcipio doutas/ he cercada malaca & Jaz no meio E o trato & comerçio de huuãs naçoèes a outas De mjll leguoas de cada bamda a malaca hamde vijr pois cousa que tamanha hee & de tamta Riqueza & que em nenhuu tempo Do mundo nom pode escair como for meaa memte guoVrnada & fauoreçida Deuese prouer olhar estimar fauoreçèr E nom se poèr em esqueçymemto por que malaq8 estaa cercada De mafomede que nom pode ser amigo senom quamdo malaca tiuer força E nom sera fiell emtam aJmda a mourama comnosquo senom por força q sempre estam em espreita & como vem quallquer cousa descuberta Dam com a frecha & pois he sabido quam proueitosa hee malaca pa o tem- porall qmto mais ao esprituall que mafomede Jaz no saquo he nõ pode mais hir adiamte E fogese qmto pode & a Jemte que fauoreca huu partido que a mercadoria fauorece nosa fee E Vrdade he destrujrse mafomede o que nom pode deixar de ser Destroido & çerto he q este mumdo de qua he mais Riquo mais estimado q ho mumdo das Jmdias por que a menos mercadaria De quaa hee ouro que menos se estima e ê malaqa tem por mer¬ cadoria quem for sõr De malaq3 tem a mãao na garganta a veneza. atee malaq8 E De malaqa atee china & de china a maluco & de maluqo a Jaõa & da Jaõa a malaca çamotora catiua he de noso poder quem ysto emtemde fauorecera malaca nom se ponha em esqueçimêto por que mais prezam os alhos & çebolas è malaca que almjzqueres beiJois & outas cousas Ricas//. E porque estamdo eu neste paso Espeuemdo faleçèo ho Foi. I78v. bemdara njna chatuu aos vynte E sete dias De Janeiro de quj- nhemtos E quatorze (453) Domjmguo// eu com mais Rezam Faleçi- _ memto Do bemdara (453) Segundo Barros (II, ix, 6), Castanheda (III, cxxix) e Góis nyna (III, lxiii), Jorge de Albuquerque, o novo capitão de Malaca que faria subs- chatuu tituir o rei de Campor por Ninachatu no cargo de Bendara, chegou a Malaca
442 Tomé Pires deuo lememtar sobre malaqua/ seJa notorio a todos que ellRey nosso sõr perdeo mais por morte Do bemdara Do que perderom os propeos seus ffilhõs por que era leall Vrdadeiro serujdor De sua alteza/ morreo o bemdara huus Dizem que morreo De noJo no princípio de Julho dc 1514. Ninachatu suicidou-se depois dessa data. Como pode então Pires dizer que foi em Janeiro de 1514? Segundo o que Castanhcda informa o suicídio foi uns meses depois da chegada de Jorge de Albuquerque. É possível que o ano de Pires começasse na Páscoa, c assim o seu Janeiro de 1514 seria o nosso Janeiro de 1515. Mas em nenhuma outra parte ele aparece a referir o ano desta maneira. A explicação mais aceitável parece ser que ele escreveu distraidamente quatorze onde devia ter escrito quinze. Castanheda (III, cxxxv) confirma Pires quanto a Nina¬ chatu se ter envenenado: «onde sabendo Ninachatu que el-rei de Campar ia a Malaca para ser bendâra, crendo que ficava desonrado se lhe tirassem o ofício, quis antes morrer honrado, e matou-se com peçonha que comeu». Mas Barros e Góis contam uma história diferente. Ambos dizem que Ninachatu fez uma rica pira de sândalos brancos, vermelhos e lenho aloés, e com grande pompa e cerimónia queimou-se vivo, perante sua familia e amigos, depois de uma fala sobre os serviços que tinha prestado aos Por¬ tugueses e a ingratidão com que fora tratado. Não há dúvida que ele se envenenou, como Pires informa, pois nessa altura ele estava em Malaca. como é confirmado por Castanheda. Como é então que Barros e Góis chegaram à história romântica da própria imolação na pira odorífica? Por outro lado, parece que o raciocínio de Pires não é tão seguro como de costume, quando refere as razões para o afastamento dc Ninachatu. Segundo Casta¬ nheda, «assim gentios como mouros se desprezavam de ser mandados por ele (Ninachatu, um mercador), e nào se desprezariam de o ser por el-rei de Campar; e assim muitas outras razões que são largas de contar» (III, cxxix). Barros diz que «a gente nobre dc Malaca sofria mal serem governados por ele (Nina Chatu. Gentio), que era homem de pouca sorte; e se em algumas coisas lhe queriam ir à mão, às tais pessoas mandava-lhes dar um certo género de peçonha, com que o cngafccia, e em mui pouco tempo morria, o que se soube ser feito a três ou quatro mercadores principais, c pelo muito serviço que tinha feito na salvação de Rui de Araújo, e dos outros cativos, e assim na tomada da Cidade, dissimulavam com ele até vir recado de Afonso de Albuquerque». Informado de todas estas circunstâncias, o Governador- -Geral decidiu que Ninachatu seria substituído pelo rei de Campar. Ou tentaram os cronistas mitigar um caso de mera injustiça devido à tremenda intriga que então reinava em Malaca?
A Suma Oriental 443 outros dizem que tomou peçonha pa morrer amtes q vise guouer- nar o Rey De campãr E quamdo qujs morrer chorãDo dise se o gramde Rey de purtugall sõr Das Jmdias ou o seu gouernadõr nom homrrar meus filhos despois De mjnha morte ds nam sera Ds cuytada De ty malaqua pois ho Vrdadeiro amíguo & serujdor deli Rey De purtugall morre// E çerto sem duujda morto he huu dos esteos de malaq8 que a sostinha a serujço do Dito sõr praza a noso sõr que njna chatuu nom nos faça a mjmguoa que todos cujdamos & se per vemtura eu nom chegase dyamte Da p8 Dell Rey noso sõr ou do seu guouernador das Jmdias aquj diguo q a morte De njna chatuu obriga malaca a ter mais duzem- tos purtugueses Dos que lhe erã neçesariõs pa seu sostêmta- memto/ E como gramdememte o g*10* Das Jmdias Deue víjr sem Detemça a malaq8 com poder porque nom he menos Romaria que a de mequa E apagara o credito do Rey de bymtam E amam- sara a soberba Dos Jaãos oujra os mercadores De malaq8 Dar- Ihea Regedor comforme a sua naçam porque a mercaDoria he huua armonja sobre sy o ReJedor q a Reger hade fauoreçela que Doutra maneira nom se poderam soster os mercadores os quães amdam escamdalizados & moujdos pola noua êtrada do Rey De campar em malaqua a quall foy muy odiosa e escan¬ dalosa & perdoe noso sõr a quem tall ardill leuou ao sõr capi¬ tam Jeerall por q mais he Dijno De castiguo que de merçêe//. Aguora he maneco bumj (454) de malaca com titollo de (454) Maneco Bumj corresponde ao malaio Maiigkõ-bumi, «primeiro conselheiro ou ministro de estado, vizir. um assessor ou coadjutor do Monarca». Marsden. Diclionary, s.v. «El-Rei de Campar servia seu ofício, não em nome de Bendara, mas de Macobume, que àcerca deles é como entre nós Viso-Rei, e isto por honra da dignidade real que tinha», diz Barros, II. ix, 7. «Jorge de Albuquerque, primo de Afonso de Albuquerque, deu a posse do ofício de Bendara a cl-Rci de Campar, com título de Macubume, que é dignidade como entre nós Vice-rei», diz Góis, III, Ixxix. Barros, Góis e Castanheda (III, cxlix) referem como o jovem desempenhou satisfatoria¬ mente os deveres do seu novo cargo. Mas seu sogro, o ex-rei de Malaca, que o odiava e contra ele intrigou com tal êxito (com a ajuda dos filhos do
444 Tomé Pires guouernador/ RaJa audelaa Rey De canpar he moço E samdeu E malaio sobrinho do Rey de bymtam casado com sua filha/ nom cujdo que frujtificara em malaca & porque o sõr capitam moõr ysto mamdou por emformaçam que lhe seria dada pa ysto fazer he certo que moujdo De bom zello o faria porque sua ssenhoria nom quererá ver a perda Do Regnuo bem avemturado que ganhou este deue De nom consentir o Dito malaio em mala- qua nem outro nenhuu mas botallo loguo E meter quem seia fora De samgue malayo porque capitam abasta pa Reger he gouernar com gouernador comforme aas nacoees dos mercã- dores & njsto Deve trabalhar por que o all nom me pareçe serujço de ds nem deli Rey noso Sõr nem Do capitam geerall-//. Ninachatu que julgavam que ele era a causa da morte de seu pai e não lhe tinham menos ódio), que alguns meses mais tarde Jorge de Albuquerque, a instâncias de Bartolomcu Pcrestrelo, o novo feitor de Malaca, mandou-o degolar. Góis comenta: «O castigo da qual injustiça parece que quis logo Deus executar, mostrando saber a mor parte da culpa da morte daquele inocente de Bartolomcu Perestrelo, porque 17 dias depois de o terem justi¬ çado morreu ele de morte acelerada, exemplo para os homens deverem de seguir mais a razão, e verdade, que não os apetites da vontade, misturados com vingança», e Barros acrescenta: «dizia o povo de Malaca que a alma do morto chamava a do vivo».
APÊNDICES
APÊNDICE I Sor (*) qua veo ter huõ Roll de çertas drogarjas q se nelle pediam p* o ano jrã pque se mãda ram catar e nesta darey conta donde cada huã naçee e tambè dalguas cousas q la forã erva lõbrigra p x°vam de brjto e dom aires [da Gama] foy la húa sc ma derva lonbrigueyra q foy comprada p Joham davilla estando eu ê purtugall p tamto saiba vosa alteza q nô foy p mj naçee è canbaya e nas terras de chaull Ruybarbo também foy lia ter huã soma de Ruybarbo podre que se cõprou ê malaca eu nõ fuy na conpra delle q stava è cananor foy conprado p quatroçètos tzdos a Ruy daraujo e Joham Viegas devem tornar o djr° a vosa alteza pois Vcnderã mercadoria podrec q qua nõ valia nada cu ho apontey na conta de Ruy daraujo na des pesa do dr° p que se conprou./ Ruybarbo De malaca èviamos os ofiçiaccs da feytoria outro pouco doutro tall por nõ custar diro i) ho derã huus chis de prcsète c p tamto foy lia ter p se nô lamçar ao mar o Ruy Barbo naçee na tartaria e ê torí|a (*) Carta de Tomé Pires para El-Rci D. Manuel, datada de Cochim, 27 dc Janeiro de 1516. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Corpo Cro¬ nológico. Parte l.\ Maço 19, Doc. 102.
448 Tomé Pires e Francisco Rodrigues cana fistola cçenço opio tamarldos/ A cana fistola naçec na serra q divide o ma labar de narsinga è todo lugar pincipallmète em anamalee e pudaçarj qnze legoas de crãga nor detrás da serra / naçee na Jlha de camatora no Reyno de daru. i Jaoa Infinjdade nõ se vsa qua. em turí)a ha mujta/. e delia vay a nosas partes Emçcmço naçee narabia Felix no Reyno de tufar Junto com os Reynos dos Fartais e maderaca tam naçee ê orixá 4 hc antrec narsinga e bõgala vendese ê cambaya e em chaull mujto barato. Opio chamamos q“ amfiâo naçee em tebas çida de do Reyno do cairo naçee em adem ê canbaya no Reyno de coús q he na terra firme de bègala he esta grande mercadoria nestas partees custumase a comer os Rejs e senhorès ê cãtida de davellã a gente baixa come menos p que custa caro se sobre elle se bebe cousa azeda ou cordiall ou azeyte agoa de coco mata logo os homees custumados a comello andam sonoremtos desvariados os olhos vermelhos nõ andã em seu semtido. custumase f> que hos puoca a luxuria he de pranta de dormj deiros he boa mercadoria gastase è grande camtidade e vali mujto/. Tamarindos ha mujtos è toda a terra do ma labar o malabar he de mãgalor ate comory mujtos majs ha ê tamor e choromãdell Tamor he de calle ate os baixos de chilã choro mandell he dos baixos ate a cunimeyra [Pondicherry] Jaoa c as Jlhas de bima tem ífinjdade he mercadoria nestas partees vsase ê lugar de vinagre valem casy de graça he boa mercadoria a ylha de çíida cj he pega da com a Jaoa tem mujtos e em mujtas partees hos haa em cantidade
450 Tomé Pires e Francisco Rodrigues galãga/ turbit mjrabula nos / galamga sam Raizes da feyçà de gengiure nacem è chaull e mãgalor no Reyno dindo o Reyno Jndo he sobre canbaya na terra fir me foy cabeça destes quatro Reynos .s. câbaya Resputcs diull c os naytaques deste Reyno vê o Rio Jndo que q» se chama çindj vê sayr ã tre os Resputees c o Reyno de diull tem fer mosa povoaçà deste Rio se dcnomjnarã os Jmdios os Resputes saã gêtios e parte dos de Diull c naytaques tanbê ê canbaya ha jnfi njdade delles / achase ê canbaya a vemder Turbit vem de mádao e dahi vê ter a canbaya nõ he mujto bom ho de qua milhor he ho de tur ija este de q“ he groso e preto e o bõ hade ser ao contrairo / Tanbê naçee ê purtugall ho Rey no de mandao he sobre canbaya e sobre ho Reyno de daquê e da bamda da terra firmee he dely neste Reyno de mãdauo saã assamazo nas molheres bilicosas q oje ê de pelejam a cavalo também as de daquê cavalga escã chadas e escaramuça mes a outr* são de lãça ê punho/ e são da guarda do Rey de mãdao — Mirabulanos sàa çlq° sortees os quatro naçem no malabar em bacanor baçalor mãgalor lugares delRey de narsinga amtrce o mala bar e baticalla os quebules naçê ê bêga lia ê malaca è burney/ bêgalla cõfina cò orixaa de huã banda e cõ Racan da outra malaca de huã bamda cõ quedaa c da outr“ com pahão / Burney sãa ylhas duzêtas legoas de malaca ê lest tem estas ylhas muyto ouro camfora de comer e estes mjrabulanos obediêtes sãa os Rejs de burney a vosa alteza/ todos estes sortes sãa mercadorias nestas partes
6-4«**e* ‘^r*™ JL-^o-v^.-.v>v—- "»wvt«fv^ 0> ryvo o j $rv)-wo |m5t $- (-b4i«i« v\a +0(1/ -fi-,__ <-$&>, 't-u-G«-p Jl-0%^£>rvw* -f. fíÇo^jf ^vA/? tí -{Pw) jwíK) W i>-« -V**> 4Ú_ >W0*~«* poVj/v^p 3%^ -tAo p-vt- VW VVIJ V, ai^jf _ JvvUKV* yrí 4&<-p~+^ (y-í5 fvv* ("3 pot^-eJfor 3'll4í VmC^o.hÍ^ £« I* Av ^-wvôv*- —4^6 V+- 'àvw.Js^ ca^A-V? v. v cj*. sf±e ^-7 f>- <^ro p p », ^ Wv4-./^o^ / + ttVy 6 ^ v^> íw+^,^..T2<* f *~ riwGcw,^ ^ J\n (3a*—^ w~tf / \JV\ Wia 6 yv# VM**- (3» Goa- v*^) u Ca vi o*. s«~ t-xqfty.-** c^ y\mv, &Z-T* vw tíWu-e*n_ tlo^a.vvSs SreffU, •& m~i jl Wj/^_ ^JxyiAirvr o w,i, <\. ** WP6>^ 4L,^vl_ cu ^«'***- p-p, ,^ot^ +"af*4rU ^f1"*3 «oVW to»-|«tW 0U1-VW1, jraa -V)ec«rí 9-i~r-P ^
APÊNDICE II BREVE DESCRIÇÃO DAS CARTAS E DESENHOS PANORÂMICOS NO LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES (*) CARTAS (1) Carta foi. 18 — A costa ocidental da Europa, desde a boca do estreito (de Gibraltar) até Jrisa (Frisia), ImgrateRa (Inglaterra), escoRçea (Escócia), lRUamda e as lendárias L do brasill e as maidas. A escala de latitudes, do lado direito, é graduada de 30 a 54°, correspondendo os 30° a Lisboa e os 45° a Londres (a diferença de latitude é na realidade apenas doze graus), o que mostra o deslocamento de uns nove graus para norte. Os 24 graus da escala de latitudes medem 206 mm, o que corresponde à escala da carta de aproximadamente 1:13.000.000 (exactamente 1:12.944.970). A escala do lado esquerdo tem 24 divisões, provavelmente de 12 léguas cada (Duarte Leite, O mais antigo mapa do Brasil, p. 234), sendo uma légua por conseguinte igual a 3,471 milhas ou 6.428 metros, segundo a escala da carta. Isto corresponde exactamente a 17,285 léguas por grau de latitude, ou grosso modo as 17 i/2 léguas então geralmente adoptadas pelos pilotos portugueses. Porém, no tempo de Rodrigues a légua era geralmente estimada a 5.920 metros ou 1,197 milhas, o que fazia o grau igual a 103.600 metros ou 55,939 milhas à razão de 17 >/2 léguas, segundo Fontoura da Costa (La lieue marine des Portugais aux XV' et XVP siècles, pp. 7-8). As divisões do tronco-de-léguas são alternadamente marcadas em cinco partes. O mesmo tronco-de-léguas aparece em cada uma das onze cartas seguintes. Esta carta é copiada dum protótipo que, com algumas variantes, se encontra noutras cartas portuguesas contemporâneas ou anteriores, tais como a «carta portuguesa de c. 1471», existente em Módena, o planisfério chamado de «Cantino» de 1502. a carta (*) [Além das páginas que em 1935 dediquei a Francisco Rodrigues e suas cartas in Cartografia e Cartógrafos Portugueses dos Séculos XV e XVI, Vol. n, 122-30, novamente do assunto largamente me ocupei, com descrição de todas as cartas e desenhos panorâmicos, in Portugaliae Monumento Carto- graphica, Vol. I, 78-84, Est. 34-36. Lisboa-Coimbra 1960.]
462 Tomé Pires e Francisco Rodrigues de Pedro Reinei de c. 1502, a carta portuguesa anónima do começo do séc. XVI (Munique, Staatsbibliothek, cod. iconogr. 140, foi. 82), e outras de data pos¬ terior. Estampa III. (2) Carta foi. 19 — Costa noroeste da África, desde boca do estreyto (de Gibraltar) até cabo das barbas c caruoeiro (21° 47' N.), com os arquipé¬ lagos dos Açores, Madeira e Canárias. Escala de latitudes de 22 a 39°. Est. LX. (3) Carta foi. 20 — Costa ocidental da África, desde Rio de sam j° (19° 24' N.) até sera lyoa (8o 30' N.), com o arquipélago de Cabo Verde e Jlha dacemçam. Escala de latitudes de 0 a 20° N. Est. XV. (4) Carta foi. 21 — Costa ocidental da África desde Rio dos palmares (Shebar Entrance, 7°24'N.) até Cabo fermoso (Blubarra Point, 5°N.). Escala de latitudes de 0 a 20°N. Est. XVIII. (5) Carta foi. 22 — Costa do Brasil desde norte do Cabo S. Roque (5° 20' S.) até Rio Tubarão (28° 20' S.), com as ilhas Trindade e Martim Vaz. Esta carta não tem topónimos. A escala de latitudes vai de 1 a 30° S. Est. XXXI. (6) Carta foi. 23 — Costa ocidental da África desde Rio Real (Rio del Rey, 4o 30' N.) até Cabo das pallmas (Albina point, 15° 54' S.), com as ilhas do Golfo da Guiné: Ilha de fernamdo po. Ilha do primçepe, Ilha de sam tome e Ilha dano bom. Escala de latitudes de 8o N. a 15° S. Est. XXVIII. (7) Carta foi. 24 —Costa do sul da África desde cabo dos salltos (Ponta da Marca ou Tiger Point, 16° 30' S.), na costa ocidental, até agoada da boa paaz (Foz Inhatumbo, 24° 52' S.) na costa oriental. Escala de lati¬ tudes de 16 a 36°. Est. XXIX. (8) Carta foi. 25 — Ilha de samta Jlena c As Jllias q achou trlstam da cunha. Escala de latitudes de 13 a 37°. Est. XXXVII. (9) Carta foi. 26 — Costa oriental da África desde cabo das coremtes (24° S.) a melimdee (3o 13' S.), com A Jlha de Sam Lourenço e as Ilhas Comoro. Escala de latitudes de 2 a 30“ S. Est. XVI. (10) Carta foi. 27 — Costa nordeste da África desde cerca de 3° S., à parte leste do Mar Vermelho, costa sudeste da Arábia até cerca de 55° E., ilheos canacanim (Palinarus Shoal ou Abd-al-Kuri, 50° 40' E.) e ilha de çaco- tora. Escala de latitudes de 11° S. a 17° N. Est. XVII. (11) Carta foi. 28 — Costa leste e norte da Arábia desde as ilhas Kuria Muria até Jlha de baharem omde Nacem as Perllas, Ormuz, costa oci¬ dental da fndia desde Dio até Cabo Comorim, Ceilão e Ilhas Lacadivas. Dio tem a inscrição: Dio o senhor delia Z súdito deli Rey de cambaia. Escala de latitudes de 0 a 29° N. Est. XXI. (12) Carta foi. 29 — Ceilão, Niquibar (Ilhas Nicobar) e Estreito de Malaca. Não tem escala de latitudes, mas a carta é traçada aproximada- mente na mesma escala que as anteriores; não só Ceilão se mostra do mesmo
Apêndice II 463 tamanho que nas cartas precedentes, mas, por exemplo, a niais curta distância entre Ceilão e Samatra, 1.500 Km, mede 125 mm na carta, o que corresponde à escala 1:12.800.000. Est. XXII. (13) Carta foi. 30 — Costa nordeste de Samatra desde campar (113° E.) até o Estreito de Sunda, ilhas Linga e Banka. e a costa noroeste de Java até Çidaio (Sidayu, 113° E.). Esta carta tem, a aproximadamente dois quintos da distância entre lera de sumda e gepara, a seguinte inscrição: agoada de Joham lopez dalluim / elle descobriu daqui ale Japara. Isto aparece na carta de Reinei de c. 1524 como agua daluy, na carta de c. 1540 como aguada dalaim, no globo de Mercator de 1541 como Agoada daluym e como aguada de sigide ou agoa de sigide nas outras cartas; mesmo a carta de Lavanha ainda tem Agoada de Sigide. Ambos os nomes correspondem, muito provavelmente, ao mesmo lugar, Tanjong Sentigi, um promontório assaz conspícuo onde um dos braços ocidentais do delta do Chi Manuk desagua, com um bom anco- radoiro para pequenos navios. João Lopes de Alvim era um capitão que durante muitos anos serviu no Oriente, acompanhou Albuquerque na tomada de Malaca, e comandou um dos navios que perseguiram Pate Unus quando este em 1512 se propôs atacar essa cidade. Esta viagem de Alvim, a que a carta de Rodrigues se refere, e em que Tomás Pires foi como feitor da armada (vide Introdução), decorreu de 14 de Março a 22 de Junho de 1513. Rui de Brito, Carlas, III, 93: Barros, III, v. 6. Castanheda diz que Alvim era «Capi¬ tão mor do mar» desde Janeiro desse ano, foi a Java com três (Rui de Brito e Barros dizem quatro) navios buscar algum cravo aí deixado no ano ante¬ rior pela primeira expedição às Molucas. «E sendo lá João Lopes, indo ter ao porto onde Pateonuz tinha varado o seu junco em que escapara a Jorge Botelho, mandou-lhe grandes presentes porque lho não queimasse, dizendo-lhe quanto se honrrava de o ter ali, e ofereccndo-se para muito grande amigo dos Portugueses. E João Lopes aceitou sua amizade, e prometeu-lhe de não fazer mal ao junco. E tomando o cravo que ia buscar tornou-se a Malaca...» III, cxi. A escala de latitudes, de 1° N. a 10° S.. mede 170 mm, o que corres¬ ponde à escala da carta 1:8.000.000 (exactamente 1:7.843.100). A distância de 756 milhas, ou 1.400 Km, em linha recta de Kampar a Sidayu, corres¬ ponde a 715 milhas ou 1.326 Km medidos na carta. O tronco-dc-láguas contém 13 divisões principais, que correspondem a 3,909 milhas ou 7.240 metros. Est. XXV. (14) Carta foi. 33 — O Golfo de Bengala, com a costa leste da índia costa da Birmânia, parte de Ceilão, c as Ilhas Andaman e Nicobar, ambos os arquipélagos sob a legenda estas sam as Jlhas de niquibar. Além desta e das legendas em Ceilão lê-se sobre o delta do Ganges: Este he o Rio de bemgalla. Esta carta, assim como as doze seguintes, não tem escala de latitudes nem tronco-de-léguas. A escala da carta é aproximadamente 1:6.000.000. Est. XXIII.
464 Tomé Pires e Francisco Rodrigues (15) Carla foi. 34 — A parte norte de Samatra, com a legenda Esta Jllia he a de camara Homde a milita Pimemta; a Península Malaia, desde Pegiiu/. Homde ha muytos Robis Ricos até Amssiam, ao fundo do Golfo de Sião. Escala da carta aproximadamente 1:4.500.000. Est. XXIV. (16) Carta foi. 35 — Extremidade oriental de Samatra, com a legenda esta he afim da Jllta de camatara; extremidade ocidental de Java, com a legenda Este he o compeço da Jllta de Jaaoa II Z a esta paraJem se chama SSumda; Jllta de bamea; sudoeste de Bornéu, com a legenda errada Compeço da Jllta de maquacer (vide nota p. 353). Est. XXXVI. (17) Carta foi. 36 — Costa leste e norte de Bornéu, com a legenda A gramde Jllta de maquaçer. Esta mistura de Bornéu com Macassar ou Celebes, embora Pires as separasse distintamente, mostra quão confusas eram as noções que os Portugueses então tinham sobre a maior parte das ilhas do arquipélago. A carta tem Borttey (o porto de Brunei); Llouçam (provavel¬ mente querendo dizer a ilha de Luzon, que na verdade lhe fica norte — o globo de Mercator de 1541 tem uma pequena ilha Lozon mesmo a norte da costa de Bornéu; tanhum Bagubàa, talvez querendo dizer «Tanjong Bagubãa», correspondendo a Bongon, Jebongon, Balambagam ou Banguey, a primeira uma cidade e porto, as outras ilhas perto da parte mais setentrional de Bor¬ néu) na ponta mais nordeste do desenho; tanhumpura (Tanjompura ou Tan¬ jong Puting) na ponta sudeste do desenho; e, perto desta, uma ilha Pamgan (talvez Parnucã de Pires, correspondendo à baía Pamukan ou Pamkan) que sem dúvida representa Pulo Laut. Esta carta mostra também a extremidade leste de Java, com a legenda a fim da Jllta de Jaoa; Jlha de madura; Bllaram (Bali), Lomboquo (Lombok), e SSimbaua e Aramaram (Sumbawa). Est. XXXI. (18) Carta foi. 37 — Solor e parte leste de Flores desenhadas como uma só ilha, Timor, arquipélagos de Banda e Molucas, Amboina c Ceram, etc. Escala da carta, desta c das duas anteriores, aproximadamente 1:7.000.000. Est. XXXII. (19) Carta foi. 38 — Esboço do Golfo de Tonquim, ao cimo do qual está escrito coçhim da çliirta, provavelmente significando para Rodrigues «Cochim da China». Hainan limita apropriadamente a parte sudeste do Coifo, mas inominado; porém, por cima da península Lei chou está escrito 7 nam llimott, que quer dizer Hainan e lin-mQn. Vide nota pp. 360-1). Est. XXVI. (20) Carta foi. 39 — Esta carta tem parte de uma ilha alongada cha¬ mada Lequeoller (Leqtteos?), em frente de um trecho de costa com a legenda Costa que vai pera A chinaa: na parte sul da mesma carta vê-se uma grande massa idefinida de baixios chamada Jlhas allagadas, que corresponderá ao vasto arquipélago de recifes e ilhéus a oeste de Palawan. Lequeoller e as ilhas mais pequenas c sem nome para sul, parecem corresponder às Filipinas Est. XXVII.
ESTAMPA XLI Carta de Francisco Rodrigues (foi. 115) do Mediterrâneo Central 33
ESTAMPA XLII Carta de Francisco Rodrigues (foi. 116) mostrando o Mediterrâneo Oriental e o Mar Negro
Apêndice // 465 (21) Carta foi. 40 — Esboço mostrando a entrada do Rio Cantão com a legenda A boca do estreito de china, e várias ilhas, uma das quais tem a legenda a esta Jlha ssurgem os Jumquos da china, que corresponde a Tamão ou Tumon dos antigos Portugueses, ou actual Lin Tin Island (vide nota pp. 362-3). Um outro rio, que vindo do norte desagua no Rio Cantão, mais estreito e com grandes curvas, tem a legenda Per este Rio açitna lleuani a mercadoria em Paros pequenos a propia çidade da china. Na extremidade superior deste rio está situada A cidade da china, cercada por duas muralhas (?) concêntricas. Isto deve representar Pequim, chamada A Cidade da China como Gour, a antiga capital de Bengala, era chamada A Cidade de Bengala, e Cuttack, a histórica capital de Orissa, era chamada A Cidade do Orixa (vide notas pp. 221-3). O longo rio estreito propõe-se provavelmente representar o Grande Canal. Por outro lado, os vários canais ou afluentes, que se vêcm na carta, sugerem a bacia do Sikiang ou Rio Ocidental. É preciso não esquecer que Rodrigues desenhou segundo informações que obteve, talvez em Malaca. e não é de estranhar que as informações obtidas de algum modo se mistu¬ rassem no seu espírito. Est. XXXIII. (22) Carta foi. 41 — Esboço da parte norte da costa da China, com a legenda até aqui tem descuberto os chims, junto a uma grande ilha que talvez represente a Coreia, concepção insular que aliás se encontra noutras cartas e descrições antigas. Para sul vê-se uma longa ilha com a legenda Yiha parpoquo Nesta Achares muyta coussa da chyna. Esta Yiha Parpoquo deve ser a Parioco Insula que aparece ao fim do Magttus Goifus Chinarum Maris no Atlas de Lopo Homem de 1519. Nos Comentários do Grande Afonso de Albuquerque diz-se que o ouro trazido pelos Gores a Malaca «é duma ilha, que está perto deles (os Gores), que se chama Perioco, em que ha muito ouro». (III, xviii). Denucé julga que Perioco deriva de «Pcriya Woki qui signifie lc Japon». Magellan p. 164. Dahlgrcn preveniu-nos contra tal etimologia. Les débuts, p. 13. Ferrand diz que Perioco «c'est Pile Fariyãk (ou FiriyQk) du ‘Umda et du Mahit de Sidi -Alí», manuscritos árabes de 1462 e 1489, em que esta ilha é colocada a sudeste ou sul dos portos da China. Mas acrescenta: «Je n'ai pas pu réussir à identificer Pile en question». Malaka, II, 130-4. Parpoquo ou Perioco, porém, talvez antes corresponda a Perieco, onde viviam os periecos (do grego Tteoiomoí), aqueles que viviam no mesmo paralelo de latitude mas em meridianos opostos. Periecos é uma antiga palavra portuguesa, que se encontra por exemplo num Tratado de Geografia português do século xvit, cap. 10.° — «Dos Antipodos, Antecos c Periecos», ff. 65-80, que se encontra no British Muscum (MS Egerton 2063). Vide A. Cortesão, A Expansão Portuguesa através do Pacífico, p. 168. Embora o Japão esteja no mesmo paralelo que Portugal, dista apenas 150°; mas naquele tempo longitudes não podiam ser correctamente medidas, e cartas posteriores ainda situavam o Cliipangu de Marco Polo (que se dizia ficar no «alto mar.
466 Tomé Pires e Francisco Rodrigues 1.500 milhas distante do continente»), longe no Pacífico. Do mesmo modo que Rodrigues representou os Lequeos como uma ilha, e Parpoquo como outra ilha mais a norte, não é impossível que este Parpoquo ou Parioco, cor¬ responda ao Japão, e à antiga palavra portuguesa Perieco. através dum rasgo de imaginação de algum antigo erudito lusitano. Mas isto é mera conjectura. Deve lembrar-se. porém, que os Comentários foram escritos sobre a infor¬ mação contida nas cartas de Afonso de Albuquerque, que faleceu em 1515; as cartas de Rodrigues datam de c. 1513, c o atlas de Lopo Homem, embora datado de 1519, mostra que a sua representação do Extremo Oriente é ainda muito menos correcta que a de Rodrigues. Então Perioco desapareceu das cartas e documentos, o que não teria acontecido se o nome fosse mera adaptação ou corrupção portuguesa de algum nome indígena, como acon¬ teceu em tantos outros casos. Vide nota pp. 373-4. Est. XXXIV. (23) Carta foi. 42 — Esboço de uma ilha, alongada norte-sul, com a legenda; Esta lie a primçipaI Jllta tios Llequeos / dizem que lia nella triguo Z obra de cobreiI. Pires menciona trigo e cobre entre as mercadorias trazidas pelos Lequeos a Malaca. Esta ilha representará a Formosa, e as duas pequenas ilhas e dois ilhéus ao largo da sua costa sudoeste talvez corres¬ pondam às Ilhas Pescadores. Vide nota pp. 370-2. Est. XXXV. (24) Carta foi. 114 — Mediterrâneo Ocidental. Est. XXXVIII. (25) Carta foi. 115 — Mediterrâneo Central e Mar Egeu. Além de abundante nomenclatura, como na anterior, esta carta tem algumas curtas legendas: Esta lie a lera da esscaruonya (Slavónia); Esta he a costa de pulha (Puglia); castello de costamtinoplle. repetida de cada lado do Bósforo. Est. XLI. (26) Carta foi. 116— Mediterrâneo Oriental e Mar Negro. Além de abundante nomenclatura esta tem várias e mais ou menos longas legendas. Sobre a Crimeia está escrito: Caffaa. / foi deyaonesses. Sobre o Mar Negro: Este lie o mar Maior Homde riam navega nenhiia nao de cristãos. Sobre o Bós¬ foro; constamtinoplle Pera Z (é) de janoesses. A leste do Bósforo: aqui embarquaram os turquos q tomaram constamtinopllee em Inata nao de Janoesses. Por cima da Anatólia: Deste Rio se parte a lera do ssoldam com a do tur A tera do turco sse chama caramania Z nã Vos ffallo na greca que foi do emperador De contamtinoplleel.. No Líbano: Momtanlia negra daqui se leuou Madeira pera fazerem as primeiras naos dos Rumes. Em Acre: nosa sirnia (Senhora) do carmo sam Joham do acre. Porto de Jafa. ha daqui a Jerzulem 9 llegoas. Sobre o delta do Nilo: os boqueires porto das caracas; por este Rio vam Ao cairo. A oeste do delta do Nilo: Esta he atera do ssoldam. / que sse chama Xurca (?). Esta três últimas cartas não têm escalas de latitudes nem troncos- -de-léguas e estão desenhadas na escala aproximada 1:6.000.000. São copiadas de protótipos contemporâneos mais ou menos estandardizados. Est. XLII.
Apêndice II 467 DESENHOS PANORÂMICOS Os primeiros catorze destes desenhos (ff. 43-56) quer Solloie quer Solloro. e o primeiro deles tem as seguintes legendas: Comoeço Da Jllia de Slllote/. em Noue graos, e Esta ffoi a primeira terra que vimos quamdo vínhamos de hamda pera Mellaqual. Seguem-se 27 desenhos (ff. 57-83) da costa norte da Ilha de samademga. O primeiro destes tem a seguinte legenda: Cabo das frroles na Ilha de samademga/. & esta em oito graos; o segundo tem em cima a continuação de Samademga. e em baixo, desenhada invertida, a Ylha de nuramgeti; o quinto, o sexto e o sétimo têm no primeiro plano a Ilha de nuçaRaja, com Samademga atrás; o décimo quinto tem Cabo deffero; o último de todos tem Cabo da Jlha de samademga. e depois seguem-se o estreito de Sapeh e o começo de Sumbawa, tudo na mesma folha. Tanto quanto é pos¬ sível julgar, o primeiro dos desenhos chamado Sollote ou Solloro parece referir-se à Ilha Alor, a leste do grupo de Solor; o segundo tem a ponta oci¬ dental de Alor, a ponta original de Pastor, distinguindo-se o escreito entre elas; os outros doze desenhos mostram Pantar, Lomblen e Adunarc. O grupo de desenhos com Samademga corresponde à Ilha Flores; Cabo das ffroles é Flores Head ou Tanjong Kopondai, chamado Tamjambão no roteiro do Livro de Marinharia (p. 266); Ylha Nusaramgeti, chamada Nucarãtete no roteiro, é Rusa Linguette ou Ilha Sukur; Ilha de NuçaRaja, chamada Nucarraya no roteiro, é Paloé ou Ilha Raja (Nusa quer dizer ilha em java-malaio); Cabo do ffero — «os negros chamam este cabo Tamjambis, que quer dizer cabo do ferro» segundo o roteiro — corresponde a Toro Bcsi ou Tanjong Besi, a ponta mais setentrional da parte oeste de Flores. Ests. V, VIII, IX e X. Os três desenhos (ff. 83-85) da costa norte de Sumbawa, são todos denominados Simbaua ou Symbaua. O primeiro tem a extremidade oci¬ dental da ilha Flores, com a legenda — Cabo da Jlha de Samademga (Flo¬ res), e depois, separada por um canal, a extremidade leste de Sumbawa com a legenda — Começo da Jlha de Simbaua; umas poucas casas c árvores mar¬ cam o porto de çape (Sapeh), e ao largo da pota nordeste de Sumbawa está a parte leste da Ylha do ffogo (Gunong Api ou ilha Sangeang). O segundo mostra o meio e parte ocidental da Ylha do ffogo, tendo Symbaua ao fundo, com a ilha de aram aram e a metade leste da ilha de moio. O terceiro tem a metade ocidental de moio, até Tclok Sumbawa. Est. XXX. Numa comunicação que em 1938 apresentei no Congresso Internacional de Geografia em Amesterdão — The first account of the Far East in tlie six- teenth century — reproduzi o segundo destes desenhos (f. 84), dizendo errada¬ mente que «a Ylha de ffogo que se vê à esquerda corresponde à península montanhosa dominada pelo vulcão Tambora (3.082m). A ilha aram aram deve ser uma das ilhas em Saleh Bay, e o ilhéu indenominado é, talvez,
468 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Satonda». (Comptes Rendus, Tome H, Section ív, p. 149). Repeti o mesmo erro no meu ensaio O Descobrimento da Australásia e a ‘Questão das Molu- cas\ publicado em 1939. A disposição e proporções do desenho, em que a distância entre uma enorme Ytha do ffogo e moio aparece reduzida a menos que o comprimento de Moyo; o facto de a ilha aram aram ser mostrada deve¬ ras plana; o facto das duas mais pequenas mas notáveis crateras, ao lado do vulcão mais alto, corresponderem bastante bem ao desenho da Ylha do ffogo; e o facto de que embora a ilha Sangeang tenha visíveis três crateras activas, além do vulcão mais alto, corresponde bastante bem ao desenho da Ylha do ffogo; c ainda o facto de que embora a ilha Sangeang tenha três crateras activas visíveis, a mais alta (1.931 m) está situada no norte e a outra (1.795 m) está no sul da ilha, ao contrário do que se vê no desenho, levaram ao meu engano. Mas quando recentemente estudei o roteiro no Livro de Marinharia, deparei com um passo onde se lê que depois de Moyo fica o Ilheo da arã: «deste ilheo de Arrãa arrã ha momtanha de Arrãa arrã, que está na costa de Çimbaua, havera ao meu pareçer hua legoa ou mais este ilheo he allto», etc. (p. 265). O Ilheo da arã ou Ilheo de Arrãa é Satonda; a montanha de Arrãa arrã é a península dominada pelo vulcão Tambora. É fácil de compreender como Rodrigues, desenhando do mar, representou Aram aram como uma ilha; mas já não é fácil explicar porque ele a desenhou como uma terra plana, ao passo que as posições relativas de Moyo, Satonda, Aram aram e Saleh Bay estão bastante correctas. Os sete desenhos cm ff. 87-93 são chamados amJane, que corresponde a Lombok. Mas parece-me que os primeiros três representam a parte ocidental de Sumbawa, por Rodrigues ter pensado que Telok Sumbawa. a baía onde se encontra aldeia de Sumbawa e o terreno plano que se estende para oeste, continuado por terreno deveras acidentado, eram um estreito entre as duas ilhas, como se torna aparente pelos desenhos. Bali está representada na f. 93 juntamente com o extremo ocidental de Lombok. O facto é que o navio de Rodrigues, depois de alcançar Lombok, seguiu para nor-noroeste a fim de passar pelo norte de Sapudi, e deve ser por isso que Bali é desenhada como uma pequena ilha, pois ele só avistou a sua extremi¬ dade nordeste. Os dois desenhos seguintes (ff. 94, 95) mostram a Ilha Sapudi (pude), com a pequena ilha de Raas (Jlha de Raz) onde a Sabaia de Francisco Serrão naufragou. Os últimos 17 desenhos (ff. 96-112) chamam-se Jlha de Jaooa ou simplesmente Jaooa, desde a sua extremidade oriental — Começo da Jlha de Jaoa. até à região de Cape Krawang, que tem a legenda E ate aqui descobrimos da Jlha de Jaoa. Ao longo da costa lêem-se os seguintes nomes: Srubaia (Surabaya), Agraçj (Grisec), Rio de çidaio, Tubam, Cabo Amballor (Tanjong Api Api Anom), Mandalliqua (Mandelika), Japara porto de Pate Unus.
APÊNDICE III LISTA DE CARTAS ANTIGAS REFERIDAS c. 1370 — Atlas Mediei. Anónimo. Biblioteca Laurenziana, Florença. 1375-1381 — Planisfério Catalão, de Abraão Crcsques e seu filho Jafuda Cresques. Gonzalo de Reparaz, Fils, mostrou que este planis¬ fério foi feito entre 1375 e talvez 1381. Caialunya a les mares. pp. 82-93. Bibliothèque Nationale, Paris. 1457-1459 —Mapa-múndi de Fra Mauro. O original, feito por encomenda D. Afonso V, está perdido. Existe em Veneza uma cópia feita em 1460. A Cortesão, Cartografia, i, 121-5. c. 1471 —Carta das costas sudoeste da Europa e noroeste da África com as ilhas atlânticas. Biblioteca Estense, Modena, Reproduzida em fac-simile com uma memória por A. Fontoura da Costa sob o título Uma Carta Náutica Portuguesa, Anónima, de «circa 1471», Lisboa 1439. A ilha açoreana das Flores, é chamada illa das (?) flors; a lendária ilha Mayda está designada illa da nayda; Lisboa é dada como lixbona. Custa a crer que um cartógrafo português escrevesse illa ou lixbona. Talvez o autor desta carta fosse do Mediterrâneo, possivelmente maiorquino. Poderá dizer-se tanto portuguesa como qualquer outra do mesmo período feita por cartógrafo estrangeiro sobre protótipo português. 1502 — Planisfério português anónimo. Biblioteca Estense, Modena. Esta célebre carta foi clandestinamente comprada em Lisboa por um agente do Duque de Ferrara, chamado Alberto Cantino. donde o deveras impróprio nome «Carta de Cantino», por que é geralmente conhecida. Cartografia, I, 142-151. r. 1502 — Carta do Atlântico Norte, Europa Ocidental e Noroeste da África, por Pedro Reinei. Staatsbibliothek, Munique. Cartografia, l, 260-1. c. 1510 — Carta portuguesa anónima do Sul da África, Mar Vermelho, Golfo Pérsico e Oceano índico. Staatsbibliothek, Wolfcnbuttel. Richard Uhden data-a de 1509. The oldest Portuguese Original Chart of the Indian Ocean, A.D. 1509, in Imago Mundi, III, Lon-
470 Tomé Pires e Francisco Rodrigues don 1939. Dificilmenle podia ter sido feita antes de 1510. e melhor será datá-la de c. 1510. como fez Heinrich Winter, Der deutsche Besitz an porlitgiesischen Karien der Entdeckungszeit, in For- sehungen und Fortschrilte, Berlin, Maio 1939. c. 1517 — Carta do Sul da África, Mar Vermelho, Golfo Pérsico, índia, Malásia c Oceano índico, por Pedro Reinei, Armeebibliothek, Munique. A. Cortesão, Cartografia. I, 270-2; A Hitherto Uttre- cognized Map by Pedro Reinei in lhe British Museum. in The Geo- graphical Journal, Junho 1936. c. 1518 — Carta semelhante à precedente, de Pedro Reinei. British Museum. Ibidem, [e Portugaliae Munumenta Cartographica; I, 39-41, onde se mostra que esta carta será melhor datada c. 1522.] c. 1519 — Planisfério de Jorge Reinei. Armeebibliothek, Munique. Car¬ tografia, l. 272-8. 1519 — Atlas com o Noroeste da Europa, Açores, Brasil, Oceano índico e Malásia. Bibliothcque Nationalc de Paris. Este atlas e grande carta solta com o Atlântico, constituem as chamadas «Cartas Millep>, cuja autoria foi por Denucé, Kammerer e eu próprio (Cartografia, i, 278-298) atribuída a Pedro Reinei. Mas o his¬ toriador da cartografia Mareei Destombes, mostrou que o autor do «Atlas Miller» é Lopo Homem. Uma série de artigos contro¬ versos sobre o assunto apareceu recentemente in The Geographical Journal: M. Destombes, Lopo Homem s Atlas of 1519, Novembcr 1937; G. Caraci, Lopo Homem and the Atlas Miller, e resposta de M. Destombes, March 1938; F. A. Kammerer, The Lopo Homem Map once more, May 1938; La Mappemonde Lopo Homem et FAtlas Miller, Deccmber 1939. 1522 — Carta do Norte do Oceano índico e Malásia, por Nuno Garcia de Torrcno. Biblioteca del Re. Torino. Alberto Magnaghi. La prima rappresentazione delle Filippine e delle Moluche. Milano 1927. c. 1523-4 — Planisfério anónimo. Biblioteca del Re. Torino. Alberto Magnaghi, II Planisfero del 1523 delia Biblioteca del Re in Torino, Fircnze 1929; A. Cortesão, Cartografia, l, 182-6. r. 1524 — Carta mostrando o hemisfério sul cm projccção polar equidistante. Esta antiga carta portuguesa foi descoberta por Mareei Destombes no Top Kapu Sarayi, Istambul, em 1935. Ele atribui a sua autoria a Pedro Reinei e data-a de 1524. Eu sinto-me mais inclinado a pensar que a carta foi desenhada por Jorge Reinei, filho de Pedro. Mareei Destombes, VHemisphère Austral en 1524. Une carie
Apêndice III 471 de Pedro Reinei à Istambul. In Comptes Rendus du Congrès Inter¬ national de Géographie. Amstcrdam 1938. Tome il, Section iv, pp. 175-184. Leiden 1939. 1527 — Planisfério de Diogo Ribeiro. Landesbibliothek, Wcimar. Car¬ tografia, n, 141-5. 1529 — Planisfério de Diogo Ribeiro. Biblioteca Vaticana: Cartografia, ii, 145-151. 1529 — Planisfério de Diogo Ribeiro. Landesbibliothek. Wcimar. Car¬ tografia, ii, 152-167. e. 1540 — Carta portuguesa anónima do Oceano índico Central. Golfo Pérsico, índia, Malásia e Mar do Sul da China. Staatsbibliothck. Wolfenbiittel. Publicada pela primeira vez por A. Cortesão, A Expansão Portuguesa Através do Pacifico. c. 1540-50 — Carta portuguesa anónima da Malásia c Mar do Sul da China. Chamada «Carta Penrose». Embora o seu possuidor, Mr. Boies Penrose (E.U.A.), diga que «ela é claramente de feitura espanhola e portuguesa» e que foi feita c. 1522, a data desta carta, inacabada, e inquestionavelmente portuguesa, nào pode com segurança ser situada muito antes de meados do século xvi. Cartografia, t, 159. 1554 — Planisfério de Lopo Homem. Museo di Strumenti Antichi, Firenze. Cartografia, t, 346-8. 1558 — Atlas de Diogo Homem. British Museum. Cartografia, t, 373-5. 1563 — Atlas de Lázaro Luís. Biblioteca da Academia das Ciências. Lisboa. Cartografia, li, 243-251. 1568 —Atlas de Diogo Homem. Staatsbibliothek. Dresden. Carto¬ grafia, l, 379-380. 1568 (?) — Atlas de Fernào Vaz Dourado. Biblioteca Nacional. Lisboa. ii, 68-77. 1568 —Atlas de Fernào Vaz Dourado. Biblioteca do Duque de Alba, Madrid. Cartografia, II, 28-41. 1570 — Atlas de Fernào Vaz Dourado, Huntington Library. San Marino (Califórnia). Cartografia, ll, 60-4. 1571 —Atlas de Fernào Vaz Dourado, Torre do Tombo. Lisboa. Car¬ tografia, n, 41-54. 1575 (?) — Atlas de Fernào Vaz Dourado. British Museum. Carto¬ grafia, ii, 64-8.
472 Tomé Pires e Francisco Rodrigues 1580 —Alias dc Fcrnào Vaz Dourado, Staalsbibliothek. Munique. Car¬ tografia, li, 55-9. 1615-23 — Atlas português anónimo chamado «de la Duchesse de Bcrry». Bibliothèquc Nationale, Paris. Cartografia, II, 86-95. 1635 — Nove cartas com a África, desde o Cabo da Boa Esperança, Mar Vermelho, Golfo Pérsico, índia, Malásia e Mar da China, por Pedro Berthelot. In Livro do Estado da índia, MS. Sloane 197, British Muscum. Berthelot, um normando nascido em Hon- flcur cm Dezembro de 1600, embarcou para o Extremo Oriente em 1619 c entrou no serviço português talvez em 1626 em Malaca. Mais tarde foi para Goa e nomeado Piloto e Cosmógrafo-mor da índia. Devido à influência do seu patrício Padre F. Philippe. em Goa, tornou-se Carmelita com o nome de P. Denis de la Nativité. Em 1638 foi enviado a Achin, em Samatra, com uma embaixada portuguesa, tendo então, assim como quatro Portugueses, sido assassinados pelos indígenas. Charles Bréard, Histoire de Pierre Berthelot, Pilot et Cosmographe du Roi de Portugal aux Indes Orientales, Carme déchaussc. Paris 1889. [Todas as cartas portuguesas aqui referidas foram iargamente estudadas e reproduzidas, em larga escala e por vezes nas cores originais, nos cinco volumes de Portugaliae Monnmenta Carto- graphica. Lisboa-Coimbra 1960].
APÊNDICE IV MACAU EM 1515: observações sobre a edição da Suma Oriental de Tomé Pires do Dr. Armando Cortesão por J. M. Braga (*) Com a publicação da Suma Orientai de Tomé Pires, excelentemente editada pelo Dr. Armando Cortesão, o mundo contraiu para com este uma dívida e a Hakluyt Society, ao patrocinar a obra, aumentou os seus numerosos louros. Os estudiosos dos descobrimentos geográficos têm agora a possi¬ bilidade de facilmente consultar em qualquer parte, a Suma de Pires, há muito julgada perdida, porque a publicação desta obra nas belas edições da Hakluyt Society, em formato tão manejável, torna acessível aos estudiosos o original raro, anotado e com erudita introdução pelo Dr. Cortesão. Estudantes de todas as partes do mundo que se dedicam aos descobri¬ mentos geográficos têm tido o prazer de ler este esplêndido livro, publicado em dois volumes pela Hakluyt Society, desde o seu aparecimento em 1944, mas foi só depois do fim da Guerra, c do restabelecimento das comunicações normais, que o livro chegou ao Extremo Oriente. Este o motivo pelo qual só há um ano o Extremo Oriente em geral e Macau em particular, vieram a conhecer este novo livro; o que servirá para justificar o reconhecimento tardio de um estudante desta parte do mundo na sua dívida para com o Dr. Cortesão e a Hakluyt Society. Não é intento dos apontamentos que seguem, tentar uma apreciação do livro; pois foi tão cxcelentemente feita nos jornais geográficos britânicos (*) Publicado cm inglês pelo Instituto Português de Hong Kong (Secção de História). Macau 1948. As referências têm em vista a primeira edição da obra de Tomé Pires, 2 vols., Londres, 1944. (Tradução da Dr.“ D. Maria Armanda de Almeida e Sousa).
474 Tomé Pires e Francisco Rodrigues que seria imperlinentc fazê-la agora. O autor poderá, contudo, ser des¬ culpado, ao acrescentar algumas observações às já feitas pelo Dr. Cortesão nas passagens do livro relacionadas com a China — a China do Sul em especial. O livro de Tomé Pires foi escrito à volta de 1512-15, em Malaca e Cochim, segundo conclusão do Dr. Cortesão (1). A Suma Oriental, convém notar, foi compilada por Tomé Pires antes de ter visitado a China, e as referências que faz acerca do Império Chinês provêm de pessoas que parecem ter tido considerável experiência das feitorias do comércio costeiro chinês. Uma grande parte das informações, em a Suma Oriental, respeitantes a muitos outros lugares da Ásia. foi obtida por Pires em primeira mão, por obser¬ vação directa e, sempre que tinha de depender de outrem para informações, parece ter inquirido dos seus informadores muito cuidadosamente. Cortesão afirma, com absoluta correcçâo, que «pondo de parte os relatos dos viajantes europeus medievais, a Suma de Pires contém as pri¬ meiras informações fidedignas sobre as terras e ilhas situadas entre Bengala e o Japão. As informações dadas sobre as terras visitadas por ele próprio são, naturalmcnte, mais valiosas e mais cheias de vida do que as obtidas em segunda mão; mas até estas são de exccpcional interesse para aquela época, devido ao local onde as colheu e à sua posição oficial, que o punha em con¬ tacto directo com o mundo cosmopolita dos viajantes orientais, capitaes de navios, pilotos e comerciantes que frequentavam Malaca, para não falar dos relatos de muitos portugueses.» (2) O grande livro de Marco Polo tem posição singular pela sua descrição da vida na China e pelas referências a muitos outros países asiáticos, mas a exactidão das afirmações de Marco Polo tinham há muito tempo sido postas cm dúvida. Pires escreveu para fornecer informações exactas ao Rei de Portugal sobre o Extremo Oriente e Cortesão acentua o facto de «Tomé Pires ter sido o primeiro europeu do século xvi a fazer uma extensa, cons¬ cienciosa e fiel descrição do Oriente como resultado da sua observação pessoal» (3). Sabia-sc que a Suma Orienta! de Pires tinha sido escrita e que Ramusio imprimiu em Veneza, em 1550, algumas partes em tradução, sem revelar o nome do autor. Existe precisamente um fragmento (cópia do século xvi) da Suma Oriental nos arquivos de Lisboa, mas foi só quando o Dr. Cortesão «descobriu» a cópia em Paris da Suma Oriental, que proporcionou o material para o presente livro da Hakluyt Society, que o mundo se tornou mais rico graças à sua publicação. (1) The Suma Oriental of Tomé Pires, Londres, 1944, Vol. i, p. Ixxiii. (2) Ibtd., p. Ixxvi. (3) Ihid.. p. lxxviii.
Apêndice IV 475 Marco Polo nâo mencionou os pausinhos que os chineses usam, mas Pires dá-nos «uma das primeiras descrições europeias dos pausinhos. ‘Uma descrição muito boa', comenta o Prof. C. A. Moule (4), que ajudou o Dr. Cortesão cm todos os assuntos relacionados com a China. É de notar, como o Dr. Cortesão salientou, que Pires foi o primeiro europeu a identificar o Cambaluc de Marco Polo com Pequim. Pires não deve ter lido a grande obra de Marco Polo que, até fins do século xv, cir¬ culava apenas cm manuscritos, porque não só nâo menciona em parte alguma da Suma o famoso viajante veneziano, como ainda as suas referências aos locais, em que poderia ter plagiado Marco Polo, são tratadas de maneira absolutamente diferente. Onde Polo usou Cambaluc ou Cambalu. Pires tem Cambara. É muito pouco provável que o Padre Ricci, um século depois, visse a Suma Orienta! de Pires, mas é interessante notar que ele propôs a teoria, que levou a tanta discussão na Europa, e Bento Góes apenas com¬ provou ao fazer a mesma rota. Pires é o primeiro português a usar o termo Cantão, introduzindo assim um erro que nunca foi corrigido. Escritores anteriores, os maome¬ tanos Sulayman e Idrisi do século xn referem-se a Kuang-fu (i.e. Kuang- -Chou Fu) e dão a forma correcta ao que os chineses chamam Cantão, ao passo que os portugueses usam Cantão, significando evidentemente Kwang- -tung (a província), ao referir-se à cidade, o que perpetuou o uso deste termo até hoje. Pires menciona também o costume de enviar embaixadas tributárias à China, vindas especialmente de Java, Sião, Pase (i.e., Paçee na Samatra), e Malaca, e de outras localidades. Pires continua a dizer que «estes mandam seus embaixadores com o selo da China a el-Rei da China de cinco em cinco anos & de dez em dez anos & cada um lhe manda do melhor de suas terras do que sabem que lá querem» (5). Pires refere-se noutro lugar às restrições em vigor nessa época, proibindo a saida dos chineses da China, devido à politica do último período da Dinastia Ming(6). Referindo-se a Cantão, Pires cita «Os luçocs (i.e., os filipinos) que já ali estiveram.» (7) Pires menciona também os portos de Tung Koon «Junto com a terra firme de Nantu onde estão os portos já determinados de cada (4) Ibid., p. 116. (5) Tomé Pires, A Suma Oriental, foi. I39v. (vol. n, p. 394). (6) Vide C. R. Boxer «Notes on Chincsc Abroad in thc late Ming and early Manchu periods» in Tien Hsia Monthly, Shanghai, Dezembro 1939. pp. 447-468. (7) Tomé Pires, Op. cit., foi. 161r. (vol. ii, p. 455).
476 Tomé Pires e Francisco Rodrigues nação. s. puto lumon» (8), (i.e.. a ilha de Tuen Moou, que é provavelmente a ilha de Lintin). Durante o século passado, os historiadores tentaram identificar o Tamão português com algum porto ao longo da costa sul da China a ocidente de Macau, mas o Dr. Cortesão aceitou a identificação, pelo autor do presente trabalho, de Tamão com Sintin Island (9). Inde- pendentemente. o Sr. Albcrt Kammerer, estudando fontes semelhantes, chegou a conclusão semelhante (10). Pires continua, «vão os juncos de Malaca ancorar à Ilha de Tumon, como já é dito, vinte ou trinta léguas de cantão. Estão estas ilhas junto com a terra de Nantó uma légua ao mar da terra firme. Ali ancoram os de Malaca no porto de Tumon & os de Siào no porto de Hucham. O nosso porto é mais perto para a China três léguas que o de Sião, e primeiro vêm as mercadorias a ele que ao outro» (11). Torna-se agora necessário identificar Hucham, o que deve dar material para investigação. A referência ao uso desse porto por navios vindos de Sião, durante a dinastia Ming devia facilitar tal estudo. Talvez fosse Tai O. na Lantao Island. O livro de Pires constitui um excelente relato dos principais artigos do comércio de importação da China. É indicada a taxa de importação sobre estas mercadorias, e dá-se pormenorizada explicação dos pesos e como ope¬ ravam. Há um termo usado por Pires—fuseleira — que provavelmente significa latão. Fala, por exemplo, de «tantos pesos de tal mantimento por um de caixas de fuseleira» (12) e mais adiante refere vasilhas de muitas espé¬ cies «vasos de cobre de fuseleira, tachos de ferro fundido, bacios, bacias» (13). A propósito das mercadorias exportadas da China Pires menciona muitos artigos. Indica que «A principal mercadoria da China é seda branca crua» (14) o, continuando a citar os artigos de seda, tais como cetins, damascos e tafetás, fala de «enrolados» referência ao modo como certos tipos de tecido de seda eram vendidos em rolos, termo usado outrora em Macau para des¬ crever determinada espécie de tecido de seda que se comprava e vendia. (8) Ibid.. (9) Vide J. M. Braga «The Tamão of the Portuguesc Pioneers», Tien Hsia Monlhly, Shanghai. Maio 1939, pp. 420-432. (10) Albert Kammerer no seu «La Découvertc de la Chine par les portugais an xvième siècle et la Cartographic des Portulans» in Toung Pao, ' lieídbh *1944, p. 62. * (11) Tomé Pires, Op. cit., foi. I61v. (vol. ii, p. 457). (12) Ibid.. foi. 162r. (vol. il. p. 458). (13) Ibid. (14) Ibid.
Apêndice IV 477 Pires menciona «panos de seda ralos a que chamam xaas» (15). Numa nola. Cortesão tenta identificar este com gaze de seda. Não estaria Pires a referir-se a um tecido macio de seda, o slia chau da China do Sul? É evi¬ dente que pluralizou a palavra. Enumerando drogas e remédios. Pires menciona «cânfora de botica ... abarute pedra ume, salitre» (16) e outras substâncias; Cortesão nâo identificou abarute. De interesse é a citação feita por Pires: «De porcelanas não se fala no número», que ele provavel¬ mente viu cm Malaca(l7). Diz Pires «aí um lugar que se chama Xamcy em que há ai almiscar... a cidade de que vem o almiscar se chama Xãnbu, a qual é na China & dizem que é Çançy ha as alimárias de que tiram o almiscar» (18). Não é fácil identificar os nomes c o Dr. Cortesão faz certas sugestões, fornecendo o Prof. Moule alguns esclarecimentos. Tomé Pires orientou-se naturaimente pelas informações dos comerciantes costeiros, alguns dos quais parece pos¬ suírem um conhecimento bastante bom das fontes de abastecimento. É pos¬ sível que os mercadores identificassem a região nas imediações da Província Shcn-si com a Xamcy mencionada por Tomé Pires, mas será mais correcto supor que a Xambu de que ele fala seja Cheng-tu. que costumava ser um importante mercado de almiscar de Ta-Tsien-Lu, ainda hoje o centro do comércio de almiscar proveniente do Tibete. Numa lista de localidades na China de onde vinham outras merca¬ dorias Pires refere-se a «damascos, cetins, xaas loos de Nanquim ... & Damqm» (19). Cortesão tenta identificar loas e menciona que o «Dr. Lionel Giles sugere que a palavra loos poderia derivar do chinês lo-ssu, significando uma qualidade de seda delgada» (20). Namqim está identificada com Nan- king, mas Amqm não foi identificado pelo Dr. Cortesão. Permitimo-nos sugerir que Amqm pudesse ser Anking. Anking. também conhecido por Nganking, é a capital da província de Anhwei, e Wuhu e Nanking eram dos principais centros produtores de seda no vale do rio Yangsze. Referindo-se de novo aos portos do sul da China, Pires continua «Além do porto de Cantão está outro porto que se chama Oquem; é andadura por terra de três dias e por mar um dia & uma noite. Este é o porto dos léquios e doutras nações» (21). (15) Md. (16) Md. (17) Md. •r. J. CORDEIRO PEREIRA Ru* do M*fc»do. 7. 2-G T*l*l. 280006-2750 CASCAIS (18) Md. e p. 459. (19) Md. (20) Md. e p. 126. (21) Md.
478 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Cortesão crê que era «Foquem ou Fokicn». A distância de Cantão de «três dias de viajem» e «um dia e uma noite por man> deve ter prevenido Cortesão para procurar um tal porto mais próximo de Cantão (22). De facto esta referência é para nós uma das mais importantes na Suma Oriental de Pires, porque provavelmente não é outra senão Macau: Pires estava a usar o nome pelo qual o porto de Macau era conhecido no tempo dos Ming, e que os chineses usam ainda para Macau, algumas vezes, mesmo hoje. Oi-kiang ou Hoi-kiang é um nome diferente que se dava a Macau durante a Dinastia Ming. Antes disso Macau, que produzia sal, parece ter sido parte da região arrozeira ainda conhecida por Kum Tau Wan (23), área entre Tsin Slian (24) c a Mo-to Moon (25). Nesse tempo havia salinas em Macau e o local aparece como Kum Tau Im Chong (26), estando sob a administração do comissário do sal de Kum Tau Wan (27). Isto era nesse tempo da Dinas¬ tia Sung do Norte (A.D. 960-1127). Mercadores de Fukien e das Ilhas de Liu Kiu começavam a utilizar este porto por essa altura e a velha lenda de como a deusa A-ma (também conhecida por Neang-ma) salvou a tripulação de uma jangada num naufrágio, data deste período. Era crença geral que do templo em honra de A-ma (28) os portugueses chamaram ao local, por volta de 1555, o porto de Amacao (29); tendo mais tarde caído o prefixo «A», o nome ficou «Macao». (22) Numa nota de rodapé Cortesão admite que de Cantão até ao ponto mais próximo da costa marítima da província de Fukien é cerca de 350 milhas por mar ... Foochow fica ainda 250 milhas mais longe. (23) Kum Tau Wan que significa «Baia do cesto de Grão de Ouro», refere-se à riqueza proverbial do solo desta área. É uma das principais regiões produtoras de arroz do distrito de Heung Shan. (24) A Casa Branca referida nas descrições portuguesas, pequena cidade murada a umas 3 milhas por estrada, de Macau, outrora sede resi¬ dencial de um mandarim. (25) O canal que conduz da passagem nas cartas da British Admiralty conhecido por The Broadway. O Moto Moon é o canal que era utilizado pelos comerciantes estrangeiros quando viajavam entre Macau e Cantão. Durante a «Guerra do Ópio» este canal foi usado pelos H. M. E. I. S. Nemises no seu ataque a Cantão c aparece nas Admiralty Cltarls como Nemises Channel. (26) Isto é «A salina da Área de Kum Tau». (27) Veja Pei Sung Tin Chak in «Chronicles of thc Northern Sung». (28) Veja J. M. Braga, «Macao's Temple of A-Ma» in Renascimento, Março 1943, pp. 324-328. (29) É interessante notar que em cartas escritas nos meados do século xvi os esciitores ao fazerem referência a Macau usassem tais variantes como
Apêndice IV 479 No inicio da Dinastia Ming (A.D. 1368-1628), o local cra de certo modo frequentado, havendo dois templos, o de A-ma e o de Kun- Yam (30). Em Ming Shu, Macau aparece como Oi-Kiang Ou. que significa «Baia do Espelho do Mar», provavelmente porque a Baía da Praia Grande forma um tão agradável circulo e o sol reflectindo na água calma fez lembrar a algum oficial de inclinação poética um espelho, pois na China os espelhos são gcralmente redondos. Mais popularmente era conhecido por Oi-Kiang: por vezes alguns escritores posteriores inverteram os Caracteres para Kiang Oi outros escritores usaram mesmo o termo O-Kiang. significando o «Espelho do Fosso», devido possivelmente à estreita faixa de água que, quase cercando Macau, dava a impressão de um fosso. Deve-se acrescentar que outros escritores usaram os caracteres Hó-Keang significando «Espelho com a forma de Ostra» (31). São conhecidas outras variantes (32). Vários escritores chineses voltaram a jogar com uma combinação de nomes para fazer O-Moon. Isto, resulta de um outro nome pelo qual Macau é conhecido. O canal por onde entram os navios vindos do sul para Macau tem a configuração de uma cruz, formada pelos canais que correm para lá de Macau, Taipa, Siu Wang Cum (Dom João), c Lappa, e desde tempos ime¬ moriais os chineses tém chamado a este o Sup Chee Moon. isto é a porta de entrada, ou porto, com o formato da letra «X» (o carácter significando «10» tem a forma de uma cruz). Ao empregar o carácter Ou de Oi-Kiang-ou com o de Moon. de Sup Chee Moon, o novo nome de Ou Moon (a «Porta de Entrada da Baía») significa por extenso «A Porta de entrada que conduz à Baía do Espelho do Mar». On-Moon é actualmente o nome usual chinês para Macau. Um reparo muito importante, a propósito dos nomes chineses usados por Tomé Pires é o de não sabermos o dialecto usado pelo seu informador ou informadores. As muitas variantes para quase todos os caracteres chineses, que dependem do dialecto usado pela pessoa que fala, conduziram a consi- «Amaqua», «Amachao», «Amacao», «Amacuao», «Amaquam». «Atnaquao». «Maquao», «Machoarn», etc. (30) O Templo da Deusa da Misericórdia em Macau cclebrizou-se há um século atrás por ter sido o local em que foi assinado o primeiro tratado sino-americano de 1844. Em Macau o templo é também conhecido por Mong Ha Temple. Os caracteres chineses são pronunciados Wang-Hia. em mandarim, daqui o tratado ser frequentemente chamado o «Tratado de Wang Hia». (31) Vide On Moon Kae Leak. (32) Outros nomes chineses para Macau são A Ilha da Flor de Lotus, A Cidade de Lotus, O Espelho do Fosso. Heung Shan O. e outros. 34
480 Tomé Pires e Francisco Rodrigues derável confusão pouco depois dos portugueses chegarem à China. A difi¬ culdade foi mais tarde ultrapassada ao ser usada a pronúncia mandarim. Nos dias de Tomé Pires os principais navegadores entre os chineses eram os Fukienese, se bem que os Hakkas também se aventurassem ao largo. Se o informador de Pires tivesse sido um Hakka teria pronunciado Hoi Keng; se um Fukienese, Hac Keng: se um cantoncs Hoi Kiang ou mesmo Oi Kiang, etc., etc., para as centenas de dialcctos na China. Consentem-se variantes similares para todos os nomes chineses. A estas variantes tem de se acres¬ centar as diferenças de tom, muito difíceis c quase misteriosas para o ouvido europeu não acostumado. Ao Dr. Cortesão são devidos os nossos agradecimentos por ter empreen¬ dido a tarefa de copiar e traduzir o manuscrito do livro de Tomé Pires; por através da sua obra nos ter sido dada a oportunidade de acesso ao texto do livro de Pires, há tanto tempo perdido, e de revelar muito do seu interesse. Acreditamos que a Oquem de Tomé Pires é simplesmente Macau, e se assim é de facto, é grato saber que a primeira descrição da China por um português menciona Macau. O Dr. Cortesão chama a nossa atenção para o facto de se poder con¬ cluir que Tomé Pires escreveu um relato da China depois de lá chegar como primeiro embaixador português, sendo esse relato enviado para Portugal. Tal como a Suma Orientai, ele perdeu-se, mas ao passo que devido à perti¬ nácia do Dr. Cortesão a Suma Orientai foi descoberta e dada ao mundo, temos de lamentar que a descrição que Pires fez da China se tenha perdido provavelmente para sempre.
APÊNDICE V ALGUMAS OBSERVAÇÕES DO DR. H. G. GRAAF (•) «p. 139—Aydumea talvez seja Idumaca ou Idumca, a terra de Edoni, a sul de Judaca (Jerusalém). A maior dificuldade está em que Idumaca é um termo bíblico; mas Damasco, Caldeia e Palestina também se encontram na Bíblia. p. 248 — Mr. Schnitger era alemão e tombou na Polónia (Set. 1939). p. 275 nota 268 — Polimbam no nordeste de Java talvez seja Balambangan. p. 280 — Pemano — talvez seja Pamanukan perto de Krawang ou Pamanuk perto de Bantam. Podem encontrar-se uns 24.000 nomes de Java num livro muito seco com um longo título: Alphabeliscli Register vau de Administratieve- (Besliwrs-) on Adatreclitclijke indeeling van Ne d- Indie. Decl I: Java en Madoera. Samen gesteld door W. F. School... Landsdrukkerij Batavia 1931. Suponho que é hoje muito raro! p. 289 — Cocunam. Esta palavra ainda é uma charada para mim, mas deve nela haver qualquer coisa como Anom (= jovem, menor). p. 294 — Sunda Calapa. Existe mesmo um livro chinês chamado: Klapa She = a história de Jacatra ou Batávia. (*) Segundo carta datada de Wassenaar, (Países Baixos) 9.ix. 1953 dirigida ao Autor, na qual premonitoriamente já me dizia: «I have oncc more read your famous cdition of Tomé Pires. Whilc I was rcading I made some annotations, which I am offering you as an appendix. I hope you won’t take it as a criticism. I meant it as a feeble tribute to the first exact European describer of Javanese life and history», etc.
482 Tomé Pires e Francisco Rodrigues p. 300 — «De noite fazem sombras de diversas feições como beneditos em Portugal». Pires refere-se aqui ao célebre jogo de sombras javanês, o wajang kulit, e é o primeiro escritor europeu que tal menciona. Quando ele fala dos «beneditos» deve querer dizer: l.° as túnicas vestidas pelos penitentes, ou 2.° as figuras de diabos pintados nesses sambcnitos, que se parecem muito com thewajang — bonecos do jogo de sombras javanês. p. 302 — «E que os Jaos mataram os chins todos em Java por traição». Isto foi na verdade o fim da falhada expedição chinesa a Java cm 1292-93, enviada pelo grande Imperador Kublai Khan. p. 303 — «Tem águas muito boas... tem a Java ouro em boa quantidade». Java ainda possuia a fama de boa água e muito ouro no século xvii (Rijklof Mich. van Goens 1655), mas a água é assaz acastanhada e não há ouro algum. p. 308-9—Nota. A crónica javanesa citada por Raffles é muito pouco digna de confiança, e só hoje, após anos de muito estudo, dela começo a compreender alguma coisa. p. 311—«tem diante do porto três ilhas». No século xvii havia lá na verdade 3 ilhas. Vide Franc. Valentijn, Oud en Nieuw Oostin- dien, Vol. iv, a carta em face do pág. 30. De modo que o seu compatriota tinha razão.
APÊNDICE VI SOBRE A CONFIANÇA DE QUE É MERECEDORA A INFORMAÇÃO DE TOMÉ PIRES SOBRE JAVA U) Desde o aparecimento da edição e tradução inglesa que Armando Cortesão fez da Suma Oriental de Tomé Pires, a descrição da Ásia escrita cm 1512-1515, de que o único exemplar de todo o manuscrito que sobreviveu, esteve por descobrir até pouco antes da Guerra Mundial II (1939), o histo¬ riador especializado no começo do século xvi tem tido ao seu dispor uma fonte de extraordinário valor que presentemente pouco precisa de mais escla¬ recimento. Em especial no que respeita ao Arquipélago Indonésio, este trabalho ultrapassou todas as expectativas dos estudiosos que, como Rouffaer, apenas conheciam a tradução italiana de Ramusio, incompleta e nem sempre correcta (Rouffaer 1899: 145-147), a que faltou precisamente a parte respei¬ tante ao Arquipélago Indonésio. Assim, por exemplo, a suposição de Rouffaer de que o manuscrito original, que ele no seu tempo ainda tinha de julgar «irremediavelmente perdido», fôra escrito c. 1545, baseava-se numa passagem da tradução que, como agora se vê, não corresponde ao texto português (Cortesão 1944: 35). O livro dos Srs. Meilink-Roclofsz Asian Trade and European Influence iit the Indonesian Arcliipelago between 1500 and aboul 1630 (The Hague 1962) é um exemplo evidente da riqueza de novas informações que a Suma OrientaI pode fornecer. Outro exemplo é o livro de H. J. de Graaf e Th. G. Th. Pigeaud De eerste Mosiimse vorstendommen op Java (Os Primeiros Estados Islâmicos de Java), que apareceu em 1974. Tanto nas observações gerais do autor como no seu tratamento da história dos principados individuais, no século xvi, o livro de Tomé Pires ocupa justamente o primeiro lugar entre as fontes para a história de Java desse período. Na sua Introdução eles mencionam esta obra e a indiscutível informação contemporânea que ela contém como a primeira de sete «fontes primárias» que foram importantes para as suas (*) Artigo de J. Noorduyn, in Bijdragen tot de Taal-, Land- cii Volkenkunde. Deel 132, 4e Aflevering. ‘S-Gravenhage 1976. As referências do Autor têm em vista a 1.» edição deste livro.
484 Tomé Pires e Francisco Rodrigues investigações (p. 14). Nos capítulos seguintes é, além disso, muitas vezes a informação de Pires que proporciona as bases históricas para a sua exposição, contra a qual subsequentemente a tradição lendária javanesa é conferida, por vezes com êxito notável. Contudo há dois aspectos cm que os autores consideram a informação de Pires de valor limitado. Em primeiro lugar mostra pouco ou nenhum interesse pelos aspectos espirituais da cultura, em especial a religião islâmica. Para estes assuntos eles rcferem-sc por isso às lendas javanesas de santos, sua sexta «fonte primária» (p. 17), embora considerem estas mesmíssimas lendas piedosas de pouco valor para a historiografia (p. 28), por outro lado, c colhem precisamente de Pires (p. 27) importantes informações sobre a origem dos principados muçulmanos nos portos da costa norte de Java. Em segundo lugar, eles crêcm que algumas das versões que Pires dá de nomes geográficos e de pessoas são difíceis de explicar em vista da sua ignorância dos idiomas indonésios (p. 14). Sobre este ponto, suponho eu, eles de certo subestimam Pires, e seria de lamentar que uma mancha fosse lançada sobre a reputação deste por causa deste ponto técnico mas de modo algum sem importância. Porque, tomando em consideração a sua não familiaridade com idiomas como o javanês e o sundanês, o que o impossi¬ bilitou de utilizar textos escritos nestas línguas — se é que jamais ele viu tais textos—, é sem dúvida notável que este Português tivesse registado tão correctamente muitos dos nomes e títulos que despertaram a sua aten¬ ção, presumivelmente por apenas os ter ouvido falados, e obviamente na sua própria ortografia portuguesa. Deixem-me dar alguns exemplos para ilustrar o que afirmo. Segundo Pires, o então governante muçulmano de Surabaia havia recebido do chanceler de Majapahit um título honorífico que aquele escreveu «Jurupá Galacam Jmteram» (pp. 196/434). Isto foi por De Graaf Pizeand interpretado hipote¬ ticamente como «Surapati Ngalaga ing Têrung» (p. 158), referindo-se ao «aventureiro» Surapati, do século xvn, e mesmo ao titulo Sénapati Ngalaga do primeiro governante muçulmano de Mataram (p. 290). Se tivermos em conta a grafia de Pires, apenas sotopondo a ccdilha no «c», torna-se óbvio que temos na primeira parte deste título honorífico o bem conhecido titulo javanês «juru pangalasan». que Pigeaud na sua edição do Nawanatya (1960-1963 III: 121, 125) traduz como «chefe dos guardas», o que não está muito longe da tradução do próprio Pires como «avamteJado capitão». Assim, cm vez da corrupção de que os autores acusam Pires, temos aqui um interessante elemento documental sobre o uso deste antigo título javanês, mesmo tão tarde como o século xvi. Por outro lado mais feliz foi a sua ideia de interpretar a segunda parte deste título honorifico como «ing Têrung», i.e. «em ou de (o lugar) Têrung», e assim estabelecer uma ligação com o peca! Kfiida de Têrung mencionado para este período na tradição javanesa
Apêndice VI 485 como tendo parte preeminente na luta dos muçulmanos contra Majapahit, embora seja impossível relacionar este último nome, Arva Sena. ao hono¬ rífico mencionado por Pires, como os autores tentam fazer (via Sénapati). Por isso, ainda continua duvidoso se estas personagens mencionadas por Pires e a tradição javanesa são, de facto, mutuamente identificáveis. Outro exemplo frisante é dado pelo nome do pequeno reino de «Canj- tam», o qual, segundo as indicações de Pires deve ter estado localizado algures na vizinhança do actual Pasuruhan, na Java Oriental, embora o nome não seja identificável com qualquer topónimo nesta área, ainda hoje conhecido. Os autores conjecturam que Gênding, um lugar já mencionado no Nãga- rakrtágama, é o que deve significar (p. 186), evidentemente sem se darem conta que eles próprios reuniram o material necessário para uma identi¬ ficação correcta no passo (p. 183) onde mencionam um adipati de Kani- tèn, que era vassalo do governante de Pasuruhan! Por conseguinte aqui novamente não se trata de corrupção, mas antes de uma reprodução exacta na escrita portuguesa (para a sílaba final cf. o nome português Bantam para Bantèn) dum topónimo que existia no tempo de Pires mas rnais tarde deixou de estar em uso. Alguns dos topónimos mencionados por Pires não são sempre escritos consistentemente no seu livro, que, aliás, nos chegou apenas numa única cópia manuscrita. Nestes casos tem-se obviamente que escolher a variante com mais possibilidade, o que por vezes não oferece dificuldades. Assim ele chama à capital do que ainda era um estado «pagão» no interior de Java, os últimos restos do antigo reino de Majapahit, primeiramente Dayo (pp. 175/ 417), depois Daya (pp. 190/430), e finalmente Daha (pp. 191/430), embora não Dayo mas Daha, o bem conhecido outro nome para Kêdiri, seja a única forma correcta, que não teria ocorrido no livro de Pires justamente desta vez se ele não o tivesse ouvido assim pronunciado. Só por isto as especula¬ ções sobre uma relação etimológica com a palavra sundanesa dayeuh, «cidade» que explica o nome Dayo que Pires indica para a capital do reino de Sunda não têm razão de ser (pp. 55, 253). Semelhantemente o nome «Chamdy» (pp. 166/412), «Chamda» ou «Chande» (pp. 198/436) mencionado por Pires cm referência ao pequeno principado de Java oriental, não ê identificável com Sadcng. como De Graaf/ Pigeaud sugerem (p. 188), mas devia ser reescrito, de acordo com a pronún¬ cia portuguesa, «Tjandi», i.e., a palavra javanesa para «templo», que também aparece frequentemente como um nome de aldeia em Java, embora não (ou não mais), que nos conste, na parte mais oriental de Java. Pires dá uma informação interessante sobre a Java Ocidental ao men¬ cionar (pp. 167/413) que o vice-rei do reino de Sunda tinha o título de «Cocunam», que, quando reescrito, produz o bent-conhecido titulo Susu- nan, i.e., Susuhunan. Por conseguinte isto prova que este titulo era usado
486 Tomé Pires e Francisco Rodrigues na Java Ocidental muito antes, ao que sabemos, do que na parte da ilha de fala javanesa, e que de principio não era usada aqui como um título reli¬ gioso como parece ter sido nesta área. Esta informação de Pires é confir¬ mada pela velha literatura sundanesa, pois ela contém mais uma vez a expres¬ são susuhunan kadatiian para «senhor (ou senhora) do kraton». Pires certamcntc sc deu conta de que a língua da região de Sunda era diferente da da restante parte de Java. Por exemplo, ele diz que «os srs. capi¬ tães de cidades e lugares e portos, assim como em Java os srs. se chamam patês (i.e., pati), chamam-sc cm linguagem de Sunda paybou ou paibou de tal lugar, porque a linguagem de Sunda não é a de Java» (pp. 167-168/413). Também esta informação é importante, sc se puder aceitar que tal título é uma forma sundanesa do sânscrito prabhu, «senhor, governante», que no antigo javanês só era usado para o governante supremo do reino javanês, ao passo que, segundo a informação de Pires, era o título dos governantes locais a nível de distrito. Isto é inesperadamente confirmado pelas inscrições da pedra Velha Sundanesa Kawali que. embora não estejam datadas, provavel¬ mente são do século xv. Nelas o título parébu é utilizado para um rei cha¬ mado Wastu, que reinou na kuta, isto é a cidade, de Kawali, pequeno dis¬ trito na parte leste de Java Ocidental. A informação de Pires implica que Wastu não era mais que um governante local. Daqui o seu aparentemente elevado título de prabhu não deveria ser tomado, de modo algum, como indicando que ele era o governante supremo do reino sundanês. Confir¬ mação semelhante encontra-se na muito posterior inscrição de Cipamingkis, escrita em javanês numa placa de cobre e provavelmente datando do século xvii, em que um certo Wargajaya é nomeado chefe, ou paboné (i.e., pabo ou pabon com o artigo javanês -né ou -é). dum pequeno lugar de Dayeuh Luhur (Cipa¬ mingkis) (cf. Pleyte 1916). Se estas três palavras parébu, paibu e pabo estão mutuamente relacionadas, elas parecem mostrar uma perda progresiva do r original, que é um interessante desenvolvimento linguístico não invulgar em sundanês. O que fica dito demonstrará, que entre a muito útil informação sobre Java fornecida por Tomé Pires, os seus pormenores sobre topónimos e títulos também certamente não devem ser menosprezados». REFERÊNCIAS A. Cortesão 1944 The Suma OrientaI of Tomé Pires, an account of the East from the Red Sea to Japan, xvritten in Malacca and índia in 1512-1515, translated..., and edited by Armando Cortesão. 2 Vols. London.
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ÍNDICE Págs PROÉMIO. VII PREFÁCIO. IX INTRODUÇÃO . 3 O Códice de Paris 3 Nota biográfica sobre Tomé Pires. 9 A «Suma Oriental» de Tomé Pires 65 O Piloto e Cartógrafo Francisco Rodrigues. 81 O Livro de Francisco Rodrigues. 92 O LIVRO DE FRANCISCO RODRIGUES. 103 [Tábua de Matérias] 103 [À emtrada do Mar Vermelho]. 104 [ Viagem com João Comes, para Dalaca] 106 [Determinando a Latitude]. 109 [yeíi/í]. 110 [Tábuas da Declinação do Sol] 113 Camynho da Chyna 122 [Regra da Declinação do Sol]. 124 Capitollo pera dar Aemtemderjcomo aves de navegar por as Sombãs. 126 A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES. 129 LLIURO PRIMEIRO [do Egipto a Cambaia]. 135 [Descrição das Três Arábias]. 135 [Egipto]. 138 [Pérsia] 150
502 Tomé Pires e Francisco Rodrigues Pájs. [Cambaia]. 163 [Canarim] 166 [Narsinga] 169 [Maiabar] 172 [Retoma a Descrição de Cambaia]. 192 [LIVRO SEGUNDO] [de Cambaia a Goa). 205 [Decão]. 205 [Goa] 212 [LIVRO TERCEIRO] [de Bengala à Índo-China]. 219 [Bengala] 219 [Aracâo] 227 [Pegú]. 229 [S/do]. 237 [Birmânia] 245 [Camboja] 247 [Champa] 247 [Cochim-Chiná]. 249 [LIVRO QUARTO] [da China a Bornéu e às Filipinas]. 252 [China] 252 [Java] 287 [Ilhas a Sudeste]. 324 [Banda, Ceram. Amboina] 330 [Molucas] 338 [Ilhas Centrais] 349 [Ceilão] 355 [Liu Kiu] 370 [Japão] 373 [Bornéu]. 374 [Filipinas] 376 [LIVRO QUINTO]. 378 [Somofro]. 378 > . •• .t
índice 503 Págs. [LIVRO SEXTO). 381 [MalacaJ. 381 [Ocupação PortuguesaJ. 432 APÊNDICES. 445 APÊNDICE I (Carta dc Torne Pires para El-Rci D. Manuel) 446 APÊNDICE II. Breve descrição das cartas c desenhos pano¬ râmicos no livro de Francisco Rodrigues. 461 APÊNDICE III. Lista de cartas antigas referidas. 469 APÊNDICE IV. macau em 1515: observações sobre a edição da Suma Oriental de Tomé Pires do Dr. Armando Cortesão, por J. M. Braga. 473 APÊNDICE V. ALGUMAS OBSERVAÇÕES DO DR. H. G. GRAAF 481 APÊNDICE VI. SOBRE A CONFIANÇA DE QUE É MERECEDORA A INFORMAÇÃO DE TOMÉ PIRES SORRE JAVA. 483 BIBLIOGRAFIA. 489
ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTE LIVRO AOS (> DIAS DO MÊS DE DEZEMBRO DO ANO DE 1978 na «Imprensa de Coimbra, Limitada»