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  • Tomé PiresSUMA ORIENTAL Edição de Rui Manuel LoureiroSumaOriental-PDF_imac.indd 3 12/5/17 2:02 PM
  • Título: Suma Oriental Publicado por:Centro Científico e Cultural de Macau, I.P.Rua da Junqueira, n.º 301300 ‑343 Lisboa – PortugalTel.: (+351) 21 361 75 70www.cccm.ptgeral@cccm.ptFundação Jorge ÁlvaresRua Castilho, n.º 39 (Edifício Castil), 11.º Andar ‑ Letra I 1250‑068 Lisboa – PortugalTel.: (+351) 21 315 32 82 www.jorgealvares.comfundacao@jorgealvares.comFundação MacauAvenida de Almeida Ribeiro, 61‑75Circle Square, 7º‑9º andaresMacauTel.: (+853) 289 667 77www.fmac.org.moinfo@fm.org.moAutor:Tomé PiresEdição:Rui Manuel LoureiroCapa:C. VieiraRepresentação de Malaca, incluída no manuscrito das «Lendas da Índia» de Gaspar Correia, © ANTTPaginação e Impressão:Multitipo — Artes Gráficas, L.daNúmero de exemplares: 800Lisboa | 2017ISBN: 978‑972‑8586‑52‑2Depósito Legal: 436 042/18SumaOriental-PDF_imac.indd 4 1/12/18 5:57 PM
  • 5ÍNDICE• Prólogo ...................................................................................................... 9• Introdução ................................................................................................. 15 • Tomé Pires, boticário, tratadista e embaixador ........................................ 17 • A Suma Oriental de Tomé Pires .............................................................. 22 • História editorial da Suma Oriental ........................................................ 30 • Referências bibliográficas ........................................................................ 37• Critérios editoriais ..................................................................................... 41• A Suma Oriental de Tomé Pires — Manuscrito de Paris ........................... 47 • Dedicatória ............................................................................................. 49 • Livro Primeiro ........................................................................................ 55 • Livro Segundo ........................................................................................ 95 • Livro Terceiro ......................................................................................... 126 • Livro Quarto .......................................................................................... 150 • Livro Quinto .......................................................................................... 164 • Livro Sexto ............................................................................................. 239• Tabela comparativa .................................................................................... 289• Cartas de Tomé Pires ................................................................................. 293• Índice remissivo ......................................................................................... 309SumaOriental-PDF_imac.indd 5 1/12/18 5:57 PM
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  • À Mena, ao Pedro e à Eduarda.SumaOriental-PDF_imac.indd 7 12/5/17 2:02 PM
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  • PRóLoGoSumaOriental-PDF_imac.indd 9 12/5/17 2:02 PM
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  • 11PRóLoGoTerá sido em finais de 1978 que adquiri numa livraria do Porto a edição de A Suma Oriental de Tomé Pires e o Livro de Francisco Rodrigues preparada por Armando Cortesão, que havia sido publicada nesse mesmo ano em Coimbra, pela Imprensa da Universidade. Como desde logo constatei, tratava ‑se de uma versão portuguesa, com ligeiríssimas adições, da célebre edição preparada por aquele his‑toriador para a Hakluyt Society, e que fora impressa em Londres, em dois volumes, em 1944. Passadas quase quatro décadas, conservo ainda esse volume, que está repleto de anotações, pois com ele nasceu e desenvolveu ‑se o meu interesse pela figura e pela obra de Tomé Pires.Anos mais tarde, em 1995, aquando das minhas provas de doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, apresentei como dissertação com‑plementar um trabalho a que atribuí o título de «o manuscrito de Lisboa da Suma Oriental de Tomé Pires: Contribuição para uma edição crítica». o tema fora ‑me sugerido pelo saudoso Luís de Albuquerque, com quem tive a fortuna de cola‑borar nos primórdios da minha carreira de historiador amador. A Suma Oriental continuava a colocar problemas de interpretação importantes e, sobretudo, o seu estudo permanecia reservado a um limitadíssimo grupo de especialistas. Luís de Albuquerque, segundo me confidenciou meses antes do seu precoce desapare‑cimento, gostaria de ver uma edição da obra de Tomé Pires que, aplainando as imensas dificuldades de leitura dos dois manuscritos conhecidos, colocasse o texto ao alcance do público culto em geral. o primeiro passo para essa edição seria transcrever e analisar o manuscrito iné‑dito da Biblioteca Nacional de Lisboa, preparado na primeira metade do século xvi, confrontando ‑o de uma forma sistemática com a versão italiana de Giovanni Bat‑tista Ramusio, impressa em Veneza em 1550, e com o manuscrito parisino, tam‑bém da primeira metade de Quinhentos, publicado por Armando Cortesão. Assim nasceu o projecto da minha dissertação complementar, que tive o privilégio de discutir com Juan Gil durante as provas de doutoramento. As críticas e comentários SumaOriental-PDF_imac.indd 11 12/5/17 2:02 PM
  • 12extremamente pertinentes por ele feitas ao trabalho original permitiram ‑me intro‑duzir correcções importantes na versão impressa desse trabalho académico, que foi publicado em Macau logo em 1996, graças à mediação de Jorge Santos Alves, nas colecções do Instituto Português do oriente.Ficava ainda por fazer uma nova edição do manuscrito de Paris da Suma Oriental de Tomé Pires, que viesse complementar o pioneiro trabalho de Armando Cortesão, revendo a leitura diplomática por ele realizada, e actualizando e com‑plementando as suas prolixas anotações da edição de 1944, à luz de toda a imensa investigação subsequentemente desenvolvida no campo da história dos primeiros contactos dos portugueses com o oriente. Ponderei em diversas ocasiões avançar com essa edição, mas nunca surgiu uma oportunidade concreta. Limitei ‑me a revisitar regularmente a vida e a obra de Tomé Pires, sobre elas publicando diversos textos, que adiante vão referenciados. o desafio para me abalançar a esta tarefa partiu de Luís Filipe Barreto, amigo e colega de longa data, que em 2015 me sugeriu a preparação de uma nova edição da Suma Oriental, que seria oportunamente publicada pelo Centro Científico e Cultural de Macau. Confesso que nem hesitei, e que de imediato aceitei o desafio, e a responsabilidade, comprometendo ‑me a avançar rapidamente com o trabalho editorial. Abriam ‑se de repente perspectivas concretas para poder avançar com um sonho já antigo. Tanto mais que ao projecto editorial se associou logo depois a Fundação Jorge Álvares. Mas o grande problema de se ser historiador amador é que o trabalho de investigação apenas pode ser desenvolvido nos momentos de lazer, quando estão já cumpridas todas as tarefas e obrigações profissionais. Que me relevem a compara‑ção, mas, tal como Tomé Pires escrevia, apenas no tempo de «benese» foi possível dedicar ‑me à Suma Oriental. Por isso mesmo, o calendário inicialmente previsto sofreu algum atraso, pelo qual me penitencio. De qualquer forma, aí está a nova edição da Suma Oriental. Trata ‑se de um trabalho individual, de minha única e exclusiva responsabilidade, elaborado com base na ideia de tornar o tratado de Tomé Pires mais legível e mais acessível. os correspondentes critérios de transcrição e de anotação vão adiante devidamente explanados.Apesar de se tratar de um trabalho de natureza individual, pude contar com a colaboração de um grupo alargado de pessoas e de instituições. Em primeiro lugar, gostaria de destacar os amigos e colegas de ofício, que generosamente, e sem excepção, responderam de forma pronta a todos os pedidos de esclarecimento ou de bibliografia que lhes dirigi em áreas muito específicas. Por isso, aqui ficam os meus agradecimentos mais sinceros a todos, e espero não me esquecer de nenhum: Dejanirah Couto, José Alberto Tavim, Luís Costa e Sousa, Maria Augusta Lima Cruz, Maria João Ferreira, Mostafa Zekri, Nuno Vila ‑Santa, Paulo Pinto, Pedro Pinto, Roger Lee de Jesus, Vasco Resende e Zoltán Bidermann. SumaOriental-PDF_imac.indd 12 12/5/17 2:02 PM
  • 13Em segundo lugar, aqui fica também registado um especial agradecimento ao Service de la Bibliothèque et des archives de l’Assemblée nationale, em Paris, que generosamente me cedeu fotocópias do único manuscrito completo da Suma Orien‑tal que se conhece, e que se conserva nas colecções daquela veneranda instituição. Em terceiro lugar, enfim, são devidos agradecimentos muito especiais ao Luís Filipe Barreto e ao Centro Científico e Cultural de Macau, pelo desafio lançado, pela confiança manifestada e pelo apoio constante, e também à Fundação Jorge Álvares, pelo importante e generoso apoio concedido. Sem estas duas instituições, que persistentemente laboram em prol da comum história luso ‑chinesa, esta nova edição da Suma Oriental não teria sido possível. Enfim, um agradecimento à Fun‑dação Macau, benemérita instituição que igualmente se associa ao projecto.Estas palavras iniciais são datadas exactamente quando passam 500 anos sobre a chegada de Tomé Pires, em Agosto de 1517, às ilhas do litoral meridional da China.Lagos, Agosto de 2017rui manuel loureiroSumaOriental-PDF_imac.indd 13 12/5/17 2:02 PM
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  • INTRoDUÇÃoSumaOriental-PDF_imac.indd 15 12/5/17 2:02 PM
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  • 17INTRODUÇÃO1. Tomé Pires, boticário, tratadista e embaixadorTomé Pires celebrizou ‑se como primeiro embaixador português enviado à China e também como autor da Suma Oriental, o primeiro grande tratado de geografia asiática preparado por um europeu depois do descobrimento do caminho marítimo para a Índia.1 Segundo informam as fontes quinhentistas, ele era filho do boticário de el ‑rei Dom João II (r.1481 ‑1495). E, embora fosse de condição modesta, teria sido educado no ambiente da corte lusitana, já que um dos seus amigos de infância foi Lopo Soares de Albergaria, importante fidalgo português que mais tarde governaria o Estado da Índia.2 O próprio Pires, entretanto, numa confirmação implícita desta hipótese, faz referência no seu tratado geográfico às «delicadezas em que me eu criey viciosamente», e que não o haviam preparado para os rigores da vida ultramarina.3 Terá decidido enveredar pela carreira paterna, pois um cronista quinhentista afirma que ele desempenhou funções de boticário de membros da família real,4 servindo nomeadamente o futuro Dom João III (r.1521 ‑1557), logo depois do seu nascimento em 1502.5 É provável que Tomé Pires tivesse começado a exercer o seu mester pouco antes de 1490, pois afirmaria mais tarde ter sido boticário uns bons vinte anos antes de embarcar para a Índia em 1511.6 De qualquer forma, a data do seu nascimento — talvez em Lisboa, onde residiam alguns dos seus familiares, 1 Para uma abordagem genérica da vida e obra de Tomé Pires, ver Rui Manuel Loureiro, «Tomé Pires», pp. 23 ‑36, bem como a bibliografia aí citada. As referências bibliográficas completas poderão ser encontradas na bibliografia que se segue à presente «Introdução».2 Gaspar Correia, Lendas da Índia, vol. 2, p. 473.3 Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. 7, p. 59.4 Fernão Lopes de Castanheda, História do Descobrimento, vol. 1, p. 876.5 Ver Jaime Walter, «Simão Álvares», pp. 127 ‑128.6 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 231 (cita ‑se a partir da presente edição).SumaOriental-PDF_imac.indd 17 12/5/17 2:02 PM
  • 18talvez em Leiria, se aceitarmos o testemunho mais tardio, e mais controverso, do viajante e aventureiro Fernão Mendes Pinto7 — seria sempre anterior a 1470, uma vez que dificilmente estaria habilitado para o exercício de um cargo tão delicado antes dos vinte e poucos anos. A primeira fase da vida de Tomé Pires, anterior à partida para o oriente, perma‑nece na maior obscuridade, pois sobre ela nada mais se consegue apurar. Terá via‑jado para fora de Portugal? Terá feito estudos académicos formais? Relativamente à primeira questão, indícios documentais dispersos sugerem que o boticário por‑tuguês poderia ter visitado alguns portos italianos, a cidade de Azamor, no litoral marroquino, e talvez mesmo a ilha de Rodes, na parte oriental do Mediterrâneo. Contudo nenhum desses indícios é suficientemente concludente.8 Quanto a uma eventual formação escolar, tão pouco existem dados fidedignos. A opinião dos cro‑nistas portugueses do século XVI é ambígua. Gaspar Correia, que o terá conhecido na Índia, escreve que Pires era «homem muyto prudente, e muyto corioso de saber todalas cousas da India».9 Fernão Lopes de Castanheda repete que ele era «homem discreto & curioso».10 E João de Barros, o grande cronista português do século xvi, apesar de não esquecer que o boticário «não era homem de tanta qualidade», rea‑firma a sua curiosidade de «enquirir, e saber as cousas» e o seu «espírito vivo pera tudo», sublinhando ainda uma «natural discrição com letras».11À falta de provas concretas, podemos talvez concluir que Tomé Pires, muito embora não tivesse frequentado estudos superiores, teve ocasião de efectuar «estem‑didas leituras», como ele próprio afirma, sobretudo em tempos de «benese», ou seja, em momentos de lazer.12 o seu valioso tratado de geografia oriental, com efeito, apresenta uns poucos exemplos de intertextualidade, nomeadamente com referências a Aristóteles, o «mestre da filosofya», a «sumas» dedicadas às «cousas do maar Miditeranio», e a antigos «tratados» de geografia, como a «cosmog[raf ]iia [de] frad’Ansellmo» ou a obra de Ptolomeu.13 Aparecem também na Suma Oriental diversas outras sugestões de leituras de relatos de viagens, mas que são bastante vagas e podem não corresponder necessariamente a leituras concretas.14 Mas é provável que, no ambiente cortesão em que foi criado e em que trabalhou 7 Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, cap. 91, pp. 255 ‑257. Para discussão das informações fornecidas por Mendes Pinto, que nas suas alegadas viagens pelo interior da China se cruzou com Inês de Leiria, que seria filha de Tomé Pires e de uma chinesa, ver Rui Manuel Loureiro, Nas Partes da China, pp. 151 ‑180.8 As notas ao texto da Suma Oriental procuram precisar estas eventuais referências biográficas.9 Gaspar Correia, Lendas da Índia, vol. 2, p. 473.10 Fernão Lopes de Castanheda, História do Descobrimento, vol. 1, p. 876.11 João de Barros, Década III, vol. 5, p. 217.12 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 54.13 Tomé Pires, Suma Oriental, pp. 49, 51‑52 e 54.14 As notas ao texto da Suma Oriental procuram identificar e precisar estas referências livrescas.SumaOriental-PDF_imac.indd 18 12/5/17 2:02 PM
  • 19durante a primeira fase da sua vida, Pires tivesse tido oportunidade de consultar obras disponíveis no círculo régio. As outras referências livrescas contidas na Suma Oriental, entretanto, dizem respeito a algumas secções do Antigo Testamento, relacionadas nomeadamente com as façanhas dos soberanos persas.15 Adiante se voltará a esta questão.Paralelamente a eventuais estudos humanísticos, é indubitável que Tomé Pires adquiriu profunda competência no ofício de boticário, tendo estes méritos profis‑sionais justificado uma nomeação régia para «feitor das drogarias» na Índia, com um vencimento anual de «trinta mill reaes», acrescidos de «vimte quimtaes de drogarias».16 Contudo, a sua aprendizagem profissional deve ter tido um carácter eminentemente prático, já que nunca refere autoridades livrescas quando, nos seus escritos, trata de drogas e de especiarias, assumindo antes, e de forma sistemática, uma postura empírica. o cargo atribuído ao boticário régio era importante, pois o seu detentor devia supervisionar todo o processo de escolha, aquisição e acon‑dicionamento das drogas asiáticas enviadas para Portugal nos navios da carreira da Índia, de modo a evitar o embarque de mercadorias de fraca qualidade. Pouco antes da chegada de Tomé Pires ao litoral do Hindustão, os navios portugueses tinham carregado «h~ua soma derva lonbrigueyra» de valor duvidoso, assim como «h~ua soma de rruybarbo podre» comprado em Malaca.17 A nomeação de um fei‑tor para as drogarias visava precisamente evitar situações deste tipo, procurando rentabilizar ainda mais a intervenção portuguesa nos tráficos orientais. Entretanto, o feitor, uma vez estacionado na Ásia, poderia também responder a encomendas feitas directamente a partir de Portugal.18A partida de Tomé Pires rumo ao oriente teve lugar em 1511, pois sabe ‑se que viajou na armada de Dom Garcia de Noronha, que nesse mesmo ano largou de Lisboa com seis naus.19 A sua primeira escala em terras asiáticas parece ter sido Cananor,20 onde logo deu início ao desempenho das funções para que fora nomeado. Mas, logo depois, Afonso de Albuquerque, governador do então emer‑gente Estado da Índia, achando ‑o «homem solicito», resolveu despachá ‑lo para Malaca, a fim de tirar «imquiriçam» de numerosas irregularidades que estavam a ser cometidas naquela praça luso ‑malaia pelos funcionários da coroa lusitana. Em Julho de 1512 o boticário português desembarcava na estratégica cidade da Península Malaia, que havia sido conquistada por forças portuguesas apenas um 15 Cf. Tomé Pires, Suma Oriental, p. 74.16 Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. 7, p. 4.17 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 302.18 Para uma contextualização dos primeiros anos da presença portuguesa no oriente, ver Malyn Newitt, A History of Portuguese Expansion, pp. 62 ‑136.19 Jaime Walter, «Simão Álvares», p. 138.20 Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. 7, p. 58.SumaOriental-PDF_imac.indd 19 12/5/17 2:02 PM
  • 20ano antes.21 E nos anos seguintes ali desempenharia diversas funções relacionadas com o tráfico de drogas e de especiarias, adquirindo uma enorme prática da terra e juntando considerável fortuna. Em carta escrita em finais de 1512 a um dos seus irmãos, menos de seis meses depois de chegar a Malaca, Pires dizia ‑se «rriquo mais do que cuydaees», lamentando embora a aspereza do clima e a dureza das condições de vida.22 Tanto quanto se consegue apurar, a estada em Malaca apenas terá sido inter‑rompida por uma expedição marítima realizada entre Março e Junho de 1513, na qual serviu de feitor de uma armada portuguesa que contactou numerosos portos javaneses.23 Diversas passagens da Suma Oriental testemunham visitas efectua‑das a Sunda Calapa, Demak, Japara, Sidayu, Tuban, Agracim (Gresik) e outros potentados da costa setentrional da ilha de Java. É provável que, nesta ou noutra viagem, também tivesse visitado algumas regiões litorâneas da ilha de Samatra e, nomeadamente, Pacém (Pasai), Aru, Rupat, Campar (Kampar), Tongkall, Jambi e Barus.24 Numa determinada passagem do seu tratado geográfico, Pires, referindo‑‑se à ilha de Samatra, afirma mesmo explicitamente «Eu fuy ja por detras desta ylha obra de xb leguoas».25 Entretanto, uma outra secção da Suma Oriental parece dar a entender um conhecimento vivencial do Pegu, a «terra mais farta que todas as que temos vistas he sabidas».26 As relações regulares dos portugueses com o porto de Martabão, no Pegu, iniciaram ‑se logo em 1511 ‑1512. Assim, não é de todo impossível que Pires tivesse participado numa das expedições que regularmente se dirigiam àquela região asiática.27Em Janeiro de 1515, após uma residência de dois anos e meio em Malaca, Tomé Pires empreendeu o regresso à Índia. É provável que o boticário português, na posse de uma considerável fortuna, projectasse voltar para Portugal no mais curto lapso de tempo. No fim de contas, em cartas dirigidas à família, ele falara com saudade do «gram prazer» que era «estar cada hu~u onde naçeo e falam todos portugues», ques‑tionando mesmo se as riquezas acumuladas compensariam tantos trabalhos e perigos passados.28 Nada mais se consegue apurar sobre as movimentações de Pires até finais de 1515. Mas os seus eventuais planos de regresso à Europa seriam rapidamente postos de parte, pois em Setembro deste ano chegava ao litoral indiano o novo gover‑21 Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. 1, p. 145. Sobre os primeiros anos da presença portugue‑sa em Malaca, ver Luís Filipe Thomaz, Early Portuguese Malacca, passim.22 Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. 7, pp. 58 ‑59.23 Cf. Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. 3, p. 93. As notas ao texto da Suma Oriental identi‑ficam as alusões às possíveis viagens de Tomé Pires.24 Cf. Tomé Pires, Suma Oriental, pp. 169‑188.25 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 185.26 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 133.27 Ver Rui Manuel Loureiro, «'Homde ha muytos robys ricos'», pp. 207 ‑227.28 Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. 7, p. 59.SumaOriental-PDF_imac.indd 20 12/5/17 2:02 PM
  • 21nador do Estado da Índia, Lopo Soares de Albergaria, que nas suas instruções trazia o encargo de despachar uma armada sob o comando de Fernão Peres de Andrade para, entre outros assuntos urgentes, «assentar trato & amizade na China».29 Esta expedição deveria transportar um embaixador, que seria desembarcado em Cantão, para a partir daí tentar entrar em contacto com os centros de poder chineses, estabelecendo as bases de um relacionamento pacífico, e mutuamente proveitoso, com os portugueses.30 o cargo de embaixador veio a ser atribuído ao próprio Tomé Pires, graças a um curioso conjunto de circunstâncias. Em pri‑meiro lugar, era pessoa de muito crédito, que, para além da dignidade que lhe era conferida pela idade, juntara uma considerável fortuna durante escassos anos de residência no oriente. Ao mesmo tempo, era homem de baixa condição, facilmente sacrificável aos interesses de estado, caso o relacionamento com os chineses não se desenvolvesse de forma pacífica. Depois, em virtude das suas inegáveis habili‑tações profissionais, o boticário seria o homem mais apropriado para reconhecer as «muytas drogas» que se dizia existirem na longínqua China.31 Em quarto lugar, o interesse dos portugueses pela Ásia oriental era basicamente mercantil, de modo que um experiente feitor das drogarias poderia avaliar devidamente todas as poten‑cialidades de um futuro relacionamento com o mundo chinês. Por último, Tomé Pires, como foi antes referido, era amigo pessoal de Lopo Soares de Albergaria, o novo governador, com quem tivera oportunidade de conviver durante os anos de juventude, além de se ter antes cruzado em Malaca com Fernão Peres de Andrade, circunstâncias que teriam contribuído sobremaneira para a sua nomeação.Em finais de Abril de 1516, após alguns meses de preparativos, Fernão Peres de Andrade largava do litoral da Índia com rumo a Malaca, levando a bordo o boticário e feitor, temporariamente promovido à dignidade de embaixador de el ‑rei de Portugal ao Celeste Império.32 Tomé Pires, como é bem sabido, não regressaria desta viagem, pois, na sequência do fracasso desta primeira missão diplomática portuguesa a Pequim, seria impedido pelas autoridades chineses de abandonar o território imperial e viria a falecer em data incerta, talvez por volta de 1527, algu‑res na província de Guangdong.33 Contudo, antes de partir para esta jornada sem 29 Fernão Lopes de Castanheda, História do Descobrimento, vol. 1, p. 856.30 Sobre a primeira fase do relacionamento dos portugueses com a China no século xvi, ver Rui Manuel Loureiro, Fidalgos, Missionários e Mandarins, pp. 115 ‑359.31 Fernão Lopes de Castanheda, História do Descobrimento, vol. 1, p. 876.32 Sobre a expedição de Fernão Peres de Andrade a Cantão, ver Rui Manuel Loureiro, Fidalgos, Missionários e Mandarins, pp. 191 ‑246.33 A respeito da missão diplomática de Tomé Pires, que não é abordada na presente «Introdução», ver um tratamento desenvolvido em Paul Pelliot, «Le Hoja et le Sayyd Husain», pp. 81 ‑292, e tam‑bém Rui Manuel Loureiro, Fidalgos, Missionários e Mandarins, pp. 264 ‑312. Ver ainda Rui Manuel Loureiro, Nas Partes da China, pp. 75 ‑94; e mais recentemente Jin Guoping & Wu Zhiliang, Revisitar os primórdios de Macau, pp. 97 ‑133, com novos contributos documentais.SumaOriental-PDF_imac.indd 21 12/5/17 2:02 PM
  • 22regresso, Tomé Pires, adivinhando talvez o destino incerto que lhe estava reservado, deixava para trás o precioso manuscrito da sua Suma Oriental, extenso e valioso compêndio de matérias asiáticas, laboriosamente composto ao longo dos três anos anteriores, sobretudo durante a estada em Malaca.342. A Suma Oriental de Tomé PiresA Suma Oriental é, sem qualquer dúvida, um dos mais importantes e impres‑sionantes tratados geográficos portugueses do século xvi, pela vastidão da área abrangida, pela profundidade e variedade das notícias que contém, pela sua desme‑surada extensão, enfim, pela precocidade da sua elaboração. Tomé Pires, no curto espaço de pouco mais de três anos, no meio de muitos outros, e intensos, afazeres, conseguiu reunir uma enorme massa de informações sobre a totalidade da Ásia marítima, desde o Mar Vermelho até à China, ao Japão e às mais remotas ilhas da Insulíndia. Muitas das diferentes secções da sua obra mantiveram uma completa actualidade durante décadas, ou mesmo séculos, não só porque o boticário lusitano fez uso de uma singular isenção e de um particular rigor na respectiva composição, mas também porque muitas das matérias tratadas na Suma Oriental constituíam absoluta novidade em termos de conhecimentos geográficos europeus.35 Entretanto, um dos traços mais salientes da obra de Pires é o facto de, apa‑rentemente, ter sido construída sem apoio de quaisquer antecedentes literários europeus. Muitas regiões orientais haviam sido visitadas com alguma demora por viajantes europeus mais empreendedores nos séculos imediatamente anteriores à abertura, pelos portugueses, da rota do Cabo. E vários desses andarilhos tinham mesmo produzido curiosas relações de viagem, algumas das quais conheceram uma divulgação relativamente ampla, chegando inclusivamente a Portugal. o exemplo óbvio seria o conhecidíssimo, mas já então antiquado, Livro das Maravilhas de Marco Polo, redigido por volta de 1292 e logo depois circulado em sucessivas cópias manuscritas, que foi pela primeira vez impresso em versão portuguesa em Lisboa em 1502, na colectânea intitulada Marco Paulo, da responsabilidade de Valentim Fernandes. Mas também se poderiam referir os mais recentes relatos de Nicolo de’ Conti e de Ludovico di Varthema, dois outros viajantes italianos que, 34 Para uma detalhada análise do conteúdo informativo da Suma Oriental, ver A. A. Banha de Andrade, Novos Mundos do Mundo, vol. 2, pp. 580 ‑627. o confronto sistemático entre a Suma Oriental e o Livro das coisas do Oriente de Duarte Barbosa, o outro grande tratado de geografia asiática preparado nos primeiros anos do século xvi, ainda não foi feito; vejam ‑se, entretanto, as sugestivas observações de Luís Filipe Barreto, Descobrimentos e Renascimento, pp. 143 ‑168.35 Para um panorama dos conhecimentos europeus sobre a Ásia nos séculos xv e xvi, ver Donald F. Lach, Asia in the Making of Europe, passim; e também Luís Filipe Barreto, Lavrar o Mar, pp. 15 ‑59.SumaOriental-PDF_imac.indd 22 12/5/17 2:02 PM
  • 23com quase um século de intervalo, poderão ter atingido, nas suas peregrinações asiáticas, as ilhas mais ocidentais da Indonésia. o relato do primeiro, descrevendo extensas viagens realizadas entre 1419 e 1444, fora originalmente recolhido pelo humanista italiano Poggio Bracciolini, numa obra conhecida como India recognita. Uma versão portuguesa figurava igualmente no já citado Marco Paulo de Valentim Fernandes. o Itinerario do segundo, que apresentava a narrativa autobiográfica de viagens efectuadas na primeira década do século xvi, fora publicado pela primeira vez em Roma em 1510.36À primeira vista, a Suma Oriental não apresenta vestígios explícitos da utilização destes relatos europeus sobre matérias asiáticas. Porém, uma análise mais cuidada parece sugerir efectivas leituras de Marco Polo e de Ludovico de Varthema, bem como referências indirectas a outras obras, como o relato da peregrinação à Terra Santa do alemão Bernhard von Breidenbach, cuja tradução espanhola foi publicada em Saragoça em 1498, ou como um relato de uma outra viagem à Terra Santa de um tal Anselmo de Cracóvia, franciscano de origem polaca, que foi publicada em Cracóvia em 1512.37 Mas trata ‑se sempre de notas breves, quase irrelevantes para o desenvolvimento das matérias de que trata a Suma Oriental. Tomé Pires escreve o seu compêndio praticamente sem antecedentes literários palpáveis, podendo, sem qualquer hesitação, ser considerado como um verdadeiro escritor de fronteira. Em primeiro lugar, porque trabalhava sobretudo a partir de Malaca, então o mais oriental dos entrepostos asiáticos ocupados pelos portugueses, base avançada do intenso movimento de exploração geográfica da Ásia que estava a ser protago‑nizado por Portugal. Em segundo lugar, porque, ao recolher abundantes notícias sobre muitas regiões asiáticas anteriormente mal conhecidas, ou mesmo totalmente desconhecidas, na Europa, alargava desmesuradamente os horizontes do saber geográfico ocidental. E em terceiro lugar porque adoptava, no seu processo de composição, métodos verdadeiramente inovadores, baseados sobretudo em critérios experienciais. Com efeito, o boticário português, logo na introdução ao seu tratado, fazia questão de se distanciar daqueles que escreviam «mais por novas que por pratiqua», sublinhando a seu próprio respeito que «nos qua tudo pasamos, espre‑memtamos e vemos». Todavia, quando fora de todo em todo impossível efectuar observações em primeira mão, Pires tivera a diligência de procurar o contributo de testemunhas fidedignas.38 É difícil concluir se a ideia de compor um tratado de geografia oriental partiu do próprio Tomé Pires ou se resultou de uma encomenda expressa formulada 36 Sobre a edição portuguesa de Marco Polo, ver Vasco Resende, «La diffusion européenne», pp. 537 ‑554; sobre Varthema, ver Pietro Barozi, Ludovico De Varthema, passim.37 A respeito dos itinerários à Terra Santa, Joseph R. Jones (ed.), Viajeros Españoles, pp. 9 ‑105.38 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 54.SumaOriental-PDF_imac.indd 23 12/5/17 2:02 PM
  • 24por Afonso de Albuquerque antes da partida do boticário da Índia para Malaca. o célebre governador estava então empenhado na consolidação da presença por‑tuguesa na Ásia, através da construção de uma vasta rede de feitorias e fortalezas, complementadas por uma política de aproximação a determinadas potências asiáticas.39 Este processo de contornos vagamente imperiais não podia dispensar uma ampla e rigorosa recolha de informações sobre as áreas que directa ou indirec‑tamente interessavam aos portugueses. ora é esse precisamente o objectivo da Suma Oriental: apresentar um alargado e circunstanciado panorama de todas as regiões da Ásia marítima que poderiam interessar à coroa portuguesa, em termos de uma intervenção lucrativa nos mercados asiáticos.o comércio e a mercadoria, aliás, são os fundamentos primeiros do tratado de Tomé Pires, que escreve explicitamente que o «trato de mercadoria hé tam necesario que sem elle nom se sosteria o mundo» e que «Este hé o que nobrece os regnos, que faz gramdes as jemtes, que nobelita as cidades, e o que faz a guerra e a paaz».40 A singela intenção do tratado do boticário, assim, apresenta ‑se como mera descri‑ção das terras que mantêm ligações mercantis com Malaca.41 Todas as restantes regiões, que «nom fazem a bem de mercadoria»,42 são sistematicamente margina‑lizadas no texto da Suma Oriental, por não serem tão «notorias».43 Este programa, enunciado desde as primeiras linhas da obra, é efectivamente cumprido, pois Tomé Pires, de forma sistemática, e começando no Mar Vermelho, vai descrevendo suces‑sivamente todo a Ásia marítima, destacando em cada região os principais portos, as mercadorias que ali são intercambiadas, os preços cobrados, as moedas, pesos e medidas utilizadas, os direitos alfandegários vigentes, os câmbios praticados, as rotas seguidas e os calendários de viagem respeitados. Paralelamente, contudo, a Suma Oriental é sobremaneira enriquecida com outros dados directa ou indirectamente relacionados com as realidades mercantis. Assim, a propósito de numerosas regiões abordadas, o boticário português fornece muitas informações complementares, nomeadamente sobre a natureza dos respec‑tivos sistemas políticos, as crenças da maioria da população, as práticas culturais, as potencialidades bélicas, as embarcações disponíveis localmente, a existência e estatuto de comunidades estrangeiras, bem como determinadas particularidades linguísticas. Estes dados, na maioria dos casos, tinham imediata utilidade para o projecto imperial português, já que se podiam revelar decisivos na escolha das formas de aproximação e de relacionamento a adoptar a respeito de determinadas regiões asiáticas menos conhecidas.39 Sobre Albuquerque, ver o recente estudo de Alexandra Pelúcia, Afonso de Albuquerque, passim.40 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 52.41 Cf. Tomé Pires, Suma Oriental, pp. 233‑234.42 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 221.43 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 51.SumaOriental-PDF_imac.indd 24 12/5/17 2:02 PM
  • 25o conteúdo integral da Suma Oriental de Tomé Pires, que na época da sua elaboração permaneceu inédita e conheceu uma circulação bastante reduzida, é hoje conhecido através de uma única cópia quinhentista do manuscrito original (que agora é objecto de uma nova edição), o qual teria sido enviado para Lisboa, endereçado a el ‑rei Dom Manuel I (r.1495 ‑1521), antes da partida do boticário e embaixador para a China em 1516.44 A organização da obra, tal como aparece neste manuscrito, que se conserva hoje em Paris, foi esquematizada pelo seu primeiro editor45 da seguinte forma:• Livro primeiro: do Egipto a Cambaia, incluindo secções sobre as Arábias, o Egipto, a Pérsia, Cambaia, o Canará, Narsinga e o Malabar.• Livro segundo: de Cambaia a Goa, incluindo secções sobre o Decão e Goa.• Livro terceiro: de Bengala à Indochina, incluindo secções sobre Bengala, Arracão, o Pegu, o Sião, o Bramá, o Camboja, o Champá e a Cochinchina.• Livro quarto: da China ao Bornéu e a Lução, incluindo secções sobre a China, Java, as ilhas da Sonda Menor, as ilhas de Maluco, o Ceilão, os Léquios, o Japão, o Bornéu, os Luções.• Livro quinto: uma única secção dedicada a Samatra.• Livro sexto: uma única secção dedicada a Malaca.Tomé Pires preparou o seu tratado geográfico no lapso de tempo compreen‑dido entre Setembro de 1511, data da primeira chegada ao litoral hindustânico, e Abril de 1516, data da partida definitiva para a China, na armada de Fernão Peres de Andrade.46 A conclusão da Suma Oriental pode colocar ‑se, sem grandes dúvidas, antes de finais de 1515, pois a dedicatória, dirigida a «elRey noso senhor» e composta em último lugar, pois menciona já as diferentes secções da obra, apresentando ‑as como trabalho acabado, menciona o «ingemte cavaleiro Afonsso d’Alboquerque» como se este ainda estivesse vivo.47 É natural que o tratadista lusitano começasse a recolher elementos para a composição do seu tratado pouco tempo depois de desembarcar na Índia. De outro modo não se compreenderiam a vastidão e a minúcia das notícias que conseguiu obter a respeito das regiões asiáticas que se estendiam desde o Mar Vermelho até ao Cabo de Comorim, que ocupam uma parte significativa da Suma Oriental, já que apenas estanciou 44 Esta cópia, desaparecida durante séculos, conserva ‑se hoje na biblioteca da Assemblée Natio‑nale, em Paris (Ms. 1248 [Ed. 19], fls. 117 ‑178), e adiante se descreve a sua história editorial. Entretanto, ver Armando Cortesão, A Suma Oriental, pp. 4 ‑9; e também Rui Manuel Loureiro, O Manuscrito de Lisboa, pp. 27 ‑43.45 Cf. Armando Cortesão, A Suma Oriental, pp. 501 ‑503.46 Ver Rui Manuel Loureiro, O Manuscrito de Lisboa, pp. 28 ‑29.47 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 50.SumaOriental-PDF_imac.indd 25 12/5/17 2:02 PM
  • 26nos portos indianos durante períodos relativamente limitados.48 Mas, por outro lado, muitos dos informes relativos à Arábia e à Pérsia parecem datar da segunda metade de 1513. Na descrição de Adém, por exemplo, é mencionada a tentativa de conquista levada a cabo por Afonso de Albuquerque em Março desse mesmo ano.49 E as referências ao Xeque Ismael, xá da Pérsia, não incluem qualquer notícia da batalha de Chaldiran, ocorrida em 1514, onde as forças persas sofreram uma pesada derrota frente aos otomanos.50 Uma análise cuidada do manuscrito de Paris permite concluir que na altura da respectiva encadernação, que ocorreu em data incerta, alguns fólios foram trocados de lugar, pelo que a ordenação geográfica das matérias não é absolutamente coerente. Esta circunstância foi tomada em consideração na presente edição da Suma Oriental, como adiante se poderá constatar. Assim, procedendo a uma reordenação de matérias de acordo com a lógica geográfica, de oeste para leste, verifica ‑se que, embora toda a Ásia marítima, desde o Mar Vermelho até ao Japão e às ilhas das Especiarias seja abrangida, nem todas as regiões asiáticas merecem idêntico tratamento da parte de Tomé Pires, nem em termos de extensão, nem em termos de profundidade.Assim, o manuscrito de Paris contém 60 fólios grandes, escritos de ambos os lados numa caligrafia regular datável de inícios do século xvi, aproximadamente com a seguinte distribuição de conteúdos:• Ásia Ocidental [Egipto, Arábia e Pérsia] — 6 fólios.• Ásia do Sul [Índia e Ceilão] — 11 fólios.• Ásia Oriental [China, Léquios e Japão] — 3 fólios.• Ásia do Sudeste continental — 4 fólios.• Ásia do Sudeste insular — 36 fólios.Constata ‑se, assim, que o núcleo informativo essencial da Suma Oriental, em termos quantitativos, respeita à Ásia do Sudeste, que ocupa um espaço duas vezes superior ao de todas as restantes regiões asiáticas consideradas em conjunto (ou seja, 40 fólios num total de 60).51 Esta excepcional importância atribuída por Tomé Pires àquela parte da Ásia, e sobretudo à Insulíndia, tem várias explicações. Por um lado, os portugueses tinham vindo para o oriente sobretudo por razões comerciais, em demanda das mais raras e valiosas drogas e especiarias. ora muitos dos produtos naturais que estavam na origem dessas cobiçadas mercadorias eram precisamente 48 Se a Suma Oriental foi concluída quando Tomé Pires ainda se encontrava em Malaca, a ante‑rior permanência na Índia estendeu ‑se apenas de Setembro de 1511 a Abril ou Maio do ano seguinte.49 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 65.50 Tomé Pires, Suma Oriental, pp. 76 e sgs.51 Ver, sobre esta questão, Rui Manuel Loureiro, «o Sudeste Asiático», pp. 107 ‑123.SumaOriental-PDF_imac.indd 26 12/5/17 2:02 PM
  • 27oriundos da Ásia do Sudeste, e mormente do grande arquipélago indonésio, não se encontrando alguns deles (como o craveiro ou a moscadeira, por exemplo) em nenhuma outra parte do mundo. Por outro lado, a parte insular da Ásia que se estendia de Samatra para leste, compreendendo mais de três mil ilhas, era, para os europeus da época, uma das mais misteriosas e menos bem conhecidas. Bastará lembrar que, poucos anos antes da chegada dos portugueses à Índia, o genovês Cristóvão Colombo conseguira, com algum sucesso, difundir um pouco por toda a Europa a noção de que as suas viagens de exploração marítima, na realidade efectuadas ao largo da costa oriental da América Central, tinham atingido a Aurea Quersoneso dos geógrafos clássicos, tradicionalmente identificada com a Península Malaia.52 Enfim, por outro lado ainda, e tal como já foi referido, Tomé Pires pre‑parou o seu tratado geográfico em Malaca, que era então o ponto de confluência de vastíssimas redes mercantis que cruzavam toda a Insulíndia. Nenhum outro local no mundo seria mais indicado para proceder a um levantamento geográfico exaustivo das partes mais orientais da Ásia, pois, como o próprio boticário portu‑guês afirmava, Malaca «hé cidade que foy feyta pera a mercadoria, mais auta que todallas do mundo, cabo de mouçoees, primcipio doutras».53 E numa outra passa‑gem, aludindo ao cosmopolitismo da importante cidade luso ‑malaia, escrevia que no «porto de Malaqua muitas vezes se acharam nelle oitemta e qoatro limguoajes, cada huuã por sy».54Entretanto, valerá a pena salientar que o núcleo primordial da obra, em função do qual se ordenam as matérias referentes à Ásia do Sudeste, parece ser a descrição de Malaca, independentemente da sua localização actual na parte final do manus‑crito de Paris. Com efeito, referências dispersas espalhadas ao longo desta secção da obra do boticário português remetem sempre para mais tarde a descrição de outras regiões asiáticas que mantinham relações mercantis com este porto luso ‑malaio.55 E neste contexto pode ser relembrado que, em Novembro de 1512, escassos seis meses depois de chegar àquelas partes da Ásia, Tomé Pires tinha já preparado um substancial relatório sobre as «cousas de Malaca», destinado a «elRey noso Senhor», que contava enviar para Lisboa logo que possível.56 Tratar ‑se ‑ia certamente de um primeiro esboço do seu inovador tratado geográfico, centrado basicamente na descrição de Malaca e da Insulíndia. A ideia de transformar a Suma Oriental num compêndio global de geografia asiática só surgiria depois, à medida que as informações disponíveis se iam acumulando. 52 A propósito das concepções geográficas de Colombo, ver Juan Gil, Mitos y utopías, vol. 1, passim; e também Rui Manuel Loureiro, Nas Partes da China, pp. 11 ‑33.53 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 285.54 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 270.55 As notas ao texto da Suma Oriental destacam devidamente estas referências.56 Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. 7, p. 59.SumaOriental-PDF_imac.indd 27 12/5/17 2:02 PM
  • 28No fim de contas, convém não esquecer o lugar central ocupado por Malaca no contexto dos grandes tráficos marítimos asiáticos, que fazia com que ali apor‑tassem regularmente embarcações oriundas de todos os grandes portos orientais, desde a costa ocidental de África até ao litoral do longínquo Celeste Império. Nas palavras do próprio Tomé Pires, em Malaca tratavam «Mouros do Cairo, de Mequa, d’Adem, abixiis, de Quilloa, de Melimde, d’Urmuz, parsios, rumes, tur‑qos, turquimaes, armenios christaos, guzarãtes, de Chaull, Dabull, de Guoa, do regno de Daquem, malabares e quel~ıis, mercadores d’orixa, de Ceilam, Bemgalla, de Raquam, pegu~us, syames, de Quedaa, malaios de Paõo [e] Patane, Camboja, Champar, Cauchychina, da China, lequeos, burneis, luçoes, Tamjompura, Laue, Bamca, Limga, tem mill ilhas outrãs, Maluqo, Bamdan, Bima, Timor, Mamdura, Jaõa, Çumda, Palimbã, Jambi, Tuncall, Amdargueri, Capo, Campar, Menamcabo, Ciac, Rupat, Arqua, d’Aru, Bata, terra do Tomiano, Pacee, Pedir, Diva».57Um alto funcionário da feitoria portuguesa, desde que se mostrasse suficien‑temente diligente, não teria grandes dificuldades em obter todo o tipo de infor‑mações registadas na Suma Oriental, referentes não só a pesos, medidas, produtos, rotas e calendários de viagens, mas também a práticas sociais e culturais, e também a assuntos de natureza política e militar. Aliás, o autor da Suma Oriental utiliza mais do que uma vez expressões do tipo «eu me certefiquey por muitos», ou «dizem os mercadores», ou ainda «o que as nações de qua deste Levamte comtam».58 E, a propósito, será possível determinar, com algum rigor, quais as principais fontes de informação que estão na origem do tratado de Tomé Pires?o boticário português, já foi antes referido, não dispunha de precedentes literários europeus significativos, ao menos no que tocava à descrição das regiões mais orientais da Ásia marítima. Não se encontram, com efeito, na Suma Oriental, vestígios seguros de anteriores relatos de viagem europeus. os poucos indícios que poderiam sugerir um eventual recurso à literatura geográfica produzida na Europa encontram ‑se, por um lado, na enigmática menção às limitações informativas de alguns escritores que «se deviam viir alimpar de seus tratados»59 e, por outro lado, nas referências a alguns dos mitos que a tradição geográfica europeia situara, desde tempos antigos, nas partes do oriente. Assim, o boticário, em dada ocasião, fala das «molheres que nos dizemos amazonas», que habitavam um dos reinos do Hindustão; noutra altura, refere ‑se a uma ilha nas proximidades de Samatra onde não viviam «senom molheres», acerca das quais se dizia que «emprenhã do vemto»; e ainda em outra passagem menciona «os ome~es das orelhas gramd~es, que se cobrem com ellãs», que viveriam na ilha de Papua.6057 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 270.58 Tomé Pires, Suma Oriental, pp. 80, 221 e 150, respectivamente.59 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 51.60 Tomé Pires, Suma Oriental, pp.86, 186 e 233, respectivamente.SumaOriental-PDF_imac.indd 28 12/5/17 2:02 PM
  • 29Estas referências míticas poderiam ter ‑se inspirado numa eventual leitura de passagens do relato de viagens de Marco Polo, já anteriormente referido, e também num possível conhecimento do Livro das maravilhas de John de Mandeville, um tão conhecido quão fantasioso relato de viagens por terras ultramarinas, preparado por um anónimo físico belga em meados do século xiv, que conheceu enorme divulgação um pouco por toda a Europa. Um exemplar manuscrito dessa obra, curiosamente, existia na biblioteca régia no tempo em que Tomé Pires exerceu funções de boticário da família real portuguesa.61 Mas, em abono da verdade, deve sublinhar ‑se que o tratadista lusitano revela um grande cepticismo em relação a todos estes mitos. Assim, a propósito da eventual existência da ‘ilha das mulheres’, afirma que «Jaz esta fee no povo, como no povo outras amazonas».62 E sobre as grandes orelhas dos papuanos regista que nunca vira «que[m] vise outro que as vise», concluindo que «Jaz ysto no pouco que hee asy».63 Enfim, para ele, o crité‑rio da experiência ou a informação de testemunhas fidedignas sobrepunham ‑se às antigas crenças livrescas.os processos de composição da Suma Oriental são repetidamente frisados pelo seu autor, começando pela necessidade de «poor em escripto» muitas das «cousas tam gramdes» que tivera oportunidade de observar nas suas andanças asiáticas. Mas não só, pois Tomé Pires, desde a abertura do seu tratado geográfico, sublinha que teve a «diligemcia de emquerir» junto de terceiros tudo aquilo que não viu.64 Assim se constrói um saber inovador, que ultrapassa a tradição: quando o escritor não pode deslocar ‑se pessoalmente a determinados lugares para efectuar as suas indagações, deposita inteira confiança em «quem la foy» e detém o estatuto de testemunho presencial.65 ou seja, as notícias recolhidas pelo boticário português resultam basicamente de vivências pessoais e de contributos de um vasto leque de informadores. Quem eram estes informadores? Por um lado, outros funcionários da admi‑nistração portuguesa do Estado da Índia, como capitães, pilotos ou feitores, que regularmente escalavam Malaca, onde davam conta de impressões recolhidas por ocasião de viagens de exploração efectuadas um pouco por toda a Ásia marítima. Por outro lado, mercadores, pilotos e embaixadores asiáticos oriundos das mais diversas paragens, igualmente contactados em Malaca.66 As informações recolhidas, entretanto, tanto podiam ser resultado de mera troca de impressões orais, como 61 Ver Rui Manuel Loureiro, Fidalgos, Missionários e Mandarins, pp. 58 ‑62. Sobre Mandeville, ver Iain Macleod Higgins, Writing East, passim.62 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 186.63 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 233.64 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 51‑52.65 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 225.66 Tomé Pires, Suma Oriental, passim.SumaOriental-PDF_imac.indd 29 12/5/17 2:02 PM
  • 30estarem consignadas em relatórios escritos ou em trabalhos cartográficos. É difícil reconstituir caso a caso o tipo de fonte utilizada para cada região asiática. Con‑tudo, um exemplo merece especial destaque. Ao tratar de Malaca, Tomé Pires traça um elaborado quadro da história daquela região antes da conquista portuguesa. E em determinados pontos parece estar a transcrever documentação escrita de ori‑gem malaia ou javanesa, pois menciona repetidamente a «coroniqua» e a «estoria dos jaãoos».67 o que sugere que o boticário português poderia ter tido acesso a um dos primeiros esboços dos Sejarah Melayu, anais históricos malaios compilados nos princípios do século xvi.683. História editorial da Suma OrientalTomé Pires terá começado a trabalhar no manuscrito da Suma Oriental logo depois de desembarcar em Malaca, em 1512. E o trabalho estava concluído menos de três anos mais tarde, tencionando o boticário apresentá ‑lo ao monarca portu‑guês logo que regressasse a Portugal. Uma passagem algo polémica das Lendas da Índia parece confirmar esta cronologia. Gaspar Correia, na sua crónica que então ficou inédita, menciona que Pires «em tempo do Gouernador lhe mandou hum liuro em que lhe daua conta das riquezas e grandezas do Rey da China que parecião duvidosas de crer».69 Ao contrário do que já foi defendido, o cronista não se referia aqui a uma outra, e desconhecida, obra de Tomé Pires sobre a China, mas sim à própria Suma Oriental.70 o manuscrito desta, com efeito, teria chegado à Índia em 1515, antes da morte de Afonso de Albuquerque. Correia, que fora secretário do célebre governador do nascente Estado da Índia, manuseara com toda a certeza o tratado de geografia oriental, onde de facto se descrevem as «riquezas e grandezas» da China, também em termos de surpresa, já que ali se afirma que as coisas que em Malaca se contavam da China «mais se creriã com verdade averem se em noso Portugall que nom na Chyna».71 Tomé Pires, como vimos, não voltou a Portugal depois da estada em Malaca, pois a missão diplomática ao Celeste Império interpôs ‑se no seu caminho. Porém, 67 Tomé Pires, Suma Oriental, pp. 238 e 241.68 Sobre esta fonte malaia, ver C. C. Brown, «The Malay Annals», pp. 5 ‑276; e também Muham‑mad Yusoff Hashim, The Malay Sulanate, pp. 3 ‑72. 69 Gaspar Correia, Lendas da Índia, vol. 2, p. 678.70 Armando Cortesão, A Suma Oriental, p. 34. A confusão entre uma obra de geografia oriental e um tratado sobre a China ficou certamente a dever ‑se às palavras ambíguas de Gaspar Correia. Mas o contexto em que se insere a passagem citada das Lendas das Índia — uma descrição da em‑baixada de Tomé Pires à China — parece ‑me autorizar uma identificação do «liuro» referido com a Suma Oriental.71 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 150.SumaOriental-PDF_imac.indd 30 12/5/17 2:02 PM
  • 31antes da partida da expedição de Fernão Peres de Andrade rumo ao litoral chinês, o boticário deverá ter enviado o original da Suma Oriental para Lisboa, nas naus da carreira da Índia, já que o texto estava explicitamente dedicado ao Venturoso. Perante a insistência com que, na época, a coroa lusitana procurava notícias sobre o oriente, não faz qualquer sentido imaginar que um tão importante tratado teria permanecido em terras orientais. Assim, o manuscrito autógrafo terá chegado a Portugal em 1516, mas desapareceu nos arquivos reais, pois não se lhe consegue des‑cortinar o rasto na documentação dos anos seguintes. E, com excepção de Gaspar Correia, nenhuma crónica portuguesa quinhentista se refere à obra de Tomé Pires. Entre 1525 e 1528, o humanista italiano Andreas Navagero passou por Lisboa, numa missão que, entre outros objectivos, envolvia a recolha de notícias sobre a Ásia.72 Entre outros materiais, o italiano conseguiu obter uma cópia parcial da Suma Oriental, que levaria para Veneza e faria chegar às mãos do erudito Giovanni Battista Ramusio, então ocupado em compilar de forma sistemática relatos de viagem da mais diversa natureza.73 Poderia tratar ‑se, eventualmente, de uma cópia obtida pelo feitor italiano Giovanni da Empoli, que em 1512 ‑1513 passara por Malaca, onde tivera acesso a um manuscrito com detalhadas notícias sobre terras e gentes asiáticas.74 Teria Empoli obtido do próprio Tomé Pires uma versão preli‑minar da Suma Oriental, que depois levou para Lisboa em 1514? A cópia da Suma Oriental obtida por Navagero em Lisboa, contudo, era assaz incompleta, já que lhe faltavam as secções referentes a Malaca e à Insulíndia, que ocupavam praticamente dois terços da versão original. Ramusio veio a publicar uma versão italiana do texto que lhe chegou às mãos no primeiro volume da sua célebre colectânea de viagens Navigationi et Viaggi, o qual foi impresso em Veneza em 1550.75 No prefácio ao «Sommario di tutti li regni, città, & popoli orientali», o editor veneziano queixava ‑se das dificuldades encontradas na obtenção do manuscrito: «con grandissima fatica e difficultà avendo mandato a farla trascrivere insino a Lisbona, a pena ne abbiamo potuto avere una copia, e quella anche imperfetta».76 o exemplar obtido, entretanto, não tinha nome de autor, certamente por lhe faltarem as páginas da dedicatória, único local onde figurava a referência a «Thome Pirez»,77 pelo que foi publicado anonimamente. Na altura em que o agente de Ramusio visitou Lisboa, 72 George B. Parks, «The Contents and Sources», p. 2.73 Ver George B. Parks, «Ramusio's Literary History», pp. 127 ‑148.74 Ver Rui Manuel Loureiro, Nas Partes da China, pp. 35 ‑54.75 Giovanni Battista Ramusio, Navigazioni e Viaggi, vol. 2, pp. 715 ‑778. As primeiras edições dos restantes volumes da colectânea seriam publicados em 1556 (volume 3) e 1559 (volume 2), tam‑bém em Veneza (cf. George B. Parks, «The Contents and Sources», passim). Ver a propósito Luciana Stegagno Picchio, «Portugal e Portugueses», pp. 9 ‑25.76 Giovanni Battista Ramusio, Navigazioni e Viaggi, vol. 2, p. 541.77 Tomé Pires, Suma Oriental, p. 55.SumaOriental-PDF_imac.indd 31 12/5/17 2:02 PM
  • 32as ilhas de Maluco, e algumas outras ilhas circundantes, estavam a ser intensamente disputadas entre Dom João III e a coroa espanhola.78 Por esse motivo, todas as informações relativas àquelas longínquas paragens eram tratadas em Portugal com o maior sigilo, de modo a não fornecer a eventuais antagonistas um excessivo conhecimento do terreno. Essa conjuntura explica, certamente, a impossibilidade de um estrangeiro encontrar em Lisboa uma cópia integral da Suma Oriental, a qual continha precisamente as mais exaustivas e mais rigorosas notícias que até então haviam sido obtidas por europeus sobre a parte insular da Ásia do Sudeste.Foi já sugerido que João de Barros poderia ter utilizado alguns materiais do tra‑tado do boticário numa descrição da ilha de Samatra incorporada nas suas Décadas da Ásia.79 E pode ainda acrescentar ‑se que as notícias do mesmo historiador sobre Malaca parecem igualmente reflectir um conhecimento directo da Suma Oriental. Mas Barros não reconhece a sua eventual dívida, afirmando apenas que obteve as suas notícias de informadores malaios.80 Por outro lado, Afonso Brás de Albuquerque, o filho do célebre governador, também terá consultado uma cópia do tratado do boti‑cário português, talvez mesmo o exemplar que pertencera a Afonso de Albuquerque, já que apresenta nos seus Commentarios de Afonso Dalboquerque, publicados em Lis‑boa em 1557, informações detalhadas sobre Malaca e nomeadamente sobre o período anterior à conquista portuguesa, que seriam difíceis de obter em outras fontes.81Para além da cópia obtida e publicada por Giovanni Battista Ramusio, de que não se encontra actualmente qualquer rasto, foram feitas na época pelo menos duas outras cópias da Suma Oriental, uma extensa e outra abreviada, que ainda hoje se conservam. E não seria de admirar que um tratado sobre as ‘cousas’ da Ásia tão com‑pleto e tão inovador tivesse dado origem a várias outras cópias integrais ou parciais, entretanto desaparecidas. o manuscrito mais extenso, intitulado «Somma oriemtall que trata do maar Roxo athee os chiis cõpilada por Thome Pirez», conserva ‑se em Paris, como foi anteriormente referido, na biblioteca da Assemblée nationale de França Aí foi ‘redescoberto’ em 1937 por Armando Cortesão, que dele preparou uma célebre edição, publicada em 1944 pela Hakluyt Society, em Londres.82 78 Sobra a ‘questão de Maluco’, ver Luís de Albuquerque & Rui Graça Feijó, «Os pontos de vista de D. João III», pp. 527 ‑545.79 João de Barros, Década III, vol. 5, pp. 505 ‑513. A sugestão foi feita por Armando Cortesão, A Suma Oriental, pp. 378 ‑379, n. 394.80 João de Barros, Década II, vol. 4, pp. 1 ‑27.81 Cf. Afonso Brás de Albuquerque, Comentários, vol. 2, pt. 3 pp. 83 ‑99. Ver Rui Manuel Lou‑reiro, Fidalgos, Missionários e Mandarins, pp. 590 ‑596, onde algumas destas coincidências textuais são devidamente realçadas.82 Bibliothéque de l’Assemblée Nationale, Paris, Ms. 1248 [Ed. 19], fls.117 ‑178. Cf. Armando Cortesão, The Suma Oriental, passim. o manuscrito parisino foi muito bem estudado por Armando Cortesão (A Suma Oriental, pp. 4 ‑7 e 70 ‑75), pelo que, a seu propósito, bastará salientar alguns aspectos menos explorados pelo ilustre historiador português.SumaOriental-PDF_imac.indd 32 12/5/17 2:02 PM
  • 33o manuscrito parisino, escrito em caligrafia de princípios do século xvi, não é autógrafo, ao contrário do que já foi sugerido, mas antes uma cópia, como o ates‑tam os numerosos erros cometidos pelo escriba.83 o copista seguiu de muito perto o original de Tomé Pires, pois reproduz a dedicatória a el ‑rei Dom Manuel I, além de oferecer uma versão integral do texto, com as secções dedicadas a Malaca e à Insulíndia. Trata ‑se, com toda a probabilidade de uma cópia preparada no Oriente por Francisco Rodrigues, que em Malaca e na Índia se cruzou com Tomé Pires.84 Com efeito, o mesmo códice parisiense contém, antes da Suma Oriental (que ocupa os fólios 117 a 178v), o autógrafo do Livro de Marinharia do próprio Francisco Rodrigues (que ocupa os fólios 1 a 116), inovador conjunto de roteiros, instruções náuticas, mapas e desenhos panorâmicos, preparados entre 1511 e 1515 pelo jovem piloto e cartógrafo português.85 Como a letra de ambas as obras aparenta ser da mesma mão, é assim bastante provável que Rodrigues tivesse preparado a sua cópia a partir do original de Tomé Pires, com toda a probabilidade durante uma comum residência em Cochim, ou noutro porto indiano, em 1515. o último encontro entre ambos poderá ter ocorrido em Cantão, em 1519, pois quando Tomé Pires se encontrava naquela cidade chinesa, aguardando autorização imperial para seguir para Pequim, Francisco Rodrigues aportou às ilhas do litoral chinês no comando de um junco oriundo de Malaca.86 A inexistência de posteriores referências ao piloto e cartógrafo português pode sugerir o seu eventual desaparecimento em terras chinesas, durante o ano de 1520.87 Assim, teriam existido apenas uns quatro manuscritos completos da obra de Tomé Pires, todos preparados quando o boticário se encontrava no oriente, antes da partida para a China. Um deles pertenceria ao próprio Pires, e terá levado sumiço durante os seus últimos anos de vida em território chinês.88 outro teria sido facultado a Afonso de Albuquerque, o patrono e protector de Tomé Pires, e subsequentemente teria ido parar às mãos do seu filho, Brás de Albuquerque. Assim se compreenderia a utilização que este dele parece ter feito na redacção dos seus Commentarios.89 o manuscrito de Albuquerque, por sua vez, poderá ter sido utilizado para a realização de uma cópia parcial, da qual emergiram posteriormente 83 Armando Cortesão, A Suma Oriental, pp. 7 e 70 ‑71.84 Armando Cortesão sugeriu que a cópia de Paris poderia ter pertencido ao piloto Francisco Rodrigues (A Suma Oriental, pp. 71 ‑72).85 Ver a recente edição, com um fac ‑símile do manuscrito, de José Manuel Garcia, O Livro de Francisco Rodrigues. A primeira edição fora preparada por Armando Cortesão, The Suma Oriental, passim.86 J. M. Braga sugeriu que Rodrigues teria obtido o manuscrito da Suma Oriental em Cantão, 1519 («Asia oriental em 1514», pp. 298 ‑305).87 Ver José Manuel Garcia, O Livro de Francisco Rodrigues, p. 21.88 Sobre este período, ver Rui Manuel Loureiro, Nas Partes da China, pp. 75 ‑94.89 Ver Rui Manuel Loureiro, «Algumas notas sobre Brás de Albuquerque», pp. 79 ‑88.SumaOriental-PDF_imac.indd 33 12/5/17 2:02 PM
  • 34quer a cópia obtida em Lisboa por Andreas Navagero, quer o manuscrito que hoje se conserva na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, ambos mais tardios, de meados da década de 1520.90 o terceiro manuscrito completo da Suma Oriental, despachado em finais de 1515 ou inícios de 1516 da Índia para Lisboa, e dirigido a el ‑rei Dom Manuel I, teria sido incorporado na biblioteca real, onde ainda se conservaria em meados do século xviii,91 tendo posteriormente desaparecido, talvez na voragem do terramoto de 1755. O quarto manuscrito, aquele que pertenceu a Francisco Rodrigues, após a morte deste em Cantão, em 1520, e seguindo caminhos difíceis de determinar, chegou a Paris em data incerta, onde depois de peripécias várias foi incorporado na actual biblioteca da Assemblée nationale. Este códice contém num dos fólios ini‑ciais a enigmática inscrição «osorio», que poderia ser uma ligação ao célebre huma‑nista Dom Jerónimo de Osório, que na década de 1530 estudou em Paris.92 Nada de especial se consegue apurar sobre a eventual pertença a Osório do manuscrito contendo as obras de Francisco Rodrigues e Tomé Pires. Mas valerá a pena relem‑brar que Manuel de Faria e Sousa, na sua Asia Portuguesa, publicada em Madrid entre 1666 e 1675, menciona entre as fontes utilizadas na composição dessa extensa crónica um volume manuscrito «sôbre as Navegações dos Portugueses, encontrado entre os papéis do Bispo D. Jerónimo Osório».93 Entretanto, um ex ‑libris colocado no interior da capa do códice de Paris refere que este teria mais tarde pertencido a «M.r le Ch.er de Fleurieu». Trata ‑se de uma referência a um conhecido explorador e hidrógrafo francês, Charles ‑Pierre Claret d’Eveux de Fleurieu, que na segunda metade do século xviii realizou extensas viagens de exploração nos mares orientais, e que possuía uma biblioteca extraordinariamente bem apetrechada.94 Faria todo o sentido estarem na sua posse os manuscritos de Rodrigues e de Pires, mas não se consegue determinar por que ínvios caminhos.Armando Cortesão encontrou finalmente este manuscrito na biblioteca da Assemblée nationale, seguindo uma pista fornecida num dos escritos do Visconde de Santarém, conhecido estudioso da cartografia, que publicara em Paris, no 90 Este manuscrito foi publicado em Rui Manuel Loureiro, O Manuscrito de Lisboa, acompanha‑do de vasto aparato crítico e de comparações sistemáticas com a versão de Ramusio. 91 O conhecido bibliógrafo Diogo Barbosa Machado refere um manuscrito da «Summa Orien‑tal» dedicado «a D. João III» (Bibliotheca Lusitana, vol. 3, p. 760). A dedicatória a el ‑rei Dom João III talvez não figurasse na cópia vista por Barbosa Machado, mas tivesse antes sido inferida, já que a Suma Oriental fora dedicada apenas a «ElRey noso senhor».92 Armando Cortesão sugere que o manuscrito de Paris teria pertencido a Dom Jerónimo Osório (A Suma Oriental, pp. 6 ‑7).93 Manuel de Faria e Sousa, Ásia Portuguesa, vol. 1, p. 48.94 Sobre este personagem, ver Danielle M. E. Fauque, «Testing Longitude Methods», pp. 159‑‑179. Ver o catálogo da sua biblioteca, que mereceria um estudo detalhado, em Catalogue des Livres, passim.SumaOriental-PDF_imac.indd 34 12/5/17 2:02 PM
  • 35século xix, o atlas incorporado no Livro de Marinharia de Francisco Rodrigues.95 E Cortesão viria a publicar o códice na íntegra, numa histórica edição impressa em Londres para a prestigiada Hakluyt Society em 1944, salvando do esquecimento duas das mais importantes obras sobre assuntos asiáticos produzidas na centúria de Quinhentos por autores portugueses.96 A edição portuguesa, contudo, teria de aguardar mais de três décadas, pois só em 1978 sairia dos prelos da Universidade de Coimbra.97 o trabalho pioneiro de Cortesão sobre Tomé Pires, mais de setenta anos volvi‑dos sobre a sua primeira impressão, conserva ainda grande parte da sua utilidade, já que não foi até à data tentada qualquer outra edição do manuscrito de Paris da obra de Tomé Pires. É natural que a vastidão de temas abrangidos pela Suma Oriental, assim como a enorme erudição demonstrada pelo historiador português na intro‑dução e nas notas que preparou para edição londrina, tenham desanimado possíveis continuadores. Porém, uma análise pormenorizada da edição portuguesa da obra revela hoje algumas limitações sérias, que justificam amplamente um regresso ao tratado do boticário quinhentista. As deficiências da edição actualmente disponível da Suma Oriental dizem respeito tanto à forma como ao conteúdo, e valerá a pena apontá ‑las sumariamente.Em primeiro lugar, os critérios de transcrição adoptados por Armando Cortesão são bastante questionáveis na sua rigidez, já que respeitam integralmente a grafia do manuscrito parisino, com todas as suas particularidades, dificultando ao máximo a leitura e a interpretação do texto. Em segundo lugar, a confusa distribuição dos fólios do manuscrito de Paris, que parece ter ficado a dever ‑se a um lapso do encadernador setecentista, embora assinalada por Armando Cortesão,98 foi seguida na edição portuguesa, aumentando os motivos de confusão. Em terceiro lugar, a versão apresentada por este investigador, apesar de se pretender absolutamente diplomática, contém numerosos lapsos de leitura, e nomeadamente palavras mal transcritas, palavras omitidas, e mesmo frases inteiras não copiadas. Finalmente, em quarto lugar, o aparato crítico da edição de Cortesão começa a necessitar de revisão urgente, pois muitos assuntos que exigiriam uma nota foram totalmente ignorados, enquanto muitas anotações podem hoje ser desenvolvidas ou atualiza‑das. A publicação do manuscrito de Lisboa na década de 1990 veio trazer novos subsídios, e um novo fôlego, ao estudo da vida e da obra de Tomé Pires. Faltava ainda uma nova edição do manuscrito de Paris da Suma Oriental, que agora, final‑mente, se pode concretizar.95 Ver Visconde de Santarém, Estudos de Cartographia Antiga, vol. 1, pp. 155 ‑156.96 Cf. Armando Cortesão, The Suma Oriental.97 Cf. Armando Cortesão, A Suma Oriental.98 Armando Cortesão, A Suma Oriental, pp. 72 ‑75.SumaOriental-PDF_imac.indd 35 12/5/17 2:02 PM
  • 36A obra de Tomé Pires, como terá ficado bem patente nesta breve abordagem, constitui uma fonte histórica de extraordinário valor a múltiplos níveis. Em pri‑meiro lugar, como obra revolucionária no contexto da história da geografia europeia, pois impõe um momento de total ruptura no processo de conhecimento europeu de muitas regiões da Ásia e mormente das suas partes mais orientais. Depois, como documento insubstituível na construção da história de inúmeras regiões asiáticas, e mormente na Ásia do Sudeste, já que apresenta um circunstanciado panorama político e económico de um período especialmente conturbado, que coincide com a entrada em cena dos europeus. Em terceiro lugar, a Suma Oriental vale como vastíssimo repositório de informações etnográficas, muitas delas inéditas e obtidas em primeira mão, sobre muitos povos orientais, mormente sobre as populações que habitavam as inumeráveis ilhas do arquipélago indonésio. Finalmente, como testemunho de um momento privilegiado na história das relações da Europa com a Ásia e sobretudo com a Insulíndia. Valerá a pena recordar, entretanto, que a obra do boticário português apresenta o último grande retrato da Ásia marítima antes da chegada em força dos europeus. Daí para diante, muita coisa iria mudar. A Suma Oriental de Tomé Pires, apesar de tudo, continua a ser uma fonte pouco explorada pelos especialistas.99 Espera ‑se que a presente edição crítica contribua para o reno‑vado estudo deste verdadeiro clássico da literatura geográfica portuguesa.99 Ver o aproveitamento exemplar das informações de Tomé Pires em M. A. P. Meilink ‑Roelofsz, Asian Trade, pp. 13 ‑172.SumaOriental-PDF_imac.indd 36 12/5/17 2:02 PM
  • 37REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASAlbuquerque, Afonso Brás de — Comentários de Afonso de Albuquerque, ed. Joaquim Verís‑simo Serrão, 2 vols., Lisboa, Imprensa Nacional — Casa da Moeda, 1973.Albuquerque, Luís & Feijó, Rui Graça — «Os pontos de vista de D. João III na Junta de Badajoz ‑Elvas», in Avelino Teixeira da Mota (ed.), A Viagem de Fernão de Magalhães e a Questão das Molucas, Lisboa, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1975, pp. 527 ‑545.Andrade, António Alberto Banha de — Mundos Novos do Mundo: Panorama da Difusão, pela Europa, de Notícias dos Descobrimentos Geográficos Portugueses, 2 vols., Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1972.Barozi, Pietro — Ludovico De Varthema e il suo Itinerario, Roma, Società Geografica Italiana, 1996.Barreto, Luís Filipe — Descobrimentos e Renascimento, Lisboa, Imprensa Nacional — Casa da Moeda, 1982. Barreto, Luís Filipe — Lavrar o Mar: Os Portugueses e a Ásia, c.1480 ‑c.1630, Lisboa, Comis‑são Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000.Barros, João — Da Ásia, fac ‑símile da edição de 1777, 8 vols., Lisboa, Livraria Sam Carlos, 1973.Braga, J. M. — «Asia oriental em 1514», Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, vol. 36, n. 429, 1939, pp. 298 ‑305.Brown, C. C. — «The Malay Annals», Journal of the Malayan Branch of the Royal Asiatic Society, vol. 25, ns. 2 ‑3, 1952, pp. 5 ‑276. Castanheda, Fernão Lopes de — História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Por‑tugueses, ed. Manuel Lopes de Almeida, 2 vols., Porto, Lello & Irmão, 1979.Catalogue des Livres de la Bibliothèque de Feu M. le Comte C. P. Claret de Fleurieu, Paris, Théodore Le Clerc, 1810.Correia, Gaspar — Lendas da Índia, ed. Manuel Lopes de Almeida, 4 vols., Porto, Lello & Irmão, 1975.Cortesão, Armando (ed.) — The Suma Oriental of Tomé Pires and the Book of Francisco Rodrigues, 2 vols., Londres, Hakluyt Society, 1944 [fac ‑símile: Nova Deli / Madras, Asian Educational Services, 1990]. SumaOriental-PDF_imac.indd 37 12/5/17 2:02 PM
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  • CRITÉRIoS EDIToRIAISSumaOriental-PDF_imac.indd 41 12/5/17 2:02 PM
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  • 43CRITÉRIOS EDITORIAISA presente edição baseia ‑se no único manuscrito integral da Suma Oriental de Tomé Pires que hoje se conhece, o qual se conserva em Paris, na biblioteca da Assemblée nationale de França, ostentando o título «Suma orientall que trata do mar Roxo athee os ch~ıis cõpilada por Thome Pirez». O mesmo códice, que tem a cota Ms. 1248 [Ed. 19], inclui também o manuscrito autógrafo do Livro de Mari‑nharia de Francisco Rodrigues, que foi muito provavelmente o autor da cópia da Suma Oriental. Este códice manuscrito, que datará de 1515, foi redescoberto por Armando Cortesão em 1937, que poucos anos depois o editaria nas publicações da Hakluyt Society, numa edição em dois volumes, que integrava uma tradução inglesa de todo o códice e uma transcrição diplomática do texto original português, quer dizer, respeitando rigorosamente a grafia do manuscrito: The Suma Oriental of Tomé Pires and the Book of Francisco Rodrigues (Londres, 1944). Esta edição conheceria algumas décadas mais tarde uma versão portuguesa, publicada pela Universidade de Coimbra: A Suma Oriental de Tomé Pires e o Livro de Francisco Rodrigues (Coimbra, 1978).O códice de Paris possui hoje uma encadernação em carneira com gravações a dourado, que datará do século xviii, e para além de 4 folhas de guarda inclui 178 fólios de papel grosso, com a mesma marca de água, medindo 37,7 cm de altura por 26,3 cm de largura. A transcrição do manuscrito da Suma Oriental, que ocupa os fólios 117 ‑178v do códice referido, foi efectuada com base numa fotocópia do original, gentilmente cedida pelos serviços competentes daquela biblioteca parisiense. A primeira parte do códice, que contém a obra de Francisco Rodri‑gues (fólios 1 ‑116), foi há poucos anos novamente editada em Portugal por José Manuel Garcia, nas publicações da Universidade do Porto, num volume intitulado O Livro de Francisco Rodrigues: O Primeiro Atlas do Mundo Moderno (Porto, 2008), que inclui igualmente, para além da transcrição e estudo do texto e anexos, uma magnífica reprodução fac ‑similada da secção correspondente do manuscrito con‑servado em Paris. Uma reprodução do manuscrito, de resto, está disponível na SumaOriental-PDF_imac.indd 43 12/5/17 2:02 PM
  • 44página electrónica da biblioteca da Assemblée nationale, mas abrangendo apenas os fólios correspondentes ao Livro de Marinharia de Francisco Rodrigues, mais três fólios da Suma Oriental. Estas reproduções permitem observar simultaneamente as dimensões e tipo do manuscrito, a organização do texto e anexos, e também o tipo de letra.o texto do manuscrito de Paris da Suma Oriental de Tomé Pires é basicamente respeitado na presente edição, de acordo com critérios de transcrição razoavelmente conservadores, que a seguir se enumeram: • A pontuação foi toda introduzida, pois o original praticamente não utiliza sinais de pontuação, recorrendo apenas a pontos e a traços oblíquos.• A utilização de maiúsculas e minúsculas foi normalizada, usando ‑se maiús‑culas no início de períodos, em nomes de pessoas, em nomes geográficos, e em nomes de cargos ou títulos quando estes designam um personagem específico. • O ‑R ‑ maiúsculo conserva ‑se em maiúscula no início da palavra nas situa‑ções previstas no ponto anterior; nas restantes situações, passa a minúscula simples no início da palavra e a minúscula dupla no interior da palavra (com excepção da fórmula ‘elRei’, onde se utiliza a minúscula). Manteve ‑se o grupo ‑rr ‑ inicial nos casos em que aparece no original, ou assinalam ‑se tais casos em nota de rodapé. • As oscilações ‑i/j ‑ e ‑u/v ‑ foram resolvidas de acordo com normas actuais, assinalando ‑se em nota os casos dúbios.• As oscilações ‑c/ç ‑ foram resolvidas de acordo com normas actuais, assinalando ‑se em nota os casos dúbios.• As palavras aglutinadas foram separadas com apóstrofo (daruu = d’Aruu), já que o original nunca utiliza apóstrofos.• As formas verbais reflexas foram separadas (guardamse = guardam se).• Foram introduzidos acentos apenas para distinguir ‑à ‑ de ‑há ‑ (hà/há) e ‑e ‑ de ‑é ‑ (he/hé).• As abreviaturas foram desdobradas, assinalando ‑se em itálico os desenvolvi‑mentos efectuados, e referenciando em nota os casos dúbios.• Entre parênteses rectos [...] assinalaram ‑se espaços em branco no original ou introduziram ‑se letras ou palavras que clarificam ou complementam a versão original.De resto, o texto da presente edição respeita o manuscrito de Paris da Suma Oriental, sendo a foliação do manuscrito indicada entre barras |...|. Quaisquer dúvidas de leitura ou questões eventualmente controversas vão assinaladas em nota de rodapé. SumaOriental-PDF_imac.indd 44 12/5/17 2:02 PM
  • 45As notas de rodapé procuram também esclarecer todas as dúvidas de leitura, e nomeadamente em relação a contexto histórico, localização geográfica, nomes de personagens, vocabulário exótico, produtos naturais, etc. Regra geral, um dado termo é objecto de anotação por ocasião do seu primeiro aparecimento no texto; apenas se repete a anotação ou parte dela em casos excepcionais, de forma a tornar a leitura mais expedita. Quando oportuno, as notas estabelecem comparações com a versão impressa do Manuscrito de Lisboa da minha própria responsabilidade (iden‑tificada como ML) ou com a primeira edição da versão italiana de Giovanni Battista Ramusio (identificada como RM), ambas referenciadas anteriormente, no texto de «Introdução». Por voluntária opção, as notas de rodapé não incluem bibliografia de suporte, muito embora se tenha recorrido a um alargado conjunto de instrumentos de trabalho, de fontes e de estudos históricos, que de resto serão bem conhecidos dos especialistas. Procura ‑se assim não transformar esta edição da Suma Oriental num texto excessivamente académico. Finalmente, um alargado índice remissivo, essencial numa obra desta natureza, permitirá localizar no texto de Tomé Pires os nomes de pessoas e os nomes geográficos, bem como os nomes de produtos natu‑rais, pesos, medidas, moedas, embarcações, e alguns outros termos menos vulgares. Uma palavra ainda, relativamente à organização do texto da Suma Oriental. Tentou ‑se nesta edição restituir a primitiva ordem do original de Tomé Pires, que na altura da encadernação do códice que se conserva em Paris foi alterada, com fólios deslocados da sua posição lógica. Já Armando Cortesão havia ensaiado este procedimento na sua tradução inglesa do texto de Tomé Pires. Assim, a foliação do códice de Paris não é rigorosamente respeitada na presente transcrição, em prol de uma ordenação mais adequada ao conteúdo das diferentes secções. Uma tabela incluída na parte final da presente edição permitirá estabelecer comparações entre a paginação desta edição, a foliação do manuscrito parisiense e as paginações das duas edições de Armando Cortesão, a de Londres e a de Coimbra. A organização gráfica do texto da Suma Oriental, entretanto, segue a do origi‑nal, ao contrário do procedimento seguido por Armando Cortesão, que remeteu sempre os títulos dos parágrafos para notas à margem do texto principal. o copista do manuscrito de Paris, supomos que Francisco Rodrigues, praticamente não utili‑zou anotações marginais, mas colocou de forma sistemática títulos em muitas das secções da obra. Na presente edição manteve ‑se essa regra, e sempre que parece faltar um título ele é sugerido entre parênteses rectos [...]. A actual secção final da Suma Oriental, todas as indicações o levam a crer, estaria colocada numa distinta posição na ordenação do manuscrito original, pois nela se fazem referências a outras secções da obra, como figurando posteriormente. Contudo, foi decidido admitir esta excepção na presente edição, mantendo a descrição de Malaca e da sua história na parte final do texto de Tomé Pires, pois seria difícil determinar qual o lugar exacto que para ela teria sido pensado. SumaOriental-PDF_imac.indd 45 12/5/17 2:02 PM
  • 46Como complemento à nova edição da Suma Oriental, republicam ‑se também as quatro cartas conhecidas de Tomé Pires, que vão transcritas e anotadas em secção própria. Três delas haviam sido publicadas na monumental colectânea documental Cartas de Afonso de Albuquerque, de onde se transcrevem sem alterações, apenas com novas anotações. A quarta carta, conhecida e publicada pelo menos duas vezes desde o século xix, e uma delas por Armando Cortesão na sua edição da Suma Oriental, é aqui objecto de nova leitura e de cuidada anotação, de acordo com as normas já referidas. Trata ‑se de um documento de extrema importância, pois revela mais claramente a faceta de boticário de Tomé Pires, constituindo uma espécie de síntese dos conhecimentos que ele pudera adquirir até 1516 sobre determinadas drogas e produtos exóticos.SumaOriental-PDF_imac.indd 46 12/5/17 2:02 PM
  • A SUMA oRIENTAL DE ToMÉ PIRESManuscrito de ParisSumaOriental-PDF_imac.indd 47 12/5/17 2:02 PM
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  • 49[A SUMA ORIENTAL DE TOMÉ PIRES][DeDicatória.]|117r| Ao muy serenisymo primcepe, muy alto e muy poderoso rey, elRey noso senhor,100 começa ho prologuo sobre a Suma oriemtall.101 Naturallmemte os homees desejam saber, como o testefiqua o mestre da filoso‑fya.102 Asy tem este desejo promto e mais fervemte cada hu~u segumdo lhe comvem, nom sem merito hee que maior o tenha Vosa Reall Magestade que nenhu~u outro primcepe no mumdo, poys seus senhorios sam maiores. Quem ynora serem do primcipyo d’Afriqua athee os ch~ıis, em que se comtem toda Afriqua e Asya e parte da Europa pola bamda do maar oceano, com imfinidade d’ilhas muy gramdes, riquos e muy populosos [senhorios] em suas comfromtaçõees, em os quaees senhu‑rios se contem muitas provincias he gram suma de reynos, multidam de regiõoes, de que tudo Vosa Reall Alteza hé senhor, com fermosas e [in]espunav~es fortalezas, com muyta gemte, artelharias e ixercicios de guerra na terra, sojugamdo regnos nas gemas da mourama.103 As armadas que traz quem dovida serem as morees do mundo, que continoadamemte amdam abastadas, h~uuas na Arabia, outras na pri‑meira Imdiia, outras na segumda e na terceira, em tamto que em todo seu senhorio nenguem nom hé poderoso navegar sem sua licença,104 e os mouros tam atemori‑zados amdam nos cabos como no meio. Cousa por certo dina de gramde glloria, que tam gramdes reis e senhores como sam os desta comquista, comvem a saber, 100 original: «elRRRey». A Suma Oriental, embora tal não seja explícito, terá sido dirigida a el ‑rei Dom Manuel I de Portugal (r.1495 ‑1521).101 O ML não inclui a Dedicatória nem as outras secções iniciais.102 Provável alusão a Aristóteles, o ‘Mestre da Filosofia’.103 Trata ‑se de uma visão encomiástica, e sem dúvida exagerada, do poderio oriental de Dom Manuel I. A expressão «nas gemas da mourama» quererá significar ‘no coração das terras controladas pelos mouros’.104 Referência à política de cartazes que os portugueses procuraram implementar na parte oci‑dental do Índico, e que obrigava os navios locais a possuirem uma autorização de navegação emitida por uma autoridade portuguesa.SumaOriental-PDF_imac.indd 49 12/5/17 2:02 PM
  • 50o soldam do Cairo, o rey d’Adem, o rey d’Urmuz, o Xequ’Esmaell ou Sofy,105 homem memtado106 no mundo, os naitaques, resputes,107 Cambaia, Daquem,108 a Imdya do Malabar, a provimcia de Choromamdell e quel~ıis,109 o reino d’orixa, de Bengala, Racan,110 Peguu, Siãoo, Queda, Malaqua, Pahaõo, Talimgano,111 Patane, Terrãoo, odia, Cãboja,112 Cauchichina, a China com todallas ilhas, gem‑tes poderosas asy no maar como na terra.113 Comtra todos estes traz Vosa Alteza guerra,114 levamtamdo suas bamdeiras ~e suas terras pollo nome de noso senhor Jhu~u Christo.115 De todos estes os que sam vasallos vivem asosegadamemte e os que sam revees amdam atemorizados, atormemtados, e curam mais de sse fazer fortes que de cometer forças com suas armadas. Tudo yso causa o gramde poder que Vosa Alteza qua traz eixercitado e guerreado pollo muy manifiquo e ingemte cavaleiro Afonsso d’Alboquerque,116 seu capitam geeraall, animosso, astucioso, providemte na guerra, e no all umano prudemtisymo, que comtinoadamemte com tamto trabalho, ora na India alta, ora na Arabia e no meio, nom cesa guerreamdo o nome de Mafamede.117 Craro hé que ha onypotemcia de Deus favorece isto, que quis arreiguar a christan‑dade118 em vosos reinos. E que estas cousas se façam com imm~esas despesas, quaees nunqua teve rey christaao119 por serem comtinoadamemte, tudo se deve d’aver por bem gastado, por ser cousa que tamto eixallça, acrecemta e aumenta nosa samta fee catolliqua, e que tamto abatimemto, perda e dapno traz a fallsa opiniom diaboliqua 105 A designação de Sofi ou Sophy era atribuída pelos europeus ao xá da Pérsia, Ismael I (r.1501 ‑1524), que começara por ser o líder de uma ordem de sufis ou místicos islâmicos.106 Mentado, vocábulo espanhol com significado de ‘homem famoso ou nomeado’.107 os nautaques e os reisbutos, que demoravam respectivamente nas regiões costeiras do Balo‑quistão e do Sinde, são descritos adiante, noutra secção da Suma Oriental.108 Isto é, o Decão.109 Quelins, do malaio keling ou kling, eram os mercadores oriundos da costa do Choromandel, na parte oriental da Índia; são referidos em diversas secções da Suma Oriental. 110 O mesmo que ‘Arracão’. Tomé Pires utiliza sempre a mesma fórmula, «Racan», mais próxima do birmanês Rakhine, uma das regiões da Birmânia.111 original: «talimganor».112 original: «cãboya».113 Todos estes topónimos serão adiante referenciados.114 Tomé Pires denota algum exagero na listagem de potências com as quais el ‑rei Dom Manuel I manteria guerra, certamente por motivos retóricos.115 original: «Xpo».116 A dedicatória da Suma Oriental parece ter sido escrita antes da morte de Afonso de Albuquer‑que, ocorrida em meados de Dezembro de 1515, ao largo de Goa. o célebre capitão exerceu funções de governador do nascente Estado da Índia entre 1509 e 1515, e é repetidamente elogiado por Tomé Pires ao longo da sua obra.117 Mafamede designa habitualmente Maomé (570 ‑632), o fundador do islamismo. oriundo de uma família de pastores, revelaria fortes inclinações místicas e ascéticas na idade adulta; proclamando‑‑se profeta de Alá, deu início à divulgação da mensagem do Alcorão, livro sagrado que lhe havia sido revelado nos montes dos arredores de Meca.118 original: «xpidade».119 original: «xpaao».SumaOriental-PDF_imac.indd 50 12/5/17 2:02 PM
  • 51do nefamdo, imnominiosso, fallsso Mafamede, cabeça de toda vãa relegiam mou‑risqua.120 Do quall Vosa Alteza tem gramde fama e omrra no mundo acerqua dos primcepes, e diamte do muy allto Deus imfymdo merecimemto, que estas coussas tem magnifiquamemte começadas, meadas e quasy acabadas.121 Prohemio primeiro.Pollas quaees cousas que bem avemturadamemte socedem, ocupado eu em carguos a que viim aas Imdiias e outros que me qua forom dados de muyto trabalho,122 desejava que se me ofrecese tempo ociosso em que podese escrever algu~ua cousa verdadeira que aproveitase pera o pasar do tempo em que se lleese, detreminei de poor em obra esta Suma oriemtall, e começar do maar Roxo ou Arabico athee os ch~ıis,123 com todas as ilhas, e desviar me da parte d’Afriqua por serem cousas mais notorias.124 Em a qall Suma nom me emtremeto com temeraria ousadiia, porque teria menos modestia, mas pedimdo que nas cousas em que nom for achado despeso seja relevado, porque meu imtemto foy movido a booa fee, por veer cousas tam gramdes. He salva ha paz dallg~uus que escreverom sse deviam viir alimpar de seus tratados,125 onesta cousa me pareceo poor em escripto algu~ua parte de tamta gloria quem fose tam bravo que tivese o imtemto greguo e a limguoa romãa e o despejo betiquo pera |117v| falar em cousas tam simplez [e] tam bem avemturadas como sam as oriemtaees. Mas como eu seja lusitano e baixo na gemte plebea, cujo custume hé dizer menos suas glorias do que sam e o mall mais do que hé, e porque o compor das sumas ou tratados hé mais oficio d’estramgeiros que de naturaes, por saberem adoçar suas composyçõees como vemos falarem maravilhas 120 Tomé Pires adopta neste intróito uma posição crítica face a Maomé e à religião islâmica, em termos retóricos bem característicos dos textos portugueses da época.121 A dedicatória de Tomé Pires, um colaborador próximo de Afonso de Albuquerque, adopta um tom propagandístico bem conforme ao ideário de cruzada que vigorou entre certos sectores da corte manuelina.122 Enviado para a Índia como feitor das drogas, Tomé Pires recebeu depois, de Afonso de Albu‑querque, outros encargos relacionados com o mundo da mercadoria.123 Isto é, chineses.124 Tomé Pires, ao afirmar serem as coisas de África mais bem conhecidas, estaria possivelmente a referir ‑se ao manuscrito do Esmeraldo de situ orbis, obra de Duarte Pacheco Pereira concluída por volta de 1508, que tratava extensivamente de temas africanos. A obra não foi publicada na época, mas poderia ter sido difundida de forma manuscrita.125 Curiosa alusão de Tomé Pires a «tratados» anteriormente escritos sobre temas orientais, a qual poderia referir ‑se quer ao Marco Paulo, colectânea de três relatos de viajantes italianos medievais publicada em Lisboa em 1502 pelo impressor morávio Valentim Fernandes, quer à obra do também italiano Ludovico de Varthema, que depois de viajar pela Ásia nos primeiros anos do século xvi, publi‑cara o seu Itinerario em Roma em 1510.SumaOriental-PDF_imac.indd 51 12/5/17 2:02 PM
  • 52nas cousas do mãar Miditeranio, pasagem de xv dias sempre a vista de terra,126 que fizerom se virom a famosa comqista do oriemte [e] de todo o mãar oceano, domde se comtem cousas tão dynas de memoria asy d’omrra acerqua dos hom~ees como em merecimemto acerqua de Deus. Se esta Suma nom for asii põderosa como convem, remeta ~e ser naturall em outra arte que pera o tempo apremdy, de que poderia dar melhor comta porque a necesydade me foy niso mais potemte que nesta obra a rezam.127 Prohemio segumdo.Se dos trogloditas e gemtes que matarom o Viso Rey128 tivera a velocidade pera caminhar e ver, como tive a diligemcia de emquerir o que nom vy, nom fora maravilha mais copiosa ser esta brebe Suma, asy que querer me meter na medida da terra pola bamda do maar ociãno, quem quer se poderia riir de mim por me meter ~e viinha alhea e fora de minha comdiçam. Mas eu, vemdo que os homees falam nas cousas alheas sem serem repremdidos, menos culpa me pareçeo que emcurria falar nas minhas, porque do que quero falar senhorio hé de Vosa Alteza e eu seu naturall. A rezam d’esprever eu a tenho se me ajudase o que compre, se nom falar destimtamente como comvem, minha hé a culpa, poiis nom sey dar rezam de minha casa. He nesta Suma nom somemte falarei da repartiçam das partes, provi~ıcias, regnos, regiõees e de suas comfromtaço~ees, mas aimda do tracto e comercio que h~uuas tem com outras, o quall trato de mercadoria hé tam nece‑sario que sem elle nom se sosteria o mundo.129 Este hé o que nobrece os regnos, que faz gramdes as jemtes, que nobelita as cidades, e o que faz a guerra e a paaz. No mundo hé abito o da mercadoria limpo, nom falo no meneo dela avido em estima. Que cousa pode ser melhor que a que tem por fumdamemto a verdade? o papa Paullo segumdo mercador foy primeiro, e nom se desprezava do tempo que nela gastou.130 E os sabedores d’Atenas por maravilhosa cousa a louvarom. E oje em dia ~e toda a redomdeza se custuma, he mayormemte nestas partes hé avida 126 Pode supor ‑se que Tomé Pires teria lido algum relato de viagens no Mediterrâneo, o qual é de problemática identificação. Poderia eventualmente tratar ‑se da Viaje de la Tierra Santa, relato da pe‑regrinação do alemão Bernhard von Breidenbach, cuja tradução comentada, da autoria do espanhol Martín Martínez de Ampiés, foi publicada em Saragoça em 1498.127 Tomé Pires chama explicitamente a atenção para o facto de não ter tido uma formação hu‑manística.128 Referência a Dom Francisco de Almeida, primeiro vice ‑rei da Índia, morto em 1510 numa escaramuça com nativos na Aguada de Saldanha, ancoradouro junto ao cabo da Boa Esperança, du‑rante a sua viagem de regresso a Portugal.129 Tomé Pires, homem ligado à mercadoria por ofício, faz aqui uma aberta apologia do comércio.130 Paulo II foi de facto mercador, antes de ascender ao pontificado (p.1464 ‑1471).SumaOriental-PDF_imac.indd 52 12/5/17 2:02 PM
  • 53em [a]preço, estimada, em tamto que hos gramdes nom custumã qua em outras cousas pratiqar senom nela. Hé gostosa, necesaria, conveniemte, se nom tevese reveses, os quaees a fazem ser mais estimada. Prohemio terceiro na repartiçam.Começo segimdo o que se cada dia custuma, que se acha em todo oficio, que prymeiro medem as obras e despois as cortam. A pressemte Suma sera gizada de cimqo riios primcipaes: o Nillo, o Tigris, Eufratees, Imdus e o Gamges, os quaees sam nesta parte d’Asya.131 o Nillo devide Africa d’Asiia e a Persiia dos arabios athee o Tigris; do Tigris atee o Eufrates, a provymcia dos persas [e] naytaques; do Eufrates athe o Imdo, os resputes, |118r| Cambaia, Daquem, Guoa; do Imdo ao Gamges, a Imdia do Malabar e a provimcia dos quel~ıis, em que emtra o reyno d’orixa; ho Ganges faz duas bocas, hu~ua em Canboja e a outra em Bemgala, que comtem em sy muytos reinos, como se ao diamte dira; e despois de Camboja athee a China tratar se a do nacimemto de cada riio.132 E sera a presemte Suma devidida em cimquo livros: o primeiro sera das Arabias, Egipto, Persya athee Cambaia; o ssegundo sera de Cambaia athee Batiquala;133 o terceiro sera de Batiqalla athee Bemgalla; o quarto sera de Bemgala athee os ch~ıis; o quimto sera de todalas ilhas e sera a Suma acabada. Devisam da presemte Suma.Comvenyemte me pareceo a presemte obra segiir o estillo macanico que quaall‑quer artifice usa em ssuas obras: gizar, emtam cortar. Devide se a Suma oriemtall em quatro134 partes ou livros: a primeira sera do principio d’Asya, apartamdo se d’Africa athee a primeira Imdiia; o segumdo sera da Imdia primeira ath[e] o da Imdiia meyãa; o terceiro sera da Imdia alta alem do Gamges, que sse acaba em odiia;135 o quarto sera do reyno dos chiis e das provimcias a elle sogeitas, com 131 o rio Nilo corre em África, enquantos os restantes quatro rios — Tigre, Eufrates, Indo e Ganges — correm na Ásia.132 As noções de hidrografia asiática de Tomé Pires são algo confusas, o que é compreensível, pois a experiência portuguesa, nas primeiras décadas do século xvi, limitava ‑se basicamente às regiões litorais da Ásia. Os topónimos mencionados são adiante referenciados.133 Baticala, cidade indiana do litoral do Canará, também conhecida como Bhatkal.134 Umas linhas antes, Tomé Pires referiu ‘cinco partes’, às quais fará menção já de seguida. Mas esta divisão não é depois respeitada no texto da Suma Oriental.135 «odia» corresponde a Aiutia (ou Ayutthaya), adiante referenciada.SumaOriental-PDF_imac.indd 53 12/5/17 2:02 PM
  • 54a nobre ylha dos lequeos, Janpon, Burnei e os luçõees [e] macaceres;136 o qimto sera de todalas ilhas particularmemte, devidimdo Asya pllos riios primcipaees, damdo nacimemto e fym a cada h~uu. E se na tall devisaõo parecer alg~uua cousa superflua ou mimgoada ou discrepamte a cosmog[raf ]iia [de] frad’Ansellmo e Tolomeu e outros,137 nom pareça novidade porque os ta~ees mais por novas que por pratiqua o sentirom, nos qua tudo pasamos, esprememtamos e vemos.138 E se esta rezam nom for aceptavell, deve se comsyderar que ho xastre139 em pequeno campo muitas vezes nom acerta os talhos, quamto mais defecultosso sera em camynho tam estemdido. Nom me apartarey de culpa de quallquer descuido que eu tiver em nom falar asy destimto como comvem, porque em cousas de fazenda de Vosa Alteza em que era emcaraguado me eixercitava o primcipall tenpo, he este desta obra era o de benese, como se vera pollo recemceamento das contas que em Malaqua tomey, e dos carguos da feitoria, tudo por mamdado do capitam geerall140 que a isso me mamdou por serviço de Vosa Alteza, de que fiz mais estemdidas leituras.136 Referências a Ryu Kyu, Japão, Bornéu, Luzon (ou Filipinas) e Macaçar, regiões descritas noutras secções da Suma Oriental.137 A Suma Oriental inclui escassíssimas referências intertextuais. A alusão a «frad’Ansellmo» é algo enigmática. Poderia referir ‑se à obra de Joahnnes Stobnicaz, Introductio in Ptholomei Cosmographia[m] cu[m] longitudinibus et latitudinibus regionum et civitatum celebriorum, publicada em Cracóvia em 1512, que incluía entre outros textos a descrição de uma viagem à Terra Santa feita em 1508 por um tal Anselmo de Cracóvia, franciscano de origem polaca. A alusão a Ptolomeu pode indicar algum conhecimento, ainda que superficial, de alguma edição impressa da obra cosmográfica do geógrafo alexandrino, que na passagem do século xv para o século xvi conheceu alguma circulação em Portugal.138 Tomé Pires destaca o papel essencial da prática e da experiência na aquisição de conhecimento geográfico, por oposição à mera informação oral ou textual em segunda mão.139 Xastre é o mesmo que alfaiate.140 Referência a Afonso de Albuquerque, que despachou Tomé Pires para Malaca na primeira metade de 1512.SumaOriental-PDF_imac.indd 54 12/5/17 2:02 PM
  • 55|118v| SUMa OrieNtaLL QUe trata DO Maar rOXO atHee OS cH~IiS cOPiLaDa POr tHOMe PiREZ.141LivrO PriMeirO.Repartiçam d’Asya com Africa.142Asia aparta se d’Africa polla bamda do maar Miditeranio por Alexamdria, he da parte do levamte pollo rio Nillo, e do maar oceano pllo meio dia; segumdo a tall repartiçam, se aparta da Ethiopia Abixia143 por ela e Arabia Felix.144 Nacimento do Nillo.145o Nillo, riio primeiro e mui primcipall, traz seu nacimemto do cabo de Boaa Esperamça, e vem por meio da Abixia em riios nom gramdes. No fim d’Abixia 141 original: «piz».142 Não há notícia de Tomé Pires ter visitado as regiões litorâneas do Mar Vermelho. Contudo, as suas informações são bastante rigorosas e desenvolvidas, e tê ‑las ‑ia recolhido junto de informa‑dores portugueses que nos primeiros anos do século xvi para lá navegaram. Desde 1503 que navios lusitanos cruzaram ao largo da costa meridional da Arábia, tendo o Mar Vermelho sido visitado pela primeira vez em 1513, pela expedição conduzida por Afonso de Albuquerque. Uma possível fonte de informação poderia ser Gregório da Quadra, que esteve cativo no Iémen entre 1509 e 1512.143 Por «Ethiopia» designa Tomé Pires a parte oriental de África em geral, enquanto «Abixia» remete especificamente para a Abissínia (actual Etiópia). Assim, esta expressão corresponderia a ‘Etió‑pia abissínica’.144 RM reformulou esta frase algo confusa: «L’Asia si diuide dall’Africa dal mar mediterraneo, oue è la città di Alessandria, e dal fiume Nilo, e il mare oceano la circonda verso mezo di, e leuante» (fl. 349). o texto do ML interrompe ‑se logo neste primeiro parágrafo, no fl. 41v, para prosseguir apenas no fl. 48; ter ‑se ‑á talvez perdido o caderno que neste manuscrito continha os fólios em falta (ML, pp. 149 ‑158). 145 O curso do Nilo, bem como as cheias periódicas deste rio africano, constituíam na época um enigma de difícil resolução para os europeus.SumaOriental-PDF_imac.indd 55 12/5/17 2:02 PM
  • 56jumto com Arabia Felix se faz navegavell, pasa com ligeiro curso a Egipto, vay se ao maar Mediteranio devidido por braços, dos quaees ho principall hé Damiata,146 pasa casy mea leguoa da cidade do Cairo. Em Julho e Agosto creçe he regua a terra, e as gemtes que vivem hà beira do riio vam aos altos com seu guaado e fazemdas, e como lhe ha augua daa lugar que começa a sequar, semeam de Setembro por diante. Dizem os de Egipto que este milagre precede dos abixiis, gemtes christãas,147 pollo quall sam framcos em toda a terra do Solldam148 e sam estimados. D’Abixia core o riio viiolemtamemte e nom hé bom de naveguar pera comtra Abixia.Abixia.149Comfina Abixia da bamda do maar Roxo com Arrabiia Felix, da bamda do maar ociano des[de] Guardafuy150 athe tamto como Çofala151 nom se chegua ao maar, com sesemta leguoas da bamda d’Africa, com os desertos e com parte da Ethiopiia. Sam christaãos,152 tem gramde terra. É jemte guerreira, mercam‑tivell dela. Há mamtimemtos [e] ouro em sua terra. Nom tem portos no maar, vem fazer seus tratos em Zeila he Barbora,153 e demtro no Estreito,154 nos portos d’Arabiia. Sam estas jemtes comemeradas amtre os ethiopes, todos sam de cabello revollto, ferrados na testa em lugar de bautismo,155 tem sacerdotes, patriarcas e outros religiosos. Vam a Jerusalem e a momte Synaa[i] em romarias cad’ano. Sam avidos nestas partes por leãees, verdadeiros, fiees, cavaleiros, e muytas vezes estes semdo estpravos156 vem [a] ser reis, primcipallmemte em Bemgalla.157146 Damiatta ou Damietta, porto egípcio no delta do rio Nilo.147 original: «xpãas».148 Referência ao sultão mameluco do Egipto, que na época era Qansuh al ‑Ghawri (r.1501 ‑1516).149 O mesmo que ‘Abissínia’.150 Cabo de Guardafui, na costa nordeste do continente africano.151 Sofala, cidade portuária da costa oriental de África, regularmente demandada pelos por‑tugueses desde a primeira viagem de Vasco da Gama. Ali foi implantada uma fortaleza portuguesa em 1506.152 original: «xstaãos».153 Zeila, modernamente designada Saylac, e Berbera, duas cidade portuárias do Corno de África.154 Estreito de Babelmandebe.155 Referência a tatuagens rituais, que eram comuns na Etiópia.156 Leia ‑se ‘escravos’; este vocábulo aparece sistematicamente com idêntica grafia.157 Nas últimas décadas do século xv, o reino de Bengala foi governado por uma dinastia de reis escravos, entronizados pela guarda pretoriana de escravos abissínios, como Tomé Pires refere numa posterior secção da Suma Oriental.SumaOriental-PDF_imac.indd 56 12/5/17 2:02 PM
  • 57D’Adem, de Xãr, de Fartaque, de Dalaqua he Çuaquem tratam com estes abex~ıis.158 Valem na Abexia aguoa rosada, rosas sequas, matamimguo,159 panos baixos de Cambaia e alg~uus de sseda, comtas de toda sorte, cristalino, panos bra‑mqos, tamaras ~e fardos, amfiiãoo.160 Mercadorias d’Abixia.ouro, marfim, cavallos, espravos, mamtimemtos, etc. |119r| Maar Roxo.Conveniemte hé que daqui se faça noso recomtamemto athee os ch~ıis, polla parte d’Asya, pola bamda do noso maãr ociano vaa toda medida e recontada. Tem este maar tres nomees: maar Roxo, mar Arabiquo, estreito de Mequa. Maar Roxo porque demtro no cabo junto com Çuez161 sam as barreiras vermelhas;162 maar Arabiquo porque jaz cerquado dos arabios; estreito de Mequa porque demtro nele jaz Mequa, casa de romaria dos mouros, donde foy naturall seu Mafamede.163 Mas o mais propiio nome hé Arabiquo. Medida deste mãar.Da porta deste Estreito pera demtro athee Çuez hé cerquado este mãar de quatro prov~ıicias: da bamda do levamte jaz Arabia Petrea; da bamda d’Abixia jaz a Felix, chega atee tamto como as ylhas de Dalaqua; a Petrea, casy a Mequa; da Meca ao Toro164 começa Arabia Deserta, e esta vay caminho do maar Mediteranio he devide a provimcia de Egipto da terra de Judea. Do Toro e de Dalaca hé provimcia 158 Referência aos portos nas proximidades da Etiópia: Adém, Xael ou Xaer (Ash Shihr), e Farta‑que (Ras Fartak) situam ‑se na costa meridional da Península Arábica; Dalaca (Dhalak) é um pequeno arquipélago fronteiro a Maçuá (Massawa), porto da costa africana do Mar Vermelho; Suaquém (ou Suakin) é também um porto da costa africana do Mar Vermelho.159 Matamingo / matamungo, espécie de contas de cornalina.160 Anfião é a antiga designação do ópio.161 A localidade de Suez, na extremidade norte do Mar Vermelho.162 o Mar Vermelho deve o seu nome a umas bactérias presentes na superfície da água (Tricho‑desmium erythraeum, Ehrenberg ex Gomont), que ao proliferarem deixam a superfície com um tom avermelhado.163 Meca é a uma das cidades santas do Islão, e ali nasceu efectivamente o Profeta Maomé.164 o Toro, ou El Tor, é uma localidade costeira na Península de Sinai.SumaOriental-PDF_imac.indd 57 12/5/17 2:02 PM
  • 58de Egipto, scilicet, toma a pomta ou casy terceira parte do Estreito.165 Tera este Estreito em roda [...].166 Todo ho Estreito hé cerquado das terras ssusoditas, e casy tudo hé deserto he desabitado, hé terra escalvada, ssem fruto todo arredor. Em sii tem alg~uuas ylhas povoadas pouquo, asii como Camaram,167 Dalaca, Çuaquem,168 que demtro nele estam. Demtro neste Estreito há muita pedra, restinguas, hé mãao de navegar, nom navegam senom de dia, sempre podem ancorar. Da boqua do Estreito athee Camaram hé a melhor navegaçam, ja hé pior de Camaram a Judaa,169 e muito peor de Juda ao Toro. Do Toro a Suez hé pasagem de barcos, aimda de dia, de maneira que todo he çujo e mãao.Tem este Estreito vemtos quemtes que quallquer cousa que morre, asy homem como animall, nom comsemte podridam mas seca se, e destas partes se levam destes animaees a nosas partes por momia. A quall nom hé, que a momia hé a umidade que corre dos corpos despois que estam abalsamados cõ aloees çocotrino e mirra, asy que o licor que de nosa carne mana he destes materiaees se chama momia.170 |119v| Provimcia de Egipto.A terra de Egipto começa do maar Mediteranio he vem tomar parte do estreito de Meqa, de huuã parte a divide Africa e da outra Arabia Deserta de Judea. Toda hé terra que se semea com a crecemte do Nillo, e isto mais do Cairo pera noso maar Mediteranio que do Cairo pera o Estreito. Hé terra desaproveitada, mas caminha se com menos trabalho que ha Deserta. Há nesta provimcia a cidade de Tebas, em que se faz opio tebaiqo, que qua chamam afiam, cousa muito usada qua comer se, he em nosa terra mata.171 Nesta terra de Egito nom chove salvo d’ano em anño, 165 Os antigos geógrafos dividiam a Península Arábica em Deserta, Petrea e Felix; mas a descrição que Tomé Pires apresenta dessas divisões não está totalmente correcta.166 A frase parece inacabada, como se Tomé Pires fosse indicar as dimensões do Mar Vermelho.167 Camarão, ou Kamaran, é uma pequena ilha à entrada do Mar Vermelho.168 original: «acuaquem».169 Jedá, ou Djedah, porto da costa árabe do Mar Vermelho.170 o aloés socotorino é uma goma obtida de uma planta do género aloë, originária da ilha de Socotorá, à qual se atribuíam vastas propriedades farmacológicas. A mirra é uma goma ou resina ex‑traída de uma árvore espinhosa, do género Commiphora myrrha, (Nees) Engl., utilizada em perfumes e incensos. A ‘múmia’ referida por Tomé Pires era uma espécie de suco de corpos embalsamados, ao qual se atribuíam propriedades medicinais.171 O ópio tebaico, que tomou o nome da cidade egícia de Tebas, tinha consistência sólida, obtendo ‑se através da evaporação do suco das papoilas dormideiras (Papaver somniferum, L.). Escas‑samente utilizado em Portugal, o ópio teria aí efeitos mortais, ao contrário de muitas regiões orientais, onde o seu consumo era comum.SumaOriental-PDF_imac.indd 58 12/5/17 2:02 PM
  • 59ou de dous em dous, hu~u dia ou menos, hee aguoa que chove quemte, e nam aproveita pera se aproveitarem da terra. Quamdo o Nillo crece, tomam auga em aceqas172 pera despois regarem as ortas. Toda esta provimcia hé mingoada d’augua.Homde esta o Solldam.De toda esta terra a mais primcipall cidade hé o Cairo. Esta nela comtinoada‑memte o Solldam, tem muitos espravos que o gardam, mamaluquos, que na limguo‑agem da terra quer dizer gemte comprada por dinheiro.173 Estes seram athee cimco mill, e tem a guarda de sua pessoa, sam ha moor parte deles arreneguados que forom christaãos.174 Tem gramde copia de molheres, nunca saee de casa nem hé visto dos da cidade, tem governadores da justiça que poucas vezes a fazem. Estes mamaluquos, como se agastam do Soldam, emlegem hu~u pera o carguo e matam outro, há de ser arrenegado, e dizem que ysto se fez porque os christaãos175 arrenegasem pera poderem alcamçar a dinidade, o que pode ser. Nom herda filho nem paremte, mas pola maneira dita socedem. Há de ser christaao176 arreneguado, e quamtas mais vezes vemdido tamto tem mais parte no regno. Sam muito pobres os soldaees do Cairo, e mormente aguora. Chaman se os do regno nestas partes maçariis.177 Este em toda sua provimcia nom tem rey, somemte capitaees. Tem guerra com este o Sofy, mouro perseano que qa se chama o Xequ’Esmaell, como se despois dira na descriçam d’Urmuz,178 e vay perdemdo parte dela.179 Mas como os filhos nom ham de soceder, nom trabalham polla liberdade de sua patria. Da obidiemcia deste hé Judea, a Siria alg~uua parte, cuja cidade primcipal hé Damasquo, Caldea hé tambem deste, Palestina, a Ydumea,180 de todas estas partes nom hé muito obedecido. A mõor remda que tinha, de que se mamtinha, era a romagem do Samto Sepulcro181 e a pasagem da especiaria pollo Cairo; ja aguora da pasag~e da especiaria tem muito pouco, e prazera a noso Senhor que do 172 Acéquia é um canal de irrigação.173 o termo árabe mamluk / mamalik significa ‘propriedade’. Os mamelucos egípcios eram de facto uma casta militar, formada de antigos escravos muçulmanos de variadas origens.174 original: «xpaãos».175 original: «xpaãos».176 original: «xpaao».177 o termo «maçariis», utilizado por Tomé Pires, corresponde ao árabe al ‑Masri, ‘egípcio’.178 Ver adiante, a secção sobre a Pérsia e ormuz.179 Entenda ‑se ‘vai perdendo a guerra’.180 o império dos mamelucos, entre outras regiões, hegemonizava a Judeia, a Síria (e a cidade de Damasco), a Caldeia (partes da antiga Mesopotâmia), a Palestina, e a Idumea (ou Edom), designação de uma antiga região da Transjordânia.181 Embora sob domínio islâmico, a Terra Santa continuava a ser importantíssimo destino de peregrinação para todas as comunidades cristãs.SumaOriental-PDF_imac.indd 59 12/5/17 2:02 PM
  • 60Samcto Sepullcro tera menos.182 As outras regioões alevamtan se cada dia com o Xequ’Esmaell, que com elle comfinam.183 Cidade de Judaa.184A cidade de Juda hé em hu~u riio mea leguoa do mar, hé cidade qasy tama‑nha como Adem, nom tam forte, nem de taees muros, dizem ser cousa fraca. Tera cimqo mill vezinhos, hé do soldam do Cairo. |120r| Cad’ano tem capitãoo espravo do Soldam, com remda. Nom tem nenhu~u mamtimemto nem fruitos de seu naturall, somemte tamaras. Muitas carnes, pescados, triguo, arroz, ceva‑das, milho185 lhe vem de Zeila e Barbora e das ylhas de Çuaquem. Tem muitos mercadores, hé cidade de gramde trato. Meia leguoa dela ancoram as naaos, e aquela meia leguoa athee a cidade hé de baixa mar de hu~ua braça e com maree chea de tr~es. Tem gemte de guarniçam, gemte de cavallo, tem o porto auga em avomdamça. Toda a mercadaria da Imdia vai descarregar a Judaa, sera d’Adem viagem de dez dias. A casa de Mequa.186De Juda caminhamdo hu~u dia pola terra firme hé a casa de Mequa, omde naçeo Mafamede e ssua geeraçam. Hé a casa de Mequa gramde, bem fabri‑cada, tera mill vezinhos, mercadores muitos. Chama se o capitao della Xec Barquate,187 hé do soldam do Cairo. Esta terra nom tem augua, vem d’acarreto de hu~u lugar a que chamam Arefet,188 hu~ua leguoa de Meca. os mamtim~etos vem de Judaa. 182 O tráfico de especiarias fora parcialmente desviado para a rota do Cabo após a viagem de Vasco da Gama em 1498 ‑1499. Entretanto, Tomé Pires parece aludir aqui ao projecto manuelino de conquista da Terra Santa.183 os domínios do sultão mameluco do Egipto estavam então a ser disputados, tanto pelos safá vidas persas como pelos turcos otomanos; estes últimos conquistariam o Egipto em 1517, pondo termo à dinastia mameluca.184 Jedá servia toda a região de Meca e de Medina.185 As referências ao milho reportam ‑se decerto ao sorgo ou milhete (Sorghum bicolor, L., Moench), pois o milho (Zea mays, L.), originário da América, não se teria ainda difundido pelas regiões asiáticas.186 A cidade de Meca, um dos lugares santos do Islão, grande centro de peregrinação islâmica. 187 o xerife de Meca era então o xeque Barakat II.188 A água que abastecia Meca vinha de facto da localidade de Arafat, situada a algumas léguas de distância, rumo a leste.SumaOriental-PDF_imac.indd 60 12/5/17 2:02 PM
  • 61Al Midina.189Al Midina hé quoatro leguoas d’amdadura de Meca, caminho do Cairo, algu~u tanto desviado no deserto d’Arabiia Deserta. Sera luguar de cem vizinhos. ~e hu~ua torre que esta neste lugar jaz Mafamede e sua filha, jemrro e companheiros, hé de gramde roma‑gem.190 Tem boas tamaras e pouqua augua. Do Cairo ha Medina, quoremta dias; de Medina a Mequa, quoatro; de Meca a Judaa, hu~u; de Juda [a] Adem, dez com vemto. Homde se faz a armada do Soldam.Do Cairo a Suez vem em tres dias. Suez hé o cabo do Estreito, nom hé porto nem cousa povoada, alii dizem que se faz hu~ua armada para qua.191 Hé este cami‑nho despovoado, destes tr~es dias nom tem fortaleza nem povoaçam, somemte o mãr, que hé de pedras e baixos. A madeira de que se ham de fornecer há de viir ao menos de fora de seus regnos, porque em toda sua terra nem d’arredor do Estreito nom há senom junqos marinhos, que tem fremosos abrolhos.192 A jemte desta provincia hé guerreira, tem muitos cavallos acobertados, tem artelharias, sam destros a cavallo, de lamças em punho e o freio na huua mãao, e trazem esporas, asii o sam os dos arabios. Tem camellos de duas corcovas,193 e desta jemte muito asoldada e que peleja, porque a outra dela vive por seus oficios, e deles amdam a furtar. A terra hé de pouca justiça, por causa da jemte da gerra, porque hu~u nom se tempera com ho outro. Christaaos da cimtura.194Há nesta provimcia e asy nos arabios muitos christãos,195 deles cir‑c~ucidados e deles nãao. os circuncidados chamam se jacobitos, os outros 189 Medina, situada a norte de Meca, é também cidade santa e local de peregrinação.190 o túmulo de Maomé e de alguns dos seus familiares e companheiros encontra ‑se na cidade de Medina. Não é consensual que Fatimah, a filha do Profeta, também ali esteja sepultada.191 o porto de Suez começou a ganhar importância no tempo de Tomé Pires, como estaleiro naval onde eram armadas as frotas egípcias que tentariam infrutiferamente travar o crescimento da presença portuguesa no Índico. Em repetidas ocasiões circularam na Índia insistentes rumores sobre uma armada que estaria a ser construída em Suez para atacar os estabelecimentos portugueses no oriente.192 o abrolho é uma planta rasteira e espinhosa. Suez, de facto, carecia de madeira para constru‑ção naval, e a mesma tinha de ser importada do Líbano ou da Anatólia.193 o dromedário árabe, na realidade, tem apenas uma bossa, enquanto o camelo asiático tem duas bossas.194 original: «Xstaaos». A expressão parece referir ‑se a cristãos circuncidados.195 original: «xstãos».SumaOriental-PDF_imac.indd 61 12/5/17 2:02 PM
  • 62malaquitos,196 tem duas cooresmas, hu~ua em Natall e outra a nosa, nom casam hos hu~us com os outros, e muitos deles sam irmitaees e de samta vida, e deles homees de fazemdas, e sam muytos. Há destes em Juda, no Toro e em Meca, sam amtre estas gemtes avidos por boos homees.|120v| Trato destes na Imdia.As mercadarias qu’estes trazem a Imdia sam de Italia, Veneza, vem [a] Alei‑xamdria, he dos estamcos daly pollo riio vem aos feitores que estam no Cairo, e do Cairo vem em cafilas com muita gemte d’armas, vem ao Toro. Mas nem hé ysto muitas vezes, por causa dos salteadores alarves,197 e ham mester muita gemte d’armas pera guardar a mercadoria. Mas no tempo do Jubileu,198 que hé cad’ano ~e Mequa o primeiro dia de Fevereiro e vem muita gemte, com estes mamdam a Mequa e dhy vem a Judaa e de Juda vem aos estamcos que tem em Adem, e d’Adem se espalha por Cambaya, por Guoa, pollo Malabar e Bemgala, Peguu [e] Syaõo.199 Mercadorias que trazem a Imdiia.Trazem panos de lãa de cores e sortes, chapeoos, christalino200 de todas cores e sortes, azernefe,201 vermelhãao, azougue,202 cobre, aço, armas, prata, ouro amoedado, amfiam, almecegua,203 toda sorte de comtas de vidro, estoraque 196 os jacobitas pertencem a uma igreja oriental de rito siríaco, que utiliza o siríaco como língua litúrgica, enquanto os melquitas pertencem a uma igreja oriental de rito bizantino, que utiliza o grego e o árabe como línguas litúrgicas.197 Alarve, do árabe al ‑’arb, é uma antiga designação dos árabes, que se generalizou a todos os po‑vos nómadas arabizados. O termo podia ser utilizado como antónimo de ‘doméstico’ ou sedentário, tendo adquirido ao longo dos tempos uma conotação algo negativa.198 Tomé Pires refere ‑se ao hajj islâmico, grande peregrinação anual a Meca, que tem lugar na primeira metade do mês Dulheggia, que, como mês lunar, nem sempre corresponde a Fevereiro. Essa coincidência, na época em que a Suma Oriental teria sido redigida, só se verificou nos anos de 1513 e 1514, o que fornece um elemento importante para a datação destas informações.199 Tradicionalmente, as mesmas embarcações que transportavam peregrinos também se dedica‑vam ao comércio, não podendo as duas actividades ser separadas. As regiões mencionadas por Tomé Pires são adiante devidamente referenciadas.200 original: «xstalino».201 Arzanefe, do árabe az‑zarnikh, o mesmo que arsénico.202 o vermelhão é uma substância tintureira, obtida a partir do azougue, que é o mesmo que mercúrio.203 A almécega é a resina do lentisco.SumaOriental-PDF_imac.indd 62 12/5/17 2:02 PM
  • 63liquido,204 aguoa rosada, chamalotes de muitas corees e sortes,205 fynos e doutros, muitas alcatifas e tapetes de boos lavores he fynos e de preço, gramdes e pequenos, muitos vidros d’espelhos. Arabia Felix.206Arabia Felix se estemde amte o mãar Roxo e Abixia, algu~us dizem que chegua ha Magadaxoo,207 e corre athee tamto como as ilhas de Dalaqua, e dizem que hé toda aquella terra de gemte bramca, omde nom há cabello revolto, que hé desta Arabia. outros querem que nom seja senom athee o cabo de Guardafuy. Chama se Felix porque nom hé tam esterlii como as [outras] duas. Se athee Magadaxo se estemde, sabidos sam os portos dela. Se do cabo athee Delaca, emtam tem, amte[s] d’aboquar o Estreito, Zeila e Barbora, e despois d’abocado tem Dalaqua e Laçari. Deste Laçarii,208 que hé porto nom muito povoado, em tres dias vam ao Nillo e em dez [dias] em barquas ao Cairo, ysto poucas vezes, porque os alarves nesta pasagem salteam e roubam os caminhamtes. Hé a jemte desta Arabia limpa, cavaleirosa, tem fortelezas he jemte de cavallo. Tem guerra com Abixia, que hé junto a esta Arabia, e fazem cavalgadas ~e que tomam gramde cantidade d’abixi~ıs e vemden nos aos asyanos.209 Tem esta terra triguo e aguoa boa. De muitas partes vem tratar a estes portos, de Cambaia, de toda Arabia, primcipallmente da cidade d’Adem. Levam panos baixos de muitas sortes, matam~ugos, comtas outras de Cambaya; d’Adem levam pasas [de uva]; d’ormuz tamaras; retornam ouro, marfim, espravos, e fazem seu trato nos ditos portos de Zeila e Barbora. Doutras partes tratã, de Quilloa, Melimde, de Brava, de Magada‑xoo, de Mombaça.210 Trazem por retorno boõs cavallos que há nesta Arabia. Nom tem cidades nem rey, vivem em cabilas,211 hé gemte de rapina e muito salvagem. Por estes dous portos resfolegua toda Abixia, porque ao Cairo vay pouca cousa. 204 o estoraque líquido é um bálsamo aromático obtido a partir de uma planta vulgar na Ásia Menor (Liquidambar orientalis, L.).205 o chamalote é um tecido de pêlo ou de lã, de várias cores, frequentemente misturado com alguma seda.206 A antiga Arabia Felix correspondia à parte meridional da Península Arábica.207 Referência a Mogadíscio, cidade portuária no Corno de África.208 Laçari parece corresponder ao moderno porto de Koseir (ou al ‑Qusair), na margem egípcia do Mar Vermelho.209 Isto é, ‘asiáticos’.210 Quíloa (ou Kilwa), Melinde (ou Malindi), Brava (ou Brawa) e Mombaça (ou Mombasa) são cidades portuárias da costa oriental de África.211 o termo cabila ou cabilda, de origem árabe (kabila, ‘tribos’), designava um conjunto de famí‑lias alargadas que co ‑habitavam, praticando o nomadismo. Podia usar ‑se também como sinónimo de ‘berberes’, os habitantes de vastas regiões da parte setentrional de África. SumaOriental-PDF_imac.indd 63 12/5/17 2:02 PM
  • 64Arabia Petrea.212Arabia Petrea a devide da Persya o estreito d’ormuz, e do riio que vay a Mequa se devide d’Arabia Deserta, pollo porto de Judaa, pola bamda da terra firme Mediia,213 regiom populosa, e parte da Palestina. Chamou se esta Arabia Petrea porque hé escalvada, esterilii, de serranias de pedra toda. Tem pouqua aguoa. Tem esta provimcia nas beiras do maãr alguuas cidades, tem Judaa, Adem, Fartaque, a Maseira;214 do cabo de Rosçallgate215 pera demtro tem Calahate, Mascate, Curiate,216 e outros lugares; pola bamda do mar do estreito de Hormuz, pasamdo a serra demtro na terra firme, tem boas cidades, bem povoadas, fermosa terra de muita gemte. De todas estas cidades e lugares |121r| Adem hé a mais nobre, e cousa muyto forte. Chamam se as cidades da terra firme Zebittaees, Beitall, Faqui, Camaram, Çana, Cinam.217 A gemte desta Arabia hé guerreira, pelejam a cavallo à nosa guisa, com esporas, as redeas em huuã maão e a lamça na outra. E tem gramde numero de hom~ees. Sam os cavallos desta Arabia melhores que todos os outros de todas estas par‑tes.218 Tem grãde numero de camellos, bois de que se serv~e, doutras alymarias. Sam momteiros, hom~es dados muito ao trabalho, oufanos, presuntuosos.219 Esta provimcia tem rey a que todos obedecem, dizem que vasallo do Soldam.220 Este esta sempre na terra fyrme, porque comtinoadamemte tem guerra em sua terra, porque som alarves muitos e a terra hé fraguosa, e nom querem estar em paz nem tem remedeo senom furtar. E porque desta Arabia somemte Adem hé a popullosa, e a chave nem somemte d’Arabiia mas de todo ho Estreito,221 asy pera os que emtram como dos que saem, dela direy, porque ho all tudo hé enexo ou [a] Adem ou a Hormuz, 212 A antiga Arabia Petrea englobava a Península de Sinai e a parte noroeste da Arábia. 213 Média é o nome antigamente atribuído ao território do Crescente Fértil, região asiática ba‑nhada pelos rios Tigre e Eufrates, onde se localiza o actual Iraque.214 Masira é uma pequena ilha do Mar da Arábia, no litoral do actual oman.215 Leia ‑se ‘Rosalgate’, que corresponde ao cabo de Ras al Hadd, na costa do actual Oman.216 Referência a Calaiate (Qalhat), Curiate (Quriyat) e Mascate (Muscat), portos do litoral do oman.217 Tomé Pires refere ‑se a localidades do interior do Iémen, que corresponderão muito prova‑velmente a Zabid, Al Bayda, Bayt al Faqih, Sana’a e Sinnah. «Camaram» é identificável com a ilha já mencionada de Kamaran, à entrada do Mar Vermelho. 218 Era bem conhecida a superioridade dos cavalos árabes, que de resto constituiam uma impor‑tantíssima mercadoria no contexto do comércio oriental. 219 Presuntuosos é um termo espanhol a que corresponde ‘presunçosos’.220 o «rey a que todos obedecem» é Az ‑Zafir Amir II bin Abd al ‑Wahhab (r.1489 ‑1517), último representante da dinastia tahirida do Iémen.221 Adém, de facto, era um dos principais empórios do litoral asiático, pois graças à sua estraté‑gica posição geográfica, na entrada do Mar Vermelho, constituía uma escala obrigatória nas rotas que ligavam a Índia ao Egipto, e daí ao Mediterrâneo.SumaOriental-PDF_imac.indd 64 12/5/17 2:02 PM
  • 65e alguus vivem sobre sy. Judaa e Mequa sam da obidiemcia do Soldam, e dhy pera demtro, nos portos do maãr, hé Adem a chave, nom falamdo da serania pera a terra fyrme.222 Adem estaa ao pee de hu~ua serra, ella casy em chaão, cidade pequena, pero fortisyma, asii de muros, tores, baluartes, como de toda fabrica de casas, de bom‑bardeiras, seteiras, de muitas artelharias e de muita gemte de peleja, que com‑tinoadamemte tem, dela da terra, dela asoldada, afora que a quallquer repique acode imfinidade da [gente] da terra. Tem demtro na cidade fermosa fortaleza, tem capitam que nella estaa asy atabiado como compre, porque de dez annos a este cabo sempre esta receosa de nosas armadas.223 E os mouros todos ajudam esta cidade, que se nom tome, temem como for tomada que cedo sera sua fym, porque ja agora lhe nom fiqua outra cousa. E esta ja ouve fremoso combate e emtrada, se lhe nom acomtecera o desastre de quebrarem as escadas com o peso da gemte que sobia aos muros, e foy famosa cousa seu combate, porque as taees cidades ham mister primeiro o campo tomado,224 e esta esteve em comdiçam de se perder dos mouros. o quall feito d’Adem foy omrrado, posto que se nom tomase.225 A cidade nom ficou muito alegre e os seus cacizes226 semtem sua destruiçam, que sera cedo. Com quem tractã.Tem esta cidade gram trãcto asy com hos do Cairo como com toda a Imdia, e os da Imdia com ella. Tem demtro fermosos mercadores de gramdes fazemdas e muitos estamtes doutros reinos, cidade hé emcomtradiça de mercadores. Esta hé das quoatro [cidades] do mundo que tem gramde trato. Trata demtro no Estreito com Juda, homde emtregua as sumas das especiarias e drogarias, e recebe as sobreditas. Trata com Dalaqua com panos, recebe aljofar.227 Trata com Zeilla e Barbora com panos baixos e em ninharias, e recebe ouro, cavallos, espravos, marfim. Trata com 222 A visão da Ásia adoptada por Tomé Pires é fundamentalmente marítima, exprimindo bem os interesses portugueses na época.223 Este período de dez anos poderá referir ‑se ao tempo que medeia entre a primeira vi‑sita de navios portugueses ao litoral meridional da Arábia e a tentativa de conquista de Adém em 1513.224 Aqui recomeça o texto do ML, p. 58.225 Tomé Pires refere ‑se à fracassada tentativa de conquista de Adém levada a cabo por Afonso de Albuquerque, que teve lugar em Março de 1513. Esta secção da Suma Oriental, assim, teria sido preparada depois dessa data, com base em informações orais.226 Caciz, do árabe kasis, é um homem de religião no mundo islâmico. 227 Aljôfar, o mesmo que pérolas miúdas.SumaOriental-PDF_imac.indd 65 12/5/17 2:02 PM
  • 66Çocotora,228 leva panos, palha de Meca,229 [recebe] aloes çacotrino230 e samgue de dragão.231 Trata com ormuz, traz cavallos e das mercadorias do Cairo, retorna ouro, mamtimentos, triguo e arroz, se o acha, especiaria, aljofar, almizquer,232 seda e quallquer outra drogaria. Trata com Cambaia, traz das mercadorias do Cairo e amfiam, retorna gramdes copias de panos, com que trata nas Arabias e ilhas, e sememtes, matamimgos, comtas de Cambaia, muitas alaquequas233 de todas cores, e o primcipall as espiciarias e drogarias de Malaqua, cravo, maças, noz, samdallo, cubebas,234 aljofar e cousas semelhamtes, etc.|121v| Trato.Traz a Cambaia gram suma de ruiva235 e pasas [de uva], e tambem a ormuz. Trata com ho reino de Guoa, traz todas [as] mercadorias, cavallos, e das suas e do Cairo, he retorna arroz, ferro, açucar, beatilhas,236 ouro em camtidade. Trata com a Imdia do Malabar, homde tinha o primcipall asemto em Calecut, caregava de pimemta, gingivre237 e das cousas de Malaca. Com Bemgala retornava muitas sortes de panos bramcos e das mercadarias de Malaqua. Com Peguu retornava 228 A ilha de Socotorá, a sul do Iémen, onde os portugueses possuíram uma fortaleza entre 1507 e 1511.229 Palha‑de‑meca é o mesmo que esquinanto (Andropogon laniger, Desf.), uma gramínea vulgar em muitas regiões do oriente, que era utilizada em infusões medicinais, como diurético, sudorífico e expectorante.230 original: «caeotrino».231 o sangue de dragão era um corante e um verniz, produzidos a partir da seiva do dragoeiro (Dracaena draco, L.).232 o almíscar é um produto fortemente aromático, segregado nos folículos prepuciais do gato almiscarado (Moschus moschiferus, L.), um ruminante tibetano. Era utilizado em perfumaria, e tam‑bém como analgésico.233 A alaqueca, do árabe, al ‑aqiqa, é uma pedra preciosa, também conhecida como cornalina, à qual se atribuía a propriedade de estancar o sangue.234 o cravo ou cravinho é o botão aromático da flor do craveiro, uma árvore da família das mir‑teáceas (Syzygium aromaticum, [L.] Merrill & Perry) e era usado não só como especiaria, mas também como componente de certos medicamentos. A maça é uma especiaria produzida a partir do arilo car‑nudo da noz moscada, que é a semente da moscadeira (Myristica fragrans, Hout.), originária das ilhas de Banda, ambas utilizadas em culinária e farmácia, em virtude do sabor intenso e das propriedades excitantes. o sândalo branco (Santalum album, L.) é uma preciosa madeira, utilizada sobretudo no fabrico de substâncias odoríferas. A cubeba (Piper cubeba, L.f.) é uma planta aromática cujo fruto é utilizado como condimento e em produtos medicinais.235 A ruiva é uma planta da família das Rubiáceas (Oldelandia umbellata, L.), de onde se extrai um corante vermelho.236 Beatilha, tecido branco de linho ou algodão.237 A pimenta (Piper nigrum, L.), uma das mais importantes especiarias do comércio oriental, utilizada sobretudo como condimento; o gengibre, rizoma de uma planta muito vulgar no oriente (Zingiber officinale, Ros.), utilizado em culinária como condimento e em farmácia como estimulante.SumaOriental-PDF_imac.indd 66 12/5/17 2:02 PM
  • 67lacar,238 beijoy,239 almizquer e pedraria, arroz tambem. De Bemgala, aroz de Siam e as mercadorias de China, que vem polla bãda de odia.240 Desta maneira se fez gramde, prospera, riqua, e soo d’Adem recebe o rey todas suas remdas, porque o all nom hé nada, nom hé duvyda soo a ruiva remder ao rey cem mill cruzados. As mercadarias d’Adem.As mercadarias propias d’Adem sam cavallos, ruiva, aguoa rosada, rosas secas, pasas d’uvas, amfiam. E com os do Cairo faz copias,241 de todas estas partes ssussodi‑tas vem a seu porto e elles vam a todos. Cousa hé pera veer, famosa, riqua, estimada, posto que tenha aguoa pera beber de carreto, recolhe todalas mercadarias, e as que sam pera seu trato necesarias e para se gastarem na terra guardam se. os mercadores estamtes recolhem as espiciarias a maão e mamdam ao Cairo desta maneira: Partem d’Adem a Camaram, de Camaram a Dalaca, de Dalaca as ilhas de Çuaquem, domde podem hir pera todo o Estreito; deste Çuaquem vam a hu~u porto que chamam Loçari da bamda d’Arabia Felix,242 e em tres dias ao Nillo, he em dez ao Cairo, [mas] nom cometem este caminho por causa dos ladroees. Comtinoãdo, despois de serem na ilha de Çuaquem vam a Juda naveguamdo de dia, e muitos se perdem porque ho Estreito he vemtoso, de torvoadas, por causa das terras. E os que vam a Juda descaregam despois de serem em Judaa. No tempo do Jubileu vem a Mequa gramdes cafilas, e naquele tropell vam em companhia, satisfazemdo os principaes da jente, athe o Cairo, caminho de setemta dias.243 Algu~ua vez a levam de Juda ao Toro por mãar, mas poucas vezes, porque Toro nom he o caminho reall para o Cairo, he sam roubados sempre. o rey d’Adem esta sempre na cidade de Çanaa244 que hé na terra firme, homde tem sete ou oito cidades gramdes e de muita gemte. E a mais da mourama deles sam rafadis, seguidores d’Alee,245 e o rey nom ousa ja de os matar 238 Ou seja, o ‘lacre’ ou ‘laca’, uma incrustação resinosa produzida em certas árvores por um insecto asiático (Coccus laca, Kerr). Este produto era utilizado como corante, e também como verniz, no fabrico de mobiliário.239 o benjoim é uma resina aromática, utilizada em perfumaria e farmácia, produzida pelo ben‑joeiro, árvore muito comum em várias regiões asiáticas (Styrax benzoin, Dryand).240 Aiutia (ou Ayutthaya), no Sião.241 Esta frase parece estar incompleta. RM suprimiu a frase.242 De acordo com a anterior referência a «Laçari», este porto, identificável com Koseir (ou al‑‑Qusair), situar ‑se ‑ia na margem egípcia do Mar Vermelho, e não na costa da Península Arábica. Neste último caso, poderia tratar ‑se de uma referência ao porto iemenita de Al Luhayyah.243 A viagem de caravana do Cairo a Meca demorava 35 a 40 dias, pelo que talvez Tomé Pires se refira à jornada de ida e volta.244 A cidade de Sana’a, no Iémen.245 Rafadi, do árabe rafidi, tem o sentido de ‘separatista’. Os ‘seguidores de Ali’ são os adeptos do xiismo, um dos principais partidos dissidentes do Islão, fundado por Ali (600 ‑661), primo de SumaOriental-PDF_imac.indd 67 12/5/17 2:02 PM
  • 68com medo do Xeq’Esmaell, rey dos persas, segidor d’Ale.246 Nesta terra de Çana há muita aguoa rosada e rosas secas que valem n’Abixia, e há nesta cidade as mais fiinas alaquequas que as de Cambaia, e nom som em tanta camtidade. os que d’Adem querem pasar ao Cairo, viandantes, vam a Judaa e de Juda ao Toro, he do Toro a Suez, he em tres dias ao Cairo, e em cimquo mais verdadeira‑memte, a bem amdar a cavallo, que hé deserto. Suez, Toro, Juda.Do Toro nem de Suez nom hé pera falar, porque nom som portos nem povoa‑çoes. Suez hé nomeado de tres ou qoatro annos a esta parte, porque dizem que hé lugar homde se faz armada, nom tem casa nem daly a vimte leguoas, hé cousa herma desabrigada, terra escalvada sem erva. De Suez vimdo ao Toro nom podem se nom de dia he em cousas sotis,247 tem muita pedra e tudo baixo. o Toro nom hé de viimte casas acima, estas sam de christãos,248 dos que acima disse. As povoacoes sam muito metidas na terra d’alarves ladrõees. Vimdo do Toro a Juda hé caminho casy como ho outro, desavemturado, toda aquella terra hé maldita, sem dela ser aproveitada nenhu~ua cousa. Judaa hé porto de Mequa, cousa pequena, de baixos, em todo o Estreito nom tem outra cousa senom Judaa, hé em terra escalvada, agora dizem que sse faz forte com medo, tem gemte de garniçam.249 De Juda pera Adem hé caminho priguoso, mas nom tamto. Despois d’Adem hé Fartaque, as ilhas de Curia Muria250 e a Maseira. Tudo ysto sam alarves, gemte de trato, e boa gemte de peleja. De Fartaque vam muitos por fromteiros a Çacotora e a Zeila e Barbora, estes vivem tambem de trato, mas hé cousa pouca. Do cabo de Roshallhate251 pera demtro hé do senhorio do reino d’ormuz. Sam os fartaquis252 de fremosas espadas e de todo outro genero d’armas, sam homees ousados. Maomé e um dos seus primeiros seguidores, que casou com Fatimah, a filha do Profeta. Ali foi o quarto califa, cargo que desempenhou entre 656 e 661, data da sua morte. os xiitas consideram Ali e os seus descendentes como os legítimos sucessores do califado, enquanto os sunitas ortodoxos, maioritários, defendem que o califa, chefe supremo dos muçulmanos, deve ser escolhido ou eleito,246 Trata ‑se do xá da Pérsia, Ismael I, conhecido nas fontes portuguesas da época como Sofi ou Xeque Ismael.247 Isto é, em embarcações subtis ou ligeiras.248 original: «xstãos».249 os navios portugueses exerceram uma pressão regular sobre as portas do Estreito, ao menos desde 1503, assolando a navegação que cruzava aquelas águas e efectuando repetidas incursões em portos da região. Como consequência, a cidade de Jedá, entre outras, reforçava as suas defesas logo a partir de 1506 ‑1507.250 Ilhas do Mar Arábico, também conhecidas como Khurya Muriya, situadas ao largo da costa do actual oman.251 Leia ‑se ‘Rosalgate’, como aparece no ML, p. 61.252 Habitantes de Fartaque (Ras Fartak).SumaOriental-PDF_imac.indd 68 12/5/17 2:02 PM
  • 69|122r| Arabia Deserta.253Esta terra d’Arabia Deserta pollo estreito de Mequa começa de Judaa athee o Toro, e vay ao maar Mediteranio e devide a terra de Egipto de Judea. Alguns afirmam que Meca hé nesta terra he nom na Petrea. Desta nam há que dizer, tem alarves ladroees, nom tem arvores nem fruitos nem augoa geerallmemte, salvo em lugares dos alarves sabidos. Sam ladroees, nã tem outra vida, gemte maliciosa, fora de rrezam, em cabilas amdam salteamdo omde ho acham. Horm~uz.254Por hordem se nos represemta a polida ilha d’ormuz com todo seu regno e com a copya das ilhas em seu estreito, o quall reino alem de ser riquo e nobre hé a chave dos persas. Comfina com Arabiia Petrea da bamda [do poente], em que tem de seu senhorio cidades, e da bamda de Cambaia com hos naitaques, e da terra fiirme com ha gramde provimcia [da] Persii[a]. Sam debaixo do reino d’ormuz as ylhas de Baharem255 he todas as do estreito d’ormuz, é o rey mouro de carapuça vermelha,256 segidor da seita d’Ale novamemte feito.257 A gemte d’Urmuz hé de peleja, de boãs armãs, de cavallos, sam polidos hom~ees, domesticos. Estemde se este reyno do cabo de Roscallhate258 pera demtro polo Estreito. Tem gemte muita, de casas bem obradas. A cidade d’Urmuz esta em hu~ua ilha casii pegada a terra [da] Persiia, obra de hu~ua leguoa, hé de muros, casas, [a]çoteas, torres, baluartes, em sii muy fresca. É esta 253 A antiga Arabia Deserta englobava as partes setentrional e central da Península Arábica.254 Ormuz, ilha do litoral da Pérsia, no Estreito de Ormuz, importante empório mercantil, que controlava diversas possessões territoriais em ambas as margens do Golfo Arábico ‑Pérsico. Após uma primeira tentativa de conquista em 1507, Afonso de Albuquerque logrou estabelecer um protecto‑rado português sobre o reino ormuzino em 1515, datando desse ano o início da construção da grande fortaleza portuguesa da ilha de ormuz. 255 o arquipélago de Barém (ou Bahrain), que era então uma das dependências do reino de ormuz.256 A ‘carapuça vermelha’, segundo referem Tomé Pires e outros observadores portugueses coetâ‑neos (como Duarte Barbosa, que por volta de 1517 completaria a primeira versão do seu manuscrito Livro das cousas do Oriente), era a divisa do Xeque Ismael e dos seus súbditos. Na realidade, os tur‑bantes vermelhos de doze voltas (kizil ‑bash) eram tradicionalmente usados por algumas tribos tur‑comanas do norte da Pérsia, devotas seguidoras do xiismo, as quais tinham apoiado Ismael no início das suas campanhas militares. Posteriormente, o novo líder safávida faria da carapuça uma das suas divisas. As doze dobras do turbante simbolizavam os doze imames descendentes de Ali.257 o reino de ormuz, no tempo em que Tomé Pires escrevia a Suma Oriental, foi governado por Saif ‑ud ‑din (r.1507 ‑1514) e pelo seu irmão Turan Shah IV (r.1514 ‑1522), soberanos que gravitavam na órbita do xá da Pérsia. A Suma poderia referir ‑se a qualquer um deles. os governantes ormuzinos, dependentes do Xeque Ismael, eram também ‘seguidores de Ali’, isto é, muçulmanos xiitas.258 Leia ‑se ‘Rosalgate’; o ML transcreve «Rosallgate» (p. 62).SumaOriental-PDF_imac.indd 69 12/5/17 2:02 PM
  • 70hu~ua das quoatro [cidades] desta bamda d’Asiia em toda gemtileza, de fremosas molheres alvas. Em trato nom daa vamtagem a sseus vizinhos. Se nas cousas do comer se praticar, nom lhe chegam hos framemguos nem framceses, de fruitos ~e abomdamça, como os nosos. Tem em sy a cidade gemtes de muitas partidas, grosos mercadores, somemte carece d’auga esta ilha. Tem a cidade muitas cisternas e poços, mas aguora da que comtinoadamemte bebem vem da terra firme ~e almadias, emjar‑rada, e vall as vezes cara, segumdo ho tempo; porem, se a da terra firme nom acudise, tem aguoa nom muito boa nem pera tamto povoo. Tem ilhas e jumto comsyguo que tambem tem fermosas aguoas.259 Por rezam do porto se fumdou esta cidade. Comtinoadamemte tem naãos de fora que a ella vem com mercadorias, e ela trata com todos, do quall o rey d’Urmuz hé gramdememte rico dos dereitos d’Urmuz. Hé antigo Hormuz, asy em armas como em trato nestas partes, hé avido em estima, hé cousa muy necesaria seu trato nestas partes. Hé a cidade mui populosa, honrrada, riqua.260 Estreito d’Urmuz.Amtre Arabia Petrea he terra de Persiia vay hu~u estreito de mãar povoado de cada bamda, em que há fermosas povoaçoees, que se chama o estreito d’Urmuz. Nom hé todo navegavell e pola mõor parte quem esta no meio vee a terra de hu~ua das partes e em cabo d’anbas; hé mais demtro navegavell. D’Urmuz navegamdo qoatro dias [ou] cimquo de vemto há muitas ilhas, as primcipaees se chamam de Baharem, omde se pesca o melhor aljofar destas partes, e hé gramde mercadoria ~e ormuz, e em camtidade, jeerallmemte hé mais allvo e redomdo que doutra parte.261Trato d’Urmuz.Trata Hormuz com Adem, Cambaia e com ho reino de Daqu~e e Guoa, he com os portos do reino de Narsymgua.262 E no Malabar a primcipall mercadoria que 259 ormuz abastecia ‑se também de água na vizinha ilha de Queixome (ou Qishm).260 Tomé Pires poderia ter obtido as suas informações sobre ormuz através de uma eventual viagem à cidade, como algumas das suas palavras parecem sugerir. Contudo, a cronologia das suas viagens comprovadas no oriente não abona nesse sentido. É mais provável que tivesse obtido notícias junto de alguns dos muitos portugueses que haviam visitado a ilha. Curiosamente, não se refere à segunda conquista de ormuz por Afonso de Albuquerque, que teve lugar em 1515. Assim, a versão original desta passagem da Suma Oriental seria anterior a tal acontecimento261 Eram justamente famosas as pescarias de pérolas de Barém.262 o reino de Narsinga ou Vijayanagara, tratado mais adiante, noutra secção da Suma Oriental.SumaOriental-PDF_imac.indd 70 12/5/17 2:02 PM
  • 71trãz sam cavallos arabios e parses,263 aljofar, salitre, emxofre, seda, tutia,264 pedra ume que se chama alexamdrina em nosas partes,265 caparrosa,266 aziche,267 sall em camtidade, seda brãqua, muitas tamgas,268 sam moedas de prata de valia de sesemta e cimquo reis a peça, e almizquer, as vezes ambar,269 e muita fruita sequa, triguo, cevada e cousas a estas semelhantes de comer.Retornam pimemta, cravo, canella,270 gemgivre, todo outro genero d’especiariãs he drogarias que se gastam gramdememte na terra da Persya e Arabia, he tambem algu~ua vay [a] Adem quamdo hé muita. Porque ja d’ormuz sae cara, nom creio que daly pase ao Cairo pera vir a Italia.271 Retornam iso mesmo arroz quamto podem, beatilhas, panos bramcos, ferro, fynallmemte que todo seu intemto de seu retorno hé pimenta, arroz e ouro. Tem os cavallos no reino de G~uoa e de Daquem e Narsingua grãde |122v| vallia, pollo quaall cad’ano Hormuz acode a estes reinos com elles. Haa cavallo que vall setecemtos serafiis,272 moedas de iiic e xxte re[i]s cada hu~ua, como sam boos. os melhores sam arabios, segumdos perseanos, terceiros273 de Cambaia; estes valem pouquo, como despois se dira.Persiia.Porque Hormuz hé vizinho a Persiia e ela ser terra firme de que leva primcipio noso recomtamemto, nom me pareceo onesto ficar por falar della. E se larguo falar da Persya, ela ho merece, ao menos por ser a Mafamede contra~ıra.274 263 os cavalos árabes e persas constituíam uma das mais valiosas exportações de ormuz, já que a necessidade destes animais era premente no Hindustão, onde numerosos estados se degladiavam constantemente, ao sabor de alianças e contra ‑alianças conjunturais.264 Tutia, do persa tutiya, o mesmo que óxido de zinco, produto que era utilizado em medica‑mentos e em perfumaria.265 Pedra ‑ume é o mesmo que alúmen, isto é, sulfato de alumínio e potássio, substância que era utilizada no fabrico de têxteis e na preparação de peles.266 Caparosa é um sulfato de cobre, de ferro ou de zinco, que era utilizado como estíptico.267 Azeche, do árabe az ‑zaj, sulfato de ferro ou vitríolo, que era utilizado como estíptico.268 A tanga, do sâncrito tanka, era uma moeda de prata que corria na Índia, com valor de cerca de 60 réis.269 original: «ambra». Trata ‑se do âmbar ‑cinzento, concreção intestinal do cachalote, muito utilizada em perfumaria e farmácia. A sua origem permaneceu envolta em mistério durante muito tempo, uma vez que a substância aparecia geralmente a flutuar nas águas do mar, ou era lançada às praias. Em algumas regiões orientais atribuíam ‑lhe propriedades afrodisíacas270 A canela é a especiaria obtida da parte interna da casca do tronco da caneleira (Cinnamomum verum, J.Presl).271 Tomé Pires mostra ‑se preocupado com o tráfico que eventualmente possa fazer ‑se através do Mar Vermelho com rumo à Europa, já que este entraria em concorrência com a rota do Cabo.272 o xerafim, do persa ashrafi, era uma moeda de ouro que corria no oriente.273 original: «terceiros terceiros».274 A Pérsia seguia nesta época a doutrina xiita, e hostilizava os sunitas, razão pela qual Tomé Pires refere que é contrária a «Mafamede».SumaOriental-PDF_imac.indd 71 12/5/17 2:02 PM
  • 72A gramde provimcia da Persiia nom tem mais no mãar ociãno que ho reino d’Urmuz de sua comfromtaçam; da bamda de Cambaya, a parte [a terra d]os nai‑taques; da banda d’Arabia ho estreito d’Urmuz; pola terra firme [confronta] polas serranias de Delii275 he por Armenia, casy por Babilonia, e por cima de Medea,276 he vem dar na Ydamca.277 Hé devydida esta provimcia em mais de qoremta reinos e regiõoes desta terra, dela habitada e mui boa, e dela hé momtuosa e desabitada. Chama sse esta provimcia asy toda jumta, na lingoagem delles, Agenb,278 e nos dizemos Persya; na linguoagem de qua todos os d’Agenb dizem parses, a que nos chamamos persas ou persyanos. Provimcias da Persiia e cidades.As melhores provimcias ou regnos desta Persiia sam quoatro, scilicet, Coraçoni, Guilani, Tavrini, Xiracy,279 e nestas quoatro provimcias ha iiiiº cidades muito prim‑cipaees, scilicet, Tavris, Xiras, Çamarcante, Coraçane.280 Na regiam de Coraçoni sam os que chamam rumes,281 e nos de Guilam sam deles turqima~ees,282 homees guerreiros e de peleja, gemtes amtr’estas partes estimados, e estes dizem que trazem ho nacimemto de christãaos.283 os de Tavris e Xiras sam como em Framça [os de] Paris, sam domesticos, gemtiis hom~ees, cortesaõs, e sobretudo se louvam as molhe‑res de Xiras de fermosas, alvas, descretas, atabiadas, domde os mouros dizem que Mafamede nunqua quis hir a provimcia de Xiras, porque gostamdo dela, numqua 275 Região de Deli, no norte do Hindustão.276 Babilónia, antiga metrópole da Mesopotâmia; Média, antiga designação da região que se estende para sudoeste e sul do Mar Cáspio.277 Lapso por ‘Índia’, como sugere a lição do ML, que regista «Imdia» (p. 64).278 o termo ajam designa em árabe os não ‑árabes ou estrangeiros. Esta designação para os persas teria sido fornecida por um informador de língua árabe.279 Identificam ‑se as referências às províncias persas de Khorasan e de Gilan; mas «Tavrini» e «Xiracy» parecem ter sido derivadas respectivamente dos nomes das cidades de Tabriz, na província de Azerbaijan, e de Xiraz (ou Shiraz), na província de Fars.280 Referência às cidades persas de Tabriz e Xiraz (ou Shiraz). Samarcanda, na região do Uzbe‑quistão, estava fora do domínio safávida. «Coraçane», que o ML regista como «Coracori» (p. 65), era de facto a região de Coraçone (ou Khorasan), e não uma cidade. Pires poderia querer referir ‑se a Mashhad, principal cidade do Khorasan.281 «Rumes» era uma designação aplicada no oriente, e que os portugueses adoptaram, aos ho‑mens de armas originários da parte meridional dos Balcãs e da Anatólia, territórios então sob domínio otomano. Por vezes, confundia ‑se com a designação ‘turcos’. O termo poderia originalmente derivar do antigo sultanato de Rum, que ocupou largas partes da Anatólia. Mas não seriam decerto originá‑rios do Khorasan, como sugere esta passagem da Suma Oriental.282 os turquimães, ou turcomanos, eram um povo túrquico originário da Ásia Central, que entre outras regiões se haviam fixada em territórios persas.283 original: «xpãaos».SumaOriental-PDF_imac.indd 72 12/5/17 2:02 PM
  • 73fora ao paraiso despois de morto. Ajumta se tambem a estas quatro a provimcia de Media, que qua chamam Midoni, que tem tambem huuã princypall cidade que se chama Susan,284 que tambem hé enexa a Persya aguora.285 Desta cidade em Ester se comtem craramemte sobre Asuero e sua molher Vasti.286 Todas estas provimcias asenhorea o Xequ’Esmaell, que la nas regio~ees detras do vemto chamam Iguoalador ou Çofii.287 E porque se tratou na descriçam d’ormuz que o rey tem a carapuça vermelha que hé o sinall deste Xeque, bem hé que delle se diga domde teve primcipio ele e sua ley. E toda a bamda da Europa se chama qua ‘gemtes detras do vemto’.288 Sam os persyanos homees de cavallo, armados de todas armas de fremosas garnições, d’espadas bem obradas. Sam hom~ees de nosa coor, corpo e feiçam, sem duvida os das carapuças sam hom~es que mais parecem portugueses que doutras partidas. As carapuças sam altas, de doze verdug~uos289 no de ciima, estreitas athee o emcaixam~eto na cabeca, e d’arredor touquas. o Xequ’Esmaell esta a mõor parte do tempo em Tavris, que hé d’Urmuz cinquenta dias d’amdadura ~e camellos. A terra da Persya tem todo ho genero d’alimarias mansas das que há em nosa terra. E a terra de Persiia tem muitas omças, liões [e] tigrers.Sam os persas muito dados a toda deleitaçam, em seus vestidos muito comcer‑tados, de muitos porfumes, umtam se d’aloes, d’imgoemtos cheirosos de valor. Tem muitas molheres, servem se de capados, e vem a ser gramdes senhores os capados que tem carguo das molheres. Sam hom~ees ciossos todollos mouros gerallmemte. E asii geerallmemte os mouros sam putos,290 homde meto os persyanos e os d’ormuz com toda sua gimtileza, e nom ho am por alheo de sua comdiçãm, nem 284 original: «ssusan».285 o ML acrescenta: «Esta cidade hé a em que ho mais do tempo está o Sofi e sua molher» (p. 65); mas o MP refere já de seguida que o Xeque Ismael residia habitualmente em Tabriz. Tomé Pires refere ‑se aqui à antiga cidade persa de Susa ou Susan (nas cercanias da actual cidade de Shush), nas montanhas de Zagros, da qual na sua época apenas sobreviviam ruínas.286 Tomé Pires, indirectamente, revela aqui uma das suas principais fontes livrescas, o Livro de Ester, secção do Antigo Testamento que relata o cativeiro do povo hebreu entre os persas. o nosso autor poderia ter consultado algum exemplar da Vulgata, ou então alguma versão da Historia scholastica de Petrus Comestor (m.c.1179), tratado medieval que reunia em forma divulgativa partes do Antigo e do Novo Testamento, acompanhadas de comentários históricos. 287 Tomé Pires informa que o xá da Pérsia, ou Sufi, como também lhe chamavam os portugue‑ses, era conhecido na Europa como «Jguoalador ou çofij»; mas não avança qualquer explicação para o facto. o seu contemporâneo Duarte Barbosa, no Livro das cousas do Oriente, esclarece melhor a questão, pois, segundo afirma, o Xeque Ismael não só distribuía liberalmente pelos mais pobres todas as riquezas que adquiria, como confiscava bens dos mais ricos para os partilhar pelos necessitados. Ismael seria assim um igualador de riquezas. o Xeque Ismael, de facto, adoptou posições radical‑mente igualitárias nos primórdios da sua carreria política.288 Tomé Pires traduz a expressão malaia bawah angin, ‘debaixo dos ventos’, mas não é perfeita‑mente claro que tal expressão então se aplicasse às regiões europeias.289 A palavra «verduguos» deverá ser entendida como ‘dobras’ ou ‘debruns’.290 Isto é, dados à prática de relações homossexuais.SumaOriental-PDF_imac.indd 73 12/5/17 2:02 PM
  • 74sam por iso castigados, he aimda há lugares publicos homde se exercitam por dinheiro. E os que deste negoceo padecem no auto, sam desbarbados, vestidos a guisa de molheres e asii amdam, e riin sse os mouros de nos quando lhe acrimi‑namos a torpeza deste pecado.291 |123r| Esta terra da Persiia hé a mais amtiga e mais nobre de toda a Asia, houve nela sempre monarchas gramdes senhores. Esta sojuzguou sempre muitas provimcias notorias, sam os que obtiverom este imperio de Nabucadenosor e seu filho Çiro, e Dario, Asuero e os Xersses, e outros.292 Nesta terra293 ouve o gramde Alexamdre seus estendidos vimcimemtos.294 Nom hé asii esterle e momtuosa como alg~uus estoriadores comtam,295 mas avomdosa de todos deleites, d’home~es domes‑ticos em toda cortosiia he vistido, e no feito das armas magnanimos e esfforçados, de fremosos cavallos. Sam momteiros, caçadores de todas [as] aves. E a terra de Xiras hé o amaguo da Persiia, terra296 avomdosa de triguo, vinho, carnes, fruitos, e nom carece de nozes, castanhas, figuos pasados, como nosa terra propiia. Nacimemto da seita do Sofii.Em o tempo de Mafamede, mouro arabio, teve por jemrro Ale, que era seu sobrinho he casado com sua ffilha Fatema.297 Avia na companhia de Mafamede quoatro companheiros: a hu~u deziam otuman, e outro Bulbucar, e outro Hamar, 291 Esta passagem da Suma Oriental parece denotar um convívio íntimo do seu autor com gente persa. Caso Tomé Pires não tivesse visitado ormuz, poderia certamente ter convivido na Índia com mercadores ou enviados persas, ou com portugueses que haviam visitado as terrras do Xeque Ismael.292 Tomé Pires refere ‑se aqui a Nabucodonosor II, imperador da Babilónia (r.604 ‑562 AEC), e aos antigos soberanos persas Ciro (r.559 ‑529 AEC), Dario I (r.521 ‑486 AEC) e Xerxes I (r.486 ‑465). Quanto a «asuero», é o nome hebraico de Xerxes I.293 original: «tera».294 Alexandre III da Macedónia (r.356 ‑323 AEC) ficou célebre pelas suas campanhas militares, através das quais construiu um imenso império, que se estendia da Grécia até às regiões indianas do Guzerate. A sua vida serviu de inspiração a diversas obras que circularam intensamente na Europa nos séculos xv e xvi. 295 o autor da Suma Oriental refere ‑se aos «estoriadores» que teria compulsado para se informar sobre a antiga Pérsia. Poderia estar a referir ‑se à colectânea Marco Paulo, publicada em Lisboa em 1502, pelo impressor Valentim Fernandes, e que incluía entre outros textos o relato atribuído a Marco Polo; ou então ao Itinerario Ludovico de Varthema, viajante italiano que alegadamente teria visitado a Pérsia nos primeiros anos do século xvi, e que publicou o relato das suas andanças orientais em Roma, em 1510. No entanto, apesar desta explícita referência intertextual, a Suma não parece revelar grandes influências de autores anteriores, apresentando ‑se antes como um relato inovador, baseado essencialmente em notícias de primeira mão, ou de segunda mão, mas colhidas nos portos da Índia ou em Malaca.296 original: «tera».297 Ali não era «sobrinho» de Maomé, mas sim primo e genro, e casou de facto com Fatimah, filha do Profeta do Islão.SumaOriental-PDF_imac.indd 74 12/5/17 2:02 PM
  • 75e outro Hacabar;298 estes forom ajudadores do Alcoram.299 Depois de morto o Mafamede, emlegerõ por capitam a Bulbucar, por mais velho. o Ale nom sofreo de boa vomtade a tal emleiçã, mostrava pertemcer lhe a sii por sobrinho como por jemrro, ficou de fora ha obidiemcia do Bulbucar. E este morto, e otuman foy primcipall, e asii todos, e despois ho Alee. Estes todos quoatro forom christãaos,300 segumdo dizem, e todos estam emterrados em Al Medina,301 luguar em Arabia distamte de Meca por tres jornadas em desertos. Destes quoatro que forom despois de Mafamede sairom quoatro maneiras de mouros, hu~us se chama[m] xafii, malaqui, anafii, hambari.302 Cada hum discri‑pava da propia temçam de Mafamede como morreo, e queria tambem atrebuir a sii esprito de profecia falsa, como ho Mafamede. Dõde oje em dia hé nesta parte, athee o pressente, estas quatro maneiras de mouros, distantes em cousas dos huus aos outros no modo do creer.Ho Ale, quamdo lhe veio a vez do governar, começou tambem a fazer se pro‑feta, he maior que os pasados, e fez hu~u livro em que diziia maall de seu sogro e dos companheiros,303 afirmamdo a sy melhor espirito de profecia que aos outros, e apomtamdo cousas que desfazia nelles. He mamdou que dhii por diamte em sua oraçam nomeasem Ale e nam Mafamede, dizendo que por sua lamça ganhara muita terra, e que os doze signos do c~eeo eram com elle, he jumtos em seu nacimemto o fezeram cavaleiro e gramde profeta, e que nom qeria que nenhu~u mouro creese o que seu sogro disera, que metera o soll na mamga, e cousas que desfazem [a] autoridade de Mafamede, que os mouros sabem. Domde sairom loguo hos segui‑dores d’Alee que se chamam zeidis e rafadis,304 sam mouros que gardam a opyniam d’Ale, e dos rafadiis hé o Xequ’Esmaell. Despois de morto ho Ale, por ser forte em sua guovernamça, algu~uus dos seus se mudarom ao parecer de Mafamede e outros teverom o d’Alle. Vierom a crecer 298 os quatro primeiros califas, dirigentes supremos dos muçulmanos, todos eles companheiros de Maomé, foram sucessivamente Abu Bakr (r.632 ‑634), omar (r.634 ‑644), otman (r.644 ‑656) e Ali (r.656 ‑661). o outro nome, «hacabar», parece ser erro de interpretação, já que nenhum persona‑gem histórico lhe parece corresponder; poderia tratar ‑se do elativo árabe akbar, ‘o maior’.299 Alcorão, o livro sagrado da religião islâmica.300 original: «xpãaos». os quatro primeiros califas, na realidade, não eram cristãos, ao contrário do que afirma Tomé Pires.301 A cidade de Medina, anteriormente referenciada.302 Tomé Pires refere ‑se às quatro grandes escolas jurídicas do Islão, os xafiitas, os maliquitas, os hanifitas e os hanbalitas, que se desenvolveram entre os séculos viii e ix, a partir dos ensinamentos de quatro juristas célebres, Xafi’i (m.820), Malik ben Anas (m.795), Abu Hanifa (m.767) e Ahmed Ibn Hanbal (m.855).303 A tradição islâmica inclui uma obra que reune as sentenças de Ali, colecção de adágios e de versos que correm em seu nome.304 Zaide, do árabe zaid, ‘excelente’, é umas das designações dos muçulmanos xiitas persas, segui‑dores de Ali, enquanto rafadi, já referido, deriva do árabe rafidi, com o sentido de ‘separatista’.SumaOriental-PDF_imac.indd 75 12/5/17 2:02 PM
  • 76tamto os de Mafamede que pronunciarom leis que todo o que fose seguidor d’Ale morresse, dizemdo que nom fora profeta nem samto, mas que fora bom cavaleiro em seu tempo. Domde se recreceo daquelle tempo athee aguora [que] muitos mouros segidores d’Ale morresem por justiça nas terras dos mouros por ireges, de maneira que [a]os seguidor~es d’Ale os ouverom por fora da ley e nam vam a Mequa. E porem comquamto eram ponidos por Ale, antre os mouros sempre ouve muita gemte destes secreta, athee o tempo deste Xeq’Esmaell. Nacimemto do Xeque Ismaell ou Çofii.Ho Xequ’Esmaell hé naturall persiano da região de Xiras,305 fidalguo de naçam desse gramde xeas,306 hom~es que desprezam ho mundo he vivem solitariamemte, porque mamtem pobreza. Foy o pay deste Xeque homem amtre os mouros avido por hom~e de boa vida, e que decemdia da casta d’Ale, he teve tres filhos, o Xequ’Esmaell hé o do meio, he todos sam vivos.307 Soia o pay do Xeque Esmaell falar muitas vezes com elrey de Xiras,308 he eram amigos, falavam muitas vezes, praticamdo, de maneira que o rey de Xiras se escamdalizou do xeque e o matou. Algu~us dizem que ho xeque amoestou a elrei de Xiras que se emformase das cousas d’Ale e que sseguise seu parecer, outros dizem que ouverom desputa e que o rey de Xiras favorecia Mafamede e o xeque favorecia Alee. De maneira que o xeque foy alii morto. E o xeque morto, dizem que tinha estes filhos de huuã molher christaa309 armenia, molher de boõs paremtes, e que ha tiinha comvertida a opiniam d’Ale. E despois de morto o pay do Xeque Ismaell, esteve o Xeque Ismaell com sua may e com hu~u seu tiio christãoo310 armenio cinquo annos.311 305 Ismael, de facto, era natural de Ardabil. Nesta secção, Tomé Pires utiliza erroneamente o to‑pónimo «Xiras», que se refere à cidade persa de Shiraz, em vez de Shirvan, designação de uma região e potentado do Cáucaso, na margem ocidental do Mar Cáspio.306 Xiá, do árabe xi’ah, ‘partido, seita’, é outra das designações atribuídas aos muçulmanos xiitas.307 o «Xequesmael» de Tomé Pires é Ismael, fundador da dinastia safávida, o qual reinou na Pérsia entre 1502 e 1524. Ismael era o filho mais novo de Haidar, xeque de Ardabil, no Azerbeijão, um dos representantes de uma família de derviches que alegavam descender do Imame Musa Kazim, um dos descendentes directos de Ali. Na realidade, seriam antes de origem curda. Ismael, com o apoio de tribos turcomanas da Anatólia e de Gilan, conquistou Tabriz em 1501, assumindo desde então o título de xá da Pérsia. Em anos seguintes foi alcançando hegemonia sobre muitas regiões iranianas, suplantando pequenos potentados locais e forjando um vasto império308 o rei de «Xiras» é na verdade Farrukh Yassar I (r.1465 ‑1500), soberano do Shirvan.309 original: «xstaa».310 original: «xtãoo».311 Tomé Pires refere ‑se de um modo confuso às campanhas desencadeadas pelo Xeque Haidar e pelos seus partidários em favor da difusão do xiismo entre a confederação de tribos turcomanas Ak Koyunlu, que dominavam as regiões setentrionais da Pérsia, tradicionalmente de confissão sunita. o Xeque Haidar foi morto pelos seus opositores no campo de batalha. Quanto à mãe do Xeque SumaOriental-PDF_imac.indd 76 12/5/17 2:02 PM
  • 77|123v| Morto ho pay, nom hé duvida o filho estar em casa de sua may da ydade de dez annõs, de que era quamdo matarom ho pay, e esteve athee xb. Como o moço foy de xb [anos], seguio ha companhia dos christãaos312 sseus paremtes, com os quaes esteve seis annos. os christaos313 lhe davam de comer e o emssinavam, tomou delles o que lhe bem pareceo, he sempre lhe foy obidiemte. De maneira que foy o moço crecemdo em vomdade e discriçam, que com comse‑lho dos paremtes christaõs314 mandou hu~ua carta a ellrey de Xiras, que lhe dese de comer pois lhe matara seu pay. Foy respomdido com hu~u cajado he huuas comtas, por modo de zombaria, que aquillo lhe pertemcia pois era xeque, hom~e pobre.315 Ho moço imdinado, com hos paremtes imsiinado em nosa fee, foi se a hum rey jumto com Xiras, que ho ajudase comtra elle, pois o rey era seu imiguo, e que lhe emprestase algu~u dinheiro, e com outro que lhe davã seus paremtes queria matar ellrey de Xiras. Foy ajudado, e por sua industria ajumtou dous mill hom~es, e faziia saltos pola terra, despois roubava. Detreminou comtra vomtade dos que traziia comsyguo hu~ua sesta feira emtrãr de dia na cidade. Emtrou he dizem que matou sessemta mill hom~ees e ouve a cidade a mãao e a roubou, e que sse pos em trimta mill de peleja, com os quaees fez a guerra sete annos ou oyto, que tem toda a provimcia da Persiia com todollos regnos por sy. os dous mill omes que ajuntou o Xequ’Esmaell, iiic eram de cavallo, dos quaees duzemtos eram christaos316 armenios, paremtes da may do Xeque, os cento eram paremtes do pay, a gemte de pee era destes. o dinheiro que tinha era pera mamtimento. E nom teve mais gemte no primcipio de seu cometimento, e agora nõ tem numero sua gemte, quamdo emtrou na cidade de Xiras tinha oitemta mill combatemtes, levava seis mill de cavallo.317 Todas as cousas que faz hé por comselho destes christaõos,318 segumdo dizem nom derriba casa de christãos,319 nem mata n~ehu~u christão.320 Dizem que trara comsiguo dez mill homes, christaãos321 armenios e doutras naçõees, com os quaes Ismael, não era cristã, ao contrário do que afirma a Suma Oriental, mas sim uma princesa turcomana, da família dos Ak Koyunlu, precisamente.312 original: «xpãaos».313 original: «xstaos».314 original: «xstaõs».315 Tomé Pires confunde várias histórias. Por volta de 1510, o chefe uzbeque Shaibani, um dos mais ferrenhos opositores do Xeque Ismael, enviou ‑lhe o bordão e a malga típicas dos derviches, ale‑gadamente para lhe lembrar as suas origens humildes, de filho de um religioso mendicante. 316 original: «xstaos».317 As referências à ascensão do Xeque Ismael são algo confusas, reflectindo decerto informações recolhidas por portugueses que haviam visitado a Pérsia antes de 1515.318 original: «xstaõos».319 original: «xstãos».320 original: «xstão».321 original: «xpaãos».SumaOriental-PDF_imac.indd 77 12/5/17 2:02 PM
  • 78comete as cousas gramdes, he todollos rex se lhes dam e obedecem. As igrejas nosas reforma, destrui toda casa de mouros que seguem a Mafamede, a nenhu~u judeu nom daa vida honde ho acha. Tem guerra com ho Soldam e com gemtes de Turquia, vai se fazemdo gramde.322 Aos reis mamda a carapuça vermelha, se a tomam sam amiguos, se nam ficam capitaes imiguos.Este Xeque sera homem de xxxta athee xxxii annõs,323 esta d’asemto a moõr parte em Tavris,324 hé pequeno de corpo, de fortes membros, traz a carapuça elle mesmo. Amtigamente os mouros seguidores desta seita nom traziam carapuças, este as mamda trazer. Algu~us dizem que secretamemte se emtemdem os doze debru~us pollos xii apostollos,325 mas o mais certo que ele pubrica muitas vezes que louva Ale por profeta mayor que todos, e que hos synos326 do ceeo ho serviam, que por iso traz doze debru~us, he que há de ser vermelha, em synall que o que a nom quiser tomar, do propio samgue seu se lhe há de fazer sua carapuça vermelha. Dizem que hé om~e gracioso, liberall, he todo mouro de Mafamede se sabe que bebe vinho mamda matar, e aos das carapuças lhe da licemça, ~e tamto que em toda a Persya ja nom há hom~e que nom seja de sua seita. Hos omrrados trazem carapuças, os pobres se nom tem por homde nom ha trazem, porem todos seguem Alee. Dizem que hé cavaleiro de sua pesoa, tem ja filhos, tem muitas molheres. Nas terras dos mouros, scilicet, na do Soldam e do rey d’Adem, se alevamtam muytos nesta seita, e nom hos ousam a matar, e cada dia se tornam pera a bamda d’Ale muitos dos de Mafamede. Tem ja muita gemte dos mouros da Suria327 comvertidos a seita d’Ale, he alevamtam se capitaees se~us cada dia na opiniom d’Alle, pollo qual os mouros ho tem a maao synall. Ho Xeque hé mouro circuncidado, seguidor d’Ale, posto que muitos mouros dizem que hé christão.328 Este mamda aos rex mouros letrados seus desputar a seita d’Ale comtra a opiniam de Mafamede. E os embaixadores que 322 o sultão otomano Selim I (r.1512 ‑1520) infligiu uma pesada derrota ao Xeque Ismael na bata‑lha de Chaldiran, no Azerbeijão, em meados de 1514. Tomé Pires não menciona esses acontecimentos, o que sugere que as informações de que dispunha sobre a Pérsia teriam sido obtidas antes dessa data.323 o Xeque Ismael nasceu em 1487, o que dataria estas informações de cerca de 1516 ‑1518. Esta datação, porém, de modo algum pode ser considerada rigorosa, uma vez que se baseia num juízo subjectivo sobre a idade do soberano persa. Repare ‑se, entretanto, que Tomé Pires descreve o aspecto físico do Xeque Ismael com grande pormenor, o que sugere que teria recebido notícias de alguma testemunha presencial. As suas informações poderiam ter sido fornecidas, directa ou indirectamente, por Miguel Ferreira, o primeiro embaixador português a avistar ‑se com o soberano persa em Tabriz, em 1514, e que regressou à Índia no ano seguinte.324 A maior cidade iraniana era então Tabriz, onde os Ak Koyunlu tinham a sua capital. o Xeque Ismael conquistou ‑a em 1501, ali estabelecendo o centro das suas actividades.325 os «xii apostollos», que Tomé Pires parece associar à tradição cristã, eram na realidade os doze imames do Islão, descendentes directos de Ali, e fundadores históricos do xiismo. O imã ou imame, para os xiitas, é o chefe espiritual supremo.326 Leia ‑se ‘signos’.327 Suria, o mesmo que Síria, região do Próximo Oriente.328 original: «xstão».SumaOriental-PDF_imac.indd 78 12/5/17 2:02 PM
  • 79este Xeque mamda vem autorizados de muitos de cavallo, bem vestidos, homees de feiçom, d’azemalas, baixelas de prata e d’ouro, nos quaees se vee a gramdeza do Xeque. A todolos rex mouros mamda dadivas, presemtes, letrados, pera que syguam sua ley. Diz que nom há de repousar athee ~e seu t~epo nom fazer todollos mouros da bamda d’Ale, e despois sera o que ele sabe deve ser.329 Esta a mourama [agastada] com este novo Xeque, e muito mais agastada com o poder de Vosa Alteza. [Trato da Pérsia.]|124r| Há nesta terra de Persya gram suma de mercadores, e a terra hé em sy de gramde trato, porque tem trato desd’o Cairo330 coremdo a terra athee os armenios, em que se comtem muitas provimcias mui nobres e riquas. E da Turquia pola Suria vem gramde trato a Persiia. Tem a terra de Xiria331 e outras muita seda, de que se fazem ricos pannos, e muitas sortes de chamalotes de cores, fiinos he muito boos; tem tutia em gramde camtidade, muita pedra ume, caparrosa e alcofoll,332 que os mouros usam; tem muitos cavallos, muitos mamtimemtos; tem muitas torquesas que nacem em a terra de Xiras; tem muita cera, mell, mamteiga, todas estas sam naturaes da terra. Pola bamda de Deli, por tras [d]a serra, parece vi~ır por vya de Siam, de reino em reino, almiizquer, ruibarbo, aguilla ou lenho aloees de boti‑qua, camfora.333 Todas estas cousas e outras mais vem todas a Hormuz: tapetes gramdes, alcatifas, panos de laa muitos de muitas cor~es, chapeos, barretes hà sua guisa, armarias sem numero bem garnidas. Retornam gram suma de espiciarias e draguorias,334 primcipallmemte pimemta, que se gasta muita na Persiia, porque sam hom~ees de potagees, mais que alema~ees, que hé amtr’eles gramde mercadoria, que ha espalham por seus comarquãaos. Compram alljofar, arroz, panos brancos, beatilhas, beijoy, e cousas a estas semelhamtes. 329 Esta frase termina no ML de forma distinta: «e tem que será fazer se cristão, como dizem que escondido he» (p. 74).330 original: «cauo».331 O ML regista: «Tem ha terra riqueza» (p. 67). Trata ‑se de lapso por ‘Xiraz’, uma das grandes cidades persas, e que de seguida é referida.332 Alcofol é um pó de antimónio, que era usado sobretudo como cosmético e corante.333 o ruibarbo (Rheum officinale, Baillon) é uma planta rizomatosa, com vastas aplicações me‑dicinais, espontânea em muitas regiões asiáticas; a infusão das raízes era utilizada em todo o oriente como purgativo. o lenho ‑aloés, também conhecido por águila, garo, calambuco ou calambá, é uma madeira odorífera oriunda da Ásia do Sudeste (Aquilaria Agallocha, Roxb.), utilizada como incenso e como estimulante. Quanto à cânfora, comerciavam ‑se no oriente duas variedades distintas: a cânfora chinesa (Laurus camphora, L.), ou cânfora ‘de botica’, goma cristalizada da canforeira, era utilizada como cicatrizante, e também como anti ‑inflamatório; a cânfora do Bornéu (Dryobalanops aromatica, Gärtn.), mais valiosa, era comestível, sendo utilizada como somnífero ou como estimulante, conforme as doses. 334 Leia ‑se ‘drogarias’.SumaOriental-PDF_imac.indd 79 12/5/17 2:02 PM
  • 80Esta terra da Persia com todas suas regiõees estam antre dous riios, scilicet, Tigris he Eufrates. Alguus afirmam que estes dous rios nom vem ter ao mar oceano, mas que na Persia fazem seus termos e que emtram no Syno Persico.335 [T]em hu~u maar ou laguo gramde d’aguoa salgada navegavell que há na Persya, cercado todo de terra de fremosas abitaçõees na provimcia de Guilam, e[m] que navegam barcaças, e que sera de traveça vimte leguoas, em a qual há tormemtas e muito pescado, que salgado se reparte pola Persiia homde pode hir, e o outro sequo. outros dizem ser moor este mãr, mas eu me certefiquey por muitos he me dixerom ser esta a medida, a quall me parece ser gramde. Ysto hé arredado muito d’ormuz, por mais de dous meses d’amdadura ~e camellos.outros dizem que o Tigris vem pola Syria e vem acabar casii jumto com ho mar do estreito d’Urmuz, obra de xii leguoas, e que vem ja pequeno, porque se espalha en braços. Core violemtamemte e hé estreito nom navegavell, em lugares se pasa a pee, eem outros em madeiros e barquas a sua guisa. Ha seta em parse chama se tir, e pola ligeireza do riio se chama Tigris.336 o Eufrates tem o nacimemto na Armenia, e dizem que vem sair ao mãar ociano, e que devide os naitaques dos resputes, e os de Cambaia chamam a este riio Frataa,337 he que vem pollo estremo da Persia, e que por homde vem este nom hé a terra muito aproveitada. Hé gramde riio, nom vem tam ligeiro como o Tigris, este hé demtro navegavell de barcas sotias, que navegam os destas partes por homde corre. Deixada a Persia, caminhamdo pera a Imdia polo mar ociano, emtramos na terra dos naitaques. Naitaq~ues.338Sam os naitaques vizinhos de hu~ua bamda com hos persas e da bamda de Cam‑baia com os resputes, e da [banda da] terra firme [tem] terra momtuosa da provim‑335 o Tigre e o Eufrates, de facto, desaguam no Golfo Arábico ‑Pérsico, junto ao Shatt al’Arab. o MP parece acrescentar logo de seguida que estes rios terminam num «maar ou laguo gramde d’aguoa salgada», que existiria no interior da Pérsia. Trata ‑se de uma referência ao Mar Cáspio. Esta afirmação incongruente, que coloca a foz dos dois rios simultaneamente no Golfo Arábico ‑Pérsico e no Mar Cás‑pio, poderia reflectir algumas das confusas noções de hidrografia asiática partilhadas pelos portugueses na época. Mas a aparente contradição ficaria resolvida se esta passagem fosse dividida em duas partes distintas, como aqui se propõe: uma, que se refere aos rios Tigre e Eufrates; a outra, que descreve o Mar Cáspio. A parte relativa ao «maar ou laguo», assim, seria totalmente independente da parte referente aos «dous riios», sendo a junção de ambas da responsabilidade do copista, e não de Tomé Pires.336 o nome do rio Tigre, de facto, parece derivar de tighri, termo avestan para ‘seta’. É também conhecido em árabe como Dijlah.337 o Eufrates, que nasce na parte leste da actual Turquia, é conhecido em árabe como al ‑Furat e em turco como Firat, de onde derivariam outras designações correntes em diversas regiões orientais.338 o termo nautaques, em sentido restrito, designava a tribo dos Nodhaki, do grupo étnico dos baluches, habitantes do Baloquistão, actual província do Paquistão. os nautaques controlavam uma SumaOriental-PDF_imac.indd 80 12/5/17 2:02 PM
  • 81cia de Delii, e da outra tem o mar ociano. Sam estes naitaques gemtios,339 nom ha amtr’elles mouros. Hé muita gemte, hé gramde terra, estemden se pola terra demtro. Nom tem rey, vivem em cabilas, nunca n~ehu~u destes recebeo o nome de Mafamede, tem lingoagem sobre sy.340 Nom tem cidades, tem povoaçoes em serras [e] momtes, e este riio os faz muito fortes, porque alagua a terrã chaa.341 Hé a terra em sii de muitos mamtimentos, triguo, cevada, fruitos. Estes a mor parte delles sam cosairos, trazem barcas sotis, sam frecheiros, athee duzemtos saem ao mãr e roubam quamdo acham tempo. E alguuas vezes chegam athee ormuz e emtrã dentro no Estreito a fazer salto, e disto vivem. os taees trazem arcos, espadas, lanças, e nam som homes muito domesticos. Muitas vezes com tempo vam ancorar hà foz deste riio, he hé emseada com restimguas e pedra. os naitaques apanham quallquer nao que alii vem, alguuas vezes, e as mais vãao ao reino de Cambaya, a seus portos, e se acham furtam por homde podem. Nom tem~e n~ıgu~e n~e tem acolheitas342 de rrios ~e suas terras, e sam muitos nestas partes. Sam conhecidos por hom~ees desta maneira. |124v| os que na terra estam semeamdo e lavramdo tem muitos cavallos e muitas eguoas, em que amdam como alarves tambem furtamdo por homde acham. Tem estes paz e amizade com os resputes, e cousa de mouros nom lhe perdoã, e de quallquer outra gemte. Tem muita afynidade hos naitaqes he resputes, he vivemdo antre mouros cercados de suas terras tamtos tempos, nunqua hos poderom sojugar. Sam valemtes hom~ees, salteadores. A terra dos naitaques hé mor e [de] mais gemte que [a terra d]os resputes, peroo os resputes hé gemte melhor, como se dira adiamte ~e seu lugar. Resputes.343Hos resputes da bamda da Persiia tem344 os naitaques e da de Cambaya a mesma Cambaya; da terra firme [tem a] terra de Dely e da outra o mar oceano. Som estes resputes gemtios, sem aver amtre elles mouros. Nom tem rey, tem senhor parte da região costeira que se estendia entre ormuz e o cabo Jasque (ou Jask), e as fontes portuguesas quinhentistas referem ‑se amiúde às suas actividades marítimas depredatórias. Tomé Pires usa por vezes o mesmo termo como topónimo.339 O termo ‘gentio’ é utilizado pelos escritores portugueses da época como sinónimo de ‘idólatra’ ou ‘pagão’, para designar todos aqueles que não são judeus, cristãos ou muçulmanos.340 Trata ‑se da língua baluchi, do grupo iraniano.341 Tomé Pires quereria referir ‑se ao rio Tigre, situando ‑o de forma algo errónea. Trata ‑se, na realidade, do rio Dasht, que atravessa a região de Makran e desagua em Gwatar.342 Acolheita é o mesmo que asilo ou refúgio.343 os reisbutos — ou rajputes, do sânscrito rajaputra, ‘filhos de rei’ — eram uma confederação de tribos hindus, mais ou menos autónomas, que habitavam a região interior do actual estado indiano de Rajasthan. Tomé Pires usa o mesmo termo ora como topónimo, ora como etnónimo.344 original: «sae». SumaOriental-PDF_imac.indd 81 12/5/17 2:02 PM
  • 82a que obedecem. Tem a terra destes fortalezas fortes e lugares fortes. Sam valemtes homees, cavaleiros, tem muitos cavallos, e pola moõr parte tem eguoas em que pelejam. A terra destes hé abastada e muito boa, de muitos mamtimentos, e apro‑veitada e forte ~e sy, e nom hé muita a terra, porque lha tem tomada. Hé melhor gemte esta de gueerra que seus vizinhos. Comtinoadamemte tem guerra com ellrey de Cambaya, muitas vezes lhe fazem dapno e o poem em desbarato, porque sam estuciossos, sabedores, e com pouca gemte nam somemte se ssostem, mas aimda dam comtinoadamemte fadiga aos cambaesses. Nom som posamtes pera em campo poder~e em azees345 pellejar com Cambaia, mas seu emtemto hé rebates [e] cavallga‑das, fazem presas, cativan se hu~us aos outros. Sam estes resputes homees destros na guerra, robustos, gramdes frecheiros. Tem estes tanbem saida ao maar em que tem navios de remo, e fazem presas por homde acham, asii como os naitaques, mas seu poder todo hé na terra. Algu~us afirmam que destes resputes e naitaques eram os que tinham aceso as amazonas,346 que de huua parte da terra firme comfinam com estes e com Cambaia, como se dira na descriçam de Cambaia. Pola bamda de Delii a terra destes estemde se na terra firme por gramdes serranias. Ja esta regiam teve rey e pouco há que o matarom,347 he nom se fez despois outro. Tem este reino fermosas cidades de Ara, Crodi, Vamistra, Argengii.348 o capitam primcipall de todo este reino chama se Pimpall Varaa, e huua irmãa deste que se chama Bibi Rane hé casada com ho rey de Cam‑baya, que lha deu o pai por partido amtes que morrese, e dizem que hé fremosa.349 |125r| Regno de Cambaia.350o nobre reino de Cambaia comfina de hu~ua bamda da parte da Persiia com a regiam dos resputes e da bamda da Imdia segunda com ho gramde reino de Daquem, da terra firme com ho reino de Delii e da bamda do [meio dia] com ho 345 Azes, o mesmo que esquadrões, soldados organizados em formatura de combate.346 Curiosa referência às míticas amazonas, que são adiante referidas, na descrição de Mandao.347 Tomé Pires poderá estar a referir ‑se a Rana Raimal, que entre 1473 e 1509 dirigiu a confe‑deração dos reisbutos.348 Os dois primeiros topónimos poder ‑se ‑ão identificar com Herat, no Afeganistão, e Kotri, no Paquistão. «Vamistra» e «Argengii» são de identificação mais problemática, podendo respectivamente corresponder a Girnar, no Guzerate, e a Zargun Shahr, no Afeganistão.349 Entre 1509 e 1527 a confederação dos reisbutos foi dirigida a partir de Mewar por Rana Sanga, que adquirira um enorme poderio durante a decadência do sultanato de Deli. Este nome não parece corresponder a «Pimpall Varaa». Quanto a «Bibi Rane», parece ser um nome composto a partir de bibi, termo hindustani ‑persa para ‘senhora’, e rane, termo hindustani que designa a consorte de um rajá. Poderia eventualmente tratar ‑se de Rani Sipri, esposa do sultão Mahmud Begarha do Guzerate.350 o reino de Cambaia corresponde ao sultanato de Guzerate. SumaOriental-PDF_imac.indd 82 12/5/17 2:02 PM
  • 83mar oceano. Aparta se este reino com o de Daquem amtre Maymi e Chaull.351 Hé o reino em sii gramde, muito abastado de todo genero do triguo, cevadas, milho, legumes, fruitos, e de muitos cavallos, alifamtes, aves de caça, e outras muitas em gayolas de diversas feiço~ees e prezadas. Terra muito abytada, de fermosas cidades no maar e na terra firme, e de gramdes povoações. Sam cavaleiros, tem muita artelharia e todo eixercicio de guerra, tem muitos cavallos acubertados, armas de suas pessoas fremosas, asy de laminas como de malha, lamças de fremosos ferros compridas, espadas, adarguãs, bem guarnido tudo. Hé gramde ho povoo, tem muita jemte d’armas;352 jemte de guerra de fora tem maçaris, arabios, turquimaes, rumes, persianos, convem saber, guilanes [e] coraçones,353 abix~ıis, toda gemte limpa, com que comtinoadamemte peleja com os reinos comarcãaos com que tem guerra. Amtr’estas nações há muitos christãaos354 arrenegados. Cidades no mar e na terra.As primcipãees cidades que tem no mãr hé Çurrate, Ranei, Dio, Cambaia. Tem outros portos de povoaçoees, scilicet, Maymi, Damanã, Patan, Guogua.355 Diu he Guoga he Mami ou May sam da guovernamça de Melequiaz, mouro persiano, guilani de naçam. Damana, Çurrate, Ranei sam da jurdiçam de Dasturcan, mouro naturall de Cambaia, fidalguo na terra. Patan hé da guover‑namça do filho do rey de Cambaia, que sse chama Soltan Xaquendar. A cidade de Cambaia hé da jurdiçam de Seydebiaa, pessoa primcipall, mouro da terra, homem fidalguo de preço amtre eles.356 As cidades primcipaes da terra firme hé Champanell e Medadaue, Varodrra, Baruez;357 tem estas cidades gramdes 351 Mahim, cidade do litoral indiano, situada um pouco a norte de Bombaim, e Chaul, um pouco a sul de Bombaim, hoje em ruínas.352 original: «Dalmãs».353 Persas originários respectivamente das regiões de Gilan e de Khorasan.354 original: «xstãaos».355 Portos do antigo reino de Cambaia: Surate; Rander, fronteiro a Surate; Diu, onde os por‑tugueses mais tarde construiriam uma fortaleza; Cambaia (ou Khambhat); Mahim; Damão; Patan, também conhecido como Somnath; Goga.356 Tomé Pires identifica com bastante rigor os principais governantes de Cambaia no seu tempo. Malik Aiyaz era o governador muçulmano da cidade de Diu, tendo ‑se oposto tenazmente à ocupação portuguesa da praça, até à sua morte, que ocorreu em 1522. Dastur Khan era governador da praça cam‑baiesa de Surate. «Xaquendar», por seu lado, parece poder identificar ‑se com Bahadur, filho e herdeiro de Muzaffar II, sultão de Cambaia, embora o nome seja uma transcrição exacta de Sikandar. Quanto a «Seydebiaa» (ou «Sid Abra», como lhe chama o ML, p. 78), nada se consegue apurar, mas seria uma transcrição aproximada do nome de algum importante personagem, talvez chamado Seid Abra.357 Referências às antigas cidades de Cambaia: Champaner, hoje desaparecida; Ahmadabad («Medadaue»); Baroda; e Baroche, actualmente conhecida como Broach.SumaOriental-PDF_imac.indd 83 12/5/17 2:02 PM
  • 84vazeris358 ou capitãees, homees com qu~e se governa todo ho regno. Este Meliquiaz foy homem de pee, frecheiro, foi lhe dada ha governamça da bamda de Dio, por ser a menos cousa de Cambaia e casy matos, ante[s] do noso descobrimemto das Indias. E porque os portos de Daqu~e andavam sempre sopeados, se fez Dio gramde com nosa amizade, aguora hé cousa homrada, homde se guarda mais a justiça que em outra parte do reino. Tem ~e sua estrebaria iiic cavallos que mamtem a custa das remdas da terra.Distamcia das cidades do mãar a Champanell.De Dio a Champanell há amdadura de oito dias; de Cambaia a Champanell amdadura de dous dias; de Çurrate e Reneri359 a Champanell, amdadura de cimquo dias por terra todo. Primcipaes cidãdes.A melhor cidade do sertãao hé Champanell, nom hé gramde, hé pulida e bem obrada. E a cidade de mais mercadoria hé a cidade de Cambaya, estaa na emseada, hé de baixos, ao menos huuã braça, o mais quatro. Esta tem melhores mercado‑rias, hé casy todo o trato desta de gemtios. As outras cidades sam de bõos portos e fortelezas nelles. o reino de Cambaya na terra firme hé pequeno.360 Moeda.A moeda meuda desta terra hé de cobre, mais grosa que c~eitys.361 Tem moeda de prata que se chama mastamudes,362 vall cada huua tres viimtees.363 Tem tambem 358 Leia ‑se ‘vizires’. O vizir ou guazil, do árabe al ‑uazir, que em português deu origem a ‘alguazil’, era o primeiro ‑ministro de um estado ou o governador de uma cidade. o mesmo termo podia ser aplicado a outros altos funcionários administrativos e judiciais.359 Porto de Rander, antes referido como «Ranei».360 o sultanato do Guzerate mantinha um intensíssimo comércio com numerosos portos orientais.361 Tomé Pires refere ‑se a uma moeda designada como jelala. o ceitil era uma antiga moeda portuguesa de cobre, que valia um sexto do real.362 Trata ‑se do mahmudi, moeda persa de prata designada nas fontes portuguesas como ‘ma‑mude’, do nome sultão Mahmud Begarha.363 o vintém era uma antiga moeda portuguesa que valia 20 réis.SumaOriental-PDF_imac.indd 84 12/5/17 2:02 PM
  • 85outra que se chama madaforxas,364 de prata, da mesma valia. Ho ouro corre e em barras, por sseus toques he valias.365 |130r| Do reino de Cambaya.366Chama ‑se o rey de Cambaya Çoltam Madaforxaa, a seu pay chamavã Çoltam Mafamud.367 Tem este rey guerra com ellrey de Mandao e com ellrey Imdo e com os resputes, he algu~ua com Delii. Portamto falarey nestes hu~u pouquo. [Rei de Deli.]Este rey de Dely jaz na terra firme. Antigamemte era a terra deste a moõr que qua aviia, era de ssua jurdiçam [a terra d]os resputes, Cambaya, he parte do regno de Daqu~e, ellrey de Mãdao, ellrey d’Imdo.368 Vay a terra deste cimgemdo toda a provimcia de Narsymga he vay fazer comtinoadamemte guerra aos bemgallas e aos reis do sertaõo que comfinam com orixa. E com orixa era gemtiio. De cemto e cimqoemta annos sam os reis de Delii mouros.369 ~e todos estes regnos tinha capitaees, cada hu~u se alevamtou e se fez rey, asii ho fez o de Cambaya. Meten se amtre Cambaia e Delii grãdes serranias,370 de maneira que nom pode viir sobre Cambaya, somemte mete se hu~u paso na terra que ho tem hu~u jogue guzarate, que nom comsemte emtrar ha gemte de Delii em Cambaya.371 E quamdo este rey espreve ao rey de Cambaya chama lhe ‘ao meu vazir ou capitam’. Este rey de Delii 364 Modafarxa, ou madaforshahi, moeda de prata ou de ouro que circulava em Cambaia, com o nome do sultão Muzaffar Shah.365 A descrição de Cambaia no MP prossegue no fl. 130, que se transcreve já de seguida, mantendo ‑se assim a ordenação lógica da Suma Oriental.366 A seguir ao título desta secção, uma nota na mesma letra indica: «he antes que os reinos na terra canarim e apos Cambaya hos canaris»; ou seja, o copista procurou repor a ordem da descrição.367 o sultão Mahmud Begarha reinou o Guzerate entre cerca de 1459 e 1511; sucedeu ‑lhe o filho, Muzaffar Shah, que reinou desde 1511 até 1526.368 o sultanato de Deli, fundado em princípios do século xiii, estendeu a sua hegemonia sobre vastas áreas do Hindustão. o processo de desagregação iniciou ‑se na segunda metade do século xiv, com a independência de vários sultanatos regionais. A dinastia dos Lodis, que reinou entre 1451 e 1526, na sua fase final controlava apenas as regiões de Deli e de Agra.369 A data indicada por Tomé Pires refere ‑se a Deli, e não a orissa, como uma leitura apressada poderia fazer supor. os sultões Khalji, de facto, estabeleceram ‑se em Deli em 1290, cerca de 200 anos antes da chegada dos portugueses à Índia. A região de orissa, de predominância hindu, conseguiu manter uma relativa autonomia face ao sultanato de Deli ao longo dos séculos xiv e xv.370 Trata ‑se do planalto de Malwa, delimitado a noroeste pelos montes Aravalli, no actual estado indiano de Rajasthan, e a sul pelos montes Vindhya, no actual estado indiano de Madhya Pradesh.371 o «jogue guzarate» seria talvez o chefe da tribo dos Gorakhnatha Gosain, que na época domina‑vam um território de fronteiras mal definidas nos montes Aravalli. Tomé Pires e Ludovico de Varthema (no seu Itinerario) parecem ser os únicos autores quinhentistas a mencionar este singular personagem.SumaOriental-PDF_imac.indd 85 12/5/17 2:02 PM
  • 86tem gramde terra muito mõtuosa, estas serranias que pasam por sua terra hé ho momte Caucaso de que falam os cosmoguafos.372 Tem a terra deste mamtimemtos sem comto, jemte, cavallos, alifamtes, tem imfinydade de gemtios sem numero ~e seus reynos. Estemde se seu regno pola terra demtro muito, este se chama ‘rey das Imdias’, tem este rey continoadamemte demtro na terra sua abitacam, etc.373 Rey de Mandão.Na frallda desta serrania,374 comfinamdo com as terras de Cambaya, hé o reino de Mandao. Este hé o regno omde amtiguamemte pelejavam as molheres que nos dizemos amazonas; aguora nom usam da melicia, ficou lhe aimda ho caçar a cavallo com esporas he bursegiis375 a sua guissa. Diz~e que tera este rey aimda molheres que cavallgam com elle, atee duas mill.376 Tem este rey muita gemte, hé a terra sua fra‑guosa e forte. Tambem comfyna Mamdao com [a terra d]os resputes. Hé obidiemte a ellrey de Delii este rey de Mamdao. Hé este rey mouro há pouco tempo.377 Regno d’Imdo.378o regno d’Imdo hé ja comvertido ao reino de Cambaya, sam ja todos mouros. Hé cousa pequena, he terra momtuosa. Dizem que daqui vem ho anill379 e que 372 Trata ‑se da cordilheira formada pelo Paropamisus e pelo Hindu Kush, montes que ocupam as regiões setentrionais do actual Afeganistão. Tomé Pires refere ‑se de novo a fontes livrescas — «os cosmoguafos» — difíceis de identificar.373 o sultão de Deli, no tempo de Tomé Pires, era Sikandar Lodi, que reinou entre 1489 e 1517.374 Tomé Pires refere ‑se aqui aos montes Vindhya. 375 Borzeguim é uma bota mourisca.376 Tomé Pires faz também uma referência às amazonas na carta que em 27 ‑01 ‑1516 dirigiu a el ‑rei Dom Manuel I: «Neste reyno de Mãdauo saã as amazonas, molheres bilicosas que oje ~e de[a] pelejam a cavalo» (ver transcrição desta carta mais adiante). A lenda das amazonas era de origem remotíssima, sendo referida por diversas fontes antigas e medievais. o relato das viagens de Nicolo de Conti, incluído na colectânea Marco Paulo, faz ‑lhes referência. os patanes ou Pathan eram tribos semi ‑nómadas, muito aguerridas, que viviam nas regiões orientais do actual Afeganistão, organizadas em confederações mais ou menos duradouras. As suas mulheres participavam amiúde nos conflitos armados, o que talvez explique a sua associação às lendárias amazonas.377 o reino de Mandao, ou Malwa, na realidade foi islamizado cerca de um século antes da che‑gada dos portugueses ao oriente, durante o governo de Dilawar Khan (r.1387 ‑1405). o soberano de Malwa ao tempo de Tomé Pires era o sultão Mahmud II (r.1511 ‑1531).378 o reino do Indo parece ser um antigo potentado do norte do Hindustão, situado aproxima‑damente no território do actual estado indiano de Punjab.379 o anil é uma substância corante, de origem vegetal, utilizada em tinturaria (Indigofera suffru‑ticosa, Philip Miller).SumaOriental-PDF_imac.indd 86 12/5/17 2:02 PM
  • 87nace neste algu~u lacar pouco. E [da terra] dos resputes, Mamdao e Delii vem muitas mercadorias das que se acham em Cambaya, e espalha por estes tambem suas mercadorias. Porque os outros sam [nas terras] firmes, este de Cambaya tem ho mar, digo, por Delii, Mamdao, Imdo e outros. Este regno Imdo foy amtigamemte muito nomeado. Esta na terra firme, he deste regno corre hu~u riio que vem sair ao maar que se chama Çimdy, outros lhe chamam Imdy, e os do regno Imdios, este aparta os resputes de Cambaia.380 Foy este reino cabeça de Cambaya. Daqui se começam as Indias, e por causa deste reino se chamou ellrey de Cambaya rey da primeira Imdia. Hé riio gramde na saida que faz no maãr, tem gramde povoaçam de muitas naaos, mercadores gentios [e] mouros.381 Hé guovernador dela hu~u jemtio imdo.382Portos de Cambaya atee Daqu~e.Imdi, Carapatani, Patan, Diu, Manna, Tata Telaya, Guemdari, Guogari, Cãbaya, Baruez, Çurrate, Reneri, Dioni, Agagy, Baxa, Maimbii.383Gemtios de Cambaya.Avera trezemtos anños que o reino de Cambaya hé tomado dos jemtios,384 mas aimda há em Cambaia muitos gemtios, cassy a terça parte do regno he mais, homees que tem por fee nom matarem cousa viva nem comerem cousa que tevese samgue, haa imfiniidade destes. Chamam se os jemtios de Cambaya vaneanes,385 380 Trata ‑se do rio Indo.381 Referência à cidade de Thatta, na região de Sinde (ou Sindh), que era um importante centro portuário.382 No tempo de Tomé Pires, o Sinde era governado por Jam Feroz (r.1508 ‑c.1524), da dinastia Samma.383 Alguns destes topónimos foram anteriormente identificados. «Imdi» e «Carapatani» são de identificação problemática, mas situar ‑se ‑iam nas proximidades da actual Karachi; Mahuva («Man‑na») e Talaja («Tata Telaya») são portos da parte oriental do Guzerate; «Guemdari» situar ‑se ‑ia na mesma costa; Dahanu («Dioni»), Agashi e Bassein ou Vasai («Baxa») são identificáveis com antigas localidades portuárias da costa ocidental da Índia, na faixa costeira entre Surate e Mumbai (ou Bom‑baim), correspondendo esta última a «Maimbii».384 o sultanato de Cambaia, na realidade, foi fundado em 1391. Mas cerca de um século antes, em 1298, os muçulmanos de Deli tinham iniciado a ocupação do litoral de Cambaia, expulsando para zonas do interior as tribos de reisbutos que ali viviam.385 os baneanes eram uma importante casta do Guzerate, que se ocupava tradicionalmente da mercancia, caracterizando ‑se pelo seu excessivo apego aos animais e pela sua dieta estritamente ve‑getariana.SumaOriental-PDF_imac.indd 87 12/5/17 2:02 PM
  • 88delles sam sacerdotes de fremosos templlos, a moõr parte |130v| sam bramenes,386 hom~ees dados a relegiam, e outros sam patamares,387 bramenes mais homrrados, outros sam mercadores, como se dira despois. Sam os jemtios de Cãbaya gramdes idolatras, gemtes molles, fracas, sogeitos. Há amtre estes hom~ees em sua relegiam, de boa vida, castos, verdadeiros homees de muita avstin~ecia, creem em nosa Senhora e na Trimdade, nom hé duvida em outro tempo serem christaõos,388 e foi se perdemdo a fee por rezam dos mouros.389 Estes gemtios esprevem dereito a nosa gisa.390 Quamdo estes morrem, as molheres se queymam, as que sam homrradas ou estymam suas omrras.391 Na Cambaya há destes gemtios aimda gramdes senhores, homees que mamdam ho regno, amtres os quaes hé hu~u Milagobim bramine,392 pessoa muito estimado em syso e em dinheiro mais avamtajado que todos hos homees deste oriente; hé homem muito nomeado e de gramde credito. Sam estes gemtios todos de cabellos compridos, há geraçoees amtre estes de barbas compri‑das, que as nom podem fazer, outros de cabellos compridos. Tem diversas seitas e creemças, sam sogeitos aos mouros, etc. Rey de Cambaia e reino.o regno de Cambaia tera de costa de maãr setemta ou oitemta leguoas, he de demtro nom hé muito gramde, como nobre e abastado e pulido, de gramdes cida‑des bem muradas e torrejadas, fortes. os senhores mouros vivem omradamemte, tem muitos cavallos, há senhor em Cambaya que tem quinhemtos [ou] seiscemtos cavallos, e o mais sam eguoas. [Tem] casas, paçoos gramdes e bem obrados. o rey nom hé bem obedecido por causa do povo estramgeiro. Jeerallmente hé o povoo 386 os brâmanes formavam a casta sacerdotal da sociedade hindu. Em Cambaia, estado predo‑minantemente muçulmano, desempenhavam muitas vezes funções de conselheiros ou de ministros. 387 os «patamares» são referidos numa secção posterior da Suma Oriental.388 original: «xstaõos».389 A crença na existência de largas comunidades cristãs na Ásia estava bastante difundida entre os portugueses de finais do século xv e princípios da centúria imediata. A convicção de que existiriam na Índia núcleos importantes de cristianismo levou Tomé Pires e muitos dos seus contemporâneos a fazerem identificações apressadas entre aspectos da religião cristã e determinadas divindades hindus. A «nosa Senhora» da Suma poderia ser a deusa Durga, que é representada por uma figura feminina, com uma criança ao colo; quanto à «Trimdade», era certamente uma referência ao trio de divindades veneradas pelo hinduismo, de que fazem parte Brama, Vixnu e Xiva.390 Certamente Tomé Pires quer referir ‑se ao facto de a escrita guzerate, uma variante da escrita devanágari, se escrever da esquerda para a direita.391 Tomé Pires refere ‑se ao sati, incineração ritual das viúvas, comum em muitas regiões indianas no século xvi. Esta prática social, pela sua estranheza face às convenções europeias, impressionou vivamente os observadores portugueses.392 Malik Gopi, abastado mercador brâmane de Surate, que tinha importantes interesses em Diu, e que é mencionado em outras fontes portuguesas da época.SumaOriental-PDF_imac.indd 88 12/5/17 2:02 PM
  • 89de Cambaya pobre e os gramdes ricos. o rey sera hom~e de qor~eta annos, chamado Çoltam Madaforxaa.393 Dizem e afirmam os rex de Cambaia serem criados ~e peço‑nha, por serem muito luxuriosos, em tamto que se mosqua se chegua a elle morre. Suas molheres se criam no mesmo manjar. Se cospe, hé peçonhemto, se outrem veste seus panos, dizem que morre supitamente, o que eu nom creio, posto que ho afirmam.394 Hé este rey dado a toda maneira de viços em comer e luxuria, no all dizem que hé sesudo, a moor parte [do tempo] estaa atordado d’amfiam, recolhido com suas molheres.Ho regno de Cambaia tera trimta mill homees de cavallo, tera trezemtos alifants, dos quaees seram cemto de peleja. Nas beiras do maar a melhor cidade de edifiçios e de jemte de guarniçam hee Diu, e que tem mais estramgeiros. Das cidades do sertao [a maior] hé Champanell, homde hé comtinoadamemte o asemto dos reis de Cambaya. Tem fremossos paços Champanell, de muita jemte limpa. os primcipaes senhores de pos o rey hé Milaguobim gemtio, despois he Chamalc Malec, e outro Astur Malec, e o quarto Codaudam.395 Estes quoatro com ho rey governam tudo, hé cada hu~u destes de muitos de cavallo quamdo vay ao paaço, e sam muito acompanhados. Sam senhores naturaes do regno, e em que se revolve a justiça e governamça do reyno e fazemda do rey, e estes sam eleitores do regno quando morre o rey. Sam estes todos senhores de titollo. Tem o rey molheres e mamçebas athee mill. Chama se o rey ‘rey da primcipall Imdia’. E porque este regno nom hé nobre senom por rezam do trato, necesaria cousa me pareçe fallar delle. Trato de Cambaya.Chegado som a falar no trato de Cambaya. Estes sam italianos em saber e tratar ha mercadoria. Toda a mercadoria de Cambaia hé em maao dos jemtios, chaman se guzarates, o nome gerall, despois se devidem em jeraçoes vaneanes, bramines, patamares. Certo sem duvida estes tem o traoto em sumo, sam hom~es sabidos na mercadoria, tem ho sõo e armonia dela como compre, em tamto que 393 o sultão Muzaffar Shah, segundo parece, teria cerca de 40 anos quando em 1511 subiu ao trono do reino de Cambaia.394 Esta história é repetida por outros observadores europeus quinhentistas, e nomeadamente por Ludovico de Varthema, no seu Itinerario, de modo que seria corrente nos portos indianos.395 Dois destes personagens podem ser identificados com Malik Gopi, colaborador hindu do sultão Muzaffar, e com Dastur Khan, governador muçulmano de Surate, ambos anteriormente referi‑dos. Quanto aos outros, «Chamalc Malec» será talvez Kiwam ‑ul ‑Mulk, título do nobre Malik Sarang; e «Astur Malec» poderá ser Imad’l ‑Mulk, título do nobre Kush ‑’adam, ou então Khudawand Khan, feitor real do Guzerate.SumaOriental-PDF_imac.indd 89 12/5/17 2:02 PM
  • 90diz o guzarate que toda a imjuria sobre mercadaria hé de perdoar. Há estant[e]s guzarates por todas as partidas, fazem hu~us por outros e outros por outros.396 Sam homees diligemtes, soltos em trato, comtam por algarismo como nos, com as nosas propias letras.397 Sam homees que nom vos dam do seu nem querem nada de cada hu~us, pollo quall sam athee o presemte estimados ~e Cambaya, de ssua gemtilidade usamdo, porque nõbrecem muito o reyno pollo dito trato. |131r| Haa tambem em Cambaya mercadores do Cairo estamtes e d’Adem, d’ormuz, muitos coraçones e guilanes, que todos fazem mercadaria gramdememte nas cidades do maãr em Cambaya, mas todos estes em comparaçam dos gemtios nom vem a comto. E moormemte do saber alii deviam d’apremder nosas jemtes que querem ser esprivaes e feitores, porque ho oficio de fazemda ciemcia hé sobre sy, que nom impede todo outro nobre eixercicio, mas ajuda muito.398Patamares de Cambaia.Sam os patamares de Cambaia bramenes mais homrrados, amtigamemte decemdem dos reis de Cambaia, porque no tempo pasado eram os reis bramenes como o som oje no Malabar. Estes pasam as mercadorias polla terra e os mercadores sam muito estimados, ainda que pasem por terra de ladrõees, como os mercadores vam com hu~u destes nom nos roubam, e esta priminemcia tem nestas partes. E se os roubam, matan se ou ferem se com adaguas, e os outros bramines com o seu samgue umtam as imagees e arrastãm [n]as athee lhe fazerem justiça, e fazem lha e tornan lhe o seu. os bramines hé jemte muito estimada amtre os gemtios, e estes sam os mais homrados, nom comem cousa que fose viva. Estes sam os que pasam as cartas se vem de correos, porque sam seguros dos ladro~eees.399 Atras400 na descriçam do Malabar achares que cousa sam. 396 De facto, existiam comunidades de guzerates em muitas das cidades portuárias orientais.397 A escrita guzerate utiliza caracteres sanscríticos modificados. Tomé Pires quereria talvez dizer que esses caracteres se escreviam da esquerda para a direita. Assim o entendeu RM na sua tradução desta passagem: «scriuono al diritto come facciamo noi, & e nõ al rouerscio, come fanno li Mori» (fl. 352v).398 Tomé Pires volta a elogiar prática do comércio.399 Os patamares, aparentemente, só são referidos como uma sub ‑casta dos brâmanes por Tomé Pires. os dicionaristas referem um termo concani (pathmar) que significa ‘devora ‑caminho’ e um termo hindustani (patta ‑mar) que significaria ‘portador de informações’. Ambos os significados se ajustam à descrição da Suma. Duarte Barbosa, no seu Livro dos cousas do Oriente, refere ‑se a uma casta de mensageiros chamados pateles, que correspondem perfeitamente à descrição de Tomé Pires. Tratar ‑se ‑á de uma sub ‑casta entretanto desaparecida? Ou de um erro de cópia por patares, nome de uma sub ‑casta brâmane?400 As referências aos ‘patamares’ do Malabar devem buscar ‑se adiante, na transcrição dos fls. 124v e seguintes, já que aqui se procura reconstituir a sequência lógica da Suma Oriental.SumaOriental-PDF_imac.indd 90 12/5/17 2:02 PM
  • 91Asii que os guzarates, com os estamtes que estam em Cambaya, feita cabeça de Miligobim, navegam muitas naos pera todas as partes, Adem, a ormuz, ao reino de Daqu~e, Guoa, Baticalla, a todo ho Malabar, Ceilam, Bemgala, Peguu, Syam, Pedir, Paçee, Malaqua, onde levam muitas mercadorias e retornam outras, de maneira que fazem Cambaya riqua [e] homrrada.401 Primcipallmemte Cambaia lamça dous braços, com ho dereito aferra Adem e com o outro Malaqua, como navegaçoes mais primcipaes, e aos outros lugares como a menos principaes.Como trata gerallmente: Cairo.Hos mercadores do Cairo trazem as mercadarias que vem d’Italia e de Grecia, de Damasqo a Adem, como hé ouro, prata, azougue, vermelham, cobre, auga rosada, chamallotes, grãas,402 pannos de laa de cores, cristalinos, vidros, armas, he cousas semelhamtes. Com Adem.Adem traz as sobreditas [mercadorias], e mais ruiva, pasas, afiam, agua rosada, prata, ouro em camtidade, e cavallos, que Adem tem de Zeila e Barbora, e das ilhas de Çuaquem que estam no Estreito, e dos d’Arabia. E vem fazer seu trato ha Cambaya. Retornam todalas cousas de Malaqua, cravo, noz, maças, samdallos, brasiill,403 panos de seda, aljofar, almizquer, porcelanas, e o mais se pode ver nas mercadarias de Malaqua e das da terra, aroz, triguo, sabam, anill, mamteiguas, azeites, alaqequas, malegua de sortes baixa,404 como sevilhana, todos panos, pera trato de Zeila, Barbora, Çacotra, Quiloa, Melimde, Magadaxoo e lugares outros d’Arabia. E este trato hé neguociado por naos d’Adem e por naos de Cambaia, muitas de huuas e muitas de outras. E com todas as outras partidas ditas trata, trocamdo huuas mercadorias por outras, em tamto que hu~uas sem as outras se nom podem sosteer. Quem melhor quiser ve~er em cada terra as mercadorias, sabera o que retornam, e nom ho exprimo aqui porque em cada terra se veera a mercadoria que cada hu~u tem. 401 os guzerates, de facto, eram navegadores exímios, possuindo uma vastíssima frota mercante.402 Grã é um tecido de lã tingido de escarlate.403 o termo «brasiill» refere ‑se aqui ao sapão (Caesalpinia sappan, L.), madeira usada em tintura‑ria, abundante na Ásia do Sudeste.404 Malega é o mesmo que louça de barro de fraca qualidade.SumaOriental-PDF_imac.indd 91 12/5/17 2:02 PM
  • 92Mercadarias de Cambaya.Tem todos os pannos de seda que há nestas partes, todollos d’alguodam, que sera vimte sortes de paños, todos de muita valia. Tem alaquequas, anill, pouqua lacar naturall da terra, pucho,405 cacho,406 afiam muito e bom, erva lombrigueira,407 tincall,408 alguodam, sabam em muita camtidade, pelles cortidas, solas, mell, cera. De mamtimemtos, [tem] triguo, cevada, milho, azeite de gergelim,409 aroz, mam‑teigua, carnes, cousas a estas semelhamtes. [Tem] malegua baixa de sortes, todo de seu naturall e que410 vem por demtro da terra firme dos reinos vizinhos.|131v| Trata com Hormuz.Hos d’Urmuz trazem a Cambaia cavallos, prata, ouro, seda, pedra ume, aziche, caparrosa, aljofar. Retornam das mercadarias da terra e das que tem de Malaqua, porque todo ho trato de Malaqua, das suas mercadorias, se vinham buscar a Cambaya. Retor‑nam hos d’ormuz arroz, mamtimemtos por primcipal, e especiaria. Trazem d’ormuz tamaras moles emfardeladas e outras em jarros e outras sequas de tres [ou] quatro sortes.Com o Daquem e Guoa, com ho Malabar e com outros.Trata com ho reino de Daquem e Guoa e com ho Malabar, temdo feitores em todalas partes, que vivem e estam d’asemto, como ho fazem os genoeses411 em nosas partes, asy em Bemgala, Peguu, Syam, Pedir, Pacee, Quedaa,412 retornãdo de huuas mercadarias a suas terras, trazemdo a cada huuã as da valia della, emtanto que nom há lugar de trato omde nom sejam vistos guzarates mercadores. A estes reinos vam em cada hu~u anño naõs do Guzarate, a cada lugãr vaão rota batida.413 Tinham em Calecut os guzarates gramdes feytorias. 405 Pucho, do malaio puchug, é uma raiz aromática usada sobretudo como incenso, procedente de uma planta oriunda de Caxemira (Saussurea lappa, Clarke). os portugueses chamavam ‑lhe também costo.406 Cacho, do malaiálam kachu, é uma goma amarela ‑clara (extraída da Acacia catechu, Wild.) que era utilizada na composição do bétele.407 A erva lombrigueira é uma planta vermífuga, de que existem inúmeras variedades asiáticas (talvez se trate da Artemisia annua, L.).408 Tincal, do persa tinkar, borato de soda natural.409 o gergelim ou sésamo (Sesamum indicum, L.) é um planta com propriedades medicinais, cujas sementes são usadas na alimentação, servindo nomeadamente para a produção de óleo.410 original: «quem».411 Leia ‑se ‘genoveses’.412 Os topónimos Bengala, Pegu, Sião, Pedir (ou Pidir), Pacém (ou Pasai) e Quedá (ou Kedah) são adiante referenciados.413 Isto é, ‘sem escala’.SumaOriental-PDF_imac.indd 92 12/5/17 2:02 PM
  • 93Trato com Malaca.Em Malaca fazem mercadores de Cambaia mais fumdamemto que em outra nemhuuã parte. Amtigamemte aviia ~e Malaqua mill mercadores guzarates e doutros guzarates, homees do maar que hiam e vinham, quoatro [ou] cinquo mill homees. Nom pode viver Malaca sem Cambaya, nem Cambaya sem Malaqua, pera serem muito riquas e muito prosperas. Toda a roupa e cousas do Guzarate sam da valia de Malaca e dos reynos que com ella tratam, pois as cousas de Malaqa nom somemte deste mundo sam estimadas, mas do outro qu~e duvida serem desejados. Mais largamemte se falara na descriçam de Malaqua das suas mercadarias.414 Se se tolher a Cambaya o trato com Mallaqua nõ vivera, porque nom tem omde desabafe suas mercadorias. Trato com Jaãoa.Hos guzarates forom melhores homees do mar e que mais navegarom que outras naçoees nestas partes, e asii sam em naãos mais avamtajadas de grandeza he em jemte do maar, tem gramdes pilotos e sam dados muito ao navegar. Hos jemtios de Cambaia, e amtigamemte os guzarates, tinham que nom am de matar nemguem, nem em sua companhia nom avia d’amdar hom~e d’armas, se os toma‑vam e os queriam matar a todos nom resestiam. Esta hé a ley do Guzarate nos jemtios. Aguora trazem suas naaos muita jemte d’armas mouros, pera defemsam das naaos. Estes tratavam amte do descobrimemto do canall de Malaqua com a Jaõa pola bamda do sull da ilha de Çamotora,415 emtravam antre Çumda e a pomta da ilha de Çomotora, e navegavam [a] Agraci, domde traziam as cousas de Maluquo e de Timor, he do ouro,416 e retornavam muito riquos. Nom há cem anños que deixarom esta navegaçam, em Agracii estam as quilhas, amcoras e cousas das naõs guzaratas, que mostram e dizem que ficarom do tempo dos guzarates.417 414 Tomé Pires trata detalhadamente das coisas de Malaca numa secção posterior da Suma Oriental.415 Referência a uma rota marítima que costeava a ilha de Samatra pelo oeste e abocava o Estreito de Sunda, que separa Samatra da ilha de Java, para depois navegar ao longo da costa setentrional desta última ilha. Estas regiões asiáticas são tratadas em posteriores secções da Suma Oriental.416 As palavras «do ouro» não parecem fazer aqui sentido. Tratar ‑se ‑á decerto de um lapso. No ML lê ‑se «de Maluco e de Timor e de Bamda» (p. 86).417 Antes da chegada dos portugueses ao oriente, os guzerates controlavam uma significativa porção do comércio marítimo asiático, e sobretudo as rotas que ligavam Cambaia a Malaca. o porto javanês de Agracim (ou Gresik), tal como Tomé Pires sugere, tivera uma época de intenso movimento mercantil antes da conquista portuguesa de Malaca, como escala das rotas que ligavam aquela cidade malaia às mais longínquas ilhas da Insulíndia. A observação de Tomé Pires parece sugerir que teria visitado o porto de Agracim.SumaOriental-PDF_imac.indd 93 12/5/17 2:02 PM
  • 94Os mercadores que vem a fazer suas companhias aqui pera Malaca.418Porque este regno de Cambaia tinha este trato com Malaqua vinham estas nações de mercadores tomar suas companhias com os guzarates em suas naãos pera laa, e delas mamdavam suas mercadorias, ficamdo estamtes na terra, e del‑les hiam em pesoa, scilicet, maçaris e jemtes do Cairo, muitos arabios d’Adem primcipallmente, he com estes abix~ıis, ormuzanos, [gente] de Quiloa, Melimde, Magadaxo, Mombaça, persianos, scilicet, rumes,419 turquimaees, armenios, guila‑nes, coraçones, de Xiras, destes há muitos em Malaqua, e do reino de Daquem, muitos tomavam sua companhia em Cambaya. Hé gramde trato o de Cambaya, levamdo panos de muitas sortes, he boos emcãaos,420 e roupas baixas, sememtes, scilicet, alipivri,421 cominhos, ameos,422 allforva,423 raizes como de ruy pomtiz,424 a que chamam pucha, e terra como lacar, a que chamam cacho, estoraque liqido e outras bofaninhas.425 Retornavam carreguados de todallas mercadarias riquas de Maluqo, Bandan,426 China, e traziam muito ouro. Hos guzarates sam as jemtes a que mais pesou ser Malaqua de Vosa Alteza, e os que hordenaram a treiçam que foy feita a Dioguo Lopez de Sequeira, e oje se camta em Malaqua nas praças, da pagua que ouve Malaqua pollo que fezerom hos malayos por comselho dos guzarates.427418 o título desta secção denota que teria sido escrita em Malaca, como aliás grande parte da Suma Oriental.419 Tomé Pires parece aqui, erroneamente, associar os «rumes» à Pérsia, tal como fez numa ante‑rior secção da Suma Oriental.420 Esta passagem, no original «he boos em cãaos», é de difícil interpretação, e resultará talvez de lapso de cópia. O ML e RM omitiram estas palavras.421 Alpivre é a antiga designação da nigela ou cominho ‑negro (Nigella sativa, L.), utilizado em fármacos e como especiaria.422 Âmio ‑vulgar, uma planta medicinal (Ammi majus, L.).423 Alforva, o mesmo que feno ‑grego ou fenacho, uma planta medicinal (Trigonella foenum‑‑graecum, L.).424 Ruipontico é uma planta medicinal, espécie de ruibarbo, que modernamente se designa como rapôntico (Rheum rhaponticum, L.).425 Talvez se trate de lapso por ‘bufarinha’, o mesmo que bugiganga ou quinquilharia.426 Ilhas de Banda, tratadas numa secção posterior da Suma Oriental.427 Diogo Lopes de Sequeira comandou a primeira expedição portuguesa a Malaca (1508 ‑1509), com o encargo de aí recolher notícias circunstanciadas sobre as regiões da Ásia mais oriental. Após uma breve permanência naquela praça, foi obrigado a retirar com algumas baixas, na sequência de um traiçoeiro ataque malaio à gente da sua armada. A alegação de que os guzerates foram os grandes prejudicados com a ocupação de Malaca pelos portugueses é absolutamente correcta.SumaOriental-PDF_imac.indd 94 12/5/17 2:02 PM
  • 95[LivrO SegUNDO.]|132r| Reino de Daquem.428No gramde e belicosso regno de Daquem sera noso recomtamemto. Aparta se do reyno de Cambaya por junto com Maymi ou May, e do regno de Guoa por Carapatanam,429 pola terra firme com ellrey de Narsimgua, e com ho reino d’orixa por huuã pomta estreita, e da bamda de Cambaya por cima com as serranias que estam antre a India e Delii. Hé este reino abastado de mamtimemtos, terra muito aproveitada, moor regno que ho de Cambaia, de melhor jemte de gueerra naturall da terra. Hé a gemte desta terra da Canarim430 cavaleiros de ssuas pesoas, e a piionajem gemte que sofre bem ho trabalho. Tem este reino muyta jemte bramqua. Avera duzemtos e cimquoemta anños que este reino hé ganhado431 aos jemtios de rumes he turqos e parses, como o regno de Cambaia. Tem muitas cidades na terra firme he muitos portos no maar. Portos no maãr.Navegamdo de Maym pera ho regno de Guoa sam os portos do reino de Daquem hos seguintes: Chaull, Damda, Mataleni, Dabull, Sangizara, Carapatanam.432 428 o Decão foi anexado pelo sultanato de Deli em 1333. Depois de uma intensa islamização, o Decão central autonomizou ‑se em 1347, sob a hegemonia de Alauddin, fundador da dinastia bahmani. A enorme extensão do reino bahmani impôs a necessidade de divisão em várias regiões ad‑ministrativas, que posteriormente dariam origem a outros tantos reinos indepententes: Bidar (1487), Berar (1490), Ahmadnagar (1490), Bijapur (1490) e Golconda (1512).429 Cidade do litoral ocidental do Hindustão, um pouco a norte de Goa, que corresponde à actual Kharepatan.430 Decerto por lapso, a expressão «terra da Canarim» é utilizada para designar o reino do Decão (ou «Daquem»).431 original: «gannçado».432 Algumas das identificações são conjecturais, mas Tomé Pires parece referir ‑se aos antigos por‑tos indianos de Chaul, Dande, Mandad, Dabul ou Dabhol e Kharepatan. O topónimo «Sangizara» é de problemática identificação.SumaOriental-PDF_imac.indd 95 12/5/17 2:02 PM
  • 96Cidades primcipaees na tera firme.As cidades do reino de Daquem seram vinte, das quãees estas sam as mais pricipaees em jemte: Bider, Visapor, Çidapor, Solapor, Rachull, Çagar, Quellberga, Queher, Bayn.433 Nome do rey e dos senhores principães.Chama se o rey çoltan Mahamud Xaa.434 De pos ho rey, Idalhan, Niza Mal‑mulc, Cupallmullc [e] ho dauan Miliqui Dastur, estes quoatro senhores mamdam ho regno e os que em seus titulos socedem.435 Este Idalhan de naçao hé turqo de Torquia, seu pay foy espravo do pay deste rey, he pollo achar homem de preço ho fez çabayo.436 Este nome de çabaio he nome d’oficio, asy como capitam da guarda do rey, com ha guovernamça da metade do regno. o que tem tall cargo chamase çabayo, hé da esemcia do reino oficiall çabayo. Hé muito gramde senhor o que tem esta dinidade, e este menistra o rey de tudo o que há mester. Neste carguo viveo o pay deste que ora hee. Foy o çabaio pasado cavaleiro muito estimado, e dizem que ouve quoremta batalhas campaees, e que nas trimta foy desbaratado e as dez vemceo. Morto este há pouco tempo, o filho chamou se Idallcam, que quer dizer capitam jeerall em todo o regno, e lamçou maão do rey e apousemta o homde o Idalcan quer, e amda como preso. Comtudo, quamdo vee o Idalcam ao çoltam Mahamud Xaa, algum tamto lhe faz cortessia. Teve este atrevimemto ho Ydalham comtra vomtade dos quatro e do rey, por ter de sua jurdiçam toda a jemte branqua do reino pola mor parte, por ser estramgeiro e turqo, e teer taall oficio. Chegaron se os asolldadados a elle. Eicerto Bider, todas as cidades do regno pola moõr parte sam da jurdição do Idallcan. Emquanto este era çabaio, eram estoutros senhores tam validos e omr‑433 Referências às cidades de Bidar, Bijapur, Saydapur, Solapur, Raichur, Sagar, Kalaburagi (ou Gulbarga), Koyer e Wai.434 Trata ‑se de Mahmud Shah, da dinastia bahmani, que governou o reino do Decão até 1520.435 o primeiro é o Idalcão ou Adil Khan, o soberano de Bijapur; na época de Tomé Pires o cargo era exercido por Ismail Adil Khan (r.1511 ‑1534). o segundo é Nizam ‑ul ‑Mulk, ou Nizamaluco, nome por que eram conhecidos os soberanos de Ahmadnagar; no tempo de Tomé Pires o trono era ocupado por Burhan Nizam Shah (r.1509 ‑1553). o terceiro é Kutb ‑ul ‑Mulk, designação atribuída ao soberano de Golconda ou Telingana, que era então Kuli Shah. o quarto é Malik Dastur, anterior‑mente referido. o termo de origem persa dewan ou divan designa um ministro ou alto responsável governamental. 436 Sabaio é um termo de origem algo controversa, que parece derivar do persa Sava’i, cognome que era atribuído a Yusuf Adil Khan, alegadamente por ter sido educado na cidade persa de Saveh. Yusuf, originalmente um escravo, por volta de 1490 proclamou a independência de Bijapur face ao rei do Decão, de quem dependia formalmente, reinando até 1511.SumaOriental-PDF_imac.indd 96 12/5/17 2:02 PM
  • 97rados como elle. Despoiis que se chamou Idalcan, ficarom todos debaixo. E por estes estarem escamdalizados, tem comtinoadamemte guerra, como se dira adiamte. os portos do maar deste regno sam todos do Çabaio, eicepto Chaull e Damda. O senhor de Chaull e Damda.Chama se o senhor de Chaull e Damda Niiza Mallmulec. Seu pay deste era turquo de naçam, seu espravo do pai do rey de Daquem, e fiquou gramde senhor. E tem muitos lugares na terra firme. Tem este mill homees bramcos da Persiia de peleja, mill de cavallo. Cupall Mulec.Este Cupall Mulec hé gramde senhor. outros lhe chamam Cutell Mamaluquo. Hé naturall do reyno de Daquem, nom foy cativo, hé homem de muito preço, muito estimado na terra. Dizem que tem este d’ome~es bramcos de cavallo perto de mill e quinhemtos, etc.Ho Dauan Han.437Este hé naturall do reino, como o de cima, e de tamta jemte he terras.Milic Dastur.Este Milic Dastur hé abixii, espravo d’ellrey, tam homrrado casy como cada hu~u destes. Hé fromteiro com Narsingua, está em Quelbergua, tem jemte de guar‑niçam. Esta cidade ho Çabayo lha tomou, e ora estam de guerra. Hos quatro senhores de cima juntos em acordo tem de cavallo, asy d’homees bramcos como da terra, perto de doze athe quinze mill home~es. Estes sam juntos comtra ho Çabayo. Ho çabayo que ora hé Idalcan tem outra tanta gente, e tem comtinoadamemte guerra hu~uus com outros. Sam os soldos desta terra mores que nenhu~us destas |132v| partes, aas vezes sam mall paguos. Tem este regno aimda 437 Este nome poderá ter resultado de uma confusão de Tomé Pires na interpretação das informa‑ções recebidas, pois seria um nome composto por dois títulos, dewan, já referido, e khan, ‘governante’, na tradição túrquica.SumaOriental-PDF_imac.indd 97 12/5/17 2:02 PM
  • 98muitos jemtios naturaees da terra, e muitos bramenes estimados. Todo o jemtio deste regno quamdo morre hé costume se tem molher queimar se, por hir dar com‑panhiia a seu marido homde estiver, se o nom faz fica desomrrada, nom somemte ella mas seus paremtes todos. E as vezes nom tem ellas muita vomtade, e os parem‑tes e os bramines as mov~e a se queimar~e, por tall que seu costume nom se quebre. o regno de Daquem hé cavaleiroso, tera de cavallo trimta mill, de pionajem sem comto. Jeerallmemte neste reino e no de Guoa vinham estas jemtes bramcas a que chamamos rumes ganhar soldo e omrra. Este rey dava nomes como miliqes,438 scilicet, Fuão Milic, e o de mais homrra he han ou can, e vinham ganhar estes titu‑los. Sam os cãns aquy muito prezados e homrrados, digo, caees de can, nom por animaes de caça.439 Hé a jemte deste regno soberba, presumtuosa. Ho rei hé dado ao amfiam e as molheres, nisto pasa seu tempo. E o seu Idalcan nom hé menos. Sera elrey de qoremta annos e o Idalcan de trimta, home~es ambos guordos e bem gordos, que se dam a todo vicio. Avera no regno de Daqu~e de turquos e rumes e arabios atee duzemtos, de persiianos avera dez ou doze mill home~es de peleja. Quem neste reino mais jemte bramca tem mais poderoso hé. Tera cimcoenta alifamtes este regno. Tem os cavallos arabios e persyanos gramde valia que se nom podera creer.Mantimentos.Tem ho regno de Daquem arroz em gramde avomdança, algu~u triguo, carnes, tem muita arequa e muito betelle.440 Trato do regno de Daquem.Amtiguamemte teve gramde trato, primcipallmemte Dabull era escalla riqua, nobre e homrrada, bom porto de muitas naoos. E Vosa Alteza tratou tam mall a estes portos que ficarom destruidos,441 e Diu se fez de matos442 gramde, com favor 438 Melique, do árabe malik, pode designar um governador.439 Isto é, khan, o mesmo que governante, na tradição túrquica.440 Areca, do malaiálam adekka, é a noz da Areca catechu, L., que era utilizada na composição do bétele, um masticatório muito apreciado no Oriente, com propriedades estimulantes e adstringentes, que era também composto por cate, cal de ostras e substâncias aromáticas diversas, tudo embrulhado numa folha de bétele (Piper betle, L.).441 Durante os primeiros anos da presença portuguesa na Índia verificaram ‑se numerosos confli‑tos armados com potentados locais que hostilizaram ou tentaram impedir a participação portuguesa nas principais rotas mercantis.442 Entenda ‑se, ‘sendo de matos, se fez grande'. O ML apresenta outra versão: «de muito grande trato» (p. 93).SumaOriental-PDF_imac.indd 98 12/5/17 2:02 PM
  • 99de Vosa Alteza. Tem aimda gramdes mercadores, he faz trato, nom a decima parte do que soya. Eram estes portos escala d’Adem athee elles e delles athee Malaqua, tratavam todas mercadorias ~e grosas naãos de muitos mercadores. Estavam estes no meio, bõos portos, terras fartas, de muita agoa, desembarcavam aqui a moõr parte dos cavallos que recolhia ho regno de Daqu~e. Eram estes portos ricos e dos direitos delles era o rey de Daqu~e e o seu çabayo e o Nazimall Mulec443 de gramde direito, e isto lhe faziia daar gramdes solldos. Mas aguora que o Capitam jerall444 tem mudada esta neguoceacam ao polido regno de Guoa, o reino de Daquem nom pode muito durar ~e sua homrra, ho caminho estaa aberto pera se perder sem remedio, ou Guoa pera ser a moor cousa do mumdo. Todas estas cousas mostra ho tempo amdamdo. A rezam de asy ser vista crara esta sem comtradiçam. Aqui se faziam em Dabull gramdes tratos, e muito riquos, memtado na parte d’Assiia foy o porto de Chaull. E Dabull445 nom foy tamto, por rezam da aguoa que tem solobra. Soprados amdam os seguidores de Mafamede, vai se gastamdo o redicall a estes que tanto prosperarom.446 Mercadorias.Tem este reino de Daquem as mercadorias seguintes: beirames,447 pannos bramcos e de cores imfinidade, beatilhas, de que jerallmemte os mouros e queliis fazem touquas, gram suma que abasta ho mumdo, destas duas sortes; fazem tam‑bem neste reino matamunguo preto, que vall pera Diva448 e pera Abixia. A força do betelle, que se chama folio imdo,449 vay daqui pera Cambaia, ormuz, Adem, posto que ho de Guoa seja milhor. Nestes portos deste regno, por estar em boa paragem, se achavam todallas mercadarias d’Asya e da Europa. Hé muito memtado o porto de Chaull, ja aguora se vay fynamdo.450 443 Isto é, Nizam ‑ul ‑Mulk.444 Referência a Afonso de Albuquerque.445 original: «E Dabul Dabull».446 Tomé Pires vaticina que o estabelecimento dos portugueses em Goa, assegurado a partir de 1510, marcará o declínio dos portos do Decão, incapazes de concorrer com a nova potência europeia.447 Beirame, do persa bairam, é um tecido de algodão muito fino e colorido448 O topónimo Diva remete para as ilhas de Maldiva.449 O fólio ‑indo, utilizado com fins medicinais, equivale à casca e folhas do Cinnamomum Ta‑mala, Fries.450 Tomé Pires parece sugerir que o porto de Chaul perdia importância por via da concorrência portuguesa.SumaOriental-PDF_imac.indd 99 12/5/17 2:02 PM
  • 100|133r| Regno de Guoa.Aguora se nos faz ho caminho pello soberbo regno de Guoa, chave das Imdias primeira e segunda. Divide se do rregno de Daquem por Çarapatanam no maar, [e por ...],451 riio mais primcipaall da Imdia, e da bamda d’onor por Cimtacora,452 pola terra firme com ho regno de Daqu~e e com ho regno de Narsiimgua. A limgoajem que se fala neste regno hé conconim.453 Foy o regno de Guoa sempre muito estimado polla melhor cousa que ellrey de Narsynga tinha, asii honrrada como proveitosa. os do regno de Daqu~e lhe ganharom parte deste reyno e despois o çabaio velho, pay do que oje vive, o acabou de ganhar dos jentios avera quoremta e cimquo annos. Este reino hé do Çabayo e tamto que se ajuntou ao regno de Daqu~e, foy Guoa cabeça de todo o regno de Daqu~e e Guoa. A limgoajem deste regno de Guoa nom hé como a de Daquem, nem como a de Narsimgua, hé sobre sy. Hé a jemte deste regno esforçada, avisada, e que sofre gramdemente o trabalho, asy homees do maar como da terra. Portos do maãr.Tem ho regno de Guoa no maar, jumto com Carapatanam, Damdrivar, Bamda, Guoa Velha e Nova, a Liga, Ancoll, Upale, riio de Sall, a ponta da Rama, Cim‑tacora, Amjadiva.454 Amtre estes portos há rrios e naaos, amtigamemte e aguora navegam. E porque estas cousas sam do regno de Guoa, somemte se dira de Guoa. Da bamda da terra firme tinha cidades e villas, muitas tenadarias455 de gramdes remdas e de terras muy aproveitadas, que imda estam em poder de mouros. Mas pois a gram cidade de Guoa, que hé chave de tudo, hé em poder e serviço do muy alto Deus, o all nom tardara muito. Asii como as portas sam defemsam das casas, asy os portos das provimcias e regnos sam pera emparo, susidio [e] primcipall guarda, os quaees tomados [e] sojuzgados, em gramde agonia sam postos os taees, e com quallquer discordiia que em sii tenham ou com seus vizinhos lloguo se perdem por nom serem socorridos, 451 o MP apresenta aqui um espaço em branco, deixando a frase incompleta; o mesmo sucede no ML (p. 94). Faltará talvez a referência ao rio Vaghotan.452 onor corresponde a Honovar; Cintacora era uma localidade que se supõe desaparecida, e que se situava a sul de Goa, nas proximidades da ilha de Angediva.453 o concani é a língua falada na região de Goa, a mais meridional das línguas indo ‑arianas.454 Os topónimos referidos podem ser identificados com alguma aproximação com nomes de locali‑dades ou acidentes geográficos do território de Goa: Carepatão ou Kharepatan; Devgarh («Dam drivar»); Vengurla («Bamda»); Goa e Pangim; Liga; Ankola; Pale; rio do Sal; cabo Rama; Cintacora, localidade de‑saparecida das proximidades de Angediva; e Angediva, pequena ilha junta à costa sul do território de Goa.455 Tanadaria era uma circunscrição territorial em Goa, que englobava um conjunto de aldeias e terrenos agrícolas.SumaOriental-PDF_imac.indd 100 12/5/17 2:02 PM
  • 101quanto mais que estos regnos nom tinhã outra salvaçam senom a cidade he porto de Guoa, como cousa mais primcipall. Cova de ladroees turquos [e] rumes e jemte que morre comtra nosa fee era Guoa. Aparelhava se Guoa pera gramde perda pera os christaõos,456 e o juizo de Deus mudou a perda a elles, que polla tomada de Guoa nom hé duvida a mourama dar gemidos. Guoa era lugar desposto pera se fazerem ligeiramemte as armadas ~e hu~u anno dos mouros, que em Suez nõ se faram em vimte. Quem duvida que a jemte no desbarato do regno de Guoaa se tomarom naaõs que os mouros tinham pera comnosquo pelejarem, que despois forom a Bamdan carreguar de maças, pera nos. o juizo de nosso Senhor hé incomprensyvell, e cada hu~u atemtamemte julge que mor perda receberom os mouros por Guoa do que pode ser quamdo perderem Adem. Guoa nom somemte sopea o reino de Daquem, mas aimda ho de Cambaya tem afoguado. Maoo vizinho tem os mou‑ros em Guoa. os mouros pola maneira que forõ guanhamdo os regnos hos vam perdemdo. o regno sem portos casa hé sem portas. Nosso Senhor hé o que quer ho perdimemto de Mafamede. E Joane o esprivão o faz trigoso.457 Ja hé tempo, ja nas bamdas das Imdias nom faça nengu~e fundam~eto de mouros, somemte dos que andarem a lavrar nas serranias. Tem ho regno de Guoa as Imdias a dereito, aimda que nom queiram, hé pulido, de famosos vergeiis, aguoas, cousa mais fresca das Imdias e mais abastada esta de mamtimemtos, domde se costumou amtre os rumes e jemtes brancas praticarem ‘vamos ao regno de Guoa gostar das sombras e arvore‑dos e tomar o sabor do doce betelle’. Nom hé duvida o regno de Guoa ter betelle milhor que em outra parte, ssuave, gostoso, muito estimado, e de Guoa jerallmemte se carregua delle pera Adem, ormuz e Canbaya. Areca ou avelana imdia458 tem mais e melhor que outro luguar. Arroz aqui se carregua e da terra firme de regnos muito alomgados. Emtravam em Guoa grãdes cafilas de bois carregados de mer‑cadarias. Se estas cousas forom no tempo pasado, quamta mais rezam sera daqui por diamte. Sem duvida que se fara gramde escalla, moor do que nunca foy, e os mercadores folgaram com nosa justiça mais que com a que lhe fazem os mouros. |133v| Ho regno de Guoa numqua deu a vamtajem a Chaull, tratava gramde‑memte, tiinha muitos mercadores de todas naçoees, jemtes de gramdes cabedaees, 456 original: «xstaõos».457 Curiosa referência a Giovanni da Empoli, com quem Tomé Pires se cruzou em Malaca em 1512 ‑1513, e que lhe teria fornecido informações sobre Goa. o feitor florentino referiria no ano seguinte estar na posse de um manuscrito com detalhadas notícias sobre terras e gentes asiáticas, que obtivera em Malaca. Teria Empoli obtido do próprio Tomé Pires uma versão preliminar da Suma Oriental, que depois enviou para Itália? Pouco anos mais tarde, em 1517, o florentino viria a falecer no porto de Cantão, para onde viajou precisamente na mesma armada que transportou Tomé Pires na sua missão diplomática à China.458 Avelã ‑da ‑índia é o mesmo que areca.SumaOriental-PDF_imac.indd 101 12/5/17 2:02 PM
  • 102era gramde o trato della, sempre tinha muitas naaos. Tem bom porto e nam somemte ysto, mas na neguoce[a]ção das armadas que se nelle faziam era luguar desposto, por rezam da madeira e dos oficiaees, por ser muito abastado, muito forte, sempre muito acompanhado de jemte bramqa, chea de soberba e nom sem causa, porque ho regno de Guoa jaz no amaguo de todas as Imdias. Aqui se cele‑bravã gramdes festas ao profano Mafamede, que sam mudadas ao nome de Jhu~u Christo.459 Hee a cidade de Guoa tam forte como Rodes,460 tem quatro fortalezas, outras mui riquamemte obradas pollos lugares necesarios, em dano do nome de Mafamede. Trato.De todos os regnos d’Arabiia Petrea, d’ormuz, da Persya, do regno de Cam‑baya traziam cavallos a Guoa, e daqui se espalhavam pera o regno de Daqu~e e de Narsiimgua amtigamemte. Despois de Guoa ser tomada dos mouros, avia Narsymgua cavallos por Baticala.461 E asy recolhia Guoa todallas mercadarias destas partes. Retornavam beirames, biatilhas, arroz, arequa, betelle, he muitos pardaos e orãos.462 Porque aqui valem os cavallos muito, há cavallo que vall oitocemtos pardaõos, moedas de trezemtos [e] trinta cimquo reis cada huuã. Recolhia muitas especiarias e mercadorias destas outras bamdas em camtidade. Tinha o regno de Guoa muitas naãos que navegavam pera muitas partes, he as naõs de Guoa eram estimadas, favorecidas em todas as partes, porque ha mourama tinha toda sua fortaleza nestas partes. Em ho reino de Guoa a gemte que navegava hé naturall da terra, os do maar, porque ho regno de Guoa tem boa jemte de maar que sostem o trabalho. Asy que navegamdo os de Guoa em outros lugares e os das outras partes em Guoa, era seu trato gramde, domde se recolhiam gramdes remdas dos derreitos das mercadorias, das amqorajes e dos derreitos da terra das tenadarias. Eu ouvi muitas vezes dizer que Guoa com seu termo, asy dos derreitos de tudo o que vem a ella como de seu naturall, remdia cada hu~u anño quoatrocemtos mill pardaoõs, e segumdo suas cousas parece ser asy. 459 original: «Xpo».460 Embora a fortaleza de Rodes fosse, na Europa, um paradigma conhecido de possante for‑tificação militar, esta referência poderia sugerir uma viagem de Tomé Pires à parte mais oriental do Mediterrâneo, no período anterior à sua partida para a Índia.461 Cidade indiana do litoral do Canará, também conhecida como Bhatkal.462 Pardau, que parece derivar do sânscrito pratapa, moeda indiana de ouro ou de prata, também designada como pagode, que valia, respectivamente, 360 e 300 réis; o termo orá, outra designação para o pardau ou pagode de ouro, parece derivar do sânscrito varaha, ‘javali’, provavelmente por este animal aparecer representado na dita moeda.SumaOriental-PDF_imac.indd 102 12/5/17 2:02 PM
  • 103Jemtios deste regno.Neste regno de Guoa há muitos jemtios, mais que no regno de Daquem, delles mui homrrados e de gramdes fazemdas, e na mão destes jazem todo o regno casy, porque sam natura~ees e tem as terras e acodem com as remdas. Sam delles homees fidallguos de gramdes jemtes e terras suas, pessoas muito estimados, vivem em suas posiçoes, cousas muito alegres e viçosos, [e] riqos. Hos jemtios do regno de Guoa sam mais validos que hos do regno de Cambaya. Tem fermosos templlos seus neste regno, tem sacerdotes ou bramines de muitas maneiras, há amtre estes bramines geraçooes muito homrrados, delles nõ comem cousa que tivese samgue nem cousa feita por maão doutr~e. Sam estes bramines em toda a terra acatados, moormemte amtre jemtios. Servem de levar mercadorias e cartas seguramemte pola terra, como os de Cambaya, os pobres, que os riquos tem priminencia de gramdes senhores. Sam agudos, avisados, letrados em sua creemça, nom se fara hu~u bramine mouro [nem] que ho façam rey.As jemtes do regno de Guoa por nenhu~u tormemto comfesam cousa que façam, sofrem gramdememte, soem ser atormemtados de diversos tormemtos, amte[s] morrem que comfesarem o que detreminam de calar. E as gemtis molheres de Guõa sam geitosas no vestir, as que dançam e volteam o fazem com melhor maneira que todas as destas partes.463|134r| Custuma se gramdememte neste regno de Guõa toda molher de jemtio queimar se por morte de seu marido. Amtre sy tem todos ysto em preço, e os paremtes della fiquã desomrrados quamdo se nom querem queimar, e elles com amoestaçoes as fazem queimar. Nas que de maa memte recebem o sacreficio e as que de todo pomto se nom queimam, fiquã pubricas fornicarias, e ganham pera as despesas e fabricas dos templlos domde sam freigesses, he nisto morrem. Estes gemtios tem cada hu~u huuã molher por hordenança. Muitos bramenes prometem castidade e sosten na sempre. Nos outros portos do regno de Guoa se carrega muito arroz, sall, betelle, arequa, em que tratã. Cada hu~u destes rios tem povoaçoees arredadas d’aguoa, com temor. os que destes sam seguros, navegam, os que nam, perdem se. Estam da maõo do Çabayo com capitaees que recolhem as remdas da terra, e delles com jemte de guarniçam de cavalo, porque tem comtinoadamemte guerra com as terras da provincia de Narsymgua. 463 A expressão «destas partes» referir ‑se ‑á a Malaca.SumaOriental-PDF_imac.indd 103 12/5/17 2:02 PM
  • 104|125v| Regnos na terra Canarim.464Aguora sam no ultimo reino da primeira Imdia, que se chama a provimcia dos canar~ıis. Aparta se de hu~ua bamda pollo reino de Guoa per Amgadiva e da outra pola Imdia meaa ou Imdia do Malabar; pola terra firme hé ellrey de Narsimgua, que hé cabeça desta terra. A limguoagem daqui hé canarim, hé deferemte da do reino de Daquem e do reino de Guoa.465 Tem nas beiras do maãr dous rex e algu~uas peque‑nas regio~ees. Sam todos gemtios, obediemtes a ellrey de Narsimgua. Sam homes polidos, guereiros eixercitados nas armas, asii no maar como na terra. Das terras que o rey de Narsimgua tinha nesta primeira India nom lhe fiquou somemte esta de que aguora hee o presemte recomtamemto. Hé terra haproveitada, de boãs povoaçõees. Portos no mãar.Na terra dos canar~ıis começa por Amjediva athe Mamgallor: Mirgeu, Onor, Baticala, Baçalor, Baira Vera, Bacanor, Udipiram, Mamgallor.466 Todos estes estes portos sam de trato. D’Onor [e] Mirgeu athe Amgediva hé d’elrey de Garçopa,467 fromteiro de Guoa, por ellrey de Narsimgua. Baticala com Baçallor e outras villas na terra firme tem rey. Os outros quoatro portos tem capitaees, todos sam obe‑diemtes ao rey de Narsymgua e lhe acodem com as remdas. Ho rey de Garçopa hé pesoa homrrada e de muita gemte de cavallo, athee tres mil hom~es, segumdo afirmam. Garçopa esta pollo riio d’Onor cimqo leguoas dem‑tro, hé cydade pequena, fresca. He Timoja468 era sua abitaçam em Onor, porque tinha afinidade cõ ellrey de Garçopa. Este esta muitas vezes na corte d’ellrey de Narsimgua, hé seu vasallo obidiemte. Este riio d’Onor hé de mui gramde povoaçam he de navios. Aqui faziia Timoja sua armada, em que amdava salteamdo daqui athee ho cabo de Guardafuy, domde faziia gramdes presas, era temido este Timoja dos navegamtes, e era ajudado do rey de Guarçopaa.464 Uma nota ao lado do título desta secção, na mesma letra, indica: «Aqui deixares este e busca‑res Cambaia que vay adiamte». Retoma ‑se aqui a transcrição a partir do fl. 125v, seguindo a ordena‑ção lógica da Suma. A «terra Canarim» é o Canará (ou Kanara), região da costa ocidental da Índia que se estende para sul de Goa, de Angediva até Cananor (ou Kannur), no Malabar.465 Trata ‑se da língua canarim ou canarês, que é uma língua dravídica, distinta do concani.466 Os topónimos referidos correspondem a: Mirjan; Onor (ou Honovar); Baticala (ou Bhat kal); Braçalor (ou Basrur); «Baira Vera» talvez possa ser identificada com Brahmawar, no litoral do Canará; Bacanor (ou Barkur); Udupi; Mangalore (ou Manguluru).467 Garsopa, antigo reino do litoral ocidental do Hindustão, que se estendia entre Onor e Bati‑cala; a capital era a cidade do mesmo nome, actual Gersoppa468 Timoja ou Timmaya era um chefe corsário originário de Goa, baseado em Onor e aliado do rei de Garsopa, que foi colaborador de Afonso de AlbuquerqueSumaOriental-PDF_imac.indd 104 1/3/18 4:31 PM
  • 105Baticala.Ellrey de Baticala hé jemtio canarim, maior rey que o d’onor e Garçopaa. Tem muita terra ffirme em seu reino. Batecala hé porto despois de Guoa e Chaull, muy homrrado e de gramde neguoceaçam. Hé aguora domde se o reino de Nar‑siimga serve e tem os cavallos. Tem a cidade muitos mercadores, asii gemtios como mouros, hé gramde escalla de muitos mercadores, hé gramde porto. Ho rey esta sempre na terra firme, tem por guovernador da nação dos jemtios Dami Chatim,469 pessoa primcipall em fazemda e gramde mercador; he tem por governador da naçam dos mouros Caizar,470 mouro capado que foy criado de Cojatar,471 ho d’Urmuz. Há nesta cidade mouros de todas naçõees. Foy cousa muito gramde amte[s] da tomada de Guoa pollo Capitam jeerall.472 Ja aguora hé demenuyda. De todos estes portos dos regnos dos canar~ıis, a mais homrrada cousa era Baticala por rezam dos muitos mercadores que tinha. E vinham muitos cavallos de todas partes aqui desembarcar, e outras mercadorias muitas. Estes cavallos se compravam pera o reino de Narsimga, de que se pagavam gramdes dereitos. Retor‑navam os mercadores desta terra dos canar~ıis arroz em muita cantidade, o melhor de todas estas partes, scilicet, gyraçall, que he mais meudo e mais branquo e de mais preço e mais estimado. E depos este chambaçall, e depos ho chambaçall hé o pacharill de Guoa e do reino de Daquem.473 Retornavam asy mesmo ferro e muito açucar que há nesta terra, e muitas comservas d’açuquer que se fazem em Baticala, ysso da terra. E dos mercadores da bamda [do] Malabar athee Malaca tinham muitos que hy vinham t~eer, de maneira que era sua neguoceaçam gramde. Esta hé a cousa mais estimada que ho rey de Narsimgua tem nesta parte do Canarim. Quamto aos lugares de Baira Vera, Bacanor, Udipiram, Mamgalor, todos sam lugares [e] portos de mercadores he de naaos que tratam com Cambaya he com ho regno de Guoa e de Daquem e Hormuz, levamdo das mercadorias da terra, trazemdo outras. Há nestes portos capitãees homrrados, com gente de guarniçam, acodem com has remdas ao rey de Narsiimgua. Tem ho |126r| rey nesta terra474 dos canar~ıis, asy nos portos do maar como na terra firme, gramdes r~edas, e tem estas beiras do mar com fortalezas a sua guisa, mas a mor fortaleza 469 Personagem não identificado. Chatim, do tamul chetti, designa uma casta de mercadores do sul da Índia.470 Parece tratar ‑se de Nahuda Qaysar, agente em onor de Cojeatar (já de seguida referido).471 Cojeatar (ou Kwaja Ata) era um eunuco originário de Bengala, que desempenhava funções de governador em ormuz à data da chegada dos portugueses àquela ilha em 1507.472 Referência a Afonso de Albuquerque, que conquistou Goa em 1510.473 o giraçal, do concani jiresal, é um arroz miúdo, muito branco e aromático; o chambaçal, do malaiálam chamba com o concani sal, é um arroz de qualidade superior; o pacharil, talvez do malai‑álam pachchari, é um arroz fino, mas de qualidade inferior.474 original: «tera».SumaOriental-PDF_imac.indd 105 12/5/17 2:02 PM
  • 106sam as barras dos riios. Hé tudo terra muyto aproveitada, grosa e boa de muitos mantim~etos, de muyta jemte, asy de cavallo como de pee. Tem muyto betelle e areca. Tem a terra dos canariis templlõs de suas oraçoees, gramdes e omrrados. Tem muitos bramenes de muitas sortes e ordees, delles castos, delles nam. Como no regno de Guoa custuma se queimarem as molheres polla maneira que hé dito nos outros gemtios. Estas terras [e] provimcias, scilicet, dacanis475 do regno de Daqu~e, conconis476 do regno de Goa, canaris do reino de Narsiimga, cada hu~u tem sua provinemcia. E porque estas terras sam do rey de Narsingua, detreminey de tratar aqui do regno, e posto que tam convenyemte fora falar delle na bamda de Choromãdell, domde hé moor senhor. E porque aqui senhorea, direi hu~u pouqo, e o all sera da bamda de Choromamdell, quamdo se della falar.477 Narsimgua.478Ho regno de Narsimgua hé cousa gramde e muito homrrada. De hu~ua bamda comfina com ho regno de Daquem e de Guoa, e esta parte hé Canarim, cuja cidade primcipall hé Bizanaguar,479 homde o rey esta d’asemto; da bamda de Gamges, na sayda do mar, comfina com alguuã parte do senhorio do reino de Bemgala e com ho reino d’orixa; da bamda da terra fiirme, com as serra‑nias de Delly; da bamda do maar ociano, com as provimcias do Malabar e de Choromãdell e Benua Quilim.480 Amtigamemte ho regno de Narsiimga era muito maior do que ora hé, senho‑reava quasy o reino de Daquem athee Bemgala, e emtrando aqui orixa, emtrando 475 o termo decanim designa o habitante do Decão.476 o termo concani / concanim designa o habitante do Concão (ou Konkan), longa faixa da costa ocidental da Índia, que abrange territórios dos actuais estados indianos de Maharashtra, Goa e Karnataka; pode também designar o falante da língua concani. Nas fontes portugueses, concanim confunde ‑se por vezes com canarim, designação que se liga mais especificamente ao Canará (ou Ka‑nara), a região costeira do actual estado de Karnataka, que não abrange Goa.477 Por alguma razão, Tomé Pires não chegou a incluir na Suma Oriental uma descrição de Cho‑romandel, mas apenas uma breve listagem dos seus portos.478 Narsinga designa o reino hindu de Vijayanagara, que hegemonizava grande parte da Hindus‑tão meridional, também apelidado pelos portugueses como reino de Bisnaga ou Bisnagar. o império hindu de Vijayanagara, contudo, nos princípios do século xvi perdera muito do seu antigo poderio e muitos dos seus territórios.479 A cidade de Vijayanagara ou Narsinga (de Narasimha, avatar de Vixnu, e protector da cida‑de), cujas ruínas confrontam a moderna localidade de Hampi.480 Malabar, região na costa ocidental da Índia meridional; Choromandel, região na costa orien‑tal da Índia meridional. «Benua Quilim» é um topónimo que Tomé Pires recolheu em Malaca, pois em malaio Benua Keling designa ‘a região dos kelings’, sendo que este último termo, ‘quelim’, identi‑ficava os povos do sul da Índia, em sentido mais específico da costa do Choromandel.SumaOriental-PDF_imac.indd 106 12/5/17 2:02 PM
  • 107aqui todallas provincias maritimas. Aguora nom hé tamanho que Daqem, e Guoa e o Malabar e orixa tem rex. Comtudo hé gramde cousa. Deixamdo ho reino de Dely, esta hé a moor provimcia destas partes, segundo dizem, das Indias. Ho rey hé jemtio,481 canarim de nação, e doutra parte quelim; ~e sua arte482 amda a lingoagem travada,483 mas seu naturall hé canarim. Hé este rey guerreiro, amda muitas vezes em campo com mais de qoremta mill hom~es de cavallo, gemte de pee [em] gramde numero, tera quinhemtos alifamtes, dos quaees seram iic de peleja. Tem sempre guerra, ora com orixa, ora com Daqu~e, ora na propia terra. Tem gramdes capitaees, tem muita gemte a soldo. Quamdo repousa, hé em Biznagar, cidade de vimte mill vizinhos, jaz amtre duas serrãs, as casas nam sam gee‑rallmemte muito adornadas, as casas ou paços do rey sam bem obradas, gramdes. É o rey bem acompanhado de fidalguos, gemtes de cavallo, tem gramdes señores consiguo, hé muito acatado. Amdam ~e sua corte mill moças jogrãees, e om~ees do mesmo oficio, quoatro [ou] cimqo mill; estes sam queliis he nom canariis, porque os naturães desta provincia de Talimgo484 sam mais autos nas graçaas e arremedar que em outras partidas. Daquii se espalham pera nestas tres Indias muita jemte, destes ho mais se dira na descricam do outro seu senhorio.485 Imdia meyãa.Acabada a primeira Imdia por Mangalor, terra de canaris, ~etrado sam na segunda Ymdia ou meya, que se começa de Mayciram, primeiro porto da terra do Malabar, e acabar se a no riio Ganges, polas comfromtaçoees do reino de Bemgala. E sera esta terra, de que hé o presemte recomtamento, dividida em duas partes, na primeira se dira da terra do Malabar, quam gramde hé, quamtos portos tem em que há naaos, quamtos rex tem, com que custumes vivem, quem hé moõr nesta provincia. E tambem se dira do trato deste Malabar, e de quamtas naãos tem.Na segumda parte se tratara do rey de Narsimgua e de sua terra, com quern peleja, que gemte tem de cavallo, e alguma cousa de seus costumes he tambem 481 Ao tempo de Tomé Pires, o soberano de Vijayanagara era Krishna Deva Raya (r.1509 ‑1529).482 No ML lê ‑se «corte», que parece ser a versão correcta (p. 102).483 original: «~e sua arte amda a lingoagem travada em sua arte amda a limgoagem travada». A linguagem da corte de Vijayanagara era nesta época sobretudo o telugu. A palavra «travada» talvez tenha o significado de ‘misturada’, pois o reino de Bisnagar abrangia áreas onde se falavam várias línguas dravídicas, como o tamul, o malaiálam, o canarês e o telugu484 Talingo ou Telingana é o nome atribuído a uma região da costa oriental do Hindustão, que confrontava a norte com orissa e a sul com Vijayanagara.485 A costa oriental da Índia não é descrita na Suma Oriental, com excepção de uma enumeração dos principais portos.SumaOriental-PDF_imac.indd 107 12/5/17 2:02 PM
  • 108da camtidade do reino, falamdo algu~u pouco do trato que tambem tem seus portos.486 |126v| E despois dir se a do reino d’orixa ou odia,487 e sera nosa Imdia segunda ou meya explanada segumdo a posybilidade. Provimcia do Malabar.A provimcia do Malabar começa de Maycerã,488 porto d’ellrey de Banignar489 que comfromta com Mamgalor, terra de canariis, d’ellrey de Narsimgua, e acaba no cabo de Comorim, terra d’ellrey de Coulão, que comfromta com o dito reino de Narsymgua, na provincia de Talimguo. Pola bamda da terra firme hé cerquada toda esta terra de serranias que a dividem do dito reino de Narsingua. Sera toda esta terra polas beiras do maar de cemto e dez atee cemto e vimte leguoas, e pola bamda da terra firme athee [a] serra, a lugares sera cimquo leguoas e a lugares xb. E desta maneira corre sem ser menos nem mais.Serras que devidem o Malabar de Narsynga.490Sam estas terras tam altas que nom comsemtem os nordestes he lestes pasar a costa da Imdia, nem polo comtrairo os suduestes e oestes nom vemtam no rregno de Narsiimgua. Scilicet, se vimdo de Ceilam pera a costa da Imdia com ventos fres‑cos dos sobreditos, chegamdo cesam se; da Imdia pera Choromandel partem com hos ponentes, tamto que abocam o canall de Ceilam,491 nom vemtam. Domde se seguio que ho Malabar, por carecer de vemtos sequos, hé [terra] fresca e graciosa, e a provincia de Choromandell, por carecer dos humedos, hé esterile sem arvore pequena nem gramde, como se mais largamemte dira em sua descriçam.492 Abaste quanto a isto. 486 Na realidade, o reino de Narsinga foi já tratado em anterior secção da Suma Oriental.487 Isto é, orissa (ou odisha), e não odiá, que remete para Ayutthaya.488 Maceirão, porto do litoral do Malabar, um pouco a sul de Mangalore, identificado com a actual Manjeshwar.489 No ML lê ‑se «Bemgar» (p. 103), que é a lição mais correcta, referindo ‑se ao potentado de Benghar, que se situava nas proximidades de Mangalore; o MP regista mais adiante «Bãmgar».490 o Malabar é separado das regiões mais interiores do Hindustão pela cadeia montanhosa dos Ghats (ou Gates) ocidentais.491 o canal de Ceilão corresponde ao Estreito de Palk, designado nas antigas fontes portuguesas como Estreito de Manar.492 A região de Choromandel, de facto, não é descrita na Suma Oriental.SumaOriental-PDF_imac.indd 108 12/5/17 2:02 PM
  • 109Cremça do Malabar.Todo Malabar cree a Trimdade como nos, Padre, Filho e Espiritu Samto, tres pesoas hu~u soo Deus verdadeiro.493 Desde Cambaia athee Bemgala todo gemtio tem ysto, como se dira mais largamemte na descriçam da terra domde jaz Sam Thomee apostollo.494 Nom me devia meter nas cosas do Malabar, por ser tam notorio a Vosa Alteza, em que tem tam fermosas tres fortalezas, gramdes he homrradas, scilicet, a de Calecut e a de Cochim, com mui gramde albacar,495 feito tudo ysto de quaall de cascas d’ameygeas,496 e a de Cananor, de fremosas cavas e bem asem‑tada.497 Mas por a ordem do prometido hiir ao cabo, faço de todo memçam nesta viagem. A gemte do Malabar hé preta, e della baça [e] parda. Som todollos rex jemtios bramenes, ou de casta de seus sacerdotes. A limguoagem hé toda hu~ua, casy asy como em Italia, diferem em pouca cousa.498 Hé toda a terra muyto povoada. Avera neste Malabar cemto e cimqoemta mill naires,499 homees de peleja d’espada he adarga500 e frecheiros. Sam hom~ees que adoram o seu rey e por casso o rey morre em batalha, sam obrigados a morrer, e se o nom fazem diferem se da terra e ficam imjuriados pera sempre. Sam os naires leães, nom tredores. Primeiro que hu~u rey do Malabar peleje com outro, lho há de fazer saber primeiro que se preceba, hé asii seu costume. Todo naire nom pode amdar de sua casa fora, como hé pera tomar armas, sem suas armas, tamto que nom hé licito ao naire amdar sem ellas, aimda que seja de cem annos. E quamdo esta pera morrer, sempre tem junto comsiguo a espada e adarga, tam perto que se lhe comprir que a posa tomar. Costumam todos fazer gramde rever~ecia aos mestres que hos emsinam, em tamto que ho melhor dos naires, se achar hu~u maquaa,501 se alg~ua cousa lhe emsinou, se o emcomtra faz lhe a reveremcia, emtam vay se lavar. Se o naire acha em hu~u caminho outro naire 493 Como foi antes mencionado, trata ‑se de uma referência ao trio de divindades veneradas pelo hinduismo, Brama, Vixnu e Xiva.494 A terra de S. Tomé, isto é, a região de Meliapor, por alguma razão não é descrita na Suma Oriental.495 Albacar, do árabe baqqar, designa o recinto fortificado.496 A cal para a construção com pedra era obtida a partir de cascas de mariscos.497 os portugueses construiram originalmente no Malabar, a primeira região indiana que aborda‑ram, três fortalezas: a de Cochim (actual cidade de Kochi), construída em 1504; a de Cananor (actual Kannur), construída em 1505; e a de Calecute (actual cidade de Kozhikode), construída em 1513, mas que seria abandonada na década de 1520.498 A língua do Malabar é o malaiálam. Poderia esta observação sugerir uma viagem de Tomé Pires a Itália, antes da sua partida para a Índia?499 Naire, do malaiálam nayar, é um membro da casta militar do Malabar.500 Adarga é um escudo oval, normalmente de couro.501 os macuás ou mucuás, do malaiálam mukkuvan, eram uma casta de pescadores do Malabar.SumaOriental-PDF_imac.indd 109 12/5/17 2:02 PM
  • 110mais velho, adora o e da lhe ho caminho; se esteverem dous, tres, quatro irmaãos, ho mais velho há d’estar asemtado e os outros em pee. E porque a jemte primcipall do Malabar sam os bramenes domde os rex decemdem, e sam mais fidallguos por causa de seu sacerdocio, se dira primeiro delles he despois dos naires e das outras geraço~es.|127r| Bramines.Bramenes sam sacerdotes que trazem hu~ua linha depemdurada do ombro ezquerdo por debaixo do braço direito, hé de vimte sete fios feitos em tres.502 A melhor geraçam destes sam chatrias, e depois patadares, e apos estes nambu‑deris, e os mais somenos namburis.503 Trazem estes bramenes o nacimemto muito amtiquisymo, sam de samgue mais limpo que os naires. Tem estes carguo d’estar no turuqois504 rrezamdo, sam emtemdidos nas cousas de sua creemça. os mais homr‑rados destes estam com hos rex do Malabar. Sam homees que nom comem nenhu~ua cousa que fose viva de samgue, he por esta causa pronunciarom os amtiguos delles que nom fose nimgu~e poderoso no Malabar comer vaqua, so[b] penna de morte e de gramde pequado; a rezam seria por comerem o leite as braminas, pois emgeitarom a carne. Domde procedeo tanto a estima nas vacas que em muita parte de gentios adorã a vaqua como cousa santa.505 Estes bramenes tem poder d’escomungar e absol‑ver. Nenhu~u nom traz armas nem vay a guerra nen se mata por nenhu~u caso por que o mereça, framcamente amdam por homde querem, posto que seja em guerra.Muita jemte do Malabar asii naires como bramenes e suas molh~eres, e tambem na gemte baixa, geerallmemte a quarta ou quimta parte de todos, tem as pernas muito grosas e inchadas de gramde grosura, e morrem diso, he hé cousa feea de ver. Dizem que procede das augas por homde pasam, porque a terra hé apaulada. Cha‑mam se pericaees na linguoagem da terra, e toda esta imchaçam hé igoallmemte dos giolhos pera baixo, e nom tem door nem se semtem da taall imfermidade.506 502 os brâmanes de casta superior usam à tiracolo um cordão ritual triplo, de algodão, como símbolo da sua iniciação, que tem normalmente lugar entre os 7 e os 10 anos.503 A descrição de Tomé Pires está assaz incorrecta, talvez por má interpretação de informações recebidas oralmente. As três sub ‑castas brâmanes do Malabar eram, por ordem de importância decres‑cente, os namburins, os patares e os embrantinis. os «chatrias» não são brâmanes, mas sim chátrias ou kxátrias, membros da casta militar, uma das quatro castas fundamentais da sociedade hindu, ao lado dos brâmanes (casta sacerdotal), dos váixias (casta popular) e dos sudras (casta servil).504 Turucol ou turcol, do malaiálam tiru ‑kovil, é um termo que no Malabar designa um templo ou pagode hindu.505 os hindus consideram a vaca como o símbolo da vida, atribuindo ‑lhe um carácter sagrado.506 Pericale, do malaiálam perikkal, designa a elefantíase, enfermidade então muito comum no Malabar.SumaOriental-PDF_imac.indd 110 12/5/17 2:02 PM
  • 111Na terra do Malabar, no ajumtamemto seu, tem por costume que a femea tem os olhos na cama e o macho no telhado, e isto hé geerallmemte amtre gramdes e pequenos, e o all tem por estranho e alheo de suas comdiçoees. E alguns portu‑gueses acos[tu]mados na terra nom lhe parece feeo.507 Fisicos do Malabar.Nas imfirmidades nom comem carne hos doemtes, somemte pescado. Tem por dieta o primcipall remedio, he tamgeren lhe atabaquees508 e outros sõos dous [ou] tres dias, que dizem que tem vertude. Se tem febres, comem pescado e lavan se muitas vezes. Se vomitam, lavan lhe a cabeça com augua fria, e hé bom vai se logo. Se tem fruxo gramde,509 bebem aguoa de lanha, que he quoquo novo,510 estanqua lloguo. Se querem purgar, bebem folhas de figueira do inferno511 pisadas, ou o çumo ou a sememte, e purgam muito, e com a purga se lavam. Se som feridos de gramdes feridas, [deixam] azeite de quoquo quemte escorrer huuã ora he duas oras sobre a ferida, cada dia duas vezes, e sam sãos. os nosos homees com febres comem galinhas gordas e bebem vinho, e sam sãoos. A muitos acomtece isto, e os que se poem em a dieta gastam se. Injuria no Malabar.A cousa que se no Malabar estima por pior hé que a quem quero mall, se lhe quebro hu~ua panella nova a sua porta, hé gramde imfamia; ou pasamdo pola rua se lha arremesam e que quebre jumto com a tall pessoa, hé pior. Sam casos de morte estes, pera o que o comete, e o que o pasa fica desomrrado pera sempre. Hos rex do Malabar todos sam bramenes destes fios, delles de geraçam mais fydalguos, delles menos, porque ho costume do Malabar hé que o filho do rey nom socede o reino, somemte o irmao ou sobrinho. E porque estes sam bramenes he nom podem casar com naires, por ser defesso, catam dos mais homrados bramenes 507 Curiosa observação de Tomé Pires a propósito dos costumes sexuais do Malabar, que salienta indirectamente uma das facetas menos vulgares do processo de aculturação sofrido pelos portugueses no oriente508 Atabaque é um instrumento musical de percussão.509 Fluxo, o mesmo que diarreia.510 o termo lanha designa o coco tenro, meio maduro, assim como a água do coco, fruto do coqueiro (Cocos nucifera, L.), árvore muito vulgar em todo o oriente, a que os portugueses davam também a designação de noz ‑da ‑índia511 A figueira ‑do ‑inferno será talvez a Datura stramonium, L., arbusto oriundo das vertentes do Himalaia, muito usado como estimulante, pela sua riqueza em alcalóides.SumaOriental-PDF_imac.indd 111 12/5/17 2:02 PM
  • 112daquella geeraçam pera fazerem casta nas irmãas, pera [que] o mais velho soceda, he desta maneira os bramanes dormem com as irmãas do rey e delles sa~ee os rex do Malabar. o rey de Cochim, como seja [de] samgue mais apurado e nom aver na terra com quem case, se há patamares bramenes de Cambaya, que sam amtiguos paremtes do rrey bramina que em outros tempos foy naquelas partes samto, destes escolhem pera geraçam, e quamdo nom, tomam a da terra dos mais fidalguos bramenes. Neste costume estam desde trimta mil annos, segundo comtam, etc. |127v| Costume dos reis do Malabar.os reis do Malabar casam quamtas vezes querem e despois de terem as molh~er[e]s as dam em casamemto a guisa da terra, a pesoas homrradas. os filhos dos rex sam naires como os outros, nom herdam nada. Muitos dos rex casam por arras, as vezes os tem sempre athe ssua morte. Se quallquer rey do Malabar quer a molher do mais homrrado samgue, que tenhã caimaees,512 vem de boamente, e os taees caimaees ficam muito homrrados. Muitas vezes os gramdes senhores dam dinheiro aos patamares513 por que levem a virgimdade a suas molheres, e estam os patamares ‘mas tamto me dares’. Todos os bramenes sam casados, herdam seus filhos suas fazemdas. Sam as braminas molheres castas, nom tem ajuntamento, somemte com seu marido, e a bramina sempre ho hé, e seus filhos nom se mesturam. Pode a bramina dormir com naires quamdo quiser, e o naire nom com bramina. Naires do Malabar.Hos naires nenhu~u nom tem pay nem filho. Nom casam as nairas, quamtos mais amiguos tem tamto sam mais homrradas. Desta maneira hu~ua molher naira tem huua filha, duas ou tres, escolhe hu~u naire pera cada hu~ua ~e tempo de sua virgimdade, e casa a com elle pera a romper. Fazem festa em que ho naire gasta segumdo hee. Esta quoatro dias com ella, ~e synall de a romper lamça lhe hu~u pequeno d’ouro ao pescoço, de valia de xxxta reis, chama se quete.514 Vai se este vem outros naires, comcertam se, hu~u lhe da h~ua cousa, outro outra, quamtos 512 Caimal, do malaiálam kaimal, naire principal, senhor de terras e vassalos.513 Patamar parece corresponder ao hindustani patta ‑mar, indivíduo de casta inferior, que nas regiões ocidentais do Hindustão desempenhava funções de mensageiro.514 A cerimónia designa ‑se em malaiálam por tali kettu, isto é, imposição do tali, a jóia de ouro oferecida.SumaOriental-PDF_imac.indd 112 12/5/17 2:02 PM
  • 113mais tem tamto mais homrrada hé. Tambem os naires tem suas despesas espalha‑das por outras. Polla mor parte nom comem os naires em casas dellas, e por ysto nunca naire teve pay n~e filho, porque cada hu~ua tem dous athee dez, os sabidos de que tem merecimento. Amtre elles tambem há naires que vemdem azeite e peixe, e muitos sam ofyciaees macaniquos. Se quallquer naira se fose fora de sua casa e lhe tocase hu~u hom~e da casta dos poleaas515 com ha maão ou com huuã pedra, fica pera o matarem ou vemder~e. E se o tall lhe tocase imdo em companhia de naire, nom fica empoliada. Ysto se fez por nom irem catar a gemte baxa. Se o que ha toca se toma, morre pollo tall crime. Nenhuua virtude sabem as nairas do Malabar, nem eyxercicio de coser nem lavrar, somemte comer e folguar.Geraçõees do Malabar.No Malabar nom pode ser o filho mais homrrado que ho pay, de maneira que ha bramina seus filhos o sam, e o naire sempre o hee. E todo oficiall mecaniquo ou jograees camtores, feiticeiros, o filho segue o oficio do pay de necesydade, etc. A mais baixa [gente] sam pareos, que comem vaquas, sam letrados feiticeiros; os poleas sam lavradores; e os beituãas [e] os mainates [são] lavamdeiros; os yravas pedreiros; os poleaas sam tangedores nos turucoees o[u] em festas; os canjares sam balhadores nos templlos e paguodes; os macuaas pescadores; os canacos fazem sall; depos estes, carpinteiros, orivezes e todo outro oficio macaniquo; e depos estes hos iravaas, homees que fazem os vinhos.516 Todos estes nom pasam polas estradas dos naires, e fogem dellas so[b] pena de morte. He em caso de necessidade, hos naires e o rey, asy como na guerra e ~e doemças e em esgrimas, joguos d’espadas [e] lamças, se podem toquar com elles, e lavam se e ficam limpos. E em qualquer cousa que 515 Poleá, do malaiálam pulayan, membro de casta de escravos no Malabar, uma das mais ínfimas da sociedade hindu.516 Não é improvável que a designação das diferentes castas baixas tivesse mudado ao longo dos tempos, ou que Tomé Pires tivesse confundido algumas das notícias recebidas sobre a complexa organização social indiana. Mas quase todas as castas referidas na Suma podem ser identificadas. os pareas, do tamul pareiyar, desempenhavam uma variedade de funções, que incluíam serviços mu‑sicais em determinadas cerimónias religiosas; talvez por isso mesmo fossem assimilados a feiticeiros pelos observadores portugueses. os poleás (no ML designados «Poravas», p. 111) eram certamente os pulayan, encarregados do cultivo da terra. os betuas correspondem talvez aos velan ou lavadores; os mainatos correspondem aos mannan, também lavadores. os iravás são uma casta inferior (irava), que se dedicava a trabalhos pesados. A segunda referência aos «poleaas» conterá decerto algum lapso, e alude aos poduval, músicos de templo. os «canjares» (no ML designados «quarnaquares», p. 111) não se conseguem identificar. os macuás, já antes referidos, correspondem aos mukkuvan ou pescadores de mar. os «canacos» (no ML designados «quanacas», p. 11) tãopouco se conseguem identificar. os giravas poderiam ser os ilavar, encarregados de cultivar terrenos baldios.SumaOriental-PDF_imac.indd 113 12/5/17 2:02 PM
  • 114comprir ao naire desta gemte, se neguocea seu proveito, nom tem pecado. Todas estas naçõees o filho herda a fazemda do pay, e sam casados cada hu~u com huuã molher. Acerqua das outras meudezas desta provimciã, que tem gramdes idolatrias e fei‑tiçarias e fortes gemtilidades, nom me amtremeto porque ja dela tera sabido todas suas comdiçoees, e por nom ser materea tocante ao presente recomtamemto.517 |128r| Cobras.Há nesta provimcia cobras de capello e de bafo.518 As de capello sam pequeñas, pretas, da grosura de hu~u dedo poleguar; tem de comprimemto tres quoatro palmos, tem presas, tem sobre ha cabeça o coiro froxo; quamdo se emcrespa faz maneira de cobertura a que chamam capello; se estas mordem, matam loguo. As de bafo dizem que sam deste tamanho e de grosura do collo do braço, sem capello, e que soo do ar matam; nunqua vy omem que ha vise.519 As de capello trazem fei‑ticeiros em panellas, asy gemtios como mouros, e com certo som as fazem no cham amdar bulimdo, toman nas com a maão sem medo, com palavras que lhe dizem, e se as vezes hos mordem, morrem. Se amdam bravas no mato, estes feiticeiros as tomam e emcamtam. Ho naire e bramenes nom podem por ley matar as cobras, dizem que sam cousas samtas, em suas ortas tem lugares apartados pera ellas, em que lhe dam arroz cozido.520 Christaaos521 nesta provimcia.Há nesta provimcia do Malabar quinze mill christaõos522 do tempo de sam Thome apostollo, dos quaees dous mill seram homees homrrados, cavaleiros merca‑dores, gemte estimada, e os outros sam oficia~ees, gemte pobre.523 Sam na terra privile‑517 Tomé Pires poderia estar a referir ‑se à primeira versão do Livro das cousas do Oriente de Duarte Barbosa, onde de facto são exaustivamente tratados os assuntos do Malabar, e que é habitualmente datada de 1517, mas poderia ser um pouco anterior. 518 Referência às cobras ‑capelo ou najas, serpentes da família das Elapidae. 519 Na realidade, algumas espécies de najas cospem veneno, o que Tomé Pires parece designar como «bafo». 520 As cobras ‑capelo têm um lugar especial na mitologia hindu.521 original: «Xstaaos».522 original: «xstaõos».523 Tomé Pires refere ‑se às comunidades de cristãos de rito siríaco existentes no sul da Índia, e que alegadamente teriam resultado da pregação do apóstolo São Tomé.SumaOriental-PDF_imac.indd 114 12/5/17 2:02 PM
  • 115giados e tocam se com os naires. [A] abitaçam destes christaoos524 hé de Chetua atee Coulam.525 Fora daqui nom há christaaos526 dos amtig~uos. Nom fallo dos que som tornados em tempo de Vosa Alteza nem nos que se tornam cada dia, que sam muitos. Terra do Malabar que tem riios.Nesta terra do Malabar hé huua parte que tem gramdes rios em sy, que a fazem forte, em que pescam, a lugares alto e baixo, em que navegam em gramdes tones, scilicet, de Panane527 athee Coulãoo. He [fora] esta terra, a outra do Malabar hé enxuta e boa pera caminhar por terra, e esta en tones [e] catures.528 Reis no Malabar.Começamdo de Mamgalor pera Comorim, estes sam hos rex na provimcia do Malabar: elrey de Bangar, ellrey da Cata, ellrey de Cananor, ellrey de Calecut, elrey de Tanor, ellrey de Cramganor, ellrey de Cochim, ellrey de Cayacoulam, ellrey de Coulam, ellrey de Travamcor, ellrey de Comorim.529 Tem esta terra gramdes caimães, que delles sam mayores que muitos reis destes, mas nom tem titollo de rex, delles bramenes, delles naires. Destes reis, o maior em terra he jemte hé o de Coulam, em fidallguia o de Cochim, em titollo o de Calecut, em gemte, depos Coulam, Cananor, e depos Cananor, o de Caia Coulam. os melhores homees de peleja sam os do reyno de Calecut. Portos de maar nesta provimcia.Hos portos do maar nesta provimcia, ~e que há povoaçõees e naaos, sam os segujmtes: Mayceram, Mayporam, Combula, Coty Coulam, Niliporam, Hyeri, 524 original: «xstaoos».525 Chatuá (ou Chetwai), porto um pouco a norte de Cochim, e Coulão (ou Quilon), porto na parte sul do Malabar.526 original: «xpaaos».527 Porto do Malabar, entre Calecute e Cochim, que pode ser identificado com a actual Ponnani.528 o tone era um navio de carga, com o fundo largo e chato; o catur era uma embarcação ligeira, a remos e à vela. 529 Tomé Pires refere ‑se sucessivamente às cidades portuárias ou potentados de: Benghar; Kot‑tayam; Cananor (ou Kannur); Calecute (ou Kozhikode); Tanor (ou Tanur); Cranganor (ou Kodun‑gallur); Cochim (ou Kochi); Caiacoulão (ou Kayamkulam); Coulão (ou Kollam); Travancor (ou Thi‑ruvananthapuram); Comorim (ou Kanyakumari).SumaOriental-PDF_imac.indd 115 12/5/17 2:02 PM
  • 116Baleapatanam, Cananor, Tarmapatam, Marlariani, Çombaa, Pudopatanam, Tiri‑corii, Bairacono, Coulam, a que chamam Pamdarani, Capocar, Calecut, Chaliaa, Parapurancorj, Tanor, Panane, Belyancoro, Chetua, Cramganor, Cochim, Caya‑coulam, Coulam, Bilinjão, Comorim.530 Avera nesta provimcia de Malabar, nos regnos e portos ja ditos, quoatrocemtas naõs de cargua, dellas gramdes, dellas pequenas; sam naãos ladas, largas por baixo, carreguam muito e demamdam menos fumdo que as de quilha. Ysto se fez porque geerallmemte o Malabar navega na provimcia de Talimguo, em que sam as regiõees de Comorim athe Paleacate.531 E porque Ceilam faz canall com esta terra e no meio hé de baixa mar de braça e mea, que se chamam os baixos [de] Chilam,532 foy necesario fazer~em se ladas, esta hé a causa. Nom navegam estes em golfão, salvo com gramde medo. Doutros navios pequenos a que chamã pagueres,533 que carreguam tamto como caravellas, tem mais doutros tamtos, etc. Arroz, domde vem.Toda esta provimcia do Malabar carece d’arroz, e de seu natural nom tem casy nada. Da bamda de Tanor athee Maiceram se fornece de Guoa, he Narsinga da bamda dos canaris; este arroz hé frio e vall atee Tanor. De Tanor athe Coulam vem da provimcia de Talinguo por Choromandell; este arroz hé quemte e gasta se atee Tanor. Domde hé de saber que homde tem valor o arroz de Choromandell, nom vall o de Guoa e [o da terra dos] canar~ıs, asy polo comtrairo, homde vall o [da terra] de canariis, nom vall o outro a terça e meia parte menos. |128v| Repartição dos portos aos reinos.Ho[s] porto[s] de Mayceram e Mayporam sam d’ellrey de Bãmgar. Aqui se começa ho Malabar. Hé este rey vizinho [da terra] dos canaris. Hé terra abastada 530 Tomé Pires refere ‑se sucessivamente aos seguintes portos do litoral indiano: Maceirão (ou Manjeshwar); «Mayporam», não identificado; Kumbla; Kattakulam; Nileswaram; Ettikulam; Balia‑patam ou Azhikkal; Cananor (ou Kannur); Durmapatam; «Marlariani», no ML «Murlapiam», não identificado; Chombala; Puthupanam; Tricodi ou Thalaserry; «Bairacono», não identificado; Koyi‑landy e Parapally; Kappad; Calecute (ou Kozhikode); Chaliyan; Parappanangadi; Tanor (ou Tanur); Ponnani; Veliancode; Chettuva; Cranganor (ou Kodungallur); Cochim (ou Kochi); Caiacoulão (ou Kayamkulam); Coulão (ou Kollam); Vizhinjam; Comorim ou Kanyakumari.531 Pulicate, porto da costa oriental da Índia.532 Chilão, baixos situados ao largo do sul do Hindustão, entre o continente e a vizinha ilha de Ceilão, também conhecidos por Adam’s Bridge.533 Paguel, do marata pagala, pequena embarcação utilizada no litoral do Malabar para transpor‑te de mercadorias.SumaOriental-PDF_imac.indd 116 12/5/17 2:02 PM
  • 117d’arroz [e] pescados. A gemte deste reino, posto que seja pouca, hé guerreira, sam gramdes frecheiros, as setas de ferros compridos, larguos. Defemdem sua terra e as vezes tem guerra com hos canariis. Hé reino pequeno. Estes dous portos de maar tem algu~uas naaos e povoaçoees, tratam com os desta provincia. Ellrey da Cota.534Ho rey de Cota nom tem no mãar porto, todo seu poder hé na terra firme. Hé reino como ho de cima, tem guerra com Cananor. Faz este moeda, comtra vomtade dos rex do Malabar, sem temer nenhu~u delles. Sam gramdes imiguos, e este hé o rey de Cananor. Hé a jemte forte. Deste hé a terra e daqui sam os fanoes da Cota.535 Regno de Canañor.536Ho[s] porto[s] de Combulaa, Coticoulam, Niliporam, Hieri, Baleapatamam, Cananor, Tarmapatam, Mailariavii537 sam d’ellrey de Cananor. Todos estes portos sam cousa pouca, ssomemte ho porto de Cananor que hé gramde, nobre, homrrado, de grande cidade e trato. Hé este reyno de Cananor gramde, de muita gemte. A terra hé boa, tem boos ares e boas auguas. Tem muitos mouros a cidade de Cananor, tem mercadores caudellosos. Se o poder de Vossa Alteza nom fora sobre este reyno, ja fora de mouros, porque hu~u Mamalle Mercar se faziia ja poderosso.538 Há nesta terra muitos espimgardeiros, frecheiros, naires d’espada e adargua. Ho rey hé bramene, de barba muito comprida, sinall mais mourisco que de sacerdote g~etio malabar. Regno de Calecut.539Ho[s] porto[s] de Çombaa, Pudupatanam, Tiricori, Pamdarane, Capocar, Calecut, Chalia, Pariporaary,540 sam do reino de Calecut. Sam portos pequenos, 534 Kottayam, pequeno potentado do interior, que confinava com as terras de Cananor.535 Fanão, do malaiálam panam, antiga moeda de ouro ou de prata, que circulava no sul da Índia, valendo de 20 a 40 réis.536 Cananor (ou Kannur).537 Referido anteriormente como «Marlariani».538 Tomé Pires refere ‑se a Mamale Marakkar, importante mercador de Cochim, que possuía mais de vinte navios, e era tido em alta consideração tanto pelo rei de Cochim como pelos portugueses que estanciavam naquela praça.539 Calecute (ou Kozhikode).540 Referido anteriormente como «Parapurancory».SumaOriental-PDF_imac.indd 117 12/5/17 2:02 PM
  • 118todos estes tem naaos e mercadores e boas povoaçooes. Chama se o rey de Calicut Çamorim, quer dizer ‘senhor de todos os malabares’.541 Comfyna este reino com Cananor de hu~ua bamda, e da outra com Tanor, digo, com estes reinos. o porto de Calicut nom hé boom por ser em costa de maar. A cidade hé gramde, de muita gemte e muito trato, de muitos mercadores, asy malabares como quelliis chet~ıis, e estramgeiros de todas partidas, asy mouros como gemtios. Hé muito nomeado porto, hé a melhor cousa de todo ho Malabar. Aqui tinham gramdes cassas de fei‑torias muitas nações, cada hu~u traziia aqui suas mercadorias, e aqui se fazia gramde comercio, troca, escambo. Hé lugar gramde, memtado hé em toda esta bamda d’Asya por cousa homrrada. En terra hé este reino menos que ho de Cananor, tem melhor jemte de guerra. Hé terra bem asombrada, fazem aqui muitos panos de seda e comservas. Este rey, posto que tenha ho nome gramde, nom lhe obedecem mais que em seu regno, e as vezes mall. E porque nom comto estorias, nom faço fumdamento deste titollo, somemte dizem os malabares que ouve neste Malabar hu~u rey de toda a terra Malabar e que embutido por mouros se foy caminho de Mequa, fez se mouro.542 Este morreo em o reino de Tufar,543 amte[s] d’abocar ho Estreito. Ja partiio do Malabar fora de seu syso, repartiio toda a terra, e despois de a ter dada cheguou hu~u paremte seu a pedir lhe, deu lhe a terra da cidade de Calecut, que era cousa pouca, he ho titollo ficou athee ora chamar se [Samorim]. Asy por rezam da neguoceaçã se fez ho reino de Calecut cousa homrrada. Regno de Tanor.544Tanor tem muitas naãos, nom tem outro porto de mãar. Hé rey homrrado de boa terra, nom tamanho como Qualicut. Tem muita jemte. Hé rey paremte dos reis de Cochim. Tem muitos moradores ~e sua terra. Hé rey bramene homrrado. Hos portos de Panane, Beliamcoro, Chetuaa, com as terras que cada h~uus tem. Sam portos de naãos e mercadores, e de boas povoações. Sam de senhores bramenes e caimaees, pessoas homrradas. As vezes se emcostam com quem querem, as vezes nam. Amtiguamemte mais seguiam ho bamdo de Calecut, aguora cada hu~u por sy ou como lhe vem a vomtade. Sam, cada hu~u destes, gramdes como alg~us rex do Mala‑bar, e do povo de cada hu~u sam chamados rex, mas nam dos outros reis e senhores. 541 Samorim, do malaiálam samudri, era o título do rajá hindu de Calecute, que significava literal‑mente ‘rei do mar’, em alusão ao intenso tráfico mercantil que demandava aquele porto do Malabar.542 Tomé Pires refere ‑se à tradição então corrente no Malabar sobre a conversão ao islamismo de um rajá hindu intitulado Cheraman Perumal (aparentemente um título dinástico), a qual também é mencionada por Duarte Barbosa no seu Livro das coisas do Oriente de 1517543 Região de Dhofar (ou Zufar), no litoral meridional da Península Arábica.544 Tanor (ou Tanur).SumaOriental-PDF_imac.indd 118 12/5/17 2:02 PM
  • 119Regno de Cramganor.545Ho regno de C[r]ãganor de hu~ua parte se ajunta a terra de Chatua546 e da outra ao reino de Cochim. Cramganor foy amtigamente homrrado. Hé bom porto, tem muita gemte e boa terra. A cidade de Cramganor he[ra] homrrada, de trato gramde, ante[s] dee se fazer Cochim nobre.547 Este rey ora se emcosta a Cochim, porque tem Cochim deste reyno parte nas remdas, ora a Calecut, as vezes a nengu~e. [o rei] hé paremte d’elrey de Cochim, nom hé reino muito gramde. |129r| Regno de Cochim.548o reino de Cochim hé cousa muito pequena e [não] muyto gramde. Ho reino nom hé mais que ha ilha de Vaip~ı549 e a de Cochim, que ambas teram seis mill homees naires. Tem senhores junto com estes, [de] reino tamanho e mayores que ho reyno, todos estes aguora sam vasallos d’ellrey de Cochim, pollo poder que tem de Vosa Alteza. He hé aguora mor que todos e cabeça de toda a terra do Malabar, e mais homrrado que todos, e mais estimado. Tem boa cidade he bom porto, he muitas naaos. Trata gramdememte, hé a melhor cousa que há nestas partes. Hé o rey bramene, amtre todos maior, hé sumo pomtifiquo desta terra.550 Traz comsyguo sempre muytos caimae~es, pesoas muito homrradas, e muitos bramenes. Reino de Cayacoulam.551Ho reino de Cayacoulam de hu~ua parte comfyna com terras dos senhor~eos do reino de Cochim e da outra com ho regno de Coulam. Hé rey gramde de terra, como Calecut e maior. Tem algu~u trato em sua terra e alguuas naãos e mercado‑res, nom muitos. Hé rey homrrado, de muita jemte, hé pessoa estimada he riquo, e gramde senhor. Tem mais naaos que Coulão. 545 Cranganor (ou Kodungallur).546 Isto é, «Chetua» ou «Chetuaa» (Chettuva), localidade já referida anteriormente.547 o ML acrescenta aqui: «com a vimda dos Portugeses» (p. 117).548 Cochim (ou Kochi).549 A ilha de Vaipim (ou Vypin), fronteira a Cochim, onde existia uma pequena fortaleza portu‑guesa, construída em 1503.550 o rei de Cochim, no tempo de Tomé Pires, era Rama Varna (r.1504 ‑1545).551 Caiacoulão (ou Kayamkulam).SumaOriental-PDF_imac.indd 119 12/5/17 2:02 PM
  • 120Regno de Coulão.552o reino de Coulão de huuã bamda comfyna com ho regno de Cayacoulão e da outra com ho reino de Travamcor. Tem alem do porto de Coulam o porto de Bilinjao. Este rey hé [o] maior do Malabar em terra e gemte. Tem este a cidade de Coulam, hé gramde escalla de naãos, de muitos mercadores de diversas partes. Tratam gramdemente neste reino. Hé gramde senhor, tinha este por vasallo ellrey de Çeilam, ho primcipall, se lhe pagava em cada hu~u anno de pareas553 he trebuto quoremta alefamtes, os quaees nõ recebe ja aguora, despois do poder de Vosa Alteza ser na Imdia. Hé gramde o trafiguo do regno de Coulam, tem muitas naãos. Regno de Travamcor.554o rey de Travanqor de hu~ua parte hé com Qoulam e da outra comfynam com o cabo de Comorim. Nom tem no mar somemte poucas casas. Na terra firme hé grande senhor e pesoa homrrada, de boa terra, de gemte guerreira. Compra este muitos cavallos, e deste reino vam pera o reino de Narsimgua. Tem muita gemte he boa. Nas beiras do maar tem povoaçoes de maquas,555 que dã nova na terra da chegada das naaos, e servem no desembarcar dos cavallos. Regno de Comorim.556De hu~ua parte [confina] com Travanqor e da outra atee Qaile,557 que hé seu. Ho primcepe de Comorim hé rey de Coulao, por morte do rey de Coulam. Tiramdo a terra do reino de Travamcor, esta terra de Comorim ja nom hé boa como as outras, nom tem palmeiras, salvo cousa pouqa. Todos os reis que vivem no Malabar hu~us com outros tem comtinoadamente guerra na terra, porque o naire nom pode comer no mar, porque lhe hé defeso por sua creença, sallvo com licemça de seu maior bramene, em casso de muita necesidade. os bramines muito menos entrã no maãr.558 552 Coulão (ou Kollam).553 Párea, tributo de vassalagem.554 Travancor (ou Thiruvananthapuram).555 Macuás, casta de pescadores.556 Comorim (ou Kanyakumari).557 Kayalpatnam, na costa sudeste da Índia.558 Determinadas castas indianas, de facto, regiam ‑se por rigorosos interditos, que as proibiam de viajar por mar ou de tomar alimentação a bordo de uma embarcação.SumaOriental-PDF_imac.indd 120 12/5/17 2:02 PM
  • 121Há nesta terra do Malabar tones, catures, bate~es de remo compridos, cerados por cima quamto hu~u omem pode emtrar d’ilhargua. Voga cada hu~u de dez ate xxte remos. Sam ligeiros, e há gramde soma destes, ~e que amdam frecheiros, sam de maquas arees.559 Sam estes arees maquas pessoas de gemte, riquos,560 e á muitos nesta costa. E se acham naão em calmarias, a remo a levam homde querem, comtra võtade dos da naao, porque sam gramdes frecheiros. Hé a jemte baixa do Malabar muito pobre, e sam gramdes ladroees. Mais gemte há no Malabar de naires he bramines, que das outras naçooes. Em todo o Malabar nom pode nengu~e cobrir casa de telha, salvo se for turi‑coll ou mezquita, ou casa d’algu~u gramde caimall, por merecee. Isto por se nom fazer~e fortes na terra. E isto gardam os rex do Malabar gramdememte. Chaman se caimaees, senhores de terras e vasallos. Há no Malabar caimall de dez mill naires, e outros de cemto e duzemtos naires.Trato de mercadaria no Malabar.A terra do Malabar tem imfynidade de palmeiras [e] arequeiras ao longuo do mar, e nom se estemde pera a terra firme, somente a leguoa e meia, e o mais athee duas. o fruito das palmeiras chamam quoquos, e nos nuces imdie,561 e o fruito das arequeiras chamam areqas, he nos avelana imdie. Tem destes imfinidade. Tem muito betelle. Tratam os mercadores deste Malabar da bamda da Persya athee Cambaya e [terra dos] resputes, da bamda de Choromamdell athe Paleacate, e em Ceilam e nas ilhas de Diva. Neste Malabar todollos mercadores que tratã no maar sam mouros, he estes tem o trato em peso. Sam gramdes mercadores, |129v| e boos comtadores. Tem estes mercadores naires a solldo que os acompanham, he destes naires alguns sam seus esprivaães e sam melhores comtadores que os mourõs. Algu~us dos malabares se tornavam mouros a primeira, ja aguora nom. Mercadorias do Malabar.Copra,562 que sam coquos sequos sem casca, coquos maduros, arrequa, betelle, açuquar de pallmeiras, a que chamam jagra,563 azeite de coquo, cairo,564 pimemta, 559 Arel, do malaiálam arayal, capitão de porto ou chefe de pescadores do Malabar.560 original: «pas de gemte riqos».561 Coco ou noz ‑da ‑índia, já referido.562 Copra, do malaiálam koppara, amêndoa seca de coco.563 Jagra, do malaiálam chakkara, açúcar mascavado de palmeira.564 Cairo, do malaiálam kayuru, fibra de casca de coco.SumaOriental-PDF_imac.indd 121 12/5/17 2:02 PM
  • 122gingivre, tamarimdos,565 mirabulanõs.566 A pimemta avera no Malabar atee vimte mill bahares,567 e nace de Chatua athee o reino de Cayacoulam, e alguuã pouca por Coulam [e] por Cramganor. E Cochim hé a escala desta pimemta mais perto, e omde mais ganham, [ali] a levam aimda que seja com trabalho. Cramganor nem Cochy nom tem pimemta em suas terras, mas os senhores que vivem jumto com estes dous reinos a recolhem e vendem. A que nacee no senhorio do reino de Cochim hé melhor. Gingivre avera nestas partes do Malabar cada hu~u anño de dous mill quintaes568 pera cima. Nace de Calecut athee Cananor, a da terra de Calecut hé moõr e melhor, e sem fios, o de Cananor hé somenos. A força deste hé de Calecut e o menos de Cananor. Mirabulanos cetrinos, indios, qublicos, beleriqos há nesta provincia,569 hos matos cheos geerallmemte por toda [a parte], e tambem há alguus tamarindos. Quoquos. As palmeiras hé a força do regno de Cananor athee Birinjao, no regno de Coulam. De Birinjao pera diamte athee Choromamdell hé cousa que se podera comtar por ser cousa mui pouca e cassii nada. Caregam sse destes quoquos sequos muitos pera fora. Hé boa mercadoria, todallas naaos os levam. Fazem delles azeite, e tambem comem se. Areca hé muito gramde mercadaria, de que todos carregam geerallmemte pera Cãabaia, porque pera Choromandell a moõr parte vay de Ce[i]lam, como se dira ~e Ceilam. Há muita neste Malabar, leva se seqa em camtidade. A força dela nestas partes nace de Cochim atee Cananor, e disto carregam polla maior parte, e dos quoquos. Ho quairo tambem hé da terra. Chamamos qua quairo ao esparto que dizemos. Somemte o cairo hé da lanugem ou cobertura das nozes indicas, sobre a casca maçada he fiada a sua guisa. A obra deste cairo hé boa, sostem todo trabalho, e nom se dana senom com ser molhada d’auga docee, com ella apodrece. Qua nã se usam outras emxarceas nem amarras, salvo de cairo. Hé boa mercadoria nestas partes. Das ilhas de Diva vem muito, como se dira ~e seu luguar.570 565 o tamarindo, do persa tamar ‑i ‑hindi, é o fruto do tamarinheiro (Tamarindus indica, L.), muito utilizado em conservas, com propriedades digestivas e laxativas.566 Mirabolano é uma designação atribuída a várias espécies de frutos de origem asiática, já de seguida discriminados.567 Bahar, do árabe bahar, medida de peso muito usada no oriente, que tinha diferentes valores de região para região, podendo variar entre 140 e 330 quilogramas.568 o quintal corresponde a cerca de 51 quilogramas.569 A designação ‘mirabólanos’ abrange cinco frutos diferentes, originários do Oriente, que eram utilizados para fins medicinais: os mirabólanos citrinos (Terminalia citrina, Roxb.); os índicos (Phyllanthus distichus, Muell.); os quebúlicos (Terminalia chebula, Retz.); os beléricos (Terminalia belerica, Roxb.); e os êmblicos (Phylanthus emblica, L.). Tomé Pires menciona apenas os quatro pri‑meiros, embora na sua carta a el ‑Rei Dom Manuel, de 27 ‑01 ‑1516, se refira às «cíquo sortees» de mirabólanos (ver transcrição desta carta mais adiante).570 Como já referido, o manuscrito da Suma Oriental não inclui qualquer descrição das Maldivas.~SumaOriental-PDF_imac.indd 122 12/5/17 2:02 PM
  • 123De maneira que os malabares mouros, navegamtes e tratamtes, da bamda de Diu trazem suas mercadorias, e da bamda de Choromamdell, Ceilam e Diva, e tem bom trato em o Malabar. Primcipallmemte ~e Calecut acodem as mais mercadarias.571 |160r| Recomtamemto da ilha de Ceilam.572Por levar a costa da terra firme, nom curey de me emtremeter na ilha de Ceilam, he despois casy della esquecido era, e nom me pareceo cousa onesta deixar de falar nella, posto que seja em luguar amtresachado,573 fora de caminho. Porem, a mimguoa do papell mo fez, e por nom meter folha e quebrar a primeira hordenança. A fremosa ilha de Ceilam jaz setuada defromte de Comorim, estemde se atee casy Naõr,574 que seram bem cemto e trinta leguãs de costa. Tanto avamte como o cabo de Comorim se afasta por trimta e cimquo leguoas ao maar, e dhy por diamte se vay mais cheguamdo, atee se ajuntar espaço de xb leguoas ho menos.575 E amtre esta ylha e a costa de Choromamdell navegam todalas naõs do Malabar, somente as que cometem Bemgala ou Peguu [ou] Syam, estas vam por fora da ilha da banda do sull.576 A ilha de Ceilam hé gramde, sera de trezemtas leguoas em roda, muito mais com‑prida que largua. Hé muito povoada, tem muitas povoaçoes e casas gramdes d’oraçam, de esteos de cobre e cubertos os tectos de chumbo e cobre.577 os reis de Ceilam sam cimqo,578 todos sam gemtios, sam entre malabares e quili~ıs. De tudo tem a terra abastada, somemte d’arroz hee mimguoada, dos outros mamtimemtos hé abastada. A melhor parte da ilha hé na pomta que esta defromte de Calee579 atee Como‑rim, e aquy esta o primcipall rey e as melhores povoaçoes.580 E nesta pomta se fazem gramdes serranias, e aqui nacee a pedraria, na terra deste rey, homde haa todo o trato. Hé a ilha de navegaçã e trato. 571 Em sequência lógica, segue ‑se a descrição de Ceilão, que no MP é remetida para uma secção posterior da Suma Oriental (fls. 160r ‑160v).572 A grande ilha de Ceilão (ou Sri Lanka), frequentada pelos portugueses a partir de 1506, data da expedição conduzida por Dom Lourenço de Almeida.573 Entresachado, ou seja, metido entre outras coisas.574 Nagore, localidade na costa sudeste da Índia, no Choromandel.575 o Estreito de Manar (actualmente Palk) separa a ilha de Ceilão da Índia.576 A navegação de mais longo curso contornava a ilha de Ceilão pela parte meridional.577 Tomé Pires refere ‑se aos numerosos templos budistas que se podiam encontrar na ilha de Ceilão.578 A ilha de Ceilão estava dividida em diversos potentados, dos quais os mais relevantes seriam Cota (ou Kotte), Cândia (ou Kandy) e Jaffna.579 A cidade de Gale ou Galle, na parte sudoeste da ilha.580 Trata ‑se do reino de Cota (ou Kotte), na época governado por Dharma Parakramabahu IX (r.1509 ‑1528).SumaOriental-PDF_imac.indd 123 12/5/17 2:02 PM
  • 124Portos da ilha de Ceilam.o primcipall hé Columbo, outro Nygumbo, e Celabão, e Tenavarque, e Balim‑gão.581 o rey tem seu asemto jumto com o porto de Columbo, meia leguoa do porto.582 E polla mõor parte tem esta ilha as mercadorias seguintes.Mercadorias de Ceilam.Tem todo genero de pedraria, eicepto diamamtes, esmeralldas, troquesas,583 todalas outras tem em camtidade. As pedras nom se vemdem sem licemça do rey, toda pedra que valer na terra cimcoemta cruzados hé do rey, estaa asy por horde‑nanca, so[b] penna de morte a quem a tever, e da mãao do rey se vemde a quem laa vay comprar.584 |160v| Tem gramde copia d’alifamtes e de marfim, tem canella. os alifamtes vemden se a covodos,585 da pomta da mãao atee a pomta da espadoa se medem. A canella vall a cruzado o baãr, geerallmemte o bahar hé do tamanho do de Cochim, de tr~es quintães he trimta arrat~es.586 Tem a terra muita arequa, que se chama avelana imdia ~e latim; come se com ho betelle, hé mamtimeto, e vaal muito barata; vemde se em Choromamdell. Trata Ceilam com todo Choromamdell e Bemgalla, [por] Paleacate, com ali‑famtes, canela, marfym e arrequa. Retorna arroz e samdollos bramquõs, aljofar, panos, he outras mercadorias. Mercadorias que val~e ~e Ceilã.Arroz, prata, cobre, azougue pouquo, aguoãs rosadas, samdollos bramcos, he panos de Cambaia, caçutos pouqos, mamtazes, vispices muitas;587 vall todo ho pano bramco e alguuã roupa pouca de Paleacate, pimemta pouqua, e asy cravo e nõz. 581 Referências aos portos singaleses de Colombo, Negombo, Chilaw, Dewundara e Welligama.582 A cidade de Cota ou Kotte, situada a escassa distância de Colombo.583 Isto é, turquesas.584 As pedras preciosas de Ceilão eram justamente famosas, sendo objecto de um intenso comércio.585 Côvado, antiga medida de comprimento, equivalente a cerca de 60 cm.586 o arrátel é um antigo peso português, equivalente a cerca de 400 gramas.587 Tomé Pires refere ‑se a diferentes tipos de têxteis de algodão indianos de baixa qualidade: o caçuto era de cor negra, o mantaz era azul ou preto, e a vespiça era azul ‑anilado. SumaOriental-PDF_imac.indd 124 12/5/17 2:02 PM
  • 125Moeda da terra.Tem fanoees de prata, que valem quatro hu~u fanam de Cochim, dos que valem xbiii hu~u cruzado. Corre moeda d’ouro em Ceilam de toda parte, ~e sua vallya. Tem Ceilão boõs oficia~ees macaniquos, orivezes, ferreiros, carpinteiros, tornei‑ros, primcipallmemte. Hee a jemte de Ceilã sesuda, bem emsynada. os grandes fazem pouca homrra aos estramgeiros, e [só] nom furtam se nom podem. Tem amtre sy justiça inteira. Tem o rey gramde presumçam de lhe nom falarem senom muito ao lomge. Foy sempre trebutario ao rey de Coulam, em coremta alifamtes cad’ano. E despois que foy o do feitor que la matarom ~e Coulã, dizem que ho rey de Ceilam lhe nom paguou ma~ıs trebute.588 A terra de Ceilam hé fremosa, bem asombrada, tem muita gemte de guerra da terra, frecheiros [e] lanceiros. Tem de seu pouqas naõos. Tratam de Coulam [e] de Bemgalla atee Cambaya principalmemte. Tratam no porto de Columbo, por ser mais primcipall. Com os outros reis nom tratam, porque nam tem portos, e algu~us se tem sam baixos. Mas sam abastados reis, e vem trazer os alifamtes e canella a terra deste, e aly se faz concerto de suas mercadarias. Estes reis tem algu~u arroz ~e suas terras. Todos sam paremtes e amiguos. Tem a ilha de Ceilam muitos hom~ees religiosõs, asy como frades, momges, beguinos,589 castos, e todo malabar ou gemtio tem em veneraçam as ouservamcias de Ceilam. os templlos seus sam ricam~ete ornados, e os sacerdotes vestidos de bramquo, nom ao custume do povo. Querem mall a mouros e a nos pior. Dizem as naço~ees que se regem todos em justiça.590588 Referência a um episódio ocorrido em Coulão, em 1505, durante o qual o feitor português e alguns dos seus companheiros estantes naquela cidade foram mortos por ocasião de um assalto à feitoria portuguesa por parte da população da cidade.589 Beguino, homem de vida ascética, que pode equivaler a frade mendicante, analogia que Tomé Pires utiliza para designar os monges budistas.590 Retoma ‑se de seguida a ordem do MP, com a descrição de Bengala.SumaOriental-PDF_imac.indd 125 12/5/17 2:02 PM
  • 126[LivrO terceirO.][Bengala.591]|134r| Bemgalas sam gramdes mercadores e muito soltos, emsinados na merca‑doria, sam homees domesticos, os mercadores sam fallsos todos.Hos bemgalas sam mercadores de gramdes fazemdas, hom~ees que navegam em jumcos. Vivem em Bemgala gramde numero de parses, rumes, turqos, arabios, mercadores de Chaull e Dab~ull, he de Guoa. A terra hé muito abastada de muitos mamtimemtos, de carnes, pescados, arrozes, triguo barato. Ho rey dela hé mouro, homem de peleja.592 Tem gramde nome antre hos mouros. Ha j~ete que tem a gouvernamça do reyno sam abix~ıis, estes sam avidos por cavaleiros, sam muito estimados. os rex serven se em suãs camaras delles, sam estes principa~ees capados. Estees taees vem a ser reis e gramdes senhores no regno. os que nom sam capados sam homees da gu~erra. A esta naçam hobedece o regno por medo, despois do rey. Em Bemgala se custumã os capados, mais que em outra parte do mundo.593 Hé gramde parte delles capados. os bemgalas pola maior parte sam homees pretos, nedeos, jemtis hom~ees, agudos mais que todas as nações sabidas, etc. Maneira do socedimemto do regño.Há aguora setemta e quoatro annos que em Bemgalla se usa ho costume de Pac~ee, que quem quer que mata o rey fica rey. Tem e creem que nenhu~u nam 591 Bengala era um antigo reino asiático que ocupava uma área aproximadamente correspondente à do actual Bangladesh; o mesmo nome designava a capital do reino, que tem sido identificada com a antiga cidade de Gaur, também designada Lakhnauti, hoje em ruínas. Quando Tomé Pires escrevia a Suma Oriental, os portugueses ainda não tinham visitado Bengala.592 o rei de Bengala era Ala al ‑Din Husain Shah (r.1493‑1519).593 Bengala, no século xvi, parece ter sido um grande centro exportador de escravos eunucos, alimentando a procura existente em muitos estados da Ásia do Sudeste.SumaOriental-PDF_imac.indd 126 12/5/17 2:02 PM
  • 127pode matar o rey sem consemtimemto de Deus, e aquelle [que o faz] fica por rey. E desta maneira duram hos reis muito pouco. Reynam sempre deste tempo ath~e ora abixi~ıs, hos que sam gramdes pryvados do rey.594 Asii se faz ysto, que o reyno nom recebe alvoroço, hos mercadores vivem asoseguadamemte, hé ja custume. Damtes nom se faziia asy, mãs era de pay a filho. Tomarom este custume de Pacee e soste[m] no gramdememte. Estado do rey.Ho rey de Bemgala hé poderoso, tem muita jemte de cavallo, tera em seu regno cem mill hom~es de cavallo. Peleja com reis gemtios, gramdes senhores e moores que elle, mas ho rey de Bemgalla, por caussa de ser mais chegado ao maãr, tem mais eixercicio de guerra he pervalece sobre elles. Hé muito dado aas armas, hé muito mouro de vomtade. Há trezemtos anños que os reis deste regño se tornarom mou‑ros.595 Hé terra muito riq~ua.Reis tributarios ao rey de Bemgala.Comfiina ellrey d’orixa com Bemgalla da bamda de Choromamdell. Hé gramde rrey este, he hé seu trebutario.596 Este tem muitos alifamtes, he hé rey primcipall he riquo. Desta terra sam os boos diamamtes. Comfyna da bamda de Peguu com Bemgalla Racam.597 Este tem muitos caval‑los he hé guerreiro, e esta sempre com elle em guerra. E este hé tambem trebutario ao dito rey de Bemgalla. Ellrrey de Coos hé jemtio, dizem que tera setemta mill hom~ees de cavallo, e tambem hé trebutario a elle. Este regño de Cõus tem muita pimemta e muita seda, he amfiam.598 594 Bengala conheceu um agitado período de intrigas palacianas e de regicídios, enquanto sucessi‑vos escravos abissínios tentavam controlar o poder régio, entre 1486 e 1493. Neste último ano subiu ao poder Ala al ‑Din Husain, um árabe de Meca que fora primeiro ‑ministro de um dos reis abissínios.595 A informação de Tomé Pires é rigorosa, pois a islamização de Bengala data de inícios do século xiii.596 orissa, antigo reino asiático, que ocupava a parte oriental do Hindustão (actual odisha), confrontando com o reino de Bisnagar a sul e o reino de Bengala a norte. o principal porto, por vezes designado também pelo mesmo nome, era Remuna, situado nas proximidades da actual Balasore.597 Arracão, antigo reino asiático, no litoral do goldo de Bengala, que ocupava parte do território da actual Birmânia (ou Myanmar), a região de Rakhine.598 Cous, antigo reino asiático, também conhecido como Cooch Behar, que confrontava com Bengala para a banda do norte, situado no território do actual estado indiano de Assam.SumaOriental-PDF_imac.indd 127 12/5/17 2:02 PM
  • 128Ellrey de Tipura tambem hé jemtio no sertão e trebutario seu.599 Este hé de muitos alifãtes e senhor de todos. Estes quatro reis sam gramdes senhores, seus vasal‑los. Nos regnos destes se fazem as cousas ricas que há em Bemgalla, e porque nom podem viver sem ho maãr, obedecen lhe, por causa de dar saida a suas mercadorias. Aguora avera tres annos que sam alevamtados comtra Bemgala, tem gramde guerra e nom lhe obedecem. Este Tipura tem muito algodam imfimdo.600 |134v| Tem guerra ellrrey de Bemgala sempre com [o] rey de Dely, e pelejam os capitãees e jemte de hu~u e doutro sempre. o rey de Dely hé muito mor senhor que ho rey de Bemgalla, mas esta afastado de Bemgalla por jornada de quinze dias, e o caminho nom tem muyta aguoa. E por esta causa nam hé obidiemte o dito rey de Bemgalla ao dito Xaqueedarxa, rey de Delii.601 Este rey hé jemtio, gramde senhor, e muito temido de gramdisymo numero de cavallos, alifamtes e de jemte. Portos de Bemgalla.Ho primcipall porto hé o da cidade de Bemgalla, domde ho regño tem ho nome.602 Vam ~e dous dias da foz pollo riio a cidade, e dizem que no mais baixo de maree vaziia tem tres braças. A cidade sera de coremta mill vezinhos, o rey tem seu asemto nesta cydade, sam casas d’ola todas,603 somemte ha do rey hé de adobes, bem obrada. Este riio hé o Ganjes, dizem os bemgallas que vem do ceõ.604 Ho outro porto hé Sadegam605 comtra orixa. Hé bom porto, tem boa foz, hé boa cidade, riqua, homde há muitos mercadores. Sera de dez mill vizinhõs. Estas sam as primcipa~ees cidades de Bemgalla de mercadores. Na terra firme há outras, mas hé cousa pequena he muito forte, e de jemte de guerra, e do sertaõo comti‑noadamemte tem guerra. orixa, que hé no regno d’orixa, hé porto da cidade d’orixa, esta junto com ho maãr.606599 Tripura, antigo reino tributário de Bengala, cuja capital pode ser identificada com a actual Tripura, na parte oriental do Bangladesh.600 Esta última frase está escrita à margem, na mesma letra.601 o sultão de Deli, Sikandar Lodi (r.1489 ‑1517), antes referido.602 A antiga cidade de Gaur, também designada como Lakhnauti.603 ola, do malaiálam ola, folha de palmeira. Em algumas regiões orientais, as olas, depois de devidamente preparadas, eram utilizadas como material de escrita, em substituição do papel.604 Tomé Pires refere ‑se a uma antiga crença indiana; na realidade, o rio Ganges resulta da junção de várias torrentes que descem dos Himalaias.605 A antiga cidade de Satgaong, que se situava a norte da actual Calcutá (ou Kolkata); não se trata de Chatigão (ou Chittagong), no litoral do actual Bangladesh, pois Tomé Pires refere que «he Sadegam comtra orixa», ou seja, na direcção de odisha, no nordeste da Índia.606 Referência ao porto de Remuna.SumaOriental-PDF_imac.indd 128 12/5/17 2:02 PM
  • 129Cultarey, Arjamom, Paleacate, Naãor, Nagapatam,607 do gramde e nomeado turu‑coll de Narsiimgua, tudo ysto sam portos na Bonua Quelim, terra de Narsymgua.608Vem de Bemgalla a Malaca cad’ano hu~u junco e dous, as vezes vall cada hu~u oitenta [ou] novemta mill cruzados. Trazem roupa branca fina, synabafos609 de sete sortes, chautares610 de tres sortes, beatilhas, beiirames, panos outros ricos, trarã atee vimte sortes delles. Trazem aço, riquysymos ceõs de camas d’antretalhos611 de todas cores, e muito fermosos paredes de casas, como panos d’armar, e asy mesmo comservas d’acuquar de diversas maneiras em muita abastamça, todos os mira‑bulanõs em comserva, gengivres, laranjas, pepinos, cenoyras, rabõos,612 limõees, azamboãs,613 figuos, aboboras, combalengas,614 e outras muitas fruitas, e destas tambem em vinagre. Trazem muita copia de vasos de barro pardo muito cheirosos, que se estimam muito nestas partes e valem baratõs.615Navegam estes em Malaqua he em Pac~ee, quatro cimqo naaos e juncos cada anno, e aguora aimda gramdememte.A roupa de Bengala vall muito em Malaca, porque hé da valia de todo [o] Levamte.616 Pagam em Malaca seis por cemto. Sam pesoas que sabem muito na mercadoria, e daqui de Malaqa empregam todo seu dinheiro, e outro que tomam em retorno pera Bengala, em que fazem muito proveito, o que em Pacee nom podem fazer, somemte [em] pimemta e seda. Retorno de Malaca pera Bemgala.A primcipall mercadaria que levam pera Bemgala hé camfora de Burney e pymenta, destas duas gramde copia. Cravo, maças, noz nozcada, samdallos, seda, aljofar gramde soma, porcelanas bramcas muitas, cobre, estanho, ch~ubo, azougue, 607 «Cultarey», em ML referido como «Callcari» (p. 125), poderá corresponder a Kakinada; «Arja mom», não identificado; Pulicate, Nagore e Negapatão (ou Nagapattinam), portos da costa oriental da Índia.608 «Bonua Quelim», atrás referido como «Benua Quilim», designa o Choromandel, região dos quelins.609 Sinabafo, do persa xinnbaft, tecido de algodão, fino e branco610 Chauter, do persa chadar, o mesmo que chader, tecido de algodão branco611 Entretalho pode significar uma sobreposição de tecidos ou materiais de cor diferente.612 Isto é, rábanos.613 Deve tratar ‑se da cidra, fruto da cidreira (Citrus medica, L.), conhecida em espanhol como zamboa.614 A combalenga é uma espécie de abóbora indiana (Cucurbita pepo, L.).615 Tomé Pires refere ‑se talvez às enorme jarras de louça que eram fabricadas em Martabão, as jarras martabanas, muito populares nos mares orientais, onde eram utilizadas no transporte de deter‑minadas mercadorias, e também como reservatórios de água em viagens marítimas.616 o termo «Levamte» designa aqui as regiões mais orientais, que se estendem para leste de Singapura.SumaOriental-PDF_imac.indd 129 12/5/17 2:02 PM
  • 130porcelanas gramdes verdes dos Lequios,617 amfiam d’Adem he algu~u pouco de Bemgala, damasquos bramcos e verdes emrrolados da Chyna, barretes de grãa, alcatifas; valem crises618 e espadas da Jaoa.619 Direitos que se paguam em Bemgalla.Todo mercador que vay a Bemgala há de paguar de oito tr~es, he este direito asy desordenado620 acham que hé bom por causa que estas mercadorias valem tanto na terra. E o retorno hé em cousas de tamta valiia e de tam pouquo balume621 que afir‑mam com hu~u se ganham dous e meio e tres, vemdida a mercadoria a salvamento. Tempo da monção,622 etc.|135r| Partem daqui623 na emtrada d’Agosto, he em trimta dias sam em Bemgalla. Estam la fazemdo mercadoria, partem de laa ao primeiro de Fevereiro e poem outro tanto ate Malaqua. Quamdo querem desomrrar hu~u hom~e, chamam lhe ‘bemgalla’. Sam gramdes tredores, sam muito agudos. Em Malaqua há gramde numero de bemgallas, homees e molheres, sam homees pescadores e oficiães alfaia‑tes os mais delles, he alguus trabalhadores muito maõos de trabalho.Moeda de Bemgala, por homde se faz a mercadaria.Em Bemgala vall mais ho ouro a seista parte que em Malaqua; e a prata hé mais barata em Bengala que em Malaqa a quimta parte, e as vezes a quarta parte. A moeda da prata chamase tanqat,624 pesa meio taell,625 que 617 os Léquios, tratados numa secção posterior da Suma Oriental, podem identificar ‑se com o arquipélago de Ryu Kyu. O mesmo termo é usado como topónimo e como etnónimo.618 o cris, do malaio keris, é o punhal malaio, de lâmina ondulada.619 A ilha de Java, que na Suma Oriental aparece sempre referida com esta grafia ou outra seme‑lhante, próxima do topónimo original javanês Jawa. 620 Isto é, ‘excessivo’.621 Balume, espanhol para ‘volume’.622 Monção, do árabe mausim, designa a época ou vento favorável à navegação; o termo designava também os ventos periódicos que sopravam periodicamente na Ásia marítima em direcções opostas.623 Entenda ‑se ‘de Malaca’.624 A tanga, do sânscrito tanka, já atrás referida, moeda asiática cunhada com diversos metais, sobretudo prata, de valor variável. A tanga de Bengala valia 40 réis.625 o tael, do malaiálam tahil, peso e moeda de conta utilizado no oriente, de valor variável, que podia oscilar entre 30 e 40 gramas de prata.SumaOriental-PDF_imac.indd 130 12/5/17 2:02 PM
  • 131sam casy seis oytavas,626 vall esta moeda em Malaqua vymte calai~ıs.627 Vall em Bemgala sete cahon, cada cahon vall dezaseis pon, cada pon vall oitemta buz~eos, de maneira que cada cahon vall mill iic e oitemta buzeos, e vall cada tancat oito mill e novecemtos e setemta buzeos, sae ao calaim quoatrocemtos e coremta e oyto, que hé preço por que dam hu~ua galinha boa.628 E por isto se podera saber o que podera comp[r]ar por elles. Chaman se os buzeos em bemgala cury.629 Homde valem e correm estes buzeos por moeda.Hos buzeos correm por moeda em orixa e em todo o regno de Bemgalla, he em Raqã� he em Martamane,630 porto do regno de Peg~uu. Hos buzeos de Bemgala sam maiores, com huuã beta amarela pollo meio, estes valem em todo Bemgalla, e toma[m] nos em grãde camtidade de mercadorias, asy como ouro, e em orixa. Nom valem estes em outra parte, e sam muito prezados nestes dous lugares. Dos de Pegu~u e Racam se dira quando se dos lugares falar. Vem estes estolhidos das ilhas de Diva em muyta cãtidade.631 Maneira de peso.Ho pesso de Bemgalla chamase dalaa,632 hé braço de pãao sem comchas, e nas pomtas atam a mercadoria, e asy se faz. E com hos mercadores, se levaes peso, lamçam lhe a comta e fazes preço por elle, e fazes vosa mercadoria. Dizem que dez ou doze pessoas levam hos dirreitos, cada hu~u o seu, que sam oficiaees diso, e que ao dizimar633 fazem agravo aos mercadores, e tiranias gramdes. 626 A oitava, antiga medida de peso portuguesa, corresponderia a cerca de 3,5 gramas.627 Calaim, do malaio kalang, é uma moeda de estanho que corria em Malaca, valendo, de acordo com os cálculos de Tomé Pires, um vigésimo da tanga de Bengala, ou seja, entre 1,5 e 2 réis.628 o «cahon» equivalia a 1280 búzios ou cauris, enquanto o pone equivalia a 80 búzios ou cauris. A transcrição «galinha» é conjectural, correspondendo ao original «ga». 629 Cauri, do hindustani cauri, pequena concha de búzio (Monetaria moneta, L.), que corria como moeda em várias regiões orientais.630 Martabão, importante porto do antigo reino de Pegu, identificado com a actual cidade de Martaban (ou Mottama), na Birmânia (ou Myanmar).631 A palavra «estolhidos» poderá ser lapso por ‘escolhidos’. Os cauris eram especialmente abun‑dantes nas Maldivas.632 o termo «dalaa», que designa uma balança constituída por um simples braço de madeira, do qual se penduram as mercadorias, poderá derivar do bengali palla, ‘balança’.633 Ou seja, ao ‘cobrar a dízima’.SumaOriental-PDF_imac.indd 131 12/5/17 2:02 PM
  • 132Dizem os mercadores bemgalas que este rey de Bemgalla que se chama çoltam Uçem Xaa634 que nom hé benivollo aos mercadores, e que sse ssaem muitos pera outras partes. Tem este rey de suas mamcebas viimte e quoatro filhos machos he muitas femeas. Reyno de Racão.635Ho regno de Racam636 hé amtre Bemgala he Peguu. Hé rey jemtio, muito poderoso no sertão. Tem no maar hu~u porto bom, homde tratam hos peg~uus e bemgalas e queliis, nom de muito trato, chama se o porto Mayajerii.637 Jumto com este porto tem o rey huuã fortaleza de adobes, forte amtre elles. Na terra de Raquam há muita jemte de cavallo e muitos alifamtes. Há alguuã prata. Há tres ou quoatro sortes de pannos d’alguodam, de que vestem os comar‑quaaos. Sam panos de suas guisas e trajos, e alii os há mais que em outras partes, e vem alii por elles. Domde vem ho almizquer e rubis fiinos.Comfyna o regno de Raquã638 no sertam lomje com a serra gramde que se chama Capelamguam,639 homde há muitas povoaçoes de gemte nom muito domestiqua. Estes trazem os almizqueres he rubiis a gramde cidade d’Ava,640 que hé a primcipall cousa do regno de Racam, e daly vem teer a Peguu, e de Peguu se espalham |135v| pera Bemgalla, Narsiimgua, e pera Pac~ee he Malaqua. Deste Cape‑lamguã hé a mina dos ditos rubiis, os melhores que há nestas partes. Ho almizquer hé d’alymarias como cabras,641 esfolam as e a carne pisada com ho samgue fazem do coiro hos bisalhõs642 a que chamamos papos. E esta hé a verdade do almizquer, he nom d’apostemas.643 E se os olhardes bem, muitos achares aimda com hos osos.644634 Transcrição aproximada de Husain Shah, que era então sultão de Bengala.635 Arracão, na actual Birmânia (ou Myanmar).636 original: «Derracam».637 No ML aparece referida como «Malagari» (p. 129). Tratar ‑se ‑á da cidade birmanesa de Mrauk U (ou Mrohaung), que os portugueses por vezes designavam como Arracão.638 original: «De rraquã».639 Capelangam, montanha no interior de Arracão, em local não identificado, que talvez corres‑ponda aos montes Arakan ou Rakhine.640 Ava (ou Inwa), antiga cidade real birmanesa, localizada na região de Mandalay.641 o gato almiscarado, um ruminante tibetano.642 Bisalho é um pequeno saco.643 Apostema, o mesmo que abscesso.644 Tomé Pires, certamente por deficiente informação, partilha ainda uma noção errónea da constituição do almíscar. A remotíssima origem deste produto, oriundo dos altos planaltos tibetanos, SumaOriental-PDF_imac.indd 132 12/5/17 2:02 PM
  • 133Correm neste regno buzios.A moeda desta terra hé cãça, que quer dizer fruseleira em pedaços,645 asy como se dira della em Peegu~u, quamdo se delle falar, e tambem buzeos bram‑cos como os de Peguu. Hé regno muito abastado de carnes, arrozes e cousas de seu comer. Peg~uu.646Peeg~uu hé regno de jemtios. Hé terra mais farta que todas as que temos vistas he sabidas.647 Hé mais farta que Syão, casy tamto como a Jaoa. Tem no mar tres portos com tres guovernadores, que na limguoajem da terra se chama [ao] guo‑vernador toledam.648 Ho porto mais chegado a terra de649 Racam he Copymy,650 este tem ho trato da bamda de Bemgalla he Bonua Quelim. Ho outro he Dogõ,651 este hé porto gramde, de gramde cidade e de muitos mercadores, he o toledã dele hé mayor que hos outros. Neste porto se fazem hos jumcos, por caso da madeira muita e boa que tem.652 Ho outro porto hé apartado de Martamane,653 homde vam hos de Malaqua e os de Pacee,654 e tambem hé boa cidade gramde, de merca‑dores. A jemte baixa deste regno hé em sua terra travesa, fora sam mamsos, bõos trabalhadores, jemte symprez. contribuiria para a difusão de notícias menos correctas a propósito da sua verdadeira natureza. Alter‑nativamente, poderiam correr nos mercados orientais versões falsificadas de almíscar.645 Cansa, de etimologia incerta, é o mesmo que fuseleira, moeda que corria nos antigos reinos de Pegu e de Arracão, constituída por pedaços de estanho, de cobre, ou de uma mistura dos dois.646 Pegu, antigo reino que ocupava uma parte do território da actual Birmânia (ou Myanmar). os portos do Pegu começaram a ser fequentados pelos portugueses a partir de 1512, na sequência da conquista de Malaca, que tivera lugar no ano anterior.647 Esta referência apontaria para uma hipotética visita de Tomé Pires ao Pegu, durante o seu período de residência em Malaca, mas as referências cronológicas conhecidas não parecem confirmar esta hipótese.648 Toledão, termo de etimologia não identificada, que designava um governador portuário no antigo reino de Pegu.649 original: «he», decerto por lapso.650 Cosmim, porto do antigo reino do Pegu, que se situaria nas proximidades da actual cidade birmanesa de Bassein (ou Pathein), no delta do Irráuadi.651 Dogom, porto do antigo reino do Pegu, situado nas proximidades da actual Rangum (ou Yangon), capital da Birmânia (ou Myanmar).652 O Pegu era uma região produtora e exportadora de embarcações, onde os próprios portugue‑ses se começariam a abastecer.653 Martabão (ou Mottama), já antes referenciado.654 Pacém (ou Pasai), porto e potentado da ilha de Samatra, adiante devidamente referenciado.SumaOriental-PDF_imac.indd 133 12/5/17 2:02 PM
  • 134Mercadorias que vem de Peg~uu a Malaqua e a Paace.Ho primcipall hé arroz, vimram655 cad’ano a estes dous lugares he a Peedir656 quinze [ou] dezaseis jumcos, vimte [ou] trimta pamgajavas657 de cargua, como naviios. Trazem muito lacar e beyjoym, almizquer, pedras rubi~ıs, prata, man‑teyguas, azeytes, sall, cebollas, alhõs, mostarda,658 e cousas a estas semelhantes de comer. Partem em Fevereiro, vem em Março, no fym, e por todo Abrill. Sam hom~ees que vemdem sua mercadaria mansamemte, a guisa da terra, apreçã sete [ou] oyto mercadores a mercadoria, por yso estam, e vemden na.Os direitõs que paguam em Malaqua.Todo mamtimemto nom pagua nenhu~u direito em Malaqua nem em Pac~ee, somente presemte a sua cortesya, segumdo a terra estaa em costume. Do all pagam seis por cemto. Hé gramde ho ganho de Peguu a Malaqua no arroz e no laqua e em tudo ho all. Retorno de Malaqua pera Pegu~u.Hé a primcipall cousa porcelanas baixas de sort~ees e de lavores vermelhos, azou‑gue, muyto cobre, vermelhao, damascos emrrolados escuros de frores que vem logo de China pera elles, porque pera outrem nom servem, estanho imfimdo, fruseleira em pedaços quebrados e saãos, ysto sobretudo que hé moeda, he porcelanas de sortes, levam imfimdas, aljofar pouquo, ouro. Empregam todo seu dinheiro, e mais se o tevesem, nisto. Cravo pouquo, noz moscada, maças pouqua cousa. Partem daqui ao primeiro de Julho e vam a Pacee carreguar de pimenta e em Agosto vam a Martamane. Direitos que paguam em Peg~uu.Hos dirreitos que pagam em Peguu hos ditos mercadores sam doze por cemto, he disto nom quitam nada. Se aves de falar com ho guovernador, aves de levar presemte. E asy hé o costume de Malaqua, segumdo a causa asy aves de peitar. Ho porto de Martamane he priguoso, tem pilotos da barra que se obrigam meter 655 Leia ‑se ‘virão’.656 Pedir (ou Pidir), porto e potentado da ilha de Samatra, adiante devidamente referenciado.657 Pangajava, do malaio penjajap, embarcação oriental de carga, movida a remos e à vela.658 É provável que esta referência se tenha ficado a dever a um equívoco do copista, pois a mos‑tarda era um produto típico do Mediterrâneo.SumaOriental-PDF_imac.indd 134 12/5/17 2:02 PM
  • 135vos dentro a salvamemto, pagamdo lhes segundo costume da terra. Nam entrã nas agoas crecidas nem mortas, toman lhe meyo tempo pera seguramça. |136r| Moeda de Peg~uu.A moeda de Peg~uu por homde se faz a mercadoria hé freseleira, que se chama cança. Desta fruseleira, hu~ua hé melhor e outra somenos. A fruseleira de cobre e estanho hé melhõr; a de cobre, estanho e chumbo [a seguir]; a peor de cobre he chumbo. A cança de Martamane hé a melhor, esta pasa por toda ha terra, a dez cala~ıis, tres arrates he cimquo homças a viça, que he cate e meio da romãa gramde de Malaqua.659 Estes sam do peso novo. E a outra vall menõs, vall ho calaim homze reis e quatro ceiti~ıs a rezam de cem cala~ıs por tres cruzados. Valia da viça de camça.Vall a viça da dita camça dez cala~ıs. Emtam dizes ‘quamtas viças de tall mercadoria me dares pola viça da cança’, ou ‘quamtas viças de camça quer~es pola viça de tall mercadoria’. E cada viça destas tem cem tiquas, estas cem tiquas valem tamto como hu~ua viça.660 Moeda d’ouro e de prata.A prata hé em arruellas661 marquadas da marqua de Syam, porque de la vem toda. Chama se o pedaço na arruella caturna,662 ho peso della hé hu~uu taell e meio, que sam duas onças e hu~ua oytava e hu~u quarto. Vall em Pegu~u quoatro [e] meia, e aquem [de] Malaqua vall hu~u taell de tiimas,663 que sam sesemta e quoa‑tro calai~ıs. Ho ouro tem a valiia em Peguu que vall em Malaqua. Leva se gramde camtidade de prata a Bemgãlla de Peg~uu, la vall mais algu~ua cousa. 659 Biça, do tamul visei, peso e moeda do antigo reino de Pegu, que correspondia a cerca de 1,5 quilogramas. A romã era uma balança ou padrão de peso. Em Malaca coexistiam vários sistemas de peso, e entre eles a romã grande e a romã pequena, que eram utilizados na pesagem de diferentes mer‑cadorias. Cate, do malaio kati, é o peso utilizado em Malaca, que variava entre cerca de 1 quilograma (romã grande) e cerca de 800 gramas (romã pequena).660 Tical, do birmanês dinga, peso utilizado em alguns dos antigos reinos da Ásia do Sudeste, equivalente a um centésimo da biça, isto é, cerca de 15 gramas.661 Arruela é uma anilha ou um disco fino e perfurado.662 Caturna, termo de etimologia desconhecida, designa no Pegu as rodelas de prata utilizadas como moeda.663 Tima, do malaio timah, moeda de estanho que corria em Malaca, de valor ínfimo.SumaOriental-PDF_imac.indd 135 12/5/17 2:02 PM
  • 136Moeda meuda.A moeda pequena de Peg~uu sam buzeõs pequenos bramquos, jeerallmemte valem em Martamane quinze mill huuã viça, que sam dez calais, quamdo sam baratos dezaseis mill, quamdo sam muito carõs quatorze mill, he [em] geerall quinze mill. Vall ho calaim mill e quinhemtos. Por quoatrocemtos e quinhemtos dam huuã galynha, he por este preço as cousas semelhamtes a estas. Se em Peg~uu nom correm os ditos buziõs senam em Martamane, e por esta maneira correm em Racam. Vem os buz~eos das ilhas de Diva, domde fazem as toalhas664 em gramde copi~ıa, e asy vem das ilhas de Bagangã665 e de Burney, e traze[m] nos a Malaca e daqui vam a Pegu~u. Peso e medida de Pegu~u.Ho dachim666 de Martamane do bahãr hé menos que ho de Malaqua viimte cat~es, ho de Martamane tem cemto e vimte viças, que sam cemto e oitemta cates, e o de Malaqa tem duzemtos, e estes cates sam da romaa gramde. Ho arroz hé por toõs,667 tem cada tom dez guamtas das de Malaca afiladas da terra.Naãos guzaratas [vem] a Peg~uu.Vem cad’ano huua naao das naoos do Guzarate ao porto de Martamane e de Doguõ. Trazem destas mercadarias: cobre, vermelham, azougue, anfiam, panos; e levam grãde camtidade de lacar, que vall barato na terra, aas vezes a quoatro viças o bahar, as vezes a cimquo e seis e a sete, e levam beijoim, prata, pedras, e tornan se. E as vezes se perdem na barra. Rey e pesoas principãees.Ho rey estaa sempre d’asemto na cidade de Peeguu,668 que hé [n]o sertãao, e da cidade ao porto de Dagam hé amdadura de hu~u dia e huuã noite, e a Martamane quoa‑664 A palavra «toalhas» associada às Maldivas é algo enigmática, já que os têxteis não figuravam entre as exportações daquelas ilhas.Tratar ‑se ‑á possivelmente de algum lapso.665 Talvez este topónomo possa ser identificado com Balambangan, ilha no litoral norte de Bornéu.666 Dachim, do malaio daching, balança ou padrão de peso; o mesmo que romã.667 Tom é uma medida de capacidade utilizada no antigo reino de Pegu, que equivalia a dez gantas de Malaca, isto é, cerca de 17,5 litros.668 A antiga cidade de Pegu situava ‑se no local da actual cidade birmanesa de Bago.SumaOriental-PDF_imac.indd 136 12/5/17 2:02 PM
  • 137tro dias, e a Coximim oito dias. Depos o rey em valiia hé o braja,669 que hé seu capitã e governador do reyno, e despois ho toledam de Dogom, e depois ho de Martamane, e loguo ho de Xoii.670 Tem gramde copea d’alifamt~es, tera seis ou sete mill no rregno todo.Usso dos senhores e outra jemte.Todo peegu~u fidallguo e outra jemte, segumdo hé riqua, trazem em sua natura casquavees.671 os senhores trazem atee nove d’ouro de fremosos toõs de tipres e contras tenores, do tamanho d’ameixeas alvares672 de nosa terra, e asy os que nõ |136v| podem d’ouro e de prata, por pobres, trazem de ch~umbo e de fruseleira. E os d’ouro he prata soam muito mais que estoutros de chumbo e fruseleira.A maneira dos corpos he vistidos dos peg~uus e de suas molheres.Hos pegu~us sam homees de meaaos corpos, sam sobre ho groso, parrados,673 e boos trabalhadõres de gramde força. Amdam sempre trosquiados d’arredor, solapados hà mea cabeça, e em cima mais crecidos hos cabellos. Do betelle trazem sempre os demtes negrõs. Trazem sobre as coxas gramde copea de pano bramquo, e na cabeça panos bramcos a feiçam de mitra, casy.As molheres sam mais brancas.As molheres sam mais bramcas que elles, sam asy mesmo dos corpos delles, sam fremosas, mais desemvoltas, trazem o cabello a guisa da Chiina, como se dira na descriçam da Chiina. As nosas malayas folguam muito com a vimda dos peg~uus a terra, e sam muito afeiçoadas a elles. A causa disto sera sua doçe armoniã, certo delas sam muito estimados, e nom sem causa. Hé esta jemte mansa, de boa vemtura aqui em Malaca; em sua terra dizem que hé soberba. 669 Braja parece derivar do sânscrito uparaja, um título correspondente a vice ‑rei. o ML regista «Cobrajem» (p. 133). Talvez a personagem possa ser identificada com Samibelegam, vice ‑rei de Pegu referido em outras fontes.670 O ML regista «Pesim» (p. 134). Tratar ‑se ‑á decerto de um lapso por ‘Cosmim’, antiga cidade do Pegu, já anteriormente referida.671 Cascavél, o mesmo que guizo. Tomé Pires refere ‑se aos guizos decorativos que os homens do Pegu inseriam no pénis.672 A expressão poderá designar uma variedade de ameixas de casca esbranquiçada (ou alvar); alternativamente, tratar ‑se ‑ia da nêspera, também conhecida como ameixa ‑amarela.673 Aparrado, o mesmo que atarracado.SumaOriental-PDF_imac.indd 137 12/5/17 2:02 PM
  • 138Pois himdo pera Malaca, segundo a ordem deste livro, se atravesa Syam no caminho, rezã hee que delle se digua, posto que da bamda da China aimda outra vez o emcomtremos no r~ıio d’odiaa.674 Regno de Siam e seus portos.675No regno de Siam da bamda de Peguu tem tres portõs, e da bamda de Paão e Champãa676 ten muitos, todos sam do dito regno e da obidiemcia do rey de Syam. A terra de Siam hé gramde e muito farta, de muita jemte he cidades, de muitos senhores he de muitos mercadores estramjeiros. E a mor parte d’estramjeiros sam chiis, porque o trato de Syam hé gramde na Chyna. A terra de Malaca se chama terra de Syam, e toda a de Siam [e] Champa, e hy se chama da Chyna.677 Hé o regno de Siiam jemtio. A jemte he casy a limguoajem tem semelhamça da de Peeguu. Hé avida por jemte avisada e de boom comselho. os mercadores sam muito ~esynados na mercadaria. Sam hom~ees gramdes, baços, da trosquia de Peeguu. Ho regno se rege em justiça. o rey estaa sempre d’asemto na cidade d’odiaa,678 hé caçador, aos estramjeiros faz gramde estado, aos naturaes hé mais comversavell, tem muitas molheres, de quinhemtas pera cima. Ellegem679 rey por morte, a pessoa do samgue,680 pincipalmente sobrinho filho de irmãa, se hé pera iso, e se nom, por vezes há [a]cordos e juntamemtos de qu~e sera melhor. Guarda se gramdememte amtre elle[s] ho secreto, sam no que lhe conpre homees calados, falam com modestia bem emsynada. Hos homrrados tem grande obediemcia ao rey. Cumprem gramdememte seus embaixadores ho recado. Aos mercadores estramjeiros que vao a sua terra e regño, com sotilezas lhe fica ha mercadaria na terra e maall paguos, e isto a todos, e menos aos ch~ıis, pola ami‑zade que com ho rey dos ch~ıis tem. E por esta causa nom vam a seu porto tamtos 674 Aiutia (ou Ayutthaya), cidade siamesa adiante referenciada.675 o antigo reino do Sião, actual Tailândia, que foi primeiro visitado pelos portugueses logo em 1511, na sequência da conquista de Malaca ocorrida nesse mesmo ano.676 o potentado malaio de Pão (ou Pahang) e o reino indochinês de Champá, adiante refe‑renciados.677 Tomé Pires, de uma forma obscura, parece querer referir ‑se à suserania que o Sião exercia sobre Malaca antes da conquista portuguesa em 1511, e aos laços de dependência formal que alguns estados da Indochina mantinham em relação à China.678 «Odia» corresponde à metrópole de Aiutia (ou Ayutthaya), antiga capital do reino do Sião, um pouco a norte da actual cidade de Banguecoque.679 original: «elle tem».680 o ML é mais explícito: «Elegem por rei, depois da morte do outro, pesoa de samge reall» (p. 136).SumaOriental-PDF_imac.indd 138 12/5/17 2:02 PM
  • 139como iriã. Comtudo, pola terra ser riqua ~e boas mercadarias, soportam alguuãs cousas por rezã do ganho, como muitas vezes se acomtece aos mercadores, porque doutra maneira nom seria mercadariia. Em Syam há muito poucos mouros, nom lhes querem os syames bem. Com‑tudo, há arabios, parses, bemgallas, muitos quiliis, ch~ıis, e doutras naçoees, he todo seu trato de Syam hé da bamda da Chiina, he em Pacee, Pediir e Bemgalla. Nos portos do mar há os mouros, estam a obidiemcia dos senhores seus. E [estes] fazem guerra sempre aos syames, ora no sertão, ora Pahão.681 Hé jemte de guerra nom muito guerreiros. Sam os ditos syames de casquavees,682 como hos peegu~us, e nom menos nada, senom quamto os senhores trazem, alem dos cascavees, diamantes de pomtas e outras pedras ricas em suas naturas, segundo a pessoa ou fazemda, asy traz a pedra. |137r| Dereitos e moedas de Siam.Pagam os mercadores estramjeiros em Siam de nove dõus, e os chi~ıs de doze dous. Ho bahaar hé do peso da China, nem mais nem menos. Ho cate de Syam do ouro e da prata tem hu~u cate e meyo de Malaqua. Corre por moeda meuda em toda a terra buz~eos dos que corr~e em Peguu, e nas [moedas] grosas ouro e prata. Vallem estas moedas ho preço que se dise em Peguu. E da saida das mercadorias pagam de quinze hu~u. Nom pareça duvida, porque a verdade hee que paguã de tudo ~e Syam de dez dous [de] dirreitos.Portos de Syam, imdo pera Malaqua da bamda de Peg~uu.Ho mais perto a terra de Peguu a Martamane hé Tenaçari, e despois ho Junça‑lom, e despois Terrãm e Quedaa,683 e é porto do reino de Quedaa que [é] trebutario a elle. E de Quedaa atee Malaqua tudo sam lugãres d’estanho, como ja hee d~ıto, no regno e termo de Malaqua.684681 A frase é algo complicada, e sugere ‑se aqui uma possível interpretação.682 ou seja, os siameses também inserem guizos no pénis, tal como os pegus.683 Tenasserim, corresponde ao actual porto birmanês de Tanintharyi; Junçalão (ou Jungceylon), porto que se situava na área da actual Phuket, na Tailândia; Trang, antigo porto na costa ocidental da Península Malaia, na região do mesmo nome; Quedá, antigo reino situado a norte de Malaca, na região aproximada da actual província malaia de Kedah.684 Aparentemente, a descrição de Malaca figuraria num secção anterior da Suma Oriental.SumaOriental-PDF_imac.indd 139 12/5/17 2:02 PM
  • 140Portos do regno de Syam da bamda da Chyna. Ysto ouvera de ser amtes de falar [de] Queda,685 pera levar hordem.Começamdo de Pahãao e Talimgano, Clamtam, Say, Patane, Lugor, Martarã, Callnansey, Bamcha, Cotinuo, Peperim, Pamgoray,686 tudo sam portos de senhores da terra de Syam, he destes sam reis. Todos tem jumcos, nom do rey de Syam, sam dos mercadores e senhores dos lugares. E depos estes portos esta o riio de odia,687 domde vam a cidade, riio homde emtram naãos e navios, larguo e fremoso.Riio de Quedaa.Quedaa hé regño muito pequeno, de pouca jemte e poucas casas. Hee por hu~u riio demtro. Há nelle pymemta, cad’año obra de quoatrocemtos bahar~es. Esta pimemta vay polla vya de Siam a China, com a que tambem traz~e de Pacee e Pedir.688 Quamdo alguuã não vem a Tenaçari e aos portos de Syam, vem a Quedaa vemder tambem sua mercadaria. E os dos lugares do estanho compram e levam ouro, porque Quedaa hé terra de trato. E polla terra vem em tres [ou] quoatro dias a terra de Syam, e levam de Queda as mercadarias a Syam.Este regño de Quedaa comfyna de huuã bamda com Terrão689 casy, e da outra com ho termo do regno de Malaca e com Baruaz.690 Trata Quedaa com Pacee e Pedir, e os de Pacee e Pedir vem a Quedaa cad’ano. Vem do Guzarate huuã naõ aos portos de Syam, e vem a Quedaa e carrega de pimemta da que há na terra, e daly torna aas vezes a Pacee e a Peedir acabar de tomar sua cargua. E de Baruaz, Çalamgor e Mimjam691 levã ho estanho.Quedaa hé da obidiemcia d’ellrrey de Syam, e pollo riio de Queda vam a Siam.692 Tem Quedaa arroz em camtidade [e] pimemta. En Queda se gasta muita mercadaria da Chiina. E Quedaa nom tem juncos, tem lamcharas.693 Hé terra pequena, tem bom trato por rezam dos termos. Vall em Quedaa a roupa que vall em Malaqua.685 A secção sobre Quedá aparece já de seguida.686 Portos ou regiões do Golfo do Sião, na costa oriental da Península Malaia: Pão (ou Pahang); Trengganu; Kelantan (ou Kota Baharu); Sai Buri; Patane (ou Pattani); Lugor; «Martarã» e «Call‑nansey», não identificados; talvez Bang Sabhan; «Cotinuo», também não identificado; Petchaburi («Peperim»); Bangplasoy («Pamgoray»).687 Trata ‑se do rio Chao Phraya, que a partir do golfo de Sião dá acesso a Ayutthaya.688 Pacém (ou Pasai) e Pedir (ou Pidir), antigos portos e potentados do nordeste da ilha de Samatra.689 Trang, antigo potentado da costa ocidental da Península Malaia.690 Beruas, na costa ocidental da Península Malaia, na actual região de Perak.691 Selangor, região na costa ocidental da Península Malaia, para norte de Malaca, nas proxi‑midades da actual cidade de Kuala Lumpur; quanto a Minjam, parece tratar ‑se de uma referência a Manjung, a norte de Malaca, também na região de Perak.692 Ou seja, o interior do reino de Quedá, rio acima, confinaria com o território do Sião.693 A lanchara, do malaio lancaran, seria uma embarcação de média dimensão, movida a remos, mas que também armava velas, algo semelhante à galé, que era utilizada no comércio e em operações de guerra.SumaOriental-PDF_imac.indd 140 12/5/17 2:02 PM
  • 141Aguora nos pasaremos a bamda de Siam pola parte da China, e acabado falar de Siam dalgu~us portos seus, ~etam emtraremos ao regno de Camboja.Mercadorias que há em Siam, que vinham a Malaqua no tempo que tratavã com ella: Mantim~etos.Há em Siam arroz em muita camtidade, e muito sall, peixe sequo salgado, oraquas,694 legumes. E disto vinha a Malaqua atee vimte [ou] trimta jumcos cad’ano.Mercadorias.Vem de Syam lacar, beijoy, brasill, chumbo, estanho, prata, ouro, marfill, cana‑fistola.695 Trazem vasos de cobre e ouro fumdido, an~ees de rub~ıis e diamamtes, traz~e gramde copia de panos baixos syames, de pouco preço, pera a jemte prove, etc.Mercadarias de Malaqua pera Syam.|137v| Dizem que a principall mercadoria que levam de Malaqua pera Syam sam espravos he espravas, que levam em camtidade, samdollos brancos, pymemta, azougue, vermelham, amfiam, azernefe,696 cravo, maças, noz, synabafos gramdes e pequenos, he panos queli~ıs, ao custume de Siam, chamallotes, aguoa rosada, alcatifas, brocados de Cambaya, cauriis bramqos, cera, camfora de Burney, pucho, [que] sam rayzes como ruypomtico sequo, gualhas,697 e asy vallem as mercadorias da China que de la trazem cad’ano. Quamto tempo há que os syames nom vierõ a Malaca.Haa vimte e dous annos que os syam~ees nam tratam em Malaqua, ouverom deferença porque os reis de Malaqua tinham obidiemcia aos rex de Syam. Porque 694 Araca, arraca ou orraca, do árabe arak, designa o vinho de palma, uma bebida alcoólica pro‑duzida a partir da fermentação da seiva de determinadas palmeiras.695 Canafístula, árvore asiática (Cassia fistula, L.) cujo fruto tem propriedades purgativas, sendo utilizado em farmacopeia.696 Arzanefe, o mesmo que arsénico.697 As «gualhas» poderão ser as bagas ou bugalhos de uma planta de origem chinesa (Rhus chinen‑sis, Mill.), espécie de sumagre, com amplas propriedades farmacológicas.SumaOriental-PDF_imac.indd 141 12/5/17 2:02 PM
  • 142Malaqua diz~e que hé da terra de Syam, dizem que hé sua, e que avera vimte e dõus anños que este rey que perdeo Malaca se alevamtou com esta obidiemcia.698 Dizem tambem que Pahão se alevamtou comtra Syam pola mesma maneira, e que os reis de Malaca favoreciam os de Pahão pollo paremtesco que há amtre elles contra os syames, e que tambem esta foy a causa de seu descomcerto. Dizem que [o desconcerto] tambem foy sobre os lugares do estanho que estam da bamda de Quedaa, que amtigamemte obidiciam a Quedaa, e que Malaqa que hos tomou, e por estas cousas todãs quebrarom, e a principall dizem que foy polo alevantamemto da obidiemcia. Despois disto os syames armarom sobre Malaqua, e os syames forom destroydos polos malayos, e que foy capitam [o] Lasamane,699 de que fiquou daquelle tempo ate’guora em gramde honrra. Homde tratam aguora os syames.Hos syames tratam na China, cad’ano seis [ou] sete juncos; tratam com Çumda e Palimbaão, e outras ilhas;700 tratam com Camboja e Champar e Cauchy, e na terra firme com Brema e Jamgoma, quando estam em paz.701 Trata asy mesmo Syam da bamda de Tenaçarii com Pacee, Pedir, com Quedaa, com Peguu, com Bengalla, e os guzarates vem a seu porto cad’ano. Trata ricamente pera fora e liberallmemte em a terra, mas sam tiranos grandememte.Rey e senhores do regn~uo de Siãm.Ho rey Prechayoa,702 quer dizer senhor de todos. He despois do rey, o Aja Capemtit703 hé o viso rey da bamda de Pegu~u e Camboja, e faz guerra a Bremaa e Jamgomaa. Este Aja Cap~etit tem muita jemte de peleja de seu liimite, [n]esta terra hee como rey della. 698 o sultão Mahmud Shah, soberano de Malaca, cortara os laços de dependência com o monar‑ca siamês por volta de 1489, vinte e dois anos antes da conquista da cidade malaia pelos portugueses. 699 Lasamane, do malaio laksamana, termo que designa o responsável pelas forças marítimas, espécie de almirante, mas que Tomé Pires utiliza como se fosse um nome próprio.700 Sunda, porto e região da parte ocidental da ilha de Java; Palimbão (ou Palembang), antigo reino na parte oriental da ilha de Samatra. Ambos são adiante referenciados.701 Champá, Bremá e Jangomá (ou Chiang ‑mai), antigos reinos asiáticos, adiante referenciados.702 No tempo de Tomé Pires, o monarca siamês era Rama Tibodi II (r.1491 ‑1529); o termo apor‑tuguesado ‘prechau’, do siamês pra ‑chao, era um título honorífico aplicado ao governante supremo.703 Tomé Pires confunde o título do governador com o seu nome próprio. «Aja Capemtit» trans‑creve de uma forma aproximada os termos siameses pha ‑ya (governador), aportuguesado como ‘oiá’, e Kampengeet (nome de cidade).SumaOriental-PDF_imac.indd 142 12/5/17 2:02 PM
  • 143Ho segumdo hé o viso rey de Loguor,704 chama se Poyohya.705 Este guove‑mador hé de Pãao atee odiaa: Pahãm, Talimgano, Chantan, Say, Patane, Lugou, Maitaram, Calnãsey, Banqua, Chotomui, Pepory, Pamgoray, e outros portos, que cada hu~u tem senhores como reis, delles mouros, delles jemtios.706 E em cada porto há juncos muitos, e estes navegam com Camboja, Champaa, Cauchy, e com Jaõa e Çumda, e com Malaqua, Pacee, Pedir, e com os d’Andarguerii,707 Palimbão, etc. E destes lugares a Patane tem pimemta cad’ano atee setecemtos [ou] oytocemtos bahares. E cada hu~u destes portos sam principa~ees, e tem muito trato, e muitos se revelam comtra Syam. E este viso rey hé muito riquo e pesoa muito homrrado, quasy como o outro Capemtit. Ho outro hé Vya Chacotay.708 Este hé viso rey da bamda de Teneçary, Terrão e Quedaa. Hé pessoa principall, tem a jurdiçam sobre todos, hé capitam perpeto de Tenaçary. Hé senhor de muyta gemte e de terra avomdosa de mamtimemtos. E outro hé oparaa,709 hé sacretario do dito rey, todas as cousas pasam por este e pollo Comqusa,710 que hé tesoureiro. E dizem que aguora, com o rey de Syam, este [o]para e o Comqusa sam |138r| de gramde autoridade ambos, posto que o Comcusa hé homem de baixa comdiçãm. Hé de maneira no regno de Syam que tudo pasa por estas duas pesõas, [o]paraa e Concusa. E estes dous espreverom a Malaqua com elrey de Syam. Reyno de Brema e Jamgoma.711Ho regno de Brema comfyna da bamda do sertaão da parte de Pegu~u e Racam tem seus termos, e da bamda da Chyna com Jamgoma, e Jamgoma comfyna com Brema he com Camboja.704 Lugor, antigo porto siamês, na costa ocidental do Golfo do Sião, que parece corresponder a Nakhom Si Thammarat.705 O ML transcreve «Peraiaa» (p. 139), aportuguesado como ‘preoiá’, que parece transcrição mais correcta dos termos siameses pra e pha ‑ya. 706 Referências a: Pão (ou Pahang); Trengganu; Kelantan (ou Kota Baharu); Sai Buri; Patane (ou Pattani); Lugor; «Maitaram» e «Calnãsey», não identificados; talvez Bang Sabhan; «Chotomui», que antes aparece como «Continuo», não identificado; Petchaburi («Pepory»); Bangplasoy.707 Indragiri, na costa oriental de Samatra, adiante referenciado.708 o ML transcreve «Ajaa Chatotai» (p. 139). Tomé Pires confunde novamente o título do governador com o seu nome próprio; «Vya Chacotay» transcreve de uma forma aproximada pha ‑ya (governador) e Sukhothai (nome de cidade)709 o ML transcreve «Paraco» (p. 139); parece tratar ‑se de uma transcrição do siamês uparat (derivado do sânscrito uparaja), título de um oficial aproximadamente equivalente a vice ‑rei.710 Concussá é um termo de etimologia não apurada, que alegadamente designa o tesoureiro real siamês.711 Bremá (ou Brama), antigo reino asiático que ocupava parte da actual Birmânia (ou Myan‑mar); Jangomá (ou Chiang ‑mai), antiga cidade e reino na região norte da actual Tailândia.SumaOriental-PDF_imac.indd 143 12/5/17 2:02 PM
  • 144Estes dous reis jemtios do sertaão tem guerra com Peguu e com Raqã e com Bemgala e com Camboja, primcipalmemte com Syam, porque lhe matou certos filhos a estes. outros comtam que somemte Brema toma os termos de Pegu~u atee Camboja no sertaão, he detras deste reyno dos edetrias712 hé Jamgomaa, emtam ~etra em a terra da China. E porque vem estreitamdo a terra, nom há duvida asy ser. Mercadorias destas regnõs.Em Bremaa dizem ser a mina da pedraria que dalii vay a cidade de Ava, que hé ~e Racam, e que tem muito beyjoym e lacar, e que dalii vem ter a Syam e a Peg~uu. E o almizquer vem do regno de Jaamguomaa e do reyno dos [...],713 e que daly vay tambem almizquer a Chyna. Afirmam e parece rezam que por via de Peg~uu e Syam, pola terra firme, hiir teer ha pimenta e samdallos a Chyna, na bamda do sertao da Chyna, porque os peg~uus e syames tratam com Brema em lamcharas e paraos,714 por riios que há nos ditos reynos. He os mercadores que asy vam dizem o que quer~e, e dalii a hu~u mes tornã. Mercadorias que valem nestes regnos de Brema e Jamgoma.Pymemta, samdallos bramqos, synabafos gramdes [e] pequenõs, azougue, ver‑melham, damasquos, cetiis, brocados, roupa branca de Bemgalla. E desta jemte destes regnos há muitos homees em Syam, Pegu~u [e] Camboja. Sam os homees destes regnos cavaleiros, tem cavallos [e] alifamtes. Trazem botas. T~e por costume cortarem os narizes a todo cativo, e principallmemte aos de Camboja, que prymeiro ysto usou. 712 O ML (p. 140) e RM (fl. 362) não referem este curioso etnónimo, «edetrias», que parece designar alguma região ou potentado do norte da actual Tailândia ou do actual Laos, resultando de algo lapso de transcrição. Poderá tratar ‑se ‑á de uma referência ao antigo reino de Lan Xang. A não ser, claro está, que seja um mero lapso de copista.713 Espaço em branco no MP; tratar ‑se ‑ia de nova referência ao enigmático reino dos «ede‑trias»?714 Parau, do malaio prau, embarcação ligeira, movida à vela e a remos, muito usada no trans‑porte de mercadorias.SumaOriental-PDF_imac.indd 144 12/5/17 2:02 PM
  • 145Regno de Camboja.715Pasamdo de Syam caminho da Chyna, pola costa do maãr, hé o regno de Camboja, que vay comfynar pola dita viia com Champaa. Hé o dito rey gemtio, cavaleiro.716 Mete se sua terra muito pollo sertaõo. Tem guerra com os de Brema e com Syam, e as vezes com Champaa. E nom obedece a nemgu~e. A jemte de Camboja hé gerreira. A terra de Camboja hee de muitos riiõs, demtro tem muitas lamcharãs, que vam navegar a costa de Syam da bamda de Lugor, e amdam muitas vezes d’armada comtra toda roupa.717 Hé a terra de Camboja de muitos mamtimemtos ~e camti‑dade, hé terra de muitos cavallos [e] alifamtes. Mantimentos.Tem a terra de Camboja muito arroz e bom, carnes, pescado, vinhos a sua guisa. E tem esta terra718 ouro, tem alacar,719 muitos demtes d’alifamtes, peixe sequo, arroz.Mercadorias que valem ~e Camboja.Roupa branqua de Bemgalla fyna, pimemta pouqua, cravo, vermelhão, azou‑gue, estoraque liquido, comtas vermelhas. Nesta terra se queimam os senhores por morte do rey, e as molheres dos reis, e as outras molheres por morte de seus maridos. E amdam trosquiadas polas orelhas por jemtil~eza. 715 O Camboja é um antigo reino asiático que correspondia aproximadamente ao território do actual estado homónimo.716 o monarca cambojano, nos primeiros anos do século xvi, era Srey Sokonthorbat, que foi de‑posto e morto em 1512 por Sdach Kan. Anos mais tarde, em data indeterminada, Ang Chan, irmão de Srey, recuperaria o trono do Camboja.717 A palavra «roupa» não faz aqui grande sentido, e talvez se trate de lapso por ‘cousa’. RM tra‑duziu por «vãno molte volte corseggiando contra ciascuno che trouano» (fl. 362).718 original: «tera».719 Leia ‑se ‘lacre’.SumaOriental-PDF_imac.indd 145 12/5/17 2:02 PM
  • 146Regno de Champa.720Alem da terra de Camboja, seguindo a costa do mar pola terra firme, he o regnõ de Champaa. A terra hé gramde e de muito arroz, carnes, e outros mantimemtos. |138v| Nesta terra nom há portos pera jumcos gramdes, tem alguuas povoaço~ees por rios, emtram demtro com maree cheea navios que demamdam braça e meya. De maree vaziia ficam as emtradas em sequo. Navegam em Syam atee Pahaão muitas lamcharas. Hé o rey jemtio, tem muita jemte, hé riquo, vive por suas lavoiras. Todos tem cavallos, t~e guerra com outros reis, primcipallmemte com o rey de Cau‑chychyna. Calambac.[D]as mercadorias de Champaa a primcipall hé calambac,721 que hé o lenho alo~ees, ho verdadeiro, a melhor especia delle. Porque o que laa em Portuguall se usa hé guaro,722 de que qua há matos. Tem gramde deferemça o calambuc, em cheiro he sabor e odor, asy como ouro a chumbo em valia. E deste calambac em Champa há o melhor e a fomte delle. Hé gomoso de veas bramqas e pretas, he paao mole. Vall em Malaqua cada do~us arrates seis [ou] sete cruzados, e á tall que vall doze. E quamto ho paão em prefeyçã é mõr, asy sobe em valiia do pequeno, posto que seja da mesma vomdade. Tem ouro de toque do de Menancabo723 em boa camtidade, que vem da mina, que mesmo vay a Cauchy. os de Champaa tem por mercadaria ouro em sua onesta valya, he ouro em pedaços grosos. Mantimentos.Trazem della a Malaqua peixe sequo salgado, arroz, ouro, algu~ua prata, porque na terra nom há outra mercadoria. A terra nom hé de muito trato em Malaqua, porque de Syam lhe acodem mercadarias.720 Champá, antigo reino indochinês, que ocupava parte do actual Vietname, confrontando com o Camboja a sul e a norte com a Cochinchina.721 Calambuco ou calambá, do malaio kalambaq, o mesmo que lenho ‑aloés.722 Garo, do malaio garu, o mesmo que águila ou lenho ‑aloés.723 Menancabo (ou Minangkabau), antigo reino da costa oriental de Samatra, que se situava na actual região de Jambi.SumaOriental-PDF_imac.indd 146 12/5/17 2:02 PM
  • 147Mercadarias que valem em Champaa.A principall hé arequa, com que comem o betelle, panos bramcos de Bemgalla, synabafos gramdes e pequenos, panchavilizes,724 panos queeliis poucos, pimemta, cravo, noz pouca, cacho, pucho pouquo, estoraque liquido. Moeda da terra.A moeda meuda sam caixas da Chyna,725 e por mercadoria ouro e prata. Vall o ouro ~e Champaa a quimta parte menos que em Malaqua, e a prata a seista parte. Gemte e navios.[A gente] no maãr hé fraqua, tem muitas lamcharas que demamdam pouquo fumdo, por rezã da aguoa ser pouqua. Navegam na terra que hé gramde. [Tratam] nas mercadorias da terra e nos panos de seus trajos que há na terra. Vam a Syam e a Cauchy. Nom tem porto nomeado. Non tem mouros em seu regno.Regno de Cauchychyna.726Ho rey de Cauchychina hé rey de maior terra que Champaa e mais riqua, hé o regno amtre Champaa e a Chyna. Este na terra hé poderoso guerreiro. Tem muitas lancharas, tera727 atee quorenta juncos. Tem a terra gramdes rios [e] navegaçam nelles. Nom tem povoadores junto com ho mar muitos. Estemde se sua terra muito pola terra fyrme. Chama se sua terra em Malaqua Cauchychyna, por respeito de Cauchy Coulam,728 etc. Elrey hé jemtio e toda sua gemte, nom sam amiguos de mourõs. Estes nom navegam em Malaqua, navegam na China e em Champaa. Hé gemte muito fraqua 724 Talvez o mesmo que pachavelão, do tamul pachaivadam, pano decorado com ramagens dou‑radas, da costa oriental da Índia.725 Caixa, através do sânscrito karsha, moeda chinesa de cobre, com um orifício quadrado ao meio, com valor de cerca de 0,3 réis, e que corria em fiadas por toda a Ásia do Sudeste.726 Cochinchina, antigo reino indochinês, que ocupava a parte setentrional do território do actual Vietname.727 original: «terra».728 A região era designada em malaio como Kauchi, de que resultou em português Cauchim ou Cochim; Cochim da China, para se distinguir de Cochim da Índia, teria dado origem a Cauchin‑china ou Cochinchina.SumaOriental-PDF_imac.indd 147 12/5/17 2:02 PM
  • 148no maãr, todo seu feito hé na terra. Tem gramdes señores. Hee jumto este ao rey da Chyna por casamemtos, e por este rey nom fazer guerra a Chyna.729 Traz sempre embaixador na corte d’elrey da Chyna, aimda que nom queira o rey de Cauchy ou leve diso descomtemtamemto, porque hé seu vasallo, como se dira nas cousas da Chyna. Hé Cauchy terra de muitos cavallos.|139r| Hee este rey dado muito a gueerra, e tem imfimdos espimgardeiros e bom‑bardas pequenas. Gasta se muito gramdisyma copia de polvora em sua terra, asy na guerra como em todas suas festas e prazeres, de dia e de noyte. Asy o usam todos os gramdes de seu regno e pessoas omrradas, gasta se cada dia, asy em foguetes como em todo outro eixercicio de prazer, polvora, como se vera nas mercadorias que la valem. Mercadorias que há na terra de Cauchychyna.Principalmemte ouro, prata muito mais que em Champaa, calambuc nom hé tamto como Champaa. Tem porcelanas e bacios, delas de gramde vallya, e dalii vaõo a China a vemder~e se. Tem de todas sortes de tafetas,730 milhores, mores e mais larguos e fynos que em todallas outras partes qua e nas nosas. Tem as melhores sedas soltas de cores que qua haa em gramde avomdamça. E tudo ysto que asy tem hé fyno e perfeito, sem falsydade que tem as cousas doutras partes, he tambem aljofar e nom muito. Mercadorias que valem em Cauchychyna.A cabeça da mercadoria em Cauchy prezada hée emxofre, e deste vimte juncos, se tamtos lhe mamdarem laa. E vall bem emxufre da China a Malaqua. Muito imfimdo vem das ilhas de Solor, alem da Jaaõa, como se dira quamdo se delas falar, e daqui vam a Cauchy. Selitre e pedraria.Vall asy mesmo gramde copia de salitre, e da China lhe vem muita camtidade, e todo se vemde laa. Valem rubiis, diamamtes, çafiras, toda outra pedraria fyna, e algu~u amfiam, pouquo, pimemta pouqa, e asy das outras cousas que valem na Chyna. Estoraque liqido vall bem. 729 A Cochinchina mantinha laços de dependência formal com a China.730 Tafetá, do persa taftah, tecido de seda trançado. SumaOriental-PDF_imac.indd 148 12/5/17 2:02 PM
  • 149Estes poucas vezes vem a Malaqua em seus juncos. Vam a China a Quamtom,731 que hé cidade gramde, tomar companhiãs de chiis, emtam vem por mercadorias com hos chiis em seus juncos. E a principall cousa que trazem hé ouro e prata, e cousas que compram na Chyna. Moeda da terra.A moeda das despesas de mantimemtos sam caixas da Chyna, e por mercadoria ouro e prata. 731 A cidade chinesa de Cantão, ou Guangzhou, que adiante é referenciada.SumaOriental-PDF_imac.indd 149 12/5/17 2:02 PM
  • 150[LivrO QUartO]Regno da Chiina.732Segumdo o que as nações de qua deste Levamte comtam, fazem as cousas da China gramdes, asy na terra como jemtes, riquezas, pompas, estados, e contas outras que mais se creriã com verdade averem se em noso Portugall, que nom na Chyna. Hé gramde a terra da Chyna, de fermosos cavallos e mulas, segundo dizem, he em gramde numero.Ho rey da China hé jemtio,733 de gramde terra he jemte. Hé a jemte da Chyna branqua, da nosa alvura. Vestem os mais panos pretos d’algodam, e diso trazem sayos de cimquo quartos de nesguas, asy como nos, somemte sam muito larguos. Trazem na Chyna nos Invernos feltros nas pernas a maneira de peuguas, he em cima botas bem obradas que nom cheguã do giolho pera cima, e trazem suas roupas forradas de pelles cordeiras e doutras pelitarias. Trazem delles pelicas, trazem coyfas de rede de seda redomdas, como peneiras pretas de noso Portugall. |139v| Tem hu~u jeito d’alemaaes.734 Tem na barba trinta [ou] quoremta cabellos. Calçam çapatos framceses de pomta de ladrilho muyto bem feitos. Comem todollos chiis porquos, vaquas e de todas outras alimariãs. Bebem g~etillmemte de toda sorte [de] beberajes. Gabam muito noso vinho, embebedam se grãdememte. Hé gemte fraqua e para pouco, esta que qua se vee em Malaqua. Sam de pouca verdade e furtam, ysto a gemte baixa. Comem com dous paaos e altamia735 ou porcelana na maão esquerda, jumto com a boqua, e com os dous paõs sorvr.736 Esta hé a guisa da China.737 732 A primeira expedição portuguesa ao litoral da China, na qual participou Jorge Álvares, partiu de Malaca em 1513.733 o imperador da China era então Zhengde (r.1505 ‑1521).734 outros observadores portugueses da época registam esta curiosa observação.735 Altamia é um género de tijela vidrada.736 Leia ‑se ‘sorvem’. No ML: «com os paos se seruem» (p. 146). Curiosa referência aos pauzinhos utilizados pelos chineses como talher.737 o ML contém mais um parágrafo sobre as mercadorias da China e depois termina. A versão italiana termina também na descrição da China, mas RM acrescenta: «Qui manca tutta la parte che parla dell’isole di Maluco, Gilolo, & delle Giaue, & di Sumatra» (fl. 363).SumaOriental-PDF_imac.indd 150 12/5/17 2:02 PM
  • 151Molheres da China.As molheres parecem castelhanas, tem sayas de refeguos e coses, e sainhos mais compridos que em nosa terra, os cabellos compridos emrrodilhados por gemtill maneira em cima da cabeça, e lamçam nelles muitos preguos d’ouro pera os ter, e arredor da pedraria, quem ha tem, e sobre a moleira joyas d’ouro, e nas orelhas e pescoço. Poem muito alvayade nas fases he arrabique sobre elle, e sam alcoforadas, que Sevilha lhe nom leva a vamtaja.738 He bebem como molheres de terra fria. Trazem çapatos de pomtilha de seda he brocados. Trazem todas avanõs nas maaõos. Sam da nosa alvura, e delas tem os olhos pequenos e outras gramdes, e narizes como ham de ser. Homde o rey estaa.A terra da China hé de muitas cidades [e] fortalezas, todas de pedra e quaall. A cidade omde o rey estaa chama se Cambara,739 hé de gramde povo e de muitos fydallgos, de imfinidos cavallos. o rey nunqua hé visto do povo nem dos gramdes, sallvo de muito pouquos, por asy estar em costume. Dizem que mulas tem sem conto, como se fosse em nosa terra. Reis vasallos ao rey da China seos tributarios, que lhe pagam pareas.Ellrey de Champa, ellrey de Cauchychina, ellrey dos Lequios, ellrey de Jampon, adyamte se fara memçam destes.740 738 Alvaiade e arrebique são cosméticos, o primeiro branco, o segundo avermelhado; alcoforado é o mesmo que pintado com alcofor (ou antimónio), produto usado para embelezar os olhos. 739 Nota marginal, na mesma letra: «[Esta] cidade esta [no re]yno da Chyna [cujo] rey esta [la a]s vezes, como Cambara, a qall [se cha]ma Peqim. Estas cidades [estão l]onje de Qãto [na ter]ra firme». A referência à cidade de «Cambara» poderá derivar de «Cambalu», forma que aparece na versão portuguesa do relato de Marco Polo, publicada por Valentim Fernandes em Lisboa em 1502. Trata ‑se de uma anacrónica referência a Khan Baliq, designação da antiga capital dos mongóis, dinastia que reinou na China até à segunda metade do século xiv. Note ‑se a precoce utilização do topónimo «Peqim», correspondente a Pequim (ou Beijing), a capital imperial durante a dinas‑tia Ming.740 Tomé Pires refere ‑se de forma indirecta ao sistema tributário, que na época regia as relações externas da China. os Léquios e o Japão são adiante referenciados.SumaOriental-PDF_imac.indd 151 12/5/17 2:02 PM
  • 152Reis vasallos sem obrigaçam de pareas, somemte presemte.Ellrrey de Jaaoa, ellrey de Siam, ellrey de Pac~ee, elrey de Malaqua, estes mam‑dam seus embaixadores com o sello da China741 a ellrey da Chyna, de cimquo em cinquo anños, e de dez em dez anños, e cada hu~u lhe mamda do melhor de suas terras, do que sabem que laa quer~e. De Malaca lhe mamdavam pimemta e samdallos brancos, algu~u pãao de boa grãdura, e asy de garo, que he lenho aloões de butiqua, anees de pedras fynas, pasaros que vem de Bamda mortos,742 e cousas a estas semelhamtes, chamalotes, he cada hu~u segumdo tem. Estes embaixadores podem emtrar na Chyna e sair. Maneira dos embaixadores com ho rey.Estes embaixadores quamdo vam ao rey nom o vem, somemte ho vulto do corpo, detras hu~uua cortina, e daly respomde, estamdo sete esprivaes esprevemdo a palavra quamdo a diz. Asynam aquillo os oficiaes mamdaris743 sem o rey põor a maão nem ser visto. Tornan se a viir, e se levam de presemte mill, faz lhe mercee do dobro. E os embaixadores em peitas leixam tudo laa, e tornan se s~e verem ho rostro nem a pessoa do rey.744 Esta hé a verdade, e nom como diziam que estavam quoatro homees asemtados a vista e falavã com todos, sem saberem quall hé o rey. E estes embaixadores podem amcorar em a cidade de Quantom, como se dira no diamte.745 |161r| Como fazem rey.Ho rey da China nom socede de pay a filho nem sobrinho, somemte por eleiçam do cõselho de todo ho regño, [que] amda sempre na cidade de Cambara, omde o rey esta, e o mandarim que se por estes aprova fiqua rey.746741 o «selo» da China, ou feng, era a patente imperial que atestava o compromisso formal de vassalagem, no interior do sistema tributário chinês.742 Referência às aves ‑do ‑paraíso (da família das Paradisaeidae), pássaros originários das ilhas orientais da Insulíndia, que eram muito aprecidos pela sua exótica plumagem.743 Mandarim, do sânscrito mantrin, através do malaio mantari, designa um magistrado ou alto funcionário. o termo seria depois aplicado aos funcionários chineses em geral.744 Estas contraditórias versões do ritual de recepção de embaixadas tributárias no palácio impe‑rial chinês poderiam derivar de informações orais recolhidas por Tomé Pires em Malaca.745 A descrição da China prossegue no fl. 161r do MP, revelando outro acidente na encadernação deste códice. Retoma ‑se aqui a sequência lógica da Suma Oriental. 746 A informação de Tomé Pires, que deriva de Marco Polo, é errónea, pois o título de imperador na China era hereditário, passando tradicionalmente para o filho mais velho da imperatriz. Contudo, o poder era frequentemete exercido por regentes durante a menoridade do imperador.SumaOriental-PDF_imac.indd 152 12/5/17 2:02 PM
  • 153Regimemto do rregño acerqua dos que navegã pera outros regnos.Nom pode sair nenh~uu chim pera a bamda de Siam, Jaãoa, Malaqua, Pacee, e dhy adiante, sem licemça dos regedores de Quamtom.747 E pollas asynaturas da licemça de poder sair he tornãr lhe llevam tamto que ho nom podem soportar, e nom saem. E se algu~u estranjeiro estaa na terra da China ja nom pode sair, somemte se nom hé por licemça do rey, e por esta licemça se hé riquo fiqua sem nada. E quallquer junco ou naão que pasa os termos que lhe sam postõs pera amcorar perde se a fazemda pera ellrey, e a jemte morre por yso.Lugares do maãr do regno da Chyna.Começamdo dos termos de Cauchy pera a costa da China, há fortalezas. A pri‑meira Aynam,748 honde se acha o aljofar que vay a Chyna, e Nantoo e Quantom e Chamcheo e outros.749 Somente digamos de Quamtom, que he mõr que todos, e omde hé o trato todo destas partes. Este Aynam hé emseada ~e costa s~e rio, t~e huuãs ilhas ao mar perto, omde se pesca o aljofar, he gram ssoma delle, etc. A cidade de Quamtom750 hé omde o regño todo da China descarregua suas mercadarias todas, e asy da terra firme como do mar, muitas. A cidade de Quam‑tom hé a boca da foz de hu~u gramde riiõ que tem de prea maar tres braças e quatro. A cidade que se vee da foz esta asemtada em terra chãa sem momte, tem toda a casaria de pedra e cerquada de muro, que dizem que hé de sete braças de larguo e outras tamtas d’alto, e da bamda da cidade dizem que hé alcamtilado. Ysto dizem luço~es que ja alii estiverom, e tem portos homde estam muitos juncõs gramdes.751 Vigia se a cidade, fecham se as portas, sam fortes. Estes reis que disemos que tem sellos, quamdo mamdam seus embaxadores, fazem a mercadaria em a cidade dem‑tro, e se nom fazem fora, obra de xxxta leguoas752 de Quamtõ, e de Qamtom lhe 747 Rigorosas proibições estavam então em vigor na China, relativamente ao exercício de comér‑cio externo.748 A ilha de Hainan (ou Hainão), onde existiam importantes pesqueiros de pérolas.749 Referência às localidades de: Nantou, a sudeste da Cantão; Cantão (ou Guangzhou); e Chin‑chéu, nome que tanto podia designar Xiamen como Quanzhou, no litoral da província chinesa de Fujian. 750 Cantão (ou Guangzhou), na província chinesa de Guangdong, era o grande centro mercantil da China meridional.751 os informadores de Tomé Pires eram luções que haviam visitado a cidade de Cantão. Na al‑tura em que a Suma Oriental estava a ser composta, a China fora visitada por Jorge Álvares em 1513, um conhecido de Tomé Pires, que de regresso a Malaca lhe poderia ter fornecido informações sobre o mundo chinês, mas que não tivera oportunidade de visitar a grande metrópole meridional.752 o número de 30 léguas traduz com rigor a distância entre a cidade de Cantão e as ilhas do litoral chinês onde se efectuavam as trocas comerciais entre chineses e mercadores estrangeiros.SumaOriental-PDF_imac.indd 153 12/5/17 2:02 PM
  • 154levam a mercadaria. De Quamtom a cidade [de Pequim] hu~us diz~e que há quoatro meses de amdadura, e outros dizem quoatro [e meio], e outros [cinco].753 Asy a verdade hé que em vinte dias a bom amdar podem amdar ho dito caminho.754 Ylhas homde ancorã os juncos de Malaqua.Aquem de Quamtom pera Malaqua trimta leguoas estam huuas ilhas junto com a terra firme de Namtoo, homde estam os portos já detreminados de cada nação, scilicet, Pulo Tumon755 e outros. E tamto que os ditos juncos ali amqorã, ho senhor de Nantoo ho faz saber a Quamtom, e vem lloguo mercadores estimar a mercadoria, e tomã seus direitos, como se dira ao diamte. Entam lhe trazem a mercadaria feita de hu~ua parte he da outra, torna se cada hu~u pera sua casa. Maneira dos capitãees da terra he mar em Quamtom.Afirmam que todos os que trazem mercadarias de Quamtom aas ilhas ganhã tres, qatro, cimquo por dez.756 E os chiis tem este costume asy por lhe nom toma‑rem a terra, como por receberem os direitos das saidas das mercadarias, alem da emtrada. E o principall hé por medo de lhe nom tomarem a cidade, porque se diz que hé riqua cidade a de Quantom. He v~e cosairos muitas vezes jumto com ella. Hé capitam desta cidade Hitaão, pessoa principall, e cad’ano hé hu~u capitam por hordenamça do rey, e nom pode mais estar. Haa outro capitam do maar casy como ho da terra, com jurdiçam sobre sy.757 Ambos sam mudados cad’ano.758 |161v| Dizem que os chiis fezerom esta hordenamça de nom poder~e hir a Quamtom por receo dos jaaos e malaios, que hé certo que hu~u jumco destas naçoees desbaratam vinte juncos de chiis.759 Dizem que a Chyna hé de mais de mill 753 Reconstitui ‑se hipoteticamente esta frase, que no MP é algo confusa.754 A viagem entre Cantão e Pequim, na verdade, realizada por via terrestre e também fluvial, costumava demorar cerca de três meses.755 A ilha de Tamão (ou Tun Men), onde primeiro aportaram os portugueses, que corresponde a Lingding, no estuário do rio Zhujiang (ou rio da Pérola).756 As transacções comerciais realizadas no litoral chinês eram tão lucrativas que deram origem à expressão ‘negócios da China’.757 Tomé Pires parece confundir os funcionários governamentais chineses. o aitão, na realidade, é um cargo, do chinês haidaofushi, o comandante da guarda costeira, com jurisdição sobre os es‑trangeiros. Talvez se estivesse também a referirir ao taissu, do chinês taishou, prefeito de uma cidade.758 os funcionários provinciais chineses, na realidade, eram normalmente nomeados por perío‑dos de três anos.759 Tomé Pires refere ‑se a juncos mercantis chineses que aportavam a Malaca, e não a juncos imperiais de guerra que asseguravam a guarda do litoral chinês.SumaOriental-PDF_imac.indd 154 12/5/17 2:02 PM
  • 155juncos, que cada hu~u trata homde lhe bem vem. Mas hé jemte fraqua, e segumdo ho medo que tem a malayos he jaaos bem certo sera que hu~ua naao de iiiic tonees760 faria despovoar Quamtom, a quall despovoada teria a China gramde perda.761 Nom tiramdo a groria a cada terra, bem parecem as cousas de Chiina serem de terra homrrada e boa e riqa muito. E pera o sojugar o guovernador de Malaqua a obidiencia nosa aviia mester nom tamto como dizem, porque hé jemte muito fraca he ligeira de desbaratar. E afirmam as pessoas, capitãees que muitas vezes forom la, que com dez naãos sojugaria ho Governador das Imdias762 que tomou Malaca toda ha China nas beiras do maãr. E a Chiina pera as nosas naaos hé viajem de vinte dias. Partem daqui na fim de Junho pera boa viagem, e em xb dias iram com vemto de mouçam. Da Chiina há novamemte navegaçã pera Burney,763 e dizem que vam laa em quinze dias, e que ysto sera de quimze annos a esta parte. Mercadorias que valem na China, que vam de Malaqua.A primcipall mercadaria hé pimemta, de que comprarã dez juncos cad’anno, se tamtos la for~e. De cravo [e] noz pouqua, pucho [e] cacho mais alguã cousa, emcemço compraram muito, demtes d’alifamtes, estanho, lenho aloees de butiqua, cõprarã muita camfora de Burney, comtaria vermelha, samdallos brancos, brasyll imfimdo, paão do que nace em Syngapura preto,764 comprã muitas alaqueqas, de Cambaya chamallotes, escarlatas, panos de laas de cor~es. Deixamdo a pimenta, todo o all sam cousas de benese. Vam hos ditos juncos de Malaqua amcorar a ilha de Tumom, como ja he dito, xxte ou xxxta leguoas de Quamtom. Estam estas ilhas junto com a terra de Nan‑too, huuã leguoa a la mar da terra firme. Alii amcorã os de Malaqua, no porto de Tumom, e os de Siam no porto de Hucham.765 o noso porto hé mais perto pera a China tres leguoas que ho de Syam, e primeiro vem as mercadarias a elle que hao outro. Ho senhor de Namtoo, vemdo os juncos, faz lloguo saber a Quamtom como sam juncos emtrados nas ilhas. Saem hos estimadores de Quantom a estimar~e as 760 Tonel é uma antiga unidade de medida, utilizada para definir a capacidade de carga dos na‑vios, e que poderia equivaler a cerca de 1400 litros.761 As primeiras informações portuguesas subestimam sobremaneira o poderio militar da China.762 Referência a Afonso de Albuquerque.763 Tomé Pires refere ‑se decerto ao sultanato de Brunei, na parte setentrional da ilha de Bornéu, que adiante é referenciado.764 o pau ‑preto de Singapura (Dalbergia latifolia, Roxb.).765 Provável referência a uma das ilhas do arquipélago de Wanshan, no estuário do rio Zhujiang (ou rio da Pérola).SumaOriental-PDF_imac.indd 155 12/5/17 2:02 PM
  • 156mercadorias, recebem seus direitos, trazem mercadaria tanta que abasta, c’asy a terra estaa em costume dee tamto valler tanto. Sabem de vos as mercadarias que queres e trazem [n]as. Direitos na China aos mercadores que vam de Malaqua.De pimemta pagam vimte por cemto, de brasill cimqoemta por cento, e do pao de Siimgapura outro tamto, e ysto estimado. Tamto podera ter hu~u junco soldo a livra.766 Recebem seus direitos das outras mercadarias a dez por cemto, e nom vos fazem apresam. Tem verdadeiros mercadores em seus tratos, sam gramdememte riqos, todo seu emtemto hé pimemta. Vemdem seus mamtimentos onestamemte. Despachados, torna se cada hu~u a sua terra. A jemte baixa hé pouco cheguada a verdade, e as cousas baixas de seus oficios sam todas falsas e comtrafeitas. Pesos da China, gramdes e pequenos.[N]a China hé o nome de cem cates chama se piquo.767 Entam faz~es voso preço, quamtos piquos de pimemta por hu~u de seda, ou quamtos de tall mercadaria por hu~u de pimenta, e asy hee. E no almizquer, quamtos cates de pimemta por hu~u d’almizquer. [E no] aljofar [...].768 o picoll tem cem cates, cada cate tem dezaseis ta~ees, cada taell tem dez mazes, cada maz tem dez pon, cada cate tem vimte e hu~ua onça de noso peso; cada trezemtos [e] doze cates de vimte e hu~ua omças fazem hu~u baar de Malaqua da romãa pequena.769Mantimentos d’arroz, triguo, carnes, galinhas,770 pescados.|162r| Todas estas mercadarias se vemdem a peso, scilicet, tamtos pesos de tall por hu~u de pimenta. E os mercadores quamdo a levam haa na terra amtre elles 766 Soldo à libra, antiga expressão que significa ‘com a maior igualdade’, ‘de forma correcta’.767 Pico, do malaio pikul, medida de peso equivalente a 100 cates, que correspondem a cerca de 90 ou 100 quilogramas.768 A palavra «aljofar» aparece fora de contexto, talvez por lapso do copista.769 Maz ou maze, do malaio mas, medida de peso equivalente a cerca de 3 ou 4 gramas; pon, do sânscrito pana, moeda de Bengala equivalente a 80 cauris, mas que aqui parece referenciar uma medida de peso equivalente a um décimo do maz ou maze; onça, antiga medida de peso portuguesa, equivalente a cerca de 30 ou 40 gramas.770 original: «gas», que aqui se interpreta conjecturalmente.SumaOriental-PDF_imac.indd 156 12/5/17 2:02 PM
  • 157tamtos pesos de tal mamtimemto por hu~u de caixas de fuseleira, que corre na terra como ceitis. E nas mercadorias gramdes e outras compras, ouro e prata por moeda. Mercadorias que vem da Chyna.A primcipall mercadaria da Chyna hé seda branqua crua, em muita camtidade, e sedas soltas de cores, muitas em camtidade, cetiis771 de todallas cores, damasqos emrrolados de tavoleiro, de todas as cores, tafetas e outros panos de seda rallos, a que chamã xaas,772 e doutras sortes muitos, de todas corres. Aljofar gramde copia, de diversas feiçoes, polla mõr parte desyguall, trazem tambem redomdo e groso. Hé esta a meu parecer ha tan principall mercadaria na China como a seda, posto que elles contam a seda por cabeça de mercadoria. Almizquer em poo e em papõs muito e bom, certamemte que nom deve nada ao de Pegu~u. Camfora de botica em gramde camtidade. Abarute,773 pedra ume, selitre, emxofre, cobre, ferro. Rui‑barbo, e todo nom vall nada, o que ate o presemte tenho visto vem podre; dizem que damtes vinha fresco, eu o nom vy. Vasos de cobre de fuseleira, tachos de ferro ffundido, bacios, bacias, destas cousas sem numero. Cofr~es, avanos, agulhas, de cem maneiras, dellas muito s~utiis e bem obradas em abastança, hé boa mercadaria. E cousas muito de baixa sorte, como de Framdes774 vem a Portugall. Manilhas de cobre imfinidas. Vem ouro e prata, e nom vy muito. E brocados a sua guisa muitos. De porcelanas, nom se fala no numero. Destas cousas que da China vem, dellas sam da terra da China, dellas de fora, he hu~uas de lugares nomeados milhores que doutros. Destas taes mercadarias empregaes nas que queres voso dinheiro, somemte no almizquer nom se acha tamto. Dizem que podera viir cad’ano atee hu~u baar da China en todollos juncos. Tem gramde camtidade d’acuquar a terra da China, he bom. Ay hu~u lugar que se chama Xamcy ~e que há hy almizcar, t~e pouco e bom.775 Vem os ditos juncos da China a Malaqua e nom paguam direitos, somemte presemte, e estes presemtes asy os dam segumdo for hordenança dos xabamdares776 771 Isto é, cetins.772 Xás, do árabe shash, tecido fino de seda, também designado como musselina.773 o termo «abarute» poderá designar o chumbo.774 Isto é, Flandres.775 Nota à margem, na mesma letra: «A cidade de que ve~e o almizqare se chama Xãnbu, a qal hé na Chyna, e diz~e que ~e Çancy há as alymaryas de que tira o almizcare, e que as matã por [...]tas como gamos [...] ay muitos». Parece tratar ‑se de referências à província chinesa de Shaanxi e à sua capital Xi’an, de onde era exportado almíscar.776 Xabandar, do malaio syahbandar, designa o mestre ou capitão do porto, podendo o termo ser também aplicado ao representante de uma determinada comunidade ou nação estabelecida numa cidade portuária.SumaOriental-PDF_imac.indd 157 12/5/17 2:02 PM
  • 158das taes naçoees. Xabamdar da China, Lequios e Cauchy [e] Champa era o lasama‑ne.777 E deste oficio sam riquos hos xabamdares, porque despeitam os mercadores gramdememte, e por os ganhos serem grosos, tudo suportam, e tambem por a terra estar ~e costume de aasy fazer e ssoportar.os postos das mercadorias. A seda bramca cr~ua he de Chancheo; sedas de cores, de Cauchy;778 damasquos, cetiis, brocados, xaas, loos,779 de Namqim780 e d’Amquem;781 aljofar de Aynã; camfora de botica de Chamcheo. E porque os postos nom satisfazem, porque as taes mercadorias t~e seu conhecimemto a vista, nom vou por aqui mais discorremdo.o sall hé gramde mercadoria amtre os ch~ıis, da China se espalha pera estas partidas, e hé trato de quinhemtos juncos que o vem comprar, e da China se carrega pera outros cabos. Sam os tratantes delle muito riquos, e amtre sy dizem a outros ‘soes vos mercador de sal pera falardes?’. Alem do porto de Quantom esta outro porto que se chama oquem,782 hé amdadura por terra de tres dias e por mar hu~u dia e huuã noite. Este hé o porto dos lequios he doutras naçoees. Muitos portos tem alem, que sera largua cousa de comtar, que ao presemte nom fazem em noso caso, somemte atee Quamtom, porque esta hé a chave do reino de Chyna. Dizem que na terra de China amda a jemte da Tartaria,783 e chaman lhe tartall, e a tall gemte hé bramca muito, de barbas ruyvas, amdam a cavallo, sam guerreiros. He dizem que da China vam a terra dos tartaros em dous meses, e que na Tartaria traz~e cavallos ferrados com ferraduras de cobre. E ysto deve ser porque a Chiina vai se estemdemdo a bamda do norte. E bombardeiros nosos dizem que em Alemanha ouviirom ja dizer daquella gemte, e de hu~ua cidade que hos chiis nomeam Quesechama,784 e que lhes parece que poderam hir pola tall via a suas 777 Lasamane, responsável da segurança marírima, termo já anteriormente referenciado.778 Tomé Pires parece estar a referir ‑se a uma localidade chinesa, e não à Cochinchina. Tratar‑‑se ‑ia talvez de Shaoxing (e poderia então ler ‑se «Çauchy»), nas proximidades da grande cidade de Hangzhou, locais de produção de seda.779 Ló, do chinês lo, espécie de seda crua.780 Nota à margem, na mesma letra: «Neste Nanquim á todolos panos d’algodã, e gramdes mer‑cadores. Há de Peqim a Nanqy por rios h~u mes d’am[da]dura, etc.». Grande parte do caminho entre a cidade de Nanquim (ou Nanjing) e Pequim (ou Beijing) podia ser feito através de rios e canais, tendo a viagem uma duração de cerca de 40 dias. 781 A localidade de «Amquem» é de difícil identificação; mas poderá tratar ‑se de uma referência a Yangcheng, nas proximidades de Nanquim (ou Nanjing).782 «oquem» parece derivar do cantonês Haocheng (mandarim Haojing), e poderá ser a primeira referência nas fontes portuguesas ao porto que mais tarde seria conhecido como Macau.783 Tartária designa as regiões que confrontam com o norte da China, e nomeadamente a Mongólia.784 Poderá tratar ‑se de uma transcrição de algum topónimo chinês não identificado; ou, alterna‑tivamente, da expressão ‘que se chama’, utilizada pelo copista do MP para substituir alguma palavra não entendida.SumaOriental-PDF_imac.indd 158 12/5/17 2:02 PM
  • 159terras em pouco tempo, e afirma[m] no, mas a terra por rezam do frio dizem que hé despovoada ha certos lugares. Amtre os chiis e os tartaros sam os guores,785 e despois da Tartaria [a] Roxia,786 diz~e os chiis. |162v| E porquamto alem da China na terra firme nom se sabe ao presemte aqui mais terras com que Malaca trate, faço pomto.787 Daqui por diamte se falara das ilhas, e somente se falara daquelas com que Malaca navegua, porque se de todas ouvese de dizer, nunca acabaria, por rezam da ymfynidade delas. E aguora se dira dos lequios e Jampom, burneus e luçoees.A ylha dos lequeos.788Os lequeos chaman se guores, por quallquer destes nomes sam conhecidos. Lequios hé o principall. Hé o rey gemtiio, e toda a gemte. Hé vasallo do rey dos chiis, trebutario.789 A ilha sua hé gramde, hé de muita jemte. Tem navetas pequenas a sua guisa, juncos tem tres ou quoatro, que comtinoamemte compram na Chyna, e nom tem mais. Tratã na China e em Malaqua, e as vezes em com‑panhia dos chiis, as vezes por sy. Na Chiina tratam no porto de Foqem,790 que hé na terra da Chiina, junto de Quamtom, navegaçam de hu~u dia e huuã noyte. Dizem os malaiõs, aa gemte de Malaca, que de purtugueses he llequios nom há defer~eça, somemte que os purtugueses compram molheres, o que os lequeos nom faze[m].791 Os lequios tem em sua terra somemte triguo e arroz e vinhõs a sua giisa, carnees, pescados em gramde avomdança. São home~es gramdes debuxadores he armeiros. Fazem os cofres dourados, avanos muito riquos e bem obrados,792 espa‑das, muitas armas de todas sort~es a sua guisa. Asy como falamos ~e nosos regnõs em 785 O enigmático povo dos «guores», mais abaixo identificado com os léquios, poderá correspon‑der aqui aos uigures, povo islamizado da Ásia Central. 786 Isto é, Rússia.787 Nota marginal, na mesma letra (que só parcialmente se consegue ler, pois o manuscrito foi aparado ao encadernar): «[...] direy das [...]nas as quaes [...] ~e Camcy e [...] adamasca[...] faz~e em Cauchy China e di v~e a Malaqa [...] outros cus[...] se nõ fa[...] ~uns diz~e [...]ze de pedra [...]re outros [...]e fazem [...]a que [...] pedra que he [...] e branca e o [...]e. E as [...]as de porce[lanas] finas como [...]s e louça [...]te se faz~e [...] de forma [...].788 Os Léquios têm sido identificados com as ilhas de Ryu Kyu, que se estendem entre a Formosa e o Japão, a mais conhecida das quais é Okinawa. A assimilação aos «guores» pode aqui resultar de al‑guma confusão com povos originários da Coreia que frequentariam as rotas do Mar do Sul da China.789 As ilhas de Ryu Kyu enviavam embaixadas tributárias à China.790 Decerto outra transcrição do «Oquem» atrás mencionado, que se poderá identificar com Macau.791 Curiosa observação, sobre o facto de os portugueses adquirirem escravas asiáticas.792 Os abanos léquios dariam depois origem ao termo ‘leques’.SumaOriental-PDF_imac.indd 159 1/3/18 4:31 PM
  • 160Milam, falam os chiis e todas [estas] naçõees nos lequios. Sam homees de muita verdade. Nom compram espravos, nem vemdem hu~u homem dos seus por todo o mundo, e sobre ysto poderam morrer. Sam os lequios idolatrios. Se navegam e se acham em fortuna, dizem que escapãdo compram huuã moça fremosa pera sacreficio, e deguola[m] na na proa do jumqo, com outras cousas semelhantes a estas.793 Sam homees bramquos bem vestidos, melhor que os chiis, mais autorizados. Navegam estes na China e trazem as mercadorias que vão de Malaqua a China, e vam a Jampon, que hé ilha de sete [ou] oito dias de navegaçam, e resgatam ouro [e] cobre que há na dita ilha, polas mercadorias. Sam os lequios homes que liberallmemte fiam sua mercadaria, e ao [a]rrecadar, se lhe memtem arrecada[m] na com a espada na maõo. Mercadorias que os lequeos trazem a Malaqua.A principall hé ouro, cobre e armas de todas sortes, cofres, caxonias794 de folha‑jes d’ouro, avanos, triguo. E ssuas cousas sam bem obradas. ouro trazem m~uito. Sam homees de verdade, mais que os chiis, he temidos. Trazem gramde soma de papell e seda de cor~es, traz~e almizquer, porcelanas, damasquos, trazem cebolas e legumes muitos. Mercadarias que levam de Malaqua pera suas terras.Levam as mercadarias que os chiis levam. Partem daqui em [...].795 E cad’ano vem a Malaca hu~u, dous, tres juncos, e levam muita roupa de Bemgalla. Amtre os lequios hé muito estimado o vinho de Malaqua,796 carregam delle gramdememte, de hu~u que hé como agoa ardemte, com que os malayõs se fazem amoquõs.797 Trazem os lequios espadas de preço, de trinta cruzados cada huuã, e destas muitas. 793 A referência a sacrifícios humanos poderia dever ‑se a uma informação mal interpretada por Tomé Pires sobre oferendas rituais praticadas a bordo dos navios léquios.794 Isto é, caixas.795 Espaço em branco no MP. os juncos léquios deveriam largar de Malaca entre Maio e Junho, época habitual de navegação para as partes da China.796 Referência à araca ou orraca, antes referenciada.797 o termo malaio amok significa ‘ataque violento ou furioso’; a prática de se ‘fazer amouco’ é referida mais adiante, noutras secções da Suma Oriental.SumaOriental-PDF_imac.indd 160 12/5/17 2:02 PM
  • 161Ylha de Jampon.798A ilha de Jampom segundo todos os chiis dizem que hé mõor que a dos Lequios, e o rey mais poderoso e maior, e nom hé dado a mercadaria, nem seus naturães. Hé rey gemtio,799 vasallo do rey da China, tratam na Chiina poucas vezes, por ser lomge, e elles nom ter~e juncos nem serem homees do maãr.os lequios em sete [ou] oito dias vam a Jampon, e levam das ditas mercado‑rias, he resgatam ouro e cobre. Todo o que vem dos Lequeos trazem os lequeos de Jampon. He tratam os lequeos com os de Jampon em panos luçoees800 e outras mercadorias. A ilha de Burney.801Burney sam muitas ilhas grandes e pequenas, cassy todas sam de jemtiõs, somente a primcipall hé de mouros.802 Há pouco tempo que ho rey hé mouro.803 Parecem hom~es de mercadoria. os mercadores sam hom~ees meãos, nom muito ag~udos. Estes tratam dr~ıtamemte a Malaqua cad’ano. Hé terra abastada de carnes, pescados, arrõz e çaguu.804Mercadorias que trazem os burneus a Malaqua.|163r| Trazem ouro e muito baixo em quilates, mais que todo outro destas partes. Trazem camfora, cad’año atee dous, tres baares de muita valia. Vall o cate dela segumdo hé grosa, há cate de doze cruzados atee xxxta ou corenta, descoremdo por suas sortes e bomdades. Tem em sua terra muitos mirabulanos qebulos, que trazem a vemder. 798 Tomé Pires é o primeiro noticiarista europeu a referir ‑se por este termo ao arquipélago do Japão, que mais tarde seria identificado com o Cipango de Marco Polo.799 o imperador do Japão era então Katsuhitoge (r.1500 ‑1526), mas o arquipélago atravessava um período político extremamente conturbado, com lutas constantes entre dáimios (ou senhores) rivais.800 Original: «panos lucoees». A referência a ‘panos luções’, ou originários de Luzon (ilha das Filipinas), não parece fazer aqui muito sentido, pelo que talvez se possa ler ‘panos louções’, no sentido de panos providos de adornos, que seriam obtidos pelos léquios no comércio com a China, já que é sabido que o Japão nesta época importava sedas chinesas em grandes quantidades.801 Aqui Tomé Pires parece referir ‑se a Bornéu, embora utilize o mesmo topónimo para designar o sultanato de Brunei, situado na parte setentrional da grande ilha.802 Referência a Brunei, que de facto não é um território insular.803 A islamização de Brunei datará da segunda metade do século xiv.804 Sagu é uma fécula extraída de várias espécies de plantas, muito utilizada na alimentação.SumaOriental-PDF_imac.indd 161 12/5/17 2:02 PM
  • 162Trazem cera, mell, arroz, he çagu; hé mantim~emto da jemte baixa, hé miollo de pão, feito a maneira de comfeitõs, e vall. Trazem orracas. Nom pagam em Malaqua dreitos, pagam presente que la vay te~er, porque quem tem carrego de os apres~etar, que [é] o xabamdar, elle lhe ordena o presemte que dam.Mercadorias que levam de Malaqua pera Burney.Levam roupa dos quiliis e de Bemgala, scilicet, panos emrrolados de ladrilho, puravaas de sortes,805 synabafos de toda sorte, pamchavilizes, synhavas.806 Levam manilhas de latom da Chyna, levam matamumguo de Cambaya muito de cores, e comtas margaridas.807 Preguntam por comtaria vermelha, e com estas vam polas ilhas domde há o ouro, e resgaton no pollos panos, e som~e~ete pola comtaria.Tem cad’anno duas mouçõees pera viir e outras duas pera hiir. Vam de Malaqua a Burney em hu~u m~ees, e tornam em outro os seus junqos. Parecem os burneos home~es mamsos. Ylhas dos luço~ees.808Hos luçoe~es sam alem de Burney obra de dez dias de navegaçam. Sam casy todos jemtios, nõ tem rey, somemte regem se pollos mais velhõs em cabillas.809 Hé gemte rabusta, de pouqua vallya em Malaqua. Nom tem juncos, atee dous [ou] tres. Trazem as mercadorias a Burney, e daly v~e a Malaqua. os burneos vãm as terras dos luço~ees resgatar ouro e outros mantimemtos. E o ouro que trazem a Malaca hé dos Luço~ees e das outras ilhas d’arredor, que sam sem comto. E todos tem trato de huuãs as outras, pouquo ou muito, e por estas ilhas que tratam tem ouro de baixa sorte e muyto bayxa. Tem os luçoees em sua terra muitos mamtimemtos, e cera [e] mell. Levam daqui as mercadorias que levam os burneos. He casy a jemte huuã, e em Malaqua nom tem apartamento antre sy. Em Malaqua nom esteverom nunca como aguora, 805 Puravá, do malaiálam pudava, pano de algodão fino com lavores dourados.806 O termo ‘sinhavá’ designa algum tipo de tecido indiano não identificado.807 Provável referência a pérolas, do latim margarita.808 os luções eram originários da ilha de Luzon, a qual faz parte do arquipélago que mais tarde seria designado como Filipinas. Tomé Pires parece ser o primeiro autor europeu a referir este povo e esta ilha.809 A ilha de Luzon não possuía nesta época um soberano nominal, mas estava partilhada por diversas chefaturas.SumaOriental-PDF_imac.indd 162 12/5/17 2:02 PM
  • 163somemte ho tomunguo810 que aqui fez o Governador das Imdias811 começava ja a juntar muitos delles, he faziam ja casas e as~etos gramdememte. Hé gemte proveitosa, sam trabalhadores. Desta jeraçam há aguora em Malaqua os filhos do tumunguo e sua molher e sogra, e Curia Raja812 e Tuam Brajy, que casou com a molher do tumunguo.813 Em Minjam avera quinhemtos luçoees, delles hom~ees homrrados e boos mercadores, que desejam viir a Malaqua e nom lhe dam licemça os de Mi[n]jam, porque aguora se detreminarom a bamda do rey que foy de Malaca,814 nom muito descubertamemte. Sam malaios os de Mimjam. E o por que da terra firme hé comtado des[de] Cambaya atee Chyna e dalguuas ilhas jumto com a Chiina, aguora começarey a comtar da gramde ilha de Çomo‑tora, faz~edo ho caminho de Malaca atee Maluquo.A primeira sera a ilha de Çomotora815 e arredor, de Gamispola, pola bamda do canaall, e tornar polla banda de Panchar atee Gamispola.816 E despois sera o recomtamento da ilha de Jaaõa e do regno de Çumda, decra‑rãdo os portos e senhores delles, juncos e pamgajavas que há em cada hu~u. E despois, da ilha de Solor e de Tymor e de Byma, Cimdaua, Çapee, e despois imdo pera Maluquo, etc.817810 Timungão ou tumungão, do malaio temenggung, espécie de alcaide numa cidade portuária, responsável pela segurança e pela alfândega. Afonso de Albuquerque, depois da conquista portuguesa de Malaca, atribuiu o cargo a Arya Rana Diraja, também designado como Aregimute Raja, rico mer‑cador originário da ilha de Luzon, que morreu em 1513.811 Referência a Afonso de Albuquerque.812 Trata ‑se de Surya Diraja, importante mercador lução que permaneceu em Malaca após a conquista portuguesa.813 Personagem não identificado, mas originário de Luzon, que casou com Tun Doyam, a viúva do tumungão Arya Rana Diraja, anteriormente referido.814 o antigo sultão de Malaca emigrara com a sua corte para Pão (ou Pahang), para depois se fixar na ilha de Bintão (ou Bintang), junto ao Estreito de Singapura, continuando a manter algum ascendente sobre algumas regiões da Península Malaia e a hostilizar activamente a presença portu‑guesa na área.815 A ilha de Samatra.816 Gamispola, um topónimo que aparece no relato de viagens de Marco Polo, provavelmente de‑rivado do malaio pulau ou ‘ilha’, é utilizado por Tomé Pires para designar um grupo de ilhas ao largo da costa noroeste de Samatra; Panchur ou Pansur eram designações atribuídas ao porto e potentado de Barus, na costa noroeste de Samatra.817 Ilhas de Solor, Timor, Sumbawa (onde se situam as localidade de Bima e Sape), e Maluco, adiante referenciadas.SumaOriental-PDF_imac.indd 163 12/5/17 2:02 PM
  • 164[LivrO QUiNtO.][Samatra.]|163v| Discriçam ou recomtamemto da gramde, riqua he populosa ylha de Çamotora,818 e das ilhas que d’aredor dela estam. E falar se a della ao rredor toda, começamdo de Gamispolla pollo canall e tornamdo por Pamchur a Gamispola. E comtarey primeiro quamtos reinos tem, despois ha maneira de cada hu~u e o trato, e que mercadarias há na dita ilha, e quam gramde hee, e o que há de lamcharas e jumcos. Regnos na ilha de Çomotora.Começamdo de Gamispola, hé o regno d’Achei, e Biar, Lambry, ho regno de Pedir, ho regno de Pirada, ho regno de Pacee, o regno de Bata, ho regño d’Aruu, ho regno de d’Arcat, ho regno de Rupat, o regno de Ciac, ho regno de Campar, o reyno de Tuncall, o regno d’Amdargery, o regno de Capocam, ho regno de Trimtall, o regno de Jamby, o regno de Palimbao, as terras de Çaçanpom, Tulimbavam, Andal‑los, Piriaman, Tiquo, Panchur [ou] Baruez, Chinqele, Mancopa, Daya, [e] Pirim.819 Este comfyna com Lambry e com as ilhas que estam junto com Gamispolla, e de Ciac ate Jamby. E da outra parte de Piriman ate Panchur hé a terra de Menamcabo, 818 A ilha de Samatra, que aparece designada com várias grafias: «Çamatora», «Comotora», «Ço‑motora».819 Referências a diversos lugares e/ou potentados do litoral da ilha de Samatra, alguns dos quais posteriormente referenciados: Gamispola; Achém (ou Aceh); Biar (ou Bihar); Lamuri (ou Lambri); Pedir (ou Pidir); Pirada (ou Peudada); Pacém (ou Pasai); Bata; Aru; Arkat; Rupat; Siak; Campar (ou Kampar); Tongkall; Indragiri; os lugares não identificados de «Capocam» e «Trimtall»; Jambi; Palem‑bang; Sekampung; Tulung Bawang; Andalas; Pariaman; Tiku; Panchur, também designado como Barus; Singkil; Makupang; Daya; e Purim. SumaOriental-PDF_imac.indd 164 12/5/17 2:02 PM
  • 165que tem tres reis. Estes sam no sertaao da ylha. E nesta terra de Menamcabo há hu~u maar d’aguoa doce, como se dira quamdo se falar de Menãcabo.Ylhas que fazem canall des[de] Campar athee Palimbão, por homde se navega para Jaaõa, Bamdam, Maluco.820Pullo Piçam, Cariman, ilhas dos celates, que se chamam Celaguym, Gim, Sabam, Buaya, Linga, Tigua, Pullo Baralam, Bamca e Monomby.821 Destes se dira em seu lugãr. Estas sam as mercadorias que tem a ilha de Çamatora, naturaes da propria ylha. Tem ouro em muita camtidade, camfora de comer de duas maneiras, pimemta, seda, beijoym, lenho aloes de butica. Tem mell, cera, breu,822 emxufre, algodam, muitas rotaas,823 que sam canas de que fazem estr~ees,824 serve como cairo ou esparto e serve de fiio com que atam todallas coussas.Mamtimentos da terra.Tem muito arroz bramco e por pillar. Tem muitas carnes e pescados, amtre os quaees há savees em camtidade como Azamor.825 Tem azeites, vinhos muitos a sua guisa, antre os quaes há tampoy,826 como ho noso vinho casy. Tem fruytas em gramde numero, amtre as quãaes sam os fremosos e gostosos durio~ees,827 mais que todas outras fruytas, sem duvida. 820 Arquipélago de Maluco (ou Maluku), adiante referenciado.821 Referência a diversas ilhas do litoral de Samatra, algumas das quais são posteriormente refe‑renciadas: talvez Pedang; Karimunbesar; Serapung; Gin Besar; Sebangka; Buaja; Lingga; Tiga; Berha‑la; Bangka; Belitung («Monomby»). o termo celates (ou selates), do malaio selat, ‘estreito’, designa os povos marítimos nómadas que demoram nas ilhas das proximidades de Singapura.822 Breu ou piche, um produto derivado do petróleo, utilizado na calafetagem de navios e na iluminação.823 Rota, do malaio rotan, designa uma espécie de cana ou junco (variedade de Calamus, L.).824 Estrem é uma camada de juncos ou palha que se estende no chão, normalmente para o gado.825 Esta referência aos sáveis poderia sugerir uma anterior visita de Tomé Pires à cidade marro‑quina de Azamor.826 «Tampoy» poderia corresponder ao jambo amarelo, um fruto muito difundido nas regiões tropi‑cais (Syzygium jambos, L. [Alston]), mas que não é normalmente utilizado no fabrico de bebidas alcoólicas.827 o durião é o fruto de uma árvore nativa da Ásia do Sudeste (Durio zibethinus, L.), que se caracteriza por um odor extremamente intenso.SumaOriental-PDF_imac.indd 165 12/5/17 2:02 PM
  • 166Seitas e creemças da ilha de Çomotora.Na ilha de Çomotora algu~us reis sam mouros, os mais, e algu~us sam jemtiõs. He na terra dos jemtios alguus homees custumam com~er dos imiguõs quamdo os tomã.828 os rex da bamda do canall d’Achey atee Palimbão sam mouros; e os de Palimbam tornamdo a Gamispola [são] gemtios pola mor parte; e os do sertaão e que vivem demtro sam gemtios.829 |140r| Ylhas que emtestam com Achey [e] Paçee, jumto com pomta830 da ilha de Çomotra: Gamispolla.As ilhas que se chamam Gamispolla sam duas ou tres e mais.831 Jumto com a terra de Achey e Lambry avera obra de dez ou quinze ilhas de tres [e] quatro leguoas ~e redomdo, e o mar amtr’ellas hé de duas, tres, quoatro leguoas, e jumto com a terra tem vymte, trimta braças. Sam estas ilhas alguuas dellas abitadas de pouquos moradores. Tem augua e muito pescado e lenha. Tem todas emxufre em camtidade, de que se fornece Pacee e Pedir. Sam estas ilhas d’ellrey d’Achey, e os moradores dellas, estes pouquos que sam, estam a sua hordenamça, prymcipallmemte a moõr [ilha], que tem muitos mora‑dores. E tem algu~u trato nestas ilhas. Vem da ilha de Çomotora a fazer pescarias, e pescam muito peixe, que hé mercadoria ~e algu~us lugares de Çamotora. Regno d’Achey e Lambry, he a terra de Biar.832Achey hé a primeira terra da bamda do canall da ilha de Çomotora, he Lambry hé peguada com ella he estemde se ao sertão, e a terra de Biar estaa amtre Achey e Pedir. E aguora estas terras sam sojeytas ao rey d’Achey, e elle as senhorea e dellas hé elle so o rey.828 Alguns relatos da época sugerem a prática de canibalismo ritual em determinadas regiões do interior de Samatra.829 Seguindo a ordenação lógica das diversas regiões geográficas tratadas na Suma, retoma ‑se de seguida o MP a partir do fl. 140.830 original: «pomatra», talvez por lapso do copista.831 A ilha de We é a maior das do arquipélago designado como Gamispola, situado ao largo da costa noroeste de Samatra.832 os antigos potentados de Achém, Lamuri (ou Lambri) e Biar (ou Bihar), que se situavam na parte nordeste da ilha de Samatra. Achém desenvolvia então um processo de expansão territorial, através da anexação de regiões vizinhas.SumaOriental-PDF_imac.indd 166 12/5/17 2:02 PM
  • 167Este rey hé mouro, homem cavaleiro amtre seus vizinhos.833 Usa de furtar quamdo vee tempo. Tera obra de trimta [ou] quoremta lamcharas, com as quaes amda de armada. Quando esta em sua terra vive por suas novidades de seus arrozes e mamtimemtos. Tem riios que vem teer no canall, que emtram por sua terra, e na emtrada sam de pouquo fumdo. Tem estas terras carnes, arrozes e vinhos a sua guisa, e outros mantimentos. Tem pimemta, nom muita. o rey de Peedir tem sempre guerra com este, e este lhe faz dapño muito em sua terra. Regño de Peedir.834Peedir na ilha de Çomotora foy homrrado, riquo e de trãto, e senhoreou ja os regnos sobreditos, e tambem a terra de Eilabuu e o regno de Lide e o regno de Pirada.835 E tinha guerra com Pacee. E foy ja Pedir senhor da boca do canall, e tinha o trato em peso, e com elle navegavam mais que com Pacee. Athee a era de quinhemtos e dez annos, teve sempre trato. Sua cidade hé por hu~u riio demtro obra de meia leguoa. Ha barra de maree chea tem duas braças. Tem a cidade mercadores de todas naçõees aimda aguora. Posto que sempre tevesse guerra com seus vizynhos, aimda nom hé muito descaydo do que soya. Tratam com Pedir cad’ano atee duas naãos de Cambaya e de Bemgala, e hu~ua de Benua Quelim e outra de Peguu. os que saem com os prymeiros vemtos [são] athee vymte juncos pequenos e lamcharas com arroz. Trata com elles Terrãao e Tenaçary, Quedaa, Baruãz. Depois da tomada de Malaqua, nom teve tamto trato por caso da guerra que teve, maiormente por morte d’ellrey Madaforxa,836 que morreo. E ficarom lhe |140v| dous filhos pequenos, e levamtarom se outros com ho regnño, he esteve sempre de guerra, que hé comtraira a mercadoria. As mercadorias que Pedir teve e tera837 daqui por diamte, como a guerra acabãr e tornar ao seu, cad’ano seis, sete athee dez mill bahares de pimenta. Dizem que ja teve obra de quinze mill bahares. Tem seda bramqua, beijoym, em sua terra e na de seus vizinhos, tem ouro que vem tambem a Pedir por vya do sertaão. E por causa da pymemta recebya gramdes mercadorias e retornos de hu~us e outros, que nobreceo seu regno e sua cidade. 833 o sultão de Achém era então Syamsu Shah (r.1497 ‑c.1515).834 Porto e potentado de Pedir (ou Pidir), no nordeste da ilha de Samatra.835 Aierlabu, Lide e Pirada (ou Peudada), antigos potentados do nordeste da ilha de Samatra, nas proximidades de Pedir (ou Pidir).836 Muzaffar Shah, sultão de Pedir, que terá reinado até 1497; sucedeu ‑lhe Maruf Shah, que reinou até 1511.837 original: «terra».SumaOriental-PDF_imac.indd 167 12/5/17 2:02 PM
  • 168E de quatro annos a esta parte tera Pedir dous [ou] tres mill bahares de pimenta cad’ano, e mais nom. Dizem que ja a terra vay tornamdo avante. Por causa da guerra que se alevamtou, e polla guerra que athee’qui teve, se sayrom muytos mercadores. Regna em Pedir agora hu~u capitam do rey, e lamçou hu~u fylho do rey fora, que ora esta em Pacee, fora do seu regno. Tem Pedir por moeda meuda caixas d’estanho, como ceytiis, tem dramas d’ouro,838 que valem nove hu~u cruzado, tem tamgas de prata das de Syam, Peguu e Bemgalla, e corr~e na terra ~e sua valliia. E nas merca‑dorias de muita comtia, ouro em poo. Ho peso do bahaãr hé como ho de Pacee. Aeilabuu.839A terra que se chama Aeilabuu estaa polla costa do maãr, alem dos termos de Peedir. Este luguar teve ja rey, e aguora tem mamdarim840 capytam, vasallo do rey de Peedir. Tem este lugar d’Aeilabuu cidade honde se trata alguuã mercadoria pouca, tem pimemta este lugar ~e cantidade, a cidade hé jumto com ho mãar. Tem mamtimemtos pera sy. Lidee.841Ho regno de Lidee hé alem d’Aeilabuu, e comfyna com Pirada. o rey desta terra soya ser [o] de Pedir, aguora nom. Tem lugares jumto ao mãar em que se trata algu~ua mercadoria. Tem mercadores. Trata Peeguu com ella e outros lugares. A terra de Lyde hé boa de mamtimentos, tem pymemta e seda ~e sua terra. Hé amiguo d’ellrey de Pee‑dir aguora. Tem este regno lamcharãs que navegam e tratam mercadoria. Este pera os vizinhos defemde se, hé forte em sua terra. Faz sempre esta terra fumdamemto de Pedir, sam paremtes os reys. Este hé rey mouro. Tem mamtimemtos pera sy. Pirada.842Ho regno de Pirada hé de mais jemte que a tera de Lidee, e o rey mais poderoso. Era amtigamemte vasallo de Pedir, aguora nom. Tem duas povoaçoões jumto com o mar, 838 o drama ou dirame, do malaio derham (por sua vez do árabe dirham), era uma moeda com valor aproximado de 40 réis.839 Aierlabu, pequeno potentado do nordeste da ilha de Samatra.840 Note ‑se a utilização do termo ‘mandarim’ num contexto não ‑chinês. Ao que tudo indica, seria um temo difundido através da Ásia do Sudeste.841 Lide, pequeno potentado do nordeste da ilha de Samatra.842 Pirada (ou Peudada), pequeno potentado da costa nordeste de Samatra.SumaOriental-PDF_imac.indd 168 12/5/17 2:02 PM
  • 169hu~ua se chama Medina e outra [...].843 Tratam mercadaria, tem pymemta [e] seda que levam a Pedir, e asy leva Lyde laa a sua. Tem estes feitores em Pedir e daly se fornecem. Sã paremtes do rey de Pedir. Tem ouro. Tem mamtimemtos Pirada ~e sua terra, tratam com ella de muitas partes, tem trato nom muyto. Hé poderoso pera se poder defemder de Pacee, posto que a jemte de que se agora fala |141r| hé mais manhosa que poderosa. E dizem que os de Pirada sam gramdem~ete maliciosos, treedores, e gemte de pouca verdade. Amdam a furtar as vezes no maãr, tem guerra com os cafres844 na terra firme.Regnno de Pacee.845Ho riquo regno de Pacee hé de muiito povoo e trato. Comfyna de hu~ua bamda ao regno de Pirada, segumdo ja hé dito, e da outra com a terra de Bata, de que hé rey ho Tamiano.846 Hé terra a de Pacee ao lomguo do maãr. Nos termos da bãda do sertãao da ilha comfyna com os termos do rey de Maniicopa,847 que saee a outra bamda do maãr, com que alguuas vezes tem guerra. E aguora, depois de Malaqua ser castiguada e Peedir amdar em guerra, o regno de Paçee faz se prospero, riquo, de muitos mercadores de naçoees diversas, mouros, quil~ıis que gramdememte tratam, amtre os quaees os mais principaees sam bemgal‑las, tem rumes, turqos, arabios, parseos, guzarates, quel~ıis, malaios, jaõos, syames. Hé a jemte de Paçee polla moõr parte bemgalla, e os naturaees desta jeraçã decemdem. E por desta sememte ser, tem a terra em costume como se adiamte dira, porque nom hé duvida no mumdo aver vill maneira tall como Pacee usa acerqua do seu rey. Cidade de Paaçe.848Ho rregño de Pacee tem a cidade que se chama Pacee, e allgu~us lhe chamã Çamotora. Porque em toda a ylha nom há cousa tam homrrada, denominou se a dita cidade a toda a ilha, asy que por quallquer destes nomes se nomea esta cidade. Nom tera menos de vymte mill moradores. 843 Espaço em branco no MP.844 Cafre, do árabe kafir, que em contexto islâmico designa os não ‑crentes ou não ‑muçulmanos.845 o sultanato de Samudra ‑Pasai (ou Pacém), no nordeste da ilha de Samatra.846 original: «Tamjano». Tomé Pires estará a referir ‑se a Raja Tamiang, que governava o reino de Bata.847 o potentado de Makupang, situado na contracosta de Samatra, do lado noroeste da ilha, adiante referenciado.848 Samudra ‑Pasai, na costa nordeste de Samatra, que era um dos grande centros urbanos da ilha.SumaOriental-PDF_imac.indd 169 12/5/17 2:02 PM
  • 170Tem asy ho regno de Pacee povoaço~ees gramdes e de muita jemte contra o sertão, domde vive a gemte homrrada [e] limpa. Porque suas novidades que tem a pimenta, seda, beijoym. Aas vezes discordam estes com Paçee, mas afirma se que a vomtade destes nas deferemças pervaleçe a Paçee. E nestas povoações moram gramdes fidallguos do regnño que se chamam mandar~ıs, e a gemte de defemsam. Modo de reinar, e quamto há que há reis, e de que seytas.Pacee foy de reis gemtios, e avera aguora cemto [e] sessemta annos que gastarom os ditos reis, por estucia dos mouros mercadores que avya no regño de Paçee, e ouverom os ditos mouros as beiras do maãr, he alevamtarom rey mouro da casta dos bemgal‑las.849 E des[de] aquelle tempo atee guora sempre forom os reis de Pacee mouros, somemte os do sertãao nom nos poderom ate aguora comverter. E porem nestes regños que há na ilha de Çomotora, os de junto com ho maãr todos sam mouros, da bamda do canall de Malaca. E os que aimda ho nom som do povoo, fazem nos cada dia mouros, e nom hé amtre elles jemtio avydo em nenhuuã estyma nom semdo mercador. Asy que os bemgallas despois de levantar~e rey foy com comdiçam que quallquer que podese matar o rey fose rey, posto que fose de |141v| quallquer estado e comdi‑çam, semdo mouro. Esta empresa tomarom des[de] aquelle tempo hos gramdes de Paçee, que quem mata o rey fiqua rey. E afirman se que em hu~u dia ouve sete reis em Paçee, porque hu~u matava o outro, e outro o outro. E levam por groria morrer reis, e nom se gardam que dizem que tall hordenança hé por Deus, de maneira que os rex nom duram muyto tempo em seu estado. E tamto que hu~u mata o outro, emterra ho morto com toda solepnidade reall, porque asy estaa a terra em costume, e a cidade n~e povoo e mercadores nom recebem alvoroço nenhu~u, posto que matem o rey ou viva. E porque os bemgalas tall hordenamça alevamtarõ, quis a terra de Bemgalla usar o semelhamte, como se vera no recomtamemto de Bengala, que de setemta annos a esta parte se usa asy em Bemgala, he nõ se acha terra homde este custume dure e aja, somente em Bemgala e em Pacee.850 Em tres meses vierom embaixadores de Pacee duas vezes tomar vasalagem e obidiemcia a Malaqua, de como erã mortos dous reis ~e Pacee, por duas vezes, que fosem emparados dos purtugueses, que a terra e gemte he reis eram espravos d’elRey noso senhor, como comtinoadamemte a vem pedir com outros reis qu’asocedem. E o rey que ora regna he filho d’ellrey de Pirada.851 849 A islamização de Pacém, de facto, datará de finais do século xiii.850 Na descrição de Bengala, incluída numa secção anterior da Suma Oriental, Tomé Pires refere que este costume para ali teria sido importado de Pacém.851 Parece tratar ‑se de um príncipe de Pirada (ou Peudada), Zainal ‘Abidin (r.1513 ‑1516). SumaOriental-PDF_imac.indd 170 12/5/17 2:02 PM
  • 171Hé a cidade de Pacee pollo ryo dentro obra de meia leguoa, e o riio sera como o de Peedir, daquela maneira, algu~u tamto mais larguo, pouqua cousa. Ambos os riios tem padroees nosos nas emtradas.852 Mercadorias de Pacee.Tem pimemta cad’anno athee oyto, dez mill bahares. A pimenta desta ylha nam hé da bomdade da de Cochim, hé moõr, mais vãa, dura menos, nom tem a perfeiçam do gosto, e nom hé tamto arromatica. Tem seda e beijoym de sua terra, e em Pace achares todallas mercadarias que há em toda a ylha [de Samatra], porque acodem aly. Moedas e peso de Pacee.Ha moeda meuda como ceit~ıis sam dinheirros d’estanho com nome do rey que reyna. Há dinheiros d’ouro pequeninos, a que chamã dramãs, estes valem nove hu~uu cruzado, e cada hu~u destes creio que vall de quinhemtas caixas acima. Tem ouro em poo e prata. Ho seu bahar da pym~eta hé menos que o de Malaqua cimquo quates, que sam xii arrates menos. Mercadorias que tratam ~e Pacee ~e juncos e naoos.Hos mercadores que em Pacee tratam sam guzarates, quiilis, b~egalas, peguus, syames, [de] Queda [e] Baruaz, e destes ja sam repartidos, tantos ha |142r| Paçee e tamtos a Peedir, e o rastamte a Malaqua. Do Levante nom tratã com Paçee, somemte com a populosa cidade de Malaqua, que de cidades como Pacee se podiam fazer dez do povo de Malaca, no tempo de seu castiguo, quamdo recebeo emmenda do erro que cometeo.853 Asy este tall nobrecimento que Pacee recebeo pollo acomtecido em Mala‑qua, reformada Malaqua como cada dia se faz, tornara Pacee a fiquar no seu e Peedir [igualmente], com ajuda do muy alto Deus. os rex de Pacee [e] Pedir pryncipallm~ete, e todos os comteudos nesta ilha, seram trebutarios e vasallos de 852 Tomé Pires confirma a prática de na época se assentarem padrões de pedra, com as armas do rei de Portugal, em portos ou regiões consideradas de influência lusitana. Conserva ‑se hoje um desses padrões, no Museu de História de Jacarta. 853 Tomé Pires refere ‑se às superlativas dimensões de Malaca, sugerindo que depois da conquista portuguesa a cidade teria perdido uma porção da sua população e do seu movimento comercial, em benefício de Pacém.SumaOriental-PDF_imac.indd 171 12/5/17 2:02 PM
  • 172cuja Malaqa aguora hee, porque doutra maneira ~e hu~u anño nom avera Paçee nem Peedir. E elles que ho emtend~e se fazem vasallos primeiro que hos requeirã. Dirreitos em Pacee.Tem Pacee ho dirreito do peso de toda a mercadoria, por bahar hu~u maz da sayda, e tem ancoragem segumdo hé a naão ou jumco. De mamtimentos nom paguam nada, somemte presemte; das outras mercadorias que vem do Ponemte, seis por cemto; e todo espravo que vam la vemder, cimquo mazes d’ouro; e de toda mercadaria que tira pera fora, ora seja pymemta ou outra quallquer, paguua por bahar hu~u mas. Paçee n~e Pedir nõ tem junco nenhu~u, tem lamcharas ate duas, tres, quoatro de cargua. Estes vinham amtigamemte comprar juncos a Malaqua. os mercadores de Pacee compram juncos a outros mercadores que doutras partes la vã tratar, porque em Pacee nom se faz~e por rezã da pouqua madeira que ha na terra de paão jaty,854 que he forte pera os juncos. Regno de Bata.855Ho regnno de Bata de hu~ua parte comfyna com o regño de Pacee e da outra com o regno de Aruu.856 Chama se o rey desta terra Raja Tomiam.857 Este hé mouro cavaleiro, amda a furtar no maãr muitas vezes, este hé jemrro d’ellrey d’Aruu. Este recolheo a naão ‘Froll de la Mar’ que com tormemta se perdeo d’avamte sua terra,858 e diz~e que recobrou tudo quamto aguoa nom podia danar, do quall dizem que hé muito riquo he b~e riquo segumdo dizem, este Tomiano. Este Tomiano tem muytas vezes guerra no sertãoo, as vezes peleja com o sogro, aas vezes com Paaçee, e quem vee mais poderoso ajuda, e de todos recebe. Dizem que sempre os reis de Batar teverõ este costume. Tera atee trimta ou quoremta lamcharas bem atabyadas, que saem ao canall por riios que sua terra tem, porque junto ao maãr nom tem mais moradores que espias, pera saber quem pasa. Tem a dita terra de Bata arroz e vinhos, fruytas, tem breu, de que faz~e muytas camdeas, 854 A madeira de teca (Tectona grandis, L.f.), designada em malaio como jati.855 Bata ou Batak, antigo potentado da costa nordeste da ilha de Samatra; o nome parece estar relacionado com o povo Batak, que demorava nas regiões interiores do norte samatrense.856 original: «de daruu».857 original: «Tomjam», grafia que se repete nos parágrafos seguintes. Trata ‑se de Raja Tamiang.858 o navio português Frol de la mar, no qual viajava Afonso de Albuquerque, naufragou junto à ilha de Samatra em finais de 1511, quando regressava à Índia após a conquista de Malaca. Alegada‑mente traria a bordo riquezas imensas, resultantes do saque da cidade malaia.SumaOriental-PDF_imac.indd 172 12/5/17 2:02 PM
  • 173e vam la carreguar dellas, tem muyto mell e cera, tem camfora pouqua de comer. Tem a principall mercadaria canas que chamã rotaãs ~e gramde camtidade, que hé boa mercadoria, porque servem de cabres859 e de fyo em tudo. |142v| Regnño de Aruu.860Ho regno de Aruu861 he regnño gramde, moõr que nenhu~u dos que athe agora sam ditos em Çamotora, e nom hé riquo por mercadorias e trato, que o nom tem. Este tem muita gemte, muitas lamcharas. Este hé o moõr ladram de todo Çomo‑tora, e mais poderoso em saltos de furtos. Hé rey mouro, vive no sertaão, tem rios ~e sua terra muytos. A terra ~e sy hé alagadiça, que se nom pode emtrar. Este esta sempre d’asemto em seu regno. os seos mamdaris e seu povo amdam no maãr a furtar, e partem com elle, porque da armada alguuã parte hé a sua custa. Des[de] ho primcipio de Malaqua teve sempre guerra com Malaqua, e lhe tem tomada muita jemte, saltea huuã aldea e leva lhe tudo, atee os pescadores. E sempre os malayos se vigiam gramdememte dos d’aru~us, porque tem esta reixa862 ja abit[u]ada, he fiquou pera sempre, domde saio o rifam «d’Aruu com Malaqua, Achey com Pedir, Pedir com Quedaa e Syam, Pahão com Syam, da outra banda Palimbam com Limgua, çalates com bajus, etc.».863 Cada huuã destas naçoes pelejam hu~ua comtra outra, e muy poucas vezes tem amizade. Hé a jemte de Aruu864 presumtuosa, guerreira, de quem se nom fya [de] nengu~e, se nom furtam nom vivem, e portamto nom tem amizade com ella. Tera cem paraoos e mais cada vez que quer, nam muito grãdes, cousas mais sotiis pera cheguuar que pera levar cargua. Mamtimemtos, etc.Tem a terra de Aru865 muyto arroz, e muito alvo e bom, e em muita camtidade; tem muitas carnes, pescados, vinhos a sua guisa, fruytas em muita abastança. 859 Cabre é o mesmo que calabre, uma corda grossa.860 original: «de daruu». Trata ‑se do sultanato de Aru, um dos potentados da costa nordeste da ilha de Samatra, que por vezes aparece erroneamente designado nas fontes quinhentistas como ‘Daru’, nas proximidades da actual cidade de Medan.861 original: «de daruu». 862 Leia ‑se ‘rixa’.863 Tomé Pires refere ‑se aos Orang Laut e aos Baju Laut, populações marítimas (ou nómadas do mar) que demoravam respectivamente nas regiões de Bornéu / Celébes e nas imediações do Estreito de Singapura.864 original: «de daruu».865 original: «de daru».SumaOriental-PDF_imac.indd 173 12/5/17 2:02 PM
  • 174Mercadorias.Tem camfora de comer em boa camtidade, tem ouro, tem muito beijoym he bom, tem lenho [a]loees de butiqua, tem rotaãs, breu, cera, mell, espravos homees [e] molhe‑res. Tem alguus mercadores, pouquos. Algu~uas destas mercadorias se gastam por viia de Pace~e e Pedir, e outras por vya de Pamchur. Porque a terra de Aruu866 della hé na terra de Menancabo, e laa tem gramdes riiõs por demtro, por homde toda a ilha de Çamo‑tora se navegua. E destes luguares tem hos pannos pera seus vestidos e outras cousas. Feira na terra deste.Tem d’Aruu na terra d’Arqat hu~ua povoaçam homde em certos meses faz feira d’espravos homees [e] molheres, e framqua, pode quem quyser laa ir seguramemte. E vay lla muita gemte a compar estpravos, e alguuas pesoas mamdam comprar seus filhos e filhas as mai~es, e maridos as molheres. E tambem nellas se tratã outras mercadarias. He asy se usa com os celates, como se dira quamdo se dos celates ladrões falar em seu luguar.Regno de Arcat.867Ho regno de Arcat comfyna de huuã parte com d’Aruu e da outra com Yrcam. Ho rey hé mouro, tem pequena terra. Tem paraõs pequenos, nom hé de trato muito. Hé vasallo d’ellrey de Aruu.868 A jemte deste regño nas beiras do mãr sam ladrõees celates, e os da terra dentro viv~e por suas novidad[e]s. |143r| Tem esta terra ouro, tem arroz, vinhos, pescados, e carreguam de pes‑cado sequo e salguado. Aqui ha terra deste nom emtrã nella senom paraõos muito pequenos, por esteiros. Hé paremte o rey do rey de Aruu.869 Terra de Ircam.870A terra de Ircan hé amtre Arcat e o regno de Rupat. Esta terra nom tem rey, tem mamdary, este hé vasallo d’elrey de Malaqua que foy.871 Ajudavão no tempo da 866 original: «de daruu».867 Arkat, antigo porto e potentado do nordeste de Samatra, que parece ter desaparecido.868 original: «de daruu». 869 original: «de daruu».870 Irkan, antigo porto e potentado do nordeste de Samatra, que se situaria defronte da ilha de Rupat.871 Referência a Mahmud Shah, sultão de Malaca ao tempo da conquista portuguesa.SumaOriental-PDF_imac.indd 174 12/5/17 2:02 PM
  • 175guerra com remeiros e jemte d’armas, hos qua~ees aviam de servir graciosamemte, somemte pollo com~er. Esta gemte sam delles muitos celates, que quer dizer na limguoajem malaya ‘ladro~ees do maãr’.872Tem a terra de Purim873 ouro [e] arroz. Tem este a pescaria dos savees, domde os trazem a Malaca em gramde camtidade. E tambem há nesta terra feira d’espravos que elles furtam, e outros ladro~ees, e vem nos vemder a este luguar, e tambem a Purim. Regno de Rupat.874o regno de Rupat comfyna de hu~ua parte com Ircan e da outra com Purim. Hé regno pequeno, a mõr parte da jemte sam ladro~ees ~e paraõs pequenos. Tem este a mesma obrigaçã a Malaca que tem a terra de Yrcan, socorre com jemte na guerra. Tem yso mesmo arroz pouquo, vinhos, fruytas, e tem pescaria de savees ~e gramde camtidade, e de outros pescados. Terra de Purim.875A terra de Purim comfyna de hu~ua bamda com Rupat e da outra cõ Ciac. Tem mamdarim esta terra, pesoa poderosa, hé vasallo de Malaqua pola maneira que se dixe. De Ircan e Rupat acode[m] com jemte, remeiros ~e gramde abastamça. He a mõr parte da jemte deste luguãr sam celat[e]s ladro~ees, he criam se no mãr, e sam gramdes remeiros. Este Purim tem feira dos espravos que furtam, mõr que os dous lugares de que falamos, tirando Arcat. Tem asy mesmo estee Purim muitos savees e outros pescados em muita camtidade. Tem algu~u ouro, arroz, vinhos, carnes e outros mamtimemtos. Este mamdarim de Purim hé pessoa principall e gramde guerreiro. 872 o termo celates (ou selates), como referido anteriormente, deriva do malaio selat, ‘estreito’, designando populações marítimas que se dedicavam à pesca e à pirataria.873 Provável lapso do copista, pois deveria ler ‑se ‘Ircam’.874 Rupat parece corresponder à actual ilha do mesmo nome, junto à costa nordeste de Samatra, em frente a Malaca.875 Purim corresponde à faixa costeira de Samatra que fica fronteira às ilhas de Bengkali.SumaOriental-PDF_imac.indd 175 12/5/17 2:02 PM
  • 176Regno de Ciac.876o regno de Ciac de huua bamda comfyna com Purim e da outra com Campar. o rey daqui hé mouro. Esta terra tem trato e mercador[e]s algu~us. Hé Ciac terra que tem arroz, mell, cera, rotaãs, lenho aloes de butiqua. Tem mais ouro que hos tres lugares que dixemos. Tem vinhos he outros mantimentos. Este rey tem boa valia na terra, hé paremte d’ellrey de Malaqua he do rey de Campar, hé trebutario a elle e o rey de Campar trebutario a Malaqua, por sy e pollo outro. Defemde se a terra deste por demtro, tem rios gramdes que vam por detras pola terra firme. Este rey tem paraos muitos, e fazem se em sua terra por causa da muita madeira que hy há. |143v| Regno de Campãr.877Ho regno de Campar de hu~ua parte confyna com Ciac e da outra com Cam‑pom. Tem esta terra defromte de sy as ilhas de Carimom e de Celaguy, [de] Guy e de Sabam,878 que começam a fazer canall pera Jaaõa e outras bamdas. Amtre as ilhas e a terra de Campar chama se o canall de Campar, porque daly começa. Estes rex de Campar sam paremtes do rey que foy de Malaqua, e o que aguora [reina] hé casado com huuã sua filha, se chama Raja Audela.879 Junto com ho maãr nom tem seu regno povoaçõees, emtra por huu riio de cimquo, seis, sete braças. E neste riio se faz hu~u macareo grãde, ajuntam se as aguoas de muytos riiõs no lar‑guo, he em pouquo espaço sobe agoa em gramde altura, e sobymdo derama vagas, de maneira que soverte e espedaça quallquer cousa que acha.880 E se os que emtram demtro nom tem aviso de catar881 tempo pera emtrar, perdem se muitas vezes. Hé esta terra de Campãr esterile, de pouquo proveito. Corem pollo riio sete e oyto dias, e laa sam as povoaçoees, nom muitas. o riio corre violemtamemte e hé maão de navegar com as corremtes. Casy no cabo, jumto com a deradeira povoa‑çam do dito rey, se apartam os riiõs, o de Campar e o de Menancabo e o de Ciac. E a emtrada da foz doutro riio que Campar tem, se faz outro riio gramde, que vem 876 O antigo reino de Siak estendia ‑se por ambas as margens do rio homónimo, que desagua no litoral samatrense em frente da ilha de Padang.877 O reino de Kampar (ou Campar) ocupava o território de Samatra situado na costa nordeste, entre os rios de Siak e de Kampar.878 Em frente ao território que era ocupado por Kampar situam ‑se diversas ilhas, entre as quais se identificam Karimun (já nas proximidades de Singapura), Serapung, Gin Besar («guy», anteriormente designado como «gim») e Sebangka, que parecem corresponder às ilhas identificadas por Tomé Pires.879 Trata ‑se de Raja Abdullah, rei de Campar (ou Kampar).880 o rio de Kampar é sujeito a regulares macaréus.881 Catar, examinar com atenção.SumaOriental-PDF_imac.indd 176 12/5/17 2:02 PM
  • 177fazemdo Ciac, Purim, Rupat, Ircan, ilhas, e vem sair defromte de Malaqua.882 Pollo quall veio Paty onuz com mare~es, porque hos vemtos eram ja comtrairos no canall pera cheguar a Malaqua, porem elle tornou a popa com vemto, e fresco fogeo nos juncos, o quall feito durara muito tempo por memoria.883 Mercadorias.Tem este regno muito lenho alo~ees de butiqua, chama se em malayo garuu, e na Imdia aguilla. Tem ouro, breu, tem cera, mell. Comfyna no sertão com os reis de Menamcabo e trata com elles. Mamtimentos.Tem arrozes, carnes, pescados, vinhos, tampõis, de tudo ysto temperadamte. Pera guovernar sua terra, estes trazem suas mercadorias a Malaqua. Retornam panos queliis e do Guzarate, que sam da valia de toda a ilha, e em Menamcabo principallmemte bretamg~ıis vermelhõs.884 Terra de Campoquan.885A terra de Cãpocan hé amtre Campar e Amdarguery. Esta terra amtygamemte tinha rey, de dez anños a esta parte tem mamdarym. Hé terra pequena e este mam‑darim hé da obediemcia de Malaqua. Tem esta terra algu~us mercadores, trazem ouro a Malaqua, levã pannos quilis e do Guzarate. Tem esta terra de Campocan ouro, tem lenho aloes de butiqua, tem cera, mell, breu, rotaas e cousas de que tem Cãpar. Hé terra pequena he boa. Tem defromte de sy |144r| as ylhas de Buaya886 que fazem o canall, porque asy como a costa de 882 Tomé Pires refere ‑se aos Estreitos de Panjang e Bengkali, que de facto ligam a foz do rio Kampar à região de Samatra imediatamente fronteira a Malaca.883 Tomé Pires refere ‑se à fracassada tentativa de assalto a Malaca em princípios de 1513, prota‑gonizada por Pate Onuz, um príncipe javanês, com uma frota de mais de cem navios. O episódio é referido noutras secções da Suma Oriental.884 Bretangil é um tecido de algodão tingido de azul e violeta.885 o potentado de «Campocan», não identificado, situar ‑se ‑ia na costa oriental de Samatra, entre os rios Kampar e Indragiri.886 A ilha de Buaja, ao largo da costa oriental de Samatra, uma das menores do arquipélago de Lingga.SumaOriental-PDF_imac.indd 177 12/5/17 2:02 PM
  • 178Çomotora vay hu~u luguar e outro comtamdo asy as ilhas.887 De mamtimemtos tem pera sua terra avomdosamemte, arrozes, carnes, pescados, vinhos, fruytas, he muytas esteiras, peixe sequo em camtidade. Regnño d’Amdarguery.888Ho regnno d’Amdarguerij de hu~ua parte tem por termos a terra de Campocam e da outra tem com a terra de Tunqall. Hé Amdarguery regño homrrado. Da gemte mercantiva tem onestamemte, e de muitos lugares vem a elle fazer mercadaria. Hé primcipall porto de Menamcaboo. os reis d’Amdarguery sam paremtes dos reis de Malaqua e de Campar e de Paõ. A terra nom hé muito gramde, mas hé de jemte domestiqua ao trato da mercadaria, nom som maall tratados os mercadores que laa vam. D’Amdargery vem a Malaqua, porque Amdarguery hé da obidiemçia de Malaqua, asy como Campar. Faz Amdarguery comercio e trata com certa parte da terra de Menamcabo no sertaão, pollo quall acolhe muyto ouro a maão, de que compra muitos panños. E desta maneira faz sua mercadoria. Tem em sua terra as mercadorias que tem Campar, he em mais avomdamça, e asy os mamtimentos e carnes. Tem Amdar‑guery889 defromte de sy as ylhas de Limg~ua. Terra de Tuñcall.890A terra de Tumcall ajumta se de hu~ua parte com Amdarguery e da outra com a terra de Jamby. Esta terra nom tem rey nem mamdary, hé terra oby‑diemte a Malaca por tributo. Hé terra pequeña, tambem comfyna com Menam‑cabo. Tem as mercadorias que tem Amdarguery, nom em tamta camtidade. Tem bem de mamtimemtos pera sy e pera outr~e. Tem defromte as ilhas de Calamtigua.891 887 Frase algo confusa, de sentido indefinido.888 o reino de Indragiri, na costa oriental de Samatra, junto ao rio do mesmo nome, na altura do arquipélago de Lingga.889 original: «Amdarguecy».890 Tongkall, região da costa oriental de Samatra, nas margens de um rio homónimo.891 Referência a um pequeno grupo de três ilhas, situadas entre a costa oriental de Samatra e o arquipélago de Lingga, uma das quais se chama Alang Tiga.SumaOriental-PDF_imac.indd 178 12/5/17 2:02 PM
  • 179Terra de Jamby.892A terra de Jamby hé de hu~u cabo apeguada com a terra de Tumcall e da outra parte com a terra de Palimbão, no sertão com Menamcabo, e defromte t~e as ylhas de Pullo Berella.893 Esta terra tinha amtigamemte rey, he da sorte d’Amdarguery, e despois que os mouros jaõos se começarom a fazer poderosos que tomarom Palimbão, tomarom Jamby, e nom forom mãis chamados reis, mas chamam se pates,894 que em Malaqua quer dizer mamdariis e em nosa limguoajem verdadei‑ramte guovernadores, com poder de civell e cryme capitallmemte em toda pessoa. De suas terras tem toda a jurdiçam, somemte perderom o nome de reis e mudaron se em pat~es, como se decrarara fallamdo da gramde Jaõa. Tem a dita terra de Jamby lenho [a]lo~ees de butiqua e ouro, e as mercadarias de Tumcall e os outros lugares. Tem ja mais mamtim~etos. Hé da obidiemcia do Pate Rodim, senhor de Demaa.895 Ja a gemte da terra de Jamby tem mais parte de palimboes e jaõs que de malaios. Hé terra farta e riqua ~e sua guisa. |144v| Todos os regnos que temos dito, des[de] Arcat atee’quy, tem muitas lamcharas. Todos tratam em Malaqua todo anno. E tudo hé terra de Menamcabo e todos sam malayos. Terra de Palimbam.896A terra gramde de Palimbão de hu~ua parte comfyna com Jamby e da outra hee aa pomta e cabo da ylha de Çomotora, que se chama Tana Malayo.897 E do sertão e costa do maãr que torna caminho de Pausur ou Pamchur, vay comfynamdo com Caupõ, Tulumbavam, Amdallõs, e no sertão com [a] terra de Pyramam, que hé na terra de Manamcabo.898 Tem Palimbam defromte de sy, no canall, as ilhas de Monomby e as ilhas de Bamca.899 É Palimbam de Pate Rodim, senhor de Demaa. Hé a mor parte de jemte de Palimbam gemtiia, de jemte baixa, e tambem muitos pates jentios. 892 Jambi, na costa oriental de Samatra, era um potentado dependente de Demak.893 Parece tratar ‑se de uma referência à ilha de Berhala, que se situa entre Jambi, na costa oriental de Samatra, e a ilha de Singkep.894 A explicação de Tomé Pires é correctíssima, pois pate, do javanês patih, é um título honorífico para um governador ou regente.895 Raden Pate, sultão de Demak, adiante referenciado.896 Palimbão (ou Palembang), cidade e potentado na parte sudeste de Samatra.897 Tanah Melayu é uma expresão malaia que significa ‘terra de malaios’.898 Referências a: Panchur; Sekampung («Caupõ», adiante referido como «Çacampon»); Tulung Bawang; Andalas; e Pariaman. A região de Minangkabau, nas terras altas da parte central da ilha de Samatra, é adiante referenciada.899 Tomé Pires parece estar a referir ‑se às duas grandes ilhas situadas ao largo de Palembang, Belitung e Bangka.SumaOriental-PDF_imac.indd 179 12/5/17 2:02 PM
  • 180A terra de Palimbam tinha em sy reis jemtios e era da obidiemcia do rey cafre da Jaaõa.900 E depois que hos pates mouros da Jaõa se asenhorearom das beiras do maãr, fezerom guerra muito tempo a Palimbão, e tomarom a terra e nom teve mais reis, somemte pates. E de pates primcipaes tem Palimbam dez ou doze. Tem Palimbão obra de dez mill [homens], dos quaees muitos deixarom as vidas na guerra de Malaqua comtra nos. A terra901 de Palimbão hé a melhor cousa que o Pate Rodim tem, melhor que sua terra. E hé aguora destroyda por nos, todos seus juncos e champanas,902 e mortos os senhores de Palimbam no desbarato de Pate onuz, posto que os palimbae~es de maa vomtade vinham pelejar a Malaqua, porem morrerom todos os que vynham. E porque esta verdade nom hee pera este paso, torno a descriçã e recomtamemto de Palimbam, etc. Trata Palimbão em Malaqua, e trata com Pãhao grosamemte. Tem Palimbã muitos juncos e pamgajavas de carregua. Viryam cad’anno a Malaca dez e quinze juncos d’arroz bramquo e bom, legumes muitos, e este arroz hé mercadoria prim‑cipall. Tem asy espravos muitos por mercadoria, tem gramde copia d’allgodam, tem rotaãs em gramde camtidade, tem algu~u ouro, arroz por pilar muyto, tem breu, ferro, tem muita cera, mell, vinhos muitos, carnes, atee alhos [e] cebolas trazem imfimdas, que hé boa mercadaria. Tem muito beijoym preto em muyta camtidade, que se gasta na Bonua Quelim, e em Marcaçar [e] Tamjompura,903 he nas outras ylhas.Gasta se em Palimbão gramde camtidade de roupa dos guzarates, da baixa, e dos quiliis. Todo seu dinheiro das mercadorias empregam em Malaqua, e mais o que trazem [em] ouro. Como fazem todos os que a Malaqua vem, carregam de mercadorias, levam gramde copea de roupa dos quilliis. Ylhas que fazem o canall.Defromte de Ciac, as ilhas de Pulo Piçã.904 Defromte de Campar, as ylhas de Cari mam, dos celates e Sabam. Estes tem mamtim~etos pouqos, e tem moradores. Defromte de Capitam, as ylhas de Buaya; defromte de Amdarguery, as ylhas de Limgua. 900 o «rey cafre da Jaaõa» era o soberano hindu de Majapahit, o grande império javanês, nesta altura Bhre Kertabhumi, conhecido como Brawijaya VII (r.1489‑1517).901 original: «tera».902 Champana é uma embarcação ligeira, movida a remos, cujo nome parece derivar do chinês san ba, através do malaio sampan.903 A ilha de Macaçar e o potentado de Tanjungpura, na ilha de Bornéu, adiante referenciados.904 original: «picã», anteriormente referida como «piçam», provavelment a ilha de Pedang, situ‑ada defronte da região de Siak.SumaOriental-PDF_imac.indd 180 12/5/17 2:02 PM
  • 181As ylhas de Limgua, como se ja disse nas terras da jurdição do regnno de Malaqua,905 sam muito povoadas. Tem rey. Sam estes cabaees906 cavaleiros. Tem atee quoremta lamcharas, tem muitas lamcarias.907 Tem Limgua lenho aloees de butiqua, tem muito arroz e mamtimemtos, hé boa terra. |145r| Defemde se dos comtrairos. Este [rei] hé como rey dos celates, hé temido, poderoso, mais que Campar, he a terra semelhamte. Tem sua terra trato. Terã quoatro ou cimquo miill homees, estas ylhas. E pola pomta delas, comtra as ylhas de Buaya, se faz ho canall pera Pahão e Bymtã,908 e pera Syam e todas estas outras partes. E defromte de Tumcall estam as tres ilhas que sse chamam Calamtigua. Estas sã desertas e nom tem moradores. Tem aguoa boa. E defromte d[e Jambi,] as ilhas de Berella tambem sam desabitadas. Algu~us celates se acolhem a ellas as vezes. Tem muyta aguoa. E defromte de Palimbam, na primeira terra, as ilhas de Monomby. Estas ylhas sam de tamta povoaçam como Limgua, e em alguuã maneira obedecem a Pate onuz, mas nom muyto. Tem mamdaris. Tem muitas lamcharas. Tem lenho aloe~es de butica, tem cera, mell, tem muitos mamtim~etos em abastamça. Toda hé hu~ua terra, Monomby e Bamca, hé de Pate on~uz, [senhor] de Japera.909 Alem de Monomby, defromte da derradeira terra de Palimbão, estam as ylhas de Bamca, estas tem pate, sam de Patee on~uz, mouro jaão. Tem estas ilhas obra de mill moradores, amtigamemte teverõ sete [ou] oyto mill. Tem lenho aloes de butiqua, tem cera, mell, ferro, alguodam, tem muitos mamtimemtos. Defromte de Tana Malaio está a ilha que se chama Luceparii,910 esta hé no cabo do canall desta ilha, comtra lesnordeste. Sam tudo ylhãs e restimg~uas. He comtra leste hé o canall pera Maluquo, e comtra lessueste atee ho sudueste hé a Jaõa; e do sudueste atee ho este hé o regno de Çumda. E desde Lucepary atee a primeira terra de Jaõa, que demorara a lessueste ou ao sueste, seram cemto e vimte leguoas. A prymeira terra que se toma na Jaõa é a ilha de Mamdalica, que hé peguada com a terra de Jarapara,911 tres ou quoatro leguoas do porto de Patii onuz. Se neste 905 Indicação de que a descrição de Malaca figuraria numa secção anterior da Suma Oriental.906 A designação de ‘cabal’ deverá derivar do termo malaio kebal, que traduz ‘invulnerabilidade’. os cabáis são adiante referidos, na descrição de Malaca.907 Provável lapso do copista, que quereria repetir ‘lancharas’.908 Bintão (ou Bintan), ilha situada a sudeste de Singapura.909 Japara (ou Jepara), cidade e potentado da costa norte de Java, adiante referenciada.910 Lucipara parece corresponder à pequena ilha de Maspari, que fica ao largo de Palembang, a sul da ilha de Bangka.911 Esta indicação é algo anómala, pois Japara (ou Jepara) situa ‑se a meio da costa norte de Java. Nas suas proximidades situa ‑se a ilha de Panjang, mas decerto não seria a primeira terra buscada por uma embarcação oriunda da parte meridional de Samatra. Poderá tratar ‑se de uma referência à ilha de Panjang, na extremidade ocidental de Java, na baía de Banten.SumaOriental-PDF_imac.indd 181 12/5/17 2:02 PM
  • 182capitollo nom for muito certo, reporto me aos capitollos,912 por lhe nom usar por seus oficios. De Lucepary a terra de Japara naos nosas yram em tres dias com suas noites, vento de monçã.Tana Malaio.913No cabo da terra de Palimbam está a terra que se chama Tana Malayo. Tem defronte de ssii as ilhas de Luceparii e a esta ilha tem dous cana~ees, hu~u da bamda de Palimbam e outro melhor comtra as ylhas de Bamca. E comfyna esta terra com terra de Çacampom.914 Tem esta terra pate. Tem alguodam muito, tem rotaãs, breu, t~e muitos mamtimemtos em abastamça, tem algu~u ouro. Desta terra dizem que sairom hos fumdadores de Malaqua, Paramiçura, como ja he ditõ.915 Terra de Çacampom.916Aguora começamos de tornar pola ilha, casy caminho d’oeste. Çacampom hé terra gramde, tem de hu~ua bamda a terra que se chama Tana Malaio e da outra Tulimbavã. Hé esta terra farta. Tem pate. Trata este em Çumda e na Jaaõa, e hé gramde trato o desta terra com Çumda. Dizem que estaa à vista de Çumda. Tem a terra deste gramde copea d’alguodam, tem ouro pouquo, tem muito mell, cera, breu, rotaãs, tem algu~ua pymemta e boa, dizem. Tem muito arroz, carnes, pescados, vinhos, fruitas. Este pate, segundo dizem, hé cafre, e sua jemte hé. |145v| No sertao deste sam cafres, como hé certo que casy toda a ilha de Çomotora no sertão sã gemtios, e estes nom sam obidiemtes a nengu~e. Atrave‑sam [par]a Jaõa em tres dias, em lamcharas; outros dizem que em hu~u dia vam à terra de Çumda. 912 Leia ‑se ‘pilotos’, que seria decerto o que Tomé Pires teria aqui escrito, tendo o copista come‑tido um lapso; só assim a frase fará sentido.913 Tana Malaio, a ‘terra dos malaios’, parece corresponder à parte mais a sudeste da ilha de Sa‑matra, actual região de Lampung.914 Sekampung, já de seguida referenciada.915 Esta referência colocaria a descrição de Malaca e da sua história, que aparece mais adiante, e onde é referenciado o fundador «Paramiçura» (ou Paramesvara), numa anterior secção da Suma Oriental.916 A região de Sekampung, na parte mais meridional da ilha de Samatra.SumaOriental-PDF_imac.indd 182 12/5/17 2:02 PM
  • 183Terra de Tulimbavam.917A terra de Tulumbavã de hu~ua parte comfyna com Çacampom e da outra com Amdalaz;918 no sertão comfyna com reis cafr~es. Este tambem dizem que hé jentio ou cafre. Tem a terra deste pimemta, tem ouro, e as cousas que tem Çacampõ.919 Tem lamcharas, tem muitos mamtimemtos. Tem gramdes rios em ssuas terras, por homde tem suas povoaçõees. Por estes lugares hé terra forte, porque nom t~e senom hu~ua braça d’augua nas ~etradas dos rios. Tratam na Jaãoa e em Çunda, estes, e ~e sua terra nom tratam com elles, ell~es levã suas mercadarias lla. Tem gramde camtidade d’allguodam. E daqui atravesam a Jaõa em dous dias. Terra de Amdallor920 regño.o regno de Amdallor de hu~ua parte comfyna com terra de Tulumbavã e da outra com o riquo regno de Piramã, e no sertão com os reis de Menancabo; defronte de sy, amdadura de hu~u dia e hu~ua noyte, ten a terra de Çumda, e amtre Andalor e Çumda hé maar. E põs este soyam viir os guzarates a Jaõa e a Agracy921 tomar carregua do cravo, noz, maças e samdallos bramcos, cubebas, etc., porque diziam que amtre este Amdalor e Çumda que tudo eram baixos e de restimguas, e que se nom navegava ysto, diziam a nos. o que nom hee asy, amte[s] hé fumdo he de boa navegaçam, e amtigamemte sempre se naveguou dos guzarates, amtes que Malaqua a sy recolhese suas mercadariãs, omde todos acudiam. E emtam leixarrã os guzarates esta navegaçã, posto que a navegaçã com a monçã era boa, porque emtravam por Çumda e corriam a costa de Chemano e Pemano, Chorobam, toda a terra de Demaa, Japara, e tornavam sobre Tubam, e dally a Agacii, o que tudo faziam com hu~u vemto.922 917 A região de Tulung Bawang, na parte mais meridional da ilha de Samatra.918 Andalas, já de seguida referenciada como «Amdallor».919 original, decerto por lapso: «çamcapõ».920 Mais acima Tomé Pires refere ‑se a «Amdalaz», transcrição mais correcta de Andalas, antiga designação da ponta sudoeste da ilha de Samatra.921 Agracim (ou Gresik), na ilha de Java, adiante referenciado. Note ‑se que Tomé Pires utiliza repetidamente a designação ‘Agacim’ para designar este porto e potentado.922 Referências a: Sunda; Chemano; talvez Pamanukan; Cirebon; Demak; Japara; Tuban; Agra‑cim (ou Gresik). Estes portos são adiante referenciados. Mas Tomé Pires refere ‑se novamente a uma antiga rota, praticada por navios mercantes originários do Guzerate, que passava ao longo da costa ocidental da ilha de Samatra para depois buscar os portos da costa norte da ilha de Java.SumaOriental-PDF_imac.indd 183 12/5/17 2:02 PM
  • 184Regno de Pyramã.923Do regno d’Amdalor torno a terra, viramdo ao noroeste ate dar nas ilhas que estam junto com Gamispolla. E começamdo a virar, nos mostra a terra o regno de Piramam. Comfyna Piramam de hu~ua bamda com Amdalor e da outra com Tico, e do sertam com Menamcabo. Este regno hé de jentios e o rey jemtio. Aqui se ajuntam nesta costa tres regnos, scilicet, Piramã, Tico e Pamfur, ou Pamchur ou Barus.924 Estes todos sam riquos, e aqui vem cad’ano hos guzarates com huuã não, duas, tres, com mercadorias. Despacha[m] nas e levam seus retornos, como se dira acabamdo de falar nestes tres regnuõs. Tem o regno de Piramã muitos cavallõs, que vam vemder comtynoadamemte ao regnuo de Çumda. Tem esta terra de Piramam muito ouro, lenho aloes de butiqua, camfora de duas maneiras, beijoym, seda, cera, mell. Tem mamtimemtos em abastãça pera sua terra. Tem gramde trato com a terra de Çumda. Terra do regno de Tico.925o reyno de Tiquo de huuã parte se ajunta com Piramã e da outra se ajunta com terra e reino de Pamchur; do sertao se ajunta com a terra de Menancabo. Este rey dizem que hé jemtio, e outros dizem que hé mouro. Tem este as mercadarias que disemos de Piramã, que tembem Pamsur [tem]. Tem este reino muita j~ete, e tem grande trato com os guzarates. |146r| Regno de Baris.926Aguora se nos chegua à maao falar no riquisemo regnõ de Barus, que por outro nome se chama Panchur ou Pamsur.927 A naçam dos guzarates chaman lhe Pan‑chur, e asy parses, arabiios, queliis, bemgallas, etc. Çamotora chama lhe Baru~us, tudo hé hu~u regno, nom sam do~us. Comfiina este com Tiqo de huuã bamda e da 923 Pariaman, porto e região da costa ocidental de Samatra.924 Tomé Pires sugere, correctamente, que o porto e potentado de Barus era também conhecido como Panchur ou Pansur (por vezes transcrito como ‘Panfur’).925 Tiku, porto e região da costa ocidental de Samatra.926 Barus, porto e potentado na costa noroeste de Samatra, que na época era extremamente próspero.927 Estes topónimos, que também se aplicam a Barus, parecem derivar de Fansur, designação atribuída nas fontes árabes ao porto de Barus.SumaOriental-PDF_imac.indd 184 12/5/17 2:02 PM
  • 185outra com terra do regno de Quinchell;928 no sertão tem seu trato com os menã‑cabos, e diamte de sy no maar tem a ylha de Minhac Barras,929 de que se dira. Este regño hé cabeça do trato destas cousas de toda a ilha de Çomotora, porque esta hé a escalla por homde se o ouro vay, e a seda, beijoym, camfora em cãtidade, lenho aloes de butiqua, cera, mell, e outras cousas de que este regno hé mais abas‑tado que nemhu~u dos outros ja ditos na ilha de Çomotora. o beijoym de Barus, Tiquo [e] Pirama hé muito e alvisymo.930 Estes tres regnõs que avemos contado, scilicet, Pamchur, Tiquo [e] Piramão, tem a chave da terra de Menamcabo, e asy por todos serem paremtes, como por estes terem as beiras do maar e os guzarates virem alii cada hu~u annõ. E fazem gramde mercadaria, e ajumta[m] se nestes regnos as mercadorias, e fazem seu trato com os ditos guzarates. Vem cad’ano hu~ua naõ, duas, tres, vemdem toda sua roupa. Recolhem muito ouro e seda, muito beijoym, muito lenho alo~ıs, camfora de duas maneiras, muita de comer, muita cera, muito mell. os guzarates despachã toda sua mercadaria, porque hé da valia da terra, e o povo hé muito. E daly vay pera Çumda e pera as ilhas de Diva, porque as ilhas de Diva vem cheguar defronte de Çumda e vam por diamte de toda Çamotora, da bamda dal’oeste atee Gamis‑polla, e atee Cananor, e destas partes em cimqo dias vam às ilhas de Diva, segumdo afyrmam os mercadores que trazem de Diva, etc.931Asy que feita sua mercadaria os guzarates tornam se riquos, e vemdem e tra‑tam à sua vomtade. Dizem os pilotos que de Baruz pera Çumda que o caminho nom hé muito linpo, e que ate Baruz hé limpo sempre, jumto com terra. Eu fuy ja por detras desta ylha obra de xb leguoas, e jumto com terra achavamos vymte [e] cinquo braças.932Ylha que se chama Maruz Minhac.933Defromte deste regmo de Baruz estaa esta ilha que se chama Maruz Mynhac. Tem muita jemte. Tem azeyte de peixe e muito pescado sequo, e arroz. Dizem que 928 Singkil, porto da costa noroeste de Samatra.929 Parece tratar ‑se da ilha de Nias, fronteira a Barus.930 o benjoim do sertão de Barus, assim como a cânfora, eram especialmente apreciados no comércio oriental.931 Tomé Pires alimenta alguns equívocos sobre a real extensão do arquipélago das Maldivas, que podia ser demandado a partir do litoral ocidental da Índia em poucos dias, mas não a partir dos portos de Samatra, muito mais distantes.932 Nota auto ‑biográfica, que atesta uma visita de Tomé Pires à parte meridional da ilha de Samatra.933 Tomé Pires utiliza para a ilha de Nias uma expressão que parece derivar de Manqamarus, designação das fontes árabes para o grupo de ilhas ao largo da costa ocidental de Samatra, das quais a maior é precisamente Nias.SumaOriental-PDF_imac.indd 185 12/5/17 2:02 PM
  • 186defromte de Piramã esta huuã ilha [...]934 ~e que nam há senom molheres, nam tem homees, e que emprenhã doutros que la vam tratar e que se tornã loguo, e que outras emprenhã do vemto.935 Esta opyniam tem os destas partes, como no momte de Malaqua, que se chama Gulom Leydam, a raynha emcamtada.936 Jaz esta fee no povo, como no povo outras amazonas e Sebilla de Roma.937 Regno de Quinchell.938Ho regno de Quinchell de hu~ua parte comfyna com o regno de Pão939 e da outra com ho regno de Mamcopa ou Daya,940 e da bamda do sertão com jemte rebusta, salvajem, bestiall, que comem om~ees.941 Hé este rey jemtio. Tem este beijoym, seda, pimenta algu~ua, ouro pouquo. Tem lamcharas pequenas, tem rios. Hé cousa nom muito riqua em todo este regno. Diz~e que com~e hom~es dos imigos. De Pacee tratã aqui, e em os regnos de Baruz, Tico [e] Pirama. |146v| Regno de Mamcopa.o reino de Mãcopa ou Daya tem estes dous nomes.942 Comfyna de hu~ua parte com Quinchell e da outra bamda vem casy daar nas ylhas que estam pegadas com a terra de Lãbry.943 Hé este rey jemt~ıio. No sertam comfyna com jemte rubusta [e] 934 Espaço em branco no MP, onde deveria estar o nome da ilha, que poderia talvez corresponder à ilha de Enggano, ao largo da costa sudoeste de Samatra, na qual as tradições malaias situavam a ‘ilha das mulheres’. o nome da ilha parece de evidente origem portuguesa.935 Uma das raras referências de Tomé Pires a informações de carácter lendário, que poderia even‑tualmente ter sido colhida numa leitura da colectânea Marco Paulo, editada por Valentim Fernandes, pois tanto Marco Polo como Nicolo de Conti se referiam a ilhas habitadas só por mulheres.936 Gunung Ledang (ou monte ophir), uma elevação da parte meridional da Península Malaia, onde, de acordo com lendas malaias, demoraria a princesa Puteri Gunung Ledang, companheira de Paramesvara, fundador de Malaca.937 os romanos atribuíam a designação de sibila a virgens alegadamente dotadas de dons pro‑féticos; Tomé Pires poderia estar a referir ‑se à Sibila de Cuma, mencionada por diversos autores da antiga Roma.938 o porto e potentado de Singkil, na costa ocidental de Samatra.939 Aqui deveria estar ‘Barus’.940 Makupang e Daya, adiante referenciados.941 Provável alusão aos Batak, que demoravam na parte nordeste da ilha de Samatra e a quem outros relatos da época atribuíam a prática de canibalismo.942 Makupang e Daya, na realidade, seriam dois portos distintos, e antigos potentados, na costa noroeste da ilha de Samatra.943 Lambri (ou Lamuri) era um antigo reino na ponta norte da ilha de Samatra.SumaOriental-PDF_imac.indd 186 12/5/17 2:02 PM
  • 187bestiall, da serra944 que vay sobre Pacee e Pedir. He gramde terra a deste rey demtro na terra, hé rey poderoso [e] guerreiro, os que toma comem se dos imig~uos. Tra‑tam nelle de Pacee [e] Pedir. Nom com~e ome~es, somemte os com que tem guerra. Tem este seda, beyjõym e cousas daquella parte. os que la vam, vam em paraos pequenos, levam panos de Cambaya dos baixos. Regnos de Menancabo.945E porque ja hé feito ho recomtamemto de toda a ilha de Çamotora a rredor, segundo a promessa [na descrição] da primeira naçam, aguora nom pareceria bem ficarem os reis de Menãcabo sem delles se dizer, pois sam favorecidos d’ouro, metall que Deus escolheo. Sam os reis de Menamcabo tres. Ho mais primcipall se chama Raja Çunciteras, que hé a povoaçam de seu asemto; o segumdo se chama Raja Bamdar, irmaõo do rey ja d~ıto; o terceiro se chama Raja Bomço ou Raja Bu~us.946 Estes sam os rex de Menamcabo. o primeiro dizem que hé mouro há pouco tempo, obra de xb annos; os [outros] dous dizem que sam aimda jemtios. Estes muitas vezes sam discordes, he tem guerra ho mais do tempo. Portos vizinhos a Menanqabu, e que terra se chama Menancabo.Da bamda de Malaca começa ha terra d’Arcat atee Jamby, se chama terrã de Menamcabo, posto que mais verdadeiramemte seja o sertam. E da outra bamda da ilha de Çomotora comtra ho sull hé Piramam, Tico e Pamchur. Por estes portos se despemde todo ho ouro da terra de Menamcabo. He sem duvida aqui hé o prim‑cipall da ilha toda, omde o ouro nace, posto qu’em toda a ilha há pouco ou muito. Porem tomamdo d’Arcat atee Jamby, e de Piramam a Baruz ou Pamchur, com os tres reis de Menãcabo, aquella se chama mais propiam~ete terra de Menamcabo. Lugares he minas d’ouro na terra de Menamcabo.A primcipall mina domde se tira mais ouro e mais groso hé a terra homde pasa o rio, que se chama Çuencyniguis, e a segumda omde se acha mais ~e poo, chama 944 Provável referência ao complexo vulcânico de Bur ni Geureudong, no norte de Samatra.945 Região de Minangkabau, nas terras altas da parte central da ilha de Samatra.946 Minangkabau era governada por um rajá principal e por dois rajás subordinados, que parti‑lhavam diferentes esferas de poder. Mas os nomes referidos por Tomé Pires são de difícil identificação.SumaOriental-PDF_imac.indd 187 12/5/17 2:02 PM
  • 188se Marapãlagui.947 Dizem que huuã mina e outra todos os tres reys sobreditos podem apanhar o que hee hordenamça da terra, que nenhu~u mouro nom pode ir as minas. Somemte os senhores jemtiõs tem as minas, e elles ham o ouro, e daly se espalha aos rex de Menamcabo, e dos tr~es reis se espalha a outros. He a camtidade do ouro que se cad’ano tira das ditas minas, dizem que tiram dous bahares d’ouro e mais, segumdo os mouros dizem. Maãr na terra de Menamcabo.Dizem os que ja forom na terra de Menamcabo que há hu~u maãr d’aguoa doce que cera seis leguoas em redomdo e duas em larguo, e que d’aredor delle há muitas povoaço~es, e que navegam no dito mãar, e que este maãr se faz d’aguoa que vem de huuã serrania gramde, e que há grãde pescaria demtro, e que o peixe apodrece em pouquo espaço como o pescam, e que este laguo hé da jurdiçam de todos tres reis.948 Meedyda ilha de Çomotora a rredõr.|147r| Segumdo dizem, parece com rezam a ilha de Çomotora t~eer a rredor setecemtas leguoas, começamdo das ilhas de Gamispolla ate tornar a ellas, cercando como dito hee. E nam hé duvida te~er as ditas setecemtas leguoas e mãis.949 Muytos reis jemtios que há na ilha de Çomotora, e muitos senhores no sertão demtro da ilha, mas como nom sam pessoas de mercadoria e conhecidos, nom se faz deles nenhuuã memçã. Daqui por diante se falara da ylha de Jaõa he Çumda, e llevar se a seu recomtamemto hordenadamemte. Nom pase por esquecimemto esta ilha de Çomotora ser de tamto povoo, homde se gastam gramdes camtidades de rroupas dos quel~ıis e guzarat~es, os quaees, amdamdo as cousas em hordenamça como damte[s] era, todos estes vinhã a Malaca polla moõr parte trazer as mercadarias de toda a ilha, e levar os paños e outras mercadarias a suas terras, segumdo o costume de cada hu~u.947 Estes nomes da região de Minangkabau são de identificação problemática.948 Referência ao lago Toba, na parte norte da ilha de Samatra.949 o cálculo de Tomé Pires sobre o circuito da ilha de Samatra é bastante aproximado.SumaOriental-PDF_imac.indd 188 12/5/17 2:02 PM
  • 189Descriçam e recomtamento da prospera he soberba e rica e cavaleirosa ylha da Jaaoã e Çunda, o que della se pode saber.950Sera o primcipio do recomtamemto do regnno de Çumda,951 e dalii nos terminaremos ~e Bulambuam,952 que hé o cabo das terras sabidas que tem pates. E despois de se falar dos senhores que vivem nas beiras do maar, emtam se falara do gramde rey jentio de demtro do sertão da Jaaõa, e do seu capitam mor Guste Pate.953 E do regño de Çumda se dira em primcipio o que se delle ofrecer. Estas sam as terrãs da Jaaõa que tem pates, senhores e governador~es, e asy em Çunda.Pimeiramemte o rey de Çumda.954 A ssua gramde cidade de Dayo, a povoaçam he terras e porto de Bamtam, o porto de Pomdam, o porto de Cheguidee, o porto de Tamgaram, o porto de Calapa, o porto de Chemano.955 Ysto hee Çumda, por‑que ho riio de Chemano hé estremo d’ambo’llos regños.956 Aguora vem a Jaaõa e falar se a do rey de demtro do sertão.A terra de Cheroboam, a terra de Japura, a terra de Loçari, a terra de Teteguall, a terra de Çamaram, a terra de Demaa, a terra de Tidumar, a terra de Japara, a terra de Ramee, a terra de Tobam, a terra de Cedayo, a terra d’Agacii, a terra de Çuru‑baya, a terra de Gamda, a terra de Bulambuam, a terra de Pajarucam, a terra de Canitã,957 a terra de Panarunca, a terra de Chamdy. E ysto acabado, falar se a da gramde ylha de Madura.958 950 Embora Java seja uma única ilha, a sua parte ocidental era amiúde identificada como Sunda.951 Trata ‑se do reino hindu de Sunda, também conhecido como Pajajaram, que ocupava a parte ocidental da ilha de Java.952 Blambangan, porto e potentado na parte oriental da ilha de Java.953 Referência ao soberano hindu de Majapahit e ao seu primeiro ‑ministro, adiante referenciados.954 o rei de Sunda era Sri Baduga Maharaja (r.1482 ‑1521).955 Referências a Daio, Bantam (ou Banten), Pontang, Cheguide ou Chidigue, Tangerang, Cala‑pa e Chemano, que mais adiante são desenvolvidas.956 o rio Chemano pode ser identificado com o Chimanuk (ou Cimanuk), que desagua na costa norte da parte ocidental de Java.957 original: «Camtã», decerto por lapso.958 Referências a localidades e potentados mais adiante referenciados: Cirebon (ou Chirebon); Ja‑pura; Losari; Tegal; Semarang; Demak; Tedunan; Japara; Rembang; Tuban; Sidayu; Agracim (ou Gre‑sik); Surabaya; Garuda; Blambangan; Pajarakan; decerto Kaniten, que adiante é referida como «Ca‑nitão»; Panarukan; Jamber. A descrição de Madura aparece numa secção posterior da Suma Oriental.SumaOriental-PDF_imac.indd 189 12/5/17 2:02 PM
  • 190Medidas da terra de Çumda.o regno de Çumda, segumdo algu~us afirman, toma a metade de toda a ilha de Jaõa; outros, a que mais autoridade se daa, dizem que o regno de Çumda sera a parte terceira da ilha e mais hu~u oytavo. Dizem que teraa a ylha de Çumda em roda trezemtas leguoas,959 tremina se Çumda pollo riio Chemano. Dizem que Deus hordenou des[de] os prymeiros tempos a ylha de Jaaõa da de Çumda e a de Çumda a de Jaaõa pollo dito riio. o quall riio tem arvores de hu~u cabo e do outro, e afirmam que as arvores de cada bamda se encostã a cada terra com as ramas no chãoo, semdo arvores gramd~es e de fremosa altura. |147v| Rey e jemte da Çumda.o rey de Çumda hé jemtio e todollos senhores de seu regno [também].960 Hee Çumda de jemte cavaleyrosa [e] guerreira no maãr. Dizem que tamtos por tamtos mais que os jaãos sam hom~es de bõos corpos, hom~ees baços, robustos. o filho do rey herda o regño, e quamdo nam há filho ligitimo, hé por eileyçam de gramdes do regño. Custuma se em Çumda, quamdo ho rey morre, queymaren se suas molher~es e fidallguos seus, e asy quamdo quallquer dhy pera baixo morre, ~e sua casa tambem se faz outro tamto.961 E ysto se querem, nom porque pera iso as molheres sejã comvertidas por penas a morer~e, somemte as que de seu moto querem, e as que nam, sam beguynas.962 Seguem apartada vida e nam casam dellas, outras casam tres [e] quoatro vezes, sam estas poucas, estranhas na terra. Tem a terra de Çumda atee quoatro mill cavallos, que lhe vem de Piramam963 e outras ylhas a vemder. Tem atee quoremta alifamtes, estes pera o arreo do rrey. Hee o regñno de Çumda regido em justiça. Sam hom~es verdadeiros, fazem em sua terra boa companhia aos mercadores, os das beiras do maãr sam domesticos a mercadaria. Esta gemte de Çumda muitas vezes vem ha Malaqua fazer mercadaria, trazem lamcharas de cargua, naviios de cemto he cimqoemta tone~es. Tem Çumda ate seis juncos, e das lancharas muitas. Ao uso de Çumda trazem dous mastos como cabria,964 e antre hu~u e o outro escadas, e hé asii gemtill navegar. 959 Os observadores portugueses da época referem ‑se amiúde à ‘ilha de Sunda’, pois suponham inicialmente que a região de Sunda, na parte ocidental da ilha de Java, constituía uma ilha em si. Mas o próprio Tomé Pires refere um pouco mais adiante que Sunda e Java são uma única ilha.960 o soberano de Sunda ou Pajajaram era hindu.961 A imolação de viúvas era, de facto, praticada em determinadas regiões da ilha de Java.962 Beguina, mulher de vida ascética.963 Pariaman, na ilha de Samatra.964 Cábrea, espécie de guindaste, com duas ou três varas cruzadas.SumaOriental-PDF_imac.indd 190 12/5/17 2:02 PM
  • 191Despois do rey de Çumda, que se chama Samg Briamg,965 é o seu viso rey, que se chama çoçunam,966 e despois o seu bemdara, que na terra se chama mãco bumi,967 despois sam os senhores capitaees de cidades e lugares e portos. Asy como em Jaõa os senhores se chamã pat~es, chamam se em linguaj~e de Çumda paybou,968 scilicet, Foam Paibou de tall luguar, porque a limguoagem de Çumda nom hee a de Jaõa, nem a de Jaõa de Çunda, posto que hé hu~ua soo ilha.969 A quall devide o riio Chemano, a lugares muito estreito, porem a terra hé junta e tudo hé huuã ylha, e tem o dito apar‑tamemto que a corta he trespasa, que ficam em duãs, mas ysto vera quem estever na terra, porque as arvores dos estremos a lugares tocam os ramos de hu~uas a outras.970 Cidade homde o rey estaa.A cidade homde o rey estaa ho mais tempo do anño hé a gramde cidade de Dayo.971 Tem a cidade as casas d’olla e madeira bem obradas. Dizem que a casa do rey hé de trezemtos e trinta esteos de pão da grosura de hu~u tonell he d’altura de cimqo braças cada hu~u, de fremoso emmadeiramento sobre os esteos, e muyto bem obrada casa. Esta cidade esta do porto principall, que se chama Calapa,972 a dous dias d’amdadura. Ho rey hé gramde caçador e momteiro, tem sua terra cervos sem comto, porquos, touros, sam dados a ysto ho mais do tempo. Tem o rey duas molheres prim‑cipaees de seu regño e mamcebas atee m~ıll. A jente de Çumda dizem ser verdadeira. Mercadorias do regño de Çunda.Tem pimemta, melhõr que a de Cochim algu~ua cousa, atee mill bahares cad’año, tem pimemta lomgua muita,973 tem tamarimdos pera carreguar mill 965 o alegado nome do rei de Sunda parece corresponder a sang hyang, título derivado do sâns‑crito sanghyang, que denota divindade.966 original: «cocunam». Tomé Pires refere ‑se ao susuhunan, um título da realeza javanesa.967 Bendara, do malaio bendahara, o mais alto funcionário da administração malaia, aproximadamen‑te equivalente a primeiro ‑ministro. o termo malaio mangko bumi designa o vizir ou ministro de estado.968 Termo que parece derivar do sânscrito prabhu, ‘senhor’.969 De facto, em Java falavam ‑se distintas línguas, nomeadamente sundanês e javanês.970 Esta passagem sugere que Tomé Pires teria visitado esta parte de Java e teria navegado pelo rio Chemano (ou Cimanuk).971 O topónimo Daio transcreve na realidade o termo sundanês dayeuh ou dayuh, que designa ‘grande cidade’ ou ‘capital’, e aqui referir ‑se ‑ia à antiga cidade de Pakuan, capital do reino de Sunda ou Pajajaran, situada no local da actual cidade de Bogor.972 o porto de Calapa, adiante referenciado.973 A pimenta longa (Piper retrofractum, Vahl), vulgar em regiões da Ásia do Sudeste, e nomea‑damente em Java e no Bali.SumaOriental-PDF_imac.indd 191 12/5/17 2:02 PM
  • 192naãos. Tem por primcipaes mercadarias espravos e espravas que sam de sua terra, |148r| e outros que trazem das ilhas de Diva, porque de Çunda aas ilhas de Diva vam ~e seis [ou] sete dias.974 Tem por primcipall mercadoria arroz. Çumda tem tambem ouro de toque d’oyto mates.975 Tem muitos panos a sua guisa, baixos, que tambem vem a Malaqua. Mantimemtos.Tem arroz, que Çumda pode vemder cad’ano atee dez juncos, legumes sem medyda, tem carnes sem comto, porcos, cabras, carneiros, vacas em gramde camti‑dade, tem vinhos, tem fruytas. Hé tam abastada como ha Jaaõa, e de Çumda vam vemder arroz e mamtimemtos muitas vezes a Jaõa. E de Malaca vam a Çumda cada hu~u anno duas [ou] tres jumcos por espravos, arroz e pimemta. De Çumda vem pamgajavas a Malaqua com as ditas mercadarias, e retornam pera Çumda o seguimte. Mercadorias que vallem no regño de Çumda.Vallem synabafos bramcos gramdes e pequenos, synhavas, pachavelez~es, bala‑chos, atobalachos,976 sam estes panos brãmcos. Vallem paños quilis emrrolados, de ladrylho gramde e pequeño, que lloguo sam da vallya, e compram muitos. Val pucho, cacho, alepivry e sememtes, de Cambaya. Valem bretamgis e roupa de Cambaya, turias, tiricamdies, caydes,977 e disto muito. E de toda a outra roupa de Cambaya em gramde maneira gasta se llaa muita della, e compra[m] [n]a por ouro. Vall em Çumda arequa, auga rosada e cousas destas. Moeda de Çumda.Por moeda meuda, caixas da China, sam como ceitiis furados pollo meyo pera se emfiarem de cemto em cento, valem cada mill vinte cimquo calais978 de Malaqua. 974 Como referido anteriormente, a distância em relação às Maldivas é subestimada por Tomé Pires.975 Mate é um termo que designa a finura do ouro, correspondendo 10 mates a 24 quilates.976 Balachos e atobalachos, talvez do persa parcah, são tecidos de algodão ou linho de caracterís‑ticas não apuradas.977 Turia, de etimologia desconhecida, parece referir ‑se a um tecido grosseiro de algodão, com pa‑drões florais; tiricandis, também de etimologia desconhecida, parece referir ‑se a tecidos coloridos de algo‑dão, com padrões de aves; sobre os caides, provavelmente um tecido de algodão, nada se consegue apurar. 978 Leia ‑se ‘calains’, moeda de estanho anteriormente referenciada.SumaOriental-PDF_imac.indd 192 12/5/17 2:02 PM
  • 193Por moeda grosa corre ouro da terra, de toque d’oyto mates, que vall a tumdaya,979 que sam quinze oytavas bem peasadas, trezemtos calais, que sã nove cruzados, etc.Portos de Çunda: Bautan.980o regnno de Çumda tem seus portos. o primeiro hé o porto de Bautan, neste porto amcoram juncos, hé de trato, tem boa cidade no rio, tem capitam a cidade, pesoa muito homrrado. Trata este porto com as ilhas de Diva, com a terra de Çomotora da bamda de Pamchur. Hé este porto casy dos primcipaes de todõs, tem riio jumto ao mar. Tem muito arroz e mamtimemtos e pimenta. O porto de Pondãg.981o segumdo porto do dito regnno de Çumda, caminhamdo pera o porto de Japara, hé Pondang, que hé ja menos porto que Bautan. Tem gramde povoaçam, tratam neste porto os que tratam com os de cima, este porto hé em riio jumto com ho mar, diz~e que amcorã demtro juncos e que hé porto de trãto. Tem arroz, mamtim~etos, pymenta. O porto de Cheguide.982Ho terceiro hé o porto de Chiguide, asy pollo caminho que hé dito. Este porto tambem tem povoaçam e boa, tratam nelle os que avemos dito, he Piramam e Amdallos e Tulumbavã e Caçapom, e outros lugares. Amcorã nelle juncos. Tem capitam homrrado. Tem arroz, legumes, pimenta, muytos mantimentos. O porto de Tamgara.983Ho quarto porto hé o de Tamgara, hé porto como hos sobreditos, tem boa povoaçam e trato, tem capitam, hé lugar de trato como cada hu~u dos sobreditos. Tem as cousas que os outros tem. 979 Tundaia, de etimologia incerta, é uma moeda de ouro javanesa, adiante designada como «ta‑ell»; pode também ser uma medida de peso, equivalendo a cerca de 52,5 gramas.980 Trata ‑se do porto de Bantam (ou Banten), que se situava na ponta noroeste da ilha de Java.981 Pontang, no delta do rio do mesmo nome, a leste de Bantam.982 o porto de Cheguide ou Chidigue situar ‑se ‑ia na embocadura do rio Chisadane (ou Cisada‑ne), que desagua a oeste da actual Jacarta.983 Parece corresponder a Tangerang, nas margens do rio Chisadane (ou Cisadane).SumaOriental-PDF_imac.indd 193 12/5/17 2:02 PM
  • 194|148v| Ho porto de Calapa.984Ho porto de Calapa, este hé magnifiquo porto, hé o primcipal e melhor que todos. Este hé omde o trato hé moõr e domde navegam todõs os de Çomotora e Palimbão, Laue,985 Tamjompura, Malaqua, Macaçar, Jaaõa e Madura, e outros lugares muitos. E tambem estas naço~ees tratam nos outros portos. Este porto estaa dous dias d’amdadura da cidade de Dayo, homde o rey estaa sempre d’asemto, asy que este hé o de que se há de fazer fumdamemto. Estaa casy apeguado com a terra da Jaaõa, somente se mete no meyo Chemano, e de Chemano a este hé hu~u dia e hu~ua noyte, com bom vemto. Aqui a este porto acodem as mercadarias de todo ho regño, hee este porto de boa hordenamça, tem juizes, justiças, espriva~es. Dizem que por esprito tem ja ‘quem fezer taall avera tall’, por ley do regnño.986 Amquorã neste porto muytos juncos. Ho porto de Chemano.987Ho porto de Chemano hé o seisto porto. Este nom hé porto que nelle amcor~e junquos demtro, somemte na barra, segumdo dizem, outros dizem que sy. Neste vivem muitos mouros. Ho capitam hé gemt~ıo. Hé do rey de Çumda, aqui se fez o estremo do regnño. Hé Chemano de bõo trato, trata a Jaõa tambem com elle, hé de boa povoaçam gramde. Estes senhores capitãees destes portos sam pesoas muito principaees, hé cada hu~u muito temido e gramdememte reveremciado dos moradores dos ta~es lugares. Sam gramdes momteiros, amdam o mais do tempo em prazer~es, tem cavallos bem ajaezados. Estes compitem gramdememte com os jaaõs, e os jaaõs com estes. Dizem que a jemte de Çumda hé mais valente que ha de Jaõa. Estes sam boõs homees e verdadeiros, e os jaaõs sam diabolicos, he ousados em treiçoees, e tem vaydade d’oufania do nome de serem jaos. Hos de Çumda e de Jaõa nom sam amiguos nem imiguos, cada h~uu garda o seu. Tratam huus com outros, e tambem se se acham no maãr cosairos, quem mais pode comete. E asy se usa ca, por mais amizade que aja antre elles, e mais paremtesquo. 984 Calapa era a grande cidade portuária do norte de Java, na embocadura do rio Chiliwung (ou Ciliwung), correspondendo à actual Jacarta.985 A cidade portuária de Lawe, na costa sudoeste de Bornéu.986 Tomé Pires referir ‑se ‑ia a alguma compilação de leis marítimas que existiria em Calapa, à se‑melhança do que se passava em Malaca, onde o direito marítimo fora objecto de sistematização no Undang Undang Laut (ou ‘código marítimo de Malaca’) 987 o porto de Chemano situar ‑se ‑ia na embocadura do rio do mesmo nome, identificável com o rio Chemano (ou Cimanuk).SumaOriental-PDF_imac.indd 194 12/5/17 2:02 PM
  • 195Ho regnno de Çumda nom comsemte mouros em sy, somemte poucos, porque se temem que por suas manhas nom se faça ~e elle o que hee feyto em Jaõa, porque hos mouros sam manhosos, e por manha se asenhoream das terras, porque poder nom tem descubertamemte. Acaba se o regno de Çumda, aguora emtraremos no regnño da Jaaõa, e dela se contara o que tenho semtido. Ylha de Jaaõa a rredor, começando de Choroboam atee Bulambuam. E primeiro se falara do rey jentio do sertão e do seu capitam moõr Guste Pate, he despois dos pates mouros das beiras do maãr, por hordem.A ilha de Jaaõa amtigamemte dizem que senhoreou atee Maluco, da banda do levamte, e gramde parte do ponemte, e que teve debaixo de sua obydi~ecia casy a ilha de Çomotora e todallas ilhas sabidas aos jaõs, e que tudo ysto tiverom desde gramde tempo. Atee obra de cem anños a esta parte se começou a demenuir seu senhorio, atee o poor no estado que aguora hee, como se adiante dira.988 Pollo quall poder e muita valia que a Jaaõa tinha, e por navegar ha muitas par‑tes e muyto lomgue, porque se afirmam que navegava atee Adem, e que seu trato primcipall era na Bonua Quelim e Bemgalla [e] Pacee, e que de todo tinha |149r| o trato em peso. Neste tempo todollos navegantes eram jemtios. De maneria que acolheo a sy nas beiras do maar mercadores tam gramdes e de tam gramde trãto, que se não sabia em partida aver tam groso e de tamta fazemda. Delles eram chiis, delles arabios, parses, guzarates, bemgallas, e de muitas naçõees. E forom em tanto crecimento que Mafamede e os seus sagaz~es989 detreminarom d’empremder suas seytas nas beiras do mãar na Jaõa com fazemdas. A ilha da Jaõa hé gramde, tera990 em rroda quoatrocemtas leguoãs, começamdo de Chemano e cercamdo a pola bamda de Bulambuam, tornamdo pola outra bamda a outro estremo. Nom falaremos nas beiras do maãr somemte, aguora do sertão, hé terra bem asombrada, nam alaguadiça, mais da feyçam de Purtuguall, e muyto sadia. Hé o rey da Jaõa jemtio, chama ‑se Batara Vojyaaya.991 Estes rex da Jaõa sam de gramde famtesya, tem que sua fidalguia nom tem pãr, sam grandes galamtes. os senhores jaãos gemt~ıos sam de gramdes atabiõs de suas pesoas, e de gramdes jaezes 988 Tomé Pires refere ‑se ao império de Majapahit, importante talassocracia que a partir da ilha de Java hegemonizou vastas regiões da Insulíndia no século xiv, entrando em declínio a partir de inícios do século xv.989 Leia ‑se ‘sequazes’.990 original: «terra».991 Referência a Batara Wijaya (ou Brawijaya VII), soberano de Majapahit anteriormente refe‑renciado.SumaOriental-PDF_imac.indd 195 12/5/17 2:02 PM
  • 196de cavallos, sam de cryses, espadas, lamças de muitas maneiras, todas lavradas de tauxias d’ouro.992 Sam gramdes momt~eiros cavalgadores, [tem] estribos todos de tauxia d’ouro, selas marchetadas, nam tem o mundo em nada. Sam tam senho‑res tam emlevados em senhores jaos, que certo nom há naçom que a elles se posa comparar em gramdes partidas nestas partes. Por jemtileza amdam trosquiados ha meia993 trosquia, e sempre correm a mão polos cabellos da testa pera cyma, he nã como nos, e disto se prezam muyto. Sam os senhores da Jaaõa tam reveremceados como deoses, de gramdes acata‑memtos e de gramdes çumbayas.994 Hee a terra da Jaaõa demtro muito povoada, de muitas cydades e muyto gramdes, amtre as quaes hé a gramde cidade de Dayo,995 homde o rey estaa d’asemto, e aly hé a sua corte. Dizem que hee sem numero a jemte que anda na corte. os reis nom se mostram ao povoo, somemte hu~ua vez [ou] duas no anño. Estam em seus paaços, como os reis de Cochim na cova,996 e aly estam com todos os prazeres e com festas, com gramde copia de molheres suas e mancebas. Dizem que pera serviço destas molher~es tem o rey da Jaaõa mill homees capados, e estes amdam vestidos como molher~es, e tem os cabellõs como diademas, da propia feiçam.997 E porque os jaaõs comfiados em suas pessoas e dados a esta vida tem perdida grãde parte de suas terrãs, os rex nom mamdam nem sam avidos, somemte o seu viso rey e capitam mõr, que cada hu~u tem. E o que aguora reje a Jaõa hé Guste Pate,998 seu viso rey e seu capitam moor. Este hé conhecido e acatado por rey, a este obedecem todos os senhores da Jaõa, a este acatam. Este governador mamda em tudo, este tem o rey da Jaaõa de sua maão, este lhe manda dar de comer, o rey nom emtemde em nada, nem lhe compre. Aos jaaos nom lhe apomtes a maão do imbiguo pera cyma, nem acenes chegar lhe com a maão hà cabeça, por ysto matam.999 992 Tauxia é uma obra de metais embutidos.993 original: «ma»; leitura conjectural.994 Sumbaia ou zumbaia, do malaio sembahyang, saudação reverencial.995 Tomé Pires parece transcrever novamente o termo sundanês dayeuh ou dayuh, que designa ‘grande cidade’ ou ‘capital’. Refere ‑se aqui à capital de Majapahit, que se situava em Trowulan, nas proximidades da actual cidade de Mojokerto, mas que em finais do século xv parece ter sido transfe‑rida para Kediri, mais a sudoeste, ambas na parte leste de Java.996 Esta curiosa observação poderá derivar do facto de os reis de Cochim serem brâmanes, tendo por costume fazer retiros espirituais, para meditação, em grutas ou cavernas.997 A existência de eunucos na corte javanesa de Majapahit é controversa, embora verosímil; mas o número referido por Tomé Pires é certamente exagerado. Muito eunucos que na época serviam em diferentes cortes asiáticas eram oriundos de Bengala, como antes foi referenciado.998 o termo gusti equivale em javanês a ‘senhor’; Guste Pate era o primeiro ‑ministro de Maja‑pahit.999 Tocar na cabeça de alguém, de facto, era extramemente insultuoso no mundo javanês.SumaOriental-PDF_imac.indd 196 12/5/17 2:02 PM
  • 197Guste Pate.Chama se o viso rey da Jaaoõ e seu capitam mõr Guste Pate. Amtes se cha‑mava Pate Amdura.1000 Este hé o que mamda toda a Jaõa nos lugares e terras dos jemtios, e outrem nengu~e nam. Hé Guste Pate sogro do rey da Jaõa. Este Guste Pate hé omem cavaleiro, anda senpre na guerra, tem sempre guerra com os mourõs das beiras do maar, primcipallmemte com ho senhor de Dema.1001 Quando vay a guerra, dizem que levara duzemtos mill hom~ees de peleja, dos quaees seram dous mill de cavallo, e espimgardeiros quoatro mill. Ysto me contou o rey de Tubam,1002 e porque sam gramdes amiguos, e o senhor de Tubão hé seu servidor, acrecemtara em seu estado.1003 Sam os jaõs caçadores, tem libr~ees1004 muitos e fremosos, de coleiras e arganees1005 d’ouro e de prata. |149v| Sam os jaaõs homees que se esprevem huuã vez; atee nom averem reposta nom escrevem outra, posto que muito lhes releve. E ysto em enbaixadas e cousas semelhamtes. Sam hos jaõs hom~ees ousados e detreminam a morrer. Sam tafuis1006 jugadores, jogam gramdememte a sua arte, e em tamto que aas vezes ficam os filhos no jogo.1007 Amocos.1008Amtre as naçoes nom há hom~ees amoqos como a dos jaaõs. Amõquos quer dizer hom~ees detreminados a morrer. Delles o fazem despois de tomados do vinho, e ysto hé a jemte baixa. Porem os fidallguos tem desafios e custuman se gramde‑memte amtre elles, e morrem por cousas de suas deferemças, hé asy custume da terra. Delles se matam a cavallo e delles a p~ee, segumdo seu comcerto. 1000 Provável transcrição de Pate Udara, que teria sido primeiro ‑ministro em Majapahit antes de Guste Pate.1001 Demak, potentado javanês adiante referenciado.1002 Esta nota sugere uma visita de Tomé Pires ao potentado de Tuban, na costa setentrional da ilha de Java, que adiante é referenciado.1003 ou seja, a informação seria exagerada.1004 Leia ‑se ‘lebréus’, cães de caça.1005 Arganel é uma argola ou anel que se coloca no focinho dos animais.1006 Taful é o mesmo que jogador viciado.1007 Ou seja, apostam a posse dos próprios filhos.1008 Amouco, termo anteriormente referenciado. Tomé Pires parece ser o primeiro europeu a descrever a prática de se ‘fazer amouco’, na época frequente no mundo malaio ‑indonésio.SumaOriental-PDF_imac.indd 197 12/5/17 2:02 PM
  • 198Costume na morte dos jaaõs.Hé custume da Jaõa e das terras que despois diremos que quamdo se o rey fyna, muitas de suas molheres e mamcebas, as primcipaes, se queymam, e allguuã jemte do rey, e asy se faz quamdo os senhores morr~e, e quallquer outro omem homrrado. Ysto hé amtre os jemtios e nam amtre os jaõs que sam mouros. He as molheres que se nam queymam, afogam se por sua vomtade, com tamjeres he festas, e as mais primcipãees molheres e om~ees, como sam fidallgos, quamdo seus maridos morrem, morrem aas crisadas. E asy o fazem os fidallguos que querem morrer com ho rey. A jemte mais baixa se afogua no mar ou se queyma. Tapas da Jaõa.Tapas quer dizer ouservamtes como beguinos. Sam em Jaõa destes tapas obra de cimqoemta mill.1009 Sam amtre elles tres ou quoatro hord~es, huus nam comem arroz, nam bebem vynho, sam todos virg~ees, nom conhecem molh~eres. Trazem na cabeça hu~u certo trajo que sera de hu~ua gramde braçada, e na pomta revira como baguo, e tem no emcaixamemto da cabeça cimquo estrellas bramcas. E a tall emvem‑ çam hé da maneira dos panos das pineiras1010 pretas. Estes sam adorados tambem dos mourõs, e crem gramdemente nelles, dam lhe esmollas, folguam dos tae~es virem a suas casas. Nom comem em casa de nenguem senom no campo, amdam do~us e do~us por hordenança, e tr~es, e nã amdam sõos. Naquellas mitras nom lhe toquam, dizem que sam sagrados. Eu vy na Jaãoa destes, por vezes dez ou doze.1011 Costume da observamcia das molheres jaõas.Muitas molheres jaõas nam casam, e virg~ees tem casas nos momtes, e alii acabam suas vidas. outras despois que perdem hos primeiros maridos se fazem beguinas, as que se nom querem queimar, e destas dizem que há na Jaõa gramde num~ero, que seram mais de cem mill molh~eres. E despois fazem a vida castamemte, e morrem niso, e tem casas em lugares pera o taall apartamemto. E asy as molheres como hos homees pedem de comer por amor de Deus. 1009 Tapa, do sânscrito tap, designa o asceta ou a prática do ascetismo. o número de tapas indi‑cado por Tomé Pires parece algo exagerado.1010 o mesmo que peneiras.1011 Mais um indício de uma visita de Tomé Pires à ilha de Java.SumaOriental-PDF_imac.indd 198 12/5/17 2:02 PM
  • 199Momos da Jaõa.A terra da Jaõa hé de momos e de caratulas1012 de diversas feiço~ees, e asy o sam molh~er[e]s como hom~ees. Sam d’amtrem~eses, de damças [e] d’estorias, comtrafa‑zem, trazem vestidos de momos e todos seus trajõs, sem duvida sam graciosos. Tem musyca de synos, tamjem como orgaõos, o som de todõs de todas vezes.1013 Estes momos de dia e de noyte sam de mill gimtilezas a estas semelhamtes. De noyte fazem sombras de diversas feiço~ees, como beneditos em Purtuguall.1014 Boys da Jaaõa.Tem os jaõs bois d’estado, anafados, como ginetes de cornos lavrados e cas‑qos, e estes trazem dous em carreta, e armada sobre a carreta camaras de fremosa maçanaria de marf~ıis e doutros paõos, e alii paseam quamdo querem.1015 Sam os bois ensiinados propiamemte como cavallõs, e amdam com a cornadura pera diamte do teatro,1016 e amdam recamdo.1017 E ysto hé trajo limpo e parece muito gracioso, e hé cousa d’estado. E as mercadarias todas se trazem em carretas de bois por toda a ilha de Jaõa. |150r| Capados da Jaõa.Custuma se gramdememte na Jaõa capados, amdam vestidos ao trajo das molheres, trazem os cabellõs por cima de meio da cabeça, de maneira de diadema. Estes servem da guarda das molher~es, porque os jaaos sam homees muito ciosos, e nemgem nom lhe vee as molheres, senõ a jemte baixa. Mas todo fidallguo cava‑leiro, homem riquo, garda se de serem vistas suas molheres de nengu~e. E sobre isto 1012 Momo é uma representação teatral quase mímica, enquanto carátula é o termo espanhol para máscara.1013 Referência ao gamelão, instrumento musical típico da ilha de Java.1014 Tomé Pires refere ‑se ao wayang, o tradicional teatro javanês, que pode ser representado por actores ou com bonecos ou fantoches. Uma das variantes da arte teatral javanesa é precisamente o teatro de sombras. A palavra «beneditos» utilizada no presente contexto é de difícil interpretação, mas relacionar ‑se ‑á com algum tipo de representação teatral. Será que se trata de um lapso por ‘bonifrates’, palavra que faria todo o sentido?1015 Tomé Pires refere ‑se aos palanquins utilizados pela nobreza javanesa. Quanto aos «bois», tratar ‑se ‑ia possivelmente de banteng, uma espécie de bovino típica da ilha de Java (Bos javanicus, d’Alton).1016 o termo «teatro» parece referir ‑se a um palanquim de madeira, muito elaborado.1017 Tratar ‑se ‑á de lapso por «recuamdo»? Neste caso, Tomé Pires quereria indicar que os bois puxavam o palanquim recuando.SumaOriental-PDF_imac.indd 199 12/5/17 2:02 PM
  • 200sam mãis promptõs a morrer que sobre tudo. Esta a terra em ysto tam abituada que nam perdem nada de seu costume, e ysto gardam inteiram~ete. Custume do rey da Jaaõa quamdo sae fora a follguar com suas molheres.Quamdo o rey há de sair, hé lamçado pr~egam na cidade que o rey vay follguar ou caçar. Todo fydallguo de quallquer estado e comdiçam nom saie de casa, nem nenh~uu homem omrrado. o rey saie com dous [ou] tr~es mill homes de lamças d’alvados1018 d’ouro e de prata. Estes vam diamte, emtam suas mançebas em carrõs, e postas por mui fresca maneira, e ellas muy bem ataviadãs, e despois suas molheres em alifamt~es adornados ha maneira de veiros.1019 E cada hu~ua das mancebas e molheres levam detras sy, a pee, vimte [ou] trimta molheres, cada hu~ua segumdo hee. E detras ho rey com seu Guste Pate vam paseamdo, e levam libre~es e galguõs e outros qua~ees,1020 levam lanças de caça de tres pomtas de fremosas tauxiãs.1021 o que se acha na rua por homde o rey há de hir ou viir morre por isso, posto que seja quem quiser, nom semdo molh~er ou moço de ydade atee dez anños. Desta propia maneira sãem os senhores da Jaõa, os que ssam senhores ~e suas terras, so[b] penña de morte. o dia que vay a caça nom tem menos acatamemto em sua terra que o rey na sua, asy matam como se fosem reis. Este hé o costume da Jaõa. ouvy ysto em Tubam desta propia maneira, nam somemte do senhor de Tubam, mas este estado tem seu jenrro, que herda Tubam por sua morte. E asy vy em Cedaio.1022 Hordenamça da Jaõa acerqua dos moradores.Todo homem da Jaõa, ora seja riquo ou pobre, á de teer em sua casa cris he lamça he adarga, nom sam todas adarguas de pão redomdas. E nemhu~u omem de idade de doze anños atee oitemta nam há de sair de casa sem cris na cimta. Traze[m] no nas costas, como se custumavam hos punhaees em Purtugall, porque as armas valem baratas em Jaõa e a terra estaa neste custume. 1018 o alvado é um anel circular de metal, onde se introduz o cabo da lança. 1019 Veiro é um termo heráldico que designa a guarnição metálica dos brasões; trata ‑se possivel‑mente de uma referência aos panos ornamentados que cobriam o elefante.1020 Leia ‑se ‘cães’.1021 Tomé Pires refere ‑se a lanças javanesas cerimonais com ponta em tridente, conhecidas como tombak trisula.1022 Mais duas referências a visitas de Tomé Pires a cidades portuárias javanesas.SumaOriental-PDF_imac.indd 200 12/5/17 2:02 PM
  • 201Maneira da cortesiia da Jaõa.Aos pates se faz a reveremcia e cortesia de latria,1023 as maãos em cima da cabeça, os seus naturaees, e hu~us a outros poem a mão dereita nos peitos, e quamdo falam cruzam as maõs, e ysto a jemte baixa com os senhores. E falam de lomge, obra de quoatro [ou] cimquo pasadas, e as mais vezes por terceiras pesoas, porque este hé o cortesao costume, aos fidalguos falar lhe por terceira pessoa quamdo esta acompanhado. As cortesyas do sertaõ da ilha de Jaõa, da corte do rey, eu as nam vy; nas beiras do maãr, nas terras dos mouros, vy. Estes pates mouros, como se despois dira, sam gramdes senhores, e quamdo falam ~e cortesyas e jemtilezas dizem que na corte hé tudo, e rriquezas. E falam com gramde acatamemto nas cousas do Guste Pate. Dizem que os jaos ja tiverom amtigamemte afenidade com os chiis, e que hu~u rey da China mamdou a Jaõa huuã sua filha pera casar com Batara Raja Çuda,1024 e que a mamdou a Jaõa com muita gemte da China. E que lloguo mamdou a moeda das caixas que ora corre, e dizem que era h~uu junco delas carregado, e que aquelle rey era vasallo do rey da China, nam trebutario, e que os jaos matarom os chiis todos ~e Jaõa por treiçam. outros dizem que nom foy taall, mas que nunca teve paremtesco nem conhecimento hu~u com outro rey, e que as caixas da Jaõa traziam chiis a Jaõa por mercadoria, porque ja amtes de Malaqua ser tratavam os chiis na Jaõa. Aguora de cem annos a esta parte nunca la forom.1025 |150v| Portos que obedecem ao rey da Jaaõa e a seu Guste.Tres portos sam os que obedecem ao d~ıto rey, hu~u hé de mouros e o outro de jemtiõs, e o outro hé hu~u filho de Guste Pate. Scilicet, Tubam, que hé Daria Timã,1026 este hé de mouro vasallo obydiemte ao ditõ rey, e outro hé Bulambuam, que he de Pate Pimtor,1027 e o outro he Garuda, que hee do filho de Guste Pate.1028 1023 Latria, o mesmo que adoração.1024 os termos sânscritos bhattara e raja podem significar ‘venerável rei’, e aplicavam ‑se aos so‑beranos de Majapahit. Pode tratar ‑se de uma referência a Bhre Kertabhumi, soberano de Majapahit entre 1468 e 1478. Entretanto, em diversas regiões da Insulíndia surge uma puteri (ou princesa) chinesa associada a mitos fundacionais. 1025 As relações formais entre Majapahit e a China parecem ter abrandado por meados do século xv.1026 Personagem não identificado, que seria senhor de Tuban aquando da visita de Tomé Pires àquele porto. Aparece adiante referenciado com «Dana Timao De Raja».1027 Menak Pentor, senhor de Blambangan, porto e potentado da parte oriental da ilha de Java.1028 Garuda, adiante referida como «Gãda» ou «Gamda», localidade entretanto desaparecida da parte mais oriental da ilha de Java, que era governada por Pate Supetak, filho de Guste Pate.SumaOriental-PDF_imac.indd 201 12/5/17 2:02 PM
  • 202Mercadorias da Jaõa e mantimentos.Tem a terra da Jaõa somemte a dos jemtios arroz sem comto, de quoatro [ou] cimquo maneiras. Hee muito allvo, melhor que de nenhuuã parte outra. Tem bois, vacas, carneiros, cabras, bufarõs sem numero, certamemte porquos, toda a terra hé chea. Tem muitos veados e de gramde gramdura, fruitas muitas, pescados nas beiras do maar muito. Hé terra muito abastada, mais que nenhu~ua que qua se saiba. Hé terra de fremosos ar~es, tem aguoas muito boas, tem gramdes serranias, gramdes chapas [e] vales, terra como a nosa. Hé a jemte muito nedea e luzida, sem borbulha, de boõs corpõs, como a tall terra requere. Sam home~es nam pretos, ma[i]s sobre alvõs que sobre pretos, e asy como nos afagamos os cabellos pera baixo, asy o fazem elles ao reves por gemtileza. Ysto nom hé deste capitollo muito a preposyto. Tem mais a Jaõa vinhos a sua guisa, gostosos, e muitos azeytes, nom tem mamteigas, n~e queyjo, nom o sabem fazer. Tem a Jaõa ouro em boa camtidade, de toque d’oito mates e oyto e meio, tem muitos estopazios,1029 tem cubebas atee vimte [ou] trimta bahares cad’ano, e nom nas há em outra parte. Tem pimemta lomga, tem tamarimdõs pera carreguãr mill naaõs, os matos sam de mui boa canafistola, tem cardamomo nom muito, arroz, que hé a primcipall mercadoria, legumes, espravos. Por mercadaria tem imfinidade de panos jaos que traz~e a vemder a Malaqua. Há mais na Jaõa mina d’estopaçios, tem synos de cobre he fruseleira que abastam a estas partes, hee gramde merca‑doria.1030 Mercadorias que vallem na Jaõa e vam de Malaqua.Todo panno de Cambaya e quamtas mercadarias della vem a Malaqua, todas valem em ha Jaõa. Pannos queliis emrrollados de ladrilho gramde e pequeno, tafo‑rio, topitis e doutras sortes de pannos.1031 De Bemgalla, synabafõs de todas sortes, curados he cru~us, e de todas sortes outras. De maneira que se deve notar quamtos se gastaram em tam gramde povo. E todos este[s] se repairã de Malaca, e algu~ua cousa pouca alcamçam por viia de Pamchur alguuã ora, mas nom hé nada. He val~e muito rabos de bois [e] vaquas bramcõs que vem de Bemgalla e do Guzarate.1032 1029 Isto é, ‘topázios’.1030 os sinos fabricados de diversos metais eram uma importante mercadoria do comércio orien‑tal.1031 O termo «taforio», não identificado, poderia ser um lapso por ‘tafecira’, um tecido de algodão de origem indiana; tupiti, do cingalês tupatti, é um tecido grosseiro de algodão.1032 Em diversas regiões da Ásia utilizavam ‑se abanos ou enxota ‑moscas, conhecidos como chau‑ris, fabricados de caudas de iaque, de cavalo ou de boi.SumaOriental-PDF_imac.indd 202 12/5/17 2:02 PM
  • 203Moeda e pesos da Java.A moeda da Jaõa sam caixas da China, vallem cada mill vimte cimquo calais, dos de cemto por tres cruzados. o nome de mill chama se puou,1033 e por mill vos dam menos trymta, que asy he custume da terra, tiram aquelles trimta de dereytos pera o senhorio do tall lluguãr. E por estes se faz toda mercadoria. A Jaõa nõ tem moeda d’ouro nem de prata, folguam muito com nosa moeda, primcipalmente com a moeda dos purtugueses. Dizem que a terra homde se tall faz que deve de ser como Jaõa. A tumdaia ou taell da Jaõa he mõr a quarta parte que a de Malaqua. Vall a tumdaya d’ouro d’oito mates doze mill caixas, que valem nove cruzados a rezam de mill e trezentos he trimta e tr~es e hu~u terço por hu~u cruzado. Trazemdo o ouro da Jaõa a Malaqua ganha se em cada cimquo hu~u. Pesam cada cemto e quoremta caixãs hu~u arratall dos nosõs de dezaseis onças. Tem o cate duzemtas e quoremta caixas de Jaõa, porque o bahar de Jaõa tem duzemtos cates, e pesa quoremta e oito mill caixas. Mas eu nom comprey senom pollo que levava. A guãnta de Jaõa do arroz e legumes hé mais pequena que a de Malaqua, vymte [e] cimquo gantas de Jaaõa fazem vimte em Malaqua.1034 E destes pesos he medidas se falara geerallmemte em todallas partes em outro livro.1035 Nom se ganha casy nada nas mercadarias que de Malaqua vam a Jaõa, somemte nos retomos se ganha bem. |151r| Dereitos que se pagam em toda a Jaõa he presemtes dos que la vam tratar com mercadorias por viage~es.Hos custumes dos dirreitos que se paguam em Jaõa das mercadarias que a ella vam por maãr, o primcipall hee o direyto d’amcoragem, e por este se pagua pre‑semte, e da mercadaria que se vemde na terra se pagam de dirreitos de cada dez mill caixas quoatrocemtas. Ja tenho dit[o] õs senhores da ilha, aguora começarey de comtar dos pates mouros que estam nas beiras do maãr, os quae~es sam poderosõs na Jaõa e tem todo ho trato, porque sam senhores dos jumcos e de gemtes. 1033 Palavra não identificada; mil, em javanês, corresponde a sewu; em chinês, a qian.1034 Ganta, do malaio gantang, medida que equivale a 1,75 litros.1035 Esta referência a outro «livro» que Tomé Pires teria em preparação é deveras curiosa, já que nenhuma outra obra que lhe possa ser atribuída foi até à data localizada, muito embora na própria Suma Oriental seja possível recolher bastas informações sobre estas matérias. Este manuscrito, se alguma vez existiu, poderia estar na origem do mais tardio manuscrito Livro dos pesos, medidas, e moedas, preparado em 1554 por António Nunes, alegadamente com base numa obra mais antiga que encontrara em Goa.SumaOriental-PDF_imac.indd 203 12/5/17 2:02 PM
  • 204De como se fizerom mouros os senhores jaaos nas beiras do maãr.No tempo que Jaaõa era de jemti[o]s na beira do maãr, vinham muitos mer‑cadores pars~es, arabios, guzarat~es, bemgallas, malaios, e doutras naçoees, amtre os quae~es avia muitos mouros. Começaram [a] tratar na terra e fazer se riquos, teverom maneira de fazer mezquitas e vierom de fora parte moulanas,1036 de maneira que vierom em tamto crecimento que os filhos destes taes mourõs eram ja jaõs e riquos, que teverom maneira como d’obra de setemta anños a esta parte, em algu~us lugares, os propeos senhores jaos jemtiõs se tornarom mourõs. E estes matava[m] ños, e os mouros mercadores apoderavã se dos taees lugares. outros tinham maneira de fortalecer os lugares em que moravam, e tomavam gemte da sua que em seus juncos navegavam, e matavam os senhores jemtios, e faziam se senhores. E desta maneira se asenhoreavã das beiras do mãr e ficarom com o trato e poder da Jaõa.1037 os quaes senhor~es pates nam sam jaos d’amtiguidade da terra, somemte decemdem de chiis, de parses e quelis, e das naçoes que ja dixemos. Porem, cr[i]a ‑ dos estes nas oufanias dos jaaõs, e mais pollãs riquezas que de se~us amtecesor~es lhe ficarom, tem mais a fidalguia e estado jaõo em peso que os de demtro, e cada hu~u hé reveremciado em sua terra como se fose outra cousa muito mõr. Aguora se começara a dizer de cada hu~u e de sua terra. As terras destes estemdem se na terra atee as serranjas, que seram sete ou oyto leguoãs. Porque noso recomtamemto vem dirreitamemte polla costa de Çumda a emtrar nas terras de Jaõa atee Chemano, segundo hé dito, aguora tornar se a a falar de Choroboãm, e acabaremos ~e Bulambuãm, falamdo de cada hu~u o que hé mouro e que juncos he j~ete tem. E primeiramemte falaremos de Choroboam. Choroboam.1038A t[e]rra de Choroboam hé jumto com Çumda, chama se o senhor della Lebe Uça,1039 hé vasallo de Pate Rodim, senhor de Dema. Este Choroboam tem porto bom, e nelle avera tres [ou] quoatro juncõs. Tem muito arroz e muitos manti‑memtos, tera atee dez lancharas pequenas. Dizem que aguora nom tem tamto. Este lugar de Choroboam tera atee mill vizinhõs. Neste lugar de Choroboam 1036 Moulana, do árabe maulana, ‘nosso senhor’, designava o letrado muçulmano.1037 A islamização do litoral setentrional de Java desenvolveu ‑se ao longo do século xv, a partir da região de Agracim (ou Gresik).1038 Cirebon (ou Chirebon), porto da costa norte de Java.1039 o «Lebe Uça», senhor de Ceribon, seria um mercador muçulmano (lebe, em tamul) de largas posses, provavelmente chamado Musa.SumaOriental-PDF_imac.indd 204 12/5/17 2:02 PM
  • 205mora Pate Quedir, o que estava em Upe alevamtado.1040 Avera em Choroboam mercadores como Pate Quedir cinquo ou seis, porem todos fazem homrra ao Pate Quedir, e o senhor de Choroboam [também], porque o tem por mercador ousado e cavaleiro. Este lugar de Choroboam avera quoremta annos1041 que era de jemt~ıos, e o senhor de Dema que emtam era tinha hu~u espravo d’Agacii, e fez o dito espravo por capitam comtra Choroboam, e tomou Choroboam, e o senhor de Dema lhe deu o titollo de pate de Choroboãm. E este seu espravo d’Agaci que foy senhor de Choroboam he avoo deste Pate Rodim que oje hé senhor de Demaa.1042 Este luguar de Choroboam pollo riio demtro obra de tres leguoas emtram d~etro jumcos. Segumdo dizem, nom hé cousa forte este lugar. Hé de melhor madeira que nenhu~u lugar da Jaaõa pera fazer jumcos,1043 posto que a Jaõa toda nom hé de muita madeira. |151v| Terra de Japura.1044A terra de Japura comtermina de hu~uua parte com Choroboãm e da outra com a terra de Loçary,1045 hé terra de dous mill moradores em povoaçoes, hé de Pate Rodim. Chama se o pate de Loçary Pate Codia.1046 Tem este luguar atee cimquo lamcharãs, tem dous juncõs. Tem muito arroz este lugar, e cera, mell, mamtimemtõs. A gemte de Japura sam lavrador~es. Hé o pate deste lugãr cavaleiro, primo com irmão de Pate Rodim, tem obidiemcia ao dito Pate Rodim, senhor de Demaa, estaa casy como capitão seu no dito luguar. Este lugar de Japura tomou ho pay deste Pate Rodim por manha, e emtam ficou lhe na maão ate oje. Tem porto e vay por ryo a povaçãm. Terra de Teteguall.1047A terra de Teteguall comfyna de hu~ua parte com Japura e da outra com Çama‑ram. Tem este luguar mais arroz que nenhu~u lugar da Jaõa destes das beiras do mãr. 1040 Pate Quedir (ou Pate Kedir) era um abastado mercador javanês, que fora nomeado por Afonso de Albuquerque, após a conquista de Malaca, como responsável da comunidade javanesa que habitava no subúrbio de Upe (ou Upeh), mas rapidamente se incompatibilzou com os portugueses, estabelecendo ‑se em Cirebon.1041 Original: «amos», decerto por lapso.1042 O assunto é referido mais adiante, na descrição de Demak («Demaa»).1043 Segundo parece, a região de Cirebon era rica em madeira de teca.1044 Japura, região da costa norte de Java, entre Cirebon e Losari.1045 Losari, porto da costa norte de Java, um pouco a leste de Cirebon.1046 Personagem não identificado.1047 A região de Tegal, na costa norte de Java.SumaOriental-PDF_imac.indd 205 1/3/18 4:31 PM
  • 206o pate deste lugar hé hu~u tiio de Pate on~uz, hé da obidiemcia do senhor de Dema. Tem porto e riio homde carreguam de muito arroz e doutros mamtimemtos. Tem este hu~u jumco e as vezes nom tem nada, tem lamcharas pequenãs. A terra de Teteguall dyzem que hé terra de quoatro mill vizinhos, vivem em povoaço~ees nom muito jumtas. o lugar de Teteguall terra obra de mill e quinhemtos vizinhõs. Tem este lugar atee sete ou oyto mercadores. Terra de Çamaram.1048Çamaram junta se de hu~u cabo com Teteguall e do outro com a terra de Demaa. Chama se o pate de Çamaram Pate Mamet,1049 hee sogro de Pate Rodim, senhor de Dema, hé da obidiemcia de Dema. Tem porto, nom muito boõ. Tem arroz e mamtimemtos. Tem este lugar tres jumcos he quoatro ou cimquo lamcha‑ras. Tem obra de tres mill morador~es. Aguora nom tem jumco nem jumca,1050 hé terrã sem n~ehuuã cousa pera poder naveguãr, porque os que tinha lhe queimarom em Malaqua e nom tem poder pera fazer outros, segumdo todos dizem, etc.1051 Terra de Demaa.1052A terra de Dema comfina de hu~ua parte com Çamaram e da outra com terra de Tidanã. Hee a terra de Dema mor que as que sam ditãs de Choroboam atee Demãa.Tem a cidade sua obra de oito atee dez mill casãs, segumdo afirmam. Hé senhor desta terrã Pate Rodim, este hé o primcipall pate da Jaõa, deste fazem cabeça todos os senhores da Jaõa, os que sam seus amiguos. Foy o pay de Pate Rodim cavaleiro, pessoa de gramde sysõ.1053 E o dono1054 de Pate Rodim foy hu~u home d’Agacii, hu~us dizem que era espravo do senhor de Dema em cujo tempo elle veio teer a Dema, outros dizem que era mercador, mais autoridade se daa a ser espravo.1055 Este Pate Rodim hé muiito aparemtado com os senhores da Jaõa, porque seu pay e avoo tem muitas filhas, e todas as casou com os pates primcipães. Tem este tamto poder que sojuguou toda a terra de Palimbam e de Jamby e as ilhas de 1048 A região e porto de Semarang, na costa norte de Java.1049 Personagem não identificado.1050 Talvez se trate de lapso por ‘lanchara’.1051 Tomé Pires refere ‑se ao ataque liderado por Pate onuz contra Malaca.1052 Demak, na costa norte de Java, era na época o maior potentado islamizado da ilha.1053 Raden Pate, primeiro sultão de Demak (r. 1479 ‑1513), seria filho de Brawijaya VII, sobe‑rano de Majapahit (e antes referido como «Batara Raja Çuda»), e de uma princesa chinesa ou co‑chinchinesa. As referências de Tomé Pires levam a crer que o filho de Raden Pate era conhecido pelo mesmo nome, e governaria em Demak aquando da viagem de Tomé Pires a Java.1054 Deverá ler ‑se ‘avô’, de outra forma a frase não faz muito sentido.1055 Tomé Pires refere mais atrás que o avô de Raden Pate teria sido pate de Cirebon.SumaOriental-PDF_imac.indd 206 12/5/17 2:02 PM
  • 207Menamby,1056 e muitas outras ylhas comtra Tamjompura, e todo trouxe a sua obidiemcia. Hee de gramde acatamento este Pate Rodim. Das terras deste vem o arrõz e outros mamtimemtos a Malaqua. Foy homem ho pay deste que de suas terras podera ajuntar quoremta jumcos. Aguora nom ajuntara dez, porque este Pate Rodim fiquou moço, e aguora sera de idade de trimta anños, e deu se a cousas de mamcebas, e sua terra quebrou muito do que dantes era. E mais o que lhe ficou todo lhe foy destruydo em Malaqa, quamdo Pate onuz seu cunhado veyo pelejar, na era de quinhentos e doze. Tem este muita jemte de peleja, tera em Jaõa trimta mill hom~ees e em Palimbaõ tera dez mill. Este tem comtinoadamente guerra com ho Guste Pate e com o senhor de Tubam, tem des‑pejada muita gemte na guerra. He hé pobre e ~e Dema nom tem somemte cimquo ou seis pangajavas, e nom tem junquo n~ehu~u. E se este nom pede misericordia a Malaqua, de vasalajem, pera se emparar, e ssuas mercadorias ter~e furo,1057 sera de todo perdido, porque por av~er tr~es ou quoatro anños que nam trata, |152r| hé gastado gramdememte. Asy que de necesydade lhe comv~e ser trebutario a Malaq~ua pera sua redemçam, e o povo ja se vay de sua terra pera outras, por nom aver trato de mercadorias. Todas as novidades de suas terras este despendia em Malaqua, asy que elle mamdava em seos jumcos e pamgajavãs, como mercadores de Malaqua em juncos hiam a sua terrã, do qual trato aviia gramd~es copias de mercadorias elle a sua maão, e tinha gramde proveito. He porque isto nom faz aguora, hee despeso, e dizem que despemdeo mais de cem mill cruzados, elle e Pate onuz, na armada que veio sobre Malaca. Nom hé duvida estar gastado, porque asy se afirma. Este nom tem vida se nom faz fumdamemto de Malaqua. Gastan se nas terras deste gramdes copias de mercadarias, asy dos guzarãtes como dos quel~ıis e da China e Bemgalla, das qua~es aguõra a terra hé falecida pollas rezo~ees que sam ditas. Dema tem riquo riio, nom emtram nelle jumcõs senõ de mare ceha.1058 Terra de Tidanã.1059A terra de Tidanã detremina se de hu~ua parte com Dema e da outra com Japara. Este pate chama se Pate orob,1060 hé tiio de Pate onuz, irmãao de seu pay. Dizem que nam obedece a nemguem, este hé omem sesudo. Segundo dizem, 1056 Parece tratar ‑se da ilha de Belitung, antes designada como «Monomby».1057 Isto é, ‘terem saída’.1058 Leia ‑se ‘cheia’.1059 Tedunan, potentado da costa norte de Java, a nordeste de Semarang, que poderá correspon‑der à actual localidade de Tahunan.1060 Personagem não identificado.SumaOriental-PDF_imac.indd 207 12/5/17 2:02 PM
  • 208aguora nom tem jumco, tem duãs ou tres pamgajavas. Tem riio bom, nom emtram juncos demtro. Tem esta terra muyto arroz e muitos mamtimentos. Tera a terra de Tidanã dous ou tres mill hom~ees, e peleja este muitas vezes com os do sertão, e ajuda o a gemte do Pate Rodim, porque o Guste Pate vem muitas vezes sobre Demãa e Tidonam [e] Japara, e faz dano nos da terra. Este dizem que guoverna o Pate on~uz e o Pate Rodim por comselho, e a elle hobedecem como a paremte, mas cada hu~u hé mais poderoso que o dito Pate orob. Terra de Japara.1061Aguora somos emtrados na terra de Pate onuz, ho cavaleiro de que os jaoos falam, porque dizem que hé na Jaõa gramde homem de peleja e gramde sesudo, e ouve muita terrã a sua maão. Este Pate onuz, seu avoo foy homem trabalhador das ilhas de Lauee1062 e esteve ~e Malaqua com mui pouca fidallguia e menos fazemda, e em Malaqua casou e ouve o filho que foy ho pay de Pate onuz, e em Malaca foy avemdo dinheiro, he tratava na Jaõa. E avera obra de quoremta anños ou mais cimquo que por estucia matou o pate [de] Japara, que era cousa fraqua e pouca cousa, de noventa ou cem vizinhos, e asy tomou a terra de Tidanã. Despois, e por sua estucia, foy taãll que ha povoou e liou se. Foy o mais nomeado senhor da Jaõa, em força e em boa companhia aos seus naturães. o porto de Japara estaa ao pee do gramde momte e muito alto, que se chama [...].1063 A terra de Japara comfina de huuã bamda com Tidonã e da outra com a terra de Rame. Japara hé emseada de fermoso porto, tem diamte do porto tres ilhas como as d’Upe,1064 e podem emtrãr gramdes naaos demtro. os que navegam pasando d’avamte Japara veem toda a povoacã. Este hé o milhor porto que atee’qui avemos dito, e na melhor parajem. Todos os que querem hir a Jaõa e a Maluquo vam dar comsiguo na terra de Japara. Hé bem asombrada terra. Foy hu~u hom~e tam ousado que trouxe a sua jurdição a ilha de Bamqua e a de Tamjompura, he Laue e outras ilhas, e fez sua terra gramde. Teve ja Japara muitos juncos, e era casy tam grãde senhor como o senhor de Dema. Hé certo que por cavaleiro tem Japara, e de mais jemte e de mais terra, Dema. E o filho Pate onuz quis ajuntar quamta fazemda fiquou de seu pay e quamta fazemda tinha Pate Rodim. E detreminaua de tomar Malaqua ao rey que foy de Malaqua, por hu~u descomtemtamemto que 1061 Japara (ou Jepara), porto e potentado na parte central da costa norte de Java.1062 Lawe, na ilha de Bornéu, adiante referenciado.1063 Espaço em branco no MP; trata ‑se do monte Muria, na região de Japara.1064 Provável referência a Pulau Panjang, uma ilha (e não três) relativamente próxima do porto de Japara. As ‘ilhas de Upe’ correspondem a Pulau Upeh, nas proximidades de Malaca.SumaOriental-PDF_imac.indd 208 12/5/17 2:02 PM
  • 209tomou por nom fazerem em Malaca homrra a hu~u capitam de hu~u junquo seu, como esperava. E neste meio tempo se ganhou Malaca pollo guovernador das Imdias Afonso d’Allboquerque. E quamdo ysto souberom, jumtos os moulanas e pessoas que avia primcipaes, diserom que homde podia ser mais justa sua empresa que tomarem a cidade aos portugueses. E [feito] este acordo, acabarõ |152v| sua armada em cinquo annos, com ajuda de Palimbão, e vierom sobre Malaqua obra de cem vellas, que a menos das cento nam seria de menos carga que naaõ de duzemtos ton~ees. E forom recebidos d’avamte o porto de Malaqua, omde nom esteverom amcorados mais que obra de seis oras. Amcoraram ao primcipio da noyte, e a meia noyte com o terrenho se forom, e tornarom obra de sete ou oyto a sua terrã, e as outras ficarom queimadas e alagadas, e outras tomadas. Morrerom obra de mill hom~ees e cativarom outros tamtos.1065 E aimda o Pate onuz no porto seu Japara nam estava seguro, e dizia que os purtugueses se ouveram bramdamemte com elle. E aguora amda a momtear. Hee Pate onuz mãcebo de idade de vinte cimquo annos, em fidalguia e em presunçam ma~ıs que todollos jaõs. Este estaa aguardamdo se lhe cometem pãz. Hee certo que elles ha hã de cometer, pollo que lhe compre aguora. Tem Jampara tres juncos e duas ou tres pamgajavas. Tem sua terra muito arroz, gasta se em sua terra, o que ja disemos da Jaõa. Hé casado com huuã irmaa de Pate Rodim, e pidia a ellrey que foy de Malaqua hu~ua filha em casamento, e mamdou ~ebaixadores sobre yso. Hé o porto de Japara ao pee de huua serra muyto alta, e faz esta serra chapa de tres [ou] qoatro leguoas, e ao pee de hu~ua chapa estaa Japara, em terra chaã, nom alagadiça mas muy boa e bem asombrada. Dizem que tem fremosas carnes e muitos pescados. Hee Japara certamemte a parecer chave de toda a Jaõa, porque jaz na pomta he hé meio de toda a Jaõa, porque tamto há dalii a Choroboam como a Agacii. Hé lugar de muito trato, porque hé porto, e dizem que dalii se espalhavã os mercador~es aas outras partes, nom falamdo em Agacii.Terra de Ramee.1066A terra de Ramee1067 hé apeguada de hu~u cabo a Japara e do outro a terra de Cajongam,1068 he porque Cajongam hé destruida por Guste Pate, nom teve mais 1065 Pate onuz organizou uma poderosa frota de mais de cem navios, com o objectivo de atacar Malaca; contudo, aportando à cidade em inícios de 1513, o ataque não se concretizou, e grande parte das suas embarcações foram destruídas pela armada portuguesa.1066 Rembang, porto e potentado na costa norte da ilha de Java.1067 original: «terra De rramee».1068 Localidade ou território não identificado, que se situaria na costa norte de Java, entre Rem‑bang e Tuban.SumaOriental-PDF_imac.indd 209 12/5/17 2:02 PM
  • 210moradores, Rame levou della e Tubam, asy que diremos que da outra parte se ajunta a terra de Tubam. Chama se o pate de Ramee Pate Morob.1069 Este hé tiio de Pate onuz, e Pate onuz filho de sua irmãa. Esta terrã tem muito arroz e tem madeira pera juncõs, e alii se faziam antyguamente. Aguora dizem que nom tem nenhu~u, he tera duas pangajavas, porque acorreo a Pate onuz ~e sua detreminaçam comtra Malaqua, e cada hu~u perdeo o que meteo na armada. Tem este gu~erra com os da terrã de demtro. Dizem que hé om~e que tera ~e sua terra quoatro mill home~es. Sam lavradores, vivem por suas novidades. Hee a terra deste de gramdes baias, hé bem asombrada. Na terra deste tem Pate Rodim grãde pedaço de terra, da de Cajomgã tambem. Hé o Pate Rodim sobrinho deste. Alguua desta terra hé mato, e nam hee aproveitada por causa que Tubam vem sobre ella e destruia, e asy o fazem outros. Eu vy gramde pedaço desta terra, de gramdes palmares e outras arvores, e sem moradores,1070 porque tambem se temem dos bajuus,1071 pola destruyçã da dita terra de Cajamgã fogirom. os mercadores que tem dinheiro vam fazer os juncos a esta terra de Ramee. Tubam.1072A terra de Tubam hé de hu~ua bamda chegada a terra Cajongam e Ramee, segundo acima hee dito, e da outra parte com Cedayo,1073 e nas costas tem o emparo do Guste Pate. Chama se o pate de Tubam Pate Vira, agora por homrra lhe deu ho Guste Pate o nome [D]ana Timao De Raja,1074 que hee nome muito omrrado. Tubam tem a sua villa h~um joguo de barreira [a tiro] de beesta do mãr;1075 hee cercada de parede de ladrilho, delle cozido, delle cr~uu, sera de dous palmos ~e larguo e em alto sera de quinze. Tem d’arredor dos muros da bamda de fora alaguõas d’auga, e da bamda da terra firme tem gramdes carapeteiros1076 e sylvados pegados ao muro, e o muro amçado1077 de bombardeiras e seteiras, e de demtro tem andaimõs de pão ao andar dos muros. Esta Tubã ~e terra chaã. |153r| Sera Tubam demtro da cerqua de mill vizinhos. Tem cada pessoa homrrada seus 1069 Personagem não identificado.1070 Tomé Pires costeou esta região javanesa.1071 os Baju Laut, populações marítimas das regiões de Bornéu / Celébes.1072 Tuban, porto e potentado na costa norte da ilha de Java.1073 o porto de Sidayu, adiante referenciado1074 original: «Anatimao De Raja»; mas o pate de Tuban aparece anteriormente referenciado como «Daria Timã De Raja», que aqui se assume ser a leitura mais adequada.1075 Tiro de besta, medida que equivale a cerca de 35 metros.1076 Tratar ‑se ‑ia de alguma árvore ou arbusto semelhante ao carapeteiro ou catapereiro, espécie de pereira brava (Pyrus bourgaeana, Decne.).1077 Leia ‑se ‘ inçado’.SumaOriental-PDF_imac.indd 210 12/5/17 2:02 PM
  • 211cerquos de tigollo, suas portas bem feitas, e demtro as cassas dos seus, segumdo o que tem cada hu~u. A hu~u tiro de bombarda grosa da terra amcoraes em duas braças e tres e quatro, e a tiro de berço1078 sera de huuã braça e mea. E na maree vazia tem escarceo,1079 e quamdo vaza espraya a do~us [ou] tres tiros de beesta. E tem aguoa docee de maree vaziia, e bem doce, em fomtes, e se metes os pees nom vemdo as covas atolaes atee o embiguo. Asy hé este senhor de Tubam obidiemte ao Guste Pate, e este hé o mais perto porto da cidade de Daya, homde hé o asemto do Guste Pate, e sam asy comcertados que ho Guste Pate lhe socorre com dez [ou] vinte mill hom~ıes aquamdo vem imiguos sobre Tubam. Porque todos os pates da Jaõa mouros lhe querem mall, por ser amiguo do cafre.1080 Sam os homes de Tubam cavaleiros mais que todõs os da Jaõa. Nemhu~u senhor da Jaõa tem amizade com elle, por ter sua villa forte e [ser] maao desembarcadoiro, e ser liado aho Guste Pate. Nom teme nengu~e, e de todos tem ho melhõr. Este, por ser acheguado e amiguo do Guste Pate, tem as cousas ricas de tauxiãs em suas terras. Tem os crises, lamças de muitas maneiras, tem armas de caça de tres pomtas, tem ginetes [com] guarnimemtos, tem alifamtes tres, tem mill lebreos de caça, outros de busqua. Tem dozemtas molheres mamcebas ssuas, tem riquas casas e bem obradas, homde mora. Cavalga cada dia polla menhãa em carros de gramdes maçanariãs a muito limda maneira. Por a t[e]rra nam saye, como se emçarra, se nom bem tarde, as vezes cavallga ~e alifamtes, outras vezes em cavallos. Estaa tres dias na villa e outros tamtos fora a momtear. A terra hé bem asombrada, de muito arroz que vem de demtro da terra firme, he de muitas maneiras, de muito vinho e muito pescado, e de boã aguoa. Tem muitos tamarimdos, muita pimemta lomga, alii vem t~eer as cubebas, carnes de vaquas, porquos, cabritos, cabras, veados, galinhas, fruitas sem comto, de tudo ysto hé abastada terra. E mostra se gramde servidor d’ellRey nosso senhor. os seus lhe falam de muito lonje, a nos abraça nos e tem esperamça que sera com sua verdade e boa [fé] mais principal na Jaõa. Sera homem de cimqoemta e cimquo anños atee sesemta. Este hé jão de naçã, seu avo era jemtio e depois foy mouro. Este nom me parece muito emcarn[iç]ado ~e Mafamede. o que erda a terra por sua morte hé filho de hu~ua sua irmãa e casado com hu~ua sua filha. Este me nom pareceo tam bem como o senhor velho de Tubam. Hà cidade de Daha1081 iram em dous dias a bom amdar [por] terra, de carretas, boa, bem asombrada, como a nosa, nom allagadiça, caminhos muito povoados. 1078 o berço é uma peça de artilharia de pequena dimensão, que se montava numa forquilha, muito utilizada a bordo dos navios portugueses. Não está perfeitamente determinado qual o seu alcance, que seria a medida de ‘um tiro de berço’.1079 Escarcéu, o mesmo que ‘vagas revoltas’.1080 ou seja, aliado do soberano hindu de Majapahit.1081 A cidade de Trowulan, ou alternativamente Kediri, anteriormente referenciadas.SumaOriental-PDF_imac.indd 211 12/5/17 2:02 PM
  • 212Tem demtro na villa gemtiõs, vivem ~e bairo sobre sy. Hee a terra bem povoada de jemte, e de casãs homrradas. Tem Tubam muitos cavaleirõs. Eu vy em Tubam hu~u gemtio que veio da corte hy a ver nos, diziam que era homem fidallguo, traziia tres ginetes de jemtiis garnim~etos, d’estribos todos de tauxias, de panños todos bam‑dados d’ouro, ricamemte atabiado de fermosos guarnimemtos. Traziia comsiguo atee dez homees de ricas lamças. Era robusto, gramde, lemtijoso,1082 os cabellos refoufinhados pera cima, emcrespados, e todos lhe faziam reveremcia. E nam veio senom a ver que hom~ees eramos, e pousava fora da villa, e nom saya senom hu~ua vez no dia, comtra a tarde. E eu faley muytas vezes com elle. Ho senhor de Tubam pratiqua muitas vezes que elle foy o que primeiro aceptou e mamteve amizade dos portugueses, he diz que nam quer outra cousa pera lembramça de seus filhos. Hee bom hom~e e sua amizade fiell, e merece mercee sempre certamente. Sera Tubam de seis ou sete mill hom~es de peleja, ajuntamdo se toda sua terra. Nom tem junco nem pangajavas de cargua suas. Terra de Cedayo.1083A terra de Cedayo de hu~ua parte pegua se com a terra de Tubam e da outra com a terra d’Agacii. Chama se o senhor de Cedayo Pate Amiza,1084 hé sobrinho de Pate Morob, senhor de Rame, e hé primo com irmao de Pate onuz, e primo segumdo de Pate Rodim.1085 Este hé omem mamcebo de idade de vinte anños, hé casado com a filha do senhor d’Aagaci. Tem comsyguo hu~u irmao de seu pay que se chama Pate Bag~us.1086 Eu faley muitas vezes com estes em Cedayo. Este Pate Bag~us reje a terra, ho mancebo anda com suas mamcebas a momtear.|153v| Cedayo nom hé terra de mercadoria, hé menos que Tubam.Tem sua vila cercada de muro, como Tubam. Hé cousa pobre, de pouca jemte. Tem hom~es homrrados, que viv~e por suas novidades. Sera homem de dous mill vasallos, defemdem sua terra. Hé em costa [de] mão desembarquar, tudo pedras. Tem arroz e mamtim~etos. Nom tem jumco n~e pamgajavãs. Dizem que dentro hee sua terra boa. Hee a jemte de Cedayo mais rustica que nenhuã das que ate’qui sam ditas. E hé a terra gramde, parte de jemtios. Este estaa ~e amizade com ho senhor de Tubam. 1082 Isto é, ‘lentigoso’, o mesmo que bexigoso.1083 Sidayu, antigo porto e potentado da costa nordeste da ilha de Java.1084 Personagem não identificado.1085 Uma complexa rede de parentesco unia os pates dos portos da parte oriental de Java.1086 Personagem não identificado.SumaOriental-PDF_imac.indd 212 12/5/17 2:02 PM
  • 213Terra d’Agãcii.1087Chegados somos [a] Agracii, ho gramde porto de trato, o melhõr de toda a Jaõa, omde os guzarates e Calecut, bemgalas, syames, chiis, lequios amtigamemte soyam naveg~uar. Esta hee a gema da Jaõa no porto da mercadoria, este hé o porto reall homde as naõs estam amarradas, seguras dos vemtos, com os garoupezes1088 em cima das casas. Porto de mercadores se chama, chama se amtre os jaõs o ‘porto da jemte riqua’. Parte Agacii com Cedaio, e da outra parte com Çurubaya, e defromte tem a gramde ilha de Madura a vista. Agraci bate ho mãar nelle e tem duas povoações, as quaees aparta hu~u riacho pequeno que de maree vaziiã fiqua qasy em sequo. De hu~ua das povoações, maior e de mais moradores, hé senhor Pate [Cu]çuf,1089 e da outra parte [Pate] Zeynall.1090 Estes tem comtinoadamemte guerra, e de hu~ua parte nom vam a outra, nem da outra a outra, so[b] pena de morte. He as vezes tem treguõas, em tempos de suas novidades, e no tempo que vem juncos ao porto, e despõis ficã em sua imizade. Á muito tempo que dura ysto. o [Pate] Zeynall presume de cavaleiro, o outro tem mais gemte, cada hu~u se defemde hu~u do outro, e vivem com vegias desta maneira. Pate Cuçuf hé naturall malayo, o dono1091 de Pate Cuçuf chama se [...],1092 e seu filho chama se Pate Adem.1093 Este Pate Adem veio fazer seu asemto a Malaca, tinha em Malaqua suas casas, e tratava de mercadoria. Casou ~e Malaqua com hu~ua malaya, de que ouve Pate Cuçuf, e viveo o dito Pate Cuçuf muyto tempo em Malaqua. Morto o dono,1094 foy Pate Adem pera Agarcii tomar pose de sua terra, e dhy a gramde tempo mamdou chamar o filho a Malaqua, o qual se foy laa com sua casa toda. Morto o pay, que se chamava Pate Adem, fiquou o dito Pate Cuçuf ~e Agarcii. Este tinha o trato de Maluquo e Bamdam amtigamemte, ~equamto teve juncos. A dona1095 deste Pate Cuçuf era irrmãa de Cerina De Raja,1096 pay 1087 Porto e potentado de Gresik, a que os portugueses chamavam Agracim, na parte mais orien‑tal da ilha de Java, defronte da ilha de Madura. Este porto era um dos mais importantes entrepostos mercantis da Insulíndia. 1088 Gurupés é um mastro oblíquo, colocado na proa do navio.1089 Pate Yusuf, que era filho de Pate Adem, viveu em Malaca antes de emigrar para Agracim (ou Gresik), onde assumiu o poder após a morte do pai.1090 Personagem não identificado, corresponderá a Pate Zainal.1091 Isto é, ‘avô’.1092 Espaço em branco no MP.1093 Pate Adem, mercador javanês que foi senhor de Agracim (ou Gresik).1094 Isto é, ‘avô’.1095 Isto é, ‘avó’.1096 Não se trata de um nome, mas de um título de um alto funcionário administrativo no sultanato de Malaca, seri nara diraja, com funções de tesoureiro, neste caso Tuan Ali, pai do bendara Tuan Mutahir, a seguir referido.SumaOriental-PDF_imac.indd 213 12/5/17 2:02 PM
  • 214do bemdara que aqui o rey mandou deguolar,1097 e ellrey que foy de Malaqua era tamb~e neto deste bendara, pay do que matarom, de maneira que Pate Cuçuf hé [primo] segundo com irmão do rey que foy de Malaqua.1098 Hé este Pate Cuçuf mercador e muyto dado ao trato da mercadaria, tem muitos mercadores em sua terra, hé homem de bom syso, sera d’idade de cimqoemta años. Foy seu porto de muitos juncos e de muitas pangajavas de carregua, aguora nom tem nada. Tem muitos calaluzes e naviotes1099 de salto, asy como tem os outros pates da Jaõa, que todos tem gramde numero de calaluz~es, mas nom sam cousa pera se desabrigar da terra. Sam lavrados de mill feiço~ees de vultos de serpes e dourados, sam d’arr~eo.1100 Cada hu~u tem destes muitos, e muito pimtados, e certo parecem bem e feitos em muito polida maneira, e sam pera reis folgar~e nelles. De seus repartimemtos de jemte baixa, remam se de remos de maão.1101 Devian se de usar em Purtuguall, que estam d’estado. Tera a terra d’Agarcii seis ou sete mill homees em sua terra. Gastam se na terra d’Agacii muitos pannõs de todas sortes e em gramde camti‑dade, porque d’Agacii se gastam pera gramde parte de Jaõa, e pera outras ilhas mui‑tas. He por rezam que tinha a navegaçã de Maluco e Bamdam, comprava elle e seus mercadores gramdes copias, e faziam se gramdes tratos em Agacii. E por a destruiçam de Malaca, elles nom navegam nem tratã, n~e t~e junco, porque a mor parte dos juncos da Jaõa sam de Peguu, que os mandavã la fazer os jaõs, e outros que compravã ~e Malaqua, porque os peguus trazem as mercadorias e os juncos, todo por mercadoria, e acabado de vemder |154r| as mercadorias, vemdiam os juncos. E porque isto há ja cimquo anños que cesou, e o Guovernador das Imdias1102 queimou e desbaratou todos os jumcos dos imigos, ficarom todos decepados, e nom tem junquos. E desta maneira que dito hee, estaa a Jaõa soo e sem juncos, e os senhores que dantes da destruiçam tinham junquos, aguora estam sem elles. E os que poderom recolher, trouxe Pate onuz, e por seu desbarato nom tornou senom tr~es, de maneira que nam tem toda a Jaõa e Palimbam atee dez juncos e dez pamgajavas de carregua, que sam como naviios. Jaõa hee mais de calaluzes he pamgajavas pequenas que de juncos gramdes. Porque Peguu forneçia todos de juncos: Pedir, Pacee, Pahão e Jaõa e Palimbam, estes os mais sam de Peguu. ~e Jaõa allguns se fazem, mas sam poucos. E estas compras, as mais se faziam em Malaqua. Nom sam poderosos os jaos pera em dez annõs fazerem dez junquos.1097 o bendara Tuan Mutahir, que em1510 foi executado por ordens do sultão de Malaca.1098 Isto é, o sultão Mahmud Shah.1099 Calaluz, do malaio kalalus, é um embarcação movida a remos, de pequenas dimensões; naviote será também uma embarcação de pequenas dimensões.1100 Arreio pode significar ‘enfeite’, ou seja, as embarcações eram muito enfeitadas.1101 Mais adiante Tomé Pires refere que nestas embarcações «os remeiros nam sam vistos do senhor», o que justifica a pontuação aqui proposta para esta frase.1102 Referência a Afonso de Albuquerque.SumaOriental-PDF_imac.indd 214 12/5/17 2:02 PM
  • 215Ja hee dito das cousas de Pate Cuçuf, senhor da principall povoaçam d’Agracii, fiqua aguora Pate Zeinall. E porque sua terra hé mais de suas novidades, e pelejam no sertão da ilha com seus comtrairos, nom hee cousa pera se nelle despemder tempo, põrque no maar nom tem nenhu~ua cousa. Na terra defemde se como seus vizinhos. Este Pate Zeynal dizem os jaõs que hé cavaleiro, hé mais velho que todollos pates da Jaõa. Este hé muito aparemtado, hé tiio de Pate Amiza de Çedayo e de Pate on~uuz e de Pate Rodim, o velho, irmão em armãs. E aguora de Pate Rodim, o filho, tambem o hee.1103 Hee de muita fãtasya, e pobre. Este dise que quamdo o Capitam moõr1104 fezese paz com o senhor de Dema, que hos senhores da Jaõa a fariam por força, casy dizemdo que no senhor de Dema estava toda a Jaõa. Terra de Çurubaia.1105A terra de Çurubaia de hu~ua parte comfina com terras d’Agracii e da outra com terras de Gãda.1106 Chama se o senhor de Çurubaya Pate Bubat,1107 e aguora lhe deu o Guste Pate o nome de Juru Pãgalaçam Imteram, quer dizer, o ‘avamtejado capitao’.1108 Este hé cavaleiro e muito autorizada pesoa, mais homrrado por armas que nemhu~u das beiras do maar, [dos] jaaõs mouros dos que aguora sam vivos. E neste estribam todollos jaõs, de sua pessoa e conselho. Tem gramde terra, e tem muitas vezes guerra com ho Guste Pate, e as vezes sã amiguos. No mar tem muitos calaluzes de guerra. Este hé irmão em armas com o senhor d’Agracii. Dizem que o dono deste foy gemtio espravo do avoo de Guste Pate. outros dizem que era seu avoo de Çumda. Fynall‑memte hé muito estimado, tera1109 em sua terra seis ou sete mill homees de peleja. Tem este comtinoadamemte guerra e nom hé dado a outro eixercicio. Deste rece‑bem comselho e ajuda os jaoõs seus vizinhos. Hee muito aparemtado dos pates mou‑ros. Tem gramde guerra com ho pate de Bulambuã, que hé jemtio seu comtrairo. os jaõs mamdam tambem ajuda a este quamdo o outro vem sobre elle, porque o[s] de Bulanbuã e Gamda1110 sam mais poderosos. Por causa deste [Pate Bubat] sempre ter guerra hee muito estymado. Tem sua terra mamtimentos como as outras da Jaõa, porque toda a terra da Jaõa os tem. As mercadarias vam d’Agracii. Este deseja muito 1103 Note ‑se a referência à existência de dois sucessivos pates em Demak com o mesmo nome ou designação de Raden Pate (ou Pate Rodim).1104 Referência a Afonso de Albuquerque.1105 A cidade e potentado de Surabaya, na parte mais oriental da ilha de Java.1106 Leia ‑se ‘Garuda’, adiante referenciada.1107 Personagem não identificado.1108 original: «Jurupã Galacan», que corresponde à expressão juru pangalasan, um título javanês honorífico, aproximadamente equivalente a ‘muito ilustre’.1109 original: «terra».1110 Leia ‑se ‘Garuda’, como estaria decerto no original.SumaOriental-PDF_imac.indd 215 12/5/17 2:02 PM
  • 216que se faça amizade com Malaqua, e dizem que o trabalha muito. Este espreveo ja a esta fortaleza [de Malaca], he a elle ja lhe espreverom duas vez~es. Hee este pate pobre, sua terra nom tem juncos n~e pangajavas, vive por suas novidad~es, como fazem outros na Jaõa. As vezes amdam seus capitaes a saltear pollo maãr. Terra de Gamda.1111A terra de Gamda1112 hee gramde, de hu~ua parte ajunta se com Çurubaia e da outra com terras de Canitão, Panarucam, Pajurucam.1113 Chama se o pate de Gamda1114 Pate Sepetat,1115 hee gemtio, filho do gramde Guste Pate da Jaõa. Ate’qui chegaram os mouros já, e forom lamçados fora pollo Guste Pate, e deu estas terrãs a hu~u seu filho. Daquy por diamte nom há mouros, salvo em Maluquo e os de Bamdam. Hee a terra deste muito abastada, de muita jemte de guerra, e peleja sempre com Çurubaya. Dizem que este filho do Guste Pate hé cavaleiro e pessoa homrrada. Por rezam de seu pay é muito estimado. Hé casado com a filha de Pate Piintor, senhor de Bulambuã, he tambem hé |154v| casado com ha filha do gramde senhor de Madura. Tem este muita jemte de cavallo he muitos senhores da Jaõa estam com elle. Tem calaluzes no maãr. E este com ajuda do sogro há gramde tempo que os mouros nom poderom passar de Çurubaia adiamte. Tem a terra deste muitos mamtimetos, nam hé terra de trato. Todos estes viv~e homrradamemte por suas novidades, e todos sam abastados de deleites e prazeres. Sera a terra de Gamda1116 de dez mill home~es. Terras de Canitam, Panarucam, Pajurucam.1117Estas tres terras nomeadamemte tinham senhores pates e senhores muito homrrados e de muita autoridade. Avera oito annõs, deles, e outros cimquo, que sam destroydos. Hé Canitam junto com Ganda,1118 e Canitam com Panarucam, e Panarucam com Pajarucã, e Pajarucam com Bulambuãm. Estes pates faziam 1111 Leia ‑se ‘Garuda’, localidade entretanto desaparecida da parte mais oriental da ilha de Java.1112 Leia ‑se ‘Garuda’. 1113 Referências a Kaniten, Panarukan e Pajarakan, localidades adiante referenciadas.1114 Leia ‑se ‘Garuda’. 1115 Isto é, Pate Supetak, personagem não identificado.1116 Leia ‑se ‘Garuda’.1117 Referências a Kaniten, lugar desaparecido nas proximidades da actual Pasuruan, Panarukan e Pajarakan, localidades portuárias da parte oriental da ilha de Java.1118 Leia ‑se ‘Garuda’.SumaOriental-PDF_imac.indd 216 12/5/17 2:02 PM
  • 217cabeça de Pate Pular,1119 senhor de Canitam, e porque dizem que queriam dar emtrada ao senhor de Çurubaya demtro, forom estes tres pates mortos e suas terras tomadas pera o senhor de Bulambuãm, e aguora nom tem pates e sam da jurdiçã de Bulanbuã. He dizem que cada huuã destas terrãs tr~es hé tam homrrada casy como cada huua das que sam ditãs, asy como Cedayo. Estam nas beiras do mar [junto a]os riios, sam terras de muitos mamtimemtos, e forom ja de gramde povoo. Terra de Bulambuam.1120A terra de Bulambuam detremina se de huuã parte com as terras ja ditas de Canitam, Panarucam [e] Pajarucã, e da outra parte com Chamda no sertão,1121 e dahii por diãte tudo hé terra serrã, atee dar nas terras do rey da Jaõa, que mais deve de chamar do Guste Pate com verdade. Chama se o pate de Bulambuã Pate Pimtor,1122 este hé grande senhor gemtio, cavaleiro temido e muito acatado na Jaõa, primcipallmemte dos senhores jemtios. Este [de]teve os mouros em peso de nom poder~e pasar adiamte. Hee a terra deste de muito povo, e tambem tem muita fustalha no maãr. Alem deste nom há mais pates. Hé jemte rustiqua, como de momtanhas, e hé da obidiemcia do Guste Pate.Hé este senhor de Bulambuam tam emlevado por aver asy as terras de Canitã e Panarucã [e] Pajarucam, e as terras de Chande, que todos o temem gramdememte. Este hé filho de huuã irmaã do Guste Pate. Hee homem este que por suas novi‑dades vive homrradamemte. Tem em suas terras muitos cavallos, mais elle soo que todos os senhores da Jaõa mouros juntos. A gemte de Bulambuã hé de guerra. Hee a terra abastada. De Chande nom hé necesario falar, porque hee na terra firme e o tem asy tomado. Das terras deste vem muitos espravos e espravas ha vemder a toda a Jaõa, tem multidam delles na terra deste. Quamdo seus senhores morr~e, elles levã suas molher~es ao foguo, aquy nesta vida perdemdo os corpõs e na outra ardemdo as almãs. E asy hé em Gamda,1123 quamdo o senhor morr~e, suas molheres se matam ou queymã ou afogam no maar, como ja dise.1124 Acabada hee a gramde ilha da Jaõa, da melhor maneira que della pude emquerir e emvestiguar, verificamdo me com muitos, e o que me parecia comcordar~e bem 1119 Personagem não identificado.1120 Blambangan, porto e potentado da ponta leste da ilha de Java.1121 A região de Jamber, no interior da parte leste da ilha de Java.1122 Menak Pentor, senhor de Blambangan.1123 Leia ‑se ‘Garuda’.1124 A prática da incineração ritual das viúvas era comum nos potentados hindus de Java.SumaOriental-PDF_imac.indd 217 12/5/17 2:02 PM
  • 218comcordado, ysto esprevi.1125 E certo nom vam fora da hordem de que hé. E nõm hee duvida as cousas da Jaõa serem mais e mais homrradas do que as comtam. E de suas fidalguias, oufanias, detreminaçoees, ousadias, homde com verdade se achara nestas partes, asy atee aguora eu nom ouvi. os malaios soberbos sam, mas tem a soberba apremdida dos jaõs. Nom se devem fazer comparaço~es, porque os jaõs tem em sustamcia a soberba e oufania, e os outros por acidemte ou arte. Pois se onesto fose neste recomtam~eto falar das matronas jaõas, nom hé memtira que sam tam emlevadas que por quallquer descomtemtam~eto se matam as crisadas por sy mesmo, e ellas as vezes matam os maridos. E hee custume da Jaõa a molher ser buscada primeiro que se lamce com seu marido, porque trazem crises secretos, ysto se custuma amtre os fidallgos. |155r| E porque nom seja a oufania mais conhecida que em Jaõa, haa duas limgoage~es, hu~ua amtre fidallguos e outra do povoo, nom difere como cortesão amtre nos, mas outros sam os nomes das cousas amtre os fidallguos e outras no povo.1126 Sem duvida hee ysto em tudo. As molheres fidalguas ja~uas, seus aparatos, seus vestidos, suas coroas e dyademas d’ouro, homde se custuma senã na Jaõa? Quamdo saem trazem estado e aparemcias amgelicas, nam há duvida no mumdo aver elevadas molheres. E daqui vem a muitas morrer~e virge~es em suas casas, quamdo nom acham seu comtemtamemto pera casar com pesoas gramdes. Pois estas ta~es oufanias de que procedem senom do naturall da terrã? Pois quamdo as molheres asy elevam, que faram os jaõs anafados, sober‑bõs, que o pay nem a may nã sam ousados por prazer poer a maão na cabeça ao filho, nem ho marido a molher. A molher pode por ao marido por rey da terra.1127 E destes pates que sam em Jaõa na beira do mãr, que aimda nom tem a fidalguia tamto em peso como os de demtro, porque haa tres dias que vem d’escravagem e de mercadores, estes sam tam emlevados que cada hu~u delles hé acatado como se fosem senhores do mumdo. Cada hu~u sae tam ~elevado a montear e a follg~uar, nom pasam tempo senam em prazer~es, com estados de tamtas lanças d’allvados d’ouro [e] prata, como ferro amtre nos, de tamtas tauxias, de tamtos gallgos, lebre~es1128 e outros ca~ees. Sam de tamtos retavollõs pimtados de images e caças, os pannos seus bamdados d’ouro, os crises, espadas, facas, cutellos, todos cozidos em tauxias d’ouro, a copia das molheres mamcebas, e ginetes, alifamtes, bois de carro de maça‑1125 Tomé Pires sublinha a sua preocupação em cruzar todas as informações recebidas, de modo a assegurar o maior rigor das suas descrições.1126 o javanês, tal como outras línguas austronésicas, possui diferentes estilos, conforme o con‑texto social, cada um deles com vocabulário, regras gramaticais e prosódia diferentes. Assim, o ngoko é um estilo informal, enquanto o krama é um estilo mais polido e formal.1127 Esta última frase é de difícil interpretação. Quererá Tomé Pires dizer que as mulheres javane‑sas têm elevada consideração pelos maridos?1128 Leia ‑se ‘lebréus’.SumaOriental-PDF_imac.indd 218 12/5/17 2:02 PM
  • 219naria d’ouro de pimturãs, amdam em carros triumfamtes. E se amdam pollo maãr, em calaluz~es pimtados, tam limpos he lavrados com tamtos seõs, os remeiros nam sam vistos do senhor, limdos repartimemtõs pera suas molher~es, outros asemtos pera os fidalguos que vam com elles. Certamemte tudo comforme a suas famtesiias, home~es que muito estimã suas homrras. [Ilhas a Sudeste.]Porque noso recomtamemto vaa hordenado sem amtremisa[m] algu~ua, corre‑remõs ate Bamdam. E porque Bamdam hé a temçã do falar, por ser o lugar do mais das ilhas que no meio estam, nom sera o recomtamemto estemso mas breve, pois nom sam proveitosas, scilicet, hé loguo peguado com a Jaõa, as ilhas de Baly e de Bombo, a ilha de Cimbaua, a ilha de Byma, a ilha do Foguo, a ilha de Soloro, Malua, Lucucamby, Citor, Batoimbey,1129 muitas outras que nesta corda estam. As ilhas de Baly e Bombo e Cimbaua.1130 A primeira ilha junto com a Jaõa hé Baly, e a outra Bombo, e a outra Cimbaua, todas estas tem r~eis. Hé cada huuã de muitos portos e muitas aguõas, muitos mamtimemtos, muitos espravos [e] espra‑vas. Sam ladrões, tem lamcharas, amdam a salteeãr. Sam todos jemtiõs. Tem tratos com a Jaõa, trazem mamtimemtos e panõs a sua guisa por mercadaria, e muitos espravõs, e muitos cavallos, que levam a Jaõa a vemder. A ilha de Byma.1131A ilha de Byma, alem destas, hé ilha gramde, de rey gemtio. Tem muitos paraõs, e muitos mamtimemtos em gramde abastamça, tem carnes, pescados, tem muitos tamarimdõs. Tem muito brasyll,1132 que trazem a Malaqua a vemder, e de Malaqua vam la por elle, porque hé da valia de China, e o brasill de Byma hé muito dellgado, vall na China menos que ho de Siam, porque o de Siam hé mais groso e melhor. Tem asy mesmo a Bima gramde numero d’escravõs, e muitos caval‑lõs, que levam a Jaõa. Esta ilha tem trato. Hé gente baça, de cabellos corrediõs. 1129 Trata ‑se das ilhas da parte mais oriental da Indonésia: Bali; Lombok; Sumbawa (associada a duas ilhas distintas, «Cimbaua» e «Byma»); Sangeang (a «ilha do Foguo»); Flores e Solor («Soloro»); Alor («Malua»); Kambing («Lucucamby»); «Citor», não identificada; e talvez Wetar («Batoimbey»); algumas delas são adiante referenciadas.1130 Respectivamente, ilhas de Bali, Lombok e Sumbawa, que fazem parte do grupo das chama‑das ilhas da Sonda Menor, na actual Indonésia.1131 Bima corresponde à parte oriental da ilha de Sumbawa, no grupo de ilhas da Sonda Menor.1132 Trata ‑se do sapão, uma espécie de pau ‑brasil já referenciado.SumaOriental-PDF_imac.indd 219 12/5/17 2:02 PM
  • 220Tem esta ilha muitas povoaçoes, e bem asy muita gente, e muitas matas. Aqui fazem escala os que vam pera Bamdam e Maluco, e compram aqui muitos panos que sam da valiia de Bandam e Maluquo. Tem esta ylha algu~u ouro, valem nella as caixas da Jaõa. |155v| A ilha do Fog~uo.1133Junto com esta ilha estaa a ilha gramde do Foguo, muito alta, povoada de muita gemte. Estes andã a saltear.Tem muitos portos e de muitos mamtimemtos, e muitos espravos pera vender. Esta ilha tem feira de ladro~es que vem vemder aqui os furtos que fazem polas outras ilhãs. Hee de rey gemtio, e todos sam gemtios. Jaz1134 na emtrada do caminho de Timor, de que se falara despois de Soloro. A ilha de Solor.1135A ilha de Soloro hé muito gramde, tem rey gemtio, hé de muitos portos e de muitos mamtim~etos em gramde abastamça. Tem imfynidade de tamarimdos, tem muito emxufre, e por esta mercadoria hé mais conhecida que por outrã. Desta ilha trazem gamde cãtidade de mamtimemtos a Malaqua, e trazem tamarimdos e emxufre. He este ~exufre hé tamto que o levam por mercadaria de Malaqua a Cauchychina, porque esta hé a primcipall mercadoria que de Malaqua vay pera laa. Amtre esta ilha de Solor e a de Byma hé o canall pera [a]s ilhas de Timõr, homde há os samdallos, de que logo se dira. Nestas ilhas ja ditas valem as mercadorias que valem ~e Jaõa. Ylhas de Tiimor, domde vem os samdollos bramcos.1136Amtre as ilhas de Byma e de Solor se faz hu~u canall gramde, por homde vam as ilhas dos samdollos. Todalas ilhas de Jaõa pera diamte se chamam Tymor, por‑que na limgoaj~e da terra ‘timor’ quer dizer levamte, como se disesem as ‘ilhas de 1133 A ilha do «Fogo» parece corresponder a Sangeang, que se situa a nordeste da ilha de Sumba‑wa; o complexo vulcânico de Sangeang Api atinge uma altitude de quase 2 mil metros.1134 original: «faz».1135 A «grande» ilha de «Solor» corresponderá ao conjunto formado pela ilha de Flores e pela ilha de Solor propriamente dita, na parte oriental do arquipélago da Indonésia.1136 As ilhas de «Tiimor» correspondem a Sumba e a Timor, as duas ilhas indonésicas que na época produziam o sândalo branco, já antes referenciado.SumaOriental-PDF_imac.indd 220 12/5/17 2:02 PM
  • 221levamte’.1137 Por principall, se chamam as ilhas de Timor estas duas domde vem os samdollos. As ylhas de Timor sam de reis gemtios. Nestas duãs há gramde soma de samdalos brãquos, valem muito barato, porque os matos nom tem outra madeira. Dizem os mercadores malaios que Deus criou Timor de samdallos e Bamdam de maças e as de Maluco de cravo, e que no mumdo nom hé sabido outra parte em que estas mercadarias aja, somemte nestas. E eu preguntey e emquery deligentememte se estas mercadorias avia em outra parte, e todos diz~e que nam.1138 Deste canall atee as ilhas de Maluco, navegamdo com bom vemto, vam em seis [ou] sete dias. Sam estas ilhas doemtias, a gemte nom hé muito verdadeira. A esta ilha vam de Malaca e de Jaõa cad’ano, e vem os samdollos a Malaqua. Hé bõa mercadoria ~e Malaca, porque emtre todallas naço~ees de qua se custumã, mõrm~ete amtre os jemtios.1139 Mercadorias que valem em Tymõr.Levam laa sinabafos, pamchavilezes, sinhavas, balachos, cotobalachos,1140 que sam panos bramquos, valem em Timõr panos de Cambaya baixõs. E por pouca mercadoria carregam os juncos de samdollos. Hee riqua a viagem de Timor. Hé [terra] doemtia. Partem de Malaca na mouçam e tempo que vam a Bandam nese torno. Dizem que amtre as terras de Byma e Solor há pedras, e que se perdem juncõs se nom vam polo canall, e ysto sera obra de mea leguoa homde haa este priguo, e que hé bõo aboca llo de dia. Batutara.1141Defromte das ilhas de Solor esta a ilha que se chama Batutara. Hé ilha de jemtios, de muitos mamtimemtõs. Daly se toma a rota abatida pera Bamdan e pera Ambon. E porque as outras ilhas que corr~e pola corda de Solor nom fazem a bem de mercadoria, por serem fora de maão, nom faço dellas fundam~eto, 1137 o nome de Timor deriva efectivamente de timur, malaio ‑indonésico para ‘leste’ ou ‘levante’.1138 Tomé Pires sublinha novamente o seu método de trabalho, que consiste em inquirir junto de todas as fontes de informação disponíveis.1139 Tomé Pires refere ‑se ao intenso consumo e utilização, entre muitos povos asiáticos, de subs‑tâncias odoríferas em rituais da vida quotidiana e em cerimonias religiosas.1140 os balachos e atobalachos, aqui «cotabalachos», são tecidos de algodão ou linho, anterior‑mente referenciados.1141 «Batutara» poderá ser identificada com a ilha de Wetar, situada a norte de Timor, precisa‑mente na rota para as ilhas de Banda e Amboíno. Não faria sentido tratar ‑se de Batu Tara (ou Kom‑ba), minúscula ilha vulcânica situada a norte da ilha de Lembata. SumaOriental-PDF_imac.indd 221 12/5/17 2:02 PM
  • 222sam todas de gemtios ladro~ees. Tem mamtimentos muitos, arrozes [e] çag~uus somemte. Agora falarey de Bamdam, pois nosa imcrinaçã hee tamta aos fruytos de suas terras. Ylhas de Bamdam.1142As ilhas de Bamdam sam seis, cimquo tem maças e hu~ua hé de foguo. A prin‑cipal chama se Pullo Bamdam, esta tem quoatro portos, scilicet, Çalamom, o Luta‑tam, Bomtar [e] Comber.1143 Esta ilha em comparaçam das outrãs tem maças ~e mais camtydade. Tem estas [ilhas] povoaçoes, nom tem rrey, regen se por cabillas e pollos mais velhos. |156r| Sam os das beiras do mãr mouros mercadores. Haa trimta annos que se começam a fazer mouros nas ilhas de Bamdam, tem alg~uus gemtiõs demtrõ na terra. A gemte de todas estas ylhas seram obra de duas mill e quinhemtas pessoas atee tres mill em todas. As maças sam fruyta como peseguõs ou albequorques,1144 e camdo sam madurãs abrem, e a polpa de cyma cae e o de demtro fica vermelho, que sam as maças sobre a noz, e colh~e nas e lamça[m] nas a seqar. Todo o anño há este fruyto, em todollos meses se colhe. Avera em todas as ylhas obra de quinhemtos baãres de maças cad’año, e ate bic, e de noz avera s~eis [ou] sete mill bahar~es, e ysto cad’ano, ora mais ora menos. Nã hé sempre de huuã sorte, e dizem que ja teverom estas ylhas mill bahar~es de maças. Esta soo ilha que se chama Bamdam hee mõr que todalas outras jumtas. outra ylha chama se Neira, esta hé porto omde amcorã os jaõs, chama se Porto Neyra, esta tem maças. E as outras tres ylhas, scilicet, Pulo Aee e Pullo Rud e Pulo Bomcagy, sam tres ilhas pequenas que tem maças, nom tem portõs pera nelas amcorar~e. Estas trazem suas maças a ilha de Bamdam. Todas estam a vista, perto huãs das outras. Na ilha [do Fogo] nom fallo, por nom ser de mercadaria, n~e outra ilha pequena que se chama Lanacaq~e, que tem çag~uu. A jemte destas ilhas hé de cabello negro corredio. Hé aguora riqua, mais que damtes, porque aguora vemdem melhor e de melhor preço suas maças. E amte[s] os jaaõs e malaios navegavã a estas ilhas cad’ano, e levavam pouquos panos, e davam comsyguo na Jaõa e alii faziam escalla. Vemdiam o mais e melhor de sua roupa por caixas, e por outras cousas de baixa sorte. E daly partiam pera Cimbaua e pera Byma, e as mercadorias que levavã de Jaõa vemdiã nestas duas ilhas em que 1142 o arquipélago de Banda, que se situa no Mar de Banda, era o único lugar de produção de noz moscada e de maça. É composto por diversas pequenas ilhas, de que Tomé Pires apenas identifica seis: Banda Besar, Naira, Ai, Run («Rud»), Rosengain ou Hatta («Bomcagy», talvez por lapso), Nai‑laka («Lanacaq~e»). A ilha do «foguo», que não é descrita, é Banda Api.1143 Referências às localidades de Selamon, Lautang, Lonthoir e Kumber, na ilha de Banda.1144 Albaricoque, espanhol para ‘alperce’.SumaOriental-PDF_imac.indd 222 12/5/17 2:02 PM
  • 223ja faziam proveyto, asy no que vemdiam ~e a Jaõa como no que da Jaõa levavã aas ditas ilhas de Byma e Cimbaua. E nas ilhas compravã pannos da valia de Bamdam, e por elles e por caixas da Jaõa compravã as maças. E tamto que o jumco chegava a Bamdam, tomavam a guovernamça da terra, e emquamto hy estavam compravam como queriã. E quamdo os de Bamdam aviã panño bõo a maão, era gramde novi‑dade a elles, e elles lhe punham o preço aos da terra, e eram adorados os capita~ees do jumquo do povoo. Aguora, despõis que estas ilhas de Bamdam sam da navegaçam e jurdição d’ellRey noso senhor,1145 nam se faz asy, mas sam os de Bamdam senhores das roupas riquas he em muita camtidade e a maiores preços, recebemdo sempre merces e dadivas e boa companhiia pollos purtugues~es, homde vam comprar por ouro he cousas ricas o que os mouros compram por palha, e aimda mall comtemtes de nosas companhiãs. Mercadorias que levamos a Bamdam.Synabafos de todas sortes, e todo outro genero de pannõs bramcos delgados de Bemgalla, todo pannõ de Bonua Quelim, scilicet, panos emrrolados de ladrilho grãde, meao [e] pequeno, topet~ıis, e pannõs do Guzarate de toda sorte. De maneira que bem avemturada se deve de chamar a gemte de Bamdam. E nam sem causa, os reis de Maluquo, sabedores das cousas de Bamdam, sospirã por nos, como se dira quamdo das nobres ilhas se falar. E os mercadores que damtes la navegavã, cõpram por panelas velhas e brinqos e comtas de Cambaya, e por outras [coisas] seme‑lhantes, domde nom hé duvida Bamdam ter aguora mais riqueza. Tem tambem Bamdam cravo que vem de carreto de Maluquo a Ambono, e d’Ambon a Bamdam, ysto em doze [a] quinze dias com mouçã. Vall ho baãr do cravo como hu~u baar de maças, e hu~u de maças como sete de noz, e nom vos vendem senom maças he noz juntamente, scilicet, se queres hu~u baar de maças, aves de comprar sete de noz, porque doutra maneira nom poderia a mercadoria sofrer, que se perderia a noz se a nõ vemdesem desta maneira. |156v| A primcipall mercadoria pera Bamdam sam os panños do Guzarate, scili‑cet, bretamg~ıis vermelhos e pretos, caçutos, maindis bramcos e pretõs,1146 panos de coraçones,1147 patolas,1148 e despois estes, pannos de Bemgalla, e depos Bemgalla, 1145 O arquipélago de Banda foi primeiro visitado pela expedição de António de Abreu em 1512.1146 Talvez uma referência a mandil ou mindil, que em persa pode designar uma toalha, ou tam‑bém um pano para cobrir a cabeça.1147 Tratar ‑se ‑á talvez de tecidos originários da região persa de Khorasan.1148 Patola, do gujarati patolu, designa um tecido de seda originário do Guzerate, muito elaborado e valioso, com padrões coloridos, umas vezes geométricos, outras com figuração de animais e flores.SumaOriental-PDF_imac.indd 223 12/5/17 2:02 PM
  • 224da Bonua Quilim, do Guzarate lamedares1149 [e] muitos sabones.1150 Lamçada a comta, custa cada bahar de maças tres cruzados, e tres e meio, segumdo as mercada‑rias por que compraes, e tall há que custa quoatro. Quamto a roupa hé mais fyna, quamto mais caro compraes, porque seu emtemto hé roupa baixa pera a gemte, e porque de gramdes partes d’ilhãs de fora vem ha Bamdam comprar a roupa [de] Bamdã. De Bato Ymbo1151 ate Papua,1152 de Papua ate Maluquo, e outras muitas ilhas, compram em Bamdam pollo peso do bahar de Malaqua. Quem la vay leva o peso e pesa framcamemte em Bamdam. Tem Bamdã demtes de marfim1153 e ouro, que trazem doutras ylhas a vemder. As ilhas de Bamdam nam tem mamtim~etos casy nada, as ilhas d’arredor lhe traz~e os mamtimemtos a vemder, e os jumcos que la vam levam arroz de Byma e cousas de comer, çaguu. Hee a moeda da terra çaguu, hé pam de feiçam de ladrilho, hé feito de meolo de pao e muito bizcoytado. E traz~e muito das ilhas comarcãas aas ilhas de Bamdam, e emtam corre por moeda, tamtos çagu~us por tal cousa, asy como ~e Pacee pimemta. Tem gramdes ilhas Bamdam, a jornada de dous [ou] tres dias, domde se fornecem. Sam de gemtios, e todos sam lavradores. Tres ilhas estam perto de Bamdam. Da ilha de Papua vem os papaguaios nores,1154 os mais prezados. Das ilhas que se chamam d’Aru vem os pasaros que traz~e mortos, que se chamã pasaros de Deus, e dizem que vem do c~eo, e que lhe nõ achã nacimemto.1155 E destes os turqos e parses fazem penachos, sam pera o tall uso conveniemtes, os bemgallas os compram, hee boa mercadoria, he vem pouquos, etc. Navegaçam de dous dias e menos estaa a pomta da gramde ilha de Ceirã, hé [só] deixar Ambon, porque Ambom estaa pegado casy com as ilhas de Ceiram.1156 As ilhas de Ceirã começam da ilha de Guram1157 e vem casy apomtar junto com 1149 Lamedares, um tipo de tecido não identificado.1150 os «sabones» eram tecidos de algodão originários do Guzerate, mas cujas características se desconhecem; poderão relacionar ‑se com o termo gujarati sava ‑patta, que design cobertas de cama.1151 Este topónimo parece corresponder ao arquipélago de Tanimbar, que se situa na parte mais oriental da Indonésia, para leste de Timor.1152 Embora já tenha sido sugerido que Tomé Pires se estaria aqui a referir a Halmahera, uma das ilhas do arquipélago de Maluco, poderá tratar ‑se efectivamente de uma referência à ilha de Papua‑‑Nova Guiné, situada para leste das ilhas de Banda.1153 A referência à existência de marfim nas ilhas de Banda, mesmo sendo oriundo de outras paragens, é deveras curiosa.1154 o termo malaio nuri, ‘luminoso’ ou ‘brilhante’, designa os papagaios de penas muito colori‑das que se encontram em algumas ilhas orientais da Indonésia.1155 Referência às aves ‑do ‑paraíso (Paradisaea apoda, L.), espécie que se encontra nas ilhas de Aru, arquipélago da parte oriental da Indonésia. Estas aves chegavam aos circuitos comerciais orien‑tais secas e sem patas, circunstância que deu origem a diversas lendas sobre a respectiva origem e características.1156 A grande ilha de Seram (ou Serang) situa ‑se na parte oriental da Indonésia, nas proximidades da ilha de Ambon (ou Amboíno).1157 A ilha de Gorong, a sudeste de Seram.SumaOriental-PDF_imac.indd 224 12/5/17 2:02 PM
  • 225Maluquo, e é estreita esta ilha. E navega se asy pola bamda de dentro por Ambom como por de fora, e asy de huuã parte como da outra hé povoado de portos he povoaçoes. Por demtro sam os portos de Gule Gule, Bemuaor, Ceilam e outros, atee Bamdã. E por detras sam Tana Muãrolu, Varam, e dizem que por detras hé bem segura a navegaçã.1158 E em breve as ilhas d’Ambon sam estas: Ambom, Yta, Qoay, Vul, Miçalao.1159 Se falamdo nestas ilhas de junto com Bamdam for afastado dos pilotos, eu nom so[u] culpado, porque nisto me cometo a quem la foy. Ysto tenho sabido por mouros, por suas cartas, que muitas vezes vy, e se suas cartas foram arrumadas, fora decraradam~ete.1160 Seja ysto pera leer e nom pera rotear, etc. Hé a jemte de Bamdam asy estuciosa, que tem povoaçã na serra homde se acolhe quamdo suas povoaçoes das beiras do mar se semtem em alguuã afromta, e laa recolhem tudo a serra. É Bamdam cousa pequena e fraca, e taall que estaa a guovernança de quallquer junco que la vay, ora seja de jaõs ou de malaios. E despois de Bamdam nam hay mais que dizer, detremino pasar me a Maluqo, homde noso emtemto hee primcipall, pollo caminho de Ambom, etc.Ylhas d’Ambon.1161Hé Ambom huuã ilha, e junto com ella estaa Yta, Cuaii, Vull, Nuçalao.1162 E estam todas case peguadas com a costa de Ceiram, da ylha. Hé jemte de cabello revolto, bestiall, nom tem mercadoria. E tem porto nom muito bom, nõ tem trato. Hé lugar de gemte priguosa. Que[m] tem diligemcia de pasar |157r| a Maluquo, ficam alii, o que hé sabido. Se quisesem, pasariam. Mas porque os mouros nom tem amcoras de metall, e nam sam hom~es do maar, que põr quallquer afromta deyxam 1158 As povoações de Seram referidas: na costa sul, Gule Gule (actual Urung), Bemu, «Ceilam» talvez corresponda à pequena ilha de Kelang, a ocidente de Seram; na costa norte, Taniwel, Hualulu e Waru.1159 Original: «ambon ytaqoay vulmiçalao». Estes topónimos são identificáveis com a ilha de Ambon, Hitu («Yta»), a grande península setentrional da mesma ilha de Ambon, e a ilha de Nusa Laut («Miçalao»); «Qoay» e «Vul» referir ‑se ‑ão decerto às ilhas de Haruku e Saparua.1160 Curiosamente, Tomé Pires afirma basear ‑se em cartas de pilotos orientais que contactou em Malaca, cartas essas que não seriam «arrumadas», ou seja, não teriam indicação de rumos, ao contrário das cartas portuguesas. Tem ‑se especulado sobre a existência de uma carta javanesa que é mencionada por Afonso de Albuquerque numa das suas missivas a Dom Manuel I de 01 ‑04 ‑1512, e que eventualmente poderia ter inspirado os esboços cartográficos da Insulíndia preparados por Francisco Rodrigues, que se conservam no mesmo códice que o manuscrito da Suma Oriental, e que datam da mesma época.1161 o grupo de ilhas de Ambon ou Amboíno, na parte oriental da Indonésia. A expedição de António de Abreu visitou este pequeno grupo de ilhas durante a viagem de 1512.1162 Alguns nomes aparecem com uma grafia diferente da que foi anteriormente utilizada: «Cuaii» (Haruku) e «Nuçalao» (Nusa Laut).SumaOriental-PDF_imac.indd 225 12/5/17 2:02 PM
  • 226tudo e van se a nado, nom fazem suas navegações como devem. De Malaqua a Bamdam e a Maluquo senpre se punha dous [ou] tres annõs, e perdem se muitos jumqos. E nam hee d’espamtar, porque os mouros destas bamdas nam tem n~eh~uu saber, e sam espravos os mareamt~es, e tamto lhes daa [ficarem] ~e Jaõa como em Maluquo, nam tem necesydade de presa,1163 portamto fazem suas viage~es lomgãs. Agora me paso a Maluquo, de cuja obidiemcia Ambom hee. Ylhas de Maluquo.1164Chegados somõs aas ilhas de Maluquo. Porque noso emtemto nom sera pasar daqui por diamte, pois pera iso nam há necesidade, somemte das ilhas do cravo, he daqui me tornarey pera casa. As ilhas de Maluco sam cimquo, que dam cravo, scilicet, a primcipall se chama Ternate e a outra Tidore, e a outra Motes, e a outra Maquiem, e a outra Pacham.1165 He tambem no porto de Jeilolo, na terra da ilha do Batochina, há muito cravo agreste.1166 As ilhas de Maluquo, segundo se afirma, de cimqoenta anños a esta parte sam o começo dos mourõs.1167 os rex das ilhas sam mouros, nam muito emcarn[iç]ados na seyta. Muitos sam mouros sem ser~e circumcidados, e nam sam muitos os mouros, os jemtyos sam de quoatro partes as tres, e mais. Hé a gemte destas ilhas baça, sam de cabellos corredios. Tem guerra o mais do tempo hu~us com outros. Sam casy todos par~etes. Teram estas cimquo ilhas cad’ano pouquo mais ou menos seis mill bahares de cravo, as vezes tem mais mill, as vezes menos mill, segiimdo a verdade. A mercadorya que se em Malaca compra por quinhemtos reis, por ella se compra em Maluquo hu~u baar de cravo. Hé o bahar de peso de Malaqua, porque a ese respeito o pesã, e os mercadores levam ho peso, porque as vez~es vall menos e mais, pouca cousa. Tem o cravo cad’ano se~ıs novidad~es. De Malaca amtigam~ete soyam hir ha Bamdam e a Maluquo oyto juncos, e tres [ou] quatro d’Agacii, e outros tamtos de Malaqua. os de 1163 Leia ‑se ‘pressa’.1164 o arquipélago de Maluco, constituído por várias ilhas que adiante se identificam, foi visitado em 1512 por Francisco Serrão. Mas este navegador português fixou ‑se naquelas ilhas, não regressando a Malaca com a expedição de António de Abreu, da qual fizera parte. Assim, Tomé Pires não terá recebido quaisquer notícias colhidas directamente por portugueses sobre Maluco, baseando ‑se aqui em informações obtidas junto de pilotos e mercadores orientais.1165 As ilhas referidas identificam ‑se com Ternate, Tidore, Moti (ou Motir), Makian e Bacan, que fazem parte do arquipélago de Maluco, onde era produzida árvore do cravo, o craveiro.1166 Halmahera, a maior do grupo das ilhas de Maluco, também era conhecida como Jilolo (ou Jeilolo), sendo por vezes designada nas fontes portuguesas como Batochina.1167 A islamização das ilhas de Maluco parece ter ‑se iniciado na parte final do século xv.SumaOriental-PDF_imac.indd 226 12/5/17 2:02 PM
  • 227Malaca eram de Curia Deva,1168 chatim mercador, e os d’Agacii de Pate Cuçuf, que tinha la o trato, e com estes metiam outros mercador~es, asy jaõs como malaiõs, mas estes do~us eram os principães mercadores, em o quall trato cada hu~u ganhou gramde soma d’ouro. Valia ~e Malaca sempre o cravo, quamdo era muito, a nove cruzados ho bahar, e a dez, e quamdo [era] pouco, a doze cruzados ho baãr. A ilha de Tarnate, nosa amigua.1169A principal ilha de todas cimquo hee a ilha de Ternate. Hé o rey mouro, chama se Çoltã Bem Açorala,1170 dizem que hé bom homem. Tem sua ilha cad’ano mill e quinhemtos bares de cravo e daquii pera cima. Poderam ancorar no porto desta ilha duas [ou] tres naõs. Esta hé boa povoaçam. Tem este rey algu~us mercadores estrangeiros ~e sua terra. A ilha dizem que sera de dous mill hom~ees, e seram mouros atee duzemtos. Este rey hé poderoso amtre seus vizinhõs. Tem sua terra farta de mãtymemtos da terra, posto que aos rex de Maluquo doutras ilhas lhe vem muitos mantimentos, como se despois dira. Chama se som~ete o rey de Ternate çolta[m], os outros chamam se raja. Tem este guerra com seu sogro Raja Almamçor, rey da ilha de Tidore.1171 Tem este atee cem paraõs. Sera a ilha ~e roda seis leguoãs. Tem esta ylha no meio hu~u piquo que daa muito emxofre, que arde em muita cantidade.1172 Tem este rey de Ternate a metade da ilha de Motei por sua, domde lhe lhe vem muitos mãtimemtos. Ternate hé terra mais domestica que nenhu~ua das outrãs, posto que outra tem melhor porto e mais trato por causa delle. Este rey dizem que faz jus‑tiça. Tem sua gemte obediemte. Diz que folgaria de ver cacizes christaõs,1173 porque se lhe bem parecese nosa fee, que se alomgaria da sua seyta e torna[r] s[e] ya christão.1174 |157v| Este rey de Ternate, por ser hom~e de boõ syso, quamdo soube que Fram‑cisquo Serrão estava em Ambon, mamdou por elle e por outros purtugueses que se perderam na viag~e d’Amtonio d’Abreu,1175 e recolhe[u] os a sua terra e fez lhe homrra. 1168 Nina Surya Deva, rico mercador quelim residente em Malaca.1169 A primeira expedição portuguesa oriunda de Malaca chegou a Ternate em 1515, sob o co‑mando de Álvaro Coelho.1170 À data da chegada dos portugueses a Ternate, esta ilha era governada pelo sultão Bayan Sirullah (r.1500 ‑1522).1171 A ilha de Tidore era governada pelo Raja Al ‑Mansur (r.1512 ‑1526).1172 Referência ao pico vulcânico de Kiematabu, o mais alto da ilha de Tidore.1173 Original: «xstaõs». Ou seja, ‘religiosos cristãos’.1174 original: «xstão».1175 Como anteriormente referido, António de Abreu comandou a primeira expedição portugue‑sa às ilhas mais orientais da Indonésia, em 1511 ‑1512. o navio comandado por Francisco Serrão, que integrava a expedição, naufragou junto à ilha de Madura. Em navios asiáticos, Serrão conseguiu chegar ao arquipélago de Banda, de onde depois alcançou a ilha de Ternate, onde se veio a fixar.SumaOriental-PDF_imac.indd 227 12/5/17 2:02 PM
  • 228E espreveo o dito rey cartas a Malaqua, de como elle he suas terras eram espravos d’ellRey noso senhor, como mais largam~ete se veera por suas cartas, que trouxe Amtonio de Miramda,1176 que foy a Bamdam he mamdou a Ambom, homde as cartas vierom ter, as quaes trouxe Francisco Serrão, e tornou se pera Ternate, por asy ficar acomcertado. Sam os de Ternate cavaleiros amtre os malucos.1177 Sam om~ees que bebem de vinhos a sua guisa. Tem boas auguãs Ternate, hé terrã sadia e de boõs ar~es. Tem o rey de Ternate das portas suas ademtro quoatrocemtas molher~es,1178 todãs filhas d’alguõ, tem muitas filhas dellas. o rey quamdo vay a guerra saie com coroa d’o~uuro, e os filhos asy as traz~e por denydade, sam estas coroas temperadas em valiiã.Mercadarias que há em Ternate.Tem cravo a terra. De fora das ilhas, de Bemgaia,1179 vem muito ferro, [e apetre‑chos] em ferro, machados, cuytellos, espadas, facas. Vem ouro doutras ylhas. Tem algu~u marfym, pouquo, tem panos baixos a sua mane~ıra. Vem muitos papagaiõs das ilhas de Mor,1180 e de Cerã vem os papagaios bramquos.1181 Mercadorias que valem em Ternate.Vall ~e Maluquo a roupa baixa de Cambaia, e da fyna vall todo panno de Bonna Quelim emrrolado e de ladrilho gramde, meão [e] pequeno, patollas, todo pannõ baixo he bramquo, asy como synhavãs, balachos, pamchaveliz~es, cotobalachos. Porem, a cabeça da mercadaria hé roupa de Cambaya, e rabos de bois e vacas bramcos que trazem de Bemgalla. Como nace o crãvo.Ho cravo tem seis novidad~es no anno. Dizem outros que o há todo o anño, mas que em seis tempos do anño há mais. Despois da froll hé verde, e despois torna 1176 António de Miranda de Azevedo, fidalgo português que efectuou duas viagens desde Malaca às ilhas de Banda, em 1513 e 1514.1177 Entenda ‑se, ‘habitantes de Maluco’.1178 Este número será decerto exagerado.1179 Possível referência à ilha de Benggai, que se situa junta à costa leste das Celébes (ou Sulawesi).1180 Morotai, a mais meridional das ilhas de Maluco. os papagaios seriam decerto aves ‑do‑‑paraíso, possivelmente da espécie Semioptera wallacii, G.R. Gray.1181 Algumas espécies de aves ‑do ‑paraíso têm as penas da cauda brancas, pelo que talvez se trate de uma referência à espécie Tanysiptera galatea, Gray, que se encontra na ilha de SeramSumaOriental-PDF_imac.indd 228 12/5/17 2:02 PM
  • 229se vermelho; emtam ho colhem, delle à mão, delle varejado, e asy vermelho ho deitam a emxugar em esteiras, e torna se preto. Sam arvores pequenas. Ho cravo nace como mortinhõs,1182 nacem muitas cabeças jumtas. Estaa todo este fruyto na maão dos jemtiõs, e de suas maõs vem todo as beiras do mãr. Porque esta ilha de Ternate hé a mais lomgue de todas d’Ambom, e devera de ser a ordem loguo da mais junta [a] Ambom, que hé Pachão,1183 porem por ser Ternate a melhor cousa se fallou primeiro della, e asy por ser rey vasallo d’elRey noso senhor. E aguora me irey chegamdo a Ambom, comtamdo as ilhas. Ylha de Tidora.1184Partimdo de Ternate pera Ambom, navegamdo tres leguoas, se mostra a ilha de Tidora. Hé huuã ylha [que] tera1185 dez leguoas em roda. Hee o rey desta ilha mouro, imiguo d’elrey de Ternate e seu sogro. Tera este ellrey em sua terra dous mill home~es, dos quaees os duzemtos seram mouros, os outros sã gemtios. Chama se o rey Raja Almamçor, tem muitas molheres e filhos. Tera a terra deste mill e qoatrocemtos bares de cravo cad’ano. Na ilha deste nõ há porto pera amcorar~e naos. Hé rey poderoso este, tamto como ho de Ternate, sempre tem guerra [entre si]. Estes do~us sam os mais homrradõs de Maluquo, e compitem. Tera este em sua terra oytemta paraõs. Tem este rey por vasallo a ellrey de Maqiem. Tem este rey obidiemte a sy a metade da ilha de Motei. Tem sua terra muitos mantimentos d’arrozes, carnes [e] pescadõs. Dizem que hee omem de bom syso. Este rey deseja muito o trato comnosquo, porque as ilhas de Maluquo perdem se e o cravo há tres annos que se nam apanha senam pouqo, por causa da navegaçã que nom há, da tomada de Malaqua a esta parte.1186 |158r| Ylha de Motei.1187Navegamdo desta ilha de Tidore, amdadura de seis leguoas, estaa a ilha de Mot~ei. Esta ylha tera em roda quoatro ou cimquo leguoãs. Tem hu~ua serra no meyo.1188 1182 Isto é, ‘murtinhos’, fruto da murta.1183 Bacan, uma das ilhas de Maluco, antes referenciada.1184 A ilha de Tidore.1185 original: «terra».1186 A conquista de Malaca pelos portugueses provocou a temporária disrupção de alguns circui‑tos mercantis no mundo malaio ‑indonésio. 1187 A ilha de Moti (ou Motir).1188 A pequena ilha vulcânica de Moti tem uma largura aproximada de 5 km.SumaOriental-PDF_imac.indd 229 12/5/17 2:02 PM
  • 230A meia ylha obedece a elrey de Ternate, a outra metade ao de Tidore, tem cada hu~u posto seu capitam em sua terra. Esta ilha hé toda de gemtios, tera seisc~etos home~es. Tem esta ylha cada hu~u anño mill e duzemtos bares de cravo. Tera cada capitam destes quoatro [ou] cimquo lamcharas pequenãs. Tem esta ylha muitos mamtimem‑tos, e cada parte socore a seu senhõr. Sam os capitaes destas ilhas gemtios, hom~ees cavaleiros, e pessoas homrradas e amiguos hu~u do outro. Asy o rey de Tidore como esta ylha de Motei trazem seu cravo em parãos a ilha de Maquyem a vemder, porquamto aly hee o porto homde vem os jumquos ancorãr.Ylha de Maquiem.1189Da ilha de Motei a cimquo leguoas [a]parece a ilha de Maquiem. Esta ilha de Maquiem tem em roda oyto ou nove leguoãs.1190 Tera tres mill home~es. Tem cemto e trimta paraos. Tera de cravo cad’anño mill e quinhemtos baar~es. Chama se o rey Raja Ucem,1191 hé mouro, e obra de trezemtos home~es em sua terra [também são mouros]. Tem esta ilha de Maqi~e muito bom porto. Esta hé a ilha omde os junqõs carreguã, e de todas as ilhas aqui trazem o cravo a vemder, somemte de Ternãte [não], que vam tambem laa por causa do porto, ~e que podem amcorar. Tem muitos mamtim~etõs. Hé rey casy como os outros, e tem gemte mais que Tidore, e paraõs. Este Raja Ucem, rey desta ilha de Maquiem, hé primo com irmaão do Raja Almãçor, rey de Tidore, e alguuã obidiemcia tem este rey ao dito rey de Tidore. Tem este porto algu~us estramgeirõs, estes desejã muito nosa pãz. Dizem que este hé bom hom~e. He esta hé a terra de mais trato que as outras, e tamto que os juncos vem aqui ha amcorar, hé seu porto seguro e bom. Casy toda a jemte hee jemtia. Vem a esta ilha de muitas ilhas com mercadorias. Tem mamtimemtos em abastança, he augua boa. E a jemte dizem que hé domestica, a das beiras do maar, etc. Ylhas de Pachãm.1192Desta ilha de Maquyem que dise aas ilhas de Pacham avera quatorze leguoas. Estas ylhas de Pacham sam dez ou doze.1193 A ylha que se chama Pacham tem cravo, as outras nam. Chama se o rey desta ilha Raja Cuçuf.1194 Tem mõr terra 1189 A ilha de Makian.1190 A ilha de Makian tem uma largura de cerca de 10 km.1191 Raja Husain, personagem não identificado.1192 Isto é, Bacan.1193 As maiores ilhas do grupo são Bacan, Kasiruta e Mandioli.1194 Raja Yusuf, personagem não identificado.SumaOriental-PDF_imac.indd 230 12/5/17 2:02 PM
  • 231e mais jemte que nenhu~u dos reis de Maluquo, e mais paraõs. Este rey hé meio irmão d’elrey de Ternate, sam gramdes amiguõs. Hé toda a jemte case gemtiõs. Tem boos portos, aqui vem a ver vista desta terra os que ham de carregar em Maluquo, e daquy vam a outras ylhas. Hee Pacham corda d’ilhãs que vam ter comtra Ceiram, sobre Ambon. Tera esta ilha quinhemtos baares de cravo cad’año. Tem muito breu. Nom tem muitos mamtim~etõs, mas das outras ylhas os trazem ~e abastamça. Tratam em sua terra gramdememte. Tem esta ylha papagãyos, esteiras e outras cousas, que a ella vem comprãr. Segumdo tomey emformaçam, há muito pouquo tempo que ho cravo desta terra era sylvestre, asy como brunhos a ameixias ou zambujo a oliveira,1195 he que amtiguamemte este cravo nom se gastava, dizem que por estarem estas arvores ~e lugares bravios [e] abafados. E que dez anños a esta parte hé feyto cravo bom, como quallquer do outro, e que se vay acrecemtando muyto o cravo nesta ilha. Haa desta ilha a ilha d’Ambom quoremta leguoãs ao mais. Todo o cravo destas cimquo ylhãs hé de huuã mesma bomdade, se o colhem semdo perfeitamemte maduro. Tambem nesta ilha sequam os ramos das arvor~es com muitas folhas, hee mer‑cadaria, porque na nosa parte d’Eiropa se gastam as ditas folhas em lugar de betele, e porque o betelle sequo nom tem sustancia de odõr, em seu |158v| lugar metem as folhãs. Hee mercadoria que amtiguamemte levam a Veneza pola viia d’Alexamdria, e em Purtugall bem avera vinte annos que eu tenho usado as ditas folhas em lugar do dito folio imdio, que hee betelle.1196[Está] feito o recomtamemto das cimquo ilhas de Maluquo, vimdo de Ter‑nate pera Ambon. E se asy nom for em hordem, torne a comtar de Ambom pera Ternate, começamdo de Pacham. Nam diguam que a navegaçam de Malaqua pera Maluquo seja priguosa, porque hee bom caminho, hé pera as nosas naõos comveniemte, e navega se com vemtos de monção em hu~u mes a Bamdam ou a Ambom, e daly a Maluquo em hu~u dia e dous. Nosas naos bem aparelhadãs nom faram detemça em Ambom, pasar se am a Maluquo. Quamto mais quem teve maneira de saber e emvestigar de Purtuguall viir ha Maluquo em tam pouco tempo, trabalhamdo cada hu~u ~e seu tempo como hé sabido. Tera maneira, quem quiser ter zello das cousas se acabarem a serviço d’ellRey noso senhor, nom fazer o caminho de Maluquo pola vya da costa da Jaõa.1197 1195 ou seja, o brunho é uma espécie de ameixa brava, enquanto o zambujo é uma espécie de oliveira brava.1196 Tomé Pires confunde as folhas do bétele com o folio indo, já anteriormente referido. Note ‑se a referência auto ‑biográfica ao exercício da profissão de boticário em Portugal, no período anterior à partida para o oriente.1197 ou seja, Tomé Pires defende que a viagem de Malaca para Maluco não deve ser feita nave‑gando ao longo da costa norte da ilha de Java.SumaOriental-PDF_imac.indd 231 12/5/17 2:02 PM
  • 232Somemte por Symgapura, e de Symgapura a Burney,1198 e de Burney as ilhas de Butum,1199 e lloguo a Maluquo.1200 Pera quem naveguou a Maluquo, muito limpo caminho achou sempre, este em huuã mouçaõ hé presto. o caminho da Jaõa pera Maluquo foy avido por provisão. Desta maneira, a nos vem bem ho caminho de Burney pera Maluquo, e aos mercadores de Malaqua o de Jaõa. A nos o de Burney, porque nom fazemos escala de terra ~e terra, vemdemdo aqui, vemdemdo qua, ganhamdo em cada lugar, de maneira que se alomga ho tempo, e com pouco cabedall, e os navegamtes sam espravõs, fazem suas viag~es compridas e proveitosas, porque de Malaqua levam mercadarias da valia da Jaõa, e da Jaõa mercadorias da valia de Byma e Cimbaua, e destas ilhas levam pannõs pera Bamdam e Maluquo, e os que levam reservados de Malaqua, adoram os de Bamdam e Maluquo nell~es. E asy fazem suas mercadorias, o que nom poderiam fazer pola vya de Burney e Butum e Macaçar. Nos nam somos asy proveitosõs pera aumemtar a fazemda de sua baixa maneira, nem menos somos do seu vaguar, porque trazemos a gemte a soldo. Somente toma‑mos noso furnymemto larguo e de boa roupa, cometemos noso camynho, fazemos nosa mercadoria como portugues~es nam domestiqos a ella. E os panos anychelados dos reaes mercadores estam empapelados, porque semtem a mercadoria.1201 E desta maneira fazemos noso caminho prestes. Portamto, o caminho de Burney nos conv~e pera melhor, porque hé ja sabido, Deus seja louvado, bom hé e asaz proveytoso.Despois de Maluquo tenho falado de cimquo ylhas, aguora tambem quero dizer da ilha de Batochiina, por amor do porto de Jelolo, que tem muito cravo e esta perto de Ternate, noso amiguo. Ylha de Batochyna.1202A ilha de Batochina hé hu~ua corda de terra gramde, de hu~ua bamda vem sobre Ambom e Ceiram, e da outra estemde se comtra o norte as ylhas de 1198 Neste caso, Tomé Pires parece referir ‑se à ilha de Bornéu.1199 Referência a um conjunto de ilhas que se situam junto à parte sudeste das Celébes (ou Sula‑wesi), das quais a maior é a ilha de Buton.1200 Tomé Pires recomenda aos navios portugueses uma rota marítima para as ilhas de Maluco mais rápida e directa, que costearia a parte meridional das ilhas de Bornéu e das Celébes, por oposição a outra rota mais demorada, que segue ao longo da costa norte de Java. Não faria sentido recomen‑dar uma rota que passasse por Buton, na parte sul de Bornéu, e ao mesmo tempo costeasse o litoral setentrional da grande ilha, com passagem por Brunei1201 Esta frase é de interpretação algo complicada.1202 Batochina, ou Batochina do Moro, designa nas fontes portuguesas a grande ilha de Hal‑mahera, na parte oriental da Insulíndia, também conhecida como Jeilolo (ou Jilolo), nome de uma antiga e movimentada cidade portuária. De acordo com algumas fontes quinhentistas, o nome quere‑ria significar ‘terra da China’. Mas é provável que se trate antes da junção do termo batu, que em di‑versas línguas austronésias designa ‘pedra’, com o topónimo China, significando a ‘base dos chineses’, isto é, o local onde tradicionalmente os juncos chineses aportavam para carregarem cravo.SumaOriental-PDF_imac.indd 232 12/5/17 2:02 PM
  • 233Mor,1203 hé gramde muito. Toda hé de gemtios. Tem muitos mamtimentos he muyta gemte e muytos paraos, delles amdam a furtar, delles amdam de mercadoria, asy como toda outra naçam. Há seis leguoas de Ternate a esta ylha. Este hé o porto que se chama Jeilolo, demtro nesta ylha de Batochyna [há] este porto somemte. Tem rey mouro. Tem o porto deste muitos mantim~etõs. Hee imigo d’elrey de Ternate, e fazem hu~u a outro saltos e tomadias. Tem esta terrã de Jeilolo muito cravo bravo, como a ilha de Pachã. Dizem que trabalhã de o fazer~e bom. T~e esta ilha bom porto. E hé a jemte ja mais branqua algu~u tanto que ha de Maluquo. |159r| outras ilhas muitas estam a rredor de Maluquo, polla vya do norte, que sam as ilhas de Mõr e Chiaoa,1204 Tolo,1205 Bemgaya,1206 ao ponemte de Celebe,1207 Çolor,1208 em as quaes há muitos mamtimemtos. V~e a Maluquo tratar, trazem ouro. Tambem alguuas destas ilhas tem gemte case bramca. Mas porque noso emtemto nom hé esprever destas ylhas, porque seria necesario esprever dou‑tras cem mill, nom faço particular nem gerall memçam dellas aqui. Somemte que na ilha de Papua, que sera oitemta leguoas de Bamdam, dizem que há os ome~es das orelhas gramd~es, que se cobrem com ellãs. Numca vy que[m] vise outro que as vise. Jaz ysto no pouco que hee asy.1209 Recapitoladas as cousas de Maluquo, segumdo dizem que ja sam, daqui pera diamte nom serei ousado pasar. Somemte ate’qui foy meu emtemto. Quem sera poderoso escrever o gramde numero e emfynidade d’ilhas que haa do estreito de Campar atee Bamdam, e do estreito de Syngapura atee as ilhas de Jampom, que sam alem da China, e desta ilha cortamdo a Bamdam? E nestes meios, que seram mais de duãs ou tr~es mill leguoãs em roda, quem sera poderoso nellãs fallar? E hé certo que muitas delas merecem que delas se fale, porque muitas tem ouro, porque seria nunqua acabar e emfastiar. Somemte nesta tanta copia espreverey alguuas com que de Malaqua comonicã, e tambem no tempo pasado, e geeralmemte tocarey ~e outras, de maneira que minha temçam se acabe. E se minha temçã nam for de peso, seja perdoado.Estas sam as ilhas amtre todas com que Malaqua trata, e ellas tratam com Malaqua, scilicet, Tamjompura, a ilha da Laue, Quedomdoam, Samper, Bilitam, 1203 Ilha de Morotai, a norte de Halmahera.1204 Possível referência a Siao, pequena ilha a nordeste das Celébes (ou Sulawesi).1205 Possível referênca a Thulandang, pequena ilha a sul de Siao, a nordeste das Celébes.1206 Benggai, ilha na costa leste das Celébes.1207 Tomé Pires menciona aqui pela primeira vez a grande ilha das Celébes (ou Sulawesi), indica‑da apenas como ponto de referência. 1208 Possível referência à ilha de Sulu (ou Jolo), na parte meridional do arquipélago mais tarde designado como Filipinas.1209 Eis uma das poucas instâncias em que Tomé Pires reproduz lendas de origem oriental, os homens com grandes orelhas que existiriam em Papua. Mas de imediato regista o seu cepticismo. A fonte de inspiração poderia ter sido a leitura ou audição de passagens de um manuscrito, ou mesmo de algum impresso espanhol, do Livro das Maravilhas de John de Mandeville.SumaOriental-PDF_imac.indd 233 12/5/17 2:02 PM
  • 234Catepamucã, Macaçar, Udama, Madura,1210 afora as que tenho ditas, segumdo atras vam decraradamemte. Em Burney e nos Luções nom falarey, porque ja hé dito dellas na descriçã da Chiina.[Ilhas Centrais]A ylha de Tamjonpura.1211A ilha de Tamjompura hé ilha que com moução, partimdo de Malaqua, em xb dias vam nella pollo canall de Symgapura e polo de Campar. Tomam o caminho jumto com Limgua, amtre as ilhas de Limgua e Monomby.1212 Esta ilha hé de jem‑tios, hee casy sogeita a Pate onuz, senõr de Japara. Tem esta ilha pate, guovernador [e] senhor da ilha. Hee ilha de cimqoemta leguõas em roda.1213 Tem muito ouro e arroz, e outros mamtim~etos, tem muitos diamamt~es. Tem juncos [e] pangajavas, tem muita gemte. De Malaqua vam mercadarias, panos da valia da Jaõa, principall‑memte bretamgis vermelhos [e] pretos, e roupa de Bemgala bramqua, de pouquo preço. Trazem mamtimemtos e diamamtes e ouro. Nom se sabe parte omde aja diamamt~es, senom no reino de Rixia,1214 jumto com Bemgala, estes sam os melho‑res, e despois os desta ilha de Tamjonpura, e despois os de Lauue. Em outro cabo nom se acham. Hee jemte a desta ilha mercantive[l]. Tem espravos muitos que lhe traz~e doutras ilhas, e tambem de sy. Tem muito mell e cera. Ylha de Laue.1215Esta ilha de Laue hé quoatro dias1216 d’amdadura alem de Tamjompura. Hee tamanha como a de cima. Tem pates, tem muita jemte, todos sã gemtios. Tratam 1210 Estas ilhas são mais adiante referenciadas.1211 Tanjungpura, nas fontes portuguesas Tanjompura, parece corresponder a uma antiga cidade portuária situada na costa meridional da ilha de Bornéu, nas imediações da actual cidade de Banjar‑masim, que dependia de Japara.1212 Referência a ilhas do arquipélago de Lingga, que se situa a sul de Singapura; para além da ilha de Lingga, propriamente dita, Tomé Pires poderia estar a referir ‑se à ilha fronteira de Selajar.1213 Tomé Pires refere ‑a sempre a Tanjompura como ‘ilha’, embora se trate antes de uma região da grande ilha de Bornéu. 1214 Isto é, no reino de orissa (ou odisha).1215 Original: «lane», topónimo usado em toda esta secção, decerto por lapso de copista. Opta ‑se aqui pela transcrição Laue, que parece mais próxima do original, Lawe, antiga cidade portuária no sudoeste de Bornéu.1216 original: «he quoatro dias he quoatro dias», decerto por lapso.SumaOriental-PDF_imac.indd 234 12/5/17 2:02 PM
  • 235com Jaõa e com Malaqua, he tamto da Jaõa case como de Malaqua. Tem diamantes, tem juncõs, ouro em mais camtidade que Tamjompura. Tem mercadores, hee terra de muitos mamtimemtos. Hé [terra] de boa gemte. Valem nela as mercadarias que sam ditas em cima, valem panos queliis. Hé terra de boõ trato. Nom hobedece a nemgu~e. Sam estes home~es casy da maneira dos jaõs, rebustos, valemtes, hom~es de suas palavras.1217 Tem muita cera. As ylhas de Quedomdoam e de Samper e de Bylitam e de Cate e de Pamucã e de Adema.1218Estas seis ilhas que aqui sam espritas sam em torno das duas de cima, a nave‑gaçam de tres [ou] quoatro diãs huuãs das outras. Sam ylhas gramdes, de muita gemte, sam de gemtios, de pat~es. Tem juncos [e] pamgajavas. Tem estas ilhas todas ouro, tem muitos |159v| mamtimemtos, tem dellas buzios,1219 que hé boa mer‑cadoria. Há nesta terra muita erva de besteiros, e em muyta camtidade, a destes lugares hé a melhor que se sabe nestas partes.1220 Sam os homees desta ilha guer‑reiros e gramdes ladrões, salteã por muitos lugares quem vay de mercadoria, vam a recado nos portos do maãr. Sam domesticos, a outra jemte hee rustica. Tem estas ilhas imfynidade d’esteiras de tres [ou] quoatro sort~es, tem rotãas nam muytãs, tem peixe sequo, breu, mamtimemtos muitos, legumes, tem vinhos. Navegam estes em Jaõa e ~e Malaqua.os jaos vam comprar jumcos a terra dest~es, e estes quamdo vem a Jaõa vemdem os j~uquos na terra. Sam gramdes frecheiros. Trazem estes muitos espravos e ouro. Valem as mercadorias nas terrãs destes as que se dise nas outras ylhas. Vall beyjoym preto de Palimbam. Por detras destas ilhas vay o caminho pera Maluquo, pola vya de Macaçar e Butum, e vay tratar destas com Burney e com os Luço~ees. 1217 original: «pas», que poderia também querer significar «pessoas». 1218 A identificação destas «ylhas» é algo problemática. Pelas similitudes fonéticas, que podem não ser muito significativas, Tomé Pires poderia estar a referir ‑se a: Kendawangan, região da costa sudoeste de Bornéu; Sampit, porto da costa sul de Bornéu; Belitung, uma ilha que se situa entre Sa‑matra e Bornéu; Satui (e a leitura correcta seria «Çate»), localidade da costa sul do Bornéu; Pamukan, uma região na costa sudeste de Bornéu; e Anambas («Adema»), arquipélago situado a sudeste da Península Malaia.1219 Trata ‑se de uma referência a cauris, conchas de moluscos utilizadas como moeda de troca, já anteriormente referenciadas.1220 Provável referência a ervas utilizadas para envenenar as setas ou dardos disparados por zaraba‑tanas, arma típica do Bornéu. o veneno mais utilizado era produzido a partir do látex de uma árvore da família das amoreiras e das figueiras (Antiaris toxicaria, Lesch.).SumaOriental-PDF_imac.indd 235 12/5/17 2:02 PM
  • 236As ilhas de Macaçar.1221As ilhas de Macaçar sam alem das ilhas que avemos dito, amdadura de quoatro [ou] cimquo dias. Estam no caminho de Maluquo. Sam muitas ilhas, hé gramde terra. De huuã bamda vem dar comsyguo em Butum e sobre Madura, e da outra estemde se muito ao norte. Sam todos jemtios, dizem que tem mais de cimquo‑emta reis. Estas ilhas tratam com Malaqua e com Jaõa he cõ Burney e com Syam, e com todollos lugares que estam de Pahão atee Syam. Sã homees mais parecem‑tes a syames que a outras naço~ees. Sua limguoajem hee sobre sy, desviada das outras.1222 Sam homes gemtios, todos rabustos, gramdes guerreiros. Tem muitos mamtimentos. Sam estes home~es destas ilhas os mores ladroe~es que todollos do mumdo, e sam poderosos, e tem muitos paraos. Navegam roubamdo de sua terra atee Pegu~u e de sua terra atee Maluquo e Bamdam, por todalas ilhas, por Jaõa, e no mar trazem molheres. Tem feiras omde despacham suas mercadarias que furtam, e vemdem os espravõs que tomã. Correm toda a ilha de Çomotora a rredor, sam cosairos cabi‑doaes.1223 os jaõs chaman lhe baju~us e os malaios ysto lhe chamam, e çalates.1224 Trazem seus furtos a Jumaja,1225 que hé jumto com Pahão, homde vemdem e tem feira comtinoadamemte. os que nam seguem este estillo de furtar vem em suas pamgajavas gramdes [e] bem feytas com mercadorias, trazem muitos mamtimemtos, arroz muito, bramquo, trazem algu~u ouro. Levam bretamgiis e roupa de Cambaya, e de Bemgala algu~ua pouqua, e dos quelis, levam beyjoym preto em muita camtidade, emcenço. Tem muito povoo estas ilhas, e muitas carnes, hee terra muito abastada. Trazem todos crises, sam homees de boõs corpos, correm ho mumdo e todos os tem~e, porque sem duvida todos os ladro~ees com rezam obedec~e a estes. Trazem muita erva,1226 he tiram com ella. Nom tem força contra juncos, que todos se lhes defend~e, mas todo outro navio da terra levã na mão.1221 O topónimo Macaçar designou por vezes as Celébes, mas também se aplicava quer à penín‑sula que se situa a sudoeste desta ilha, quer à sua maior cidade portuária, que corresponde à actual Makassar. Tomé Pires escreve sempre sobre um ‘conjunto de ilhas’, referindo ‑se decerto a todo uma série de pequenas ilhas que rodeiam a ilha maior de Sulawesi.1222 os habitantes de Sulawesi expressam ‑se numa multitude de línguas da família austronésia, e entre elas as línguas buginesa, macaçar e toraja. 1223 Entenda ‑se aqui ‘principalmente corsários’, pois cabidoal pode significar ‘principal’.1224 os Baju Laut e os orang Laut, já anteriormente referidos.1225 Trata ‑se de Jemaja, uma das ilhas do arquipélago de Anambas, situado a sudeste da Península Malaia.1226 Entenda ‑se ‘erva venenosa’, para aplicação em setas e dardos.SumaOriental-PDF_imac.indd 236 12/5/17 2:02 PM
  • 237A ilha de Madira.1227A ilha de Madura hé gramde ilha, esta estaa defromte da Jaõa e a vista d’Agacy. Tem muita gemte e tem rey. Esta ylha de Madura estemde se gramde‑memte, dizem que tera em roda oytemta ou cem leguoas. Hee o pate de Madura cavaleiro, pesoa muyto principall, hee jemtio, chama se [...],1228 hé casado com huuã filha do Guste Pate da Jaõa. Dizem que Madura tera cimquoemta mill home~es de peleja, daqui sam os melhores cavaleiros que da Jaõa, sam muyto temi‑dos. os de Madura dizem que elles sam jaõs natura~es, e tem gramdes famtesyas. Tem muitos sacerdotes de jemtios, pesoas muito estimados. Hee terra de muitas lancharas. Sam homees bem apesoados. A terra hé de muitos mamtimemtõs. Tem muitos cavallos. Gastam se na terra de Madura gramdes copias de panos que se fazem na mesma ilha, e outros que de fora vem, que elles usam. Nom tem outra mercadaria senom arroz e mamtim~etos, e muitos espravos. Tem algu~u ouro, do trato que tem as ilhas que atras sam ditas, e comfynam delas com Madura. Tem este [pate] paz com Agacii. Nom tem mouros esta ilha de Madura, e sam nosos amiguos, etc.|160r| Recomtamemto de todas as ilhãs.Haa outra imfynidade d’ilhas, nom hé rezam mais falar. Somemte que todas tem ouro [e] espravos, e hu~uas tratam com outras, e fazem as pequenas nas mores que dytas sam, e as mores tratam com Malaqua, e Malaqua com ellas, des‑pemdemdo e comutãdo aas mercadorias. As mais destas ilhas tem ouro, e tambem tem todas cosairos e ladro~ees que nam viv~e doutra cousa. Nom navegam os cosairos senom em paraõs sotiis, e portamto nom empremdem juncos. E destes cosairos, os mais cheguados a Pahão fazem ~e Paho[m] suas escalas, e os cheguados a Maluquo e a Bamdam fazem as escalas em Byma e Cimbaua e Çapee,1229 e os cheguados a nos fazem feira e escalla ~e d’Aruu e em Arcat [e] Rupat. Trazem muitos imfimdos espravõs, e portamto se usa a camtidade d’espravos ~e Malaca, porque todos vem a ella t~er, pollo gramde trato que sobre todos os reynos e portos destas bamdãs tem. E asy se chama riio bem avemturado, hé certo [haver] ca gramdes partidas, nam se sabe tam grosa escalla como a de Malaqua, nem em que se tratem tam nobres e estimadas mercadarias. Aquy se acha da valia de todo Levamte, aquy se vemde de toda valia de todo Ponente, nom hé duvida que as cousas de Malaqua sam de 1227 Leia ‑se ‘Madura’, ilha situada ao largo da costa nordeste de Java.1228 Espaço em branco no MP.1229 Sape, localidade da ilha de Sumbawa, anteriormente referenciada.SumaOriental-PDF_imac.indd 237 12/5/17 2:02 PM
  • 238gramde peso e muito proveito e gramde omrra, hee terra segumdo seu sytio nom pode demenuir mas sempre acrecemtar, hé fym de mouço~ees, homde acha~ees o que quer~es, e as vezes mais do que cata~ees.12301230 Seguem ‑se aqui, no MP, as descrições de Ceilão, China, Léquios, Japão, Bornéu, Filipinas e Samatra (fl. 160 ‑163v), que foram integradas em anteriores secções da Suma Oriental, seguindo a ordem topográfica.SumaOriental-PDF_imac.indd 238 12/5/17 2:02 PM
  • 239[LivrO SeXtO][Recontamento de Malaca.1231]|164r| Este hé o primcipio da povoaçam de Malaqua por diversos autores, e a verdade se decrara do que se mais afirma.1232 De Malaqa.Segumdo opiniam dos jaaõos, dizem Malaqua ser povoada nesta maneira, a quall elles tem em coroniqua sua e o vereficam gramdememte.1233 Afirmam os jaaõos aver em Jaõa, na era de mill e trezemtos e sesemta anños, trazemdo sua comta a nosa, hu~u rey na Jaaõa que se chamava Raja Quda, que quer dizer ‘rey dos cavallos’, o quall fez hu~u filho que se chamava Raja Baya, ou por outro nome Sam Agy Jaya Baya, que na linguoagem de Jaaõa quer dizer ‘senhor gramde de 1231 O relato de Tomé Pires sobre a história de Malaca inclui muitas informações que não se encontram em outras fontes da época ou apresenta versões de determinados factos que nem sempre estão de acordo com essas fontes. 1232 A referência de Tomé Pires a «diversos autores» é algo enigmática, já que teria à sua disposi‑ção muito poucos textos europeus contendo informações sobre a história de Malaca, entre os quais se contavam os relatos de Marco Polo e de Ludovico de Varthema. Estaria ele a aludir a textos de origem oriental? A Suma Oriental, na realidade, apresenta um conjunto de notícias extremamente inovadoras sobre Malaca e a sua história, que não se encontrarim disponíveis em outras fontes oci‑dentais anteriores. 1233 Não se pode pôr de parte a hipótese de Tomé Pires ter tido acesso a uma versão preliminar dos Sejarah Malayu (Anais Malaios), crónica malaia originalmente redigida em escrita jawi, que relata as origens e história do sultanato de Malaca. O manuscrito mais antigo desta crónica data da década de 1530, mas Tomé Pires poderia ter tido acesso a alguma versão preliminar. Muitas das informações fornecidas por esta secção da Suma Oriental poderão derivar desta crónica, e também de tradições orais recolhidas na própria cidade de Malaca.SumaOriental-PDF_imac.indd 239 12/5/17 2:02 PM
  • 240povõos’.1234 Este ouve hu~u filho que se chamou Sam Ajy Dandan Gimdoz, que quer dizer na dita limguoajem ‘moõr que seus amtecesores’. E este ouve hu~u filho que se chamou Sam Ajy Jaya Taton, que quer dizer ‘senhor de todos’.1235 Este Sam Ajy Jaya Caton morreo sem filhõs. E o povo jumto, ajumtou dos primcipãees mandaris e fezerom hu~u rey, e mudaron lhe o nome de Sam Ajy, e chamou se Batara, que quer dizer ‘rey limpo’.1236 Este Batara Tamarill fez hu~u filho, a que chamarom Biatara Curipan, que socedeo ho reino da Jaõa. No tempo deste se alevamtou o quarto da terra da Jaõa, e alevamtou hu~u mamdari e chamou se Biatara Caripanam Çuda, como se dira em seu luguar.1237 Este Batara Caripan, em cujo tempo se perdeo o quarto da terra de Jaõa, ouve hu~u filho que socedeo em seu luguar, que despois se chamou Bataram Matarã,1238 e este foy gramde justiçoso. E este fez hu~u filho que chamarom Bataram Sinagara, e este dizem que foy doudo, e foy dado o regno a hu~u seu filho que se chamava como ho dono,1239 Bata‑ram Matarã. Este Batarã Matarãm fez hu~u filho que aguora ~e noso tempo regna em Jaãoa, que se chama Batara Vigiaja,1240 que quer dizer ‘o rey gramde sesudo’, cujo capitam hé o Gusti Pate, como se tratara largamemte na descriçam da Jaoõa.1241 Dizem os jaaos que no tempo do Batara Tomarill, rey das terras e senhor das ilhas, tinha por trebutarios Sam Agy [de] Simgapura, que era rey daquelle canall, seu tributario e vasallo. E avera da Jaaõa a Simgapura duzemtas e quarenta1242 leguoas por amtre ilhas. E que asy era Sam Agi [de] Palimbaao, que quer dizer ‘o senhor de tudo’, seu vasallo trebutario. E avera de Palimbaão a Jaõa cem leguoas, e casy golfom. He ysto na parte mais lomge, porque na mais p~erto, comfynamdo com Çunda, avera viimte leguoas. 1234 A expressão javanesa sang aji corresponde a um título honorífico, aproximadamente equi‑valente a ‘el ‑rei’.1235 Estes nomes de soberanos são de difícil identificação, tendo em conta a cronologia indicada por Tomé Pires e a natureza das fontes malaias e javanesas, que incluem frequentemente elementos de natureza mítica ou lendária.1236 o termo sâncrito bhattara pode designar um personagem régio.1237 Poderá tratar ‑se de uma referência a Bhre Kertabhumi, soberano de Majapahit (r.1468 ‑1478). A expressão aqui utilizada sugere que a descrição de Java integraria uma secção posterior da Suma Oriental. 1238 Poderá tratar ‑se de Prabhu Natha Girindrawardhana, soberano de Majapahit, designado como Brawijaya VI (r.1478 ‑1489).1239 Isto é, ‘como o avô’.1240 Trata ‑se do rei de Majapahit, Brawijaya VII, anteriormente referenciado.1241 Mais uma referência que coloca a descrição de Java em lugar posterior da Suma Oriental. Ao longo desta secção multiplicam ‑se as referências à organização interna da obra de Tomé Pires. 1242 original: «Rta».SumaOriental-PDF_imac.indd 240 12/5/17 2:02 PM
  • 241E era seu vasallo tributario Sam Agy [de] Tamjompura, que quer dizer ‘senhor das pedras’. E avera da Jaaoã a Tamjompura setemta leguõas. Esta hé a terra dos diamãtes.1243 Morto Sam Agi [de] Palimbãao, ficou hu~u filho seu, gramde cavaleiro e omem muyto guerreiro, a que chamavam Paramiçura, que quer dizer na lingoaj~e de Jaaõa [e] Palimbaão ‘que hé mais ousado’.1244 Era casado com hu~ua sobrinha do Batara Tamarill, que se chamava Paramiçure. o quall, como se viio tam nobrememte casado, e que senhoreava nas ilhas gramdememte que comfinavam com elle e eram da obidiemcia de seu cunhado, alevamtou ha vasalajem e obidiemcia e chamou se ‘o gramde isemto’.1245 |164v| Avemdo a tall nova Batara Tamarill, rey da Jaaõa, como Sam Agy [de] Palimbão mudara ho nome e se chamava Paramiçura, que quer dizer ‘isemto’, detreminou com seu poder e ajuda d’ellrrey de Tamjompura hir sobr’elle e tomar lh[e] a terra de Palimbaõo, e o matarem e destroirem, etc.Ysto acordado, jumtou sua jemte em navios e deu sobre a ilha de Bamca, que esta jumto com Palimbaão, e a destroyo. omde diz que matou todos, porque era gemte de Palimbaão, e que mataria na dita ylha mill moradores. E daly foy a Palimbaão, que sera huuã leguoa ou duas, e começou [a] desbaratar os lugares. E quamdo Paramiçura rey de Palimbaão isto viio, ajumtou ~e jumqos e lamcharas obra de mill om~ees com suas molheres, e embarquo os, e elle fiquou com obra de seis mill om~ees em terra pera daar batalha ao rey de Jaaõa seu cunhado. Emtrados na batalha de parte a parte, foy fogimdo Paramiçura e recolheo se aos juncos e frota que tinha no riio, e ficou lhe toda a jemte que tinha pera se defemder em poder do cunhado, e somemte a gemte que tinha embarquada com elle. Naveguou a Symgapura, homde cheguou com seus juncos e jemte, domde foy recebido do Sam Agy [de] Symgapura,1246 e pousarom ambos, etc.E do dia de sua cheguada a oito diãs foy morto ho Sam Agy de Symgapura, por ymdustria de Paramiçura, e ficou ho canall e povoaçoes a obidiemcia de Para‑myçura. E era senhor de tudo, e guovernava o canall e ilhas que podia aver e aquerir por sua ymdustria a sua maao, e regia a terra em justiça. E nom tinha trato algu~u, somemte semeava sua jemte arroz e pescavam, e roubavã dos imigõs, e disto viviam no dito canall de Symgapura. E ellrey de Siom, que era sogro do Sam Agy de Symgapura, [o qual era] casado com huuã sua fylha de huuã manceba sua, ffylha de hu~u primcipall mamdari de 1243 Tanjungpura era, de facto, um centro exportador de diamantes.1244 Paramesvara (1344 ‑c.1414), príncipe originário de Palembang, na ilha de Samatra, que em finais do século xiv ou inícios do século seguinte terá fundado Malaca. 1245 Paramesvara é um título, e não um nome, correspondendo a ‘príncipe consorte’, pois seria casado com uma princesa originária de Majapahit.1246 Singapura, porto e região na extremidade meridional da Península Malaia.SumaOriental-PDF_imac.indd 241 12/5/17 2:02 PM
  • 242Patane, quamdo ouvio as novas de seu jenrro, detreminou de viir sobre elle, e fez ajuntamemto de jemte, e fex capitam mor o dito mamdari, pay [da mãe] da molher do Sam Agy de Symgapura. o quall veio tam poderoso, que o dito Paramiçura nom ousou de o espera[r], e fogiio com obra de mill hom~ees e meteo se no riio de Muar.1247 E aviia cimquo anños que estava ~e Symgapura. Como o dito Paramiçura emtrou em Muãr com sua molher Paramiçure he com mill hom~ees, começou a talhar matos e fazer campos, pramtar arvores e fazer duçoees1248 e quimtaas pera seu soportamemto, homde esteve seis anños. E alii pramtava cousas de sua vida e pescavam, e as vezes furtavã e roubavã champanas que vinham tomar auga doce ao riio de Muãr, que vynham com junquos da Jaoãa e da China, como se dira na descriçam de cada terra, quamdo navegavã e pera omde.1249 Em este meyo tempo, asy do regno de Batara Tumarill, rey de Jaaõa, e das ilhas muitas, em cujo tempo estava Paramiçure fogido [de] Palimbão ~e Muar, como de sua fortuna avemos recomtado, morava em Malaqua a gemte de que agora diremos, pera virmos ao fundamemto de Malaqua e a sua amtigidade, e de que gemte foy povoada primeiro.Neste tempo, e segumdo verdade da estoria dos jaãoos,1250 e asy se afirma agora pollos malaios e todas geraço~ees comarcãas, quamdo os celates, que sam cosairos ~e pequenas barcas sot~ıis, como diremos ~e seu titollo, quamdo se delles falar [...].1251 Sam hom~ees que em suas barcas amdam a furtar, e pescam e andam asy, ora em terra ora no maãr, dos quaees imda agora ~e noso tempo ha grande copia. |165r| Trazem zervatanas com suas seetas sot~ıis d’erva de besteiro, que se avemtam sãg[u]e matam, como fezerom aos nosos purtugueses muytas vezes, na empresa he destruiçam da famosa cidade de Malaqua, muyto nomeada amtre as nações. Estes celates [ou] baju~us, homees que veviam jumto com Symgapura, he tambem jumto com Palimbam, quamdo o Paramiçura fogiio de Palimbam, elles seguirom [em] sua companhia, e andavam delles trimta jumtõs, sostemdo sua vida. No tempo que ho Paramiçura esteve ~e Palimbão, serviam de pescadores. Despois de vymdos a Symgapura, elles moravam ~e Carimam, ilha jumto com ho canaall. E no tempo que o dito Paramiçura veyo a Muar, vierom estes trimta a viver homde aguora se chama Malaqua, que avera de Muar ao lugar de Malaqua cinquo leguoas. 1247 o rio de Muar corre na parte meridional da Península Malaia e desagua no porto de Muar, a sul de Malaca.1248 Dução, do malaio dusum, herdade ou quinta. 1249 Mais um indício de que a secção sobre Malaca não deveria figurar na parte final da Suma Oriental.1250 Nova referência à utilização de fontes orientais.1251 Parece faltar alguma palavra que completaria o sentido desta fase.SumaOriental-PDF_imac.indd 242 12/5/17 2:02 PM
  • 243Vivemdo estes celates e ladrõees, que aas vezes pescavã pera seu soportamento, com suas choças em terra, e ssuas molheres e filhos, jumto com ho momte que aguora se chama Malaqua homde esta a famosa fortaleza de Malaqua,1252 ho tempo que Paramiçura vivia em M~uar, estes celates eram sabedores da terra, como hom~ees que andavam esperamdo vida pera seu repouso, pescavã no riio que corre pollo pee da for‑taleza, por espaço de quoatro ou cimquo anños, e comiam e dhy buscavam sua vida. Amdamdo estes muitas vezes pollo dito riio de Malaqua pescamdo, huuã leguoa afastados do mar e duas, virom hu~u lugar gramde e espaçoso, de gramdes campos [e] fremosas aguõas, e virom como tall lugar era desposto pera gramde povoaçam, e se podiã nelle semear gramdes campos d’arroz, pramtar quintaãs, pacer guaados. As vezes custumavã de levar laa suas molheres e fylhos, e ahy recriavam suas pessoas. E detreminavam de alii fazer seu asemto, he poseron lhe nome Bietam,1253 que na limguoagem dos celates quer dizer ‘campo estemdido’. E amtes que se pasasem pera o dito lugãr, detreminarom todos acordados de fazer saber a Paramiçura, que estava em Muar, que mamdase ver ho dito luguãr, se lhe parecia ser pera elle conveniemte, e nom estar ~e Muar, porque nom tinha la tam boa estamcia. E quamdo forom todos fazer lhe esta fala, levaron lhe hu~u cesto de fruyta de huã arvore que estava jumto com as casas dos celates, ao pee do momte omde ora esta a fortaleza, a quaall o dito Paramiçure recebeo com prazer dos ditos celãtes, e lhes pregumtou a que vinham. E elles lhe dixerom o que acordado o tinham acerqua de lhe fazer saber do dito lugar de Bietam, se se queria mudar pera elle, que lhes parecia a elles bõm lugar honde o dito senhor poderia repousar. Dixe o dito Paramiçura aos celates: «Ja sab~ees que em nosa limguoaj~e ho homem que foge se chama ‘malayo’, e pois a mim fogido trazes taall fruyta, chame se a ese lugar Malaqua, que quer dizer ‘furtado, fogido’. E pois vosa temçam foy tall que quisestes buscar luguar pera meu repouso, eu o mamdarey ver, e se for tall, eu me pasarey a elle com minha molher e casa, e deixarey ~e Muar a quarta parte de minha gemte pera se aproveitar~e da terra, em que tamto trabalho todos temos levado ~e a amansar». Respomderom os celates: «Nos tambem somos de teu senhõrio amtiguo de Palimbam, sempre amdamos comtiguo, se te a terra parecer boa hé rezã que nos faças esmolla de nosas boas vomtades, e noso trabalho nom seja sem gualardam». Dise lhes o Paramiçura que asy seria, e os |165v| celat~es peramte todos diserom que se a terra lhe parecese bem e se a ella quisese pasar, que se fezese e chamase rey, por tall que lhes podese a elles dar homrra e esmolla. ofreceo se elle a yso e dise que asy era sua vomtade fazer lhes. 1252 A fortaleza portuguesa de Malaca, construída em 1511, logo após a conquista da cidade por Afonso de Albuquerque.1253 Parece corresponder ao lugar de Bertam, a noroeste de Malaca.SumaOriental-PDF_imac.indd 243 12/5/17 2:02 PM
  • 244Mamdou o dito Paramiçura v~er o dito luguar de Bietão pollo riio acima por pessoas que pera iso hordenou, e virom o dito campo cercado de fremosas serras e gramdes agoas, cercado do riio que vem te~er a Malaqua, de muitas avees [e] aliima‑rias, domde ha liiões, tigr~es e outras de diversas feiçõees, como de feito nom he duvida em gramde partida se achar tam fremoso campo que dure tr~es ou quoatro leguõas, e aguora tam aproveitado. Do quaall os que ho forom ver ficarom muito comt~etes, e asy o diserom ao dito Paramiçura, e elle ouve gramde prazer, e toda sua jemte, pera viverem mais a sua vomtade largamemte. Mudado o dito Paramiçura ao dito luguar de Bietão e repousado, começamdo ha aproveitar a terra e della gostamdo, os celates forom a elle, que ja emtam nom eram mais que dezoito, e lhe diserom se era lembrado como elles forom ~eventores da dita terra, e com desejo de seu repouso elles deixarã suas molheres e filhos e se forom a Muãr a fazer lhe saber de tall lugar homde ja estava gozamdo, que lhe pidiam que comprise em lhes fazer merc~ee d’alguuã esmola d’omrra. A quall piti‑çam o dito Paramiçura os fez mamdaris, que quer dizer fidallguos, a elles e seus filhos e molheres, dalii pera sempre. Domde ficarom asy, que todos os mamdaris de Malaca vem destes, e os rex das partes de suas mãis, segundo na terra se afirma. Feitos por mãao do dito Paramiçura os ditos pescadores mamdaris, acompanha‑rom sempre o dito rey, e asy como o dito rey os acrecemtou em fidalgia, elles tam‑bem reconhecerom ha mercee que lhes fora feita, acompanharom gramdememte o rey e o servirom com gramde fee e lealldade, de bom coraçam sua amizade. E desta maneira [durou] senpre o amor do rey acerqua delles, como ho verdadeiro serviço e zello que os ditos novos mamdarys tinham e trabalhavam de o comprazer. E durou sempre sua honrra atee a vimda de Dioguo Lopez1254 de Sequeira a Malaqua,1255 que o quimto neto delles era ho lasamana e o bemdara que ordenou a treiçam sobre o dito Dioguo Lopez de Sequeira, que despois morreo deguolado as maaos do rey que perdeo Malaqua, porque a justiça de Deus e treiço~ees ao rey feitas nunqua se perdem nem vam sem o castiguo.1256 [Ficou] morrendo1257 o dito Paramiçura no dito lugar do Bretão, asaz a seu comtemtamemto, em lugar tam fresco e de tamto viço e de tam boa vida, como oje em dia se podera veer quem vier a Malaqua. Que certo hé hu~ua cousa das [melhores] do mundo, he [de] fremosos vergeus d’arvores e sombras, muitas fruitas, gramdes aguoas doces, que procedem da serra dos Emcãtados1258 que estaa a vista de Malaqua, segumdo afirmam os naturaees de gramdes momtarias d’alifamtes 1254 original: «llopez».1255 Diogo Lopes de Sequeira comandou a primeira expedição portuguesa que em 1509 visitou Malaca, a qual foi vítima de um ataque das forças do sultão daquela cidade.1256 o bendara Tuan Mutahir, já antes referido, executado em Malaca em 1510.1257 Leia ‑se ‘morando’.1258 o Monte ophir ou Gunung Ledang, nas proximidades de Malaca, já antes referenciado.SumaOriental-PDF_imac.indd 244 12/5/17 2:02 PM
  • 245bravos muitos, de liõees, de tigres, he doutros animaãos mostruosos, e aliimarias de casa nom como as nosas, somemte servos.1259 Temdo este Paramiçura hu~u filho que ouve em Symgapura que era ja casy homem, casado com a filha primcipall dos mamdaris fidalg~uos que d’amtes foram celates, que se chamava o filho Chaquemdara Xa,1260 andando |166r| a caça no dito lugar do Bretam com quãees,1261 como acostumava cada diã he as mais vezes, hu~u dia veyo de pos os cãees e gualguõs, que há nestas partes muito boõs, e vinham os ditos caees corremdo de pos hu~ua alymãria como lebre, que tem os pe~es de gamito e o rrabo curto,1262 das quaees alimãrias os cãees matavam cada dia dez [ou] doze. Vimdo asy de pos ella athee chegãr ao maãr sobre o momte de Malaqua, omde ora esta a fortaleza d’ellRey noso senhor, tamto que se a dita alimaria viio sobre o momte, virou aos cãees e elles começarom a fugir. Quamdo o dito Xaquemdara Xa vio tal cousa, e que a dita alimaria recobrara ta~ees forças sobre o momte, pare‑ceo lhe outra cousa e tornou se pera Bietam, omde seu pay estava, a comtar lho, dizendo ao dito Paramiçura seu pay: «Senhor, eu oje imdo a caça, fuy de pos huuã lebre athee o momte dos vosos mamdaris, homde há a fruita dos malayõs, e alii a lebre sobre o momte virou, ou porque o mar tocava no pee do monte, ou por alii cobrar forças, e todos meus cãees se tornarom fugimdo. E pois que daquellas alimarias elles matavam cada dia dez [ou] doze, como foy aquela poderosa pera se defemder [de] todollos cãees, sem se poder~e a ella cheguãr? He porque ysto nom hé sem algu~u misterio, vos venho comtar ysto, e roguo vos senhor que vades ver este momte, e veremos se achamos alii outra vez esta alimãria. E se vos quiserdes que eu alii faça minha morada, eu folgarey muito». Ho Paramiçura nom quis agravar ho filho, e foy laa, e imdo por sua guia amostramdo ho caminho o seu gramde mamdari, sogro de seu filho, por causa do espeso arvoredo que há do dito Bretao ao momte de Malaqua, como oje há, posto que nom sejã mais de duas leguoas. E cheguamdo o rey, viio tres momtes quasy jumtos, a tres e a quatro tiros de beesta depojada, scilicet, o momte de Boqua China,1263 de fermosas augas e mui doces, e o momte dos Alacras, que hé na bamda de Tuam Colaxcar,1264 mouro jaao, e o momte d’Alimaria, homde ora 1259 Isto é, ‘cervos’.1260 Tomé Pires escreve «chaquem daraxa». Trata ‑se de Megat Iskander Shah, filho de Paramesva‑ra, que terá sido o segundo soberano de Malaca, reinando entre 1414 e cerca de 1424.1261 Leia ‑se ‘cães’.1262 Trata ‑se do veado muntjac (Muntiacus muntjac).1263 Referência à colina de Bukit Cina, em Malaca.1264 o termo «Alacras» poderia corresponder a lacrau ou alacrau, do árabe al’aqrab, o mesmo que escorpião, designando assim a ‘colina dos Lacraus’; mas este topónimo não parece estar documentado para Malaca. Tuan Kelaskar era um poderoso mercador javanês, que se manteve em Malaca após a conquista portuguesa; o seu nome estava ligado a zona da cidade conhecida como Hilir.SumaOriental-PDF_imac.indd 245 12/5/17 2:02 PM
  • 246esta a fortaleza Famosa.1265 Dixe o Paramiçura a seu filho Xaquemda Xa: «omde queres teer asemto?». E o filho lhe dise que neste momte de Malaqua. Dixe o pay que asy fose, he fez no dito tempo suas casas no momte em cima, homde atee o presemte tempo foy morrada e asemto dos reis de Malaqua. [Ficou] asemtado no dito momte o dito Xaqemdar Xa, com mui riqas casas ã guisa da terra, sobre o momte e no chãoo d’alem da pomte omde ora estam os gudõees dos almoxerifes.1266 o asemto de seu sogro, cõ obra de trezemtos morado‑res e outros, estava no Bretam com seu pay. Trabalhava de povoar Malaqua quamto podia, começava a vi~ır jente da bamda d’Aruu e doutros lugares, homees como celates ladroees e outros pescadores. Em tamto que se fez Malaqua do tempo de sua estada a tres anños lugar de dous mill vizinhoõs, e Siam mamdava lhe arrozes. Em este tempo adoeceo Paramiçura he morreo. Fiquou ho regño ha seu filho, Xaquemdar Xa, e mamdou a jemte do Bretam viir, somente deixou la home~es como caseiros. E deu por asemto aos celates mamdaris todos a frallda do momte de Malaca pera sua guarda, como athe o presemte athee a tomada de Malaqua hos ditos lugares eram dos ditos mamdaris e cavaleiros que tinham a guarda de sua pessoa. E este trabalhava por povoar a terra, faziia justiça, pollo quall vinhã dout[r]as partes alii viver e povoar. |166v| Asy que morto ho Paramiçura e feito rey seu filho Xaquemdar Xa, jaa com seis mill vizinhos em Malaca, mamdou hu~u seu cunhado a[o rei do] Syam cõ embaixada. E mamdou lhe dizer como elle, por caso fortuito, viera te~er aquella terra homde tinha tamto trabalho levado, que lhe pedia que sempre lhe acudise com mam‑timemtos por seu dinheiro, que a terra era sua e que ele seria sempre em conhecim~eto como hom~e que vivia ~e sua terra, e que lhe ajudase a povoar a terra que era sua.Ho dito rey de Siam lhe mamdou jemte e mamtimemtos, mercadarias de sua terra, dizemdo que asy folgava de se povoar, e que elle o ajudaria, aproveytamdo se a terra, como deziia. Fynallmemte que o embaxador foy tan bem despachado e veio com tam bom recado, que o Xaquemdar Xa deu de mercee ao dito embaixador, que era seu cuñhado, que de sua jeraçam fosem os embayxadores e nom de outra dalii em diamte, como se costumou atee o presente dia da tomada de Malaqua pllos portugueses, e nom podia ser embaixador se nom de taall jeracam. E os embaixadores de Malaqua nom som mais poderosos que apresemtar as cartas, nom podem outra cousa dizer nem fazer, como eu muitas vezes vy em suas embaixadas, por asy ser costume.1265 O monte da «Alimaria», cuja designação teria origem na história relatada por Tomé Pires, era a colina de São Paulo, onde se situava a primeira fortaleza construída em Malaca pelos portugueses, que era conhecida como ‘A Famosa’.1266 Godão ou gudão, do malaio gudang, um depósito subterrâneo, normalmente forrado de esteiras.SumaOriental-PDF_imac.indd 246 12/5/17 2:02 PM
  • 247Aimda neste tempo regnava em Jaãoa Batara Tamarill, rey de Jaãoa, ao quall o dito Xaquemdar Xa mamdou embaxador, pedimdo lhe, que ja seu pay era morto, que lhe rogava que fosem amig~uos e as diferemças pasadas acabasem. E pois lhe tinha a terra de Palimbão, que dalii por diãte quisese tratar em sua terra, e que alii poderia despejar suas mercadarias, e que sua terra se iria gramdememte povoamdo, e cada vez seria mais, porquamto tinha sabido que asy avia de ser e o tinha espirim~etado por dez anños. Que alii faziam fim as mouço~ees de hu~u cabo e do outro, e que com menos risquo poderiam navegar seus junqos, por causa dos baixos que aviia pera Pacee e pera outros lugares omde sua jemte e povoo navegava, e que lhe rogava que asy o fezese. Respomdeo o rey da Jaãoa Batara Tumarill que avia gramdes tempos que seus juncos navegavam em Pacee, e que era muito liado com elle em amizade, homde seus mercadores recebiam boos retornos de suas mercadarias he homrra, e eram franqueados, e asy vasallo o dito rey de Pacee seu, que elle mamdase laa se asy fose sua vomtade, que doutra maneira elle nom faria ho comtrairo, porque nom avia de quebrar ho costume tam amtiguo como amtre elles era acordado tanto tempo aviia.Tornado o dito embaixador, trouxe sua reposta, pollo quall o dito rey Xaqu~edar Xa mamdou recado ao rey de Pacee, pedimdo lhe que elle quisese dar luguar he nom aver por mall que Jaoa tratase em Malaqua, e que a elle asy o rogava que quisese mamdar seus mercadõres a Malaqua com mercadorias, dizemdo que em sua terra aviia ouro para retorno e que sua terra seria mayor ao que comprise ao dito rey de Pacee, e que elle esprevera ao rey da Jaãoa e que lhe respomdera se sua vomtade fose que lhe aprazeva muyto.Ao quaall o dito rey de Pacee mamdou embaxadores ao dito Xaquendar Xa, dizemdo que elle era comtemte d[e] boa vomtade ao que elle pedia conceder lho, |167r| se elle quisese tornar se mouro, e do que detreminase lho mamdase dizer inteiramente, pera fazer prestes sua vomtade. Ho dito rey Xaquemdar Xa nom rece‑beo bem os embayxadores que de Pacee vierom, e os premdeo e reteve no Bretao, gramde tempo rretemdo, fazemdo lhes bom trato. E muitas vezes vinham pesoas omrradas de Pacee com recados ao ditõ rey de Malaqua, asii sobre a soltura dos embaixadores como certeficar se da terra. E como a nova povoaçam se fizera tam prestes tamanha, posto que o primcipall asemto era no Bretao, homde se elle hiia recriãr, o que se fez sempre ath~ee o dia de sua tomada. Reformou se gramdememte em amizade casii vasallo com Batara Tumarill, rey da Jaaõa, por rezam dos muitos juncos e forte gemte da terra que emtam navegavam gramdes partidas, como se dira na descriçã da Jaõa. E sempre lhe mandava alifamtes e dadivas, pollo quall sem embarg~uo do rey de Pacee comsent~ır, algu~us juncos vinham a Malaqua, posto que fose pouca cousa, porque a escala era toda ~e Pacee das merca‑dorias, como se dira quamdo se tratar da ilha de Çomotora e das cousas de Pacee.1267 1267 Nova referência a descrições de Java e de Samatra que apareceriam posteriormente a esta secção sobre Malaca.SumaOriental-PDF_imac.indd 247 12/5/17 2:02 PM
  • 248Acabados tres annos, ho dito Xaquemdar Xa deixou tornar os embaixadores a Pace~e homrradamemte, e fezerom os rex amizade e tratavam de Pacee ~e Malaqua. He alguus mercadores mouros riquos se mudarom de Pacee a Malaqua, asy par‑ses como bemgalas e mouros arabios, que destas tres naçõees aviia naquelle t~epo gramde suma de mercador~es, e mui riquos, de grosos tratos e fazemdas, e eram estamtes alii das ditas partes, fazemdo suas mercadorias. E asy viimdos trouxerom comsiguo moulanas e cacizes letrados na seita de Mafamede, principalmente ara‑bios, que nestas partes sam estimados no saber da dita seita. Chegados hos ditos mercadores, diserom ao dito rey Xaquemdar Xar que tinhã sabido de sua justica e misericordia, que usara com os de Pacee, e pois eram amigos os reis, que elles queriam tratar de Pacee em Malaqua, e queriam viir a terra. E se se nela podese fazer mercadoria e se abrise caminho, que estariam nella e pagariam os dirreitos que hordenasem, porquamto lhes diziã que a jemte da Jãoa queria tratar e viir com mercadarias que elles aviam mester, que era cravo, maças, noz e samdallos, porque neste tempo era do trato da Jaõa, como se dira quamdo se tratar da ilha de Jaaõa. Ho dito rey Xaquemdar Xa folguou muito com os ditos mercadores mouros, fez lhe homrra, deu lhe lugares pera seus apousemtamemtos, lugar pera suas mezqitas, e os ditos mouros como ouverom o dito lugar fezerom fermosas casas a usamça da terra e povoaçã. Gramdememte começava se a fazer trato, principallmemte por causa dos ditos mouros serem riquos, do quall recebia o Xaquemdar Xa, rey de Malaca, gramde proveito e comtemtamemto, e deu lhes a elles jurdição sobre sy. E os mouros eram muito validos acerqua do dito rey, e acabavom quamto queriam. Em este meio tempo acudirom aquelles mercadores que estavam em Pacee he mais mercadores mouros, e tratavam em Malaqua, e de Malaqua em Pacee, he hiam aumemtamdo a terra de Malaqua. E ysto nom se semtia em Pacee por causa do gramde numero de gemte que aviia no dito lugar, como se dira em seu lugar. E vinham doutras partes de Çomotora gemte a trabalhar e ganhar sua vida, e de Symgapura e das ilhas comarcaas de celates, e outra gemte. E o dito rey Xaquendar Xa, por ser homem de justiça e combenivollo aos mercadores, folgavam com elle. De maneira |167v| que neste meio tempo vierom dous juncos da Chiina que hiam a Pacee, e o dito rey fez represa em alguuã jemte, por tall que quisesem alii tratar, he vemderom alguuã mercadoria aos ditos mercadores, e muyta outra levarom a Pacee. Ja neste tempo era ho rey Xaquemdar Xa velho, e a terra tratava mercadoria e aviia muitos mouros e muitos moulanas que trabalhavã por fazer ho dito rey mouro, e asy o desejava gramdememte ho rey de Pacee. Por casso veio o dito Xaquendar Xa a querer semtar os ditos cacizes e folguar com elles. Avida esta noticia, ho dito rey de Pacee, avisado pollos cacizes que la tinha mamdado secretamemte, mamdava outros mais autorizados a embuti llo e desvia llo de seu nacimemto e jemtelidade, e converte llo, e ysto por imdustria e nom pruvicamemte. SumaOriental-PDF_imac.indd 248 12/5/17 2:02 PM
  • 249Amolefiquado o rey Xaquemdar Xa ou por viia dos cacizes ou por quallquer outra maneira, se comtratou com ho dito rey de Pacee que tratarom casamemtos huuas filhas do dito rey de Pacee com ho dito Xaquemdar Xa, com tall comdiçam que se tornase mouro como elle era, e que sempre seriam ~e huuã, damdo lhe a emtemder pollos ditos moulanas quamta onrra lhe vinha do tall ajuntamento e afy‑nidade do grande rey de Pacee elle se tomar mouro, avemdo amtre elles gramdes recados he trabalhamdo os mouros no dito casamemto. Fynallmemte que o ditõ rey Xaquemdar Xa, semdo de idade de setemta e dous annos, se tornou mouro, e todollos de sua casa, e casou com ha filha do dito rey de Pacee, e nom somemte elle se tornou mouro, mas aimda fez per tempo toda sua jemte. E desta maneira se fez o dito rey mouro, e dalii por diamte forom atee a tomada de Malaca. E viveo casado oito annõs, cerqado de moulanas, e ficou lhe hu~u filho ja homem que se tambem tornou mouro, filho de sua primeira molher, que herdou o regno e se chamava Modafarxa.1268 Este rey Xaquemdar Xa, semdo de ydade de quoremta e cinquo annos, quis hir a China em pesoa, a ver o rey da China,1269 e deixou o regno em poder dos mamdaris, dizemdo que queria hir veer o rey que tinha a Jaõaa e Siam a sua obi‑diemcia, e Pacee, como largamemte se tratara na descriçam da China.1270 E foy homde o rey estava e falou com elle, e fez se seu vasallo trebutario, e tornou em synall de vasalagem o sello da Chyna e o meo de Malaqua, como todos tem.1271 Foi lhe la feita muita homrra, e despachado com dadivas e festejado gramdememte, he tornou ha Malaqua, e pos no caminho [de] yda e estada e vimda tres annõs. E veio em companhia ho ditõ Xaquemdar Xa de hum capitam gramde, que o traziia por mamdado do dito rey da China, o quall capitam traziia huuã filha fremosa chiina. E vimdo asy o dito Xaquemdar Xa, em Malaqua, por fazer homrra ao dito capitam, casou com ella, posto que nom fose molher de linhagem. E nom se espam‑tam os jemtios serem casados com mouras, porque hé costume qua, he mais folgam os mouros de casar as molheres com jemtios que elles com gemtias, porque fazem os maridos mouros. Este hé o costume destas terras. A este Xaquemdar Xa deu o rey da China poder que podese levar1272 moeda d’estanho a Malaqua, que hé como ceitis. 1268 o sultão Muzaffar Shah terá governado Malaca entre 1424 e 1456. A cronologia dos primei‑ros tempos da história de Malaca continua a suscitar dúvidas.1269 o sultanato de Malaca estreitou relações com a China durante a época das grandes expedi‑ções chinesas comandadas por Zheng He, entre 1405 e 1433, estabelecendo laços de dependência formal. o sultão Megat Iskander Shah terá visitado a China em 1414, e a partir de então embaixadas tributárias de Malaca viajaram regularmente para Pequim. 1270 Nova referência à organização interna da Suma Oriental.1271 Reinava então na China o imperador Yongle (r.1402 ‑1424). o «selo» da China, ou feng, era o sinal formal de vassalagem, já anteriormente referido. A expressão «o meo de Malaqua» é de difícil interpretação.1272 Leia ‑se ‘lavrar’.SumaOriental-PDF_imac.indd 249 12/5/17 2:02 PM
  • 250Ho dito rey Xaquemdar Xa ouve desta china hu~u filho que se chamou Raja Pute,1273 domde decemdem os reis de Paão e Campar e Amdargeri, como se dira despois. o quall foy muito bom homem, e ouve filhos e filhas, e despois foy morto as maaos de ellrey Madafarsa, seu sobrinho, como se dira na vida do dito rey Madafarxa.1274 Este rey Madafarxa ouve muitas molheres filhas de reis comarquaõos. Este dizem ser melhor rei que todos os damtes, refirmou se gramdememte com Syam he com Jaõa e com os chiis e lequios, foy homem de muita justiça. Dava gramde aviamento ao nobrecimemto de Malaqua, comprou e fez junqos, e os mandava fora en compa‑nhia de mercadores, pollo quall ainda oje em dia os mercadores amtiguos do tempo do dito rey Modafarxa ho gabam gramdememte, e sobretudo de gram justiçoso.|168r| E este rey Modafarxa aquerio a Malaqua terras, scilicet, da bamda de Queda ouve Mimjam, que he hu~u luguar bom e tem hu~u riio nam muito gramde, na quall terra se faz estanho; hé trebutario a Malaca, como mais largamemte se dira quamdo se tratar dos lugar~es que a Malaca pagavam pareas. E asii tomou Çalamgor, que quer dizer estanho,1275 tambem bom luguar; e tambem o fez trebutario asy mesmo como ho outro. E destes lugãres trazem a Malaqa alguus mamtimemtos, que seram dez legoas de Malaqua. Tomou asy mesmo a povoaçam de Cheguaa, que hé o riio Fremoso,1276 alem de Muãr, pera a bamda de Siingapura, riio gramde omde podem emtrar muitas naãos, em o quall riio há arroz pouco, carnes, pescados, tem vinhos da terra. Hé espaçosa ribeira, tem gemte de peleja, dizem que de Muãr e de Cheguaa saee gemte esfor‑çada. Hu~u destes lugares hé do bemdara e outro do lasamana, a jurdiçam tem cada hu~u do civill e crime, ou tynham em seu tempo. E este Madafarxa saia muitas vezes a pelejar pesoallmemte, e ficava seu irmao Raja Pute por paduca rraja,1277 que quer dizer viso rey. Pelejou este com ellrey d’Aruu muitas vezes, e tomou lhe o rregno de Ircam, que esta defromte de Malaqua, na terra de Aruu.1278 E este emquamto viveo sempre lhe fez guerra, segundo afirmam. Tomou este o canall de Simgapura com a ilha de Bimtam, e trouxe tudo a sua obydyemcia athee oje, omde ora esta acolheito [e] fugido.1279 E sobre o dito canall 1273 Trata ‑se de Paduka Mimat; a expressão Raja Pute parece equivaler a ‘rajá branco’ ou ‘rei branco’.1274 Tomé Pires equivoca ‑se, pois quereria referir ‑se aqui a Mansor Shah, filho do sultão Muzaffar Shah e sobrinho de Raja Pute.1275 Não está perfeitamente estabelecida a etimologia de Selangor, topónimo que parece nada ter a ver com estanho.1276 o rio Formoso corresponde ao Batu Pahat, que desagua a sul de Malaca, junto à localidade do mesmo nome, a qual corresponderá a «Cheguaa».1277 Raja Pute recebeu o título de paduka raja, equivalente a vice ‑rei. 1278 original: «terra de daruu».1279 Tomé Pires refere ‑se ao facto de o antigo sultão de Malaca se ter refugiado na região de Bin‑tão após a conquista da cidade pelos portugueses.SumaOriental-PDF_imac.indd 250 12/5/17 2:02 PM
  • 251teve gerra com ellrey de Pahãoo e de Talimgano e de Patane, e sempre levou a melhor, he com tudo ficou lhe a terra e obidiemcia. E cassou huuã sua irmaa mais velha com ho dito rey de Pahãmo,1280 que novamemte era feito mouro, e avera ysto cimqoemta e cimquo ou sesemta annos, ao mais, o qual se tornou mouro ha requerimemto do dito Modafarxa, e que casaria a dita sua irmaa com elle. Este fez guerra a Campãr e Amdargueri, e pelejou muito tempo com estes dous reynos, que sam na terra de Menamcabo, domde o ouro vem a Malaqua. He por tempo tamto os apresou o dito Modafarxa, por ser riqo, e navegarem em seu porto [muitas] naçoes, e por ja ser liado com os jaaõs he chiis e syames, he em Pacee, que por sua propia imdustria casou duas filhas de Raja Pute seu irmaão, huuã com o rey de Campãr e outra com ellrey d’Amdargueri, e tornaron se mouros os ditos rex e a jemte a elles mais domestiqua, porque toda a outra aimda permanece en sua gentilydade. E asii forom feitos mouros avera cinquo‑emta anños ao mais. E por esta homrra que ganhou em fazer asy estes tres reis mouros trebuta‑rios, [fez] soar tamto seu nome que teve rrecados e presemtes dos reis d’Adem e d’ormuz e de Cambaya [e] de Bemgala, e mamdarom muitos mercadores de suas partes a morar ha Malaqua. E chamou se çoltan, que nesta terra quallquer senhor se chama rraja, somente Pacee e Malaqua [e] Bemgalla se chamam çoltanes.1281 E nisto [se] tenha gramde tento, que quamdo de Purtugall viese carta pera quaall‑quer rey de qua, que diga ‘do Çoltan de Portugall pera tii, Raja Foam’. Trabalhou este muito com seu poder pera ver se destruiria d’Aruu, posto que d’Aruu primeiro foy mouro o rrey que nenhu~u destes, nem que o de Pacee, segumdo afirmam, mas porque dizem que nom hé bem creemte em Mafomede. E vive no sertão, tem muita jemte e tem muita fustalha, amdam sempre a furtar, e em quallquer lugar que saltam levam tudo, e disto vivem. E ja ysto nunca se pode emmemdar, porque a terra de d’Aruu hé desta maneira. E de d’Aaruu atra‑vesam a terra de Malaqua em hu~u dia, e os d’Aruu sam homes muito temidos. E desde Modafarxa, athee o tempo da tomada de Malaqua pollo Governador das Imdias,1282 sempre forom imiguos, he oje em dia ho sam. Este Modafarxa mamdou a Jaõa embaixadõres ao rey jemtiio,1283 e dizem que por imdustria secreta teve maneira como por seus cacizes comverteo gramdes hom~es |168v| das beiras do mãar a fazer se mouros, estes que ora sam pates. Disto se tratara na descriçam de Jaõa. Era vasallo o dito Modafarxa do dito rey de Jaãoa, e lhe mamdava alifamtes e cousas da China, e rroupas ricas das que a seu porto 1280 Isto é, Pão (ou Pahang).1281 O título de ‘sultão’ aplica ‑se habitualmente ao soberano de um potentado islâmico.1282 Referência a Afonso de Albuquerque.1283 ou seja, ao soberano de Majapahit, anteriormente referido.SumaOriental-PDF_imac.indd 251 12/5/17 2:02 PM
  • 252vinham, e emquamto viveo, sempre com o dito rey teve sua amizade, e de Jaõa acudia gramde copia de mantimentos, enobrecia muito o porto de Malaqua. Em este meio tempo morreo a molher d’ellrey de Pahão, e o dito Modafarxa casou cõ elle huuã sua sobrinha, filha de Raja Pute seu irmaão, e ficava liado o dito Raja Pute com Pahão e Campar [e] Andargeri. E o povoo de Malaqua cria ja muito em Raja Pute, que era mais velho que Modafarxa, segumdo dizem, e por ser filho de mãceba casy molher nom erdou; outros dizem que era mais mancebo, da moça china nacido. Como quer que seja, tinha gramde autoridade, era bom homem, muito sesudo, acatava gramdememte ao rey seu irmãao, morava no lugar do Bretão, de que ja falamos. E tambem laa moravam os reis, mas acudiam alg~us dias a cidade, omde tinham seu asemto sobre o momte, como ja disemos. porque em huuã ora com a maree decem de Bretao em Malaqua. Neste tempo Malaqua tinha gramde copia de mercadõres de muitas naçoees, he começava ja Pacee de nom ser asy gramde como o era. E os mercadores e tratam‑tes no maãr conheciam quamta diferemça avia do naveguar a Malaqua, que com todos temporaes eram seguros amcorados, e que dos outros [portos] podiam tomar quamdo cõviese, começavam de todo viir a Malaqua, pois achavam retornos. o rrey de Malaqua avia se com elles mamsamemte e temperado, que hé cousa que muito criã os mercadõres, mormemte na naçam estramgeira, folgava d’estar na cidade muitas mais vezes que d’amdar a caça, por oviir e detreminar agrãvos [e] tiranias, que Malaqua cria por rezam de seu gramde sitio e trato. Este Modafarxa ouve hu~u filho de sua molher, que ouve nome Mansursa.1284 Este amdava em guarda do tio Raja Pute, era emsynado e guardado pollo Raja Pute, sempre como seu ayo, he eram dados ambos a prazer, e o pay trabalhava nas cousas que lhe compriam. Asy que neste meio tempo veio o dito Modafarxa a estar doemte em cama, e o filho Mamsursa veo a estar com o dito seu pay na cidade, obidiciam ao moço Mamsursa. No Bretam tinha Raja Pute autoridade, faziam o que lhe elle mamdava. o Madafarxa agastava se de sua doemça, he tambem por nom saber por sua morte que mudamça faria o regño em que tamto trabalho tinha levado. Rogava a Raja Pute e emcomemdava lho que asosegadamemte ho emtreguase a Mamsursa. o Raja Pute dise que asy faria. o moço era ja de vimte annõs, segumdo dizem, ou pouquo menõs. Faleceo ho pay Madafarxa, começou ho moço de fazer seu oficio a morte do pay, e seu emterramemto homrradamemte, como era rezam, e tambem por comselho do Raja Pute. Depois de feito o emteramemto, recolheo se o Raja Pute ao Bretão, e Mam‑sursa começou sesudamemte a reger seu regno, tomamdo comselho dos amtiguos, segumdo hordenãça virtuosa acerqua da justiça e comservaçam da terra, ajuntou 1284 Mansor Shah, sultão de Malaca entre 1456 e 1477.SumaOriental-PDF_imac.indd 252 12/5/17 2:02 PM
  • 253gemte. Neste tenpo parece que veio a noticia do moço que Raja Pute seu tiio, ou por ser velho ou por ser tam liado na terra e fora, que o desacatava em o nom viir ver como a rey que era. Saltou hu~u dia la homde estava o dito Raja Pute e achou o em hu~u balecy,1285 que sam como ramadas ricamemte obradas, com mamdaris e pessoas homrradas que com elle estavam. Vimdo o dito Mamsursa, alevamtarom se todos, e [ele] semtou se, e o Raja Pute1286 jumto, o quall costume nom hé qua, que o filho nom se asemta junto com ho pay, posto que seja herdeiro, sallvo se o filho for casado [e] rey, como se dira nos costumes dos malaiios em seu lugar. Dise o moço, «Raja Pute, há tamtos dias que te nom vii, estaas doemte?». Dise que mall semtido fora. Dise o moço, «Pois mall semtido amdas rex». Meteo o cris nelle tres ou quatro vezes, e ficou ali morto lloguo ho Raja Pute. E por esta causa temeo gramdememte sempre a gemte o dito rey Man‑sursa, e foy muito temido e acatado, [e] ajudado quamdo queria [de] seus naturaes. |169r| Começou ho rey Mamsursa a levar ho caminho do pay, asy em reger o povo, animar sua jemte a guerra gramdememte. Era pacifiquo aos mercadores, e omem benivollo. Este trouxe a obidiemcia de Malaqua Çalangor, Vernam, Mijam, Pirac,1287 que sam lugares d’estanho he pertic~e ao regno de Quedaa, e sobre yso teve guerra com Queeda, semdo terra do regno de Syam. E a terra ser toda do regno de Syam, veio ~e escolha destes lugares com qu~e queriã estar em obidiemcia, diserom que com ellrey Mamsursa, rey de Malaqua, e ficarom athe a tomada de Malaca sempre nesta obidiemcia, paguamdo pareas, como se despois dira largam~ete. Ho dito rey Mamsursa, por seus capitãees na terra de d’Aru, tomou por força a villa de Rupat, que hé defromte de Malaca, e o regno de Ciac, [e] fez seu vasallo o xeque de Porim,1288 tudo ysto na ilha de Çamotora, os quaees vierom presos a Malaqua, e em seu tempo os tornou a suas terras. He sempre estiverom em sua obidiemcia, atee o dia que foy tomada pollo gram Capitam das Indias,1289 etc.Em tempo deste Mamsursa, revelarom comtra elle ellrey de Pahãm e de Campar e de Amdarguerii, pola morte de Raja Pute seu sogro, que elle matara. E asy por sua pessoa como por seus capitaees, os tomou e vemceo e dobrou as pareas, e os fez debaixo de seu trebuto, e com elles fez pãz e casamentos. E casou o dito Mamsursa com huuã filha do rey de Paão, e o rrey de Pahão com huã sua irmãa de Mamsursa, e casou outra sua irmãa com ellrey de Menancabo, semdo gemtio, he o tornou mouro. outros afirmam imda oje o dito rey nõ ser mouro; verdade hé ser mouro, cõ obra de cem omees, toda a outra jemte hé jemtia. 1285 Provável transcrição do malaio balai, que designa uma casa aberta ou um pavilhão.1286 original: «rraja pute».1287 Referências a Selangor, Bernam, Manjung e Perak, localidades da parte ocidental da Penín‑sula Malaia, para norte de Malaca.1288 Purim, na ilha de Samatra, antes referenciado.1289 Referência a Afonso de Albuquerque.SumaOriental-PDF_imac.indd 253 12/5/17 2:02 PM
  • 254Teve por mamceba este Mamsursa huuã filha de Raja Pute, seu tiio, e por molher teve a filha do seu lasamane. Foy este Manssursa cavaleiro e gramde luxu‑rioso, justiçoso, vasallo sempre verdadeiro dos rex dos chiis e do rrey de Jaoa e de Syam, he de como esta vasalajem era se dira ao diamte. os mouros de Malaqua dizem que foy o melhor rey Mamsursa que todos seus antecesores. Este larguou liberdades aos estramgeiros mercadores, teve sempre gramde fervor de justiça. Dizem que em pessoa corria a cidade de noyte, dizem que dormia pouquo, jugava muito aos dados, era gramde gugador1290 de tavollas a nosa guisa, que hos chiis jogam em sua terra. Este Mamsursa faziia os homees de nada. Hera seu veador da fazemda hu~u quilim gemtio, que dizem que valia tamto com elle que nom faziia mais do que elle queria. E por esta maneira hu~u cafre de Palimbão que era seu espravo valeo tamto que diziam que o convertiam a gemti‑lidade primeira. Fynallmemte vierom em tamto crecimemto estes homees ambõs, scilicet, o quilim e o palimbão, que se tornarom mouros em tempo de Mansursa. E o bemdara que aqui degolarõ,1291 que foy na treiçam de Dioguo Lopez de Sequeira, era seu neto e era ja moõr que ho rey em poder, e o neto do palimbaõo hé o lasemana1292 que oje amda com ho rey que foy de Malaqua. E tamto creciam estes dous hom~ees em tempo deste rey Mansursa, que vierom a tam gramdes dii‑nidades, como se despois decrara que cousa hé bendara e que cousa hé lasemana. Este rey Mansursa era casado com huuã filha d’ellrey de Pahão, sobrinha d’ellrey de Syam, e disto se copava1293 tamto o dito rey, que avia seus filhos por mayores que todos seus amtecesores. Era homem Mansursa mamso, liberall, tafull,1294 luxurioso, e com ysto faziia justiça. Todallas filhas de mercadores parses, fremosas, e de queliis que bem parecesem, tinha por mamc~ebas, tornav[a] as mouras quamdo as avya de casar, e casav[a] as com filhos de mamderiis e lhes dava casamemtos. o quall costume nom se estranha em Malaqua, casarem leis comtra leis. Este rey Mansursa fez a fremosa mizquita que estava homde oje hé a famosa for‑taleza de Malaca,1295 a quall era a melhor que avia nestas part~es sabida, e mamdou fazer pomtes no riio riquamemte obradãs. Este fez os dereitos das mercadariãs mais baixos, como se dira em seu luguãr, pollo quall foy tam estimado dos naturaes he estramgeiros, que alcançou gramde riqueza e fez gramde tesouro. Dizem que hé omem de cemto e viimte quinta~ees d’ouro e de gramde pedrar~ıa, e que detreminava 1290 Leia ‑se ‘jogador’.1291 o bendara Tuan Mutahir, antes referenciado.1292 o lasamane Tuan Husain, que seria originário da Ásia ocidental, talvez da Pérsia ou do Guzerate.1293 Copar, o mesmo que envaidecer ‑se.1294 Taful, garboso ou gracioso.1295 os portugueses utilizaram materiais da mesquita principal de Malaca para a construção da fortaleza.SumaOriental-PDF_imac.indd 254 12/5/17 2:02 PM
  • 255de hir a Mequa com gramde copia d’ouro, em hu~u junquo que ja tinha mamdado fazer em Jaãoa, e outro em Pegu~u de gramde gramdura, e que se o nom atalhara ha |169v| doemça, que la ouvera de hir. Tinha jaa gramde gasto feito e muita jemte pera a viajem. Teve este Mamsursa firme obediemcia sempre aos jaãos, chiis e sya‑mes, e sempre os visitava com alyfamtes, porque os matos de Malaqa criam muitos, e avia os em gramde maneira. E segumdo ha terra asy lhe mamdava as cousas de seus gostos, mas nom lhe mamdava dinheiro, como se dira quamdo se decrarar em que forma hé esta obidiemciã que a estes tres regnos tinha, etc.Este rey Mamsursa teve dous filhos e duas filhas. o filho mais velho se chamou Alaoadin,1296 que [lhe] socedeo, e outro filho morreo amdamdo a momte. As filhas casou huuã com ellrey de Campar e a outra com ellrey de Pahãmo. Ja velho adoec~eo, esteve muito tempo doemte, e regia ho regno ellrey Alaoadim seu filho. E regemdo casou este rey com huuã filha de hu~u mãdarii primcipãll, a prazimemto do pay. E morreo ellrey Mansursa, foy emterrado na sepultura dos reis, segumdo costume, sobre o momte omde ora esta a forqua, por despeito de sua vaidade e omrra que no tall lugar tiverõ. Este rey Alaoadin do primcipio de seu regñar casou com huuã filha d’elrey de Campar, que era sua prima com irmaã. Este aquerio a Malaca gramde numero d’ilhas de celates, que sam cosairos, a sua arte em parãos pequenos. Este por seus capitães tomou as ilhas de Limgua,1297 que estam aquem de Bamca, casy defromte de Palimbaõ, domde sam os cavaleiros caba~ees que nom podem morrer a ferro, como se dira na sua descriçã das ilhas de Limgua. He fez o rey dellas vasallo ao dito rey Alaoadin, como hé imda aguora. Fogido, porem, nõ se vee hu~u ao outro, porque ambos tem receo hu~u do outro, e outro do outro. Este teve pemdemça com os d’aru~us e foy no mãar desbaratado delles. Este dizem que era mais dado aas cousas da mizquita que a outras, e era homem que comia muito afiam, que hé opio, e alguuas vezes nom era em seu acordo. Era homem apartado e estava pouquas vezes na povoaçam. E acrecemtou este mais riqueza em seu tempo, e jurou de hir a Mequa a comprir a romaria do pay, e elle se prometeo la com cousas que aparelhava pera isso. Este rey Aloadin traziia sempre comsiguo os rex de Paão e de Campar e Amdargueri em Malaqua, como em corte, e paremtes seus, e elle emformavaa os nas cousas de Mafomede, porque dellas sabia. outros dizem que estes rex vierõ aos casamemtos que fez com ellrey de Paão, que lhe tomou huuã sua filha por mõlher, e tinha ambas, que asii se custuma sejam recebidas. Podem ter quoatro,1298 e o filho da primeira herda o regño. 1296 Alauddin Riayat Shah, que foi sultão de Malaca entre 1477 e 1488.1297 As ilhas de Lingga, a sul de Singapura.1298 Tomé Pires refere ‑se ao facto de os muçulmanos poderem casar com quatro mulheres.SumaOriental-PDF_imac.indd 255 12/5/17 2:02 PM
  • 256Como quer que os ditos rex amdasem em Malaqua, amdavam, porque todas as cousas e terras e comarcas em comparaçam de Malaqua nom eram nada, por causa de Malaca ser porto de cabo de mouçoees, omde vem gramdes copias de junquos e naaos. E todos paguam dereitos, e os que nom pagam dam pres~entes, que hé casy como dereitos, e por este caso, pollo rey da terra meter em cada jumq~uo que pera fora vay seu quinham, hé cousa pera os rex de Malaqua alcamçarem gramdes copias de dinheiro. E nisto nom há duvida, os ditos rex de Malaqua sam riquisymos, etc. Temdo este rey detreminado de pasar em Mequa, estamdo no Bretam quis v~ır a Malaqa acabar de se perceber, he em sete ou oyto dias morreo de fevres. Ficarom lhe dous filhos e tres filhas. o primeiro era Raja Çaleman,1299 e este era filho da molher filha de ellrey de Paão; e as filhas tres, huuã era da molher de Paão; e ouve Raja Mafamut, que perdeo Malaca, e este era da filha do mamdarim;1300 e as filhas tres, huuã era da molher de Paão ja dita, e as duas da molher filha d’ellrey de Campar. Por estes ficarem moços, tamto que morreo o dito rey Alaoadim, regia ho bemdara ho regno, athe os moços vir~e a ser mayõres. Algu~us favoreciam o Raja Çaleimam, o bemdara favorecia ho Raja Mafamut, que era seu neto, filho de sua filha, mas ho regno pert~ecia1301 somemte ao Raja Çaleman, por ser filho de rainha, porque as outras sam de menos valia, posto que sejam recebidas pera o herdar dos filhos. Neste tempo pasarom quoatro ou cimquo anños, e os gramdes mamdaris começa‑rom a fazer parcealidades e bamdos. Paão trabalhava por sua parte pera seu neto herdar o regño. o bemdara era poderoso na terra, e podera aver o regño pera sy mesmo se o nom quisera pera o neto, tinha o certo pera o Raja Mafamut seu neto, he pera isto |170r| tinha gramde valia e paremtesquo pera o fazer, como dito hee. Posto que em cima diga que este rey Mafamut era neto do bemdara que degolarom, nom era senom neto de seu irmaaõ, filho de huuã sua filha, e esta hé a verdade que despois o tirei a linpo.1302 Alevamtarom o dito rey Mafamut por rey de Malaqua, e no principio de seu regnado, por fazer paz com Pahaão, casou com huuã filha d’ellrey de Paão. E foy este rey de menor justica que nenhu~u dos pasados, gramde luxurioso, cada dia bebodo d’amfiam, era presumtuoso. Por força traziia os rex de Pahaão e de Campar e [de] Ardagirii em Malaqua. Era tam reveremceado que lhe nom falavam senom de muito lomge, e muito pouqas vezes; era gramde comedor e bebedor, criado em boa vida e viciosa; era temido. os outros rex quamdo lhe falavam era com gramdes çumbayas [e] cortesyas a sua gisa. Chamava se Çoltam Mafamut. 1299 Raja Sulaiman, neto do sultão de Pão (ou Pahang).1300 Raja Mahmud seria filho de Tun Senajah e neto do pai desta, o bendara Tuan Ali; Raja Mah‑mud foi depois Mahmud Shah, sultão de Malaca desde 1488 até à conquista portuguesa, em 1511.1301 original: «nom pert~ecia», que parece ser um lapso.1302 Tomé Pires emenda a primeira informação, dizendo agora que o sultão Mahmud Shah seria neto de um irmão do bendara Tuan Ali; mas o bendara que foi executado sob as suas ordens, em 1510, era Tuan Mutahir, irmão de sua mãe, logo, seu tio.SumaOriental-PDF_imac.indd 256 12/5/17 2:02 PM
  • 257Este por sua soberba levamtou loguo a obidiemyia a ellrey de Syam, he nom quis mais mamdar embaxador a sua terra, nem menos a Jaõa, somemte fiquou na obidiemcia da China, dizemdo como avia Malaqua de ser obidiemte aos reis obi‑diemtes a China. Pollo quaãll avera quinze annos que ellrey de Syam moveo gerra comtra Malaqua, [com] os seus capitãees pollo mar, e saio o lasemana d’ellrey de Malaqua e os desbaratou [junto] a ilha de Pulo Piçam,1303 homde emcomtrarõ hos syames. De maneira que des[de] o dito tempo nunqua mais teve paz com Syam, e avera vimte e dous annos aguora que sam quebrados, e nunca mais vierom a Malaqua syames, senom aguora em tempo que Malaqa hé nosa.1304 Ho rey de Jaaõa nom curou de Malaqua nem de sua obidiemcia, porque nom lhe relevava, porquamto os portos do maar sam ja tomados de mouros, tem o ser‑tãoo, he nom pode fazer guerra a Malaqua porque nom tem poder no maar, como largamemte se recomtara quamdo se falar na nobre ilha da Jaaõa, e de suas cousas he gemte he comdiçõees, e de como os mouros sam ja em pose das beiras do mar.1305 Fez alardo o dito rey Mafamut em Malaqua quamdo pelejou com os capitaees de ellrey de Siam, e acharom se novemta mill hom~ees pera poder tomar armas. Disto foy tam soberbo e desarrazoado e tam presumtuoso, que dizia que elle soo abastaria pera destroir ho mundo, e que o mundo tinha necesydade de seu porto, por ser cabo de mouçoees, e que em Malaqua aviia de fazer Mequa, e que nom aviia de ter opiniam de seus amtepasados de hir a Mequa. E por esta causa dyzem os mouros letrados e os povos que pola soberba deste pecado se perdeo, he querem lhe todos mall. Este rey Mafamut ouve medo de se levamtar Raja Çaleman com ho regno, he mamdou o matar em Malaqua.1306 E traziia comsiguo em Malaca Raja Jalim,1307 pay deste moço que era rey de Campar aguora e se chamava Raja Andela.1308 Dizem todos que este Raja Jalim1309 era muito bom homem. E porque o viio de suas casas pasear por huuã rrua bem acompanhado, dixe «Ja aquillo he pera me tirar o regño, que dira que lhe pertemce». Soube ysto o Raja Jalim, e fez se irmitaão, como hom~es que desprezam ho mumdo. E comtudo ho mamdou matar com peçonha sabida‑memte, semdo seu primo com irmaão. E matou Raja Bunco1310 seu sobrinho as cri‑sadas, porque se queria hir a d’Aruu. Dizem que era este de mais preço que Raja Jalim.1303 Parece corresponder à ilha de Pedang, situada defronte de Siak, ao largo de Samatra.1304 Afonso de Albuquerque enviou Duarte Fernandes ao Sião em 1511, com o objectivo, desde logo alcançado, de estabelecer relações amigáveis com aquela potência regional, que tradicionalmente exercera suserania sobre Malaca.1305 Nova referência à organização interna da Suma Oriental.1306 Raja Sulaiman, meio ‑irmão do sultão Mahmud Shah.1307 «Raja Jalim» parece corresponder a Menwar Shah, soberano de Campar (ou Kampar), que também seria irmão do sultão Mahmud Shah.1308 Trata ‑se de Raja Abdullah, rei de Campar (ou Kampar).1309 original: «rraja Jalim».1310 Personagem não identificado.SumaOriental-PDF_imac.indd 257 12/5/17 2:02 PM
  • 258Matou iso mesmo a irmaã de Raja Jalim, que era sua molher, may d’ellrrey Amet1311 seu filho, aas crisadas, sem causa, somemte por lhe viir asy a vomtade. Quamdo estaa bebodo com o afiam hé omem este muito mudavell de crudelisymo [e] diabolico. No tenpo deste, despois destas cousas serem pasadas e ter morto outros homees muitos, cheguou Dioguo Lopez de Sequeira nos navios. Matou Tuam Porpate,1312 muito grãde mamdarim, e seu filho Tuam Acem,1313 que eram como o Raja Bumco,1314 e estes aas crisadas. Cheguado Dioguo Lopez de Sequeira devamte o porto de Malaqua, neste tempo avya em Malaca. segumdo verdadeiramemte se afirma, mill guzarates mercadõr[e]s, |170v| amtre os quães avia gramde copia delles de gramde cabedall, riquos, e outros erã estamtes por outro, e desta maneira dizem que avia aqui de parses e bemgallas he arabios mais de quoatro mill hom~ees, amtre os quae~es emtra‑vam mercadores riqus e outros feitores d’outros. Avia asy mesmo quilis mercadõres gramdes, de gramde trato e de muitos jun‑quos. Esta hé a naçam que mais nobrece Malaqua, tem estes a masa nas maãos, como ao diante se dira. Primeiramemte os guzarates se forom ao dito rey Mafa‑mut com gramde presemte, e asii pars~es e arabios e bemgallãs e muitos dos quilis, jumtamemte fezerom sua fala ao dito rey, como os portugueses eram chegados ao porto, e pois asy era, que ja aviam de viir alii cada v~ez, e que alem de roubarem ho maãr e a terra, espiavam pera aver de tornar a toma la, como ja toda a Imdia era em poder dos portugueses, a que qua chamam framg~es.1315 Que porquamto Portugãll era lomge, que os deviam aqui de matar todos, e que a nova nom poderia ser tam cedo em Purtugall, ou nunqua, e que Malaqua non se perderia n~e seus mercadores, emcarecemdo lhe o caso de maneira que o rey respomdeo que elle falaria com ho bemdara, e elle detriminaria o que lhe nisso parecese. os da fala forõ ao bemdara, levaron lhe o presemte dobrado, e a mor parte era dos guzarates, converterom ho bemdara a sua comjuraçã, e mais lhe diserom ao ditõ bemdara que pedise ao rey a naão capitayna pera sy, que trazia muitas bombardas.Levarom hos sobreditos mercadores presemte ao lasamane, que nisto os ajudase, e assii o fezerom ao tomungo, que era irmaão do bemdara, e falarom ao filho de Utemuta Raja,1316 jaão que aqui degolarom, que fose niso e que pedise huuã naão 1311 Ahmad Shah, que em 1511 governava em Malaca, embora o seu pai, Mahmud Shah, fosse ainda vivo; este último morreria apenas em 1526.1312 Parece tratar ‑se do bendara Tuan Perpatih.1313 Tuan Hasan, personagem não identificado.1314 original: «rraja bumco».1315 Frangues, do árabe faranji (ou ‘franco’), era um termo que designava os cristãos ocidentais, de uma forma geral.1316 Utimuti Raja era um abastado mercador javanês estabelecido em Malaca, que se opôs tenaz‑mente à presença portuguesa em Malaca; o seu filho era Pate Aku. Ambos são adiante referenciados.SumaOriental-PDF_imac.indd 258 12/5/17 2:02 PM
  • 259daquellas. Estavam asy todos emformados e abalados, athee ver que era a vomtade d’ellrrey. Neste meio tempo lamçou Dioguo Lopez mercadaria fora em gudo~ees, pera fazer sua carga, a quall cousa dizem que deu crecimemto a treiçam pera apa‑nharem a mercadaria pera ellrrey e bemdara. Chamou o dito rey a comselho o bemdara e o lasemana e o tumungo [e] Cerina Derraja,1317 que dizem que [este] era o mais sesudo homem de Malaca, e chamou Tuã Mafamut,1318 que despois morreo as nosas maãos, que era pesoa primcipaall, e outros ja hordenados do comselho, e propos ho dito rey a fala a todos o que se devia fazer, sobre o que diziam as jeraçoões dos mercadores sobre a vimda do tall capitão. Diserom o bemdara e o Tuam Mafamut e os outros mamdaris ao dito rey que era bem que os matasem a tõdos, e que logo era feito, que elle cataria maneira pera isso. Preguntou o rey ao lasemana e ao tomunguo que lhe parecia, dixerom ambos que nom erã em tall comselho, mas que fosem bem despachados e comtem‑tes, e com sua mercadoria, pois vinham a salva fee a seu porto, e se taees hom~ees e tam mãos eram como diziam, que lhe disesem que se fosem embora e que nom estivesem no porto. Dixe o rey, «Vos outros nom emtemde~es o caso destes hom~ees, elles vem espiar a terra pera virem com armada despois, como sey e vos sabes que amdam tomamdo ho mundo e destroimdo e apagamdo o nome de noso samto Profeta. Morram todos, e despois, se qua vierem outra algu~ua jemte, sera a que nos destroyremos no maar e na terra. Gemte, juncos, ouro hé em noso poder mais que em outro. Purtugall hé lomge, matem se todos». Chamarã os mercadores e dise lhes ellrey que ja o bemdara tinha a re[s]posta, que falasem com elle. Dizem que dise ellrey ao lasemana e ao bemdara, «Vos Lasemana dares no mãr com vosas lamcharas e matay os todos, e nom se metam as naoos dos portugueses no fumdo, e arrecadem a artelharia pera mim, e a naão capitayna, e o bemdara dara em terra nos que estiverem ao peso, porque os faremos todos sair. E no maar temde bom recado, posto que vos soo abastaries pera dez tamtas naãos, quem destroyo os syames no maãr larguo, homde aviia |171r| cemto pera hu~u dos nosos, que fara a cousa tam pouqua sobre amcora, que os que vam ha vemder lhe galinhas abastaram pera elles, que nom som hom~ees de peleja, segumdo sam emformado». Dixe o lasemana, «Este neguocio he comtra justiça, e eu nom queria ser nelle, he vos digo que amte[s] tomaria pemdemça com mill tamtos home~es que com estes, nom porque hos tema, mas porque minha alma nom hé na semelhante detre‑1317 Tomé Pires refere ‑se aos seguintes personagens: o bendara Tuan Mutahir, anteriormente referenciado; o lasamane Tuan Husain, originário da Pérsia ou do Guzerate; o tumungão Tuan Hasan Mudelyar, filho de Tuan Mutahir; e o seri nara diraja Tuan Ali, o tesoureiro anteriormente referen‑ciado, pai de Tuan Mutahir.1318 Trata ‑se de Tuan Bandan, um dos capitães do sultão Mahmud Shah, que foi morto durante o ataque português a Malaca em 1511.SumaOriental-PDF_imac.indd 259 12/5/17 2:02 PM
  • 260minaçam». Atravesou se o filho do bemdara e dixe, «Senhor eu irey, se Lasemana nom quiser». Dise ellrey que lho agradecia. Respomdeo [o] lasemana, «Yde, que se voso neguocio vay adiamte eu nom sey nada, e todos quamtos há em Malaqua nom som poderosos pera tomar~e estas naãos, nem ha causa nom ho comsemte». Fiquou o rey escamdaloso desta fala comtra [d]o lasemana, e quisera o mandar matãr, por lhe fazer de hu~u caso tam pequeno tamanho, e mamdou que nom saise de sua casa. Foy o bemdara e o filho seu mayor, e o filho de Utamuta Raja,1319 e o capitam dos guzarates juntos nisto. Dizem que cada hu~u queria huuã naão e que se desavinham sobre o escolher dellas, e por no[m] se emganar~e, como muitas vezes fazem, tiverom maneira de averem a jemte em terra que aviam de receb[e]r cravo em diversas partes. Deceo a gemte em terra, foy feito [o] que todos sabem, e no maar o que noso Senhor estorvou.1320 Despois da partida do dito Dioguo Lopez do porto, tornaram armar pera ver se o podiam acolher. Finallmemte fiquou o rey muito descomtemte, he mamdou chamar o lasemana, e dise lhe que lhe pareciã as cousas pasadas, e o lasemana lhe dise que maall, e que curase de se fazer forte, que os portugueses vimriam sobre Malaca, e que emtam saberia quem a defemdia dos hom~es franques sem medo, e que tinham ho mumdo sojugado. Pollo quall ho bemdara fiquou daly maall com ho rey, e muito, e por esta causa ho matou, como se adiãte dira. E tudo hé justica de Deus. Ho rey Mafamut começou se a fazer forte por comselho do lasamana. He algu~u tamto nom faziia gasalhado como soya ao bemdara Cerima Raja,1321 que era casy tamanho em poder como o dito rey. E dizem que se começou [a] apoderar da terra, secretamemte; outros dizem que nam, mas despois d’ellrey o bemdara hé o segundo, como ao diamte se dira. Despois disto asy, este bemdara fanou certos home~es nosos por força, com as maaos atadas, e hu~u morreo sobre o caso, e outros escaparom com peitas paguas por Nina Chatu, bemdara, secretamemte.1322Começou o rey a fazer se forte, ouve coceguas do bemdara alevantar se com ho reino, porque o rey nom era conhecido em comparaçam do bemdara. E as crisadas matou ho bemdara Cerima Raja, Tuam Acem e Tuam Zeynar, seus filhos, e Tuam Zedii Amet e Tuam Racan, seus netos, que eram estes mores que reys de Pahaão 1319 original: «utamutarraja».1320 As forças do sultão de Malaca atacaram os portugueses, aprisionando alguns dos que se en‑contravam em terra. Diogo Lopes de Sequeira conseguiu colocar ‑se a salvo com os seus navios, mas deixou em terra um grupo de portugueses prisioneiros (e entre estes Rui de Araújo), os quais mais tarde viriam a ser libertados por Afonso de Albuquerque.1321 Tuan Ali, que exercia o cargo de seri nara diraja, ou tesoureiro.1322 Alegadamente, alguns dos prisioneiros portugueses teriam sido circuncidados durante o cati‑veiro em Malaca. Nina Chatu era um rico mercador quelim, oriundo do Choromandel, que residia em Malaca, onde prestou apoio ao grupo de prisioneiros portugueses.SumaOriental-PDF_imac.indd 260 12/5/17 2:02 PM
  • 261e Campar. Matou [além do] Cirima Raja,1323 [também o] irmaão do bemdara, e Tuam Adut Alill e Tuã Aly e Tuam Amet, filhos do dito [irmão do] Cirima de Raja,1324 tumungo, que todos era[m] seus paremtes.1325 Das quaees cruezas fiquou o dito rey mall quisto e avorecido de todõs, posto que esta casta o merecese, polo comselho que contra Dioguo Lopez de Sequeira ordenarom. A todos estes que matou tomou as molheres e filhos pera sy, sobre todos tomou a filha do b~edara que matou por molher, de que ouve hu~u filho. Tomou as fazemdas de todos estes pera sy, de que ouve gramde copia d’ouro. Dizem que meteria ~e sua casa, desta feita, cemto e vinte molheres fremosas, e cimqoemta quintaes d’ouro, e outras peças e gramdes joyas, e dizem que hos mortos nom forom merecedores de tall morte, porque nunqa se soube tall treiçam.Duramdo este tempo e afortalezamdo se o dito rey de fortes trãqueiras e de muita artelharia, pollo medo e temor que tinham do que fezerom a nosos por‑tugueses, quis fazer alardo de sua jemte em todo seu regño e senhorio, com seus mamdaris e oficiaees seus, |171v| com seus capitaees. E porque amte[s] que a isto venhamos sera necesario recomtar da cidade de Malaqua e seu termo, e de seu regno, e despois dos lugares de seu senhorio, por mostrar sua gramdeza segumdo a terra de qua, pera despois se saber sua destruiçam. Termo da cidade de Malaqua.Malaqua da bamda d’Upe,1326 que hé comtra Quedaa, tem por termo a Coala Penajy,1327 que hé hu~u rio que vem ao maar; avera da fortaleza de Malaca a esta foz quoatro leguoas. He da bamda d’Iler1328 comtra Muar tem por termos a Coala Caçam,1329 e averra da fortaleza a este termo tres leguõas. E emtam, vimdo 1323 original: «cirima rraja».1324 original: «cirima de rraja».1325 Esta passagem revela de forma algo confusa eventos ocorridos em Malaca em 1509 ‑1511. Aparentemente, o sultão Mahmud Shah teria desencadeado uma espiral de violência contra alguns dos seus mais próximos familiares e colaboradores, por motivo de divergências face à atitude a adop‑tar perante os recém ‑chegados portugueses. Tomé Pires parece referir ‑se: ao bendara Sri Maharajah (outra designação de Tuan Mutahir), aos seus filhos Tuan Hasan e Tuan Zeinal, e aos seus netos, não identificados («Tuam Zedii Amet» e «Tuam Racan»), e ao seri nara diraja Tuan Tahir, irmão de Tuan Mutahir, e aos filhos deste, não identificados («Tuam Adut Alill», «Tuã Aly» e «Tuam Amet»). Tuan Hasan, filho de Tuan Mutahir, apesar de incluído na lista das vítimas, parece ter escapado, con‑tinuando a exercer as funções de tumungão.1326 Trata ‑se do subúrbio de Upe (ou Upeh), junto à costa, logo a norte de Malaca.1327 Provavelmente Kuala Panjang, que se situaria junto à foz do rio Linggi, que desagua a norte de Malaca.1328 O topónimo Ilher designa Bandar Hilir, uma das zonas de Malaca.1329 Kuala Kesang, localidade junto ao rio de Muar, a sul de Malaca.SumaOriental-PDF_imac.indd 261 12/5/17 2:02 PM
  • 262pola terra firme de hu~u termo a outro pello pee do momte que se chama Golom Leidam,1330 que hé termo da terra firme, se cerra e acaba ho dito termo de Mala‑qua, em o quall termo há gramde numero de madeira, pola mor parte dereita, que se vay ao ce~eo, pera mastos e outras obras, e tem gostosas auguas. Quimtaãs que há neste termo de Malaqua, e que jemte d’armas tinha.Tem o dito termo de Malaqua, segumdo ja hé dito, por seus limites mill he cemto he cimquenta quimtaãs, a que chamam duçoees, dellas de palmeiras, dellas d’orraquãs,1331 dellas de fruitas de diversas maneiras e boõas, amtre as quae~es tem a fruita dos duryões, que hé a melhor fruita que há no mundo. Sem duvida tinha Malaca desde a Coala Penajy atee o riio de Muar, ao lomguo do maãr, hu~u cate d’om~ees d’armas que podiam pelejar, que sam cem mill homees.1332 Estes tinha ao tempo do Capitam mor1333 viir ha Malaqua, quamdo a tomou. Tem este termo de Malaqua alifamtes bravos muitos, e muitos tigris, cervos seis ou sete jeraçoo~ees, asy como bois, e nam o sam.1334 Regno de Malaca desde a Coala Penajy atee Quedaa, tudo ysto sam terras d’estanho a que chamam tiimas:1335 Cinioj~um.1336Ho primeiro luguar hee Cinyojum, tem a guovernamca delle hu~u mamdary, este pagava ao rrey que foy de Malaqua quoatro mill cala~ıis cada hu~u anño, postos em Malaca. Sera lugar por hu~u rrio acima, de duzemtos vizinhos. Sam malayos. Clam.1337outro luguar das timas alem deste se chama Clam, pagua outro tamto em Malaqua. E asy da povoaçam do outro, sam malayos como os de cima, de Cinioju~u. 1330 Gunung Ledang, também conhecido como monte ophir, anteriormente referido.1331 ou seja, de palmeiras produtoras de araca ou orraca.1332 Talvez seja algo exagerado o número de cem mil homens de armas que Malaca poderia mobilizar.1333 Isto é, Afonso de Albuquerque.1334 Tomé Pires poderá estar aqui a referir ‑se ao gauro (Bos gaurus, Smith), espécie de bovino selvagem.1335 Tima é o mesmo que estanho, em malaio timah.1336 Talvez se possa identificar «Cinioj~um» com Janjing, lugar situado no curso do rio Tanah Merah, que desagua na costa ocidental da Península Malaia.1337 Klang, localidade da costa ocidental da Península Malaia, na foz do rio homónimo, nas proximidades da actual cidade de Kuala Lumpur.SumaOriental-PDF_imac.indd 262 12/5/17 2:02 PM
  • 263outro luguar há alem deste, em outro riio, que se chama Çalamgor,1338 paga em Malaqua em cada hu~u anno seis mill calais em tiimas. Este hé moor luguar, de mais gemte. Sam malaios.Vernam.1339Ho outro luguar hé Vernam, este pagua em cada hu~u anño outro tamto como Clam e Cinioju~u, e sera dous tamtos moradores como os sobreditos.Mimjam.1340outro luguar se chama Mimjam, este hé de mais estanho que todos, he mõr que hos sobreditos. Pagava em Malaqua cad’ano oito mill cala~ıs, que valem dezaseis mill, porque tem o dobro estes. Este, duas povoaçoees tem, Mimjam hé de malayos e a outra mais acima hé de luço~ees, e muitas vezes estam devisos, e tem cada luguar sua jurdiçam, e asy hé oje em dia.Baruaz.1341outro hé Baruaz, este nom tem tamto estanho, mas tem mais gemte, e hé luguar de trato. Tem muitos paraoõs e gemte, e no rriio de Baruaz há duas povoa‑çõees. Este Baruaz tem muito arroz. Sam malayos. Pagam cad’ano seis mill tiimas em Malaqua. os deste lugar presumem mais soos que todos os outros. Esta por capitam delle Tuam Acem, mamdarim de Malaqua, etc. |172r| Pirac.1342A outra povoacam chama se Pirac. Pagava quoatro mill tiimas em cada hu~u anño em Malaca. Sera da povoaçam como Clam. Sam tambem malayos. Aos guovemadores destes lugares chamam mamdaliquas, scilicet, ‘mamdaliqua de tall luguar’, tem em suas terras civell e crime.1343 os piãees1344 vem tratar sempre a Malaqua em paraoos pequenos, trazem timas e arroz, galinhas, cabras, figuos, canas d’açuquar, oraquãs, e cousas semelhamt~es a estas. Hé jemte prove ha destes lugares, vivem desta maneira e os d’aru~us saltea[m] nos, e as vezes levam todõs, e sempre estam estes de tramqueiras, etc.1338 Selangor, na costa ocidental Península Malaia já antes referenciado.1339 Bernam, na costa ocidental Península Malaia já antes referenciado.1340 Manjung, na costa ocidental Península Malaia já antes referenciado.1341 Beruas, na costa ocidental da Península Malaia, já antes referenciado.1342 Perak, região da parte ocidental da Península Malaia, para norte de Malaca.1343 Mandalica, do malaio mendelika, espécie de governador provincial.1344 Tomé Pires quer decerto referir ‑se aos habitantes de «Pirac».SumaOriental-PDF_imac.indd 263 12/5/17 2:02 PM
  • 264Regno de Malaqua da bamda de Paão.Ho primeiro luguar hé Muãr,1345 esta hé a primcipall cousa depois de Malaqua. Sera ha povoaçam de dous mill hom~ees. Tem hu~u riio muito bom, tem fremosas quintas, he tem arroz pera sy, tem mamtimemtos en avomdamça, muitas oracas. A gemte de M~uar sam cavalleiros, tem muitos mamdaris. Hé da jurdiçam do bemdara. Tem paraoos e fremosa ribeira d’arvoredos e pescados, hé fresca cousa. Riio Fermoso.1346Este rio Fremoso he moõr riio que Muãr muito, nam tem tanta jemte, a lugares hé povoado pouqua cousa, tem demtro muitas boquas, podem emtrar nelle naõs. Tem fremosa madeira, muitas orraquas, fruitas, imfimdo pescado. Este lugar dyzem que hé dos reis de Campar, por comtratos [de] amtigamemte. Singapura.1347Alem hé o canall de Siimgapura, tem algu~uas povoaço~eees de celates, hé pouqua cousa. Dhy por diamte nom se estemde mais lomge o dito regno pola terra. Este canall hé cousa de pouca importamcia, diguo, os moradores delle. Este reyno de Malaqua que atee aguora se dixe todo jaz na terra de Syam. Agora diremos dos senhorios que obedecem a Malaqua, delles acodem com parias, delles com jemte.1348 Começa se na ilha de Çomotora pola costa, caminho de Palimbaão. Ircaão.1349Ircaõo hé tera jumto com d’Aruu, soya ser sogeito a ellrey de d’Aruu, e aguora hé de Malaca. Hé regno e tem rey. Este nom pagua parias, somemte hé obryguado na guerra de o ajudar com jemte de graçaa. Rupat.1350Rupat hé luguar alem deste, seguimdo ho direito caminho. Hé senhor delle hu~u mamdari, hé obidiemte ao dito rey de Malaqua polla maneira que acima se dixe de Ircão. 1345 Porto da costa ocidental da Península Malaia, a sul de Malaca.1346 o rio Batu Pahat, anteriormente referenciado.1347 Singapura, na parte meridional da Península Malaia.1348 Muitos dos lugares tributários a Malaca foram referenciados em outras secções da Suma Oriental, de modo que algumas das informações que se seguem são repetidas. Anota ‑se apenas a respectiva identificação.1349 Irkan, na ilha de Samatra, antes referenciado.1350 Rupat, ilha junto a Samatra, antes referenciado.SumaOriental-PDF_imac.indd 264 12/5/17 2:02 PM
  • 265Ciac.1351Ciãc hé regno, tem regno.1352 Hé pequena terra, hé obidiemte asy mesmo ao rey de Malaca. Nestas terras vivem por suas lavoiras, nam som homees de trato, vem a Malaca comprar pannõs e de Malaca os vam vemder, trazem ouro em retorno. Purim.1353Puriim hé luguar casii de celates, hé o xeque delle obidiemte ao dito rey de Malaqua. Este luguar tem mais paraos, e sam ladro~ees estes homees. Neste lug~uar vam fazer feira os ladroees, dos furtos que fazem. Daqui saem remeiros pera Mala‑qua. Há neste lugar gramdisyma copia de savees, mais que em Azamor,1354 e d’ovas delles, vem a Malaqua gramde camtidade. Campar.1355Ho regño de Campar hé forte. A terra hé deserta muito, e prove. Campar tem ouro, tem lenho aloes de butica, tem muito breu, mell, cera, tem arroz que abasta hos moradores. Este rey de Campar decemde de Raja Pute, sam primos com irmaõs d’elrey de Malaqua, tem gramde liança. Este pagava ao dito rey de Malaqua amtigamemte quoatro cates d’ouro, que valem seiscemtos e vimte e cimquo cruzados todos quoatro.|172v| Amdargueri.1356Ho regño de Amdargueri hé como ho de Campar, hé de mais mercadores, tem mais ouro que Campar. Tem asii paremtesquo com ho dito rey de Malaqua, como ho de Campar, e com o de Campar. Tem em sua terra as mercadorias que há em Campar. Porque tudo hé huuã terra que se chama Menamcabo, posto que aja rey de Menamcabo, esta terra se chama toda asy. Esta tem [o] ouro melhor que aquii haa. Hé rey mais chegado ao trato o d’Amdarguerii, porque tem melhor foz, emtram juncos demtro. Pagua ao dito rey de Malaqua outros quoatro cates d’ouro por anño. Pahãmo.1357Pahãao hé na terra de Siam. Tem iso mesmo gramde paremtesquo com ho rrey de Malaqua he com hos reis de Campar he Amdargerii. Este tem em sua terra as mercadarias que hos outros tem, he tem ouro em boa camtidade, que se chama de Pahãmo, hé em poo e de menos valia que ho de Menãcabo. Hé mor rrey ellrey 1351 Siak, na ilha Samatra, antes referenciado.1352 Leia ‑se ‘tem rei’.1353 Purim, na ilha de Samatra, antes referenciado.1354 Nova referência a Azamor, no litoral marroquino.1355 Campar (ou Kampar), na ilha de Samatra, antes referenciado.1356 Indragiri, na ilha de Samatra, antes referenciado.1357 Pão (ou Pahang), na Península Malaia, antes referenciado.SumaOriental-PDF_imac.indd 265 12/5/17 2:02 PM
  • 266de Paão que cada hu~u destes, e este tem ellrey de Talimgano trebutario ha Paão, e Paão hé trebutario ao rregno de Malaqa em outros quoatro cates d’ouro em cada hu~u anño. Este tem pedra ume he emxufre, alem das outras mercadorias. Tem bõa cidade, peleja sempre com os de Siiam. Tem Pahão mamdaris, hom~ees de peleja, hé terra que daa homees guerreiros. Tem trato de mercadorias, tem mais mercadores em sua terra que Amdargueri, hé seu porto bõm e sua gemte domestica a mercadaria. Tuquall.1358A terra de Tucall hé alem d’Amdargueri na costa do mãar. Hé de xeque, hé obidiemte a Malaqua, acode com jemte. Hé terra d’ouro, tem as mercadarias d’Amdargeri. Hé cousa pequena, nõ hé obidiemte a outr~em senam a Malaqua. Sam boõs hom~ees no mar, tem paraos pequenos.Limgua.1359Limgua sam huuas quoatro ilhas gramdes que estam defromte de Tuncall, casy no primeira terra de Palimbão, defromte. Tem rei, chama se Raja Limgua.1360 Este tera1361 quoremta paraos e lamcharas. Hé jemte mais guerreira que toda outra de Malaqua nem em seu regno e senhorios. Daqui saem os cabaees, como se delles dira quamdo se falar ~e isso.1362 Este Raja Limga hé muito quisto dos celatees. Celãtes.Celates sam cosairos ladro~ees, amdam em parãos pequenos pollo mãar a roubar homde podem. Sam obidiemtes a Malaca, fazem cabeça de Bimtam. Estes servem de remeiros quamdo sam rrequeridos do rrey de Malaca, de graça, som~ete pollo mamtimento, e o governador de Bimtam hos apresemta quamdo ham de servir certos meses do anño.Oficiaees do rey de Malaqua.1363Hos rex de Malaqua aas vezes fazem capitaees jera~ees a que chamam paduca raja,1364 sam estes como visorreis, este tall hé despois do rey. A taall pessoa fazem todollos mamdaris çumbaia, he bemdara e lasamana asy a fazem a este tall paduca raja1358 Tongkall, na ilha de Samatra, antes referenciado.1359 Lingga, ilhas junto a Samatra, antes referenciadas.1360 ou seja, Raja Lingga, personagem não identificado.1361 original: «terra».1362 Referência a uma anterior secção da Suma Oriental, que deveria figurar mais adiante.1363 As designações dos diversos oficiais de Malaca foram anteriormente referenciadas; mas apa‑recem aqui sistematizadas.1364 A expressõa paduka raja designa um cargo equivalente a vice ‑rei na hierarquia do sultanato de Malaca. SumaOriental-PDF_imac.indd 266 12/5/17 2:02 PM
  • 267Bemdara.Quamdo nom há o sobr[e]dito [paduca raja], emtam hé o bemdara ho moõr do regño. Bemdara hé como justiça moõr em todo caso civell e crime; tem asy mesmo carguo de toda fazemda do rrey, de quaallquer sorte e comdiçam que seja. Este mamda matar qualquer pessoa do povo; se hé fidallguo ou estramgeiro, faz primeiro emformaçam ao rey, he ambos ho detreminam com comselho do lasa‑mana e tumunguo. Lasamana.Lasemana hé como almiramte do mãar. Hé capitam de toda armada que se fizer no maar, toda a jemte do mãar, e asii juncos [e] lamcharas, sam da jurdição deste. Hé guarda do rey, todo cavaleiro mamdarim hé da obidiemcia deste. Hé casy tamanho como ho bemdara, nas cousas de guerra hé muito moõr e mais temido. Tumungo.Tumunguo hé alcaide moõr da cidade. Tem carreguo da guarda, tem muita jemte de sua jurdiçam, a este vem todollos casos primcipiar se, de prisõas, e deste vam ao bemdara. |173r| E amda sempre este carguo em pesõas de gramde estima. Este hé tambem o que recebe os direitos das mercadarias. Xabandar~es.Háa em Malaqua quoatro xabamdãres, sam oficios da cidade. Sam hom~ees que recolhem os capitaees dos juncos, cada hu~u segumdo hé de ssua jurdiçam. Estes hos apresemtam ao bemdara, catam lhe gudo~ees, aviam suas mercadarias, apousemta[m] nõs se trazem cartas, dam hordem aos alifamtes. Haa xabamdar dos guzarates, mais primcipal que todos; há xabamdar da Bunua Quilim, Bemgãlla, Peguu, Passee; há xabamdar dos jaos, Maluquo, Bamdam, Palimbãao, Tamjompura, Burney, e dos luçõees; há xabamdar dos ch~ıis, lequeõs, Chancheo,1365 Champa. Cada hu~u acode a sua naçam quamdo vem a Malaqua com mercadorias ou requados. Como socedem os reis de Malaqua.Ho rregimemto de Malaqua hé que se o rey tem filho mais velho de sua molher, casa o de quinze annos ao diamte, e se o tall filho ouve de sua molher filho ou filha que o rey tem neto, disiste de sy a guovernamça e fiqua o filho no regño, e ja o pay nom usa [título] de rey dahii por diamte, comtudo hee acatado como damtes mas nom rege nada. 1365 Chinchéu, no litoral da província chinesa de Fujian, já anteriormente referenciado.SumaOriental-PDF_imac.indd 267 12/5/17 2:02 PM
  • 268A ordenamça que o rey tem açaerqua de seu vistir e sair fora.Nemguem non pode vistir pano amarello senom elle, so[b] pena de morte, e se quer sair he poor outro pano, emtam mamda apreguoar a cõor, e nenguem nom saee de tall cõor, so[b] pena de morte.1366 Saira no anño tres [ou] quoatro vezes de praça, que o vejam todos. Se vay por terra, o alifamte vay cuberto atee os olhõs de panno amarello, se traz rey consiguo, vay [condutor1367] no pescoço, e elle vay no meio e o seu paje vay nas amcas. Sombreiro da Chiina nom o pode trazer senom sua pessoa.1368 Yda do rey po[r] maãr.Quamdo vay em parão ou lamchara, leva quoatro varas bramqas de com‑primemto de sete [ou] oyto braças, duas por popa e duas na prõa. Chamam se guallas1369 estas varas. Estas varas pode trazer huuã de proa ho lasamana, outro quallquer rey pode trazer duas, huuã de popa e outra de proa. E esta hé a mõor homrra que há amtre elles, e esta maneira nom se pode quebrar amtre os malaios, e sobre cousas destas se mataram melhor que sobre outras. Estas varas vam alevam‑tadas, asy brancas, sem outra cousa. Caaba~ees.1370Hos caba~ees sam hom~ees fidalguos, tem dado a emtemder a todõs que nom podem morrer a ferro. Sam caba~ees homees que trazem hu~u graão d’aço e outros metaees, tamanho como grãoos de comer, no bucho do braço dirreito, e quamdo este recebem [é] com juramemto de morrer como cavalleiros. Há poucos cabaees, sam muito temidos. Ha terra domde saem melhores cabaees sam das ilhas de Limgua, e apos estes de Burnee e de Paão, e os somenos sam de Malaqua. Amoquos.1371Amocos sam cavaleiros amtre estes, hom~ees que tomam detreminaçam de morer, he vã com ella adiamte, e morrem. Esta tall detreminaçam se chama [fazer‑‑se] amoquos. Destes há muitos em Malaqua e por estas partes todas. Nom se podem fazer sem muito vinho primeiro. Destes se dira quamdo se falar da Jaaõa, porque dela saem amoquos principaes.1372 1366 o amarelo simbolizava a realeza no mundo malaio, sendo o seu uso reservado ao soberano.1367 Parece faltar aqui uma palavra, que designaria o cornaca ou condutor do elefante, cujo étimo parece ser o cingalês kurunaka.1368 o sombreiro ou guarda ‑sol amarelo era uma das insígnias da realeza no mundo malaio.1369 Gala, do malaio galah, que pode ter o significado de ‘vara para empurrar um barco’.1370 o termo malaio kebal traduz ‘invulnerabilidade’. As práticas alegadamente conducentes à invulnerabilidade eram comuns em diversas regiões asiáticas, incluindo nomeadamente o uso de pulseiras com alegadas propriedades mágicas.1371 Amouco, do malaio amok, termo anteriormente referenciado.1372 Nova referência à organização interna da Suma Oriental.SumaOriental-PDF_imac.indd 268 12/5/17 2:02 PM
  • 269A justiça de Malaqua.Quamdo algu~u mamdarim há de morrer por justiça, vam a sua casa e dizem ‘as de morrer’, e o mais cheguado paremte ho mata as crisadas. Ho morto se lava primeiro, e faz sua oraçam; emtam dan lhe o ciri,1373 a que chamã betelle, e asy morre; ou se esta presso, esta hé a mais homrrada morte. E se hé piam, leva[m] no a rua e manda[m] no matar ou espetar ou asar ou as punhadas nos peitos, segumdo a calidade do cryme. E a fazemda de todos estes hé do rey, se nom tem herdeiro de linha dereita, e se o tem leva a metade. |173v| Ho que o rey herda quamdo algu~u morre de seu povo.Quamdo algu~ua pessoa ou mercador morre sem herdeiro de direita linha, leva ho rey sua fazemda. E se o morto fez herdeiro, emtam partem a fazemda de promeyo. Fazem primeiro as esmollas e osequias do momte moõr,1374 e pagam se quaesquer dividas que ho morto deviia. Maneira dos casamentõs.Como sam pesoas homrradas, nom casam sem o fazer saber primeiro ao bemdara. Se hé antre mercadores, tamto há de levar o marido como a molher, e ysto amtre os quiliis que casam em moços. E se hé amtre mouros, ho homem há de dar a sua molher dez ta~ees e seis mazes d’ouro d’arras, estes ham sempre de ser vivos em poder della, e se o marido a quer deixãr, ficam lhe as ditas arrãs e os vestidos, e pode cada hu~u casar com quem lhe bem vier. E se a molher fez com ho marido viajem pollo maar, emtam lhe emtregua o dinheiro ao marido, e se se dalii apartam, em tall caso acode ho marido com hos dez ta~ees e o ganho delles. A maneira sobre os adulterios.Se algu~u homem faz adulterio, se o marido pode matar ao adultero e sua molher ambos demtro em casa, fica livre se mata hu~u e o outro, e nam tem penna. E se algu~u fogio e o matou fora imdo de casa, tem penna de morte, somente o pode premder, e dhy por diamte nom pode fazer vida com sua molher, acusãdo o outro.1373 A planta do bétele é designada em malaio como sireh, aplicando ‑se o mesmo nome ao mas‑ticatório que toma as folhas da mesma planta como base, incluindo ainda cal e noz de areca, entre outros ingredientes.1374 o «momte moõr» parece ser uma referência ao Gunung Ledang, elevação nas proximidades de Malaca que estava associada a diversas superstições.SumaOriental-PDF_imac.indd 269 12/5/17 2:02 PM
  • 270Maneira de injuria.Quamdo algu~u homem injuria outro ou molh~er, a penña hé a metade pera o rey, he a metade pera [a] parte. Nom podem requerer sua justiça sem a pesoa requerente levar alguuã cousa ao juiz, segumdo a calidade do que se demamda. He disto sam muito riquos hos bemdaras. A maneira que tem os mandar~ıis quamdo falam com ho rey.Todo mamdarii quamdo vay ver o rey, nom se chega a elle a dez pasadas, he allevamta as maãos ambas em cima da cabeca tres vezes, e emtam beija a terra e fala lhe o que quer por terceiras pessoas, e ao despedir outro tamto. Ysto os dias que sabem que o rey se mostra nelles. E outro tamto fazem ao primcepe. Tem todos grãde acatamemto ao rey e as suas cousas, e o povo quamdo pasa por jumto com as casas do rey a ellas fazem reveremcia. Maneira dos asemtõs.Todo mamdarim quamdo falla com outro nom se asemta, [fica] em pee por rezam dos asemtos, salvo se o asemto hé iguoaall como bamquo ou casa de hu~u teeor. E quamdo acenam a maão ezquerda apertada com o dedo polegar estemdido, e a maão direita sobre a ezquerda, asy falam por cortesya. Todo hom~e tem suas casas mais baixas do amdar pera os servidores, que nom estem tam altos como hos senhores quamdo com elles falarem. Ao malayo nom lhe alevantar~es a mãao do imbiguo pera cima, hé gramde [des]cortesy[a]. Disto se dira nas cousas da Jaõa, porque della tomarom este custume. A maneira de suas molheres, etc.Hos malaios sam hom~ees ciosos, e asy toda a jemte homrrada da terrã nom lhe aves de ver suas molheres nunca, nem saem fora, salvo alguuã ora, se sam pessoas pera iso, saem em amdores cubertos, e muitas molheres ysto alguuã ora. Tem cada hu~u huuã molher e duas, de mamcebas quamtas querem. Vivem em paaz, esta a terra nesta hordenamça, gemtios casam com mouras e mouro com gemtia, por suas cerimonias. E em seus prazeres e festas sam muitas vezes tomados do vinho. Sam hom~ees de momos,1375 e as molher~es a guisa da Jaãoa.1375 o termo «momos», anteriormente referenciado, designa aqui representações teatrais, muito comuns no mundo malaio, e frequentemente envolvendo marionetas ou teatro de sombras.SumaOriental-PDF_imac.indd 270 12/5/17 2:02 PM
  • 271Que jemte hé a que tratava ~e Malaqua, e de que partidas.1376Mouros do Cairo, de Mequa, d’Adem, abixiis, de Quilloa, de Melimde, d’Urmuz, parsios, rumes, turqos, turquimaes, armenios christaos,1377 guzarãtes, de Chaull, Dabull, de Guoa, do regno de Daquem, malabares e quel~ıis, mercadores d’orixa, de Ceilam, Bemgalla, |174r| de Raquam, pegu~us, syames, de Quedaa, malaios de Paõo [e] Patane, Camboja, Champar, Cauchychina, da China, lequeos, burneis, luçoes, Tamjompura, Laue, Bamca, Limga, tem mill ilhas outrãs, Maluqo, Bamdan, Bima, Timor, Mamdura,1378 Jaõa, Çumda, Palimbã, Jambi, Tuncall, Amdargueri, Capo,1379 Campar, Menamcabo, Ciac, Rupat, Arqua, d’Aru, Bata, terra do Tomiano, Pacee, Pedir, Diva.Afora gramde camtidade d’ilhas, outras regio~ees de que vem muitos espravos e arrozes nõ sam lugares de muito trato, e portamto se nom faz delles memçam, somemte dos sobreditos, que vem a Malaqua com juncos e pamgajavas e naãos. E os que nom vem, vam la de Malaca, como se dira meudamemte no titulo de cada huuã. Finallmente que o porto de Malaqua muitas vezes se acharam nelle oitemta e qoatro limguoajes, cada huuã por sy, segumdo afirmam em Malaqua os mora‑dores, e ysto estantes em Malaca, porque no arcepeleguo das ilhas que começam em Symgapura he Carymam atee Maluquo há quoremta linguoaj~es sabidas, que hé imfinidade d’ilhas, etc.Primeiro dos guzarates e dos mercadores que em suas nãaos tratam a Malaqua.Porque os do Cairo e Mequa e d’Adem nom podem cheguar em hu~ua mouçam a Malaqua, e asy os parses e d’ormuz e rumes, turqos, e jeraçoes a estas seme‑lhamtes, como sam armenios, a seu tempo vem ao regno do Guzarate e trazem suas copias de mercadarias gramdes e de valiia, e vem ao dito regno do Guzarate tomar suas companhias em as ditas naãos da terra, e tomam as ditas companhias grosamemte. Trazem tambem dos ditos regnos a Cambaia mercadorias da valia do Guzarate, de que fazem muito proveito. os do Cairo trazem as mercadorias ao Toro, e do Toro a Judaa, e de Juda a Adem, e de Adem a Cambaia, homde vendem na terra as de sua valia, e as outras trazem a Malaqua por companhias, como dito hé. 1376 Os topónimos deste listagem que não foram anteriormente identificados, sê ‑lo ‑ão em pró‑ximas secções da Suma Oriental.1377 original: «xstãos».1378 Isto é, Madura.1379 Parece tratar ‑se do potentado não identificado de Campocan («Campoquan»), anteriormen‑te referenciado.SumaOriental-PDF_imac.indd 271 12/5/17 2:02 PM
  • 272Mercadorias que trazem os do Cairo e os d’Adem e Mequa.Hos do Cairo trazem as mercadarias que as galeaças de Veneza trazem, sam muitas armaas, grãas, panõs de laã de cores, corall,1380 cobre, azougue, vermelhã, pregaduras, prata, comtarias, cristalinos, vidros dourados. Hos de Mequa trazem gramde copia d’afiam, aguoa rosada e mercadorias casy como estas, estoraque liquido muito. Hos d’Adem trazem ao Guzarate gramde copiia d’afiam, pasas d’uvas, ruiva, anill, agoa rosada, prata, aljofar, e outras timtas que sam da valia de Cambaya. Nestas companhias vem os parses, turquos, tu[r]quimaees e armenios, e vem tomar suas companhias por seu frete a Guzarate, e dali embarquam em Março, e partem caminho de Malaqua rota batida, e da torna viajem vam polas ylhas de Diva. Vem cad’ano do Guzarate a Malaqua quoatro naãos, vall a mercadaria de cada naão quinze mill cruzados, vinte mill [ou] trimta mill, ho menos hé quinze mill. E da cidade de Cambaia vem cad’ano hu~ua [nau], esta vall setemta [ou] oitemta mill cruzados, sem duvida nenhuuã. A mercadoria que trazem sam panos de trimta sortes, que sam da valia des‑tas partes. Trazem asy mesmo pucho, que hé raiz como ruipont~uo, he cacho, hé como barro; trazem aguoa rosada, amfiam de Cambaia; e d’Adem trazem semem‑tes, grãos, alcatifas, emcenso muito; trazem quoremta maneiras de mercadorias. o reino de Cambaia e de Daqu~e ate Honor se chama India primeira, e asy se chama cada hu~u destes rex ~e seus titollos ‘rex da India’. Ambos sam poderosos, de gramde jemte de cavallo e de pee. De iiic annos a esta parte tem rex mõuros estes dous regños. o regno de Cambaya hé de mais avamtajem que ho Daquem em tudo. |174v| Ho retorno primcipall hé cravo, maças, noz nozcada, samdallõs, aljo‑far, porcelanas poucas, almizquer pouco; levam imfimdo lenho aloes de botiqua, levam algu~u beijoym, fynallmemte que destas espiciarias carreguã, e do all levam meãamemte, e o all levam ouro, seda imfimda bramqua, levam estanho, muitos damasquos bramqos, fazem muito por ell~es, seda de cores, pasaros que vem de Bamdan pera penachos pera os rum~es e turcos e arrabiõs, valem laa muito. Estes tem o primcipall trato de Malaqua, paguam de direitos seis por cemto, e se querem orçar as naãos por avaliadores, paguã o que se julgua. Asy se custuma dos guzarates, por escusar sogeiçoees de mamdaris, porque alem de seis por cemto paguam ao bemdara, lasamane, tumunguo e o xabamdar de cemto hu~u pano, e a cada hu~u segumdo cada hu~u quem hee, o que os mercadores ham por gramde apresam. E portamto fazem orçamemto da naão, e ao menos a naão do Guzarate hé avaliada 1380 o coral vermelho oriundo do Mediterrâneo (Corallium rubrum, L.) era um importante produto do comércio oriental.SumaOriental-PDF_imac.indd 272 12/5/17 2:02 PM
  • 273em sete[nta] cates de timãs,1381 que sam vymte e hu~u mill cruzados, e disto paguã a rezam de seis por cemto. os de Chaull e Dabull e Guõa vem tomar suas companhias a Bemgalla, e dalii vem a Malaca, e tambem as tomam ~e Calecut. Destes se dira quamdo se falar das cousas de Bemgalla.1382 Cananor, Calecut, Cochim, Coulam, que se chamam malabares.Estes malabares fazem sua companhia na Bonua Quelim, que hé Choromamdell he Paleacate, e vem em companhias, mas o nome hé quel~ıis, e nom malabares.Choromamdell é Paleacate e Naõr. Estes sam os portos da costa de Choro‑mamdell: ho primeiro hé Caile, he Calicate, Adarampatanã, Naor, Turimalapatam, Carecall, Teregampari, Tirimalacha, Calaparaoo, Conimiri, Paleacate.1383 Hos malabares vem tomar suas companhias a Paleacate, trazem mercadãrias do Guzarate, e os de Choromamdell trazem roupa quelim baixa, vem cad’ano a Malaqua tr~es [ou] quatro naos, valera cada hu~ua doze [ou] quinze mill cruzados. E de Paleacate vem huua naão e d~uas, vall cada nãao oitemta [ou] novemta mill cruzados, ou junco, nom vall menos. Trazem trimta sortes de pannos e rriqos, de muita valia, pagam em Malaqua seis por cemto. Estes quel~ıis tem a mercadaria em peso e o trato de Malaqua mais que outra jeracã. Retorno de Malaqua pera Bona Quelim.Retornam ho primcipall samdallos bramcos, porque os vermelhos nacem na Bonua Quelim, he vall ho baar hu~u cruzado e meio, e avera dez naãos cad’ano, se as quiser~e. He levam camfora de Pamchur, que hé da bamda do sudueste, e na ilha de Çomotora, vall menos, esta hé de comer. Pedra hume, seda bramqua, aljofar, pimemta, noz pouca, maças poucas, he pouco crãvo, cobre muito, estanho pouco, fruseleira da mais baixa, calanbac, damasquos, brocados da China, ouro. Pagam d’emtrada seis por cemto, e da saida nada. Partem daqui em Janeiro, e tornam em outubro, poem hu~u mes de yda e outro de vimda. He alguuas vezes vaão daqui a Paleacate em juncos dos de Malaqua. E os quiliis sam do reyno de Narsingua, sam jemtios. 1381 Trata ‑se de uma estimativa, que provavelmente contém um lapso. A tima é uma moeda de estanho de valor ínfimo e o cate uma medida de peso valendo entre 800 e 1000 gramas.1382 Nova referência à organização interna da Suma Oriental.1383 Trata ‑se de portos da costa do Choromandel, que podem ser identificados com: Kayalpatnam, Kilakarai, Adirampattinam, Nagore, Tirumalayrayan Pattinam, Karaikal, Tranquebar (ou Tharangam‑badi), Thirumullaivasal, talvez Cuddalore, Pondicherry (ou Puducherry) («Conimiri»), e Pulicate.SumaOriental-PDF_imac.indd 273 12/5/17 2:02 PM
  • 274Dirreitos que se pagam da mercadoria do Ponemte em Malaqua.Porque ja o recomtamemto e descriçã das terras hee feyto, resta aguora falar dos dirreitos que os mercadores do Ponemte pagavam em Malaca, quamdo vinham com suas mercadorias, scilicet, mercadores d’Adem, e com os d’Adem os de Mequa e d’ormuz, pars~es, cõ estes todo ho Guzarate, Chaull, Dabull, o regnno de Guoa, e Calecut, o regno do Malabar, Ceilam, Caile, Choromamdell, Paleacate, todo o regn~uo dos queliis, que hé Narsymgua, o regnõ d’orixa, Bemgalla, Racam, Peguu, Syam. Este Pegu~u e Syam pagavã dirreitos das mercadorias e dos mamtim~etos [pagavam] presemte. Todo mamtimemto hé de presemte em todas estas terrãs da bamda de Tanary,1384 Quedaa, Ped~ır, Pacee. Estes se chamã do Ponemte, estes todos pagam em Malaqua de cemto, seis. E sem estas companhias |175r| vem mercadores malaios ou doutras naço~ees que tem molheres e asemto em Malaqua, paguam tres por cemto. E alem deste dirreito reall de seis por cemto ao estram‑geiro he tres ao naturall, se pagua presemte ao rey e ao bemdara e ao tumug~uo e xabamdar da tall naçam, e estes presemtes valeram hu~u por cemto e dous, segumdo o xabamdar o detremina. Asy o dam os mercadores, porque os xabamdares sam comform~es aos mercadores, he das mesmas naçoes dos mercador~es, e as vezes dam mais, segumdo os xabamdares querem estar com ho rey e mamdar~ıis. E ysto feyto, vemdem livremente o seu. Outra maneira de dizymãr.Tem tãbem outra maneira nas naõs gramd~es, as vezes a comsemtimemto do rey, [nas] avaliaçoes. Ja se sabe não de tall lugar traz mercadaria que vall tamto, cha‑mam dez mercadores, cimquo quel~ıis e cimquo doutra naçam, e peramte o juiz da alfamdegua, que era o tumungam, irmao do bemdara, avaliam e recebem os dirreitos e presemtes. E porque se ysto nom faziia, cada hu~u tirava, e o trato hé tam gramde que os guardas furtam, he por escusar furtos e tiranias se fazia ysto, e tambem se achava que os avaliadores erã grosamemte peytados, e por ysto se osava poucas vez~es. Maneira de como se faziã os preços em Malaqua.Hé custume amtiguo de Malaqua que, tamto que chegavã os mercadores, descarregavam e pagavam seus dirreitos ou presemt~es, como se dira. Ajumtavã se 1384 Poderá tratar ‑se de um lapso, querendo Tomé Pires referir ‑se a Tenasserim, porto antes referenciado.SumaOriental-PDF_imac.indd 274 12/5/17 2:02 PM
  • 275dez ou vymte mercadores com ho senhor da tall mercadaria, e estavam aas vezes, he por os taes mercador~es se detreminava o preço, e por elles se repartia por todos, segumdo cada hu~u era. E porque o tempo era curto e as mercadarias muitas, erã despachadõs, e emtam os mercadores de Malaqua recolhiam as mercadarias as suãs naõs e vemdiam a seu prazer, do que recebyam os tratamtes despacho e ganho, e os mercadores da terra faziam seus proveytos. E por este custume vyviia a terra em hordenamça e tinham despacho, e ysto se fazia asy ordenadamemte, que nom compraziam ao mercador da não, nem se partia com escamdollo, porque a ley das mercadarias em Malaqua sam muito sabidas, e os preços, etc. Terras que paguam somemte presemtes e nam outros dirreitos, etc.Todo Levamte nom pagua dirreitos das mercadarias, somemte presemtes ao rey e as pessoas nomeadas, scilicet, Pahão e todollos lugares atee China, todalas ilhas, Jaõao, Bamdam, Maluquo, Palimbão, e todos os da ilha de Çomotora. E os presemtes sam razoadamemte compridos, querem parecer dirreitos. Avia taxador~es que orçavam ysto, se custumava ge~erallmemte, e os presemtes da Chiina erã mores que de todas part~es, e estes presemtes relevã gramdememte, porque hee gramde a comtia dos navegamt~es que pagavã presemtes. E se em Malaqua vemdiã juncos, emtam se pagava de dirreitos duas [ou] tres tumdaias d’ouro por casquo, e esto hé do rey de Malaqua. E despois se ordenou que de cada iiic cruzados se pagasem de dirreitos quymze cruzados, e ysto recadavã os xabamdares das naço~es pera o rey. Todos mamtim~etos pagã presemtes e nam dirreitos. Dirreitos da terra.Nom pode nemhu~u homem vemder casa nem quymtãa sem licemça do rey da terra ou do bemdara, e da vemda da quimta, polla licemça do tall casall emcabeçado,1385 se paguava presemte segumdo era. Tinha tambem Malaca das vemdedeiras tanto por m~es, e ysto era dado aos mamdariis. Pollas ruas arruadãs de tall mãdarii tall, e tall doutro, porque em Malaca em todalas ruas vemdem. E ysto era espritall1386 de pessoas pobres de samgue. E por gramde merce se dava ao mora‑dõr que podese ter diamte de sua porta temda pera poder vemder ou aluguãr. Tem tambem d[i]rr[ei]tos das fruytas e pescados. Ysto era pouca cousa. 1385 Esta expressão algo enigmática, ‘casal encabeçado’ poderá referir ‑se a uma casa com terreno adjacente. 1386 Isto é, auxílio ou ajuda.SumaOriental-PDF_imac.indd 275 12/5/17 2:02 PM
  • 276Alem dos dirreitos, o primcipall dirreito que tinha hee o peso do dachim de toda a mercadoria que emtrava e saya, de cada cem calais que valia em mercadoria se pagava hu~u. E disto tinha o rey esprivaes e recebedores, e tudo se pesava, atee camdeas de breu, e ysto importava ao dito tempo muyto. |175v| Moeda de Malaqua, he valia das tymas, e do ouro e prata.1387A moeda de Malaqua se fez por cala~ıs em timas. Tymas chamam estanho. A moeda d’estanho meuda sam caixas, valiam cada cemto homze reis e quoatro ceytis, a rrezã de cem calais em timas por tres cruzados. Cada cem caixas hé hu~u calaim, e pesa trinta e tres omças escasas. E toda a mercadaria se faz por cala~ıs, e pagam por estanho e por ouro. As caixas sam como ceyt~ıis com ho nome do rey que emtam reyna, e tambem corr~e as dos reis pasados. As peças do estanho sam oytemta, e valem cem calais tres cruzados. Xaraf~ıis, cruzados.Tem Malaqua serafiis de Cambaia e d’ormuz, correm, e [também] noso cru‑zado. Cada serafym vall vymte [e] sete calais, que sam iiic e xxte reis. o cruzado vall trimta e tres e hu~u terço, a rezã de tres por cem calais. Corr~e dramas de Pacee e moedas de prata.Valia do ouro.o menos ouro que vem a Malaqua hé o de Burney, hé de quoatro mates e meio, e cimquo, e cimquo e meyo, e seis; e depois de Laue, hé de sete mates, sete [e] meio; e despois o da Jaoã, d’oyto mates, e doyto e meio; e o de Pahãm hee desta valia, e mais alto algu~ua pouca cousa; e o de Menamcabo hee de nove mates; e o dos queliis hé de nove e hu~u terço, e de nove e meyo; asy hé o de Cauchychina, este hé o melhor ouro destas partes, hé ouro de cruzado, hé de nove mates e meio esforçados, casy dous terços.1387 Tomé Pires apresenta de seguida um conjunto de informações sobre moedas, pesos e medidas de Malaca, podendo esta secção configurar um esboço do livro que alegadamente teria em preparação sobre estas matérias.SumaOriental-PDF_imac.indd 276 12/5/17 2:02 PM
  • 277Tael ou tundaya.o peso de Malaca hé taeell, tambem se chama tumdaya. Tem esta tum‑daia dezaseis mazes, tem cada maz quoatro cupões, tem cada cupom vimte cumderis;1388 pesa esta tumdaya do noso peso onze oitavas e meia, menos seis graõs e meio.1389 Valia do ouro.A valia do ouro hee segumdo tem os mates. o mate tem o dobro dos cala~ıs, desta maneira o ouro de quoatro mat~es vall o maz a oyto calais, e o de quoatro mates e meio vall ho maz a nove calais, e o de cimquo mates vall ho maz a dez, e o de dez mates vall ho maz a oyto cala~ıs. A esta rezam fazes a comta desta maneira: o ouro d’oyto mates vall o maz a xbi cala~ıs, dezaseis vezes xbi sam iic e lbi cala~ıs, a rezam de cem calais por tres cruzados se faz ha comta. o cate do ouro de Malaqua tem vymte ta~ees. Fazes vosa comta vimte vezes duzemtos e cyquoemta e se~ıs, sam cimquo mill e cemto e vymte, e por esta maneira se trata a valia do ouro. E sam tocadores do ouro postos pollo rey, e tinha o rey dado este oficio a quem lhe dava cad’ano meio cate d’ouro. E nam leva ao rey nem a mandariis por tocar ouro nemhuua cousa, e ao povo levava de cada taell hu~u calaim, que sam xi reis, afora o que levava na pedra, que hé pouco menos doutro calaym, porque sam pedras de barrocos1390 autas a esta rapyna, e outro nom podia tocar ouro senom este. E este hé em Malaqua bom oficio, e vay muyto nelle porque hé de gramde credito.Valia da prata.A prata de Peg~uu valiam tres tae~es cem cala~ıs, e prata de Syã e da China valia o taell no tempo pasado a quoremta cala~ıs, aguora valem as cousas mais alguuã cousa. Vynha muita prata a Malaqua. 1388 o cupão, do malaio kupang, é uma medida de peso aproximadamente equivalente a 1 grama. o conderim, do malaio kanduri, equivalerá a aproximadamente 50 miligramas.1389 o grão é uma antiga medida de peso portuguesa, que equivaleria a cerca de 50 miligramas.1390 Referência à pedra de toque, rocha escura utilizada para identificar a pureza do ouro.SumaOriental-PDF_imac.indd 277 12/5/17 2:02 PM
  • 278Pesos de Malaqua no tempo pasado.o taell de Malaqua ou tumdaia hera de xi oytavas e meia. o cate tem vynte tundaias a rezam de cyma, menos seis graos e meio. Vall o cate do ouro vymte e oyto onças e meia. Por este cate se pesa ouro, prata, almizquer, camfora de comer, calambac he aljofar.Cate de mercadoria.o cate da mercadoria tem vymte e tres ta~ees dos que avemos ditõ, pesa xxxii onças e tres quintas e vimte e cimquo graõs. A faraçola1391 de Malaqua tem dez cates destes. Deste cate e destas mercadarias, quamdo compraees por bahar, dam duzemtos cat~es, scilicet, de almizquer ~e papos, seda bramca e de cor~es, amfyam, azougue, cobre, vermelham, alaqueqas, e outras mercadorias a estas semelhamtes. Pesa o bahar d’arrates do peso velho tres quimtaes, duas arrobas e vinte arrates e seis omças e hu~u terço de meia. |176r| Outro bahãar.É a ley de Malaqua no peso do bahaar das mercadoriãs deste titollo, quamdo compraes baar há de dar duzemtõs e cimquo cates: pimemta, cravo, nõz, maças, beijoym, lacar, emcemço, brasyll, pedra ume, mirabulanõs, emxofre, pucho, e cou‑sas a estas semelhant~es. E tem este bahar, segumdo tenho lamçada comta, como dito hé. Acrecentã lhe mais cimquo cates, tres quymta~ees, tres arrobas, sete arrat~es, nove omças e trintã e tres graõos. Este hé o da ley de Malaqua, segundo a comta que lhe fiz, e polla melhõr maneira que lha pude lançar. E asy ficou este dachym.Bahaar da feitoria de Malaqua.Quamdo o Guovernador das Imdias1392 se partio de Malaqua, mamdou horçar por Ruy d’Araujo1393 o dachim gramde da especiaria que ficava na feitoria. Foy 1391 A faraçola, do árabe farsala, é uma medida de peso correspondente a cerca de 8 quilogramas.1392 Referência a Afonso de Albuquerque.1393 Rui de Araújo chegou a Malaca em 1509, na expedição de Diogo Lopes de Sequeira. Foi um dos portugueses que ali ficou cativo até à conquista da cidade por Afonso de Albuquerque dois anos depois.SumaOriental-PDF_imac.indd 278 12/5/17 2:02 PM
  • 279detremynado por asemto que o dito dachim pesava tres quimtaes e tres arrobãs e seis arrates do peso velho, e asy hé esprita a especiaria em despesa que se pesou.Quamdo eu vym a Malaca por esprivam da ditã feytoria e comtador, detre‑miney de tomar certidam do dachim e tomey inteiramemte, e achava que o dito dachim pesava justamente tres quimtães e tres arrobas e vymte [e] sete arrates do peso velho. Nunca me foy crido. Trabalhey tamto que se mamdou a Cochim por chumbo o peso de hu~u bahar. Mamdarom dizer de Cochim que justam~ete pesava o dito dachim pollo peso de Cochim tres quintaes e tres arrobas e vimte [e] seis arrates. Eu me afirmo que nom foy bem pesado. Asy esta aguora detreminado, que tamto pesa, diguo ysto pera o diamte respomder ~e Cochim, e tambem a que hé pesada que levava a orçam~eto de tr~es quimta~ees e tr~es arrobas e seis arrat~es, porque perdera ellRey noso senhor vinte arrates ~e cada baãr.Medida da gamtaa1394 do arroz, azeyte, vinhos, vinagres.Porque nom temos medidas per avermos de medir, pesey o arroz que leva huuã gamta da ley de Malaqa, achey que pesava justam~ete d’arroz tr~es arrates e dez omças do peso novo. Se laa este peso se lamçar ~e huuã vasylha, bem se podera ver pollas medidas quamto tera d’azeyte ou doutro liqor.Ja dito hé largamemte das cousas de Malaqua no tempo pasado, posto que muito mais do comtado se comtenha em Malaca, porque sem duvida nom sey, no que toca ao trato da mercadaria ysto nom pode deixar de ser perto de cabo e fim de mouço~eees, e principio doutras. Aguora recomtarey de como foy tomada e do que socedeo atee o tempo de minha partida pera Cochim, e dos reis que aqui sam vasallos e outros amig~uos, e das terrãs que aqui tratarom, e de como se a cidade vay recobrando e reformamdo de mercador~es, e de que partes vierom, e despois da tomada de Malaqua, aquy tratãr.[Malaca sob domínio português.]Cheguou Afonso d’Alboquerque, capitam moõr e governador das Imdias,1395 na emtrada do mes de Julho na era de mil bc e omze a Malaca, com dezaseis vellas gramdes e pequenas, ~e que viriã pouco mais ou menos mill bic ome~es de 1394 A ganta foi anteriormente referenciada como uma medida de capacidade (1,75 litros).1395 Afonso de Albuquerque é alternadamente designado como ‘governador’, ‘capitão mor’ ou ‘capitão geral’.SumaOriental-PDF_imac.indd 279 12/5/17 2:02 PM
  • 280peleja.1396 Em o quall tempo se afirma Malaqua ter cem mill homees d’armãs,1397 des[de] Coala Penagy ate [ao] certam1398 e Caçam, que hé o termo da cidade de Malaqua. E tinham os malaios tranqueiras muitas e fortes, e no maar avya muitas lamcharãs e paraos em o riio, e no mar muitos juncos e naos guzaratas, que estavam prestes pera pelejar. Porque estava emtam ~e Malaca hu~u capitam dos guzarat~es, e tra‑balhava pera a guerra se fazer, parece~edo lhe que elle soo abastava per’as nosas naos e gemtes, quamto ma~ıs a imfyniidade da gemte da terra. Posto que a gemte nom era da emtemçam do rey de Malaqua, porque nas terras de trato homde o povo hé de diversas naçoe~es, nom podem estes taes ter amõr a seu rey como tem o povo naturall, sem mistura doutras naço~es, ysto gerallmemte se vee. E por iso o rey de Malaqua nom se pode sofrer, posto que os seus mamdaris pelejarom ~e yso quamdo poderom, etc. |176v| Asy que cheguado o dito capitam mõr com sua frota, se deteve alguus dias em recados de paz, escusamdo a guerra quamto a elle foy posyvell. Porem, a levidam dos malaios e oufania nom pesada, e comselho soberbo dos jaõs e sua presunçã, he coraçam emdurecido e luxurioso [de] tirano soberbo do rey, porque noso Senhor lhe tinha ordenado a pagua da gramde treiçam que comtra os nosos cometeo, junto todo ysto, ja nunca quiserom comsemtir na vomtade da paz. Somemte com recados malaios se detiverom, afortalecemdo se quamto podiam, parecemdo lhe que nam era gemte no m~udo poderosa pera os destroir. Asy que trabalhamdo o dito Governador ouve a maão Ruy d’Araujõ e os que com elle estavã cativos. o rey numca quis a paz, acomselhado pollo seu lasaman~e que o fizese e põr ho bemdara e por o seu Cerina De Raja, mas segundo ho comselho seu e de seu filho que despois matou,1399 e de Tuam Bamdã e Tuam Mafamut,1400 e de Utamutarraja e de seu filho Pate Acoo,1401 e dos guzarates, e Patiça,1402 e doutros fidallguos mancebos que ao rey se faziam cabae~es amoquos, ja numqua quis ~etemder em cousa de paz, dizemdo lhe os cacizes que a nam fizesem, e os seus moulañas, que pois a Imdia era ja nas maos dos portugueses, que o nom fose Malaqua com gemte imfiell. Devulguou se a temçan do rey, e foy cousa necesaria nã ficar o dito rey s~e castiguo do que fez e do mão comselho que tomava. 1396 A expedição de Afonso de Albuquerque, que aportou a Malaca no primeiro dia de Julho de 1511, segundo se apura do cruzamento de diversas fontes, era composta por dezasseis navios, a bordo dos quais seguiam cerca de 800 portugueses, mais algumas largas centenas de asiáticos.1397 Este número parece ser algo exagerado, à luz das informações disponíveis sobre as reais di‑mensões de Malaca. Poderá tratar ‑se de um exagero retórico da parte de Tomé Pires, interessado em sobrevalorizar junto de el ‑rei Dom Manuel I a importância estratégica do porto malaio.1398 Leia ‑se ‘sertão’.1399 Parece tratar ‑se de referências a Tuan Ali (seri nara diraja) e Tuan Mutahir (bendara), e a eventos ocorridos antes da chegada de Afonso de Albuquerque a Malaca.1400 Personagens não identificados.1401 os javaneses Utimuti Raja e Pate Aku, adiante referenciados. 1402 Personagem não identificado, cujo nome está provavelmente incompleto (Pate Hasan?).SumaOriental-PDF_imac.indd 280 12/5/17 2:02 PM
  • 281o Guovernador, avido comselho, saltou com sua jemte em terrã, tomou a cidade, e o rey fogio e sua gemte. Tornou se o Capitã mor a recolher as naãos ~e ese dia, e nom comsemtio que lhe fizesem dano, pera ver se deciria1403 ho dito rey de sua detreminaçam ostinada. Nom quis o rey. Fynallmente que tornou o dito Governador ~e terrã, ja com detreminaçam de tomar a cidade, e de nom aver ja amizade com o dito rey. Tomou a cidade e ouve a a sua maão. Foy fugimdo o rey de Malaqua e as filhas e todos seus gemrros, rey de Campar e de Pahaõ, forom se ao Bretao, que hé o asemto dos reis. E o Capitam mor se apoderou da cidade. Foy a cidade he maãr esbulhada, e feytos oficiaes diso. Começou ho Capitam mor de fazer fortaleza de madeira, por nom aver pedra e caall, e neste meio tempo se deu hordem pera a call.1404 Tornou se a desfazer a da madeira, e fezerom a famosa fortaleza demtro na sua mezquita gramde, omde ora estaa forte com dous poços d’auga doce, nas torr~es arredor outros dous ou tres. De hu~u cabo da o mar nella e doutro o riio, os muros da fortaleza sam de gramde largura, a torre da menagem poucas acharã omde se ellas costumam tae~es, e asy de cimqo sobradõs, joga artelharia de todas quoatro bamdas, grosa e meuda. Neste meio tempo forom degollados Utemuta Raja e seu filho e seu jenrro,1405 e hu~u seu paremte, por serem achados ~e damças malaias e quererem escurecer o cravo.1406 o rey foy se do Bretam a M~uar, e alii quisera matar o rey Audela,1407 rey de Campar e seu jenrro, e o moço fogio pera Campar, e atee oje nom forom mais amiguos, a noso parecer. o rey foy se ao regno de Pahão e la o filho do rey de Pão quisera matar o rey que foy de Malaqua, pera lhe tomar o tesouro que levava, que aimda tem. Fogio o rey pera Bimtam, homde ate aguora estaã. Deixemos que em Muar foy desbaratado, vymdo pera Upe, porque sam cousas que destas sam feitas ~e Malaqua muytas, que se nom esprevem. Foy a terra recebemdo os mercador~es, e vierom se muitos. Foy dada a guover‑nãça da nação quelim ao bemdara Nina Chatuu,1408 com o oficio de bemdara. 1403 Leia ‑se ‘desceria’.1404 os portugueses montaram inicialmente uma fortaleza de madeira, que foi logo depois subs‑tituída por uma outra construída com pedra e cal, que ficou conhecida como ‘A Famosa’.1405 Utimuti Raja, mercador javanês anteriormente referenciado, foi executado em finais de 1511, juntamente com o seu filho Pate Aku. o seu genro era Pate Kedir, que não foi executado, mas se refugiou em Cirebon, no norte de Java, como adiante se refere.1406 Utimuti Raja terá conspirado contra a presença portuguesa na cidade. Tomé Pires parece referir ‑se aqui a práticas mágicas e a actos de sabotagem de mercadorias.1407 Abdullah, rei de Campar (ou Kampar).1408 Nina Chatu era um importante mercador quelim, originário do Choromandel, que residia em Malaca, e que entre 1509 e 1511 apoiou o grupo de portugueses que ficaram cativos naquela ci‑dade, na sequência da expedição de Diogo Lopes de Sequeira. Após a conquista de Malaca por Afonso de Albuquerque, assumiu as funções de bendara.SumaOriental-PDF_imac.indd 281 12/5/17 2:02 PM
  • 282Foy dado a Regimo de Raja,1409 mouro lução, a guovernança dos luções, parses, malaios, foy dado a elle o oficio de tumunguo. Foy dado a Tuam Colaxcar a governança d’Iler. Foy dado a Pate Quedir a governança d’Upe. o Pate Quedir, jaão, alevamtou se com ho dinheiro de Utamuta Raja, e fez a guerra ~e a quall morrerom |177r| algu~us purtugueses, amtre os quae~es foy Ruy d’Araujo, despois foy destruydo e lamçado fora.1410 o Pate Quidir fogio e tornou se pera a Jaõa, e matou muitos mercadores d’Upe e roubou quamto elles tinhã. Despois disto foy asesegamdo a terra, e começou a repousar. Tornaram se muitos hom~ees a povoar a terra, e dalii por diamte se melhorou. Neste meio tempo ajumtou a Jaõa todo seu poder, e veio diante de Malaca com cem vellas, em que vinriã quoremta jumcos e sessemta lamcharas e cem calaluzes, e traziam cimquo mill home~ıes.1411 Sairom a elles as nossas naaõs, de que os jaõs se agastarõm, e tornarõ se cõ a maree, e leixarom todo e recolherom se nos calaluz~es, e salvarom se no junquo grande e em outros dous. Todollos outros forõ queymados e a jemte nelles, e outros afoguadõs, e outros cativõs. E nom hee duvida ser esta a mais fremosa frota que purtugueses nunqua virom na Imdia, nem de gemte tam homrrada, e forom desbaratados muito mais fremosam~ete. Do quall noso Senhor seja louvado pera sempre, porque tall feyto nom hé ~e nosas maaõs, e porque noso Senhor nom tarda com sua justicã. Amamsada foy a jemte da Jaõa e morta a de Palimbão que veio com Pate on~uz, da quall cousa nom recebeo muito descomtemtam~eto o Guste Pate da Jaõa, nem o senhor de Tubam. Reis trabutarios a ellRey nosso senhor e outros amiguos vasallos.Ellrrey de Pão e de Campar e de Amdarguery, vasallos trebutariõs. Amyguos vasallos, que esprevem que sam espravos d’ellRey noso senhor, os reis de Menam‑cabo, de d’Aruu, de Pacee, de Peguu. Amiguo, ellrrey de Syam. os reis de Maluco por espravos se comtam. E asy o tem esprito os pates da Jaõa, o senhor d’Aguacii, de Tubam, de Cadao.1412 o senhor de Çurubaia, amiguo vasallo, que se daa por espravo. o rey de Çumda outro tamto. o Guste Patee da Jaõa e doutros reis e senhores, cartas [e] embaixadores cada dia. o rey de Burney espravo se chama. 1409 Arya Rana Diraja, também designado como Aregimute Raja, mercador de Luzon anterior‑mente referenciado.1410 Rui de Araújo morreu em 1512, num recontro militar que teve lugar em Malaca contra uma sublevação de javaneses instigada por Pate Kedir.1411 Como foi anteriormente referido, a cidade de Malaca foi atacada em Janeiro de 1513 por uma poderosa frota comandada por Pate onuz.1412 Isto é, Sidayu, anteriormente referenciado.SumaOriental-PDF_imac.indd 282 12/5/17 2:02 PM
  • 283Lugares de que vem a Malaqua a tratar ~e noso tempo.Vierom guzarates, malabar~es, queliis, bemgallas, pegu~us, [de] Pacee, d’Aruu, jaos, ch~ıis, [de] Menamcabo, de Tamjompura, de Macaçar, de Burney, luçoe~es.Lugares homde os nosos juncos e naãos forom.As nosas naõs a Jaõa, a Bamdam,1413 a China junco,1414 e a Pacee [e] a Palea‑cate. Aguora vam a Timor por samdollos,1415 e vam a outras part~es. Foy ja noso jumco a Peguu, ao porto de Martan~ıane.1416Naçoes de mercadores que há em Malaqa.Muytos mercadores quiliis, algu~us jaõs, parses, bemgallas, de Pacee, de Pahão, ch~ıis, he doutras naçoes, luçoes, burneus. Ho povoo hé de muitas mes‑turãs, e vay crecemdo, nom pode Malaca deixar de tornar ao que era, e mãis avamtejada, porque tera nosas mercadarias. E muito mais folgam os tratamtes comnosquo que com os malaios, por rezã da mais verdade e justiça que lhe fazemos.Malaqua vai se melhoramdo em juncõs. Compram os mercadores de Malaqua juncos, fazem gudo~ees novamemte, vay a terra em crecimemto, começan se a cheguar. E á mester regra e ordenança neste primcipio, e leis pera sempre, e pera Malaqua avya mester Salomom pera a guovernar, e ella o merecee. A maneira que tem os merqadores que nam tem juncos e carregam pera fora ~e alheõs. Trato da Jaõa. o senhorio aparelha seu j~uco de todo o que lhe hé necesario. Se queres huuã peitaca1417 ou duas, metes dous ou tres homes pera oulhar~e por ela, e tratar e mar‑car o que levaes, e quamdo torna~es a Malaqua paga~es de cemto vymte do que meteis em Malaqua no junco, e pagaees vos, dono da mercadaria, presemte do que traz~eis. 1413 Referência à expedição de António de Abreu em 1511 ‑1512.1414 Referência ao junco chinês em que viajou Jorge Álvares com rumo à China em 1513.1415 A primeira expedição portuguesa com destino a Timor terá largado de Malaca em 1515.1416 Leia ‑se ‘Martabane’ ou Martabão. Rui Nunes viajou para Pegu em 1511, sendo seguido no ano seguinte por Pêro Pais.1417 Peitaca, do malaio petak, divisão ou compartimento no porão de um navio.SumaOriental-PDF_imac.indd 283 12/5/17 2:02 PM
  • 284E se metestes em Malaqua cem cruzados, a torna viagem aves duzemtos, amtes de paguar ao senhorio do jumquo. |177v| Se eu mercador que estou em Malaqua dou a vos, senhorio do jumco, cem cruzados em mercadoria pollo preço que emtam vall em Malaqa, tomamdo meu risquo, a torna viagem me dam cento e quoremta, sem mais outra cousa, e pagam segundo hordenamça de Malaca, da chegada do junco ao porto a quoremta e qoatro dias. A viajem da Jaõa hee no principio de Janeiro a primeira moução, e tornam de Mayo ~e diamte atee Aguosto [ou] Setembro daquelle anno.Çumda.Pera Çumda vos dam cimcoemta por cemto, porque podem trazer pimemta e espravos. Hee terra de mais mercadoria e trato, hé mais o ganho pouca cousa. Ho tempo da viagem hé todo hu~u.Tamjompura.Todos estes quoatro lugares vos dam cimqoemta por cemto, tomamdo o que mete o risquo do maãr. Sam as viage~es todas de hu~u tempo casy. Pagam pola maneira que hé dito. Pacee, Pedir, Quedaa.Estes tres lugares paguã segumdo ley da terrã trimta e cimqo por cemto de vyagem. Hé mais segura a navegaçam, e mais em breve. Siam, Pegu~u.Siam [e] Peegu~u sam de cinqoemta por cemto a risquo, como dito hee, e se met~ees mercadoria, aves de hu~u dous a torna viagem. Pagamdo todo o dir‑reito, fica hu~u por outro, e as vezes ma~ıs. E deten se nas viages oyto [ou] nove meses.SumaOriental-PDF_imac.indd 284 12/5/17 2:02 PM
  • 285Bemgala, Paleacate.Estes dous lugãres fazem a viagem d’ano em anño. Destes dam hu~u por outro, segumdo hordenamça, e oytemta por cemto e novemta, e quem carregua pera estes dous lugares as vezes há tres por hu~u.Chyna.China hé boa viajem, e mais, e quem carregua tomamdo peitacas as vezes há tres por hu~u, e ~e boas mercadarias que se despacham loguo. Partido que faziam ao rrey de Malaqua do que metiam no junco.E porque este meter nos juncos hé cousa em que se faz gramdememte proveyto, por partirem por mouçoes hordenadas, ho rrey de Malaqua se aproveytava muyto. Dam ao rey hu~u terço [mais] que a outra [parte], e o rey faz aaquelle que leva seu dinheiro franco de dirreitos, de maneira que se achava que por o tall meter nos juncos se alcamçava gramde copia d’ouro, e nom pode ser menos. E aqui vinhã os reis de Paão e Campar e Amdarguery e outros, por seus feitores, meter dinheiro nos ditos juncos. Isto importa gramdememte pera quem tever cabedall, porque Malaca despacha juncos pera fora, e outros emtram, e sam em tamta copia que nom podia leixar de ser o rey rico. E o tall mercador que leva o dinheiro do rey ha partido cobra oufania e liberdade, e recebem no de boa vomtade, he pagam ha seu tempo. Disto tinha o rey oficiaees de receber as mercadarias e daar os taes dirreitos, e ysto era enexo [à] alfamdegua, de que tinham carreguo Ceryna De Raja,1418 irmaão do bemdara. Custume da paga.Se quamdo se acaba o tempo o dito mercador nom tem ouro pera paguar, paga na mercadoria pola valia da terrã, e quamdo paga em mercadorya hé mais proveito pera quem estaa d’asemto. Asy hé custume se vos nom comtratastes de vos pagarem em ouro. Mas o tratamte nom quer ouro, senom mercadoria, porque de hu~u dia 1418 Provável referência a Tuan Ali, que exercia o cargo de seri nara diraja, antes referido como «Cerina De Raja».SumaOriental-PDF_imac.indd 285 12/5/17 2:02 PM
  • 286pera o outro sobem as mercadorias, e porque o comercio de todo o mundo de quallquer maneira se faz em Malaqua. |178| E quem quiser semtir quamto proveyto ellRey noso senhor deve de percallçar com Malaca a sua fazemda, certo que apagada a autoridade que este malvado rrey que foy de Malaqa aimda semea, e tambem visytada h~ua vez a Jaaõa por seguramça dos animos dos tratamtes he navegamt~es, e de reis que aimda estam com credito das palavras falsas do rey de Bymtao,1419 que hu~u dia espalha cizania nos paremtes que nom podemos apaguar em hu~u anno, hee Malaqua de tamanho, peso e proveito que me parece que no mundo nom tem sua iguoall. Rezam da gramdeza de Malaqua.1420Note cada hu~u que a vir pesoa que em Malaca seja abastamte pera cad’ano mamdar jumco a Chyna e outro a Bemgala e outro a Paleacate e outro a Pegu~u, e nestes tomamdo companhias os mercadores Malaqua, e pera as outras partes a vir feitor delRey noso senhor que carregue dinheiro e mercadoria, tamto por cento como dito hee, e a vir outra pesoa pera ter carreguo da allfamdegua de receber dirreitos, com oficiãees, quen pode duvidar que em Malaqa fara baares d’ouro e nom avera mester dinheiro da Imdia, mas daqui ira pera lla. E nom falo de Bamdam e Maluco, porque hee a menos cousa do mundo hir laa toda a espiciaria sem custar nada, porque Malaqua paga soldos, mamtimemtõs, e fara tesouro, e mamdara toda especiaria, se for grangeada, tratada e regida e tever gemte como merece. As cousas gramdes nom se pod~e sostemtar com pouca gemte. Deve se Malaca favorecer com gemte, meter hu~ua e tirar outra, favorece lla de manificos oficiaes, sabedores das mercadorias, amiguos da paz, nom soberbos nem altarados nem desmamdados nem luxuriosos, mas comtinemtes a velhos, que Malaqua nom tem oficiall de cabellos bramcos. A criamça1421 cortesaa e o trato da mercadoria nom se comformam. E pois ysto se nom pode doutra maneira faz~er, ao menos seja ja a idade, pois o all se nom pode achar, nom podem os hom~es estymar a vomdade de Malaca por rezam de sua gramdeza proveytosa. Malaca hé cidade que foy feyta pera a mercadoria, mais auta que todallas do mundo, cabo de mouçoees, primcipio doutras. Hé cercada Malaca e jaz no meio, e o trato e comercio de huuãs naço~ees a outras, de mill leguoas de cada bamda a Malaca ham de viir, pois cousa que tamanha hee e de tamta riqueza, e que em nenhu~u tempo do mundo nom pode escair, como for meaamemte guovernada e favorecida. Deve se prover, 1419 o «rey de Bymtao» é o antigo sultão de Malaca.1420 Tomé Pires define aqui uma estratégia para a governança portuguesa de Malaca.1421 Leia ‑se ‘criação’.SumaOriental-PDF_imac.indd 286 12/5/17 2:02 PM
  • 287olhar, estimar, favorec~er, e nom se po~er em esquecymemto. Porque Malaqua estaa cercada de Mafomede, que nom pode ser amigo senom quamdo Malaca tiver força, e nom sera fiell emtam aimda a mourama comnosquo, senom por força, que sempre estam em espreita, e como vem quallquer cousa descuberta, dam com a frecha. E pois hé sabido quam proveitosa hee Malaca pera o temporall, quamto mais ao esprituall, que Mafomede jaz no saquo he nõ pode mais hir adiamte, e foge se quamto pode. E a jemte que favoreça hu~u partido, que a mercadoria favorece nosa fee, e verdade hé destruir se Mafomede, o que nom pode deixar de ser destroido. E certo hé que este mumdo de qua hé mais riquo [e] mais estimado que ho mumdo das Imdias, porque a menos mercadaria de quaa hee ouro, que menos se estima, e ~e Malaqua tem por mercadoria. Quem for senhor de Malaqua tem a mãao na garganta a Veneza atee Malaqua, e de Malaqa atee China, e de China a Maluco, e de Maluqo a Jaõa, e da Jaõa a Malaca, [e] Çamotora cativa hé de noso poder. Quem ysto emtemde, favorecera Malaca, nom se ponha em esquecim~eto, porque mais prezam os alhos e cebolas ~e Malaca, que almizqueres, beijo~ıs e outras cousas ricas. |178r| Falecimemto do bendara Nyna Chatuu.E porque estamdo eu neste paso esprevemdo, falec~eo ho bemdara Nina Chatuu aos vynte e sete dias de Janeiro de quinhemtos e quatorze,1422 domim‑guo, eu com mais rezam devo lememtar sobre Malaqua. Seja notorio a todos que ellRey nosso senhor perdeo mais por morte do bemdara do que perderom os propeos seus ffilhõs, porque era leall [e] verdadeiro servidor de Sua Alteza. Morreo o bemdara, hu~us dizem que morreo de nojo, outros dizem que tomou peçonha, pera morrer amtes que vise guovernar o rey de Campa. E quamdo quis morrer, chorãdo dise, «Se o gramde Rey de Purtugall, senhor das Imdias, ou o seu Governador, nom homrrar meus filhos despois de minha morte, Deus nam sera Deus, cuytada de ty, Malaqua, pois ho verdadeiro amiguo e servidor dellRey de Purtugall morre». E certo sem duvida morto hé hu~u dos esteos de Malaqua, que a sostinha a serviço do dito senhor, praza a noso Senhor que Nina Chatuu nom nos faça a mimguoa que todos cuidamos. E se per vemtura eu nom chegase dyamte da pessoa d’ellRey noso senhor ou do seu guovemador das Imdias, aqui diguo que a morte de Nina Chatuu obriga Malaca a ter mais duzemtos purtugue‑ses dos que lhe erã necesariõs pera seu sost~emtamemto. E como gramdememte o governador das Imdias deve v~ıir sem detemça a Malaqua com poder, porque 1422 Segundo parece, Nina Chatu ter ‑se ‑á suicidado, como reacção à notícia da sua eminente substituição no cargo de bendara de Malaca.SumaOriental-PDF_imac.indd 287 12/5/17 2:02 PM
  • 288nom hé menos romaria que a de Mequa, e apagara o credito do rey de Bymtam e amamsara a soberba dos jaãos, ouvira os mercadores de Malaqua, dar lhe a regedor comforme a sua naçam, porque a mercadoria hé hu~ua armonia sobre sy. o rejedor que a reger há de favorece la, que doutra maneira nom se poderam soster os mercadores, os quães amdam escamdalizados e movidos pola nova ~etrada do rey de Campar em Malaqua, a quall foy muy odiosa e escandalosa.1423 E perdoe noso Senhor a quem tall ardill levou ao senhor Capitam jeerall, porque mais hé diino de castiguo que de merc~ee.Aguora hé maneco bumi1424 de Malaca, com titollo de guovernador, Raja Audelaa,1425 rey de Canpar, hé moço e samdeu e malaio, sobrinho do rey de Bymtam, casado com sua filha. Nom cuido que fruitificara em Malaca. E porque o senhor Capitam moõr ysto mamdou por emformaçam que lhe seria dada pera ysto fazer, hé certo que movido de bom zello o faria, porque sua ssenhoria nom querera ver a perda do regn~uo bem avemturado que ganhou. Este deve de nom consentir o dito malaio em Malaqua, nem outro nemhu~u, mas bota llo log~uo e meter quem seja fora de samgue malayo, porque capitam abasta pera reger he governar, com governador comforme aas naçoees dos mercãdores, e nisto deve trabalhar, por que o all nom me parece serviço de Deus nem d’ellRey noso senhor, nem do Capitam geerall.1423 Tomé Pires mostra ‑se partidário de Nina Chatu, não concordando com aqueles que o que‑riam afastar, e substituir pelo sultão Abdullah, que era sobrinho do antigo sultão de Malaca. Con‑tudo, pouco tempo antes, numa carta dirigida em 10 ‑01 ‑1512 a Afonso de Albuquerque, criticava asperamente o bendara (ver transcrição desta carta mais adiante).1424 Isto é, mangko bumi, regente ou vice ‑rei. 1425 o sultão Abdullah, de Campar (ou Kampar), anteriormente referenciado, que acabaria por ser executado ainda em 1515, na sequência de rumores que circulavam sobre o apoio que pretenderia dar ao antigo sultão de Malaca, seu tio, para recuperar o controle da cidade. Este evento ocorreu já depois da partida de Tomé Pires para a Índia.SumaOriental-PDF_imac.indd 288 12/5/17 2:02 PM
  • TABELA CoMPARATIVASumaOriental-PDF_imac.indd 289 12/5/17 2:02 PM
  • SumaOriental-PDF_imac.indd 290 12/5/17 2:02 PM
  • 291TABELA CoMPARATIVAA presente tabela estabelece a comparação entre a foliação do manuscrito de Paris da Suma Oriental e as paginações das várias edições do texto.Suma Oriental Ms. ParisCortesão, 1944versão inglesaCortesão, 1944texto portuguêsCortesão, 1978Ed. CCCMDedicatória 117r ‑118r 1 ‑6 323 ‑327 129 ‑134 49‑54Egipto até Cambaia 118v ‑124v 7 ‑33 328 ‑347 135 ‑162 55‑82Cambaia 125r 33 ‑36 347 ‑348 163 ‑165 82‑85Canará 125v ‑129v 60 ‑84 348 ‑363 166 ‑192 104‑123Cambaia 130r ‑131v 36 ‑47 363 ‑370 192 ‑204 85‑94Decão até Comorim 132r ‑134r 48 ‑60 370 ‑377 205 ‑218 95‑103Bengala até China 134r ‑139v 87 ‑118 377 ‑394 219 ‑255 126‑149Samatra até Maluco 140r ‑160r 137 ‑228 394 ‑453 255 ‑355 166‑238Ceilão 160r ‑160v 84 ‑87 453 ‑455 355 ‑359 123‑125China até Luzon 161r ‑163r 119 ‑134 455 ‑463 359 ‑377 150‑163Samatra 163v 135 ‑137 463 ‑464 378 ‑380 164‑166Malaca 164r ‑178v 229 ‑289 464 ‑511 381 ‑444 239‑288SumaOriental-PDF_imac.indd 291 12/5/17 2:02 PM
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  • CARTAS DE ToMÉ PIRESSumaOriental-PDF_imac.indd 293 12/5/17 2:02 PM
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  • 295CARTAS DE ToMÉ PIRESDurante os seus anos de vivência no oriente, Tomé Pires subscreveu diversas cartas, algumas das quais ainda hoje se conservam, e que de seguida se transcre‑vem, como complemento dos materiais contidos na Suma Oriental. Trata ‑se de documentos conhecidos, que há muito estão publicados, mas que se considera poderem enriquecer a presente edição, na qual ficam assim reunidos todos os escritos conhecidos do boticário português. 1) Carta de Tomé Pires a João Fernandes (Malaca, 07 ‑11 ‑1512).1426Senhor irmão e amigoDe Cananor me mandou o capitão mor1427 chamar a coch~ı, mandoume a malaca, estou ~e malaca por escrivãao da feitoria e por contador e por veador das drogarias; depois que qua sam aimda nom ouve recado voso, e nom queria outro som~ete que estiveses de saude vos e toda vosa casa, e fose cõ muita paaz e asi minha irma e isabel fernandez e antonia.alg~uas cousas vos mandara, mas como as cousas vam de voleo nõ vay nada a lume; esta não santa ofemea que parte agora pera cochim, nõ somos certos se achara não de portugall, e se nõ achar tudo se perde, em as naos outras que forem vos mandarey do que tiver; folgaria que me nom mamdases nenh~ua cousa, por que qua mãcase de nada do que mandam, e rogo volo como amigo, que nenh~ua cousa me mãdees, quamdo me escreverdes, escrevey muitas cartas, e nõ sejam doutra cousa 1426 Carta publicada em Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. 7, pp. 58 ‑60, de onde se trans‑creve sem alterações. Trata ‑se de uma carta de Tomé Pires a um irmão, João Fernandes, então resi‑dente em Lisboa. o original conserva ‑se na Torre do Tombo (Corpo Cronológico, parte I, maço 12, documento 25). Anotam ‑se apenas nomes, termos ou dados que não foram anteriormente escla‑recidos.1427 Afonso de Albuquerque.SumaOriental-PDF_imac.indd 295 12/5/17 2:02 PM
  • 296se não de como estaes cõt~ete de vos e são e de paz, e se nõ tiverdes tamto nõ vos agastees que eu soprirey se viver, e se morrer tãb~e vos ficara o meu.Estou ao presemte em malaca são e rrico, ouvera de morrer de febres, já estou bom, nõ mando nada por que nom pode ser. João aluez de caminha1428 escrivao da feitoria de cochim mescreveo que me carregava os meus quimtaes, sabeloees na casa da mina, se la estiverem, fazey segundo vos deixey por meu rregimento; se alg~uu dinheiro ouverdes mister, a m~ı me nõ mãdees nada, por que crede que n~uca se da nada a n~ygu~e.alg~uas cousas tinha pera mamdar mês por me pareçer que esta não nom acharia ~e cochim as naos de purtugall nõ as mando, por que tamb~e tinha pera o Senhor Jorje de Vascõçelos1429 alg~uas cousas, e nõ lhas mãdo, e pois as nõ mando a elle n~e a vos, por que tãto devo a elle pellos beneficios que tenho reçebidos de sua merçee, quamto devo a vos por rrezam do samge: eu folgaria que senpre o seruissees e que o tiveses por valedor.A todallas cartas que vos escrever vos peço por merçee que me respomdaes o que nelas vos preg~uto, sejam boas novas de vos e de minha irmã e Isabel fernandez e antonia, quando digo de vos ~etendey que digo vosa casa, molher e filhos.aimda que vos façam comde nõ venhaees qua, n~e se vos meta em cabeça; gram prazer he estar cadahu~u onde naçeo e falam todos portugues, e com vosa molher e filhos, e que saibaees que qua tenho mais fazemda que vos arrenegay da fazemda com tãto trabalho e perigo, que asi me salve deos que se soubera que tamto trabalho avia de passar, ante deixara de vir, que nõ sabees as fortunas do mar, qua nõ comem senã arroz e bolos delle, nõ há qua as delicadezas em que me eu criey viçiosamente, aveivos por bem av~etrorado de qualquer cousa que vos for necesaria rrecorrervos a qualquer cousa minha que achardes.Diogo lopez meu cunhado esta qua em malaca comigo, como e bebe e dorme ~e minha pousada, alg~ua cousa tem, he muito bom cavalleiro e muito bõ homem, todos lhe quer~e b~e, prazera a deos que nos dara saude, todos iremos.Estou rriquo mais do que cuydaees, esta he a propria terra pera mim se della tivese gosto, mês pois nella siruo elRey nosso Senhor, boa me pareçe, he terra rri‑qua e de gramde trato; se eu estivera em cananor dahi vos pudera prover a minha vontade, mês qua nesta terra, posto que em h~uu lugar este a minha vomtade, quamdo c~upre ao seruiço delRey nom o deve hom~e contradizer, mes ir omde conprir e morer quamdo ofereçer.de cananor vos mandey h~uu escravo, e alguas cousas pera vos e pera maria godinha e pera ysabell fernãdez, nom sey se volas derã posto que creo que dariam.1428 João Álvares de Caminha, almoxarife em Cochim.1429 Jorge de Vasconcelos era provedor dos armazéns da Índia, em Lisboa.SumaOriental-PDF_imac.indd 296 12/5/17 2:02 PM
  • 297a todos eses senhores mes amigos memcom~edares em suas merçees, nom he tempo descrever a cada h~uu por muitas ocupaçõees que homem tem qua que comprem a mais.A elRey nosso Senhor escrevo largamente das cousas de malaca nas naos que forem despois destas,1430 que sera daquy a h~uu mes, vos escreverey e mamdarey do que tiver.day esta carta ao Senhor doutor diogo lopez1431 que cõ esta vay tamto que naos chegar~e, preg~utares ao senhor Jorje de Vascomçelos, e com as suas irã as vosas.Senhor Irmão os bolos darroz que hom~e come queimã tamto o samgue que nom podem hom~e escrever a qu~e deve, e por tamto perdoem que os lugares faz~e as condições.Largamente a todos meus amigos escreverey depois desta por que estas vam a deos e a vemtura se acharã não. Feito em afamosa e muyto populosa forteleza e cidade de malaca a sete dias de novenbro de 1512, e vay asinada por diogo lopez nosso cunhado.diogo lopez o voso Irmão e bom amigo thome pirezSobrescrito: ao senhor o Senhor João fernandez defronte da porta da madanela, meu irmaão. 2) Carta de Tomé Pires a Afonso de Albuquerque (Malaca, 10 ‑01 ‑1513).1432Senhorno maço escrevo largamente a vosa senhoria das cousas de malaca e asy ho escrevo a elRey noso Senhor, nesta tocarey o que a mim releva. Eu estava ~e cananor por feitor das drogarias com trinta mill reaes ~e cada h~uu ano e vimte quimtaes de drogarias o que tudo o dito senhor ouve por bem que vemçesse do dia que de portugall party ate minha chegada a purtugall, que se ~e terra estivese na Imdia e por h~uu aluara seu me deu tres hom~ees que me seruis~e que de purtugall trouxe e promet~edome sua alteza quallquer feitoria que vagase, me deu h~ua carta pera 1430 Tratar ‑se ‑ia do relatório sobre as coisas de Malaca que foi anteriormente referido, e que poderia corresponder, ao menos parcialmente, à secção da Suma Oriental que na presente edição é designada como ‘Livro Sexto’.1431 Poderia tratar ‑se de um Doutor Diogo Lopes, que foi físico ‑mor no tempo de Dom João III.1432 Carta publicada em Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. 7, pp. 4 ‑7, de onde se transcreve sem alterações. o original conserva ‑se na Torre do Tombo (Corpo Cronológico, parte I, maço 10, do‑cumento 152). Anotam ‑se apenas nomes, termos ou dados que não foram anteriormente esclarecidos.SumaOriental-PDF_imac.indd 297 12/5/17 2:02 PM
  • 298vosa senhoria que vagamdo ma desees, tudo isto vos mostrey quamdo por vosso recado e chamado de cananor me vim a cochim, na barra de cochim perdy mais de quatrocemtos cruzados por que a fazemda que se lançou ao mar de samtamdre era minha, tiroume Vosa Senhoria domde comia cada dia por sesemta reaes e mandoume a terra omde gasto o que eu sey e deus o sabe, trouxe de purtugall h~ua butica que podia valer quatro ate cimquo mil reaes a quall foy pera goa por que vos nom mostrey conhecimento de como fora pera goa por quatro ou cinquo mill reaes me mandastes poer verba [...] que me nom pagas~e soldo n~e me carregassem mais quintaes ate nom dar conta, pello quall estou de maneyra que se quero comer, çomo do meu dinheiro, devera vosa senhoria mandar que de meu soldo me reteuerã dez mill reaes ate dar conta e nom verba, tudo isto sam agravos e outros que tenho pera quamdo me vir com vosa senhoria e de tudo espero ~e mim da pella primeira não que pera qua vier por se eu nõ ouuer de carregar meus quimtaes nõ sey a que vim a malaca e estar cada dia cõ a camdea na mão.he verdade que eu vo pedy a feitoria de malaca e vosa senhoria me respomdeo que Ruy daraujo1433 avia pouco que hera feitor etc. pelo quall vos me prometestes a escrevaninha primeira da feitoria depois nõ ma quisestes dar, nõ negamdo que eu vos pedy por merçee que me fizeses merçee della cõ o ordenado que eu tinha somente, e neste requirimento bem pareçe hom~e de cananor, alem disto me mam‑dastees que fose contador ~e malaca s~e me acreç~etardes ~e nada, pelo quall cargo eu merecia çem mill reaes cadano, e asy me salue deus que amte deixase çem mil reaes que ter cargo de tomar conta a homes tã mll insinados e tam ~egramponados e soberbos, e eu sem ter qu~e me ajudase, visto por que deus quer, posto que he senpre cõ febres e ho mor tenpo ~e cama.quamdo aquy cheguey era morto Ruy daraujo ~e seu lugar achey pero pesoa1434 nõ quisera açeitar a escrau[an]inha por que vy feitor tam mamcebo, açeitey o cargo por seruir sua alteza quall sera ate a vinda do primeiro recado de Vosa Senhoria e se me der cõ a escrevaninha cimpoemta mill reaes e trinta de feitor das drogarias que de purtugall troux seruirey o cargo e senão nõ emtrarey mais ~e feitoria, seruirei no que sua alteza mandou e nõ em all ou se me fizer merçee da feitoria, por que este pero pesoa diz que hade deixar o cargo que tem dordenado o de cananor, farmea Vossa Senhoria merçee e se o não quiser fazer tudo ey de deixar.tomey a conta a João de moraes e a diogo fariseu e a João moreno e a João viegas1435 vam presos e la vay o auto de suas comtas e vosa senhoria nõ sespante 1433 Rui de Araújo ficou prisioneiro em Malaca em 1509, por ocasião da expedição de Diogo Lopes de Sequeira. Após a conquista da cidade malaia pelos portugueses, ali residiu até à sua morte, em 1512.1434 Pêro Pessoa desempenhou funções de feitor da fortaleza de Malaca, onde faleceu em 1514.1435 João de Morais, feitor das presas, era criado de Dona Isabel de Viseu, irmã de el ‑rei Dom Manuel I; Diogo Fariseu, escrivão, era criado do duque de Bragança; João Moreno, provedor dos defuntos; e João Viegas, quadrilheiro.SumaOriental-PDF_imac.indd 298 12/5/17 2:02 PM
  • 299levar cada hu~u dous tres mjll cruzados e nõ lhos tomar~e qua como mandastes o qual cargo pert~ecia por Voso regimento ao feitor, elle de a conta diso por que a m ̂nom pertemçia som~ete tomarlhe rezam de suas contas aimda que a mayor parte de suas fazendas levã em ouro na mão. E esse João viegas danava esta çidade e as cousas que de pegu vinhã elle as furtava cõ o b~edara1436 e sobre tudo elle João viegas e João moreno omde quer que se acham praguejam de Vosa senhoria desonestamente, e isto eu folgarey que o vejã porque eu lho contradizia, e sobre isso he o que deus sabee, e isto he notorio a todos.por eu estar muito doente dous meses ~e cama nom acabey de tomar a comta a pere aluez froes1437 e a de maluco a João freire1438 mas ja estam quasy ~e finall despacho.o Ju~uco que veo naor com a fazemda del Rey de malaca e del rey de pão e de tuã bamdam1439 pareçeme que a parte del Rey nosso Senhor viram mais de quatro mill cruzados por que he pequeno afora a terça parte do chatim que estamos ~e deferemça em voso aluara seg~udo o eu ~et~edo vosa senhoria lhe faz mercee da terça parte do casco do J~uco, outros diz~e que de todo o J~uco ate agora nom he deter‑minado, neste dinheiro entra o frete.o direito de malaca he que qu~e traz mercadoria ~e Ju~ugo del Rey paga de frete [...] por cemto e do djreito do porto tres por çemto, os tres por cemto do porto se lhe quitou a todos o pero pesoa os [...] por çento do frete se arrecadou.Grandissima cousa he malaca se os negocios andasem em ordenamça, nenh~ua cousa do m~udo he tamanha como malaca queria ver nela tres ou quatro homes de barbas bramcas que ~etras~e na faz~eda del Rey.o raja modeliar1440 he morto o bemdara e tom~ugo1441 sam dous tiranos ladrões malvados, o bemdara he pior que ho inferno, chatim que tem toda a terra ~e muita opresão, se pera a fazenda del Rey o requeres ~e nenh~ua cousa delle temdes ajuda, nenhu~u chatim nõ entra na feitoria com medo delle e nõ obedece a nenhu~u portu‑gues, e isto foy causado por este João viegas, nom se perca malaca que he a froll do m~udo ~e trato e eu espero ~e deus que nõ se perdera o menos nisto falar he milhor qu~e tem ~etemder emtemda.1436 Referência ao bendara Nina Chatu.1437 Pêro Álvares Fróis, quadrilheiro, criado de el ‑rei Dom Manuel I.1438 João Freire, feitor da expedição de António de Abreu, que em 1511 ‑1512 viajou rumo às ilhas de Maluco. 1439 o rei de Malaca era o último sultão, Mahmud Shah; o rei de Pão era o sultão de Pahang; Tuan Bandan era um dos capitães do sultão Mahmud Shah.1440 Raja Mudelyar era o título de um rico mercador tamul estabelecido em Malaca na altura da conquista portuguesa.1441 Após a conquista portuguesa de Malaca, o bendara era Nina Chatu, enquanto o tumungão era Arya Rana Diraja, também designado como Aregimute Raja.SumaOriental-PDF_imac.indd 299 12/5/17 2:02 PM
  • 300Joanes1442 leua duz~etos cruzados pera vosa senhoria que vos foram julgados de çerto arroz que se tomou em campar.agora nesta vitoria que nosso Senhor nos quis dar de que fernam perez1443 foy capitão mor se tomou arroz, o que vos pertemçee eu ho gardarey e vos sera ~eviado ou eu volo leuarey e bem ~epregado.nam he pera contar qu~e vio pate onuz1444 mouro jao amcorado amtre amba‑las ylhas — a saber — dupe1445 e a pequena que hera cousa espamtosa crea vosa senhoria que hera cousa temerosa, e ser~e asy desbaratados tã prestes, crede que quer noso Senhor miraculosamente conseruar o que com tanto trabalho tendes ganhado e largamente escrevera a vosa senhoria de quamto dino de merçee he fernã perez se nõ forã la muitos que volo ajam de dizer, ao proprio tenpo que vosa senhoria escreveo que podiam vir vierã poderosos fortes soberbos, çerto esta g~ete de Jaoa mais tem a fantasia de Romamanos que doutra gemte baixa, he a soberba de Jaoa em repouso esta malaca, e prazera a deus que senpre yra de bem ~e milhor.ElRey mafamede1446 que foi de malaca manda a vosa Senhoria hu~u anell cõ hu~u robi e aljoufar camfora calanbuco e almisquere de tudo temperadamente, porem esta ~e b~ıtam1447 pobre e com pouca gemte he manhoso queriase chegar pera malaca se pudese, noticia temos que elle hera falado com o pate onos e que avia de vir cõ h~uu j~ugo e quar~eta lancharas, nõ veo mas os cativos todos o afirmã, praza a nosso senhor que conserue voso estado senpre de b~e ~e milhor e seja a seu seruiço amem e cõ omrra e proveito dos Reinos de purtugall. da famosa forteleza de malaca a x dias de Janeiro de 1512.tomé pirezSobrescrito: Ao muito ylustre senhor o Senhor afons dalborquerque regente das Imdias etc. de tome pirez.1442 Giovanni da Empoli, feitor florentino.1443 Fernão Peres de Andrade, capitão português muito activo em Malaca, que conduziria Tomé Pires à China em 1517.1444 Pate onuz, javanês que em 1513 organizou um fracassado assalto a Malaca.1445 Pulau Upeh, ilha nas proximidades de Malaca.1446 Mahmud Shah, antigo sultão de Malaca.1447 Bintão (ou Bintang), ilha junto ao Estreito de Singapura.SumaOriental-PDF_imac.indd 300 12/5/17 2:02 PM
  • 3013) Carta de Tomé Pires (Malaca, 10 ‑01 ‑1513).1448Senhor.tome pirez escrivão desta feitoria de malaca e contador em ella faço saber saber a vosamerçee como em cochim eu pedi por merçee ao Senhor afonso dalboquerque regente das Imdias a escrevaninha da feitoria de malaca, elle me fez merçee della cõ o ordenado som~ete que [de] purtugal trazia de feitor das drogarias e asy me fez contador ~e esta çidade dizendo que segundo o eu fizesse que elle me faria merçee, agora escrevo a sua snoria largamente sobre este caso e por que temo que nõ seja na Imdia, esta escrevo a quem quer que tiver cargo de prover as cousas de malaca.he verdade que elRey nosso senhor me mandou a Imdia por feitor das droga‑rias e me deu ~e cada h~uu ano trinta mill reaes e vinte quimtaees de drogarias de quaees eu quisese, o que tudo ouve por b~e que eu vencesse do dia que de purtugall partisse ate minha chegada a purtugall, como se ~e terra da Imdia estivese, e me deu por seu aluara tres hom~es que me seruis~e e asy me deu h~uu aluara seu pera o senhor afonso dalboquerque que vagando alg~ua cousa que ma dese; sua snoria me mandou a malaca da maneyra que dito [tenho], he eu nom poso seruir por rezã que os trinta mill reaes que de meu hordenado tenho me abastaram pera bõs tres mesees, pois pera eu seruir descrivão da feitoria e de contador que sam cargos que todo o dia me ocupã, e em tanto que cá elles senpre tenho febre ey por bem e por meu conselho nom me ocupar nelles, e que vós Senhor qu~e quer que fordesdestes dous cargos provejaees outras pesoas salvamte se cõ a escrevaninha me derdes o que tem os outros escrivãees de cochim, e doutra maneyra eu hos nõ seruirey, e requeiro a vosa merçe da parte del Rey nosso Senhor que nõ quer~edo fazer isso, que proveja doutr~e.E bem asi vos terey ~e merçee que a m~ı me forã ~e purtugall ~etregues çertas mezinhas segundo se vera no roll do provedor de cochim, que bem poderiã valer quatro ou cinquo mill reaes, o senhor afonso dalboquerque me pregu~utou ~e cochim por ellas, eu lhe dixe que as mãdara a goa diogo correa capitão de cananor pera os do~etes, e o feitor mamdou tambem pedirme o cochecimento, eu o tinha ~e cana‑nor, mandoume poer verba ~e meu titulo, que me nõ pagas~e soldo, n~e carregase quintaees até nõ dar comta, devera de mandar que de meu soldo me nõ pagarã dez mill reaes, que sera o dobro das mezinhas, e nõ verba, que se quero comer he do meu propryo dinheiro, e nom do soldo, se nisto me vosa merçee pode prover receberey mercee. João aluez de caminha dara disto ~eformação.1448 Carta publicada em Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. 7, pp. 66 ‑67, de onde se transcreve sem alterações. A carta é dirigida «A quem quer que tiver cargo de prover malaca», pois Tomé Pires sabe‑ria que Afonso de Albuquerque podia estar ausente da Índia, comandando uma expedição ao Mar Ver‑melho. o original conserva ‑se na Torre do Tombo (Corpo Cronológico, parte i, maço 12, documento 54).SumaOriental-PDF_imac.indd 301 12/5/17 2:02 PM
  • 302bem sey que se o Senhor afonso dalboquerque estiuera em cochim que me fizera merçee do que lhe peço, eu asy lho escrevo pelos termos desta, por tamto peço que nas primeiras naos venha o recado de quallquer determinação que sobre este caso determinardes. de malaca a x de janeiro de 1513.thome pirezSobrescrito: A quem quer que tiver cargo de prover malaca.4) Carta de Tomé Pires a Dom Manuel I (Cochim, 27 ‑01 ‑1516).1449Qua veo ter hu~u rroll de çertas drogarias que se nelle pediam. Pera o año irã, porque se mãdaram catar, e nesta darey conta donde cada huã nacee e tamb~e dal‑guas cousas que la forã.Erva lõbrigueira. Por Christovam1450 de Brito e dom Aires [da Gama1451] foy la h~ua soma d erva lonbrigueyra que foy comprada por Joham d’Avilla1452 estando eu ~e Purtugall, por tamto saiba Vosa Alteza que nõ foy por m~ı. Nacee ~e Canbaya e nas terras de Chaull. Ruybarbo. Tambem foy lla ter huã some de rruybarbo podre que se cõprou ~e Malaca, eu nõ fuy na conpra delle que stava ~e Cananor, foy conprado por quatroc~etos cruzados1453 a Ruy d’Araujo e Joham Viegas, devem tornar o dinheiro a Vosa Alteza, pois venderã mercadoria podree que qua nõ valia nada. Eu ho apontey na conta de Ruy d Araujo, na despesa do dinheiro por que se comprou.Ruybarbo. De Malaca ~eviamos os oficiaees da feytoria outro pouco doutro tall, por nõ custar dinheiro, que ho derã hu~us ch~ıs de pres~ete, e por tamto foy lla ter por se nõ lamçar ao mar. o rruybarbo nacee na Tartaria e ~e Torquia.1449 Carta publicada em Armando Cortesão, A Suma Oriental, pp. 446 ‑459. Trata ‑se de um interessante relatório sobre drogas e produtos medicinais, que contém informações que não figuram na Suma Oriental. o original conserva ‑se na Torre do Tombo (Corpo Cronológico, parte I, maço 19, documento 102), de onde se transcreve, de acordo com os critérios utilizados na transcrição da Suma Oriental. Anotam ‑se apenas nomes, termos ou dados que não foram anteriormente esclarecidos.1450 original: «xovam». Cristóvão de Brito era fidalgo da casa real e capitaneou diversos navios no oriente.1451 Aires da Gama era irmão de Vasco da Gama.1452 João d’Ávila, escrivão da feitoria de Cananor.1453 original: «†zdos».SumaOriental-PDF_imac.indd 302 12/5/17 2:02 PM
  • 303Canafistola. A canafistola nacee na serra que divide o Malabar de Narsinga, ~e todo lugar, principallm~ete em Anamalee e Pudaçari,1454 quinze legoas de Crãga‑nor, detras da serra. Nacee na ilha de Çamatora, no rreyno de d’Aru, ~e Jaoa [há] infinidade. Nõ se usa qua. Em Turquia há muita, e de lla vay a nosas partes.~Ecenço. Emcemço nacee n’Arabia Felix, no rreyno de Tufar,1455 junto com os rreynos dos Fartaquis e Maderaca.1456 Tam[bém] nacee ~e orixa, que hé antree Narsinga e B~egala. Vende se ~e Cambaya e em Chaull muito barato.Opio. opio chamamos qua amfião. Nacee em Tebas, cidade do rreyno do Cairo, nacee em Adem, ~e Canbaya, no rreyno de Co~us, que hé na terra firme de B~egala. Hé esta grande mercadoria nestas partes, custuma se a comer. os rreis e senhor~es ~e cãtidade d’avellã, a gente baixa come menos por que custa caro. Se sobre elle se bebe cousa azeda ou cordiall, ou azeyte [ou] agoa de coco, mata logo. os homees custumados a come llo andam sonorentos desvariados, os olhos vermelhos, nõ andã em seu semtido. Custuma se por que hos provoca a luxuria. Hé de pranta de dormideiros. Hé boa mercadoria, gasta se ~e grande camtidade e vall muito.Tamar~ıdos. Tamarindos há muitos ~e toda a terra do Malabar. o Malabar hé de Mãgalor ate Comory. Muitos mais há ~e Tamor1457 e Choromãdell. Tamor hé de Calle ate os baixos de Chilã; Choromandell hé dos baixos ate a Cunimeyra.1458 Jaoa e as ilhas de Bima tem ~ıfinidade. Hé mercadoria nestas partes. Usa se ~e lugar de vinagre. Valem casy de graça, hé boa mercadoria. A ylha de Ç~uda que hé pegada com a Jaoa tem muitos e em muitas partees hos haa em cantidade.Galãga.1459 Galamga sam raizes da feyçã de gengivre. Nacem ~e Chaull e Mãga‑lor, no reyno d’Indo. o reyno Indo hé sobre Canbaya, na terra firme. Foy cabeça destes quatro reynos, scilicet, Cãbaya, [terra dos] resputes, Diull1460 e [terra d]os naytaques. Deste reyno v~e o rio Indo, que qua se chama Çindi, v~e sayr ãtre [a terra d]os resputes e o reyno de Diull, tem fermosa povoaçã. Deste rio se denominarã os imdios. os resputes saã g~etios, e parte dos de Diull e naytaques tanb~e, ~e Canbaya há infinidade delles. Acha se [a galanga] ~e Canbaya a vemder.1454 Angamaly e Ponjassery, no hinterland de Cranganor (ou Kodungallur).1455 Região de Dhofar (ou Zufar).1456 Ras Fartak e Ras Madrakah, na costa da Península Arábica.1457 O topónimo «Tamor» parece referir ‑se à faixa meridional da Índia, fronteira à ilha de Ceilão.1458 Pondicherry (ou Puducherry).1459 Galanga (Alpinia galanga, [L.] Willd.), planta oriental cujo rizoma se utiliza na alimentação e no fabrico de produtos medicinais.1460 Diulsinde corresponde ao antigo porto de Dewal ou Daybul, no Sinde.SumaOriental-PDF_imac.indd 303 12/5/17 2:02 PM
  • 304Turbit.1461 Turbit vem de Mãdao e dahi v~e ter a Canbaya. Nõ hé muito bom, ho de qua, milhor hé ho de Turquia. Este de qua hé groso e preto, e o bõ há de ser ao contrairo. Tanb~e nacee ~e Purtugall. Ho reyno de Mandao hé sobre Canbaya e sobre ho reyno de Daqu~e, e da bamda da terra firmee hé Dely. Neste reyno de Mãdauo saã as amazonas, molheres bilicosas que oje ~e de[a] pelejam a cavalo. Tambem as de Daqu~e cavalgã escãchadas e escaramuçã, mes a[s] outras são de lãça ~e punho e são da guarda do rey de Mãdao.Mirabulanos. Mirabulanos sãa c~ıquo sortees. os quatro nacem no Malabar, em Bacanor, Baçalor, Mãgalor, lugares d’elrey de Narsinga, amtree o Malabar e Baticalla. os quebules nac~e ~e B~egalla, ~e Malaca, ~e Borney. B~egalla cõfina cõ ori‑xaa de h~u~ua banda e cõ Racan da outra. Malaca, de huã bamda cõ Quedaa e da outra com Pahão. Burney sãa ylhas [a] duz~etas legoas de Malaca ~e lest[e], tem estas ylhas muyto ouro, camfora de comer, e estes mirabulanos. obedi~etes sãa os reis de Burney a Vosa Alteza. Todos estes sortes sãa mercadorias nestas partes. Aloes. Aloes nace em a ilha de Çacotora, em Adem, em Cambaya, em Valemça d’Aragã, ~e h~ua cidade que se chama Molvediro,1462 e em outros lugares. o muito estimado na ilha de Çamatra. ~Etão de pos este o de nosas partees. o d’Ad~e e Can‑baya hé muito mao, que nom vall nada.Espiquenarde.1463 Espiquenarde nacee no reyno de Dely e no de Mãdao. Vem ter a Canbaya. Este reyno de Dely hé ho mais m~etado destas partes, dizem que asenhoreou [desde a terra] dos naytaques, gemtes que cõfinam cõ a Persia, ate Bengalla. Hé reyno muyto m~etado, jaz nelle o mõte Caucaso.1464 Este peleja com o rey de Bemgalla e cõ Mandao e Cãbaya. Esquinãte.1465 Esquinamte ou palha de Mequa nace ~e Çacotora e em todas as tres Arabias. Nõ se custumava na India, dos arabios pasava por Alexãdria a nosas partes. Sabidos são os arabios, começam do cabo do streyto de Mequa e d’oromuz, e vem acabar qua na ponta d’oromuz. A [Arabia] Petrea jaz no meo, a Deserta de 1461 o turbite não é referido na Suma Oriental. Trata ‑se de uma planta trepadeira comum na Ásia (Operculina turpethum, [L.] Silva Manso), que era usada como purgativo.1462 Provável referência à região de Mulviedro, perto de Valencia, em Espanha.1463 o espiquenardo não é referido na Suma Oriental. Trata ‑se de uma planta aromática (Nar‑dostachys jatamansi, [D. Don] DC.) oriunda dos Himalaias, que produz um óleo utilizado em per‑fumaria e farmácia.1464 Provável referência ao Hindu Kush, cadeia montanhosa que na geografia clássica era desig‑nada como Cáucaso Índico.1465 o esquinanto é referido na Suma Oriental, embora sob a designação de palha de Meca.SumaOriental-PDF_imac.indd 304 12/5/17 2:02 PM
  • 305Mequa e pera cima, a Feliz pera contra o a ponta qua pera oromuz. os mouros chamã qua Arabia Felix aquela que vem do cabo de Gardafuy ate Aliocacer,1466 que t~e huã regiã que se chama Felix. Esta estaa amtre o mar Roxo e Abixia, porem esta se chama Arabia sub Egipto. Desta terra falarey na descrição do streyto de Mequa ~e outro lugar,1467 porque dellas sãa terras do Preste Joham abexi.1468Gomas fetidas. Serapino, galbano, opoponaque,1469 gomas fedor~etas, as que qua haa sam muito mas e de pouca valia. Vem das Arabias [e] do Cairo, e creo que por via d’Alexandria v~em d’Italia e de Torquia [e] de Damasco, que há muitas em gramde avomdamça e boas.Bedelio1470 [e] mirra. Bedelio e a mirra nacee no reyno de Mamdau, [e] tãbem em Arabia Felix e no reyno de Dely. Vem ter a Cambaya. Hé a mirra boa merca‑doria. o bedelio nom usa qua e em nossas partes. ~e Levamte há muito.Nõ há qua. Escamonea, sene, xilo balsamo e carpo balsamo, goma arabica, alanbaree, lapis lasuli nõ há qua na Imdia.1471 Algu~us alanbares há ~e Arabia, mas eu nõ creo que naçam qua, mes que vem por via d’Alexamdria. o lapis lazuli v~e d’Armenia a nosas partees.Momia. Momia nõ hé carne d’omees, como em nosas partes de usa, n~e a mim parecee que a tall carne seca ou tostada das areas tenha o que della cuydamos, por que ha verdadeira hé huã umiidade dos corpos mortos desta maneyra. Como ho hom~e morre al~ıpa[m] no das tripas e fresura, e lançã lhe demtro mirra e aloees, e tornã no a coser, e mete[m] no assy ~e sepulcros cõ furacos.1472 Esta mistam cõ ha umidade do 1466 Provável referência a Koseir (ou al ‑Qusair).1467 Tomé Pires parece estar aqui a referir ‑se à Suma Oriental.1468 o Preste João, designação atribuída na Europa medieval a um mítico soberano oriental, que depois foi identificado pelos portugueses com o négus da Abissínia, não é referido na Suma Oriental.1469 Trata ‑se de três gomas ‑resinas fétidas, usadas em perfumaria, culinária e medicina: o saga‑peno (Ferula Persica, Willd.) e o gálbano (Ferula galbaniflua, Boiss.) são produzidos a partir de uma árvore do género Férula; o opopanax é uma herbácea da família das Apiaceae (Opopanax chironium, W. D. J. Koch).1470 o bdélio ou bedélio é uma goma ‑resina produzida por uma pequena árvore (Commiphora africana, [A. Rich.] Endl.) comum em várias regiões orientais.1471 Tomé Pires refere ‑se a vários produtos que afirma não ter encontrado na Índia, informação que em alguns casos parece duvidosa: escamónea (Convolvulus scammonia, L.), planta mediterrânica com propriedades purgativas; sene (Senna alexandrina, Mill.), planta com largas propriedades medi‑cinais; xilobálsamo e carpobálsamo, que parecem corresponder a produtos do chamado balsameiro‑‑de ‑meca (Commiphora gileadensis, [L.] C. Chr.), um arbusto com amplas propriedades medicinais; goma ‑arábica, produto de um arbusto espinhoso (Senegalia senegal, [L.] Britton); talvez alâmbar, an‑tiga designação do âmbar, uma resina fossilizada; e lápis ‑lazúli, uma pedra semi ‑preciosa de cor azul. 1472 O mesmo que ‘buracos’.SumaOriental-PDF_imac.indd 305 12/5/17 2:02 PM
  • 306corpo corre e apanha se, e este liquor se chama momia. Qua nom se usa. A que vay a nosas partees vay dos desertos d’Arabia por via d’Alexandria. As vezes levã carnes de camelos tostadas por carnes d’om~es. Nõ creo que aproveyte huã mais que outra.Ispodio.1473 Ispodio sãa raizees de canas de certa provimcia. outros tiverã outras opinioees. E nos, por o nõ termos, nos foy ordenado poder meter ~e seu lugar marfim queymado. os venezianos saltavãa nos curaees das vacas e das canellas del‑las queymavãa, e em Italia e em nosas partes por marfim queymado, por que nõ era posyvell queymar dentes d’alifãtes e vender~e se tam baratos. Destes maneira vend~e as carnes das alimarias por carne d’om~ees, n~e hum n~e outro nom he momia. Nom sey como se usa por ella, como aja grande defer~eça do liqor misto a carne seca. Tincar, alquitira [e] sarcacola.1474 Timcar, sarcacola [e] alquitira vem do reyno de Mãdao e de Dely. A sarcacolla vem d’Arabia Felix, nõ há qua estas cousas ~e camtidade. Do tincar há muito, acha se em Canbaya e ~e Chaull.Betele. Folio indo hé betelle. o milhor de qua hé do reyno de Goa. Desde Chaull ate Canboja ho há ~e todas as ylhas ate alem de Maluco, ho há em grande avomdamça. Verde hé sustamciall com avelana india ou areca, e cõ a call; seco pera nada nom presta, que tem a virtude tã sutill que seco nõ t~e cheyro n~e sabor. Em betele se sostem os homes destas partes, tres [ou] quatro de[as] sem comer outra cousa. Faz grandemente digerir, conforta o celebro, arreyga os dentes, que hos hom~es de qua que ho com~e sãa d’oyt~eta anos e tem todos os demtes gerallm~ete, s~e lhe falecer algum. os que ho custumã comer lhe faz bom bafo, e se hum dia o nõ com~e nõ lhe pod~e suportarRobis. Robis, os muyto corados, prezados em nosas partees, hé a mina delles em Capelãguã, reyno sobre o reyno de Racan e Pegu, na terra firme de j~etios. Este reyno confina cõ ho reyno doos [...],1475 donde vem o lacar e b~ejo~y a Pegu e a Sião. Deste reyno de Capelamgã se espalha pera todas as outras partees. ~E Racan e Pegu há grande[s] oficiaees de hos alinpar.1473 O espódio designa actualmente o óxido de zinco obtido por calcinação. Mas Tomé Pires refere ‑se ao espódio vegetal, um produto que era também conhecido como tabaxir, do persa tabaschir, concreção que aparece nos nós de uma espécie de bambus (Bambusa arundinacea [Retz.] Willd.).1474 Tincal é o mesmo que borato de sódio; alquitira ou alcatira (Astracantha gummifera, [Labill.] Podl.) é uma planta arbustiva, de cujo caule se extrai uma substância gomosa, utilizada na alimenta‑ção e em medicina; sarcocola parece ser uma substância resinosa extraída da sarcocoleira, um arbusto que não está ainda perfeitamente identificado.1475 Parece faltar aqui uma palavra, pois o «reyno Doos» ou «d’oos» não se consegue identificar. Tratar ‑se ‑ia de uma referência aos enigmáticos ‘edétrias’, referidos na Suma Oriental?SumaOriental-PDF_imac.indd 306 12/5/17 2:02 PM
  • 307Em Ceylao há duas maneyras de robis. Hos vermelhos sobre escuros nõ saã stima‑dos muito, os muyto craros sãa de duas sortes. Em Ceylao amtre elles t~e conhecim~eto, o que acerta de ser manica1476 vall o tres dobro e daã muito por eles. Antre os de qua todo roby tem preço, e quer~e mais roby muyto grande, ainda que tenha mugoos,1477 que ho pequeno ~e perfeyçaão, e quer~e os robis balais1478 ante[s] que hos vermelhos.Há ~e Ceylao os olhos de gatos,1479 qua muito prezados, e çafiras milhores que e Pegu. Todo outro genero de pedras das que se achã ~e Ceylao sã milhores que doutras partes.Zedoaria. Zedoaria, calamo aromatico, casia linia.1480 No Malabar muito, ~e Mãgalor e em outras partees. Casia linea ~e Ceylão, há plamtas amtre as da canella, [esta] nõ se usa qua. Tamb~e ho há no Brasill.1481Estoraque liquido.1482 Estoraque liquido nõ sey que cousa hé, n~e n~uca [vi] doutor que nelle fallase, n~e falou des~epecadam~ete nelle, nem menos o sabiã os buti‑carios cõ que apr~edy.1483 Vem de Veneza a nosas partees ~e camtidade, vall barato. o estoraque liquido hé cousa composta e nõ hé o que os doutores diz~e. Diz~e que se faaz d’almea,1484 ferm~eto, mell e azeite. A m~ı mo parece que hé asy. ~E Adem se faz tanb~e, e creo que hé desta maneira. Hé qua boa mercadoria e vall bem.Estoraque. Nem o que lá ~e nosas partees chamamos estoraque nom hé o que os doutores dizem, que tambem hé cousa conposta e nã gota,1485 como gerallm~ete se diz. Hé desta maneyra: b~ejo~y do negro derret~e no ou amolemta se, e cõ pos de sandallos e de hu~u pao que qua se chama aguilla, e isto bem amasado chama se storaque. Esta hé a verdadee, e nõ doutra maneyra. Ho tempo descobre a verdade das cousas.1476 Maneca, do singalês manika, ‘pedra preciosa’.1477 Palavra difícil de interpretar; entenda ‑se ‘manchas’.1478 Balais ou balaches designa uma variedade de rubi de cor rosada ou violeta.1479 A expressão «olhos de gatos» parece designar uma variedade de crisoberilos que se encontra no Ceilão.1480 Tomé Pires refere ‑se a três produtos distintos, nenhum dos quais é referido na Suma Oriental: zedoária é uma planta herbácea (Curcuma zedoaria [Christm.] Roscoe), usada como erva medicinal; cálamo aromático (Acorus calamus, L.) é uma planta de que se extrai uma droga estimulante; e «casia linea» designa a chamada canela ‑chinesa (Cinnamomum cassia, [L.] J. Presl), planta da qual se extrai uma espécie de canela, usada em perfumaria e medicina.1481 A referência ao Brasil é interessante, pois denota um eventual conhecimento da flora daquela região americana, então ainda muito pouco explorada; mas não se entende a qual dos três produtos se quer Tomé Pires referir, talvez à «cassia linia».1482 o estoraque é um género de bálsamo produzido a partir de uma árvore de grande porte (Styrax officinale, L.). 1483 Curiosa referência ao período em que Tomé Pires estudou para boticário.1484 Almeia, do árabe al mayah, designa um tipo de estoraque.1485 ou seja, não é uma resina.SumaOriental-PDF_imac.indd 307 12/5/17 2:02 PM
  • 308Aljoufare. Ho aljoufar nacee nestas partees ~e Dalac, ~e Bahar~e, em Ceylao e em Hainan. Dalac sãa ylhas dez leg[u]as a la mar do porto de Meçua, terra d’Abixia ou a elle sojeyta, no mar Roxo, sesenta legoas da entrada e menos. Bahar~e hé cemto cinqoenta leguas d’oromuz, pelo streyto, sãa ylhas pegadas a terra d’Arabia. Este estreyto sera de duz~etas [e] oyt~eta legoas ~e conprido e ses~eta de largo no mais largo. Mall pareceria isto a todos os cosmografos, que estes dous streytos fizerã mui mais cõpridos e muito mais largos, e eu digo verdade.1486 Nacee ~e Ceylao, de Nigonbo ate os baixos. Gerallm~ete diz~e aljoufare de Caile, por que de Caile ho vãa lla pescar, mas pesca se pegado a terra da ylha de Ceylao. Hainam sam ylhas antre o reyno de Cauchy[china] e a China. Ho mais alvo hé da China, o milhor de Ceylao, o mais redõdo de Bahar~e, mais ouri~etall e gerallm~ete todo iguall. Em Dalac há pouca cousa. Pera o ano as que se puderem aver iram.Nom ~evie Vosa Alteza de lla nenh~uas mezinhas compostas pera qua de nenh~ua sorte e comdiçao, salvãte term~etina,1487 alvayade, azinhavre,1488 escamonea pouca, azeyte de Purtugall pera o comer dos do~etes, almecega, que vall qua cara, nõ muita. Do all, nenh~ua cousa, e estas qua se escusã, pois qua as cousas que as façã os buticarios e solorgiães e fisicos, pois levã o premio. E muito milhor me parece nõ vir nada [de] marmeladas [e] açuquares rosados, estes os saõs os com~e, e tudo se gasta de balde. Tudo se qua revolve ~e cousas que qua haa, e ~ecurtara Vosa Alteza a despesa das mezinhas, pois qua nõ aproveytã, asy por pasar~e grandes quenturas como por s[e]r qua outro clima. De Cochim, a xxvii de Janeiro de b e xbi.thome pirez 1486 Curiosa referência a «cosmografos» que teriam sido consultados por Tomé Pires, que poderia estar a aludir quer à obra geográfica de Ptolomeu, quer a mapas dela derivados.1487 Termentina, espanhol para ‘terebentina’.1488 o mesmo que azebre ou verdete.SumaOriental-PDF_imac.indd 308 12/5/17 2:02 PM
  • 309ÍNDICE REMISSIVoo índice remissivo reporta‑se ao texto da Suma Oriental e às respectivas notas de rodapé (pp. 47‑288); não abrange a Introdução nem as Cartas de Tomé Pires. o índice inclui: nomes geográficos (com indicação de todas as variantes e sempre que possível também com indicação das designações actuais), nomes de pessoas e personagens (sempre que possível com as versões actuais), nomes de divindades, nomes de povos ou grupos humanos, nomes de títulos ou cargos, nomes de produtos ou mercadorias, nomes de moedas, pesos e medidas, nomes de animais, nomes de embarcações, e alguns outros termos exóticos ou menos vulga‑res. Quando os nomes geográficos modernos e antigos são suficientemente próximos, existe apenas uma entrada; quando divergem substanciamente, abrem‑se as necessárias entradas.abanos — 151, 157, 159, 159n, 160, 202nabarute — 157, 157nAbdullah (Andela, Audela, Audelaa) — 176, 176n, 257n, 281, 281n, 288, 288nAbexia (Abixia) — 55, 55n, 56, 57, 63, 68, 69abexins — 156, 63, 83, 94, 126, 127, 271Abissínia — 55n, 56nabissínios — 56n, 127nAbu Bakr — 75nAbu Hanifa — 75nAceh / Achém (Achei, Achey) — 164, 164n, 166, 166n, 167n, 173açúcar — 65, 105, 121, 121n, 129, 157, 262Adam’s Bridge — 116Adém (Adem) — 50, 57, 57n, 60, 61, 62, 63, 64, 64n, 65, 65n, 67, 68, 70, 71, 78, 90, 91, 94, 99, 101, 130, 195, 251, 271, 272, 274Adema — 235Adil Khan — 96nAdirampattinam (Adarampatanã) — 273, 273nAfeganistão — 82n, 86nAfonso de Albuquerque — 50n, 51n, 54n, 55n, 65n, 69n, 70n, 99n, 104n, 105n, 155n, 163n, 172n, 209, 214n, 215n, 225n, 243n, 251n, 253n, 257n, 260n, 262n, 278n, 279, 280n, 288nÁfrica (Africa, Afriqua) — 49, 51, 51n, 53, 53n, 55, 55n, 56, 56n, 58, 63nÁfrica, corno de — 56n, 63nAgashi (Agagy) — 87, 87nAgenb — 72Agra — 85nAgracim (Aagaci, Agaci, Agacii, Aga‑cim, Agacy, Agarcii, Agraci, Agracii, Agracy, Aguacii) — 93, 93n, 183, 183n, 189, 189n, 204n, 205, 206, 209, 212, 213, 213n, 214, 215, 226, 227, 237, 282SumaOriental-PDF_imac.indd 309 12/5/17 2:02 PM
  • 310água rosada — 11, 19, 25, 26, 57, 58, 103, 126, 194Aguada de Saldanha — 52náguila — 79, 146n, 177Ahmad Shah — 258nAhmadabad — 83nAhmadnagar — 95n, 96nAhmed Ibn Hanbal — 75nAi — 222nAierlabu (Aeilabuu, Eilabuu) — 167, 167n, 168, 168naitão — 154nAiutia — 53n, 67n, 138nAja Captit / Aja Capemtit — 142Ak Koyunlu — 76n, 77n, 78nAl Bayda — 64nAl Luhayyah — 67nAlá — 50nAla al‑Din Husain — 126nAlacras — 245, 245nAlang Tiga — 178alaquecas — 66, 66n, 68, 91, 92, 155, 278alarves — 62, 62n, 63, 64, 68, 69, 81Alauddin Bahmani — 95nAlauddin Riayat Shah (Alaoadim, Alaoadin, Aloadin) — 255, 255n, 256alcatifas — 63, 79, 130, 141, 271, 272alcofol — 79 alemães — 79, 150Alemanha — 158Alexandre III (Alexamdre) — 74, 74nAlexandria (Aleixamdria, Alessandria, Ale‑xamdria) — 55, 62, 231alforva — 94, 94n al‑Furat — 80nAli (Ale, Alee, Alle) — 67, 67n, 68, 68n, 69, 69n, 74, 74n, 75, 75n, 76, 76n, 78, 78n, 79Alimaria — 246, 246naljôfar — 65, 65n, 66, 70, 71, 79, 91, 92, 124, 129, 134, 148, 153, 156, 157, 158, 272, 273, 278almadias — 70almécega — 62almíscar — 79, 91, 132, 132n, 134, 144, 156, 157, 157n, 160, 272, 278, 287aloés — 58, 58n, 65, 73Alor — 219alpivre — 94, 94n, 192al‑Qusair — 63n, 67nÁlvaro Coelho — 227namazonas — 82, 82n, 86, 86n, 186âmbar‑cinzento — 71, 71Amboíno (Ambom, Ambon, Ambono) — 221, 223, 224, 224n, 225, 225n, 226, 227, 228, 229, 231, 232América — 60nAmet — 257âmio — 94, 94namouco — 160, 160n, 197, 197n, 268, 268n, 280Amquem — 158anafii — 75Anambas — 235n, 236nAnatimao De Raja — 210nAnatólia — 61, 72, 76Andalas (Amdalaz, Amdallor, Amdallos, Amdallõs, Amdalor, Andallos, Anda‑lor) — 164n, 179, 179n, 183, 183n, 184, 193anfião — 57, 57n, 58, 62, 66, 67, 89, 91, 92, 98, 127, 129, 141, 148, 255, 256, 258, 272, 278Ang Chan — 145nAngediva (Amgadiva, Amgediva, Amjadiva, Amjediva) — 100, 100n, 104, 104n anil — 86, 86n, 91, 92, 271Ankola (Ancoll) — 100, 100nAnselmo de Cracóvia — 54, 54nAntónio de Abreu — 223n, 225n, 226n, 227, 227n, 283nAntónio de Miranda de Azevedo — 228, 228nAntónio Nunes — 203nAra — 82Arábia (Arabia, Arabiia, Arrabiia) — 2, 4, 9, 10, 12, 13, 16, 19, 20, 21, 22, 25, 27, 28, 29, 31, 32, 36, 58, 72Arabia Deserta — 12, 13, 16, 20, 27Arabia Felix — 9, 10, 12, 19, 25Arabia Petrea — 12, 20, 21, 28, 29, 72Arábias — 7, 24SumaOriental-PDF_imac.indd 310 12/5/17 2:02 PM
  • 311Arábica, península — 57n, 58n, 63n, 67n, 69n, 118nArábico (Arabiquo), mar — 4, 11, 12, 27, 28Arábico‑Pérsico, golfo — 28, 42, 43arábios — 53, 57, 61, 62n, 71, 83, 94, 98, 126, 139, 169, 195, 204, 248, 258, 272Arafat (Arefet) — 60, 60nArakan — 132nAravalli — 85nArdabil — 76nareca — 98, 98m, 101, 101n, 102, 103, 106, 121, 122, 124, 147, 192, 269nAregimute Raja — 163n, 281narel — 121nArgengii — 82, 82nAristóteles — 49nArjamom — 129Arkat (Arcat, Arqat) — 164, 164n, 174, 175, 179, 187, 237Arménia (Armenia) — 72, 80arménios — 77, 79, 94, 271, 272Arracão — 50n, 127n, 132n, 133narratél — 124, 124n, 135, 146, 171, 203, 278, 279arroba — 278, 279arroz — 60, 66, 67, 71, 79, 91, 92, 98, 101, 102, 103, 105, 105n, 114, 116, 117, 123, 124, 125, 126, 133, 134, 136, 140, 141, 145, 146, 156, 159, 161, 162, 165, 167, 172, 173, 174, 175, 176, 177, 178, 180, 181, 182, 185, 192, 193, 198, 202, 203, 204, 205, 206, 207, 208, 209, 210, 211, 212, 222, 224, 229, 234, 236, 237, 241, 243, 246, 250, 263, 264, 265, 271, 279Aru (Aruu) — 164, 164n, 172, 173, 173n, 174, 237, 246, 250, 251, 253, 257, 264, 271, 282, 283Aru — 224, 224narus — 173, 255, 263Arya Rana Diraja — 163n, 281narzanefe — 62, 62nAsh Shihr — 57nÁsia (Asia, Asiia, Asya) — 49, 51n, 53, 53n, 54, 55, 55n, 57, 63n, 65n, 70, 74, 88n, 94n, 99, 118, 130, 202n, 219nÁsia Central — 72n, 159nÁsia do Sudeste — 67, 79, 91, 126, 135, 147, 165, 168, 191Ásia Menor — 63nÁsia ocidental — 253nasiáticos (asyanos) — 63, 63n, 279nAssam — 127nAstur Malec — 89Asuero — 73, 74, 74nAtenas — 52 atobalachos — 192, 192n, 221nAva — 132, 132n, 144avelã‑da‑índia — 101, 101n, 121, 124aves‑do‑paraíso — 152n, 224n, 228nAyutthaya — 67n, 108n, 135n, 138n, 140nazamboa — 129Azamor — 165, 165n, 265, 265nazarnefe — 62, 141azeche — 71, 71n, 92azeites — 91, 92, 111, 113, 121, 122, 134, 165, 185, 202, 279Azerbaijan — 72nAzerbeijão — 76n, 78nAzhikkal — 116azougue — 62, 62n, 91, 124, 129, 134, 136, 141, 144, 145, 272, 278Az‑Zafir Amir II bin Abd al‑Wahhab — 64nBabelmandebe — 56nBabilónia — 72, 72n, 74Bacan — 226n, 229, 230nBacanor — 104, 104n, 105Bagangã — 136Bago — 136nBahadur — 83nbahar — 122, 122n, 124, 136, 139, 140, 143, 156, 157, 161, 167, 168, 171, 172, 188, 191, 202, 203, 222, 223, 224, 226, 227, 229, 230, 273, 278, 279, 286 Bahrain — 69SumaOriental-PDF_imac.indd 311 12/5/17 2:02 PM
  • 312Baira Vera — 104, 104n, 105Bairacono — 116, 116nBaju Laut — 173n, 210n, 236nbajus — 173, 210, 236, 241balachos — 192n, 221, 221n, 228Balambangan — 136n Balasore — 127nBalcãs — 72Baleapatamam — 116, 117Bali (Baly) — 191n, 219, 219nBaliapatam — 116nBalimgão — 124Baloquistão — 80nbaluches — 80nBamcha (Banqua) — 140, 143 Bamda — 100 Banda (Bamda, Bamdã, Bamdam, Bamdan, Bandam, Bandan) — 28, 66n, 93n, 94, 94n, 101, 152, 165, 213, 214, 216, 219, 220, 221, 221n, 222, 222n, 223, 223n, 224, 224n, 225, 226, 227n, 228, 228n, 231, 232, 233, 236, 237, 267, 271, 272, 275, 283, 286 Banda Api — 222nBanda Besar — 165n, 176nBandar Hilir — 245nbaneanes — 87, 87n, 89Bang Sabhan — 140n, 143nBangka (Bamca, Bamqua) — 165, 165n, 179, 179n, 181, 181n, 182, 208, 241, 255, 271Bangladesh — 126n, 128nBangplasoy — 140n, 143nBanguecoque — 138nBanjarmasim — 234nBantam (Bamtam, Bantan, Bautan, Banten) — 181n, 189, 189n, 193, 193nBarakat II — 60nBerbera (Barbora) — 56, 56n, 60, 63, 65, 68, 91Barém (Baharẽ, Baharem) — 69, 69n, 70, 70nBarkur — 104nBaroche (Baruez) — 83, 83n, 87Baroda — 83n Barus (Baris, Baruz, Beruez) — 163n, 164, 184, 184n, 185, 185n, 186, 186n, 187Basrur — 104Bassein (Baxa) — 87, 87nBassein — 133Bata / Batak (Batar) — 164, 164n, 169, 169n, 172, 172n, 186n, Batara — 195, 201, 240, 241, 242, 247Batara Caripan (Biatara Caripanam Çuda, Biatara Curipan) — 240Batarã Matarãm (Bataram Matarã) — 240Batara Raja Çuda — 201, 206nBatara Tamarill (Batara Tomarill, Batara Tumarill) — 240, 241, 242, 247Batara Wijaya (Batara Vigiaja, Batara Voj‑yaaya) — 195, 195n, 240Bataram Sinagara — 240Baticala (Baticalla, Batiqalla, Batiquala) — 53, 53n, 91, 102, 104, 104n, 105Bato Ymbo — 224Batochina (Batochiina, Batochyna) — 226, 226n, 232, 232n, 233Batoimbey — 219Batu Pahat — 250n, 264nBatu Tara / Batutara — 221, 221nBayan Sirullah — 227nBayn — 96Bayt al Faqih — 64nbeatilhas — 66, 66n, 71, 79, 99, 102, 129 Beijing — 151, 158beirames — 99, 99n, 102, 129Beitall — 64Beliamcoro — 118 Belitung — 165n, 179n, 207n, 235nBem Açorala — 227Bemu (Bemuaor) — 225, 225nbendara — 191, 191n, 213, 214, 214n, 244, 244n, 250, 254, 254n, 256, 256n, 258, 258n, 259, 259n, 260, 261, 261n, 264, 266, 267, 269, 270, 272, 274, 275, 280, 280n, 281, 281n, 285, 287, 287nBengala (Bemgala, Bemgalla, Bemgãlla, Bengalla) — 50, 53, 56, 56n, 62, 66, 67, 91, 92, 92n, 105n, 106, 107, 109, 123, 124, 125, 125n, 126, 126n, 127, 127n, 128, 128n, 129, 130, 130n, 131, 131n, 132, 132n, 133, 134, 139, 142, 144, 145, 147, 156n, 160, 162, 167, SumaOriental-PDF_imac.indd 312 12/5/17 2:02 PM
  • 313168, 170, 170n, 195, 196n, 202, 207, 223, 228, 234, 236, 251, 267, 271, 273, 274, 285, 286bengalas — 85, 126, 128, 130, 132, 169, 170, 184, 195, 204, 213, 224, 248, 258, 283Benggai (Bemgaia, Bemgaya) — 228, 228n, 233, 233nBenghar (Bãmgar, Bangar, Banignar, Bemgar) — 108, 108n, 115, 115n, 116Bengkali — 175n, 177nbenjoim — 67, 67n, 79, 134, 136, 141, 144, 165, 167, 170, 171, 180, 184, 185, 185n, 186, 187, 235, 236, 272, 278, 287 Berar — 95nberberes — 63nBerhala (Berella) — 165, 165n, 179, 179n, 181Bernam — 253n, 263nBernhard von Breidenbach — 52n Bertam (Bietam, Bietão) — 243, 243n, 244, 245 Beruas (Baruaz) — 140, 140n, 167, 171, 263, 263nbétele — 992n, 98, 98n, 99, 101, 102, 103, 106, 121, 124, 137, 147, 231, 231n, 269, 269nbetuas — 113nBhatkal — 53, 102, 104, 104nBhre Kertabhumi — 180n, 201n, 240nBibi Rane — 82, 82nbiça — 135nBidar (Bider) — 95n, 96, 96nBihar (Biar) — 164, 164n, 166, 166nBijapur — 95n, 96nBilinjao (Bilinjão) — 116, 120Bilitam (Bylitam) — 233, 235Bima — 163, 163n, 219, 219n, 220, 221, 222, 223, 224, 232, 237, 271Bintang / Bintão (Bimtam, Bintan, Bymtã, Bymtam, Bymtao) — 163n, 181n, 250, 266, 281, 282, 286, 286n, 288Birinjão (Birinjao) — 122Birmânia — 50n, 127n, 131n, 132n, 133n, 143nBisnaga / Bisnagar — 106n, 107n, 127Blambagan (Bulambuã, Bulambuam, Bulam‑buãm, Bulanbuã) — 189, 189n, 195, 201, 201n, 204, 215, 216, 217, 217nBoa Esperança, cabo — 52n, 55Bogor — 191nBombaim — 83n, 87nBombo — 219Bomtar — 222 Bonua Quelim (Benua Quelim, Bonna Quelim, Bonua Quilim, Bunua Quilim) — 106, 106n, 129, 129n, 133, 167, 180, 195, 223, 224, 228, 267, 273Bornéu (Burnee, Burnei, Burney) — 54, 79n, 129, 136, 136n, 141, 155, 155n, 161, 161n, 162, 173n, 180n, 194n, 208n, 210n, 232, 232n, 234, 234n, 235, 235n, 238n, 267, 268, 276, 282, 283bornéus — 159, 161, 162, 271, 283Braçalor (Baçallor, Baçalor) — 104, 104nBrahmawar — 104n braja — 137, 137nBrama — 88nBrama / Bremá (Brema, Bremaa) — 142, 143, 143n, 144, 155brâmanes — 88, 88n, 89, 90, 90n, 98, 103, 105, 109, 110, 110n, 111, 112, 113, 114, 115, 117, 118, 119, 120, 121, 196nbrasil — 91, 91n, 141, 155, 156, 219, 278 Brava / Brawa — 63, 63n Brawijaya VI — 240n Brawijaya VII — 180n, 195n, 206n, 240nBretam / Bretão (Bretao) — 243, 244, 245, 246, 247, 252, 256, 281bretangil — 177, 177n, 192, 223, 234, 236breu — 165, 165n, 172, 174, 177, 180, 182, 231, 235, 265, 276Broach — 83 brocados — 141, 151, 157, 158, 273Brunei — 155n, 161n, 232nBuaja / Buaya — 165, 165n, 177, 177n, 180, 181búfalos — 202 Bukit Cina (Boqua China) — 245, 245nBulbucar — 74, 75Bur ni Geureudong — 187 SumaOriental-PDF_imac.indd 313 12/5/17 2:02 PM
  • 314Burhan Nizam Shah — 96 Buton (Butum) — 232, 232n, 236búzios — 131, 131n, 133, 135, 139, 235cabal — 181, 255, 266, 268, 280cabilas — 63, 63n, 69, 81Cabo, rota — 60, 71Caçam — 280Çacampõ (Çacampom, Çacampon, Çaçan‑pom, Caçapom) — 164, 179n, 182, 183, 193cacho — 92, 92n, 94, 147, 155, 192, 272caciz — 65, 65n, 227, 248, 249, 251, 280Çacotora (Çacotra, Çocotora) — 58n, 66, 66n, 91caçutos — 124, 124n, 223Cadao — 282cafres — 169, 169n, 180, 180n, 182, 183, 211, 254Çagar — 96 cahon — 131, 131nCaiacoulão (Caia Coulam, Cayacoulam, Cayacoulão) — 115, 115n, 116, 116n, 119, 119n, 120, 122caides — 192, 192n Caile — 273, 274caimal — 112, 121Cairo — 50, 56, 58, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 65, 67, 67n, 68, 71, 79, 90, 91, 94, 271, 272cairo — 121, 121n, 122, 165 caixa — 147, 147n, 149, 157, 160n, 168, 171, 192, 201, 203, 220, 222, 223, 276Caizar — 105Cajomgam (Cajamgã, Cajongam, Cajomgã) — 209, 210cal — 98n, 109n, 269n, 281, 281nCalaiate (Calahate) — 64, 64n calaim — 131, 131n, 135, 136, 192, 192n, 193, 203, 262, 263, 276, 277calaluz — 214, 214n, 215, 216, 219, 282calambá / calambuco — 79n, 146, 146n, 148, 273, 278Çalamom — 222 Calamtigua — 178, 181Çalamgor / Çalangor — 140, 250, 253 Calapa — 189, 189n, 191, 191n, 194, 194nCalaparaoo — 273 Calcutá — 128n Caldeia (Caldea) — 59, 59nCale (Calee) — 123Calecute (Calecut, Calicut, Calicute, Quali‑cut) — 66, 92, 109, 109n, 115, 115n, 116, 116n, 117, 117n, 118, 118n, 119, 122, 123, 213, 273, 275Calicate — 273califa — 68n, 75nCallcari — 129n Callnansey (Calnãsey) — 140, 140n, 143, 143nÇamaram — 189, 206Camarão (Camaram) — 58, 58n, 67Cambaia (Cãabaia, Cãbaya, Cambaya, Can‑baya) — 50, 53, 57, 63, 66, 68, 69, 70, 71, 80, 82, 82n, 83, 83n, 84, 85, 85n, 87, 87n, 88, 88n, 89, 89n, 90, 91, 92, 93, 93n, 95, 99, 100, 104n, 109, 122, 124, 228, 271, 272, 276cambaieses — 82 Cambalu — 151n Cambara — 151, 151n, 152Camboja (Cãboja, Canboja) — 50, 53, 141, 142, 143, 144, 145, 145n, 146, 146n, 271camelos — 61, 61n, 64, 73, 80Campar (Cãpar, Campa, Campãr, Canpar) — 164, 164n, 165, 176, 176n, 177, 178, 180, 233, 234, 250, 251, 252, 253, 255, 256, 257, 257n, 261, 263, 265, 265n, 271, 281, 281n, 282, 285, 287, 288, 288nCampocam (Campocan, Campom, Cam‑poquam, Capocam, Cãpocan) — 164, 164n, 177, 177n, 178, 271, 271nÇana — 64, 68canacos — 113, 113n canafístola — 141, 202Cananor (Canañor) — 104n, 109, 109n, 115, 115n, 116, 116n, 117, 117n, 118, 122, 185, 273Canará — 53n, 102n, 104n, 106nSumaOriental-PDF_imac.indd 314 12/5/17 2:02 PM
  • 315Canarim — 95, 95n, 104, 104n, 105, 106canarins — 85n, 104, 105, 106, 107, 108, 116, 117Çancy — 157nCândia — 123ncanela — 71, 71n, 124, 125cânfora — 79, 79n,129, 141, 155, 157, 158, 161, 165, 173, 174, 184, 185, 185n, 273, 276Canitão (Canitã, Canitam) — 189, 189n, 216, 217canjares — 113, 113n cansa — 133, 133n, 135Cantão (Qamtom, Quamtõ, Quamtom, Quantom) — 149, 152, 153, 154, 154n, 155, 157, 158, 159capados — 73, 105, 126, 196, 199caparosa — 71, 71n, 79, 92Çapee — 163, 237Capelangam (Capelamguã, Capelamguam, Capelangam) — 132, 132nCapemtit — 142, 143Capo — 271Capocar — 116, 117cardamomo — 202 Carecall — 273Carepatão (Carapatanam, Çarapatanam, Carapatani) — 87, 87n, 95, 95n, 100, 100nCarimam (Cariman, Carimon, Carymam) — 165, 176, 180, 242, 271cascavél — 137, 137n, 139, 139nCáspio, mar — 72n, 76n, 80ncastanhas — 74 Cata — 115Cate — 235, 235n cate — 135, 135n, 136, 139, 156, 156n, 160, 203, 262, 265, 266, 273, 277, 278, 283Catepamucã — 234catur — 115, 115n, 121caturna — 133Cáucaso (Caucaso) — 74n, 84Cauchy / Çauchy — 158, 158nCaupõ — 179, 179n cauri — 131, 131n, 141, 156n, 235ncavalos — 57, 60, 61, 63, 64, 64n, 65, 66, 67, 68, 69, 71, 71n, 74, 79, 81, 82, 83, 84, 86, 88, 91, 92, 98, 99, 102, 105, 120, 127, 128, 144, 145, 146, 148, 150, 151, 183, 190, 194, 196, 199, 211, 217, 219, 237, 239Caxemira — 92n Cedaio / Cedayo — 189, 200, 210, 212, 213, 215, 217Ceilam — 225, 225nCeilão (Ceilã, Ceilam, Çeilam) — 91, 108. 108n, 116, 116n, 120, 121, 122, 123, 123n, 124, 124n, 125, 238n, 271, 274ceitil — 84, 84n, 135, 157, 168, 171, 193, 194, 249, 276Celabão — 124 Celaguy / Celaguym — 165, 176Celates — 266celates — 165, 165n, 173, 174, 175, 175n, 180, 181, 242, 243, 244, 245, 246, 248, 255, 264, 265, 266Celébes — 173n, 210n, 228n, 232n, 233, 233n, 236ncera — 79, 92, 141, 162, 165, 173, 174, 176, 177, 180, 181, 182, 184, 185, 188, 205, 234, 235, 265Cerã (Ceirã, Ceiram) — 224, 225, 228, 231, 232Cerima Raja (Cerina De Raja, Cerina Derraja, Ceryna De Raja, Cirima Raja) — 213, 259, 260, 261, 280, 285, 285n cetins — 144, 157, 157ncevada — 71, 81, 83, 92Chaldiran — 78n Chalia / Chaliyan (Chaliaa) — 116, 116n, 117Chamalc Malec — 89, 89n chamalotes — 63, 63n, 79, 91, 141, 152, 155Champá (Champa, Champaa, Champãa, Champar) — 138, 138n, 142, 142n, 143, 145, 146, 146n, 147, 148, 151, 158, 267, 271champana — 180, 180n, 242Champaner (Champanell) — 83, 83n, 84, 89SumaOriental-PDF_imac.indd 315 12/5/17 2:02 PM
  • 316Chande (Chamda, Chamdy) — 189, 217.Chantan — 143 Chao Phraya — 140n chapéus — 62, 79Chaquemdara Xa — 245, 245n Chatigão — 128chatim — 105n, 227chátrias — 110, 110n Chatuá (Chatua, Chetua, Chetuaa) — 115, 116, 118, 119nChaul (Chaull) — 83, 83n, 95, 95n, 97, 99, 99n, 101, 105, 126, 271, 273, 274chauris — 202n chauteres — 129Cheguaa — 250, 250n Cheguide (Chiguide, Cheguidee) — 189, 189n, 193, 193nChemano — 183, 183n, 189, 190, 191n, 194, 194n, 195, 204Cheraman Perumal — 118n Chettuva — 116n, 119nChiang‑mai — 142n, 143nChiaoa — 233Chilão (Chilam) — 116, 116n Chilaw — 124nCiliwung / Chiliwung — 194nChina (Chiina, Chyna) — 50, 53, 67, 94, 101n, 130, 134, 137, 138, 138n, 139, 140, 141, 142, 143, 144, 145, 147, 147n, 148, 148n, 149, 150, 150n, 151, 151n, 152, 152n, 153, 153n, 154, 154n, 155, 155n, 156, 157, 157n, 158, 158n, 159, 159n, 160, 160n, 161, 161n, 162, 163, 192, 201, 201n, 203, 207, 219, 232n, 233, 234, 238n, 242, 248, 249, 249n, 251, 257, 268, 271, 273, 275, 277, 283, 283n, 285, 286, 287Chinchéu (Chamcheo, Chancheo) — 153, 158, 267, 267nchineses / chins — 51n, 53, 55, 138, 149, 150, 150n, 152n, 153n, 154, 158, 159, 160, 161, 195, 201, 204, 213, 232n, 250, 251, 254, 255Chinqele — 164Chittagong — 128 Chombala (Çombaa) — 116, 116n, 117 Choromandel (Choromamdel, Choro‑mam dell, Choromandel, Choromãdell, Choro mandell) — 50, 50n, 106, 106n, 108, 108n, 116, 121, 122, 123, 123n, 124, 127, 129n, 183, 260n, 273, 273n, 274, 281nChotomui — 143chumbo — 123, 129, 135, 137, 139, 146, 157n, 279Ciac / Ciãc — 164, 175, 176, 177, 180, 253, 265, 271Çidapor — 96 Cimanuk / Chimanuk — 189n, 191n, 194nCimbaua (Cimdaua) — 163, 219, 222, 223, 232, 237Çimdy — 87 Cinam — 64 Ciniojữm (Ciniojuữ, Cinyojum) — 262, 262n, 263Cintacora (Cimtacora) — 100, 100nCipango — 161n Cirebon (Cheroboam, Chorobam, Choro‑boam, Choroboãm) — 183, 189, 189n, 195, 204, 204n, 205, 205n, 206, 206n, 209, 281nCiro — 74, 74n Cisadane / Chisadane — 193n Citor — 219, 219nClam — 262, 263Clamtam — 140 Coala Caçam — 261Coala Penagy (Penajy) — 261, 261, 280Cobrajem — 137 cobras — 114, 114n cobre — 62, 71n, 84, 84n, 91, 123, 124, 129, 133, 134, 135, 136, 141, 147n, 157, 158, 160, 161, 202, 272, 275, 278Cochim (Cochy) — 109n, 112, 115, 115n, 116, 116n, 117n, 118, 119, 119n, 122, 125, 147n, 171, 191, 196, 196n, 273, 279Cochinchina (Cauchichina, Cauchy, Cau‑chychina, Cauchychyna) — 50, 146, 146n, 147, 147n, 148, 148n, 151n, 158n, 159n, 220, 271, 276coco — 109, 111n, 121, 121n, 122SumaOriental-PDF_imac.indd 316 12/5/17 2:02 PM
  • 317çoçunam — 191Codaudam — 89 Çofala — 56cofres — 157, 159, 160Cojeatar (Cojatar) — 105, 105n Colombo (Columbo) — 124, 124n, 125Çolor — 233combalengas — 129, 129n Comber — 222Combula (Combulaa) — 115, 117cominhos — 94 Comorim — 115, 115n, 116, 116n, 120, 120nConcão — 106nconcussá — 143, 143nconderim — 277, 277 Conimiri — 273, 273n contas — 57, 59, 62, 63, 145, 162, 223 Cooch Behar — 127n copra — 121, 121n Coraçone (Coraçane, Coraçoni) — 72, 72n coraçones — 83, 90, 94Coracori — 72 coral — 272 Coreia — 159n cornalina — 57n, 66nCosmim (Copymy, Coximim, Xoii) — 133, 133n, 137, 137ncosto — 92n Cota — 117, 124ncotabalachos/cotobalachos — 221, 221n, 228Coticoulão (Coticoulam, Coty Coulam) — 115, 117 Cotinuo — 140, 140nCoulão (Coulam, Coulao, Coulãoo) — 108, 115, 115n, 116, 116n, 119, 120, 120n, 121, 125, 147, 273Cous (Coos, Cõus) — 127, 127n côvado — 122, 122n Cracóvia — 54n Cranganor (Cramganor) — 115, 115n, 116, 116n, 119, 119n, 122cravo — 66, 66n, 71, 91, 124, 134, 141, 145, 147, 155, 183, 221, 223, 226, 227, 228, 229, 230, 231, 232, 232n, 233, 248, 260, 272, 278, 281Crescente Fértil — 64n cris — 130, 130n, 196, 200, 211, 218, 220, 236, 253cristalino — 57, 62, 91, 272cristãos — 56, 59. 61, 68, 72, 75, 77, 83, 88, 101, 114, 115, 227, 271Crodi — 82 cruzado — 67, 124, 125, 129, 135, 146, 160, 161, 168, 171, 193, 203, 207, 224, 227, 265, 272, 273, 276, 277, 284Cuaii — 225Çuaquem — 58, 60, 67, 91cubebas — 66, 66n, 183, 202, 211Çuencyniguis — 187 Çuez — 57Cultarey — 129, 129n Çunda (Çumda) — 93, 142, 143, 163, 181, 182, 183, 184, 185, 188, 189, 190, 191, 192, 193, 194, 195, 204, 240Cupall Mulec (Cupallmullc, Cutell Mama‑luquo) — 96, 97cupão — 277, 277nCuria Deva — 227 Curia Muria — 68 Curia Raja — 163 Curiate — 64, 64n Çurrate — 83, 84, 87Çurubaia (Çurubaya) — 213, 215, 216, 217, 282Dabhol / Dabul (Dabull, Dabũll) — 95, 95n, 98, 99, 99n, 271, 273, 274dachim — 136, 136n, 276, 278, 279Daha — 87 Dahanu — 87n Daio / Dayo — 189, 189n, 191, 194, 196dalaa — 131, 131nDalaca (Dalaqua, Delaca) — 57, 57n, 58, 63, 65, 67Damão (Damana, Damanã) — 83, 83nDamasco (Damasqo, Damasquo) — 59, 59n, 91damascos — 130, 134, 144, 157, 158, 160, 272, 273SumaOriental-PDF_imac.indd 317 12/5/17 2:02 PM
  • 318Damdrivar — 100, 100n Dami Chatim — 105Damiata / Damiatta — 56, 56nDana Timao De Raja — 201n, 210Dande (Damda) — 95, 95n, 97Daquém (Daqem, Daquẽ) — 50, 53, 70, 71, 82, 83, 84, 85, 87, 91, 92, 94, 95, 95n, 96, 97, 98, 99, 100, 101, 102, 103, 104, 105, 106, 107, 271, 272Daria Timã — 201, 210nDario — 74, 74nDasht — 81n Dastur Khan (Dasturcan) — 83, 83n, 89nDauan Han — 96, 97 Daya — 164, 164n, 186, 186nDaya — 211 decanis — 106 Decão — 95, 96, 99, 106Delhi (Deli, Delii, Delly, Dely) — 72, 72n, 79, 80, 81, 82, 82n, 85, 85n, 86, 86n, 87, 87n, 95, 95n, 106, 107, 128, 128nDemá / Demak (Dema, Demaa, Demãa) — 179, 179n, 183, 183n, 189, 189n, 197, 197n, 204, 205, 205n, 206, 206n, 207, 208, 215, 215nDeus — 50, 51, 52, 100, 101, 109, 127, 170, 171, 187, 190, 200, 221, 224, 232, 244, 260, 287, 288Devgarh — 100n dewan — 96n, 97nDharma Parakramabahu IX — 123n Dhofar — 118diamantes — 124, 127, 139, 141, 148, 234, 241nDijlah — 80nDilawar Khan — 86n Diogo Lopes de Sequeira — 94, 94n, 244, 244n, 254, 258, 259, 260, 260n, 261, 278n, 281nDioni — 87, 87nDiu (Dio) — 83, 83n, 84, 87, 88n, 89, 98, 123Diva — 99, 99n, 121, 122, 123, 131, 136, 185, 192, 193, 271, 272Djedah — 58n Dogom (Dagam, Dogõ, Doguõ) — 133, 133n, 136, 137dragoeiro — 64n drama — 168, 168n, 171, 276dromedários — 61n Duarte Barbosa — 69n, 73n, 90n, 114n, 118nDuarte Fernandes — 257nDuarte Pacheco Pereira — 51n dução — 242, 262Durga — 88n duriões — 165, 165n Durmapatam — 116n edetrias — 144, 144nEdom — 59n Egipto (Egito) — 53, 56, 56n, 57, 58, 60n, 64n, 69El Tor — 57n elefantes — 83, 86, 89, 98, 107, 120, 124, 127, 128, 132, 137, 144, 145, 155, 190, 200, 211, 220, 244, 247, 251, 255, 262, 267, 268embrantinis — 110n Emcãtados — 244 enxofre — 62n, 71, 148, 157, 166, 220, 227, 278erva de besteiros — 235, 235n, 236, 236n, 242erva lombrigueira — 92, 92nescarlatas — 155 escravos — 56, 56n, 57, 59, 59n, 60, 63, 65, 113n, 126n, 127n, 141, 159n, 160, 170, 172, 174, 175, 180, 192, 202, 217, 219, 220, 226, 228, 232, 234, 235, 237, 271, 282, 284esmeraldas — 124 espadas — 68, 73, 81, 83, 130, 160, 196, 218, 228espelhos — 63 esquinanto — 66n estanho — 129, 131n, 133n, 134, 135, 135n, 139, 140, 141, 142, 155, 168, 171, 192n, 249, 250, 250n, 253, 262, 262n, 263, 272, 273, 276SumaOriental-PDF_imac.indd 318 12/5/17 2:02 PM
  • 319esteiras — 178, 229, 231, 235, 246nEster — 73, 73n estoraque — 62, 63n, 94, 145, 147, 150, 272Estreito (Estreito de Babelmandebe; Esteito de ormuz) — 56, 57, 58, 61, 63, 64, 65, 67, 68, 69, 70, 80, 91, 93, 118etíopes — 56 Etiópia (Ethiopia, Ethiopiia) — 55, 55n, 56Ettikulam — 116n Eufrates (Eufratees) — 53, 53n, 64n, 80, 80neunucos — 105n, 126n, 196n Europa (Eiropa) — 49, 71n, 73, 73n, 74n, 99, 102n, 231fanão — 117, 117n, 125Fansur — 184nFaqui — 64faraçola — 278, 278n Farrukh Yassar I — 76n Fars — 72n Fartaque — 57, 64, 68, 68nfartaquis — 68Fatimah (Fatema) — 61n, 68n, 74ferro — 66, 71, 71n, 105, 157, 180, 181, 218, 228figos — 74, 129, 265figueira‑do‑inferno, 111, 111nFilipinas — 54, 161, 162, 233, 238flamengos — 70 Flandres (Framdes) — 177, 177nFlores — 219n, 220nFogo — 219, 220, 220n, 222, 222nfólio‑indo — 99, 99n, 231, 231nFoqem — 159 Formosa — 159 Formoso (Fermoso, Fremoso) — 250, 250n, 264França — 72franceses — 70 Francisco de Almeida, dom — 52nFrancisco Rodrigues — 225nFrancisco Serrão — 226n, 227, 227n, 228frangues — 258, 258n, 260Frataa — 80Fujian — 155n, 267nfuseleira — 133, 133n, 134, 135, 137, 157, 202, 273Gale (Galle) — 123n galhas — 141, 141nGamispola (Gamispolla) — 163, 163n, 164, 164n, 166, 166n, 184, 185, 188Ganda (Gãda, Gamda) — 189, 201n, 215, 216, 217 Ganges (Gamges, Ganjes) — 53, 53n, 106, 107, 128, 128nganta — 203, 203n, 279, 279ngaro — 79n, 146, 146n, 152Garsopa (Garçopa, Garçopaa, Gersoppa, Guarçopaa) — 104, 104n Garuda — 189n, 201, 201n, 215n, 216, 217nGates / Ghats — 108nGaur — 126n, 128ngauro — 262ngengibre — 66, 66n, 71, 122, 129genoveses — 92 gentios — 81, 84, 86, 87, 88, 90, 103, 104, 105, 106, 109, 110, 114, 118, 123, 125, 166, 170, 179, 182, 212, 215, 220, 221, 222, 224, 229, 230, 231, 233, 234, 235, 236, 249, 272gergelim — 92, 92n Gilan (Guilam, Guilani) — 72, 72n, 76n, 80, 83ngilanes — 83, 90, 94Gim / Gin Besar — 165, 165n, 176, 176nGiovanni da Empoli (Joane) — 101, 101ngiravas — 113n Girnar — 82n Goa (Guoa, Guõa, Gũoa, Guoaa) — 50n, 53, 62, 66, 72, 91, 92, 94, 95, 95n, 98, 99, 99n, 100, 100n,101, 101n, 102, 103, 104, 104n, 105, 105n, 106, 106n, 107, 116, 126, 203n, 271, 274Goga (Guoga, Guogari, Guogua) — 83, 83n, 87Golconda — 95n, 96nSumaOriental-PDF_imac.indd 319 12/5/17 2:02 PM
  • 320Gorakhnatha Gosain — 85ngores — 159, 159n Gorong — 224n grão — 277, 277n, 278grãs — 91, 91n, 130, 272Grécia (Grecia) — 91Gregório da Quadra — 55 Gresik — 93n, 183n, 189n, 204n, 213nGuangdong — 153n Guangzhou — 149n, 153n Guardafui (Guardafuy) — 56, 56n, 63, 104gudão — 246, 246n, 259, 267, 283Guemdari — 87, 87nGulbarga — 96, 96n Gule Gule — 225, 225n Gunung Ledang (Golom Leidam, Gulom Leydam) — 186, 186n, 244n, 262, 262n, 269nGuram — 224 Guste Pate — 189, 195, 196, 196n, 197, 197n, 200, 201, 201n, 207, 208, 209, 210, 211, 215, 216, 217, 237, 240, 282Guy — 176 Guzerate (Guzarate) — 74n, 82n, 84n, 85n, 87n, 89n, 92, 93, 136, 140, 177, 183n, 202, 223, 223n, 224, 224n, 254n, 259n, 271, 272, 273, 274guzerates — 85, 89, 90, 90n, 91, 91n, 92, 93, 93n, 94, 94n, 142, 169, 171, 180, 183, 184, 185, 188, 195, 204, 207, 213, 258, 260, 267, 271, 272, 280, 283Gwatar — 81nHacabar — 75, 75n Haidar — 76n Hainan (Aynam, Hainão) — 153, 153n, 158Halmahera — 224, 226, 233Hamar — 74hambari / hanbalitas — 75, 75n Hampi — 106n Hangzhou — 158n hanifitas — 75n Haocheng / Haojing — 158n Haruku — 225, 225nHatta — 222nHerat — 82n Hieri / Hyeri — 115, 117 Himalaia / Himalaias — 111n, 128nHindu Kush — 86hinduismo — 88n, 109nhindus — 81n, 110n, 217nHindustão — 71n, 72n, 85n, 86n, 95n, 104n, 106n, 107n, 108, 112n, 116n, 127Hitaão — 154 Hitu — 225nHonovar (Honor) — 100n, 104n, 272Hualulu — 225n Hucham — 155 Husain Shah — 132n Idalcão (Idalcam, Idalcan, Idalhan, Idall‑cam, Ydalham) — 96, 96n, 97, 98, 103Idumea (Ydumea) — 59, 59nIémen — 55n, 64n, 66n, 67nIler — 261, 282Imad’l‑Mulk — 89nimame — 69n, 78n Imame Musa Kazim — 76n Imdi — 87, 87nincenso — 58n, 79n, 92n, 236, 272, 278Índia (Imdia, Imdias, Imdiia, Imdya, India, Indias, Ydamca) — 49, 50, 51, 52n, 53, 60, 61n, 62, 65, 66, 71n, 72,72n, 80, 82, 84, 86, 87, 87n, 89, 95, 100, 101, 102, 102n, 104, 104n, 106n, 107, 108, 114n, 116n, 117n, 120, 120n, 123n, 129n, 147n, 155, 177, 209, 214, 251, 253, 258, 272, 278, 279, 280, 286, 287Índico — 49, 61Indo (Çimdy, Imdios, Imdo, Imdus, Imdy) — 53, 53n, 85, 86, 86n, 87, 87nIndochina — 138nIndonésia — 219n, 220n, 224n, 225n, 227nIndrageri (Amdargeri, Amdargerii, Amdargery, Amdargueri, Amdarguerii, Amdar guerij, Amdarguery, Andargeri, Andarguerii, Ardagirii) — 143, 143n, 164, 164n, 177, SumaOriental-PDF_imac.indd 320 12/5/17 2:02 PM
  • 321177n, 178, 178n, 179, 180, 250, 251, 252, 255, 256, 265, 265n, 266, 271, 282, 285Insulíndia — 152, 195, 213, 225, 232Inwa — 132n Iraque — 64n iravás — 113 Ircão / Irkan (Ircam, Ircan, Ircão, Ircaõo, Yrcam) — 174, 174n, 175, 177, 250, 264, 264nIrráuadi — 133nIslão — 57n, 60n, 67n, 74n, 75n, 78nIsmael I — 68n, 69n, 73n, 74n, 77n, 78nIsmail Adil Khan — 96nItália (Italia) — 62, 71, 91, 101, 109italianos — 51n, 89Jacarta — 171n, 193n, 194njacobitas / jacobitos — 61, 62n Jaffna — 123n jagra — 121, 121n Jam Feroz — 87nJamber — 189n, 217nJambi (Jamby) — 146n, 164, 178, 179, 179n, 181, 187, 271jambo — 165nJangomá (Jamgoma, Jamgomaa, Jaamguo‑maa) — 142, 142n, 143, 143n, 144Janjing — 262nJapão (Jampom, Janpon) — 54, 54n, 151, 151n, 159, 159n, 160, 161, 161n, 233, 238nJapara (Jampara, Jepara) — 181n, 182, 183, 183n, 189, 189n, 193, 205, 207, 208, 208n, 209, 234, 234nJapura — 189, 205, 205nJarapara — 181 jarras martabanas — 129n Jask / Jasque — 81n jati / jaty — 172, 172n jaus — 154, 155, 169, 179, 190, 194, 195, 196, 197, 198, 199, 201, 204, 208, 214, 215, 222, 235, 236, 239, 240, 242, 251, 255, 267, 280, 282, 283, 288Java (Jaaoa, Jaaoã, Jaaõa, Jaãoa, Jaaoõ, Jaoa, Jaoã, Jaõa, Jãoa, Jaõaa, Jaõao, Jaoõa) — 93, 93n, 130, 130n, 133, 142n, 152, 153, 163, 165, 176, 180, 181n, 182, 183, 183n, 188, 189, 189n, 190, 190n, 191n, 192, 193n, 194, 194n, 195, 195n, 196, 196n, 197, 197n, 198, 198n, 199, 199n, 200, 201, 201n, 202, 203, 204, 204n, 205, 205n, 206n, 207, 207n, 208n, 209n, 210n, 211, 212n, 213n, 215n, 216, 216n, 217, 217n, 220, 223, 226, 231n, 232n, 235, 236, 237n, 239, 240, 240n, 241, 242, 247, 247n, 248, 250, 251, 254, 255, 257, 258, 268, 270, 271, 275, 276, 281n, 282, 283, 286, 287Jedá (Juda, Judaa) — 58, 58n, 60, 60n, 61, 62, 64, 65, 67, 68, 68n, 69, 273Jeilolo / Jilolo (Jelolo) — 226, 226n, 232, 232n, 233Jemaja (Jumaja) — 236, 236nJerusalém (Jerusalem) — 56 Jesus Cristo — 50, 102Joahnnes Stobnicaz — 54n John de Mandeville — 233n Jolo — 233nJorge Álvares — 150n, 153n, 283nJudeia (Judea) — 57, 58, 59, 69Junçalão / Jungceylon (Junçalom) — 139, 139njunco — 126, 129, 133, 134, 140, 141, 142, 143, 146, 147, 148, 149, 153, 154, 154n, 155, 156, 157, 158, 159, 160, 160n, 161, 162, 163, 164, 167, 171, 172, 177, 180, 190, 192, 193, 194, 201, 203, 204, 205, 206, 207, 208, 209, 210, 212, 213, 214, 216, 221, 223, 224, 225, 226, 230, 232n, 234, 235, 236, 237, 241, 242, 247, 248, 250, 255, 256, 259, 265, 267, 271, 273, 275, 280, 282, 283, 283n, 284, 285, 286Juru Pãgalaçam Imteram — 215Kakinada — 129Kalaburagi — 96Kamaran — 58n, 64nSumaOriental-PDF_imac.indd 321 12/5/17 2:02 PM
  • 322Kambing — 219nKampar — 164n, 176n, 177n, 257n, 265n, 281n, 288nKampengeet — 142n Kanara — 104nKandy — 123n Kaniten — 189n, 216nKannur — 115n, 116n, 117nKanyakumari — 115n, 116n, 120nKappad — 116nKarachi — 87Karimun — 176Karimunbesar — 165nKarnataka — 106nKatsuhitoge — 161n Kattakulam — 116n Kayalpatnam — 120n, 273nKayamkulam — 115n, 116n, 119nKedah — 92n, 139nKediri — 196n, 211nKelang — 225nKelantan — 140n, 143nKendawangan — 235nKhalji — 85nKhambhat — 83n khan — 97n, 98nKhan Baliq — 151n Kharepatan — 95, 100Khorasan — 72n, 83n, 223nKhudawand Khan — 89n Khurya Muriya — 68n Kiematabu — 227n Kilwa — 63n Kiwam‑ul‑Mulk — 89n Klang — 262n Kochi — 109n, 115n,116n, 119nKodungallur — 115n, 116n, 119nKolkata — 128nKollam — 115n, 116n, 120nKomba — 221n Konkan — 106n Koseir — 63n, 67nKota Baharu — 140n, 143nKotri — 82n Kottayam — 115n, 117nKotte — 123n, 124nKoyer — 96n Koyilandy — 116n Kozhikode — 109n, 115n, 116n, 117nKrishna Deva Raya — 107n Kuala Kesang — 261n Kuala Lumpur — 140n, 262nKuala Panjang — 261nKuli Shah — 96n Kumber — 222n Kumbla — 116n Kush‑’adam — 89n Kutb‑ul‑Mulk — 96n Kwaja Ata — 105n kxátrias — 110n Laçari (Laçarii, Loçari) — 63, 63n, 67, 67nlacre — 67, 67n, 87, 92, 94, 134, 136, 141, 144, 145, 145n, 278Lakhnauti — 126n, 128nLambri / Lamuri (Lãbry, Lambry) — 164, 164n, 166, 166n, 186, 186nlamedares — 224, 224nLan Xang — 144n Lanacaqẽ — 222, 222n lanchara — 140, 140n, 144, 146, 147, 164, 167, 168, 172, 173, 179, 181, 181n, 182, 183, 186, 190, 192, 204, 205, 206, 206n, 219, 230, 237, 241, 259, 266, 268, 282lanha — 111, 111n Laos — 144n laranjas — 129 lasemane — 142, 142n, 158n, 254, 254n, 257, 258, 259, 259n, 260, 267, 272Laue / Lawe (Lauee, Lauue) — 194, 194n, 208n, 233, 234, 234n, 271, 276Lautang — 222n leão — 73, 245Lebe Uça — 204, 204n Lembata — 221n lenho‑aloés — 79, 79n, 146, 146n, 155, 165, 176, 177, 181, 184, 185, 264, 271Léquios (Lequeos) — 54, 130, 130n, 151, 151n, 158, 159n, 161, 238nléquios — 158, 159, 159n, 160, 161, 213, 250, 267, 271SumaOriental-PDF_imac.indd 322 12/5/17 2:02 PM
  • 323Levante (Levamte) — 129, 150, 171, 237, 275Líbano — 61n Lide (Lidee, Lyde) — 167, 167n, 168, 168n, 169Liga — 100, 100n limões — 129 Lingding — 154nLingga (Limga, Limgua, Limgũa Limgũa, Linga) — 165, 165n, 173, 177n, 178, 178n, 180, 181, 234, 234n, 255, 255n, 266, 266n, 268, 269Linggi — 261n Lisboa — 51n, 74n, 151nLodis — 85n Lombok — 219nLonthoir — 222nlós — 158, 158nLosari (Loçari, Loçary) — 189, 189n, 205, 205nLourenço de Almeida, dom — 123n Lucipara (Luceparii, Lucepary) — 181, 181n, 182 Luções (Luçoẽes) — 162, 234, 235luções — 54, 153, 153n, 159, 162, 162n, 163, 263, 267, 282, 283Lucucamby — 219Ludovico de Varthema — 51n, 76n, 85n, 89n, 239nLugor (Loguor, Lugou) — 140, 140n, 143, 143n, 145Lutatam — 222 Luzon — 54n, 161n, 162n, 163n, 282nmaça — 66, 66n, 91, 101, 129, 134, 141, 183, 191, 221, 222, 222n, 223, 224, 248, 272, 273, 278Macaçar (Marcaçar) — 54n, 180, 180n, 194, 232, 234, 235, 236, 236n, 283macaçares — 54 maçaris — 59, 59n, 83, 94Macau — 158n, 159nMaceirão (Maiceram, Maycerã, Mayceram) — 108, 108n, 115, 116, 116nMaçuá — 57n macuás — 108, 113, 113n, 120, 120n, 121madeira — 61, 61n, 66n, 81n, 91n, 102, 133, 172, 172n, 176, 191, 205, 205n, 210, 221, 262, 264, 281Madhya Pradesh — 85n Madura (Madira, Mamdura) — 189, 194, 213, 213n, 216, 227n, 234, 236, 237, 237n, 271, 271nMafamede (Mafomede) — 50, 50n, 51, 57, 60, 61, 71, 71n, 74, 75, 76, 78, 81, 99, 101, 102, 195, 211, 248, 251, 255, 287Mafamud — 85Mafamut — 256, 257, 260Maharashtra — 106n Mahim (Mami, May, Maym, Maymi) — 81, 81n, 83, 95Mahmud Begarha (Mafamud) — 82n, 84n, 85nMahmud II — 51 Mahmud Shah (Mafamut) — 142n, 174n, 214n, 256, 256n, 257, 257n, 258n, 260, 261nMahmud Shah (Mahamud Xaa) — 96, 96nMahuva (Manna) — 87, 87n Mailariavii — 117 Maimbii — 87, 87nmainatos — 113, 113n Maitaram — 143, 143nMajapahit — 189n, 195n, 196n, 197n, 201n, 206n, 211n, 240n, 241n, 251nMakassar — 236nMakian — 226n, 230nMakran — 81n Makupang — 164n, 169n, 186nMalabar — 50, 53, 62, 66, 70, 90, 90n, 91, 104, 104n, 105, 106, 106n, 107, 107n, 108, 108n, 109, 109n, 110, 110n, 111, 111n, 112, 113, 113n, 114n, 115, 116, 116n, 117, 118, 118n, 119, 120, 121, 121n, 122, 123, 274malabares — 118, 121, 123, 271, 273, 283Malaca (Malaqa, Malaqua, Malaqũa) — 50, 54, 54n, 66, 74n, 91, 92, 93, 93n, 94, 94n, 99, 101n, 103n, 105, 106, 129, 130, 130n, 131, 131n, 132, 133, 133n, 134, 135, 135n, 136, 136n, 137, 138, SumaOriental-PDF_imac.indd 323 12/5/17 2:02 PM
  • 324138n, 139, 139n, 140, 140n, 141, 142, 142n, 143, 146, 147, 148, 149, 150, 150n, 152, 152n, 153, 153n, 154, 154n, 155, 156, 157, 159, 159n, 160, 160n, 161, 162, 163, 163n, 167, 169, 170, 171, 171n, 172, 173, 174, 174n, 175, 175n, 176, 177, 177n, 178, 179, 180, 181, 181n, 182, 182n, 183, 186, 186n, 187, 188, 190, 192, 194, 194n, 201, 202, 203, 205n, 206, 206n, 207, 208, 208n, 209, 209n, 210, 213, 213n, 214, 214n, 216, 219, 220, 221, 224, 225n, 226, 227, 227n, 228, 228n, 229, 231, 231n, 232, 232n, 233, 243, 235, 236, 237, 239, 241n, 242, 242n, 243, 243n, 244, 244n, 245, 245n, 246, 246n, 247, 247n, 248, 249, 249n, 250, 250n, 251, 252, 252n, 253, 253n, 254, 254n, 255, 255n, 256, 256n, 257, 257n, 258, 258n, 259, 259n, 260, 260n, 261, 261n, 262, 262n, 263, 263n, 264, 264n, 265, 266, 266n, 267, 268, 269, 269n, 271, 273, 272, 273, 274, 275, 276, 276n, 277, 278n, 279, 280, 280n, 281, 281n, 282, 282n, 283, 283n, 284, 285, 286, 286n, 287, 287n, 288, 288nMalagari — 132nMalaia, península — 139n, 140n, 163n, 186n, 235n, 236n, 241, 242n, 262n, 263n, 264n, 265nmalaios — 94, 142, 154, 155, 159, 163, 169, 173, 179, 182n, 204, 218, 221, 222, 225, 236, 242, 245, 262, 263, 268, 270, 271, 274, 280, 282, 283Maldivas — 99, 122, 131, 136, 185, 192malega — 91, 91n, 92Malik Aiyaz (Melequiaz, Meliquiaz) — 83, 83n, 84Malik ben Anas — 75n Malik Dastur (Milic Dastur, Miliqui Das‑tur) — 96, 96n, 97Malik Gopi (Milagobim, Milaguobim, Mili‑gobim) — 88, 88n, 89, 91Malik Sarang — 98n Malindi — 63n maliqui / maliquitas — 75, 75n Malua — 219, 219nMalwa — 85n, 86nMaluco / Maluku (Maluqo, Maluquo) — 93, 93n, 94, 150n, 163n, 165, 165n, 181, 195, 208, 213, 214, 218, 220, 221, 223, 224, 224n, 225, 226, 226n, 227, 228, 229, 231, 232, 233, 234n, 235, 236, 237, 267, 271, 275, 282, 286, 287malucos — 228Mamale Marakkar (Mamalle Mercar) — 117, 117n mamelucos — 59Mamsursa — 236, 237, 267, 271, 275, 287Manar — 108n, 123nMancopa (Mãcopa, Mamcopa, Maniicopa) — 164, 169, 186Mandad — 95n Mandalay — 132n Mandalica (Mamdalica) — 181, 181n mandalica — 263 Mandao (Mãdao, Mãdauo, Mamdao, Man‑dão, Mandu) — 82n, 85, 86, 86n, 87mandarim — 152, 152n, 170, 173, 174, 175, 177, 178, 179, 181, 240, 241, 242, 244, 245, 246, 249, 253, 256, 258, 259, 261, 262, 263, 264, 266, 267, 269, 270, 272, 274, 277, 280 Mangalore / Manguluru (Mamgallor, Mamgalor, Mangalore) — 75, 80, 81, 90mangko bumi (mãco bumi, maneco bumi) — 191, 191n, 288, 288nmanilhas — 157, 162 Manjeshwar — 116n, 108nManjung — 140n, 253n, 263nManqamarus — 185nMansor Shah (Manssursa, Mansursa) — 250, 250n, 252, 252n, 254, 255mantaz — 124, 124n manteiga — 79, 91, 134, 202Manuel I, dom — 49n, 50n, 86n, 122n, 225n, 280nMaomé (Profeta) — 50n, 57n, 61n, 68n, 74n, 259SumaOriental-PDF_imac.indd 324 12/5/17 2:02 PM
  • 325Maquiem (Maqiẽ, Maqiem, Maquyem) — 224, 226, 230Marapãlagui — 188 Marco Polo — 74n, 151n, 152n, 161n, 163n, 186n, 239nmarfim — 63, 65, 124, 141, 199, 224, 224n, 228margaridas — 162 Marlariani — 116, 116n, 117nMartabão (Martaban, Martamane, Marta‑nĩane) — 129n, 131, 131n, 133n, 134, 135, 136, 137, 139, 283Martarã — 138, 138nMartín Martínez de Ampiés — 52n Maruf Shah — 167 Maruz Mynhac — 185, 185nMascate — 64, 64n Mashhad — 72n Masira (Maseira) — 64, 64n, 68Maspari — 181n Massawa — 57nmastamudes — 84 Mataleni — 95matamingo / matamungo — 57, 57n, 66, 99, 162mate — 192, 192n, 193, 202, 203, 276, 277Mayajerii — 132 Mayporam — 115, 116, 116nmas / maze — 156, 156n, 172, 269, 277Meca (Meqa, Mequa) — 50n, 57, 57n, 58, 60, 60n, 61, 61n, 62, 62n, 64, 65, 66, 67, 67n, 68, 69, 75, 76, 118, 127n, 255, 256, 257, 271, 272, 274, 288Medadaue — 83n Medan — 173n Média (Medea, Media, Mediia) — 64, 64n, 72, 72n, 73Medina (Al Midina, Al Medina) — 60n, 61, 61n, 75, 75n, 169Mediterrâneo (Mediteranio, Mediterraneo, Miditeranio) — 52, 55, 55n, 56, 57, 58, 64n, 69, 134n, 272nMegat Iskander Shah — 245n, 249nmel — 79, 92, 162, 165, 173, 174, 176, 177, 180, 181, 182, 184, 185, 205, 234, 265Meliapor — 109nMelinde (Melimde) — 63, 63n, 91, 94, 271melique — 98n Menak Pentor — 201n, 217nMenancabo (Menanqabu, Manamcabo, Menãcabo, Menamcabo, Menamcaboo) — 146, 146n, 164, 165, 174, 176, 177, 178, 179, 183, 184, 185, 187, 188, 251, 253, 265, 271, 276, 282, 283menancabos — 185 Menwar Shah — 257n mercúrio — 62n Mesopotâmia — 59n, 72nmesquita —121, 204, 248, 254, 255, 281Mewar — 82n Miçalao — 225 Midoni — 73 Miguel Ferreira — 78n Milão (Milam) — 160 milho — 60, 60n, 83, 92Minangkabau — 146n, 179n, 187n, 188nMing — 151n Minhac Barras — 185 Minjam (Mijam, Mimjam) — 140, 140n, 163, 250, 253, 263mirabólanos — 122, 122n, 161, 278Mirjan (Mirgeu) — 104, 104nmirra — 58, 58n Modafarxa (Madafarsa, Madaforxa, Mada‑forxaa) — 85, 85n, 89, 167, 249, 250, 251, 252 modaforxa — 85, 85n Mogadíscio (Magadaxo, Magadaxoo) — 63, 63n, 91, 94Mojokerto — 196nMombaça (Mombasa) — 63, 63nmonção — 130, 130r, 162, 221, 232, 234, 238, 247, 256, 257, 271, 279, 284, 286Mongólia — 158n Monomby (Menamby) — 165, 165n, 179, 181, 207, 207n, 234Morotai (Mor, Mõr) — 233, 233nmostarda — 134, 234n Moti / Motir (Motei, Motẽi, Motes) — 226, 226n, 227, 229, 229n, 230Mottama — 131, 133SumaOriental-PDF_imac.indd 325 12/5/17 2:02 PM
  • 326moulana — 204, 204n, 209, 248, 249mouros — 49, 49n, 57, 65, 72, 73, 74, 75, 76, 78, 79, 81, 85, 86, 87, 88, 93, 99, 100, 101, 102, 104, 105, 114, 117, 118, 121, 122, 125, 126, 139, 143, 147, 161, 166, 169, 170, 179, 180, 188, 194, 195, 197, 198, 201, 203, 204, 211, 215, 216, 217, 222, 223, 225, 226, 227, 229, 230, 237, 248, 248, 251, 254, 257, 269, 271Mrauk U / Mrohaung — 132n Muar (Muãr, Mũar) — 242, 242n, 243, 244, 250, 261, 261n, 262, 264, 281muçulmanos — 68, 75, 76, 255mulas — 150, 151Mumbai — 87n múmia — 58, 58n Murlapiam — 116nMuscat — 64nMuzaffar II — 83n Muzaffar Shah — 85n, 89n Muzaffar Shah — 167nMuzaffar Shah — 249n, 250nMyanmar — 127n, 131n, 132n, 133n, 143n Nabucodonosor II (Nabucadenosor) — 74, 74nNagapattinam — 129n Nagore (Naãor, Naor, Naõr) — 123, 123n, 129, 129n, 273, 273nNahuda Qaysar — 105n Nailaka — 222n Naira / Neira — 222, 222n naire — 109, 109n, 110, 111, 112, 112n, 113, 114, 115, 117, 119, 120, 121Nakhom Si Thammarat — 143n namburim — 110, 110n Nanjing / Nanquim (Namqim, Nanqy) — 158, 158n Nantou (Namtoo, Nantoo) — 153, 153n, 154, 155Narasimha — 106n Narsinga (Narsiimga, Narsiimgua, Narsi‑mga, Narsimgua, Narsingua, Narsymga, Narsymgua, Narsynga) — 70, 70n, 71, 85, 95, 97, 100, 102, 104, 105, 106, 106n, 107, 108, 108n, 116, 120, 129, 132, 273, 274nautaques — 50, 50n, 80, 80n, 81, 82Negapatão — 129n Negombo (Nygumbo) — 124 Nias — 185nNicolo de Conti — 86n, 186nNileswaram — 116n Niliporam — 115, 117Nilo (Nillo) — 53, 53n, 55, 55n, 56n, 58, 59, 63, 67Nina Chatu — 260, 260n, 281, 281n, 287, 287n, 288nNina Surya Deva — 227n Nizamaluco / Nizam‑ul‑Mulk (Nazimall Mulec, Niiza Mallmulec, Niza Mal‑mulc) — 96, 96n, 99, 99nNodhaki — 80n Nova Guiné — 224n noz moscada — 66, 66n, 91, 129, 134, 141, 147, 155, 183, 222, 222n, 223, 248, 272, 273, 278noz‑da‑índia — 111, 111n, 121, 121n, 122Nusa Laut (Miçalao, Nuçalao) — 225, 225noceano (ociano, ociãno) — 49, 52, 55, 55n, 56, 57, 72, 80, 81, 83, 106odia (odiaa, odiia) — 49, 53, 66, 108, 138, 140, 143odisha — 108, 127, 128, 234oiá — 142noitava — 131, 131n, 135, 193, 277, 278okinawa — 159n ola — 128, 128n, 191oman — 64n, 68nomar — 75n onça — 135, 156, 156n, 203, 276, 278, 279onor (Honor) — 100, 100n, 104, 104n, 105, 105n, 272oparaa — 143 ophir — 186n, 244n, 262nópio — 57n, 58, 255SumaOriental-PDF_imac.indd 326 12/5/17 2:02 PM
  • 327oquem — 158, 158n, 159, 159vorá /orão — 102, 102n orang Laut — 173n, 236noriente (oriemte) — 52, 61n, 66n, 70n, 71n, 72n, 78n, 79n, 86n, 86n, 88, 93n, 98n, 111n, 122n, 130n, 231norissa (orixa) — 28, 50, 53, 85, 85n, 95, 106, 107, 107n, 108, 108n, 127, 127n, 128, 128n, 131, 234n, 271, 274ormuz (Hormuz, Hormũz, Urmuz) — 50, 59, 59n, 63, 84, 66, 68, 69, 69n, 70, 70n, 71, 72, 73, 74n, 79, 80, 81, 81n, 91, 92, 99, 101, 102, 105n, 251, 271, 274, 276ormuzanos — 94 orraca — 141, 141n, 160n, 162, 262, 262n, 263, 264otman (otuman) — 74, 75notomanos — 60nouro — 56, 57, 62, 63, 65, 66, 71, 71n, 79, 85, 85n, 91, 92, 93, 93n, 94, 102n, 112n, 117, 125, 130, 131, 134, 135, 137, 139, 140, 141, 145, 146, 147, 148, 149, 151, 160, 161, 182, 165, 167, 168, 169, 171, 172, 174, 175, 176, 177, 178, 179, 180, 182, 183, 184, 185, 186, 187, 188, 192, 192n, 193, 193n, 196, 197, 200, 202, 203, 212, 218, 219, 220, 223, 224, 227, 228, 233, 234, 235, 236, 237, 247, 251, 254, 255, 259, 261, 265, 266, 269, 272, 273, 275, 276, 277, 277n, 278, 285, 286, 287Pacém / Pasai (Paace, Paaçee, Pace, Pacee, Paceẽ, Pacẽe, Paçee,) — 91, 92, 92n, 126, 127, 129, 132, 133, 133n, 134, 139, 140, 140n, 142, 143, 152, 153, 164, 164n, 166, 167, 168, 169, 169n, 170, 170n, 171, 171n, 172, 174, 186, 187, 195, 214, 224, 247, 248, 249, 251, 252, 272, 274, 276, 282, 283, 284Pacham (Pachã, Pachãm, Pachan, Pachão) — 226, 229, 230, 231, 233pachavelão — 147n Padang — 176n Paduka Mimat — 250paduka raja (paduca raja, paduca rraja) — 250, 250n, 266, 266n, 267pagode — 110n, 113paguel — 116n Pahang — 138n, 140n, 143n, 163n, 251n, 256n, 265nPajajaram — 189n, 190nPajarakan (Pajarucã, Pajarucam, Pajurucã, Pajurucam) — 189n, 189n, 216, 216n, 217Pakuan — 191nPale — 100n Paleacate — 116, 121, 124, 129, 273, 274, 283, 285, 286Palembang / Palimbão (Palimbaõ, Palimbã, Palimbaão, Palimbãao, Palimbam, Palimbao, Palimbaõo) — 142n, 143, 164, 164n, 165, 166, 173, 179, 179n, 180, 181, 181n, 182, 194, 206, 207, 209, 216, 237, 240, 242, 241n, 242, 243, 247, 254, 255, 264, 266, 269, 271, 282Palestina — 59, 59n, 64palha de meca — 66, 66npalimbões — 179 Palk — 108, 123Pamanukan — 183n Pamdarane / Pamdarani — 116, 117Pamgoray — 140, 143Pamukan (Pamucã) — 235, 235nPanarukan (Panarucã, Panarucam, Pana‑runca) — 189, 189n, 216, 216n, 217panchavelizes — 147, 147n, 162, 192, 221Panchur (Pamchur, Pamfur, Pamsur, Pan‑char, Pansur) — 163, 163n, 164, 164n, 174, 179, 179n, 184, 184n, 185, 187, 193, 202, 273 pangajava — 134, 134n, 163, 180, 192, 207, 208, 209, 210, 212, 214, 216, 234, 235, 236, 271Pangim — 100n Panjang — 177n, 181n, 208nPão (Paão, Pãao, Pahaão, Pahãao, Pahãm, Pahãmo, Pahão, Pãhao, Pahaõo, Pahãoo, Paõ, Paõo) — 50, 138, 138n, 139, 140, SumaOriental-PDF_imac.indd 327 12/5/17 2:02 PM
  • 328140n, 142, 143, 146, 163n, 173, 180, 181, 214, 236, 239, 250, 251, 251n, 252, 253, 254, 255, 256, 256n, 260, 265, 265n, 266, 268, 271, 275, 278, 281, 282, 283, 285papagaios — 224, 224n, 228, 228n, 231papel — 123, 128n, 160papoilas — 58n Papua — 224, 224n, 233, 233nPaquistão — 80n, 82nParamesvara (Paramiçura, Paramiçure, Para‑myçura) — 182, 182v, 186, 186n, 241, 241n, 242, 243, 244, 245, 245n, 246Parapally — 116n Parappanangadi — 118n Parapurancorj / Parapurancory — 116, 116n, 117n parau — 144, 144n, 173, 174, 175, 176, 187, 230, 233, 236, 255, 263, 264, 265, 266, 268, 280pardau — 102, 102n pareas — 113, 113npáreas — 120, 120n, 151, 152, 250, 253Pariaman — 164n, 179n, 184n, 190nPariporaary — 117n Paris — 72Paropamisus — 86n parsios — 27, 72, 73, 83, 94, 95, 98, 126, 139, 169, 184, 195, 204, 224, 254, 258, 271, 272, 274, 282, 283Pasai — 92n, 133n, 140n, 164n, 169npássaros — 152, 152n, 224, 274passas — 63, 65, 67, 91, 272Pasuruan — 216n patamares — 88, 88n, 89, 90, 90n, 112, 112nPatan — 83, 83n, 87Patane — 50, 140, 140n, 141, 141n, 242, 251, 271patanes — 86n patares — 90n, 110, 110npate — 179, 179n, 180, 181, 182, 189, 191, 195, 201, 203, 204, 205, 206, 206n, 207, 208, 210, 210n, 211, 214, 215, 215n, 216, 217, 218, 234, 235, 237, 251, 282Pate Acoo / Aku — 258n, 280, 280n, 281n Pate Adem — 213, 213n Pate Amdura — 197 Pate Amiza — 212, 215Pate Bagũs — 212Pate Bubat — 215Pate Codia — 205Pate Cuçuf — 213, 214, 215, 227Pate Hasan — 280nPate Kedir — 205n, 281n, 282nPate Mamet — 206Pate Morob — 210, 212Pate onuz (Pate onũuz, Pate onũz, Pate onũz, Patee onũz, Patii onuz, Paty onuz) — 177, 177n, 180, 181, 206, 207, 208, 209, 209n, 210, 212, 214, 215, 234, 280, 282nPate orob — 207, 208Pate Pimtor (Pate Pintor, Pate Piintor) — 201, 216, 217Pate Pular — 217Pate Quedir (Pate Quidir) — 205, 205n, 282Pate Rodim — 179, 180, 204, 205, 206, 206n, 207, 208, 209, 210, 212, 215, 215nPate Sepetat / Supetak — 201n, 216, 216nPate Udara — 197nPate Vira — 210 Pate Yusuf — 213n Pate Zeinal (Pate Zeinall, Pate Zeynal, Pate Zeynall) — 213, 213n, 215 pateles — 90n Pathan — 86n Pathein — 133n Patiça — 280 patolas — 223, 223n, 228Pattani — 140n, 143nPaulo II, papa (Paullo segumdo) — 52n pau‑preto — 155 Pausur — 179 paybou — 191 Pedang — 165n, 180n, 257nPedir / Pidir (Peedir) — 91, 92, 92n, 134n, 140, 140n, 142, 143, 164, 164n, 166, 167, 167n, 168, 169, 171, 172, 173, 174, 187, 214, 271, 274, 284SumaOriental-PDF_imac.indd 328 12/5/17 2:02 PM
  • 329pedra‑ume — 71, 71n, 79, 92, 157, 266, 273, 278Pegu (Peeguu, Peeguũ, Peguu, Peguũ, Pegũu,) — 50, 62, 66, 91, 92, 92n, 123, 127, 131, 131n, 132, 133, 133n, 134, 135, 135n, 136, 136n, 137n, 138, 139, 142, 143, 144, 157, 167, 168, 214, 236, 255, 267, 274, 282, 283, 283n, 284, 286pegus — 137, 139, 139n, 171, 214, 271, 283peitaca — 283, 283npeixe — 113, 141, 145, 148, 166, 178, 185, 188, 235peles — 71n, 92, 150 Pemano — 183 Peperim — 140, 140n Pepory — 143, 143nPequim (Peqim) — 151n, 152, 154n, 158n, 249nPerak — 140n, 253n, 263npericales — 110, 110n Pêro Pais — 283n Pérola — 154n, 155npérolas — 65n, 70n, 153n, 162npersas / persianos — 72, 83, 94, 98, 72, 73, 98Pérsia (Persia, Persii, Persiia, Persya) — 50n, 53, 59n, 64, 68n, 69, 69n, 70, 71, 71n, 72, 73, 73n, 74, 74n, 76, 77, 77n, 78, 78n, 79, 80, 80n, 81, 82, 94, 97, 102, 121, 254n, 259nPérsico, golfo — 80 Petchaburi — 140n, 143nPetrus Comestor — 73nPeudada — 164, 167, 168, 170Phuket — 139npico — 156, 156n, 227pimenta — 66, 71, 79, 121, 122, 124, 127, 129, 134, 140, 141, 143, 144, 145, 147, 148, 152, 155, 156, 165, 167, 168, 169, 170, 171, 172, 182, 183, 186, 191, 192, 193, 202, 211, 224, 273, 278, 284 Pimpall Varaa — 82, 82n Pirac — 253, 263, 263nPirada — 164, 164n, 167, 167n, 168, 168n, 169, 170, 170nPiraman (Pirama, Piramã, Piramam, Pira‑mão, Piriaman, Piriman, Pyramã, Pyra‑mam) — 164, 164n, 179, 179n, 184, 184n, 185, 186, 189, 190, 190n, 193 poleás — 113, 113npon / pone — 131, 131n, 154Ponnani — 115n, 116nPonente (Ponemte) — 172, 237, 274Pontang (Pomdam, Pondãg, Pondang) — 189, 193, 193nporcelanas — 91, 129, 130, 134, 148, 150, 157, 160, 272Portugal (Portugall, Portugãll, Portuguall, Purtugall, Purtuguall) — 49n, 52n, 58n, 146, 150, 157, 171, 195, 199, 200, 231, 251, 258, 259, 287portugueses — 49n, 51n, 55n, 61n, 65n, 66n, 68n, 69n, 70n, 72n, 73, 73n, 74, 80n, 81n, 86n, 88n, 92n, 93n, 94n, 99n, 105n, 106n, 109n, 111n, 113n, 117n, 123n, 126n, 132n, 133n, 138n, 142n, 150n, 159, 170, 190n, 203, 205n, 207, 209, 211n, 212, 213n, 223, 226n, 227, 227n, 229n, 232, 242, 246, 246n, 250n, 254n, 258, 259, 260, 260n, 261n, 278n, 280n, 182, 287Poyohya — 143prabhu — 191n Prabhu Natha Girindrawardhana — 240n prata — 62, 71, 71n, 79, 84, 84n, 85, 85n, 91, 92, 102n, 117n, 124, 125, 130, 130n, 132, 134, 135, 135n, 136, 137, 139, 139, 141, 146, 147, 148, 149, 157, 168, 171, 197, 200, 203, 220, 272, 276, 277, 278prechau — 142n Prechayoa — 142 preoiá — 143n Próximo Oriente — 78n Ptolomeu (Tolomeu) — 54, 54npucha — 94 pucho — 92, 92n, 141, 147, 155, 192, 272, 278Pudupatanam — 117 SumaOriental-PDF_imac.indd 329 12/5/17 2:02 PM
  • 330Pulau Upeh — 208n Pulicat / Pulicate — 116n, 129n, 273nPullo Bamdam — 222 Pullo Baralam (Pullo Berella) — 165, 179, 181Pullo Rud — 222 Pulo Aee — 222 Pulo Bomcagy — 222, 222n Pulo Piçam (Pullo Piçam, Pulo Piçã) — 165, 180, 180nPulo Tumon — 154Punjab — 86npuou — 203 puravá — 162, 162n Purim (Pirim, Porim) — 164, 164n, 175, 175n, 177, 153, 253n, 265, 265nPuteri Gunung Ledang — 186n Puthupanam (Pudopatanam) — 116, 116n Qaile — 120 Qalhat — 64n Qansuh al‑Ghawri — 56n Qishm — 70n Qoay — 225 Quanzhou — 153n Quedá (Queda, Quedaa) — 50, 92, 92n, 139, 139n, 140, 140n, 142, 143, 167, 171, 173, 250, 253, 261, 262, 271, 284Quedomdoam — 233, 235Queher — 96 Queixome — 70n quelins — 50n, 99, 106n, 107, 118, 123, 129n, 132, 139, 162, 169, 177, 180, 184, 188, 204, 207, 236, 254, 258, 269, 273, 274, 276, 283Quellberga — 96Quesechama — 158 Quíloa (Quilloa, Quiloa) — 63, 63n, 91, 92, 271Quilon — 115nQuinchel (Quinchell) — 185, 186quintal — 122, 122n, 261, 278, 279Quriyat — 64n rabos — 202, 228Racam (Racan, Raqã, Raquã, Raquam) — 50, 50n, 127, 131, 132, 133, 136, 143, 144, 260, 271, 274Raden Pate — 179n, 206n, 215nrafadis — 67, 67n, 74Raichur (Rachull) — 96, 96n Raja Abdullah (Raja Audela, Raja Audelaa) — 176, 176n, 257n, 281n, 288, 288nRaja Al‑Mansur (Raja Almãçor, Raja Alma‑mçor) — 227, 227n, 229, 230Raja Bamdar — 187Raja Baya — 237 Raja Bomço / Raja Buũs — 187 Raja Bunco (Raja Bumco) — 257, 258Raja Çaleimam / Çaleman — 250, 256, 257Raja Cuçuf — 230Raja Çunciteras — 187Raja Husain — 230Raja Jalim — 257, 257n, 258Raja Lingga (Raja Limga, Raja Limgua) — 266, 226nRaja Mahmud (Raja Mafamut) — 256, 256nRaja Pute‑ 250, 251, 252, 253, 265Raja Quda — 239 Raja Sulaiman — 256n, 257nRaja Tamiang (Raja Tomiam) — 172, 172nRaja Ucem — 230 Raja Yusuf — 230nRajasthan — 81n, 85nRajputes — 81nRakhine — 50n, 127n, 132nRama — 100, 100nRama Tibodi II — 144nRama Varna — 119nRame (Ramee) — 209, 209n, 210, 212Rana Raimal — 82nRana Sanga — 82n Rander (Ranei, Reneri) — 83, 83n, 84, 84Rangum — 133nRani Sipri — 82n Ras al Hadd — 64nRas Fartak — 57n, 68n real — 71, 71n, 84n, 102, 112, 117n, 130n, 131n, 135, 147n, 168n, 236, 276, 277Regimo de Raja — 282 SumaOriental-PDF_imac.indd 330 12/5/17 2:02 PM
  • 331reisbutos / resputes — 50, 50n, 53, 80, 81, 81n, 82, 82n, 85, 86, 87, 121Rembang — 189n, 209nRemuna — 127n, 128nRixia — 234 Rodes — 102, 102nRoma — 51n, 74n, 186, 186nromã — 135n, 136romanos — 186n Rosalgate (Roscallhate, Roshallhate, Ros‑çallgate) — 64, 64n, 68, 68n, 69, 69nRosas — 57, 67, 68Rosengain — 222nrota — 165, 165n, 173, 174, 176, 177, 180, 182, 235Roxo — 51, 55, 56, 57, 63rubis — 132, 134, 148 Rui de Araújo — 260n, 278, 278n, 280, 282, 282nRui Nunes — 283nruibarbo — 79, 79n, 94nruipontico — 94n, 272ruiva — 66, 66n, 67, 91, 272Rum — 72nrumes — 72, 72n, 83, 94, 95, 98, 101, 126, 169, 271Run — 222nRupat — 164, 164n, 174, 174n, 175, 177, 237, 253, 264, 264nRússia (Roxia) — 159, 159nRyu Kyu — 54n, 130n, 159nSabaio (Çabaio, Çabayo) — 96n, 97, 100, 103 sabaio — 96, 96n, 97, 99, 100, 103Sabam — 165, 176, 180sabão — 91, 92sabones — 224, 224nSadegam — 128, 128nsafiras — 148 Sagar — 96nsagu — 161, 161n, 162, 222, 224Sai Buri (Say) — 140, 140n, 143, 143nSaif‑ud‑din — 69nSal (Sall) — 100, 100nsal — 71, 103, 113, 134, 158salitre — 71, 148, 157Salomão (Salomom) — 283 Sam Agi [de] Palimbão (Palimbaao, Palim‑bãao) — 240, 241Sam Agy [de] Singapura (Simgapura, Symga pura) — 240, 241, 242Sam Agy [de] Tanjompura (Tamjompura) — 241 Sam Agy Jaya Baya — 239 Sam Ajy Dandan Gimdoz — 240 Sam Ajy Jaya Caton — 240 Sam Ajy Jaya Taton — 240 Samarcanda (Çamarcante) — 72, 72nSamatra (Çamatora, Çamotora, Çomotora) — 93n, 133n, 134n, 140n, 142n, 143n, 146n, 163n, 164, 164n, 165n, 166, 166n, 167n, 168n, 169n, 170, 172n, 174n, 175n, 176n, 177n, 178n, 179, 179n, 181n, 182, 183n, 184n, 185, 185n, 186n, 187n, 188n, 190n, 193, 194, 195, 236, 238n, 241n, 247n, 253n, 257n, 264, 265n, 266n, 272Samg Briamg — 191 Samibelegam — 137nSamorim (Çamorim) — 118, 118nSamper — 233, 235Sampit — 235nSamudra‑Pasai — 169nSana’a — 64n, 67nsândalo — 66, 66n, 91, 124, 129, 141, 144, 152, 155, 183, 220, 221, 248, 272, 273, 283sang aji — 240nSangeang — 219n, 220nSangeang Api — 220nSangizara — 95, 95nsangue‑de‑dragão — 66, 66nSanto Sepulcro (Samcto Sepullcro, Samto Sepulcro) — 59, 60São Paulo — 246nsapão — 91nSaparua — 225nSape (Çapee) — 163n, 237nSaragoça — 52nSatgaong — 128nSumaOriental-PDF_imac.indd 331 12/5/17 2:02 PM
  • 332Satui — 235nSaveh — 96nsável — 165, 175, 265Saydapur — 96nSaylac — 56n Sdach Kan — 145nSebangka — 165, 176Seda — 57, 63n, 66, 71, 79, 91, 92, 118, 127, 129, 148, 148n, 150, 151, 156, 157, 157n, 158, 158n, 160, 161n, 165, 167, 168, 169, 170, 171, 184, 185, 186, 187, 223n, 272, 273, 278Sekampung — 164n, 179n, 182nSelajar — 234nSelamon — 22nSelangor — 140n, 250n, 253n, 263nselates — 165n, 175nSelim I — 78nSemarang — 189n, 206nSeram / Serang — 224n, 225n, 228nSerapung — 165n, 176nseri nara diraja — 259n, 260n, 261n, 280n, 285nSevilha — 151 Seydebiaa — 83, 83nShaanxi — 157nShaibani — 77nShaoxing — 158nShatt al’Arab — 80nShiraz — 72n, 76nShirvan — 76n Shush — 73nSiak — 164n, 176n, 180n, 257n, 265nsiames / siameses — 139, 139n, 141, 142, 144, 169, 171, 213, 236, 251, 257, 259, 271Siao — 233nSião (Siam, Siãm, Siãoo, Siiam, Siom, Syam, Syão, Syaõo) — 67, 79, 91, 92, 123, 133, 135, 137, 138, 139, 140, 141, 142, 143, 144, 145, 146, 147, 152, 153, 155, 168, 173, 181, 219, 236, 241, 244, 246, 247, 250, 253, 254, 255, 257, 264, 265, 266, 274, 282, 284, Sibila de Cuma — 186, 186nSid Abra — 83nSidayu, 189n, 210n, 212n, 282nSikandar Lodi — 86n, 128nsinabafo — 129, 129n, 141, 144, 147, 162, 192, 221, 223Sinai (Synaa) — 56, 57n, 64nSinde / Sindh — 50n, 87nSingapura (Siimgapura, Siingapura, Simga‑pura, Symgapura, Syngapura) — 129n, 155, 155n, 163n, 165n, 173n, 176n, 181n, 232, 234, 234n, 240, 241, 241n, 242, 244, 248, 250, 255n, 256, 264, 264n, 271Singkep — 179nSingkil — 164n, 185n, 186nsinhavá — 162, 162n, 192, 221, 228Sinnah — 64nsinos — 199, 202, 202nSíria (Siria, Suria, Syria) — 59, 78, 78n, 79, 80Socotorá — 58n, 66nSofala — 56nSofi (Çofii, Sofii, Sofy, Sophy, Sufi) — 50, 50n, 59, 73n, 74, 76Solapur (Solapor) — 96, 96nsolas — 92 Soldão — 50, 56, 56n, 59, 60, 61, 64, 65, 78Solor (Çolor, Soloro) — 148, 163, 163n, 219, 219n, 220, 220n, 221Somnath — 83nSonda Menor — 219nsorgo — 60nSrey Sokonthorbat — 145nSri Baduga Maharaja — 189n Sri Lanka — 123nSri Maharajah — 261nSuakin (Suaquém) — 57nsudras — 110nSuez — 57n, 58, 61, 61n, 68, 101Sukhothai — 143nSulawesi — 228n, 233n, 236nSulu — 233nsumbaia — 196, 196n, 256, 266Sumbawa — 163n, 219n, 237nSunda — 93n, 142n, 183n, 189n, 190n, 191nsunitas — 71n, 76nSumaOriental-PDF_imac.indd 332 12/5/17 2:02 PM
  • 333Surabaya — 189, 215aSurate — 83n, 87n, 88n, 89nSurya Diraja — 163nSusan — 73, 73nSyamsu Shah — 167nTabriz, (Tavrini, Tavris) — 72, 72n, 73, 73n, 76n, 78, 78ntael — 130, 130n, 135, 156, 203, 277, 278tafecira — 202ntafetá — 148, 148n, 157taforio — 202, 202nTahunan — 207nTailândia — 138n 139n, 143ntaissu — 154nTalaja (Tata Telaya) — 87, 87nTalingano / Talingo (Talimgano, Talimgo, Talimguo, Talinguo) — 50, 107, 107n, 108, 116, 140, 143, 251, 266Tamão — 154ntâmaras — 57, 60, 61, 63, 92tamarindos — 122, 112n, 191, 202, 213, 219, 220Tamgaram — 189Tamiano — 169tampoy — 165, 165n, 177Tana Malaio / Tanah Melayu (Tana Malayo) — 179, 179n, 181, 182Tana Muãrolu — 225 Tanah Merah — 262nTanary — 274 tanga — 71, 71n, 130, 130n, 131, 131n, 168Tangerang (Tamgara, Tamgaram) — 189, 189n, 193, 193nTanimbar — 224nTanintharyi — 139nTaniwel — 225nTanjompura / Tanjungpura (Tamjompura, Tanjonpura) — 180, 180n, 194, 207, 208, 231, 232, 234, 234n, 235, 241, 241n, 267, 271, 283, 284 Tanor / Tanur — 115, 115n, 116, 116n, 118, 118ntapa — 198, 198ntapetes — 63, 79Tarmapatam — 116, 117Tartária (Tartaria) — 158, 158n, 159tártaros — 158, 159Tebas — 58, 58nteca — 172n, 205nTedunan — 189n, 207nTegal — 189n, 205nTelingana — 96n, 107nTenasserim (Tenaçari, Tenaçarii, Tenaçary, Teneçary) — 139, 139n, 140, 142, 143, 167, 274nTenavarque — 124 Teregampari — 273 Ternate (Tarnate) — 226, 226n, 227, 227n, 228, 229, 230, 231, 232, 233Terra Santa — 54n, 59n, 60nTerrão (Terrãao, Terrãm, Terrãoo) — 50, 139, 139n, 140, 140n, 143, 167Teteguall — 189, 205, 206Thalaserry — 116nTharangambadi — 273nThatta — 87nThirumullaisaval — 273nThiruvananthapuram — 120nThulandang — 233ntical — 135, 135nTico (Tiqo, Tiquo) — 164, 184, 186, 187Tidanã (Tidonã, Tidonam) — 206, 207, 208Tidore (Tidora) — 226, 226n, 227, 227n, 229, 229n, 230Tidumar — 189 Tiga (Tigua) — 165, 165nTigre (Tigris) — 53, 53n, 64n, 80, 80n, 81ntigres — 73, 244, 245, 262Tiku — 164n, 184ntima — 135, 135n, 262, 262n, 263, 273, 273n, 276Timmaya / Timoja — 104, 104nTimor (Timõr, Tymor, Tymõr) — 93, 93n, 163, 163n, 220, 220n, 221, 221n, 224n, 271, 283, 283ntincal — 92, 92ntiricandis — 192, 192nTiricori — 117 Tirimalacha — 273 Toba — 188nSumaOriental-PDF_imac.indd 333 12/5/17 2:02 PM
  • 334toledão — 133, 133n, 137Tolo — 233ntom — 136, 136nTomé, são (Sam Thome) — 109, 109n, 114, 114n Tomiano — 172, 271tone — 115, 115n, 121tonél — 155, 155n, 190, 191, 209Tongkall (Tumcall, Tuncall, Tucall, Tuquall) — 164n, 178, 178n, 266, 266ntopázios — 202 Toro — 57, 57n, 58, 62, 67, 68, 69, 271Trang — 139n, 140nTransjordânia — 59nTravancor (Travamcor, Travanqor) — 115, 115n, 120, 120nTrengganu — 140n, 143nTricodi (Tiricorii) — 116, 116ntrigo — 60, 62, 66, 71, 74, 81, 83, 91, 92, 98, 126, 156, 159, 160Trimtall — 164, 164nTripura (Tipura) — 128, 128ntrogloditas — 52 Trowulan — 196n, 211nTuam Acem — 258, 260, 263Tuam Adut Alill — 261, 261nTuam Amet — 261, 261nTuam Bajy — 163 Tuam Colaxcar — 245, 282Tuam Mafamut (Tuã Mafamut) — 259, 280Tuam Porpate — 258 Tuam Racan — 260, 261nTuam Zedii Amet — 260, 261nTuan Ali (Tuã Aly) — 213n, 256n, 259n, 260n, 261, 261n, 280n, 285nTuan Bandan (Tuam Bamdã) — 259n, 280Tuan Hasan — 258n, 259n, 261nTuan Husain — 254n, 259nTuan Kelaskar — 245nTuan Mutahir — 213n, 214n, 244n, 254n, 256n, 259n, 261n, 280n Tuan Perpatih Putih — 258nTuan Tahir — 261nTuan Zeinal (Tuam Zeynar) — 260, 261nTuban (Tobam, Tubã, Tubam, Tubão) — 183, 183n, 189, 189n, 197, 197n, 200, 201, 201n, 207, 209n, 210, 210n, 211, 212, 282Tufar — 118 Tulung Bawang (Tulimbavã, Tulimbavam, Tulumbavã, Tulumbavam) — 164, 164n, 179, 179n, 183, 183n, 193tumungão — 163, 163n, 258, 259, 261, 267, 272, 274, 282Tun Doyam — 163n Tun Men — 154nTun Senajah — 256n tundaia — 193, 193n, 203, 275, 277, 278tupitis — 202, 202n, 223Turan Shah IV — 69nturcomanos — 72, 72n, 83, 94, 271, 272turcos — 60n, 72n, 95, 98, 101, 126, 169, 224, 271, 272turias — 192, 192nTurimalapatam — 273 Turquesas — 79, 124, 124nTurquia — 78, 79, 80n, 96turquimães — 72, 72n, 83, 94, 271turucol — 110, 110n, 113tutia — 71, 71n, 79Uçem Xaa — 132 Udama — 234 Udupi — 104nUdipiram — 104, 105uigures — 159nUpale — 100 uparat — 143nUpe — 205, 205n, 208, 208n, 261, 261n, 281, 282Urung — 225 Utimuti Raja — 258, 258n, 260, 280n, 281, 281n, 282Uzbequistão — 72nVaghotan — 100nVaipim (Vaipĩ ) — 119, 119nVáixias — 110nValentim Fernandes — 51n, 74n, 151n, 186nVamistra — 82 Varam — 225 SumaOriental-PDF_imac.indd 334 12/5/17 2:02 PM
  • 335Varodrra — 83Vasai — 87nVasco da Gama — 56n, 60nVasti — 73Veliancode — 116nVeneza — 62, 231, 272, 287Vengurla — 100nVermelhão — 91, 134, 136, 141, 278Vermelho — 55n, 57n, 58n, 63n, 64n, 71nVernam — 253, 263vespiça — 124, 124nviça — 135, 136vidros — 63, 91, 272Vietname — 146n, 147nVijayanagara (Bizanaguar, Biznagar) — 70n, 106, 106n, 107, 107nvinagre — 129, 279Vindhya — 85n, 86nvinho — 74, 78, 111, 113, 141n, 145, 150, 159, 160, 165, 167, 172, 173, 174, 175, 176, 177, 178, 180, 182, 192, 197, 198, 202, 211, 228, 235, 250, 268, 270, 279vintém — 84, 84nVisapor — 96Vixnu — 88n, 106n, 109nVizhinjam — 116nVizir — 84, 84n, 191nVul / Vull — 225, 225nVya Chacotay — 143, 143n Vypin — 119nWai — 96nWanshan — 155nWaru — 225n Wayang — 199nWe — 166nWelligama — 124nWetar — 219, 221xabandar — 157, 157n, 158, 162, 267, 272, 274, 275Xael / Xaer (Xãr) — 57, 57nXafi’i — 75n xafii / xafiitas — 75, 75n Xamcy, 157Xãnbu, 157nXaquendar — 128Xaquendar Xa — 83, 83nXaquendar Xa — 244, 245, 246, 247, 248, 249, 250xás — 157, 157n, 158Xec Barquate — 60 Xeque Ismael (Xeq’Esmaell, Xequ’Esmaell, Xeque Esmaell, Xeque Ismaell) — 50, 50n, 59, 60, 68, 73, 75, 76, 76n, 77 xerafim — 71, 71n, 275Xerxes I (Xersses) — 74, 74nXi’na — 157nXiamen — 153nxiismo / xiitas — 67n, 68n, 69, 69n, 75n, 76, 76n, 78nXiracy — 72, 72nXiras / Xiraz — 72, 72n, 74, 74n, 76, 76n, 77, 79, 79n, 94Xiva — 88n, 109nXoii — 137 Ydamca — 72Yangcheng — 158nYangon — 133nYdumea — 59 Yongle — 249nYrcam — 174Yta — 225, 225nYusuf Adil Khan — 96nZabid — 64nZagros — 73n Zainal ‘Abidin — 170nZargun Shahr — 82nZebittaees — 64Zeila (Zeilla) — 56, 56n, 60, 63, 65, 68, 91Zheng He — 249nZhengde — 150nZhujiang — 154n, 155nZufar — 118nSumaOriental-PDF_imac.indd 335 12/5/17 2:02 PM
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