, , O SEMINARIO DE S. JOSE NA FORMAÇÃO DAS GENTES DE MACAU Macau, Março de ZOl 9 Associação dos Antigos Alunos de Seminário de São José de Macau
FICHA TÉCNICA TÍTULO: O SEMINÁRIO DE S. JOSÉ NA FORMAÇÃO DAS GENTES DE MACAU EDITOR: ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS DE SEMINÁRIO DE SÃO JOSÉ DE MACAU TEXTO: JOÃO GUEDES CAPA: FACHADA DA IGREJA DO SEMINÁRIO (FOTO DE CARLOS A. DIAS) FOTOGRAFIAS: Feitas ou recolhidas por CARLOS A. DIAS à excepção das que tiverem o autor identificado COORDENAÇÃO EDITORIAL: RUFINO RAMOS GRAFIA:CMYK D&P IMPRESSÃO: CMYK D&P TIRAGEM: 300 exemplares APOIO: FUNDAÇÃO MACAU FEITO em Março de 2019. ISBN 978-99981-932-0-8 ÍNDICE , PREFACIO . .. .. . ... ... ... ... ... .. . ... .. . ... ... ... .. . ... .. . .. . .. . . . . .. . .. . ... ... ... . . . ... .. . . .. . 3 A HISTÓRIA DO SEMINÁRIO, por João Guedes Capítulo 1 -FUNDAÇÃO Capítulo 2 -A IGREJA DE S. JOSÉ Capítulo 3 -O SEMINÁRIO AO ABANDONO Capítulo 4 -OS LAZARISTAS Capítulo 5 -O LIBERALISMO Capítulo 6 -DE NOVO A DECADÊNCIA 5 15 23 29 35 49 Capítulo 7 -A ILHA VERDE ... ...................................... 55 Capítulo 8 -UM FUGAZ REGRESSO DOS JESUÍTAS.................................. 61 Capítulo 9 -SECULARIZAÇÃO DO SEMINÁRIO......................................... 73 Capítulo 10 -O SEMINÁRIO E A MÚSICA ......................................... 83 Capítulo 11-A REVOLUÇÃO CULTURAL E O FIM DO EXTERNATO... 89 Capítulo 12 -ALUNOS NOTÁVEIS DO SÉCULO XX . . . ................................ 95
TESTEMUNHOS .............................................................................. 127 IN ILLO TEMPORE . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . . . .. .. . . . . . .. . . . . .. . . . ... . . . . . . . . . . .. .. . . .. . . . . . . .. . . . 157 ASSOCIAÇÃO DE ANTIGOS ALUNOS ............................................... 209 LEITURAS ....................................................................................... 233 LISTA DE ALUNOS ........................................................................ ... 257 PREFÁCIO Duas ordens de considerações nos moveram a produzir este modesto livro: Primeiro, a necessidade premente de se efectuar -sob pena de se perder irremediavelmente -o registo não só textual como pictográfico do velho Seminário de S. José, dos docentes que por lá passaram e, especialmente, dos muitos rapazes que aí foram formados para a vida e para servirem Macau. Segundo, para nos recordarmos daquelas caras que povoam a memória de muitos, sejam elas de antigos colegas do Seminário, já amadurecidos, ou dos parentes seus que aí receberam uma sólida instrução para poderem vencer na vida. A tarefa não foi fácil, à partida, mas temos de agradecer ao investigador João Guedes que reuniu muita documentação esparsa num texto consolidado, complementado ainda por testemunhos depostos por alguns antigos colegas. Por nossa vontade teríamos apresentado mais alguns mas ... quer por humildade quer por retraimento prevaleceu a falta de resposta. Foi também difícil reunir fotografias antigas, mas mais ainda a identificação dos nomes próprios destoutros colegas, pois deles apenas nos resta uma ténue recordação ou ficaram apenas as alcunhas 3
com que os tratámos, durante aqueles anos! A ajuda do Eduardo Tavares, Carlos Dias, Manuel Basílio, José Cabral Jr., Henrique Manhão Jr., Sebastião da Rosa, Alberto Botelho dos Santos, José Carion Jr. etc. foi útil e valiosa. Mesmo assim, não nos foi possível recordar todos os nomes, pelo que pedimos as devidas desculpas. Temos a agradecer ainda a ajuda dos colegas que foram às arcas buscar fotos bem guardadas que serviram para ilustrar aqueles belos tempos, mas queria referir, em especial, a do Carlos António Dias cujas fotos constituem o principal acervo deste livro. Além do mais, ele ainda captou para nós algumas imagens adicionais do actual Seminário que foram aproveitadas para o livro. Ainda ao Manuel Basílio que conseguiu fornecer-nos uma documentação valiosa sobre a vida académica do Seminário, da qual extraímos a listagem de nomes dos antigos alunos relativos aos anos de 1955 a 1964. Finalmente, temos a agradecer à Fundação Macau por ter generosamente acedido financiar esta iniciativa o que apenas prestigia a instituição pelo apoio na divulgação desta peça do legado, com uma carga cultural de três séculos de História -o Seminário de São José de Macau e as gentes que nele labutaram -pois a beleza de um bem patrimonial não reside apenas no seu valor venal mas também na Alma que intrinsecamente nela reside. Macau, Janeiro de 2019. Associação dos Antigos Alunos do Seminário de S. José de Macau 4 CAPÍTULOl FUNDAÇÃO Em Macau no princípio eram os jesuítas! Esta uma afirmação unanimemente aceite pelos estudiosos da história da colónia portuguesa da China que reconhecem nos elementos da Companhia de Jesus os obreiros dos alicerces da cidade na verdadeira acepção do termo. E no princípio avulta, naturalmente a figura de D. Melchior Carneiro, contemporâneo ainda dos fundadores da Companhia, que lançou as bases da organização política e administrativa de Macau através do estabelecimento do Leal Senado, o município local, a Santa Casa da Misericórdia para a assistência social e o Hospital de S. Rafael para a saúde. O objectivo de tudo isso passava pela transformação de Macau numa base solidamente estruturada destinada a constituir-se como ponta de lança para a evangelização do Japão e da China. Depois de O. Melchior Carneiro, seria Alexandre Valignano (1573) a organizar a Companhia nomeadamente através da criação do Colégio de S. Paulo para a formação de missionários e aprendizagem das línguas chinesa e japonesa, bem como um sistema de recolha de fundos junto dos comerciantes de Macau capaz de suportar as avultadas despesas que tal empresa comportava. O plano bem organizado surtiu efeito e em breve o número de missionários que se formavam em Macau, ou que pela cidade passavam rumo à China e ao Japão foi aumentando em número pelo que a 5
residência do colégio de S. Paulo se tornou pequena para tanta gente. Este aumento demográfico levaria gradualmente, em última instância, à construção de um novo e grandioso maciço semelhante ao que se constituíra em torno da Igreja da Madre de Deus e da Fortaleza do Monte, mas agora no local onde se erguera primeiro o convento de Santo Agostinho e a Igreja de S. Lourenço. Uma nova acrópole quase tão grandiosa como a anterior que ainda hoje é conhecida pelos chineses como Sam Pá Tchai, ou S. Paulo Menor. Tal projecto não poderia estar mais de acordo com as ambições visionárias dos jesuítas que pretendiam transformar Macau numa segunda capital católica no Extremo Oriente, tão ou mais imponente do que Goa. Recorde-se que a igreja de S. Lourenço, paredes meias com o seminário, tinha sido construída em 1560, enquanto o convento de Santo Agostinho que lhe fica fronteiro estaria concluído em finais de 1586. (1) A data exacta da fundação do Seminário ainda hoje é algo controversa, embora exista um documento assinado pelo procurador dos Jesuítas, Pe. Sequeira, datado de 23 de Fevereiro de 1728, anunciando que "por ordem do padre provincial João de Saá os padres de S. Paulo se passarão no dia 23 de Fevereiro de 1728 para a nova casa de S. José". Apesar da existência deste documento divulgado pelo historiador Pe. Benjamim Videira Pires há quem tenha dúvidas sobre a data de entrada em funcionamento da instituição como órgão lectivo. Isto tendo em conta que S. José podia ter começado por ser apenas residência dos jesuítas. Seja como for, certo é que se sabe que o Seminário já existia em 1749. O local onde foi construído era uma zona inculta conhecida pelo nome de "Monte do Mato Mofino" situando-se sobre uma antiga pedreira que ocupava toda a área circundante. Aliás, sobre a pedreira, o mesmo historiador diz que "de facto todo o actual seminário está construído sobre pedra viva, donde 6 até brota água. Entre o pavilhão oriental e a casa do falecido Sir Robert Ho Tung erguia-se uma pedreira enorme com um mirante em cima, que ainda aparece nas gravuras de inícios do século XIX. Hoje em grande parte essa pedreira foi destruída, mas os seus alicerces estão perfeitamente a descoberto na gruta de Nossa Senhora de Lurdes na cerca do Seminário e no jardim superior da referida casa de Sir Robert Ho Tung, hoje biblioteca chinesa(2). Nesse local existiam duas pequenas casas pertencentes a José Miguel, um rico comerciante católico de origem arménia ou grega que as deixou por herança aos Jesuítas. Dois anos depois dos padres de S. Paulo para ali se terem mudado, o superior da nova residência a que tinha sido dado o nome de S. José pediu ao Senado que a ela fosse anexada toda a área do Monte Mofino. A vereação do Senado analisou o pedido e acedeu, não sem antes ter imposto como condição que fosse levantado um muro a toda a volta do terreno e que o uso do terreno fosse exclusivo. O Senado impôs também que de modo algum se abrissem ali empreendimentos comerciais. Esta última exigência decorria do facto dos Jesuítas, e não só, se dedicarem também ao comércio, possuindo nomeadamente importantes interesses na área das sedas bem como nos produtos farmacêuticos. Em Macau existiam então várias pequenas farmácias pertencentes a padres jesuítas e frades de outras congregações que segundo relatos da época singravam particularmente bem do ponto de vista financeiro. Se as disposições contratuais impostas pelo Senado não fossem cumpridas a autorização de residência seria revogada. As imposições da Câmara foram cumpridas e mais, os padres limparam o terreno e utilizaram a rocha da pedreira para erguer o muro requerido. Cedo foi notada, no entanto, a necessidade de adquirir mais algumas casas vizinhas a fim de albergar o futuro Seminário. 7
Para esse efeito os Jesuítas compraram as casas que tinham pertencido a Tomé Pereira e Caetano Correia de Lacerda, dois comerciantes falecidos, conseguindo simultaneamente que lhe fosse cedido um pequeno terreno pertencente ao convento de Santo Agostinho. Conseguiram assim o necessário espaço, pedra, madeira e outros materiais para construírem o edifício que viria a chamar-se Seminário de S. José. Abóbada em cúpula da Igreja 8 No princípio, porém, tanto o seminário, como a igreja que sofreram as primeiras obras de ampliação entre 1746 e 1758, estavam longe da imponência que viriam a ter posteriormente. Para chegar aí a estrutura definitiva foi sendo construída e reconstruída, pode dizer-se ano a ano e de acordo por um lado com as disponibilidades financeiras da Companhia e por outro com a disponibilidade de mão-de-obra capaz para o efeito. Os primeiros anos de vida do Seminário de que foi reitor o Pe. Manuel Pinto, decorreram sob o signo da perseguição à igreja católica na China. A perseguição começou com o desencadear da chamada "questão dos ritos". Logo após a morte de Mateus Ricci em 1610, vários jesuítas, nomeadamente o seu sucessor no cargo de superior dos Jesuítas na China, começaram a questionar a sua metodologia conciliatória de aculturação. Estas dúvidas foram resolvidas em 1633, quando a Companhia deu razão ao método de Ricci. Porém, a controvérsia foi reanimada por outras ordens religiosas que começaram a sua actividade missionária na China, permitida porque os Papas Paulo V e Urbano VII acabaram com a exclusividade dos Jesuítas na evangelização do Império do Meio. Estas novas ordens religiosas, nomeadamente os dominicanos, acusavam os jesuítas de promover a idolatria e de desrespeitar o nome de Deus ao tolerarem os ritos chineses. A controvérsia, que foi crescendo de intensidade e envolvendo cada vez mais pessoas ao longo do tempo, centrou-se em torno de vários problemas nomeadamente a tradução do termo Deus para a língua chinesa: o uso de tabuletas com a inscrição jing tiãn, (que significa "adorar o Céu" ou "reverência 9
para o Céu") nas igrejas católicas chinesas; a participação dos católicos chineses nas cerimónias públicas oficiais em honra de Confúcio e ao Céu ( estas cerimónias eram obrigatórias para os mandarins e funcionários públicos); e finalmente a participação dos católicos chineses no culto dos antepassados, que incluía, entre outras coisas, a prática dos rituais do funeral, a realização regular de oferendas orações e inclinação de cabeça e o uso e veneração de tabuletas ancestrais com o nome do defunto e a inscrição shen wei, que significa literalmente "a sede do espírito". Este rito chinês fundamental é uma importante manifestação da piedade filial, que é uma das virtudes mais proeminentes do confucionismo. Em termos gerais, os jesuítas argumentaram que os ritos chineses eram apenas cerimónias sociais, políticas e civis, sem nenhuma intenção religiosa, enquanto os seus opositores, nomeadamente os dominicanos, defenderam que estas cerimónias tinham uma natureza religiosa e idólatra e, portanto, eram incompatíveis com o catolicismo. Não tardou muito para a controvérsia chegar a Roma e os vários decretos de diferentes papas sucederam-se e contradisseram-se uns aos outros. Em 1645, depois de ouvir os argumentos dos dominicanos, um decreto do Papa Inocêncio X declarava as cerimónias rituais confucianas (principalmente o culto dos antepassados) como supersticiosas e idólatras. Por seu turno em 1656, depois de ouvir os argumentos dos jesuítas em Roma e dando-lhes razão, um decreto do novo Papa Alexandre VII considerou as homenagens aos antepassados como hábitos e costumes chineses meramente civis. 10 Finalmente em 1669, o Papa Clemente IX voltou a condenar as práticas e argumentos dos jesuítas. Estas contradições entre as diferentes proclamações papais vieram a acentuar ainda mais os conflitos entre os missionários das diferentes ordens religiosas e nacionalidades que trabalhavam na China. O clima de guerrilha interna da Igreja que se acentuava acabaria por levantar receios levando o Imperador Kangxi (Hong Hei), que não compreendia como é que uma religião podia ser tão complicada e litigiosa, a emitir um decreto em 1717 que determinava a proibição da prática do cristianismo na China e a expulsão de todos os missionários. No entanto o decreto não foi posto imediatamente em execução, em parte porque Kangxi (Hong Hei) estava ainda à espera do novo legado papal, Mezzabarba, que foi enviado à China para notificar oficialmente o Imperador e a Igreja chinesa sobre a bula que declarava os ritos chineses heréticos. Mezzabarba chegou a Macau no dia 26 de Setembro de 1720. O bispo João de Casal "e os superiores das ordens religiosas em Macau acataram esta determinação, fazendo o seu juramento nas mãos de Mezzabarba, em Dezembro de 1720". Porém, em Pequim, o Imperador, depois de receber com muita cortesia Mezzabarba e não chegando a nenhum acordo, recusou mais uma vez aderir às exigências de Roma e decidiu em 1721 por fim e de uma vez por todas pôr termo à difusão do cristianismo, mandando executar o decreto de 1717 e decretando a proibição da actividade evangelizadora dos missionários europeus na China declarando que: "Após a leitura deste Decreto, apenas posso dizer que os europeus são de acanhada inteligência. Como é que podem eles falar dos princípios morais da China quando nada sabem dos costumes, livros ou língua Chinesa que os poderiam habilitar a entendê-los? Muito daquilo que dizem e 11
discutem faz rir uma pessoa. Hoje vi o legado pontifício e o decreto. Ele é realmente como um banzo budista ou taoista ignorante, ao passo que as superstições mencionadas são de religiões sem importância. Este modo de falar à toa não podia ser pior. Para o futuro não é permitido aos europeus pregar na China. Deve-lhes ser isto proibido para evitar desordens." A nova atitude imperial de dura hostilidade relativamente à Igreja Católica reflectiu-se imediatamente e particularmente no Seminário de S. José, onde seminaristas e professores "passaram a trajar à europeia a fim de iludir a perseguição dos mandarins", escrevia o reitor Manuel Pinto em 1732. Isto porque o longo braço da lei chinesa pesava também sobre Macau para onde tinham sido desterrados os dominicanos espanhóis D. Pedro Sanz (mais tarde beato e mártir), bem como os padres João da Cruz, Francisco Saenz, Eusébio Oscot e Manuel Teotónio juntamente com outros missionários oriundos de Cantão num total de 40. Mas os mandarins estenderam a perseguição à própria cidade de Macau proibindo que ali fossem recebidos os cristãos da China. Os que tal fizessem deveriam ser presos e remetidos aos mandarins. Por seu turno os missionários deveriam ser obrigados a regressar à Europa. Além disso foi ordenado o encerramento da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, que tinha sido construída em 1633 estando orientada para o culto privilegiado dos chineses (3). Para além disso as autoridades chinesas mandaram gravar estelas em pedra, colocando-as na zona do bazar e no edifício do Leal Senado com advertências contra o cristianismo e os missionários. A crise cresceu de tom gerando mesmo receios de que a China implementasse mais um dos habituais bloqueios à cidade cortando-lhe o fornecimento de víveres. Neste quadro foi proposto no Senado que se fizessem provimentos de arroz para resistir ao embargo isto porque a experiência tinha já demonstrado que "em tais ocasiões é o maior despique destes bárbaros 12 (tártaros) fechar por vingança as portas e proibir os mantimentos" (4). Encetadas as diligências para o efeito o Senado pediu ao provincial da China que concedesse licença aos padres do seminário de S. José para ali construírem um celeiro de arroz e assim o seminário, que ainda encetava os primeiros passos, se viu subitamente transformado de estabelecimento de ensino em celeiro da colónia. Apesar das crises e contrariedades, o Seminário, continuava a formar os sacerdotes destinados à evangelização da China e a crescer em prestígio. Todavia nuvens negras avizinhavam-se com as ameaças que pendiam sobre a existência da Companhia de Jesus. De facto, no dia 5 de Julho de 1762, chegava a Macau a ordem de expulsão dos Jesuítas dada pelo Marquês de Pombal. A ordem foi executada pelos soldados da guarnição local que cercaram todas as instalações pertencentes aos jesuítas prendendo-os. No seminário foram presos o reitor Luís Siqueira bem como todos os professores que ali ensinavam num total de dezasseis, dos quais oito portugueses, dois italianos e um chinês que seriam forçados a embarcar no dia 5 de Novembro do mesmo ano com destino à capital do reino para serem julgados e mais uma vez expulsos para fora de Portugal. Os colégios de S. Paulo e S. José privados dos seus professores ficaram abandonados tornando-se morada de ratos. (5) 13
Aspecto das Ruínas de S. Paulo na década de 1970 14 CAPÍTUL02 A IGREJA DE S. JOSÉ Para alguns S. José é a mais notável das igrejas antigas de Macau, se se exceptuarem as Ruínas de S. Paulo. A estela embutida na fachada do lado direito de quem olha para a porta, diz: "a primeira pedra deste templo dedicado a S. José foi lançada no Ano da Redenção de 1746 pelos Padres da Companhia de Jesus, que o acabaram de construir no ano de 1758". Desde então a Igreja terá sofrido alterações ainda que de pequena monta até à primeira intervenção de fundo em 1903. Neste restauro, feito pelo Padre Jesuíta António Maria Alves, foi modificado o estuque do revestimento interior e colocado no altar-mor o Coração de Jesus. Com ornamento em volta, o estilo passou de barroco a gótico e foram colocados nas paredes os painéis de Santo Inácio na gruta de Manresa e da morte de Xavier em Sanchoão e outros. Ao contrário do que tinha acontecido antes, o restauro de 1903 deteriorou-se bastante mais rapidamente o que levou o bispo D. João de Deus Ramalho, também jesuíta a tentar restituir o templo "ao antigo protótipo no ano de 1953". Porém se a intenção era meritória o resulto não foi feliz a avaliar pelos comentários deixados pelo Pe. Manuel Teixeira de que 15
"em 1953, houve a infeliz ideia de revestir a fachada de shangai plaster, de colocar uma lâmpada sobre a porta da entrada e persianas nas janelas do coro. Os altares laterais de teca foram substituídos por outros de marmorite e mármore: foram apeados dois painéis do alto dos altares e retirados os dois púlpitos". Mas o desejo de restituir o templo "ao antigo protótipo" do bispo, estendeu-se ao próprio seminário como a renovação total do "Salão de Actos" no mesmo ano, atestado noutra lápide que informa que "este velho compartimento do Seminário de S. José foi outrora construído pela Companhia de Jesus: mas havendo sido arruinado por todos os lados pelos estragos do tempo, foi substituído por um novo pelo Reverendíssimo Senhor D. João de Deus Ramalho, que colocou aqui esta pedra em 15 de Agosto de 1953" .De referir que a grande escadaria em granito que dá acesso à igreja a partir da Rua do Seminário, foi igualmente restaurada no mesmo ano. No ano seguinte (1954) foram construídos também dois pavilhões de arquitectura moderna destoantes da traça geral de todo o conjunto. No primeiro para servir, no piso superior, de sala de estudo dos seminaristas e, no rés-do-chão, para ginásio e teatro. O edifício onde, entre 1931 e 1938, havia funcionado o Colégio de S. José para alunos externos chineses deu lugar a um pavilhão com cave e três andares que albergou o externato até 1968, servindo o 3° andar para residência do clero. Para construção desses dois edifícios foi demolido o velho pequeno teatro, considerado por alguns, uma relíquia da arquitectura portuguesa. Mais tarde, em 1958, foi reconstruído outro edifício, na Horta Menor com rés-do-chão e dois andares utilizados para dormitório dos seminaristas. Neste bloco funciona actualmente a Faculdade de Estudos Religiosos da Universidade de S. José. No seu livro "A Urbanização e a Arquitectura dos Portugueses em Macau, 1557-1911 ", Pedro Dias inclui uma descrição da Igreja que vale a pena transcrever. 16 O interior da Igreja com vista do seu altar-mor 17
"A mais notável das igrejas antigas de Macau, exceptuando a que é conhecida como de São Paulo, é a do Seminário de São José. As obras do conjunto de edifícios começaram em 1746 e, no fundamental, estavam concluídas em 1758. Para tal foi necessário fazer um grande aterro no local, cortando a rocha. As paredes da igreja começaram a ser erguidas no dia 1 de Agosto de 1751, ficando prontas, juntamente com a sacristia, escada para o camarim e o corredor, em Setembro do ano seguinte. A porta principal e a escada foram iniciadas em Janeiro de 1757. Mas a origem da igreja é anterior. Os padres da Companhia de Jesus instalaram na Residência de São José em 1728, que logo em 1732 se passou a chamar seminário por desempenhar essas funções. Em 1784 já tinha sido tomada a decisão de erguer um novo edifício. Finalmente, em 1856 a instituição foi transformada em seminário diocesano. A igreja teve duas grandes campanhas de obras já no século XX, uma em 1931 e outra em 1953, e se a fachada está um pouco descaracterizada em relação ao que era no final de Setecentos, já o interior é o do projecto primitivo, amplo, com uma grande cúpula sobre o transepto. A frontaria é um dos mais belos exemplares barrocos de toda a arquitectura portuguesa de além-mar. É fruto de uma concepção erudita e possui um movimento fora do comum, com pilastras de grande porte que fazem parecer que a base nem é plana. Tem cinco corpos lidos horizontalmente, correspondendo os dos extremos às torres sineiras do terceiro registo em altura e o central ao do portal nobre. O corpo médio tem três grandes janelas de sacada, colocadas no enfiamento das portas. Ao alto, entre as torres, foi construído um frontão mistilíneo, onde colocaram o símbolo da Companhia de Jesus. Do lado direito ficam as zonas habitacionais e as escolas, que nos parecem não terem sido alvo de grandes alterações. 18 As colunas torsas que suportam o coro A planta da igreja é em cruz grega, centrada, dominada pelo amplo espaço coroado pela cúpula de caixotões. A nave axial, com vinte e dois metros de comprimento, é paralela, com a mesma área na secção da entrada e na cabeceira, posto que o altar-mor e o coro-alto possam dificultar essa constatação. Os braços transversais são mais pequenos, com menos três metros. 19
Outro aspecto do interior da Igreja com vista do coro e órgão de tubos, oferecido por um antigo aluno. A cúpula tem treze metros de diâmetro e ergue-se sobre pendentes, iluminando o interior, já que as duas primeiras e mais largas fiadas dos caixotões são abertas, sendo cega apenas a central. No entanto, não possui o tradicional lanternim, que era comum nas construções deste tipo. A cobertura dos quatro braços é feita por secções rectas de abobadamento de meio canhão, mas a altura a que se elevam os pilares de 20 ângulo e, consequentemente, as paredes laterais, não permite que a volta perfeita se complete, tornando mais leve a composição. É um dispositivo que, juntamente com todo o desenho da planta, nos obriga a pensar que foi projectado por arquitecto italiano de primeira linha, já que em Portugal não encontramos nada de parecido nesta época. Os alçados interiores são cortados a meio, permitindo a sobreposição das ordens clássicas, embora, também aqui, interpretadas com grande liberdade. Os elementos menos canónicos, menos apegados à estética europeia, são os decorativos, como o traçado dos pilares de ângulos, os capitéis, jónicos e coríntios, sobrepostos, as cimalhas, e a generalidade das molduras, que não são muito diferentes das que encontramos noutras igrejas vizinhas. É provável que um projecto português ou italiano tenha sido aqui executado por um excelente mestre-de-obras, que também adaptou as directivas da decoração, pois teve que empregar mão-de-obra chinesa. É bem possível que muita desta decoração, sobretudo a de estuque, seja fruto da reforma feita em 1903. As colunas torsas que suportam o coro-alto foram colocadas em 1865, e parece terem sido trazidas da desafecta Igreja de São Francisco. Os retábulos, que imitam os da época, o final do século XVIII, são obras recentes". 21
22 O projecto da renovação da Igreja do Seminário conduzido e financiado pelo Instituto Cultural de Macau, mereceu um Prémio da UNESCO em 2001 CAPÍTUL03 O SEMINÁRIO AO ABANDONO Com a expulsão dos Jesuítas a crise do ensino em Macau tornou-se evidente, mas não se estendia apenas a ela. Outros sectores conheciam também a adversidade dos tempos. De facto, as instituições da Igreja e do Estado arrastavam-se acompanhando a crise económica e financeira em que o Território se encontrava mergulhado. A penúria era de tal ordem que quando da chegada a Macau em 23 de Agosto de 1774 de D. Alexandre Pedrosa Guimarães, este bispo teve de ir residir para o Seminário de S. José por o Paço se encontrar inabitável. Mas mesmo o Seminário estava mais ameaçado do que nunca. É que por falta de dinheiro a Diocese tinha decidido vender o quintal da instituição. Valeu o facto de Goa ter decidido não se desfazer da propriedade enquanto o prelado nela residisse. Apesar de estar melhor acomodado em S. José do que no Paço, certo é que D. Alexandre, mesmo assim se queixava amargamente ao Leal Senado de se encontrar "muito mal acomodado no arruinado Colégio de S. José com bastante incómodo para ambas as partes". Porém D. Alexandre da Silva Pedrosa Guimarães não estava em Macau para contribuir para solucionar a crise. Bem pelo contrário, nutrindo poucas simpatias pelos jesuítas não poupou a sua obra cultural, publicando, pouco depois de chegar um édito no qual afirmava constar que algumas pessoas conservavam nas suas livrarias autores jesuítas proibidos por lei pelo que exigia a entrega desses livros 23
num prazo de oito dias sob pena de procedimento contra os transgressores. O prelado chegou a levar mesmo até às mãos do Imperador Qianlong (Kin Long), o resumo dos supostos malefícios dos jesuítas. Mas não eram apenas eles os alvos preferenciais de D. Alexandre. Em 1778, pediu ao Governo para expulsar também de Macau os padres franceses mas a pretensão não foi atendida. A animosidade contra os franceses, aliás, ditaria o fim do seu consulado. De facto, o prelado imiscuiu-se no que era direito exclusivo da diocese de Nanquim ao nomear um regente para a diocese de Pequim que tinha ficado vaga. A "Congregação da Propagação da Fé", dominada pelos interesses franceses, rejeitou a decisão de D. Alexandre optando pela nomeação de outro regente. Mas não se ficou por aí! Endereçou uma carta ao Papa denunciando a atitude do Bispo de Macau. O Papa Pio VI, por seu turno, através do breve Afferimos Regiae enviada à Rainha de Portugal D. Maria I censurava asperamente D. Alexandre por alegadamente ter exorbitado os seus poderes em tão momentoso assunto. A rainha responde rapidamente manifestando-se sentida: "me magoou em extremo o espírito, pela viva representação que Sua Santidade fazia do miserável estado de perturbação e desordem a que se acham reduzidas presentemente as igrejas da China do meu real padroado, pela ambição e temeridade do actual bispo de Macau D. Alexandre da Silva Pedrosa Guimarães. Certa informação e notícia que eu já tinha antes de receber o breve de V. S. Dos irregulares e despóticos procedimentos daquele bispo me havia já obrigado, segundo o ditame da minha consciência, a mandá-lo vir para este reino". 24 A Rainha na carta que dirige a D. Alexandre, porém, num discurso bastante diferente, manifesta desgosto, mas aduz outras razões: "Sendo tantos, tão diversos e tão complicados os negócios que se têm agitado nessa conquista depois que chegaste a ela, encarregado do ministério episcopal que vos foi conferido para regeres como devias a Igreja de Deus em paz e quietação segundo as santas doutrinas do evangelho: e não obstante as contas que tendes dado em diversas relações dos referidos negócios, exigindo a gravidade deles de mais exactas circunstâncias e individuais informações que nem se vos podem pedir, nem certamente vós podereis dar na grande distância em que vos achais: e sendo por estes motivos indispensavelmente necessário ouvir-vos pessoalmente: vos ordeno que logo que receberes esta vos embarqueis infalivelmente em o primeiro navio que sair desse porto para esta capital ou para Goa, a fim de passares dali a este Reino". Pedra da fundação da Igreja 25
Conhecida a decisão, o Leal Senado de Macau ainda fez uma tentativa para sustar a ordem dirigindo uma representação à Rainha pedindo para que o Bispo ficasse, tanto mais que acumulava com a prelatura o cargo de Governador. A rainha porém não atendeu o pedido e D. Alexandre que ao longo de sete anos travou do interior das salas arruinadas do Seminário uma guerra contra sombras e fantasmas, regressou a Portugal. Em 21 de Novembro de 1782, D. Alexandre comunica ter chegado a Lisboa há 5 meses e não ter podido ainda beijar a mão da Rainha, concluindo daí que está mal-visto na corte, "mas como ninguém deve ser condenado sem ser ouvido" pede que se lhe apresentem as culpas para se defender. Porém, do Paço ninguém lhe responde e é então que redige um relatório sobre os serviços prestados à diocese de Macau em que justifica afirmando que: "defendeu as regalias do Padroado contra a "Propagação" (Congregação Para a Propagação da Fé) a qual pretendeu unir o domínio dos bens vagos dos padres jesuítas à Sé apostólica. Mandou lajear a capela-mor da Sé, desterrar dos altares das igrejas as imagens do diabo, cavalos, cães, cobras, caranguejos serpentes que são objecto de idolatria entre os "chinas". Proibiu beber chá e mascar betel nas igrejas onde se lançavam escarros. Reservou a si a absolvição das falsidades, injúrias e perjúrios que, diz, serem vícios de toda a Ásia. Mandou traçar um círculo em volta dos confessionários, porque as mulheres se juntavam aos montões, ouviam os pecados e revelavam-nos. Proibiu enviar para Goa as intenções de missas pois se praticavam simonias por se dizerem por menos, ou por outros fins nas pretensões dos regulares dependentes dos seus prelados de Goa. Para evitar abusos mandou fechar as igrejas às Avé Marias na Quinta Feira Santa proibindo que nesse dia se expusessem no altar uma mesa da Ceia do Senhor com figuras de vulto ordinário, pão, vinho e frutas. 26 Ordenou que o Santíssimo fosse colocado em cofres e não patente como então se fazia e que as mulheres não fossem à noite ao sepulcro preto misturadas com os homens". Castigou os raptores de donzelas com pretexto de casamento, carregou ele próprio o andor do Senhor dos Passos, porque os moradores fugiam muitas vezes de o fazer e deixou avultada soma para várias obras de beneficência e apetrechamento das igrejas. Apesar deste relatório exaustivo, D. Alexandre não conseguiu, mesmo assim, obter resposta da rainha acabando por apresentar a sua renúncia, que seria aceite pouco antes de falecer em 1789. No que respeita à educação, o bispo deixou a Diocese mais ou menos no estado em que a tinha encontrado, ou seja, sem capacidade para manter seriamente em funções o Seminário. Aliás ele próprio o reconhece numa pastoral datada de Janeiro de 1777 (6) na qual exortava os padres ao estudo da teologia e por não haver mestres capazes na sua diocese, pedia ao dominicano espanhol Pe. Frei José Bandeyque para reger o curso teológico a expensas do próprio prelado. A situação não poderia ser pior. Mas a conjuntura complicava-se ainda mais porque logo no ano seguinte o Leal Senado pedia ao governador de Goa, a quem Macau se encontrava submetido administrativamente, que solicitasse a Lisboa a criação de cinco escolas "de ler e escrever, de gramática latina, de organização, moral e teologia, podendo de qualquer dos conventos daquela cidade nomear-se professores hábeis para o ensino". A petição tal como outras anteriores voltou a cair em ouvidos moucos e a situação do Seminário manteve-se pelos 15 anos seguintes na "mais apagada e vil tristeza até à chegada dos lazaristas". 27
D.O.M. Decima Octobrisannia Natiuitate D. N.IESU Christi 1746 S. Francisco Borgia Soe. IESU Sacra dies Remanam Sedem tenente Bened. XIV Sub auspiciis Potentissimi Lusitanorum Regis D. D. loannis V Lapis iste S. losepho dicatae Ecclesiae primum fundamen Strabilecaementum Ab Excel. et Rmo D. Fr. Hilario a S. Rosa Macaensi Episc. Est Sacratus Opus incaerpit P. Ludovicus de Sequeyra VProvinciae Sinensis S.I.VProvincialis Direxit Frater Franciscus Folleri ejusdem Soe. IESU. Sinense tenebat lmperium Kien Lumex Tartara família lmperator quartus Ejusque imperii currebat anni undecimi Octavae Lunae Vigessima Sexta dies. "A Deus Ôptimo e Máximo No décimo dia de Outubro do ano do Nascimento de N.S. Jesus Cristo de 1746, dedicado a S. Francisco de Borja, S. L ocupando a Cátedra de Roma Bento XIV, sob os auspícios do Potentíssimo Rei dos Lusitanos, Senhor D. João V. Esta lápide, primeiro fundamento estável de granito da Igreja dedicada a S. José, foi sagrada pelo Exmº e Revmº Frei Hilário de Santa Rosa, bispo de Macau. Iniciou a obra o Pe. Ludovico de Sequeyra, Vice-Provincial da Vice-Província da China da Sociedade de Jesus. Dirigia o irmão Francisco Folleri a mesma Sociedade de Jesus. Imperava no Império chinês Qianlong (Kin Long) Quarto Imperador da Dinastia Tártara. Ocorria o vigésimo sexto dia da Oitava Lua do décimo primeiro do seu império. 11 -Tradução dos dizeres na placa de bronze da pedra da fundação 28 CAPÍTUL04 OS LAZARIST AS O ressurgimento do Seminário deveu-se não ao bispo de Macau/ como seria naturat mas sim ao de Pequim/ Frei Alexandre de Gouveia/ um Franciscano enviado para pastorear a diocese da capital imperiat mas também para restabelecer o Seminário de Macau. Recorde-se que nesse tempo Macau era ainda a porta exclusiva de entrada para a China embora estivesse já em pleno processo de perda desse privilégio. Frei Alexandre foi eleito bispo de Pequim em Julho de 1782 partindo de Lisboa em Abril do ano seguinte com escala pela Baía (Brasil)/ Goa e Macau. A chegada do bispo ocorre em simultâneo com a do Ouvidor Lázaro da Silva Ferreira/ juntamente com um reforço militar de 150 cipaios da Índia destinados a render a guarnição e substituir o incipiente corpo de polícia até então existente viajando todos numa fragata da marinha de guerra portuguesa. 29
Lázaro da Silva Ferreira foi segundo alguns historiadores um dos mais brilhantes, inteligentes, honestos e íntegros ouvidores que por Macau passaram (7). A ouvidoria tinha sido extinta em 1740 quase após dois séculos de existência sendo restabelecida por ele através de um decreto de 20 de Fevereiro de 1785 que lhe outorgava amplos poderes: "O dito ministro há-de servir de Provedor e contador da Comarca, de Provedor-mor dos Defuntos e Ausentes, e juiz dos órfãos. Além disso deve também servir de juiz administrador da Alfândega dessa cidade", ordenava o real despacho. Os ouvidores eram chamados ministros e poderiam ser equiparados a pequenos reis ou ditadores. A única limitação aos seus poderes era constituída pela possibilidade de recurso para a Relação de Goa das suas decisões. Mal chegado a Macau o Ouvidor meteu ombros à tarefa de reformar a administração pública e a Santa Casa da Misericórdia onde se cometiam grandes abusos, sobretudo no que tocava às contas públicas. Ferreira corrigiu excessos, promovendo reformas radicais em todos os ramos de actividade governativa da cidade. Um dos mais eloquentes comentários à sua acção de recto e honesto magistrado é-nos deixada por Bocage que no soneto a ele dedicado diz: "Tudo a ti devo, ó benfeitor, ó grande/ que a roçagante, venerável toga/ Mais venerável pelos seus preclaros/ Méritos fazes ... / Ó céus ó fados! Conservai Ferreira;/ são necessários os heróis no Mundo ... Diga-se porém que este elogio era apesar de tudo feito porque o Ouvidor tinha arranjado maneira de fazer regressar o poeta a Portugal sem ter de passar por Goa onde era procurado pela justiça militar acusado de desertor. 30 O bispo Frei Alexandre e o Ouvidor juntavam-se, entretanto, em Macau a Bernardo Aleixo de Lemos e Faria que tinha chegado um ano antes como governador. Aliás este estava, tal como Lázaro Ferreira, encarregado da missão de executar as providências do Ministro Melo e Castro. Entre elas contava-se a redução da ampla autonomia de que até então o Leal Senado dispunha, visando em especial o reforço da posição do governador na administração da cidade. Com esse objectivo, era-lhe concedida a presidência do Leal Senado e reforçada, a guarnição militar da cidade que dele dependia directamente. Estas medidas só poderiam ser bem-sucedidas, se o governador reunisse as condições que eram explicitadas no documento de Melo e Castro. Recomendava-se por isso que escolhesse as pessoas mais hábeis, inteligentes, desinteressadas e limpas de mãos para o coadjuvarem. A reforma completar-se-ia com uma profunda intervenção no sector económico-financeiro. Neste capítulo a instrução previa o estabelecimento de uma alfândega e uma maior fiscalização feita pelo governador na sua qualidade de presidente do Senado à administração dos fundos da Fazenda Real a cargo dos vereadores. A sexta providência tinha a ver com a necessidade de esclarecer o estatuto político de Macau face à China. Melo e Castro ordenava também que o velho seminário fosse restituído também aos objectivos originais para que tinha sido instituído pelos jesuítas. Serão aquelas três figuras, quais incorruptíveis zeladores da lei que irão refundar o Seminário. A 9 de Setembro Lemos Faria e Lázaro Ferreira deslocam-se ao Colégio (como era conhecido), onde vivia Frei Alexandre, a fim de executarem as ordens régias sobre o estabelecimento do Seminário. Entre os colégios de S. Paulo e de S. José, escolheram este por ser "mais próprio e carecer de menos despesas". 31
Quanto aos rendimentos dos dois colégios, verificaram restar um capital suspeitosamente escasso a despeito dos grandes fundos que foram remetidos para Goa". Restavam 10 000 taéis que com juros e riscos vencidos importavam em pouco mais de 13 000, podendo-se aplicar anualmente ao Seminário 500 taéis, devendo o resto ser suprido pelos cofres do Senado. Para sustento do pessoal e reparação do edifício arbitraram 2 500 taéis anuais e mais 500 logo que o Seminário ficasse completo com os três professores que faltavam e dois alunos. Assim ficaria nesse dia estabelecido no Colégio de S. José de Macau o "Seminário Episcopal de Pequim". No mês seguinte, a 1 de Outubro reabre a instituição com oito alunos, sendo confiada à congregação dos Lazaristas e ficando como reitor o Pe. Manuel Correia Valente. No final do ano (26 de Dezembro) o Leal Senado notificava oficialmente em carta ao governo de Goa que: "Recebeu este Senado a carta de V. Exª em que nos participa ter S. Majestade encarregado o estabelecimento de um seminário no qual se educassem sujeitos hábeis para ajudarem nas Missões da China ao Exº e Reverendíssimo Bispo de Pequim este mesmo logo deu execução ao dito estabelecimento no Colégio de S. José e se lhe aplicou para sua sustentação e conservação o que consta do termo feito pelo Secretário Ajunto desta Cidade no mesmo colégio com a assistência do Excelentíssimo e Reverendíssimo Bispo e o Governador e Capitão Geral desta Cidade Bernardo Aleixo de Lemos e Faria e o Desembargador Lázaro da Silva Ferreira e logo se lhe contribuiu quinhentos taéis de quartel adiantados dando-se em tudo e por tudo execução às Ordens de Sua Majestade (8). A refundada instituição todavia não se manteria muito tempo dependente da diocese da capital imperial chinesa. De facto, por carta régia de 13 de Fevereiro de 1800 passou a ser "Casa da Congregação da Missão", deixando de estar sob a jurisdição do bispo de Pequim. O mesmo diploma estabelecia nova dotação 32 orçamental tendo sido arbitrados 150 taéis a cada aluno, 249 taéis a cada padre e 600 para conservação e reparação do edifício. Sob a direcção dos lazaristas o Seminário regressaria, se não mesmo ultrapassaria o seu antigo esplendor. Em 1811 o superior da congregação, Pe. Nicolau Rodrigues Pereira de Borja afir rganização a ente que o Seminário é o único lugar de docência em Macau e reforça a ideia escrevendo que, "bem se pode afirmar que desde a instituição deste Seminário, quase se não tem ordenado Sacerdote nesta cidade, que em tudo ou em parte não deva a sua educação e ensino ao mesmo Seminário, fora outros que aqui se educaram que não seguem o estado eclesiástico, sendo este o único lugar de educação desta cidade". De facto, o Seminário não só educava a mocidade macaense, mas também vários jovens estrangeiros que ali recebiam sólida instrução que lhes dava ingresso nas universidades. A mesma opinião partilhava igualmente o bispo D. Manuel de S. Galdino que em 1804 dizia que "os lazaristas puseram nos devidos termos o Seminário" (9). 33
Estátua de Mateus Ricci na Horta Maior 34 CAPÍTULOS O LIBERALISMO Foi nesta segunda fase da sua história que o prestígio do Seminário se consolidou de facto, constituindo-se como a instituição de ensino local, já que a educação laica era virtualmente inexistente. Neste enquadramento o Seminário registaria um longo período de estabilidade que lhe permitiria substituir-se ao Colégio de S. Paulo dos Jesuítas, que rapidamente perdia importância. Este declínio tinha a ver sobretudo com as perseguições à Igreja que se iam sucedendo na China. Mas a segunda grande crise surgiria na sequência da grande alteração de regime em Portugal com a revolta constitucional de 1820. Os ecos desta revolução fizeram-se sentir localmente dois anos depois com a aclamação de D. João VI primeiro e subsequentemente com a adopção dos princípios radicais dos revolucionários liberais do Porto que levaram a população macaense a destituir a vereação absolutista do Leal Senado elegendo em 35
sua substituição representantes sintonizados com o novo espírito iluminista reinante na Metrópole, na França e nas Américas. Consumado o golpe de estado local, as novas autoridades investidas pelos cidadãos eleitores prenderam o Ouvidor, agora já não Lázaro da Silva Ferreira, mas sim Miguel de Arriaga Brum da Silveira e juntamente com este o governador nomeado pelo poder absolutista, José Jerónimo de Castro Cabral e Albuquerque, enclausurando deste modo toda a cúpula do poder do antigo regime e libertando a cidade da tutela do vice-rei de Goa que se entrepunha entre Macau e sua Alteza Real em Lisboa. Após o golpe, Macau, durante um ano, singrou independente do intermediário poder de Goa e também à revelia de Lisboa, onde a situação política se alterava de um modo demasiado rápido para que o correio marítimo, que então demorava quase meio ano a chegar fornecesse atempadamente conta das mudanças que se processavam na distante capital do Reino. Foi assim que a ascensão de D. Miguel e o início da guerra civil ocorreram sem que os liberais macaenses se apercebessem das mudanças. Mal a monarquia parlamentar tinha sido proclamada, D. Miguel reinstalava o poder absoluto, para logo Saldanha implantar pela força das armas o constitucionalismo radical, tudo isto numa sucessão demasiado rápida para que Macau se apercebesse de que afinal a constituição de 1820 tinha sido Sol de pouca dura. O território soube-o apenas quando as tropas realistas comandadas pelo capitão-de-mar-e-guerra Garcês Palha ( que mais tarde governaria a colónia) desembarcaram no cais da Fortaleza do Bom Parto. Rapidamente conquistaram os fortes, prenderam a vereação municipal que governava a cidade, repondo o Ouvidor. Queimaram a Abelha da China, semanário oficial do governo liberal proclamando D. Miguel rei "legítimo" e reinstaurando a obediência ao Vice-Rei de Goa. De todo este transe, a história registou importantes páginas, destacando nomes de 36 um e de outro campo, mas a toponímia (severo filtro) apenas conservou o nome do Ouvidor Arriaga, como único merecedor de se destacar do olvido naquele ápice de tantos acontecimentos. Quanto ao campo liberal quase nenhum nome ficou recordado. Apenas o cirurgião José de Almeida que escapou a tempo da reviravolta miguelista figura hoje na toponímia, ainda que não de Macau, mas de Singapura dando nome à "D' Almeida Street". O presidente liberal do Senado, Paulino Barbosa, ou o redactor da Abelha da China, Frei António de S. Gonçalo de Amarante não mereceram ser recordados. No campo oposto, o antigo governador Castro e Albuquerque, bem como o bispo Chacim ( que viria a governar interinamente a colónia) foram também, obliterados, como se o juízo da história pretendesse manter equilibrados os pratos da balança política dos mortais, não ajuizando entre constitucionais e legitimistas. De toda a convulsão macaense dos tempos do liberalismo salvou-se apenas o Ouvidor Arriaga, figura intrigante sobre a qual ainda hoje não é possível estabelecer com segurança se era realista ou liberal, conservador, ou progressista, magistrado impoluto, ou funcionário venal, embora se projecte indubitavelmente acima da discussão como figura ímpar da história local. Se não se pode perdoar à toponímia algumas omissões, como ficou dito acima de todas uma ficaria como das mais patentes injustiças da história de pedra e bronze de Macau. Tratou-se da obliteração da figura do grande professor e sinólogo Joaquim Afonso Gonçalves. 37
Joaquim Afonso Gonçalves é considerado como figura de capital importância das relações culturais entre Portugal, Macau e a China no século XIX. No entanto para além dos círculos eruditos da sinologia portuguesa, cuja expressão foi sempre muito pequena, encontra-se estranhamente esquecido. Altar da ala direita consagrado a S. José, ladeado pelas estátuas de Sta. Rita de Cássia e de Sto. António de Lisboa 38 Relíquia de S. Francisco Xavier (osso do úmero) que viera de Goa para a igreja de S. Paulo onde esteve exposta durante a batalha contra os Holandeses em 1622 e se conservou após a expulsão dos Jesuítas. Foi salva do incêndio que destruiu o complexo de S. Paulo a 26 de Janeiro de 1835 (10). 39
Joaquim Afonso Gonçalves nasceu a 23 de Março de 1781, em Tojal, concelho de Cerva, distrito de Vila Real. Entrou para o Seminário de Rilhafoles, Lisboa, em 17 de Maio de 1799 e tomou os votos em 18 de Maio de 1801. Destinado à missionação no extremo oriente, embarcou em Lisboa em 1812, com destino a Pequim, aportando a Macau em 28 de Junho de 1813. Impedido de prosseguir viagem para a capital do Império do Meio, devido à conjuntura política na corte imperial, missionou sempre em Macau. Foi Professor no Real Seminário de S. José, membro da Real Sociedade Asiática de Calcutá e da Academia de Ciências de Lisboa. Era, ainda, Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Inviabilizada a sua ida para Pequim acabaria por ficar em Macau onde porá em realização toda a sua notável acção cultural e pedagógica. Neste ponto da história convém dar a palavra a um dos seus mais detalhados biógrafos quando diz ser importante "reflectir no facto de um homem formado numa matriz civilizacional latina e cristã se abrir compreensivamente a uma outra mundividência civilizacional, tão diferenciada e contrastiva, sem complexos eurocêntricos e etnocêntricos. E a aprendizagem metódica e persistente da língua chinesa, cuja complexidade é óbvia, foi a primeira janela aberta sobre a China, vislumbrando-se os usos e os costumes milenares, a psicologia da vida quotidiana, a cultura, as artes ou a civilização em geral. Ainda hoje é notada com algum assombro a relativa facilidade, em poucos anos, com que Joaquim Afonso Gonçalves aprendeu a língua chinesa, falada e escrita, com grande profundidade a ponto de nela ter redigido diversas obras. 40 ( ... ) O conhecimento da língua chinesa era essencial aos portugueses em Macau, bem como o da língua portuguesa para os chineses, essencialmente porque eliminava os equívocos que qualquer mediação linguística comporta. Mas, a realidade era outra, tendo-se criado a função de intérprete, usualmente a cargo de um macaense ou de um chinês cristão, que dominavam ambos os idiomas. Naturalmente que os mal-entendidos abundavam. E foi exactamente nesta área da didáctica e da pedagogia que Joaquim Afonso Gonçalves ocupou uma posição relevante". As obras que publicou, todas com a chancela editorial do Seminário de S. José, foram as seguintes: Grammatica Latina Ad Usum Sinensium Juvenum (1828); Arte China, Constante de Alphabeto e Grammatica, Comprehendendo Modelos das Díjferentes Composições (1829); Díccionário Portuguez-Chína no Estilo Vulgar Mandarim e Clássico Geral (1831); Diccionário China-Portuguez no Estilo Vulgar Mandarim e Clássico Geral (1833); Vocabularíum Latino-Sinicum, Pronuntiatone Mandarína Litteris Latinis Expressa (1837); Lexicon Manuale Latino-Sinicum, Contiens Omnia Vocabula Utilia et Primitiva Etiam Scriptae Sacrae (1839); Lexicon Magnum Latino-Sinicum, Ostendens Etymologiam, Prosodiam et Constructionem Vocabulorum (1841). Deixou inéditos os volumes seguintes: Versão do Novo Testamento em Língua China e um Diccionário Sínico-Latino. Esta bibliografia mostra à evidência a profundidade do seu saber bem como as qualidades de Professor da Língua Chinesa, de muitos alunos que viriam a desempenhar cargos de elevada responsabilidade nomeadamente na Procuratura dos Negócios Sínicos. Segundo António Aresta a importância do 41
bilinguismo, "sempre presente ao longo dos séculos, adquiriu naturalmente um crescendo de indispensabilidade e de estatuto profissional no século XIX. Para este estado de coisas não foi alheia a doutrinação pedagógica de Joaquim Afonso Gonçalves, sem sombra de dúvida o primeiro grande sinólogo português, visto que desde o Regimento do Língoa da Cidade, de 1627, não existia uma estratégia de ensino e de aprendizagem da língua chinesa, escrita e falada, que propiciasse a criação de um corpo profissional de intérpretes-tradutores que apoiassem o governo na aplicação das suas normas, articulando com a eficácia possível, a ligação entre a administração e as comunidades". Portugal esteve instalado na China e em Macau, desde o século XVI, e não conseguiu criar uma Escola Portuguesa de Sinologia porque para os portugueses a sinologia era considerada uma excentricidade académica tendo os nossos escassos sinólogos protagonizado aventuras individualistas e muito solitárias, não obstante o seu valor, pioneirismo e genialidade salienta, para concluir com uma pergunta: "Como se pode compreender que a figura de Joaquim Afonso Gonçalves seja ignorada no seu próprio país e a sua obra ainda não tenha sido estudada e reeditada?" No esboço biográfico que temos vindo a citar o autor conclui com um lancinante apelo: "É a hora e a vez de o maior sinólogo português do século XIX ser resgatado da ignorância infame a que a sua vida e obra têm estado sujeitas." Joaquim Afonso Gonçalves faleceu a 3 de Outubro de 1841, sendo sepultado no Cemitério de S. Paulo. Em 1872 o seu corpo foi trasladado para a Igreja de S. José, cuja lápide sepulcral ostenta a seguinte inscrição: 42 Esta lápide encontra-se do lado direito da porta principal da Igreja, marcando o túmulo do insigne Pe. Joaquim Afonso Gonçalves. D.O.M. HIC JACET REVER D. JOAQUIMUS ALFONSUS GONSALVES LUSITANUS PRESBYTER CONGREGATIONIS MISSIONIS ET IN RECALI SANCTI JOSEPH MACAONENSI COLLEGIO PROFESSOR EXIMIUS REGALIS SOCIETATIS. ASIATICAE SOCIUS EXTER 43
PRO SINENSIBUS MISSIONIBUS SOLICITUS PERUTILIA OPERA SINICO LUSITANO LATINOQUE SERMONE COMPOSUIT ET IN LUCEM EDIDIT MORIBUS SUA VISSIMIS DOCTRINA PROESTANTI INTEGRA VITA QUI PLENUS DIEBUS IN DOMINO QUIEVIT SEXAGENARIO MAIOR QUINTO NONAS OCTOBRIS ANNO MDCCCXLI IN MEMORIM TANTI VIRI EJUS AMICI LITTERATURAEQUE CULTORES HUNC LAPIDEM CONSECRA VERE A Deus Óptimo e Máximo (D.O.M.) Aqui jaz o Rev. Joaquim Afonso Gonçalves, português, Sacerdote da Congregação da Missão, exímio professor do Real Colégio de S. José, membro estrangeiro da Real Sociedade Asiática. Solícito pelo bem das missões chinesas, compôs e publicou obras muito úteis nas línguas sínica, latina e portuguesa; foi de costumes irrepreensíveis e exímio pela doutrina, sendo de vida ilibida; cheio de dias, descansou no Senhor, em 3 de Outubro de 1841, aos 60 anos de idade. Os seu amigos e discípulos dedicaram esta lápide em memória de tão ilustre varão." -Tradução do Pe. Manuel Teixeira Joaquim Afonso Gonçalves seria também professor de um aluno e mais tarde docente do próprio Seminário que seria feito beato da Igreja, grau que imediatamente antecede a elevação à santidade. Trata-se de Gabriel Perboyre. Nascido em 2 de Janeiro de 1802 em França seria condenado à morte e executado em Wushang na China em 1840. Antes de partir para a China, Perboyre foi aluno de chinês do Seminário de S. José de Macau, recebendo aulas de Joaquim Gonçalves ao mesmo tempo que ensinava francês aos alunos. Este missionário recordava que os lazaristas do colégio ou Seminário de S. José, vasta casa que pertencia aos jesuítas e que "tem uma bela igreja", preparavam e formavam missionários 44 chineses de Cantão, Nanquim e Pequim e educavam ao mesmo tempo os jovens de Macau, aos quais ensinavam entre outras disciplinas o francês e o inglês. Estes alunos não eram numerosos, "porque neste país faz-se pouco caso da educação". Referindo-se aos Lazaristas acrescenta que "os cinco confrades que dirigem esta casa são muito instruídos. Eu terei por professor o Sr. Gonçalves que compôs um dicionário chinês-português e um outro português-chinês e prepara um terceiro latim-chinês. É autor também de uma gramática latino-chinesa e de uma gramática luso-chinesa. É também muito sábio na Astronomia e nas Matemáticas ... Vai enviar para Paris as observações que fez sobre o cometa deste ano ... Eu ensino um pouco de francês a troco de chinês" (11). Se aquele grande vulto da cultura ficou votado à ingratidão da história que dizer dos lazaristas que com ele compartilhavam a docência no Seminário? Sabe-se pouco de Joaquim Afonso Gonçalves, mas menos se sabe dos outros. A sua sorte tinha ficado ditada no momento em que a congregação se pronunciou abertamente pelo novo regime constitucional. É que mal os absolutistas, que eram reconhecidos pelo pouco amor que devotavam às letras e menos ainda à cultura repuseram pela força das armas o antigo regime em Macau, o Seminário foi um dos primeiros alvos a abater. A casa foi cercada pelos soldados que prenderam todos quantos conseguiram deitar a mão lá dentro. Joaquim Gonçalves, juntamente com o seu colega Luís José Álvares Gonzaga, foram, todavia, mais lestos conseguindo escapar a tempo num navio que partia para Manila. Gonçalves permaneceria quatro anos naquela colónia espanhola, aguardando a viragem dos ventos da política. Regressaria a Macau quatro anos depois. Pior sorte tiveram o Superior da congregação Joaquim José Leite e o Pe. Francisco da Silva Pinto e Maia que foram presos e enviados a ferros para Goa. 45
Joaquim Leite acabaria, no entanto, também por regressar a Macau depois de passada a tormenta. Quanto ao Pe. Maia o seu destino seria outro. Depois de ter sido libertado, preferiu ir para Calcutá a fim de se juntar ao Dr. José d' Almeida Carvalho e Silva seu amigo e correligionário, que com ele tinha estado também preso em Goa. O médico tinha sido convidado por Stanford Raffles o fundador de Singapura para se lhe juntar a fim de estabelecer os serviços de saúde da nascente colónia britânica da Malásia. Enquanto o médico ia com o objectivo de cuidar dos corpos, o padre Maia iria para curador das almas. Seria ele quem fundaria a primeira missão católica de Singapura, colónia que à data contava com uma numerosa comunidade católica de origem portuguesa. O golpe dos realistas contra o Seminário, mais do que eliminar um foco de subversão liberal acabaria por ser desferido na verdade contra os próprios fundamentos da educação da cidade já que para além do Seminário as escolas eram virtualmente inexistentes. Duramente atingido o Seminário só não encerrou definitivamente as portas, porque o padre Nicolau Rodrigues Pereira de Borja, que mais tarde seria nomeado bispo de Macau, colocando os interesses gerais acima dos seus próprios ideais políticos aceitou a incumbência de tomar as rédeas da instituição. Nesta conjuntura de emergência, e depois de arrefecidas as iras dos vencedores, estes acabariam por reconhecer a sua própria precipitação ao liquidarem o corpo docente de S. José. Num ofício dirigido a Pereira de Borja, o bispo Francisco da Luz Chacim, um dos maiores inimigos dos lazaristas, salienta a mágoa das autoridades por todo o desfecho, atribuindo as culpas a uma obstinada conduta dos padres do Colégio que foi suavizada pela atitude de Borja. No ofício o bispo conclui com uma nota de 46 optimismo manifestando-se convicto de que a instituição voltaria "a ganhar a sua antiga consideração pública que tanto fizeram perder as opiniões subversivas daqueles seus outros companheiros". Para suprir a falta destes o governo ofereceu ao Reitor a subvenção de quaisquer professores eclesiásticos ou seculares que ele escolhesse bem como auxiliar na manutenção dos órfãos do Seminário. Um aspecto da Horta Menor, com um bloco reconstruído em 1958. 47
Horta Maior, local de recreio, com a "ároore de São José", a mais antiga figueira da Índia de Macau. 48 CAPÍTUL06 DE NOVO A DECADÊNCIA Em 1824 o Seminário de S. José voltava assim a mergulhar de novo numa lenta agonia. Em 1851, Carlos José Caldeira, enviado especial do governo de Lisboa para se inteirar da situação de Macau, na sequência da explosão, em 1851, da Fragata D. Maria II que vitimou mais de duas centenas de pessoas, entre civis e militares, num incidente que esteve a ponto de acender a guerra entre Portugal e a China, relata o mesmo estado de miséria do Seminário dizendo que a instituição se encontrava em grande decadência. Caldeira antevia mesmo, a possibilidade de o Seminário se extinguir pela morte do superior Pe. Joaquim Leite, "varão respeitável em virtudes e sentimentos patrióticos, mas que se acha na avançada idade de 90 anos. Hoje existem só no Colégio o referido superior Padre Leite, o Bispo de Nanquim D. José Joaquim Pereira de Miranda, e dois padres vindos do reino em 1849, aliás, muito dignos pela sua piedade e conduta, porém não habilitados para as necessidades da instrução no Colégio. Os colegiais andam por 12, ou 14 entre Timores, Chinas e filhos de Macau, que se dedicam ao estado eclesiástico". 49
Nove anos mais tarde a imprensa local reitera os receios de Carlos José Caldeira ao historiar o processo de decadência dizendo, ao referir-se aos acontecimentos de 1823, que nesse tempo tinham sido presos três professores do Colégio de S. José. Um deles foi depois vigário em Singapura, onde morreu e os dois outros voltaram ao Colégio, o qual com o seu regresso e a chegada de mais alguns padres novos de Portugal, continuaria a funcionar, mas já não com tanta regularidade como dantes. Passado algum tempo dois dos padres novos foram para as missões a que eram destinados; dois dos professores velhos faleceram, e dos que restavam foi um eleito bispo de Macau (Nicolau Rodrigues Pereira de Borja), um outro foi para seu coadjutor, e outro ainda, para bispo de Nanquim. Deste modo, acrescenta o jornal, "só restou no colégio o muito virtuoso e respeitável ancião reverendíssimo Pe. Leite, que continuou a ensinar latim até 1854, quando faleceu. Deste modo acabou todo o ensino no real colégio de S. José 11 (12). Mas o "Echo do Povo" pintava o cenário de cores ainda mais carregadas afirmando que "Macau, sabemos nós, que vai cumprindo o vaticínio (que mais de uma vez temos feito lembrar) de um jornal de Lisboa, profetizando que brevemente ia ser reduzido a uma terra de selvagens; palavras formais dessa profecia. Isto dizia a Revolução de Setembro, há obra de vinte anos a esta parte, por lhe constar que a instrução pública de Macau acabava de receber golpe mortal, com o falecimento do muito reverendo Pe. Gonçalves; que diria se soubesse do estado lamentável a que ela hoje se acha reduzida". O seminário voltaria a reerguer-se na sequência da publicação do decreto-lei de 12 de Agosto de 1856 de D. Pedro V que determinava que se organizassem os seminários do Ultramar. O bispo de Macau, D. Jerónimo José da Mata, deu seguimento ao decreto real através da nomeação de dois padres, Gouveia como reitor e Barroso como seu coadjutor para procederem à criação de um seminário diocesano para a educação de seminaristas e jovens de Macau. 50 O seminário abriria no dia 6 de Janeiro de 1857, encarregando-se o Pe. Barroso de leccionar teologia dogmática e filosofia racional, enquanto o Pe. Gouveia chamava a si a disciplina de teologia moral. No entanto a competência dos professores seria desde logo posta em dúvida pelo mesmo Carlos José Caldeira que conhecendo-os diz que nenhum deles se encontrava habilitado para ministrar tais matérias. Para além dos mencionados, havia também padres chineses a ensinar latim e chinês, mas nenhum jovem se ordenou sacerdote. O "Echo do Povo" dá nota triste ao seminário dessa época dizendo que na ascensão ao trono do sr. D. Pedro V, com as notícias dadas pelos jornais de Portugal da parte activa que tinha tomado o jovem monarca no melhoramento das escolas, ficaram os macaenses esperançosos de que a colónia seria também dotada de escolas como as outras províncias do reino; pois que não se podia conceber que Macau somente seria exceptuado do benefício da instrução, que é hoje a primeira necessidade do país, e muito mais esperançosos ficaram, quando ouviram dizer que o governo estava tratando de fazer reviver o colégio de S. José. Mas foi grande a decepção. Viu-se inesperadamente estampada na folha oficial uma portaria do ministério da marinha e ultramar, acusando a recepção do ofício do governador de Macau no qual participava a inauguração do seminário diocesano do colégio de S. José. Havia então no Colégio só dois padres que o jornal afirma serem muito conhecidos pelas suas virtudes, porém não lhes sendo a fama pública muito favorável quanto à sua aptidão para o magistério. Para que é, pois, esse simulacro de seminário? Qual é o fim desta farsa? Perguntava-se o jornal que acrescentava que a citada portaria autorizava o governador a reunir a escola municipal ao colégio de S. José, segundo proposta feita pelo próprio governador. 51
O facto causou no público em geral má impressão, sublinhava o articulista, dizendo que em sua opinião Macau deveria ter mais de uma escola de instrução primária e se interrogava sobre a necessidade de tal união, que se teria efectuado apenas para se aproveitar do pequeno fundo que tem a escola municipal, quando o colégio tem fundos suficientes para sustentar dez aulas como aquela que estava a cargo do município. No que toca ao pessoal docente do Seminário o jornal pinta ainda outro triste quadro referindo que apesar do grande edifício estar em bom estado o mesmo se não passa com o corpo docente que não tem mais do que um mestre de primeiras letras, "o respeitável ancião sr. Gil". Um mestre de língua inglesa (o sr. J. V. Pereira) pediu ultimamente a sua demissão; dizem que foi por causa do seu salário, que era demasiado módico, foi substituído por um jovem natural de Malaca, que nem sequer sabe falar o português; o sr. Pe Maximino que foi admitido nestes últimos meses para substituir o sr. Pe. Barroso, que regressou a Portugal e o outro que é o reitor do fantástico seminário, um dos padres de quem fiz menção, quando falei da sua inauguração. Quanto ao aproveitamento o jornal sublinhava que ninguém mais estava a par do que o próprio governador que assistiu, aos exames do final do ano saindo, diz o jornalista, muito descontente porque não encontrar nenhum rapaz que soubesse português e muito menos latim. Em 1861, o "Echo do Povo" voltava à carga lamentando-se pela "crassa ignorância" que dizia reinar em Macau afirmando não existir na cidade um só macaense de 20 anos que soubesse ler, falar e escrever com acerto a sua própria língua. E antevia que com os professores que Macau tinha seria querer reduzir os habitantes a uma "horda de selvagens". 52 Por esta altura os pedidos feitos ao ministério pedindo professores competentes eram insistentes, mas Lisboa mantinha-se renitentemente muda e queda. A crer em Leôncio Ferreira um dos campeões da luta pela entrega do Seminário à Companhia de Jesus a gritante falta de professores devia-se a tudo menos à falta de verbas capazes de aliciar um corpo docente competente. "O colégio de S. José tem uma imensa renda pertencente às missões da China e os seus fundos estão empregados em valiosos prédios que possui tanto aqui (Macau) como em Singapura. Esta renda que se calcula importar pelo menos em 10 mil patacas em cada ano deve formar já um grande capital". Deste modo Leôncio Ferreira defende que o dinheiro deveria ser utilizado em benefício da religião e da civilização empregando-o na manutenção de um colégio bem organizado para a educação e instrução dos missionários para as missões portuguesas da China e para servir ao mesmo tempo para a instrução dos macaenses "como fora outrora o real colégio de S. José". O mesmo autor termina apelando ao governo de Macau para fazer reviver a velha instituição para poder haver na colónia uma instrução regular (13). 53
Poço localizado no claustro do Seminário 54 CAPÍTUL07 A ILHA VERDE Entre investimentos e outros bens, o Seminário possuía extensos terrenos e uma ilha inteira, o que se podia considerar a jóia da coroa da Igreja de Macau! Tratava-se da Ilha Verde, constituída por uma colina rochosa em granito não muito elevada, com cerca de 55 metros de altitude, totalmente revestida de arvores e arbustos sempre verdes característica que lhe valeu a designação. Situada a pouca distância do istmo da península de Macau constituiu desde sempre um pomo de discórdia entre Portugal e a China. Apesar de à data se encontrar bem afastada da cidade, a Companhia de Jesus decidiu ocupar a pequena ilha, ou porque ali não residia ninguém, pelo menos permanentemente, ou porque o local se mostrava adequado para o recolhimento religioso ao mesmo tempo que possuía, por si própria, características de segurança. 55
A ocupação formal da Ilha foi efectivada em 1603 pelo visitador da Companhia Alexandre Valignano e pelo Pe. Valentim de Carvalho reitor do Colégio de S. Paulo. Quando os jesuítas foram expulsos de Macau em 1762 a ilha acabaria por ir parar às mãos do riquíssimo comerciante Simão Vicente Rosa. Com a morte deste a propriedade entrou em disputa judicial pelos herdeiros, mantendo-se a sua posse indefinida por longos anos. Esta indefinição acabaria em 1828 na sequência da compra da Ilha a um tal Bernardo Gomes de Lemos. A escritura dizia e "tornava a repetir" que o dito Bernardo Lemos vendia ao reverendo Nicolau Rodrigues Pereira de Borja, Superior do Seminário de S. José "a dita Ilha Verde, sita no rio, fronteira a Patane e árvores de fruto e casas nela construídas pelo preço de duas mil patacas Espanholas, "quantia, disse, que tinha recebido em dinheiro efectivo, tanto para satisfazer as dívidas antigas contraídas durante o seu casamento, como para os chinas se não apossarem da dita ilha, o que seria inevitável já pelas dívidas que tinha com eles, cuja soluç rganizaçião diariamente com insulto da sua pessoa, segundo é notório". O documento continua referindo que a situação se agravava porque o proprietário não tinha dinheiro para manter a propriedade nem fazer benfeitorias, o que permitia que os chineses a fossem ocupando e erguendo "barracas" como se fosse coisa sua e desta forma se ia perdendo o domínio em prejuízo da "Nação e da Cidade." Comprada a ilha uma das primeiras iniciativas tomadas pelo Pe. Borja foi erguer nova capela no local. Os trabalhos despertaram a atenção das autoridades chinesas que de imediato fizeram saber às suas homólogas de Macau através de um ofício do Mandarim Pau do distrito de Hian-chan (Heung San) (14) que a ilha não podia ser transaccionada nem nela feitas construções novas sem autorização da China. 56 1970's 2013 Ilha Verde -j!f jjti Vistas da Ilha Verde, mostrando as diferenças resultantes do desenvolvimento de mais de 40 anos. 57
O mandarim adiantava concretamente razões históricas dizendo que há pelo menos 180 anos a dinastia reinante tinha concedido aos portugueses terem casas em Macau dentro dos muros do limite da Porta de S. Paulo ( ou de S. António), pertencendo o terreno fora dos muros ao palácio imperial. Ora a Ilha Verde estando fora de Macau, situada no meio do mar, na distância de alguns "lis", nada tem com as habitações europeias. "Não se pode, portanto, consentir que seja designada como propriedade europeia e que ali se fabriquem muros porque deste modo se transgridem as leis". Com este fundamento o mandarim Pau recomendava ao procurador de Macau que desse ordem imediata para parar com as obras a fim de evitar más consequências terminando com um imperati-o -"obedeça-se11 (15). Todavia como sempre em Macau. a ordem não foi entendida de forma tão frontal. As obras foram interrompidas por algum tempo, mas logo que o caso caiu no esquecimento, para além da capela, novos edifícios se foram paulatinamente erguendo. Seja como for a questão da Ilha Verde, constituía sempre um bom pretexto para as autoridades chinesas fazerem pressão sobre as suas congéneres de Macau de cada vez que algum conflito vinha a lume e vários se sucederam até que em 1890, com a chegada a Macau do novo governador Custódio Miguel de Borja, este entendeu resolver de uma vez por todas o diferendo. Convicto de que a solução do caso passaria pela eliminação total do objecto da discórdia o governador tomou uma atitude radical, ou seja, acabar com a Ilha Verde. Para o efeito mandou construir um dique que ligava definitivamente a ilha a terra. Para tomar aquela decisão o governador teve em conta as variáveis políticas de ordem internacional, mas não as de carácter interno. Assim, inesperadamente a avenida que os engenheiros tinham aberto a partir das imediações do templo de Lin Fong confrontou-se do outro lado com um imponente portão fechado à chave. É que Custódio Miguel de Borja tinha-se aparentemente esquecido que a ilha era propriedade da Diocese, pelo que o Bispo mandou fazer o portão para ostensivamente mostrar que o governo 58 de Macau ali só tinha os direitos que ele próprio lhe quisesse outorgar. Todavia a fim de evitar que a sua atitude fosse tomada pelo Governador como ofensa pessoal sempre foi dizendo a Custódio Miguel que "quando lá quisesse ir descansar, ou veranear era só pedir a chave ao Reitor do Seminário, que teria muito gosto em lhe ser agradável". Apesar do istmo ter contribuído para reduzir a dimensão política da Ilha Verde, a sua progressiva inclusão na zona urbana da cidade não a fez desaparecer por completo da lista de contencioso existente entre Portugal e a China sobre Macau como Custódio Miguel de Borja pretendia. De facto, depois de um período de acalmia, que permitiu ao seminário fazer algumas concessões de terrenos a empresas privadas, nomeadamente a uma fábrica de cimento que ali se instalou, a zona voltou a ser motivo de discórdia internacional em 1919. Nesse ano a Missão dos Melhoramentos dos Portos de Macau iniciou um conjunto de obras de regularização do rio nas imediações da Ilha Verde. Os trabalhos mais uma vez, despertaram a atenção das autoridades chinesas que tomaram o caso como uma tentativa de Macau de anexar território. A questão tomou dimensões inesperadas levando à intervenção da Inglaterra que conseguiu convencer o governo português a pôr termo ao projecto para evitar uma escalada do conflito. Com a abertura do istmo, registou-se uma progressiva urbanização da área circundante, mas principalmente com a instalação no local da referida fábrica de cimento, que viria a falir em 1930, a Ilha Verde perdeu por completo as características de veraneio que tinham sido o principal motivo que levou os dirigentes do Seminário a comprá-la. Em alternativa os seminaristas durante algumas décadas, em alternativa, veraneavam na Ilha da Lapa, fronteira ao Porto Interior. Todavia as alterações políticas que foram ocorrendo na China 59
acabariam por inviabilizar essas excursões que se tornavam cada vez mais perigosas em termos de segurança para os alunos e também uma fonte de preocupações sempre latente principalmente de ordem política. Depois de o bispo D. Policarpo da Costa Vaz ter mandado construir um edifício para veraneio dos alunos em Coloane, os seminaristas passariam a ter a sua instância de férias com uma capela anexa que ficaria pronta em 1958. Estas obras foram pagas pelo ex-director dos Serviços Económicos de Macau, Pedro José Lobo, ele que foi também aluno do Seminário. 60 Escada de pedra em caracol que liga a antiga cozinha e refeitório à Secretaria e salas de aulas, vendo-se a campana (cabra). CAPÍTULOS UM FUGAZ REGRESSO DOS JESUÍTAS Em 1862 o corpo de alunos do Seminário resumia-se a um aluno interno e 8 ou 9 externos que estudavam latim e algumas crianças que frequentavam as primeiras letras. Mas o panorama não era melhor quanto ao clero em geral que contava com dois padres europeus, 6 ou 7 chineses, alguns macaenses e nem um cónego (16). A situação era de tal forma clamorosa que não deixou alternativa ao governo de Lisboa senão autorizar o regresso dos Jesuítas a Macau. Este regresso dos jesuítas a Macau seria tão marcante quanto fugaz. Por um lado, a Companhia restituiu de facto ao Seminário os créditos conseguidos pelos lazaristas guindando de novo a instituição a um patamar elevado de prestígio. No entanto, por outro, não conseguiriam ganhar o tempo suficiente para poder firmar raízes capazes de garantir a permanência em Macau no longo prazo. Seja como for certo é que a chegada dos jesuítas operou desde logo uma verdadeira revolução no Seminário e indirectamente, afinal também, em todo o sector da educação em Macau, conseguindo 61
principalmente sensibilizar as forças vivas para a questão da educação que sempre tinha sido persistentemente descurada pelos poderes e mesmo pela opinião pública. As transformações eram salientadas em grandes encómios pelo Reitor do Seminário Pe. Gouveia que, em ofício ao Ministro da Marinha e Ultramar datado de 25 de Setembro de 1862, agradece a autorização ministerial para o envio dos dois eclesiásticos que apenas mal chegados fez com que principiasse a acudir ao Seminário um grande número de alunos. O interesse foi tanto que o próprio Reitor teve de mandar fazer obras destinadas a alojar os alunos, o que levou ao adiamento das aulas. Desde então para cá, diz ainda o Pe. Gouveia, "tudo tem corrido optimamente antevendo-se para este estabelecimento um futuro esperançoso". O reitor fornecia a seguir a estatística ilustrativa do novo panorama: "O número de alunos internos é por enquanto de 41, sendo todos pensionistas, excepto 7 jovens chineses de Cantão que foram recebidos por conta do fundo das missões. Os externos são já passantes de 150, andando assim uns e outros por 200, distribuídos todos pelas aulas de primeiras letras, português (1 ª e 2ª classe), latim, francês, inglês, elementos de matemática, história e geografia, filosofia racional e moral e física, para não falar nas aulas acessórias como música". O entusiasmo do Reitor era tal que extravasava largamente todas as ambições declarando que ele e o restante corpo docente, independentemente do facto de mal chegar para as exigências do momento estar decidido a "fazer reviver este padrão de antiga glória portuguesa no Oriente -o Seminário de S. José". Ia ainda mais longe afirmando que "quanto mais tempo se deixasse nas mãos da Propagação (17) e dos religiosos estrangeiros sem tratarmos de cumprir o nosso dever, mais se irá dificultando o acesso dela aos missionários de Macau." 62 A regência da Companhia de Jesus no Seminário, seria tão curta como impressiva, deixando indelevelmente gravado um nome. Francisco Saverio Rondina. Neste ponto da história voltamos ao professor António Aresta, agora no seu livro intitulado "Figuras de Jade" em que traça o principal da sua biografia: Francisco Saverio Rondina (1827-1897), missionário jesuíta italiano do Real Padroado Português do Oriente, prestou assinaláveis serviços à cultura portuguesa, à educação e ao ensino da filosofia em Macau. Permaneceu cerca de dois anos no nosso país, como professor de filosofia no Colégio de Campolide. Foi o introdutor do neotomismo em Portugal, antecipando-se ao amanhecer oficial dessa corrente filosófica que se dá em 1879, com a publicação da Encíclica 'Aeterni Patris Unigenitus' do Papa Leão XIII. Parte para Macau, em Janeiro de 1862, para dirigir o Seminário de S. José que se encontrava envolvido numa decadência atroz, com falta de alunos e de vocações. Chega ao Território no fim do mês de Março do mesmo ano. Era um ano especial, porquanto era o regresso dos jesuítas a Macau, cem anos após a expulsão decretada pelo Marquês de Pombal. A lei é de 1759, mas foi executada em Macau apenas em 1762. Em Portugal, sobe ao trono o Rei D. Luís. Francisco Rondina recordará mais tarde essa inolvidável viagem para Macau no livro "Viaggio Nell'India e Nella Cina: Flora, Fauna, Costumi e Avventure" (1884), cujo volume segundo descreve o trajecto "Da Canton a Macao". Há aqui um enorme manancial de informações curiosas, interessantes e 63
perspicazes que ainda não foram devidamente estudadas e enquadradas no orientalismo português. O exemplar que existe no fundo antigo da biblioteca do ex-Leal Senado tem um carimbo a dizer que foi "Oferecido pela Família Nolasco", muito embora o seu proprietário original tenha assinado o seu nome na folha de rosto, "Manuel J. da Silva, Macau, 16 de Janeiro de 1885". ( ... ) Francisco Rondina era um erudito que colocou o seu saber e a sua cultura ao serviço da comunidade. Admirador confesso de Luís de Camões, do padre António Vieira, de Mendes Leal, Alexandre Herculano, António Feliciano de Castilho, Latino Coelho, entre outros, Francisco Rondina publicou as obras seguintes:" A Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo Reivindicada contra Ernesto Renan'\ 1864; "Exame do Relatório sobre o Seminário de S. José", 1868; "Algumas palavras dirigidas aos Romeiros do ano de 1860 sobre o antigo sepulcro de S. Francisco Xavier na Ilha de Sanchoão", 1869; "Pio XI perante a Revolução", 1871; "A Educação", 1887; "Filosofia Natural e Racional", 1888. Existem outros títulos publicados na sua língua materna, o italiano. Como Professor de Filosofia, a sua obra foi notável. A começar pela edição do "Compêndio de Philosophia Theorica e Practica Para Uso da Mocidade Portuguesa na China", impresso na Typographia do Seminário de S. José em Macau, que era muito mais do que um simples manual escolar. O primeiro volume sairia em 1869 e o segundo em 1870. O índice das matérias é o seguinte: lógica; lógica menor ou dialéctica; lógica maior ou crítica; metafísica geral ou ontologia; metafísica especial; cosmologia; psicologia; teologia natural ou teodiceia; filosofia moral ou ética; filosofia social; filosofia da religião. 64 O redactor do jornal 'O Echo Macaense', na edição de 30 Maio de 1897, esclarece que esta obra foi feita "a expensas do falecido pai do nosso amigo, Sr. Pedro Nolasco da Silva". Há uma mão invisível por detrás de tudo isto. O seu propósito era muito ambicioso, "era nosso desejo introduzir aqui um curso trienal de filosofia, no qual o primeiro ano fosse consagrado à lógica e à metafísica; o segundo à ética e ao direito natural; o terceiro aos sistemas filosóficos ou à filosofia da religião". Esse propósito não foi viabilizado porque Macau era "um país dedicado ao comércio, distante do centro da civilização e destituído de bibliotecas". Era importante rasgar novos horizontes problematizadores pelo que encarou esse desiderato com um sentido pedagógico de missão : "escrevendo nós este compêndio para a mocidade portuguesa de Macau e dos mais portos da China, em que não há aula de ensino superior, era para nós uma necessidade incluir nele os elementos de outras ciências que aqui não se ensinam, e que longe de serem estranhas à filosofia, formam pelo contrário parte da mesma, como são a jurisprudência, a economia política e a religião considerada debaixo do aspecto filosófico". O tomismo estava presente na concepção da obra, "as doutrinas contidas neste compêndio têm por base a filosofia de S. Tomás, exposta na sua 'Summa Theologica e Philosophica', e reduzida a método por dois eminentes filósofos, Goudin e Libera tore, isto porque "a moderna filosofia, desviada do ramo que o cristianismo lhe trilhara, se foi encostando, ora ao materialismo que embrutece o homem, ora ao racionalismo que o diviniza, flutuando incerta entre estes dois sistemas fatais". 65
Assim sendo, "este regresso da filosofia aos bons princípios, abandonados numa época de alucinação e de desvario, constitui o verdadeiro progresso da ciência racional, que honra a época actual, e que promete um futuro melhor para a sociedade". O redactor de "O Echo Macaense" registou este impressionante apelo de Francisco Rondina aos seus alunos: "meus queridos meninos - dizia ele no meio das prelecções de filosofia e da arte oratória e poética - ficarei muito contristado quando souber que os meus discípulos depois de completado o curso de filosofia natural e racional foram engraxar as botas aos ingleses, ocupando o lugar de simples amanuenses. Dedicai-vos às ciências e artes liberais e não ao serviço mecânico. Sede advogados, médicos, engenheiros, negociantes, mas não vos deixeis estiolar o corpo e o espírito num escritório de copistas". Macau necessitava de homens desta têmpera, visionários e indutores de uma atmosfera cultural bem acima da mediania. Contudo, os problemas surgiram de onde menos se esperava. No "Exame do Relatório sobre o Seminário de S. José" faz a dissecação de uma campanha contra os jesuítas, liderada pelo padre António Carvalho, entrando em pormenores tais que se vê obrigado a dizer, "perdoe-nos o leitor se descemos tão baixo a miudezas e frioleiras que nos repugnam". Como é de costume dizer-se, fizeram dos periódicos locais uma "barrela da roupa suja de animadversões e desinteligências" que, em função da conjuntura, seria piedoso e útil tratar a bom recato. 66 Para além destes problemas intestinos no seio de uma instituição que tardava em serenar-se, Francisco Rondina tinha tido a ousadia de tocar num assunto que oficialmente não existia enquanto problema humano, jurídico e ético, a emigração dos cules, isto é, o tráfico e a escravatura dos cules, cujos fluxos migratórios para o Peru e para Cuba passavam pelo porto de Macau. Era uma questão tão rendosa quanto intocável. Como é que o doutrinador da filosofia neotomista e dos valores humanistas e cristãos, poderia ficar silencioso e omisso, compactuando com tamanha ignomínia? Este protagonismo levantou enormes problemas e malquerenças. Francisco Rondina tornou-se uma incomodidade para o 'status quo' dominante. Como não podia ser demitido, nem expulso de Macau, foi necessário recorrer a outro estratagema, porventura extraído dos ensinamentos de Maquiavel. Em 1870, por virtude de um decreto de 20 de Setembro, o Seminário passou a "servir de liceu em que recebam instrução secundária os indivíduos que não se destinarem aos estados eclesiásticos" (nº. 3 do artigo 1°). Desta forma, antes da criação de um Liceu em Macau, em 27 de Julho de 1893, o Seminário de São José era o único estabelecimento de educação onde se ministrava o ensino secundário, com o programa de estudos oficializado. 67
De Lisboa veio, em 1871, uma portaria, claramente 'ad hominem', que estabelecia que "os Professores do Seminário teriam de ser obrigatoriamente de nacionalidade portuguesa. Aqueles que não cumprissem esse requisito, teriam de abandonar o Território. Estava encontrada a solução .... ". E assim, pela segunda vez os jesuítas voltariam a ser arredados da história de Macau. Corredor térreo na ala velha do Seminário 68 Durante os 9 anos dos Jesuítas o Seminário para além de ter crescido exponencialmente em quantidade revelou-se igualmente pela qualidade do ensino, não podendo deixar de se referir que foi ali durante esse período que se haveriam de forjar alguns alunos que acabariam por ter papéis de relevo não só na vida eclesiástica, mas também noutras áreas. Neste âmbito avulta desde logo a figura do Marechal Gomes da Costa, líder do golpe militar de 28 de Maio de 1926 que haveria de instaurar o chamado "Estado Novo". O próprio Seminário não deixou de o lembrar mantendo durante muito anos em lugar de destaque o retrato deste caudilho, que o próprio tinha oferecido com uma dedicatória à instituição onde tinha aprendido as primeiras letras. Nas suas memórias Gomes da Costa diz: "O seminário de S. José que eu frequentava e onde gozava de uma particular protecção dos bons padres, por ser europeu ... Foi meu Pai que me ensinou a ler e logo que o fiz correctamente comecei a frequentar o Seminário de S. José com entusiasmo e ali fiz um primeiro exame; não tenho a consciência de que tenha sido um bom exame, mas a protecção que me dispensaram de certo permitiu que me premiassem com uma selecta camoniana, que eram os Lusíadas, expurgados das passagens que os Padres reputavam escabrosas e que podiam despertar a curiosidade à rapaziada. As recordações que tenho do Seminário são excelentes: os professores, quase todos padres, eram bons para nós e os recreios alegres numa vasta cerca com grandes árvores" (18). 69
Outras duas figuras de relevo nacional que ali completaram a sua educação primária e secundária foram os irmãos Artur e João Tamagnini Barbosa. Artur tinha quatro meses de idade, quando a 22 de Janeiro de 1882 desembarcou em Macau, ao colo de seus pais, o conselheiro Artur Tamagnini Sousa Barbosa e Fátima de Sousa Tamagnini. Frequentou o Seminário de S. José e o Liceu, só regressando à metrópole com 17 anos, indo estudar para Coimbra, onde se licenciou em professorado e pedagógicas. Viria a abraçar a carreira colonial, à semelhança de seu pai, inspector-geral da Fazenda do Ultramar, de quem foi secretário. Iniciou a sua carreira no Ministério das Colónias como escriturário dos serviços da Fazenda de Timor, tendo sido sucessivamente promovido, chegando a ser director-geral da Administração Política e Civil. Foi chefe de gabinete do seu irmão, brigadeiro João Tamagnini Barbosa, quando este era ministro das Colónias, bem como co-proprietário de um dos mais prestigiados estabelecimentos de ensino de então, a Escola Nacional, em Lisboa, onde se ministrava o ensino básico, secundário e comercial, tendo sido seu director e professor de português, literatura portuguesa, francês e inglês. Em Março de 1918 foi nomeado Governador de Macau, desembarcando no território a 12 de Outubro. Novamente nomeado Governador de Macau, em Julho de 1926, chegou ao território a 8 de Dezembro, aqui permanecendo até 19 de Novembro de 1930. Em Novembro de 1936, seria pela terceira vez nomeado Governador de Macau, desembarcando no território em 11 de Abril de 1931. Viria a falecer no palacete de Santa Sancha, a 10 de Julho de 1940, contava 59 anos, vítima de uma anemia cerebral, numa altura em que Macau vivia uma situação muito difícil, com uma população acrescida de largas dezenas de milhares de refugiados, fugidos à guerra sino-japonesa, receando-se a todo o momento que o território pudesse ser também invadido. 70 Era possuidor de 16 condecorações, entre as quais a medalha de ouro de serviços distintos, a medalha de mérito naval, a Legião de Homa, a Ordem de Santiago da Espada e a Ordem Militar de Avis. Publicou o trabalho "Giro Bússola"e "Elementos Magnéticos da Província de Moçambique 11 • Foi dado o seu nome a uma avenida e a um bairro de Macau e no Jardim da Flora existe um busto seu. Também o grande bairro social que mandou construir, e só há poucos anos foi demolido, ostentava o seu nome: Bairro Tamagnini Barbosa. É lembrado no território como um dos seus mais dedicados governadores (19). João Tamagnini de Sousa Barbosa nasceu em Macau em 30 de Dezembro de 1883. Foi Ministro do Interior, das Colónias e das Finanças nos governos de Sidónio Pais e de João Canto e Castro (1918). Foi primeiro ministro, após o assassínio de Sidónio Pais, de 23 de Dezembro de 1918 a 27 de Janeiro de 1919. Durante o seu governo, de herança sidonista, teve de fazer frente a várias revoltas republicanas e monárquicas, de que se destacam, no primeiro caso, a revolta de Santarém e, no segundo, as revoltas de Lisboa e do Porto, ficando esta por debelar à data da sua demissão. Viria a ser detido por duas vezes na década de 1920, tendo sido deportado, na sequência da sua segunda prisão, em 1927, para a ilha da Madeira, embora regressasse ao continente ainda nesse ano. Militou em diversas organizações partidárias, começando no Partido Radical (pelo qual foi, em 1911, candidato a deputado por Lisboa), passando pelos partidos Evolucionista, Dissidente, Centrista, Nacional Republicano, Liberal e terminando no Nacionalista. Oficial do Exército, exerceria, entre 1936 e 1942, o cargo de director do Instituto dos Pupilos do Exército e, em 1943, o de comandante militar da ilha Terceira, depois de, no ano 71
anterior ter atingido a patente de brigadeiro, com que terminou a sua carreira. A 15 de Fevereiro de 1919 foi feito Comendador da Ordem Militar de Cristo. A 31 de Dezembro de 1920 foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Militar de A viz, tendo sido elevado a Comendador da mesma Ordem a 5 de Outubro de 1926 e a Grande-Oficial a 20 de Junho de 1941. A 19 de Julho de 1946 foi feito Comendador da Ordem do Império Britânico. Desempenhou altos cargos ultramarinos nomeadamente em Moçambique, tendo colaborado na Gazeta das Colónias entre 1924 e 1926. Faleceu em Lisboa em 15 de Dezembro de 1948 sem voltar a Macau. 72 O velho relógio recuperado que ainda funciona junto à antiga secretaria do Seminário. CAPÍTULO 9 SECULARIZAÇÃO DO SEMINÁRIO A saída do corpo docente do Seminário em 1871 não redundou como anteriormente na ruína do Seminário. De facto no próprio dia em que os jesuítas partiam, 8 de Agosto desse ano, aportava a Macau um novo corpo docente constituído pelo Pe. António Luís de Carvalho, governador do Bispado, João Albino Ribeiro Cabral, Francisco António Fernandes, prefeito dos alunos, Francisco Jerónimo Luna, coronel de engenharia e Director das Obras Públicas, Francisco da Silva Magalhães, cirurgião, José Vicente da Costa, prefeito dos alunos órfãos do Seminário, Francisco Pedro da Conceição Carmo, mordomo do Seminário, Baltazar Castiço Viana, e Luís Filipe de Vila-Oz, Bedel do Seminário. Com esta nova composição a vetusta casa da Igreja passava a ter apenas um padre como professor. Tratava-se de António Maria Augusto de Vasconcelos, que era assaz conhecido pelo seu antagonismo relativamente aos jesuítas. O Pe. António Luís de Carvalho assumia a reitoria e em 1872 matriculavam-se 326 alunos no estabelecimento. 73
Não se sabe ao certo se o ensino se terá degradado, ou se apenas os antagonismos políticos e rivalidades pessoais assim fizeram crer. No entanto a impressão geral não andava longe da manifestada pelo Pe. Manuel Maria Alves da Silva que afirmava que apesar da actividade verdadeiramente febril e o ardor do Reitor por tudo quanto dizia respeito ao Seminário a sua "capacidade mental definhava a olhos vistos. Também lhe não eram favoráveis a ideia e o conceito das pessoas circunspectas e graves da Colónia que enviaram seus filhos para a Europa ou para outras colónias a fim de se educarem. Datava da saída dos padres da Companhia esse resfriamento, ou despeito da opinião pública. Relativamente à formação de padres o mesmo autor sublinhava que durante a sua gerência não tinha formado um só sacerdote "sabendo que toda a glória e lustre desta colónia se sintetiza no bom espírito e zelo apostólico dos seus missionários e de que o Seminário deve ser esperançoso viveiro". Em 1875, com a nomeação do Pe. António Joaquim de Medeiros o seminário parece ter tomado nova vida com a chegada de cinco novos missionários vindos do seminário de Cernache do Bonjardim. Em Setembro de 1876 durante a distribuição de prémios o Pe. Medeiros anunciava que a instituição contava com 16 seminaristas, todos admitidos nesse mesmo ano, para além de dois teólogos, sendo 5 timorenses e dois chineses. A chegada de D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, nomeado bispo de Macau em 1873, parece, no entanto, ter contribuído para arrefecer os ânimos a crer no que deixa escrito o Pe. Alves da Silva que diz que tudo correu bem e animadamente até 1879 altura em que "as coisas começaram a afrouxar", 74 isto ainda que já antes vários padres tenham pedido para deixar o Seminário para se juntarem aos seus colegas que missionavam em Timor. Estas baixas foram perdas sensíveis e o número de alunos confirmou a descida de nível. Em 1881 havia no seminário 40 alunos internos e 28 externos. Nesse mesmo ano, o Leal Senado alarmado faz mesmo uma exposição ao rei D. Luís lamentando que o Seminário "que segundo a lei deveria ser um grande instrumento de instrução primária e secundária esteja reduzido a uma completa nulidade. E desta verdade está tão convencido o seu próprio reitor o Bispo Diocesano Enes, que se tem envergonhado de fazer a distribuição anual de prémios, que não se faz há quatros anos consecutivos. O memorando conclui dizendo com pesar que a única escola de instrução primária então existente, subsidiada pelo Governo, estava muito longe de satisfazer os fins a que se destinava, já que era regida por um professor oriundo de Timor que tinha vindo doente para Macau e cujas habilitações não eram "nenhumas". O Ministro da Marinha e Ultramar José de Melo Gouveia atendeu a reclamação ordenando a reforma do estabelecimento de ensino macaense transformando-o em "seminário liceu", não sem antes deixar uma censura em letra de forma à decisão anteriormente tomada de expulsar os professores estrangeiros (subentenda-se jesuítas). "Foram as congregações e ordens religiosas que forneceram ao Seminário de S. José de Macau os dignos professores que deram e sustentaram ao estabelecimento o crédito memorável de que gozou e que ainda teria talvez, se uma crítica altiva, que só conhece a liberdade dos seus preconceitos, não expulsasse aqueles homens do ensino, ali e noutras partes, para os substituir por outros que, embora tenham a sua ciência, se a têm, não possuem o seu zelo nem a sua aptidão para a educação pública. 75
Por este caminho, e por outros que relaxaram a disciplina escolar, decaiu de préstimo e de valor o seminário de Macau; e as autoridades da colónia e outras pessoas nela residentes, zelosas da sua prosperidade, pretendem hoje que o seminário se reforme e se converta num seminário-liceu de 1ª classe para atender devidamente ao ensino e educação do clero às más condições de instrução pública que a vida moderna exige na colónia". 76 O extenso corredor, renovado, que se estende da Horta Menor até à sala de estudos, num total de 80 metros de comprimento O decreto de Melo Gouveia acabava afinal de contas apenas por retomar um outro publicado onze anos antes e que nunca tinha sido implementado. O texto de então consignava os grandes objectivos para o Seminário que seriam os de instruir e formar sacerdotes principalmente chineses, para o serviço das missões da diocese e servir de liceu em que recebessem instrução secundária os indivíduos que não se destinassem ao estado eclesiástico. A lei acrescentava que a cadeira de náutica que desde há muito vinha sendo ministrada, continuaria anexada ao Seminário, bem como as aulas de ensino comercial, sendo criado um curso complementar e superior para os ordinandos com laboratórios, museus e colecções para os estudos físico-químicos, botânicos e geográficos e ainda um observatório meteorológico para a prática das observações fundamentais. Relativamente às despesas de funcionamento o orçamento deveria provir das pensões, propinas e emolumentos escolares, do rendimento dos bens das missões da China, dos donativos voluntários e da contribuição de duas mil patacas da lí Associação Promotora da Instrução dos Macaenses" (NOTA: BOLETIM OFICIAL DE MACAU, 4 de Março de 1882, p. 60-61). Escusado seria dizer que tão vasto e ambicioso programa nunca se viria a materializar por falta de pessoal e meios que o Governo nunca concedeu pelo que o liceu nunca chegou a formar-se no Seminário. Durante cerca de dez anos o Cónego Francisco Gonçalves regeu assim os destinos do Seminário até o Bispo António Joaquim de Medeiros (20) voltar a chamar os jesuítas a quem confiou de novo o Seminário. Os missionários da Companhia começariam a chegar a Macau no dia 17 de Março de 1890 num afluxo contínuo que se manteria até à revolução de 5 de Outubro de 1910. 77
Segundo relato do Pe. Alves da Silva "os estudos e toda a economia do Seminário começaram a ter uma nova orientação. Estes padres pelo ascendente moral e virtude e amor ao estudo, como não tinha havido antes, resultando dali muitos pedirem para seguir o estado eclesiástico, e achando-se outros inclinados a abraçar a carreira dos seus próprios perceptores; donde resultou um novo estado de coisas que fazia antever um futuro muito semelhante ao dos primitivos tempos deste estabelecimento". Outro aspecto do longo corredor no 2°. piso. 78 O plano de estudos seria remodelado e os alunos órfãos que desde 1870 se encontravam instalados no Seminário por falta de outro asilo, foram separados dos alunos ordenandos e colocados no andar inferior para não perturbar a disciplina. As coisas voltaram a regressar à normalidade primitiva, até à revolução republicana, data em que os Jesuítas mais uma vez foram obrigados a deixar o Seminário. Claro que a decisão de Lisboa voltou a levantar um coro de protestos e abaixo assinados. A imprensa afecta à Igreja fez-se eco da indignação e o próprio jornal "Morning Post" de Hong Kong refere a saída dos jesuítas lamentando que a sua obra educadora venha a ser abandonada, para comprazer um governo hostil à região. O jornal concluía afirmando que os republicanos portugueses tinham singular conceito da liberdade, a qual não seria fácil de compreender. A saída dos homens da Companhia de Jesus, como notava o Bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro deixou uma enorme lacuna quer no Seminário quer na Diocese pelo que da sua ausência muito se ressentia. No que se referia particularmente ao Seminário foi difícil evitar o encerramento e tê-lo-ia sido com enorme prejuízo se o clero secular de Macau não se tivesse prestado a substituí-los. O seminário possuía então 208 alunos: 82 internos e 126 externos. Durante a regência dos padres seculares entre 1910 e 1930, não parece ter-se notado a mesma descida de nível que se tinha verificado entre 1871 e 1890, tanto mais que logo a seguir à instauração da República Portuguesa o número de alunos subiria para 533. Isto, ainda que no que toca aos seminaristas se tenha registado uma quebra momentânea que foi sendo posteriormente colmatada até o seu número voltar a crescer atingindo os 80. 79
O Dr. José Gomes que dirigiu o seminário até 1921 escreveu um opúsculo intitulado "O Seminário de S. José de Macau" onde dá conta dos currículos: Curso Teológico: Dogmática, Moral, Sagrada Escritura, Direito Canónico, História Eclesiástica, Liturgia e Canto Gregoriano. Curso Comercial em inglês: Língua inglesa, Aritmética, Geografia geral e comercial, Taquigrafia, Dactilografia, Correspondência Comercial. Curso de preparatórios: Filosofia, Matemática, Física, Química, História Natural, Retórica e literatura, Geografia e História Universal, Português, Francês, Latim: Chinês Cantonense, Portugu-s -Chinês, instrução primária Elementar, Complementar, Doutrina Cristã, Desenho, Piano, Música vocal e instrumental. Em 1923 o número de alunos ascendeu a 526, tendo seis terminado o curso de filosofia. É nesse ano que se forma o Curso de Teologia que tinha deixado de funcionar em 1920. Nessa década, o Seminário voltaria a registar uma quebra que o Bispo D. José da Costa Nunes ajudou a debelar até que em 1930 regressaram os jesuítas, mas desta vez sem levantar qualquer polémica. Seria igualmente aquele Bispo que iria, em duas fases, imprimir ao Seminário uma direcção inteiramente nova, mas de acordo com as directivas do Vaticano que continuavam por cumprir. Assim em 1936 80 começaria por encerrar o curso comercial e dois anos mais tarde fecharia as portas aos alunos externos reservando o seminário exclusivamente aos candidatos à vida eclesiástica. Estas decisões vieram ao encontro das ordens emanadas da Santa Sé respeitantes à organização de estudos. Uma dessas ordens a que o Vaticano atribuía particular importância estabelecia o princípio de que os seminários apenas podiam ser frequentados por alunos que se consagrassem à vida eclesiástica. O Papa reconhecia que embora as aulas frequentadas por alunos externos pudessem ser de grande vantagem para a cidade onde se encontravam instalados os seminários, tal circunstância, por norma, impedia que se alcançasse "o fim primário dos seminários que era formar e preparar bons sacerdotes". As especificações do Papa deixavam à margem das directivas o Seminário de Macau que mantinha dois cursos de instrução primária, um em português e outro em chinês, bem como um curso secundário em chinês. Os estudos foram continuando regularmente e apesar da tremenda crise da Guerra do Pacífico, com todo o seu cortejo de miséria e sofrimento o Seminário enfrentou a tormenta sem grandes oscilações. 81
As Ruínas de S. Paulo, na actualidade 82 CAPÍTULOlO O SEMINÁRIO E A MÚSICA Durante a guerra, no entanto, um sector viria a ganhar especial relevo no seio do Seminário: a música. A música sempre cultivada no seminário foi particularmente acarinhada na década de 60 do século XIX, quando o padre jesuíta Francesco Rondina ali ocupou funções docentes. Foi este sacerdote italiano que pessoalmente se encarregou de trazer do seu país todos os instrumentos necessários para a formação de uma orquestra no Seminário. Depois da saída de Rondina a orquestra manteve-se sucedendo a estes dois maestros igualmente italianos: Luigi Antinori que morreria no seminário e Miguel Antonini. Este porém acabaria a sua regência de modo atribulado sendo expulso de Macau pelo bispo D. Manuel Bernardo de Sousa Enes (21). Apesar de tudo a orquestra continuaria sem sobressaltos de maior sendo enriquecida com o espólio de música sacra considerado excelente que pertencera ao falecido Luigi Antinori. Nas décadas finais do século XIX correspondendo a nova expulsão dos padres jesuítas o ensino no Seminário de S. José conhece algum declínio, como já foi referido, voltando apenas a reerguer-se já na 83
segunda década do século XX num processo implementado pelo bispo D. José da Costa Nunes que na reorganização que levou a cabo não esqueceu a música mandando vir para o efeito, tal como no século anterior tinha sido feito, um maestro italiano a fim de se ocupar da educação musical. Tratava-se desta vez de Ferdinando Maberini (1886-1956) um padre compositor de música sacra que durante a sua estada em Mac rganizanou exclusivamente este género musical. Segundo alguns a sua presença no Seminário de S. José teve uma importância superlativa no desenvolvimento das actividades musicais ali realizadas bem como na formação de instrumentistas e professores de música. É pois uma instituição marcada claramente pela reorganização e métodos implementados por Maberini, que um jovem, Áureo de Castro, vem encontrar quando ingressa dois anos depois da saída daquele (1932) no seminário de S. José. Áureo de Castro haveria de constituir-se como um dos maiores expoentes da música a ser formado no Seminário. A presença de Maberini continuaria a fazer-se sentir por alguns anos mais, apesar de ter deixado a instituição para regressar a Itália e à igreja de 11Santi Filippo e Giacomo" onde tinha iniciado a sua carreira musical e sacerdotal como organista e capelão. "O Pe. Maberini tinha diploma em piano, órgão, composição, canto gregoriano, eu sei lá quantos diplomas ele tinha! E a música que escrevia em estilo de polifonia clássica eram peças musicais muito boas", afirmava Áureo e Castro recordando os seus primeiros tempos de seminário. 84 Todavia quem o educaria e acabaria por o influenciar nas suas preferências em matéria musical seria outra figura que deixaria nome no corpo docente do Seminário: o Pe. Wilhelm Schmid. O coro do Seminário sob a regência do Pe. Wilhelm Schmid (década de 50). Este missionário pertencente à congregação dos salesianos chegou a Macau em 1939 e foi professor de música no seminário. Actuou também como instrutor da banda da Polícia de Segurança Pública e foi director do Instituto Salesiano entre 1960 e 1966, data em que regressaria à Áustria. 85
Hábil compositor, deixou inúmeras operetas de cunho catequético e obras vocais religiosas entre as quais uma missa, em si bemol, para três vozes e órgão recentemente descoberta(22) . A par de Wilhelm Schmid, António André Ngan (1907-1982) seria outro pólo decisivo de influência no seu futuro. Este sacerdote, membro da Missão do Padroado Português do Oriente, nasceu em Macau formando-se no Seminário em 1931, tendo sido aluno de Ferdinando Maberini. Intelectual notável, foi professor de música no próprio Seminário, director do coro e da orquestra daquela instituição bem como da "Schola Cantorum" da Sé Catedral. O Pe. André Ngan que, para além da música, deixaria vasta obra publicada como pedagogo, seria o professor de harmonia do jovem Áureo e Castro enquanto estudante. Quando Áureo e Castro chegou ao seminário tinha não só a orquestra fundada no século anterior pelo Pe. Rondina, mas também uma banda de música que ele integrou tocando trombone, ou trompete. A banda de música tinha um reportório variado com realce para as marchas do compositor americano John Philip de Sousa que os alunos tocavam de cor e salteado quando tinham oportunidade para tal. Essas oportunidades surgiam nos passeios que faziam uma vez por mês à Taipa e Coloane, (muito antes de haver pontes a ligar Macau às ilhas) e a que chamavam os "passeios grandes". Nestes lá ia a banda principalmente quando era a festa de S. Francisco Xavier em Coloane (3 de Dezembro): -"Fazíamos um arraial no coreto em frente à igreja de S. Francisco e lá dávamos um concerto ao ar livre. Era uma banda bastante completa. Imagine que tocávamos todas aquelas marchas do Sousa". 86 Na década de trinta e mais tarde na de quarenta respirava-se música em Macau, dentro e fora do seminário. Todos os seminaristas tocavam um instrumento, além disso nas igrejas paroquiais havia sempre um grupo coral, ou instrumental. A igreja da Taipa tinha uma banda dirigida pelo Pe. Pedro Hui, este também outro produto do Seminário ao qual se devem os esforços para a construção da Igreja de S. Francisco Xavier na ilha de Coloane. Outra banda tinha sido formada em S. Lázaro e o Orfanato dos Salesianos no seu início também possuiu uma no colégio. Todas estas bandas acabariam por se perder com a "Guerra do Pacífico". Mas era no seminário que o ensino da música era levado a rigor. A instituição ministrava estudos teóricos e possuía mais de trinta órgãos portáteis para a prática dos alunos e estudava-se o canto gregoriano: -"Na Semana Santa era tradicional cantarmos os responsórios de Vitória, espanhol. Que na minha opinião são superiores aos do Palestrina. O Palestrina escrevia música com pompa como se fosse para um cortejo. O Vitória escrevia música mais espiritualizada. O Vitória nunca escreveu uma página que não fosse religiosa. Bem, mas foi com essa coisa da polifonia que comecei a sentir cá por dentro um bichinho que me deixava curioso para saber como aquilo funcionava. Foi então que quis estudar composição musical" (23). Áureo e Castro explicava assim a razão de ser do seu percurso de vida que o levaria ao Conservatório Nacional de Lisboa regressando a Macau para de novo ensinar no Seminário e posteriormente fundar o Coro Polifónico de Macau e a prestigiada "Academia de Música S. Pio X". Foi sem dúvida o maior expoente da música sacra que o seminário alguma vez produziu. Faleceu em 20 de Janeiro de 1993. 87
88 A Capela de Stª. Cecília actuando com os alunos externos, sob a regência do Maestro Pe. Áureo Nunes e Castro (25/1/63) CAPÍTULOll A REVOLUÇÃO CULTURAL E O FIM DO EXTERNATO Depois de terminado o segundo conflito mundial, a "Guerra do Pacífico", como é conhecido nesta área geográfica, Macau, tal como o resto do Mundo entrou num trilho de mudança. O grande número de refugiados que se tinha acolhido à Colónia Portuguesa da China foi regressando às suas terras de origens. Com eles iam também para outras terras muitos macaenses que optavam por refazer a vida noutras paragens. Isto ainda que em pouco tempo novos afluxos de refugiados viessem procurar o asilo tradicional dos desprotegidos e deserdados que era Macau. Voltava a ser a guerra que movia os fugitivos, mas desta vez era a guerra civil, a mais fratricida e bárbara de todas. A guerra acabaria formalmente em 1 de Outubro de 1949 com a proclamação em Pequim da República Popular da China. A nova era de paz, porém encerrou virtualmente as fronteiras de Macau e o bispo ficou ipso facto separado da sua diocese que se estendia muito para lá das margens do Delta do Rio das Pérolas até aos recônditos montanhosos de Guangxi. Esta separação reflectiu-se naturalmente no número de chineses que atravessavam as Portas do Cerco para virem estudar no Seminário de S. José de Macau. A mudança de regime constituiu um cataclismo para a Igreja Católica 89
que se viu perseguida e os seus padres e bispos obrigados a abandonar o país. Muitos cruzariam as Portas do Cerco, com destino à Formosa, acompanhando os nacionalistas, outros acabavam por ficar em Macau nas várias paróquias e escolas ou então integrar afinal o corpo docente do Seminário. Tempos invulgares em que o corpo docente crescia em quantidade, mas principalmente em qualidade, enquanto o discente diminuía gradualmente. Nessa conjuntura o Seminário passaria mais do que nunca a formar sacerdotes para Macau, ou então para países e regiões vizinhas, como era o caso de Hong Kong, Singapura, Malaca e Timor. Mesmo assim o Seminário continuava a funcionar em pleno, o que permitia, ao Padre Luís Xavier o seu último reitor português, dizer que o Seminário estava povoadíssimo "éramos cerca de 200 alunos, tantos quantos tinha o Liceu Nacional Infante D. Henrique", referindo ao total de alunos internos e externos, recordando os seus tempos de formação nos inícios dos anos 60 do século XX. Nessa altura a instituição compreendia o seminário maior, onde estudavam os alunos de Teologia e de Filosofia; o seminário menor que correspondia ao ensino secundário; e o externato que tinha um número significativo de alunos a frequentar programas em língua portuguesa. Em 1965 e 1966, quatro alunos externos conseguiram concluir o Curso Filosófico, por sinal, os únicos a alcançar este feito no Seminário. Apesar dos números, o Seminário encontrava-se, no entanto, no limiar de uma nova era. É que para além da ascensão do comunismo na China os anos 60 do século XX marcaram a entrada de Portugal no período das guerras coloniais. Macau ficou à margem, mas acabaria, mesmo assim, por conhecer os reflexos da reorganização ultramarina a que Portugal foi obrigado a proceder em diversas áreas. 90 Além disso, por razões conjunturais, minguava o número do clero português em Macau e havia falta de sacerdotes para os ofícios da Diocese. O número de alunos foi decrescendo e a instituição confrontou-se na segunda metade dos anos 60 do século XX com a agitação que assolou o Território com os ecos da "revolução cultural" da China que se reflectiram em Macau em finais do ano de 1966 nos tumultos do chamado "Um, dois, três", ainda que a decisão de encerrar o externato tivesse antecedido a este evento. Em 1967 o bispo de Dili decidiu retirar os alunos timorenses dos cursos de filosofia e teologia. Essa decisão conjugada com a saída de alunos de outras dioceses contribuiu para reduzir drasticamente o número de seminaristas. Se as autoridades eclesiásticas de Macau já previam, ou não a escalada de violência que se geraria em Macau e em Hong Kong na década de 60 não há certezas, o que se sabe é que na sequência dos tumultos, o Seminário Maior encerrou devido aos acontecimentos de 3 de Dezembro de 1966. Em 1968, graduaram-se os últimos alunos externos, dos cursos de língua portuguesa, fechando um ciclo da sua história na formação em Macau. Apesar de toda a agitação o seminário menor ultrapassaria, no entanto, incólume a fase aguda do conflito mantendo-se em funcionamento até aos dias de hoje sem nunca encerrar as suas portas apesar de todas as procelas. 91
O estandarte do Seminário de S. José de Macau. "Ide e Ensinai", o lema da instituição 92 93
94 CAPÍTUL012 ALUNOS NOTÁVEIS DO SÉCULO XX Monsenhor Manuel Teixeira historiador emérito diz que "na história bicentenária do Seminário de S. José nunca houve uma floração tão esplêndida e fecunda como a de 1924 a 1939". Independentemente do facto do seminário ter produzido com regularidade vultos importantes tanto sacerdotes como leigos é indiscutível que Monsenhor Manuel Teixeira teria razão no que afirmava. Na poesia citava o Dr. António José Gomes, que publicou a Vida de Cristo num grosso volume, intitulado II A Cristíade", em hendecassílabos, à imitação de Os Lusíadas. 11 Consumiu a vida inteira na confecção deste poema" sublinhava. Outro poeta de grande mérito, e o de maior inspiração lírica, foi Monsenhor José Machado Lourenço, que publicou vários livros de poesia e inúmeros poemas em vários jornais e revistas de Macau e dos Açores. Quanto a "historiador máximo" designa o Pe. Doutor António da Silva Rego, que publicou em 12 grossos volumes a Documentação para a História das Missões do Padroado Português no Oriente e outros livros sobre as Missões Portuguesas de África. O seu discípulo Artur Basílio de Sá publicou 95
quatro grossos volumes sobre a Documentação do Padroado na Insulíndia. As obras destes dois historiadores obtiveram renome internacional, constituindo a base de todos os estudos sobre essas Missões diz aquele historiador. Artur Basílio de Sá nasceu em 1912, em Freixo de Espada à Cinta e faleceu em 1964, em Lisboa. Depois de concluir o ensino primário, partiu para Macau para estudar teologia. Concluiu o curso no Seminário de S. José e foi ordenado sacerdote em 1936. Foi professor no mesmo seminário nos anos de 1936 e 1937 e, mais tarde, partiu para Timor onde iniciou a sua actividade de missionário e continuando a docência. Foi director da Escola de Artes e Ofícios e Secretário das Missões de Díli. Em 1941foi escolhido como ecónomo da diocese da capital. Mais tarde, em Lisboa, ocupou o cargo de investigador e professor da Escola Superior Colonial e de vogal do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos. Dedicou-se então ao estudo da História do Oriente, de que resultou a publicação de três volumes: Documentos para a História das Missões do Padroado Português do Oriente; Documentação para a história das missões do padroado português no oriente Insulíndia, 1563-1567, o qual dedicou ao então primeiro ministro António de Oliveira Salazar. Cada volume consta de 650 páginas. Nesta obra relata a história dos primeiros contactos de missionários cristãos no Sudeste Asiático. O estudo que empreendeu foi baseado em documentos históricos, alguns deles enviados para Portugal em 1636 por António Bocarro (célebre fundidor de bronze e ferro de Macau). Quanto à história, efectuou investigações que o levaram a concluir que os primórdios da história de Timor se encontram nos feitos da primeira expedição dos portugueses às Malucas. Quando a II Guerra Mundial atingiu Timor, Artur de Sá e os seus colegas missionários) tiveram de refugiar-se na Austrália até 1943. 96 Regressou a Portugal em 1944, sendo ali nomeado Procurador das Missões de Macau e Timor. Em 1953 ingressou como estagiário no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Ultramarinas, leccionando cursos de Línguas autóctones (Tetum de Timor e Ronga do Sul de Moçambique) no Departamento de Línguas Orientais. Escreveu ainda apontamentos de teor etnológico e linguístico sobre Timor e ainda a primeira biografia conhecida de Jorge Alvares (1956) o primeiro navegador português a chegar à China. Três anos antes da sua morte, publicou o primeiro volume de Textos em Tetum. Vale a pena referir também Monsenhor António André N gan autor de vários livros pedagógicos sino-portugueses. Chantre António André Ngan (1907-1982) Mas no âmbito cultural o destaque vai sem dúvida também para o Pe. Jorge Barros Duarte, natural de Timor, "que passou a vida a publicar livros em prosa e verso sobre a história e a etnografia da sua terra natal" como dizia Monsenhor Manuel Teixeira. 97
Jorge Barros Duarte nasceu na pequena aldeia de Sarne concelho de Manufati em 1912 e faleceu em Lisboa em 6 de Junho de 1995. Continua a ser considerado um importante impulsionador das letras, prosa e poesia, em Timor entre as décadas de 1940 e 1980, tendo-se distinguido também como dirigente religioso e político. Ainda pequeno foi levado para o Seminário de S. José, onde completou a instrução primária e frequentou a seguir os estudos secundários e filosóficos, culminando os estudos teológicos com altas classificações. Concluído o curso foi ordenado padre em Macau em 1936. Nomeado membro europeu da Missão do Padroado Português do Oriente no mesmo ano é transferido para Timor. Na antiga colónia portuguesa exerceu funções docentes e dirigiu o famoso orfeão de Soibada apresentando-se em numerosos actos oficiais e religiosos. Durante a ocupação de Timor pelos japoneses refugiou-se na Austrália regressando mal acabada a guerra em 1945 altura em que retomou o seu trabalho missionário que tinha interrompido intempestivamente para ser nomeado em 1950 director do Seminário Menor de Nossa Senhora de Fátima e da Escola de S. Francisco Xavier. Nos anos seguintes ocupou-se de várias missões e paróquias sendo nomeado em 1962 governador do bispado pela ausência de D. Jaime Garcia Goulart. Nesse mesmo ano abandona as suas incumbências puramente religiosas para ingressar na política ao ser indigitado deputado por Timor à Assembleia Nacional onde cumpriu quatro legislaturas consecutivas. Findo o último mandato como deputado regressou a Timor essencialmente para tratar da aposentação que lhe seria concedida em 1969 data em que se retirou definitivamente para a metrópole. Companheiro de classe de Jorge Barros Duarte, Monsenhor Manuel Teixeira que será sempre recordado pela sua figura distintiva com longas barbas brancas e batina alva, vinha de Freixo de Espada à Cinta pequena vila raiana da província de Trás os Montes, onde nasceu em 1912. Após a conclusão da 98 instrução primária na sua terra natal, embarcou com um grupo de seminaristas destinados às missões do Oriente, chegando a Macau, para ingressar no Seminário de S. José. Seria na igreja do próprio seminário que seria ordenado padre em 1934 pelo bispo D. José da Costa Nunes, e nomeado pároco da igreja de S. Lourenço onde se manteve até 1946. Aos 22 anos foi-lhe entregue a direcção do "Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau", cargo que desempenhou até 1947, ao mesmo tempo que exercia funções docentes no Seminário (1932-1946) e no Liceu (1942-1945). O "Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau" tornou-se uma publicação internacionalmente conhecida, graças aos trabalhos de Monsenhor Manuel Teixeira e ao valioso contributo de outras figuras de grande prestígio como José M. Braga e Charles R. Boxer. Em 1948, fundou a revista mensal "O Clarim" e foi co-fundador do seminário "União". Em 1948, parte para Singapura como superior e Vigário Geral das Missões Portuguesas de Singapura e Malaca. Na cidade estado organizou várias instituições religiosas e fundou a revista "Rally" que se publicava em inglês. Em 1952, o Governo Português, reconhecendo os seus relevantes serviços, agraciou-o com o grau de Oficial da Ordem do Império Colonial. Em 1962, regressou a Macau e às funções docentes no Colégio de S. José (1962-1965), na Escola Comercial Pedro Nolasco (1962-1964) e novamente no Liceu Nacional Infante D. Henrique (1964-1970). Foi também Director dos" Arquivos de Macau" (1976-1980) e do "Boletim do Instituto Luís de Camões". Em 1981, a Fundação Calouste Gulbenkian distinguiu o seu trabalho "Os Militares em Macau" com o prémio de História; dois anos mais tarde, a sua "Toponímia de Macau" foi galardoada novamente com o mesmo prémio. 99
Sendo a história o principal elemento da sua vida foi membro da Associação Internacional de Historiadores da Ásia, da Academia Portuguesa de História e da Academia Portuguesa de Marinha, sócio-correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa, sócio da Sociedade Científica Católica Portuguesa, vogal do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, vogal do Conselho da Universidade da Ásia Oriental e Doutor Honoris Causa em Letras, pela mesma Universidade. Em representação de Macau e de Portugal, participou em vários congressos realizados em Manila, Singapura, Taipé, Paris e Sidney, entre outros, onde proferiu comunicações. Monsenhor Manuel Teixeira regressaria a Portugal definitivamente falecendo em Chaves em 2003 com 91 anos de idade. Deixou uma profusa obra de mais de 120 livros e numerosos artigos publicados na imprensa diária e não diária. Outro companheiro de carteira desta reconhecida figura foi Dom Jaime Garcia Goulart açoriano nascido em 1908. Seria o primeiro bispo da Diocese de Díli, que governou primeiro como vigário-geral depois como administrador apostólico sendo finalmente eleito Bispo em 1945. Jaime Garcia Goulart nasceu na freguesia da Candelária na Ilha do Pico, filho de João Garcia Goulart e de Maria Felizarda Goulart. Era parente pelo lado paterno e materno do cardeal D. José da Costa Nunes. Inspirado pelo exemplo de seu primo veio para Macau em 1921 com apenas 13 anos de idade, para ingressar no Seminário de S. José. Ainda estudante de Teologia foi nomeado secretário de D. José então bispo de Macau, mas acabaria por concluir o curso de teologia no seminário de Angra do Heroísmo cidade onde recebeu a ordenação sacerdotal. 100 Regressado a Macau, aqui permaneceu até se transferir para Timor, onde permaneceu até 1937 como comissário. Durante este período empenhou-se na fundação do Seminário Menor de Nossa Senhora de Fátima que abriu portas em 1936. Regressou ainda uma vez a Macau onde permaneceu até 1940 data em que voltaria a Timor agora como Vigário-Geral das missões daquele território. Terminada a guerra Jaime Garcia Goulart foi sagrado bispo de Timor em Sidney por se encontrar ainda refugiado na Austrália 25 anos mais tarde alegando cansaço e com a saúde abalada, pediu à Santa Sé, a designação de um bispo coadjutor com direito de sucessão, o que lhe foi concedido, permanecendo como bispo titular de Trofimiana. Resignaria em 1971 passando a bispo emérito de Díli. Depois de resignar regressou aos Açores falecendo na cidade de Ponta Delgada em 1997 com 89 anos de idade. Tal como D. Jaime também D. Arquimínio Rodrigues da Costa era açoriano e ascendeu à dignidade episcopal. D. Arquimínio da Costa nasceu na ilha do Pico em 1924. Deixou os Açores com 13 anos de idade para frequentar o Seminário de S. José. Concluiu o curso em 1949 tendo sido ordenado padre nesse mesmo ano. Ainda durante a frequência do curso foi professor desta instituição on rganizaçãria várias disciplinas tendo desempenhado também o cargo de reitor. Considerado um dos intelectuais do seu tempo em Macau, dominava com fluência o cantonense e o mandarim, escrito e falado línguas nas quais fazia os seus sermões à comunidade de fieis chineses. 101
Considerado pelas próprias autoridades eclesiásticas como inteligente e virtuoso, D. Arquimínio era possuidor de um excelente ouvido musical, tendo escrito algumas letras para canções. Sobraçando a responsabilidade da diocese de Macau por mais de uma vez por ausência dos seus titulares D. Arquimínio seria nomeado governador do bispado em 1963 e em 1965. Em 1973 seria eleito vigário capitular pelos membros do Cabido da Diocese. Em 1976 o Papa Paulo VI acabaria por o nomear definitivamente bispo de Macau. Na liderança da diocese D. Arquimínio levou a cabo a tarefa de localizar a igreja católica num processo que antecedeu a localização político-administrativa do território que só começaria alguns anos mais tarde com a assinatura da declaração conjunta luso chinesa sobre o futuro de Macau. Resignou do cargo em 1988 sendo nesse mesmo ano condecorado pelo presidente da república portuguesa Mário Soares com a Grã-cruz da Ordem de Mérito. Doutor honoris causa pela universidade da Ásia Oriental de Macau, seria distinguido também com a insígnia autonómica de reconhecimento a segunda mais importante condecoração dos Açores onde viveu como bispo emérito de Macau os últimos anos da sua vida. Faleceu em S. Mateus do Pico em 2016. Outro açoriano da Ilha do Pico era Áureo e Castro que chegou a Macau em 1931, com 14 anos de idade, para ingressar no Seminário. Ali, estudou teoria, solfejo e harmonia com os padres Wilhelm Schmid e António André Ngan, estes igualmente expoentes da música sacra do seu tempo. Ordenado sacerdote em 1943 foi professor no Seminário cargo que acumulava com os de vigário e capelão da Sé Catedral. 102 Mais tarde seria pároco da Igreja de S. Lourenço e director do semanário católico "O Clarim", sendo também professor no Liceu e na Escola Comercial Pedro Nolasco da Silva. Em 1951, seria designado para estudar música no Conservatório Nacional de Lisboa, onde também estudou canto e piano com alguns dos nomes mais sonantes do panorama musical português e europeu da época. Licenciou-se com distinção em composição musical em 1958. Ainda em Portugal, completou a "Sonata n.º l, Três Corais sobre Melodias Gregorianas", 11Sonata n.º 2, Sonatina nº. l 11 e a 11Sonatina n.º 2 Te Deum" para coro e órgão. Quando regressou a Macau, promoveu o canto sacro e em 1957 fundou o "Grupo Coral Polifónico". Em 1962, juntamente com o Pe. César Brianza, fundou a "Academia de Música de S. Pio XU, da qual se tornou director. Pe. Áureo Nunes e Castro 103
Áureo e Castro foi um "precursor", dado que tem uma série de trechos em que foi capaz de introduzir um elemento novo de fusão entre o Ocidente e o Oriente na música clássica". Os seus trechos "são tocados por vários pianistas de renome internacional". A cultura em geral e a música erudita em particular muito lhe devem e o estado reconheceu o seu papel atribuindo-lhe a Medalha de Mérito Cultural, condecoração que imporia também à sua Academia S. Pio X de que foi alma inspiradora e trave mestra. Áureo e Castro encerrou definitivamente um ciclo da cultura em que foi iniludível protagonista, marcando definitivamente uma época. Morreu em 1993, aos setenta e seis anos, no Hospital Conde de S. Januário, e encontra-se sepultado no Cemitério de São Miguel Arcanjo. Figura de grande relevo no plano social e no auxílio internacional aos refugiados foi o padre Lancelote Rodrigues. Natural de Malaca e a residir em Macau desde 1935, onde chegou com 12 anos para ingressar no Seminário de S. José, era filho de pai de ascendência portuguesa e mãe malaia. Deixou um trabalho sem paralelo em prol dos refugiados. Chegou a ser representante em Macau do Alto Comissariado dos Refugiados o que lhe valeu ser nomeado por Hong Kong para o prémio N ansen em 2012 e uma condecoração da rainha de Inglaterra. Depois de concluir os estudos em filosofia e teologia, Lancelote Rodrigues decidiu, aos 22 anos, ser padre, e foi ordenado em 1949. Conhecido como o padre dos refugiados, começou o seu trabalho em prol de gente que chegava a Macau à procura de um porto de abrigo em 1950, quando o então bispo de Macau o mandou acudir à vaga de portugueses que chegava de Xangai. Numa entrevista à agência de notícias Lusa, Lancelote Rodrigues recordou que chegaram a existir três centros de refugiados com pessoas de várias condições como no caso dos portugueses de Xangai o que, 104 para alguns, era uma humilhação, problema que se foi esbatendo com convívios entre todos. Realojados os portugueses de Xangai, surge, em 1978, uma nova vaga de refugiados, os vietnamitas, situação que se prolongou até 1991 e que trouxe a Macau cerca de 30.000 pessoas. Com a transferência de administração portuguesa de Macau para a China em 20 de Dezembro de 1999 Lancelote Rodrigues teve de envidar esforços mais intensos para ir procurando países de acolhimento para as pessoas que passaram por Macau e para as 441 crianças que nasceram no então território administrado por Portugal. Nasceu a 21 de Dezembro de 1923, em Malaca e morreu em Macau aos 89 anos de idade. Missionário de Malaca foi também o Pe. Manuel Joaquim Pintado. Nascido em Freixo de Espada à Cinta veio para o Seminário de S. José em 1936 com 15 anos de idade. Ordenado padre foi nomeado membro do Padroado Português do Oriente e enviado para Singapura. Pouco depois seria colocado em Malaca como coadjutor do pároco de S. Pedro. Os seus serviços depressa se tornaram notados tendo sido condecorado pelo governo de Malaca em1968. Três anos depois seria também agraciado pelo governo português com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Entre 1960 e 1974 publicou um boletim paroquial semanal. Membro da Sociedade Histórica de Malaca dedicou-se ao estudo da presença portuguesa na cidade, tendo traduzido toda a documentação portuguesa ali existente desde 1509 a 1641 em 19 volumes manuscritos que continuam a aguardar publicação. Para além deste seu trabalho documental publicou diversos livros entre biografias monografias e estudos de índole religiosa. Em 1975 foi exonerado a seu pedido do ofício de pároco e nomeado superior da Missão Portuguesa de Malaca, mas apenas para efeitos de representação. Faleceu em Freixo-de-Espada-à-Cinta em 1995. 105
Igualmente missionário na Malásia seria o padre António Augusto Cardoso. Nascido em 1873 em Freixo de Espada à Cinta ingressou no seminário em Macau sendo ordenado em 1899. Partiu para Singapura nesse mesmo ano sendo nomeado vigário geral superior das Missões de Singapura e Malaca e Procurador dos Bens das Missões Portuguesas. Foi também governador do bispado de Macau entre 1921 e 1922. Em 1927 retirou-se para a Metrópole sendo condecorado com a Ordem de S. Tiago da Espada. Seria nomeado em 1952 prelado doméstico do Papa com o título de Monsenhor. Faleceu na sua terra natal transmontana em 1955. Outra personalidade que integrou as tais gerações de excepção de 1925 a 1939 de que falava o Pe. Manuel Teixeira foi Júlio Augusto Massa. Nascido em Freixo de Espada à Cinta em 1922, ingressou no seminário em 1935, sendo ordenado em 1946. Em seguida integrou os corpos docentes do Seminário e do Liceu até 1950. Pe. Doutor Júlio Augusto Massa 106 Partiu então para Roma onde se licenciou em Filosofia. Seguiu depois para Espanha onde se doutorou em Sociologia na Universidade de Salamanca. Regressado a Macau, foi director interino do semanário "O Clarim" assistente eclesiástico da Mocidade Portuguesa e vogal da Assistência Pública. Integrou também o Conselho do Governo de Macau em 1957. Exerceu igualmente por duas vezes o cargo de governador do bispado e foi o primeiro procurador à Câmara Corporativa de Lisboa cargo para que foi eleito em 1964 cumprindo a legislatura que terminou em 1969 data em que regressou a Macau. Foi Director do Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau onde escreveu numerosos artigos. Foi ainda nomeado pelo governador de Macau Jaime Silvério Marques Provedor da Santa Casa da Misericórdia. Publicou várias obras, em poesia, "Esperança entre sombras," "Sonetos dispersos", "Sonho e realidade", "Viajar no tempo", e em prosa, "Para além do temor", "Pensa e Ri,", "Trabalho e bem-estar -Para uma sociedade mais igualitária", "Viver em sociedade: porque e como?", entre outras. Estes últimos versam especialmente temas filosóficos, éticos e morais. Veio a falecer em Lisboa com mais de 80 anos de idade. Finalmente refira-se que apesar do seminário estar situado em terras de paz certo é que também registou no século XX um mártir da fé. Foi o caso do Pe. António Manuel Pires nascido em 1924 em Freixo de Espada à Cinta. Formou-se no Seminário de S. José tendo sido ordenado em 1933. Partiu para Timor onde construiu uma quinta agrícola experimental em Ainaro concedendo formação vocacional a numerosos alunos numa colónia que era ao tempo considerada muito pobre e pouco produtiva em termos agrícolas. Os indígenas da região deram-lhe a alcunha de Karau fuik (Búfalo bravo), por causa do seu forte carácter que lhe permitia resistir a todas as adversidades. Todavia não conseguiria resistir às balas assassinas. Na sequência da invasão de Timor em 1942, uma coluna do exército japonês cercou aquela localidade matando os dois missionários que ali se encontravam, António Manuel Pires e 107
Norberto de Oliveira Barros cujos corpos foram em seguida incinerados no local. Timor e a Igreja perdia no martírio assim duas grandes almas. Mas nem todos os seminaristas singrariam pela via eclesiástica alguns notabilizaram-se distinguindo-se como leigos em diversas actividades. José Silveira Machado, foi um deles. Nascido em S. Jorge nos Açores em 1918, foi professor, co-fundador e jornalista do semanário católico "O Clarim", comentador, animador cultural, dirigente desportivo e escritor. José Silveira Machado deixou, entre outras coisas, um património escrito invejável, incluindo um guião para cinema e vários livros. A vida de José Silveira Machado confunde-se com a própria história de Macau do século XX, onde viveu cerca de 70 anos por ter participado um pouco em todos os sectores da vida do Território. Veio para Macau em 1933, onde chegou para estudar no Seminário de S. José, na companhia de outras destacadas personalidades de Macau como Monsenhor Manuel Teixeira e o padre Áureo da Costa Nunes e Castro. Porém, não sentindo a vocação para ser padre, optou pelo funcionalismo público, profissão que exerceu desde Janeiro de 1941 na então chamada Repartição da Fazenda do Concelho de Macau. Em 1948, foi transferido para os Serviços de Economia. Em 1974, José Silveira Machado aposentou-se e foi para Lisboa. No entanto não conseguindo adaptar-se acabaria por regressar a Macau em 1976 para iniciar a carreira de docente na Escola Comercial Pedro Nolasco da Silva, no Colégio Dom Basco e no Centro de Formação dos Serviços de Educação. 108 Durante a sua longa vida em Macau, foi, entre outras coisas, co-fundador e assíduo colaborador do semanário O Clarim, sócio fundador do Círculo Cultural de Macau, presidente da Comissão de Árbitros de Macau e vice-presidente do Comité Olímpico de Macau. De 2003 até 2007, foi Conselheiro das Comunidades Portuguesas pelo círculo eleitoral de China/Japão/Tailândia. Quando morreu, não visitava Portugal há cerca de 17 anos e costumava dizer que, se aterrasse em Lisboa, era capaz de se perder em cinco minutos. Faleceu em Macau, no Centro Hospitalar Conde de São Januário em 2007 e foi sepultado no cemitério de S. Miguel Arcanjo. Para além de sacerdotes o Seminário de S. José formou igualmente leigos que viriam a atingir posições relevantes na vida política e social de Macau. Entre vários conta-se Chui Tak Kei natural da aldeia de Xinhui (San Wui), muito perto de Macau. Nascido em 1912 frequentou o Seminário de S. José e depois o Instituto de Enfermagem de Cantão e ainda a Escola Alemã da mesma cidade na classe de engenharia e seria precisamente nos sectores de engenharia e da construção civil que desenvolveu, de forma mais intensa, a sua actividade profissional, tendo sido um dos fundadores da Associação de Construtores Civis de Macau, de que se tornou depois presidente honorário vitalício. Distinguiu-se, igualmente, no campo da intervenção cívica e como filantropo, o que lhe grangeou elevado prestígio social. Neste contexto, presidiu, à Associação de Beneficência Tung Sin Tong organização destacada no apoio social às camadas mais carenciadas da população, ao mesmo tempo que foi vice-presidente da muito influente Associação Comercial de Macau e presidente da Associação de Conterrâneos de San Wui. Foi deputado e vice-presidente da Assembleia Legislativa de Macau, membro do Conselho Consultivo do 109
Governador de Macau, membro da assembleia municipal e vice-presidente do Leal Senado, membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da RAEM, membro da Comissão Preparatória da RAEM, membro permanente do Comité Provincial de Guangdong da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês e presidente do Comité Consultivo para a Lei Básica da RAEM. Para além de destacado filantropo, empresário e dirigente cívico e político, era também exímio pintor tradicional, de assinalável aptidão, pertencendo à Associação de Calígrafos e Pintores Chineses Yu Un, de que foi fundador e presidente. Era também instrumentista amador dedicando à música muito do seu tempo livre. O facto de falar português que aprendeu no Seminário de S. José, permitia-lhe fazer a ponte entre a comunidade chinesa e portuguesa nos mais diversos assuntos de natureza política e social em que se empenhou durante a vida. Numerosas distinções honoríficas foram-lhe atribuídas, destacando-se as Medalhas de Mérito Cultural e de Valor do Governo de Macau, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Infante D. Henrique e, já na vigência da RAEM, as Medalhas de Lótus de Ouro e de Grande Lótus. Faleceu em 2007 com 95 anos de idade. Outra figura interventora na vida de Macau que se distinguiu como tradutor, empresário e político foi Roque Choi cidadão de etnia chinesa, mas que possuía a nacionalidade portuguesa. Nascido em 1921 viria a falecer em 2006. Foi secretário pessoal de Pedro José Lobo, umas das figuras centrais de Macau nas décadas de 30, 40 e 50. Mais tarde, assumiu também as funções de secretário pessoal de Ho Yin (pai do antigo chefe do Executivo de Macau Edmundo Ho ), então líder da comunidade chinesa de Macau e presidente da Associação Comercial de Macau. Roque Choi fundaria o Banco Seng Heng que mais tarde seria adquirido por Stanley Ho. 110 Exerceu a vice-presidência da Associação Comercial de Macau e a presidência do já extinto Leal Senado, tendo assinado nomeadamente o protocolo de geminação entre Macau e Lisboa com Krus Abecassis em 1982. Foi também deputado eleito por sufrágio indirecto à Assembleia Legislativa (1984-1988), membro da Comissão Consultiva da Lei Básica, da Conferencia Consultiva Política do Povo Chinês da província de Guangdong e do Conselho Consultivo do último Governador de Macau general Rocha Vieira. Teve também um papel determinante nas negociações que antecederam a transferência de soberania de Macau para a República Popular da China, que teve lugar no dia 20 de Dezembro de 1999. A 4 de Abril de 1967 foi feito Oficial da Ordem de benemerência, a 31 de Janeiro de 1986 foi elevado a Comendador da Ordem do Mérito e a 30 de Março de 1995 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Na dimensão artística de Macau onde avultam alguns nomes de grande vulto o do macaense Luís Demée é incontornável. Pintor e professor universitário, Luís Luciano Demée nasceu em Macau a 8 de Novembro de 1929 sendo um dos pintores de referência do século XX português. Morreu em Portugal no dia 15 de Julho de 2014. Na adolescência foi discípulo e amigo de George Smirnoff (1903-1947), arquitecto e pintor de origem russa. "Todavia, a partir de urna abordagem simples e realista da pintura, Demée evoluiu gradualmente até ao desenvolvimento do seu próprio estilo, como revelam as suas composições pictóricas inovadoras e pessoais.'' 111
Em 1951 realizou a sua primeira exposição individual, que foi bem recebida pela crítica, e participou em exposições do Hong Kong Art Club, em Macau. No ano seguinte obteve uma bolsa da Caixa Escolar de Macau, o que lhe permitiu matricular-se no curso de Pintura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Em 1953, pediu transferência para a Escola Superior de Belas Artes do Porto, onde prosseguiu os estudos. Luís Demée Durante os anos 50 participou na XX Missão Estética de Férias da Sociedade Nacional de Belas-Artes (1957), dirigida por Abel Viana e integrou a selecção de pintura enviada à I Bienal de Paris (1959), onde recebeu uma bolsa de estudo da Federação dos Críticos de Arte de Paris. Quando concluiu o Curso Superior de Pintura mudou-se para Paris, enquanto bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1960 apresentou a sua tese na Escola Superior de Belas Artes do Porto, tendo obtido a classificação de 20 valores, com distinção e louvor. No ano seguinte, foi convidado a leccionar nesta escola. 112 Numa primeira fase, desenhou edifícios e ruas mas a partir de certa altura a sua pintura foi-se tornando abstracta. Pintou murais, frescos, pinturas em vidro, tapetes e obras em acrílico para o Palácio de Justiça do Sabugal, bem como para vários hotéis e edifícios públicos. Ao longo dos 85 anos de vida participou em diversas exposições, quer em Portugal quer no estrangeiro, quer em Macau. Na sua terra expôs, em 1985 (mostra retrospectiva no Museu Luís de Camões), em 1991 e entre os finais de 2006 e meados de 2007 no Museu de Arte de Macau, com 73 aguarelas e 16 esboços criados entre 1945 e 1958. Luís Demée está representado no Centro de Arte Contemporânea, Museu Nacional de Soares dos Reis e Fundação de Serralves -Museu de Arte Contemporânea, no Porto; no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa; Museu de Ovar; Museu Municipal Amadeo de Souza Cardoso, em Amarante; Museu Luís de Camões, em Macau; e em colecções particulares espalhadas por Portugal, Brasil, EUA, Inglaterra e Alemanha. Recebeu a Medalha portuguesa de Valor da Secretaria de Estado de Cultura e a Medalha de Macau apresentada pelo Leal Senado. Em 1999, foi agraciado com a Medalha de Ouro de Cidadão (Emérito) do Governo de Macau. Faleceu em 2014. Pedro Nolasco da Silva que nasceu em 1842 em Macau e faleceu igualmente em Macau foi um ilustre intérprete-tradutor, professor, funcionário público, escritor, jornalista e dirigente associativo. Nascido numa família macaense tradicional estudou no Seminário de S. José destacando-se na disciplina de filosofia, na qual obteve alguns prémios escolares. Mais tarde, tornou-se aluno intérprete na 113
Procuratura dos Negócios Sínicos, onde aprofundou os seus conhecimentos da língua, cultura e literatura chinesas, nomeadamente os textos clássicos. Aos 24 anos, decidiu mudar-se para Hong Kong, onde se tornou um dos primeiros correspondentes e editores do jornal 11Hong Kong Daily Press11• Mas, depois de ter contraído Malária e sofrendo já de diabetes, decidiu regressar a Macau e à Procuratura dos Negócios Sínicos. É então que casa com a britânica Edith Maria Angier com quem teve dez filhos. Em 1885, o Expediente Sínico, que tinha por objectivo auxiliar os restantes serviços públicos nas relações com a comunidade chinesa local, tornou-se independente da Procuratura dos Negócios Sínicos. Na sequência dessa reestruturação, Pedro Nolasco da Silva foi escolhido para ser o primeiro chefe do Expediente Sínico, cargo que exerceu até 1892, quando se reformou da função pública. Esta nomeação foi fruto da sua brilhante carreira de intérprete-tradutor, marcada pela tradução de textos clássicos chineses para português, de documentos oficiais do português para o chinês e vice-versa e dos seus serviços de tradutor prestados em várias missões oficiais no estrangeiro. Uma das suas mais importantes missões teve lugar em 1887, já então como chefe do Expediente Sínico, quando participou em Pequim com o representante português Tomás de Sousa Rosa nas negociações do Tratado Luso Chinês de 1887. O seu profundo conhecimento da língua chinesa permitia-lhe também traduzir e comunicar em cinco dialectos chineses diferentes, nomeadamente o mandarim e o cantonense. Além de intérprete-tradutor, foi também professor de chinês no Seminário de São José, Liceu de Macau e Instituto Industrial e ainda editor dos jornais 11Echo do Povo1' (publicado em Hong Kong", 114 11 O Macaense" "e II Echo Macaense 11. Sendo activo na política e no associativismo cívico e filantrópico, foi provedor da Santa Casa da Misericórdia, presidente do Leal Senado, fundador e presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), inspector da educação pública, presidente da Associação dos Proprietários do Teatro D. Pedro V, fundador do Asilo dos Órfãos, vogal do Conselho da Província (1892), vogal do Tribunal de Contas (1897), vogal do Conselho do Governo (1899) e oficial do Batalhão Nacional. Teve também algumas experiências empresariais, sendo membro da direcção da Companhia de Cimento da Ilha Verde (1891) e fundador da Farmácia Popular (1895). Sendo um homem culto com visão, Pedro Nolasco da Silva introduziu na educação portuguesa local o estudo dos principais valores neo-confucianos, cuja compreensão era fundamental para perceber a mentalidade e conduta dos chineses. Pedro Nolasco da Silva deixou uma vasta obra escrita, que inclui as suas inúmeras traduções, sendo na sua maioria sobre a língua e cultura chinesas. Destacam-se as seguintes obras. Morreu no dia 12 de Outubro de 1912, em Macau, com 70 anos de idade. Logo após a sua morte, o Leal Senado proclamou-o II Cidadão Honorário de Macau II e, até hoje, um retrato seu continua a figurar no Salão Nobre da antiga edilidade. Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, já anteriormente referido (1880 -1940) nasceu em Macau em 1880. Governador de Macau, desempenhou esse cargo por três vezes. Casou com a poetisa Maria Ana Acciaioli, e faleceu em Macau, em 1940, durante o seu terceiro mandato como governador. 115
Iniciou o seu primeiro mandato em 1918, tendo inaugurado o Palácio de Santa Sancha como residência oficial dos governadores de Macau. Gov. Artur Tamagnini de Sousa Barbosa (1918/19, 1926/30, 1937/40), da Gazeta das Colónias, de 30/10/1926 O seu terceiro mandato foi muito mais difícil de desempenhar do que os outros dois porque, desta vez teve que preparar Macau para enfrentar a Segunda Guerra Mundial e negociar com os japoneses para que respeitassem a neutralidade da colónia portuguesa. Deixou alguns artigos sobre questões coloniais em diversos periódicos e encontra-se colaboração da sua autoria na Gazeta das Colónias (1924-1926). 116 João Tamagnini de Sousa Barbosa, nasceu em Macau em 30 de Dezembro de 1883 e tal como seu irmão Artur frequentou o Seminário de S. José antes de seguir para Portugal a fim de ingressar na escola de guerra. Habilitado com o curso de engenharia militar, que concluiu com distinção, foi também dirigente desportivo, ligado ao Sport Lisboa e Benfica. Foi Ministro do Interior, das Colónias e das Finanças da «República Nova», nos governos de Sidónio Pais e de João Canto e Castro. Foi também presidente do Ministério após o assassínio de Sidónio Pais (1918-19). Em 1919 foi feito Comendador da Ordem Militar de Cristo. Em 1920 foi agraciado com a medalha de Oficial da Ordem Militar de Avis, tendo sido elevado a Comendador da mesma Ordem a 5 de Outubro de 1926 e a Grande-Oficial a 20 de Junho de 1941. Em 1946, no final da Segunda Guerra Mundial foi feito Comendador da Ordem do Império Britânico. Durante a sua existência de cerca de três séculos, o Seminário de São José formou sucessivas figuras que deixaram marcas profundas na história local e mundial, além dos que mencionámos neste capítulo. Outros nomes poderemos ainda citar: o do Pe. Joaquim Afonso Gonçalves, Marechal Gomes da Costa, Leôncio Ferreira, também governador de Macau, D. José da Costa Nunes (Cardeal e Vice Camerlengo da Santa Sé), D. Jerónimo José da Mata (bispo), Pedro José Lobo, etc. JOÃO GUEDES 117
118 NOTAS (1)- In Toponímia de Macau, Pe. Manuel Teixeira, Imprensa Nacional de Macau. (2) -- Pe Benjamim Videira Pires, S.J., documentação sobre os inícios do Seminário de S. José, in "Religião e Pátria", ano 46 nº 42 de 23-10-1960, P. 663. (3) - Construída fora dos muros da cidade mas próxima da Igreja de Madre de Deus, dela resultou a toponímia do bairro e da Rua de Nossa Senhora do Amparo. (4) - 3A -ln Fr. José de Jesus Maria, "Ázia Sinica e Japonica", II, 202-203) (S) - ln "Educação em Macau", Pe. Manuel Teixeira. (6) -Pastoral de 30-1-1777, "Macau e a sua Diocese", II-260, Pe. Manuel Teixeira. (7) - ln "Vultos Marcantes de Macau", Pe. Manuel Teixeira. (8) -Arquivos de Macau, Janeiro de 1972, p. 15. (9) -Arquivos da Diocese de Macau, Vol. I, pp. 113-272. (10) - 11A 3 de Fevereiro de 1835, foram entregues por António Teixeira Machado Bastos, por parte do Procurador do Leal Senado aos Padres Lourença Taveira de Lemos e Rafael A. de Sousa (nomeados pelo Vigário Capitular para este efeito), três baús de ossos que foram tirados, a maior parte, da parede da capela de S. Francisco Xavier, onde o Bispo D. Francisco de Nª.Srª. da Luz havia depositado e mais alguns bocados de ossos que estavam no Santuário. Entre os objectos entregues estava 110 caixilho de prata queimado com a cana do braço do Glorioso S. Francisco Xavier que se tirou do sítio chamado santuário, de cima da parede onde estava guardada esta Relíquia". 119
Em 19 de Fevereiro de 1835, foi transportado ara a Sé Catedral onde se acha inventariada com nota à margem de ter sido, por ordem do Bispo D. António Joaquim Medeiros, e entregue aos Padres do Seminário de S. José para a guardarem. Essas (e outras relíquias que então estavam no Seminário) foram confirmadas (" comprovativo de autenticidade"), pelo mesmo Bispo de Macau D. António Joaquim de Medeiros (1884-1897). Em 1974, a relíquia de S. Francisco Xavier juntamente com as ossadas de mártires portugueses e japoneses mortos em Nagasáqui, durante as perseguições no ano de 1597, e as ossadas dos mártires vietnamitas do séc. XVIII, foram transferidas para a Capela/Igreja de S. Francisco Xavier, em Coloane. Posteriormente o relicário de prata como o osso do braço de 5. Francisco Xavier, foi transferido para a Igreja de 5. José. (in www.//nenotavaiconta.wordpress. comi) (11) - Macau e a Sua Diocese, Pe. Teixeira, III, P. 737. (12) -O Echo do Povo, nº. 68 de 15 de Julho de 1860. (13) - Um Brado pela Verdade, ou A questão dos professores Jesuítas em Macau, Leôncio Ferreira, Macau Tipografia Mercantil, 1872. (14) - Hian Chan (Heung San), distrito chinês vizinho de Macau onde residia o mandarim encarregado dos assuntos da colónia portuguesa. (15) - Arquivo da Procuradoria (Efemérides) de Setembro de 1831. -Edital do mandarim Cso-Tang de Macau, Chen, proibindo a construção de muros no sítio do Bom Jesus e da Ilha Verde e ameaçando os pedreiros por se haverem encarregado de tais obras. (16) -A Educação em Macau, Pe. Manuel Teixeira, pág. 223. (17) -A Sociedade para as Missões Estrangeiras de Paris, maioritariamente constituída por franceses, foi criada em Paris em 1658-1663. Em 1659, as instruções para o estabelecimento da Sociedade foram dadas 120 pela Sagrada Congregação da Propaganda da Fé, com a devida aprovação do Papa. Isto marcou a criação de uma instituição missionária que, pela primeira vez, não dependia do controlo e da protecção de Espanha ou de Portugal, que eram, até à data, as principais potências missiol)-árias da Europa. Desde a sua fundação, a instituição enviou mais de 4,200 padres missionários para a Asia, com a missão de se adaptar aos costumes locais, estabelecer um clero nativo e manter contactos estreitos com Roma e com o Papa. Aliás, nas instruções de 1659, o respeito e a aq.aptação aos costumes locais dos países a serem evangelizados foram considerados primordiais (WIKIPEDIA) (18) - "Marechal Gomes da Costa -Memórias" com um prefácio do Dr. Conselheiro Ayres d'Ornelas e um posfácio do Sr. Coronel Ferreira do Amaral, 1930, Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira e Cª (filhos). Restauradores 17-Lisboa Pgs. 5 e 7. (19) -Resumo Biográfico de Eduardo Tomé publicado na Revista Macau de Dezembro de 1996. (20) - António Joaquim de Medeiros nasceu em Vilar de Nantes, freguesia de Chaves, distrito de Vila Real, Portugal, em 15 de Outubro de 1846, sendo filho de Augusto Luís Medeiros e de D. Teresa de Jesus Carneiro de Medeiros. Foi nomeado prefeito (1873) e reitor (1875) do Seminário de S. José, visitador das Missões de Timor (1875) e superior e vigário-geral) de Timor (1877). Foi nomeado bispo-auxiliar de Goa em 29 de Agosto de 1882, sendo consagrado bispo titular de Thermopyl
colégio de Santa Bárbara, em Angra do Heroísmo. Daí viria a partir para o Brasil em 1840, sendo ordenado pelo bispo do Pará em 8 de Dezembro de 1845. Regressa a Portugal em Setembro de 1849, matriculando-se na Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, onde se doutorou em 1857, tornando-se lente em 1861 e catedrático em 1872. (Wikipédia). (22) - Entrevista do Pe. Áureo e Castro concedida ao maestro Veiga Jardim in "Áureo Castro, retrato de um músico", Margaret Lin e Graça Marques, Diocese de Macau, Academia de Música S. Pio X, 2015. (23) - Ibid. 122 BIBLIOGRAFIA António Aresta. Figuras de Jade, Os Portugueses no Extremo Oriente. Instituto Internacional. Colecção Suma Oriental. Lisboa 2014. António Aresta, Celina Veiga de Oliveira. O SENADO. Fontes Documentais para a História do Leal Senado de Macau. Edição Leal Senado de Macau, 1998: Beatriz Basto da Silva, Emigração de cules: Dossier Macau 1851-1894. Fundação Oriente (1994). Beatriz Basto da Silva, Cronologia da História de Macau, Macau, Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 1998. Carlos José Caldeira, Macau em 1850, Quetzal Editores -Lisboa -1997. Carlos José Caldeira, Apontamentos de uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa, Lisboa na Typographia de G. M. Martins. Rua dos Capellistas nº 62. 1852. H. de Oliveira Marques, História dos Portugueses no Extremo Oriente, Fundação Oriente 1998. 123
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Eduardo F. Tavares Funcionário aposentado -Macau Sentados (esq-dir) Filipe Tché, Emüio Botelho U, Inácio Tang, Antonio Lei e Eduardo Tavares Em pé (esq-dir) António Leong, Alberto Santos, Un Kam Heng e José Bártolo Sobranceiro à raia do Porto Interior, contíguo à Praia do Manduco, foi construído o edifício imponente do Seminário de S. José, no cume do Monte Mofino, que ainda se conserva na sua quase totalidade. 128 Digo na sua quase totalidade porque nos meados do século XX, devido às más condições de conservação, três blocos (dois a Sul e um a Norte), hoje novos, foram demolidos e reconstruídos. A Igreja do Seminário, no seu estilo barroco, ao qual se tem acesso por uma escadaria de granito aparelhado, recorda-nos as vezes que por ali passámos não nos sendo permitido que a ingratidão faça esquecer os benefícios vindos daquela fonte de luz, de fé e de conhecimento. O Seminário de S. José foi, em Macau, durante muitos anos, a única instituição onde era administrado um curso superior. Embora o seu objectivo principal fosse formar missionários, e consequentemente, as matérias leccionadas pertencerem ao âmbito da Teologia em todas as suas vertentes, nunca foi descurada a formação humanística e cívica de todos preparando ( quer clérigos ou leigos, quer internos ou externos) para enfrentar o mundo e a vida em sociedade com todas as suas vicissitudes, contribuindo eficientemente para o desenvolvimento da mesma sociedade. O Seminário de S. José, como todas as instituições, teve os seus altos e baixos, com muitos e poucos alunos, dirigido quer por jesuítas quer por religiosos de outras ordens e mesmo pelo clero diocesano. Era uma instituição com objectivos muito específicos mas, ao mesmo tempo, aberta à sociedade e atenta às necessidade da população e de outras instituições educativas. Não tenho na memória as datas, contudo, sempre ouvi dizer que a própria Escola Comercial, fundada por Pedro Nolasco, e hoje identificada por Escola Portuguesa de Macau, funcionou no edifício do Seminário de S. José. 129
Em 1931, tendo como fundadores dois missionários não chineses, foi criado o Colégio de S. José destinado a alunos de língua materna chinesa que, no início funcionou no edifício da Rua da Prata, cresceu e se desenvolveu contribuindo definitivamente para a formação dos jovens chineses e que, ainda hoje, é um marco importante na educação do leque das escolas católicas, e não só, do Território. O reverso da medalha do Colégio de S. José para alunos de língua veicular chinesa, foi o externato do Seminário para alunos de língua veicular portuguesa que, devido à falta de professores adequados ao sistema de ensino e a outras razões conjunturais, fechou as suas portas em 1968. Resta-nos a Associação dos Antigos Alunos do Seminário de S. José que persiste, e com muita razão, em manter a chama duma instituição de ensino formadora de tantos e eficientes valores locais. Em 15 de Maio de 1955, pelas 11 horas, numa carrinha de caixa aberta, com mais seis companheiros, deixava a longínqua vila de Freixo de Espada à Cinta, célebre pelos seus monumentos e a sua situação na fronteira com Castela, pelos seus frutos como a azeitona, a amêndoa e uvas; mais célebre, ainda, pois que foi o berço de ilustres personagens como Jorge Álvares, o poeta Guerra Junqueiro, o Almirante Sarmento Rodrigues, o Mons. Manuel Teixeira e muitos outros; mas sobretudo célebre porque foi o alfobres de vocações que levaram o Evangelho de Cristo às Terras de África, Oriente e Extremo Oriente. 130 Era noite avançada quando, em 30 de Julho de 1955, pisávamos os degraus da emblemática escadaria da Igreja do Seminário, acompanhados pelo D. Arquimínio Rodrigues da Costa, na altura reitor interino da instituição, uma vez que o Reitor, o Cónego Juvenal Alberto Garcia, se encontrava de licença graciosa em Portugal, o qual, mais tarde, viria a ser o último bispo português da Diocese de Macau. Tínhamos viajado no paquete Índia que nos trouxe de Lisboa a Macau, passando pelo Mediterrâneo, Canal do Suez, Éden, Goa, Singapura e Hong Kong e fundeara ao largo da Ponta Cabrita (mais ou menos) onde hoje vemos a pista do Aeroporto Internacional de Macau. Passámos do barco para um batelão que, rebocado pelo histórico rebocador Guia, nos levou a uma das pontes do Porto Interior e, é claro, a Macau. Assim se iniciou uma nova etapa da minha vida e que perdura por seis décadas. No século vinte, tendo como fonte as leituras efectuadas, os relatos dos mais idosos e sobretudo a vivência de décadas, o Seminário de S. José formou dezenas, melhor dizendo, centenas de jovens oriundos de Macau, de Portugal, Açores, Timor, China e outras partes do Globo que, seguindo cada qual a sua vida, de acordo com as próprias opções e escolhas, puseram em prática e valorizaram o lema "ITE ET DOCETE" (Ide e Ensinai) que se encontra, bem destacado, no emblema do Seminário de S. José de Macau. Cumpre-nos recordar aqui, não exclusivamente, alguns nomes: Cardeal D. José da Costa Nunes, ilustre Bispo de Macau; os irmãos António e Manuel Cardoso, missionários de algumas décadas em Singapura; Mons. Manuel Teixeira, com uma obra escrita de extraordinário valor; António Augusto Monteiro, muitos anos párocos de Sto. António e fundador da Missão de Fátima em Macau; vários 131
sacerdotes de Timor e Malásia que sucumbiram durante a 2ª. Grande Guerra; D. Jaime Goulart, primeiro bispo da Diocese de Timor, desanexada da Diocese de Macau (em 1940); Mons. André António Ngan, grande mestre e promotor da língua portuguesa; Pe. Áureo da Costa Nunes, fundador da Academia de Música S. Pio X, divulgador do pensamento criativo, através da arte musical; Dr. Júlio Augusto Massa, filósofo e professor com uma invulgar inteligência, e que nos últimos anos da sua vida escreveu uma série de livros em prosa e poesia; D. Arquimínio Rodrigues da Costa, que agregou em si qualidades, conhecimentos e obras adequadas à sua personalidade; D. Domingos Lam, timoneiro da Diocese de Macau, antes e após a transferência do Território; e o Bispo Emérito da Diocese Católica de Hong Kong, o Cardeal John Tong Hon e muitos outros. Pelo que me toca, não posso deixar de agradecer ao Seminário de S. José a oportunidade que me concedeu e lembrar para sempre que quase tudo quanto aprendi e sei, o devo a esta instituição a qual contribuiu de forma exemplar para a minha formação de acordo com a filosofia e os valores humanos e cristãos. Macau, 12 de Abril de 2018. 132 Se bastião Israel da Rosa Funcionário aposentado Macau No ano lectivo de 1948/ 49, quando o Seminário de S. José começou a readmitir alunos para o externato, que tinha cessado em 1938, fui um dos primeiros a estudar nesta instituição, começando pela 2ª. Classe do ensino primário até concluir o curso secundário, em 1959. O que aprendi durante estes dez anos no Seminário foi fundamental para a minha vida profissional, porquanto a sólida formação obtida através dos ensinamentos ministrados pelos docentes, maioritariamente compostos por sacerdotes, permitiu-me singrar na vida e galgar até ao posto máximo da hierarquia funcional em que me integrei. Desde o início até terminar a instrução primária, as aulas eram dadas no edifício velho adjacente à Igreja. O local onde estão hoje as novas construções, o ginásio e o bloco de salas de aulas era tudo horta com diversas árvores de frutas e outras plantações, como batata doce e hortaliça. 133
Estas novas construções começaram a ser utilizadas quando passei para o curso secundário. Nessa altura, o número de alunos externos do Seminário era já bastante elevado, pois, lembro-me de que no 1 º.Ano éramos mais do que cinquenta. No início, na 2ª. Classe, éramos menos do que dez. O nosso professor era o Pe. Ramiro Branco, pessoa muito rigorosa e práctica. Todas as semanas levava-nos para um passeio e numa destas ocasiões tirou-nos a fotografia que se segue, na curva que fica em frente do Matadouro Municipal da Barra. Uma das principais disciplinas, ministradas na Primária, além da Religião, era o Português. Lembro-me bem do professor desta disciplina na 4ª. Classe, o Pe. José Barcelos Mendes, grande mestre nessa matéria, que era muito exigente tanto no diálogo como na escrita, o que nos proporcionou a aprendizagem dos princípios básicos da língua portuguesa. As disciplinas dadas no Secundário eram variadíssimas, começando pelas línguas, Português, Latim, Francês e Inglês, seguindo-se a Religião e depois a Matemática, englobando Álgebra, Geometria, Trigonometria e Cosmografia. Tínhamos também História de Portugal e História Universal, Geografia e ainda aulas de Dactilografia, de Educação Física e de Solfejo. Tivemos grandes mestres no Secundário. Lembro-me muito bem do D. Arquimínio Rodrigues que dava aulas de Francês; do Pe. Maciel, professor de Álgebra; Pe. Neves, professor de História; Pe. Vaz, professor de latim; do Sr. Veríssimo do Rosário, professor de Ginástica; e de outros docentes que de momento não me recordo dos seus nomes. 134 Na Educação Física, para além dos desafios internos, participámos também no campeonato interescolar de futebol e ainda nos jogos de atletismo interescolar. Entre os momentos marcantes vividos no Seminário, recordo-me do seguinte, quando andávamos na 2ª. Classe: Como disse atrás, o Pe. Ramiro Branco era muito rigoroso, pois à mínima falta que cometíamos, dava-nos o devido castigo. Lembro-me de uma vez, durante o recreio, eu e outros colegas da classe fomos até à horta do Seminário, onde estivémos a escavar batatas doces, brincadeira da garotada daquele tempo. Apareceu aí o Pe. Branco que nos apanhou em flagrante e, como castigo, nos pôs de joelho no meio do corredor do primeiro andar, com uma das mãos levantadas segurando as batatas doces que tínhamos escavado, para sermos visto por quem ali passasse. Lembro-me bem deste facto, pois a tamanha vergonha a que estivemos expostos, serviu-nos de lição para sermos bem-comportados e cumpridores dos nossos deveres. Outro facto passado nas aulas de dactilografia deixou-me algo orgulhoso: Na minha casa havia uma máquina de escrever velha, do tipo primitivo mas que funcionava. Nos meus tempos livres utilizava essa máquina para aprender a dactilografar seguindo as instruções dos manuais. Quando comecei a ter aulas de dactilografia no Seminário, foi-me atribuída uma das máquinas de escrever novas, do tipo mais moderno daquele tempo. Com essa máquima aperfeiçoei-me na prática, ganhando velocidade. Após o primeiro teste de dactilografia, o professor Mr. Shaw dirigiu-se a mim e disse: "You are exempted from attending class from now on". Indaguei-lhe o motivo e ele respondeu "You type faster than me and without error". No final do ano recebi o diploma com a menção "Classificado com 18 valores". 135
Henrique Manhão Empregado bancário, aposentado. Concord, California O Seminário de São José reabriu para o externato em 1949 apenas para o ensino primário com a frequência de perto de 50 alunos. O ano seguinte começou a funcionar o curso secundário. Para mim, foram seis anos de grande experiência religiosa, alegria e de camaradagem tendo como colegas Alfredo Cabral Valoma, Renato Rodrigues, Carlos Nunes, Adolfo Demée, António Assis Fong, 136 João Manuel de Senna Fernandes e José Nuno Garcia dos Santos. Peço desculpas se omiti algum nome. Até então , só se ouviam histórias contadas pelos parentes e pessoas mais idosas sobre o Seminário que se encontra, situado num outeiro do Porto Interior.Ainda me recordo tão bem da escadaria de pedra que dá acesso à multissecular igreja; do pequeno átrio mesmo em frente dela onde jogávamos à bola nos recreios; das árvores de carambola, lon ngan, macupa, goiabas, etc.; da confissão todas as sextas-feiras pelo Pe. Gonçalves S.J. Quem queria confessar-se estava dispensado da última aula; dos cinemas aos Domingos a' tarde; da Mocidade Portuguesa; dos passeios à Ilha Verde, Taipa e Coloane; das lindas praias de Cheoc Van e Hac Sá. Não havia praticamente aulas às quintas-feiras, apenas uma hora de religião. Os passeios eram feitos nesse dia de semana. Das aulas de solfejo Como não havia seminaristas portugueses nessa altura, os externos eram os actores das récitas, ensaiadas pelo Pe. Mendes. Ainda me lembro tão bem da peça em honra do antigo Ministro do Ultramar, Comandante Sarmento Rodrigues. Uns dez de nós vestidos de marinheiro. O latim, a princípio, pareceu-me um bicho de sete cabeças. Pouco a pouco comecei achar muito interessante, "As Guerras Púnicas, De Bello Gallico" de Júlio César e as crónicas do famoso escritor romano Cícero.Os alunos do curso secundário tinham que ficar mais uma hora depois das quatro para aula de estudo. Mantive sempre bom relacionamento com todos os meus antigos professores, designadamente, D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Pe. José Barcelos Mendes, Pe. Ramiro dos Anjos Marta, Pe. Juvenal Alberto Garcia e o professor de Inglês Edmundo Martinho Marques. Saudosos tempos! 137
Sérgio Rui de Pina Vancouver, British Columbia, Canada. Aaah .......... 1948 -1949 ........ Terceira e Quarta Classe ......... Fui um dos ai unos originais participantes do "Seminário" quando esta Escola foi aberta aos Alunos 11 externos" ......... . Nestes anos de frequência e educação primária foi uma experiência inesquecível, não apenas porque tinha frequentado uma classe anterior como aluno "Interno" no Colégio D. Bosco e tive Tutores e professores os Reverendíssimos Padres António Giacomino, Padre Brianza e Padre Ricciardi. O Colégio D. Bosco era nessa altura domiciliado num edifício em frente á Igreja de S. Lourenço, e diariamente tínhamos que caminhar ás aulas localizadas no Edifício da Escola Yuet Wah situada na Rua Vitória mesmo atrás da antiga Escola "Sir Robert Hotung 11 ......... . Este antigo Edifício do Colégio era demasiado pequeno e havia insuficiência em termos 138 de espaço e aulas e por esse motivo um certo número de alunos tiveram que ser alojados nas aulas no C 1,, . Y t W h I t" · ,, · 111111 o egrn ue a ................. sso a e causa enormes e vivas memorias ..... . Portanto, eu tinha apenas sete ou oito anos de idade e essas mudanças de aluno interno a aluno externo causaram bastante transtorno, mas ao fim e ao cabo, essas experiências provaram ser bastante importante na formação pessoal nas áreas de educação e carácter. Atribuo a minha gratitude e apreciação aos meus Educadores / Professores, os Reverendíssimos Padres José Barcelos Mendes (Terceira Classe) e ao Sr. Padre Juvenal (Quarta Classe) do Colégio do Seminário de S. José. Aquando na Terceira Classe, lembro-me de vários Condiscípulos .......... Alex Airosa, Alberto Rodrigues, Victor Lemos, Sebastião da Rosa, José Inácio, entre muitos outros ......... e na Quarta Classe lembro-me duns outros também ... o Manuel Martins, Daniel Oliveira, Roque da Rosa além daqueles que acompanharam do ano prévio ......... . Infelizmente, não possuo fotos desses tempos " antigos II para serem submetidos para fins publicitários. O período de tempo que frequentei as classes primárias no Seminário foram as que mais me influenciou .......... a educação e formação que recebi foram importantíssimas e foram básicas em termos de preparação para o seguinte curso secundário. Ao meu saudoso e grande amigo Revdo. Padre José B. Mendes a quem muito agradeço pelos conselhos e guia durante o período de frequência no " Seminário 11 , e por muitos anos mais além da minha vida estudantil. A este importante e influente centro de Educação para os Macaenses ............ um grande "Muitíssimo Obrigado" ........... . 139
Dino dos Santos Parra Prelado Avenida Na. Sra. de Fátima, no. 35 5200-352, Peredo da Bamposta -PORTUGA PARTICIPAÇÃO, PARA A VIDA NO SEMINÁRIO DE SÃO JOSÉ Na década de 1950 a 1960, entraram muitos jovens no Seminário. 140 Em Agosto de 1953, chegámos onze rapazes, destinados ao Seminário, oriundos de Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta e Guarda. Desse grupo, que viajou no paquete C.C. Índia, enfrentámos 38 dias de viagem, bem difíceis de passar, pois o barco sofreu grandes embates, de ondas alterosas, que cobriam o barco. Chegados finalmente a Macau, fomos recebidos com muito amor e carinho sobretudo pelo Senhor Reitor, Revdo. Cónego Juvenal Alberto Garcia. Durante o Curso, vários do grupo e não só, foram desistindo, por liberdade própria ou por conselho dos Superiores do Seminário. Chegámos à Ordenação Sacerdotal, apenas dois: Revdo. José Coelho Matias que mais tarde desistiu e eu, que hoje vivo como Pároco da minha terra natal -Peredo da Bemposta -Mogadouro e de mais quatro aldeias, bastante perto de Peredo. A título de notícia e para dar uma pequena resenha da minha vida sacerdotal, já celebrei as Bodas de Ouro Sacerdotais, em Agosto de 2017. Reuni bastantes amigos, familiares, o Senhor Bispo da Diocese de Bragança - Miranda, bastantes sacerdotes da Diocese e muitos amigos e amigas. Trabalhei nos primeiros quatro anos, na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima -Macau. Em 1971 fui, voluntariamente, para Moçambique, fazendo projectos para vários anos, mas com a Independência de Moçambique e das outras províncias, tive de regressar a Macau, de saúde bastante debilitada, sobretudo devido aos ataques da "Frelimo" que me arrasaram a Missão de que estava encarregado pelo Exmo. e Revmo. Senhor Arcebispo de Lourenço Marques, D. Alvim Pereira. 141
Chegado a Macau, o Senhor Bispo D. Arquimínio Rodrigues da Costa aconselhou-me a vir descansar em Portugal. Aqui chegado, o Senhor Bispo de Bragança pediu-me para me encarregar da Paróquia de Peredo da Bemposta, Ventozelo, Vilarinho dos Galegos, Vila dos Sinos e Algosinho, pois o Pároco estava a fazer o estágio de Professor e não podia atender a Paróquia. O Senhor Bispo de Bragança escreveu ao Bispo de Macau e este concordou. Então tomei conta da dita Paróquia e as aulas de Português e de Latim na Escola Secundária de Mogadouro. Em 1980, o Senhor Bispo de Macau pediu-me para voltar a Macau pois precisava do meu serviço pastoral... Em Macau, de 1980 a 1996, fui Pároco de São Lourenço, Vigário Episcopal da Comunidade Portuguesa, Professor de E.M.R.C. e Cónego do Cabido da Sé Catedral de Macau. Em 1996, regressei definitivamente a Portugal, incardinando-me na Diocese de Bragança-Miranda. Até hoje continuo a ser Pároco, estando já reformado, como Professor. Termino, enviando para Macau muitas saudades, para todos os amigos, para a Diocese e para o Seminário, que me formou e a quem devo tudo o que tenho e sou. Cumprimentos para os ex-seminaristas e para todos os colegas no sacerdócio dessa Diocese. 142 Simão Barreto Maestro -Macau DE TIMOR A MACAU Cheguei a Macau em Outubro de 1958 para continuar os meus estudos de futuro missionário para Timor. É deveras gratificante ter oportunidade de relatar e expressar as impressões que ficaram da vivência inesquecível, já quase esquecida, na memória do tempo em que passei no Seminário de S. José. Na impossibilidade de enumerar todos com quem privei entre colegas e professores, as estórias e episódios que vivemos juntos, apenas vou relatar só o que salta à memória (que não é grande coisa). O Seminário de S. José de Macau, na altura, diferenciava os alunos externos e alunos internos. 143
Os alunos internos são os que vivem em internato dentro do Seminário, destinados a futuros sacerdotes e os externos, destinados à vida de leigos, vivem nas suas casas. No entanto tinham os mesmos professores e as mesmas aulas (de português, latim, matemática, história, etc.). De entre os professores menciono dos que me lembro: Pe. Juvenal Garcia, antigo reitor; Pe. António Nunes da Costa, secretário da escola; Pe. Arquimínio da Costa, professor de português, latim e francês e, mais tarde, Bispo de Macau; Pe. José Mendes, grande dinamizador de jovens que o tinham em grande apreço; Pe. Artur Neves, prefeito dos internos; Pe. Júlio Augusto Massa; Pe. Áureo de Castro, sobrinho do Vice-camerlengo D. José da Costa Nunes, excelente compositor e músico de grande envergadura; Pe. Lancelote Rodrigues, director, após a morte de Áureo de Castro, da Academia S. Pio X, juntando o seu múnus ao de responsável dos refugiados; Pe. William Schmid, salesiano, compositor prolífero que deixou para o Seminário muitas peças musicais que mais tarde foram coligidas em dois volumes publicados pela Diocese sob o nome de "Exultate". A Áureo de Castro se deve a criação da Academia de Música S. Pio X que, antes da criação do Conservatório de Música de Macau, começou a leccionar o ensino sistemático de música com método e disciplina. Por sua iniciativa, foi criado o Coro Polifónico de Macau com quem executou muitas das mais ricas polifonias da Escola de Évora. Júlio Augusto Massa, transmontano de Freixo de Espada à Cinta, filósofo e poeta, foi sem dúvida uma das grandes cabeças que passou pelo Seminário e marcou uma geração que deixou rastos do seu ensinamento notável. Nos últimos anos de sua vida ainda, felizmente, deixou alguns escritos dos seus pensamentos, escreveu três livros de poemas, a maior parte em sonetos que o seu antigo colega, Pe. Juvenal, classificou como tão bons como os de Antero de Quental.Colaborou com o jornal 144 "O Clarim" nos anos 60 em artigos de fundo, de opinião, que fulcraram problemas da situação política e social muito lidos e apreciados. Não poucas vezes, foi convidado para jantar em Santa Sancha pelo então Governador Jaime Silvério Marques, que queria estar a par dos sábios conselhos do pensador. Dos fins dos anos 50, lembro-me do Pe. Anacleto Dias, da Sociedade de Jesus, velhote muito lúcido com ideias muito avançadas para a época. Afirmava, na altura (1959) que "o mundo está a caminhar a criar blocos de modo a poder defender-se e desenvolver-se". Anos mais tarde, criaram-se a União Europeia, a Organização das Nações Africanas, os blocos Americanos, a OTAN, etc. De entre os alunos externos da escola do Seminário de S. José salientam-se excelentes funcionários que marcaram posição de relevo na sociedade local, honrando a instituição que lhes forneceu a formação académica. Entre os meus colegas internos muitos chegaram ao sacerdócio e outros ficaram pelo caminho para a vida de laicado e merecem uma menção especial por obras que escreveram. Um deles é Jorge Silveira Machado, irmão do professor José Silveira Machado, muito respeitado e apreciado docente da antigo Escola Comercial. O Jorge foi parar à Guiné como oficial miliciano, durante a guerra colonial e pouco depois do seu regresso, publicou um livro de poemas "Frente Dois", referente à vivência conturbada que por lá viveu. O outro é o José Maria Bártolo que ainda arranjou tempo para escrever, nas poucas horas que lhe restavam do trabalho, a história de Macau, em decassílabos e em forma épica à maneira de Camões. Este trabalho foi publicado pelo Instituto Internacional de Macau que está a preparar a saída de outro livro dele sobre "cantigas de bem-dizer e mal-dizer", em quadras populares. Parabéns e esperamos com ansiedade pela sua publicação. 145
Além do convívio anual entre os antigos alunos do Seminário de S. José, entre nós, os antigos alunos, formámos um coro de vozes masculinas, "Schola Cantorum Sanctus Thomas", que normalmente se reúne semanalmente para ensaio, seguido de jantar de convívio onde abordamos temas de toda a espécie, mormente os momentos passados juntos, sobre os antigos companheiros: uns estão ausentes, outros já lá foram. O Coro sempre disponível, actua nas missas de intenções ou a pedido de entidades ou de congregações que solicitam a sua colaboração. Agosto de 2018. 146 Rufino Ramos Funcionário aposentado Secretário-Geral do Instituto Internacional de Macau Ingressei na 2ª. Classe do Seminário quando fora obrigado a sair da Sta. Rosa, como outros alunos do sexo masculino, ao atingir a crítica idade de não poder continuar naquele Colégio para raparigas. O Seminário tinha sido reaberto, admitindo alunos externos, e mercê da boa reputação académica e do reconhecimento que o Governo da República concedera para o seu programa de ensino da instrução primária, era frequentado não só por muitos alunos de famílias modestas, como também por filhos de altos funcionários do Governo e de figuras proeminentes da sociedade civil. Estes transitavam, concluídas a 4ª. classe, para prosseguirem estudos no Liceu Nacional; nós outros aspirávamos a ir trabalhar no Bank em Hong Kong ou, com alguma dose de sorte, a arranjar um emprego na administração pública, em Macau. De início, a minha integração na malta não foi fácil, pois os caloiros eram sujeitos a "tratamentos" por parte dos mais crescidinhos que gostavam de lhes pregar partidas ou mandá-los executar tarefas 147
como serviçais. 11 Ambávam" de nós como se dizia em bom macaísta! Tiravam-nos os trióis quando os mais novos estavam a jogar, ou o lugar quando estávamos noutras formas de divertimentos! Um desses matulões, o Zé, esperava-me à esquina próximo da escola para me copiar o trabalho de casa, de matemática, e asseverava-me ele que saberia fazê-lo, copiando-o ... 11 não igualzinho". Disfrutei de onze anos da minha mocidade naquela instituição de ensino que me deixaram muitas saudades e recordações: para começar, das venerandas barbas do Pe. Costa que foi a primeira pessoa que encontrei quando fui fazer a inscrição no externato; do irascível Pe. Mendes que nos amedrontara um pouco, ao princípio, mas que era no fundo amigo e mestre de toda a gente e pelos anos fora, tendo sido um exímio professor de português além de outras disciplinas; do austero Pe. Áureo mas que era uma pessoa de extrema abertura e nos ensinou Canto Coral e Solfejo e Latim; do paciente e sabido Pe. (na altura) Arquimínio; do culto e filosófico Pe. Massa que, entre outros conhecimentos, nos introduziu ao imperialismo americano descrevendo a Guerra do Sinai, aos antecedentes da crise do Canal de Suez e a outros momentos da política mundial; do inefável Pe. Guterres com o seu baloiçar típico, em pé, durante as aulas de Inglês; do fanhoso Pe. Máher que sabia muito da Matemática ... para si; ou do prof. Edmundo Senna Fernandes, de quem tive a sorte de aprender a contabilidade comercial que me foi imensamente útil para a carreira profissional; do brincalhão Pe. Lancelote que nos mandava cada projéctil com o apagador de giz, quando alguém se comportava mal nas suas aulas; do Pe. Teixeira que me obrigou a dactilografar, durante inúmeras horas, os seus manuscritos e as mantas de recortes para os seus livros; ou daquele professor, provisório, de atletismo (não era o prof. Vítor, não!) que nos ensinava a suspender totalmente a respiração nas corridas de curta distância (!), etc. A todos eles, e aos outros que não mencionei, devo uma palavra de gratidão por me terem inculcado conhecimentos básicos que me nortearam a vida. 'Uma fruta tropical de cor rosácea, avermelhada quando madura, cientificamente denominada Syzygium samarangense, cuja árvore existiu plantada no recreio do externato do Seminário. 148 Outros momentos inesquecíveis que me ficaram gravados na memória: as actividades da Mocidade Portuguesa que, como graduados, tivémos que organizar dentro do Centro no. 5 e os acampamentos de Verão na casa de campo, em Choc Van, que duravam uma semana e cuja organização -para quarenta bocas esfomeadas -era feita pelos próprios rapazes, incluindo as sentinelas, a distribuição de outras tarefas, a gestão de dinheiros, a aquisição de bens e víveres, a preparação das três refeições diárias, etc. Muito aprendi neste corropio de actividades! Lembro-me igualmente das infindáveis sessões, diárias, mesmo durante as férias escolares, dos jogos da bola -futebol, basquetebol, vólei, baseball, ténis de mesa -nos recreios da escola; da árvore de 'macupa' que nos abastecia de fruta na época do Verão, a que os mais atrevidos trepavam para colher os melhores frutos ( o Tin Pio caiu um dia abraçado a um grande galho apodrecido da árvore mas levantou-se logo para o esconder enquanto a rapaziada corria atrás dele e das cobiçadas 'macupas'!); da solitária árvore de S. João, ao fundo do campo de jogos, em cujos galhos empoleirámos, o Artur, o Carlos e outros, e mandarmos os nossos gritos à Tarzan; das corridas do nosso Grande Prémio em carrinhos de chumbo nas escadarias exteriores do Teatro; do delicioso cheiro da comida que provinha da cozinha à hora do almoço quando passávamos pelo corredor da ala velha, no fim da manhã, ou do café, ao irmos para as aulas de manhã; daquela deliciosa papaia que o Ninho e eu colhemos à sucapa da horta, e, num ápice, tragámos escondidos na casa de banho; daquela outra vez quando o Santos numa aula começou a responder baboseiras e o Pe. Mendes o suspendeu pelos dois lados da cabeça, levantando-o do chão, tendo esse breve momento de raiva terminado em bem, com um apertado e fraternal abraço de ambos; das aulas de filosofia dadas pelo Pe. Massa e das discussões empíricas dele havidas com os alunos internos, e do meu exame final feito inteiramente em latim; dos animados 149
torneios de hóquei no campo da Caixa Escolar, com tambores e outras algazarras quando acontecia um jogo entre a Comercial e o Liceu, nos torneios quadrangulares entre escolas; daquele golpe de talú do Tin Pio -ele contra o resto da rapaziada -que me fez sangrar com um furo na cabeça e me ia tirando a vista do lado esquerdo, mas que consegui segurar com as duas mãos, a tempo de não ser cegueta como Camões; do "zumba, zumba, olé, zumba na caixa do zabumba ó Zé" e de outras canções populares que nos ensinaram, nas aulas de Canto Coral; daquele fatídico dia em que o Tin Pio -ele outra vez! -foi corrido pelo Pe. Mendes da Igreja, no intervalo do recreio para as orações, com um grande e feio impropério em chinês, para espanto geral da malta, estupefacta, escandalizada, boquiaberta ... ; daquele pequeno incêndio dentro da carteira de aulas que logo se conseguiu apagar quando alguém -deve ter sido outra vez o Tin Pio! - simulou fumar uma imitação de cigarro; dos retiros pascais a que se juntava a nós a rapaziada de outras escolas, sendo uma ocasião para conhecermos novos amigos. Encontrei sempre no Seminário um bom ambiente adequado para adquirir conhecimentos e arranjar amizades que perduraram para a vida. Graças ao empenho e dedicação dos professores que aí ensinavam, obtive sólidas bases de formação moral, cívica e profissional. Pessoalmente desses belos tempos guardo gratas recordações! Não só acho muita pena ter-se fechado o externato do Seminário, como sinto ter tido a sorte de o ter frequentado durante os seus tempos áureos, que dificilmente volverão! Macau, Dezembro de 2018. 150 César Urbino Rodrigues Professor do Instituto Politécnico de Bragança E ex-director do Jornal "A Voz do Nordeste" Sessenta anos depois De Trás-os-Montes a Macau 151
No próximo dia 31 de Julho completam-se 60 anos do dia em que deixei a minha pequena aldeia rumo a Macau, onde iria iniciar uma aventura de 9 anos, longe dos meus pais, de toda a minha família, das gentes da minha terra e daqueles montes da aldeia, sempre a espreitar o Douro, com os quais criei uma relação de afeto, feita no silêncio da cumplicidade mútua, que nunca mais encontrei em lado nenhum. -Porquê Macau e não Bragança ou outro Seminário, aqui, mais perto? ... - perguntaram-me, já, vários amigos. Há dias, uma das minhas netas, de 12 anos de idade, quis fazer-me uma entrevista sobre a minha infância na aldeia, para um TPC (Trabalho para Casa), que um professor lhe marcou para as férias da Páscoa. Quando lhe disse que, naquele tempo não tínhamos água canalizada, nem computador, nem tablet, nem telemóvel, nem telefone fixo, nem tão pouco televisão, porque nem sequer luz elétrica havia, ela acabou por desabafar: -Então, ainda era pior do que eu pensava!. .. Neste comentário da minha neta está uma pequena parte da resposta à pergunta dos meus amigos. Da experiência multicultural ... Passados sessenta anos do início dessa aventura, não posso deixar de me perguntar: -Valeu a pena todo esse esforço e sacrifício? ... Se valeu! ... Tudo o que sou, quer no plano pessoal, quer no plano profissional, quer como membro da sociedade, devo-o ao Seminário de S. José, de Macau. Os meus valores morais e religiosos, os meusvalores sociais e políticos e, até, a minha formação cultural e científica não seriam o que são e teriam ficado a milhares de quilómetros de distância, sem os 9 anos que passei naquele Seminário. 152 Desde logo, a experiência multicultural que aí se vivia. Hoje, está na moda, em muitas universidades europeias, falar-se de interculturalidade e de multiculturalismo. Pois, o multiculturismo era uma realidade bem evidente, há 60 anos atrás, no Seminário de S. José, de Macau. Desde logo, havia alunos portugueses e chineses, com duas culturas e duas Línguas tão díspares. Além disso, nós, os portugueses, tínhamos saído de vários pontos do país: uns do concelho de Mogadouro, outros do concelho de Moncorvo, outros do concelho de Freixo de Espada à Cinta, um do concelho de Pinhel, um do concelho de Leiria e um outro do concelho de Ourém. Havia também alunos dos Açores e, nos cursos de Filosofia e de Teologia, ainda havia alunos de Timor. Mas também não posso esquecer dois alunos de Singapura, cuja nacionalidade eu já não recordo, mas que julgo estarem integrados no curriculum dos portugueses. Os alunos chineses, na sua maioria, seriam naturais de Macau. No entanto, havia alguns que tinham nascido na China Continental ou China comunista - em oposição à China nacionalista, da ilha da Formosa, agora Taiwan. Em todo o caso, o percurso cultural de cada um deles era significativamente diverso. Foi a partir dessa multiculturalidade e dessa diversidade étnica e linguística que eu construí os meus quadros representativos sobre a irrelevância das fronteiras, a insignificância das divisões entre povos, a estupidez dos conflitos entre nações e dos fanatismos nacionalistas. Não posso, por isso, deixar de afirmar que recordo com saudade essa diversidade multicultural e que nunca mais pude esquecer esses anos da minha adolescência e da minha juventude no Seminário de S. José, de Macau. 153
... às Ciências Humanas ... No plano académico, o Seminário de S. José, de Macau, proporcionou-me os melhores professores que eu tive em toda a minha vida de aluno. Desde os professores de Português, de que destaco o Padre Mendes, até aos professores de Matemática, com o Padre Marta e o Padre Mayer (penso que era assim que ele se chamava), até aos professores de Latim, de que ainda recordo D. Arquimínio Rodrigues, e de Filosofia, de que não posso deixar de salientar o Padre Júlio Augusto Massa, todos eles me ajudaram a construir uma mente adestrada no raciocínio e no conhecimento da Matemática, da Língua Portuguesa, do Latim, da Filosofia e da Sociologia, que são os alicerces de toda a minha estrutura cultural e científica, não obstante ter, depois, passado por várias universidades como a do Porto, a de Braga, a de Salamanca e a de Valhadolid. E a melhor prova do que estou a dizer reside no facto de um dia em que estava a dar um seminário a um grupo de doutorandos na área das Ciências da Educação, um deles me perguntar: -Que formação é que tem? Como ele não se mostrasse convencido com o curriculum que lhe citei, lembrei-lhe ainda que tinha frequentado o Seminário de Macau durante 9 anos. -Ah!... Agora já percebo!. .. -foi a resposta dele. Este comentário deixou-me orgulhoso do percurso que fiz no Seminário de S. José, de Macau, porque foi aí, e em mais lado nenhum, que eu aprendi o Latim que aprendi -e que muito me ajudou a explicar, aos meus alunos, a etimologia de muitas palavras do Português; foi aí que aprendi o 154 essencial do pouco que sei de Filosofia; mas, sobretudo, foi aí que aprendi, com o Padre Massa, a ser o professor que fui, porque ele foi para mim o melhor modelo do bom professor, o melhor professor que eu tive em toda a minha vida académica. Por isso, em todo o lado eu quis ser um professor que fosse capaz de motivar e cativar os meus alunos, nas minhas aulas, de forma a que eles ansiassem por elas como eu ansiava pelas aulas do Padre Massa. ... ao sentido da vida Se foi assim no capítulo da minha vida académica e profissional, também no capítulo dos valores espirituais e sociais devo ao Seminário de S. José, de Macau, tudo o que sou, sobretudo pelo sentido que dou à vida. No plano espiritual, tendo chegado aos 71 anos de idade, cada vez me convenço mais de que todo o ser humano está sempre à procura da felicidade. No entanto, comigo acontece o que acontecerá com todos os seres humanos: por mais que eu procure a felicidade nos bens materiais e temporais, por bem atrativos que eles sejam, no fim de tudo fica-me sempre um certo vazio, uma contínua insatisfação, um sabor a pouco, que só a plenitude da relação com a Transcendência, como diriam os existencialistas, ou com o Infinito, como diria Lévinas, é que me tem ajudado a ultrapassar, não obstante os muitos momentos de contentamento por que já passei. Por isso, a Missa diária, desde que me reformei, tem sido um encontro quotidiano com Alguém que está sempre a meu lado, em todos os momentos da minha vida, umas vezes bons e outras vezes maus. Efetivamente, como toda a gente, na minha vida já tive alguns momentos muito bons, pela família que tenho ou quando fundei e dirigi, durante 22 anos, um jornal que teve grande impacto na minha 155
região, ou ainda quando fui professor de tantos alunos que me ficaram no coração e que ajudei a preparar para a vida. Mas, a par desses bons momentos, também tive outros muito dolorosos, como quando fiquei viúvo aos 31 anos, com duas crianças de 3 e 4 anos, respetivamente, ou quando faleceu o meu irmão mais velho num acidente de trator. Em todos esses momentos nunca deixei de sentir a presença e o apoio de Deus-Pai, fosse através da intervenção direta d'Ele, ou fosse através do Seu Filho na Eucaristia, ou de Nossa Senhora, que, comigo, tem feito jus àquela invocação de S. Bernardo: «Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tenha recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência e reclamado o vosso socorro, fosse por Vós desamparado» ... Nos momentos de maior angústia, Ela, de facto, nunca me desamparou e foi, muitas vezes, o meu último refúgio e apoio. Por isso, ao findar este texto, relembrando esses tempos passados no Seminário de S. José, de Macau, termino com uma palavra de agradecimento a todos os professores e a todos os colegas que aí tive, pedindo-vos que recebam um abraço de profunda saudade, a partir das terras distantes de Trás-os-Montes, deste amigo que não vos esquece. Bragança, 15 de Abril de 2018 156 IN ILLO TEMPORE ... 157
Alunos internos do Curso Comercial (1914) Gravura do folheto "O Seminário de S. José de Macau" da Typ. Os Echos do Minho (Foto obtida por Manuel Basílio) 158 Professores -Setembro de 1946 Ao Centro, Cón. José Maria Fernandes, então Governador do Bispado e o Pe. Cazado, O.P. 159