HAN LILI 韓麗麗LUÍS GONZAGA GOMES FILHO DA TERRAdivulgador e tradutor de imagens da China e de MacauINSTITUTO POLITÉCNICO DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMESFILHO DA TERRA
HAN LILI 韓麗麗LUÍS GONZAGA GOMESFILHO DA TERRAdivulgador e tradutor de imagens da China e de Macau
Luís Gonzaga Gomes, Filho da Terra: divulgador e tradutor de imagens da China e de Macau編著 Autor韓麗麗 Han Lili出版機構 Editora澳門理工學院 Instituto Politécnico de Macau澳門新口岸高美士街 Rua de Luís Gonzaga Gomes, Macau設計 Capa e ComposiçãoGabriel Cordeiro印刷 Impressão 創意印刷有限公司 Creative Impressão, Lda.印數 Tiragem300冊 300 exemplares 第一版 1ª edição2018年04月 Abril de 2018ISBN978-99965-2-172-0Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser repro-duzida ou transmitida por quaisquer meios (eletrónico, mecânico, fotocópia, gravação ou qualquer outro) sem a autorização prévia da Editora e do autor.
AgradecimentoO trabalho que se apresenta é uma “maratona”, durante a qual, sem apoios e esforços de diversas pessoas e instituições, não seria uma tarefa cumprida. Que-remos dirigir os agradecimentos sinceros a todos que apoiem, encorajem e acom-panhem esta corrida maratona. Agradeço à prof. Doutora Alexandra Assis Rosa, que me levou ao mundo dos Estudos de Tradução. A professora tem-me incentivado para conduzir o traba-lho à excelência, apoiando, testemunhando e acompanhando todo o processo de elaboração do trabalho e dando recomendações e sugestões de revisão e de leituras. A sua orientação permitiu-me aprender a “pescar” e aprender “como pescar”. Os seus critérios de rigor científico em relação à escrita académica e convincente continuarão a orientar os meus futuros projetos de investigação. Por sua recomendação, participei no curso de verão do CETRA 2016, o que me permitiu conhecer melhor os Estudos de Tradução como um estudo interdisci-plinar e ter mais contacto com os professores da área. Palavras de sincera gratidão são devidas ao Instituto Politécnico de Macau (IPM), especificamente ao Prof. Doutor Lei Heong Iok, presidente do IPM e ao Prof. Doutor Luciano de Almeida, Diretor da Escola Superior de Línguas e Tradução (ESLT) do IPM e ao Prof. Doutor James Li Changsen, pelo seu apoio pleno e solidário. A dispensa académica durante o ano de 2017 demonstrou ser essencial para a minha dedicação ao presente trabalho. O Prof. Doutor Lei em-prestou-me um CD e uma coleção preciosa acerca das atividades pedagógicas de tradução em Macau na década de 1960, os quais revelam a sua relevância nos meus estudos. Os mesmos agradecimentos dirigem-se também aos meus colegas da ESLT, sem o seu apoio e encorajamentos, não poderia ter concluído este tra-balho dentro do prazo. Quero ainda salientar os meus agradecimentos especiais à prof. Doutora Adelina de Castelo, que também acompanhou todo o processo da elaboração do presente trabalho, durante o qual estabelecemos uma confiança mútua e amiza-de solidária. Foi ela que me acompanhou nos momentos mais difíceis da minha vida e foram os seus conselhos construtivos e encorajadores que me salvaram para voltar ao trabalho intelectual. As suas sugestões e correções relativas à reda-
ção académica em português são uma garantia essencial de qualidade. Assinalo também a ajuda preciosa da Prof. Doutora Lola Xavier, que me aju-dou a estabelecer contactos de investigação da mesma área em Portugal, arran-jando-me livros pertinentes para o presente estudo interdisciplinar. Não posso deixar de agradecer à Prof. Doutora Maria Antónia Espadinha, minha primeira Professora de português e co-orientadora da minha tese de Mestrado, pelo seu apoio constante e acompanhamento contínuo. Arranjou-me o filme documentário em homenagem de Gonzaga Gomes, que foi citado na epí-grafe do presente trabalho.Destaco também os meus agradecimentos ao CETRA 2016 – curso de ver-são sobre Estudos de Tradução e aos professores do CETRA. Os tutoriais com Andrew Chesterman, José Lambert, Jeremy Munday, Luc van Doorslaer, Peter Flynn, entre outros, ajudaram a esclarecer alguns conceitos essenciais no âmbito de Imagologia e dos Estudos de Tradução. É de mencionar o apoio pleno do professor Peter Flynn, que continuou, depois do curso de verão, a dar suges-tões úteis e ofereceu-me os resultados de pesquisa atualizados dos estudos sobre o cruzamento da Imagologia com os Estudos de Tradução na Bibliografia dos Estudos de Tradução online. Os mesmos agradecimentos também se dirigem à Escola Nida dos Estudos de Tradução 2017 e aos professores desta iniciativa. Os tutoriais com Edwin Gentzler, Michael Cronin, John Milton e outros professo-res foram construtivos e apontaram para um caminho eficiente de cruzamento entre a identidade e a tradução. Em resultado da participação nestes dois cursos de verão, conseguimos afigurar a relação triangular dos conceitos essenciais para o presente estudo interdisciplinar: identidade, tradução e imagem. A nível pessoal, gostava de agradecer ao Dr. Jorge Rangel, divulgador e pro-motor da identidade macaense, que me ofereceu uma série de livros sobre Luís Gonzaga Gomes e me convidou para ser membro do Cenáculo de Luís Gonzaga Gomes, iniciativa do Instituto Internacional de Macau, a que preside. Quero agradecer igualmente ao Dr. Luís Sá Cunha, investigador sobre Gonzaga Go-mes, pela troca de opiniões e discussões sem reservas. Da família, quero expressar um agradecimento profundo ao meu marido, Li Jian, e ao meu filho, André Li Wai Cheng, porque não teria sido possível este projeto sem o seu apoio psicológico, afeto constante e entendimento profundo. Nunca me esqueci das palavras do meu filho quando eu tinha momentos difíceis na elaboração deste trabalho: “Mãe, força! Gostava de ver a mãe doutorada”. Quando o disse, tinha apenas doze anos, e abraçava-me ao colo com ar encora-jador. A minha gratidão vai também para os meus pais, pelo amor incondicional que eles reservam para mim. Muito obrigada!
Em jeito de preâmbuloOlhemos, por momentos, a palavra que é nuclear a todo o presente livro: “tradução”. E olhemo-la, como sempre cumpre fazer quando de língua se tra-ta, na sua génese, ou seja, na sua mais pura raiz.“Tradução” ou o verbo seu correlato “traduzir” têm a sua origem no latim trans+ducere, isto é, numa versão simplista, “conduzir algo de um lado para outro”; é por isso que “traduzir” e “trasladar” são mais ou menos sinónimos e, em boa verdade, também o são de “transferir”; a diferença está no verbo que se associa a trans, o que, em qualquer destes casos, não produz alteração significativa.O tradutor é, portanto, um “transportador”, ou seja, alguém que assume o encargo de “transferir” ou “carregar” algo, nesta circunstância um significado ou conjunto de significados, simples ou complexo, de uma língua para outra, o mesmo é dizer, de uma comunidade de falantes para outra comunidade de falantes.Não é tarefa fácil, antes é espinhosa e de insuspeitados escolhos. Se é con-sentido usar um raciocínio que glosa um outro do Padre António Vieira, em contexto bem diverso e com distinto objectivo, pode uma parte da carga per-der-se na viagem, pode uma outra parte perder-se no acto de entrega, pode a carga deformar-se quando recolhida... e pode o transportador não estar à altura do transporte ou quem recebe não estar à altura do múnus da recep-ção, um e outro por lhe faltarem forças ou instrumentos. E tudo isso e muito mais que fica por dizer põe em risco o êxito de todo o processo.Pois é exactamente este o múnus que assumiu Luís Gonzaga Gomes ou, pelo menos, aquele, de entre os que assumiu, que é objecto de atenção neste livro de Lili Han.Múnus complexo, por maioria de razão, já que o assim assumido tradutor, ou seja, o “transportador”, é, ele próprio, sujeito ou agente, mas também objecto da tradução ou do “transporte”.Não se veja nestas palavras um vazio exercício retórico nem mero artifício sofista. Vejamos: Luís Gonzaga Gomes é macaense, seja isso o que for. Posto que continue a subsistir alguma indefinição em relação ao real sentido deste
conceito, admitamos a sua acepção mais simplista: macaense será aquele ou aquela, nascido ou não em Macau, que tem em algum ponto da sua origem um momento de miscigenação. É o caso de Luís Gonzaga Gomes, nascido em Macau e descendente, pelo lado materno, de alguém de etnia chinesa.Ao assumir-se como tradutor, Gonzaga Gomes tornou-se, de alguma forma, em marinheiro de torna-viagem, andarilho entre as duas línguas, as duas cul-turas, as duas comunidades, por manifesta incapacidade de ser apenas de uma delas. É ele quem o assume, nas inúmeras vezes em que o pronome pessoal “nós”, por ele utilizado, induz um sentimento de pertença a uma comunida-de específica, a comunidade portuguesa, a qual não é a dele ou, pelo menos, não será a dele por inteiro. Pertença, no entanto e talvez por isso, mal incar-nada, já que não são poucos os momentos em que a sua alma balança nesse vai-e-vem que é o seu, por opção, por destino ou por marca indelével da sua natureza. Gonzaga Gomes é, assim, um irmão gémeo do agente duplo ou du-plo espião, neste caso não a soldo, mas por manifesta impossibilidade de se posicionar apenas em um dos lados.Ora, é exactamente isso que faz dele um dos maiores expoentes da arte da tradução, no mais nobre e completo sentido da palavra, em Macau. E ao di-zer “em Macau”, estamos a dizer no espaço físico e social onde a tradução faz mais sentido, onde a tradução faz parte da história, onde a tradução é elemento essencial à identidade de uma comunidade e ao retrato do seu devir histórico e cultural.Macau nasceu, digamos assim, no exercício do diálogo entre línguas e entre culturas. A chegada dos primeiros portugueses ao território, um punhado de marinheiros, que todos o eram nesses longínquos anos, meio soldados, meio mercadores, confrontou-os com um pequeno número de aldeãos, uns tantos pescadores, outros comerciantes. O diálogo intercultural nasceu aí mesmo, nesse tempo e nesse lugar. E assim foi evoluindo, ao sabor do tempo e das flutuações da história, num percurso de consolidação daquilo a que se veio a chamar, com inteira propriedade, a “identidade macaense”, por difícil que seja determiná-la e defini-la.Nessa viagem de séculos, muitos foram os participantes do processo de tra-dução, todos por força das circunstâncias, uns quantos, cada vez mais, por missão por eles próprios assumida ou por outrem confiada. Assim se veio configurando o mester dos “línguas”, primeiro sem escola, depois com for-mação adequada; mas seria um erro clamoroso e redutor confinar a desig-nação de “tradutor” somente aos que desse mester faziam uso por dever profissional.Luís Gonzaga Gomes só vagamente pertenceria a esse número. Foi tradutor, sim, como atrás se diz. Mas “tradutor” não era propriamente a sua profissão.
Foi, portanto, tradutor sem o ser. Mas foi. Na prática e, mais do que tudo isso, na alma e na pele. Por isso se diz acima e se deve aqui insistir: foi agente e objecto do seu próprio múnus, daquele que com paixão abraçou, se é que abraçar se pode aquilo que se é já na essência.De tudo isso trata o presente livro de Lili Han, com precisão, com rigor, com sensibilidade, com minúcia, com profundidade, como a um trabalho cientí-fico se exige. Das qualidades do trabalho académico, que começou por sê-lo – tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – fala com conhecimento de causa e reconhecida competência a Professora Alexandra Assis Rosa, sua orientadora nesse processo, no notável texto de síntese que constitui o prefácio do livro. Dificilmente o autor destas linhas seria capaz de acrescentar o que quer que fosse, confinado como está, no domínio da tradução, ao artefacto da tradução literária, que exerce por prazer.Mas não pode esse tradutor que me orgulho de ser deixar de enaltecer a for-ma como a autora entrecruza nestas páginas um profundo conhecimento da identidade macaense, uma impressiva sensibilidade para as distinções e pre-cisões de ordem cultural, um labor aturado no sentido do rigor conceptual, a busca permanente do ponto certo de intersecção das culturas, como sempre é necessário em Macau, e, sem querer ser exaustivo, o compulsar atento e actualizado de correntes de pensamento, de teorias, de reflexões, ou, como soe dizer-se em linguagem corrente e mais ou menos despretensiosa, da vasta literatura sobre o assunto. E dizer isto não será dizer pouco, já que as ques-tões da interculturalidade, transversais a todo o acto de tradução, são, por definição, vastas e multidisciplinares, a exigir redobrada atenção e não menos multiplicados esforços.O presente livro, depois de ter sido, como se disse, a dissertação de doutora-mento da autora, vê a luz do dia no quadro das actividades do Instituto Poli-técnico de Macau, neste caso, da sua Escola Superior de Línguas e Tradução. É justo que assim seja. Não apenas porque Han Lili é professora do IPM e da ESLT, mas, acima de tudo, porque o seu livro é uma etapa importante de um percurso que vem de longe, numa instituição que é herdeira de uma acção pe-dagógica com mais de um século, ao serviço da tradução Chinês-Português.Desde o seu nascimento que o IPM fez desta relação entre as duas línguas e do desenvolvimento do Português uma aposta estratégica. A qualificação nessa área dos seus docentes (e o doutoramento é um ponto alto nessa quali-ficação) é o corolário de tal estratégia.Uma última nota, de profunda simbologia – e sabemos quanto valem os sím-bolos na cultura chinesa: o Instituto Politécnico de Macau nasceu, de alguma forma, na rua que tem o nome deste príncipe dos tradutores macaenses, assu-
mida esta designação na sua plenitude. Quase poderia dizer-se, por metoní-mia, que Luís Gonzaga Gomes é uma espécie de patrono da instituição. Este livro, nessa medida, é um justo preito de homenagem. Carlos Ascenso AndréInstituto Politécnico de Macau
PrefácioQuem foi Luís Gonzaga Gomes (1907-1976) e como contribuiu para a con-solidação da identidade macaense? Como assumiu o papel de tradutor, di-vulgador e mediador de culturas? Como se relacionam tradução, imagem e identidade nas obras traduz, e que imagens da China, de Macau e do Oci-dente divulga? É em resposta a estas questões que surge a obra Luís Gonzaga Gomes, Filho da Terra: divulgador e tradutor de imagens da China e de Macau, da autoria de Han Lili. Resultante de um cuidado trabalho de investigação, desenvolvido com o objectivo duplo de estudar a vida e obra de um agen-te cultural com a relevância de Luís Gonzaga Gomes, e de conhecer e dar a conhecer o seu contributo para a consolidação da identidade macaense em meados do século XX, esta obra explora o modo como Macau constitui uma complexa confluência do Oriente e do Ocidente, em termos históricos, antropológicos, étnicos, socioculturais, políticos, ideológicos e linguísticos. O texto que agora se publica baseia-se na investigação apresentada na tese de doutoramento em Língua e Cultura Portuguesa, submetida pela autora à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e desenvolvida no enqua-dramento do Programa de Português Língua Estrangeira/Língua Segunda.Entre os inúmeros méritos deste trabalho, opto por sublinhar principal-mente três. Em primeiro lugar, merece destaque a inovação que constitui o facto de a presente investigação identificar como objecto de estudo a tradu-ção e de para tal cruzar o enquadramento teórico e metodológico dos moder-nos Estudos de Tradução com as propostas mais recentes da Imagologia. Tais opções permitem ancorar solidamente este estudo numa intersecção disci-plinar só explorada predominantemente já no século XXI, que resulta na proposta de uma abordagem centrada nos conceitos de identidade, imagem e tradução, para aprofundar o estudo do papel social de Gonzaga Gomes, como divulgador e tradutor de imagens da China, de Macau, e também do Ocidente. Aprofundando a relação dinâmica entre a identidade e a tradução, a autora aborda o contributo da tradução para a negociação da identidade e das relações de poder entre as culturas ocidentais e orientais, que em Macau confluem. Recuperando da Imagologia os conceitos de estereótipo, precon-
ceito, imagem, auto-imagem e hetero-imagem, explora a distinção entre o “eu” e o “outro”, fundada num sentimento de pertença emocional e avaliativa a um grupo, e envolvendo simultaneamente o distanciamento relativamente a outros. É também por via deste enquadramento e do objecto de estudo seleccionado que esta obra inova relativamente a estudos históricos, antro-pológicos, étnicos, linguísticos, religiosos, ou culturais já desenvolvidos sobre a identidade macaense, visto que opta por se concentrar no estudo do con-tributo da tradução para a consolidação da identidade macaense em meados do século XX.Em segundo lugar, constituindo-se como um estudo contextualmente in-formado, este trabalho sublinha a relevância da vida e obra de Luís Gonzaga Gomes, oferecendo um estudo da história externa e interna das suas publica-ções que se apresenta devidamente enquadrado por uma selectiva visão pa-norâmica do contexto macaense. O recenseamento de estudos anteriormen-te dedicados a Luís Gonzaga Gomes permite à autora identificar uma lacuna verificada na sua recepção: não tendo sido valorizado pelos seus contempo-râneos, e apesar do relevo que posteriormente lhe foi reconhecido, a sua obra não havia sido até agora submetida a uma análise aprofundada. Colmatando tal lacuna, a autora desenvolve um rigoroso e aturado mapeamento da histó-ria externa das traduções e restantes publicações de Luís Gonzaga Gomes, através de um levantamento bibliográfico, inovador na sua abrangência e classificação sistemática de mais de duas centenas de publicações que o autor e tradutor nos deixa, em português e em chinês, centradas sobretudo em te-mas relacionados com a China e Macau, e dispersas por mais de vinte perió-dicos macaenses e internacionais, a que se juntam várias publicações em vo-lume. Um cuidado e diligente trabalho de pesquisa em arquivo, desenvolvido no Arquivo de Macau, na Biblioteca Central do Instituto Cultural de Macau e na Biblioteca Nacional de Portugal, permitiu completar elencos anterior-mente publicados, adicionar referências de vários artigos dispersos em jor-nais e revistas e, assim, proporcionar uma visão mais completa e abrangente da obra de Luís Gonzaga Gomes, que assim também se oferece prospectiva-mente a uma diversidade de estudos. Abordando também a história interna das suas publicações, este estudo apresenta uma cuidada, e necessariamente selectiva, análise paratextual e textual das obras traduzidas e não traduzidas de Luís Gonzaga Gomes, centrada nas noções de reescrita e refracção. Assim se proporciona revelar que as suas obras não traduzidas se concentram na arte, nos costumes e tradições chinesas, na História de Macau e nas suas len-das, enquanto as suas traduções oferecem a um público leitor de português obras clássicas da filosofia e da ética chinesas, bem como estudos sobre as relações entre a China e o Ocidente. Para além de uma análise paratextual,
esta obra oferece ainda uma aturada análise textual comparativa (i) do texto de partida, em chinês, de Monografia de Macau, da autoria de dois mandarins da dinastia Qing, Tcheong Ü-Lâm e Ian Kuong Iâm, no século XVIII (1744-1751), (ii) da primeira tradução para português, de Luís Gonzaga Gomes (pu-blicada em 1950 e reeditada em 1979) e ainda (iii) da retradução, assinada por Jin Guoping e publicada em 2009. Esta análise centra-se na identificação das auto-imagens dos autores mandarins e das hetero-imagens dos ocidentais que se cruzam no uso de FAN e de I, duas palavras chinesas usadas para refe-rir forasteiros e, de modo particular, os ocidentais e os portugueses, na obra Monografia de Macau. Ricas em conotações, estas duas palavras prestam-se de modo privilegiado a uma análise comparativa da reescrita de auto- e he-tero-imagens por Luís Gonzaga Gomes e Jin Guoping, por via da tradução. Sendo a tradução definida como um facto da cultura de chegada, é revelado-ra a verificação de que Luís Gonzaga Gomes, identificando-se com os por-tugueses, procura oferecer ao público leitor de português uma imagem de si próprio que não seja ofensiva, optando por traduzir preferencialmente como “estrangeiro” o caracter chinês FAN (forasteiro), eufemizando ou omitin-do ocorrências de I e, assim, diminuindo consideravelmente as ocorrências de “bárbaro” para traduzir I. Pelo contrário, Jin Guoping, académico chinês radicado em Portugal, traduz predominantemente quer FAN quer I como “bárbaro”, assim intensificando a auto-imagem positiva dos mandarins e a hetero-imagem negativa dos ocidentais, já patente na obra de partida em chi-nês. Como já referido, este trabalho aturado sobre a história interna e externa das publicações de Luís Gonzaga Gomes, é ainda devidamente acompanha-do de uma considerável riqueza de informações contextuais. Para descre-ver e explicar a importância da intervenção de Luís Gonzaga Gomes como agente cultural, este trabalho apresenta uma inovadora visão panorâmica do mundo editorial e jornalístico de Macau nas décadas de 1940, 1950, 1960 e 1970, para se centrar na identificação e análise das publicações macaenses da década de 1950, nas principais editoras macaenses, e, de modo particular, na “Colecções Notícias de Macau”. Para melhor compreender e enquadrar a sua vida e obra, delineia uma pertinente panorâmica histórica de quatro dé-cadas marcadas pela Guerra do Pacífico (1939-1945), pela implementação da República Popular da China (1949) e pela Revolução Cultural (1966-1976). Tal panorâmica identifica coordenadas fundamentais para delinear o perfil destas décadas de crise identitária em Macau, entre as quais merecem des-taque o vazio criado pelo encerramento da Escola do Expediente Sínico, o momento de tensão étnica com a crescente comunidade chinesa em Macau, o sentimento de falta de confiança perante o poder colonial português, ou as implicações socioculturais do uso de português, cantonês e mandarim no ter-
ritório. Para além disso, este estudo do contributo de Luís Gonzaga Gomes para a consolidação da identidade macaense é ainda devidamente contextua-lizado pela apresentação das principais autoimagens e heteroimagens que ao longo da história foram associadas ao macaense. As três imagens centrais que a investigação identifica e interpreta dizem respeito à auto-imagem de por-tugalidade, almejada mas não inteiramente concretizada; à hetero-imagem de Macau bambu, criada pelos portugueses para os macaenses, expressiva da resiliência do bambu perante situações de insegurança e submissão a factores externos, pois o macaense, como o bambu perante o tufão, verga mas não parte; e ainda à auto-imagem de filhos da terra, ou to2 saang1, que, em por-tuguês e cantonês, exprime o desejo de enraizamento territorial, de solidez e estabilidade, correspondentes às aspirações do macaense relativamente ins-tabilidade gerada pela sua identidade híbrida. Concentrando-se nas imagens reconfiguradas pelas obras traduzidas de Luís Gonzaga Gomes, este trabalho exigente, rigoroso e diligente de pesqui-sa em arquivo, investigação contextual, análise textual e paratextual revela a intensidade da intervenção cultural desenvolvida por Luís Gonzaga Gomes através da divulgação e reescrita conciliadora de imagens da China e de Ma-cau, e a cuidada acção de planeamento cultural tendente à consolidação da identidade macaense através da divulgação de tais imagens. Deste modo se descreve, interpreta, explica e dá a conhecer a intervenção marcante de Luís Gonzaga Gomes para a consolidação da identidade macaense, em meados do século XX, que a autora interpreta convincentemente como uma “medida estratégica de conciliação da comunidade macaense com a comunidade chi-nesa, que, por sua vez, contribui para a reflexão e construção da identidade macaense”, uma identidade marcada ao longo do tempo pela dependência ora da China, ora de Portugal, e, por conseguinte, pela ambiguidade, pelo hibridismo e por um sentimento de insegurança, mas também pelo desejo de enraizamento, estabilidade e pertença, expressos na auto-imagem de “filhos da terra”.Cumpre-me terminar, afirmando ter sido um privilégio acompanhar o percurso que conduziu a esta publicação marcante para o estudo da iden-tidade macaense e incontornável para a compreensão da vida e obra de Luís Gonzaga Gomes.Lisboa, 16 de Fevereiro de 2018Alexandra Assis Rosa
ÍndiceIntrodução ........................................................................1 EnquadramEnto tEórIco E mEtodológIco ..............................1.1 Identidade .............................................................................................. 1.1.1 Conceito e definição ............................................................................ 1.1.2 Identidade macaense ............................................................................ 1.1.3 Identidade no âmbito dos Estudos de Tradução ............................. 1.2 Tradução .............................................................................................. 1.2.1 Polissistema .................................................................................... 1.2.2 Normas de Tradução ...................................................................... 1.2.2.1 Normas iniciais .................................................................... 1.2.2.2 Normas preliminares ........................................................... 1.2.2.3 Normas operacionais ........................................................... 1.2.2.4 Metodologia de três etapas .................................................. 1.2.3 Manipulação e reescrita de imagens............................................... 1.2.3.1 Manipulação ........................................................................ 1.2.3.2 Reescrita .............................................................................. 1.3 Imagem ................................................................................................... 1.3.1 Conceito e definição ....................................................................... 1.3.1.1 Génese e desenvolvimento .................................................. 1.3.1.2 Imagem, autoimagem e heteroimagem ............................... 1.3.1.3 Preconceito e estereótipo .................................................... 1.3.2 Imagem e identidade ...................................................................... 1.3.3 Imagem no âmbito dos Estudos de Tradução ............................... 1.3.4 Imagologia aplicada aos Estudos Descritivosde Tradução: cruzamentos teóricos e metodológicos ................... 1.3.5 Tradutor como mediador de imagens ............................................ 1.4 Interdisciplinaridade: identidade, tradução, imagem ......1.5 Notas conclusivas ............................................................................. 213133343841424344444545464849495151525254555556596163
2 macau E a IdEntIdadE macaEnsE Em mEados do século XX ....2.1 Principais etapas da definição da identidade macaense ... 2.1.1 Incubação (a partir do início até meados do século XVI) ............. 2.1.2 Formação (meados do século XVI- início do século XVIII) ........ 2.1.3 Consolidação (início do século XIX-meados do século XX) ....... 2.1.4 Desenvolvimento estável (a partir das décadas de 1970 e 1980) ...2.2 Viragem identitária macaense nas décadas de 1940 a 1970 2.2.1 Viragem social: Cabral e Lourenço (1993) ..................................... 2.2.2 Viragem jurídico-política: Gonçalves Pereira (1995) .................... 2.2.3 Viragem étnica e antropológica: Ana Maria Amaro (1993) ..........2.3 Estratégias de conciliação como mediador/tradutor ..... 2.3.1 Intervenção nas atividades editoriais ................................................. 2.3.2 Três referências na imprensa periódica portuguesa em Macau .... 2.3.2.1 A revista mensal Renascimento (janeiro de 1943 – setembro de 1945) e o jornal bilingue Renascimento (19 de fevereiro de 1945 – 28 de maio de 1947), publicado em português e em inglês 2.3.2.2 Jornal Notícias de Macau (1947-1972) e edição semanal ilustrada do Noticias de Macau (1947-1972) ........................... 2.3.2.3 Revista mensal trilingue Mosaico (setembro de 1950 – dezembro de 1957), publicada em português, chinês e inglês2.4 Notas conclusivas .............................................................................3 luís gonzaga gomEs: vIda E obra ...................................3.1 Biografia sumária de Luís Gonzaga Gomes............................. 3.1.1 Enquadramento familiar ...................................................................... 3.1.2 Formação como intérprete-tradutor ................................................. 3.1.3 Carreira profissional e cargos sociais .................................................. 3.1.4 Principais testemunhos .................................................................. 3.1.4.1 Padre Manuel Teixeira: falhas e erros gramaticais .............. 3.1.4.2 Graciete Nogueira Batalha: uma dedicação devidamente apreciada ...................................................................................... 3.1.4.3 António Aresta: a consolidação da identidade de Macau e um estimável serviço prestado à causa da sinologia portuguesas .................................................................................656869707074757577787980858586878891939597100101102104106ÍNDICE16
3.2 Publicações: principais áreas de intervenção ....................... 3.2.1 Três classificações existentes .......................................................... 3.2.1.1 Padre Manuel Teixeira (1976): “À Memória de Luís Gonzaga Gomes” ....................................................................... 3.2.1.2 António Aresta (2001): “Professor Luís Gonzaga Gomes e a Divulgação Pedagógica da Cultura Chinesa” ..................... 3.2.1.3 Teresa Sena (2010): “Luís Gonzaga Gomes” ........................ 3.2.1.4 Observações ................................................................................ 3.2.2 Um novo levantamento bibliográfico: Luís Gonzaga Gomes como divulgador e tradutor ...............................................................3.3 Outras atividades culturais de Luís Gonzaga Gomes .......3.4 Notas conclusivas .............................................................................4 luís gonzaga gomEs: dIvulgador dE ImagEns da chIna E dE macau ..............................................................................4.1 Breve panorâmica do mundo editorial de Macau 1940 – 1970 ........................................................................................................4.2 Luís Gonzaga Gomes e três periódicos macaenses ...............4.3 Luís Gonzaga Gomes e a editora Colecção de Notícias de Macau ..............................................................................................4.4 Imagens da China e de Macau nas obras de Luís Gonzaga Gomes (análise paratextual) ........................................................ 4.4.1 Imagens da China .................................................................................. 4.4.2 Imagens de Macau ................................................................................. 4.4.3 Imagens do Ocidente ............................................................................4.5 Identidade macaense em imagens (análise textual) ............ 4.5.1 Macau Bambu: autoimagem ou heteroimagem do macaense? ...... 4.5.2 To2 saang1: filhos da terra .....................................................................4.6 Notas conclusivas .............................................................................5 luís gonzaga gomEs: tradutor dE ImagEns da chIna E dE macau ....................................................................................5.1 Breve panorâmica histórica da tradução em Macau (1915-1976) ............................................................................................108109109110110110112118120121124125127133136137143144145148152153155ÍNDICE17
5.1.1 Escola da Língua Sínica (1915-1976) ..................................................... 5.1.2 Interrupção da Escola de Língua Sínica (1944-1976) ........................5.2 Imagens da China e de Macau nas traduções de Luís Gonzaga Gomes (análise paratextual) ..................................... 5.2.1 Imagens da China .............................................................................. 5.2.1.1 Imagens da China em obras ocidentais (heteroimagens) ... 5.2.1.2 Imagens da China em obras orientais (autoimagens) .......... 5.2.2 Imagens de Macau .................................................................................... 5.2.3 Imagens do Ocidente ...............................................................................5.3 Identidade macaense em imagens (análise comparativa da tradução de Monografia de Macau) ......................................... 5.3.1 Duas traduções ......................................................................................... 5.3.2 O texto de partida .................................................................................... 5.3.3 Análise paratextual ............................................................................ 5.3.4 Análise textual: fan (藩) e i (夷) – estrangeiro ou bárbaro? ........... 5.3.4.1 Análise da tradução de fan (藩) .......................................... 5.3.4.2 Análise da tradução de i (夷) ..............................................5.4 Notas conclusivas .............................................................................consIdEraçõEs fInaIs .................................................................................obras cItadas .................................................................................lIsta dos anEXos E apêndIcEs .....................................................................157158159161161163170173175176177178182187192213215221231ÍNDICE18
PrólogoNo filme sobre a vida de Luís Gonzaga Gomes, efetuado por ocasião do cen-tenário do nascimento do autor, por iniciativa da Casa de Portugal em Ma-cau em 2007 e intitulado “Sonata a Uma Sombra – Um Retrato de Luís Gon-zaga Gomes”, são entrevistadas diversas personalidades que o conheciam ou estudaram a sua vida e obra: António Conceição Júnior1, Luís Sá Cunha2, Carlos Marreiros3, Jorge Cavalheiro4, Edith Silva5, Alberto Alecrim6 e Lei Heong Iok7. Concluem que as obras de Gonzaga Gomes falam por si. Tal como referido explicitamente por António Conceição Júnior, Gonzaga Go-mes é uma pessoa pouco comunicativa e muito bem “blindada”, tem de ser compreendido “pela sua obra, e não pela sua pessoa”, já que este macaense pertence ao tipo de pessoas que “para cumprir um certo desígnio, sentem a necessidade de se isolar” (veja-se o minuto 6 do filme “Sonata”). Uma outra mensagem é de Edith Silva, então diretora da Escola Portu-guesa de Macau. Recorda uma conversa com o professor, quando ela ainda frequentava o Liceu de Macau como aluna das aulas de chinês lecionadas por Gonzaga Gomes. Este tentou convencê-la a não desistir das aulas de chinês, usando como argumento a afirmação de que: “não sabendo chinês, na nossa terra, era uma analfabeta” (veja-se o minuto 11 do filme). Esta frase acaba por marcar toda a vida de Edith Silva e talvez revele uma convicção de Gonzaga Gomes, que acreditava ser o domínio do chinês essencial para os macaenses, representando autoafirmação e autoestima. Esta convicção poderá também explicar as diligências de Gonzaga Gomes na divulgação do conhecimento e cultura chineses e macaenses ao longo de toda a sua vida. Este filme de evocação de Luís Gonzaga Gomes, apesar de apresentar apenas alguns momentos de memória, suscita suficientemente o nosso in-1 Artista macaense.2 Investigador histórico português.3 Arquiteto macaense, ex-diretor do Instituto Cultural de Macau.4 Historiador português, ex-professor da Universidade de Macau.5 Ex-diretora da Escola Portuguesa de Macau. Foi aluna de Luís Gonzaga Gomes no Liceu de Macau.6 Ex-colega de Luís Gonzaga Gomes na Rádio Macau.7 Presidente do Instituto Politécnico de Macau.
teresse por esta figura macaense incontornável do século XX, que é ainda enigmática para o público de Macau. O estudo da sua vida e obra poderá, esperamos, contribuir para o estudo da sua época e incentivar a comunida-de macaense a procurar a sua própria identidade singular, conhecendo o seu percurso ao longo da história do território de Macau enquanto Região Ad-ministrativa Especial de Macau.
IntroduçãoEm Macau há diversas avenidas e ruas com designações selecionadas em homenagem de personalidades ilustres do território, como, por exemplo, Avenida de Venceslau de Morais, Rua de Pedro Nolasco da Silva, Rua de Camilo Pessanha, Rua de Luís Gonzaga Gomes, entre outros. O Instituto Politécnico de Macau8 está sediado na Rua de Luís Gonzaga Gomes. Numa primeira pesquisa breve, despertada pela curiosidade profissional, os resul-tados são surpreendentes: sendo um escritor e tradutor macaense muito produtivo, Luís Gonzaga Gomes é indiscutivelmente uma figura macaense incontornável no âmbito da história e da cultura em Macau no século XX, especialmente no diálogo intercultural luso-chinês. Deixa um vasto leque de estudos e traduções, escreve para mais de vinte jornais macaenses e interna-cionais e participa nos diversos círculos culturais e musicais de Macau. É para comemorar os seus contributos para a sociedade de Macau que o seu nome é atribuído a uma rua da zona dos novos aterros do Porto Exterior conheci-da como N.A.P.E., onde se encontra atualmente o Instituto Politécnico de Macau. Placa da rua dedicada a Luís Gonzaga Gomes8 Ao abrigo do Decreto-Lei n.º 11/91/M, de 4 de fevereiro, foi criado o Instituto Politécnico de Macau, separado da Universidade da Ásia Oriente. A sede do IPM situa-se onde funcionou o Liceu de Macau durante os anos de 1986-1991. Este edifício do Liceu de Macau, projectado em 1978, foi inaugurado a 4 de janeiro de 1986. O autor do projecto é o arquitecto português Tomás Taveira.
No entanto, se se considerarem os contributos e êxitos de Luís Gonzaga Go-mes, o reconhecimento da sua época é escasso, o que se deve, em grande par-te, à própria modéstia, ao isolamento e espírito estudioso que o afastam das multidões e da publicidade dos seus feitos culturais. Apesar de ser pouco reconhecido durante a sua vida, Luís Gonzaga Go-mes e a sua obra são, após a sua morte, alvo de diversos testemunhos e estu-dos (Teixeira 1986, Tomás 1995, Oliveira 1996, Aresta 1997/2001, Batalha 2007, Rangel 2007, Simas 2007, Paiva 2008, Li 2010, Sena 2010, Sérgio 2012, Escaleira e Han 2013). O Padre Manuel Teixeira (1912-2003),9 Graciete No-gueira Batalha (1925-1992),10 e António Aresta11 constituem os pontos de vista mais representativos das suas épocas em relação à vida e obra de Luís Gonzaga Gomes, analisando e classificando as obras deste autor.12 Na última década, os estudos sobre Gonzaga Gomes começam a ganhar novas perspeti-vas, sendo a identidade macaense e os elementos de “chinesices” valorizados nas diversas abordagens. Li Changsen (2010) elabora um artigo intitulado “Luís Gonzaga Gomes: Orgulho da Escola Superior de Línguas e Tradução” (Li 2010), descrevendo esta figura do ponto de vista da história da tradução, e incluindo a sua biografia, educação e publicações. Como investigador bilín-gue, Li mostra-se admirado com as traduções de chinês para português, feitas por Gonzaga Gomes, que incluem os clássicos chineses e uma obra dos man-darins da Dinastia Qing sobre Macau – Monografia de Macau. Segundo Li, esta última obra traduzida por Gonzaga Gomes é uma referência obrigatória para todos os investigadores sobre a história do território (Li 2010, 143). No relato de António Aresta intitulado “O Professor Luís Gonzaga Go-mes e a Divulgação Pedagógica da Cultura Chinesa” (Aresta 2001), desta-cam-se os contributos de Gonzaga Gomes, através das suas obras e tradu-ções, para a divulgação pedagógica da cultura chinesa. Realça os esforços de Gonzaga Gomes na consolidação da identidade macaense, numa perspetiva histórica, argumentando que as suas obras sobre as lendas, os costumes, as tradições e as mentalidades chinesas contribuem para consolidar “uma ma-triz interpretativa com a qual se identificava e que era mutuamente enrique-cedora das comunidades de Macau” (Aresta 2001, 1541). Todavia, Aresta não 9 Famoso historiador português de Macau e sacerdote católico que vive grande parte da sua vida em Macau e dá contributos significativos para as áreas de missionação, de educação e do estudo da história de Macau.10 Professora portuguesa que chegou a Macau em 1949 e é uma das personalidades mais marcantes no panorama da cultura contemporânea de Macau.11 António Aresta é licenciado e mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, formador e professor, com comissões de serviço em Macau (entre 1987 e 1998) e em Moçambique (entre 2002 e 2007). É autor de uma extensa bibliografia nas áreas da filosofia e da história da educação e da cultura de Macau. Professor do Liceu de Macau quando estava em Macau. 12 Veja-se Capítulo 3.INTRODUÇÃO22
INTRODUÇÃOaprofunda esta convicção com estudos mais desenvolvidos. A investigadora brasileira Mónica Simas aborda os elementos de “chi-nesices” nas obras de Gonzaga Gomes a partir do ponto de vista cultural e identitário. Na obra Margens do Destino, a académica fala do “olhar intér-prete e investigador” de Gonzaga Gomes, sublinhando o “capital sinófono” (chinesices) transmitido nas suas obras acerca do conhecimento e da cultura da China e de Macau, a que se alia também o seu “capital de portugalidade”.Apesar de um olhar cujas raízes identificam-se com o ‘capital de portugalidade’, ele [Luís Gonzaga Gomes] oferece ângulos inusitados em relação a essas marcas de identificação cultural, cruzando a esfera comunicativa do ‘capital de portu-galidade’ com a do ‘capital sinófono’, o que actualiza um discurso alternativo, dirigido para a contemplação da memória dos habitantes chineses de Macau. (Si-mas 2007, 149) (ênfase nossa)Simas (2007) destaca neste olhar de Gonzaga Gomes o discurso alternati-vo que dá voz ao “capital sinófono”, invocando histórias pertencentes a um universo de “chinesices”, explorando uma possibilidade alternativa de estu-dos identitários macaenses. No entanto, dedicando-lhe somente uma secção, esta proposta não é explorada de forma mais aprofundada no caso concreto de Gonzaga Gomes. O interesse pela identidade macaense através dos estudos do “capital sinófono” nas obras de Gonzaga Gomes continua a ser alimentado pelos es-tudos académicos. Até este momento, o estudo de Vanessa Sérgio é muito completo e abrangente. Trata-se da sua tese de doutoramento defendida em 2012 em Nanterre, França, intitulada Macao: vie culturelle et littéraire d’expres-sion portugaise au milieu du XXe siècle – Luís Gonzaga Gomes, ‘Fils de la Terre’. Através da análise das obras de Gonzaga Gomes, a autora argumenta que Luís Gonzaga Gomes constrói uma renovação cultural macaense a partir dos va-lores morais, da superstição, das divindades e de outros elementos chineses. A sua abordagem baseia-se nos Estudos Pós-Coloniais, argumentando que Gonzaga Gomes se encarrega por meio desta tarefa da transmissão cul-tural entre as duas civilizações e que as suas obras veiculam a transição dum ambiente cultural colonial para um ambiente cultural pós-colonial e, assim sendo, concretizam a reivindicação da identidade macaense no intercâmbio cultural luso-chinês. No fim da tese, a autora aponta que este intercâmbio cultural decorre com limitações impostas pelo contexto político e pela men-talidade do tempo. Perante esta conclusão, temos algumas reservas. Concordamos que, en-23
quanto indivíduo, Luís Gonzaga Gomes e as suas atividades de divulgação e de intercâmbio cultural não são suficientemente reconhecidos pela época e pela mentalidade do tempo. A revalorização desta figura começa simples-mente décadas após a sua morte. No entanto, pretendemos sublinhar que os esforços de Gonzaga Gomes ganham uma dimensão maior que o nível pes-soal, na medida em que, perante a crise identitária macaense imposta pela complexidade dos cenários social, jurídico-político, étnico e antropológico, as medidas estratégicas de reação e os esforços de mediação da elite macaen-se representada por Gonzaga Gomes correspondem ao interesse e às expe-tativas coletivas, transformando desafios em novas oportunidades, embora, lamentavelmente, este facto só posteriormente tenha sido reconhecido. Com base nos estudos já feitos, a presente investigação pretende conti-nuar a recuperar esta relação entre a identidade macaense e as obras de Gon-zaga Gomes, traduzidas e não traduzidas, tentando descortinar as imagens que representam o “capital sinófono” e o capital de “portugalidade”, numa tentativa de destacar o papel de Luís Gonzaga Gomes, filho da terra, como divulgador e tradutor de imagens da China e de Macau em função da identi-dade macaense. Uma proposta: identidade, tradução e imagemHá quem afirme que os macaenses são, em si próprios, tradução. Esta afir-mação espelha certamente o papel inquestionável dos macaenses ao longo da história do território, enquanto comunicadores, mediadores e traduto-res. Explorando esta metáfora, acreditamos que nenhum estudo da tradu-ção de Macau deverá deixar de estudar as figuras dos macaenses envolvidos nas atividades de tradução. É um facto inegável que a atividade de tradução, por sua vez, reforça o papel dos macaenses e faz parte integrante do perfil deste grupo ao longo da história de Macau. Consequentemente, o caso de Luís Gonzaga Gomes, como figura macaense representativa em meados do Século XX, oferece-se, no seu cruzamento com a tradução, como uma boa oportunidade para estudar a identidade e a tradução. Na realidade, existem diversos estudos sobre a identidade macaense, que se desenvolvem principalmente do ponto de vista étnico-antropológico, his-tórico, sociocultural, jurídico-político e literário (Amaro 1988; Cabral e Lou-renço 1993; Si Tou 1997; Clayton 2001; Piteira 1999; Tang e Xu 2000;Wang e Tan 2001; Jin e Wu 2002; Li 2007 e 2010; Rangel 2010; Noronha e Chaplin 2011; Gaspar 2015) e se concentram em vetores identitários como língua, re-ligião, gastronomia, costumes, sentido de pertença, entre outros. O estudo de Gaspar (2015) aborda a identidade macaense de um ponto de vista an-tropológico, salientando as redes de atores da comunidade macaense bem INTRODUÇÃO24
INTRODUÇÃOcomo as interações sociais estabelecidas através da língua e da gastronomia. É um estudo de continuação dos estudos antropológicos, centrando-se na fase posterior à transferência de poderes administrativos de Macau à China e ao estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau. Conclui que a ambivalência da comunidade macaense é a trama da construção de identi-dades e respetivas memórias, que sustentam essas identidades imaginadas, inseridas em processos políticos e económicos complexos, simultaneamente locais e globais. Todos estes estudos são de natureza qualitativa, baseando--se alguns em entrevistas e reunindo-se nas obras intituladas Filhos da Terra (Amaro 1988), Em Terra de Tufões – Dinâmicas da Etnicidade Macaense (Ca-bral e Lourenço 1993) e No Tempo do Bambu – Identidade e Ambivalência entre Macaenses (Gaspar 2015). Os títulos indicam que os macaenses são etique-tados como “filhos da terra” e “Bambu”, imagens consagradas, tanto pelos autores como pelos seus entrevistados. Na realidade, estas imagens meta-fóricas que se associam à identidade macaense merecem ser estudadas com mais profundidade: a origem da sua formação, o seu desenvolvimento, a sua consolidação/projeção e os eventuais desafios que suscitam. Como desde as décadas de 1970 e 1980 a Imagologia já forma uma disciplina independente, optamos por recorrer a esta disciplina, procurando respostas para as ques-tões acima referidas. Uma associação deste género disponibilizar-nos-á uma nova perspetiva de abordagem: estudos de identidade e tradução a partir do estudo de imagens.Nos últimos anos, a Imagologia, definida como o estudo de imagens men-tais (do outro e do próprio, do estrangeiro e do autóctone, entendidas como construtos históricos) começa a cruzar-se com os Estudos Descritivos de Tradução, disponibilizando um enquadramento teórico-metodológico para estes estudos. Como parte integrante do polissistema literário, as auto- e heteroimagens, concebidas pelo tradutor, condicionam eventualmente as normas de tradução antes, durante e após o processo de tradução. Por ou-tro lado, a tradução, enquanto manipulação e reescrita de imagens mentais, poderá refletir também as considerações poéticas e ideológicas do grupo de interesse representado pelo tradutor.A partir do enquadramento principal dos Estudos Descritivos de Tra-dução, o nosso estudo pretende abordar imagens da China, de Macau e do Ocidente, nas obras traduzidas e não traduzidas de Luís Gonzaga Gomes, recorrendo também à Imagologia, numa tentativa de abrir pistas novas para entender a forma como a tradução terá contribuído para a construção e o re-forço da identidade macaense. Neste estudo de caso sobre Gonzaga Gomes, pretendemos apurar o papel social de Gonzaga Gomes enquanto divulgador e tradutor de imagens da China e de Macau, através da abordagem das ima-25
gens apresentadas e refletidas nas suas obras, numa tentativa de vislumbrar a identidade macaense construída ao longo da história de Macau, particu-larmente, em meados do século XX, fase de consideráveis mudanças sociais, jurídico-políticas, étnicas e antropológicas. Neste estudo interdisciplinar, as imagens da China, de Macau e do Ocidente vão ser apresentadas e analisa-das, a partir das informações paratextuais e textuais das obras deste autor. A conciliação dos enquadramentos conceptuais da Imagologia e dos Estudos de Tradução garante a necessária coerência da nossa abordagem. Contribuir para o conhecimento da identidade macaense constitui o objetivo final que toda esta análise pretende alcançar.Questões centrais do presente trabalhoComo indica o título do presente trabalho – “Luís Gonzaga Gomes (1907-1976), Filho da Terra: divulgador e tradutor de imagens da China e de Ma-cau”, levantamos as seguintes três questões centrais: Qual é a relação entre identidade, imagem e tradução no caso específico de Luís Gonzaga Gomes? Porque assume Luís Gonzaga Gome o papel de divulgador e tradutor? Como?Quais são as imagens da China e de Macau que Luís Gonzaga Gomes di-vulga e traduz?De facto, o presente trabalho organiza-se em torno destas três questões. Relativamente à primeira questão, que se prende com o enquadramento teórico e metodológico interdisciplinar, a relação triangular entre identidade, tradução e imagem constitui o modelo fundamental, em termos teórico-me-todológicos, para o presente estudo. A introdução do conceito de imagem, na abordagem das relações entre a identidade e a tradução, disponibiliza uma abordagem que considerámos viável e convincente. Adotamos a definição de identidade numa perspetiva sociopsicológica, que atende não somente à identidade coletiva, preconizada pelos académicos dos estudos sociais, como também defende as funções pessoais conhecidas como identidade de papel, assim como a identidade pessoal a nível biológico. A classificação da iden-tidade em três vertentes disponibiliza um fundamento sólido para analisar as relações sinergéticas entre os empenhos pessoais e a identidade coletiva. As funções pessoais (a identidade em termos do papel social) revelam ser de particular relevância para abordagem de Luís Gonzaga Gomes como divul-gador e tradutor de imagens. A nossa abordagem conta com a Imagologia (auto- e heterimagens) e os Estudos Descritivos de Tradução (teoria do polissistema de Even-Zohar, normas de tradução propostas por Gideon Toury e conceitos de manipula-INTRODUÇÃO26
INTRODUÇÃOção e reescrita da Escola da Manipulação), recorrendo a dois tipos de análise: análise paratextual e textual. Na análise paratextual incide sobre as imagens patentes nas obras de Gonzaga Gomes, enquanto na análise textual, a identi-dade macaense revelada em imagens constitui o nosso foco de atenção. Esta análise permite apresentar, descrever e expor os fatores poéticos e ideológi-cos em causa nas imagens patentes na obra de Gonzaga Gomes. Mediante a abordagem da relação triangular entre identidade, tradução e imagem, ten-tamos procurar o dinamismo destes três conceitos na abordagem da questão identitária macaense, no caso de estudo de Luís Gonzaga Gomes. Quanto à segunda questão, relativa às motivações de Luís Gonzaga Gomes como divulgador e tradutor, ela prende-se estreitamente com a sua vida e obra e com as questões da identidade macaense num contexto de convulsões sociais, jurídico-políticas e étnicas em meados do século XX. Diz-nos a Es-cola da Manipulação a relevância entre o fenómeno individual e as estruturas sócio-económicas e ideológicas: não existem escrita e traduções desprovidas de motivações e intenções, nem as iniciativas de Gonzaga Gomes são pura-mente de interesse pessoal. O vasto leque das suas obras não poderá ser es-tudado sem ter em conta as considerações identitárias na conjuntura social, jurídico-política, étnica e antropológica do então território de Macau. A cri-se identitária registada convoca a intervenção da elite, que reage com inicia-tivas estratégicas de mediação para lidar com os momentos difíceis. Gonzaga Gomes, como membro deste grupo de interesse, participa e desempenha um papel incontornável para defender e salvaguardar a identidade macaense. Nesta abordagem das suas motivações, tentamos destacar a autoconsciência identitária do Macaense. Quando o capital de “portugalidade” deixa de fun-cionar na altura da crise identitária, novos valores devem ser introduzidos para transformar a crise numa nova oportunidade. Tentamos recuperar estes novos valores avançados pela elite macaense, na sua tentativa de singularizar a identidade macaense. Procuramos igualmente explorar as iniciativas estra-tégicas da elite macaense, representada por Luís Gonzaga Gomes, que visam contribuir e abrir caminhos para a projeção da sua imagem singular. No que toca à terceira questão, que diz respeito às imagens da China e de Macau patentes nas obras de Luís Gonzaga Gomes, tentamos abordá-la a partir das análises paratextual e textual das obras de Gonzaga Gomes. Recor-rendo à classificação das obras de Gonzaga Gomes, consideramos pertinente pesquisar a “história externa” e “história interna” destas obras. Tentamos re-cuperar, coligir e apresentar informações pertinentes sobre o mercado edito-rial de publicações e traduções em meados do século XX, descrever os prin-cipais agentes nas atividades editoriais e apurar a relevância das publicações e traduções de Gonzaga Gomes. Os dados corroboram a importância do seu 27
papel de divulgador e tradutor na projeção de imagens da China e Macau. Com as informações disponibilizadas no paratexto e no texto, pretendemos analisar considerações poéticas e ideológicas de Gonzaga Gomes, e apurar, desejavelmente, a identidade macaense revelada pelas imagens. Sendo estas as três questões centrais abordadas, o presente trabalho abor-da-as explorando o dinamismo entre tradução, identidade e imagem, no caso específico de Luís Gonzaga Gomes, considerando a sua vida e obra. Estrutura do presente estudoO presente estudo estrutura-se em cinco capítulos, subdivididos em secções iniciados por uma introdução e um conjunto de notas conclusivas, que pre-tende funcionar como síntese das principais ideias exploradas no respetivo capítulo e como fio condutor relativamente aos demais capítulos. Passamos a apresentar as principais linhas de força de cada capítulo.A introdução apresenta a motivação do presente estudo e a sua estrutura. Com base nos estudos já efetuados em torno de identidade macaense e nos estudos sobre a vida e obra de Luís Gonzaga Gomes, identificamos as ques-tões orientadoras da nossa pesquisa e apresentamos a lógica subjacente ao presente estudo. O Capítulo 1 – enquadramento teórico e metodológico – pretende apresen-tar os instrumentos conceptuais e metodológicos que são aplicados na análi-se apresentada ao longo do trabalho. Com a abordagem dos conceitos básicos de identidade, tradução e imagem, aborda-se o dinamismo triangular destes conceitos no nosso estudo interdisciplinar. Especificamente, recorremos ao conceito de identidade no âmbito dos estudos de identidade sociopsicológi-ca (identidade social, identidade de papel, identidade pessoal), a uma seleção de conceitos centrais para os Estudos Descritivos de Tradução (normas de tradução, manipulação e reescrita, história interna e externa) bem como à sua metodologia (pesquisa de arquivo e análise paratextual e textual), e ainda a um conjunto de conceitos da Imagologia (como auto- e heteroimagem) e à sua metodologia (de análise de imagens mentais). Tratando-se dum estudo de caso, recorremos à pesquisa de arquivo e à análise paratextual e textual, como métodos de investigação. O Capítulo 2 – identidade macaense em meados do século XX – apresenta as principais etapas anteriormente propostas para o estudo da definição da identidade macaense (incubação, formação e consolidação), bem como a vi-ragem identitária, registada em meados do século XX, num contexto de mu-danças sociais, jurídico-políticas, étnicas e antropológicas. Analisam-se, em particular, uma seleção de pontos de vista representativos acerca da viragem identitária macaense, como é o caso da perspetiva social (Cabral e Lourenço, INTRODUÇÃO28
INTRODUÇÃO1993), da perspetiva jurídico-política (Gonçalves Pereira, 1995), ou da pers-petiva étnica e antropológica (Amaro 1993). Relativamente às estratégias de conciliação desenvolvidas pela elite macaense como mediador/divulgador, destaca-se a sua intervenção nas atividades editoriais, reconhecendo parti-cular relevo ao papel desempenhado por três títulos da imprensa periódica portuguesa em Macau (Renascimento, Notícias de Macau e Mosaico).O Capítulo 3 – Luís Gonzaga Gomes: vida e obra – procede à apresentação de Luís Gonzaga Gomes e da suas obra, visando traçar um retrato panorâ-mico deste divulgador e tradutor. Apresentam-se o enquadramento familiar, a formação como intérprete-tradutor, a sua carreira profissional e seus car-gos sociais bem como os principais testemunhos, entre os quais destacamos os do Padre Manuel Teixeira, de Graciete Nogueira Batalha e de António Aresta. Trabalhando sobre propostas anteriores (Teixeira 1976, Aresta 2001 e Sena 2010), fazemos um novo levantamento bibliográfica das obras de Luís Gonzaga Gomes, que destaca as suas publicações de divulgação e tradução de conhecimentos e imagens da China e de Macau. O Capítulo 4 – Luís Gonzaga Gomes: divulgador de imagens da China e de Macau, inicia-se com uma breve panorâmica do mundo editorial de Macau nas décadas de 1940 a 1970. Nele se destaca o papel de Gonzaga Gomes en-quanto divulgador de imagens da China e de Macau, na sua colaboração com as três referências na imprensa periódica portuguesa em Macau já referidas (Renascimento, Notícias de Macau e Mosaico) e, em particular, com a editora Colecção de Notícias de Macau. Efetua-se uma análise de imagens das obras de Gonzaga Gomes sobre a China e Macau (imagens da China, imagens de Macau e imagens do Ocidente) a partir de informações paratextuais, e abor-da-se a identidade macaense centralizada nas imagens do macaense (“Macau Bambu” e “filho da terra”), a partir da análise textual. No Capítulo 5 – Luís Gonzaga Gomes: tradutor de imagens da China e de Macau, apresentamos uma breve panorâmica da história de tradução em Macau em meados do século XX, para nos concentrarmos no papel de Gon-zaga Gomes enquanto tradutor de imagens da China e de Macau. Referi-mos a importante tradição herdada da Escola da Língua Sínica (1915-1976) onde recebeu sete anos de formação (1925-1933). Novamente se abordam as imagens, desta feita patentes nas traduções de Gonzaga Gomes (imagens da China, imagens de Macau e imagens do Ocidente), a partir de informações paratextuais, que assim também enquadram a análise identitária duma tra-dução particular de Gonzaga Gomes -– Monografia de Macau, que se concen-tra na tradução de duas palavras ricas em conotações e determinantes para a criação de imagens do outro enquanto estrangeiro, estranho ou bárbaro: fan (蕃) e i (夷). Para esse efeito, procuramos a ocorrência destas duas palavras-29
-chave no texto de partida e as suas traduções nos textos de Luís Gonzaga Gomes (1979). Procedemos ainda a uma análise comparativa da tradução de Gonzaga Gomes com a de Jin Guoping (2009), enquadrada por um contexto largamente distinto. As soluções regulares (obedecendo a um padrão estabe-lecido por uma frequência elevada) e irregulares (ou, de algum modo, ines-peradas) que são adotadas pelos dois tradutores constituem o nosso objeto de análise, com particular destaque para os casos de tratamento irregular dos dois tradutores. A análise destas soluções irregulares é orientada por uma perspetivas imagológica. Através da análise comparativa das suas opções e das configurações identitárias na tradução e nos prefácios, o nosso objetivo consiste em identificar as atitudes e os valores dos dois tradutores, especial-mente as de Gonzaga Gomes, a fim de revelar, desejavelmente, as suas consi-derações poéticas e ideológicas em relação à identidade macaense. Este estudo pretende ainda desenvolver os argumentos de forma progres-siva e organizada, começando por abordar a questão da identidade macaense e destacar as intervenções da elite macaense representada por Luís Gonzaga Gomes, a partir da descrição do contexto de Macau em meados do século XX. Tendo em conta que Gonzaga Gomes se revela através das suas obras, analisamos classificações já avançadas para as suas publicações e fazemos uma nova proposta com base num novo levantamento bibliográfico das suas obras, que atende ao objetivo da presente investigação. Como as imagens da China e de Macau são mais frequentes nas obras de Gonzaga Gomes, dirigi-mos a nossa abordagem principalmente para a consideração das imagens da China e de Macau, a partir das informações paratextuais e textuais, procu-rando encontrar marcas de considerações poéticas e ideológicas de Gonzaga Gomes em relação à identidade macaense. Este estudo termina com um conjunto de considerações finais, nas quais se destacam alguns contributos que esperamos ter feito para o estudo da identidade macaense centrada na análise da vida e obra de Gonzaga Gomes, referindo também algumas limitações mas também propostas de investiga-ção futura.INTRODUÇÃO30
1. EnquadramEnto tEórIco E mEtodológIco
For Tranlation Studies, [interdisciplinarity] means that a holistic conception of transla-tional phenomena serves as the point of departure for interdisciplinary work to elucidate a number of different aspects. The insights gained in the cooperating fields all contribute to the overall findings, which requires existing or newly established relations between the disciplines involved. (Kaindl 2006, 87-88)A interdisciplinaridade, que reúne contributos de áreas científicas distintas para uma abordagem holística de fenómenos a estudar, revela a sua perti-nência para o presente trabalho. Como uma investigação interdisciplinar, o presente trabalho pretende recorrer aos aparelhos concetuais e metodoló-gicos dos Estudos de Tradução bem como aos da Imagologia, mobilizando assim um enquadramento teórico-metodológico interdisciplinar. Sendo um tópico incontornável na abordagem do presente estudo, a identidade, ter-mo que surge também no título, constitui um conceito fundamental. Nes-tas circunstâncias, este capítulo vai estruturar-se em três secções dedicadas à Identidade, Tradução e Imagem. Espera-se que as relações estabelecidas entre estes três conceitos contribuam, conjuntamente, para os resultados da presente investigação.1.1. IDENTIDADE Identidade é um conceito fundamental nos diversos estudos sociais e humanos. Sendo da origem latina, o termo é constituído a partir do adjetivo “idem” (que significa “o mesmo”) e do sufixo “-dade” (que indica qualidade). A etimologia desta palavra significa “qualidade de idêntico”.13 É também caraterizado pela dialética de igualdade e diferença, que constituem os dois lados de uma moeda.13 identidade in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-09-27 01:07:41]. Disponível na Internet: https://www.infope-dia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/identidade
Sendo considerada uma categoria social, a questão da identidade tem sido explorada a partir de perspetivas sociais por múltiplos autores (Tajfel 1982; Stryker 1987; White 1992; Snow & Oliver 1995; Calhoun, 1994; Woodward, 1997; Castells, 1997; Hall, 1992; Howard, 2000; Weigert e Teitge 2007), cen-trando-se principalmente no impacto da identidade coletiva e salientando um sentimento de pertença. Paralelamente, uma perspetiva psicológica sobre a identidade valoriza a subjetividade individual, especialmente em termos de uma busca de “uniformidade e continuidade” (Erikson 1968; Schwartz 2001; Hoare 2002) e salienta a individualidade e o self consumado, que constituem fontes de motivação para uma nova forma de identidade (Côté, 1986; Streit-matter, 1993; Kroger 2002 e 2007). No entanto, uma análise no âmbito so-ciopsicológico reúne estas duas perspetivas identitárias, revelando a sua per-tinência para presente estudo acerca da identidade macaense.1.1.1. Conceito e definiçãoPara o presente estudo, recorremos ao conceito de identidade definido pe-los estudos sociopsicológicos (Tajfel e Fraser 1978; Stryker 1980; Burke1980; Stets e Burke 2000; Burke 2003; Burke and Stets 2009), que apresentam não apenas ambas as vertentes acima referidas, como também refletem a nature-za complexa dum estudo interdisciplinar acerca deste conceito, tal como se argumenta no seguinte excerto:A merger of identity theory with social identity theory will yield a stronger social psychology that can attend to macro-, meso-, and micro-level social processes. Such a theory would address agency and reflection, doing and being, behaviors and perceptions as central aspects of the self. It also would provide a stronger in-tegration of the concepts of the group, the role, and the person. (Stets e Burke 2000, 234)Destaca-se, pois, um conceito integral da identidade no âmbito sociopsico-lógico, que se associa com o processo social em nível macro, meso ou micro. Estes três níveis poderão ser interpretados como três vertentes conceptuais: grupo, papel e pessoa. O mesmo argumento é reforçado por Burke (2003), que acrescenta que as três vertentes de identidade devem ser estudadas de forma dinâmica:By seeing all of these identities (social, role, and personal) as theoretically iso-morphic, but having different bases or sources, a unification of the different uses of identities might better be achieved. (Burke 2003, 2)ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO34
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICOA vantagem desta proposta consiste na sua abrangência que considera tanto a identidade coletiva (nível macro) como as identidades individuais (níveis meso e micro), assim sublinhando que não se existe de forma isolada, mas unificada e integrada. Para melhor falar de tal unificação ou integração, con-vém aprofundar o conhecimento do que são estas identidades (social, de pa-pel e pessoal), segundo as propostas de autores de referência nesta área. A identidade social, tal como definida por exemplo por Tajfel (1978), é associada, através da autoconsciência, a uma dimensão emocional e ava-liativa da pertença a grupos sociais. Trata-se do modo como nos olhamos, identificamos, categorizamos e comparamos nos diversos contextos sob ca-tegorias como etnia, sexo, classe social, geração, entre outras. Neste plano social se reflete o fruto da interação dos elementos psicológicos e dos fatores sociais. A identidade social incentiva os sentimentos de pertença a um deter-minado grupo, onde o membro desenvolve comportamentos competitivos e discriminatórios em relação ao exogrupo, bem como comportamentos de favoritismo em relação ao endogrupo (Tajfel 1981). Neste processo de dife-renciação do exogrupo e identificação com endogrupo, os comportamentos competitivos e discriminatórios visam, na sua origem, garantir uma identida-de social positiva, que Hogg (2006) designa como protótipo do grupo: prototype – a fuzzy set of attributes (perceptions, attitudes, feelings, and beha-viors) that are related to one another in a meaningful way and that simultaneou-sly capture similarities within the group and differences between the group and other groups or people who are not in the group. (Hogg 2006, 118)Segundo Hogg, este protótipo do grupo distingue-se maximamente do pro-tótipo de outros grupos e descreve “ideal, often hypothetical, ingroup mem-bers” (Hogg 2006, 118). Na procura do protótipo do grupo, os membros adotam iniciativas ou estratégias para maximizar este perfil distinto e ideal, assim como também manifestam atitudes desfavoráveis relativamente a exo-grupos relevantes, mostrando a sua diferença relativamente a outros. Por sua vez, a identidade de papel (que um indivíduo desempenha) pode ser definida como a internalização individual das expetativas sociais relacio-nadas com o seu papel (Stryker e Burke 2000, 291). Cada papel constitui-se num conjunto de expetativas sociais atribuídas às posições ocupadas na rede de relacionamentos, tal como observa Thoits: Role-identities are self-conceptions in terms of one's position in the social struc-ture...Specifically, role-identities are viewed here as self-conceptions based on en-during, normative, reciprocal relationships with other people. (Thoits 1991, 103)35
Um indivíduo desempenha uma série de papéis, carregando cada papel um conjunto de expetativas sociais distintas, exigindo uma identificação espe-cífica e contribuindo para a perceção que ele assume de si mesmo (Super 1980). O mesmo possui múltiplos aspetos identitários, sendo, no entanto, alguns mais salientes que outros por certos motivos. É possível exemplificar este conceito com o caso de uma mulher que pode ser mãe, filha, professora universitária, tradutora, música, entre outros papéis sociais, dos quais o pa-pel da professora universitária poderá ser mais destacado durante um certo período, se ela dedica muito tempo ao ensino e à investigação durante esse período.Ao longo do estabelecimento de cada papel, regulado pelas normas sociais próprias, uma pessoa deve identificar-se com ele e internalizá-lo. A saliência duma identidade de papel torna maior a probabilidade de esta identidade ser evocada por um indivíduo em várias situações, pois os conhecimentos e julgamentos internalizados nele constituem a base para interpretar e definir estas situações. A saliência deste papel também reflete o compromisso dum indivíduo em relação a outras pessoas face a uma dada situação, porque ele assume certo papel numa rede das relações sociais com a qual ele convive na prática (Stryker e Burke 2000, 286). Durante o processo, esta pessoa tam-bém passa por uma fase cognitiva de autoverificação. Assim, a identidade de papel destaca a vertente operacional, a sua função de ponte entre o autocon-ceito de uma determinada pessoa e as expetativas sociais impostas pelo pa-pel. Conforme Thoits (1991), quando uma pessoa consegue atuar de acordo com as expetativas sociais, a sua autoestima cresce e vice-versa na situação contrária.Failing to meet normative expectations in identity performance should decrease self-esteem; satisfactory or highly competent identity performance should pro-mote self-esteem. In short, the possession of role-identities and the adequacy of various identity performances should be major sources of individuals' self-con-ception and self-esteem, respectively, and therefore should be important in the development and maintenance of psychological well-being. (Thoits 1991, 105)Quanto à identidade pessoal, recorremos à definição de Burke e Stets: The person identity is the set of meanings that define the person as a unique indi-vidual rather than as a role-holder or group member. (Burke and Stets 2009, 124)Esta definição traduz-se nos componentes biográficos e idiossincráticos dum ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO36
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICOindivíduo, que se refletem na construção do autoconceito. Este autoconceito, por sua vez, envolve não simplesmente o conjunto dos nossos pensamentos, sentimentos e da nossa imaginação sobre quem nós somos, mas um conjunto de significados que possuímos, incluindo as nossas observações, avaliações, desejos, vontades assim como reflexões sobre as reações dos outros (Stets e Burke 2003, 130). Relativamente estável, este autoconceito poderá ser igual-mente sujeito às situações constantemente em mudança, como argumenta por Burke (1980): The self-concept includes not only our idealized views of who we are that are relatively unchanging, but also our self-image or working copy of our self-views that we import into situations and that is subject to constant change and revision based on situational influences (Burke, 1980).Segundo Burke, a autoimagem faz parte integrante do autoconceito quando este autoconceito se coloca em situações em mudança, acrescentando, pos-teriormente, juntamente com Stets, que: It is this self-image that guides moment-to-moment interaction, is changed in si-tuated negotiation, and may act back on the more fundamental self-views. (Stets e Burke 2003, 132) Nesta proposta, Stets e Burke argumentam que a autoimagem se distin-gue nas ações concretas como interações imediatas, negociações situacionais e transmissão de feedback ao autoconceito. Assim sendo, a autoimagem, como elemento ativo e indispensável do autoconceito, estabelece a sua ligação ínti-ma com a identidade pessoal.Resumidamente, a unificação e integração destas identidades (social, de papel e pessoal) revela uma relação dinâmica. A identidade social, com o pro-tótipo estabelecido, incentiva o sentido de pertença dos seus membros, que se alcança pelos comportamentos individuais distintos dos outros grupos. A identidade de papel, por um lado, prende-se com as expetativas sociais e, por outro lado, depende largamente do desempenho pessoal e do autoconceito do indivíduo. No caso de identidade pessoal, ela relaciona-se com a gestão do autoconceito positivo, que por sua vez também atende ao posicionamento do indivíduo na estrutura social e se rege pelas normas sociais (Thoits 1991, 103; Burke e Stets 2009, 121).Relacionando e distinguindo assim, com base neste quadro concep-tual, a identidade social, a identidade de papel e a identidade pessoal, con-37
seguimos também definir um conceito integral da identidade no âmbito sociopsicológico.1.1.2. Identidade macaenseQuando consideramos a identidade macaense, referimo-nos sobretudo a uma identidade social, logo, a um nível macro, nos termos propostos por Ste-ts e Burke (2000), embora, como acima exposto, tal identidade social tam-bém diga respeito ao modo como a identidade de papel e a identidade pessoal se configuram. Há diversos estudos que abordam a sua definição e mudança ao longo do desenvolvimento desta comunidade, recorrendo a abordagens étnicas, antropológicas, históricas, literárias bem como socioculturais (Ama-ro 1988; Cabral e Lourenço 1993; Si Tou 1997; Clayton 2001; Piteira 1999; Tang e Xu 2000;Wang e Tan 2001; Jin e Wu 2002; Li 2007 e 2010; Rangel 2010; Noronha e Chaplin 2011; Gaspar 2015).O antropólogo João Pina-Cabral e o sociólogo Nelson Lourenço, na obra Em Terra de Tufões, apontam para três vetores que definem como os pilares identitários sociais da comunidade macaense: língua, religião e raça.Um destes vectores é a língua e refere qualquer tipo de associação de um indiví-duo ou da sua família com a língua portuguesa. Outro vector é a religião e inclui qualquer forma de identificação individual ou familiar com o Catolicismo. Fi-nalmente, o terceiro vector é a raça, isto é, quando uma pessoa, ou alguém da sua família, resulta da miscigenação entre sangue europeu e asiático. (Cabral e Lourenço 1993, 22)Os sociólogos Manuel Noronha e Ian Chaplin complementam com mais um aspeto acerca da língua. Além do português, os macaenses usam uma varie-dade específica: o patuá, também apelidado de “Lingu(a) Maquista”. Trata--se de um crioulo de base portuguesa formado em Macau a partir do século XVI, influenciado pelas línguas chinesa, malaia e cingalesa, que se fala no seio familiar macaense. Salientam, entretanto, a sua descreolização no início do século XX, ocorrida a par da promoção do português-padrão, com prestígio social, como uma variante elevada. As a result, ‘Lingu(a) Maquista’, which was predominately spoken in the domes-tic domain, had started becoming increasingly decreolized. This led to a diglossic model in which standard Portuguese was the ‘High’ variant with an amplified social prestige: spoken in the appropriate contexts of the workplace, school and also with the Portuguese. Maquista, on the other hand, was the ‘Low’ variant ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO38
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICOspoken among family members and friends during informal social interactions. The decreolization of Maquista was slowly ‘remodelled’ to bring it parallel to standard Portuguese. (Noronha e Chaplin 2011, 418)Os historiadores chineses Tang e Xu incorporaram mais alguns fatores, assim contribuindo para enriquecer o conceito de identidade macaense coletiva:在特殊历史背景下形成的澳门土生葡人有着鲜明的体质风貌 、文化特征和族群性。(1) 欧亚混血的体质特征; (2) 欧亚混合的“澳门土语”及谙熟双语的语言能力; (3) 中西合璧的风俗习惯;(4) 根在澳门的族群意识。 (Tang e Xu 2000, 49-52)Os macaenses nascidos num contexto histórico especial apresentam aspetos físi-cos distintivos, características culturais e étnicas próprias, nomeadamente: (1) as-petos físicos euroasiáticos; (2) patuá –língua de mistura euroasiática e domínio de duas línguas; (3) costumes reunindo as culturas oriental e ocidental; (4) sentido de enraizamento em Macau. (tradução nossa)Dentro destes elementos a alínea 3), sobre a cultura diária dos macaenses (gastronomia, vestuário, casamento), e o ponto 4), relativo ao sentido de en-raizamento em Macau, são novos elementos característicos, que Tang e Xu introduzem para qualificar esta comunidade, não referindo a religião. No que diz respeito ao sentido de enraizamento dos macaenses, Piteira ar-gumenta que o grupo macaense residente em Macau atua como referencial da diáspora macaense (Piteira 1999, 182-183), uma afirmação que diz espe-cialmente respeito aos fluxos migratórios ocorridos em virtude da transição política do território (Macau), num momento posterior àquele em que se concentra este trabalho. Segundo Piteira, os membros deste grupo padrão “padronizam o ‘modo de vida’ (ser e estar) macaense, [vivem] mergulhados num contexto multilinguístico e multicultural e preservam os traços identi-ficativos” (Piteira 1999, 183). No caso específico dos macaenses em Macau, Piteira indica o fator político, mais precisamente a transição política da ad-ministração de Macau, como um fator essencial que condiciona a identidade macaense (Piteira 1999, 168), especialmente no período da transição, cujo marco de viragem é a assinatura da Declaração Conjunta em 1987.Neste contexto o factor “transição” é, sem dúvida, o eixo central de todo o pro-cesso de mudança que se efectiva no dia-a-dia do quotidiano macaense, sem dei-xar de levantar naturalmente resistências, quer em termos de atitudes e valores, quer em termos estruturais e psicológicos. (Piteira 1999, 168)39
Mais adiante, o autor acrescenta:do ponto de vista genérico, o factor “transição” estabelece logo à partida condi-cionalismos da manutenção de um determinado legado histórico que a própria comunidade macaense vem reclamando, a saber:1. Ausência de configuração territorial que lhe era peculiar em termos de legitimidade; 2. Aplicação do estatuto de “estrangeiro” em terra própria; 3. Ausência da relação preferencial com o poder enquanto interlocutor privile-giado assente no bilinguismo. (Piteira 1999, 199)Apesar de dizerem respeito a um período posterior ao que pretendemos estu-dar, entendemos que algumas destas afirmações de Piteira (1999) são já perti-nentes e aplicáveis à identidade macaense em meados do século XX, nomea-damente, os fatores políticos que colocam a identidade macaense em jogo e suscitam a discussão em torno dos sentimentos de enraizamento em Macau.Ao analisar os cinco vetores identitários macaenses propostos por Cabral e Lourenço (1993), Piteira (1999), Tang e Xu (2000) e Noronha e Chaplin (2011) (língua, raça, religião, cultura diária, sentimento de enraizamento), constatamos que todos eles são vetores que descrevem o caráter coletivo macaense, representando principalmente a identidade desta comunidade no que difere de outras. Estes elementos representam a identidade no plano so-cial através da qual os macaenses se olham, identificam, categorizam e com-param, numa perspetiva de preservar e guardar os sentimentos de pertença à sua comunidade ao longo da história macaense. Contudo, não abordam, de maneira clara e direta, a identidade de papel, nem a identidade pessoal, o que justifica a necessidade de aprofundar o conhecimento da identidade macaense a partir destas vertentes. Para levar a cabo esta finalidade, revela-se pertinente um estudo de caso duma figura macaense representativa numa determinada época essencial no desenvolvimento da identidade macaense. O seu desempenho, atuações e trabalhos devem em muito contribuir para a construção da identidade macaense e corresponder às expetativas coletivas macaenses. No que toca às funções dos macaenses, ninguém nega que estes desempe-nham um papel de mediador e interlocutor entre duas culturas (portuguesa e chinesa) ao longo da história de Macau. Durante cinco séculos de convívio das realidades portuguesa e chinesa, por via dos esforços dos indivíduos ma-caenses, a interlocução distingue o macaense como um grupo especial face a outros.14 14 A abordagem do papel macaense enquanto mediador e interlocutor concentra-se no Capítulo 2.ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO40
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO1.1.3. Identidade no âmbito dos Estudos de TraduçãoNo cruzamento de identidade e Estudos de Tradução, os conceitos que aca-bam de ser referidos (identidade social, identidade de papel e identidade pessoal) permitem um novo ponto de partida para a abordagem da questão identitária no âmbito dos Estudos de Tradução. Na verdade, existem abor-dagens (Cronin 2006; Gentzler 2001, 2008 e 2017) que examinam esta re-lação dinâmica entre a tradução e a identidade, salientando respetivamente a posição da tradução na negociação da identidade e o poder, bem como a transferência da memória individual dos imigrantes por via da tradução. Cronin (2006) examina a interação entre identidade e tradução a partir duma perspetiva social e cultural. Argumenta que a tradução tem desempe-nhado um papel crucial na formulação de debates em torno de noções como identidade, língua e sobrevivência cultural no passado e no presente. Como parte integrante na evolução cultural e identitário duma nação, a tradução poderá servir como uma ferramenta poderosa quer para reforçar as diferen-ças culturais quer para promover diálogos interculturais. Gentzler (2001, 2008 e 2017) também confirma a relação dinâmica entre identidade e tradu-ção, salientando a relevância da identidade pessoal nos Estudos de Tradução. Com base nos seus estudos interdisciplinares que envolvem estudos cultu-rais, étnicos e linguísticos, Gentzler conclui que tradução é um dos meios primários mediante o qual uma cultura se constrói, especialmente no caso dos migrantes. Aponta ainda que a componente sociopsicológica identitária nos Estudos de Tradução poderá suscitar uma próxima viragem nos Estudos de Tradução. I suggest that the new turn in translation studies should be a social-psychological one, expanding a functional approach to include social effects and individual af-fec[t]s. (Gentzler 2008, 180)Por outro lado, Gentzler também defende as funções da tradução na refor-mulação da identidade pessoal:Translations ensures the process of regeneration and rebirth, the means by which languages grow and by which individuals come to terms with their personal nar-ratives and complex identities. (Gentzler 2008, 187)Esta reflexão identitária do ponto de vista sociopsicológico a nível micro, no âmbito dos Estudos de Tradução, aponta para um rumo de investigação iluminador para o cruzamento destas duas disciplinas. Trabalhos posterio-41
res de Gentzler também se estendem aos estudos pós-coloniais (2017). Se dissermos que os estudos de Cronin apostam no cruzamento de identidade e tradução a nível macro (social), os estudos de Gentzler enfatizam mais a interação entre eles a nível micro (pessoal). Em termos da intervenção iden-titária a nível meso (identidade de papel), ainda temos um grande território para explorar.O presente trabalho pretende considerar escritos e traduções de Luís Gonzaga Gomes para dar resposta a um objetivo duplo: proceder a uma aná-lise a nível meso, salientando o papel de Gonzaga Gomes como divulgador e tradutor de imagens na mediação entre as culturas portuguesa e chinesa, por um lado; e, por outro lado, refletir a nível macro sobre a identidade coletiva macaense. Com este enquadramento teórico, a leitura e interpretação dos textos de Gonzaga Gomes poderá ganhar uma dimensão distinta, na medida em que as expetativas coletivas se revelam e refletem durante este processo de análise concentrada nesta figura particular e representativa. 1.2. TRADUÇÃOPara a análise do diálogo intercultural estabelecido por Luís Gonzaga Go-mes, este trabalho recorre também às propostas para estudar a tradução, tal como surgem na década de setenta, altura em que a investigação sistemática sobre a tradução começa a ganhar forma e recebe o nome de Estudos de Tra-dução. Sendo o primeiro académico a mapear os Estudos de Tradução, no 3.º Congresso Internacional de Linguística Aplicada, James S. Holmes (1972) divide conceptualmente os Estudos de Tradução em dois ramos: os Estudos de Tradução Puros e os Estudos de Tradução Aplicados. Na categoria dos Estudos de Tradução Puros, o autor distingue Estudos Descritivos de Tra-dução e Estudos Teóricos. Os Estudos Descritivos de Tradução têm como objetivo descrever a atividade, o produto da tradução e ainda a sua função na cultura de chegada. Longe de se concentrar exclusivamente numa análise dos textos da tra-dução, o enfoque dos Estudos de Tradução preconiza um objeto mais abran-gente, que desde o início engloba os contextos históricos, sociais, culturais e políticos, bem como o perfil contextual dos agentes de tradução (tradutores, revisores, editoras, diretores de coleção, diretores de revistas e jornais, pa-tronos, etc.). Os Estudos Descritivos de Tradução, estão desde o início asso-ciados às propostas de autores como Itamar Even-Zohar (1978, 1990), que sugere a teoria dos polissistemas, no âmbito da qual se desenvolvem; Gideon Toury (1995, 2012), sobretudo através do conceito de normas de equivalên-ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO42
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICOcia em tradução; André Lefevere (1990/1995, 1992 e 2000) e Theo Hermans (1985/2014, 1991, 1999 e 2007) que propõem uma perspetiva de "reescrita" e “manipulação”. Outros autores, como Chesterman (Chesterman 1997, 2005 e 2016), dirigem a sua atenção para a identificação, compreensão e descrição da tradução como facto da cultura de chegada, e do papel que a tradução de-sempenha na evolução dos sistemas culturais mas concentram a sua atenção nos agentes da tradução, entre os quais se destaca o tradutor.No presente estudo constituem uma base de discussão os aparelhos con-ceptuais fundamentais da área dos Estudos Descritivos de Tradução, nomea-damente, o polissistema, proposto por Even-Zohar, as normas de tradução, desenvolvidas por Toury, e a manipulação e a reescrita, avançadas pela Escola de Manipulação.1.2.1. PolissistemaO teórico Israel Itamar Even-Zohar avança com a teoria dos polissistemas (Even-Zohar 1978 e 1990). Recorrendo ao formalismo russo e ao estrutu-ralismo checo, o autor defende o paradigma do "funcionalismo dinâmico". Como propõe, o sistema é “a network of relations that can be hypothesized for a certain set of assumed observables ("occurrences"/"phenomena")” (Even-Zohar 1990, 27) enquanto o polissistema é “a system of various sys-tems which intersect with each other and partly overlap, using concurrently different options, yet functioning as one structured whole, whose members are interdependent” (Even-Zohar 1990, 11).Ao propor que a consideração de um fenómeno implica a consideração do todo estruturado que aquele integra, o autor defende que o conjunto da literatura traduzida deve ser observado de forma relacionada com a restante literatura, em vez de ser tratado isoladamente. Segundo o autor, a literatura traduzida apresenta-se no polissistema de dois modos: numa posição peri-férica ou numa posição central. Normalmente, a literatura traduzida situa--se numa posição periférica no polissistema, exercendo pouca influência no mesmo e seguindo os modelos e repertórios do sistema já estabelecido. Neste caso os tradutores tendem a imitar os modelos e repertórios existentes para a tradução ser mais bem aceite no sistema de chegada. Para Even-Zohar, este tipo de tradução acaba por ser uma tradução “não-adequada”, pois os tradu-tores escolhem preferencialmente modelos pertencentes ao sistema de che-gada e estranhos ao sistema de partida (Even-Zohar 1990, 51).Por outro lado, o autor menciona também que a literatura traduzida po-derá assumir uma posição central no polissistema da cultura de chegada. Tal ocorre em três situações: 1) quando a literatura de chegada é nova; 2) quando 43
a literatura de chegada é periférica ou fraca ou 3) quando surge um ponto de viragem crítico na história literária, quando há um vazio ou uma crise na lite-ratura de chegada (Even-Zohar 1990, 47). Nestas três situações, a literatura traduzida pode exercer um papel inovador, tentando os tradutores introdu-zir na cultura de chegada modelos das culturas de partida. Even-Zohar usa o termo “adequação”, “reproduction of the dominant textual relations of the original” (Even-Zohar 1990, 50), para descrever esta tendência de orientar preferencialmente a tradução para o texto, a língua e a cultura de partida.A proposta de Even-Zohar consiste em alargar a visão dos Estudos de Tradução, desviando o nosso olhar para os fatores além do texto traduzido, salientando que a tradução não é um fenómeno isolado, mas depende das relações dentro de um determinado sistema cultural.1.2.2. Normas de TraduçãoA partir dos conceitos de adequação e não-adequação disponibilizados pelo modelo do polissistema, Gideon Toury substituti, em Descriptive Translation Studies and Beyond (1995/2012), “não-adequação” por “aceitabilidade” (de-finida como “subscription to norms originating in the target culture” (Tou-ry 1995, 57), avançando com os seus fundamentos teóricos, nomeadamente com o conceito de normas de equivalência em tradução, que regulam estas atividades. As soluções efetivas disponibilizadas pelas normas de tradução poderão ser observadas a partir dos seguintes três tipos de normas: iniciais (relacionadas com o equilíbrio entre a tradução adequada e a tradução acei-tável e com a orientação das escolhas do tradutor para a cultura de partida ou de chegada); preliminares (prévias ao ato de tradução: dizem respeito à política de tradução e à tolerância à mediação da tradução); e operacionais (no ato de tradução: normas matriciais e normas linguístico-textuais) (Toury 2012, 79-83).Enquanto as normas operacionais se referem aos aspetos linguísticos, as normas iniciais e preliminares apresentam uma natureza sociocultural, su-jeitas a considerações associadas à literatura original e à literatura traduzida.1.2.2.1. Normas iniciais Uma tradução adequada significa que o tradutor se sujeita às normas da cul-tura de partida, enquanto uma tradução aceitável mostra que o tradutor se inclina para as normas da cultura de chegada. [A]ny translator is called upon to make an overall choice between two extreme orientations: heavy leaning on the assumed original (adequacy, in our terminol-ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO44
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICOogy), and sweeping adherence to norms which originate and act in the target culture itself, thus determining the translation’s acceptability, whether as a TL [target language] text in general, or, more narrowly, as a translation into that lan-guage. (Toury 2012, 79)Considerando que nenhuma tradução é totalmente adequada ou aceitável, a prevalência das normas, tanto da cultura de partida, como da cultura de chegada, orienta a estratégia do tradutor. Nestes termos, será interessante verificar o modo como Luís Gonzaga Gomes produz escritos e traduções, adequadas ou aceitáveis, bem como identificar quais são para este autor a cultura de partida e de chegada.1.2.2.2. Normas preliminaresEstas normas aplicam-se à seleção de textos e autores a serem traduzidos. Es-pecificamente, a política de tradução refere-se às motivações que levam à es-colha dos textos de partida e aos fatores que determinam a seleção dos textos a traduzir numa língua, cultura ou período específico. Como um outro con-ceito fundamental no enquadramento de normas preliminares, a tolerância à mediação da tradução diz respeito a uma atitude relativamente aos casos de tradução indireta, genericamente definida como uma tradução realizada através do recurso a uma língua intermédia, isto é, uma terceira língua. É disso exemplo o caso das obras chinesas traduzidas para o português a partir de uma versão em inglês.1.2.2.3. Normas operacionaisEstas normas dizem respeito a problemas e soluções linguísticas no ato de tradução. As normas matriciais relacionam-se com os elementos textuais (“omissions, additions, changes of location and manipulation” (Toury 2012, 83)) e paratextuais. Para análise comparativa destes elementos textuais nos textos de partida e chegada, revela-se a pertinência das estratégias propostas por Chesterman (1997 e 2005), que, de facto, tal como ele próprio apura, são empregues a nível local ou micro (Chesterman 2005, 2016), sendo, nesse sen-tido, semelhantes a “técnicas” (Molina e Albir 2002) e a “táticas” (Gambier 2010). Conforme Chesterman, as mudanças ou alterações textuais (shifts) são um “fenómeno de manipulação textual” (Chesterman 2005, 27) e mani-festam-se como resultados textuais de “estratégias”.A partir de Genette (1987, 1997), o paratexto define-se como:a zone between text and off-text, a zone not only of transition but also of transac-45
tion: a privileged place of a pragmatics and a strategy, of an influence on the pub-lic, an influence that – whether well or poorly understood and achieved – is at the service of a better reception for the text and a more pertinent reading of it (more pertinent, of course, in the eyes of the author and his allies). (Genette 1997, 2)Sendo considerado uma “zona” para melhor servir a receção, subdivide-se em duas subcategorias: peritexto (dentro do texto) e epitexto (fora do texto). O peritexto refere-se a títulos, subtítulos, pseudónimos, dedicatórias, epí-grafes, prefácios, intertítulos, notas, epílogos, posfácios ou quaisquer outros sinais que se relacionam com o texto que acompanham fisicamente, estando patentes no volume que publica o texto. O epitexto inclui os elementos his-tóricos acerca do texto, por exemplo, recensões críticas, artigos do autor ou da editora sobre o texto, diários ou correspondências do autor, etc., visando ambos apresentar o texto aos leitores (Genette 1997, 18).Estas três normas de tradução disponibilizam, no conjunto, aparelhos conceptuais, no âmbito dos Estudos de Tradução, que servem como base teórica para proceder, efetivamente, à análise textual e paratextual do pre-sente estudo. 1.2.2.4. Metodologia de três etapasRelevante para o nosso trabalho é o processo de descoberta destes três tipos de normas de equivalência em tradução. Toury propõe uma metodologia de três etapas que envolve uma análise textual comparativa do texto de partida e do texto de chegada, afirmando que este processo de descoberta reflete o processo de justificação destas normas (Toury 1995, 44). Assis Rosa expõe de modo conciso estas três etapas: 1. To identify and describe texts that the target culture considers to be translations; 2. To conduct a comparative analysis of source and target texts, by mapping target text segments onto source text segments;3. To identify regularities evidenced by translation shifts, and to formulate ge-neralizations about norms of translational equivalence. (Assis Rosa 2010, 100) Estas três etapas centram-se no estudo de pares de textos de partida e de chegada, incluindo sempre, entretanto, mais elementos, numa análise mais abrangente do que uma análise puramente textual, como sugerido por Even--Zohar. Tal como Toury afirma, os pares de textos de partida e de chegada, em vez de serem considerados por si só, devem ser estudados, envolvendo ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO46
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICOmais fatores contextuais, que poderão contribuir para compreender e expli-car a tradução, dizendo respeito a tradutores, escolas de tradutores, período de tradução, género textual, fenómenos linguístico-textuais, bem como a ou-tros que justificam a tradução, pois a sua intenção e objetivo reside, no fun-do, em estudar a tradução como um fenómeno culturalmente condicionado. Assim sendo, mesmo uma análise centrada nestes pares de textos de partida e de chegada (parte do corpus de estudo) irá recorrer a uma multiplicidade de fatores contextuais, de modo a corresponder ao preconizado pelos Estudos Descritivos de Tradução. Esta metodologia de três etapas de Toury, que abarca uma análise tex-tual comparativa sem alienar fatores contextuais, permite uma abordagem convincente e sofisticada que considera a existência da história externa de tradução (“äußere Übersetzungsgeschichte”, termo original em alemão) e da história interna de tradução (“innere Übersetzungsgeschichte”), proposta pelos investigadores de Göttingen (1992, 1995 e 1997) e exposta por Bernar-do (2009). A história externa de tradução: tem basicamente duas componentes: uma cronológica e outra geográfica. A pri-meira prende-se com dados históricos: data da primeira publicação da obra ori-ginal, data da primeira tradução numa determinada língua, quanto tempo levou a obra a ser traduzida, qual a tradução mais recente da obra, tempo que medeia en-tre a primeira tradução e o ano em que se está a realizar a investigação, o numero de traduções existentes (excluído os plágios), o número de traduções em determi-nados períodos, e a densidade de traduções no início (sem contar com reedições) e no momento actual. Com base nestes dados quantitativos podem interpretar-se as tendências – de valorização ou menosprezo – relativas à recepção de uma obra original e da respectiva tradução na cultura de chegada. (Bernardo 2009, 610)E no âmbito da história interna de tradução: analisam-se as características das próprias traduções, acompanhando cronologi-camente as diferentes formulações que as sucessivas traduções de uma mesma obra foram evidenciando, o que permite fazer o historial do estilo e da interpre-tação da obra traduzida no respectivo contexto. Faz-se, assim, a história interna dos “Kometenschweife” [traduções sucessivas de uma mesma obra], ao investigar as particularidades da tradução, o efeito dessas particularidades sobre o potencial semântico das traduções relativamente aos originais e ainda as razões para esses desvios. (Bernardo 2009, 610)47
Esta definição da história externa e interna de tradução apresenta, porme-norizadamente, elementos pertinentes para uma análise contextual e textual comparativa, que se entende complementar da metodologia proposta por Toury. Ainda vale a pena mencionar que, de entre os fatores contextuais, desta-ca-se ainda o papel do tradutor como um fator determinante, considerando que este, como agente sociohistórico, participa na negociação do processo de tradução, especialmente quando enfrenta os constrangimentos ou mo-tivações contextualmente impostas. Esta negociação tende a deixar marcas no texto de tradução, desvios ou alterações de tradução, revelados por uma análise comparativa (Assis Rosa 2010, 100).1.2.3. Manipulação e reescrita de imagensOs conceitos de “manipulação” e “reescrita” são abordados ao longo da dé-cada de 1980 por um grupo de académicos sediados na Bélgica, nos Países Baixos e em Israel e que integram a Escola de Manipulação (nome derivado da publicação duma coleção crítica intitulada The Manipulation of Literature – Studies in Literary Translation e editada por Theo Hermans (1985)). Segun-do Hermans:What they have in common is, briefly, a view of literature as a complex and dy-namic system; a conviction that there should be a continual interplay between theoretical models and practical case studies; an approach to literary translation which is descriptive, target-oriented, functional and systemic, and an interest in the norms and constraints that govern the production and reception of transla-tions, in the relation between translation and other types of text processing, and in the place and role of translations between literatures. (Hermans 1985/2014, 10-11)Esta declaração da escola evidencia as áreas de investigação a que se dedica. Sob este enquadramento, os dois conceitos de “manipulação” e “reescrita” são abordados, propondo que se desvie o olhar do texto de chegada para o seu contexto, valorizando a relação do texto traduzido com a língua e cul-tura de receção, e que se privilegie uma abordagem dinâmica, que abarca os fatores concretos que controlam a receção, aceitação ou rejeição do texto traduzido.ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO48
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO1.2.3.1. ManipulaçãoEste conceito é proposto por Hermans, nos seguintes termos:From the point of view of the target literature, all translation implies a certain degree of manipulation of the source text for a certain purpose. In addition, translation represents a crucial instance of what happens at the interface between different linguistic, literary and cultural codes, and since notions of interference, functional transformation and code-switching are essential aspects of polysys-tem theory, translation may provide clues for the study of other types of intra and inter-systemic transfer as well. (Hermans 1985, 11-12)Esta afirmação é desenvolvida com base no modelo da teoria dos polissiste-mas de Even-Zohar.15 Neste modelo, a tradução pode ser entendida como uma produção textual concebida para dar resposta a exigências ou necessi-dades do contexto de chegada, transferindo uma obra originária de outro sis-tema linguístico, literário e cultural, ou operando no seio de um mesmo siste-ma, transferindo uma obra de um subsistema para outro. O presente estudo pretende focar o primeiro percurso, ou seja, as transferências entre sistemas para estudar o papel desenvolvido por Luís Gonzaga Gomes na transferência entre as culturas chinesa e portuguesa e o modo como assim contribuiu para a consolidação da identidade macaense. Para tal efeito, a posição da literatura traduzida no polissistema deve ser averiguada, de modo a melhor descrever as exigências ou necessidades do contexto de chegada. Considerando que tal abordagem vai envolver a consi-deração de imagens (auto- e heteroimagens) no polissistema, deve ser trata-da no âmbito da relação entre Imagologia e Estudos de Tradução.16 1.2.3.2. ReescritaO conceito de reescrita foi proposto por Lefevere (1985/2014, 1990/1995 e 1992). O autor adota este termo para descrever atividades como crítica li-terária, historiografia, antologização, revisão e também a tradução, em que “rewriters adapt, manipulate the originals they work with to some extent, usually to make them fit in with the dominant, or one of the dominant ideo-logical and poetological currents of their time” (Lefevere 1992, 8). De entre estes tipos de reescrita, segundo Lefevere, “translation is the most obviously recognizable type of rewriting” (Lefevere 1992, 9), argumentando que a tra-dução, enquanto um tipo de reescrita, manipula o texto de partida em certa 15 Veja-se Capítulo 1, secção 1.2.1.16 Vejam-se as secções 1.3.3 e 1.3.4.49
medida, de modo a ser submetida a uma determinada ideologia (“what socie-ty should (be allowed to) be”) e poética (“what literature should (be allowed to) be”) (Lefevere 1985/2014, 226) da cultura de chegada. Esta submissão/constrangimento imposta pela ideologia e pela poética do sistema literário concretiza-se através de dois fatores de controlo: (1) Reescritores (críticos, tradutores, professores, antologizadores, etc.), que constituem um fator a operar dentro do sistema literário e que garantem o respeito pela poética e pela ideologia ou mundovisão de certa sociedade em determinados momentos; (2) Patrocínio, fator que opera, basicamente, fora do sistema literário e pode ser definido como os poderes (pessoas ou insti-tuições) capazes de promover ou impedir a leitura, a escrita, a reescrita da literatura (Lefevere 1985/2014, 226-227).O fator de controlo (1), exercido pelos reescritores, salienta o papel do reescritor como manipulador da produção textual, porque, no fundo, como argumenta Lefevere, são os reescritores que criam, na cultura de chegada, as imagens do autor e do texto de partida (Lefevere 1992, 5). O fator de controlo que apelida de “patrocínio” destaca os poderes (pes-soas ou instituições) externos ao sistema literário e consiste em três elemen-tos: a componente ideológica (constrangimento na escolha e desenvolvimen-to das formas e sujeitos de reescrita), a económica (papel do patrocinador enquanto fonte de financiamento) e a de estatuto ou prestígio (a aceitação de patrocínio é sinal de adesão a uma elite e ao seu estilo de vida) (Lefeve-re 1992, 16). Sendo um fator que opera fora do sistema, corresponde a uma vertente de influência socialmente mais abrangente, e o seu estudo envolve a recolha de informações ideológicas, económicas e políticas sobre o contexto de chegada, com o intuito de permitir, assim, uma análise contextualmente mais informada da tradução. À luz dos conceitos de “manipulação” e “rescrita” de imagens e da cul-tura por si representada, consideramos adequado introduzir a proposta de Robyns (1994) sobre a relação entre ideologia e tradução. Considerando que tradução é “explicit confrontation with ‘alien’ discourses”, Clem Robyns ar-gumenta que “the intrusion of alien, convention-violating elements is a po-tential threat” (Robyns 1994, 407). Com base nestas ponderações sobre o jogo de poderes e interesses sociais, o autor propõe quatro tipos de atitudes em relação à tradução que caraterizam uma cultura (entendida como “dis-cursive practice”, nos termos de Robyns). As quatro atitudes são:[a]n attitude in which otherness is denied and transformed may be callled impe-rialist, while one in which otherness is acknowledged but still transformed may be called defensive. A trans-discursive discourse neither radically opposes itself to ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO50
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICOother discourses nor refuses their intrusion, while a defective discourse stimulates the intrusion of alien elements that are explicitly acknowledged as such. (Robyns 1994, 408)Segundo Robyns, estas quatro atitudes servem juntamente para explicar si-tuações complexas e específicas. Ambas as atitudes “defensiva” e “defetiva” são consideradas “reativas” pois reagem contra quer a presença quer a ausên-cia de “intrusão de elementos alienígenas” (Robyns 1994, 409). Verificando--se uma combinação das atitudes “transdiscursiva” e “defetiva”, o resultado da tradução poderá representar a perda de autonomia da cultura de chegada.Como a presente investigação pretende analisar as obras de tradução Luís Gonzaga Gomes, como fenómeno da cultura de chegada, estes aparelhos concetuais e metodológicos disponibilizam ferramentas para apoiar a nossa abordagem das informações paratextuais das obras de Gonzaga Gomes assim como a nossa análise textual duma obra de tradução dele. Com a descrição e a análise destas suas obras, procuramos conhecer o papel de Luís Gonzaga Gomes enquanto divulgador e tradutor de imagens da China e de Macau e assim revelar o seu contributo para a identidade macaense. 1.3. IMAGEMNesta secção é dedicada à Imagologia (ou Estudos de Imagens) bem como ao seu cruzamento com os Estudos de Tradução (especialmente Estudos Des-critivos de Tradução), começando por se apresentar a Imagologia e os seus principais conceitos e terminando com as relações dinâmicas entre imagem e tradução, com destaque para a aplicação da metodologia imagológica nos Estudos Descritivos de Tradução.1.3.1. Conceito e definiçãoA Imagologia ou Estudos de Imagens tem origem na Literatura Comparada e define-se acomo o estudo de “[the] origin and function of characteristics of other countries and peoples as expressed textually” (Beller 2007, 7) e de “cross-national perceptions and images as expressed in literary discourse” (Zacharasiewicz 2010, 1). As perceções e as imagens relativas a outros países e povos tal como expressas na literatura constituem, pois, o objeto da Ima-gologia no âmbito da Literatura Comparada. A fim de compreender estas relações entre as perceções e as imagens de países e povos, é útil apresentar uma breve história da Imagologia. 51
1.3.1.1. Génese e desenvolvimentoNa história da Imagologia é possível considerar a existência de três grandes etapas: arqueologia, pré-história e sua formação. A arqueologia da Imagologia remonta à primeira época da Europa Mo-derna (do final do século XVI até ao fim do século XIX) com o objetivo de “sort European cultural and societal patterns into national categories, there-by formalizing an older, informal tradition of attributing essential characte-ristics to certain national or ethnic groups” (Beller e Leerssen 2007, 17). Nes-sa altura, os estudos associam-se aos aspetos etnográficos e antropológicos, centralizando-se na relação entre os dois conceitos de “cultura” e “nação” que acabam por dar origem aos Estudos Comparatistas dentro das ciências humanas (Leerssen 2007, 18). A pré-história da Imagologia, por sua vez, acontece no século XIX com o surgimento da Linguística Comparada e da Literatura Comparada nos de-partamentos de Filologia das universidades europeias. Nessa altura, “[c]ul-ture was, unquestioningly, national culture, held a priori to be different from other cultures and singled out by the nation’s underlying characteristic indi-viduality” (Leerssen 2007, 19). A partir de meados do século XIX, no âmbito da crítica literária, a história literária consiste em estudos das características duma nação tal como são expressas na sua história cultural. As características e a essência duma nação ficam determinadas por “ingrained and widely-cur-rent stereotypes and ethnic images” (Leerssen 2007, 19). Após a Segunda Guerra Mundial e com “an anti-essentialist, construc-tive approach to national representations and national identity” (Leerssen 2007, 21), dá-se a formação da Imagologia como um estudo crítico sobre o processo de caracterização nacional, “after people had abandoned a belief in the ‘realness’ of national characters as explanatory models” (Leerssen 2007, 21). Apesar de ter sofrido da crise testemunhada pelos estudos de Literatu-ra Comparada nas décadas de 1960 e 1970, a Imagologia emerge como uma disciplina nas décadas de 1970 e 1980 (Doorslaer, Flynn e Leerssen 2015, 1), tendo vindo a ganhar peso em diversas áreas de investigação, nomeadamen-te nos estudos históricos, socioculturais, pós-coloniais, entre outros, e reve-lando, entretanto, a sua relevância nos estudos interdisciplinares, como, por exemplo, nos Estudos de Tradução. 1.3.1.2. Imagem, autoimagem e heteroimagemEnquanto estudo de representações mentais, a Imagologia abrange um con-junto de conceitos associados à imagem, que se apresentam nesta secção. As definições mais citadas e consideradas uma referência na área são as de Beller e ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO52
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICOLeerssen (Leerssen 2000; Beller e Leerssen 2007), motivo pelo qual as adota-mos, não deixando, contudo, de considerar igualmente outros autores da área.Três conceitos fundamentais da Imagologia são os de imagem, autoima-gem e heteroimagem. Imagem, como um conceito rico em conteúdo, tem, em diferentes áreas, interpretações variadas. Filosoficamente, refere-se a uma perceção interior, na mente ou na alma; psicologicamente, regista-se como “representação mental pictórica” (Beller 2007, 4); na área literária, concentra-se, entretan-to, nas imagens verbal e textualmente produzidas. No âmbito da Imagologia, este conceito define-se, segundo Beller (2007, 4), como “a mental silhouette of the other, who appears to be determined by the characteristics of family, group, tribe, people or race” e, conforme Leerssen (2007, 342), é um conceito diferente das imagens visuais ou pictóricas, sendo, pelo contrário, “the men-tal or discursive representation or reputation of a person, group, ethnicity or ‘nation’” (Leerssen 2007, 342). No fundo, trata-se de representação ou repu-tação mental ou discursiva de um outro sujeito, ou de um outro grupo mais ou menos abrangente, que não se baseia, necessariamente, em experiências nem em observações factuais. Esta representação ou reputação mental ou discursiva de um outro, in-dividual ou coletivo, poderá ser considerada uma outra forma de afirmação emocional e avaliativa da pertença a próprios grupos sociais. Assim sendo, associamos o conceito de imagem à identidade social,17 uma vez que na for-mulação mental do perfil do outro, reflete-se igualmente o modo como nos olhamos, identificamos, categorizamos e comparamos nos diversos contex-tos sob categorias como etnia, sexo, classe social, geração, entre outras. Devido às perspetivas diferenciadas, existem também “autoimagem” e “het-eroimagem”: “the [former] referring to characterological reputation current within and shared by a group, the latter to the opinion that others have about a group’s purported character” (Leerssen 2007, 342-343). Estas imagens tendem a invocar impressões comuns e acumulam-se, formando assim o estereótipo.18 Como representação ou reputação mental ou discursiva, as imagens re-velam o seu caráter subjetivo, que se reflete em textos ou discursos. Confor-me Leerssen (2007, 27), esta subjetividade não deve ser ignorada, filtrada ou ultrapassada, devendo, antes, ser ponderada no âmbito da Imagologia. No enquadramento imagológico, esta subjetividade revela-se na dinâmica entre a autoimagem e a heteroimagem: “dynamics between those images that cha-racterize the Other (hetero-images) and those that characterize one’s own 17 Veja-se a definição do conceito de identidade social no Capítulo 1, secção 1.1.1. 18 Veja-se Capítulo 1, secção 1.3.1.3.53
domestic identity (self-images or auto-images)” (Leerssen 2007, 27). O au-tor exemplifica esta ideia através das obras de Thomas Mann: para estudar a autoimagem dos alemães refletida na escrita deste autor, deve ser identifica-do, caso a caso, o seu papel nos seus textos. Leerssen colocou questões como “será que Thomas Mann escreve como burguês aristocrático, como intelec-tual europeu ou como pessoa vinda de Lübeck?” (Leerssen 2007, 27) A iden-tificação com uma determinada imagem é o processo de estabelecimento da autoimagem, distinguindo-se, assim, da heteroimagem.1.3.1.3. Preconceito e estereótipoAs imagens não se relacionam somente com a identificação do autor, mas também regulam opiniões relativas aos outros e controlam comportamentos em relação a eles. Das diferenças e descontinuidades culturais que estão em causa (resultantes de línguas, mentalidades, hábitos quotidianos e religiões) nascem julgamentos e imagens positivos ou negativos (Beller 2007, 4). No âmbito da Imagologia, o termo “preconceito” é o termo correspondente a estas opiniões e atitudes não fundamentadas em factos, mas influenciadoras da nossa perceção, descrição e julgamento dos outros. Quanto ao termo “estereótipo”, define-se como “a generalization about a group of people in which incidental characteristics are assigned to virtually all members of the group, regardless of factual variation among the mem-bers”, do ponto de vista sociopsicológico (Aronson, Wilson e Akert 2005, 434). Em Imagology Revisited, o uso tipológico de esterótipo (autoestereó-tipo e heterestereótipo) no âmbito da Imagologia é abordado nas vertentes textuais e históricas (Zacharasiewicz 2010, 12). Beller conclui, na entrada “estereótipo” da obra Imagology: The Cultural Construction and Literary Re-presentation of National Characters, que o estereótipo, tal como o preconceito, marca o discurso sobre as relações entre nações (Beller e Leerssen 2007, 433).É de realçar que, segundo Leerssen, o “preconceito” difere do “estereó-tipo” em termos de forma de apresentação: o “estereótipo” é expressão fixa do “preconceito”, apresentando-se como representação verbal e pictórica do “preconceito”, enquanto o “preconceito” governa as imagens de outros países e povos, sendo determinado pelo etnocentrismo e pela perspetiva cul-tural do próprio povo (Leerssen 2007, 404). Para os estudos imagológicos, Mütter propõe uma sequência estrutural destes conceitos que sirva para a clarificação das relações: o conjunto de clichés podia formar um estereótipo, o conjunto de estereótipos constituía um preconceito e o conjunto de pre-conceitos constituía uma imagem (Mütter 2002, 169).ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO54
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO1.3.2. Imagem e identidadeRecupera-se, neste momento, a definição de identidade já abordada (veja-se Capítulo 1, secção 1.1). Sendo a imagem associada, no âmbito da Imagologia, mais à identidade social, apresenta-se, nesta secção, a percepção de identida-de no sentido coletivo. No âmbito cultural, o conceito de identidade é considerado juntamente com o de “alteridade”. Segundo Voestermans (Voestermans 1991, 219), por comparar todos os elementos da nossa vida com os de outros, conseguimos a afirmação identitária. Os dois conceitos condicionam-se mutuamente e nenhum existe sozinho. Esta dialética constitui o núcleo das relações entre identidade e alteridade. Nos estudos imagológicos, a identidade relaciona-se com um processo de identificação, sujeita a muitos fatores complexos, variados e circunstan-ciais (Beller e Leerssen 2007, 340). Convém sublinhar que, no âmbito da Imagologia, as imagens constituem identificações possíveis (Leerssen 2007, 27). Neste processo de identificação, destaca-se a diferença entre o “eu” e os “outros”, reforçando-se a afirmação emocional e avaliativa da pertença a um determinado grupo e cultura e afastando-se, mental e ideologicamente, dum outro grupo e cultura. Consequentemente as imagens (auto- e hete-roimagens) assim estabelecidas constituem recursos possíveis para provar e reconhecer a identidade.Relativamente ao nível da identidade pessoal, Beller e Leerssen também discutem a identidade refletida na análise textual: At the individual level, one may at any moment feel to be part of differently-con-stituted groups […] Similarly, while a given text may thematize perceived aspects of the author’s ‘own’ identity, it is never certain how widely or narrowly that iden-tity is circumscribed. One of the most complex issues an imagologist can face is the question, not about whom, but for whom does a text speak? (Leerssen 2007, 338)Constatamos que o olhar do imagologista não se preocupa com a identidade pessoal ou biológica do autor, concentrando-se, antes, nas funções operacio-nais do texto do autor e na finalidade do seu texto. Esta meta que o autor pre-tende atingir associa-se ao seu papel operacional e eventualmente ao grupo de interesse a que pertence, refletindo as expetativas coletivas desse grupo. 1.3.3. Imagem no âmbito dos Estudos de TraduçãoOs estudos com base no cruzamento da Imagologia com os Estudos Descri-tivos de Tradução já se encontram concretizados por académicos como Soe-55
nen (1997), Kuran-Burçoğlu (2000) e Doorslaer (2009, 2012), revelando-se muito promissores para estudos como o que pretendemos desenvolver. Recentemente, organizaram-se duas conferências internacionais: (1) em 2011, em Antuérpia/Amsterdão, com o título de “Translation and National Images”; (2) em 2014, na cidade de Istambul, designado por “Parallels between Stereotyping and Globalizing Symposium”. Nestas conferências foram pro-postos e abordados tópicos ligados à Imagologia adaptada aos Estudos de Tradução, nomeadamente, a transmissão de imagens nacionais na tradução, a construção de identidade mediante a tradução, estratégias de tradução apli-cadas a estereótipos e imagens, autoimagens e normas de tradução, imagens culturais em tradução, eurocentrismo, entre outros. Estes esforços de cruzamento entre a Imagologia e os Estudos de Tradu-ção também dão origem à obra recente Interconnecting Translation Studies and Imagology (Doorslaer, Flynn e Leerssen 2015) e a outros cinco volumes publi-cados na última década por diferentes editoras (Gerling 2004, Hung 2005, Frank 2007, Flotow e Nischik 2007, Kumar 2012). A bibliografia em linha Translation Studies Bibliography (Gambier e Doorslaer 2013), consultado em novembro de 2016 com a entrada de “Estudos de Imagens”, dá uma lista de 75 publicações19 dentro do âmbito dos Estudos de Tradução e explicitamente ligadas à Imagologia, representando uma subida de cerca de 12% em relação ao levantamento feito em 13 de outubro de 2013, que era de 67 publicações (Doorslaer, Flynn e Leerssen 2015, 1). Entre estas novas publicações é de des-tacar o último artigo de Chang Nam Fung intitulado “Auto-image and Norms in Source-Initiated Translation in China” (Chang 2015), pelo facto de traba-lhar, de forma detalhada, quer a relação entre as autoimagens e as normas de tradução quer a tradução envolvendo a China. O interesse crescente, apesar de não ser muito significativo em termos de quantidade, justifica-se porque existe uma conexão forte entre as duas discipli-nas: ambas apresentam estudos dinâmicos a partir das perspetivas descritivas e diacrónicas e têm objetos de estudo marcados pelas duas caraterísticas de mu-dança e hibridismo, tal como referido em Doorslaer, Flynn e Leerssen (2015, 2).1.3.4. Imagologia aplicada aos Estudos Descritivos de Tradução: cruzamentos teóricos e metodológicosTendo sistematizado os conceitos básicos de Imagologia, nomeadamente, autoimagem, heteroimagem, estereótipo e preconceito, concentramo-nos na análise da interação dinâmica entre a Imagologia e os Estudos Descritivos de Tradução. Com base em estudos já desenvolvidos (Soenen 1997, Leerssen 19 O Prof. Doutor Peter Flynn ofereceu esta estatística no dia 23 de novembro de 2016. ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO56
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO2000, Kuran-Burçoğlu 2000, Doorslaer 2009, Doorslaer 2012, Doorslaer, Flynn e Leerssen 2015), diversos académicos defendem que a Imagologia disponibiliza conceitos e metodologias que facilitam os estudos de tradução, alargando assim o âmbito de ambas as disciplinas e tornando o estudo inter-disciplinar efetivo e profundo (Doorslaer, Flynn e Leerssen 2015, 3). Desta-cam-se dois autores que cruzam Imagologia e Estudos Descritivos de Tra-dução de forma muito produtiva: Kuran-Burçoğlu (2000) e Chang (2015). Kuran-Burçoğlu (2000) avança que, no âmbito dos Estudos de Tradução, poderá recorrer-se à análise imagológica, acreditando que “this image [self-image ou hetero-image] very often plays a formative role in the transla-tion phenomenon, and the translation in return may have an initiating, for-mative or transforming effect on the emerging or already existing image of the other” (Kuran-Burçoğlu 2000, 144-145). Com base nestas relações dinâmicas, o autor propõe as seguintes três ver-tentes de abordagem que envolvem consideração de heteroimagens: 1. Prior to the translation process. The translator's choice of the text s/he is going to translate may be directly or indirectly guided or influenced by the image of the other. 2. During the translation process. During the translation process the transla-tor has to make a number of decisions which are reflected in the product, i.e. the target text, in terms of omissions, additions or lexical choices. 3. During the reception process of the target text. The reader's choice as to which translated text to read, as well as the so-called reception process of the target text, […] may also be influenced by the image of the other. (Ku-ran-Burçoğlu 2000, 145)Estas três vertentes constituem o interesse principal da metodologia do presente trabalho. A primeira e a terceira vertentes estão interligadas pelo facto de aborda-rem um processo de seleção. Quanto à seleção dos textos a traduzir, Kuran--Burçoğlu sugere a referência às normas preliminares de Toury.20 A proposta de Kuran-Burçoğlu, além de salientar a escolha do tradutor, destaca ainda as opções dos leitores e dos agentes envolvidos na receção. As heteroimagens podem ser salientadas através da escolha dos leitores ou através da apresen-tação pelos críticos e outros agentes, o que também se evidencia, explicita-mente, nas afirmações de Soenen e de Jansen “by preference such authors and books are translated that tally with the existing image and come up to 20 Veja-se Capítulo 1, secção 1.2.2.2.57
the foreign reader’s expectations” (Soenen 1997, 128), “the selection of texts to be translated into a given target culture is said to reflect the way in which the source is perceived by the target readership” (Jansen 2015, 164). Relativamente à segunda vertente de abordagem de Kuran-Burçoğlu, as decisões do tradutor durante o processo de tradução poderão ser condicio-nadas pelas heteroimagens. No nosso entender, a perceção do tradutor em relação às heteroimagens poderá influenciar a opção do tradutor por normas de cultura de partida ou por normas de cultura de chegada, sendo útil inter-pretar esta perceção através das “normas iniciais” propostas por Toury, de aceitabilidade e adequação da tradução. Relativamente a este aspeto, um estudo recente de Chang, já citado e intitulado “Auto-image and Norms in Source-Initiated Translation in Chi-na”, pretende recuperar esta interseção entre imagens e normas de tradução (Chang 2015). Com base na teoria do polissistema de Even-Zohar (veja-se Capítulo 1, secção 1.2.1), Chang analisa as três situações em que a literatura traduzida poderá assumir uma posição central nos polissistemas literários da cultura de chegada. Chang emprega o termo “sentido de autoinsuficiência” e o termo “baixa autoimagem” para integrar as três situações referidas por Even-Zohar, associando-as a autoimagens “fracas” ou “vulneráveis” (Chang 2015, 7). Mediante uma pesquisa sobre a tradução de pesos e medidas chine-ses para a língua inglesa, iniciada pela República Popular da China, nas déca-das de 1950 a 1970, Chang considera plausível que as traduções reguladas pe-las normas de tradução sejam correlacionadas com as autoimagens. O autor conclui que as autoimagens, quando se trata de traduções de obras importadas pelo sistema de chegada (“inbound”), favorecem dois tipos de normas de tra-dução, orientada quer pela cultura de chegada (tradução aceitável) quando as autoimagens são elevadas, quer pela cultura de partida (tradução adequada) quando as autoimagens são baixas, defendendo ainda que, no caso das tradu-ções exportadas (“outbound”), as convicções são contrárias (Chang 2015, 8). Where inbound translation is concerned, a high-cultural auto-image will favour target-oriented translation norms while a low one will favour source-oriented norms, but where outbound translation is concerned, I suggest that the opposite is usually true. (Chang 2015, 8)Nesta abordagem, Chang desenvolve a teoria de Even-Zohar em termos de imagens, colocando as autoimagens, tanto da cultura de partida, como da cultura de chegada, como um fator condicionante no polissistema respetivo. Esta tentativa disponibiliza um enquadramento metodológico muito rele-ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO58
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICOvante e útil, por introduzir as autoimagens como fatores cruciais na relação que tende a estabelecer-se entre as culturas de partida e de chegada por via da tradução. Aliás, poderia incluir-se ainda o termo “heteroimagem”, para avançar um pouco a argumentação de Chang e estabelecer assim uma pers-petiva mais abrangente:1. As autoimagens, quando se trata de traduções importadas para o sistema de chegada (“inbound”), favorecem dois tipos de normas de tradução:(1) orientadas pela cultura de chegada (tradução aceitável) quando as au-toimagens são elevadas e as heteroimagens são baixas; (2) orientadas pela cultura de partida (tradução adequada) quando as au-toimagens são baixas e as heteroimagens são elevadas. 2. As autoimagens, quando se trata de traduções exportadas (“outbound”), fa-vorecem dois tipos de normas de tradução:(1) orientadas pela cultura de partida (tradução adequada) quando as au-toimagens são elevadas e as heteroimagens são baixas;(2) orientadas pela cultura de chegada (tradução aceitável) quando as au-toimagens são baixas e as heteroimagens são elevadas. Com a introdução da heteroimagem nesta proposta que adotaremos, con-sideramos que tanto a autoimagem como a heteroimagem fazem parte da literatura original e da literatura traduzida. Estas imagens, sejam fortes ou fracas, constituem fatores que condicionam as decisões do tradutor no pro-cesso de tradução e que, eventualmente, resultam numa tradução adequada ou aceitável. O tradutor, nestas circunstâncias, é um agente manipulador de imagens.Em resumo, a abordagem de Kuran-Burçoğlu e a proposta interdiscipli-nar de Chang fornecem um enquadramento metodológico interdisciplinar rico que equaciona as relações dinâmicas entre as imagens, as normas de equivalência em tradução e o polissistema, tanto para a fase de seleção do texto a traduzir como para a fase de tomada de decisões pelo tradutor relati-vamente à relação entre as culturas de partida e de chegada que a sua tradu-ção irá configurar. 1.3.5. Tradutor como mediador de imagensEsta secção pretende salientar as funções do tradutor na mediação e mani-pulação de imagens. No âmbito cultural, o mediador define-se como “an informant who trans-fers cultural knowledge from a primary context to a secondary one; a go-be-59
tween who defuses intercultural conflicts; someone who transforms and ne-gotiates intercultural spaces” (Keller 2007, 357). Do ponto de vista da Imagologia, os mediadores culturais concretizam práticas culturais em duas vertentes: “they form a hinge between auto- and he-tero-images and as such produce and disseminate stereotypes” (Beller 2007, 357). Com a viragem cultural nos Estudos de Tradução, os tradutores são con-siderados mediadores entre culturas (Bassnett 2011, 101). Para a Escola de Manipulação,21 o tradutor é manipulador e reescritor de imagens, uma vez que a tradução é uma forma de criação e manipulação de imagens, reveladora das autoimagens duma cultura de certo período bem como das mudanças que as autoimagens sofrem (Lefevere 1990/1995, 26-27). Recentemente com a interseção entre a Imagologia e os Estudos de Tra-dução, vários académicos apontam que, através da tradução, os tradutores revelam a sua perceção das imagens, participam na construção das mesmas e assim influenciam e manipulam a perceção do público-alvo (Doorslaer, Flynn and Leerssen 2015, 14; Jansen 2015, 172; Dimitriu 2015, 202) Considerando os vários pontos de vista referidos, é possível afirmar que o tradutor é mediador de imagens, ativo na mediação, manipulação e rees-crita das imagens. Estas imagens, antes e depois da mediação, manipulação e reescrita, servem como vestígios da intervenção do tradutor. Assim sendo, é útil efetuar uma análise comparativa destas perceções, antes e depois de tra-dução. Para além disso, uma comparação das imagens concebidas pelo autor e pelo tradutor poderá também ser produtiva por servir como ferramenta reveladora de uma potencial motivação ideológica e poética do tradutor ou do grupo representado por ele. Podemos citar dois exemplos. Em primeiro lugar, a expressão idiomática “vender gato por lebre” poderá ser traduzida para o chinês como “vender cão por cabra”. Neste caso, o tradutor opta por substituir as imagens da cultura de partida pelas mais consagradas e facilmente reconhecíveis na cultura de chegada, assim revelando os motivos do tradutor. Um segundo exemplo é retirado da tradução de As Aventuras de TinTim – “O Lótus Azul”,22 para o chinês. Neste volume, há uma ilustração dedicada a uma rua antiga de Xan-gai, onde numa esquina se senta um viciado em ópio. Nos dois lados desta rua estão pendurados painéis de publicidade, num dos quais se lê “casa de prostitutas”. Todavia, na tradução publicada em 1984 pela China Federation of Literary & Art Circles Publishing Corp, o viciado em ópio desaparece, fi-cando no lugar dele uma lixeira; o painel de publicidade, em que se lê “casa de 21 Veja-se Capítulo 1, secção 1.2.3.22 O autor é Georges Prosper Remi, mais conhecido como Hergé. Criado em 1934, este episódio relata a aventura de Tintim, um jovem repórter e viajante belga, em Xangai.ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO60
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICOprostitutas”, é substituído pelo nome de uma alfaiataria. Esta mediação do ilustrador/tradutor reflete a sua ideologia social, pois tanto o vício do ópio como a prostituição não constituem imagens construtivas para a República Popular da China, fundada em 1949. Em ambos os casos, a tradução reflete, portanto, uma autoimagem positiva e oblitera elementos negativos.Este cruzamento dos Estudos de Imagens com os Estudos Descritivos de Tradução estabelece uma ponte teórica e metodológica para o nosso estudo de caso – Luís Gonzaga Gomes: divulgador e tradutor de imagens da China e de Macau em meados do século XX, que se centra no papel de Luís Gonzaga Gomes mediante as suas obras de tradução e não tradução. Esta ponte per-mite-nos estudar a identidade macaense, começando, genericamente, pela apreciação e análise das imagens (auto- e heteroimagens) do macaense con-cebidas ao longo da história macaense e terminar, particularmente, na análise das imagens transmitidas nas obras de Gonzaga Gomes.1.4. INTERDISCIPLINARIDADE: IDENTIDADE, TRADUÇÃO, IMAGEMSendo um estudo interdisciplinar que se baseia nos conceitos de identidade, tradução e imagem, três noções fundamentais e interligadas, os recursos teó-rico-metodológico mobilizados neste trabalho enquadram-se também nesta relação triangular, como o objetivo inerente da interdisciplinaridade, numa perspetiva de contribuírem, juntamente, para os resultados de investigação (Kaindl 2006, 88). Relação triangular entre identidade, tradução e imagemAplicamos este modelo triangular a Gonzaga Gomes e às suas obras como caso de estudo. Como uma figura incontornável em meados do século XX na vida cultural de Macau, Gonzaga Gomes destaca-se pela abundância das suas publicações e traduções temáticas para divulgação do conhecimento, da cul-identidadeimagem traduçãomediaçãode imagemidentificaçãoidentidade de papel61
tura e da história chinesa e macaense sob administração portuguesa. Apesar de se continuar a considerar os estudos anteriores sobre este macaense como historiador e divulgador de culturas, destaca-se, na presente investigação, o seu papel como divulgador, tradutor, manipulador e reescritor de imagens macaenses, visando encontrar a posição identitária que este tradutor pre-tende assumir, construir, consolidar e direcionar. Para o efeito, as mudanças sociopolíticas registadas em meados do século XX devem ser consideradas e ao mesmo tempo as obras de Gonzaga Gomes constituem o nosso objeto de investigação. No que diz respeito ao corpus de análise, vamos considerar as seguintes duas partes: 1) O elenco de referências bibliográficas de todas as publicações e tradu-ções temáticas sobre divulgação do conhecimento, cultura e história chineses e macaenses, que este estudo pôde reunir. Este elenco resulta do método de pesquisa em arquivo, realizada no Arquivo de Macau, na Biblioteca Central do Instituto Cultural de Macau e na Biblioteca Nacional de Portugal, in-cluindo uma reformulação aprofundada das classificações já propostas em Aresta (2001) e em Sena (2010) e a identificação de artigos adicionais, dis-persos em diversos jornais e revistas em que Luís Gonzaga Gomes intervém. Para melhor descrever as publicações e traduções editadas na época, o mer-cado de traduções e publicações bem como as principais agentes da época também mobilizaram o nosso interesse na pesquisa em arquivo. 2) Análise paratextual e textual das obras de Luís Gonzaga Gomes em re-lação às imagens projetadas nas suas obras acerca das imagens da China e de Macau. Em termos da análise paratextual, as imagens da China, de Macau e eventualmente do Ocidente vão ser abordadas do ponto de vista imagológi-co (no caso das obras traduzidas, a abordagem vai ser desenvolvida do ponto de vista imagológico em cruzamento com os Estudos Descritivos de Tradu-ção); em termos da análise textual, considerando que as obras de Gonzaga Gomes sobre as imagens da China e de Macau já foram discutidas na tese de Sérgio (2012), optámos por centrar a nossa atenção no objetivo de apurar a relevância destas imagens para a identidade macaense. Portanto, a nossa atenção centra-se nas imagens relacionadas com a identidade macaense. No que toca à análise específica de Monografia de Macau, uma obra repre-sentativa da tradução de Luís Gonzaga Gomes que se associa estreitamente à identidade macaense, optámos por destacar duas palavras, fan (藩) e i (夷), conotativas e ricas em imagens. Considerámos particularmente revelador para o presente trabalho, que esta análise considere, para além do texto de partida, duas traduções de Monografia de Macau, respetivamente de Luís Gonzaga Gomes (1950/1979) e de Jin Guoping (2009), que são submetidas a um método de análise textual comparativa. Tanto quando foi possível apu-ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO62
ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICOrar, trata-se da primeira investigação que analisa a obra Monografia de Macau a partir da perspetiva da Imagologia e dos Estudos de Tradução. Elaboramos uma listagem das ocorrências de fan (藩) e de i (夷) no texto de partida e nas duas traduções para as submeter a uma análise mais aprofundada. Quanto à comparação textual, apresenta-se o texto original, seguido pri-meiro pela tradução de Gonzaga Gomes (1950/1979) e depois pela de Jin Guoping (2009) (veja-se o Capítulo 5). Com os segmentos que incluem fan (藩) e i (夷) alinhados com as traduções, identificamos e descrevemos as ca-raterísticas, particularidades e desvios ou alterações de tradução (shift) evi-denciadas pelas soluções de Luís Gonzaga Gomes e Jin Guoping. Através da comparação das opções distintas dos dois tradutores, tentamos descortinar, para além das técnicas ou táticas, as suas motivações poéticas e ideológicas. Assim analisando as imagens reescritas, pretendemos lançar um olhar pro-fundo à tradução a partir da perspetiva imagológica e identitária. Em síntese, no processo de pesquisa em arquivo e na análise paratextual e textual (incluindo a análise textual comparativa), os conceitos de identidade, tradução e imagem operacionalizam-se, no sentido de, por um lado, proceder à constituição de um corpus de referências bibliográficas para análise quanti-tativa e qualitativa, e por outro lado, contribuir para identificar, descrever e analisar textualmente uma parte desse corpus. A consideração do caso espe-cífico de Gonzaga Gomes servirá para refletir acerca das questões ligadas à identidade macaense. Os conceitos de identidade, tradução e imagem, acima apresentados, e a relação triangular entre eles, demonstraram a sua relevân-cia teórico-metodológica, ao serviço de uma abordagem interdisciplinar no âmbito dos Estudos Descritivos de Tradução. 1.5. NOTAS CONCLUSIVAS O presente capítulo, dedicado ao enquadramento teórico e metodológi-co, pretendeu, no âmbito dos Estudos Descritivos de Tradução, estabelecer a base teórica e metodológica que sustenta a abordagem interdisciplinar de todo o trabalho, especialmente em relação aos principais conceitos e aos mé-todos de investigação: pesquisa em arquivo e análise paratextual e textual das obras de Gonzaga Gomes. Sendo um estudo interdisciplinar, as noções da Imagologia e dos Estudos de Identidade foram recuperadas para enri-quecerem e reforçarem o enquadramento teórico. Adotámos a definição da identidade do ponto de vista sociopsicológico, destacando o seu nível meso – identidade de papel social –, numa tentativa de associar este papel social às iniciativas de tradução por parte dos macaenses; apresentámos o polissistema 63
literário de Even-Zohar (1978, 1990), as normas de equivalência de tradução de Toury (1995, 2002), bem como as propostas da Escola de Manipulação (Hermans 1985/2014, 1991, 1999, 2007; Lefevere 1990-1995, 1992, 2000), o que nos permitirá configurar a contextualização social, jurídico-política, ét-nica e antropológica de Macau em meados do século XX, período em que Luís Gonzaga Gomes atua dinamicamente como divulgador e tradutor; re-corremos igualmente aos conceitos da Imagologia e aos seus métodos apli-cados nos Estudos Descritivos de Tradução. A interligação entre identidade, tradução e imagem parece-nos oferecer uma abordagem teórica e metodo-lógica eficaz para a investigação interdisciplinar que pretendemos conduzir. ENQUADRAMENTO TEÓRICO E METODOLÓGICO64
2. macau E a IdEntIdadE macaEnsE Em mEados do século XX
Pensar Macau sem pensar nos filhos da terra, portugueses do Oriente, por vezes tão injustamente ignorados, é esquecer os não só quatro séculos de história do território, mas também a herança mais nobre e a jóia valiosa, que os portugueses de quinhentos legaram aos seus vindouros. (Amaro 1988, 101)A identidade macaense é um tópico incontornável nos estudos de Macau, pois nasce juntamente com a história de Macau. Os macaenses – filhos da terra –, como um grupo étnico-antropológico distinto de outras etnias habi-tantes em Macau, como um fenómeno cultural e historicamente enriquecido e sofisticado, são “a herança mais nobre” e “a jóia valiosa” (Amaro 1988, 101) do território de Macau. A questão identitária, além de ser abordada nos estu-dos da história de Macau (Fok 1991; Tang e Xu 2000; Jin e Wu 2002; Li, 2007, 2010), tem sido estudada a partir das perspetivas antropológica, étnica, lin-guística, religiosa e entre outras abordagens sociais e culturais (Amaro 1988; Cabral e Lourenço 1993; Si Tou 1997; Clayton 2001; Piteira 1999; Tang e Xu 2000;Wang e Tan 2001; Rangel 2010; Noronha e Chaplin 2011; Gaspar 2015).Neste capítulo procuramos apresentar, de forma seletiva, informações e fontes relevantes sobre a identidade macaense, a nível social, jurídico-políti-co, étnico e antropológico. Tendo em conta a evolução da identidade macaen-se ao longo da história de Macau, começamos por apresentar um panorama histórico, identificando as principais etapas desta evolução, para depois nos concentrarmos na identidade macaense em meados do século XX, período marcado pela crise identitária. Sem esquecer as intervenções dos macaenses que são fundamentais para a recuperação e consolidação da sua própria iden-tidade, o presente estudo vai também apresentar os esforços e as atividades editoriais da elite macaense, entre os quais se destaca a intervenção de Luís Gonzaga Gomes.
2.1. PRINCIPAIS ETAPAS DA DEFINIÇÃO DA IDENTIDADE MACAENSEQuando falamos da identidade macaense, referimo-nos a uma identidade coletiva em termos de língua, raça, religião, cultura diária e sentimento de enraizamento, que já foi abordada anteriormente. Cabe recordar que a iden-tidade poderá ser definida em termos coletivos ou individuais e, neste último caso, em termos do papel social e da identidade pessoal. Importa não esque-cer a relação dinâmica entre os três níveis da identidade: o papel social pren-de-se com as expectativas coletivas e depende, largamente, do desempenho individual e do autoconceito sociopsicológico e biográfico do indivíduo.23 Ao falar da identidade macaense, nomeadamente das principais etapas, da sua génese, do seu desenvolvimento e da sua consolidação, parece-nos lícito asso-ciar esta identidade coletiva à noção de comunidade macaense, definida por Cabral e Lourenço como “um grupo de pessoas que partilham um conjunto de instituições e que trabalham em conjunto com vista à reprodução de um projecto étnico comum” (Cabral e Lourenço 1993, 19). Num espaço geográfico partilhado por vários grupos étnicos, começamos por identificar o significado da expressão “macaense”, recorrendo igualmen-te à definição proposta por Cabral e Lourenço na obra Em Terra de Tufões:Uma das principais categorias da identidade étnica em Macau, hoje, é a de “ma-caense” em português e to2 saang124 em cantonense. Ainda que uma larga maioria da população do Território seja chinesa e que a elite administrativa seja maiori-tariamente oriunda de Portugal, os macaenses desempenham um papel central em Macau uma vez que, dentro dos três grupos étnicos tradicionais, é o que está mais fortemente associado com a identidade histórica do Território – significado, aliás, implícito na expressão cantonense to2 saang1 jai2 (lit. terra nascido criança, filho da terra). (Cabral e Lourenço 1993, 19)Nesta definição, os elementos que nos parecem mais relevantes são, por um lado, os sentimentos de pertença geográfica e territorial, expressos na desig-nação “filhos da terra” – macaense, que é “mais fortemente associado com a identidade histórica do Território”, e, por outro lado, a identificação três grandes grupos étnicos no Território – chinês (o grupo maioritário), portu-guês (elite administrativa) e macaense. Não deixa de ser interessante que os autores refiram duas designações para a identidade étnica em Macau, uma em português (“macaense”) e outra 23 Veja-se Capítulo 1, secção 1.1.24 Nesta expressão to2 saang1, o número árabe representa o tom em cantonense.68MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XXem cantonense (to2 saang1). Estas duas designações exprimem a dualidade e o hibridismo da identidade coletiva macaense, por um lado, cantonense e, por outro, portuguesa. Para além disso, importa realçar que o dialeto do chinês falado em Macau sempre foi e continua a ser predominantemente o canto-nense. Para além disso, em termos históricos, a elite macaense, ou seja, os estratos socioculturalmente mais prestigiados e influentes da sociedade ma-caense, exprimia-se preferivelmente em português, enquanto os indivíduos mais escolarizados por via da frequência da Escola de Língua Sínica (1915-1976)25 dominavam o mandarim, o que os habilitava a acompanhar delega-ções estrangeiras enviadas às autoridades chinesas. Até onde sabemos, apenas os historiadores Xu e Tang (2000) propõem uma periodização da história macaense ao longo dos últimos quatro séculos. Considerando que a história macaense e a identidade macaense se relacio-nam de modo estreito, no nosso estudo adotaremos essa periodização, que distingue quatro fases principais: (一) l6世纪初期葡萄牙人与印度果阿人和马来西亚满刺加(即马六甲)人的通婚混血是土生葡人的滥觞阶段;(二) 16世纪中期到18世纪是土生葡人在澳门多元混血形成的阶段;(三) 19世纪初至20世纪中期是土生葡人在澳门进一步发展的阶段;(四) 20世纪七八十年代以后是土生葡人在澳门稳定发展的阶段。 (Xu e Tang 2000, 45-48)1) Incubação (a partir do início até meados do século XVI), que corresponde à miscigenação dos portugueses com os indianos (Goa) ou os malaios (Malaca); 2) Formação (de meados do século XVI ao início do século XVIII), etapa mar-cada pelo poli-hibridismo do macaense que se cruza com outras etnias e especial-mente com a etnia chinesa; 3) Consolidação (desde o início do século XIX até meados do século XX);4) Desenvolvimento estável (a partir das décadas de 1970 e 1980). (tradução nossa)2.1.1. Incubação (a partir do início até meados do século XVI)A partir do início do século XVI quando os portugueses marinheiros che-garam a Malaca, Malásia, teve início a miscigenação dos portugueses com as mulheres orientais. Apesar de alguma controvérsia, existe algum consenso em torno da ideia de que a comunidade macaense é “fruto de um poli-hibri-dismo muito rico” (Amaro 1988, 4). Autores como França (1897), Machado 25 Em 1976 passou a denominar-se Escola Técnica. 69
(1913), Rego (1950), Brazão (1957) e Teixeira (1965) afirmam que a comuni-dade macaense é fruto do cruzamento dos portugueses com mulheres india-nas, malaias, japonesas e chinesas, o que significa que os primeiros grupos de macaenses não apresentam necessariamente sanguinidade chinesa. 2.1.2. Formação (meados do século XVI- início do século XVIII)A segunda etapa de formação da identidade macaense tem início com o es-tabelecimento dos primeiros portugueses em Macau em 1557 e termina no século XVIII. Distingue-se da fase anterior por ser marcada por um número superior de casamentos entre portugueses e chineses. Conforme a Cronologia da História de Macau (séculos XVI-XVII), em 1562 havia 800 moradores em Macau e em 1565 o número subiu para 900 (Beatriz 1992, 48-49). O historia-dor C. R. Boxer observa que, nesta fase, “na falta de mulheres portuguesas, os pioneiros portugueses em Macau uniram-se às Malaias, Japonesas e Chi-nesas, muitas destas últimas sendo mui-tsai, ou raparigas vendidas pelos pais pela sua grande pobreza” (Boxer 1991, 173). O jornalista inglês Peter Mundy, citado por Boxer (1942, 64) e por Teixeira (1965, 23-24), acrescenta, no seu diário de viagem a Macau em 1637, que em toda a cidade de Macau havia apenas uma mulher nascida em Portugal e as esposas eram todas chinesas ou macaenses nascidas do casamento de portugueses com indianas, malaias, ja-ponesas e chinesas. Nessa altura, registam-se também muitos chineses que se converteram ao Catolicismo e se casam com mulheres de outras etnias.26 To-dos estes factos mostram uma crescente “miscigenação” com a etnia chinesa. 2.1.3. Consolidação (início do século XIX-meados do século XX)A terceira etapa, de consolidação da identidade macaense, decorre a partir do início do século XIX e até meados do século XX e constitui um período crucial na história identitária desta comunidade. Tratando-se de um período muito vasto e com alguma evolução, consideramos conveniente subdividi-lo em duas fases, sendo a segunda metade marcada salientemente pela interven-ção da elite macaense. A primeira fase coincide com o século XIX, enquanto a segunda corresponde à primeira metade do século XX. A consolidação da identidade macaense opera-se através de dois meios principais: (i) a união matrimonial preferida pela comunidade macaense, i.e., entre macaenses ou com portugueses (na 1.ª fase de consolidação, no século XIX) e (ii) a afirmação da elite macaense como “filhos da terra” (na 2.ª fase 26 Este fenómeno foi mencionado no primeiro tomo – administração, da primeira parte do Ou-Mun Kei-Leok: Monografia de Macau, “outros [chineses convertidos] que casaram com mulheres estrangeiras ( kuâi-nui 鬼女 isto é filhas dos diabos) e que criam os seus filhos e netos” (Tcheong e Ian 1979, 127). 70MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XXde consolidação, no século XX). Quanto ao primeiro meio, a união matrimonial preferida, designado por Cabral e Lourenço, como “contexto matrimonial de reprodução”, corres-ponde ao casamento entre macaenses ou de macaenses com portugueses e mostra “uma maior identificação com a identidade europeia” (Cabral e Lou-renço 1993, 61). É um dos dois tipos principais de casamento ao longo deste vasto período de miscigenação. O segundo corresponde ao “casamento entre pessoas que não são necessariamente macaenses”, ou seja, ao casamento de macaenses com chineses ou membros de outras etnias, a que os autores cha-mam “contexto matrimonial de produção” (Cabral e Lourenço 1993, 61).27 Os autores não explicam o uso das expressões “reprodução” e “produção”, que poderá, entretanto, ser entendido a partir do estatuto social a elas associado, uma vez que o segundo tipo de casamento (de macaenses com chineses ou ou-tras etnias), apesar de ser muito frequente, não é publicamente reconhecido. A união matrimonial preferida, entre macaenses ou com portugueses, é considerada um meio de alcançar uma relativa “portugalidade” ou, nos ter-mos de Cabral e Lourenço, um “capital de portugalidade” (Cabral e Louren-ço 1993, 62), permitindo o acesso a cargos administrativos que estavam veda-dos aos chineses. Desta forma se alcança um “privilégio social” e até alguma “promoção social” por via do casamento (Cabral e Lourenço 1993, 61). Nesta fase de consolidação, os macaenses já se radicam no território e, tendo conquistado riqueza, linhagem e uma educação requintada, tentam diferenciar-se quer dos “costumes bárbaros dos aventureiros do Ocidente” (Amaro 1988, 37), quer dos chineses de classe baixa. É também por esta altura que vários costumes chineses passam a integrar o dia-a-dia dos macaenses, como referem Cabral e Lourenço: O macaense é muito supersticioso, o que é contra a religião católica. Um polícia macaense, por exemplo. Está lá uma divindade – Gwaan 1 Gung1. Durante as festividades o indivíduo vai lá. Vai lá à abertura do ano, ou à abertura de uma esqua-dra…que é que o macaense faz? Pega em três heung 1 – sim, pivetes – e vai lá pôr em frente. Seguiu o ritual chinês! Isto é uma praxe. (Cabral e Lourenço 1993, 185-186) O fenómeno da integração dos costumes chineses na prática do dia-a-dia macaense convive, paradoxalmente, com uma certa resistência do macaen-27 Existem ainda outros casos de casamento “no contexto matrimonial de produção” apesar de não serem reconhecidos publicamente: 1) caso típico do soldado ou marinheiro português que cria uma relação com uma senhora chinesa; 2) concubinato com mulheres chinesas; 3) casamento com os chineses cristãos-novos (Cabral e Lourenço, 63-64). Contrariamente às expetativas da comunidade macaense, os descendentes destas combinações entram também na comunidade macaense.71
se relativamente à influência oriental, nomeadamente linguística. Ilustra-se esta preocupação com um exemplo que evidencia a valorização do português em detrimento do cantonense: [O]s seus pais macaenses [pais de “famílias tradicionais” macaenses] eram muito estritos, forçando-os a falar português e mesmo punindo-os, caso os encontras-sem a falar cantonense em casa. Essa exigência era sentida como uma violência pelas crianças, para quem o cantonense era a língua da infância e dos primeiros jogos de rua. (Cabral e Lourenço 1993, 169) No que diz respeito ao segundo meio de consolidação da identidade macaen-se, deve-se à afirmação da elite macaense como os “filhos da terra” (na 2.ª fase desta etapa de consolidação, que se concentra já no século XX) e ao reforço do papel da elite macaense enquanto mediador e tradutor das duas cultu-ras portuguesa e chinesa. Segundo Cabral e Lourenço, é nesta fase que surge uma elite macaense que “assenta sobre uma classe média antiga, bem posicio-nada na administração e tradicionalmente legitimada através da referência a um capital de portugalidade” (Cabral e Lourenço 1993, 214). Adotando uma expressão identitária distinta e singular – “filhos da terra” – esta classe distin-gue-se dos outros grupos étnicos residentes no território de Macau. Comunidade e eliteRelativamente ao conceito de elite, Cabral e Lourenço adotam o conceito de Abner Cohen (1981), que aqui recuperamos.A collectivity of people who occupy commanding positions in some sphere of so-cial life, who do not overtly form a distinct group, cooperating and coordinating their strategies of action informally. (Cohen 1981, 233)Cabral e Lourenço avançam, nestes termos, a definição da “elite” do macaense. Chamaremos, portanto, os macaenses como uma comunidade étnica que se tor-na um grupo de interesses informalmente organizado através do funcionamento de uma “economia moral”. Chamaremos “elite” às pessoas que ocupam lugares charneira na manutenção e gestão desse consenso – que detêm a autoridade co-munitária. (Cabral e Lourenço 1993, 210)Sintetizando as duas definições propostas, pode-se considerar que a elite é um grupo de interesses, que possui a autoridade comunitária e coordena as 72MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XXestratégias de ação comunitárias, de modo informal. As palavras-chave são “grupo de interesses”, “autoridade”, “estratégias” e “informal”. O papel da elite é representar o interesse da comunidade e elaborar estratégias de ação para a comunidade. Cabral e Lourenço, recuperando propostas de Lisón-Tolosana (1966/1988) sobre geração, identificam cinco gerações macaenses do século XX, em termos do poder político e assim, possibilitam uma análise que per-mite compreender melhor esta fase da história identitária macaense. Uma caraterística muito importante da definição do conceito de geração consiste na “aceitação e/ou criação parcial de atitudes e valores – o facto dos seus membros [membros da mesma geração] partilharem de uma mesma imagem do mundo ou da vida” (Cabral e Lourenço 1993, 114). Cinco gerações da elite macaenseTomando como referência eventos políticos marcantes, os autores identifi-cam a Guerra do Pacífico (1939-1945), a Revolução Cultural (1966-1976), a Revolução Democrática Portuguesa de 1974 e a Declaração Conjunta de 1987, e neles baseiam a identificação de cinco gerações de elites macaenses: 1) geração anterior à geração declinante (nascida nas décadas de 1910 e 1920);2) geração declinante finais da década de (nascida entre os 1920 e o início de 1940);3) geração controlante (nascida entre os meados da década de 1940 e durante a de 1950);4) geração emergente (nascida nas décadas de 1960 e 1970);5) geração nascida na década de 1980 (Cabral e Lourenço 1993, 75-76).Os estudos de Cabral e Lourenço não abordam diretamente a geração an-terior à geração declinante, mas descrevem a geração declinante e a geração controlante. Ao estudarem a geração declinante e a controlante, especial-mente a sua fase de adolescência e vida adulta, tais descrições refletem tam-bém a fase adulta e a velhice da geração anterior. No fundo, o estudo destas três gerações permite perceber a fase de consolidação identitária macaense. Conforme os relatos de Cabral e Lourenço, por um lado, a geração decli-nante sofre, na sua adolescência, a crise da Guerra do Pacífico (1939-1945) e a estagnação socioeconómica, perdendo os cargos de elite na China após a Guerra. Por outro lado, cabe sublinhar que os macaenses se sentem negligen-ciados pelo núcleo do poder da então administração portuguesa e, por isso, vivem “em contextos de profunda falta de confiança” (Cabral e Lourenço 1993, 112) no futuro de Macau e sentem-se “desprotegidos”, “esquecidos” ou 73
“abandonados” por Portugal (Cabral and Lourenço 1993, 113), o que resulta num grande fluxo de emigração para a América. No entanto, ao defender que são verdadeiros to2 saang1 – filhos da terra, a elite dos macaenses reivindica a legitimidade da sua presença em Macau com base nos 400 anos de história do território, tomando de novo o monopólio étnico decorrente do controlo de comunicação entre a administração portu-guesa e a comunidade chinesa. 2.1.4. Desenvolvimento estável (a partir das décadas de 1970 e 1980)A quarta etapa da história da identidade macaense começa a partir das dé-cadas de 1970 e 1980. A intensa conflitualidade que marca a década de 1960, e que corresponde à fase de consolidação da identidade macaense, dá lugar, progressivamente, a um processo de vagarosa aproximação entre os macaen-ses e os chineses, na década de 1970. As relações entre os dois grupos passam a ser de diálogo cooperante e entram numa nova fase. É inegável que esta ati-tude flexível de “diálogo” resulta das iniciativas da elite macaense, que reage atendendo ao interesse comum da comunidade macaense. Depois da Revolução dos Cravos em 1974, os militares portugueses co-meçam a ser retirados de Macau. Esta etapa é marcada por diversos eventos políticos, nomeadamente, o estabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China em 1979, a assinatura da Declara-ção Conjunta Sino-Portuguesa em 1987 e a transferência de administração de Macau para a China em 1999. Este último fator político, segundo Piteira, por ter repercussões significativas na comunidade macaense, é considerado um dos fatores contextuais que mais condicionam a comunidade macaense, especialmente no período da transição (Piteira 1999). A Lei Básica da Re-gião Administrativa Especial de Macau (1999: 4) define as línguas chinesa e portuguesa como línguas oficiais de Macau, podendo esta última ser também usada nos órgãos executivo, legislativo e judicial (Artigo 9.º). Tal determina-ção revela a manutenção da “portugalidade” em termos de língua, com a qual a comunidade macaense continua a identificar-se. Salientam-se novamente sentimentos de enraizamento em Macau. Nes-tas circunstâncias, Piteira argumenta que o grupo macaense residente em Macau atua como referencial da diáspora macaense (Piteira 1999), uma vez que este grupo produz, preserva e alimenta novamente o modo de ser e estar do macaense, dedicando-se à conservação dos antigos padrões culturais hí-bridos através de diversas atividades culturais e práticas. Os macaenses que acabaram por ficar em Macau, hoje em dia, vivem pacificamente com os chi-neses e até falam cantonense tanto na vida social como no seio familiar. Por 74MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XXoutro lado, apostam também nas suas culturas próprias, promovem a sua gas-tronomia e os seus costumes, para afirmar o seu sentimento de enraizamento em Macau (Xu e Tang 2000). A partir de 1993, organizam-se, regularmente, em Macau, encontros das comunidades macaenses, em parceria com as insti-tuições locais e com o apoio do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, para reunir a diáspora macaense espalhada em todo o mundo. Os membros desta comunidade continuam a ser mediadores, sobretudo, cultu-rais entre a comunidade chinesa e os outros grupos étnicos. 2.2. VIRAGEM IDENTITÁRIA MACAENSE NAS DÉCADAS DE 1940 A 1970Uma série de mudanças sociais, jurídico-políticas, étnicas e antropológicas, nas décadas de 1940 a 1970, associados à Guerra do Pacífico (1939-1945), à Implementação da República Popular da China (1949) e à Revolução Cul-tural da China (1966-1976), impõem ao macaense e à sua identidade amea-ças e incertezas sem precedentes. Estas quatro décadas tornam-se, pois, um período de viragem, em que se testemunha uma crise identitária macaense e uma oportunidade de reações estratégicas da elite macaense para lidar com as repercussões.Nesta secção centramos a atenção nesta viragem identitária macaense, através da apresentação seletiva de trabalhos desenvolvidos por investigado-res que refletem sobre as quatro décadas, a partir de três pontos de vista: social, jurídico-político e étnico ou antropológico.2.2.1. Viragem social: Cabral e Lourenço (1993)Numa perspetiva social, Cabral e Lourenço identificam este período da comunidade macaense com “contextos de profunda falta de confiança (o período do pós-Guerra e os anos da Revolução Cultural)”, em que tanto a geração declinante como a controlante começam a sua vida adulta, mas per-dem o monopólio étnico resultante do controlo exclusivo de comunicação como mediador, tanto na China como em Macau (Cabral e Lourenço 1993, 112). Apesar de os autores não mencionarem a geração anterior à declinante (nascida nas décadas de 1910 e 1920), deduzimos que esta geração vive tam-bém no mesmo “contexto” e terá sentido ainda mais as mudanças sociocul-turais e políticas em comparação com a sua vida antes da Guerra do Pacífico (1939-1945). Os dois autores salientam também a tensão étnica entre o sector lusófo-no e o sinófono: “[e]m Macau, entre 1949, quando os comunistas chegam ao 75
poder na China, e os distúrbios de 1966/6728, a tensão étnica entre o sector lusófono e o sector sinófono da população aumenta progressivamente.” (Ca-bral e Lourenço 1993, 84)Nesta interpretação, os autores associam os macaenses, especificamen-te, à administração portuguesa, referindo que os da geração declinante “se identificavam fortemente com o poder colonial português num período de crescente confrontação étnica” (Cabral e Lourenço 1993, 87) e reagem de forma consciente com a afirmação identitária como filhos da terra (Cabral e Lourenço 1993, 112). No entanto, a mesma afirmação poderá eventualmente aplicar-se à geração anterior à geração declinante. Por outro lado, temos que sublinhar que esta crise de confiança não decorre somente da perda de um estatuto privilegiado na China. A tensão ideológica marca também as relações entre os macaenses e administração portuguesa de então. A este propósito, Jonny Si Tou refere que o papel mediador do macaense é somente interpretado como o papel de “instrumentos aplicados por Portu-gal, nos diversos níveis da administração do Território”, pois “um regime cen-tralista [de Portugal] impediu os macaenses de assumirem um papel de prota-gonismo neste Território” (Si Tou 1997, 544). O autor refere explicitamente a origem deste sentimento de “abandono” entre a comunidade macaense: Durante as negociações entre Portugal e a China sobre a questão de Macau, os macaenses não foram auscultados e as suas opiniões não foram ouvidas pelas au-toridades portuguesas, fazendo assim sentir-se no seu seio uma sensação de aban-dono por parte de Portugal. (Si Tou 1997, 544)No mesmo período, devido aos incidentes históricos que se assinalam,29 re-gista-se uma escalada da tensão étnica entre os macaenses e a população chi-nesa de Macau.Durante os anos 50 e a primeira metade dos anos 60, os macaenses da geração de-clinante sentiam, por um lado, que a sua presença no Território era perfeitamente legitimada por 400 anos de história. Eles eram os verdadeiros to2 saang1- os “fi-lhos da terra” – e não os chineses, para quem Macau nunca foi mais do que uma stepping-stone: […] Por outro lado, contudo, a presença chinesa no Território era crescentemente visível. (Cabral e Lourenço 1993, 89)28 Os distúrbios de 1966/1967 referem-se ao incidente político chamado “evento político 1,2,3”, no qual a comunidade chinesa se opôs à então administração portuguesa entre o dia 3 de dezembro de 1966 e janeiro de 1967. 29 A saber: os Incidentes das Portas do Cerco de 1952, o Cancelamento das Celebrações do IV Cente-nário da Presença Portuguesa em Macau em 1955.76MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XXNeste período, perante a tensão étnica com a comunidade chinesa e a sen-sação de irrelevância perante os portugueses para decisões que lhe dizem di-retamente respeito, como as negociações sobre o estatuto do território de Macau, se encontrarão as causas para a crise de confiança que marca a comu-nidade macaense neste momento. 2.2.2. Viragem jurídico-política: Gonçalves Pereira (1995)Numa perspetiva jurídico-política, nesta fase torna-se patente o desequilí-brio entre as forças atuantes em Macau – isto é, o desequilíbrio de um “dua-lismo” dos poderes português e chinês, que marca fundamentalmente a his-tória de Macau, segundo Gonçalves Pereira (1995, 24). A história de Macau é marcada, desde os seus primeiros anos, por um dualismo que se reflecte, por vezes de forma conflitual, em todos os aspectos da vida da cidade --- nas formas de exercício do poder político, na administração da justiça, nas estruturas religiosas, na gestão do comércio e, até, na administração da urbe. Este dualismo – que constitui um dos elementos mais impressivos da história de Macau – está exemplarmente expresso num parecer do Governador ao Leal Se-nado, proferido em 1806, segundo o qual a cidade sempre teria admitido uma dupla responsabilidade, um duplo compromisso, com os superiores de Lisboa e com o governo chinês. (Pereira 1995, 24)Com base neste conceito de “dualismo” político avançado por Gonçalves Pereira, Carlos Manuel Piteira divide os quase quinhentos anos de presença portuguesa em Macau em cinco períodos distintos. Para fins deste trabalho, assumem particular relevância o período anterior à fundação da República Popular da China, em 1949, (2.º período – “Séc. XIX até 1949 – Afirmação portuguesa com o reconhecimento formal da China pelo tratado de Pequim de 1887, sob a reserva da inalienabilidade do território enquanto território Chinês”) e o período imediatamente seguinte (3.º período – “1949 a 1974 – Divisão conflitual da soberania de que são ilustrativos os acontecimentos do ‘1.2.3’ (3 de Dezembro 1966)” (Piteira 1999, 164). O ano de 1949, ano de fundação da Republica Popular da China, é um ano fundamental, pois testemunha o desequilíbrio dos dois poderes políticos, que eventualmente conduz aos distúrbios de 1966/1967. Estes incidentes políticos são referidos como o “evento político 1, 2, 3”, no qual os residentes chineses pró-comunis-tas protestaram contra a então administração portuguesa, entre o dia 3 de dezembro de 1966 e janeiro de 1967. Como um evento político que coloca em jogo os poderes do Governo de Macau, dos movimentos locais da esquerda e 77
do Governo Central da República Popular da China (RPC), estes incidentes fazem enfraquecer a soberania portuguesa sobre Macau e quase põem fim à administração portuguesa.2.2.3. Viragem étnica e antropológica: Ana Maria Amaro (1993)Do ponto de vista étnico e antropológico, a bibliografia consultada aponta uma mudança social que começa a ter influência na comunidade macaense (Amaro 1988, 98). O fenómeno de aculturação ganha forma com a acelerada miscigenação entre os grupos socioeconomicamente mais privilegiados das comunidades portuguesa e chinesa, no final do século XIX e no princípio do século XX.[A] aculturação ter-se [sic] feito, em muitos casos, no sentido Oriente/Ociden-te. Tal facto está patente nos padrões característicos da cultura especificamente macaense: uso de um léxico próprio; modo de trajar mais consentâneo com os rigores do clima; noções muito validas de profilaxia e dietética; requintes culi-nários e artísticos muito próprios; e um repositório muito vasto de mezinhas de casa perfeitamente demarcadas, muitos delas, tanto das dos chineses como das da Europa. (Amaro 1988, 98)Em meados do século XX, o macaense já estabelece as suas próprias regras de conduta e etiqueta, resultantes da integração de padrões orientais na sua cultura de herança europeia, em termos de “uso léxico”, “trajo”, “culinária e dieta”, “jogo e passatempo” e “repositório de mezinhas de casas perfeitamente demarcadas”.Todas estas observações sublinham que as décadas de 1940 a 1970 cons-tituem um período de crises, conflitos, e de grandes mudanças a nível socio-cultural e político, que estão na origem de um “contexto de profunda falta da confiança” do macaense e assim contribuem para a formação do enquadra-mento em que ocorre a intervenção estratégica da elite macaense, especial-mente em relação à questão identitária macaense.Estudos anteriores identificam o ano de 1949 (de fundação da República Popular da China) como início de um novo período em Macau. No entanto, preferimos alargar este âmbito temporal a toda a década de 1940, tendo em conta que é a partir do início desta década que Macau se transforma em des-tino dos imigrantes e refugiados da China,30 em consequência da Guerra do Pacífico (1939-1945), devido à posição de “neutralidade” de Macau em toda a Ásia,31 durante Guerra do Pacífico. O fluxo considerável de chineses assim 30 Incluindo os refugiados macaenses que residiram em Xangai e em Hong Kong. 31 Macau é descrito como Casablanca na versão asiática. (Xavier 2016, 94)78MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XXgerado constitui um fator significativo que vem alterar de modo considerável a estrutura social de Macau. Nesta altura, os macaenses começam a colaborar com a elite chinesa, a fazer negócios,32 para atender às exigências do grande mercado constituído pelos chineses, sobretudo imigrantes.Em resumo, as condições sociopolíticas em Macau são condicionadas por uma multiplicidade de fatores. O estatuto da comunidade macaense é muito influenciado pelo desequilíbrio resultante do “dualismo” dos poderes chinês e português, tanto a nível político como a nível social. A tensão étnica entre o poder português e o poder chinês e uma crescente aculturação manifestam a complexidade dos sentimentos da comunidade macaense quer em relação à “portugalidade” do “sector lusófono” quer às “chinesices” do “sector sinófo-no”. Por um lado, esta complexidade exerce influências na perceção mental do macaense em relação à sua definição identitária e, por outro lado, estes sentimentos do macaense que oscilam entre os dois polos vão condicionar as suas atitudes em relação a outros grupos étnicos.2.3. ESTRATÉGIAS DE CONCILIAÇÃO COMO MEDIADOR/TRADUTORTendo sido referido frequentemente nas secções anteriores, o papel social de mediador e tradutor assumido pelo macaense, este papel será aprofundado nesta secção. O macaense, ao longo das épocas de formação, desenvolvimen-to e consolidação identitária, tem procurado proteger os interesses da sua comunidade através do papel de mediador e tradutor entre a administração portuguesa e os chineses de Macau, sendo praticamente uma comunidade de conciliadores culturais. Os macaenses controlam, em particular, pelo menos desde o início do período colonial, dois tipos de actividade para as quais estão especificamente vocaciona-dos devido à sua posição relativa face aos outros grupos étnicos: a) eles ocupam os postos intermédios da estrutura administrativa (auxiliares administrativos, polícias, etc.) e b) eles desempenham um papel central como intermediários dos interesses chineses face à administração (como advogados, solicitadores, secretá-rios, etc.). (Cabral e Lourenço 1993, 23)Como uma “coletividade étnica de interesses” (Cohen 1981, 120-124; Cabral e Lourenço 1993, 208), a comunidade macaense liderada pela elite tem como 32 Uma figura macaense essencial é Dr. Pedro José Lobo (1892-1965), chefe da Repartição Central dos Serviços Económicos da então administração portuguesa e fundador do Círculo Cultural de Macau. 79
finalidade procurar a autoridade e o privilégio capazes de proteger os seus interesses. Certos sociólogos chamam “tradução” a este fenómeno, equacio-nando-o com “todas as negociações, intrigas, cálculos, actos de persuasão e violência, através dos quais um actor ou força social assume, ou faz com que lhe seja conferida, autoridade para falar ou agir em nome de um outro actor ou força” (Cabral e Lourenço 1993, 210). Importa sublinhar que o termo “tradu-ção” é aqui usado como uma metáfora, para descrever as ações de mediação. Durante as décadas de 1940, 1950 e 1960, este papel social de mediação é obviamente ameaçado por incidentes históricos como a Guerra do Pacífi-co (1939-1945), a Implementação da República Popular da China (1949) a Revolução Cultural (1966-1976) e perde o peso que tivera anteriormente. Todavia, as ações de mediação apresentam-se sob formas diferentes e con-tinuam a ser valorizadas pela elite macaense como meios de atenuação de crises étnicas, sociais e políticas. Many Macanese also redefined their prewar identities – whether or not as colo-nial underlings, or even as a privileged caste within the Portuguese colonial hie-rarchy – by reverting to traditional roles as “intermediaries” between antagonists, who in some instances were forced to deal with them. (Xavier 2016, 114)Estas reflexões identitárias culminam nas iniciativas estratégicas da elite macaense, que visam voltar ao seu papel social como mediador e tradutor, acrescentando os seus valores à sociedade de Macau. Uma desta ações de mediação é visível na vida cultural de Macau em que intervém ativamente a elite macaense e que apresenta um grande dinamismo vivido em diversas vertentes, nomeadamente na música, no teatro, em atividades editoriais, na pintura, no cinema, na rádio ou no desporto. 2.3.1. Intervenção nas atividades editoriais De entre estas ações culturais, pretendemos focar as atividades editoriais, especialmente as publicações em português, que são geridas principalmente pela elite macaense, ou nas quais a elite macaense colabora, a partir do sécu-lo XIX,33 tal como argumentado por Li (2010) na sua obra 近代澳門外報33 Conforme Li (2010), na sequência da revolução industrial no século XIX, o transporte ocidente--oriente torna-se conveniente. Vieram a Macau muitos intelectuais e pessoas cultas, portugueses e ocidentais, que contribuíram para promover a vida cultural de Macau, dos quais houve profissionais do jornalismo e do setor editorial. Aliás, com a facilidade do transporte, os macaenses locais regressam, de-pois de frequentarem as universidades da Índia, de Portugal ou Inglaterra, para servir Macau. No mesmo período, com o aperfeiçoamento do sistema educativo português local, surgiram cada vez mais intelec-tuais macaenses. Todas estas pessoas, de matriz portuguesa ou ocidental, contribuíram para movimentar a vida cultural de Macau e a formação da elite macaense, a partir do século XIX (Li, 2010, 132).80MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX史稿 [Historial dos Jornais Contemporâneos Estrangeiros em Macau ]. O autor elenca uma lista de membros da elite macaense que se responsabiliza pelas primeiras publicações em português, tais como Manuel Maria Dias Pegado (1805-s.d.), Félix Feliciano Cruz (1810-1879), Miguel António Aires da Silva (1844-1886), António Joaquim Basto (1848-s. d.), José Maria Gonzaga Perei-ra (1858-1927), Constâncio José da Silva (1864-1947), Carlos de Melo Leitão (1879-1949), Luiz Gonzaga Nolasco da Silva (1881-1954), José da Conceição de Carvalho Rego (1890-s.d.), Adelino Barbosa da Conceição (1909-s.d.) e Cassiano Carlos de Castro Fonseca (1906-s.d.), entre outros (Li 2010, 148-158). Segundo Li, o primeiro jornal macaense A Abelha da China34 foi resul-tado do conflito entre os liberais e os conservadores da então administração portuguesa,35 numa altura em que Macau estava numa situação economica-mente precária e politicamente instável. Daí em diante, uma série de jornais de matriz portuguesa, geridos pela elite macaense, floresceram. (Li 2010, 145). A partir desta tradição histórica, e tendo em conta que estas atividades não constituíram fonte de vencimento para os gerentes e colaboradores, de-duzimos que estas atividades editoriais, além de serem meios de divulgação de conhecimento e de realizações da vida intelectual, servem praticamente como ferramentas mediáticas de ideologia. Como meios de propaganda, estas atividades servem para projetar a voz dos macaenses, quer quando enfrentam crises políticas quer quando precisam de defender os seus direitos identitários no território de Macau. Neste sentido, uma investigação sobre estas ativida-des editoriais poderá contribuir para desvendar as estratégias do macaen-se como mediador/tradutor e as suas medidas de consolidação identitária. Esta consideração é confirmada por Li, que também destaca a relevância do estudo das atividades editoriais para compreender a questão da identida-de dos macaenses. 澳門外報研究中會涉及許多土生葡人,因則有助於對澳門土生族羣進行民族學和人類學研究。通過對澳門土生葡人辦報的研究可以認識該族羣在澳門社會歷史發展中的作用。 (Li 2010, 4)[Os estudos sobre os jornais estrangeiros de Macau vão envolver muitos macaenses, o que contribui para os estudos étnicos e antropológicos da comunidade macaense. Através do estudo das atividades editoriais macaenses podemos conhecer o papel do macaense no desenvolvimento histórico da sociedade de Macau] (tradução nossa)34 O jornal Abelha da China publicou-se pela primeira vez em 1822 e terminou em 1824, criado pelo te-nente-coronel Paulino da Sila Barbosa e editado pelo Vigário do Convento de S. Domingos, Fr. António de S. Gonçalo de Amarante.35 Segundo Teixeira, “[f]oi uma verdadeira abelha para o partido conservador chefiado pelo Ouvidor Miguel José de Arriaga Brum da Silveira” (Teixeira, 1965/1999, 6).81
O autor compila num quadro os dados básicos das atividades editoriais em língua portuguesa, com base na obra do Padre Manuel Teixeira Imprensa Pe-riódica Portuguesa no Extremo Oriente (Teixeira 1965/1999), apresentando, assim, uma visão panorâmica e esclarecedora. No entanto, essa síntese ter-mina em 1949, porque o autor considera que a partir de 1949 as atividades da imprensa periódica de Macau entram numa nova fase, na qual os jornais chineses começam a dominar o mercado editorial (Li 2010, 19). Para o efei-to do presente estudo, que considera também cruciais as décadas de 1950 e 1960, continuamos a lista com base dos trabalhos feitos por Li e elencamos as publicações periódicas portuguesas durante as três décadas, terminando em 1965, ano de publicação da obra de referência Imprensa Periódica Portuguesa no Extremo Oriente. A tabela 1 apresenta a lista assim compilada.36 Título36 Data da pri-meira edição Data da últi-ma ediçãoGestão e edição NaturezaA Voz de Macau 1/9/1931 16/8/1947 Diretor: Henrique Nolas-co da Silva Redator principal: Rosa Duque Periódico republi-cano. A partir de 1/10/1931 passa a ser diário.O Desporto 13/11/1940 13/12/1941 Diretor: António Maria da ConceiçãoSuplemento des-portivo de A Voz de MacauRenascimento(Revista)1/1943 9/1945 Redator principal: Francisco Palmeira de Carvalho e Rêgo.Outros redatores: José Palmeira de Carvalho e Rêgo, José Maria Braga, Luís Gonzaga Gomes e Leopoldo Danilo Barreiros Revista mensalRenascimento(Jornal)19/2/1945 28/5/1947 Editor e diretor: João da Costa de Souza Macedo.Redator principal: Francisco Palmeira de Carvalho e Rêgo.Administrador: Luís Gonzaga Gomes Suplemento noti-cioso diárioRenascimento(edição inglesa)1/7/1945 --- Editor e diretor: D. J. Villa Franca.Manager: Luís Gonzaga Gomes Publicado em cada Domingo36 Os dados sobre todas as publicações até à Revista de Macau (assinalados a cinza) são disponibilizados por Li Changsen (2010, 319-321). 82MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XXTítulo36 Data da pri-meira edição Data da últi-ma ediçãoGestão e edição NaturezaMacau Herald (em inglês)21/2/1943 6/1943 Redatores: Duarte C. Baptista, M.P. dos Remédios Suplemento semanal de A Voz de Macau, para os refugiados de Hong Kong.The Macau Tribune(em inglês)11/7/1943 16/1/1945 Editoriais escritos pelo cônsul inglês John Pownall Reeves e por J. M. Braga Suplemento sema-nal, em inglês de A Voz de MacauThe Clarion(em inglês)20/6/1943 24/6/1945 Editor: Louis Pomeroy Suplemento inglês da Religião e Pátria, fundado pelos Jesuítas irlandeses. O Clarim 6/1945 Continua atualmenteFundador: Padre Manuel TeixeiraPublicação da diocese católicaUnião 1/1/1944 26/5/1945 Diretor: António Maria da ConceiçãoSemanário nacio-nalista, órgão da União Nacional em MacauEducação Física 15/8/1944 10/1945 Diretor: Henrique Nolasco da Silva (Farmacêutico).Proprietário, fundador e redator: Veríssimo Fran-cisco Xavier do Rosário Junior Boletim mensal, editado pela Escola de Educação Física RosárioIlustração Cómica 4/1945 --- Proprietário: Francisco Xavier Maria Pacheco Jorge da Silva. Editor: Armando Florên-cio de Oliveira Hagatong. Suplemento de O Clarim. Jornal de Notícias 1/5/1945 9/9/1945 Diretor: Adelino Barbosa da Conceição. Sendo A Voz de Macau o seu antecessorNotícias de Macau 25/8/1947 [1972] Proprietário: Hermann MonteiroDiretor: Cassiano Carlos de Castro FonsecaAdministrador: José Soares[Secretário-geral: Luís Gonzaga Gomes]Jornal diário, noticioso.[Sucessor de A Voz de Macau]Revista de Macau 15/6/1949 30/10/1949 Fundador e diretor: Dr. Pedro José Lobo, chefe dos Serviços Económicos. Estudos econó-micos e sociais. Quinzenal. 10 edições no total.83
Título36 Data da pri-meira edição Data da últi-ma ediçãoGestão e edição NaturezaMomento Desportivo Junho/1950 9/9/1957 Organizador: José de Carvalho e Rêgo.Editor: Fernando Augus-to Batalha da Silva Dois números únicos. Mosaico(em português, inglês e chinês) 9/1950 12/1957 Diretor e editor: Dr. José Marcos Batalha, José Neves CatelaA partir de 10/1950Diretor e editor: António Nolasco da SilvaRedator da seção chinesa: Luís Gonzaga GomesPublicação mensal trilingue, órgão e propriedade do Círculo Cultural de Macau. Macau 15/8/1953 15/3/1956 Diretor: Dr. Pedro José Lobo, chefe dos Serviços Económicos. Quinzenal. Boletim informativo.Comunidade 17/2/1962 25/5/1962 Proprietário: Eng. Humberto Fernando Rodrigues.Diretor: Dr. João dos Santos Ferreira. Diário de infor-mação, cultural, desporto, turismo e comércio. Gazeta Macaense 30/9/1963 --- Diretor: Damião RodriguesProprietário e adminis-trador: Leonel Borralho. SemanárioAurora(em chinês)1953 --- Diretor: Reitor do Seminário. Editor: Padre Domingos LamUm dos periódicos do Seminário de S. José. Publicação dos alunos de Filosofia e Teologia do Seminário.Oásis 1957 --- Diretor: Reitor do Seminário. Um dos periódicos do Seminário de S. José. Publicação dos alunos portugueses do Seminário. Tabela 1: Imprensa periódica de matriz portuguesa em Macau nas décadas de 1940, 1950 e 1960, com base na síntese feita por Li Changsen (2010)A Tabela 1 apresenta, no total, 22 publicações de matriz portuguesa que predominam no então setor de publicação. Em termos de língua de reda-ção, estas publicações apresentam um novo fenómeno que merece a nossa atenção. Para além da redação tradicional em português, algumas publica-ções de matriz portuguesa começam a ter edições em inglês (Renascimento, Macau Herald, The Macau Tribune, The Clarion e Mosaico) a partir de 1943, 84MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XXbem como em chinês (Mosaico e Aurora) a partir de 1950. A finalidade, apesar de ser funcionalmente diferente em cada caso, poderá ser entendida como uma iniciativa para atender aos refugiados de Hong Kong, manifestamente expressa pelo Padre Manuel Teixeira (1965/1999, 172), e eventualmente para atender ao público leitor chinês então radicado em Macau. Estas iniciativas inovadoras refletem uma viragem atitudinal da imprensa, apresentando mais abertura e boa vontade perante outros grupos étnicos e linguísticos. Conforme os estudos do Padre Manuel Teixeira e de Li Changsen (Tei-xeira 1999, 221; Li 2010, 157-158), com poucas exceções, são praticamente sempre membros da elite macaense que se responsabilizam pela gestão e edição destas publicações. Por outras palavras, a imprensa portuguesa em Macau é o palco em que a elite macaense desempenha o papel de mediador/tradutor. Neste palco, Gonzaga Gomes também atua dinamicamente quer como administrador ou redator, quer como colaborador, contribuindo fun-damentalmente para a valorização dos conhecimentos chineses e de Macau. Destas publicações, pretendemos destacar os quatro periódicos seguintes: 1) Revista mensal Renascimento (janeiro de 1943 – setembro de 1945); 2) Jornal bilingue Renascimento (fevereiro de 1945 – maio de 1947); 3) Jornal Notícias de Macau (agosto de 1947-197237); 4) Revista mensal trilingue Mosaico (setembro de 1950 – dezembro de 1957).2.3.2. Três referências na imprensa periódica portuguesa em MacauNotícias de Macau, Renascimento e Mosaico são, no fundo, três nomes de refe-rência na imprensa periódica portuguesa em Macau, não apenas pela longa tradição (no caso de Notícias de Macau), pelo nível académico alcançado (no caso da revista Renascimento), e pela iniciativa inovadora de publicação em três línguas (quanto a Mosaico), como também porque constituem publica-ções de matriz portuguesa que dinamizam o panorama cultural de Macau e valorizam efetivamente os conhecimentos chineses e de Macau.2.3.2.1. A revista mensal Renascimento (janeiro de 1943 – setembro de 1945) e o jornal bilingue Renascimento38 (19 de fevereiro de 1945 – 28 de maio de 1947), publicado em português e em inglêsA revista Renascimento, criada em 1943 pelo então Governo de Macau, conta com a colaboração da União Nacional. Aposta nas investigações históricas, 37 Não foi possível identificar o mês de extinção do jornal. 38 Suplemento noticioso diário. Em 1945 começa a publicar aos domingos uma edição em inglês. 85
produções literárias e em estudos científicos, entre outros, como se refere na nota de apresentação da sua reedição em 1998:Era intenção deste núcleo de homens cultos e ilustrados, a que se juntaram outros colaboradores, publicar uma revista que, além de investigações históricas e cientí-ficas, inserisse trabalhos de cunho literário, em prosa e verso, e, para amenizar os espíritos nesses dias de acesa guerra nas redondezas de Macau, alguns toques de bom humor. (Editores 1998) Esta revista, publicada até Setembro de 1945, conta com a colaboração de alguns dos maiores conhecedores da história de Macau e, segundo Li (2010, 238), dos melhores sinólogos no início do século XX: Charles Boxer (1904-2000),39 José de Carvalho e Rêgo (s.d.),40 Francisco de Carvalho e Rêgo (1898-1960),41 Jack Braga (1871-1944),42 Luís Gonzaga Gomes (1907-1976) e Leopoldo Danilo Barreiros (1910-1994).43 Os seus artigos apresentam eleva-da profundidade académica e tornam a revista uma publicação de referência. Devido ao seu valor histórico para os estudos de Macau, a Revista Renasci-mento foi editada, em seis volumes, em 1988, pela Fundação Macau e outras entidades colaboradoras. Enquanto colaborador, Gonzaga Gomes contribui com muitos artigos sobre a China e Macau para Renascimento, os quais são depois reunidos e publicados na Colecção de Notícias de Macau, tal como é referido pelo Padre Manuel Teixeira: Luís Gonzaga Gomes publicou variados artigos em todos os números [de Re-nascimento], muitos dos quais foram republicados em folhetins no «Notícias de Macau», formando os vols. IV, VII, VIII e X da «Colecção Notícias de Macau», respectivamente, sob os títulos de «Contos Chineses», «Chinesices», «Festivida-des Chinesas» e «Arte Chinesa». (Teixeira 1965/1999, 168)2.3.2.2. Jornal Notícias de Macau (1947-1972) e edição semanal ilustrada do Noticias de Macau (1947-1972)É o sucessor de A Voz de Macau (1931-1947), uma publicação de renome no território. Segundo o Padre Manuel Teixeira, a existência de 18 anos do 39 Historiador britânico, notável conhecedor da história colonial portuguesa e holandesa.40 Juiz, procurador, advogado e jornalista.41 Professor, dinâmico na vida cultural de Macau nas décadas de 1920 a 1950. 42 Investigador da história dos portugueses em Macau e no extremo-oriente.43 Especialista nos estudos sobre Wenceslau de Moraes e Camilo Pessanha e sobre outros temas extre-mo-orientais relacionados com Macau e a China.86MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX Notícias de Macau bate o recorde sobre todos os diários editados no território até à publicação do seu livro Imprensa Periódica Portuguesa no Extremo Oriente (Teixeira 1965, 189). Teixeira aponta ainda o objetivo deste órgão noticioso: [O] «Notícias de Macau» propôs-se servir os interesses portugueses, levando ao conhecimento de todos o grau de progresso de Macau, colaborar com a Admi-nistração desta Província, frisar todos os esforços louváveis, registar tudo o que de bom aqui se faz e ser um documentário das diversas actividades que tendem a prestigiar o nome português. (Teixeira 1965/1999, 189) Esta leitura de Teixeira destaca a relevância do Notícia de Macau na impren-sa portuguesa de Macau e na projeção dos interesses portugueses. Além de contribuir com muitos artigos para Notícias de Macau, tanto na versão diária como na semanal ilustrada, Luís Gonzaga Gomes também promoveu a pu-blicação duma série de obras pela Colecção de Notícias de Macau enquanto editora, durante o seu mandato na década de 1960 como secretário-geral de Notícias de Macau. Esta iniciativa é assinalada por Teixeira. Pela primeira vez na história do jornalismo macaense, tem sido publicados pelo «Notícias de Macau» em folhetins e depois em separatas obras de grande valor; es-tas edições são da iniciativa de Luís Gonzaga Gomes, que assim vem contribuindo no mais alto grau para disseminar a cultura portuguesa. (Teixeira 1965/1999, 191) Esta Colecção de Notícias de Macau, como um projeto significativo e fun-damental para o estudo das publicações em meados do século XX, merece ser tratada em separado, pelo que será abordada no Capítulo 4, secção 4.4.2.3.2.3. Revista mensal trilingue Mosaico (setembro de 1950 – dezembro de 1957), publicada em português, chinês e inglêsCriada como revista do Círculo Cultural de Macau, Mosaico é a única revista trilingue na história de Macau. O chinês aparece, pela primeira vez, nas pu-blicações de matriz portuguesa. Fundado em 1950, o Círculo Cultural de Macau é uma associação cultural de raiz portuguesa, com sede em Macau. Gonzaga Gomes é um dos membros fundadores desta associação e também um dos sócios da revista. Segundo a crítica da altura, as iniciativas do Círculo Cultural de Macau são valorizadas no seio cultural de Macau, como revelado num artigo intitulado “o Círculo de Cultura Musical”, publicado no jornal Notícias de Macau: 87
[T]eve o Círculo Cultural de Macau, nos primórdios da sua existência, uma acção digna dos maiores encómios. Organizaram-se assim vários e interessan-tes concertos, acompanhados de palestras; conferências literárias, programas radiofónicos de carácter cultural, exposições de arte fotográfica e de pintura; e editou-se uma revista, a “Mosaico”, que ainda hoje se publica, com grande apre-ço dos meios cultos, como se verifica pelas elogiosas referências que lhe têm sido tributadas, em publicações nacionais e estrangeiras. (O Círculo de Cultura Musical 1952, 9) Como editor da secção chinesa da revista, Gonzaga Gomes formula, em chinês, o objetivo duplo que preside à fundação da revista, no prefácio da primeira edição de Mosaico: “a revista, publicada em chinês, português e inglês, visa, por um lado, deixar-nos melhor conhecer a literatura cultura da pátria e, por outro lado, permitir o desenvolvimento de investigação e de estudos aprofundados das literaturas estrangeiras” (tradução nossa). No último volume de Mosaico (XVII n.º 86-88 out. a dez. 1957), Luís Gonzaga Gomes, no seu artigo “No Fim duma Longa Jornada”, reitera o contributo da Revista no sentido de “animar a vida espiritual desta cidade [Macau]”( tradução nossa).Em síntese, uma boa parte dos estudos chineses nestas quatro publi-cações periódicas, jornais e revistas, de matriz portuguesa aponta para uma pessoa – Luís Gonzaga Gomes, que contribui com uma considerá-vel quantidade de ensaios, artigos e traduções sobre a China e Macau, e intervém também através da colaboração e da participação nas ativi-dades editoriais. É de realçar que as iniciativas de Gonzaga Gomes, tão organizadas e direcionadas, não resultam de situações espontâneas ou improvisadas, nem simplesmente de gostos pessoais, mas espelham uma estratégia coletiva consciente. No contexto difícil das três décadas em apreço, Gonzaga Gomes assume um papel histórico de mediador/tra-dutor, partilhando conhecimentos sobre as duas culturas e sociedades, cumprindo a sua missão como “filho da terra” e consolidando assim a sua própria identidade. É também por esta razão que Luís Gonzaga Gomes se torna uma figura incontornável para os investigadores que estudam a comunidade macaense do século XX.2.4. NOTAS CONCLUSIVASA partir da análise das principais etapas de desenvolvimento da identidade macaense, constatamos que, as décadas de 1940 a 1970, como período de vi-ragem da história de Macau e viragem identitária dos macaenses, colocam 88MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XXdesafios a esta comunidade. A crise de confiança da comunidade macaense, tanto resultante da tensão étnica com os chineses como do sentimento de “abandono” pela administração portuguesa acentua os sentimentos de in-certeza da ambiguidade identitária, o que resulta numa vaga de emigração macaense para outras paragens, tais como os Estados Unidos da América, Canadá, Austrália, Brasil e Portugal.44 Os que permanecem em Macau co-meçam a adaptar-se à realidade e a refletir, de novo, sobre a sua identidade, sob a liderança da elite macaense. As atividades editoriais da elite macaense apresentam, de certa forma, as suas reações ideológicas no âmbito cultural e social, estabelecendo, no fundo, um diálogo entre os diferentes grupos étnicos. As atividades editoriais, iniciadas e apoiadas pela elite macaense, acabam por ser uma das iniciativas estratégicas para o macaense voltar a desempenhar o papel mediador, a remediar as relações entre os dois polos da “portugalidade” e das “chinesices”. Entre os dois poderes, a elite macaense, apesar de preferir identificar--se com a “portugalidade”, começa a mudar de atitude de forma conscien-te, dedicando-se a conhecer e estudar as “chinesices”. Os conhecimentos sobre a China e Macau são introduzidos nas obras macaenses acerca dos costumes, tradições, hábitos, cultura e história. Contudo, estas publicações não são simplesmente iniciativas académicas, pois devem também ser en-tendidas enquanto intervenções ideológicas da elite macaense, com uma finalidade conciliadora, numa tentativa de legitimar e consolidar a sua identidade, especialmente num quadro de falta de equilíbrio dos poderes português e chinês, que se reflete em diversos incidentes políticos em mea-dos do século XX. A reflexão sobre a identidade macaense torna-se gradualmente uma questão essencial em resultado da intervenção da elite macaense. A sua formulação e desenvolvimento passa a ser uma iniciativa etnicamente au-toconsciente já na geração controlante.[A] formulação da identidade macaense em termos auto-conscientemente étni-cos é algo de relativamente recente e está ligada à alteração que se verificou no projecto étnico no decorrer do período pós-colonial, durante o qual o capital de comunicação interétnica se tornou mais valioso. A formulação da identidade ma-caense enquanto uma categoria explicitamente étnica é uma inovação da geração controlante que a geração emergente adopta e desenvolve. (Cabral e Lourenço 1993, 112)44 Os refugiados macaenses de Hong Kong e de Xangai na Guerra do Pacífico optaram por voltarem a Hong Kong e Xangai. 89
Esta “inovação” forma-se em consequência da atividade editorial macaense e da reflexão que assim lança sobre as questões identitárias. Com as iniciativas editoriais, a elite macaense pretende reivindicar a sua identidade, adotando uma atitude flexível e conciliadora que lhe permite ultrapassar crises étnicas e consequentemente recuperar da crise de confiança.90MACAU E A IDENTIDADE MACAENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX
3. luís gonzaga gomEs: vIda E obra
Luís Gomes, sozinho, representa uma fase da história cultural de Macau: por ele próprio e pelo que conseguiu realizar. – Túlio Lopes Tomás45. (Tomás 1987, 27).Como uma figura macaense incontornável no âmbito da história e da cultura em Macau no século XX, especialmente no diálogo intercultural luso-chi-nês, Luís Gonzaga Gomes é alma do presente estudo. Este capítulo dedica-se exclusivamente à apresentação da biografia de Luís Gonzaga Gomes bem como das suas publicações. Tem o objetivo de apresentar um mapeamento explícito da sua vida e dos seus contributos, antes de desenvolver uma análise de questões identitárias da sua obra, uma vez que entendemos serem tais in-formações muito relevantes para desenvolver um estudo sobre a identidade e sobre o seu perfil enquanto divulgador e tradutor de culturas. Para além disso, apesar de ser amplamente afirmada a centralidade de Luís Gonzaga Gomes para a vida cultural de Macau, as publicações anteriores fazem um mapeamento incompleto das suas publicações. Considerando a relevância desta figura macaense em meados do século XX de Macau, entendemos per-tinente proceder a um levantamento mais exaustivo.3.1. BIOGRAFIA SUMÁRIA DE LUÍS GONZAGA GOMESLuís Gonzaga Gomes (11 de julho de 1907 - 20 de março de 1976), conhecido por Inho Gomes por amigos e familiares, é um influente historiador, tradutor, educador, sinólogo, musicólogo e professor primário e secundário macaense. Vive em Macau e faz poucas viagens fora de Macau46. Deixa um vasto leque 45 Túlio Lopes Tomás foi reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique de Macau (1972-1975) e Dire-tor dos Serviços de Educação (1972-1979).46 Há duas visitas a assinalar: uma a Lisboa em 1951 como chefe da delegação dos jornalistas ultramari-nos e uma outra à China em 1959 (Teixeira 1986, 476)
de obras, de estudos e traduções, escreve para mais de vinte jornais macaen-ses e internacionais e participa em diversos círculos culturais e musicais de Macau. Dedicado e autodidata, é frequentemente referido como uma figura in-discutivelmente incontornável no âmbito da história e da cultura em Ma-cau no século XX, especialmente no diálogo intercultural luso-chinês. Nas palavras do Padre Manuel Teixeira (1912 - 2003),47 Luís Gonzaga Gomes é o melhor e o mais prolífero historiador macaense nos últimos quatrocentos anos de vida de Macau (Teixeira 1986, 466). Conforme António Aresta,48 Gonzaga Gomes insere-se numa tradição multissecular de estudos sinólo-gos (Aresta 1997, 1535) e, para Celina Veiga de Oliveira,49 ele é “um homem identificado com os interesses superiores e os destinos da sua terra” (Oliveira 1996, 378). Ninélio Barreira50 comenta, na dedicatória na folha de rosto de Ou Mun: Coisas e Tipos de Macau (Barreira 1994), que Luís Gonzaga Gomes, como seu professor, o “ajudou a compreender e a decifrar alguns enigmas da pragmática chinesa” (Barreira 1994, 5), enquanto Jorge Rangel51 o elogia como “o maior promotor do intercâmbio cultural luso-chinês” (Rangel 2007, 5) por ocasião do Centenário de Luís Gonzaga Gomes. No seio dos amigos, Luís Gonzaga Gomes é visto como “um homem con-centrado” e “de poucas palavras”, mas “observador finíssimo”, sendo “um expoente autêntico da cultura de raiz macaense” (Tomás 1995, 119). Para Joaquim Morais Alves,52 com quem priva de perto, é “uma pessoa algo in-trovertida, homem de poucas palavras, procurando apagar-se e não dar nas vistas”, mas mostra sempre qualidades de “trabalhador incansável, de pessoa muito recolhida sobre si própria, sempre agarrado aos livros, esforçando-se por aumentar o seu saber e registar memórias da vida e da História de Ma-cau” (Alves 1994, 5). Jorge Rangel conclui que “a sua modéstia e a sua solidão são, de facto, os traços mais visíveis da sua personalidade, contrastando com o reconhecido valor da sua obra” (Rangel 2007, 18).Solteiro, Luís Gonzaga Gomes dedica-se empenhadamente à sua paixão 47 Famoso historiador português de Macau e sacerdote católico que vive grande parte da sua vida em Macau e dá contributos significativos para as áreas de missionação, de educação e do estudo da história de Macau.48 António Aresta, licenciado e mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Formador e professor, com comissões de serviço em Macau (entre 1987 e 1998) e em Moçambique (entre 2002 e 2007). É autor de uma extensa bibliografia nas áreas da filosofia e da história da educação e da cultura de Macau. Professor do Liceu de Macau quando estava em Macau. 49 Historiadora de Macau. 50 Jornalista que ingressou posteriormente na carreira radiofónica a convite de Luís Gonzaga Gomes. 51 Ex-secretário para a administração, educação e juventude e atual presidente do Instituto Internacio-nal de Macau (1999 – agora)52 Presidente do antigo Leal Senado de Macau durante os anos de 1966 a 1974. LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA94
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRApela escrita e pela música. Diligente e trabalhador, trabalha sempre até às duas ou três horas da manhã, nas recordações do Padre Manuel Teixeira, deixando assim largas dezenas de estudos sobre a cultura chinesa, a cultura e história de Macau e diversas obras de tradução, arquivando também docu-mentos históricos de Macau e sobre Macau. No entanto, as suas qualidades fazem dele um homem “tão modesto que se escondia no pó dos arquivos, sendo raro vê-lo em qualquer festa ou divertimento. Era um verdadeiro ana-coreta” (Teixeira 1986, 474). No artigo “Como Vi Luís Gonzaga Gomes”, Túlio Tomás comenta: [Luís Gonzaga Gomes] não fazia alarde da sua obra nem dos seus trabalhos nos lugares que ocupava: satisfazia-se com a consciência de ter feito algo de útil aos outros. Nunca o senti movido de prémio vil, nem era frequentador de meios onde se fizessem ou desfizessem reputações. (Tomás 1995, 119)A sua personalidade vem ajudar a perceber a sua atitude estoica e de indife-rença perante as “invejas mesquinhas” (Alves 1994, 6), que existem à sua vol-ta e que são mencionadas por seu amigo Joaquim Morais Alves no prefácio de Chinesices (Gomes 1952). Sendo poliglota, tem um conhecimento variável de diferentes línguas, que incluem, para além do português, o inglês, o francês, o castelhano, o italiano e o chinês. Luís Gonzaga Gomes contacta e mantém correspondência com eruditos, bibliotecários, escritores e historiadores de todo o mundo e con-vida-os para participar em atividades académicas, culturais e artísticas em Macau, assim contribuindo para a disseminação da imagem de Macau pelo mundo. Nas recordações de Túlio Tomás, é frequente Luís Gonzaga Gomes convidar artistas e amigos para uma ceia preparada no alto do edifício Sir Robert Ho Tung,53 para um convívio informal depois de atuações de artistas, a fim de que os artistas de diferentes origens pudessem conviver usando a própria língua deles. 3.1.1. Enquadramento familiarLuís Gonzaga Gomes nasce na freguesia de São Lourenço de Macau, filho de Joaquim Francisco Xavier Gomes e Sara Carolina da Encarnação, sendo o pai diretor da Escola Primária Central do Sexo Masculino e a mãe diretora da Escola Primária Central do Sexo Feminino. Crescendo no seio de uma fa-mília “culta e informada, economicamente desafogada, com gostos musicais 53 Actual Biblioteca Sir Robert Ho Tung, situada no largo de Santo Agostinho, na freguesia de S. Lou-renço, na península de Macau.95
e artísticos requintados a que não falta a paixão pelo mobiliário e pela por-celana chinesas” (Aresta 2001, 1535), desde cedo terá sido influenciado por este ambiente familiar inclusivamente a ponto de determinar a escolha da sua carreira profissional.Macaense de gema, integra a sexta geração de macaenses (Forjaz 1996, 41), tendo a sua avó paterna Prudência Maria dos Remédios, nascido numa família chinesa convertida ao cristianismo (Forjaz 1996, 123-124).54 Estuda no Liceu de Macau com professores como Camilo de Almeida Pessanha (1867-1926), José da Costa Nunes (1880-1976), Manuel da Silva Mendes (1876-1931) entre outros intelectuais de destaque em Macau. Aos 14 anos tem a sua primeira publicação sobre Benjamim Franklin no jornal dos alunos - A Academia - fundado a 5 de outubro de 1920 por Pedro Correia da Silva (Paço d'Arcos). Influenciado pela irmã, Maria Margarida Gomes (1902-1996), que estuda música, canto e bailado nos Estados Unidos da América, Luís Gonzaga Go-mes aprende violino desde pequeno e assim mantém uma ligação melómana por toda a vida. Adquire conhecimentos de teoria musical, solfejo e história da música através de cursos por correspondência ministrados pela Escola Universal de Paris (Sena 2010, 634). O bom ambiente de educação familiar terá fomentado igualmente o seu gosto requintado. É amante, conhecedor e colecionador de obras de arte chi-nesa, tal como se vislumbra nas suas publicações sobre o mobiliário, a porce-lana e a escultura chineses. Vende boa parte da sua coleção a um estrangeiro, enquanto a irmã, Maria Margarida Gomes, como herdeira, doa algumas das suas coleções (móveis chineses, loiças e quadros) da moradia em Macau à Universidade Católica Portuguesa. Estas coleções encontram-se hoje paten-tes na Reitoria daquela universidade, em Lisboa, no canto designado “Gale-ria Macau”. Os hábitos culturais e literários de Luís Gonzaga Gomes também fazem dele um colecionador de livros, pois possui milhares de volumes, incluindo seiscentas obras chinesas, e organiza uma biblioteca preciosa. Depois da sua morte, o Governo de Macau adquire este valioso acervo e integra-o no Ar-quivo Histórico de Macau, a fim de facilitar o trabalho de futuros investiga-dores. No entanto, até à data de publicação deste trabalho, não foi possível encontrar esta coleção no Arquivo Histórico de Macau.55 54 O avô de Prudência Maria dos Remédios, António dos Remédios, foi chinês convertido ao cristianis-mo. 55 Durante dois anos de redação da presente tese em 2016 e 2017, as sucessivas tentativas de aceder a este acervo no Arquivo Histórico de Macau não conseguiram resultados. LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA96
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA3.1.2. Formação como intérprete-tradutorConcluído o curso liceal, Luís Gonzaga Gomes começa a estudar e traba-lhar numa formação sistemática e rigorosa em estudos chineses na Escola de Língua Sínica anexa à Repartição do Expediente Sínico de Macau, du-rante oito anos, entre 1925 e 1933. Finda a formação na Repartição Técnica do Expediente Sínico em 1933, chega a ser intérprete-tradutor de 1.ª classe (tradutor-intérprete principal). Na Escola de Língua Sínica, estuda, para além de cantonês, chinês clássico, obras clássicas, confucionismo, Geografia, História, etiqueta e costumes chi-neses, uma vez que o objetivo da Escola é proporcionar uma formação abran-gente de tradutores-intérpretes, habilitando-os para servir a administração pública, a diplomacia e o Governador, nomeadamente a legação de Portugal em Pequim e os consulados portugueses de Cantão e Xangai.56 O Programa de Intérprete-tradutor anexo ao Regulamento da Repartição do Expediente Sínico de Macau em 1914 (vide Anexo I) esboça este percurso de oito anos de aprendizagem de chinês, que se divide em dois cursos: o curso de 2.a classe, com a duração de cinco anos (nível limiar) e o curso de 1.a classe, com a dura-ção de três anos (nível avançado). Cada curso tem uma parte oral e uma parte escrita. A diferença reside, principalmente, na parte oral, em que o curso de 2.a classe exige a aprendizagem do dialeto cantonense, enquanto o curso de 1.a classe inclui adicionalmente o estudo do dialeto pequinense. Cada curso envolve ainda o trabalho com diversos manuais que acompanham os estudos dos alunos intérpretes-tradutores. Os manuais que Luís Gonzaga Gomes utiliza durante oito anos de estudo exercem sistemática e precisamente uma forte influência na perceção da cultura e da história da China e de Macau. Por este motivo, considera-se relevante incluir neste trabalho científico a lis-ta dos manuais, por nós organizada, a partir dos manuais para o programa do curso de intérprete-tradutor em 1914 que se disponibiliza na Tabela 2. 56 Art. 2°. do Capítulo I do Regulamento da Repartição do Expediente Sínico de Macau, do Decreto n°.1:118 de 30 de Novembro de 1914, do então Ministério das Colónias de Portugal. 97
5757 Tradução disponibilizada no próprio programa. Classe Ano Manuais2.a classe1.° ano 1. Língua falada (dialeto cantonense)a) How to Speak Cantonese (James Dyer Ball, 1902) 2. Língua escritab) Gramática Chinesa Ensinada por Meio de Exemplos (Pedro Nolasco da Silva, 1886)c) San-Tok-Pun (volume 1, 2 e 3) (novo método de leitura)57 d) Knok-Man-Kau-Fo-Su (volume 1, 2 e 3) (livro para o ensino da literature nacional)583. Estudos acessóriose) Comprehensive Geography of the Chinese Empire, Secções 1,2,3 e 4 (Martin Kennelly, 1908)2.° ano1. Língua falada (dialeto cantonense)a) Reading in Cantonese Colloquial (James Dyer Ball, 1894)2. Língua escritab) Gramática Chinesa Ensinada por Meio de Exemplos (Pedro Nolasco da Silva, 1886)c) San-Tok-Pun (volume 1, 4 5 e 6) (novo método de leitura) ou Knok-Man-Kau-Fo-Su (volume 4, 5 e 6) (livro para o ensino da literature nacional) 3. Estudos acessóriosd) Comprehensive Geography of the Chinese Empire, Secções 5, livro 2 (Martin Ken-nelly, 1908)3.° ano 1. Língua falada (dialeto cantonense)a) Ku-Su-Lok-Cheng [tradução de Aventuras de Robinson Crusoe em chinês]2. Língua escritab) Gramática Chinesa Ensinada por Meio de Exemplos (Pedro Nolasco da Silva, 1886)c) San-Tok-Pun (volume 5 e 6) (novo método de leitura) ou Knok-Man-Kau-Fo-Su (volume 5 e 6) (livro para o ensino da literature nacional)3. Estudos acessóriosd) A Sketch of Chinese History (Francis L. Hawks Pott, 1904)4.° ano1. Língua falada (dialeto cantonense)2. Língua escritaa) Sang-Yu-Kuang-Hsun (Amplificação do Santo Decreto, do Imperador chinês Yung Zheng da Dinastia Qing) (traduzido por Pedro Nolasco da Silva, 1903)b) Kung-Han-I-Iau, translation of important letters (W. G. Lay, s.d.)3. Estudos acessóriosc) Ways That Are Dark or Some Chapters on Chinese Etiquette and Social Procedure (W. Gilbert Walshe, 1906)5.° ano 1. Língua falada (dialeto cantonense)2. Língua escritaa) Documentary Series, 1,2,3 e 4 Parts (Sir Thomas F. Wade, 1867)b) Hsin-Kuan-Wen-Chien-Lu, First Book of Documentary Chinese (Friedrich Hirth, 1885)3. Estudos acessóriosc) The Chinese Government (William F. Mayers, 1897)LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA98
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRATabela 2:58Bibliografia de apoio ao Programa do Curso de Intérprete-Tradutor, elaborada a partir do anexo ao Regulamento da Repartição do Expediente Sínico de Macau em 19145958 O nome completo da obra é The Middle Kingdom; A Survey of the Geography, Government, Education, Social Life, Arts, Religion & C. of the Chinese Empire and Its Inhabitants. 59 Nesta tabela, corrigem-se algumas gralhas do texto original e acrescentam-se as datas das obras referidas. Classe Ano Manuais1.a classe 1.° ano 1. Língua falada (dialeto pequinense)a) The Chinese Language and How to Learn It, vols.1 e 2 (Sir Walter Hilier, 1907) 2. Língua escritab) Choix des Documents, Textes Chinois avec Traduction en Français et Latin (traduzido por Séraphin Couvreur, 1898)c) Tratado Anglo-Chinês de Nanking, de 1842d) Tratado Anglo-Chinês de Tien-Tsin, de 1858e) Convenção de Paz Anglo-Chinesa de Pequim, de 1860f) Tratado Franco-Chinês, de 16443. Estudos acessóriosg) The Chinese Readers Manual, a Hand-book of Biographical, Historical, Mytological and General Literary Reference (William F. Mayers, 1874)h) The Trade and Administration of the Chinese Empire (Hosea B. Morse, 1908)2.° ano1. Língua falada (dialeto pequinense)a) Kuan-Hua-Chi-Nan (Bussole du Langage Mandarin) (traduzido e anotado por Henri Boucher, 1887)b) The Sacred Edict, with a Translation of the Colloquial Rendering (traduzido por Frederick W. Baller, 1892)2. Língua escritac) Oeuvres de Meg-tzeu, livros de I a VII da obra intitulada Lec Quatre Livres, avec Commentaire Abregé en Chinois avec une Double Traduction en Français et Latin (tra-duzido e anotado por Séraphin Couvreur, 1895)d) Tratado Anglo-Chinês de Tien-Tsin, de 1858e) Convenção de Paz Anglo-Chinesa de Pequim, de 1860f) Protocolo de 1901 entre a China e as Potências, de 1901g) Tratado Comercial Anglo-Chinês, de 1902h) Tratado Luso-Chinês, de 18873. Estudos acessóriosi) History of Chinese Literature (Herbert A. Giles, 1901)3.° ano 1. Língua falada (dialeto pequinense)a) T’na-Lun-Hsin-P’ien (Chats in Chinese) (Charels H. B. Taylor, 1901)b) Kuan-Yu-Pi-Ching-le-Chi-Ch’ing (Yei-Tsugu-Hara, s. d.) 2. Língua escritac) Lu-iu ou Entretieus de Confucius, livros I a X da obra intitulada Lec Quatre Livres, avec Commentaire Abregé en Chinois avec une Double Traduction en Français et Latin (traduzido e anotado por Séraphin Couvreur, 1895)3. Estudos acessóriosd) Hand-Book of Etiquette in Chinese Official Intercourse, (traduzido por Chares. H. B. Taylor, 1912)e) Histoire des relations de la Chine avec les puissances occidentales,1860-92 (Henri Cordier, 1901)f) Middle Kingdom 59 (Samuel W. William, 1848)99
Passando ao comentário deste elenco, a maioria dos manuais é escrita, elabo-rada ou traduzida pelos missionários sinólogos de prestígio na altura, como Martin Kenelly (irlandês, 1859-?), James Dyer Ball (britânico, 1847-1919), Sir Thomas F. Wade (britânico, 1818-1895), Friedrich Hirth (alemão-america-no, 1845-1927), Sir Walter Hillier (britânico, 1849-1927), William F. Mayers (americano, 1831-1878), Hosea B. Morse (americano, 1855-1934), Frederick W. Baller (britânico, 1852-1922), Herbert A. Giles (britânico, 1845-1935), Charles. H. B. Taylor (britânico, 1857-1938), Séraphin Couvreur (francês, 1835-1919), Henri Cordier (francês, 1849-1925) e Samuel W. Williams (ame-ricano, 1812-1884). Para além dos manuais, a bibliografia integra ainda duas traduções francesas de clássicos chineses, assinadas por Séraphin Couvreur, reputado sinólogo, jesuíta francês que exercia missão na China, nomeada-mente Oeuvres de Meg-tzeu, livros de I a VII da obra intitulada Lec Quatre Livres, avec Commentaire Abregé en Chinois avec une Double Traduction en Français et Latin bem como Lu-iu ou Entretieus de Confucius, livros I a X da obra intitulada Les Quatre Livres, avec Commentaire Abregé en Chinois avec une Double Traduction en Français et Latin. Neste contexto, torna-se patente a exigência do Programa do Curso de Intérprete-Tradutor (1914), quer em termos dos conhecimentos da história, literatura, filosofia e cultura chinesas quer em termos da competência linguística. Para além da aprendizagem dos dialetos cantonense e pequinense, os alunos têm de dominar o inglês, o fran-cês e o português, pois são línguas da bibliografia referida, sendo o português a língua veicular do ensino. Constata-se que os manuais que a Escola de Língua Sínica seleciona têm como objetivo, além de ensinar de modo exigente a língua chinesa, levar os intérpretes-tradutores a conhecer e interiorizar os princípios e os valores éticos e sociais chineses. Não é difícil imaginar a rigidez das exigências lin-guísticas e culturais impostas aos intérpretes-tradutores. O próprio Gonzaga Gomes, durante os anos de formação na Escola Sínica (1925-1933), por pou-co não reprova no exame de chinês oral e escrito no último ano de estudo. No entanto, este episódio não o impede de continuar a estudar e de se dedicar à tradução e à publicação de obra própria, tendentes à divulgação da cultura, arte e história chinesas e macaenses. 3.1.3. Carreira profissional e cargos sociaisImporta referir que, apesar de ter concluído em 1933 uma exigente formação como intérprete-tradutor, Luís Gonzaga Gomes não escolhe tal profissão, tendo optado pela carreira docente, como os seus pais (Aresta 2001, 1538). É, durante duas décadas, professor e diretor da secção masculina da Esco-LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA100
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRAla Central (Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva) e duas vezes inspetor substituto do Ensino Primário.60 É ainda diretor da Emissora de Radiodifusão de Macau, fundada em 1962 e emitindo para todo o território de Macau, conservador do Museu Luís de Camões,61 criado em 1926 e loca-lizado na Casa Garden,62 diretor da coletânea documental Arquivos de Ma-cau (1964-1976) e diretor-bibliotecário da Biblioteca Nacional de Macau63 (1966-1976),64 entre outros cargos governamentais. 3.1.4. Principais testemunhosApesar de Luís Gonzaga Gomes não ter escolhido a profissão de tradutor e intérprete, a exigente formação na Escola da Repartição do Expediente Sí-nico em muito contribui para aprofundar o seu conhecimento sobre a língua e cultura chinesas e macaenses. O seu interesse pelos temas estudados terá estado na origem da tradução de várias obras e ainda da publicação de mui-tos estudos sobre a cultura, a arte e a história da China e de Macau. Sendo conhecido como professor, escritor, historiador, educador e até musicólogo, não é conhecido, quer durante a sua vida quer dezenas de anos depois da sua morte, como tradutor. No entanto, o seu papel como divulgador de culturas e como tradutor, só posteriormente reivindicado, é actualmente reconheci-do por investigadores.De seguida, passamos a apresentar uma seleção de testemunhos sobre a vida e obra de Luís Gonzaga Gomes, recorrendo a comentários de figuras suas contemporâneas e de académicos dedicados ao estudo da história, cul-tura e sociedade macaenses. Entre os vários testemunhos e estudos que pode-riam ser citados a este propósito (Teixeira 1986, Tomás 1995, Oliveira 1996, Aresta 1997, Batalha 2007, Rangel 2007, Paiva 2008, Li 2010, Sérgio 2012) destacamos a visão dos seguintes: Padre Manuel Teixeira (1912-2003),65 Gra-ciete Nogueira Batalha (1925-1992)66 e António Aresta (1955-).67 A escolha 60 A Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva foi extinta em 1997 (Decreto-lei n.º 24/97/M de 16 de Junho).61 Após a morte de Gonzaga Gomes, ficou fechado. Foi reaberto e voltou a fechar em 1989, sendo o seu espólio a integrar no acervo do Museu de Arte de Macau, inaugurado em 1999.62 Foi vendida em 1989 à Fundação Oriente. 63 Atual Biblioteca Central de Macau64 Por Decreto n.º46845, publicado no Boletim Oficial de Macau n.º 7 de 12 de Fevereiro de 1966, Luís Gonzaga Gomes foi promovido a título definitivo no cargo. Nomeação por Paços do Governo da República, 27 de Janeiro de 1966. 65 Famoso historiador português de Macau e sacerdote católico que vive grande parte da sua vida em Macau e dá contributos significativos para as áreas de missionação, de educação e do estudo da história de Macau.66 Professora portuguesa que chegou a Macau em 1949 e é uma das personalidades mais marcantes no panorama da cultura contemporânea de Macau.67 Como referido anteriormente, António Aresta é licenciado e mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, formador e professor, com comissões de serviço em Macau (entre 1987 101
destas personalidades deve-se ao facto de serem particularmente influentes e, para além disso, representativas dos principais pontos de vista sobre a vida e obra de Luís Gonzaga Gomes. 3.1.4.1. Padre Manuel Teixeira: falhas e erros gramaticaisNo texto “À Memória de Luís Gonzaga Gomes” (Teixeira 1986, 466-481), apesar de lhe reconhecer várias áreas de intervenção, referindo-o como professor, arquivista, homem de diálogo cultural luso-chinês, historiador e musicólogo, o Padre Manuel Teixeira não refere Luís Gonzaga Gomes como tradutor ou sinólogo, apontando, numa secção intitulada “sombras”, que: Com dois anos de estudo no Expediente Sínico, não se pode chamar um verda-deiro sinólogo [...] as versões e retroversões luso-chinesas de Luís Gomes apre-sentam vários deslizes [...] O mesmo se diga dos seus livros, em que surgem aqui e além alguns lapsos de gramática. (Teixeira 1986, 475)Lendo a afirmação do Padre Manuel Teixeira à luz do plano de estudos do Expediente Sínico, acima apresentado, depressa se conclui que “os dois anos de estudo no Expediente Sínico” referidos não correspondem à formação de Gonzaga Gomes, que, pelo contrário, tem a duração total de oito anos, dos quais os primeiros cinco são dedicados ao estudo do dialeto cantonense para ser intérprete-tradutor de 2.ª classe e os últimos três ao estudo do dialeto pequinense para ser intérprete-tradutor de 1.ª classe.Relativamente ao número de volumes dos Arquivos de Macau que Luís Gonzaga Gomes publica, o Padre Manuel Teixeira comete outro erro: Nos 12 volumes dos Arquivos que [Luís Gonzaga Gomes] publicou, há várias fa-lhas e nomes estropiados; nem se pode chamar uma edição crítica, pois que lhe faltam as notas, que ele, como a sua competência, nos poderia dar, mas que lhe tirariam mais do dobro do tempo. (Teixeira 1986, 475). No entanto, afirma, um pouco antes, numa das secções intitulada “Arquivis-ta” do seu artigo, que “[Luís Gonzaga Gomes] nos deixa vinte e quatro volu-mes, aparecendo cada número com uma regularidade nunca interrompida” (Teixeira 1986, 470). Existe uma discrepância de número de volumes que re-fere, ora 12, ora 24 (o número verdadeiro), no mesmo texto. Além disso, a sua e 1998) e em Moçambique (entre 2002 e 2007). É autor de uma extensa bibliografia nas áreas da filosofia e da história da educação e da cultura de Macau. É ainda professor do Liceu de Macau quando estava em Macau. LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA102
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRAatitude avaliativa do trabalho de Gonzaga Gomes, parece algo contraditória: por um lado, parece tentar fazer uma avaliação sistemática e equilibrada, re-conhecendo o contributo de Luís Gonzaga Gomes para o diálogo cultural luso-chinês, por outro lado, limita-se a dizer que este trabalha “vertendo” (Teixeira 1986, 472) para chinês Os Lusíadas Contados às Crianças e Lembrados ao Povo (Barros 1972) e publicando um resumo de P'ou Kuók Si-Leok (Histó-ria de Portugal em Chinês, em colaboração com Tcheong Iek Tchi)68 (Gomes 1955).Numa entrevista ao Padre Manuel Teixeira, anexa ao artigo de Luís Or-tet, em homenagem de Luís Gonzaga Gomes, publicado na Revista Nam Vam em 1984, oito anos após a sua morte, podemos testemunhar uma apreciação menos positiva. Desta vez, levanta outras questões, nomeadamente relacio-nadas com os conhecimentos de português de Luís Gonzaga Gomes:Como ele [Luís Gonzaga Gomes] viveu sempre em Macau e não fez os estudos em Portugal, dava erros gramaticais. O que prejudicou muito a obra dele. Se ele tivesse a humildade de entregar qualquer livro que escrevesse a uma pessoa que soubesse bem português… mas não teve. De maneira que saíram vários erros gra-maticais; Tenho citado muitas vezes a obra dele mas tenho de corrigir a gramáti-ca. (Ortet 1984, 39)Ele [Luís Gonzaga Gomes] trabalhou muito, mas devia ter-se concentrado num assunto. Mas, ainda que não fosse encarregado oficialmente, podia ter trabalhado sobre a história de Macau e seguir esse trabalho até ao fim. Mas não o fez. O único livro original que ele escreveu foi Páginas de História de Macau. (Ortet 1984, 40)Os comentários do Padre Manuel Teixeira sugerem que Gonzaga Gomes não é proficiente em português nem é um historiador dedicado. É provável que devido a este preconceito o Padre Manuel Teixeira simplifique a catego-rização de obras publicadas por ele em apenas duas categorias em função de língua: em chinês e em português. A categoria “em chinês” inclui: P'ou Kuók Si-Leok (História de Portugal em Chinês, em colaboração com Tcheong Iek Tchi) (Gomes 1955), Os Lusíadas Contados às Crianças e Lembrados ao Povo (Barros 1972), Vocabulário Cantonense-Português (Gomes 1941), Vocabulário Português-Cantonense (Gomes 1942) e Vocabulário Português-Inglês-Cantonen-se (Gomes 1954); enquanto a categoria “em português” inclui quase todo o resto das obras de Luís Gonzaga Gomes.Importa salientar que a opinião do Padre Manuel Teixeira é bastante re-68 Uma série publicada no Mosaico, secção chinesa, durante o período entre março de 1951 e novembro/dezembro 1952. 103
presentativa das opiniões dos seus contemporâneos. Conforme outra entre-vista, de José dos Santos Ferreira “Adé”,69 anexa ao mesmo artigo de Luís Or-tet, podemos deduzir a receção desfavorável que Gonzaga Gomes enfrenta: Nos primeiros tempos os trabalhos do Luís Gomes quase não eram apreciados. Ninguém ligava aos trabalhos do Luís Gomes; Quando ele começou a publicar aquelas lendas achávamos piada mas deixávamos tudo na prateleira; Não foi muito compreendido porque a inveja é uma arma terrível. Mesmo as actividades cultu-rais dele não eram muito compreendidas. Ele foi director da Emissora durante al-guns anos e os programas eram muito criticados ou porque tinha música clássica a mais… enfim, arranjavam sempre alguma coisa para dizer. Mas ele continuava, não era homem para cessar a sua actividade só porque havia críticas. (Ortet 1984, 37)Esta receção desfavorável não desaparece senão umas décadas depois da sua morte. Estes preconceitos só começam a ser eliminados mais tarde quando o valor das obras de Gonzaga Gomes começa a merecer reconhecimento. Numa entrevista na década de 1980,70 Túlio Tomás, residente em Macau há muitos anos e antigo diretor dos Serviços de Educação de Macau e vi-ce-reitor da Universidade da Ásia Oriental, aponta que “ele [Luís Gonzaga Gomes] não encontrava no ambiente que o rodeava, digamos, uma satisfação completa. De modo que procurava outros mundos” (Ortet 1984, 40). Estes “outros mundos” terão sido o mundo da sua escrita e o mundo de música. No entanto, o Padre Manuel Teixeira ao citar os comentários de Amân-dio César sobre as publicações de Luís Gonzaga Gomes acerca da cultura chinesa, adota uma atitude bastante positiva, reconhecendo-lhe “uma culta e esclarecida inteligência em sinologia” relativamente ao seu papel no diálogo cultural luso-chinês (Teixeira 1986, 472). 3.1.4.2. Graciete Nogueira Batalha: uma dedicação devidamente apreciadaEm 1991, Graciete Nogueira Batalha publica uma comunicação intitulada “Luís Gonzaga Gomes e o Intercâmbio Cultural Luso-Chinês” (Batalha 2007). Este artigo é posteriormente publicado pelo Instituto Internacional de Macau em 2007 por ocasião do centenário de Luís Gonzaga Gomes, para o efeito do relançamento do Cenáculo Luís Gonzaga Gomes. Esta autora re-conhece que “nem sempre a sua dedicação [de Gonzaga Gomes] foi devida-69 Pai do patuá de Macau. Foi aluno de Luís Gonzaga Gomes na instrução primária. 70 Na década de 1980 foram realizadas entrevistas a quatro personagens, em homenagem de Luís Gon-zaga Gomes. Foram feitas por Luís Ortet, respetivamente ao Padre Manuel Teixeira, ao Padre Benjamin Videira Pires, a Túlio Tomás e a José dos Santos Ferreira-“Adé”, que se encontravam anexadas ao artigo de Luís Ortet, em homenagem de Luís Gonzaga oito anos, publicado em 1984, após a sua morte. LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA104
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRAmente apreciada” (Batalha 2007, 22), mas tem também uma atitude reserva-da quanto ao título de “tradutor”, preferindo chamar-lhe antes “divulgador”: Chego agora à sua obra de tradutor, melhor diria de divulgador, porque Luís Gonzaga Gomes nunca foi, nem pretendia ser, um tradutor fiel e meticuloso do chinês. Não que possa eu ajuizar da fidelidade das suas traduções, mas é o pró-prio autor que se refere, no prefácio do Ou-Mun Kei-Leok à sua “insuficiência de conhecimento sinológicos”, e ao facto de não diligenciar “fazer uma pretensiosa e fastidienta tradução (estou a citá-lo), pedantescamente rigorosa, pois isso só servirá para entediar o leitor”. (Batalha 2007, 10)Para Graciete Nogueira Batalha, a confissão modesta de Gonzaga Gomes so-bre a sua “insuficiência de conhecimento sinológico” (Gomes 1979, 8), revela “um realismo” e uma “sensatez admirável” (Batalha 2007, 11) perante a com-plexidade da língua e literatura chinesas. Luís Gonzaga Gomes também re-pete esta ideia várias vezes em textos escritos, afirmando que o chinês é uma língua “riquíssima em tropos o que dificulta, enormemente, a sua aprendiza-gem. Sem o conhecimento das expressões metafóricas chinesas dificilmente se consegue apreender o sentido de certas frases empregadas pelos nativos, no seu colóquio quotidiano” (Gomes 1952, 389). No entanto, é também pos-sível que a confissão de Gonzaga Gomes seja um subterfúgio, uma prova de modéstia de um autor que assim pretende conquistar a boa vontade do seu leitor, em vez de arrogantemente se apresentar como um grande especialista. Trata-se duma estratégia retórica frequentemente usada em prefácios.Talvez tenham sido estas “algumas limitações”, também referidas em Sena (2010), que motivam a opção de Luís Gonzaga Gomes por traduzir a versão mais acessível e mais popular da obra Os Lusíadas Contados às Crianças e Lembrados ao Povo, da versão de João de Barros (1972), e de se limitar a ver-ter apenas alguns excertos de alguns poemas da obra Mensagem, de Fernando Pessoa. Aliás, apesar de esta última tradução não constituir uma tradução completa, segundo Batalha, os versos traduzidos talvez “pudessem dar uma síntese da ideia fundamental que neles o Poeta [Fernando Pessoa] exprima” (Batalha 2007, 12).Batalha valoriza a tradução de Monografia de Macau (Tcheong e Ian 1950) como “uma preciosidade”, no sentido dos valores culturais que divulga, per-mitindo espreitar a mentalidade chinesa em diálogo com a portuguesa e ma-caense. Assim reconhece Luís Gonzaga Gomes e o seu grupo macaense, pelo facto de revelarem:105
a possibilidade de [se] movimentarem em duas culturas, a largueza de horizontes que tal possibilidade lhes confere e que não é dada ao simples mortal nado e cria-do nos estreitos padrões culturais duma só parte do mundo” (Batalha 2007, 21). Relativamente às inúmeras obras de Gonzaga Gomes sobre contos, lendas e tradições chinesas de Macau, a estudiosa confessa que entende ser “quase impossível avaliar até que ponto esses escritos provinham de textos chine-ses, ou de tradições orais que conheceu, ou até da sua própria imaginação”, uma vez que Gonzaga Gomes não aponta “as fontes” que consulta (Batalha 2007, 14-15). Em suma, apesar de apresentar uma visão avaliativa positiva, de apreço pelo contributo de Gonzaga Gomes, esta investigadora revela a sua dificuldade em termos de categorização dele como autor, tradutor ou divulgador, e também das suas obras devido ao seu hibridismo, afirmando, portanto, o papel de Luís Gonzaga Gomes preferivelmente como divulgador de culturas.3.1.4.3. António Aresta: a consolidação da identidade de Macau e um es-timável serviço prestado à causa da sinologia portuguesasEm 2001, António Aresta publica, na revista Administração, um artigo intitu-lado “O Professor Luís Gonzaga Gomes e a Divulgação Pedagógica da Cul-tura Chinesa” (Aresta 2001), com o intuito de aprofundar a sua intervenção na divulgação da cultura chinesa por via da tradução. Aresta confirma o papel de relevo que a este propósito desempenha a tradução da obra Monografia de Macau (Tcheong e Ian 1950/1979). Para além disso, menciona outras tradu-ções sino-portuguesas ou sino-europeias: a tradução de Relação da Grande Monarquia da China71 (Semedo 1956) a partir da versão italiana de Álvaro Semedo (1585-1658) e a tradução de Nova Relação da China72 (Gomes 1957) da versão francesa de Gabriel de Magalhães (1610-1677), para a língua por-tuguesa. Para Aresta, para além de “as traduções [de Gonzaga Gomes] ocu-pa[re]m, indiscutivelmente, uma parcela significativa do seu labor intelec-tual” (Aresta 2001, 1543), constituem ainda um “estimável serviço prestado à 71 Escrita originalmente em português pelo missionário jesuíta Álvaro Semedo (1585-1658) em 1638. Foi amplamente vertida em outras línguas e divulgada como obra da sinologia europeia (a primeira edição em 1642 em castelhano; 1643, 1653, 1667 e 1678 em italiano; 1645 e 1667 em francês; 1665, em inglês e 1670, em holandês). Em 1956 foi traduzida e pela primeira vez integralmente editada na língua portuguesa por Luís Gonzaga Gomes. Foi republicada em 1994 pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude e pela Fundação Macau. A versão chinesa apareceu em 1998.72 Foi originalmente escrita em português pelo Pe. Gabriel de Magalhães (1610-1677) da Companhia de Jesus (Missionário Apostólico), intitulada Doze Excelências da China, mas depois apenas se encontraram edições em francês e em inglês. Vertida e publicada em francês em 1688, intitulada Nova Relação da Chi-na. Em 1957 foi traduzida do francês para português por Luís Gonzaga Gomes. Foi integrada na edição de 1957 de Notícias de Macau (410).LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA106
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRAcausa da sinologia portuguesa assim como para a divulgação da história e da cultura chinesas” (Aresta 2001, 1544). Luís Gonzaga Gomes também revela uma motivação semelhante para efetuar tal tradução, afirmando, no prefácio da mesma, que:não resistimos à tentação de traduzir esta obra do francês para a língua em que foi originalmente escrita, já porque nunca foi editada em português, já porque julga-mos que ela merece ser melhor conhecida, pela abundância de elementos precio-sos que fornece sobre um país, que fascina sempre pelo encanto do seu mistério e exotismo, e também por conter algumas referências a Macau. (Gomes 1957, 37)Para Aresta, as versões portuguesas de Gonzaga Gomes de alguns clássicos chineses “abriram à cultura portuguesa novos caminhos para o entendimento do pensamento chinês” (Aresta 2001, 1544), por exemplo, “O Clássico da Pie-dade Filial e os Vinte e Quatro Exemplos da Piedade Filial” (Gomes 1944), “O Clássico Trimétrico” (Gomes 1944), “As Quatro Obras” (1944/1945) e “Tou Tak Keng – O Livro da Via e da Virtude de Láucio” (Lao 1951). Con-sidera igualmente os “Versos para a Juventude Escolar” (Gomes 1944, 238-244) (versos chineses traduzidos para português) como uma obra de tradu-ção, enquanto noutras classificações de Teixeira (1986) e de Sena (2010) esta não é identificada como tal. Para sustentar a sua convicção do papel de Luís Gonzaga Gomes como tradutor, Aresta especifica, na sua bibliografia de Gonzaga Gomes, as duas categorias: “traduções para a língua portuguesa” (Aresta 2001, 1551) e “tradu-ções para a língua chinesa” (Aresta 2001, 1552), incluindo nesta última cate-goria as traduções de Mensagem, de Fernando Pessoa, e Os Lusíadas Contados às Crianças e Lembrados ao Povo (Barros 1972), sendo a última assinalada pelo Padre Manuel Teixeira como uma adaptação e polémica na sua classificação por posteriores investigadores. O artigo de Aresta argumenta também, pela primeira vez, que as tradu-ções de Luís Gonzaga Gomes servem como uma “estratégia de remediação” (Aresta 2001, 1547) para Macau, numa perspetiva histórica e política: Com estas traduções, divulgando pedagogicamente a cultura chinesa, Luís Gon-zaga Gomes, inaugurava uma rede de aprendizagem paralela, estimulando o de-senvolvimento da apetência pela cultura chinesa ao mesmo tempo que edificava estruturas de saber local visando diferentes núcleos de interesses. Era claramen-te uma estratégia de remediação porque se verifica o caso insólito de Macau ser um território chinês administrado por Portugal, mas desde a implantação da 107
República Popular da China, Portugal e a China não tinham relações diplomá-ticas. A questão de Macau era um legado da História e a acção de Luís Gonzaga Gomes foi a de criar amarras quer a um lado, quer ao outro lado, integrando os saberes para consolidar uma identidade, a identidade de Macau. (Aresta 2001, 1547) Ao defender que Gonzaga Gomes terá conseguido, através das suas tradu-ções, “integrar os saberes para consolidar uma identidade, a identidade de Macau” (Aresta 2001, 1547), as convicções de Aresta saem da dimensão limi-tada à análise textual das obras, atribuindo a Luís Gonzaga Gomes o papel de tradutor enquanto agente cultural na consolidação identitária macaense e conferindo relevo à intervenção das suas obras no contexto histórico e polí-tico, o que assim lhes confere um novo horizonte.A apresentação destes três pontos de vista mais representativos da rece-ção variável de Luís Gonzaga Gomes, do Padre Manuel Teixeira, Graciete Nogueira Batalha e António Aresta, permite-nos constatar que o apreço por Luís Gonzaga Gomes sofre uma mudança ao longo dos cerca de trinta anos que estes testemunhos cobrem. Todos estes testemunhos apresentam Gonzaga Gomes a partir das suas obras, deixando as suas obras falar por si, reconhecendo e elogiando o papel dele como divulgador de culturas. Não sendo inicialmente identificado como tradutor, passa a ser gradualmente re-conhecido também nessa qualidade e no seu vínculo à identidade macaense. No entanto, esta perspetiva não surge aliada quer a um mapeamento cabal da sua obra quer ainda a uma reflexão teórica e metodologicamente sólida so-bre a sua intervenção como autor, tradutor e agente cultural. Nestes termos, consideramos ser merecedora de uma investigação mais aprofundada, numa tentativa de abrir pistas novas para entender como a tradução contribui para a definição da identidade macaense. 3.2. PUBLICAÇÕES: PRINCIPAIS ÁREAS DE INTERVENÇÃOAs prolíferas publicações de Luís Gonzaga Gomes abarcam diversos temas (históricos, antropológicos, etnográficos, filosóficos, bibliográfico-docu-mentais, artísticos, musicais e literários), tendo sido escrita em português e chinês e totalizando mais de trinta volumes (incluindo coletâneas dos artigos publicados). Para além disso, integram ainda várias centenas de artigos dis-persos em cerca de duas dezenas de periódicos, como por exemplo, no jornal diário A Voz de Macau (1931-1947), no jornal diário Notícias de Macau (1947-1974), na revista mensal Renascimento (1943-1945), na revista mensal trilin-gue Mosaico (1950-1957), no quinzenal Revista de Macau (1949), no periódico LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA108
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRABoletim do Instituto Luís de Camões (1965-1975), entre outros jornais e revistas de relevância em Macau em meados do século XX. Alguns destes artigos são posteriormente compilados em volume pela editora Colecção Notícias de Macau nas décadas de 1950 e 1960, sendo novamente apreciados e republi-cados pelo Instituto Cultural de Macau na década de 1980 e reeditados pela Fundação Macau e pelo Instituto Cultural de Macau no século XXI. Bastará a verificação do número elevado de publicações pelo autor a par da sua com-pilação em volume pela editora Colecção Notícias de Macau, e do interesse posteriormente manifestado pelo Instituto Cultural de Macau e pela Funda-ção Macau no sentido de proceder à republicação da sua obra, nas décadas de 1980 e já no século XXI, para confirmar a relevância reconhecida de Luís Gonzaga Gomes como agente cultural (divulgador e tradutor de culturas), uma relevância que a receção valoriza de sobremaneira. 3.2.1. Três classificações existentesÉ possível identificar três listagens e classificações mais influentes das obras de Luís Gonzaga Gomes, o que só por si é revelador do interesse, relevo e da sua influência quando se pretende estudar a sociedade e a vida cultural macaenses. São várias as publicações a que podemos recorrer no sentido de proceder ao levantamento das publicações de Gonzaga Gomes. A primeira é a classificação proposta pelo Padre Manuel Teixeira (1976), a que se vêm juntar mais duas, já no século XXI, uma da autoria de António Aresta (2001) e outra de Teresa Sena (2010) incluída no DITEMA: Dicionário Temático de Macau,73 editado por Maria Antónia Espadinha. 3.2.1.1. Padre Manuel Teixeira (1976): “À Memória de Luís Gonzaga Gomes”Em 1976, no artigo intitulado “À Memória de Luís Gonzaga Gomes” (Tei-xeira 1986), o Padre Manuel Teixeira apresenta uma bibliografia das suas obras. A esta bibliografia chama “obras publicadas”, dividindo-a apenas em duas categorias, determinadas pelas línguas de publicação, que correspon-dem às secções “em chinês” e “em português”. Entre os primeiros documen-tos dedicados à figura de Luís Gonzaga Gomes, é esta a única bibliografia encontrada.73 DITEMA: Dicionário Temático de Macau, de quatro volumes, editado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Macau em 2010-2011. Direção: Rui Martins; Editora executiva: Maria Antónia Espadinha; Coordenação do projeto: Leonor Diaz de Seabra e António Rodrigues Bap-tista. A investigadora Teresa Sena é responsável pelo levantamento bibliográfico e pela entrada dedicada a Luís Gonzaga Gomes. 109
3.2.1.2. António Aresta (2001): “Professor Luís Gonzaga Gomes e a Divul-gação Pedagógica da Cultura Chinesa”Em 2001, num artigo intitulado o “Professor Luís Gonzaga Gomes e a Divul-gação Pedagógica da Cultura Chinesa” (Aresta 2001), António Aresta publi-ca uma bibliografia de Luís Gonzaga Gomes no qual classifica as suas princi-pais obras nas seguintes categorias: 1) linguística; 2) traduções para a língua portuguesa; 3) traduções para a língua chinesa; 4) obras escritas em chinês; 5) organização da edição e prefácio; 6) estudos sobre a cultura chinesa; 7) es-tudos sobre a história e a cultura de Macau; 8) catálogos bibliográficos dedi-cados ao autor. Esta é uma bibliografia de referência, frequentemente citada pelos investigadores de Luís Gonzaga Gomes, como, por exemplo, James Li, que a cita no seu artigo “Luís Gonzaga Gomes: Orgulho da Escola Superior de Línguas e Tradução” (Li 2010).3.2.1.3. Teresa Sena (2010): “Luís Gonzaga Gomes”Em 2010, no verbete incluído no DITEMA, Teresa Sena classifica as obras de Luís Gonzaga Gomes em cinco grandes categorias: I - Divulgação, II - Obras de referência, III - Traduções, IV - História, V - Dicionários/Manuais. Além destas categorias, a autora acrescenta ainda mais quatro itens para completar a lista, nomeadamente, antologia (diversos textos compilados pela Revista de Cultura de Macau74 em várias séries), coletânea (Macau, Factos e Lendas (Gomes 1979)), Representação em Antologias (De Longe a China – Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesa (Santos e Orlando 1988-1996)) e Bibliografia. É esta a classificação mais abrangente até à data de publicação do presente trabalho. 3.2.1.4. ObservaçõesConstatamos que estes três levantamentos bibliográficos apresentam uma considerável heterogeneidade em termos da classificação das obras de Luís Gonzaga Gomes. Porventura indicativo do interesse recente pelo fenómeno da tradução poderá ser o facto de só Aresta e Sena identificarem como tradu-zidas algumas das obras de Luís Gonzaga Gomes, que não são anteriormen-te classificadas como tradução pelo Padre Manuel Teixeira. Sendo a nossa investigação desenvolvida no âmbito dos Estudos Descritivos de Tradução, focamos a nossa atenção na análise das classificações de Aresta (2001) e de Sena (2010) e verificamos diversas opções discutíveis. Primeiro, constatamos que, em termos de tradução, as duas listagens de 74 Revista do Instituto Cultural de Macau. LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA110
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRAAresta e de Sena apresentam divergências provavelmente devidas à natureza híbrida das obras de Gonzaga Gomes. Na verdade, algumas publicações si-tuam-se na fronteira entre a tradução e a publicação de obra não traduzida, podendo ser consideradas traduções por alguns investigadores ou académi-cos, ou classificadas como textos originais do autor por outros. Esta ambigui-dade gera a pertinência de proceder a um novo levantamento e categorização das obras de Luís Gonzaga Gomes. Segundo, constatamos que a classificação de Aresta (2001) incorpora os volumes e os artigos de Gonzaga Gomes numa mesma listagem. Esta inte-gração induz no leitor a impressão errónea de que todas as publicações de Gonzaga Gomes são em volume, o que, de facto, não é verdade. Além dis-so, Aresta não especifica as informações editoriais na listagem. O facto de não incluir referências bibliográficas completas em muito dificulta a con-sulta bibliográfica de investigadores interessados neste tópico. Sena (2010) classifica as obras de Gonzaga Gomes em volumes e em artigos. No entanto, talvez devido ao espaço limitado, limita-se a indicar os jornais e revistas não tocando nos pormenores, nem indicando o peso quantitativo e qualitativo desta parte significativa das publicações de Gonzaga Gomes. Os resultados da nossa pesquisa documental mostram que os artigos dispersos em jornais e revistas representam uma grande proporção das publicações de Gonzaga Gomes e são particularmente reveladores do perfil das publicações dele, pelo que entendemos serem merecedoras de uma classificação independente e um estudo aprofundado.Terceiro, verificamos que, em termos de obras não traduzidas, António Aresta (2001) apresenta uma classificação baseada num critério geográfico, separando as entradas em duas secções intituladas “Estudos sobre a Cultura Chinesa” e “Estudos sobre a Cultura e a História de Macau”. No entanto, na sua bibliografia geograficamente balizada com mais de setenta entradas, existem alguns lapsos, uma vez que em “estudos sobre a cultura chinesa” se encontram diversas entradas sobre Macau, por exemplo, Lendas Chinesas de Macau (Gomes 1951) e “Lui-Kông-Kuâng: Casas de Penhores” (Gomes 1983), enquanto a secção “Estudos sobre a História e a Cultura de Macau” apresenta também alguns artigos sobre a China, por exemplo, “Portugal e a Arte Chinesa” (Gomes 1950). Pelo facto de não existir, na verdade, uma linha de demarcação cultural tão distinta como a divisão geográfica entre a China e Macau, não será fundamentado distinguir para fins da classificação a cultura chinesa da cultura de Macau, pois Luís Gonzaga Gomes nas suas obras menciona sempre conjuntamente os costumes, as artes e as tradições culturais chineses e macaenses. Vale a pena ainda referir que, esta classificação não atende ao facto de que 111
nas outras categorias de obras de Luís Gonzaga Gomes, como por exemplo, “linguística” (Aresta 2001, 1551), “traduções para a língua portuguesa” (Ares-ta 2001, 1551-1552), há também diversas obras que são estudos temáticos so-bre China e Macau. Neste sentido, as listas sob a designação de “Estudos so-bre a Cultura Chinesa” e de “Estudos sobre a Cultura e a História de Macau” não poderão ser consideradas listas completas ou isentas de imprecisões. Sena (2010), por sua vez, prefere uma classificação híbrida e complexa, não só temática mas resultante também da tipologia textual e da função comunicativa, pois agrupa as obras em múltiplas secções: as já publicadas em livro são classificadas nas secções “divulgações” e “coletâneas”; os tex-tos dispersos em diferentes revistas e jornais, são agrupados na secção “an-tologia”; os estudos sobre a história de Macau são classificados em “obras de referência”. Apesar de apresentar uma classificação mais fina expressa em múltiplas secções, é pouco clara pois torna-se difícil identificar parâ-metros e critérios orientadores claramente indicados ou sistematicamente aplicados. 3.2.2. Um novo levantamento bibliográfico: Luís Gonzaga Gomes como divulgador e tradutorTendo apresentado brevemente a nossa apreciação crítica das três bibliogra-fias publicadas da obra de Luís Gonzaga Gomes – excessivamente resumida pelo Padre Manuel Teixeira, abrangente mas sem critérios uniformizados no caso de António Aresta e minuciosa mas confusa e imprecisa no caso de Sena –, parece-nos que as classificações não servem o interesse de estudos interdisciplinares no âmbito dos Estudos Descritivos de Tradução. Tendo em conta o papel social de Luís Gonzaga Gomes, enquanto divulgador e tra-dutor, propusemo-nos efetuar um novo levantamento, com o propósito de ser mais completo e classificado com base em critérios explícitos, sistemati-camente aplicados. Passamos a expor a classificação adotada.Primeiro, no que diz respeito ao papel divulgador de Luís Gonzaga Go-mes no diálogo oriental e ocidental, sugerimos a consideração de duas subca-tegorias consoante as imagens projetadas nas suas obras: 1) China e Macau; 2) Europa (incluindo Portugal). Como primeiro critério de classificação, esta consideração procura cor-responder às expetativas da receção que reconhece o papel social de Gonzaga Gomes na divulgação e promoção das duas culturas oriental e ocidental, tal como identificado nos três testemunhos representativos das passadas três décadas. Os dados bibliográficos assim reunidos servem de base para os nos-sos argumentos de investigação em termos das imagens da China e Macau, LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA112
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRAe da Europa (incluindo Portugal), projetadas nas obras de Gonzaga Gomes Segundo, considerando a intervenção de Gonzaga Gomes como tradu-tor, propomos, em função das informações paratextuais, uma divisão das obras de Luís Gonzaga Gomes em duas grandes categorias: traduzidas e não traduzidas.Nesta proposta, adotamos o método de classificação operativo com base nas informações paratextuais do texto de Gonzaga Gomes, tal como propos-to por Pym “[if] a paratext allows different discursive slots for an author and a translator, then the text may be said to be a translation (working defini-tion)” (Pym 1998, 62). As obras apresentadas com informações sobre o autor, o tradutor e a tradução na capa, sobrecapa, ou folha de rosto, no prefácio ou no início do texto vão ser consideradas obras traduzidas, enquanto as que não contemplam esses elementos paratextuais serão classificadas como obras não traduzidas. Esta classificação ajuda a apurar a ambiguidade em distinguir as obras traduzidas das obras não traduzidas. Sem escamotear o hibridismo dos textos incluídos em ambas as categorias, esta classificação corresponde assim ao modo como foram apresentadas ao público leitor. Recuperando as definições deste tipo de obras desenvolvidas no âmbito dos Estudos Des-critivos de Tradução (Toury 2012, 29; Maia, Pieta e Rosa 2017), é legítimo considerar tais obras uma tradução alegada ou presumível (incluindo pseu-do-traduções), o que permite, nestes termos, a sua integração na categoria de tradução. Na categoria de obras traduzidas, tendo em conta as combinações linguís-ticas de tradução de Luís Gonzaga Gomes, optámos por uma subdivisão em duas categorias: tradução para chinês e tradução para português. Em termos da percentagem do texto de partida traduzida,75 decidimos ainda subdivi-dir em duas categorias: tradução de texto integral e tradução parcial ou de excertos. Terceiro, considerando a dimensão do texto de chegada, propomos a dis-tinção das obras de Gonzaga Gomes entre volume e artigos publicados em jornais e revistas.Esta classificação pretende identificar as publicações de Gonzaga Gomes tanto em volume como em artigos dispersos em jornais e revistas. A pesquisa nos catálogos da Biblioteca Nacional de Portugal em busca dos títulos de volumes permitiu identificar uma lista integral das obras de Luís Gonzaga Gomes publicadas em volume, enquanto a pesquisa documental dos jornais e revistas Mosaico, Renascimento, Notícias de Macau e Boletim do Instituto de Luís 75 Já desde Catford (Catford 1978, 21), em termos de extensão do conteúdo, se distingue tradução com-pleta, se o texto de língua de partida é totalmente reproduzido na língua de chegada, de tradução parcial se o texto de língua de partida é parcialmente reproduzido na língua de chegada.113
de Camões permitiu identificar o que consideramos constituir a maioria dos artigos dispersos de Gonzaga Gomes. Resumindo, neste novo levantamento, as obras de Gonzaga Gomes são classificadas em termos das imagens projetadas por ele enquanto divulgador de culturas oriental e ocidental: China e Macau vs. Europa (incluindo Por-tugal). Para o item “China e Macau”, vão ser consideradas: obras traduzidas vs. obras não traduzidas, em função das informações paratextuais. Para as obras traduzidas, vão ser consideradas: i) a língua de chegada: tradução para chinês vs. tradução para português; percentagem do texto de partida tradu-zida: tradução de texto integral vs. tradução parcial ou de excerto(s); ii) di-mensão do texto de chegada: volume vs. artigos. Para as obras não traduzidas, vão ser consideradas: i) dimensão do texto de chegada: volume vs. artigos. Relativamente ao item “Europa (incluindo Portugal)”, aplica-se idêntica classificação.Neste levantamento, sem deixar de considerar António Aresta (2001) e Sena (2010) como pontos de partida relevantes, porque reconhecemos o ele-vado hibridismo dos textos de Gonzaga Gomes, os casos discutíveis relativos às obras de tradução vão ser assinalados a cor cinzenta, com uma indicação entre parênteses do motivo para hesitação: pseudo-originais,76 pseudo--traduções,77 dúvida quanto à dimensão do texto traduzido (totalidade ou parte), etc. Iremos analisar alguns casos típicos. Incluímos também, quan-do possível, traduções de Luís Gonzaga Gomes publicadas em artigo entre as referências bibliográficas assim identificadas, acrescentamos referências adicionais que a nossa investigação permitiu identificar e que não constavam dos levantamentos consultados (Aresta 2001 e Sena 2010). Apresentamos as referências bibliográficas de cada obra por ordem alfabética: autor, ano, títu-lo, tradutor (quando aplicável), lugar de publicação, editora, edição. Em caso de obras do mesmo autor, seguimos uma ordem cronológica.Assim sendo, desenvolvemos para fins deste estudo a seguinte classifi-cação, que que integra todos os escritos e traduções de Luís Gonzaga Go-mes que a nossa pesquisa pôde identificar, de forma organizada e hierár-quica (uma lista das obras incluídas em cada categoria é apresendada no Apêndice II). 76 “Pseudooriginal is a target text derived by intra- or interlingual or intersemiotic transfer operations from a source text (as shown by observable intertextual relations) but which fails to (para)textually pre-sent this relationship (Pym 1998: 60), thus bordering on plagiarism (e.g. of texts, audiovisual products or music)” (Maia, Pieta e Rosa 2017).77 “Pseudotranslation is a non-translated text (i) disguised as a translation (Venuti, Hagedorn and Pursglove cited by Santoyo 2012: 356); (ii) not clearly presented as a non-translation (Santoyo 2012); or (iii) both disguised and received as a translation (Toury 2012: 29)” (Maia, Pieta e Rosa 2017).LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA114
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRADe acordo com esta classificação, conseguimos identificar 232 obras sobre a China e Macau e 33 obras acerca da Europa, incluindo 21 sobre Portugal. Na categoria de China e Macau, registamos 30 traduções (6 em volume e 24 em artigo, todas vertidas para português) e 202 obras não-traduzidas (27 em vo-lume e 175 em artigo). Na categoria acerca de Europa, temos 19 traduções (5 em volume e 14 em artigo, todas vertidas para chinês) e 14 não traduções (to-das em artigo). O contraste de números entre as obras sobre China e Macau e as dedicadas à Europa contribui para perceber de modo inequívoco o papel notável de Luís Gonzaga Gomes como divulgador de imagens da China e de Macau. Na categoria das obras sobre China e Macau, em termos do con-teúdo, as obras não traduzidas de Gonzaga Gomes concentram-se na arte, costume, tradições chinesas bem como nas lendas e História de Macau, en-quanto as traduções dele centram-se nos clássicos da ética e da filosofia chi-nesas bem como nas relações da China com os países ocidentais. Tendo em 1. Tema: China e Macau (232 textos)1.1. Tradução (30)1.1.1. Para chinês1.1.1.1. Em volume (0)]1.1.1.2. Em artigo (0)1.1.2. Para português (30)1.1.2.1. Em volume (6) 1.1.2.2. Em artigo (24)1.2. Não tradução (202)1.2.1. Em volume (27)1.2.2. Em artigo (175)2. Tema: Europa (incluindo Portugal) (33 textos)2.1. Tradução (19)2.1.1. Para chinês (19)2.1.1.1. Em volume (5)2.1.1.2. Em artigo (14)2.1.2. Para português (0)2.1.2.1. Em volume (0) 2.1.2.2. Em artigo (0)2.2. Não tradução (14)2.2.1. Em volume (0)2.2.2. Em artigo (14)115
conta estas informações e considerando que as obras sobre a China e Macau de Gonzaga Gomes são todas redigidas em português, obtemos uma ideia geral em relação à receção destas obras: o público que tem conhecimento de português e interessado nos temas ligados à China e a Macau. Vale a pena apontar que, na mesma categoria, as traduções de Luís Gon-zaga Gomes representam quase 13%, constituindo igualmente um centro de atenção da nossa investigação no âmbito dos Estudos Descritivos de Tradu-ção, que se aprofundará no Capítulo 5.Relativamente aos casos discutíveis assinalados a cor cinzenta, salienta-mos os seguintes dois casos: Mensagem (Pessoa 1959) e P'ou Kuók Si-Leok (História de Portugal em Chinês) (Gomes 1955), os dois casos de tradução por-ventura mais discutíveis. A tradução da obra Mensagem (Pessoa 1959), constitui um caso particular por vários motivos. Trata-se de uma tradução de português para chinês. Em primeiro lugar, não é uma tradução de texto integral, na medida em que se-leciona apenas 16 poemas entre os 43 que constituem a Mensagem e também porque os traduz de modo apenas parcial. Em segundo lugar, trata-se duma edição reservada para distribuição aos alunos do Liceu Nacional Infante D. Henrique, com somente 500 exemplares, tendo sido produzida para um pú-blico de perfil muito particular. Pelo facto de ser uma tradução parcial, fica na nossa classificação de obras traduzidas, mas sob subcategorização de “tra-dução parcial”. Um outro caso de discussão que merece nossa particular atenção é P'ou Kuók Si-Leok (História de Portugal em Chinês) (Gomes 1955). A lista de tra-duções de Sena (2010) inclui P'ou Kuók Si-Leok (Breve história de Portugal em chinês, em colaboração com Tcheong Iek Tchi) (Gomes 1955), enquanto António Aresta exclui esta obra da secção intitulada “traduções para a língua chinesa”, optando por apresentá-la na secção “obras escritas em chinês”. Esta divergência deve-se ao facto de não existirem provas factuais suficientes que comprovem o perfil exato desta obra, que tanto pode ser uma tradução ou uma obra original. Esta obra aparece primeiro como uma série na secção chinesa da revista tri-lingue Mosaico. Na capa da secção chinesa do Mosaico 2 (7), de março de 1951, aparece pela primeira vez e lê-se “P'ou Kuók Si-Leok” (A História de Portugal em chinês). O chinês indica que esta série é editada e escrita por Luís Gonzaga Gomes, traduzida em colaboração com Tcheong Iek Tchi (vide a Figura 4).Em 1955 esta série é reunida e publicada em volume pelo Instituto Cultural de Macau, intitulado P'ou Kuók Si-Leok (História de Portugal em Chinês) (Go-mes 1955). Nesta edição em volume, as informações paratextuais da contra-capa sofrem alterações. LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA116
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRAUma das informações importantes na capa da edição de 1951 – o “traduzi-do em colaboração com Tcheong Iek Tchi” – desaparece na capa da edição de 1955. Relativamente à edição de 1951, constatamos que, apesar de não ser possível encontrar um texto de partida para esta obra escrita em português, os elementos paratextuais apresentados na capa indicam que esta obra é apresentada e recebida como tradução. Da edição de 1955 desta obra desa-parecem todos os elementos alusivos à tradução. Como já referimos acima, consideramos esta obra uma tradução alegada ou presumível, com base nas informações paratextuais da sua primeira publicação (Toury 2012, 29; Maia, Pieta e Rosa 2017).Este novo levantamento e a nova classificação das obras de Luís Gon-zaga Gomes permite-nos um mapeamento mais abrangente, sistemático e preciso dos seus escritos e traduções bem como dos temas em que concentra a sua atenção. A esmagadora maioria dos seus escritos e traduções diz res-peito à China e a Macau, o que conduz a nossa investigação para se centrar no papel de Luís Gonzaga Gomes, enquanto divulgador e tradutor das ima-gens da China e de Macau, que será objeto de análise mais aprofundada nos Capítulos 4 e 5.Figura 3: À esquerda: capa da versão chinesa de Mosaico, vol.2, n.º 7, de Março de 1951; à direita: nossa tradução de chinês para português História dePortugaleditado eescrito porLuísGonzagaGomes,traduzidoem colaboração com TcheongIekcoordenadorda versãochinesaMOSAICOrevista mensalLuísGonzagaGomes117
3.3. OUTRAS ATIVIDADES CULTURAIS DE LUÍS GONZAGA GOMES Tal como Graciete Nogueira Batalha aponta, no prefácio à primeira edição de Macau Factos e Lendas, a música é um amor que Luís Gonzaga Gomes her-da do meio familiar (Batalha 1979, 5). No que diz respeito à música, Gonzaga Gomes é secretário do Círculo de Cultura Musical (Delegação de Macau)78, entre 1952 e 196579, tendo sido ainda 2.º violino e tesoureiro do Grupo de Amadores de Teatro e Música de Macau, para além de dirigir a Comissão Instaladora da Academia de Música de Macau nas décadas de 1950 e 1960. Publica igualmente ensaios sobre música para revistas, como por exemplo, “Duarte Lôbo” (Gomes 1943, 400-403), “Grieg – o Fundador do Naciona-lismo Musical Norueguês (Gomes 1943, 29-39), “Tchaikovsky e a Sua Obra” (Gomes 1951, 362-368), “Duas Composições de Khachaturian” (Gomes 1951, 13-18), “Smétana, o Fundador da Música Moderna Checa” (Gomes 1953, 11-21), “Leos Janacek” (Gomes 1953, 113-124) entre outros.A sua intervenção na comunicação social é muito abrangente e diversi-ficada pois desempenha muitas funções para além de autor e tradutor. Dis-tingue-se como colaborador dinâmico da Rádio Vila Verde (na década de 1950) e diretor da Emissora de Radiodifusão de Macau (na década de 1960). Assume na íntegra a responsabilidade pela organização e realização de um programa de música clássica ocidental da Emissora de Radiodifusão de Ma-cau. Nas recordações de Túlio Tomás, na seleção dos seus programas de mú-sica, Luís Gonzaga Gomes “fugiu à banalidade” (Tomás 1995) pois usa o seu próprio material, incluindo algumas gravações históricas, contribuindo assim para a difusão da cultura musical em Macau. Este aspeto é confirmado pelas recordações do Padre Benjamin Videira Pires (1916-1999):80O Luís Gomes ainda tem um aspecto bastante importante, na sua vasta actividade. Era um perito musical muito bom. Como sabe, a sua irmã é das artistas intérpretes da música clássica que temos aqui em Macau. Os concertos que deu, a formação que tem de Londres, os concertos que deu no Canadá. Ele participava muito da cultura da irmã. Mas ele próprio compreendia muito bem todos esses artistas que vinham aqui. Era sempre ele que fazia as críticas no «Notícias de Macau», que eram críticas admiráveis. E tem uma discoteca formidável em casa. (Ortet 1984, 39)78 Os Estatutos do Círculo de Cultura Musical (delegação de Macau) foram aprovados pela portaria n.º 5198, de 19 de julho de 1952. 79 Ano da morte de Pedro José Lobo, fundador do Círculo de Cultura Musical (delegação de Macau) e seu presidente até à morte. 80 Padre Benjamin Videira Pires (1916-1999), viveu meio século em Macau. Trabalhou na área de investigação histórica, publicou várias obras sobre Macau, incluindo Macau e os Jesuítas (1955) e Pintores Jesuítas em Macau (1956), entre outras.LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA118
LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRAAliás, Túlio Tomás confirma que:o objectivo dele [Luís Gonzaga Gomes] era procurar interessar as pessoas pela música em geral. Ele explicava, chamava a atenção para os pontos que deviam ser mais apreciados, ou que seriam mais difíceis de compreender. (Ortet 1984, 40)Em reconhecimento do seu empenho e da sua extensa e diversificada inter-venção cultural, Luís Gonzaga Gomes é agraciado com a medalha do Infan-te D. Henrique pelo governo português e o grau de cavaleiro da Ordem das Palas de França e, em 1951, é ainda distinguido pelo Governador Albano de Oliveira com a Medalha de Valor do Território, sendo:Louvado o professor primário Luís Gonzaga Gomes pelas excepcionais qualida-des de inteligência, trabalho e dedicação pelo serviço, de que sempre deu provas no exercício das suas funções e, ainda, pela excelente colaboração prestada para uma maior aproximação luso-chinesa, através da publicação de vários trabalhos sobre temas chineses, em que se revelou como investigador muito competente e erudito.81 Tais distinções poderão, ainda assim parecer escassa prova de reconhecimen-to por uma carreira tão empenhada e produtiva, o que poderá também ficar a dever-se à sua proverbial e comentada modéstia e preferência pelo isola-mento. No entanto, o seu nome faz indiscutivelmente parte da memória de Macau. Em 1977 é inaugurado um busto de Gonzaga Gomes no Museu Luís de Camões82 e em 1984 é erguido um outro busto dele no Jardim de São Fran-cisco de Macau, sendo ambos da autoria de Oseo Acconci. Em 1986, a Escola Secundária Luso-Chinesa passa a chamar-se Escola Secundária Luso-Chi-nesa de Luís Gonzaga Gomes. O Governo de Macau atribui igualmente o seu nome a uma rua da zona dos aterros do Porto Exterior, a rua onde fica o seu Liceu,83 a fim de assinalar a relevância dos seus inúmeros contributos para a sociedade de Macau. Ao longo das últimas décadas, especialmente com a fundação do Cená-culo de Luís Gonzaga Gomes em 1991, organizado sob a égide do Instituto Cultural de Macau, animado por Luís Sá Cunha,84 desenvolveram-se ainda 81 Boletim Oficial de Macau, Portaria de 14 de julho de 1951. 82 Instalado no palacete Casa Garden, que foi adquirido pela Fundação Oriente em 1988. Agora é sede da Fundação Oriente em Macau. 83 O edifício do Liceu é agora a sede administrativa do Instituto Politécnico de Macau. 84 Ex-diretor da Revista de Cultura de Macau do Instituto Cultural de Macau. Investigador de Luís Gonzaga Gomes e colaborador do Instituto Internacional de Macau. 119
várias iniciativas em Macau que evocam Luís Gonzaga Gomes como figura macaense incontornável. Por ocasião do centenário de Luís Gonzaga Gomes em 2007, com a adesão da Associação dos Macaenses, o Cenáculo de Luís Gonzaga Gomes é refundado, com o apoio pleno do Instituto Internacio-nal de Macau presidido por Jorge Rangel,85 onde se inaugura a sala de Luís Gonzaga Gomes como sede do Cenáculo assim renascido. Um filme docu-mentário em homenagem de Gonzaga Gomes é feito pela Casa de Portugal em Macau. No final de 2016, o Cenáculo é novamente restaurado na sala de Luís Gonzaga Gomes do Instituto Internacional de Macau em homenagem renovada deste filho da terra. 3.4. NOTAS CONCLUSIVASLuís Gonzaga Gomes dedica toda a sua vida à divulgação das culturas chine-sa, macaense e europeia através da sua escrita, deixando assim uma volumo-sa obra traduzida e não traduzida, e ainda através de uma rica intervenção cultural. A resumida visão panorâmica sobre a sua vida e obra, que aqui se apresenta, constitui um dos nossos objetivos, apresentando-se ainda como um ponto de partida necessário para o estudo da sua intervenção enquanto agente cultural e tradutor de culturas orientais e ocidentais, nomeadamente, das relativas à China e a Macau, e ainda a Portugal.85 Ex-secretário para a administração, educação e juventude e atual presidente do Instituto Internacio-nal de Macau (1999 – agora)LUÍS GONZAGA GOMES: VIDA E OBRA120
4. luís gonzaga gomEs: dIvulgador dE ImagEns da chIna E dE macau
The Macanese imagined their own value to society, especially during times of crisis, and employed such images to support their own sense of cultural identity. (Xavier 2016, 115)Imagem e identidade, dois conceitos entrecruzados no âmbito da abordagem da identidade cultural, apresentam a sua relevância nas questões identitárias macaenses: no processo de identificação com as imagens assumidas, o ma-caense reforça o sentido identitário de pertença ao seu grupo de interesse, enquanto no seu desempenho pessoal contribui para ir ao encontro das ex-petativas coletivas macaenses. Este capítulo pretende identificar e abordar o papel social de Luís Gonzaga Gomes enquanto divulgador de imagens da China e de Macau, analisando o contributo da sua obra não traduzida para a construção da identidade ma-caense. Por um lado, para melhor analisar a lista das obras de Luís Gonzaga Gomes dedicada ao tema “China e Macau”, considerámos pertinente fazer uma pesquisa de arquivo sobre o mercado de publicações ao longo das quatro décadas em que Gonzaga Gomes intervém ativamente. Por outro lado, pre-tendemos também avançar, a partir das informações paratextuais destas obras não traduzidas, com um estudo mais aprofundado em relação às imagens da China, de Macau, e possivelmente do Ocidente, numa tentativa de desvendar as considerações identitárias anunciadas pelos paratextos obras de Gonzaga Gomes. Com uma análise textual da identidade macaense em imagens, tenta-mos recuperar a identidade macaense a partir das imagens do macaense que se formulam ao longo da história de Macau, numa tentativa de recuperar a percepção mental de Gonzaga Gomes relativamente à identidade macaense.O vasto leque de estudos sobre temas diversificados como arte, festivi-dades, lendas, cultura, história e tradições chinesas e macaenses deixado por Gonzaga Gomes, em meados do século XX, inaugura, em Macau, uma nova época de projeção e divulgação de imagens da China e de Macau. Sendo uma
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUpersonalidade incontornável neste contexto, Luís Gonzaga Gomes destaca--se, como acima referido, ao colaborar intensamente, ao longo das décadas de 1940 – 1970, com diversos jornais e revistas. Para contribuir para uma melhor compreensão destes feitos considerá-veis de Luís Gonzaga Gomes, considerámos importante procurar identificar a relevância que assumem as suas publicações, quer em volume, quer em arti-go, no panorama das publicações em Macau.4.1. BREVE PANORÂMICA DO MUNDO EDITORIAL DE MACAU 1940 – 1970 Em termos das publicações em volume, apresenta-se uma breve panorâmica das publicações em Macau nas décadas de 1940 – 1970 que resulta da consul-ta dos catálogos da Biblioteca Nacional de Portugal relativamente a títulos publicados em Macau. Este panorama disponibiliza informações sobre o mer-cado editorial da então sociedade de Macau, permitindo-nos identificar os principais interesses revelados pelas suas publicações e eventuais tendências, de valorização ou menosprezo, em termos da receção de determinados temas. Tendo em conta os principais temas encontrados nas publicações das re-feridas décadas, elaboramos a Tabela 3, que apresenta uma análise quantita-tiva das obras publicadas em volume em Macau nas décadas de 1940 – 1970. Década Totalidade de títulos publicados em MacauTítulos de tradução(T)Títulos sobre conheci-mento, arte e cultura chinesas e macaenses (C)Títulos so-bre história macaense (H)Títulos so-bre outros temas (re-gulamentos, legislação, relatórios dos servi-ços, etc.)Totalidade de títulos de Luís Gonzaga Gomes em Macau1940-49 96 1 4 29 62 4 (1T, 2C, 1H) 1950-59 193 6 13 12 162 14(5T, 8C, 1H)1960-69 204 0 10 23 171 1(1H)1970-79 222 8 13 35 166 3(1T, 1C, 1H)Total 715 15 40 99 561 22Tabela 3: Mapeamento panorâmico da publicação de volumes em Macau nas décadas de 1940, 1950, 1960 e 19708787 Data de consulta na Biblioteca Nacional de Portugal: 13 de abril de 2017. Não consideramos nesta contagem registos bibliográficos repetidos. 124
A partir da análise da totalidade dos títulos de obras publicadas em volume em Macau, constatamos, desde logo, que se regista uma tendência de subida ao longo destas décadas. Como seria de esperar, esta tendência regista-se nas categorias de “títulos sobre conhecimento, arte e cultura chinesas e macaen-ses” e “títulos sobre história macaense”, duas categorias temáticas mais sa-lientes na Tabela 3. O número de “títulos sobre conhecimento, arte e cultura chinesas e macaenses” aumenta da década de 1940 para a década de 1950, mantendo-se estável a partir desta década. Tais obras de divulgação da arte e cultura da China e de Macau totalizam quarenta, das quais onze são assi-nadas por Luís Gonzaga Gomes. O número de “títulos dedicados à história macaense”, de noventa e nove, é relativamente elevado, dos quais quatro vo-lumes são de autoria de Gonzaga Gomes. As obras traduzidas, apesar de corresponderem a um número limitado, também marcam presença neste mercado de publicações. Totalizam quinze ao longo destas décadas, e será digno de relevo o facto de, entre estes quinze títulos, sete serem traduções de Luís Gonzaga Gomes. As restantes oito obras traduzidas são produzidas por tradutores como Miguel Serras Pereira (1949 – s.d.), Edgar Colby Knowlton Jr. (1921 – 2016) e Joaquim A. Guerra (1908 – 1993), sendo que cada tradutor não traduz mais do que duas obras. Em termos dos temas abordados por estas quinze obras de tradução, cinco obras dedi-cam-se à tradução dos estudos sobre a China e Macau, dos quais quatro são de autoria de Gonzaga Gomes, que vão ser abordados no próximo Capítulo 5. Apesar do facto de os regulamentos, legislação e relatórios representarem uma grande proporção de todas as publicações, constatamos que o interesse do mercado editorial ao longo destas décadas incide também sobre temas li-gados à China e a Macau e apresenta também uma tendência de crescimento. Estes dados sublinham também o dinamismo da intervenção de Luís Gon-zaga Gomes no mercado de publicações no então território de Macau. Ele começa a tornar-se ativo no mercado de publicações a partir da década de 1940 e chega a ser muito prolífero na década de 1950. Nas décadas de 1960 e 1970 continua a publicar e editar livros, embora em menor quantidade. Estes contributos assinaláveis de Gonzaga Gomes justificam que o seu papel como divulgador e promotor de imagens da China e Macau seja objeto de destaque.4.2. LUÍS GONZAGA GOMES E TRÊS PERIÓDICOS MACAENSESA publicação de artigos em periódicos, em Macau nas décadas de 1940 – 1970, concentra-se, em grande parte, no jornal diário Notícias de Macau e na sua edição semanal ilustrada (1947-1972), na revista mensal bilíngue Renascimento 125LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU(1943-1945) e na revista mensal trilíngue Mosaico (1950-1957), periódicos de matriz portuguesa e macaense com os quais Gonzaga Gomes colabora, ou que dirige ou coordena ao longo destas quatro décadas. Como referido anteriormente (vide Capítulo 2), estes periódicos corres-pondem a iniciativas da elite macaense para dinamizar o panorama cultural de Macau e valorizar efetivamente os conhecimentos da China e de Macau. Passamos a considerar a colaboração de Luís Gonzaga Gomes nestes periódi-cos, como agente cultural empenhado na divulgação e promoção das imagens da China e Macau. A Tabela 4 apresenta a colaboração de Luís Gonzaga Gomes nos três pe-riódicos. 88Tabela 4: Contributos de Luís Gonzaga Gomes nos três periódicosOs dados indicam que Gonzaga Gomes, na sua colaboração (também dire-ção e coordenação) nas atividades editoriais destes três períodos de matriz portuguesa, contribui, no total, com 206 artigos, nomeadamente, 107 para o Renascimento (1943-1945), 70 para o Mosaico (1950-1957) e 29 para a edi-ção semanal ilustrada do jornal Notícias de Macau (1947-1950). Este espólio significativo incide, em grande parte, em temas ligados a “China e Macau”, que totaliza 180 títulos, número muito superior ao de artigos (26) dedicados à “Europa”. Neste elenco, destacam-se claramente os textos não traduzidos (172), mas encontram-se também 34 traduções entre as línguas chinesa e portu-guesa. Estas 34 traduções integram 20 traduções de chinês para português que se dedicam à divulgação e promoção das imagens da “China e Macau”, enquan-to 14 traduções de português para chinês versam sobre a História de Portugal, como seria expectável. Estes dados sobre as traduções publicadas em periódi-cos, apesar de não apontarem um número muito elevado, merecem igualmente uma análise mais aprofundada, que se apresenta no próximo Capítulo 5.88 A Biblioteca Central do Gover no da Região Administrativa Especial de Macau disponibiliza somen-te informações deste semanário durante os anos de 1947 a 1950.China e Macau (181) Europa (26)Tradução Não-tradução Tradução Não-traduçãoNotícias de Macauedição semanal ilustrada (1947-1950)88(29) NA 24 NA 5Renascimento (1943-1945) (107) 17 88 NA 2Renascimento (1943-1945) (107) 17 88 NA 2Mosaico (1950-1957) (70) 3 48 14 5Total (206) 20 160 14 12126
4.3. LUÍS GONZAGA GOMES E A EDITORA COLECÇÃO DE NOTÍCIAS DE MACAUAo falar da intervenção de Luís Gonzaga Gomes no mercado editorial em prol da projeção das imagens da China e de Macau, o nome da editora Co-lecção de Notícias de Macau é incontornável pois uma boa parte dos seus estudos sobre a China e Macau é reunida na Colecção de Notícias de Ma-cau,89 editora do jornal com idêntico título – Notícias de Macau. Os artigos de Gonzaga Gomes publicados nas décadas de 1940-1960, dispersos em pe-riódicos tais como Notícias de Macau, Renascimento e Mosaico são coligidos por esta editora e publicados em oito volumes, nomeadamente Contos Chi-neses (Gomes 1950), Lendas Chinesas de Macau (Gomes 1951), Curiosidades de Macau Antiga (Gomes 1952), Chinesices (Gomes 1952), Festividades Chinesas (Gomes 1953), Arte Chinesa (Gomes 1954), Efemérides da História de Macau (Gomes 1954) bem como Páginas da História de Macau (Gomes 1966), dos quais alguns são reeditados, em Macau, nas décadas de 1980 e 1990 e ainda na primeira década do século XXI.90 O interesse pela republicação de obras de Gonzaga Gomes revela, novamente, o reconhecimento da relevância do seu papel enquanto divulgador de imagens da China e de Macau.A estes oito volumes veio juntar-se a obra Macau, Factos e Lendas: Páginas Escolhidas (Gomes 1979), uma coletânea editada por Graciete Batalha em 1979 e reeditada em Macau respetivamente em 1986 pelo Instituto Cultu-ral de Macau e Leal Senado (2.ª edição), e em 1994, pelo Instituto Cultural de Macau (3.ª edição). No prefácio, Graciete Batalha indica os critérios que presidiram à sua seleção:[D]os numerosos artigos que espalhou por jornais e revistas, e que ainda em vida reuniu em sete volumes, não foi fácil selecionar apenas uns vinte para este livrinho. Escolhemos aqueles que nos pareceram capazes de oferecer uma pano-râmica variada, ainda que fragmentária, da vida de Macau – Macau portuguesa, Macau Chinesa, Macau macaense. (Batalha 1979, 7)9189 Composto e impresso nas oficinas do Jornal Notícias de Macau, calçada do Tronco Velho, n.º 6-8, Macau-Oriente. 90 A título de exemplo, podemos referir Chinesices (Gomes 1988) (Gomes 1994), edição respetivamente do Instituto Cultural de Macau e Leal Senado (2.ª edição) e do Instituto Cultural de Macau (3.ª edição); Curiosidades de Macau Antiga (Gomes 1996), edição do Instituto Cultural de Macau (2.ª edição); Páginas da História de Macau (Gomes 2010), edição do Instituto Internacional de Macau (2.ª edição).91 Graciete Batalha, na nota introdutória acima referida, menciona “sete volumes” de Luís Gonzaga Gomes (Batalha 1979, 7). Na realidade existem oito volumes de Luís Gonzaga Gomes, que incluem, para além das seis obras acerca da cultura e arte chinesa e macaense, Páginas da História de Macau (Gomes 1966), e Efemérides da História de Macau (Gomes 1954). Os dois últimos volumes tratam da História de Macau. 127LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUDe acordo com critérios que a investigadora apura, “uma panorâmica” sobre a “vida de Macau” orienta as composição da obra Macau, Factos e Lendas (Bata-lha 1979). O índice mostra que os dezanove artigos correspondem a obras de Luís Gonzaga Gomes já publicadas nas décadas de 1950 e 1960: três artigos de Páginas da História de Macau (Gomes 1966);92 seis artigos de Lendas Chinesas de Macau (Gomes 1951);93 sete artigos de Curiosidades de Macau Antiga (Go-mes 1952);94 dois artigos de Festividades Chinesas (Gomes 1953);95 e um artigo de Chinesices (Gomes 1952).96 Por conseguinte, este arranjo documental de Macau, Factos e Lendas (Gomes 1979) não é mais do que uma republicação em volume de artigos de Luís Gonzaga Gomes, selecionados por Graciete Batalha, artigos esses que haviam sido reunidos e publicados pela Colecção Notícias de Macau. O facto de os oito volumes de Luís Gonzaga Gomes serem publicações da editora Colecção Notícias de Macau, suscita naturalmente uma questão sobre o peso das obras de Luís Gonzaga Gomes nas publicações da editora em causa. Na Biblioteca Nacional de Portugal, a consulta da entrada Notícias de Macau (nome do jornal e da editora) resulta em trinta e um registos.97 A exclusão de alguns re-gistos que não têm a ver com a Colecção Notícias de Macau permite identificar vinte e três publicações por esta editora, que se sistematizam na Tabela 5. N.º de coleção Publicações pela Colecção Notícias de MacauI, II e III Colectânea de artigos de Manuel da Silva Mendes, em 3 vols., compilação de Luís Gonzaga Gomes (Mendes 1949)IV Contos Chineses (Gomes 1950)V Lendas Chineses (Gomes 1951)VI Curiosidades de Macau Antiga (Gomes 1952)VII Chinesices (Gomes 1952)VIII Festividades Chinesas (Gomes 1953)IX Lisboa do Nosso Tempo (Correia 1954)X Arte Chinesa (Gomes 1954)XI Chong-Kuó (Pinto, Chong-Kuó 1954)XII Efemérides da História de Macau (Gomes 1954)92 “O Município Macaense”, “A Vida em Macau Há cerca de Cem Anos” e “Impressões de Macau Colhidas nos Princípios do Século XIX por Uma Jovem Americana”. 93 “Os Diversos Nomes de Macau”, “A Velha Muralha de Macau”, “O Fong Sôi de Macau”, “A Indústria da Seda em Macau”, “Mal-Aventurados Amores” e “O Desastroso Tufão de Sete da Sétima Lua”. 94 “A Lenda do Templo da Barra”, “A Rocha ‘Tái Ut’ do Templo da Barra”, “A Areia Preta”, “Os Primi-tivos Bombeiros de Macau”, “Narradores de Histórias”, “Combates de Grilhos” e “Origem do Nome de Algumas Ruas”. 95 “A Festividade do Ano Novo” e “A Festividade do Outono”. 96 “Os Vendilhões Ambulantes”. 97 Data de consulta: 26 de julho de 2016. 128
N.º de coleção Publicações pela Colecção Notícias de MacauXIII, XIV História da Igreja do Japão, pelo Pe. João Rodrigues Tçuzzu, S. J., preparada e ano-tada, em 2 vols., por João do Amaral Abranches Pinto (Tçuzzu 1954)XV, XVI Relação da Grande Monarquia da China, do Pe. Álvaro Semedo, traduzida do italiano para o português, em 2 vols., por Luís Gonzaga Gomes (Semedo 1956)XVII Nova Relação da China, pelo Pe. Gabriel de Magalhães, S. J., traduzida do francês para o português, por Luís Gonzaga Gomes (Magalhães 1957)XVIII, XIX, XX e XXINova Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes compilada por Luís Gonzaga Gomes, Vol. I (Arte), Vol. II (Problemas Citadinos), Vol. III (Assuntos Sínicos e Crónicas) e Vol. IX (Diversos) (Mendes 1963/1964)XXII A Imprensa Periódica Portuguesa no Extremo-Oriente, pelo Pe. Manuel Teixeira (Teixeira 1965)XXIII Páginas da História de Macau, por Luís Gonzaga Gomes (Gomes 1966).Tabela 5: Lista de vinte e três publicações pela Colecção Notícias de MacauTanto quanto a nossa investigação pôde apurar, destes vinte e três volumes pu-blicados durante o período de 1949 a 1966 pela Colecção Notícias de Macau, só quatro títulos não têm aparentemente a intervenção de Luís Gonzaga Gomes (os volumes XI, XIII, XIV e XXII). Considerando os títulos desta coleção que envolvem o trabalho de escrita, tradução ou antologização de Luís Gonzaga Gomes, a Tabela 6 organiza-os também em termos das temáticas abordadas. 8 volumes de Luís Gonzaga GomesCultura e arte chinesas e macaensesContos Chineses (Gomes 1950)Lendas Chineses (Gomes 1951)Curiosidades dMacau Antiga (Gomes 1952)Chinesices (Gomes 1952)Festividades Chinesas (Gomes 1953)Arte Chinesa (Gomes 1954)História de MacauEfemérides da História de Macau (Gomes 1954)Páginas da História de Macau, por Luís Gonzaga Gomes (Gomes 1966). 3 volumes traduzidos por Luís Gonzaga GomesHistória da ChinaRelação da Grande Monarquia da China, do Pe. Álvaro Semedo, traduzida do italiano para o português, em 2 vols., por Luís Gonzaga Gomes (Semedo 1956)Nova Relação da China, pelo Pe. Gabriel de Magalhães, S. J., traduzida do francês para o português (Maga-lhães 1957)129LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU7 volumes compilados por Luís Gonzaga Gomes Diversos: arte, vida quotidiana, pro-blemas da vida em Macau, assuntos relacionados com a comunidade chinesa e crónicasColectânea de artigos de Manuel da Silva Mendes, em 3 vols., compilação de Luís Gonzaga Gomes (Mendes 1949)Nova Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes, em 4 vols., compilada por Luís Gonzaga Gomes: Vol. I (Arte), Vol. II (Problemas Citadinos), Vol. III (Assun-tos Sínicos e Crónicas) e Vol. IX (Diversos) (Mendes 1963/1964)Tabela 6: Temática abordada pelas publicações ligadas a Luís Gonzaga GomesOs 18 volumes ligados a este autor incluem 11 que projetam imagens da Chi-na e de Macau (6 sobre a cultura e a arte chinesas, 2 acerca da história ma-caense e 2 por ele traduzidos sobre a História da China) e 7 coletâneas por ele compiladas (ligadas à vida de Macau), tal como indica a Tabela 3.Estes dados revelam o peso de Gonzaga Gomes nas publicações da edi-tora Colecção Notícias de Macau bem com o seu interesse nas atividades editoriais que privilegiam temas relativos à China e a Macau.Contudo, estes dados não revelam informações relevantes que nos per-mitam identificar o prestígio e o impacto desta editora no mercado das pu-blicações da época em Macau. Este levantamento preliminar suscita, para além disso, várias questões relevantes para o estudo de Gonzaga Gomes e, de modo particular, das suas publicações colocadas na Colecção Notícias de Macau. A saber: será a Colecção Notícias de Macau uma das mais importan-tes na época? Qual a importância das publicações de Luís Gonzaga Gomes pela Colecção Notícias de Macau? Para tentar responder a estas questões, considerámos relevante pesquisar o perfil de publicações das editoras de Ma-cau na década de 1950, altura em que a editora Colecção Notícias de Macau publica a maioria dos volumes acima referidos, de modo a obter uma visão panorâmica do mundo editorial macaense. Para este efeito, efetuámos uma nova busca na Biblioteca Nacional de Portugal, que surge coligida na Tabela 7, onde se identificam as principais editoras na década de 1950 em Macau, bem como informações sumárias sobre as suas publicações. 98Principais editoras de Macau na década de 1950 Número de títulos Temas Imprensa nacional(aliás, Impr. Nacional, Imp. Nacional)66Regulamentos de diversos serviços admi-nistrativos, cultura, arte e história chinesa e macaense (6), tradução (3)98Notícias de Macau 21 Cultura, arte e história chinesas e macaenses (18), tradução (3)98 Dos quais dois são de tradução de Luís Gonzaga Gomes. 130
Principais editoras de Macau na década de 1950 Número de títulos Temas Círculo Cultural(aliás, C. C. Macau, Círculo Cultural de Macau)9 RegulamentosSoi Sang(aliás, Sui Sang)7 FutebolReligião Pátria 3 Tradução religiosa, documentos religiososTabela 7 Principais editoras na década 1950 em Macau 99 Além das indicadas na Tabela 7, existem ainda outras editoras menores, com um número inferior de publicações, que, na sua maioria, estão ligadas aos ser-viços administrativos como o Leal Senado da Câmara, a Repartição Provin-cial dos Serviços dos Correios, Telégrafos e Telefones, o Conselho Provincial de Educação Física, a Repartição Provincial dos Serviços de Economia e Es-tatística Geral, ou os Serviços Meteorológicos da Província de Macau, entre outras. Cada uma destas editoras publica documentos dos próprios serviços e têm cada uma menos de três títulos na década de 1950. Da leitura da Tabela 7, resulta que a Colecção Notícias de Macau é a se-gunda maior editora na década de 1950 em Macau, apresentando vinte e uma publicações no total, no período em causa. Apesar de não ter um número de publicações tão elevado como tem a Imprensa Nacional, os temas abrangidos pelas publicações da Colecção Notícias de Macau são, predominantemente os que interessam o presente estudo, a saber, obras sobre a China e Macau, a sua cultura, arte e história (18) e traduções (3).100 Dentro das 66 publicações da Imprensa Nacional de Macau a maioria dos títulos são publicações de re-gulamentos de diversos serviços administrativos, sendo os restantes títulos acerca da cultura, arte e história da China e Macau (6) e títulos de tradução (3).101 A partir destes dados acima apresentados, não é difícil chegarmos a concluir que, em termos de publicações dos temas relacionados com a China e Macau e tradução, a editora Colecção Notícias de Macau é a editora mais destacada de Macau na década de 1950, contribuindo profundamente para dinamizar o mercado de publicações para divulgação do conhecimento da China e de Macau.Todavia, com vista a apurar a relevância de Luís Gonzaga Gomes no mer-99 Fonte de consulta: Biblioteca Nacional de Portugal. Data de consulta: 15 de julho de 2016.100 Títulos com temas ligados à China: Relação da Grande Monarquia da China (Semedo 1956), em 2 vols., trad. LGG; Nova Relação da China (Magalhães, 1957), trad. LGG. 101 Nos três títulos de tradução, dois são traduções de LGG, nomeadamente, Ou-Mun Kei-Leok: Monografia de Macau (Tcheong e Ian 1950), uma tradução de chinês para português, e Mensagem (Pessoa 1959), uma tradução de português para chinês.7 volumes compilados por Luís Gonzaga Gomes Diversos: arte, vida quotidiana, pro-blemas da vida em Macau, assuntos relacionados com a comunidade chinesa e crónicasColectânea de artigos de Manuel da Silva Mendes, em 3 vols., compilação de Luís Gonzaga Gomes (Mendes 1949)Nova Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes, em 4 vols., compilada por Luís Gonzaga Gomes: Vol. I (Arte), Vol. II (Problemas Citadinos), Vol. III (Assun-tos Sínicos e Crónicas) e Vol. IX (Diversos) (Mendes 1963/1964)Tabela 6: Temática abordada pelas publicações ligadas a Luís Gonzaga GomesOs 18 volumes ligados a este autor incluem 11 que projetam imagens da Chi-na e de Macau (6 sobre a cultura e a arte chinesas, 2 acerca da história ma-caense e 2 por ele traduzidos sobre a História da China) e 7 coletâneas por ele compiladas (ligadas à vida de Macau), tal como indica a Tabela 3.Estes dados revelam o peso de Gonzaga Gomes nas publicações da edi-tora Colecção Notícias de Macau bem com o seu interesse nas atividades editoriais que privilegiam temas relativos à China e a Macau.Contudo, estes dados não revelam informações relevantes que nos per-mitam identificar o prestígio e o impacto desta editora no mercado das pu-blicações da época em Macau. Este levantamento preliminar suscita, para além disso, várias questões relevantes para o estudo de Gonzaga Gomes e, de modo particular, das suas publicações colocadas na Colecção Notícias de Macau. A saber: será a Colecção Notícias de Macau uma das mais importan-tes na época? Qual a importância das publicações de Luís Gonzaga Gomes pela Colecção Notícias de Macau? Para tentar responder a estas questões, considerámos relevante pesquisar o perfil de publicações das editoras de Ma-cau na década de 1950, altura em que a editora Colecção Notícias de Macau publica a maioria dos volumes acima referidos, de modo a obter uma visão panorâmica do mundo editorial macaense. Para este efeito, efetuámos uma nova busca na Biblioteca Nacional de Portugal, que surge coligida na Tabela 7, onde se identificam as principais editoras na década de 1950 em Macau, bem como informações sumárias sobre as suas publicações. 98Principais editoras de Macau na década de 1950 Número de títulos Temas Imprensa nacional(aliás, Impr. Nacional, Imp. Nacional)66Regulamentos de diversos serviços admi-nistrativos, cultura, arte e história chinesa e macaense (6), tradução (3)98Notícias de Macau 21 Cultura, arte e história chinesas e macaenses (18), tradução (3)98 Dos quais dois são de tradução de Luís Gonzaga Gomes. 131LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUcado de publicações da década de 1950, é igualmente conveniente fazer uma leitura comparativa com o perfil destas publicações na década de 1950. A par-tir dos dados disponibilizados pela Tabela 1, elaboramos a seguinte Tabela 8.102 103 104 Tabela 8: Publicações em Macau e publicações de Luís Gonzaga Gomes na década de 1950 105 Constatamos que considerada a totalidade dos 193 títulos publicados em Macau na década de 1950, seis são obras de tradução, treze dedicam-se ao conhecimento, arte e cultura chinesas e macaenses e doze são obras sobre a história macaense. Apresentamos igualmente os títulos de Gonzaga Go-mes com os mesmos parâmetros. Dentro das publicações de Gonzaga Go-mes, que representa cerca de 7% das publicações durante a década de 1950, a maioria concentra-se na tradução e em obras sobre a arte e cultura chinesas e macaenses. Verificamos que Gonzaga Gomes é responsável por oito do total de treze obras sobre o conhecimento, a arte e a cultura chinesas e por cinco das seis traduções publicadas em 1950. Por conseguinte, nesta década Gon-zaga Gomes tem uma intervenção inequivocamente influente no mercado editorial macaense, sendo responsável por uma proporção elevada das obras que se publicam em volume em Macau para divulgação da cultura e arte chi-nesas e macaenses, sendo igualmente uma importante referência no mercado de tradução porque as suas obras de tradução correspondem a 83% de todo o mercado. Luís Gonzaga Gomes publica cinco volumes traduzidos numa só década, durante a qual só identificamos mais um volume traduzido, que é assinado por outro tradutor.A partir das informações editoriais disponibilizadas nas Tabelas 5, 6, 7 e 8, 102 Três são da editora Notícias de Macau. As restantes duas são da editora Imprensa Nacional de Macau, dos quais se destaca a tradução de Ou-Mun Kei-Leok: Monografia de Macau.103 Seis são da editora Notícias de Macau. Relativamente às restantes duas, uma é da editora San Chong Trading (1954) e uma outra é da editora Repartição Provincial dos Serviços dos Correios Telé-grafos e Telefones (1958). 104 É da editora Colecção Notícias de Macau. 105 Fonte de consulta: Biblioteca Nacional de Portugal. Data de consulta: 13 de Abril, 2017. Anos 1950-59 Totalidade dos títulos de publicações em MacauTítulos de traduçãoTítulos sobre conhecimen-to, arte e cul-tura chinesas e macaenses Títulos sobre história macaenseTítulos sobre outros temas(regulamentos, relatórios dos serviços, etc.)Publicações em Macau 193 6 13 12 162Publicações de Luís Gonzaga em Macau14 5 102 8 103 1 104 0132
torna-se evidente a relação estreita entre as publicações de Luís Gonzaga Gomes e a editora Colecção Notícias de Macau, assim como a importância de Gonzaga Gomes e da editora Colecção Notícias de Macau no mercado de publicações de Macau na década de 1950. A maior parte das obras de Gon-zaga Gomes são publicadas em volume pela Colecção Notícias de Macau, e ele é um dos autores mais publicados pela Colecção Notícias de Macau. Enquanto principais agentes culturais, tanto a editora Colecção Notícias de Macau como Gonzaga Gomes mostram interesse e empenho em divulgar e promover obras sobre a China e Macau e põem esse interesse e empenho em prática no mercado editorial de Macau. Estas suas iniciativas destinadas a divulgar e projetar imagens da China e de Macau aparentam espelhar uma estratégia coletiva consciente no contexto social, jurídico-político e históri-co destas décadas em apreço, como se tinha já referido no Capítulo 2. 4.4. IMAGENS DA CHINA E DE MACAU NAS OBRAS DE LUÍS GONZAGA GOMES (ANÁLISE PARATEXTUAL)O nosso trabalho de levantamento bibliográfico (vide Capítulo 3) identifica, na categoria de China e Macau, 202 obras não-traduzidas (27 em volume e 175 em artigo). Sendo um espólio de grande quantidade que abrange as ima-gens da China e de Macau e as imagens implícitas e ocultas do Ocidente, consideramos adequado fazer uma abordagem temática pormenorizada, a partir das informações disponibilizados nas informações paratextuais, com a finalidade de tentarmos conhecer melhor o perfil de divulgação destas ima-gens bem como as considerações identitárias de Luís Gonzaga Gomes. Para descrever, com profundidade, estas imagens da China e de Macau, consultámos a Classificação da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que é conhecido pela classificação temática e adotada, amplamente, pelas bi-bliotecas das instituições de ensino superior dos Estados Unidos, do Canadá, de Hong Kong e de Macau. Segundo os critérios da Classificação do Congresso dos Estados Uni-dos,106 a nossa consulta das obras não traduzidas de Gonzaga Gomes acerca das imagens da China e de Macau (27 volumes no total, identificados no nos-so levantamento) corresponde às seguintes categorias: D (História do Mun-do), G (Geografia, Antropologia, Recreação), N (Belas-Artes), P (Língua e Literatura) e Z (Bibliografia, Ciências Bibliotecária). Considerando que a maioria dos artigos de Gonzaga Gomes são reunidos em volume, decidimos 106 A Classificação do Congresso dos Estados Unidos recorre, na sua classificação, a 21 letras do alfabe-to inglês, sem emprego de I, O, W, X e Y. 133LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUfazer apenas levantamento em termos de volumes, que serve adequadamente para a nossa finalidade de pesquisa, pois são os volumes mais representativos das obras não traduzidas de Gonzaga Gomes sobre as imagens da China e de Macau.Os volumes de Gonzaga Gomes sobre as imagens da China e de Macau na Classificação do Congresso dos Estados UnidosD – História do Mundo (exceto História dos Estados Unidos):Subclasse DS - Asia (8 volumes)Gomes, Luís Gonzaga. 1954. Efemérides da História de Macau. Macau: Notícias de Macau. (Separata da revista Mosaico)Gomes, Luís Gonzaga. 1961. Catálogo dos Manuscritos de Macau. Lisboa: Centro dos Estudos Históricos Ultramarinos.Gomes, Luís Gonzaga. 1966. Páginas da História de Macau. Macau: Notícias de Macau. [1.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 2010. Páginas da História de Macau. Macau: Instituto Interna-cional de Macau. [2.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 1972. Representação Iconográfica Gruta de Camões de Macau. Lis-boa: Junta de Investigações do Ultramar. Gomes, Luís Gonzaga. 1973. Museu Luís de Camões. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1997. Macau: Um Município com História. Macau: Leal Senado. Gomes, Luís Gonzaga. 2010. A Derrota dos Holandeses em 1622. Série Mosaico 16. Ma-cau: Instituto Internacional de Macau.G – Geografia, Antropologia, Recreação (5 volumes)Subclasse GT - Manners and Customs (General)Gomes, Luís Gonzaga. 1952. Chinesices. Macau: Notícias de Macau. [1.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 1988. Chinesices. Macau: Instituto Cultural/ Leal Senado. [2.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 1994. Chinesices. Macau: Instituto Cultural. [3.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 1945. O Sistema de Adopções na China. Macau: [s.n.] (Separata do Renascimento)Gomes, Luís Gonzaga. 1953. Festividades Chinesas. Macau: Notícias de Macau. 134
N – Belas artes (1 volume)Subclasse NX – Arts in general Gomes, Luís Gonzaga. 1954. Arte Chinesa. Macau: Notícias de Macau. P– Língua e Literatura (11 volumes)Subclasse PC – Romanic languages (4 volumes)Gomes, Luís Gonzaga. 1941. Vocabulário Cantonense-Português. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1942. Vocabulário Português-Cantonense. Macau: Imprensa Nacional.Gomes, Luís Gonzaga. 1954. Vocabulário Português-Inglês-Cantonense. Macau: San Chong Trading. Gomes, Luís Gonzaga. 1958. Noções Elementares da Língua Chinesa. Macau: Repartição provincial dos Serviços dos Correios Telégrafos e Telefones. Subclasse PQ – French literature – Italian literature – Spanish literature – Por-tuguese literature (7 volumes)Gomes, Luís Gonzaga. 1950. Contos Chineses. Macau: Notícias de Macau. Gomes, Luís Gonzaga. 1951. Lendas Chinesas de Macau. Macau: Notícias de Macau. Gomes, Luís Gonzaga. 1952. Curiosidades de Macau antiga. Macau: Notícias de Macau. (Separata do Renascimento) [1.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 1996. Curiosidade de Macau antiga. Macau: Instituto Cultural. [2.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 1979. Macau: Factos e Lendas. Lisboa: Quinzena de Macau. [1.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 1986. Macau: Factos e Lendas. Macau: Instituto Cultural, Leal Senado. [2.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 1994. Macau: Factos e Lendas. Macau: Instituto Cultural. [3.ª edição]Z – Bibliografia, Ciência Bibliotecária (2 volumes)Subclasse Z – Books (General). Writing. Paleography. Book industries and trade. Libraries. BibliographyGomes, Luís Gonzaga. 1973. Bibliografia Macaense. Macau: Imprensa Nacional. (Se-parata do Boletim do Instituto Luís de Camões) [1.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 1987. Bibliografia Macaense. Macau: Instituto Cultural. [2.ª edição]135LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUCom base destas informações, registamos que, na categoria de “China e Macau”, as imagens da China e as de Macau apresentam certas diferenças temáticas que merecem a nossa atenção: as imagens da China incidem, pre-ferencialmente, nos temas de arte, conto, festividade, costumes, tradições e expressões populares (G – Geografia, Antropologia, Recreação; N – Belas--Artes), enquanto as imagens de Macau associam-se mais aos temas de lín-gua, literatura, História e bibliografia (P – Língua e Literatura; D – História do Mundo; Z – Bibliografia, Ciência Bibliotecária). Esta descoberta serve como uma base para a nossa abordagem a partir das informações paratexuais (título, capa, sobrecapa, contracapa, prefácio, badana, entre outros), que a seguir se apresenta. Na secção seguinte, pretendemos analisar as imagens da China, de Macau e do Ocidente a partir das informações paratextuais (peritexto e epitexto). Sendo informações reveladoras que servem a leitura e a receção (Genette 1997, 2), consideramos adequado fazer uma abordagem pormenorizada des-tes elementos associados às imagens da China, de Macau e do Ocidente, numa perspetiva de conhecer melhor a percepção mental de Gonzaga Go-mes sobre si.4.4.1. Imagens da ChinaEm relação à abordagem das imagens da China, optamos por referir a obra Chinesices – uma obra representativa de toda a coleção temática. Classificada sob a subclasse GT – Manners and Customs (General), a obra Chinesices con-ta com dezoito artigos que apresentam uma variedade de assuntos sobre os hábitos e as práticas quotidianas dos chineses, tais como: “casa de penhor”, “geomância”, “a piedade filial”, “superstições”, “jogos chineses”, “os vendi-lhões ambulantes”, “a seda e os bordados chineses”, “os cavalos chineses”, “como se cultiva a arte de tespis na China”, “a luta chinesa”, etc. Estes tópicos, segundo Isabel Mozart Silveira (1994), são iluminadores quer em si próprios quer como autoverificação de Luís Gonzaga Gomes, en-quanto autor: Eis o entrelaçar da História e da lenda, da realidade e da estória, entretecidas de forma laboriosa, tão peculiar a Luís Gonzaga Gomes […] vislumbra-se a simpli-cidade inquietante própria dos que não só se contentam com o saber, mas que também anseiam transmiti-lo. Traços de uma civilização antiguíssima que o autor [Luís Gonzaga Gomes] ilustra com pormenor, e identifica de forma singular: Chinesices. (Silveira 1994, contracapa) (ênfase nossa)136
Esta observação de Silveira (1994) no volume Chinesices, apesar de não desen-volvida, aponta para uma reflexão identitária patente nas obras de Gonzaga Gomes sobre as imagens da China. A este propósito, consideramos adequado referir primeiro que esta palavra Chinesices não é desprovida de conotações, nomeadamente negativas ou pejorativas. Espelha algum distanciamento da parte de quem a usa relativamente ao que a palavra refere, tal como indica o seu sufixo –ice.107 Consequentemente, tais afirmações suscitam questões como: Até que ponto Gonzaga Gomes se identifica com as imagens da Chi-na? Será esta identificação um dos valores com os quais Gonzaga Gomes pretende enriquecer a identidade macaense? Que valores poderão contri-buir para a identidade macaense? Sendo uma série de questões sofisticadas e ligadas com análise das outras imagens projetadas nas obras de Gonzaga Gomes, tentamos esclarecer estas questões ao longo da investigação e, mais especificamente, da análise textual que mais adiante se apresenta. 4.4.2. Imagens de MacauNo que diz respeito às imagens de Macau, a nossa pesquisa na Classificação do Congresso dos Estados Unidos identifica quatro subcategorias temáticas: língua, literatura, História e bibliografia. Na subcategoria de língua, registam-se quatro obras. Gomes, Luís Gonzaga. 1941. Vocabulário Cantonense-Português. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1942. Vocabulário Português-Cantonense. Macau: Imprensa Nacional.Gomes, Luís Gonzaga. 1954. Vocabulário Português-Inglês-Cantonense. Macau: San Chong Trading. Gomes, Luís Gonzaga. 1958. Noções Elementares da Língua Chinesa. Macau: Repartição provincial dos Serviços dos Correios Telégrafos e Telefones. Os primeiros três títulos são vocabulários bilíngues, enquanto o último é um manual para aprendizagem da língua chinesa (que contém o dialeto manda-rim e o dialeto cantonense). Sendo o cantonês o idioma veicular na popu-lação chinesa de Macau, consideramos interessante estudar as imagens de Macau a partir dos fenómenos linguísticos. 107 -ice in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-09-26 23:08:20]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/-ice137LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUDevido à raridade dos vocabulários disponibilizados nas bibliotecas e arqui-vos de Macau e de Portugal, temos simplesmente acesso ao Vocabulário Por-tuguês-Cantonense,108 a partir da qual iniciamos a nossa análise. Publicado em 1942 pela Imprensa Nacional de Macau, o Vocabulário Por-tuguês-Cantonense foi publicado em comemoração do Centenários da Funda-ção da Restauração de Portugal. Totalizando 235 páginas, o volume tem três partes: Parte I – “Vocabulário” (Gomes 1942, 8), Parte II – “Variado empr[e]go de alguns verbos” (Gomes 1942, 197) e Parte III – “Frases dialogadas” (Gomes 1942, 216). A primeira parte – “Vocabulário” –, de 188 páginas, classifica o vocabulá-rio em termos das palavras temáticas por ordem alfabética (de A a Z): “ad-jectivos”, “administração”, “alimentação”, “animais”, “arte”, “bebida”, “casa”, “cidade”, “comércio”, “corpo”, “doença”, “escrita”, “estudo”, “família”, “geo-grafia”, “guerra”, “justiça”, “marinha”, “minerais e substanciais”, “mobiliá-rio”, “objectos e utensílios”, “plantas”, “profissões”, “religião”, “sentimento”, “tempo”, “verbo” e “vestuário”. Apresentando-se as entradas em forma de palavras, o vocabulário refere-se aos assuntos genéricos e associa-se à vida do dia-a-dia. A segunda parte – “Variado empr[e]go de alguns verbos” –, de 9 pági-nas, apresentam as expressões com emprego dos verbos: “acabar”, “achar”, “chamar”, “chegar”, “chover”, “comprar”, “conhecer”, “estar”, “falar”, “fa-zer”, “haver”, “mandar”, “ouvir”, “partir”, “poder”, “precisar”, “saber”, “sair”, “ser”, “ter”, “ver”, “vir” e “voltar”. Sendo os verbos elementares e de uso mui-to frequente, as entradas apresentam também um perfil acessível, mostrando a natureza coloquial e familiar dos usos que retratam.A terceira parte – “Frases dialogadas” –, de nove páginas, disponibiliza diálogos em diferentes situações: “casas”, “compras”, “cumprimentos”, “dor-mir”, “encontro”, “favor”, “no hotel”, “passeio” e “viagem”. Tal como assi-nalamos na primeira e segunda partes deste volume, esta terceira parte de novo apresenta um elenco de expressões coloquiais e familiares. No entanto, em termos de construções frásicas, os diálogos situacionais são um pouco complicados. Além das informações acima referidas, vale a pena mencionar a forma de apresentação deste vocabulário. Sendo um vocabulário português-canto-nense, o português fica à esquerda, enquanto o seu equivalente em cantonês, acompanhado pela pronúncia em cantonês, fica à direita. Este arranjo facilita a consulta aos falantes de português que lêem o português à esquerda e assim procuram, lendo o português, como se diz uma palavra em cantonês. Esta in-108 Disponível em microfilme. 138
formação indica que, na altura em que Gonzaga Gomes elabora o vocabulá-rio, quatrocentos anos após o estabelecimento dos portugueses no território de Macau, a comunicação do dia a dia entre os dois povos já se consagra em vocabulário. Para facilitar a consulta, na parte final do Vocabulário Português-Canto-nense, há ainda um índice que elenca todas as entradas em português, com indicação da sua numeração. Resumindo, apesar de não termos acesso aos outros dois vocabulários do mesmo autor e publicados na mesma altura, a nossa análise a partir das infor-mações paratextuais é reveladora: os vocabulários têm objetivo de divulgar conhecimentos linguísticos e culturais sobre a vida de Macau, estando orga-nizados para uso dos portugueses (nos casos de Vocabulário Português-Canto-nense e Vocabulário Português-Inglês-Cantonense) e dos cantonenses (no caso de Vocabulário Cantonense-Português). Na subcategoria de literatura, a partir das informações paratextuais destas obras, constatamos que as imagens de Macau são explicita ou implicitamente associadas às da China. No caso de Lendas Chinesas de Macau, o título indica claramente esta relação. No caso de Curiosidade de Macau Antiga (1952, 1996) e Macau: Factos e Lendas (1979, 1984 e 1994), tanto as informações de índice e prefácio como as suas críticas apontam para esta ligação culturalmente en-trelaçada. Na contracapa do volume Curiosidade de Macau Antiga, Margarida Duarte (1996) confirma esta união vivida em Gonzaga Gomes: Profundo conhecedor da paisagem física e humana de Macau e da Cultura Chi-nesa, Luís Gonzaga Gomes oferece ao leitor nesta obra um variado leque de olha-res: estórias enraizadas na geografia de uma cidade já desaparecida entrelaçam-se nas tradições chinesas construindo uma cultura de intenso colorido local. (Go-mes 1996)Na realidade, vale a pena apontar que, ao referir as tradições culturais chi-nesas nas obras sobre as imagens da China, “geomância” e “superstição” são palavras frequentemente usadas por Gonzaga Gomes. Um dos exemplos tí-picos é Lendas Chinesas de Macau (Gomes 1951). Este volume tem 36 lendas populares chinesas que circulavam em Macau, diziam respeito a Macau e a determinados lugares de Macau. Por iniciativa do Instituto Internacional de Macau, este volume foi traduzido para o chinês e publicado em 2004. O vo-lume traduz 33 lendas, deixando três lendas por traduzir, nomeadamente, “A casa ensombrada da Rua do Campo”, “Os espectros de Tái-Pou-Lám” e “Os 36 demónios da casa dos Tchéang” (ênfase nossa). De acordo com um dos 139LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUtradutores deste volume, foi devido aos enredos demasiado supersticiosos que estes três artigos foram eliminadas na altura de seleção.109 Aliás, mesmo nas restantes 33 lendas traduzidas para o chinês, também não faltam elemen-tos do mesmo género. Tal revela que os elementos supersticiosos, empres-tados da cultura da China, constituem parte das imagens de Macau, como entende Gonzaga Gomes. Na realidade, a “superstição” fica muito enraizada na vida de Macau, como observa Cabral e Lourenço (1993), na sua investi-gação sobre a identidade macaense do ponto de vista social e antropológico: [A] vida diária é pontuada por todo o género de crenças e atitudes de natureza simbólica (“superstições”) cuja origem é geralmente chinesa e não ocidental. Por exemplo, as crenças sobre os efeitos nocivos da má-vontade alheia são formuladas em termos de hak1 e não de “mau olhado”. Se uma jovem macaense acorda a meio da noite assustada por ruídos que pensa serem fantasmas, os vizinhos podem ouvi--la a praguejar em cantonense, de forma a repeli-os. (Cabral e Lourenço 1993, 184)No que toca à subcategoria História, registamos oito volumes de Gonzaga Gomes dedicados exclusivamente à História de Macau. A partir das infor-mações paratextuais que conseguimos apurar, constatamos que a História de Macau é fortemente associada a dois tópicos: origem da Cidade de Macau e atividades dos portugueses em Macau e suas relações com a China. A propósito do primeiro tópico, origem da Cidade de Macau, considera-mos interessante analizar o índice do livro Macau: um município com História: Todos os artigos contribuem para perceber as discussões em torno da ori-gem de Macau, tais como, “Teses Divergentes sobre a Origem da Cidade de Macau”, “Os Inícios da Cidade de Macau”, “Diversos Nomes de Macau”, etc.Quanto ao segundo tópico, atividades dos portugueses em Macau e suas relações com a China, os oito volumes ligados à História de Macau lidam, sem exceção, com este tópico.Gomes, Luís Gonzaga. 1954. Efemérides da História de Macau. Macau: Notícias de Macau. (Separata da revista Mosaico)Gomes, Luís Gonzaga. 1966. Páginas da História de Macau. Macau: Notícias de Ma-cau. [1.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 2010. Páginas da História de Macau. Macau: Instituto Interna-cional de Macau. [2.ª edição]Gomes, Luís Gonzaga. 1972. Representação Iconográfica Gruta de Camões de Macau. Lis-boa: Junta de Investigações do Ultramar. Gomes, Luís Gonzaga. 1973. Museu Luís de Camões. Macau: Imprensa Nacional. 109 Esta informação foi revelada numa conversa entre um dos tradutores deste volume e a autora da tese. 140
Gomes, Luís Gonzaga. 1961. Catálogo dos Manuscritos de Macau. Lisboa: Centro dos Estudos Históricos Ultramarinos.Gomes, Luís Gonzaga. 1997. Macau: Um Município com História. Macau: Leal Senado. Gomes, Luís Gonzaga. 2010. A Derrota dos Holandeses em 1622. Série Mosaico 16. Ma-cau: Instituto Internacional de Macau.Apesar de os títulos não indicarem explicitamente as atividades dos portu-gueses em Macau e suas relações com a China, as outras informações para-textuais apontam para este tópico. No caso de Efemérides da História de Ma-cau (Gomes 1954), os artigos reunidos em volume em 1954, correspondem a uma série publicada em Mosaico, durante os anos de 1950 e 1951, intitulada “Efemérides da História de Macau e da História dos Portugueses na Chi-na". Com o conteúdo intacto, a eliminação de “História dos Portugueses na China” do título permite focar a imagem de Macau e tornar a imagem dos portugueses implícita. Outras informações disponibilizadas pelos índices, badanas e críticas indicam que, nestes volumes, se registam abundantes eventos associados a portugueses em Macau e às suas relações com a China. Na obra Páginas da História de Macau, há artigos como “os Feringues”, “a Aclamação de D. João VI em Macau”, “A explosão da fragata `Dona Maria II´”, “Pedro Alexandri-no da Cunha Malaventurado Governador de Macau”, “Uma Cerimónia da Quebra de Escudos em Macau”, “Momentânea Paralização do Comércio em Cantão”, “Notável Acção Naval contra os Piratas da Ilha Kou-Lán”, “Contra os Piratas de Kou Lán”, “Acção Policial contra os Piratas da Ilha de Monta-nha” ou “Definitiva Expulsão dos Piratas de Coloana”, entre outros, sendo os artigos sublinhados em cinzento sobre as iniciativas do portugueses contra os dinâmicos piratas no mar Sul da China, entre os finais do século XVII e o princípio do século XX. Nestes volumes sobre a História de Macau, quer nas discussões sobre a origem da cidade de Macau, quer na narração das atividades dos portugueses em Macau e das suas relações com a China, procura-se transmitir uma ima-gem de Macau independente. Independente no sentido de ter a sua própria origem identitária e no sentido de assumir uma função ou papel social par-ticular como ponte de ligação entre dois mundos: o Ocidente representado pelos portugueses e o Oriente representado pela China. Relativamente à subcategoria de Bibliografia, encontramos uma entrada (de duas edições) que fica na subclasse Z– Books (General). Writing. Paleo-graphy. Book industries and trade. Libraries. Bibliography: Bibliografia Macaense (Gomes, 1973/1987). 141LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUSendo uma referência fundamental para os estudos históricos de Macau em língua portuguesa e inglesa,110 esta obra inclui todos os estudos publicados “sobre Macau” e os “impresso[s] nesta cidade [Macau]” (Gomes 1987, 5) a partir do início da fundação de Macau até ao ano que termina o projeto (pre-sumivelmente durante os séculos de XVI a XX).111 Corresponde à separata do n.º 1 do Vol. III do Boletim do Instituto Luís de Camões. É composto por três partes que organizam os registos por ordem alfabética: I parte – publicações respeitantes a Macau e as que foram impressas nesta província (1640-1965); II parte – legislação local (1813-1970); III parte – publicações periódicas e seriadas (1918-1963). São resultados do trabalho de Gonzaga Gomes, quando ele desempenha funções como “bibliotecário, no breve período de 1962-1968” (Gomes 1987, 6) na então Biblioteca Nacional de Macau.112 A primeira parte – publicações respeitantes a Macau e as que foram im-pressas nesta província (1813-1970) – regista 1 881 entradas. São obras es-critas principalmente por macaenses, portugueses e outros ocidentais, apre-sentando-se uma grande variedade temática, tais como História de Macau, Macau na relação Portugal-China, europeus no Extremo Oriente, arte, cos-tume, tradição da China, primeiros contactos entre Portugal e a China, bem como outros temas ligados a Hong Kong, à Índia e ao Japão. Resumidamente, “Macau” é a palavra em destaque, seguida de “China” e “Portugal”.A segunda parte – legislação local (1640-1965) – tem 317 entradas, que registam estatutos, regulamentos e outros documentos da legislação de Ma-cau nos anos de 1813 a 1959, sendo a maioria deles publicados pela editora Imprensa Nacional de Macau. Quanto à terceira parte – publicações periódicas e seriadas (1918-1963) –, registam-se 158 entradas, com informações dos periódicos pormenorizadas, que incluem o local de publicação, a editora, a data de publicação, o volume, o número bem como a dimensão do periódico. Na final desta parte ainda se anexa uma tabela intitulada Jornais Publicadas em Macau em que se espe-cificam o título, a periodicidade, o início, o termo e as observações de cada jornal. Como um trabalho exaustivo e consumidor de tempo, esta valiosa obra testemunha o diligente empenho de Gonzaga Gomes em relação à causa de Macau. Na reedição desta obra em 1987, Jorge de Abreu Arrimar, na quali-dade de Diretor da Biblioteca Nacional de Macau, assinala a dedicação de 110 As obras sobre Macau em chinês não fazem parte desta bibliografia. 111 Como o autor não indica a abrangência temporal do período desta obra. Trabalhamos, a partir das notas do autor e das informações dentro do volume, um período vago.112 Hoje é Biblioteca Central de Macau, anexa ao Instituto Cultural de Macau da Região Administrati-va Especial de Macau. 142
Gonzaga Gomes, referindo-a como: “[u]ma merecida homenagem ao ilustre macaense [Luís Gonzaga Gomes] que tanto se esforçou em prol da sua terra natal, da cultura portuguesa e do diálogo Luso-Chinês”. (Gomes 1987)4.4.3. Imagens do OcidenteNa categoria de “China e Macau” do nosso levantamento, a consulta na Clas-sificação do Congresso dos Estados Unidos não resulta em nenhuma entrada exclusivamente dedicada às imagens do Ocidente.No entanto, como já referimos nas imagens de Macau,113 as obras sobre História de Macau estão estreitamente relacionadas com as atividades por-tuguesas em Macau e suas relações com a China. Neste caso, as imagens dos portugueses, implícitas nos títulos mas explícitos no índice dos volumes, são refletidas e espelhadas na sua relação com as imagens de Macau. Sendo as imagens dos portugueses fortemente associadas à origem da Cidade de Macau e à defesa de Macau contra os piratas, Gonzaga Gomes apresenta de modo favorecedor as imagens dos portugueses. Após uma breve apresentação das obras de Gonzaga Gomes sobre ima-gens da China e de Macau, importará avançar para a “história interna” destes volumes, procedendo a uma análise textual. Verificamos diferenças regista-das nas imagens da China, nas imagens de Macau e nas imagens ocultas do Ocidente. Macau, com a aproximação cultural às imagens da China, repre-sentada pela “chinesice”, e com a aproximação histórica com as imagens do Ocidente (predominantemente Portugal), representada pela “portugalida-de”, apresenta-se com uma imagem cultural e historicamente muito rica, distinta e autónoma. Com a exploração das suas próprias culturas e História, Macau distingue-se como uma ponte de ligação entre Portugal e a China e entre os portugueses e os chineses. Tais obras contribuem assim para a iden-tificação de novos valores para a sua identidade singular. Na projeção desta singularidade identitária macaense, parece-nos obriga-tório assinalar o papel de Gonzaga Gomes como divulgador destas imagens. Ao qualificar o desempenho de Gonzaga Gomes, José Luís Sales Marques (1997), então presidente do Leal Senado de Macau, comenta que: “[g]raças ao seu [de Luís Gonzaga Gomes] esforço dedicado foi-nos possível conservar alguns dos traços distintivos que singularizam a identidade de Macau, tudo aquilo que a torna única no contexto geo-político onde se insere”. (Gomes 1997, 7) Este reconhecimento dos esforços de Gonzaga Gomes em relação à sin-gularização da identidade macaense aponta tem ainda outras implicações: 113 Vide Capítulo 4, secção 4.4.2.143LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUalém de ser uma afirmação identitária, aponta também para a conscienciali-zação identitária macaense no “contexto geo-político” do território de Ma-cau. Na realidade, este “contexto geo-político” é um fator fundamental para a formação das imagens do macaense ao longo da história de Macau.4.5. IDENTIDADE MACAENSE EM IMAGENS (ANÁLISE TEXTUAL)Nesta secção pretendemos recuperar, a partir da bibliografia macaense de-dicada a Macau, as imagens que os macaenses desenvolvem ao longo da his-tória, numa tentativa de encontrar os traços identitários que tais imagens projetam, de modo a contextualizar a análise dos textos de Luís Gonzaga Gomes.É inegável que os macaenses ao longo da história, e atravessando as fases de incubação, formação, consolidação e desenvolvimento da sua identidade, têm procurado uma identidade singular, capaz de os distinguir de outros gru-pos étnicos com os quais partilham um espaço territorial. Esta tentativa é reforçada especialmente durante a fase de consolidação da identidade ma-caense, que ocorre durante os séculos XIX e XX, de modo especial durante a primeira metade do século XX.114 As imagens do macaense apresentam-se, inicialmente, sob forma de um conjunto de aspirações da elite macaense, no sentido de maximizar a “portu-galidade” para obter “privilégio social” e “monopólio étnico”. Todavia, estas aspirações ainda que afirmadas acabam por não se concretizar. Com a acul-turação resultante da interpenetração das culturas oriental e ocidental, as aspirações do macaense distanciam-se da realidade. Como afirmam Cabral e Lourenço, as estratégias da elite macaense relativas à maximização do capital de portugalidade ficam-se simplesmente pelas palavras e devem “ser vista[s] como um fenómeno puramente ideológico” (Tomás 1987, 129-130). Em resultado da crise de confiança registada nas décadas de 1940 a 1970, os macaenses sentem-se ameaçados pelo “abandono” e pela “falta de prote-ção” de Portugal,115 na sequência das evoluções políticas de 1950, durante o período do pós-Guerra e os anos da Revolução Cultural (1966-1976) bem como no período de negociações da Declaração Conjunta (Assinatura em 1987). Vivem uma grande incerteza causada pela ambiguidade identitária. É nesse enquadramento de “dualismo” dos dois poderes português e chinês que os macaenses tomam atitudes flexíveis e conciliadoras para lidar com as cri-ses étnicas entre o sector lusófono e o sector sinófono. É neste contexto que 114 Vide Capítulo 2.115 Veja-se Capítulo 2, secção 2.2.144
surge a identificação com a imagem de “Macau Bambu” e que os macaenses afirmam, de maneira consciente, ser “filhos da terra”, reivindicando uma le-gitimidade alicerçada no vínculo com a terra de Macau. 4.5.1. Macau Bambu: autoimagem ou heteroimagem do macaense?Apesar da valorização preferencial da “portugalidade”, os macaenses mos-tram, na realidade, um elevado grau de “flexibilidade” perante as crises socio-culturais e políticas entre os diferentes grupos étnicos, recorrendo ao “diálo-go” para resolver o “conflito”. Estas iniciativas passam a ser etiquetadas como “Bambu”. Esta imagem metafórica da comunidade macaense surge, primei-ramente, em A Presença de Portugal em Macau, de António da Silva Rego, que descreve Macau em 1947 da seguinte forma: Macau, semelhante ao bambu chinês, soube dobrar-se às inclemências do tempo, à espera que passasse o tufão, e que o deixasse erguer novamente a sua elegante haste para o céu. (Rego 1947/1966, 107)Nos relatos de Rego,116 Macau é, portanto, comparado ao bambu chinês, que, na sua flexível e elegante resiliência, se dobra perante as inclemências mas não parte, voltando a erguer-se logo que passa a tormenta. Apesar da “por-tugalidade” procurada e preferida pelo macaense, esta metáfora confere a Macau, desde logo, um toque chinês. Depois deste primeiro emprego metafórico que qualifica Macau, esta imagem passa a ser associada ao território e consequentemente à identidade do macaense. Surge em diversos textos que são, de seguida, apresentados por ordem cronológica. Graciete Batalha, na sua obra Bom Dia, S’tora, refere esta imagem clás-sica quando fala do Macau do 1,2,3, dizendo “Macau limitou-se a encolher os ombros e a continuar a sua longa tradição de caniço ao vento...” (Batalha 1991, 159). A autora metaforizou o incidente político como o “vento” e o “ca-niço” do bambu como Macau, sublinhando as semelhanças entre esta planta e Macau.Na entrevista realizada por Cabral e Lourenço, uma entrevistada ma-caense identifica-se com as qualidades do bambu, respondendo que:Nós os macaenses, não somos como o ferro que quebra; somos como o bambu que dobra. Vem o tufão e somos atirados ao chão; mas logo se segue o bom tempo e voltamos a endireitar-nos, espalhando os ramos. (Cabral e Lourenço 1993, 24)116 António da Silva Rego (1905 –1986) foi um sacerdote, político, professor e historiador português.145LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUOs autores julgam que esta imagem do Macau Bambu, resiliente e flexível perante o tufão, corresponde à imagem que os macaenses evidenciam peran-te as mudanças sociais, político-judiciais e étnicas, podendo assim ser “um dos axiomas centrais para a compreensão da história recente – porventura do futuro imediato – de Macau e dos macaenses” (Cabral e Lourenço 1993, 24). Esta imagem do bambu é também empregue, posteriormente, por Maria Gaspar, no seu livro No Tempo do Bambu – Identidade e Ambivalência entre Macaenses, para representar Macau e os macaenses. Preocupando-se com o destino de ambos, pergunta na contracapa “será que o bambu (Macau e os macaenses), irá resistir às novas circunstâncias sem sucumbir?” (Gaspar 2015, contracapa). A capa do livro recupera uma fotografia da obra intitulada Ma-cau (Esquível 1992), publicada em 1992 pelo Governo de Macau.Nos troncos do bambu foram gravados diversos carateres chineses. Na contracapa Gaspar continua a interpretar esta metáfora do bambu, explican-do a razão pela qual a usa: A metáfora do bambu no sentido de durabilidade e permanência associada à ima-gem de Macau e dos macaenses, foi já apropriada tanto pela literatura como pelos próprios macaenses. (Gaspar 2015, contracapa) Estas observações comprovam que a imagem do bambu é adotada pelos ma-caenses como autoimagem, quando pretendem apresentar a sua índole fle-xível e resiliente. As qualidades associadas ao bambu são flexibilidade, per-sistência e resiliência, permitindo ao macaense resistir a tempos terríveis de “tufões”.Todavia, é de realçar que as qualidades acima referidas apresentam impli-citamente uma sensação de subserviência à vontade de outrem, ou seja, uma “sensação de insegurança” (Cabral e Lourenço 1993, 87). Perante os tufões sociais, jurídico-políticos, e étnicos que ocorrem nesta terra, as “sensações de insegurança” e instabilidade estarão na origem do que é referido como uma “profunda falta de confiança” (Cabral e Lourenço 1993, 112), interpretada também como “incerteza pessoal”, em resultado da ambiguidade da identi-dade macaense (Cabral e Lourenço 1993, 163). Nestas circunstâncias, à ima-gem positiva da natureza flexível e resiliente do bambu, vem juntar-se outra associação menos positiva duma “sensação de insegurança”, de “profunda falta de confiança” e “incerteza pessoal”. Constatamos, portanto, que a metáfora de “Macau Bambu”, apesar de positiva porque evocativa da elegância, flexibilidade, elasticidade e resiliên-cia do bambu chinês, talvez não seja uma autoimagem com a qual os macaen-146
ses prefiram identificar-se, especialmente numa altura em que estes ainda procuravam a maximização da sua “portugalidade”. Para além disso, convém não esquecer que esta é uma imagem proposta por portugueses para Macau e os macaenses. Neste sentido, o “Macau Bam-bu”, como uma autoimagem do macaense imposta por outrem, poderá ser visto como heteroimagem gerada pelos portugueses em relação a Macau e aos macaenses. Por exemplo, na capa da obra literária Nocturno em Macau,117 de Maria Ondina Braga, os desenhos do bambu são apresentados metafori-camente em representação de Macau. Em 1949, Luís Gonzaga Gomes também escreve um artigo intitulado “O bambu”.118 Publicado na Revista de Macau – Estudos Económicos e Sociais, o artigo apresenta a bambueira como “amiga da China”: Na China não há sítio para onde vá a gente que não encontre qualquer objecto feito de bambu, sendo por isso que muitos se referem à bambueria como a “amiga da China”. (Gomes 1949, 141)Terminando com a mesma ideia: Das plantas que os chineses adoram, o bambu tem especial preferência devido à sua grande utilidade. (Gomes 1949, 145) Em vez de salientar somente a flexibilidade, resiliência e persistência do bambu, Gonzaga Gomes tenta apresentar outras perspetivas: O bambu constitu[i] o tema mais popular das manifestações poéticas e artísticas dos chineses. Por ser uma planta que vive muitos anos, a bambueira é conside-rada como o símbolo da longevidade; pela resistência dos seus robustos caules e das suas fortes raízes perante as inclemências do tempo, como o símbolo da estabilidade; pela sombra fagueira que dispensam as suas folhas como o símbolo da benevolência; e porque os seus rizomas além de alimentar a planta produzem novos rebentos em curtos intervalos, como o símbolo de fiel cumprimento do dever. (Gomes 1949, 142)Neste artigo o bambu é, portanto, associado por Luís Gonzaga Gomes a manifestações poéticas e artísticas chinesas, que o exploram enquanto sím-117 Publicada na década de 1990, mas descreve a vida nos anos de 1970 de Macau. 118 Este artigo não foi muito divulgado. No arquivo de Macau, está colocado na categoria de Botânico. 147LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUbolo de “longevidade”, “estabilidade”, “benevolência”, e “fiel cumprimento do dever”. Gonzaga Gomes não esconde a sua afeição pessoal pelo bambu, mas não associa esta planta nem ao macaense nem a Macau. Na realidade, Gonzaga Gomes interpreta a “flexibilidade” do bambu duma outra forma, considerando-o “pela resistência dos seus [bambu] robustos caules e das suas fortes raízes perante as inclemências do tempo, como o símbolo da estabili-dade”. Esta descrição do bambu “como o símbolo da estabilidade” explora uma qualidade contrária às etiquetas de flexibilidade, elasticidade e resiliên-cia propostas por Rego (1947/1966), Batalha (1991) e Gaspar (2015), para nem sequer falar de “incerteza pessoal” e “insegurança” abordadas por Ca-bral e Lourenço (1993, 112). A investigadora Mónica Simas, na obra Margens do Destino, fala do “olhar intérprete e investigador” de Gonzaga Gomes, e do modo como vem subli-nhar um capital sinófono aliado ao já referido capital de portugalidade das marcas de identificação cultural da comunidade macaense. Apesar de um olhar cujas raízes identificam-se [sic] com o ‘capital de portugali-dade’, ele [Luís Gonzaga Gomes] oferece ângulos inusitados em relação a essas marcas de identificação cultural, cruzando a esfera comunicativa do ‘capital de portugalidade’ com a do ‘capital sinófono’, o que actualiza um discurso alternati-vo, dirigido para a contemplação da memória dos habitantes chineses de Macau. No universo das “chinesices”, contemplam-se histórias marcantes como as narra-das em “O desastroso tufão de sete da sétima lua” e “A velha muralha de Macau”, ambos contos inseridos em Macau, factos e lendas. (Simas 2007, 149)Simas (2007) destaca neste olhar de Gonzaga Gomes o discurso alternativo que dá voz ao “capital sinófono”, invocando histórias pertencentes a um universo de “chinesices”. No fundo, ao assinalar as fortes raízes chinesas do “Bambu”, Gonzaga Gomes sublinha o “capital sinófono” associado à imagem de “Ma-cau Bambu”. Para além da referência à comunidade chinesa, a expressão-chave aqui é “fortes raízes”, uma ideia positiva e fundamental para o macaense, uma vez que a complexidade da origem identitária macaense tem vindo a ser uma discussão sem conclusão definitiva. Todavia, esta ideia de enraizamento forte encontra uma expressão privilegiada noutra imagem, a de “filhos da terra”.4.5.2. To2 saang1 : filhos da terraA expressão “filhos da terra” emprega-se frequentemente acompanhada com a expressão to2 saang1 (literalmente, “terra”, “nascer”), aliás to2 saang1 jai2 (“terra”, “nascer”, “criança”), to2 saang1 jan4 (“terra”, “nascer”, “pessoa”) e to2 148
saang1 pou4 jan4 (“terra”, “nascer”, “português”, “pessoa”). Relativamente a esta combinação – “filhos da terra”/to2 saang1, não há explicações suficientes sobre a sua origem e o contexto sociocultural específico em que nasce. Certo é que as duas expressões são consideradas sinónimos de “macaense” e que se associam ambas a uma imagem concreta – a terra. No entanto, os investiga-dores ocidentais e os chineses têm diferentes visões acerca deste assunto. Alguns investigadores chineses que se dedicam a estudar a história de Ma-cau (Jin e Wu 2002, Li 2007), com base em documentos históricos datados da Dinastia Qing, confirmam que a expressão to2 saang1 poderá ter origem chinesa, tendo sido utilizada pelos chineses para referir os estrangeiros ra-dicados na China na Dinastia Tang (Jin e Wu 2002, 411) e para referir os filhos dos aborígenes (casados com os habitantes da China continental) em Taiwan na Dinastia Song. Sendo descendentes com sangue de mistura, este grupo de pessoas diferencia-se dos estrangeiros com curta estadia na China e dos habitantes aborígenes originais de Taiwan. Contudo, de acordo com Jin (1993, 3), to2 saang1 encerra sentidos pejorativos, enquanto o equivalente em português “filhos da terra”, não apresenta tais sentidos. Terá sido porventura este um dos motivos pelos quais Jin, o tradutor para chinês da obra Filhos da Terra, da autoria de Ana Maria Amaro, se recusa a traduzir “filhos da terra” diretamente como to2 saang1, na versão chinesa publicada em 1993 (Amaro 1993, 3), recorrendo, antes, ao uso de aomemren (“macaense” ou “pessoas de macau”) para descrever este grupo de pessoas. Por outro lado, na tradução para chinês de outra obra de referência so-bre a comunidade macaense, de Na Terra de Tufões, de Cabral de Lourenço (1995), a tradutora Chen Jieying encontra um dilema semelhante na tradu-ção de “macaense”. A palavra “macaense”, se traduzida literalmente para o chinês, abarca genericamente todos os residentes nascidos ou radicados em Macau. A tradutora prefere usar to2 saang1 para se referir de modo exclusivo e particular aos macaenses como grupo étnico específico (Cabral e Lourenço 1995, 7). No entanto, esta distinção relevante não parece ser identificada nos estu-dos dos investigadores portugueses. Amaro, no seu estudo étnico-antropoló-gico Filhos da Terra, emprega “filhos da terra” como sinónimo do macaense, afirmando que “os filhos da terra constituem um grupo sui generis que se isolou em Macau, fruto de pressões de índole social e económica” (Amaro 1988, 101). Outros investigadores como Cabral e Lourenço, e também Simas, pressu-põem a equivalência entre os três termos: macaense, to2 saang1 e filhos da terra. Uma das principais categorias da identidade étnica em Macau, hoje, é a de “ma-caense” em português e to2 saang1 em cantonense. […] significado, aliás, implícito 149LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUna expressão cantonense to2 saang1 jai2 (lit. terra nascido criança, filho da terra). (Cabral e Lourenço 1993, 19)São os macaenses – designação portuguesa – ou to sang – designação cantonense que significa “filhos da terra” – um dos vetores centrais da sociedade de Macau. (Simas 2007, 142)Perante esta confusão terminológica, Li Changsen conclui que:‘土生人’是站在中國人立場上的理解和認識,而 ‘macaense’是站在葡國人立場上的理解和認識[……] ‘澳門土生’和‘macaense’語義不同,但指的是同一類人。 (Li 2007, 39) O emprego da expressão to2 saang1 representa o entendimento e conhecimento baseados na posição dos chineses, enquanto o uso de “macaense” vem do enten-dimento e conhecimento alicerçados na posição dos portugueses […] apesar de serem semanticamente diferentes as duas expressões – ‘‘to2 saang1 de Macau’ e ‘macaense’, referem-se ao mesmo grupo de pessoas. (nossa tradução)Este esclarecimento permite-nos optar por usar estas três expressões como equivalentes no presente trabalho, desde que se refira ao mesmo grupo de pes-soas. Quanto à origem da expressão “filhos da terra”, Li considera que o facto de a mesma ser usada pelos portugueses sempre em itálico e com aspas, sugere que pode resultar da tradução de to2 saang1 jai2 por portugueses (Li 2007, 37). Com base nas observações dos historiadores acima apresentadas, é pos-sível aprofundar o conhecimento desta combinação “filhos da terra”/ to2 saang1. Abordando os significados conotativos, verifica-se que esta imagem se prende com a terra – uma existência substancial e real. Associando-se a enraizamento, veicula sentidos de pertença, estabilidade e solidez. Estas as-sociações correspondem, na realidade, às aspirações do macaense em esta-belecer a sua identidade singular, que transmitem o sentido de pertença do macaense ao território de Macau, podendo também defender a legitimidade deste sentido de pertença. É digno de nota o facto de Luís Gonzaga Gomes nunca utilizar esta ex-pressão nas suas obras, mas traduzir, em 1953, um artigo que permite, em nosso entender, uma compreensão mais profunda do significado de “filhos da terra”. Neste artigo, intitulado “Citações Chinesas”, a primeira citação é “quan-do principiou a dissipar-se o Caos, a definir-se o Céu e a Terra” (“混沌初開,乾坤始殿”). Esta primeira citação demonstra a relevância do antago-nismo entre o Céu e a Terra na sabedoria antiga da China, interpretada siste-150
maticamente na obra Clássico da Via e da Virtude, do filósofo taoísta Lao Tse. A este propósito, o autor acrescenta uma explicação: Na cosmogonia chinesa, o Universo é representado por uma circunferência divi-dida em duas partes iguais. Esta circunferência é conhecida pelo nome de T'ei--Kek 太極 e o nome comum das duas divisões é I 儀. Estas duas divisões repre-sentam os dois elementos primordiais da cosmogonia chinesa: o Iâm 陰, isto é, o elemento feminino e o Iéong 陽, é o elemento masculino. A ciência da China antiga explicava que, primitivamente, esses dois elementos encontravam-se mis-turados como se estivessem dentro de um ovo de galinha, formando o Caos que P'un-Ku separou em dois elementos distintos. O elemento, que ficou na parte su-perior, cobrindo a Terra, formou o Céu e o que ficou, na região inferior, coberto pelo Céu, constituiu-se em Terra. (Gomes 1953, 200)Mais adiante, Gonzaga Gomes sublinha o valor da terra como meio de es-tabilidade e solidez: “a parte leve e límpida da matéria que flutua em cima formou o Céu; a parte pesada e turva que se solidificou, em baixo, formou a Terra” (Gomes 1953, 200). Sabemos que, na cultura chinesa, a terra é, para além disso, mãe que alimenta todos os seres nascidos nela. A imagem da terra implica, insinuantemente, a sanguinidade umbilical. Por outro lado, a refe-rência à terra como uma “parte turva” pode ser interpretada como indicação da origem mista, multicultural e híbrida do macaense. Esta ideia de “turvo”, enquanto misto, aparece associada não apenas às imagens geográficas de Ma-cau, como ao imaginário macaense, tal como se pode comprovar, por exem-plo, numa citação de Marreiros:Macau não é uma mimetização de Lisboa, sua fonte, mas os reflexos caprichosos num espelho de água - às vezes turvo - com imagens de Lisboa, Cantão, Goa, Malaca e de outras culturas minoritárias que lhe estiveram próximas. (Marreiros 1993, 23)Com este antagonismo entre o Céu e a Terra, parece-nos lícito considerar que esta expressão “filho da terra” alude igualmente à expressão “Filho do Céu” – nome venerado do imperador chinês.119 Resumidamente, constatamos que a associação com a terra apresenta uma imagem positiva e vantajosa, pois a terra é solo firme, estável, fonte de alimento e digno de confiança. Além disso, a expressão “filhos da terra”/to2 saang1 poderá ganhar novos significados a partir dos conhecimentos chineses. 119 Esta última também é mencionada por Gonzaga Gomes, na sua obra Curiosidades de Macau Antiga: “nos bons tempos em que o imperador da China se alcunha de “Filho de Céu” (Gomes 1996, 63).151LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU
LUÍS GONZAGA GOMES: DIVULGADOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUTalvez seja por este motivo que esta expressão como autoimagem começa a consagrar-se, gradualmente, por intervenção da elite da comunidade ma-caense e a cristalizar-se em todas as esferas de sociedade de Macau. Hoje em dia, to2 saang1 é frequentemente empregue pelos académicos chineses quan-do estudam ou escrevem sobre os macaenses e pelos macaenses, quando, no dia-a-dia, se identificam em cantonense. 4.6. NOTAS CONCLUSIVASEsta reflexão sobre o papel de Luís Gonzaga Gomes como divulgador das imagens da China e de Macau, sustentada pela pesquisa de arquivo sobre o mercado de publicações macaense e pela análise imagológica de informa-ções paratextuais relacionadas com considerações poéticas e ideológicas das obras sobre as imagens da China e de Macau, permite-nos conhecer melhor os escritos e as traduções de Gonzaga Gomes. Dão testemunhos de diversas diligências de Gonzaga Gomes no sentido de promover e divulgar conhe-cimentos sobre a China e Macau e do seu papel fulcral nesta causa como divulgador. Com base na análise de uma seleção de paratextos que refletem respetivamente imagens da China, de Macau e do Ocidente, constatamos a singularidade da identidade macaense que Gonzaga Gomes procura proje-tar nas suas obras, que se aproxima com as qualidades de “Portugalidade” e “Chinesice” e também se distingue destas duas qualidades. Esta iniciativa de Gonzaga Gomes corresponde às expetativas coletivas da comunidade ma-caense, que ao longo da história de Macau, tem procurado imagens com as quais possa identificar-se. Numa abordagem retrospectiva sobre as imagens de Macau, as imagens tí-picas são analisadas. “Macau Bambu”, como autoimagem adotada e heteroima-gem criada pelos portugueses e atribuída ao macaense, revela flexibilidade, fra-queza e vulnerabilidade, mas também resiliência perante condições adversas. Por iniciativa da elite macaenses, é posteriormente substituída pela autoimagem de “filhos da terra”, associada a fatores positivos de enraizamento territorial, de ligação firme e sólida ao solo estável e digno de confiança. Esta nova imagem de “filhos da terra” reúne as qualidades singulares da identidade macaense que a elite macaense, representada por Gonzaga Gomes, pretende projetar e se torna, gradualmente, uma imagem consagrada para a comunidade macaense.152
5. luís gonzaga gomEs: tradutor dE ImagEns da chIna E dE macau
[C]onstruction of identity is linked to unequal power relations, implies that identity construction can be seen as ideological: in establishing its identity, a dis-cursive practice constructs, reproduces, or subverts social interests and power relations. (Robyns 1994, 406) Sendo a identidade macaense um tópico incontornável do presente trabalho, uma parte da sua abordagem já foi feita no Capítulo 4 quando explorámos o papel social de Gonzaga Gomes enquanto divulgador de imagens da China e de Macau. O presente capítulo vai continuar a explorar este papel social de Gonzaga Gomes enquanto tradutor de imagens da China e de Macau, no seu contributo para a identidade macaense. Pretendemos analisar as informa-ções paratextuais e textuais das suas traduções para dar resposta a questões como: porque assume este papel, como o assume e que objetivos serve ou que efeitos almeja alcançar este seu papel social de tradutor. Sendo questões en-volvendo interesses sociais e relações de poder, as considerações ideológicas de Gonzaga Gomes constituem também objeto da nossa abordagem. Para abordar estas questões, começamos por apresentar uma breve pa-norâmica histórica da tradução em Macau, para tornar possível apreciar a relevância e o impacto das tradições de tradução em Luís Gonzaga Gomes, bem como desvendar as suas eventuais motivações para traduzir as obras que projetam as imagens da China e de Macau. Além disso, as imagens nas obras de tradução de Gonzaga Gomes constituem, em si próprias, também alvo de discussão, descrição e análise. 5.1. BREVE PANORÂMICA HISTÓRICA DA TRADUÇÃO EM MACAU (1915-1976)É um facto indiscutível que a partir do século XVI com a exploração marí-tima de Portugal no Oriente e especificamente com o estabelecimento dos
primeiros portugueses em Macau em 1557 começam a registar-se atividades de tradução em Macau. Esta atividade atravessa diversos séculos, sendo gra-dualmente regulada, formalizada e administrada pelas então autoridades, apresentando caraterísticas diferentes em diversas etapas de desenvolvimen-to. A descrição destas etapas pretende destacar que a atividade de tradução, como resultado histórico de interesse comercial e posteriormente interesse institucional em Macau, tem sido um fator influenciador para a política lin-guística de Macau, que se estabelece pela regulamentação no século XIX e se concretiza gradualmente através da Repartição do Expediente Sínico (1886-1945) e da Escola da Língua Sínica (1905/1915-1976) em que Luís Gonzaga Gomes estuda. Paiva (2008, 4), na sua investigação da história de tradução de Macau até 1915, divide-a em três períodos. Muito brevemente, Paiva (2008) sugere que, num primeiro período, entre 1557 e 1626 a atividade de tradu-ção se concentra nas práticas desregulamentadas dos primeiros intérpretes de Macau; num segundo período, em 1626-1865, esta atividade conta com a intervenção gradual do Governo de Macau relativamente à gestão dos in-térpretes para fins políticos associados às relações com o império chinês; em 1865 – 1915, esta atividade é reforçada, por iniciativas da então administração portuguesa, pela criação da Repartição do Expediente Sínico (1886-1945) e da Escola da Língua Sínica (1905/1915-1976) que visavam formar bilíngues chinês-português para o efeito de gestão dos assuntos sínicos e para os assun-tos diplomáticos.Baseando-se nos estudos de Paiva (2008, 4), e dando-lhes continuidade, a presente investigação acrescenta mais um período que se estende desde 1915 até 1976, período durante o qual a Escola da Língua Sínica funciona oficialmente, porque em 1976, a Secretaria dos Negócios Chineses da Repar-tição dos Serviços de Administração Civil (1968-1976)120 é substituída pela Repartição dos Serviços de Assuntos Chineses (1976-1984) (pela publicação do Decreto-Lei n.º 47/76/M, de 30 de outubro). Nessa altura, a Escola da Língua Sínica, que até então se encontrava anexa à Secretaria, passa a ser de-signada “Escola Técnica” (1976-1992). Será praticamente a partir da década de oitenta que o ensino anteriormente centrado exclusivamente em estudos chineses passa a integrar adicionalmente a formação em estudos portugueses (Li 2016, 153). Isto significa que o modelo de ensino na “Escola Técnica” sofre mudanças significativas. Antes de 1976, os modelos destacam os estudos chi-neses; enquanto após 1976, a formação abarca tanto os estudos chineses como os estudos portugueses. De acordo com a organização científico-pedagógica 120 As suas unidades antecedentes são Repartição do Expediente Sínico (1886-1945), Secção Especial do Expediente Sínico (1946-1968).LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU156
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUda Escola Técnica, a área de línguas inclui, portanto, o português e o chinês (Paiva 2001, 806). 5.1.1. Escola da Língua Sínica (1915-1976)Neste 4.º período da história da tradução em Macau (1915-1976) verifica-se o ensino sistemático, organizado e explícito de intérpretes-tradutores portu-guês-chinês, centrado exclusivamente no ensino de estudos chineses, sobre-tudo, a estudantes macaenses falantes de português.A Escola da Língua Sínica foi fundada com o objetivo político de pre-parar funcionários para a Administração Portuguesa e diplomatas. Na ver-dade, a Escola consegue, na sua prática, formar intérpretes-tradutores de qualidade, que pela formação obtêm conhecimentos aprofundados da língua e cultura chinesas. Ao formar funcionários para a Administração Portugue-sa, diplomatas e tradutores-intérpretes, que constituem figuras de prestígio e influência no seio da comunidade radicada em Macau, contribui também para a formação de uma elite que assume um papel relevante na divulgação da língua e da cultura chinesas. No início, como revelado pela própria designação: Escola da Língua Sí-nica, vislumbra-se que a sua natureza é ensinar chinês como uma língua se-gunda, uma vez que uma das condições essenciais para admissão é ter o curso geral dos liceus ou um curso similar de qualquer estabelecimento oficial de instrução secundária, ou seja, ter formação em português. A própria defini-ção da missão da Escola da Língua Sínica resulta patente também no modo como o programa e os manuais se centram no ensino do chinês.Neste âmbito, são também de assinalar as personalidades macaenses que contribuem para a criação e gestão da Escola, pois entre eles se contam sinó-logos e primeiras figuras da elite macaense, que assim se dedicam ao ensino e à disseminação de conhecimentos da língua e da cultura chinesas em Macau, durante o funcionamento da Escola da Língua Sínica. Entre os responsáveis da Repartição do Expediente Sínico contam-se nomes como Pedro Nolasco da Silva (1885-1892), ilustre sinólogo filho da terra e autor de diversas obras associadas à aprendizagem do chinês; Eduardo Marques (1892-1898), intér-prete sinólogo; Carlos Augusto Rocha D’Assumpção (1898-1911), autor do Primeiro Livro para o Estudo Sínico (D’Assumpção 1893); José Vicente Jorge (1911-1920), vice-cônsul e intérprete-tradutor no Consulado Português de Xangai e secretário intérprete-tradutor da legação portuguesa em Pequim; Joaquim Fausto das Chagas (1920-1928), intérprete no Consulado Português de Xangai; Pedro Nolasco da Silva Jr. (1928-1931), intérprete sinólogo; e An-tónio Maria da Silva (1931-1945), intérprete-tradutor (Aresta 2001, 1538). 157
Sobre o primeiro, Paiva sublinha:Quanto à Repartição do Expediente Sínico, chefiaram-na os mais ilustres sinólo-gos-intérpretes-tradutores filhos da terra. Foi seu primeiro chefe, aquando da sua autonomização, Pedro Nolasco da Silva, que vinha exercendo funções de intér-prete-tradutor na Procuratura e nas delegações na China, comandando os seus destinos até 1892. (Paiva 2008, 126)Além de ser diretor da Repartição do Expediente Sínico durante os anos de 1885 a 1892, Pedro Nolasco da Silva é também um ilustre tradutor macaense do século XIX. Dedica-se empenhadamente ao trabalho de formação dos intérpretes-tradutores e elabora diversos manuais, entre os quais se contam obras como Bússola do dialecto cantonense (1911), Círculo de conhecimentos em portuguez e china - para uso dos que principiam a aprender a língua chinesa (1884), Phrases usuaes dos dialectos de Cantão e Peking (1884), Gramática prática da lín-gua chinesa (1886), Tradução da Amplificação do Santo Decreto (1903), Manual da língua sinica escripta e fallada, 2 volumes (1902, 1903), ou o Livro para ensino da literatura nacional Juok Man Kau Fo Shu, traduzido em portuguez (1912). Tão relevante é a sua obra que a maioria das suas publicações é posteriormente integrada na lista de manuais da Escola da Língua Sínica. É de salientar que a associação de um conjunto de figuras tão prestigia-das da elite macaense à Escola da Língua Sínica contribui para prestigiar a tradução e os tradutores por ela formados. No fundo, este facto contribui também para alimentar o gosto e a paixão pela cultura chinesa que a Escola forma. Luís Gonzaga Gomes é um dos alunos mais notáveis desta Escola, que frequenta durante os anos de 1925-1933.5.1.2. Interrupção da Escola de Língua Sínica (1944-1976)Todavia, como referido de modo aprofundado anteriormente, a propósito de mudanças sociais, jurídico-políticas, étnicas e antropológicas nas déca-das de 1940, 1950 e 1960, uma série de eventos políticos tais como a Guerra do Pacífico (1939-1945), a Implementação da República Popular da China (1949) e especialmente o não reconhecimento da República Popular da Chi-na por Portugal, afeta o funcionamento da Escola (Oliveira 1994, 219; Paiva 2004, 31; Escaleira 2013, 146). A situação precária da instituição termina em 1976, quando esta passa a denominar-se Escola Técnica, e a prestar também formação em estudos portugueses. A este facto não terá sido alheia a nova atmosfera política em Portugal que permite o restabelecimento em 1979 das relações diplomáticas com a China. LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU158
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUPor conseguinte, constatamos que durante mais de três décadas (de 1944 a 1976), a Escola da Língua Sínica, como instituição oficial de formação em língua chinesa (cantonês e mandarim), não funciona. As políticas linguísticas por ela promovidas deixam, praticamente, de funcionar. Surge um “vazio” na formação de intérpretes e tradutores, especificamente no ensino dos estudos chineses, que também abrange a divulgação da cultura e da língua chinesas. No entanto, em nossa opinião, o vazio que resulta da crise política e da interrupção do funcionamento da Escola da Língua Sínica só não origina um desastre cultural, graças às iniciativas editoriais de matriz portuguesa e ma-caense acima referidas (veja-se Capítulo 2, secção 2.3), que em muito contri-buem para divulgar a cultura chinesa e diversos conhecimentos sobre a China e Macau. Portanto, o ensino dos estudos chineses assume uma outra forma: em vez de ser promovido pela Escola da Língua Sínica, passa a ser divulgado pelos jornais, revistas e algumas editoras de matriz portuguesa e macaense, e por um conjunto de personalidades, entre quais se destaca, como referido, o nome de Luís Gonzaga Gomes. Contribui não apenas com obras sobre os es-tudos da China e Macau, enquanto divulgador de culturas, mas também com diversas traduções que projetam imagens da China e Macau, como tradutor de culturas. Em ambos os casos, o papel que Gonzaga Gomes assume poderá ser visto como uma continuação do papel da elite macaense que se formula ao longo da história de Macau e se consagra institucionalmente na Escola Sínica. Des-ta forma, Luís Gonzaga Gomes herda as tradições de tradução de Macau e internaliza as expetativas sociais e históricas macaenses nas suas iniciativas individuais. No seu papel enquanto tradutor, Gonzaga Gomes, por confron-tar mais diretamente os sistemas de culturas diferentes, poderá ser desafiado ainda mais em termos de soluções poéticas e ideológicas. 5.2. IMAGENS DA CHINA E DE MACAU NAS TRADUÇÕES DE LUÍS GONZAGA GOMES (ANÁLISE PARATEXTUAL)Assumindo o papel de tradutor historicamente herdado, Luís Gonzaga Go-mes contribui com um número elevado de traduções de relevância. No total, o nosso trabalho de levantamento bibliográfico identifica 49 obras de tradução (11 em volume e 38 em artigo) que se apresentam em Apêndice II. Este levan-tamento oferece um elenco das obras de Luís Gonzaga Gomes (veja-se Capí-tulo 3, secção 3.2.2), dos quais 30 traduções (6 em volume e 24 em artigo) dizem respeito à China e a Macau, enquanto 19 traduções (5 em volume e 14 em arti-go) visam promover a cultura e história da Europa (incluindo as de Portugal). 159
Na verdade, as traduções temáticas de Luís Gonzaga Gomes sobre a China e Macau constituem uma grande riqueza para estudos referentes à China e Macau e aos seus habitantes (língua, escrita, civilização, história, cultura, arte, costumes etc.), pois apresentam imagens da China e Macau a partir de diferentes perspetivas oriental e ocidental, incluindo as dos primeiros jesuí-tas, de literatos e filósofos chineses e de mandarins do Império Qing. Todas as perspetivas traçam a China e Macau com perceções mentais diferentes, projetando imagens da China e de Macau que, em princípio, se espera esta-rem relacionadas com representações poéticas e ideológicas das culturas que enquadram estes autores. Contudo, mediante a tradução, as imagens das culturas de partida podem ser reescritas e representadas de forma distinta na cultura de chegada. Estu-dar o modo como estas imagens podem ser recriadas nas traduções constitui um dos objetivos da presente investigação. No enquadramento teórico e me-todológico resultante do cruzamento da Imagologia com os Estudos Des-critivos de Tradução, adotamos os métodos propostos por Kuran-Burçoğlu (2000) que valorizam as heteroimagens dos leitores e agentes envolvidos em relação à seleção das obras de tradução. Conforme os imagologistas, quanto à seleção das obras a traduzir, a escolha do tradutor ou dos editores inclina-se a ser orientada e influenciada por heteroimagens que possuem dos leitores e agentes envolvidos na receção. Isto implica que as heteroimagens dos leito-res e dos agentes envolvidos na receção constituem um fator de influência em relação à seleção de matérias pelo tradutor ou editores. Este método que destaca o facto de a receção contribuir para configurar a perceção de ima-gens (auto- e heteroimagens) do tradutor bem como as suas motivações para a tradução. Para considerar a escolha do texto “anterior ao processo de tradução” e “durante o processo de receção do texto de chegada”, seria adequado fazer uma análise imagológica das obras de tradução de Luís Gonzaga Gomes no âmbito dos Estudos Descritivos de Tradução. Antes de avançar com uma abordagem pormenorizada, optamos por identificar, primeiro, a receção das obras temáticas de tradução sobre a China e Macau de Gonzaga Gomes e, segundo, classificar as imagens (auto- e heteroimagens) indicadas nas infor-mações paratextuais destas obras. Todas as obras de tradução de Gonzaga Gomes sobre a China e Macau têm o português como língua de chegada. Destinam-se ao público de lín-gua portuguesa e servem o interesse dos agentes de matriz portuguesa e ma-caense, com que Luís Gonzaga Gomes se identifica. Macau, como local de publicação, delimita, geograficamente, a receção. A partir das informações paratextuais na capa, sobrecapa, prefácio e notas destas obras traduzidas, en-LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU160
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUcontramos três tipos de imagens nesta coleção de Gonzaga Gomes: 1) Imagens da China2) Imagens de Macau3) Imagens do OcidenteInteressa-nos analisar o modo como os paratextos recriam, para um des-tinatário distinto, estas imagens. 5.2.1. Imagens da China Sendo a maioria das traduções de Gonzaga Gomes centralizada nas imagens da China, começamos por apresentar as imagens da China nas traduções de Gonzaga Gomes. Considerando que os textos de partida destas traduções apresentam imagens (auto- e heteroimagnes) de forma diferente e represen-tam uma variedade de pontos de vista, decidimos dividir estas obras de tra-dução nas seguintes categorias em função de imagens. • Imagens da China em obras ocidentais (heteroimagens);• Imagens da China em obras orientais (autoimagens); e • Imagens do Ocidente em obras orientais (heteroimagens)5.2.1.1. Imagens da China em obras ocidentais (heteroimagens)Quanto às heteroimagens da China na perspectiva dos ocidentais, temos seis entradas (quatro em volume e dois em artigo), que, projetam heteroimagens da China a partir do ponto de vista dos ocidentais. São as traduções entre as línguas ocidentais, nomeadamente, traduções para português de obras redi-gidas em francês, italiano e inglês. As quatro obras em volume são: Semedo, Álvaro. 1956. Relação da Grande Monarquia da China. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Macau: Notícias de Macau. Semedo, Álvaro. 1994. Relação da Grande Monarquia da China. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Revisão: António Carmo. Macau: DSEJ/FM. Magalhães. Gabriel de. 1957. Nova Relação da China. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Ma-cau: Notícias de Macau. Magalhães. Gabriel de. 1997. Nova Relação da China. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Re-visão: Maria da Graça Filipe. Macau: FM/DSEJ. 161
E os dois artigos, que a seguir se indicam, são traduções do inglês para o português: Burger, Werner. 1969. “Um amuleto em manchu”. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Bole-tim do Instituto Luís de Camões3(1): 33-35. Macau: Imprensa Nacional. Burger, Helga. 1969. “O pao-siang t’u - as preciosas imagens de Mateus Ricci”. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Boletim do Instituto Luís de Camões3(1): 47-55. Macau: Imprensa Nacional. As quatro obras em volume são Relação da Grande Monarquia da China (Se-medo 1956, 1994), composto por duas partes (Estado Temporal da China121 Cristandade da China), do Pe. Álvaro Semedo (1956/1994) e a Nova Rela-ção da China (Magalhães 1957, 1997), contendo a descrição das particulari-dades mais notáveis deste grande império122, do Pe. Gabriel de Magalhães (1957/1997). Os dois autores, Álvaro Semedo e Gabriel de Magalhães, são dois jesuítas portugueses que se dedicam à divulgação do cristianismo na Chi-na nos seus largos anos de estadia (22 e 37 anos respetivamente). Observam a China e deixam observações de primeira-mão sobre a China. Semedo, na sua obra, salienta esta observação verídica, afirmando que “tendo eu colhido o que escrevi de o ter testemunhado com os olhos que, mesmo que fossem de pouca vista, sempre puderam observar repetidas vezes” (Semedo 1994, 20), enquanto Magalhães deixa o manuscrito duma obra originalmente intitulada As Doze Excelências da China, que passa a ser designada na posterior tradução em francês Nova Relação da China. Sendo “dois testemunhos fundamentais sobre o Império do Meio no século XVII, também sobre a China de sempre” (Abreu 1997, 7), estas duas obras são traduzidas por Luís Gonzaga Gomes na década de 1950 a partir das traduções em italiano e em francês, e são reedita-das pela Fundação Macau e Direcção dos Serviços de Educação e Juventude na década de 1990, respetivamente em 1994 e 1997, em Macau. Apesar de serem originalmente escritos em português, estas publicações correspondem a traduções para o português feitas por Luís Gonzaga Gomes a partir versões noutras línguas, como o italiano e o francês. Assim sendo, Luís Gonzaga Gomes recupera para um público leitor de português estas obras sobre a China originalmente escritas em português, mas entretanto desaparecidas. Relativamente à sua motivação de tradução, Luís Gonzaga Gomes, na introdução da sua tradução de Relação da Grande Monarquia da China (Semedo 1956), escreve: 121 O manuscrito desta obra foi concluído em 1637. “O Estado Temporal da China” situa-se no reinado da Dinastia Ming (1368-1644). 122 A obra foi concluída em 1668, situando-se no reinado da Dinastia Qing (1636-1912). LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU162
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUO motivo que nos levou a traduzir a presente obra do Pe. Álvaro Semedo foi devi-do apenas ao facto de pretendermos torná-la acessível àqueles que têm desejado conhecer esta importante “Relação da Grande Monarquia da China” [...] Now put into English by a Person of quality...to satisfy the curious, and advance the trade of Great Britain. Como se vê a presente obra do Pe. Álvaro Semedo teve, na sua época, grande voga, sendo publicada em várias línguas estrangeiras, mas, em português, só foi editado um resumo, em 1642. (Semedo 1994, 13)Esta mesma motivação também se revela na “Nota introdutória” da tradução da Nova Relação da China (Magalhães 1957):[C]abendo-nos apenas declarar que não resistimos à tentação de traduzir esta obra do francês para a língua em que foi originalmente escrita, já porque nunca foi editada em português já porque julgamos que ela merece ser melhor conhecida, pela abundância de elementos preciosos que fornece sobre um país [China], que fascina sempre pelo encanto do seu mistério e exotismo, e, também, por conter algumas referências a Macau. (Gomes 1997, 37) Constatamos que nestas duas afirmações, Gonzaga Gomes, além de afirmar os seus motivos de tradução para o público português, salienta ainda as hete-roimagens da China na receção ocidental, que estavam em “grande voga”, ser-vindo para satisfazer a curiosidade e até o interesse do comércio. Com as pa-lavras tais como “encanto”, “mistério” e “exotismo”, o tradutor traça e reforça o estereótipo do público, e assim da receção esperada, em relação à China. Portanto, estas afirmações de Gonzaga Gomes revelam uma atitude posi-tiva dele acerca das imagens da China, ainda que o uso da forma de autorrefe-rência de primeira pessoa do plural (“pretendermos", “[C]abendo-nos”) não identifique inequivocamente a pertença emocional e avaliativa de Gonzaga Gomes à receção da cultura de chegada, como um “nós” inclusivo dos seus leitores de língua portuguesa. 5.2.1.2. Imagens da China em obras orientais (autoimagens)No caso de autoimagens da China patentes em obras de filósofos chineses, temos vinte e quatro entradas (duas em volume e vinte e duas em artigo). São os casos de tradução das obras chinesas que apresentam os pensamentos ético-filosóficos e uma sabedoria coletiva da China, projetando as autoimagens dos filósofos e li-teratos chineses. Estas são, contudo, recriadas em tradução para um público leitor de português. Esta recriação tanto pode transferi-las para o texto de chegada sem grandes modificações como pode recriá-las com um grau variável de alteração.163
Em volume, os dois títulos são: Uóng-Iêng-Lân. 1997. O Clássico Trimétrico. Versão portuguesa, introdução e notas de Luís Gonzaga Gomes. Trad. Chan Kai Chon. Macau: Direcção dos Serviços de Educação e Juventude. Lao Tse. 1995. O Livro da Via e da Virtude. Trad. e introd. Luís Gonzaga Gomes. Pref. António Aresta. Macau: Fundação Macau. Em artigo, os vinte e dois títulos são: Burger, Helga. 1969. "O pao-siang t'u - as preciosas imagens de Mateus Ricci". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Boletim do Instituto Luís de Camões3(1): 47-55. Macau: Imprensa Nacional. Lao, Tse. 1951. "Tou Tak Keng- o livro da via e da virtude". Mosaico2(12): 395-410. Macau: Fundação Macau (2000). Lao, Tse. 1951. "Tou Tak Keng- o livro da via e da virtude". Mosaico3(13): 31-48. Macau: Fundação Macau (2000). [s.n.]. 1953. "Citações chinesas". Mosaico5(29-30): 200-222. Macau: Fundação Macau (2000). [s.n.]. 1944. "O estudo de mil caracteres". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimen-to3(2):117-129. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "Versos para a juventude escolar". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renasci-mento3(3):238-244. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "O clássico da piedade filial e os vinte e quatro exemplos da piedade filial". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento3(4):379-393. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "Os 24 exemplos da piedade filial". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renasci-mento3(5):447-469. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998).[s.n.]. 1944. "As quatro obras". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento3(6):594-605. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Re-nascimento4(1):66-85. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Re-nascimento4(2):113-134. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Re-nascimento4(3):228-246. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "As quatro obras - a suprema educação". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento4(4):331-340. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "As quatro obras - o meio constante". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renas-cimento4(6):450-466. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras - Mêncio". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimen-to5(1):16-37. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento5(2):131-150. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU164
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU[s.n.]. 1945. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Re-nascimento5(4):221-242. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Re-nascimento5(5):346-365. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Re-nascimento5(6):413-434. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras - mêncio". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimen-to6(1):47-67. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras - mêncio". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimen-to6(2):124-144. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Si-Ma,Tch’Ün. 1951. "Biografia de láucio extraída das memórias históricas de Si-Ma--Tch’Ün". Mosaico2(7): 12-14. Macau: Fundação Macau (2000).Uóng-Iêng-Lân. 1944. "O clássico trimétrico". Versão portuguesa, introdução e notas de Luís Gonzaga Gomes. Renascimento3(1):63-84. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998).Os dois volumes O Livro da Via e da Virtude (Tse 1995) e O Clássico Trimétri-co (Uóng 1997), ambos de edição Fac-similada da Fundação Macau, são se-paratas, respetivamente, da revista trilíngue Mosaico e do periódico bilingue Renascimento. Entre os artigos, além dos já reunidos em dois volumes acima referidos, destacam-se ainda “As quatro obras” em série (obras clássicas sobre os pensamentos éticos-filosóficos), “O estudo de mil caráteres” (sabedoria coletiva), “O clássico da piedade filial e os vinte e quatro exemplos da pieda-de filial” (regras éticas e sociais às quais os chineses devem obedecer) e ou-tros que versam sobre cultura, literatura e filosofia chinesas. São todas obras de autoria chinesa ou de sabedoria coletiva chinesa (algumas são anónimas). Para o público de leitura na cultura de chegada, o pensamento e a sabedoria chineses constituem uma curiosidade intelectual em relação à sua poética (what literature should (be allowed to) be) ”) (Lefevere 1985/2014, 226), pois são muito diferentes do pensamento e da sabedoria ocidentais. Diríamos “curiosidade intelectual em relação à poética [do pensamento e da sabedoria chineses] na cultura de chegada”, porque as informações pa-ratextuais das traduções destas obras apontam para o intuito de satisfazer tal curiosidade. Constatamos que Luís Gonzaga Gomes, enquanto tradutor, diligencia através de diversas iniciativas de tradução, para dar a conhecer esta poética. Contudo, a sua intervenção não se esgota com a tradução pois publi-ca textos que revelam iniciativas paratextuais diversificadas como: i) oferecer leituras preparatórias para compreender a profundidade filosófica das cul-turas de partida; ii) apresentar uma discussão sobre uma seleção de termos essenciais e uma reflexão sobre os seus equivalentes nas culturas de chegada; e iii) propor recomendações para uma leitura poética. Estas três iniciativas paratextuais de Gonzaga Gomes têm em consideração a poética da cultura 165
de chegada, atendendo também à curiosidade intelectual e às expetativas da receção. Ao traduzir as autoimagens da China, que nascem do pensamento e da sabedoria chineses, Luís Gonzaga Gomes concentra-se mais em transpor-tar a sua poética textual. i) leitura preparatória para compreender a profundidade filosófica da cultura de partidaNo índice da obra O Livro da Via e da Virtude (Tse 1995), edição Fac-similada da Fundação Macau, além da tradução deste clássico, ainda se registam cinco artigos de estudos preparatórios publicados aparentemente com o intuito de facilitar ao público leitor a tarefa de compreender as suas ideias essenciais. São todos artigos de autoria de Luís Gonzaga Gomes e são publicados em diversos números no mesmo periódico Renascimento, nomeadamente: “Láucio, o fundador involuntário do tauismo” (Tse 1995, 1-6)“Biografia do Láucio extraída das memórias de Si-Ma-Tch’um” (Tse 1995, 7-9)“Em torno do vocábulo Tou” (Tse 1995, 11-18)“A autenticidade do Tou Tak Keng de Láucio” (Tse 1995, 19-24)“Os conceitos de Láucio e tauismo” (Tse 1995, 25-34)Estes estudos preparatórios começam por apresentar o filósofo, as ideias es-senciais do taoísmo e os conceitos fundamentais deste pensamento chinês, terminando com estudos de outros sinólogos na exploração desta sabedoria chinesa. Um dos exemplos apresenta-se em seguida:[N]o Livro da Via e da Virtude, existem surpreendentes analogias com o pensa-mento e sentimento cristãos e até várias passagens que levaram os missionários estrangeiros como os padres Amiot e Montucci, este no seu De Studies Sinicis, editado em 1808, a pretenderem provar que o Mistério da Santíssima Trindade foi revelado há mais de cinco séculos antes de Cristo [...]. (Tse 1995, 30)Este interesse dos primeiros missionários estrangeiros pelo taoísmo reflete o seu empenho em interpretar a profundidade da poética chinesa, tendo como ponto de partida as próprias culturas e a sua religião. Este tipo de leitura preparatória também se evidencia em relação a outras obras desta categoria. Com por exemplo, na tradução de "As quatro obras" (1944/1945), uma série composta por quatro partes: “discursos e diálogos”, “a suprema educação”, “o meio constante” e “o mêncio”, Gonzaga Gomes LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU166
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUapresenta ao público, antes do início da tradução de cada parte, a relevância destas obras clássicas, a sua organização estilística, as personagens principais, bem como os seus valores literários na tradição social e política da China. Uma outra forma da leitura preparatória são as notas. Na tradução de “O estudo de mil caráteres” (1944), Gonzaga Gomes, além de apresentar o texto de partida e o texto de chegada em paralelo, acrescenta 65 notas, que se anexam para oferecer informações e explicações sobre elementos ou termos culturalmente específicos. Por exemplo, na nota (12) lê-se: (12) Os Quatro Elementos, Si-Tái 四大são: têi 地(terra); t’in 天(céu); tôu 道(ra-zão) e uóng 王(soberano). As cinco Virtudes Constantes ou os Cinco Constituen-tes da Dignidade, Ung-Sèong 五常são: iân 仁(benevolência); i 義(rectidão); lâi 禮(compostura); tchi智(cultura); e sân信(fé). (1944, 126)Termos como “benevolência”, “rectidão”, “compostura”, “cultura” e “fé” transmitem valores que a cultura ocidental também cultiva como desejáveis. Estas notas preparam o público para melhor perceber o pensamento ético--filosófico chinês. Na tradução "Versos para a juventude escolar" (1944), re-gistam-se dezasseis notas deste género. ii) Discussão sobre uma seleção de termos essenciais e uma reflexão sobre os seus equivalentes nas culturas de chegadaUm outro aspecto que reflete a preocupação de Gonzaga Gomes com a poé-tica de tradução consiste na discussão de termos essenciais e na reflexão sobre a sua tradução. Na tradução de “Citações chinesas” (1953), Gonzaga Gomes explica os motivos da sua preocupação, no texto que antecede a tradução: O estrangeiro que aprendeu a língua chinesa não pode deixar de se afligir com tão enigmáticas charadas, quando adrega de as topar e, se pretende investigar o seu significado, outro recurso não tem senão o de consultar um literato chinês, por-quanto a sua compreensão é vedada também para a grande maioria dos chineses cuja instrução, adquirida segundo os métodos modernos que aboliram o estudo dos clássicos, os não capacita a decifrá-las. (1953, 200)Ao salientar a dificuldade de decifrar as “enigmáticas charadas” para o estran-geiro, Gonzaga Gomes preocupa-se com os “recursos” limitados com que ele pode contar. Sendo assim, Gonzaga Gomes costuma, antes de começar a tra-dução, explicar o significado das palavras essenciais do texto, pretendendo oferecer ao leitor, na sua tradução, algumas informações sobre os clássicos 167
chineses, diferentes da poética na cultura de chegada. Em "O clássico da pie-dade filial e os vinte e quatro exemplos da piedade filial" (1944), Gonzaga Gomes procura descodificar o enigma do vocábulo háu. Assim como se não é possível encontrar nas outras línguas têrmo que exprima o exacto significado da nossa palavra saüdade também se não é possível abranger, em língua europeia, numa só palavra, a ide[i]a de todos os sentimentos e obriga-ções inerentes ao vocabulário háu 孝que os mais autorizados sinólogos convie-ram em traduzir por piedade filial. (1944, 379)Uma discussão do mesmo género encontra-se também em "Em torno do vocabulário tou" (1951), relativamente ao significado de “tou” que Gonzaga Gomes traduz como “via”. Não há sinólogo algum que não se veja profundamente embaraçado ao preten-der traduzir, com a devida propriedade ou como o necessário rigor, o carácter sínico que, em cantonense, se lê tou e, em pequinense, tau. Tal dificuldade é bem conhecida de quantos se têm embrenhado no intrincado labirinto deste assun-to. Verifica-se, entretanto, os estudos feitos por iminentes autoridades, que as grandes hesitações e a falta de firme[z]a nas suas explicações são advenientes da inexistência duma definição clara e precisa, por parte dos próprios lexicógrafos e etimologistas chineses. (1951, 157)Conforme as observações de Gonzaga Gomes, a discussão em torno da pa-lavra tou é inevitável, pois não existe uma definição precisa desta palavra na cultura de partida, nem seria fácil encontrar um equivalente consagrado na cultura de chegada. Para decifrar a profundidade enigmática, Gonzaga Go-mes, enquanto tradutor, ainda assume uma terceira iniciativa para incentivar uma leitura poética. iii) recomendação para uma leitura poéticaEstas recomendações que fazem parte das informações paratextuais surgem geralmente no final do texto traduzido. Em “A suprema educação” (1944), uma parte de "As quatro obras” (1944/1945), Luís Gonzaga Gomes escreve, em letra de tamanho inferior ao texto de tradução:Os que principiam a estudar esta obra deverão dedicar-lhe todo o seu interesse e aquêles que a lerem não deverão depreciá-la por causa da sua simplicidade. (1944, 340)LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU168
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUEle emprega a palavra “simplicidade” para qualificar a obra “A suprema edu-cação”, no sentido de recomendar que o público não fique com a impressão de ser superficial. A “simplicidade” na filosofia chinesa poderá significar pro-fundidade, desde que lida à luz de uma cultura de partida consabidamente muito rica. A impossibilidade de compreender esta profundidade poderá resultar numa atitude depreciativa, que Gonzaga Gomes tenta evitar. Esta sugestão de Luís Gonzaga Gomes revela que o interesse e a apreciação por parte dos leitores constituem a sua motivação para trabalhar em português a poética chinesa. Em “O meio constante” (1944), Gonzaga Gomes explica melhor a sua intenção, interpelando os seus destinatários “os estudiosos”:Profundo é o alcance derivado do facto dêle ter tratado e tornado a tratar o as-sunto para esclarecer e aconselhar os indivíduos instruídos. Vós os estudiosos, podereis, porventura, deixar de dedicar todo o vosso coração ao estudo de tal obra? (1944, 466)Para chegar a perceber a profundidade poética através da leitura, conforme Gonzaga Gomes, será indispensável uma total dedicação ao estudo das obras. Apesar de ser uma recomendação dirigida aos leitores, é, na realidade, o que Gonzaga Gomes exige a si próprio. A partir das três iniciativas paratextuais que Gonzaga Gomes adota para valorizar a poética das culturas de partida, constatamos uma atitude sincera e apreciadora dele, enquanto tradutor, em tratar destas matérias. Esta abor-dagem acerca da poética dos pensamentos ético-filosóficos chineses eviden-cia-se na tradução das obras consagradas como clássicas, seja das obras dos literatos ou filósofos chineses seja das obras de colecionadores anónimos de sabedoria coletiva chinesa. Para a receção, as autoimagens da China apre-sentadas nestas obras, no enquadramento da ética e da filosofia chinesas, constituem uma outra realidade, fazendo refletir as culturas ocidentais mas não lhes constituindo ameaça. Para o tradutor, que se orienta para as cultu-ras de chegada, a tradução destas obras não envolve conflitos ideológicos, preocupando-se, portanto, mais com a transmissão da poética entre as duas culturas. Na reescrita de imagens da China, Gonzaga Gomes mostra a sua atitude predominante de natureza “transdiscursiva”, nos termos de Robyns (1994), que não considera os elementos importados “um outro” prejudicador da cultura de chegada, permitindo a “intrusão” (Robyns 1994, 418) de termos na cultura de chegada, tais como “tou” e “hou”, destacando os seus valores poéticos. 169
5.2.2. Imagens de MacauRelativamente às imagens de Macau nas traduções de Luís Gonzaga Gomes, temos somente uma obra de tradução – Monografia de Macau. Nesta obra, as imagens de Macau que os autores mandarins do Império Qing assumem são consideradas autoimagens mas são autoimagens com sensações compli-cadas. Esta complicação, aparentemente paradoxal, é interpretada por Zhao (1992), historiador que investiga a obra Monografia de Macau, quando explica as razões para a existência de poucos registos em chinês sobre Macau. 這大概況由於澳門一地的興盛和發展,時在西方人入居之後,而中國人對它反覺陌生的緣故。然而澳門畢竟是中國土地的一部份,它的興衰去留是不會不被國人關注的。 (Zhao 1992, 1)Isso [a existência de poucos registos] talvez se deva ao facto de a prosperidade e o desenvolvimento deste território [Macau] se terem acentuado com a presença oci-dental, de modo a torná-lo desconhecido para os próprios chineses. Apesar de tudo, sendo Macau parte do território da China, as suas vicissitudes históricas não têm passado despercebidas aos chineses. (tradução de Jin Guoping) (ênfase nossa)123Como Macau é uma “parte integrante da terra da China”, os autores manda-rins têm todos os direitos legítimos em reclamar esta autoimagem, tal como argumenta Zhao, preocupando-se com as “vicissitudes históricas” de Macau. No entanto, esta autoimagem não é tão natural como a autoimagem que eles assumem sobre a China, uma vez que “a presença ocidental” torna Macau “desconhecido”. Esta sensação de estranheza percorre toda a redação de Monografia. Na altura quando escreviam Monografia de Macau, Macau já então era uma ci-dade chinesa no sentido tradicional, mas assinalava também outras influên-cias, na sequência de duzentos anos de habitação e vivência dos portugueses e dos outros estrangeiros. Reconhecendo esta estranheza e considerando, ao mesmo tempo, Macau como chinesa (autoimagem), esta sensação paradoxal poderá tornar-se patente nas reações ideológicas e poéticas nas suas escritas. Na interpretação de Zhao (1992), estas reações são registadas como “capa-cidade de fazer frente aos vexames dos estrangeiros, aliadas à curiosidade” relativamente ao Ocidente. 他們編著澳門記略一書,就是在這種禦侮思想和對西方事物的新鮮感驅使下進行的。 (Zhao, 澳門紀畧校注 [Monografia de Macau com Anotações] 1992, 5)123 Jing Guoping traduziu Monografia de Macau com base na versão anotada de Zhao (1992) e por isso, traduziu também o prefácio de Zhao. LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU170
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUFoi precisamente esta capacidade de fazer frente aos vexames dos estrangeiros, aliadas à curiosidade pelas coisas do Ocidente, que os motivaram a escrever a Aomen Jilüe. (Jin 2009, xxiii) (tradução de JGP, ênfase nossa)Na realidade, esta “capacidade de fazer frente aos vexames dos estrangeiros”, ou melhor seja, estas “considerações defensivas de invasão” (nossa tradução), não vêm do nada. A monarquia da China, na sua conquista territorial, cos-tumava ter estas considerações ideológicas, quer na batalha defensora do seu reinado, quer no combate contra as minorias étnicas. Os mandarins são trei-nados e disciplinados para conformar estas considerações. Quanto à “curio-sidade”, como uma atitude imperialista em relação a outros, podemos tes-temunhar esta ideia no conteúdo de Monografia de Macau, que dedica a sua segunda parte, exclusivamente, ao tópico – “estrangeiro” –, em que os autores descrevem os costumes, tradições, praticas religiosas e outros assuntos do dia a dia dos habitantes estrangeiros em Macau. Vale a pena ainda assinalar o estatuto de Macau na altura em que os dois autores escreviam Monografia de Macau. Era uma prefeitura da China. Em termos de hierarquia administrativa, é uma divisão subordinada ao poder central da Monarquia Qing. Esta imagem de “inferioridade” transmite-se no prefácio de Monografia de Macau através das afirmações de um dos autores mandarins – Zhang Rulin, referido em 澳門紀畧校注 [Monografia de Macau com Anotações] (Zhao 1992, 11). 九州之大,騶衍有言,而亥步或未之歷。[……] 澳門,南交一黑子耳,一枝遠寄,等於蒙鳩。 (Zhao 1992, 11-12) Como bem diz Zou Yan2, o Nono Departamento é tão grande que nem o Hai3 consegue percorrê-lo de lés a lés. […] Macau não é mais do que uma pontinha preta, em Nanjiao8, um ramo de lótus perdido, quase como uma mengjiu 9. (Yin e Zhang 2009, 3-4) (tradução de Jin Guoping) (ênfase nossa)124Zou Yan2: Filósofo dos últimos tempos dos Reinos Combatentes, natural de LInzi, do reino Qi, porta-voz dos yinyangjia (astrólogos), mentor da chamada teoria dos Nove Grandes Departa-mentos […]Hai3: Shuhai. Segundo a lenda, foi vassalo do imperador Yu e era conhecido como bom cami-nhante. Shanhaijing Haiwai Dongjing (Relatos do Leste do Ultramar da Geografia das Monta-nhas e dos Mares) conta-nos que: “O imperador ordenou-lhe que caminhasse do extremo leste até ao extremo Oeste, que distavam entre si 5 001 900 800 passos.”Nanjiao8: O seu âmbito geográfico varia conforme a época e a obra. Aqui refere-se à zona a sul das Cinco Colinas da China […]mengjiu9: Rola. 124 Na versão de tradução de Luís Gonzaga Gomes, não se encontra este prefácio. 171
Neste excerto, surgem as imagens de Macau que os autores assumem, que são “pontinha preta”, “um ramo de lótus perdido” e “mengjiu”.125 Estas ima-gens metaforizam Macau como um lugar de pouca importância, que fica, geograficamente, distante do poder central da China e é, na realidade, uma existência esquecida como uma flora perdida e uma ave desprotegida. Com estas considerações, a autoimagem de Macau, para autores mandarins, é uma autoimagem de uma comunidade hierarquicamente dependente, fraca, dis-tante e subordinada à autoimagem da China.Resumindo, os autores mandarins assumem imagens de Macau como au-toimagens, mas como autoimagens subordinadas à China e associam estas autoimagens a “vexames dos estrangeiros” e um conjunto de imagens de inca-pacidade de defesa e de dependência. Como reações ideologicamente defen-sivas e imperialistas, os autores mandarins vão certamente injetar, nas suas escritas, sentimentos orgulhosos e pujantes em relação à China, como meios estratégicos para defender as suas próprias imagens, incluindo as de Macau.Por outro lado, Luís Gonzaga Gomes, como tradutor macaense, possui uma autoimagem de Macau diferente. Para ele e sua comunidade, Macau é uma existência única e singular, quer em termos de cultura e literatura, en-riquecida pelas culturas chinesas, quer em termos da História e bibliografia, graças à intervenção dos portugueses e dos outros ocidentais, como abordá-mos no Capítulo 4. Esta singularidade identitária de Macau é tão distinta que se distingue, quer das imagens da China, quer das imagens de Portugal, assumindo uma qualidade distinta e uma imagem de autonomia. Todas as suas iniciativas têm a finalidade de edificar, contruir e defender esta imagem distinta e autónoma. Na sua tradução de Monografia de Macau, Gonzaga Gomes distingue ex-plicitamente a imagem de Macau da imagem da China. Ao referir Macau, ele usa “nossa terra”, reforçando a autoimagem de Macau. O “Ou-Mun Kei-Lèok” é o repositório mais importante, que se encontra repu-blicado, em chinês, dos assuntos referentes a esta nossa terra [Macau]… (Tcheong e Ian 1979, 8)Por outro lado, Gonzaga Gomes refere, no prefácio da Monografia de Macau, a imagem da China e dos dois autores, como marcada “altivamente” pela “ar-rogante petulância” e “insolente parcialidade”:Nem todos os elementos que esta obra fornece para a passada história de Macau 125 Na literatura chinesa, mengjiu é referido um tipo de ave que não sabe proteger-se. LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU172
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUsão suficientemente seguros ou precisos, porquanto, registados numa época em que os chineses consideravam, altivamente, o seu país como o “Império do Meio” ou o “Celeste Império” e em que o Imperador era respeitado e venerado como “Filho do Céu”, não é de admirar que certos factos nela narrados houvessem sido referidos com arrogante petulância, insolente parcialidade e, propositadamente deturpados, quiçá para os seus autores não ficarem mal colocados perante os seus concidadãos e também por isso lhes ser ditado pela sua índole estultamente orgu-lhosa. (Gomes 1979, 8) (ênfase nossa)Nesta observação, Gonzaga Gomes expressa o sentido de ser ameaçada pelas atitudes dos dois autores em relação a Macau, uma postura “altivamente” su-perior, “estultamente orgulhosa”, de “arrogante petulância” e “insolente par-cialidade”. Para ele, a superioridade transportadora de atitudes imperialistas transmite uma imagem alienígena, constituindo uma ameaça à sua identidade macaense. Nestas circunstâncias, segundo a proposta Robyns (1994), vão ser evocadas reações defensivas e enfatizada, pesadamente, uma outra imagem contrária à referida imagem alienígena. No caso de tradução de Monografia de Macau, Gonzaga Gomes opta pela imagem de “Portugalidade” como sua reação defensiva. Na realidade, as reações defensivas de Gonzaga Gomes são consistentes com a então crítica em português em relação a Monografia de Macau. A segunda parte do livro [Monografia de Macau] ocupa-se dos estrangeiros de Macau, dos seus costumes, os quais, para nós, oferecem a particularidade de se-rem observados por chineses, nem sempre naturalmente revestidos dum absoluto critério de imparcialidade. (M. Pinto 1951, 545-547) (ênfase nossa)Esta crítica foi produzida com base na tradução de Monografia de Macau, publicada no Mosaico 1(5) de 1951. Comparando estas afirmações com as palavras de Gonzaga Gomes, empregues no seu prefácio de Monografia de Macau – “arrogante petulância” e “insolente parcialidade” –, constatamos que a atitude da crítica é menos defensiva e o grau de ameaça fica também atenuada. Tais afirmações geram expectativa relativamente às estratégias de manipulação e reescrita de imagens por parte de Gonzaga Gomes, quando traduz Monografia de Macau. 5.2.3. Imagens do OcidenteNo que toca às imagens do Ocidente pelos autores chineses, referimos também a Monografia de Macau. Nesta obra, as autoimagens que os autores 173
mandarins do Império Qing integram no texto de partida são lidas como heteroimagens pela receção, enquanto as heteroimagens dos estrangeiros aos olhos dos autores representam muitas vezes as autoimagens do público da receção. Esta confluência de imagens apresenta um problema à tradução, pois o tradutor e o leitor poderão ter uma autoimagem discordante das ob-servações dos autores da cultura de partida. Para o tradutor, esta divergência de perceções mentais constitui um verdadeiro desafio, pois o tradutor pode-rá assumir a mesma opinião da receção, produzindo uma tradução aceitável, ou adotar o ponto de vista da produção, produzindo uma tradução adequada. Nessas circunstâncias, a tradução, enquanto um tipo de reescrita, manipula as imagens do texto de partida em certa medida, podendo também subme-tê-las à ideologia da cultura de chegada (“what society should (be allowed to) be”) (Lefevere 1985/2014, 226) ou transferi-las em concordância com a cultura, os autores e o texto de partida.No caso específico de Gonzaga Gomes, a tradução das imagens do Oci-dente será merecedora de maior atenção, pois o tradutor tem que lidar com imagens mais complexas (autoimagens dos autores versus heteroimagens da receção; heteroimagens dos autores versus autoimagens da receção, autoima-gens do tradutor versus autoimagens dos autores versus autoimagens da rece-ção) e optar entre as imagens e os sistemas culturais representadas por tais imagens. Apesar de Gonzaga Gomes possuir uma autoimagem distinta quer das autoimagens dos autores quer das autoimagens dos portugueses, vê-se obrigado a fazer uma opção, quer pela cultura chinesa (cultura de partida), quer pela cultura portuguesa (cultura de chegada), observando as normas de tradução. Em caso de opção pela cultura chinesa (de partida), Gonzaga Gomes tem que aceitar e transferir as considerações ideológicas (vide “vexames dos es-trangeiros”) e poéticas (“curiosidade”) dos dois autores. Obviamente, esta opção não se conforma com a identidade macaense defendida por Gonzaga Gomes. Em caso de opção pela cultura portuguesa (de chegada), Gonzaga Go-mes tem que se identificar com os portugueses, o que parece plausível, uma vez que Gonzaga Gomes sempre se autorrefere como português, com o em-prego de “nós” associado aos portugueses,. No entanto, nesta identificação com os portugueses, Gonzaga Gomes tem que abandonar a sua identidade macaense como uma identidade distinta. Por conseguinte, tem que assumir a imagem de Portugal como autoimagem, apesar de ser apenas uma parte da sua identidade no sector “lusófono” – Portugalidade, e ao mesmo tempo alie-nar a imagem da China como heteroimagem, que também constitui parte da sua identidade no sector “sinófono”. Este dilema aí nascido torna a tradução LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU174
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUum processo complexo, repleto de considerações ideológicas e poéticas que poderão ser vislumbradas através da nossa análise relativa à tradução de fan (藩) e i (夷).5.3. IDENTIDADE MACAENSE EM IMAGENS (ANÁLISE COMPAR-ATIVA DA TRADUÇÃO DE MONOGRAFIA DE MACAU)Nesta secção concentramo-nos na análise da tradução de Monografia de Ma-cau, uma obra chinesa oitocentista dedicada àquele território, da autoria de dois mandarins da dinastia Qing, Tcheong Ü-Lâm126 e Ian Kuong Iâm.127 A obra é iniciada em 1744 por Ian Kuong Iâm, o primeiro Subprefeito de Ma-cau, e é concluída em 1751 por Tcheong Ü-Lâm, o terceiro Subprefeito de Macau, durante o reinado do Imperador Qianlong, da dinastia Qing. Sendo uma obra que descreve os assuntos referentes a Macau com base nos registos oficiais chineses e das visitas dos subprefeitos, a Monografia de Macau cons-titui-se como uma referência importante, do ponto de vista histórico, lin-guístico, literário e social. Como a primeira obra que na História da China apresenta Macau sistematicamente, a Monografia de Macau apresenta um conjunto diversificado de informações que dizem respeito à situação geo-gráfica, à administração, a acontecimentos históricos bem como à vivência dos primeiros estrangeiros em Macau a partir das dinastias Ming e Qing. Em termos linguísticos, a sua relevância depende de um conjunto do vocabulário temático traduzido em paralelo de cantonês para português (a transliteração do português apresenta-se em cantonês, tanto em caracter, como em fonéti-ca), o que serve como uma ferramenta preciosa para estudos linguísticos re-lativos aos primeiros contactos dos dois idiomas. Quanto à vertente literária, encontra-se, no corpo principal desta obra, uma considerável quantidade de poemas de estilo tradicional chinês, ricos em imagens e metáforas. Estes ver-sos líricos e eruditos, além de indicarem alguns acontecimentos históricos, revelam o gosto requintado e a educação literária dos então mandarins. No que diz respeito aos valores sociais desta obra, a narração dos costumes, cren-ças e práticas religiosas dos estrangeiros residentes em Macau, bem como as respetivas ilustrações, disponibilizam materiais muito relevantes para quem se dedique aos estudos sociais de Macau no século XVIII. É provavelmente devido a estes valores diversificados de Monografia de Macau, mencionados também por Luís Gonzaga Gomes como uma “raridade bibliográfica” (Gomes 1951, 7), que se revela o interesse da sua tradução para 126 Terceiro Subprefeito de Macau nos anos de 1748 a 1750.127 Primeiro Subprefeito de Macau nos anos de 1744 a 1747.175
o público português em meados do século XX. A tradução desta obra por Gonzaga Gomes é primeiramente publicada na década de 1950 em Macau e a sua reedição na década de 1970 em Lisboa. Na primeira década do sé-culo XXI com novas circunstâncias sociais, jurídico-políticas e culturais de Macau, Monografia de Macau volta a ter uma nova tradução de Jin Gupoing (2009), edição da Fundação Macau, que atende às circunstâncias do tradutor bem como às novas exigências e expetativas dos leitores de língua portuguesa. Tendo em conta a existência das duas versões de tradução de Monografia de Macau, de Luís Gonzaga Gomes (1950/1979) e de Jin Gupoing (2009), considerámos interessante para o presente estudo proceder a uma análise comparativa das soluções adotadas pelos dois tradutores. Especificamente, iremos recuperar as três etapas de análise, propostas por Toury (1995/2012), no âmbito dos Estudos Descritivos de Tradução, que envolve uma análise textual comparativa do texto de partida e dos dois textos de chegada, con-siderando também uma análise paratextual. Neste enquadramento metodo-lógico, vão ser apresentadas informações relativas à história externa destas traduções (dados históricos) e à história interna das traduções desta obra (caraterísticas textuais das traduções). Sendo um estudo interdisciplinar, a nossa análise vai considerar também o cruzamento teórico-metodológico entre os Estudos de Tradução, a Imagologia e os estudos sobre a identidade sociopsicológica, para concretizar uma abordagem centrada nos conceitos de tradução, identidade e imagem. Esta secção dedica-se principalmente à análise textual comparativa do tex-to de partida e das traduções de Monografia de Macau. Em primeiro lugar, identificam-se as duas versões de tradução da Monografia de Macau e apre-sentam-se as principais diferenças das duas versões de tradução a partir das informações paratextuais. Em segundo lugar, identificam-se as próprias fon-tes do texto de partida, numa perspetiva de preparar uma base sólida para a análise textual comparativa. Em terceiro lugar, apresenta-se uma seleção de palavras-chave, ricas em termos da análise de imagens e de mensagens cono-tativas, e procede-se a uma análise textual comparativa das duas traduções. Esta análise é bidirecional, parte da identificação das palavras-chave no texto de partida para analisar as traduções; mas também parte do uso dessas mes-mas palavras chave nos textos traduzidos, procurando identificar as particu-laridades das soluções adotadas.5.3.1. Duas traduçõesComeçamos por apresentar as duas traduções da obra. A primeira tradução desta obra para português é de Luís Gonzaga Gomes, com duas edições res-LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU176
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUpetivamente em 1950 (Tcheong e Ian 1950) e em 1979 (Tcheong e Ian 1979). A edição de 1950 é publicada em Macau, chamada Ou Mun Kei Leok (Mo-nografia de Macau) (vide Anexo II), pela editora Imprensa Nacional; a edi-ção de 1979 é publicada em Lisboa, pela editora Quinzena de Macau. É uma reprodução da edição de 1950 e o título mantém-se igual, sofrendo apenas uma ligeira alteração com a eliminação dos parênteses – Ou Mun Kei Leok: Monografia de Macau (vide o Anexo III). A segunda versão é a retradução desta obra efetuada por Jin Guoping, académico chinês radicado em Portugal, com revisão científica de Rui Ma-nuel Loureiro. Publicada em 2009, a tradução intitula-se Breve Monografia de Macau (Yin e Zhang 2009)128(vide Anexo IV). 5.3.2. O texto de partida Quanto ao texto de partida utilizado pelos tradutores, os académicos chine-ses Deng e Luo recorrem ao ano de impressão e ao conteúdo do texto de Luís Gonzaga Gomes para deduzir que o texto de partida utilizado terá sido uma versão impressa pela Repartição dos Assuntos Estrangeiros de Jiangning no reinado imperial de Jiaqing, da dinastia Qing (1796-1820), como referem na obra 《澳門記畧》版本研究 [Investigação sobre as Versões de Ou Mun Kei Leok ] (Deng e Luo 2014, 53).129 Luís Gonzaga Gomes também regista, no prefácio da sua tradução, que o primeiro volume de Ou Mun Kei Leok – Mo-nografia de Macau é xilografado em 1801, ano que pertence justamente ao período de reinado imperial de Jiaqing.Quanto ao texto de partida utilizado por Jin Guoping, os mesmo acadé-micos chineses (Deng e Luo 2014) afirmam tratar-se da versão editada e ano-tada por Zhao Chunchen (Zhao 1992), intitulada 澳門紀畧校注 [Monogra-fia de Macau com Anotações], publicado pelo Instituto Cultural de Macau, em 1992. Também ela tem como referência a versão de impressão da Repartição dos Assuntos Estrangeiros de Jiangning no reinado Jiaqing da dinastia Qing. Como referem Deng e Luo:[校注本]一方面糾正了原書訛錯,加了標點;另一方面又為原書作了註釋,大大方便了讀者的閱讀和提高了原書的品質,功不可沒。因此,學界在利用«澳門紀略»時,一般都依據校注本 [……] 而主要參考了嘉慶江寧藩署本 [……] . (Deng e Luo 2014, 52)128 A fim de uniformizar a expressão relativa a esta obra, no presente estudo utilizar-se-á Monografia de Macau para o uso genérico, bem como as abreviaturas de LGG para a tradução de Luís Gonzaga Gomes e de JGP para a retradução de Jin Guoping. 129 Existem diversas versões de impressão consoante o reinado da dinastia Qing. 177
[o texto anotado] corrigiu os erros e gralhas do texto original, acrescentou a pontuação e fez anotações ao texto original, facilitando, assim, a leitura e aper-feiçoando a qualidade do texto original. É por esta razão que os académicos pre-ferem recorrer ao texto anotado de Ou Mun Kei Leok […] O texto anotado teve, principalmente, como referência, a versão de impressão da Repartição dos As-suntos Estrangeiros de Jiangning no reinado Jiaqing (imperador da dinastia Qing) […]. (tradução nossa) (Deng e Luo 2014, 52)Assim sendo, podemos considerar que os textos de partida de referência, tan-to de Luís Gonzaga Gomes, como de Jin Guoping, não serão muito distin-tas, com base no que os tradutores afirmam no prefácio das suas traduções e como também apontam Deng e Luo (Deng e Luo 2014, 53), com a exceção das notas ao texto a que Jin Guoping já teve acesso. Por este motivo, po-demos presumir que discrepâncias flagrantes entre os textos traduzidos por Luís Gonzaga Gomes e por Jin Guoping radicarão não em diferenças impor-tantes dos textos de partida usados, mas sim em opções dos tradutores rela-tivamente a um texto de partida praticamente coincidente. Na nossa análise, consideramos, por conseguinte, como texto de partida chinês a Monografia de Macau com Anotações de Zhao Chunchen, visto ter sido esta a versão usada por Jin Guoping e não haver qualquer indício seguro que nos permita identi-ficar cabalmente a versão de facto usada por Luís Gonzaga Gomes. 5.3.3. Análise paratextual Apesar de terem um texto de partida bastante semelhante, devido a dife-rentes métodos e estratégias de tradução, Ou Mun Kei Leok – Monografia de Macau, de Luís Gonzaga Gomes (1979) e, Breve Monografia de Macau, de Jin Guoping (2009), apresentam duas diferenças paratextuais dignas de nota. A primeira diferença reside no número de anotações. Visto que a ver-são de 2009 terá tido como texto de partida uma versão anotada (o texto de partida utilizado por Jin Guoping tem 1,090 anotações), seria expectá-vel que esta versão incluísse mais anotações, como é o caso. A tradução de Jin Guoping tem, no total, 1,264 anotações,130 enquanto a tradução de Luís Gonzaga Gomes tem somente 126. Independentemente da diferença destes valores, o número de notas acrescentado pelos tradutores revela uma certa dificuldade em verter o texto do chinês para o português. Rui Manuel Lou-reiro, o revisor da tradução de Jin Guoping, confirma que tal pode ficar a de-ver-se ao facto de se tratar de uma obra extremamente complexa, pelo facto de compilar textos de géneros variados e diversas proveniências, incluindo 130 “[…] entre novas e complementares às do anotador da versão chinesa.” (Jin 2009, xiv)LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU178
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUcrónicas, documentos administrativos, memórias pessoais, descrições de lo-cais e poemas (Yin e Zhang 2009, xvii).Conforme Gonzaga Gomes, esta dificuldade de tradução resulta não só de dificuldades de compreensão e interpretação de um texto de partida bas-tante complexo em língua chinesa, como também se deve à fraca qualidade de impressão e às más condições de conservação do texto de partida a que recorre. Luís Gonzaga Gomes queixa-se do estado do texto de partida que usa, referindo: O primeiro volume do exemplar do senhor J. M. Braga tem, porém, as primeiras páginas trocadas e, em algumas delas, poucas, felizmente, não nos foi possível re-constituir certos caracteres que, devido à incúria do seu primitivo possuidor, se encontram delidos [sic] pela voracidade das traças. O segundo volume é apenas uma cópia manuscrita de qualquer outro exemplar xilografado, tendo o copista cometido algumas inexactidões que mais obscurecem a leitura do texto, incre-mentando assim as dificuldades do tradutor. (Gomes 1979, 7-8)As “páginas trocadas” e “algumas inexactidões” do texto de partida referidas por Gonzaga Gomes explicam a dificuldade sentida na fixação e interpretação do texto de partida, que a nossa investigação não pôde identificar, de modo preciso. De acordo com Rui Manuel Loureiro, a tradução de Luís Gonzaga Gomes é prejudicada por “versões menos fidedignas do trabalho original de Yin Guangren e Zhang Rulin” (Yin e Zhang 2009, xvi). Apesar do apreço pela tradução de Luís Gonzaga Gomes, Jin Guoping o retradutor desta obra tam-bém admite que a tradução de Gonzaga Gomes é “um pouco confusa, o que tem impedido o seu devido aproveitamento” (Jin 2009, xiii). As 1 264 notas, incluídas por Jin Guoping na sua retradução com base na obra澳門紀畧校注 [Monografia de Macau com Anotações], poderão ser consideradas uma forma de compensação, relativamente ao primeiro texto traduzido por Luís Gonzaga Gomes, que Jin Guoping considera confuso. Para além de traduzir as notas incluídas no texto de partida que usa, Jin Guoping opta ainda por acrescentar 174 notas que não constam no texto Monografia de Macau com Anotações.A segunda diferença encontra-se na romanização dos nomes próprios, to-pónimos e antropónimos. Gonzaga Gomes utiliza a romanização em canto-nês, enquanto Jin Guoping recorre à romanização em pinyin, consagrado em 1958 pela República Popular da China. Estas diferenças paratextuais aparen-temente irrelevantes, na realidade exprimem enquadramentos contextuais muito distintos. Gonzaga Gomes nasce e cresce num ambiente macaen-se nas primeiras décadas do século XX, num território sob administração 179
portuguesa, e consequentemente tem mais contacto com o cantonês, dialeto veicular na sociedade chinesa em Macau e neste dialeto recebe o primeiro ciclo de formação na Escola de Língua Sínica como língua estrangeira. Jin Guoping, pelo contrário, nasce na China e cresce na República Popular da China, domina a romanização em pinyin e tem referências culturais, sociais e políticas inteiramente distintas. Por conseguinte, estas diferenças paratex-tuais poderão suscitar a expetativa de versões traduzidas diferentes, porque condicionadas por contextos geográfica, política e linguisticamente distan-tes. Na Tabela 9 apresentam-se alguns exemplos destas diferenças formais.Versão de Luís Gonzaga Gomes (1950/1979)Versão de Jin Guoping (2009)Título da obra Monografia de Macau / Ou Mun Kei Leok - Monografia de MacauBreve Monografia de Macau/Aomen JilüeAutores Tcheong-Ü-LâmIan-Kuong-IâmZhang RulinYin GuangrenNome de pessoa Pák-Tó-Má Bai DuomaTítulo de livro Seng-Káu-Tch’it-Lu ShengjiaoqieyaoVocabulário temático traduzido em para-lelo de chinês para portuguêsTín天 siu-ung消吾 céuIât日 só-lou棱盧 solUt月 lông-á龍呀 luaXiaowu - céuSoulu – solLongya - LuaTabela 9: Exemplos da utilização de diferentes sistemas de romanização em traduções de Monografia de MacauEste uso de diferentes sistemas de romanização, além de refletir o enqua-dramento contextual em relação ao uso do chinês em Macau e na República Popular da China, aponta igualmente para um fenómeno de tradução, que é evidente no último exemplo – o vocabulário temático traduzido em paralelo de chinês para português (apresentando um total de 394 entradas). Na ver-são de Gonzaga Gomes, a tradução entre o cantonês e o português merece a nossa atenção especial, pois no texto ainda se regista uma transcrição foné-tica, que se situa entre o cantonês e o português. De facto, esta transcrição fonética existe no texto de partida, redigida originalmente em carater canto-nês, como vocabulário em Macau. Luís Gonzaga Gomes recupera, mediante a romanização da transcrição fonética, este fenómeno linguístico, enquanto Jin Guoping não inclui este fenómeno. Na realidade, este fenómeno de tra-dução indica um facto: na altura da elaboração da obra Monografia de Macau, nomeadamente no século de XVIII – dois séculos depois do estabelecimento dos portugueses em Macau –, as atividades de tradução do português para o cantonês já enriqueceram o vocabulário em Macau. LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU180
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUCabe ainda assinalar a diferença dos títulos de Monografia de Macau, tradu-zidos por Gonzaga Gomes e por Jin Guoping. Na versão de Luís Gonzaga Gomes, o título é Ou Mun Kei Leok (Monografia de Macau) (1950) e Ou Mun Kei Leok: Monografia de Macau (1979); na versão de Jin Guping, é Breve Monografia de Macau (2009). Registamos duas diferenças: a primeira reside na língua. Gonzaga Gomes usa, no título, duas línguas para referir o nome: primeiro em cantonês, depois em português, enquanto Jin Guoping recorre apenas ao título em português. É um pormenor aparentemente secundário, mas entendemos revelar a valorização de Gonzaga Gomes em relação à lín-gua cantonesa e à imagem por si transportada. Como uma estratégia de in-fluência à receção, o bilinguismo apresentado no paratexto é visível no texto de tradução de Gonzaga Gomes, nos prefácios dos autores mandarins, no corpo principal da tradução e no vocabulário anexo.No caso do título proposto por Jin Guoping, parece que o tradutor va-loriza mais a mensagem transmitida pelo conteúdo. Ao recorrer ao uso de “breve”, o tradutor visa transportar as intenções dos autores mandarins, tal como eles explicam no seu prefácio de Monografia de Macau: 其云“略”何也?牘削兩手,而需成者七八年, 今書凡三篇,舉其一以麗其餘,以言乎體例則不備,以言乎群類則弗該,故曰“略”也。 (Zhao 1992, 11)Porque consta do seu título a palavra “breve”? Este livro teve duas redacções, que demoraram uns sete ou oito anos. A presente versão consta com três capítulos, que nos quais não se pode falar de tudo, de modo que não se trata de uma obra exaustiva ou com conteúdos abrangentes, daí a ideia de “breve”. (Yin e Zhang 2009, 3) (tradução de Jin Guoping)131A ideia de “brevidade” poderá ser interpretada como uma atitude modesta e prudente dos dois autores quando apresentam a sua obra. Esta ideia recupe-ra-se na tradução de Jin Guoping. Resumindo, no modo como Luís Gonzaga Gomes e Jin Guoping tratam, diferentemente, as informações paratextuis da tradução de Monografia de Macau, vemos vestígios de manipulação e reescrita de imagens. No caso da tradução de Luís Gonzaga Gomes, ele incorpora, no paratexto, muitos ele-mentos cantoneses (bilinguismo no paratexto e romanização do cantonês no título), que ele assim valoriza, aprecia e pretende projetar. No fundo, as suas iniciativas pretendem destacar estas “chinesices”, imagem integrante da 131 Este excerto é omitido na tradução do prefácio por Luís Gonzaga Gomes.181
sua identidade singular macaense, desde que não haja conflitos ideológicos. Quando esta imagem de “chinesices” – imagem parcial – constitui uma amea-ça à sua autoimagem integral, Gonzaga Gomes abandona as “chinesices”, tal como verificamos na análise textual. No caso da tradução de Jin Guoping, ele opta por atender às mensagens do conteúdo do paratexto, tomando uma série de iniciativas para descortinar e explicar as ideias mais implícitas (grande quantidade de notas, emprego de “breve” no título). Na descrição de imagens de Macau, Jin Guoping adota as autoimagens dos dois autores mandarins, tomando as posições e considerações ideologicamente defensivas da cultura de partida dos mandarins, que valoriza, como resulta da leitura do prefácio da sua tradução de Monografia de Macau. Tendo sido as máximas autoridades chinesas nos assuntos de Macau, [os dois au-tores] enriqueceram-se privilegiadamente com os ofícios que teriam manuseado durante os seus mandatos, além das experiências pessoais obtidas nas diligências junto da comunidade portuguesa de Macau. Trata-se de uma obra historiográ-fico-geográfico, mas não menos literário-poética do que histórica, pois os dois co-autores, Yin Guangren e Zhang Rulin, eram poetas de renome [...] (Yin and Zhang 2009, xiii) (ênfase nossa)Esta afirmação destaca o “privilégio” dos dois autores enquanto “máximas autoridades chinesas” em relação a Macau. Assumindo uma autoimagem ele-vada e superior, os dois autores vão certamente tomar atitudes defensiva e imperialistas relativamente a outras imagens: no caso de Macau, esta atitude poderá ser moderada, pois é uma autoimagem mas subordinada; em relação ao Ocidente, esta atitude poderá ser drástica, uma vez que rejeita simples-mente a imagem do Ocidente, para os autores alienígena. 5.3.4. Análise textual: fan (藩) e i (夷) – estrangeiro ou bárbaro?Para analisarmos imagens da China, de Macau e do Ocidente apresentadas no texto de partida e nas duas traduções de Monografia de Macau, optámos por selecionar para análise as traduções de fan (藩) e i (夷), duas palavras usadas para referir estrangeiros e portugueses e que surgem frequentemente no texto de partida. Para identificar o significado semântico destas palavras em chinês, re-corremos à segunda edição do Dicionário Enciclopédico da China de 2009, produzido pela Editora da Coleção Enciclopédica da China,132 pelo facto de 132 Projeto do Conselho do Estado do Governo da China. Os vários volumes da 1.ª edição foram lança-dos entre os anos de 1980 e 1993. A 2.º edição foi em 2009.LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU182
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUconstituir uma referência no estudo das palavras chinesas. Nesta obra, a de-finição de fan (藩) associa-se à expressão fanfang, ou seja, lugar de habitação dos comerciantes ou imigrantes estrangeiros que vieram para a China a partir das dinastias Tang e Song (séculos de VII a XIII). Por conseguinte, fan (藩) refere, nestas circunstâncias, os “comerciantes ou imigrantes estrangeiros”. Quanto a i (夷), segundo a mesma fonte, é uma denominação que a etnia Han usa para descrever todas as outras etnias bárbaras e que passa, a partir da dinastia Qing (séculos XVII-XX), a ser usada para referir os países im-perialistas ocidentais. Isto demonstra que, a partir da dinastia Qing, tanto fan (藩) como i (夷) poderão referir-se aos estrangeiros ou assuntos ligados ao estrangeiro. Todavia, existe uma diferença considerável, pois se fan (藩) não evidencia um sentido avaliativo, i (夷), pelo contrário, tem um sentido avaliativo e crítico, tem uma conotação pejorativa, e poderá ser interpretada como “bárbaro”, ora como substantivo, ora como adjetivo. Estas duas pala-vras são selecionadas para análise, visto que, no nosso entender, as opções de tradução adotadas pelos dois tradutores podem refletir o modo como as suas traduções recriam a heteroimagem dos ocidentais apresentada no texto de partida, dando particular atenção às conotações positivas ou negativas das soluções de tradução.Encontramos uma grande divergência das soluções selecionadas pelos dois tradutores. Vejamos as diferenças apresentadas pelas traduções de Luís Gonzaga Gomes e de Jin Guoping da obra Monografia de Macau.Será lícito pressupor que Luís Gonzaga Gomes interpreta fan (藩) e i (夷) como duas palavras distintas, pois usa “estrangeiro” para traduzir fan (藩) e “bárbaro” para i (夷). Aliás, Gonzaga Gomes tem uma atitude bastante con-servadora no uso de i (夷), considerando que a letra é “depreciativa” e “insul-tuosa” (Gomes 1950, 410). Manifesta a sua atitude num artigo intitulado “Os Feringues”: Os estrangeiros foram, no entanto, considerados sempre como bárbaros, pelos chineses, que a eles se referiam, nos seus escritos e em documentos oficiais, como a letra i 夷. Porém, o Tratado de Paz e Amizade, imposto pela Inglaterra, em 29 de Agosto de 1842, e assinado em Nanquim, obrigou, no seu artigo II, a China a abolir o emprego dessa depreciativa e insultuosa letra, em qualquer documento oficial chinês, quando houvesse de se referir ao governo inglês ou aos súbditos bri-tânicos. O mesmo conseguimos no nosso tratado com a China e, por estar ligado a este assunto não deixa de ser interessante conhecer o que passamos a reproduzir e que vem publicado no Boletim Oficial de Macau.133 (Gomes 1950, 410)133 N.º 31 de 1892, págs. 252 e 253. Carta do vice-rei dos dois Quangs, presidente do ministério da guerra 183
Como Gonzaga Gomes usa “nosso tratado com a China”, ele assume expli-citamente a sua identificação com os portugueses. Apesar da fundação da República Popular da China em 1949, Macau continua a ser administrada por portugueses até 1999, ano de transferência do território para a Repúbli-ca Popular da China. Gonzaga Gomes, enquanto macaense, é identificado, administrativamente, como português durante toda a sua vida.134 Contudo, enquanto macaense, filho da terra, poderia referir-se aos portugueses usando uma forma de terceira pessoa, reveladora de distanciamento. Pelo contrário, usa uma forma de primeira pessoa do plural, assumindo esta identificação. Esta identificação faz com que Gonzaga Gomes tenha uma atitude plausível em relação à abolição do emprego do i (夷) e tenha muita cautela em relação à tradução de i (夷) atendendo aos seus significados conotativos e avaliativos. No fundo, Gonzaga Gomes parece considerar que i (夷) constitui uma re-presentação verbal e pictórica (estereótipo) do então Império Qing relativa-mente aos estrangeiros, pois o emprego desta palavra deriva dos preconceitos dos autores mandarins que os levam a avaliar negativamente os estrangeiros. No seu comentário, observa que o uso de i (夷) para referir pejorativamente os estrangeiros revela não só o modo como os mandarins encaram os estran-geiros mas também o modo como o texto de partida constrói a autoimagem dos autores e da sua cultura. Na realidade, como parte integrante do polissistema cultural e literário, a autoimagem também sofre alteração com as mudanças de circunstancias so-ciais, jurídico-políticas, étnicas e antropológicas. A autoimagem do Império Qing no século XVIII, altura em que é elaborada Monografia de Macau, pro-jeta-se intencionalmente com arrogância, orgulho e preconceito em relação a forasteiros, devido à pujança económica, política e social do então Império. No entanto, na sequência do declínio imperial marcado pela Guerra do Ópio (1840-1842), esta autoimagem passa a sofrer mudanças drásticas. A aboli-ção do emprego de i (夷) assinala uma submissão política. Tal abolição cria e espelha uma heteroimagem dos ocidentais valorizada e ao mesmo tempo enfraquece a autoimagem do Império Qing. Esta história resumida em torno de i (夷) serve eventualmente para explicar a mudança da autoimagem do Império Qing e da heteroimagem dos ocidentais a partir do século XVIII. Citando a história da abolição de i (夷), Luís Gonzaga Gomes, identifican-do-se com os portugueses, manifesta o seu desgosto relativamente à escolha de palavras pelos dois autores mandarins Tcheong-Ü-Lâm e Ian-Kuong-Iâm, justificando, em certo grau, a diversidade de soluções relativas à tradução de e mandarim de primeira classe do Imperial da dinastia Qing dirigida ao cônsul de Portugal em Cantão, “toda a gente sabe que não se deve tornar a fazer uso da palavra I [i]”. 134 Após 1999, os macaenses podem optar pela identidade chinesa ou portuguesa. LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU184
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUi (夷). Como a palavra i (夷) muitas vezes se refere a portugueses, com os quais se identifica construindo uma autoimagem positiva, Gonzaga Gomes pretende evitar traduzir o sentido pejorativo da palavra i (夷), omitindo-a, ou substituindo-a por outras formas.135 Por outro lado, Jin Guoping tem uma outra leitura em relação à tradução de fan (藩) e i (夷). Não distingue na tradução o uso de fan (藩) e de i (夷), usando “bárbaro” para traduzir ambas, uma palavra que emprega tanto na qualidade de substantivo como na qualidade de adjetivo. Do ponto de vista histórico, no prefácio de Breve Monografia de Macau de 2009, Jin Guoping defende as intenções dos dois autores mandarins, com os quais parece iden-tificar-se: “De facto, a Breve Monografia de Macau, semelhante a uma fanglüe [métodos e estratégias], visa divulgar os méritos militares dos dois mandarins na repressão dos bárbaros de Macau pela força” (Jin 2009, xi). Neste excerto do seu prefácio, Jing Guoping emprega o termo “bárbaro”, pois usa o texto dos dois mandarins sem dele se distanciar, importando para o seu prefácio o que entende serem as intenções dos dois mandarins, autores do texto de par-tida. Para Jin Guoping e o seu revisor Rui Manuel Loureiro, Breve Monogra-fia de Macau apresenta “excepcionais testemunhos sobre a visão chinesa dos portugueses de Macau, materiais importantíssimos para os estudos, hoje tão em voga, sobre as recíprocas imagens Luso-chinesas” (Loureiro 2009, xvii). Naturalmente, em termos das normas iniciais de tradução, ambos optaram pela “tradução adequada” que atende à cultura de partida. Esta afirmação comprova que o tradutor Jin Guoping pressupõe no seu leitor a expetativa de apurar heteroimagens construídas pelos chineses em relação aos portugueses de Macau nessa altura. Com o regresso de Macau à República Popular da China em 1999, o interesse pelas questões históri-cas de Macau volta a ser valorizado pois os estudos deste género contribuem para Macau se afirmar como uma região administrativa especial de Macau da República Popular da China. Nestas circunstâncias, Jin Guoping associa a imagem dos ocidentais que recria na sua tradução à heteroimagem cons-truída pelos dois autores mandarins de Monografia de Macau. Os mandarins obrigam-se historicamente a valorizar a sua autoimagem do Império Qing e a depreciar a heteroimagem dos forasteiros. Os forasteiros, independente-mente de serem comerciantes, religiosos, soldados ou enviados diplomáticos, são tratados indiscriminadamente com julgamentos e atitudes depreciativos pelos mandarins do Império Qing. Esta identificação que Jin Guoping assu-me com os então mandarins recupera a autoimagem dos dois autores manda-rins e da sua cultura, que usam tanto fan (藩) como i (夷) como geradoras de 135 Vide Capítulo 5, secção 5.3.4.2.185
uma heteroimagem ora não avaliativa ora depreciativa. Uma vez feitas estas observações introdutórias, regressemos à Monografia de Macau para proceder a uma análise textual comparativa. A Monografia de Macau é composta por duas partes. Entre as duas, a se-gunda é a que mais nos interessa, pois aí se encontra a maioria dos exemplos de fan (藩) e i (夷). Esta segunda parte é intitulada “Os Estrangeiros de Macau” (tradução de Luís Gonzaga Gomes) ou “Crónica dos Bárbaros de Macau” (tradução de Jin Guoping), ilustrando desde logo opções distintas dos dois tradutores relativamente à tradução de fan (藩): “estrangeiro”. Na Tabela 10, apresenta-se a estrutura da Monografia de Macau. Texto de partida (1992) Tradução de Luís Gonzaga Gomes (1979)Tradução de Jin Guoping (2009)I Parte形势篇(潮汐风候附)136[topografia capítulo (maré, vento anexo)]官守篇(政令附)[administração capítulo (política ordem anexo)]TopografiaMarésVentosAdministração Situação Geográfica, com Informações sobre Marés e VentosA Administração de Ma-cau (com as Ordenanças)II Parte澳藩篇(诸藩附)[macau estrangeiro capítulo (cada estrangeiro anexo)]Os estrangeiros de MacauCrónica dos Bárbaros de Macau (Com Informações sobre os Bárbaros de Macau)Tabela 10: Estrutura de Monografia de Macau.136As traduções de fan (藩) e de i (夷) encontrados na segunda parte constituem o nosso corpus de análise. Para efeitos de comparação textual, nos exemplos usamos a seguinte organização: começamos por apresentar numa primeira coluna o excerto do texto de partida em chinês, optando por apresentar o texto anotado por Zhao Chunchen, seguido da nossa tradução para portu-guês ao nível da palavra. Em duas colunas adicionais apresentamos primeiro a tradução de Luís Gonzaga Gomes (na edição de 1979)137 e depois a retradu-ção de Jin Guoping (2009). A partir das ocorrências de fan (蕃) e i (夷) no texto de partida analisado (Monografia de Macau com Anotações) (Zhao 1992, 154), procurámos os seg-mentos correspondentes nos textos de chegada, nomeadamente nos textos de Luís Gonzaga Gomes e Jin Guoping. Apresentamos os números globais de ocorrência na Tabela 11 e passamos a analisar pormenorizadamente as opções de cada tradutor.136 Sempre que apresentamos excertos em chinês, adicionamos a nossa tradução para português ao nível de palavra, de modo a facilitar a leitura e a análise dos exemplos e da sua tradução. 137 As duas edições de 1950 e 1979 são textualmente iguais. LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU186
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU Texto de partida (1972)Tradução de Luís Gonza-ga Gomes (1979)Tradução de Jin Guoping (2009)fan(藩)72“estrangeiro”: 61“bárbaro”: 1“estrangeiro”: 2“bárbaro”: 62outras soluções: 8omissões: 2outras soluções: 71 omissãoi (夷) 30“estrangeiro”: 0“bárbaro”: 19 “estrangeiro”: 0“bárbaro”: 19outras soluções: 9omissões: 2outras soluções: 101 omissãoTabela 11: Números globais de ocorrência de tradução de fan (蕃) e i (夷)5.3.4.1. Análise da tradução de fan (藩) Encontramos 72 ocorrências de fan (藩) no texto de partida, que confronta-mos com as traduções correspondentes nos dois textos de chegada: o de Luís Gonzaga Gomes (doravante designado por LGG nesta secção) (1979) e o de Jin Guoping (doravante designado por JGP nesta secção) (2009) (vide Anexo V). Constatamos que, para as 72 ocorrências de fan (藩) no texto de partida, LGG emprega a palavra “estrangeiro” 61 vezes, tanto na sua forma substantiva como adjetiva, usa a palavra “bárbaro” apenas uma vez, omite a tradução duas vezes e recorre a outras soluções oito vezes. JGP, por sua vez, utiliza a palavra “estrangeiro” apenas duas vezes, recorre à palavra “bárbaro” 62 vezes, omite a tradução uma vez e emprega outras soluções sete vezes. Estes dados confir-mam as opções opostas dos dois tradutores relativamente à palavra fan (藩) . Numa perspetiva de averiguar melhor as escolhas dos dois tradutores, in-teressa-nos igualmente observar as particularidades e desvios ou alterações de tradução (shift), nomeadamente, as oito soluções alternativas que encon-tra (segundo os respetivos números de ordem no Anexo V: 16, 17, 24, 38, 40, 53, 61, 63), as duas omissões (2, 71) e o único emprego de “bárbaro” (25) para traduzir o fan (藩) . Apresentam-se, primeiro, as oito soluções alternativas na Tabela 12. Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada16紅毛蕃至,又破其城 (Zhao 1992, 127)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Quando os hông-mou tornaram a voltar, destruíram igualmente a cidade (Tcheong e Ian 1979, 190). [Vermelho Cabelo Estrangeiro chegar, outra vez quebrar seu cidade]JGP (2009): Quando os Cabelos Vermelhos regressaram, conquistaram outra vez a cidade (Yin e Zhang 2009, 176). 187
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada17山以北屬紅毛蕃,南屬佛朗機,美洛居竟為兩國所分 (Zhao 1992, 127-128)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): seria melhor dividir o país, tomando para fronteira as altas serras de Tchông-Mán-Lou, e ficando a região do norte para os hông-mou-fán e a do sul para os fát-lóng-kei (Tcheong e Ian 1979, 191). [montanha norte pertencer a vermelho cabelo estrangeiro, sul pertencer a folangji, Molucca por dois pais dividir]JGP (2009): Os Cabelos Vermelhos tornaram, juntamente com os Folangji, a fazer o seu comércio em Java. Aqueles construíram as suas feitorias a leste de Dajian e estes, a oeste (Yin e Zhang 2009, 176). 24每肆一區,歲租蕃錢十餘圓 (Zhao 1992, 147)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Cada bairro de lojas é anualmente alugado por dez patacas europeias (Tcheong e Ian 1979, 212-213).[cada loja um bairro, por ano renda estrangeiro dinheiro dez mais yuan]JGP (2009): Cada botica alugada rende anualmente umas dez moedas bárbaras (Yin e Zhang 2009, 199). 38有大事、疑獄,兵頭、蕃目不能決,則請命,命出奉之惟謹 (Zhao 1992, 151)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Se ocorre qualquer caso importante ou, por suspeita, se aprisione, o Governador e o procurador do Senado não podem resolver. Pedem então (ao Bispo) uma ordem (Tcheong e Ian 1979, 219). [haver grande assunto, suspeitar prisão, soldado chefe, estrangeiro chefe não poder decidir, então pedir ordem, ordem saída respei-tar somente cautelosamente]JGP (2009): Quando ocorre qualquer caso de importância ou de difícil solução, que o bingtou e o fanmu 399 não conseguem resolver, solicitam instru-ções do bispo (Yin e Zhang 2009, 205). 399: Cabecilha dos bárbaros. 40而左右列侍蕃女,於廟於家惟所便,蓋火憂患衲子之流 (Zhao 1992, 152)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): [S]ão rodeados de mulheres europeias que tomam conta deles. Fazem das igrejas suas casas e ali se abrigam para maior conveniência como os bonzos tauistas (Tcheong e Ian 1979, 219). [à esquerda à direita rodeado de estrangeiro mulher, em templo conveniente como em casa, pro-vavelmente ser sofrido monge]JGP (2009): São celibatários, mas rodeados de mu-lheres bárbaras, que tomam conta deles e se ocupam dos trabalhos domésticos, tanto nas igrejas como nas residências (Yin e Zhang 2009, 206). 53蕃舶視外洋夷舶差小,以鐵力木厚二三寸者為之,錮以瀝青、石腦油 (Zhao 1992, 155-156)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): As fán-p’ôk 蕃舶(lorchas) comparadas com os i-p’ôk 夷舶(naus) de navegação oceânica são pouco mais pequenas, sendo construídas de t’it-lêk--môk 鐵力木(pau ferro) de duas a três polegadas de espessura, ligadas entre si, untadas com petróleo betuminoso. (Tcheong e Ian 1979, 227)[estrangeiro barco comparado com bárbaro barco mais pequeno, feito de pau ferro de espessura dois três polegada, untada com betume nafta]JGP (2009): Os barcos bárbaros de Macau são mais pequenos do que as naus de navegação transoceâni-ca. São construídos de tielimu com dois ou três cun de espessura untado com betume e shinaoyou. (Yin e Zhang 2009, 211)LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU188
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada61其五色鸚鵡常棲丁香樹上[……]能兼蕃漢語,性畏寒,然撫摩其此則瘖 (Zhao 1992, 161)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): As cacatuas coloridas costumam empoleirar-se nos craveiros […] Podem pronunciar palavras europeias e chinesas. Teme, por índole, o frio. Se se lhes passar as mãos sobre o dorso emude-cem. (Tcheong e Ian 1979, 234) [seu cinco cor papagaio costumar empoleirar-se em craveiro…poder imitar estrangeiro chinês língua, por índole temer frio, mas massa-gem em dorso ele calar-se]JGP (2009): Os papagaios coloridos costumam empoleirar-se em craveiros para se alimentarem de cravos ainda não amadurecidos […] Conseguem imitar palavras bárbaras e chinesas. São friorentos. Se se lhes passar as mãos pelo dorso, calam-se. (Yin e Zhang 2009, 218)63蕃人謂牙為白暗,犀為黑暗 (Zhao 1992, 162)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os Europeus dizem que os dentes dos elefantes são de cor branca embaciada e os chifres dos rinocerontes de cor escura embaciada. (Tcheong e Ian 1979, 238)[estrangeiro dizer marfim ser branco escuro, corno de rinoce-ronte ser preto escuro]JGP (2009): Os bárbaros chama baian ao marfim e heian ao corno de rinoceronte. (Yin e Zhang 2009, 219)Tabela 12: Oito soluções alternativas a "estrangeiro” selecionadas por Luís Gonzaga Gomes para traduzir fan (藩)Nestas soluções, excetuando o emprego de cantonês para três ocorrências (“hóng-mou”, “hóng-mou-fán” e “fán-p’ôk”) e uma designação no título (“pro-curador do Senado”), Luís Gonzaga Gomes recorre ao uso de “europeu/eu-ropeia” para traduzir o fan (藩) – mais concretamente, “patacas europeias”, “mulheres europeias”, “palavras europeias” e “europeus”. O emprego de “eu-ropeu/europeia”, como desvio do “estrangeiro” que LGG costuma usar para traduzir o fan (藩), representa uma especificação geográfica e etnicamente mais concreta – informação implícita no texto de partida –, mas LGG deduz esta informação e acrescenta-a explicitamente na sua tradução, podendo por isso estas opções corresponder à tática de “explicitação”, uma das táticas de estratégia pragmática de tradução proposta por Chesterman, que diz respei-to à manipulação da mensagem (Chesterman 2016, 104). Ao contrário de “bárbaro”, o emprego de “europeu/europeia” tem um significado que não é pejorativo, destacando-se na categoria de “estrangeiro” como uma subcate-goria geográfica e etnicamente distinguível. Enquanto uma categoria muito abrangente, “estrangeiro” poderá abarcar europeus, escravos africanos ou outros forasteiros não naturais do Império Qing. A opção de LGG pelo hi-pónimo (“europeu/europeia”) (Chesterman 2016, 99-100) evita a referida ambiguidade étnica, incluindo nesta subcategoria também “português/por-tuguesa” com que LGG se identifica. Este desvio reescreve a heteroimagem 189
da palavra fan (藩), manipulando subtilmente a mensagem transmitida. Pelo contrário, JGP mostra, na sua tradução, uma atitude diferente, re-correndo maioritariamente ao uso de “bárbaro” para fixar a heteroimagem dos estrangeiros na sua tradução. Estas duas soluções distintas relativamente à palavra fan (藩) constroem duas heteroimagens dos ocidentais nas tradu-ções da Monografia de Macau: o uso de “europeu/europeia” gera uma imagem geograficamente identificada e um sentido neutro, enquanto o emprego de “bárbaro” representa uma imagem que poderá ser de qualquer lugar e um sentido pejorativo. Vamos agora ver os dois casos de omissões na tradução, apresentados na Tabela 13.Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada1, 2澳蕃篇[fan:estrangeiro] (諸蕃附) (Zhao 1992, 111) fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Capítulo concernente aos estrangeiros de Macau Ø (Tcheong e Ian 1979, 170)[macau estrangeiro capítulo][(cada estrangeiro anexo)]JGP (2009): Crónica dos bárbaros de Macau- com informações sobre os bárbaros de Macau (Yin e Zhang 2009, 159)71在澳蕃醫有安哆呢,以外科擅名久 (Zhao 1992, 182)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Em Macau, dos médicos Ø, há o On-tó-ni 安多尼(António), que criou a sua fama como cirurgião, há já muito tempo. (Tcheong e Ian 1979, 263)[em Macau estrangeiro médico haver António, por cirurgião ser famoso há muito tempo]JGP (2009): Entre os médicos bárbaros de Macau há um cirurgião de renome, que se chama Anduoni. (Yin e Zhang 2009, 241)Tabela 13: Duas omissões de Luís Gonzaga Gomes em relação à tradução de fan (藩)No primeiro caso, é omitido o subtítulo entre parênteses do “Capítulo con-cernente aos estrangeiros de Macau”. No segundo caso, em vez de usar “mé-dico estrangeiro António”, LGG omite a repetição de “estrangeiro” no seu texto de tradução, indicando somente o nome português do médico – “Antó-nio”, que no texto de partida, se apresenta foneticamente em cantonês. As in-formações omitidas em ambos os casos, apesar de estarem presentes no texto de partida, no entender de LGG, não parecem ter relevância para o público de leitura. Tecnicamente, do ponto de vista da tradução, esta omissão, como mudança de informação no texto de chegada, é considerada uma estratégia pragmática que visa à manipulação de mensagens (Chesterman 2016, 105). LGG opta por uma tradução aceitável, orientando-se para os conhecim entos LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU190
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUe as expetativas do seu público de leitura e acabando por selecionar traduções que correspondem a normas da cultura de chegada portuguesa, pois não são ofensivas para a sensibilidade de um leitor português ao evitarem a repetição, estilisticamente reprovada em português. Pelo contrário, nestes dois casos, JGP não só emprega “bárbaro” para traduzir a palavra fan (藩) mas usa-a re-petidamente, sem evitar repetições estilisticamente desvalorizadas. Merece apontar que, no segundo caso, JGP acaba por apresentar o nome do médico em pinyin – “Anduoni”. Estas opções, explicitamente orientada pelas normas da cultura de partida chinesa dos mandarins da dinastia Qing, correspondem a uma tradução adequada também em termos estilísticos. Produzem prova-velmente o efeito de alienar o seu público de leitura português, quer pelo uso pejorativo de “bárbaro” em vez de “estrangeiro”, quer pela repetição do termo. Relativamente ao único caso de emprego de “bárbaro” por LGG para tra-duzir fan, este é apresentado na Tabela 14.Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada25蕃寺通歲所入幾萬圓 (Zhao 1992, 147)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os templos dos bárbaros recebem por ano algumas dezenas de milhar de patacas. (Tcheong e Ian 1979, 213).[estrangeiro templo todo ano receita algum dez mil yuan]JGP (2009): As igrejas bárbaras têm uma receita anual da ordem das várias dezenas de milhares de patacas. (Yin e Zhang 2009, 199).Tabela 14: Único emprego de “bárbaro”, por Luís Gonzaga Gomes, em relação à tradução de fan (藩)Neste exemplo em que LGG usa “bárbaro” para traduzir o fan (藩), parece optar por uma solução contrária à sua escolha predominante. Os casos ante-riores mostram que LGG tem uma atitude resistente em relação ao emprego de “bárbaro”, que é evidente tanto no seu prefácio da tradução de Monografia de Macau como no seu artigo intitulado Os Faringues (Gomes 1950). Nas suas traduções de Monografia de Macau, LGG tem muita cautela na escolha de palavras para traduzir o i (夷) e o fan (藩), resolvendo usar “bárbaro” para traduzir o i (夷) e usar “estrangeiro” para traduzir o fan (藩), a fim de dis-tinguir um do outro. Como referido, considerando a abrangência semântica de “estrangeiro”, LGG procura também outros termos tal como “europeu/europeia” para delimitar o equivalente da palavra chinesa fan (藩) em portu-guês. Há ainda casos em que LGG omite a tradução do fan (藩), optando por mudar a informação – caso de “António” –, porventura por entender que o 191
nome próprio identifica um estrangeiro, sendo o uso do termo redundante.No entanto, a exceção apresentada na Tabela 12 merece ser objeto da nos-sa atenção. A partir simplesmente da frase isolada, não conseguimos inter-pretar eventuais motivações para esta escolha de Gonzaga Gomes, pelo que se cita todo o parágrafo abaixo:Os pátios são cercadas por um muro. Abrindo-se as portas, encontram-se os sub-terrâneos, onde são armazenadas as mercadorias. Os pobres não têm casas para viver. Residem nos subterrâneos dos armazéns e das habitações. As casas que são alugadas aos Chineses dão todas para as ruas, formando fileiras de lojas. As rendas dessas casinhas revertem para os padres. Cada bairro de lojas é anualmente aluga-do por dez patacas europeias. Por isso, os templos dos bárbaros recebem por ano algumas dezenas de milhar de patacas. (Tcheong e Ian 1979, 213)Analisado o fator contextual em que surge o uso de “bárbaro”, verificamos que se trata dum parágrafo que descreve de modo crítico a vida precária dos chineses sob a exploração da Igreja, “os padres”. As últimas frases denunciam uma atitude indiferente da Igreja relativamente à miséria dos arrendatários chineses. O emprego de “bárbaro” – palavra pejorativa na opinião de Gon-zaga Gomes – neste contexto, poderá indicar a solidariedade de Gonzaga Gomes para com os chineses pobres. Esta viragem atitudinal, da atitude de-fensiva à atitude defetiva, embora seja implicitamente escondida no empre-go de “bárbaro”, apresenta um certo grau de “chinesice” em LGG, que lhe é possivelmente desconhecido. 5.3.4.2. Análise da tradução de i (夷) Encontramos 30 ocorrências de i (夷) no texto de partida, que passamos a analisar comparativamente com as suas traduções correspondentes nos dois textos de chegada: a tradução de Luís Gonzaga Gomes (doravante designado por LGG nesta secção) (1979) e o de Jin Guoping (doravante designado por JGP nesta secção) (2009). Constatamos que, para traduzir as 30 ocorrências de i (夷), LGG empre-ga a palavra “bárbaro” 19 vezes, tanto na sua forma substantiva como adjetiva, omite-a duas vezes e recorre a outras soluções nove vezes. JGP, por sua vez, emprega a palavra “bárbaro” também 19 vezes e emprega outras soluções 11 ve-zes (veja-se a Tabela 11). Neste caso, LGG identifica a tradução de i (夷) com o sentido pejorativo de “bárbaro”, opção feita igualmente por Jin Guoping.Entretanto, interessa igualmente observar as particularidades, desvios ou alterações (shift) de tradução, nomeadamente as nove soluções alternativas e LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU192
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUas duas omissões de tradução de i (夷), encontradas por LGG . As nove soluções alternativas apresentam-se na Tabela 15. 138Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada1如與佛夷爭市,繼而通好求市者,和蘭也 (Tcheong e Ian 1979, 113)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): os que disputavam o comércio aos Portu-gueses, mas tarde passaram a entender-se bem com eles, a fim de poderem implorar o trato, foram os Holandeses. (Tcheong e Ian 1979, 170)[se com fát-lóng-kei/feringue 138 bárbaro disputar mercado, a seguir conciliar procurar mercado, holandês]JGP(2009): os que disputavam o comércio com os bár-baros Folangji 139 eram os holandeses, que tentaram obter a sua amizade e autorização de comercio. (Yin e Zhang 2009, 159)2自是島夷知向學,三間瓦屋祀宣尼 (Zhao 1992, 120)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): Dela vieram os seus habitantes em demanda do saber. Veneram o Sün-Ni宣尼, em três templos reves-tidos de telhas. (Tcheong e Ian 1979, 178)[certamente é ilha bárbaro saber dever aprender, três casa telha telhado venerar Xuanni]JGP (2009): Os ilhéus gostam de aprender. Levantaram três casas de cal e pedra para o culto de Xuanni. (Yin e Zhang 2009, 168)17夷目有兵頭,遣自小西洋,率三歲一代,轄蕃兵一百五十名,分戍諸炮臺及三巴門 (Zhao 1992, 152)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): O Procurador do Senado e o Governador são enviados de Goa, sendo de três anos o seu período de governo. O número dos soldados estrangeiros é de 150, encontrando-se distribuídos, para guarnecerem as diversas fortalezas e a porta de São Paulo. (Tcheong and Ian 1979, 220)[bárbaro chefe ter soldado chefe, enviado de pequeno ocidente mar, geralmente três ano uma geração, governar estrangeiro solado cento e cinquenta, guardar canhão fortaleza e porta de São Paulo]JGP (2009): Dos yimu410, há que se chama bingtou411. É enviado por Goa. É mudado de três em três anos. Tem sob o seu comando 150 soldados bárbaros, que guardam as fortalezas e a Sanbanmen. (Yin and Zhang 2009, 206)410: Tanto o conteúdo deste frase como a utilização do plural nos levam a crer que jimu não se refere exclusivamente ao governador de Macau, como afirmam alguns estudiosos. 411: Refere-se ao governador de Macau, que foi nomeado pela primeira vez em 1623 pelo vice-rei da Índia, sediado em Goa. Começou por ser um comandante, passando depois a governador, detendo poderes militares e administrativos. NT: Corresponderia a capitão-geral. 138 Fát-lóng-kei, feringue em cantonês. 193
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada18蕃人犯法,兵頭集夷目於議事亭,或請法王至,會鞫定讞,籍其家財而散其眷屬,上其獄於小西洋,其人屬獄候報而行法 (Zhao 1992, 152)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): Quando os estrangeiros transgridem as leis, o Governador reúne-se com o Procurador do Senado ou convidam o Bispo para a reunião, a fim de julgarem, sentenciarem, confiscarem e dispersarem os bens da sua família. Os seus parentes levam o seu crime para Goa enquanto que o réu, submetido à prisão, aguarda a comu-nicação da forma como lhe será aplicada a pena. (Tcheong and Ian 1979, 220)[estrangeiro violar lei, sol-dado chefe juntar bárbaro chefe em Leal Senado, provavelmente convidar bispo, conjunto interrogar dar sentença, confiscar bens fortuna e dispersar familia-res, ir à prisão em pequeno ocidente mar, aguardar execução pena]JGP (2009): Quando algum bárbaro transgride as leis, o bingtou convoca todos os yimu para se reunirem no Leal Senado, ou convida também o bispo para a reunião, e interrogam em conjunto o suspeito para averiguarem a verdade e darem a respectiva sentença. Confirmada a pena, os bens do criminoso podem ser confiscados e os seus familiares repatriados. O condenado seguirá par Goa, para ficar ali preso à espera da execução da pena. (Yin and Zhang 2009, 206)19夷目不職者,兵頭亦得劾治 (Zhao 1992, 152)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): O Governador pode inquirir e punir os pequenos delitos daqueles por quem o Procurador do Se-nado se não responsabiliza. (Tcheong and Ian 1979, 220) [bárbaro chefe não respon-sabilizar-se, soldado chefe também dever inquirir e castigar]JGP (2009): O bingtou pode ainda demitir e castigar os yimu que se mostrarem negligentes no cumprimento das respectivas funções. (Yin and Zhang 2009, 206)20, 21大紅棍於夷人就瞑時,察其貲財,而籍記之 [……] 二紅棍於夷人既沒,有子女俱幼、不能成立者,即依大紅棍所開應給之數,撫育其子女,而經理其剩餘財,待其既長婚嫁,舉以付之 (Zhao 1992, 153)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): O tái-hông-kuân, (Provedor de Santa Casa da Misericórdia?) quando os falecidos bárbaros deixarem filhos e filhas menores que não podem tratar de si mesmos, de acordo com o tái-hông-kuân, abre uma conta de subsídio para educar as suas filhas e filhos e ajuda a ad-ministrar-lhes os bens até que eles cheguem a maioridade e se casem. (Tcheong and Ian 1979, 223)[Grande Vermelho Vara na altura de bárbaro morrer, verificar bens fortuna, registar em livro …Segundo Vermelho Vara na altura de bárbaro morrer, com filho filha ambos pequeno, não independente, de acordo com pagamento prometido por Grande Vermelho Vara, criar criança menor, e gerir restante bens, aguardar os crescidos até se casar, restituir bens]JGP (2009): O Grande Vara Vermelha, quando morre algum bárbaro, verifica os seus bens e regista-os num livro […] compete ao erhonggun executar o registo feito pelo dahonggun para criar os filhos menores do falecido, conforme a decisão do dahonggun, e administrar os seus bens. (Yin and Zhang 2009, 207)LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU194
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada26蕃舶視外洋夷舶差小,以鐵力木厚二三寸者為之,錮以瀝青、石腦油 (Zhao 1992, 155-156)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): As fán-p’ôk 蕃舶(lorchas) comparadas com os i-p’ôk 夷舶(naus) de navegação oceânica são pouco mais pequenas, sendo construídas de t’it-lêk-môk 鐵力木(pau ferro) de duas a três polegadas de espessura, ligadas entre si, untadas com petróleo betuminoso. (Tcheong and Ian 1979, 227)[estrangeiro barco compara-do com bárbaro barco mais pequeno, feito de pau ferro de espessura dois três polegada, untada com betume nafta]JGP (2009): Os barcos bárbaros de Macau são mais pequenos do que as naus de navegação transoceânica. São construídos de tielimu com dois ou três cun de espessura untado com betume e shinaoyou. (Yin and Zhang 2009, 211)27其夷目舶稅,上貨抽加,二次加一五,又次加一 (Zhao 1992, 156)。[夷(i): bárbaro]LGG (1979): [O] Procurador do Senado aumentou a taxa das mercadorias de qualidade superior, trazidas pelos barcos estrangeiros, em 2 por cento; de segunda qualidade, em um e meio por cento; e de qualidade ainda inferior, em um por cento. (Tcheong and Ian 1979, 227)[seu bárbaro chefe barco taxa, qualidade mercadoria acrescentar, segunda ordem acrescentar um cinco, terce-ria ordem acrescentar um]JGP (2009): Os chefes bárbaros aplicam impostas aos barcos. À mercadorias sujeitas a impostos de 15% sobre o respectivo valor, enquanto as de terceira ordem pagam 10%. (Yin and Zhang 2009, 211)28夷目亦乘驕 (Zhao 1992, 156)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): O Procurador do Senado anda também de cadeirinhas […] (Tcheong and Ian 1979, 227)[bárbaro chefe também andar de cadeirinha]JGP (2009): Os yimu também andam de cadeirinha. (Yin and Zhang 2009, 211)Tabela 15: Nove soluções alternativas a “bárbaro” selecionadas por Luís Gonzaga Gomes para traduzir i (夷)Das nove soluções diferentes de “bárbaro”, cinco (17, 18, 19, 27, 28, segundo os respetivos números de ordem na Tabela 15) referem-se a uma determinada designação do cargo “Procurador do Senado”; uma (26) diz respeito a naus de navegação; duas (2, 21) são substituídas por um pronome possessivo (“seu/sua”), evitando assim repetir a palavra i (夷) – “bárbaro”. Realça-se o caso (1), em que “佛夷” [equivalente literal: fát-lóng-kei/feringue bárbaro], na solução de Luís Gonzaga Gomes, acaba por ser tra-duzido como “Portugueses”, evitando-se tanto o uso de “bárbaro” como o emprego de “fát-lóng-kei/feringue”, termo consagrado e ainda mais polémico em termos do seu significado pejorativo. Relativamente ao termo “feringue”, Gonzaga Gomes explora a sua origem etimológica, num artigo intitulado Os Feringues (Gomes 1950), publicado em 1950, posteriormente à sua tradução de Monografia de Macau: 195
Como se vê, em todos os escritos nativos da época [século XVI], eram os Portu-gueses designados por Fát-lóng-kei ou Feringues. Ora a palavra feringue é derivada, ou do persa farangi ou firingi, ou do árabe al-faranj, ifrangi ou firandi, isto é, os francos e, segundo afirma a citada obra “Hobson-Jobson” [Autor de A Glossary of Coloquial Anglo-Indian “Words and Phrases,etc.”. Londres, 1903], a palavra feringue é ainda usada na Índia, principalmente no sul, para designar especificamente os Indo-Portugueses e, em sentido pejorativo e hostil, para se referir duma forma geral aos Europeus. (Gomes 1950, 407)Esta origem etimológica explica que o termo feringue, emprestado de outras línguas não chinesas, transporta, historicamente, um sentido “pejorativo e hostil”. Para além disso, as variedades deste termo revelam igualmente um elevado grau de depreciação por parte dos chineses, tal como aponta por LGG: Portanto, de Fát-lóng-kei passaram então os chineses a chamar-nos [portugueses], em linguagem oficial, Fangim ou seja Fán-iân 番人(gente estrangeira) termo que abrange todos os outros Europeus, porém o povo continuou, pelos séculos fora, até aos presentes dias, a designar-nos, não só a nós [portugueses] como a todos os estrangeiros, com o afrontoso epíteto de Fán-kuâi 番鬼(diabos estrangeiros), o fancu [homens do diabo] do fr. Gaspar da Cruz. (Gomes 1950, 409) Nesta afirmação, tal como acontece noutras publicações, o uso de “nós” colo-ca LGG explicitamente identificado com portugueses. A imagem dos portu-gueses, associada a Fát-lóng-kei, passa a ser associada pelos chineses a “diabo”, génio do mal e espírito das trevas. Consequentemente, Fát-lóng-kei/feringue torna-se um termo associado a uma heteroimagem fortemente negativa dos portugueses. Do ponto de vista da tradução, a ausência intencional de “fe-ringue” na solução de LGG altera a mensagem do texto de partida. A opção pelo emprego de “portugueses”, por intervenção de Gonzaga Gomes como tradutor, evita o desagrado por parte dos leitores portugueses, apresentando uma imagem não emocional nem negativamente avaliativa ao público portu-guês. Como uma reação contrária, a tradução proposta por JGP – “bárbaros Folangji” [Folangi – pinyin de Fát-lóng-kei/feringue] mantém o sentido depre-ciativo intensificado pela repetição, mantendo no texto de partida os dois termos depreciativos patentes no texto de partida. Em seguida, vejamos as duas omissões de tradução de i (夷) apresentadas na Tabela 16. LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU196
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada3譯章曾記莋都夷,槃木白狼歸漢時 (Zhao 1992, 120)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): Não traduz a frase.[traduzir capítulo já registar zuodu bárbaro, panmu bailang regressar Han altura]JGP (2009): Quando os de Panmu e os de Bailang se subordinaram à dinastia Han, o soberano ilhéu não deixa de ter em consideração a magnanimidade de Sua Majestade. (Yin e Zhang 2009, 169)10自用夷家臘,三無近一陽 (Zhao 1992, 146)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): não traduz a frase.[próprio usar bárbaro casa dezembro, três não aproxi-mar um sol]JGP (2009): Foi adoptado o calendário ocidental, o Ano Novo aproxima-se do Solstício do Inverno. (Yin e Zhang 2009, 197) Tabela 16: Duas omissões selecionadas por Luís Gonzaga Gomes para traduzir i (夷)Ambas as frases cuja tradução é omitida no texto de LGG fazem parte de alguns versos poéticos dos mandarins, citados na Monografia de Macau. A omissão do conteúdo não se limita exclusivamente a estes versos, estenden-do-se até metade da página do texto de partida, no caso (10), quase chegan-do a uma página inteira. É presumível que esteja em causa a fraca qualidade de impressão e as más condições de conservação do texto de partida a que LGG recorre, como é mencionado, já no texto anterior, por LGG no seu prefácio da tradução de Monografia de Macau. Além dos exemplos que apresentam as particularidades, desvios ou al-terações (shift) nas soluções de LGG, relativamente à tradução de i (夷), interessa também considerar a existência destas alternativas nas soluções de JGP, nomeadamente, as onze outras soluções diferentes de “bárbaro”, que se apresenta na Tabela 17.Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada2 自是島夷知向學,三間瓦屋祀宣尼 (Zhao 1992, 120)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): Dela vieram os seus habitantes em demanda do saber. Veneram o Sün-Ni宣尼, em três templos reves-tidos de telhas. (Tcheong e Ian 1979, 178)[certamente ser ilha bárbaro saber dever aprender, três casa telha telhado venerar Xuanni]JGP (2009): Os ilhéus gostam de aprender. Levantaram três casas de cal e pedra para o culto de Xuanni, (Yin e Zhang 2009, 168) 197
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada3 譯章曾記莋都夷,槃木白狼歸漢時 (Zhao 1992, 120)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): Não traduzido.[traduzir capítulo passado registar Zuodu bárbaro, Panmu Bailang subordinar Han altura]JGP (2009): Quando os de Panmu e os de Bailang se su-bordinaram à dinastia Han, o soberano ilhéu não deixa de ter em consideração a magnanimidade de Sua Majestade. (Yin e Zhang 2009, 169)6 夷人貿易者則治世類,西洋國歲遣官更治之 (Zhao 1992, 141)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): Os bárbaros que negoceiam pertencem à classe do poder temporal, e o reino de Portugal envia todos os anos autoridades para os governar. (Tcheong e Ian 1979, 206) [bárbaro comerciante então ser governado, ocidente mar país cada ano destacar funcio-nário governar ainda mais]JGP (2009): [O]s comerciantes subordinam-se ao zhishi. Anualmente, vêm de Xiyangguo funcionários para os governar. (Yin e Zhang 2009, 191)10 自用夷家臘,三無近一陽 (Zhao 1992, 146)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): não traduzido.[próprio usar bárbaro casa calendário, sem três ramos terrestriais, aproximar-se Solstício]JGP (2009): Foi adoptado o calendário ocidental, o Ano Novo aproxima-se do Solstício do Inverno. (Yin e Zhang 2009, 197) 17 夷目有兵頭,遣自小西洋,率三歲一代,轄蕃兵一百五十名,分戍諸炮臺及三巴門 (Zhao 1992, 152)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): O Procurador do Senado e o Governador são enviados de Goa, sendo de três anos o seu período de governo. O número dos soldados estrangeiros é de 150, encontrando-se distribuídos, para guarnecerem as diversas fortalezas e a porta de São Paulo. (Tcheong and Ian 1979, 220)[bárbaro chefe ter soldado chefe, enviado de pequeno ocidente mar, geralmente três ano uma geração, governar estrangeiro solado cento e cinquenta, guardar canhão fortaleza e porta de São Paulo]JGP (2009): Dos yimu410, há que se chama bingtou411. É enviado por Goa. É mudado de três em três anos. Tem sob o seu comando 150 soldados bárbaros, que guardam as fortalezas e a Sanbanmen. (Yin and Zhang 2009, 206)410: Tanto o conteúdo deste frase como a utilização do plural nos levam a crer que jimu não se refere exclusivamente ao governador de Macau, como afirmam alguns estudiosos. 411: Refere-se ao governador de Macau, que foi nomeado pela primeira vez em 1623 pelo vice-rei da Índia, sediado em Goa. Começou por ser um comandante, passando depois a governador, detendo poderes militares e administrativos. NT: Corresponderia a capitão-geral. LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU198
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada18 蕃人犯法,兵頭集夷目於議事亭,或請法王至,會鞫定讞,籍其家財而散其眷屬,上其獄於小西洋,其人屬獄候報而行法 (Zhao 1992, 152)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): Quando os estrangeiros transgridem as leis, o Governador reúne-se com o Procurador do Senado ou convidam o Bispo para a reunião, a fim de julgarem, sentenciarem, confiscarem e dispersarem os bens da sua família. Os seus parentes levam o seu crime para Goa enquanto que o réu, submetido à prisão, aguarda a comu-nicação da forma como lhe será aplicada a pena. (Tcheong and Ian 1979, 220)[estrangeiro violar lei, sol-dado chefe juntar bárbaro chefe em Leal Senado, provavelmente convidar bispo, conjunto interrogar dar sentença, confiscar bens fortuna e dispersar famila-res, ir à prisão em pequeno ocidente mar, aguardar execução pena]JGP (2009): Quando algum bárbaro transgride as leis, o bingtou convoca todos os yimu para se reunirem no Leal Senado, ou convida também o bispo para a reunião, e interrogam em conjunto o suspeito para averiguarem a verdade e darem a respectiva sentença. Confirmada a pena, os bens do criminoso podem ser confiscados e os seus familiares repatriados. O condenado seguirá para Goa, para ficar ali preso à espera da execução da pena. (Yin and Zhang 2009, 206)19 夷目不職者,兵頭亦得劾治 (Zhao 1992, 152)。 i (夷): bárbaro [bárbaro chefe não respon-sabilizar-se, soldado chefe também dever inquirir e castigar]LGG (1979): O Governador pode inquirir e punir os pequenos delitos daqueles por quem o Procurador do Se-nado se não responsabiliza. (Tcheong and Ian 1979, 220)JGP (2009): O bingtou pode ainda demitir e castigar os yimu que se mostrarem negligentes no cumprimento das respectivas funções. (Yin and Zhang 2009, 206) 20, 21 大紅棍於夷人就瞑時,察其貲財,而籍記之 [……] 二紅棍於夷人既沒,有子女俱幼、不能成立者,即依大紅棍所開應給之數,撫育其子女,而經理其剩餘財,待其既長婚嫁,舉以付之 (Zhao 1992, 153)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): O tái-hông-kuân, (Provedor de Santa Casa da Misericórdia?) quando os falecidos bárbaros deixarem filhos e filhas menores que não podem tratar de si mesmos, de acordo com o tái-hông-kuân, abre uma conta de subsídio para educar as suas filhas e filhos e ajuda a ad-ministrar-lhes os bens até que eles cheguem a maioridade e se casem. (Tcheong and Ian 1979, 223) [Grande Vermelho Vara na altura de bárbaro morrer, verificar bens fortuna, registar em livro …Segundo Vermelho Vara na altura de bárabro morrer, com filho filha ambos pequeno, não independente, de acordo com pagamento prometido por Grande Vermelho Vara, criar criança menor, e gerir restante bens, aguardar os crescidos até se casar, restituir bens]JGP (2009): O Grande Vara Vermelha, quando morre algum bárbaro, verifica os seus bens e regista-os num livro […] compete ao erhonggun executar o registo feito pelo dahonggun para criar os filhos menores do falecido, conforme a decisão do dahonggun, e administrar os seus bens. Quando aqueles atingem a maioridade e se casam, todos os bens herdados lhes são restituídos. (Yin and Zhang 2009, 207)199
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada22 夷人罪薄者置之上層,稍重者繫於中,重則桎梏於下 (Zhao 1992, 153)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): Os bárbaros que praticaram crimes insigni-ficantes ficam no de cima, os de culpa pouco pesada são amarrados no do meio e os que são algemados e agrilhoa-dos ficam no de baixo. (Tcheong and Ian 1979, 223)[bárbaro crime pequeno ficar em cima, pouco pesado no meio, grave então com argola de cadeado em baixo]JGP (2009): Os presos por pequenos delitos ficam no andar de cima, os de crimes mais graves no andar do meio e os de penas maiores no rés-do-chão. (Yin and Zhang 2009, 207)26 蕃舶視外洋夷舶差小,以鐵力木厚二三寸者為之,錮以瀝青、石腦油 (Zhao 1992, 155-156)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): As fán-p’ôk 蕃舶(lorchas) comparadas com os i-p’ôk 夷舶(naus) de navegação oceânica são pouco mais pequenas, sendo construídas de t’it-lêk-môk 鐵力木(pau ferro) de duas a três polegadas de espessura, ligadas entre si, untadas com petróleo betuminoso. (Tcheong and Ian 1979, 227)[estrangeiro barco com-parado com bárbaro barco mais pequeno, feito de pau ferro de espessura dois três polegada, untada com betume nafta]JGP (2009): Os barcos bárbaros de Macau são mais pequenos do que as naus de navegação transoceânica. São construídos de tielimu com dois ou três cun de espessura untado com betume e shinaoyou. (Yin and Zhang 2009, 211) 28 夷目亦乘驕 (Zhao 1992, 156)。 i (夷): bárbaroLGG (1979): O Procurador do Senado anda também de cadeirinhas […] (Tcheong and Ian 1979, 227)[bárbaro chefe também andar cadeirinha]JGP (2009): O yimu também andam de cadeirinha. (Yin and Zhang 2009, 211)Tabela 17: Onze soluções alternativas a “bárbaro” selecionada por Jin Guoping para tra-duzir i (夷)Das onze soluções diferentes de “bárbaro” adotadas por JGP para traduzir i (夷), uma (2) refere-se a habitantes da Ilha Formosa; uma (3) diz respeito a um reinado onde habitavam dois grupos étnicos de Panmu e Bailang; uma (10) substitui-se por “ocidental” na expressão “calendário ocidental”, pois esta informação geograficamente delimitada permite a compreensão do que a seguir se refere – “o Ano Novo [o Natal] aproxima-se do Solstício do Inver-no” –, enquanto a expressão “calendário bárbaro” não favorece a dedução da informação acerca do Natal; quatro (6, 22, 21e 26) são alternativas de “bár-baro”, que surgem dentro da mesma frase ou nas informações contextuais, usando-se provavelmente para evitar a repetição; realçam-se os restantes quatro casos (17, 18, 19, 28) da tradução de JGP que empregam “yimu”, de-signação em pinyin dum determinado cargo, pelo qual LGG emprega o ter-mo “o Procurador do Senado”. Esta designação aparentemente inofensiva LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU200
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUe neutra, proposta por JGP, requere uma consideração mais aprofundada desta solução para traduzir i (夷)/ “bárbaro”. O “yi” na expressão “yimu”, é a versão pinyin da palavra i (夷), encerrando a mesma mensagem que i (夷)/ “bárbaro”. Um falante de chinês ao ver o “yi”, no texto da tradução de JGP, associa logo ao i (夷) e consequentemente ao português “bárbaro”; porém, esta associação encontra-se vedada a um falante de português que só muito dificilmente saberá identificar “yi” na expressão “yimu” com a palavra i (夷) “bárbaro”.Com base nas análises pormenorizadas acima apresentadas sobre o fan (藩) e i (夷), duas palavras conotativas e ricas em imagens, verificamos regu-laridades relacionáveis com as normas de tradução a que LGG e JGP obede-cem, tendo em conta a própria afirmação emocional e avaliativa da pertença e seu próprio interesse ideológico. Para LGG, o equivalente do fan (藩) em português é “estrangeiro”, enquanto o equivalente do i (夷) em português é “bárbaro”, mas frequentemente substituído por soluções alternativas. Para JGP, “bárbaro” é equivalente tanto para o fan (藩) como para o i (夷) o que confere ao seu texto um distanciamento mais acentuado relativamente à sen-sibilidade dos seus leitores portugueses. Com o intuito de mapear mais sistematicamente o uso de “estrangeiro” e “bárbaro” pelos dois tradutores, fazemos ainda uma outra pesquisa identi-ficando a ocorrência destas palavras nos textos de chegada e procurando os respetivos segmentos de partida. Apresentamos esta informação na Tabela 18. Texto de chegada N.º de ocorrência de “estrangeiro” N.º de ocorrência de “bárbaro”LGG (1979) Parte II 80 29JGP (2009) Parte II 8 101Tabela 18 Número de ocorrências de “estrangeiro” e “bárbaro” nos textos de Luís Gonzaga Gomes (1979) e de Jin Guoping (2009)Considerando estes números em termos globais, reparamos, desde logo, que as ocorrências de “estrangeiro” (80 vezes) no texto de LGG constituem um número muito superior às ocorrências de “estrangeiro” (8 vezes) no texto de JGP; pelo contrário, as ocorrências de “bárbaro” no texto de LGG (29 vezes) são muito menos frequentes do que as ocorrências em JGP (101 vezes). Consequentemente, uma análise global destes números permite afirmar que as imagens que os dois tradutores criam são distintas, ou mesmo opostas, porque aparentemente se identificam, nas suas representações mentais, com diferentes grupos étnicos. A identificação de LGG como português projeta 201
uma imagem dos ocidentais ou portugueses frequentemente associada a “estrangeiro”. Tal revela o posicionamento de LGG, que aparenta identifi-car-se com a imagem dos ocidentais, assim transformando a heteroimagem criada pelos dois autores mandarins numa imagem positiva, evidenciando uma sensibilidade próxima do leitor português e da sua autoimagem. Nesta tradução de Monografia de Macau (“inbound”, de chinês para português), a heteroimagem negativa criada pelos mandarins autores do texto de partida é recriada em desvio pois as opções predominantes de LGG evitam a nature-za pejorativa do termo “bárbaro”. Por consequência, a autoimagem positiva e de superioridade criada pelos mandarins no texto de partida é assim ate-nuada. Consequentemente, em termos das normas iniciais de tradução, estas perceções e considerações de Gonzaga Gomes refletem-se na sua opção pela aceitabilidade, que respeita e valoriza a cultura de chegada. JGP, pelo contrário, aparenta partilhar a mesma visão dos dois autores mandarins em relação aos forasteiros, mantendo e mesmo aumentando no texto de chegada o número de ocorrências da palavra “bárbaro”. Assim cria uma heteroimagem dos ocidentais e portugueses mais negativa até do que a patente no texto de partida, que desconsidera eventuais reações de desa-grado dos leitores portugueses cuja autoimagem positiva é desafiada. Na sua tradução de Monografia de Macau (“outbound”, de chinês para português), a heteroimagem criada para os ocidentais é explicitamente negativa, mais ne-gativa ainda do que no texto de partida, enquanto a autoimagem dos chi-neses criada pelos mandarins no texto de chegada é de uma superioridade intensificada. Constatamos ainda que, na tradução de LGG, existe uma discrepância entre as 80 ocorrências de “estrangeiro” e as 61 ocorrências de tradução de fan (蕃) para “estrangeiro”, pois acrescenta 19 ocorrências de estrangeiro (ve-ja-se o Anexo I); existe também uma discrepância entre as 29 ocorrências de “bárbaro” e as 19 ocorrências de tradução de i (夷) para “bárbaro”, pois acrescenta 10 ocorrências de “bárbaro”, contrariamente ao que porventura se esperaria (veja-se o Anexo II). As diferenças indicam, portanto, a exis-tência de casos em que LGG adiciona “estrangeiro” e “bárbaro”. À luz desta discrepância, efetuamos uma análise bidirecional, procurando os casos de adição de “estrangeiro” e sobretudo de “bárbaro” (10 ocorrências) nos textos de chegada e identificando os segmentos correspondentes no texto de parti-da. Analisamos estes casos nas tabelas seguintes.LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU202
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUNúmero de ordem Texto de partida (1992) Textos de chegadaˆ1.[暹羅] 風俗勁悍,習於水戰 (Zhao 1992, 115)。han (悍): ferozLGG (1979): os seus [de Sião] costumes são extremamente bárbaros e têm por hábito realizar combates naumáquicos. (Tcheong e Ian 1979, 172)[(Sião) costume extremamente feroz, habituado em batalha em água]JGP (2009): Os seus [de Sião] costumes são extremamente bárbaros e os seus ha-bitantes muito peritos em batalhas navais. (Yin e Zhang 2009, 161)2. 能於化外識尊親 (Zhao 1992, 116)。huawai (化外): fora de governaçãoLGG (1979): É possível que em bárbaros países se aprenda a respeitar a estimar os pais. (Tcheong e Ian 1979, 173)[conseguir em fora da governação respei-tar ascendente]JGP (2009): Sendo de huawai, aprendem a respeitar os ascendentes. (Yin e Zhang 2009, 163)3. 遠臣職貢來蠻疆 (Zhao 1992, 117)man (蠻): não civilizadoLGG (1979): Os ministros das terras distantes que enviam tributos chegaram às fronteiras das bárbaras regiões. (Tcheong e Ian 1979, 175)[distante sujeito tributário chegar a não civilizado fronteira ]JGP (2009): Os nossos vassalos vieram das longínquas fronteiras bárbaras prestar-nos vassalagem. (Yin e Zhang 2009, 164)4. 清比胡威臣所切,觀風先到卻金亭 (Zhao 1992, 119)。 hu (胡): minoritária fora da fronteiraLGG (1979): Tal como foi levado pelo embaixador da dinastia Tch’eng, para impor o prestígio imperial aos bárbaros do norte. Chega, porém primeiro a Kâm-T’eng 金亭com o fim de estudar os costumes. (Tcheong e Ian 1979, 177)[Incorrupto como HuWei/sujeito de prestígio de minoritária distante da fronteira (?), para investigação chegar primeiro a pavilhão “derrotar etnia Jin”]JGP (2009): É incorrupto como Hu Wei83, para uma viagem de investigação chega ao Quejinting. (Yin e Zhang 2009, 167)83: Mandarim da dinastia Jin do Oeste. Natural do actual distrito de Shou, da província de Anhui. 5.其國居西海之極,自東南諸蠻邦及大西洋商舶、西域賈人,皆來貿易,故寶物填溢 (Zhao 1992, 135)。man (蠻): não civilizadoLGG (1979): O seu território fica situado no extremo do Oceano Ocidental e todos os países que lhe ficam a sudeste são bárba-ros. Os barcos mercantes do Grande Ocea-no Ocidental (Portugal) e os comerciantes das cidades? de Oeste iam todos lá traficar. Por este motivo, Ormuz encontra-se cheio de preciosidades. (Tcheong e Ian 1979, 200)[seu país ficar oeste mar extremo, a partir sudeste cada não civilizado reinado e atlântico comerciante barco, região ocidental comerciante, todos vem fazer negócio, então preciosidade repleta]JGP (2009): O seu território fica no extremo do Xihai, constituindo um centro de transacções comerciais entre os estados bárbaros do Sudeste Asiático, barcos mercantes do Daxiyang e comerciantes do Xiyu. Por este motivo, Ormuz é uma terra repleta de preciosidades. (Yin e Zhang 2009, 184)203
Número de ordem Texto de partida (1992) Textos de chegada6. 斯耶,蠻官蚩蚩 (Zhao 1992, 140)。man (蠻): não civilizadoLGG (1979): Não pormenorizemos acerca dos dignitários dos bárbaros. (Tcheong e Ian 1979, 203) [então, não civilizado funcionário igno-rante honesto]JGP (2009): Os embaixadores bárbaros são honestos e sinceros. (Yin e Zhang 2009, 188) 7. 古皇慎德開四譯,內被綏侯外蠻貊 (Zhao 1992, 140)。man (蠻): não civilizadoLGG (1979): A bondade dos imperadores da antiguidade foi divulgada por todos os quatro cantos do império, de forma que do interior se espalhou a tranquilidade até aos bárbaros do exterior. (Tcheong e Ian 1979, 204) [antigo imperador prudência virtude abrir quatro canto, interior ser pacifica-do fora não civilizado tribo ]JGP (2009): Com a prudência e as virtudes dos antigos imperadores foi criada a Siyi, tanto os bárbaros do interior como os de fora foram pacificados. (Yin e Zhang 2009, 188) 8. 河鏐畎翟獻上方,兜離僸佅陳明堂 (Zhao 1992, 140)。Não está indicado no texto de partidaLGG (1979): Os oiros superfino que verte dos rios é presenteado pelos bárbaros sendo expostos no fulgente salão os instrumentos musicais. (Tcheong e Ian 1979, 204)[rio ouro puro pena de faisão ser ofere-cido a superior, canção minoritária ser apresentado em salão/palácio ]JGP (2009): Ouro fino e penas de faisão são oferecidos a Sua Majestade, soberano deste grande país. Tocam-se no palácio as músicas bárbaras das minorias. (Yin e Zhang 2009, 189). 9. 蕃寺通歲所入幾萬圓 (Zhao 1992, 147)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os templos dos bárbaros re-cebem por ano algumas dezenas de milhar de patacas. (Tcheong e Ian 1979, 213)[estrangeiro templo todo ano receita algum dez mil yuan]JGP (2009): As igrejas bárbaras têm uma receita anual da ordem das várias dezenas de milhares de patacas. (Yin e Zhang 2009, 199).10. 西洋語雖侏離,然居中國久,華人與之習,多有能言其言者,故可以華語釋之 (Zhao 1992, 185)zhuli (侏離): som das línguas estrangeirasLGG (1979): A língua dos europeus é igual à dos bárbaros e, como estes se encontram na China, há já muito tempo, muitos são os chineses que a aprenderam, conseguindo exprimir-se nela. (Tcheong and Ian 1979, 267-268)[ocidente mar língua apesar de ser som das línguas estrangeiras, mas viver China haver muito tempo, Chinese com os aprender, haver quem falar memo, assim poder em chinês interpreter a língua]JGP (2009): A língua de Xiyang é estranha. Como os de Xiyang já se encontram na China desde há muito tempo, entre os chineses que têm aprendido a sua língua já há quem a domine. (Yin and Zhang 2009, 246). Tabela 19: Dez casos de “bárbaro” para traduzir palavras diferentes da palavra “ i ” no texto de Luís Gonzaga Gomes (1979)LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU204
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUConstatamos que a palavra “bárbaro” é usada por LGG para traduzir man (蠻, não civilizado), han (悍, feroz), hu (胡, minoria distante da fronteira), ocorrências que designam habitantes de zonas remotas, literalmente fero-zes e não civilizados. Há também um caso especial em que o equivalente de “bárbaro” no texto de partida é fan (蕃), que já foi analisado acima (veja-se a tabela 12). Na realidade, nestes casos LGG associa a palavra “bárbaro” em português a palavras chinesas que indicam não-civilização, ferocidade e zona despovoada e deserta. Contrariamente, JGP traduz todas estas ocorrências indiscriminadamen-te por “bárbaro”, exceto alguns casos entendidos por ele como semantica-mente diferentes, nos casos de (2, 4 e 10). No caso (2), huawai, traduzido por LGG como “em bárbaros países”, é entendido por JGP como nome próprio de um sítio; no caso (4), Hu Wei, traduzido por LGG como “bárbaro do nor-te”, é interpretado, na nota acrescentada por JGP, como mandarim da dinas-tia Jin do Oeste; quanto ao caso (10), Zhuli, termo que descreve o som das línguas estrangeiras, é traduzido, por LGG, como “a [língua] dos bárbaros”, enquanto na versão de JGP, é “estranha”. Novamente, as escolhas predomi-nantes de JGP, recorrendo a um adjetivo avaliativo e negativo, sem atender à cultura de chegada.Após a análise bidirecional reveladora dos casos excecionais do emprego de “bárbaro” para um segmento do texto de partida distinto de i, passamos a considerar também os dezanove casos de adição o termo “estrangeiro” no texto de chegada de LGG (1979) (veja-se Tabela 20). Número de ordem Texto de partida (1992) Textos de chegada1.外國稱原列子臣 (Zhao 1992, 116)waiguo (外國): país exterior da fronteiraLGG (1979): Chamados os representantes dos países estrangeiros, alinham-se todos os minis-tros (Tcheong and Ian 1979, 173). [país exterior da fronteira chamar-se vassalo]JGP (2009): Os países estrangeiros são como vassalos (Yin and Zhang 2009, 163). 2. 不問何年,來即取貨,致蕃舶不絕於海澨,蠻人雜遝於州城 (Zhao 1992, 122)。fan (蕃): estrangeiroman (蠻): não civilizadoLGG (1979): não sabendo em que ano, as mer-cadorias destes adventícios fát-lóng, resultando disso que os barcos estrangeiros passaram a sulcar sem interrupção os nossos mares. Os es-trangeiros afluiam às ilhas e às cidades (Tcheong e Ian 1979, 184). [não perguntar qual ano, vir buscar mercadoria, fazer com que estrangeiro barco não pa-rar de vir a mar, não civilizado afluir em cidade]JGP (2009): sem investigar devidamente qual era o respectivo prazo de apresentação de tributos, o que fez com que barcos bárbaros não parassem de vir aos nossos mares e que os bár-baros afluíssem às nossas cidades (Yin e Zhang 2009, 171).205
Número de ordem Texto de partida (1992) Textos de chegada3. 崇禎中為鄭芝龍所破,乃與香山澳佛郞機通好,私貿外洋 (Zhao 1992, 128)。waiyang (外洋): mar exteriorLGG (1979): Nos meados do reinado e Sông--Tcheng 崇禎, como a Formosa foi conquistada por Tchèang-Tcjo-Lông鄭芝龍, os Holandeses passaram a estabelecer relações com os fát-lóng--kei de Macau, do distrito de Hèong-Sán, nego-ciando, clandestinamente, em mares estrangeiros (Tcheong e Ian 1979, 191).[meados de reinado Chon-gZhen ser conquistado por Zheng Zhilong, então com Xiangshan Macau Folangji estabelecer amizade, fazer contrabando em mar exterior]JPG (2009): Em meados do reinado de Chongzhen, Taiwan foi conquistada por Zheng Zhilong, de maneira que os holandeses reataram relações amistosas com os da baía de Xiangshan para se dedicarem ao contrabando no alto mar (Yin e Zhang 2009, 177)4. 外邦之丸泥尺土,乃是中國飛埃 (Zhao 1992, 129)waibang (外邦): país de foraLGG (1979): Os países estrangeiros que consti-tuem apenas uma bolinha de barro e uma polega-da de terra não são mais que átomos dispersos da poeira da China (Tcheong e Ian 1979, 192).[país de fora bolinha de barro polegada de terra, somente ser China voando poeira]JGP (2009): Terras minúsculas do estrangeiro são poeiras da China (Yin e Zhang 2009, 177). 5. 洋貨東西至,帆乘萬里風 (Zhao 1992, 148)。yang (洋): ultramarLGG (1979): Chegam mercadorias estrangeiras vindas de Leste e Oeste. Os veleiros singram dez mil lei, arrastados pelo vento (Tcheong e Ian 1979, 214). [ultramar mercadoria leste oeste chegar, vela apanhar dez mil li vento]JGP (2009): Chegam mercadorias bárbaras vindas de leste e de oeste. Os barcos à vela per-correm 10 000 li a favor do vento (Yin e Zhang 2009, 200). 6 年來吾道荒涼甚,翻羨侏離禮拜頻 (Zhao 1992, 149)。zhuli (侏離): som das línguasestrangeirasLGG (1979): Aos nossos compatriotas já não lhe interessam as nossas cousas. Preferem os estran-geiros que são mais fervorosos. Volto a elogiar os pigmeus (Tcheong e Ian 1979, 216). [ano recente eu dizer desérti-co de mais, voltar a ter inveja som das línguas estrangeiras missa frequente]JGP (2009): Há uns anos as ruas eram desérti-cas, que inveja das frequentes missas dominicais em línguas estranhas (Yin e Zhang 2009, 202). LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU206
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUNúmero de ordem Texto de partida (1992) Textos de chegada7. 諸僧往來蕃人家,其人他出,私入室見其婦,以所攜藤或雨繖置諸戶外,其人歸,見而避之 (Zhao 1992, 152)。qi (其): pronome possessivoLGG (1979): Todos os bonzos (padres) frequentam as casas dos estrangeiros. Quando saem, para entrar nessas casas, a fim de visitar as mulheres dos estrangeiros, levam uma bengala ou guarda-chuva que deixam fora da porta. Os homens, quando voltam, deparando com essas coisas, escondem-se deles (Tcheong e Ian 1979, 220). [cada monge ida volta estrangeiro casa, homem sair, ele entrar em casa para visitar mulher, colocar à porta bengala ou guarda-sol, quando homem voltar, ao ver não esconder-se]JGP (2009): Os padres frequentam as casas dos bárbaros. Mesmo quando os homens estão fora, podem entrar nas casas para visitar as mulheres bárbaras, mas, deixando à porta a sua bengala de rota ou o guarda-sol, como sinal da sua presença. Os homens, ao verem estas coisas, escondem-se deles. (Yin e Zhang 2009, 206) 8. 然性侈,稍贏於貲,居室服食輒以華靡相勝。 (Zhao 1992, 154)。Não está indicado o sujeito no texto de partidaLGG (1979): Os estrangeiros são, porém, de na-tureza pródigos. Com o que ganham, a pouco e pouco, vivem em casas, vestem-se e comem com luxo e extravagância, procurando excederem-se unos aos outros. (Tcheong e Ian 1979, 224)[entretanto natureza pródigo, mal ter ganho fortuna, habi-tação vestuário alimentação então em luxo competir]JGP (2009): Estes bárbaros são, porém, pró-digos por natureza. Mal têm algum dinheiro, competem entre si para verem quem ostenta maior luxo em relação à casa e à alimentação. (Yin e Zhang 2009, 208) 9. 是約三點鐘,聞者必蒲伏持咒,雖道路不廢 (Zhao 1992, 155)。Não está indicado o sujeito no texto de partidaLGG (1979): Os estrangeiros, quando ouvem to-car o sino das três horas, infalivelmente ajoelham e rezam e, mesmo que se encontrem nas vias públicas, não dispensam de fazer isso (Tcheong e Ian 1979, 226). [cerca de três hora, ouvinte certamente ajoelhar-se rezar, mesmo quem andar em rua não dispensar]JGP (2009): As igrejas tocam os seus sinos diariamente […] Mesmo os bárbaros que vão no seu caminho, ao ouvirem o toar dos sinos, ajoelham-se para as orações, só depois seguindo viagem (Yin e Zhang 2009, 210). 10. 編竹葉為傘 (Zhao 1992, 156)。Não está indicado o sujeito no texto de partidaLGG (1979): (Os estrangeiros de Macau) atam as folhas de bambu para fazerem guarda-sóis (Tcheong e Ian 1979, 227). [tecer bambú folha para ser guarda-sol]JGP (2009): Servem-se de folhas de bambu para fazerem guarda-sóis (Yin e Zhang 2009, 211). 207
Número de ordem Texto de partida (1992) Textos de chegada11. qi 其夷目舶稅,上貨抽加,二次加一五,又次加一 (Zhao 1992, 156)。qi (其): pronome possessivoLGG (1979): [O] Procurador do Senado aumentou a taxa das mercadorias de qualidade superior, trazidas pelos barcos estrangeiros, em 2 por cento; de segunda qualidade, em um e meio por cento; e de qualidade ainda inferior, em um por cento (Tcheong and Ian 1979, 227). [seu bárbaro chefe barco im-posto, qualidade mercadoria acrescentar, segunda ordem acrescentar um cinco, terceira ordem acrescentar um]JGP (2009): Os chefes bárbaros aplicam impos-tas aos barcos. À mercadorias sujeitas a impostos de 15% sobre o respectivo valor, enquanto as de terceira ordem pagam 10% (Yin and Zhang 2009, 211). 12洋椒色深黑,多皺,味辣,中土貴之 (Zhao 1992, 159)。yang (洋): ultramarLGG (1979): A pimenta estrangeira é inten-samente negra, sendo muito carregada. O seu sabor é picante. Os naturais da China apreciam--na (Tcheong e Ian 1979, 232). [ultramar pimenta cor escuro negro, pele enrugado, sabor picante, centro terra apreciar a]JGP (2009): A pimenta bárbara tem uma cor mais carregada, pele mais enrugada e um picante mais intenso, razão pela qual é muito apreciada, nas terras da China (Yin e Zhang 2009, 216). 13. 蠻估海帆迴,銀罌玉汞開 (Zhao 1992, 165)。man (蠻): não civilizado[não civilizado do mar vela voltar, prata ponte jade líqui-do prateado abrir] LGG (1979): Quando regressam as velas do mar, os negociantes estrangeiros, abrem os potes de prata e jade esculpidos (Tcheong e Ian 1979, 241). JGP (2009): Quando os comerciantes bárbaros voltam das suas viagens comerciais, abrem boiões de prata com um líquido prateado e transparente como jade (Yin e Zhang 2009, 222). 14.其大如豆,似夜光,中空易碎者,謂之玻璃珠,洋珠之下乘也 (Zhao 1992, 166)。yang (洋): ultramar[ser grande como grão, parecer noite luz, dentro oco quebradiço, chamado vidro pérola, ultramar pérola de inferior qualidade ]LGG (1979): As do tamanho de um feijão pare-cem-se com as partículas de reflexões nocturnas que se alteram facilmente no espaço. São muito frágeis e chamam-lhe pó-lei-chü謂之玻璃珠 (pé-rolas de vidro). As pérolas estrangeiras são ainda inferiores (Tcheong and Ian 1979, 242). JGP (2009): As do tamanho de um grão de feijão bem parecem fluorescentes à noite. As ocas e quebradiças, chamadas missangas, são de qualidade inferior à das pérolas estrangeiras (Yin and Zhang 2009, 223) . 15. 水晶,色白,古人大食國以為屋柱,是洋晶也 (Zhao 1992, 166)。yang (洋): ultramar[cristal, cor branco, antigo pessoa de Dashiguo usar como viga de casa, ser ultramar cristal]LGG (1979): Quanto ao cristal, a sua cor é branca. Aquilo que os homens antigos do Tái-Sêk-Kuók 大食國(Pátria) usavam para vigas de casas é o cristal estrangeiro (Tcheong and Ian 1979, 243). JGP (2009): Quanto ao cristal, que é branco, antigamente, no Daqingguo, usavam-no para os pilares dos palácios. Chama-se cristal estrangeiro (Yin and Zhang 2009, 224). LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU208
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUNúmero de ordem Texto de partida (1992) Textos de chegada16. 有錫堅而白,製器如銀,久不渝色 (Zhao 1992, 170)。Não está indicado no texto de partida[haver estanho rijo e branco, fabricar utensílio parecer-se prata, durar não alterar cor]LGG (1979): (Os estrangeiros de Macau) têm ainda estanho, rijo e branco. Fabricam-se com ele utensílio que se parecem com os de prata. Dura muito tempo sem que a sua cor se altere (Tcheong and Ian 1979, 247). JGP (2009): O estanho é rijo e branco. Com ele se fabricam muitos utensílios que se pare-cem com os de prata. Os objectos de estanho convervam o seu brilho natural durante muito tempo sem ficarem oxidados (Yin and Zhang 2009, 226). 17. 又以為壺、為杯、為楸枰棋子 (Zhao 1992, 174)。Não está indicado no texto de partida[também fazer bule, copo, tabuleiro pedra de xadrez]LGG (1979): (Os estrangeiros de Macau) usam também bules, pires, tabuleiros e pedras de xadrez, em madeira tch’âu狄 (Tcheong and Ian 1979, 252).JGP (2009): Do vidro também fazem bules, copos, tabuleiros e pedras de xadrez (Yin and Zhang 2009, 231). 18. qi (其, “pronome pessoal”)倘其不時朝貢往來,則令沿途地方官設館供億足矣 (Zhao 1992, 184)。qi (其): pronome possessivo [se ele frequentemente vir voltar apresentar tributo, bastar ordenar caminho mandarim colocar pousada à disposição contentar-se]LGG (1979): Se esses estrangeiros vierem, em ocasiões não determinadas, para apresentarem tributos à corte, bastará instruir os mandarins do litoral para porem à sua disposição o edifício duma repartição bem com aquilo que sirva para os contentar (Tcheong and Ian 1979, 267). JGP (2009): Caso os estrangeiros apresentem os seus tributos fora dos prazos, para contro-lá-los bastará ordenar que as autoridades lhes coloquem pousadas à disposição e lhes forneçam o que for necessário (Yin and Zhang 2009, 245).19. 每教堂俱係西洋人分主,焚香開講,收徒聚眾,日增月益,不可禁止,誠恐其意有不可測 (Zhao 1992, 184)。xiyang (西洋): o Ocidente][cada igreja ser o Ocidente administrar, queimar incenso pregar, receber discípulo reunir povo, dia aumentar mês acrescentar, não poder ser proibido, sinceramente recear seu intenção não ser medido]LGG (1979): [E]m cada templo, são estrangeiros todos aqueles que se dividem para o administrar, queimando incensos, realizando prédicas, rece-bendo discípulos e reunindo o povo. Aumentam com os dias e superabundam com os meses sem ser possível coarctá-los. Receio, na verdade, não ser possível avaliar o seu intento (Tcheong and Ian 1979, 266). JGP (2009): Todas as igrejas são administradas por naturais de Xiyang, que pregam com incen-sos e convertem cada dia mais pessoas, estando a situação um pouco fora de controlo. Receio bem que algum imprevisto possa ocorrer (Yin and Zhang 2009, 244).Tabela 20: Dezanove casos de emprego de “estrangeiro” no texto de Luís Gonzaga Gomes que não correspondem a fan no Texto de Partida (1979)209
Nestes dezanove casos excecionais do emprego de “estrangeiro”, encontram--se no texto de partida vários carateres repetidos, que são, designadamente, yang (洋, ultramar; 4 vezes – 5,12,14,15), wai (外, exterior; 3 vezes – 1,3,4), ou então man (蠻, não civilizado; 2 vezes – 2, 13). As utilizações de yang (洋, ultramar) aparecem também ligadas a mercadores ou produtos estranhos à China, “mercadorias estrangeiras”, “pimenta estrangeira”, “pérolas estran-geiras” e “cristal estrangeiro”, menos específicos do que o uso de “ultramari-no” mas porventura mais aceitáveis para um leitor português. Vale a pena salientar o caso 2, em que fan (藩) surge juntamente com um caso de emprego de “estrangeiro” no texto de Luís Gonzaga Gomes que não corresponde a fan fan (藩) (vide Tabela 21). Número de ocorrência Texto de partida (1992) Textos de chegada2. 不問何年,來即取貨,致蕃舶不絕於海澨,蠻人雜遝於州城 (Zhao 1992, 122)。fan (蕃): estrangeiroman (蠻): não civilizadoLGG (1979): não sabendo em que ano, as mer-cadorias destes adventícios fát-lóng, resultando disso que os barcos estrangeiros passaram a sulcar sem interrupção os nossos mares. Os es-trangeiros afluiam às ilhas e às cidades (Tcheong e Ian 1979, 184). [não perguntar qual ano, vir buscar mercadoria, fazer com que estrangeiro barco não pa-rar de vir a mar, não civilizado afluir em cidade]JGP (2009): sem investigar devidamente qual era o respectivo prazo de apresentação de tributos, o que fez com que barcos bárbaros não parassem de vir aos nossos mares e que os bárbaros afluíssem às nossas cidades (Yin e Zhang 2009, 171).Tabela 21: Coexistência de fan (藩) e um caso de emprego de “estrangeiro” no texto de Luís Gonzaga Gomes que não corresponde a fan (藩)Neste caso específico, constatamos que, apesar de o texto de partida contar com duas palavras diferentes, a tradução de LGG não apresenta uma solução distinta, nem a tradução de JGP: LGG recorre, em ambos os casos, ao uso de “estrangeiro”, enquanto JGP emprega “bárbaro” duas vezes. Ambos os tra-tamentos indiscriminados não assinalam as diferenças registadas no texto de partida, uniformizando, respetivamente, as imagens no texto de chegada e manipulando, assim, as imagens através da tradução. Há ainda 3 casos (8, 9 e 10) em que não se encontra, no texto de partida, um segmento correspondente em chinês, pelo que são casos de adição. Em termos sintáticos, são todos adicionados como sujeitos da frase, para frases sem sujeito no texto de partida. No entanto, as traduções de LGG e de JGP apresentam diferentes leituras, tal como se demonstra na Tabela 21.LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU210
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUNúmero de ocorrência Texto de partida (1992) Textos de chegada8. 然性侈,稍贏於貲,居室服食輒以華靡相勝。(Zhao 1992, 154)。Não está indicado no texto de partidaLGG (1979): Os estrangeiros são, porém, de natureza pródigos. Com o que ganham, a pouco e pouco, vivem em casas, vestem-se e comem com luxo e extravagância, procurando excederem-se unos aos outros. (Tcheong e Ian 1979, 224). [entretanto natureza pródigo, mal ter ganho fortuna, habitação vestuário alimentação então em luxo competir]JGP (2009): Estes bárbaros são, porém, pró-digos por natureza. Mal têm algum dinheiro, competem entre si para verem quem ostenta maior luxo em relação à casa e à alimentação (Yin e Zhang 2009, 208). 9.是約三點鐘,聞者必蒲伏持咒,雖道路不廢 (Zhao 1992, 155)。Não está indicado no texto de partidaLGG (1979): Os estrangeiros, quando ouvem tocar o sino das três horas, infalivelmente ajoelham e rezam e, mesmo que se encontrem nas vias públicas, não dispensam de fazer isso (Tcheong e Ian 1979, 226). [cerca de três hora, ouvinte cer-tamente ajoelhar-se rezar, mesmo quem andar em rua não dispensar]JGP (2009): As igrejas tocam os seus sinos diariamente […] Mesmo os bárbaros que vão no seu caminho, ao ouvirem o toar dos sinos, ajoelham-se para as orações, só depois seguindo viagem (Yin e Zhang 2009, 210). 10. 編竹葉為傘 (Zhao 1992, 156)。Não está indicado no texto de partidaLGG (1979): (Os estrangeiros de Macau) atam as folhas de bambu para fazerem guarda-sóis (Tcheong e Ian 1979, 227). [tecer bambú folha para ser guarda-sol]JGP (2009): Servem-se de folhas de bambu para fazerem guarda-sóis (Yin e Zhang 2009, 211). Tabela 22: Três casos destacados do emprego de “estrangeiro” no texto de Luís Gonzaga Gomes (1979) São frases que descrevem a vida dos primeiros estrangeiros estabelecidos no território de Macau. Em todos os casos, LGG coloca “estrangeiros” como sujeito, enquanto JGP acrescenta “bárbaro” como sujeito nos primeiros dois casos (8) e (9), com a exceção do caso (10), que se omite o sujeito ao usar um verbo reflexo. Na realidade, as diferentes soluções dos dois tradutores cor-respondem às opções predominantes anteriormente identificadas. Enquan-to defensor da sua autoimagem como português, LGG parece inquietar-se com as expetativas do público português, procurando criar e projetar uma imagem não ofensiva na cultura de chegada. JGP preserva e intensifica as autoimagens e heteroimagens dos dois autores mandarins do Império Qing, transferindo para o texto de chegada valores da cultura de partida e transfe-rindo o enquadramento ideológico veiculado no texto de partida. 211
A este propósito, importa relacionar estas opções de tradução com a forma como os dois tradutores se autodefinem implícita ou explicitamente, recor-rendo às propostas da Imagologia e particularmente às noções de imagem. LGG, na qualidade de macaense sempre à procura de singularidade iden-titária, pretende estabelecer uma autoimagem distinta e autónoma, que conta com as culturas tanto da China como do Ocidente (Portugal) e olha para os dois lados como o deus do dualismo Janus. Neste enquadramento Gonzaga Gomes tem uma “atitude transdiscursiva”, acolhendo a “intrusão” de culturas alienígenas desde que não prejudiquem a sua autoimagem. No entanto, quando esta autoimagem fica ameaçada ideologicamente e passa a ser vista como uma imagem subordinada e dependente, Gonzaga Gomes toma atitudes defensivas para proteger a sua autoimagem e muitas vezes, estas reações vão enfatizar, preferencialmente, uma imagem drasticamente contrária à imagem de “intrusão”. No caso de tradução de Monografia de Ma-cau, Gonzaga Gomes opta pela “portugalidade”, identificando-se como por-tuguês. Isso significa que considera a imagem dos portugueses autoimagem e a imagem dos chineses heteroimagem. Assumindo essa atitude identitária, LGG não se cansa de negociar a imagem dos estrangeiros e particularmente dos portugueses na tradução. Apesar de a cultura de partida que enquadra os mandarins da dinastia Qing desvalorizar a imagem dos portugueses e dos es-trangeiros (heteroimagem) e enaltecer a imagem dos autores mandarins (au-toimagem), LGG na sua tradução de Monografia de Macau – uma tradução importada para o sistema de chegada (“inbound” de chinês para português) opta por uma tradução orientada para a cultura de chegada – uma tradução aceitável, observando as normas, a sensibilidade e a autoimagem positiva da cultura de chegada portuguesa, que entende ser também a sua, a fim de aten-der à leitura dos portugueses, tal como se evidencia nos casos de tradução de fan (藩) e i (夷). Todavia, esta imagem dos estrangeiros e portugueses sofre, às vezes, alterações resultantes da simpatia do tradutor, tal como ilustrado num caso referido na Tabela 12. Neste caso específico, LGG usa “bárbaro” para denunciar a exploração da Igreja à vida precária dos chineses. É um úni-co emprego de “bárbaro” como equivalente de fan (藩), que poderá indicar a solidariedade de LGG para com os chineses pobres, como se referiu. Pelo contrário, JGP, na qualidade de um académico chinês do século XXI, numa tentativa de recuperar a obra Monografia de Macau como livro de métodos e estratégias de “repressão dos bárbaros de Macau pela força” (Yin and Zhang 2009, xi), identifica-se com os dois autores mandarins, assumindo consequentemente uma postura historicamente “imperial” em relação aos forasteiros e recria pela sua escolha lexical todos os estrangeiros (portugue-ses, holandeses, europeus, outras designações) de acordo com a heteroima-LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU212
LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAUgem dos autores mandarins, que a sua tradução intensifica. A sua identifica-ção com os autores mandarins, pode indiciar a autoimagem preferida pelo tradutor chinês, que mantém uma autoimagem positiva dos chineses e recria na tradução uma heteroimagem negativa dos estrangeiros e portugueses.No caso da sua tradução de Monografia de Macau – tradução exporta-da (“outbound” de chinês para português), ao recriar uma autoimagem dos chineses mandarins positiva e superior e ao depreciar a heteroimagem dos forasteiros, JGP opta por uma tradução adequada, recorrendo a um estilo consistentemente orientado pelas normas, valores e sensibilidade da cultura de partida, como se evidencia nos casos de tradução de fan (藩) e i (夷). O seu uso predominante do termo “bárbaro” para traduzir de fan (藩) e i (夷) recria mensagens expressivas de atitudes imperialistas e defensivas que man-têm e intensificam os preconceitos dos autores mandarins. 5.4. NOTAS CONCLUSIVASNeste capítulo dedicado exclusivamente às traduções de Gonzaga Gomes, procedemos à análise paratextual e textual destas obras traduzidas, a partir dos pontos de vista dos estudos imagológicos no âmbito dos Estudos Descri-tivos de Tradução. Recorremos aos aparelhos concetuais de imagens (auto- e heteoimagens, preconceitos e atitudes) para identificar, descrever e analisar os fenómenos de tradução de Gonzaga Gomes, que apresentam um certo grau de complexidade. A abordagem paratextual das três imagens (da China, de Macau e do Ocidente) estabelece uma base sólida para procedermos à análise textual que se concentra numa obra particular de tradução – Mono-grafia de Macau, uma obra sobre Macau, rica em imagens explícitas dos es-trangeiros e portugueses (heteroimagens) e em imagens implícitas da China (autoimagens). Na nossa abordagem de Monografia de Macau, constatamos uma certa complexidade da negociação das imagens concebidas pelos autores manda-rins, pela receção esperada e pelo tradutor. Para a descrever, optamos por fazer uma análise comparativa bidirecional selectiva do texto de partida e dos textos de chegada produzidos por Luís Gonzaga Gomes e Jin Guoping, a fim de identificar as posições e atitudes ideológicas que a tradução de Gonzaga Gomes revela. Recorrendo à análise comparativa textual considerámos a tradução de duas palavras fan (藩) e i (夷), ricas em imagens e representações mentais, e conseguimos identificar táticas de tradução predominantes dos dois tradu-tores, que revelam o seu posicionamento e atitude através da manipulação e 213
reescrita das autoimagens dos autores mandarins e das heteroimagens que apresentam para os portugueses e estrangeiros. Estas opções de tradução bem como as escolhas de formas de identificação refletem as autoimagens que Luís Gonzaga Gomes e Jin Guoping constroem para si ao longo da sua tradução e também nos prefácios, e que contribuem também para explicar as soluções distintas de tradução selecionadas pelos dois tradutores. Vale a pena apontar que a posição ideológica e a atitude de Jin Guoping manifestam uma certa coerência patente quer na tradução de palavras fan (藩) e i (夷) quer na sua aparente identificação com os autores mandarins, as normas, valores e sensibilidade da cultura de partida (a China da dinastia Qing no século XVIII). No entanto, defendemos existir uma certa ambiguidade nas opções de tradução de Gonzaga Gomes. Por um lado, em termos das normas prelimi-nares, parece escolher para tradução obras reveladoras das “chinesices”, que assim constituem um tema preferencial da maioria das suas obras, traduzi-das e não traduzidas, incluindo o presente caso de tradução da Monografia de Macau. Estas escolhas revelam um grande empenho na divulgação da cultura da China. Por outro lado, em termos de normas iniciais, a identificação com a “portugalidade” acaba por se evidenciar no modo como atende à receção e à sensibilidade dos leitores do público português, orientando a sua tradução para a cultura de chegada, e no modo como recria imagens dos estrangeiros e portugueses, que percorre toda a tradução, especialmente a tradução de Monografia de Macau onde se evidencia de modo particular na tradução das palavras fan (藩) e i (夷), como demonstrámos. Esta ambiguidade e hesitação entre “chinesices” e “portugalidade” que selecionámos para análise, reflete, implicitamente, uma outra vertente do dualismo da identidade macaense. Como deus de dualismo – Janus -, o macaense também tem duas faces para o passado e para o futuro. No seu olhar para uma identidade distinta e autóno-ma, prende-se também com o olhar para uma identidade ambígua, não-autó-noma e dependente ora de Portugal, ora da China. É sempre neste dualismo que se procura o equilíbrio identitário que valoriza o presente.LUÍS GONZAGA GOMES: TRADUTOR DE IMAGENS DA CHINA E DE MACAU214
Considerações FinaisAo chegar a esta etapa de conclusão, são de destacar os principais resultados obtidos nesta investigação. Sendo o estudo de Luís Gonzaga Gomes, acer-ca dos seus escritos e traduções, numa perspetiva reveladora da identidade macaense, três conceitos são envolvidos: identidade, tradução e imagem. A sua abordagem interdisciplinar constitui um desafio: a lógica interna deve ser solidamente estabelecida para que os três se interliguem uns com os outros. O caso concreto da identidade macaense permite um estudo interdisciplinar deste género: a identidade macaense, na sua génese e desenvolvimento, re-vela-se através da identificação com determinadas imagens representativas deste grupo étnico, enquanto a tradução, ao atender à contextualização do tradutor e da cultura de chegada, manipula e reescreve estas imagens, fun-cionando como forma de mediação, reflexão, negociação e construção de identidade. Esta relação intrínseca entre a identidade macaense e a tradução estabelece-se através da mediação de imagens (auto- e heteroimagens). Nes-te modelo triangular (identidade, tradução e imagem), o tradutor enquanto agente no ato de tradução, mediante iniciativas concretas e individuais, lida com as imagens, assumindo o papel social de mediação que se impõe pelo conjunto de patronos e expetativas ideológicas coletivas. Esta rede triangular é evidente no caso específico de Luís Gonzaga Gomes, filho da terra, enquan-to divulgador e tradutor de imagens da China e de Macau.Concretamente, após uma revisão bibliográfica, este estudo apresenta um novo levantamento bibliográfico das obras de Gonzaga Gomes. A pes-quisa de arquivo sobre o mercado editorial das publicações de Macau em meados do século XX apontam para a relevância das obras de Gonzaga Go-mes na divulgação e tradução de imagens da China e Macau. Este fenóme-no editorial não ocasional conduz o nosso estudo a focar a contextualização das atividades editoriais em Macau em meados do século XX, destacando o mercado de publicação, as principais editoras e os principais temas de publi-cação. Atendendo à crise identitária macaense surgida no mesmo período,
CONSIDERAÇÕES FINAISa elite macaense adota estratégias culturais de aproximação à China, que, por sua vez, culminam nas atividades editoriais com temas ligados à China e a Macau. Nestas iniciativas de projeção das imagens da China e de Macau, operacionaliza-se o papel de Gonzaga Gomes enquanto divulgador e tra-dutor. A escolha de materiais de Luís Gonzaga Gomes reflete as estratégias ideológicas da então elite macaense, preenchendo as expetativas coletivas da comunidade macaense. A partir da análise das informações paratextuais e textuais das obras de Gonzaga Gomes sobre as imagens da China e de Macau, constatamos que as imagens nestas obras apresentam uma elevada complexidade em termos de imagens (auto- e heteroimagens, preconceitos, estereótipos e atitudes). Esta complexidade revela-se, em particular, nas obras de tradução de Gon-zaga Gomes, pois as imagens (auto- e heteroimagens) assumidas pelo autor, pelo tradutor e pela receção apresentam diferentes perspetivas identitárias. Numa procura de singularização da identidade macaense, Gonzaga Gomes intervém ativamente na negociação dos dois capitais de “portugalidade” e “chinesices”: em primeiro lugar, integra os fatores culturais da China na cul-tura macaense, tal como os elementos de “geomância” e “superstições”; em segundo lugar, empenha-se dedicadamente na recuperação da História de Macau, que envolve as atividades dos portugueses em Macau e suas relações com a China; em terceiro lugar, destaca a simultânea autonomia de Macau como uma ponte entre o mundo oriental (representado pela China) e o mun-do ocidental (representado por Portugal), através das suas atividades edi-toriais e obras traduzidas e não traduzidas. Com estas iniciativas proativas, Gonzaga Gomes destaca uma imagem única e autónoma de Macau, assina-lando, ao mesmo tempo, o dualismo da identidade macaense. Constatamos que o equilíbrio de imagens no dualismo (“chinesices” e “portugalidade”) é garantia da singularidade da identidade macaense. Para esta imagem singu-lar, Gonzaga Gome assume uma atitude transdiscursiva, que não considera os elementos importados “um outro” ameaçador para a cultura de chegada, permitindo a “intrusão” duma outra cultura, como acontece na maioria das suas obras sobre as imagens da China e de Macau.No entanto, quando as imagens no dualismo (“portugalidade” e “chine-sices”) se tornam rivais (no caso de um ser autoimagem e um outro hete-roimagem), o equilíbrio não se mantém e a singularidade macaense perde a sua base de suporte, porque optar por “um” como autoimagem significa abandonar o “outro” e considerar o “outro” como heteroimagem. Conse-quentemente, a singularidade da imagem de Macau passa a ser desafiada e ameaçada, tal como se evidencia na tradução de Gonzaga Gomes de Mono-grafia de Macau, que opta pela “portugalidade”. Nesta obra, a desvalorização 216
CONSIDERAÇÕES FINAISda imagem de Macau pelos autores mandarins faz com que Gonzaga Gomes reaja com atitudes defensivas, que enfatizam, predominantemente, o capital de “portugalidade” – neste caso concreto, o rival de “chinesices”. Nesta abordagem vemos a mobilização dos conceitos de imagem, em par-ticular, na análise das palavras fan (蕃) e i (夷), duas palavras ricas e conota-tivas em imagens. Além da tradução de Luís Gonzaga Gomes (1950/1979), assinalamos também a tradução de Jin Guoping, investigador da história de Macau, a fim de formular uma perspetiva comparativa que propiciou uma análise aprofundada. Situando-se em contextos cultural e historicamente di-versos, os dois tradutores identificam-se com diferentes auto- e heteroima-gens, assumindo atitudes e valores também diferenciados. A complexa rede de auto- e heteroimagens (assumida pelos autores, por dois tradutores e pela receção) reforça o ponto de vista de “um” (“portugalidade”/“chinesices”) em relação a “outro” (“portugalidade”/“chinesices”). A análise concreta destas duas palavras fan (蕃) e i (夷) revela o impacto das auto- e heteroimagens no exercício de tradução, bem como torna patente a função da tradução en-quanto manipulação e reescrita de imagens, contribuindo para desvendar as considerações poéticas e ideológicas de Gonzaga Gomes sobre a identidade macaense. Resumindo, a partir destas iniciativas de Gonzaga Gomes, quer atividades editoriais, quer sua escrita ou traduções, constatamos que a identidade ma-caense se situa sempre no jogo de interesse dos dois poderes (“portugalidade” e “chinesices”): na altura de “abandono” pela administração portuguesa, op-ta-se pela projeção das imagens da China, com medidas editoriais de aproxi-mação à cultura chinesa, salientando-se o seu setor sinófono, designado “chi-nesices”; na altura de convivência sem conflitos ideológicos, quer o seu sector sinófono (“chinesices”), quer o setor lusófono, designado “portugalidade”, deixa entrar no seu mundo as duas culturas, contribuindo para singularizar a sua identidade macaense; no entanto, quando se registam ameaças e desafios pelo setor lusófono (“portugalidade”) ou pelo sector sinófono (“chinesices”), as reações defensivas e ideológicas são evocadas, para favorecer o sector sinó-fono (“chinesices”) ou o sector lusófono (“portugalidade”). Neste jogo de in-teresses, reflete-se a consciencialização identitária macaense na procura do equilíbrio dos dois poderes inerentes na sua identidade macaense. Com esta reflexão identitária de natureza ideológica, constatamos tam-bém hesitações, ambivalências e incertezas, porque cada opção implicará um corte de relação com um “outro” que é parte sanguínea da sua identidade. Este dilema evidencia-se no caso do macaense e na busca das suas próprias imagens: Macau Bambu, filhos da terra. São duas autoimagens que evolvem preconceitos, estereótipos e atitudes do macaense em relação aos seus dois 217
CONSIDERAÇÕES FINAISsetores, “portugalidade” e “chinesices”. Macau Bambu, como uma imagem imposta pelo setor lusófono, associa mais o macaense ao setor sinófono. Como este estereótipo do setor lusófono em relação ao macaense transgride o equilíbrio do dualismo identitário que o macaense pretende, Macau Bam-bu é mais usado pelos portugueses mas não ganha popularidade no seio dos macaenses. Filhos da terra, uma designação associada ao território de Macau, edifica uma imagem sólida, autónoma e única que se distingue dos dois seto-res e é popularmente aceite no seio dos macaenses.Considerando os procedimentos usados e os resultados alcançados, é pos-sível destacar os principais contributos do presente estudo, relacionados com as três questões de investigação levantadas no início deste trabalho. Relati-vamente à primeira questão – a relação entre identidade, imagem e tradução – que se prende com o enquadramento teórico e metodológico interdisci-plinar, o modelo triangular permite desenvolver uma análise imagológica no âmbito dos Estudos Descritivos de Tradução e viabiliza métodos de análise dos resultados da pesquisa de arquivo bem como dos textos e paratextos. Esta relação triangular estabelece uma base teórica e metodológica para o presente estudo e serve para concretizar um estudo interdisciplinar, caracte-rístico dos Estudos (Descritivos) de Tradução. A resposta à segunda questão – Porque é que Luís Gonzaga Gome assume o papel de divulgador e tradu-tor? Como? – destaca a vida de Gonzaga Gomes bem como a contextualiza-ção de Macau em meados do século XX, quando se regista a crise identitá-ria macaense num contexto de mudanças sociais, jurídico-políticas, étnicas e antropológicas. Na altura da crise identitária macaense quando o capital de “portugalidade” deixa de funcionar, novos valores são introduzidos que transformam a crise numa nova oportunidade. A valorização das “chinesices” permite à identidade macaense ganhar novo peso. As iniciativas estratégicas da elite macaense, representada por Gonzaga Gomes, contribuem para sin-gularizar a identidade macaense, abrindo caminhos para sua projeção.Com base nos estudos já publicados, fizemos um novo levantamento bi-bliográfico exaustivo das obras de Gonzaga Gomes e das suas publicações nos periódicos que pudemos reunir, que poderá também servir futuras inves-tigações. A abordagem das iniciativas estratégicas de conciliação do macaen-se na projeção de novos valores identitários estabelece, desejavelmente, um vínculo entre a identidade macaense e o papel do macaense como divulgador e tradutor. Quanto à terceira questão – quais são as imagens da China e de Macau que Luís Gonzaga Gomes divulga e traduz? –, voltamos a focar as obras de Gonzaga Gomes sobre as imagens da China e de Macau. A aborda-gem das informações paratextuais e textuais destas obras cruza a Imagologia e os Estudos Descritivos de Tradução, disciplinas a partir das quais refleti-218
CONSIDERAÇÕES FINAISmos também as considerações poéticas e ideológicas de Gonzaga Gomes so-bre a identidade macaense. No fundo, todo o trabalho implementa o modelo triangular de identidade, tradução e imagem, através do estudo de caso de Luís Gonzaga Gomes. Apesar de sentirmos ter cumprido este desígnio, não pudemos deixar de identificar também algumas limitações. Apesar de serem abordadas ao longo do presente estudo, as três questões de investigação, como questões abertas a muitas possibilidades, poderão ser abordadas, no futuro, a partir de outras perspetivas. Por exemplo, quanto ao enquadramento teórico e metodológico, a introdução dos conceitos de identidade definida em termos sociopsico-lógicos torna o presente trabalho interdisciplinar uma investigação muito focada e direcionada. A abordagem identitária a níveis macro, meso e mi-cro possibilita olhares concretos sobre a identidade coletiva, a identidade de papel social e a identidade pessoal. Na nossa abordagem acerca do caso de Gonzaga Gomes enquanto divulgador e tradutor focamos a identidade de papel social. Sabemos, contudo, que um olhar identitário a nível micro ligado à tradução merece também investigação. Gentzler (2008) aponta para este rumo de investigação, salientando que esta reflexão identitária do ponto de vista sociopsicológico a nível micro pode originar uma futura investigação interdisciplinar acerca deste cruzamento que aqui propomos de identidade, imagem e tradução (Gentzler 2008, 180). Por exemplo, o estilo híbrido de re-dação com carateres chineses e escrita portuguesa que Luís Gonzaga Gomes adota nos seus escritos e traduções poderá ser um dos tópicos iluminadores para os Estudos Descritivos de Tradução. Relativamente às obras de Gonzaga Gomes, apesar de termos apresenta-do uma análise paratextual e textual sobre as imagens da China, de Macau e do Ocidente, sabemos que uma análise mais alargada permitirá, no futuro, uma investigação mais meticulosa destes materiais. No que toca às listas de duas palavras-chave conotativas e ricas em imagens, a análise textual com-parativa permite já alcançar alguns resultados iluminadores e reveladores da reescrita identitária. No entanto, acredita-se que a investigação poderá ser ainda mais produtiva se se tiverem em conta outros termos ou expressões reveladoras de perceções e representações mentais. Outro aspeto a aprofundar em investigações futuras diz respeito ao ponto de vista acerca de Luís Gonzaga Gomes. A partir do elenco de obras identifi-cado de modo inovador pelo presente estudo, os elementos de “chinesices” merecem ainda ser alvo de investigação a partir de outros paradigmas no âm-bito dos Estudos Descritivos de Tradução, tendo em conta a relação dialética entre “chinesices” e “portugalidade” para a identidade macaense. Por exem-plo, este corpus oferece-se a estudos no âmbito de paradigmas como tradução 219
CONSIDERAÇÕES FINAISe cultura, tradução e memória, tradução e literatura, tradução e estudos de género, entre outros. Para concluir, é de salientar que o presente estudo interdisciplinar no âmbito dos Estudos Descritivos de Tradução permite entender como a tradução e o tradutor contribuem para a definição e a construção da identidade. Os olha-res identitários associados à tradução e ao tradutor concretizam-se no caso específico do estudo de caso de Luís Gonzaga Gomes. As obras traduzidas e não traduzidas de Gonzaga Gomes expõem-nos uma grande riqueza em termos do estudo identitário macaense recorrendo cruzamento da Imago-logia com os Estudos Descritivos de Tradução. Há mais de sessenta anos, Gonzaga Gomes já manifestava a sua preocupação relativamente à escassez da tradução dos clássicos chineses (Gomes 1950, 163). Ciente deste reconhe-cimento tardio, ele dedica toda a sua vida à divulgação da China e de Macau, criando uma que procura singularizar a identidade macaense, numa procura do equilíbrio entre “portugalidade” e “chinesices”, que nele se concretiza. As suas iniciativas continuam a revelar o seu significado hoje em dia, pois apon-tam para uma via efetiva e construtiva de um reforço e uma consolidação da identidade macaense. Hoje em dia, a evocação desta figura ilustre reveste-se de significado especial: a dedicação e a diligência de Luís Gonzaga Gomes, filho da terra, poderão servir de modelo para as novas gerações macaenses que queiram conhecer, preservar e defender a sua identidade. No final deste trabalho, faz para nós sentido citar uma expressão idiomá-tica chinesa: 桃李不言,下自成蹊 (Os pessegueiros e as ameixoeiras não falam, mas o caminho passa por lá). Em nosso entender, a sabedoria transmi-tida nesta expressão reflete a crença que Gonzaga Gomes revela ao longo de sua vida. Espera-se que, no futuro, haja mais investigadores a dedicar-se ao estudo desta figura macaense e que as perspetivas de investigação acerca da identidade macaense sejam ainda mais diversificadas e iluminadoras.220
Obras citadasAbreu, António Graça de. 1997. “Gabriel de Magalhães, a sua "nova relação" e a China.” In Nova Relação da China, por Gabriel de Magalhães, 7-36. Macau: Fundação Macau/Di-recção dos Serviços de Educação e Juventude.Alves, Joaquim Morais. 1994. “Prefácio.” In Chinesices, por Luís Gonzaga Gomes, 5-6. Macau: Instituto Cultural de Macau.Amaro, Ana Maria. 1993. 大地之子-澳門土生葡人研究 [Filhos da Terra]. Trad. Jin Guoping. Macau: Instituto Cultural de Macau.—. 1988. Filhos da Terra. Macau: Instituto Cultural de Macau.Aresta, António. 1997. “A Sinologia Portuguesa: Um Esboço Breve.” In Revista de Cultura n.º 32: 9-18.—. 2001. “O Professor Luís Gonzaga Gomes e a Divulgação Pedagógica da Cultura Chinesa.” In Revista Administração n.º 54: 1535-1558.—. 2016. Macau Histórico e Cultural. Lisboa: Livros do Oriente.Aronson, Elliot, Timothy D. Wilson, e Robin M. Akert. 2005. Social Psychology. Nova Jérsia: Pearson Education International.Assis Rosa, Alexandra. 2010. “Descriptive Translation Studies.” In Handbook of Translation Studies, por Yves Gambier e Luv Van Doorslaer, 94-104. Amsterdão/Filadélfia: John Benjamins Publishing Company.Barreira, Ninélio. 1994. Ou Mun: Coisas e Tipos de Macau. Macau: Instituto Cultural de Ma-cau.Barros, João de. 1972. Os Lusíadas Contados às Crianças e Lembrados ao Povo. Trad. Luís Gonza-ga Gomes e Iêk Tchi Tcheung. Macau: Imprensa Nacional.Bassnett, Susan. 1998. “The Translation Turn in Cultural Studies.” In Constructing Culture: Essays on Literary Translation, por Susan Bassnet e André Lefevere,123-140. Clevedon: Multilingual Matters.—. 2011. “The Translator as Cross-Cultural Mediator.” In The Oxford Handbook of Transla-tion Studies, por Kirsten Malmkjær and Kevin Windle, 101-110. Oxford/Nova Iorque: Oxford University Press.— e André Lefevere. 1990. “Proust's Grandmother and the Thousand and One Nights. The ' Cultural Turn' in Translation Studies.” In Translation, History and Culture, por Susan Bassnett e André Lefevere, 1-13. Nova Iorque: Cassell.Batalha, Graciete Nogueira. 1979. “Prefácio.” In Macau, Factos e Lendas: Páginas Escolhidas, por Luís Gonzaga Gomes. Macau: Quinzena de Macau.—.1991. Bom Dia, S'tora. Macau: Instituto Cultural de Macau.
—. 2007. Luís Gonzaga Gomes e o Intercâmbio Cultural Luso-Chinês. Macau: Instituto Interna-cional de Macau.Beatriz, Silva. 1992. Cronologia da História de Macau: Séculos XVI-XVII. Macau: Direcção dos Serviços de Educação.Beller, Manfred. 2007. “Perception, Image, Imagology.” In Imagology: The Cultural Construc-tion and Literary Representation of National Characters, por Manfred Beller e Joep Leer-ssen, 3-16. Amsterdão/Nova Iorque: Rodopi.— e Joep Leerssen. 2007. Imagology: The Cultural Construction and Literary Representation of National Characters. Amsterdão/Nova Iorque: Rodopi.Bernardo, Ana Maria Garcia. 2009. A Tradutologia Contemporânea. Tendências e Perspectivas no Espaço de Línga Alemã. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.Botas, João F. O. 2012. Macau 1937-1945, Os Anos da Guerra. Macau: Instituto Internacional de Macau.Boxer, C.R. 1942. Macau na Época da Restauração. Macau 300 Years Ago. Macau: Imprensa Na-cional.—. 1991. Estudos para a História de Macau - Século XVI a XVIII. Lisboa: Fundação Oriente.Brazão, Eduardo. 1957. Macau: Cidade do Nome de Deus na China: Não Há Outra Mais Leal. Lisboa: Agência Geral do Ultramar.Burger, Helga. 1969. “O pao-siang t'u - as preciosas imagens de Mateus Ricci.” Boletim do Instituto Luís de Camões 3 (1):47-55.Burger, Werner. 1969. “Um amuleto em Manchu.” Boletim do Instituto Luís de Camões 3 (1):33-35.Burke, Peter. 2003. “Introduction.” In Advances in Identity Theory and Research, por Peter Burke. Nova Iorque: Kluwer Academic.— e Jan E. Stets. 2009. Identity Theory. Nova Iorque: Oxford University Press.Cabral, João de Pina, e Nelson Lourenço. 1995. 颱風之鄉——澳門土生族羣動態 [Em Ter-ra de Tufões - Dinâmicas da Etnicidade Macaense]. Trad. Mónica Chan. Macau: Instituto Cultural de Macau.—. 1993. Em Terra de Tufões: Dinâmicas da Etnicidade Macaense. Macau: Instituto Cultural de Macau.Catford, John Cunnison. 1978. A Linguistic Theory of Translation: an Essay in Applied Linguisti-cs. Oxford: Oxford University Press.Chang, Nam Fung. 2015. “Auto-image and Norms in Source-Initiated Translaiton in China.” In Asia Pacific Translation and Interpretation and Intercultural Studies (Routledge): 96-107.Chesterman, Andrew. 1997. Memes of Translation. The Spread of Ideas in Translation Theory. Amsterdam & Philadelphia: John Benjamins.—. 2000. “A Causal Model for Translation Studies.” In Intercultural Faultlines, Research Models in Translation Studies I. Textual and Cognitive Aspects, por Maeve Olohan, 15-27. Man-chester: St. Jerome Publishing.—. 2005. “Problems with Strategies.” In New Trends in Translation Studies. In Honour of K. Klaudy, por A. Károly e Àgota Fóris, 17-28. Budapeste: Akadémiai Kiadó.—. 2016. Memes of translation: the spread of ideas in translation theory. Cohen, Abner. 1981. The Politics of Elite Culture. Berkeley/Los Angeles/Londres: University of California Press.Correia, Afonso. 1954. Lisboa do Nosso Tempo. Macau: Colecção Notícias de Macau.Cronin, Michael. 2006. Translation and identity. Londres/Nova Iorque: Routledge.OBRAS CITADAS222
OBRAS CITADASDeng, Junjie, e Wei Luo. 2014. 《澳門記畧》版本研究 [Investigação sobre as Versões de Ou--Mun Kei-Leok ]. Macao: Instituto Politécnico de Macau.D’Assumpção, Carlos Augusto Rocha. 1893. O Primeiro Livro para o Estudo da Língua Sínica. Macau: Typographia Commercial.Dicks, Anthony. 1983. “Treaty, Grant, Usage or Sufferance? Some Legal Aspects of the Status of Hong Kong.” In The China Quarterly n.º 95: 427-455.Dimitriu, Rodica. 2015. “Translation as Blockage, Propagation and Recreation of Ethnic Ima-ges.” In Interconneting Translation Studies and Imagology, por Luc Van Dooslaer, Peter Flynn e Joep Leerssen, 201-215. Amsterdão/Filadélfia: John Benjamins Publishing Company.Doorslaer, Luc van. 2009. “Translated Literature as Just Another Media Frame: An Imagolo-gical Approach to Translation and Media.” In Literature, Geography, Translation. Upp-sala: The New Comparative Horizon.—. 2012. “Translating, Narrating and Constructing Images in Journalism with a Test Case on Representation in Flemish TV News.” In Meta 57 (4):1046-1059.—. Peter Flynn, e Joep Leerssen. 2015. Interconnecting Translation Studies and Imagology. Ams-terdão/Filadélfia: John Benjamins Publishing Company.Erikson, Erik. 1968. Identity: Youth and Crisis. Nova Iorque: W.W.Norton.Escaleira, Maria de Lurdes Nogueira. 2013. Ensino da Tradução em Macau. Macau: Delta Edi-ções.— e Han Lili. 2013. “Luís Gonzaga Gomes - Um Filho da Terra.” In Revista Macau n.º 35: 76-81.Espadinha, Maria Antónia. 2010. In DITEMA: Dicionário Temático de Macau. Macau: Uni-versidade de Macau.Esquível , Ana. 1992. Macau. Macau: Governo de Macau.Even-Zohar, Itamar. 1990. “The Position of Translated Literature within the Literary Polysystem.” In Polysystem Studies, Poetics Today 11(1):45-51.—. 1978. “The Relations between Primary and Secondary System in the Literary Polysys-tem.” In Papers in Historial Poetics,14-20. Tel Aviv: Porter Institute.Flore, Jorge Manuel. 1994. “A História de Macau, Século XVI - XVII: Alguns Inquéritos em Aberto.” In Revista Cultural n.º19: 13-32.—. 1993. “Comunicação, Informação e Propaganda: os 'Jurubaças' e o Uso do Português em Macau na primeira metade do século XVII.” In Encontro Português-Língua de Cultura--Actas, 107-121. Macau: IPOR.Flotow, Luise von, and Reingard M. Nischik (eds). 2007. Translating Canada. Ottawa: University of Ottawa Press.Fok, K.C. 1991. “The Ming Deabte on How to Accomodate the Portuguese and the Emergen-ce of the Macau Formula.” In Revista de Cultura 13/14. Forjaz, Jorge. 1996. Famílias Macaenses (Vol III R-Y).Macau: Fundação Oriente/Instituto Cultural de Macau.—. 1996. Famílias Macaenses (Vol. II G-P). Macau: Fundação Oriente/Instituto Cultural de Macau.França, Bento da. 1897. Macau e os Seus Habitantes: Relações com Timor. Lisboa: Imprensa Na-cional.Frank, Helen T. 2007. Cultural Encounters in Translated Children’s Literature: Images of Australia in French Translation. Manchester: St. Jerome.Gambier, Yves. 2010. “Translation Strategies and Tactics.” In Handbook of Translation Studies, 223
por Yves Gambier e Luc Van Doorslaer, 412-418. Amsterdão/Filadélfia: John Benja-mins Publishing Company.— Luc van Doorslaer. 2013. Translation Studies Bibliography. Gaspar, Marisa. 2015. No Tempo do Bambu - Identidade e Ambivalência entre Macaenses. Lisboa: Instituto do Oriente.Genette, Gérard. 1982. Oakunsoestes: La Littérature au Secibd Degré. Paris: Éditions du Seuil.—. 1997. Paratexts: Thresholds of Interpretation. Cambridge: Cambridge University Press.Gentlzer, Edwin. 2001. Contemporary Translation Theories. Clevedon: Multilingual Matters.—. 2008. Translation and Identity in the Americas - New Directions in Translation Theory. Lon-dres/Nova Iorque: Routledge.—. 2017. Translation and Rewriting in the Age of Post-Translation Studies. Londres/Nova Iorque: Routledge.Gerling, Vera Elisabeth. 2004. Lateinamerika: So fern und doch so nah? Übersetzungsanthologien und Kulturvermittlung. Tübingen: Narr.Gomes, Luís Gonzaga. 1941. Vocabulário Cantonense-Português. Macau: Impernsa Nacional .—. 1942. Vocabulário Português-Cantonense. Macau: Imprensa Nacional.—. 1943. “Burlando por Meio de Jornais.” In Renascimento 2(5):476-479.—. 1943. “Casas de Penhor.” In Renascimento 1(2):151-158.—. 1943. “Duarte Lôbo.” In Renascimento 1(4): 400-403.—. 1943. “Grieg – o Fundador do Nacionalismo Musical Norueguês.” In Renascimento2(1): 29-39.—. 1944. “O Clássico Trimétrico.” In Renascimento 3 (1): 61-72.—. 1944. “O Clássico da Piedade Filial e os Vinte e Quatro Exemplos da Piedade Filial.” In Renascimento 3 (4):379-393, 447-469.—. 1944. “O Estudo de Mil Caracteres.” In Renascimento 3(2): 117-129.—. 1944. “Versos para a juventude escolar.” In Renascimento 3 (3): 238-244.—. 1949. “O Bambu.” In Revista de Macau - Estudos Económicos e Sociais, 15 de Setembro: 141-145.—. 1950. “A library of chinese books in Macau - expcerpts.” In Mosaico 1(3):331-334.—. 1950. Contos Chineses. Macau: Colecção Notícias de Macau.—. 1950. “Os Feringues.” In Mosaico 1(4): 403-411.—. 1950. “Portugal e a arte chinesa.” In Boletim de Instituto Português de Hong Kong n.º3: 79-93.—. 1950. “弁言 [Prefácio].” Mosaico 1(1): 128-129.—. 1950. “Uma Bibliograifa de Livros Chineses em Macau.” In Mosaico 1(2):163-168.—. 1951. “Duas Composições de Khachaturian.” In Mosaico 3(13):13-18.—. 1951. Lendas Chinesas de Macau. Colecção Notícias de Macau.—. 1951. “Tchaikovsky e a Sua Obra.” In Mosaico 2(12): 262-268.—. 1952. Chinesices. Macau: Colecção Notícias de Macau.—. 1952. Curiosidades de Macau Antiga. Macau: Colecção Notícias de Macau.—. 1952. “Tropos usados na gíria chinesa.” In Mosaico 4 (19-20): 389-401.—. 1953. Festividades Chinesas. Macau: Colecção Notícias de Macau.—. 1953. “Leos Janacek.” In Mosaico 7(39-40): 117-124.—. 1953. “Smétana, o Fundador da Música Moderna Checa.” In Mosaico 7 (37-38): 11-21—. 1954. Arte Chinesa. Macau: Colecção Notícias de Macau.—. 1954. Efemérides da História de Macau. Macau: Colecção Notícias de Macau.OBRAS CITADAS224
OBRAS CITADAS—. 1954. Vocabulário Português-Inglês-Cantonense. Macau: San Chong Trading.—. 1955. P'ou Kuók Si-Leok: História de Portugal em Chinês. Macau: Instituto Cultural de Ma-cau.—.1957. “Prefácio.” In Nova Relação da China, por Gabriel de Magalhães, tradução: Luís Gon-zaga Gomes. Colecção Notícias de Macau.—. 1958. Noções Elementares da Língua Chinesa. Macau: Repartição Provincial dos Serviços dos Correios Telegrafos e Telefones.—. 1966. “Chegam os Portugueses, pela Primeira Vez, à China.” In Boletim do Instituto Luís de Camões1(3): 267-285.—. 1966. Páginas da História de Macau. Macau: Colecção Notícias de Macau.—. 1968. “As Vicissitudes do Comércio Português na China no Século XVI.” In Boletim do Instituto Luís de Camões2(2): 29-42.—. 1970. “Efémero Estabelecimento dos Castelhanos nas Vizinhanças de Macau no Século XVI.” In Boletim do Instituto Luís de Camões 4 (4): 325-339.—. 1973. “Bibliografia Macaense.” In Boletim do Instituto Luís de Camões 7(1): 51-106; 7(2): 107-183; 7(3): 197-260; 7(4): 411-416. —. 1979. Macau, Factos e Lendas. Lisboa: Quizena de Macau.—. 1979. Macau Factos e Lendas: Páginas Escolhidas. Lisboa: Quizena de Macau.—. 1979. “Prefácio.” In Ou-Mun Kei-Leok , Monografia de Macau, por Ü-Lâm Tcheong and Kuong-Iâm Ian. Lisboa: Edição da Quinzena de Macau.—. 1986. Chinesices . Macau: Leal Senado.—. 1986. Macau Factos e Lendas: Páginas Escolhidas. Macau: Instituto Cultural de Macau/Leal Senado.—. 1987. Bibliografia Macaense. Macau: Instituto Cultural de Macau.—. 1988. Chinesices. Macau: Instituto Cultural de Macau/Leal Senado.—. 1994. Chinesices. Macau: Instituo Cultural de Macau.—. 1994. Macau Factos e Lendas. Macau: Instituto Cultural de Macau.—. 1996. Curiosidades de Macau Antiga. Macau: Instituto Cultural de Macau.—. 1997. Macau, um Município com História. Macau: Leal Senado.—. 1997. “Nota introdutória.” In Nova Relação da China, por Gabriel de Magalhães, 37. Ma-cau: Fundação Macau/Direcção dos Serviços de Educação e Juventude.—. 2004. 澳門傳說 [Lendas Chinesas de Macau]. Trad. Cui Weixiao, Huang Huixian, Li Chan-gsen, Li Jian e Tan Fei. Macau: Instituto Internacional de Macau.—. 2010. A Derrota dos Holandeses em 1622. Macau: Instituto Internacional de Macau.—. 2010. Páginas da História de Macau. Macau: Instituto Internacional de Macau.Gonçalves, Joaquim Afonso. 1829. Arte China Constante de Alphabeto e Grammatica Comprehen-dendo Modelos das Differentes Composiçoens. Edição: Oliveira Lima. Impressa com licen-ça regia no Real Collegio de São José.Hermans, Theo. 1999. Translation in Systems: Descriptive and System-Oriented Approaches Ex-plained. Manchester: St. Jerome Publishing.Hermans, Theo. 1985/2014. “Translation Studies and a New Paradigm.” In The Manipulation of Literature - Studies in Literary Translation, 7-15. Nova Iorque: Routledge.Hermans, Theo. 2007. “Translation, Irritation and Resonance.” In Constructing a Sociology of Translation, por Michaela Wolf e Alexandra Fukari, 57-75. Amsterdão: John Benjamins Publishing.Hermans, Theo. 1991. “Translational Norms and Correct Translations.” In Translation Studies: the State of the Art, 155-170. Amsterdão/Atlanta: Kitty M. van Leuven-Zwart, Ton Naaijkens.225
Hoare, C. H. . 2002. Erikson on Development in Adulthood: New Insights from the Unpublished Papers. Nova Iorque: Oxford University Press.Hogg, Micahel A. 2006. “Social Identity Theory.” Em Contemporary Social Psychological Theo-ries, por Peter J. Burke, 111-136. Standford: Standford University Press.Holmes, James. S. 1972. “The name and nature of translation studies.” Translation Studies Sec-tion. Amsterdão: University of Amsterdam. 67-80.Hung, Eva (ed.). 2005. Translation and Cultural Change: Studies in History, Norms and Image Projection. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins.Jansen, Hanne. 2015. “Bel Pasese or Spaghetti Nior? The Image of Italy in Contemporary Italian Fiction Translated into Danish.” In Interconnecting Translation Studies and Ima-gology, por Luc van Doorslaer, Peter Flynn e Joep Leerssen, 163-179. Amsterdão/Fila-délfia: John Benjamins Publishing Company.Jin, Guoping. 1993. “中文版序言[Prefácio da Versão Chinesa].” In 大地之子-澳門土生葡人研究 [Filhos da Terra: Estudos sobre os Macaenses], por Ana Maria Amaro, Trad.Jin Guoping. Macau: Instituto Cultural de Macau.—. 2009. “Introduzir Fontes Chinesas Locais nos Estudos da História de Macau.” In Breve Monografia de Macau, por Guangren Yin e Rulin Zhang, x-xiv. Macau: Instituto Cul-tural de Macau.— e Zhiliang Wu. 2002. 東西望洋 [O Oriente e o Ocidente num Olhar para o Mar]. Macau: Macao Association for Adult Education.Kaindl, Klaus. 2006. “Complexity and Interdisciplinarity: Two Key Concepts in Translation Studies.” In Interdisciplinarite En Traduction: Interdisciplinarity on Translation Volume I, por Sündüz Öztürk Kasar, 85-94. Istambul: Les Editions Isis.Keller, Thomas. 2007. “Mediator.” In Imagology: the Cultural Construction and Literary Repre-sentation of National Characters, por Manfred Beller e Joep Leerssen. Amsterdão/Nova Iorque: Rodopi.Kroger, Jane. 2007. Identity Development: Adolescence through Adulthood. Thousand Oaks: SAGE Publications.Kroger, Jane. 2002. “Identity Processes and Contents through the Years of Later Adulthood.” In Identity: An International Journal of Theory and Research 10: 317-337.Kumar, Ravi (ed.). 2012. Role of Translation in Nation Building. New Delhi: Modlingua.Kuran-Burçoğlu, Nedret. 2000. “At the Crossroads of Translation Studies and Imagology.” In Translation in Context, por Andrew Chesterman, Natividad Gallardo San Salvador e Yves Gambier. Amsterdão/Filadélfia: John Benjamins Publishing Company.Lao, Tse. 1951. “Tou Tak Keng - o Livro da Via e da Virtude.” Mosaico 2(12): 395-410; 3(13):31-48.Leerssen, Joep. 2007. “Identity/Alterity/Hybridity.” In Imagology: The Cultural Construction and Literary Representation of National Characters, por Manfred Beller e Joep Leerssen. Amsterdão/Nova Iorque: Ridopi.Leerssen, Joep. 2000. “The Rhetoric of National Character: A Programmatic Survey.” Poetics Today 21 (2): 267-292.—. 2003.“Images - information - national identity and national stereotype.” http://www.let.uu.nl/~Marie-Christine.KokEscalle/personal/sites/competence_mediation/cursusdocumen-ten/leers.html Consulta Junho 2016.—. 2007. “Image.” In Imagology: the Cultural Construction and Literary Representation of Natio-nal Characters, por Manfred Beller e Joep Leerssen. Amsterdão/Nova Iorque: Rodopi.OBRAS CITADAS226
OBRAS CITADAS—. “Imagology: History and Method.” In Imagology: The Cultural Construction and Literary Representation of National Characters, por Manfred Beller e Joep Leerssen. Amsterdão/Nova Iorque: Rodopi.Lefevere, André. 1985/2014. “Why Waste Our Time on Rewrites? The Trouble with Inter-pretation and the Role of Rewriting in an Alternative Paradigm.” In The Manipulation of Literature: Studies in Literary Translation, por Theo Hermans, 215-244. Nova Ior-que:Routledge.—. 1990/1995. “Translation: Its Genealogy in the West.” In Translation, History and Cultu-re,por Susan Bassnett e André Lefevere, 14-28. Londres/Nov Iorque: Cassell. —. 1992. Translation, Rewriting and the Manipulation of Literary Fame. Londres/Nova Iorque: Routledge.—. 2000. “Mother Courage's Cucumber: Text, System and Refraction in a Theory of Li-terature.” In The Translator Studies Reader, por Lawrence Venuti, 239-255. London: Routlege.Li, Changsen. 2010. 近代澳門外報史稿 [Historial dos Jornais Contemporâneos Estrangeiros em Macau ]. Macau: Guangdong People's Publishing House.—. 2016. 近代澳門翻譯史稿 [Manuscritos da História Moderna da Tradução em Macau]. Bei-jing: Social Sciences Academic Press (China).—. 2007. 明清時期澳門土生族羣的形成發展與變遷 [Formação, Desenvolvimento e Mudan-ças dos Macaeneses nas Dinastias Ming e Qing]. Beijing: Zhonghua Book Company.—. 2010. “高美士:语言暨翻译高等学校的骄傲 [Luís Gonzaga Gomes: Orgulho da Es-cola Superior de Línguas e Tradução].” Journal of Macao Politechnic Institute 2010 (2): 1-14.Lison-Tolosana, Carmelo. 1966/1988. Belmonte de Los Caballeros. Princeton/Nova Jérsia: Prin-ceton University Press.Loureiro, Rui Manuel. 2009. “Nota Prévia do Revisor.” In Breve Monografia de Macau, por Guangren Yin e Rulin Zhang, xv-xvii. Macau: Instituto Cultural de Macau.Machado, Álvaro de Melo. 1913. Coisas de Macau. Lisboa: Livraria Ferreira.Magalhães, Gabriel de. 1957. Nova Relação da China. Trad. Luís Gomes. Colecção Notícias de Macau.—. 1997. Nova Relação da China. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Macau: Fundação Macau/Direc-ção dos Serviços de Educação e Juventude.Maia, Rita Bueno, Hann Pieta, e Alexandra Assis Rosa. 2017. “Translation and adjacent con-cepts.” In Dictionary of Translation Knowledge: A Dictionary, por Yves Gambier e Lie-ven D’hulst, s.n. Amsterdam: John Benjamins.Marreiros, Carlos. 1993. “1999 - Pela Continuidade Descomplexada da Cultura de Macau.” Vértice 21-24.Mendes, Manuel da Silva. 1949. Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes. Macau: No-tícias de Macau.—. 1949. Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes. Edição: Luís Gonzaga Gomes. Ma-cau: Colecção Notícias de Macau.—. 1963/1964. Nova Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes. Macau: Coleção Notí-cias de Macau.Molina, Lucía, e Amparo Hurtado Albir. 2002. “Translation Techniques Revisited. A Dyna-mic and Functional Approach.” In Meta: Translators' Journal. 47(4):498-512.Mütter, Bernd. 2002. “Stereotypen und Historisches Lernen.” In Stereotyp, identität und geschichte: die funktion von stereotypen in gesellschaftlichen diskursen, por Hans Henning 227
Hahn, 155-171. Berlim/Berna/Bruxelas/Francoforte do Meno/Nova Iorque/Oxford/Viena: Peter Lang GmbH, Internationaler Verlag der Wissenschaften.Noronha, Manuel, e Ian Chaplin. 2011. “Researching Changing Language Learning Identities for Ethnic Minority Education Policy Formulation: a Case Study of Macau S.A.R.” In Filologia e Linguística Portuguesa 13(2): 409-440.Oliveira, Celina Veiga. 1994. “A Escola de Língua Sínica no Contexto das Relações Luso-Chi-nesas.” In Revista de Cultura 18(2):217-219.—. 1996. “Pedro Nolasco da Silva e Luís Gonzaga Gomes - sinólogos e ilustres macaenses.” In Administração,44(12):319-349.Ortet, Luís. 1984. “Recordando Luís Gonzaga Gomes.” In Nam Van, setembro: 35-40.Paiva,Manuela. 2001. “Do passado ao futuro - o intérprete-tradutor na sociedade de Macau.” In Administração 52(14): 803-810.—. 2004. Encontros e Desencontros da Coexistência: O Papel do Intérprete-Tradutor na Sociedade de Macau. Macau: Livros do Oriente.—. 2008. Traduzir em Macau: Ler o Outro-para uma História de Mediação Linguística e Cultural. Lisboa: Universidade Aberta.Pereira, Francisco Gonçalves. 1995. Portugal a China e a "Questão de Macau".Macau: Instituto Português do Oriente.Pessoa, Fernando. 1959. Mensagem. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Imprensa Nacional de Macau.Pinto, Guedes. 1954. Chong-Kuó. Macau: Colecção Notícias de Macau.Pinto, Marques. 1951. “Ou-Mun Kei-Leok (Monografia de Macau) de Iân-Kuóng-Iâm e Tchéong-U-Lâm.” In Mosaico 1(5): 544-547.Pires, Benjamim Videira. 1994. “Matteo Ricci e João Rodrigues, Dois Elos de Interpenetração Cultural na China e no Japão.” In Revista Cultural n.º18 (2): 5-10.—. 1998. Os Extremos Conciliam-se. Macau: Instituto Cultural de Macau.Piteira, Carlos Manuel. 1999. Mudanças Sócio-Culturais em Macau. Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.Pym, Anthony. 1998. Method in Translation History. Manchester: St. Jerome.Rangel, Jorge. 2007. No Centenário de Luís Gonzaga Gomes. Macau: Instituto Internacional de Macau.Rego, António da Silva. 1947/1966. A Presença de Portugal em Macau. Lisboa: Agência Geral das Colónias.Rego, Francisco de Carvalho e. 1950. Macau. Macau: Imprensa Nacional.Robyns, Clem. 1994. “Translations and Discursive Identity.” In Poetics Today 15(3): 405-428.Saldanha, Gabriela, e Sharon O'Brien. 2013. Research Methodologies in Translation Studies. Londres: St. Jerome.Santos, Carlos Pinto, e Neves Orlando. 1988-1996. De Longe a China (4 Vols). Macau: Institu-to Cultural de Macau.Sarabia, Eduardo. 1975. A Origem da Escrita Chinesa. Macau: Impensa Nacional.Schwartz, S.J. 2001. “The Evolution of Eriksonian and Neo-Eriksonian Identity Theory and Research: A Review and Integration.” In Identity: An International Journal of Theory and Research 1:7-58.Semedo, Álvaro. 1956. Relação da Grande Monarquia da China. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Macau: Colecção Notícias de Macau.—. 1994. Relação da Grande Monarquia da China. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Macau: Dreção dos Serviços de Educação e Juventude/Fundação Macau.Sena, Teresa. 2010. “Luís Gonzaga Gomes.” In DITEMA: Dicionário Temático de Macau, by OBRAS CITADAS228
OBRAS CITADASMaria Antónia Espadinha, 633. Macau: Universidade de Macau.Seng, Ü-Háu 1953. “Citações chinesas.” Trad. Luís Gonzaga Gomes. Mosaico 5 (29-30), 200-222.Sérgio , Vanessa. 2012. Macao: vie culturelle et littéraire d’expression portugaise au milieu du XXe siècle – Luís Gonzaga Gomes, ‘Fils de la Terre’. Nanterre.Si Tou, Jonny. 1997. “Origens de Macau - o Papel dos Macanses.” In Administração n.º 36: 543-554.Silva, Pedro Nolasco Da. 1903. Amplificação do Santo Decreto. Macau: Typographia Mercantil.—. 1903. LINGUA SINICA ESCRIPTA, Tradução da Amplificação do Santo Decreto. Macau: Typographia mercantil.Simas, Monica. 2007. Margens do Destino. São Paulo: Yendis.Simões, Maria João. 2011. “Cruzamento Teóricos da Imagologia Literária: Imagotipos e Ima-ginário.” In Imagotipos Literários: Processos de (Des)configuração na Imagologia Literária, por Maria João Simões, 9-54. Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa.Soenen, Johan. 1997. “Imagology and Translation.” In Multiculturalism: Identity and Otherness, por Nedret Kuran-Burçoğlu, 125-138. Istambul: Bogaziçi University Publications.Stets, Jan E., e Peter Burke. 2003. “A Sociological Approach to Self and Identity.” In Handbook of Self and Identity, por Mark Leary e June Tangney, 128-152. Nova Iorque: Guilford Press.—. 2000. “Identity Theory and Social Identity Theory.” In Social Psychology Quarterly 63: 224-237.Stryker, Sheldon, e Peter J. Burke. 2000. “The Past, Present and Future of an Identity Theory.” In Social Psychology Quarterly 63: 284-297.Super, Donald. 1980. “A Life-Span, Life-Space Approach to Career Development.” In Jour-nal of Vocational Behavior 16, 282-298.Tajfel, Henri. 1978. Differentiation bewteen Social Groups: Studies in the Social In Psychology of Intergroup Relations. Londres: Academic Press.— e Colin Fraser. 1978. Introducing Social Psychology. Harmondsworth: Penguin Books.—. 1981. Human Groups and Social Categories: Studies in Social Psychology. Cambridge: Cam-bridge University Press.Tannen, Deborah, e Muriel Saville Saville-Troike. 1985. Perspectives on Silence. Michigan: Ablex Pub. Corp. Tçuzzu, João Rodrigues. 1954. História da Igreja do Japão. Macau: Colecção Notícias de Ma-cau.Tcheong, Ü-Lâm , e Kuong-Iâm Ian. 1950. Ou-Mun Kei-Leok: Monografia de Macau.Trad. Luís Gonzaga Gomes. Macau: Imprensa Nacional.—. 1979. Ou-Mun Kei-Leok - Monografia de Macau. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Lisboa: Quinzena de Macau.Teixeira, Manuel. 1965. A Imprensa Periódica Portuguesa no Extremo-Oriente. Macau: Colecção Notícias de Macau.—. 1965. Os Macaenses. Macau: Imprensa Nacional.—. 1979. Toponímia de Macau. Macau: Imprensa Nacional.—. 1986. “À Memória de Luís Gonzaga Gomes.” In Liceu de Macau (3.ª edição), by Manuel Teixeira. Macau: Direcção dos Serviços de Educação.—. 1986. Liceu de Macau, 3.ª edição. Macau: Direcção dos Serviços de Educação.—. 1999. Imprensa Periódica Portuguesa no Extermo Oriente. Macau: Instituto Cultural de Ma-cau.229
Thoits, Peggy A. 1991. “On Merging Identity Theory and Stress Research.” In Social Psycho-logy Quarterly 54 (2): 101-112.Tomás, Túlio Lopes Tomás. 1987. “Luís Gonzaga Gomes.” In Catálogo Biobibliográfico, 27-32. Macau: Instituto Cultural de Macau.—. 1995. “Como vi Luís Gonzaga Gomes.” In Revista de Cultura 23(2):119.Toury, Gideon. 1995. Descriptive Translation Studies - and Beyond. Amsterdão/Filadélfia: John Benjamins Publishing Company.—. 2012. Descriptive Translation Studies - and Beyond. Amsterdão/Filadélfia: John Benjamins Publishing Company.Tse, Lao. 1951. “Tou Tak Keng - o livro da via e da virtude.” Mosaico 2(12): 395-410; 3(13):31-48.—. 1995. O Livro da Via e da Virtude. Trad.Luís Gonzaga Gomes. Macau: Fundação Macau.Uóng, Iêng-Lân. 1997. O Livro da Via e da Virtude. Macau: Fundação Macau.Voestermans, Paul. 1991. “Alterity/Identity: a Deficient Image of Culture.” In Alterity, Iden-tity, Image, por Raymond Corbey, Joep Leerssen, Arthur Mitzman, 219-250. Amster-dão/Atlanta: Rodopi. Wang, Chun, e Meiling Tan. 2001. 澳門土生文學作品選[Seleção das Obras Literárias Ma-caenses]. Macau: Publishing Center of the University of Macau.Weigert, A. J., J. S. Teitge, e D. W. Teitge. 2007. Soceity and Identity: Toward a Sociological Psy-chology. Cambridge: Cambridge University Press.Wu, Zhiliang. 2002. “翻譯的神話與語言的政治 (1850-1911)[Mitos da Tradução e Políticas Linguísticas (1850-1911)].” In 澳門憲報中文資料輯錄(1850/1911) [Coleção dos Bole-tins Oficiais de Macau Escritos em Chinês], VII. Macau: Tang Kaijian, Wu Zhiliang.Xavier, Roy Eric. 2016. “Survival and Identity among Portuguese Eurasians during World War II.” In Wartime Maau, por Geoffrey C. Gunn, 94-116. Hong Kong: Hong Kong University.Xu, Jieshun, e Kaijian Tang. 2000. “关于澳门土生葡人问题的思考 [Algumas Reflexões so-bre a Questão dos Macaenses].” 民族研究 [Estudos Étnicos vol 6],45-53. Yin, Guangren, e Rulin Zhang. 2009. Breve Monografia de Macau. Trad. Jin Guoping. Macau: Instituto Cultural da RAEM.Zacharasiewicz, Waldemar. 2010. Imagology Revisited. Amsterdão/Noa Iorque: Rodopi.Zhao, Chunchen. 1992. 澳門紀畧校注 [Monografia de Macau com Anotações]. Macau: Institu-to Cultural de Macau.[s.n.]. 1887. Boletim da Província de Macau e Timor—. 1915. “Decreto n.º 1: 786., de 9 de Outubro”. Boletim Oficial do Governo da Província de Macau n.º 41.—. 1944. “O estudo de mil caracteres.” Trad. Luís Gonzaga Gomes. In Renascimento 3(2): 117-129.—. 1944. “O clássico da piedade filial e os vinte e quatro exemplos da piedade filial .” Trad. Luís Gonzaga Gomes. In Renascimento 3(4): 379-393.—. 1944. “Versos para a juventude escolar.” Trad. Luís Gonzaga Gomes. In Renascimento 3(3):238-244.—. 1951. “Em torno do vocabulário tou.” Trad. Luís Gonzaga Gomes. In Mosaico 2(9):157-164.—. 1953. “Citações chinesas.” Trad. Luís Gonzaga Gomes. In Mosaico 5(29-30): 200-222.—. 1944/1945. “As Quatro Obras.” Trad. Luís Gonzaga Gomes. In Renascimento 3(6): 594-605; 4(1), 66-68;4(2):113-134;4(3):228-246; 4(4):331-340; 4(6): 450-466;5(1):16-37;5(2): 131-150; 5(4): 221-242; 5(5): 346-365; 5(6): 413-434; 6(1):47-67; 6(2):124-144. OBRAS CITADAS230
Lista dos anexos e apêndicesAnexo I Lista da tradução de fan (藩) Anexo II Lista da tradução de i (夷)Apêndice Bibliografia de Luís Gonzaga Gomes, organizada pela autoraAnexo I – Lista da tradução de fan (藩)Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada1,2澳蕃篇(諸蕃附) (Zhao 1992, 111)fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Capítulo concernente aos estrangeiros de Macau (Tcheong e Ian 1979, 170)[macau estrangeiro capítulo][(cada estrangeiro anexo)]JGP (2009): Crónica dos bárbaros de Macau- com informações sobre os bárbaros de Macau (Yin e Zhang 2009, 159)3記蕃於澳門,略有數端。 (Zhao 1992, 113)fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Escrevendo sobre os estrangeiros de Macau, temos a dizer que os há de várias espécies (Tcheong and Ian 1979, 170)[escrever sobre estrangeiro em Macau, haver algum aspeto]JGP (2009): Falando dos bárbaros de Macau, há vários factos a relatar (Yin and Zhang 2009, 159)4有新村,號饒富,華蕃商船輻輳,其村主即廣東人。 (Zhao 1992, 117)fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): É riquíssimo e os barcos estrangeiros afluem em grande número a suas aldeias, sendo o seu chefe um nativo de Kuóng-Tông (Tcheong and Ian 1979, 176). [haver novo aldeia, chama-do Rico, chinês estrangeiro comerciante barco afluir, seu chefe natural de Guaongdong]JGP (2009): É um porto comercial onde afluem barcos tanto chineses como bárbaros. O seu chefe é um natural de Guangdong (Yin e Zhang 2009, 165). 5喜聽蕃歌步月行 (Zhao 1992, 118)fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Folgamos com a audição das canções dos estrangeiros e vamos assim vogando, seguidos pela Lua (Tcheong e Ian 1979, 176). [gostar de ouvir estrangeiro canção andar lua passeio]JGP (2009): Ao som das cantigas bárbaras, as mulheres passeiam ao luar (Yin e Zhang 2009, 166).
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada6御史[…]言: “佛郎機最兇狡,兵械羅諸蕃獨精” (Zhao 1992, 122)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): o censor […] acusou os fát-lóng-kei de serem excessivamente cruéis e astuciosos e de os seus armamen-tos, comparados com os dos outros estrangeiros, serem muito mais perfeitos (Tcheong e Ian 1979, 183). [imperial censor ...dizer: Folangi mais violento astu-to, arma comparado com cada estrangeiro unicamen-te sofisticado]JGP (2009): O censor imperial […] informou: Dos bárbaros, os Folangji são os mais violentos e astutos, sendo as suas armas superiores às de quaisquer bárbaros (Yin e Zhang 2009, 171). 7見部臣不拜,又欲求長諸蕃 (Zhao 1992, 122)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Para ser mostrarem superiores, não cumpri-mentando as autoridades, além de quererem ser chefes de todos os outros estrangeiros (Tcheong e Ian 1979, 184). [ver funcionário ministerial não fazer vénia, também querer ser chefe de cada estrangeiro]JGP (2009): Não cumprem as vénias devidas aos fun-cionários ministeriais e tentam ser decanos de todos os bárbaros (Yin e Zhang 2009, 171). 8不問何年,來即取貨,致蕃舶不絕於海澨,蠻人雜遝於州城 (Zhao 1992, 122)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): não sabendo em que ano, as mercadorias destes adventícios fát-lóng, resultando disso que os barcos estrangeiros passaram a sulcar sem interrupção os nossos mares. Os estrangeiros afluíam às ilhas e às cidades (Tcheong e Ian 1979, 184). [não perguntar qual ano, vir buscar mercadoria, fazer com que estrangeiro barco não parar de vir a mar, não civilizado afluir em cidade]JGP (2009): sem investigar devidamente qual era o respectivo prazo de apresentação de tributos, o que fez com que barcos bárbaros não parassem de vir aos nossos mares e que os bárbaros afluíssem às nossas cidades (Yin e Zhang 2009, 171).9,10乞悉驅在澳蕃舶及蕃人潛居者,禁私通,嚴守備,庶一方獲安 (Zhao 1992, 122)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Pediu-se, então, que a todos os barcos es-trangeiros de Macau e a todos os estrangeiros que estavam residindo, clandestinamente em Macau, fosse proibido o comércio de contrabando, exercida a mais rigorosa vigilância, a fim de salvaguardar a tranquilidade do povo (Tcheong e Ian 1979, 184). [solicitar expulsar em Macau estrangeiro barco e estrangeiro ilegal residente, proibir contrabando, refor-çar vigilância, salvaguardar um lado tranquilidade]JGP (2009): Solicito que sejam expulsos os barcos bárbaros ancorados na Baía, assim como os estrangeiros ali ilegalmente residentes, proibindo-se o contrabando e reforçando-se a vigilância a fim de salvaguardar a tranqui-lidade com que vem vivendo o povo da terra (Yin e Zhang 2009, 171-172). 11亞三本華人,為蕃人所使,侍帝驕甚 (Zhao 1992, 122)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): A-Sám é chinês de naturalidade. Na quali-dade de enviado os estrangeiros e, por servir o Imperador, era extraordinariamente arrogante (Tcheong e Ian 1979, 184). [Yasan originalmente chinês, ao serviço de es-trangeiro, servir imperador, andar arrogante de mais]JGP (2009): Yasan era chinês de nascimento e estava ao serviço dos bárbaros. Por servir de perto o imperador, andava todo arrogante (Yin e Zhang 2009, 172). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES232
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada12, 13往者蕃舶通時,公私饒給,議者或病外蕃闖境之為虞 (Zhao 1992, 122)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Antigamente, os barcos estr[a]ngeiros faziam com liberalidade constantes dávidas clandestinas às autoridades que resolveram assim permitir-lhes a entrada, pois, receavam que os estrangeiros de fora irrompessem subitamente pelas fronteiras, o que constituiria uma calamidade (Tcheong e Ian 1979, 185). [antigamente estrangeiro barco passar, autoridade particular lucrar, discussão talvez recear estrangeiro de fora interromper fronteira como problema]JGP (2009): Antigamente, quando vinham os bárbaros, tanto as autoridades como os particulares lucravam muito com o comércio externo. Os que levantam esta questão talvez receiem que os bárbaros possam irromper subita-mente pelas nossas fronteiras e causar-nos problemas (Yin e Zhang 2009, 172).14海外諸蕃無敢與抗者 (Zhao 1992, 125)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): No mar não havia estrangeiros que ousassem resistir-lhe (Tcheong e Ian 1979, 186). [ultramar cada estrangeiro não atrever-se a resistir]JGP (2009): Dos bárbaros de fora, não havia quem se atrevesse a fazer-lhe frente (Yin e Zhang 2009, 173). 15賀蘭,明曰和蘭,又名紅毛蕃 (Zhao 1992, 127)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os hó-lán 賀蘭(Holandeses) eram conhe-cidos na dinastia Meng por uó-lán 和蘭 e também por hông-mou-fán 紅毛蕃 (estrangeiros de cabelos vermelhos) (Tcheong e Ian 1979, 190). [holanda, Ming dinastia chamar Helan, também chamar-se Vermelho Cabe-lo Estrangeiro]JGP (2009): Na dinastia Ming, Helan podia escrever-se de duas maneiras e era conhecida, também como Hongmaofan167 (Yin e Zhang 2009, 176). 167: Bárbaros de cabelos vermelhos. 16紅毛蕃至,又破其城 (Zhao 1992, 127)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Quando os hông-mou tornaram a voltar, destruíram igualmente a cidade (Tcheong e Ian 1979, 190). [Vermelho Cabelo Es-trangeiro chegar, outra vez quebrar seu cidade]JGP (2009): Quando os Cabelos Vermelhos regressaram, conquistaram outra vez a cidade (Yin e Zhang 2009, 176). 17山以北屬紅毛蕃,南屬佛朗機,美洛居竟為兩國所分 (Zhao 1992, 127-128)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): seria melhor dividir o país, tomando para fronteira as altas serras de Tchông-Mán-Lou, e ficando a região do norte para os hông-mou-fán e a do sul para os fát-lóng-kei. Mei-lók-kei ficou assim dividida em dois territórios (Tcheong e Ian 1979, 191). [Monte a norte perten-cer a Vermelho Cabelo Estrangeiro, a sul pertencer a Folangji, Meiluoju assim por dois país dividir]JGP (2009): ficando a região do norte para os Cabelos Vermelhos e a do sol para os Folangji, de maneira que as Meiluoju foram divididas entre as duas nações (Yin e Zhang 2009, 176). 18已而華人復稍稍往,蕃人亦利之,復成聚 (Zhao 1992, 131)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Mais tarde, os Chineses foram regressando, pouco pouco, e, como os estrangeiros também se apro-veitavam deles, tornaram a reunir-se em grande número (Tcheong e Ian 1979, 197). [depois chinês voltar a pouco e pouco regressar, estrangeiro também benefi-ciar, tornar-se comunidade]JGP (2009): Mais tarde, os chineses foram regressando. Como os bárbaros beneficiam do comércio dos chineses, estes tornaram a formar uma grande comunidade (Yin e Zhang 2009, 180). 233
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada19中一山尤高大,蕃名梭篤蠻山 (Zhao 1992, 132)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): No centro, existe uma montanha (ilha) alta e grande cujo nome estrangeiro é montanha de Tchân-Tchôk-Mán 梭篤蠻 (Tcheong e Ian 1979, 198).[dentro um monte especialmente grande alto, estrangeiro nome ser Sumanshan]JGP (2009): Entre as ilhas há uma maior, com o nome bárbaro de Suodumanshan (Yin e Zhang 2009, 182).20明永樂中,諸蕃使臣充斥於廷,以古里大國,序其使者於首 (Zhao 1992, 133)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Nos meados do reinado de Ueng-Lók 永樂 (1403-1425 A.D.) da dinastia Meng, de todos os ministros estrangeiros das terras subjugadas que se apresentavam no palácio imperial, eram os de Calicut que ocupavam o primeiro lugar (Tcheong e Ian 1979, 198). [Ming dinastia meados de reinado Yongle, cada estrangeiro embaixador en-cher côrte, Calecute grande país, sequenciar seu enviado em primeiro lugar ]JGP (2009): Em meados do reinado de Yongle, de entre os embaixadores tributários que enchiam a corte chinesa, o de Calecute ocupava o primeiro lugar (Yin e Zhang 2009, 184). 21澳寺蕃僧皆教化類 (Zhao 1992, 141)fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os bonzos estrangeiros (padres) dos templos de Macau pertencem todos à classe do poder espiritual (Tcheong e Ian 1979, 206). [macau templo estrangei-ro monge todos religião categoria/classificação]JGP (2009): O pessoal religioso das igrejas de Macau está sob a alçada do jiaohuawang (Yin e Zhang 2009, 190-191). 22國初洋禁嚴,諸蕃率借其名號以入市,酬之多金,財貨盈溢 (Zhao 1992, 141)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): No tempo em que a China interditava a frequência dos seus mares, todos os estrangeiros empresta-vam usualmente o nome dos (Portugueses) para entrar nos centros comerciais, auferindo muito ouro, sendo, por isso, enorme a quantidade de mercadorias que possuem (Tcheong e Ian 1979, 206). [país início mar interditar rigoroso, cada estrangeiro todo então emprestar seu nome para entrar mercado, pagar mais ouro, tesouro mercadoria abundante demais]JGP (2009): Nos inícios da nossa dinastia, quando imperavam as interdições marítimas, os outros bárbaros pagavam-lhes [funcionários de Xiyangguo], para poderem vir, em seu nome, comerciar à China. A comissão que se pagava para a obtenção deste privilégio era muito elevada, o que fazia com que Macau se enchesse de mercadorias (Yin e Zhang 2009, 191). 23今諸蕃俱得自市,又澳門舶日少,富庶非昔比 (Zhao 1992, 141-142)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Actualmente, os estrangeiros negoceiam, porém, com os seus próprios nomes, diminuindo assim o número de barcos de Macau, de forma que a prosperi-dade desta terra já não se compara à dos outros tempos (Tcheong e Ian 1979, 206). [hoje cada estrangeiro todo obter próprio mercado, mais Macau barco dia menos, fortuna não passado comparar ]JGP (2009): Hoje em Dia, como os outros bárbaros já podem vir por si sós comerciar à China, e considerando que cada dia vêm menos barcos de Macau, o seu estado económico já não se compara com o de outros tempos (Yin e Zhang 2009, 191). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES234
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada24每肆一區,歲租蕃錢十餘圓 (Zhao 1992, 147)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Cada bairro de lojas é anualmente alugado por dez patacas europeias (Tcheong e Ian 1979, 212-213).[cada loja um zona, cada ano aluguer estrangeiro dinheiro dez mais yuan]JGP (2009): Cada botica alugada rende anualmente umas dez moedas bárbaras (Yin e Zhang 2009, 199). 25蕃寺通歲所入幾萬圓 (Zhao 1992, 147)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os templos dos bárbaros recebem por ano algumas dezenas de milhar de patacas (Tcheong e Ian 1979, 213).[estrangeiro templo todo ano receita algum dez mil yuan]JGP (2009): As igrejas bárbaras têm uma receita anual da ordem das várias dezenas de milhares de patacas (Yin e Zhang 2009, 199).26臺冠山椒,列炮二十八,上宿蕃兵 (Zhao 1992, 147)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Esta fortaleza coroa o topo duma colina e nela encontram-se alinhadas 28 peças. Em cima, estão alo-jados os soldados estrangeiros (Tcheong e Ian 1979, 213). [plataforma coroa monte pimenta, expor canhão vin-te e oito, em cima dormir estrangeiro soldado]JGP (2009): [N]o topo de uma colina, munida com 28 peças de artilharia e guarnecida por soldados bárbaros (Yin e Zhang 2009, 200). 27諸蕃向化,以此為天朝守海門而固外圉,洵有道之隆也 (Zhao 1992, 148)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Todos os estrangeiros respeitam a civilização chinesa porque a corte celestial defende as portas do mar e mantém seguras as fronteiras exteriores, o que é devido à glória dos princípios morais (Tcheong e Ian 1979, 215).[cada estrangeiro obedecer, com isto para celeste im-pério defender mar porta e assegurar exterior cerco, honestamente ter moral/estratégia grandioso]JGP (2009): Neste tempo de paz pelos mares e de respei-to de todos os bárbaros pela nossa civilização, estas peças servem para defender as entradas marítimas e as fronteiras exteriores do nosso Celeste Império, o que é realmente uma estratégia muito inteligente (Yin e Zhang 2009, 201).28試向蕃僧問,曾能識此關 (Zhao 1992, 149)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Experimentemos perguntar aos padres estrangeiros. Talvez eles nos saibam explicar isto (Tcheong e Ian 1979, 215).[tentar para estrangeiro monge perguntar, poder identificar este mecanismo/esquema]JGP (2009):Tendo indagar junto dos bonzos bárbaros este fascínio, talvez não me saibam explicar o mistério (Yin e Zhang 2009, 202).29僧寮百十區,蕃僧充斥其中 (Zhao 1992, 149)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): As residências dos sacerdotes são para cima de cem e nelas vivem numerosos padres estrangeiros (Tcheong e Ian 1979, 215).[monge casa cem dez zona, estrangeiro monge estar cheio dentro]JGP (2009): Existem centenas de casas de habitação para os religiosos, que estão cheias de bonzos bárbaros (Yin e Zhang 2009, 202). 235
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada30相傳廟故庳隘,貧蕃析樟板為之 (Zhao 1992, 150)fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Segundo dizem, por o cofre desta igreja se encontrar desprotegido e esgotado, os estrangeiros construíram-na com madeira de cânfora (Tcheong e Ian 1979, 216). [mutuamente dizer templo antigamente baixo estreito, pobre estrangeiro analisar cânfora fazer o (tempo)]JGP (2009): Segundo dizem, era uma construção baixa e estreita para a qual os bárbaros pobres se terão servido de tábuas de cânfora, facto que deu origem ao seu nome em chinês: Templo das Tábuas de Cânfora (Yin e Zhang 2009, 203).31此外,西南則有風信廟,蕃舶既出,室人日跂其歸,祈風信於此 (Zhao 1992, 150)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Além deste templo, encontra-se a sudoeste o Fông-Sân-Mil 風信廟(Igreja de Fé no Vento, isto é, a Igreja de S. Lourenço). Quando partem os barcos estrangeiros, as pessoas das famílias dos embarcados, que anseiam pelo seu regresso, manifestam, neste templo, a sua fé no vento (Tcheong e Ian 1979, 216-217). [isto fora, oeste sul então haver vento mensagem templo, estrangeiro barco já sair, quarto pessoa dia de pé seu regresso, rezar vento mensagem aqui]JGP (2009): Além deste templo, a sudoeste encontra-se o Fengxingmiao. Quando os homens embarcam para comerciar fora, as mulheres, que anseiam pelo regresso dos seus maridos, vão rezar diariamente a este templo pela sua segurança no mar (Yin e Zhang 2009, 203). 32北隅一廟,凡蕃人男女相悅,詣神盟誓畢,僧為卜吉完聚,名曰花王廟 (Zhao 1992, 150)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): No canto norte, encontra-se uma igreja para onde vão todas as raparigas e rapazes estrangeiros que sen-tem mútua simpatia, para venerarem as divindades e pres-tarem os seus juramentos, findo o que os bonzos escolhem um dia auspicioso para unir os seus destinos. Esta igreja chama-se Fá-Uóng-Miu花王廟 (Igreja do Jardineiro, isto é, de St.º António) (Tcheong e Ian 1979, 217).[norte canto um templo, todo estrangeiro pessoa ho-mem mulher mutuamente agradável, ir deus compro-misso juramento terminar, monge para divindade auspicioso casamento, nome Flor Rei Templo]JGP (2009): Na parte setentrional encontra-se um templo aonde vão as raparigas e os rapazes bárbaros, que sentem mútua simpatia, para venerar as divindades e pres-tar juramento de casamento com cerimónias realizadas por padres, para juntarem os seus destino. Chama-se a esta igreja de Huawangmiao (Yin e Zhang 2009, 204). 33東南城外有發瘋寺,內居瘋蕃,外衛以兵,月有廩 (Zhao 1992, 151)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): A sudoeste, fora da muralha, fica o Fát-Fôn-g-Tch’I 發瘋寺(Templo dos Leprosos, isto é, a igreja de S. Lázaro). No interior desta igreja residem os leprosos estran-geiros que são vigiados, por fora, por soldados, que todos os meses fazem um relatório (Tcheong e Ian 1979, 218). [este sul cidade for a haver leproso templo, dentro viver/residir leproso es-trangeiro, fora aguardar por soldado, mês haver salário]JGP (2009): A sudoeste da cidade, fora das muralhas, exis-te um Fafengsi. Neste igreja vivem os leprosos bárbaros, vigiados de fora por soldados. Os internados recebem uma mensalidade para a respectiva manutenção (Yin e Zhang 2009, 204). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES236
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada34, 35, 36出遊率先夕詣龍鬆廟,迎像至本寺,燃燈達旦,澳眾畢集,黑奴舁被難像前行,蕃童誦咒隨之。又以蕃童像天神,披髮而翼,來往騰躍[...]諸蕃撤酒肉三日,雖果餌噉不至飽 (Zhao 1992, 151)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Nas procissões da segunda, quinta e sexta luas, o cortejo sai ao princípio da tarde, para visitar o templo de S. Lourenço, a fim de receber a imagem e ali se acendem lâmpadas à alvorada, com o completo ajuntamento de todas as pessoas de Macau. Os escravos negros conduzem a imagem da Paixão. Adiante marcham as crianças estrangeiras, recitando litanias, sendo seguidas por outras crianças estrangeiras disfarçadas em divindades com cabelos despenteados e asas que se movem, subindo e saltando [...] Todos os estrangeiros abstêm-se de vinho e carne durante três dias e, embora comam frutas e bolos, não se atrevem a comê-los até ficarem saciados (Tcheong e Ian 1979, 218). [procissão todo primeiro descer do sol ir Dragão Descanso Templo, receber imagem até presente templo, ascender lâmpada até nascer do sol, Macau multidão todo juntar, negro escravo levantar cruxifica-do imagem frente andar, estrangeiro criança decorar conjuro seguir o. Mais como estrangeiro criança parecer celeste deus, des-grenhar/despentear cabelo, ida volta soltar e asa […], cada estrangeiro retirar vi-nho/álcool três dia, embora fruta bolo atrever-se não chegar saciado]JGP (2009): Cada procissão vai primeiro até à Longsong-miao para ir receber a imagem santa e a trazer para a sua igreja. Faz-se uma vigília, na qual se reúnem os bárbaros de Macau. Os escravos negros caminham à frente e carregam a imagem santa, seguidos das crianças bárbaras, recitando litanias. Seguem-se outras crianças bárbaras, disfarça-das de anjos com cabelos desgrenhados e asas, que vão dançando no meio da multidão […] Todos os bárbaros se abstêm de bebidas alcoólicas e de carnes durante três dias. Embora comam frutas e bolos, não se atrevem a comê-los até ficarem completamente saciados (Yin e Zhang 2009, 205). 37蕃僧不一類 (Zhao 1992, 151)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os padres estrangeiros não pertencem a uma só classe (Tcheong e Ian 1979, 218). [estrangeiro monge não mesmo grupo]JGP (2009): Os padres bárbaros pertencem a ordens diferentes (Yin e Zhang 2009, 205). 38有大事、疑獄,兵頭、蕃目不能決,則請命,命出奉之惟謹 (Zhao 1992, 151)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Se ocorre qualquer caso importante ou, por suspeita, se aprisione, o Governador e o procurador do Senado não podem resolver. Pedem então (ao Bispo) uma ordem (Tcheong e Ian 1979, 219). [haver grande assunto, sus-peitar prisão, soldado chefe, estrangeiro chefe não poder decidir, então pedir ordem, ordem saída respeitar somente cautelosamente]JGP (2009): Quando ocorre qualquer caso de importân-cia ou de difícil solução, que o bingtou e o fanmu 399 não conseguem resolver, solicitam instruções do bispo (Yin e Zhang 2009, 205). 399: Cabecilnha dos bárbaros. 237
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada39西洋諸蕃風尚,大率相類如此 (Zhao 1992, 151)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os costumes de todos os estrangeiros de Sâi-Lèong西洋 (Oceano Ocidental, isto é, o Oceanao Atlântico) são, na generalidade, parecidos com isso (Tcheong e Ian 1979, 219). [ocidente mar cada estran-geiro costume, geralmente parecido com este]JGP (2009): Os usos e costumes dos bárbaros de Xiyang são, de um modo geral, parecidos com estes (Yin e Zhang 2009, 205). 40而左右列侍蕃女,於廟於家惟所便,蓋火憂患衲子之流 (Zhao 1992, 152)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): [S]ão rodeados de mulheres europeias que tomam conta deles. Fazem das igrejas suas casas e ali se abrigam para maior conveniência como os bonzos tauistas (Tcheong e Ian 1979, 219). [à esquerda à direita rodea-do de estrangeiro mulher, em templo conveniente como em casa, provavel-mente ser sofrido monge]JGP (2009): São celibatários, mas rodeados de mulheres bárbaras, que toma conta deles e se ocupam com os tra-balhos domésticos, tanto nas igrejas como nas residências (Yin e Zhang 2009, 206).41諸僧往來蕃人家,其人他出,私入室見其婦,以所攜藤或雨繖置諸戶外,其人歸,見而避之 (Zhao 1992, 152)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Todos os bonzos (padres) frequentam as casas dos estrangeiros. Quando saem, para entrar nessas casas, a fim de visitar as mulheres dos estrangeiros, levam uma bengala ou guarda-chuva que deixam fora da porta. Os homens, quando voltam, deparando com essas coisas, escondem-se deles (Tcheong e Ian 1979, 220). [cada monge ida volta estrangeiro casa, homem sair, ele entrar em casa para visitor mulher, colocar à porta bengala ou guarda--sol, quando homem voltar, ao ver esconder-se]JGP (2009): Os padres frequentam as casas dos bárbaros. Mesmo quando os homens estão fora, podem entrar nas casas para visitar as mulheres bárbaras, mas, deixando à porta a sua bengala de rota ou o guarda-sol, como sinal da sua presença. Os homens, ao verem estas coisas, escon-dem-se deles (Yin e Zhang 2009, 206). 42惟三巴戒律綦嚴,蕃婦入寺者為之持咒禳解,寺僧不茍了入,即出必以人伴之,書其名於版以為志 (Zhao 1992, 152)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): As regras do Convento de São Paulo são mais severas. As mulheres estrangeiras, quando entram nas suas igrejas, é para eles lhes explicar as fórmulas sagradas. Os frades dos conventos não saem por qualquer motivo. Quando saem, são infalivelmente acompanhados por pes-soas. Escrevem os seus nomes nas tábuas para informação (Tcheong e Ian 1979, 220). [apenas ingreja de São Pau-lo regra severa, estrangeiro mulher entrar em templo para confissão e missa, templo monges não sair sem motivo, quando sair dever ser acompanhado por pessoas, escrever nome me tábua para registo]JGP (2009): As regras de Sanba são mais severas. As mulheres, quando lá entram, é para ouvirem missa ou se confessarem. A saída dos religiosos é estritamente controlada. Quando saem, fazem-no acompanhados e com nomes escritos numa tábua, para os devidos registos (Yin e Zhang 2009, 206). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES238
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada43夷目有兵頭,遣自小西洋,率三歲一代,轄蕃兵一百五十名,分戍諸炮臺及三巴門 (Zhao 1992, 152)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): O Procurador do Senado e o Governador são enviados de Goa, sendo de três anos o seu período de governo. O número dos soldados estrangeiros é de 150, encontrando-se distribuídos, para guarnecerem as diversas fortalezas e a porta de São Paulo. (Tcheong e Ian 1979, 220) [bárbaro chefe ter soldado chefe, enviado de pequeno ocidente mar, geralmente três ano uma geração, governar estrangeiro solado cento e cinquenta, guardar canhão fortaleza e porta de São Paulo]JGP (2009): Dos yimu410, há que se chama bingtou411. É enviado por Goa. É mudado de três em três anos. Tem sob o seu comando 150 soldados bárbaros, que guardam as fortalezas e a Sanbanmen (Yin e Zhang 2009, 206).410: Tanto o conteúdo deste frase como a utilização do plural nos levam a crer que jimu não se refere exclusivamente ao governador de Macau, como afirmam alguns estudiosos. 411: Refere-se ao governador de Macau, que foi nomeado pela primeira vez em 1623 pelo vice-rei da Índia, sediado em Goa. Começou por ser um comandante, passando depois a governador, detendo poderes militares e administrativos. NT: Corresponderia a capitão-geral. 44蕃人犯法,兵頭集夷目於議事亭,或請法王至,會鞫定讞,籍其家財而散其眷屬,上其獄於小西洋,其人屬獄候報而行法 (Zhao 1992, 152)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Quando os estrangeiros transgridem as leis, o Governador reúne-se com o Procurador do Senado ou convidam o Bispo para a reunião, a fim de julgarem, sentenciarem, confiscarem e dispersarem os bens da sua família. Os seus parentes levam o seu crime para Goa enquanto que o réu, submetido à prisão, aguarda a comu-nicação da forma como lhe será aplicada a pena (Tcheong e Ian 1979, 220). [estrangeiro violar lei, sol-dado chefe juntar bárbaro chefe em Leal Senado, provavelmente convidar bispo, conjunto interrogar dar sentença, confiscar bens fortuna e dispersar famila-res, ir à prisão em pequeno ocidente mar, aguardar execução pena]JGP (2009): Quando algum bárbaro transgride as leis, o bingtou convoca todos os yimu para se reunirem no Leal Senado, ou convida também o bispo para a reunião, e interrogam em conjunto o suspeito para averiguarem a verdade e darem a respectiva sentença. Confirmada a pena, os bens do criminoso podem ser confiscados e os seus familiares repatriados. O condenado seguirá par Goa, para ficar ali preso à espera da execução da pena (Yin e Zhang 2009, 206). 45理事官一曰庫官,掌本澳門蕃舶稅課、兵餉、財貨出入之數,修理城臺街道 (Zhao 1992, 152)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): É também enviado de Goa um lei-si-kun 理事官ou fu-kun 庫官 (ouvidor) para fiscalizar as contas, o direitos dos barcos dos estrangeiros em Macau, as despesas militares, o movimento da entrada e saída das mercado-rias, as reparações da muralha, das fortalezas, das ruas e das estradas (Tcheong e Ian 1979, 220-221). [gerir assunto adiminstra-dor outro nome tesoureiro, responsável por Macau estrangeiro barco cobrança de taxa, despesa militar, tesouro mercadoria saída entrada conta, reparação muralha, fortaleza, rua estrada]JGP (2009): Há um lishiguan, que se chama tesoureiro, com competências para a cobrança dos direitos dos barcos estrangeiros, a administração das despesas militares, a fiscalização das contas e das mercadorias, a reparação das muralhas, fortalezas, ruas e estradas (Yin e Zhang 2009, 207). 239
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada46蕃書二名,皆唐人 (Zhao 1992, 152)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os dois fán-sü 蕃書 (escreventes estrangei-ros) são ambos chineses (Tcheong e Ian 1979, 221). [estrangeiro escrivente dois pessoas, ambos chinês]JGP (2009): […] o qual é servido por dois escrivães, que são chineses conhecedores da língua bárbara (Yin e Zhang 2009, 207). 47字遵漢文,有蕃字小印,融火漆烙於日字下,緘口亦如之 (Zhao 1992, 153)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Esses documentos das províncias e cidades feitas de conformidade com as leis em chinês levam um pequeno selo com caracteres estrangeiros, o qual é aplica-do sobre breu derretido, no fim das letras que representam a data. Fecha-se também o documento da mesma forma (Tcheong e Ian 1979, 223). [caracter seguir chinês, haver estrangeiro caracter pequeno selo, com lacre debaixo de data, fechar carta desta maneira]JGP (2009): Toda a correspondência é feita em chinês e selada com lacre. O lacre, onde se lêem letras bárbaras miudinhas, é aplicada sobre a data do documento, que é fechado da mesma maneira (Yin e Zhang 2009, 207). 48三巴砲臺燃大炮,蕃兵肅隊 (Zhao 1992, 153)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): As fortalezas de S. Paulo salvam com as suas grandes peças e formam-se os soldados estrangeiros (Tcheong e Ian 1979, 223). [São Paulo fortaleza salva com canhão, estrangeiro soldado com parada]JGP (2009): O visitante recebe uma salva da Sanbapaotai e é honrado com uma parada militar (Yin e Zhang 2009, 208). 49如登炮臺,則蕃兵畢陳,吹角演陣,犒之牛酒 (Zhao 1992, 153)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os saldados estrangeiros alinham, tocam as cornetas e executam manobras sendo obsequiados com carne de vaca e vinho (Tcheong e Ian 1979, 224). [quando subir fortaleza, então estrangeiro soldado alinhar-se, tocar corneta fazer parada, obseguiado com carne de vaca vinho]JGP (2009): Quando visita alguma fortaleza, todos os soldados bárbaros da guarnição se apresentam. Tocan-do cornetas, fazem uma parada militar. Mais tarde é obsequiado com carne de vaca e bebidas alcoólicas (Yin e Zhang 2009, 208). 50廟惟花王、大廟、風信三分蕃戶而司其婚,餘皆否 (Zhao 1992, 155)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): As igrejas de Santo António, Sé e São Lou-renço são dividias entre a população estrangeira de Macau para nelas celebrarem os seus casamentos, que não são permitidos nas restantes (Tcheong e Ian 1979, 225). [templo somente Flor Rei, Grande Templo, Vento Mensagem três dividir estrangeiro população e presidir a seu casamento, outros não]JGP (2009): A população bárbara, em Macau, pode celebrar casamentos em Huawang, Damiao e Fengxing. As restantes igrejas não podem fazê-lo (Yin e Zhang 2009, 209). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES240
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada51遇黑奴無道,不匹配,錮之終其身,示不蕃其類也 (Zhao 1992, 155)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Quanto aos escravos negros, são tratados sem consciência, pois não os deixam ter companheiras, sendo impedidos de casar para mostrar que não são da mesma espécie que os estrangeiros (Tcheong e Ian 1979, 226). [encontrar negro escravo sem moral, não deixar casar-se, manter em escra-vatura toda vida, mostrar não estrangeiro seu espécie]JGP (2009): Os escravos negros malcomportados não são autorizados a ter companheiras, sendo mantidos em escravatura durante toda a vida, para demonstrar que nem todos os bárbaros são da mesma espécie (Yin e Zhang 2009, 210). 52歲十月,肖楮為紅毛夷,縛而走於市,諸蕃手椎追擊之,詈而出,歌而入,晚則焚於野,明季紅毛奪澳市,澳夷怨之切,歲有舉所以志之也 (Zhao 1992, 155)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): No décimo mês do ano confecionam a figura de um bárbaro holandês, em papel, amarram-no e levam-no por toda a cidade. Todos os estrangeiros o empurram, perseguem--no, espancam-no e insultam-no e, na ocasião em que o fazem sair à rua cantam e, ao anoitecer, queimam-no, no descam-pado. Na época dos Meng, os Holandeses apoderaram-se da feitoria de Macu e os bárbaros de Macau ficaram a odiá-los profundamente. Todos os anos se celebra este costume para comemorar este facto (Tcheong e Ian 1979, 226-227). [cada ano outubro, con-fecionar figura em papel Vermelho Cabelo bárbaro, amarrado andar em rua, cada estrangeiro perseguir de pau em mão, insultar para sair, cantar para entrar, à noite então queixar em cam-po, Ming época Vermelho Cabelo conquistar Macau mercado, Macau bárbaro ressentir profundamente, cada ano haver ato para memorizar acontecimento]JGP (2009): Na 10.ª lua de cada ano confeccionam-se fi-guras de papel com o aspecto de Cabelos Vermelhos, para, amarradas a paus, serem passeadas pelas ruas. Os bárbaros perseguem-nas de pau nas mãos, insultando-as. No final, cantam vitória e à noite queimam-nas num descampado. Os bárbaros de Macau ainda se ressentem dos Cabelos Vermelhos, que tentaram conquistar-lhes Macau; por isso, todos os anos realizam este acto, em memória desse acontecimento (Yin e Zhang 2009, 210-211).53蕃舶視外洋夷舶差小,以鐵力木厚二三寸者為之,錮以瀝青、石腦油 (Zhao 1992, 155-156)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): As fán-p’ôk 蕃舶(lorchas) comparadas com os i-p’ôk 夷舶(naus) de navegação oceânica são pouco mais pe-quenas, sendo construídas de t’it-lêk-môk 鐵力木(pau ferro) de duas a três polegadas de espessura, ligadas entre si, untadas com petróleo betuminoso (Tcheong e Ian 1979, 227). [estrangeiro barco com-parado com bárbaro barco mais pequeno, feito de pau ferro de espessura dois três polegada, untada com betume nafta]JGP (2009): Os barcos bárbaros de Macau são mais pequenos do que as naus de navegação transoceânica. São construídos de tielimu com dois ou três cun de espessura untado com betume e shinaoyou (Yin e Zhang 2009, 211).54二十餘年間,飄沒殆半,澳蕃生計日絀 (Zhao 1992, 156)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Dentro de uns vinte anos, os tufões reduzi-ram este número a metade. Como a vida dos estrangeiros, em Macau, se tornassem dia a dia mais precária [...] (Tcheong e Ian 1979, 227)[vinte mais anos, naufrágio desaparecer metade, Macau estrangeiro vida dia precário]JGP (2009): Numa vintena de anos, cerca de metade destes barcos desapareceu em naufrágios, o que torna a vida dos bárbaros de Macau cada dia mais precária (Yin e Zhang 2009, 211). 241
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada55,56«西蕃蓮花歌»: 西方佛有青蓮眼,西蕃花有青蓮產 (Zhao 1992, 157)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Canção do lírio dos estrangeiros do Oeste. Nas regiões ocidentais, os budas têm olhos de lírio azul. Entre as flores dos estrangeiros ocidentais encontram-se também lírios azuis (Tcheong e Ian 1979, 229). [ocidente estrangeiro lotus canção: ocidente buda ter verde lotus olho, ocidente estrangeiro flor ter verde lotus produzido]JGP (2009): No Ocidente, os Budas possuem olhos em forma de nenúfar verde, nas terras dos bárbaros do Ocidente há mesmo nenúfares verdes (Yin e Zhang 2009, 213). 57此花移自別國,不隨水土而變,不知蕃人一種尤勝也 (Zhao 1992, 157)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Transplantada para outras terras, não se aclimatam, pois transformam-se. Não sabemos, portanto, como esta espécie da flora dos estrangeiros consegue vingar (Tcheong e Ian 1979, 231). [este flor transplantado de outro país, não seguir água terra a adaptar-se, não sa-ber estrangeiro pessoa um espécie superioridade]JGP (2009): Esta flora foi transplantada de outras terras, mas conserva todas as suas características, mesmo num clima diferente. Trata-se de uma espécie botânica dos bárbaros, com grande superioridade genética (Yin e Zhang 2009, 216). 58曰蕃薯,從其本也 (Zhao 1992, 158)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979):[…] chama-lhe fán-sü 蕃薯(tubérculos estrangeiros) por causa da sua origem (Tcheong e Ian 1979, 232). [chamar estrangeiro batata, a partir de seu origem]JGP (2009): Chamam-lhe batata bárbara, por causa da sua origem estrangeira (Yin e Zhang 2009, 216). 59又有蕃荔枝,大如桃,色青,似殼非殼,擎之中有小白瓤,黑子,味如菠蘿蜜 (Zhao 1992, 159)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Têm também fán-lâi-tchi 蕃荔枝(líchias es-trangeiras, isto é, as atas ou anonas) grandes como pêssego, de cor verde e revestidas com o que se parece com uma carapaça. Abrindo-as, encontram-se no interior pequenas polpas brancas. As sementes são pretas. O seu sabor é como o da jaca (Tcheong e Ian 1979, 233). [também haver estrangeiro líchia, grande como pês-seego, cor verde, parecido casca não ser casca, dentro haver pequeno branco popla, preto caroço, sabor como jaca]JGP (2009): Também existe a fanlizhi 476, do tamanho de um pêssego, de cor esverdeada, revestida por algo seme-lhante a uma casca. Abrindo-a, encontram-se pequenas polpas brancas com caroços pretos. O seu sabor é parecido com o da jaca (Yin e Zhang 2009, 217).476: Lichia Bárbara. NT: Anona. 60丁香,樹高丈餘, [……],蕃人常口含嚼以代檳榔,亦嘗釘之牛羊肉中蒸煮而食 (Zhao 1992, 159)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): O arbusto do craveiro atinge mais de uma braça de altura […] Os estrangeiros costumam conservá--los frequentemente na boa para os chupar e mastigar, em substituição da areca, e costumam também incrustá-los nas carnes de vaca e carneiro para as cozinhar e comer. (Tcheong e Ian 1979, 233) [cravo, árvore alto zhang de altura…estrangeiro costuma mastigar em vez de areca, também espetar cravo carne bovina caprina cozer e comer]JGP (2009): Existem também cravos. A sua árvore pode atingir vários zhang de altura […] Os bárbaros costuma mastiga-lo em vez da areca ou espetá-los em pedaços de carne bovina e caprina que se cozem em banho-maria (Yin e Zhang 2009, 217). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES242
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada61其五色鸚鵡常棲丁香樹上[……]能兼蕃漢語,性畏寒,然撫摩其此則瘖 (Zhao 1992, 161)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): As cacatuas coloridas costuma empoleirar-se nos craveiros […] Podem pronunciar palavras europeias e chinesas. Teme, por índole, o frio. Se se lhes passar as mãos sobre o dorso emudecem (Tcheong e Ian 1979, 234).[seu cinco cor papagaio costumar emoleirar-se em craveiro…poder imitar estrangeiro chinês língua, por índole temer frio, mas massagem em dorso ele calar-se]JGP (2009): Os papagaios coloridos costumam empolei-rar-se em craveiros para se alimentarem de cravos ainda não amadurecidos […] Conseguem imitar palavras bár-baras e chinesas. São friorentos. Se se lhes passar as mãos pelo dorso, calam-se (Yin e Zhang 2009, 218). 62一鳥名厄馬,最大,長頸高足[……]卵可做杯器,即今蕃舶所市龍卵也 (Zhao 1992, 162)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Há um pássaro chamado ngák-má 厄馬, enorme, com o pescoço comprido, de pernas altas […] Os seus ovos podem servir de copos sendo os que actualmente os barcos estrangeiros vendem com o nome de lông-lân龍卵 (ovos de dragão) (Tcheong e Ian 1979, 237). [um pássaro chamado Ema, o maior, comprido pescoço alto perna … ovo poder ser feito copo, ou seja hoje estrangeiro barco vender dragão ovo]JGP (2009): Existe outra ave de nome ema, que é a maior de todas […] A casca do seu ovo serve para fazer copos. É o chamado ovo de dragão, que os barcos bárbaros trazem para comerciar (Yin e Zhang 2009, 219). 63蕃人謂牙為白暗,犀為黑暗 (Zhao 1992, 162)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os Europeus dizem que os dentes dos elefantes são de cor branca embaciada e os chifres dos rinocerontes de cor escura embaciada (Tcheong e Ian 1979, 238). [estrangeiro dizer marfim ser branco escuro, corno de rinoceronte ser preto escuro]JGP (2009): Os bárbaros chama baian ao marfim e heian ao corno de rinoceronte (Yin e Zhang 2009, 219). 64狗以小者為貴[……]蕃人與之同寢食 (Zhao 1992, 163)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os cães de pequeno tamanho são os mais apreciados […] Os estrangeiros dormem e comem com eles (Tcheong e Ian 1979, 238). [cão pequeno a ser apre-ciado…estrangeiro com ele conjunto comer dormir ]JGP (2009): Os cães pequenos são os mais apreciados […] Convivem perfeitamente com os seus donos bárbaros (Yin e Zhang 2009, 220). 65獴貴似貓而大[……]蕃人子女臥起抱持 (Zhao 1992, 163)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979):Os mông-kuâi 獴貴 são parecidos com os gatos, mais maiores [...] As raparigas estrangeiras, quando se levantam da cama, levam-nos ao colo (Tcheong e Ian 1979, 238).[suricata paracido com gato e maior…estrangeiro crian-ça levar suricata ao colo]JGP (2009): Existem menggui, parecidos com os gatos, mais de tamanho maior […] Os filhos dos bárbaros brin-cam com eles ao colo (Yin e Zhang 2009, 220). 243
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada66荼蘼露,以注飲饌,蕃女或以沾麗人衣 (Zhao 1992, 165)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): O t’ou-mei-ou茶蘼露(óleo de canela) é empregado para se deitar nas bebidas e nos pitéus. As raparigas estrangeiras usam-no às vezes para borrifar o vestuário das pessoas (Tcheong e Ian 1979, 241). [tumi essência, a misturar bebida petisco, estrangeiro mulher usar para perfumar beleza vestuário]JGP (2009): A essência de tumi é misturada com bebidas ou com petiscos. As raparigas bárbaras usam-na para perfumar o vestuário e o corpo (Yin e Zhang 2009, 222). 67有蕃鹽,有辣茶 (Zhao 1992, 165)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Há o fán-im 蕃鹽(sal estrangeiro) e o lát-tch’a 辣茶(chá picante) (Tcheong e Ian 1979, 241). [haver estrangeiro sal, haver picante chá]JGP (2009): Existe o sal bárbaro e o chá picante (Yin e Zhang 2009, 222). 68有蕃餑餑,上貼金勝,下烙乳酥,如紙蔫之 (Zhao 1992, 165)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Há os fán-p’ut-p’ut 蕃餑餑 (bolos estrangei-ros) feitos de creme e manteiga assados, colocados sobre uma folha de papel e revestidos duma camada alourada (Tcheong e Ian 1979, 242). [haver estrangeiro bolo, em cima colado com dourado enfeite, por baixo tostado em creme manteiga, sobre papel]JGP (2009): Os bolos bárbaros são apresentados, sobre papelinhos, com enfeites dourados em cima e tostados por baixo em manteiga derretida (Yin e Zhang 2009, 223). 69,70有柳條文,中有蕃像,而濡以礬,大者講番,小者計葉。筆以木為之,如冠簪,又有蕃銀筆,筆架以諸珍寶為之 (Zhao 1992, 174)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Têm ao meio veios e figuras de estrangei-ros, e são ensopados em água misturada com alúmen. Os grandes contam-se por fán 番e os pequenos por ip葉. Os lápis são feitos de madeira e parecem-se com os alfinetes de barretes. Há também lapiseiras de prata estrangeiras com invólucros incrustados de pedras (Tcheong e Ian 1979, 253). [haver salgueiro ramo esci-ta, dentro haver estrangeiro imagem, ensopado com alúmen, grande tamanho contar-se por fan, pequeno tamanho contar se por folha. Lápis com madeira feito parecer afinete de barrete, também haver estrangeiro prata lapis, lapis suporte com todo jóia feito ]JGP (2009): Algum papel tem escritas com ramos de salgueiro, com marcas de água com figuras bárbaras cuja face é tratada com solução de alúmen. Os papéis de tama-nho grande contam-se por fan, enquanto os de pequena dimensão se contam por folha. Os instrumentos de escrita parecem alfinetes de barretes. Também os há com cano de prata. Os seus descansos são às vezes incrustados de variadas jóias (Yin e Zhang 2009, 231). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES244
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada71在澳蕃醫有安哆呢,以外科擅名久 (Zhao 1992, 182)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Em Macau, dos médicos, há o On-tó-ni 安多尼(António), que criou a sua fama como cirurgião, há já muito tempo (Tcheong e Ian 1979, 263). [em Macau estrangeiro médico haver António, por cirurgião ser famoso há muito tempo]JGP (2009): Entre os médicos bárbaros de Macau há um cirurgião de renome, que se chama Anduoni (Yin e Zhang 2009, 241). 72又埋耶蘇石像於城閾,以蹈踐之。蓋諸蕃嚴惡之如此,中土人士及信而奉之,如恐弗及 (Zhao 1992, 185)。fan (蕃): estrangeiroLGG (1979): Os nativos enterraram, igualmente, uma estatueta em pedra, de Jesus, na fronteira da capital, para da mesma forma ser calcada, motivo por que todos os estrangeiros os odiavam tão profundamente. Os homens de letras da classe elevada (do nosso país) acreditavam e recebiam os ensinamentos (desses europeus) mas recea-vam não poder imitá-los (Tcheong e Ian 1979, 267). [também enterrar Jesus Cristo pedra imagem em limiar de cidade, para ser pisado. porque cada estrangeiro odiar Ele tanto, centro terra pessoa acre-ditar e venerar Ele, recear não imitar]JGP (2009): Além disso, foi colocada na porta da cidade uma estátua de pedra, representando Jesus, para ser pisada pelos transeuntes, o que nos dá uma ideia do visceral ódio que os bárbaros do Sudeste Asiático contra Ele alimentam. Mas algumas pessoas destas terras chinesas, além de acreditarem nesta religião, professam-na, como se pudessem perder-se se tal não fizessem (Yin e Zhang 2009, 245-246).245
Anexo II – Lista da tradução de i (夷)Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada1如與佛夷爭市,繼而通好求市者,和蘭也 (Tcheong e Ian 1979, 113);i (夷): bárbaro LGG (1979): os que disputavam o comércio aos Portu-gueses, mas tarde passaram a entender-se bem com eles, a fim de poderem implorar o trato, foram os Holandeses (Tcheong e Ian 1979, 170). [se com Folangji bárbaro disputar mercado, a seguir conciliar procurar mercado, holandês]JGP(2009): os que disputavam o comércio com os bárbaros Folangji eram os holandeses, que tentaram obter a sua amizade e autorização de comercio (Yin e Zhang 2009, 159) .2自是島夷知向學,三間瓦屋祀宣尼 (Zhao 1992, 120)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Dela vieram os seus habitantes em demanda do saber. Veneram o Sün-Ni宣尼, em três templos reves-tidos de telhas (Tcheong e Ian 1979, 178).[certamente é ilha bárbaro saber dever aprender, três casa telha telhado venerar Xuanni]JGP (2009): Os ilhéus gostam de aprender. Levantaram três casas de cal e pedra para o culto de Xuanni (Yin e Zhang 2009, 168). 3譯章曾記莋都夷,槃木白狼歸漢時 (Zhao 1992, 120)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Não traduzido.[traduzir capítulo passado registar Zuodu bárbaro, Panmu Bailang subordinar Han altura]JGP (2009): Quando os de Panmu e os de Bailang se su-bordinaram à dinastia Han, o soberano ilhéu não deixa de ter em consideração a magnanimidade de Sua Majestade (Yin e Zhang 2009, 169). 4南方蠻夷,大抵寬柔,乃其常性,百餘年間未有敢為寇盜者 (Zhao 1992, 123)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Os bárbaros do sul abusavam, grandemente, da nossa indulgência e, com referências à sua índole, não existiu, em cem anos, quem atravesse a ser tão piratas (Tcheong e Ian 1979, 185). [sul selevagem bárbaro, maioria tolerante obedien-te, ser seu natureza, centena ano não haver ousar ser pirata]JGP (2009): Falando dos bárbaros do Sul, de um modo geral são tolerantes e obedientes por temperamento. Num centena de anos nunca houve quem se atrevesse a praticar a pirataria (Yin e Zhang 2009, 172). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES246
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada5年來頗有居夷願,莫怪披圖數問人 (Zhao 1992, 131)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Finda o ano, anseiando eu muitas vezes por ir viver entre os bárbaros. (Tcheong e Ian 1979, 196) [ano recente pretender viver bárbario vontade, não estranhar consultar pintura diverso perguntar pessoa]JGP (2009): De há uns anos para cá que desejam poder vi-ver entre os bárbaros residentes (Yin e Zhang 2009, 180). 6夷人貿易者則治世類,西洋國歲遣官更治之 (Zhao 1992, 141)。 i (夷): bárbaro LGG (1979): Os bárbaros que negoceiam pertencem à classe do poder temporal, e o reino de Portugal envia todos os anos autoridades para os governar. (Tcheong e Ian 1979, 206) [bárbaro comerciante então governar mundo, ocidente mar país cada ano destacar funcionário governar ainda mais]JGP (2009): Os comerciantes subordinam-se ao zhishi. Anualmente, vêm de Xiyangguo funcionários para os governar (Yin e Zhang 2009, 191). 7澳夷罪不至死者,遣戍之,終其身無一生還者 (Zhao 1992, 142)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Os criminosos bárbaros de Macau não são executados mas enviados para lá, para a sua defesa, e não há nenhum que regresse vivo (Tcheong e Ian 1979, 207). [Macau bárbaro crime não chegar morte, destacar fronteira, terminar vida sem um vivo regressar]JGP (2009): Os criminosos bárbaros de Macau, que não sejam condenados à pena de morte, são desterrados para lá pelo resto das suas vidas não havendo ninguém que tenha de lá regressado com vida (Yin e Zhang 2009, 191). 8康熙中,馬西背約,私與他國市,澳夷怒,駕舶往所市之國責之 (Zhao 1992, 142)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Nos meados do reinado de Hóng-Hei, Má-Sâi denunciou o tratado e passou a negociar, privada-mente, com outros países. Os bárbaros de Macau ficaram então encolerizados e enviaram barcos para castigar os países com quem Má-Sâi negociava (Tcheong e Ian 1979, 207).[meados de reinado Kangxi, Maxi violar tratamento, em privado com outro país comerciar, Macau bárbaro zangado, ir de barco a men-cionado país criticar]JGP (2009): Em meados do reinado de Kangxi, Maxi, em contravenção do acordo existente, comerciava privada-mente com outros países, pelo que os bárbaros de Macau ficaram furiosos. Mandaram barcos para os países com que Maxi negociava (Yin e Zhang 2009, 191). 9居夷真不陋,翻愛日如年。居豈仙人好,家徒烏鬼多 (Zhao 1992, 146)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Os bárbaros moradores são honestos e não são ordinários. Gira o estimado Sol como o ano. Serão os moradores tão bons como os génios? Os criados das casas são em tão grande número como os diabos negros (Tcheong e Ian 1979, 211). [habitação bárbaro realmente não pobre, amar dia como ano. Habitação imortal não melhor, casa somente negro diabo mais]JGP (2009): Gosto desta moradia dos bárbaros, onde passam uma vida bem calma, não seria melhor uma casa dos imortais. Têm muitos diabos pretos que servem em suas casas (Yin e Zhang 2009, 195). 247
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada10自用夷家臘,三無近一陽 (Zhao 1992, 146)。i (夷): bárbaro LGG (1979): não traduzido.[próprio usar bárbaro casa calendário, sem três ramos terrestriais, aproximar-se Solstício]JGP (2009): Foi adoptado o calendário ocidental, o Ano Novo aproxima-se do Solstício do Inverno (Yin e Zhang 2009, 197).11澳夷奔告紅毛將犯香山,請兵、請餉、請木石以繕墉垣 (Zhao 1992, 147)。i (夷): bárbaro [Macau bárbaro correr dizer vermelho cabelo ir invadir Xiangshan, pedir soldado, financiamento, madeira pedra para reparar muralha]LGG (1979): [O]s bárbaros de Macau comunicaram, ur-gentemente, que, em virtude dos hông-mou (Holandeses) estarem prestes a invadir o distrito de Hèong-Sán, lhes eram necessárias tropas, provisões, às duas prefeituras, madeiras e pedra para repararem a muralha (Tcheong e Ian 1979, 213). JGP (2009): Os bárbaros de Macau solicitaram ao haidao interino, […], que, pelo facto de os Cabelos Vermelhos es-tarem prestes a invadir Xiangshan, com extrema urgência lhes fossem dados soldados e provisões, bem como pedras e madeira para repararem as muralhas (Yin and Zhang 2009, 199). 12此狡夷嘗我也 (Zhao 1992, 147)。i (夷): bárbaro LGG (1979):[E]stes bárbaros matreiros pretendiam apenas experimentar-nos (Tcheong and Ian 1979, 213) .[este matreiro bárbaro experimentar eu/nós]JGP (2009): [O]s bárbaros matreiros querem sondar a nossa reação (Yin and Zhang, Breve Monografia de Macau 2009, 199). 13已而夷警寂然,而澳垣日築百丈 (Zhao 1992, 147)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Depois disso os bárbaros acalmaram-se, res-peitosamente. Entretanto, a muralha de Macau foi-se, dia a dia, construindo, numa extensão de cem braças (158,14 metros) (Tcheong and Ian 1979, 213). [depois bárbaro alarme silencioso, mas Macau muralha dia construir cem zhang]JGP (2009): Enquanto a comunicação alarmante dos bárbaros se não confirmava, a muralha da cidade crescia diariamente, numa extensão de uns 100 zhang (Yin and Zhang 2009, 199-200). 14夷相視唶曰:『是故為南祠部郎,逐我王豐肅者』 (Zhao 1992, 147)i (夷): bárbaro LGG (1979): Os bárbaros, vendo tudo isto, disseram, suspirando: “Isto é obra do Secretário do Estado, que expulsou Fông-Siu 豐肅(Afonso Vagnoni). (Tcheong and Ian 1979, 213)” [bárbaro olhar mutuamente dizer: este ser ministério responsável, expular nosso rei Afonso]JGP (2009): Os bárbaros, olhando uns para os outros, lamentavam-se: “Foi este o Langzhong do Ministério dos Ritos de Nanquim que mandou expulsar Wang Fengsu.” (Yin and Zhang 2009, 200)LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES248
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada15大廟者,夷人始至澳所建也,在澳東南 (Zhao 1992, 150)。i (夷): bárbaro LGG (1979): O Tái-Miu 大廟(Igreja Grande, isto é, a Sé Catedral) foi contruída pelos bárbaros, quando chegaram, ao princípio, a Macau. Fica a sudeste de Macau (Tcheong and Ian 1979, 216). [grande templo, bárbaro primeiro chegar Macau construir, ficar Macau sudeste]JGP (2009): Aquele que se chama Damiao foi construído pelos bárbaros logo no início da sua presença em Macau (Yin and Zhang 2009, 203). 16凡夷人鰥寡煢獨,有疾不能自療者,許就廟醫 (Zhao 1992, 150)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Aos bárbaros que não têm mulheres ou que sejam viúvos e aos órfãos ou àquele que não tenham nenhum parente, sempre que adoeçam e não consigam curar por si, são permitidos que se tratem neste hospício (Tcheong e Ian 1979, 217). [todo bárbaro viúvo orfão, ter doença não próprio curar, perimitir ir a templo tratamento médico]JGP (2009): Oferece tratamento médico, dentro do hospício, a todos os bárbaros doentes, sejam viúvos, sejam órfãos, sejam desamparados sem meios próprios para a respectiva cura (Yin e Zhang 2009, 204). 17夷目有兵頭,遣自小西洋,率三歲一代,轄蕃兵一百五十名,分戍諸炮臺及三巴門 (Zhao 1992, 152)。i (夷): bárbaro LGG (1979): O Procurador do Senado e o Governador são enviados de Goa, sendo de três anos o seu período de governo. O número dos soldados estrangeiros é de 150, encontrando-se distribuídos, para guarnecerem as diversas fortalezas e a porta de São Paulo (Tcheong and Ian 1979, 220). [bárbaro chefe ter soldado chefe, enviado de pequeno ocidente mar, geralmente três ano uma geração, governar estrangeiro solado cento e cinquenta, guardar canhão fortaleza e porta de São Paulo]JGP (2009): Dos yimu410, há que se chama bingtou411. É enviado por Goa. É mudado de três em três anos. Tem sob o seu comando 150 soldados bárbaros, que guardam as fortalezas e a Sanbanmen (Yin and Zhang 2009, 206).410: Tanto o conteúdo deste frase como a utilização do plural nos levam a crer que jimu não se refere exclusivamente ao governador de Macau, como afirmam alguns estudiosos. 411: Refere-se ao governador de Macau, que foi nomeado pela primeira vez em 1623 pelo vice-rei da Índia, sediado em Goa. Começou por ser um comandante, passando depois a governador, detendo poderes militares e administrativos. NT: Corresponderia a capitão-geral. 18蕃人犯法,兵頭集夷目於議事亭,或請法王至,會鞫定讞,籍其家財而散其眷屬,上其獄於小西洋,其人屬獄候報而行法 (Zhao 1992, 152)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Quando os estrangeiros transgridem as leis, o Governador reúne-se com o Procurador do Senado ou convidam o Bispo para a reunião, a fim de julgarem, sentenciarem, confiscarem e dispersarem os bens da sua família. Os seus parentes levam o seu crime para Goa enquanto que o réu, submetido à prisão, aguarda a comu-nicação da forma como lhe será aplicada a pena (Tcheong and Ian 1979, 220). 249
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada[estrangeiro violar lei, sol-dado chefe juntar bárbaro chefe em Leal Senado, provavelmente convidar bispo, conjunto interrogar dar sentença, confiscar bens fortuna e dispersar famila-res, ir à prisão em pequeno ocidente mar, aguardar execução pena]JGP (2009): Quando algum bárbaro transgride as leis, o bingtou convoca todos os yimu para se reunirem no Leal Senado, ou convida também o bispo para a reunião, e interrogam em conjunto o suspeito para averiguarem a verdade e darem a respectiva sentença. Confirmada a pena, os bens do criminoso podem ser confiscados e os seus familiares repatriados. O condenado seguirá para Goa, para ficar ali preso à espera da execução da pena (Yin and Zhang 2009, 206). 19夷目不職者,兵頭亦得劾治 (Zhao 1992, 152)。i (夷): bárbaro LGG (1979): O Governador pode inquirir e punir os pequenos delitos daqueles por quem o Procurador do Se-nado se não responsabiliza (Tcheong and Ian 1979, 220). [bárbaro chefe não respon-sabilizar-se, soldado chefe também dever inquirir e castigar]JGP (2009): O bingtou pode ainda demitir e castigar os yimu que se mostrarem negligentes no cumprimento das respectivas funções (Yin and Zhang 2009, 206). 20, 21大紅棍於夷人就瞑時,察其貲財,而籍記之 [……] 二紅棍於夷人既沒,有子女俱幼、不能成立者,即依大紅棍所開應給之數,撫育其子女,而經理其剩餘財,待其既長婚嫁,舉以付之 (Zhao 1992, 153)。i (夷): bárbaro LGG (1979): O tái-hông-kuân, (Provedor de Santa Casa da Misericórdia?) quando os falecidos bárbaros deixarem filhos e filhas menores que não podem tratar de si mesmos, de acordo com o tái-hông-kuân, abre uma conta de subsídio para educar as suas filhas e filhos e ajuda a ad-ministrar-lhes os bens até que eles cheguem a maioridade e se casem (Tcheong and Ian 1979, 223). [Grande Vermelho Vara na altura de bárbaro morrer, verificar bens fortuna, registar em livro …Segundo Vermelho Vara na altura de bárabro morrer, com filho filha ambos pequeno, não independente, de acordo com pagamento prometido por Grande Vermelho Vara, criar criança menor, e gerir restante bens, aguardar os crescidos até se casar, restituir bens]JGP (2009): O Grande Vara Vermelha, quando morre algum bárbaro, verifica os seus bens e regista-os num livro […] compete ao erhonggun executar o registo feito pelo dahonggun para criar os filhos menores do falecido, conforme a decisão do dahonggun, e administrar os seus bens. Quando aqueles atingem a maioridade e se casam, todos os bens herdados lhes são restituídos (Yin and Zhang 2009, 207). 22夷人罪薄者置之上層,稍重者繫於中,重則桎梏於下 (Zhao 1992, 153)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Os bárbaros que praticaram crimes insigni-ficantes ficam no de cima, os de culpa pouco pesada são amarrados no do meio e os que são algemados e agrilhoa-dos ficam no de baixo (Tcheong and Ian 1979, 223). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES250
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESNúmero de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada[bárbaro crime pequeno ficar em cima, pouco pesado no meio, grave então com argola de cadeado em baixo]JGP (2009): Os presos por pequenos delitos ficam no andar de cima, os de crimes mais graves no andar do meio e os de penas maiores no rés-do-chão (Yin and Zhang 2009, 207). 23叩之澳夷,實瞢如 (Zhao 1992, 155)。i (夷): bárbaroLGG (1979): Quando se consulta os bárbaros de Macau acerca deste assunto, parecem que andam na realidade a sonhar, pois ignoram este facto (Tcheong and Ian 1979, 226). [consultar Macau bárbaro, realmente confundido]JGP (2009): Quando se consulta algum bárbaro de Macau acerca deste assunto, parece que ninguém dele tem conhecimento (Yin and Zhang 2009, 210). 24,25歲十月,肖楮為紅毛夷,縛而走於市,諸蕃手椎追擊之,詈而出,歌而入,晚則焚於野,明季紅毛奪澳市,澳夷怨之切,歲有舉所以志之也 (Zhao 1992, 155)。i (夷): bárbaro LGG (1979): No décimo mês do ano confecionam a figura de um bárbaro holandês, em papel, amarram-no e levam-no por toda a cidade. Todos os estrangeiros o em-purram, perseguem-no, espancam-no e insultam-no e, na ocasião em que o fazem sair à rua cantam e, ao anoitecer, queimam-no, no descampado. Na época dos Meng, os Ho-landeses apoderaram-se da feitoria de Macu e os bárbaros de Macau ficaram a odiá-los profundamente. Todos os anos se celebra este costume para comemorar este facto (Tcheong and Ian 1979, 226-227). [cada ano outubro, confecionar figura em papel Vermelho Cabelo bárbaro, amarrado andar em rua, cada estrangeiro perseguir de pau em mão, insultar para sair, cantar para entrar, à noite então queixar em campo, Ming época Vermelho Cabelo conquistar Macau mercado, Macau bárbaro ressentir profundamente, cada ano haver ato para memorizar acontecimento]JGP (2009): Na 10.ª lua de cada ano confeccionam-se fi-guras de papel com o aspecto de Cabelos Vermelhos, para, amarradas a paus, serem passeadas pelas ruas. Os bárbaros perseguem-nas de pau nas mãos, insultando-as. No final, cantam vitória e à noite queimam-nas num descampado. Os bárbaros de Macau ainda se ressentem dos Cabelos Vermelhos, que tentaram conquistar-lhes Macau; por isso, todos os anos realizam este acto, em memória desse acontecimento (Yin and Zhang 2009, 210-211). 26蕃舶視外洋夷舶差小,以鐵力木厚二三寸者為之,錮以瀝青、石腦油 (Zhao 1992, 155-156)。i (夷): bárbaro LGG (1979): As fán-p’ôk 蕃舶(lorchas) comparadas com os i-p’ôk 夷舶(naus) de navegação oceânica são pouco mais pequenas, sendo construídas de t’it-lêk-môk 鐵力木(pau ferro) de duas a três polegadas de espessura, ligadas entre si, untadas com petróleo betuminoso (Tcheong and Ian 1979, 227). [estrangeiro barco com-parado com bárbaro barco mais pequeno, feito de pau ferro de espessura dois três polegada, untada com betume nafta]JGP (2009): Os barcos bárbaros de Macau são mais pequenos do que as naus de navegação transoceânica. São construídos de tielimu com dois ou três cun de espessura untado com betume e shinaoyou (Yin and Zhang 2009, 211). 251
Número de ordemTexto de partida (1992) Textos de chegada27其夷目舶稅,上貨抽加,二次加一五,又次加一 (Zhao 1992, 156)。i (夷): bárbaro LGG (1979): [O] Procurador do Senado aumentou a taxa das mercadorias de qualidade superior, trazidas pelos barcos estrangeiros, em 2 por cento; de segunda qualidade, em um e meio por cento; e de qualidade ainda inferior, em um por cento (Tcheong and Ian 1979, 227). [seu báraro chefe barco imposto, alto mercadoria acrescentar, segunda vez acrescentar um cinco, mais vez acrescentar um]JGP (2009): Os chefes bárbaros aplicam impostas aos barcos. À mercadorias sujeitas a impostos de 15% sobre o respectivo valor, enquanto as de terceira ordem pagam 10% (Yin and Zhang 2009, 211).28夷目亦乘驕 (Zhao 1992, 156)。i (夷): bárbaro LGG (1979): O Procurador do Senado anda também de cadeirinhas […] (Tcheong and Ian 1979, 227)[bárbaro chefe também andar cadeirinha]JGP (2009): O yimu também andam de cadeirinha (Yin and Zhang 2009, 211). 29楚人一炬失秦官,不及蠻夷剩女紅 (Zhao 1992, 168)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Os homens de Tch’ó, incendiaram o majestoso palácio. As suas chamas não chegam a ser tão vermelhos como os trabalhos de costura deixados pelas mulheres dos bárbaros (Tcheong and Ian 1979, 244). [chu pessoa um torcha per-der Qin palácio, não chegar bárbaro deixar mulher costura]JGP (2009): Os naturais do reino Chu perderam o palácio Qin num incêndio, não foram atingidos nem os bárbaros nem os trabalhos femininos (Yin and Zhang 2009, 225).30傳聞島夷多工巧,風琴之作亦其微 (Zhao 1992, 173)。i (夷): bárbaro LGG (1979): Estes instrumentos são produzidos pelos bárbaros de Macau. E conseguem transformar a guerra em paz (Tcheong and Ian 1979, 251). [ouvir dizer ilha bárba-ro maioria habilidade, instrumento musical obra também seu micro peça]JGP (2009): Os instrumentos reproduzidos superam os dos bárbaros da Baía. Com os seus sons, consegue-se que o estridente seja suave (Yin and Zhang 2009, 229). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES252
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESApêndice Bibliografia de Luís Gonzaga Gomes, organizada pela autoraTema: China e Macau (232) § Tradução (30)Para chinês (0) Em volume (0) Em artigo (0)Para português (30)Em volume (6) Lao Tse. 1995. O Livro da Via e da Virtude. Trad. e introd. Luís Gonzaga Gomes. Pref. António Aresta. Macau: Fundação Macau. Magalhães. Gabriel de. 1957. Nova Relação da China. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Macau: Notícias de Macau. [1.ª edição] Magalhães. Gabriel de. 1997. Nova Relação da China. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Revisão: Maria da Graça Filipe. Macau: FM/DSEJ. [2.ª edição] Semedo, Álvaro. 1956. Relação da Grande Monarquia da China. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Macau: Notícias de Macau. [1.ª edição] Semedo, Álvaro. 1994. Relação da Grande Monarquia da China. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Revisão: António Carmo. Macau: DSEJ/FM. [2.ª edição] Uóng-Iêng-Lân. 1997. O Clássico Trimétrico. Versão portuguesa, introdução e no-tas de Luís Gonzaga Gomes. Trad. Chan Kai Chon. Macau: Direcção dos Serviços de Educação e Juventude.Em artigo (24) Burger, Werner. 1969. "Um amuleto em manchu". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Boletim do Instituto Luís de Camões3(1): 33-35. Macau: Imprensa Nacional. Burger, Helga. 1969. "O pao-siang t'u - as preciosas imagens de Mateus Ricci". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Boletim do Instituto Luís de Camões3(1): 47-55. Macau: Imprensa Nacional. Lao, Tse. 1951. "Tou Tak Keng- o livro da via e da virtude". Mosaico2(12): 395-410. Macau: Fundação Macau (2000). 253
Lao, Tse. 1951. "Tou Tak Keng- o livro da via e da virtude". Mosaico3(13): 31-48. Macau: Fundação Macau (2000). [s.n.]. 1953. "Citações chinesas". Mosaico5(29-30): 200-222. Macau: Fundação Ma-cau (2000). [s.n.]. 1944. "O estudo de mil caracteres". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimen-to3(2):117-129. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "Versos para a juventude escolar". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renasci-mento3(3):238-244. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "O clássico da piedade filial e os vinte e quatro exemplos da piedade filial". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento3(4):379-393. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "Os 24 exemplos da piedade filial". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renas-cimento3(5):447-469. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "As quatro obras". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimen-to3(6):594-605. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento4(1):66-85. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento4(2):113-134. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento4(3):228-246. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "As quatro obras - a suprema educação". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento4(4):331-340. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1944. "As quatro obras - o meio constante". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Re-nascimento4(6):450-466. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras - Mêncio". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimen-to5(1):16-37. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimen-to5(2):131-150. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento5(4):221-242. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento5(5):346-365. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras - discursos e diálogos". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimento5(6):413-434. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras - mêncio". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimen-to6(1):47-67. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). [s.n.]. 1945. "As quatro obras - mêncio". Trad. Luís Gonzaga Gomes. Renascimen-to6(2):124-144. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Si-Ma,Tch’Ün. 1951. Trad. Luís Gonzaga Gomes. "Biografia de Láucio extraída das memórias históricas de Si-Ma-Tch’Ün". Mosaico2(7): 12-14. Macau: Fundação Macau (2000). Uóng-Iêng-Lân. 1944. Trad. Luís Gonzaga Gomes. "O clássico trimétrico". Renasci-mento3(1):63-84. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998).LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES254
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES § Não tradução (202)Em volume (27) Gomes, Luís Gonzaga. 1941. Vocabulário Cantonense-Português. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1942. Vocabulário Português-Cantonense. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1945. O Sistema de Adopções na China. Macau: [s.n.] (Sepa-rata do Renascimento) Gomes, Luís Gonzaga. 1950. Contos Chineses. Macau: Notícias de Macau. Gomes, Luís Gonzaga. 1951. Lendas Chinesas de Macau. Macau: Notícias de Macau. Gomes, Luís Gonzaga. 1952. Chinesices. Macau: Notícias de Macau. [1.ª edição] Gomes, Luís Gonzaga. 1988. Chinesices. Macau: Instituto Cultural/ Leal Senado. [2.ª edição] Gomes, Luís Gonzaga. 1994. Chinesices. Macau: Instituto Cultural. [3.ª edição] Gomes, Luís Gonzaga. 1952. Curiosidades de Macau antiga. Macau: Notícias de Macau. (Separata do Renascimento) [1.ª edição] Gomes, Luís Gonzaga. 1996. Curiosidade de Macau antiga. Macau: Instituto Cul-tural. [2.ª edição] Gomes, Luís Gonzaga. 1953. Festividades Chinesas. Macau: Notícias de Macau. Gomes, Luís Gonzaga. 1954. Arte Chinesa. Macau: Notícias de Macau. Gomes, Luís Gonzaga. 1954. Efemérides da História de Macau. Macau: Notícias de Macau. (Separata da revista Mosaico) Gomes, Luís Gonzaga. 1954. Vocabulário Português-Inglês-Cantonense. Macau: San Chong Trading. Gomes, Luís Gonzaga. 1958. Noções Elementares da Língua Chinesa. Macau: Repar-tição provincial dos Serviços dos Correios Telégrafos e Telefones. Gomes, Luís Gonzaga. 1961.Catálogo dos Manuscritos de Macau. Lisboa: Centro dos Estudos Históricos Ultramarinos. Gomes, Luís Gonzaga. 1966. Páginas da História de Macau. Macau: Notícias de Macau. (1.ª edição) Gomes, Luís Gonzaga. 2010. Páginas da História de Macau. Macau: Instituto Inter-nacional de Macau. (2.ª edição) Gomes, Luís Gonzaga. 1972. Representação Iconográfica Gruta de Camões de Macau. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar. Gomes, Luís Gonzaga. 1973. Bibliografia Macaense. Macau: Imprensa Nacional. (Separata do Boletim do Instituto Luís de Camões) (1.ª edição) Gomes, Luís Gonzaga. 1987. Bibliografia Macaense. Macau: Instituto Cultural. (2.ª edição) Gomes, Luís Gonzaga. 1973. Museu Luís de Camões. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1979. Macau: Factos e Lendas. Lisboa: Quinzena de Macau. (1.ª edição)255
Gomes, Luís Gonzaga. 1986. Macau: Factos e Lendas. Macau: Instituto Cultural, Leal Senado. (2.ª edição) Gomes, Luís Gonzaga. 1994. Macau: Factos e Lendas. Macau: Instituto Cultural. (3.ª edição) Gomes, Luís Gonzaga. 1997. Macau: Um Município com História. Macau: Leal Senado. Gomes, Luís Gonzaga. 2010. A Derrota dos Holandeses em 1622. Série Mosaico 16. Macau: Instituto Internacional de Macau. Em artigo (175) Gomes, Luís Gonzaga. 1950. “Macau, os seus templos chineses e as suas lendárias tradições”. Mosaico1(3): 323-326. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1950. “Efemérides da história de Macau e da história dos por-tugueses na China - dezembro”. Mosaico1(4): 422-432. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1950. “Efemérides da história de Macau e da história dos por-tugueses na China - novembro”. Mosaico1(3): 301-309. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. “Efemérides da história de Macau e da história dos portugueses na China - abril”. Mosaico 2(8): 96-105. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. “Efemérides da história de Macau e da história dos por-tugueses na China - agosto”. Mosaico2(12):383-394. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. “Efemérides da história de Macau e da história dos por-tugueses na China - fevereiro”. Mosaico1(6): 649-657. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. “Efemérides da história de Macau e da história dos por-tugueses na China - janeiro”. Mosaico1(5): 548-558. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. “Efemérides da história de Macau e da história dos portugueses na China - julho”. Mosaico 2(11): 317-328. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. “Efemérides da história de Macau e da história dos por-tugueses na China - junho”. Mosaico 2(10): 238-249. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. “Efemérides da história de Macau e da história dos portugueses na China - maio”. Mosaico 2(9): 165-172. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. “Efemérides da história de Macau e da história dos portugueses na China - março”. Mosaico 2(7): 23-29. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. “Efemérides da história de Macau e da história dos por-tugueses na China - outubro”. Mosaico 3(14):114-123. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. “Efemérides da história de Macau e da história dos por-tugueses na China - setembro”. Mosaico 3(13):49-59. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1954. “Arquivo histórico de Macau - Anno de 1832 - Registo em portuguez das chapas remettidas ás authoridades chinezas pelo pro-curador de Macáo, sendo este o morador José Baptista Miranda e Lima”. Mosai-co8(50-52): 190-196. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1954. “Arquivo histórico de Macau - Anno de 1834 - Registo em portuguez das chapas remettidas as authoridades chinezas pelo procura-dor de Macao, sendo este o morador Antonio Pereira”. Mosaico8(50-52): 197-206. Macau: Fundação Macau (2000). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES256
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1955. “Arquivo histórico de Macau - Anno de 1834 - Registo em portuguez das chapas remettidas as authoridades chinezas pelo pro-curador de Macao, sendo este o morador Antonio Pereira”. Mosaico10(56-58): 122-128. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1955. “Arquivo histórico de Macau - Anno de 1834 - Registo em portuguez das chapas remettidas as authoridades chinezas pelo procu-rador de Macao, sendo este o morador Antonio Pereira”. Mosaico9(53-55): 60-72. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1955. “Arquivo histórico de Macau - Anno de 1835 - Registo em portuguez dos officios remettidas ás authoridades chinesas pelo procurador de Macao; sendo este o morador João de Deos de Castro athé 22 de fevr.º, e desde esta data athé no fim do anno o morador Francisco Antonio Perreia da Silveira”. Mosaico12(62-64): 251-252. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1955. “Arquivo histórico de Macau - Anno de 1835 - Registo em portuguez dos officios remettidos ás authoridades chinezas pelo procurador de Macao; sendo este o morador João de Deos de Castro athé 22 de fevr.º, e desde esta data athé o fim do anno o morador Francisco Antonio Pereira da Silveira”. Mosaico10(56-58): 129-140. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1955. “Arquivo histórico de Macau - Anno de 1836 - Registo em portuguez dos officios remettidas ás authoridades chinezas pelo procurador de Macáo; sendo este o cidadão Francisco Jozé de Paiva”. Mosai-co12(62-64): 253-265. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1956. “Arquivo histórico de Macau - Anno de 1836 - Registo em portuguez dos officios remettidas ás authoridades chinezas pelo procurador de Macáo, sendo este o cidadão Francisco Jozé de Paiva”. Mosai-co13(65-67): 62-70. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1956. “Arquivo histórico de Macau - Anno de 1837 - Chapas remettidas ás authoridades chinezas pelo procurador desta cidade, sendo este o cidadão Francisco Antonio Seabra”. Mosaico14(68-70): 127-142. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1956. “Arquivo histórico de Macau - Anno de 1837 - Chapas remettidas ás authoridades chinezas pelo procurador desta cidade, sendo este o cidadão Francisco Antonio Seabra”. Mosaico15(71-73): 209-221. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1950. “O loto”. Mosaico1(1): 57-64. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1950. “Os feringues”. Mosaico 1(4): 403-411. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1950. “Uma biblioteca de livros chineses em Macau”. Mosaico1(2): 163-168. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1951. “A autenticidade do Tou Tak Keng de Láucio”. Mo-saico2(10): 232-237. Macau: Fundação Macau (2000). Si-Ma,Tch’Ün. 1951. “Biografia de Láucio extraída das memórias históricas de Si-Ma-Tch’Ün”. Mosaico2(7): 12-14. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1951. “Em torno do vocabulário tou”. Mosaico2(9): 157-164. Macau: Fundação Macau (2000). 257
Gomes, Luís Gonzaga. 1951. “Láucio, o fundador involuntário do tauismo”. Mosai-co1(6): 641-646. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1951. “Os conceitos de Láucio e o tauismo”. Mosaico2(11): 307-316. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1952. “Tropos usados na gíria chinesa”. Mosaico4(19-20): 389-401. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1952. “Tropos usados na gíria chinesa”. Mosaico4(21-22): 465-476. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1952. “Tropos usados na gíria chinesa”. Mosaico5(25-26): 35-48. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1952. “Tropos usados na gíria chinesa”. Mosaico5(27-28): 135-150. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1954. “Expressões numéricas chinesas - II”. Mosai-co8(47-49): 123-136. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1954. “Expressões numéricas chinesas - III”. Mosai-co8(50-52): 179-189. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1954. “Expressões numéricas chinesas”. Mosaico7(41-43): 159-175. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1954. “Um esquecido episódio de repressão da pirataria nos mares da China”. Mosaico7(41-43): 137-141. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1955. “A antiga povoação de Liampó”. Mosaico9(53-55): 5-13. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1955. “Expressões numéricas chinesas - IV”. Mosai-co9(53-55): 47-59. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1955. “Expressões numéricas chinesas”. Mosaico10(56-58): 118-121. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1955. “Expressões numéricas chinesas”. Mosaico11(59-61): 202-210. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1956. “Expressões numéricas chinesas”. Mosaico14(68-70): 118-126. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1956. “Expressões numéricas chinesas”. Mosaico15(71-73): 201-208. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1957. “Regalias e privilégios outrora concedidos a Macau - traslado do alvará de S. Mage pello qual confirma os privillegios da cidade”. Mo-saico17(83-85): 128-152. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1957. “Regalias e privilégios outrora concedidos a Macau - traslado do alvará de S. Mage pello qual confirma os privillegios da cidade”. Mo-saico17(86-88): 163-198. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1957. “Regalias e privilégios outrora concedidos a Macau”. Mosaico17(83-85): 125-127. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A desautoração dum ‘Tghóng-Ün’”. Renascimen-to1(1): 39-45. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “Os diversos nomes de Macau”. Renascimento1(1): 55-58. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES258
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “Casas de penhor”. Renascimento1(2): 151-158. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “O notável aguarelista P. e Simão Xavier da China, S. J.”. Renascimento1(2): 171-177. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A sêda e os bordados chineses”. Renascimento1(3): 262-272. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “Influência estrangeira na arte chinesa”. Renasci-mento1(4):340-347. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A luta chinesa”. Renascimento1(4): 367-374. Ma-cau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A influência chinesa na arte europeia no século XVIII”. Renascimento1(5):432-440. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “Curiosidades chinesas - o museu do senhor José Vicente Jorge”. Renascimento1(5):485-495. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “Frutos que se comem em Macau”. Renascimen-to1(6):557-570. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A arte europeia na côrte de K’in-Lông”. Renasci-mento1(6):589-597. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A urna do tempo dos cinco génios”. Renascimen-to2(1):15-20. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A piedade filial”. Renascimento2(2):99-106. Ma-cau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “Nomenclatura dos bronzes chineses e seus orna-tos”. Renascimento2(2):139-153. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A arte de esculápio na vélha China”. Renascimen-to2(3):209-222. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A evolução dos esmaltes”. Renascimen-to2(3):232-240. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A festividade do outono”. Renascimen-to2(3):274-284. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “Como se cultiva a arte de Tespis na China”. Renas-cimento2(4):313-325. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A festividade do aprovisionamento do princípio masculino”. Renascimento2(4):334-337. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “Jade: a pedra da omnipotência”. Renascimen-to2(4):364-375. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “Geomancia”. Renascimento2(5):421-431. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “A laca”. Renascimento2(5):444-450. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “Burlando por meio de jornais”. Renascimen-to2(5):476-479. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. “Duas vezes casado com a mesma mulher”. Renas-cimento2(6):555-569. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). 259
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES Gomes, Luís Gonzaga. 1944. “A festividade das sete irmãs”. Renascimen-to4(5):401-403. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1944. “A festividade dos espíritos erradios”. Renascimen-to4(5):404-406. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1944. “A festividade dos mortos”. Renascimento4(5):407. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1944. “A rocha que provocou o nascimento dum adoptivo imperial”. Renascimento4(6):450-466. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1944. “Céramos chineses”. Renascimento4(6):507-520. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “A estranha história da pereira do nicho de Tám--Sôi”. Renascimento5(1):47-50. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “A porcelana de Kêng-Tâk-Tchân”. Renascimen-to5(2):81-102. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Como um feiticeiro se deixou vencer por um mági-co”. Renascimento5(2):110-114. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Símbolos empregados nos motivos decorativos chineses”. Renascimento5(3):156-171. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “A vingança do assassinado”. Renascimen-to5(3):190-193. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “As estradas feminina e masculina do distrito de tông-kun”. Renascimento5(4):249-252. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - I - Pérola Prodi-giosa”. Renascimento5(4):272-274. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - II - o poço dos ananases”. Renascimento5(4):275-276. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - III- o tarrafeiro”. Renascimento5(4):277-279. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - IV -castigo divi-no”. Renascimento5(4):280-283. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - V - a lenda do tem-plo da barra”. Renascimento5(4):284-287. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - VI - associação das três ruas”. Renascimento5(5):299-300. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - VII - a rocha ‘Tái--Üt’ do templo da barra”. Renascimento5(5):301-304. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - VIII - o tanque sagrado de Lin-K’âi”. Renascimento5(5):305-309. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - IX - a travessa da ponte nova e a rua da barca”. Renascimento5(5):310-311. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). 261
Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - X - a árvore dos amores contrariados”. Renascimento5(5):312-315. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XI - lán - kuâi - lâu”. Renascimento5(6):397-399. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XII - o voto do hos-pital Kèang-u”. Renascimento5(6):400-402. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XIII - a areia preta”. Renascimento5(6):403-405. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XIV -mãos de ciná-brio”. Renascimento5(6):406-409. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XV - as festividades do tem-plo de Hóng-Kông”. Renascimento5(6):410-412. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XVI - o entêrro de Tch’ôi-Ü-Sán”. Renascimento6(1):13-20. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XVII - a richa dos cinco metais”. Renascimento6(1):21-24. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XVIII - fortuna ines-perada”. Renascimento6(1):25-29. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XIX - a pérola claro--escura”. Renascimento6(1):30-32. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XX - a lapa do génio do bambual”. Renascimento6(1):33-36. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XXI - os primeiros bombeiros de Macau”. Renascimento6(2):87-89. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XXII - um feliz achado”. Renascimento6(2):90-92. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XXIII - narradores de histórias”. Renascimento6(2):93-96. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XXIV - as batatas de kat-tai”. Renascimento6)97-101. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XXV - o remendão A-Peng”. Renascimento6(2):102-105. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XXVI -Lông-T’in--Tch’ün “. Renascimento6(3):163-166. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XXVII - a festividade da deusa dos lavores”. Renascimento6(3):167-171. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XXVIII - combates de grilos”. Renascimento6(3):172-175. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XXIX - o mosteiro P’ôu--Tchâi-Sin-Ün”. Renascimento6(3):176-181. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1945. “Curiosidades de Macau Antiga - XXX - o poço de vinho”. Renascimento6(3):182-184. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES262
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES Gomes, Luís Gonzaga. 1965. “Estabelecimento das primeiras relações entre o Ocidente e o Oriente”. Boletim do Instituto Luís de Camões1(1):73-88. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1966. “Os primeiros contactos entre portugueses e chine-ses”. Boletim do Instituto Luís de Camões1(2): 159-174. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1966. “Chegam os portuguese, pela primeira vez, à China”. Boletim do Instituto Luís de Camões1(3): 267-285. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1967. “Efémero comércio português, no séc. XVI, na Chi-na do Norte”. Boletim do Instituto Luís de Camões2(1): 109-124. Macau: Impren-sa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1967. “O malogro de duas missões ao império do meio”. Boletim do Instituto Luís de Camões1(4-5): 335-353. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1968. “As vicissitudes do comércio português na China no século XVI”. Boletim do Instituto Luís de Camões2(2): 29-42. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1969. “Diversos nomes de Macau”. Boletim do Instituto Luís de Camões3(1): 57-72. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1969. “Teses divergentes sobre a origem da cidade de Ma-cau”. Boletim do Instituto Luís de Camões3(2): 123-141. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1969. “Os inícios da cidade de Macau”. Boletim do Insti-tuto Luís de Camões3(3-4): 271-295. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1970. “Reconhecimento da soberania castelhana e o iní-cio do município macaense”. Boletim do Instituto Luís de Camões4(1): 105-128. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1970. “Efémero estabelecimento dos castelhanos nas vi-zinhanças de Macau no século XVI”. Boletim do Instituto Luís de Camões4(4): 325-339. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1973. “Bibliografia macaense - I parte - publicações res-peitantes a Macau e as que nelas foram impressas nesta província”. Boletim do Instituto Luís de Camões7(1): 51-106. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1973. “Bibliografia macaense - I parte - publicações res-peitantes a Macau e as que nelas foram impressas nesta província”. Boletim do Instituto Luís de Camões7(2): 107-183. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1973. “Bibliografia macaense - I parte - publicações res-peitantes a Macau e as que nelas foram impressas nesta província”. Boletim do Instituto Luís de Camões7(3): 197-260. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1973. “Museu Luís de Camões”. Boletim do Instituto Luís de Camões7(3): 271-323. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1973. “Bibliografia macaense - corrigenda et addenda”. Boletim do Instituto Luís de Camões7(4): 411-416. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1974. “Macau na Época de Filipe II”. Boletim do Instituto Luís de Camões8(2-3): 105-139. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1947. “A velha muralha de Macau”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º5, 2 novembro 1947, ano I , p3. 263
Gomes, Luís Gonzaga. 1947. “Sa-Kong e o templo do Patane”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º6, 9 novembro 1947, ano I , p4. Gomes, Luís Gonzaga. 1947. “O fong-soi de Macau”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º7, 16 novembro 1947, ano I , p5. Gomes, Luís Gonzaga. 1947. “A exposição das aguarelas de Lâm-K’in-Tông”. Notí-cias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º7, 16 novembro 1947, ano I , p8. Gomes, Luís Gonzaga. 1947. “A colina do vento e do fogo”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º8, 23 novembro 1947, ano I , p3. Gomes, Luís Gonzaga. 1947. “O templo de lin-kái”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º9, 30 novembro 1947, ano I , p4. Gomes, Luís Gonzaga. 1947. “A casa ensombrada da rua do campo”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º10, 7 dezembro 1947, ano I , p2. Gomes, Luís Gonzaga. 1947. “Um gatuno consciencioso”. Notícias de Macau - edi-ção semanal ilustrada. n.º11, 14 dezembro 1947, ano I , p10. Gomes, Luís Gonzaga. 1947. “O extinto povoado de Macau-seak”. Notícias de Ma-cau - edição semanal ilustrada. n.º12, 21 dezembro 1947, ano I , p8. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “O algodoeiros masculino e feminino do Kêang”. Notí-cias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º15, 11 janeiro 1948, ano II , p4. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “A lapa das relações conjugais”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º16, 18 janeiro 1948, ano II , p4. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “O sapo de pedra de láp-k’âp”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º17, 25 janeiro 1948, ano II , p4. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “O dragão, monstro benfazejo”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º20, 2 maio 1948, ano I , p4. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “O pavilhão da rua dos colonos”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º23, 25 julho 1948, ano I , p3. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “O espírito da espiga verde de sá-kóng”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º24, 1 agosto 1948, ano I , p3. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “As almas penadas do as-kong”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º26, 15 agosto 1948, ano I , p3. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “O desastroso tufão de sete da septima lua”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º30, 12 setembro 1948, ano I , p3. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “O poço de cabeça grande”. Notícias de Macau - edi-ção semanal ilustrada. n.º31, 19 setembro 1948, ano I , p8. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “A república chinesa”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º34, 10 outubro 1948, ano II , p3. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “Os 36 demónios da casa dos Tcheang”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º38, 7 novembro 1948, ano II , p3. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “Sorte proporcionada por uma carpa”. Notícias de Ma-cau - edição semanal ilustrada. n.º39, 14 novembro 1948, ano II , p3. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. “A exposição de Uóng-Uân-Iok”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada. n.º43, 12 dezembro 1948, ano II , p4. Gomes, Luís Gonzaga. 1950. “24 de junho de 1622”. Notícias de Macau - edição semanal ilustrada 56, 25 junho 1950, ano II , p5.LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES264
LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICESTema: Europa (incluindo Portugal) (33) § Tradução (19)Para chinês (19)Em volume (5) Camões, Luís. 1942. Os Lusíadas, Contados às Crianças e Lembrados ao Povo. Adapt. em prosa de João de Barros. Trad. Luís Gonzaga Gomes e Tcheung Iêk Tchi. Ma-cau: Imprensa Nacional. [1.ª edição] Camões, Luís. 1972. Os Lusíadas, Contados às Crianças e Lembrados ao Povo. Adapt. em prosa de João de Barros. Trad. Luís Gonzaga Gomes e Tcheung Iêk Tchi. Ma-cau: Imprensa Nacional. [2.ª edição] Camões, Luís. 1986. Os Lusíadas, Contados às crianças e lembrados ao povo. Adapt. em prosa de João de Barros. Trad. Luís Gonzaga Gomes e Tcheung Iêk Tchi. Ilustra-ções dos alunos das escolas secundárias. Macau: Imprensa oficial de Macau. [3.ª edição] Gomes, Luís Gonzaga. 1955.葡國史畧[História de Portugal]. Macau: Associação Cultural de Macau. [tradução presumível] Pessoa, Fernando. 1959. Mensagem. Trad. Luís Gonzaga Gomes. Macau: Imprensa Nacional de Macau. [tradução parcial]Em artigo (14) Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 2(10): 263-268. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 2(11): 344-348. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 2(12): 434-436. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 2(7): 53-59. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 2(8): 123-125. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 2(9): 197-200. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 3(13): 73-78. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 3(14): 142-146. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1951. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 3(15-16): 233-242. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1952. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 3(17-18): 349-358. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1952. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 4(19-20): 429-438. Macau: Fundação Macau (2000). 265
Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1952. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaic o4(21-22): 509-518. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1952. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 5(25-26): 71-80. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga (ed.). 1952. "葡國史畧"[Breve história de Portugal]. Trad. com Zhang Yizhi. Mosaico 5(27-28): 152-158. Macau: Fundação Macau (2000).Para português (0)Em volume (0)Em artigo (0) § Não tradução (14)Em volume (0)Em artigo (14) Gomes, Luís Gonzaga. 1943. "Duarte Lôbo". Renascimento1(4): 400-403. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1943. "Grieg - o fundador do nacionalismo musical norue-guês". Renascimento2(1):29-39. Macau: FM, DSEJ, UM, IPM (1998). Gomes, Luís Gonzaga. 1947. "Gershwin e a musica de 'Jazz'". Notícias de Macau - edição semanal ilustrada 12: 10. Gomes, Luís Gonzaga. 1947. "Rimsky-Korsakoff e a Xeerazada". Notícias de Macau - edição semanal ilustrada 13:4. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. "Ondas super-sonicas". Notícias de Macau - edição sema-nal ilustrada 16:4. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. "Vida inquieta". Notícias de Macau - edição semanal ilus-trada 37: 4. Gomes, Luís Gonzaga. 1948. "T.S. Eliot". Notícias de Macau - edição semanal ilustrada 38: 1. Gomes, Luís Gonzaga. 1951. "Dmitri Dmitrievitch Shostakovitch". Mosaico 3(14): 86-95. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1951. "Duas composições de Khachaturian". Mosaico 3(13): 13-18. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1951. "Tchaikovsky e a sua obra". Mosaico 2(12): 362-368. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1953. "Leos Janacek". Mosaico 7(39-40): 117-124. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1953. "Smétana, o fundador da música moderna checa". Mo-saico 7(37-38): 11-21. Macau: Fundação Macau (2000). Gomes, Luís Gonzaga. 1974. "Documentos setecentistas portugueses no arquivo colonial da Holanda". Boletim do Instituto Luís de Camões 8(4): 235-240. Macau: Imprensa Nacional. Gomes, Luís Gonzaga. 1975. "Documentos setecentistas portugueses no arquivo co-lonial da Holanda- conclusão". Boletim do Instituto Luís de Camões9(1): 7-60. Macau: Imprensa Nacional. LISTAS DOS ANEXOS E APÊNDICES266
Em meados do século XX, Macau entra num período cultural-mente florescente. O conhecimento da língua e da cultura chinesas é apreciado. São muitas as traduções para o português, publicadas em diversos jornais, revistas e livros em Macau, pela elite macaense. A editora Colecção Notícias de Macau publica vinte e três volumes de escritos e tradução, a maioria dos quais é sobre a China e Macau, de autoria de Luís Gonzaga Gomes (1907-1976) – filho da terra. É de destacar que não é por acaso que Luís Gonzaga Gomes escreve artigos temáticos sobre a China e Macau, nem traduz obras clássicas da China somente por motivos pessoais. Tais iniciativas são uma medida estratégica de conciliação da comunidade macaense com a comunidade chinesa, que, por sua vez, contribui para a reflexão e construção da identidade macaense, especialmente, ao longo das convulsões socias, jurídico-políticas e étnicas que marcam estas décadas. O presente estudo pretende usar os conceitos como identidade, imagem e tradução, cruzando os Estudos de Imagens com os Estudos Descritivos de Tradução, para analisar as imagens construídas pelas obras de Gonzaga Gomes. Apresenta o resultado de pesquisa de arquivo para a identificação das publicações de Gonzaga Gomes e procede a uma análise paratextual e textual, a fim de desvendar as considerações poéticas e ideológicas de Gonzaga Gomes sobre a identidade macaense.9 789996 521720ISBN 978-99965-2-172-09 789996 521720ISBN 978-99965-2-172-0