• Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 1 SÍTIOS COM HISTÓRIAS Volume 2 Manuel V. Basílio Instituto Internacional de Macau
  • 2 EDITOR Instituto Internacional de Macau TÍTULO Sítios com histórias – Volume 2 AUTOR Manuel V. Basílio FOTOGRAFIA Manuel V. Basílio e Grupo “Antigas Fotos de Macau” GRAFIA E IMPRESSÃO Tipografia Vui Fong Printing Co. Ltd. TIRAGEM 400 exemplares Edição de Manuel V. Basílio Macau, Setembro de 2021. ISBN 978-99965-59-63-1
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  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 5 ÍNDICE Página Porto do Nome de Deus de Amagao ................ 7 Fortificações da Cidade de Macau ................... 41 Obras de Aterro do Século XIX ......................... 103 Obra Concessionada a Miguel Ayres da Silva .. 139 Urbanizações Extramuros................................. 171 Ouvidor Arriaga ………………............................... 219 Cheong Pou Chai ............................................... 235
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  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 7 PORTO DO NOME DE DEUS DE AMAGAO
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  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 9 A PRIMEIRA VIAGEM AO SUL DA CHINA Em 1513, Jorge Álvares foi designado pelo capitão de Malaca, Rui de Brito Palatim, para, na companhia de outros juncos chineses, rumar à “terra dos Chins”, tendo ele e outros dois portugueses partido de Pegu, num junco siamês, e dali viajado até ao ancoradouro de Tamão ou Tamang [1], situado na foz do Rio das Pérolas, próximo da ilha Lin Tin (伶仃島 , em cantonense, “Leng Teng Tou”) [2], em cujo local era permitida a ancoragem de barcos estrangeiros de reinos ou estados tributários, provenientes de Malaca, Sião e de outras localidades. A viagem destinava-se a obter informações sobre o Império Celestial e, sobretudo, as espécies de mercadorias que poderiam vir a ser comercializadas. A missão de Jorge Álvares foi bem sucedida e, por isso, foram realizadas novas expedições e, numa das quais, viajou o boticário Tomé Pires, que em 1516 partiu como o primeiro embaixador português enviado à China na frota de Fernão Pires de Andrade, com instruções para negociar junto das autoridades de Cantão e obter a necessária autorização para se deslocar até à capital chinesa, com vista a estabelecer um tratado de paz e de comércio com a China. Quando tudo parecia bem encaminhado, acontecimentos desfavoráveis tiveram lugar, designada- mente o falecimento do imperador Zhengde (正德), em Abril de 1521, acometido de doença súbita e, sobretudo, as hostilidades provocadas, em 1522, na baía de Namtao (南頭 , em cantonense, “Nám T’âu), próximo do porto de Tamão (屯門 , em cantonense, “Tün Mun”) , pela esquadra comandada por Martim Afonso de Melo Coutinho, que foi obrigado a retirar-se, após sofrer uma pesada derrota frente à esquadra
  • 10 chinesa. Este incidente veio a pôr fim à missão diplomática de Tomé Pires, tendo este e os membros da sua comitiva sido presos, acabando por morrer no cativeiro. Monumento a Jorge Álvares, na Praça de Jorge Álvares, em Macau, inaugurada a 16 de Setembro de 1954, da autoria do escultor Euclides Vaz. Jorge Álvares foi o primeiro português que chegou à China, em 1513, tendo então aportado na ilha Lin Tin (em cantonense, Leng Teng Tou, ou Nói Leng Teng Tou內伶仃島). Jorge Álvares ficará para sempre ligado à China, visto que faleceu em 8 de Julho de 1521, na sua quarta viagem a Tamão, tendo sido sepultado na ilha de Lin Tin, junto do padrão, que ele havia levantado, e ao lado do seu filho, que ali falecera em 1513. Foto MV Basilio, em 2021. Devido àquele incidente, provocado por Martim Afonso de Melo Coutinho, os chineses bloquearam, a partir de 1523, os portos do sul da China, a fim de impedir a entrada dos barcos de “homens das barbas e olhos grandes”. Só passados vários anos é que Cantão voltou a reabrir ao comércio externo. Entretanto, os portugueses não regressaram aos portos situados no sul, preferindo comercializar noutros pontos mais a norte da costa chinesa, como Liampó (Ningpo ou
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 11 Ningbo 寧波 ) [3], na província de Zhejiang (浙江 ), e Chincheu (actualmente, Quanzhou 泉州) [4], na província de Fujian. Foi nesse período que os portugueses tiveram conhecimento da existência do Japão, tendo lá estabelecido relações comerciais a partir de 1543. Com a descoberta do Japão, os portugueses criaram um intenso comércio entre Goa e Malaca com o Japão, cuja rota comercial era muito lucrativa, de tal forma que, a partir de 1550, o comércio com o Japão passou a ser um monopólio, sob a chefia de um capitão-mor. Mares por onde os portugueses navegaram, desde a costa da da província de Cantão, passando pela costa de Fujian, de Zhejiang, até ao Japão.
  • 12 Em virtude de a viagem entre a Índia e o Japão ser muito longa, havia toda a necessidade de encontrar um porto de escala no sul da China, não só para um breve período de descanso, como também para o indispensável reabastecimento. Para tal, os portugueses conseguiram reatar o comércio clandestino com chineses e aportar à ilha Sanchoão [5], que naquela altura estava fora dos limites da supervisão do Haidao [6] (ou seja, o Superintendente da Defesa Costeira), ali permanecendo e comercializando clandestinamente, durante um período de tempo. Provável rota marítima entre Malaca e Tamão, então também conhecida por “Ilha da Veniaga”, ou seja, a ilha onde os portugueses comerciavam.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 13 A situação só ficou normalizada quando, em 1554, Leonel de Sousa conseguiu negociar um acordo com o Subintendente da Defesa Costeira, Wang Bo (汪 柏, em cantonense, Wong Pák), segundo o qual concordava em pagar direitos alfandegários aos chineses, o que constituiu um ponto de viragem nas relações comerciais luso-chinesas, embora tal acordo tivesse sido feito apenas com autoridades locais. O PRIMEIRO ACORDO SINO-PORTUGUÊS Wang Bo (汪柏) foi uma figura muito importante na história do estabelecimento de Macau, por ter feito, na qualidade de haidao fushi (海道副使, ou seja, Subintendente da Defesa Costeira), o primeiro assentamento (isto é, acordo) sino-português com Leonel de Sousa, o qual permitiu a entrada dos portugueses nos portos a sul de Cantão, para realizarem actividades comerciais normais, desde que respeitassem as leis chinesas e pagassem os respectivos direitos alfandegários. Dizem que Wang Bo (aliás, Wang Tingjie) era conhecido pelas suas excelentes qualidades intelectuais e morais. Na sua carreira, ocupou importantes cargos em Cantão, designadamente o cargo de Subintendente da Defesa Costeira, que exerceu entre 1553 e 1556, tendo, seguidamente, sido transferido para o cargo de Conselheiro de Administração de Zhejiang (浙江, em cantonense, “Chit Kóng”), onde serviu até 1557, regressando, então, para
  • 14 Cantão, a fim de ocupar o cargo de Intendente da Defesa Costeira até 1559. Durante os anos da dinastia Jiajing (嘉靖, em cantonense, Ká Cheng) propagou-se a crença de que o consumo de uma droga, em cuja composição entrava o âmbar cinzento, proveniente das ilhas das especiarias, tinha poderes afrodisíacos e de longevidade. Devido à escassez do âmbar cinzento no país, os mandarins que superintendiam a defesa costeira foram encarregados da obtenção daquele produto através de mercadores estrangeiros. Wang Bo, como Subintendente da Defesa Costeira, soube como resolver a escassez do âmbar cinzento e, por isso, teve uma excelente oportunidade para demonstrar ao imperador a sua competência, que era essencial para a progressão na sua carreira. Aconteceu, entretanto, que Leonel de Sousa, capitão-mor de uma frota comercial, se encontrava no sul da China, quando Wang Bo desempenhava o cargo de Subintendente da Defesa Costeira de Cantão. Os contactos entre ambos teriam iniciado naquela altura, tendo Leonel de Sousa mostrado todo o seu empenho na negociação de um acordo que permitisse aos portugueses comercializar legalmente com a China. Nas negociações, Leonel de Sousa teve a ajuda de um mercador português, de nome Simão de Almeida, como se pode verificar na seguinte descrição que fez: “Estes negócios e paz acabei com muitos trabalhos e custo que os não posso escrever, que doutra maneira
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 15 se não puderam fazer por quão desacreditados estavam os portugueses na China; encarreguei deles a um Simão de Almeida, homem honrado, e cavaleiro, que da China tem muita experiência por navegar nela num navio seu há dias; o que fez com muita diligência, e desejos de servir sua Alteza, por algumas obrigações de seu serviço, que lhe pus diante foi sempre honradamente, e veio à sua custa; e, além do que gastou, soube que dera algumas dádivas a pessoas e oficiais do Aitão, com que negociou mais breve do que o pudera fazer sem isso …” [7] Conforme relatou, Simão de Almeida tinha muita experiência da China e, por conseguinte, era conhecedor dos usos e costumes dos chineses no que respeita a dádivas. Não parece, portanto, que o Subintendente Wang Bo tivesse sido subornado, porquanto a descrição feita por Leonel de Sousa apenas refere que Simão de Almeida “dera algumas dádivas a pessoas e oficiais do Aitão”, mas não ao Aitão, e tais pessoas poderiam ter sido comerciantes chineses que agiram como intermediários para a negociação do acordo entre Leonel de Sousa e Wang Bo, em 1554. Teriam aquelas dádivas, que eram uma prática usual na China, sido encaradas como suborno? Pelo que se sabe, Wang Bo sempre demonstrou, durante a sua carreira, ser um homem de elevada moral e de grande honestidade e, assim sendo, não se arriscaria arruinar a sua carreira oficial por um acto de suborno, a fim de permitir a entrada de comerciantes de um país não tributário. De recordar que as comitivas das embaixadas dos países ou reinos tributários que, de tempos
  • 16 a tempos, iam à Corte prestar vassalagem ao imperador, levavam os respectivos tributos e valiosos presentes. Das negociações tidas com Wang Bo, ambas as partes chegaram a acordo, designadamente, nos seguintes pontos: • A China permite a entrada dos navios mercantes portugueses no território chinês, desde que respeitem as leis chinesas. • Os comerciantes portugueses que venham comercializar com a China devem mudar a sua denominação, deixando de ser chamados folangji [8] e passando a ser “portugueses provenientes de Portugal e Malaca”, a fim de se distinguirem dos folangji, desonestos comerciantes estrangeiros, que se dedicavam ao contrabando e a outras actividades criminosas nas regiões costeiras da China, negando-se a pagar os direitos. • Os comerciantes portugueses devem pagar direitos no valor de 20% das mercadorias ou do valor real destas. Deste modo, ambas as partes encontraram uma solução que permitiu a legalização das suas actividades comerciais na China, mediante o pagamento de uma taxa, bem como reavivar o porto de Cantão, que enfrentava um empobrecimento desde que fora fechado ao comércio externo. Além disso, iniciou-se uma nova era nas relações sino-portuguesas, que desde 1522 os portugueses estavam oficialmente impedidos de comercializar, tendo tal acordo, entre Leonel de Sousa e Wang Bo, aberto caminho para o estabelecimento dos portugueses em Macau, três anos depois, em 1557.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 17 QUEM ERAM OS FOLANGJI OU FERENGI Na época das cruzadas, um movimento que se estendeu entre os séculos XI e XIII, os muçulmanos deram o nome Franj aos temíveis cruzados que combatiam para a libertação da Terra Santa e, desde então, os europeus eram designados por aquele nome, que, mais tarde, foi adulterado para ferengi, quando passou a ser também usado na Índia e em outros pontos do sul asiático. Depois, os chineses adaptaram tal termo para folangji (佛郎機, em cantonense, lê-se “fát lóng kei”), havendo, ainda, outras variantes, tais como fulangji ou feringhi. Leonel de Sousa, Capitão-Mor da Viagem do Japão [9], quando chegou à costa do sul da China em 1552, veio a saber que os estrangeiros conseguiam comerciar com a China, mediante o pagamento de taxas, excepto os "folangji", nome pelo qual os portugueses eram então conhecidos. Este nome, adoptado pelos chineses, derivou possivelmente das queixas que tinham sido apresentadas ao imperador da China, por aqueles reinos muçulmanos que eram estados tributários da China, e que foram subjugados, a ferro e fogo, pelos portugueses. Por isso, quando o referido acordo foi negociado entre Leonel de Sousa e Wang Bo, a designação “folangi”, anteriormente atribuída aos portugueses, foi substituída por “portugueses provenientes de Portugal e Malaca”, a fim de limpar a má fama que tinham os “folangji”, como piratas, contrabandistas e comerciantes desonestos, e demonstrar, desta forma, que os portugueses de facto eram mercadores, com desejos de comerciarem legalmente, pagando as devidas taxas.
  • 18 DE SANCHOÃO A LAMPACAU E, POR FIM, PARA MACAU Sanchoão ou São João é uma ilha situada a sul de Cantão, cujo nome provém da transliteração fonética de Seong Chün (上川, de Seong Chün Tou, 上川島 , ou seja, ilha de Seong Chün, ou Shàngchuāndǎo, em pinyin), onde os portugueses para lá foram em 1548, para continuar a praticar o comércio clandestino. Foi naquela ilha que S. Francisco Xavier faleceu em 1552, enquanto aguardava autorização para entrar na China e onde esteve sepultado até que os seus restos mortais foram transladados para Goa, Índia. Neste mapa vê-se: 1. A Ilha de Sanchoão (ou Sancian), situada a sul; 2. A ilha de “Lampe Kao” (ou Lampacau), situada a 6 léguas a norte de Sanchoão; e, 3. A “Ville de Macao”, no canto superior esquerdo.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 19 Por a ilha de Sanchoão estar afastada da costa marítima e não ser fácil de fiscalizar e controlar as actividades dos portugueses, no princípio do ano de 1554, “por desconfianças dos chineses, nos fizeram mudar junto com o comércio para o porto de Lampacau, que fica seis léguas ao norte de Sanchoão, onde negociamos até o ano de 1557 ...” [10]. Lampacau, um nome dado pelos portugueses, é uma transliteração fonética do chinês, Lóng Pak K’âu (浪白滘), uma ilha praticamente deserta, mas com melhores condições de habitação, comparadas com Sanchoão, visto que podiam abastecer-se com mais facilidade, por se situar mais próxima da costa chinesa. Hoje em dia, a ilha de Sanchoão praticamente não se alterou, estando bem identificado o local onde os portugueses fundearam os seus barcos e, também, a sepultura de S. Francisco Xavier, enquanto que Lampacau há muito deixou de existir, visto que a ilha, devido ao assoreamento e subsequentes aterros, está já ligada à costa chinesa e agora aquela localidade é designada por Nám Sôi (em pinying, Nanshui 南水, na zona de Jinwan 金灣區 , distrito de Zhuhai). Nessas andanças dos portugueses pelos mares do sul da China, vários deles se destacaram, designadamente Fernão Mendes Pinto, considerado o maior aventureiro e explorador português, tendo ele, em Novembro de 1555, mencionado a localidade de Amaquã, numa carta que escreveu, dirigida ao padre jesuíta Belchior Nunes Barreto, como consta do seguinte extracto [11]:
  • 20 “Mas porque hoje cheguei de Lampacau, que é o porto onde estávamos, a este Amaquao, que é outras seis léguas mais diante, onde achei o padre e mestre Belchior, que de Cantão aqui veio ter, onde era ido havia vinte e cinco dias a resgatar Mateus de Brito, que é um homem fidalgo, e outro homem, os quais custaram mil taeis, que são mil e quinhentos cruzados …” No fim da carta escreveu “de Ama Cuão, servo dos servos da Companhia, Fernão Mendes, vinte de Novembro de 1555.” A referida carta foi escrita em Amaquã [12] ou Ama Cuão (ou Amaquão, que mais tarde viria a ser denominado Macau), o que indica que os mercadores portugueses já frequentavam aquele local, mesmo antes de 1557, embora esse ano seja tido, oficialmente, como o ano do estabelecimento dos colonos portugueses em Macau. Efectivamente, não foi Fernão Mendes Pinto quem mencionou aquela localidade pela primeira vez. Já em 1515, Tomé Pires tinha escrito na sua obra Suma Oriental que “Para os lados de Cantão, existe ainda um porto, chamado Oquem, que para lá ir, por terra, são necessários três dias; se for por mar, apenas um dia e uma noite”. Ora, Oquem (transliteração de “Hou Kéng” 蠔鏡 ou 濠鏡), em mandarim, “Haojing” (蠔鏡 , espelho de ostra, ou 濠鏡 , espelho do fosso), era um dos nomes usados, sobretudo por pescadores ou mareantes chineses, para designar a localidade, que viria a ser denominada pelos portugueses por Amaquao, Amaquã, Amacuão, Amagao, Amacao, Amachao, Machoam, Machao e outras mais variantes, de que originou o actual nome de MACAU.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 21 ORIGEM DO NOME MACAU Não há dúvidas de que o nome de Macau deriva da deusa “Ma Chou” (媽祖 , “mãe ancestral”), estando o nome do Templo, que lhe é dedicado, inscrito no lintel do portal, com os caracteres chineses “Ma Chou Kók” (媽祖閣, que significa “Vestíbulo de Ma Chou”). Ma Chou, também conhecida por Tin Hau, a Raínha do Céu, é a deusa protectora do mar. É venerada por comunidades chinesas em diversas partes do mundo, designadamente em Taiwan. O templo original dedicado a Ma Chou está localizado na ilha de Meizhou (梅州), ao largo da costa de Putian (莆田 ), na Província de Fujian, onde esta deusa nasceu e ascendeu ao céu. No portal, entre as duas lanternas vermelhas, há três caracteres chineses 媽祖閣 (escritos da direita para a esquerda), os quais significam “Vestíbulo da deusa Ma Chou”
  • 22 O templo da Deusa A-Ma é também conhecido por “Ma Kók Miu” (媽閣廟) que, em meados do século XVI, era apenas uma simples estrutura, com um altar dedicado à deusa protectora dos pescadores, que lá iam venerá-la, ou lhe faziam uma vénia, quando os seus barcos de pesca por ali passavam, quer antes, quer depois da faina. Aquele Templo foi posteriormente ampliado ou reconstruído, como consta de uma inscrição no interior da soleira da porta, na qual menciona que o Templo foi construído em 1605, no 33º ano do reinado de Wanli (萬曆 , em cantonense, Mán Lek), reconstruído em 1629, no 2º ano do reinado de Chongzhen (崇禎, em cantonense, Sông Chêng) e reparado em 1828, no 8º ano do reinado de Daoguang (道光, em cantonense, Tou Kóng). Estas e outras obras, que foram realizadas, no decurso do tempo, deram ao Templo a actual configuração, com o estilo arquitectónico de “Mân Nam” (閩 南, em pinyin, “Minnan”, um dos grupos étnicos de Fujian). O santuário ou altar que existia, dedicado à deusa A-Ma, deveria estar erigido naquele sítio aquando do estabelecimento dos portugueses, e não meio século depois, como consta da referida inscrição, devendo o referido ano de 1605 ser o de reconstrução ou de ampliação. Esta certeza baseia-se, designadamente, no facto de o Pe. Mateus Ricci, que para aqui veio em 1582, proveniente da Índia, ter explicado, desta forma, a origem do nome de Macau: “Naquela península havia um ídolo que ainda hoje lá se vê, que se chamava Ama, do qual veio o nome de Amacao”. O nome dessa deusa originou, posteriormente, diversas denominações, em português, tais como Amaquã,
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 23 Amachao, Amagao, Amacao, Machao, para designar o porto, a baía ou o ancoradouro, onde os barcos portugueses aportavam e onde depois se estabeleceram. Nas diversas pesquisas efectuadas, constatou-se que uma boa parte dos mareantes ou pescadores que frequentavam os mares do sul da China eram provenientes da costa de Fujian (福建, em cantonense, lê-se “Fôk Kin”), ao longo da qual viviam chineses de diferentes etnias, cada qual com o seu dialecto próprio, os quais, durante séculos, eram, de um modo geral, designados pelos portugueses por “chincheus” (derivado de 泉州 , em cantonense, “Chin Châu”), incluindo chineses da etnia “hakká” (客家). Quanzhou é uma cidade localizada na província de Fujian, na China. Este nome apareceu em fontes jesuítas espanholas e portuguesas como Chincheo, que depois foi anglicizado como Chinchew. Era um porto frequentado por mercadores estrangeiros, mas acabou por perder a sua importância devido a assoreamento.
  • 24 Dado que os portugueses não estavam habituados a ouvir sons de tais dialectos e, presentemente, nem se sabe qual o dialecto usado pelos chineses com quem os antigos portugueses lidaram, nos primeiros contactos, por isso, cada um registava ou transliterava os nomes chineses como bem entendia ou interpretava, resultando, deste modo, uma significativa variação no registo dos referidos nomes para designar o porto de Macau. É frequente verificar em publicações de língua portuguesa que o nome de Macau deriva de Amagao e que “Ama” significa “deusa” e, “gao” quer dizer “porto” ou “baía”. Esta interpretação, porém, não está totalmente correcta, porquanto: • “Ama” não significa “deusa”. A deusa chama-se Ma Chou (媽祖) e A-Ma é apenas o nome abreviado dessa deusa. O “A” não tem qualquer significado, sendo apenas uma partícula que usualmente precede a nomes chineses. Por exemplo, se uma pessoa se chama Fong, é conhecida por A-Fong; se for Wong, é A-Wong; e, se for Leong, é A-Leong. • “Gao” não significa, nem tem qualquer sentido lógico com “porto” ou “baía”. A letra “g” é um elemento de ligação. Apenas o caracter “ao” (澳, em cantonense, lê-se “ou”) pode ter o significado de “enseada”, “baía” ou “ancoradouro”. Assim, a palavra “Amagao” é formada por (A) ma (g) ao, em que “ma” (媽) é o nome abreviado da deusa “Ma Chou” (媽祖 ) e “ao” (澳 ), em mandarim, (e também em vários
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 25 dialectos da província de Fujian), significa “enseada”, “baía” ou “ancoradouro”. As outras variantes de Amagao, tais como Amacao, Amaquão, Machoao, Machao, etc., todas elas são palavras compostas de A-Ma ou “Ma” (isto é, referente à deusa Ma Chou) e “ao” (澳 ) ou, então, “kong” (港 ) que significa “porto” ou “braço de um rio”. Assim, o nome Amaquão é uma palavra composta de Ama e quão, sendo “quão” a transliteração de “kong” (港) ou, em mandarim, “kang”. De notar que, na referida carta de Fernão Mendes Pinto, redigida em Macau, ele escreveu no fim, antes da sua identificação e data, “Ama Cuão”, que deve querer dizer “A-Ma Kong”, ou “porto de A-Ma”). Existe outro nome semelhante que é “Amacon” e que serviu de título ao livro de Charles Boxer - “The Great Ship from Amacon”. Por outro lado, o nome Machoao, uma das variantes utilizadas para designar a “enseada ou ancoradouro da deusa Ma Chou”, é mais explícito, pois é composto por “Ma cho ao”, ou seja, “Ma cho”, para designar a deusa “Ma Chou” e “ao”, para significar “enseada” ou “ancoradouro”. Por conseguinte, há duas ou três componentes que entram na formação dos referidos nomes: • uma, a deusa Ma Chou, cuja forma abreviada é “A-Ma” ou “Ma”; • outra, “ao” (cuja fonética varia em alguns dialectos chineses), que quer dizer “enseada, baía ou ancoradouro”; e
  • 26 • outra, “kong”, ou a variante “kang”, que significa “porto”. Pode-se, assim, concluir, que o nome Macau (Ma [c] ao) tem origem em “enseada ou ancoradouro da deusa Ma Chou”, no qual o “c” (bem como o “g” em Amagao) é apenas um elemento resultante da transliteração fonética, ali inserido para realçar o tom “ao” (澳 , que se lê ào, em tom grave), tal como é pronunciado em alguns dialectos chineses da província de Fujian, bem como em mandarim, ou melhor, em Putonghua, a língua oficial chinesa. Assim, as variantes que existem nas dicções, consoante o dialecto usado, deram origem a diversas transliterações fonéticas, tais como “ngao”, “gao” ou “cao”, em que os respectivos elementos “ng”, “g” ou “c” foram acrescentados apenas para dar ênfase ao caracter “ao” (澳 ) quando pronunciado nos respectivos dialectos. DE HOU KENG (濠鏡 HAOJING) PARA OU MUN (澳門 AOMEN) Durante as Dinastias Ming (1368-1644) e Qing (1644-1911), Macau era, administrativamente, parte do condado de Xiangshan (香山 , em cantonense, Heong Sán) da Província de Cantão (Guangdong). Já antes do estabelecimento dos portugueses, o porto que ali existia era conhecido por “Haojing Ao (濠鏡澳 , em cantonense, “Hou Kéng Ou”) e era um dos portos ao longo da costa de Cantão. Cerca de 1553 a 1557, do reinado do imperador Jiajing (嘉靖), da Dinastia Ming, os portugueses obtiveram autorização de oficiais
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 27 chineses para permanecerem em “Haojing” (em cantonense “Hou Kéng”), cuja localidade veio a ser o território de Macau. Além do nome “Hou Kéng” (濠鏡 Espelho do Fosso, ou 蠔鏡 Espelho de Ostras), existiram outras denominações poéticas ou literárias, que a imaginação dos escritores deu, no decurso dos tempos, tais como “Hói Kéng” (海鏡 Espelho do Mar), “Kéng Hói” (鏡海 Mar de Espelho), “Hou Kóng” (濠江 Rio do Fosso), “Kéng Wu” (鏡湖 Lago do Espelho), etc., e alguns deles ainda são usados em nomes de instituições, associações, etc., tais como na denominação do Hospital Kiang Wu ou da Escola Hou Kóng e, também, do extinto teatro, localizado na Rua da Praia do Manduco, denominado “Hói Kéng” (海鏡). Desde que os portugueses foram autorizados a fixarem-se em “Hou Kéng”, uma pequena ilha ou península ligada à então ilha de “Ansião” [13] por uma estreita faixa de terra ou istmo, a administração de Macau, durante quase trezentos anos, até 1849, foi partilhada entre a China e o governo português, a qual é atestada pela nomeação de oficiais chineses para a implementação de leis, ordens e normas chinesas no território de Macau. A partir de 1849, iniciou-se então o chamado período colonial, que durou 150 anos, até à transferência da administração portuguesa para a República Popular da China, em 20 de Dezembro de 1999. Quando os portugueses foram autorizados a permanecer em Macau, a área ocupada era relativamente pequena, tendo os colonos inicialmente se fixado à volta de um local, a que deram o nome de Patane [14], onde construíram as primeiras habitações precárias, até se deslocarem para a
  • 28 zona central e sul da península. Por isso, a denominação então dada pelos portugueses era simplesmente “Porto do Nome de Deus na China” ou “Povoação do Nome de Deus na China” e, quando foi elevada a cidade, passou a ser “Cidade do Nome de Deus na China”. Desde o início, o território ocupado pelos portugueses não tinha fronteiras definidas e aceites ou confirmadas pelas autoridades chinesas, assim como não tinha águas territoriais [15] e, por conseguinte, o “chão português” crescia ou diminuía conforme as marés, limitado pela linha de costa onde a água chegava. Nestas circunstâncias, durante séculos, a área territorial da península de Macau, estimada em cerca de 3 km2, pouco se alterou. O actual nome “Ou Mun” ( 澳 門 ) só foi adoptado oficialmente bastante depois do estabelecimento dos portugueses, o qual literalmente significa “entrada do porto ou ancoradouro” (澳 “ou”, porto, baía, doca; e 門 “mun”, porta, entrada). Há quem diga que o caracter “mun” (門), do nome “Ou Mun”, deriva de “Sâp Chi Mun” (十字 “Sâp Chi”, cruz; e 門 “Mun”, porta), devido ao posicionamento das ilhas D. João, Montanha, Taipa e Coloane, que formavam um canal em forma de cruz, por onde os barcos passavam. Por outro lado, a designação “Mun”, que também significa “entrada”, enquadra-se bem na expressão portuguesa “entrada do porto” ou “barra”, por isso, aquela extremidade sul da península é denominada Barra, que continua a ser a entrada para o Porto Interior.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 29 De salientar que o uso do caracter “mun” (門) no nome “Ou Mun” (澳門) não é caso único, porquanto há localidades não muito distantes de Macau, que possuem o mesmo caracter, como por exemplo, Mó Tou Mun (磨刀門), Fu Mun (虎門) e Kóng Mun (江門). CIDADE DO NOME DE DEUS Após o estabelecimento dos portugueses em 1557 no Porto do Nome de Deus na China, os habitantes da ilha de Lampacau começaram a mudar-se para este novo Porto, visto que existiam melhores condições de vida comparadas com aquela ilha, em que os alimentos e água eram escassos, além de não ser um bom local de abrigo. Consta que, em 1555, por ali passou um grande tufão, que destruiu praticamente todas as habitações que havia em Lampacau. Devido à mudança da população daquela ilha para o Porto do Nome de Deus, esta localidade rapidamente cresceu e em poucos anos passou a ser designada Povoação do Nome de Deus [16]. Com as condições de estabilidade que havia na nova Povoação, muito não tardou a chegada das primeiras ordens religiosas. Os jesuítas foram os primeiros a chegarem, fixando-se na zona vizinha do Patane, onde, mesmo antes de 1565, erigiram a primeira ermida ou igreja, dedicada a S. António, tendo também, ali perto, construído a Casa dos Jesuítas, que mais tarde viria a ser o Colégio de S. Paulo.
  • 30 Consta que, cerca de dez anos depois do estabelecimento dos portugueses, muitas das barracas provisórias foram sendo substituídas por casas feitas com materiais mais resistentes, tais como pedra e taipa, com cobertura de telha, de forma que, em 1564, mais de mil casas estavam construídas e, em 1569, já havia cerca de cinco a seis mil cristãos. Entretanto, as primeiras instituições começaram a surgir. Com a vinda de D. Melchior Carneiro, em 1568, este bispo criou, pouco tempo depois da sua chegada, um hospital para pobres [17] e um hospício para leprosos junto à ermida de Nossa Senhora da Esperança e, em 1569, foi fundada, por sua iniciativa, a Misericórdia de Macau. No lado esquerdo, vê-se uma igreja com a torre sineira, que era o local da Santa Casa da Misericórdia, fundada pelo bispo D. Melchior Carneiro, em 1569, a qual é a mais antiga instituição de caridade, ainda em actividade em Macau.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 31 Em 23 de Janeiro de 1576, o Papa Gregório XIII, pela bula Super Specula Militantis Ecclesiae, erigiu a Diocese de Macau, com jurisdição eclesiástica sobre a China, o Japão e as ilhas adjacentes, tendo D. Melchior Carneiro assumido o cargo de governador do Bispado até à vinda do novo Bispo de Macau, D. Leonardo de Sá, que chegou a Macau em 1581. Por aquela altura, instalou-se a crise de sucessão de 1580 em Portugal, que acabou pela união das duas coroas ibéricas e, na sequência disso, as possessões portuguesas ficaram sob o controlo da monarquia espanhola, durante a chamada dinastia Filipina. Até então, Macau não tinha o estatuto de Cidade e quem efectivamente governava a Povoação, quase sem controlo da Coroa Portuguesa, eram os mais antigos colonos, apesar de, desde os primórdios do estabelecimento, ser administrado pelo Capitão-mor das Viagens da China e do Japão, que passava mais tempo em viagens do que em terra. Como os colonos não podiam ficar à espera pelo regresso do Capitão-mor para resolver assuntos que, entretanto, surgiam, nestas circunstâncias, os ricos mercadores acharam por bem a criação de uma “Junta”, composta por três representantes de moradores, chamados “homens-bons”, escolhidos por votação, para resolver as questões de ordem pública e política de Macau, durante a ausência do Capitão-mor. Passados anos, verificou-se que a “Junta”, com apenas três membros, não era suficiente para tratar e resolver os assuntos que iam surgindo, sobretudo após a união entre Portugal e Espanha, visto que as autoridades espanholas pretendiam interferir nos assuntos locais, bem como tomar
  • 32 conta do lucrativo comércio. Como os comerciantes portugueses queriam manter Macau fora da influência espanhola, alguns dos mais notáveis moradores, com o apoio do Bispo de Macau, reuniram-se no ano de 1583 e decidiram criar um governo local semelhante às cidades de Portugal. Deste modo, foi instituído o Senado da Câmara [18], que, três anos mais tarde, em 10 de Abril de 1586, o Vice-Rei da Índia, D. Duarte de Meneses, concedeu ao dito Senado o mesmo estatuto de Cochim, cujos privilégios, liberdades e honras eram iguais aos da Câmara Municipal de Évora, tendo ainda, naquela mesma data, confirmado a denominação de Cidade do Nome de Deus na China e conferido ao Senado poderes para prover os seus oficiais por triénio, bem como outras competências. Com a criação do Senado da Câmara, foi criado também o importante cargo de Procurador, com funções específicas para lidar com autoridades chinesas na gestão dos assuntos da cidade, o qual era tratado com honras de mandarim. No ano seguinte, isto é, em 1587, foi nomeado, por carta régia, o primeiro Ouvidor de Macau, Alexandre Rebelo, com poderes judiciais, cujo cargo não estava dependente do Capitão-Mor das Viagens. Na altura da criação do Senado, já se encontravam em Macau jesuítas de grande prestígio, designadamente Matteo Ricci e Michele Ruggieri, considerados como fundadores das modernas missões católicas, os quais conseguiram, através de Macau, obter permissão para estabelecerem a residência deles na cidade de “Zhaoqing” (肇慶 , em cantonense, “Siu Heng”, uma cidade localizada a
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 33 noroeste de Cantão), bem como a primeira casa missionária jesuíta na China continental. Aspecto do edifício que serviu de instalações do Senado da Câmara. Apesar de ser um edifício de arquitectura chinesa, por cima da entrada principal há uma Coroa Real portuguesa. Desenho extraído do livro “Ou Mun Kei Leok”. Com a existência daquela estrutura do governo local, os mercadores que detinham grande influência na administração da cidade não estavam na disposição de serem interferidos ou prejudicados por espanhóis, ou pelo Governador das Filipinas, nos seus lucrativos negócios, bem como em assuntos locais, sobretudo nas relações com autoridades chinesas. Para a manutenção do “status quo” de Macau, conseguiram a autorização do Senado da Câmara, bem como a aprovação do Vice-Rei da Índia, D. Francisco de Mascarenhas, a manutenção do uso da bandeira portuguesa, porquanto foi sob essa bandeira, que Leonel de Sousa estabeleceu o acordo com Wang Bo, identificando-se como português e
  • 34 não folangi de outras nações europeias e cuja bandeira foi desde então reconhecida pelas autoridades chinesas. A substituição da bandeira do reino de Portugal por uma bandeira de outro reino poderia trazer graves consequências a Macau e ser interpretada como uma alteração do “status quo”, dificilmente explicável perante as autoridades chinesas. Não era, portanto, uma situação desejada, nem pelos ricos mercadores portugueses, nem pelos jesuítas, porquanto, ainda recentemente, Michele Ruggieri e Matteo Ricci obtiveram permissão para residirem em Zhaoqing e essa permissão era de extrema importância e tida como o primeiro passo para a expansão missionária de toda a China. Assim, os interesses na manutenção de um comércio lucrativo e na expansão missionária, servindo Macau como plataforma, impediram que a bandeira do reino de Portugal fosse arreada, continuando a mantê-la bem alto nos mastros, durante 60 anos, o período que durou a ocupação da dinastia Filipina. Em virtude de Macau ter sido o único território de todas as possessões portuguesas, que nunca içou a bandeira espanhola, o rei D. João IV atribuiu em 1654, como recompensa à lealdade da população de Macau a Portugal durante a ocupação filipina, a honrosa designação de “NÃO HÁ OUTRA MAIS LEAL”, para ser acrescentada ao nome da cidade de Macau, passando desde então a ser denominada: CIDADE DO NOME DE DEUS DE MACAU, NÃO HÁ OUTRA MAIS LEAL
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 35 O nome da cidade já era longo e, com tal acrescento, passou a ser ainda mais longo e complicado para ser dito. Por isso, em situações normais, a designação abreviada MACAO era adoptada, passando depois a escrever-se MACAU, nomeadamente após a Reforma Ortográfica de 1911, implementada em Portugal. Mesmo após a transferência da soberania do território de Macau para a República Popular da China, em 20 de Dezembro de 1999, que, desde então, passou a ter a designação de REGIÃO ADMINISTRATIVA ESPECIAL DE MACAU, esta nova Região continua a ser conhecida, em linguagem falada, simplesmente por MACAU e, na língua oficial chinesa, por AOMEN, ou seja, OU MUN (澳門), em cantonense.
  • 36 NOTAS: [1] Ainda não está bem esclarecida a localização de Tamão, cujo nome parece derivar de Tün Mun (屯門). Naquela época, Tün Mun situava-se na baía de Namtao, a sul da antiga cidade de Namtao (南頭), que presentemente faz parte de Shenzhen (深圳, em cantonense, Sâm Chân). Também existe uma localidade denominada Tün Mun (Castle Peak, em inglês), nos Novos Territórios de Hong Kong. O historiador José Maria Braga (Jack Braga), baseado num documento divulgado por Luis Keil, identificou o porto de Tün Mun (屯門) com o grande ancoradouro situado entre a ilha de Lin Tin (伶仃島) e a velha cidade de Namtao (南頭 ). Investigadores mais recentes, com base em fontes chinesas, dizem que a ilha de Tamão, referida pelos portugueses, é a actual ilha de Lantau, e o porto de Tamão era “Tung Chung” (東涌) que era uma ilha (extinta, após a construção do novo aeroporto de Chék Lap Kók 赤鱲角, de Hong Kong), então situada a noroeste de Lantau, onde os estrangeiros de reinos ou estados tributários, que vinham à China, tinham de lá permanecer e esperar para serem vistoriados e anunciados às autoridades competentes, antes de poderem seguir viagem para a cidade de Cantão. [2] Lin Tin (伶仃島) é uma ilha situada na foz do rio das Pérolas, onde Jorge Álvares desembarcou, em Junho de 1513, tornando-se, assim, o primeiro português a chegar ao sul da China. Conforme informou, levantou um padrão com armas do reino numa ilha, situada muito perto do porto de Tamão, como testemunho da sua missão. Lin Tin era também referida pelos portugueses como ilha da Veniaga. Efectivamente, não existe nenhuma ilha com esse nome, pois “veniaga” deriva do malaio “bernyega”, que significa “comerciar”. Assim, “a ilha da veniaga” era apenas o local onde os portugueses comerciavam, podendo
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 37 situar-se em Sanchoão, em Lampacau ou em qualquer outra parte da China. [3] Liampó (Ningpo ou Ningbo) foi o nome dado pelos portugueses não só à cidade de Ningpo, como também a toda a província do Chekiang (浙江 , em pinyin, Zhejiang), onde Ningpo está situada. O porto que serviu como entreposto ilegal do comércio internacional, na época em que o comércio externo era proibido pela China, não era a cidade continental de Liampó, mas sim em Shuangyu (雙嶼), que era um porto na ilha de Liuheng (六橫島), na costa de Zhejiang (浙江), na China. [4] Tal como Liampó, os portugueses chamaram Chincheu não só à cidade, como também seus arredores, incluindo parte da actual costa norte da província de Cantão, onde então comerciavam. Chincheu é uma transliteração do Chin Chau (泉州), actualmente Quanzhou, em putonghua. [5] Sanchoão (também conhecida por São João e Sancien) era a ilha onde os portugueses permaneceram, temporariamente, por volta de 1548, ali praticando o comércio clandestino até 1554. [6] Haidao (海道 ) era o Intendente da Defesa Costeira, cuja transliteração para português é Aitão. [7] Extracto da carta de Leonel de Sousa enviada ao infante D. Luís, irmão de D. João III, escrita em 15 de Janeiro de 1556, em Cochim. [8] A designação folangi ou fulangi, deriva do francês antigo francs, cujo nome também era usado por mongóis para designar os europeus. Perto do final de 1253, o monge franciscano William de Rubruck (ou Guillaume de Rubrouck), foi enviado do rei Luís IX de França à corte mongol, tendo ele sido identificado como franc, isto é, franco ou “europeu”.
  • 38 [9] Capitão-Mor da Viagem do Japão era um cargo exercido por nomeação do Vice-Rei da Índia Portuguesa. O nomeado ficava encarregue de liderar a chamada "viagem do Japão", realizada anualmente pela conhecida Nau do Trato. Esta próspera rota comercial portuguesa, que ligava Goa a Nagasaki, foi realizada de 1550 a 1639, inicialmente via Malaca e, desde 1557, via Macau. [10] Extraído de “Memórias sobre Macau”, do Bispo Saraiva. [11] Carta de Fernão Mendes Pinto. [12] Amaquã lia-se da mesma forma que Amaquão ou Ama Cuão. [13] Anção é a transliteração fonética, que Tomé Pires usou, para designar “Heong Sán” (actualmente, Zhongshan 中山 ou, em cantonense, Chông Sán). Existem outras versões escritas, tal como “Ansião”. A península que, naquela época, estava ligada a Ansião ou “Heong Sán” era por vezes referida como ilha, visto que o istmo era apenas uma estreita faixa de terra ou um areal, que ficava coberto de água com a maré cheia. [14] Patane foi o local onde os portugueses originalmente se fixaram e não, como dizem, na zona do Templo de A-Ma, visto que, naqueles tempos, na linha de costa da zona da Barra, havia enormes rochas ou rochedos, que impediam a acostagem de grandes barcos, à excepção de pequenos barcos de pesca. Pelo que se sabe, o ancoradouro utilizado pelos portugueses situava-se na zona do Patane, onde era um bom porto de abrigo. [15] A Lei sobre as águas territoriais e zonas adjacentes só foi promulgada em 20 de Dezembro de 2015 (Aviso do Chefe do Executivo n.º 128/2015), B.O. de 20.12.2015.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 39 [16] Não há dúvidas que o nome de Macau deriva da deusa Má Chou. No entanto, como na religião católica não há deusa nem ídolos, por isso se chamou Povoação do Nome de Deus. [17] O Hospital dos Pobres estava localizado, aproximadamente, no sítio onde mais tarde foi construído um edifício hospitalar, denominado Hospital de S. Rafael. O edifício fora reconstruído em 1746 e, mais tarde, novamente reconstruído e ampliado. A actual configuração data de 1939. Depois do encerramento do hospital, o edifício foi adaptado em 1988 para as instalações da Sede da Autoridade Monetária e Cambial de Macau. Actualmente, são as instalações do Consulado Geral de Portugal. [18] Senado da Câmara foi o nome dado na época para designar Câmara Municipal. O título Leal Senado só foi oficialmente atribuído, em 1810, pelo Príncipe Regente, D. João (futuro rei de Portugal, D. João VI), quando o Senado enviou uma delegação ao Rio de Janeiro para manifestar a sua lealdade ao Reino. Publicações consultadas: • Tamão dos Pioneiros Portugueses, por J. M. Braga • “O primeiro acordo Luso-Chinês realizado por Leonel de Sousa em 1554”, reproduzido e anotado por J.M. Braga (Macau, 1939); • “Revisitar os primórdios de Macau: para uma nova abordagem da História”, de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang; • Origens de Macau, de W. Robert Usellis • Wikipedia, a enciclopédia livre; • Publicações diversas em língua chinesa.
  • 40
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 41 FORTIFICAÇÕES DA CIDADE DE MACAU
  • 42
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 43 FORTIFICAÇÕES DA CIDADE Na sequência dos descobrimentos marítimos, Portugal foi estabelecendo o seu vasto império, primeiro, ao longo da costa africana e, depois, no Oriente, criando fortificações para a defesa, nos pontos estratégicos, das terras onde chegavam, designadamente em Ormuz, em Goa e em Malaca, sendo esta a maior e mais bem guarnecida de todas as fortificações. No entanto, quando se fixaram em Macau, a situação era bem diferente, visto que os portugueses que para aqui vieram eram apenas mercadores, e não guerreiros para invadir o Sul da China, o que seria inviável, porque os portugueses não podiam, de forma alguma, manter uma força regular para tal empreendimento. A principal finalidade era, portanto, criar um entreposto comercial, servindo-se do porto de Macau para trocas comerciais com a China e como porto de escala para as viagens ao Japão, onde mantinham um lucrativo comércio, desde que foi descoberto pelos portugueses em 1542. Diferentemente do que aconteceu em outras localidades do Oriente, após o estabelecimento de comerciantes portugueses em 1557, o território de Macau, durante mais de cinquenta anos, não estava devidamente fortificado com muralhas, fortes ou fortalezas, sendo a sua defesa feita por barcos equipados com a artilharia daquela época, destinados sobretudo para a luta contra piratas, que infestavam os mares do sul da China.
  • 44 Com o decorrer do tempo, além de piratas, os principais inimigos passaram a ser os holandeses, que aos poucos foram tomando controlo de grande parte do comércio no Extremo Oriente, devido aos conflitos entre Espanha e Holanda. É que, com a unificação entre as coroas espanhola e portuguesa a partir de 1580, as possessões do Império Português passaram a estar também sob o reino da Espanha e, por conseguinte, as possessões na Ásia foram alvo de ataques por holandeses, que fundaram em 1602 a Companhia Holandesa das Índias Orientais, com a sigla VOC [1], a fim de criar um império ultramarino próprio e retirar dos portugueses e espanhóis as suas principais rotas comerciais. Macau passou por tempos difíceis após a anexação de Portugal pelo rei Filipe II da Espanha (que era, ao mesmo tempo, Filipe I de Portugal), porque os principais inimigos da Espanha eram os holandeses e os ingleses, que invejavam a prosperidade dos portugueses em Macau. Deste modo, em princípios do século XVII, os olhos dos holandeses estavam postos em Macau, visto que, apesar do seu florescente comércio, era uma cidade praticamente indefesa. As movimentações da esquadra holandesa ao largo da costa de Macau em 1601 foram um preocupante sinal de alerta, tanto à população, como aos jesuítas, que foram os primeiros religiosos a virem para Macau e aqui estabeleceram o Colégio de S. Paulo em 1565, com a missão
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 45 de formar missionários para a evangelização no Oriente, sobretudo na China e no Japão. Efectivamente, em princípios do século XVII, barcos holandeses já navegavam em mares da China, havendo notícias de holandeses terem tomado de assalto naus de portugueses carregadas de mercadorias que partiram de Macau para Malaca e para o Japão. No entanto, as primeiras tentativas dos holandeses para tomar a cidade de Macau foram em 1603 e 1604. Foi então que os jesuítas sentiram a necessidade de proteger as suas propriedades à volta do Colégio, bem como a nova igreja de S. Paulo, que tinha sido inaugurada na noite de 24 de Dezembro de 1603. Um troço da muralha construída pelos jesuítas em 1606, que descia do baluarte sudoeste da Fortaleza do Monte, o qual ainda existe dentro do Colégio Ricci, junto das Ruínas de S. Paulo. Foto MV Basilio, em 2021.
  • 46 Construiu-se então uma cerca muralhada para proteger aquelas propriedades dos jesuítas e também para albergar os desprotegidos habitantes, sobretudo mulheres e seus filhos, em caso de um ataque à cidade, visto não haver fortalezas. Aquela cerca, construída por jesuítas, ficou concluída em 1606 e o material utilizado era uma amalgama de areia, argila, cal de ostra, pedra e terra, etc., designada por chunambo, e cujo processo de construção consistia em camadas horizontais daquela amalgama, muito apertadas umas sobre as outras. Nova tentativa dos holandeses para tomar a cidade teve lugar em 1607, mas sem sucesso, possivelmente para testar a capacidade defensiva da cidade. Seguidamente, houve um período de acalmia, em virtude da chamada “Trégua dos Doze Anos”, firmada em 1609, entre a Espanha e as Províncias Unidas (lideradas pela Holanda e Zelândia). Macau beneficiou daquela trégua, mas não ficou totalmente livre de um futuro ataque dos holandeses. Assim, terminada a trégua em 1621, as Províncias Unidas retomaram a guerra contra a Espanha, e não só, pois, logo no ano seguinte, os holandeses voltaram com uma poderosa esquadra para se apoderar da cidade de Macau. Sendo os holandeses protestantes, seguidores do Calvinismo, os jesuítas previram desde cedo o perigo de um ataque desses anticatólicos, e caso a cidade de Macau fosse tomada por eles, os portugueses perderiam todo o negócio e os religiosos ficariam privados da sua missão de evangelização no Oriente. Por isso, os jesuítas estavam
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 47 determinados em edificar algumas fortificações, designadamente um forte, no cimo de uma colina, para a defesa da cidade, embora com objecções por parte das autoridades chinesas, que duvidavam das verdadeiras intenções de uma obra de grande envergadura. Mesmo assim, a construção da fortaleza na colina de S. Paulo do Monte teria sido iniciada por volta de 1616, sob a direcção de jesuítas, cuja obra foi tolerada pelas autoridades chinesas, provavelmente por serem membros da Companhia de Jesus, com alguma influência na corte de Pequim, devido à reputação do jesuíta Matteo Ricci ou, então, mediante condições que foram estipuladas, depois de três dos principais moradores de Macau terem ido a Cantão em 1612, a fim de exporem a necessidade de fortificar a cidade. Na sequência daquela visita a Cantão, construíram a partir de 1613, três redutos ou fortins em pontos estratégicos – um, em Santiago da Barra, outro, em S. Francisco e, um terceiro, em Bom Parto, para a defesa costeira, em caso de um ataque do inimigo. A COBIÇA DOS HOLANDESES POR MACAU A Companhia Holandesa das Índias Orientais, em poucos anos após a sua fundação, tornou-se muito poderosa, devido à armada que conseguiu criar, tendo conseguido, através de assaltos e conquistas às possessões portuguesas, instalar-se em vários pontos do Índico, com o objectivo de monopolizar os interesses e as rotas que estavam nas mãos dos portugueses.
  • 48 Naquela época da dinastia Ming, que governou a China até 1644, o comércio directo com Japão era proibido, devido aos temíveis “wokou” (倭寇 , em cantonense, lê-se “wó k’âu” e, em japonês, wakō) que eram piratas ou contrabandistas japoneses, que pilhavam e traficavam na costa marítima chinesa. Esta situação beneficiou os portugueses, que utilizaram o porto de Macau para actuarem como intermediários do comércio sino-japonês, ficando com a exploração de uma importante e muito lucrativa rota comercial entre Macau e Nagasaki, no Japão. Sendo um negócio altamente rentável, depressa despertou a cobiça dos holandeses e, para retirá-lo dos portugueses, tinham que ocupar Macau, de modo a terem uma base comercial que lhes permitisse o fácil acesso aos mercados chineses. Por conseguinte, o seu grande alvo era a conquista da cidade de Macau. OS HOLANDESES TENTARAM NOVAMENTE TOMAR MACAU O receio dos moradores de Macau de que os holandeses tentariam, mais cedo ou mais tarde, apoderar-se da cidade nunca foi posto de parte e tal receio veio a confirmar-se quando, no dia 22 de Junho de 1622, apareceu ao largo de Macau uma poderosa armada holandesa de 14 navios [2], a que se juntaram 2 embarcações inglesas, cuja armada tinha partido de Batávia (actual Jacarta), onde a Companhia Holandesa da Índia Oriental tinha a sua sede, com o objectivo de efectuar o planeado ataque, sob o comando do almirante Cornelius Reijersen.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 49 No dia seguinte à chegada, dia 23 de Junho, enviaram dois barcos, que se aproximaram da costa, para fazer o reconhecimento do terreno. Entretanto, para desviar as atenções dos defensores, naquele dia, três navios holandeses fizeram os primeiros disparos contra o forte de S. Francisco. Gravura de Joan Nieuhof, de 1665, reproduzindo, de forma fantasiada, o ataque dos holandeses à cidade de Macau. Este ataque dos holandeses ocorreu numa altura em que a maioria dos moradores se encontrava fora de Macau, porquanto era a época das compras em Cantão para a viagem anual ao Japão, restando assim pouco mais de duas centenas de homens capazes de pegarem em armas para combater, os quais incluíam mosqueteiros, moradores da cidade, frades dominicanos, jesuítas e escravos. O local escolhido para desembarque de cerca de 800 soldados holandeses foi a praia de Cacilhas [3], o qual se deu pela manhã do dia 24 de Junho, pouco depois do nascer do
  • 50 sol, visto que naquele local não havia qualquer tipo de defesa ou fortificação. Prevendo o iminente ataque, um grupo de moradores, liderado por António Rodrigues Cavalinho, ficou entrincheirado num banco de areia da praia, tentando impedir o desembarque dos holandeses, fazendo disparos a tiro de mosquete. Os atacantes, porém, conseguiram chegar à praia e, em seguida, queimaram um barril de pólvora molhada, a fim de fazer uma cortina de fumo e facilitar o desembarque dos soldados holandeses. Apesar disso, os moradores que procuravam defender a cidade foram favorecidos pela sorte, pois logo no início do combate, o almirante Reijersen foi atingido no ventre por uma bala e caiu ferido, tendo sido retirado imediatamente. Entretanto, não sendo possível deter a fúria do inimigo, pois os defensores estavam em inferioridade numérica, António Cavalinho deu ordem de retirada e, enquanto se retiravam, viravam-se para disparar, a fim de causar alguma confusão ao inimigo. Retrocederam até a uns penhascos que havia na encosta da colina da Guia e puseram-se de emboscada por cima de uma zona descoberta por onde os invasores teriam de passar para chegarem à cidade. Os oficiais encarregados dos fortes de S. Francisco e de Bom Parto, ao tomarem conhecimento do ataque, enviaram reforços, que se juntaram aos mosqueteiros sob as ordens
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 51 do capitão João Soares Vivas, a fim de fazer frente ao avanço das tropas inimigas, enquanto que o Capitão-mor das Viagens do Japão, Lopo Sarmento de Carvalho, mais um punhado de homens, guardava a via de acesso à cidade, porquanto, naquele sítio não havia sequer muralha ou porta da cidade para impedir o avanço dos inimigos, a não ser um bambual [4] que existia ali próximo. Perante este cenário, o exército holandês, enquanto marchava em direcção à cidade, estava surpreendido por não ver gente, nem mesmo resistência à sua frente, desconfiando, assim, que alguma emboscada estava a ser montada, provavelmente atrás de um bambual ou de alguns penhascos. Porém, o exército holandês assim que chegou ao sítio conhecido por fontinha (que, depois, passou a ser conhecido por Campo da Vitória), deu-se o momento decisivo no ataque inimigo, quando o Pe. Jerónimo Rho, um italiano e grande matemático jesuíta, disparou do cimo da Fortaleza de S. Paulo do Monte, ainda em construção, uns tiros de canhão, um dos quais atingiu em cheio um vagão carregado de pólvora, causando logo uma enorme explosão no meio do exército holandês, matando e ferindo mais de uma centena. Foi um golpe fatal, que liquidou todas as esperanças dos holandeses e, se tal não tivesse acontecido, o resultado poderia ter sido muito diferente. O pavor foi geral e todo o exército inimigo ficou desorientado. Vendo-os em pânico, mosqueteiros portugueses, moradores e escravos, que estavam a defender a cidade, começaram, aos gritos de guerra e com grande alarido, a perseguir os fugitivos, matando-os ou ferindo-os conforme podiam.
  • 52 A debandada foi geral. Entretanto, houve um grupo de invasores que ainda tentou subir à árida e rochosa colina da Guia, mas sem sucesso, acabando por retroceder em direcção à praia de Cacilhas e procurar chegar rapidamente aos navios que se encontravam ao largo. Quando alcançaram a praia, os que podiam, fugiram em botes, um dos quais, muito superlotado, se afundou, enquanto que vários outros, quando tentavam chegar aos barcos a nado, morreram afogados. Todos aqueles que não conseguiram escapar, renderam-se, ficando prisioneiros juntamente com os que estavam feridos. Em terra, deixaram espalhados cerca de três centenas de holandeses mortos em combate, juntamente com bandeiras, tambores, uma peça de campanha, alabardas, espadas e mosquetes. Esta vitória foi para Macau um milagre e a salvação foi atribuída a S. João Baptista, visto que a batalha se deu no dia 24 de Junho. Depois dessa batalha, os vitoriosos portugueses e muitos residentes foram à Sé Catedral dar graças pela vitória, tendo o Senado prometido, dali em diante, igual comemoração na véspera da festa de S. João Baptista e, também, proclamada aquela data como DIA DA CIDADE [5]. CONSTRUÇÃO DE MURALHAS DEFENSIVAS A vitória sobre os holandeses foi considerada como um tremendo triunfo dos portugueses, porquanto os holandeses foram humilhados, apesar de disporem de uma força militar muito superior.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 53 O Vice-rei de Cantão felicitou o Senado pelo êxito alcançado na defesa da cidade. Só a partir de então é que as autoridades chinesas se aperceberam de que, caso os portugueses fossem derrotados por outros bárbaros ocidentais, estes poderiam trazer sérios problemas à China. Por conseguinte, autorizaram os portugueses a reforçar a defesa da cidade. Entretanto, com receio de novos ataques, solicitaram ao Vice-rei da Índia a nomeação de um governador que se encarregasse da defesa da população e, tendo esse pedido sido atendido, foi designado para aquele cargo D. Francisco Mascarenhas, que chegou a Macau em Julho de 1623 com uma companhia de soldados. D. Francisco Mascarenhas, como primeiro governador de Macau, deu início, logo após a sua chegada, à construção de muralhas, a partir da fortaleza do Monte, bem como à conclusão do 4º baluarte desta fortaleza, tendo esta obra ficado terminada em 1626 [6]. Uma das principais muralhas então construídas foi a que passou a ser conhecida por muralha norte, que descia da fortaleza do Monte pela encosta da colina, indo até ao vale, onde uma das portas da cidade – a Porta do Campo, foi ali aberta. A partir dessa Porta, a muralha subia até a um ponto mais elevado, onde foi erigido um pequeno forte, conhecido por baluarte de S. João e, a partir dali, subia outro pano de muralha até ao cimo da colina, onde assentava o forte de S. Jerónimo. Construiu-se ainda mais outro pano de muralha que ligava este último forte à fortaleza de S. Francisco. Uma outra muralha, construída durante o governo de D. Francisco Mascarenhas, foi aquela que descia entre os
  • 54 baluartes noroeste e nordeste da fortaleza do Monte e que, passando depois pelas extremas das Hortas de S. Paulo (actualmente, junto da Rua de Tomás Vieira), ia ligar à Porta de Santo António [7] e, dali, continuava até ao início da actual Rua do Patane, onde, mesmo no gaveto, foi construído um forte, denominado forte do Patane, que tinha 3 plataformas, cada uma provida de uma peça de artilharia. A secção da muralha que partia deste forte, contornava a colina do Patane, indo até à Praia Pequena. Macau ca. 1626. Legendas: 1) Forte do Patane; 2) Fortaleza do Monte; 3) Fortim de S. João; 4) Forte de S. Jerónimo; 5) Forte de S. Francisco; 6) Fortim de S. Pedro; 7) Fortim de Bomparto; e, 8) Forte de S. Tiago da Barra. Era naquela zona do Patane que existia também uma outra porta da cidade, conhecida em chinês por Sá Lei T’âu Mun (沙梨頭門), ou seja, Porta do Patane, conforme se pode verificar numa gravura publicada no livro “Monografia de Macau”, de Yin Guangren e Zhang Rulin.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 55 FORTE DO PATANE A construção do forte do Patane foi muito contestada pelas autoridades chinesas, por acharem que não se destinava à defesa dos inimigos vindos de fora, mas sim contra os próprios chineses, uma vez que as peças de artilharia estavam direccionadas para o norte, assim como aquele troço da muralha do Patane, que estava voltado para o interior da China. Por conseguinte, exigiram a sua demolição. A via do lado direito é a Rua do Patane, que começa na Rua do Coelho do Amaral, em frente da Rua da Rosa, e termina na Rua da Pedra. A Rua do Patane, em chinês, é também conhecida por “Seak Cheong Kai” (石牆街 , isto é, Rua da Parede de Pedra), e era essa parede que circundava a colina do Patane, passando pela Travessa de Palanchica e, em seguida, pela encosta junto da Praia Pequena, formando então a tal muralha, mandada construir pelo governador Francisco Mascarenhas, para a defesa da cidade. No gaveto (onde está um altar de rua), era o local onde foi erigido o Forte do Patane que as autoridades chinesas exigiram a demolição, bem como toda aquela muralha que então estava voltada para a China. Foto MV Basilio, em 2020.
  • 56 O governador Mascarenhas opôs-se, mas o Senado cedeu às exigências das autoridades chinesas, acabando por demolir não só aquele forte, como também 500 braças [8] da muralha voltada para o interior da China. Hoje em dia, ainda se podem ver restos daquela muralha, designadamente na zona da Travessa do Patane. Existiu ali um pátio, já extinto, denominado Pátio da Atalaia, que terminava na Travessa da Palanchica, junto da Travessa do Patane, cujo nome sugere ter provavelmente ali existido uma torre ou posto de vigia. Troço da muralha que ainda existe na Travessa do Patane. Foto MV Basilio, em 2021 BALUARTE DE S. JOÃO O baluarte de S. João, encravado no troço da muralha que subia até ao alto da colina de S. Jerónimo, servia para
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 57 guardar a Porta do Campo e vigiar toda aquela planura do sopé da Guia, pois estava direccionado para a estrada do Campo. Este baluarte já se encontrava em ruínas em finais do século XIX, tendo sido demolido aquando do saneamento da Horta da Mitra, ordenado pelo governador Tomás de Sousa Rosa, para a construção de um novo bairro, no qual foram abertas novas vias públicas. Nada resta daquele antigo baluarte, que deveria situar-se próximo do local onde hoje é a Travessa de S. João, uma via constituída por dois troços separados, sendo o primeiro na Rua da Colina e o segundo na Rua da Surpresa. FORTE DE S. JERÓNIMO Este forte foi construído no cimo da colina de S. Jerónimo e servia de apoio às fortalezas da Guia e de S. Francisco, por se situar entre estas duas fortalezas. Pescadores na Praia Grande, vendo-se no lado direito o Convento de S. Francisco bem como o forte. No cimo da colina corre uma muralha até ao forte de S. Jerónimo. Esboço de George Chinnery.
  • 58 Do forte de S. Jerónimo, corria um pano de muralha até à Fortaleza de S. Francisco. No entanto, quando o governador Visconde de S. Januário mandou construir o Hospital Militar, no local que ele próprio escolheu, um grande troço da muralha teve de ser destruído e, dessa muralha, ainda resta um troço de cerca de 50 metros, junto da subida da Estrada de S. Francisco. Além desse troço, resta também um pedaço de muralha, no cimo da Estrada do Visconde de S. Januário, o qual fazia parte do pano de muralha que descia até ao baluarte de S. João. Troço da muralha que restava em 2004, o qual outrora corria para o Forte de S. Jerónimo. Foto MV Basilio. Em finais do século XIX, o forte de S. Jerónimo ainda existia, mas já em mau estado de conservação, o qual por Ordem à
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 59 Força Armada foi mandado desarmar em 22 de Fevereiro de 1877. Em princípios do século XX, foram ali feitas obras de beneficiação e construídas umas instalações, destinadas ao Observatório Meteorológico de Macau, que ali funcionou, a partir de 1904, até ser transferido para a Fortaleza do Monte, em 28 de Junho de 1966. Tanto o forte como a colina de S. Jerónimo já não existem, visto que, depois daquele Observatório ter sido transferido, o forte foi demolido e, seguidamente, a colina foi sendo arrasada e terraplanada, por fases, a partir de princípios dos anos sessenta do século XX, para dar lugar à construção do Pavilhão de Neuropsiquiatria e, por fim, nos anos 80, o terreno foi totalmente reaproveitado para a ampliação das instalações do Centro Hospitalar Conde S. Januário, tendo naquele local sido construído o edifício de Consultas Externas. Vista parcial de Macau. Em primeiro plano, é a colina de S. Jerónimo, no cimo do qual ainda se vê o Forte de S. Jerónimo. Em baixo, no lado esquerdo, vê-se o antigo Hospital Conde de S. Januário.
  • 60 FORTALEZA DE S. FRANCISCO Devido à ameaça de um ataque de inimigos, sobretudo de holandeses, foram construídos os fortins ou baluartes de S. Francisco, de Bom Parto e de S. Tiago da Barra a partir de 1613 para a defesa da linha costeira desde o extremo da Praia Grande até à zona sul da península. Eram edificações relativamente simples, visto que as autoridades chinesas ainda não permitiam a construção de grandes fortificações, por recearem que fossem utilizadas contra os chineses. Por isso, houve ocasiões até confundiam ou suspeitavam que uma simples igreja ou ermida fosse um forte. No lado esquerdo, vê-se parcialmente o Forte e o Convento de S. Francisco; ao centro, a muralha que descia do Forte de S. Jerónimo; e, no lado direito, a Fortaleza da Guia. Aguarela de George Chinnery Inicialmente, era apenas um fortim construído junto ao Convento de S. Francisco, com os canhões direccionados para o canal da Taipa. Apesar de ter sido apenas um fortim, desempenhou uma importante função de defesa aquando
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 61 do ataque dos holandeses, tendo até danificado o “Gallias”, um dos três barcos que estavam a fazer fogo, ao largo de Macau, em 23 de Junho de 1622, dia anterior ao ataque à cidade. Só após o ataque dos holandeses é que as autoridades chinesas autorizaram o reforço da defesa da cidade, tendo então sido feitas obras de melhoramento e de ampliação, em 1629, passando a ser uma fortaleza. Em 1632, foi acrescentada uma plataforma na parte inferior da fortaleza, como se pode ver num desenho de Thomas B. Watson. Vista da Fortaleza e do Convento de S. Francisco. Desenho de Thomas Boswell Watson, que foi discípulo, amigo e médico do pintor George Chinnery. A fortaleza de S. Francisco fazia parte do Convento de S. Francisco, construído por frades espanhóis, o qual esteve em actividade até que foi encerrado em Outubro de 1834, devido à extinção e expulsão de todas as ordens religiosas no ultramar português, passando toda aquela propriedade a pertencer à Fazenda Nacional.
  • 62 Em 1864, apesar da contestação do Leal Senado e de moradores, foram demolidos o convento e a igreja de S. Francisco, por ordem do Governador José Rodrigues Coelho do Amaral e cuja demolição tinha sido autorizada por portaria do Ministro da Marinha e Ultramar de 30 de Março de 1861, para ali se construir um quartel para o Batalhão de 1ª. linha. Ao tempo da construção do quartel, a fortaleza também sofreu alterações, passando a ter uma configuração mais regular, com dois bastiões circulares, respectivamente na muralha este e oeste, sendo esta construída em blocos de granito. O Quartel de S. Francisco, que passou a ser assim designado, entrou em funcionamento no dia 30 de Dezembro de 1866. Aspecto da Bateria Rasante de 1 de Dezembro
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 63 Em 1 de Dezembro de 1872, foi lançada a primeira pedra para construção de uma fortificação abaixo do quartel de S. Francisco, sendo autor da planta o Capitão de Engenharia Dias de Carvalho. Para comemorar aquela data, a fortificação foi designada Bateria Rasante 1º de Dezembro, que tinha uma ligação subterrânea entre o quartel e a bateria. Devido aos aterros da Praia Grande, que se iniciaram em 1931, aquela bateria foi demolida em 1934. Anos mais tarde, ficou instalada no Quartel de S. Francisco a Companhia de Metralhadoras e, em 1951, para substituir esta Companhia, foi criado o Esquadrão Motorizado, que depois passou a designar-se Esquadrão de Cavalaria Motorizado. Nesse mesmo Quartel esteve sediado o Comando Territorial Independente de Macau (CTIM) desde 1949 até à sua extinção a 31 de Dezembro de 1975, cuja data marcou o fim da presença militar portuguesa em Macau. Em consequência disso, a 1 de Janeiro de 1976, foi ali instalado o Comando das Forças de Segurança de Macau (FSM) e, sob o seu comando único, ficaram integradas as corporações militarizadas, como a Polícia de Segurança Pública, a Polícia Marítima e Fiscal, a Polícia Municipal e o Corpo de Bombeiros. Os militares que, entretanto, ficaram em Macau, transitaram para estas FSM até cessarem as suas funções. Em 1990, foi extinto o Comando das FSM e foram criados simultaneamente o cargo de Secretário-Adjunto para a
  • 64 Segurança e a Direcção dos Serviços das Forças de Segurança de Macau. FORTALEZA DE SÃO TIAGO DA BARRA Tal como a Fortaleza de S. Francisco, era inicialmente um baluarte ou forte, que já existia antes de 1622, tendo sido ampliado após o ataque dos holandeses em 1622 e, transformado em fortaleza, e cuja obra teria ficado concluída em 1629, porquanto esse ano estava assinalado num padrão de pedra com as armas reais de Portugal, colocado no ângulo exterior da fortaleza, na direcção de Bugio [9]. O Forte da Barra, como também é conhecido, foi erigido num local estratégico, cuja função era a defesa do canal com acesso ao porto interior e de toda a zona sul. Era naquela época uma importante fortificação, muito sólida e com uma considerável dimensão, de forma que, vista de longe, parecia uma cidadela, por causa das várias edificações e casernas para alojar 60 soldados. Havia um reduto no topo da colina para servir de refúgio. Dentro do forte, existia uma cisterna, que recolhia a água que brotava de uma rocha, com capacidade para 3.000 litros. Ao nível do solo, havia armazéns para munições e abastecimentos. Dada a sua importância, o capitão da fortaleza era nomeado directamente pelo rei, não sendo permitido ao capitão-geral da cidade substituí-lo, excepto em caso excepcional,
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 65 podendo então nomear um interino, até nova nomeação pelo rei. A fortaleza sofreu várias alterações ao longo do tempo, não só na configuração como também na área que ocupava, designadamente motivadas por tufões, tal como o tufão ocorrido em 1738, tendo sido reparada e parcialmente reconstruída em diversas ocasiões. Aspecto da Fortaleza de S. Tiago da Barra. Desenho de Marciano Baptista, ca. 1875. A capela sob a invocação de São Tiago foi também reparada ou reedificada em 1740 e, segundo consta, já existia anteriormente, por isso o nome da fortaleza é São Tiago da Barra, sendo S. Tiago, o orago, e Barra, a entrada para o porto interior. A respeito deste santo, outrora existiu uma lenda local de que o santo patrulhava à noite, dentro e fora da fortaleza e, quando regressava de madrugada à capela, vinha com as botas enlameadas. Havia um soldado
  • 66 destacado diariamente para limpar as botas, o qual, ao chegar junto da imagem, achava uma moeda, que, segundo a lenda, o santo ali deixara, junto das botas, como retribuição ao soldado, que prestou o serviço. Após a reedificação em 1740, a sua plataforma principal albergava doze canhões de calibre 24 e quatro de calibre 50. Mais acima na colina havia uma casa da guarda e, ainda, seis canhões de calibre 24. Porém, no século seguinte, em 1876, num relatório elaborado pelo Major de Engenharia, Augusto Supico, referia que “de todas as fortificações de Macau, é a fortaleza de São Tiago da Barra, a que se acha em piores condições ...” e que, estando em tal estado, “é completamente inútil para a defesa de Macau, nem se presta a sofrer modificações, que a coloquem em melhores condições”. Por isso, a sua reconstrução se limitou “ao levantamento da muralha que actualmente se acha derrocada”. Daí se vê que, com o avanço da tecnologia militar, o sistema defensivo de Macau deixou de ter a importância do passado. A partir de princípios do século XX, a fortaleza foi parcialmente demolida, devido à construção da Avenida da República, bem como ao alargamento da Rua de S. Tiago da Barra, cujas obras implicaram a demolição da plataforma que existia ao nível do solo. Por falta da devida manutenção, as instalações da fortaleza foram caindo em ruína e, por não ter qualquer utilidade para fins defensivos, durante a Segunda Guerra Mundial, os
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 67 antigos canhões foram vendidos, a fim de adquirir arroz para alimentar não só os residentes, como também os refugiados provenientes de Hong Kong e da China. Com a extinção do Comando Territorial Independente de Macau e a afectação dos bens e infra-estruturas militares ao domínio público, a partir de 1976, esta Fortaleza passou a estar a cargo dos Serviços de Turismo de Macau, a fim de ser aproveitado para fins turísticos. Anos depois, toda a área da Fortaleza foi concessionada a uma entidade particular, tendo então sido requalificada e convertida em pousada, segundo um projecto do arquitecto macaense Nuno Maria Roque Jorge. Esse empreendimento turístico, designado Pousada de S. Tiago, foi inaugurado em 1982. Com esta e outras obras feitas a partir de princípios do século XX, a Fortaleza da Barra ficou reduzida a menos de metade da área de outrora. FORTE DE NOSSA SENHORA DO BOM PARTO Localizado no sopé da colina da Penha, voltado para o lado leste, o Forte de Nossa Senhora do Bom Parto, originalmente um simples baluarte, teria sido erigido entre 1613 e 1622, o qual integrava as primeiras fortificações de Macau, servindo de apoio não só à Fortaleza de São Francisco, como também à Fortaleza de São Tiago da Barra, que defendia o acesso ao porto interior. Por isso, a parte dianteira tem a forma triangular, com peças montadas, de
  • 68 um lado, em direcção a nordeste e, do outro, em direcção a sul. Havia uma muralha, denominada muralha sul, que partindo do Forte, subia a encosta da colina na direcção oeste e ia terminar na ermida de Nossa Senhora da Penha de França. Tinha uma porta de acesso, aberta na muralha próximo do Tanque do Mainato, a que chamavam Porta do Tanque do Mainato, que deixou de existir, quando um troço daquela muralha foi demolido em 1825, abrindo uma via que, mais tarde, em 1847, lhe foi dado o nome de Rua de Tanque do Mainato. Este topónimo foi alterado em 1955 para Rua do Comendador Kou Hó Neng. O Forte de Nossa Senhora do Bom Parto, no último quartel do século XIX, vendo-se a muralha que corria para a ermida de Nossa Senhora da Penha. Consta que o Forte foi desactivado em 1892 e uma parte da estrutura foi demolida, para dar lugar à construção de uma nova via, a partir da Rua da Praia do Bom Parto até junto da
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 69 Fortaleza da Barra, cuja via ficou concluída em 1910 e inaugurada em Janeiro do ano seguinte. Para celebração da implantação da República Portuguesa em 5 de Outubro de 1910, aquela nova via foi designada Avenida da República. Em virtude das referidas obras, restam apenas partes da muralha original. O vértice do triângulo, parcialmente destruído durante as obras, foi então reconstruído e a junção dos dois muros foi arredondada com blocos de granito. Forte do Bom Parto, no aspecto actual. A parte de frente resultou da reconstrução do Forte, com blocos de granito, assim como parte da parede do lado esquerdo. Ainda se vêem, tanto no lado esquerdo como no lado direito, as respectivas ameias na antiga muralha feita de chunambo. Foto MV Basílio. Em 1928, as instalações do Forte passaram a pertencer aos Serviços da Marinha, as quais serviram para residência do
  • 70 Capitão dos Portos e, anos depois, em 1934, para qualquer dos oficiais da Armada em serviço na Capitania dos Portos. Depois da transferência da administração portuguesa para a República Popular da China, as moradias existentes dentro do Forte passaram a fazer parte, como instalações de apoio, do antigo Hotel Bela Vista, que presentemente serve de residência oficial do Cônsul-Geral de Portugal em Macau. FORTIM DE S. PEDRO O fortim de S. Pedro estava localizado sensivelmente na parte central da baía da Praia Grande, entre a Fortaleza de S. Francisco e o Forte de Nossa Senhora do Bom Parto. Fortim de S. Pedro, em finais do século XIX. No lado esquerdo, parcialmente encoberto pela folhagem das árvores, vê-se a antiga Casa da Guarda, que depois serviu para as instalações do Correio. No lado direito, vêem-se a colina da Guia, com a fortaleza e o farol; a colina de S. Jerónimo, com o forte no topo, e o Hospital Conde de S. Januário.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 71 A sua construção foi depois do ataque dos holandeses. Há referências de que já existia em 1638 e, por conseguinte, teria sido erigido por volta de 1630, pois foi naquela altura que diversas obras de ampliação ou de reforço foram feitas a outras fortificações existentes. Conforme mostra uma planta antiga, esta pequena fortificação tinha cinco ameias para a colocação de canhão, parecendo mais com uma bateria rasante, pois o muro não era alto. Junto ao forte, havia uma rampa para atracação de embarcações, onde outrora pessoas ilustres, incluindo governadores, desembarcaram ou embarcaram. Até meados do século XIX, o fortim estava equipado com cinco canhões, embora a sua importância, em termos defensivos, tivesse sido substancialmente reduzida, em comparação com o passado. Apesar disso, em ocasiões festivas, o fortim servia para homenagear entidades importantes, fazendo dali uma salva de tiros de canhão, tal como determinou a Portaria nº 28, de 1864, que, sendo no dia 31 de Outubro o aniversário de Sua Majestade El-Rei o Sr. D. Luís I, “ao meio dia, o fortim de S. Pedro e a fortaleza do Monte salvem com 21 tiros, começando a salva do Monte ao segundo tiro no fortim.” Embora tivesse sido apenas um fortim, a sua configuração sofreu alterações, sobretudo depois do tufão que assolou Macau em 1874, visto que “foi quase todo destruído pela
  • 72 força das vagas na ocasião da grande inundação … quebrou-se o grande mastro da bandeira e toda a artilharia foi arrojada à praia…” O reduto ou fortim de S. Pedro foi demolido em 1934, devido ao aterro da baía da Praia Grande, o qual estava localizado, mais ou menos, no sítio onde presentemente está implantado o monumento ao navegador português Jorge Álvares. FORTALEZA DA GUIA A colina da Guia é a elevação mais alta da península de Macau, com uma altura de 90 metros. A ermida de Nossa Senhora da Guia teria sido erigida depois de 1622, quando ali se construiu a fortificação. Não se sabe exactamente quando é que a colina foi fortificada. Há quem diga que antes de 1622 já existia no cimo da colina uma pequena fortificação. Muito provavelmente não, pois, se existisse, teria sido utilizada naquele ano, aquando do ataque dos holandeses, para defender a zona norte da cidade, disparando lá do alto os tiros de canhão, a fim de impedir o desembarque dos invasores na praia de Cacilhas. Por conseguinte, é de crer que, só depois do ataque dos holandeses, os portugueses é que viram a necessidade de criar uma fortificação adequada no cimo da colina da Guia. A construção teria iniciado depois de 1622, como consta da
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 73 seguinte inscrição, gravada em pedra, colocada na parede junto da entrada da fortaleza: ESTE FORTE MANDOU FAZER A CIDADE À SUA CUSTA PELO CAPITÃO D’ARTILHARIA ANT. RIBR. RAIA. COMEÇOU-SE EM SETEMBRO DE 1637, ACABOU-SE EM MARÇO DE 1638, SENDO GERAL DA CÂMARA DE NORONHA Apesar de a referida inscrição indicar que o forte foi construído pelo Capitão de Artilharia António Ribeiro Raia, entre 1637 e 1638, quando Domingos da Câmara de Noronha era capitão geral de Macau, há, no entanto, uma descrição feita por António Bocarro, na qual refere que no ano de 1635 existia lá um baluarte com cinco canhões, o que leva a crer que este baluarte foi ampliado ou reconstruído dois anos depois, a fim de transformá-lo num forte ou fortaleza. Há um dado curioso referente ao material usado na construção da fortaleza, pois, em vez do tradicional chunambo, utilizou-se o granito, por ser o material que ali abundava. A fortaleza tem a configuração trapezoidal e, apesar de haver algumas variações ou divergências em plantas de construção de épocas diferentes, a estrutura principal da fortaleza não sofreu grandes alterações, mantendo-se praticamente o traçado original, tal como hoje se apresenta, e os acrescentos posteriores, designadamente o farol e
  • 74 edificações adicionais, não afectaram a configuração da fortaleza. Tal como outras fortificações construídas nos anos 20 e 30 do século XVII, a Fortaleza da Guia nunca teve um desempenho efectivo na defesa da cidade, porquanto depois do ataque de 1622 e, ainda, do último confronto com holandeses, que ocorreu em 1627, em que foram novamente derrotados numa batalha naval, liderada por Tomás Vieira, os holandeses nunca mais voltaram a atacar a cidade de Macau. Apesar de todas aquelas obras feitas no passado, a Fortaleza serviu, ao longo de séculos, principalmente, de posto de vigia, visto que naqueles tempos a cidade recebia aviso “de navios que se avistam no mar, quer venham do Norte ou do Sul, do Japão ou de Manila, para entrar no seu porto. Logo que se avista qualquer, toca-se o sino ... e, segundo as maneiras como for tocado, indica de qual lado eles aparecem” [10], o que revela a existência de um sino, provavelmente mais antigo que aquele colocado em 1707 no campanário, ao lado da capela. O actual sino tem a seguinte inscrição: ESTE SINO FOI FEITO PARA USO DE- STA ERMIDA DE N. S. DA GUIA EM O ANNO DE 1707 SENDO PREZIDENTE DELLA E CAPITAO GERAL DESTA CIDADE DIOGO DE PINHO TEIXEIRA
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 75 No lado oposto desse sino, lê-se a seguinte inscrição: NO ANNO DE 1824 SENDO ADMINISTRADOR DESTA CAPELLA DE N. S. DA GUIA O COMENDADOR DOMINGOS PIO MARQUES MANDOU POR SUA ORDEM REFUNDIR DE NOVO ESTE SINO QUE SE ACHAVA RACHADO POR MUITAS PARTES ACRESCENTANDO MAIS METAL DE COBRE AFORMOZEANDO ASSIM NA FIGURA COMO NA VOZ FOI IGUALMENTE SAGRADO E BAPTIZADO COM O S.S. NOME DE MARIA PELO EXMO BISPO GOVERNADOR D. FR. FRANCISCO DE N. SRA. DA LUZ CHASSIM, AOS 30 DE JUNHO DA ERA UT SUPRA. Esse sino, ainda colocado no campanário, outrora servia não só para a própria capela, como também para sinalizar as horas, ou então, quando se avistava um incêndio na cidade, dava o sinal de alarme à população. Há uma estrada que circunda a meia encosta da colina, aberta nos anos 20 do século XX, denominada Estrada do Engenheiro Trigo [11], também conhecida por “circuito das trinta e três curvas”, que actualmente faz parte do chamado Circuito de Manutenção da Colina da Guia. Ora, até à saída da Guarnição Militar Portuguesa de Macau em 1976, a zona situada acima daquela Estrada era zona militar restrita, não sendo permitido o acesso de pessoas não autorizadas à Fortaleza, excepto o dia 5 de Agosto, em que a capela era aberta ao público para a festa de Nossa Senhora das Neves, onde, pela manhã, se celebrava uma missa, com boa participação de fiéis católicos.
  • 76 Fora da Fortaleza, mas dentro da referida zona militar, foram executadas obras de melhoramento de estruturas de defesa, não só em 1911, durante o governo de Álvaro Machado de Melo, como também entre os anos de 1926 e 1956, e cujas obras incluíram galerias subterrâneas e baterias de artilharia. Toda a rede de defesa então construída, como medida preventiva de um eventual ataque, nunca chegou a ser utilizada e desde há muito tempo que está desactivada, mantendo-se um dos túneis aberto ao público apenas para fins turísticos. Presentemente, a Fortaleza mantém um mastro, colocado na parte sudoeste da fortaleza, o qual serve para hastear a bandeira da Região Administrativa Especial de Macau, bem como o sinal de tufão, quando é preciso anunciar aos habitantes o grau de tempestade tropical que se aproxima, estando todos os sinais guardados no compartimento de entrada da fortaleza. Tal como outras fortificações, construídas em pontos considerados estratégicos, sobretudo no século XVII, a Fortaleza da Guia nunca foi utilizada para fins defensivos. O FAROL DA GUIA Uma das edificações existentes dentro da fortaleza é o farol, que é uma obra arquitectónica de beleza singular, construído em 1864, sob a direcção do próprio governador Coelho do Amaral, o qual entrou em funcionamento no dia 24 de Setembro do ano seguinte, tendo o então capitão do
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 77 Porto de Macau, José Eduardo Scarnichia, publicado um Aviso aos Navegantes, datado de 2 de Outubro de 1865, informando que “desde a noite de 24 do mês passado se começou a acender um novo farol, construído na fortaleza de Nossa Senhora da Guia, da Cidade de Macau”. A torre do farol, de alvenaria de pedra, em forma de tronco de cone, foi erigida com a intervenção directa do governador Coelho do Amaral, tendo o engenhoso maquinismo de projecção de luz, que funcionava com um candeeiro a petróleo, sido construído segundo um projecto da autoria do macaense Carlos Vicente da Rocha. O farol da Guia representa o primeiro farol moderno erigido no Extremo Oriente, originalmente com 13,5 metros de altura [12], tendo na base um diâmetro de 7 metros e, no topo, 5 metros. O interior consta de 3 níveis, com uma escada em espiral que sobe ao piso seguinte e ali há outra escada, que sobe até ao nível superior, e que, depois da reconstrução, passou a ser um varandim. É a partir daquele ponto alto que a luz do farol é projectada. Lamentavelmente, cerca de dez anos depois da entrada em funcionamento, o farol sofreu vários danos causados por um tufão. Esse tufão, um dos mais violentos que Macau registou, atingiu a cidade na noite de 22 para 23 de Setembro de 1874, tendo causado avarias no sistema de luz e consideráveis estragos na torre do farol. Numa notícia publicada no Boletim da Província, em 30 de Janeiro de 1875, dava conta que “já começou a demolição
  • 78 do antigo farol” e, no mês seguinte, em 13 de Fevereiro, noticiou ainda que “foi mandado construir na plataforma da fortaleza da Guia um farol provisório, de madeira, aproveitando o aparelho de iluminação do antigo farol”. Por conseguinte, o farol manteve-se em funcionamento com o antigo aparelho de iluminação, tendo então sido demolida apenas a parte superior da torre que ficou muito danificada pelo tufão e, no ano seguinte, depois de reconstruída, o farol voltou a “funcionar regularmente na noite de 23 do corrente mês”, como consta do Aviso aos Navegantes, assinado pelo Capitão do Porto João Eduardo Scarnichia, em 24 de Setembro de 1875. Capela de Nossa Senhora da Guia e Farol da Guia. Foto de MV Basilio, tirada em Julho de 2020, quando o Farol esteve aberto à visita do público. Esta situação ter-se-á mantido até que, por Portaria nº 12, de 27 de Janeiro de 1910, foi aprovada a importância de $1.200,00 para a montagem na antiga torre de um novo farol, passando o topo a ter actual configuração, o qual
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 79 começou a funcionar em 28 de Junho daquele ano, equipado com uma aparelhagem moderna de rotação, vinda de Paris, com lentes de Fresnel, de 3ª ordem, de luz branca de grupos de relâmpagos de 10 em 10 segundos de tempo e com o alcance de 25 milhas. Apesar das contrariedades que enfrentou ao longo da sua existência, o farol serviu de guia para a direcção certa e para o destino seguro aos navegantes que se dirigiam a este porto e, hoje em dia, mesmo deixando de ter aquela importância do passado, o Farol da Guia continua a ser um marco assinalável na história de Macau, por ter sido o primeiro farol que iluminou esta costa marítima do sul da China. Farol com lentes de Fresnel, de 3ª ordem, instalado em 1910. Foto de MV Basilio, em Julho de 2020
  • 80 ARBORIZAÇÃO DA COLINA DA GUIA Durante séculos, a colina da Guia não estava arborizada e, portanto, o solo era árido e rochoso, como se pode constatar em pinturas ou gravuras do século XIX e, até mesmo, em fotografias de finais daquele século. Por isso, aquando da invasão dos holandeses, o avanço deles era visível, assim como todo o movimento durante o ataque e, quando foram postos em debandada, devido à explosão causada por um tiro de canhão que atingiu um barril de pólvora, muitos fugiram pela encosta da colina da Guia, à vista dos soldados portugueses e moradores, que foram no encalço deles. Aspecto da Colina da Guia em finais do século XIX, ainda não arborizada. Vê-se, no entanto, no lado esquerdo, uma plantação de pinheiros na encosta.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 81 O trabalho de arborização foi largamente implementado durante o governo de Tomás de Sousa Rosa, para o qual muito contribuiu o jovem engenheiro agrónomo Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro, que depois de fazer algumas experiências, começou a plantar pinheiros na encosta oeste da colina da Guia, visto que os pinheiros abrem os solos áridos, de forma a pro,porcionar condições para outras espécies. Quando a colina da Guia ficou coberta com muitos pinheiros, esta colina passou, desde então, a ser designada, em chinês, por “Chông Sán” (松 山), que significa “monte de pinheiros”, não obstante haver, presentemente, diferentes espécies de árvores em toda a colina. Hoje em dia, é uma colina verdejante e é vista como o “pulmão da cidade”. FORTALEZA DE NOSSA SENHORA DO MONTE Devido à cobiça dos holandeses de apoderar-se da cidade de Macau, os jesuítas, que tinham o Colégio de S. Paulo e a igreja da Madre de Deus, construídos na encosta da colina de Nossa Senhora do Monte, sempre se preocuparam, desde as primeiras tentativas de ataque dos holandeses, com a questão da defesa da cidade de Macau. Por isso, por volta de 1617, por iniciativa dos jesuítas, iniciou-se a construção, no cimo da colina de Nossa Senhora do Monte, de uma fortificação denominada Fortaleza de Nossa Senhora do Monte e, por se situar junto do Colégio de S. Paulo, passou a ser também designada por Fortaleza de Nossa Senhora do Monte de S. Paulo ou, na forma abreviada, Fortaleza de S. Paulo, ou então, Fortaleza do Monte, cuja construção, segundo consta, teria sido concebida pelo padre
  • 82 jesuíta Jerónimo Rho e pelo capitão de guerra Francisco Lopes Carrasco [13]. A Fortaleza, assente no cimo da colina de Nossa Senhora do Monte, a 52 metros acima do nível do mar, apresenta planta no formato quadrangular, com baluartes nos vértices, tendo sido utilizado na construção o chunambo, que consistia essencialmente de uma amalgama de areia, argila, cal de ostra, pedra e terra, dispondo as muralhas de ameias para assentar os canhões, excepto a muralha voltada para norte, a fim de demonstrar às autoridades chinesas que a fortaleza foi erguida para defesa contra os ataques vindos do mar. A sua capacidade defensiva era enorme, visto que estava equipada com vários tipos de canhões e, no interior, possuía cisterna, um arsenal com munições e armazéns para abastecimentos que, como diziam, permitiam resistir a um cerco de 2 anos. Era, na realidade, uma cidadela. Apesar de bem equipada com canhões, a Fortaleza do Monte apenas serviu para combate uma única vez, em 1622. É a maior fortaleza que se construiu em Macau, pois ocupa uma área de 8.000 metros quadrados. Depois da derrota dos holandeses em 1622, foi nomeado o primeiro Capitão Geral, D. Francisco de Mascarenhas, a pedido do Senado ao Vice-Rei da Índia, para encarregar-se da defesa da cidade, passando a substituir, desde então, o Capitão de Viagens do Japão, por este passar mais tempo em viagens, não podendo, desta forma, lidar convenientemente com questões militares.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 83 D. Francisco de Mascarenhas chegou a Macau em Julho de 1623 e, vendo a importância estratégica da Fortaleza do Monte, tratou logo de apoderar-se desse local para a sua residência e colocar ali uma companhia de infantaria que trouxe consigo da Índia. Os jesuítas não gostaram, porque a fortaleza lhes pertencia, e foram protestar junto do Senado, que, por sua vez, recorreu a Goa e dali seguiu a queixa para Lisboa. De nada valeu o protesto, porque o rei decidiu que ali se mantivessem os soldados. Deste modo, a partir de 1623, a fortaleza do Monte tornou-se residência do governo até 1710, quando Francisco de Melo e Castro, pouco depois da ter tomado posse como governador e capitão geral, foi morar nas casas do Padre Leonel de Sousa. Os governadores que se seguiram residiram, a partir de então, em casas alugadas pelo Senado e só em 1772 é que passaram a residir num edifício da Praia Grande, em frente do fortim de S. Pedro, o qual passou a ser designado Palácio do Governador [14]. A fortaleza do Monte serviu, assim, durante quase um século, de residência governamental e era ali que estava centralizado todo o poder militar. Mesmo depois de deixar de ser residência dos governadores, a fortaleza não perdeu o seu significado e importância, pois era ali que se realizavam os mais importantes actos oficiais, tais como a tomada de posse de governadores. Este solene acto durou até que Visconde de S. Januário resolveu quebrar essa tradição, ao escolher outro local mais nobre para a sua tomada de posse como governador de Macau, como consta da seguinte notícia, publicada no Boletim da Província de Macau e Timor: “No dia 23 [de Março de 1872], teve lugar a posse do
  • 84 governo por S. Exa. o Visconde de S. Januário. Esta solenidade foi celebrada nos Paços do Leal Senado, alterando-se a antiga praxe de se fazer este acto na Fortaleza de S. Paulo do Monte.”… Além de quartel e presídio militar, a Fortaleza do Monte foi usada também, em épocas diferentes, para outras finalidades, e uma das últimas foi para servir de instalações do Serviço Meteorológico de Macau [15], que para lá se transferiu em 28 de Junho de 1966. Vista lateral do edifício na Fortaleza do Monte, utilizado pelo Serviço Meteorológico Mas antes disso, até início dos anos sessenta do XX, a fortaleza ainda serviu para quartel militar. O edifício principal que lá existia, era, de um lado, a residência do então capitão José Luís Machado [16] e, do outro, o Depósito de Material de Guerra, com acesso por uma porta lateral, do lado oeste. José Luís Machado chegou a Macau em 1954, tendo depois ficado instalado na fortaleza do Monte com
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 85 uma companhia de artilharia, de que era comandante, assumindo também o cargo de director do Depósito de Material de Guerra. Nesse Depósito estavam armazenados vários tipos de armas e equipamentos, excepto munições e materiais explosivos, que eram guardados num depósito subterrâneo, situado em frente da referida porta lateral, cujo acesso era feito por uma escadaria, com um portão ao fundo, bem fechado à chave. Fortaleza do Monte, em meados dos anos 50. No lado esquerdo (1ª fila), vê-se o então capitão José Luís Machado; no lado direito, a caserna dos militares e outras instalações; e, ao fundo, a residência do capitão José Luís Machado e família. Foto do acervo de M. Basílio. O edifício destinado aos militares estava construído paralelamente à muralha leste, entre os baluartes nordeste e sudeste, o qual incluía caserna, refeitório e cozinha, sala de estar e, ainda, alguns compartimentos para fins diversos, dos quais um era usado por um barbeiro e, um outro, por um sapateiro. Havia também uma oficina [17], dentro de uma abertura feita na muralha, no lado esquerdo da entrada principal.
  • 86 No baluarte sudoeste, próximo do mastro da bandeira, havia uma sirene de alarme, que produzia um som estridente, para alertar a população, quando ocorria um grave incêndio ou quando se aproximava uma forte tempestade tropical. Mais ou menos ao centro daquela muralha voltada para oeste, havia uma peça de artilharia, fixada numa base rotativa, que servia para dar salva de tiros, em ocasiões especiais. Próximo da rampa que dá acesso ao edifício principal, com a fachada voltada para o sul, havia um pequeno chafariz, que funcionava com a água da cisterna, que havia por baixo, até que foi demolido e ali colocado um respiradouro, de forma cilíndrica. Por trás do edifício principal, havia junto da muralha do lado norte tanques de lavar roupa e um simples alpendre, onde estendiam e secavam a roupa. Antigo edifício do Depósito de Material de Guerra, que passou a servir de instalações do Serviço Meteorológico de Macau, antes de ser demolido. Junto da rampa da entrada principal, ainda se vê o respiradouro da antiga cisterna, de forma cilíndrica, parecendo uma chaminé.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 87 A entrada principal da Fortaleza está voltada para o sul, entre os baluartes sudeste e sudoeste. Depois de transpor o portão, no lado esquerdo, era a casa da guarda e, a seguir, havia então um pequeno compartimento, que naquela altura servia de presídio. No lado oposto, funcionava um posto médico. Vale a pena aqui recordar que, em princípios dos anos setenta do século XX, no lado do baluarte sudeste, havia um pequeno museu arqueológico. Originalmente, esse museu estava instalado nas ruínas de S. Paulo, por detrás da fachada, que Alfredo Augusto de Almeida, com todo o carinho e dedicação, estava a organizar. Lamentavelmente, depois dos incidentes conhecidos por 12.3, em 1966, por motivos não conhecidos, o Leal Senado mandou retirar todas as peças que estavam ali expostas. Como havia peças muito pesadas, os carregadores resolveram parti-las em pedaços com o camartelo, a fim de facilitar o transporte. Vista parcial do Museu Arqueológico que estava a ser organizado por detrás das ruínas de S. Paulo. Foto de 1965.
  • 88 Apesar de muito angustiado, o paciente e incansável Alfredo de Almeida conseguiu reunir, mais tarde, grande parte das peças, umas partidas e outras ainda intactas, e foi levando as peças mais significativa à Fortaleza do Monte, a fim de ali reorganizar o museu. Juntou as peças partidas e embutiu-as na parede e as intactas ficaram ali expostas. Não obstante todos os esforços despendidos para restaurar o desejado museu arqueológico, este projecto nunca mais foi possível concretizar-se, porquanto anos mais tarde surgiu um outro projecto – o do Museu de Macau. O planeamento deste museu começou em Abril de 1995, tendo iniciado a sua construção em Setembro de 1996, passando a ser um espaço dedicado à história e cultura de Macau. Espaço do baluarte leste, que outrora foi utilizado para o museu arqueológico. Foto MV Basilio, em 2021 Esse novo projecto acabou por excluir o museu arqueológico, tendo sido retiradas dali quase todas as peças
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 89 arqueológicas [18] e demolido o que restava dentro da fortaleza, incluindo o velho e histórico edifício, que serviu de residência e Depósito de Material de Guerra. Por conseguinte, o edifício MUSEU DE MACAU, inaugurado a 18 de Abril de 1998, é um edifício novo, construído de raiz, sem a preservação dos traços arquitectónicos originais. DESAFECTAÇÃO DAS INFRA-ESTRUTURAS MILITARES DO COMANDO TERRITORIAL INDEPENDENTE DE MACAU Durante séculos, havia em Macau zonas militares, cujo acesso era vedado ao público, devido à existência de fortalezas ou fortes e demais instalações militares, não só na península de Macau, como nas ilhas da Taipa e Coloane. Tais zonas deixaram de existir após a publicação do Decreto 892/76, promulgado pelo então Presidente da República Portuguesa, António Ramalho Eanes, em 15 de Dezembro de 1976, que decretou a desafectação do domínio público militar todos os bens e infra-estruturas militares, que passaram a integrar, respectivamente o domínio público e privado de Macau, conforme os termos seguintes: “Tendo sido extinto, pelo Decreto-Lei 705/75, de 19 de Dezembro, o Comando Territorial Independente de Macau e convindo dar às respectivas infra-estruturas militares o destino adequado à sua particular utilidade pública; Considerando o disposto no artigo 7.º e seu § 1.º da Lei 2078, de 11 de Julho de 1955;
  • 90 Nestes termos: O Governo decreta, nos termos da alínea g) do artigo 202.º da Constituição, o seguinte: Artigo 1.º São desafectados do domínio público militar e afectados ao domínio público monumental, cultural e artístico de Macau, no qual passam a ficar integrados como monumentos nacionais, os seguintes bens: Fortaleza de Mong-Há; Fortaleza do Monte; Fortaleza da Barra; Fortaleza da Guia. Art. 2.º São desafectados do domínio público militar e integrados no domínio privado de Macau os seguintes bens: Quartel de S. Francisco; Aquartelamento da Guia (com excepção da Fortaleza da Guia); Quartel da Taipa; Paióis de Cacilhas; Quartel da Flora; Edifício da antiga enfermaria militar; Residências de oficiais da Flora; Colina de D. Maria; Barracas metálicas do antigo Quartel de Subsistências; Destacamento de Manutenção de Mong-Há; Antigo asilo de Mong-Há; Campo desportivo de Mong-Há; Fortaleza de Mong-Há (com excepção da fortaleza propriamente dita); Depósitos de materiais de Mong-Há; Quartel das Portas do Cerco; Residências militares nºs. 9 e 10 da Flora; Abrigo do Patane; Colina da Barra; Nova messe de sargentos em Mong-Há; Quartel, carreira de tiro, morro e paióis da ilha da Taipa; Quartel de Coloane; Posto de artilharia em Coloane; Posto de Hac-Sá; Casa
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 91 da praia de Cheoc Van; Nova carreira de tiro em Coloane. Mário Soares - Henrique Teixeira Queirós de Barros - Joaquim Jorge de Pinho Campinos - Mário Firmino Miguel. Para ser publicado no Boletim Oficial de Macau. - Mário Soares. Promulgado em 15 de Dezembro de 1976. Publique-se. O Presidente da República, ANTÓNIO RAMALHO EANES.” Em consequência da Revolução de 25 de Abril, também conhecida por Revolução dos Cravos ou Revolução de Abril, ocorrida a 25 de Abril de 1974, que depôs o regime ditatorial do Estado Novo, iniciou-se então o processo de descolonização, tendo Macau, depois de 1975, deixado de ter o estatuto de província ultramarina, passando a ser considerado como território sob a administração portuguesa. Naquele mesmo ano, em 31 de Dezembro, foi extinto o Comando Territorial Independente de Macau (CTIM), órgão de comando militar, marcando, assim, formalmente, o fim da presença de forças militares na missão de defesa do Território de Macau.
  • 92 NOTAS: [1] VOC é a abreviatura de “Vereenigde Oostindische Compagnie”. [2] Há divergências quanto ao número de navios: há autores que mencionam 14 navios; outros, 16 barcos, incluindo dois barcos ingleses; e, outros, 17 embarcações, incluindo 2 barcos ingleses. De igual modo, o número de holandeses mortos em combate também varia de autor para autor. [3] O Dia da Cidade deixou de ser celebrado oficialmente, visto que já não consta do Calendário dos feriados da RAEM. [4] A praia de Cacilhas situava-se junto do Ramal dos Mouros e deixou de existir com a construção do Reservatório de Macau. [5] O bambual foi praticamente destruído em 1791 pelo então dono, Felipe Lourenço de Matos. Depois, o terreno foi transformado numa horta, conhecida por Horta de Begman (ou Bragman). Esta horta foi, mais tarde, adquirida por Francisco Volong, passando então a ser designada por Horta de Volong. [6] O livro “Macau Histórico”, de Montalto de Jesus, descreve, a respeito de fortificações, que “a cidadela, ficou concluída em 1626. A Ermida da Guia foi transformada num forte, por se situar na elevação que domina o porto, a cidade e a própria cidadela. O Monte levou quinze canhões, a Guia dez, São Francisco e Bomparto, oito cada, e a Barra catorze, seis dos quais eram de cinquenta libras. Em São Francisco, foi montada numa plataforma uma colubrina de quarenta e oito libras, cujo raio de acção cobria a Ilha da Taipa, situada a alguma distância. A meio da Praia Grande foi construído um reduto, o de São Pedro, com cinco canhões. Ao longo da muralha que vai de São Francisco ao Monte
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 93 havia dois redutos, o de São Jerónimo e o de São João, o último sobranceiro à histórica planura do sopé da Guia, chamada Campo da Vitória, em comemoração da derrota holandesa. Do Bomparto estendia-se uma muralha que ultrapassava a elevação da Penha. A maior parte desta obra foi construída pelos contingentes espanhóis, assim como pelos prisioneiros holandeses”. [7] Num relatório dirigido ao governador Ponte e Horta, publicado no Boletim do Governo de 1867, menciona que a “Rua Tomás Vieira começa na parte exterior das Portas de Santo António e segue na direcção da falda do outeiro da Guia. Tomás Vieira foi o herói macaense, que em 1627 triunfou valorosamente das armas holandesas” numa batalha naval. [8] 1 Braça = 1.8288 metros, portanto, 500 braças correspondem a 914.4 metros. [9] Bugio, em chinês, Ma Lau Chau (馬騮洲 , ou seja, a ilha de Macacos), eram duas ilhas, uma grande e outra pequena, que se situavam a sul da Barra, onde outrora esteve instalado um posto alfandegário chinês. Na sequência de aterros feitos naquela zona, as duas ilhas já estão ligadas à actual Wanzai (ou Wán Châi, em cantonense, ou na designação portuguesa, Lapa). O referido padrão já não existe. [10] Excerto de Tassiyangkuo, de J. F. Marques Pereira [11] O engenheiro Adriano Augusto Trigo foi director das Obras Públicas de Macau entre 1919 e 1925. A Estrada do Engenheiro Trigo é-lhe dedicada, a qual começa na Estrada de Cacilhas, em frente à Estrada dos Parses e, subindo até à meia encosta, circunda a colina da Guia.
  • 94 [12] A torre passou a ter a altura de 15 metros, depois das obras de adaptação para a instalação do novo farol, em 1910. [13] Francisco Lopes Carrasco, foi nomeado, em Novembro de 1615, pelo Vice-Rei da Índia, Capitão de Guerra de Macau e Ouvidor de Macau, sem dependência do Capitão-Mor da Viagem do Japão e, sendo assim, deveria ser o primeiro Governador de Macau. No entanto, não chegou a tomar posse em 31 de Agosto de 1616, por ter havido muitas queixas contra ele como Ouvidor e, nestas circunstâncias, o Vice-Rei da Índia ordenou que regressasse preso para Goa. Apesar deste incidente, Francisco Carrasco, como militar, contribuiu para o projecto da Fortaleza do Monte, juntamente com o jesuíta Jerónimo Rho, que também era conhecedor da arte militar. [14] O Palácio do Governador estava localizado num edifício da Praia Grande, que, depois de demolido, no mesmo local se construiu um novo edifício, então denominado Palácio das Repartições, inaugurado em 1952. [15] O Serviço Meteorológico de Macau, actualmente, Direcção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau, mudou-se para a Rampa do Observatório, na Taipa Grande, desde 1995. [16] José Luís Machado chegou a Macau em 1954, integrando o Agrupamento de Artilharia como capitão-adjunto do Comandante de Agrupamento, tendo desempenhado depois os cargos de Director do Depósito de Material de Guerra e Chefe de Serviço de Material até 1960. Regressou a Macau em 1967 e, entre esse ano e 1971, já como tenente-coronel, assumiu o cargo de Comandante da Polícia de Segurança Pública e, seguidamente, como coronel, desempenhou as funções de Comandante Militar, no Comando Territorial Independente de Macau.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 95 [17] A oficina estava junto do baluarte sudoeste, num espaço que tinha sido aberto dentro da muralha, voltada para o lado sul. [18] As peças arqueológicas que foram retiradas do local onde se encontravam, por detrás das Ruínas de S. Paulo, foram levadas para um depósito de material das Obras Públicas, localizado na Doca do Lamau. Dali, Alfredo de Almeida foi levando, aos poucos, as principais peças para a Fortaleza do Monte, tentando reorganizar o seu desejado Museu Arqueológico, na zona do baluarte sudeste. Passados tantos anos, é caso para perguntar, onde param aquelas peças arqueológicas e, sobretudo, as de maior valor histórico, que foram retiradas da Fortaleza do Monte? Apenas se sabe que algumas, de pouco valor, ainda se encontram na Fortaleza do Monte, como peças decorativas e outras na Casa Garden. Além dessas, podemos ainda ver várias peças, que foram salvas, embutidas nas paredes do átrio do antigo edifício do Leal Senado. Publicações consultadas: • Macau Histórico, de Montalto de Jesus • Páginas da História de Macau, de Luis Gonzaga Gomes • Fortificações de Macau, de Jorge Graça • Boletins da Província de Macau e Timor
  • 96 No lado direito, onde se vê uma mancha branca na parede, havia uma abertura dentro dela, onde funcionava uma oficina. Com a saída dos militares, aquela abertura foi entaipada. Foto MV Basilio, em 2021 No lado esquerdo, vê-se um troço da muralha que descia do baluarte sul e cercava a propriedade dos jesuítas. Presentemente ainda resta um troço dessa antiga muralha.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 97 No canto superior esquerdo vê-se uma porta entaipada, que dava acesso ao adarve ou caminho de ronda (isto é, o caminho estreito no topo do muro de uma fortificação). Era por ali que começava a muralha norte da cidade que corria até à Porta do Campo. Foto MV Basílio, em 2021. Troço da antiga muralha sul da cidade, desde a Fortaleza do Monte à Rua do Pato, cuja demolição foi aprovada pela Direcção das Obras Públicas, em 10 de Abril de 1913.
  • 98 Em meados do século XX, este era o local do depósito de munições. Conforme informado pelo Arqº. Jorge Graça, antes do portão de entrada, mesmo por baixo dos últimos degraus da escadaria, existe uma abertura, que deveria ter sido o acesso a um túnel subterrâneo. Foto MV Basílio, em 2021 Visita do Governador Marques Esparteiro à Fortelaza do Monte, em meados dos anos 50 do século XX. Por cima da entrada principal há uma placa com os dizeres: DEPÓSITO MATERIAL DE GUERRA (Foto do acervo de M. Basílio)
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 99 O anterior aspecto do Farol da Guia Rampa de acesso à fortaleza da Guia. De notar que os muros desta fortaleza foram erigidos com blocos de granito, em vez de chunambo. Foto MV Basílio, em 2021
  • 100 As setas indicam as seguintes localizações da antiga muralha norte: 1. O troço que descia da fortaleza do Monte; 2. Sítio da Porta do Campo; 3. O troço da muralha que subia até ao forte de S. Jerónimo. A Porta do Campo, aberta na muralha norte da cidade, vendo-se, parcialmente, através da porta, a torre sineira da antiga igreja de S. Lázaro, que então ficava fora da cidade. (Desenho de George Chinnery)
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 101 Restos de um troço da muralha norte, que subia até ao forte de S. Jerónimo. Foto MV Basílio, em 2004. O troço da muralha, ainda existente, ao longo da Rua de Tomás Vieira, que descia da fortaleza do Monte, indo até à Porta de Santo António. Foto MV Basílio, em 2019
  • 102
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 103 OBRAS DE ATERRO NO SÉCULO XIX
  • 104 OBRAS DE ATERRO NO SÉCULO XIX NA MARGINAL OESTE DA PENÍNSULA DE MACAU Durante séculos, a zona costeira de Macau, sobretudo a que é banhada pelo Rio Oeste, não sofreu grandes assoreamentos e era favorável à navegação comercial por veleiros de várias dimensões. Por conseguinte, ao longo dos tempos, a área da península de Macau manteve-se praticamente inalterada, com a costa oeste recortada por enseadas, formando pequenas praias, das quais se destacavam a Praia Pequena e a Praia do Manduco. No entanto, entre 1804 e 1865, os depósitos no Porto Interior subiram naturalmente e o assoreamento era de tal forma alarmante que embarcações de maior calado tinham dificuldades em chegar a Macau pelo lado oeste. Esta situação deveu-se, inicialmente, a detritos que lançavam para o rio e à lama proveniente dos campos de cultivo das povoações chinesas situadas a norte de Macau. Mais tarde, após a fundação de Hong Kong, uma ilha situada em zona de águas profundas, mais adequada à navegação moderna a vapor, o porto de Macau já não servia para o movimento de barcos maiores, visto que o assoreamento se foi agravando cada vez mais, surgindo, então, a necessidade de se realizarem obras de aterro, com vista ao melhoramento da zona do porto de Macau. Assim, a partir da primeira metade do século XIX, a linha de costa foi avançando gradualmente em direcção a oeste, devido ao processo natural de assoreamento. Naquela época, antes dos anos 50 daquele século, quaisquer obras, incluindo obras de aterro, não podiam ser executadas sem
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 105 autorização por parte das autoridades chinesas e, para ultrapassar esta situação, os habitantes, de quando em quando, iam lançando entulhos e lixo na margem do rio, e assim, iam fazendo aterros sem que ninguém desconfiasse ou levantasse problemas de maior. As obras de aterro foram aceleradas na segunda metade do século XIX, já durante a administração colonial, designada-mente quando o governador Isidoro Guimarães autorizou a execução de aterros na zona do Matapau, onde se entulhou uma parte do rio, após o incêndio que ocorreu no Bazar em Janeiro de 1856 e que destruiu cerca de mil e quinhentas casas. Deu-se então início à política de desenvolvimento e expansão do território de Macau, já sem interferências das autoridades mandarínicas, durante o governo de Isidoro Guimarães (1851-1863) e teve continuidade nos governos que se seguiram, sobretudo nos anos sessenta e setenta do século XIX, em que foram governadores, sucessivamente, José Rodrigues Coelho do Amaral (1863-1866), José Maria da Ponte e Horta (1866-1868), António Sérgio de Sousa (1868-1872), Januário Correia de Almeida (1872-1874), José Maria Lobo de Ávila (1874-1876), Carlos Eugénio Correia da Silva (1876-1879), José Joaquim da Graça (1879-1883) e Tomás de Sousa Rosa (1883-1886), durante os quais se fizeram obras de aterro em diversas zonas do Porto Interior. Foi durante o governo de Tomás de Sousa Rosa que se iniciaram, em 1884, os trabalhos de melhoramento do Porto [1], os quais foram continuando até que, mais tarde, se completou o aterro ocidental.
  • 106 Praça de Ponte e Horta nos anos 50-60 do século XX OS ATERROS NOS ANOS SESSENTA DO SÉCULO XIX Uma das grandes medidas tomadas pelo governador Ponte e Horta, para regularizar a costa marítima, foi através da publicação da Portaria nº 16, de 8 de Fevereiro de 1867, nos seguintes termos: “Sendo conveniente assim para o embelezamento da cidade, como para benefício da higiene e comércio, que se ultimem quanto antes os aterros que vão da Porta do Cerco até à Barra; e não sendo justo o ir prejudicar o direito de preferência que assiste aos senhorios, cujas propriedades entestam com as porções do rio que lhes ficam fronteiras; hei por conveniente determinar que os ditos senhorios declarem qual o mínimo tempo em que poderão ultimar os aterros que lhes pertencem; na certeza de que a autoridade superior da colónia está na
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 107 firme resolução de cassar a esses senhorios o direito convencional que lhes outorgou, se o tempo que marcarem para o complemento das obras for excessivo, ou não o sendo, se faltarem ao compromisso que por virtude desta ordem são obrigados a contrair.” Após a publicação daquela Portaria, muito não tardou para darem início às obras, designadamente na zona que viria a ser designada Praça de Ponte e Horta. Dois meses depois, em 8 de Abril de 1867, foi noticiado que se viam surgir do solo “as colunas que hão-de sustentar a arcaria que de um e outro lado a devem bordar; e consta-nos que os proprietários dos edifícios daquela praça se acham de acordo em concluir as suas obras em pouco tempo e em harmonia com o plano que a autoridade lhes ministrou ...”. Em finais do mês seguinte voltaram a noticiar que “as arcarias na praça do governador Horta vão em caminho de se concluir. É inquestionável o elogio que merecem os nossos compatriotas Maximiano dos Remédios e Vicente da Portaria pelo zelo e empenho que têm manifestado na conclusão destes trabalhos que embelezam as suas propriedades e aformoseiam aquela linda praça.” De facto, as obras foram executadas com rapidez, pois em 17 de Junho daquele ano achava-se “pronta a praça do governador Horta, a qual ficou excelente. A iluminação está igualmente excelente. Nesta semana principiaram a colocar-se os possantes cachorros que hão-de sustentar a nova ponte da caldeira da alfândega, devendo a antiga, depois de restaurada, ser colocada sobre o canal de Patane,
  • 108 que também foi muralhado até ao rio, a fim de não ficar sendo como era um canal inútil.” Com a conclusão da obra de aterro, aquela praça ficou oficialmente denominada com o nome do governador, como consta da notícia datada de 17 de Setembro de 1867: “Pelo que respeita à praça que V. Exa. fez e aformoseou entre o cais dos vapores e os edifícios da extinta alfândega, foi ela denominada – praça de Ponte e Horta – a pedido de diversos moradores.” Apesar de ter sido dado à nova praça o nome de Ponte e Horta, esta praça é mais conhecida, em chinês, pela estranha designação de “Si Tá Hau” (司打口 ) [2]. Dizem que a expressão “Si Tá” é uma transliteração resultante da pronúncia, muito deturpada, da segunda e terceira sílabas da palavra portuguesa “Fazenda”, isto é, “zenda”, alterada para “sin ta” ou, simplesmente, “si ta”. É que, após a implementação da administração colonial em Macau, o governo português criou a Junta da Fazenda Pública de Macau, um órgão específico de gestão financeira responsável perante o Governador de Macau e essa Junta funcionou no edifício da extinta Repartição de Alfândega [3], ali situado. Entretanto, outras obras estavam a ser realizadas em várias localidades da marginal, pois em Junho de 1867 “os aterros para o lado da Porta do Cerco e para o lado da Barra vão adiantadíssimos, observando-se uma grande actividade nestes trabalhos”.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 109 Mas antes disso, já tinham noticiado em 27 de Maio de 1867, que “o belo cais em frente do largo do Pagode do Bazar está acabado e nas duas colunas que o demarcam vão colocar-se grandes candelabros”. Essa notícia vem a confirmar que naquele ano de 1867 o aterro já tinha chegado ao Largo do Pagode do Bazar, e cujo cais, durante vários anos, serviu para a acostagem de barcos para transporte de pessoas e mercadorias. Aquele cais, construído junto ao Largo do Pagode do Bazar, não durou muito tempo, pois as obras de aterro avançavam a bom ritmo em vários pontos da linha de costa, de norte a sul, e em 1873, durante o governo de Visconde de Paço de Arcos foi feito o alargamento do aterro marginal do Porto Interior. Largo do Pagode do Bazar, com o Templo de “Hóng Kung” ou Hóng Kung Miu, ao fundo. O portal é recente, ali construído em princípios do Século XXI. A via, em primeiro plano, é um troço da Rua do Guimarães, que antes do aterro era uma via marginal, com cais para atracagem de barcos. Foto MV Basílio
  • 110 Apesar disso, o Largo do Pagode do Bazar, situado mesmo em frente do Templo Hóng Kung, não perdeu a sua importância, porquanto aquele espaço serviu de Bazar durante muitas décadas e, além disso, na primeira metade do século XX, afamadas casas de fantan e hospedarias ladeavam aquela Praça, atraindo para lá os habituais frequentadores. Com o avanço daquele novo aterro, a Rua Nova de El-Rei deixou de ser uma via ribeirinha, porquanto foi criada uma nova via, que passou a estar alinhada com o referido cais. Essa nova via “a que à margem do rio se acha paralela à rua nova d’El-Rei” foi designada, em Setembro de 1867, por Rua do Guimarães, que presentemente começa na Travessa das Galinholas e termina na Rua das Lorchas. Embora o nome desta rua tenha sido dado em homenagem ao governador Isidoro Guimarães, a denominação, em chinês, continua a ser “Hói Pin Sân Kái” (海邊新街, que quer dizer “nova rua à beira-mar”), que naqueles tempos começava próximo da Travessa dos Faitiões e terminava junto do sítio conhecido por Caldeira [4]. Foi também naquela altura que se concluiu uma via situada “no litoral do porto interior, entre as duas pontes modernamente construídas [5], a que foi dado o nome de Rua do Bocage, em homenagem a “um dos luzeiros da antiga Arcádia e festejado poeta, que em 1789 visitou esta nossa bela colónia”. Esta rua começa na Praça de Ponte e Horta e termina na Travessa das Virtudes, mais ou menos no local onde era a antiga Caldeira.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 111 Aspecto do Largo da Caldeira (onde há um ajuntamento de pessoas). No edifício do lado direito, estão escritos os seguintes caracteres chineses: 萬福影相館 que quer dizer “Galeria de Fotografias Mán Fôk”. Mán Fôk (萬福 , ou Man Fook, conforme romanização daquela época), era dono daquela galeria e, sobretudo, um fotógrafo muito conceituado, tendo deixado um valioso registo fotográfico. Esta galeria mudou-se depois para a Rua dos Cules. O nome completo deste fotógrafo é Wan Mán Fôk (溫萬福). Apesar de toda a rapidez na execução das obras de aterro, a via marginal situada a sul da Praça de Ponta e Horta ainda se encontrava em construção em 1869, como se pode constatar no relatório apresentado pela Comissão, nomeada pelo Governador António Sérgio de Sousa, para determinar e fixar de um modo definitivo os nomes de todas as vias públicas da cidade [6], estando ali escrito que se aproveitou o ensejo para “pôr o respeitável nome de V. Exa. a uma das vias públicas da cidade, denominando assim a rua em construção à beira do rio com a denominação de Rua do Almirante Sérgio”. Portanto, em 1869, esta nova rua estava inacabada, porque ainda não estava concluída aquela faixa
  • 112 de aterro junto ao rio, que iria ligar a zona da Praia do Manduco e à Barra. Zona da Barra, vendo-se a Ponte-cais nº 1, situada no Largo do Pagode da Barra, em frente ao Templo de A-Ma e, no lado direito, as antigas instalações das Oficinas Navais de Macau. No alto da colina, vê-se o edifício “Skyline” e, parcialmente, a torre sineira da ermida da Penha. Presentemente, a Rua do Almirante Sérgio é muito mais longa, porquanto começa na Rua das Lorchas, junto da Praça de Ponte e Horta, e termina no Largo do Pagode da Barra. Tal como sucede com a Rua do Guimarães, em que a designação, em chinês, não faz alusão ao nome do governador Isidoro Guimarães, mas sim à “nova rua à beira-mar”, a acima referida “rua em construção à beira do rio”, a que foi atribuído o nome de Rua do Almirante Sérgio, em homenagem ao governador António Sérgio de Sousa, é simplesmente designada, em chinês, por “Hó Pin San Kái” (河邊新街 , que significa “nova rua à beira do rio”).
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 113 A Rua de Almirante Sérgio, a rua à beira do rio, nos anos 60 do século XX, com barcos-habitação sobre o passeio da rua. Estas duas designações em chinês “à beira-mar” e “à beira do rio”, causam, com frequência, confusão entre os chineses, pois ambas as ruas, com os sucessivos aterros, deixaram de ser vias ribeirinhas, e há muito tempo que não estão, nem junto ao mar, nem junto ao rio, sobretudo a Rua do Guimarães, que hoje em dia é praticamente uma via secundária, situada, em quase toda a sua extensão, entre a Rua de Cinco de Outubro e a Rua Nova do Comércio. ATERROS NA ZONA DA BARRA Num relatório publicado em Novembro de 1867, consta que “os aterros para o lado da Barra prosseguem com actividade, assim como as novas construções”.
  • 114 O governador Visconde de S. Januário, por Portaria nº 6, de 1873, determinou que: “Sendo conveniente alargar o aterro marginal do porto interior desta cidade, regularizando simultaneamente o regime da corrente do rio e tendo-me sido presente o projecto do 1º lanço desta obra, desde a fortaleza da Barra até à doca de Vong-choy, na extensão de 160 metros; hei por conveniente, ouvida a Junta de Fazenda e o Conselho Técnico aprovar o dito projecto, que se acha compreendido na Classe VIII da distribuição de fundos para o presente ano económico, bem como o seu orçamento na importância de $5.598,86, e determinar que a obra se execute com prévia arrematação na Junta de Fazenda”. Na sequência desta Portaria, foi publicado em 17 de Janeiro de 1873, um Aviso para a adjudicação da obra referente ao “aterro próximo a fortaleza da Barra, em frente do matadouro, até à embocadura da doca de Vong-choy”. Pela descrição da obra, pode-se concluir que a doca do chinês Vong Choy se situava aproximadamente no local, onde mais tarde se construiu a Doca El-Rei D. Carlos I e com essa obra foi melhorado o acesso à zona do Pagode da Barra, cujo Largo foi aumentado desde que os aterros ali se fizeram a partir de 1867. Por aquele Aviso, ficou-se a saber, também, que já lá existia um matadouro em 1873.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 115 A Doca D. Carlos I e as Oficinas Navais, ca. 1960, construídas, mais ou menos, no local onde anteriormente existia uma doca, que pertencia a um chinês chamado Vong Choy Entretanto, já durante o governo de Ponte e Horta, que deu um grande impulso a diversas obras de melhoramento, foi noticiado em 25 de Março de 1867, que “o aterro para o lado da Barra prossegue com rapidez, notando-se muita actividade na parte contígua à Ponta da Rede. Os pedidos para abertura de novas boticas [7] crescem todos os dias e não deixaremos de apontar como um facto curioso o acharem já arrendadas casas que ainda se hão-de levantar”. PONTA DA REDE Um nome que suscitou certa estranheza e curiosidade, no decurso das pesquisas que foram efectuadas ao longo de vários anos, foi, precisamente, uma localidade então
  • 116 conhecida por Ponta da Rede [8]. Após sucessivas buscas, ficou-se a saber que era uma povoação ou aldeia, a que os chineses deram o nome de “San Chün Mei” (新村尾 , ou seja, “extremidade da nova aldeia”), localizada na zona sul da Praia do Manduco. Diversas referências foram encontradas a respeito daquela aldeia, pois lá vivia um razoável número de residentes, tanto portugueses, como chineses. Havia lá um cais para atracagem de barcos, bem como um mercado, um posto de polícia, boticas, armações e godões. Em 1867, quando foram introduzidos diversos melhoramentos na cidade, foi reportado que “as obras públicas da cidade continuam tendo o incremento possível, sendo assim que se acha próxima a concluir-se a rua da Ponta da Rede, que até há dias se achava num estado bem pouco confortável para os passeantes e menos ainda para os que a viam tão irregular e de tão feio aspecto. Os proprietários, condescendendo com o desejo de S. Exa. o Governador, meteram ordem e geometria nos seus edifícios a tal ponto que se pode dizer hoje que a rua da Ponta da Rede, uma das artérias principais da cidade, é completamente outra.” Entretanto, as obras de aterro na zona marginal prosseguiram, tendo, a dada altura, chegado à Ponta da Rede, designadamente junto da propriedade do Dr. Vicente de Paulo Salatwichy Pitter [9], um médico natural de Macau, tal como informava a notícia de 17 de Junho de 1867, que “o aterro da Ponte da Rede, pertencente ao sr. Dr. Pitter, tem sido feito sob as vistas deste cavalheiro com tanta expedição como acerto”.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 117 O círculo vermelho indica a localização da Ponta da Rede, cujo nome é visível. Reprodução parcial do mapa de William A. Read, de 1865 Com os subsequentes aterros, o cais da Ponta da Rede acabou por desaparecer, assim como desapareceu a aldeia ou povoação da Ponta da Rede, incluindo o nome da rua, pois um troço desta rua ficou integrado na actual Rua da Praia do Manduco, aproximadamente a partir da Travessa da Assunção, e outro troço, passou a fazer parte da Travessa da Prosperidade, que comunicava com a Rua do Almirante Sérgio.
  • 118 Travessa da Assunção, com um tipo de construção muito característico daquela época. Infelizmente, estão todas devolutas e em mau estado de conservação, provavelmente à espera de requalificação ou demolição. Foto MV Basilio, em 2020. Teria parte da zona aterrada da Ponta da Rede, junto da Travessa da Assunção, pertencido ao Dr. Pitter ou a algum proprietário muito devoto? É que os nomes das vias que ali foram criadas têm cunho religioso. Assim, além da Travessa da Assunção, há também o Pátio de S. Nicolau, Travessa da Boa Morte, Pátio de Santo Onofre. Posteriormente, foram acrescentados o Pátio da Boa Morte, o Beco da Assunção e o Pátio da Assunção. É de crer que sim, pois há uma referência que diz: “Pátio de S. Nicolau e de Sto. Onofre, pertencente aos herdeiros do Dr. Pitter”. Naquela época, não só o Dr. Pitter, mas também pessoas ilustres tinham propriedades na Ponta da Rede, incluindo o Barão do Cercal [10].
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 119 RUA DA PRAIA DO MANDUCO Conforme mostra um mapa de 1865, elaborado por William Augustus Read [11], que foi funcionário das Obras Públicas de Macau, a Rua da Praia do Manduco terminava junto da chamada Rua da Ponta da Rede. Com as obras de aterro e a extinção desta última via, a Rua da Praia do Manduco prolongou-se, desde então, até à Rua do Almirante Sérgio. Naqueles tempos, a Rua da Praia do Manduco deveria terminar no sítio onde está colocada a placa toponímica. Virando a seguir à direita, entra-se na Travessa da Assunção. Foto MV Basílio, em 2020 Uma das primeiras obras de aterro na zona da Praia do Manduco de que há notícia teria sido no ano de 1828, porquanto em 9 de Abril de 1829, “o mandarim de Heong Sán, por apelido Leu, fez saber ao Sr. Procurador de Macau, que recebeu um oficio do Vice-rei de Cantão, em que, atendendo sua Exa. às representações de Sung Ku Chi e outros contra o português Bemvindo, o qual se apossou de um baldio marginal, sito na praia, onde está a pedra chamada Manduco, fazendo um aterro e destruindo um
  • 120 pagode, que ali existia; atendendo à letra de um edital do seu antecessor, o Vice-rei Po, que proíbe construírem-se mais casas e até acrescentar uma só pedra, ou ripa, às que existem; atendendo a que a mencionada pedra do Manduco, sendo memorável na história de Cantão, não devia ser assim coberta de entulho, o que tudo constitui desobediência às leis: - ordena a ele mandarim que mande afixar editais e ofícios ao Sr. Procurador e ao Sr. Ouvidor, para que obriguem o Bemvindo a demolir imediatamente o cais já fabricado e a restituir o terreno ao seu estado primitivo, dando parte depois de executada a ordem, sem oposição alguma”. Relativamente à pedra do Manduco, o livro Monografia de Macau descreve que a sua “forma é redonda, de cor clara e aquosa”, com uma cavidade no interior, à qual os chineses deram o nome de “ha má sék” (蝦蟆石 , literalmente, rã de pedra) [12]. Era considerada “uma pedra estranha”, visto que, em véspera de vento forte ou chuva, ou quando subia a maré, a pedra emitia um som semelhante ao coaxar da rã. Consta que, nos anos sessenta do século XIX, quando foram feitas obras de aterro a partir da praia, aquela pedra acabou por ser enterrada, restando agora, como lembrança, apenas na toponímia portuguesa a Rua da Praia do Manduco, porquanto o termo manduco também significa rã. No passado, ao longo da Praia do Manduco, armadores portugueses tinham lá os seus barcos mercantes atracados, bem como propriedades, designadamente do Barão de S. José de Porto Alegre, Januário Agostinho de Almeida, onde tinha, além de uma armação, uma propriedade com o seu palácio e jardim.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 121 Algumas legendas: 1. Largo da Alfândega (actualmente, Praça de Ponte e Horta); 2. Armação de Serva; 3. Praínha; 14. Armação de Paiva; 15. Armação de Peres; 16. Casa que foi do Barão de Porto Alegre; 17. Grade do Barão; 18. Praia do Manduco; 19, Armação de E. Freitas; 20. Casa de Freitas. (Reprodução parcial da planta topográfica reformada em 1838 por Cândido António Ozório, do livro “Das Cabanas de Palha às Torres de Betão, da Drª. Ana Maria Amaro) Havia também enormes godões [13], pertencentes a diversos negociantes, onde armazenavam mercadorias e produtos. Com o decurso do tempo, tudo isto desapareceu,
  • 122 restando apenas na toponímia alguns nomes que fazem recordar actividades que ali existiram, tal como o Pátio do Godão. Placa toponímica do Pátio do Godão. Foto MV Basilio O ATERRO DA CALDEIRA Consta que, depois de os primeiros comerciantes chineses, nomeadamente Vong Lôk e o seu filho Vong Tâi, terem realizado o primeiro grande empreendimento em Macau, em finais dos anos sessenta do século XIX, cuja obra consistia no aterro e construção de um bairro a partir de uma zona conhecida por Fôk Long, dando então origem ao novo Bairro e Rua da Felicidade, o então governador António Sérgio de Sousa, autorizou a Vong Lôk o aterro de uma enseada, conhecida por Caldeira, situada, aproximadamente, entre o troço final da Rua do Guimarães e a Rua do Bocage, na junção com a Travessa das Virtudes.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 123 Rua das Lorchas, desde o fim da Avenida de Almeida Ribeiro à Praça de Ponte e Horta. Foto dos anos 70 do século XX. Aquela e outras obras de aterro, que anos depois se realizaram, acabaram por criar uma nova via marginal, alargada em 1888, originando então a via designada por Rua das Lorchas. Presentemente, esta via começa no fim da Avenida de Almeida Ribeiro e termina junto da Praça de Ponte e Horta. Num relatório de Fevereiro de 1887, refere, a dado passo, o seguinte: “A regularização da margem que liga por uma larga avenida a fortaleza da Barra ao Patane é, de entre todas estas obras, a mais importante e aquela que mais conveniente é, que em breve vejamos completa.
  • 124 Com ela lucram todos. É de vantagem para o público, sem especializar mais esta ou aquela classe. É indispensável pois que seja o governo a custear a sua execução. Além de regularizar as correntes interiores, melhorar as condições higiénicas dos bairros da Barra, Bazar e Patane, permitindo a construção de canos, aonde todos os destes bairros vão convergir, e a abertura de ruas normais à avenida, que depois de arborizada será a mais bela rua de Macau ... Reconhecendo todas estas vantagens, S. Exa. o Governador mandou já dar princípio a esta obra, e parece-nos que, continuando-a pouco a pouco, não será preciso um grande sacrifício para a levar a fim.” Um troço da Rua das Lorchas, vista em direcção à Praça de Ponte e Horta, continuando, em seguida, na Rua do Almirante Sérgio até à Barra. Foto MV Basílio, em 2020.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 125 ATERROS NA ZONA DO PATANE Ao longo dos tempos, a população chinesa na zona do Patane foi aumentando, sobretudo nos bairros de San Kiu e Sá Kóng, onde se fixaram, não só agricultores e imigrantes, como também a população marítima, conhecida por “sôi seong yan” (水上人, literalmente, “gente que vive sobre a água”), apesar de uma parte dessa população viver, habitualmente, em barcos-habitação, arrumados junto ao rio. Com o crescimento da população e da actividade agrícola, a terra dos campos de cultivo, os detritos e toda a espécie de lixo, eram, de tempos a tempos, arrastados pela água da chuva ou, simplesmente, deitados para o rio, acabando por formar, junto à margem, um grande lamaçal, que constituía uma grande ameaça à saúde pública. Era esta situação que predominava na zona do Patane. Para melhorar as condições higiénicas daquela zona, o governador Tomás de Sousa Rosa, por Portaria nº 81 de 1884, concedeu uma licença para a construção de uma doca no sítio do Patane, em frente da Rua das Pontes, a qual tinha sido requerida por Hó On (何安), na qualidade de director do Pagode do Patane [14], Cheong Wah (張華), gerente da firma Lam Mau (林茂), Vong Kin (黃健), gerente da firma Seng Tai (成泰), Fong Sou (馮蘇), gerente da firma Yek Tai (益泰), Hó Yu Fôk (何裕福), gerente da firma Chim Tai (貞泰) [15], e cuja doca se destinava a guardar e conservar madeiras de construção. O projecto foi aprovado tendo em conta que “constitui um melhoramento que muito deve concorrer para desenvolver este importante ramo de comércio” e ter sido
  • 126 feito “em harmonia com o plano das obras do porto ...”. Com esta obra, nasceu a Doca do Lamau. Mas antes disso, foi realizada, entre 1877 e 1881, noutra zona mais a sul da península, uma obra de aterro para construção de prédios, a qual, pelo que se sabe, foi a primeira obra concessionada a uma entidade particular, mediante a apresentação de um projecto de desenvolvimento, com planta, alçado e pormenores, devidamente aprovado pelo Governo. Trata-se do projecto que foi apresentado pelo empresário macaense Miguel Ayres da Silva. Foram todas aquelas obras de regularização da margem e, sobretudo, as que foram feitas a partir de 1887, que a linha de costa, desde o início da Avenida de Demétrio Cinatti até à Barra, passou a ter uma configuração quase rectilínea. As obras de aterro no porto interior não cessaram desde então. Continuaram no século seguinte, designadamente as que foram realizadas pela Direcção das Obras dos Portos, mediante contrato celebrado com o empreiteiro Tang Ngoc para a obra de alargamento do cais marginal entre a Ponte de Vapores de Hong Kong e o Largo de Ponte e Horta, em 8 de Março de 1923.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 127 NOTAS: [1] Em 1883, veio para Macau, o capitão de Engenharia, Adolfo Ferreira Loureiro, com a missão de fazer um estudo ou levantamento, a fim de apresentar uma solução para o porto de Macau e resolver a questão de assoreamento, tendo elaborado um grande projecto para os aterros do Porto Interior, que posteriormente foi alterado. O trabalho que realizou foi muito elogiado, tendo o Leal Senado atribuído, em 1884, o seu nome a uma via – a Estrada de Adolfo Loureiro, que foi aberta entre 1882 e 1883. [2] O termo “Si Tá”, em chinês, não tem qualquer significado lógico, sendo apenas uma transliteração incompleta da palavra “Fazenda”, na forma abreviada “sin-da” e, depois, deturpada para “si-ta” (司打) e o caracter “hâu” (口) significa “boca” ou “entrada”, devido à doca que lá existia. Por isso, a designação, em chinês, é “Si Tá Hau” (司打口). [3] No edifício da extinta Alfândega funcionavam, então, as repartições de Fazenda, Almoxarifado, Recebedoria de Décimas, Juízo de Direito e Capitania do Porto.+ [4] Caldeira, em Macau, tinha o significado de uma pequena enseada ou doca para embarcações pequenas. [5] Referem-se a pontes-cais para os barcos atracar, embarcar e/ou desembarcar passageiros ou mercadorias. [6] A Comissão nomeada “para determinar e fixar os nomes das vias públicas de Macau” elaborou um relatório e apresentou uma lista actualizada de nomes de vias públicas, a qual serviu de base para a elaboração de futuros Cadastros de Vias Públicas de Macau.
  • 128 [7] Termo usado naquela época para designar, sobretudo, loja de venda a retalho. [8] Às vezes aparece escrita “Ponte da Rede”, como na designação Rua da Ponte da Rede. Trata-se, sem dúvida, de um erro ortográfico, pois aquele sítio era designado por Ponta da Rede. [9] Vicente de Paulo Salatwichy Pitter formou-se em Medicina na Escola Médica de Goa. Era um dos prestigiados médicos do seu tempo, tendo-se dedicado também ao comércio. Casou a 1ª vez com Hermelinda Joaquina Cortela Leiria e, a 2ª vez, com sua cunhada Eugénia Norberta Cortela Leiria. A família Leiria possuía propriedades em Ponta da Rede. [10] Em 4 de Julho de 1879, a Viscondessa do Cercal, querendo liquidar as contas do seu falecido marido, Visconde do Cercal (anteriormente, Barão), com o banco Chartered Bank of India, Australia and China, sediado em Hong Kong, anunciou a colocação à venda das seguintes propriedades para o pagamento da dívida: Casa nº 17, na Rua da Praia Grande; Casa nº 99, na Rua da Praia Grande; Casa nº 34, com armazém, na Rua da Ponta da Rede; e, 8 boticas contíguas à mesma casa, com frente para o mar, com os nºs. 169, 171 e 173. [11] William Augustus Read, nasceu a 24 de Junho de 1843, em Clifton, Bristol, Inglaterra, e era engenheiro civil. Trabalhou nas obras do porto de Hong Kong e, depois, foi funcionário das Obras Públicas de Macau. Casou em 15 de Abril de 1866 com Clotilde Maria Martinho Marques, filha de José Martinho Marques, e deste casamento teve duas filhas: Clotilde Maria Marques Read (da Rosa) e Maria Salomé Marques Read (Leitão). William A. Read faleceu em Macau a 8 de Fevereiro de 1872 e, sendo protestante, foi sepultado no Novo Cemitério Protestante, junto da Estrada de Ferreira do Amaral, onde ainda existe a sua campa.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 129 Há um édito citatório, datado de 21 de Fevereiro de 1870 e publicado em Boletim Oficial, a respeito de uma petição feita por um chinês, chamado Lo-Angui, representado pelo seu procurador, o advogado Felicissimo da Cruz Lobo, em que alegou que William A. Read foi devedor ao seu falecido pai, “de quem o suplicante é hoje o único e universal herdeiro, e actual representante, da quantia de $1.200 patacas, por conta da fabricação de uma casa com seu competente jardim, sita na estrada atrás do quartel de S. Francisco, e de que tendo-lhe pago o mesmo Read apenas a importância de $500 patacas, passou uma promissória obrigando-se a solver em curto prazo a restante quantia de $700 patacas, o que até aqui não chegou a fazer, tendo decorrido a obrigação mais de um ano...” A referida casa com jardim passou, mais tarde, a pertencer a Francisco Filipe Leitão, casado com Maria Salomé Marques Read, filha de William A. Read, e a ser conhecida por “Chácara Leitão”. Francisco Leitão foi chefe da Repartição Civil da Secretaria Geral do Governo de Macau e Timor. Depois de aposentado, dedicou-se ao comércio, tendo também exercido outras funções, designadamente o cargo de tesoureiro de Santa Casa da Misericórdia. Estando o prédio hipotecado e por não terem pago na data de vencimento os respectivos juros, a Chácara ou Vila Leitão, construída num terreno com a área de 2.586,12 m2, foi arrematada, em hasta pública judicial, em 1935 e, seguidamente, inscrita na Conservatória, a favor da Caixa Económica Postal de Macau, em 11 de Outubro de 1935. [12] Versão de “Ou Mun Kei Leok:《澳門紀略》說 “其形圓,其色清潤,每風雨當夕,海潮初上,則閣閣有聲” .
  • 130 [13] Um termo derivado do indo-inglês godown, que significa armazém ou depósito. [14] O pedido foi subscrito pelo director do Pagode do Patane e por diversos comerciantes. De salientar que, naqueles tempos, os directores de Pagodes (efectivamente não eram pagodes, mas sim templos chineses, como são agora designados) tinham poderes de representação de uma localidade ou povoação chinesa, visto que as respectivas Associações de Pagodes eram as principais donas de propriedades rurais na península de Macau. [15] Foi feita uma actualização da romanização, não só dos nomes dos requerentes, como das respectivas firmas, constantes da referida Portaria. Publicações consultadas: • Boletins da Província de Macau e Timor; • Das cabanas de palha às torres de betão, de Ana Maria Amaro; • Cadastros das Vias Públicas de Macau; • Publicações diversas, nomeadamente o blogue nenotavaiconta. O antigo Hotel Ng Chau, na Rua das Lorchas
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 131 Rua do Almirante Sérgio, que termina no Largo do Pagode da Barra A população marítima junto à Rua do Almirante Sérgio
  • 132 Localização da Ponta da Rede assinalada com um círculo vermelho. Verifica-se que a zona marginal era recortada e sem vias rectilíneas. Reprodução parcial do mapa de W. Bramston, de 1840.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 133 Local da antiga zona da Ponta da Rede, que desapareceu com os aterros. No lado direito do prédio da cor branca (já demolido) é o fim da Rua da Praia do Manduco. Foto dos anos 50-60 do século XX, com um panorama diferente do presente. O Lane de Peixe (ou Loja de Peixe) Seng Kei Long (成記隆), localizado na junção entre a Rua da Prosperidade (no lado direito) e a Rua da Praia do Manduco (no lado esquerdo). Esta zona, antes das obras de aterro, era designada por Ponta da Rede. Com a construção do Infantário-Dispensário “Santa Maria Mazarello”, inaugurado em 03.10.1966, e depois, a Escola-Creche “Santa Maria Mazzarello”, no terreno resultante da demolição daqueles antigos prédios, as referidas ruas ficaram separadas, sem comunicação directa. Foto dos anos 50-60 do século XX
  • 134 Em primeiro plano, é a Rua do Almirante Sérgio. A via onde está um carro vermelho é a Rua da Praia do Manduco. No lado direito (onde está a sinalização de entrada proibida para viaturas) é Travessa da Prosperidade, que, juntamente com o troço final da Rua da Praia do Manduco, fazia parte da extinta Rua da Ponta da Rede. O prédio em cor salmão dividiu o acesso às duas vias. Foto MV Basílio. Um troço da Rua do Almirante Sérgio, que vai terminar no Largo do Pagode da Barra. No lado esquerdo, o prédio em cor de salmão é a Escola-Creche Santa Maria Mazzarello, localizada entre a Rua da Praia do Manduco e a Travessa da Prosperidade. Foto MV Basílio, em 2020.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 135 Um troço da Rua do Almirante Sérgio. Foto MV Basílio, em 2020 Rua do Almirante Sérgio, nos anos 50 do século XX.
  • 136 Desenho de George Chinnery, com a seguinte anotação no canto superior esquerdo: “General view of the Praya Manduco & Penha Convento. May 5, 1830”. Junto à data, está uma cruz, que Chinnery costuma marcar nos seus esboços quando o seu trabalho está concluído ou perfeito. Vista junto do Pagode da Barra, ainda cercado de água, com os dois imponentes mastros a ladear o cais. Desenho em aguarela de George Chinnery.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 137 Praça de Ponte e Horta. Foto MV Basílio, em 2020 Obras de alargamento da via marginal, a partir de 1923. No lado esquerdo, vê-se parcialmente a Praça de Ponte e Horta, e a seguir, a Rua do Almirante Sérgio.
  • 138
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 139 OBRA CONCESSIONADA A MIGUEL AYRES DA SILVA
  • 140 OS PRIMEIROS GRANDES ATERROS O território de Macau, desde os primórdios do estabelecimento dos portugueses, era visto pelos chineses como uma espécie de enclave estrangeiro, onde os portugueses estavam autorizados a residir, a ter as suas autoridades civis e militares e a praticar a sua religião. A fixação dos portugueses em Macau, a partir de meados do século XVI, acabou por ser uma presença benéfica para ambas as partes, visto que o comércio praticado pelos portugueses proporcionava não só rendimentos ao governo provincial, como também benefícios à corte imperial. Quando Macau se desenvolveu, a ponto de se tornar uma cidade, passou a estar, administrativamente, dependente do mandarim do distrito de Heong Sán [1] e este, por estar longe de Macau, foi então proposta a criação, em 1731, de um sub-mandarinato, que ficou sediado em Chin Sán (前山), uma localidade a cerca de 3 km de Macau, o qual era designado pelos portugueses por mandarim da Casa Branca. No entanto, para melhor vigiar os estrangeiros e intervir nos assuntos administrativos, foi designado em 1736 um delegado ou assistente, conhecido por Tso-tang (佐堂 , em cantonense, Chó T’óng e, em pinyin, Zuotang), em quem foram delegadas parte das atribuições do mandarim da Casa Branca, tendo esse delegado, mais tarde, passado a residir dentro da cidade de Macau. Desde o estabelecimento de Macau e durante quase três séculos, o crescimento da cidade cristã esteve sujeito a restrições impostas pelas autoridades chinesas, visto que as novas construções, e até reconstruções, careciam de
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 141 autorização do mandarim da Casa Branca. Só por volta de 1843 e, efectivamente, durante o governo de Ferreira do Amaral, é que tais restrições cessaram, e esta situação assim continuou no período subsequente ao assassinato daquele governador, ocorrido em 22 de Agosto de 1849. Em virtude desse incidente, o delegado do Chó T’óng, que aqui vivia, saiu apressadamente de Macau e nunca mais regressou. Iniciou-se, a partir de então, um novo período, conhecido por governo colonial, que durou 150 anos, até 1999, e foi durante esse período que Macau conheceu novas formas de desenvolvimento, tendo expandido o seu território peninsular, com sucessivos aterros, quer do lado oeste, quer do lado leste. Além disso, foram também ocupadas as ilhas situadas a sul, primeiro, as ilhas da Taipa (Taipa Grande e Taipa Pequena) em 1847 e, depois, a de Coloane, em 1864, a pretexto da defesa da população contra os piratas. A área territorial de Macau, originalmente estimada em cerca de 3 km2, pouco cresceu ao longo dos tempos. Nas plantas cartográficas de finais do século XVIII, a linha de costa no lado oeste ainda era recortada, com reentrâncias em várias localidades, designadamente a que se situava na zona conhecida por Praia Pequena. Até finais do século XIX e princípios do século XX, o território de Macau, que incluía a península de Macau e a Ilha Verde, as ilhas da Taipa Grande e Taipa Pequena, a ilha de Coloane e o ilhéu de Ka-hó, totalizava uma área de 11,5 km2, distribuída da forma seguinte: Macau com 3,6 km2; Taipa com 2 km2 e Coloane com 5,9 km2.
  • 142 ALARGAMENTO TERRITORIAL NA PENÍNSULA DE MACAU A partir do início do século XIX até por volta de 1865, os depósitos do leito do rio, no Porto Interior, foram subindo naturalmente, de forma que o assoreamento dificultava a navegação de embarcações. Em meados dos anos sessenta, a situação agravou-se ainda mais e, por isso, as obras de aterro tiveram de ser intensificadas. Foi, portanto, na segunda metade do século que surgiram as primeiras iniciativas por parte de empresários locais que se empenharam na urbanização, edificando conjuntos de prédios em novos aterros. O primeiro grande empreendimento, iniciado nos anos 60 do século XIX, foi executado por iniciativa do empresário chinês Vong Lôk (王祿) que, juntamente com o seu filho Vong Tâi ( 王棣 ), aterrou uma vasta zona, tendo ali construído o novo bairro de “Fôk Long” (literalmente, “felicidade abundante”), o qual ficou conhecido, em português, por Bairro da Felicidade. Anos mais tarde, em 1877, Miguel Ayres da Silva, em requerimento de 22 de Janeiro, pediu autorização para “aterrar o espaço compreendido entre a muralha marginal do rio e a linha tirada da Rua da Caldeira à Rua do Tarrafeiro no ponto onde uma extensa curva forma a Rua Marginal”. O requerimento que apresentou “vinha abonado com favorável informação do Sr. Director das Obras Públicas, o qual considerava vantajosa a concessão por isso que dela resultava um melhoramento higiénico para a cidade, um aformoseamento para o porto, e finalmente um meio para
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 143 acelerar o curso das águas de que deve resultar a diminuição do assoreamento do rio”. O então governador, Carlos Eugénio Correia da Silva, depois de considerar que “o projecto de obras em todos os seus detalhes, plantas, perfis, alçados e mais trabalhos especiais têm já aprovação do Conselho Técnico das Obras Públicas”, bem como as vantagens que tais obras de aterro podiam proporcionar o desenvolvimento da cidade, designada-mente “aplicar o mesmo terreno ao estabelecimento de empresas comerciais e industriais, que devem contribuir para desenvolver a actividade do trabalho, e com esta a prosperidade pública ...”, aprovou, por Portaria nº 64, de 2 de Julho de 1877, o pedido de uma licença "para aterrar, na margem do porto interior de Macau, o espaço limitado para o mar por uma linha recta tirada entre um ponto da muralha marginal situado 24 metros ao sul da Rua da Caldeira e outro em frente do ângulo norte da Travessa do Matadouro, e fechado pela Rua Marginal que passa por aqueles dois pontos", sujeitando-se o concessionário às condições que lhe são impostas, designadamente: • Concluir todo o aterro e os cais e as obras assinaladas no contrato no prazo improrrogável de 3 anos, salvo motivo de força maior devidamente julgado pelo Conselho Técnico das Obras Públicas; • Efectuar uma fiança de vinte mil patacas; • Reconhecer a Fazenda Pública como directo senhorio do novo aterro e o concessionário e quem quer que seja como enfiteuta desses terrenos; • Pagar à Fazenda Pública o foro anual;
  • 144 • Reverter, como propriedade do domínio público, os arruamentos, cais, rampas e logradouros; • Arborizar os largos e ruas; • Ficar a obra sujeita à inspecção do governo, ou directamente, ou por intermédio da Repartição das Obras Públicas; • Ser penalizado por incumprimento do contrato, etc, etc., ficando, como de direito, livre às partes contratantes alterar, revogar, acrescentar ou diminuir de comum acordo qualquer das presentes condições. Antes de aprovar a concessão, o governador Carlos Eugénio Correia da Silva reuniu o Conselho Técnico das Obras Públicas, tendo este Conselho dado aprovação plena e sem restrições. Em seguida, o projecto foi apresentado em sessão da Junta de Fazenda, que também deu aprovação unânime ao projecto. Assim, numa acta do Conselho do Governo, de 6 de Junho de 1877, ficou registada a intervenção do governador Correia da Silva, tendo este dito que “há muito tais concessões são feitas, preterindo-se por vezes as fórmulas legais” e que, “embora pudesse fazer a concessão pedida seguindo o exemplo dos seus antecessores, preferiu e julgou conveniente ouvir as estações competentes”. Cumpridas todas as formalidades, o contrato entre o Governo da Província de Macau e Timor e Miguel Ayres da Silva foi assinado a 2 de Julho de 1877, sendo este o primeiro contrato formalmente celebrado em Macau, com plano de pormenor projectado para um terreno concessionado.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 145 A parte assinalada a amarelo corresponde sensivelmente à zona de aterro, cujas obras foram executadas de acordo com o projecto de Miguel Ayres da Silva UMA ALTERAÇÃO QUE MOTIVOU O INCUMPRIMENTO CONTRATUAL Numa altura em que os processos usados na execução de aterros não estavam suficientemente desenvolvidos, nem se realizavam os adequados estudos de prospecção na zona a ser aterrada, era natural terem surgido contratempos e obstáculos no decurso da obra, de modo que os operários tiveram que recorrer a processos tradicionais para solucionar e ultrapassar as situações imprevistas e, assim, o
  • 146 concessionário acabou por incorrer em incumprimento contratual. Face a essa situação, numa sessão do Conselho do Governo, em 26 de Junho de 1879, o Director das Obras Públicas comunicou que o concessionário “continuava com as obras fora das condições do contrato e sem consentimento da autoridade competente, sendo em consequência disso intimado administrativamente para suspender a obra” e, em resposta, o concessionário fez vários requerimentos que foram submetidos ao parecer do Conselho Técnico. O incumprimento deveu-se à substituição do sistema de construção do muro de suporte fixado no contrato, que, em vez do sistema de ensecadeiras, o concessionário utilizou o usual processo de enrochamento ou de pedras soltas [2]. Entretanto, nenhuma decisão foi tomada, porque o Conselho do Governo “resolveu esperar pelo novo Director das Obras Públicas”. Este, logo que chegou, estudou a questão e apresentou o seu relatório, tendo dito que “o sistema das ensecadeiras era o mais científico e conveniente que se podia adoptar, mas que, conquanto o do enrochamento fosse mais inconveniente por causa dos assoreamentos a que podia dar lugar; visto o concessionário ter já construído 120 metros da muralha por este sistema, havia só dois caminhos a seguir: ou rescindir o contrato, ou obrigar o concessionário a desmachar a parte construída pelo mesmo sistema. Mas que, para desmanchar e fazer a obra de novo, não bastava o depósito de 20.000 patacas, porque tudo estava orçado em mais de 120.000 patacas e para rescindir o contrato e não fazer a obra segundo as condições do contrato primitivo, parecia querer-se somente
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 147 obrigar o concessionário aos prejuízos da rescisão. Que o sistema de enrochamento também era seguido e a parte feita podia considerar-se boa e em condições de aceitar-se, podendo neste caso exigir-se como garantia da obra já feita por este sistema, que o depósito de 20.000 patacas continuasse obrigado por mais dez anos depois de terminada a construção.” Face aos termos deste relatório, o Conselho Técnico resolveu aceitar a substituição de ensecadeiras pelo enrochamento, prolongando-se o depósito das 20.000 patacas por mais dez anos, ficando o concessionário obrigado a fazer à sua custa todas as obras que dentro desses dez anos se tornassem necessárias. Apesar das questões levantadas relativamente à concessão, a obra de aterro prosseguiu, tendo sido dada como concluída e em condições de ser aceite, conforme consta da Portaria nº 35, assinada pelo governador Joaquim José da Graça, em 4 de Março de 1881. Na mesma data, começou-se a contar o prazo de três anos, concedido pelo contrato de concessão, para as edificações, bem como o prazo para restituição da fiança de 20.000 patacas, destinada a garantir ao fiel cumprimento das condições pela parte do concessionário, que deveria ficar livre logo que a obra esteja concluída, mas que foi estendida por mais dez anos, por modificação das condições estabelecidas no contrato inicial [3]. Apesar de a zona aterrada ser relativamente extensa, teria decorrido a bom ritmo a construção de prédios e a abertura de arruamentos dentro do novo aterro, então conhecido por
  • 148 “Aterro da Rua Marginal do Porto Interior”. Por proposta do concessionário, o governador Joaquim José da Graça, aprovou e mandou publicar, a 15 de Novembro de 1882, o seguinte Edital: Que, sendo necessário dar nomes às ruas do novo aterro, construído na rua marginal por Miguel Ayres da Silva, e conformando-me com a proposta feita pelo referido Miguel Ayres da Silva, as ruas do novo aterro serão denominadas pela forma seguinte: • A rua marginal que entronca na Rua Guimarães por norte e sul, denominar-se-á Rua de Visconde de Paço d’Arcos; • A rua paralela à mesma, compreendida entre a Travessa Veng On Kai [4] e a Rua do Mercado [5], denominar-se-á Rua Nova do Comércio; • A rua transversal em continuação da Rua do Mercado, denominar-se-á Rua do Corte Real; • A continuação da Rua da Madeira denominar-se-á Rua de Constantino Brito; • A rua fronteira ao Largo do Pagode denominar-se-á Rua de Miguel Ayres; • A continuação da Rua do Teatro denominar-se-á Rua de Bispo Enes; • A continuação da Rua do Infante denominar-se-á Rua do Coronel Ferreira; • A continuação da Rua dos Faitiões denominar-se-á Rua de Pedro Nolasco.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 149 Como se vê, Miguel Ayres da Silva propôs nomes de amigos seus praticamente a todas as novas vias que foram abertas no aterro, a fim de homenagear: • Dr. José Alberto Homem da Cunha Côrte-Real, que foi secretário-geral da província de Macau e Timor, de cujo cargo tomou posse a 12 de Julho de 1878, com a Rua de Corte Real [6]; • Engº. Constantino José de Brito, que passou a desempenhar o cargo de Director das Obras Públicas de Macau e Timor em 1881, com a Rua de Constantino Brito. O trabalho do Engº. Brito mereceu diversos louvores, mas acabou exonerado por divergências com o Governador Tomás de Souza Rosa. Enquanto Director das Obras Públicas, colaborou activamente com Tancredo Cazal Ribeiro na arborização da cidade e com Adolfo Loureiro nas obras do Porto de Macau; • D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, Bispo de Macau entre 1873 e 1883, com a Rua do Bispo Enes; • Tenente-Coronel Francisco Augusto Ferreira da Silva, que exerceu o cargo de Comandante Geral da Guarda Policial, com a Rua do Coronel Ferreira; • Seu irmão, Pedro Nolasco da Silva, com a Rua de Pedro Nolasco; • O Capitão-Tenente Carlos Eugénio Correia da Silva, que foi Governador de Macau e Timor entre 1876 e 1879, agraciado com o título de Visconde de Paço d’Arcos, a 23 de Janeiro de 1879, o qual, enquanto Governador da Província, autorizou por Portaria nº
  • 150 64, de 2 de Julho de 1877, a concessão da obra de aterro, com a Rua de Visconde de Paço d’Arcos; e, ainda, não se esquecendo de si, foi dado o nome de Rua de Miguel de Ayres a uma das melhores vias, localizada entre o Largo do Pagode do Bazar e a Rua de Visconde de Paço d’Arcos; e, por fim, à via interior, paralela à Rua de Visconde de Paço d’Arcos, foi atribuído o nome de Rua Nova do Comércio, que actualmente começa na Rua do Guimarães, junto à Avenida de Almeida Ribeiro, e termina na mesma Rua do Guimarães, entre a Rua de Pedro Nolasco e a Travessa dos Faitiões. Placa toponímica da Rua de Miguel Aires colocada na parede de um prédio erigido no fim da rua, junto da Rua do Guimarães e em frente do Largo do Pagode do Bazar. Foto MV Basilio, em 2020.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 151 NOVA ALTERAÇÃO AO CONTRATO DE CONCESSÃO Em 10 de Janeiro de 1882, Miguel Ayres requereu, juntamente com os novos proprietários dos edifícios construídos na rua marginal, a modificação da condição 11ª do contrato celebrado em 2 de Julho de 1877, “visto que deixou de construir as arcadas a que era obrigado pela referida condição”, tendo, em alternativa a esta obrigação, proposto uma indemnização, que consistia na construção de uma estação policial, no local que for mais conveniente. O pedido foi apreciado e aceite, porquanto “... uma arcada na referida rua com dimensões inaceitáveis que só serviriam de obstáculo ao trânsito público, diminuindo considerável-mente a largura da rua principal”. O referido pedido foi aprovado por Portaria nº 19, de 6 de Março de 1882, tendo o Director das Obras Públicas sido incumbido da elaboração do projecto da dita estação policial. UM MACAENSE COM ASCENDÊNCIA ILUSTRE Miguel Ayres da Silva nasceu em Macau a 17 de Julho de 1844, sendo filho de Pedro Nolasco da Silva e de Severina Maria da Silva. Descendente da família tradicional macaense “Nolasco da Silva”, era irmão do sinólogo Pedro Nolasco da Silva (Jr.). Era um abastado comerciante, porquanto o seu nome consta da “Relação de doze cidadãos mais colectados que devem servir de vogais do conselho municipal no biénio de 1885 e 1886”, na qual estavam incluídos Bernardino de
  • 152 Senna Fernandes, Lourenço Marques, António Marques da Rosa, José Thomaz Robarts, Francisco Paula de Noronha e outros. Foi um dos fundadores do Jornal O Noticiário Macaense (1869-1870), um semanário político. Foi um dos subscritores da “Acta da instalação da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses”, datada de 17 de Setembro de 1871 e, como accionista, entrou com a quantia de duzentas patacas para os fundos da Associação e, mais tarde, integrou a Comissão Directora daquela Associação, como vogal. Integrou também o Tribunal do Comércio, como um dos jurados, de que faziam parte o Barão do Cercal, Lourenço Marques e Francisco Xavier, no ano de 1879. Como comerciante, era agente comercial, comissionista e leiloeiro e tinha o seu estabelecimento em Macau, na Rua Central nº 28 e a firma Ayres & Co., em Hong Kong, 42, Queen’s Road Central [7]. A 2 de Julho de 1877, foi-lhe concessionada a obra de aterro do espaço do leito salgado na margem do Porto Interior, que tinha solicitado ao governo, mediante determinadas condições, tendo a obra sido dada por concluída a 4 de Março de 1881. Foi eleito vereador para o biénio de 1883-1884, numa votação realizada no Paço do Concelho Municipal, em 26 de Novembro de 1882, tendo, nessa eleição, sido o candidato mais votado, com 149 votos. Na distribuição dos pelouros, foi-lhe atribuído o de supervisão da limpeza da cidade.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 153 Por proposta do Leal Senado, foi nomeado, por Portaria nº 1, de 3 de Janeiro de 1883, para servir como vogal do Conselho Técnico das Obras Públicas. Fez parte da Junta do Lançamento de Décimas, como consta da Portaria nº 3, de 9 de Janeiro de 1884. DOAÇÃO DE UM TERRENO E DE 16 CASAS Em 1884, sabendo que o Leal Senado desejava possuir um mercado, Miguel Ayres propôs a essa instituição a doação de um terreno e de 16 casas situadas na Rua Nova do Comércio, na condição de o “terreno, casas nele construídas e as casas por construir serão exclusivamente destinadas para mercado municipal de peixe”; o rendimento deste mercado será destinado exclusivamente para sustentar a Escola Central de instrução primária elementar e complementar; que do rendimento desse mercado se deduzirá permanentemente 200 em cada ano, que deverão ficar à disposição da junta escolar” para comprar material didáctico; formar, pouco a pouco, uma biblioteca escolar; e, conservar e aumentar o museu escolar na Escola Central. A doação foi aceite, tendo o Leal Senado tomado posse do terreno e respectivas casas a 5 de Abril de 1884. INESPERADO FALECIMENTO Miguel Ayres da Silva faleceu relativamente novo, em Macau, a 17 de Setembro de 1886, com 42 anos de idade, vítima de uma “febre gástrica perniciosa”, conforme noticiou “O Correio Macaense”, e “os seus restos mortais foram dados à
  • 154 sepultura no dia imediato, pelas 5 horas da tarde, acompanhados de um grande número de amigos”. Está sepultado no cemitério de S. Miguel Arcanjo. No entanto, na sua campa jazem também Eliza Remédios Ayres da Silva, José Neves Catela, Melina Ayres da Silva Catela, Marina Neves Catela Antunes e Maria Teresa Ayres da Silva Neves Catela. Campa de Miguel Ayres da Silva no Cemitério de S. Miguel Arcanjo ONDE SE LOCALIZAVA O MERCADO? As edificações no novo aterro incluíam a construção de um mercado de peixe fresco. Este mercado já não existe, pois
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 155 foi demolido e o mesmo local foi aproveitado para construção de prédios comerciais e habitacionais. Efectivamente, onde se localizava o mercado? A respeito da localização desse mercado, há uma pequena menção, publicada no Boletim Oficial de 5 de Janeiro de 1884, informando “que ainda está em construção no aterro entre a Rua de Miguel Ayres e a Rua Bispo Ennes” [8]. A placa toponímica assinala o Pátio do Mercado Interior de Miguel Aires. Antes das novas construções, havia nessa entrada um portal com os caracteres chineses “Kông Kôk Kái Si” (公局街市), que, tal como muitos outros portais, acabou por ser demolido. Foto MV Basilio, em 2020. O edifício para o mercado estava praticamente concluído em princípios de 1884, visto que, em sessão do Conselho da Província, realizada em 20 de Fevereiro de 1884, foi aprovada uma Postura Municipal, na qual se mencionou a abertura do novo mercado municipal de peixe, “por estar já
  • 156 pronto o edíficio, que Miguel Ayres da Silva fez doação ao Leal Senado”, o qual será denominado “Mercado Municipal” (em chinês, 公局街市 Kông Kôk Kái Si”). Era um mercado com uma estrutura relativamente simples, porquanto na Postura, aprovada pelo Conselho do Governo, em 27 de Março de 1884, que determinou o encerramento dos mercados de peixe sitos na Rua da Barca da Lenha e na Rua do Tarrafeiro, refere a “mudança desses mercados para o mercado municipal que se estabeleceu nos telheiros sitos entre a Rua Nova do Comércio e Rua do Guimarães”. Portanto, era uma estrutura formada por telheiros, onde funcionou, como mercado de peixe fresco, até finais de 1917 e, subsequentemente, foi encerrado, tendo o terreno resultante da demolição sido aproveitado para a construção de prédios. Actualmente, a memória que resta é a designação toponímica Pátio do Mercado Interior de Miguel Aires, reduzido a um beco sem saída, situado junto da Rua do Bispo Enes. RUA DO GUIMARÃES Merece ser feita uma breve referência à Rua do Guimarães, cujo topónimo foi dado em homenagem a Isidoro Francisco Guimarães, que foi governador de Macau no período entre 1851 e 1863, durante o qual conseguiu melhorar a situação política, social e económica de Macau, mediante a implementação de uma série de reformas. Antes de as obras de aterro realizadas por Miguel Ayres da Silva, a Rua do Guimarães era uma via à beira-mar, que começava na Rua da Ribeira do Patane, à entrada da Rua de
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 157 Cinco de Outubro, passando mesmo defronte ao Largo do Pagode do Bazar, indo terminar na Rua das Lorchas, à entrada da Travessa das Virtudes. Porém, o topónimo em chinês não faz nenhuma referência ao governador Guimarães, continuando a ser denominada, desde então, por “Hói Pin Sân Kái” (海邊新街 , ou seja, rua nova à beira-mar). Actualmente, esta rua começa na Travessa das Galinholas e termina na Rua das Lorchas. O topónimo Rua do Guimarães foi dado em homenagem ao governador de Macau, Isidoro Francisco Guimarães, cuja denominação, em chinês, é “Hói Pin Sân Kái” (海邊新街), isto é, “rua nova à beira-mar”. Foto MV Basílio. Por conseguinte, pode-se, ainda hoje, facilmente verificar a então linha marginal, a partir da qual Miguel Ayres da Silva iniciou as suas obras de aterro. AINDA EXISTEM AS PRIMEIRAS CONSTRUÇÕES NAQUELA ZONA DE ATERRO? Hoje em dia, quem transita naquela zona antiga da cidade, constata que muitos prédios antigos foram já demolidos, estando presentemente em renovação ou reabilitação
  • 158 urbana, podendo-se ver, tanto ao longo da Rua Nova do Comércio (também designada em chinês por “San T’in Tei 新填地 , ou seja, aterro novo), como em vias transversais, diversos prédios recentemente construídos, quer para hotéis e estabelecimentos similares, quer para outras actividades comerciais e, também, para fins habitacionais. Um novo estabelecimento hoteleiro, de 2 estrelas, denominado Hotel Caravel (卡爾酒店), construído num dos quarteirões entre a Rua do Guimarães (no lado esquerdo) e a Rua Nova do Comércio (no lado direito), o qual entrou em funcionamento em 2018. Para a construção desse Hotel, foram demolidos prédios antigos, originalmente edificados segundo o projecto de Miguel Ayres da Silva. Foto MV Basilio, em 2020. A renovação urbana na zona do Porto Interior é assunto de enorme importância para a melhoria do ambiente e da vida dos residentes, tendo esta necessidade sido proposta e discutida em diversas ocasiões, porquanto, além da renovação, é indispensável revitalizar o comércio e turismo
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 159 nos bairros antigos daquela zona, onde no passado tiveram a sua época de grande prosperidade. Uma primeira grande iniciativa, com o objectivo de dinamizar aquela zona antiga, foi o empreendimento hoteleiro PONTE 16 RESORT, construído em 2008 junto da antiga Ponte-Cais 16, o qual, além de estar dotado de um hotel - Sofitel Macau, com restaurantes, outros estabelecimentos e instalações, possui um casino, que constitui um dos atractivos para turistas. A partir de então, começaram a surgir novas construções nas imediações daquele empreendimento hoteleiro, em terrenos resultantes da demolição de prédios antigos, incluindo os que foram construídos segundo o projecto de Miguel Ayres. Apesar de recentes demolições, sobretudo na Rua Nova do Comércio, ainda restam alguns prédios do projecto inicial, e se tais prédios não forem atempadamente salvaguardados, dentro de poucos anos nem vestígios restarão para as gerações vindouras. NOTAS: [1] Até 1925, Zhongshan (中山 , em cantonense lê-se “Chông Sán) era geralmente conhecida como Heong-sán (香山, literalmente, montanha odorífera), devido a muitas flores que cresciam nas montanhas próximas. Zhongshan é uma das poucas cidades da China com o nome de uma pessoa, em homenagem a Dr. Sun Yat-sen (1866–1925), que também é conhecido pelo nome de Sün Zhongshan.
  • 160 [2] Apesar do incumprimento em causa, o sistema de enrochamento ou pedras soltas continuou a ser usado nos aterros, mesmo no século seguinte, em contratos celebrados pela Direcção das Obras do Porto de Macau. [3] Devido ao prolongamento do prazo por mais dez anos, Miguel Ayres da Silva não pôde solicitar, durante a sua vida, o reembolso da fiança prestada, visto que faleceu em 1886. [4] A Travessa Veng On Kai deveria situar-se próximo da Travessa dos Faitiões, que em chinês também é designada por “Veng On Chông Kai” (永安中街, literalmente, rua do meio de “Veng On”) [5] A Rua do Mercado terá sido extinta com a demolição do Mercado Municipal, construído por Miguel Ayres da Silva. [6] A Rua de Corte Real foi extinta aquando da abertura da Avenida de Almeida Ribeiro. [7] Informação extraída do blogue nenotavaiconta. [8] O Mercado Municipal estava situado no quarteirão limitado pelas seguintes vias: Rua de Miguel Aires, Rua do Bispo Enes, Rua Nova do Comércio e Rua do Guimarães. Publicações consultadas: • Boletins da Província de Macau e Timor; • Cadastros das Vias Públicas de Macau; • Publicações diversas, nomeadamente jornais do século XIX e o blogue nenotavaiconta.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 161 Prédio nº 97, localizado na Rua do Visconde Paço de Arcos, sendo este um dos raros exemplares que restam das construções de Miguel Ayres da Silva. Foto MV Basílio, em 2020. Alçado da fachada principal
  • 162 Portadas para janelas exteriores em madeira dos prédios originais. Foto MV Basílio, em 2020. Um troço da Rua Nova do Comércio, ainda com dois prédios antigos, a resistir à demolição. Foto MV Basílio, em 2020
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 163 Vários prédios antigos, localizados na Rua do Guimarães, a aguardar requalificação ou demolição? Foto MV Basílio, em 2020. No lado esquerdo, a Rua do Guimarães vista de outro ângulo, cuja rua é designada, em chinês, por “rua nova à beira-mar”. Foto MV Basílio, em 2020.
  • 164 Placa toponímica da Rua Nova do Comércio, que em chinês também é denominada “Sân T’in Tei” (新填地), ou seja, “aterro novo”. Foto MV Basílio, em 2020 A Rua Nova do Comércio, vista de outro ângulo, junto do antigo Hotel Cantão. Foto MV Basílio, em 2020
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 165 Edifício do antigo Hotel Cantão (廣州大酒店 “Kwong Chau Tai Chau Tim”), no presente e no passado.
  • 166 A Rua Nova do Comércio, vista de outro ângulo, junto da Rua de Constantino de Brito. Foto MV Basílio, em 2020 Rua de Constantino de Brito, a partir do cruzamento com a Rua Nova do Comércio. Foto MV Basílio, em 2020
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 167 Rua de Miguel Aires, em direcção ao Largo do Pagode do Bazar. Foto MV Basílio, em 2020 Obras de fundação no terreno de um prédio que foi demolido, sito Rua de Miguel Aires. Quase século e meio após o início das obras de aterro, o subsolo continua enlameado. Foto MV Basílio, em 2020
  • 168 IFU Hotel (怡富酒店), na Rua do Bispo Enes. Foto MV Basílio, em 2020 Aterro no Porto Interior, vendo-se no lado direito a Rua do Visconde Paço de Arços e, no lado esquerdo, parte da Avenida de Demétrio Cinatti. A faixa do lado esquerdo foi alargada nos anos vinte do século XX.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 169 Rua do Visconde de Paço de Arcos, antes do alargamento da via marginal. No lado direito, vêem-se os prédios construídos de acordo com o plano de Miguel Ayres da Silva. Foto de princípios do século XX. Esta via é designada por Rua do Visconde de Paço de Arcos, que foi criada após o aproveitamento do terreno resultante do aterro feito por Miguel Ayres da Silva. Os prédios que Ayres da Silva construiu estavam no lado direito e que já foram praticamente todos demolidos e reaproveitados para novas construções. Foto MV Basílio, em 2020.
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  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 171 URBANIZAÇÕES EXTRAMUROS
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  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 173 A QUESTÃO DOS LIMITES TERRITORIAIS Quando as autoridades chinesas consentiram, por volta de 1557, o estabelecimento dos portugueses numa pequena parcela de terra, situada no sul da China, a que deram o nome de Porto do Nome de Deus, desde então muitos portugueses, sobretudo os que se encontravam em Lampacau, transferiram as suas residências para aquela nova localidade, visto que oferecia melhores condições de vida e, passados poucos anos, veio a transformar-se numa povoação, com significativo número de habitantes. O consentimento dado a estrangeiros, neste caso a portugueses, para residirem em “partes da China” não é caso inédito. A China sempre teve certa relutância em permitir a entrada de estrangeiros no seu país e dificilmente lhes autorizava a fixação de residência para poderem comercializar nos seus principais portos. Reza, no entanto, a história, que já nos tempos da dinastia Tang, houve comerciantes estrangeiros, principalmente indianos, árabes e persas, que foram autorizados a viver em Cantão, em zonas circunscritas, designadas fanfang (番坊 , literalmente, bairro dos estrangeiros) e, na dinastia Song, cada comunidade até podia designar o seu próprio líder, conhecido por fanzhang (番長, em cantonense, lê-se fán 番 , estrangeiro, e cheong 長, chefe). Adoptando a mesma estratégia no relacionamento com estrangeiros, mantendo-os isolados tanto quanto possível, as autoridades chinesas, em meados do século XVI, consentiram aos portugueses permanecerem numa
  • 174 pequena península, conhecida pelos chineses por Haojing (em cantonense, Hou Kéng) , ligada a Heong Sán, no sul da China. Devido ao rápido crescimento da população e para poderem melhor controlar os fanren (番人 , ou seja, os estrangeiros), as autoridades chinesas iniciaram, em 1573, a construção de uma barreira num ponto do istmo, destinada a fiscalizar o fluxo de pessoas e mercadorias, que passavam por um portal, a que deram o nome de “Kwán Chap Mun” (關閘門), ou seja, a porta da Barreira. Com esta construção, as autoridades chinesas criaram, por assim dizer, uma zona circunscrita, tal como a outrora fanfang ( 番 坊 , em cantonense fán fóng), para o assentamento dos portugueses. O estabelecimento dos portugueses na Povoação do Nome de Deus veio a trazer benefícios mútuos, porquanto, por um lado os portugueses conseguiam comercializar directa-mente com a China e, por outro, a China podia, além de tirar proveitos do comércio, servir-se de “bárbaros para controlar bárbaros”, expelindo-os de qualquer ataque, como no caso dos holandeses e, também, para se defender dos piratas que infestavam os mares do sul da China. Após a fixação dos portugueses em Haojing (Hou Kéng, em cantonense), que teria ocorrido entre 1553 e 1557, a povoação cresceu tão rapidamente de forma que as palhotas existentes foram sendo substituídas por casas construídas com pedra e tijolos ou com outros materiais mais resistentes, estimando-se uma população de 500 cristãos portugueses, em 1564 e, segundo o historiador Charles R. Boxer, em 1578, a população cristã de Macau era superior a 5.000 habitantes.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 175 Consta que os portugueses vinham pagando uma determinada quantia pela utilização do Porto do Nome de Deus de Amaquã ou Amagao, cobrada por entidades chinesas, e dado que essa prática era irregular, só por volta de 1572 ou 1573, é que foi formalizado, através das autoridades provinciais de Cantão, o pagamento ao tesouro imperial, na quantia de 500 taéis de prata, entregue anualmente, a título de “foro do chão”. Entretanto, a população não parava de crescer, assim como o comércio que se desenvolveu a partir de 1570, cujo destino preferencial era o porto de Nagasáqui, no Japão. Estima-se que as naus portuguesas teriam transportado daquele porto japonês para a China, até finais do século XVI, cerca de 800 mil taéis de prata, para a compra de seda e de outros produtos que o Japão procurava. Foi devido a esse rendoso comércio que os holandeses começaram a cobiçar a prosperidade de Macau e, por conseguinte, planearam e atacaram, em várias ocasiões, a cidade de Macau, mas sem qualquer sucesso. Perante a ameaça de inimigos, que já não eram apenas piratas, as autoridades chinesas acabaram por tolerar a construção de muralhas e fortes para a defesa da cidade, uma vez que a própria China também não desejava que fosse alvo de ataques por bárbaros ocidentais. Assim, foram construídas, designadamente no período entre 1616 e 1630, muralhas e fortes ou fortins e, sobretudo, a fortaleza de S. Paulo do Monte, que ficou concluída em 1626.
  • 176 A construção daquelas fortificações, cuja intenção principal era a defesa da cidade, veio a criar, no decurso de séculos, outras questões no relacionamento entre as autoridades governativas portuguesas e chinesas, nomeadamente a questão de limites territoriais. Efectivamente, as autoridades chinesas nunca definiram, nem deram a conhecer ao governo português, quais os limites do território ocupado pelos portugueses e quando as autoridades chinesas construíram em 1573, no istmo da península, a chamada Barreira ou Porta do Limite, os portugueses assumiram, desde então, que aquela barreira era o limite do território, situado a norte. De igual modo, como as águas territoriais também não foram demarcadas, nem então nem depois, as autoridades chinesas consideravam que a linha de fronteira à volta do território seria a linha de costa onde a água chegava e, assim sendo, a sua área terrestre aumentava ou diminuía ao ritmo das marés. A “Kwán Chap Mun”, então designada por “Barreira” ou “Porta do Limite”, segundo a concepção de um artista anónimo.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 177 A questão dos limites territoriais agravou-se ainda mais depois de os portugueses construírem a chamada muralha norte, que praticamente dividiu a península em duas partes: uma - intramuros, que era a cidade de Macau e, a outra - extramuros, correspondente à zona desde a muralha norte até à Porta do Limite. Na fotografia, vê-se uma secção da muralha norte a descer da Fortaleza do Monte, indo até à Rua do Campo. No lado esquerdo, era a zona intramuros e, no lado direito, a zona extramuros. URBANIZAÇÃO NA ZONA EXTRAMUROS Como foi referido, os portugueses, preocupados com a questão da defesa da cidade, teriam começado a edificar muralhas e fortins ou fortes por volta de 1616 ou 1617, tendo a muralha norte dividido a península praticamente em duas zonas. A zona entre a muralha norte e a Porta do Limite,
  • 178 por ser relativamente plana, teria sido criada, para servir de zona-tampão, em caso de algum ataque inimigo. No entanto, a razão mais provável parece ter sido outra, nomeadamente porque as autoridades chinesas não desejavam, nem permitiram que a linha de defesa dos portugueses estivesse próxima dos seus domínios, com canhões direccionados para o interior da China. Por conseguinte, a muralha norte teve de ser erigida a meio da península. Após a construção da muralha norte, a ermida de Nossa Senhora da Esperança e o hospício dos leprosos, a colina da Guia e, ainda, a Ilha Verde, ficaram na zona extramuros. Durante várias décadas, desde que a povoação de Macau começou a crescer, aumentando cada vez mais os seus habitantes, havia chineses que iam lá trabalhar ou vender os seus produtos aos moradores da cidade, regressando às suas casas ao fim do dia, até que, após a construção da muralha norte, passaram a obedecer a um horário de entrada e saída, visto que as portas da cidade, quer a Porta do Campo, quer a de Santo António, fechavam às 20:00 horas da noite, só voltavam a abrir às 5:00 horas da madrugada do dia seguinte, não sendo então permitida aos trabalhadores chineses pernoitarem na cidade, e se qualquer trabalhador chinês, por qualquer motivo, não tivesse saído a tempo, ele teria de se deslocar nas ruas, levando consigo um lampião, não tanto para alumiar o caminho, mas sobretudo para se identificar que era um operário chinês, a fim de não ser assaltado, ferido ou assassinado, e caso tal acontecesse, traria problemas ao Senado, pois teria de resolver o assunto com o mandarim de Chin Sán (前山 , em pinyin, Qianshan),
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 179 também conhecido pelos portugueses por Mandarim da Casa Branca. Devido à caminhada que tinham de percorrer para regressarem à sua povoação, antes de as portas da cidade fecharem, esta situação deu oportunidade a que as autoridades chinesas, com o decorrer do tempo, tolerassem a fixação de trabalhadores chineses na zona extramuros, ali vivendo ou cultivando, ou criando aves e animais domésticos, ou, então, desenvolvendo outras actividades, levando depois os seus produtos à cidade para serem vendidos. Atraídos por oportunidades de negócios e novas formas de vida, a população na zona extramuros foi aumentando com a vinda de mais operários e agricultores, que se juntaram em localidades diferentes, construindo as suas aldeias e povoações. Além da aldeia de Mong-há (望廈), considerada a mais antiga e mais populosa, e da aldeia de Sá Lei T’âu (沙梨頭 , ou seja, Patane), originalmente uma povoação de pescadores, novas aldeias foram surgindo no decurso do tempo, designadamente em San K’iu (新橋), Sá Kong (沙崗), Long Tin (龍田), Long Wán (龍環) e Tap Siac (塔石), bem como povoações em Seac Lou Tau (石蘆兜), Seac Ch’eong (石牆) e Son Tei (汛地 , conhecida por Santi, em português). Dado que a população chinesa, que passou a viver na zona extramuros, estava sujeita às leis chinesas, por conseguinte, as autoridades chinesas desde sempre alegaram que toda aquela zona estava sob a sua jurisdição e os chineses ali residentes não podiam ser condenados pelas autoridades
  • 180 portuguesas e, quando eram presos pela prática de qualquer crime, tinham de ser entregues às autoridades chinesas para serem julgados e, deste modo, ao longo de séculos, coexistiram duas jurisdições dentro da península de Macau. Aldeias ou povoações na zona extramuros, a partir da muralha norte No entanto, o governo português, embora aceitasse a sujeição dos chineses às leis chinesas e à autoridade dos mandarins, desde que começou a pagar o foro do chão e, sobretudo, quando as autoridades chinesas mandaram construir a Porta do Limite em 1573, entendeu que a barreira erigida no istmo representava o limite territorial a norte de Macau e que o foro de 500 taéis de prata, pago
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 181 anualmente, abrangia todo o território da península. As autoridades chinesas, por seu lado, não entenderam assim, pois sempre alegaram que a Porta do Limite era apenas um posto de controlo e não o limite territorial. Deste modo, no século seguinte, aquela muralha defensiva, construída pelos portugueses, passou a ser considerada pelas autoridades chinesas como limite da cidade e a zona extramuros, habitada pela população chinesa, passou a estar sob a jurisdição de Heong Sán [1], tendo então sido nomeado um mandarim [2] encarregado dos assuntos de Macau. Como os limites do território ocupado pelos portugueses nunca foram fixados, a questão de delimitação de fronteiras manteve-se em aberto desde o início, e apesar das negociações entre os dois governos, sobretudo na segunda metade do século XIX, ambas as partes não chegaram a qualquer acordo. A questão dos limites só ficou estabelecida com a criação da Região Administrativa Especial de Macau. O FORO DAS POVOAÇÕES RURAIS Em 22 de Junho de 1868, Manuel de Castro Sampaio, Chefe da Repartição de Estatística de Macau, tendo concluído parte de um serviço especial, apresentou o primeiro relatório ao governador Ponte e Horta, informando das dificuldades que encontrou para apurar a exactidão dos proprietários das casas localizadas nas povoações rurais, visto que as declarações que prestavam eram, de um modo
  • 182 geral, incorrectas ou falsas. Nestas circunstâncias, teve de pedir “aos superiores dos pagodes uma pessoa competente para me acompanhar com o respectivo livro dos foros ou uma nota extraída dele…”, tendo sido este “um dos meios mais eficazes para a obtenção dos esclarecimentos apurados”. Referiu ainda que “tomando apontamentos de casa em casa, em nenhuma delas os dava por concluídos, sem que o proprietário ou pessoa que o representasse estivesse presente, e em minha consciência eles fossem satisfatórios a todos os respeitos, exigindo nas casas que eram foreiras a presença também de que percebia o foro” (isto é, recebia o foro). Do trabalho que realizou, apresentou um quadro pormenorizado, em que consta “as casas que pagam foro e qual a importância dele”, “o total das casas que pagam foro” e o “número de casas que não pagam foro”. Naquele quadro, que é uma síntese do trabalho realizado na zona do Patane, pode-se verificar que muitas das propriedades eram foreiras a pagodes, designadamente: • Pagode do Patane: 98 casas; • Pagode do Istmo (isto é, Lin Fong Mio): 200 casas; • Pagode de Mong-há: 61 casas; • Pagode da Barra: 21 casas; • Diversos chineses: 61 casas; • Diversos macaenses: 4 casas, totalizando, assim, 445 casas que no ano de 1868 pagavam foro e o número de casas que não pagavam foro somavam 524. Mencionou ainda no relatório que “pelo que respeita às hortas do Patane, pertencem elas a diferentes proprietários, que pagam de foro ao mandarim de Heong-san 18 condrins
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 183 anualmente por cada espaço de terreno de 600 côvados quadrados, ou 225 metros quadrados”... . E, mais adiante, relatou que “Vinte e cinco dessas hortas acham-se ao sul da Rua de Entre Campos e as outras três a norte dela”. Destas três últimas hortas, “a primeira pertence ao pagode de Mong-há; a segunda, a um chinês que mora na Rua de S. Paulo; e a terceira, é do Pagode da Barra”. As outras vinte e cinco hortas, pertenciam a vários chineses, uns residentes e outros não residentes em Macau, bem como ao pagode de Mong-há e ao pagode da Barra. Relativamente a outras aldeias ou povoações, a situação era idêntica, em que as propriedades, ou pertenciam a pagodes, ou a particulares, residentes e não residentes. SANEAMENTO DAS ZONAS RURAIS Com a expansão da cidade para além dos muros tornou-se necessário alargar os antigos caminhos e abrir novas vias, bem como proceder ao saneamento e melhoramento das condições existentes em toda a zona rural. Na segunda metade do século XIX, vieram para Macau muitos chineses do interior da China, desejosos de procurar uma vida melhor, quer no comércio, quer na emigração, sobretudo para países da América. Também contribuiu para esta vaga de emigrantes, a instabilidade política na China, motivada pela Rebelião Taiping ou Guerra Civil Taiping (1851-1864), que começou na província de Guangxi, liderada por Hong Xiuquan (洪秀全), cujo movimento se espalhou
  • 184 pelo sul, estendendo-se depois para o norte, acabando por se tornar um dos conflitos mais sangrentos da história da China. Muitos dos chineses que vieram para Macau, quer como emigrantes, quer como refugiados, passaram a viver nas zonas rurais, sobretudo nas aldeias de Sá Kong e San K’iu, ali construindo barracas sobre estacas de madeira, ou vivendo em casebres ou, então, em pequenas embarcações conhecidas por tancás, habitualmente arrumadas junto das margens da ribeira do Patane. Os novos residentes que se aglomeraram naquelas zonas, vivendo em péssimas condições sanitárias, em casebres ou barracas, sem as mínimas preocupações com hábitos de higiene, num curto espaço de tempo, poluíram a água da ribeira e as várzeas e, além disso, por não haver um adequado escoamento naquela zona, foram surgindo pântanos e charcos de águas estagnadas, que eram verdadeiros focos de infestação. Volvidas algumas décadas, as zonas rurais estavam praticamente num estado deplorável, onde de tempos a tempos surgiam epidemias e doenças infecto-contagiosas, que anualmente causavam inúmeras vítimas, sobretudo entre a população chinesa. A RENOVAÇÃO URBANA A fim de melhorar as condições sanitárias das zonas rurais, onde viviam praticamente habitantes chineses, a expropriação de várzeas e a adopção de rigorosas medidas de saneamento eram indispensáveis.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 185 Uma das primeiras expropriações por utilidade pública, com vista à renovação urbana, foi levada a cabo no Bairro da Mitra, então localizado dentro dos muros da cidade, próximo da Porta do Campo, visto que se encontrava em condições higiénicas insalubres. As obras de demolição e renovação do Bairro da Mitra foram executadas nos anos de 1885-1886, por ordem do governador Tomás de Sousa Rosa. Foi também por volta de 1885 que as autoridades portuguesas decidiram pôr em execução os necessários planos destinados ao saneamento das zonas rurais, devido às graves situações higiénicas que lá existiam, sobretudo nas povoações de San Kiu e Sá Kóng, tendo, a partir daquele ano, dado início a algumas expropriações por utilidade pública e, consequentemente, a demolição e a destruição de muitos casebres, habitações construídas sobre estacas e tancás, a fim de criar espaços para a implementação de novas infra-estruturas e permitir a renovação urbana. Quer antes, quer depois de 1885, vários relatórios tinham sido apresentados ao governo, em que alertavam para o eminente perigo para a saúde pública que advinha de pântanos e charcos de águas estagnadas, onde proliferavam, além de moscas e mosquitos, germes responsáveis pelo surto de paludismo, cólera-morbo, malária, bem como de diversas doenças infecto-contagiosas. Em 1886, o chefe dos Serviços de Saúde, Dr. Gomes da Silva, num relatório que apresentou, alertava que o pântano de Mong-há, o canal de Sankiu e a povoação de Sá Kóng eram “os três focos patogénicos das febres intermitentes de Macau”.
  • 186 A situação agravou-se em 1894, quando houve um surto de peste bubónica e o governo teve mesmo de tomar medidas mais drásticas para controlar essa epidemia. Foram então adoptadas medidas para a drenagem e secagem de pântanos, que eram as melhores formas no combate e na eliminação de focos de infestação. Naquela altura, dado que a conhecida Horta de Volong se encontrava num estado lastimável, inapropriado para ali viver tanta gente em barracas, sem as mínimas condições de salubridade, o Juízo de Direito da Comarca de Macau publicou um Anúncio, subscrito pelo escrivão, João Carlos Rocha d’Assumpção, datado de 8 de Novembro de 1894, para no prazo de “10 dias a contar da data deste anúncio no Boletim Oficial citando os indivíduos que julgarem com direito a impugnar sobre a expropriação da Horta de Volong ...”. Com esta expropriação, foi destruída e entulhada toda a Horta, permitindo, assim, a abertura de uma nova, longa, larga e importante via pública – a Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, de forma a ligar directamente à Rua do Campo. AS GRANDES AVENIDAS As expropriações e as grandes obras de saneamento nas zonas rurais foram realizadas sobretudo a partir dos anos 80 do século XIX, segundo determinações de sucessivos governadores, tendo os respectivos planos sido executados por competentes Directores das Obras Públicas.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 187 Merece destacar o então Director das Obras Públicas, José Maria Horta e Costa, que além desse cargo que desempenhou entre Novembro de 1885 e 1888, foi também Governador de Macau, por duas vezes, tendo cumprido o primeiro mandato entre 1894 e 1897 e, o segundo mandato, entre 1900 e 1902. José Maria de Sousa Horta e Costa, como engenheiro militar, foi um grande impulsionador para o saneamento das zonas rurais, tendo determinado, durante o seu mandato, a expropriação de bairros que eram verdadeiros focos de infecção, tais como o de Volong e o de Tap Siac, bem como as várzeas de Monghá, para a abertura de novas e largas vias públicas, que depois passaram a ser designadas por Avenidas, um termo novo na toponímia local, a que os chineses deram o nome de “Tai Má Lou”. Aterros e construção de novas vias públicas. De salientar também o trabalho realizado pelo engenheiro Augusto César de Abreu Nunes, nomeado Director das Obras Públicas em 1893. O engenheiro Abreu Nunes, apoiado pelo governador Horta e Costa, promoveu o saneamento da
  • 188 Horta de Volong, que ocupava uma área de, aproximadamente, 230 hectares, após ter sido expropriada em 1894, destruindo e arrasando todos os casebres e palhotas, bem como casas de alvenaria, permitindo, assim, a abertura de novos arruamentos, que ele próprio delineou, e transformar um bairro imundo num bairro novo. Foi também em finais do século XIX que se iniciou o saneamento da povoação de Tap Siac que, depois de expropriado, o campo foi entulhado com terra e pedras, em grande parte extraídas da colina de S. Miguel. A EXPROPRIAÇÃO E A EXTINÇÃO DAS POVOAÇÕES RURAIS Até finais do século XIX e antes do início das expropriações, ainda existiam as povoações ou aldeias de Mong-há (望廈), Sá Lei Tâu (沙梨頭, ou seja, Patane), San Kiu (新橋), Sá Kong (沙崗), Lông Tin (龍田), Lông Wán (龍環), Tap Siac (塔石) e, ainda, as de Seac Lou Tâu (石蘆兜), Seac Cheong (石牆) e Son Tei (汛地), as quais foram extintas com as sucessivas expropriações. Uma das maiores expropriações, no início do século XX, foram as várzeas de Mong-há, na sequência da Portaria nº 54, de 1901, que o governador José Maria Horta e Costa mandou publicar, nos termos seguintes: “Tendo a experiência de largos anos demonstrado ser altamente prejudicial para a salubridade desta cidade a existência das várzeas de Mongha, compreendidas entre a
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 189 estrada da Flora, estrada Adolfo Loureiro, estrada Coelho do Amaral e a povoação de Mongha, abrangendo uma área aproximada de 360 000 metros quadrados, as quais pela sua natureza especial, e pelo sistema de cultura adoptado, são evidentemente causa do paludismo e febres, que, principalmente em determinadas épocas do ano, atacam as pessoas que junto a elas residem; Tendo-se mais evidenciado que, apesar do muito cuidado e policiamento que a este respeito nelas tem sido ordenado, não é fácil evitar, que os diversos proprietários destas várzeas deixem de represar as águas da chuva em locais, ali adaptados para esse fim, e que pouco depois se transformam em verdadeiros focos de infecção, como igualmente difícil é evitar, que deixem de estabelecer, ocultando-os por todas as formas, depósitos de adubos de variadas espécies, o que, além de ser excessivamente nocivo para a saúde pública, torna quase irrespirável o ar para quem passa perto deste local; Considerando que concorreria beneficamente para modificar as condições sanitárias desta cidade, o desaparecimento destas várzeas, elevando um pouco a cota deste local, drenando-o e canalizando-o devidamente, por forma a levar rapidamente as águas da vertente oeste da montanha da Guia ao porto interior e ao canal de Sankio; Considerando que, depois de modificado por esta forma o referido local, e cortado todo ele por largas ruas e avenidas, permitirá na área restante a construção de um quarteirão ou extenso bairro, que poderá vir a ser o mais belo de Macau, e que, batido pelos ventos dominantes na
  • 190 estação calmosa, poderá satisfazer a todas as condições exigidas pela salubridade e higiene; Considerando que as últimas expropriações decretadas exigem que o mais rapidamente possivel se adaptem locais para novas construções, a fim de não serem forçados a sair de Macau os individuos que são obrigados a deixar as suas actuais residências; Considerando que, com autorização minha, foi, entre a Procuratura Administrativa dos Negócios Sínicos e todos os muitos proprietários destas várzeas, feito um acordo pelo qual estes cedem gratuitamente à Fazenda Nacional toda a área necessária para o governo executar as ruas, largos e avenidas em harmonia com o ante-projecto para esse fim elaborado, e ficam com o direito de, sujeitando-se aos alinhamentos, planos e sistema de construção indicados, levantar, tão depressa se achem concluídas as referidas vias de comunicação, edificações em todos os restantes terrenos, ou vende-los para esse fim, o que em qualquer dos casos será sempre para eles de maior interesse do que a conservação das várzeas actuais; Considerando que no mesmo acordo foi estabelecido, como é de inteira justiça, que o governo exproprie as casas, casebres e barracas existentes na área que será abrangida pelas ruas e avenidas, que vão ser construídas, pagando-as pelo preço da sua avaliação, feita pela Repartição das Obras Públicas, e já aceite pelos respectivos proprietários; Considerando por fim que constitui um melhoramento importante para esta cidade a construção, sem divergências, sem desacordos e despendendo-se para isso uma quantia relativamente pequena, de um bairro extenso, em boas condições de ventilação e higiene,
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 191 cortado por ruas largas, canalizadas e arborizadas, e que além de constituir desde que fique completo, o que será breve, pois é esse o interesse dos diversos proprietários, uma riqueza para o cofre provincial, faz desaparecer ao mesmo tempo um horrível e perigoso foco de infecção; Tendo ouvido sobre o assunto o Conselho do Governo e o Conselho Técnico de Obras Públicas, que deram unânime aprovação ao projecto apresentado; Hei por conveniente, tendo igualmente ouvido o Conselho do Governo e igualmente o seu voto unânime e em harmonia com o parágrafo 2º da Lei de 13 de Julho de 1864, declarar de utilidade pública e urgente as expropriações dos prédios, casebres e barracas existentes nas várzeas de Monghá e nos espaços onde, em harmonia com o plano elaborado pela Repartição das Obras Públicas, deverão ser construídas as ruas, largos e avenidas do novo bairro que ali vai ser edificado. As autoridades e mais pessoas a quem o conhecimento e execução desta competir, assim o tenham entendido e cumpram. Palácio do Governo em Macau, 24 de Julho de 1901. O Governador da Província, José M. de S. Horta e Costa Além disso, por Edital da Procuratura Administrativa dos Negócios Sínicos de Macau, de 8 de Outubro de 1894, foi notificada aos habitantes a determinação do Governador respeitante à edificação de “um novo bairro em Sá Kóng, destinado para habitação de famílias pobres e feito em condições higiénicas, aproveitando-se do terreno baldio que ali existe; e não podendo por enquanto executar-se esta sua
  • 192 determinação, por estar o dito terreno coberto de sepulturas, são por isso avisados todos aqueles que são de qualquer modo interessados nessas sepulturas a exumarem os cadáveres dentro do prazo de dois meses, a contar desta data; e não o fazendo, será a exumação feita por conta do governo, mas com as formalidades exigidas pelos usos e costumes chinas”. Consta que certas exumações então feitas foram transferidas, designadamente, para fora da Porta do Cerco, visto que, em 1880 (ou mesmo antes) já se publicava em Boletim Oficial o “Mapa dos chinas falecidos em Macau e sepultados fora das Portas do Cerco” e, desde aquela altura, até princípios dos anos 70 do século passado, muitos chineses falecidos em Macau eram, por hábito ou tradição familiar, sepultados em “Hap Ló Sán” (合羅山), em Gongbei, Zhuhai, portanto, fora do território de Macau. EXTINÇÃO DAS ÚLTIMAS POVOAÇÕES OU ALDEIAS Num Relatório da Direcção das Obras Públicas de 1910, refere que Seac Lou Tau, Tap Siac e Long Tin, povoações
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 193 inteiramente chinesas, insalubres e impróprias, foram sucessivamente expropriadas e destruídas, tendo Seac Lou Tau e Tap Siac sido já aterradas. Exceptuando Monghá, a última povoação a ser expropriada foi Long Tin Chün (龍田村 , isto é, aldeia Long Tin), tendo as obras de saneamento começado em 10 de Maio de 1907 e terminado em 28 de Abril de 1910, encontrando-se em 1908 “em muito adiantado aterramento, que lhe eleva de 2 metros, em média, o nível do chão para construir”. Consta que o acordo a que se chegou com os proprietários daquela aldeia, a respeito da expropriação, foi relativamente pacífica, dado que o governo lhes assegurou, nos termos da lei, o direito que tinham aos seus respectivos terrenos, como consta do seguinte Aviso:
  • 194 Tal como Long Tin Chün (龍田村 , ou seja, aldeia Long Tin), as expropriações de outras propriedades rurais foram relativamente bem sucedidas, quer pelas garantias e condições oferecidas pelo governo, quer através da cooperação prestada por parte de entidades chinesas, com influência na vida social, designadamente o prestigiado comerciante Lou Cheok Chi (盧綽之 aliás, 盧華紹 , Lou Vá Sio) , mais conhecido por Lu Cao (ou Lou Kao 盧九 ), na resolução de casos mais complexos, sobretudo o caso da expropriação dos terrenos situados em Sá Kóng [3]. Outras circunstâncias favoráveis também contribuíram para o sucesso das expropriações, nomeadamente os surtos de epidemia que, de tempos a tempos, afectavam a população, causando sobretudo à população chinesa inúmeras vítimas e, por outro lado, descendentes dos proprietários, sem interesse na vida rural, preferiam exercer um ofício ou uma actividade comercial, ou arranjar um emprego na cidade, onde podiam obter melhores rendimentos ou, então, emigravam à procura de outro modo de vida. Deste modo, no decurso do tempo, foram deixando a vida rural e as propriedades herdadas ao abandono. Concluídas as expropriações na zona extramuros, aquelas antigas aldeias ou povoações foram extintas, uma atrás da outra, restando apenas algumas designações, tais como Monghá, Sá Lei Tâu, San Kio e Tap Siac, que, com a urbanização, se transformaram em novos e saudáveis bairros.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 195 AS EXPROPRIAÇÕES NA ZONA NORTE FORAM PROSSEGUINDO No período compreendido entre 1909 e 1920, as verbas destinadas a saneamento e melhoramentos de vias públicas foram também aplicadas em expropriações por utilidade pública na zona do Bazar, porquanto o então Director das Obras Públicas, engenheiro António Pinto de Miranda Guedes, entendeu que, devido às deploráveis condições higiénicas, era muito urgente o saneamento daquela zona e a abertura de uma nova via a ligar entre o coração da cidade e o Porto Interior. Por conseguinte, publicou um Aviso no Boletim Oficial número 1, de 1909, respeitante à “arrematação em hasta pública da empreitada da obra de construção da Nova Avenida do Bazar chinês”. Esta grande e complexa obra foi realizada por fases, durante quase uma década, até 1918 e, seguidamente, entre 1918 e 1920, foi então aberto o último troço, desde a então Rua do Gonçalo até à Praia Grande. Apesar da urgência que havia no saneamento da zona do Bazar, as expropriações, as obras de aterro para o saneamento das várzeas e arruamentos na zona norte prosseguiram, na medida do possível, segundo uma planta, em tempo levantada sob a direcção do engenheiro General José Emílio Castelo Branco. Assim, até por volta de 1918, várias vias, entretanto delineadas, foram abertas e, por isso, o Administrador interino do Concelho de Macau, Artur de Almeida Cabaço, por ordens superiores, publicou um Edital, datado de 27 de Janeiro de 1919, atribuindo denominações às seguintes novas vias públicas, localizadas na zona norte:
  • 196 • Rua Espectação de Almeida; Começa na Estrada do Repouso e termina na Rua de João de Araújo. O Dr. Evaristo Espectação de Almeida foi Chefe dos Serviços de Saúde de Macau. • Rua Gomes da Silva; O Dr. José Gomes da Silva era médico-cirurgião e foi o primeiro reitor do Liceu de Macau e um dos mais distintos professores daquele estabelecimento de ensino. • Rua Inácio Pessoa; Inácio Cabral da Costa Pessoa foi ajudante do governador Tomás de Sousa Rosa, tendo, além de outras funções que exerceu como militar, sido inspector dos incêndios entre 1892 e 1894. • Rua Martinho Montenegro; Martinho Pinto de Queirós Montenegro, como oficial da Marinha, desempenhou diversos cargos no ultramar português, incluindo o de governador em algumas províncias. Foi governador de Macau entre 1904 e 1907. • Rua General Galhardo; General Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo prestou diversos serviços no ultramar, incluindo o de governador de Macau desde Março de 1897 até Março de 1900 e, a partir de então, passou a governar o Estado da Índia.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 197 • Rua Marques de Oliveira; O Dr. António Marques de Oliveira, formado em Direito, foi procurador dos negócios sínicos de Macau em 1881 e, mais tarde, em 1891, foi nomeado juíz da Comarca de Macau. Em 1895, foi promovido a juíz da relação de Moçambique, partindo então para a África. • Rua da Restauração; Foi atribuído este topónimo para comemorar a restauração da independência de Portugal em 1 de Dezembro de 1640, após 60 anos de domínio espanhol, pelos três reis da dinastia Filipina de Espanha. • Rua Manuel de Arriaga; (Ler a descrição mais adiante, sob o título “Observações acerca do traçado das novas avenidas”) • Rua Fernão Mendes Pinto; Fernão Mendes Pinto, considerado o maior aventureiro português, tendo durante 21 anos percorrido terras da África, Índia, China, Japão e Oceania. Depois de regressar para Portugal, escreveu o seu célebre livro Peregrinação, onde descreve as aventuras que fez. Fernão Mendes Pinto foi um dos primeiros portugueses que esteve em Amaquã (ou seja, Macau). • Rua Francisco Xavier Pereira; (Ler a descrição mais adiante, sob o título “Observações acerca do traçado das novas avenidas”)
  • 198 • Rua Pedro Coutinho; (Ler a descrição mais adiante, sob o título “Observações acerca do traçado das novas avenidas”) • Rua Almirante Costa Cabral; (Ler a descrição mais adiante, sob o título “Observações acerca do traçado das novas avenidas”) • Rua Bispo Medeiros. D. António Joaquim de Medeiros foi bispo de Macau entre 1884 e 1897, sendo considerado um dos maiores bispos desta Diocese. Por aquele mesmo Edital se fez saber que, por determinação de Sua Exa. o Governador, “a Estrada da Flora passa a denominar-se Avenida Sidónio Pais, em homenagem ao grande vulto republicano”. RECOMEÇO DAS OBRAS DE MELHORAMENTO NA ZONA NORTE As obras de melhoramento das grandes e principais vias públicas foram retomadas sobretudo a partir dos anos vinte do século XX. Passados vários anos, verificaram que já havia necessidade de se fazer uma revisão aos projectos das novas vias públicas que, entretanto, tinham sido delineadas sob a direcção do Inspector das Obras Públicas, General José Emílio Castelo Branco. Durante os trabalhos de revisão, constataram que
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 199 diversas alterações já tinham sido propostas e, por isso, novos estudos teriam de ser feitos, com vista à elaboração de uma nova planta para a zona norte da península. Em 1921, o engenheiro Adriano Augusto Trigo, que desempenhou o cargo de Director das Obras Públicas de Macau entre 1919 e 1925, apresentou numa reunião do Conselho Técnico das Obras Públicas, realizada em 15 de Setembro daquele ano, uma “Memória Descritiva e Justificativa”, em que sublinhou que os arruamentos traçados eram, em geral, “muito mesquinhos e por vezes inexequíveis, por não se ter atendido senão a planimetria, sem se olhar para as cotas de altitude nem para outras circunstâncias, que deveriam ser bem ponderadas antes de se assentar em um plano geral de arruamentos”. Por conseguinte, propôs “importantes modificações com o fim de dotar a parte norte da cidade com algumas avenidas e arruamentos espaçosos em condições de satisfazerem às modernas exigências de trânsito e à estética da cidade que, dentro de poucos anos, pode vir a tomar um grande desenvolvimento, principalmente depois de realizadas as importantes obras do seu porto e aos não menos importantes trabalhos de saneamento geral e do abastecimento de águas de que esta Direcção se vem ocupando.” E, mais adiante, mencionou que “o plano geral que hoje temos a honra de submeter à apreciação do ilustrado Conselho Técnico foi elaborado igualmente pelo Sr. Lara Reis, de harmonia com as indicações que lhe forneci e depois de havermos feito um demorado estudo de reconhecimento
  • 200 no terreno, procedendo mesmo a algumas medições e nivelamentos com o fim de verificarmos as condições da sua exequibilidade”. Esclareceu, ainda, na referida “Memória Descritiva e Justificativa” que “uma grande parte das ruas ou avenidas projectadas já se acham construídas e dotadas das competentes canalizações, sendo poucas as que se planeia abrir de novo”, e que “os alargamentos projectados foram estudados por forma a respeitar quanto possível o arvoredo existente e a reduzir ao mínimo as expropriações a fazer”. A proposta do Director das Obras Públicas, Engº. Augusto Trigo, focou sobretudo no alargamento e às modificações das avenidas e ruas existentes, sem grandes expropriações, como se pode verificar nas Observações, anexas à referida “Memória Descritiva e Justificativa”, que ele apresentou e que estão a seguir, parcialmente, transcritas: OBSERVAÇÕES ACERCA DO TRAÇADO DAS NOVAS AVENIDAS Nas “Observações acerca do traçado das novas avenidas”, o Engº. Augusto Trigo descreveu como melhorar e alargar várias vias públicas, designadamente: • “AVENIDA HORTA E COSTA – Tem actualmente, de largura, 14,80 metros. Conservando as árvores já existentes nesta Avenida poderá a sua largura aumentar para 24,80 metros, contados a partir do muro de Lu Lim-ioc que continua marcando o
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 201 alinhamento daquele lado da Avenida. Do outro lado, o alinhamento novo vai implicar com a estação policial, situada ao fundo da Avenida. Este espaço seria distribuído da seguinte forma: Passeios laterais de 4 metros, com árvores a 2,40 metros contados do exterior; um passeio central ajardinado, com 4,80 metros, ladeado por duas faixas de rodagem a 6 metros.” Este extracto da “Memória descritiva e justificativa” revela que em 1921 a largura era apenas de 14,80 metros, propondo-se então o seu alargamento para 24,80 metros. Trata-se de um aumento de 10 metros, permitindo assim ter passeios laterais e um passeio central ajardinado, com as características próprias de uma avenida. Originalmente, a avenida começava na Estrada da Flora e terminava na Estrada do Coelho do Amaral. Por Portaria nº 55 de 1901, foi aprovada a relação das obras mandadas executar, designadamente a “construção de um muro de suporte dos terrenos fronteiros ao palácio da Flora e a construção de uma Avenida a partir deste terreno a ligar com um largo circular, do qual partem outras Avenidas”, bem como “expropriações a fazer nas várzeas de Monghá para construção das avenidas e largos ali em execução. Naquela altura, a Avenida Horta e Costa seria aberta apenas até a “um largo circular” ou rotunda, que estava prevista num projecto, a ser feita no cruzamento entre a Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida e a Avenida Horta e Costa [4], e só no ano seguinte, por Portaria nº 96, de 19 de Agosto
  • 202 de 1902, é que foi aprovada a obra a fazer nas várzeas de Monghá para a continuação da Avenida Horta e Costa até à Estrada Coelho do Amaral. Actualmente, a Avenida Horta e Costa estende-se até à Avenida do Almirante Lacerda, junto do mercado “Almirante Lacerda”, mais conhecido por Mercado Vermelho. Inicialmente, estava projectada uma rotunda no cruzamento entre a Ave. Horta e Costa e Ave. Cons. Ferreira de Almeida, que não foi concretizada, nem várias vias constantes da planta. Vê-se na ainda na planta a povoação de Long Tin, junto à Estrada da Flora e a de Seac Lou Tau, junto à Estrada de Adolfo Loureiro • “NOVA AVENIDA DE MONG-HÁ – Toma-se para base do novo alinhamento uma linha paralela ao Pagode Kun Iam Ku Miu e o cunhal do Pagode Kun Iam Miu,
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 203 dando-lhe uma largura de 17 metros até ao alinhamento já dado da casa de habitação de Tong Lai Chuen. A Avenida ficaria com passeios arborizados, de 4 metros de largura, e uma faixa de rodagem de 9 metros.” A Nova Avenida de Monghá era o nome originalmente dado à via que foi aberta dentro da aldeia de Monghá, passando em frente do Templo da Deusa da Misericórdia (Kun Iam Miu), a qual, depois de concluída, passou a estar ligada à Estrada de Ferreira do Amaral e a Estrada da Flora, em frente da Estrada de Cacilhas. Depois de 1920, o nome originalmente dado à Nova Avenida de Monghá foi alterado, passando a ter a designação de Avenida do Coronel Mesquita. De recordar que, o topónimo Avenida do Coronel Mesquita tinha sido inicialmente atribuído a uma nova via que só foi aberta, após a expropriação, em 1920, de algumas propriedades de Lam Lin (林蓮) ou Lam Ham Lin (林含蓮), permitindo então que aquela via passasse a ligar o Largo do Senado à Praia Grande e a fazer parte integrante da Avenida de Almeida Ribeiro [5]. • “ESTRADA DA FLORA – Tomando para base do alinhamento as casas já existentes no começo da estrada da Flora e a casa do china Sün para fazer o máximo aproveitamento das árvores já existentes, pode o alargamento ir até 26 metros, cortando sem grande prejuízo um passeio ao longo da Avenida Vasco da Gama e um bocado saliente do jardim de Senna
  • 204 Fernandes. O prolongamento desta grande Avenida pode fazer-se para os dois lados: primeiro, até à Montanha Russa, deixando um talhão que poderia ser aproveitado para campos de jogo e, do outro lado, até à Praia Grande, fazendo grandes expropriações. A largura obtida dividir-se-ia da seguinte forma: dois passeios laterais de 4m de largura, com placas de relva de 4,5 metros; um passeio central de 4m e placa de relva de 2 metros; faixas de rodagem de 7 metros”. A Estrada da Flora começava na Rua de Ferreira do Amaral e terminava em frente da Estrada de Ferreira do Amaral. Era assim chamada, porque existia um jardim, denominado Flora Macaense. A designação Estrada da Flora foi alterada por resolução tomada pelo governador Artur Tamagnini Barbosa, em 8 de Janeiro de 1919, passando, então, a denominar-se Avenida de Sidónio Pais, em homenagem ao 3º Presidente da República Portuguesa, Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais, assassinado em Lisboa, na Estação do Rossio, em 14 de Dezembro de 1918, numa altura em que havia instabilidade política, após a implantação da República Portuguesa, em 5 de Outubro de 1910. Sidónio Pais foi militar e académico de formação científica, tendo repartido a sua actividade pela docência, pelo serviço militar e pela carreira política. Depois de sobraçar várias pastas ministeriais, ingressou na carreira diplomática, como representante de Portugal em Berlim. • “AVENIDA CONSELHEIRO FERREIRA DE ALMEIDA – Tem de largura, actualmente, 6m, se contarmos o espaço
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 205 entre as árvores já existentes na parte da Avenida entre Horta e Costa e a Avenida de Mong-há. Mantendo o alinhamento das árvores dum dos lados, a propriedade Lu Lim-ioc e as casas do Tap Siac, tem o alargamento de se fazer para o outro lado, ficando então o seguinte: 1º - Um passeio de 2,5m, puxando-se as árvores contíguas ao jardim de Lu Lim-ioc ao alinhamento de outras (o que beneficia as propriedades); 2º - Uma faixa de rodagem de 5m; 3º - Um passeio central de 1 metro com as árvores já existentes do prolongamento da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, trazendo-se ao alinhamento as que existem entre a Avenida Horta e Costa e Campo de Tap Siac; 4º - Uma faixa de rodagem de 5 metros; e, por último, um passeio de 2,5 metros com uma plantação nova de árvores. Este passeio irá cortar um prédio sem grande importância na esquina da Avenida Adolfo Loureiro e Ferreira de Almeida, e os jardins das casas dos funcionários públicos no Tap Siac, podendo então prolongar-se esta Avenida até ao fim do Campo de Tap Siac, aproveitando-se as árvores já existentes para o passeio central. Mais tarde, poderá ainda prolongar-se até à Rua do Campo. – Largura futura: 16 metros”. José Bento Ferreira de Almeida foi Oficial da Marinha e político, tendo desempenhado, entre outros cargos, o de deputado.Ficou conhecido pelo seu temperamento exaltado para com os seus opositores políticos, tendo chegado a agredir o ministro da Marinha, Henrique de Macedo em plena Câmara, em 1887. Por causa daquele incidente, em
  • 206 Agosto daquele ano, a Câmara Alta condenou-o a quatro meses de prisão. Apesar do seu mau feito, Ferreira de Almeida desempenhou um importante papel na política portuguesa como parlamentar e também como Ministro da Marinha, no governo de Hintze Ribeiro, para cujo cargo fora nomeado em 1895. Durante o seu mandato, Ferreira de Almeida conseguiu reorganizar de forma eficaz a administração da Marinha. Deve-se ao então Director de Obras Públicas, engenheiro Abreu Nunes, a abertura daquela importante avenida, que ele delineou, aquando das obras de saneamento da povoação de Tap Siac. Pelos trabalhos que Abreu Nunes realizou, bem merecia que o seu nome fosse dado àquela via principal [6]. No entanto, como executou aquela obra antes de obter a devida aprovação do governo central e estando, naquela altura, o Conselheiro Ferreira de Almeida como ministro da Marinha, que também era responsável pelos assuntos do Ultramar, propôs a atribuição do nome daquele Ministro à nova avenida, acabada de ser aberta, a fim de conseguir a aprovação da obra, sem demora e quaisquer problemas. • “RUA ALMIRANTE COSTA CABRAL – Tem actualmente de largura 11,5 metros. Para fazer o alargamento projectado pode tomar-se como alinhamento o muro da propriedade do Lu Lim-ioc, e aproveitando as árvores já existentes poderá a nova Avenida ser assim constituída: dois passeios laterais de 3 metros com as árvores ao centro; um passeio central arborizado, de 4 metros; duas faixas de rodagem com 5 metros. Total:
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 207 20 metros. O novo alinhamento vai cortar no lado direito umas pequenas edificações”. Este Almirante, cujo nome completo é Fernando Augusto de Costa Cabral, fez carreira na Marinha, tendo também exercido as funções de ajudante-de-campo do rei D. Carlos. Esteve em Macau, quando era capitão tenente da armada, tendo em 23 de Janeiro de 1882 assumido o comando da estação naval e da canhoneira “Tâmega” e, por portaria provincial nº 5, de 24 de Janeiro daquele ano, sido nomeado para fazer parte da junta da justiça (secção militar). Fez também parte do Conselho do Governo, para o qual foi nomeado por Portaria nº 100, de 20 de Agosto de 1883. • “RUA PEDRO COUTINHO – Deve seguir no prolongamento da rua já existente entre a Avenida Horta e Costa e Rua Adolfo Loureiro, alargando para o lado esquerdo até 18 metros. Ficará com passeios laterais de 4 metros de largura e as árvores a 1,5 metros”. Pedro de Azevedo Coutinho fez carreira na Armada. Como comandante da canhoneira Bengo, passou por Macau e Timor, tendo prestado auxílio a Macau durante a epidemia da peste bubónica em 1895. Anos mais tarde, por Decreto de 27 de Dezembro de 1906, foi nomeado Governador de Macau, tomando posse no dia 6 de Abril do ano seguinte. O seu governo ficou marcado pelo início do processo da construção de uma cadeia pública, localizada no fim da Rua do Almirante Costa Cabral. Alegando motivos de saúde, pediu ao Ministro do Ultramar para ser exonerado das suas
  • 208 funções de governador, tendo assim cessado as suas funções por decreto de 7 de Maio de 1908. Merece fazer-se referência a uma acta datada de 18 de Agosto de 1921, do Conselho Técnico das Obras Públicas, em que se acha mencionado o “Requerimento de T’ong Lai Chün [7], pedindo permissão para avançar paralelamente, à distância de dez metros, o limite leste do seu prédio números onze, treze e quinze da Rua da Bandeira [8], e tendo-se posteriormente reconhecido como mais harmónico com os arruamentos existentes, o avanço do mesmo limite até ao prolongamento da Rua Pedro Coutinho”, o pedido foi aprovado, após uma breve elucidação feita pelo engenheiro Mateus de Lima. A antiga residência e o Jardim da Família T’ong, na junção entre a Avenida do Coronel Mesquita e Rua de Pedro Coutinho Até aos anos 20 do século passado, a Rua de Pedro Coutinho ia desde a Avenida do Coronel Mesquita até à Rua de Sacadura Cabral, mas actualmente começa na Rua do Bispo
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 209 Medeiros e termina na Avenida do Coronel Mesquita, entre as Ruas de Francisco Xavier Pereira e do Almirante Costa Cabral. • “RUA FRANCISCO XAVIER PEREIRA – Segue no alinhamento já dado da propriedade de Tong Lai Chün, alargando para a direita até à largura de 20 metros. Vai cortar umas habitações sem grande importância e para que o declive seja mais suave junto da Cadeia Civil, terão que ser feitos alguns aterros”. Esta rua começa na Estrada do Repouso e, actualmente, termina na Avenida de Wenceslau de Morais. Francisco Xavier Pereira, filho de Vicente Saturnino Pereira, um advogado goês, e de Teresa Maria Lourenço, nasceu no seio de uma família abastada. Francisco Xavier Pereira formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e, desde novo, era visto como um indivíduo dotado de prestígio e de capacidade intelectual, tendo sido eleito Presidente do Leal Senado quando tinha apenas 24 anos de idade, tornando-se, assim, o mais jovem Presidente de todos os tempos. Infelizmente, faleceu relativamente novo e, após a sua morte, membros da sua família emigraram para Hong Kong, onde adquiriram bens imóveis e acções de várias companhias, tendo, desta forma, acumulado fortunas com a valorização dos investimentos que fizeram. • “RUA MANUEL DE ARRIAGA – Conserva o alinhamento e largura da parte já existente a partir da Rotunda Carlos da Maia”.
  • 210 Manuel José de Arriaga Brum da Silveira foi professor liceal, escritor e político. Desde jovem se empenhou na propaganda republicana e fez parte do Directório do Partido Republicano. Após a implantação da República Portuguesa, foi eleito para as Constituintes de 1911, tendo, no mesmo ano, sido eleito como primeiro Presidente da República Portuguesa até se demitir, em 1915. • ESTRADA COELHO DO AMARAL (Continuação) – A rua já existente alarga para 16 metros para o lado esquerdo, ficando com dois passeios laterais e um passeio central arborizados, com 2 metros de largura. A partir da Avenida de Mong-há até à Rua do Brás da Rosa (continuação da Rua Marques de Oliveira) ficará com 12,5 metros de largura, passeios laterais de 2 metros e uma faixa central de 8,5 metros, devendo os prédios ficar afastados desta, de forma a darem uma largura de 16 metros à rua. José Rodrigues Coelho do Amaral entrou ainda novo para o exército, tornando-se engenheiro militar. A sua primeira experiência governativa foi em Angola, onde desempenhou o seu primeiro cargo importante, como Governador, entre 1854 e 1860. Três anos depois foi nomeado Governador de Macau, tendo servido esse cargo entre 22 de Junho de 1863 e 26 de Outubro de 1866, com muita dedicação e competência. Promoveu diversas obras de melhoramento com vista a transformar Macau numa cidade moderna. Para acabar com aquela separação entre chineses e portugueses, mandou demolir as duas velhas portas da cidade e uma grande extensão da muralha norte. Ordenou a construção
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 211 do Farol da Guia, o primeiro que foi erigido na costa sul da China em 1865. Apesar das diversas obras de melhoramento da cidade que mandou realizar, nem tudo foi do agrado dos moradores, sobretudo quando mandou demolir o velho Convento de S. Francisco e remover as sepulturas do cemitério [9] da igreja de S. Francisco, para construir, no mesmo local, um quartel para o 1º Batalhão de Linha. • ESTRADA ADOLFO LOUREIRO – Poderá ser alargada até 12,5 metros também, desde a Rua do Brás da Rosa até à Rua Almirante Costa Cabral. Passeios arborizados de 2 metros de largura e faixa central de 8,5 metros . Na Portaria nº 3, de 4 de Janeiro de 1883, refere-se que foi aprovada em Conselho Técnico das Obras Públicas “a construção de uma estrada da Flora para a rua de Coelho do Amaral, conforme o respectivo projecto e orçamento na importância de $4 000” e que, por não terem aparecido licitantes ao concurso que se abriu para ser dada de arrematação, por aquela Portaria, o Governador Joaquim José da Graça ordenou “que pela Direcção das Obras Públicas se proceda à construção da mesma estrada por meio de administração”. Após a conclusão da obra, foi dado a esta nova via o nome de Estrada de Adolfo Loureiro, em homenagem ao engenheiro militar, Adolfo Loureiro. Na abertura daquela estrada foi feito um desvio junto de uma povoação, então designada por Seac Lou Tau. Apesar disso, anos mais tarde, aquela povoação foi toda ela expropriada, demolida e aterrada, por motivos de saneamento naquela zona.
  • 212 Adolfo Ferreira de Loureiro foi um distinto militar, engenheiro, escritor, poeta e político português. Esteve em Macau, durante cerca de 6 meses (entre 15 de Setembro de 1883 e 7 de Abril de 1884), no cumprimento da missão de estudar e propor soluções para a resolução do assoreamento no porto de Macau, tendo elaborado um grande projecto dos aterros do Porto Interior, cujo trabalho foi elogiado de tal forma que o Leal Senado, em 1884, deu o seu nome a um arruamento, denominado Estrada de Adolfo Loureiro, que começa em frente do Jardim da Vitória, cortando perpendicularmente a Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, junto do Jardim Lou Lim Ieoc, indo terminar no entroncamento da Rua da Restauração com a Estrada do Coelho do Amaral. No livro Macau no Diário de Viagem, de Adolfo Loureiro, assim ficou escrito, em 17 de Setembro de 1883: “Para outro lado avultava a fortaleza do Monte, dominando a cidade e o porto, o principal estabelecimento militar de Macau, estendendo-se em baixo as pequenas, mas risonhas e produtivas várzeas macaenses, através das quais se construía uma formosa avenida em direcção ao porto interior da cidade, (que mais tarde foi baptizada com o meu humilde nome). Esta estrada, em vez de seguir a meia encosta, atravessava em aterro, com muros de suporte, aquelas várzeas, a pedido dos chins, que haviam cedido gratuitamente os terrenos, só para que não fosse contender com as sepulturas que se espalhavam, como que ao acaso, pelas vertentes da colina”.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 213 Esta descrição confirma que a estrada, construída em 1883, era nas várzeas e que havia sepulturas espalhadas pelas vertentes da colina. Por isso, anos mais tarde, num Anúncio da Direcção das Obras Públicas de Macau, datado de 13 de Dezembro de 1904, o público foi informado que “precisando de fazer as escavações na montanha de Tap Seac, a fim de obter terras para aterrar o novo bairro de Long Tin-chün, esta Direcção previne aos interessados para exumarem os restos mortais dos seus antepassados que se acham ali sepultados, no prazo de 10 dias, a contar da data deste anúncio”. Deste modo, a encosta de Tap Siac foi em grande parte terraplanada, reduzindo substancialmente o declive que até então existia, de forma a permitir a abertura de novas vias e a construção de novos prédios. NOVAS VIAS PÚBLICAS NÃO INCLUÍDAS NA REFERIDA “MEMÓRIA DESCRITIVA E JUSTIFICATIVA” Uma das principais vias públicas que não estava incluída na “Memória Descritiva e Justificativa”, apresentada pelo Engº Adriano Augusto Trigo em 1921, era a Avenida do Ouvidor Arriaga, o que se supõe que naquela altura ainda não estava projectada. No entanto, no Cadastro de Vias e Outros Lugares Públicos da Cidade de Macau, publicado 4 anos mais tarde, em 1925, já consta o topónimo Avenida Ouvidor Arriaga, com a seguinte descrição: “Começa na Avenida Sidónio Pais ao lado da parte lateral do jardim particular Sena Fernandes, e termina na Avenida Almirante Lacerda. Presentemente não tem construções”. Era natural que não tinha construções, visto que uma parte da via estava apenas projectada e outra recentemente aberta.
  • 214 Relembrando o passado, sobretudo em meados do século XX, havia então muitos lotes de terreno baldio, no espaço compreendido entre Avenida do Coronel Mesquita e Avenida Horta e Costa, e as construções que existiam eram normalmente edificações de dois pisos, com um pequeno jardim na frente da moradia. Os prédios com 4 ou mais pisos começaram a surgir praticamente a partir dos anos 70 do século passado, de forma que, em pouco mais de uma década, as lindas moradias que ali existiam foram sendo demolidas umas atrás das outras. Das mansões, jardins e conjuntos de moradias ou vivendas, que foram demolidas para darem lugar à construção de edifícios altos e muito altos, incluem-se designadamente a mansão da família de Sum Heung Lam (沈香林) [10], o então jardim e residência do comerciante Tong Lai Chün (唐麗泉), conhecido por “Jardim da família Tong”, o conjunto de moradias do Dr. Pedro José Lobo e dos seus filhos, conhecido por Vila Verde, etc. Presentemente, em toda a extensão da Avenida do Ouvidor de Arriaga restam poucas casas tidas por antigas, uma delas, que tem a aparência de um templo chinês (conhecido, em chinês, pelo nome de Sék Si Chi (石獅子 , devido a um par de leões de pedra, colocados à entrada principal), mas, na realidade, foi residência da viúva do abastado comerciante Chung Chi Kong, onde ali se recolheu após o falecimento do marido e uma outra pertencente à família de Chui Tak Kei. A Avenida do Ouvidor Arriaga terá sido a última avenida que foi aberta na zona norte da cidade, por volta de 1925, depois
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 215 da expropriação de uma parte do Jardim de Sena Fernandes, de um lado, e de propriedades pertencentes, designa- damente a Iong Moc Tong (容穆堂) e Hap Seng Tong (合成堂), do outro lado. Inicialmente, a Avenida do Ouvidor Arriaga começava na Rua do Pedro Coutinho, visto que, após as referidas e outras expropriações, criou-se uma vasta área, entre a Rua do Pedro Coutinho e as avenidas Horta e Costa, Conselheiro Ferreira de Almeida e Coronel Mesquita, a qual estava ocupada pelo Campo de Exposição e Feira, onde se realizou em 1926 a Exposição Industrial e Feira de Macau, havendo no interior um lago situado em frente ao Templo de Kun Iam. Presentemente, além desta Avenida, há também o Beco do Ouvidor Arriaga e o Pátio do Ouvidor Arriaga, cujos topónimos foram atribuídos em 1955 e 1956, respectivamente e, ainda, a Rotunda Ouvidor Arriaga, situada na Taipa.
  • 216 NOTAS: [1] Heong Sán (em pinyin, Xiangshan) era um condado da província de Cantão, no sul da China. Aquele nome foi alterado, em Abril de 1925, para Chong Sán (em pinyin, Zhongshan), em homenagem ao fundador da República da China, Sün Chong Sán, também conhecido por Sun Yat Sen. [2] Era conhecido por Mandarim da Casa Branca, com sede em Chin Sán (前山, em pinyin Qianshan), uma localidade situada a cerca de 3 quilómetros da Porta do Cerco. [3] Consta que Lu Cao (ou Lou Kau) conseguiu solucionar a expropriação de alguns terrenos em Sá Kong, mediante a aquisição, por sua conta, de tais terrenos, que depois foram oferecidos ao governo para reaproveitamento. Por isso, o governo dedicou-lhe uma via na antiga zona de Sá Kóng, denominada Rua do Lu Cao, que começa na Avenida de Horta e Costa, entre a Estrada de Coelho do Amaral e a Rua da Emenda. [4] Esta rotunda, embora projectada, não foi construída. A rotunda acabou por ser feita noutro local, a que foi dado o nome de Rotunda de Carlos da Maia, a primeira a ser construída em Macau, em princípios dos anos vinte do século XX. José Carlos da Maia foi oficial da Marinha e destacado político republicano. Desempenhou diversas funções, quer como deputado, quer como Ministro das Colónias. Desempenhou também o cargo de governador de Macau entre 1914 e 1916. Ficou célebre a carta de agradecimento que Sun Yat-sen escreveu ao governador Carlos da Maia pelo apoio que ele deu aos republicanos chineses em Macau.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 217 [5] Consta do artigo titulado “Avenida de Almeida Ribeiro – uma importante e emblemática avenida de Macau”, originalmente publicado em Crónicas Macaenses, em 02.02.2019. [6] O nome do engenheiro Abreu Nunes ficou apenas ligado a uma via secundária, conhecida pelos chineses por “Hó Lán Yuen Yi Má Lou” ou, simplesmente, “Yi Má Lou”, que significa “a segunda rua ou rua secundária” da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida. [7] Tong Lai Chün (唐麗泉) era um abastado comerciante de Hong Kong. Quando veio para Macau comprou um vasto terreno em Mong-há, próximo do Templo Kun Iam, e ali construiu a sua residência e um jardim, que ficou conhecido por Jardim da Família Tong. Era um dos três grandes jardins, do estilo chinês, que então existiam naquela zona – o da família Lou Kau, o da família Tong e o da família Cheong, dos quais apenas resta o Jardim Lu Cao, mais conhecido por Jardim Lou Lim Ieoc, que era o filho mais velho de Lou Kau ou Lu Cao. Do jardim da família Tong ainda restam alguns vestígios, mas do da família Cheong, nada resta. O jardim da família Tong está ocupado, designadamente, pelo Asilo de S. Francisco Xavier, inaugurado em 1965, e, ao lado, pela igreja de S. Francisco Xavier. Antes disso, no antigo edifício funcionou o Asilo da Santa Infância, fundado pelas Filhas da Caridade Canossianas em 1907. [8] A Rua da Bandeira foi extinta com a abertura da nova Avenida de Mong-há (cujo topónimo foi depois alterado para Avenida do Coronel Mesquita), começava no Largo do Pagode de Mong-há, já extinto, e terminava na Rua do Touro, também extinta. [9] A remoção de sepulturas foi objecto de muita contestação, mesmo por parte do Senado, visto que estava ali sepultada gente nobre, falecida em Macau.
  • 218 [10] Sam Heong Lam era um dos três maiores industriais da época que se dedicavam ao fabrico de pivetes. Os pivetes que ele fabricava eram usados como “repelentes de mosquitos”. A indústria de incensos repelentes de mosquitos em Macau começou em 1922, tendo adoptado a designação, em inglês, “Blood Protection Company Limited” e, em chinês, “Pou Hüt Man Heong Iao Han Cong Si” (保血蚊香有限公司). Era uma enorme fábrica e, segundo consta, empregava cerca de 500 trabalhadores, cujos produtos eram exportados, exceptuando uma pequena quantidade que era destinada ao consumo local. A comercialização era feita através do seu escritório em Hong Kong, localizada em Austin Road nº 112. Devido ao declínio do negócio, a fábrica encerrou oficialmente a 31 de Dezembro de 1964, pondo fim à história da produção de incensos repelentes de mosquitos em Macau. A sua bela e enorme mansão, então localizada na Avenida do Ouvidor Arriaga nº 70, bem como as instalações fabris, foram demolidas nos anos 80 do século passado e todo o terreno foi subsequentemente reaproveitado para a construção de um enorme edifício para fins comerciais e residenciais, denominado “Heung Lam San Chun”. Publicações consultadas: • Boletins Oficiais do Governo de Macau • Anuários de Macau • Cadastros das Vias Pública de Macau • Publicações diversas em língua chinesa.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 219 OUVIDOR ARRIAGA
  • 220
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 221 OUVIDOR ARRIAGA, UMA FIGURA CONTROVERSA DA HISTÓRIA DE MACAU Miguel José de Arriaga Brum da Silveira, nasceu na vila da Horta, Açores, a 22 de Março de 1776, no seio de uma família aristocrata. Os Arriagas descendem de uma família de origem basca, enquanto que os Brum da Silveira, de famílias flamenga e portuguesa, que foram pioneiras no povoamento dos Açores. O seu pai, José de Arriaga Brum da Silveira, era desembargador da Casa da Suplicação [1], tendo também exercido outros cargos, nomeadamente o de provedor da Fazenda Real nos Açores. Em 1793, Miguel de Arriaga, apenas com 17 anos de idade, foi admitido no 1º ano de Leis, da Universidade de Coimbra e, cinco anos depois, concluiu o seu curso de Direito naquela Universidade. Depois de estar apto a iniciar a sua carreira, foi nomeado juiz do Crime do Bairro da Ribeira, em Lisboa, tendo seguidamente, em 25 de Fevereiro de 1802, sido promovido a desembargador dos Agravos da Casa de Suplicação e transferido para Goa como desembargador da Relação para o exercício do cargo de Ouvidor de Macau. Miguel de Arriaga chegou a Macau em 22 de Junho de 1802. No entanto, só tomou posse oficial em Janeiro do ano seguinte, visto que tinha solicitado ao Príncipe Regente, D. João, a equiparação do seu vencimento aos restantes ouvidores do Ultramar e, ao mesmo tempo, aguardava pela aprovação do novo Regimento ao lugar de Ouvidor da Cidade do Nome de Deus de Macau, para substituir o
  • 222 primeiro e antiquado Regimento do ano de 1587. Com este novo Regimento, os poderes da Ouvidoria foram alargados, ficando na dependência do Ouvidor a Fazenda, a Câmara, a Alfândega, a Misericórdia, os Órfãos, as Confrarias, os Defuntos e Ausentes, etc., ou seja, praticamente tudo quanto relacionado com a administração. Quer antes, quer depois da tomada de posse como Ouvidor, Miguel de Arriaga não tardou a aperceber-se de que, para o eficaz desempenho das suas funções, era necessário harmonizar os interesses pessoais e políticos aos económicos, devido às circunstâncias daquela época. Por isso, procurou obter apoio dos mais influentes negociantes, favorecendo-lhes as petições, tendo o caso mais flagrante sido a aprovação da descarga do ópio (então conhecido por anfião, derivado do árabe afyūm), solicitada pelo comerciante Januário Agostinho de Almeida, cujo pedido lhe tinha sido recusado pelo Senado. As relações de amizade que se desenvolveram, desde então, entre Januário de Almeida e Ouvidor Arriaga, foram reforçadas ao longo dos anos seguintes, de tal forma que, no ano de 1808, Ouvidor Arriaga acabou por casar com Ana Joaquina de Almeida, uma das filhas de Januário Agostinho de Almeida. Por aquela altura, Januário de Almeida já se tornara um dos maiores armadores ou proprietários de navios, com vastos interesses no comércio do ópio e, devido à sua riqueza, influência e poder, anos mais tarde, viria a ser distinguido pelo Príncipe Regente, D. João, com o título de Barão de São José de Porto Alegre, por decreto de 15 de Junho de 1815.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 223 Retrato de Miguel de Arriaga INTERVENÇÃO DO OUVIDOR ARRIAGA EM DUAS IMPORTANTES QUESTÕES POLÍTICAS Miguel de Arriaga, apesar de ter sido uma figura controversa durante mais de 20 anos no exercício do cargo como Ouvidor, dedicou-se com afinco às suas funções, tendo tomado importantes decisões em questões políticas e económicas de Macau. Uma das importantes questões políticas que Arriaga teve de enfrentar foi quando os ingleses tentaram ocupar Macau,
  • 224 alegando que pretendiam defender Macau de uma provável invasão francesa, visto que, entre 1807 e 1810, Napoleão ordenou três invasões a Portugal, levando a Corte a mudar-se para o Brasil. Assim, aproveitando-se daquela situação, em Julho de 1808, o Governador-Geral das Índias Britânicas, Lord Minto, enviou uma carta ao governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, para lhe comunicar que iria enviar tropas para defender Macau. Por isso, a 10 de Setembro de 1808, uma esquadra inglesa, sob o comando do contra-almirante William O'Brien Drury, Comandante em Chefe das Forças Britânicas na Ásia, entrou nas águas ao largo de Macau. Perante a exigência do desembarque das tropas inglesas em Macau, que acabou por se concretizar, os ingleses instalaram-se nas fortalezas da Guia e do Bomparto e prepararam-se também para ocupar a fortaleza do Monte. Arriaga iniciou a sua manobra diplomática e após uma série de negociações, quer com o comandante inglês, quer com o mandarim de Xiangshan (香山, em cantonense Heong Sán) e Vice-Rei de Cantão [2], as tropas britânicas aceitaram abandonar Macau entre 7 e 10 de Dezembro daquele ano, na condição de que o comércio britânico continuasse a fazer-se como dantes, conforme acordado. Além daquela melindrosa questão criada pelos ingleses, Arriaga teve que lidar com as constantes ameaças de piratas, a partir de 1804, atingindo o seu auge entre 1806 e 1808, os quais passaram a controlar os mares do sul da China, designadamente pela poderosa esquadra Bandeira Vermelha, liderada por Zhang Baozai ( 張 保 仔 , em
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 225 cantonense, Cheong Pou Chai), também conhecido pela transliteração fonética Kam Pau Sai ou Cam Pau Sai [3]. Cheong Pou Chai, apesar de dispor de uma poderosa força naval, foi vencido pela frota portuguesa na batalha que se travou no delta do rio das Pérolas, junto da Boca do Tigre, acabando por aceitar a capitulação. Foi com a empenhada acção de Arriaga, que aceitou agir como intermediário de Cheong Pou Chai nas negociações com o vice-rei de Cantão e seus mandarins, é que se conseguiu alcançar um acordo para a rendição de um dos mais poderosos piratas do sul da China. RECURSO JUDICIAL CONTRA OUVIDOR ARRIAGA Em meados do século XVIII, António José da Costa, um alentejano de Moura, era um dos homens mais ricos de Macau. A sua riqueza proveio sobretudo do casamento com Antónia Correia, quando esta, ainda jovem, ficou viúva do comerciante Nicolau Fiumes e se tornou herdeira de uma enorme fortuna. Desse casamento, António e Antónia tiveram três filhos – Miguel, António e Gabriel. O filho mais novo fez-se dominicano e o mais velho, depois de viúvo, abraçou a vida religiosa, tendo sido depois ordenado sacerdote. O segundo filho, com o mesmo nome do pai, António José da Costa, casou com Inácia Caetana de Sousa em 1777. Em virtude de sua mulher ter falecido de parto, em 1783, António José da Costa ficou muito desolado e, anos mais tarde, decidiu seguir a vida religiosa, tornando-se
  • 226 presbítero em 1794. Desde então, passou a ser mais conhecido por Padre António [4]. No entanto, antes de ser padre secular, António José da Costa exerceu cargos públicos, designadamente o de administrador da Alfândega. Foi também provedor da Santa Casa da Misericórdia e administrador do Cofre das Missões e de Confrarias. Quando o pai, António José da Costa, faleceu em Fevereiro 1781, poucos meses depois de ter deixado o cargo que exerceu interinamente como governador de Macau, o seu filho António foi designado para administrar os bens herdados, dos quais se destacavam vários prédios situados na Praia Grande e a “propriedade de Casas Nobres”, ou seja, a célebre “Casa das Dezasseis Colunas”, na Rua de S. Lourenço, mesmo em frente da igreja. António José da Costa era conhecido como um excelente administrador. Cumpridor dos seus deveres, nunca permitiu a utilização indevida dos fundos que lhe foram confiados e, por conseguinte, no período entre 1811 e 1812, manteve um conflito litigioso com Arriaga, por não lhe ter autorizado fazer uso dos fundos que administrava, designadamente os dos Legados Pios [5], deixados pelo seu pai. Os fundos pretendidos por Arriaga destinavam-se a suprir as necessidades de tesouraria do Leal Senado, que os receberia sob a forma de empréstimos. O conflito entre as partes deu lugar a recursos, que foram levados a Goa e dali remetidos ao Rio de Janeiro, onde estava sediada a Corte portuguesa. Foram também
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 227 apresentadas queixas pelo Pe. António, acusando Ouvidor Arriaga de abuso do poder e de ter feito repetidos insultos contra ele. O Ouvidor, por sua vez, também fez várias queixas, incluindo a desobediência às ordens superiormente dadas. O certo é que, após as autoridades competentes do reino terem apreciado e analisado as queixas e recursos apresentados, o processo foi declarado encerrado, tendo as autoridades do reino dado razão ao Pe. António e censurado o Ouvidor pelo seu indevido procedimento. Apesar de o todo poderoso Ouvidor ter sempre conseguido resolver com sucesso os casos que lidou ou enfrentou, desta vez, porém, o confronto tido com o Pe. António não lhe saiu bem, por pretender lançar mão do que era tido por “sagrado” – os fundos dos Legados Pios. O recurso a fundos de instituições existentes em Macau, designadamente da Santa Casa da Misericórdia, das Confrarias, do Cofre dos Órfãos, do Cofre de Pobres, etc., era uma prática bastante usual para o financiamento público e privado, sob a forma de empréstimos com juros, dado que naquela época não existiam instituições bancárias locais, que fizessem esse tipo de operação. Por isso, sempre que o Senado tinha necessidades de tesouraria, a vereação solicitava a aprovação dos necessários empréstimos para fazer face a despesas públicas e, como tais instituições tinham muito dinheiro em cofre e estavam subordinadas à autoridade do Ouvidor, a obtenção de empréstimos, de um modo geral, não representava um problema.
  • 228 O MAIOR DESAIRE SOFRIDO POR OUVIDOR ARRIAGA Em termos políticos, Arriaga passou por um período agitado, a partir de princípios de Janeiro de 1822, quando chegaram a Macau as primeiras notícias sobre o triunfo do movimento liberal, iniciado em Portugal, na cidade do Porto, que culminou com a adesão da família real à nova Constituição, após o regresso do rei a Portugal, vindo do Brasil. Foi um movimento que agitou a sociedade macaense e acabou por dividi-la, porquanto uns apoiavam os liberais, enquanto que outros defendiam a continuidade do antigo governo. Assim, os vereadores que estavam de acordo com o novo regime, solicitaram, sem perda de tempo, a convocação de sessões extraordinárias para deliberarem sobre a realização do juramento da nova Constituição e a preparação para novas eleições, enquanto que o Ouvidor manifestava o seu desacordo, alegando que preferia aguardar por orientações mais precisas da Corte. Essa atitude do Ouvidor foi vista pelos opositores como uma forma de tentar ganhar tempo para manter o antigo regime e continuar no poder. Por isso, os mais directos opositores, tais como João Nepomuceno Maher, Francisco José de Paiva e Paulo Vicente Belo, nas sessões camarárias, não se cansavam de fazer duras críticas ao Ouvidor Arriaga. Para endurecerem ainda mais as críticas ao Ouvidor Arriaga, surgiu em 1822 a publicação do primeiro jornal em Macau, A Abelha da China, cujo editor era o dominicano Fr. António de S. Gonçalo de Amarante, um acérrimo defensor da “nova causa”, o qual, juntamente com o cirurgião Dr. José de
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 229 Almeida [6] e o tenente-coronel Paulino Barbosa, que defendiam a mudança do regime, lançavam fortes críticas ao antigo governo e ao Ouvidor Arriaga. Depois de vários avanços e recuos, conseguiu-se na assembleia geral, realizada a 19 de Agosto de 1822, eleger um novo Senado, tendo no mesmo dia sido proposto que o Ouvidor Arriaga fosse deposto do seu cargo. Passados dias, a 23 do mesmo mês, foi proclamado o novo regime, com a realização de um solene Te Deum. Apesar disso, a situação não se normalizou, visto que estava a ser preparada uma insurreição contra o governo liberal. Entretanto, devido a uma denúncia, na noite de 13 de Setembro, os chefes da conspiração foram presos e, no dia seguinte, o Senado solicitou, por carta, ao governador José Osório Albuquerque, que desse ordem para que levassem o Ouvidor Arriaga à Fortaleza do Monte, a fim de ficar lá recolhido, por motivos de segurança. Efectivamente, o Senado tinha outras intenções, porquanto, a 15 de Setembro, o Ouvidor Arriaga acabou por ser preso e acusado de ser instigador da revolta, tendo sido levado para a Fortaleza do Monte. No entanto, alegando que se encontrava doente, foi então autorizado a regressar à casa e ali permanecer, sob vigilância. Em Março de 1823, o Senado determinou que Miguel de Arriaga teria de embarcar, sem falta, no dia 23, no navio Vasco da Gama, com destino a Lisboa. Dado que Miguel de Arriaga recusou embarcar, na madrugada do dia 24 ele foi levado por um oficial da Marinha e por um oficial de
  • 230 Artilharia para o navio. Mesmo assim, conseguiu sair do navio, fretar uma embarcação chinesa e seguir para Cantão. A partir dali, Miguel de Arriaga informou ao vice-rei da Índia sobre todos os acontecimentos que ocorreram em Macau, tendo o vice-rei dado o seu acordo aos argumentos apresentados por Miguel de Arriaga e, para restabelecer a ordem, enviou para Macau o navio Salamandra, com um destacamento militar a bordo, o qual chegou ao porto de Macau a 16 de Junho daquele ano. Por meio de astutas manobras, Miguel de Arriaga conseguiu, por um lado, o apoio do capitão do navio Salamandra e, pelo outro, o do vice-rei de Cantão, que enviou dois comissários para Macau, a fim de se inteirarem da situação e tentarem resolver os conflitos, que duraram vários meses. Para acabar com a intranquilidade que se vivia na cidade, na manhã de 23 de Setembro de 1823, o capitão do navio Salamandra, Garcês Palha, mandou desembarcar um destacamento militar que, de imediato, foi cercar o edifício do Senado e, seguidamente, prender o líder do grupo liberal, major Paulino da Silva Barbosa, bem como vários apoiantes seus, tendo todos eles sido levados para o navio Salamandra. Após este incidente, a agitação política abrandou e, aos poucos, a vida da cidade foi regressando à normalidade. Miguel de Arriaga, porém, continuou a permanecer em Cantão, possivelmente a convalescer da sua doença, ou então, para preparar o seu regresso a Macau, depois de obter a confirmação de que a situação política estava completamente controlada.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 231 Garantido o seu regresso, Miguel de Arriaga partiu de Cantão para Macau no dia 26 de Dezembro, tendo sido triunfalmente recebido à sua chegada. O período de tempo que Miguel de Arriaga passou no exílio em Cantão não foi benéfico à sua saúde, porquanto a solidão e a amargura, associadas a crises de depressão, agravaram a doença que tinha contraído [7]. Embora tivesse conseguido uma vitória sobre os seus inimigos directos, a doença de que sofria, não lhe permitiu festejar aquela vitória por muito tempo, porquanto veio a falecer, cerca de um ano após o seu regresso a Macau, a 13 de Dezembro de 1824, com a idade de 48 anos, tendo sido sepultado na igreja do Convento de S. Francisco.
  • 232 NOTAS: [1] A Casa de Suplicação era o tribunal supremo de Portugal, encarregado do julgamento em última instância dos pleitos judiciais. [2] A designação completa é Vice-Rei das províncias de Guangdong e Guangxi (as duas Guang, sendo Guangdong, do lado leste, e Guangxi, do lado oeste). Era também designado pelos portugueses por Suntó, derivado de Zongdu 總督 , em mandarim, ou Chong Tôk, em cantonense, que quer dizer Governador. [3] Cheong Pou Chai era conhecido por diversos nomes. O seu nome de nascimento era Cheong Pou, ao qual acrescentaram, como é habitual entre chineses, o diminutivo “Chai”, que significa “filho” ou “menino” (um diminutivo semelhante ao -inho, em português, como, por exemplo, Luisinho ou menino Luís). Era, por isso, também conhecido pelo nome familiar “ah Pou Chai”, resultando daí a transliteração “Apo Chai” ou “Apáo Chai”. [4] Em Macau, há uma rua que lhe é dedicada – a Rua do Pe. António. [5] É a parte da herança que o testador destinou à satisfação dos encargos da sua alma, como a celebração de missas, esmolas e outros actos de caridade, piedade ou devoção. [6] O cirurgião português Dr. José d'Almeida Carvalho e Silva (1784-1850) emigrou para Singapura e ali se estabeleceu em 1825. Criou uma empresa comercial em Raffles Place, denominada d’Almeida & Co., que se tornou famosa. Adquiriu terrenos, tendo sido pioneiro na plantação de açúcar, café e algodão. Introduziu também a plantação de diversas árvores de frutos, designadamente um dos frutos, conhecido por “Pisang d’Almeida”. Além disso, foi Cônsul-geral de Portugal em
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 233 Singapura, tendo sido condecorado, não só pela raínha de Portugal, como também pelo rei da Inglaterra. Depois de falecer, os seus filhos Joaquim e José deram continuidade ao negócio. Singapura homenageou-o com a atribuição do seu nome a uma pequena via – D’Almeida Street. [7] Sofria de reumatismo gotoso. Publicações consultadas: • Macau Histórico, de Montalto de Jesus • Páginas da História de Macau, de Luiz Gonzaga Gomes • Um Esboço Histórico dos Estabelecimentos dos Portugueses e da Igreja Católica Romana e das Missões na China & Descrição da Cidade de Cantão, de Anders Ljungstedt • Macau no Primeiro Quartel de Oitocentos, de Jorge Arrimar
  • 234
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 235 CHEONG POU CHAI ou ZHANG BAOZAI, também conhecido por CAM PAU SAI
  • 236
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 237 CHEONG POU CHAI, também conhecido por CAM PAU SAI A vida de Cheong Pou Chai ou Cheong Pou [1] continua envolta em lendas e mistérios, pois nem tudo o que se conta a seu respeito está devidamente fundamentado. Cheong Pou Chai nasceu no ano de 1783, em Xinhui (新會, em cantonense, Sân Wui), um distrito urbano de Jiangmen (江門 em cantonense, Kóng Mun), em Guangdong (Cantão), filho de pais pescadores, da etnia hakká. Em 1798, quando acompanhava o seu pai na faina da pesca, foi raptado pelo célebre pirata Cheang Man Hin (鄭文顯), mais conhecido por Zheng Yi (鄭 一, em cantonense, Cheang Yat). Naquela altura, Cheong Pou Chai era um rapaz esbelto, apenas com cerca de 15 anos de idade, cujo aspecto físico cativou Cheang Yat e, por isso, arrebatou-o e levou-o para o seu barco, para ser seu companheiro, passando desde então a viver com ele, pois consta que Cheang Yat era bissexual. No entanto, sendo um rapaz robusto e inteligente, rapidamente se adaptou a essa nova forma de vida, tornando-se, mais tarde, um dos influentes membros da esquadra comandada por Cheang Yat. O CÉLEBRE PIRATA CHEANG YAT, também conhecido por ZHENG YI ou CHENG I Cheang Yat era filho mais velho do chefe de piratas Zheng Lianchang (鄭連昌 , em cantonense, Cheang Lin Cheong) e o seu antepassado Zheng Jian (鄭建 , em cantonense, Cheang
  • 238 Kin) serviu no exército sob o comando de Zheng Chenggong, mais conhecido por Koxinga (鄭成功 , em cantonense, Cheang Seng Kông), que, naquela época, embora considerado pirata, foi na realidade um dos maiores opositores da recém implantada dinastia Ching, tendo liderado uma enorme armada contra os invasores Manchus. Após a morte de Cheang Kin, os seus descendentes, incluindo Cheang Yat, tornaram-se piratas. Consta que, numa ocasião, já em princípios do século XIX, estando Cheang Yat a divertir-se com seus amigos mais próximos num bordel flutuante, a que davam o nome de barco de flores, conheceu uma mulher, bela e sedutora, chamada Sék Heong Ku (石香姑 , literalmente, “madame” Sék Heong), que, entretanto, deixara de ser prostituta num dos bordéis em Cantão, para passar a ser “madame”, encarregada daquele bordel, que normalmente era frequentado por gente abastada ou ricos negociantes. Quer por interesses por parte de Sék Heong Ku (cujo nome de nascimento era Shi Yang (石陽 , em cantonense, Sék Yeong), conhecida pelo seu talento para negócios, quer por Cheang Yat ter ficado mesmo apaixonado pela “madame”, ele acabou por fazer uma proposta de casamento e ela teria concordado, mediante um contrato formal, que lhe concedia um controlo e participação de 50% dos bens de Cheang Yat. Nestas condições, casaram em 1801 e, a partir de então, Sék Heong Ku passou a ser conhecida como Cheang Yat Sau (鄭一嫂, em pinyin, Zheng Yisao), ou seja, esposa de Cheang Yat. Após o casamento, tomaram então Cheong Pou Chai como filho adoptivo, passando assim a ser um dos legítimos herdeiros, visto que Cheang Yat Sau teve,
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 239 do casamento com Cheang Yat, dois filhos: Cheang Yeng Sék (鄭英石) e Cheang Hong Sék (鄭雄石). Por aquela altura, no virar do século XIX, um dos primos direitos de Cheang Yat, conhecido pelo nome Zheng Qi (鄭七, em cantonense, Cheang Ch’ât) tornara-se o maior líder dos piratas do Sul da China, devido à protecção que lhe foi dada pelo Reino Xishan, do Vietnam (越南西山朝). Para sua grande infelicidade, em 1802, Cheang Ch’ât foi morto por oficiais do Reino Nguyen, do Vietnam (越南阮朝) e em Julho daquele ano, as forças de Tayson foram derrotadas e o imperador Gia Long instaurou uma nova monarquia – a Nguyen. Com a morte de Cheang Ch’ât, os piratas do sul da China perderam o seu grande líder e, por esse motivo, desejando alguns dos capitães das esquadras tomar posse da liderança, romperam-se conflitos armados entre eles até que, em 1805, por proposta de Cheang Yat, os capitães sobreviventes chegaram a um acordo de paz e formaram uma Confederação entre eles, a qual, desde então, passou a ser formada por seis esquadras, respectivamente conhecidas pelas bandeiras Vermelha, Amarela, Verde, Azul, Preta e Branca. A Confederação, composta por 600 a 1.000 navios, tinha uma tripulação que variava entre 20.000 e 40.000 piratas, na qual se destacava a esquadra Bandeira Vermelha, liderada por Cheang Yat, considerada a mais poderosa de todas.
  • 240 Sob a liderança de Cheang Yat, a Confederação dos piratas do sul da China continuou a manter-se activa, durante algum tempo, na costa do Vietnam, tendo escolhido para base de operações a península de Leizhou (雷州), na Província de Cantão e, progressivamente, foram estendendo as suas actividades ao estuário do Rio das Pérolas. Inesperadamente, seis anos após o casamento, Cheang Yat faleceu em 1807, aos 42 anos, de causas desconhecidas. Alguns relatos indicam que ele morreu afogado, ao longo da costa do Vietnam, durante um tufão ou vendaval, enquanto que outros insinuam que ele teria sido assassinado e o seu corpo foi lançado ao mar. Por esse motivo, a mulher de Cheang Yat passou a ser conhecida por Cheang Si (鄭氏, em pinyin, Zheng Shi, ou seja, viúva de Cheang), tendo ela imediatamente iniciado as suas manobras para assegurar a posição de liderança que detinha o seu falecido marido e conseguido chegar a acordo com os líderes das outras esquadras a não entrarem em conflito aberto e reconhecer a sua liderança. Para tal, procurou o necessário apoio e garantia de lealdade dos membros mais poderosos da família do falecido marido, designadamente Zheng Baoyang (鄭保養), sobrinho de Cheang Yat, e Zheng Anbang (鄭安邦), do filho de Zheng Qi e, sobretudo, o líder da esquadra Bandeira Preta, a segunda maior esquadra, Guo Podai (郭婆帶 ). Desta forma, conseguiu reorganizar a indispensável coligação para consolidação do seu poder e autoridade.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 241 A RÁPIDA ASCENSÃO DE CHEONG POU CHAI Assim que conseguiu assegurar a liderança da esquadra Bandeira Vermelha, Cheang Si tornou-se uma mulher pirata com uma enorme e poderosa força naval sob o seu comando. No entanto, ela sabia que não seria tarefa fácil, por si só, liderar e gerir as operações de uma esquadra com cerca de 300 embarcações e uma tripulação superior a 20.000 homens sem a ajuda de uma pessoa que lhe fosse fiel. Por isso, não hesitou em escolher Cheong Pou Chai como seu braço direito, depositando toda a confiança nesse seu enteado. No entanto, depois de enviuvar, em curto espaço de tempo, os dois passaram a viver maritalmente, tornando-se amantes. Uma ilustração referente a Cheong Pou Chai
  • 242 Tendo Cheong Pou Chai sido, durante anos, o ajudante de Cheang Yat, com quem aprendeu a arte da liderança, facilmente se adaptou ao cargo que lhe foi confiado, passando a ser, desde então, um respeitável líder da esquadra Bandeira Vermelha, a maior e a mais poderosa esquadra da Confederação dos piratas do sul da China, enquanto que a mulher pirata, Cheang Si, além de partilhar a liderança, continuou a ser a responsável sobretudo pelos negócios da sua esquadra. Entretanto, devido à alteração da situação política em Vietnam, de que resultou a unificação de reinos e a criação de uma nova dinastia, os piratas chineses mudaram-se para o sul da China, estabelecendo-se, então, em pontos estratégicos, entre os quais, nas ilhas Wanshan (萬山群島 , literalmente, Arquipélago das Dez Mil Montanhas), também conhecidas por Ilhas dos Ladrões, um grupo de ilhas em frente à foz do Rio das Pérolas, na província de Guangdong, onde passou a ser uma das bases das operações, dali partindo para interceptar o tráfego comercial e fazer pilhagens. Sob a liderança de Cheong Pou Chai, as esquadras dos piratas do sul da China intensificaram as suas operações ao longo da costa marítima da China, entre 1806 e 1808, não só na província de Guangdong, como também na província de Fujian. Foi a partir de então que a cidade de Macau voltou a estar ameaçada por piratas, que atentavam contra navios mercantes, tanto de portugueses, como de estrangeiros, incluindo barcos que diariamente transportavam
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 243 abastecimentos para a cidade e, desta vez, tais ataques eram praticados por piratas às ordens de Cheong Pou Chai. POR QUE HAVIA PIRATAS NOS MARES DA CHINA? Desde o estabelecimento dos portugueses em Macau, este pequeno território enfrentou, ao longo de séculos, o grave problema de piratas, que habitualmente infestavam os mares da China e que espalhavam terror nas zonas costeiras, saqueando, praticando atrocidades e violentando todos aqueles que não satisfaziam as suas exigências. No entanto, nem todos os piratas eram malfeitores. Naquela época, eram designados por piratas não só os que pilhavam, como também todos aqueles que exerciam ilegalmente comércio marítimo privado com a China. Esta situação surgiu quando, em 1368, o governo Ming proibiu os chineses de participarem no comércio marítimo internacional, passando todo o comércio externo a estar sob o controlo estatal, com a criação de um sistema de “tributo comercial” e, deste modo, o comércio marítimo com estrangeiros só era permitido quando as embaixadas de países ou reinos tributários viessem à China para pagar tributo à corte imperial chinesa e, nessas circunstâncias, fixavam-lhes o porto de entrada, o número máximo de navios e respectiva tripulação, devendo as cargas serem classificadas como tributos e não tributos. Os tributos eram transportados para o imperador que, regra geral, retribuía com valiosos presentes, e as mercadorias não tributos eram vendidas em locais pré-determinados, assim como podiam comprar
  • 244 produtos chineses, que depois carregavam para os seus reinos, países ou territórios. Deste modo, os reinos não tributários, tidos por bárbaros, eram proibidos de entrarem na China ou ali comercializarem. De igual modo, todos os chineses estavam proibidos de saírem do seu país. Apesar de o sistema “tributo comercial”, implementado no século XV pelo governo Ming, o imperador Yongle (明成祖) encarregou o almirante Zheng He (鄭和, em cantonense, Cheang Wó) para comandar uma poderosa esquadra, com a missão de fazer viagens expedicionárias, tendo ele, entre 1405, terceiro ano do período de reinado de Yongle [2], e 1433, oitavo ano do período de reinado de Xuande (宣德帝) [3], realizado sete grandes expedições marítimas, atravessando o Mar da China Meridional e o Oceano Índico até o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho, e alcançando o oeste até a costa leste da África. O almirante Zheng He, para sua infelicidade, faleceu no alto mar em 1433, durante o regresso da sua sétima e última viagem e, segundo consta, o seu corpo foi sepultado no mar ao largo da costa de Malabar perto Calecute, na Índia ocidental. A partir de então as viagens expedicionárias foram suspensas, quer devido ao falecimento do almirante Zheng He, quer por razões económicas, ou então, por desinteresse dos sucessores de Xuande (宣德帝), o 5º imperador da dinastia Ming. Após a abrupta suspensão das viagens do almirante Zheng He (鄭和), a proibição da actividade marítima e as restrições impostas ao comércio privado fomentaram o comércio ilegal, sendo então considerados piratas todos aqueles que se dedicavam ao contrabando. Entre esses piratas, havia
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 245 também chineses que fizeram parte da tripulação nas viagens de Zheng He e que desertaram para nunca mais voltarem à China, a fim de poderem dedicar-se ao comércio marítimo. Eram estes os chamados piratas-comerciantes. Além disso, as dificuldades económicas e a instabilidade política e social no interior da China provocavam, de quando em quando, rebeliões militares e debandada de revoltosos para as zonas costeiras, onde procuravam outras actividades, incluindo o comércio ilegal. Em meados do século XVII, quando os Manchus invadiram a China em 1644, acabando por derrubar a dinastia Ming e fundar a nova dinastia Ching, numerosos partidários do regime Ming agruparam-se em volta dos seus líderes e lutaram contra os invasores. Foram muitas as revoltas, havendo também grupos que organizaram forças navais para atacar os dominadores Manchus. Foi naquela altura que surgiu e se notabilizou Cheang Seng Kông (鄭成功), mais conhecido por Koxinga, um fiel partidário dos últimos imperadores da dinastia Ming, tendo liderado diversas campanhas marítimas contra os Manchus. Quando Koxinga quis tornar Taiwan como sua base militar para apoiar a sua campanha contra a dinastia Ching, governada por Manchus, conseguiu derrotar as forças da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) e assumir o controlo da ilha. Embora tivesse sido um opositor ao regime Manchu, era considerado pirata e rebelde, e só muito mais tarde é que passou a ser reconhecido como herói, por ter conquistado a ilha Formosa aos holandeses.
  • 246 O DOMÍNIO DE CHEONG POU CHAI NO ESTUÁRIO DO RIO DAS PÉROLAS Desde que Cheong Pou Chai regressou com toda a sua força naval ao sul da China, abandonando definitivamente a zona costeira do Vietnam, concentrou a sua esquadra no estuário do Rio das Pérolas, designadamente junto à ilha de Lantau (大嶼山), na localidade conhecida por Tung Chung (東涌) [4], um sítio bem protegido, existindo até estaleiros para reparação de embarcações danificadas. A esquadra Bandeira Vermelha numa batalha naval UM DOS LUCRATIVOS NEGÓCIOS Um produto valioso naquela época, largamente utilizado na indústria, era o sal, para a preservação de alimentos, sobretudo na salga dos produtos secos, incluindo o peixe salgado [5]. Consta que, em princípios do século XIX, havia na Província de Guangdong cerca de 20 produtores de sal, localizados
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 247 designadamente em Kou Chau (高州), Lôi Chau (雷州), Lin Chau (連州) Yam Chau (欽州) e, ainda, Tin Seng (電城), que era o mais importante de todos. Para saquearem tal produto, os piratas instalaram-se na ilha de Nau Chau (硇洲島 , em pinyin, Naozhou Dao), donde partiam para capturarem as embarcações, incluindo as do governo imperial, que se dirigiam aos produtores para carregamento do sal. Após sucessivos ataques, os piratas foram capturando, uma atrás da outra, aquelas embarcações, ficando, então, em poder dos piratas, até serem resgatadas. Nestas circunstâncias, os produtores de sal começaram a ficar alarmados, devido às dificuldades no escoamento dos seus produtos e, por outro lado, o sal começava a escassear no mercado de consumo. Para solucionar o impasse, os negociantes de sal não tiveram outra alternativa senão negociar directamente com os líderes dos piratas. A partir de então, o comércio de sal estava sob o inteiro controlo dos piratas, que passaram a exigir não só a compra de um “salvo-conduto”, para permitir a livre circulação da embarcação, bem como o pagamento de uma taxa sobre a quantidade da mercadoria transportada, que normalmente era paga em moeda de prata. O dólar espanhol, uma moeda de prata cunhada pelo Império Espanhol a partir de 1598, foi muito usada como moeda internacional e era aceite mesmo na China
  • 248 Deste modo, em curto espaço de tempo, os piratas conseguiram arrecadar enormes somas de dinheiro provenientes do controlo que exerciam sobre o comércio de sal e tornaram-se cada vez mais poderosos. Por outro lado, os seus rendimentos também foram acrescidos com a cobrança da “taxa de protecção” que, inicialmente, apenas exigiam à população ribeirinha e às embarcações costeiras, mas depois foi estendida para o interior do continente, podendo o pagamento ser efectuado em dinheiro ou em uma determinada quantidade de arroz. Placa toponímica colocada no início da Rua da Palmeira
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 249 Consta que, por aquela altura, os piratas de Cheong Pou Chai estabeleceram um “quartel general” na península de Macau, na zona do Patane, então situada fora dos limites da cidade, onde o governo português não podia ali exercer autoridade efectiva, nem as leis portuguesas podiam ser aplicadas, visto que as autoridades chinesas alegavam que aquela zona estava sob a jurisdição chinesa. Era então uma zona ribeirinha, mesmo ao lado do sítio do Tarrafeiro, cuja via marginal contornava o sopé da colina do Patane, indo desde as proximidades da extinta “Porta do Patane” [6], que dava acesso à cidade de Macau, até ao Templo do Patane. Esta via é actualmente designada por Rua da Palmeira. No lado esquerdo, há uma placa toponímica, que assinala a Travessa da Palanchica e, no lado direito, há também uma placa toponímica que assinala a Travessa do Patane. A separar essas duas Travessas, existe actualmente uma via denominada Travessa das Acácias, onde outrora se situava, aproximadamente, o extinto Pátio da Atalaia. O termo atalaia sugere, portanto, a existência de uma torre, guarita ou um lugar alto donde se vigiava e, caso assim seja, a “Porta do Patane”, deveria situar-se ali próximo.
  • 250 Era ao longo daquela via marginal, onde havia casas, que os piratas se abrigavam, com segurança e, segundo consta, era também ali que agentes dos piratas de Cheong Pou Chai vendiam os “salvo-condutos” para pescadores e embarcações de transporte, onde os piratas se reabasteciam de géneros alimentícios e de outros bens, incluindo armas e munições. Por a zona do Patane estar fora do controlo e fiscalização das autoridades portugueses, era então um local ideal, não só para a actuação dos piratas, como também para diversas seitas de criminosos ou grupos marginais, que prestavam os necessários serviços e apoios aos piratas, com benefícios para ambas as partes. O CRESCENTE DOMÍNIO DOS PIRATAS NOS MARES DO SUL DA CHINA A partir do início do século XIX, os piratas liderados por Cheong Pou Chai e sua companheira, a mulher pirata Cheang Si, implementaram várias estratégias para, progressiva-mente, irem dominando todo o espaço marítimo situado no estuário do Rio das Pérolas, de forma a controlar a movimentação dos barcos que por ali navegavam, quer pertencentes ao governo provincial, quer a países estrangeiros, sobretudo todos aqueles barcos que se dirigiam para o porto de Cantão. Além do sistema de aquisição do “salvo-conduto” para a livre circulação de barcos e o de cobrança da “taxa de protecção” ou de tributos periódicos, que geraram uma enorme fonte de rendimentos, os líderes dos piratas
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 251 procuraram reforçar a sua influência junto de certos sectores governamentais, através do suborno a oficiais e outras entidades, para não interferirem nas actuações dos piratas. Por volta de 1804, a esquadra naval comandada por Cheong Pou Chai e Cheang Si, a maior e a mais poderosa de toda a Confederação, com cerca de 300 navios, 1.500 canhões e 20.000 homens, era uma força aparentemente indestrutível. Devido ao terror causado à Marinha Provincial de Cantão, os barcos do governo passavam mais tempo atracados em vez de irem ao mar, a fim de não entrarem em confronto com os piratas. Esta situação foi-se agravando, de ano para ano. Como pouco ou nada faziam perante as ameaças, os piratas atacavam, quando oportuno, as guarnições militares costeiras, normalmente bem guarnecidas de provisões e munições, para pilhar tudo quanto lá havia, bem como as habitações costeiras, povoações, mercados e depósitos de produtores de arroz, que não pagavam ou deixaram de pagar a “taxa de protecção”. As autoridades do governo provincial, vendo que a situação piorava e não havia soluções capazes de conter as constantes ameaças dos piratas, resolveram entrar em negociações com os portugueses, para que seja prestada a necessária assistência. No entanto, o pedido de auxílio não se concretizou, porque o mandarim de Heong Sán não deu uma resposta formal às propostas apresentadas pelo Senado.
  • 252 Apercebendo-se da gravidade da situação, em virtude das constantes ameaças dos piratas de Cheong Pou Chai, o governo de Macau decidiu reforçar a defesa costeira com um brigue, a Princesa Carlota, de cento e vinte toneladas, equipada com 16 canhões, que o governo mandou construir em Calcutá, bem como remodelar e equipar uma antiga embarcação, a que foi dado o nome de Ulisses. Foi equipada ainda uma lorcha, de 20 toneladas, a Leão, que dispunha de um morteiro giratório e quatro peças móveis, a qual servia sobretudo para escoltar as embarcações carregadas de provisões, tendo o comando daquela lorcha sido confiado ao piloto macaense, António Gonçalves Carocha. Entretanto, um incidente ocorreu a 6 de Maio de 1807, ao largo de Macau, em que houve uma troca de tiros entre embarcações de piratas e o brigue Princesa Carlota, então comandada pelo tenente Pereira Barreto, tendo os portugueses, após mais de uma hora de luta renhida, infligido enormes danos aos piratas e alcançado uma estrondosa vitória. A coragem e valentia demonstradas pelos portugueses causaram profunda impressão e temor entre os piratas. Desde então os piratas evitaram aproximar-se das águas circundantes de Macau. Entretanto, foi recebida a notícia de que, devido à invasão das tropas de Napoleão a Portugal, a família real embarcou para o Brasil. A fim de, em nome da cidade de Macau, cumprimentar o Príncipe Regente, D. João, pela sua chegada ao Brasil, o Senado nomeou Pereira Barreto, como comandante da fragata Ulisses, para levar uma delegação até ao Rio de Janeiro. Em virtude desta manifestação de lealdade do Senado, o Príncipe Regente D. João determinou
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 253 o acrescento do qualificativo Leal àquela nobre instituição, passando, assim, a partir de 1810, a chamar-se Leal Senado [7]. Além disso, promoveu o comandante Barreto ao posto de capitão-de-fragata, pelos bons serviços que prestou ao reino. Cheong Pou Chai, assim que soube que Pereira Barreto tinha partido para o Brasil, ganhou mais ânimo para intensificar as suas operações de pirataria, tendo num curto espaço de tempo conseguido recompor a sua esquadra e alcançar, sobretudo em 1808, uma série de êxitos, de forma que a maioria dos navios destinados à defesa de Cantão foi destruída pelos piratas, obrigando o governo provincial a alugar barcos privados para reforçar a defesa costeira. Esta medida, porém, não produziu grande efeito, visto que a maioria das embarcações, alugadas ou pertencentes ao governo, continuou a ser destruída pelos piratas. Em 1809, espalhou-se até uma notícia de que Cheong Pou Chai iria atacar Cantão e invadir o continente, tendo este rumor causado grande apreensão e pânico à população. Havia também rumores de que Cheong Pou Chai aspirava tornar-se imperador da China. A popularidade de Cheong Pou Chai, como o grande líder dos piratas, foi aumentando de forma espectacular, pois todos os seus subordinados depositavam grande confiança nele. Apesar de ele ser um indivíduo supersticioso, procurou também, através de crenças religiosas, manipular os seus subordinados, incentivando-os na participação de preces aos seus deuses, a fim de obterem a divina protecção. Para facilitar as práticas religiosas dos piratas, Cheong Pou Chai
  • 254 mandou construir um magnífico templo dentro da embarcação que, a toda a hora, acompanhava o navio-almirante, com altares ricamente ornamentados e onde estavam colocados os oráculos, ídolos ou deuses. Por conseguinte, antes de uma importante missão, os líderes de todas as divisões das esquadras dos piratas juntavam-se em frente ao templo para queimar incensos e indagar aos deuses os dias auspiciosos para determinada missão e as probabilidades de sucesso. Porém, antes da realização das preces no templo flutuante, Cheong Pou Chai reunia em segredo com os seus bonzos fanáticos para combinar como deverão ser divulgados, durante os rituais, as revelações dos oráculos, com vista a espalhar a confiança nos seus subordinados. NOVO CONFRONTO COM OS PORTUGUESES No início de Setembro de 1809, os piratas capturaram um navio mercante português que viajava de Timor para Macau, tendo aniquilado quase toda a tripulação antes de fugirem com seu saque. Em resposta ao massacre, o Senado ordenou ao Capitão José Pinto Alcoforado e Sousa que liderasse três navios armados para punir os piratas da esquadra Bandeira Vermelha, tendo o confronto ocorrido a 15 de Setembro de 1809, no estuário do Rio das Pérolas. Naquele dia, os navios portugueses enfrentaram um contingente muito maior de piratas e apesar de uma frota britânica, ancorada em Macau, ter concordado em juntar-se ao ataque, a prometida ajuda não apareceu. Mesmo assim, os portugueses conseguiram derrotar os piratas e obrigar seus navios a dispersarem-se.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 255 Embora não tivesse sido uma vitória total, a actuação dos portugueses atraiu a atenção das autoridades chinesas e, desde então, mostraram-se mais dispostos a negociarem com as autoridades portuguesas e a proporem uma operação conjunta contra a armada de Cheong Pou Chai. A Companhia Inglesa das Índias Orientais, ao ver a celebração da vitória alcançada pelos portugueses, deu então a entender às autoridades chinesas que, caso quisessem, a Companhia Inglesa poderia solicitar o apoio de Bombaím para dar ajuda na repressão da pirataria. A intenção dos ingleses tinha por objectivo obter das autoridades chinesas vantagens e privilégios para o seu comércio e, por conseguinte, quando Arriaga teve conhecimento disso procurou evitar que a Companhia Inglesa oferecesse os seus serviços ou entrasse numa coligação com a marinha imperial. Em curto espaço de tempo, Arriaga conseguiu que os membros do Senado lhe dessem todos os necessários poderes para resolver, como melhor entendesse, com as autoridades chinesas, incluindo o vice-rei das províncias de Guangdong e Guangxi (ou, abreviadamente, vice-rei das duas Guang), tudo o que estivesse relacionado com a formação de uma força naval, destinada a fazer frente aos piratas, restaurar a tranquilidade pública e, sobretudo, restabelecer as relações comerciais, interrompidas pelas actividades dos piratas. AS NEGOCIAÇÕES LEVADAS A CABO POR ARRIAGA Tendo sido investido de necessários poderes para negociar com as autoridades chinesas, Arriaga enviou um memorando ao vice-rei de Cantão (ou melhor, “vice-rei das
  • 256 duas Guang”, também designado pelos portugueses por Suntó) [8], em que realçou as vantagens de uma cooperação com os portugueses na repressão dos piratas. O vice-rei, após ter lido e concordado com os termos constantes do memorando, nomeou três emissários para virem a Macau negociar com Arriaga. As negociações em Macau foram longas e, segundo consta, até houve reuniões que tiveram lugar no Templo de Kun Iam, em Mong-há [9]. Terminadas as negociações, foi lavrada a seguinte convenção, que foi ratificada em 23 de Novembro de 1809: «S. Exa. o Vice-Rei das duas províncias de Kwong Tong e Kwong Sai, e o Governador da cidade de Macau, estando igualmente convencidos da necessidade de pôr fim a depredação dos piratas da China, que sem temor infestam os mares que banham as duas cidades de Cantão e de Macau, para assim restabelecer a tranquilidade pública, e a segurança do comércio e a navegação nestas paragens, resolveram mutuamente concluir uma Guarda Costa, que será guarnecida pelas forças dos dois governos. Eles nomearam para o dito fim, como seus representantes, a saber: S. Exa. o Vice-Rei, de Cantão nomeia os mandarins Pom, de Heong Sán, Shin Kei Chi, de Nam Hói, e Chu, da Casa Branca [10]; e o Governador de Macau nomeia como seus representantes a Miguel de Arriaga Brum da Silveira, Desembargador Ouvidor de Macau, Cavalheiro da Ordem de Cristo, e a José Joaquim de Barros, Capitão Mór do Campo, Cavalheiro da Ordem de Cristo, os quais, depois de haverem trocado os seus respectivos plenos poderes, concluíram e convieram nos seguintes artigos:
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 257 Artigo 1º. Estabelecer-se-á imediatamente uma Guarda Costa, composta de seis navios portugueses armados, unidos à Esquadra Imperial, que deverá cruzar desde o Paúl, Boca do Tigre, até esta cidade, e desde esta cidade até Heong Sán pelo golfo, a fim de obstar a que os piratas entrem nos canais que eles até aqui têm principalmente infestado, exercendo todas as crueldades e as mais horríveis devastações nas aldeias e cidades da costa do mar. Artigo 2º. O governo chinês convém em pagar a soma de 80.000 taéis para as despesas dos navios portugueses. Não será lícito faltar à execução deste artigo, ainda que a expedição se malogre por alguma causa inesperada. Artigo 3º. O governo de Macau equipará com gente, armas, munições, etc. os seis navios acima estipulados com a maior pressa possível. Artigo 4º. Ambos os governos e as suas forças respectivas empregadas neste serviço cooperarão mutuamente um com outro em pormenor o objecto que ambos têm em vista. Artigo 5º. Todas as presas tomadas aos piratas pelas forças combinadas serão igualmente divididas entre a Esquadra Portuguesa e Imperial. Artigo 6º. Conseguindo-se o objecto da expedição, todos os antigos privilégios de Macau lhe serão restituídos. Artigo 7º. Esta Convenção deve ser considerada como ratificada pela assinatura das partes que subscreveram em virtude dos seus plenos poderes.
  • 258 Em fé do que nós assinámos as presentes e lhe fizemos pôr os selos das nossas armas. Feito em Macau, aos 23 do mês de Novembro de 1809 – Miguel de Arriaga Brum da Silveira – José Joaquim de Barros – Selo pelos mandarins Shin Kei Chi – Chu – Pom. [10] e [11]. Embora o governo chinês concordasse em pagar a soma de 80.000 taéis para as despesas dos navios portugueses, quando foi firmada a Convenção, o Senado estava convencido de que os seis navios, a serem armados, apenas serviriam para controlar os piratas e afastá-los dos mares adjacentes e não para entrar num combate de grande envergadura, por isso, meses depois, quando o dinheiro já não era suficiente para suportar as despesas com a manutenção da frota portuguesa, Arriaga pediu emprestadas, à sua própria responsabilidade, consideráveis somas a mercadores portugueses, designadamente a Francisco António Pereira Tovar e a Félix José Coimbra. Seis dias após a referida convenção, a esquadra portuguesa já estava equipada e pronta para zarpar, a qual era composta de: a Inconquistável, o navio-almirante, com vinte e seis canhões e cento e sessenta homens, comandado pelo capitão Alcoforado; a Pallas, com dezoito canhões e cento e trinta homens, sob o comando do Capitão Luís Carlos de Miranda; a Indiana, com vinte e quatro canhões e cento e vinte homens, ao comando do capitão Anacleto José da Silva; a Princesa Carlota, com dezasseis canhões e cem homens, ao comando do capitão António José Carocha; a Miguel, com
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 259 dezasseis canhões e cem homens, ao comando do capitão José Félix dos Remédios; a Belisário, com dezoito canhões e cento e vinte homens, sob o comando do capitão José Alves. Barcos equipados com canhões. A BATALHA DA BOCA DO TIGRE Ficou conhecida por Batalha da Boca do Tigre (em chinês: 虎門之戰), a série de embates entre a frota portuguesa e a esquadra liderada por Cheong Pou Chai e sua companheira, a célebre mulher pirata Cheang Si. Depois dos primeiros confrontos com os piratas, deu-se, então, no dia 11 de Dezembro de 1809, uma batalha naval a valer, em que os portugueses tiveram de enfrentar sozinhos a armada dos piratas, visto que a frota imperial, composta
  • 260 de sessenta juncos e com dezoito mil homens, manteve-se na retaguarda, sem se envolver na batalha. Deste combate, três divisões da armada Bandeira Vermelha foram derrotadas, tendo dezenas de juncos dos piratas sofrido sérios danos e vários deles ido ao fundo. Terminada a batalha, Alcoforado, por ordem do governo, fez saber a Cheong Pou Chai que, caso capitulasse, o imperador lhe iria conceder a prometida amnistia e lhe conferir um grau de mandarinato. Caso contrário, a esquadra portuguesa continuaria a lutar até à rendição ou aniquilação das esquadras dos piratas. Cheong Pou Chai, porém, rejeitou a proposta e respondeu que não se renderia. No entanto, além da derrota que sofreu daquele confronto com Alcoforado, pouco depois, Cheong Pou Chai sofreu outro duro golpe, ao saber que o comandante da esquadra Bandeira Negra, Guo Podai (郭婆帶, em cantonense, Kók Pó Tai) ter proposto às autoridades chinesas a sua rendição, que foi de imediato aceite, entregando assim todas as suas embarcações, armas e munições e, em contrapartida, obteve a amnistia para si e para os seus subordinados, tornando-se homens livres. Além disso, como recompensa pela rendição, foi concedido a Guo Podai, por Decreto Imperial, um honroso grau de mandarinato e, ainda, um cargo oficial.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 261 Mapa de Cantão – Macau – Hong Kong. Legenda das principais localizações: 1. Macau; 2, Hong Kong; 3. Ilhas dos Ladrões; 4. Ilha de Lantau; 5. Ilha de Lin Tin; 6. Boca do Tigre; 7. Cidade de Cantão; 8. Kóng Mun; e, 9. Cidade de Heong Chau (Sék K’ei). Após sucessivas derrotas, Cheong Pou Chai mobilizou, finalmente, em 21 de Janeiro de 1810, a sua armada para a ilha de Lantau, composta de mais de 300 navios, 1.500 canhões e 20.000 homens e, em seguida, conduziu toda a armada para uma localidade conhecida por Boca do Tigre, situada num dos canais, na foz do rio das Pérolas, na tentativa de concentrar toda a sua força naval para derrotar a pequena frota portuguesa, que naquela altura se encontrava perto de Lantau e ia no encalço de Cheong Pou Chai.
  • 262 Devido à aglomeração de um elevado número de barcos e tripulação num ponto muito próximo da margem do rio, sem a profundidade necessária para os barcos de maior tonelagem, a esquadra dos piratas enfrentou dificuldades nas manobras, permitindo assim aos artilheiros portugueses disparar com precisão tiros explosivos para atingir os juncos, amarrados uns aos outros. O som estrondoso que dezenas de canhões fizeram ecoar pelo ar, logo no início da batalha, causou temor aos piratas, sobretudo quando os tiros de artilharia atingiram diversos barcos inimigos posicionados na linha dianteira, incendiando-os ou afundando-os e, entre mortos e feridos, salvaram-se os que conseguiram fugir ou desertar, devido ao pânico gerado pelos fortes e certeiros disparos da artilharia portuguesa. Foram horas de violenta luta e troca incessante de tiros. Mesmo em desvantagem numérica, mas com superioridade no poder de fogo proporcionado pela artilharia, a frota portuguesa conseguiu controlar as operações da batalha naval. A dada altura, no meio do intenso fogo e densa fumarada, o jovem piloto macaense António José Carocha, que comandava o brigue Princesa Carlota, viu repentinamente um junco muito grande, que logo o identificou como sendo o templo flutuante, que costumava acompanhar o navio-almirante de Cheong Pou Chai. Sem perda de tempo, Carocha mandou apontar os canhões para o grande junco e não parou de disparar contra aquele alvo até conseguir destruí-lo e afundá-lo juntamente com os bonzos, altares e
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 263 ídolos, apesar de várias embarcações dos piratas terem tentado protegê-lo deste grande infortúnio. Gravura da batalha naval na Boca do Tigre. Em cima, vê-se uma grande mancha, representando os barcos dos pirata e, mais abaixo, estão representados seis barcos portugueses em posição de bloqueio. A proeza de Carocha desmoralizou por completo os piratas, quando assistiram à destruição do templo flutuante e, desordenadamente, precipitaram-se na fuga, criando-se uma confusão de tal ordem que muitos barcos ficaram encalhados nos bancos de areia da Boca do Tigre, onde os navios portugueses não podiam entrar por serem de maior calado. Então, Alcoforado, ordenou que a boca do rio fosse bloqueada, ficando a esquadra de Cheong Pou Chai encurralada dentro dela. A frota portuguesa posicionou-se e montou cerco, desde então.
  • 264 CAPITULAÇÃO DE CHEONG POU CHAI Cheong Pou Chai, totalmente desorientado com a inesperada derrota, decidiu propor a capitulação ao fim de duas semanas de bloqueio, pois já lhe faltavam meios para uma eventual contra-ofensiva e, além disso, os seus subordinados, já desmoralizados e a passar fome por escassez de víveres, visto que os piratas estavam privados dos necessários abastecimentos para se alimentarem. A fim de manifestar o seu desejo de rendição, Cheong Pou Chai mandou entregar uma mensagem ao capitão Alcoforado para reunir com ele. Embora alguns autores tivessem narrado um acontecimento, ao que parece um tanto fantasiado, não se sabe ao certo se, de facto, o seguinte caso aconteceu: Alcoforado, em vez de marcar um local de encontro, decidiu embarcar num pequeno bote, atravessando a esquadra inimiga para, pessoalmente, ir ter com Cheong Pou Chai, que se encontrava a bordo do seu navio-almirante. Cheong Pou Chai ficou impressionado com a ousadia e até profundamente honrado com o nível de confiança que Alcoforado demonstrou em relação a ele. Após os cumprimentos de praxe, ambos trocaram impressões sobre o processo de capitulação, tendo Cheong Pou Chai concordado em se submeter à autoridade do imperador da China, com a condição de o Ouvidor Arriaga intervir no processo como mediador junto dos delegados imperiais. O certo é que, após Cheong Pou Chai ter mostrado disposição para a rendição, esta notícia foi logo comunicada
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 265 às autoridades chinesas e de Macau e, em breve, iniciaram-se os contactos, através da troca de correspondências entre Cheong Pou Chai, o vice-rei de Cantão e Ouvidor Arriaga. Enquanto decorriam aqueles contactos, o comandante da frota macaense, capitão Alcoforado, manteve o bloqueio, vigiando a toda a hora a esquadra de Cheong Pou Chai, a fim de impedir que os piratas tentassem furar o cerco e escapar. Essa situação durou enquanto Alcoforado, em cumprimento da lei militar, não recebesse ordem do governador José Lucas de Alvarenga para cessar o bloqueio. LOCAL ESCOLHIDO PARA A CAPITULAÇÃO Combinado o local para as reuniões, as negociações tiveram início a partir em 21 de Fevereiro, entre Cheong Pou Chai, por um lado, o vice-rei e seus mandarins e a delegação de Macau, chefiada por Ouvidor Arriaga, pelo outro. Ficou então marcada uma conferência na cidade de Heong Sán, ou seja, em Sék K’ei (石岐) para discutirem as condições da rendição. No dia marcado, quando Cheong Pou Chai entrou no salão, avistou um indivíduo com feições ocidentais, de imediato presumiu que seria o Ouvidor Arriaga, o seu eleito mediador e, sem demora, caminhou em direcção a ele, cumprimentou-o, fazendo uma vénia de agradecimento. As negociações entre as três partes prolongaram-se por vários dias e não decorreram tão suavemente como
  • 266 previam, porquanto, a dado momento, houve desconfianças e desentendimentos, de forma que as reuniões foram suspensas, voltando à forma de troca de correspondências. Para a resolução do impasse, o Ouvidor Arriaga teve que se deslocar novamente a Sék K’ei (石岐), demorando-se ali vários dias para que seja alcançado um acordo, cujos termos e condições pudessem ser aceites por Cheong Pou Chai e também pelo vice-rei e Arriaga. Inicialmente, Cheong Pou Chai desejava conduzir a esquadra para Macau e ali fazer a entrega dos barcos e de todo o material bélico. No entanto, o vice-rei preferia que a rendição se efectuasse em Cantão ou noutra localidade. Como não se chegou a um consenso, as negociações estenderam-se até Abril e, por fim, por acordo entre Cheong Pou Chai e o vice-rei, ficou estabelecido que a rendição seria feita ao largo de uma localidade conhecida por Fu Iong Sá (芙蓉沙, em pinyin, Furongsha), para onde Cheong Pou Chai conduziria a sua esquadra, composta de duzentas e setenta embarcações, juntamente com os seus dezassete mil homens e demais armas e munições. Entretanto, Cheong Pou Chai informou que havia ainda uma divisão de oitenta juncos, que se encontrava em Quanzhou (泉州, em cantonense, Chün Chau), Província de Fujian, que ele tinha para lá enviado, para cobrar tributos, tendo prometido a capitulação dessa divisão após o regresso. No entanto, cerca de um mês depois, recebeu a notícia de que aquela divisão recusou render-se. Perante essa situação, Cheong Pou Chai assumiu o compromisso de combater e prender aqueles piratas, que não aceitaram a rendição.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 267 Devido a esse caso imprevisto, só dois meses após a reunião realizada na cidade de Seak K’ei (石岐), é que Cheong Pou Chai fez a entrega formal, em 20 de Abril de 1810, da sua esquadra e todo o material bélico, na presença do Ouvidor Arriaga, dos mandarins de Heong San e da Casa Branca e, ainda, de Zhang Bailing (張百齡 , em cantonense, Cheong Pák Leng), mais conhecido apenas por Bailing (百齡), vice-rei de Cantão, o qual, em nome do imperador, aceitou oficialmente a rendição de Cheong Pou Chai, tendo-lhe então, por Decreto Imperial, concedido a amnistia a todos os crimes e, ainda, como recompensa, foi-lhe conferido o prometido grau de mandarinato e um cargo na marinha imperial. Concluída a rendição e conforme tinham acordado, alguns dos piratas, tidos como os mais cruéis criminosos, foram executados e vários outros foram punidos. No entanto, a maioria foi ilibada de quaisquer crimes, com direito a ficar com os respectivos bens provenientes de saques. Além disso, muitos dos piratas aceitaram empregos que lhe foram oferecidos no exército. NAVIOS E ARMAS ENTREGUES POR CHEONG POU CHAI Existem versões divergentes, não só em português como em chinês, ou até mesmo em inglês, sobre a quantidade de material, que foi entregue por Cheong Pou Chai em Fu Iong Sá (芙蓉沙). De acordo com o artigo 5º da Convenção, assinada entre os representantes do governo de Macau e os mandarins mandatados pelo governo imperial, “todas as
  • 268 presas tomadas aos piratas pelas forças combinadas serão igualmente divididas entre a Esquadra Portuguesa e Imperial”. No entanto, em vez de ficar com metade das “presas”, consta que Arriaga apenas quis 50 peças de bronze e de ferro para mandar como presente ao Príncipe Regente de Portugal, D. João; a quantia mencionada no artigo 3º da Convenção, de 80.000 taéis, não foi totalmente paga pelas autoridades chinesas, apesar de a dívida contraída por Arriaga, junto de comerciantes portugueses, para fazer face às despesas com a frota portuguesa, ter sido muito superior à quantia convencionada e, segundo consta, aquela dívida ficou por pagar; e, por fim, a restituição de todos os antigos privilégios a Macau, como consta do artigo 6º da dita Convenção, designadamente “os antigos direitos dos portugueses, na península, até à Porta do Cerco e sobre Lapa e a ilha do Bugio; o direito de permitir aos chineses residir em Macau e de os expulsar, quando comportassem mal; o direito de confiscar propriedades ou mercadorias dos devedores chineses, a fim de os obrigar ao cumprimento dos seus contractos com os negociantes; o de punir residentes chineses que fossem condenados por crimes que tivessem praticado e de justiçar os que tivessem assassinado qualquer cristão; o de os moradores de Macau poderem frequentar e transaccionar livremente em Cantão, bastando, para esse efeito, estarem munidos duma licença de procurador do Senado; e, ainda, o direito de os portugueses apresentarem, por intermédio do procurador, queixas contra quaisquer mandarins, a fim de obterem justas reparações por agravos sofridos”, tudo isto, como escreveu Anders Ljungstedt, “ficou reduzido à sua expressão mais simples”, ou seja, pouco ou nada foi restituído ou restaurado, mantendo-se
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 269 praticamente tudo como dantes, pois ninguém sabia dizer concretamente quem, quando e como foram conferidos os alegados antigos privilégios dos portugueses. CHEONG POU CHAI, DE PIRATA A CAÇADOR DE PIRATAS Depois da rendição, Cheong Pou Chai e sua madrasta e, depois, amante, Cheang Yat Sau (鄭一嫂), casaram, tendo o casamento sido testemunhado por Bailing (百齡), vice-rei das províncias de Guangdong e Guangxi, que meses antes tinha supervisionado as negociações de capitulação de Cheong Pou Chai, em Sék K’ei. Diversas fontes chinesas referem que Cheong Pou Chai (a partir de então passou a usar o nome de Cheong Pou, ou seja, o seu nome de nascimento) foi viver com a sua esposa na Rua da Palmeira, em Macau, numa pequena vivenda, com jardim, e do casamento com Cheang Yat Sau teve um filho, em 1813, chamado Cheong Yôk Lôn (張玉麟) e, mais tarde, uma filha. Nas suas missões como oficial de Marinha, Cheong Pou vinha a Macau, de tempos a tempos, e segundo consta, fez visitas formais ao Leal Senado, onde conheceu oficiais portugueses que participaram na Batalha da Boca do Tigre, entre os quais, António José Gonçalves Carocha, um piloto macaense, que Cheong Pou muito admirou pela sua bravura e que teve o ensejo de o cumprimentar. Porém, não se sabe bem se, naquelas visitas, ele voltou a encontrar, em Macau, o comandante José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa,
  • 270 que, entretanto, foi recompensado com o cargo de Governador e Capitão Geral das Ilhas de Solor e Timor, para onde partiu. Durante a sua carreira como oficial naval, Cheong Pou foi promovido várias vezes, devido aos seus meritórios serviços prestados ao imperador, sobretudo quando capturou um dos chefes de piratas, que se recusou a capitular. Mapa de Taiwan, em que estão assinaladas as Ilhas dos Pescadores, em chinês, Penghu, no Estreito de Formosa Em 1819, tornou-se coronel da Marinha, tendo então sido destacado para as ilhas Penghu (澎湖 , em cantonense, P’áng Wu), um arquipélago situado no estreito de Taiwan, a que os portugueses deram o nome de Ilhas dos Pescadores.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 271 Levou a sua mulher e filhos para ali viverem, passando, desde então, a ficar com a missão de impedir a pirataria naquela região e, para o efeito, deram-lhe o comando de 30 navios, além de poder utilizar 30 dos seus próprios navios como frota privada, ou seja, aqueles navios que o vice-rei Bailing (百齡) permitiu a Cheong Pou mantê-los na posse dele, aquando da entrega formal da sua esquadra, para poder ir à captura de piratas revoltosos. Consta que o desempenho das suas funções em Penghu (澎湖, em cantonense P’áng Wu) foi exemplar, porquanto tinha como subordinados vários antigos piratas da sua confiança que, após a rendição, aceitaram integrar o exército imperial. Após ter estado ao serviço do governo imperial durante doze anos, Cheong Pou perdeu a sua vida no mar, tal como o seu padrasto, quando decorria o ano de 1822, em circunstâncias não conhecidas. Faleceu, portanto, relativamente jovem, com apenas 39 anos de idade. Depois do falecimento do seu segundo marido, a viúva mudou-se para Macau, trazendo consigo os seus filhos, voltando a viver naquela vivenda de Cheong Pou, localizada na Rua da Palmeira. Sabe-se que ali viveu, na companhia dos seus filhos, e porque era uma pessoa com capacidade e visão para negócios, passou, desde então, a dedicar-se ao comércio e a outras actividades. Segundo consta, explorou uma casa de jogo e esteve envolvida no comércio de sal, servindo-se dos barcos que o seu falecido marido possuía.
  • 272 Um troço da Rua da Palmeira. No lado esquerdo, vê-se o Templo de Tou Tei, que é dedicado principalmente a Tou Tei Kông ou deus da Terra, junto ao qual termina a Rua da Palmeira. Cheang Si faleceu em Macau, em 1844, com a idade de 69 anos, quando já era avó, tendo deixado descendentes, cujo paradeiro há muito se perdeu. A casa com jardim, na Rua da Palmeira, também desapareceu sem deixar qualquer vestígio, pois dizem que foi demolida em finais dos anos quarenta do século XX. Hoje em dia, quem passa pela Rua da Palmeira não imagina, à primeira vista, que, naquela época, embora existisse algumas construções precárias, que serviam de ponte-cais junto ao rio, era uma zona ribeirinha, fora dos limites da cidade, e cuja via se situava numa zona relativamente próspera e movimentada, visto que por ali transitavam, diariamente, muitos chineses, para atravessar a Porta do Patane (沙梨頭門) e entrar na zona do Tarrafeiro (沙欄仔,
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 273 em cantonense, Sá Lán Chai) e, dali, seguir para zona do Bazar Chinês. A RESPEITO DE FACTOS DIVERGENTES As histórias de Cheong Pou e de Cheang Si [12] continuam envoltas em incertezas, lendas e mistérios, pois nem tudo o que se conta a respeito deles corresponde à verdade, havendo até casos fantasiados. Muito se escreveu sobre Cheong Pou Chai ou Cheong Pou, seu nome de nascimento, e as versões em diferentes línguas, de um modo geral, divergem umas das outras. Há, por exemplo, autores chineses, sobretudo os de Hong Kong, que dão grande ênfase à relação de Cheong Pou Chai com Hong Kong, por existir, designadamente uma cave, dentro de uns rochedos, na ilha Cheung Chau (長洲 , literalmente, “ilha longa”), onde, segundo dizem, ele ali se refugiava e guardava os seus tesouros. Nada disso está devidamente comprovado, pois há caves idênticas em rochedos junto à costa de muitas outras ilhas, na foz do Rio das Pérolas e, além disso, sendo ele o comandante da esquadra Bandeira Vermelha, a maior esquadra da Confederação, não é lógico, nem mesmo provável, que ele iria esconder-se num estreito buraco perdido numa ilha ou ali guardasse os seus tesouros [13]. Efectivamente, Cheong Pou Chai viveu até 1822, ou seja, vinte anos antes da fundação de Hong Kong e, portanto, a
  • 274 cave de Cheung Chau e outras alegadas relações com Hong Kong não passam de mera ficção. Nos termos da Segunda Convenção de Pequim de 1898, os Novos Territórios e 200 ilhas menores, incluindo Cheung Chau, foram arrendados ao Reino Unido por 99 anos, os quais, juntamente com a ilha de Hong Kong, voltaram à posse da China, em 1997. Há autores ingleses que dão pouco realce à acção dos portugueses nas batalhas que travaram com Cheong Pou Chai, dizendo uns que foi com a cooperação da frota inglesa e, outros, referem que a vitória alcançada resultou principalmente dos “auxiliares portugueses que apoiaram a esquadra imperial”. Por outro lado, algumas versões em língua chinesa referem que a rendição de Cheong Pou Chai se deve a um médico ou curandeiro chinês, de nome Chau Fei Hông (周飛熊), que agiu como intermediário junto das autoridades chinesas, sem uma menção sequer do Ouvidor Arriaga ou das
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 275 negociações que ele efectuou com o vice-rei de Cantão e os mandarins de Heong Sán e da Casa Branca. Há também uma versão em que conta que foi a própria Cheang Si, a mulher pirata e companheira de Cheong Pou Chai, que foi a Cantão apresentar a rendição ao vice-rei Bailing. Os autores portugueses, por seu lado, dão grande valor e importância à vitória alcançada sobre os piratas, devido à coragem e valentia dos capitães portugueses, bem como à mediação do Ouvidor Arriaga, solicitada por Cheong Pou Chai, para assegurar as condições da sua capitulação. Mesmo havendo opiniões discordantes, tudo leva a crer que as versões portuguesas, não obstante algumas falhas ou incorrecções, são, até certo ponto, bastante fiáveis, pois relatam que a frota portuguesa, apenas formada por 6 navios e em número muito inferior à esquadra dos piratas, actuou sempre na linha de frente do combate, conseguindo encurralar os navios dos piratas no interior de um canal com o seu poderoso e eficaz armamento, e a vitória alcançada deveu-se sobretudo à estratégia montada pelo capitão Alcoforado e à sua competência de comando como militar, bem como a coragem e artimanha do comandante Carocha e a proeza dos demais comandantes, os quais conseguiram manter o cerco à esquadra dos piratas de tal forma que não lhes permitia rompê-lo facilmente. Foi esse cerco, durante duas semanas, que fez escassear os mantimentos necessários para alimentar milhares de piratas, por falta de abastecimento, de forma que muitos deles, já esfomeados e sem forças ou vontade para combate,
  • 276 queriam evadir-se ou revoltar-se contra os seus chefes. Nos momentos de angústia, até poderia ter vindo à mente de Cheong Pou Chai a invejada situação do seu antigo camarada da Bandeira Preta, Guo Podai (郭婆帶), que, após se render ao governo imperial, passou a ser um homem livre e com estatuto social, detentor de um grau de mandarinato, tendo este facto demonstrado que o Vice-rei de Cantão não faltou ao cumprimento de todas as promessas feitas. As principais razões que levaram Cheong Pou Chai a negociar a sua rendição foram quando verificou que, por um lado, não havia hipóteses de manter um combate com a frota portuguesa e que, a todo o momento, poderia surgir um motim por parte dos seus subordinados por escassez de alimentos e, por outro lado, ele estava mesmo desejoso de poder passar o resto da sua vida como homem livre, com honra e prestígio, em vez de continuar a pilhar e a matar. Apesar de várias divergências encontradas em diferentes versões que foram consultadas, tanto em língua chinesa como em língua inglesa e, também, publicações em língua portuguesa, não se pode afirmar, ou mesmo sugerir, qual a versão mais fiel ou correcta, pois há tantos aspectos da vida de Cheong Pou Chai, em que a ficção se confunde com a realidade. Seja como for, merece aqui destacar, por um lado, que Cheong Pou Chai esteve, de facto, ligado a Macau e aqui passou parte da sua vida, assim como sua mulher Cheang Si e filhos e, muito provavelmente, seus netos, numa casa situada na Rua da Palmeira, e assinalar, por outro lado, o
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 277 grande contributo que Ouvidor Arriaga prestou na resolução de um dos capítulos da pirataria, que durante anos afectou a vida pacífica de Macau. NOTAS: [1] O seu nome de nascimento era Cheong Pou. No entanto, como é hábito entre chineses, foi-lhe acrescentado o diminutivo “Chai”, que significa “menino” ou “filho”. Deste modo, Cheong Pou Chai, literalmente, quer dizer “menino Cheong Pou”. [2] Yongle (明成祖) foi o terceiro imperador da Dinastia Ming da China, reinando entre 1402 e 1424. Seu nome significa "felicidade perpétua", e ele é até hoje largamente reconhecido como o maior imperador da Dinastia Ming. (3) Xuande (宣德帝) foi o quinto imperador da dinastia Ming, reinou de 1425 a 1435. [4] Tung Chung (東涌), que significa "riacho oriental", era uma ilha situada na costa noroeste da ilha de Lantau. Presentemente, a ilha já não existe, desde que fizeram o aterro em toda aquela zona para a construção do novo Aeroporto Internacional de Hong Kong (também conhecido por Aeroporto Internacional de Chek Lap
  • 278 Kok). No entanto, ainda existe o forte de Tung Chung, que foi construído em 1817, sete anos depois da rendição de Cheong Pou Chai, para a defesa costeira. [5] Naquela altura, o comércio de sal era de tal importância que até havia em Macau uma casa, conhecida por “casa do mandarim do sal”, onde residia o mandarim encarregado desse negócio. [6] Não se sabe bem onde estava localizada essa porta, embora referida no livro “Ou Mun Kei Leok” (Monografia de Macau). Muito provavelmente aquela porta situava-se na zona da Palanchica, pois havia lá duas vias, já extintas, com os seguintes topónimos: um, Pátio da Atalaia e, o outro, Velho Atalaia, que era um beco. O termo “atalaia” tem o significado de “torre ou lugar de vigia em situação elevada”. [7] Senado da Câmara foi o nome dado na época para designar Câmara Municipal. O título Leal Senado só foi oficialmente atribuído, em 1810, pelo Príncipe Regente, D. João (futuro rei de Portugal, D. João VI), quando o Senado enviou uma delegação ao Rio de Janeiro para manifestar a sua lealdade ao Reino. [8] Suntó, transliteração de Zongdu, (總督 Chong Tôk, em cantonense, que significa governador), refere-se ao cargo de vice-rei ou governador das províncias de Guangdong e Guangxi. [9] Era naqueles tempos designado “Pagode de Mong-há”, mas na realidade é um templo, por conseguinte, a designação actual é Templo de Mong-há. [10] Deveria ler-se: “os mandarins Peng Zhaolin, de Heong Sán, Shen Keqi, de Nam Hói, e Chü, da Casa Branca.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 279 [11] Texto extraído e parcialmente adaptado do livro “Páginas da História de Macau”, de Luís Gonzaga Gomes. [12] Cheang Si (鄭氏 em pinyin, Zheng Shi), também conhecida por Cheang Yat Sau (鄭一嫂 em pinyin, Zheng Yisao ou, pelo seu nome original, 石陽 Sék Yeong). [13] O autor visitou a chamada “cave de Cheong Pou Chai”, em Cheung Chau, em 1998, e achou que aquele sítio é apenas um pequeno abrigo, sem possibilidade de ser habitado. Publicações consultadas: • Macau Histórico, de Montalto de Jesus • Páginas da História de Macau, de Luiz Gonzaga Gomes • Um Esboço Histórico dos Estabelecimentos dos Portugueses e da Igreja Católica Romana e das Missões na China & Descrição da Cidade de Cantão, de Anders Ljungstedt • Macau no Primeiro Quartel de Oitocentos, de Jorge Arrimar • Publicações diversas em língua inglesa e chinesa.
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  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 2 281
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