• Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 1 SÍTIOS COM HISTÓRIAS Volume 1 Manuel V. Basílio Instituto Internacional de Macau
  • 2 EDITOR Instituto Internacional de Macau TÍTULO Sítios com histórias – Volume 1 AUTOR Manuel V. Basílio FOTOGRAFIA Manuel V. Basílio e Grupo “Antigas Fotos de Macau” GRAFIA E IMPRESSÃO Tipografia Vui Fong Printing Co. Ltd. TIRAGEM 400 exemplares Edição de Manuel V. Basílio Macau, Agosto de 2021. ISBN 978-99965-5-962-4
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  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 5 ÍNDICE Página Igreja e Bairro de S. Lourenço .................. 7 Sé Catedral ............................................... 63 Igreja, Largo e Rua de S. Domingos ......... 99 Rua do Mastro …….................................... 137 Rua do Gamboa …...................................... 161 Bairro da Felicidade .................................. 191
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  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 7 IGREJA E BAIRRO DE SÃO LOURENÇO
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  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 9 IGREJA DE SÃO LOURENÇO, o verdadeiro coração da cidade cristã em Macau A Igreja de São Lourenço é uma das mais antigas igrejas católicas de Macau. Teria sido construída entre 1558 e 1560, praticamente na mesma altura em que foi construída a igreja de Santo António. Tanto uma como a outra foram edificadas em madeira, visto que naquela altura os portugueses apenas podiam ter construções precárias e só anos mais tarde é que as autoridades chinesas permitiram fazer edificações com materiais mais duradoiros. A primitiva igreja foi posteriormente renovada ou reparada, sobretudo quando ficava deteriorada pelo efeito do tempo ou quando havia danos causados por intempéries, visto que os tufões eram frequentes e por vezes muito fortes. Sabe-se, no entanto, que no século seguinte, em 1618, já estava erigida uma nova igreja, mais resistente, com paredes de taipa, o mesmo tipo de construção utilizado em outras igrejas. Sabe-se, também, que a Igreja de S. Lourenço, no decurso do tempo, foi reconstruída, ou em grande parte restaurada, designadamente, nos seguintes anos: • Em 1768; • entre 1801 e 1803; • entre 1844 e 1846, sob a orientação do arquitecto macaense José Tomás de Aquino; • entre 1897 e 1898, em consequência do desabamento parcial do tecto, ocorrido no dia 24 de Abril de 1892, cujas obras foram custeadas pelas Obras Públicas de Macau e executadas sob a orientação do engenheiro Abreu Nunes; • em 1954; e
  • 10 • entre Outubro de 2006 e Julho de 2007, sendo estas as mais recentes obras de restauro que se realizaram, a cargo do Instituto Cultural de Macau. No entanto, nas diversas obras de reconstrução ou de requalificação que se realizaram, a actual configuração do edifício resultou das obras efectuadas em 1846, que passou a ter uma estrutura neoclássica, cuja fachada principal, encimada por um frontão triangular, é ladeada por duas torres, a do lado esquerdo de quem está a olhar para a fachada, ostenta dois grandes relógios e, a do lado direito, 3 sinos. Esta igreja foi construída em forma de cruz latina e nos braços do transepto há duas capelas interiores, ocupando a Capela do Sagrado Coração de Jesus o braço sul e a Capela de Nossa Senhora dos Remédios o braço norte. No altar-mor está colocada uma imagem de São Lourenço. O orago da igreja nasceu próximo da cidade espanhola de Huesca, por isso era conhecido por Lourenço de Huesca. Lourenço foi um dos sete primeiros diáconos da Igreja Cristã, os quais estavam incumbidos da guarda dos bens da Igreja e distribuição de esmolas aos pobres. No ano de 257, o imperador romano Valeriano decretou a perseguição aos cristãos, tendo o diácono Lourenço, por ordem daquele imperador, sido queimado vivo sobre um braseiro ardente, em Roma, em 10 de Agosto de 258, tornando-se um mártir católico. A igreja de S. Lourenço é uma das mais belas (senão a mais bela) e bem preservada igreja que existe em Macau, tanto interior como exteriormente. É a única igreja que tem uma área ajardinada em ambos os lados. Outrora era um jardim muito vistoso, com uma grande variedade de plantas e flores,
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 11 sempre bem cuidadas, tendo sido reestruturado em 1937 por Alfredo Augusto de Almeida [1], um autodidacta que se especializou em botânica e se dedicou, enquanto trabalhador da função pública, com grande carinho no arranjo e classificação de plantas, sobretudo as do jardim da Flora. É na zona ajardinada do lado direito que se ergue o cruzeiro. Fachada principal da Igreja de S. Lourenço, de estilo neoclássico, cuja configuração se mantém desde as obras efectuadas em 1846.
  • 12 Altar-mor da Igreja de S. Lourenço, decorado com vitrais, com a imagem do seu orago em destaque. A igreja de S. Lourenço já era referenciada pelo nome “Fông Sôn Miu” ( 風順廟 , que significa “Templo de Vento Bonançoso”) [2] , no livro Aomen Jilue (澳門記略 , em
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 13 cantonense, “Ou Mun Kei Leok”, isto é, Monografia de Macau), cuja obra ficou concluída em 1751, escrita por dois mandarins, Yin Guanren (印光任) e Zhang Rulin (張汝霖), (respectivamente, em cantonense, lê-se: Yan Kwóng Yam e Cheong Yü Lam), enviados a Macau pelas autoridades chinesas, a fim de averiguar qual o estado da cidade e dos seus habitantes. Cruzeiro da Igreja de S. Lourenço. Reza a tradição que outrora, quando os barcos partiam, familiares dos embarcados juntavam-se na escadaria da Igreja para lhes acenar, desejando-lhes boa viagem e boa
  • 14 sorte, cujos desejos correspondem à expressão idiomática chinesa “Fông Sôn Fán Cheng” (風順帆正) e, provavelmente, os primeiros dois caracteres “Fông Sôn” (風順 ) teriam originado o nome do dito Templo. No entanto, não era naquele mesmo local que os familiares e amigos iam celebrar o feliz regresso dos mareantes, mas sim na colina da Penha, onde monges agostinianos tinham, em 1622, uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Penha de França, e era em honra desta Protectora dos navegadores, que os barcos portugueses davam uma salva de tiros de artilharia ao aproximar-se de Macau, enquanto em resposta os sinos da ermida repicavam festivamente. Quando assim acontecia, uma multidão de moradores, incluindo familiares, dirigiam-se de imediato ao local do desembarque para dar as boas-vindas e, em seguida, subiam todos até à ermida para render acção de graças à Protectora e fazer as prometidas doações pecuniárias. Em virtude de parecer mais relacionada aos desígnios do “feng shui” do que a crença religiosa, aquela designação “Fông Sôn Miu” (風順廟) ou “Fông Sôn T’óng” (風順堂) foi caindo em desuso no decurso do tempo, pois os católicos chineses preferiam chamar aquela Igreja pelo nome de “Sêng Lou Leng Chó T’óng” (聖老楞佐堂 , cujo caracter 聖 “Seng” significa “santo”; 老楞佐 “Lou Neng Chó” é a transliteração de “Lourenço”; e, 堂 “T’óng”, quer dizer “igreja”), sendo este o nome oficialmente adoptado pela Diocese. Apesar de o nome da Igreja, em chinês, ter sido alterado para “Sêng Lou Leng Chó T’óng”, o topónimo “Fông Sôn
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 15 T’óng” (風順堂) ainda se mantém na designação da Rua de S. Lourenço. Aspecto interior da Igreja de S. Lourenço. A FESTA DE NOSSA SENHORA DOS REMÉDIOS A Capela de Nossa Senhora dos Remédios, localizada no braço norte do transepto, fora erigida no ano de 1618, e é tida como a mais antiga capela existente em Macau, apesar de ter sofrido alterações e reconstruções ao longo dos tempos. As últimas grandes obras que se fizeram, tanto a
  • 16 esta Capela, como à Capela do Sagrado Coração de Jesus, em mármore, tiveram lugar nos anos trinta do século passado, graças às contribuições de benfeitores da Igreja de S. Lourenço, tendo ambos os altares sido inaugurados no dia 5 de Abril de 1937, aquando da festa e procissão de Nossa Senhora dos Remédios. Até meados do século passado, a principal festa da Paróquia de S. Lourenço era a de Nossa Senhora dos Remédios, a qual era precedida de novena, que começava no domingo de Páscoa, realizando-se no fim, numa segunda-feira, a procissão, promovida pela Confraria de Nossa Senhora dos Remédios, que é tida como a mais antiga confraria da cidade de Macau, porquanto os seus estatutos foram confirmados por bula do Papa Urbano VIII, em 2 de Outubro de 1626. Procissão de N. Srª. dos Remédios, a subir pela Travessa do Paiva, vendo-se do lado esquerdo a parede lateral da casa do Ouvidor Arriaga. Foto de Ângela Henriques, publicada em Crónicas Macaenses. Infelizmente, esta procissão, que era muito participada por paroquianos, sobretudo macaenses, há várias décadas que deixou de ser realizada, cessando, assim, uma tradição que
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 17 tinha sido mantida pela Confraria durante séculos. Outrora, a procissão, após sair da Igreja pelo portão junto da Rua da Imprensa Nacional, percorria a Rua de S. Lourenço, descia pela Travessa do Padre Narciso, passando então pela Praia Grande, em frente do Palácio do Governo e, continuando, subia pela Travessa do Paiva para regressar à Igreja. Hoje em dia, a festa de Nossa Senhora dos Remédios consta apenas de novena e missa, em língua chinesa. RUA DE S. LOURENÇO Esta rua começa na Rua da Imprensa Nacional, ao lado da Rua da Prata, contorna a Igreja e vem terminar na Rua Central, ao cimo da Travessa do Paiva. Nas imediações da Igreja de S. Lourenço, existiram prédios, já demolidos, que merecem ser recordados, designadamente: • A CASA DAS 16 COLUNAS Esta casa, situada em frente da igreja de S. Lourenço, pertenceu a António José da Costa, um rico comerciante, que, em virtude do seu estatuto social, fez parte de vereações do Senado. Quando já estava afastado da vida pública, foi nomeado interinamente para assumir o cargo de governador, em consequência do falecimento do então governador José Vicente da Silveira Meneses e, nessas circunstâncias, apenas exerceu aquelas funções por um período de 8 meses, até à tomada de posse do seu sucessor, Francisco de
  • 18 Castro. Naquela altura, já com saúde muito debilitada, recolheu-se na sua residência, conhecida por Casa das Dezasseis Colunas, devido aos oito pares de colunas coríntias que se dispunham ao longo do lado que dava para rua. Por esse motivo, não só essa Casa, como também a zona adjacente, era conhecida, em chinês, por “Sâp Lôk Chü” (十 六 柱 , sendo “Sâp Lôk”, dezasseis; e, “Chü”, coluna), nome este que perdurou por muito tempo até cair em desuso. Após o seu falecimento, em 3 de Fevereiro de 1781, o filho dele, também de nome António José da Costa, encarregou-se da administração dos bens herdados, e quando ficou viúvo, abraçou a vida sacerdotal, passando a ser conhecido por Padre António. A Rua do Padre António [3], que começa na Rua de S. Lourenço, mesmo junto do Instituto Salesiano, é-lhe dedicada. Rua de S. Lourenço em princípios do século XX, vendo-se do lado esquerdo a Casa das Dezasseis Colunas
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 19 A Casa das 16 Colunas era uma das casas mais imponentes de Macau, tendo posteriormente sido arrendada várias vezes por alguns dos mais proeminentes negociantes ocidentais, designadamente para servir de residência ao Superintendente da Companhia Inglesa das Índias Orientais. A Casa foi leiloada em 1824, tendo sido arrematada pela Diocese. Em 1848, devido ao seu estado de deterioração, o Bispo D. Jerónimo José Mata mandou reedificá-la, cuja obra foi confiada a José Tomás de Aquino. Em 1906, o Orfanato da Imaculada Conceição ficou instalado naquela Casa. No entanto, anos mais tarde, porque estava em mau estado de conservação, a Casa teve de ser demolida, tendo no terreno resultante da demolição sido erigido um novo edifício, que foi inaugurado a 17 de Julho de 1936. O edifício do lado esquerdo é o actual Instituto Salesiano, erigido no terreno resultante da demolição da Casa das Dezasseis Colunas. Na parte inferior da parede, figuram, como elemento decorativo, colunas coríntias falsas, aos pares, imitando as colunas originais.
  • 20 Junto da Rua de S. Lourenço, com entrada entre o então Instituto da Imaculada Conceição e o prédio nº 1 da Rua do Padre António, existia uma via, a que foi dado, em 1914, o nome de Rua de Sena Fernandes. Esta via, depois de extinta, passou a fazer parte das dependências do Instituto, que actualmente tem a designação de Instituto Salesiano. • EDIFÍCIO DA ESCOLA CENTRAL DO SEXO FEMININO Na Rua de S. Lourenço nº 28 havia um prédio de 3 pisos, onde funcionou, nos anos 20 e 30 do século passado, a Escola Central do Sexo Feminino, tendo depois sido transferida para a então Escola Primária Oficial “Pedro Nolasco da Silva”, situada na Avenida de Sidónio Pais, um edifício construído de raiz, destinado a ambos os sexos, inaugurado a 5 de Outubro de 1939. Depois disso, aquele prédio serviu para outras finalidades, designadamente para residência de várias famílias, tais como a do Dr. Ranito e, depois, das famílias Rego, Xavier e Gracias. Em finais do século passado, aquele prédio nº 28 e os prédios contíguos nºs. 30 e 32 foram demolidos para dar lugar à construção de um novo edifício, destinado a secretários-adjuntos do Governador, por isso esse edifício era então conhecido por “edifício dos secretários-adjuntos”, mantendo o Governador o seu local de trabalho no primeiro andar do Palácio da Praia Grande.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 21 No lado direito da Rua de S. Lourenço, vê-se um prédio com 3 pisos, onde nos anos 20 e 30 do século XX funcionou a Escola Central do Sexo Feminino Após a transferência da administração, o gabinete do Chefe do Executivo mudou-se para o último piso daquele “edifício dos secretários-adjuntos” e o Palácio da Praia Grande passou a ser designado Sede do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, destinado apenas a recepções oficiais e outros actos.
  • 22 • A CASA FORTE DE S. LOURENÇO A Casa Forte da freguesia de S. Lourenço situava-se junto da actual Rua da Casa Forte e tinha entrada por um portal virado para a Rua de S. Lourenço. Prédio situado na junção entre a Rua de S. Lourenço e a Rua da Casa Forte. O portal virado para a Rua de S. Lourenço era a entrada para o Pátio da Casa Forte. A fundação das Casas Fortes, como quartéis da Polícia, data de 1719. Havia 3 Casas Fortes, que se encontravam instaladas nos bairros de S. Lourenço, Santo António e Sé Catedral e a cada uma delas era distribuído um capitão com uma força composta por sete elementos. Em 10 de Dezembro de 1753, a pedido do Leal Senado, foi extinta a Casa Forte de S. Lourenço e as restantes duas Casas Fortes acabaram também por serem extintas em 30 de Dezembro de 1754, por falta de verbas para a manutenção delas. A partir de então, os patrulhamentos passaram a ser feitos pela tropa regular, até ser criada, em 1857, a Polícia do Bazar, que depois, por Portaria nº 24, de 11
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 23 de Outubro de 1861, essa Polícia passou a ser designada Corpo de Polícia de Macau. • O PRÉDIO DO OUVIDOR ARRIAGA Na esquina onde termina a Rua Central, sensivelmente em frente da Rua da Imprensa Nacional, existiu um grande prédio, de dois pisos e, no tardoz, um espaçoso jardim, o qual foi a residência de Miguel José de Arriaga Brum da Silveira, que desempenhou as funções de Ouvidor em Macau, uma autoridade da Coroa Portuguesa que superintendia todos os ramos administrativos públicos. O Ouvidor Arriaga, como é conhecido, tinha sido nomeado desembargador do Tribunal da Relação de Goa e depois enviado como Ouvidor das Justiças para Macau, onde chegou em meados de 1802, tomando posse oficial em Janeiro do ano seguinte. Casou em Macau com Ana Joaquina de Almeida, filha do futuro Barão de São José de Porto Alegre, Januário Agostinho de Almeida, um dos maiores proprietários de navios da sua época, com vastos interesses no comércio do ópio. O Ouvidor Arriaga foi uma figura preponderante, com grande capacidade governativa, num período de grandes dificuldades políticas e económicas. Um dos grandes feitos do Ouvidor Arriaga foi ter conseguido organizar uma esquadra naval para combater os piratas liderados por Cheong Pou Châi (張保仔, cujo nome também aparece romanizado “Cam
  • 24 Pau Sai” ou “Apo-chai”), os quais infestavam o delta do rio das Pérolas, tendo a esquadra portuguesa alcançado importantes vitórias, nomeadamente na batalha que se travou junto da Boca do Tigre (em cantonense, “Fu Mun” 虎門). Tendo sido derrotado, Cheong Pou Chai aceitou entregar-se, na condição de o Ouvidor Arriaga ser seu intermediário nas negociações de rendição com as autoridades chinesas. Além de sucessos na sua carreira, sofreu também desaires, sobretudo aquando da implantação do regime liberal em Macau, na sequência da revolução liberal do Porto, em Agosto de 1820. Apesar de ter sido preso, conseguiu fugir para o exílio em Cantão e ali permaneceu até poder regressar a Macau. A amargura sentida durante o exílio, associada a crises de depressão, teriam sido as causas que contribuíram para o agravamento da doença que contraiu, vindo a falecer em Macau, a 13 de Dezembro de 1824, com apenas 48 anos de idade. O seu nome é recordado na toponímia de Macau em três vias públicas, visto que, além da Avenida do Ouvidor Arriaga, há ainda um beco e um pátio. O prédio onde Arriaga viveu ainda existia nos anos 50 e princípios dos anos 60, tendo ali funcionado o Colégio de São José até ser transferido para um novo edifício, então localizado na Rua da Praia Grande. Seguidamente, o prédio esteve devoluto até ser demolido, tendo o mesmo local sido aproveitado para a construção de um conjunto de moradias, denominado 德泰大廈 (Edifício Tâk T’ái).
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 25 Travessa do Paiva, vendo-se, do lado direito, a casa do Ouvidor Arriaga e, ao fundo, o antigo prédio da Rua dos Prazeres nºs. 2 e 4, que, após a demolição, se construiu no mesmo local o edifício da Imprensa Nacional (mais tarde, alterado para Imprensa Oficial). Pintura de George Smirnoff, em 1945. RUA DOS PRAZERES Era designada por Rua dos Prazeres (em chinês “Fông Sôn Seong Kái” 風順上街 , que significa “rua de cima de fông sôn”) a via que começava na Rua Central, ao cimo da Travessa do Paiva, e terminava na Rua de S. Lourenço, junto da Rua da Prata. No dia 28 de Janeiro de 1954, o Governador Almirante Joaquim Marques Esparteiro inaugurou o novo edifício da Imprensa Nacional, construído de raiz, localizado na Rua dos Prazeres, tendo naquela mesma data sido alterado o nome desta rua para Rua da Imprensa Nacional.
  • 26 O prédio pintado de amarelo, inaugurado em 1954, serviu de instalações da Imprensa Nacional, o qual ocupa toda a extensão da Rua da Imprensa Nacional, cuja placa toponímica do lado direito assinala o início desta rua. Este prédio foi requalificado em 2021 para servir de instalações da Direcção dos Serviços para os Assuntos da Sede do Governo. Mas antes disso, em princípios do século XX, esteve estabelecida naquele antigo prédio da Rua dos Prazeres, com os nºs 2 e 4, a empresa Herbert Dent & Co., que comercializava sobretudo ópio e chá com a China, além de ser agente de companhias de seguros e de navegação. Dado que, mesmo agora, do lado da numeração par, só existe um prédio, não restam, portanto, dúvidas de que aquele prédio, com os nºs 2 e 4, foi ocupado pela empresa Herbert Dent & Co., e que mais tarde foi utilizado pela alfândega chinesa. Os prédios situados em frente têm numeração policial ímpar, que vão de nº 1 a nº 11. Os prédios 1, 3 e 5, pertenceram a Ana Maria Pereira e sua irmã Maria Francisca, os quais foram vendidos pelos netos e demolidos em 1971.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 27 O prédio da Imprensa Nacional (depois alterado para Imprensa Oficial) foi construído no terreno resultante da demolição daquele prédio, com os nºs 2 e 4, e após a construção, ficou sem numeração policial, pois nem consta do Cadastro das Vias Públicas da RAEM, edição de 2012. Herbert Fullarton Dent pertencia à família Dent, que fundou a Dent & Co., uma das maiores firmas britânicas, que, tal como a Jardine, Matheson & Co. e a empresa americana Russell & Co., comerciava o ópio com a China, tendo estas três empresas, após a fundação de Hong Kong, transferido os seus escritórios de Macau para a nova colónia britânica, onde continuaram a desenvolver as suas actividades. Prédio nºs. 2 e 4, da Rua dos Prazeres (actualmente, Rua da Imprensa Nacional). Do lado direito, vêem-se uns degraus que dão acesso ao portão tardoz da Igreja de S. Lourenço e, ao fundo, vê-se, ainda que parcialmente, o prédio do Ouvidor Arriaga. Pintura de George Smirnoff, em 1945.
  • 28 Em 1893, o referido Herbert Fullarton Dent, que era um rico e reputado comerciante, adquiriu o Palacete de Santa Sancha a herdeiros do Barão do Cercal, após o falecimento da Viscondessa do Cercal. O então proprietário faleceu em 6 de Fevereiro de 1920 e, seguidamente, o seu filho William Herbert Shelly Dent resolveu vender o Palacete, que foi adquirido, em 1923, pelo governo de Macau, para servir de residência dos governadores. Apesar disso, o Palacete foi depois utilizado para várias finalidades, designadamente, para a instalação de um hospital infantil e, também, para o Museu Comercial Etnográfico Luís de Camões. Só em 1937 é que o governador Artur Tamagnini de Sousa Barbosa converteu, definitivamente, o Palacete em residência oficial dos governadores de Macau, tendo os seus sucessores no cargo ali residido até à transferência de administração, em 1999. MORADORES DOS “BAIRROS” DE S. LOURENÇO Na freguesia de S. Lourenço viveram ao longo dos tempos muitas famílias macaenses, pois era a zona mais castiça da cidade cristã e onde mais edifícios apalaçados e de apreciável beleza arquitectónica havia. Ali se tornara o local preferido dos portugueses e tido como coração da cidade cristã, visto que ficava afastado do Bairro do Bazar, onde os chineses comercializavam e viviam em condições sanitárias muito precárias. Das pesquisas efectuadas, constatou-se que famílias, tais como Nolasco da Silva, Borges, Hagatong, Viseu Pinheiro,
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 29 d’Eça, Lobo, Garcia, Gracias, Gomes, Barros, Xavier, Jorge, Mello, Boyol, Leitão, Batalha, Conceição, Amaral, Canavarro, Lobato, Pitter, Remédios, Albuquerque, Ribeiro, Barros Pereira etc. viveram naquela nobre zona da cidade. Várias destas famílias ainda residiam na freguesia de S. Lourenço na primeira metade do século XX. Eram famílias muito dedicadas às actividades religiosas desenvolvidas pelas Congregações e Associações existentes na Paróquia de S. Lourenço, sobretudo nos tempos em que eram párocos o Pe. Manuel Teixeira [4], a partir de 1934 e, mais tarde, o Pe. Manuel da Fonseca Moreira, no período compreendido entre 1954 e 1981. Em meados de 1981 assumiu as funções de pároco o Pe. Dino dos Santos Parra, tendo desempenhado esse cargo até 1996, ano em que obteve autorização do então Bispo de Macau, D. Domingos Lam, para regressar definitivamente a Portugal. Foram estes os párocos portugueses da igreja de S. Lourenço, formados no Seminário de S. José e ordenados em Macau, que mais tempo permaneceram no cargo, no século XX. Depois da partida do Pe. Dino, o cargo de pároco passou a ser exercido por sacerdotes de outras nacionalidades e a igreja, a pouco e pouco, é frequentada praticamente por paroquianos chineses, bem como pela comunidade filipina. Esta situação deve-se ao facto de, a dada altura e por motivos diversos, famílias tradicionais macaenses, que residiam na paróquia de S. Lourenço, começaram a deixar de viver nos seus “bairros”, mudando-se para outras localidades da cidade ou, então, emigraram definitivamente para o estrangeiro.
  • 30 A placa toponímica no canto superior direito assinala o início da Rua da Barra. Apesar disso, em meados do século XX até, aproximadamente, aos anos 70-80, viveram em “bairros” da freguesia de S. Lourenço, diversas famílias macaenses, nomeadamente: NA RUA DE S. LOURENÇO No prédio nº 28, onde nas décadas 20 e 30, funcionou a Escola Central do Sexo Feminino, viveram, designadamente, as seguintes famílias: Manuel Carajota Rego, sua mulher Dorinda e filhas: Natércia, Virgínia, Maria Luísa e Ivone (no r/c);
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 31 Acácio Osório Xavier, sua esposa Helena e filhos: Ivone, Zófimo, Micaela, Norma, Cacilda, Guido, Iolanda e Teresa (no 1º andar); e Constâncio José Gracias, sua mulher Isabel e filhos Carolina e Constâncio (no 2º andar). Na mesma rua, viveram também: José Joaquim Monteiro, sua mulher Teresa e filhos: Américo, Maria Fernanda, Rogério, Maria Fátima, José Joaquim (Jota) e Maria das Dores (Mariazinha); Américo Pompeia Córdova, sua mulher Maria Amália Rodrigues e filhos: Maria Gabriela, Américo Diogo, Américo Fernando, Maria Helena, Américo Duarte e Américo Leonel; Henrique Duarte da Rocha Vilas (que também viveu na Rua da Casa Forte); Manuel Ferreira, sua mulher Margarida e filhos: José Armando e Daniel. NO PÁTIO E RUA DA CASA FORTE No Pátio da Casa Forte, viveram, nomeadamente: Mercedes de Sousa e seus filhos: Arnaldo, Virgínia e Vitória; e, também, as irmãs de Mercedes: Romualda, Mirandolina e Júlia Sousa;
  • 32 e, na Rua da Casa Forte: António Augusto Canhota, sua mulher Zaida Nogueira e filhos: António, Isabel, Rita, Carlos e Amélia; António Lameiras, sua mulher Noémia dos Remédios e filhos: Edmundo, Fernando, Eduardo, Maria, Noémia, Mário, Rosalinda, Bernardo e Lourenço. NA RUA DE INÁCIO BAPTISTA (nesta rua, no prédio nº 8, já demolido, viveu o artista inglês George Chinnery) João Bosco Osório, sua mulher Ermelinda Góis e filha Deolinda; Geraldo Siqueira, sua mulher Maria Inês Nogueira e filhos: Geraldo Guilherme, Diana e Maria Edith; José Severo Sanches, seu irmão Jorge Simão e irmã Carmen e, ainda, sua mãe Divínia; José Chaves, sua mulher Maria Azedo de Oliveira e filhos: Mário e Fernando; Alfredo Ferreira de Almeida, sua mulher Helena Dillon Guerrero e filhos: Maria Elena, Tomás Dillon e Rui Dillon; Álvaro Augusto da Costa, sua mulher Maria Helena e filha Maria Alice.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 33 NA RUA DE S. JOSÉ Jacob Lei, sua mulher Maria Hó e filhos: Maria José, Roque, António, Fátima, João, Helena e Dominga Pereira; Celeste Moedas Fernandes; Fernando Joaquim Nogueira Remédios, sua mulher Beatriz e filho José. NA RUA DA IMPRENSA NACIONAL (anteriormente, Rua dos Prazeres) Jaime Robarts, sua mulher Albertina Manhão e filhos: Armindo, Geraldina, Maria Felisbela e Jaime Robarts Jr. NA TRAVESSA DO PAIVA Henrique de Senna Fernandes, sua mulher Maria Teresa e filhos: Cristina, Henrique Miguel, Maria Luísa, Vasco Nuno e Filipe Augusto. NA RUA DO PADRE ANTÓNIO Do lado de numeração par: José Januário de Jesus, sua mulher Carmelinda e filhos: Carlos, Clemente e Elfrida; Idália Maria da Luz [5];
  • 34 José Fernandes e sua mulher; António Fernandes, sua mulher Carolina e filhos: Fátima, Camila, Américo, Júlio e Luís; Manuel Cascais, sua mulher Lucinda e filhos: Filomena, Maria de Fátima e Luís; Manuel Amândio Assunção, sua mulher Maria Francisca Noronha e filhos: Júlio, Lurdes, Cândida e Manuel; Nuno Remédios; Valentim Gustavo Adolfo de Nogueira, sua mulher Emiliana Teresa da Silva e filhos: António Valentim, Maria Ivone, Maria de Lurdes, Fernando, Olga, Valentim, Filomena e Deolinda; Alfredo Pacheco da Silva, sua mulher Lídia Marinho e filhos: Isabel, Luís e Humberto. E, do lado de numeração ímpar: Arnaldo Vicente Mendes, sua mulher Felisberta e filhos: Vicente e Rogério; Teresa Lam; José Maria Hung, sua mulher e filhos, designadamente António e Jerónimo; Ramon Lay Mazo, sua mulher e filhos: Maria, Joana e Adriano;
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 35 Augusto Paiva e seus filhos: Orlando, Manuel, Augusto, Maria e Fátima; António Martins Henriques, sua mulher Carmo e filhos: Ângela, Carlos, António Manuel e João; Pedro Lei e Filomena Lei; Firmino Conceição Machado de Mendonça e sua mulher Deolinda Placé; Carlos Maria de Oliveira, sua mulher Ana Rita e filhos: Alda Teresa, Alberto Carlos, Henriqueta, Alice, Carlos, Leonel, Ana Catarina e Hercília; Alice Jesus; Rui Rogério Ramalho e a sua avó Avelina Alves Ramalho; A família Lubeck; Carlos Humberto Nogueira Remédios, casado com Laura Lagariça; Francisco Xavier dos Remédios. NA TRAVESSA DO ABREU (começa na Travessa do Mata-Tigre e termina na Rua do Padre António) Simão Lei, sua mulher Angelina e filhos: Alberto, Eugénia, Alfredo, Augusto e Mário.
  • 36 NA RUA DA PENHA Adão Gregório do Espírito Santo, sua mulher Maria Consuelo e filhos: Judith, Rui, Maria, José, Reinaldo, Alfredo, António e Lídia; Jacinto Rodrigues, sua mulher Vivian e filhos: Francisco, Alexandre e Ana; Aníbal Drummond, sua mulher Raquel Gonçalves e filha Filomena; António José Ribeiro, sua mulher Armanda Francisca e filhos: Lídia Maria, Fernanda Maria e António José Ribeiro Jr.; Henrique Machado de Mendonça, sua mulher Beatriz dos Santos e filhos: José Ângelo, João Joaquim, Américo, Filomena, Sílvia, Jaime, Firmino e Deolinda; António Rodrigues, sua mulher Maria do Rosário e filhos: António Jr., Francisco, Alberto, José, João, Manuel e Pedro; Edmundo de Senna Fernandes, sua mulher Maria Luisa Rodrigues e filhos: Edmundo, Henrique, Maria Fernanda, Maria Amália e demais filhos. NO PÁTIO DA PENHA (junto da Calçada da Penha) Luís Francisco dos Santos Gomes, sua mulher Luísa dos Santos e filhos: Celeste, Leonel, Elsa, Maria Teresa, Marina, Alfredo, Elfrida, Alberto Francisco, Luis Gonzaga, Fernando António, Teófilo Mendes e Rosa Maria.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 37 Ali também viveram Artur Levy Gomes e sua mulher Palmira Maria Guterres, pais do referido Luís Francisco. Merece recordar que Artur Levy Gomes foi autor de uma valiosa obra sob o título “Esboço da História de Macau 1511-1849”. NA RUA DO COMENDADOR KOU HO NENG (anteriormente, Rua Tanque do Mainato) Adolfo Adroaldo Jorge, sua mulher Edith da Costa Roque e filhos: Edith Margarida e Nuno Maria Roque Jorge. NA CALÇADA DA CHÁCARAS Álvaro Guterres Gomes e filhos: Mariana e Jaime. NA AVENIDA DA REPÚBLICA Antero da Costa Alves, sua mulher Áurea Maria Gill e filhos: Fernando António, Olívia Vitória e Jorge Gill da Costa Alves. NO LILAU (abrangendo Largo, Rua, Calçada, Beco e Pátio) As famílias que viveram no Lilau estão mencionadas num outro artigo, sob o título “De Patane a Lilau”, publicado em Crónicas Macaenses [6], as quais incluem, nomeadamente: Maria de Brás Carmen; Semeana Brás; Belarmina Marques; Ismael Silva, sua mulher Berta Passos e filha Cesaltina; João e Isabel Trabuco; José Maria de Senna Fernandes; José e Florinda Lagariça; Domingos Dias; João Afonso Reis (Johnny Reis); António Machado de Mendonça e Florentina Bruno da Conceição; José Martins Bruno; Carlos e Edite Nogueira;
  • 38 Fernando Joaquim e Beatriz Maria Fernandes Remédios; Cecília Gomes Joaquim; Francisco Remédios; António Ferreira Batalha; António Conceição e, ainda, a família de Aureliano Jorge e a família do Conde Bernardino de Senna Fernandes. As donzelas do Lilau, em 1954 (da esquerda para a direita): Telma Nogueira dos Remédios; Ah Lan; Maria Nogueira; Inês Nogueira; Cecília Joaquim; Olga Nogueira; Luísa Viana e Florinda Leandro. Foto: cortesia de Francisco Frederico NA TRAVESSA DE ANTÓNIO DA SILVA (nesta Travessa existe um prédio nº 10, conhecido por “Casa do Mandarim”, em chinês, 鄭家大屋 “Cheang Ká Tái Ôk”, que pertenceu à família de Zheng Guanying 鄭觀應 , em cantonense, lê-se “Cheang Kwun Yêng) Luís Jacinto Sales, sua mulher Maria Pópulo de Sousa e filhos: Francisco, António, Luísa, João, Teresinha, Leornídia, António Jesus e Eduardo; António Vicente dos Remédios, sua mulher Maria Pompeia e filhos: Olivia, Leonel, Adalberto e José;
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 39 António Lei, sua mulher Lúcia e filhos: Carlos, Margarida, Mariano, Eduardo, Vitor e Marieta Pereira. NA RUA E CALÇADA DA BARRA (Do lado de numeração par) Leonel Onofre Jorge, sua mulher Ana Maria Manhão e filhos: Victor, Natália, Fátima e José; Luís Remédios e sua mulher Maria; José Augusto Cabral, sua mulher Carmen e filhos: José Cabral Jr. e Filomena Rita; Clotilde Xavier; Nicolau Xavier, sua mulher Matilde Marques e filhos: Nicolau Jr., Anabela, Teresa, Manuela e Eduardo; José Silvestre (mais conhecido por Mojica), sua mulher Lídia Maria e filhos: Armando, Augusto, Elsa, Mário e Reinaldo; Leonor Rosário; Joaquim Rodrigues de Sousa, sua mulher Otília Maria Magalhães e filhos: Nelson, Belmiro, Maria Odete, Fernando, Carlos Alberto e Maria de Fátima; Manuel de Oliveira, mais conhecido por “o guitarrista”; Ernesto Martins, sua mulher Maria e filhos: Lídia, Frederico, Regina, António, Ernesto, Edite, Rolando, Arnaldo e Alice;
  • 40 Joaquim Nunes Dourado, sua mulher Laura Xavier e filhos: Glória, Amândio, Ivone, Isabel, Fernanda e Henriqueta; Júlio António Bento, sua mulher Emília de Sequeira e filhos: Maria Teresa, Cesaltina, Maria Lurdes, Nuno, Mário e Luís Filipe. Manuel Lourenço, sua mulher Júlia e filhos: Cândida, Rosalina, Rosa, Joaquim, Carmo e Rui; José Ferreira Martins (conhecido por “Café”) e sua mãe Maria. (Do lado da numeração ímpar): Ângelo João Maria de Carvalhosa, sua mulher e filhos: Luiza, Fernando, Amélia, Fátima, Judite, Américo e Albertina. NO PÁTIO DO TERRADO (Pátio do Terrado era o topónimo original; depois, errónea- mente, foi alterado para Pátio do Terraço; e, agora, voltou a ter a designação de Pátio do Terrado) Amaro Leopoldo Valentim de Nogueira, sua mulher Olga Viana e filha Marília (viviam na Calçada do Lilau); António da Luz Mourato, sua mulher Jacinta e filhos: Álvaro, Francisco, Inês, Alberto e Mariazinha; Augusto César Carreiro, sua mulher Dolores Cristina e filhos: Mário, Augusto, Regina, Manuel, Fátima, Rosa e Luís.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 41 NA PRAÇA DE LOBO DE ÁVILA A família Borges, designadamente o padre Albino Borges; a família de Maria Celestina Mello e Senna, etc. NA RUA DA PRAIA GRANDE (entre Calçada do Bom Jesus e Travessa do Padre Narciso) Jorge Egmont Hagedorn Rangel e filhos Maria Luísa, Jorge Alberto e Georgina; Fernanda Prata da Cruz; Palmiro Estorninho, sua mulher Alda da Rosa e filhos: Maria Isabel, José Luís, Carlos Miguel, Palmiro, Ivo Manuel e Luís Filipe. NA CALÇADA DO BOM JESUS Maria Vicentina Marques. Joaquim Lopes e sua mulher Berta Lopes. Henrique Castilho. Raul José da Rocha Xavier, sua mulher Júlia Maria da Luz e filhos: Henriqueta, Irene, Luísa, Emília, Ana e Raul Luz da Rocha Xavier. NA TRAVESSA DO PADRE NARCISO Luís Francisco Garcias, sua mulher Herotelda Prado e filhos: Luís, Carmelita, Ricardo e demais filhos.
  • 42 NO PÁTIO DO PADRE NARCISO Manuel Magalhães, sua mulher Maria de Fátima e filhos: Adelina e João Manuel; César Augusto Carqueja, sua mulher e filhas Alice e Linda. NA CALÇADA DE SANTO AGOSTINHO A família de João e Eduardo Ambrósio. NA CALÇADA DO TRONCO VELHO Álvaro Augusto Xavier da Luz, sua mulher Maria Marcelina Dias da Luz e filhos: Cíntia, José, Natércia, Yolanda, Álvaro e Rogério; Fernando Aníbal Marques, sua mulher Teresinha de Sousa e Sales e filhos: José Luís e Jorge Manuel; Leornídia de Sousa e Sales; António Barros Pereira, sua mulher Elvie Sousa e filhos: Cíntia, Virgínia, Delano e Maria José. Além das famílias acima mencionadas, que viveram nas imediações da igreja de S. Lourenço, sobretudo a partir de meados dos anos cinquenta do século passado, houve, com certeza, outras que também lá residiram e que não estão incluídas neste breve trabalho, apesar de diversas averiguações terem sido já feitas. Houve também famílias que viveram em mais de uma localidade dentro da freguesia de S. Lourenço e, nesse caso, apenas se mencionou uma das
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 43 ruas em que residiram. Nomes incompletos ou não devidamente confirmados estão por ora excluídos deste trabalho. Por conseguinte, uma actualização das famílias em falta, ou a rectificação de alguns nomes, terá de ser feita oportunamente. Escadarias que dão acesso à entrada principal da Igreja de S. Lourenço. Reza a tradição que, outrora, era ali que se ajuntavam familiares e amigos para acenarem aos mareantes, que partiam de Macau, a fim de se despedirem e desejar BOA VIAGEM. Com a emigração de antigas famílias macaenses para Portugal e países estrangeiros, a mudança de residentes para outras zonas da cidade e, ainda, por razões diversas, as velhas tradições, que outrora davam vida às actividades paroquiais, foram-se desvanecendo até se extinguirem por completo, designadamente a Procissão de Nossa Senhora dos Remédios, cuja festividade é, presentemente, apenas celebrada dentro do recinto da igreja. Sem a comunidade macaense a residir naquela zona da cidade, nem sacerdotes portugueses como párocos, vai ser mesmo difícil restabelecer aquelas dignas tradições, que se mantiveram no passado, ao longo de séculos.
  • 44 Prédios já demolidos, situados na junção entre a antiga rua denominada Rua do Hospital dos Gatos (a via arrampada, agora denominada Rua de George Chinnery), a Rua de Inácio Baptista (onde viveu George Chinnery, no prédio nº 8) e a Rua de S. Lourenço. MORADORES ESTRANGEIROS Merece também aqui recordar duas personalidades estrangeiras, que viveram, em épocas diferentes, nas proximidades da igreja de S. Lourenço: George Chinnery e George Smirnoff. GEORGE CHINNERY (1774 – 1852) George Chinnery nasceu em Londres, 4 Gough Square, Inglaterra, a 5 de Janeiro de 1774. Oriundo de uma família de artistas, desde novo revelou possuir grande talento artístico, muito influenciado pelo seu pai William Chinnery.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 45 Em 1796, George Chinnery foi viver para Dublim (Irlanda), tendo-se instalado em casa do joalheiro James Vigne, em 27 College Green. Nessa cidade, participou em várias actividades, tendo alcançado algum sucesso como artista. Chinnery casou com Marianne Vigne, filha do referido joalheiro e seu senhorio, em 19 de Abril de 1799, com quem teve a filha Matilda e o filho John Eustace. Em 1801, regressou a Londres sem a companhia da esposa e dos dois filhos. No ano seguinte, viajou para a Índia, a bordo do navio Gilwell, com destino a Madras (actualmente, Chennai), onde o seu irmão mais velho, John Chinnery, ali se encontrava a trabalhar na Companhia das Índias Orientais. Em Madras, com a ajuda do seu irmão, George Chinnery teve oportunidades para desenvolver a sua actividade artística, alcançando renome e reconhecimento depois de pintar um retrato a óleo dos dois filhos do coronel James Achilles Kirkpatrick. Em 1818, a esposa de Chinnery, Marianne, viajou para a Índia, numa tentativa de reunir a família, visto que a filha Matilde tinha para lá ido, em 31 de Julho do ano anterior. Três anos depois, o filho de Chinnery, John Eustace, também chegou à Índia. O estado de espírito de Chinnery teria ficado abalado por esses acontecimentos, sobretudo quando sua mulher Marianne veio a saber que ele tinha uma amante e dois filhos ilegítimos. Chinnery procurou então evadir-se da sua mulher e também dos seus credores, devido aos empréstimos que contraiu. Tendo decidido
  • 46 mudar de vida, Chinnery embarcou no navio Hythe, em Calcutá, a 15 de Fevereiro de 1825, e viajou para a China, via Penang, com destino a Macau. Auto-retrato de George Chinnery Chinnery fixou-se definitivamente em Macau, tendo residido até ao seu falecimento num prédio alugado a Rita Maria de Carvalho, situado na Rua de Inácio Baptista nº 8. Nos 27 anos da sua permanência em Macau, Chinnery pintou a óleo retratos de comerciantes chineses e ocidentais, capitães de navios e suas famílias residentes em Macau, bem
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 47 como de amigos e personalidades com quem conviveu, incluindo a diarista Harriet Low. Nas suas deambulações pelas ruas e ruelas, ou junto às praias, ou zonas ribeirinhas, teve oportunidade de registar, nos seus esboços, muitas cenas do quotidiano, tais como sampanas e juncos de pesca, incluindo as suas preferidas tancareiras Assor e Alloy; artesãos e vendilhões em variadas actividades diárias; ajuntamento de pessoas, jogando, fumando ou divertindo-se nos diversos recantos; aves domésticas e animais vagueando ao ar livre, retratando, deste modo, praticamente todas as facetas e estilos de vida da época. Em 1846, Chinnery foi para Hong Kong, onde viveu durante seis meses, tendo ali sofrido problemas de saúde. Apesar disso, fez diversos desenhos daquela colónia inglesa recém-fundada. O seu estado de saúde não registou significativas melhoras após o regresso a Macau, vindo anos depois a falecer, a 30 de Maio de 1852, com 78 anos de idade. Chinnery foi enterrado no antigo Cemitério Protestante, junto à Casa Garden, numa sepultura a que se perdeu o rasto [7]. Em 28 de Julho de 1852, por ordem do Tribunal, o seu espólio foi posto à venda em hasta pública, cujo produto serviu para liquidar as dívidas que, entretanto, tinha contraído. Os trabalhos deixados por Chinnery, além do valor artístico, são historicamente valiosos, porquanto foi o único pintor ocidental, residente no sul da China, que retratou, no segundo quartel do século XIX, não só pessoas de elevado estatuto social, designadamente membros da comunidade
  • 48 britânica, tais como os seus principais patronos William Jardine e James Matheson, como também gente da classe social mais baixa, que se dedicava às suas mais diversas ocupações ou actividades. Pedra tumular monumental, no antigo Cemitério dos Protestantes, onde não estão depositados os restos mortais de George Chinnery. Existem colecções de desenhos de Chinnery em Londres, no Museu Victoria and Albert e no Museu Britânico; no Museu Peabody Essex, em Salem, Massachusetts. Outros conjuntos importantes são mantidos em Birmingham Museum and Art Gallery; no Museu de Arte de Hong Kong; no Museu de Arte
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 49 de Macau; no Toyo Bunko (The Oriental Library), em Tóquio; na Sociedade de Geografia de Lisboa (cuja colecção foi oferecida por Lourenço Pereira Marques). Existem ainda valiosas obras em poder de coleccionadores particulares. No entanto, a Hong Kong and Shanghai Banking Corporation pode orgulhar-se de possuir uma colecção excepcional das obras de Chinnery. Na toponímia de Macau há uma via que lhe é dedicada, localizada na antiga Travessa do Hospital dos Gatos, que em 1974 foi alterada para Rua de George Chinnery [8], aquando das comemorações do bicentenário do nascimento deste notável artista. No entanto, George Chinnery nunca viveu naquela rua a que foi dado o seu nome, mas sim na Rua de Inácio Baptista, nº 8. GEORGE SMIRNOFF (1903 – 1947) Yuri Vitalievitch Smirnoff (mais conhecido por George Smirnoff) nasceu na cidade costeira de Vladivostock, na Sibéria, em 1903. Smirnoff deixou a Rússia, ainda jovem, com a sua mãe, no início da revolução bolchevique, mudando-se para Harbin,
  • 50 no norte da China, onde anos depois conseguiu ser admitido na universidade e formar-se em arquitectura. Com a invasão e anexação da Manchúria pelas tropas do Império Japonês, o jovem Smirnoff, já casado, teve de fugir com a família, desta vez para Tsingtao (青 島 , em pinyin: Qingdao) estabelecendo-se ali como arquitecto. No entanto, não permaneceu por muito tempo naquela cidade do norte da China, devido à política expansionista do exército imperial japonês e, quando começou a invadir a China, a família Smirnoff teve de mudar-se para Hong Kong. Entretanto, a segunda guerra sino-japonesa alastrava-se a outras regiões da China, de tal forma que, em Dezembro de 1941, se deu a ocupação e rendição de Hong Kong, e Smirnoff ficou ali encurralado. Suspeito de espionagem pela polícia militar do Exército Imperial Japonês (“Kempeitai”), a residência dele foi revistada por várias vezes e quando um dia os “Kempeitai” lá encontraram algumas garrafas de vodka ilegal, foi preso e enviado para o estabelecimento prisional de Stanley. Quando foi libertado sob amnistia, decidiu partir para Macau com Irina, a sua filha mais velha, ficando os dois provisoriamente alojados no Hotel Bela Vista, um dos locais destinados ao abrigo de refugiados. Sua mulher Nina e a segunda filha, também chamada Nina, juntamente com o filho mais novo Alexander, só mais tarde é que conseguiram partir para Macau. Para alojar a família, Smirnoff alugou uma pequena casa situada na Rua de S. José (já demolida), mudando-se depois para uma outra casa, no nº 6 do Pátio das Seis Casas, que ainda existe, mas desabitada e em mau estado de conservação.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 51 Portal do Pátio das Seis Casas. George Smirnoff e família viveram na casa nº 6, que fica ao fundo, do lado esquerdo. A vida naquela altura não era fácil, pois com dezenas de milhares de refugiados a entrarem em Macau, havia grande escassez de bens essenciais, o que originava a fome, a doença, a falta de higiene e a insegurança. Dada a dificuldade de encontrar um emprego como arquitecto, George Smirnoff teve de arranjar outras formas para o sustento da família. Apesar das dificuldades sentidas
  • 52 no dia a dia, durante aquele período da guerra sino-japonesa, a comunidade de Macau continuou a interessar-se pelas actividades culturais, participando nos eventos que se realizavam no Teatro D. Pedro V. Como não havia naquela época grandes artistas, com a ajuda de amigos e conhecidos, Casa nº 6 do Pátio das Seis Casas, onde George Smirnoff e família viveram. Smirnoff foi contratado para pintar cenários para representações teatrais e dar aulas particulares de pintura e, também, leccionar no Colégio de S. Luís, o que lhe proporcionou algum rendimento estável. Consta que foi através da ajuda de amigos, designadamente de José Maria Braga (também conhecido por Jack Braga), que possibilitou
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 53 a Smirnoff receber uma encomenda do Dr. Pedro José Lobo para a produção de uma série de desenhos em aguarela, que retratam cenas urbanas e paisagísticas de Macau e cuja colecção, com mais de sessenta desenhos, foi depois oferecida pelo seu patrocinador, Dr. P. J. Lobo, ao Museu Luís de Camões, então a cargo do Leal Senado de Macau. Depois de ter enfrentado, ao longo da vida, com coragem e sofrimento, os maiores desafios e adversidades, George Smirnoff não foi capaz de superar as angústias que o atormentavam, já no pós-guerra. Assim, no primeiro dia de Fevereiro de 1947, acabou por se suicidar, saltando de um edifício com vários andares, em Hong Kong, para onde regressou em Outubro de 1945. George Smirnoff, apesar da sua curta estadia nesta terra, deixou uma obra de raro valor, que hoje faz parte da herança cultural de Macau. NOTAS: [1] Alfredo Augusto de Almeida era tetraneto do 1°. Barão de São José de Porto Alegre, Januário Agostinho de Almeida, tendo este sido um dos grandes armadores e comerciantes de ópio mais ricos de Macau, nos inícios do século XIX. Sexto filho de Carlos Eugénio de Almeida e de Adelaide Maria Marques, nasceu em Macau a 21 de Janeiro de 1898 e aqui faleceu a 13 de Novembro de 1971. [2] Fông Sôn (風順) , ou, de outro modo, Sôn Fông (順風) , significa, em chinês, “sob condições de vento favoráveis” ou “de vento em popa”, sendo, a expressão “Sôn Fông” ( 順 風 )
  • 54 normalmente usada para desejar a alguém “Boa Viagem” e que tudo vá correr de feição. [3] Ver também o artigo “Rua do Padre António, a Rua do Prédio Alto” em: https://cronicasmacaenses.com/2017/05/15/em-macau-a-rua-do-padre-antonio-que-e-chamada-em-chines-de-rua-do-predio-alto-como-manuel-basilio-explica/ [4] Depois do Pe. Manuel Teixeira, foram também párocos da igreja de S. Lourenço, o Pe. Áureo da Costa Nunes e Castro e o Pe. António Ferminiano da Silva Máher. [5] Idália Maria da Luz foi professora das disciplinas de Inglês e Caligrafia Comercial, da Escola Comercial “Pedro Nolasco”, e era sobrinha do historiador Montalto de Jesus, autor do livro Macau Histórico (originalmente escrito em inglês, sob o título “Historic Macao”. [6] Ver também o artigo “De Patane a Lilau” em: https://cronicasmacaenses.com/2017/06/26/macau-de-patane-a-lilau-artigo-de-manuel-basilio-conta-com-detalhes-a-historia-e-os-dias-de-hoje/ [7] Existe uma pedra tumular monumental no antigo Cemitério dos Protestantes, junto à Casa Garden, em memória de George Chinnery, sob a qual os seus restos mortais não se encontram ali depositados. Chinnery foi sepultado naquele Cemitério, mas como os seus amigos e admiradores quiseram dar-lhe uma campa condigna, foi então encomendada aquela pedra tumular, que foi trazida de barco para Macau e, quando cá chegou, não conseguiram localizar onde ele tinha sido enterrado. [8] Começa na Rua de S. Lourenço, junto da Rua de Inácio Baptista, e termina na Rua do Bazarinho.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 55 FOTOGRAFIAS DE ANTIGOS PAROQUIANOS Foto cedida por José Cabral Jr.
  • 56 Carmen Nogueira, no dia da primeira comunhão. (Foto cedida por José Cabral Jr.) 1. Rita Cabral; 2. José Cabral Jr.; 3. Maria de Lurdes Carmen; 4. Sara Nogueira; 5. Carmen Cabral; 6. Laura Remédios; 7. Olga Nogueira; 8. Albano Cabral; 9. Mariazinha Nogueira; 10. Semeana Carmen; 11. Fernando Remédios;12. Beatriz Remédios.(Foto cedida por José Cabral)
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 57 1. Mário Carreiro; 2. … ; 3. Valentim Nogueira; 4. Geraldo Siqueira; 5. Amaro Nogueira; 6. Edmundo Lameiras; 7. António Silva; 8. … ; 9. Manuel Tomé; 10. José Cabral Jr.; 11. Fernando Remédios; 12. Diana Siqueira; 13. Isabel Canhota; 14. António Canhota; 15. Fernando Lameiras; 16. Rita Canhota; 17. Fátima Carreiro; 18. António Lameiras;19. Deolinda Joaquim; 20. Cristina Joaquim; 21. Marília Nogueira; 22. Rita Cabral; 23. Regina Carreiro; 24. … ; 25. Manuel Carreiro; 26. Geraldo Siqueira. (Esta foto foi tirada na escadaria da casa da família Nogueira, situada na Calçada do Lilau nº 5. Foto cedida por José Cabral Jr.)
  • 58 1. Anabela Alves; 2. Fátima Carreiro; 3. Isabel Silva; 4. Amélia Canhota; 5. Regina Alves; 6. Lurdes Albuquerque; 7. Anabela Queda; 8. António Manuel Henriques; 9. Alfredo Espírito Santo; 10. …; 11. Fernando Nogueira;12. António Canhota; 13.Alfredo do Rosário; 14. Roberto Alves; 15. … ; 16. …; 17. Constantino Monteiro; 18. António Mendonça;19. Manuel Carreiro; 20. …; 21. …; 22. Jaime Robarts; 23. Carlos Pereira; 24. Rogério da Luz; 25. …; 26. Carmen Sanches; 27. Helena Lei Pereira; 28. Rosa Lourenço; 29. …; 30. Camila Monteiro; 31. Regina Martins; 32. …;33. Elfrida Jesus; 34. Fátima Baptista; 35. Edite Azedo; 36. Maria Lurdes Nogueira; 37. Anabela Xavier; 38. …; 39. …; 40. Belinha Albuquerque. Ao centro: Cónego Tang Iok Leong e Pe. Manuel Moreira. (Foto de Primeira Comunhão e Crisma, ca. 1958, cedida por Rogério da Luz)
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 59 1.Belinha Albuquerque; 2. Beatriz Tomé; 3. Lurdes Albuquerque; 4. Belarmina Marques; 5. ... ; 6. Pe. João Guterres;7. Pe. Manuel Moreira; 8. Pe. Fu Chün; 9. Avelina Ramalho; 10. Maria da Ressureição; 11. Mª Albina Canavarro Albuquerque; 12. Iolanda Xavier; 13. Ana Oliveira; 14. Vitória Gomes; 15. Virgínia Almeida; 16. Ângela Henriques; 17. Ivone Nogueira; 18. Carmo Lei Henriques; 19. ... ; 20. Maria José Lei Pereira; 21. Teresa Lam; 22. Diana Siqueira; 23. ... ; 24. ...; 25. ...; 26. ...; 27. Maria Hó; 28. Áurea Salvado; 29. Filomena Lei; 30. Angelina Albuquerque; 31. Marcelina da Luz; 32. Josefina Tomé; 33. Edite Estrela; 34. Celeste Moedas; 35. Maria de Lurdes; 36. ... (Da esquerda para a direita): Ana Oliveira; Isabel Albuquerque; Iolanda Xavier; Vitória Gomes;Virgínia Almeida; Helena Silva; Teresa Lam; Iolanda Luz; Ângela Henriques; Ivone Nogueira;Diana Siqueira; Pe. Manuel Moreira. (Foto de Ângela Henriques, publicada em Crónicas Macaenses)
  • 60 (Da direita para a esquerda): António Augusto Canhota; Maria Assunção; Marcelina Luz; …? ; …?; Beatriz Remédios; Celeste Moedas; António Martins Henriques; Maria de Lurdes Carmen; …?; …?; …?;Pe. Manuel Moreira. (Em frente, agachada): Belarmina Marques. (Foto cedida por Rogério da Luz) (Fila de frente, da esquerda para a direita): Belarmina Marques; Maria da Ressureição; … ; Angelina Albuquerque; Avelina Ramalho; Celeste Moedas; Josefina Tomé; (fila de trás, da esquerda para a direita); Marcelina da Luz; Áurea Salvado; Pe. Moreira; Edite Estrela; Maria de Lurdes Carmen.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 61 1. …; 2. Ivone Cabral; 3. Alice Luz; 4. Sara Cabral; 5. Padre Fu; 6. José Cabral Jr.; 7. Carmen Cabral; 8. …;9. Maria Pitter; 10. Áurea Xavier; 11. Angelina Albuquerque; 12. Alice Jorge; 13. Armanda Ribeiro; 14. Celeste Moedas; 15. Albertina Robarts; 16. Dolores Carreiro; 17. Fernando Remédios; 18. … ; 19. Beatriz Remédios; 20. Margarida do Espírito Santo; 21. Palmira Sousa; 22. Alice Silva; 23. … ; 24. … ; 25. Maria Celestina de Mello e Senna; 26. Levínia Sanches; 27. Zito Remédios; 28. Angelina Maria Leong; 29. …; 30. Maria Hó 31. Filomena Lei; 32. Belarmina Marques; 33. Ilda do Espírito Santo; 34. Geraldina Robarts; 35. Lídia Ribeiro; 36. Cecília Joaquim; 37. …; 38… (Foto tirada no dia do aniversário do Padre Fu Chün (符泉 ), que na época era coadjutor do pároco Pe. Manuel Moreira) Aniversário do Pe. Manuel Moreira
  • 62 Publicações consultadas: “Paróquia de S. Lourenço”, do Pe. Manuel Teixeira; “Famílias Macaenses”, de Jorge Forjaz; “Chinnery, The Man and The Legend”, de Robin Hutcheon; Porto Seguro, Exposição Comemorativa do Centenário de George Smirnoff; Cadastros de Vias Públicas de Macau; Publicações diversas, nomeadamente o blogue nenotavaiconta. Nota final: Agradecimentos a todos quantos que residiram na freguesia de S. Lourenço e que prestaram informações sobre famílias que ali viveram, em particular a José Cabral Jr., Rita Cabral e Anabela Xavier Ritchie (que identificaram muitas das pessoas que estão nas fotos), bem como a Teresa Xavier Anok, Elsa Silvestre, Fátima Fernandes, Augusto Lei do Rosário, na prestação de informações sobre diversas pessoas que moraram nos “bairros” de S. Lourenço e, ainda, Carlos Lemos e sua mulher Vitória pela colaboração prestada na pesquisa de nomes de várias famílias. Obs.: Este texto foi revisto e actualizado em Julho de 2021. O texto original foi publicado em “Crónicas Macaenses”, em 03 de Julho de 2020.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 63 SÉ CATEDRAL
  • 64
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 65 CRIAÇÃO DA DIOCESE DE MACAU Nos primórdios do estabelecimento dos portugueses em Macau, as primeiras capelas eram construídas em madeira, geralmente no cimo de colinas ou em sítios ermos, por isso também eram designadas por ermidas. Uma das mais antigas, senão a mais antiga, dedicada a Nossa Senhora, teria sido a ermida de Nossa Senhora da Esperança, construída, mais ou menos, no mesmo local onde hoje se ergue a igreja de S. Lázaro. A construção daquela ermida teria ocorrido entre 1565 e 1575, porquanto, quando o Papa Gregório XIII, pela sua bula Super Specula Militantis Ecclesiae, de 23 de Janeiro de 1576, criou a Diocese de Macau, determinou que uma das capelas já erigida, sob a invocação de Santa Maria, fosse eleita para servir como sé episcopal. No entanto, não há certeza, por falta de provas, se de facto a ermida de Nossa Senhora da Esperança fora escolhida para ser igreja matriz, embora por tradição aquela ermida seja considerada a primeira igreja da Sé de Macau. A Diocese de Macau foi governada, durante anos, até 1581, por D. Melchior Nunes Carneiro Leitão, mais conhecido por Melchior ou Belchior Carneiro, nascido em Coimbra, em 1516. D. Melchior professou os votos da Companhia de Jesus e foi ordenado padre em 25 de Abril de 1543. Partiu, ainda novo, para o Oriente, tendo sido sagrado, em Goa, bispo-titular de Niceia, em 4 de Maio de 1555, e em Setembro de 1565, por ordem do Papa, iniciou a sua viagem para Macau, durante a qual permaneceu, por algum tempo,
  • 66 em Malaca. Após a sua chegada, lançou as bases da Confraria da Misericórdia [1], que foi fundada em 1569, a primeira instituição europeia de caridade e de beneficência em Macau, destinada a atender às necessidades dos pobres e, seguidamente, criou o Hospital dos Pobres, para tratar de doentes, tanto cristãos como pagãos. Criou também um hospício para cuidar de leprosos, junto ao qual foi erigida a ermida de Nossa Senhora da Esperança. Apesar de ter sido o primeiro bispo da China e do Japão, D. Melchior nunca foi nomeado bispo da Diocese de Macau, tendo sido apenas Governador do Bispado até à chegada do novo bispo, D. Leonardo de Sá, em 1581, visto que o primeiro bispo, D. Diogo Nunes de Figueira, designado para a Diocese de Macau, não aceitou a nomeação. Após a vinda de D. Leonardo de Sá, o então governador do bispado, D. Melchior, estando já muito debilitado devido à doença, retirou-se para a residência da Companhia de Jesus, junto da igreja de Santo António, vindo a falecer no dia 19 de Agosto de 1583, aos 67 anos de idade. QUAL TERIA SIDO A PRIMEIRA IGREJA MATRIZ DA DIOCESE DE MACAU? Qual teria sido a capela ou igreja eleita para servir como igreja matriz? Parece não haver uma resposta conclusiva, porquanto há referências de que, mesmo antes da criação da Diocese de Macau, os católicos já celebravam festas religiosas numa igreja matriz, sem, no entanto, citar qual era essa igreja [2].
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 67 Apesar de a ermida de Nossa Senhora da Esperança ser da invocação de Santa Maria, não é unanimemente aceite que essa ermida tivesse sido a primeira sé episcopal, por razões lógicas, designadamente por se situar em local ermo, sem os requisitos necessários. Além disso, mesmo junto da capela havia um hospício para leprosos, criado por D. Melchior Carneiro, depois da sua chegada em 1568, não parecendo, assim, ser local apropriado para celebrações eucarísticas ou a reunião religiosa dos cristãos de Macau. É de crer que o primeiro bispo de Macau, D. Leonardo de Sá, sendo padre secular [3] da Ordem de Cristo, teria residido, após a sua chegada, num local próximo da urbe, ou então naquela zona mais central, em rápido crescimento, onde viria a ser instalada a sede do Senado, símbolo do governo local, o qual, por sua iniciativa, foi fundado em 1585. D. Leonardo de Sá, além de bispo, era também provedor da Confraria da Misericórdia e, provavelmente, essa Confraria que D. Melchior Carneiro fundou, em 1569, passou, pouco depois, a funcionar numa edificação, com capela e dependências anexas, que poderiam ser utilizadas como “paço episcopal”. Caso assim fosse, a então capela da Misericórdia, da invocação de Nossa Senhora da Visitação, poderia ter sido provisoriamente utilizada como igreja matriz, tal como aconteceu em outras circunstâncias, como por exemplo, quando a Sé Catedral foi restaurada em 1780, tendo, naquela altura, os serviços religiosos da igreja da Sé sido temporariamente transferidos para a capela da Santa Casa da Misericórdia (por vezes, também designada por Igreja da Misericórdia). É de crer também que essa situação assim se manteve até ser construída uma igreja matriz, mais
  • 68 ou menos no local onde actualmente está implantada a Sé Catedral, tendo em conta que D. Leonardo de Sá foi o primeiro bispo de Macau e o seu episcopado durou 16 anos, até ao seu falecimento em 1597 e cuja construção poderia ter ocorrido ao tempo que foi erigida a primeira igreja do Colégio de S. Paulo, danificada por um incêndio em 1595 e reconstruída em 1602. Fig. 1 - A Santa Casa da Misericórdia, no século XIX, vendo-se várias pessoas a passarem mesmo em frente da igreja da Misericórdia. Não se sabe ao certo em que ano foi construída a primitiva igreja da Sé, nem quando essa igreja foi construída com paredes em chunambo, no local onde aproximadamente assentava a anterior capela. Por isso, a respeito da fundação da Sé Catedral, várias incógnitas continuam por esclarecer, por falta de informação documental, tendo até o historiador sueco Anders Ljungstedt [4] escrito no seu livro “quando é que esta igreja foi construída não sei”.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 69 A LONGA VACÂNCIA DA DIOCESE DE MACAU D. Leonardo de Sá foi bispo de Macau desde 1581 até ao seu falecimento, ocorrido em Macau em 15 de Setembro de 1597. Seguiu-se então um período de vacância de 12 anos em que a Diocese voltou a ser administrada por governadores do bispado, até que D. João Pinto da Piedade fosse confirmado bispo, tendo ele chegado a Macau em 1608. Devido a conflitos que teve com o Ouvidor e o Capitão da cidade, o bispo foi chamado a Portugal em 1613, tendo renunciado ao cargo passados uns anos. Com a partida do bispo D. João Pinto da Piedade, seguiu-se um longo período de vacância, que durou 79 anos, durante o qual os bispos nomeados, quer pelo rei Filipe III, de Espanha, quer pelo rei de Portugal, depois da Restauração da Independência, em 1640, não assumiram o cargo, ou porque não foram confirmados pelo Papa, devido à estratégia de neutralidade adoptada pela Santa Sé, ou porque os bispos indigitados recusaram a nomeação e, deste modo, a administração da Diocese de Macau continuou a ser assegurada por governadores do bispado, até que, em 1692, chegou a Macau, o bispo Dom João de Casal [5], um alentejano, nascido em Castelo de Vide, que estudou e se doutorou em teologia na Universidade de Évora, tendo sido confirmado, em 10 de Abril de 1690, Bispo de Macau. D. João de Casal, durante o seu bispado, reorganizou a Diocese e fundou em 1698 o Cabido da Sé. Em 1706, foi provedor da Santa Casa da Misericórdia, tendo ainda desempenhado as funções de Governador interino de
  • 70 Macau em 1735. O seu bispado foi o mais longo que a Diocese teve. Morreu em Macau com 94 anos de idade. Consta que, por volta de 1623, foi construída uma nova igreja, feita de taipa ou chunambo, em substituição da anterior igreja ou capela, a qual foi elevada a Sé Catedral [6]. Ora, com a partida do bispo D. João Pinto da Piedade para Portugal, em 1613, iniciou-se um período de vacância, que só terminou com a chegada do bispo D. João de Casal, em 1692. Durante aquele período, estando a Diocese sem bispo, quem teria mandado construir a nova igreja, elevada a Sé Catedral, em 1623? O bispo D. João Pinto da Piedade, antes da sua partida, em 1613, nomeou o dominicano português, António do Rosário, para o substituir, como governador do bispado. Em 1623, quando o clero se revoltou contra António do Rosário, foi eleito governador do bispado pelo clero local o Bispo de Funai [7], D. Diogo Correia Valente, que chegou a Macau em 1619, e que acabou por aqui permanecer, devido à perseguição aos cristãos no Japão. Estando a Diocese, em 1623, administrada por um governador do bispado, quem teria sagrado a nova igreja elevada a Sé Catedral? COMO ERA O EDIFÍCIO DA SÉ CATEDRAL? Como sucede com as demais igrejas que existem em Macau, desconhece-se qual configuração tinha a Sé Catedral, nos séculos XVI e XVII. Há, no entanto, um desenho do século
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 71 XVIII, publicado no livro Aomen Jilue (em cantonense, Ou Mun Kei Leok, isto é, Monografia de Macau), por Yin Guanren e Zhang Rulin, dois funcionários chineses, encarregados dos assuntos de Macau entre 1744 e 1746, em que mostra, segundo a concepção deles, a configuração da igreja da Sé, a que deram o nome de “Tai Miu” ( 大 “Tai”, grande, e 廟 “Miu”, templo), correspondente à designação de “templo principal”, ou então, a Catedral para os católicos. Por isso, durante muito tempo, e mesmo até aos nossos dias, a zona situada junto da igreja da Sé é conhecida por “Tai Miu Téng” (大廟頂), ou seja, a zona no “cimo do grande templo”. De facto, o templo estava edificado no cimo de uma colina, conforme se pode ainda constatar pelas ladeiras ou subidas até à zona do adro da Sé, sobretudo pela Calçada de S. João, que comunica com a zona da Praia Grande. O desenho que consta do livro dos referidos autores da “Monografia de Macau” dá-nos uma vaga ideia do que era igreja da Sé, quase toda ela cercada por um muro, com uma simples fachada, estando a torre sineira localizada na parte tardoz [8] e o cruzeiro implantado no adro, em frente à entrada principal. Além do referido desenho, de meados do século XVIII, parece não haver um outro, anterior àquela época, que possa dar uma melhor ideia quanto à configuração da igreja da Sé. Como se vê, a igreja da Sé daquela época tinha uma estrutura relativamente modesta e as casas junto dela
  • 72 deveriam servir para a residência episcopal, bem como para outros fins. Fig. 2 - Configuração da igreja da Sé, segundo os autores da “Monografia de Macau”. Na gravura, estão escritos, da direita para a esquerda, dois caracteres chineses 大廟 (Tai Miu, ou seja “grande templo”). O círculo assinala a localização do cruzeiro, erigido em frente da igreja da Sé. Embora as paredes da igreja fossem de chunambo, o tecto e certas estruturas internas eram de madeira e, por isso, ao longo do tempo se foram deteriorando, devido sobretudo à formiga branca e, também, a temporais ou tufões que ocorriam com frequência. Já em 1812, o ouvidor Miguel José de Arriaga Brum da Silveira achou que era necessária a reconstrução total da igreja, mas essa ideia foi abandonada e, em 1819, só foram feitas reparações tidas por urgentes.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 73 Passados pouco mais de dez anos, a igreja da Sé encontrava-se em estado de grave degradação, ameaçando ruína, conforme relatou o Semanário Arquivo Pitoresco que “os estragos do tempo e os furiosos vendavais ou tufões, que de vez em quando assolavam aquelas paragens, a reduziram a tal estado de ruína, que o Cabido, pelos anos de 1835 ou 1836, achando-se a Sé vaga, resolveu cessar a celebração de ofícios divinos naquela igreja, e com autorização do governo, passou a servir de Catedral a igreja do convento de S. Domingos”. [9] Pensou-se logo em consertar a velha catedral, visto estar mais bem situada que a igreja de S. Domingos, que embora fosse mais moderna, havia o inconveniente de o bazar chinês funcionar ali junto, com toda aquela agitação ruidosa e vozearia. A provável configuração da Sé Catedral, com o cruzeiro implantado mesmo em frente da igreja. Desenho de autor desconhecido, possivelmente de algum discípulo ou seguidor de George Chinnery.
  • 74 Por conseguinte, a localização igreja da Sé manteve-se, por se situar num ponto relativamente alto, outrora bem destacado e visível, próximo de um largo em frente do Senado e não muito distante de outras instituições e igrejas, designadamente a que foi construída pelos jesuítas, em 1602, dedicada a Mater Dei, ou seja, a Igreja da Madre de Deus, junto do Colégio de São Paulo. RECONSTRUÇÃO DA SÉ CATEDRAL Quem se empenhou no projecto de reconstrução da Sé Catedral, muito danificada por um tufão em 1835, foi o então superior do Seminário de S. José, Nicolau Rodrigues Pereira de Borja, que em 19 de Junho de 1843 foi confirmado bispo de Macau. D. Nicolau fez todas as diligências necessárias para a reconstrução da igreja da Sé, tendo até promovido uma subscrição entre os moradores. Estudou-se então a melhor forma e orientação da nova igreja, visto que “a antiga Sé tinha o frontispício para oeste e estava como apertada entre as casas próximas e o palácio episcopal, que ficava a um canto e encoberto em grande parte pela mesma Sé”. A nova igreja tem a frente para o norte, ficando a frontaria do palácio desembraçada e mais vistosa”. [9] D. Nicolau da Borja, apesar de todo o seu empenho, não chegou a ver realizado o projecto, cabendo-lhe o mérito de ter começado a executá-lo pouco antes de falecer em 21 de Março de 1845.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 75 Fig. 4 - Vista da Praia Grande. Reprodução parcial do desenho a aguarela de Robert Elliot, vendo-se, na direcção do fortim de S. Pedro (1), a igreja da Sé, com a fachada voltada para oeste (2) e, ao fundo, a muralha norte da cidade (3) e, no alto da colina, a fortaleza do Monte Com a morte de D. Nicolau de Borja, o bispo-coadjutor, D. Jerónimo José da Mata, que entretanto tinha chegado, tomou posse, em 29 de Março de 1845, como Bispo de Macau. A igreja estava quase completamente demolida, quando D. Jerónimo da Mata tomou a direcção da obra, segundo um projecto delineado por Tomás de Aquino, mas o próprio bispo introduziu-lhe modificações. Feitos os ajustes com operários chineses, designadamente com o empresário ou mestre de obras Ahon, a obra arrancou. No entanto, houve muitas dificuldades a ultrapassar, sobretudo a escassez de meios pecuniários, dado que a fazenda pública em nada contribuiu para a reedificação da igreja. A quantia conseguida da subscrição, juntamente com
  • 76 os fundos disponibilizados pela Sé, não foi suficiente, de modo que, poucos meses depois do início da obra, D. Jerónimo teve de declarar que era necessário suspender os trabalhos por falta de dinheiro. Mas o velho Ahon, um abastado empresário e habituado a créditos, não concordou com a suspensão, “continuando-os sob a confiança que lhe merecia aquele prelado, de que lhe pagaria logo que pudesse” e, assim, “despendeu adiantadas para mais de 30.000 patacas, que depois foi recebendo em prestações”. [9] Fig. 5 - Bispo D. Jerónimo José da Mata Desenho extraído do Semanário Ilustrado Arquivo Pitoresco
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 77 Assim, a obra de reconstrução da Sé Catedral não parou, tendo ficado concluída nos princípios de 1850 e sagrada pelo bispo D. Jerónimo a 14 de Fevereiro do mesmo ano, com uma festiva participação da população cristã de Macau. Fig. 6 - Configuração da Sé Catedral, ca. 1880, com o frontespício voltado para norte. Quando a construção da Catedral ficou concluída, um outro chinês, naturalizado português em 1856, de nome Francisco Volong [10], cristão e rico comerciante, ofereceu ao bispo D. Jerónimo, um jogo completo de paramentos brancos, de cetim, bordados a ouro, para funções episcopais, que diziam valer mais de mil patacas.
  • 78 Fig. 7 - Pedra angular da Sé Catedral, cuja inscrição quer dizer: “Erigida no Ano do Senhor de 1844. José Tomás de Aquino delineou” Há ainda uma notícia, reportando que “numa das torres da Catedral há um relógio, que se pode chamar monumental, porque comemora a elevação do senhor D. Pedro V ao trono dos seus maiores. Quando em Macau se festejou este fausto acontecimento, o bispo D. Jerónimo suscitou a lembrança de uma subscrição para compra e colocação de um relógio, que utilizasse a todos os habitantes da cidade, porque a Catedral está edificada na parte mais alta da povoação”. A ideia foi aceite e em pouco tempo conseguiu-se uma subscrição de quase 1.500 patacas, contribuindo “com 800 patacas os súbditos portugueses residentes em Cantão; os de Hong Kong com 223; e os habitantes de Macau com o restante”. [9] O relógio foi expressamente feito em Inglaterra pelo acreditado fabricante Thwaites & Reed, o qual, depois de colocado, bateu “pela primeira vez horas à meia-noite de 31 de Dezembro, isto é, no solene momento de começar o novo ano de 1858”. [9]
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 79 Fig. 8 - As torres da Sé já sem as cúpulas. RECONSTRUÇÃO PARCIAL DA CATEDRAL Apesar de ter sido construída em 1850, passados pouco mais de dez anos, certas partes da igreja já se encontravam em mau estado e, deste modo, em Fevereiro de 1873, o governador Visconde de S. Januário atribuiu uma verba de $6.001.41 para a reconstrução parcial da Catedral, cujas obras foram executadas sob a orientação do então Director das Obras Públicas, coronel de engenharia Francisco Jerónimo Luna. Findas as obras, no dia 1 de Janeiro de 1874, na sala capitular da Sé Catedral, com a presença do Governador Visconde de S. Januário, sacerdotes, seminaristas, funcionários públicos e mais pessoas, o secretário do governador eclesiástico
  • 80 lavrou o seguinte “Termo da Reedificação Parcial e Reabertura da Catedral”: “O estado de ruína em que se achavam todos os tectos e parte das paredes de todo o edifício era tão perigoso, que não poderia resistir a qualquer temporal, que de vezes em quando assolam estas paragens. A Catedral tinha sido acabada de construir em 1850, e em 1862 estava já neste estado. A pedido do mesmo governador do bispado, o Governador da província mandou proceder a uma vistoria pelo Director das Obras Públicas, que informou de tal modo, que foi preciso transferir logo o culto para a igreja de S. Domingos. O Governador da província, de harmonia com o governador do bispado, resolveu mandar fazer as obras de reparação e asseio necessárias a este templo, mandando logo proceder ao competente orçamento e, em seguida, à arrematação. Em pouco mais de um ano, a Catedral teve as seguintes obras, dirigidas pelo Director das Obras Públicas, Francisco Jerónimo Luna, e feitas à custa da Fazenda Pública da Província, entrando também a administração eclesiástica com uma parte, como consta dos competentes livros: 1º. Construiu-se de novo a parte superior das paredes laterais, na altura de três metros, e foi completamente reconstruída a parede da capela-mor, por se haver encontrado ruína em toda a altura; 2º. Construiu-se desde as impostas todo o arco da entrada da capela-mor, pondo-se no fecho as armas reais; 3º. Todas as diferentes partes da cobertura superior do edifício foram construídas de novo, sendo melhorada a começar dos estuques; 4º. A capela-mor, anteriormente do nível com o cruzeiro, foi levantada tanto quanto possível em relação a não
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 81 ficar defeituosa a disposição dos vãos laterais das portas e janelas já existentes; 5º. Pelo que respeita à decoração interior do templo, foi completamente feito de novo o altar-mor, ornado por colunas, pilastras e outras peças da ordem coríntia, decoração esta em tudo diferente da anterior, que apenas tinha duas pilastras e ornatos a capricho com pequenos vestígios da ordem jónica; 6º. A sacristia, anteriormente pequena, com as portas e janelas muito acanhadas, foi consideravelmente aumentada e melhorada, assim como parte da comunicação da mesma com o templo; 7º. Aumentaram-se e melhoraram-se as casas das sessões e arrecadações, dando-se nova disposição aos tectos, aumentando-se as janelas e portas, e fazendo-as ao mesmo tempo comunicar com o resto do edifício por um largo corredor; 8º. Reconstruiu-se de novo a arcada e terraço correspondente da entrada lateral, dando-se forma mais regular aos arcos e melhor disposição às águas do terraço e de todo o edifício; 9º. Reconstruiram todos os soalhos de ladrilho e de madeira, fazendo-se de ladrilho mármore o da pequena casa da pia baptismal. Todo o edifício foi pintado de novo, interior e exteriormente, consertaram-se e repararam-se todas as dependências do mesmo, ainda as mais pequenas; 10º. Douraram-se os altares e molduras de todos os quadros, pintou-se de novo o de Santo António, e foram compradas novas cortinas de damasco para as portas e janelas. E concluído tudo isto, o revdº. governador do bispado ordenou que a transferência do SS. Sacramento, de S. Domingos para a Sé, fosse feita no dia 31 de Dezembro, com toda a solenidade, sendo convidados todos os eclesiásticos,
  • 82 seminaristas, irmandades e todos os fiéis, o que efectivamente se fez no meio de uma grande concorrência. Por ordem de S. Exa. o Governador da Província, acompanhou a procissão uma guarda de honra com bandeira e a fortaleza do Monte salvou com 21 tiros.” Assinaram este Termo o secretário do governo eclesiástico, Pe. Guilherme Francisco da Silva, o Governador Visconde de S. Januário e diversas entidades. Meses depois, um violento tufão, ocorrido na noite de 22 para 23 de Setembro daquele ano, voltou a causar estragos na igreja da Sé. De acordo com um relatório então publicado, “caíram as cúpulas das torres e uma delas, desabando sobre o telhado, fez nele um grande rombo, bem como no tecto, sobrado do côro, rompendo até o pavimento da igreja. O novo órgão que se andava colocando perdeu com isto 24 canudos e o principal fole; mas não obstante poderá tocar e já se encomendaram com a máxima brevidade outros novos da Itália. Se caísse mais um bocado do tecto sobre o côro, decerto que o órgão se perderia de todo, o que era uma grande pena. O resto do edifício nada sofreu, a não ser parte dos telhados, o que é preciso reparar com a maior brevidade, porque chovendo sobre o estuque, pode este cair, sendo preciso depois fazer-se grande despesa para arranjá-lo de novo”. A igreja da Sé, segundo o projecto do arquitecto Tomás de Aquino, é de estilo neoclássico. A frontaria é muito simples, ladeada por duas torres de secção quadrangular. Em altura ficou dividida em três corpos: ao alto, um frontão triangular;
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 83 a meio, três grandes janelas de sacada; e em baixo, uma tripla arcada com as respectivas portas. Ao longo do tempo, diversas obras de conservação e de restauro da igreja da Sé, umas pontuais e outras de maior proporção, foram sendo feitas e apesar das obras de requalificação levadas a cabo em 1938-1939, o que hoje se vê não é muito distinto daquilo que o arquitecto Tomás de Aquino projectou, embora o exterior esteja revestido com reboco cinzento, conhecido por Shanghai plaster. O LARGO DA SÉ Numa das plantas antigas, anterior à reconstrução da igreja da Sé em 1845, pode-se constatar que o Largo da Sé [11] era relativamente espaçoso e o frontispício da antiga igreja estava voltado para a Rua da Sé, estando o cruzeiro implantado mesmo em frente da entrada principal (ver figuras 2 e 3). Posteriormente, o antigo cruzeiro foi dali retirado e colocado, mais ou menos, no presente local. O actual cruzeiro é novo, projectado pelo arquitecto Luís Tomás Piñeiro Nagy [12]. O antigo cruzeiro de granito era mais alto (ver figura 6), o qual, vários anos antes, durante a passagem de um violento tufão, foi derrubado e partiu-se. A última obra de requalificação no Largo da Sé foi em 2004, em que uma zona foi pavimentada com calçada à portuguesa e ali colocada uma fonte, bem como foram postos candeeiros ao estilo europeu e vários bancos.
  • 84 A antiga igreja da Sé tinha a fachada principal voltada para a zona mais ampla do Largo da Sé, mesmo na direcção da Rua da Sé, tendo assim sido construída com o fim de ligar esta rua a uma outra situada mais adiante, que era uma via principal ou central. Por isso, esta via principal ainda hoje é designada por Rua Central. É de crer que aquela antiga igreja da Sé deveria estar em estado ruinoso quando George Chinnery chegou a Macau em 1825, tendo aqui vivido praticamente o resto da sua vida, na Rua de Inácio Baptista nº 8, até falecer em 1852. Ou porque a igreja da Sé estava em mau estado de conservação, ou porque era inestética, ao que parece, Chinnery não deixou qualquer esboço ou desenho da antiga Sé, tal como deixou em relação a várias igrejas. Decerto, Chinnery teria por lá passado em muitas ocasiões, sobretudo quando ia visitar a família do comerciante americano William Henry Low, administrador dos interesses comerciais da Russell & Co., que vivia no Largo da Sé, nº 2, no primeiro prédio situado no cimo da Calçada de S. João [13], no qual vivia também a famosa diarista Harriet Low [14], que veio para Macau, a fim de fazer companhia à sua tia, mulher de William Henry Low. Harriet Low conheceu, através do seu tio, prósperos mercadores britânicos em Macau, bem como o famoso cirurgião Thomas Richardson Colledge e altos funcionários da Companhia das Índias Orientais e, também, o artista George Chinnery, que pintou o seu retrato, antes de ela regressar a Salem, Massachusetts, E.U.A.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 85 As vivências quotidianas de Harriet, durante a sua estadia em Macau de 1829 a 1833, serviram de tema para ela escrever o seu Diário. A IGREJA DA SÉ CATEDRAL NO PRESENTE Os católicos de Macau chamam à Sé Catedral simplesmente de “Sé”. No entanto, a igreja da Sé é também designada “Igreja da Natividade de Nossa Senhora”, podendo ver-se gravada na entrada principal a inscrição, em latim, de: S.S.M.V. Mariae Nascenti, que quer dizer, em português, “Natividade da Santíssima Virgem Maria”. A igreja da Sé é bastante espaçosa e bem decorada internamente. O altar-mor tem, por fundo, pinturas em vitral, destacando-se sobretudo aquela que é alusiva ao nascimento da Santíssima Virgem Maria. Na parede, de ambos os lados do altar-mor, há igualmente pinturas em vitral, tipo mosaico, dos doze apóstolos. Nos altares laterais, podem-se ver as imagens do Sagrado Coração de Jesus, de Nossa Senhora de Fátima, de Cristo Rei, de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, de Nossa Senhora das Dores, de S. João Baptista, de S. José, de Santo António de Lisboa, de São Judas Tadeu, de São Josemaria Escrivá, de São Francisco Xavier, de São Nuno de Santa Maria e de Santa Teresa do Menino Jesus. O episcopado de Macau começou a sofrer alterações mesmo antes da transferência da administração portuguesa para a República Popular da China em 1999, depois de resignar o
  • 86 último bispo português, D. Arquimínio da Costa. Assim, com vista a preparar-se para o fim do Padroado português, D. Domingos Lam Ka-tseung (林家駿), apesar de ter nascido em Hong Kong, fez os seus estudos no Seminário de Macau, tendo sido nomeado Bispo de Macau a 6 de Outubro de 1988, tornando-se, assim, o primeiro bispo de etnia chinesa de Macau. Após resignação de D. Domingos Lam em 2003, um outro clérigo, nascido em Macau, D. José Lai Hung-seng (黎鴻昇), foi designado Bispo em 30 de Junho de 2003 e, desde então, tornou-se o primeiro bispo natural de Macau a governar a Diocese. Resignou no dia 16 de Janeiro de 2016, tendo no mesmo ano, em 23 de Janeiro, tomado posse da Diocese de Macau o bispo D. Stephen Lee Bun-sang (李斌生), natural de Hong Kong. O Bispo D. Stephen Lee, antes de seguir a vida religiosa e ser ordenado sacerdote, fez os seus estudos universitários na Inglaterra, formando-se em arquitectura. Com a sua capacidade e iniciativa, além das suas funções pastorais como bispo, empenhou-se em obras de renovação no interior da igreja da Sé, introduzindo diversos melhoramentos. Em 2020, a Sé Catedral voltou a ficar encerrada para obras de restauro, renovação e reforços das estruturas, avaliadas em nove milhões de patacas, prevendo-se que os trabalhos fiquem concluídos em finais de 2021. Com o encerramento temporário, as celebrações eucarísticas foram transferidas, uma vez mais, para a Igreja de São Domingos, tendo a mudança sido realizada na tarde do dia 31 de Outubro.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 87 Desde 2005, a Igreja da Sé está incluída na lista dos monumentos do “Centro Histórico de Macau“, que por sua vez está incluído na lista do Património Mundial da Humanidade da UNESCO. Publicações consultadas: • Boletins da Província de Macau e Timor; • Semanário Ilustrado “Archivo Pittoresco”; • Publicações diversas, nomeadamente o blogue nenotavaiconta. NOTAS: [1] Confraria era de invocação a Nossa Senhora da Misericórdia, mas depois ficou conhecida somente por Misericórdia, ou Santa Casa da Misericórdia. [2] Provavelmente a Igreja de Santo António, por ali se localizavam as casas dos Jesuítas.
  • 88 [3] Padre secular é a designação dada ao clero da Igreja Católica Romana que desempenha actividades voltadas para o público em geral e que vive junto dos leigos, exercendo as mais variadas formas de apostolado e assegurando a administração da Igreja. Este termo é usado em oposição a clero regular, que refere aquela parte do clero que segue as regras de uma ordem religiosa, como os jesuítas, os dominicanos e os agostinianos. [4] Foi um comerciante, diplomata e historiador sueco. Trabalhou em Cantão, contratado pela Companhia Sueca das Índias Orientais. Quando a Companhia foi dissolvida em 1813, Ljungstedt continuou a exercer sua actividade comercial, estabelecendo-se depois, em 1815, em Macau, onde se interessou pela história de Macau, tendo publicado um livro, intitulado Um Esboço Histórico dos Estabelecimentos dos Portugueses e da Igreja Católica Romana e das Missões na China & Descrição da Cidade de Cantão, que é tido como o primeiro livro sobre a história de Macau. Ljungstedt nunca mais regressou a Suécia, falecendo em Macau, a 19 de Novembro de 1835, e está sepultado no antigo Cemitério Protestante, junto à Casa Garden, em Macau. [5] D. João de Casal, durante o seu episcopado, entrou em conflito directo com o legado papal Charles de Tournon, que chegou a Macau sem a autorização do Padroado português em 1707, depois de ser expulso da China pelo Imperador Kangxi, por condenar os ritos chineses como supersticiosos e incompatíveis com o catolicismo. O Imperador Kangxi, que era favorável ao cristianismo, decidiu proibir em 1721 a actividade evangelizadora dos missionários europeus na China, tendo o seu sucessor, o Imperador Yongzheng ordenado a expulsão de todos os missionários da China, à excepção de jesuítas, que trabalhavam na Corte como cientistas e sábios. A questão de ritos acabou por
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 89 prejudicar a actividade evangelizadora dos missionários europeus na China. [6] O ano de 1623 não está comprovado, porque naquela altura a Diocese não tinha um bispo titular, estando apenas a cargo de um governador do bispado. [7] Localizava-se na província de Bungo, na actual Oita, na ilha de Kyushu, Japão. Era conhecido por Domínio de Funai. [8] Tal como a igreja de Santo Agostinho, que também tem a torre sineira na parte tardoz, ao cimo da Calçada do Tronco Velho. [9] Transcrições de “Arquivo Pitoresco”, Tomo 1, nº 35. [10] Em Macau há uma rua que lhe é dedicada – a Rua do Volong, e junto desta via ele tinha uma enorme propriedade, conhecida por “Hortas do Volong”. Francisco Volong deixou descendentes, dos quais se destacou o seu filho Francisco António Volong, que foi um prestigiado comerciante, tendo desempenhado cargos públicos, designadamente como vogal do Conselho Municipal, por fazer parte da relação de “Doze cidadãos mais colectados”. [11] Além do Pátio da Sé, cuja área sofreu alterações ao longo do tempo, há ainda a Rua da Sé e a Travessa da Sé. O Beco da Sé e o Pátio da Sé são mais recentes e os respectivos topónimos só foram atribuídos em 1955 e 1962. [12] O arquitecto Luis Tomás Piñeiro Nagy nasceu em Lisboa. Licenciou-se em arquitectura na Escola Superior de Bela-Artes de Lisboa. Veio para Macau em 1983, onde trabalhou, inicialmente na empresa portuguesa de construção civil SOMEC e, depois, em 1990, abriu o seu próprio gabinete de arquitectura. Foi consultor e arquitecto da Diocese de Macau. Em 1993, liderou os projectos
  • 90 de remodelação e ampliação do Paço Episcopal, de restauro da Sé Catedral e do edifício do Cartório da Sé. Foi autor do projecto de arquitectura da igreja de São José Operário, a última igreja católica construída em Macau durante a Administração Portuguesa, inaugurada a 30 de Abril de 1999. [13] O referido prédio foi demolido em meados dos anos 70. O novo edifício serviu, durante anos, para as instalações do Serviço de Cartografia e Cadastro, passando depois para um dos serviços de apoio da Direcção dos Serviços de Finanças. [14] Harriet Low viveu em Macau de 1829 a 1833 e durante esse período de tempo escreveu um diário, sob a forma de cartas, que ela foi enviando para a sua irmã mais velha Mary Ann (Molly), que vivia em Salem, Massachusetts, nos Estados Unidos da América. Após o regresso à terra natal, casou em 1836 com John Hillard, mudando-se depois para Londres. Após a falência de John Hillard como banqueiro, Harriet Low Hillard voltou para Nova Iorque com seu marido e filhas. As cartas que Harriet escreveu em Macau foram mais tarde reunidas em 9 volumes, que actualmente fazem parte da colecção Low-Mills, da Biblioteca do Congresso. Em 1900, a sua filha Katharine publicou uma versão resumida do diário, sob o título “My Mother’s Journal”. O diário é considerado uma fonte valiosa de informação sobre a vida quotidiana de Macau, da comunidade inglesa e americana, durante a primeira metade do século XIX.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 91 Pinturas em vitral na parede por detrás do altar-mor, destacando-se a do semicírculo, que é alusiva ao nascimento da Santíssima Virgem Maria.
  • 92 Fachada da Sé Catedral, à noite. Largo da Sé, vendo-se ao fundo o Paço Episcopal.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 93 Fonte no Largo da Sé Largo da Sé, no qual está implantado um novo cruzeiro
  • 94 A Rua da Sé começa a seguir ao Largo da Sé A via em frente é a Travessa da Sé, que desce para a Rua de S. Domingos
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 95 A Calçada de S. João, que vai da Avenida da Praia Grande para o Largo da Sé O Paço Episcopal antes das obras de renovação
  • 96 Placa toponímica do Largo da Sé (em cima) e a pedra angular (em baixo) Vista parcial do Largo da Sé, vendo-se ao fundo fachada de S. Paulo, voltada para a Sé Catedral. Foto de finais do século XIX
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 97 A Calçada de S. João que liga o Largo da Sé com a Avenida da Praia Grande Fotografia de William Pryor Floyd, ca. 1868, com a vista da Baía da Praia Grande, em que se destaca a Sé Catedral, antes do grande tufão de 1874, que destruiu as cúpulas das torres.
  • 98 Planta de Macau atribuída a Manuel Godinho de Erédia (fins do século XVI – princípios do século XVII), na qual estão assinaladas as seguintes igrejas ou capelas: 1) Sto. António; 2) S. Paulo; 3) Misericórdia; 4) Sé; 5) S. Lourenço; 6) N. S. da Guia; 7) S. Francisco. Nesta planta não está assinalada a ermida de Nossa Senhora da Esperança, nem a fortaleza de S. Paulo do Monte, construída entre 1617 e 1626.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 99 IGREJA, LARGO E RUA DE SÃO DOMINGOS
  • 100
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 101 IGREJA DE S. DOMINGOS, no coração do Centro Histórico de Macau Reza a história que em 1587 partiram do porto de Acapulco, no México, com destino a Macau, os dominicanos espanhóis Antonio de Arcediano, Alonso Delgado e Bartolomeu Lopez, tendo o barco em que viajavam, após uma viagem de 5 meses, sido arrastado por um forte temporal para a costa da China. Apesar disso, conseguiram salvar-se e chegar mais tarde a Macau, onde foram recebidos por padres agostinhos, que um ano antes aqui fundaram um convento, pois, tal como os dominicanos, também pretendiam exercer a sua actividade missionária na China. Depois de terem sido doadas aos três frades umas casas para alojamento, eles fundaram, pouco tempo depois, a Casa de Santa Maria do Rosário e construíram uma capela, dedicada a Nossa Senhora do Rosário, com tábuas de madeira ou tabique [1]. Por isso, os chineses deram ao templo o nome “Pán Cheong T’óng” (板樟 “Pán Cheong”, tabique [2] e, 堂 “T’óng”, templo ou igreja). No entanto, os portugueses não viram com bons olhos a vinda daqueles frades, devido a receios que tinham em relação a espanhóis, havendo alguns que queriam expulsá-los, enquanto outros propuseram que o caso fosse enviado ao Vice-Rei, a fim de ele tomar uma decisão, uma vez que a permanência de frades espanhóis não era legal dentro do Padroado Português do Oriente. A resposta do Vice-Rei só chegou no ano seguinte, tendo determinado que aqueles três frades, por serem castelhanos, fossem enviados para
  • 102 Goa e que os seus bens fossem entregues a dominicanos portugueses da Congregação da Santa Cruz das Índias, os quais só mais tarde é que vieram para Macau. Igreja de S. Domingos e Largo de S. Domingos, localizados no coração do Centro Histórico de Macau Tal como todas as antigas igrejas de Macau, não é possível fixar-se uma data da fundação da igreja de S. Domingos e, portanto, crê-se que teria sido construída depois de os dominicanos portugueses terem tomado conta das propriedades deixadas pelos frades espanhóis. Apesar de a igreja ter sido edificada ou reconstruída no século seguinte, já com paredes de chunambo, a designação, em chinês, de “Pán Cheong Tóng”, manteve-se no decurso do tempo e, a dada altura, passou a ser também denominada “Mui Kwâi
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 103 T’óng” (玫瑰 “Mui Kwâi”, rosa [3], e 堂 “T’óng”, templo ou igreja). A partir de então, o nome “Pán Cheong T’óng” foi caindo em desuso, tendo-se mantido apenas na toponímia das vias públicas situadas junto da igreja: Largo de S. Domingos (板樟堂前地 Pán Cheong T’óng Ch’in Tei), Rua de S. Domingos (板樟堂街 Pán Cheong T’óng Kái), e Travessa de S. Domingos (板樟堂巷 Pán Cheong T’óng Hóng). A Ordem Dominicana em Macau floresceu em finais do século XVI e, sobretudo, em princípios do século XVII, durante o período em que foi bispo de Macau, o dominicano Frei D. João Pinto da Piedade, que chegou a Macau em 1608, tendo ele, após assumir as suas funções, conseguido resolver um conflito local, que envolvia franciscanos, jesuítas e agostinhos. Porém, não foi feliz quando se envolveu em disputas com o Ouvidor e o Senado e, em consequência disso, foi chamado a Portugal, por carta régia de 2 de Março de 1614. Quando deixou Macau, nomeou o frade dominicano António do Rosário, Vigário do Convento de S. Domingos, para seu sucessor, como governador do Bispado, cargo que exerceu até 1623. Assim como acontece com outras igrejas mais antigas, são escassas as informações e documentações relativas às transformações que sofreram no decurso do tempo, tanto na igreja, como no convento de S. Domingos. Consta que, em 1721, a igreja foi reedificada por iniciativa de frei José da Cruz e, pouco mais de um século depois, em 1828, foi novamente reconstruída, passando a fachada a ter a actual configuração.
  • 104 Outrora, o Convento anexo à igreja ocupava uma área enorme, cujos limites abrangiam a actual Rua de S. Domingos, Rua da Palha, Travessa dos Algibebes e Rua dos Mercadores, existindo ao centro um terreiro. Com a extinção e expulsão de todas as ordens religiosas no ultramar português em 1834, cujo Decreto foi posto em execução em Macau, em Setembro de 1835, o Convento anexo à igreja ficou incorporado na Fazenda Nacional. Aspecto do antigo Convento dos Dominicanos de Nossa Senhora do Rosário, anexo à Igreja de S. Domingos. O edifício do Convento, depois de expropriado pelo governo em 1834, serviu posteriormente para instalações de diversos serviços até ser demolido, por ameaçar ruína (foto baixada do blogue nenotavaiconta) A igreja, porém, não foi expropriada e, poucos anos depois, teve melhor aproveitamento. Devido a estragos causados pelo tufão de 5 de Agosto de 1836 na Sé Catedral, o edifício ficou degradado e quando apareceram sinais de ruína, as autoridades eclesiásticas solicitaram autorização para
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 105 transferirem, provisoriamente, o serviço religioso para a igreja de S. Domingos, a fim de poderem mandar executar as necessárias obras de reparação naquela igreja. A autorização foi concedida por Ordenança Real, datada de 29 de Fevereiro de 1844 e, meses depois, um dos primeiros actos realizados na igreja de S. Domingos foi a consagração de D. Jerónimo José da Mata como Bispo de Macau, que tomou posse a 28 de Março de 1845. Entretanto, a Sé Catedral, que se encontrava num estado ruinoso, não podia ser reparada, mas sim reconstruída, cuja obra iniciou em 1844, por iniciativa do Bispo D. Nicolau Rodrigues Pereira de Borja, e só voltou a reabrir ao culto em 1850. O claustro que restou do antigo Convento dos Dominicanos. Ao fundo, é a sacristia da igreja e no andar superior está instalado um museu – o Tesouro de Arte Sacra, inaugurado em 1997. Depois da partida dos frades, o convento esteve abandonado por um período de tempo até que passou a
  • 106 servir de quartel do recém-formado Batalhão Provisório de Macau, para o qual foi nomeado comandante o ilustre macaense Francisco José da Paiva. O Batalhão aproveitou a parte tardoz da igreja para cavalariças. Em 1867, esteve ali instalado o Corpo de Polícia de Macau, tendo, posteriormente, o edifício do convento sido adaptado para instalações de diversos serviços, nomeadamente a Direcção das Obras Públicas, Inspecção dos Incêndios e Repartição dos Serviços Telefónicos, até 1918. O interior da Igreja, dividido em três secções por duas filas de colunas, ligadas por arcos
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 107 Por falta de devida manutenção, depois de muito uso e desgaste, o Convento teve de ser demolido, quando já ameaçava ruína, restando, presentemente, parte de um claustro do antigo Convento e uma outra parte do edifício que foi adaptada para servir de torre sineira. Ao centro do altar-mor, está a imagem de Nossa Senhora do Rosário, ladeada pela imagem de São Domingos, o fundador dos dominicanos (no lado esquerdo) e pela imagem de Santa Catarina de Sena (no lado direito), uma das padroeiras da Diocese de Macau. No tecto, está pintada a insígnia da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário
  • 108 A igreja de São Domingos, cujo nome completo é Igreja do Convento dos Dominicanos de Nossa Senhora do Rosário, é um belo e majestoso edifício, com uma esplêndida fachada marcada por vários elementos decorativos e frisos delicados em estuque pintado a branco sobre fundo amarelo-ocre, colunas de inspiração coríntia e janelas pintadas a verde com persianas. O interior da Igreja está dividido em três secções por duas filas de colunas, ligadas por arcos. Ao centro do altar-mor, está colocada uma imagem de Nossa Senhora do Rosário, ladeada, do lado esquerdo, pela imagem de São Domingos, o fundador dos dominicanos, e do lado direito, pela imagem de Santa Catarina de Sena, uma das quatro padroeiras da Diocese de Macau, desde 1646. Num nível mais abaixo, vê-se a Cruz da Ordem de São Domingos e, no topo, está uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. No tecto, está pintada a insígnia da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Procissão de N. S. Fátima, a 13 de Maio de 2016, a sair da igreja de S. Domingos
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 109 É na igreja de S. Domingos que se celebra anualmente a Novena de Nossa Senhora de Fátima e, a 13 de Maio, sai desta igreja a Procissão de Nossa Senhora de Fátima [4], cuja imagem é levada até à Ermida de Nossa Senhora da Penha, acompanhada por inúmeros fiéis. O culto a Nossa Senhora de Fátima é já uma tradição local, mantida desde 1929 [5]. Em princípios dos anos noventa do século passado, a igreja de S. Domingos encontrava-se em mau estado de conservação e carecia de obras urgentes. Foi então que a igreja foi completamente restaurada e só foi reaberta em 23 de Novembro de 1997, tendo ainda sido inaugurado, naquele ano, o Tesouro de Arte Sacra [6], um museu instalado junto da torre sineira da igreja, após as devidas adaptações. Trata-se de um museu, em que reúne cerca de trezentos artefactos religiosos, que estiveram guardados no decurso do tempo, na igreja de S. Domingos, uns provenientes de outras igrejas e congregações ou confrarias que existiram em Macau e, outros, doados por fiéis. Placa alusiva à inauguração da igreja, após o restauro, em 1997
  • 110 A Igreja de São Domingos está incluída na Lista dos Monumentos Históricos do “Centro Histórico de Macau”, bem como na Lista do Património Mundial da Humanidade da UNESCO. LARGO DE S. DOMINGOS Embora o Largo de S. Domingos não seja enorme, é suficientemente espaçoso, por outrora ter sido alargado com expropriações [7], quando o governo, por razões de utilidade pública, determinou novos alinhamentos para reedificações de prédios naquela zona. Placa toponímica do Largo de S. Domingos, afixada na parede da fachada da igreja Desde há muito que por lá circula bastante gente, por ser um ponto de interligação entre o Largo do Senado e a Rua de S.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 111 Domingos, estando esta rua em comunicação directa com a Rua de Pedro Nolasco da Silva, que vai ligar à Rua do Campo. No passado, o percurso que ia desde o Largo do Senado até onde terminava a Rua do Hospital [8], chegou a ser a rua principal (ou “Rua Direita”) de Macau, onde viviam abastados negociantes e onde diversas firmas estrangeiras tinham a sua sede comercial e, por isso, aquela “rua principal” ficou conhecida, em chinês, pelo nome “OU MUN KÁI”, ou seja, a “Rua de Macau” [9]. Hoje em dia, apesar de a área territorial de Macau ter expandido imenso comparativa- mente ao passado, o termo “Ou Mun Kái” continua a ser usado por muitos chineses para designar Macau. Por se situar no coração da cidade, tanto o Largo do Senado como a Rua de S. Domingos continuam a ser uma zona de muito movimento, pois todos os dias e sobretudo nos fins de semana ou em dias feriados, inúmeros visitantes por lá circulam, a ponto de aquele percurso, em certas horas do dia, se tornar quase intransitável. Largo de S. Domingos, em Novembro de 2018. A artéria que se vê ao centro é a Rua de S. Domingos
  • 112 A tradição comercial, principalmente nas imediações do Largo de S. Domingos, já vem de séculos passados. Outrora, aquela zona fazia parte do chamado Bazar Chinês. Há vários desenhos de George Chinnery em que se pode ver o comércio de rua, junto à Igreja de S. Domingos, com vendilhões ali instalados. A zona circundante da igreja melhorou consideravelmente, com o alargamento da Travessa do Soriano, depois de a Santa Casa da Misericórdia ter mandado construir em 1902, no lado junto à igreja, um conjunto de 13 lojas e, no lado oposto, o Leal Senado adjudicou em 1904, a obra de construção de um novo mercado, após expropriações que foram então feitas, dentro do alinhamento que fora estabelecido. Placa toponímica da Rua de S. Domingos, um modelo adoptado antes da transição de soberania e que ainda não foi substituído pelo actual modelo. Do Largo, passando pela Travessa do Soriano, mesmo junto do Mercado de S. Domingos, vai-se à Rua dos Mercadores, outra via comercial também muito movimentada. Ou então, indo pela Rua de S. Domingos, a partir da igreja, e virando depois à esquerda, logo na primeira via, entra-se na Rua da
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 113 Palha, por onde normalmente transitam muitas pessoas, sobretudo quando os visitantes pretendem chegar às Ruínas Desenho de George Chinnery, em que se vê parcialmente a fachada da igreja de S. Domingos, bem como o Convento anexo à igreja e, ainda, muitos vendilhões instalados no Largo de S. Domingos de S. Paulo. Apesar dos grandes empreendimentos, efectuados pelas novas concessionárias de casinos, a partir de Maio de 2004, quer em Macau, quer na Taipa, com excelentes “resorts”, “shoppings” e outros equipamentos à “Las Vegas”, o coração da cidade continua a pulsar com vigor e saudavelmente.
  • 114 Comércio de rua, com vendilhões instalados junto à igreja de S. Domingos. Desenho de George Chinnery, no ano de 1836 A RUA DAS MARIAZINHAS Durante décadas, sobretudo na segunda metade do século XX, o troço da Rua de S. Domingos, que ia junto da Travessa do Bispo até ao começo da Rua de Pedro Nolasco da Silva, ou seja, no ponto onde entronca com a Calçada das Verdades e o Beco da Arruda, era conhecido por “Rua das Mariazinhas”. O primeiro estabelecimento conhecido por Mariazinha estava localizado na Rua de S. Domingos nº 22-B, o qual ostentava na tabuleta, bem como nos seus sacos de compras, o dístico comercial “YENG WA Mariazinha”, uma loja que vendia perfumes, cosméticos, produtos de higiene, brinquedos e bijutaria.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 115 Troço da Rua de S. Domingos, que durante décadas ficou conhecido por “Rua das Mariazinhas”. Esta foto foi feita no local onde termina a Rua de S. Domingos, ou seja, no ponto em que entronca com a Calçada das Verdades (no lado direito) e o Beco da Arruda (no lado esquerdo) Outro aspecto da Rua de S. Domingos, visto junto da Travessa do Bispo. Durante décadas da segunda metade do século passado, esta via era conhecida pelos portugueses por “Rua das Mariazinhas”
  • 116 No lado oposto da rua, no prédio nº 21-A, havia outro estabelecimento denominado Quinquilharias Tong Fong (Mariazinha) [10], que vendia vestidos de seda, bordados, bibelôs, perfumes e artigos variados, em que a palavra Mariazinha aparecia escrita entre parêntesis no dístico comercial. Como Mariazinha era um nome popular, ao lado da referida Yeng Wa, havia ainda uma outra quinquilharia, que vendia brinquedos, artigos de vestuário, sobretudo roupa para bebés e crianças, denominada Lei Ün Kei, e que também se autodenominava “Mariazinha”, embora este nome não figurasse no seu dístico comercial. Ora, com duas ou três Mariazinhas, de diferentes donos, naquele troço da Rua de S. Domingos, esta situação até causava certa confusão entre clientes portugueses. Em virtude de haver mais do que uma Mariazinha, durante décadas, aquele troço ficou conhecido por “Rua das Mariazinhas” e cujas lojas eram normalmente identificadas pelo tipo de mercadorias que vendiam. Com o encerramento dos respectivos estabelecimentos, o último dos quais foi a Quinquilharias Tong Fong (Mariazinha) [11], hoje em dia, os portugueses recém-chegados já nem ouvem falar na “Rua das Mariazinhas”. Tal como o nome “Rua das Mariazinhas”, pelo qual a Rua de S. Domingos era conhecida durante décadas até princípios do século XXI, esta rua, cujo topónimo em chinês é “Pán Cheong T’óng Kái” era, outrora, também conhecida por “Tai Pou Lám” [12], que significa “andar a passos largos”.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 117 Depois do encerramento de actividade da Quinquilharias Tong Fong (Mariazinha), a loja foi remodelada e passou a ser uma sapataria, sob a designação ROAD STAR, explorada por um dos filhos, que deixou figurar na tabuleta, em letras menores, a anterior designação Quinquilharias Tong Fong (Mariazinha). Do lado esquerdo, está o prédio nº 21-A da Rua de S. Domingos, onde o estabelecimento comercial Quinquilharias Tong Fong (Mariazinha) exerceu actividade durante décadas. Mais tarde, passou a ser uma relojoaria, denominada CITY CHAIN
  • 118 Há, pelo menos, duas versões acerca desse nome “Tái Pou Lám”. Consta que, em princípios do século XX, quando a Rua de S. Domingos foi reconstruída e renovada, no seguimento de um projecto proposto pelo grande obreiro de vias públicas, o engenheiro Augusto de Abreu Nunes, Director das Obras Públicas, as obras que lá se fizeram implicaram a expropriação e a demolição de prédios velhos, passando aquela Rua a ser mais larga e com um novo alinhamento, e tais obras proporcionaram mais espaços para novas construções [12]. Enquanto os novos prédios não eram edificados, não havia sombra sequer em todo aquele troço da rua e o sol abrasador batia directamente no solo empedrado ou no piso de terra batida e, deste modo, ficava ardente nas tardes do verão. Como naqueles tempos era hábito de chineses pobres, incluindo operários, andarem descalços, quando caminhavam debaixo do sol fulgurante, e para minimizar o ardor causado à planta dos pés, era necessário “tái pou lám”, ou seja, andar a passos largos. Uma outra versão mais antiga, que parece ter mais lógica, refere que apenas uma parte da Rua de S. Domingos era conhecida por “Tái Pou Lám”, ou melhor, o troço situado próximo da Calçada das Verdades (ou do Beco da Arruda, no lado oposto) até à Travessa dos Anjos, onde dantes terminava a referida Rua de S. Domingos. Como consta em publicações oficiais, existiu em meados do século XIX uma via designada Travessa dos Diabinhos, que começava no lado da Rua do Campo e acabava no fim da Rua de S. Domingos. Quando os ricos negociantes chineses começaram a residir naquela Travessa, para eles, o nome Diabinhos (“kwâi châi”, 鬼仔) era de mau agoiro e, por isso,
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 119 foi depois alterado para Travessa dos Anjos (em cantonense, 天 神 巷 “Tin Sân Hong”). Ora, quem eram os “diabinhos”? Para os chineses, os filhos de portugueses ou estrangeiros eram conhecidos por “kwâi châi”, e como esses diabinhos gostavam de assustar ou pregar partidas aos chineses quando por ali passavam na escuridão da noite, por isso, com receio de algum mal lhes pudesse acontecer, tinham que “tái pou lám”. Mesmo que tais traquinices não fossem verdade, bastava apenas o nome “kwai châi”, dado àquela Travessa, para causar susto às pessoas que por lá transitavam. Recentemente, perguntámos a várias pessoas, sobretudo as que vivem há largos anos na Rua de S. Domingos, se sabem onde era a rua que antigamente se chamava “tái pou lám” e a resposta obtida era simplesmente “ng chi” (não sei) ou “mei t’éng kwó” (nunca ouvi). ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS QUE EXISTIRAM NA RUA DE S. DOMINGOS, A PARTIR DE MEADOS DO SÉCULO XX ATÉ À RESPECTIVA CESSAÇÃO DE ACTIVIDADE No rés-do-chão dos prédios da Rua de S. Domingos, outrora funcionaram, tal como hoje funcionam, estabelecimentos comerciais, excepto o prédio nº 13, que o empresário José Maria da Luz mandou construir em 1927 para sua residência. Deste prédio apenas resta a fachada, porquanto, depois de ter sido vendido, foi demolido e reconstruído para fins comerciais.
  • 120 Muitos dos prédios construídos entre princípios e os anos 30 do século XX, segundo o novo alinhamento que fora traçado, após expropriações de prédios antigos para o alargamento da rua, já não existem, visto que, a partir de meados dos anos 70 do século XX, foram, um atrás do outro, demolidos para dar lugar a novas construções, incluindo aquele conjunto de prédios, situado entre a Travessa da Sé e a Travessa do Bispo, construído pelo referido empresário José Maria da Luz, que, além disso, também construiu o Teatro Capitol, de que foi proprietário. Os estabelecimentos comerciais a seguir mencionados não representam uma listagem completa e sequencial de todos aqueles que exerceram actividades, em diferentes períodos de tempo, na Rua de S. Domingos, porquanto apenas se pretende aqui recordar alguns deles que se tornaram memoráveis, enquanto estiveram em actividade. Assim: (No lado da numeração policial ímpar) Do Largo de S. Domingos até à Rua da Palha Alfaiataria WENG WA ( 永華洋服 ) e, depois, Sopa de Fitas MAK KAO KEI (麥九記麫家) ; Café CHIP SENG (捷成咖啡公司) ; BARBEARIA SANITÁRIA PORTUGUESA ( 美斯髮型屋 ) ; FARMÁCIA UNIVERSAL ( 環球大藥房) ; Livraria LAP SON (立信書局) ; Artigos Eléctricos POU WA (寶華電業器材) . Da Rua da Palha até ao Beco da Romã Livraria e Papelaria HO TAI ( 可大 ), uma loja muito frequentada pela juventude, porque era ali que se vendiam os livros “hit songs” e cópias de fotos de actores e cantores então em voga; Padaria SAM HO (三可麵飽公司) ; Livraria
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 121 SIU SIU (小小書店) ; Artigos Eléctricos CHUI MAN KEI (徐文記電器 ) ; Artigos de Escritório YEK CHI (益智文具) ; Café HEONG TOU (香島咖啡) ; Lavandaria WA MEI (華美洗衣) ; Café MA HENG HONG (馬慶康咖啡). O prédio nº 13 da Rua de S. Domingos foi mandado construir por José Maria da Luz em 1927 para residência da sua família. Após ter sido vendido, foi mais tarde demolido e reconstruído para fins comerciais, tendo-se mantido apenas a fachada. Do Beco da Romã até à Calçada das Verdades Café T’ÁN TOU (檀島咖啡 ) ; LAU FÓ KEI (劉科記 ) ; Quinquilharia TIN SAN (天生百貨 ) ; Quinquilharia TUNG FONG (Mariazinha) (東方百貨公司 ) ; Farmácia Chinesa LUEN ON (聯安中藥房) ; Sapataria TAI KÓNG (大光皮鞋);
  • 122 Loja de Frutas KAM KEI (錦記生果) ; Sopa de Fitas NGAN HEI (銀禧麫家 ) ; MAY MAY KONG SI (美美公司 ) ; Padaria MAXIM (美心餅店) ; Sapataria A-LÓ (亞羅皮鞋) . Sapataria A-Lo, a mais antiga loja ainda em actividade desde o século passado. A rampa do lado direito é a Calçada das Verdades, por onde se pode ir até à Fortaleza do Monte. (No lado da numeração policial par) Do Largo de S. Domingos até à Travessa da Sé Barbearia SHANGHAI (上海理髮公司) ; Alfaiataria CHIM WA (占華洋服) ; Casa de Penhores TAK SENG (德成大押) ; Alfaiataria NGA WA (雅華時裝) ; Alfaiataria TAI KUN (大觀時裝) e, no primeiro andar, Dentista Liu Yick Tong (廖益棠牙醫) ; Fazendas WENG SAN (永新絲綢服裝行) ; ÜN CHI HONG (原子行). Da Travessa da Sé até à Travessa do Bispo Alfaiataria HANG IAU (恆友洋服) ; Tabacaria LÓK KEI (樂記行) ; Relojoaria MENG KEI (明記鐘錶店) ; COLÉGIO CHUNG WAH (中華英文書院 ), um estabelecimento de ensino de chinês e inglês, que ocupava o r/c e o 1º andar; Taxi NEW YORK (紐約的士) .
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 123 Da Travessa do Bispo até ao Beco da Arruda Barbearia HONG SENG (康城髮廊 ); Alfaiataria WA TANG (華登西裝) ; Quinquilharias SAN KWONG (新光百貨) ; LEI ÜN KEI (李源記百貨) [13] ; YENG WA Mariazinha (英華百貨), esta loja, no prédio nº 22-B; e, a partir deste prédio, desde nº 24 até nº 36, funcionaram, em épocas diferentes, nomeadamente Quinquilharias LAU IEONG KEI (劉楊記 ), Livraria SENG KWONG (星光書店), Foto LILY (百合照相), Sorvetes CHIU KEI (超記雪糕), Leitaria I SON (義順鮮奶), Barbearia LOK SENG (樂聲美容院), Restaurante PARIS (巴黎餐廳) e, no primeiro andar, Salão de Bilhar TAI TONG (大同俱樂部) e, no último prédio da rua, Tipografia e Artigos de Escritório VO KEI (和記印刷行 ). Antes da demolição do antigo prédio nº 20, a Engª. Gaby de Senna Fernandes tinha o seu Gabinete de Engenharia no 1º andar. A Livraria Portuguesa, onde começa o troço da Rua de S. Domingos, outrora conhecido por “Rua das Mariazinhas” À excepção da Sapataria A-LÓ ( 亞羅皮鞋 ), todos os estabelecimentos comerciais acima referidos já não se encontram em actividade na Rua de S. Domingos, uns encerraram mais cedo que outros, restando apenas alguns
  • 124 que se mudaram para outras localidades [14], primeiramente devido à demolição dos antigos prédios para reconstrução de novos edifícios, sobretudo do lado da numeração policial par e, mais tarde, por aumento excessivo do preço de arrendamento, que actualmente só é comportável para estabelecimentos que vendem artigos de luxo ou de marca, tais como relojoarias, ourivesarias, vestuário e calçado de desporto, perfumarias e produtos de beleza ou cosméticos. No meio de tanta concorrência, nem todas as lojas conseguem sobreviver ao negócio e, por isso, hoje em dia é habitual ver lojas a fecharem após alguns anos de actividade, sobretudo quando o contrato de arrendamento não é renovado, motivado por aumento do preço do arrendamento, podendo assim os proprietários alugar os seus prédios a quem ofereça o valor pretendido. Mantém-se também em funcionamento a LIVRARIA PORTUGUESA, que abriu as portas a 11 de Junho de 1985, e que continua a ser um local bastante visitado por clientes residentes e turistas. NOTAS: [1] Era o sistema de construção adoptado nos primórdios do estabelecimento dos portugueses, incluindo as primeiras capelas ou igrejas, que eram feitas de tábuas de madeira. As igrejas construídas com paredes de taipa só tiveram lugar sobretudo a partir de princípios do século XVII. Apesar disso, apenas a igreja de S. Domingos ficou com a designação “Pán Cheong T’óng” até ser alterada para “Mui Kwai T’óng”.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 125 [2] Significado do termo “pán cheong” constante do Dicionário Chinês-Português, editado em 1962, pelo Governo da Província. [3] Relativo a rosário, visto que a igreja é dedicada à Nossa Senhora do Rosário. [4] Em Setembro de 2017, as procissões católicas de Nossa Senhora de Fátima e do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos foram incluídas na lista de património intangível de Macau. [5] Em 2017, ano do Centenário das Aparições em Fátima, por decisão do Bispo da Diocese, D. Stephen Lee, as comemorações de 13 de Maio tiveram lugar na Sé Catedral, em vez de na Igreja de S. Domingos, onde tradicionalmente se realizam desde 1929. [6] O Tesouro de Arte Sacra é um espólio constituído por cerca de 300 artefactos religiosos, dos séculos XVII a XIX, os quais incluem objectos sacramentais em prata, bronze e ouro, estátuas em madeira, gesso e marfim, pinturas a óleo, etc. [7] Em 1876 foi publicada a Portaria nº 72, do Governo da Província de Macau e Timor, na qual menciona o seguinte: “propondo o Director das Obras Públicas que, para melhoramento do Largo de S. Domingos, convém que seja expropriada uma parte do terreno em que se acha construída a casa pertencente aos chinas Leon-lo-gui e Leong-a-loc...”, o Governador Lobo de Ávila, em conformidade com o voto afirmativo do Conselho do Governo, declarou de utilidade pública e urgente a referida expropriação. [8] A Rua do Hospital foi alterada para Rua de Pedro Nolasco da Silva, em 6 de Junho de 1942. Era na Rua do Hospital onde estavam sediadas as mais importantes firmas estrangeiras, até serem transferidas para Hong Kong, depois de esta ilha ter sido cedida ao Reino Unido, em 1842, pelo Tratado de Nanjing, na sequência da derrota da China na 1ª Guerra do Ópio. [9] Os chineses, por seu lado, dizem que a designação “Ou Mun Kai” provém da Rua dos Mercadores, outrora conhecida por “Rua Grande do Bazar”, ou seja, “Tai Kai”, em chinês.
  • 126 [10] O estabelecimento comercial Quinquilharias Tung Fong, quando iniciou a sua actividade, não tinha o nome Mariazinha escrito entre parêntesis, e naquela altura estava localizado no prédio nº 20 da Rua de S. Domingos. Mais tarde, mudou-se para o prédio nº 21-A, no lado oposto da rua, onde continuou a exercer a sua actividade até ao encerramento, ocorrido em princípios do século XXI. [11] A Quinquilharias Tong Fong (Mariazinha), depois de encerrar seu negócio, um dos filhos continuou a explorar no mesmo local uma nova actividade – uma sapataria, sob o dístico comercial ROAD STAR, mantendo-se, no entanto, na tabuleta, a designação, em letras pequenas, Quinquilharias Tong Fong (Mariazinha). Esta nova actividade não prosperou e acabou por encerrar definitivamente todo o seu negócio. [12] A designação “Tai Pou Lám” consta do Cadastro das Vias Públicas de Macau, de 1905. [13] Depois da reconstrução e renovação, em princípios do século XX, a Rua de S. Domingos ficou mais larga que a Rua do Hospital (presentemente, Rua de Pedro Nolasco da Silva), que agora começa no edifício do Teatro Capitol, em vez de na Travessa dos Anjos. [14] Junto a LEI ÜN KEI havia uma pequena e estreita loja, denominada “Leong Iao” (良友), que atraía a rapaziada, visto que era onde se vendiam viaturas em miniatura “Dinky Toys”, além de outros brinquedos tão apreciados, que a juventude gostava de possuir ou coleccionar. [15] Os estabelecimentos que se mudaram para outras localidades e continuaram as suas actividades foram, designadamente, Café CHIP SENG (捷成咖啡公司) ; Livraria SENG KWONG (星光書店); e Leitaria I SON (義順鮮奶), conhecida pelo nome “a vaquinha”, por a tabuleta apresentar o desenho de uma vaca leiteira. Em virtude de mudanças frequentes de estabelecimentos comerciais, não estão referidos neste trabalho
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 127 todos aqueles novos estabelecimentos que operaram na Rua de S. Domingos depois do ano 2000. Publicações consultadas: • Toponímia de Macau, do Pe. Manuel Teixeira; • Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau; • O blogue nenotavaiconta, nomeadamente no que respeita à Igreja e Convento dos Dominicanos de Nossa Senhora do Rosário. • Boletins Oficiais do Governo da Província de Macau. • Cadastros das Vias Públicas de Macau. Obs.: Este texto foi revisto e actualizado em Julho de 2021. O texto original fora publicado em “Crónicas Macaenses”, em 12 de Dezembro de 2018. Largo e Rua de S. Domingos, nos anos 70-80
  • 128 Rua de S. Domingos, com as actuais lojas Fachada da igreja de S. Domingos, vista da Rua de S. Domingos
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 129 Outro aspecto da Rua de S. Domingos, vendo-se do lado direito a entrada para a Rua da Palha, que vai ter às Ruínas de S. Paulo. O conjunto de prédios com varandas e o prédio mesmo ao lado da igreja foram construídos no terreno anteriormente ocupado pelo antigo Convento dos Dominicanos. Junção da Rua de S. Domingos com a Rua da Palha
  • 130 Aspecto da Rua de S. Domingos, nos anos 70-80 do século passado. Em finais da década de 1900, o pavimento deste troço da rua foi revestido com calçada à portuguesa, passando a ser uma zona pedonal. Do lado esquerdo, o conjunto de prédios, entre a Travessa do Bispo e a Travessa da Sé, construído no primeiro quartel do século XX, foi já completamente demolido
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 131 Rua de S. Domingos, vista junto da Travessa do Bispo, que fica do lado esquerdo. Em frente, onde acaba a calçada à portuguesa, termina a zona pedonal Aspecto da Rua de S. Domingos, do lado de numeração ímpar, em Novembro de 2018. Pormenores das varandas de um conjunto de prédios, do lado de numeração policial ímpar, da Rua de S. Domingos
  • 132 Rua de S. Domingos, no troço a partir do cruzamento entre a Rua da Palha e a Travessa da Sé Rua de S. Domingos, próximo do cruzamento com a Travessa da Sé (lado direito, a seguir ao edifício amarelo, onde outrora estava “ÜN CHI HONG”, conhecida por loja americana) e a Rua da Palha (lado esquerdo)
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 133 Antes da demolição dos antigos prédios, a Yeng Wa Mariazinha exercia actividade na actual loja “ecco” e onde está “adidas” outrora estava a Quinquilharias Lei Ün Kei. Junto a esta loja havia um estreito corredor, onde se vendiam brinquedos, nomeadamente os “Dinky Toys” Edifício nº 2 do Largo de S. Domingos, onde esteve instalada a Livraria Po Man Lau (寶文樓印務書局 ), cujos caracteres, em chinês, representam Pou Man Lau Tipografia e Livraria (embora dedicasse também a outras actividades, designadamente, fotografia e papelaria), era um estabelecimento comercial muito activo e popular, principalmente durante os anos 50 do século passado. Mudou-se depois para o Largo do Senado, nºs 13-15, onde funcionou até ao seu encerramento.
  • 134 Edifício situado no Largo de S. Domingos, mesmo em frente à igreja, onde Sun Chung Hong, agente exclusivo de cervejas Tsingtao, tinha o seu estabelecimento. Foi neste prédio que o médico O Lon (柯麟), um membro do partido comunista, enviado para Macau em 1935, abriu a sua clínica médica e onde ele colocou, em 1 de Outubro de 1949, a bandeira vermelha de cinco estrelas para celebrar a implantação da República Popular da China. O Lon (柯麟) exerceu funções de director do Hospital Kiang Wu. Clínica do médico O Lon (柯麟), no Largo de S. Domingos
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 135 O primeiro e o segundo prédio do lado esquerdo (nºs. 18 e 18-A), na esquina entre a Travessa do Bispo e a Rua de S. Domingos, depois de demolidos, construiu-se naquele mesmo terreno um edifício multi-pisos, denominado Wing Son Kók (永順閣), no qual está a funcionar, no rés-do-chão, desde 1985, a Livraria Portuguesa Edifício (já demolido), localizado na junção entre a Travessa da Sé e a Rua de S. Domingos
  • 136 Um novo prédio, cuja construção ficou concluída em 2018, localizado mesmo na esquina entre a Travessa da Sé e a Rua de S. Domingos (ver o antigo prédio na foto anterior) Largo de S. Domingos
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 137 RUA DO MASTRO
  • 138
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 139 A SEDE DO TSO-TANG QUE EXISTIU JUNTO DA RUA DO MASTRO A Rua do Mastro já não figura na toponímia de Macau, porquanto este topónimo foi alterado para Rua de Camilo Pessanha, em 1926, a fim de homenagear este poeta simbolista, que foi professor, advogado, juiz e conservador do Registo Predial em Macau, falecido naquele ano. Rua de Camilo Pessanha (outrora denominada Rua do Mastro), vista junto da Rua das Estalagens na direcção da Avenida de Almeida Ribeiro. Do lado direito, está uma loja, relativamente recente, com o dístico comercial iluminado, que vende mariscos secos e outros produtos comestíveis. É desse lado que estava localizado o quarteirão ocupado pelo Tso-tang (ou Chó T’óng) até ao encerramento. Antes de a zona marginal do Porto Interior ser afectada por assoreamento, que motivou a execução de obras de aterro, em diferentes épocas do passado, toda aquela zona ribeirinha era recortada, formando enseadas ou caldeiras. Um dos processos utilizados para a regularização da zona costeira era a construção de diques ou molhes em zonas alagadas, que iam secando gradualmente. Deste modo,
  • 140 criaram-se novos aterros que depois foram aproveitados em construções de prédios para fins residenciais e comerciais, e cujos aterros contribuíram para a expansão do território, de forma a poder acomodar a sua crescente população. O dique ou molhe que se construía era utilizado sobretudo pela população marítima como local de atracagem. Por essa razão, era designado, em chinês, por 塘 (t’óng), cujo carácter pode significar “molhe” ou “dique”, ou então, local de abrigo em caso de tufões ( 避風塘 , em cantonense, “pei fông t’óng”). Hoje em dia, esse tipo de molhe ou dique já não existe, restando apenas registados na toponímia local nomes de várias vias públicas que originaram do referido 塘 (t’óng), nomeadamente “Lou Sék T’óng” (爐石塘 ), Pák Ngán T’óng (白眼塘 ) e “Lam Mau T’óng (林茂塘). Um aspecto do Largo da Caldeira (em finais do século XIX), em que é visível um muro de granito, que fazia parte do dique ali construído, mas já depois do aterro da caldeira e antes do alargamento das vias marginais. Do lado esquerdo, o edíficio de 3 pisos era a então famosa casa de chá (ou restaurante) Hâng Heóng Chá Lau (杏香茶樓), onde reunia a elite chinesa e, do lado direito, há vários “jerinxás” ou “riquexós” estacionados, à espera de clientes, porquanto naquela altura eram o principal meio de transporte público.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 141 Com a construção de um dique na enseada conhecida por “Lou Sék T’óng” e, subsequentemente, aterros que ali se fizeram, foram surgindo, em toda aquela zona, novas construções e novas vias, designadamente a então Rua do Mastro. O molhe que foi construído mais a sul de “Lou Sék T’óng”, fechando praticamente uma caldeira [1] que lá existia e que se destinou a facilitar a atracagem de embarcações, ficou conhecido, em chinês, por “Pák Ngán T’óng” [2] , e cuja zona, após o aterro da caldeira, nos anos 70 do século XIX, se transformou num largo, a que se deu o nome de Largo da Caldeira, que já não existe, por ter sido aproveitado para construção de prédios. Havia ainda uma enseada, a norte de “Lou Sék T’óng”, na qual também existiu um molhe ou barreira, para efeitos de retenção da areia que ali abundava, designado por “Pák Sá T’óng” (白沙塘 , significando “Pák Sá” 白 沙 , areia branca), também conhecido por “Sá Lán T’óng” ( 沙欄塘 , sendo “Sá Lán” 沙欄 , barreira de areia) e cuja designação já deixou de constar do actual Cadastro das Vias Públicas, restando apenas a de “Sá Lán Châi” (literalmente, pequena barreira de areia), “Sá Lán Châi Kai” (Rua do Tarrafeiro) e “Sá Lán Châi Lei “ (Beco do Tarrafeiro) e “Sá Lán Châi Ch’é Lou” , também designado por “Fá Wong T’óng Ch’é Hóng (Calçada do Botelho). UMA SÓ GRAMÍNEA DEU NOME A VÁRIAS VIAS PÚBLICAS De acordo com informações obtidas em publicações chinesas, a água que cobria a enseada de “Lou Sék T’óng” era pouco funda, cujas circunstâncias favoreceram o desenvolvimento de uma espécie de gramínea, a que os
  • 142 chineses dão o nome de “lou têk” ( 蘆 荻 ), isto é, um junco aquático, que ao secar se transforma em palha. Esse tipo de junco era regularmente colhido, empilhado ou espalhado para secagem ao longo de um local que, com a abertura de uma nova via, lhe foi dado o nome de “Ch’ou Tôi Kái” ( 草堆街 , isto é, ch’ou (草) , palha ou erva; tôi (堆) , amontoar ou empilhar; e, kai (街) , rua), a qual corresponde a actual Rua das Estalagens [3]. Esta gramínea é vulgarmente conhecida, em cantonense corrente ou falado, pelo nome de “hám sôi ch’ou” (鹹水草, que significa “grama de água salgada”) ou, simplesmente, “hám ch’ou” ( 鹹 草 , literalmente, grama salgada) que, depois de tratada e enquanto húmida, se torna muito resistente, sendo, naqueles tempos, muito utilizada como atilho [4] em estabelecimentos comerciais ou nos mercados, e sobretudo em tendinhas nas vias públicas, por ser mais prático e económico que o cordel. A dita gramínea, que por ali se propagou, foi determinante na atribuição de nomes, não só a toda aquela zona, como também a várias vias públicas. Além da citada via “Ch’ou Tôi Kái”, assim designado, por ter sido aquele local onde empilhavam o junco para secagem, existiu também um outro local, no seguimento dessa via, que entronca com o início da Rua de S. Paulo e o fim da Travessa dos Algibebes, a que foi dado o nome de Rua da Palha, onde se vendia, designadamente, o referido “hám ch’ou” (grama salgada), que servia para diversos fins, incluindo o citado uso como atilho. Por isso, até hoje, a designação da Rua da Palha, em chinês, é “Mai Ch’ou Tei Kái” (“mai chou”, 賣草 vender palha; tei 地 , terreno, sítio ou localidade; e, “kai” 街 , rua), que literalmente significa “a rua do sítio onde se vende palha”. Além da Rua da Palha, há ainda o Beco da Palha ( Kón Ch’ou
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 143 Lei 乾草里 , sendo “Kón Ch’ou”, palha seca, e “Lei”, Beco) e o Pátio da Palha ( Kón Ch’ou Wai 乾草圍 , sendo “Kón Ch’ou”, palha seca, e “Wai”, Pátio). A via que se vê é a Rua das Estalagens. Em primeiro plano, vê-se um homem a caminhar para a Rua de Camilo Pessanha. O prédio de 3 pisos, implantado na esquina, fazia parte do quarteirão ocupado pelo Tso-tang (Chó T’óng). Ao fundo, do lado esquerdo, vê-se um placard vermelho e, andando uns metros adiante, chega-se ao Beco dos Cotovelos, que era o limite ou a estrema do quarteirão. A RUA DO MASTRO QUE EXISTIU NA TOPONÍMIA DE MACAU Até ao ano de 1926, existiu uma via pública, denominada Rua do Mastro, em chinês, Lou Sék T’óng Kai ( 爐石塘街 ). Os dois caracteres “Lou Sék” (Lou 爐 , fogão, e Sék 石 , pedra), tal como se apresentam, em
  • 144 posição invertida, não formam, em chinês, um termo que significa “fogão de pedra” ou coisa parecida. Cremos que, originalmente, o termo derivou de “Lou Têk” ( 蘆 荻 ), uma espécie de junco aquático que floresceu naquela zona, o qual deu origem ao nome “Lou Têk T’óng”, (蘆荻塘 , ou seja, dique do juncal) e que, posteriormente, teria sido deturpado para “Lou Sék T’óng” (蘆石塘, sendo “Lou”, junco, e “Sék T’óng”, dique de pedra), porquanto a população marítima falava dialectos diferentes. A errónea alteração do caracter “lou ” (蘆 , do termo “lou têk” 蘆 荻 , uma espécie de junco) para o caracter homófono “lou” (爐 , fogão) acabou por ser adoptado na toponímia local, apesar de o termo “Lou Sék” ( 爐 石 ), desta forma escrito, não ter qualquer significado lógico na língua chinesa. Nos tempos em que a população marítima atracava as suas embarcações junto do dique, conhecido por “Lou Sék T’óng” (蘆石塘), havia ali próximo dois mastros, semelhantes aos mastros que existiam noutros locais de atracagem, e que no período da noite ali penduravam dois lampiões acesos, tais como faróis, para orientação da navegação, e devido à existência daqueles mastros, deram então à via o nome de Rua do Mastro. Naquela época existiu também, não muito distante do referido local, um outro mastro mais imponente, localizado próximo do actual Pátio da Mina, onde estava estabelecido o principal posto alfandegário, conhecido por “Hopu grande”, que tinha poderes específicos, sobretudo na cobrança de impostos alfandegários em Macau. Teria sido aquele mastro que o governador Ferreira do Amaral deu
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 145 ordens para o deitar abaixo, depois de mandar encerrar o “Hopu” em Macau. Recordemos, então, o seguinte trecho, parcialmente extraído e adaptado do livro Toponímia de Macau, Vol. I, baseado na descrição de Marques Pereira: Aspecto actual da esquina do quarteirão, sito na junção da Rua das Estalagens com a Rua de Camilo Pessanha. Para dar execução ao decreto de sua Majestade D. Maria II, pelo qual havia sido declarado Macau porto franco, a 5 de Março de 1849, [5]Amaral mandou publicar o edital da abolição do “hopu”, no qual declarou “que depois de oito dias a contar da data deste, todas as fazendas, comestíveis e mais artigos de uso importados dos portos da China para Macau, ou exportados de Macau para os portos da China ficam isentos de pagar aqui direitos, e nenhuma cobrança desde essa data em diante se consentirá
  • 146 pelos hopus desta cidade”. Findo o prazo e continuando o “hopu” a funcionar no dia 13, Amaral mandou fechá-lo à força. Cumprida a missão, participaram ao governador que o edifício estava fechado, restando em frente um mastro com bandeirolas, tabuletas e outras insígnias de autoridade chinesa. Então, Amaral deu ordem por escrito: “Deite abaixo”. A tarefa foi executada à machadada por dois ou três negros perante uma multidão de chineses e de alguns cristãos, quietos e silenciosos e, conforme o relato, quando o mastro foi derrubado, o silêncio da multidão foi quebrado pela voz de um cristão: “Acabou Macau”! Não acabou, porém, naquele dia, pois a administração portuguesa ainda se manteve por mais século e meio. Como se sabe, o Governo Chinês nunca abdicou dos seus soberanos direitos respeitantes às terras ocupadas por estrangeiros e sempre sustentou que o exercício da soberania sobre o território de Macau apenas foi suspenso a partir do governo de Ferreira do Amaral, designadamente quando determinou o fim do pagamento do foro do chão, ou seja, a renda anual que se pagava pelo usufruto do território cedido, cujas fronteiras nunca foram definidas ou reconhecidas pela China. Conforme dito e reafirmado por dirigentes do governo chinês, a soberania sobre o território seria retomada em tempo oportuno e, por conseguinte, em finais do século passado, após negociações, o território de Macau sob a administração portuguesa cessou em 20 de Dezembro de 1999, com a sua transferência para a
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 147 República Popular da China, passando Macau, a partir de então, a ser uma Região Administrativa Especial da China. A Rua do Mastro já não figura na toponímia de Macau, porquanto este topónimo foi alterado para Rua de Camilo Pessanha, em 1926, a fim de homenagear este poeta simbolista, que foi professor, advogado, juíz e conservador do Registo Predial em Macau, falecido naquele ano. Resta, no entanto, a Travessa do Mastro (爐石塘巷 Lou Sék T’óng Hóng), que começa na Rua da Felicidade, em frente da Travessa da Felicidade, e termina na Avenida de Almeida Ribeiro, em frente da Rua de Camilo Pessanha. Placa toponímica da Travessa do Mastro, que começa junto da Rua da Felicidade, mesmo no edifício onde se encontra instalado o famoso e centenário Restaurante Fat Siu Lau, e termina na Avenida de Almeida Ribeiro, em frente da Rua de Camilo Pessanha (anteriormente designada por Rua do Mastro). TSO-TANG ou CHÓ T’ÓNG (佐堂 , em pinyin, ZUOTANG), também designado por YÜN SÊNG ( 縣丞 , em pinyin, XIAN CHENG), isto é, DELEGADO OU ASSISTENTE DO MANDARIM Além de Hopu, que era uma delegação da alfândega chinesa dependente da Alfândega Marítima da Província de Cantão
  • 148 e que se estabeleceu em Macau em finais de 1684 ou início de 1685, cujos poderes consistiam essencialmente na cobrança de impostos alfandegários, existia também uma outra autoridade, conhecida pelos portugueses por Mandarim da Casa Branca, que era adjunto do Magistrado do Distrito de Xiangshan (em cantonense, Heong Sán), o qual, em 1732, fora destacado para Qianshan (前山, em cantonense, Chin Sán), a fim de se encarregar dos assuntos administrativos e judiciais dos residentes chineses e estrangeiros de Macau. No entanto, para melhor vigiar os estrangeiros e intervir nos assuntos administrativos e judiciais, foi designado em 1736 um delegado ou assistente, conhecido por Tso-tang (佐堂, em cantonense, Chó T’óng e, em pinyin, Zuotang), a quem foram delegadas parte das atribuições do mandarim da Casa Branca, tendo esse delegado, mais tarde, passado a residir dentro da cidade de Macau. Hoje em dia, é possível localizar, aproximada- mente, onde estava sediada a delegação do Tso-tang [6], visto que existe uma via pública, junto da Rua das Estalagens, que indica a delimitação na parte tardoz daquela delegação, cujo topónimo, em português, é Beco dos Cotovelos e, em chinês, “Sâu Châu Lei” ( 手肘里 , isto é, “Sâu Châu”, Cotovelo, e “Lei”, Beco), mas também é designado por Chó T’óng Lán Mei (ou seja, Chó T’óng 佐堂 [7], assistente do Mandarim; Lán ( 欄 ), cerca ou barreira; e, Mei ( 尾 ), extremidade ou fim). Tal como a alfândega chinesa Hopu, que foi encerrada por ordem do governador Ferreira do Amaral, em Março de 1849, a delegação do Tso-Tang também foi encerrada naquele ano, visto que, o então delegado, Wang Zheng (汪
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 149 政), assim que soube do assassinato de Ferreira do Amaral, naquela mesma noite de 22 de Agosto de 1849, com receio de represálias, fugiu apressadamente de Macau e nunca mais regressou. Nem ele, nem os seus sucessores no cargo voltaram a residir em Macau. Placa toponímica do Beco dos Cotovelos, que em chinês também é conhecido por Chó T’óng Lán Mei (左堂欄尾), como constam os quatro caracteres escritos entre parêntesis. Nota: O caracter 左 (que significa esquerdo) está incorrecto, pois deveria escrever-se 佐 (que significa assistente ou delegado). Entrada para o Beco dos Cotovelos, cuja placa toponímica está afixada na parede do lado direito.
  • 150 Subsequentemente, houve tentativas para fazer regressar a alfândega chinesa, no entanto, tal não aconteceu. A situação alterou-se sobretudo depois de o governo imperial ter nomeado o diplomata britânico, Robert Hart [8], para dirigir e reorganizar a Alfândega Chinesa, como medida para satisfazer os países ocidentais, visto que reclamavam uma justa tarifa às importações estrangeiras. Outro aspecto do começo do Beco dos Cotovelos, vendo-se duas mulheres a caminharem para a Rua das Estalagens. O prédio de cor ocre já foi parcialmente demolido para reconstrução. Apesar disso, as relações entre as autoridades portuguesas e chinesas não foram suspensas. O governo imperial continuou a nomear mandarins para se encarregarem dos assuntos dos chineses em Macau, embora os magistrados designados passassem a residir fora do território de Macau. Nessas circunstâncias, o modo de relacionamento ou de contacto era mantido sobretudo através de correspon-
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 151 dência oficial trocada entre as autoridades portuguesas e chinesas, conhecida por “chapas sínicas”, um procedimento que vinha sendo adoptado desde finais do século XVII. No entanto, quando havia algum assunto importante para resolver, as autoridades chinesas vinham a Macau, como relata a seguinte notícia, datada de 18 de Julho de 1868: “Esteve em Macau um mandarim, condecorado com o botão da 6ª ordem superior, chamado Ip Chiu-chi, o qual veio da parte do vice-rei de Cantão cumprimentar S. Exa. o Governador, e pedir o seu auxílio para se descobrirem certos indivíduos suspeitos de um crime perpetrado em território chinês”. Da parte do governo português, também há notícias de que governadores de Macau e outras entidades por vezes faziam visitas de cortesia a autoridades de Cantão. De igual modo, existe um relato a respeito da visita do ex-Vice-Rei de Cantão, Liu Kunyi (劉坤一 ), que fez a Macau, após sua nomeação como governador de Liangjiang (兩江總督 ), em 25 de Janeiro de 1880, tendo sido recebido no Palácio pelo governador Joaquim da Graça, acompanhado por muitos funcionários eclesiásticos, civis e militares e alguns cônsules estrangeiros, sendo esta a primeira vez que o governo de Macau recebeu uma autoridade chinesa de tão elevada posição. Por conseguinte, os contactos entre o governo português e as autoridades chinesas não cessaram, mesmo após o encerramento da alfândega chinesa em Macau, passando a ser feitos, desde então, de modo diverso.
  • 152 Com a implantação da República, primeiro em Portugal, a 5 de Outubro de 1910 e, depois, na China, quando, em 12 Fevereiro de 1912, o último imperador, Puyi, abdicou definitivamente, pondo fim à dinastia imperial, o relacionamento entre as autoridades portuguesas e o novo governo republicano chinês entrou numa nova fase. Devido à alteração no regime político, ocorrida tanto em Portugal como na China, a partir de então, a comunidade chinesa de Macau, nas suas relações com o governo português, passou a ser representada por personalidades oriundas da classe abastada e com posição social, que actuavam, quer como colaboradores, quer como interlocutores ou intermediários, na resolução de casos ou situações, por vezes críticas, ou até mesmo conflitos, que ocasionalmente ocorriam. EMPRESÁRIOS CHINESES QUE SE DESTACARAM NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX E NO SÉCULO XX As convulsões internas na China, na segunda metade do século XIX, motivadas pela Rebelião Taiping (1851-1864), levaram muitos chineses a refugiarem-se em Macau, incluindo comerciantes que trouxeram as suas riquezas para aqui se estabelecerem e desenvolverem as suas actividades. Outros, porém, menos abastados, mas com capacidade ou visão de negócio, conseguiram fazer fortunas, visto que Macau entrou numa nova era – a chamada era colonial, após o governo de Ferreira do Amaral, sem restrições por parte de mandarins, que durante séculos supervisionaram e interferiram na administração local.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 153 Com mais liberdade administrativa, os governadores que vieram depois de Ferreira do Amaral prestaram maior atenção à promoção e melhoria das relações entre residentes portugueses e chineses, tendo implementado várias novas medidas políticas para o efeito, tais como a auscultação de opiniões dos mais representativos empresários chineses, tendo essa medida contribuído para um processo harmonioso de relacionamento entre o governo e a comunidade chinesa local e, também, criado um clima favorável ao desenvolvimento de actividades comerciais e de investimento. Foi assim que, ao longo da segunda metade do século XIX, foram surgindo vários empresários chineses, que se destacaram devido à fortuna que conseguiram fazer nos seus negócios, tendo aplicado depois parte da riqueza na promoção do bem-estar social, com a criação de instituições de beneficência e de assistência médica e hospitalar à população chinesa. Desses empresários, destacaram-se, designadamente, Chou Iao (曹有), Fong Seng (馮成), Ho Quai or Ho Louquai (何老桂), Vong Lok (王祿), Vong Tâi (王帝), Sâm Vong (沈旺), Tak Fung (德豐), Ho Lin Vong (何連旺), Chan Lok (陳六), Lou Cao (盧九), etc. O governo português, por seu lado, não se alheou das boas acções praticadas por empresários chineses. Por isso, pelo contributo que deram à sociedade, Chou Iao (曹有) e Fong Seng (馮成, naturalizado cidadão português, com o nome de Francisco Xavier) foram os primeiros empresários chineses a serem agraciados, respectivamente com as mercês honoríficas de Cavaleiro da Ordem Militar de Nossa Senhora
  • 154 da Conceição de Vila Viçosa e Cavaleiro da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, em 1881. Desde então, o contributo de empresários chineses para o desenvolvimento do território de Macau, assim como os seus apoios a obras assistenciais e de beneficência, nunca mais pararam. Apesar de alguns incidentes de percurso, pode-se dizer que o relacionamento entre a administração portuguesa e a comunidade chinesa, ao longo do século XX, continuou harmonioso, graças à boa colaboração oportunamente prestada pelos seus representantes, tendo-se destacado, em épocas sucessivas, designadamente Lou Lim Ieoc (盧廉若) [9], Siu Ieng Chau (蕭瀛洲) [10], Kou Ho Neng (高可寧), Ho Yin (何賢) e Ma Man Kei (馬萬祺), Chui Tak Kei (崔德祺), bem assim outros que, apesar de não se assumirem representantes, também deram considerável contributo à administração portuguesa, tal como Ng Fok (吳福 ), que, além de ter promovido significativas obras de desenvolvimento em Macau, até ajudou o governo português, em algumas ocasiões, a desbloquear situações de impasse. Após quase quatro séculos e meio desde o estabelecimento dos portugueses em Macau, a administração portuguesa chegou ao seu termo, tendo a República Popular da China reassumido, no dia 20 de Dezembro de 1999, o exercício da soberania sobre Macau, que passou a ser designada Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), uma Região governada pelas suas gentes, com elevado grau de autonomia, regulada pela Lei Básica, que define os princípios fundamentais da RAEM, bem como o seu relacionamento
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 155 com as Autoridades Centrais da República Popular da China. Essa Lei, baseada no princípio “um país, dois sistemas”, será mantida por um período de 50 anos, até 2049. NOTAS: [1] Uma pequena enseada ou uma espécie de doca para embarcações pequenas. [2] Pák Ngán Tong (白眼塘 , sendo ”pák ngan” 白眼 , olhos brancos, e “tóng” 塘, molhe ou dique). Dizem que deram o nome de “olhos brancos”, devido às bolhas brancas que as ondas da maré faziam quando batiam no molhe. [3] Rua das Estalagens, inicialmente era conhecida por Rua do Jogo, por causa das casas de jogo que lá havia. Devido ao jogo, abriram também naquela rua as melhores e mais conhecidas pensões ou estalagens. Por isso, foi dado à via o nome de Rua das Estalagens. [4] O “hám ch’ou” ainda é utilizado, sobretudo para atar os embrulhos do bolo catupá, que se vende na altura das festividades do Barco Dragão. [5] A então colónia de Hong Kong, oficialmente fundada em 1842, já era porto franco, por isso desde então o comércio em Macau ficou severamente afectado. [6] A delegação do Chó T’óng estaria localizada, aproximadamente, no quarteirão delimitado pela Rua de Camilo Pessanha, Rua das Estalagens, Beco dos Cotovelos e Rua do Pagode. Consta que, nos primeiros tempos, o Chó T’ong vivia em Chôi Mei (翠微 , em pinyin, Cuiwei, Zhongshan), mudando-se
  • 156 depois para o sítio do Matapau e, por fim, junto da Rua das Estalagens. [7] Na placa toponímica está escrito 左堂欄尾 (deveria escrever-se 佐堂欄尾 ), sendo 佐堂 Chó T’óng ou Tso-tang, o cargo de delegado ou assistente de mandarim; Lán (欄), cerca ou barreira; e, Mei (尾), extremidade ou fim. [8] Robert Hart era um diplomata britânico colocado na China, tendo deixado esse cargo em 1859 para tornar-se inspector alfandegário ao serviço do governo imperial. Quatro anos depois, em 1863, foi nomeado Inspector-geral do Serviço de Alfândega Marítima, tendo exercido esse cargo até à sua reforma, em 1908. Durante o longo período em que esteve à frente da Alfândega chinesa, conseguiu transformar aquele serviço antiquado e propensa à corrupção em uma organização moderna e bem regulada, que contribuiu enormemente para a economia da China. [9] Filho mais velho de Lu Cao. [10] Primeiro presidente da Associação Comercial de Macau, fundada em 1912. A actual designação é Associação Comercial Geral dos Chineses de Macau. Publicações consultadas: • Cadastros de Vias Públicas de Macau • Boletins do Governo • Publicações diversas em língua chinesa. Obs.: Este texto foi revisto e actualizado em Julho de 2021. O texto original fora publicado em “Crónicas Macaenses”, em 05 de Fevereiro de 2018.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 157 A Rua do Pagode era, aproximadamente, a outra estrema do quarteirão ocupado pelo Tso-tang (ou Chó T’óng). Ao fundo da via, onde entronca com a Rua das Estalagens, é o início da Rua de Camilo Pessanha. O fim da Travessa do Mastro, no sítio onde entronca com a Avenida de Almeida Ribeiro. Nessa Travessa, além do restaurante Fat Siu Lau, ainda funcionam os conhecidos restaurante chineses Tou Tou Koi e Mou Kei.
  • 158 Do lado direito do prédio de cor ocre, há uma rampa ao cimo da qual termina a Rua das Estalagens; do lado esquerdo, é onde termina a Travessa dos Algibebes; e a placa toponímica, que se vê na parede do prédio de cor ocre, assinala o início da Rua de S. Paulo. A Rua da Palha vista do início da Rua de S. Paulo e fim da Rua das Estalagens.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 159 Actual aspecto de um troço da Rua da Palha, visto do começo da Rua do Monte. A Rua da Palha, vista da Rua de S. Domingos em direcção à Rua de S. Paulo, muito frequentada por visitantes, que vão às Ruínas de S. Paulo.
  • 160
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 161 RUA DO GAMBOA
  • 162
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 163 RUA DO GAMBOA, uma rua em Macau com estranha denominação em chinês A Rua do Gamboa é designada, em chinês, pelo estranho nome “Yé Mó Kai”. Se alguém perguntar a um chinês ou a um residente daquela rua, qual o significado de “Yé Mó”, a resposta é, de imediato, “não sei”. A Rua do Gamboa é uma via pública muito antiga de Macau, pois já constava da relação elaborada, pela primeira vez, por uma Comissão nomeada pelo governador António Sérgio de Sousa, em 12 de Março de 1869, destinada a “determinar e fixar de um modo definitivo os nomes de todas as vias públicas da cidade”. Na dita relação constavam também a Calçada, Travessa e Beco do Gamboa. Existem, portanto, 4 vias com o topónimo Gamboa, para homenagear António José de Gamboa, nascido em Lisboa, donde veio para Macau por volta de 1775 e aqui se dedicou ao comércio, tendo feito uma fortuna sobretudo com o ilegal, mas tolerado comércio do ópio, tornando-se, deste modo, um grande capitalista e proprietário de navios. Além de negociante, desempenhou funções públicas, designadamente o cargo de Procurador do Senado entre 1793 e 1795. Até meados do século XIX, antes das obras de aterro, executadas numa zona onde veio a ser construído, por volta de 1870, um bairro tipicamente chinês, ao longo de uma nova via, a que se deu o nome de Rua da Felicidade, a Rua do Gamboa era a principal e a mais importante via de comunicação entre o Porto Interior e o coração da cidade,
  • 164 por isso era então também conhecida por Rua Direita do Gamboa. Um troço da Rua do Gamboa. Ao fundo, onde se vê um edifício, com passagem por um túnel em arco, era, outrora, um “ponto de controlo”, com vigias que impediam a entrada de indivíduos estranhos, vadios e malfeitores, conhecidos por “lanchaes” (“lán châi”, em cantonense). Presentemente, a Rua do Gamboa começa na Rua da Alfândega, em frente da Calçada do Gamboa, e termina na Rua das Lorchas. A RUA DO GAMBOA NO PASSADO A partir de meados do século XIX, foram feitos progressivamente diversos aterros ao longo da linha de costa em direcção a oeste da península, ou seja, para os lados do Porto Interior. Naquela época, muito antes da abertura da Avenida de Almeida Ribeiro, quem desembarcava num dos cais localizados no Porto Interior e desejando dirigir-se ao centro da cidade, a forma mais conveniente e rápida para um viajante era entrar pela Rua
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 165 do Gamboa e ir até ao cimo onde começa esta rua, e dali, contornando pelo lado esquerdo e descendo pela Rua da Alfândega, chegava-se então ao Largo do Senado. No sítio onde estão a caminhar várias pessoas é a Rua da Alfândega, que intersecta com a Rua do Gamboa (rampa anterior) e a Calçada do Gamboa (rampa posterior). Era, decerto, um trajecto bastante movimentado, talvez até com algum congestionamento, em horas de ponta, apesar de as referidas artérias serem consideradas largas para a época. Por ali circulavam carregadores ou cules [1], que transportavam as bagagens de viajantes, geralmente com uma pinga [2], até ao local designado, pois naquela altura nem toda a gente dispunha de uma cadeirinha ou liteira chinesa, apesar de este meio de transporte ser o mais antigo, utilizado sobretudo por comerciantes ricos e por entidades oficiais. Além de cadeirinhas, circulavam também pela cidade carruagens puxadas a cavalo, para uso privado. No entanto, em meados do século XIX, começaram a utilizar esses dois
  • 166 tipos de meios de transporte para prestar serviços ao público, de forma que o Leal Senado teve de regulamentar a respectiva utilização, cujas disposições ficaram incluídas no Código de Posturas, datado de 21 de Novembro de 1871 [3], no qual se estabeleceu também a respectiva tabela de preços de aluguer. Tabela de preços de aluguer de cadeirinhas e carruagens, aprovada pelo Leal Senado. Só mais tarde, em princípios dos anos 80 do século XIX, é que foi introduzido em Macau um outro meio de transporte, conhecido por jerinxá ou riquexó [4], que, durante muitas décadas, passou a ser um meio popular de transporte, até ser gradualmente substituído por triciclos, a partir de meados do século seguinte [5].
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 167 Relativamente ao uso de carruagens como meio de transporte naqueles tempos, é interessante verificar que ainda existe, próximo do fim da Rua do Gamboa, uma via denominada Travessa dos Trens [6], e que o topónimo, em chinês, é “Má Ché Hóng” 馬車巷 (“Ma Ché” 馬車 , carruagem ou trem puxado a cavalo e, “Hong” 巷 , Travessa), o que evidencia ter existido naquele local uma estação de carruagens de aluguer, puxadas a cavalo, para transporte de passageiros. Placa toponímica da Travessa dos Trens, em chinês, “Má Ché Hóng” 馬車巷 (“Ma Ché” 馬車 , carruagem ou trem puxado a cavalo e, “Hong” 巷, Travessa), sendo esta via também conhecida por “Yé Mó Ch’in Kái” 夜呣前街 (Rua de Frente de “Yé Mó”) e “Má Hóng” 馬巷 (Travessa de Cavalos). QUEM ERAM OS CULES? Originalmente, as cadeirinhas e as carruagens eram usadas sobretudo pela elite e, antes de passarem a ser meios de transporte públicos, a população em geral contratava cules para executarem trabalhos que exigiam grande esforço, incluindo o transporte de bagagens, mercadorias ou
  • 168 materiais, de um local para o outro. Para ganharem algum dinheiro necessário ao seu sustento, havia cules que passavam horas seguidas junto de cais de embarque ou, então, se ajuntavam em locais, dentro da cidade, onde poderiam ser chamados para a prestação de qualquer serviço. Apesar de os cules pertenceram à classe social mais baixa, existe na toponímia local uma via designada Rua dos Cules (em chinês, Tin T’ông Kai “天通街”, que pode significar “rua a céu aberto”, visto que a rua era relativamente larga em relação a muitas outras vias estreitas, em que mal se via a luz do sol), a qual comunica com duas importantes vias de outrora – precisamente, a Rua da Alfândega e a Rua do Gamboa. Aquela via teria sido assim designada devido ao facto de, naqueles tempos, os cules se ajuntavam num canto daquela rua, à espera de serem contratados para qualquer trabalho, sobretudo para carregarem bagagens ou materiais, desde aquela zona da cidade até ao Porto Interior ou, então, para outro local da cidade. Convém notar que os referidos cules (ou coolies, na grafia inglesa) eram trabalhadores assalariados que executavam localmente trabalhos braçais, normalmente muito árduos, os quais nada tinham a ver com outros cules, recrutados no interior da China, os quais, depois de cumprirem todas as formalidades, eram “exportados”, como trabalhadores por contrato, a partir de Macau [7] para países da América Latina, nomeadamente Perú e Cuba, a fim de ali trabalharem como colonos e esses cules eram vulgarmente conhecidos, em chinês, por “Chü Châi” (豬仔 , isto é, porquinhos, pois diziam que eram “vendidos” como porquinhos). Apesar disso, os que embarcavam, com a esperança de um dia
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 169 regressar à sua terra natal com alguma fortuna, tinham que assinar, previamente, um contrato de trabalho e declarar que partiam de livre vontade para o estrangeiro. O sonho de enriquecer era enorme, mas infelizmente nem todos conseguiam realizar esse sonho. Uma boa parte desses emigrantes acabou por se fixar em terras estrangeiras, ali constituindo as suas famílias [8], enquanto outros faleceram, durante a viagem ou no trabalho, vitimados por doenças ou por “falta de ópio”, como constavam dos relatórios oficiais e dos certificados de óbito. O prédio do lado esquerdo, que tem uma parede lateral de cor branca, é onde termina a Rua dos Mercadores. O troço anterior é a Rua da Alfândega e o troço posterior é a Rua dos Cules. A emigração de cules a partir de Macau cessou durante o governo de Januário Correia de Almeida, Visconde de S.
  • 170 Januário, por ordem recebida da Secretaria do Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, tendo o governador, por Portaria nº 89, datada de 27 de Dezembro de 1873, fixado o fim do tráfico de cules para o dia 27 de Março de 1874. No mesmo mês de Março de 1874, por Portaria nº 25, o governador determinou a extinção da Superintendência da Emigração Chinesa, cuja repartição fora criada em Abril de 1860, devido a abusos praticados por angariadores ou agentes, tendo António Marques Pereira sido o primeiro Superintendente [9], nomeado pelo então governador Isidoro Francisco Guimarães. Contudo, a emigração voluntária, sem que fosse imposta qualquer obrigação aos emigrantes, continuou. Rua dos Cules, vista a partir da junção com a Rua do Dr. Soares e a Calçada do Tronco Velho. O PERCURSO ATÉ À PONTE DOS VAPORES O Almirante António Sérgio de Sousa foi governador de Macau no período entre 3 de Agosto de 1868 e 23 de Março de 1872. Depois de cessar as suas funções, foi substituído pelo Visconde de S. Januário, Januário Correia de Almeida. O
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 171 ex-governador permaneceu mais alguns dias em Macau, como hóspede do Visconde do Cercal, tendo só partido para Lisboa no dia 9 de Abril daquele ano. A sua partida revestiu-se de grande solenidade, como descreve a seguinte notícia (apenas parcialmente transcrita), publicada no Boletim da Província de Macau e Timor, nº 16, do ano de 1872: “Na terça-feira 9, partiram desta cidade com destino a Lisboa S. Exa. o Almirante Sérgio, seu filho e sobrinho. O digno Almirante foi conduzido ao vapor na carruagem do Exmo. Visconde do Cercal, cujo hóspede era, seguia-o S. Exa. do Governador na sua carruagem. As ruas do trânsito estavam juncadas de flores. Junto à ponte dos vapores achava-se postada uma guarda de honra de capitão e bandeira. Todos os funcionários públicos, oficiais do batalhão, do corpo da polícia e do nacional, o revdo. Vigário Capitular com os seminaristas, cónegos da Sé e outros eclesiásticos, muitos cavalheiros de distinção desta cidade, alguns cônsules e uma grande deputação dos mais abastados negociantes chinas, esperavam os ilustres viajantes na ponte para lhes manifestarem o seu pesar pela sua partida. Algumas senhoras aguardavam a S. Exa. no vapor para o mesmo fim. Entre estas se contavam as Exmas. Sras. Viscondessa do Cercal, D. Mariana Miranda, D. Adelaide Gonzaga, D. Fermina Leite e sua filha D. Maria, D. Camila Reis e sua cunhada. Logo que S. Exa. assomou ao Largo da Alfândega milhares de panchões atroaram os ares com os seus estalidos.
  • 172 O vapor largou às 8 horas e meia da manhã ao som da música, então centenares de pessoas agitaram os chapéus e lenços, despedindo-se dos ilustres viajantes.”… Esta notícia revela que o ex-governador António Sérgio de Sousa fez o seu último percurso pela cidade até à ponte de vapores, que ficava aproximadamente em frente à Rua do Gamboa, na carruagem particular do Visconde do Cercal, enquanto o novo governador, Visconde de S. Januário, seguiu na sua própria carruagem. Assim sendo, naquela manhã de 9 de Abril, a carruagem que conduziu Sérgio de Sousa até ao Largo da Alfândega [10] teria percorrido a Rua do Gamboa, porquanto não havia então outra alternativa para se chegar ao local onde embarcou para a sua viagem até Hong Kong. Troço da Rua do Gamboa, cuja rampa vai até à Rua da Alfândega. Em baixo, no lado direito, começa a Travessa do Gamboa. UMA RUA BEM VIGIADA E CONTROLADA No passado, apesar de ser uma importante e movimentada via, a Rua do Gamboa era vigiada e controlada, visto que
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 173 existia um edifício, mesmo junto da Travessa da Louça, sob o qual havia uma passagem por um túnel em arco, com portão que se fechava durante a noite, a fim de impedir a circulação de indivíduos estranhos e aqueles que eram tidos por vagabundos ou malfeitores, conhecidos por “lanchaes” [11], porque estes, quando compelidos pela fome e desespero, iam praticar roubos. Havia também um arco alpendrado e um portal alpendrado, com as respectivas portas à entrada e no fim do Beco do Gamboa, as quais se fechavam ao cair da noite, para protecção de residentes. Além dos referidos portais e de outros que havia naquela zona, há referências, em publicações de língua chinesa, que existiu ainda um portal na Rua da Alfândega, destinado a vedar a entrada de pessoas estranhas ou suspeitas para o centro da cidade, o qual era designado, em chinês, por “Hông Ch’eóng Mun” (紅窗門 , literalmente, portal de janela vermelha). Fim do Beco do Gamboa, onde havia um portal alpendrado. Apesar de o portal ter sido demolido quando ali construíram o actual edifício, manteve-se, no entanto, uma passagem para a Travessa das Virtudes.
  • 174 O edifício, actualmente existente na Rua do Gamboa, não é muito antigo, apesar de ter a aparência semelhante a “Káng Lau” (更樓 , isto é, “casa de guarda”), de estilo chinês, porquanto há uma placa, colocada dentro do arco, com a inscrição de que foi reconstruído em 1984 pela Associação de Beneficência Tung Sin Tong, proprietária do prédio. Após uma série de pesquisas relativamente à Rua do Gamboa e à “Káng Lau”, foi encontrada, por mero acaso, uma fotografia em que mostra que a anterior construção não era de estilo chinês, mas sim um edifício de traços coloniais. Teria sido este o edifício original? Quem o teria mandado construir? Será, sem dúvida, um tema reservado a pesquisa futura. Arco em forma de túnel, que dá acesso à Rua do Gamboa. Foi reconstruído em 1984 pela Associação de Beneficência Tung Sin Tong, proprietária do prédio.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 175 Outro aspecto da Rua do Gamboa. Ao fundo, é a Rua das Lorchas, do Porto Interior. A ESTRANHA DENOMINAÇÃO, EM CHINÊS, DA RUA DO GAMBOA Conforme se mencionou, a Rua do Gamboa é dedicada a António José Gamboa. Tal como outras vias antigas, o topónimo em chinês é geralmente atribuído segundo a tradição, usos e costumes, ou mesmo até por motivos auspiciosos ou, então, derivado de uma actividade, ou por qualquer coisa ou facto relacionado com o local. Por conseguinte, na zona antiga de Macau, os topónimos em português e em chinês, dados à mesma via, nem sempre são coincidentes. Assim, a Rua do Gamboa é designada, em chinês, pelo estranho nome “Yé Mó Kai” (夜呣街 ) [12]. Se alguém perguntar a um chinês ou a um residente daquela rua, qual o significado de “Yé Mó” (夜呣 ), a resposta é, de imediato,
  • 176 “não sei”. De facto, o termo formado por aqueles dois caracteres chineses não tem qualquer explicação ou significado lógico. Aspecto do antigo edifício na Rua do Gamboa, cuja passagem era outrora controlada, para impedir a circulação de indivíduos suspeitos, vadios ou malfeitores, conhecidos por “lanchaes”. Em primeiro plano, vê-se um carregador transportando mercadorias em dois cestos com uma pinga e, mais atrás, várias pessoas e carregadores a atravessarem o túnel em arco da Rua do Gamboa. O Hotel A-Chau situava-se depois da passagem pelo túnel, num edifício do lado direito. Há quem diga que “Yé Mó” é uma transliteração do português. Mas transliteração de qual palavra ou termo? A este respeito, existe um artigo publicado em língua chinesa, em que o autor tentou explicar que “Yé Mó” é uma
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 177 transliteração de “Borja”, alegando que a Calçada do Gamboa era inicialmente designada Calçada do Borja (em homenagem a D. Nicolau Rodrigues Pereira de Borja [13]; que a transliteração de Borja corresponde a “Mó Yé”; e que este nome, lido e escrito da direita para a esquerda, deu origem a “Yé Mó”. Este argumento não é convincente, nem tem qualquer lógica ou fundamento, pois nada consta ter existido naquele local uma via denominada Calçada do Borja. Além disso, não existe qualquer semelhança na transliteração de um termo para o outro. A passagem não era totalmente em arco, pois havia ombreiras e lintel de pedra. Na fotografia, vê-se um anúncio do então Hotel A Chau (isto é, Hotel Ásia), nos anos 70 do século passado. Há vários anos que andamos a pesquisar sobre a estranha designação “Yé Mó”, quer consultando publicações, quer perguntando sobretudo a pessoas idosas, incluindo as que residiram nas imediações da Rua do Gamboa, qual o verdadeiro significado daquela designação. Não conseguimos uma resposta aceitável.
  • 178 No entanto, como existem na toponímia local vários exemplos de nomes em chinês, cujo verdadeiro significado fora deturpado pela pronúncia ou alterado pelo uso incorrecto de um caracter, por isso acabamos por suspeitar que o termo “yé mó” deveria ser mais um caso resultante do emprego erróneo de um dos caracteres. Assim, tendo recentemente consultado alguns dicionários, encontrámos de facto um termo homófono 夜摩 (yé mó), que significa gatuno [14]. Achamos que este termo tem certa lógica, uma vez que, conforme acima descrito, havia naquela época diversos portais na zona do Gamboa, destinados a impedir a entrada de pessoas estranhas ou suspeitas, a partir do período da noite. É que naqueles tempos vinham diariamente à cidade de Macau, sobretudo por mar, chineses do continente ou das ilhas próximas, à procura de trabalho e, quando não conseguiam meios necessários ao seu sustento, iam roubar o que podiam. Sendo então a Rua do Gamboa uma via importante e principal, onde residiam e transitavam muitas pessoas, a atracção era grande para os gatunos. Portanto, é nossa opinião que o termo “yé mó” significa gatuno (ou melhor, “gatuno da noite”, devido ao caracter “yé” 夜, noite) e, caso assim seja, a escrita correcta será 夜摩 e não 夜呣 . A RUA DO GAMBOA NO PRESENTE Hoje em dia, a Rua do Gamboa e as vias adjacentes deixaram de ter aquela fulgurância do passado, por não estarem integradas no roteiro turístico, embora existam visitantes que costumam ir à Pastelaria Chui Heong ( 最香餅家 ), uma
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 179 loja muito antiga que confecciona biscoitos chineses, apenas com o desejo de comprar os deliciosos biscoitos de amêndoa, cozidos a carvão vegetal. A Rua do Gamboa começou a perder a sua importância, após os aterros que começaram a ser feitos a partir de meados do século XIX. Com o aproveitamento dos novos aterros na zona adjacente à Gamboa, foram criadas novas vias, designadamente a que foi dado o nome de Rua da Felicidade, que começa na Rua da Alfândega e termina na Rua da Caldeira. Décadas depois, com a abertura da Avenida de Almeida Ribeiro, desde o Largo do Senado até ao Porto Interior e, seguidamente, desde a Rua Central até à Rua da Praia Grande, a nova Avenida, totalmente concluída em 1920, acabou por revolucionar o sistema de comunicação viária entre leste e oeste da península, porquanto facilitou a circulação de pessoas e, ao mesmo tempo, impulsionou o comércio e alterou por completo a vida social do território de Macau. Pastelaria Chui Heong, uma das mais antigas lojas, ainda em actividade, na Rua do Gamboa.
  • 180 Na Rua do Gamboa tivemos o ensejo de conversar com um senhor já idoso, de apelido Tang, sapateiro de profissão, tendo aprendido esse ofício nos anos da sua juventude no Instituto Salesiano. O Sr. Tang tem a sua loja na Rua do Gamboa há cerca de cinquenta anos e, conforme nos confidenciou, desde que se mudou para aquela rua, o comércio local foi decaindo ano após ano, apesar de, por volta daquela altura, terem construído, no mesmo local resultante da demolição do edifício do Hotel A Chau (亞洲酒店, isto é, Hotel Ásia), um novo prédio residencial, tendo todo o rés-do-chão desse prédio sido então ocupado pela Fábrica de Vestuários Luen Cheong (聯昌製衣廠 ). Esta fábrica teve os seus períodos áureos nos anos setenta do século passado, quando o sector fabril era preponderante na economia local, até que o abrandamento se iniciou na década seguinte, com a abertura da China ao comércio externo, e os industriais começaram a transferir as suas fábricas para o continente chinês, por lhes oferecerem melhores condições de laboração e benefícios. Sapataria Wong Lam Kei, uma das mais antigas lojas, na Rua do Gamboa.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 181 A loja do senhor Tang Seng 鄧成, denominada Sapataria Wong Lam Kei (黃林記鞋業) e a Pastelaria Chui Heong (最香餅家) são os únicos estabelecimentos mais antigos que restam na Rua do Gamboa. A rua de cima, isto é, a Rua da Alfândega continua a ser uma rua bastante movimentada, com diversos pequenos negócios ali instalados, por ser uma via que comunica entre a zona da igreja de S. Lourenço e o centro da cidade, passando pela Rua do Seminário [15]. Os estabelecimentos ali existentes são, na maioria, recentes, excepto o Jornal Va Kio [16], instalado num prédio renovado e requalificado, que outrora teria servido de armazém do ópio. Este prédio, que originalmente teria sido um armazém do ópio, foi requalificado para servir de instalações do Jornal “Va Kio”. No 2º andar deste prédio funciona o Centro Artístico-Cultural Chiu Pán Lán, dedicado ao fundador do Jornal. Do lado direito, é a Rua da Alfândega. Actualmente, podemos constatar que, tanto nas imediações da Rua do Gamboa, como na Rua da Alfândega, diversos prédios estão sendo ocupados por trabalhadores não
  • 182 residentes, a maioria dos quais de etnia filipina e, por esse motivo, estão surgindo naquela zona pequenas lojas exploradas por filipinos, designadamente estabelecimentos de pronto-a-comer, bijutarias, vestuários, cabeleireiros e até padaria. Deste modo, é sobretudo esta comunidade que está a dinamizar uma das zonas mais antigas de Macau com os negócios que vão criando. NOTAS: [1] Trabalhador local, assalariado, das antigas colónias, na China e na Índia. O termo em chinês (putonghua) é “kuli” (苦力), sendo “ku” ( 苦 ), amargo, penoso, árduo e “li” ( 力 ), força. Em cantonense, esse termo 苦 力 lê-se “fu lêk” e significa “carregador”. No entanto, em linguagem vulgar, também se diz, em cantonense, “kú lei”, que originou “cule”. [2] Vara de bambu (em cantonense: tám kón 擔桿) que serve para transportar ao ombro, seja o que for, pendurado em cada uma das extremidades da vara. [3] Código de Posturas do Leal Senado da Câmara de Macau, publicado no Boletim da Província de Macau e Timor nº 28, de 1872. [4] O vocábulo riquexó ou riquixá deriva da palavra japonesa jinrikisha (人力車, sendo 人 jin = humano, 力 riki = tracção, 車 sha = veículo), que literalmente significa “veículo de tracção humana”. Os jerinxás ou riquexós de Hong Kong foram inicialmente importados do Japão em 1874. Em Macau, o uso de riquexós teria sido introduzido anos depois, mas só foi regulamento em 1883.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 183 [5] O triciclo foi introduzido em Macau em 1948, passando, desde então, a substituir os riquexós como novo meio de transporte. [6] A Travessa dos Trens começa na Rua do Bocage, entre os prédios nºs 2-B e 4, e termina na Rua do Tesouro, no ponto onde esta volta para a Praça de Ponte e Horta (anteriormente, Largo da Alfândega). A Rua do Bocage foi dada em homenagem ao poeta satírico Manuel Maria Barbosa du Bocage, que permaneceu em Macau durante cerca de meio ano, entre Setembro ou Outubro de 1789 a Março de 1790. [7] Havia também cules que embarcavam a partir de Hong Kong com destino ao Estado de Califórnia, dos Estados Unidos da América, então conhecida, entre chineses, por “Kâm Sán” ( 金山 , literalmente, montanha de ouro), a Austrália e, também, a países do sudoeste asiático, como por exemplo Singapura, Malásia, etc. [8] A descendência daqueles emigrantes chineses pode geralmente ser identificada por apelidos estrangeirados, como por exemplo, Lee (李) , Law (羅), Low (盧). [9] Mais tarde, esse cargo foi também desempenhado pelo Conde Bernardino de Senna Fernandes. [10] Era conhecida por Largo da Alfândega a actual Praça de Ponte e Horta, porque esteve ali localizado o edifício da Alfândega portuguesa, que depois serviu para outras finalidades. Após a demolição daquele edifício é que foi aberta a Rua de Ponte e Horta, que veio a ligar com a Rua da Alfândega. [11] O vocábulo “lanchaes” era outrora utilizado por portugueses para designar malfeitores e era uma transliteração de “lán châi”, do dialecto cantonense. [12] Na designação, em chinês, “Yé Mó Kái” ( 夜呣街 ), sendo “Yé”, noite, e “Mó”, um caracter usado como “interjeição,
  • 184 exclamação ou grunhido expressando consentimento”, o termo ou vocábulo “Yé Mó”, formado por estes dois caracteres, não tem um significado lógico na língua chinesa. [13] O Padre Nicolau Borja, lazarista, veio para Macau em 1802, tendo mais tarde desempenhado as funções de Reitor do Seminário de S. José. Em 1834, devido à perseguição e expulsão das ordens religiosas, tanto em Portugal, como em Macau, houve uma vacatura na Diocese de Macau por um período de treze anos, depois da morte do Bispo D. Francisco Chacim. O Padre Nicolau Borja, foi nomeado Bispo de Macau em 25 de Novembro de 1841, tomou posse do Bispado, mas faleceu em Março de 1845, antes de ser sagrado Bispo de Macau. [14] Yé mó (夜摩 ) significa gatuno, conforme consta do Dicionário Chinês-Português, edição do Governo da Província, do ano de 1962. No entanto, hoje em dia, essa designação chinesa já caiu em desuso. [15] Esta rua era primitivamente designada Rua do Mato-Mofino. [16] O Jornal Va Kio (華僑報) foi fundado por Chiu Pán Lán (趙斑斕) e Lôi Wâi Lêng (雷渭靈), em 20 de Novembro de 1937, e é um dos periódicos em língua chinesa mais antigos, juntamente com o Tai Chung Pou (大眾報 , Diário Para Todos, fundado em 1933). Ambos os periódicos ainda estão em actividade. Publicações consultadas: • Boletins da Província de Macau e Timor, Mapas de Macau do século XIX, Cadastros de Vias Públicas e Outros Lugares de Macau, e publicações avulsas. Obs.: Este texto foi revisto e actualizado em Julho de 2021. O texto original fora publicado em “Crónicas Macaenses”, em 12 de Fevereiro de 2020.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 185 ONDE FICA A RUA DO GAMBOA? O sítio com uma passagem em forma de arco, na Rua do Gamboa, está assinalado com uma seta amarela. A linha tracejada a vermelho indica o percurso desde o portal em forma de arco até ao centro da cidade. Extraído do Mapa online da DSCC de Macau MAIS FOTOGRAFIAS DA RUA DO GAMBOA E ARREDORES Entrada do Jornal “Va Kio”, na Rua da Alfândega nº 69.
  • 186 Um troço da Rua da Alfândega, visto do cruzamento com a Rua do Gamboa e a Calçada do Gamboa. Um troço da Calçada do Gamboa, vendo-se ao fundo a Rua do Gamboa. Rua da Alfândega, em Janeiro de 2020.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 187 Rua da Alfândega, nos anos 60 do século XX. Rua dos Cules, em Janeiro de 2020
  • 188 Um recente estabelecimento de Café, na Rua do Gamboa, com decorações alusivas a Macau. A Rua do Gamboa, vista a partir da Rua das Lorchas. Outrora, ao longo de muitos anos, servira de “porta de entrada” para o interior da cidade.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 189 Uma carruagem no Largo do Senado, em princípios do século XX. No lado direito, há uma bandeira com os caracteres chineses 嘉賓大酒店 (Ká Pân Tái Chau Tim), ou seja, Hotel Ká Pân. Cadeirinhas na Rua da Praia Grande, junto ao Palácio do Governo, ca. 1900.
  • 190 Estação de riquexós em Macau. Foto de José Neves Catela Triciclos tradicionais, que ainda restam, estacionados junto ao Hotel Lisboa, à espera de turistas, sendo estes os principais clientes.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 191 BAIRRO DA FELICIDADE
  • 192
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 193 O PRIMEIRO GRANDE EMPREENDIMENTO DE EMPRESÁRIOS CHINESES Ao longo de séculos, desde o estabelecimento dos portugueses em Macau, as novas construções ou reconstruções de prédios, dentro da cidade cristã, careciam de autorização das autoridades chinesas e esta situação constituía um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento do território. Só por volta de 1843 e definitivamente a partir do governo de Ferreira do Amaral (1846 – 1849) é que tais restrições cessaram. As reformas políticas e administrativas iniciadas por Ferreira do Amaral tiveram continuidade sobretudo a partir do governo de Isidoro Francisco de Guimarães, que tomou posse em 19 de Novembro de 1851, tendo-se mantido no cargo até 22 de Junho de 1863. Governador Isidoro Francisco Guimarães, primeiro e único Visconde da Praia Grande de Macau, um título nobiliárquico criado por D. Luís I de Portugal, por Decreto de 10 de Dezembro de 1862.
  • 194 O governo de Isidoro Guimarães ficou marcado por um período de negociações diplomáticas com autoridades chinesas, tendo, após uma série de diligências, alcançado a assinatura de um Tratado de Amizade e Comércio, em Tianjin (天津), no dia 13 de Agosto de 1862, embora nesse Tratado algumas questões essenciais tivessem ficado indefinidas, incluindo a do estatuto de Macau. Isidoro Guimarães, enquanto governador, procurou consolidar as reformas políticas introduzidas por Ferreira do Amaral e, ao mesmo tempo, melhorar a situação económica de Macau, que fora afectada com o encerramento da “Hopu”, a poderosa alfândega chinesa, e que motivou a saída dos principais “hong” (ou “hãos”, em português), isto é, estabelecimentos de comércio por grosso, geridos por influentes negociantes chineses. Apesar disso, conseguiu melhorar as finanças públicas a partir de 1857, com o aumento de impostos sobre os exclusivos de “fantan” e lotaria chinesa e, ainda, com o chamado tráfego dos cules, iniciado em 1851, o qual atingiu o seu auge em 1867. Esta nova actividade teve um grande impacto na economia local e contribuiu para uma era de prosperidade, em virtude de rendimentos provenientes da exportação de emigrantes ou colonos chineses para Cuba e outros países da América do Sul. Devido a esse comércio, a moeda de prata, conhecida por pataca mexicana, passou a ser largamente usada, a qual já tinha curso legal em Macau desde 1854, sendo aceite a par do peso duro ou da pataca mexicana. A pataca veio a ser, mais tarde, a designação adoptada para a moeda local, emitida pelo Banco Nacional Ultramarino.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 195 Em termos urbanísticos, ordenou o melhoramento de diversas vias públicas e a construção de estradas, tendo também mandado executar obras de aterro, nomeadamente na zona do Matapau, onde se entulhou uma parte do rio, após o incêndio que ocorreu no Bazar, em 4 de Janeiro de 1856, o qual destruiu, segundo consta, cerca de mil e quinhentas casas, incluindo mais de 600 lojas. Os governadores que se seguiram também introduziram diversos melhoramentos, quer na reconstrução e alargamento de vias públicas, quer no embelezamento da cidade e, além disso, continuaram a autorizar a execução de novos aterros, para acomodar a crescente população chinesa. Devido ao assoreamento, os primeiros aterros significativos foram realizados nas zonas da Praia Pequena, seguindo aquela linha curva da costa, em direcção a oeste. Entretanto, o Bairro Chinês não parava de crescer nas imediações da Rua Grande do Bazar, que era a via principal onde se desenvolvia toda a actividade comercial. Havia, portanto, uma urgente necessidade de criar novos espaços, com vista a melhorar as condições de habitação e comércio. Tal necessidade já era sentida aquando do governo de Coelho do Amaral, visto que uma das políticas então propostas era “conceder aos chinas o adquirir propriedades…; aumentar os rendimentos públicos pelos foros que pagam os terrenos concedidos e as novas edificações; alargar a cidade, levantando novos bairros de melhores aparências e cheias de vida; … e, interessar os chinas nas obras públicas …”.
  • 196 Assim, a partir de meados dos anos sessenta do século XIX, em virtude da necessidade de alargamento de espaço nas proximidades do Bazar, começaram a surgir iniciativas privadas no fomento imobiliário, por parte de alguns abastados negociantes chineses, que investiram naquele sector de actividade, designadamente Vong Lôk (王祿) e seu filho Vong Tâi (王棣). QUEM ERA VONG LÔK? Segundo publicações em língua chinesa, os antepassados de Vong Lôk (王祿 ou 王六) eram naturais de Fôk Kin (Fujian), os quais migraram para Macau no reinado de Kangxi (康熙, em cantonense, lê-se Hóng Hei), tendo-se aqui fixado e desenvolvido as suas actividades, de geração em geração. Vong Lôk, natural de Jinjiang (晉江), Fujian, teria nascido em princípios do século XIX. Desde cedo mostrou ter grande visão empresarial, dedicando-se a várias actividades, incluindo, como era habitual naquela época, a do jogo. Foi ele um dos primeiros a explorar a modalidade da lotaria Vaeseng (闈姓, em cantonense, lê-se Vâi Sêng), tendo-se também dedicado a obras de construção civil, tornando-se mais tarde o maior proprietário de imóveis em Macau. Foi um dos negociantes mais ricos da sua época, tendo ele, em 1871, juntamente com Sam Vong (沈旺), Chou Iao (曹有) e Tak Fong (德豐), requerido ao governo português o registo do Hospital Kiang Wu, sendo, portanto, um dos fundadores deste hospital chinês. Foi também um grande
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 197 benemérito, tendo doado muito dinheiro para fins de beneficência, bem como para restauro de vários templos chineses e, ainda, para a construção do Templo de Hong Kung (康公廟 , Hóng Kung Miu), situado no Largo do Pagode do Bazar. Consta que, em princípios dos anos 60 do século XIX, Vong Lôk e alguns amigos seus formaram uma empresa de construção denominada Siu Ch’eong T’óng (紹昌堂置業公司), tendo adquirido uma antiga propriedade na zona do Matapau [1], pertencente a António Vicente Pereira [2], para servir de sede. Com vista a angariar fundos necessários ao desenvolvimento de novos projectos, convidou alguns dos mais destacados negociantes chineses para participarem no capital da empresa. Com as entradas em dinheiro, a empresa comprou diversos prédios velhos no bairro do Matapau para reaproveitamento. Consta também que a empresa conseguiu obter uma concessão do governo português para a realização de aterros, cobrindo uma zona alagada, que existia nas imediações do Matapau, incluindo o local por onde circulavam barcas de lenha [3]. Iniciadas as obras, a empresa conseguiu, em curto espaço de tempo, criar uma vasta área de aterro e preparou um terreno para construções.
  • 198 Altar de rua, localizado no fim da Rua do Matapau. Em cima, há 3 grandes caracteres chineses ( 宏隆坊 ), escritos horizontalmente, que significam Bairro de Wang Lông e, do lado direito, 4 caracteres (同治九年), escritos verticalmente, que significam 9º ano do Imperador Tongzhi (同治帝), correspondente ao ano de 1870. O PRIMEIRO GRANDE EMPREENDIMENTO IMOBILIÁRIO Assim que estavam criadas as necessárias condições para o projecto de desenvolvimento urbanístico, a empresa liderada por Vong Lôk deu início ao aproveitamento de uma zona de aterro junto do antigo bairro de Fôk Lông (福 隆 坊) [4], construindo a partir dali um novo bairro, com prédios
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 199 contíguos, ao estilo chinês, dispostos paralelamente ao longo de uma nova via, a que deram o nome de “Fôk Lông Sân Kái” ( 福隆新街 ), significando “Fôk Lông” 福隆 , felicidade abundante, e “Sân Kái” 新街, rua nova, ou seja, “Rua Nova da Felicidade Abundante”, embora o topónimo adoptado, em português, seja simplesmente Rua da Felicidade. Deste modo, ao contrário do que muitos julgam ou dizem, o topónimo Felicidade não está originalmente associado a bordéis ou meretrizes, mas sim ao nome do antigo bairro de “Fôk Lông”. Aspecto de um dos prédios localizados na Rua da Felicidade. Originalmente, as paredes eram revestidas de tijolo cinzento, sem pintura, e as portas e janelas, pintadas na cor verde, uma pintura que nada tinha a ver com o chamado “bairro vermelho”. A pintura na cor vermelha foi feita em 1996, durante a administração portuguesa, quando foram realizadas as obras externas de restauro.
  • 200 Realizou-se, por conseguinte, o primeiro grande empreendimento imobiliário em Macau e, conforme os padrões da época, foram construídos prédios de dois pisos, para fins comerciais e habitacionais, conhecidos por “lojas-casa”. Seguidamente, a partir da Rua da Felicidade (ou seja, a “Rua Nova de Fôk Lông”), foram surgindo outras construções nas ramificações, criando assim o Beco das Galinhas, o Pátio do Ídolo, o Beco da Felicidade e o Pátio da Felicidade. Rua da Felicidade, vista a partir da Rua da Alfândega. Do lado direito, há um portal alpendrado, com acesso ao Pátio do Ídolo, e do lado esquerdo, outro portal alpendrado, com acesso ao Beco das Galinhas. No entanto, os comerciantes chineses, há muitos anos estabelecidos no Bazar, não se sentiram atraídos por aquela nova zona, em virtude de fraca circulação de pessoas e falta de atractivos, sendo estas as condições que consideravam essenciais para o desenvolvimento dos seus negócios, preferindo, deste modo, manter a habitual forma de vida no Bazar.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 201 Devido às circunstâncias da época, que não permitiram alcançar o expectável resultado para aquele grande empreendimento, os sócios de Vong Lôk, não prevendo a curto prazo o desejado retorno dos seus investimentos, resolveram ceder as participações que detinham no capital da empresa, que, segundo consta, estava dividido em dez partes. Vong Lôk e seu filho Vong Tâi acabaram por adquirir todas as participações no capital da empresa e, em seguida, criaram uma associação denominada “Cháp Seng T’óng” (集成 堂 ), que passou a ser proprietária de todo o empreendimento. Portal alpendrado do Beco das Galinhas, uma das vias transversais da Rua da Felicidade. O termo galinha é ainda usado, em chinês, para designar prostituta, pois consta que outrora havia ali vários bordéis.
  • 202 UM TEATRO CHINÊS CONSTRUÍDO DE RAIZ O teatro chinês, também conhecido por auto-china ou ópera chinesa (戲曲 , em cantonense, lê-se “hei k’ôk”) é um teatro musical, que se formou ao longo de muitos séculos na China, no qual se incorporam elementos como a literatura, a música, o canto, a dança, as artes marciais, o malabarismo, etc., sendo muito apreciado pela maioria dos chineses, visto que naqueles tempos era o principal entretenimento. Embora haja diferentes variantes de ópera chinesa, de acordo com a região ou etnia, a ópera de Cantão era a mais apreciada em Macau, por ser desta região e usar o dialecto cantonense. Outrora, montavam-se, de tempos a tempos, palcos de bambu em espaços abertos para representações de peças de ópera chinesa, semelhantes aos que hoje em dia se montam junto de templos chineses, quando celebram as festividades dedicadas às respectivas divindades. Conhecedor dos hábitos e preferências da população chinesa, Vong Lôk tomou iniciativas para dinamizar o novo Bairro de “Fôk Lông” e, por isso, projectou a construção de um teatro chinês, tendo, segundo consta, obtido uma licença do governador António Sérgio de Sousa para estender o aterro a partir do local conhecido por “Sâm Hóng Châi” (深巷仔), situado no fim do Beco do Gamboa [5]. Foi nesse novo aterro que se construiu de raiz um edifício para teatro chinês, a que foi dado o nome de CHENG PENG (清平, que significa “paz e tranquilidade”), com entrada principal por uma nova via que ali se abriu, denominada Travessa do Auto Novo [6].
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 203 Placa toponímica da Travessa do Auto Novo, cuja via está localizada junto da entrada principal do Teatro Cheng Peng. Esta via tem 3 designações em chinês: Cheng Peng Hong (清平巷 , literalmente, Travessa de Cheng Peng); Cheng Peng San Kái (清平新街 , ou seja, Rua Nova de Cheng Peng); e, Cheng Peng Chêk Kái (清平直街, isto é, Rua Direita de Cheng Peng). Contrariamente ao que muita gente supõe, o Teatro Cheng Peng não foi o primeiro teatro chinês que se construiu de raiz em Macau. Das pesquisas efectuadas, foi encontrada uma notícia, datada de 1867, reportando que “um novo teatro chinês, em maiores proporções do que o actual [7], e construído de um modo conveniente e apropriado ao seu fim, se vai brevemente levantar no Tarrafeiro, havendo já sido concedida a licença e aprovado o plano para a sua construção”. Passado mais de um ano, foi desta vez noticiado que “o novo teatro, erigido ao Tarrafeiro, deu na sexta-feira à noite a sua primeira representação. O teatro está bem arranjado e é muito espaçoso”. Trata-se do Teatro Pou Heng, que foi inaugurado na noite do dia 4 de Dezembro de 1868.
  • 204 Placa toponímica da Travessa do Matadouro, cuja designação em chinês é “Cheng Peng Kái” (清平街, isto é, Rua de Cheng Peng). Consta também que o governador Sérgio de Sousa autorizou o prolongamento de um outro aterro até próximo do local conhecido por Caldeira, para nele se criar um novo bazar ou mercado. Não há notícias de que este bazar tivesse substituído ou superado o antigo bazar, pois nem vestígios restam, a não ser uma via, designada Travessa do Bazar Novo, que começa na Travessa da Caldeira e termina à entrada do Pátio da Felicidade. De igual modo, também se desconhece o exacto local do matadouro que ali se construiu, restando apenas na toponímia a Travessa do Matadouro. EM QUE ANO FOI CONSTRUÍDO O TEATRO CHENG PENG? Das pesquisas efectuadas, nenhuma notícia ou anúncio foi encontrado quanto à data da conclusão e abertura do Teatro Cheng Peng. Há publicações em chinês que referem ter sido inaugurado em 1875, no dia em que Vong Lôk completou os
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 205 seus 70 anos de idade, sem indicar, no entanto, a fonte deste facto [8]. Por outro lado, as publicações existentes em português dão indicações de que o teatro teria ficado concluído antes da visita que o Grão Duque Alexis da Rússia fez a Macau, visto que Sua Alteza Imperial esteve no dia 29 de Setembro de 1872 à tarde no Palácio do Governo, onde recebeu cumprimentos de funcionários públicos, diferentes corporações de oficiais militares, corpo consular e mais pessoas e, à noite, visitou um teatro (“Sing Ping theater” , conforme noticiado no jornal de Hong Kong Advertiser, de 1 de Outubro [9]), onde assistiu a um espectáculo de auto-china. Entrada principal do Teatro Cheng Peng, em meados do século passado. No lado direito, está a loja de Chá Medicinal Ün Iec (玄益涼茶 ), que em Janeiro de 2020 ainda se encontrava em actividade.
  • 206 Há ainda uma Portaria, datada de 17 de Janeiro de 1873, em que o governador Visconde de S. Januário aprovou um projecto de obra referente à “Canalização geral das ruas próximas ao novo bazar e teatro china, junto à doca ultimamente aterrada, servindo de base o orçamento de $864,10...” o que sustenta a evidência de que já havia o novo bazar e o teatro china no ano anterior. Assim, sem outra evidência em contrário, pode-se dizer que tanto o bazar novo como o teatro china deveriam existir antes da data da dita Portaria que autorizou a execução da referida obra e, por conseguinte, o Teatro Cheng Peng poderia estar concluído em 1872. Foi criado, na zona dos aterros, um Bazar Novo perto do Teatro Cheng Peng, a fim de dinamizar o novo Bairro da Felicidade. Presume-se que essa iniciativa não teve grande sucesso, pois o terreno destinado para o efeito acabou por ser aproveitado para a construção de prédios. QUANDO VEIO À LUZ UMA NOVA DISPOSIÇÃO LEGAL Apesar de todos os esforços desenvolvidos por Vong Lôk e seu filho Vong Tâi para rentabilizar o investimento feito no
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 207 Bairro da Felicidade, os comerciantes continuavam a não ter interesse em mudar-se para aquela nova localidade. A situação económica de então também não favorecia, tendo-se até agravado pela passagem de um tufão, a 2 de Setembro de 1871, provocando muitos estragos e elevados prejuízos. Quando tudo parecia que o primeiro grande investimento realizado em Macau por Vong Lôk ter fracassado, inesperadamente, surgiu o momento de viragem e foi quando veio à luz a Portaria nº 36, de 4 de Junho de 1872, do Governador Visconde de S. Januário, que aprovou o projecto apresentado pela Junta de Saúde de Macau relativo ao Regulamento para as meretrizes e casas toleradas de Macau, elaborado pela dita Junta, levando em consideração que: “A prostituição, condenável sob todos os pontos de vista em que ela se considere, é desde remotas eras um mal tão radicado, que nem a moral nem a religião a puderam ainda evitar. A severa proibição desta prática, que tão fatal influência exerce na saúde pública, seria o único meio de a suprimir, como era mais conveniente, se a experiência não tivesse mostrado que esta medida origina maiores calamidades, por se desenvolver então em larga escala a prostituição clandestina, que é mais perigosa por se disfarçar em várias formas e subtrair-se à vigilância das autoridades. Sendo, portanto, difícil, se não impossível, extinguir a prostituição, é da mais alta importância sujeitá-la a certos
  • 208 preceitos, como se tem feito em todos os países, regulando-a de modo que se evitem quanto possível os seus incalculáveis males. Com este fim, e em cumprimento do que foi determinado, tem a Junta de Saúde Pública a honra de apresentar à superior apreciação de V. Exa. o adjunto projecto de regulamento que se refere à prostituição em Macau.” A legalização das meretrizes em Macau teria sido inspirada no Regulamento Policial das Meretrizes e Casas Toleradas da Cidade de Lisboa, de 1865, que despenalizou a prostituição. De igual modo, o Regulamento para as meretrizes e casas toleradas de Macau, aprovado pela Portaria nº 36, de 4 de Junho de 1872, definiu o conceito de meretrizes, as obrigações das directoras ou donas de casa e estabeleceu, também, as respectivas penalidades. O Regulamento determinava, designadamente no CAPÍTULO I, Das meretrizes, o seguinte: Artigo 1º. Todas as meretrizes – mulheres que se prostituem por dinheiro – são obrigadas à matrícula na administração do concelho. Art. 2º. As meretrizes serão consideradas em duas classes, segundo vivem em comum sob a direcção de uma mulher que se chama dona de casa, ou são livres e subsistem sobre si. Art. 3º. No livro da matrícula se declarará a classe de cada uma delas, o nome, idade, naturalidade, estado, morada,
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 209 sinais característicos, por quanto tempo exerce a prostituição e se já teve afecção venérea. § 1º. As meretrizes que vivem em comum serão acompanhadas no acto da matrícula pela dona da casa a que pertencem ou por pessoa que a represente. § 2º. A matrícula será gratuita. Art. 4º. Haverá na repartição de saúde um livro exactamente escriturado como o da administração do concelho, sendo-lhe comunicadas por esta repartição todas as alterações que houver no registo das meretrizes. Art. 5º. Não será admitida à matrícula a menor de quinze anos, ou outra mulher que for reclamada pelo seu marido ou parentes. Art. 6º. As meretrizes residirão nos bairros que forem indicados pela polícia, e jamais junto aos templos, tribunais, casas de educação e outros estabelecimentos públicos. Art. 7º. Todas as meretrizes ficam sujeitas ao exame médico nos dias, horas e local que lhes forem determinados, podendo ele ser feito no próprio domicílio, nos hospitais, ou em qualquer casa para esse fim estabelecida. § 1º. Cada meretriz terá um livrete, que lhe será fornecido no acto da matrícula, e em que o facultativo encarregado das inspecções deverá escrever a data e o resultado do exame.
  • 210 § 2º. Instruções particulares regularão o tempo, modo e lugar destas inspecções, que serão gratuitas. [10] Não se trata, porém, de uma regulamentação inédita em Macau, mas sim de uma nova disposição legal mais abrangente, com vista a uma melhor regularização de uma actividade, que era exercida, mas sem a devida fiscalização. Antes da publicação da referida Portaria nº 36, de 1872, já existia um Edital publicado no Boletim do Governo número 43, datado de 1 de Setembro de 1851, no qual foram estabelecidos os locais onde a prostituição podia ser exercida dentro dos muros da cidade, designadamente na zona do Bazarinho, que incluía a Rua do Bazarinho, Rua do Desfiladeiro (actualmente, Rua Nova), Travessa de Maria Lucinda, Rua de Aleluia, Rua de Mata-Tigre e, também, no sítio chamado Praínha ou Feitoria (actualmente, Rua da Praínha e Calçada da Feitoria) e no sítio do Chunambeiro. AO LONGO DO TEMPO, VÁRIAS ACTUALIZAÇÕES FORAM FEITAS AO REGULAMENTO Não se pretende aqui narrar sobre a prostituição que existiu em Macau, durante muitas décadas, no Bairro da Felicidade, visto que é um tema demasiado vasto. O que se pretende é apenas fazer aqui uma breve abordagem sobre este assunto, nomeadamente às regulamentações que vigoraram no passado e que permitiram o exercício livre e legal de uma actividade popularmente designada “profissão mais antiga
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 211 do mundo”, bem como o impacto que teve no desenvolvimento de uma nova zona que se criou em Macau, na segunda metade do século XIX. Não restam dúvidas de que a legalização das meretrizes e casas toleradas a partir do ano de 1872 veio proporcionar outro dinamismo a uma nova e quase agonizante zona da cidade, porquanto, num breve espaço de tempo, começaram a instalar-se ali as principais actividades comerciais da época, incluindo, como não poderia deixar de ser, hospedarias, casas de jogo, fumatórios de ópio, casas de pasto e, sobretudo, bordéis, então designadas casas toleradas. Embora o Regulamento acima referido tivesse sido aprovado em 4 de Junho de 1872, passado pouco mais de meio ano, foram-lhe introduzidas várias alterações, em Janeiro do ano seguinte. Anos mais tarde, o Regulamento que então vigorava foi também objecto de revisão e alteração, designadamente no ano de 1887, em que foram introduzidas novas disposições relativas ao registo das meretrizes e donas de casas, bem como ao registo das casas toleradas já estabelecidas e das que vierem a ser estabelecidas, sobretudo quanto à localização [11]; ao reforço das inspecções sanitárias e ao tratamento das meretrizes no hospital civil da Misericórdia [12], em resultado da inspecção feita pelo competente facultativo; e, ainda, disposições gerais, incluindo transgressões, multas e taxas. Nesse novo regulamento, tal como na Portaria nº 4, de 1879, manteve-se a classificação das casas toleradas para efeitos
  • 212 da taxa policial em 3 classes, tendo apenas sido actualizadas as respectivas taxas anuais: 1ª classe, $18; 2ª classe, $12; e, 3ª classe, $8 patacas, acrescidas da verba de selo de 2%. Em virtude dessa classificação, consta que os bordéis de 1ª classe ficavam localizados na Rua da Felicidade, Beco da Felicidade e Travessa da Felicidade; os de 2ª classe, na Travessa das Venturas e na Travessa da Caldeira; e os de 3ª classe, no Pátio da Felicidade e na Rua da Caldeira. Placa toponímica da Travessa da Felicidade, cuja via era outrora mais conhecida, em chinês, por “I On Kai” (宜安街), em virtude do “Club Y-On”, fundado por iniciativa de Lu Cao, em Junho de 1881. Das referidas vias, a que mais se notabilizou, sobretudo a partir de princípios dos anos oitenta do século XIX, teria sido a Travessa da Felicidade (福隆新巷 , “Fôk Lông Sân Hóng”, literalmente Travessa Nova da Felicidade Abundante), quando o magnata Lu Cao, ou Lou Kâu, (盧九) ali abriu um clube, inspirado em moldes ocidentais, denominado “Club Y-On”, para diversão de negociantes ricos, tendo assim atraído para aquela via meretrizes de alta classe. Devido à existência daquele clube, a Travessa da Felicidade ficou também
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 213 conhecida por “I On Kai” ( 宜安 街) , sendo “I On”, o nome do clube, e “Kái”, rua, e esta denominação ainda figura na placa toponímica). As meretrizes, de um modo geral, eram “mui tsai” (妹 仔 , “mui châi”), vendidas em tenra idade, quando os pais, forçados pela miséria, não conseguiam sustentar todos os seus filhos, preferindo apenas a prole masculina [13]. As “mui châi” mais belas e talentosas, que cresciam em bordéis, aprendiam a tocar instrumentos musicais, cantar, recitar poesias, jogar xadrez chinês, bem como outras artes, e durante a adolescência eram ensinadas a entreter fregueses, tornando-se depois cortesãs, até quando, como por encanto, uma delas for resgatada por um homem rico e levada para se tornar concubina ou mulher dele, passando deste modo a ter uma outra vida melhor e mais livre. Aspecto da Travessa da Felicidade ca.1920. Ao fundo, vê-se parcialmente o Teatro Cheng Peng.
  • 214 Os bordéis ou casas toleradas não funcionavam apenas no novo bairro de “Fôk Lông”, porquanto no Regulamento, aprovado em 13 de Abril de 1887, previa também que “as disposições deste regulamento são extensivas às meretrizes que vivem em embarcações, as quais são para tal efeito equiparadas às casas de meretrizes”. Isto vem a propósito da existência de “bordéis flutuantes”, mais conhecidos por barcos de flores [14] (em inglês “flower boats” ou “Fá T’éng” 花艇 , em cantonense), frequentados sobretudo pela classe abastada e até por estrangeiros, que desde meados do século XVII, já operavam em Whampoa (黄埔 , em cantonense, Wóng Pou, actualmente um distrito de Cantão), os quais podiam ser alugados por algumas horas, para jantar ou para uma noite inteira, com música e outros entretenimentos. Um barco de flores atracado no Porto Interior de Macau. Pintura de Fausto Sampaio, em 1936.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 215 Os barcos de flores de Cantão, no século XIX, ganharam a reputação de serem os barcos mais bonitos do mundo, devido à florida ornamentação e tais barcos operaram também noutras áreas do delta do Rio das Pérolas, incluindo Foshan (佛山 , em cantonense, Fât Sán) e Macau. Além desses bordéis de luxo, havia também umas embarcações, designadas por tancás [15], usadas como meio de transporte ou habitação permanente nas zonas ribeirinhas, e as mulheres que lá viviam eram conhecidas por tancareiras. Ora, naqueles tempos, havia também tancareiras que se dedicavam à prostituição, as quais eram sobretudo desejadas por marinheiros. Uma das tancareiras que George Chinnery pintou, pois era um dos seus temas preferidos.
  • 216 DA LEGALIDADE À INTERDIÇÃO DO EXERCÍCIO DA PROSTITUIÇÃO Os bordéis espalhados por ruas e travessas do Bairro da Felicidade passaram por períodos prósperos e outros menos prósperos. Consta que um dos períodos florescentes foi a partir de 1932, quando o governo de Hong Kong baniu a prostituição e, por este motivo, as grandes lanternas vermelhas voltaram a iluminar as vias do bairro, para atrair a atenção dos visitantes que por lá passavam, ouvindo a cada passo a maviosa música tocada no “pei pá” (琵 琶 ) ou o som encantador da flauta, como que a estender o convite ao hóspede para entrar no bordel. Esta situação durou até quando o direito exclusivo de exploração de jogos em Macau foi atribuído, em 1937, à Companhia Tai Heng (泰興公司), liderada por Kou Ho Neng (高可寧) e Fu Tak Iam (傅德蔭 , mais conhecido por Fu Lou Iong 傅老榕), tendo a Companhia mandado remodelar o edifício do Hotel Central [16] para ali instalarem salas de jogos e, também, restaurante de comida europeia e chinesa, bar, salão de dança, salão de beleza e demais confortos de um hotel de primeira classe. Desde então, meretrizes de alta classe passaram a frequentar o Hotel Central e as mais belas eram escolhidas para serem bailarinas do Salão de Dança, onde todas as noites actuava uma orquestra composta por filipinos, para entretenimento dos seus clientes. A Rua da Felicidade ressentiu-se da debandada de meretrizes de alta classe para o renovado Hotel Central,
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 217 onde a excitação fervilhava a todo o momento e onde nada faltava para a satisfação da gente endinheirada. Foi o início do declínio de um bairro, onde reinou “prosperidade abundante” durante várias décadas. Anos depois, veio o pior. O duro golpe foi a publicação do Decreto nº 39 606, de 9 de Abril de 1954, determinando que “o exercício da prostituição é proibido em todas as províncias ultramarinas portuguesas”. Um troço da Rua da Felicidade, em finais dos anos 50 do século passado. Do lado esquerdo, vê-se a Hospedaria San Va e, a seguir, a casa de Fantan Sui Ching; do lado direito, o Restaurante Fat Siu Lau; e, mais ao fundo, uma Casa de Pasto, uma Casa de Penhores, uma loja de vinho chinês, um hotel, etc.
  • 218 Foi a partir de então que a Rua da Felicidade deixou de ser “Fá Kái” (花街 , literalmente, a rua das flores [17]). No entanto, já anos antes, com a proibição do comércio de ópio e, consequentemente, o encerramento de todos os fumatórios de ópio a partir de 30 de Junho de 1947 e, anos depois, casas de fantan ali localizadas, todas essas medidas foram dando golpes fatais nas actividades daquele bairro, deixando-o cada vez mais moribundo durante décadas. Apesar da entrada em vigor do referido Decreto, que determinou a proibição da prostituição, o exercício desta actividade não cessou de imediato. Embora vedada por lei, a prostituição manteve-se teoricamente ilegal em Macau, visto que passou a ser praticada noutros locais a coberto de outras actividades, designadamente em clubes nocturnos e em estabelecimentos de saunas e massagens, bem como em determinados estabelecimentos hoteleiros. DE TEATRO A CINE-TEATRO O Teatro Cheng Peng foi um edifício construído de raiz para espectáculos de ópera chinesa, provavelmente influenciado pelo aparecimento do Teatro D. Pedro V, o primeiro teatro de estilo ocidental na China, construído em 1860. Em 1925, foi equipado para exibir filmes e projectou-se então o célebre filme mudo americano de Lillian Gish “The White Sister”. Nas décadas de 1940 e 1950, passou a ser um dos principais Cine-Teatros de Macau, mas na década de 1960 voltou a ser palco de ópera cantonense. Foi nessa década que estavam em voga os chamados “pop concerts”, tendo ali actuado artistas e conjuntos musicais de Hong
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 219 Kong. Devido à popularidade de tais “pop concerts”, realizaram-se também dois festivais de música, respectivamente em 1963 e 1964, organizados por Mário Tomás, a fim de elegerem o melhor conjunto “ié-ié” de Macau [18]. O Teatro Cheng Peng foi renovado na década de 1970, voltando a exibir filmes, sobretudo do Grupo B, para adultos. Após mais de 20 anos sem a devida manutenção, foi encerrado em 21 de Agosto de 1992, quando o sistema de ar condicionado se avariou. Desde então o edifício ficou fechado e sem uso por muitos anos. O conjunto “The Grey Coats”, formado por Leonardo Amarante, Diamantino Pereira, António Lopes e Jackie Mohamed. Foto: Cortesia de Leonardo Amarante DESDE O PERÍODO DE LETARGIA ATÉ À REVITALIZAÇÃO Nos primeiros anos da década 60 do século passado, apesar de algumas iniciativas terem sido tomadas, destinadas a
  • 220 dinamizar o bairro, a situação pouco melhorou, porque deixou de ser uma zona privilegiada e a maioria dos visitantes preferia frequentar a Rua de Cinco de Outubro, onde estavam localizadas as mais conceituadas Casas de Pasto, que praticamente funcionavam dia e noite, bem como a Avenida de Almeida Ribeiro, onde podiam encontrar tudo o que necessitavam. Além disso, os melhores hotéis e hospedarias situavam-se em locais não muito distantes das pontes-cais, onde atracavam os barcos a vapor vindos de Hong Kong. “The Grey Coats” (da esquerda para direita: Leonardo Amarante, António Lopes, Diamantino Pereira e Jackie Mohamed) foi o conjunto que venceu os dois festivais organizados por Mário Tomás, no Teatro Cheng Peng, em 1963 e em 1964. Foto: Cortesia de Leonardo Amarante Deste modo, após a abertura da Avenida de Almeida Ribeiro, a Rua da Felicidade foi perdendo a sua importância, passando a ser uma via secundária. Durante décadas, apenas em vias transversais daquela Rua é que o comércio do tipo familiar se manteve com razoável movimento
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 221 comercial, nomeadamente a Travessa do Matadouro, em chinês, Cheng Peng Kái (清平街 , ou seja, a “Rua de Cheng Peng”), por ter comunicação entre a Avenida de Almeida Ribeiro e o Teatro Cheng Peng, situado mais adiante, na Travessa do Auto Novo (em chinês, “Cheng Peng Sân Kái”) e, também, a Travessa do Mastro, devido a restaurantes ali existentes. Foi assim que permaneceu a Rua da Felicidade, quase dormente, durante algumas décadas da segunda metade do século XX, de forma que, o conjunto de casas ali existente, sem a devida manutenção, foi-se degradando. A fim de transformar aquela via em uma zona de atracção turística, devido ao seu valor histórico-cultural, a administração portuguesa procedeu, em 1996, ao reordenamento da Rua da Felicidade, mandando pintar as portas e janelas das casas de vermelho e as paredes exteriores da cor cinza-claro e colocar toldos vermelhos, fazendo renascer a aparência de “bairro vermelho”. Aquela obra de requalificação veio alterar a fisionomia da Rua da Felicidade e, apesar disso, todo aquele bairro só conseguiu revitalizar anos mais tarde, designadamente a partir de Julho de 2003, quando o governo da República Popular da China autorizou a concessão de vistos individuais a chineses residentes na região vizinha de Zhuhai, para visitarem Macau e Hong Kong, tendo a mesma concessão sido depois estendida para outras cidades do continente. Actualmente, a Rua da Felicidade e as vias adjacentes são visitadas por turistas, para comprar toda aquela variedade de guloseimas de fabrico próprio, frequentar os
  • 222 restaurantes ou estabelecimentos de comida europeia e chinesa e, também, visitar uma das ruas com características únicas de Macau. Dos antigos estabelecimentos, restam ainda para a memória o conhecido restaurante “Fat Siu Lau” (佛笑樓餐廳), ou seja, Restaurante do Buda Sorridente), estabelecido em 1903 por Wong Man Seng (黃民成), e também a antiga Hospedaria San Vá, que já serviu de cenário para várias filmagens. Em frente, é a Travessa do Mastro, vista a partir da Travessa da Felicidade. A via que intersecta com as referidas travessas é a Rua da Felicidade. O estabelecimento pintado na cor bege é o Restaurante Fat Siu Lau.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 223 Na realidade, o património existente no Bairro da Felicidade reveste-se de valor histórico, porquanto marcou uma época de Macau, por ter sido o primeiro grande empreendimento imobiliário levado a cabo por iniciativa de empresários chineses. No entanto, devido às circunstâncias da época, a projectada finalidade fora alterada, tendo muitas das casas sido utilizadas, durante décadas, para a instalação de bordéis e de actividades moralmente censuráveis. Seja como for, o Bairro da Felicidade ainda mantém um conjunto de imóveis de valor histórico-cultural, que serviu de “bairro vermelho”, sendo o único do género que resta em toda a China. Rua da Felicidade, vista a partir da junção com a Travessa do Mastro e a Travessa da Felicidade. Vê-se, do lado direito, a Hospedaria San Va e, do lado esquerdo, uma parte do Restaurante Fat Siu Lau. Após as referidas obras de requalificação, todas as construções, localizadas na Rua da Felicidade, no Beco da Felicidade e no Pátio da Felicidade, foram desde então integradas na lista do património classificado.
  • 224 NOTAS: [1] Matapau era um termo no dialecto macaense para designar tangerina, em chinês, Kât Châi (桔仔). Originalmente, a zona do Matapau era um pequeno bairro chinês, designado “Wâng Lông Fóng” (宏隆坊 , sendo “Wâng Lông, grande prosperidade e, “Fóng”, bairro). Actualmente restam 3 vias (uma rua, uma travessa e um beco) da antiga zona do Matapau, estando a Rua do Matapau, em chinês, Kât Châi Kái ( 桔仔街 ), situada entre a Avenida de Almeida Ribeiro e a Rua da Barca da Lenha. Esta rua termina na Travessa do Aterro Novo. [2] António Vicente Pereira, filho do Conselheiro Manuel Pereira e de Ana Pereira Viana. [3] Ainda existe, entre a Rua do Matapau e a Rua da Felicidade, uma via designada Rua da Barca da Lenha, em chinês, Ch’ái Sün Mei Kái ( 柴船尾街 ) onde, outrora, junto à margem, havia cais a que essas embarcações podiam atracar para descarga de lenha e carvão. [4] Além do antigo bairro “Fôk Lông”, donde nasceu, a partir dos aterros, o novo Bairro da Felicidade, havia ali próximo, nomeadamente o antigo bairro “Wang Lông” (宏隆坊 , “Wang Lông Fóng”), na zona do Matapau, e o antigo bairro “Tâk Lông” (德隆坊 , “Tak Lông Fóng”), que apenas resta um portal e uma curta via designada Pátio do Cotovelo. No lintel do portal deste Pátio, há 3 inscrições: a do centro, estão gravados os caracteres chineses 德隆新街 (Tâk Lông Sân Kái), podendo “Tâk Lông”, literalmente, significar “Virtude Abundante” e, “Sân Kái” quer dizer “Rua Nova”; a inscrição do lado direito é 咸豐己未冬初 (que quer dizer “9º ano do Imperador Xianfeng”, correspondendo, assim, ao ano de 1859); e, do lado esquerdo, 里人建立 (cujos caracteres significam “construído pelas pessoas do interior” da rua). [5] O Beco do Gamboa também é conhecido, em chinês, por “Sâm Hóng Châi” (深巷仔), que comunica com a Travessa das Virtudes
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 225 (também designada, em chinês, por 深巷橫街 “Sâm Hóng Wáng Kái”). A Travessa das Virtudes confina com uma das paredes laterais do Teatro Cheng Peng. [6] A Travessa do Auto Novo (cuja designação “auto novo” quer significar “novo teatro chinês” ou “novo teatro de ópera chinesa”), além do topónimo, em chinês, “Cheng Peng Hóng” (ou seja, “Travessa de Cheng Peng”), é também designada “Cheng Peng San Kái” (“Rua Nova de Cheng Peng”) e “Cheng Peng Chêk Kai” (“Rua Direita de Cheng Peng”). (7) Deveria ser o teatro que existiu na Rua do Teatro, então designado por “Auto-China”, e consta ter ali funcionado entre 1858 e 1865. [8] Existe uma publicação, em chinês, em que refere (mas sem mencionar a fonte) que Vong Lôk e o seu filho Vong Tâi aceitaram uma sugestão do governador António Sérgio de Sousa para edificarem um teatro chinês e, deste modo, começaram a construção em Outubro de 1870. O edifício do teatro ficou basicamente concluído dois anos depois. Subsequentemente, foram realizadas obras internas, após as quais o teatro foi oficialmente inaugurado em 1875. Caso assim fosse, pode-se presumir que, depois daquele espectáculo de ópera chinesa realizado, em 29 de Setembro de 1872, com a presença do Grão-Duque Alexis da Rússia, o Teatro teria sido danificado por algum violento temporal (visto que vários temporais ocorreram em 1873 e 1874) e teve de ser reparado ou remodelado, voltando a abrir em 1875, a tempo de comemorarem os 70 anos de Vong Lôk, que faleceu no ano seguinte. [9] Informação extraída de uma postagem feita pelo autor do blogue nenotavaiconta, em 28.09.2016, em que faz referência a “Sing Ping theater”. Consta que a designação original do teatro era mesmo Seng Peng (昇平), tendo depois sido alterada para Cheng Peng (清平). A designação Seng Peng (昇平) figura, no entanto, na toponímia de Macau, no local onde viveu Vong Tâi (filho de Vong Lôk) e sua família, que era um beco e, depois, um
  • 226 pátio, denominado Pátio do Comprador, em cantonense “Seng Peng Wai” (昇平圍). [10] Transcrição parcial do primeiro Regulamento para as meretrizes e casas toleradas de Macau. A versão integral está publicada no Boletim da Província de Macau e Timor nº 24, de 8 de Junho de 1872. [11] Esse Regulamento prevê que: “Fica proibido o estabelecimento de novas casas de meretrizes em lugares onde possam ser nocivos à moral pública ou ao decoro das famílias vizinhas, cumprindo às autoridades policiais providenciar para que esta disposição seja mantida e atender todas as reclamações justas, que lhes forem dirigidas.” [12] Refere-se ao Hospital de S. Rafael. [13] O infanticídio feminino era uma prática corrente na China. No entanto, havia pais que, pressionados pela miséria, em vez de matarem as suas filhas, as vendiam. [14] É possível que os barcos de flores, que sulcavam as águas do rio, para entretenimentos licenciosos, teriam servido de inspiração para o maior poeta simbolista português, Camilo Pessanha, quando compôs o seu poema Ao Longe os Barcos de Flores, porquanto descreve “um som da flauta chora … na escuridão tranquila …, na orgia, ao longe, …”, etc., etc. De notar que a flauta e o “pei pa” (琵琶 ) eram instrumentos musicais utilizados por meretrizes para entreter os clientes. [15] Tancá é pequena embarcação de origem chinesa, sem quilha, coberta com um toldo de forma oval, geralmente movida por um só remo, que é usada para pesca ou para transporte de passageiros, podendo ainda servir como habitação. Tancá também se refere a uma minoria étnica que vivia em embarcações nas zonas costeiras do sul da China e essa gente do mar (水上人 , sôi seong yân”, literalmente, pessoa que vive sobre a água) era conhecida por tancareira. As tancareiras eram muito apreciadas pelo pintor inglês George Chinnery, tendo feito vários desenhos
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 227 sobre elas, nomeadamente a célebre pintura a óleo da tancareira Assor. [16] O edifício hoteleiro, originalmente denominado Hotel President, foi inaugurado a 22 de Julho de 1928, com apenas 6 andares. Em 1930, quando a Companhia Hou Heng (濠興公司), liderada por Fok Chi Teng (霍芝庭), ganhou a primeiro monopólio para a operação de todas as modalidades de jogos, a Companhia ocupou aquele hotel e alterou a denominação para Grand Hotel Central. [17] Fá Kái (花街) em chinês significa “Rua das Flores” e “flores” era um termo vulgarmente usado para designar “prostitutas”. [18] Os dois festivais de música, organizados por Mário Tomás, realizaram-se no Teatro Cheng Peng, respectivamente em 10 de Novembro de 1963 e em 16 de Agosto de 1964, tendo o conjunto “The Grey Coats”, formado por Leonardo Amarante (líder), Diamantino Pereira, António Lopes e Jackie Mahomed, sido o conjunto vencedor dos dois festivais. Anos depois, organizaram também outros festivais destinados à angariação de fundos. Publicações consultadas: • Comerciantes chineses de Macau no final da Dinastia Qing (澳門晚清華商), da autoria de Lam Kwong Chi (林廣志). • Boletins da Província de Macau e Timor; Mapas de Macau do século XIX; Cadastros de Vias Públicas e Outros Lugares de Macau; e, também, publicações diversas, nomeadamente o blogue nenotavaiconta. Obs.: Este texto foi revisto e actualizado em Julho de 2021. O texto original fora publicado em “Crónicas Macaenses”, em 07 de Maio de 2020.
  • 228 Um troço da Travessa da Felicidade, vendo-se ao fundo as portas laterais do antigo Teatro Cheng Peng e, na parede, 4 caracteres chineses, de cor vermelha, 清平戲院 (Cheng Peng Hei Yün, isto é, Teatro Cheng Peng). Portal alpendrado do Beco da Felicidade. No lado direito, junto à entrada, há um altar de rua do Bairro da Felicidade.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 229 Altar de rua do Bairro da Felicidade, localizado à entrada do Beco da Felicidade. O conjunto de prédios do Beco da Felicidade. No lado esquerdo, está um dos prédios recuperados, que actualmente serve para a divulgação de cultura, denominado “Hall de Cultura” (文化公所).
  • 230 Outro aspecto do Beco da Felicidade, visto do sentido contrário. Um troço da Rua da Felicidade, visto a partir da Travessa do Aterro Novo.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 231 Em 1996, quando a administração portuguesa mandou pintar de vermelho as portas e janelas dos prédios e, de cinza-claro, as paredes, os velhos residentes não gostaram, pois disseram que a cor original das portas e janelas era verde e as paredes eram de tijolo cinzento, sem pintura. Recentemente, há várias casas que foram renovadas e as portas e janelas já se apresentam com a cor original, ou seja, pintadas de verde, assim como as paredes, sem pintura. Rua da Felicidade, vista a partir da junção da Travessa do Matadouro com a Travessa do Auto Novo.
  • 232 Rua da Caldeira, que é a continuação da Rua da Felicidade até ao Porto Interior. Travessa do Auto Novo, em Dezembro de 2019. Ao fundo, do lado esquerdo, era a entrada principal do antigo Teatro Cheng Peng.
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 233 Travessa do Auto Novo, nos anos 70 do século passado. Actuação do conjunto “The Grey Coats”, no 1º Festival de Música, realizado no Teatro Cheng Peng, em 1963. Foto: Cortesia de Leonardo Amarante
  • 234 O líder de “The Grey Coats”, Leonardo Amarante, a receber o troféu, por ter sido eleito o melhor conjunto. Do lado esquerdo, vê-se Mário Tomás, o organizador do festival. Foto: Cortesia de Leonardo Amarante A Rua da Felicidade, num postal de princípios do século XX
  • Manuel V. Basílio SÍTIOS COM HISTÓRIAS 1 235
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