MACAUROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAJorge Santos AlvesRui Simões
Jorge Santos AlvesRui SimõesMACAUROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAFotografiaMiguel Santos Alves
FICHA TÉCNICAEditor: Instituto Internacional de MacauTítulo: Macau – Roteiros de uma Cidade AbertaAutores: Jorge Santos Alves e Rui SimõesFotografia: Miguel Santos AlvesDesign gráfico e paginação: MaisImagem IITiragem: 1.000 exemplaresImpressão: ACD PrintISBN: 978-989-99457-4-6Depósito Legal: 416266/16Lisboa, Outubro 2016Os autoresJorge Santos Alves é Professor Auxiliar Convidado da Faculdade de Ciências Humanas (Universidade CatólicaPortuguesa, Lisboa) e Coordenador do Instituto de Estudos Asiáticos (FCH-UCP). Foi professor convidadoda Universidade de Macau (2003-2010), onde ensinou entre 1990 e 1996. Os seus interesses no ensinoe na investigação são principalmente orientados para os Estudos Asiáticos, em particular a História da Ásiado Sueste Pré-Colonial, História da China e de Macau, bem como as relações luso-chinesas.Rui Simões é Licenciado em Antropologia (FCSH-UNL), pós-graduado em Psicologia Educacional (ISPA),Mestre em Sociologia (FCSH-UNL), e Doutor em Ciências da Educação (FCSH-UNL). Exerceu actividadedocente no Instituto Politécnico de Setúbal, Instituto Politécnico de Macau e Universidade de Macau,leccionando actualmente na Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa. Os seus principais temas de pesquisa são sobre o Corpo e Jogos Tradicionais, os Soft powers, aComunicação Intercultural e a Educação de matriz portuguesa na Ásia.
AgradecimentosAo Instituto Internacional de Macau, na pessoa do seu presidente Jorge Rangel, pelo convitepara pensar, escrever e publicar este livro.Ao José Lobo Amaral, vice-presidente do Instituto Internacional de Macau, com quempartilhamos a paixão pela cidade e pelas suas gentes. Este livro também é dele.Ao João Loureiro que ajudou a lançar a ideia deste livro.Ao Nelson Diogo e à Maria do Sameiro Fernandes pela cedência amiga de algumas das fotosque ilustram este livro.À Beatriz Hernandéz, por ter lido o primeiro esquisso de boa parte deste livro e peloscomentários e sugestões que o ajudaram a melhorar.À Irene Henriques da MaisImagem pela inspiração e cuidado profissional na edição do livro.Jorge Santos Alves / Rui SimõesLisboa, Outubro de 2016
ÍndiceNota de Apresentação ................................................................................................................................................................................................................................................................. 7Prefácio ........................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ 9Breve Tábua Cronológica ....................................................................................................................................................................................................................................................... 1 1Macau, História de uma Cidade Aberta .................................................................................................................................................................................................. 1 2Antes do Porto Internacional (do século XIV a 1555/1557) ................................................................................................................................................. 1 4O Porto Internacional (1555/1557-1842) ........................................................................................................................................................................................................... 1 6A Internacionalização Partilhada (1842-1911) .............................................................................................................................................................................................. 28Um Porto Adormecido (1911 à década de 1980) ..................................................................................................................................................................................... 3 1O Redespertar da Prosperidade (da década de 1980 a 2015) .......................................................................................................................................... 33Macau, Roteiros de uma Cidade Aberta ............................................................................................................................................................................................... 36Roteiro dos Poderes ........................................................................................................................................................................................................................................................................ 38Roteiro dos Negócios ..................................................................................................................................................................................................................................................................... 47Roteiro dos Prazeres ...................................................................................................................................................................................................................................................................... 52Roteiro das Confissões ............................................................................................................................................................................................................................................................... 57Roteiro dos Saberes ........................................................................................................................................................................................................................................................................ 65Roteiro das Sociabilidades ..................................................................................................................................................................................................................................................... 7 3Bibliografia Seleccionada ...................................................................................................................................................................................................................................................... 79
7MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTADois prestigiados académicos, JorgeSantos Alves e Rui Simões, com vasta emuito relevante obra publicada sobreMacau, quiseram brindar-nos com umconjunto coerente de roteiros temáticosdesenhados especialmente para visitantesexigentes que queiram ver com outros olhosa cidade e que são também da maiorut i l idade para quem aqu i nasceu ou escolheu o território para viver. A ligaçãointensa de ambos a Macau permitiu-lhesentender o legado, a terra e as gentes, que estudaram interessadamente nas suasvariadas vertentes, descobrir caminhos,l u g a re s e re c a n to s d e u m e s p a çoverdadeiramente singular e explicar osignificado desta jóia ímpar que Portugala judou a ta lhar e a China assumiu ocompromisso de continuar a valorizar.Da cultura aos sabores, do lazer e dos“vícios” aos negócios, da administração aoscultos, da maneira de viver à pujança dasociedade civil, de tudo um pouco os autorespartilham o conhecimento, facultando-nosseis roteiros muito bem traçados, assimident i f icados : o dos poderes , o dosnegócios, o dos prazeres, o das confissões,o dos saberes e o das sociabilidades. A leiturados respectivos textos, primorosamenteelaborados, estimulam de imediato a vontade de os experimentar, fazendo cada um dos percursos em conformidadecom as indicações daqueles qualificadíssimoscicerones.Ruas, becos, avenidas, parques e jardins,igrejas e templos de diversificadas confissõesque aqui sempre coexistiram em exemplartolerância, estabelecimentos de toda a ordeme as pedras da história que mereceram ainvejável classificação de “património dahumanidade” são identificados em cada umdos percursos sugeridos. Cabe ao leitor fazeras pausas convenientes para admirar, ao seu ritmo, os monumentos e lugares, algunsbastante surpreendentes, em cada paragem.A informação prestada é correctamentedoseada, despertando no visitante o prazer ea curiosidade de, por si próprio, procurarsaber mais. Estamos certos de que quempegar neste livro-guia não o largará mais, atéporque ele pode e deve ser lido antes deiniciar os percursos e consultado ao longo decada um dos roteiros. Será um companheiropermanente na viagem encetada.Uma tábua cronológica e uma concisaH i s tó r i a de Macau , C idade Aber ta ,enriquecem sobremaneira o livro. Nestecapítulo estão caracterizados os cincoperíodos fundamentais dessa História, naperspectiva dos autores: Antes do PortoInternacional (século XIV a 1555/57), O Porto Internacional (1555/57 a 1842),Nota de apresentação
8 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAA Internacionalização Partilhada (1842 a1911), Um Porto Adormecido (1911 àdécada de 1980) e o Redespertar daProsperidade (década de 1980 a 2015). O Prof. Jorge Santos Alves tem trabalhosincontornáveis sobre esta matéria, de que éreconhecido especialista.Alguma bibliografia seleccionada apareceno fim, abrindo ao leitor adequadas pistaspara prosseguir as suas leituras sobre estefascinante ponto de encontro entre oOriente e o Ocidente, eterno porto deabrigo que foi um verdadeiro “milagre desobrevivência” e que, no dealbar do séculoXXI, retomou com sucesso e estabilidade a sua vocação tradicional de entrepostoprivilegiado, assumindo-se agora comoplataforma oficial de cooperação económicae comercial entre a China e os países delíngua portuguesa. Cooperação que, porvontade de todas as partes intervenientes,se estende a outras amplas áreas, da culturaà saúde, da administração pública à educação,do desenvolvimento físico ao desporto.O Instituto Internacional de Macau (IIM)apoiou sem hesitação este projecto edecidiu incluí-lo no seu programa editorialde 2016. É uma edição que enriquece,inquestionavelmente, o seu acervo. Aexecução foi entregue à MaisImagem, sob aorientação competente de Irene Henriques.No prefácio, os autores expressaram o seu reconhecimento às entidades queajudaram a viabi l izar este importantetrabalho. Cumpre-me agora dirigir-lhes umagradecimento muito sincero e sentido e ascalorosas felicitações do IIM, esperandopoder continuar a contar com a sua preciosacolaboração em novas iniciativas no futuropróximo. Neste agradecimento é justoenglobar também a contribuição de MiguelSantos Alves, na área da fotografia.Macau, Outubro de 2016Jorge A. H. RangelPresidente do Instituto Internacional de Macau
Para que não fiquem dúvidas: este livro éantes de tudo um agradecimento a Macau, àsua história e às suas gentes. Foi escrito a dois,mas foi pensado e repensado como se de um sóse tratasse. Graças também a uma amizade quecresceu em Macau, abrigada pelos seus muros,resguardada nas suas baías e Porto Interior.Por isso estamos ambos gratos a Macau. Este é um livro destinado a todos quantosqueiram visitar Macau e melhor compreender,vivendo, a sua história (e seus grandes ciclos), assuas principais características e transformações(físicas, culturais, sociais, económicas, religiosas,etc.) enquanto cidade aberta ao Mundo. Paraisso, propomos ao leitor e visitante que pensesempre Macau no quadro da sua dimensão física(muito reduzida), mas embebida no quadro geo-histórico da Ásia Oriental (com destaquepara a China) e da presença europeia na Ásia(com destaque para o caso português). Para isso, propomos que esta ideia da Macau sejaconstruída através de seis roteiros temáticos,com diferentes ângulos de aprofundamentodo conhecimento de Macau e de leitura do seuespaço público. Os seis roteiros propostos são,por isso, transversais às dinâmicas sociais,culturais, religiosas, politicas, étnicas e urbanasda cidade.O conceito de “roteiro” invoca a ideia de umpercurso, temático, à primeira vista com umamoldura geográfica. A ideia de um trajectopontua-se aqui na perspectiva da leitura, do olhar, e da continuidade temática queatravessa tanto o património edificado como asmodalidades da sua utilização e apropriação. Mascoloca-nos outro desafio, ainda, o de explorarestas dimensões temáticas no tempo, tanto pelotestemunho da História como na reificação pela memória, ora invocada no ritual ou nassociabilidades, ora marcada no urbanismo e na edificação. Não são realidades dissociáveis.Muito menos em Macau, cidade aberta atodas a formas de associação.A organização destes roteiros não esconde ofacto de eles se entrecruzarem constantemente:a sociabilidade enquadra-se, amiúde, nas razõese sobretudo na irracionalidade do prazer,evidencia os canais da economia, torna-se opano de fundo da expressão dos poderes e oreflexo da soberania; a mesma soberania quetributa as finanças, regula a negócio, pauta asolidariedade e tutela o urbanismo ou regulaa educação e a aquisição do conhecimento.Macau, por ter visto coexistir, por um largo período da sua história, a Soberania (pelo Governador) com a Administração (peloSenado), numa intersecção frequentementedisputada, pelo menos até ao início do século XIX,não deixou nunca de considerar a presença de outros tantos poderes e interesses, amiúdeassumidos, de forma menos evidente, pelo seuassociativismo, ou compensado por algumas9MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAPrefácio
formas do seu mecenato, realidade manifestanas dimensões intangíveis do seu património,o que parece bem demarcado pela suatoponímia e na repartição do espaço,urbanizado e edificado, pela expressão suasinstituições.A ordem de interesses da administraçãoportuguesa atendeu, de modos e em forosdiversos, aos interesses e condições colocadospela comunidade chinesa, maioritária no pesodemográfico e económico e diversa nas suasorigens, condicionando os processos dedecisão e gerando, de forma aparente, doisquadros socioculturais paralelos e, até, muitasvezes, duas toponímias paralelas. Esteparalelismo, de quando em vez descrito como autonomia é bem mais narrativo quereal, como veremos. Porventura para surpresade alguns, que por isso teriam que passar,vindos da Rua Nova à Guia, na Rua e naCalçada da Surpresa.Os seis roteiros (Poderes, Negócios,Prazeres, Confissões, Saberes e Sociabilidades)são, pois, composições entre a materialidadedo património, em suportes estáveis, mesmoque por períodos limitados, e a persistênciade práticas, rituais religiosos ou laicos,consumos, expressões criativas e, também,investimentos, negócios, trabalho, argumentosde convívio, imprensa, etc.Para o leitor e viajante mais exigente, quebuscar mais do que este livro oferece,incluímos no final uma breve (mas actualizada)bibliografia selecionada sobre Macau e assuas várias dimensões de cidade aberta aoMundo.Jorge Santos Alves / Rui SimõesLisboa, Outubro de 201610 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA
1555/1557Estabelecimento dos portugueses em Macau1569Constituição da Misericórdia de Macau1583Instituição do Senado da Câmara1622Grande ataque holandês contra Macau1623Nomeação do primeiro governador de Macau,Dom Francisco de Mascarenhas (1623-1626)1644Chegada ao poder da dinastia Qing (1644-1911)1726/1752Embaixadas do Rei de Portugal à China1783Imposição das “Seis Providências” a Macau1808Tentativa de ocupação de Macau pelos ingleses1842Fundação de Hong Kong1844Formalização do estatuto de colónia portuguesapara Macau 1847Legalização do jogo em Macau 1887Primeiro tratado luso-chinês sobre Macau1910Implantação da República em Portugal1911Implantação da República na China1949Implantação da República Popular da China1966Início da Revolução Cultural Chinesa1976Aprovação do Estatuto Orgânico de Macau 1979Restabelecimento oficial das relações diplomáticasentre Portugal e a República Popular da China1987Assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre Macau1995Inauguração do Aeroporto Internacional de Macau1999Transferência de poderes de Macau de Portugalpara a República Popular da China1999Edmundo Ho eleito o primeiro chefe dogoverno de Macau, após a criação da RAEM2002Entrada de investidores americanos na indústriado Jogo em Macau2006Macau ultrapassa Las Vegas como maior centromundial de Jogo2014Primeira queda de sempre nas receitas do Jogoem Macau1 1MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTABreve tábua cronológica
MACAUHistória deAberta
uma Cidade
Vezes sem conta, durante demasiado tempo,manuais escolares, obras de divulgação e atépublicações académicas repetiram que a chegadados portugueses a Macau, algures entre 1555 e1557, coincidiu com a “fundação” da cidade e dasua constituição como porto comercial. Estaespécie de “mito fundador”, perpetuado comalgumas nuances, foi dissolvido por historiadoreschineses, portugueses e de outras nacionalidades,com maior consistência documental, pelo menosdesde a década de 1990. Mas, ainda assim, o “mitofundador” de Macau, intimamente associado àajuda portuguesa contra os piratas e à concessãode Macau pe lo imperador da China comorecompensa, oficializada através de uma “chapa” de ouro, teimou em sobreviver, desafiando ventose marés… e até tufões.A lista de mitos relacionados com a história deMacau é relativamente longa e poderia mesmomerecer um roteiro próprio neste livro, que se fará,quem sabe, numa reedição. O que será, para quemestuda a história de Macau, mas também paraquem visita a cidade (desde 1999, RegiãoAdministrativa Especial de Macau) um aliciantesuplementar. Até porque os mitos históricos dãovida às cidades, às suas avenidas, ruas e becos,apimentam visitas e animam conversas de fim depasseio. Talvez cada um dos leitores deste livro evisitantes de Macau o “escreva” na sua imaginaçãoe o grave na memória quando abandonar oterritório a caminho do imenso continente chinêsou de uma travessia do Mar da China, com destinocerto ou incerto.Antes do Porto Internacional(do século XIV a 1555/1557)Macau não foi, portanto, “fundada” em meadosdo século XVI quando os primeiros portugueses sefixaram nesta que era então uma quase-ilha (paraalguns mesmo uma verdadeira ilha). Macau (ealgumas das ilhas ao seu redor, como Coloane) teveocupação humana pelo menos desde o período finaldo Neolítico (entre 4.000 e 3.500 a.C.). A área quehoje designamos por Macau foi incorporada nagrelha administrativa chinesa (a mais antiga,elaborada e eficiente do Mundo) durante a dinastiaJin, por volta do século IV. Desde então, a zona nãomais saiu do espaço imperial chinês. Ganhou atéalgum relevo já durante a dinastia Song (960-1279) , enquanto por to p i scatór io e natransição-choque para a dinastia Mongol (bárbaraaos olhos dos chineses Han) dos Yuan (1279-1368). Tornou-se ponto de refúgio de gentes deprovíncias interiores da China e de combates navaiscom as forças ocupantes mongóis.Foi, contudo, durante a dinastia Ming, querestaurou o governo da China por chineses (1368-1644), que esta zona costeira de Guangdongadquiriu significado político-económico. Sempreassociada ao desenvolvimento da megalópolis que era já então a cidade de Guangzhou / Cantão. Aos poucos, o delta do Rio da Pérola (Zhu Jiang),ganhou vida tornando-se porto de escala dosnavios das embaixadas tributárias da Ásia do Suesteaos imperadores Ming, antes da subida atéGuangzhou / Cantão.Lentamente, a pequena comunidade de pescadorese pequenos comerciantes cantoneses e do Fujian,agrupados ao redor do templo da deusa Mazu, na ponta da quase-ilha de Jin Ao, começaram a acolher as visitas sazonais dos navios vindos daÁsia do Sueste, prestar tributo ao imperador chinês e fazer comércio. Esta verdadeira “Porta do Mar” (Ao Men) transformou-se numa dasprincipais entradas na China Ming, através deGuangzhou / Cantão. Ao longo do século XV, navios de muitos sultanatos e potentados domundo malaio-indonésio, vassalos da China Ming, demandavam Ao Men, esperando para subir até Guangzhou / Cantão. Nestas missõestributárias político-diplomáticas, mas tambémfortemente comerciais, vinham numerosos chinesesultramarinos, oriundos das comunidades de Malaca,Patani, Pahang, do Sião (Tailândia) e de portos dailha de Java. Na sua maioria tinham origensfamil iares nas províncias do sul da China(Guangdong, Fujian e Zhejiang). O final do séculoXV e as primeiras décadas do século XVI viramincrementar este movimento de navios, gentes eprodutos da Ásia do Sueste na zona do delta do Rioda Pérola. Onde conviviam, em serena e próspera14 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA
coabitação, o comércio oficial e o contrabando. A coabitação continuava porque todos (privados e oficiais, chineses e estrangeiros) lucravam.Lucrativa continuou essa coabitação até àdécada de 1540/1550, quando um novo inquilinoa quis partilhar: os portugueses. Depois dos problemas e fracassos das primeirasaproximações à China do Sul e aos seus mercadosnas décadas de 1510 e 1520, a Coroa portuguesa“desistiu” dos planos para o Mar da China. A Ásiamarítima, mormente a Ásia do Sueste e o sul daChina, nas décadas de 1530 a 1550 caminhavapara dramáticas mudanças.A Ocidente, a expansão territorial e geopolíticaturca, muito determinada pela simbólica tomada deAdém em 1538, despoletou o reviver da chamada“Rota do Mar Vermelho”. No norte da Índia, oimpério Mogol entrava no seu momento de apogeu.Na outra extremidade da Ásia, o Japão vivia anos deprofundas mudanças na sua vida económica, maisvisíveis no seu comércio externo. O período Tenbun(1532-1555) assistiu a um incremento no volumee valor das trocas comerciais com o estrangeiro,com a China a ocupar lugar cimeiro como mercadoimportador da prata japonesa e exportador de sedapara o Japão. A China rendia-se ao fascínio da mercantilizaçãoe da circulação da prata. Todavia, a saúde da suaeconomia estava irremediavelmente afectada pelametastização quase incontrolável do comércio ilegalcom o Japão e a Ásia do Sueste. Os portos da Ásiado Sueste eram, anualmente, destino de centenasde juncos saídos de pequenas baías e portos das costas de Zhejiang, de Guangdong e, maisfrequentemente, de Fujian. Procuravam avidamenteespeciarias, drogas e madeiras raras, com as quaisinundavam os mercados oficiais e paraleloschineses, a preços cada vez mais competitivos, o que as mais das vezes queria dizer quase aodesbarato.Este panorama do mundo de negóciosmarítimos asiáticos, no qual os portuguesesrepresentavam apenas um pequeno papel, obrigouos mercados produtores de espec ia r i as ,par t i cu la rmente os de p imenta , a umarecomposição. Adaptando-se, com a celeridadepossível, às novas exigências dos compradores econsumidores. A produção pimenteira subiu emflecha na Ásia do Sueste entre 1535 e 1545. A China era abastecida de pimenta a partir de Sunda,Patani, Pahang, Kelantan e Malaca. Os mercados aocidente, Golfo Pérsico e Mar Vermelho, optavampela pimenta do norte de Samatra – principalmenteproduzida nos sertões de Pidie e Pasai. Esta pimentaera depois escoada pelo porto-capital do sultanatode Aceh e ocasionalmente por Sunda, onde sechegava, descendo a costa ocidental de Samatra. O quadro parece bem arrumado assim. Mas, se omercado chinês havia séculos que preferia apimenta do norte de Samatra e de Java à da Índia,porque deixou estes mercados?Com efeito, já a partir dos anos de 1530, omercado chinês apresentava sintomas de“entupimento” de algumas especiarias e drogassueste-asiáticas. Para tanto terá contribuído nãosomente o aumento descontrolado do comércioilegal chinês e sino-japonês, vindo dos portos dosestreitos de Malaca e de Sunda, e que operava coma conivência, quando não participação activa, dealgumas autoridades provinciais da China do Sul. A isto se veio juntar o regresso dos juncos deRyukyu aos mercados da Ásia do Sueste nos finaisda década de 1530, bem como a desenfreadaentrada de portugueses e luso-asiáticos no comérciode pimenta de Sunda e Samatra para a China. Foramreabertas aos portugueses as portas das baías eportos chineses, desta vez de Fujian e Zhejiang, logo no começo dos anos 30, depois do fracassoestrondoso no Guangdong nos primeiros anos dadécada de 1520. A miragem do “Eldorado” chinês,mercado sôfrego, guloso pela pimenta e outrasespeciarias enchia os espíritos de muitosportugueses da época. Corriam os boatos quediziam que na China o lucro transformava dez em cem, que empurravam tudo e todos para ascostas chinesas.Contudo, afinal, o mercado chinês não era comoo descreviam. Tinha limites. Empanturrada depimenta e outras especiarias, a China não podiacomprar tanto. Os preços baixaram drasticamente.De súbito, já só se ganhava entre 50 e 60%. Apimenta ficava armazenada de um ano para o outroou voltava para trás. Os boatos afinal eram apenasisso: boatos. 15MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA
A despeito deste revés financeiro, as operaçõesprivadas portuguesas e luso-asiáticas no mercadochinês prosseguiram. Mas com outros protagonistase com outras redes. A mais importante era a rededa família Pereira. Liderada por dois irmãos,Guilherme e Diogo, esta rede mantinha antigos e regulares contactos com a China. Mais intensosa partir de meados da década de 1540. E comboas parcerias no campo chinês. As primeirasparcerias luso-chinesas funcionavam à perfeição ecom lucro.Do lado português os parceiros mais activos e ricos eram membros da família Pereira.Concentravam os seus investimentos nos portos dosul da China e, a partir daí, no Japão. Nas décadasde 1540 e 1550, as suas rotas preferenciaisparecem ser, como era uso nas demais redesportuguesas e luso-asiáticas, Malaca-Patane ouPahang-China (Quanzhou e Ningbo); Malaca-Sunda-China (Quanzhou e Ningbo). Gradualmente,à medida que avançamos na década de 1550,entram na sua geografia de negócios os portos e ancoradouros do chamado “Mar de Lintin”(Guandgong), onde avultam Shangchuan Dao(Sanchoão), Langbaigang (Lampacau) e, por fim,Macau. Ali ficava o famoso templo de Makok comoouviam chamar os seus parceiros comerciais doFujian ao santuário de Mazu e que talvez tenhaestado na origem do topónimo português Macau.Quer isto dizer que, após os desaires nas costasde Zhejiang e de Fujian, os interesses luso-chinesesse voltaram de novo, na década de 1550, para aprovíncia de Guangdong. Primeiramente para a ilha de Shangchuan / Sanchoão, depois paraLangbaigang / Lampacau. Por fim, após 1555, cadavez mais para Macau. Estava por fim encontradoem Guangdong, tudo indicava, a base de apoioindispensável ao comércio português e luso-chinêsno Mar da China e para a viagem do Japão. Para talcontribuiu decisivamente a acção de Leonel deSousa (1554) que, através de um acordo ou“assentamento” com autoridades provinciais doGuangdong, adubou o relacionamento luso-chinêspara os séculos seguintes, desencadeando oprocesso conducente à fixação gradualmentepermanente dos portugueses em Macau. Para o sucesso inicial desse processo poderá tercontribuído também o abastecimento de âmbar-gris (uma secreção biliar dos intestinos de baleias,da espécie cachalote Physeter macrocephalus) àCorte Imperial. É que o imperador Jiajing (1522-1566) buscava desesperadamente âmbar-gris(ingrediente essencial para elixires da longevidadee da fertilidade), e ordenou, sucessivamente em1555 e 1556, que fosse obtido nos portos doFujian e do Guangdong, em particular noancoradouro frequentado pelos portugueses(Macau). Aparentemente, deu como contrapartidaaos vendedores do precioso produto, osportugueses, a autorização de estabelecimentosazonal em Macau.Macau demoraria pelo menos uma década aafirmar-se como estabelecimento dos portuguesese dos seus parceiros chineses (e outros asiáticos)no sul da China. Estava dado o primeiro passo natransformação de um pequeno porto piscatório eporto de espera do comércio tributário a caminhode Cantão (Guangzhou) em porto internacional.Macau tornava-se a incubadora perfeita para asstart-up luso-chinesas e luso-asiáticas.O Porto Internacional (1555/1557-1842)A história de Macau como porto internacional,se quisermos, como porto entre dois impérios(Portugal e a China) foi certamente marcadapelos vários ciclos da política imperial portuguesaou da Monarquia Dual (entre 1580 e 1640).Umas vezes decidida por Lisboa, cabeça doImpério, outras por Goa, cabeça do Estado daIndia, esta política pouco interferia na autonomiapolítico-administrativa e diplomática de Macau.Mas, se a História de Macau foi também muitomarcada pelas alterações na arquitecturageopolítica da Ásia do Sueste e do Japão, foram,no entanto, os ciclos dinásticos do Império Chinêse a gestão da questão de Macau pelos váriosimperadores das dinastias Ming e Qing que maiscondicionaram a vida da cidade.Para o período compreendido entre a primeirasociedade macaense e a concessão de Hong Kong16 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA
à Inglaterra em 1842, vamos considerar quatrofases distintas. Fase 1 (1555/1557-1644)À entrada da década de 1560, Macau não se assumira ainda como um estabelecimentopermanente dos portugueses nas costas daprovíncia de Guangdong. A pequena multidão deportugueses e luso-asiáticos que comerciavanestas paragens, mantinha-se dispersa por váriasilhas e ancoradouros das imediações do delta do Rioda Pérola, tais como a enseada de André Feio, a ilhade Jorge Ribeiro (actual Coloane), a ilha dos Veadose ilha do Pinhal, esta última na qual se abrigavamcerca de 300 portugueses, ainda em 1564.Poucos anos transcorridos sobre o começo dasua metamorfose em porto internacional, Macauconheceu uma fase de rápido crescimentopopulacional e urbano. De porto de pesca e deabrigo de juncos de comércio tributário, e de magroamontoado de casas de madeira e tendas, Macautomava, no abrir da década de 1560, silhueta decidade mercantil, espraiada pela colina do Patane(que remete, como veremos no Roteiro dosPoderes, para o porto malaio de Patani). Em 1564a cidade era já habitada por cerca de 600portugueses, a que se somavam os seus escravose criados. Poucos anos volvidos, dizia-se que eramjá 6000 os moradores da cidade, naturalmentechineses (e outros asiáticos) na sua maioria. Macauera já um aglomerado de razoáveis dimensões, comcasas espalhadas pela área urbana, muitas das quaisvizinhas do mar. Todavia, a larga maioria das casascontinuava sendo de madeira e de palha. Por estesanos (1568) a cidade fez construir as suasprimeiras estruturas defensivas. Residiam no aglomerado urbano macaensemercadores portugueses e luso-asiáticos, que apartir de Malaca e de outros pontos da Ásia doSueste (como Patani, Camboja e Java), ou de Goa,participavam activamente nas linhas de comércioregional e, com maior sucesso e proveito, nas trocasmercantes entre a China e o Japão. Frequentadoresassíduos dos estabelecimentos sazonais das costasde Guangdong, desde o princípio da década de1550, fizeram gradualmente de Macau, após1557, a base das suas operações comerciais e dassuas vidas, que partilhavam com mulheres chinesas,siames ou tailandesas, malaias ou indianas. Muitosdeles foram abandonando, a pouco e pouco, as ilhase enseadas em torno do delta do Rio da Pérola,instalando-se em Macau. À sua maneira, cada umdeles, sentia-se parte da cidade. Todos formavama primeira sociedade macaense.17MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAVista de Macau nos finais do século XVII
Outros elementos importantes do rostoeuropeu da primeira sociedade macaense eram ospadres jesuítas. A Companhia de Jesus estiverasempre ao lado dos projectos de criação deestabelecimentos privados luso-asiáticos noOceano Índ ico e Mar da Ch ina , quaseimediatamente depois da sua chegada à Ásia em1542. De resto, haveria de ter o seu próprioestabelecimento comercial e religioso no Japão(Nagasaki, 1580).Por fim, a primeira sociedade macaensepossuía, do lado europeu, um elemento estranho aoseu funcionamento. Esse elemento era formadopela fidalguia portuguesa e pelo seu numerosocortejo de familiares e dependentes, queanualmente arribava a este porto na(s) nau(s) docapitão-mor da viagem do Japão. Por ser a maislucrativa dentre as carreiras comerciais organizadaspela Coroa Portuguesa nos mares asiáticos, levou àcriação de compridas listas de espera para o seuprovimento. Normalmente, até finais do século XVI,a viagem do Japão era concedida a membros dapequena e média nobreza que se distinguira emfeitos de armas ao serviço do Rei de Portugal noOriente, muitas vezes parentela e homens da cliquedos vice-reis e governadores do Estado da Índia e,por inerência do cargo, aos capitães de Malaca.Todos, quase sem excepção, encaravam a viagemdo Japão como óptima e singular oportunidade de enriquecimento.O re lac ionamento entre este e lementoforasteiro da sociedade macaense e os demais erafrequentemente conflitual. O conflito extravasavao plano pessoal e o choque de condições sociais na Ásia portuguesa. Tratava-se de um conflitoessencial, orgânico, entre formas antagónicas deolhar e dialogar com a China e os chineses, e deencarar o futuro de Macau. A história de Macauencarregou-se de mostrar, nos séculos seguintes,a perpetuação deste conflito. Sobre a população asiática de Macau durante oprimeiro século de vida como porto internacional(esmagadoramente chinesa e de várias províncias,nomeadamente do Fujian) poucos dados temos.Haveria decerto uma elite de mercadores chineses,cujo papel na vida económica, social e política deMacau se conhece muito imperfeitamente, mas deque há indícios documentais que revelam a suagrande influência na vida da cidade. Aparentementeera deles a responsabilidade de conduzir osnegócios na feira de Cantão, assim como adisponibilização de capitais para a obtenção decrédito, muito dele canalizado para o comércio dosportugueses de Macau no Japão. Outro sector chinês importante na sociedademacaense era constituído por um talentoso grupode prestadores de serviços. Possuidores deexcelentes contactos em Cantão, serviam de bocae ouvidos na China, escrevendo e falando em nomedos mercadores portugueses e luso-asiáticos noscontactos com as autoridades chinesas; tradutorescomo hoje diríamos.À medida que a cronologia nos leva à década de1570, Macau entrou numa fase de consolidaçãoinstitucional e política. Que era essencial para a suacondição plena de porto internacional. Esteprocesso assentava em duas vertentes principais:constituição dos órgãos de governo, assistênciasocial e ensino; activação dos canais diplomáticoscom as autoridades provinciais de Guangdong,talvez até com Pequim.Uma das marcas de água dos estabelecimentosprivados portugueses e luso-asiáticos na Ásia foi acriação de instituições de assistência social emontepio, as Misericórdias. Assim sucedeu emMacau, em 1569. Juntamente com a Misericórdiafoi criado o pequeno hospital de São Rafael. Naformação das duas instituições foi fulcral o papel daCompanhia de Jesus. Na década de 1580 (entre1583 e 1585) chegou a vez da instituição doórgão central de governo da cidade, o Senado da Câmara. Este processo político resultou,formalmente, da institucionalização de umaestrutura dirigente, informal, que desde os anos de1550 assegurava o governo da cidade, na qualdeveriam ter assento os moradores mais poderosose, porventura, os mais antigos (portugueses echineses?). Como verá o leitor em especial noRoteiro dos Poderes.A decisão de avançar com a instituição doSenado da Câmara pode ter sido, igualmente, umamedida de ajustamento aos primeiros sinais decontrolo burocrático emitidos pela administraçãoFilipina relativamente a Macau. Se a concessão da18 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA
Carta de Foral de Cidade (1582) foi o primeirodesses sinais, a sua confirmação, dois anos volvidos,foi outro. O terceiro sinal foi a nomeação de umouvidor (juiz) com competências alargadas, em1588. O senado macaense reagiu e, em 1592,preparou um caderno reivindicativo para apresentara Filipe I de Portugal. Os vereadores macaenses, quereclamavam um estatuto idêntico ao dos seuscongéneres do Porto, queixavam-se dos danos dasmedidas emanadas pelos Filipes na vida político-administrativa e económica da cidade. A instituiçãodo senado macaense pode ter sido ainda umaresposta aos sinais de reforço do controlo daburocracia civil e militar das autoridades chinesassobre a cidade, mais visível a partir de finais dadécada de 1570. A hierarquia religiosa cristã também se instalouem Macau no final do século XVI. O percurso deaproximação do Padroado Régio à realidade asiática,foi inaugurado em 1514, com a elevação doFunchal à dignidade de primeira diocese ultramarinaportuguesa. Continuou em 1534, com a erecçãode Goa como diocese sufragânea do Funchal esobretudo com a elevação de Goa a arquidiocese(1558), supervisionando as dioceses de Cochim eMalaca. Por fim, este ciclo completou-se com acriação da diocese da China e Japão, com sede emMacau, em 1576. A escolha do jesuíta BelchiorCarneiro Leitão como primeiro bispo da novadiocese era o reconhecimento da acção missionáriada Companhia de Jesus em Macau decerto, mastambém em toda a Ásia Oriental. Este é apenas umdos pontos que o leitor reencontrará no Roteiro dasConfissões.Aos jesuítas estavam igualmente entreguesduas outras áreas vitais na vida da cidade: adiplomacia e o ensino. Relativamente à diplomacia,os padres jesuítas prestavam auxílio e aconselhamentopolítico às missões diplomáticas de Macau junto das autoridades provinciais chinesas (emGuangzhou / Cantão e em Zhaoqing). Começavam,assim, a testar as suas funções de “oficiais deligação” que haveriam de cumprir exemplarmentejunto da Corte Imperial ao longo dos séculos XVII e XVIII.No tocante ao ensino, saliente-se a fundaçãodo Colégio de São Paulo (1595). O colégio daCompanhia de Jesus jogava um papel fulcral a váriosníveis. Primeiramente como polo cultural da cidadee centro de intercâmbio cultural com a Ásia Oriental.Depois, como centro de formação de quadrosmissionários jesuítas para a China e o Japão. Em seguida, como escola de línguas asiáticas,mormente Chinês e Japonês. O colégio foi tambémcentro editorial de literatura cristã, além delaboratório de intercâmbio médico e farmacêuticoentre a Europa e a Ásia, através da sua botica. Queo leitor percorrerá tanto no Roteiro dos Poderes,como no Roteiro dos Saberes.O processo de reforço do controlo dos Filipessobre Macau, activado na década de 1580,acelerou nas primeiras décadas do século XVII. Em1615 foi escolhido para primeiro capitão-geral deMacau o luso-chinês Francisco Lopes Carrasco. Os resultados desta nova política relativamente aMacau foram praticamente nulos, pois a nomeaçãode Lopes Carrasco e a sua entrada de posse do cargo coincidiu quase exactamente com omomento decisivo da ofensiva burocrática elegislativa, e de vigilância militar, das autoridadeschinesas sobre Macau. Nem por isso, no entanto,esmoreceu esta nova política oficial relativamentea Macau. Já no reinado de Filipe III, em 1623, foi amesma retomada e em moldes institucionalmentemais efectivos, com a nomeação do primeirogovernador e capitão-geral de Macau, D. Franciscode Mascarenhas.Esta nova ofensiva para mais proximamentecontro la r e enquadrar Macau no mapaadministrativo do Estado da Índia, foi mais profunda do que a anterior. Deixou marca indelévelno equilíbrio de poderes no seio da sociedademacaense. Acima de tudo, esta nova medidaintroduziu definitivamente no panorama político-institucional de Macau a figura do governador ecapitão-geral, mesmo que com diminutos efeitos a curto e médio prazo. E que havia de perdurar até à transferência da administração de Macau para a República Popular da China, em Dezembro de 1999.Nas primeiras duas décadas do século XVII, a atmosfera política cantonense deteriorara-sesignificativamente. Crescera a instabilidade norelacionamento das autoridades de Guangdong19MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA
com a cidade de Macau. A prática políticasubordinava-se ao interesse pessoal dos mandarins,muitas vezes digladiando-se pela obtenção domaior número de presentes e peitas a troco deautorizações para o comércio dos estrangeiros. A cadeia hierárquica da burocracia provincialdesarticulava-se, quebrando a ligação entreGuangdong e Pequim, e depois entre Guangzhou /Cantão e o distrito de Xiangshan. O esfarelar da estrutura hierárquica era afinal oreflexo do quadro geral vivido por todo o ImpérioChinês. Apesar do empenho sincero de algunsburocratas da macropolítica de Pequim e dequadros provinciais, a dinastia Ming caminhava parao seu ocaso, minada pelas primeiras revoltascamponesas nas províncias de Shaanxi e Sichuan,corrupção do mandarinato, comércio ilegal e perdasmilitares consideráveis na fronteira nordeste com aManchúria. No cruzamento de propostas políticas para oproblema dos estrangeiros de Macau as posiçõesdefiniam-se, em norma, com pouca nitidez, nãodeixando ver claramente o campo de apoio de cadaum dos partidos, nem as suas principais figuras,durante o primeiro quartel do século XVII. Percebe-se a existência de um partido que podemosqualificar da “linha dura”, isto é adepto da expulsãopura e simples dos estrangeiros de Macau. Outropartido defendia uma maior liberalidade para comos estrangeiros de Macau, valorizando por isso o seu papel na prosperidade da província. Docompromisso entre um e outro partido, gerou-seuma política de aperto do controlo burocrático emilitar chinês sobre Macau, com o claro intuitoregular alguns dos aspectos essenciais da sua vida,considerados mais perigosos pelas autoridadescantonenses. Entre eles, destacavam-se a presençade japoneses em Macau, o comércio ilegal entrechineses e macaenses, o tráfico de escravoschineses e a expansão da cidade, através daconstrução de novas casas, mormente aquelas quepudessem denunciar uma qualquer função militar.A diplomacia de Macau junto das autoridadesMing não ultrapassou, até ao fim da década de1620, os limites da província de Guangdong.Mesmo que, por mais de uma vez, tentasse chegarà Corte Imperial em Pequim. No século XVI asmissões diplomáticas de Macau foram a Cantão ea Zhaoqing. Mas nunca a Pequim. Umas vezesporque Macau não obtivera licença das autoridadeschinesas, outras porque não precisara. Mas asmudanças políticas e militares na China dasprimeiras décadas do século XVII obrigaram a umamudança de rumo na diplomacia de Macau junto dadinastia Ming. Por isso, pela primeira vez na históriade Macau como porto de comércio internacional,em 1630, uma missão diplomática da cidadechegou a Pequim e foi recebida pelo imperador.Havia sido um bom primeiro ensaio para adiplomacia de Macau junto do Império Chinês.Se as relações com a China eram determinantes,o “dossier Japão” era igualmente prioritário. O ano de 1623 trouxe a primeira e mais drásticamedida do bakufu (governo militar feudal exercidopelo xogum) relativamente aos portugueses. Era-lhes proibida a residência permanente em Nagasaki. Do ponto de vista comercial asituação deteriorara-se fortemente. Os mercadoresportugueses e os de Macau em particular – a própria cidade como entidade política – haviamdeixado crescer o seu endividamento a credoresjaponeses a níveis inconcebíveis. A política de preçofixo imposta pelas autoridades de Nagasaki à sedachinesa trazida pelos mercadores portugueses(itowappu ou “pancada”, como lhe chamavam os portugueses), revelava-se desastrosa. Nem as constantes e imaginativas tentativas de evasão à “pancada”, melhoraram o estado dascoisas.Nos primeiros anos da década de 1630,numerosos mercadores portugueses, parte dosquais de Macau, declararam a bancarrota,confessando a sua incapacidade para resgatar assuas dívidas aos credores japoneses. Em desesperode causa, mas com o instinto notável paradescobrirem expedientes financeiros novos, muitosdestes mercadores portugueses, especialmente os macaenses, deixaram de procurar crédito noJapão. Optaram pelos prestamistas chineses deGuangzhou / Cantão. No entanto, Iemitsu nãodesarmava na sua política de perseguição aoscristãos e de aperto às actividades económicas dos estrangeiros, muito especialmente dosportugueses. Em 1635, o xogum lançou o édito20 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA
21MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA“País Fechado”, proibindo a navegação para fora doJapão dos seus habitantes. Os eventos de 1637,ano da revolta de Shimabara e da teoria daconspiração em torno dos portugueses ou pelomenos dos cristãos, posta a circular nos meiospolíticos do xogunato, haveriam de precipitar ascoisas. Em 1639, Iemitsu decretou o fecho doJapão aos portugueses. Agora era definitivo. Macauperdia os mercados do Japão. Acabavam os dias daprata e da seda, que haviam feito a fortuna demuitos dos seus moradores, portugueses, luso-asiáticos e chineses.Macau tinha de encontrar rapidamentealternativas ao mercado japonês. Reconstruir a suageografia de negócios, reactivar os canais da suadiplomacia económica. A solução desta vez, maisuma vez, e como outras tantas vezes, mais à frentena história da cidade, era o back to basics. Isto é,regressar à Ásia do Sueste e aos seus mercados. Fase 2 (1644-1683)O declínio da dinastia Ming foi consequência demau governo mais do que de não-governo; foiconsequência mais de comportamento imoral econtrários aos princípios confucianos da elite deeunucos que rodeava o imperador, do que da suainacção; foi consequência mais da tirania do que daparalisia da máquina burocrática. O império erasulcado, em particular nas regiões norte e noroeste,por revoltas militares contra os Ming. Uma dasforças revoltosas, liderada pelo príncipe Li Zicheng,depois de conquistar uma fatia importante dasprovíncias do norte e noroeste da China, chegou àsportas de Pequim em Abril de 1644. Antes, emFevereiro, proclamara já a nova dinastia Shun. Estaefémera dinastia durou pouco mais de um mês.A tomada de Pequim pelas forças manchus, emJunho de 1644, não pacificou a China. Resquíciosda dinastia Ming continuaram a sua resistênciadurante mais algum tempo, a sul. O derradeiroresistente Ming, o único que combateu os Qingcom algum sucesso, foi o príncipe de Gui, ZhuYoulang, mais conhecido pelo seu título de Yongli. Com os chamados Ming do Sul, Macau teve contacto directo. A instabilidade político-governativa do Império e a situação política e militarna província de Guangdong interferiu na vida dacidade. Era vital uma rápida recomposição da cidadecom a nova dinastia Qing. Para tal, Macau tinha queagir depressa. Em 1661, face ao agravamento darevolta interna, sobretudo a dissidência da poderosafamília Zheng, fiel aos Ming, os Qing decretaram aevacuação das zonas costeiras do sul da China.Começaram pelo Fujian, mas depressa estenderama ordem de evacuação a outras províncias da costa,nomeadamente a Guangdong.O Imperador Kangxi (1662-1722)
22 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAEm 1662, o édito de evacuação das zonascosteiras tocou Macau. Os mandarins provinciaisordenaram a saída imediata de toda a populaçãonão-portuguesa. Isto significava que a cidade perdiaa sua população chinesa, deixando-a desprovida deforça de trabalho e de prestadores dos serviçosessenciais ao seu quotidiano. O Senado despachoude pronto uma missão diplomática a Guangzhou /Cantão, solicitando um estatuto de excepção para Macau. Reprimidos na audiência pública, os enviados macaenses, em privado com osmandarins, conseguiram pelo menos ganhar tempoe evitar que se consumasse a evacuação. Todavia,durante seis longos anos, até 1668 e à revogaçãodo édito de evacuação costeira, a cidade viveuem permanente sobressalto.A complacência e tolerância do mandarinatoprovincial foram sendo obtidas a custo de prata ede outros presentes. Os víveres iam abastecendocom maior ou menor regularidade a cidade e os seus navios iam entrando e saindo do porto a menor ritmo e mais discretamente, mas iamgarantindo a sobrevivência económica da cidade.Sabidas as notícias de Macau em Goa, o Estado daÍndia apostou no envio de uma embaixada aoImperador Kangxi. Manuel de Saldanha foi oescolhido para embaixador. Em 1667 deixava Goaa caminho de Macau e da China. Era a primeiraembaixada de Estado a Estado, nas relações luso-chinesas, em 150 anos. A primeira em mais de umséculo de Macau como porto internacional.O derradeiro grande teste à capacidade dereajustamento de Macau às mudanças políticas na China, durante o longo período de transiçãoMing/Qing, deu-se durante a revolta dos “TrêsFeudatários”. Os “Três Feudatários” (Wu Sangui,Geng Jingzhong e Shang Zhixin) eram senhores da guerra que controlavam vastas manchas deterritório no sul da China, concedidas pelos Qing emrecompensa pelo auxílio na luta contra os Ming. Em 1672, o imperador Kangxi decidiu estancara ameaça à dinastia representada pelos trêssenhores da guerra, declarando os seus territórioshostis ao regime e passando de pronto à acçãomilitar. Após quatro anos de campanhas militares,as províncias do Fujian e do Guangdong foramfinalmente pacificadas pelas forças Qing. Mas osúltimos focos de resistência só foram anulados por1683. Agora sim, a dinastia Qing parecia controlartodo o território do império. E, por momentos,Macau respirou de alívio. Os homens de negócios da cidade, portuguesesou asiáticos, muitas vezes sob a coordenação doSenado da Câmara, lançaram-se na reconstruçãoda sua geografia comercial no pós-fecho do Japão.O Senado de Macau tinha, agora, sobre os seusombros, a responsabilidade, mas também o desafio,de se lançar na diplomacia económica na Ásia doSueste.Jogando partidas simultâneas, os agentes e osnavios de Macau apostaram no entendimentodirecto com os sultões malaio-indonésios e com osPoster de propaganda da R.P.C. com a conquista deTaiwan por Zheng Chenggong
23MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAreis budistas da Ásia do Sueste continental. O nomede Macau era sobejamente conhecido na região. Osseus negociantes, muitos deles luso-asiáticos,conheciam mesmo que rudimentarmente as línguaslocais, tinham parceiros locais; eram velhosconhecidos. Aproveitaram habilmente a diásporados luso-malaios que se seguiu à conquista deMalaca pelos holandeses. Alguns deles estavambem colocados junto dos poderes locais e adesempenhar funções oficias ligadas ao comérciomarítimo.Aos olhos das gentes da Ásia do Sueste osmacaenses chegavam a ser vistos como asiáticos.Macau gozava por isso de algumas prerrogativasidênticas aos dos potentados asiáticos. Estesfactores foram, como se calcula, decisivos para osbons e, apesar de tudo rápidos, resultados obtidoscom esta ofensiva da diplomacia económicamacaense. Um pouco por toda a região, em busca depimenta, canela, noz-moscada ou cravinho, sândaloe outras madeiras preciosas, prata, ouro e pedraria,ou delicacies, os mercadores macaenses estavamno mercado logo nos primeiros anos da década de1640. Jambi e Palembang, na ilha de Samatra,Makasar, na ilha de Sulawesi, Jepara e Banten, emJava. Já na década de 1660, foi a vez de Aceh, notopo norte de Samatra. Por fim, nos anos de 1680,Banjarmasin, no Bornéu, onde os macaensesmereceram a rara honra dada a estrangeiros deconstar na crónica dos sultões locais, a HikayatBandjar.Na Ásia do Sueste continental, poucas áreasficaram de fora. O Sião, o Camboja e sobretudo oVietname foram alvos preferenciais da diplomaciade negócios de Macau. Num momento em que numerosos potentadosda Ásia do Sueste lutavam contra os planoshegemónicos dos holandeses, Macau apregoava terum trunfo escondido. Um trunfo que ameaça usar,mas que sabia não ter na mão: armas de fogo emunições.Este trunfo seria de novo invocado nasprimeiras décadas do século XIX. Uma vez mais,sem que Macau o tivesse na mão. Então, comoagora, na segunda metade do século XVII, Macaufazia bluff. Mas os jogos também se ganham combluff. A cidade preparava-se para mais um ciclo dereajustamento da sua vida económica. Fase 3 (1683-1783)Na t rans ição para o sécu lo X V I I I , apreponderância do Senado da Câmara no panoramapolítico-administrativo de Macau manteve-segenericamente intocada. Isto foi especialmenteverdade para a gestão político-diplomática dasrelações externas da cidade com os poderesasiáticos da Ásia Oriental e muito particularmentecom o Império Chinês. Não obstante o retomar doscanais diplomáticos oficiais luso-chineses atravésde duas embaixadas do rei de Portugal aoImperador da China (Alexandre Metello de Sousa eMeneses, 1726 e Francisco Pacheco de Sampaio,1752), o Senado da Câmara geria a “diplomacia de fronteira” com as autoridades provinciais deGuangdong e, através dos jesuítas na corte dePequim, mantinha uma “antena” diplomática nacapital imperial.Na década de 1740 o statu quo governativo deMacau alterou-se e subiu o tom dos conflitos entreo Senado de Macau e os governadores nomeadospelo Estado da Índia e confirmados por Lisboa. Opico de conflitualidade ocorreu durante o governode António José Teles de Meneses (1747-1749).Teles de Meneses era um administrador colonial“pombalino” avant la lettre e a sua acçãodesencadeou feroz reacção em vários sectores dasociedade macaense (portuguesa, luso-asiática echinesa) e das próprias autoridades chinesas.Recusando a via antiga de compromisso enegociação diária e fronteiriça do Senado daCâmara com as autoridades provinciais chinesas,considerava-a uma insuportável traição aosinteresses portugueses e uma submissão àsarbitrariedades da burocracia provincial e centralchinesa. Pressionada por todos os lados, até peloZongdu (Governador-Geral) de Guangdong /Guangxi, que escrevera ao rei de Portugal, Goadecidiu pelo seu afastamento imediato do cargo.António José Teles de Meneses viria a ser“reabilitado” politicamente duas décadas volvidas.Vivia-se já então sob o signo da reformista e
24 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAcentralizadora do poderoso Secretário de Estadosdos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos,Martinho de Melo e Castro. Teles de Menesestornou-se então, a partir da década de 1770, umareferência moral da linha dura na política portuguesaface a Macau e à China. Do lado chinês, a dinastia Qing foi tambémpromovendo ao longo do século XVIII uma políticaconsistente e coordenada de reforço e aproximaçãofísica do controlo sobre Macau. Controloburocrático e militar. A questão de Macauregressava ciclicamente à ordem do dia do debatepolítico e da governação na dinastia Qing, de restocomo já havia acontecido na dinastia Ming. A principal diferença relativamente aos Ming residiano facto de os Qing terem imprimido maiorconsistência e coordenação à sua política paraMacau e para os seus residentes (estrangeiros esobretudo chineses). Esta política insidia sobre doisalvos principais: a actividade dos missionárioscristãos, que em larga medida irradiada a partir deMacau e a vida comercial dos homens de negóciosmacaenses. Em ambos os casos, continuava-se,mais articuladamente, uma linha política tendentea afinar o controlo da população chinesa de Macaue dos distritos vizinhos, mormente a convertida aoCristianismo. A adesão de chineses a uma religiãoestrangeira, heterodoxa e, em boa medida malcompreendida, suscitava fortes suspeitas quanto àsua fidelidade às tradições filosóficas e morais e aoscultos cívicos chineses e, mais importante que tudo,à dinastia Qing. Na prática e no terreno esta políticaQing relativa a Macau era igualmente determinadapela pressão que se abatia sobre os poderesprovinciais e sobre o poder central, em Pequim, pelanotória alteração do padrão do comércio europeuno sul da China. O porto de Guangzhou / Cantãotorna-se a grande porta de acesso dos europeus aomercado chinês. Os navios, mercadorias, homensde negócios e os capitais europeus acorriam à Chinapela porta aberta em Guangzhou / Cantão. Esteporto torna-se um caso especial na políticaalfandegária dos Qing, tendo que zelar por duasrealidades nem sempre fáceis de conciliar: ocomércio chinês (local, provincial e internacional) eo comércio dos estrangeiros. Multiplicam-se osconflitos de vária ordem (não apenas comercial)entre mercadores e autoridades provinciais chinesase os agentes comerciais europeus. Isto foi maisnotório ao longo da década de 1740. Face a estesproblemas, Macau manteve uma prudente e sábiadistância e neutralidade. Mas a cidade estavatambém ela sob pressão, à medida que ganhava umrelevo acrescido neste mundo de negócios.A resistência do Senado da Câmara (mas nãode todos os moradores) e da maioria da elitecomercial chinesa de Macau à instalação derepresentantes, escritórios e armazéns dos agentescomerc ia i s europeus na c idade não erasuficientemente tranquilizadora para as autoridadesQing. Se já em 1731 os Qing tinham ordenado ainstalação de uma agência (xian cheng) maisMapa de Macau no século XVIII
próxima de Macau, em Qianshan Zhai, logo nosprimeiros anos da década seguinte (1743)encostaram-na à Macau internacional, na zonapopulacional chinesa de Mong Ha. Aos poucos foi-se constituindo uma base de experiênciaadministrativa, judicial e militar, fisicamente maispróxima dos estrangeiros de Macau. Essaexperiência derivava do contacto e conhecimentono terreno de alguns mandarins Qing face à rea l idade de Macau . Essa exper iênc ia ,conhec imento e pat r imón io in format ivosedimentavam a necessidade, comunicada aPequim ao Imperador, de um inequívoco reforçoda jurisdição e intervenção das autoridadeschinesas em Macau e sobre a sua população,estrangeira e chinesa. A repetição de incidentescom navios de comércio europeu nas costas doGuangdong, em particular com franceses eingleses, confirmava a urgência da concretizaçãodesta linha política dos Qing. Em Macau, aamplificação da gravidade de casos judiciaisenvolvendo portugueses (ou outros estrangeiros)e chineses pareciam dar razão aos especialistasQing e às suas propostas. Daí que em 1744 o Sub-Perfeito Marítimo YinGuangren tenha redigido e imposto a Macau umcódigo de 7 artigos para aplicação imediata. Cincoanos volvidos, na sequência do agravamento dastensões entre as autoridades chinesas e ogovernador de Macau (Teles de Meneses), este primeiro código Qing foi aperfeiçoado,desenvolvido e agravado na sua dureza. Estecódigo de 12 artigos, que passou à história como“Convenção do Décimo Quarto Ano (do reinado)de Qianlong”, visava afirmar definitivamente a jurisdição / autoridade imperial chinesa sobreMacau e toda a sua população, estrangeira echinesa. O seu alvo preferencial era uma vez maisa população cristã chinesa, mas implicitamente osportugueses de Macau passavam agora a serreconhecidos formalmente como súbditos doImperador da China.O Senado de Macau acatou, com pragmatismoe lucidez, o maior controlo dos Qing, apostandona diplomacia fronteiriça com as autoridadescantonenses para amortecer o seu impacto navida da cidade. Contudo, Goa e sobretudo Lisboapreparavam uma resposta. A resposta chegouprimeiramente durante o invulgar triplo mandatode Diogo Fernandes Salema de Saldanha (1767-1770 e 1771-1776) em pleno governocentralista do Marquês de Pombal em Portugal.Mais tarde, na década de 1780, a nova políticaultramarina do todo-poderoso Martinho de Mello e Castro declarou guerra aberta ao modelo político-administrativo de Macau e àpreponderância que nele tinha o Senado daCâmara . Começava a luta pe la af i rmação da legitimidade da soberania portuguesa em Macau.Em 1783, Mello e Castro pôs no papel edespachou para Macau o pacote legislativo que25MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTARascunho das “Seis Providências” (1783)
26 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAreformava politica, financeira e militarmente oterritório. A “Seis Providências” de Mello e Castrotornavam Macau um problema nacional eprocuravam, pela primeira vez, recordar e defenderperante o Império Chinês os direitos portugueses,conseguidos por conquista, à soberania sobreMacau. Foi o que a missão diplomática de D. Alexandre de Gouveia iria recordar a Pequimao imperador.Nem o falhanço da missão de Gouveia nem ofalhanço da implementação das “Seis Providências”anulam a ideia de que a Coroa Portuguesa apertavao nó centralizador em torno de Macau e da suaautonomia político-administrativa. O século XIXtraria ameaças ainda mais sérias e reais a essaautonomia. Vindas tanto de Lisboa como dePequim.Fase 4 (1783-1842)Nas últimas décadas do século XVIII, ocomércio de ópio fora o motor da economia deMacau. Os navios mercantes da cidade eramprestadores de serviço de transporte do ópioproduzido pela East Indian Company (EIC) emBengala e no Canará para o mercado chinês.Porém a mudança gradual, mas firme, na atitudedas autoridades imperiais chinesas face ao ópio e ao seu comércio (saúde pública, corrupção de oficiais e fuga aos impostos), anunciavadificuldades e até, porventura a sua ilegalização.Por i sso, na v i ragem para o sécu lo X IX eaproveitando a mudança da Corte portuguesapara o Brasil (1808) a cidade de Macau tentouantecipar dificuldades futuras e procurou alterar oseu paradigma económico. O Senado da Câmaradesenhou uma nova estratégia global que seestendia do Atlântico (Brasil) ao Pacífico (Havai).Era a busca de alternativas ao comércio do ópio,que durante décadas enchera os cofres da cidadee de muitos dos seus negociantes, mas que nos primeiros anos do século XIX , se tornaraespecialmente perigoso. E, a pouco e pouco, atéruinoso. Macau voltou, então, prioritariamente, aoseu habitat natural de negócios, a Ásia do Sueste.Definiu uma sustentada e ambiciosa estratégia deprocura de novos mercados, novos produtos,novas rotas e parcerias. Macau reanimou antigas frentes comerciais na Ásia do Sueste continental (Sião / Tailândia,Camboja e Vietname) e abriu novas no mundo malaio-indonésio (Brunei, Terengganu, Banjarmassime Aceh) e até no Pacífico (Hawai). Em causa estavao comércio para os mercados chineses de especiariase madeiras preciosas, produtos medicinais, peles deanimais e delicacies. Todas estas frentes comerciaise mercadorias seriam, na óptica de Macau,excelentes e proveitosas alternativas ao comérciode ópio e ao que ele também significava dedependência face aos interesses ingleses, da EIC e privados nos mares da Ásia. Macau perderatambém a sua centralidade na entrada de ópio naChina, pois o comércio desviava-se de Guangzhou/ Cantão para portos e baías secundários, emregime de contrabando e, portanto, ficava-lhe cadavez mais fora de mão.O consumo de ópio no mercado chinês nãocessou de crescer nas décadas de 1820 e 1830. O que empurrou a produção, controlada pela EICpara volume recorde em 1836. Todos ganhavam:Confirmação do título de “Leal” à cidade de Macau(1810)
EIC, comerciantes privados ocidentais (europeus e americanos), mercadores e até os mandarinsch ineses . Os ganhos i lega is eram todav iaexagerados e ostentados sem pudor pornegociantes chineses e até pelos oficiais provinciais.Pequim decide então intervir ordenando a prisão de alguns comerciantes chineses de ópio nasprovíncias do Sul (especialmente Guangdong) einvestigando as denúncias de participação demandarins influentes no tráfico.Além da preocupação crescente com osefeitos sociais e morais do consumo de ópiolevando à aplicação de penas e castigos cada vezmais pesados aos consumidores, crescia no podercentral a preocupação com o desequilíbrio nabalança comercial chinesa. As exportações de chá,as porcelanas e a seda já não cobriam aimportação de ópio e suscitavam uma verdadeirasangria de prata de economia chinesa. Em 1836dá-se subida de tom no debate político interno,com reforço de posições do sector que defendeuma luta sem tréguas ao comércio do ópio. Oseventos precipitam-se e em Março de 1839, ocomissário imperial Lin Zexu intervém duramentena província de Guangdong, prendendo milharesde mercadores chineses de ópio, confiscandocachimbos e destruindo milhares de toneladasdaquele produto. Ordenou ainda o bloqueio doporto de Guangzhou / Cantão à navegaçãocomercial ocidental. O conflito não se fez esperare nesse mesmo ano deflagrou a chamada I Guerrado Ópio, opondo o Império Chinês às principaispotências ocidentais, lideradas pela Inglaterra. O conflito mostrou a superioridade tecnológicaocidental face ao arcaico e desmotivado exércitoe marinha chineses. As tréguas, que conduziram à cedência de Hong Kong e a uma avultadaindemnização de guerra, consagrados no acordoprecário ou convenção de Chuanbi (nuncaratificada) de 20 de Janeiro de 1841, acabaramdenunciadas pela Rainha Victoria e pelo ImperadorDaoguang. A guerra reiniciou-se, mais acesa edestruidora. As forças inglesas, agora sob ocomando de S i r Henry Pott inger (depoisgovernador de Hong Kong até 1844), somaramvi tór ias e empurraram os ch ineses paranegociações, iniciadas em meados de 1842. O Tratado de Nanjing foi assinado em Agosto de 1842 (Tratado suplementar em Outubro de 1843). A principal consequência do Tratado de Nanjing foi confirmação da cedência do portode Hong Kong à Inglaterra a “título perpétuo”.Estes desenvolvimentos trouxeram grandeinquietação a Macau, sobretudo face à ocupaçãoda i lha de Hong Kong pelos ingleses. E se o governador Silveira Pinto (1839-1846)minimizou a presença inglesa em Hong Kong, oSenado de Macau levou mais a sério a questão deHong Kong e iniciou de imediato contactos com asautoridades do Guangdong / Guangxi com oobjectivo de garantir a sobrevivência de Macaucomo porto de comércio internacional. O silênciototal de Lisboa face aos acontecimentos na Chinae a falta de instruções políticas e diplomáticas(Portugal era a única potência colonial ocidentalque não dispunha de ministro plenipotenciário emGuangzhou / Cantão), deixaram a cidade entreguea si própria face à periclitante situação interna daChina e face ao explosivo desenvolvimento deHong Kong, a novel metrópole comercial do sul da China.27MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTALicença de concessão de Viagem de Comércio a Macau(1772)
28 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAA InternacionalizaçãoPartilhada (1842-1911)O exercício da soberania portuguesa emMacau, no século XIX foi, como vimos, antecedido,em 1783, pelas Seis Providências Régias queregulam as competências do Senado e doGovernador, nomeadamente atribuindo ao último odireito de veto e procurando confinar o Senado daCamara ao seu papel de poder municipal. Macauaco lh ia , neste per íodo, um con junto decomunidades de origem europeia, não portuguesas,sobretudo de negociantes ingleses e holandeses ede outros países europeus (além dos EUA).Compelidos a residir em Macau, a aguardar astrading seasons, confinados às suas feitorias e soba supervisão apertada dos cohong (guildas decomerciantes chineses que detinham o monopóliodo comércio com os estrangeiros em Guangzhou /Cantão), estes negociantes migravam parcialmentepara Guangzhou / Cantão e voltavam, sazonalmente,garantindo a centralidade da sua vida empresarial emarítima em Macau. Com uma parte importante dapopulação afecta a esta actividade, e embora commaior número de negociantes que de negócios quelhe garantam proveito directo, Macau ganhou umvalor estratégico que suscitou, em 1802 e 1808,tentativas de ocupação efectiva pelos ingleses, sobo pretexto da normalização das relações dePortugal com a França e no quadro da GuerraPeninsular. O insucesso deveu-se tanto à resistêncialocal como à pressão da China, que ameaçou ob loque io aos comerc iantes ing leses emGuangzhou / Cantão. A fixação destas empresas era fundamental para o tecido social macaense,uma vez que, fora algumas famílias de negocianteslocais, criadores de emprego, e um grupo residualde funcionários da administração, um númerorelevante de luso-asiáticos e de chineses tinham os seus rendimentos totalmente dependentes da prestação de serviços a estas companhiaseuropeias.Macau foi assumidamente integrado, pelaConstituição liberal (1822), como “parte integranteda Nação” e a Coroa e o Governador procuraramter uma crescente autoridade na administração doterritório e da sua população. As tentativas deafirmação desta soberania face à China geraramvários atritos, situação que os comerciantes locaise o Senado procuraram mitigar em processos dediplomacia próxima, articulando os interesses locaiscom o papel da diplomacia entre os Estados. O incremento do comércio do ópio, produzidosobretudo no subcontinente indiano, tornou-se a solução encontrada, nomeadamente pelosnegociantes britânicos, para contrariar os fluxos deimportação da prata como forma de pagamentopreferencial nas transações do chá e da seda,praticado pelos membros das cohong. O fim domonopólio da East India Company deu lugar a umelevado número de comerciantes e de empresas,gerando uma intervenção das autoridades chinesas,na tentativa de controlar uma situação tolerada,mas não desejada. Esta reacção desencadeou umfechamento do Império ao exterior, em tudocontrário à dinâmica comercial gerida pelos cohong,os detentores oficiais do trato com os europeus. A nomeação do Comissário Imperial Lin Zexu foi central no desencadear do conflito que, peloédito de 18 de Março de 1839, mandou queimarcerca de 20.000 caixas de ópio armazenadas em Guangzhou / Cantão. As pressões para aexpulsão dos comerciantes que lidavam com o ópio estenderam-se a Macau, para onde oscomerciantes recuaram, em 24 de Maio. Macau fo i informada da pro ib ição de ac t iv idade comercial aos estrangeiros não portugueses; as autoridades procuraram, como sempre, umaposição conciliatória, mas o crescendo do conflitoultrapassou-as e, em 1841, Lord Palmerstontomou o comando e impôs à China as condições,pela força, do tratado de Nanjing (1842). Eram elasa abertura permanente dos portos de Guangzhou/ Cantão, Shanghai, Xiamen / Amoy, Fuzhou eNingbo, e a aplicação, agora em condiçõesvantajosas, da contestada taxa lijin às embarcaçõesprovenientes de Hong Kong.Acompanhando a tensão do consórcio dospaíses com interesses comerciais na China, Portugalprocurou, simultaneamente, a negociação e odesenho de uma maior autonomia e soberania faceàs autoridades chinesas. Em 1844, o decreto de D. Maria II reiterou os poderes do governador e, em
29MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA1846, o governador João Ferreira do Amaralprocurou consolidar a organização provincial queagregará Macau, Timor e Solor; nos anos seguintesordenou a expulsão dos mandarins chinesesresidentes na cidade e, assumindo o estatuto deporto-franco tomado em 1845, eliminou o hopu (aalfândega chinesa) e estendeu a tributação e aadministração judicial portuguesas à populaçãochinesa. Por fim, na senda das preocupações deafirmação da soberania portuguesa, com Ferreirado Amaral, teve lugar a construção de um conjuntode pequenas fortificações, também a pretexto docombate à pirataria e da expansão da cidade aNorte, até às Portas do Cerco.Se a fragilidade do governo chinês poderiaparecer favorável a uma afirmação plena dasoberania portuguesa em Macau, a reacção devários sectores da população chinesa e mesmoparte da luso-asiática conduziu ao assassinato dogovernador Ferreira do Amaral, a 22 de Agosto de1849. A despeito deste confronto, as relações virãoa retomar-se com a busca, por Portugal, doreconhecimento da sua soberania sobre o território.A tensão provocada pelos interesses ingleses e europeus conduziu à chamada Arrow War, a II Guerra do Ópio, e a uma nova parada denegociações, que coligaram à Inglaterra a França, osEUA e a Rússia e culminaram com a assinatura doschamados “Tratados de Tianjin”, em 1860. Estestratados, que revêm os anteriores, vão permitir quePortugal, com o apoio da França e da Rússia,obtivesse um Tratado de Amizade e Comércio que,contudo, não viria a ser ratificado. A centralidadedas Guerras do Ópio determinou o statu quo deMacau na região. Como sociedade e economia“aberta”, a cidade dependia do comércio regional e,tanto para a sua população portuguesa e luso-asiática, como para os interesses da populaçãochinesa que migrara para Macau, o eixo económicodeslizou, com a transferência das empresas inglesase europeias, para Hong Kong. Constituída comocolónia britânica em 1843, Hong Kong tornou-se,pelas suas condições portuárias, o ponto depassagem para a emigração chinesa da “Corrida aoOuro”, na Califórnia, a partir de 1848. Os fluxosmigratórios que por aí transitaram, alargaram-seprogressivamente ao Canadá e Perú, no continenteamericano, seguindo-se, alguns anos mais tarde, o Panamá e o Méx ico, Hawai ’ i e Cuba e ,seguidamente, a Ásia do Sueste.Por não ter conseguido evitar o assoreamentoda zona portuária existente, Macau lidou mal coma inexistência de um porto de águas profundas. Para além das dragagens, as obras necessáriasacentuaram as desigualdades com Hong Kong, quedispunha já de condições naturais para fundearnavios de grande calado. Em Macau, as pequenasactividades comerciais mantinham-se sobretudonas mãos de negociantes chineses – a maioriaprovenientes de Guangzhou / Cantão e da provínciade Fujian – sobretudo dedicados ao abastecimentoda cidade. Para além de algum comércio decabotagem, da pesca e da horticultura, em Coloanee na Taipa, Macau manteve um papel activo no tráficoVisita de Táo-Tai e representantes do Viu-Zú Liú-Kung-Iú, Nanking (Setembro 1902)
30 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAde coolies até à sua proibição, em 1874. A partirdaí, as ilusões de crescimento desvaneceram-sepor completo. Embora o território permanecessecomo um destino de imigração chinesa, tornara-seestrutural a fuga da sua população luso-asiática,com uma progressiva perda de poder económico edo seu papel de plataforma comercial da região.Macau manteve, contudo, alguma actividadeindustrial no tratamento e embalamento do chá, naprodução de porcelanas e na pirotecnia, emboracom receitas insuficientes para a viabilidadefinanceira da sua governação. A sua sobrevivênciaeconómico-financeira acabou por resultar daarrematação dos exclusivos, nomeadamente doópio e do jogo, monopólios que garantem umsistema de rendas ao governo e ao Senado. O jogomanteve uma importância considerável, com ascorridas de cavalos realizadas entre 1842 e 1844,(precedendo a sua existência em Hong Kong), ou, anos mais tarde, o fan-tan, que se vulgarizou no século XIX e cujo exclusivo ficou nas mãos dafamília Fok a partir de 1930. Uma outra forma dejogo, o weixing (ou vae-seng) – as apostas nosresultados dos exames imperiais – tinha-sedesvanecido localmente em 1885 e desapareceudefinitivamente com a proibição do jogo na China, após a implantação da República, em 1911.Outra fonte de rendimento, o embalamento ecomercialização do chá, proveniente da China, viureduzir o seu impacto positivo comercial face aocrescendo dos chás da Índia e do Sri Lanka e da suaentrada nos circuitos comerciais internacionais.O exercício efectivo da soberania portuguesaem Macau era mitigado, no século XIX. A própriasegurança pública provinha, ainda na década de1860, da contratação privada de polícias de origemeuropeia por comerciantes chineses, para avigilância da zona do bazar, só mais tarde assumidapelos poderes públicos. O período que acompanha a viragem do séculoXIX para o XX apresenta uma cidade fortementedependente da emigração (e das suas remessas),incapaz de satisfazer, economicamente, a suapopulação e sobretudo incapaz de gerar verdadeirodesenvolvimento. Ainda assim, esta foi uma épocana qual a administração portuguesa ensaiou váriosprojectos urbanísticos e em que se assistiu a umareal expansão física do território, que virá a acelerardramaticamente nos últimos anos do século XX. De uma área original de cerca 2,78 km2 Macau viu, desde então, decuplicar o seu território para os actuais 27,8 km2, através da construção de sucessivas vagas de aterros. Mas foi ainda noséculo XIX que tiveram lugar alguns destesempreendimentos, mormente a junção das Ilhas daTaipa e alguns assoreamentos, mas que ganharamescala já no século XX, com a união da Ilha Verde a Macau, já em 1923, ou com as obras do Porto Exterior, entre 1922 e 1929. Fazia-se umtremendo esforço para dotar Macau de um portode águas profundas e uma expansão da cidade, por aterro, pela orla costeira, sob a direcção do Vice-Almirante Hugo de Lacerda Castelo Branco.O século XIX, farto em desastres naturais, viudesaparecer alguns dos marcos urbanísticos dacidade, designadamente o emblemático edifício daIgreja e Colégio de S. Paulo, no incêndio de 1835, emuitos dos edifícios da Praia Grande na sequênciado tufão de 1874 e do incêndio que se lhe seguiu.Mas a grande mudança dera-se, em termosurbanísticos, nas primeiras décadas do século XIX,quando se tornou, por fim, visível a diferença entre o traçado da “cidade chinesa” e da “cidadeocidental”. Assentando já numa estrutura viáriapavimentada, as zonas de concentração deFesta de crianças portuguesas em Macau (c. 1902 ou 1903)
31MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTApopulação chinesa situam-se sobretudo entre a zona do Porto interior e Mong Ha (Wangxia).Nestas áreas urbanas, a arquitectura chinesacontrastava as fachadas com a medida standard decerca de quatro metros, sendo a parte lateral muitoalongada e normalmente de dois pisos, com ahabitação familiar em cima e a loja no piso térreo,com as casas “europeias”, onde predominava aalvenaria ou taipa, caiadas, com telhados de duasou mais águas. Não se esgotando neste padrão a arquitectura privada local, os processos demudança urbanística e arquitectónica acompanhamefectivamente uma diversidade de estilos de vidaque o tempo e a construção em altura virão aesbaterÀ arquitectura privada juntam-se os edifíciospúblicos: de matriz arquitectónica chinesa, ostemplos, a alfândega e os edifícios oficiais e, se osquisermos incluir, as torres de prestamista (de que falaremos nos Roteiros dos Poderes, dosNegócios e das Confissões); de padrão europeu, asfortificações, igrejas e conventos, o Seminário, oSenado e outros edifícios, tais como a Misericórdia,o Teatro D. Pedro V ou o Farol da Guia (a quevoltaremos detalhadamente nos Roteiros dosPoderes, dos Prazeres e dos Saberes). Com umadisparidade grande de datas de construção e um elevado número de obras de reparação econsolidação, a deriva urbanística de Macau impõehoje uma contiguidade de estilos diversos e dilui aconcordância entre estes e a continuidade com operfil da população. O alinhamento proporcionadopela Rua Central, hoje discretamente inserida notraçado do núcleo histórico da península de Macau,acompanha o crescimento da cidade intramuros;Ferreira do Amaral rompeu com este modelo paraexpandir a cidade até às ruínas de Mong Ha(Wangxia) e Dona Maria, onde foi iniciada, em1847, a construção de um forte em cada colina.O eixo constituído pela Rua Central só voltou a ser comprometido entre 1910 e 1922 com aabertura da Avenida de Almeida Ribeiro (San MaLou ou “Avenida Nova”), que literalmente cortou adireito a malha orgânica chinesa e ocidental, unindoo Porto interior à Praia Grande. Ao mesmo tempo,durante um breve período, as ilhas adjacentes aOeste de Macau – D. João, Lapa e Montanha –foram objecto de tentativas de ocupação,nomeadamente pela atribuição de territórios demissionação ou pela implantação, casuística, deescolas de ensino elementar. A presença dosjaponeses, em 1941, resultou no seu abandono e, após a IIª Guerra Mundial, Portugal concluiudefinitivamente a contestação da sua posse.O activismo nacionalista chinês que contestavaa dinastia Qing, eivado de um forte pendorrepublicano e animado pela figura de Sun Yat-Sen,afirmou-se sobretudo em Guangzhou / Cantão, noinício do século XX, motivando a fuga para Macaude numerosos migrantes, politicamente engajados,que acompanharam a transição para a República(1911) – apenas um ano após a implantação daRepública em Portugal. Se as relações diplomáticasentre as duas novas repúblicas se mantiveram emexpectante standby, crescia no entanto uma certadesconfiança das novas autoridades republicanaschinesas, fortemente suportadas por algumasassociações chinesas de Macau e de Guangdong,relativamente ao processo de delimitação territorial(aberto no tratado de 1887) e à continuidade (oupelo menos quanto aos termos) da presençaportuguesa em Macau, que prosseguiu como umacidade economicamente adormecida, tal como o seu porto.Um Porto Adormecido (1911 à década de 1980)Em 1922, na sequência das Conferência deWashington, teve lugar a assinatura de um novotratado no qual Portugal se comprometia areconhecer a soberania e a autonomia político-administrativa do Governo chinês; contudo, em1928 o Tratado Preliminar de Comércio e Amizadefoi entendido por Portugal como não pondo emcausa as bases do Tratado de 1887 e, na sequênciado Acto Colonial de 1933, Macau foi oficialmenteassumido como parcela do Império ColonialPortuguês.Neste período, a adormecida vida económica deMacau assenta progressivamente no jogo e nasactividades turísticas a ele associadas, da hotelaria
32 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAe da restauração à prostituição. A transferência paramodelos de prestação de serviços gerou umaprogressiva desproporção entre uma indústriaresidual, ligada aos têxteis e aos brinquedos, àsindústrias tradicionais como a pirotecnia e a umaténue ruralidade associada a uma actividadepesqueira cada vez mais distante da costa. Osexclusivos das companhias Hou Heng (Haoxing) eTai Heng (Taixing) alteram a tipologia de jogos,substituindo esta última o fantan, o p’ai kao (paijiu)e o cussec (gutou), por uma nova modalidade decussec e pela introdução do daxiao (“grande epequeno”). O exclusivo persistirá por um longoperíodo nas mesmas famílias, apenas mudando de mãos na década de 1960.O período da Guerra do Pacífico (1941-1945)teve, na China e em Hong Kong, um impactoviolento; um significativo número de população,oriunda de Macau e emigrada, sobretudo, em HongKong e Shanghai, procurou desesperadamentevoltar para Macau. A esta vaga de retorno a Macau,juntou-se um elevado número de habitantes de Hong Kong, o que duplicou, praticamente, apopulação residente no território. Apesar daneutralidade portuguesa no conflito, a presençamusculada das tropas japonesas desencadeou um período de enormes dificuldades na vidaquotidiana da cidade, em particular na daspopulações deslocadas. Foram, então, encontradassoluções de recurso para o acolhimento dosdeslocados, adaptando-se edifícios públicos emobilizando a polícia para o seu enquadramento e para o controlo possível do um crescimentoexplosivo do mercado negro, em particular deprodutos alimentares.Terminada a guerra, Macau viu partir grandeparte dos migrantes e assistiu-se a uma célereregularização do abastecimento de bens de primeiranecessidade. A própria vida económica e financeirado território progrediu, mesmo que a economia nãotenha despertado completamente da sua letargia;normalizaram-se as taxas cambiais das váriasmoedas que circularam na cidade, tais como o US$,o HK$ e as diversas moedas chinesas emitidas pelosgovernos colaboracionista e nacionalista. Por seuturno, também muitas instituições locais, tais comoas associações educativas, confessionais e desolidariedade, saíram do período de excepção quese tinha vivido e retomaram a sua actividadenormal, como se fará referência no Roteiro dasSociabilidades.A instauração da República Popular da China,em 1949, e a partida de Chiang Kai-Chek e dosseus apoiantes para Taiwan, trouxe Macau para aribalta, graças ao seu papel de mediação política ecomercial, acolhendo um contingente de cidadãosaté então residentes em Shanghai e que aqui seestabeleceram com os seus capitais e famílias.A renegociação do Contrato de Jogos (emMarço de 1962), pela mão do Governador SilvérioMarques, marcará o perfil económico de Macau,com a transferência do exclusivo do jogo O governador Tamagnini Barbosa e alguns notáveismacaenses (c. 1920)Mesa de jogo de “O grande e o pequeno”, no Ano NovoChinês de 1952
33MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTApara a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, liderada pelo empresário Stanley Ho.Comprometendo-se a assegurar o transporterápido para Hong Kong e assegurando ummontante de contribuições mais elevado para aadministração, foi instalado o primeiro casino numjunco ao largo da cidade, depois outro no HotelEstoril e foi, por fim, construída a “catedral” do jogoem que se transformou o novo Hotel Lisboa, queentra em actividade em 1970 (como veremos no Roteiro dos Prazeres).As sucessivas revisões do contrato de jogostenderam a acompanhar os mandatos dos novosgovernadores, muito embora a última negociação,pela envergadura das suas contrapartidas, tenhaprojectado as condições envolvidas até 2001. A despeito do Governo português apenas ternormalizado oficialmente as relações diplomáticascom a República Popular da China em 1979, ocontexto do embargo internacional decretado àChina tornou Macau uma plataforma crucial paraalgumas transações e negociações. Numa relaçãotensa, o Portugal do Estado Novo absteve-seinteligentemente de manifestações ostensivas desoberania e ultrapassou, em Janeiro de 1967,alguns meses de confronto entre estudantes pró-comunistas e as forças de segurança (episódioconhecido como “1, 2, 3”), num período concorrenteao prelúdio da Revolução Cultural Chinesa.O Redespertar da Prosperidade (da década de 1980 a 2015)As mudanças políticas em Portugal que, em 25de Abril de 1974, conduziram às independênciasdas colónias portuguesas em África e, de formageral, ao fim do ciclo imperial português, foramacompanhadas do restabelecimento dos contactosdiplomáticos entre Lisboa e Pequim. Do mesmomodo, o pós-25 de Abril coincidiu com o reforço daautonomia de Macau, através da publicação do seuEstatuto Orgânico em 1976, durante o mandato dogovernador Garcia Leandro. Sucessivos passosforam pequenos e sólidos passos na reaproximaçãoentre Portugal e a República Popular da China, quehaveriam de desaguar na negociação e assinaturada Declaração Conjunta Luso-Chinesa, em Pequima 13 de Abril de 1987, pelos primeiros-ministrosZhao Ziyang e Cavaco Silva. A declaração fixava ostermos, a data e a persistência, por 50 anos apósessa data, dos direitos, liberdades e garantias dapopulação de Macau. Este processo é enquadradopela criação das Regiões Administrativas EspeciaisTanke, embarcação típica da paisagem costeira de Macau(c. 1950)Brasão de Armas de Macau (Séc. XVIII-XIX)
(sob o princípio de “Um País, Dois Sistemas”) – previstas na Constituição chinesa de 1982 – queveio a permitir a integração de Hong Kong e Macau.Esta nova política oficial chinesa tornou-se,também, o gerador da criação de duas zonaseconómicas especiais, limítrofes de Hong Kong e Macau, respectivamente Shenzen e Zhuhai, que se constituem como prolongamentos dedesenvolvimento urbanístico e económico quepermite um enquadramento sociopolítico destasduas regiões.O tecido urbano reflecte, por seu turno, umaoutra realidade: o crescimento demográfico, que no espaço de 30 anos, entre 1985 (290 mil) e2015 (587 mil), mais que duplica a populaçãoresidente registada e impõe à cidade umcrescimento geométrico da construção em altura,particularmente nas zonas tomadas ao mar poraterro e em alguns edifícios do seu interior. O avolumar da construção torna-se exuberante na Taipa e, sobretudo, nos novos aterros que aconsolidam a Coloane (Cotai), para depois tomaruma expressão mais discreta no antigo território deColoane, onde persistem algumas zonas verdes efaixas do litoral menos sobrecarregadas.O crescimento urbano que respeita àsnecessidades de alojamento e de equipamentospara a prestação de serviços foi acompanhado nãosó por processos de recuperação e musealização depatrimónio edificado, já descritos, como tambémpela incorporação de novos equipamentos públicos,antes e depois da Transição, em 1999. Destacam-se, entre estes, a construção do AeroportoInternacional de Macau e do Porto de Ka-Ho, emColoane, a construção de duas novas pontes entreMacau e a Taipa, para além da já existente PonteNobre de Carvalho, concluída em 1974 – a Ponteda Amizade (concluída em 1994) e, já depois datransição, a Ponte de Sai Van (concluída em 2004)– a que se associou, de parceria com o município de Zhuhai, a construção da Ponte Flor de Lótus(1999), a ligar a Ilha da Taipa e a ilha da Montanha(Hengqin), viabilizando o acesso ao novo campusda Universidade de Macau.Empreendimentos bem mais discretos, masinfraestruturas fundamentais para suportar ocrescimento de que temos vindo a falar, foram aCentral de Incineração de Resíduos Sólidos, na Taipa,e a cobertura das necessidades em matéria de34 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTABandeira da RAEM
ETARes (Estações de Tratamento de Águas Residuais).Igualmente importante tem sido a cobertura dapopulação por cuidados em Centros de Saúde.O ordenamento territorial tornou-se, pois, umaárea crítica da governação, procurando equilibrar o licenciamento de nova construção com apreservação e recuperação das zonas classificadas,tanto mais que a esta população residente seassoc ia uma massa d iá r i a de v i s i tantesprincipalmente atraídos pela indústria do Jogo mas,de modo crescente, por um Turismo patrimonialcentrado, afinal, em alguns dos roteiros quedesenvolvemos e nos seus vestígios edificados.Assinale-se que grande parte do crescimentopopulacional não resulta da reprodução interna,mas de uma constante incorporação de migrantesde primeira geração, fundamentalmente provenientesde outros territórios chineses da China continentale de Hong Kong, mas também de Portugal e das Filipinas, do Vietname e da Indonésia, com um acréscimo de população de origem norte-americana, associada ao desenvolvimento do Jogo.A pressão provocada pelo saldo de residentes evisitantes – desde 1999, mas de forma crescente,uma média mensal de mais de um milhão esetecentas pessoas – implica uma rede detransportes de e para Macau, uma estruturaalfandegária em constante actualização e agrava,em particular, os percursos de acesso aos Casinos,tornando desesperante circular nas zonas históricas,em particular no intervalo entre o espaço doSenado e das Ruínas de São Paulo.Mas a verdadeira avaliação da superfície doterritório implicaria a sua multiplicação pelo númerode pisos das áreas edificadas, que, além de relativizara sua fraca superfície, altera definitivamente asociabilidade face a face que Macau ainda manteveaté aos anos 70 do século passado, tornando-sehoje alguns edifícios verdadeiras cidadelas, comespaços comerciais, escritórios, pequenas indústrias,residências e espaços lúdicos, dando um sentidobem diverso ao conceito de vizinhança.Com uma composição demográfica multiculturale um património arquitectónico, urbanístico, mastambém intangível, de origens múltiplas e bemdiferenciadas, a antecipação da integraçãodefinitiva de Macau na China desencadeia umprocesso de reflexão, local, sobre a sua própriaidentidade e especificidade. Multiplicaram-se àexaustão, pois, nas duas décadas anteriores à transição de soberania, debates, colóquios,edições, mostras e festivais que procurammanifestar, a traços fortes – e por maioria derazão numa cidade exposta ao mundo por umturismo em expansão – a invocação da suahistória pela delimitação de zonas classificadas(consagradas pela Unesco) e a multiplicação deespaços de musealização e a reificação de umcalendário de práticas culturais e festivas demúltiplas origens.35MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA
MACAURoteiros deAberta
uma Cidade
À semelhança de muitas cidades asiáticasmodernas, Macau parece fazer pouco para excitara imaginação dos seus visitantes quanto atestemunhos patrimoniais da sua longa e riquíssimahistória. Assim é também, muitas vezes, em cidadesabertas, como é a cidade de Macau. Cidades cujamalha urbana se adensa e cresce, vertiginosa, emaltura e neste caso também em extensão, graçasaos novos aterros. Cidades que crescem todos osdias, todas as horas, dia e noite, desafiando osponteiros dos relógios e os nossos próprios olhos. Como pode o leitor e visitante encontrar traçosmateriais da história de Macau e, neste caso dosseus múltiplos poderes institucionais e políticos, queé desses que trata este primeiro roteiro? É esse o objecto da primeira viagem por Macau,em forma de Roteiro dos Poderes.Quando se fala de poderes, qualquer que sejaa sua forma, no caso de Macau temos queconsiderar esse modelo e realidade de soberaniapartilhada entre poderes portugueses e chinesese, por vezes, poderes que são um pouco dos dois;que são, portanto, luso-chineses. O leitor destelivro e visitante de Macau vai querer identificar econhecer os traços do património material (eefémero aqui e acolá) que está agarrado àquelespoderes e que é ainda hoje visível (mas nemsempre visitável) na cidade.Comecemos pelos poderes orgânicos marcadamenteluso-asiáticos, dominantemente luso-chineses,“fundadores” de Macau como porto internacionalem meados do século XVI, como vimos na introduçãoà História de Cidade. Se há espaço que parece juntare acomodar todos eles, é sem dúvida aquele que foisempre o “coração” do poder político e institucionalluso-asiático da cidade: o Largo do Senado. Aqui se encontram, hoje como no passado, os edifíciosdo Senado da Câmara (mais conhecido por LealSenado depois que, em 1654, D. João IV de38 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAEdifício do Senado da CâmaraLargo do SenadoLargo da Sé1. ROTEIRO DOS PODERES
Portugal proclamou a lealdade de Macau à CoroaPortuguesa durante o período da Monarquia Dual,1580-1640) e da Santa Casa da Misericórdia e,não muito distante destes, o Paço Episcopal e aIgreja da Sé (sedes da hierarquia e do culto da IgrejaCatólica em Macau).Uma das marcas de água dos estabelecimentosprivados portugueses e luso-asiáticos na Ásia foi acriação de instituições de assistência social e demontepio, as Misericórdias. Assim sucedeu emMacau, em 1569. Juntamente com a Misericórdiafoi criado o pequeno hospital de São Rafael. Naformação das duas instituições foi fulcral o papel daCompanhia de Jesus. Na década de 1580 (entre1583 e 1585) chegou a vez da instituição doórgão central de governo da cidade, o Senado daCâmara. Este processo político resultou, formalmente,da institucionalização de uma estrutura dirigente,informal, que desde meados da década de 1550assegurava o governo da cidade, na qual deveriamter assento os moradores mais poderosos e,porventura, os mais antigos (portugueses echineses). O Senado da Câmara foi também atémeados do século XIX o órgão político-administrativo mais relevante de Macau, garante deconsiderável autonomia face a Lisboa, mas tambémface a Pequim. Este estatuto especial, de cidade eporto internacional entre dois impérios (e repúblicasdepois da primeira década do século XX), ficouconsagrado na Lei Básica da RAEM e está, discreta,mas significativamente, representado no conteúdona Cápsula do Tempo, que se encontra na Praça doCentro Cultural. A Cápsula do Tempo, que seráreaberta a 19 de Dezembro de 2049, é um símboloda garantia da República Popular da China emmanter um alto nível de autonomia para Macaugovernado pelos seus residentes por cinquentaanos, após a transferência de poderes para aRepública Popular da China em 19 de Dezembrode 1999.O edifício do Senado da Câmara, depois de1999 e da transferência de poderes de Portugalpara a República Popular da China, chamadoInstituto dos Assuntos Cívicos e Municipais, data asua construção de 1784 e o seu aspecto actualdeve-se à reconstrução terminada em 1940.Todavia, este edifício, sede do poder municipal deMacau terá tido, desde a sua instituição no século39MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAEdifício do Senado da Câmara (1751)Restaurante SolmarRua de São Paulo1. ROTEIRO DOS PODERRES1.ROTEIRO DOS PODERRES
XVI e até finais do século XVIII, uma estruturaarquitetónica totalmente diferente e muito próximados edifícios governamentais chineses da dinastiaMing. Aliás, o perfil arquitectónico predominante nacidade de Macau até ao século XVIII deveria serchinês (nos materiais, engenharia e traça dosedifícios), como sabemos por alguma, muito pouca,iconografia urbana conhecida daquela época. Queoutra coisa esperar de uma cidade cuja populaçãoera, desde os seus primórdios como portointernacional, esmagadoramente chinesa, de váriasprovíncias e não apenas da de Guangdong?No mesmo Largo do Senado, encontra-se aSanta Casa da Misericórdia de Macau (1569), cujaconstrução remonta à década de 1560, mas cujoaspecto actual é de inícios do século XIX. Foram econtinuaram sendo, até 1999, estes os dois pilares dos poderes luso-asiáticos na vida política,económica e social de Macau. De resto, o núcleourbano original, desde a década de 1560, e onderesidiam portugueses, chineses (e outros asiáticos)e um número crescente de luso-asiáticos, nãoficava muito distante da praça do Senado daCâmara. Esta foi, podemos chamar-lhe, a primeirageração de macaenses. Que lutava diariamente pela sobrevivência da então pequena cidadeportuária, onde investira os seus capitais, as suasexpectativas e sonhos, e o futuro das suas famílias.Curiosamente, séculos volvidos, na década de1980, outra geração de macaenses se reunirá,muito perto do Largo do Senado, quando se sentiuameaçada pela acção do governador Vasco Almeidae Costa (1981-1986), no restaurante Solmar, naAvenida da Praia Grande.Se o leitor cruzar o Largo do Senado, deixandoà sua esquerda a Igreja de São Domingos, e subir aestreita rua de São Paulo, vislumbra por trás de ummar de cabeças, a fachada arruinada da Igreja deSão Paulo (erguida ao longo da segunda metade doséculo XVI). Mais do que a forte impressão de umadas mais magnéticas ruínas monumentais da Ásia ecenário perfeito de milhares de selfies por dia, éimportante o leitor perceber que agora acabou de entrar no centro de operações da Companhia de Jesus em Macau e para toda a Ásia Oriental.Centro de operações para a formação de quadros missionários (a dita primeira “universidadeocidental” da Ásia, 1595), de tradutores de línguas40 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAVista da Fortaleza do MonteRuínas de São PauloA Cápsula do Tempo
asiáticas, de estudo da farmacopeia chinesa, decientistas de várias disciplinas para o “mercado”chinês. Tudo isto se fazia neste centro de operaçõesdos jesuítas em Macau. Mas não era tudo.Sobranceira, a fortaleza de São Paulo do Monte(originalmente Nossa Senhora do Monte, onde hojese encontra o Museu de Macau, se zelava pelasegurança do complexo dos jesuítas, mas em largamedida pela defesa da cidade, de que o caso maisnotável e bem-sucedido terá sido a resistência aoataque holandês de 1622. Ali, padres jesuítas,moradores da cidade e uma milícia de escravosasiáticos da Companhia de Jesus asseguravam aguarnição militar. Construída entre 1617 e 1626,a fortaleza de São Paulo do Monte passou para asmãos do governador de Macau (1º governador, D. Francisco de Mascarenhas, 1623-1626) e tornou-se mesmo a residência oficial dos governadores atéaos meados do século XVIII. Nos dias de hoje, aCompanhia de Jesus permanece em Macau, dedicadasobretudo à assistência social e ao ensino primário eliceal, tendo a sua residência Vila Flor, mesmo ao ladoda Igreja de Santo Agostinho, no largo do mesmo nome.Ainda na zona de São Paulo se pode verificarcomo era construída a fortificação da cidade esobretudo do complexo operacional da Companhiade Jesus. Existe ao lado do pequeno templo de NaTcha (do século XIX), um fragmento do pano demuralha, cuja construção se iniciou ainda nadécada de 1560, e bem assim uma das suasportas de acesso. Aqui pode o leitor usar os seussentidos – em especial o tacto – para perceber atécnica de construção e os materiais usados noamuralhamento da cidade, de resto como era usonão apenas na China do Sul, mas também emmuitas regiões da Ásia do Sul e do Sueste. Está alibem exposto o uso do chunambo (palavra deorigem malabar) e que designa uma misturacalcinada de barro, terra, areia, pedras e conchas demariscos, de formidável resistência e longevidade.Para o leitor retomar este roteiro deverá tornarà rua de São Paulo, que deve seguir até desembocarna Praça de Luís de Camões. Terá, entretanto,passado pela Igreja de Santo António. Esta foi aprimeira igreja levantada (provavelmente ainda combambu e madeira) pelos jesuítas na cidade, ainda nadécada de 1560. Foi reconstruída em pedra em1638 e remodelada por duas vezes no século XIX,41MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAFortaleza do MonteRua do PataneResidência Vila Flor1. ROTEIRO DOS PODERRES1.ROTEIRO DOS PODERRES
até chegar ao aspecto actual datado de 1930. Umavez na Praça de Luís de Camões, poderá dar-se acoincidência de cruzar o olhar com o autocarro dacarreira 33 – Patane, da Transmac. Sem o saber, outalvez não, este autocarro leva-nos numa viagemno tempo, aos primórdios de Macau como portointernacional, em meados do século XVI. Patane (naverdade Patani, sultanato malaio na costa orientalda Península Malaia, hoje na Tailândia, e porto muitoactivo no comércio de pimenta para a China desdeo século XV) é seguramente o mais antigotopónimo de Macau. Aqui, na colina do Patane, apartir da Praça de Luís de Camões e depois de umavisita à Casa Garden (durante décadas sede dopoder económico inglês em Macau e hoje sede dadelegação da Fundação Oriente, a que voltaremosno Roteiro dos Negócios) pode entrar-se na Rua doPatane e começar a viagem no tempo. É ummergulho no emaranhado de ruas, travessas ebecos (alguns deles com Patane no nome) do quefoi, graças à sua posição estratégica e à sua ribeira,o núcleo habitacional mais antigo da cidade, paraportugueses, asiáticos de várias Ásias e luso-asiáticos, e onde se situava também a mais antigafortificação da cidade, o Forte do Patane ou daPalanchica (de que nada resta). A zona estápolvilhada de antigos altares dedicados aantepassados e divindades várias e de pequenostemplos chineses (nomeadamente o Pagode doPatane). Esta viagem ao século XVI continua até àTravessa da Palanchica (de ressonância malaia,talvez do étimo encik, chamamento para mulherchinesa ultramarina, mas também qualificativo debeleza para uma jovem chinesa, ou berencik,aquisição de forma verbal com o significado de“tornar-se/ser” uma jovem chinesa). Estamosagora no que foi o berço urbano de todas asparcerias e cruzamentos entre portugueses e asiáticos, especialmente chineses: parceriascomerciais, culturais, encontros e desencontrospolíticos, fusões linguísticas e, naturalmente,encontros amorosos. Ou não ficasse perto daqui afamosa e muito mitificada Gruta de Camões – dasua Dinamene e d’Os Lusíadas – situada nointerior do Jardim de Luís de Camões. Graças aomecenato de um comerciante português, a grutafoi renovada em 1849 e aí colocado um busto deLuís de Camões.Da colina do Patane se tinha a visão generosae estratégica da entrada do porto interior d a c i d a d e e d o cana l de acesso àmegalópolis que era,é e s e r á s e m p r eCantão (Guangzhou).No Patane residiam osmais ilustres membrosda elite macaense,portugueses como osi r m ã o s D i o g o eGuilherme Pereira, luso-chineses como Pero42 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTATap SeacCartaz do filme “Amor e Dedinhos de Pé”Gruta de Camões
Leite e os magnates chineses como NakhodaZhang e Lin Hongzhong. Aqui conviviam eprosperavam todos com o comércio entre a Ásiado Sueste e a China (especiarias, madeiraspreciosas, produtos de farmácia e delicacies) eentre esta e o Japão (seda e prata). Aqui foramcrescendo as suas residências, primeiro emestilo certamente de inspiração chinesa e,gradualmente ao longo dos séculos XVIII e XIX, incorporando elementos arquitectónicos edecorativos europeus, como ainda hoje se podever em vários edifícios antigos na zona do TapSeac ou em São Lázaro, ali relativamente perto.E que serviram de cenário perfeito para ofascinante filme Amor e Dedinhos de Pé, de LuísFilipe Rocha (1992), inspirado no romancehomónimo do macaense Henrique de SennaFernandes.Se este Roteiro dos Poderes descolar o seu focopara o lado do poder oficial português em Macau,pode começar, simbólica, mas significativamente,por um artefacto mnemónico da presençaportuguesa em Macau: a estátua de Jorge Álvares,o primeiro português a visitar a China, em 1513, aoserviço do rei D. Manuel de Portugal. Embarcadoem Malaca, num navio de mercadores asiáticos,Álvares chegou à cidade de Cantão / Guangzhouonde fez comércio e obteve informação privilegiadasobre a realidade do Império Chinês. Para celebraresta figura histórica, o governo do Estado Novoencomendou ao escultor Euclides Vaz a estátua,que foi inaugurada em 1954, e que se encontraainda hoje colocada na Praça de Jorge Álvares, nocomeço da outrora Avenida Salazar e onde sesituava o Palácio das Repartições Públicas, depoistribunal e mais recentemente pólo cultural. Comose constata após uma observação mais cuidada aestátua apresenta uma deformação no nariz (a dobraço não é perceptível), provocada pelo seuderrube quando dos distúrbios havidos em Macau,em Dezembro de 1966, réplicas da agitaçãopolítica e social da Revolução Cultural na RepúblicaPopular da China. Se o leitor prosseguir pela Avenida da PraiaGrande deparará, algumas centenas de metros à43MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAEstátua de Jorge ÁlvaresPalácio do GovernoO governador Vasco Rocha Vieira guarda a última bandeiraportuguesa arreada no Palácio da Praia Grande (19-12-1999)1. ROTEIRO DOS PODERRES1.ROTEIRO DOS PODERRES
frente, com o edifício do Palácio do Governo.Construído em 1849, o Palácio do Governo foiantes a residência do Visconde do Cercal e, porisso, era designado por Palácio do Cercal. Em1881, o Governo de Macau comprou-o em leilãoe passou a utilizá-lo como sede do governo apartir de 1884. Nele funcionou igualmente aAssembleia Legislativa de Macau até 1999. Apósa passagem de poderes para a China continuou aexercer a função de sede do Governo da RegiãoAdministrativa Especial de Macau. Símbolomáximo da administração portuguesa em Macau,foi diante dele arreada a última bandeiraportuguesa no território, a 19 de Dezembro de1999, e entregue ao último governadorportuguês, o general Vasco Rocha Vieira (1991-1999).Depois da sede do poder político, o nossoroteiro pode continuar até à última residência dosgovernadores portugueses de Macau, o Palácio deSanta Sancha, localizado na Estrada de SantaSancha, nº 6. Erigido em 1846 como residência deum arquitecto macaense, o palácio foi compradopelas autoridades coloniais portuguesas em 1926e, em 1937, transformado em residência dogovernador Tamagnini Barbosa, então no seuterceiro mandato (1937-1940). A representaçãopolítico-diplomática de Portugal, o seu consulado-geral, está hoje situada no antigo edifício doHospital de São Rafael, depois na década de 1990,sede da Autoridade Monetária e Cambial deMacau, situado no nº 45 da Rua de Pedro Nolascoda Silva.Não é preciso atravessar as Portas do Cerco,junto à fronteira de Gongbei com a RepúblicaPopular da China, que foram originalmenteerguidas pela dinastia Ming (1574) e depoisdesmanteladas e reconstruídas tal como estãohoje, em 1871, para detectar marcas do poderchinês em Macau, mesmo para o período daadministração portuguesa que se fechou emDezembro de 1999. O Arco das Portas do Cercofoi inaugurado em 1871 pelo governo portuguêsde Macau para homenagear o governador JoãoFerreira do Amaral e o coronel Vicente Nicolau de44 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAEstátua de Ferreira do Amaral na década de 1960Edifício do Consulado Geral de Portugal em MacauPortas do Cerco
1. ROTEIRO DOS PODERRESMesquita, defensores acérrimos da soberaniaportuguesa em Macau. Neste arco, de notóriosignificado e simbolismo colonial, estão gravadasas datas do assassinato do governador Ferreira doAmaral (22 de Agosto de 1849) e da batalha doPassaleão (25 de Agosto de 1849) contra tropasimperiais chinesas. Está também gravado o lema“A Pátria honrai, que a Pátria vos contempla”. Seesta visita a Macau se realizasse antes de Outubrode 1992, ainda poderia o leitor ver a impressionanteestátua a cavalo do governador Ferreira do Amaral,porventura o mais controverso dos governadoresportugueses do território, no centro da praça de seunome e ali erguida em 1940, no âmbito dascomemorações dos centenários da independênciae da restauração de Portugal. De todo o modo,pode ainda ver esta estátua, colocada, quaseenvergonhada, no jardim do Bairro da Encarnação,em Lisboa.Se se diz que a sede da Xinhua (agência denotícias do estado chinês) era, durante as décadasde 1980 e 1990 e até 1999, a verdadeirarepresentação diplomática da República Popular daChina em Macau, o edifício-sede do Banco daChina, inaugurado nos primeiros anos da década de1990 e à data o edifício mais alto da cidade,marcou não apenas o perfil urbano (nocentralíssimo e “estratégico” quarteirão entre aAvenida do Dr. Mário Soares e a Avenida do InfanteDom Henrique) mas quis ser uma marca indeléveldo poder oficial chinês em Macau.Porém, já bem antes das décadas finais daadministração portuguesa em Macau, era possívelfazer um breve roteiro das marcas dos poderesoficiais chineses em Macau. Assim começaríamos,sem dúvida pelo Porto Interior e pelo emblemáticoe sempre sobrelotado de turistas Tempo de A-Má(Mazu). Os vários pavilhões do Templo de A-Másão datados de diferentes épocas, sendo que aconfiguração actual data de 1828. O Pavilhão daBenevolência é porventura o mais antigo e quepertenceria à estrutura original do templo data de1488, em plena dinastia Ming (1368-1644). Arazão pela qual incluímos este templo neste roteiro,prende-se com a utilização recorrente em contextochinês de edifícios rituais e religiosos (budistas,confucianos, taoistas, ou um pouco de todos) parasede de negociações diplomáticas entre a Chinaimperial e estados estrangeiros, designadamenteestados ocidentais. Além do caso do Templo de A-Má, veja-se ainda para Macau o ca so do Templode Kun-Iam (construído em 1627 e situado naAvenida do Coronel Mesquita), que foi palco daassinatura do Tratado de Wanghia entre a dinastiaQing e os Estados Unidos da América (1844).Poderíamos ainda mencionar a função de residênciados templos para os altos funcionários imperiaischineses de visita oficial a Macau. Assim aconteceu45MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTATemplo de A-MáEdifício do Banco da China1.ROTEIRO DOS PODERRES
com o templo de Lin Fong (quase seguramentedatado de 1723) e que serviu de residência aocélebre comissário imperial para a proibição do ópio,Lin Zexu, e para o Governador Provincial DengTingzhen (1836-1840), que ali prosseguiramcontactos políticos com as autoridades portuguesasde Macau, em 1839. Para além das estátuas dosdois influentes personagens da dinastia Qing, podeo visitante conhecer, mesmo junto ao templo de Lin Fong, o pequeno, mas significativo Lin ZexuMemorial Museum of Macau. Voltemos ao Templo de A-Má e ao seusignificado político em Macau. Saiba o leitor queno espaço que fica fronteiro ao templo decorreu,em 1564, a reunião entre o influente mandarimde Cantão (Guangdong), Yu Dayou, e o líder dacomunidade portuguesa de Macau, Diogo Pereira.Esta reunião visava a preparação de acordo deajuda militar de Macau às autoridades provinciaischinesas contra rebeldes da marinha imperial, quehaviam cercado a cidade de Cantão (Guangzhou)por falta de pagamento dos seus vencimentos. Dodesfecho desta cooperação militar sino-macaensehaveria de resultar um forte contributo àsobrevivência de Macau como porto internacionale ao projecto autonómico luso-chinês de Macau,cidade aberta. Como aconteceu.Pode, pois, o leitor imaginar – enquantocontempla as águas calmas, embora poluídas doPorto Interior – o encontro entre estes doisnotabilíssimos personagens do século XVI,marcado por uma inusitada informalidade,manifestada na insistência de You Dayou para queem vez da tradicional genuflexão, Diogo Pereira se sentasse numa cadeira junto dele. E assimdiscutissem e selassem o acordo político-militar,decisivo para Macau. No âmbi to de um rote i ro das marcaspatrimoniais do poder oficial chinês, cabe a visitaà chamada Casa do Mandarim. Situada na esquinada Rua da Barra com a Travessa de António da Silva, este complexo habitacional estáintimamente associado à figura do comerciante epolítico reformista Zheng Guanying, e sua família.A Casa do Mandarim, cuja construção se terá iniciado na década de 1860, possui ascaracterísticas de uma residência tradicional da província de Cantão (Guangdong), tendoigualmente incorporado influências arquitectónicasocidentais. Está actualmente em processo derecuperação pelo Instituto Cultural de Macau.A fechar este roteiro, uma referência à casaonde residiu em Macau, exilado, o fundador daRepública na China, o médico Sun Yat-sen, filho elepróprio de um residente da cidade. A Casa-Memorial de Sun Yat-sen está situada na Avenidade Sidónio Pais, foi construída em 1912 e acolheunesse mesmo ano o célebre personagem. Incorporaigualmente um pequeno museu. Curiosamente, até1999 e ao fim da administração portuguesa emMacau, albergou uma espécie de representaçãooficiosa da República da China / Taiwan.46 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTACasa do MandarimCasa Memorial de Sun Yat-sen
2. ROTEIRO DOS NEGÓCIOSO Roteiro dos Negócios de Macau, CidadeAberta, inicia-se, tal como o roteiro anterior, nazona em redor do Largo do Senado. Postado nestelargo, pode o leitor descer em direcção ao mar,balizado à direita pela Rua das Estalagens, àesquerda pela Avenida de Almeida Ribeiro. Entraráno novelo de ruas e becos que formam uma espéciede quadrícula imperfeita entre aquele largo e a Ruadas Lorchas. Por momentos estará na Macau dosfinais do século XVIII e primeiras décadas do séculoXIX. É que se sente ao passar pela Rua e Travessados Mercadores, por becos como o do Chá e o dasCaixas, pela Rua do Pagode e até chegar ao núcleode tudo que é o Largo do Bazar com o seu templodedicado a Hong Kung, Rei-Macaco (datado dadinastia Qing e reconstruído em 1860). Aqui, é omundo das lojas de outro tempo, que mudamvertiginosamente de ramos de negócio para seremlojas de todos os tempos, consoante os gostos ecarteiras da população da cidade. É aqui tambémque pode o leitor ver ainda três exemplos de TorresPrestamistas; uma na rua de Cinco de Outubro nº 64, outra na Rua de São Domingos nº 6 (ambasdo século XIX e actualmente encerradas) e aterceira na Rua de Camilo Pessanha, esta últimadata de 1917 e hoje totalmente reconstruída etransformada na Exposição Patrimonial – Uma Casade Penhores Tradicional. O negócio dos penhoresnão definhou, antes prosperou na Macau doscasinos, dita a “Las Vegas” da Ásia. Basta ao leitorpercorrer as ruas em redor do Hotel Lisboa e do seuirmão mais novo e gigantesco Grand Lisboa, paraver em pleno funcionamento alguns exemplosdeste negócio e as mirabolantes peças de relojoariae ourivesaria que se podem adquirir, apesar de tudo,a bom preço.Depois de vistas as Torres Pestamistas e já queo leitor se encontra muito próximo do Porto Interior,mais não tem que fazer do que seguir em direcçãoao mar, procurando o final da Avenida do Almirante47MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTATemplo do BazarTorre PrestamistaTorre Prestamista
Sérgio e o início da Rua das Lorchas. Mal começar apercorrer a Rua das Lorchas e quando esta se cruzacom a Praça de Ponte e Horta, encontra oderradeiro exemplo do ciclo de riqueza da vidaeconómica de Macau entre o final do século XVIII eo ocaso do século XIX: o comércio de ópio. Trata-se do edifício, datado de 1880, de um antigoarmazém de ópio, conhecido entre os habitantes dacidade como Casa do Ópio.O trajecto ao longo da Rua das Lorchas, quecontorna boa parte do Porto Interior, dá algumasreminiscências do que foi o bulício comercial-marítimo da cidade; das especiarias (pimenta,noz-moscada, cravo, canela, etc.), produtosfarmacológicos (bezoar, ambergris e toda a espéciede mineralia e animalia) e delicacies sueste-asiáticos (ninho de andorinha, peixe seco, barbatanade tubarão, etc.), ao algodão, marfim e perfumesindianos e à prata japonesa. De tudo um poucoafluía ao porto de Macau entre os séculos XVI e XVIII. Depois, entrado o século XVIII, ali chegavaem boas quantidades o ópio do Bengala e doGuzerate, que fez a riqueza da cidade e dos seusmagnates e sociedades comerciais, a esmagadoramaioria delas chinesas, mas algumas também luso-chinesas. Pelas arcadas e armazéns do PortoInterior passaram incontáveis peças de porcelanachinesa destinadas à Europa e à América, milharesou talvez milhões de peças de seda de uma cor, de todas as cores e texturas para os insaciáveismercados europeus. Por aqui passaram toneladasde chá chinês para o novo hábito social que umaprincesa portuguesa levou consigo para Inglaterrae depois para toda a Europa, a América e que depoisse tornou um produto planetário. Por aqui,finalmente, passaram durante uma parte do séculoXIX milhares e milhares de sonhos de vidasmelhores de chineses que partiram por Macau acaminho das Américas, com contratos que ostornavam afinal não em trabalhadores, mas emquase escravos e aos quais se chamou de cules.Que têm de resto a sua memória preservada natoponímia antiga de Macau, com a Rua dos Cules eo Pátio do Cules, não muito distantes do Largo doSenado.Nada disto existe já no Porto Interior, mas tudoisto fez a riqueza de Macau e das suas gentes. A riqueza de Macau, transferiu-se daqui para o48 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAPorto InteriorCasa de PenhoresCasa do Ópio
2. ROTEIRO DOS NEGÓCIOSterminal do Porto Exterior e para o aeroportointernacional, na ilha da Taipa, onde chegamdiariamente, sem tréguas, milhares de turistase jogadores para a Macau de sempre, cidadeinternacional e cidade aberta.Finalizado o trajeto pela Rua das Lorchas edepois pela avenida de Demétrio Cinatti, mesmoaté ao seu final e até encontrar a Travessa de LamMau, o leitor reencontrará o fio da meada dahistória da cidade. Reencontrará os primórdios deMacau, porto internacional dos meados do séculoXVI, o Patane e a Rua da Ribeira do Patane. Se fez oRoteiro dos Poderes perceberá agora melhor comoos poderes institucionais e os poderes informais, ospoderes visíveis e os ocultos se cruzaram sempreno curso da história desta cidade e continuam acruzar-se hoje com o mundo dos negócios. Nestelivro são roteiros separados, mas na realidadehistórica de Macau são, porventura, um e o mesmoroteiro. Como perceberam gerações e gerações delideres da sociedade de Macau. Como perceberamPortugal e a China durante a maior parte do tempoe vão perceber seguramente, pelo menos até2049, ano em que termina o período de transição.Depois de voltar à pista de Patane e à colinaonde tudo começou em meados do século XVI, avisita vai regressar, agora neste segundo roteiro,à Praça de Luís de Camões e à Casa Garden. A Casa Garden, hoje sede da delegação daFundação Oriente em Macau, foi construída em1770 e terá sido a residência do magnate einfluente morador da cidade Manuel Pereira, comgrandes investimentos no comércio com o Brasil eLisboa. Posteriormente, a casa foi alugada para sededa Companhia das Índias Orientais (EIC). Muitopróximo da Casa Garden encontra-se o chamadoCemitério Protestante, inaugurado em 1821, noqual estão sepultados alguns dos comerciantes e49MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA2. ROTEIRO DOS NEGÓCIOSRua do GamboaPorto InteriorCasa GardenJardim de Luís de Camões
dignitários europeus ou americanos e bem assimalguns viajantes ilustres (como Robert Morrison ouGeorge Chinnery) que residiram ou passaram porMacau no século XIX. Se o leitor quiser continuar aexplorar a presença de comunidades estrangeirasem Macau, asiáticas e europeias, boa parte dasquais altamente envolvidas no mundo dos negóciosda cidade, pode visitar alguns dos mais antigoscemitér ios da c idade. Para a comunidadeportuguesa e luso-asiática, o cemitério de SãoMiguel Arcanjo (na Estrada do Cemitério); para acomunidade parse (grupo étnico-religioso oriundoda Índia e seguidores do Zoroastrismo), o Cemitériodos Parses (infelizmente de quase impossívelacesso) sito na Estrada dos Parses, junto ao CentroHospitalar de São Januário; para os muçulmanos, oCemitério e Mesquita Islâmicos, situados no Ramaldos Mouros, não muito distantes do reservatóriode água da cidade, e onde se encontram sepultadosalguns homens de negócios, mas sobretudoelementos das forças de segurança de Macau,recrutados na Índia.Um derradeiro percurso no âmbito desteRoteiro dos Negócios é centrado nas casas degrandes magnates da cidade, como seria de esperarmaioritariamente chineses. Com duas excepções: aprimeira é a chamada Casa Jardines, situada na Ruada Praia do Bom Parto, datada da primeira metadedo século XIX e que foi a residência do director daCompanha das Índias Orientais (EIC). A segunda,não está escorada em nenhuma marca patrimonialconcreta, mas apenas na toponímia da cidade.Trata-se do conjunto composto pela Rua, Calçada,Travessa e Beco do Gamboa, a que pode o leitoraceder através da Rua da Felicidade (de quefalamos no Roteiro dos Prazeres), via Beco dasGalinhas. Este conjunto toponímico de Macauremete-nos para um dos grandes magnatesportugueses da cidade no século XVIII. Referimo-nos a António José Gamboa (Lisboa, 1754-Macau,1796?), que chegou a Macau em 1775 e logoinvestiu no comércio de algodão e ópio em Cantão/ Guangzhou. Tinha negócios e navios em váriosportos da Ásia do Sueste e mesmo da Índia. Foi altoquadro do Senado da Câmara e responsável pelasrelações político-diplomáticas com as autoridadesimperiais chinesas entre 1793 e 1795. Ao queparece era bem visto em Lisboa e talvez fossemesmo um protegido do todo-poderoso Ministroda Marinha e Assuntos ultramarinos, Martinho deMello e Castro. Era, então, porventura, esta a suaárea de residência enquanto viveu em Macau, noséculo XVIII.Para os magnates chineses existem cincoexemplos de esp lênd idas res idênc ias dos50 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTACasa de Lou KauCasa de Choi Lok Chi
2. ROTEIRO DOS NEGÓCIOSséculos XIX e XX. A primeira e mais antiga(1889) é a Casa de Lou Kau. Lou Kau foihomem de negócios cantonense, residente de Macau, que fez fortuna sendo o pioneiro da indústria do jogo em Macau, mormente com lotarias e em especial o hoje quasedesaparecido Pacapio (ou Lotaria das Pombas,que o leitor pode ainda jogar no Hotel Lisboa eno Centro de Pacapio Wing Hing, na Avenida doInfante D. Henrique, nº 41). Localizada nocentro nevrálgico de todos os poderes enegócios da cidade (na Rua da Sé, nº 7), a Casade Lou Kau é um notável exemplo de residênciacantonense de finais da dinastia Qing, aqui e a l i ostentando e lementos decorat ivos earquitectónicos ocidentais. Já de princípios do século XX, temos a Casa de Choi Lok Chi(de 1918) , que fo i um r i co homem denegócios, depois director da Associação Comercialde Macau, e que fica situada na Calçada deIgreja de São Lázaro, nº 7.Da mesma época (1918) temos ainda aCasa de Kou Ho Neng, outro industrial do jogode Macau durante as primeiras décadas doséculo XX e que em 1911 obteve a concessãodo monopólio do comércio de ópio (produto querecuperava algum valor nesta época). Kouadquiriu a casa em 1916, situada na Rua doCampo nº 165. Dos seus descendentes há umaoutra casa sobrevivente, postada na Avenida daPraia Grande nº 83.Por fim, a casa de família do magnate LouLim Ieok, que se situa na Avenida de Horta eCosta nº 7, e construída no princípio do séculoXX. Foi convertida em escola em 1938, sendoainda hoje a Escola Pui Cheng. Esta mesmafamília fez construir ainda um magnífico jardime pavilhão na Estrada de Adolfo Loureiro, nº 10.O Jardim e Pavilhão de Lou Lim Ieok, construídopelo patriarca da família, Lou Kao, no século XIXe deixado a seu filho Lou Lim Ieok, é compostopor um átrio principal e duas alas laterais. Opavilhão ostenta marcas arquitectónicas edecorativas chinesas e ocidentais, belamenteacomodadas. Mas é o lago, as suas pontes, asrochas artificiais e mata de bambus, ao estilo dosfamosíssimos jardins construídos por mandarinsda dinastia Qing na cidade de Suzhou (provínciade Zhejiang), que o tornam extraordinário edigno de visita.Difici lmente haveria melhor forma determinar o Roteiro dos Negócios, até porque oJardim e Pavilhão de Lou Lim Ieoc pode ser umaexcelente transição do leitor para o que sesegue: o Roteiro dos Prazeres.51MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA2. ROTEIRO DOS NEGÓCIOSJardim de Lou Lim IeocCasa de Kou Ho Neng
Na cidade em que o prazer se confunde comos mais desairados vícios, privados ou públicos. Nacidade em que, a cada dia, a todas as horas, novosprazeres são postos à disposição de todos. Nacidade em que o prazer se exagera, se tem prazerem exagerar, em que é quase imperdoável nãoexagerar no prazer, não há como evitar: um Roteirodos Prazeres em Macau, que tenha ligação aopatrimónio material da história de cidade, só podecomeçar pela Rua da Felicidade.Situada à esquerda de quem desce a Avenidade Almeida Ribeiro, vindo do Largo do Senado, emdirecção ao mar, a Rua da Felicidade (e junto delauma travessa, um beco e um pátio, todos com omesmo nome) data a sua abertura de finais doséculo XIX. Entre as décadas de 1860 e 1870,alguns comerciantes ricos da província de Fujiancompraram os terrenos e, após uma série de aterrose construções, a área rapidamente transbordou devida e animação. E sobretudo de locais dedivertimento e prazer: restaurantes, lojas, teatros,“casas de flores” (eufemismo chinês para bordéis)52 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA3. ROTEIRO DOS PRAZERESTim Heong YuenRua da Felicidade Casa na Rua da Felicidade
3. ROTEIRO DOS PRAZERESe casas de ópio. Não será difícil ao leitor, graças aoexcelente trabalho de recuperação patrimonial doInstituto Cultural, sentir a atmosfera do que seria arua e a zona mais fervilhante dos prazeres proibidose, portanto, mais desejados da cidade. Com umpouco de esforço, poderá imaginar o som de fundo das “pepachais” (tocadoras do tradicionalinstrumento musical chinês, com quatro ou cincocordas), cantando de dentro das casas de janelaaberta, o chamamento prometedor e lânguido dasmama-san (as governantas dos bordéis), por entreo baralhar estridente de peças de mahjong. Hojepoderá ainda ver e usufruir de alguns restaurantesde delicacies da cozinha cantonense, como a sopade cobra ou de barbatana de tubarão, ou mesmo osincomparáveis caldos doces do minúsculo TimHeong Yuen (Mak Si Fu), que fica colado, na Rua daCaldeira, nº 32. Já que aqui está, o leitor pode emalternativa comer no, talvez, mais antigo restaurantede Macau, ainda em actividade: o Fat Siu Lau (no nº 64 da Rua da Felicidade) onde, desde 1903, oprato de pombo e o não menos célebre “bife Amalo”– supostamente derivado do nome de um políciaportuguês, de nome Amaro, grande apreciador debife e frequentador assíduo deste restaurante.E quiser continuar no registo da gastronomiade inspiração, mais ou menos ou só vagamente,portuguesa, só pode dirigir-se à Rua do Camponº 20 e ao Estabelecimento de Comidas A Vencedora. Ali tem (desde 1918) também um53MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA3.ROTEIRO DOS PRAZERESHotel Bela VistaMenu do Fat Siu LauRestaurante Fat Siu Lau Estabelecimento de comidas A Vencedora
aportuguesado bife e sobretudo um épicobacalhau cozido.Não muito distante dali, na Avenida da PraiaGrande nº 975, o Clube Militar é hoje e desde adécada de 1990 um sofisticado restaurante decomida portuguesa. Fundado por um grupo deoficiais militares portugueses em 1870, logo e desdeessa época os seus dois grandes salões passaram aacolher as festas de Natal, Passagem do Ano e atéos bailes de Carnaval da comunidade de altosquadros coloniais portugueses, civis e militares, deMacau. Os prazeres das grandes festas, em espaço dehotel, podiam durante quase meio século (1948 a1999), ser revisitados no Hotel Bela Vista (naAvenida do Comendador Ho Yin, nº 8 – 10).Construído em 1870, este edifício foi inicialmentea residência de um britânico e, em 1890,transitoriamente convertido em hotel. Daqui oshóspedes do hotel podiam descer à chamada Praiados Ingleses, que era fronteira, para nadar, no queé hoje uma zona já aterrada. Depois de váriasmudanças de proprietário, que lhe devolveram o charme colonial durante a década de 1990, oHotel Bela Vista acabou nas mãos do GovernoPortuguês, em 1999, que o converteu emresidência oficial do Cônsul Geral de Portugal. O que o torna impossível de visitar e de disfrutar54 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAHotel Lisboa Teatro ApolloHotel Central
da sua inebriante vista sobre o Rio da Pérola, salvose for convidado para as celebrações do 10 deJunho, dia de Portugal, que por vezes ali têm lugar.O leitor e visitante mais curioso ter um relancedeste glamoroso hotel na versão televisiva de A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1989),protagonizada por Peter Ustinov e Pierce Brosnan.Nem no já histórico Hotel Central (na Avenidade Almeida Ribeiro, 264-270), inaugurado em1928 com o nome de Hotel Presidente e à épocatido como o mais luxuoso de Macau e o mais altoedifício da cidade, restam quaisquer vestígios dofrou-frou das festas, do casino e do bar de outrora.Onde ainda pode o leitor ter um vislumbre dosgrandes happenings da sociedade macaense dasdécadas de 1970 e 1980, momento de partidapara a transformação de Macau numa verdadeirametrópole, é no Hotel Lisboa. Finalizada a suaconstrução em 1970, graças aos investimentos domagnata do jogo Stanley Ho (e de três associadosseus), tornou-se no “quartel-general” do grupoeconómico Sociedade de Turismo e Diversões deMacau (STDM) e um ícone da arquitectura doscasinos da cidade, graças sobretudo à forma de ga io la ch inesa do seu corpo centra l ,precisamente, onde se encontra a zona do jogo.Mal-afortunadamente, o lendário casino flutuanteMacau Palace (inaugurado em Maio de 1962) eprimeiro casino de Stanley Ho e da STDM, mantidohabitualmente a flutuar junto da Ponte 12 B doPorto Interior, foi desactivado e levado para águasda República Popular da China. A única possibilidadede o rever, fugazmente, será acompanhar as aventurasde Bond, James Bond em o Homem da PistolaDourada (filme de 1974). Nos dias de hoje, o leitorpode e deve passar pelos novos casinos, como osfeéricos MGM, o Wynn, o Venetian ou mesmo oSands.Se o leitor procurar, neste Roteiro dos Prazeres,salas de espectáculo, o mesmo é dizer de teatro ecinema, as possibilidades são muito reduzidas de asencontrar no activo ou sequer os seus edifícios. Doprimeiro animatografo da cidade, o Victória (1910)ao cinema propriamente dito Victória na Rua dosMercadores, passando pelas 10 salas que existiramna cidade entre as décadas de 1930 e de 1960(como o Nam Van, o Lido, o Alegria, o Roxy, ou oApollo), nenhum subsiste hoje. Se mesmo assim, seo leitor insistir e quiser ter uma noção do que foramessas salas de espectáculos, poderá ver os edifíciosdos cinemas e teatro Capitol (na Rua de SãoDomingos 34) e Apollo (inaugurado em 1935) naAvenida de Almeida Ribeiro, mesmo junto ao LealSenado e que é actualmente uma loja de umacadeia internacional de vestuário.55MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA3. ROTEIRO DOS PRAZERES3. ROTEIRO DOS PRAZERESTeatro Capitol
Não muito distante do Largo do Senado situa-se a sala de teatro mais emblemática de Macau: oD. Pedro V. Localizado no Largo de Santo Agostinho,de que já falámos no Roteiro dos Poderes, efinalizado em 1860 é o mais antigo teatro de estiloocidental da China. De estilo neogótico, teve a suafachada executada pelo arquitecto macaense PedroGermano Marques, em 1872. Assim baptizado, em homenagem ao rei português D. Pedro V(1853-1861), tornou-se a sala onde se passarama realizar todo o tipo de saraus culturais,representações teatrais e espectáculos musicais dacomunidade portuguesa da cidade, até ao seuencerramento na década de 1970 (por força deuma praga de térmitas). Remodelado, reabriu em1993, e foi de novo restaurado e elevado ao brilhodo seu desenho original em 2001.Se fecharmos este roteiro com um pequenoprazer, então ele poderia ser o das alfaiatariastradicionais, nas quais além da escolha quase devotadas fazendas, linhos e alpacas de seda, se percebeque ainda estamos no mundo das duas ou trêsprovas antes da entrega. São rituais que nosremetem (juntamente com muitas fotografiasantigas espalhadas pelas paredes) para outrostempos. Tempos de uma Macau colonial, perdida notempo como derradeira colónia europeia na Ásia,em todas as Ásias, mas só depois de meados doséculo XIX e até 1999. É por isso, obrigatória a visita e a encomenda em pelo menos trêsalfaiatarias da cidade. Primeiro as duas favoritas dofuncionalismo português de outrora, que fazia deida à Alfaiataria Domingos (na Avenida do Dr. MárioSoares, nº 17) e à Alfaiataria António Manuel (naRua de Nossa Senhora do Amparo, nº 25), umaespécie de ritual iniciático à chegada a Macau, e deafirmação do status social que a Metrópoleportuguesa negara, cruelmente, durante demasiadotempo. Por último, a Alfaiataria Man Nga (na Rua deSão Paulo 59), onde o Português não era língua decomunicação em vigor, nem sequer os modelos dofigurino europeu, por muito démodé que fosse. O que a tornava e torna especialmente apetecívelpara um outro tipo de clientela, que não usamonograma nas camisas, não conhece o colarinhofrancês e não se ofusca com o brilho da alpaca de seda.Com uma incursão a este pequeno prazerse fecha este roteiro.56 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAAlfaiataria António ManuelInterior do Teatro D. Pedro V Alfaiataria Domingos
Uma mulher percorre a rua apressadamente,com uma criança pela mão, dirigindo-se ao Templode Kun-Iam (Pou Chai Sim Lum), situado no interiorde Macau, na Avenida Coronel Mesquita, cuja figurarepresenta, no Budismo chinês, a misericórdia. É num 19º dia do sexto mês (lunar) do ano e elaempunha as varas de incenso numa breve oração auma das figuras laterais do pavilhão central, após oque as coloca no braseiro e se dirige para o fundo,ajoelhando-se frente à mesa de altar, atrás da qualse encontra o nicho com a estátua. O fumo dosbraseiros confunde-se com o dos pivetes suspensosno tecto do templo. A criança acompanha-a,ajoelhando-se e mimando a colocação das mãosdurante a oração. A intimidade do gesto não seperturba com o elevado número de pessoas queacorre ao templo neste dia, nos 2º, 6º, 9º e 10ºmeses lunares do ano. O templo, precedido por umaescadaria e por figuras protectoras, compõem-sede três pavilhões, que alternam com dois pátios, oprimeiro dedicado aos três Budas, o segundo aoBuda da Longevidade e o último a Guanyin (Kun Iam).Embora se nos apresente como um temploBudista, ao longo dos diversos templos de Macaupodemos encontrar salas e figuras que contemplamora a imagem de Buda e as diversas figuras deinspiradas no Budismo (Fojiao) ou as estátuas e gravuras protectoras, de inspiração taoista(Daojiao) ou confucionista (Rujiao); nos templos, astrês doutrinas (Sanjiao) convivem em harmonia edesempenham, na experiência do ritual, papéis bemdistintos, mas complementares.À concentração de população em Macaucorresponde a um considerável conjunto detemplos das confissões indicadas, mas também aum conjunto relevante de igrejas católicas e, commenor presença, a outros locais de culto, atribuídosàs comunidades protestantes – criadas ao longo doséculo XX e que se têm multiplicado nas últimasdécadas – e uma Mesquita e um Cemitério Islâmicos,situados justamente no Ramal dos Mouros.O percurso deste roteiro, que será feito sobreum conjunto inevitavelmente restrito de locais deculto distribuídos pela Península de Macau, pelaTaipa e Coloane, implica considerar, também, outroslocais de clara inscrição religiosa: a estatuária votivadispersa pela cidade, ocasionalmente concentradanos cemitérios católicos e, em alguns edifícioslaicos, a presença de elementos estruturais ouestéticos de inspiração confessional.De forma residual, mas com relevo histórico,muçulmanos, parses, hindus, mas também algunsjudeus e cristãos, ortodoxos arménios, protestantese anglicanos, marcaram o território de Macau emperíodos históricos diversos, presentes hoje namemória toponímica: o Ramal dos Mouros, aMesquita e o Cemitério Islâmicos (construído em1851) o Cemitério dos Parses (datado de 1829) e o Cemitério dos Arménios, que terá existido atéao século XIX na Colina da Penha e o Cemitério57MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA4. ROTEIRO DAS CONFISSÕESTemplo de Kun-IamLargo do Senado: Dança do Leão
Protestante, de que falaremos adiante, mas járeferido no Roteiro dos Negócios.O calendário lunissolar em que se inscrevemas festividades chinesas, inicia-se, no 1º dia do 1ºmês lunar, com o Festival da Primavera, ou AnoNovo; foi, contudo, na semana anterior que tevelugar a sua preparação. Se no contexto das famíliascatólicas são já raros os oratórios privados, sãofrequentes os altares domésticos nas residênciasdas famílias chinesas, dedicados ao Deus das Cozinhas,Zao Shen (Zao Jun) uma figura de inspiraçãotaoista que nesse período se vê tratar com umparticular cuidado na renovação do altar, visto que será ele, na ascenção aos Céus, o principaladvogado do bom desempenho da família junto doImperador de jade, Iok Wong (Yuhuang). Mas étambém nestes pequenos altares domésticos que,quotidianamente, se propicia um bom dia escolar,de trabalho ou de negócios. Em Macau, no quadrodo calendário chinês, são feriados o 1º, 2º e 3º diado novo ano lunar (entre os dias 1 a 15 do 1º mês).A celebração do Ano Novo excede os espaçosde culto e invade toda a cidade, com uma decoraçãoviva das ruas, recapitulando a figura do Zodíacocorrespondente ao ano, nos envelopes de lai sique as crianças pedem com impaciência (“lai si tailoi ”) após desejar um bom ano, nas peças queornamentam as montras das joalharias, ou nasfiguras em tela que decoram as rotundas ou aentrada dos restaurantes.Nos três dias de pausa de actividade laboral, oscasinos enchem-se, tanto mais por ser o únicoperíodo em que os funcionários públicos têmautorização para jogar. Mais do que nunca, a cidademantém-se disponível 24 sobre 24 horas para afesta, que tem o duplo sentido de celebrar e reunira família e assegurar, ritualmente, a ruptura com oque de mau possa ter ficado do ano anterior epropiciar o que de bom se deseja. As pessoas58 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTATemplo de Lin FongUm altar domésticoCemitério de S. Miguel Arcanjo
libertam-se de vestuário ou objectos associados amaus episódios e alguns consultam os fung soi lou (geomantes) para encontrar as condiçõespropícias para novos projectos. Como operadorfundamental desta separação, o ruído provocadopelo rebentamento de panchões, o fogo de artifícioou a coreografia da Dança do Leão parecem impedira continuidade que o ano anterior poderia ter sobreo ano que se inicia.A norte da cidade encontramos o Templo deLin Fong, a caminho das Portas do Cerco, naencosta norte de Mong Ha. Vulgarmente conhecidocomo o Pagode Novo (embora, a despeito dasreconstruções e ampliações, a sua construçãooriginal se situe em 1592), ou da Colina do Lótus(Lieng-fung), é dedicado a Tin Hau e a Kun Iam. Talcomo o templo de Kun Iam, foi invocado no Roteirodos Poderes, visto terem-se nele hospedadoregularmente os mandarins que se deslocavam aMacau e, entre 1939 e 1844, os comissáriosimperiais Lin Zexu e Keying.Se retomarmos o Templo de Kun Iam, estamospróximos do cemitério católico de Nossa Senhorada Piedade, aí instalado nos anos 50 do séculopassado e que surgiu com a saturação do Cemitériode São Miguel Arcanjo; neste último, a separaçãoinicial entre católicos e outras confissões esbateu-se,em particular no período republicano, muito embora osmausoléus das famílias católicas mais destacadas,nas áleas centrais, se demarquem pela estatuária.É próximo a este cemitério que vamosencontrar a Igreja de São Lázaro. O edifício actualfoi construído em 1886, substituindo a ermida aíconstruída no século XVI e possivelmente a primeiracatedral de Macau. No interior, organizado em duas naves, destaca-se a estátua de São Roque,protector das epidemias, que se associa assim a SãoLázaro, cujo nome provém da assistência prestadana leprosaria que o Bispo Dom Belchior Carneiro fezconstruir na sua proximidade.Se o nosso percurso se encaminhar pela Estradado Cemitério até à Rua Tomás Vieira, iremos, no final,encontrar o Jardim de Luís de Camões e a CasaGarden. Uma discreta porta lateral dá-nos acesso aoFachada da Igreja de S. Paulo59MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA4. ROTEIRO DAS CONFISSÕES4. ROTEIRO DAS CONFISSÕESIgreja de S. LázaroCemitério protestante
pequeno Cemitério Protestante, aberto em 1821pela East Indian Company para a comunidade inglesaque residia em Macau; aí se encontram, entreoutras, as campas de Robert Morrison, o primeirotradutor da Bíblia para a língua chinesa, falecido a 1 de Agosto de 1834, e do pintor George Chinnery,que faleceu em Macau a 30 de Maio de 1852.Do lado contrário da praceta fronteira ao Jardimsitua-se a Igreja de Santo António, que integra arelação de edifícios classificados no Centro Histórico.Uma das mais antigas de Macau, construída emmadeira – tal como a Igreja de S. Paulo – acolheu aacção da Companhia de Jesus em Macau e, noséculo XVII, foi construída em pedra. Os incêndiosocorridos em 1809 e 1874 destruíram, para alémdo edifício, os registos paroquiais, criando um hiatona reconstituição da história e da genealogia locais.No interior, a nave central conserva uma imagemde Santo António com o menino.Se descermos as Ruas de Santo António e deSão Paulo, vamos desembocar na base da calçadade São Paulo, onde a multidão percorre aescadaria que conduz às Ruinas de São Paulo.Emblemática para Macau, a actual fachada resulta da Igreja da Madre de Deus, contíguaao Colégio de São Paulo, construída pelosJesuítas juntamente com a Fortaleza de São Paulo do Monte, ficou destruída por um incêndioem 1835, perdendo-se um exemplo notável dearquitectura barroca que, para mais, associava –o que ainda está patente na composição dafachada – influências asiáticas sobre uma matrizeuropeia.É na calçada de São Francisco Xavier, próximoàs Ruínas de S. Paulo, que vamos encontrar opequeno Templo de Na Tcha (Nezha), uma figurapopular, geralmente representada como um joveme a quem se atribuem – e pedem – vários milagres.Construído em 1888, com uma única sala dedecoração modesta, será no 18º dia do 5º mês quese ouvirão os tambores, os panchões e a Dança doLeão que acompanham a estátua no seu percursoprocessional, entre Macau – passando pela Rua doCampo e pela Avenida de Almeida Ribeiro – e asIlhas, até voltar novamente ao templo.Descendo as Ruas da Palha e de São Domingosna direcção do Senado, entramos no centro históricoonde se concentrava a vida da população cristã dacidade. A Igreja de São Domingos, com a fachada decor amarela e uma torre sineira, é um excelenteexemplar do barroco em Macau, num plano comuma nave e com um altar de talha dourada degrandes proporções. É daqui que parte a Procissãode Nossa Senhora de Fátima, que percorre a cidadeanualmente, a 13 de Maio, até à Ermida da Penha.Um pouco acima, no Largo da Sé, numconjunto de edifícios ligados ao Patriarcado,encontramos a Sé Catedral de Macau, edifício empedra consagrado em 1850, que sucede a umaconstrução em madeira, processo inicial deconstrução recorrente noutras igrejas de Macau.Ladeado por duas torres, decorado com vitrais que60 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTASé Catedral de MacauTemplo de Na Tcha
representam a Virgem e os Apóstolos, o edifício,também classificado no centro histórico, comportaum conjunto de altares e figuras, entre os quais ade São João Baptista, padroeiro da cidade.Realizada pela primeira vez em 1586, aProcissão do Senhor Bom Jesus dos Passos deslocaa imagem de Cristo entre a Sé Catedral e a Igrejade Santo Agostinho, na noite de véspera doprimeiro Domingo da Quaresma, pontuando asestações com o cântico da Verónica. Tambémintegrada nas celebrações da Páscoa, a Procissão doCristo Morto realiza-se na Sexta-feira Santa.Subindo do Largo do Senado ao de SantoAgostinho revisitamos a discreta residência dosJesuítas, figuras pioneiras na “construção” de Macaue deparamos com o Seminário – que abordaremosno capítulo sobre os Saberes – para retomar a Igrejade São José, construída em 1758 e integrada nocomplexo do Seminário, sendo um interessanteexemplo da arquitectura barroca em Macau. Comuma ampla fachada de cor amarela, desenvolve-senum modelo em cruz latina, com três altares, tendoo central as imagens de São José, de Santo Inácio deLoyola e de São Francisco Xavier. As boas condiçõesacústicas da Igreja tornam-na palco habitual de algunsdos espetáculos do Festival de Música de Macau.No Porto Interior, é entre a Avenida de AlmeidaRibeiro e a Rua do Mercado Sul de São Domingos queencontramos um dos mais curiosos lugares de cultode Macau, o Templo de Kuan Tai. O espaço fronteirodemarca-se com um empedrado largo e um altarexterior, juntando-se-lhe um detalhe invulgar naconstrução: o telhado reveste-se com a agregaçãode conchas de ostra. Construído em 1750 pelaAssociação das Três Ruas – a mais antiga associaçãobeneficente de Macau – que agrupa as ruas dasEstalagens, dos Ervanários e do Acampamento, édedicado a Kuan Tai e a Tei Chong Vong. O templo épalco da festa de Choi Long (o Dragão embriagado),que tem lugar no 8º dia do 4º mês, celebrado pelasassociações de vendedores de peixe, locais, que incluidanças do Leão e do Dragão embriagado e adistribuição, ritual, de “arroz da longevidade”.Mas por todo o território de Macau tem lugar,neste dia, nos templos budistas, a limpeza das imagens de Buda – o “Banho de Buda” –coincidente com a data do seu nascimento, em queas figuras são simbolicamente aspergidas com águaperfumada, colocada com uma colher de cobre.Comemoração fundamental para a comunidadebudista, fixada como um dos feriados de Macau, acerimónia é amplamente participada e testemunhadapela comunidade, nos diversos templos budistas,nomeadamente no Mosteiro de Pou Tai Un. Situado61MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA4. ROTEIRO DAS CONFISSÕES4. ROTEIRO DAS CONFISSÕESIgreja de São DomingosIgreja de Santo Agostinho
na Taipa, na Avenida de Lou Lim Ieoc, foi fundado em 1927 pela família Lo, pertencendo hoje àcomunidade Budista “Cheng Tou”, que o adquiriu nadécade de 1960 e o expandiu, pela inclusão denovos pavilhões, conciliando maioritariamente afiguração budista com algumas divindades taoistas.O edifício principal (Tai Hou Pou Tin), de três pisos,mantém no primeiro piso as figuras de Kun Iam e de Vai To. O edifício acolhe tabuletas dos espíritos,dedicadas ao culto dos antepassados, e tem, nojardim, uma estátua do Buda de quatro faces,símbolo de omnividência.De volta à cidade de Macau, se o leitor sedirigir ao Porto Interior pela Avenida do AlmiranteSérgio, percorrendo a travessa de Chan Loc,encontra a Travessa da Corda, onde se situa oTemplo de Lim Kai. Construído em 1830, albergamais de uma centena de divindades, destacando-se duas: Wa Kong (celebrado no 28º dia do 9º mês)e Choi Pak (celebrado no 22º dia do 7º mês), esteúltimo propiciatório à obtenção de riqueza.No extremo sul do Porto Interior, chega-se auma praceta onde um imenso caudal de turistas nosacompanha na visita ao Ma Kok Miu, o núcleo deculto usualmente associado à origem do topónimoMacau, atribuindo o nome Macau à deusa A-Má(Mazu). Progredindo pela colina, o templo combinaos edifícios com vários desenhos inscritos nas pedras,onde se destaca a representação da embarcação queteria trazido a terra a jovem A-Má (ou Tin Hao) o único junco que sobreviveu, graças à sua presença,a uma violenta tempestade na viagem deGuangzhou /Cantão para Macau. O templo apresentaquatro salas e altares dedicados a diferentes cultos,e divindades: o Pavilhão da Benevolência e o Pavilhãode Orações, dedicados a A-Má, o Pavilhão BudistaZhengjiao Chanlin dedicado a várias divindades e o Pavilhão de Kun Ian (Guanyin), retratando comnitidez a intersecção das principais confissões queprevalecem na população chinesa. A festividade emhonra de A-Má celebra-se no 23º dia do 3º mês.O Museu Marítimo de Macau, que lhe ficafronteiro e que ladeia o rio, no que será (até que umnovo aterro nos desminta) o limite da Península deMacau, alberga a já mencionada animação do mitode A-Má, mas também o património votivo ligadoà actividade pesqueira praticada ao largo das águasterritoriais. Este museu tornou-se também, graçasa um diligente trabalho dos seus técnicos, odepositário das figurações cultuais da “comunidadeflutuante,” os tancareiros. O Ching Ming ou Qing Ming Jie (Dia de finados,no 106º dia após o solstício de Inverno),corresponde à reunião das famílias (e à sobrecargadas fronteiras) e destas com os seus antepassados,partilhando simbolicamente uma parcela dosalimentos que são levados aos cemitérios: chá,vinho, pequenos leitões assados, deixando-se nascampas algumas taças e os fai-chi. As oferendasincluem também queimar o “dinheiro do inferno”, as“barras de ouro” e outras peças ou acessórios deconforto, feitas em papel e destinadas a asseguraraos antepassados todo o bem-estar possível. Ofestival da “suprema claridade,” incluiu igualmente alimpeza e o arranjo das campas. O mesmo culto dosantepassados, prosseguido nos templos e mantidonos altares domésticos, é reatado no Chong Yeongou Chongyang (Dia dos antepassados, no 9º dia do62 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTATemplo de A-MáMosteiro de Pau Tai Un
9º mês), também conhecido como o festival do“duplo 9”.No 15º dia do 7º mês lunar tem lugar umperíodo de algum risco no equilíbrio entre os vivose os seus antepassados: a acompanhar a lua cheia,as portas do Inferno abrem-se e um conjunto dealmas atormentadas – e esfomeadas – vagueiamperigosamente, em boa parte por não terem sidoobjecto do devido culto, que lhes poderia terassegurado maior serenidade. Uma deambulaçãofeita ao anoitecer pelas ruas de Macau permiteacompanhar o festival de Yu Lan Pen (SalvaçãoUniversal), no qual são oferecidos aos espíritos asfigurações, em papel, de ouro, notas e adereços edeixados alguns alimentos à sua disposição, não sónos templos, mas também ao longo dos passeiosou na entrada dos edifícios. No resto do mêsmantém-se algumas interdições e, duas semanasapós esta data, espera-se que os espíritos voltemao território de onde, por um pequeno período,escaparam.Os lagos Nam Van são palco, hoje, do que seveio a tornar uma festividade globalizada: no 5º diado 5º mês tem lugar o Tung Ng ou Duanwu, aFestividade do Barco Dragão. Se o visitante forempreendedor e permanecer tempo suficiente,pode tentar integrar uma das equipas quecompetem, freneticamente, para arrebatar oprimeiro prémio numa prova de remo que se realizaactualmente na maior parte dos países da diásporachinesa – e não só por praticantes chineses. Deslizandoentre uma prática ritual e um evento desportivo, aabertura da prova continua a incluir o lançamento,nas águas do percurso, de algumas peças de Tchong(Zongzi), bolos de arroz glutinoso embrulhados em folhas de bambu, para que os peixes deixempermanecer incorrupto o corpo do Juiz Wat Yuen(Qu Yuan); estes bolos com recheios diversos, de carne e de galinha, são uma especialidadeparticularmente apreciada neste período.O que nos pode levar ao jardim de Lou Lim Ieocno 15º dia do 8º mês, depois do pôr-do-sol, é oespectáculo das lanternas levadas pelas crianças,outrora de papel em fole e pequenas velassuspensas no centro, hoje com peças de plásticoiluminadas a figurar super-heróis. Qualquer que sejaa figura, com vela ou com pilhas, as criançasbrincam à beira do lago e nos pequenos recantosdo jardim, sob um olhar tolerante dos pais que,neste período festivo, parecem esquecer oshorários. No dia seguinte, as crianças despedem-seda Lua na Pra ia de Hac Sá , em Co loane ,prosseguindo esse efémero período de brincadeira.O jantar de família conclui-se com as frutas e o BoloLunar (Chong Chao), pequenos bolos com a massamodelada em formas de madeira e com recheio de feijão doce, indispensáveis na ementa festivadeste período.63MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA4. ROTEIRO DAS CONFISSÕES4. ROTEIRO DAS CONFISSÕESJardim de Lou Lim Ieoc: Festival da LuaCentro ecuménico Kun-Iam
O solstício de Inverno marca um dos maisimportantes períodos festivos, o Dongzhi (queocorre entre 21 e 22 de Dezembro), um feriadoconsagrado, bem próximo do Natal cristão.Essencialmente centrado no reencontro familiar,não podem faltar na refeição os tang yuan, bolinhasde arroz gomoso, e o jiu niang ou lao zao, feito comarroz fermentado.Se alguns períodos festivos se tornamtransversais às comunidades – com destaque paraa celebração do Ano Novo Chinês – a matrizconfessional no calendário festivo é diversa,incluindo como feriados oficiais a Páscoa (morte e ressurreição de Cristo), o dia de Finados (2 deNovembro), a Imaculada Conceição, a Véspera e o Dia de Natal (Nascimento de Cristo, 24 e 25 de Dezembro), claramente orientados para acomunidade cristã local. Inscrito neste calendárioestá, a anteceder o recato pascal, o CorsoCarnavalesco, com largas tradições na comunidadeportuguesa de Macau. A esta calendarizaçãoacresce um bom número de feriados laicos e astolerâncias de ponto que previnem, judiciosamente,a deslocação de muitos de residentes com origensmais distantes para o seu reagrupamento familiar.Procurando representar um esforço deentendimento e tolerância mútua entre as formasde religiosidade presentes em Macau, o CentroEcuménico Kun Iam inclui uma escultura em bronze,de 20 metros de altura, da autoria da arquitecta eescultora Cristina Leiria, inaugurada em Macau emMarço de 1999.De construção recente, iniciada em 2001, o A-Má Cultural Centre encontrou no interior da Ilha deColoane o espaço adequado para abergar a maiorestátua conhecida de Tin Hao (A-Má), enquadradanum parque temático dedicado ao turismo religiosoe cultural e cuja arquitectura procura mimar aconstrução ao estilo da Dinastia Qing.Podemos concluir a nossa incursão pelasmarcas confessionais com uma tarde passada naVila de Coloane. Aí encontramos a Capela de SãoFrancisco Xavier, onde se guardam as relíquias dos mártires cristãos no Japão, no pequeno Largo, que nos permite descansar os olhos e comer uma agradável refeição nas esplanadas do largofronteiro. Um passeio até ao final da rua, ladeandoa margem, permite-nos encontrar o pequenoTemplo de Tam Kung (Tam Sin Sing). Construído em1862 pela Associação de Beneficiência dos QuatroPagodes, exalta o papel de um deus que protege afaina marítima e piscatória, pela sua capacidade deprever as condições do clima. No 8º dia do 4º mês as associações locaisorganizam um desfile, com danças do Leão e doDragão e espectáculos de ópera chinesa, queexaltam a protecção dispensada por Tam Kung eque compõe um ambiente alegremente festivo,tendo-se tornado uma das atrações turísticas peloquase ambiente de desfile “carnavalesco” que se vive.64 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAColoane: Templo de Tam KungCapela de S. Francisco Xavier
O nosso leitor depara-se, compreensivelmente,com as dificuldades de delimitação deste tema, quese cruza necessariamente com os outros roteiros,tanto na obtenção como na sua partilha edivulgação do conhecimento. Embora este percursose possa situar em contextos singulares, familiarese públicos, é sobretudo da sua expressãoinstitucional e patrimonializada que falamos, comparticular destaque para os estabelecimentos deensino, a imprensa, as bibliotecas e os museus.Em Macau, como noutras sociedades, algumasinstituições tomam por missão a informação e a suatransmissão e divulgação – as escolas, os própriosmedia – cabendo a algumas a sua salvaguarda,tratamento e recuperação, como é o caso dasBibliotecas, dos Arquivos e dos Museus. É a estasentidades que daremos maior atenção no presenteroteiro.Se quisermos começar o nosso trajecto noLargo de São Francisco, um pequeno pavilhãooctogonal, próximo da esquina com a Rua doCampo é, singularmente, uma biblioteca de obrasem língua chinesa, a Biblioteca Bajaoting. Estáaberta ao público e é frequentada por leitores deinteresses diversos, tanto em livros como em jornaisdiários.Se continuarmos a descer a Rua do Campo,ladeamos o edifício da Escola Portuguesa de Macau,cuja entrada fica já na Avenida do Infante DomHenrique, um projecto característico dos anos1960, da autoria do Arquitecto Raúl ChorãoRamalho. A Escola Portuguesa herdou as tradiçõesacadémicas, bem diversas, do que foi a educaçãode matriz portuguesa em Macau. No edifício quevemos, construído então nos aterros da PraiaGrande, com pavilhões que não excedem os doispisos, encontrava-se a Escola Comercial “PedroNolasco” criada pela Associação Promotora daInstrução dos Macaenses para promover um ensinoprofissionalizante, de cariz local, então orientadosobretudo para a emigração para Hong Kong eShanghai, que dominou a vida de Macau no final doséculo XIX. Para este edifício convergiram tambémos alunos do antigo Liceu de Macau – criado em1893 para replicar o ensino liceal metropolitanoportuguês – e as secções portuguesas do Colégiode Santa Rosa de Lima e do Colégio Dom Bosco;hoje, todos esses alunos seguem um plano deescolarização comum.A precocidade do ensino de matriz portuguesa,em Macau, com manifesta vontade de satisfazeras necessidades de missionação, tardou emdesenvolver um ensino de carácter técnico-profissional, que surgiu tão somente na viragem doséculo XVIII para o XIX. Este ensino técnico-profissional foi concebido para formar quadros deapoio ao comércio marítimo da cidade: a traduçãoe a navegação, esta última com a formação depilotos. Por seu turno, a educação chinesa formalemergiu na cidade com o impulso associativo: a Escola de Caridade Kiang Vu, em 1874, e as 65MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA5. ROTEIRO DOS SABERESEscola portuguesa de MacauBiblioteca Bajaoting
aulas tutoriais promovidas pela Tung Sin Tong,mantinham uma escolarização básica, formal, pararapazes (desde 1924) e para raparigas (desde1937), no quadro dos projectos associativos eassistenciais que mencionaremos no Roteiro dasSociabilidades. A Escola Tung Sin Tong mantém asua actividade no Pátio da Cordoaria, com umacesso próximo e discreto à Avenida de AlmeidaRibeiro.As reformas do sistema de ensino na Chinaimperial, promovidas em 1895, com um modelo demodernização ajustado aos padrões europeus,reflectiram-se em Macau através da criação decerca de uma dezena de escolas chinesas, entre o início da República (1911) e até 1930. Nas duas décadas que lhe sucedem, Macau recebeuigualmente escolas provenientes de Guangzhou / Cantão e, posteriormente, de Hong Kong,consequência da deslocação para Macau depopulações em fuga da invasão japonesa e que semantiveram na cidade até 1945, quando terminoua Guerra do Pacífico. Se muitas dessas escolastornaram aos seus locais de origem, outras como aEscola Pui Ching, que se instalou em Macau em1938 – com secções que vão do infantário aoensino secundário – aqui permanecerão. Esta“importação” escolar virá a repetir-se, em 1949,com a deslocação de novos estabelecimentos paraMacau, correspondentes à fuga de simpatizantesdo Guomindang para Taiwan e, residualmente, paraMacau.A separação da gestão, pelas autoridadesportuguesas, de grande parte da população e dosassuntos chineses leva a que só muito tardiamentea administração portuguesa tenha promovidoescolas para a população chinesa. Tal só veio aacontecer de forma sistemática com a criação dasescolas luso-chinesas (em 1919), muito emboraanteriormente algumas escolas chinesas tivessemrecebido apoios – geralmente pela contratação deprofessores – em particular na Taipa, Coloane e,66 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAEscola Pui ChingNúcleo da Biblioteca Central no edifício do Senado (IACM)Escola Tung Sin Tong
durante um breve período e de forma simbólica, naIlha de D. João (Xiao Hengqin).Se percorrermos a distância que nos leva aoLargo do Senado, é no primeiro andar do edifício doLeal Senado (hoje Instituto para os Assuntos Cívicose Municipais) que encontramos a biblioteca,tutelada pelo Instituto Cultural da RAEM. Estabiblioteca ocupa o lado ocidental do edifício eguarda a secção de periódicos da Biblioteca Centrale, também, parte do espólio do Expediente Sínico,isto é, o acervo que suportou a formação e otrabalho do corpo de tradutores e intérpretes que,ao longo da história de Macau e das relações luso-chinesas, trabalhou na diplomacia da cidade com asautoridades chinesas e traduziu do Português paraChinês e vice-versa os tratados celebrados entreos dois Estados e que construiu, de forma efectiva,a versão chinesa da legislação e dos actosadministrativos da administração portuguesa.Passando por uma sala de leitura moderna,continua-se pelas duas salas da antiga biblioteca,com um elegante conjunto de estantes emmadeira escura, trabalhada, dispostas em doisníveis, e com um tecto ricamente decorado sobre fundo branco. O espólio, além dos periódicoslocais em língua portuguesa – desde o pioneiroAbelha da China, editado em 1822 – comportacerca de 20.000 monografias em diversas línguase os periódicos da administração colonial, emMacau e no restante império colonial português.Criada em 1873 por iniciativa do governadorJanuário Correia de Almeida, 1º Visconde de São Januário, a Biblioteca Macaense irá incorporaro espólio da Biblioteca do Clube União, criado em 1884 e, após um percurso atribulado, o acervo acabará por ocupar o espaço actual apartir de 1927.Os periódicos em língua portuguesa, após atransição, são hoje em menor número e comtiragens bem mais reduzidas: o Hoje Macau, oTribuna de Macau ou o Clarim. A imprensa chinesa,67MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA5. ROTEIRO DOS SABERES5. ROTEIRO DOS SABERESBanca de jornaisBiblioteca Sir Robert TungAcesso ao Seminário de S. José
de que se destacam o Macau Daily News e o Va Kiu,possuiu naturalmente tiragens bem superiores. Seo leitor procurar uma venda de jornais, é bemprovável deparar-se com alguns periódicos locaisem língua inglesa, como o Macau Post Daily e oMacau Daily Times, de par com o South ChinaMorning Post, marcando a presença próxima deHong Kong. O mesmo sucede com as emissõestelevisivas da RTHK, em cantonense e inglês, queviveram sempre a par com os canais cantonense eportuguês da Teledifusão de Macau (TDM), criadaem 1982 e aberta, também, às emissões da CCTV de Pequim.O nosso percurso segue agora pe lapequena rua que ladeia o edifício do Leal Senadoe que sobe ao Largo de Santo Agostinho – aColina de Mo Pun – onde deparamos com umnúcleo de edifícios classificados, marcantes parao ensino e a memória de Macau. Frente àdiscreta residência dos Jesuítas encontramos oTeatro Dom Pedro V (finalizado em 1860),ainda hoje o principal palco para os espectáculosde teatro, em Patois (crioulo de Macau). Oedifício é contíguo ao Seminário de São José deMacau onde se formaram, durante váriosséculos, os missionários e eclesiásticos para aDiocese, cujo espaço excedeu, em muito, oslimites da cidade. O seminário mantém intactas as alas, a igrejae o jardim. Como estabelecimento de ensinoacompanhou – na formação eclesiástica – desdeas etapas mais precoces à formação superior; como escola aberta, em especial como Seminário-Liceu, foi fundamental para a formação de váriasgerações de alunos laicos, chineses, portuguesesmetropolitanos e locais, nomeadamente nas línguasportuguesa e chinesa. Criado em 1728 pelaCompanhia de Jesus, o seminário partilhou aformação eclesiástica com o Colégio de São Paulo,até 1835, quando este último edifício soçobrou aum violento incêndio. Deste subsiste, como se viunoutros roteiros deste livro, apenas a fachada do68 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTAAspecto da Fortaleza do Monte, que alberga o Museu deMacauColégio Santa Rosa de LimaColégio Diocesano de S. José
que terá sido a primeira instituição de ensinosuperior de matriz europeia em Macau e na China.É no mesmo largo que vamos encontrar outrabiblioteca, num edifício do século XIX, adquiridocomo residência de verão por um importantemagnata chinês, ligado aos interesses britânicos naregião, Sir Robert Ho Tung. O edifício foi deixado emtestamento ao Governo de Macau, juntamentecom uma verba que o permitiu dotar de umacolecção de livros predominantemente em línguachinesa. Aberta ao público em 1958, o jardim e acasa foram acrescentados, em 2006, com um novoedifício, sendo hoje a maior biblioteca pública doterritório, com um acervo de cerca de 100.000obras e documentos. É provavelmente nestabiblioteca que Macau acumula a maior parte da sua memória documental em língua chinesa, comparticular relevo para os períodos Ming e Qing.Se o leitor descer novamente ao Largo doSenado, passando pelo conjunto de edifícios querodeia a praça e caminhando até à ruínas de SãoPaulo – isto, se conseguirmos passar pela multidãoque para lá se dirige diariamente – encontramosnúcleos museológico de alfaia religiosa católica na Misericórdia e na Igreja de São Domingos e,também, na intervenção feita no espaço anterior dafachada de São Paulo. A poucos metros das ruínasde São Paulo, na Travessa de São Paulo, uma outrainstituição da Companhia de Jesus mantém-se a funcionar como escola, agora o Colégio Ricci masoutrora o Instituto Melchior Carneiro, fundado peloPadre Benjamin Videira Pires, S.J., em 1961.Dali, pode subir-se à Fortaleza do Monte, ondese aloja o Museu de Macau. A subida é compensadapela vista sobre Macau e a China; o projecto, daautoria do arquitecto Carlos Moreno, articula umedifício do século XVII com uma ampla zona de exposições (2.100 m2) que trata da história eda cultura da cidade. O primeiro piso agrupavestígios arqueológicos que testemunham a vida deMacau, como cidade aberta de que temos vindo afalar. Já o segundo piso mostra-nos uma etnografia dos quotidianos, das profissões e modos de vida e ilustra imagens e instrumentos de trabalho –como a produção de fósforos e panchões –caracterizando tipos e figuras, das profissõesartesanais aos vendilhões de rua. Para o universodoméstico, caracteriza-se a mobília e o vestuário,com uma ampla ilustração fotográfica de pessoas e quotidianos. No terceiro piso, ilustra-se a memória mais próxima dos processos de mudançatestemunhados por boa parte dos seus visitanteslocais.O impacto da educação católica em Macau évisível na permanência de vários colégios, como o Yuet Wah College, fundado em Guangzhou /Cantão em 1925 e que migrou para Macau em1928, depois instalado a título definitivo nas suasactuais instalações em 1933, perto do Tap Seac,69MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA5. ROTEIRO DOS SABERES5. ROTEIRO DOS SABERESInstituto Cultural da RAEMMesa exposta na Casa Cultural do Chá
na Calçada da Vitória. Um instituto salesiano, oColégio Dom Bosco (encerrado em 1999), fezparte do seu percurso como escola técnica naslínguas veiculares chinesa e portuguesa, hojesomente chinesa, tendo-se dela separado, então,uma secção que integra a já mencionada EscolaPortuguesa de Macau.Se percorrermos a longa Avenida do Dr.Rodrigo Rodrigues, é no primeiro terço queavistamos um dos últimos edifícios inauguradospela administração portuguesa, em 1999, a secçãoinglesa do Colégio de Santa Rosa de Lima, com umhistorial que recua aos primórdios do século XX(1903). Entre as várias ordens religiosas dedicadasao ensino feminino, destacam-se as Canossianas,que mantêm desde 1939 o Colégio do SagradoCoração (Sacred Hearth College), na Rua doOuvidor Arriaga; tal como o anterior, com secçõesnas línguas veiculares inglesa e chinesa; o ColégioDiocesano de São José tem a sua sede no largo daSé, integrando-se no núcleo arquitectónico queinclui, para além da igreja, o Paço Episcopal.Recentrando o seu percurso, se o leitor sedirigir ao Tap-Seac – literalmente, “Torre de Pedra”,conhecido em Português como o “Campo da Bola”(hoje uma mera expressão de memória) – o núcleode edifícios cuja traça foi classificada e preservadatem albergado, sucessivamente, três acervospatrimoniais fundamentais de Macau: a BibliotecaCentral, o Arquivo Histórico e o Instituto Ricci(fundado em 1999). Os dois primeiros estão sob atutela do Instituto Cultural da RAEM, o último épertença da Companhia de Jesus. O ArquivoHistórico guarda documentação fundamental paraa memória portuguesa da administração de Macau.Por seu turno, a Biblioteca Central acolhe o depósitolegal de monografias, sobretudo a actividadeeditorial de e sobre Macau. Por sua parte e entreoutros desígnios, o Instituto Ricci mantém umnúcleo documental diversificado – a BibliotecaTomás Pereira – orientado sobretudo para a históriada presença missionária na China. Se prosseguirmos pela esquina do Jardim de Lou Lim Ieoc – um jardim de estilo chinêsconstruído para a família Lou nos inícios do séculoXX – encontramos um discreto mas eleganteedifício, projecto do arquitecto Carlos Marreiros(2005), a Casa Cultural do Chá, onde se justificauma paragem para a compreensão do papel que ocomércio e consumo do chá tiveram para Macau e,porque não, para uma sessão de degustação dostrês tipos de chá mais consumidos: Shoumei, Pu-ere Tieguanyin.A norte do Jardim de Lou Lim Ieoc localiza-sea Escola Pui Ching, uma das escolas que se deslocoude Guangzhou / Cantão para Macau e que veio aalugar à família Lou, nos anos 50 de século XX, osterrenos para a sua instalação. O acesso ao edifíciofaz-se pela Avenida de Horta e Costa. Na mesma rua, mas caminhando no sentidocontrário (números 14-16), situa-se um curiosoedifício dos anos 1930, com colunas decoradas ao70 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTACentro Cultural de MacauEscola de Música do Conservatório de Macau
estilo do século XIX, que se desenvolve em dois pisose onde se encontra a Escola de Música doConservatório de Macau. O Conservatório mantémescolas de Teatro e Dança, noutros locais, mas aimportância do fenómeno musical em Macau –nomeadamente desde que tem lugar, anualmente, arealização do seu Festival Internacional de Música –expandiu-se bem para lá do contexto do Conservatório,integrando os curricula das escolas e dando lugartanto a programas de Ópera e de música orquestral,ocidental e chinesa, como à actividade de pequenosagrupamentos, instrumentais e corais, ou sessões de Jazz.De modo menos formal poderá o leitor, numa felizcoincidência, ouvir num dos jardins de Macau um oudois intérpretes executar pequenos trechos de óperade Cantão, acompanhados por um erhu, delicadoinstrumento musical chinês de duas cordas e arco.O domínio dos saberes artísticos pode levar-nosaté um outro espaço de musealização, num edifícioconstruído de raiz para esse fim, o Museu de Artesde Macau. Criado em 1999, situa-se nos NovosAterros do Porto Exterior e está integrado no CentroCultural de Macau. Sob a direcção de um consagradopintor de Macau, Guilherme Ung Vai Meng, o museuvai bem para lá da conservação da obra e dopatrimónio locais, constituindo e expondo um acervode origem chinesa e europeia de grande envergadura,sobre 4.000 m2 de área de exposição. Para o leitor, éuma oportunidade privilegiada de perceber aconjugação entre o património local e a dinâmicacosmopolita de Macau, afinal uma outra das suasdimensões enquanto Cidade Aberta. Pode-se rever apintura e o desenho sobre Macau – onde sobressaemChinnery e Lam Kua – mas também a fotografia, aestatuária ou as porcelanas. O museu associa umainteressante Biblioteca de Arte a um plano editorialcom catálogos de invulgar qualidade gráfica einformativa. A prosperidade do território – devida, noessencial, ao jogo e ao turismo – permitiu aimplementação de um plano cultural poucointimidado com o orçamento. A envergadura e onúmero de museus, galerias e bibliotecas, ocupandoedifícios históricos e classificados ou edifíciosconcebidos de raiz, acrescentou-se aos já existentesMuseu do Grande Prémio, carismático para osamantes do desporto automóvel, à Casa-Memorialde Sun Yat-sen (já visitada no Roteiro dos Poderes),a que se junta o Centro de Ciência – compreocupações didácticas evidentes – que se podevisitar no extremo do território da Península deMacau, no limite da Avenida do Dr. Sun Yat-sen.É na extremidade contrária da península deMacau que se domicilia um dos mais antigos evisitados museus locais: o Museu Marítimo. O leitorpode acompanhar a visita ao templo da A-Má (MaKok Miu) com a entrada no museu. Centrado navida marítima, intensa até aos anos 60 do séculoXX, associa um notável conjunto de réplicas deembarcações antigas à recolha de aprestos e àfiguração da especificidade de estilo de vida dostancareiros (a população que habitava nas tanka) e71MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA5. ROTEIRO DOS SABERES5. ROTEIRO DOS SABERESNúcleo museológico da antiga residência dosAdministradores da Taipa e ColoaneMuseu Marítimo de Macau
à representação dos juncos e lorchas quedemandavam as águas da região. Como foi jáassinalado no Roteiro das Confissões, o museucontempla as práticas cultuais ligadas à vidamarítima de Macau.Atravessando uma das (por agora) três pontespara a Taipa – hoje ligada a Coloane pelos aterrosdo Cotai – é no seu reduzido núcleo histórico,próximo à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, que merece visita a antiga Residência dosAdministradores do Concelho da Taipa e Coloane,construída em 1921. Constitui, entre a edificaçãoe parte do seu recheio, uma curiosa mostra dosestilos de vida dos administradores portugueses –até aos anos 50 do século XX – e tem acolhido, no seu projecto histórico e cultural, mostras deHistória e Arqueologia locais.Nos últimos trinta anos o perfil da oferta deensino superior em Macau mudou radicalmente.Até então, poucas tentativas de promover o ensinosuperior tinham tido lugar, para lá da formaçãoeclesiástica, se não considerarmos os esforçosdiplomáticos efectuados em 1949 pelo entãoCônsul de Portugal em Hong Kong, Eduardo Brazão,para a transferência para Macau da Universitél’Aurore, estabelecida em Shanghai.Instalada nos anos 80 como uma universidadeprivada de Hong Kong, a East Asia University,adquirida 10 anos mais tarde pela administraçãode Macau e sucessivamente ampliada, forma,juntamente com o Instituto Politécnico de Macau,o núcleo inicial de formação superior pública.A actual Universidade de Macau aumentou deenvergadura; o seu edifício inicial, na Taipa, tornou-se insuficiente e deslocou-se para um novocampus, no território vizinho; é, afinal, pela mão doensino superior que pela primeira vez a jurisdiçãode Macau vai para lá da sua própria fronteira, ao seratribuída à Região Administrativa Especial deMacau, em 2013, a tutela das novas instalaçõesem Henqin, Zhuhai, um ano antes da aberturadefinitiva das aulas no novo campus. Associada ao desenvolvimento das áreas científicas e dainformática, a Universidade de Macau mantém o maior acervo documental do território na suaBiblioteca Internacional.O Instituto Politécnico de Macau, por seuturno, mantém a sua sede em Macau – nasInstalações da antiga Escola Portuguesa, na Avenidade Luís Gonzaga Gomes – e reparte-se por váriosedifícios com cursos e projectos de investigaçãoligados às Língua e Tradução, à Gestão e ao e-Business, para além de uma forte área deinvestigação em Ciências do Desporto. Macau mantém duas outras escolas superiorespúblicas, de orientação mais aplicada e com grandestradições: o Instituto de Formação Turística, nacolina de Mong Ha, e a Escola Superior das Forçasde Segurança, na Calçada do Quartel, em Coloane.Um número crescente de colégios e escolas deiniciativa privada tem vindo a acompanhar o ensinopúblico: o Instituto de Enfermagem Kiang Wu, aUniversidade Cidade de Macau, a Universidade deSão José, a Universidade de Ciência e Tecnologia, oInstituto de Gestão e o Instituto Milénio.72 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTACampus da Universidade de MacauInstituto Politécnico de Macau
Um Roteiro das Sociabilidades poderia tratarde tópicos que vão do simples convívio informal à sua prática pública, codificada e ritualizada. De forma porventura menos ampla, é à volta da sua expressão convivial e de solidariedade,marcadamente associativa, que se configura odesenvolvimento do tema.Os poderes públicos e algumas das instituiçõesque temos vindo a destacar orientam o comportamentode grupos, definem hierarquias formais e dão vidaa formas de organização como a educação, a saúdee a assistência, os grupos socioprofissionais ou asconfissões, as artes, os desportos ou, ainda, asregiões de origem ou a vizinhança. Por seu turno, o provimento dos cargos directivos do movimentoassociativo correspondeu, amiúde, a uma verdadeira“entronização” das figuras de l iderança dascomunidades ou dos árbitros da concertação entreas diversas actividades económicas e a vida pública,recapitulando nos marcadores de prestígio social arepresentação da comunidade junto do Governadorou do Senado.Em Macau procurou-se manter um (difícil)equilíbrio entre interesses chineses e europeus e aprogressiva afirmação da administração portuguesaatribuiu às lideranças da comunidade chinesa opapel de interlocutores privilegiados, papel que seassume directamente ou, de forma mais discreta,através das várias associações que agrupam emanifestam a diversidade dos seus interesses. A suaacção representou minorias, agregou indivíduos porconfissões e financiou a construção de escolas,templos, hospitais, moderou conflitos e, em momentosde maior necessidade, geriu os mecanismos deredistribuição e solidariedade para com as crianças,os órfãos e os refugiados.Por seu turno, tomando Macau como umasociedade aberta, é no contexto associativo que se reflete a presença de comunidades tomadastanto pelas suas origens como pelos seus destinosmigratórios comuns. O associativismo tem largatradição na China continental e uma fortecorrespondência com a diáspora chinesa, agenciandomuitas vezes as remessas de emigrantes e,localmente, regulando as solidariedades erepresentações comunitárias.Junto das comunidades de origem portuguesa,o associativismo em Macau apresenta facetas entreo lúdico-desportivo, o cultural, o confessional e osocioprofissional. Para os portugueses e luso-asiáticosde Macau, a dinâmica associativa britânica de Hong Kong virá a assumir, no século XIX, umcarácter modelar, tendo-se criado algumas das suasassociações à imagem e semelhança das congéneresvizinhas. Ao longo dos séculos XIX e XX, as iniciativasassociativas locais articulam os seus projectos com ascontribuições dos emigrantes e estes, por seu turno,mantêm uma dinâmica associativa em tudo simétricaà dos restantes europeus, com a criação, em HongKong, da Biblioteca Lusitana, do Clube Lusitano (queabsorveu a primeira) ou da Associação de SocorrosMútuos, e em Shanghai, também, com o ClubeLusitano de Shanghai, a Associação de SocorrosMútuos de Shanghai e o Fundo Lutuosa, entre outras.73MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA6. ROTEIRO DAS SOCIABILIDADESSanta Casa da MisericórdiaAssociação Tung Sin Tong
Trata-se, talvez, do roteiro de mais difícildescrição; a importância de algumas associaçõesnão está na razão directa das suas sedes oupatrimónio visível, porque vivem essencialmente naexpressão dos seus projectos e das entidades queapoiam. Algumas tornaram-se hoje, no essencial,entidades de financiamento, com rendimentospróprios ou veiculando – sobretudo nos períodosmais prósperos de Macau – os apoios das entidadesoficiais ou dos principais sectores económicosprivados, locais, nomeadamente os ligados ao jogo.A Associação das Três Ruas (Sám Kái Ui), decariz socioprofissional e religioso, é uma associaçãoprivada com fins de beneficência, caridade eassistência (já referida no Roteiro das Confissões),porventura a mais antiga associação chinesa da cidade. Sediada no templo-sede próximo doMercado de São Domingos, foi fundada pelosmoradores (maioritariamente originários do distritovizinho de Xiangshan) das três primeiras ruas decomércio que existiram em Macau: a Rua dosErvanários (Kuán-Tch’in-Tchêng-Kái), a Rua dasEstalagens e a Rua dos Mercadores (ou Rua doAcampamento – Leng Tei Kái – por aí se teremalbergado, provisoriamente, as primeiras tropasportuguesas).A Associação das Três Ruas fez, inicialmente,coincidir o seu dia com a celebração do dia deConfúcio (27º dia do 8º mês lunar), sendo conhecidasobretudo pela organização da festa do DragãoEmbriagado (no 8º dia do 4º mês lunar). Os seusorçamentos foram incluídos, ao longo do século XX(desde 1943), na contabilidade da Associação deBeneficência do Hospital Kiang Wu, que subsidiou asfestividades do templo a pedido da Associação dePescadores e Vendedores de Peixe. O percurso da Avenida de Almeida Ribeiromostra-nos a Casa de Penhores Tak Seng On, hojemusealizada, com uma magnífica torre deprestamista anexa (já referida no Roteiro dosNegócios). Entrando pela Rua de Camilo Pessanha,deparamos com um edifício de três pisos comjanelas de inspiração art déco e colunas em gessoao estilo de Shanghai, que combina padrõeschineses e europeus. É aqui que está sediada aAssociação de Beneficiência Tung Sin Tong criadaem Julho de 1892 (estatutos de 1893) poralgumas figuras proeminentes da comunidadechinesa de Macau como Leong Ieoc Meng, Pao KaiMeng e Wong Lon Sang. Esta associação teve a suaprimeira sede no Largo do Senado, ao longo daactual Avenida de Almeida Ribeiro, no espaço onde se encontra hoje o edifício dos Correios. A transferência para a sede actual, nos nºs 53-57da Rua de Camilo Pessanha, foi realizada já sob aégide dos Comendadores Kou Ho Neng e Joel Anok.A tradição assistencial desta associação incluia distribuição de alimentos, a prestação de cuidadosmédicos – para o que, em 1939, instalou umaFarmácia de Medicina Chinesa no nº 60 da Rua de Camilo Pessanha – e a atribuição de caixões ecaixas de espírito às famílias carenciadas. Foi aindaproprietária, por algum tempo, de um cemitério nocontinente chinês, e manteve uma escola, situadano nº 64 daquela rua. Proprietária de edifíciosurbanos e receptora de quotizações, a Tung SinTong tem mantido, sem interrupção, a actividadeassistencial desde a sua fundação.Já no Largo do Senado, encontramos a SantaCasa da Misericórdia. Criada, por disposição real, na lógica de uma confraria e seguindo o modelo das suas congéneres espalhadas pelo Mundodurante a Expansão Portuguesa, a Misericórdia deMacau foi fundada em 1569 por acção de Dom Belchior Carneiro (como vimos no Roteiro dosPoderes). Virá a pautar-se, à semelhança da suahomónima em Goa, pelo Compromisso de 1627,74 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTATeatro D. Pedro V
que prescreve obrigações espirituais e obrassolidárias, dirigidas por uma mesa tutelada por umProvedor.À prestação de cuidados aos mais desfavorecidosacresce a celebração de missas pelos defuntos. Aolongo da história de Macau, a Misericórdia foi suportadapor um número relevante de legados deixados à suagestão. O século XIX verá a Misericórdia tornar-sedeficitária, reorganiza-se por intervenção do Governode Macau, mediante um novo Compromisso, em 1906, que conduziu a um incremento dagovernamentalização do seu financiamento e do seu papel no apoio à saúde e à assistência.Se o leitor deixar o Largo do Senado e, maisuma vez, subir ao Largo de Santo Agostinho, voltaránovamente a deparar-se com o Teatro D. Pedro V– criado por iniciativa da Associação de Proprietáriosdo Teatro D. Pedro V, que congregava membros defamílias portuguesas de Macau e dois mecenaschineses, servindo de palco às iniciativas do ClubeUnião, constituído em 1887. Em 1903, o Clube União foi extinto esubstituído pelo Clube de Macau, que arrendou,então, as instalações àquela associação. Asexistências do Clube de Macau e da Associação deProprietários do Teatro D. Pedro V fundem-se,praticamente, tendo animado ao longo do séculoXX a vida artística de Macau, dando hoje lugar àsexibições de peças de Teatro em patois pelogrupo Doce Papiaçam.Se percorrermos a Avenida de Almeida Ribeiroe nos deslocarmos pelo cruzamento com a Rua da Praia Grande, na direcção do Jardim de SãoFrancisco, deparamos com um edifício de arquitecturaneoclássica, cuidadosamente restaurado, projectodo Tenente-engenheiro Henrique de Carvalho e quealberga o Clube Militar de Macau (já mencionadono Roteiro dos Prazeres).Guardando o estilo dos clubes de tradiçãomilitar e das suas messes, o Clube – fundado sob adesignação de Grémio Militar em 20 de Abril de1870 – pretendeu no início ser exclusivo àfrequência dos oficiais em serviço em Macau, masrapidamente se abriu à presença de funcionários daadministração e às elites locais. O período da Guerrado Pacífico e a utilização das instalações para outros fins – nomeadamente para acolhimento derefugiados – danificou consideravelmente o seupatrimónio e, em 1953, a conotação oficial dotermo “grémio” levou a alterar a sua designaçãopara Clube Militar. Após uma recuperação dasinstalações, o Clube afirmou-se como centro deconvívio cultural, desportivo – com uma secção deTénis – e convivial, com a realização de soiréesdançantes e de corsos carnavalescos, amplamenteregistados na memória fotográfica.O edifício recebeu uma intervenção de fundoem meados da década de 1990, a cargo dosarquitectos Bruno Soares e Irene Ó, com areconstrução total do seu interior, devolvendo aoClube Militar o estatuto de uma das “salas de visitas”do território, integrando áreas de convívio e de75MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA6. ROTEIRO DAS SOCIABILIDADES6. ROTEIRO DAS SOCIABILIDADESCrianças mascaradas no Carnaval, notando-se o recursoao vestuário português “típico”Clube Militar
exposição com um espaço, prestigiado, derestauração com comida portuguesa.Se o leitor retomar o início da Rua do Campo ea subir, encontrará pouco depois o edifício daAssociação das Senhoras Democráticas de Macau.A primeira associação feminina da cidade foi criadaem 1937 (embora com os estatutos aprovados sóem 1945) com o extenso nome de Associação dasSenhoras de Macau para Dispensa de Conforto eAgasalhos (Ou Mun Fu Nui Wai Lou Wui). Emboratenha mudado o seu nome por mais de uma vez, preservou o seu projecto assistencial original. Criada por nove senhoras chinesas, sustentandoinicialmente uma escola (1946) e uma creche(1948) gratuitas (em particular para filhos deoperários e de vendilhões), foi uma das instituiçõesque enquadrou as necessidades de assistênciadurante a Guerra do Pacífico. A associação actuatambém como mediadora na angariação de apoiospara outras associações beneficentes. Na esquina com o Hospital de São Rafael (hojeConsulado de Portugal) entramos pela Rua Nolascoda Silva e, no espaço fronteiro, encontramos no nº 28 a Casa de Portugal em Macau, criada em2001. Instalada numa belíssima casa de dois pisos,construída em 1925 e um belo testemunho daarquitectura luso-asiática, com a fachada em tonsvermelho e ocre, retoma o padrão arquitectónicodo conjunto urbanístico que sedia a BibliotecaCentral, no Tap Seac (Rua do Campo). A visitapermite perceber uma intervenção arquitectónicade fundo, desafogando as salas e criando espaçosde convívio e exposição.A Casa de Portugal congrega um númeroconsiderável de residentes portugueses em Macaue desenvolve a sua actividade através de iniciativasligadas ao Desporto e à Cultura, mantendo umaescola de Artes e Ofícios e realizando um conjuntode Exposições e eventos centrados na divulgaçãoda Cultura Portuguesa, sendo também possívelacompanhar um campeonato de Futebol de Salão,ouvir uma noite de Fado ou visitar uma exposiçãode Olaria ou Joalharia.Subir pela Rua do Campo pode levar o leitor aoedifício do Jardim de Infância Dom José da CostaNunes, que abriga a sede de uma das mais perenesassociações ligadas à educação, originalmentecriada por alguns dos mais prósperos negociantesmacaenses domiciliados em Hong Kong ouresidentes em Macau – tendo como figura tutelarPedro Nolasco da Silva – a Associação Promotorada Instrução dos Macaenses (criada em 1871).Preocupada com o desajustamento dos modeloseducativos dirigidos aos jovens macenses, que serevelavam inadequados para a sua inserção nomercado de trabalho em Hong Kong e Shanghai, noúltimo quartel do século XIX, esta associaçãoprocurou encontrar soluções junto das escolasexistentes e optou, em 1878, pela criação da EscolaComercial, depois baptizada de “Pedro Nolasco daSilva” e integrada, hoje, na Escola Portuguesa.Já no princípio do século XX, a AssociaçãoPromotora da Instrução dos Macaenses retirou-seda administração directa da Escola e constituiu-secomo instituição de beneficência, precisando no seuprojecto educativo o ensino de matérias associadasao comércio e ao ensino da língua chinesa junto dacomunidade portuguesa local. No mesmo edifício está instalado o Conselhodas Comunidades Macaenses, criado em 2004. O Conselho é, afinal, uma associação internacionalque congrega o associativismo da diáspora macaense,incluindo no seu Conselho Geral dois representantesde cada uma das Associações e Casas de Macaudispersas pelo mundo, e representantes doassociativismo de matriz macaense sediado emMacau, nomeadamente a própria AssociaçãoPromotora da Instrução dos Macaenses. Enquantoassociação de associações, a leitura das suas76 MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTACasa de Portugal
iniciativas não se confina aos limites de Macau,tomando as suas iniciativas – encontros, publicações,apoio à confraria gastronómica, torneios e festas –vida em Lisboa, São Paulo, Toronto, Califórnia ou Riode Janeiro, entre outras, o que torna difícil percebera sua vitalidade e dinamismo.As preocupações com a educação da populaçãochinesa de Macau – fora a sua integração nasinstituições educativas católicas – terão sido menosevidentes até meados do século XIX, consequênciade uma separação, por parte da administraçãoportuguesa, de assuntos chineses e portugueses.Neste contexto, a crescente oferta de educação paraa população chinesa só vê constituir uma Associaçãode Educação em 1920 (legalizada em 1923).Deslocando-nos do eixo da Rua do Campo,entre a Estrada do Repouso e a Rua de Coelho doAmaral encontramos o Hospital Kiang Wu, a facemais visível da Associação do Hospital Kiang Wu.Trata-se, tudo o indica, da maior associação dematriz chinesa com propósitos assistenciais deMacau. O seu historial mostra a dedicação àprestação de cuidados de saúde, gratuitos, masigualmente ao apoio alimentar e pecuniário a doentes, pobres e a refugiados. Foi pelorequerimento de alguns representantes dacomunidade chinesa – Sam Wong, Chou Iao, TakFong e Wong Lok – que, em 21 de Junho de 1870,o Governo autorizou a instalação do Hospital KiangWu, cuja construção se iniciou em 1871.A associação tem um profundo orgulho napresença, no seu quadro clínico (1892), do Dr. SunYat-sen, a quem erigiu uma estátua na entrada doHospital, na Estrada do Repouso, e a quem se atribuia introdução, neste hospital, da medicina europeia.A Associação de Beneficiência do HospitalKiang Wu só se constitui como tal em 12 deSetembro de 1942, no decurso da II GuerraMundial, tendo prestado um enorme serviço noapoio às populações deslocadas para Macau –nomeadamente pela manutenção, entre 1941 e1946, de um asilo para crianças – tendo sido em1947 reconhecida como instituição de utilidadepública.O percurso assistencial de Macau desagrega-senum conjunto de associações bastante diversificado,embora hoje em complemento com a moldura criadapelos Serviços de Saúde – que inclui uma sólida redehospitalar – e pelo Instituto de Acção Social de Macau,que em larga medida tomou a seu cargo algumas dastarefas que as associações abrangiam. Por outro lado,grande parte das entidades de carácter religioso – em particular missionário – agregam projectosassistenciais dentro e fora de Macau.Com um estatuto associativo, na sua origem,mas uma expressão essencialmente política, aAssociação para a Defesa dos Interesses de Macau,de matriz portuguesa, foi criada em 1974 porDelfino Ribeiro e Carlos Assumpção e a AssociaçãoNovo Macau Democrático, fundada em 1992 por António Ng Kuok Cheong e Au Kam San,contracenaram desde a sua fundação no panoramapolítico da fórmula semiparlamentar mantida noterritório, hoje sob a designação de AssembleiaLegislativa da RAEM.O associativismo patrocina e estrutura,também, um numeroso conjunto de associações efederações de cunho desportivo, articulando-secom os clubes privados, o desporto escolar, a médiae a alta competição, constituindo-se o Instituto deDesportos de Macau e o Comité Olímpico comoentidades agregadoras.77MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTA6. ROTEIRO DAS SOCIABILIDADES6. ROTEIRO DAS SOCIABILIDADESEstátua do Dr. Sun Yat-sen, na entrada do Hospital Kiang Wu
79MACAU - ROTEIROS DE UMA CIDADE ABERTABibliografia seleccionadaAlves, Jorge Manuel dos Santos (1999). Um Porto entre dois Impérios: Estudos sobre Macau e asRelações Luso-Chinesas. Macau: Instituto Português do Oriente.Alves, Jorge Manuel dos Santos & Saldanha, António de Vasconcelos (2013) (ed.). Governadores deMacau. Macau: Livros do Oriente.Barreto, Luís Filipe (2006). Macau: Poder e saber, Séculos XVI e XVII. Lisboa: Presença.Cheng, Christina Miu Bing (2013). Tracing Macau: Through Chinese writers and Buddhist/DaoistTemples. Macau: Fundação Macau. Clayton, Cathryn H. (2009). Sovereignity at the Edge: Macau and the question of Chineseness.Cambridge: Harvard University Press.Fei, Chengkang (1996). Macao 400 years. Shanghai: Publishing House of Shanghai Academy of SocialSciences.Fok, Kai Cheong (1996). Estudos sobre a instalação dos Portugueses em Macau. Macau & Lisboa:Museu Marítimo de Macau & Gradiva.Godinho, Jorge (2012). A History of Games of Chance in Macau. Gaming Law Review and Economics,16 (10) pp. 552-556 e 17 (2), pp. 107-116.Hao, Zhidon (2010). Macau: History and society. Hong Kong: Hong Kong University Press.Jorge, Cecília & Coelho, Beltrão (ed.) (2014). Viagem por Macau (4 vols) 2ª ed., Macau: Livros doOriente. Li, Sheng (2012). Rethinking the impacts of foreign investors on urban development: the city ofMacao. Annals of Regional Science (49). New York: Springer, pp. 73-86. Marques, A. H. de Oliveira (ed.) (1998-2001). História dos Portugueses no Extremo Oriente (4 vols).Lisboa: Fundação Oriente.Martins, Rui (ed.) (2010-11). Ditema: Dicionário temático de Macau. Macau: Universidade de Macau. Pereira, Franciso Gonçalves (1995). Portugal, a China e a “Questão de Macau”. Macau: InstitutoPortuguês do Oriente.Puga, Rogério Miguel (2013). The British Presence in Macau. Hong Kong: Hong Kong University Press.
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Este é um livro destinado a todos quantos queiram visitar Macau e melhor compreender, vivendo-a, a sua história (e seus grandes ciclos), as suas principais características e transformações (físicas, culturais, sociais, económicas, religiosas, etc.) enquanto cidade aberta ao Mundo. Para isso, propomos ao leitor e visitante que pense sempre Macau no quadro da sua dimensão física (muito reduzida), mas embebida no quadro geo-histórico da Ásia Oriental (com destaque para a China) e da presença europeia na Ásia (com destaque para o caso português). Para isso, propomos que esta ideia da Macau seja construída através de seis roteiros temáticos, com diferentes ângulos de aprofundamento do conhecimento de Macau e de leitura do seu espaço público. Os seis roteiros propostos são, por isso, transversais às dinâmicas sociais, culturais, religiosas, politicas, étnicas e urbanas da cidade. O conceito de “roteiro” invoca a ideia de um percurso, temático, à primeira vista com uma moldura geográfica. A ideia de um trajecto pontua-se aqui na perspectiva da leitura, do olhar, e da continuidade temática que atravessa tanto o património edificado como as modalidades da sua utilização e apropriação. Mas coloca-nos outro desafio, ainda, o de explorar estas dimensões temáticas no tempo, tanto pelo testemunho da História como na reificação pela memória, ora invocada no ritual ou nas sociabilidades, ora marcada no urbanismo e na edificação.ISBN 978-989-99457-4-6