FIGURAS DE JADE III - OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEANTÓNIO ARESTAOS PORTUGUESESNO EXTREMO ORIENTEFIGURAS DE JADE III352021Com este nome se titula esta colecção editada pelo IIM, onde se dão à estampa or ig inais de autores e trabalhos de investigação sobre o vasto universo do Oriente, mormente dos contactos havidos no âmbito da triangular relação histórica entre Portugal, China e Macau.Suma Oriental, porque semelhantemente ao relato do notável descritor que foi Tomé Pires, o critério é de reunir temas e pers-pectivas que, na latitudinária variedade, vão dando um conspecto abrangente daquela complexa relação histórica.Suma Oriental, porque, sendo a obra que inscreveu o nome de Tomé Pires na lista dos primeiros autores que escreveram sobre o Oriente, é simbolicamente o teste-munho daquele que foi o primeiro embai-xador designado por Portugal para ser presente ao Imperador da China.Tomé Pires, boticário das drogarias orien-tais que haviam de ser remetidas ao reino, era hábil e “aprazível” em negociações, “mui curioso de saber coisas”, “e um espírito vivo para tudo”.Foi isto que terá decidido a sua escolha para embaixador à grande China desconhe-cida, para onde embarcou em 1516.O que esta colecção pretende é, hoje, dar modesta continuidade à Suma Oriental iniciada no Século XVI.ANTÓNIO ARESTAFala-nos sobre as pessoas mas ficamos ainda a saber, para além do próprio, do enquadramento histórico em que viveram, e tantas mais coisas que, num estilo muito agradável, tornam as suas crónicas peças muito interessantes e de grande valia literária e informativa. [Vasco Rocha Vieira]A obra reconhecidamente relevante já produzida por este persistente e qualificado investigador e divulgador da memória de Macau e da presença de Portugal e dos portugueses no Oriente (...) [Jorge Rangel]Com uma profissão tão absorvente, estragada pelos desvarios das políticas educativas – só gente distanciada ou indiferente desconhece o que é ser professor nos dias de hoje – espanta não só a qualidade do seu labor, mas a sistemática constância de resultados, que o fazem ombrear com as Figuras de Jade que tem continuadamente resgatado do esquecimento, dando-nos a conhecer a sua obra e o seu pensamento. [Celina Veiga de Oliveira]Leveza de estilo e rigor conceptual aliados: uma lição da arte de bem divulgar. [Daniel Pires]Trata-se de excelentes textos multidisciplinares, não apenas pela escorreita fluência da escrita, mas também e sobretudo pela probidade investigativa e competência científica. [Alfredo Oliveira de Sousa]Se Silva Mendes foi o primeiro mentor da Macaulogia, não será o único, pois o século XX trouxe-lhe vários companheiros de saber, possuindo hoje, já empleno século XXI, em António Aresta o seu mais digno e destacado continuador. [Ana Cristina Alves]Ler António Aresta constitui um dever, uma verdadeira necessidade para a compreensão do fascínio da história deste lugar tão singular, sobretudo para quem, vindo do Ocidente, queira resistir a outros fascínios bem mais fáceis, mas igualmente bem mais pobres. [António Conceição Júnior]Gosto muito da luz que o meu amigo traz sobre estas personalidades! [Beatriz Basto da Silva]António Aresta tem sido o mais prolífero e bem documentado dos investigadores da Macaulogia. [José Rocha Diniz]CMYCMMYCYCMYKArt Capa_Figuras_de_Jade_III.pdf 1 11/11/2021 16:11
FICHA TÉCNICA: Editor: Instituto Internacional de Macau Título: Figuras de Jade III – Os Portugueses no Extremo Oriente Autor: António Aresta Design gráfico e paginação: Maisimagem II Colecção: Suma Oriental Tiragem: 300 exemplaresImpressão: Gráfica ACD Print Depósito Legal: 490934/21 ISBN: 978-989-54696-4-2Lisboa, Novembro 2021ApoioLivro Figuras_de_Jade_III.indd 2 08/11/2021 15:07
FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEEstudos do Autor sobre Macau 4Em jeito de Prefácio 5Duas Palavras 7Albano de Magalhães 9Almeida Garrett 14Almeida Ribeiro 17 Álvaro de Melo Machado 20Anna D’Almeida 24António André Ngan 26António da Silva Rego 30António Marques Pereira 33António Moreira Cabral 36Augusto Luso 39Austin Coates 41Camilo Castelo Branco 45Carlos Borges Delgado 48Carlos Estorninho 53Carlos José Caldeira 57Cecília Jorge 61Deolinda da Conceição 63Eduardo Costa Reis 66Ernesto Várzea 69Fernando Laidley 73Franck & Mesnier 77Herlander Machado 81Januário Correia de Almeida 84João Braz de Oliveira 88João Cardoso Júnior 91João de Deus Ramos 96João Milner 100Joaquim Paço d’Arcos 103Jorge Rangel 109José Joaquim Monteiro 114José Vicente Jorge 116Júlio Massa 121Lourenço Pereira Marques 126Lúcio Augusto da Silva 130Manuel da Silva Mendes 134Manuel de Faria e Sousa 137Maria Helena do Carmo 139Natália Correia 141Pedro da Silveira 144Régis Gervaix 147Sophia de Mello Breyner Andresen 151Versiglia & Caravario 154Visconde de Villa-Moura 156ÍNDICE |Livro Figuras_de_Jade_III.indd 3 08/11/2021 15:07
4Estudos do Autor sobre MacauA Educação Cívico-Política em Macau, 1989; A Inovação Curricular no Ensino da Filosofia em Macau, 1993; Camilo Pessanha, Professor no Liceu de Macau, 1994; O Poder Político e a Língua Portuguesa em Macau [1770-1968]: um relance legislativo, 1995; Manuel da Silva Mendes e a poética do taoísmo, 1995; O Neo-Confucionismo na Educação Portuguesa: Pedro Nolasco da Silva na Educação em Macau, 1996; Os Estudos Sínicos no Panorama da História da Educação em Portugal, 1997; José Miranda e Lima: Professor Régio e Moralista, 1997; Falar Português: subsídio para a história do ensino e da difusão da língua portuguesa em Macau [1960-1968], 1997; Monsenhor Manuel Teixeira e a História da Educação em Macau, 1998; Benjamim Videira Pires, um educador português em Macau, 1999; A Educação Portuguesa no Extremo Oriente, 1999; Joaquim Afonso Gonçalves, Professor e Sinólogo, 2000; O Professor Luís Gonzaga Gomes e a divulgação pedagógica da cultura chinesa, 2001; Manuel da Silva Mendes, professor e homem de cultura, 2002; Álvaro Semedo e os Exames na China Imperial, 2010; A Professora Graciete Batalha, 2010; Camilo Pessanha, 2011; Cinco Figuras do Diálogo Luso-chinês em Macau, 2012; Figuras de Jade – os portugueses no extremo oriente, 2014; Álvaro Semedo, 2015; D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau [1976-1988], 2016; Macau Histórico e Cultural, 2016; Manuel da Silva Mendes, 2017; O Pensamento Moral de Leôncio Ferreira, 2017; Figuras de Jade – os portugueses no extremo oriente, 2º volume, 2018; Miguel Torga – um poeta português em Macau, 2019; Júlio Augusto Massa, um missionário pensador, 2020; Seis Reitores do Liceu de Macau, 2021.Obras traduzidas para a língua chinesaEducadores portugueses em Macau, 2013; D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau [1976-1988], 2017; Miguel Torga – um poeta português em Macau, 2019; Júlio Augusto Massa, missionário pensador [no prelo].Em ColaboraçãoLao Zi, filósofo chinês, 1993; Camões e a Memória do Oriente, 1995; Arquivos do Entendimento – uma visão cultural da história de Macau, 1996; Documentos para a História da Educação em Macau, 3 volumes, 1996/98; Liceu de Macau – genealogia de uma escola, 1996; O Ensino da Língua Portuguesa em Hong Kong, 1997; Imagens Vividas: O Quotidiano da Educação em Macau, 1997; Padre António Vieira, uma presença no futuro, 1997; O Senado – Fontes Documentais para a História do Leal Senado, 1998; Camilo Pessanha – o fazedor de estrelas, 1999; Semana Cultural da China – Catálogo, 2004; Macau – uma história cultural, 2ª edição, 2009; Manuel da Silva Mendes – memória e pensamento, 3 volumes, 2017/18; José Silveira Machado, Um Macaense dos Açores, 2019; Confúcio, 2020.Organização da Edição, Prefácio e NotasRelação da Grande Monarquia da China, de Álvaro Semedo, 1994; Amplificação do Santo Decreto, do Imperador Yongzheng, 1995; O Livro da Via e da Virtude, de Lao Tse, 1995; A Instrução Pública em Macau, de Manuel da Silva Mendes, 1996; Macau – um município com história, de Luís Gonzaga Gomes, 1997; Meditações, de Leôncio Ferreira, 1997; O Senado da Câmara de Macau, de Charles Boxer, 1997; O Clássico Trimétrico, 1997; Os Exames na China Imperial, de Abílio Basto, 1998; A Escola Tamagnini Barbosa, 1998; Timor e Outros Escritos, de João Gomes Ferreira, 2009.PrefáciosCarlos Francisco Moura, Luís Gonzaga Gomes e uma Produtiva Cooperação Cultural Macau-Portugal-Brasil, 2014; António José Bezerra de Menezes Jr., Joaquim Guerra SJ [1908-1993]: releitura universalizante dos clássicos chineses, 2015; António Conceição Júnior, Quotidianos, 2018; Maria Helena do Carmo, Macau no Tempo Áureo do Comércio, 2021.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 4 08/11/2021 15:07
5FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEEm jeito de PrefácioDE COMO ANTÓNIO ARESTA NOS ORIENTA |Não é fácil. Só quem sabe é que pode conduzir-nos a uma viagem por aí fora, até nos encontrarmos ORIENTADOS, conduzidos na companhia das “Figuras de Jade” que António Aresta convocou para irmos mais além.Não estamos sozinhos. E não estamos sozinhos porque tivemos a sorte de ter quem nos abrisse a porta para saber de vidas e obras e destinos que em Macau se teceram e ao Oriente se entregaram.Sim, já vem de longe o des-cobrimento. Já vêm de longada os que se propuseram entrar – eles próprios – nas páginas e páginas reunidas por António Aresta para nos significar a verdadeira epopeia que transcende das palavras reunidas como preciosidades que só a determinação, a sabedoria, a diligência, a persistência do Autor ousaram trazer até nós.“FIGURAS DE JADE”, apelou António Aresta a re-colecção, a colheita que soma aqui o terceiro volume, numa série que bem poderemos designar como a verdadeira “Enciclopédia das Figuras e Obras” que em Macau e a Oriente se escreveram – e nos escreveram.Com Obras essenciais para “viajarmos” por Macau e pelo Oriente que em português também se falou, António Aresta é, seguramente, um grande Orientalista militante, com lugar cativo na primeira fila da longa série de “Cuidadores do Oriente” que Portugal tem a felicidade de contar.Com a “peregrinação” que encetou e está à vista na já longa bibliografia que nos ofereceu e oferece – e de que esta Obra é manifesto e inestimável exemplar – – bem podemos afirmar que sempre que mais Oriente houver, sempre que mais Macau houver, António Aresta lá chegará…E nós, também, na Sua companhia…José Valle de FigueiredoLivro Figuras_de_Jade_III.indd 5 08/11/2021 15:07
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7FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEDUAS PALAVRAS |O terceiro volume das “FIGURAS de JADE”, à semelhança dos volumes anteriores publicados em 2014 e 2018, continua a ser uma investigação metódica que valoriza a identidade cultural de Macau, centrada em pessoas singulares cuja trajectória de vida é importante resgatar.Recuperamos a vida e a obra de personalidades portuguesas, chinesas e de outras nacionalidades cujo contributo foi decisivo para a edificação da fisionomia espiritual, mental, cultural, estética e política de Macau, valorando a memória do que fomos e do que somos, projectando o que valeremos num presente e num futuro de contrastes e de diferenças.A estudarmos o legado de figuras tão díspares, [a título de exemplo, Lourenço Marques, José Vicente Jorge, João de Deus Ramos, Herlander Machado, Jorge Rangel, Júlio Massa, Ernesto Várzea, Albano Magalhães, Régis Gervaix, Austin Coates, João Milner, Natália Correia, Deolinda da Conceição ou Sophia Andresen], percebemos melhor os motivos pelos quais Macau sempre se afirmou como uma cidade cosmopolita onde a coexistência de povos, de religiões e de culturas, com amplas liberdades, sempre foi a sua maior riqueza e um polo de atracção regional e internacional.Agradeço ao Instituto Internacional de Macau o apoio incondicional a este projecto que, três volumes depois, continua a fazer o seu caminho. A história cultural de Macau tece-se com o fio colorido que une todas estas vidas, com propósitos e circunstâncias que nos surpreendem repetidamente.António ArestaLivro Figuras_de_Jade_III.indd 7 08/11/2021 15:07
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9FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEALBANO DE MAGALHÃESAlbano Pereira Pinto de Magalhães [1868-1940], natural de Mancelos, concelho de Amarante, formado em direito pela Universidade de Coimbra, após uma episódica passagem pelo Porto onde exerceu a advocacia, iniciou a sua carreira profissional na parcela mais longínqua do ultramar português, como delegado do procurador da Coroa na comarca de Timor em 1895. Por motivos de saúde e após o parecer de diversas juntas médicas a que se submeteu, regressa a Macau e apresenta-se na Secretaria Geral do Governo da Província de Macau, no dia 23 de Dezembro de 1898, proveniente do distrito autónomo de Timor. Tomou posse como Juiz de Direito da Comarca de Macau no dia 16 de Janeiro de 1899, perante Alfredo Pinto Lello, Albino António Pacheco, Camilo Pessanha, entre outros.Em Macau integrará esse influente conglomerado ‘bon vivant’ que José Gomes da Silva regista em “A República em Macau. História Amena”, publicado em 1896 [reeditado pela editora Livros do Oriente em 1994, com o prefácio de Margarida Duarte e ilustrações de António de Andrade]. Nessa obra, José Gomes da Silva traça-lhe generosamente o perfil: “o Dr. Albano de Magalhães era, quando chegou a Macau e se instalou na república, um bom rapaz, em toda a extensão da palavra. Oriundo da terra dos pêssegos, deliciosos e polposos, nascido em Amarante – na Amarante, como por lá se diz – tendo bebido a educação mundana no Porto e a científica em Coimbra, o jovem delegado encontrou logo em Macau a simpatia insuspeita de todos os membros efectivos e adidos da república”.A 11 de Março de 1899, o governador Eduardo Galhardo dá posse a uma Comissão que ficará incumbida de preparar a representação de Macau na Exposição Universal de Paris, em 1900. A presidência dessa Comissão foi cometida ao juiz Albano de Magalhães e integrava Artur Tamagnini Barbosa, António Joaquim Basto, Lourenço Pereira Marques, José Gomes da Silva, Leôncio Ferreira, Pedro Nolasco da Silva, Lu Cao ou Ho Lin Vong. A 30 de Novembro desse mesmo ano publicam no Livro Figuras_de_Jade_III.indd 9 08/11/2021 15:07
10Boletim Oficial um enorme Relatório, cuja erudição e modernidade será marcante para a sinologia portuguesa. Doravante presidirá a numerosas comissões, integrando também o conselho de governo do Território.Em 1901 o nome do juiz Albano de Magalhães salta para a ribalta porque participa um furto na sua própria casa, cometido por um criado de menor idade. A história é simples. A Veng, aliás José Armando, com cerca de 14 anos, na sua qualidade de criado, roubou e vendeu os talheres de prata da casa. Como Albano de Magalhães não podia ser juiz em causa própria, é Camilo Pessanha o magistrado encarregado de administrar a justiça. No livro de Celina Veiga de Oliveira, “Camilo Pessanha, o Jurista e o Homem”, publicado em 1993, podemos encontrar algumas peças jurídicas de Albano de Magalhães e de Camilo Pessanha, ainda hoje dignas de serem lidas e apreciadas. O juiz Albano de Magalhães afirma “ter levado o pequeno para sua casa com intenção de o sustentar, vestir e de lhe dar uma pataca por mês de soldada, pois o Procurador administrativo informara-o de que tinha na Procuratura aquele pequeno que era órfão de pai e mãe, sem meios de subsistência estando por isso a vadiar e que não sabia onde o havia de colocar”. No melhor espírito humanista da caridade cristã, mas contra o avisado conselho das pessoas amigas e conhecidas, o juiz Albano de Magalhães procurou ingenuamente solucionar esse lancinante problema humano e decide que “o menor iria aprender a ser criado de mesa e acompanhá-lo-ia todas as tardes a passeio no seu carro para lhe segurar o cavalo onde desejasse parar e isto porque sendo pequeno não lhe carregava muito o carro, mandou-lhe fazer três casacos, duas calças, uma blusa, uma cabaia e um calção china para ele andar limpo, nunca lhe deu serviços pesados e passava a vida quase só a brincar com os filhos do declarante e comia o mesmo que este”. Compreende-se a funda tristeza do magistrado e o sentido pedagógico da queixa que apresentou, “menos com intenção de ver castigado o menor ao qual reconhece uma má índole mas também um imperfeito conhecimento dos males que pratica, mas mais com o intuito de conseguir os seus objectos e de ver punidos os encobridores do furto, pois há-os numerosos na colónia e são os que prevertem e ensinam os criados a roubar”. A sentença do juiz Camilo Pessanha tem um grande valor no âmbito da psicopatologia criminal, assenta na análise da “educação do acaso” e na “falta de um mediano discernimento moral” e condena-o a cinco meses de prisão correcional.Um outro processo que deu brado, em 1903, foi o “crime de subtracção de menores”, no frágil limite entre a compra e a venda de menores e o regime de escravidão, prática comum na velha China, mas proibida em Macau por uma Carta Régia de 1758. Albano de Magalhães apoia a decisão de Camilo Pessanha, contra a posição do delegado interino do Ministério Público, Alfredo Pinto Lello. O tribunal da Relação de Goa dá razão aos dois juízes de Macau e essas peças argumentativas são absolutamente excepcionais pela sua clareza e fundamentação filosófico-jurídica.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 10 08/11/2021 15:07
11FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEA estadia em Macau permitiu-lhe estudar com acentuado pormenor o sistema de justiça do império colonial britânico, cotejando-o com o modelo português, lembrando ao poder político que “aos diferentes estados sociais dos vários povos que habitam os nossos domínios tem de se aplicar também diversas medidas civilizadoras, porque a civilização prepara-se, orienta-se, mas não se decreta, como tem sido errada crença dos nossos dirigentes!”.Um dos seus últimos trabalhos, no termo da comissão de serviço em Macau, em 1904, foi a organização do “Catálogo dos Livros da Biblioteca do Tribunal de Macau”, com 420 títulos, assim como o “Catálogo da Legislação existente na Biblioteca do Tribunal, de 1854 até 1901”, inopinadamente publicados no ‘Boletim Oficial’ de 17 de Março de 1904. Ficamos assim a saber quais as obras disponíveis nessa biblioteca, o respectivo arco temático e a percepção da actualização bibliográfica colocada ao serviço da justiça.Uma faceta invulgar de Albano de Magalhães foi o seu amor à arte fotográfica. As suas fotografias creditaram-no como um dos mais importantes fotógrafos de Macau no princípio do século, cujas fotos foram estampadas em diversas publicações do Território e de Portugal. Rogério Beltrão Coelho comissariou a monumental exposição “Macau: 100 anos de fotografias”, organizada pela Fundação Oriente, em 2017, prestando justiça ao fotógrafo amador ao mesmo tempo que procurou seguir o rasto das fotografias que fixaram Macau e algumas das suas figuras para a posteridade. Sobre esta estreita ligação às artes, refira-se que Albano de Magalhães era irmão de Acácio Lino [1878-1956], pintor e escultor de grande nomeada que está representado nos principais museus portugueses.O itinerário da carreira ultramarina do juiz Albano de Magalhães conduzi-lo-á ainda a Cabo Verde, a Moçambique e a Goa, fazendo desse modo, adicionadas as estadias em Timor e em Macau, um invejável e riquíssimo périplo pelo império colonial português.É em 1907 que publica um livro notável, em Coimbra, sob a chancela da editora França Amado, intitulado “Estudos Coloniais. Legislação Colonial. Seu Espírito, Sua Formação e Seus Defeitos”, perfeitamente enquadrado no espírito do tempo dos construtores dos impérios, tomando ele próprio um lugar na primeira linha dos pensadores coloniais. Era um estudioso fascinado pela complexidade das culturas orientais, “nós, os bárbaros do Ocidente, como ainda hoje nos chamam os chinas, havemos de encontrar e temos encontrado mais dificuldade em derruir essas formidáveis fortalezas de passiva resistência, representadas por Confúcio e Lao Tzu, Manu, Buda e Brahma, do que em atrair, desde o começo, ao convívio das leis do Ocidente os povos rudes de África, onde há quase só a lutar com a ignorância e barbárie, próprias do estado selvagem em que vivem”.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 11 12/11/2021 14:20
12Revela-nos um espírito bastante crítico sobre o modo português de administrar Macau. Porque em “quatro séculos de domínio ainda não tivemos tempo de fazer um estudo da sociedade chinesa e dos usos e costumes do povo que forma a população da nossa colónia do Santo Nome de Deus de Macau. Nós somos a nação mais descuidada dos problemas práticos da vida; perdemos tempo precioso com estudos de fórmulas, com minuciosidades de administração, com organizações fiscais, militares e descuramos o que é fundamental, as bases; mandamos leis, fisco, tropas, tribunais para povos cuja constituição social e familiar … ignoramos; para regiões, de cuja propriedade não sabemos a organização, de cujo solo não sabemos a constituição, de cujas matas ignoramos as riquezas!”. Maior contundência não era possível. E para demonstrar que não eram só palavras vãs e demolidoras, Albano de Magalhães faz esta insólita revelação: “Conhecendo muito de perto a colónia de Macau, por ter sido ali Delegado do Procurador da Coroa e da Fazenda em 1891-1894, e tendo sido nomeado juiz da mesma comarca em 1898, compreendi que o estudo dos Usos e Costumes era uma necessidade inadiável, não só pelo respeito a Macau, mas também pelo grande número de chineses que então havia em Timor e nas nossas colónias de África Oriental, cujos costumes era necessário respeitar. Iniciei esse estudo metodicamente, nas horas vagas das minhas ocupações e consegui organizar sete grossos volumes; tão extenso ficou esse trabalho, por descer às minuciosidades da vida chinesa, que essa extensão tem sido um obstáculo à sua publicação, porque no nosso meio social, pequeno e pouco dedicado a questões coloniais, não se compensam as despesas feitas com trabalhos dessa ordem e quem trabalha, se está por vezes disposto a perder o seu tempo, não está da mesma forma inclinado a despender somas para a impressão de livros caros e ficar desembolsado por muito tempo, ou até para sempre dessas quantias, que representam sacrifícios excedentes aos magros recursos dum país português!”. Albano de Magalhães, apesar da falta de apoios, do interesse oficial e de reconhecimento pelo seu esforço, consumou metodicamente o gigantesco trabalho a que se propôs: “Os volumes que tenho escrito são: I. Esposas, concubinas e viúvas; II. Filhos, pais, avós; III. Parentescos, sucessões e adopções; IV. Funerais, sacrifícios e antepassados; V. Bancos, comércio e indústria; VI. Penas, prisões e torturas; VII. Códigos, leis e jurisprudência”. Continua o desabafo: “um dia, quando tiver paciência e estiver disposto a gastar dinheiro na impressão farei a publicação desta obra. Se o não chegar a fazer, ficarei com a satisfação de quando juiz da comarca ter procurado, pelo estudo, respeitar tanto quanto possível foi os usos e costumes desse povo que admiro na sua indústria e persistente trabalho. Tenho promessa oficial de se fazer essa publicação por conta ou com subsídio do Estado, mas tendo de ser feita a impressão em Lisboa, só quando eu estiver no reino se poderá fazer pela necessidade de cuidada revisão”. Tudo indica que esta construção Livro Figuras_de_Jade_III.indd 12 08/11/2021 15:07
13FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEantropológica do sentido de Macau tinha como objectivo atenuar as vulnerabilidades da condição do decisor político ou jurídico, sobretudo de um Macau chinês exilado da condição portuguesa de Macau e dirigido a partir da centralidade lisboeta.Este depoimento é também notável, por duas razões.Em primeiro lugar, ficamos a saber como é que se perdeu um sinólogo e uma obra que poderia ser muito importante para a sinologia portuguesa contemporânea. É lamentável porque o reino da estupidez e do desleixo se tenha novamente sobreposto ao espírito científico, à cultura e à boa vontade. O que este país tem perdido por não estimar e valorizar os seus melhores profissionais. O raciocínio de Albano de Magalhães apontava para um caminho que deveria ter sido seguido: “quando todos conhecerem as colónias, quando vastos repositórios científicos estiverem ao alcance de todos para os estudarem, quando as suas estatísticas minuciosas, conscienciosas e metódicas forem regularmente publicadas, quando o governo, por essas mil formas da propaganda moderna, tiver conseguido interessar no conhecimento das colónias a população, ao menos inteligente, do país, então não faltará quem no Parlamento simpatize com elas e lhes defenda os seus direitos; hoje parece que a maior parte da Câmara em questões coloniais só pensa em as sacrificar à metrópole!”. É evidente que este programa nunca foi implementado porque o Ministério do Ultramar parecia ser uma máquina em perpétuo esquecimento.Em segundo lugar, é possível que esta obra, em sete volumes, mesmo não editada, possa ainda estar guardada algures numa biblioteca particular. E esta conjectura baseia-se no facto de os herdeiros de Albano de Magalhães, num acto de grande generosidade, terem doado o seu grande espólio, mobiliário, cerâmica e outros objectos, ao Museu Pio XII em Braga, garantindo assim a unidade e a integralidade desse legado. Quem sabe se os sete volumes não estarão acondi-cionados por aí?Com o advento da república é nomeado Governador Civil do Porto, de 14 de Setembro de 1912 até 18 de Janeiro de 1913. Recorde-se que Rodrigo José Rodrigues, o governador Ró-Ró, tinha ocupado esse mesmo cargo em 1911.Entretanto, a carreira de Albano de Magalhães prosseguirá sendo sucessivamente juiz presidente do Tribunal da Relação do Porto e juiz presidente do Supremo Tribunal de Justiça. O seu falecimento ocorre a 30 de Setembro de 1940.Mas o seu pensamento e o seu legado intelectual continuam à espera de um sereno e justo reconhecimento. A começar na sua terra natal, Amarante.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 13 08/11/2021 15:07
14ALMEIDA GARRETTJoão Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854), natural do Porto, formado em direito, laureado escritor, poeta, dramaturgo e político, viveu nos Açores, na Inglaterra, na Bélgica e em França, sofrendo por três vezes as agruras do exílio. Almeida Garrett foi uma figura omnipresente na sociedade portuguesa, na educação, na cultura, no teatro ou na política. Participou na revolução liberal de 1820, esteve no desembarque liberal de Pampelido e no cerco do Porto, colaborou com Mouzinho da Silveira, foi director de jornais e Par do Reino. Em 1851 é feito Visconde de Almeida Garrett e em 1852 é um efémero Ministro dos Negócios Estrangeiros.A sua obra é muito extensa, pelo que aponto uns escassos títulos: ‘Da Educação’, 1829; ‘Portugal na Balança da Europa’, 1830; ‘O Alfageme de Santarém’, 1841; ‘Frei Luís de Sousa’, 1843; ‘Viagens na Minha Terra’, 1846.O poema “Camões”, com dez cantos, é um escrito de exílio, publicado em 1825, pela Livraria Nacional e Estrangeira, em Paris. Na advertência ao leitor, Almeida Garrett diz-nos, “Não sou clássico, nem romântico: de mim digo que não tenho seita, nem partido em poesia (assim como em cousa nenhuma); e por isso me deixo ir por onde me levam minhas ideias boas ou más, e nem procuro converter as dos outros, nem inverter as minhas nas deles: isso é para literatos de outra polpa, amigos de disputas, e questões, que eu aborreço”.É neste poema, “Camões”,que Almeida Garrett valora como poucos o fortíssimo simbolismo romântico que esse local, tosco e com uma aparência de gruta, a Gruta de Camões em Macau, significa para o imaginário cultural dos portugueses. No canto quarto de “Camões”, Garrett prepara o leitor para o diálogo com a China ancestral e misteriosa:Livro Figuras_de_Jade_III.indd 14 08/11/2021 15:07
15FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE“Talvez em longes eras meditasseSolitário discip’lo de ConfúcioNessa caverna as eternas verdadesDo grande Tien, do Deus da Natureza,Que ao Sócrates da China se amostraraMais temporão, se lhes não mentem crónicas”.A celebrada gruta de Camões em Macau contribuiu para a expansão do mito do Oriente, misturando Garrett um auto-retrato moral com a saudade e com o exílio, tudo entrelaçado na vida agitada do grande épico. No canto quinto encontramos o melhor fluxo dessa estética romântica:“Oh gruta de Macau, soidão querida,Onde tão doces horas de tristeza,De saudade passei! gruta benignaQue escutaste meus lânguidos suspiros,Que ouviste minhas queixas namoradas,Oh fresquidão amena, oh grato asiloOnde me ia acoitar de acerbas mágoas,Onde amor, onde a pátria me inspiraramOs maviosos sons e os sons terríveisQue hão-de afrontar os tempos e a injustiça!Tu guardarás no seio os meus queixumes,Tu contarás às porvindouras erasOs segredos d’amor que me escutaste,E tu dirás a ingratos portuguesesSe português eu fui, se amei a pátria,Se além dela e d’amor, por outro objectoMeu coração bateu, lutou meu braço,Ou modulou meu verso eternos carmes.Pátria, pátria, rival tu foste d’Ela!Tu me ficaste só, não desamparesQuem por Ela e por ti sofreu constante,Quem por ti só agora o fio extremoTénue conserva da existência aflita…Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,Quem entre os goivos te esfolhou da campa?”Livro Figuras_de_Jade_III.indd 15 08/11/2021 15:07
16Experimente o leitor ler este pequeno excerto no vero local onde está situada a Gruta de Camões em Macau. De preferência noutro dia que não o 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Que comoção estética poderá invadi-lo?A longa duração de Garrett na cultura portuguesa não é indiferente ao facto de permanecer nos currículos escolares como autor de obras de referência, desde logo as “Viagens na Minha Terra”. O seu nome está em Praças, Ruas, e Escolas por esse país fora, emprestando-o ainda à nova biblioteca municipal do Porto instalada nos jardins do Palácio de Cristal. No ano de 1966 foi transladado para o Panteão Nacional, em Lisboa.Em 1972, Edgar C. Knowlton Júnior publica no Boletim do Instituto Luís de Camões, de Macau, a versão inglesa do poema de Almeida Garrett, “Camoens”, numa separata com 119 páginas.Do prefácio que Camilo Castelo Branco escreveu para o “Camões” de Almeida Garrett, retenho este sibilino parágrafo: “Permita a Providência das nações que os Lusíadas não sejam a esplêndida mortalha que Luís de Camões deixou a Portugal”. Ironia mordaz ou lucidez paradoxal?Livro Figuras_de_Jade_III.indd 16 08/11/2021 15:07
17FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEALMEIDA RIBEIROA Avenida Almeida Ribeiro [San Má Lô] é o nome de uma das mais populares, estruturantes e movimentadas artérias citadinas de Macau. Fica a dever o seu nome a Artur Rodrigues de Almeida Ribeiro [1865-1943], natural de Fornos de Algodres, magistrado, político e pensador colonial que, por mero acaso, nunca visitou o Território. Formado em direito pela Universidade de Coimbra, seguiu a carreira da magistratura no ultramar, entre 1886 e 1907, em Cabo Verde, Angola (Benguela e Luanda), Moçambique (Inhambane) e São Tomé e Príncipe. Regressa a Portugal e com o advento do novo regime político, filia-se no Partido Republicano Português mercê da amizade com Afonso Costa. Acreditava na república e dizia, “é preciso despertar para a vida, para uma vida intensa e expansiva, a alma portuguesa que a educação jesuítica, hábitos de parasitismo e sucessivos revezes pareciam até 5 de Outubro de 1910 ter adormecido profundamente”. A sua carreira profissional prossegue [juiz da Relação de Lisboa, 1907-1917; juiz auditor na 1ª Divisão Militar, 1912; membro do Conselho Superior da Magistratura Judicial, 1912-1921; membro do Tribunal de Arbitragem de Haia, 1921-1923; juiz do Supremo Tribunal de Justiça, 1919-1927] com ligações aos assuntos coloniais [membro do Conselho Colonial, desde 1911; membro do Conselho Superior das Colónias, 1927-1935] e passagens por cargos de natureza política [Ministro das Colónias, 1913-1914; Ministro do Interior, 1915-1916 e 1917; Deputado por Pinhel, Guarda e Lisboa]. Mas, é como pensador dessa difusa “ciência da colonização” que tentará, na qualidade de Ministro das Colónias, repensar toda a filosofia da administração no império colonial português, imprimindo-lhe a modernidade possível. As suas ideias podem ser lidas e apreciadas no nutrido volume, “Administração Financeira das Províncias Ultramarinas”, editado em Lisboa pela Imprensa Nacional, em 1914. Depois de passar em revista as melhores práticas das administrações coloniais inglesa, belga, francesa, americana, japonesa e alemã, Almeida Ribeiro apresenta as suas Livro Figuras_de_Jade_III.indd 17 08/11/2021 15:07
18propostas em termos políticos, administrativos e financeiros. Com escasso sucesso por causa instabilidade política e também pela circunstância de não ser possível, a partir de Lisboa administrar uma utopia, isto é, gerir com acerto as providências legislativas para todo um heterogéneo e intercontinental império colonial. Basta lembrar que nos 16 anos [1910-1926] da primeira república, sucederam-se 7 parlamentos, 8 presidentes da república e 45 governos. Pior não era possível. Almeida Ribeiro estava alinhado com a esquerda republicana liderada por Afonso Costa, e no decurso do consulado de Sidónio Pais, o presidente-rei, como lhe chamou Fernando Pessoa, esteve preso por motivos políticos durante alguns meses.Era um profundo conhecedor de Macau, quer da sua história, quer das melindrosas relações políticas e diplomáticas com a China, mas sobretudo da detalhada imagem analítica de uma colónia, vazada nos sucessivos relatórios dos governadores que, lia com interesse. Reconhecia que “até a longínqua Macau pugna pela conservação do seu Leal Senado, mostrando a maneira dele ser composto de futuro, e o papel que lhe compete na administração da colónia”. Ainda assim, injustiçava, desmoralizava e enfraquecia o Território, retirando-lhe regularmente substanciais receitas próprias, redireccionando-as para outras colónias ou serviços, numa solidariedade de duvidosa serventia. Sabia, vox populi, que Macau era “o úbere sempre repleto do ultramar, era inevitável que essa colónia houvesse de pagar, entre outros encargos, os deficits de Timor”. Contudo, nota Almeida Ribeiro, que “é ainda a tradição de colónia rica de que goza Macau, através de todas as suas dificuldades, derivadas, em grande parte, como já o observara o próprio ministro de 1885, do carácter artificial e instável das suas receitas, que sugeriu lançarem-se em 1878, e depois em 1903, sobre essa colónia, os encargos dos consulados no extremo oriente”, sem esquecer, num assomo bem português e europeísta, esta singularidade, “de Macau, finalmente, a circunstância de sobre a massa duma população possuidora de civilização especial, se ter formado, como consequência do nosso domínio, uma outra classe de nativos com o seu dialecto próprio e patrióticas tradições de administração municipal”. E também estava muito atento à aplicação dos “avultados juros do legado Merop”.Em Outubro de 1913 foi assinada a proposta para dar o nome de Almeida Ribeiro a uma nova avenida, cujas obras apenas terminarão em 1920, uma espécie de versão local das obras de Santa Engrácia. Por detrás da homenagem ao Ministro das Colónias, que expressamente autorizou a utilização de uma significativa verba orçamental destinada a pagar algumas expropriações necessárias para a expansão da avenida, parece que existiu um sofisma muito bem cerzido na sua eficaz simplicidade, pelo Governador e pelo Leal Senado. Afinal, em troca da honra de ter o nome imortalizado na toponímica local, estancavam-se nesses anos as transferências financeiras para o exterior, porque o dinheiro gerado em Macau devia ser investido e aplicado no Território. O Governador interino Aníbal Sanches de Miranda, escreve ao Ministro das Colónias Almeida Ribeiro, no dia 5 de Março de 1913, sobre Camilo Livro Figuras_de_Jade_III.indd 18 08/11/2021 15:07
19FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEPessanha, nestes termos: “Durante a sua residência nesta colónia, tem estudado a língua e os costumes da China, constituindo nesse ponto uma excepção entre os europeus aqui residentes. Seria, por isso, conveniente a sua conservação na Colónia, visto ser tão sensível como é em Portugal a falta de estudiosos em sinologia”. Pessanha escapou, desse modo, a uma colocação na comarca de Moçambique, como juiz da primeira instância.De resto, a história da construção da nova avenida foi, em termos de planeamento técnico, um desastre anunciado, segundo o insuspeito testemunho de Manuel da Silva Mendes, que publicou no jornal ‘O Macaense’, de 19 de Outubro de 1919, o incisivo artigo “As Expropriações em Macau”. Dele, retiro este significativo trecho: “Das grandes expropriações a mais recente é a da Avenida de Almeida Ribeiro. Lembramo-nos de que quando se tratou desta expropriação (que teve as honras de um decreto especial), houve técnico ou técnicos que quis ou quiseram convencer o público de que no caso andava agora, então, olhar alto, vista larga – a qual vista larga ou ver longe era a expropriação por um processo novo, um processo que em Paris tinha produzido maravilhas, a expropriação por zonas. Ora os técnicos, já se vê, são os que sabem; e, em falando eles, toda a gente deve ficar calada e, podendo ser... embasbacada. Foi o que nos aconteceu a nós; para que ficassem satisfeitos, quando os ouvíamos falar nas vistas largas, amavelmente nos embasbacávamos... Ah! E presenciamos que embasbacou também o elemento oficial não-técnico, que a eles estava agregado, nas deliberações a tomar, dizendo delicadamente a tudo ámen. Fez-se, pois, pela cabeça dos técnicos a Avenida de Almeida Ribeiro e saiu a bota que lá está: em vez de avenida, uma rua de insuficiente largura para o trânsito. Deveria ser a principal artéria da cidade, com largura para peões, para rickchás, para automóveis, para eléctricos, etc. Afinal se quiser que seja isso, terá de se expropriar outra vez, de se deitar tudo abaixo...”. A ferroada de Silva Mendes era claramente dirigida a António Miranda Guedes, o engenheiro responsável pelo arranque da execução do projecto, enquanto director das Obras Públicas. Miranda Guedes era uma personalidade com muito valor, chefiou as Obras Públicas de Macau, de 1906 até 1914, com um interregno de meio ano, entre 1910 e 1911, em que desempenhou as funções de governador interino de S. Tomé e Príncipe. Por detrás de todas as divergências, havia também um território político bem demarcado e em disputa ideológica que transbordava de quando em vez na imprensa. Silva Mendes estava ao lado de Bernardino Machado. Miranda Guedes posicionava-se por António José de Almeida, e não escondia a amizade com Camilo Pessanha. No passado, José Gomes da Silva tinha sido amigo pessoal de Afonso Costa. Os meios pequenos tendem a potenciar todas estas relações tóxicas. O próprio Almeida Ribeiro, com que sorriso amarelo, terá tido conhecimento de todas estas trapalhadas em torno do arruamento que tinha o seu nome?Mas, a vida continuava. Em Outubro de 1920, a editora Lusitânia envia dez exemplares da Clepsydra a Camilo Pessanha, uma edição organizada por Ana de Castro Osório.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 19 08/11/2021 15:07
20ÁLVARO DE MELO MACHADOA instauração do regime republicano em Macau é um pequeno mundo de aventuras cujos contornos estão pouco esclarecidos, não obstante alguns trabalhos meritórios de, por exemplo, João Guedes ou Arnaldo Gonçalves. Desde logo avulta a misteriosa observação de Manuel da Silva Mendes numa carta que escreveu, de Macau, em 10 de Novembro de 1910, para Bernardino Machado: “A demora que fez em proclamar a República, esteve para produzir uma imposição militar (tendo-se falado até em bombardear o palácio) mas eu e outros impedimos que se procedesse tão rapidamente como alguns elementos desejavam. Tudo isto, foi, porém, feito sem escândalo, e ficou sendo ignorado da população”. Referia-se, claro está, ao Capitão Eduardo Marques, Governador de Macau, que atrasou até ao limite do possível a onda republicana, nomeadamente a expulsão das ordens religiosas, através de um decreto de Afonso Costa que ressuscitou a velhinha lei pombalina de 1759.O novo regime foi solenemente anunciado no dia 11 de Outubro de 1910, na varanda do Leal Senado, pelo Governador Eduardo Marques que “proclamou a República, à qual deu vivas, que foram correspondidos entusiasticamente pelo povo”, maioritariamente português, presume-se. Nessa varanda podiam ver-se Álvaro de Melo Machado, Manuel da Silva Mendes, Camilo Pessanha, António Nascimento Leitão, Eduardo Azambuja Martins, entre tantos outros que presenciaram esse acto histórico. Como nota insólita, registe-se que foi o último governador nomeado pela monarquia a oficiar a liturgia do fim desse velho regime. Eduardo Marques (1867-1944) era um conhecedor profundo do Território, tendo sido ajudante de campo do Governador Eduardo Galhardo, professor no Liceu e saiu justamente de Governador de Timor para ocupar o cargo em Macau. Mais tarde será Ministro das Colónias (1929-1931), general chefe do estado maior do exército, em 1933, e presidente da Câmara Corporativa (1935-1944), fazendo uma carreira brilhante no regime do Estado Novo.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 20 08/11/2021 15:07
21FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEDoravante, o protagonismo centrar-se-á na figura de Álvaro de Melo Machado (1883-1970), inicialmente olhado de soslaio pela sociedade conservadora do Território porque ia no terceiro casamento, e que em 1909 era ajudante de campo do Governador Eduardo Marques. Em 22 de Outubro de 1910 será Secretário-Geral interino e a 17 de Dezembro do mesmo ano é nomeado Governador interino, provavelmente o mais novo de sempre.Não desmerecendo as suas indiscutíveis qualidades pessoais, não será de estranhar a força e a eficácia do lobby colonial e maçónico, que concorreu para a sua nomeação, contando com o beneplácito do seu Pai, o general Joaquim José Machado, antigo Governador Geral de Moçambique, antigo Governador Geral da Índia Portuguesa e Comissário Régio nas Conferências Luso-Chinesas para a delimitação de Macau, 1909/1910, e cujo Secretário tinha sido o capitão Norton de Matos.A sua governação foi de continuidade com a anterior, como sucedia quase sempre, intercalando a gestão prudente dos conflitos com a China (a delimitação de fronteiras, o problema das águas territoriais e as obras no porto), sobretudo com o mandarinato de Cantão acossado pela avidez das sociedades secretas, com o apoio firme mas discreto aos republicanos chineses, incluindo facilidades logísticas, cedência de armamento e partilha de informações estratégicas. Sun Iat Sen era uma visita frequente e foi em Macau que terá consolidado o seu projecto de uma república constitucional e democrática para a sua terra natal.Em parceria com Manuel Ferreira da Rocha e Álvaro Correia Mendes, o governador apresenta o “Projecto de Reorganização Administrativa da Província de Macau”, uma iniciativa falhada porque não teve em conta que o Leal Senado era a face visível do compromisso histórico da soberania partilhada e o último reduto onde os portugueses de Macau possuíam estatuto e protagonismo.A grande novidade é o seu testamento político, que dá pelo nome de “Coisas de Macau”, que os mais distraídos tomaram como um ramalhete de história etnográfica e de nostalgia orientalista e sinológica. O livro foi editado em Lisboa, pela Livraria Ferreira em 1913 [uma elegante segunda edição em fac-símile, foi lançada em Macau pela editora Kazumbi, de Rui de Carvalho, em 1997]. Álvaro de Melo Machado governou Macau até ao dia 14 de Julho de 1912 e tudo indica que a obra foi meticulosamente pensada ao longo dos seus anos de vivência no enclave, intercalando as sábias reflexões de filosofia política com sugestões práticas e críticas contundentes, apresentando igualmente uma pedagogia global para a administração. As “Coisas de Macau” são um ‘vade-mecum’ essencial para os recém-chegados e um verdadeiro manual de introdução à complexidade do Território, incluindo um relance sobre a sua história. Foi por exemplos desta natureza que Stefan Zweig escreveu um belo texto de “agradecimento aos livros”, tributando uma vigilante admiração a todos os livros que nos ajudam a compreender melhor o nosso pequeno mundo, povoado por seres humanos nem todos estruturalmente bons.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 21 08/11/2021 15:07
22Álvaro de Melo Machado conhece muito bem a realidade e observa sem ironia, “para nosso mal, uma grande parte dos portugueses não sabe quantas e quais as colónias que possuímos; uma percentagem ainda maior desconhece onde elas se encontram situadas, a área que abrangem e a sua importância relativa”, formulando, sem poupar nas palavras, um juízo deveras impiedoso, “Macau hoje, mais não é do que uma cidade chinesa, mal administrada por portugueses”. Mas as coisas nem sempre foram assim.Traça igualmente um quadro aterrador, de incúria e de desleixo, o que contribuía para dar uma péssima imagem da administração portuguesa na região, sobretudo quando não se podia fugir às analogias com o império britânico nas colónias vizinhas: “o hospital civil, instalado num edifício velhíssimo, acumulando funções de cozinha económica, hospício de velhos e inválidos e retiro de alienados, faz lembrar uma lôbrega prisão, onde não podem entrar a higiene e a ciência, e onde custa a crer que alguém possa encontrar mais do que um escuro e triste lugar para morrer”.No ensino, diz-nos que “as escolas, pessimamente instaladas, abrigam uma reduzida população infantil que mal fala português”.Mas, onde estão os problemas?: “se Macau tem dinheiro, se tem autoridades, se tem administração, a que se deve pois atribuir toda a decadência, o desleixo e as vergonhas que se revelam ao recém-chegado, ao cabo de alguns dias de permanência?”.Dividir e partilhar as responsabilidades, parece ser uma boa ideia a pôr em prática, porque tudo isso se deve “em parte ao feitio português, bastante aos governadores, muito ao desgraçado sistema que usam os governos da metrópole. Se os recursos da colónia nela tivessem sido empregados com método, com orientação, com vontade, há doze anos que fosse, podia ter-se agora uma cidade modelo, higiénica, cuidada; e com um pouco de tino administrativo, talvez tivesse sido possível evitar que descesse tanto da sua primitiva grandeza”.E que responsabilidades cabem aos governadores?: “os governadores, uns por comodismo, outros por incompetência e outros ainda, talvez a maior parte, pelo receio de criarem dificuldades com o ministério, que os façam abandonar o lugar que desejaram, que pediram e que pretendem conservar, aceitam com toda a filosofia a situação em que os colocam, com o pretexto de que não podem endireitar o mundo e muito menos a política portuguesa”. Era isto uma sincera auto-crítica?Com o novo regime republicano, seria lícito esperar grandes mudanças? Álvaro de Melo Machado oferece-nos estas amadurecidas cogitações: “e se tudo mudasse de repente? Se os governadores fossem homens práticos, desinteressados, sem receios pelo lugar, livres de compromissos políticos? Se os governos da metrópole, agora que um regime de liberdade e de largueza de vistas se deve iniciar, dessem toda a iniciativa aos homens que escolhessem para administrar as colónias? Macau poderia alcançar uma posição preponderante, progredir desafrontadamente, conseguir um futuro independente, sem apreensões? Infelizmente, estamos convencidos de que a Livro Figuras_de_Jade_III.indd 22 08/11/2021 15:07
23FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEMacau está reservado um futuro bem modesto”. As “Coisas de Macau” apresentam muitas soluções para se remediar a miopia do poder político centrado na capital portuguesa, nomeadamente as imperfeições legislativas e os inevitáveis interesses das clientelas partidárias.Álvaro de Melo Machado teve ainda tempo, em 1911, para fundar o movimento escotista em Macau, abrindo aos rapazes e às raparigas as práticas desse grande movimento humanista, fraterno e solidário.A república na China começava a dar os primeiros passos. Luís Gonzaga Gomes transcreveu uma notícia sobre um tema revolucionário [inicialmente publicada no jornal ‘A Verdade’, de 14 de Janeiro de 1911], na sua coluna do ‘Notícias de Macau’, sobre a cerimónia do corte do rabicho, “o humilhante símbolo da ignonímia nacional, que foi abolido em 1912”. Essa trança ou rabicho tinha sido uma imposição dos manchús que obrigaram todos os homens a utilizá-la. Em Macau, essa cerimónia do corte das tranças, o primeiro símbolo visível da rebelião republicana, teve lugar no Teatro Cheng Peng, completamente cheio, com “duas mil pessoas”, e foi simbolicamente presidida pelo governador interino Álvaro de Melo Machado. A “assistência saudou freneticamente um velhote, quando o barbeiro lhe levantou a trança, toda de cabelos brancos, que ia ser cortada”. Reza a notícia que “quer à entrada, quer à saída do Governador, tocou a banda militar, sob a regência do sr. Eusébio Placé, o hino nacional A Portuguesa, que foi ouvido de pé pelos assistentes, fazendo a devida continência todos os militares presentes”. Esta coexistência pacífica entre políticas, valores e religiões é um legado português nem sempre devidamente valorizado.Uma das suas últimas providências legislativas foi a Portaria de 21 de Fevereiro de 1912, que nomeia uma comissão composta por Alfredo Pinto Lelo, Carlos Melo Leitão, Manuel da Silva Mendes, José Maria de Carvalho e Rêgo e Luís Gonzaga Nolasco da Silva para estudar e dar parecer sobre a possível adaptação do decreto acerca da liberdade de imprensa e, ainda, saber se convirá que “o editor de qualquer periódico possa ser indivíduo de nacionalidade estrangeira”. A República precisava de saber com quem tinha de lidar…Álvaro de Melo Machado continuará a sua carreira em Angola, integrando a administração dos Caminhos de Ferro de Benguela. Passa à reserva com a patente de capitão-tenente, em 1935. Publicou os seguintes estudos: “O Caminho de Ferro de Benguela e o desenvolvimento da Província de Angola”, 1929; “Uma experiência de colonização em Angola”, 1936; “Estradas, caminhos de ferro, rios navegáveis e canais ligando Angola ao Congo Belga, à Rodésia e ao Sudoeste Africano”, 1945. Entre as suas condecorações conta-se a Comenda da Ordem Militar de Aviz e o grande oficialato da Ordem Militar de Cristo. Os seus últimos anos de vida foram consagrados à Sociedade de Geografia de Lisboa, uma instituição respeitável e muito focada nos estudos ultramarinos.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 23 08/11/2021 15:07
24ANNA D’ALMEIDAAnna d’Almeida [1836-1866], inglesa, cujo nome de solteira era Anne Harriette Pennington, foi casada com William Barrington d’Almeida, neto do Dr. José de Almeida Carvalho e Silva [1784-1850], médico da armada real portuguesa, natural de S. Pedro do Sul, que chegou a Macau em 1810. José de Almeida estabeleceu-se em Singapura em 1825, abriu a empresa “José d’Almeida & Sons” e fez uma fortuna colossal com o comércio marítimo, seguros e com a administração de plantações diversas, no tempo do fundador da colónia britânica, Thomas Stanford Raffles. A Rainha D. Maria II concedeu-lhe a Comenda da Ordem Militar de Cristo, a Comenda da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e nomeou-o Cônsul de Portugal nos Estreitos. Com grande prestígio em Singapura e já com o título de Sir José d’Almeida, muito engrandeceu o nome de Portugal no extremo oriente. De dois casamentos teve larga descendência, vinte filhos. O seu nome está perpetuado na “Almeida Street” e encontra-se sepultado no Cemitério de Fort Canning, em Singapura.É com base nesta rede familiar de prestígio e de grandes influências que Anna e William, que se presume não ter esquecido a língua portuguesa, vão fazer uma viagem, na companhia da filha Rose, entre Março e Julho de 1862, que os irá conduzir, por esta sequência, a Singapura, Hong Kong, Filipinas, Macau, Xangai, Nagasaki, Yokoama, novamente Hong Kong, Macau, Cantão e finalmente Hong Kong. Anna, que não dominava a língua portuguesa, irá publicar uma espécie de diário de viagem, [Anna D’A., “A Lady’s Visit to Manilla and Japan”, London, Hurst and Blackett, Publishers, 1863, 297 pp., com diversas reedições até aos dias de hoje], rapidamente transformado em livro de referência para um universo feminino requintado, sensível e aventureiro. Viajar neste tempo era sinónimo de abastança e de afrontamento do desconhecido, com uma inabalável crença da superioridade europeia e ocidental. As suas impressões sobre Macau são curiosas e divertidas.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 24 08/11/2021 15:07
25FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEAportam a Hong Kong, então governada por Sir Hercules Robinson, no dia 2 de Março de 1862, provenientes de Singapura, a bordo do “Thunder”, um “opium clipper”, hospedando-se na mansão de “Mr. R., a portuguese gentleman”. Circulam pela colónia britânica e poucos dias depois seguem para Manila num barco espanhol. Nas Filipinas, “a strange land”, Anna regista a beleza das paisagens, a pobreza da população, a omnipresença do catolicismo trazido pelos espanhóis ou a insegurança por causa da pirataria, em terra e no mar. Tomam o vapor “Escano” com destino a Hong Kong e depois outro navio para Macau, onde chegam à meia noite, ficando hospedados no palacete do Barão do Cercal, na Praia Grande, mais tarde transformado no Palácio do Governo. Isidoro Guimarães era o governador português. Anna, em todas as suas observações e comentários, dá mostras de conhecer razoavelmente bem a dimensão portuguesa da história de Macau. Desde logo a própria origem do nome Macau: quando os portugueses chegaram, um rapazito fugia de um cão que ladrava furiosamente, gritando “ma, kow!”, isto é, “mãe, o cão!”. Por vezes, as explicações pueris revelam-se certeiras. Anna visita o Jardim da Gruta de Camões e não gosta do que observa: “the place called Camoens’ Garden is situated close to the mud-harbour, on a little eminence. It is now in a terribly negleted state”. Relata a vida e os infortúnios de Luís de Camões, em três páginas repletas de erudição. Descreve com minúcia as ruínas de S. Paulo e as outras igrejas, verbera o assassinato de Ferreira do Amaral e compreende a estratégia defensiva ornada pelo conjunto das fortalezas. Participou com muito agrado em “fishing excursions” ao largo da Ilha Verde, que dispunha de um pequeno “resort” para piqueniques. Não deixa passar em claro o incidente protagonizado por um inglês protestante que se recusou a tirar o chapéu à passagem de uma procissão. Foi colocado sob prisão, por conduta imprópria e embriaguez. Esta ocorrência policial quase que gerou um pequeno incidente internacional.Partem para Hong Kong onde apanham o vapor “Pekin” rumo a Xangai, onde assistem à execução pública de um mandarim. Desta cidade seguem para o Japão, visitando Nagasaki e Yokoama. Retornam a Hong Kong, com uma nova visita a Macau e uma curtíssima estadia em Cantão, estas três cidades violentamente flageladas por um tufão destruidor, “um terramoto” que transformou a Praia Grande “num estaleiro de lama, pedras, paus e destroços indistintos”.Toda esta narrativa tem um fino recorte orientalista e etnográfico, revelando uma personalidade culta e muito atenta aos contrastes culturais. Estava claramente avançada para a sua época, porquanto revela alguma incomodidade com o estatuto subalterno da mulher, no casamento e na sociedade, sobretudo considerando execrável a prática da venda de raparigas e de jovens mulheres. Este discurso de insubmissão coloca-a numa linhagem das pensadoras da liberdade, no feminino.Anna d’Almeida faleceu prematuramente em 1866, escassos três anos após a publicação do seu livro. Que outras viagens e aventuras intelectuais lhe estariam reservadas?Livro Figuras_de_Jade_III.indd 25 08/11/2021 15:07
26ANTÓNIO ANDRÉ NGANAntónio André Ngan (1907-1982), sacerdote natural de Macau, figura muito discreta e simples, notabilizou-se como um sábio linguista que revolucionou a metodologia do ensino da língua portuguesa para os falantes chineses.Formado no Seminário de S. José de Macau, foi ordenado sacerdote em 16 de Agosto de 1931, numa cerimónia presidida pelo Bispo de Hong Kong, D. Enrico Valtorta, na presença do Bispo de Macau, D. José da Costa Nunes. No Seminário sobressaiu pelos seus dotes musicais, tendo sido um dos discípulos dilectos do maestro padre Fernando Maberini. António André Ngan chegou a leccionar música no Seminário, tendo escrito diversas composições litúrgicas, hoje provavelmente perdidas. Foi, também, um dedicado regente da Orquestra do Seminário.Uma aragem de modernidade e de nacionalismo chegava ao Território. O Conselho Inspector de Instrução Pública de Macau distribui maciçamente no 10 de Junho de 1939 o folheto “Camões”, com o retrato de Malhoa e a biografia da ‘Presença’, uma ousadia estética que a segunda guerra mundial irá pôr termo. O Boletim Oficial da Colónia de Macau, de 9 de Setembro de 1939, publica o decreto-lei nº 29773, assinado por António de Oliveira Salazar, igualmente publicitado nos “Boletins Oficiais de todas as Colónias”, tornando obrigatória a utilização da língua portuguesa, conforme se lê neste artigo: “Todas as sociedades ou empresas concessionárias do Estado ou que com este tenham qualquer espécie de contrato são obrigadas, qualquer que seja a forma da sua constituição, a empregar a língua portuguesa na escrita dos seus estabelecimentos sitos em território português e a dirigir-se na mesma língua ao Governo, às Repartições do Estado, entidades oficiais e corpos administrativos”. O impacto desta medida legislativa em Macau não foi ainda convenientemente estudada. O ensino e a difusão da língua portuguesa, em todo o espaço colonial intercontinental, ganhavam assim uma pressão ideológica adicional, por vezes gerando um efeito contra-producente.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 26 08/11/2021 15:07
27FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTENão obstante a sua frágil saúde, António André Ngan começou a trabalhar intensamente nos vários projectos educativos e culturais da diocese. É nomeado director do Colégio de S. José, entre 1932 e 1941. Começa a interessar-se vivamente pelo ensino da língua portuguesa junto da juventude chinesa, congeminando outras metodologias para chegar a uma didáctica inovadora, mais acessível na sua formulação e servida por uma pedagogia mais acolhedora das diferenças culturais. Publica em 1943 o “Método de Português para Uso das Escolas Chinesas”, em seis tomos, e que conhecerá dezenas de edições até aos dias de hoje. É uma obra inovadora, em todos os sentidos, que ultrapassa largamente o restrito Vocabulário Escolhido para uso dos Alunos do Seminário de S. José de Macau, publicado em 1920, considerado o ‘vade-mecum’ para a propedêutica da oralidade. Em 1943 é Cónego, porque a carreira eclesiástica corria em paralelo com a sua vida. Escrevia António André Ngan, em 1945, na apresentação pedagógica do seu trabalho: “Quem ler com atenção e conhecimento da língua chinesa esta segunda parte do primeiro volume do Método de Português, estranhará a original ordenação da linguagem chinesa que usamos. Não tive em vista apresentar uma tradução dos textos portugueses, segundo os moldes próprios da língua chinesa, mas procurei facilitar aos alunos chineses a maior compreensão das palavras e da construção das frases portuguesas. De facto é de toda a conveniência para os estudiosos chineses da língua portuguesa conhecer, desde o início da aprendizagem de língua tão diferente da sua, a correspondência de todos os vocábulos e expressões”. O objectivo era muito claro, proporcionar aos estudantes chineses a melhor aprendizagem possível da língua portuguesa, enfatizando, “repito que não foi minha intenção fazer literatura, mas apenas facilitar aos alunos chineses que desejem aprender bem a língua portuguesa, a mais exacta compreensão dos textos apresentados”. Conhecedor profundo da língua chinesa e da língua portuguesa, e das respectivas literaturas, adopta para cada aprendizagem uma didáctica especial. Por exemplo, na explicação dos numerais apresenta um sugestivo apontamento de história, ou nas orações comparativas dá realce à fortaleza e elegância de Guimarães ou, ainda, para os complementos circunstanciais de lugar não se esquece de mencionar nos exemplos a cidade de Macau ou a cidade de Cantão. Primoroso é igualmente o suplemento, “Alguns Modelos de Correspondência”, onde ensina como redigir diversos tipos de cartas, incluindo a arte de meter uma “cunha”, com uma redacção muito elegante e deixando transparecer uma fina ironia. No “Método de Português para Uso das Escolas Chinesas”, António André Ngan utilizou trechos de leitura dos seguintes autores: Guerra Junqueiro, Manuel Guilherme, Ataíde de Oliveira, Teófilo Braga, Trindade Coelho, Manuel Bernardes, Júlia Lopes de Almeida, António Vieira, António Feliciano de Castilho, Luís de Granada, António da Costa, Júlio Dantas, Adolfo Coelho e Rebelo da Silva. Traduziu para a língua chinesa João Livro Figuras_de_Jade_III.indd 27 08/11/2021 15:07
28de Deus (“No Berço”), Cristóvão Aires (“Conselhos Paternos”), Luís de Camões (o soneto Alma minha gentil, que te partiste) e António Correia de Oliveira (“Pela Pátria”), o que o credita como um dos pioneiros na divulgação de autores portugueses na comunidade escolar e académica chinesa.É destacado para assumir as funções de vice-reitor do Seminário de S. José, no longo período que medeia de 1945 até 1959, ano em que é nomeado Chantre, acumulando com a Paróquia das Ilhas, na Taipa. A partir de 1959 até 1966 fica a paroquiar a freguesia de S. Lázaro. Em 1966 é Governador do Bispado e até 1974 será Vigário Geral da Diocese. É o primeiro sacerdote de etnia chinesa a ascender a tão elevadas funções na estrutura da Diocese de Macau. O Bispo Paulo José Tavares, formado na escola diplomática do Vaticano, modernizou a anquilosada estrutura diocesana, colocando em paridade todos os sacerdotes do Padroado Português no Extremo Oriente, incluindo as remunerações. Em 1976 é elevado à dignidade de Monsenhor e em 1979 é Deão do Cabido da Sé. Em 1980, o Presidente da República António Ramalho Eanes condecora-o com o título de Comendador da Ordem da Instrução Pública.Os interesses intelectuais de António André Ngan seguem os caminhos da lexicografia. Partilha com A. H. de Mello e Luís Ho a Comissão de Redacção do “Dicionário de Chinês-Português” (1962) e do “Dicionário de Português-Chinês” (1969), ambos editados pela Imprensa Nacional de Macau, com sucessivas reedições e actualizações.Em 1973 edita a “Concordância Sino-Portuguesa de Provérbios e Frases Idiomáticas”, inicialmente publicada nas páginas do “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau”, a partir de 1969. Esta obra foi reeditada em 1998 pela Associação de Educação de Adultos de Macau, mercê do entusiasmo de João Manuel Leão. Jorge Rangel, então Secretário-Adjunto para a Administração, Educação e Juventude, escreveu no prefácio estas palavras inteiramente justas: “Através de paciente e intensa pesquisa e de um conhecimento profundo da língua chinesa, o Reverendo Monsenhor António André Ngan, um dos pioneiros na difusão da língua portuguesa junto da comunidade chinesa de Macau, compilou frases idiomáticas e provérbios com significado idêntico em ambas as línguas, criando assim um interessante método de aprendizagem dessas línguas”. É realmente um trabalho minucioso mas de grande abrangência, este em que reúne cerca de duas mil e seiscentas frases idiomáticas e provérbios, cuja hermenêutica fina nos mostra uma extraordinária similitude entre o pensamento português e o pensamento chinês, no campo dos provérbios e aforismos. Benjamim Videira Pires, em “Os Extremos Conciliam-se”, resumiu muito bem o valor deste trabalho: “É nos provérbios populares que melhor se revelam a sabedoria e a moral de um Povo. Ora o falecido Chantre António André Ngan demonstrou, numa Livro Figuras_de_Jade_III.indd 28 08/11/2021 15:07
29FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEcompilação feliz, a concordância ideológica e até muitas vezes metafórica entre a maioria dos provérbios portugueses e chineses. Nunca sublinharemos demasiado a importância desta descoberta”. O governo português de Macau, mediante o Decreto-lei Nº 72/84/M, de 7 de Junho, reorganizou os Prémios Escolares existentes (Prémio Governador de Macau; Prémio Luís de Camões; Prémio Dr. Nascimento Leitão; Prémio Infante D. Henrique; Prémio Ho Yin; Prémio Luís Gonzaga Gomes; Prémio Choi Leng Seong; Prémio Monsenhor António André Ngan), conferindo-lhes uma maior visibilidade perante a comunidade, com o consequente reforço da dignidade intrínseca.Assim, o “Prémio Monsenhor António André Ngan será atribuído a dois alunos de cada um dos graus dos cursos de difusão da língua portuguesa, traduzindo-se pela entrega de uma placa e um diploma alusivos ao referido prémio”. Pergunta-se à Direcção dos Serviços de Educação e Juventude se esta distinção, que honra a memória deste sábio linguista e sacerdote católico, continua a ser conferida anualmente aos alunos que estudam a língua portuguesa.Quando for escrita a história do ensino e da difusão da língua portuguesa em Macau, António André Ngan ocupará nela seguramente um lugar proeminente. Livro Figuras_de_Jade_III.indd 29 08/11/2021 15:07
30ANTÓNIO DA SILVA REGOAntónio da Silva Rego [1905-1986], natural de Joane, Vila Nova de Famalicão, oriundo de uma família com 14 irmãos, chegou a Macau em 1916, para o Seminário de S. José, cujo reitor era o padre António José Gomes, seu primo direito. O padre António José Gomes, figura influente e injustamente esquecida, era doutor em teologia e autor de diversas obras. Foi editor do jornal ‘A Pátria’, governador do bispado na ausência do Bispo D. José da Costa Nunes e manteve relações de amizade e de correspondência com o governador Rodrigo José Rodrigues. António da Silva Rego concluiu a sua formação em 1927, sendo ordenado sacerdote pelo Bispo D. José da Costa Nunes. Em 1928 é colocado na Missão de Singapura, durante uma década, tendo dado início a uma intensa actividade: pároco da Igreja de S. José, director da ‘St. Anthony’s Boys’ Afternoon School’, coordena o Apostolado da Oração, a Obra Pontifícia da Propagação da Fé e a Cruzada Eucarística das Crianças. Colabora no “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau” e no “Malaya Catholic Leader” e edita o “Anuário da Igreja de S. José”. António da Silva Rego, em Singapura, dizia que na comunidade, “nesta procura da Verdade, experimentam-se vários caminhos, como o confucionismo, o budismo, etc”, o que pode ser entendido como uma clara demonstração de tolerância religiosa e de respeito pelas opções de cada pessoa.Notando as suas invulgares qualidades intelectuais e achando-o capaz de estudar e de promover a divulgação da história das missões portuguesas no oriente e no extremo-oriente, o Bispo de Macau, D. José da Costa Nunes, envia-o para a Bélgica, em 1938, para cursar história na Universidade de Louvain, terminando a licenciatura em 1942. Um dos representantes maiores da visão imperial da história do Portugal ultramarino, António da Silva Rego constrói paulatinamente uma obra de grande fôlego, publicando, entre outros os seguintes títulos: “O Oriente e o Ocidente”, 1939; “O Padroado Português do Oriente”, 1940; “O Dialecto Português Livro Figuras_de_Jade_III.indd 30 08/11/2021 15:07
31FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEde Malaca”, 1942; “A Presença de Portugal em Macau”, 1946; “Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente – Índia”, 1947-1958, 12 volumes; “Macau e a Semana do Ultramar Português”, 1951; “Curso de Missionologia”, 1956; “As Gavetas da Torre do Tombo”, 1960-1977, 12 volumes; “O Ultramar Português no Século XIX”, 1961.Cultivou relações de amizade e de comunhão de interesses intelectuais, históricos e de investigação com Charles Boxer, Eric Axelson, Elaine Sanceau, Armando Cortesão, António Brásio, Jack Braga, Manuel Teixeira, Benjamim Videira Pires, Luís Gonzaga Gomes ou Torquato Sousa Soares, onde não raras vezes colocavam Macau no epicentro de várias iniciativas. Mas, apesar de todas as convergências estratégicas, António da Silva Rego defendia que “as missões, católicas ou protestantes, como função pública, estão sempre sujeitas a crítica. E bom é que assim seja. A indiferença por elas manifestada seria o seu pior inimigo”. Hoje, a moda dos estudos pós-coloniais, uma espécie de espuma neo-marxista, tende a desvalorizar estas singularidades, seguindo a vereda estreita por onde já andou o estruturalismo até desembocar no caixote do lixo da história.De resto, Macau era uma inesquecível paixão da juventude de António da Silva Rego. Regista com muito acerto esta perene delicadeza, “A fixação portuguesa em Macau tinha que assumir a forma de um convite. Foi aceite e devidamente agradecido. A vida do pequeno estabelecimento português na costa sul da China foi sempre, desde o início até ao presente, o testemunho duma íntima cooperação entre chineses e portugueses. Não faltaram atritos, por vezes bem desagradáveis. Mas não faltaram também horas de exaltação comum”. O remate do silogismo tem uma conclusão lógica simples, “A minúscula península macaense começou a ser a sala de visitas em que chineses e europeus passaram a receber-se e a encontrar-se”. Criou também esta metáfora que doravante será identificada com o verdadeiro espírito do Território, “Macau, semelhante ao bambú chinês, soube dobrar-se às inclemências do tempo, à espera que passasse o tufão, e que o deixasse erguer novamente a sua elegante haste para o céu”. Estava ciente das dificuldades da governação em qualquer contexto, “Se todos os governadores coloniais acham espinhosos os seus cargos, os de Macau acham o seu espinhosíssimo, tantas são as surpresas que imprevistamente exigem solução rápida e patriótica. As duas mentalidades – ocidental e oriental – encontram-se ali, naqueles poucos quilómetros quadrados, e será de desejar o impossível se não houver ocasionais choques ou oposições”. No caso concreto de Macau, no contexto da guerra, acrescia “o problema dos refugiados. São aos milhares, como se sabe. Exigem especiais cuidados, em razão de tudo quanto os rodeia. Pessoas desenraizadas, oriundas muitas vezes de meios cultos e abastados, obrigadas a viver de esmolas ou de subsídios, necessitam de amparo moral e material constante. Inquéritos recentes, realizados noutras regiões, revelam que os refugiados se interessam vivamente por assuntos religiosos, seguindo-se naturalmente numerosíssimas conversões”.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 31 08/11/2021 15:07
32António da Silva Rego esteve sempre inteiramente devotado ao ultramar, chefiou a Filmoteca Ultramarina Portuguesa e o Centro de Estudos Históricos Ultramarinos. Na Sociedade de Geografia de Lisboa, presidiu à Comissão Asiática e dirigiu a biblioteca da instituição. Foi Procurador à Câmara Corporativa, de 1953 até 1974, representando as dioceses ultramarinas e os institutos missionários, sendo igualmente Vogal do Conselho Ultramarino. Esteve ligado à organização dos Arquivos Históricos de Angola, de Moçambique e do Estado da Índia. Participa na modernização do Arquivo Histórico de Macau, de 1979 a 1982, então dirigido por Beatriz Basto da Silva. Preside à Academia Portuguesa de História e em 1966 é condecorado com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.Adriano Moreira escreveu, em 1961, no prefácio às “Lições de Missionologia”, esta síntese modelar da personalidade de António da Silva Rego: “o habitual entusiasmo e a sua exemplar devoção pelos interesses da ciência e do País”. Nem mais.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 32 08/11/2021 15:07
33FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEANTÓNIO MARQUES PEREIRAAntónio Feliciano Marques Pereira [1839-1881], natural de Lisboa, é porventura o fundador da macaulogia, esse conglomerado de estudos que elege Macau como o centro de uma problematicidade da aventura humana em terra sínica. Frequentou a Universidade de Coimbra, mas não termina o curso de direito porque a paixão pelo jornalismo foi mais forte. Como jornalista escreveu no “Arquivo Pitoresco”, na “Revista de Lisboa”, na “Ilustração Luso-Brasileira”, entre outros títulos. Em 1858 publica o romance “Uma Mulher do Século”, que não foi lá muito bem recebido pela crítica, essencialmente porque, aos dezanove anos, notoriamente lhe faltavam experiências e vivências na máquina do mundo. António Marques Pereira dirá mais tarde que o romance não mereceria uma terceira edição sem ser profundamente revisto.Parte para Macau em Abril de 1859, território então governado por Isidoro Guimarães e estando à frente da diocese D. Jerónimo José da Mata. Curiosamente, o seu Pai, o capitão de fragata Feliciano António Marques Pereira, fazia a viagem para a capital do Japão, em 1860, como comandante da Corveta D. João I, tendo publicado em 1863 um livro sobre essa odisseia. No dia 28 de Março de 1860, o “Boletim do Governo de Macao” traz estas premonitórias ideias programáticas de António Marques Pereira: “É talvez uma triste verdade, mas é uma verdade. Macao, esta bela cidade que se recosta segura e desmedrosa ao sopé do misterioso império, brilhando pela história que lhe reflecte o passado e pela ilustração que lhe ilumina o presente, não tem entretanto buscado na imprensa periódica o poderoso elemento civilizador que, não sofismada, esta sabe oferecer”. O lançamento dos estudos fundadores da história de Macau começaram com este primeiro passo. No “Boletim do Governo de Macao”, desde 1860, escreverá de tudo um pouco: notícias, contos, teatro, poesias, traduções, folhetins, polémicas, escolhendo notícias do reino e internacionais, ou relatos de viagens. Mas fez muito mais, orientou subtilmente o modo de os portugueses pensarem a China. Deixou de lado Livro Figuras_de_Jade_III.indd 33 08/11/2021 15:07
34o velho paradigma escolástico, tão bem retratado pela ironia de Rebelo da Silva em “A Mocidade de D. João V”, na pergunta, “Ah, padre Simões, como vai a China?”, para entrar numa contemporaneidade exigente, seleccionando e traduzindo notícias e ensaios estrangeiros, primando pelo pluralismo de opinião. Cito, a título de exemplo, o magnífico e longo ensaio, “A China e o Ocidente”, originalmente publicado no importante diário francês “La Patrie”.Em Maio de 1860 é nomeado superintendente da emigração chinesa, cargo que exerce até 1865, data em que é promovido a Procurador dos Negócios Sínicos. Vale a pena recordar que António Marques Pereira se casa em Macau, em 1861, com Belarmina Miranda, cujo pai, António José Miranda, era uma figura proeminente, pois tinha trabalhado numa empresa portuguesa na feitoria internacional de Cantão e sido secretário do governo de Macau entre 1844 e 1851, nos anos difíceis após o assassinato de Ferreira do Amaral, para além de ter desempenhado entretanto o cargo de contador da Junta da Fazenda e de pertencer ao Conselho do Governo. São destes tempos o “Relatório da Emigração Chinesa de Macau”, publicado em 1861, e o “Relatório Acerca das Atribuições da Procuratura dos Negócios Sínicos da Cidade de Macau”, de 1867, documentos de referência, mas negligenciados na história da sinologia portuguesa. António Marques Pereira desempenhou as funções de secretário em diversas missões oficiais no âmbito das negociações do Tratado Luso-Chinês de 1862.A Procuratura dos Negócios Sínicos era um organismo essencial no delicado equilíbrio da arquitectura jurídica da governação, mediando “o concurso, finalmente, de autoridades chinesas a governarem connosco a mesma cidade, tornavam sobremodo melindrosas e difíceis as nossas relações com o império vizinho, da boa direcção das quais dependia unicamente, se pode dizer, a manutenção dos nossos direitos, em razão da enorme distância da metrópole. Viu-se ainda que ao Procurador competia ser ministro da cidade nas multiplicadas negociações desse dificultoso trato”. O poder político metropolitano tinha constantemente de ser lembrado que “Devem as leis acomodar-se à índole e costumes do povo para que são feitas”. O jornal português de Hong Kong, “O Echo do Povo”, através de um artigo de António Silva e Sousa, acusou em 1869 António Marques Pereira de cometer várias irregularidades na gestão da Procuratura. A pendência resolveu-se em tribunal, saindo António Marques Pereira absolvido e indemnizado. O jornal “O Echo do Povo”, muito atreito a polémicas sensacionais, era financiado por Bernardino de Senna Fernandes e é legítimo pensar no peso de velhas malquerenças e quezílias com António José Miranda, sogro de António Marques Pereira, para ter promovido essa grave acusação.António Marques Pereira destaca-se ainda como secretário da Comissão Directora da Nova Escola Macaense, um projecto educativo pioneiro que também abrangia a escolarização do sexo feminino. Afirmava que “não é somente preciso o Livro Figuras_de_Jade_III.indd 34 08/11/2021 15:07
35FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEsaber para o homem viver na sociedade ilustrada e ocupar os cargos públicos; o saber é, como já dissemos, o pão do espírito, é uma delícia intelectual”.Mas, é no jornalismo de ideias, no “Ta-Ssi-Yang-Kuo. Semanário Macaense d’Interesses Públicos Locais, Literário e Noticioso”, publicado desde 8 de Outubro de 1863 até 26 de Abril de 1866, que António Marques Pereira irá brilhar e afirmar-se como um grande investigador, construtor da história de Macau e da macaulogia. Criou neste jornal uma inovadora secção literária intitulada ‘Bibliografia Macaense’, sob este princípio: “A bibliografia de uma terra dá a feição do seu povo e o conhecimento da sua história. Os livros são em toda a parte o precioso legado pelo qual as gerações, para assim dizer, se transmitem vivas às que lhes sucedem”. Estava ciente de que existia um outro perigo, contra o qual era necessário lutar sem desfalecimento, “a acção destruidora de um clima que parece escolher de preferência as bibliotecas e arquivos para os reduzir a pó em não longos anos”. Referenciou e estudou autores e obras, hoje infelizmente em parte incerta, como a “Memória sobre a Gramática Filosófica”, publicada em 1813, pelo padre Joaquim José Leite, que também publicou a “Cartilha Macaense”, em 1850. Este trabalho bibliográfico, metódico e amorosamente minucioso, foi continuado na contemporaneidade por Luís Gonzaga Gomes.Em 1868 dá à estampa as “Efemérides Comemorativas da História de Macau e das Relações da China com os Povos Cristãos”, que abre com a citação de um aforismo clássico chinês, “a comemoração dos factos deleita e instrói” , em tradução de Pedro Nolasco da Silva Júnior. É uma obra intrinsecamente valiosa que também serviu para suportar historicamente algumas questões políticas e jurídicas nos Tratados de Portugal com a China. O livro “As Alfândegas Chinesas de Macau” surge em 1870 e três anos depois publica “O Padroado Português na China”. Não chegou a publicar “Portugal e a China. Relatório das Missões Diplomáticas Portuguesas ao Império China em 1862 e 1864”.Envereda pela carreira diplomática, é colocado como Cônsul de Portugal no Sião (1875-1881), e em 1881 é Cônsul em Bombaim, posto no qual faleceu prematuramente nesse mesmo ano. Era Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.Estranhamente, a “rica biblioteca orientalista” de António Feliciano Marques Pereira foi leiloada em 1918 pela Livraria Lusitana, até porque o seu filho, João Feliciano Marques Pereira, foi um devotado investigador, historiador, jornalista e deputado por Macau. A Sociedade de Geografia de Lisboa guarda o precioso “Fundo documental Marques Pereira”, símbolo da riqueza de num legado que vale a pena compulsar.Em 1942, na “Galeria de Macaenses Ilustres do Século XIX”, o emérito historiador Monsenhor Manuel Teixeira, estudou a vida e a obra de António Feliciano Marques Pereira, prestando-lhe a justa homenagem que lhe era devida. Esperamos que não tenha sido a última vez.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 35 08/11/2021 15:07
36ANTÓNIO MOREIRA CABRALAntónio Moreira Cabral [1833-1911], natural de Cête, concelho de Paredes, no distrito do Porto, começou a trabalhar aos 13 anos na Rua das Flores, um dos territórios tradicionais dos ourives na cidade do Porto. Subiu na vida a pulso e aos 30 anos estava estabelecido por conta própria. Amealhou paulatinamente uma enorme fortuna, investindo numa grande colecção de cerâmica [mais tarde comprada pela Câmara Municipal do Porto], e coleccionando pintura, mobiliário antigo e joalharia diversa. Não consta que tivesse viajado para muito mais além do que as fronteiras do distrito do Porto, sequer pensado em tomar um navio para o Brasil ou para África. A sua paixão era a cultura, o conhecimento, os livros e as obras de arte. Joaquim de Vasconcelos [o marido de Carolina Michaelis] escreveu com graça: “um negociante, vivendo há 40-50 anos, ocupado com letras improdutivas, em vez de ganhar e amontoar pintos e boas moedas! Que desperdício de tempo! que falta de tino económico! diziam os colegas da rua das Flores. Que coragem! que gosto discreto! diremos nós. Que entusiasmo pelas glórias nacionais!”. Era um burguês ilustrado e filantropo, daquela estirpe que Camilo Castelo Branco transplantava para os seus romances.Com o tempo foi construindo uma grande livraria, com mais de sete mil volumes, recheada de preciosidades bibliográficas. Pelo Catálogo podemos constatar isso mesmo, o critério amoroso e compulsivo do coleccionador de raridades e a faceta de leitor voraz. Citamos a título de exemplo: A “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, de 1762; A “Ásia Portuguesa” de Manuel de Faria e Sousa, de 1666; As “Décadas da Ásia” de Diogo do Couto, de 1736. Mas há muito mais. As obras completas de Camilo Castelo Branco, António Feliciano de Castilho, Padre António Vieira, Garrett, Bocage e tantos outros, portugueses e estrangeiros. Ou as “Constituições do Arcebispado de Goa”, de 1810. Edições impressas em Macau, de Livro Figuras_de_Jade_III.indd 36 08/11/2021 15:07
37FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEPedro Gastão Mesnier ou Feliciano A. Pereira. A colecção de obras judaicas também era notável. Possuía o único exemplar conhecido em toda a Península Ibérica da obra de Samuel Usque, “A Consolação às Tribulações de Israel”, de 1552. A partir desta obra, e por solicitação do professor Mendes dos Remédios, permitiu que ela fosse reeditada em Coimbra, em 3 volumes, em 1906-1907. António Moreira Cabral promoveu a edição do “Espelho de Casados” de João de Barros, a partir da primeira edição, de 1540. Patrocinou diversos livros, entre eles as “Antiguidades do Porto”, de Simão Rodrigues Ferreira, em 1875. Entre os seus amigos mais conhecidos, estavam o escultor Soares dos Reis, Sampaio Bruno, Mendes dos Remédios, Carolina Michaelis, Tito de Noronha, o Abade de Miragaia, Oliveira Martins, Conde de Samodães ou Joaquim de Vasconcelos. Era um bibliófilo altruísta, como bem se nota.Mas a joia da coroa era a sua colecção camoniana. Era impressionante a qualidade e a quantidade de edições de “Os Lusíadas”: 1584, 1597, 1609, 1613, 1626, 1639, 1670, e muitas outras edições até ao ano de 1910. Possuía traduções de “Os Lusíadas” em diversas línguas: latim, espanhol, italiano, francês, inglês, alemão, sueco, polaco e húngaro. António Moreira Cabral era um ilustrado e erudito camoniano, tendo sido um dos fundadores da “Sociedade Nacional Camoniana”, no Porto, em 1880, que era “a reunião de todos os indivíduos de ambos os sexos, que queiram contribuir para o maior esplendor das letras pátrias, e em especial, para perpetuar a memória literária de Luiz de Camões, e de sua escola”. Os outros fundadores eram o Conde de Samodães, o historiador Oliveira Martins e os professores Augusto Luso e Joaquim de Vasconcelos.António Moreira Cabral publicou as obras seguintes: “O Passamento de Camões”, 1888; “O Naufrágio de Camões”, 1889; “A Camões: comemoração ao aniversário 310º do seu passamento”, 1891; “O Regresso de Camões”, 1898. Colaborou na imprensa portuense, com artigos diversos e muitas poesias. Provavelmente cruzou-se na “Revista da Sociedade de Instrução do Porto”, com José Gomes da Silva que aí publicou o estudo “Herborização e Herbários”, na edição de 1 de Janeiro de 1881. Pouco tempo depois José Gomes da Silva embarcava com destino a Macau. Foram ainda editados dois Catálogos, organizados por Joaquim de Vasconcelos, e que contaram com a sua colaboração: “Catálogo dos Livros Clássicos e Raros que Compõem a Biblioteca de António Moreira Cabral”, 2 volumes, 1908/1909; “Catálogo da Cerâmica Portuguesa – antiga Colecção António Moreira Cabral”, 1909.António Moreira Cabral escreveu este poema dedicado a Camões em Macau, publicado em 1910, e que merece ser resgatado do esquecimento:Livro Figuras_de_Jade_III.indd 37 08/11/2021 15:07
38CAMÕES EM MACAUNa gruta de Macau, Camões buscavaAlento, um novo alento para a vida,Pelo mundo em pedaços repartida,Num esforço que as forças redobrava.Junto dele o seu Jau o contemplavaNuma expressão aflita, enternecida,Ao ver-lhe a cor do rosto já perdida,Co’as saudades da pátria que adorava.Das longínquas paragens do OrienteOs perigos da guerra não temiaSeu génio altivo, bélico e potente.Mas, ali, de Natércia mais sentiaA dura ausência, o seu amor ardente,Pois só nela pensava noite e dia.Junho 1910A circunstância de não ter descendentes e pelo facto de ter problemas de saúde agravados com a cegueira, compeliu-o a desfazer-se da sua biblioteca, com excepção dos livros que lhe foram autografados com dedicatória, e das suas colecções de arte. Foi um grande benemérito da Santa Casa da Misericórdia do Porto e da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa no Porto. O seu nome está na toponímia de Paredes.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 38 08/11/2021 15:07
39FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEAUGUSTO LUSOAugusto Luso da Silva [1827-1902], conhecido como Augusto Luso, foi um prestigiado intelectual portuense, poeta e naturalista, com uma presença regular nos jornais e nas revistas literárias e científicas do seu tempo, nomeadamente em “O Primeiro de Janeiro”, a “Lira da Mocidade”, “A Esperança” ou o “Jornal de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais”. Autor de compêndios escolares, era professor no Liceu do Porto, leccionando ciências e geografia. Chegou mesmo a inventar um aparelho, o “Isemerioscópio”, para aplicação nos cálculos geográficos. Sampaio Bruno escreveu que “Augusto Luso foi um amigo sincero da humanidade e um crente firme no progresso da civilização; ele só odiou o ódio, expresso na intolerância rancorosa”. Legou-nos uma obra interessante e diversificada: Rimas, 1853; Moluscos Terrestres e Fluviais de Portugal, 1868; Impressões da Natureza, 1871; Elementos de Geografia e Corografia de Portugal, 1888, 4ª edição; Cronologia Doméstica, 1895. Em 1907 foi publicada a obra póstuma, Últimos Versos, com o prefácio de Sampaio Bruno. É deste livro que retiramos o esquecido e sugestivo poema dedicado à estadia de Luís de Camões em Macau.CAMÕES NA GRUTA DE MACAULonge da pátria, dos amigos longe,Mas, só na pátria o pensamento e o amor,Eis o guerreiro solitário monge,Eis dos poetas o melhor cantor!Livro Figuras_de_Jade_III.indd 39 08/11/2021 15:07
40Ei-lo na gruta de Macau sombria,Em pensamentos e saudades mil!Quase divino, para o céu, erguiaPálida a fronte, o seu olhar gentil!Calada a lua, silenciosa passa,Deixando o vate contemplando o céuQue o livro amigo num transporte abraça,Cofre d’amor, e sentimento seu.Oh! que lembranças, quando passa a lua…Oh! que desejos!... que saudade então!...Novas da pátria!... d’essa terra sua!...Oh! como o peito lhe palpita em vão!...- Brisas da pátria, refresquei-me a vida,Trazei-me o orvalho do meu Tejo e mar;Dos meus os ecos dessa voz querida,Novas da pátria, do meu pátrio lar!...- Vem ajudar-me, inspiração sagrada!Vem Catherina, mitigar-me a dor!Guia-me a pena, como guiaste a espada!Fiel soldado, sou leal cantor.- Mas… sou amado!? ...viverei contenteNeste desterro, nesta dor feliz!...A voz erguendo, para a minha gentePadrão levanto e para o meu país.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 40 08/11/2021 15:07
41FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEAUSTIN COATESDiplomata, administrador e escritor, Austin Coates [1922-1997], de seu nome completo Austin Francis Harrinson Coates, natural de Londres, filho único de um músico e de uma actriz, teve a sua vida profissional e pessoal aventurosamente espalhada pelo gigantesco mosaico formado pelo império colonial britânico, cujo ocaso acompanhou com a descolonização. Se Macau foi uma paixão assumida, Portugal foi a tranquila estação final da sua vida, tendo falecido na sua casa em Colares, no concelho de Sintra. Nasceu inglês mas terá morrido como português de Macau.Após os estudos em Londres e em Paris e com a segunda guerra mundial no horizonte imediato, Austin Coates é oficial da Royal Air Force Intelligence sendo destacado sucessivamente para a Índia [onde priva com Gandhi], para a Birmânia, para Singapura e para a Indonésia. O seu espírito reflexivo, a faceta de curioso observador dos costumes e da natureza humana e o gosto pela história, constituirão um precioso capital acumulado para futuros empreendimentos intelectuais e culturais. Com o fim da guerra, Austin Coates entra para a carreira diplomática através do British Colonial Civil Service, sendo colocado em Hong Kong em 1949, como assessor do governador Sir Alexander Grantham e responsável máximo pelas edições governamentais da colónia inglesa até 1952. Visita Macau pela primeira vez em 1949 e desde então perdeu a conta às suas estadias, mais fugazes ou mais longas. Sai de Hong Kong em 1957 com destino à Malásia onde, entre outras funções é secretário do governador de Sarawak e adjunto do alto-comissário britânico em Kuala-Lumpur. Em 1965 é director do turismo em Singapura. Austin Coates começava a dar sinais de saturação em virtude da sua errância profissional nas antigas colónias britânicas e das múltiplas tarefas que lhe eram cometidas em termos diplomáticos, administrativos e de ‘intelligence’. Com uma queda para as línguas, era fluente em francês e malaio e com um interessante desembaraço em português e em cantonense, manteve ao longo dos anos uma amizade estreita com Livro Figuras_de_Jade_III.indd 41 08/11/2021 15:07
42Charles Boxer, Jack Braga e Luís Gonzaga Gomes. Para além do enamoramento por essa antiga cidade-estado, irmanava-os também uma patriótica ligação aos serviços secretos do mundo livre, iniciada com a segunda guerra mundial. Decide então assumir-se, a partir de 1966, como escritor profissional, aceitando e executando também trabalhos de publicidade, de investigação e de turismo. Dedica a Macau três livros: “Macao and the British, 1637-1842: Prelude to Hong Kong”, 1966; “City of Broken Promises”, 1967; “A Macao Narrative”, 1978 – a versão portuguesa recebeu o título de “Macau, Calçadas da História” e foi publicada em 1991, que, diga-se em abono da verdade, é uma obra extraordinária, do melhor que se tem escrito sobre o Território. O facto dos livros terem sido publicados na língua inglesa contribuiu para uma difusão internacional sem precedentes da peculiar história luso-chinesa de Macau. Escreveu Austin Coates: “Associo sempre Macau a Veneza. E, sempre que acordo numa delas, pergunto-me invariavelmente em qual das duas me encontro. Esta associação nada tem a ver com canais, já que Macau não tem nenhum. O paralelismo advém, por isso, do facto de ambas terem sido outrora os principais entrepostos comerciais de todo o mundo, apesar de se circunscreverem, tanto uma como outra, a um diminuto segmento de terra rodeado de braços de mar – que, no entanto, não chegam a formar uma ilha. A diferença, porém, é que Macau nunca teve uma Ponte dos Suspiros, nem calabouços, nem Inquisição. A história da fundação de Macau sempre me fascinou”. É com esta escrita romanesca e sedutora que Austin Coates começa a desfiar a sua visão da história de Macau, justamente intitulada “A Macao Narrative” e que parte claramente do estudo e conhecimento da história de Portugal, segundo a perspectiva da historiografia inglesa ou anglo-saxónica. Chegou mesmo a traduzir para a língua inglesa, mas sem pensar na publicação, o clássico de Manuel Pinheiro Chagas, a “História Alegre de Portugal”. Para todos os efeitos, nota que “os Portugueses tinham conseguido estabelecer-se como amigos. Considerando que a China era, entre todos os países, o de mais difícil trato, o estabelecimento dos Portugueses em Macau, num espírito de concórdia e entendimento tácitos, constitui um dos momentos mais altos dos anais do relacionamento entre o Oriente e o Ocidente”. As relações entre os chineses e os portugueses tiveram as suas divergências e crispações, como se pode ler na interessante ‘Monografia de Macau’ [Ou Mun Kei Leok], escrita no século XVIII por dois letrados e que Luís Gonzaga Gomes traduziu para a língua portuguesa em 1950 e que conhecerá outra edição em 2009 [Aomen Jilue], da responsabilidade de Zhao Chunchen e tradução de Jin Guo Ping. Austin Coates estava convencido de que “Os chineses decidiram ignorar a nova cidade. Do seu ponto de vista, a península constituía uma fracção do país, na qual autorizavam a permanência de estrangeiros que não pagavam tributo, mas pagavam impostos. Os Portugueses, contudo, reivindicavam direitos soberanos sobre a cidade, que lhes Livro Figuras_de_Jade_III.indd 42 08/11/2021 15:07
43FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEhavia sido dada por concessão. Foi desta divergência de pontos de vista que surgiu Macau”. E também o fascínio de Coates. Em 1952, no Instituto Português de Hong Kong, vai dando umas palestras sobre a história da presença inglesa na China meridional e sobre o amanhecer da nova colónia britânica, acabando Macau por estar omnipresente, sobretudo por causa do papel decisivo dos portugueses: “É que, de facto, se torna impossível imaginar como poderiam essas novas comunidades ter sobrevivido sem os Portugueses, especialmente em virtude de dominarem também a língua chinesa. Quando o governo de Hong Kong nada mais era que um grupo de três homens numa tenda montada na praia, um deles era português, o mesmo acontecendo também um pouco por toda a recém-fundada colónia”. Regista igualmente este curioso pormenor, que tem escapado à história e à sociologia das profissões: “A indústria tipográfica – única forma de trabalho manual a que os Portugueses se dedicavam – tornou-se virtualmente um monopólio seu em Hong Kong e Xangai por mais de cem anos”.O fascínio por algumas figuras, por exemplo, o “ouvidor de Macau, Miguel de Arriaga Brun da Silveira, uma das mais intrigantes, hábeis, traiçoeiras e desconcertantes personalidades que Macau conheceu (e foram bastantes...) ao longo da sua história”, pela coragem de João Ferreira do Amaral e Vicente Nicolau de Mesquita ou por Robert Morrinson, um “homem sisudo e de espírito tacanho, cujo único feito digno de registo fora a tradução da Bíblia para chinês”, leva-o à construção romanceada da biografia dessa misteriosa personagem que foi Martha van Mierop, que legou uma fortuna colossal à Santa Casa da Misericórdia de Macau. No romance histórico, “City of Broken Promises”, publicado em 1967, Austin Coates desenha uma cartografia emocional, afectiva e histórica de Macau, pressentindo-se alguma influência da ousadia de Montalto de Jesus e da inteligência racionalista de Manuel da Silva Mendes. A obra não caiu no goto na ala mais conservadora da comunidade intelectual do Território, talvez pela ênfase dada a um conceito de felicidade que era representativa de uma superioridade da ética protestante. Nada escapava ao crivo do padre Manuel Teixeira, que nas páginas de ‘O Clarim’, em 1968, se entreteve a recensear as incongruências do romance, em forma de polémica mansa e muito clericalizada.Entretanto, Austin Coates vai escrevendo e publicando de uma forma imparável. Retenho apenas alguns títulos: “Invitation to an Eastern Feast”, 1953; “Personal and Oriental”, 1957; “The Road”, 1959; “Rizal, Philippine Nationalist and Martyr”, 1968; “Myself a Mandarin: Memoirs of a Special Magistrate”, 1968; “Whampoa, Ships on the Shore”, 1980; “China Races”, 1983.Considerava que “Macau faz parte – e de que maneira! – do monumento mundial em honra do feito português de aproximar a Europa da Ásia em benefício de toda a humanidade. No entanto, apesar de apaixonadamente vinculada a Portugal, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 43 08/11/2021 15:07
44Macau sempre viveu uma vida independente, ainda que integrada numa rota comercial asiática unicamente ligada à Europa por dois pontos distantes”. Não era uma observação ingénua, pelo contrário, representava um olhar atento para o imenso repositório pensado no interior da história de vida dos povos e cujas figuras mais híbridas são difíceis de arrumar em virtude da sua racionalidade confusa.Austin Coates aplica na perfeição “A Metáfora Viva”, de Paul Ricoeur, nesta evocação: “No outro dia, ao deambular pela Gruta de Camões, reparei num jovem chinês, estudante, caminhando vagarosamente ao mesmo tempo que lia um livro. Tão embrenhado estava na leitura que, por certo, não se apercebia do rumo que tomavam os seus passos. Passando lentamente frente ao busto do imortal Camões, o jovem lia, absorto, os poemas do também imortal Li Po, o Omar Khayyám da China”. Esta nova objectividade é essencialmente simbólica porque constrói um sentido e activa os mecanismos sedutores da razão.Vale a pena mencionar estes dois estudos sobre o escritor. João Guedes publica um notável artigo, “O Gentleman de Colares”, em 1997, na II série da Revista Macau. Mas a obra de referência é de Rogério Puga que apresenta em 2009, “A World of Euphemism. Representações de Macau na obra de Austin Coates”. Talvez representem, sem o querer, uma reparação para o injusto esquecimento oficial a que foi votado. O seu espólio [fotografias, manuscritos, diários, correspondência, documentos, etc.] está preservado no ‘Howard Gotlieb Archival Research Center’, da Universidade de Boston, nos Estados Unidos da América.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 44 08/11/2021 15:07
45FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTECAMILO CASTELO BRANCOCamilo Castelo Branco (1825-1890) é um escritor que dispensa qualquer apresentação, tamanha é a grandeza da sua obra e a vastidão da sua influência na cultura portuguesa, particularmente no espírito das sucessivas gerações dos seus leitores. Nunca esteve no Oriente, mas em algumas obras, por exemplo, “O Senhor do Paço de Ninães” (1867), os seus personagens jornadearam por Macau e pela China, sem esquecer aquela misteriosa “Madame Paiva”, a “macaense”, que abre a “Boémia do Espírito”, de 1886.O ‘Club Portuguez’ de Hong Kong, “mediante a insignificantíssima contribuição anual de uma pataca (!)”, proporcionava aos seus associados “o direito a ir fruir quotidianamente a leitura” de jornais e de livros, com o objectivo de se instruírem e de não perderem os vínculos com a língua e a cultura portuguesas.Camilo Castelo Branco era, pois, um escritor amado e lido com paixão. Daí a homenagem que os portugueses radicados em Hong Kong lhe prestaram. Também é justo relevar que só uma comunidade muito especial, como a portuguesa de Hong Kong, com uma invulgar sensibilidade cultural, é que honrava um escritor vivo como Camilo Castelo Branco.‘O Independente, jornal político, noticioso e comercial’, que se publicava em Hong Kong, inseriu na edição de 2 de Outubro de 1869, no Nº 3, Volume 1, a seguinte notícia:“Homenagem ao MéritoOs sócios da Biblioteca Portuguesa, nesta colónia, tendo brindado o sr. Camilo Castelo Branco com uma Taça de prata no gosto chinês, receberam a honrosa carta, que vai publicada neste jornal, em que o festejado escritor agradece, com modestas expressões, o testemunho de admiração e respeito de seus desconhecidos amigos cá do Extremo Oriente. Sem risco de ofendermos a modéstia Livro Figuras_de_Jade_III.indd 45 08/11/2021 15:07
46do autor das Estrelas Propícias, diremos que foi preconizável o pensamento da oferta e as moralizadoras obras do grande fotógrafo do coração humano, sendo de tão geral celebridade e porventura as mais conhecidas aqui na China, tornam-no credor ainda de maiores encómios”.É necessário lembrar que o jornal “O Independente”, [a Biblioteca Nacional Digital disponibiliza uma cópia digital quase integral] era uma publicação muito aguerrida com a cultura da polémica e de uma acutilante intervenção cívica e política, teve uma vida relativamente longa mas instável, desde 1868 a 1898, primeiro em Macau e depois em Hong Kong para fugir às perseguições políticas e consequentes encerramentos por ordem judicial, regressando finalmente a Macau.A comovida carta enviada por Camilo Castelo Branco, publicada em “O Independente” no dia 2 de Outubro de 1869, é a seguinte:“Ilmos, Exmos Srs.Sócios do Gabinete de Leitura de HongkongS. Miguel de Seide, 27 de Junho de 1869Recebi o valiosíssimo brinde com que v. exas. me honram e indemnizam. Este galardão é a moeda de glória que desculpa a ufania e talvez a vaidade do escritor que, no lapso de vinte anos, empenhou todos os seus recursos em seguir, mas de longe que seja, os mestres que já encontrou festejados no labor de romance de linguagem e costumes portugueses.Conquanto senhores, se haja escrito com injusta bem-querença que eu fui o criador da novela portuguesa, eu, de mim, nunca me desliguei das obrigações de discípulo de Garrett, de Herculano, de Rebello da Silva, de Mendes Leal e d’Andrade Corvo. E se alguns dos quatro eminentes adaís da mocidade estudiosa, que ainda vivem, e fulgem a primeira luz das letras portuguesas, carecesse de cumular prémios, a preciosa taça que v. exas. me enviam com tão afectiva benevolência, decerto não devera ser-me enviada a mim.Quiseram v. exas., porém, com a usual complacência das almas generosas, achegar a luz do seu louvor onde viram mais obscuridade. Souberam, porventura, que o autor dos fúteis livros que v. exas. leram em horas feriadas de suas honrosas lides, é um homem laborioso, sem mais distinções sociais que a condecoração de dever a si mesmo quanto é de não ter ainda chegado já o precoce inverno da sua existência, recebido de Portugal ou de portugueses prémio moral de seu trabalho senão o que V. Exas. lhe confirmam magnanimamente. Isto é de agradecer com uma alegria de coração, certo única de que deixo memória nesta alfaia em que V. Exas. mandaram lavrar com buril primoroso a história compendiada de todas as Livro Figuras_de_Jade_III.indd 46 08/11/2021 15:07
47FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEminhas glórias literárias, e também a recordação do único sentimento de louvável orgulho, que me deram os meus pobres livros.Tristemente, porém, direi a V. Exas. que este prémio já vem tarde como incentivo a melhorados tentames e mais beneméritos serviços à história social e íntima da nossa portuguesa índole. Uma pertinaz doença me vai apagando de dia para dia esta interior claridade que me banhava de suave luz as imagens com as quais V. Exas. comunicavam a sua piedade ou os seus sorrisos. Tudo me vai fugindo como aves do céu de pardieiro que desaba; e o que ainda vejo puro, formoso e santo na minha alma e nos meus braços são dois filhinhos a quem legarei a taça de V. Exas. E eu lhes direi que seu pai não recebeu nem legou outro título de nobreza. Bem pode ser, senhores, que este brasão lhes seja a eles estímulo a ultrapassarem a quase insensível glória de seu pai. Se assim for, a dívida em que fico, já pode ser que eles a saldem. Peço a V. Exas. me concedam a honra de me assinar de V. Exas. amigo reconhecidoCamilo Castelo Branco”.Esta importantíssima e notável carta esteve esquecida na imensa floresta epistolar de Camilo Castelo Branco, foi encontrada e recuperada por Daniel Pires, um grande e probo investigador da cultura portuguesa e da cultura portuguesa de Macau, que a publicou no seu “Dicionário Cronológico da Imprensa Periódica de Macau do Século XIX (1822-1900)”, sob a chancela do Instituto Cultural de Macau, em 2015. É por demais evidente a necessidade de se pensar na publicação do segundo volume desta meritória obra.Neste ano de 1869, Camilo Castelo Branco recebe a comenda de Carlos III, de Espanha, e lança “Os Brilhantes do Brasileiro”. Os jornais de Macau publicam em folhetim diversos contos da sua autoria, contribuindo para amplificar ainda mais a notoriedade de um clássico aparentemente perdido no romantismo.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 47 08/11/2021 15:07
48CARLOS BORGES DELGADOCarlos Borges Delgado [1887-1941], transmontano de Curalha, no concelho de Chaves, era formado em Matemática pela Universidade de Coimbra, tendo sido aluno de Sidónio Pais e condiscípulo de, entre outros, António de Oliveira Salazar e de Manuel Gonçalves Cerejeira que cursavam Direito e Letras. Nesse tempo, pontificavam na Universidade professores de nomeada como Eugénio de Castro, Carolina Michaelis ou Elísio de Moura. Em Coimbra, Carlos Borges Delgado fará o seu tirocínio na maçonaria e nos movimentos republicanos e conclui a formação pedagógica que o habilitará para o magistério liceal.Em 1919 aporta a Macau com a família, e é colocado no Liceu, onde leccionará Matemática e Ciências Naturais. No dia 8 de Maio de 1920, o Governador Henrique Correia da Silva nomeia Carlos Borges Delgado como Reitor do Liceu Central de Macau. É o início de um longo reitorado, quase nove anos, interrompido apenas nos derradeiros meses de 1925, quando se desloca a Portugal para gozar uma licença graciosa. É substituído interinamente por Camilo Pessanha e por Humberto Severino de Avelar, retomando o cargo logo à boca das férias de Natal de 1925. Joaquim Paço d’Arcos, nas suas “Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo”, recorda “o dr. Borges Delgado segundo reitor que conheci no Liceu de Macau, era um bom professor de matemática, pai de um numeroso rancho, homem simpático e lhano”.É no decurso do reitorado de Carlos Borges Delgado que o Liceu de Macau consolida o seu estatuto de instituição escolar com um projecto cultural aberto à comunidade. O Reitor escreveu o hino da Escola e trouxe para Macau a “marca coimbrã”: os alunos envergavam capa e batina, tinham um grupo teatral, um orfeão, uma tuna e uma publicação periódica “A Academia”. Fizeram espectáculos em Macau, em Cantão e em Hong Kong. Criou assim uma identidade cultural muito forte, uma ‘alma mater’, à qual associou práticas desportivas como o ténis, a Livro Figuras_de_Jade_III.indd 48 08/11/2021 15:07
49FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEesgrima, a natação, entre outras modalidades. Um antigo aluno, e mais tarde Reitor, Énio da Conceição Ramalho, guardava uma memória viva desses tempos já recuados, tendo registado na II Série da Revista Macau: “Dirigia nesse tempo o Liceu o Dr. Borges Delgado, que durante anos deu à escola o melhor do seu esforço. Teve a virtude de condimentar a aridez da vida escolar, fomentando o gosto pela música, sendo ele mesmo o ensaiador e director da primeira tuna académica do Liceu. Também introduziu, como actividade extra-curricular, a prática teatral. Era também o Reitor quem dirigia os ensaios, quer da tuna, quer do teatro, numa das salas do velho edifício do Liceu, situado junto ao campo de Tap Seac, onde aos domingos se disputavam os jogos de hóquei em campo. Os frutos dessa actividade artística tiveram apreciável expressão na vida da cidade, pois o seu impulsionador conseguiu levar à cena, no teatro da terra, alguns espectáculos, nos quais se exibiram, em conjunto, a tuna e o grupo cénico. O bom acolhimento por parte do público transformou esses passatempos singelos em verdadeiros êxitos de palco e tornaram-se populares alguns pequenos actores que neles se distinguiram”.Em 1921 publica o seu primeiro livro, “Dispersos”, na Tipografia do Orfanato da Imaculada Conceição. Ele caracteriza-o desta forma: “são pedaços d’alma, estes 17 contos. Traduzem o sentir rude e puro dum transmontano”. Presta no livro uma homenagem ao génio literário de Camilo Pessanha, talvez o mais explícito reconheci-mento em Macau. Esta intensa actividade de Carlos Borges Delgado não passa despercebida. É eleito Presidente do Leal Senado, a 25 de Junho de 1922, que acumula com o cargo de Reitor e a leccionação de duas turmas de Matemática. No acto de posse afirma, “orgulha-se também em poder dizer bem alto que, tanto ele como os seus colegas, assumiram aquele encargo simples e unicamente para trabalhar, mas trabalhar afincadamente e incansavelmente em prol daqueles que têm o sagrado direito de serem ouvidos – todos os munícipes”. Na sequência das greves gerais e da instabilidade política, a sua maior preocupação “eram os ataques à bomba nos bairros chineses” dizendo também que “nenhum de nós esqueceu as minúcias estratégicas que os nossos inimigos chineses usaram para nos rebaixar e achincalhar”. E logo na primeira reunião do Leal Senado, em 26 de Junho de 1922, a vereação sob a presidência de Carlos Borges Delgado descobre que no Cofre Municipal só existia a quantia de 4.000,00, claramente insuficiente para pagar os salários, que ascendiam a 10.000,00. É claro que esta situação anómala deu muito que falar nos meandros da comunidade portuguesa. Foi necessário, nesta emergência, pedir um adiantamento à Caixa do Tesouro. A vereação anterior presidida por Francisco Xavier Anacleto da Silva e que foi sucedido por Luís Gonzaga Nolasco da Silva perdeu a face e ficou melindrada com a situação. Palavra puxa palavra entre Luís Gonzaga Nolasco da Silva e Carlos Borges Delgado, criou-se um clima socialmente Livro Figuras_de_Jade_III.indd 49 08/11/2021 15:07
50insuportável, até que o segundo se declara ferido na sua honra. A solução para o impasse? Carlos Borges Delgado desafia Luís Gonzaga Nolasco da Silva para um duelo à pistola. Sim, leu bem, um duelo à pistola em Macau, no ano da graça de 1922! Reuniram-se Alfredo Rodrigues dos Santos e César Augusto Torres [testemunhas de Carlos Borges Delgado] e Camilo Pessanha e João Gregório Fernandes [testemunhas de Luís Gonzaga Nolasco da Silva] a fim de dirimirem a pendência suscitada por uma afirmação de Luís Gonzaga Nolasco da Silva transcrita pelo jornal “O Liberal” e que Carlos Borges Delgado reputou como ferindo a sua dignidade. Por acordo unânime das testemunhas foi escolhido o livro, “Regras do Duelo” [de Eduardo Jayme Picaluga, editado em Leiria, 1901], para regular a pendência. Reunidas as testemunhas e exposta a questão, Camilo Pessanha toma a palavra argumentando que “não tinha existido o intuito de ofender e melindrar” e que o jornal “O Liberal” tinha “transcrito mal as palavras”. As outras duas testemunhas foram sensíveis ao argumento, aceitaram a justificação e consideraram encerrada a pendência “com honra para as duas partes”. Caso contrário, haveria duelo. A comunidade respirou de alívio. É necessário recordar que os duelos foram proibidos em Portugal, por iniciativa de António José de Almeida em 1911, sendo criado um Tribunal de Honra. A “Acta”, um documento público, era o sucedâneo desse tribunal, rapidamente caído no esquecimento. O jornal “O Liberal”, de 16 de Setembro de 1922, publicou a “Acta Única” para publicitar a resolução e o fim do incidente.Arrumada a questão, a vida continuou o seu curso pachorrento. Macau comparticipa na construção do monumento funerário para José Carlos da Maia, antigo governador assassinado em Lisboa, na ‘Noite Sangrenta’, de 19 de Outubro de 1921. Os estatutos do Centro Republicano Eleitoral de Macau são publicados no dia 23 de Setembro de 1922, e mostram a força dessa agremiação filiada no Partido Republicano de Reconstituição Nacional. No Conselho Escolar do Liceu, reunido a 8 de Novembro de 1922, Carlos Borges Delgado incumbe os professores Humberto Severino de Avelar, Adelino dos Santos Diniz e Telo de Azevedo Gomes de se deslocarem a Hong Kong para cumprimentar e homenagear Albert Einstein, que fazia uma escala na viagem para o Japão, endereçando-lhe também o convite para visitar Macau. No Conselho Escolar de 14 de Novembro, Humberto Severino de Avelar prestou a seguinte informação, registada em acta: “No desempenho da honrosa missão que a ele e aos seus colegas Drs. Santos Diniz e Azevedo Gomes fora incumbido pelo Conselho Escolar se avistaram com o Professor Einstein a bordo do paquete ‘Kitano Maru’ no dia nove do corrente, a quem apresentaram as homenagens do mesmo Conselho, tendo-se aquele eminente sábio mostrado profundamente sensibilizado e reconhecido Livro Figuras_de_Jade_III.indd 50 08/11/2021 15:07
51FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEpor tal facto, pedindo-lhes para apresentarem os seus agradecimentos ao Conselho e prometendo vir a Macau agradecer pessoalmente, desde que isso lhe fosse possível, no seu regresso do Japão”.O novo Governador de Macau, Rodrigo José Rodrigues, toma posse no dia 25 de Janeiro de 1923. Na sessão solene, Carlos Borges Delgado discursa na qualidade de Presidente do Leal Senado, revela que é amigo pessoal do novo governador e que se conheceram há anos nas lutas pela instauração do movimento republicano, confidenciando, “horas tristes passamos juntos em Amarante. Momentos da mais franca alegria tivemos ocasião de manifestar nos que nos escutavam, quando da minha sagrada missão de espalhar adoradamente pelo Norte de Portugal a nossa sacrossanta Bandeira verde-rubra. Sim, meus senhores, horas tristes e momentos alegres, mas quer nuns, quer noutros, encontrei sempre ao meu lado, como combatente sincero, S.Exª. o actual Governador de Macau”. E como responsável pela edilidade Carlos Borges Delgado solicita a construção de edifícios públicos e de habitações para os funcionários, frisando contudo “que essas construções venham a ter o verdadeiro cunho nacional, que sejam o espelho da arte portuguesa, tão linda e tão apreciada”. Lembrou ainda que “Macau não possui uma Carta Orgânica. Tem umas bases que por si servem para confundir e muitas vezes para desorientar”. E aproveitando esta premissa, “como somos um povo do Ocidente, somos por isso um povo sentimental”, conclui, pedindo a criação de “uma banda de música, que é altamente patriótica e educadora”. Sobre a instrução pública “nem me atrevo a falar, porque o seu progresso é divisa da República e V.Exª., como verdadeiro republicano, dispensar-lhe-á como eu, como nós, o maior carinho”. As sábias palavras do Bispo D. José da Costa Nunes, “Macau é a terra do exílio, nas adversidades políticas”, não encontraram eco nem fizeram pensar, tal o entusiasmo que reinava.Carlos Borges Delgado publica o segundo livro, “Sentir...”, impresso em Macau na Tipografia Mercantil de N.T.Fernandes e Filhos, em 1923. A edição que possuo, adquirida num alfarrabista, tem uma expressiva dedicatória, datada de Março de 1923, ao jornalista Guedes d’Oliveira. É uma obra injustamente esquecida e que fornece uma reflexão muito interessante sobre a história social e cultural do Território. Para além de uma exortação republicana aos estudantes de Macau há uma fremente apologia da liberdade e do anti-bolchevismo, que se nota neste comentário: “Fanny Kaplan, uma rapariga, levantou uma pistola e fez fogo três vezes sobre Lenine, caindo este, coberto de sangue, nos braços dos seus amigos(...) Fanny Kaplan, derrubando a má sabedoria, procedeu inocente e candidamente, mas tendo bem unida a si a visão sincera, perfeita e humana, do momento”. O livro encerra com um conjunto muito significativo de “Pensamentos”, de fino recorte taoista e que teriam ganho uma vida mais autêntica com uma edição autónoma.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 51 08/11/2021 15:07
52O orçamento do Território acolhe as despesas e a logística inerente às “visitas oficiais às vizinhas colónias do Oriente e missões especiais a Hongkong do general do Exército Metropolitano, Manuel de Oliveira Gomes da Costa”. Em Novembro de 1923, no “Boletim Oficial” são “publicadas algumas modificações ao Regulamento da Instrução Secundária”.Terminado o mandato no Leal Senado em Janeiro de 1924, Carlos Borges Delgado regressa em dedicação exclusiva ao reitorado e à lecionação das suas turmas de Matemática. A numerosa Comissão Organizadora das comemorações do 4º Centenário da Morte de Vasco da Gama, da qual Carlos Borges Delgado faz parte, foi “louvada pelo muito zelo, dedicação e patriotismo”.No dia 2 de Março de 1926 faz o elogio fúnebre de Camilo Pessanha, no Cemitério de S. Miguel Arcanjo: “espírito altamente filosófico e amplamente liberal, alma aberta a todas as dores e infortúnios, encarava a vida desprendidamente, sem os preconceitos vãos que por aí pululam, a contaminar tudo e todos”. Palavras de um amigo, admirador e colega no Liceu.Carlos Borges Delgado continuou muito ligado ao associativismo em Macau, foi presidente da direção da “Associação dos Funcionários Públicos” e presidente do Conselho Fiscal do “Clube Recreativo e de Beneficência 1º de Junho”. Em 1929 recebe uma Homenagem dos Alunos do Liceu Central de Macau, que lhe oferecem um documento alusivo e que a Família ainda conserva como afectuosa relíquia. Nesse mesmo ano de 1929, após uma década em Macau, parte para Lourenço Marques, em Moçambique, abrindo uma nova fase da sua vida no Liceu 5 de Outubro. O manto de silêncio e de esquecimento que caiu sobre a figura de Carlos Borges Delgado é bastante injusto e vem revelar que temos andado distraídos no estudo da história cultural de Macau.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 52 08/11/2021 15:07
53FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTECARLOS ESTORNINHOCarlos Augusto Gonçalves Estorninho (1913-2006) é um português de Macau injustamente esquecido não obstante ser uma personalidade com uma enorme envergadura intelectual, cívica e cultural conforme se vislumbra pelas entrevistas que concedeu a Carlos Pinto Santos em 1994 [revista Macau, II série] e a António Melo em 1999 [jornal Público]. As suas raízes familiares foram assim recordadas: “Tem bisavó javanesa, avó tailandesa, mãe macaense. O lado paterno é algarvio, com um avô transmontano e aventureiro, talvez contrabandista, armador de barco de pequena cabotagem nas escalas dos portos da China”. Parece que os portugueses estão entre os eleitos no que diz respeito à fusão de afectos e de sangues.Carlos Estorninho frequentou o Liceu de Macau no icónico edifício do Tap Seac e teve a sorte de ter sido aluno de uma boa parte da elite do professorado local: Manuel da Silva Mendes, José Vicente Jorge, Francisco Carvalho e Rego, Lara Reis, Humberto de Avelar, José Ferreira de Castro, Telo Gomes ou Jack Braga. Esta circunstância foi deveras marcante, pois abriu-lhe o pensamento para outros voos. Condiscípulo de Luís Gonzaga Gomes e de António Maria da Conceição, assiste como aluno voluntário às aulas do inesquecível professor Camilo Pessanha. A esta actividade educativa juntava-se o frenético enriquecimento cultural e social trazido pela “Academia do Liceu” e pelo “Orfeão”, sem esquecer “alguns jornais de qualidade, de acentuado pendor crítico e com óptimos colaboradores como O Debate, O Liberal, O Petardo, Jornal de Macau, entre outros”. A influência dos mundos contíguos, Cantão por um lado e Hongkong pelo outro fazia sentir-se em toda a pacatez do Território. Vale a pena recordar ainda esta importante memória de estudante liceal: “Comecei a interessar-me pela história de Macau quando ainda estava no liceu. Julgo ter sido influenciado pela perseguição movida a Montalto de Jesus, em 1926. Vivi intensamente esse episódio o que foi depois avivado quando Livro Figuras_de_Jade_III.indd 53 08/11/2021 15:07
54tive Jack Braga como professor, amigo muito próximo de Montalto de Jesus. No ano seguinte ao ‘auto-de-fé’ do Macau Histórico foi publicado o excelente Resumo da História de Macau do padre Régis Gervaix com o pseudónimo de Eudore de Colomban, editado pelo Jacinto José do Nascimento Moura. Dirigido propositadamente para as escolas, era muitíssimo bem feito e teve grande influência na minha formação e interesse pela história de Macau”. Muitos anos decorridos, em 1990, Carlos Estorninho assina o prefácio ao “Macau Histórico” de Montalto de Jesus, a primeira edição portuguesa da versão apreendida em 1926, que foi lançada sob a chancela da editora Livros do Oriente. Foi feita a recuperação do livro mas Montalto aguarda ainda por uma reabilitação da sua memória e do seu legado científico.É com todo este lastro que parte para Coimbra em 1933, ingressando no curso de Filologia Germânica na Faculdade de Letras. Viveu na república “Ninho dos Matulões”, tomando desde aí o sentido pelos valores da democracia e da liberdade pelos caminhos da vida, reconhecendo como decisiva a influência dos professores Joaquim de Carvalho e Paulo Quintela, bem como o convívio e a boémia com o grupo da Presença, sobretudo com João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro e José Régio. Pelo Orfeão Académico, pela Associação Cristã dos Estudantes e pelo Centro Republicano Académico de Coimbra irá encontrar o seu espaço mental e forjar as afinidades decisivas para o futuro. No fim da licenciatura recebe um convite do professor George West para colaborar na instalação do Instituto Inglês na Universidade de Coimbra. Estávamos nos primórdios da segunda guerra mundial e havia uma persistente suspeita de que o Instituto Inglês seria o pretexto para albergar uma ‘antena’ dos serviços da espionagem britânica em Portugal. Carlos Estorninho desmentia sempre quando esse alvitre se insinuava nas conversas. Curiosamente, o seu antigo professor no Liceu de Macau, Jack Braga, também ficou associado a actividades de espionagem, a favor do governo chinês e do governo inglês, em plena guerra do Pacífico, conforme se pode ler no obituário que lhe dedicou o influente South China Morning Post.Um novo convite do professor George West leva-o para a capital, participando assim na criação do Instituto Britânico em Lisboa. Tinha encontrado a profissão que também seria uma paixão, bibliotecário. Durante quatro décadas foi o director da Biblioteca do Instituto Britânico e um reconhecido renovador da biblioteconomia para além de ter sido fundador e presidente da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas. No Instituto Britânico organiza a “Colecção Anglo-Portuguesa”, uma referência com mais de 5000 volumes em língua inglesa dedicados a Portugal assim como as versões inglesas das obras de escritores portugueses. Desdobra-se em inúmeras actividades culturais, conferências e organização de exposições temáticas, colaborando intensivamente na imprensa [Diário de Notícias, O Século, Diário de Lisboa, Diário Popular, A Capital, Ocidente, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 54 08/11/2021 15:07
55FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEBiblos, Panorama, etc]. A convite de António Sérgio escreve diversas entradas na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira de Cultura. A Rainha Isabel II agracia-o em 1969 com o oficialato da Ordem do Império Britânico, reconhecendo os seus serviços à causa luso-britânica no domínio da cultura.Participa activamente nos movimentos democráticos, não comunistas, em oposição ao regime do Estado Novo. Apoiou as candidaturas presidenciais do general Norton de Matos, do almirante Quintão Meireles e do general Humberto Delgado. Pertenceu ao MUD [Movimento de Unidade Democrática] e secretariou a Liga dos Direitos do Homem. Foi colaborador e secretário da redacção da Revista Seara Nova, de 1948 até 1959, aí privando com Jaime Cortesão, António Sérgio, Sant’Anna Dionísio, Augusto Casimiro, Câmara Reis, Ferreira de Castro ou José Augusto França. Integrou a administração do jornal República, até ao seu fim em 1975, quando foi tomado de assalto pelos comunistas, seguindo depois para o seu sucedâneo, o jornal A Luta.A revolução do 25 de Abril de 1974 deveria ter-lhe proporcionado o regresso à sua terra natal. Poderia ter sido nomeado governador, se desejasse o cargo. Ou outra posição à sua escolha. Também recusou os convites do partido socialista para integrar o parlamento como deputado. Explica as suas razões: “Preferi manter a minha posição de democrata independente, fora das lutas partidárias, como patriota, português e macaense. Penso também que a minha geração cumpriu o seu dever de resistência à ditadura e que deve deixar a actividade partidária e as questões do poder político às gerações que lhe sucederam”. Em relação a Macau, parece ter sido um erro a sua decisão de não retorno. As suas ideias teriam feito a diferença em muitas situações, quiçá evitando erros irreparáveis.Mesmo longe, Macau continuava naturalmente no coração de Carlos Estorninho. É um dos fundadores da Casa de Macau em Lisboa, em 1966, [ocupada em 1974 por um folclórico ‘Movimento de Libertação de Macau’, com o recheio vandalizado, ficando encerrada um lustro] a que presidiu em 1979/1981. Coordena os eventos da Quinzena de Macau em Lisboa onde, entre outras iniciativas, são reeditados alguns títulos importantes, a título de exemplo, “Macau, Factos e Lendas” de Luís Gonzaga Gomes e “Macau: Impressões e Recordações”, de Manuel da Silva Mendes. Em 1981 regressa a Macau para participar no I Congresso Internacional de Psiquiatria Transcultural, um evento onde Almerindo Lessa se destacará pelas suas ideias originais. Entretanto integra o conselho consultivo da Universidade da Ásia Oriental e continua apaixonadamente activo na Sociedade Byron.O seu progressivo afastamento da terra natal tem a ver com o princípio do fim da configuração portuguesa do Território. Observa com muita angústia o desmesurado crescimento de Macau: “Quando vejo uma imagem de Macau fico triste. O urbanismo do território descaracterizou, irremediavelmente, a terra. A Fortaleza Livro Figuras_de_Jade_III.indd 55 08/11/2021 15:07
56da Guia já mal se vê, a Igreja de São Paulo está esmagada e prepara-se o aterro da baía da Praia Grande. Só à última hora nos lembramos que Macau é muito pequeno, deixamo-nos levar pelos interesses económicos imediatos, por aqueles para quem progresso é sinónimo de edifícios de trinta andares. Fomos sendo levados aos poucos pelo “já agora…”. Desprezamos a cultura e embarcamos nessa lamentável aventura. Porque não se fez essa explosão desenvolvimentista noutro local? Até podia ter sido na Taipa, em Coloane, nas ilhas próximas de Macau. Onde quisessem, porque a China é tão grande…”. Este desabafo, transmitido a Carlos Pinto Santos, em 1994, espelha os sentimentos contraditórios e críticos em relação às grandes opções seguidas pela acção governativa no Território, ressalvando que “há alguma obra feita por certas instituições, designadamente a Fundação Oriente, mas não é suficiente. E constato, por um lado, que são muito poucos os macaenses ligados a essas instituições e, por outro, que os maiores especialistas sobre Macau – casos de Almerindo Lessa e Ana Maria Amaro, por exemplo – estão, de certa forma, marginalizados em detrimento de uma legião de arrivistas que pululam na terra e se dedicam a lançar publicações com apresentação espampanante mas com muita parra e pouca uva…”.E é com lucidez que desfia a história, lidando com os fantasmas indutores de descrenças e de ressentimentos, que ensombraram a vida dos povos, “Está no sangue dos macaenses a falta de confiança nos mandarins de Cantão, como a história nos mostra. Sempre que houve convulsões sociais e políticas na China, a tendência do macaense é emigrar. Vê-se isso com a fundação de Hong Kong, Guerra do Ópio, Guerra dos Boxers, período nacionalista, invasão japonesa, revolução comunista, etc. Tem havido uma diáspora permanente cuja última fase será em 1999. Só ficarão aqueles que, de todo, não puderem sair”.A sua bibliografia é muito extensa e é o símbolo do seu compromisso com o conhecimento. Anoto alguns títulos: Portuguese Literature in English Translation (1953); Influência Inglesa na Vida e Obra de Garrett (1954); Os Estudos Camonianos em Inglaterra (1972); Portuguese Byroniana (1977). Especificamente sobre Macau, a sua contribuição é muito importante: Breves Apontamentos sobre Macau (1952); Macau na História das Relações Sino-Americanas (1954); Les Relations Historiques de Macao et de la Chine (1957); Macau e os Macaenses – Divagações e Achegas Históricas (1962); Macau e o Ocidente (1963); Portuguesismo do Macaense (1963); A Gruta de Camões na História, na Literatura e nas Belas Artes (1980); A Identidade Cultural Macaense (1992). No ‘Dicionário da História de Portugal’, coordenado por Joel Serrão, escreve o verbete “Macau” que, tantos anos depois é ainda considerado uma síntese exemplar.Julgo que seria importante poder reunir-se em volume os seus estudos dispersos dedicados à cultura e à história da sua terra natal.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 56 08/11/2021 15:07
57FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTECARLOS JOSÉ CALDEIRACarlos José Caldeira (1811-1882) representa bem o espírito português do século XIX. Formado na Academia Real da Marinha e na Aula do Comércio, inspector-geral das Alfândegas, esteve encarcerado no Limoeiro pelos liberais. Cosmopolita, culto, com uma presença assídua na imprensa, um pé na política e o outro num influente círculo de amizades, Carlos José Caldeira é, ainda assim, uma figura um pouco enigmática e esquecida. Além dos livros, há uma rua com o seu nome na cidade de Lisboa.A sua viagem de sonho começou por um passo, “contando 40 anos, parti de Lisboa em Julho de 1850, na carreira para a China dos vapores ingleses da Companhia Oriental e Peninsular e dentro de 50 dias cheguei a Macau”. E por lá ficou uma boa temporada, “nesta cidade demorei-me 16 meses, durante os quais visitei os seus arredores, a cidade chinesa de Cantão, e vários portos da costa da China até Xangai, na distância de umas 300 léguas para o norte de Macau”. Ficou hospedado no Paço Episcopal pois era familiar do Bispo D. Jerónimo José da Mata, que esteve à frente da diocese de 1845 até 1862. Esta relação de amizade proporcionou-lhe um acesso privilegiado ao círculo do poder político e consequente-mente a uma outra perspectiva sobre a narrativa da história de Macau. Na companhia do Bispo deu longos passeios a cavalo pela China dentro, num exercício físico que poderia ser também um tempero para algumas divagações políticas, cimentando aí uma obsessão por uma clarividência nacionalista e iberista.Mas Carlos José Caldeira parece que assistia à história em movimento. A nova colónia britânica de Hong Kong prosperava sob a liderança de Sir George Samuel Bonham, atraindo a comunidade portuguesa que ia em busca de novas oportunidades. No dia 29 de Outubro de 1850, a fragata D. Maria II, que estava estacionada na Taipa, foi completamente destruída por uma violenta explosão que vitimou 188 dos 224 tripulantes. Nunca foram verdadeiramente apuradas as Livro Figuras_de_Jade_III.indd 57 08/11/2021 15:07
58circunstâncias dessa tragédia, se acidente ou sabotagem, que atingiu o navio que tinha rumado a Macau após o assassinato do governador João Ferreira do Amaral, ocorrido a 22 de Agosto de 1849. O Território vivia desde então sob o signo de uma enormíssima instabilidade: ao Conselho de Governo [1849-1850] sucedeu o governador Pedro Alexandrino da Cunha [1850] que morreu de cólera após 38 dias de governo; outro Conselho de Governo [1850-1851] e um novo governador, Francisco Cardoso [1851], que nem um ano de mandato completou. Carlos José Caldeira travou relações de amizade com o primeiro-tenente de artilharia Vicente Nicolau de Mesquita, uma figura mítica, dizendo que “ele reúne a um patriotismo e abnegação pouco comum, excelentes dotes de alma”. Na trasladação dos restos mortais de João Ferreira do Amaral, foi com sentida emoção que recordou, “limpou-se o crânio e os ossos dos restos de cartilagens: eu tive nas mãos esse crânio nú, e dos golpes da barbaridade e da traição lhe vi os vestígios indeléveis, como o deveriam sempre ser em ânimos portugueses!”. Ficou a matutar, “pode-se pois dizer que Portugal tinha bom direito a exigir uma estrondosa satisfação à China pela morte do governador Amaral”.A convite do Bispo, na sua qualidade de presidente do Conselho de Governo, inicia a colaboração no “Boletim do Governo da Província de Macau, Timor e Solor”, de distribuição gratuita [impresso na Typographia Albion, de John Smith, Praya Grande, Nº 61]. E o seu primeiro artigo fez furor na opinião pública porque descrevia a “fraqueza militar do império chinês”, tendo sido comentado e republicado em Lisboa [“Revista Popular”], em Hong Kong [“Friend of China”] e na Índia [“Abelha de Bombaim”]. As ideias que andavam no ar, acusavam as “tendências belicosas do governo de Macau contra a China”, mas não eram assumidas com clareza e objectividade. Contra a corrente de uma diplomacia mansa, que achava a punição moral como suficiente, Carlos José Caldeira escreve corajosamente aquilo que o poder político português pensava mas não ousava dizer. E di-lo sem cerimónias: “por este imperfeito bosquejo se poderá julgar se era ou não possível fazer Portugal a guerra à China, mesmo no lamentável estado do nosso país. Quanto a mim não só era muito possível, porém de grande conveniência, e abstraindo mesmo da questão de desagravo nacional, digo que podia ser uma especulação, um salvatério para Portugal”. Esta acção assumiria os contornos de uma vigorosa expedição punitiva: “Entenda-se que não se tratava de guerra de conquista, ou de aquisição importante do território, o que seria absurdo: tratava-se somente de obter uma digna satisfação ao ultraje recebido pela nação portuguesa, e a par disto algumas vantagens comerciais para Macau, ou a cedência de toda a ilha de Heang-xan, a qual tem 21 léguas de norte a sul, 20 de leste a oeste, mais de 400.000 habitantes, e muita cultura, segundo documentos chinas publicados em 1827”. Carlos José Caldeira não ignorava a fraqueza da marinha de guerra portuguesa. Ele contava com Livro Figuras_de_Jade_III.indd 58 08/11/2021 15:07
59FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEa frota das lorchas de guerra de Macau, fortemente armadas e com tripulações aguerridas, com sobejas provas dadas em conflitos com a pirataria, ao longo de toda a costa chinesa. De mais a mais, “o ensejo para hostilizar a China era óptimo, por causa da guerra civil que existia e existe ainda no império”. E o “governador Cardoso, que não era estranho nem adverso às ideias expostas, conhecia isso melhor do que ninguém”. O certo é que não se deu o primeiro passo para iniciar as hostilidades. É muitíssimo raro encontrar na literatura memorial desta natureza uma estratégia abertamente beligerante contra a China.Através do Bispo de Macau conhece o aventureiro e diplomata espanhol Sinibaldo de Mas y Sans. Todos eles estavam irmanados pelos ideais iberistas, a começar pela fusão das coroas portuguesa e espanhola numa só e a consequente junção dos dois grandes impérios coloniais. Nasceria assim uma nova potência no panorama internacional. Carlos José Caldeira escrevia, “quase todos os homens pensadores de Portugal julgam inevitável a absorção da nossa na nacionalidade espanhola, porém uns a encaram como desgraça e aniquilamento político, e outros como o único futuro esperançoso para o nosso país, se for convenientemente prevenida e preparada”. Sinibaldo de Mas y Sans estava desde 1849 a negociar secretamente, com Sir Robert Hart e o Príncipe Gong, a ‘venda’ de Macau, um projecto que ficou abortado com a sua morte em 1868. Teriam D. Jerónimo José da Mata e Carlos José Caldeira tido conhecimento deste audacioso e espectacular golpe, onde a alta traição e a ganância andavam ligados?Sobre o modo português de administrar e governar, deixa-nos estas incisivas palavras que são um testemunho de mágoa e de nostalgia: “Se a nação está pobre vivam pobremente os seus empregados. Que verdadeira necessidade há de darem bailes e jantares? Estas coisas lá de fora só servem para sermos escarnecidos pelos estrangeiros, que dizem, com muita razão, que no meio de todos os nossos desarranjos e misérias governativas, só somos fortes em ridículas ostentações e pataratices. Façam-se os nossos governadores das colónias, e em geral todos os empregados, distinguir pela probidade, pela justiça, pelo zelo no bem estar dos seus governados, e embora vivam com a maior simplicidade, hão-de sempre adquirir o amor e o respeito dos nacionais e a veneração dos estrangeiros”.Carlos José Caldeira deixa Macau no dia 26 de Dezembro de 1851, a bordo da corveta D. João I, tendo chegado a Lisboa na tarde de 18 de Agosto de 1852, cumprindo este longo périplo: “Era terminada a nossa longa viagem, ao cabo de 235 dias da saída de Macau, tendo fundeado uma vez próximo à Pedra Branca no mar da China, outra em Singapura, 12 vezes no estreito de Malaca, 5 na costa do Malabar, uma em cada um dos portos de Goa, Moçambique e Benguela, duas em Luanda, uma no Faial e duas em S. Miguel: ancoramos ao todo 27 vezes. Percorremos segundo a derrota 20. 260 milhas, ou perto de 7.000 léguas e juntando-lhes as que Livro Figuras_de_Jade_III.indd 59 08/11/2021 15:07
60andei por mar na ida da Europa a Macau e na viagem desta cidade a Xangai, excede a 12.000 léguas o caminho que andei no espaço de dois anos”.O labor intelectual de Carlos José Caldeira pode ser fixado nestes livros: “Considerações sobre o estado das Missões e da Religião Cristã na China”, 1851; “Descrição da Gruta de Camões em Macau”, 1851; “Apontamentos de uma Viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa”, 2 volumes, 1852/1853. O primeiro volume desta obra foi reeditado em 1997 sob o título “Macau em 1850”; “Barcelona. Fragmentos de uma Viagem Inédita na Península”, 1855; “Vida Pública do Novo Bispo de Angra Dom João Maria de Amaral e Pimentel”, 1872; “O Positivismo e a Sociedade”, 1882. Dirigiu e colaborou em importantes publicações periódicas, como sejam o “Almanaque Democrático” [1851/1854], a “Revista Peninsular” [1855/1857] ou o “O Correio da Europa” [1857/1859], em franca camaradagem com Henriques Nogueira, António Feliciano de Castilho, Alexandre Herculano, Latino Coelho, Arnaldo Gama, entre outros.Os seus interesses culturais eram vastos e variados. Na parte não oficial do “Boletim do Governo da Província de Macau, Timor e Solor”, de 15 de Novembro de 1851, faz uma grande recensão ao livro “Estudos Filosóficos sobre o Cristianismo”, de Auguste Nicolas, que leu a bordo da corveta francesa ‘Capricieuse’, na viagem para Xangai. Terá a comunidade portuguesa ficado desassossegada com estas controvérsias?Entretanto toma posse o novo governador, em 18 de Novembro de 1851, Isidoro Guimarães Júnior, antigo comandante da corveta ‘D. João I’. E da sua primeira intervenção pública, registo as seguintes palavras: “O nosso primeiro e mais nobre dever é sustentar ilesa a independência deste Estabelecimento e a honra da bandeira portuguesa, que os nossos antepassados tiveram o arrojo de arvorar no território do Império Chinês, dando às mais nações da Europa um exemplo, que as mais poderosas e ousadas tardaram três séculos a imitar”.Isidoro Guimarães Júnior inaugurou um amplo período de estabilidade, mantendo-se uma década à frente dos destinos do Território.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 60 08/11/2021 15:07
61FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTECECÍLIA JORGEO novo livro de Cecília Jorge, “Poemas para Macau”, é um marco na sua já longa bibliografia de investigação dedicada ao Território, onde sobressaem títulos, como por exemplo, “Novo Ano Lunar: Festa de Cor e de Fantasia em Macau” (1984), ou “Sabe Comer com Pauzinhos?: a cozinha chinesa possível em Portugal” (1987). Formada em germânicas, jornalista prestigiada e co-fundadora da icónica editora Livros do Oriente, Cecília Jorge em parceria com Rogério Beltrão Coelho publicou inúmeras outras obras, destacando-se “A Fénix e o Dragão: realidade e mito do casamento chinês” (1988), “Medicina Chinesa – em busca do equilíbrio perdido” (1988), “Álbum Macau – sítios, gentes e vivências”, 3 volumes (1993), “Viagem por Macau”, 4 volumes (2014). Numa entrevista concedida a Fernando Costa Andrade e inserta no volume “Memórias e Testemunhos”, editado pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude em 1999, Cecília Jorge afirmava que “A minha obra vai cumprindo os objectivos que me trouxeram a Macau: que é desenterrar as raízes desta terra para que não apodreçam nem se percam. A intenção era plantá-las noutro lado, mas tenho a impressão de as ter interiorizado”. E por falar nessa crença iluminista sobre o valor das raízes, as imagens da Casa de Aureliano Guterres Jorge, no Beco do Lilau, estrategicamente arrumadas no meio do livro, vem mostrar de um modo exemplar o poder sedutor da retórica da imagem, segundo Roland Barthes, conferindo à nostalgia o poder de apagamento do sujeito saudoso, com a radicalização da passividade, “E nas gentes morre o hábito / da meditação / da comunhão”. Todas os estudos de Cecília Jorge creditam-na como uma autora de referência no âmbito da macaulogia e da sinologia, e porque sabe do que fala, não se coíbe de dizer que “Portugal não sabe o que é Macau. Portugal não conhece os macaenses. Mantém a atitude distanciada e pouco aprofundada do curioso e não do estudioso”, o que pode ser compreendido de outra forma menos dramaticamente Livro Figuras_de_Jade_III.indd 61 08/11/2021 15:07
62inquietante, “Pés de barro da lusitanidade / caravelas de vela solta / que se vão rasgando / no retorno à Pátria”. Essencial é mesmo este pormenor subtil do movimento das pessoas com ideias, “Porta aberta para dois lados / de entrada / sem saída”, porque “Quem diz / que Macau se perde / em cada dia / que homens sem alma / a esventram?”.Os “Poemas para Macau” representam uma inquebrantável fidelidade a uma certa ideia de Macau, como epicentro de uma tempestade de emoções causadas pela mudança de bandeiras e que se afasta ad nauseam de uma modernidade subvertida e oprimida pela eterna luta entre eros e thanatos, cuja encenação é generalizada pela riqueza oriunda da indústria do jogo. Nestes poemas, meditados e escritos ao longo dos anos, é possível mapear a construção da complexidade de um lugar literário que a diáspora tornará especial. Macau é uma “Ficção criada pelos portugueses / nem os próprios dela / se apercebem”, um lugar cristão e latino, uma espécie de prótese encarcerada na memória e na imaginação do grande corpo confuciano, “Na confluência de civilizações / dois mundos / partilham um patamar / harmonizados / num só”. Entre a sensibilidade e o entendimento vemos a enigmática incisão taoista, “O nada intenso / Nada cheio de nadas / nada de um / sentimento pleno / que nos une / que vale”, sim, porque “Amanhã será mais dia! / O que é o nada?”. É a consciência da finitude e da contingência da “Terra maior que o mundo / terra funda onde afundam / consciência moral virtude / Almejada plenitude / existência singela / humana partilha / solidariedade / e amizade // palmilhar lento / nesta passagem / às portas da Eternidade”.Aqui, neste lugar, nasce-se português de Macau ou tornamo-nos portugueses de Macau? A resposta a esta magna pergunta bipolar proporcionaria a construção de um caprichoso silogismo aristotélico, mas não pode ser encontrada neste livro de Cecília Jorge, que nos conduz a um outro patamar de autenticidade e de liberdade porque aspira à inteligibilidade de Macau. A amplitude da sua meditação poética e ontológica transcende essa interrogação que não deseja confundir o conhecer com o pensar, “Quem sou? / Donde venho? De que lado / do Mundo? / E para onde vou? / Quanto sangue se misturou / até me chegar às veias confuso? / Por onde andaste tu espectro / que surges quando vagueio à sombra / das banianas e olho o Mar / tão baço?”. A poesia de Cecília Jorge oferece-nos a visão problematizante de uma interioridade aberta a uma encruzilhada de caminhos e a uma odisseia do nosso descontentamento. Quando deixar de habitar a nossa memória, Macau será apenas um aforismo gordo de história, de responsabilidade moral e de antropologia filosófica, “Não sei quem sou / sei onde estava / não onde estou / Não sei por onde vou / por onde não vou / Desconheço o que quero / o que vou querer / Fico-me no que desejei / pelo que lutei / no que cumpri / ... nem sequer desespero / pelo que não consegui”. Livro Figuras_de_Jade_III.indd 62 08/11/2021 15:07
63FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEDEOLINDA DA CONCEIÇÃOAndré Malraux publicou “Os Conquistadores” em 1928 e fez com certeza um esforço enorme para apagar Macau e omitir os portugueses, colocando toda a acção do livro em Hong Kong, em Cantão e em Xangai, afirmando provocadoramente, “eis a velha China, a China sem europeus”. Era realmente uma China em convulsão, com os republicanos e os aristocratas envolvidos em conflitos dilacerantes, que se prepara para acolher, também pela rebelião armada, uma nova fórmula com ideias e apoios estrangeiros, o comunismo que, paradoxalmente, irá perpetuar a burocracia do Celeste Império, como bem observou Alain de Peyrefitte.Podia não parecer, mas a intelligentzia portuguesa estava atenta ao desenvolvimento político que se operava na China. Por exemplo, Guilherme Ivens Ferraz publica na Imprensa da Armada, em 1932, uma obra importante, “O Cruzador ‘República’ na China em 1925, 1926 e 1927: subsídios para a história da guerra civil da China e dos conflitos com as potências”. No mesmo ano e sob outro registo histórico e literário, Jaime do Inso edita o livro “A Caminho do Oriente”. Na ausência de um pensamento sinológico português estruturado, centrado em Macau, prevalecia um olhar avulso sobre a China, fortemente tributário da longa tradição intelectual do Ocidente, mais impressionista do que perspicaz.É no amanhecer da década de trinta que Deolinda Salvado da Conceição [1913-1957] inicia o seu percurso aventuroso pela China dentro. Aluna distinta no Liceu de Macau, onde beneficiou do magistério de Manuel da Silva Mendes, José Vicente Jorge e de Camilo Pessanha, viria a revelar-se como uma personalidade singular no panorama da vida cultural, educativa e do jornalismo, onde deixará marcas de uma heterodoxa e vigorosa actividade intelectual. É a primeira jornalista portuguesa em Macau.Em 1931, aos 18 anos, casa-se em Cantão onde passa a residir. No ano seguinte, em 1932 muda-se para a cosmopolita Xangai. Mas foi uma estadia fugaz, porque os tempos eram de mudanças inopinadas e radicais. Em 1934, Mao lidera a Longa Marcha, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 63 08/11/2021 15:07
64mas será a invasão japonesa e o massacre de Nanquim em 1937 a marcarem o início do êxodo descontrolado rumo à colónia britânica de Hong Kong, que será tomada pelas tropas nipónicas em 1941. Foi um período muito duro e de grandes privações. Deolinda, já com dois filhos, ajuda a fundar a Escola dos Refugiados Portugueses em Hong Kong, onde leccionará e cuja direcção irá assumir. O regresso a Macau era previsível, já com o espectro da segunda guerra mundial no horizonte imediato. No Território, a Escola dos Refugiados funcionará no Colégio do Sagrado Coração, sob a tutela do Instituto Canossiano, com o apoio do Governo de Macau, da Diocese e da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses. E como registou o Padre Manuel Teixeira, emérito historiador de Macau, em 1938, a Escola dos Refugiados recebeu 27 alunos da comunidade portuguesa de Xangai. Em 1940 eram 200 e em 1944 já totalizavam 413 alunos. Quase no fim do ano de 1939, a 17 de Dezembro, Macau irá começar a aparecer de cara lavada. O engenheiro director da Repartição Técnica das Obras Públicas, José Rodrigues Moutinho, assina uma intimação aos “proprietários dos prédios abaixo designados a rebocar, caiar e pintar os seus parâmetros exteriores que não sejam forrados a azulejos ou pedras; a pintar as portas, janelas, caixilhos, grades, varandas e quaisquer outras obras de madeira ou ferro nas suas faces exteriores, dentro de um prazo de 120 dias”. A urbe e o burgo embelezavam-se para receber os refugiados da guerra.Uma nova inflexão na vida de Deolinda da Conceição surge com o divórcio. Num meio provinciano é a Diocese que dá um triste exemplo de intolerância, pouco cristã, de resto, dispensando-a das suas tarefas docentes. Mas, como realçou Maria Helena Vale, ela era uma “mulher de vontade indomável, não temia enfrentar os valores estabelecidos tendo, por mérito próprio, alcançado um estatuto por todos respeitado – mulher emancipada”. Por esse facto chegou mais rapidamente ao jornalismo, ao “Notícias de Macau”, um título icónico na história da imprensa do Território, dirigido por Hermann Machado Monteiro, e na expressiva observação de António Conceição Júnior, “todo aquele casarão do Tronco Velho rangia, não sei se das madeiras se do peso intelectual daquela nata de gente”. Sim, era o peso de uma elite intelectual que ali trabalhava, sendo Luís Gonzaga Gomes talvez um dos seus maiores expoentes e que dirigia a excepcional “Colecção Notícias de Macau”, com mais de duas dezenas de títulos publicados, impressos com caracteres de chumbo em papel de jornal, porque os tempos eram de privações, incluindo o papel.Deolinda da Conceição inicia os seus trabalhos no “Notícias de Macau” em 1947, com o artigo “Coração de Mulher”, na edição de 19 de Outubro [que não consta no Catálogo Fotobibliográfico, editado pelo Instituto Cultural de Macau, em 1995]. Nas instalações do jornal, casa-se em 1948, com António Maria da Conceição, professor e jornalista, também ele uma figura de relevo em Macau. Quando o “Notícias de Macau” atinge o seu décimo aniversário, as palavras de Deolinda da Conceição são deveras eloquentes: “Para quem o viu surgir, desenvolver-se, expandir-se e continuar a sua tarefa ingente, tantas vezes incompreendido, para quem sentiu as lutas, as canseiras, as Livro Figuras_de_Jade_III.indd 64 08/11/2021 15:07
65FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEdesilusões e as amarguras da vida de um jornal diário, numa terra pequena e de recursos limitados, este jornal representa um triunfo de realidades que não se esquecem. E o facto de ter chegado ao seu décimo aniversário não pode deixar de causar júbilo e até certo orgulho a quem sentiu também os reflexos dessas lutas, dessas canseiras, dessas desilusões e dessas amarguras, embora a sua participação nos trabalhos do Notícias de Macau fosse apenas subscrita pelo seu nome muito humilde, ao lado dos nomes ilustres de jornalistas e escritores que passaram pelas suas colunas”.Ora, foi justamente o “Notícias de Macau” que albergou a quase totalidade dos contos que vieram a constituir o seu primeiro e único livro, “Cheong-Sam/A Cabaia”, publicado em Lisboa, pela Livraria Popular de Francisco Franco, em 1956, e cuja 5ª edição é de 2007.João Gaspar Simões, essa grande luminária da crítica literária em Portugal, saudou com entusiasmo o aparecimento desta obra fora do comum: “Não há dúvida, porém, que os contos de Deolinda da Conceição, na simplicidade do seu estilo e na singeleza dos seus recursos narrativos – muitos deles são breves narrativas, sem diálogo nem acessórios de observação ou paisagem – são qualquer coisa de invulgar no panorama da nossa literatura de ficção. Humanos, comovidos, entre poéticos e lendários, se em muitos deles somos postos em contacto com uma China trucidada pela guerra e com um povo calcado aos pés do invasor, em não poucos também se nos entremostra a pureza misteriosa de uma maneira de ser que dá às mulheres a palma de sacrifício e aos homens essa enigmática presença tão admiravelmente desenhada na figura de A-Chung, o marido de Chan Nui, a protagonista do primeiro conto, aquele que dá o nome à colectânea – Cheong-Sam”.Nestes 27 contos que compõem “Cheong-Sam/A Cabaia” perpassa uma sageza de experiência e imaginação feita na quotidiana observação da China, edificando assim uma sinologia de feição literária com um recorte existencialmente trágico e imperfeito. Ela mostra-nos um país em construção libertadora, onde as tragédias pessoais e familiares resultam do desconchavo dos valores, da inclemência dos poderes ilegítimos, duma educação tradicional pobre e refractária aos novos saberes, com a violência e a iniquidade a irromperem um pouco por todo o lado, tudo isto no contexto de um estado mínimo e em ruínas perante as sucessivas humilhações infligidas pelos invasores estrangeiros. Deolinda da Conceição afina a dimensão psicológica numa estética de contrastes legitimadores de uma identidade nacional que parece perdida. Era muito mais sedutor falar de um império mítico e inacessível às narrativas ocidentais, cuja história balouçava entre a lenta decadência e a vocação para a infelicidade. Deolinda da Conceição fugiu a esse preconceito, preferindo enfatizar a suma arte de viver, a perplexidade perante as situações dramáticas e insólitas, restaurando sempre uma linha de consolação, de virtude e de serenidade no seio da turbulência interior, na melhor tradição dos estóicos, com Boécio na linha da frente.Se não tivesse desaparecido tão precocemente, cabe-nos perguntar, que caminhos teria seguido a sua imaginação criadora?Livro Figuras_de_Jade_III.indd 65 08/11/2021 15:07
66EDUARDO COSTA REISÉ uma constatação pacífica dizer que os portugueses são grandes viajantes, corajosos, curiosos e vagamundos, para utilizar uma expressão cara a Ricardo Jorge, escritor e médico amigo de Camilo Castelo Branco. Contudo, são poucos aqueles que escrevem as impressões e as memórias das suas viagens. Por razões várias, que não cabe aqui e agora desenvolver.Eduardo Maia da Costa Reis (1932), natural da Trofa, é um caso singular de um português universal.Com “a primária quarta classe com distinção”, emigra para a Venezuela, com dezoito anos de idade, nos idos de 1950. Singra na área da construção civil, subindo a pulso na profissão até se estabelecer como um próspero e dinâmico construtor civil e empresário. Em Caracas desenvolve uma intensa e marcante acção benemerente, filantrópica e cultural. É promotor e sócio do grande “Centro Social Português em Caracas”, promotor da “Igreja Senhora de Fátima, para a capelania portuguesa de Caracas”, director do “Instituto Português de Cultura em Caracas”, membro do “Rotary Clube Macaracuay de Caracas”, entre tantas outras agremiações portuguesas e luso-venezuelanas. Regressa a Portugal em 1979, instalando-se na terra natal, na cidade da Trofa, “um remanso aprazível, uma terra para querer-se”. Transformou a sua casa numa verdadeira “Reislândia”.O comendador Eduardo Costa Reis é um espírito inquieto que tem procurado entender as complexidades deste mundo sendo por isso um “consequente estudante na escola dos anos e na universidade da vida”. Define-se como um “livre-pensador, sem preconceitos, realista, agnóstico e humanista”, provavelmente por ser um “cidadão do mundo, pelas constantes viagens a mais de quarenta países”. É um “amante da escrita e da leitura histórica e biográfica”, tendo publicado três livros: “Memórias de um Emigrante Diferente. Realidades para Meditar. Obscurantismo. Livro Figuras_de_Jade_III.indd 66 08/11/2021 15:07
67FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEContradições”, 1994; “Mulher Fatal e Paradoxos e Religiosas Contradições”, s/d; “Trágicos Destinos – três terríveis tragédias”, 2015.Tem muito interesse as suas “Memórias de uma Longa Viagem, China, 1988”, e naturalmente a sua apreciação sobre Macau e Hong Kong.A Venezuela era então uma poderosa economia e um símbolo de um país desenvolvido e em franco progresso. E é com base nestes pressupostos que Eduardo Costa Reis irá avaliar a China, que desde 1986, sob a direcção de Deng Xiaoping, irá abrir-se ao investimento estrangeiro. Disserta sobre as diferentes religiões chinesas e aprecia sobremaneira as relíquias históricas: “caminhamos sobre a bi-milenária Muralha da China, uma das famosas antigas maravilhas do mundo, com aproximadamente 3.000 km de longitude, cinco metros de alto e quatro de espessura, começada a construir no II século a.C. para vedar incursões inimigas!”. Mas, revela-se um homem muito atento aos contextos e às informações oficiosas: “Sinceramente, foi este o único país em que não confiei nas asseverações feitas pelos vários guias que nos orientaram nas diversas excursões, realçando as maravilhas da administração do governo, do bem estar social, das liberdades que usufruíam! etc. Notava-se claramente que a sua retórica era programada e controlada, pois eu pude constatar todo o contrário ! Não creio no câmbio, liberdade e prosperidade da China, sem uma revolução”. Regista ainda este pormenor: “raríssimos os bosques e escassas as árvores; são continuamente derrubadas para combustível e construção. Grande parte do povo ainda analfabeto, motivado pelo desinteresse, difícil aprendizagem de ler e escrever em signos, milhares de caracteres antigos que tardam anos em decorar…”. Habituado à democracia e à livre iniciativa do capitalismo de mercado, todo este enquadramento ideológico afigura-se-lhe pernicioso e hostil: “Tarde, lenta e rudimentarmente, começaram os chineses a industrialização do país! O governo não incentiva nem capacita o seu povo, nem o empresário prospector de fontes de trabalho. Propriedades, indústrias, comércios, tendas, agrários, etc., são do governo!!! Quase nula a livre empresa e propriedade privada; exige-se ademais contribuições pesadas!” (…) “Não havendo propriedade privada, livre-empresa, liberdade de acção, prospecção, incentivos, voz nem voto, é muito natural que haja desânimo, desinteresse de produzir. Muito lógico até que se diga: sendo assim, então que trabalhem os ideólogos organizadores e o governo…”.Macau e Hong Kong marcaram o termo da grande viagem de Eduardo Costa Reis, “finalizamos esta maratónica odisseia de dez países, 57 dias, 26 aviões em Macau e Hong Kong”.De Macau, estranhamente, não regista os monumentos, as igrejas, os jardins ou as ruas com nomes portugueses. Apenas esta triste e desconsolada descrição: “Macau, português, foi uma decepção, pequenas ilhas sem campo nem recursos Livro Figuras_de_Jade_III.indd 67 08/11/2021 15:07
68naturais, sem água; a sua subsistência provém da China/Hong Kong. Quase todo o povo é de origem chinesa, ninguém fala o português! Apenas encontrei quatro portugueses! Entrei numa escola, nenhum aluno falava a nossa língua, só quem pagar um segundo idioma! Decepcionante…”. A culpa não seria só do turista que até teria elevadas expectativas sobre esse difuso conceito de portugalidade em Macau. A questão tem a ver com os guias chineses do continente, que eram completamente ignorantes quanto à história de Macau, sobretudo nas componentes portuguesa e luso-chinesa, mesmo sobre os monumentos e, portanto, impreparados para satisfazerem as demandas interrogativas dos viajantes. Quanto a Hong Kong, a sua reflexão é a seguinte: “Hong Kong, cidade vitória, fabulosa, uma mini Nova Iorque na Ásia; porto livre, paraíso do comprador, intensa vida as 24 horas! Organização e segurança suíça, liberdade, descontracção, trabalho, alegria, vida fácil, etc. O problema começou agora, com justificada razão. Os grandes e pequenos proprietários, industriais e comerciantes, tratam de vender propriedades e empresas, pelo temor, ao entregarem os ingleses a autonomia e organização de Hong Kong ao governo chinês em 1997. Este belo paraíso perecerá irremediavelmente. Igual sorte terá Macau, mas este sem perda alguma para Portugal”.Num dos seus contos [“Quando ao gavião cai a pena”], onde o personagem principal também esteve em Macau, o Mestre Aquilino Ribeiro, tem este formidável aforismo, “a criatura humana para onde quer que transite leva consigo o seu clima moral”. Anos volvidos e com outro clima moral, teria o nosso autor mudado o seu entendimento sobre Macau?Livro Figuras_de_Jade_III.indd 68 08/11/2021 15:07
69FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEERNESTO VÁRZEAO comandante Manuel Maria Sarmento Rodrigues (1899-1979) desempenhou o cargo de Ministro do Ultramar (1950-1955) na fronteira dos tempos difíceis para o regime político português, com a emancipação dos povos e a independência das antigas colónias, a marcarem a agenda da política internacional. A viagem que faz ao Oriente e ao Extremo Oriente, num misto de romagem patriótica, de saudade e de afirmação de soberania, de 17 de Maio a 22 de Julho de 1952, ficou cuidadosamente registada para a posteridade, num filme, em livros e em inúmeros artigos publicados na imprensa, da autoria dos vários jornalistas [Diário de Notícias, Século, Diário Popular, Diário da Manhã e O Primeiro de Janeiro] que acompanharam o périplo do Ministro do Ultramar. Em termos institucionais, a Agência Geral do Ultramar publicou dois nutridos volumes sob o título “Relação da Primeira Viagem do Ministro do Ultramar às Províncias do Oriente, 1952”, em 1953 e 1954, sob a coordenação geral de Barradas de Oliveira. Na extensa comitiva que acompanhava o Ministro do Ultramar, destacavam-se o Director Geral do Ensino do Ultramar, o Dr. Vítor Braga Paixão e o comandante militar nomeado para a Província de Macau, o tenente-coronel António Rodrigues Pacheco.A viagem iniciou-se no “Paquete Índia” e prosseguiu depois a bordo do “Aviso de 2ª classe Gonçalo Velho” e nela tomou parte o jornalista Ernesto Augusto Rebelo Várzea Júnior (1904-1976), que também assinava como Ernesto Várzea ou Ernesto de Balmaceda, do influente e prestigiado matutino portuense ‘O Primeiro de Janeiro’. Antigo director do quinzenário “A Mocidade”, Ernesto Várzea tinha publicado o ensaio “Os Lusíadas no Cinema” (1940) e também a “Mocidade de Três Poetas Barcelenses”, em 1951, dedicando-se igualmente à tradução de romances policiais. Após ter estampado as suas crónicas no jornal ‘O Primeiro de Janeiro’, reuniu-as em volume sob o título, “Oriente. Caminhos do Mundo Português. Impressões duma Romagem de Três Meses às Terras do Sol Nascente” e publicou-as em edição de autor, no Porto, em 1954, porque estava seguro da alta volatilidade Livro Figuras_de_Jade_III.indd 69 08/11/2021 15:07
70dos escritos jornalísticos que desapareciam na espuma dos dias. É um livro singelo, escrito com a ingenuidade sincera de quem coloca muitas interrogações sem resposta, ouvidos e moídos os argumentos: “Neste ambiente irrequieto, como vivem, o que pensam, a que aspiram esses três farrapos do nosso império do Oriente, extenso e pouco profundo, que manteve os olhos do Mundo fitos em Portugal durante uma época das mais brilhantes da nossa história? Como se sofreu, na Índia, o choque das transformações operadas no continente industânico? Que consequências, aparentes e profundas, deixou a recordação duma guerra cruenta em Timor que viveu uma hora alta de heroísmo e martírio? E a feiticeira Macau, a mais indecifrável incógnita de todo o nosso império, como subsiste?”.O “Paquete Índia” faz a primeira paragem em Chipre, onde se abastece. A comitiva segue para a Índia Portuguesa, percorre demoradamente Goa, Damão e Diu, visitando os monumentos, conversando com as pessoas e transmitindo essa inefável ligação à portugalidade distante. O antigo Bispo de Macau, D. José da Costa Nunes, e então Patriarca das Índias Orientais, Primaz do Oriente e Arcebispo de Goa e Damão, era uma figura incontornável. Ernesto Várzea ouviu-o com atenção: “o hindu é tolerante. A cada passo recebo pedidos de hindus para fazer festas ou realizar missas a este ou àquele Santo a quem fizeram promessas. Mas, na sua consciência, todas as religiões são boas, a nossa como a deles, não havendo razão para mudar duma para outra”. Encontrou também outra figura bem conhecida, a trabalhar no terreno: “Assistimos em Goa à inauguração do Centro de Hematologia, Hemoterapia e Reanimação, anexo ao Hospital Escolar, e que foi realizado num curto espaço de tempo pelo dr. Almerindo Lessa, por iniciativa do Ministro do Ultramar e com o apoio do director da Escola Médico-Cirúrgica de Goa, dr. Pacheco de Figueiredo, que fica dirigindo o Centro. Ao dr. Almerindo Lessa se deve a organização dos Serviços de Transfusão de Sangue dos Hospitais Civis de Lisboa e idênticos serviços em Angola e Moçambique”. Almerindo Lessa escreverá mais tarde diversas obras científicas relacionadas com a sua estadia profissional em Goa e em Macau.Malaca foi a paragem seguinte. O “padre Manuel Teixeira, superior da Missão Portuguesa de Singapura, com os padres Francisco António Bata e Manuel J. Pintado, conduzem-nos à Missão onde, na igreja de S. Pedro, o rev. Teixeira preside ao ‘Te-Deum’, depois de ter proferido algumas palavras de saudação, lembrando os passos históricos que ligam Malaca à Pátria Portuguesa e referindo-se às fortalezas desmanteladas, ruínas de igrejas, lápides funerárias que lembram nos dias de hoje a passagem dos portugueses por estas paragens. Essas pedras mudas – disse – ainda hoje falam e cantam um poema de heroicidade, e rezam e choram”. O emérito historiador padre Manuel Teixeira permaneceu quinze anos na Missão de Singapura, regressando depois ao ponto de partida, Macau, onde por junto viveu sessenta anos, perfazendo assim uns impressionantes setenta e cinco anos de vida no extremo Livro Figuras_de_Jade_III.indd 70 08/11/2021 15:07
71FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEoriente ao serviço da fé e do império. O “Aviso Gonçalo Velho” seguiu depois para Timor, ancorando na baía de Dili. A comitiva fez uma esforçada “digressão de 1.400 quilómetros através da Província”, tendo ficado siderada com alguns cânticos guerreiros, como este que Ernesto Várzea registou: “Portugal! Portugal! / Aqui estamos nós sempre alerta / de catanas em punho, / sempre prontos / para degolar quem quer que seja, / aquele que tentar deitar por terra / a tua Bandeira, / ó nossa Pátria querida!”. No decurso de uma visita a uma escola primária, aponta esta curiosa observação: “Voltamos a abrir os cadernos. Os nossos olhos percorrem novamente as redacções simples e despretensiosas nas letras muito certinhas dos miúdos: ‘o leite é-nos fornecido pelas búfalas e pelas cabras’; ‘a minha casa é de palapa’; ’o meu pai estava na várzea quando cheguei ao suco’; ‘havia um palavão ao pé da casa’... O que pensariam as crianças do Minho se abrissem um livro de leitura com frases como estas?”. Timor estava praticamente destruído, mercê da invasão e ocupação japonesa na segunda guerra mundial, e os trabalhos de reconstrução eram muito lentos e proporcionais aos recursos existentes. A viagem, essa prosseguia passando pelas Filipinas, fugindo o navio lestamente ao tufão ‘Charlotte’, para rumar finalmente a Macau, onde chegaram muito fatigados, mas com a mente aberta para observar um mundo novo: “vimos a cidade-jardim batida pelo sol dum dia claro, cheia de colorido, pequenina e grácil, parecendo, ao lado de outras cidades orientais que nos foi dado ver, um brinquedo de crianças que um artista tivesse modelado com toda a sua alma. À noite, no alto da Guia, vimo-la acordar para a sua vida nocturna, no anilado dos seus milhares de lumes, nos desenhos caprichosos dos caracteres chineses dos anúncios luminosos, as sombras do casario a recortarem-se na noite enluarada”. A leitura da pequena monografia sobre o Território, escrita pelo padre António da Silva Rego, foi uma ajuda preciosa para entender o contexto histórico que está por debaixo das primeiras impressões: “evidentemente que tem visos de verdade a afirmação de Silva Rego de que os chineses não se consideram, na sua maioria, enquadrados na orgânica portuguesa. O carinho porém, com que olham a terra onde trabalham, a colaboração que prestam, a boa vontade que põem em pagar com gratidão o acolhimento recebido, fazem-nos aproximar tanto deles que, no convívio embora breve que tivemos, mais parece, paradoxalmente, sermos nós, os europeus, que estamos em Macau enquadrados na sua orgânica, tantas são as qualidades a tornarem agradável viver com eles, quase nos atrevíamos a dizer, desejar viver como eles”. Mas para além deste eufórico impressionismo, tudo se poderia resumir a rosas com espinhos e diplomacia interesseira, porque como sabiamente dizia o governador Joaquim Marques Esparteiro, vivia-se num estado de permanente “beligerância colaboracionista”, um conceito pragmático para mostrar quão importante eram os pontos de convergência entre as ideologias diametralmente opostas. Os preceitos de Sun Tzu e de Sun Bin, sobre a inteligência que deve presidir às divergências, mantinham-se vivos e activos.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 71 08/11/2021 15:07
72Ernesto Várzea ficou encantado com a noite de S. João em Macau: “No Jardim de Camões foi montada uma feira popular, transformando-se o vasto e formoso recinto numa aldeia portuguesa com as suas ruas e largos, a sua capela, as suas casas típicas em cenário, as suas tabernas com iscas, bolinhos de bacalhau e canecas de vinho e todas as barracas das nossas romarias, não esquecendo os sorteios de panelas... Eram senhoras quem servia às mesas e quem atendia nas barracas. As decorações eram à portuguesa e as lâmpadas iluminavam o recinto dentro dos tradicionais balões”. Regista ainda que o “vinho da Metrópole que aqui não rareia mas se paga – sendo verde e bom – a 10 patacas cada garrafa, uma coisa como 56 escudos o litro”. E não faltou a chuva.Os jornalistas foram obsequiados pelo “sr. Comendador Hou Ho Meng” com um requintado almoço pejado de iguarias que, para memória futura, fez questão de anotar no seu caderno. Mas, o que caíu no goto a Ernesto Várzea foi mesmo outro repasto servido no “restaurante do Buda Risonho (Fat-Siu-Lau em chinês) onde fomos levados por Hermann Monteiro que, com o escritor Luís Gomes e o jornalista Choi Leng Seong, foram os nossos amáveis e incansáveis companheiros e cicerones, restaurante onde se cozinha à portuguesa e nos deliciaram com caldo verde, sopa de abóbora com feijão, bacalhau cozido com todos, arroz de frango, bolinhos de bacalhau com arroz de pimentos e bifes de cebolada, tudo regado com botijas de vinho verde tipo Felgueiras...”. Mais palavras para quê?!Ernesto Várzea sintetiza deste modo a sua visão sobre Macau: “Muito do que aqui acontece é difícil de compreender na Metrópole. Macau não vive sem os chineses que são a sua alma; mas os chineses necessitam de Macau sob a nossa bandeira. Vivem presos a Macau os que aqui labutam e tem presos os seus interesses à sua economia; mas muitas vezes, através da História, repetida em tempos ainda recentes, os chineses precisaram deste porto de abrigo e encontraram sempre aberta aquela porta que, no momento presente, está fechada para entrarmos na China...”.A visita do Ministro do Ultramar a Macau saldou-se por treze providências legislativas, das quais destaco as seguintes: fixou o feriado municipal do concelho de Macau a 24 de Junho e o feriado municipal do concelho das ilhas a 13 de Julho; fundou a Academia de Música de Macau, como instituição particular de utilidade pública; deu a designação de Biblioteca Nacional de Macau à antiga Biblioteca Pública; estabeleceu condições de provimento e de funcionamento do lugar de professor de língua chinesa no Liceu Infante D. Henrique.A viagem de regresso, a partir de Hong Kong, foi feita de avião, com escalas em Bombaim e Roma até ao destino final, Lisboa.Ernesto Várzea publicará ainda uma interessante reportagem, “A Invasão da Etiópia” em 1959 e manterá vivo o seu interesse pela literatura policial, editando em 1962 “Às 10 horas ainda estava vivo: contos policiais”.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 72 08/11/2021 15:07
73FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEFERNANDO LAIDLEYJornalista e escritor, Fernando Laidley (1918-2010) faz evocar na contempora-neidade a saga dos intemeratos viajantes portugueses do fim do século XIX, que atravessaram o continente africano, entre perigos e aventuras, não em busca de ouro, mas à procura da História e do conhecimento naturalista. Em pleno século XX, nas décadas de cinquenta, sessenta e setenta, Fernando Laidley foi pioneiro nas travessias de África em automóvel, fazendo centenas de milhar de quilómetros, sempre em Volkswagen, um ‘carocha’ série 14 e outro do género furgão ‘pão de forma’, carros comprados em segunda mão. Era necessária muita coragem, ousadia e audácia e Fernando Laidley reunia esses predicados. Efectuou assim a primeira volta à África em automóvel, o primeiro ‘raid’ automóvel entre Luanda-Lourenço Marques-Bissau ou o primeiro ‘raid’ Lisboa-Goa. As longas viagens foram narradas em crónicas na imprensa e deram origem a vários livros com fotografias muito interessantes: “Missão em África: 1º Raid Terrestre Luanda/Lourenço Marques/Bissau”, 1958, com traduções francesa e americana; “Missão na Ásia”, 1960; “Reportagem em Dois Continentes”, 1962; “Guerra e Paz no Norte de Angola”, 1997; “Missão em África: Angola, Moçambique e Guiné”, 2001. Para além das inacreditáveis aventuras que protagonizou fez furor uma viagem que realizou na companhia de um leão adulto, “Boma”, que tinha domesticado e que também seguia como companheiro no carro. No fim dessa viagem, por determinação das autoridades policiais, “Boma” o leão, foi entregue a um jardim zoológico. Estas viagens coincidiram com o eclodir da guerra colonial nos palcos africanos e de um certo modo o voluntarismo aventureiro de Fernando Laidley foi colocado ao serviço da Agência-Geral do Ultramar, como propaganda eficaz de uma portugalidade imensa, orgulhosa e feliz.Mas, Macau também estava no horizonte de interesses de Fernando Laidley. Ele explica-nos como é que isso sucedeu: “Quando da minha estadia em Goa, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 73 08/11/2021 15:07
74escrevi ao tenente-coronel Jaime Silvério Marques, Governador de Macau, solicitando-lhe as indispensáveis facilidades para visitar este nosso território ultramarino. Passados uns quinze dias recebi de Sua Excelência um amável convite para visitar Macau, sendo-me facultadas todas as facilidades, cumprindo-me, por meu turno, proferir duas conferências, com projecção de filmes sobre Angola e Moçambique, uma em Macau e outra no clube português de Hong-Kong”. A viagem para Macau teve este longo e sinuoso itinerário: viagem de avião, de Luanda para Lourenço Marques; percurso feito em automóvel, de Lourenço Marques a Pretória, atravessando as Rodésias, e o Tanganica até Nairobi; viagens de avião, de Nairobi-Carachi-Bangkok-Hong Kong. Tudo isto significou “quinze mil quilómetros de automóvel e totalizaram cerca de cento e cinquenta horas de voo”.Fernando Laidley preparou muito bem a sua abordagem à história de Macau, escrevendo uma síntese muito interessante e equilibrada, bebendo informações em Eduardo Brazão, Artur Levy Gomes, Benjamim Videira Pires e nos autores chineses da “Monografia de Macau”, traduzida por Luís Gonzaga Gomes. Não deixa de apontar esta especificidade: “Que belo exemplo a apontar a todo o mundo! Até as relações entre as duas facções políticas chinesas dentro da cidade se humanizaram, revestindo-se de um carácter de quase amistoso antagonismo, talvez contagiados pelo clima de paz que se desfruta nesta terra portuguesa... E as relações entre Macau e a China Continental estabilizaram-se dentro de um certo espírito de compreensão e tolerância. Embora não estejamos de acordo com a ideologia política do nosso poderoso vizinho, preconizamos certa moderação naquilo que se afirme e naquilo que se escreva a seu respeito”. Claro que, para bom entendedor, como diz o nosso povo, meia palavra basta.Viajante experimentado, encanta-se com os nomes das ruas, “Travessa das Virtudes, Calçada do Bom Parto, Pátio da Dissimulação, Travessa do Enleio, Beco do Matapau”, observando que “o chinês é laborioso, paciente, sofredor”. Contudo não resiste ao fascínio pela comida interdita, “e existe mesmo um restaurante que serve cão, embora seja proibido por lei. De Hong Kong vem expressamente apreciadores para saborear esse pitéu. Embora esse prato possa contribuir para um aumento do turismo, as autoridades, por razões óbvias, não estão de acordo com o hábito de comer cão... Poucos dias depois de havermos chegado a Macau, as autoridades sanitárias efectuaram uma visita imprevista ao estabelecimento que serve essa especialidade. Lá estavam, efectivamente, muito bem acondicionados, convenientemente esfolados e espalmados uns contra os outros os cadáveres de vinte e sete cães. O veterinário municipal mandou regá-los com petróleo, a fim de ficarem inutilizados para o consumo. O chinês proprietário do restaurante, arrancava os cabelos, desesperado, clamando que ficava arruinado. Mas a autoridade foi implacável”. A administração portuguesa ficava bem vista e os leitores metropolitanos Livro Figuras_de_Jade_III.indd 74 08/11/2021 15:07
75FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEe ultramarinos acrescentavam à sua lista mais algumas características marginais de um orientalismo que, apesar de verdadeiro não se confundia com algum exotismo da realidade quotidiana.O desconhecimento da língua portuguesa gerava equívocos e confusões que Fernando Laidley não resiste a contar: “multiplicavam-se constantemente os incidentes cómicos, devido à nossa incompreensão da língua. Uma vez, no hotel, pedi ao criado que me levasse um café ao quarto. Passados uns minutos aparece-me ... com um bacio! Se pedia uma toalha, aparecia-me com um sabonete. Outra vez pedi-lhe um sabonete e trouxe-me uma vassoura! E nos estabelecimentos quando desejávamos algum objecto que não estivesse exposto, era uma autêntica tragédia ... ou uma comédia”. Mas não enveredou pelos comentários moralistas sobre o ensino e a difusão da língua portuguesa enquanto expressão e símbolo visível da soberania, tão comuns noutros incomodados viajantes que desconheciam a correlação dos pesos linguísticos e políticos.Mas, nos cerca de quatro meses em que viveu no Território, o que verdadeiramente encantou Fernando Laidley foi a organização escolar e educativa de Macau, permitindo-se mesmo fazer algumas improváveis analogias. Escrevia ele que é “um facto pouco conhecido na Metrópole, de que Macau, em relação ao número dos seus habitantes, orgulha-se de possuir a maior população escolar em todo o mundo. Em 185.000 habitantes existem 54.000 alunos, ou seja, cerca de um terço da sua população!”. O panorama escolar era o seguinte: “existem cerca de trezentos estabelecimentos de ensino, distribuídos da seguinte maneira: ensino pré-primário oficial, 1; missionário, 24; particular, 54; ensino elementar e complementar oficial, 5; missionário, 31; particular, 87; unidades militares, 13; ensino técnico- profissional missionário, 6; particular, 13; ensino secundário oficial, 1; missionário, 10; particular, 18; ensino eclesiástico, 1”. Outro aspecto que reteve na sua memória, “ao princípio os grupos, à saída das escolas, são mais ou menos homogéneos, pela idade das crianças e pelas cores dos fardamentos, mas depois acabam por se misturar umas com as outras formando um conjunto polícromo, barulhento e pitoresco, concorrendo para imprimir mais vida ao já intenso movimento da cidade”.Um pormenor interessante que registou, “durante os meses que residi em Macau, podem-se contar pelos dedos de uma mão, o número de indigentes que me pediam esmola”, observando que “todos os seus habitantes tem um tecto para se abrigarem e o seu pão quotidiano. Este facto é lisonjeiro se estabelecermos a comparação com os respectivos subalimentados vizinhos”.As informações que Fernando Laidley recolheu sobre a Assistência Pública e sobre a Indústria foram “amavelmente fornecidas pelo jornalista macaense Leonel Borralho”. Já sobre o Desporto em Macau, fez uma curiosa e longa entrevista a “José dos Santos Ferreira, chefe de redacção do jornal ‘O Clarim’ e secretário do Livro Figuras_de_Jade_III.indd 75 08/11/2021 15:07
76Conselho Provincial de Educação Física”. Essa entrevista a Adé ocupa cinco páginas e é marcante para a história do desporto em Macau. Por motivos que se ignoram, não entrevistou o Governador ou o Bispo diocesano. O tufão Alice marcou o fim da estadia de Fernando Laidley em Macau.Inesperadamente, foi convidado “pelo governo nacionalista chinês para visitar a Formosa” que era o “bastião Nº 1 contra o comunismo chinês”. Juntamente com outros jornalistas estrangeiros visitaram Taipé, a barragem de Shihmem, uma grande escola, diversas instalações militares subterrâneas e a ilha Grande Quemoy, por vezes com a presença ameaçadora de um Mig da China comunista, os “comunistas bombardeiam as Quemoy duas e três vezes por semana”. Seguiram de comboio para Taishung e o regresso a Taipé foi de avião. Na capital visitaram ainda o Templo de Confúcio, “impressionante construção de arquitectura clássica” e foram recebidos pelo Marechal Chiang-Kai-Shek e pela sua esposa. Na véspera da sua partida, realizou-se um jantar de despedida com a presença do Director e do Subdirector dos Serviços de Informação do Governo, o Presidente da Liga dos Povos Asiáticos Anticomunistas, vários deputados e outros alto funcionários, tendo “sido muito lisonjeiras as referências feitas ao nosso país, à sua acção civilizadora e à obra de ressurgimento nacional levada a cabo por Salazar”.Terminada a missão, Fernando Laidley regressa a Hong Kong. O regresso é uma nova aventura: Hong Kong/Saigão, “duas horas e meia, num jacto Caravelle, da Air France”; Saigão/Singapura, “um jacto da PAA”; Singapura/Colombo, “um Comet 4 da BOAC, quatro horas e meia de voo”; Colombo/Carachi, “um DC 8 da Air Ceylon, três horas de viagem”; Carachi/Nairobi, “um avião da East African Airways, oito horas de voo”. Em Nairobi dirigiu-se à residência do Cônsul de Portugal para ir buscar o Wolkswagem, que aí estava aparcado, para preparar a “viagem de meia dúzia de milhares de quilómetros, de regresso a Lourenço Marques”. Da capital de Moçambique seguiu de avião para Luanda.A parte final é assumida com dramatismo: “no momento em que escrevo estas linhas, o meu coração de Português sangra de dor. A nossa bem-amada Goa, o território de Damão e a querida relíquia de Diu, que com tanto carinho, amor e respeitosa veneração visitei, foram cobarde e odiosamente atacadas e ocupadas pelos gangsters de Nova Deli, à custa de uma esmagadora e vergonhosa superioridade numérica”. Os ventos da História, todos o sabemos, após a Conferência de Bandung, começaram a soprar noutra direcção.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 76 08/11/2021 15:07
77FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEFRANCK & MESNIERNo dia 9 de Abril de 1872 abandonava Macau a caminho de Lisboa o almirante António Sérgio de Sousa, governador cessante. No discurso de despedida perante o seu sucessor, o Visconde de S. Januário, António Sérgio de Sousa refere com um misto de melancolia e de alívio: “educado na vida marítima, reconheço contudo, a difícil tarefa de governar povos; mas não seria eu, soldado da liberdade, capaz de fugir de um posto, que a voz pública apregoava vizinho de perigos. Chegado a esta colónia achei uma paz octaviana e se depois notei algumas dissenções, assisti a elas com imperturbável ânimo, por que me acompanhou sempre a serena consciência do cumprimento de meus deveres”. Depois da cerimónia, o “digno almirante foi conduzido ao vapor na carruagem do exmo. Visconde do Cercal cujo hóspede era, seguia-o s.exª. o Governador na sua carruagem. As ruas do trânsito estavam juncadas de flores”. Começava então a administração do Visconde de S. Januário que, como nenhum outro governador dispôs de um formidável gabinete de comunicação, como hoje se diz, centrado na figura do seu secretário Pedro Gastão Mesnier, erudito, hábil escritor e homem de acção. Já o trouxemos a este jornal, na edição de 3 de Janeiro de 2017.Mal pôs os pés em Macau, logo o “Boletim da Província de Macau e Timor” é reconfigurado, ganhando a agilidade doutrinária e noticiosa de um jornal. A partir de 6 de Abril de 1872, começa a publicar sucessivos folhetins, escritos por Pedro Gastão Mesnier, intitulados “A descrição da viagem de Sua Exª. o Sr. Visconde de S. Januário, governador geral da Índia portuguesa às praças do norte – Bombaim, Damão, Diu, Praganã, Surrate”. Uma narrativa claramente fora do contexto, é certo, mas que significava o início da construção e consolidação do sentido de Estado associado à imagem pública do novo governador. Estas descrições das viagens diplomáticas e políticas seriam lidas do mesmo modo que a boa e patriótica burguesia letrada apreciava a leitura da “Morgada de Romariz” de Camilo Castelo Branco? Suspeitamos que sim.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 77 08/11/2021 15:07
78Surpreendente mesmo foi a publicação no “Boletim da Província de Macau e Timor” de um extenso artigo ideológico e filosófico, “A Sociedade e o Socialismo. Lição do Sr. Ad. Franck. Membro do Instituto no Colégio de França”. O primeiro artigo foi publicado no dia 13 de Abril de 1872, o segundo a 13 de Julho, o terceiro a 20 de Julho e o último a 3 de Agosto. Era uma novidade, com uma indesmentível actualidade. A iniciativa e a tradução devem-se seguramente a Pedro Gastão Mesnier. Vejamos em primeiro lugar as ideias do autor e depois partiremos para o contexto desta verdadeira profilaxia do socialismo, gerida em modo de educação moral e cívica.Adolphe Franck (1810-1893), filósofo espiritualista francês com raízes judaicas, é autor de uma obra extensa e muito interessante pela sua diversidade temática. Destacam-se entre os seus livros, os seguintes: “La Kabbale ou la Philosophie Religieuse des Hébreux”, com quatro edições, 1843, 1889, 1892 e 1981; “Le Communisme jugé par l’histoire”, com três edições, 1848, 1849 e 1871; “Moralistes et Philosophes”, com duas edições, 1872 e 1874. Dois outros livros, encontram-se disponíveis integralmente on-line: “Études Orientales”, com duas edições, 1861 e 1864; “Nouvelles Études Orientales”, de 1896. A ética, a moral, o direito constitucional a filosofia política dominam as suas investigações e o seu pensamento especulativo e agente. Para além das temáticas ligadas ao judaísmo, à paz e à justiça e à antropologia filosófica. As questões iniciais com que interpela o leitor, pela sua radicalidade intrínseca, são mesmo muito pertinentes: “Mas como é que a sociedade e o socialismo se encontram? De que modo o socialismo obsta à formação e progresso da sociedade?”. Sacralizando a liberdade, redescobre a vontade dos povos na predição do futuro com todas as ambiguidades que isso comporta.Adolphe Franck posiciona-se em termos de linhagem filosófica:“Quando falo da lei do progresso não quero dizer que a sociedade progrida de per si, e que nós avancemos ou sejamos levados gradualmente à mais alta perfeição pela força irresistível das cousas sem intervenção da nossa vontade e da nossa inteligência. Não. Não é o meu pensamento. Este fatalismo cego, por tanto tempo aceito desde Vico, Herder e Lessing como dogma indisputável, ofende igualmente na minha opinião, o senso moral e a verdade histórica”. E o socialismo em termos económico--filosóficos ainda estava no seu amanhecer doutrinário, por isso aparentemente inofensivo.O elogio da liberdade e a defesa do estado de direito são essenciais para Adolphe Franck: “Funda-se no princípio contrário o socialismo. Condena, abafa a liberdade. Nem quer ouvir falar nas prerrogativas da personalidade humana. Absolve-a de todas as responsabilidades; isenta-a de quaisquer providências; Livro Figuras_de_Jade_III.indd 78 08/11/2021 15:07
79FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEaniquila-a ou procura aniquilá-la para tomar o lugar dela” (…)“É necessário acabar com os ditadores, qualquer que seja o nome que eles tomarem, a bandeira com que eles se cobrirem, e as máximas em nome das quais solicitarem a nossa obediência. É indispensável acabar com os salvadores da pátria que deduzem da força a sua missão, e que sob o pretexto de reconstruir a sociedade sobre as suas ruínas, principiam por destruir o que mais necessário é, a ordem e as leis. É urgente que nos convençamos de que a sociedade, o Estado, somos nós mesmos, e que se não nos defendermos, Estado e sociedade deixarão de existir ou cairão no domínio da tirania”. Era a defesa do humanismo real, contra a ortodoxia e contra a sociedade homogénea sem contradições. Que impacto teriam tido estas ideias numa cidade como Macau?Não é possível averiguar se Adolphe Franck tomou conhecimento da tradução portuguesa e da publicação em Macau, em 1872, deste seu texto doutrinário. Em língua portuguesa, apenas foi publicado no ano da sua morte, em 1893, no Rio de Janeiro, um único livro, os “Elementos da Moral Cívica”.“A Sociedade e o Socialismo” de Adolphe Franck, segundo os propósitos de Pedro Gastão Mesnier, deveria funcionar como um verdadeiro cordão sanitário impeditivo da propagação das perigosas ideias socialistas em Macau. Era a primeira fundamentação teórica contra a ideologia comunista e socialista. O pensamento de Adolphe Franck estava bem apresentado na sua clareza pedagógica, com uma sedução argumentativa que não deixava o leitor indiferente. O perigo poderia vir de Portugal nos navios de passageiros, com livros e jornais, ideias e pessoas a cruzarem os mares até aportarem a Macau. As ideias socialistas germinavam tumultuosamente em Portugal. Pedro Amorim Viana estudava as contradições económicas de Proudhon desde 1852. Antero de Quental tinha publicado em 1871 “O que é a Internacional?”. A Aliança da Democracia Socialista e a Associação da Fraternidade Operária começam a fazer o seu caminho, arregimentando o proletariado urbano. Oliveira Martins edita “A Teoria do Socialismo” em 1872, o ano em que o jornal socialista “Pensamento Social”, que publicará o “Manifesto do Partido Comunista”, começa a atrair leitores curiosos. Em 1872 morre Ludwig Feuerbach. Pedro Gastão Mesnier não contou com outras duas forças doutrinárias que coexistiam em Macau, o neotomismo representado por Francisco Xavier Rondina e por Leôncio Ferreira e o neoconfucionismo omnipresente na cultura tradicional chinesa, mais tarde acessível à comunidade portuguesa através das traduções de Pedro Nolasco da Silva.Mas a vida em Macau ganhava outro fôlego e outras inflexões. Em 1874 um grande tufão devastou Macau e arredores. Pedro Gastão Mesnier publicou um testemunho vibrante, no melhor estilo realista, sobre essa calamidade no “Boletim da Província de Macau e Timor”. Nesta mesma publicação, o doutor António Luiz de Carvalho, arcediago da sé e governador do bispado escreveu um texto místico, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 79 08/11/2021 15:07
80ao arrepio de qualquer espírito científico: “A nossa cidade, que por suas recordações históricas e tradições religiosas era uma das mais famosas e notáveis do Oriente, tão bela ainda há poucos dias, perdeu em poucas horas grande parte do seu esplendor e formosura, sofrendo a mais horrível e lastimosa transformação! Tal é o destino de todas as cousas humanas! Só Deus é grande, só Ele é imutável! […]Quem sabe se Ele, vendo-se tão afrontosamente ludibriado por nós que tanto lhe devemos, por isso mesmo nos fustiga com a omnipotência do seu braço, não por vingança, mas pelos impulsos da sua rectíssima justiça?”. Por aqui se observa como o “Boletim da Província de Macau e Timor” se transformou, na sua parte não oficial, num jornal mundano, noticioso e pluralista.Macau adapta-se aos novos tempos, o tráfico de ‘coolies’ é censurado e proibido e em 1874 surge essa obra prima de cinismo legislativo que dá pelo nome de “Regulamento dos Passageiros Asiáticos e seu Transporte pelo Porto de Macau”.O império do terror e da insegurança continuavam presentes nos mares do sul da China. O vapor “Spark”, da carreira Cantão/Macau, com duzentos passageiros a bordo, é tomado de assalto por piratas chineses, a 29 de Agosto de 1874, que chacinaram muitos dos indefesos passageiros. Portugueses incluídos.O que ficou do legado de Adolphe Franck em Macau? O respeito absoluto pela liberdade e pela soberania da razão, na luta incessante contra o totalitarismo, seja ele de que natureza for. A iniciativa de Pedro Gastão Mesnier foi premonitória. Esse modelo ideológico de um mundo bipolar, desunido e crepuscular ainda não terminou. A luta continua.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 80 08/11/2021 15:07
81FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEHERLANDER MACHADOHerlander Alves Machado [1927-1992], natural de Lisboa mas com origens familiares em Castanheira de Pêra, foi um homem com múltiplas apetências culturais e com assinalável ressonância cívica. Ingressou nos quadros do Banco Nacional Ultramarino em 1949 e, como trabalhador-estudante matricula-se na Faculdade de Letras de Lisboa onde completará a licenciatura em histórico-filosóficas. Envereda pelo ensino técnico [Escola Comercial Veiga Beirão e Escola Comercial Ferreira Borges] e pelo ensino liceal [Liceu Passos Manuel] sem nunca perder o vínculo ao BNU, onde chegará a director de serviços do pessoal em 1970. Para além das aulas de História e da burocracia inerente ao ensino, esteve sempre muito ligado ao jornalismo e ao teatro escolares.Investigador infatigável, vai paulatinamente publicando uma obra de vulto em áreas diversas, que registo sem ser exaustivo: “A Restauração e o Brasil”, 1958; “Do Restelo a Vera Cruz”, 1958; “Auto das Confissões do Natal”, 1959; “Ida ao Mar”, 1960; “Regionalismo e Nacionalismo”, 1961; “O Velho Pastor e Eu”, 1961; “Palavras e Sombras”, 1965; “Bocage, o homem que destruía o amor”, 1966; “O Vinho na Economia Portuguesa”, 1967; “O Elemento Humano, Factor Primordial no Desenvolvi-mento das Empresas”, 1970; “Cinco Séculos do Capitalismo: da idade moderna aos nossos dias”, 1976; “A Expansão Quatrocentista Portuguesa”, 1976; “Dicionário de História de Portugal Ilustrado”, 2 vols., 1982. Tem colaboração assinada na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, foi director do “Jornal de Castanheira de Pêra” desde 1982, presidente da Casa das Beiras e dirigiu o Grupo de Teatro da Academia de Santo Amaro, em Lisboa.Com a revolução de Abril foi vítima de uma tentativa de saneamento no BNU, que daria origem à publicação deste livro: “Despedimento Sem Indemnização ou Compensação de um Trabalhador do Banco Nacional Ultramarino em 27-11-1974, com Vinte e Cinco Anos de Serviço”, 1974. Foi reintegrado e promovido, o que mostra a flagrante injustiça cometida durante esse surrealista ‘processo revolucionário em curso’.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 81 08/11/2021 15:07
82Mas, é este livro, “Macau de Ontem e de Hoje – Síntese Histórica”, publicado em 1981, em edição de autor, ilustrado e com 173 páginas, que merece algumas considerações. É uma obra verdadeiramente escolar, no bom sentido da palavra: informa, ilustra, abre a porta para outros caminhos, sugere, problematiza e orienta leituras. A leitura é agradável, não infantiliza ou imbeciliza o leitor, traz novidades e esquece-se de algumas coisas, é certo. Depois de Bento da França e de Régis Gervaix, Herlander Machado assina, sem sombra de dúvidas, a melhor introdução à História de Macau, acessível a qualquer leitor. E já passaram quase quarenta anos da sua aparição. A obra reparte-se por nove capítulos: Mística, Aventura e Comércio; Os Macaenses; A Embaixada Mártir; Dois Séculos de Perseverança – de D. João IV a D. João VI; Soberania; Do ´Patoá’ às Línguas de Hoje; Quadro de Geografia Humana; O BNU em Macau; Macau Hoje. A adicionar a estes capítulos, a Relação dos Governadores de Macau, uma bibliografia específica e a bibliografia geral. Abre o livro com uma descrição do enquadramento geográfico, “Topograficamente formosa, grácil nas suas concepções urbanísticas, a cidade de Santo Nome de Deus de Macau ergue-se, na península, a sul da província chinesa de Kuang Tung, com a qual comunica por uma estreita faixa de 200 metros de terreno, onde se ergue a famosa Porta do Cerco”. Faz justiça ao trabalho do padre Manuel Teixeira, “devotado estudioso que à História de Macau tem dedicado especiais cuidados, publicando livros e opúsculos sobre vários temas históricos da cidade, dos quais nos socorremos” e corrige alguns pequeninos deslizes, que diria propositados, de Austin Coates em relação à acção do Ouvidor Arriaga. Mereceu-lhe especial cuidado o delineamento biográfico de algumas personagens, Luís de Camões, Bocage e Eça de Queiroz, cuja acção directa ou indirecta se pode ligar ao Território. Mas, deixou de fora outras tantas, não menos importantes, a saber, Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes, D. José da Costa Nunes ou Luís Gonzaga Gomes. Também omisso, ficou a referência ao sistema de ensino ou uma alusão ao panorama da imprensa.Mas, a grande novidade em estudos desta natureza é o reconhecimento do Banco Nacional Ultramarino, uma espécie de companhia majestática desde sempre ligada à administração e ao poder político português, como sendo um importante suporte da soberania portuguesa em todas as parcelas do antigo império. Herlander Machado, também funcionário do BNU, recorreu aos Arquivos dessa instituição para analisar relatórios e documentos, divulgando os contornos de algumas decisões políticas menos claras ou conhecidas. Cite-se, a título de exemplo, o grande empréstimo concedido a Angola, em Junho de 1914, no valor de “120 contos”. A história é bizarra e merece um leve registo. Em face do excesso de liquidez existente, resultante do monopólio do ópio e da nova concessão da lotaria, é o gerente do BNU de Macau, A. Drouhin, quem sugere ao Presidente do banco, este engenhoso expediente: “Reconheço que é dificultoso para V.Exª. procurar pretexto para aludir na Direcção Geral das Colónias ou noutras estações competentes, ao excedente de dinheiro que na verdade é injusto conservar imobilizado em Macau, quando Angola Livro Figuras_de_Jade_III.indd 82 08/11/2021 15:07
83FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEagoniza numa carência absoluta de recursos, quando Moçambique protesta contra as transferências que lhe são exigidas, quando S.Tomé se priva dos melhoramentos locais de que necessita para acudir às colónias que não alcançam equilíbrio dos seus orçamentos”. O governador Aníbal Sanches de Miranda estava de saída e provavelmente não se oporia a essa iniciativa. O novo governador, José Carlos da Maia, estava ainda em Lisboa. Mas, quem não apreciou mesmo nada esta iniciativa foi o Leal Senado. Numa reunião extraordinária, ocorrida a 15 de Junho de 1914, presidida por Carlos Melo Leitão e com a presença dos Vereadores Francisco Xavier Anacleto da Silva, Manuel da Silva Mendes, António Maher, Secundino Encarnação, João Gracias e do Administrador do Concelho, José Maria Lopes, o Leal Senado repudia o empréstimo e toma estas duas atitudes. A primeira, expedir um telegrama a “Suas Excelências o Presidente da República, Presidente do Ministério, Ministro das Colónias, e aos principais órgãos da imprensa da capital, tais como, o Século, Lucta, Notícias, Intransigente, Mundo e República”; a segunda, “mandar traduzir na língua sínica e imprimir em português e chinês esta acta para que todos os Munícipes conheçam o assunto e fiquem cientes de que o Leal Senado não traiu o seu mandato, deixando correr à revelia uma medida que veio ferir tão profundamente este Município”. Na acta da reunião do Leal Senado, ressalta ainda este parágrafo: “Deliciavam-se os habitantes desta cidade com a fagueira perspectiva de ver dentro em pouco iniciados diversos empreendimentos que levantassem esta cidade ao nível das suas irmãs estrangeiras, parecendo bem fundada essa sua esperança, visto terem sido empreendidas algumas obras de certo vulto, quando, de repente estalou como um raio num céu sereno a notícia de que veio uma ordem ministerial transmitida pelo telégrafo para enviar à Província de Angola a quantia de 120 contos – nada mais, nada menos que umas 270 mil patacas”. Este naco de prosa parece saído da pena de Manuel da Silva Mendes, mas isso não passa de uma conjectura impossível de comprovar. O BNU informou a sede em Lisboa, em 21 de Junho de 1914, que o “governo da Província possui actualmente imobilizados 550 contos, cifra que irá aumentando quarenta contos em cada mês, por que é esse o excedente mínimo da Receita mensal”, garantindo que o empréstimo a Angola em nada beliscava a estabilidade da reserva financeira de Macau. Em tempo de abastança, era usual o Ministério das Colónias “absorver” o excesso de liquidez existente no Território. Anos volvidos, em 1936, o gerente do BNU de Macau, brigadeiro Vasco Themudo oficia para Lisboa, dizendo que “Macau está uma colónia absolutamente falida”, advogando que só um aeroporto salvaria o Território...Herlander Machado remata singelamente a sua introdução à história de Macau: “Do século XVI ao século XX, Portugueses e Chineses souberam conciliar interesses e sentimentos, dando a Macau uma feição própria, exótica, aliciante, exemplar”. E este caminho da história está repleto de surpresas e de imprevistos.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 83 08/11/2021 15:07
84JANUÁRIO CORREIA DE ALMEIDAJanuário Correia de Almeida [1827-1901], natural de Paço de Arcos, foi governador de Macau e Timor com um raro perfil de administrador, de diplomata e de filantropo. Engenheiro militar formado pela Escola do Exército e bacharel em Matemática pela Universidade de Coimbra, começou a sua carreira militar integrando a força que sufocou a revolta popular da Maria da Fonte, em 1846 e sobre a qual António Feliciano de Castilho publicará uma jocosa “Crónica Certa e Muito Verdadeira da Maria da Fonte”, uma boa meia dúzia de anos depois.É colocado no Ultramar, como director dos Serviços de Obras Públicas de Cabo Verde em 1857, sendo governador interino em 1861/1860. Após uma estadia fugaz na Guiné regressa ao Reino para ser provido como Governador Civil do Distrito do Funchal em 1862, sendo transferido poucos meses depois para o Governo Civil de Braga onde permanecerá até 1864. Neste mesmo ano a sua vida agita-se com novos trabalhos sucessivamente como Comissário Régio no Distrito de Vila Real, Governador Civil do Porto e Deputado pelo Círculo do Porto pelo Partido Progressista.Estreitou amizade com Camilo Castelo Branco e com outros intelectuais nortenhos. O Rei D. Luís fá-lo Barão em 1866 e Visconde em 1867. Foi nomeado Governador Geral da Índia em 9 de Fevereiro de 1870, levando consigo Pedro Gastão Mesnier e tendo como secretário-geral o poeta Tomaz Ribeiro que publicará “Entre Palmeiras: de Pangim a Salcete e Pondá: visita do Governador-geral do Estado da Índia Visconde Sam Januário”, publicada na Imprensa Nacional de Nova Goa, em 1871. Tomaz Ribeiro regista com humor: “Aqui como em Portugal é preciso comer e beber em toda a parte e não há resistir. É preparar estômagos ou não viajar na Índia”. Pedro Gastão Mesnier publica, também na Imprensa Nacional de Nova Goa, em 1871, a “Viagem de Sua Exª. O Sr. Visconde de Sam Januário Governador Geral da Índia Portuguesa às Praças do Norte – Bombaim, Damão, Diu, Praganã e Livro Figuras_de_Jade_III.indd 84 08/11/2021 15:07
85FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTESurrate”, onde a coberto da descrição de uma viagem está um vigoroso panfleto filosófico e político onde faz a apologia dos direitos do homem e dos povos. Estes dois trabalhos literários, de Tomaz Ribeiro e de Pedro Gastão Mesnier, merecem ser lidos na actualidade para ilustração das mentalidades de antanho. Militar disciplinado, Januário Correia de Almeida aceitou a nomeação para Macau como uma nova missão, após um ano e poucos meses na Índia, onde lidou com uma insurreição militar de quatro batalhões e com tempo ainda para fundar o Instituto Vasco da Gama.Governador de Macau e de Timor [1872-1874] e cumulativamente Ministro Plenipotenciário de Portugal junto das Côrtes da China, Japão e Sião, o major Januário Correia de Almeida tomou posse “nos paços do leal senado, alterando-se a antiga praxe de se fazer este acto na fortaleza de S. Paulo do Monte”. Em jeito de linhas de acção governativa, fez a seguinte proclamação aos habitantes de Macau, no dia 23 de Março de 1872: “Na minha administração acharão os funcionários, a força armada, os habitantes da país em geral e em especial a numerosa comunidade chinesa, seguro abrigo, cordial acolhimento e pronto auxílio para tudo quanto for justo, legal e conveniente aos interesses da província, mas encontrarão também a autoridade vigilante e severa contra tudo que importar ofensa das leis, infração da disciplina ou perturbação da ordem pública”. Entrou com o pé direito na governação do Território, com a aprovação do Regulamento da Emigração Chinesa, a 28 de Maio de 1872, que restringia e disciplinava o milionário tráfico de culies. O negócio continuava florescente apesar das novas regras serem restritivas e moralizadoras. Basta reparar que no dia 26 de Maio desse mesmo ano saiu do Porto de Macau a galera francesa “Canadienne”, com 507 colonos chinas para Calláo de Lima e no dia 28 de Maio, a barca peruana “Maria Luz” com 225 colonos e 13 menores chinas, para o mesmo destino. Se os mandarins aplaudiam a filosofia do novo Regulamento, alguns interesses instalados não apreciaram aquilo que consideravam ser uma demonstração de fraqueza. Umbilicalmente ligada a essa questão estava a crónica e quezilenta indefinição dos limites do domínio marítimo e os conflitos com os postos alfandegários chineses. O jornal ‘O Oriente’ que já tinha zurzido o anterior Governador António Sérgio de Sousa virou-se agora para o novo Governador Visconde de S. Januário, não poupando nos adjectivos qualificativos. Este toma medidas drásticas, manda suspender ‘O Oriente’ e deporta para Timor o seu redactor principal, o médico Francisco da Silva Magalhães, cujas palavras ficarão para a história: “Obrigado, sr. Visconde de S. Januário, por me ter poupado ao nojo de presenciar tanta loucura se não é maldade. O desterro a que me votou dispensando a lei, é-me mais suave do que ser forçado a presenciar tão funesta administração. Agora que o jornal liberal foi brutalmente suprimido, pode sua Exª. derramar a instrução jesuítica pelos Livro Figuras_de_Jade_III.indd 85 08/11/2021 15:07
86macaenses”. ‘O Oriente’, recorde-se, tinha atacado violentamente a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses acusando-a de motivações políticas que lhe estavam interditas por causa do seu estatuto.O jornal oficioso, a ‘Gazeta de Macau e Timor’, cujo redactor principal era Pedro Gastão Mesnier, noticiou chistosamente, “O Oriente suspendeu-se. ‘O Oriente’ suicidou-se”.As providências legislativas sucedem-se a um grande ritmo, passando a imagem de um enorme ímpeto reformista. Em Julho é aprovado o novo Regulamento para as Meretrizes e Casas de Toleradas de Macau e em Agosto de 1872 iniciou-se a construção da obra do regime, o imponente Hospital Militar que mais tarde adoptará o nome do governador. Em 1873 é despachado o Regulamento das Escolas de Instrução Primária, com significativas inovações pedagógicas. Também foram aprovados os Estatutos do Teatro D. Pedro V, cujo artigo 2º diz o seguinte: “A discussão de assuntos políticos ou religiosos não poderá ter lugar no recinto desta sociedade”. No fim do ano foi a vez de verem a luz do dia os Estatutos da Biblioteca Macaense, uma “associação para estabelecer e manter uma biblioteca particular de livros nacionais e estrangeiros”.As visitas do Rei do Cambodja e do Grão-Duque Alexis acentuam a aura cosmopolita do Território. O Vice-Rei dos dois Kuangs agraciou o Visconde de S. Januário, a 8 de Agosto de 1874, com a Medalha de Honra, que foi entregue deste modo: “tendo fundeado em frente ao palácio do governo, uma lorcha de guerra a vapor, conduzindo a seu bordo um alto dignatário chinês, o coronel Pan-Yock, como enviado extraordinário do governo chinês e portador da imperial decoração”.Pouco tempo antes de partir para Portugal, um violento tufão deixou um rasto de destruição em Macau, nos dias 22 e 23 de Setembro de 1874, tendo Pedro Gastão Mesnier publicado um excelente relatório sobre essa tragédia.Januário Correia de Almeida é em 1875 um dos fundadores da Sociedade Protectora dos Animais e do Jardim Zoológico de Lisboa, em 1884. É o primeiro presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1876. Liderou a comissão nacional que angariou fundos para a aquisição do cruzador Adamastor.Fruto da sua estadia e das suas viagens no Oriente e no Extremo Oriente adquiriu e acumulou um impressionante conjunto de obras de arte, minuciosamente descritas e apresentadas no “Catalogue des Objects d’Art das Indes, de la Chine, du Japon et du Siam existant dans la Galerie du Vicomte de S. Januário”, um Catálogo coordenado por Pedro Gastão Mesnier. Todo este património foi dividido em três parcelas: uma para usufruto pessoal, outra para oferta a museus e instituições similares e a terceira para venda em leilão. E o leilão correu tão bem que permitiu a aquisição da Quinta dos Castelos em Paço de Arcos e a edificação da casa senhorial.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 86 08/11/2021 15:07
87FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEEnviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário junto das Repúblicas Sul-Americanas [Uruguai, Paraguai, Argentina, Chile, Bolívia, Perú, México], de 20 de Setembro de 1878 a 1 de Dezembro de 1879, o Visconde de S. Januário arruinou irremediavelmente a sua saúde nesta grande missão de serviço público.As distinções sucedem-se, Par do Reino [1880], Ministro da Marinha e do Ultramar [1880/81], Ministro da Guerra [1886/88], elevado a Conde [1889], e é promovido a general em 1893.As suas publicações mais importantes são as seguintes: “Um Mês na Guiné”, 1859; “Memória Sobre a Construção de um Cais no Porto da Cidade da Praia da Ilha de S. Tiago de Cabo Verde”, 1860; “Duas Palavras Acerca da Última Revolta do Exército do Estado da Índia”, 1872; “Relatório do Governador da Província de Macau e Timor, 1872-1874”, 1875; “Missão do Visconde de S. Januário nas Repúblicas da América do Sul”, 1880; “Documents sur les Missions Portugaises au Cambodje et en Conchichine”, 1883.Entre as condecorações que possuía destacam-se a Grão-Cruz da Ordem da Coroa (Sião), a Grão-Cruz da Ordem do Sol Nascente (Japão), a Grão-Cruz da Ordem Real (Cambodja), Grande Oficial da Legião de Honra (França), Comendador da Ordem da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito, a Grão-Cruz da Ordem Militar de Cristo, a Grão-Cruz da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.Vale a pena referir uma pequena história registada por José Gomes da Silva, no seu livro “Viagem a Siam”, publicado em 1889. No decurso da viagem oficial ao Sião, do governador Firmino Costa, foi tocado o hino nacional português, uma versão que a comitiva portuguesa nunca tinha ouvido, sequer conhecia. Onde estava o mistério? Era o “hino do governador de Macau”, do Visconde de S. Januário! O erro foi corrigido e o hino da Carta foi entregue ao protocolo siamês.A vida e a obra de Januário Correia de Almeida continuam a ser alvo de interesse e a motivar estudos diversos.João Luís Cardoso publicou uma excelente biografia profusamente ilustrada, “O General Conde de S. Januário (1827-1901): um português de excepção”, editada pela Câmara Municipal de Oeiras em 2018, com apresentação de Isaltino Morais e prefácio de João de Deus Ramos.Maria Helena do Carmo escolheu o Conde de S. Januário e Pedro Gastão Mesnier como as figuras centrais do seu novo romance que está prestes a ser publicamente apresentado.Em Macau, para além da toponímia, o seu nome continua inscrito no “Centro Hospitalar Conde de S. Januário”.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 87 08/11/2021 15:07
88JOÃO BRAZ DE OLIVEIRA João Braz de Oliveira [1851-1917], almirante da Armada, natural de Lisboa, foi um extraordinário pedagogo e cronista dos fastos navais portugueses, para além de revelar um grande talento artístico no desenho e na aguarela. Fez a sua carreira militar nas corvetas Duque da Terceira, Sá da Bandeira e D. João I, na fragata D. Fernando II e Glória, na canhoneira Sado e no transporte Índia. Serviu por duas vezes na Estação Naval de Angola. Notabilizou-se como professor na Escola Naval, sendo titular da 11ª cadeira, “Ciência da Guerra, Fortificação, Estratégia e Táctica do Combate Naval”. Entre as suas publicações, destacam-se “As Explorações de África”, 1877; “Os Navios de Vasco da Gama”, 1892; “Os Navios da Descoberta”, 1894; “A influência do Infante D. Henrique no progresso da marinha portuguesa – navios e armamento”, 1894. A sua obra magna, “Narrativas Navais”, publicada pela Academia Real das Ciências em 1908, foi novamente reeditada em 1970 pelo Ministério da Marinha, oferecendo ao leitor 42 empolgantes narrativas em perto de 400 páginas. É do capítulo, “Um tufão na China, em 1874” que me irei ocupar. A construção literária deste olhar orientalista é muito interessante porque representa uma apropriação cultural que não passa por uma demorada, arriscada ou comovida vivência, mas por um espaço de acolhimento produtor de sentido e de empatia ontológica. Aqui reside uma das originalidades do orientalismo português.O objectivo maior das “Narrativas Navais” era instrutivo, servir de “leitura das guarnições dos navios de guerra portugueses”, insuflando valores patrióticos nos marinheiros, iniciando-os “na tradição da Armada, de modo a sugerir-lhes pela lição e pelo exemplo o amor pátrio, o culto da bandeira, o valor, a disciplina, o heroísmo, a dedicação até ao sacrifício pelas ideias nobres e generosas, para que os novos de hoje não desmereçam dos bons créditos dos antigos”. João Braz de Oliveira queixava-se da fragilidade da instrução pública, dizendo, “infelizmente Os Lusíadas já não são hoje o livro das escolas. É quase privilégio de literatos eruditos, e por isso Livro Figuras_de_Jade_III.indd 88 08/11/2021 15:07
89FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEnão pode ser o livro dos marinheiros, que acabaram de sair da escola de leitura”. Compôs assim as “Narrativas Navais”, onde a pedagogia ampara os valores gerando sinergias assaz sedutoras e a emoção literária sustenta o determinismo histórico e político: “todas estas Narrativas são históricas, colhidas ou na tradição oral, ou no registo dos livros de quartos, já nas páginas dos cronistas, já na recordação de factos nossos conhecidos, e todas elas documentadas, tendo havido o cuidado de expor o facto e deixar ao leitor o fazer a crítica, para dele tirar a lição conveniente”. João Braz de Oliveira leu seguramente no “Boletim da Província de Macau e Timor”, de 12 de Outubro de 1874, o soberbo relatório firmado por Pedro Gastão Mesnier e apresentado ao Visconde de S. Januário, governador de Macau.João Braz de Oliveira nunca esteve em Macau ou na China, mas dispôs de informação suficientemente detalhada para construir uma narrativa interessante, que sugere mais do que diz, aqui e além salpicada de preconceitos eurocêntricos: “eu nunca vi a China e não direi que tenho pena. Ouvi dizer ser o país da peste amarela, que ameaçava invadir o Novo Mundo, e tanto bastou para desmerecer a minha simpatia. Depois ouvi chamar-lhe a terra da miséria, da lama, do enxurro...”. A sua memória mais antiga remetia para “as verdadeiras laranjas da China, que em requebrada cantiga eu ouvira apregoar às raparigas da minha boa terra”, mas foram mesmo umas “lições elementares de geografia que vieram modificar as primeiras impressões. Até ali a China fora para mim a terra clássica do chá, dos mandarins, da porcelana, das caixas de cânfora, vermelhas e douradas, a pátria dos leques de charão com figurinhas de rosto amarelo, olhos oblíquos, cabaias de seda, rabicho de negras trunfas penteadas”. Literariamente parece impressionado pelo cosmopolitismo de António Patrício, cujo estado de alma parece insinuar que a verdade pode ser, afinal, uma ilusão, “Macau que eu tinha visto pintado nuns papeis de artista chinês, trazidos pela gente da barca Martinho de Melo e dos transportes, correspondia perfeitamente à China que eu convencionara. A muralha da Praia Grande, as casinhas alinhadas e de várias cores, os serros coroados de fortins, o porto com os seus tancás, sampanas e lorchas reflectindo-se nas águas lodacentas era bem uma terra da China já minha conhecida, um desenho dos leques de charão”. As ideias comuns repetem-se, “A peste amarela em torrente de culis exportara-se para a terra americana e fora esse o tempo mais próspero da colónia”. Acreditava que “Macau era bem uma terra excepcional. Não desmerecia do valor das ricas bijouterias do Celeste Império e no meio daquela multidão de gente amarela percebia-se bem que podiam ter crédito as histórias de dragões”.A narrativa cinematográfica, com vários planos justapostos, começa deste modo: “O tufão é bem o dragão que passa, terrível, pavoroso, é a indómita procela do mar da China. Tufão é o senhor da tempestade, um deus de malefícios, de acordo com aquele meio e com as suas exóticas tradições”. O aspecto que “oferecia Livro Figuras_de_Jade_III.indd 89 08/11/2021 15:07
90o porto interior de Macau ao pôr do sol do dia 22 de Setembro de 1874 era deveras majestoso. Às 4 horas (p.m.) o pontão da polícia – a lorcha Amazona – dera o tiro de anúncio do tufão”. Tudo se precipita, misturando-se a piedade e o medo, numa indistinta alquimia: “Ante os Santos do oratório, que a tormenta estremecia, ajoelhavam as damas macaístas implorando a Providência; enquanto as chinesas queimavam papeis vermelhos, com orações pintadas pelos bonzos, aplacando o Buda sentado sobre a folha do lodão, para que as livrasse do Long, o dragão sanhudo que vem acerrar as garras, vingar velhas afrontas de alguma derrota de gigantes”. A estação naval portuguesa compunha-se de três canhoneiras, Tejo, Camões, Príncipe D. Carlos e de algumas pequenas lanchas de polícia. As canhoneiras Camões e Príncipe D. Carlos foram mandadas construir “em 1866 pelo governador Coelho do Amaral para serviço da província e repressão da pirataria”. Para além destas três canhoneiras, estavam ancorados os vapores White Cloud e Poyang, o brigue Concórdia, a barca mercante Santa Sancha, a lorcha Amazona e dezenas de outras pequenas embarcações de pesca. O cenário fica assim composto: “Quem na véspera admirara o surpreendente aspecto da cidade, quando iluminada pelo sol poente reflectia nas águas a vistosa casaria, quem se lembrasse das dezenas de lorchas amarradas à margem e da porfiada regata das embarcações de vela a buscar ancoradouro mais seguro; quem procurasse descobrir os navios de alto bordo, ficaria tristemente impressionado. Passara por ali a morte, que ceifou larga messe de viventes. Das lorchas apenas restavam seis, as mais tinham naufragado. O White Cloud, de quilha para o ar, partira-se numa ostreira pelo travez da ilha Verde. A Príncipe D. Carlos naufragara para os lados da foz do rio do Oeste, em território china, salvando-se a equipagem, para lá ficou abandonada e os piratas chinas não tardaram a saquear os restos do naufrágio”. O relato, esse continua terrível na sua negra contabilidade: “Pelas praias e pelas águas, não se viam senão cadáveres. Avaliaram as vítimas em quatro mil pessoas, a maior parte chinas das povoações flutuantes e das lorchas e tancás do rio. No porto de Macau apanharam-se centenas de mortos, e na Lapa e no Istmo das Portas do Cerco deram às cinzas humilde sepultura”. O remate desta narrativa é um ajuste de contas com uma memória longínqua, “O tufão era como um acessório da minha China convencional, feita em parte de leques, porcelanas e mandarins de cabaia e de rabicho”, terminando de um modo claramente disfórico, “Eu nunca estive na China, e depois que me disseram ser perto de Hong Kong a caverna do dragão das tempestades, esfriou muitíssimo o meu entusiasmo pelas regiões longínquas do Oriente”. A vida, essa continuou com novos tufões e com coragem e combatividade para ultrapassar as incertezas e as irracionalidades dos elementos.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 90 08/11/2021 15:07
91FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEJOÃO CARDOSO JÚNIORÀ memória de João Nobre de OliveiraJoão António Cardoso Júnior [1857-1937], natural de Coimbra em cuja Universidade se formou em Farmácia, ingressou no Exército e serviu em Cabo Verde, na Ilha de Santo Antão e na Ilha de Santiago, por mais de vinte anos. Investigador, naturalista e botânico, João Cardoso Júnior estudou com invulgar profundidade a botânica de Cabo Verde e da Guiné, em especial as plantas medicinais. Organizou importantes herbários com espécimes vegetais de Cabo Verde que ofereceu a instituições nacionais [Colégio Militar; Instituto Botânico da Universidade de Coimbra; Instituto Botânico da Universidade de Lisboa] e estrangeiras [Royal Botanic Gardens, Kew; Museum National d’Histoire Naturelle, Paris; Rijksherbarium, Leiden].João Cardoso Júnior reformou-se com a patente de Coronel Chefe dos Serviços Farmacêuticos da Província de Cabo Verde. Pelos seus “relevantes serviços no Ultramar português” foi nomeado Cavaleiro da Ordem Militar de São Bento de Aviz e Oficial da Ordem Militar de S. Tiago da Espada, esta pessoalmente outorgada por El-Rei D. Carlos.Publicou um conjunto muito interessante de estudos, destacando-se a “Homenagem d’um Livre Pensador a Camões”(1881), “Plantas Medicinaes do Archipelago de Cabo-Verde”(1893) , “Notas Africanas”(1895) e “Plantas Tóxicas e Medicinais de Marrocos”(1915). Na Revista ‘Brotéria’ , série de Botânica, de 1915, publica o importante ensaio “Cryptogamicas das Ilhas de Cabo Verde”. Nessa mesma publicação, encontramos ensaios de sábios jesuítas como A. Luisier, C. Zimmermann ou C. Torrend, o que nos dá uma ideia da elevada craveira intelectual e científica de João Cardoso Júnior. Mas o trabalho sobre o qual nos iremos deter intitula-se “Subsídios para a Matéria Médica e Therapeutica das Possessões Livro Figuras_de_Jade_III.indd 91 08/11/2021 15:07
92Ultramarinas Portuguesas”, com dois volumes, publicado em 1902/1905, pela Academia Real das Ciências de Lisboa. É aqui que o Território aparece descrito de uma forma a todos os títulos surpreendente, evidenciando o autor um conhecimento muito vasto da complexa história política e diplomática de Macau e da China. Diz-nos que a sua obra “é um misto de compilações e trabalhos originais, convergindo tudo a vulgarizar, sob o ponto de vista médico-histórico-natural, o conhecimento das nossas Possessões Ultramarinas, principalmente junto dos alunos da Faculdade de Medicina e das Escolas Médico-Cirúrgicas”. Estava firmemente convicto de que a “matéria médica colonial será, num futuro próximo, a que está destinada a fazer, na terapêutica dos povos civilizados, uma grande revolução. Quando isto se der, e necessariamente há-de dar-se, que à evolução nada serve de estorvo, Portugal continental será beneficiado por uma economia de muitos e muitos contos de réis”. E não esquecendo “a crise medonha” que o país atravessava, insistia na “plêiade de missionários da ciência, destes é que devem vir, em grande número, para as regiões ultramarinas portuguesas”, sobretudo médicos e farmacêuticos. Era necessário lembrar que as “Possessões Ultramarinas encerram riquezas naturais sem número, que a própria função civilizadora de Portugal exige sejam estudadas e exploradas convenientemente, fazendo-as entrar, sem demora, na esfera da utilidade social”.Nenhum dos sábios da Academia Real das Ciências de Lisboa se deu, seguramente, ao trabalho de ler integralmente este livro. Leram quando muito os prolegómenos científicos da obra e nada mais, concedendo a autorização para ser impressa. Sucede que a apresentação contextualizadora da colónia de Macau, de índole política, é invulgarmente crítica e contundente para o modus operandi da governação portuguesa, por vezes a roçar o injurioso. Esta descrição, pela sua rudeza, parece ser escrita por um desdenhoso viajante anglo-saxónico ou mesmo holandês, do que propriamente redigida por um aprumado militar português.As informações preliminares são curiosas e fornecem ao leitor um conjunto de opiniões bastante interessantes: “de qualquer das alturas de Macau se goza um belo panorama, mas os viajantes, em geral, preferem ver do mar esta formosa cidade”.O seu olhar sobre a cidade fixa-se em pormenores estratégicos: “A Praia Grande, brilhante aglomerado de palacetes com colunas ao gosto asiático-bretão, é defendida, em parte, contra o Oceano, por muralhas de pedra; tem sofríveis cais e próximo à residência dos governadores a caricatura de um fortim à beira-mar, que incomoda os passeantes e não tem utilidade alguma”. Prossegue a narrativa com outras minudências: “Continuando porém a examinar a beira-mar, deixando os assentos de pedra que hoje estão assombrados por novas árvores, começa a longa fileira de habitações elegantes, apenas cortada aqui e ali pela entrada de uma Livro Figuras_de_Jade_III.indd 92 08/11/2021 15:07
93FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEestreita devesa. Negociantes portugueses e estrangeiros ocupam quase todas essas casas, com excepção das duas piores e mais abarracadas, que são as residências do governador e do juiz de direito”.João Cardoso Júnior continua a fornecer ao leitor um colorido antropológico, olhando para a vulnerabilidade e para a diversidade do género humano de uma forma quase pictórica:“O que entretém mais o viajante neste trânsito é a diversidade de raças humanas que encontra e o seu variadíssimo trajo. O europeu, geralmente falando, não se veste ali como em uma cidade de oeste; usa jaqueta branca ou saut-au-barque de fantasia, chapéu de cortiça forrado de seda, uma fita por lenço do pescoço, sapatos em vez de botins. Na extravagância do trajo avantajam-se sempre os ingleses, como era de supor. Além destes, encontra-se o malaio cobreado, o siamês pequeno e pardo, o japonês mais pequeno ainda, o chim de várias cores, mas daquele eterno tipo que nenhum leitor desconhece; os nativos de Macau, mescla de europeu, chim e malaio, que ou são padres ou calafates, marinheiros poucos e o resto vadios; nhonhas de saraça, chinas de pé quebrado, quase pé de cabra, mal podendo sustentar-se sobre eles e algumas senhoras europeias, americanas ou nativas, que trajam pelo figurino de Paris do ano anterior”.A gestão do espaço merece-lhe este reparo contundente:“formaram os chins uma linha de demarcação em uma espécie de istmo muito estreito, e todo o português que a ultrapassava, depois de maltratado pela povoação chim, era levado à presença dos mandarins, e se não podia remir-se a peso de ouro, sofria o suplício da canga ou ia parar a um cárcere. Os chins, pelo contrário, entravam livremente pelo nosso território”.Como se diz em bom português, é a partir deste ponto da narrativa que a porca torce o rabo. As quatro causas da decadência de Macau, segundo João Cardoso Júnior, amalgamando juízos morais, análise política, observações positivistas de um cientista, foram assim identificadas:A primeira “foi o franquear-se a entrada dos portos da China aos navios holandeses e chineses, alternadamente dominadores dos mares da Índia. Assim que eles foram admitidos em Cantão e lhes foi permitido ancorarem no porto da Typa e na enseada de Wampoa, perdeu o nosso estabelecimento quase toda a sua importância como empório e como posição marítima”.A segunda causa da decadência, “forçoso é confessá-lo, o terem os senhores da colónia, tão fortes quando Vasco da Gama e Albuquerque os capitaneava, contraído em tempos de paz e de prosperidade, hábitos de indolência e de fraqueza. Vendo nos chins homens laboriosos e inteligentes, concederam-lhes plena confiança e entregaram-lhes a direcção de quase todos os negócios. Como se divulgasse este bom agasalho, veio acolher-se ao estabelecimento europeu a ralé mais viciosa e falta de probidade de toda a China, e os novos colonos absorveram pouco a pouco o núcleo português, já adulterado pelo perpétuo cruzamento das raças”.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 93 08/11/2021 15:07
94A terceira causa da decadência: “esta população turbulenta, assim introduzida em Macau, foi dócil e útil enquanto a guarnição europeia a conteve nos limites da obediência; porém, assim que perdemos a nossa preponderância na Índia, e não pudemos enviar para a colónia senão cipais comandados por oficiais mestiços, aquela gente, mais numerosa, mais activa e mais intrépida do que a que se lhe devia opor, revoltando-se por diferentes vezes, chegou a introduzir-se na cidade e a apoderar-se das fortalezas. Então os senhores de Macau conheceram o seu erro; o menor pretexto bastava para os chins se amotinarem, revolverem a feitoria, roubarem as casas dos ricos europeus. Isto os obrigou a invocarem a justiça indígena contra aqueles importunos hóspedes; porém os mandarins que foram chamados a Macau de tais ardis tem usado desde então que o governador da colónia é um agente passivo das suas vontades. Uma ordem deste funcionário asiático pode de um dia para o outro fechar a barra”.A quarta causa da decadência: “Macau, portuguesa no nome, é quase inteiramente habitada pelos súbditos do imperador da China. Destes, 25.000 moram na cidade e 5.000 nos campos ou locas; e como a população total se julga ser de 34.000 almas, segue-se que andará por 4.000 o número dos portugueses, se é que este nome se pode dar a uma raça mista, composta de sangue europeu, índio, chim e até cafre, reputada na China inferior aos chins e na Índia aos índios, ainda tão soberba como nos dias prósperos, pois crê aviltar-se exercendo certos misteres que exigem trabalho manual, ao mesmo tempo que não se peja de estender a mão para receber esmolas. Todavia estes entes, tão degenerados quanto às qualidades morais, tem conservado melhor as físicas, porquanto são robustos, airosos e de elevada estatura. Mais ou menos morenos, todos têm, em geral, feições regulares e olhos negros e expressivos”.Seriam absolutamente verdadeiras e friamente objectivas estas quatro causas da decadência de Macau, segundo João Cardoso Júnior? A resposta não será fácil, mas poderemos reformular a questão com esta analogia, seria verdadeira a imagem de Portugal contida no “Portugal de Relance”, escrito em 1879 pela princesa Rattazzi? Talvez sim e talvez não. A verdade desmoraliza pelo que a educação nesse tempo preferia tapar as debilidades com as falsas virtudes. O Estado também era fraco por causa dessa moral carunchosa. O certo é que todo este catálogo de deselegâncias não encontrou eco algum junto do Ministério da Marinha e Ultramar, que na época em apreço teve três titulares. Os governadores de Macau, Arnaldo Rebelo e Martinho Montenegro também não se pronunciaram. Os intelectuais mais representativos como Pedro Nolasco da Silva, Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes ou José Vicente Jorge, ficaram em silêncio, bem como a imprensa portuguesa. O livro terá tido uma circulação muito restrita e provavelmente não deve ter chegado a Macau. Não consta, por Livro Figuras_de_Jade_III.indd 94 08/11/2021 15:07
95FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEexemplo, do catálogo da bem nutrida Biblioteca do doutor Lourenço Pereira Marques ou da imprescindível “Bibliografia Macaense” compilada por Luís Gonzaga Gomes. Bastaria um leitor atento e com uma sensibilidade indignada para encenar um protesto público que geraria a breve trecho um incêndio patriótico. Foi o que aconteceu uns anos depois. Apreendeu-se o livro “Macau Histórico” de Carlos Montalto de Jesus, sendo a edição queimada em público, num auto-de-fé medieval em plenos anos vinte. O motivo? Ousar colocar em questão a capacidade de os portugueses saberem governar Macau.A preocupação da comunidade portuguesa estaria certamente ligada à missão que levou o general José Joaquim Machado a Pequim para negociar os limites de Macau e das suas ilhas adjacentes. Um falhanço rotundo, como se sabe. Nas memórias de um dos participantes dessa missão, o general Norton de Matos, ficamos a perceber melhor os diversos problemas que foram criados para asfixiar e abortar essa incumbência diplomática.João Cardoso Júnior não deixa de olhar para as mulheres, de uma forma crua e pouco simpática: “outro tanto não pode dizer-se das mestiças de Macau, às quais a tez amarela, os narizes chatos, as enormes bocas anuviadas pelo uso dos cachimbos, os olhos sem brilho, os cabelos encrespados e o mau feitio das testas desfeiam muitíssimo. Apesar destes defeitos, quando elas transitam pelas ruas, com metade do rosto oculto nas mantilhas transparentes, arrastando as chinelinhas de marroquim salpicado de diversas cores, e com os roupões apertados com uma tanga, graças a este tipo desusado, não deixam de agradar aos recém-chegados. A maior parte destas mulheres, e as mais bonitas, são as que provém da união dos chins e dos europeus. Dão-lhes o nome de chinas-portuguesas e têm fama de peritas na arte de preparar o ópio e de ministrá-lo aos fumantes”. Manuel da Silva Mendes também escreveu neste registo, temperado com humor, sobre as mulheres de Macau.Uma nota final, com um juízo de valor sobre a proverbial fama dos chineses para os negócios: “o que principalmente enleva os olhos é a estudada disposição das fazendas que os chins expõem à venda, de modo mais próprio para realçar o seu valor e para despertar nos viajantes os desejos de comprá-las, os quais, se não usam das mais minuciosas precauções, quando pensam ter feito excelentes compras, acham o seu dinheiro convertido em cousas de nenhuma valia, pois ninguém leva a palma aos chins na arte de tirar dinheiro aos estrangeiros por meios fraudulentos”.Todas estas impressões de um militar e botânico esclarecido inspiraram-se numa leitura muito pessoal da história de Macau, cujas fontes ocultou cuidadosamente, procurando construir uma narrativa eufórica fora da linearidade e da rede de indiferenças, criando assim um ruído desmoralizador.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 95 08/11/2021 15:07
96JOÃO DE DEUS RAMOSO nosso relacionamento com a China é muito antigo, terá começado informalmente com Jorge Álvares, em 1513, e manteve-se vivo com altos e baixos numa longa duração até 1949. Desde então, Macau foi a charneira estratégica que serviu os dois Estados, mercê de uma diplomacia pragmática e funcional, mais indiferente do que hostil e que se movia como no teatro de sombras, não esquecendo o persistente ataque subversivo, velado no Território e às claras nos palcos africanos, ao regime político português, cujo sinal ideológico se situava no extremo oposto ao chinês. Tudo isso cessou com o 25 de Abril. João de Deus Ramos [1942-2018], cujo mane tutelar era a figura do Poeta homónimo muito apreciado em Macau, foi o diplomata tranquilo que operacionalizou a aproximação de Portugal com a China, a partir do reatamento das relações bilaterais retomadas em 1979, um trabalho gizado a partir da capital francesa, com o embaixador António Coimbra Martins que deixou um interessante livro de memórias. João de Deus Ramos é oriundo de uma família de diplomatas e após o curso de direito, na Universidade de Lisboa, ingressa naturalmente no Ministério dos Negócios Estrangeiros, em 1968. A infância e a adolescência foi repartida por vários países, Inglaterra, Brasil, Paquistão, à medida da errância profissional do Pai, que era diplomata. A sua primeira colocação fora do país será em Tóquio, no ano de 1972: “Foi no Japão que nasceu o meu gosto pela Ásia Oriental, que me havia de acompanhar o resto da vida. Ali comecei a estudar empenhadamente, a adquirir os livros, indispensáveis instrumentos de trabalho. E muito beneficiei ainda do entusiasmo e sensibilidade do cineasta Paulo Rocha, que eu admirava desde que vira o inesquecível filme ‘Os Verdes Anos’, e que chegara a Tokyo como conselheiro cultural uns meses após o 25 de Abril”. Estes primeiros passos na sua carreira estão descritos no livro “Em Torno da China. Memórias Diplomáticas”, publicado em 2016, que é um marco na elegância e na sabedoria Livro Figuras_de_Jade_III.indd 96 08/11/2021 15:07
97FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEcom que retrata as pessoas nas diversas relações internacionais, pressentindo-se alguma mágoa do autor pelo facto de não dever narrar tudo o que sabe, aquilo que vivenciou e o que presenciou à janela da história luso-chinesa. Em 1975 é Cônsul-Geral em Genebra e em 1979 está em Pequim com a missão de abrir a Embaixada de Portugal, uma tarefa bastante difícil, não só um pesadelo logístico, mas sobretudo porque “tínhamos perdido o hábito de tratar com a China e também de pensar sobre a China”. De resto, também ia “constatando a dimensão da nossa ignorância em tudo o que respeitava à China, incluindo os aspectos práticos. Embora pioneiros no diálogo entre o Ocidente e o Império do Meio, perdêramos o traquejo do quotidiano, pois ao longo de décadas, entre nós, os assuntos chineses eram tratados concretamente através de Macau”. Instalado provisoriamente no Hotel Pequim, auxiliado pelo Senhor Qin, intérprete que falava a língua francesa e que “usava discretamente uma caneta Parker e uma bicicleta Raleigh, com a marca cuidadosamente tapada por um adesivo, não fossem as coisas assanhar-se ideologicamente outra vez, em que esses sinais suspeitos de ligação ao estrangeiro seriam um risco”, João de Deus Ramos conta porque é que passou as passas do Algarve para expedir com sucesso um telegrama para Lisboa comunicando que tinha aberto a embaixada. A comunidade portuguesa em 1979 cabia toda dentro de um automóvel, “António Graça de Abreu, a mulher, dois filhos pequenos e mais um casal”. E com o “nosso gosto comum pela História, encontrei no António Graça de Abreu um excelente companheiro de conversas, refeições e passeios, e fomos criando uma relação sólida de amizade que se mantém até hoje”. Aproveitou o tempo para conhecer os monumentos, passear de dia e de noite pela capital chinesa e para encetar contactos com as outras representações diplomáticas que “ficavam estupefactos e invejosos de tanta antiguidade” nas nossas relações com a China. João de Deus Ramos reflectia em voz alta, “Para mim, pressentia naquelas reacções alguma surpresa pelo mal que nós próprios tiramos partido do nosso passado. Sentia-os a pensar que, se fosse com o país deles, haveria vasta literatura alusiva, filmes e séries televisivas também. Com efeito, nós, portugueses, tratamos mal destas coisas que nos valorizam e é uma pena; além do mais, abrimos as portas a deturpações e branqueamentos do passado de que apenas nós somos os responsáveis”. Chegou, entretanto, o primeiro embaixador português, António Ressano Garcia e em Março de 1980 ocorre a primeira visita de um governador de Macau a Pequim, o general Nuno Melo Egídio, acompanhado de dois secretários-adjuntos, Aires da Silva e José de Jesus, tendo sido recebidos por Deng Xiaoping, o ‘paramount leader’. Em 1981 termina a primeira fase da sua ligação à China. Regressa a Lisboa e é colocado no Colégio de Defesa da NATO, em Roma, donde seguirá para a Embaixada de Portugal em Maputo, Moçambique, onde ficará até 1986. As autoridades chinesas apresentam a calendarização política para reaver a colónia inglesa de Hong Kong e Livro Figuras_de_Jade_III.indd 97 08/11/2021 15:07
98a breve trecho preparavam-se para publicitar as suas ideias sobre o destino de Macau. Em Portugal não existiam sinólogos e informação detalhada e actualizada sobre a China. Em Macau havia esse conhecimento, mas eram olhados com alguma desconfiança. A boa vontade era capaz de ser maior do que o amadorismo, e era com esse capital de sinceridade que se partiu para as negociações que culminaram com a Declaração Conjunta. No inconsciente colectivo, existia o trauma da descolonização, uma tragédia que ninguém desejava repetir. A segunda fase da sua ligação à China começava agora. João de Deus Ramos é convidado para assessorar diplomaticamente o governador Joaquim Pinto Machado, mas não pôde aceitar, porque integrou a delegação portuguesa para as conversações sobre Macau, “o que estava em jogo era um episódio do nosso processo de descolonização, a actuação portuguesa seria julgada em termos políticos e de opinião pública, havia responsabilidades incontornáveis quanto às populações de Macau. Ia ser um processo longo, complexo e desgastante. Mas as perspectivas entusiasmaram-me, e a minha experiência passada fazia-me pensar que poderia dar o meu contributo útil”. Formalmente, João de Deus Ramos foi membro da delegação portuguesa às negociações para a Declaração Conjunta sobre Macau, em 1986-1987, chefe da base principal do Grupo de Ligação do Grupo de Terras luso-chineses em Macau, 1988-1990 e a convite do governador Carlos Melancia, secretário-adjunto para os Assuntos de Transição, 1990-1991. A opinião pública portuguesa olhava com aparente indiferença para todas estas questões relacionadas com o fim de Macau governado pelos portugueses. Miguel Torga apontou melancolicamente no seu “Diário”: “Assinatura da transmissão a curto prazo da soberania de Macau. O povo nem deu conta do que se passava”. João de Deus Ramos regista nas suas memórias, “É certo que não poucas eram as pessoas no nosso país que pensavam que íamos ‘vender’ ou ‘abandonar’ Macau, em ímpetos patrióticos compreensíveis mas pouco racionais; é certo também que o desfecho ia ser a China ganhar um novo território e Portugal perdê-lo, e que assim, à partida, o posicionamento emocional subjacente para portugueses e chineses era de sinal oposto”. Taiwan jamais reconheceu a fórmula, ‘um país, dois sistemas’, e em Portugal nunca se reflectiu verdadeiramente sobre Macau e o destino das suas comunidades.João de Deus Ramos, aproveitando o fôlego que lhe proporcionava as funções de secretário-adjunto para os Assuntos da Transição, procurou coordenar todas as boas vontades existentes para se pensar em escrever, finalmente, uma História de Macau: “Pareceu-me assim que era chegado o momento de lançar um projecto que abrangesse o percurso histórico do território desde o seu surgimento em meados do século XVI até ao presente, que teria de ser um projecto não individual mas de uma equipe que abordasse em profundidade as várias áreas Livro Figuras_de_Jade_III.indd 98 08/11/2021 15:07
99FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEtemáticas e as diferentes épocas, e em que participassem também, se possível, várias instituições da sociedade civil. À época a Fundação Macau tinha à sua frente o Dr. Jorge Rangel, que de imediato aderiu à iniciativa, a Universidade de Macau também, e outras entidades mostraram interesse”. O projecto era ambicioso e perfeitamente exequível, mas, infelizmente, não passou do papel.Encerrado este ciclo, João de Deus Ramos é colocado no Paquistão como embaixador de Portugal, entre 1991 e 1993.E como não há duas sem três, é em 1993 que retoma outra vez a sua ligação à China. Recebe o convite para ingressar na Fundação Oriente após ter conseguido obter uma licença sem vencimento, no Ministério dos Negócios Estrangeiros: “Os dezasseis anos que trabalhei na Fundação Oriente foram estimulantes ao permitirem-me conciliar de pleno as actividades profissionais com o interesse pessoal pelas culturas asiáticas; e também por me terem proporcionado a satisfação de contribuir, ainda que ao de leve, para o desenvolvimento dos estudos orientais no nosso país”.A obra que produziu é bastante significativa: “Os dicionários luso-sínicos: relance histórico-bibliográfico”, 1988; “História das Relações Diplomáticas entre Portugal e a China: o padre António de Magalhães SJ e a embaixada de Kangxi a D. João V, 1721-1725”, 1991; “Estudos Luso-Orientais, séculos XII-XIX”, 1996; “Relações Diplomáticas entre Portugal e a China”, 1999; “As Relações Luso-Chinesas e a Declaração Conjunta de 1987”, 1999; “Extremos Orientais: 1877”, 2002; “Kangxi, os jesuítas e o aforismo jing tian”, 2007; “Portugal e a Ásia Oriental”, 2012.Este auto-retrato de um intelectual enamorado pela sinologia é notável pela sabedoria que encerra e pela verídica sensibilidade que deixa fluir, merecendo por isso entrar numa antologia: “A minha China, a de que gosto, não é qualificada, não é república popular, nem república nem império. É a China de sempre que dá que pensar, que faz pensar, e que quanto mais conhecemos, mais temos consciência do pouco que sabemos. É um esforço permanente, que não tem fim, mas que é tão enriquecedor. Não gosto dos chineses em geral, mas gosto muito de alguns em particular. Não gosto do dia-a-dia na China, mas muito de alguns momentos mágicos e únicos que acontecem quando se lá vive ou está. A China no seu pior, é o pior que há, mas no seu melhor é singular e inesquecível. A China entra em nós para não mais nos deixar. Foi o que aconteceu comigo. Por nada, por nada mesmo, quereria que tivesse sido de outra maneira”.João de Deus Ramos tinha as seguintes condecorações: Comendador da Ordem de Isabel a Católica, de Espanha, Oficial das Ordens de Mayo al Merito, da Argentina, Oficial do Tesouro Sagrado, do Japão, Cavaleiro das Ordens de Orange-Nassau, dos Países Baixos e Cavaleiro do Rio Branco, do Brasil. É académico correspondente da Academia Portuguesa de História.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 99 08/11/2021 15:07
100JOÃO MILNERA imprensa portuguesa continua a revelar-se como uma fonte imprescindível para o conhecimento da história da cultura e das ideias, nessa dinâmica “pequena porção” do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, como era designado o Território de Macau na Constituição Portuguesa de 1822. É sobretudo na “Gazeta de Macau e Timor” e em “O Macaense”, que podemos seguir o rasto das ideias de João Leonardo Hartt Milner (1889-1848), cidadão luso-britânico que veio para Macau em finais de 1877, por intermédio da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e a convite do poderoso clã Remédios, para leccionar e definir o plano de estudos da Escola Comercial. Contudo a ligação de João Milner a Macau será talvez anterior a 1869, mercê da correspondência com Maximiano António dos Remédios e também pelos laços de amizade que o ligavam a Pedro Gastão Mesnier. A partir de 15 de Julho de 1873, na “Gazeta de Macau e Timor. Semanário Político, Literário e Noticioso” [cujo responsável era Francisco de Sousa e o redactor principal era Pedro Gastão Mesnier, secretário do governador Visconde de S. Januário], e em números sucessivos, foi feita uma publicidade intensiva ao livro “Esboço de Philosophia Analytica” de J. L. Hartt Milner. Não há registo, em Macau, de um livro de filosofia ser precedido de tamanha pressão publicitária. Além do “Prospecto” da obra, era divulgado um índice geral dos capítulos. O autor teve o cuidado de mencionar, “é o aturado estudo da filosofia, em que se empregou por anos consecutivos, em Inglaterra e na Universidade de Louvain, na Bélgica, que o move a confiar ao prelo as suas primeiras locubrações científicas”. Em termos práticos, para os leitores interessados, “em Macau, recebem assinaturas para a mesma obra os srs. Pedro Nolasco da Silva Jr. e Carlos José Caldeira Júnior”. Nomes de família sonantes na comunidade portuguesa, bem se nota.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 100 08/11/2021 15:07
101FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEMas é no contexto da história das ideias filosóficas em Macau que gostaria de vincar a originalidade de João Milner, que nas páginas de “O Macaense” foi um dos raros intervenientes na grande polémica sobre a validade do darwinismo, cujo protagonista principal era o médico Lourenço Pereira Marques.Observemos então, muito de relance, as ideias filosóficas de João Milner, que eram de raiz claramente espiritualista. Dizia ele que “os vastos tesouros da natureza, patenteados à luz da observação e da experiência, ocuparam de tal modo a atenção dos sábios, que lha distraíram do estudo da ciência da abstracção e da filosofia. O empirismo, tendo iludido e cegado o espírito humano, pelo seu demasiado brilho, não tardou em vir a ser sistema. Cedo se aliou ao materialismo e ao cepticismo e hoje não é mais que uma negação dos primeiros princípios e das verdades de primeira evidência, de que é formada e com que é defendida a filosofia da análise e da abstracção”. Mas, em que se firmava a sua ideia de filosofia?: “entendemos por filosofia analítica um sistema de demonstrações racionais de verdades abstractas e metafísicas por meio de princípios reconhecidos por evidentes, e pelos factos ou dados científicos geralmente admitidos como tais. Demonstrar uma verdade é dar a razão do seu ser”. A sua preocupação nuclear parece ser mesmo esta: “numa época em que a filosofia contemporânea se despe de todo o elemento racional, para assumir um carácter cada vez mais empírico e sintético, arriscada empresa seria, senão baldada, sair em campo com uma filosofia puramente analítica, que seja baseada em princípios analíticos e reduzida a um método exclusivamente analítico”. A obra, “Esboço de Philosophia Analytica” está dividida em três grandes capítulos: Tratado dos Princípios; Questões Cosmológicas; Questões Dinamológicas. Foi editada em Lisboa, pela Livraria Editora de Mattos Moreira & Cª, em 1874. Como curiosidade, anote-se que a “propriedade desta edição pertence a Henrique d’Araújo Godinho Tavares, súbdito brasileiro”. O prefácio foi assinado por António José Viale, humanista, proeminente educador e professor da casa real portuguesa, dos filhos da Rainha D. Maria II. Não há condições objectivas para se avaliar o impacto desta obra filosófica de Milner na sociedade ilustrada e esclarecida de Macau. Mas, alguma coisa deve ter ficado porque a burguesia era sequiosa do saber e cultivava-se com livros desta natureza apesar de não os compreender em toda a sua extensão problemática.João Milner tinha leccionado em Lisboa, no Colégio Luso-Britânico e no Colégio de Nossa Senhora da Conceição, construindo aí uma sólida reputação de pedagogo culto e actualizado, sendo autor de obras várias. Leccionará na Escola Comercial desde 1878 até 1884, tendo o estabelecimento de ensino atingido uma elevada notoriedade em virtude da proficiência científica, pedagógica e cultural do seu corpo docente. Escrevia ele no jornal “O Macaense”, em 28 de Fevereiro 1882: “além do desenvolvimento da inteligência, o estudo do comércio produz conhecimentos sólidos de quatro ramos de estudos que o acompanham e são: a contabilidade, as línguas vivas, a geografia dos produtos comerciais e os valores monetários”. João Milner trabalhou afincadamente Livro Figuras_de_Jade_III.indd 101 08/11/2021 15:07
102para que a Escola Comercial se pudesse transformar numa Academia Comercial, com uma base humanista e aberta a outros saberes, a breve trecho reconhecida como uma escola de ensino médio e superior. Era um nicho estratégico cujo desenvolvimento requeria ponderação e apoio da comunidade empresarial. Macau era um antigo entreposto comercial e por essa razão necessitava de formar e qualificar as suas gentes. O que ele não previu foi essa estranha mudança de rumo que levou a Escola Comercial a ser anexada ao Seminário de S. José, por um acordo de interesses, pouco transparentes, entre a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e a Diocese, cujo prelado era D. António Joaquim de Medeiros. O padre Manuel Teixeira valoriza apenas esta faceta de razões convenientes, “quando a Associação anexou as aulas ao Seminário, Milner quebrou o seu contrato, publicou nos jornais várias cartas contra o presidente Pedro Nolasco e regressou à Inglaterra”. Mas a história tem outros contornos. Milner foi embora porque a Escola se descaracterizou irremediavelmente, fragilizando a sua matriz de educação comercial. Mais tarde seria criado um Instituto Comercial encostado ao Liceu, mas foi sol de pouca dura. O projecto só estabilizou muito mais tarde com o modelo de ensino dual instituído no Estado Novo. O comentário de Milner tem um indisfarçável laivo de ironia: “projectam-se liceus e cursos de latim e filosofia, relegando-se o curso do comércio para o campo ou canto dos estudos acessórios e suplementares!”. Um remoque para Francisco Rondina que desejava abrir um curso de filosofia e outro de latim porque acreditava que a “prosperidade não só intelectual e moral, mas também a civil dum povo está em proporção com a sua cultura intelectual”. Ambos tinham razão, mas em contextos diferenciados. O certo é que a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses deitou borda fora a possibilidade de ter fundado uma escola do ensino superior em Macau, no final do século XIX, porque não compreendeu o alcance da estratégia visionária desenhada por João Milner. E o Território teve de esperar quase um século para tornar a albergar o ensino superior.Deixo aqui o registo breve e incompleto da bibliografia de João Milner: “Novo Método para Aprender a Ler e Falar uma Língua em Seis Meses aplicado à Língua Inglesa”, Lisboa, 15ª edição, 1875; “Gramática Prática da Língua Portuguesa”, Macau, 1883; “Pequeno Dicionário-Gramática da Língua Inglesa. Para uso dos portugueses”, Macau, 1883; “Pratical and inductive book-keeping. Adapted for the use of schools and for self-tuition”, Hong Kong, 1884; “Esboço da História Antiga. 1ª Parte. Desde a Criação do Mundo até ao fim da Grécia”, Macau, 1884; “Esboço da História Grega Antiga”, Macau, 1889; “Resumo da Gramática Inglesa segundo o Programa do Liceu”, Hong Kong, 2ª edição, s/d.Após abandonar a Escola Comercial, João Milner recebeu um convite para trabalhar na imprensa inglesa da colónia vizinha, no jornal “HongKong Telegraph” (mais tarde absorvido pelo “South China Morning Post”) desempenhando as funções de subdirector. Aí se manteve pouco anos porque faleceu prematuramente, em 1889.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 102 08/11/2021 15:07
103FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEJOAQUIM PAÇO D’ARCOSJoaquim Belford Correia da Silva (1908-1979), que assinava como Joaquim Paço d’Arcos, romancista, poeta, dramaturgo e ensaísta, viveu em Macau entre Agosto de 1919 e Junho de 1922, período em que o seu Pai, o Comandante Henrique Correia da Silva [que também usava o nome de Henrique Paço d’Arcos] desempenhou as funções de Governador dessa Província Ultramarina situada na zona meridional da China.Joaquim Paço d’Arcos tinha apenas onze anos de idade, mas os curtos anos em que viveu em Macau revelaram-se culturalmente muito intensos e existencialmente marcantes, de tal forma que a sua futura obra irá reflectir intermitentemente essas vivências, sobretudo nos “Amores e Viagens de Pedro Manuel” (1935), no “O Navio dos Mortos e Outros Contos” (1952), nos “Encontros da Vida e da Literatura” (1955) e nas “Pedras à Beira da Estrada” (1962). Talvez aí se encontrem umas das melhores e mais singulares marcas da estética orientalista da fase imperial da nossa história literária contemporânea. Sem esquecer, naturalmente, as “Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo”, em três volumes, 1973/1979.Um dos últimos actos do então governador cessante, Artur Tamagnini Barbosa, em 23 de Abril de 1919, foi o de mandar reforçar alguns orçamentos sectoriais, nomeadamente a “dotação do Museu Luís de Camões com 129,000” e a “alimentação dos cavalos do Palácio com 200,000”. Uma questão de prioridades, como bem se nota.Em Agosto de 1919, um tufão ameaçava paralisar Hongkong, Macau e toda a zona a sul de Cantão. O Governador de Hongkong, Sir Reginald Stubbs oferece a Government House, mas o Comandante Henrique Correia da Silva tinha pressa para chegar a Macau. A canhoneira “Pátria”, comandada por Mariano de Carvalho, transportará o novo Governador, a Família e a sua comitiva, de Hongkong para Macau, debaixo de uma intensa tempestade tropical, “novidade não houve além do Livro Figuras_de_Jade_III.indd 103 08/11/2021 15:07
104balanço ininterrupto durante nove horas, mais do dobro do tempo normal da travessia”. Chegam a Macau com a cidade totalmente às escuras, porque houve uma falha geral de energia. O tufão trouxe muitos prejuízos, mas também um novo Governador. Era o prenúncio de uma atribulada governação. Em Macau reencontraram familiares, como Carlos d’Assumpção, filho do barão d’Assumpção, que usualmente residia em Kowloon, e o médico José Caetano Soares. De assinalar a curiosidade de o Comandante Henrique Correia da Silva ter nascido em Macau, no ano de 1878, quando o seu Pai, Carlos Eugénio Correia da Silva, o Conde de Paço d’Arcos, era Governador do Território, entre 1876 e 1879.No seu afectuoso e vibrante livro de memórias, “Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo”, que se estende por três volumes, publicados entre 1973 e 1979 [reeditados num só volume em 2014], encontramos uma soberba descrição de Macau e de alguns meandros diplomáticos e políticos da sua difícil governabilidade.Joaquim Paço d’Arcos recorda que se defrontavam “nesse tempo em Macau, dois tipos de civilização opostos, conciliados só pelo poder de adaptação e arte de convívio dos portugueses. Muitas das casas em que habitavam as famílias lusíadas, nativas ou idas da Metrópole, fossem antigos palacetes ou modestas habitações, tinham a traça das nossas construções provincianas. Havia calçadas do burgo que nos lembrariam artérias de Leiria ou de Vila Real. A mentalidade reinante era também a duma cidade portuguesa de província. O calor que se prolongava por grande parte do ano convidava à indolência. Mas paralelamente ao burgo um pouco amadorrado, debatia-se no espaço acanhado da península e transbordava para o mar em centenas de embarcações uma outra cidade, verdadeiro formigueiro humano onde não se escutava uma palavra de português. Em prodígio da arte da governação, mantínhamos porém ali, naquele tempo, toda a nossa autoridade e o prestígio intactos. Por ordem interna velava, com a mestria e experiência que adquirira em África, mas facilmente adaptado ao meio tão diferente, o nosso companheiro Vieira Branco, comissário da Polícia. Tinha este como principal auxiliar um chinês, que era o chefe da Polícia Secreta, o Lau-Sin”.Um dos maiores problemas sentidos pelo Comandante Henrique Correia da Silva, no governo de Macau, foi o relacionamento com a China sobretudo essa velha e crónica questão da indefinição de fronteiras e de limites nas águas territoriais, que ficava sempre no limbo dos tratados entre os dois estados: “Disputava a China ao nosso país o direito a possuir águas territoriais. Ora nessas águas pretendia o governo português construir um porto moderno, que atraísse a Macau a navegação e restituísse à colónia o papel antigo de interposto do tráfego do hinterland. Seria a maneira de libertar Macau da dependência vexatória do comércio do ópio, sua principal fonte de rendimento”. O planeamento do governo de Macau não agradava ao governo regional de Cantão, que suspeitava da ameaça de um expansionismo Livro Figuras_de_Jade_III.indd 104 08/11/2021 15:07
105FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEmilitar português, mas nunca explicou as razões objectivas da sua oposição: “Do projecto fazia parte a construção dum vasto aterro junto à Ilha Verde, pequeno ilhéu lusíada na parte norte e mais larga desse porto. Puseram os chineses, com a sua persistência bem conhecida, todos os entraves a tal construção. Desde as campanhas da imprensa do sul da China, à agitação orquestrada das associações, aos permanentes atritos locais, às intimidações feitas por embarcações armadas, todos os processos foram utilizados para amedrontar os portugueses”. Avizinhava-se pois um conflito em larga escala contra Macau, com uma magnitude raramente observada: “Perante a resistência do nosso pai a suspender as obras do porto, a atitude chinesa foi-se tornando mais firme e mais hostil. Em Janeiro de 1920 a concentração de tropas em volta de Macau tomava já um aspecto ameaçador. As informações da Polícia e do comando militar da Taipa e de Coloane revelavam a entrada na cidade e nas ilhas vizinhas de bandos numerosos de piratas que no momento oportuno agiriam sob as ordens de três centenas de militares chineses, de várias graduações, que disfarçadamente se tinham introduzido em Macau, e as tropas acampadas em redor da península subiam a alguns milhares de homens, ao mesmo tempo que os navios de guerra da esquadra de Cantão cruzavam ao largo, mas à vista dos pacíficos habitantes da cidade cercada”. A cedência portuguesa era inevitável porque a desproporção de meios e de forças no terreno era notória e óbvia: “E ante a destruição geral que tudo lhe sugeria e o acatamento do instante conselho do representante da Inglaterra na China, Paço d’Arcos, num doloroso desfibrar de toda a sua alma de patriota, decidiu-se expedir a ordem para a suspensão dos trabalhos”. Com o fim das obras portuárias, o conflito terminou de imediato e esvaziou-se a tensão bilateral. Para o acerto da negociação final deste imbróglio político, seguiram para Cantão em representação do governador, José Vicente Jorge e Jaime Cunha Gomes. Era a consabida fórmula diplomática do Buda sorridente que permitia salvar a face, para não haver cabisbaixos perdedores de um lado e vencedores soberbos na outra banda. A vida regressou à normalidade, incluindo a reposição das garantias constitucionais entretanto suspensas e o usual abastecimento de géneros alimentares provenientes da China. Melhor sorte não tiveram as 68 “associações de classe” compulsivamente encerradas pelo Comando Militar de Macau em 7 de Junho de 1922, por evidentes e fundadas suspeitas de agitação subversiva anti-portuguesa.Esta página da história contemporânea de Macau, a partir do testemunho de quem a viveu angustiadamente por dentro vêm demonstrar, uma vez mais, que a ausência de conflitos visíveis ou patentes, não significava que eles não tivessem existido, existiram e não foram poucos, por vezes associados a um profundo desgaste psicológico e emocional. Joaquim Paço d’Arcos deixa-nos ainda o depoimento de Luís Gonzaga Gomes, amigo e condiscípulo no Liceu, então Livro Figuras_de_Jade_III.indd 105 08/11/2021 15:07
106instalado no edifício do Hotel Boa Vista, actual residência consular, “Volta e meia não tínhamos aulas, porque uma canhoneira chinesa ia fundear nas nossas águas. Macau entrava em estado de sítio e lá íamos nós ajudar os soldados a puxar as peças de artilharia, ali perto, na encosta da colina da Penha”.Em 1921 a boa notícia foi a criação da “Escola Henrique Correia da Silva” em Kobe, no Japão, juntamente com a “Biblioteca Fernão Botto Machado”, que atestavam a vitalidade da comunidade portuguesa aí radicada. Com consternação foi recebida a informação sobre o assassinato de Carlos da Maia, em Lisboa, antigo governador de Macau no período de 1914 a 1916.Este livro de memórias revela-se igualmente muito importante pela minuciosa descrição da vida escolar de Macau e dos seus principais protagonistas: “nos três anos em que frequentamos o liceu, os meus irmãos até ao fim do curso, eu até ao final do quarto ano, foram meus principais professores o Padre Nunes, José da Costa Nunes, em Português; o dr. Borges Delgado, que sucedeu a Humberto de Avelar no reitorado, em Matemática; o dr. Telo de Azevedo Gomes, em Ciências Naturais; Lara Reis em Desenho; o dr. Silva Mendes, também em Português e Latim; Camilo Pessanha, em História e Geografia; Humberto de Avelar, em Latim; José Vicente Jorge em Inglês; e finalmente, em Francês, um jovem goês, Eugénio Aníbal Dias que, por desconhecer praticamente a língua que lhe competia ensinar, recorria ao compêndio do ‘Francês sem Mestre’ para suprir junto de nós a sua pasmosa ignorância”. Todos esses professores foram muito importantes na sua formação escolar, cultural e moral, com a excepção do último. A história do jornal “A Academia – órgão do Liceu Central de Macau”, mereceu um capítulo autónomo nas suas memórias, tal a sua importância no amanhecer da sua carreira literária. Dizia, “escrevíamos sobre muita coisa, mas não sobre a China. Mas no meu espírito, secretamente, esta foi-se insinuando”. No poema “Medo”, encontramos essas ressonâncias:“…………………………………………………………..Nessa cidade remota na Costa da China,Todos os mares nos separam,Mas água toda do mar não foi bastante,Para apagar dentro de mim o fogo dos teus olhos, O fogo que arde numa cidade remota,Na Costa da China…”.Esta reflexão merece registo porque aqui se cruzam o orientalismo com o seu entendimento da sinologia: “Mas, voltando ao cenário em que aquele tempo habitava e onde tive Camilo Pessanha, o poeta excelso da ‘Clepsidra’, figura Livro Figuras_de_Jade_III.indd 106 08/11/2021 15:07
107FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEestranha, de barba negra hirsuta, olhar alucinado e voz profética, por professor de História – voltando a esse cenário, não se vive indefinidamente na China estirado à sombra, a ler novelas camilianas. O meio assenhoreia-se de nós. As suas personagens impõem-se à nossa curiosidade e granjeiam a nossa simpatia, em breve a nossa estima. Os comerciantes pacíficos e os piratas, os letrados requintados e os coolies miseráveis, as mães respeitáveis de família e as prostitutas, os jogadores de fantã e os bonzos dos pagodes vetustos, os vendedores ambulantes e as crianças adoráveis, todos nos rodeiam e o matraquear silabado da sua linguagem sonora quase se torna elemento do ar que respiramos, precisão da nossa existência”.O Comandante Henrique Correia da Silva apresentou-se no Leal Senado, no dia 17 de Maio de 1922, cuja sessão ordinária era presidida pelo vice-presidente Manuel da Silva Mendes. Vinha apresentar os cumprimentos de despedida e agradecer a boa cooperação que tinha existido ao longo do seu mandato como governador.Joaquim Paço d’ Arcos manteve sempre um fascínio saudosista pelo extremo oriente, em particular por Macau e pela China. Em 1972 escreve ao seu velho amigo Luís Gonzaga Gomes para lhe pedir este esclarecimento: “Venho agora pedir o obséquio de umas informações, ainda para as minhas ‘Memórias’. Não sei se conhece uma novela minha ‘O Navio dos Mortos’, publicada no livro com o mesmo nome. Aproveitei nessa novela o drama do assassinato em Londres da filha do milionário de Macau Siu-Tang, de seu nome A-lin. Lembro-me que o Siu-Tang morava junto do Jardim de São Francisco, algures entre o jardim e a Rua do Campo. Muito grato lhe ficarei se me enviar as informações que puder sobre ele, sobre a filha, ano em que se deu o crime, e sobre o assassinato. Haverá possibilidade de se obterem alguns informes? Quais eram os negócios de Siu-Tang? Em que ano morreu ele? Os outros milionários chineses de que me recordo ou tenho notícia (ainda do meu falecido cunhado José Soares) foram o Lou-Lim-Ioc, que vivia perto do Tap-Seac, e cuja casa frequentei em opíparos jantares. Na Praia Grande vivia o Chang-Fong e o Li-Chai-Tong. Pode o meu Amigo enviar-me a ortografia exacta destes nomes, pois que só os recordo de lembrança?“.Alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, viveu em Macau, em Angola, em Moçambique, no Brasil e em França, tendo conseguido encaixar a vida profissional na sua vocação intelectual. A carreira literária de Joaquim Paço d’Arcos foi longa e prestigiada, presidiu à Associação Portuguesa de Escritores, sendo um dos escritores mais traduzidos [espanhol, finlandês, italiano, francês, inglês, sueco, alemão, holandês, romeno, polaco e russo] e estudados no seu tempo. Para além dos livros já referidos, destacam-se também: “Ansiedade” (1940), “Paulina Vestida de Azul” (1948), “A Floresta de Cimento – Claridade e Sombras dos Estados Unidos” (1953), “Memórias duma Nota de Banco” (1962), “Cela 27” Livro Figuras_de_Jade_III.indd 107 08/11/2021 15:07
108(1965), “Venâncio e Outras Histórias” (1971), “O Samovar e Outras Páginas Africanas” (1972) e “Correspondência e Textos Dispersos, 1942-1979” (2008). Está hoje um pouco apagado, mas tem um lugar indiscutível na história da literatura portuguesa contemporânea. Eugénio Lisboa, conhecido ensaísta, coloca o dedo na ferida dessa incomodidade: “Joaquim Paço d’Arcos tem estado esquecido, demasiado esquecido, num país que frequentemente desleixa o cultivo dos seus valores. De notar que o ensino das nossas escolas e universidades também não ajuda por aí além”. Numa carta dirigida a Marcelo Caetano, datada de 15 de Outubro de 1976, Joaquim Paço d’Arcos tem esta curiosa observação, dizendo ser um “escritor independente que sempre fui e continuo a ser. Essa independência não me trouxe quaisquer prémios no regime anterior e manteve-me inteiramente isolado enquanto passava a procissão dos aderentes no triste Carnaval, no trágico cortejo fúnebre da vida portuguesa dos dois últimos anos”.Entre as distinções que lhe foram conferidas, destacam-se a Comenda da Ordem de Afonso o Sábio [Espanha], a Comenda da Ordem da Vitória [Inglaterra] e a Comenda da Legião de Honra [França]. Encontramos ruas com o seu nome em Lisboa, Odivelas, Oeiras e Santa Maria da Feira. O seu espólio literário foi doado à Biblioteca da Universidade Lusíada.É seguramente um autor a revisitar e a ler com muito proveito.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 108 08/11/2021 15:07
109FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEJORGE RANGELJorge Alberto da Conceição Hagedorn Rangel é uma das personalidades mais marcantes da contemporaneidade, cuja dimensão de estadista, em termos políticos, estratégicos e cívicos extravasa a exiguidade de Macau, reunindo objectivamente todas as condições para ter sido o último governador português. Mas foi outro o entendimento do poder político lisboeta. Oriundo de uma antiga família portuguesa radicada no extremo oriente há dez gerações e com raízes na aristocracia alemã, Jorge Rangel estudou no Liceu de Macau onde pontificavam os professores Ana Maria Amaro, José Tertuliano Cabral, Júlio Augusto Massa, Luís Gonzaga Gomes, Henrique de Senna Fernandes, Joaquim Guerra, entre outros, que foram verdadeiros mestres que transmitiam saberes e valores com disciplina. Recorda com muito apreço um episódio da dinâmica cultural induzida pelo ambiente do Liceu: “um dos eventos mais memoráveis por nós promovidos foi a vinda do Professor Agostinho da Silva a Macau, quando ia a caminho de Tóquio. Escrevemos-lhe e aceitou o nosso convite, tendo proferido uma magnífica palestra no Liceu sobre a Língua Portuguesa. Tudo organizado por alunos, numa altura em que, mesmo em Portugal, muita gente ainda não sabia quem era Agostinho da Silva. Mantive com ele uma assídua correspondência, iniciada nesse tempo de juventude e sei bem a tremenda influência que ele exerceu em mim, nas conversas que tivemos e nas muitas cartas, dactilografadas ou escritas com uma letra difícil de decifrar, que dele fui recebendo ao longo dos anos. Releio-as de vez em quando”. Agostinho da Silva é um dos nomes maiores da cultura portuguesa do século XX e Macau teria muito para aproveitar das suas ideias sempre atravessadas pela originalidade e pela ousadia.Os estudos superiores conduzem-no à capital, tendo-se formado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em filologia germânica, lembrando com saudade o magistério dos professores Manuel Antunes, Vitorino Nemésio, Teixeira Livro Figuras_de_Jade_III.indd 109 08/11/2021 15:07
110da Mota, Fernando de Melo Moser, Tomás Kim ou Jacinto do Prado Coelho. Teve a oportunidade de fazer pós-graduações na Universidade de Navarra, em Cambridge, Bonn e também nos Estados Unidos da América.Com a guerra no ultramar em curso, cumpriu o serviço militar no palco africano mais difícil e perigoso, na Guiné, como capitão miliciano de infantaria, no tempo em que o general António de Spínola era o governador e comandante em chefe. Uma experiência marcante e inolvidável, com vários louvores, que transbordou para outras dimensões, “também desempenhei funções civis e dirigi a maior escola de Bissau – a então Escola Marechal Carmona, que tinha mais de 2000 alunos, numa fase em que o ensino conheceu um espectacular desenvolvimento na Guiné, com a activa colaboração das forças armadas”.O regresso a Macau era inevitável. Após a revolução portuguesa de 1974, o Governador José Garcia Leandro, com a arte diplomática possível apresenta um consensual Estatuto Orgânico, publicado como lei constitucional em 1976, que permitiu reconfigurar a fisionomia jurídico-política, conferindo a Macau a estabilidade necessária e sobretudo a previsibilidade a curto prazo, após a derrocada do Império. Era o tempo de Macau atrair os filhos da terra, pedindo-lhes o seu quinhão de esforço, de solidariedade e de capacidade profissional para ajudarem no seu desenvolvimento.Jorge Rangel regressa a Macau em 1975 e é indigitado director do Turismo e da Comunicação Social, “nessa altura também fui director substituto da então Emissora de Radiodifusão de Macau, director da Revista Macau, presidente da Comissão de Classificação de Espectáculos, que substituiu a Comissão de Censura”. A sua participação na vida política do Território vai mais longe e mais fundo. Decide candidatar-se à Assembleia Legislativa e é eleito Deputado pelo GEDEC (Grupo de Estudos para o Desenvolvimento Comunitário de Macau), na legislatura de 1976 até 1980. Presidiu a duas Comissões, a dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, e a outra do Regimento e Mandatos. Foi um ciclo de aprendizagem e de conhecimento do interior da governabilidade da administração, dos seus equilíbrios e compromissos estratégicos. Tempos desafiantes que tardam em ser historiados para memória futura. O seu envolvimento militante na vida cultural, associativa e social é também intenso: Rotary Clube de Macau, Associação para a Promoção da Instrução dos Macaenses, Elos Clube, Lions Clube, Associação de Escuteiros de Macau, Associação de Gestão de Macau, Associação de Amizade Luso-Chinesa, Associação de Hóquei de Macau, Associação de Pintura Chinesa Hang Ian, etc. Com o Governador Vasco de Almeida e Costa, Jorge Rangel é nomeado Secretário-Adjunto para a Educação, Cultura e Turismo, entre 1981 e 1986, ficando associado às grandes mudanças estruturais ocorridas em Macau, sobretudo nas Livro Figuras_de_Jade_III.indd 110 08/11/2021 15:07
111FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEáreas da educação e da cultura, com uma envergadura dificilmente repetível: “Nesse período, foi feita a reestruturação dos Serviços de Educação, autonomizaram-se as áreas – integradas então na Educação – da cultura, com a criação do Instituto Cultural de Macau e do desporto, com a refundação do Conselho dos Desportos, agora Instituto dos Desportos de Macau; os apoios ao ensino particular foram sendo progressivamente ampliados, com subsídios directos às escolas, aos professores e aos alunos, além de contribuições significativas para o reequipamento das escolas, o que permitiu uma maior intervenção oficial no seu funcionamento; construiu-se o Liceu de Macau; assistiu-se à construção e início de funcionamento da Universidade da Ásia Oriental, com contrato negociado ainda no tempo do Governador Garcia Leandro; deu-se a maior prioridade às bolsas para o ensino superior, que passaram de 39 em 1991 para perto de 500 em 1994 e continuando sempre a aumentar até hoje; reactivou-se a formação docente, com a abertura da nova Escola do Magistério Primário e a preparação de outras acções de formação de professores; definiram-se novos objectivos e prioridades para o ensino superior”. Macau superou muito do seu atraso, em parte decorrente de um imobilismo colonial e sobretudo devido a uma inteligente renegociação do contrato de jogo que permitiu uma inigualável pujança financeira que seria colocada ao serviço do progresso e do desenvolvimento. O Governador Vasco de Almeida e Costa lembrou aos mais distraídos que a “presença de Portugal em Macau, remontando já a mais de quatro séculos, jamais assentou em ditames de uma relação de força para nós favorável. Tão-pouco num ascendente cultural do nosso sistema ou dos seus pressupostos filosóficos, perante o vigor e implantação dos padrões culturais chineses”.Com outros governadores há naturalmente descontinuidades e rupturas nas linhas de acção governativas, mas, diz-nos, “de 1986 a 1991 não fiquei, porém, desligado dos assuntos da Educação. Como delegado do Governo junto da Universidade da Ásia Oriental, pude conhecer profundamente o funcionamento e a situação financeira e administrativa da Universidade da Ásia Oriental. Como membro do Conselho de Educação, fui colaborando activamente na preparação da Lei do Sistema Educativo do Território. Depois, como 1º presidente do Conselho de Administração da Fundação Macau, coube-me a responsabilidade de coordenar a transformação da Universidade em entidade pública e, como membro do Conselho Consultivo do Governador Carlos Melancia, pude participar no processo legislativo e na preparação dos caminhos do futuro”.Na derradeira fase da administração portuguesa, com o Governador Vasco Rocha Vieira, Jorge Rangel é chamado novamente para Secretário-Adjunto para a Administração, Educação e Juventude, de 1991 a 1999, uma prova iniludível da sua inteligência, conhecimento profundo das áreas que tutela, visão prospectiva e Livro Figuras_de_Jade_III.indd 111 08/11/2021 15:07
112capacidade de trabalho. “No Verão de 1991 foi aprovada a primeira Lei do Sistema Educativo de Macau, depois de longa maratona na Assembleia Legislativa. Por feliz coincidência encontrava-se de visita ao Território o então Ministro da Educação, Roberto Carneiro”. A expansão e modernização do sistema de ensino superior passou a contar com outros protagonistas, para além da Universidade de Macau: o Instituto Politécnico de Macau, a Universidade Aberta Internacional da Ásia e o Instituto Inter-Universitário de Macau. Todo este desenvolvimento assenta nestes pressupostos filosóficos e antropológicos: “Macau, no dealbar do século XXI, vai compreendendo também os contornos da Sociedade do Futuro e acompanhará as espantosas conquistas que a humanidade alcançará ainda no decurso da próxima década. Os jovens são os inventores e os construtores da Sociedade do Futuro. Porque tenho tido o privilégio de conviver de perto com jovens de Macau e compreender os seus anseios e as suas inquietações, posso confirmar que eles ainda não pertencem ao grupo das juventudes desiludidas de algumas sociedades economicamente avançadas. Eles são e quererão continuar a fazer parte do grupo das juventudes participativas, apostadas ainda na construção de um amanhã em que acreditam, apesar das muitas interrogações que subsistirão nestes anos de transição. Cabe-nos proporcionar-lhes as oportunidades e os meios para vencerem os desafios do futuro”. Em todas estas palavras carregadas de simbolismo, encontramos algum legado visionário de Agostinho da Silva? Suspeitamos que sim.Jorge Rangel foi membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau e a sua última responsabilidade oficial foi a direcção do Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência da Administração.Depois de todos estes trabalhos e desta continuada dedicação ao serviço público, seria expectável que assumisse a reforma para descansar, estar com a família, conviver com os amigos, viajar ou escrever um livro de memórias. Mas não foi isso que sucedeu. Continua devotado a Macau, presidindo desde 1999 ao Instituto Internacional de Macau, um activo think tank que valoriza o Território em termos históricos, culturais, turísticos e estratégicos cuja pulsão diplomática recoloca em evidência o legado português e luso-chinês. Exposições, conferências, seminários, edições de livros e revistas, prémios, cursos e outras iniciativas tem ajudado a consolidar a trajectória imaculada do Instituto Internacional de Macau no âmbito da lusofonia e das relações internacionais. Jorge Rangel sintetiza o papel do Instituto Internacional de Macau nestes precisos termos: “Ao longo de 15 anos, o IIM realizou um extenso e muito variado programa de actividades, viabilizado através de contribuições dos seus associados, de algumas receitas próprias e de apoios e patrocínios de fundações e de outras instituições públicas e privadas. Uma reflexão sobre o percurso feito permite concluir, inequivocamente, que os resultados alcançados foram muito satisfatórios e constituem um poderoso incentivo para o Livro Figuras_de_Jade_III.indd 112 08/11/2021 15:07
113FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEIIM continuar, com fidelidade aos princípios e propósitos que orientaram o seu funcionamento e com abertura permanente à inovação e à criatividade. Num tempo em que o chamado ‘soft power’ ganhou uma relevância insubstituível nas relações entre blocos económicos e políticos e entre países e territórios, é incontornável o papel de organismos como o IIM, no serviço que presta a Macau e às comunidades aqui residentes, na afirmação da sua identidade, no respeito pela memória e pelo legado, na aposta no seu correcto desenvolvimento e na consolidação do seu papel no mundo, com uma ambição legítima que foi sempre muito superior à sua reduzida dimensão geográfica. Como espaço livre de reflexão, de estudo e de acção, o IIM continuará também aberto ao mundo”.Jorge Rangel tem uma bibliografia extensa e dela retenho os títulos seguintes: “Com a Juventude Fazer o Futuro de Macau”, 1992; “Luís Gonzaga Gomes”, 2007; “D. José da Costa Nunes, Cidadão Benemérito de Macau”, 2008; “Falar de Nós: Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro”, 12 volumes editados desde 2004; “Os 25 Anos da Universidade de Macau”, 2009; “O Instituto Internacional de Macau Como Instrumento Eficaz de Cooperação Académica e Cultural”, 2016. Mantém há largos anos no ‘Jornal Tribuna de Macau’, todas as segundas-feiras, uma crónica semanal intitulada “Falar de Nós”, onde Macau está sempre no centro da sua galáxia de interesses e de motivações.Presidiu à Sociedade Histórica da Independência de Portugal, tem um doutoramento ‘honoris causa’ pela Universidade de Macau e outro pela Universidade de Soka, no Japão, e pertence à Academia Portuguesa de História, à Academia Lusófona de Arte e Cultura, à Fundação Casa de Macau e à Fundação Jorge Álvares. Foi agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique (Grande Oficial em 1982 e com a Grã-Cruz em 1998), com a Medalha de Valor de Macau, com a Medalha de Mérito Pedro Ernesto da Cidade do Rio de Janeiro, entre outras distinções. Sobre o papel histórico de Macau e o seu enquadramento geoestratégico no extremo oriente tem proferido conferências um pouco por todo o mundo, tendo igualmente orientado seminários sobre essas problemáticas no Instituto de Defesa Nacional, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e na Universidade de Aveiro.Jorge Rangel, estadista e homem de princípios e de valores é realmente o Embaixador de Macau em Portugal e no resto do mundo.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 113 08/11/2021 15:07
114JOSÉ JOAQUIM MONTEIROA nova edição do livro “Macau Vista por Dentro”, uma meritória iniciativa do Instituto Internacional de Macau [cuja primeira edição saiu em 1983, publicada pela Direcção dos Serviços de Turismo de Macau], vem recolocar José Joaquim Monteiro (1913-1988) no panorama da história literária desse antigo Território que os portugueses administraram até 1999. É igualmente uma justíssima e merecida homenagem que se presta ao autor, cuja peculiar maestria poética se saúda e nos compete divulgar, estudar e traduzir para a língua chinesa.As vicissitudes da sua vida fizeram com que fosse muito tardiamente escolarizado, numa escola regimental militar. Mas, dotado de uma inteligência claramente superior, aliada aos largos hábitos de leitura e de reflexão permitiram-lhe sedimentar uma cultura que o conduziu à poesia como forma de compreender o mundo. E é através da poesia que vai descodificar os entrelaçados sentidos de Macau, o chinês e o português, sem angústias, impertinências, obsessões ou doentias introspecções, transformando-se, paulatinamente no grão-mestre da sinologia popular dentro de uma estética ora naïf, ora repleta de uma alegre e ingénua ternura pela terra da mulher. Não lhe escapou uma das desfocadas imagens da China que pode ser vista nesta crítica: Na Europa e em toda a parte, / Há quem só julgue por vezes / A China mais os chineses / Pelos seus objectos d’arte / De, que fazem colecções; / E nas suas deduções / Misturadas de asneirices, / Só lhes chamam chinesices!... De resto, para ele, Macau, que é toda um tesouro, / Co’as Cinco Quinas ao centro, parecia ser o centro do mundo, mesmo sendo uma babel linguística, Fala-se inglês, espanhol / Mouro, china, japonês, / E, numa salada russa / Vem à baila o português!Ao longo dos vinte e sete capítulos de “Macau Vista por Dentro”, deparamos com uma inigualável enciclopédia de Macau e da China, sempre em verso: história, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 114 08/11/2021 15:07
115FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEusos, costumes, religiões, línguas, comidas, monumentos, paisagens, personalidades, cerimónias, quotidiano, escolas, conflitos, desportos, etc. A sinologia popular encontrou em José Joaquim Monteiro o seu representante mais pedagógico, mais enérgico, mais imaginativo e também o mais modesto: Em versos pobres, falhos de harmonia, / Ao sabor popular da minha musa, / Entrei num labirinto, a ver se via / A Esfinge desta China tão confusa!Desse longo poema, “Crendices, Usos e Costumes”, estou convencido de que se poderia recortar a letra para um fado, que agarrasse o sentido ontológico da melancolia luso-chinesa de Macau, Sem que jamais faleça o velho afecto / E a mútua compreensão, sempre existente / Entre o povo chinês e a lusa gente.Camões é um símbolo inigualável e José Joaquim Monteiro jamais o esquece: Longe da Pátria, exilado, / E de peito às musas dado / Num haurir de inspirações, / Aqui, Luís de Camões, / Grande Adamastor da ideia, / Começou sua epopeia / Que é o assombro das Nações. Noutros tempos teria sido possível gravar este poema numa placa de mármore para ser aposta nas paredes circundantes da Gruta de Camões, emparceirando com as outras que lá foram colocadas.Como é que o Autor define Macau? Assim mesmo: Macau vista de fora, é um jardim! / Macau, vista por dentro, é um palácio!Deixo a sugestão à Escola Portuguesa de Macau, Instituto Politécnico, Universidades, Instituto Português do Oriente e outras instituições, para utilizarem as múltiplas potencialidades culturais, literárias e históricas deste livro, que ora se apresenta em segunda edição, e promoverem o estudo da obra literária de José Joaquim Monteiro.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 115 08/11/2021 15:07
116JOSÉ VICENTE JORGEOriundo de uma abastada família da burguesia mercantil instalada no Território a partir do século XVIII, José Vicente Jorge (1872-1948) é uma interessante personalidade da cultura portuguesa de Macau envolvida numa espiral de esquecimento absolutamente inexplicável. O seu pai, Câncio Jorge, era uma figura proeminente em Macau, tendo sido administrador do concelho, presidente do Leal Senado, cônsul em Bangkok ou secretário do Instituto Humanitário Firmino da Costa. Seria pois expectável que José Vicente Jorge tivesse sido enviado para Goa, para prosseguir os seus estudos e alargar horizontes, como era habitual na educação das famílias mais importantes. A opção foi o Seminário de São José, uma escola prestigiada que proporcionava aos alunos externos uma sólida formação acima da bitola do ensino liceal, então inexistente em Macau. Seguindo a tradição familiar, José Vicente Jorge ingressa depois na Escola do Expediente Sínico, seguindo a exigente carreira de intérprete-tradutor e revelando-se um discípulo de Pedro Nolasco da Silva. Tinha um apurado domínio do cantonense, do mandarim e também da língua inglesa. Em 1906 integra uma comissão nomeada pelo governador Martinho de Montenegro, composta por Manuel da Silva Mendes, Pedro Nolasco da Silva, Carlos d’Assumpção e António Roliz, para estudar e fazer um projecto para a organização escolar da língua sínica. Era o tempo em que apaixonadamente estudava a cultura chinesa e dava início à sua colecção de arte meticulosamente escolhida. Estreita amizade com Camilo Pessanha, amparando e incentivando as suas incursões pela sinologia literária. E quando Camilo Pessanha publica a “Litteratura Chinesa” no jornal “O Progresso”, de 13 de Setembro de 1914 faz questão de o elogiar, nestes termos, “o meu velho amigo e querido mestre José Vicente Jorge”. Na melhor tradição da escola sinológica portuguesa de Macau, publica o “Novo Methodo de Leitura – San Tok Pun”, em dois tomos, 1907/1908. Em colaboração com Camilo Pessanha publicará em 1915 as “Leituras Chinesas – Livro Figuras_de_Jade_III.indd 116 08/11/2021 15:07
117FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE– Kuok Man Kan Fo Shu”. A sua relação com Camilo Pessanha, de amizade e camaradagem intelectual, não mereceu ainda a atenção compreensiva dos estudiosos, porquanto a Família Jorge terá sido um dos raros e sólidos esteios que o Poeta encontrou em Macau. A filha Henriqueta e o genro Leopoldo Danilo Barreiros serão responsáveis pela manutenção de uma nobre memória afectiva para além da salvaguarda de um espólio documental único.Segundo Daniel Pires, José Vicente Jorge era membro da Maçonaria, com filiação anterior a 1909, na Loja Nº 309, Luís de Camões, sob o Rito Escocês Antigo e Aceito, tendo como correligionários conhecidos, Raúl Boaventura Real, Camilo Pessanha e Constâncio José da Silva. Entre 1908 e 1911 esteve em comissão de serviço na Legação Portuguesa em Pequim, testemunhando o fim do Celeste Império e o atribulado nascimento do regime republicano. Chefia a Repartição do Expediente Sínico de 1911 a 1920, ajudando consolidar o prestígio e a importância institucional da sinologia administrativa portuguesa em Macau. Os intérpretes-tradutores, sinólogos, verdadeiros mensageiros de uma nova racionalidade intercultural, intercivilizacional e estratégica, fizeram erguer na diferença dos interesses todos os mecanismos internos da arbitragem histórica que sustentou a governabilidade de Macau. Em 1920 está entre os fundadores do Instituto de Macau, com José da Costa Nunes, Regis Gervaix, Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes, Morais Palha, Humberto de Avelar, Telo Gomes, Eugénio Amorim, Correia da Silva, Hugo Castelo Branco e Francisco Chedas. O Instituto de Macau tinha como objecto “além do estreitamento das relações de solidariedade dos seus associados, o estudo da acção e influência portuguesas no oriente e o da sinologia sob todos os seus aspectos”. Uma instituição que teve uma vida efémera, por motivos vários, e cujos membros ficaram imortalizados numa fotografia na Gruta de Camões.A actividade docente, quer como professor de língua chinesa, quer como professor de língua inglesa no Liceu de Macau, ocupa uma boa parte da sua vida intelectual, descobrindo assim uma insuspeitada vocação que tinha estado ocultada atrás do intérprete-tradutor. E ficou para sempre naquela icónica fotografia com os Professores e Alunos no velho Liceu, no Tap Seac, nos idos de 1924. Exerce como Solicitador na Comarca de Macau, sendo também Juiz do Tribunal Privativo dos Chinas, Vogal do Conselho Legislativo e Vogal do Tribunal Administrativo, Fiscal e de Contas.A sua colecção de arte vai crescendo e paulatinamente José Vicente Jorge transforma a sua grande mansão num verdadeiro museu que, com orgulho e gosto franqueava aos amigos e aos visitantes que assinavam as suas impressões num álbum fotográfico. Em virtude da enorme riqueza e variedade do mobiliário em pau-preto, os seus amigos apelidaram-no, chistosamente, de “barão do pau-preto”.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 117 08/11/2021 15:07
118José Vicente Jorge publica em 1940 as “Notas sobre a Arte Chinesa” [a segunda edição revista e aumentada, com uma introdução de Pedro Barreiros, foi publicada em 1995, pelo Instituto Cultural de Macau] que é muitíssimo mais do que o importante registo da sua extraordinária colecção, lembrando que “a causa do desinteresse é geralmente a falta de conhecimento. Facultar, pois, a compreensão do Belo parece-me que é dever de todo aquele que cuida de assuntos de arte”. Deste seu livro, José Vicente Jorge diz-nos modestamente: “Não é um tratado sobre cerâmica chinesa o que apresento, pois a tanto não me abalançava. São simples apontamentos, tirados de vários livros, de conversas tidas com alguns colecionadores chineses, entre os quais o vice-rei de Chilí, Tuan-Fan, o ministro Yuan-Shi-K’ai, que mais tarde veio a ocupar o alto cargo de presidente da república chinesa, os ministros dos negócios estrangeiros Liang-Tun-Ien, Na-T’ung, Lien-Fang e Kuo-Chia-Chi e o governador civil de Cantão Chan-Chec-U, todos já falecidos, e do que me foi possível observar, durante o longo período de 50 anos, em que tenho andado a colecionar, pois que, no desempenho das minhas funções oficiais, tive ocasião de visitar palácios de príncipes e vice-reis, o Palácio Imperial, os museus do imperador e da imperatriz, tendo ficado maravilhado com as preciosidades que vi, tanto da arte cerâmica como de outras, todas de autenticidade absolutamente indiscutível”.Em 1943 Luís Gonzaga Gomes, na revista “Renascimento” desvenda a opulência de “O Museu do Sr. José Vicente Jorge”, o que suscita a admiração geral e internacional. O governador Gabriel Maurício Teixeira bem poderia ter apresentado uma proposta a José Vicente Jorge para adquirir a sua colecção com o objectivo de enriquecer o Museu de Macau. Não o chegou a fazer, talvez porque outros grandes problemas o consumiam, como refere Beatriz Basto da Silva na “Cronologia da História de Macau”, em 1943, “morrem nas ruas por inanição ou desinteria cerca de 100 refugiados – acabados de chegar – por dia”. Com esta continuada tragédia, não há metafísica que aguente.Uma das netas, Maria do Céu Saraiva Jorge, no seu livro “Macau que eu Conheci. Anos 20 e 30”, publicado em 2006, abre esta página de memórias: “Enfim, esta casa, que levou anos a formar, era a principal fonte de vida do meu querido Avô – e faço ideia de quanto lhe devia ter custado abandonar estas maravilhas para vir ter com os filhos a Portugal, principalmente com o meu tio Américo, que era o seu preferido e foi quem ficou com a maior parte da sua colecção. Antes de a abandonar, ainda o Pai Jorge teve a ideia de a vender ao Governo Português, por um preço simbólico, com a condição de que tudo se conservasse como estava, passando a casa a funcionar como um museu. Foi uma ideia óptima, mas esta proposta foi recusada pelos nossos governantes, do tempo do Dr. Salazar. Coitados, não podiam fazer ideia do que lá estava! Se o nosso Governo tivesse adquirido este museu, de certeza que ainda hoje os chineses se Livro Figuras_de_Jade_III.indd 118 08/11/2021 15:07
119FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEorgulhariam de o exibir, pois são um povo conservador e amante da arte do passado. Duvido mesmo que se encontre nos museus da China uma colecção tão variada e organizada com tão bom gosto e tão rigoroso critério histórico! Mas, paciência, tudo se desmantelou depois da morte do meu Avô, em 1948, tendo o recheio da casa sido distribuído pelos filhos e aquele belo edifício vendido e derrubado. Dá-me vontade de chorar quando penso nisso”. Macau não dispunha de um museu digno desse nome, mas teve três grandes colecionadores de arte chinesa que se conheciam entre si, Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes e José Vicente Jorge. Pessanha doou a sua colecção ao Estado português que ignobilmente a encaixotou num armazém de um museu, tendo ficado esquecida durante dezenas de anos; a colecção de Silva Mendes foi adquirida pelo governo de Macau que deixou extraviar parte dela, integrando a remanescente o museu de arte de Macau; a colecção de José Vicente Jorge, porventura a melhor das três, foi alienada na sua maioria. Triste fim para estes três projectos, o que nos faz pensar nas estranhas voltas que a vida dá. Estes três homens eram estudiosos da arte e da estética chinesas, sobretudo Manuel da Silva Mendes que nos deixou uma obra teórica muito consistente.O romancista Joaquim Paço d’Arcos, filho do governador Henrique Paço d’Arcos e antigo aluno do Liceu de Macau, registou para a posteridade a figura de José Vicente Jorge, do qual tinha sido aluno: “José Vicente Jorge, que foi nosso professor de Inglês era uma autoridade não só no manejo desta língua e domínio da sua literatura, como no conhecimento da língua e literatura chinesas. Sucedera ao nosso primo Carlos d’Assumpção na chefia da Repartição dos Negócios Sínicos e era, portanto, o primeiro intérprete oficial da língua chinesa, ou das línguas, pois que na China vastíssima a língua mãe se desdobrava em várias modalidades. Vivia num palacete de sua propriedade no bairro da Penha. Era a sua casa repositório também de grande colecção de louças chinesas. O cruzamento de sangues nas gerações que o haviam antecedido davam-lhe um marcado tipo oriental. Chefe duma família de prestígio no pequeno meio de Macau, apaixonado tanto da obra de Lao-Tzé como da de Shakespeare, se não me introduziu nos segredos da primeira, desvendou-me o mundo extraordinário que o segundo ergueu nas tábuas do teatro. Ainda sei de cor certos versos do ‘Julius Ceasar’ que viria a ler por obra do seu incitamento. E quando cerca de trinta anos depois ergui em ‘O Navio dos Mortos’ a figura dum sábio tranquilo, cuja serenidade o sofrimento e as humanas paixões não abalaram – quando ergui a figura do Prof. Hu, foi a lembrança do meu antigo professor de Inglês que me ajudou a dar forma física e até, em certa medida, estatura intelectual à personagem que o narrador da história acompanha na estalagem de Stratford-on-Avon, onde só se representa Shakespeare, e nas docas de Londres, donde abalou para a China o navio dos mortos”.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 119 08/11/2021 15:07
120Duas outras grandes homenagens foram prestadas a José Vicente Jorge.Em 1992 o Instituto Cultural de Macau publica o livro “A Cozinha de Macau da Casa do Meu Avô”, de Graça Pacheco Jorge, sendo o prefácio assinado por Danilo Barreiros que recorda: “À mesa de José Vicente Jorge sentavam-se habitualmente umas vinte pessoas, sendo a comida servida em enormes travessas repletas de modo a que, servidos os convivas, não se lhes visse o fundo, pois que o anfitrião assim o exigia”. Duas receitas especiais levam o seu nome: “Sopa Assada da Casa de José Vicente Jorge” e o “Pato à Moda de José Vicente Jorge”.Em 2011, Graça Pacheco Jorge e Pedro Barreiros lançam “José Vicente Jorge, Macaense Ilustre. Fotobiografia”, uma excelente edição trilingue [português/chinês/inglês], sob a chancela do Albergue SCM.Estão assim criadas as condições para se estudar a figura e o legado de José Vicente Jorge no contexto da história do Expediente Sínico de Macau e da sinologia portuguesa.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 120 08/11/2021 15:07
121FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEJÚLIO MASSAJúlio Augusto Massa (1922-2003), transmontano de Freixo de Espada à Cinta, chegou a Macau em 1935, com destino ao Seminário de S. José, governava o Território António José Bernardes de Miranda. Vale a pena recordar que o município de Freixo de Espada à Cinta homenageou os seus missionários, inscrevendo os respectivos nomes num monumento singelo, para lembrar aqueles que, desde o século XIX, partiram para Macau, Malaca, Timor, Singapura, Estados Unidos da América, Moçambique, Índia, China e S. Tomé e Príncipe. E foram mesmo muitos. Sem falar nessa figura tutelar que é Jorge Álvares, marinheiro intrépido, perpetuado numa estátua, em Freixo de Espada à Cinta e também em Macau e que deu o nome a uma Fundação. Em 1935, o jovem Júlio Massa, provavelmente assistiu à jubilosa inauguração da Igreja de Nossa Senhora da Penha, reconstruída e ampliada pelo Bispo D. José da Costa Nunes, já que do risco inicial da Ermida de 1622 nada sobrou digno de realce.Quando Júlio Massa frequenta o Seminário de S. José apanha em cheio a reforma do ciclo de estudos, ordenada pelo Bispo D. José da Costa Nunes, em 1938. Duas grandes novidades se destacaram na formação dos seminaristas. Por um lado, houve um reforço na área científica e epistemológica para melhor compreenderem o mundo; pelo outro lado, os seminaristas chineses passaram a estudar o português como língua estrangeira [só cinquenta anos depois, o Centro de Difusão da Língua Portuguesa, da Direcção dos Serviços de Educação, é que implementa a pedagogia e a didáctica do português como língua estrangeira…]. Nesses anos do Seminário, encontrou quatro Reitores, os padres António Dinis Farto, Anacleto Pereira Dias, Abílio José Fernandes e Fernando Leal Maciel, todos eles figuras devotadas à urbe e injustamente esquecidas.No rescaldo da segunda guerra mundial, em 1946, é ordenado sacerdote numa cerimónia presidida pelo Bispo D. João de Deus Ramalho SJ. Nesse mesmo Livro Figuras_de_Jade_III.indd 121 08/11/2021 15:07
122ano, é provido como professor interino do Liceu de Macau, leccionando português e latim. Mais tarde, lecciona também filosofia e religião e moral. No Seminário de S. José lecciona no Curso de Filosofia as seguintes cadeiras: filosofia oriental, filosofia antiga, filosofia cristã e escolástica e filosofia moderna.Nestes anos de trabalho intenso em Macau, vamos encontrar o padre Júlio Massa entre os fundadores do Jornal ‘O Clarim’, em 1948, uma publicação que nasce sob a inspiração da ‘Revista O Clarim’, criada pelo padre Manuel Teixeira em 1943. A criação do Jornal ‘O Clarim’ é uma iniciativa de um grupo de jovens inconformistas católicos e antigos seminaristas [José Silveira Machado, José de Carvalho e Rêgo, Rolando Chagas Alves, Patrício Guterres, Herculano Estorninho, Abílio Rosa, Gastão Barros, Rui Andrade, José dos Santos Ferreira e Tomás Rosa Pereira], que procuram apoio junto dos padres Fernando Maciel [o primeiro e o mais influente dos directores] e Júlio Massa [o segundo director] para concretizarem esse sonho. O estilizado logotipo do jornal foi concebido pelo talentoso pintor George Vitalievich Smirnoff, russo exilado pela revolução comunista de 1917, a viver em Macau e cuja vida terminará tragicamente em Hong Kong. A maioria da colaboração do padre Júlio Massa em ‘O Clarim’ está virtualmente perdida porque não está assinada. Há artigos doutrinários com um grande valor estético, cultural e ideológico assinados por “M” [Maciel? Massa?], que por segurança não podem ser identificados. Em 1957, escreveu e assinou um importante ensaio “As Doutrinas Marxistas e a Crise Política de Hoje”, em sucessivas edições do jornal.Em 1949 é exonerado, a seu pedido, do cargo de Assistente Eclesiástico e de Comissário Provincial da Mocidade Portuguesa de Macau. Com o objectivo de aprofundar a sua formação intelectual abre um breve capítulo estrangeirado na sua vida: em 1950 viaja para Roma onde se licencia em filosofia na Universidade Gregoriana; no Instituto Leão XIII, em Madrid, obtém uma pós-graduação em Ciências Sociais; na Universidade de Salamanca defende uma tese de doutoramento em filosofia. A sua envergadura intelectual faz-se notar, não obstante a humildade no trato e a delicadeza nas relações inter-pessoais.Regressa a Macau para os Serviços Diocesanos de Assistência Social e é nomeado director do prestigiado “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau”, de 1956 até 1962. Entretanto, o governador Jaime Silvério Marques indigita o padre Júlio Massa para Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Macau, cumprindo um mandato de três anos, de 1960 até 1963. Ficou ligado a algumas interessantes iniciativas sociais: a criação do Centro de Reabilitação de Cegos de Macau; a construção do Edifício Raínha D. Leonor, entre a Avenida D. João IV e a Avenida do Infante D. Henrique, com cinco lojas e 24 moradias, sendo o primeiro edifício em Macau com andares ‘duplex’, um projecto de Joseph Lee e de Gaby Senna Fernandes; a construção de dois blocos com 16 andares, mercê da doação testamentária do Livro Figuras_de_Jade_III.indd 122 08/11/2021 15:07
123FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEirmão benemérito da Santa Casa da Misericórdia, José Maria Pereira. O Provedor que se seguiu, de 1963 a 1967, foi o seu dilecto amigo Carlos d’Assumpção.Em 1962 e em 1964 assume o cargo de governador do Bispado de Macau, na ausência do Bispo, que participava no Concílio Vaticano II, em Roma.O padre Júlio Massa foi nomeado Vogal da Comissão Central de Assistência Pública e procurador na Câmara Corporativa representando os interesses de ordem espiritual e moral e as Misericórdias das Províncias Ultramarinas, na VIII Legislatura (1961-1965) e na IX Legislatura (1965-1969), tendo intervenções nas diversas fases do Projecto do III Plano de Fomento.Um grave problema de saúde, um acidente vascular cerebral, ocorrido em 1990 e repetido em 1992, diminuiu-o fisicamente, mantendo contudo intactas as suas faculdades intelectuais. Tomou então consciência que não tinha publicado livro algum, sequer coligido ensaios ou agrupado poesias dispersas: “Desde que pude retomar o trabalho intelectual, passei a viver a escassez do tempo ante uma tarefa que se me afigurava exequível: transmitir, por escrito, em prosa e em verso, aquilo que não fizera nos anos que já vivera.(…) E acordou em mim uma tendência velha de muitos anos: versejar. Sempre gostei de poesia, embora tivesse escrito poucos versos. A vida agitada de Macau, quase totalmente dedicada ao ensino nos primeiros anos e, mais tarde e por força das circunstâncias, ao jornalismo e também à acção social, não eram ocasião muito propícia à produção poética. Recordo como esta forma artística de expressar emoções e pensamentos me seduzia. E o soneto, pela sua concisão, pelo ritmo, pela ´música’, a traduzir o pensamento, sobretudo filosófico, exercia sobre mim particular atracção”. Acrescenta ainda que “no meu espírito, a poesia andou sempre associada à minha inclinação para a filosofia”.Passou a olhar para o Outro, atento a uma nova antropologia do sofrimento: “a minha consciência e lucidez não tinham sido atingidas pelo A.V.C.”, porque a “doença que me acometeu, com todas as suas consequências, transformou, em parte significativa a minha maneira de ser e de estar no mundo e proporcionou-me uma nova perspectiva da realidade, máxime do homem como ser histórico, no duplo sentido de protagonista da História e a cumprir-se nela”. E com esta preocupação subjacente: “E oxalá não estejamos a construir um mundo tecnicizado, superocupado e egoísta onde já não haja lugar para pobres, idosos e deficientes”. Reflectiu profundamente sobre a organização da sociedade, sobre o homem, sobre o trabalho e a alienação. Homem de muitas e actualizadas leituras que povoam os seus escritos, onde se encontram referências, por exemplo, ao cardeal Ratzinger, a Karl Popper, a Freud, a Pascal, a Maritain, a Noam Chomsky, a S. Tomás de Aquino, a Berdiaev, a Manuel da Silva Mendes ou aos clássicos chineses.Pensador com grandes afinidades com o existencialismo cristão o padre Júlio Massa publicou os seguintes livros: “Viajar no Tempo”, 1995; “Sonho e Realidade”, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 123 08/11/2021 15:07
1241996; “Para Além do Temor”, 1997; “Esperança entre Sombras”, 1997; “Sonetos Dispersos”, 1998; “Trabalho e Bem-Estar: para uma sociedade mais igualitária”, 1998; “Viver em Sociedade: porquê e como?”, 1998; “Ao Entardecer”, 2000.Após décadas de vida e de vivências, Macau esteve sempre no seu imaginário, como se nota neste poema onde a saudade e a angústia, o silêncio e a solidão, se cruzam com impressiva liberdade:REQUIEM POR UMA CIDADEDezembro frio, próximo e distante.Levado em sonho, eu vi-me de repenteNos longes em mistério do Oriente,Como se eu fosse um velho mareante.De Macau, o farol tão vigilanteRisca o espaço pálido e dormente,E acorda agora em mim o amor ardenteDe enamorado cavaleiro andante.E contemplo extasiado essa cidadeOnde passei a minha mocidadeE cujo encanto ainda me cativa.É meia noite! E as horas que eu escutoSão para mim tristeza, dor e lutoA cintilar em lágrima furtiva.Lisboa, 20 de Dezembro de 1999,Às 17 horas (zero horas em Macau)Os seus antigos alunos não esqueceram o professor, a humanidade do seu saber, a boa disposição para acolher as ideias dos outros e o recto perfil moral do educador. O maestro Simão Barreto recorda-o nestes termos: “Júlio Augusto Massa, transmontano de Freixo de Espada à Cinta, filósofo e poeta, foi sem dúvida uma das grandes cabeças que passou pelo Seminário e marcou uma geração que deixou rastos do seu ensinamento notável. Nos últimos anos de sua vida ainda, felizmente, deixou alguns escritos dos seus pensamentos, escreveu três livros de poemas, a Livro Figuras_de_Jade_III.indd 124 08/11/2021 15:07
125FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEmaior parte em sonetos que o seu antigo colega, Pe. Juvenal, classificou como tão bons como os de Antero de Quental. Colaborou com o jornal “O Clarim” nos anos 60 em artigos de fundo, de opinião, que fulcraram problemas da situação política e social, muito lidos e apreciados”. Outro antigo aluno, Rufino Ramos, lembra-se muito bem “das aulas de filosofia dadas pelo Pe. Massa e das discussões empíricas dele havidas com os alunos internos, e do meu exame final feito inteiramente em latim”. César Rodrigues não tem dúvidas em dizer “foi aí que aprendi, com o Padre Massa, a ser o professor que fui, porque ele foi para mim o melhor modelo do bom professor, o melhor professor que eu tive em toda a minha vida académica. Por isso, em todo o lado eu quis ser um professor que fosse capaz de motivar e cativar os meus alunos, nas minhas aulas, de forma a que eles ansiassem por elas como eu ansiava pelas aulas do Padre Massa”.Quando for preparada a segunda edição de “O Delta Literário de Macau”, o professor José Carlos Seabra Pereira terá certamente a oportunidade para fazer a integração de Júlio Massa no alargado elenco de autores que poeticamente pensaram sobre o Território. Talvez então Macau, que parece tê-lo esquecido, se reconcilie com o valor da sua memória, que continua a ser estimada pela Associação dos Antigos Alunos do Seminário de S. José de Macau e por muitas outras pessoas atentas à persistência do legado português.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 125 08/11/2021 15:07
126LOURENÇO PEREIRA MARQUESLourenço Maria Pereira Marques [1852-1911] é uma figura enigmática na história contemporânea de Macau, mercê da sua trajectória deliberadamente obscura e também estrangeirada. Proveniente de uma influente e poderosa família de Macau, Lourenço Marques e os seus nove irmãos nasceram na propriedade onde está a Gruta de Camões, na colina do Patane. Como nota insólita, refira-se que todos os dez irmãos faleceram solteiros. Os pais, comendador Lourenço Caetano Marques e Maria Ana Josefa Pereira, privaram com a elite intelectual do seu tempo, com Francisco Rondina, o professor régio José Baptista Miranda e Lima ou Montalto de Jesus. Amantes da música e da literatura, falavam várias línguas (inglês, alemão, francês e italiano), eram católicos devotos e grandes beneméritos. O comendador Lourenço Caetano Marques presidiu ao Leal Senado e foi da sua iniciativa a construção do Monumento da Vitória em 1871, símbolo da espectacular vitória contra os invasores holandeses.O filho, Lourenço Pereira Marques estudou no Seminário de S. José de Macau e completou a sua formação em Lisboa, no Colégio de Campolide, uma escola dos jesuítas para as elites onde o ensino das ciências era muito valorizado. Ingressa na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, transferindo-se depois para a Universidade de Dublin, graduando-se em 1877 no ‘College of Physicians and Surgeons’ e em 1881 no ‘Royal College of Physicians in Ireland’. Fez estágios em hospitais, em Londres e em Paris. Em Dublin, foi médico assistente no ‘Mater Misericordiae Hospital’, que continua no mesmo sítio, Eccles Street, famoso na literatura por ser a casa de Leopold Bloom, do Ulisses de James Joyce. Devo esta preciosa informação à cortesia de Ronan Kelly, bibliotecário do Royal College of Surgeons in Ireland.Adquire a nacionalidade britânica, provavelmente adere à maçonaria e regressa a Macau. Como as dificuldades com o reconhecimento das suas habilitações académicas pareciam eternizar-se, decide rumar a Hong Kong, onde será um Livro Figuras_de_Jade_III.indd 126 08/11/2021 15:07
127FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEmédico cirurgião bem sucedido e prestigiado, instalando-se no Rednaxela Terrace, a zona predilecta dos portugueses.Trabalhou nos hospitais civis da colónia inglesa e dirigiu o Lock Hospital, uma instituição especial, misto de leprosaria e de internamento para militares com doenças venéreas e infecto-contagiosas. Foi ainda o médico-chefe da Penitenciária Victoria Gaol e nos navios-prisão do antigo sistema prisional do império colonial britânico.Em 1880 publica interessante um ensaio na ‘China Review’ sobre “Louis de Camoens”, marcando a sua posição no âmbito das comemorações do tricentenário da morte do grande épico, que Teófilo Braga liderava em Lisboa, já sob a égide da estética positivista. Nesse mesmo ano participa na ruidosa polémica teológico-científica sobre o darwinismo que mobilizou as elites portuguesas de Macau e de Hong Kong, publicando a “Defeza do Darwinismo”, onde apresenta as suas ideias: “Sustentando a evolução, não é meu desejo ofender os virtuosos missionários católicos desta Colónia e o seu respeitável e digno chefe de quem entretenho subidas considerações. A evolução é a minha filosofia”. Dois anos volvidos, em 1882, publica em Hong Kong um grande ensaio, “A Validade do Darwinismo”, dizendo, “esta obra é uma tese de ciência natural”, pedindo à comunidade “uma completa liberdade de discussão e imparcialidade”. Um pedido razoável e justo, convenhamos. Estas duas obras garantem-lhe um lugar na história do pensamento filosófico português de Macau.Nas investigações contemporâneas sobre Hong Kong, sobretudo na história da medicina e na história das ideias políticas emergentes nos circuitos internacionais regionais, muitas conexões vão ter ao nome do cirurgião português de Macau, “Dr. Lorenzo Pereyra Marquez”. Foi professor no Hong Kong College of Medicine, em 1891/1892, onde o seu aluno mais conhecido foi Sun Iat Sen, o futuro presidente da República da China.Lourenço Pereira Marques torna-se amigo de José Rizal, médico oftalmologista e revolucionário filipino. A amizade entre os dois era estreita, tendo José Rizal visitado Macau talvez por sua sugestão. Este entregou a Lourenço Pereira Marques duas cartas, escritas em 1892, que só poderiam ser divulgadas e publicadas depois da sua morte. Após o fuzilamento de José Rizal, pelas tropas coloniais espanholas, em 1896, Lourenço Pereira Marques cumpriu a sua promessa. Essas cartas são consideradas como o testamento político de José Rizal. No catálogo da biblioteca de Lourenço Pereira Marques encontramos um livro de José Rizal, “Au Pays des Moines”, provavelmente oferecido e autografado.O relacionamento entre estas três personalidades, Sun Iat Sen, José Rizal e Lourenço Pereira Marques, carece de aprofundamento e de uma hermenêutica que valorize os contrastes culturais e a solidariedade política, independentemente da presumível base maçónica comum.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 127 08/11/2021 15:07
128Lourenço Pereira Marques decide aposentar-se e regressa a Macau, continuando a exercer medicina graciosamente. A comunidade portuguesa de Hong Kong mobiliza-se para prestar uma sentida homenagem ao compatriota ilustre. Óscar Baptista escreve a Marcha-Polka “Pereira Marques” para piano, integrando o repertório da Sociedade Philarmónica Portuguesa de Hong Kong. O Clube Lusitano de Hong Kong organiza uma sessão memorável em homenagem a Lourenço Pereira Marques. O emérito historiador de Macau, Monsenhor Manuel Teixeira, acrescenta outra informação valiosa: “Em 2 de Agosto de 1896, por ocasião da sua retirada de Hong Kong, os seus amigos fretaram o vapor ‘Honam’ e acompanharam-no até Macau com uma banda de música, oferecendo-lhe nessa altura uma mensagem num álbum de 73 folhas em pergaminho e com 950 assinaturas”.Em 1899 faz uma enorme e generosa oferta de peças etnográficas sobre Macau e a China à Sociedade de Geografia de Lisboa que decide criar a “Sala Lourenço Marques”.O governador Eduardo Marques, pela Portaria Nº 231, de 4 de Novembro de 1910, decide criar uma comissão para pensar a criação do Museu Luís de Camões e entre os vogais nomeados encontram-se Camilo Pessanha, Lourenço Pereira Marques, Eduardo Cyrillo Lourenço e Carlos da Rocha Assumpção.Lourenço Pereira Marques era comendador da Ordem de Cristo e Oficial da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Faleceu precocemente com 59 anos, no dia 5 de Março de 1911. A prestigiada publicação inglesa, “The British Medical Journal” fez-lhe um grande elogio fúnebre, terminando deste modo: “Dr. Pereira Marques had a high ideal of his profession, and throughout his life showed the most self-sacrificing devotion to duty”.Dois meses antes da sua morte fez o testamento onde entre outras providências, faz a doação da sua grande e valiosa biblioteca ao Clube de Macau. Esta biblioteca é o retrato perfeito de um erudito discreto e sensível, actualizado com as tendências científicas e com as controvérsias filosóficas e estéticas do seu tempo. Para além do respeito e do reconhecimento que este gesto de filantropia e generosidade nos merece, há duas observações que se impõem fazer.Em primeiro lugar, ele próprio em 1882 dizia que “é de facto deplorável a falta de uma biblioteca pública em Macau”. Em 1911 a biblioteca pública estava sedeada no Liceu de Macau. Porquê a opção pelo Clube de Macau? Talvez a memória das velhas amizades possa explicar alguma coisa.Em segundo lugar, o “Catálogo da Biblioteca do Dr. Lourenço Pereira Marques”, organizado por Joaquim Francisco Xavier Gomes, foi impresso na Tipografia Mercantil de N. T. Fernandes & Filhos, em Macau, no ano de 1924, provavelmente a expensas do Clube de Macau. Ao longo das suas 180 páginas, o catálogo divide a biblioteca em 12 secções, onde se arrumam os 4.739 volumes, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 128 08/11/2021 15:07
129FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEdois terços dos quais nas línguas francesa e inglesa, privilegiando as áreas científica, filosófica, política e literária. Encontramos aí as obras completas de Stuart Mill e de Charles Darwin, o que por si só nos revela o seu posicionamento filosófico. Mas também há obras de outros filósofos como, por exemplo, Spencer, Humboldt, Comte, Aristóteles, Feuerbach, Hobbes, Descartes, Rousseau, Renan, Hegel, Maquiavel, Littré, Bakounine, Proudhon, Ruskin ou Huxley. Apreciava igualmente Guerra Junqueiro, Bulhão Pato, Sampaio Bruno, Camões, Camilo Castelo Branco, Zola, Dante, Balzac, Dostoiewski, Loti, Vitor Hugo, Yeats, Alexandre Herculano ou Mark Twain. O “Historic Macao” de Montalto de Jesus, “O Andaço do Porto” de José Gomes da Silva, o “Guilherme Tell” de Manuel da Silva Mendes ou “Pio IX perante a revolução”, de Francisco Rondina também lá estão. Lamenta-se que Lourenço Pereira Marques nada mais tenha escrito do que as publicações anteriormente mencionadas. Esta biblioteca sumiu misteriosamente, e é talvez o maior roubo cultural cometido em Macau nos primeiros tempos da república. O Catálogo foi publicado treze anos depois da morte do benemérito. A Biblioteca desapareceu antes ou depois da publicação do Catálogo em 1924? Porque é que o Catálogo não foi publicado em 1911, o ano da doação? E que posição tomou a direcção do Clube de Macau?O seu nome está na toponímia de Macau e no jazigo de família, no Cemitério de S. Miguel Arcanjo, existe uma estátua sua em tamanho natural.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 129 08/11/2021 15:07
130LÚCIO AUGUSTO DA SILVALúcio Augusto da Silva [1825-1906], português natural de Goa, frequentou a Universidade de Coimbra, mas acabou por se formar na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, apresentando uma tese sobre “O Estudo sobre o Parto Prematuro Artificial”, em 1851, ano em que concluíram o curso dezoito médicos na escola da capital. Após o estágio é colocado em Luanda no ano de 1854. Três anos depois está em S. Tomé e Príncipe onde permanecerá até 1859. Em Junho de 1860 chega a Macau, na qualidade de cirurgião-mor e chefe dos Serviços de Saúde, com a incumbência moral de “tratar gratuitamente os pobres” e de modernizar os serviços.Lúcio Augusto da Silva revelar-se-á uma personalidade de invulgar merecimento científico, sendo o responsável pelas observações meteorológicas feitas a partir do Hospital Militar de Macau: “as observações são feitas duas vezes por dia, 9 horas da manhã e 3 da tarde, seguindo-se as instruções do Observatório Meteorológico da Escola Politécnica de Lisboa. Os instrumentos foram aferidos com os padrões do mesmo Observatório. As medidas são sempre tiradas das observações horárias”. Resta dizer que a esmagadora maioria dos instrumentos eram propriedade sua, dado que era um apaixonado pelos estudos meteorológicos. A talhe de foice, registe-se que a tese de licenciatura de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, popularizado com o nome literário de Júlio Dinis, apresentada em 1861 à Escola Médico-Cirúrgica do Porto, tinha por título “Da Importância dos Estudos Meteorológicos para a Medicina e especialmente de suas aplicações ao ramo cirúrgico”.Macau vivia um tempo de grande prosperidade económica, que não deve ser apartada do milionário negócio da emigração de cules. O Barão do Cercal mobiliza esforços para fundar um duradouro “Estabelecimento de Instrução Primária e Secundária” e foi autorizado a “fazer anualmente uma ou mais lotarias em benefício da Escola”. E não foi por acaso que o ‘Boletim do Governo de Macau’ publicava uma importante carta de António Feliciano de Castilho onde afirmava Livro Figuras_de_Jade_III.indd 130 08/11/2021 15:07
131FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEque “as povoações carecentes de escolas se lembrem já de as pedir”. A cultura e a educação dependiam do mecenato e da filantropia, porque o Estado ainda não tinha essa preocupação. A imprensa portuguesa chegava nos navios, para os leitores ávidos de conhecimento e de notícias, elevando as expectativas culturais: “Correspondência de Portugal” - bimensal; “Nação” - diário; “Arquivo Pitoresco”, “Bem Público”, “Fé Católica”, “Amigos da Religião” - semanários. Era esta mesma imprensa que trazia os surpreendentes artigos de Alexandre Herculano sobre o casamento civil e os desagravos para com a doutrina de Renan sobre o cristianismo. Estes dois livros eram maximamente propagandeados: “Compêndio de Higiene Popular”, com tradução livre de Manuel de Castro Sampaio; “La Única Anatomia Fisiologo-Patologica” de D. Buenaventura de Casals y de Echaúz. A publicidade a medicamentos estrangeiros era mais do que muita: “Injecção Brou”, “Grageas de Gelis e Conté”, “Xarope de Labelonye”, “Phosphato de Ferro de Leras” ou “Xarope de Hypophosphito de Cal de Grimault”.As inquietações científicas e o pendor higienista e racionalista de Lúcio Augusto da Silva que serviu nove governadores [Isidoro Guimarães, José Coelho Amaral, José Ponte e Horta, António Sérgio de Sousa, Januário Correia de Almeida, José Lobo d’Ávila, Carlos Correia da Silva, José Joaquim da Graça e Tomás de Sousa Rosa] numa estadia de vinte e quatro anos, foram determinantes para um grande número de mudanças estruturais ocorridas no Território. Pela primeira vez se regista que o poder executivo segue os ditames da ciência médica com vista ao bem comum, instituindo uma política de saúde pública. A título de exemplo, cite-se a introdução da cor branca no fardamento militar, nas vestes eclesiásticas e no vestuário dos funcionários da administração civil, visto que era uma cor mais apropriada ao clima.Por causa da inclemência do clima dizia que “os europeus que fazem residência fixa neste país não adquirem geralmente notável longevidade”. Lúcio Augusto da Silva assina mensalmente o “estado sanitário de Macau”, um metódico boletim informativo com estatísticas sobre o estado da saúde pública associada à dinâmica demográfica. Enumera algumas das suas recomendações que foram postas em prática: “a limpeza das ruas, das praças e outros lugares é cuidadosamente atendida”, “construíram-se matadouros”, “telheiros para a venda da carne e peixe”, “construíram-se novas latrinas públicas”, proibiu-se o enterramento de cadáveres dos chinas por toda a parte”. Isto parece coisa de pouca monta, mas foi uma verdadeira revolução na higiene pública e na qualidade de vida dos cidadãos: “é bem conhecida a persistência dos chins em conservar os seus antigos hábitos e costumes, ainda quando reconheçam a utilidade de os abandonar ou modificar, persistência proveniente das máximas e conselhos de Confúcio, aos quais se deve, diz um publicista, o ter-se mantido compacto até aos nossos dias o vasto império da Livro Figuras_de_Jade_III.indd 131 12/11/2021 14:21
132China”. Por causa do histórico de epidemias e de pestes, a limpeza, o saneamento e a desinfecção eram a preocupação máxima, como se nota nesta postura: “todos os moradores da cidade ficam obrigados a conservar sempre limpas as frentes de suas moradas e dos respectivos quintais ou pátios” e a não observância era punida com uma “multa de 500 réis ou de um dia de prisão”.Lúcio Augusto da Silva escreveu com regularidade sobre temas científicos no “Ta-Ssi-Yang-Kuo. Semanário macaense de interesses públicos locais, literário e noticioso”, assinando com o seu nome, o que era muito raro. Tem a sua supervisão científica e redacção técnica o Regulamento de Higiene dos Navios para o Transporte de Cules, o Regulamento de Higiene e Saúde das Meretrizes, e o Regulamento de Saúde Pública de Macau, ficando aí bem patente a sua preocupação com a dignidade e o bem-estar das pessoas.Uma das singularidades de Macau, no ano da graça de 1863, residia nesta gestão de sofismas e de verosimilhanças. Assim, era expressamente proibida a posse de pólvora e a venda de armamento e “a todos os denunciantes se dará a terça parte do valor da pólvora ou armamento, cuja existência ilegal se prove nas embarcações, lojas e casas de cristãos ou de chinas, dentro da cidade, podendo qualquer pessoa do povo fazer tais denúncias”. Apressou-se o Vice-Rei de Cantão a felicitar o governo de Macau por essa medida enérgica que enfraquecia a pirataria, ressalvando, contudo, a possibilidade de poder “importar de Macau armamento e mais apetrechos de guerra para uso do governo chinês”. Escassos meses volvidos, olhando a pauta com uma longa lista de artigos, por entre as “orelhas de rato”, “pontas de búfalo”, “charutos”, aparecem “300 espingardas com baionetas” e “316 peças de artilharia de diferentes calibres” ...Lúcio Augusto da Silva foi um dos subscritores do monumento a erigir em memória de José Estevão Coelho de Magalhães, político e “grande orador liberal”, cuja comissão em Macau era composta pelo Barão do Cercal, João Ferreira Pinto e José Gabriel Fernandes. Era também por causa da política e do ‘carpe diem’ dos hedonistas que os elementos da Guarda Policial tinham direito a um reforço na ração de vinho no dia 29 de Abril (outorga da Carta Constitucional) e no dia 31 de Julho (juramento da Carta Constitucional).Preparou os materiais de Macau [relatórios, estatísticas e livros] e medicamentos chineses [ocá ou extracto de pele de burro, entre outros...] com destino ao pavilhão português da Exposição Colonial Internacional de Amsterdão, de 1883, realçando que “o estudo de todos os documentos reunidos será de grande alcance e de suma conveniência para a reforma, tão necessária, de um serviço que é sem dúvida o primeiro a atender-se na administração colonial”.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 132 08/11/2021 15:07
133FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEOs seus trabalhos científicos são os seguintes: “Principais Condições dos Cemitérios com Aplicação ao Cemitério da Cidade de S. Tomé” - 1861; “Relatório sobre a Epidemia de Colera-Morbus em Macau no ano de 1862” - 1864; “Relatório acerca do Serviço de Saúde de Macau apresentado ao Conselho de Saúde Naval e do Ultramar” - 1866; “Relatório do Serviço de Saúde de Macau, 1862-1870” - 1871; “Regulamento Geral do Serviço de Saúde da Província de Macau e Timor” - 1875; “Duas Palavras Sobre o Dengue” - 1880; “Relatório do Serviço de Saúde Pública na Cidade de Macau em 1882” - 1883; “Apontamento sobre a Organização dos Serviços de Saúde das Províncias Ultramarinas” - 1890. A história cultural de Macau não poderá jamais ignorar todo este manancial de informação porque pela primeira vez a ciência está na linha da frente para auxiliar a governação.A vida e obra de Lúcio Augusto da Silva, não obstante os meritórios trabalhos do Padre Manuel Teixeira, de Peregrino da Costa ou de José Caetano Soares, merecia um estudo autónomo que valorizasse a sua contribuição para o desenvolvimento do Território, nomeadamente o novo espírito científico que trouxe.Entre as condecorações atribuídas a Lúcio Augusto da Silva avultam os seguintes títulos: Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, 1859; Comendador da Ordem de Cristo, 1864; Cavaleiro da Ordem de S. Tiago, 1879.Reformou-se com a patente de coronel médico, em 1884, retirando-se para Lisboa onde veio a falecer em 1906.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 133 08/11/2021 15:07
134MANUEL DA SILVA MENDESÀ memória de Amadeu GonçalvesO dia de hoje, 31 de Janeiro, é simbólico. Há 128 anos, eclodiu no Porto a revolta de 31 de Janeiro de 1891, a primeira tentativa séria para derrubar a monarquia portuguesa. Manuel da Silva Mendes tinha 24 anos e provavelmente nutria elevadíssimas expectativas quanto à mudança do regime político. Na Universidade de Coimbra onde estudava direito, em Vila Nova de Famalicão e na imprensa, Manuel da Silva Mendes era um dos muitos arautos da utopia republicana travestida de socialismo libertário. Em 1896 publica O Socialismo Libertário ou Anarquismo, ainda hoje considerada uma obra capital. Foi reeditada em fac-símile há poucos anos.Cinco anos depois, em 1901, está expatriado em Macau, mercê da sua amizade com Monsenhor Santos Viegas, presidente da Câmara dos Deputados e líder dos monárquicos regeneradores.Residia em Macau desde 1901 e no dia 11 de Outubro de 1910, lá estava empoleirado na varanda do Leal Senado, participando na cerimónia da proclamação da República Portuguesa nos Paços do Concelho da Cidade do Santo Nome de Deus de Macau na China. Aí construiu uma carreira como professor e advogado, estreitou amizades com chineses e com portugueses e iniciou uma portentosa colecção de arte chinesa e oriental que, após ter sido vendida pela família, constitui a base do Museu de Arte de Macau. Mas, é sobre a sua obra intelectual que nos iremos deter um pouco.Manuel da Silva Mendes [1867-1931] foi um dos representantes mais notáveis da intelligentzia portuguesa contemporânea de Macau. Não é possível Livro Figuras_de_Jade_III.indd 134 08/11/2021 15:07
135FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEdissociá-lo de uma porfiada intervenção cívica e política, do estudo e da divulgação do taoísmo filosófico, da religião e arte chinesas, dos trabalhos forenses ou, ainda, das magnas tarefas educativas em que se envolveu como professor.Em Macau publica dois livros. Em 1909, o Lao Tse e a sua Doutrina segundo o Tao Te Ting.Em 1930, os Excertos de Filosofia Taoísta segundo o Tao Te King de Lao Tse e o Nan Hua King de Chuang Tse.Ao longo do tempo, a obra dispersa de Manuel da Silva Mendes foi objecto de várias edições, sempre com o nobre escopo de a tornar acessível. O seu antigo aluno Luís Gonzaga Gomes, futuro sinólogo e historiador, foi o primeiro grande responsável pela reunião em sete volumes dos escritos de Manuel da Silva Mendes. Outras edições sectoriais, como a da Quinzena de Macau, organizada por Carlos Estorninho, ou sob a iniciativa do Leal Senado de Macau, com a organização de Graciete Batalha ou António Conceição Júnior, e ainda uma outra sob a minha responsabilidade e editada pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude de Macau, contribuíram para lançar uma nova luz sobre um autor e sobre uma obra ímpar na sinologia portuguesa.A obra de Manuel da Silva Mendes sempre despertou interesse e curiosidade, mas as dificuldades intrínsecas aos estudos orientais e sinológicos aliadas a uma deficiente distribuição dos livros, foram sempre obstáculos quase intransponíveis para o conhecimento do autor e das suas ideias.De facto, os estudos de Manuel da Silva Mendes na filosofia taoista chinesa, na estética e na religião não encontram paralelo no pensamento português. E isso começa a ser valorizado em estudos, em teses de mestrado e de doutoramento, em Macau, no Brasil e em Portugal.Recorde-se que o primeiro volume, com 570 páginas, foi apresentado em 2017, em São Miguel de Seide no Centro de Estudos Camilianos num Colóquio dedicado a Manuel da Silva Mendes por ocasião dos 150 anos do seu nascimento. Pouco tempo depois foi o mesmo volume apresentado em Lisboa e finalmente em Macau. O jornal Hoje Macau nomeou esse mesmo primeiro volume como o “Livro do Ano”, de 2017.Em 2018 foram publicados, sob a chancela dos Livros do Oriente, mais dois avantajados volumes, sob o título, Manuel da Silva Mendes: Memória e Pensamento, o segundo volume com 539 páginas, e o terceiro volume que hoje apresentamos, com 514 páginas.Um enorme grupo de estudiosos, de historiadores e de sinólogos prestou uma colaboração decisiva para credibilizar o projecto e para lhe conferir uma dimensão pluridimensional abrindo-o a uma modernidade exigente. Estou a falar, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 135 08/11/2021 15:07
136por exemplo, de Amadeu Gonçalves, Tiago Quadros, Ana Cristina Alves, António Graça de Abreu, Aureliano Barata, António Conceição Júnior, Carlos Botão Alves, Erasto Cruz, Cecília Jorge ou Jorge Morbey.Para a presente edição foi feita uma cuidadosa revisão dos originais, foram acrescentados textos inéditos, adicionadas fotografias e ilustrações e foi elaborada uma bibliografia muito actualizada.Este terceiro volume contém estudos e artigos de Manuel da Silva Mendes sobre as ideias socialistas, sobre Guilherme Tell, incluindo o fac-símile do manuscrito O Bonzo de Sek Kin Seng e a história realmente camiliana de “O Lourenço”. A correspondência para Bernardino Machado e para os amigos chineses é igualmente interessante. Seleccionamos também dois capítulos de duas teses, uma brasileira e outra portuguesa, ambas dedicadas ao estudo do pensamento de Manuel da Silva Mendes. Para terminar, a memória comovida da bisneta, Maria dos Anjos da Silva Mendes.O que falta editar? Os textos jurídicos, porque o arquivo do tribunal ainda não está acessível.E ainda um livro de bolso, do género vida e obra de Manuel da Silva Mendes, acessível e popular.Agradecimentos.Família de Manuel da Silva Mendes: à neta Maria Isabel da Silva Mendes Guedes Quinhones de Portugal da Silveira e à bisneta Maria dos Anjos da Silva Mendes.Associação dos Amigos do Livro em Macau.Fundação Jorge Álvares, na pessoa do seu presidente, general Garcia Leandro.Fundação Macau.Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.Museu Bernardino Machado.Centro de Estudos Camilianos.Arquivo Municipal Alberto Sampaio.À Editora Livros do Oriente, em especial a Rogério Beltrão Coelho que, com saber, competência e determinação conduziu este difícil empreendimento até ao seu termo.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 136 08/11/2021 15:07
137FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEMANUEL DE FARIA E SOUSACumprem-se neste mês de Fevereiro de 2020 os 430 anos do nascimento de Manuel de Faria e Sousa [1590-1649], natural de Pombeiro, em Felgueiras, personalidade culturalmente multifacetada, cosmopolita e polémica, cuja vida coincidirá maiorita-riamente com os sessenta anos da ocupação espanhola de Portugal. Joaquim Costa publicou em 2012 uma monografia notável, “Manuel de Faria e Sousa. Cidadão do Mundo e das Letras ao Serviço de Portugal”, que a Rota do Românico em boa hora editou, e cujo lamento se regista: “infelizmente, a sua vida e obra ainda são uma incógnita para muitos portugueses e, para muitos outros, um escritor a esquecer”. Sob a égide desse mesmo organismo, está patente no Mosteiro de Pombeiro uma exposição dedicada à vida e obra de Manuel de Faria e Sousa, naquele que será o grande momento de reabilitação intelectual do autor. Tendo vivido por largos anos em Espanha e servido nas cortes de Filipe III e Filipe IV, é natural que tenha ficado num limbo de indiferença entre os portugueses até por ter escrito muito mais em castelhano do que em português. Camilo Castelo Branco [“Mosaico e Silva de Curiosidades Históricas, Literárias e Biográficas”] não lhe perdoou alguns deslizes morais de cidadania quando se afeiçoou em demasia a Espanha, “encarecendo a felicidade de cairmos nas unhas de Castela” e também a “probidade e caridade do usurpador realçassem à custa de muito denegridos os portugueses rebeldes à canga de Castela”, nem concedeu grande consistência à elaborada hipótese de ser um espião português na corte espanhola.Esses episódios infelizes não fizeram esquecer os altíssimos e meritórios serviços que ele prestou a Portugal, essencialmente a difusão internacional da cultura portuguesa a partir das suas traduções em castelhano. A sua obra é muito extensa, salientando-se desde logo o “Epítome de las historias portuguesas”, Madrid, 1628 e a edição dos “Lusíadas”, publicada em Madrid, em 1639, entre muitas outras edições, nomeadamente a obra póstuma, “Ásia Portuguesa”. A sua persistência e devoção pela obra de Luís de Camões, camonista fanático lhe chamou Ester de Lemos, nunca foi muito bem Livro Figuras_de_Jade_III.indd 137 08/11/2021 15:07
138compreendida pelos seus contemporâneos. Contudo, encontrou alguns defensores e apreciadores e entre eles destaca-se Jorge de Sena, insuspeito exegeta de Camões.Mas, gostaria de valorizar e de realçar o papel pioneiro de Manuel de Faria e Sousa na internacionalização da sinologia portuguesa, porque foi ele quem promoveu em Madrid a versão espanhola, em 1642, da “Relação da Grande Monarquia da China”, de Álvaro Semedo, então um desconhecido jesuíta português. Percebeu a sedução exercida pelo orientalismo, a novidade e o valor estratégico do conhecimento da China, em termos políticos, culturais e para a missionação. E isto foi decisivo para a enorme e célere irradiação europeia desta obra capital da sinologia portuguesa. Luís Gonzaga Gomes, que traduziu o livro para português, a partir de uma edição italiana, anotou o seguinte, em 1956, na edição do ‘Notícias de Macau’: “Faria e Sousa deveria, porém, ter possuído uma cópia completa do manuscrito da ‘Relação’, que traduziu para espanhol, mas apenas a primeira parte e mesmo assim com muitas interpolações e observações, algumas bem descabidas, da sua lavra, tradução esta que publicou em Madrid, também no ano de 1642, com o título de ‘Imperio de la China’. Esta adaptação espanhola de Faria e Sousa foi reeditada, nesse mesmo ano de 1642 e desta segunda edição se fez uma reimpressão em Lisboa, em 1731”.A intuição editorial de Manuel de Faria e Sousa foi por isso notável, bem à frente dos historiadores portugueses seus coevos como Frei Luís de Sousa, Frei Bernardo de Brito ou Jacinto Freire de Andrade. A “Relação da Grande Monarquia da China” escrita pelo padre jesuíta Álvaro Semedo, é justamente considerada uma das obras magnas do amanhecer da sinologia europeia visto que se inscreve num quadro mental de grande abertura que se recusa a encarar o conhecimento pluridimensional da civilização chinesa mediante os prismas europeus em voga. O manuscrito da “Relação da Grande Monarquia da China” ficou concluído em 1637, conhecendo a primeira edição em castelhano em 1642, sendo igualmente vertido e editado em italiano (1643, 1653, 1667 e 1678), em holandês (1670), em francês (1645 e 1667), em inglês (1665), admitindo-se que possam existir outras edições em outros tantos idiomas, mas não há, por ora, um levantamento editorial exaustivo. Em Lisboa sairia dos prelos da “Officina Herreriana” em 1731, uma edição sintética cuja tradução era da responsabilidade de Manuel de Faria e Sousa, trabalho póstumo promovido pelo seu filho Pedro de Faria e Sousa. Só duzentos e vinte e cinco anos depois, em 1956 e em Macau, foi a obra do padre Semedo integralmente editada em língua portuguesa, mercê do interesse e do labor de Luís Gonzaga Gomes, um dos grandes sinólogos portugueses contemporâneos. Em 1994 essa mesma obra conheceria a sua última edição em língua portuguesa, numa co-edição da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude/Fundação Macau.Na história da sinologia portuguesa, o erudito Manuel de Faria e Sousa ocupará o lugar que os historiadores atentos irão registar. Mas, por entre o desleixo cultural, o apagão histórico e a animadversão emocional, retomo a pergunta de José Valle de Figueiredo: “o que fazer com Faria e Sousa?”. Instituir um prémio com o seu nome, será uma hipótese para a Rota do Românico ponderar. Até lá, longos dias têm cem anos.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 138 08/11/2021 15:07
139FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEMARIA HELENA DO CARMONascida no meio do Atlântico, na Ilha da Madeira, Maria Helena do Carmo pertence a uma geração de portugueses, cidadãos do mundo, que viveu e trabalhou em vários continentes, na Europa (Portugal), na Ásia (Goa e Macau) e em África (Angola e Moçambique), sempre sob a bandeira portuguesa, colhendo uma riquíssima cosmovisão de um mundo plural na sua humanidade e nos seus contrastes civilizacionais. Direccionou esses ensinamentos para duas áreas apaixonantes, a comunicação social e a educação, onde ao longo de décadas foi marcando gerações sucessivas que fruíram da sua vasta cultura colocada ao serviço do seu desenvolvimento pessoal e social, sem esquecer uma segura transmissão dos valores.Partindo da sua formação em História, abalançou-se pelos caminhos da investigação, ciente de que a história da aventura dos portugueses pelo mundo ainda é uma vasta área para desbravar, estudar e pesquisar. Nascem, assim, alguns estudos de referência como “Os Interesses dos Portugueses em Macau na Primeira Metade do Século XVIII” de 1999, a participação no Dicionário da História de Macau, onde assina diversas entradas, ou em publicações diversas, destacando-se entre elas a Revista Oriente-Ocidente.Mas onde Maria Helena do Carmo se distingue verdadeiramente com originalidade é no romance sobre o universo da história de Macau, criando um percurso único e sem paralelo, pressentindo-se algumas influências de Manuel Pinheiro Chagas e Luiz Rebelo da Silva, figuras maiores do romance histórico português.Maria Helena do Carmo revisita como nenhum outro autor os grandes temas fracturantes da história de Macau, sejam personalidades singulares, sejam acontecimentos relevantes, em obras sucessivas: Uma Aristocrata Portuguesa em Macau no Século XVII, 2006; Mercadores do Ópio – Macau no Tempo de Quianglong, 2012; A Ilha do Ouro – Viagem de Emanuel Godinho de Herédia à Índia Meridional, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 139 08/11/2021 15:07
1402014; Bambú Quebrado, 2014; Histórias de Amor em Macau, 2017; Pássaros de Ferro, 2018. Partindo de um conhecimento profundo e minucioso da história de Macau, constrói narrativas empolgantes com enredos bem urdidos até ao pormenor, prendendo a atenção do leitor do princípio até ao fim. Nestas narrativas há sempre um quadro axiológico com valores eufóricos e patrióticos, reconhecidos e assumidos em toda a sua extensão multicultural. Não esquecendo o elegante sentido de humor, o recorte psicológico das personagens, o estudado exotismo de um quotidiano diferente e a projecção de um orientalismo que recobre algumas descrições que o leitor valoriza, incluindo o modo de falar.O livro que o leitor tem nas mãos intitula-se Macau no Tempo Áureo do Comércio. Situa-se na época do governador de Macau Januário Correia de Almeida, o Conde de S. Januário, que esteve em funções, de 1872 até 1874, sendo cumulativamente Ministro Plenipotenciário de Portugal junto das Côrtes da China, Japão e Sião. Januário Correia de Almeida foi uma personalidade com uma invulgar craveira como estadista, militar ou filantropo. Nesta narrativa emerge a figura misteriosa de Pedro Gastão Mesnier, intelectual com uma notável obra publicada e homem de acção que, na qualidade de secretário particular acompanhou o major Januário Correia de Almeida desde a Índia, onde tinha sido governador-geral. A vida cosmopolita de Macau, a cidade mundana com os bailes, os banquetes e as festas, os amores e os desamores, os jornais e as polémicas, a migração dos cules para a América Latina, as periclitantes relações políticas com as autoridades de Cantão, a visita de príncipes, de reis, mandarins e vice-reis, tudo isso ganha uma vida própria e mágica nestas páginas e agiganta-se perante o leitor.Maria Helena do Carmo é uma trabalhadora incansável, pelo que não devemos esquecer estes outros três títulos: No Coração do Algarve, 2016, A Jornada de Mestre Gamboa, 2017 e Destinada à Clausura, 2018. Bem se pode dizer que uma professora trabalha sempre até ao fim das suas forças, deixando um inigualável rasto bibliográfico do seu comprometimento cívico, afectivo, pedagógico e cultural, como dizia David Mourão Ferreira, realizado nos ócios do ofício. Entrou, por direito próprio, no panorama da história da literatura de língua portuguesa de Macau.Parabéns à escritora Maria Helena do Carmo, lembrando-lhe o ex-líbris do grande Aquilino Ribeiro, Alcança quem não cansa. Ficamos, pois, à espera de um novo livro, preferencialmente ligado a Macau e ao extremo oriente.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 140 08/11/2021 15:07
141FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTENATÁLIA CORREIAO livro “Poemas de Li Bai”, com a tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu [obra galardoada com o Grande Prémio de Tradução da Associação Portuguesa de Tradutores e do Pen Club, em 1991], abriu auspiciosamente a Colecção de Clássicos Chineses, editada pelo Instituto Cultural de Macau e foi apresentado por Natália Correia (1923-1993) em Lisboa, no auditório da Missão de Macau, no dia 6 de Julho de 1990. O texto dessa intervenção, esquecido durante bastantes anos, foi publicado no jornal ‘Hoje Macau’ de 26 de Abril de 2016, é magnífico pela sua erudição sedutora, onde o orientalismo literário parece envolto numa névoa metafísica e atlântica. Natália Correia recorda-nos que a “China bem se podia orgulhar de possuir este extraordinário património poético quando o pensamento europeu obscuramente ruminava aristotelismos ou devocionismos agustinianos à volta de sentenças patrológicas”. Ter acabado com a Colecção de Clássicos Chineses, do Instituto Cultural de Macau, com menos de meia dúzia de títulos publicados, foi um crime de lesa-cultura e um golpe baixo no frágil universo de interesses da sinologia portuguesa.Mercê de uma sábia política de convite a poetas, romancistas e outros criadores para visitarem Macau e mergulharem nessa encruzilhada de culturas, um ano depois encontramo-la no Território, em Junho de 1991. Talvez a amizade com Mariano Tamagnini Barbosa tenha sido determinante para empreender essa longa e fatigante viagem. Foi assim oficialmente convidada pelo Instituto Cultural para apresentar a segunda edição do livro “Lin Tchi Fá | Flor de Lótus”, de Maria Anna Acciaioli Tamagnini (1900-1933), e para o qual escreveu um sugestivo prefácio, sob o título “Versos de Brisa Portuguesa Escritos numa Flor de Lótus”. Esse livro era da autoria da professora Maria Anna Acciaioli Tamagnini, prematuramente falecida, e que foi casada com o antigo governador Artur Tamagnini Barbosa. Era conhecida pela sua sensibilidade cultural e poética, dedicando-se também à pintura e à Livro Figuras_de_Jade_III.indd 141 08/11/2021 15:07
142filantropia. O seu livro teve a primeira edição em 1925 e um bom acolhimento pela crítica portuguesa. Em Macau, duas figuras maiores da vida cultural portuguesa, Camilo Pessanha e Manuel da Silva Mendes, não escreveram uma linha sobre esta obra, o que não deixa de ser curioso. A terceira edição de “Lin Tchi Fá | Flor de Lotus”, apareceu em 2006 sob a chancela da editorial Tágide.Vale a pena rever algumas palavras que Natália Correia escreveu no prefácio: “Mas das contradições da crítica fica o fascínio que nela exerceram estes poetas lidimamente extremo-orientais pela primeira vez publicados em livro por uma mulher que, pela magia da afinidade da sua sensível essência feminina com a lunaridade da poesia chinesa, surge como uma rara aparição no panorama orientalista do nosso lirismo. Mal haja a misoginia que volte a sepultar a sua memória nas trevas do olvido!”. E ela bem sabia do que falava pois, como escreveu em “A Mosca Iluminada” (1972), “tenho sofrido todas as perseguições a que estão sujeitos os contrabandistas dos diamantes que habitam as palavras proibidas”.Após uma conferência sobre o ‘Orientalismo na Poesia Portuguesa’, que teve lugar na Livraria Portuguesa, o Cenáculo Luís Gonzaga Gomes, numa cerimónia oficiada por Luís Sá Cunha, dedicou-lhe uma singela sessão de homenagem. Na “pátria” de Camilo Pessanha, Natália Correia lembrou que recitou emocionadamente versos do Mestre, no ano da graça de 1949, no Museu João de Deus, justamente na “Tarde do Poeta Camilo Pessanha”. Recordo-a como uma figura cansada, mas com uma inteligência fulgurante, atenta aos pormenores que só os poetas valorizam e ávida de referências para compreender os solavancos e os contrastes mentais e culturais do diálogo entre o oriente e o ocidente. Natália Correia estava então no auge do seu esplendor intelectual e cívico. Em 1991 recebe o Grande Prémio de Poesia, pelo seu livro “Sonetos Românticos”. Nesse mesmo ano, o Presidente Mário Soares fá-la Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Jornalista, poetisa, ensaísta, dramaturga, ficcionista, Natália Correia entrou de rompante na vida política nos movimentos de oposição ao Estado Novo, apoiando sucessivamente as candidaturas do general Norton de Matos e mais tarde a do general Humberto Delgado à presidência da república. E desde a década de setenta, com o “Botequim”, um bar ligado à boémia intelectual, manteve-se sempre na crista da onda política, cultural ou social.Deputada independente pelo PPD/PSD, é com humor, mas falando a sério, que diz, “Entrei no Parlamento por solidariedade para com Sá Carneiro, que teve o maior acto revolucionário depois do 25 de Abril – impôs a amante à sociedade”. Também deputada independente pelo PRD, em 1987, a convite de Ramalho Eanes, utilizou a tribuna parlamentar para defender e valorizar a língua portuguesa, os movimentos culturais, os direitos das mulheres, entre outros assuntos relevantes.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 142 08/11/2021 15:07
143FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEA sua obra é extensa e dela registo os títulos seguintes: “A Questão Académica de 1907” (1962); “Antologia de Poesia Erótica e Satírica” (1966) – esta obra foi apreendida pela PIDE e a organizadora condenada em Tribunal Plenário a 3 anos de prisão com pena suspensa; “A Madona” (1968); “Uma Estátua para Herodes” (1974); “Não Percas a Rosa” (1978); “A Pécora” (1983); “A Ilha de Circe” (1983); “Sonetos Românticos” (1990).Numa síntese feliz, Urbano Tavares Rodrigues afirmou: “Ela era antes de mais a paixão pela cultura, um amor activo, que tinha por suporte o seu talento poético e dramatúrgico e uma impressionante experiência de leitura, de saberes vários, de erudição e contacto com o povo, de vocação de liberdade”. Após a fugaz experiência de Macau, terá reencontrado a apoteose da liberdade, refinado a bem humorada diatribe, “não jurarei que qualquer deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem deuses”?Livro Figuras_de_Jade_III.indd 143 08/11/2021 15:07
144PEDRO DA SILVEIRAPedro da Silveira [1922-2003], de seu nome completo Pedro Laureano de Mendonça da Silveira, açoriano da Ilha das Flores, foi uma personalidade discreta mas com uma vida cultural muito intensa e polifacetada. Poeta, crítico literário, erudito investigador e tradutor [traduziu para a língua portuguesa Maria Montessori, Moravia, Claude Roy, Cervantes, Miguel Angel Asturias, entre outros], com abundante colaboração assinada na ‘Seara Nova’, ‘Colóquio-Letras’, ‘Vértice’ e na imprensa em geral, Pedro da Silveira manteve uma interessante ligação a Macau, cidade que visitou por mais de uma vez e onde terá privado com o historiador e sinólogo Luís Gonzaga Gomes e com o padre Manuel Teixeira, emérito intelectual do Território. Para além de todas as afinidades, Pedro da Silveira era director dos serviços de investigação e de actividades culturais da Biblioteca Nacional de Lisboa.Com um apurado faro de bibliófilo, mergulha na vida cultural da cidade, recuperando uma obra de um escritor apagado não se sabe bem porquê, o capitão-tenente Francisco Maria Bordalo [1821-1861]. Organiza e prefacia a improvável reedição da curiosa novela “Sansão na Vingança”, de Francisco Maria Bordalo [originalmente publicada em 1854 em ‘O Panorama’], editada pela Imprensa Nacional de Macau em 1980, enriquecendo-a com textos complementares. Francisco Maria Bordalo, oficial da Armada, secretário do Governo de Macau em tempos críticos [1849-1852] e amigo de Alexandre Herculano é uma figura injustamente esquecida, mas cujo valor literário não escapou a Fidelino de Figueiredo que lhe dedica um capítulo na sua ‘História da Literatura Romântica Portuguesa’, publicada em 1913. A novela “Sansão na Vingança” retrata a tragédia da explosão, presumivelmente criminosa, da Fragata D. Maria II, em 1850, na Ilha da Taipa, onde entre as muitas vítimas se encontrava o seu irmão Luís Maria Bordalo. Em Macau, era inevitável uma romagem sentimental à Gruta de Camões. E Pedro da Silveira observou com alguma contida ironia, “No jardim da Gruta de Livro Figuras_de_Jade_III.indd 144 08/11/2021 15:07
145FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTECamões, em Macau, todas as tardes os velhos chinas da vizinhança se reuniam trazendo as suas gaiolas de pássaros cantores. Conversavam, mas o principal era ficarem ali até anoitecer, com as gaiolas suspensas nas árvores”.Mas, Pedro da Silveira perseguia a sombra de Camilo Pessanha, desde os anos setenta, tendo encontrado e publicado algumas importantes cartas inéditas do poeta simbolista. Este poema ganha, assim, todo o sentido:EM MACAU À PROCURA DE CAMILO PESSANHAOnde foi a casa do poetaagora é um pátio de escola em que brincam criançase tem à frente um baloiçoe lá atrás duas árvores.Na esquina da rua com o seu nomeum mendigo serrazina a sua violae o som alonga-se chorado,chora e perde-se devagarnas outras ruas que levamà Travessa do Pagode,à porta da loja onde ainda o esperao amigo antiquário Ah-Men.Já ninguém sabe o destinodo cachimbo com que inventavaparaísos e princesasou sereias, com seus cantos,músicas e campos de liliáceas,cores de mil maravilhas ao mundo que bem sabiaque era mais o daquele mendigoàquela esquina para a Sam Má-lôe a sua viola chorandopela moeda de meia patacaque também eu me esqueci de deitarna tijela que tinha ao lado.O fascínio do Oriente levou-o a visitar a Ilha Formosa, Taiwan, inscrevendo no poema “Metafísica” esta impressiva recordação: Nunca vi em parte nenhuma uma monja tão bela / e os seus gestos oficiando eram belos como ela.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 145 08/11/2021 15:07
146A obra que deixou é bastante significativa: “A Ilha e o Mundo”, 1952; “Sinais de Oeste”, 1962; “Antologia da Poesia Açoriana, do Século XVIII a 1975”, 1977; “Corografias”, 1985; “Mesa de Amigos”, 1986; “Poemas Ausentes”, 1999; “43 Médicos Poetas”, 1999; “Fui ao Mar Buscar Laranjas”, 1999.Está incluído no quarto volume da importante Antologia “De Longe À China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas”, organizada por Carlos Pinto Santos e Orlando Neves, publicada em 1996. Em 1990 é feito Comendador da Ordem de Mérito. O seu espólio literário foi doado à Biblioteca Nacional.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 146 08/11/2021 15:07
147FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTERÉGIS GERVAIXRégis Gervaix, de seu nome completo Jean François Régis Gervaix (1873-1940), de nacionalidade francesa e que assinava sob o pseudónimo de Eudore Colomban, era um destacado missionário da Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris. Ordenado em 1898, foi colocado em Cantão onde se iniciou no estudo da língua sínica. Esteve ao serviço da Diocese de Macau, de 1916 até 1925, integrando desde 1919 o Padroado Português no Extremo Oriente, leccionando francês e grego no Seminário de S. José. Deixou uma abundante colaboração, ensaios e poesias, no “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau”. Não era muito fluente na língua portuguesa e, dizem os seus antigos alunos, era proverbial o seu mau feitio. Sob o pseudónimo de “Gervásio” publicou no jornal “O Progresso”, de 16 de Julho de 1916, um poema em homenagem a Camilo Pessanha, com o título ‘Desiludido de Tudo e de Todos’. Consumiu uma boa parte da sua vida em Cantão e em Pequim na missionação, e também no estudo da cultura chinesa, procurando igualmente estabelecer a história dos europeus na China.É uma figura injustamente esquecida na historiografia portuguesa de Macau, não obstante possuir uma obra extensa, meritória e variada. O seu antigo aluno, Monsenhor Manuel Teixeira, deixou sobre ele um testemunho interessante tendo igualmente registado a sua bibliografia. Manuel da Silva Mendes, sempre avaro na avaliação dos seus coevos, não poupou nas palavras com que ajuizou os seus méritos. No jornal “O Macaense” de 23 de Novembro de 1919 escreveu o seguinte: “Tem andado o sr. Padre Régis Gervaix, professor do Seminário, há anos já, a desenterrar da poeira de alguns arquivos maços de documentos que á acção do tempo e dos insectos tem escapado, com um afã e interesse como se de concidadãos seus tratasse, ilustres nomes de portugueses, que dos portugueses nunca foram venerados e jazem em inteiro olvido”. Manuel da Silva Mendes lamentava o facto de não existir um arquivo histórico com documentos e colecções de jornais portugueses, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 147 08/11/2021 15:07
148considerando mesmo um escândalo não existir uma história de Macau. Ao fazer a recensão à segunda série do livro “Hommes et Choses d’Extreme-Orient”, nas páginas de “O Macaense”, de 25 de Julho de 1920, Manuel da Silva Mendes gaba a obra pela sua erudição e pela qualidade estética da sua escrita, acrescentando com fina ironia, “o sr. P. R. Gervaix acumula: rouba almas a Buda e conversa com Apolo e com as Musas. A quanto o roubo monta nos vinte anos de missionação ignorámo-lo totalmente; mas consta-nos que não tem o obeso deus razões para se dar por ofendido gravemente, se acaso os dois na outra vida se encontrarem algum dia frente a frente”. Em 1920, Régis Gervaix está entre a pleiade de intelectuais que fundaram o Instituto, esse efémero centro de sinologia do qual Manuel da Silva Mendes foi o primeiro presidente.Com Rodrigo José Rodrigues (1879-1963) empossado como governador de Macau em 1923, alguma coisa do espírito e da ética republicanas chegou ao Território, nomeadamente na área da cultura e da educação. Duas ou três iniciativas irão revelar-se marcantes num mandato que foi invulgarmente efémero e agitado por algumas polémicas.A primeira, foi a instituição do ensino infantil, em 10 de Fevereiro de 1923: “a falta dos jardins de infância numa cidade como Macau – centro da nacionalidade portuguesa no Oriente – é tão sensível que se impõem a todo o homem de governo cuidar desde logo desse problema essencial”.A segunda iniciativa, foi a romagem à Gruta de Camões em homenagem ao grande épico, iniciada em 7 de Junho de 1923 e ainda hoje cumprida a cada 10 de Junho.A terceira, foi a criação do “Arquivo Macaense”, em 19 de Janeiro de 1924: “Pela Imprensa Nacional de Macau será editada, como subsídio para a história dos portugueses no Extremo Oriente, uma publicação mensal denominada ‘Arquivo Macaense’, na qual se transcreverão todos os documentos de interesse histórico regional existentes nos arquivos citadinos, e bem assim os do mesmo género, que, por cópia ou originais, se puderem obter nos tombos e bibliotecas da Metrópole, colónias ou do estrangeiro”.A circunstância de Rodrigo José Rodrigues ter sido professor e reitor do Liceu de Goa, entre 1904 e 1910, conferiu-lhe uma especial sensibilidade para as questões ligadas à história e à identidade nacional no espaço ultramarino. A ausência de um livro escolar sobre a história de Macau era uma incomodidade cada vez mais notória e evidente. O “Historic Macao” que Carlos Montalto de Jesus (1863-1927) publicara em 1902 era excelente mas não se enquadrava na tipologia pedagógica de um compêndio escolar.O governador Rodrigo José Rodrigues através da Portaria Nº 67, publicada no “Boletim Oficial do Governo da Província de Macau”, de 21 de Abril de 1923, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 148 08/11/2021 15:07
149FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEprocura remediar o problema deste modo expedito: “Tendo reconhecido quanto, entre a mocidade das escolas oficiais da Província é quase completo o desconhecimento da história da colónia, notável precisamente pelos feitos que aqui ocorreram e a enobrecem. Considerando o valor deste conhecimento na educação e formação da consciência cívica da juventude, o Governador da Província de Macau determina o seguinte: Está aberto o concurso, perante o Inspector da Instrução Pública, pelo prazo de 120 dias, a contar da data desta portaria, para uma história de Macau destinada ao ensino nas escolas; obra vazada nos moldes das histórias de Portugal adoptadas nas escolas da Metropole, nomeadamente as de J. Seguier, Fortunato de Almeida e outras. A obra deve ligar e relacionar continuamente a história de Macau com a história pátria, deve ter em atenção os leitores a que se destina, a sua idade, o seu vocabulário e não empregar palavras ou forma de linguagem que estejam fora da sua compreensão. Deve ser sucinta, clara e grandemente ilustrada com fotogravuras e imagens educativas, evitando-se composições fantasiosas”.O concurso não atraiu os plumitivos mais prolíferos e intervenientes na imprensa, por exemplo Camilo Pessanha, José da Costa Nunes, Manuel da Silva Mendes, José Vicente Jorge, entre outros. Empurrado por um amigo, o capitão Jacinto Moura, Régis Gervaix apresentou o manuscrito “Resumo da História de Macau”, assinado pelo seu pseudónimo Eudore de Colomban. Jacinto Moura recorda: “Como português e amigo de Colomban não podia conformar-me com a perda do seu pequeno trabalho, que se não era perfeito, representava além do seu valor intrínseco, um alto exemplo de apreço por assuntos, que a nós portugueses, mais que a ele, deviam interessar. Solicitei-lhe, portanto, insistentemente, a publicação do seu trabalho. Colomban acedeu, por fim, sendo-me, porém, impostas as condições de o aperfeiçoar e de lhe dar o meu nome, sem fazer a mais leve referência ao seu. Se a primeira delas era quase insuperável, a segunda era-me absolutamente impossível de aceitar”. O livro foi publicado apenas em 1927. A sua estrutura é simples e cumpria os objectivos enunciados no concurso, nomeadamente em termos científicos, cognitivos e curriculares. O pensamento histórico estava disciplinado através de uma narrativa sedutora e levezinha, apoiada numa antologia pequenos textos complementares. Para além de algumas picardias [“por morte do imbecil Vou-Tsong, subiu ao trono o seu segundo filho…”], de reabilitar com coragem textos de Montalto de Jesus entretanto caído em desgraça, há uma narrativa que enfatiza uma diplomacia serena entre os dois povos que é indispensável para a sobrevivência de Macau. Régis Gervaix remata desta forma a sua história de Macau: “Bem merece Macau recolher os frutos que semeou com tanto trabalho, e compete a todos os portugueses, metropolitanos e macaenses, unirem-se e redobrar de esforços e iniciativas, para que o nome português seja hoje, como foi outrora, no País dos Amarelos, sinónimo de diplomacia e iniciativa nos seus governadores, de Livro Figuras_de_Jade_III.indd 149 08/11/2021 15:07
150bravura nos seus soldados, de fé nos seus missionários, de patriotismo, trabalho, honestidade e altruísmo em todos os seus habitantes”. Como primeira tentativa didáctica, o livro cumpriu a sua missão. Bem vistas as coisas, o quadro axiológico e a respectiva tábua de valores abafam a história. É esta a tentação que explica a ausência da história escrita do Território.O governador Rodrigo José Rodrigues viu interrompido abruptamente o seu mandato, regressando a Portugal em 1924, para ingressar no Parlamento. O padre Regis Gervaix parte para Pequim em 1925, para leccionar na universidade da capital chinesa. Deixo o registo da bibliografia de Régis Gervaix, sempre publicada com o pseudónimo de Eudore Colomban: “Hommes et Choses d’Extréme-Orient”, 2 vols., Macau, 1919; “Zéphyrin Guillemin, Évèque de Cybistra, Préfet Apostolique de Canton (1814-1886)”, Macau, 1919; “Silhouettes Portugaises d’Asie”, Macau, 1921; “Resumo da História de Macau”, Macau, 1927; “Histoire Abregée de Macao”, Pequim, 1928; “Systoles et Diastoles”, Pequim, 1936.Tinha razão Monsenhor Manuel Teixeira quando considerou o Padre Régis Gervaix um grande historiador de Macau. Seria uma iniciativa muito válida e sumamente enriquecedora para a história cultural de Macau reunir a sua obra dispersa e coligir a correspondência.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 150 08/11/2021 15:07
151FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTESOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESENÉ muito antiga a fascinação intelectual e a comoção estética que Macau e a sua história sinuosa, várias vezes secular, provocou até ao século XX nos portugueses, insinuando-se como se de uma pedra filosofal se tratasse. As impressões e os relatos contemporâneos, por exemplo, de Ferreira de Castro, de Miguel Torga, de Eugénio de Andrade, de Maria Ondina Braga ou de Agustina Bessa-Luís, evidenciam um pouco as marcas dessa poderosa fenomenologia trazida pela constelação orientalizante ao ‘logos’ ocidental e lusitano. Não esquecendo o poder sedutor, formador e formatador que a cultura escolar exerce.O caso de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) não é muito diferente, pelo menos à superfície visível da sua sensibilidade, ou da epiderme estética da sua escrita. Ela escreveu em 1939, aos 20 anos de idade, este poema onde se nota a presença do charme discreto do orientalismo:“Gruta de CamõesDentro de mim sobe a imagem dessa grutaCujo silêncio ainda escutaOs teus gestos e os teus passos.Aí, diante do mar como tu transbordanteDe confissão e segredo,Choraste a face puraDas brancas amadasMortas tão cedo.”Livro Figuras_de_Jade_III.indd 151 08/11/2021 15:07
152Só umas décadas depois, em 1977, é que Sophia teve a oportunidade de visitar Macau, e naturalmente o local onde está a Gruta de Camões, integrada numa comitiva oficial encabeçada por Henrique de Barros, Ministro de Estado do primeiro governo constitucional chefiado por Mário Soares, a propósito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Governava o Território o coronel Garcia Leandro. Diz-nos que Macau é um sistema vivo, onde o “espírito interrogador e clarificador do Ocidente encontra a profundidade e a contemplação do Oriente”. Foi realmente um desleixo imperdoável não se ter feito uma grande entrevista a Sophia, aquando da sua estadia no Território. Sequer uma expressa demanda para colocar o imaginário oriental de Macau num conto infantil ou juvenil. Ficaram alguns impressivos apontamentos que importa revisitar: “desde a infância e desde a escola associamos o nome de Camões e o nome de Macau. E desde as apaixonadas leituras da adolescência o mundo que Macau é, está presente para nós nos poemas de Camilo Pessanha. E desde a infância, desde o fundo do nosso mais antigo imaginar, Macau simboliza o desejo de descobrir e percorrer o mundo até às suas últimas distâncias, o desejo de descobrir e encontrar a múltipla diversidade dos povos, dos lugares e das culturas”.Numa entrevista concedida a Miguel Serras Pereira, publicada no ‘Jornal de Letras, Artes e Ideias’, de Fevereiro de 1985, Sophia recorda com deleite e saudade: “há uns anos, o Conselho da Revolução convidou-me para ir a Macau participar nas comemorações camonianas. Foi ao sobrevoar o Vietname, ao ver três ilhas de coral e a costa cheia de árvores, ao ver aquele jogo de safiras e esmeraldas entre a terra e o mar, que me veio a ideia de ‘Navegações’. Parecia-me que tinha atravessado as portas do Oriente e entrado num mundo maravilhoso: flores azuis-escuras no meio do mar azul. Claro que há, por outro lado, o problema da história e a esse respeito penso que certos portugueses, do mesmo modo que comem as sílabas, tem complexos em relação ao passado. Pensam que o caminho marítimo para a Índia foi descoberto por Salazar e que a primeira viagem ao Brasil foi feita por Tomás. Imaginam que os Descobrimentos foram uma invenção do Estado Novo”.Entretanto, a sua obra vai crescendo na poesia [Poesia, 1944; Livro Sexto, 1962; Geografia, 1967; O Nome das Coisas, 1977], no conto [Contos Exemplares, 1962; Histórias da Terra e do Mar, 1984], nos contos infantis [Fada Oriana, 1958; O Cavaleiro da Dinamarca, 1964], no ensaio [O Nú na Antiguidade Clássica, 1975], entre tantos outros títulos. Traduziu Shakespeare, Dante e Eurípedes. Acreditava que “a palavra é uma forma de não ser devorado pelo caos, pela confusão, pela contradição e o tumulto, apesar de ter um pacto com tudo isso e de sem isso não atingir a sua plenitude”. Organizou o Primeiro Livro de Poesia. Poemas em língua portuguesa para a infância e a adolescência, uma obra ilustrada por Júlio Resende, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 152 08/11/2021 15:07
153FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTErecolhendo poesias de autores portugueses, brasileiros, moçambicanos, angolanos, cabo-verdianos, guineenses, são-tomenses e timorenses. Curiosamente, não há representante algum de Macau ou de Goa. No posfácio deixa esta nota pedagógica, plena de verdade e de lucidez: “é possível que muitos considerem este livro difícil. Mas a cultura é feita de exigência. Por isso afastei o infantilismo, o simplismo. Uma criança é uma criança mas não é um pateta”. A sua obra está traduzida em várias línguas, incluindo a chinesa, pela mão de Yao Jingming.Entre as inúmeras distinções que recebeu, destacam-se o Prémio Camões em 1999 e em 2003 o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana. Em 2009, o antigo Miradouro da Graça, em Lisboa, foi rebaptizado com o nome de Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen. Em 2014 foi transladada para o Panteão Nacional. É patrona de várias Escolas e será esse o primeiro passo para a imortalidade.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 153 08/11/2021 15:07
154VERSIGLIA & CARAVARIOLuigi Versiglia [1873-1930] e Callisto Caravario [1903-1930], são mártires salesianos com uma boa parcela das suas vidas de missionários abnegados ligadas a Macau.Luigi Versiglia e outros sacerdotes italianos chegaram ao Território em 1906, a convite do Bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro, para fundar e dirigir o Orfanato da Imaculada Conceição, mais tarde transformado no Instituto Salesiano da Imaculada Conceição. O advento da República em 5 de Outubro de 1910 forçou a saída dos salesianos para o exílio, em Hong Kong. Mas o sonho maior era a missionação na China. Luigi Versiglia foi ordenado Bispo em 1920.Callisto Caravario é ordenado sacerdote em 1929 pelo Bispo D. Luigi Versiglia. Anteriormente tinha estado por duas vezes na Missão de Timor [em 1917 e em 1929] e na Missão de Xangai [1924-1927].No decurso de uma visita pastoral na província de Guandong, foram brutalmente assassinados no dia 25 de Fevereiro de 1930. A notícia causou uma enorme consternação em Macau. O “Boletim Oficial da Colónia de Macau”, de 8 de Março de 1930, informa secamente que “S. Exª. Revdma. O Bispo de Macau, D. José da Costa Nunes partiu para Shiuchau a fim de assistir ao funeral de Mgr. Luís Versíglia, ficando encarregado do Governo da Diocese o Revdo. Deão José António de Azevedo Bártolo”.Recordo o comovido artigo de Manuel da Silva Mendes, republicano ateu, intitulado “O assassínio de Mgr. Versiglia em Kuangtung”, estampado no Jornal de Macau, de 18 de Março de 1930 [republicado em António Aresta e Rogério Beltrão Coelho, Manuel da Silva Mendes: memória e pensamento, Vol. II, edição Livros do Oriente, Macau, 2018, pp. 527-528], onde contextualiza o colapso da China: “(...) É-se forçado a reconhecer, com tristeza, que a China se coloca em primeiro lugar no mundo no que respeita à falta de segurança, e que neste ponto de vista as Livro Figuras_de_Jade_III.indd 154 08/11/2021 15:07
155FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEtransformações políticas que tem havido neste país depois de um certo número de anos tem produzido um efeito diverso daquele que delas se deveria esperar. Os miseráveis soldados licenciados ou desertores reunidos em bandos, devastam os campos e roubam as cidades, revestindo-se do nome de comunistas e de outros qualificativos, atirando-se particularmente aos ministros de Cristo, que massacram, sem mesmo procurar, como noutros tempos, obter o pagamento de um resgate. A sua cegueira e estúpido furor cai sobre os próprios prelados. No verão passado, o venerável bispo de Itchang e três missionários belgas foram assassinados por soldados rapinantes. Eis que um crime análogo acaba de ser cometido no Kuangtung. Desta vez contam-se cinco vítimas, o Bispo de Shaotchow (ou Suichow), Mgr. Versiglia, o padre Caravario, ultimamente chegado de Itália, e três irmãs chinesas. Mgr. Versiglia andava fazendo a sua visita pastoral, de aldeia em aldeia, vendo as comunidades cristãs, levando a toda a parte palavras de paz e esperança. Parece, segundo as notícias que nos chegam, que os bandidos tentaram levar as irmãs e que seria pelo motivo de quererem protegê-las que o Bispo e o Padre Caravario foram assassinados. Alguns dias antes, no Kuangsi, província vizinha de Kuangtung, era o Cônsul de França levado por malfeitores, antigos soldados, bem como dois missionários e o sr. O’Kelly, comissário das Alfândegas. O cônsul de França foi posto em liberdade, mas os dois missionários e o sr. O’Kelly estão ainda cativos. (...) Admiramos os missionários que prosseguem heroicamente o seu apostolado em condições tão difíceis. Soldados de uma causa augusta, não tendo por armas senão palavras de paz e amor estão sempre prontos para os supremos sacrifícios. Saudemos aqueles que nos dão tão grande exemplo e inclinemo-nos diante dos nobres mártires que caem cumprindo a sua sagrada missão”.Luigi Versiglia e Callisto Caravario foram declarados mártires em 1976, pelo Papa Paulo VI. O Papa João Paulo II beatificou-os em 1983 e canonizou-os em 2000. No dia 25 de Fevereiro, a Igreja celebrou o 90º aniversário do martírio de S. Luigi Versiglia e S. Callisto Caravario.O Instituto Internacional de Macau, publicou na Colecção Missionários para o Século XXI, em 2011, o livro de Luís Cunha, Luigi Versiglia e Callisto Caravario – mártires salesianos na China. Por uma questão de pedagogia, de cidadania e de respeito pelas vítimas, convém guardar a memória da História.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 155 08/11/2021 15:07
156VISCONDE DE VILLA-MOURAHá cem anos, em Portugal, foi prestada uma singela homenagem a Confúcio, essa grande figura chinesa que também é património cultural da humanidade. O Visconde de Villa-Moura (1877-1935), publica na revista “A Águia”, propriedade e órgão da Renascença Portuguesa, no Nº 99/100, de Março-Abril de 1920, o conto ‘O Boneco’. A revista “A Águia” era uma importante publicação mensal de literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social, dirigida por António Carneiro e Álvaro Pinto. Ora, esse conto, ‘O Boneco’ é, nada mais, nada menos do que Confúcio. O Visconde de Villa-Moura, de seu nome completo, Bento de Oliveira Cardoso e Castro Guedes de Carvalho Lobo, nobilitado pelo Rei D. Carlos em 1900 com o título de Visconde, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, era um grande proprietário rural em Baião, no Douro, e autor de uma obra literária muito extensa e variada, esteticamente acondicionada no decadentismo e politicamente muito próximo do integralismo lusitano. João Alves, um dos seus primeiros estudiosos, defende que “António Nobre e Vila-Moura foram os criadores do decadentismo em Portugal”. Por sua vez, António Cândido Franco refere que a “sua obra, quando exalta o erotismo e pugna pelo amor livre, apresenta afinidade com a de Teixeira Gomes e procura as suas fontes gradas em Fialho, no Fialho das perversões rebeldes, a quem de resto dedicou um livro-estudo, Fialho de Almeida (1917), e em Camilo, o Camilo do amor pecaminoso e dos amantes penitentes, a quem também dedicou vários trabalhos, entre eles, Camilo Inédito (1913) e Fany Owen e Camilo (1917)”. Amigo e correspondente de Fernando Pessoa, a obra do Visconde de Villa-Moura está por descobrir, por estudar, quiçá por reeditar. O conto de Villa-Moura, ‘O Boneco’, foi dedicado a António Cândido, o mais obscuro membro do famoso grupo dos Vencidos da Vida, a águia do Marão, como lhe chamou Camilo Castelo Branco, e apresenta-nos a história de António Marcos, um burguês muito rico e misógino, que vivia com uma velha criada, Teresa, Livro Figuras_de_Jade_III.indd 156 08/11/2021 15:07
157FIGURAS DE JADE IIIOS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEcompletamente isolado da mundanidade e que “estudava uma interpretação individualista do platonismo, que alterava num sentido mais aristocrático”. Em casa “mandava o espírito de Platão, de Aristóteles, de Séneca, de criaturas, em que a Teresa nem por fumos sonhava, e … um boneco, um autêntico e precioso boneco, a figura de Confúcio, em fina porcelana”. Com um remoque subtil aos colecionadores e a outros amantes da chinoiserie dizia que “a figura de Confúcio, que Marcos havia trazido de Saxe, e não directamente da China, era uma maravilha. Por ele tinha seguido pelo Elba até ao Báltico, para policiar o seu acondicionamento e jornada”. Afinal ‘O Boneco’, Confúcio, era um relógio falante: “o Dr. Kong falava, não já para expor aos seus três mil discípulos a súmula do Ta-hio, mas sobre a pressão dum botão disfarçado em flor à fímbria da túnica, para cantar, numa voz metálica, a característica e impressionante voz dos surdos, aquela legenda do fatídico relógio de Colónia: Todas as horas ferem, a derradeira mata!...”. Percebe-se que o autor manifestava algum incómodo por se perorar com muita frequência sobre Confúcio e seus ensinamentos, sem ler as suas obras e os comentários dos seus discípulos, porque as repetições se assemelhavam a transgressões no limite das deturpações. O relógio estava colocado numa estante e “arrumavam-se a seus pés, suas principais obras, o Ta-hio (Grande Estudo), o Tchung-yung (Fixidez do Meio) e o Lung-yu (Diálogos Morais) – flores exóticas da Filosofia, e que ali figuravam como outros tantos símbolos da alma recta e compungida do iluminado”. Um dia, já muito doente, e sentindo a morte a aproximar-se, António Marcos chama a criada e manda queimar num braseiro todo o seu grande sistema filosófico, “uma interpretação individualista do platonismo, que alterava num sentido mais aristocrático”, escrito em cadernos durante anos a fio, suspirando, “foi um passatempo!”. A Teresa, que “andava como sonâmbula naquela tragédia da mais extravagante alquimia, em breve ateou fogo à papelada, que brilhava sobre os restos negros a espiguilha misteriosa e vermelha, logo morrente, da filosofia de António Marcos, e lhe levara uma vida a grafar”. Entrega depois à criada um documento assinado por si, conferindo-lhe a posse de ‘O Boneco’: “por ele é teu o Chinês da sala grande! É o melhor traste da casa! Nunca o vendas! E se algum dia sentires miséria, antes o partas! Chover-te-á dos seus cacos a abundância!”. Dito isto, morreu. Então, a velha Teresa, atormentada pela morte do patrão e apatetada pela insólita herança que lhe coube, “entrou na sala grande quase a correr, e sem dar conta da multidão de figuras, que, aquela hora, envoltas do fumo, pareciam igualmente partir, dirigiu-se ofegante, nervosamente agarrada à figura fria do Dr. Kong, para a camara torva do Morto. Mas antes que chegasse junto do defunto, perto do qual pensara em pousá-lo, ao passar pela cruz de pau negro que, fronteira ao leito, se espalhava, a toda a altura da parede, embaraçou-se nas réguas do velho sinal, pelo que o pesado fardo lhe Livro Figuras_de_Jade_III.indd 157 08/11/2021 15:07
158deslizou dos braços, desfazendo-se no chão, em cacos, por entre a chuva dos mais finos tinidos, à mistura do grito civilizado, amarelo, dalgumas centenas de esterlinas, que António Marcos havia confiado de suas entranhas para prover ao futuro da maquinal companheira de sempre”.O humor camiliano está presente neste desfecho inesperado, onde uma pequena fortuna em libras de ouro, guardada nas entranhas de ‘O Boneco’, parece pulverizar os remorsos da velha ética confuciana. Esta exumação da dimensão sapiencial dos ensinamentos confucianos está em linha com uma modernidade pendurada num sistema de conceitos que mais tarde se irão alimentar de Marx, Nietzsche e Freud, na ressaca da erosão dos valores e dos poderes após o termo da primeira grande guerra.O Visconde de Villa-Moura, preocupado com o excesso amplificante da razão confuciana, introduz um jogo irónico no pathos do seu auditório, misturando o vil metal, o ouro, com a angústia e a solidão existenciais, porque, reflecte de si para si, “nas letras, como afinal em tudo, os ignorantes têm em menos estima o feitio do que o peso. São para o Pensamento, para a Ideia, o que o ourives estúpido é para o oiro lavrado. Fiam da balança o que ninguém pode fiar deles, do seu juízo, naturalmente muito reduzido em poder de selecção, em critério de escolha”. Depois de ter lido O Mandarim, de Eça de Queiroz, encontrou na desconstrução de um símbolo da moda intelectual, Confúcio, o caminho para uma abordagem polissémica da consciência infeliz, de Hegel e de quase todo o idealismo alemão. É nesse referencial de melancolia que afirma, “Eu leio Nietzsche como os estudantes de piano tocam escalas – por exercício”, terminando o conto sem devolver à velha criada o sentido da responsabilidade pela sua nova identidade. E é nesta incisão nietzcheana que se pode inscrever o seu erotismo misógino quando afirma, “amai o amor, não ameis exclusivamente alguém!” em contraponto com essa descrição com tantas estranhas referências: “a boca do Filósofo, de expressão fixa, fria como a boca da rocha, somente aberta ao fio branco e gelante da mais cristalina doutrina, jamais havia inspirado, em sua vida consciente, o perfume dum beijo; ignorando, de igual sorte, a alma dos lírios, chagas olorosas da crosta terrena, mudável ao sabor das estações, tal qual a pele das cobras, que em seus infinitos ninhos, aquela abriga!”.Livro Figuras_de_Jade_III.indd 158 08/11/2021 15:07
Livros publicados no âmbito da colecção SUMA ORIENTAL1 – Timor – da guerra do Pacífico à desanexação Fernando Lima 2 – Liou She Shun – Plenipotenciário do Império da China – Viagem ao Brasil em 1909 Carlos Francisco Moura 3 – Macau 1937-45 – Os anos da Guerra João F. O. Botas 4 – Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje Alexandra Sofia Rangel 5 – Chineses e Chá no Brasil no início do Século XIX Carlos Francisco Moura 6 – Portugal e Indonésia – História do Relacionamento Político e Diplomático (1509-1974) Coordenação - Jorge Santos Alves 7 – Brasileiros nos Extremos Orientais do Império (Séculos XVI a XIX) Carlos Francisco Moura 8 – Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje - Edição Chinesa Alexandra Sofia Rangel 9 – Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente António Aresta 10 – China na Grande Guerra – A Conquista da Nova Identidade Internacional Luís Cunha 11 – Mao, China y Los ‘Otros’ Beatriz Hernández 12 – Joaquim Guerra S.J. (1908-1993) Releitura universalizante dos Clássicos Chineses Antonio José Bezerra de Menezes Jr 13 – Macau Confidencial João Guedes 14 – O Oriente na Literatura Portuguesa – Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes Carlos Miguel Botão Alves 15 – China’s Techno-Nationalism in the Global Era – Strategic Implications for Europe Luis Cunha 16 – Five Hundred Years of Macau Stuart Braga 17 – The Western Pioneers and their discovery of Macao J. M. Braga 18 – Da estada em Macau do Dr. Sun Yat Sen – interpretação do seu pensamento revolucionário Fok Kai Cheong 19 – Before the first Guangzhou uprising in 1895 – The Macau experience deciphering the revolutionary thoughts of Dr. Sun Yat Sen Fok Kai Cheong 20 – Instrumentos Musicais Chineses – Colecção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau/Lisboa Enio de Souza 21 – Para uma Literatura da Identidade Macaense – Autores/Actores Maria Barras Romana 22 – A Faixa e Rota chinesa: a convergência entre Terra e Mar Paulo Duarte 23 – A China e a Revitalização das Antigas Rotas da Seda Novo Vetor do Comércio Mundial Coordenação – Fernanda Ilhéu e Leonor Janeiro Livro Figuras_de_Jade_III.indd 159 08/11/2021 15:07
24 – Pioneers of Macao – the story of 14 Chinese who helped to make the city Mak O’Neil 25 – Macau – um diálogo de sucesso Fernando Lima 26 – Figuras de Jade II – Os Portugueses no Extremo Oriente António Aresta 27 – Dating à chinesa – A comercialização do casamento na China contemporânea Shenglan Zhou 28 - Pioneiros de Macau – a história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade Mark O’ Neill29 - Filhos da terra – A comunidade macaense, ontem e hoje (2ª edição) Alexandra Sofia Rangel30 - The New Silk Road and the Portuguese Speaking Countries in the New World Context Coordenação – Fernanda Ilhéu, Francisco Leandro e Paulo Duarte31 - ... everyday is mine - The life of Pedro José Lobo Marco Lobo 32 - Confúcio Visconde de Villa Moura, Ana Cristina Alves, Olívio Lu Chunhui, António Aresta 33 - Nos Sa Terá, Nos Sa Génti (Our land, our people) – Stories of the Macanese people and their homeland Stuart Braga34 - Portugal e a China - As Relações Luso-Chinesas, do Mundo Quinhentista ao Contexto Contemporâneo Jorge Tavares da SilvaLivro Figuras_de_Jade_III.indd 160 08/11/2021 15:07
FIGURAS DE JADE III - OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEANTÓNIO ARESTAOS PORTUGUESESNO EXTREMO ORIENTEFIGURAS DE JADE III352021Com este nome se titula esta colecção editada pelo IIM, onde se dão à estampa or ig inais de autores e trabalhos de investigação sobre o vasto universo do Oriente, mormente dos contactos havidos no âmbito da triangular relação histórica entre Portugal, China e Macau.Suma Oriental, porque semelhantemente ao relato do notável descritor que foi Tomé Pires, o critério é de reunir temas e pers-pectivas que, na latitudinária variedade, vão dando um conspecto abrangente daquela complexa relação histórica.Suma Oriental, porque, sendo a obra que inscreveu o nome de Tomé Pires na lista dos primeiros autores que escreveram sobre o Oriente, é simbolicamente o teste-munho daquele que foi o primeiro embai-xador designado por Portugal para ser presente ao Imperador da China.Tomé Pires, boticário das drogarias orien-tais que haviam de ser remetidas ao reino, era hábil e “aprazível” em negociações, “mui curioso de saber coisas”, “e um espírito vivo para tudo”.Foi isto que terá decidido a sua escolha para embaixador à grande China desconhe-cida, para onde embarcou em 1516.O que esta colecção pretende é, hoje, dar modesta continuidade à Suma Oriental iniciada no Século XVI.ANTÓNIO ARESTAFala-nos sobre as pessoas mas ficamos ainda a saber, para além do próprio, do enquadramento histórico em que viveram, e tantas mais coisas que, num estilo muito agradável, tornam as suas crónicas peças muito interessantes e de grande valia literária e informativa. [Vasco Rocha Vieira]A obra reconhecidamente relevante já produzida por este persistente e qualificado investigador e divulgador da memória de Macau e da presença de Portugal e dos portugueses no Oriente (...) [Jorge Rangel]Com uma profissão tão absorvente, estragada pelos desvarios das políticas educativas – só gente distanciada ou indiferente desconhece o que é ser professor nos dias de hoje – espanta não só a qualidade do seu labor, mas a sistemática constância de resultados, que o fazem ombrear com as Figuras de Jade que tem continuadamente resgatado do esquecimento, dando-nos a conhecer a sua obra e o seu pensamento. [Celina Veiga de Oliveira]Leveza de estilo e rigor conceptual aliados: uma lição da arte de bem divulgar. [Daniel Pires]Trata-se de excelentes textos multidisciplinares, não apenas pela escorreita fluência da escrita, mas também e sobretudo pela probidade investigativa e competência científica. [Alfredo Oliveira de Sousa]Se Silva Mendes foi o primeiro mentor da Macaulogia, não será o único, pois o século XX trouxe-lhe vários companheiros de saber, possuindo hoje, já empleno século XXI, em António Aresta o seu mais digno e destacado continuador. [Ana Cristina Alves]Ler António Aresta constitui um dever, uma verdadeira necessidade para a compreensão do fascínio da história deste lugar tão singular, sobretudo para quem, vindo do Ocidente, queira resistir a outros fascínios bem mais fáceis, mas igualmente bem mais pobres. [António Conceição Júnior]Gosto muito da luz que o meu amigo traz sobre estas personalidades! [Beatriz Basto da Silva]António Aresta tem sido o mais prolífero e bem documentado dos investigadores da Macaulogia. [José Rocha Diniz]CMYCMMYCYCMYKArt Capa_Figuras_de_Jade_III.pdf 1 11/11/2021 16:11