• COORDENAÇÃOANTÓNIO ARESTAAUTORESVISCONDE DE VILLA MOURA, ANA CRISTINA ALVES, OLÍVIO LU CHUNHUI, ANTÓNIO ARESTACONFÚCIO322020
  • COORDENAÇÃO ANTÓNIO ARESTA322020AUTORES Visconde de Villa Moura, Ana Cristina Alves, Olívio Lu Chunhui, António ArestaCONFÚCIO
  • FICHA TÉCNICA: Editor: Instituto Internacional de Macau Título: Confúcio Autores: Visconde de Villa Moura, Ana Cristina Alves, Olívio Lu Chunhui, António Aresta Coordenação: António Aresta Design gráfico e paginação: Maisimagem II Colecção: Suma Oriental Tiragem: 500 exemplares Impressão: ACD Print Depósito Legal: 474082/20 ISBN: 978-989-54696-1-1 Lisboa, Setembro 2020 O acordo ortográfico é seguido ou não pelos autores.Apoio
  • ÍNDICE | DUAS PALAVRAS 7 António Aresta O BONECO (CONTO) 9 Visconde de Villa Moura O BONECO DO VISCONDE DE VILLA MOURA: MUDAM-SE OS TEMPOS, PERMANECEM AS BONDADES 21 Ana Cristina Alves CONFÚCIO EM PORTUGAL: ANÁLISE DE O BONECO E DA PERCEPÇÃO DA MORTE A OLHOS ORIENTAIS E OCIDENTAIS 37 Olívio Lu Chunhui CONFÚCIO NA CULTURA PORTUGUESA. SUBSÍDIOS PARA O SEU ESTUDO 49 António Aresta
  • DUAS PALAVRAS A presente edição é dedicada a Confúcio e tem como objectivo sinalizar o interesse do pensamento português e ocidental por esta figura misteriosa, cuja influência tem cruzado os séculos e os regimes políticos. Há cerca de um século, o Visconde de Villa Moura publicou o conto O Boneco, na Revista A Águia, Nº 99-100, Março/Abril de 1920, dedicado a Confúcio, introduzindo algumas linhas de leitura inovadoras para a época em apreço. O conto do Visconde de Villa Moura é reproduzido integralmente e é acompanhado por três estudos distintos mas complementares na sua problemática: O Boneco do Visconde de Villa Moura, de Ana Cristina Alves; Confúcio em Portugal: análise de O Boneco e da Percepção da Morte a Olhos Orientais e Ocidentais, de Olívio Lu Chunhui e Confúcio na Cultura Portuguesa, de António Aresta. Este livro insere-se também na evocação dos 40 anos do restabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China e dos 20 anos da transferência das responsabilidades sobre Macau. António Aresta7CONFÚCIO
  • O BONECO* (CONTO) Visconde de Villa Moura “Cada homem é um mundo!” Hall Caine A António Cândido 9CONFÚCIO____________________ * Publicado em A ÁGUIA [Revista Mensal de Literatura, Arte, Sciência, Filosofia e Crítica Social], Nº 99 e 100, Março e Abril de 1920, pp. 77-88. Preço deste número, 30 centavos. A Revista A ÁGUIA era propriedade e órgão da Renascença Portuguesa. Os Directores eram António Carneiro e Álvaro Pinto. Correspondente em Paris: Philéas Lebesgue; Correspondente no Rio de Janeiro: Costa Macedo. À venda no Brasil (Rio de Janeiro, Pará, Manaus, Pernambuco, Baía, Porto Alegre, Curitiba, Curvelo e S. Paulo), em Angola (Luanda e Benguela), em Moçambique (Lourenço Marques) e na Índia (Nova Goa). Endereço da Redacção: Rua dos Mártires da Liberdade, 178 – Porto. Na contra-capa deste número da Revista A ÁGUIA são publicitadas as últimas edições da Renascença Portuguesa, destacando-se estes autores: Jaime Cortesão, Ângelo Ribeiro, Raul Brandão, António Sérgio, Leonardo Coimbra, Alexandre Malheiro, João Penha, Augusto Casimiro, Pina de Morais, Viana da Mota, Carlos Selvagem, António Baião, D. João de Castro, Gomes da Costa e Augusto Martins.
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  • Quem diria que naquele prédio, tão rigorosamente talhado ao gosto burguês, de apilarados simples, varandas corridas, porta esguia de entrada, seguida de janelas igualmente estreitas e gradeadas – a vulgar casa do Porto, que vem dos últimos setenta anos – vivia um príncipe, se por tal pode eleger-se um homem que se chamava António Marcos, e quase ninguém via, de embaraçado que sempre estava em casa, por motivos de abstracta especulação, e servido, unicamente, por uma velha trôpega – traço de união exclusivo entre ele e a rua, que o mesmo é dizer o mundo! Pois era assim. – Vivia ali um espírito, dizia a velha, ligando à classificação o supersticioso juízo do seu claro saber de mulher do povo. Um espírito, que ora passava os dias a meditar, num silêncio pesado, ora a ler nuns livros em que ela jamais tocara, e em que ele, António Marcos, pegava com o jeito que usam os sacerdotes no trato das coisas sagradas. António Marcos era um obstinado. Não daquela legião de obstinados que querem mover o mundo pela violência, mas, pelo contrário, daqueles que tudo esperam da força insinuante e persuasiva do sonho; e daí a perseverança da sua razão lírica, que batalhava a sós, nas horas desiguais das suas esperanças e torturas de construtivo. – Vivia só, pensava, para mais e melhor sentir: – só a distância podia sondar, ver… E, pouco a pouco, ia levantando o seu sistema, um que restringia ao mínimo o património da fortuna material e colectiva. O homem, concluíra, é tanto mais feliz quanto mais forte, e tanto mais forte quanto menos imbuído do fausto, que é a marca do diabólico génio de relação: – o que junge os semelhantes, e é o mesmo das espécies ínfimas. Só o inferior vê sem repugnância confundir-se na estrada com a sua, a sombra do que lhe vai ao lado. Era pela reivindicação inteira dos direitos do proletário, sem pressas e sem violências – no que respeitava à sua vida de índole. De resto, em mais nada. O mundo devia organizar-se em novas bases, em castas, – concertando-se os homens tão somente pela tangente dos seus valores. No deferimento daquelas reivindicações havia que atender ao caso material do proletário, o seu justo sustento e o círculo maior ou menor da sua vida; como a quota parte de sonho, à maior ou menor razão de alma que de sua felicidade ou miséria ele irradiasse. Deus constituíra o mundo esquisito, desigual: assim era preciso considerá-lo. 11CONFÚCIO
  • Quase tudo na História estava errado. Mas o tempo vingaria a verdade, remetendo a besta humana ao instinto, e o homem sobrenatural a Deus, ao seu Deus, distante e supremo encontro das gerações passadas com as gerações por vir … Quanto mais os homens estudam e se aprofundam mais se separam uns dos outros, mercê da sensibilidade adquirida; e quanto mais distantes melhor acomodados, conseguintemente mais felizes: – a alma exige uma higiene tão acurada como a do corpo. Batida a civilização burguesa pela reacção dos humildes – criar-se-ia uma razão de melhor-estar no esforço religioso, necessário ao sonho geral, que não comum. Importava, sobretudo, resolver a maneira íntima de cada indivíduo, ao qual assiste, sempre, um motivo especial de ser. Ao animal superior que é o homem não importa regressar segundo a História, mas prosseguir, acrescentar a História. Aos sistemas políticos deviam seguir-se os sistemas religiosos, que pegam no instinto, onde acaba a animalidade bruta. Por aqueles os indivíduos são ainda propriedade do Estado, o que os tem escravos, em constante e natural reacção. Os mais perfeitos e sinceros comunistas que ainda houve foram os monges, pois jamais deixaram de dividir-se em suas celas porque aí melhor se dessem encontrar suas almas, seus sonhos, e a realização do seu culto, como dos seus trabalhos. Nada entretém os povos como o absurdo, uma vez que este se revista de tragédia. Tem sido o caso da trapalhada pública de sempre, que, por último, deu a actual guerra, a maior de todos os tempos. O estranho autor queria também uma revolução, mas uma revolução integral, que, subvertendo a rotina, a herança, desse aos homens, materialmente, tudo o que lhes fosse necessário; espiritualmente, tudo o que cada um conseguisse abranger: – nada de restrições ao espírito, de obstáculos ou dificuldades à expansão da alma. As actuais guerras de espírito provêm de um equívoco – da confusão entre o caso material da vida e a sua resultante em sonho: resolvido aquele não haveria mais lugar a conflitos. Porque motivo hão-de as criaturas apurar o cérebro na dinamia duma luta formidável de interesses e hão-de deixar, por suas paixões, apodrecer o coração? Fundamentalmente, António Marcos estudava uma interpretação individualista do platonismo, que alterava num sentido mais aristocrático. 12 VISCONDE DE VILLA MOURA
  • Por seu método dialéctico Platão, ao considerar os indivíduos, punha de lado suas diferenças para os ver nas suas semelhanças e, conseguintemente, nas suas relações uns com os outros. António Marcos fazia o contrário, procurava as diferenças mais salientes dos indivíduos para concluir pelas castas – as que, em seu entender, lhe dariam o tipo eterno e puro que o grego procurava. Onde ele se encontrava com Platão era na ideia do Bem, que encimava todo o seu sistema e para ele era ainda Deus, razão culminante da vida sensível, a que se afirma nos dois verdadeiros tipos de perfeição – o Religioso e o Artista. Demente de glória, via passar por seus olhos toda a procissão de quimeras em que os filósofos precedentes haviam gasto os sonhos. Sua alma vibrava como a lira que a aragem fria dos ciprestes, nos Campos Santos, tangesse de sua música espectral e eterna. Ao mesmo tempo que sentia em seu íntimo uma luz, que ora lhe parecia amortecida como duma velada de mortos, ora resplendorosa e beneficia como um astro, mau grado as procelas de febre em que lhe incendiava a alma. E, contudo, esta criatura de regresso, espécie de primitivo, estilizando-se da Dúvida, a maior força espiritual que ainda houve, origem de todos os sistemas, sofria, por sua abstracção, duma falta grava: – o seu desprezo pela Natureza. Oh, a sua irritação, uma vez que a Teresa, a velha, apontou à porta do gabinete com um braçado de lírios! – Tira, leva lá para fora, lança tudo isso pela janela, já! mandou à mulher, que especou aflita. Depois do que quase rolou escada abaixo, anceada de tão vivo desacerto. A mulher era para si um mistério em que não gostava de pensar, pois o desconcertava a sua vivacidade infantil e louca, demais que era ela, em seu juízo, a criminosa eterna dos grandes desvios na fatal rota humana a seguir. – A mulher é mais amarga do que a Morte, dissera Salomão! Flor aritmica da Natureza, a mais bela, como, não raro, também, a mais venenosa, era lendário o seu génio da indiferença ou afronta para com tudo o constituído, – desde a Tragédia do Paraíso em que fora a primeira figura, a chave da acção. Por isso a boca do Filósofo, de expressão fixa, fria como a boca da rocha, somente aberta ao fio branco e gelante da mais cristalina doutrina, jamais havia inspirado, em sua vida consciente, o perfume dum beijo; ignorando, de igual sorte, a alma dos lírios, chagas olorosas da crosta terrena, mudável ao sabor das estações, tal qual a pele das cobras, que, em seus infinitos ninhos, aquela abriga! Nunca o haviam detido as passageiras tintas do poente, quando das tardes nítidas, como o seguido cosmorama da vida em rotação, e que para ele não eram 13CONFÚCIO
  • mais do que painéis naturais, secundários à Alma. Esta sim, a vida profunda e distante da Alma, era o que infinitamente o preocupava! Os apóstolos, eis os heróis absolutos! E, em seus estudos, duma linguagem forte, como batida de velha liga monástica, ia tratando a virtude à sua maneira, ora escrupulosa ao excesso, por poder comunicar com o Absoluto, o Deus definitivo de todos os filósofos; ora quase livre, porque na transmigração de todas as coisas fosse até ao Bem originário, ainda igualmente Deus. Os seus escritos desenvolviam a radiação vibrante de todos os actos dos obstinados; eram como feixes de afirmações que ele deixava ao futuro para que outros, revendo-os, deles compusessem aquele sagrado incêndio, tão demoradamente devido aos pobres de calor, aos gastos da Fé. Amai o amor, não ameis exclusivamente alguém! afirmava, na consciência da sua visão de isolado. Fora do mundo das suas lucubrações, ninguém mais simples do que António Marcos, tão simples que unicamente uma velha servia aquela sombra de requintado, no trato fácil da sua vida de todos os dias. Era uma figura suave, longa e seca; o perfil semita, em que erravam os mais fundos olhos negros, em contínuo alvoroço; a boca quase sempre colada, concertando aquele traço que é da fisionomia de todos os voluntariosos; e, como a envolver-lhe o íntimo, a máscara de estampa, máscara de iluminura, que, por acaso, o era também dum iluminado, e em que raro sorria sulco de luz próxima ou remota de qualquer comunicação com o semelhante. Ao folhear seus livros, docemente pergaminhados, amarelecidos do tempo, ninguém distinguiria de longe suas mãos, tão sutilmente elas haviam adquirido a tenuidade luminosa e marfinada dos folios. Não tinha ainda completado quarenta anos este beneditino retardatário de outras civilizações, se bem que ele fixasse o aspecto indeciso, eterno, da sua sombra de imagem, que, isolando-o do mais da vida, de igual arte lhe distraía a idade. Pelo que a Teresa, a velha, atreita ao costume, o tratava, carinhosamente, por menino, explicando, nos seus fugitivos diálogos com os fornecedores, que o amo era um inocente, conversando tão somente os livros, as estrelas e os moveis. – Notando, informava, abrindo um traço malicioso de sombra, à laia de riso, na boca desguarnecida de dentes, – que os móveis, ao menos os velhos, deviam ser bem mais desavergonhados, pelo que tinham visto antes dele … – Era um santo, rematava, fechando a porta, aos interlocutores, cobiçosos de novidades; e que saiam admirados daquela figura de nicho que raro alguém via, que não falava a ninguém, e vivendo a acumular escritos que conservava inéditos, 14 VISCONDE DE VILLA MOURA
  • como quem gasta o tempo no macabro emprego de consertar de sua paciência um sábio póstumo. – Não seria um louco? A Teresa tinha, para si, que sim; que era um louco, mas este era o seu segredo. Conduziram-na a um tal asserto as mil coisas em que, pelos anos fora, o havia surpreendido. Era certo, pensava, que todos os amos que antes tinha servido, eram mais ou menos loucos! O que a levava a generalizar que os homens, em razão do excesso de trabalho, de tanto martelarem na vida, haviam enlouquecido! – Ela é que sabia, monologava alto, sozinha, passando em revista as esquisitices, de cada um! As manias, os casos que surpreendia quando, de repente, entrava nos quartos sem que dessem conta dela; as trapalhadas; as coisas sem sentido desses senhores que depois iam lá para fora dar as cartas, governar tudo! Mas o caso de António Marcos avultava, notavelmente, aos seus cinco sentidos, abertos à apreciação daquele tipo de inocente e de raro, único em sessenta anos da sua memória de servir. – Podia lá ser que fosse escorreita uma criatura que passava a vida como um frade, sempre metido na sala; quase tratando-se como um remediado, ele, podre de rico, a quem os procuradores davam o que queriam; os herdeiros a medo cumprimentavam, não queria saber de ninguém, pois a ninguém recebia; vivendo, para ali, como um fantasma! E, entre pesarosa e cínica: – Valeu a pena, valeu a pena, terem andado tantas gerações a levantar uma torre de dinheiro que, ao que dizem, posta em prata, passaria o telhado da casa, para, no fim, vir tudo parar às mãos de quem tão mal se goza! E, depois destas e semelhantes considerações, a Teresa corria para a despensa a beber, como quem afoga a indignação que lhe fazia a quietude meio misteriosa, metade fradesca de António Marcos. Para ela o verdadeiro saber estava em levar a vida com o passadio garantido; da mesma sorte que a virtude consistia em não ser ladra nem má mulher. E, sob qualquer destes pontos de vista, a sua consciência, folgando, leda, à flor do vinho, navegava sossegada. Sobretudo quanto ao caso do seu bom porte de mulher: fora em nova, como era agora, depois de velha, estéril a qualquer desejo ou pensamento luxurioso, pelo que podia fazer engalanar seu caixão de botões de laranjeira e de todas as castas em que os mais apurados tipos dos jardins ou dos arvoredos simbolicamente enflorassem. 15CONFÚCIO
  • António Marcos pensava dela o mínimo: – tinha-a como um animal ensinado, bastante ao reduzido serviço de seu uso. De resto, a mais, naquela casa, mandava o espírito de Platão, de Aristóteles, de Séneca, de criaturas, em que a Teresa nem por fumos sonhava, e … um boneco, um autêntico e precioso boneco, a figura de Confúcio, em fina porcelana. A solidão havia exasperado todas as inclinações de António Marcos, desviando-lhe para as coisas suas ternuras. Pelo que a Teresa concluía, ao surpreende-lo em suas devoções, perante as dezenas de objectos que lhe enchiam o segundo gabinete de estar, às horas repousadas do dia – que ele não só não era são, como fazia muita diferença do resto da gente. E pela nesga da porta ficava-se, às vezes, quartos de hora a espreitar-lhe as expressões, as palavras que ele reflectia ao encarar ou mover os objectos, como para arrancar de suas atitudes o definitivo valor delas, sua verdadeira alma. O segundo gabinete era um museu tumultuário de aberrantes figuras. Esta casa era a sua distracção única, e também só por ela, a intervalo de meses, se abalançava a sair de Portugal para adquirir qualquer peça nova. Então, ia embarcar a Leixões, com destino a determinado ponto, donde, depois, irradiava para as suas Mecas conhecidas; voltando breve ao ponto de embarque, donde seguia, em carruagem fechada, de regresso a casa. Para a Teresa era como se saísse e voltasse alguma das figuras da Sala do Chinês (assim chamava ela ao segundo gabinete do António Marcos). E, contudo, tinha uma inconfessada predileção por ele, uma simpatia que, intimamente, atribuía ao que chamava a sua inocência, uma inocência que jamais conhecera a alguém de tal mundo e idade. E, de si para consigo, bendizia a sorte que lhe determinara tão bondosa e abastracta alma para lhe dar o cabo da vida. Em todo o tempo, desde que o servia, por duas coisas, somente, ele a admoestara: – quando do caso dos lírios, que ela nunca percebera; e, outra vez por causa do boneco, do Chinês, o que, a seu juízo, presidia à assembleia dos bonecos (assim designava ela a multidão de figuras que povoavam a extravagante colecção do Filósofo) – e que era agora quem mandava na sala de fora. A figura de Confúcio, que António Marcos havia trazido de Saxe, e não directamente da China, – era uma maravilha. Por ele tinha seguido pelo Elba até ao Báltico, para policiar o seu acondicionamento e jornada. Era um vulto grave o do filósofo santo, a cuja memória os Imperadores tributaram honras divinas, e que, morto em 479 antes da nossa era, vingou fazer 16 VISCONDE DE VILLA MOURA
  • valer daí até hoje, em seu país, o culto dos antepassados, regulando de tal arte a hierarquia e coesão política da China. O mono em questão, de tamanho natural, e daquela porcelana que é do melhor tesouro da fria Saxe, – fantasmava-o sentado, sobre uma peanha em forma de trono, as mãos ocultas nas mangas folgadas da túnica em brocado amarelo-morto, sobre que lavravam, por entre vivas e mínimas flores de fogo, esmaltados dragões de sanhudo aspecto e serrilhas vivas, conformes aos dos escudos do ingénuo país do sol; – a cabeça ornada duma borla que reproduzia enfeites do mais leve retroz; e, na máscara, cortada pelo bigode, pendido em sanefa, sobre a boca meio-aberta, e rematada de barba em ponta, o ar mais recôndito e misterioso. A porcelana parecia ter emprestado ao artista que imaginara tão requintada obra aquela razão ulterior, definitiva, que sempre sobrepõe ao trabalho do homem a fatalidade dum exasperado labor divino, acaso aí a interferência do próprio Confúcio, um momento distraído dos Kings, os lendários cânones que, limados de sua razão paciente e sobrenatural, ainda hoje concertam a lei distante da verdadeira China. Um sistema de metal, em que errava a alma da mais sagaz relojoaria, daquela indústria que quase coordena um novo e mais forte pensamento do que o dos homens, o pensamento do ferro, movia, compassadamente, a cabeça do Dr. Kong, que também, a espaços, revirava os olhos oblíquos, em que rolavam, misteriosos, dois globos brilhantes como escuras joias do apartado mundo onde o levara a sua venturosa e maquiavélica estrela de político. Finalmente, o Dr. Kong falava, não já para expor aos seus três mil discípulos a súmula do Ta-hio, mas sobre a pressão dum botão disfarçado em flor à fímbria da túnica, para cantar, numa voz metálica, a característica e impressionante voz dos surdos, – aquela legenda do fatídico relógio de Colónia: Todas as horas ferem, a derradeira mata!... Pousava numa mesa de ébano, com encrustrações, reproduzindo desenhos equivalentes aos que esmaltavam a túnica do filósofo. Era dum nervosismo intencional este móvel, sensível como se o fino tampo montasse uma aranha, de molde a interessar, ao menor movimento, o custoso bonzo. Pelo que, aos mais leves passos na sala, logo acordava de sua natural inacção para fixar o recém chegado. Arrumavam-se a seus pés, suas principais obras: – o Ta-hio, “Grande Estudo”, o Tchung-yung, “Fixidez do Meio”, e o Lung-yu, “Diálogos Morais”, – flores exóticas da Filosofia, e que ali figuravam como outros tantos símbolos da alma recta e compungida do iluminado. 17CONFÚCIO
  • À exagerada sensibilidade por parte dum boneco, como lhe chamava a Teresa, e que, como nenhum outro, gozava especiais privilégios na estima de António Marcos, devia ela a segunda arrelia, pois logo após a chegada do incómodo hóspede, ele a tinha increpado por suas maneiras de trôpega, e que bem podiam desarranjar o subtil filósofo. Pelo que ela, agora, unicamente ali entrava pé ante pé, enquanto o Dr. Kong, lá ao fundo parecia rir-se, num riso pintado e sinistro, da sua gota, senão da embriaguez de que a miúdo ela a complicava. Passavam os anos rápidos e quase amenos sobre o apartado escritor, que tão somente dava pelo tempo quando, uma ou outra vez, premia a flôr da túnica de Confúcio, para ouvir de sua boca de porcelana a fria sentença alemã: Todas as horas ferem, a derradeira mata!... Até que um dia adoeceu. Veio o médico, o primeiro anónimo, que o padeiro encontrou na rua e fora chamar a pedido da Teresa. O doente quase não deixou que ele fizesse a necessária exploração clínica. – Eu sei o que o Dr. vai dizer, atalhou, o que pensa … Que me vai matar a vida sedentária, o coração que, tocado do mofo dos livros, destas salas, sentiu a nostalgia da vulgar Natureza, e procurava as primeiras chuvas sob os ciprestes … E, à negativa dele: – Eu conheço tudo dos livros! Que isto de Natureza, da convivência, do ar livre, do comércio com os homens, é a fastidiosa história de há milhares de anos, que as criaturas esmaltam dos seus poucos variados defeitos. E, a sorrir: – Perdoe a quem o mandou chamar; mas peço-lhe que não receite, nem se ocupe de mim, do meu caso, pois jamais contrariei a indicação íntima dos meus princípios, que desejo guardar até ao fim… E mandou à Teresa que acompanhasse o recém-chegado à porta da rua. – E esta! mascava a mulher, coxeando escada abaixo. Não há que ver, é o que eu sempre tenho dito … – E então o que é que vossemecê sempre tem dito? perguntou o clínico, detendo-se a meio da escada, como a buscar qualquer fio de razão à brutal despedida. É cá uma coisa, contestou a velha. – Bem, concluiu ele, antes de cerrar sobre si a porta, eu terei de cá voltar para certificar o óbito, se este, como infelizmente espero, se der brevemente … Caso, antes, o doente precise de mim … – Sim senhor, muito agradecida, concluiu a Teresa, fechando a porta. 18 VISCONDE DE VILLA MOURA
  • E alto, para dentro, com as sombras do corredor: – Outro! E são todos assim … Depois do que se passou, que quereria ele vir fazer? A sós consigo, e depois de confortada com as libações do costume, entendeu a Teresa dever avisar a família de António Marcos do que tinha ouvido ao médico. Logo o primeiro avisado passou parte aos outros, e ei-los que chegam todos para recolher suas últimas palavras de moribundo. – Quem são? perguntou António Marcos, já distante e como quem, a custo, se distrai da sua magnética tarde de agonia. E, à informação da velha, fazendo por sorrir: – Diz-lhes que hoje não posso recebê-los, mas que venham … amanhã. E toda aquela cadeia de gente seguiu, com ares doridos, a tomar lugar nas carruagens de que havia minutos se tinham apeado. – Ouve lá, comentava daí a momentos, António Marcos, para a Teresa, tu imaginas que todo o mundo tem dono! E, à expectação dela: – Deixa-me morrer sossegado, que foi para isso que toda a vida trabalhei. E não imagines que tenho feito alguma coisa! Nada tenho feito e ainda bem … Olha, anda cá, aproxima-te! Vai buscar as minhas chaves, abre aquele armário … Depois do que, seguindo com o olhar, os movimentos da velha: – Esse! Levanta daí todos os papéis escritos que encontrares! A mulher tirou o primeiro atado e quedou hesitante. – Tira o resto! mandou, com voz lenta, o moribundo. E, meia hora depois, quando a Teresa mal se via, entre as medas do papel, desmanadas no meio do quarto: – Agora vai buscar um braseiro e trata de queimar tudo isso! – Então, isto não serve para nada? perguntou supersticiosamente a Teresa. – Serviu! já serviu! – respondeu ele, com a voz torva dum sino que dobrasse a sinais. Foi um passatempo! Não viste?... A Teresa, que estava como enrolada, a procurar no armário as últimas peças do grande sistema filosófico de António Marcos, saíu, entre queixas, daquela posição que ameaçava desconjuntá-la, para ir buscar uma braseira, que montou a meio do quarto, sobre o estrado. – Ouve cá! quase lhe segredou o doente. Também pensei em ti!... E procurando, sob o travesseiro, um papel azul: – Aí tens, guarda! Por ele é teu o Chinês da sala grande! É o melhor traste da casa! Nunca o vendas! E se algum dia sentires miséria, antes o partas! Chover-te-á dos seus cacos a abundância! Que os bancos para os pobres, como tu, e para 19CONFÚCIO
  • os homens como eu, não estão onde toda a gente bate o dinheiro, mas onde menos se espera… Que neste mundo nada mais há que Deus e … bonecos. A Teresa estava passada, como ela, depois, dizia, sem perceber nada daquela comédia, que, no entretanto, lhe tinha os olhos razos de àgua, quase a afogava. António Marcos voltou-se com esforço: – Anda! Então?... Leva tudo isso para a sala, e queima esses papéis; quero ver como ardem… A Teresa, que andava como sonâmbula naquela tragédia da mais extravagante alquimia, em breve ateou fogo à papelada, que brilhava sobre os restos negros a espiguilha misteriosa e vermelha, logo morrente, da filosofia de António Marcos, e lhe levara uma vida a grafar! Enquanto ele, ao incendiar do último maço, exalava a sua alma, que, em novelos de fumo, subia, de par do seu trabalho, até Deus, onde o havia levado o escrúpulo da mais entranha canseira. Quando a Teresa, que da porta tinha os olhos fitos nele, deu tento que tinha morrido, correu a ajoelhar junto do cadáver, sufocada daquela atmosfera azul do fumo, a espaços rarefeita dum branco vivo. – Vai inocente! Era um santo… soluçou. E, de súbito, atentando no papel em que lhe doara o precioso boneco, em tempo tanto da sua impertinência, correu, supersticiosamente, a buscá-lo, como quem de si espera qualquer remoto bem para o inerte companheiro de tantos anos! Entrou na sala grande quase a correr, e sem dar conta da multidão de figuras, que, àquela hora, envoltas do fumo, pareciam igualmente partir, – dirigiu-se ofegante, nervosamente agarrada à figura fria do Dr. Kong, para a câmara torva do Morto. Mas antes que chegasse junto do defunto, perto do qual pensara em pousá-lo, ao passar pela cruz de pau negro que, fronteira ao leito, se espalhava a toda a altura da parede, embaraçou-se nas réguas do velho sinal, pelo que o pesado fardo lhe deslizou dos braços, desfazendo-se no chão, em cacos, por entre a chuva dos mais finos tinidos, à mistura do grito civilizado, amarelo, dalgumas centenas de esterlinas, que António Marcos havia confiado nas suas entranhas para prover ao futuro da sua maquinal companheira de sempre. E, antes que esta se cobrasse de ânimo por mais este desastre que inesperadamente a cobria de oiro, dos restos do Dr. Kong, que a pávida mulher segurava nervosa e quase com fúria, uma trapalhada confusa de metais, de que pendia, longa, a cabeça degolada do extravagante boneco, – ouviu ela nitidamente, diabolicamente, agora pela derradeira vez, as palavras fatídicas do soturno mostrador do velho relógio de Colónia, como falando ao morto: Todas as horas ferem, a derradeira mata!... Ancêde, 1920.20 VISCONDE DE VILLA MOURA
  • 21CONFÚCIO O BONECO DO VISCONDE DE VILLA MOURA: MUDAM-SE OS TEMPOS, PERMANECEM AS BONDADES Ana Cristina Alves
  • Confúcio na pintura de Wu Daozi22 ANA CRISTINA ALVES
  • 23CONFÚCIOI – Mudam-se os tempos... A - Uma leitura do Boneco Em abril de 1920, a revista mensal de literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social, A Águia publicava um conto do Visconde de Villa Moura, intitulado “O Boneco”. O conto é sobre um príncipe, segundo o narrador, ou melhor, sobre um nobre de seu nome próprio António Marcos, mas havia de ter muitos mais ao jeito da velha nobreza. O protagonista vivia num prédio burguês, sendo servido por uma “velha trôpega”, única ponte desta personagem de outros tempos com o mundo contemporâneo. Ele não passava dum “espírito” aos olhos da serviçal, sempre metido entre os livros, pairando num mundo teórico e abstrato que nada tinha em comum com o ritmo acelerado dos tempos modernos, dominados por uma burguesia cada vez mais opulenta, onde se distinguiam os banqueiros com os seus milhões. Escusado será dizer que, a António Marcos pouco ou nada interessava “o património da fortuna material e colectiva” para o laborioso sistema em que arquitetava os seus dias. E, no entanto, identificava-se muito mais com a gente simples e humilde do que com a classe média e burguesa, que preenchia um lugar de cada vez maior destaque na sociedade de pendor citadino da época. Neste aspecto, e como veremos noutros também, o protagonista seguia no encalço do Mestre Confúcio, de quem possuía uma estatueta de porcelana, à qual chamava “boneco”, que muito apreciava. No seu afastamento do mundo e dos círculos do poder, pautava-se pelo mesmo espírito do Mestre, que mimeticamente personificava, pois era quieto, como um homem benevolente na montanha, quase se confundindo com ela. Registem-se as palavras do Mestre, filtradas pelos seus discípulos em os Analectos: Confúcio disse: “Os sábios apreciam a água, os benevolentes as montanhas. Os sábios são activos, ao passo que as pessoas benevolentes são tranquilas. (Analectos, VI-23) A nobreza que António Marcos defendia, mais do que hereditária, seria mental, porque a distinção vinha não do apego aos valores materiais, mas aos morais. Pelo que nos diz, bem à maneira confucionista, que os homens: “deviam concertar-se pela tangente dos seus valores”. O mundo do nosso nobre divide-se, tal como para Confúcio, entre homens inferiores que apenas vêm o lucro diante dos olhos e os cavalheiros, homens superiores ou
  • 24 ANA CRISTINA ALVESConfúcio disse: “Um cavalheiro compreende o que é correto, um homem inferior apenas percebe do que é lucrativo” (Analectos, IV-16 ) Tanto para Confúcio como para António Marcos as pessoas são desiguais por desígnio divino. O Céu (Ti n ) , entidade impessoal no primeiro caso, e o Deus personalista cristão, no segundo caso, quiseram que o mundo: “fosse esquisito, desigual”, pelo que nada mais há a fazer do que respeitar a organização piramidal do cosmos com mandantes e mandados, seres superiores e inferiores, tais como homens que apenas vêm os benefícios materiais, mulheres, crianças, etc. Leia-se a seguinte conhecida passagem de Confúcio: Confúcio disse: “Apenas as mulheres e os homens inferiores são difíceis de contentar. Quando os deixamos aproximar são insolentes; quando nos mantemos à distância, queixam-se” (Analectos, XVII-25) Também para António Marcos a mulher tinha uma “vivacidade infantil e louca”. Note-se que à época, o número de mulheres cultas era muito reduzido, e mesmo as mais educadas estavam confinadas ao espaço caseiro. O estudo separa e eleva os seres humanos, concedendo-lhes a possibilidade de aperfeiçoarem e melhorarem as suas naturezas. Só o saber engrandece e auxilia os que não nasceram naturalmente benevolentes a encontrarem o caminho do Bem, porque nem todos são bons por natureza, para os que possuem uma essência neutra nada melhor do que o saber, um conhecimento vasto, não técnico nem especializado: Confúcio disse: “Um cavalheiro não é um utensílio.” (Analectos II-12) Um saber alargado, e mais inútil seria impossível ao tempo em que vivia, era aquele que António Marcos construíra ao longo da sua existência, pelo que possuía como único laço com a realidade circundante a decrépita serviçal, com quem se preocupava e por quem nutria afetuoso desprendimento. Mas acima dela e do resto do mundo estava a ideia de Bem: “Onde se encontrava com Platão era na ideia do Bem que encimava todo o seu sistema e para ele era ainda Deus.” No entanto, o Bem que o seduzia era literalmente masculino, se me é permitida a expressão, erguido no músculo dos livros em nome duma humanidade melhor. Nada queria com a outra metade do mundo, as mulheres, nem com todas as expressões femininas da natureza, a começar pela Mãe Terra e a prolongar-se nos
  • seus rebentos, as belas flores. Certa vez em que Teresa, assim se chamava a empregada, lhe trouxera um ramo de lírios, ia tendo uma apoplexia: “lança tudo isso pela janela, já”. O protagonista não era dado a sensibilidades nem instintivas, nem imaginativas. Desconfiava da natureza animal, bruta, como lhe chamava, bem como de tudo o que se desviasse das abstratas virtudes morais. Por isso defendia: “Amai o amor, não ameis exclusivamente alguém”. Embora tivesse traçado um quadro teórico excessivamente rígido para a sua existência, era, fora dos padrões por que se regia, simples, bom homem e de perfil semita – diz-nos o narrador ao descrever aquele quarentão solitário a cheirar ao pó dos livros da sua biblioteca. No olhar de Teresa era “um santo”, que muito tinha de louco, acumulando escritos inéditos contra um mundo em ebulição revolucionária, que deixara escorregar os valores para o lado da matéria, esquecido dos nobres ideais confucionistas e platónicos, apesar de ser ainda nas palavras da serviçal: “podre de rico”. No olhar feminino de Teresa, completamente telúrico e tingido pelo único prazer que se lhe conhecia, o vinho, o patrão era um louco inofensivo que não sabia gozar a vida nem os milhões que outros antes dele conseguiram angariar. Sofria, se ela o soubesse dizer, de lunatismo, desperdiçando o melhor que a vida tinha para lhe dar. Paixões do patrão só lhe conhecia a dos livros e a de colecionador de peças de museu, que o levavam a sair de Portugal, largando de Leixões, para aumentar a sua colecção de figuras antigas, entre as quais constava um boneco de porcelana, Confúcio. Para ela, a sala das peças de arte era a do Chinês, que recebera este batismo por causa da estatueta de Confúcio, vinda de Saxe. Esta havia de lhe ser legada em jeito de testamento, ironicamente cheia de esterlinas, uma vez partida por acidente o seu interior revelou o conteúdo que lhe salvaria a existência, depois de António Marcos morrer de solidão e doença, não sem se esquecer de antes pedir a Teresa para lançar ao fogo o seu inútil sistema teórico, que laboriosamente erguera contra os ventos dos novos tempos. Este fora, nas palavras do protagonista, “o passatempo” duma vida. “O Chinês” é legado à Teresa com o seguinte conselho: ”nunca o vendas! E se algum dia sentires miséria, antes o partas! Chover-te-á dos seus cacos a abundância!” Porque na lógica do protagonista os bancos da gente de eleição e dos pobres dependem diretamente da divindade e dos seus misteriosos e icónicos caminhos, por exemplo, os bonecos. Destes se exala uma sabedoria superior, tal como a que o boneco anunciava na sentença do relógio de Colónia: “todas as horas ferem, a derradeira mata”; era o melhor dos avisos sobre o tempo, que lido de acordo com muita da filosofia oriental e ocidental, sobretudo na linha racionalista, não é para ser desperdiçado, mas sim aproveitado a cada segundo num longo e 25CONFÚCIO
  • aturado labor intelectual, o único que justifica o rótulo que os seres mais complexos da criação possuem: o de animais racionais. B - O tempo na tradição racionalista Em todas as tradições racionalistas de Confúcio a Kant e seus seguidores, passando por Descartes, o tempo empírico é naturalmente agressor, porque “todas as horas ferem”; porém tem uma função preciosa, a de encaminhar no sentido do aperfeiçoamento intelectual máximo. O tempo não é para se gozar, nem para construir um projecto de si mesmo, à maneira do “Existencialismo é um humanismo” de Jean-Paul Sartre, em que “o homem apresenta-se como uma escolha a fazer” (1978:280), totalmente empenhado e responsável pelo seu destino telúrico que usufrui com liberdade, orgulho e autonomia. Para Confúcio, e também para o narrador do Visconde de Villa Moura, o sentido do tempo é outro. Este predador assassino, porque mata, sem a menor vacilação, é algo de que ambos se libertam de boa vontade e mal lhes seja dada oportunidade para tal. Confúcio transformou a sua vida num exemplo moral, um caminho que apenas podia terminar quando aprendesse a distinguir o bem do mal, agindo espontaneamente por bem. Atente-se na versão resumida do percurso que nos dá a conhecer através dos seus discípulos nos Analectos: Confúcio disse: “Desde os 15 que me entreguei à aprendizagem (...) a partir dos 60 aprendi a distinguir o correcto do incorrecto no discurso dos outros, e desde os 70 que obedeço livremente ao meu coração sem quebrar qualquer norma.” (Analectos, II-4) Nesta tradição racionalista, o viver longamente não é necessário, fundamental é saber distinguir o Bem, e praticá-lo em consonância com as normas morais e sociais. Estas últimas só podem ser boas uma vez que dependem de mandamentos não escritos, princípios rituais e divinos, presentes na ordem colectiva. Pelo que Confúcio, o “Santo Filósofo”, como lhe chama o narrador do Visconde de Villa Moura, dedicou toda a sua vida ao estudo, em busca da Benevolência, a viturde do Caminho certo, mas uma vez apreendidos os princípios e o caminho, a própria existência esgota o seu sentido. Por isso, lemos as seguintes palavras: Confúcio disse: “Quem de manhã conhecer o caminho, pode morrer nessa mesma noite.” (Analectos, IV-8) 26 ANA CRISTINA ALVES
  • Pelo que quando Teresa chama o médico para diagnosticar a doença de António Marcos, ele, impaciente, escova-o. Na sua perspetiva, já percorrera o caminho necessário para se libertar da matéria em direção ao espírito e ao reino de Deus, ou do platónico mundo das ideias, no qual o Bem brilhava como um verdadeiro sol. Faltava-lhe apenas queimar os seus escritos, nada deixando registado do seu labor intelectual, realizado com o único propósito de “morrer sossegado”. A empregada obedeceu-lhe, como fazia sempre, àquele irresistível inocente que tanto tinha de santo como de louco, pelo que ele satisfeito “exalava a sua alma, que em novelos de fumo, subia, de par do seu trabalho, até Deus”. O seu a seu dono: a serviçal, que não aspirava a mais, ficaria na terra coberta de esterlinas para a satisfação dos seus desejos materiais. Poderia comer e proceder às suas costumadas libações, com a parcimónia dos avisados, que apreciam a vida e os seus prazeres no ponto certo. Ele partia, pois encontrara a via correta para chegar a Deus. Construira a sua torre do espírito com esse propósito, à semelhança dos três mil discípulos de Confúcio, que o narrador refere, bem como os trabalhos da escola que atribui ao “Filósofo Santo”, a saber: O Grande Estudo ; a Doutrina do Meio e os Analectos , aos quais chama, talvez seguindo a pronúncia de Cantão, Ta-hio; Chung-yung e Lung-yu. Não há limites para o respeito que António Marcos possui por Confúcio ou, como lhe chama por vezes, pelo Dr. Kong (do nome chinês K ngzi ), falecido em 479. Longe estava ele de saber que a sua figura de veneração, materializada no “boneco” de porcelana, também nada deixara escrito e o que a tradição lhe atribui de sabedoria se ficou a dever ao trabalho incansável dos seus discípulos, mesmo os Analectos ou “Diálogos Morais”, como são denominados no conto. O Grande Estudo foi atribuído a Z ngsh n (505-436 a. C), um dos discípulos de Confúcio, mas que na realidade terá sido organizado nos finais da dinastia Qin, início da Han, por letrados confucionistas, vindo a incorporar o Livro dos Ritos E a Doutrina do Meio, entitulada no conto “Fixidez do Meio” é, segundo a tradição, da autoria, ou deve-se à compilação de um neto de Confúcio, Z S ( ). Há quatro livros fundamentais e cinco ou seis clássicos na tradição confucionista. Os quatro livros são: Os Analectos (Lúny , O Livro de Mâncio (Mèngzi , O Grande Estudo (Dàxué e a Doutrina do Meio (Zh ngy ng . Os seis clássicos são: O Clássico das Mutações (Yì J ng , O Livro das Odes (Sh j ng , A História (Shàng Sh , Os Ritos (L Jì , Os Anais da Primavera e do Outono (Ch nqi e o perdido Clássico da Música (Yuè J ng ). Posteriormente a tradição neoconfucionista acrescentará à bibliografia fundamental da escola o Clássico da Piedade Filial (Xiào J ng . 27CONFÚCIO
  • Em todas estas obras se busca a aprendizagem certa, quer dizer, o estudo norteado por sólidos princípios e valores morais, distinguindo a tradição confucionista cinco virtudes constantes : a Benevolência (Rén ); a Justiça (Yì / ); os Ritos ; a Sabedoria (Zhì ) e a Confiança (Xìn ), sendo a principal virtude a Benevolência, ou como alguns sinólogos optam por lhe chamar, a Humanidade, já que se trata da bondade em relação, na qual se destaca o mundo humano, ainda que não seja permitido maus tratos a animais nem restante mundo biológico. Note-se que a figura mitológica associada a Confúcio é um unicórnio, que simboliza a benevolência, sendo incapaz de pisar até mesmo uma erva. O estudo ganha todo o seu sentido se permitir a realização dos valores morais no mundo, organizado por um governante sábio. O estudo não é uma acumulação de saber, é formativo e deve encaminhar para o Bem, que terá a sua concretização num mundo melhor, à maneira do que defendem ainda hoje muitos dos filósofos da linha kantiana, por exemplo Karl Popper, na obra Em Busca de um Mundo Melhor (1989). II – ...Permanecem as bondades O que nos fica de António Marcos? Que imagem guarda o mundo dele? A parentela é-lhe indiferente e ele a ela. Trabalhou em prol do bem público? Não. Deixou uma vasta obra criativa e/ou científica? Também não. Partiu, deixando para trás uma única imagem e rasto. A imagem é-nos transmitida pela empregada decrépita à hora da morte do patrão: “ Vai inocente! Era um santo”, o rasto, a figura 28 ANA CRISTINA ALVES As Cinco Virtudes Confucionistas, da direita para a esquerda: Rén , Yì / , L / , Zhì , Xìn . Fonte: http: //cdn00.baidu-img.cn/timg?wapbaike&quality=80&size=b3460_1352&sec=1349839550&di=f23 2c2d4e619362eb244dc4615ff052b&src=http://imgsrc.baidu.com/baike/pic/item/c75c10385343fbf21f413c17b77eca8065388f91.jpg
  • de porcelana de Confúcio desfeita em mil cacos, num feliz tropeção que garantirá a existência de Teresa até ao fim dos seus dias. De António Marcos não sobra nem gesto público nem saber, apenas o melhor que a filosofia confucionista tem para ensinar. Um gesto de bondade para com a “maquinal companheira de sempre”. Confúcio e a sua escola sempre defenderam que acima da sabedoria discursiva se encontrava a intuitiva, aquela que era espontânea e natural e se mostrava nos gestos de benevolência ou de humanidade que somos capazes de ter uns com os outros e também em relação a todo o mundo que nos rodeia. O Mestre disse: – As pessoas que têm sabedoria inata são superiores; vêm a seguir as que adquiriram a sabedoria através do estudo; depois as que a obtiveram por via de experiências difíceis, situando-se num nível mais baixo as que não são capazes de aprender nem com as dificuldades. (Analectos, XVI -9) A sabedoria inata traduz-se duma forma muito prática, gerindo, para empregar uma linguagem atual, as emoções de modo a harmonizá-las pela Via do Meio, a que indica o meio-termo aristotélico do nada em excesso, nem em defeito, de modo a criar espaço para que as cinco virtudes constantes se possam manifestar, encabeçadas pela benevolência. António Marcos despediu-se do mundo com um gesto benevolente, garantindo assim a entrada no céu naturalista chinês, mas também no cristão, já que foi “desta para melhor”, revelando amor cristão pela sua próxima. O Visconde de Villa Moura não se enganou na importância de Confúcio para o mundo chinês. Pode dizer-se que a sua intuição artística certeira antecipou num século os institutos de seu nome, com estátuas de Confúcio e clássicos que hoje estão espalhados por todo o mundo. Diz-nos António Caeiro, a propósito da China, já não revolucionária, mas da reformista que se foi incorpando a partir de 1978, sob a orientação de Deng Xiaoping (Dèng Xi opíng ) em Novas Coisas da China. Mudo, Logo Existo: Confúcio (Kong Zi, em chinês) parecia destinado a preencher o vazio ideológico causado pelo rápido abandono dos ideais revolucionários. Em 2011, uma grande estátua de Confúcio foi colocada à entrada da Praça Tiananmen, o espaço mais sagrado do socialismo chinês. A estátua, uma peça de bronze com 7,9 metros de altura, assente num pedestal de pedra escura, erguia-se junto à porta Norte do novo Museu Nacional da China. Confúcio “é símbolo da cultura tradicional chinesa, com grande impacto pelo mundo fora”, justificou o diretor do museu, Li Zhangshen. (2015:84/85) 29CONFÚCIO
  • António Caeiro prossegue justificando que a colocação da estátua não era uma opção de natureza artística, mas antes política. Havia que preencher um lugar ideológico vago, que claudicava, já que a figura acabou por ser transferida ao cabo de três meses para o interior do edifício. Havia ainda que contar com as forças revolucionárias, para as quais Confúcio era criatura reacionária do passado, que cruzavam suas armas com as reformistas. Hoje, em 2018, já venceram os reformistas a batalha da harmonia, como defende ainda no mesmo texto o empresário farmacêutico Kong Wei Zhong: A harmonia (defendida por Confúcio) é o contrário da revolução (...) A essência do pensamento de Confúcio é o amor e a tolerância. Confúcio ensina-nos a ser pessoas decentes. (2015:88) No mesmo sentido surge a pedagogia de Yu Dan, cujo livro traduzido para inglês Confucius from the Heart. Ancient Wisdom For Today´s Word foi um bestseller com mais de 10 milhões de exemplares vendidos, publicado primeiramente em 2006 pela Zhonggua Book Company e mais tarde, já em 2009, pela Macmillan no Reino Unido. Quem é Yu Dan (Yú D n )? E qual a sua influência na cultura chinesa atual? Yu Dan (Yú D n ) nasceu a 28 de junho de 1965, em Beijing, sendo professora de Media na Universidade Regular de Beijing e vice-diretora da Faculdade de Artes & Media, bem como chefe do Departamento de Media & Televisão e Cinema da mesma universidade. Possui um mestrado em Literatura Chinesa Antiga, literatura Pre-Qin, e um doutoramento em Estudos para cinema e televisão, ainda pela Universidade Regular de Beijing. É também investigadora de vários grupos ligados ao Media, tais como a Associação Chinesa de Artistas de Televisão, o Gabinete de Investigação da CCTV, o Instituto de Investigação de Guangdong-China, a Corporação Noticiosa (australiana), entre outros grupos e associações. O seu contributo pedagógico para a divulgação do pensamento filosófico através dos Media data de 2006, altura em que fez para a CCTV (China Central Television) uma série de leituras ao longo de sete dias, intituladas, numa tradução possível, “Yu Dan Explica os Analectos de Confúcio” ( ), integradas no programa Sala de Leituras (B iji Ji ngtán ), que deu origem a uma publicação ainda no mesmo ano, imediatamente transformada no referido bestseller. O maior objetivo desta filósofa é a reabilitação e transmissão do pensamento tradicional chinês, recorrendo aos meios pedagógicos atuais, que ameaçam tornar obsoletos a ardósia e o giz, o quadro branco e os marcadores. Estes têm vindo a ser substituídos no interior da sala de aula pelos meios audiovisuais com lugar de destaque para o computador e a internet, que, quando não coopera com a televisão e o cinema, rivaliza na apresentação de séries. 30 ANA CRISTINA ALVES
  • A meu ver, não foi neutra a atitude de Yu Dan ao trazer os Analectos de Confúcio para o grande público. A autora pretendeu transmitir os conhecimentos adquiridos ao longo da sua investigação, considerados muito valiosos, procurando simultaneamente testar a influência num novo quadro político-filosófico, o dos tempos da reforma comunista e do socialismo espiritual. Yu Dan afirma indagar pelo sentido utilitário da filosofia antiga nos tempos contemporâneos: Mas que sentido prático têm eles hoje para as nossas sociedades e vidas? (2009:2) O respeito que nutria pelos Analectos não será muito diferente daquele que inspirou os filósofos de todos os tempos na China, – tirando os da Nova Cultura (X n Wénhuà ) da primeira república chinesa e do início da segunda, que acompanha a revolução comunista, quando o partido comunista adotou, primeiro uma linha de pensamento marxista, via Leste, que mais tarde desembocaria no Maoísmo (Máo Zh yì ). A atitude de respeito e de admiração de Yu Dan perante a filosofia antiga teve no entanto consequências muito diferentes das dos filósofos que apenas exercem a sua filosofia num quadro académico. Ela saltou para as luzes da ribalta televisiva e cinematográfica, deixando-se filmar e espalhando o que considera um tesouro precioso. Por isso declara a respeito dos Analectos: Em lugar de temer, sempre respeitei este livro e os meus sentimentos em relação a ele foram sempre singelos, simples e quentes (Ibidem). Após o que desenvolve a sua perspetiva filosófica em torno do que representaram os Analectos na sua vida, uma fonte de cura espiritual. Confúcio foi um pedagogo modelar da Antiguidade à atualidade chinesa, porque soube trocar pacificamente os seus pontos de vista com os estudantes, preparando muitos deles para as atividades de governo que ele almejou e apenas alcançou por curto tempo: Um professor verdadeiramente excelente, será como Confúcio, trocando pacificamente ideias com os seus estudantes. (2009:12) Mas será que os Media conseguem dialogar com os ouvintes e telespetadores? De facto conseguem, não só porque muitos dos programas são participados, como ainda assumem uma vocação pedagógica inultrapassável ao atingir vastíssimas audiências, hoje os três mil alunos de Confúcio cresceram para milhões de chineses. 31CONFÚCIO
  • Yu Dan apresenta-se ainda em estreita conexão com a ideologia filosófica vigente, pois nas suas palavras reconhecemos a influência da orientação reformista: Atualmente na China dizemos com frequência que para uma nação sobreviver e prosperar, o Céu tem que sorrir-lhe e a Terra deve ser-lhe favorável e o seu povo deve estar em paz. Este é o equilíbrio harmonioso a que Confúcio nos pode conduzir hoje. (2009:16) A pensadora procede ainda à defesa duma ideia muito cara à filosofia tradicional chinesa, a paz verdadeira e duradoura, a que se reflete nas nossas vidas tem de encontrar as suas raízes firmemente alicerçadas no coração. Por isso, tão importante como o Produto Interno Bruto, será a Felicidade Interna Bruta. (2009:19), Logo: Perdemos muito tempo com o mundo exterior e muito pouco a olhar para os nossos corações e almas. (2009:21) Nesta ordem de ideias, é no interior do coração ( ) que reside a felicidade e não na acumulação imponderada da riqueza, o sucesso mais do que material, é espiritual. E tudo o que podemos fazer é cultivar uma certa atitude perante a vida que nos desperta para a procura da felicidade onde ela possa residir. Toda a gente tem o desejo de ter uma vida feliz, mas a felicidade é apenas um sentimento, nada tendo a ver com a riqueza ou a pobreza, mas apenas com o interior do coração. (2009:22) O combate aos valores exclusivamente materialistas assume a linha da frente no quadro do novo socialismo espiritual. Mais importante do que a matéria, parece ser o espírito, única fonte de felicidade permanente, já que assenta num sentimento vindo do coração. Este se colocará para efeitos de conduta individual e social de acordo com a razão que dita as regras e normas da conduta universalizável. Há apenas uma regra de conduta, ditada por Confúcio, que devemos ter sempre em mente: Não faças aos outros, o que não desejas para ti. (Analectos, XII-2) Assim, conseguimos viver num mundo guiados por um princípio moral que tem em vista a realização das virtudes da sabedoria e benevolência, concretizando o ideal de cavalheiro , que ama e cuida dos outros duma forma benevolente (rén´ài ), compreendendo-os com sabedoria. Yu Dan enfatiza ainda em “Caminho do Coração e da Alma” os ensinamentos de Confúcio relativamente à atitude certa para se evitar o sofrimento perante os reveses da vida, cultivando uma mente tranquila, porque: 32 ANA CRISTINA ALVES
  • 33CONFÚCIOuma atitude diferente pode resultar numa qualidade de vida completamente diferente. (2009:40) Tal como o cavalheiro e a “cavalheira”, à moderna, que cultivam a calma interior, radicada no coração através do sábio equilibrio das forças emotivas em tensão, pelo exercício da Via do Meio. Para isso, é essencial a prática da calma e a indiferença perante ganhos e perdas materiais: Quando queremos alcançar um forte interior ( ), teremos de ser indiferentes a ganhos e perdas, especialmente de tipo material. (2009:44) Ontem como hoje, no quadro dum pensamento de teor confucionista, fundamental, com a benevolência e a sabedoria, é a própria moralidade, instituidora dos ritos ( ), que produzem relações corteses entre as pessoas. Por isso se repete a passagem bem conhecida na tradição chinesa, e já aqui referida, que “O cavalheiro compreende o que é correto, um homem inferior apenas o que é lucrativo”. (Analectos IV-16, Apud Yu Dan, 2009:86) Este é o espírito que Yu Dan quer fomentar entre os chineses, pelo que nos diz logo na abertura do seu Confucius from the Heart: “A sabedoria de Confúcio pode ajudar-nos a obter a felicidade espiritual no mundo moderno” (2009:11). Este tipo de atitude em relação ao maior dos pedagogos da antiguidade chinesa abrange todos os clássicos da antiguidade, como a autora conclui: Onde quer que estejamos, podemos deixar que o poder dos antigos clássicos se combine com as nossas leis e regras contemporâneas, fundindo-se de tal forma que se torne componente essencial das nossas vidas. (2009:187) O objectivo desta nova China, do Pequeno Timoneiro reformista Deng Xiaoping ao atual presidente Xi Jinping (Xí jìnpíng ), reeleito em março 2018 para um segundo mandato sem termo à vista, é continuar a avivar a memória dos chineses relativamente à sabedoria ancestral, muito esbatida nos tempos comunistas mais revolucionários, para os quais Confúcio e os valores defendidos pela sua escola, prolongados num Neoconfucionismo que durou até aos finais dos tempos imperiais, eram rejeitados e atirados para uma infeliz época das trevas a ser substituída pelo brilho dos ideais revolucionários. Os novos tempos acalendores dos antigos ideais chineses chegaram com todo o apoio institucional, e a partir de 2004 começaram a surgir Institutos Confúcio no mundo inteiro para que não só os chineses tivessem acesso a tão privilegiada sabedoria ético-política, na qual a ética domina inteiramente a política. Na China, e de acordo com o espírito da filosofia confucionista, um governante que não seja pessoa de bem e não possua uma conduta ética irrepreensível deve ser afastado da
  • 34 ANA CRISTINA ALVESesfera do poder e por vezes até privado da sua liberdade pessoal, consoante a gravidade da falta cometida. Os Institutos Confúcio, dependentes do Ministério da Educação chinês, são supervisionados pelo Hanban – Gabinete do Conselho Internacional do Ensino do Chinês – e têm como objetivos maiores ensinar a língua e a cultura do País do Meio pelo mundo inteiro. De acordo com os dados estatísticos fornecidos pelo Hanban a 31/12/2017, atualmente há 525 Institutos Confúcio espalhados por 146 países e 1.113 salas de aula Confúcio, nas quais também se ensina língua e cultura chinesas. A República Popular da China, hoje a segunda maior potência mundial, exporta a sua cultura à semelhança do que faz a maior potência, Os Estados Unidos da América. Ambos os países divulgam os seus valores culturais, o softpower, pedindo o conceito emprestado a Joseph Nye, ou poder suave, porque se impõe sem recorrer à força: os Estados Unidos transmitem os valores liberais e democráticos e a China os príncipios éticos, materializados na figura de Confúcio. Também em Portugal existem Institutos Confúcio nas seguintes universidades: Universidade do Minho (2006); Universidade de Lisboa (2008); Universidade de Aveiro (2015) e na Universidade de Coimbra (2015), além de parcerias realizadas com várias escolas secundárias para o ensino do Chinês. A visita do presidente Xi Jinping a Portugal no início de dezembro de 2018 conduziu à assinatura de 17 protocolos em vários setores, incluindo o educativo, e aos projetos da criação de mais um Instituto Confúcio, desta vez na Universidade do Porto, e dum Centro de Estudos Chineses na Universidade de Coimbra. A tendência para o ensino da língua e cultura chinesas, centrada em torno da figura de Confúcio e dos princípios e valores confucionistas, será para aumentar, tanto em Portugal como no resto do mundo, já que a ascensão da China a grande potência mundial trouxe consigo a promessa da difusão dos ideais humanistas do pensamento confucionista com vista à construção dum mundo mais pacífico e harmonioso. Este poder suave foi claramente proclamado em 2014 pelo atual Presidente da República, Xi Jinping, no discurso ao 17º Comité Central do Partido Comunista Chinês, no qual se defendeu, parafraseando o chefe de estado, a linha de ação de transformar o país numa superpotência cultural socialista. E quais são os valores a transmitir um pouco por todo o planeta? Já sabemos, são princípios éticos solidamente ancorados na filosofia confucionista, aqueles que ditam a um bom governante a orientação da sua conduta pela virtude máxima da benevolência, porque mais importante do que o chefe ser eficiente, é estar atento e ser humano para com todos aqueles que o rodeiam. Só assim se consegue alcançar a desejável harmonia social e, em última análise, unir toda a gente em torno dos mesmos
  • 35CONFÚCIOprincípios de boa convivência e caminho conjunto, como se procura fazer no recentemente tão enaltecido percurso estabelecido por uma nova rota, recordando as antigas ligações marítimas portuguesas, traçada num só caminho: “Uma faixa, Uma Rota ”*De acordo com as palavras do atual presidente chinês, deverá ser possível em breve colocar grande parte da humanidade a caminhar na mesma direção económica, política e social, traçada geograficamente por uma rota, orientada por um novo poder suave, aceite pacificamente, onde reinem partilhados os valores espirituais confucionistas. Pelo que se conclui que mais rigorosa não podia ter sido a intuição do Visconde de Villa Moura ao transformar a figura de Confúcio em protagonista espiritual do seu conto: ontem e hoje parece ser ele, duma forma ou de outra, quem reina no mundo, já que o espírito se pode metamorfosear em matéria de salvação das mentes e dos corpos dos que coabitam a terra. Bibliografia Alves, Ana Cristina. 2007. A Mulher na China. Lisboa: Tágide Caeiro, António. 2015. Novas Coisas da China. “Mudo, Logo Existo”. Lisboa: D. Quixote Kongzi Analects of Confucius, trad. para chinês simplificado de Cai Xiqin ( ); Lai Bo ( ) e trad. para inglês Xia Yuhe Nye, Joseph. 2004. Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: Public Affairs Popper, Karl R. 1992. Em Busca de um Mundo Melhor. Lisboa: Editorial Fragmentos, Lda Sartre, Jean-Paul, Vergílio Ferreira. 1978. O Existencialismo é um Humanismo. Lisboa: Editorial Presença, Lda Visconde de Villa Moura, “O Boneco”. Porto: Águia, nºs 99 e 100, 1920 Wang Keping. 2007. Ethos of Chinese Culture. Beijing: Foreign Languages Press ____________________ * “Uma faixa, Uma Rota” possui seis corredores e uma rota marítima.Primeiro Corredor, a nova ponte terrestre euroasiática, do Oeste Chinês ao Oeste Russo. Segundo Corredor, do Norte da China ao Leste Russo. Terceiro Corredor, do Oeste Chinês à Ásia Central e Turquia. Quarto Corredor, da Indo-China, da Índia até Singapura, passando pelo Sul da China. Quinto Corredor, Myanmar, Índia, China e Bangladesh. Sexto, conhecido pelo Corredor da China ao Paquistão, do Sudoeste Chinês ao Paquistão e, por fim, a Rota da Seda Marítima da costa chinesa, via Singapura, até ao Mediterrâneo, que se estende à América Latina e aos países das Caraíbas, via Canal do Panamá.
  • 36 ANA CRISTINA ALVESYu Dan. 2009. Confucius from the Heart. Ancient Wisdom for Today´s World. London, Basingstoke e Oxford: Macmillan Publishers Limited Webografia Hanban, http://www.hanban.edu.cn/confuciousinstitutes/, acedido a 30 de Agosto de 2018
  • 37CONFÚCIO CONFÚCIO EM PORTUGAL: ANÁLISE DE O BONECO E DA PERCEÇÃO DA MORTE A OLHOS ORIENTAIS E OCIDENTAIS Olívio Lu Chunhui
  • 38 OLÍVIO LU CHUNHUIEstátua padrão de Confúcio
  • 1 Quem estuda a filosofia ou sabe da mesma há-de encarar as três grandes perguntas: “De onde vim?”, “Quem eu sou?” e “Para onde vou?”. A morte, por sua vez, vem por último, aliás, é a mais misteriosa e desconhecida. Na Grécia Antiga, os grandes sábios, Demócrito, Sócrates, Platão, mostraram interesse pela exploração e interpretação da essência da morte. Por exemplo, Demócrito, um filósofo pré-socrático, é o maior expoente da teoria atómica ou do atomismo. Ele disse: "Há apenas átomos e vazio". Na sua opinião, a alma do ser humano também é constituída por um tipo de átomos especiais, que se dissociam e se dispersam logo que as pessoas morram. A teoria defende que o espírito humano é físico e mortal. Por outro lado, Platão justificou a imortalidade da alma na sua obra Fédon, um relato sobre a morte do seu professor Sócrates. Ele disse: “tudo o que vive nasce do que é morto.” (Platão, Diálogos) De acordo com a teoria, a alma já existia antes do nascimento, e continua a existir mesmo que o corpo morra. Ao contrário dos filósofos gregos que colocam a questão da morte no foco e que a comentam de forma direta, a morte, à luz das perspetivas mais dominantes na tradição chinesa, quer dizer o confucionismo, não é uma coisa para se discutir. Confúcio, mais conhecido como Kongzi ( ), ou Kong-fu-zi (Mestre Kong), viveu no Período da Primavera e Outono. Nasceu em meados do século V (551 a.C), numa família nobre. O seu pai, quando se casou com a mãe de Confúcio, teria setenta anos, e morreu quando o filho tinha três anos, o que o obrigou a trabalhar muito jovem para ajudar no sustento da família. Ficou conhecido, aos trinta anos, pelas práticas pedagógicas, quando já tinha os primeiros discípulos. Atirando-se sempre à política e procurando recuperar a ordem da Dinastia Zhou Oriental ( ), Confúcio e os seus discípulos resolveram viajar entre as cidades-estado por catorze anos, provavelmente entre 496 a.C e 483 a.C, propagando as ideias e as linhas de governação, porém não obteve os resultados esperados. Morreu aos 73 anos na sua terra natal. O grande académico chinês Qian Mu ( ) comenta: Confúcio ocupa a liderança na ideologia chinesa ao longo da história. Ao invés das religiões existentes neste mundo, que procuram aprender a viver através do estudo da morte, Confúcio considera que a questão de viver está acima da de morrer. Ele respondeu ao seu aluno Ji Lu ( ) quando este lhe perguntou sobre a morte: “Não se sabe o que é a vida, como saber o que é a morte?”. O mestre Confúcio dá mais importância e valor à existência na vida real, em vez de se preocupar com o outro mundo, o que muito tem influenciado a ideologia chinesa. Conclui Qian Mu: a atitude de Confúcio acerca da morte fez com que ele não se tornasse líder religioso e que a ideologia chinesa nunca passasse a ser uma religião. 39CONFÚCIO
  • 2 Há mais de um século, em Portugal, um jovem e nobre português, que se chamava Bento de Oliveira Cardoso e Castro Guedes de Carvalho Lobo, era filho de um grande proprietário de terras. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra em 1900 e, no mesmo ano, recebeu do então rei D. Carlos I o título de 1º Visconde de Villa Moura, tornando-se num dos maiores proprietários do Concelho de Baião. A sua carreira pode ser dividida em duas partes: dedicou-se, ativamente, às atividades políticas antes do ano 1910. Foi eleito deputado pelo Partido Regenerador nas eleições gerais de 1908, integrando diversas comissões parlamentares. Após a implementação da República Portuguesa, em 1910, deixou as funções e dedicou-se quase em absoluto à literatura. Foi no período após 1910 que publicou o essencial das suas obras. Em 1920, publicou, na revista A Águia, considerada o órgão da Renascença Portuguesa, um artigo intitulado O Boneco. Não é a obra mais distinta dele, mas é um trabalho muito interessante para estudar o seu mundo espiritual, pois é do tipo autobiográfico. Para além disso, encontra-se no mesmo trabalho o intercâmbio cultural e ideológico entre o Oriente e o Ocidente, dado que o filósofo chinês Confúcio é um elo essencial no mesmo conto. Há vários indícios no conto justificando que o mesmo é uma autobiografia do autor. Pode-se encontrar muitas semelhanças entre ele e o protagonista do conto, o António Marcos. Logo no início diz: Quem diria que naquele prédio (…), a vulgar casa do Porto (…), vivia um príncipe, se por tal pode entender-se um homem que se chamava António Marcos, e quase ninguém via, de embaraçado que sempre estava em casa, por motivos de abstrata especulação. É exatamente o retrato de Visconde de Villa Moura que, depois de abandonar a carreira política, se recolheu à cidade do Porto e se dedicou à literatura. Tanto o Visconde quanto o António Marcos se comportam como eremitas. Pela definição do dicionário português, eremita é uma pessoa que evita a convivência social, que vive isolada. Na história chinesa nunca faltaram eremitas, frequentemente representados nos romances clássicos e filmes, em que não é raro encontrar a imagem de um velhote, ou um monge, de barba comprida e prateada, vestido com roupa bastante simples, vivendo à solta nas profundezas de montanha, ou no campo longínquo, onde não chegavam seres humanos. Eram talentos da época e possuíam a inteligência que as pessoas comuns não conseguiam alcançar. Na maioria dos casos, tinham concebido e apresentado grandiosas ambições políticas enquanto jovens e, por razões variadas, haviam falhado ou desistido do trabalho e da carreira por se terem apercebido das suas limitações para mudarem a realidade e realizarem os sonhos, ou por serem 40 OLÍVIO LU CHUNHUI
  • afastados por inimigos. Porém, essa imagem não representa absolutamente a vida dos eremitas chineses. O Taoísmo ( , uma das mais influentes e dominantes escolas filosóficas chinesas, apresenta três níveis de recolhimento: um eremita vulgar recolhe-se na natureza; um bom esconde-se entre as massas; os verdadeiros continuam os seus trabalhos, porém não se relevam. Recorrendo à história chinesa podemos encontrar grandes nomes ligados a esse tipo de vida. Tao Yuanming (, um dos mais famosos poetas chineses, ficou conhecido pelos poemas idílicos: Construí a minha cabana num lugar onde vêm e vão os outros/ Mas não há barulho de carruagens e cavalos/ Perguntaram-me como isso é possível/ Respondi-lhes: quando o coração está distante, a solidão vem. O António Marcos vivia como um eremita, na cidade do Porto. Do ponto de vista das definições taoistas, não podemos dizer que o António era um verdadeiro eremita, pois tinha abandonado a carreira política. Também não era um muito vulgar, porque continuava a viver na cidade, só que quase não saia para a rua, e a única ligação entre ele e o mundo exterior era a empregada Teresa, que cuidava da sua vida. Ele viajava. De vez em quando saía de Portugal e voltava com algumas peças exóticas. Não demorava nada durante a viagem e nunca aproveitava para visitar qualquer lugar por onde passasse «ia embarcar a Leixões, com destino a determinado ponto, donde, depois, irradiava para as suas Mecas conhecidas; voltando breve ao ponto de embarque, donde seguia, em carruagem fechada, de regresso a casa». Tinha na sua casa uma sala, o segundo gabinete, onde passava as horas do dia e guardava objetos e figuras exóticas adquiridas durante as viagens. De entre os objetos o mais precioso e autêntico era um boneco de Confúcio, em fina porcelana, que foi trazido de Saxe, e não diretamente da China. 3 O conto é percorrido por um misticismo filosófico oriental, intensificando-se com a descrição do boneco, que «era uma maravilha». Era de tamanho natural e da porcelana que era o melhor tesouro de Saxe. Ficava sentado sobre uma peanha em forma de trono, com as mãos ocultas nas mangas folgadas da túnica em brocado amarelo-esbatido, sobre as quais lavravam, por entre vivas e mínimas flores de fogo esmaltados dragões e serrilhas vivas. Essa imagem, no entanto, não corresponde à de Confúcio na perspetiva chinesa. Os elementos encontrados no boneco, trono, amarelo, dragões e serrilhas, são representações exclusivas para o imperador chinês, não podendo aparecer no traje de gente comum. No ano de 2007, realizou-se, em Qu Fu ( ), Shan Dong ( ), terra do santo chinês, a inauguração da estátua-padrão de 41CONFÚCIO
  • Confúcio. A imagem-padrão baseia-se na pintura de Wu Daozi ( ), pintor célebre da Dinastia Tang ( ), levando em consideração elementos encontrados em outras versões do retrato, com a finalidade de representar ao máximo a imagem e a essência do Mestre Kong, no sentido da sua humanidade, inteligência e determinação. Apesar da grandeza e profundidade espiritual que o mesmo representa, o retrato foi inspirado na imagem de um Bu Yi ( , tradução literal: roupa de tecido, que significa pessoa vulgar), com um olhar suave, o nariz largo e a barba cerrada. Está vestido com uma túnica simples, sem demasiados adornos. Recorrendo aos diálogos entre o Mestre e os discípulos, registados em Os Analectos ( , encontramos os seguintes comentários em relação ao Yan Hui ( ), o seu discípulo favorito: «Como é virtuoso [esse] Hui! Uma cestinha de bambu com arroz para comer, meia cabaça de água para beber, uma ruela para morar. Outros não suportariam as preocupações [de uma vida assim], mas Hui está sempre alegre. Como é virtuoso [esse] Hui!»1 (Os Analectos, Capítulo VI-11). Na opinião dele, um homem virtuoso cuida mais do mundo interior do que o material. Um Jun Zi ( , homem nobre, cavalheiro) valoriza mais as coisas internas, levando sempre uma vida simples, em que reside a alegria verdadeira. Ele disse: “Alimentar-se com comida grosseira e beber água, dobrar o braço e usá-lo como travesseiro, também nisso há alegria. Fazer o que não é devido e tornar-se rico e de alta posição social, isso para mim são nuvens flutuando”2 (Os Analectos, Capítulo VII-16). O Confúcio era um velhote vulgar na aparência, mas um santo pelo pensamento. O boneco tinha, dentro do corpo esmaltado, um coração de ferro, tratando-se de um sistema mecânico que controlava o movimento de órgãos, e não só. Conforme o texto, a indústria «coordenava um novo e mais forte pensamento do que o dos homens, o pensamento do ferro». O boneco falava, cantava, «numa voz metálica», repetitivamente, a frase: «Todas as horas ferem, a derradeira mata!...» A ideia tem origem no cristianismo. Conforme a doutrina cristã, o sofrimento humano vem do pecado original, que pretende explicar a imperfeição do ser humano. Dois antepassados da humanidade, Adão e Eva, seduzidos pela serpente, comeram o fruto proibido e foram expulsos do Jardim do Éden, resultando no sofrimento permanente do ser humano, de geração para geração. Quem sofre mais é Jesus Cristo, que morreu crucificado como forma de expiação. 42 OLÍVIO LU CHUNHUI____________________ 1 Tradução do Giorgio Sinedino. 2 Esta e as restantes frases de Os Analectos são tradução de D.C.Lau.
  • O que fica oposto ao sofrimento é a salvação, a ressurreição. Eis a interpretação: o ser humano, uma vez que sobrevive neste mundo secular, sofre a cada momento, até que a morte, o último e o maior sofrimento, o liberte do corpo e da alma. Quem disse a frase não foi Confúcio da China, foi, provavelmente, Confúcio em Portugal, uma figura criada pelo Visconde de Villa Moura, um cristão na pele de Confúcio. 4 Encerra O Boneco com a morte do António Marcos, o detentor do boneco. Ficou doente, no entanto não permitia que qualquer médico lhe fizesse o necessário exame clínico: «peço-lhe que não receite, nem se ocupe de mim, do meu caso, pois jamais contrariei a indicação íntima dos meus princípios, que desejo guardar até ao fim…». E sabia já da aproximação da última hora, pelo que a aceitou com tranquilidade. Mandou queimar todos os papéis escritos que a empregada encontrasse, exceto o boneco, do qual não consentia a venda. A morte do António Marcos é dramática. Tinha sabido que iria morrer e tinha-se preparado para padecer, sem medo algum. Em chinês, diz-se que a morte é como uma luz que se apaga ( ). Quando se morre, tudo acaba. Em contrapartida, aos olhos ocidentais, especialmente cristãos, o que as pessoas fazem ao longo de toda a vida é considerado uma preparação que as conduz até à morte. Em consequência, a morte não é o fim, mas sim um novo começo. Ao ultrapassar a barreira entre a vida e a morte, o homem será levado ou para a eternidade, se se comportar bem na vida, ou para a extinção, após ter sido julgado no inferno. Na antiguidade egípcia, as pessoas criam no julgamento dos mortos, no qual era pesado o coração numa balança contra uma pena. O coração que pesasse mais do que a pena era considerado indigno, seria devorado pela deusa Ammit e o seu proprietário condenado à eternidade no Duat, o submundo. Os indivíduos de coração bom e puro eram enviados para Aaru, o paraíso. Também foi a crença na existência da continuação da vida e no julgamento dos mortos que disparou a venda de indulgências no período da Idade Média, posteriormente combatida por Martinho Lutero. Disse o António: «Deixa-me morrer sossegado, que foi para isso que toda a vida trabalhei…». Para ele, morrer não significa um ponto final, é, na verdade, o objetivo pelo qual lutou na vida. Positivamente, não temia morrer, enfrentava o que enfrentasse, e com satisfação, como se tivesse cumprido, após trabalhar toda a vida, uma missão sagrada. Pediu para destruir as obras pelo fogo, porque não prestavam para nada no mundo aonde chegaria. O que devia realizar já estava feito. A morte nunca seria uma coisa triste, era uma consequência natural, tão natural como se fosse voltar para casa e fosse para a cama, depois de um dia de trabalho. 43CONFÚCIO
  • 44 OLÍVIO LU CHUNHUIA morte devia ser uma coisa natural, no entanto pouca gente a consegue encarar e tratar de forma natural. Em Olhos de Cão Azul, de Garcia Marques, o autor apresenta catorze contos sobre a morte, em diferentes circunstâncias imaginárias e fantásticas, com um tom muito calmo. No mundo de Marques não se vê nem uma morte ruidosa ou barulhenta. Os homens, que já tinham data marcada, preparam-se para morrer com muita tranquilidade e clareza, esperando a chegada da última hora. E esta chegou. Marques também fala da sua própria morte. No prólogo de outra obra Doze Contos Peregrinos, recorda um sonho: «Sonhei que assistia ao meu próprio enterro, a pé, caminhando entre um grupo de amigos vestidos de luto solene, mas num clima de festa. Todos parecíamos felizes por estarmos juntos (…) No final da cerimónia, quando começaram a ir embora, tentei acompanhá-los, mas um deles me fez ver com uma severidade determinante que, para mim, a festa havia acabado. ”Você é o único que não pode ir embora”, me disse. Só então compreendi que morrer é não estar nunca mais com os amigos.» O autor fala da morte de uma perspetiva bastante objetiva, como se se observasse a si mesmo fora do seu próprio corpo, na vertente duma terceira pessoa. É preciso ter muita coragem para enfrentar a morte, tanto das pessoas chegadas como de si próprio. Quando morreu a mulher, Zhuang Zi ( ), filósofo chinês que viveu entre 369 a.C e 286 a.C, em vez de chorar a perda da sua companheira mais íntima, sentou-se no chão, batendo na bacia, enquanto cantava. Ao responder aos outros que ficaram espantados, Zhuang Zi explicou: «vejo que, no início, ela não tinha vida, nem corpo, nem ar (em chinês, , quer dizer o espírito). Criou-se o ar no meio de caos e mudanças, pela transformação do qual se formou o corpo, que trouxe a vida. Agora, voltou ao início, tal como a mudança das quatro estações» (). Para ele, a vida e a morte, em vez de serem dois lados opostos, fazem parte de uma mesma circulação maior: nada – vida – nada, tratando-se duma lei da Natureza, a qual não vale a pena lamentar. 5 Voltamos ao ponto de partida quando falávamos da atitude de Confúcio em relação à morte. O Mestre evita comentar diretamente a morte, considerando-a secundária ao mundo humano. Quando o discípulo Ji Lu lhe perguntou como servir os espíritos dos mortos, o Mestre disse: “Não se sabe como servir o homem, como servir os seus espíritos?” ( ). Ji Lu prosseguiu e perguntou sobre a morte. O Mestre respondeu: “Não se sabe o que é a vida, como
  • 45CONFÚCIOsaber o que é a morte?” ( ) (Os Analectos, Capítulo XI-12). Os diálogos acima representam a atitude principal de Confúcio em relação à questão da morte. O Mestre disse: “Dizer que você sabe quando você sabe, e dizer que você não sabe quando não sabe: isso é conhecimento.” () (Os Analectos, Capítulo II-17). Confúcio mostrou a mesma franqueza e humildade de Sócrates, que confessou: “Só sei que nada sei.” Ou seja, admite a ignorância em relação a algumas coisas. Além disso, ele não mostrou nenhum interesse pela questão, e simplesmente contornou-a de propósito, ao contrário da maioria das religiões ocidentais que sempre se dedicam à exploração, interpretação e descrição do mundo transcendente. Eis a sabedoria de Confúcio. Só depois de saber o significado da vida é que se revela o significado da morte. Por outras palavras, se não se sabe como viver, não faz sentido saber o que acontecerá quando se morrer. Apesar de o Mestre nunca ter falado diretamente da mesma, mencionou-a muitas vezes nos diálogos com os seus discípulos, registados em Os Analectos. Quando Yen Yüan morreu, o Mestre disse: “Ai! O Céu está me destruindo! O Céu está me destruindo!”. ( ) (Os Analectos, Capítulo XI-9). Encontramos no Capítulo XII-5 outro trecho, um diálogo entre Ssu-ma Niu e Tzu-hsia . Ssu-ma apareceu preocupado, dizendo: “Todos os homens têm irmãos. Só eu não tenho nenhum”. Tzu-hsia disse: “Já ouvi dizer: vida e morte são uma questão de Destino; riqueza e honra dependem do Céu.” ( “ ”“ ”) Os dois exemplos representam a ideologia do confucionismo em relação ao destino, que a vida do ser humano é objetiva e não dependente das ideias e da vontade. Quem nos controla e decide é o Céu, ou seja, o destino. O que devemos fazer não é lutar contra ele, mas sim obedecer-lhe. Esta afirmação não é tão negativa como parece. A obediência não significa deixar de trabalhar e lutar. Por um lado, o confucionismo respeita a regra de funcionamento da natureza, considerando-a sagrada e imudável. A morte é como a mudança das quatro estações, fazendo parte da lei da natureza e estando fora do alcance da inteligência humana. Por outro lado, Confúcio acreditava que o trabalho que realizava era uma missão do Céu. Como é sabido, dedicava-se de corpo e alma à restauração dos ritos. Como disse: “Voltar-se à observância dos ritos sobrepondo-se ao indivíduo, constitui a benevolência.” ( , Os Analectos, Capítulo XII-1). Por esse motivo, o Mestre começou a conhecida peregrinação, com os seus discípulos, pelas cidades-estado aos 55 anos de idade. Mesmo que reconhecessem a sua sabedoria e virtude, os governadores não o tratavam bem nem aceitavam as suas propostas. Correu muitas vezes perigo e quase perdeu a vida. Uma vez passou pela cidade-estado Kuang e ficou cercado pelos locais, que pretendiam matá-lo. Os discípulos
  • 46 OLÍVIO LU CHUNHUIiam combater enquanto Confúcio, com calma, tirou um Se3 e começou a tocá-lo, explicando: “Com o rei Wen morto, a civilização (Wen) não depende agora de mim? Se o Céu quer que a civilização seja destruída, aqueles que vierem depois de mim não terão qualquer coisa a ver com ela. Se o Céu não quer que esta civilização seja destruída, então o que os homens de Kuang podem fazer contra mim?” (Os Analectos, Capítulo IX-5). Acreditava que a tranquilidade vinha da crença no Céu e na moralidade e justiça em que residia o seu trabalho e carreira. Não podemos dizer que essa obediência ao destino fosse negativa, porque acreditava que o seu trabalho correspondia às ordens e vontade do Céu e esforçava-se por fazer tudo o que pudesse fazer. A solução de Confúcio contra o perigo representa a grande sabedoria chinesa, o que também se encontra em Tao Te Ching , obra de Lao Zi , onde se enfatiza o “não agir ”. O “não agir” não significa não fazer nada, mas sim deixar-se guiar pelo curso natural e lógico dos eventos do universo. Em Shuo Yuan Bian Wu ( · ), prosa de Liu Xiang (77 a.C – 6 a.C), historiador da Dinastia Han Oeste, relata-se um diálogo entre Confúcio e o seu discípulo Zi Gong . Zi Gong pergunta: “Os mortos são conscientes, não são?” Confúcio disse: “Quero dizer que são conscientes, porém receio que os filhos filiais se magoassem para servi-los. Quero dizer que não são conscientes, temo que os descendentes indignos os abandonem e não os enterrem. O Ci (nome de Zi Gong) quer saber se os mortos são conscientes, mas vai saber quando chegar o momento certo.” ( : ? ? : , , , , , ) Confúcio não respondeu de forma direta à curiosidade de Zi Gong em relação aos mortos, procurando saber se estes são conscientes, ou seja, se continuam a ter consciência e sensação relativamente aos vivos. A resposta de Confúcio, porém, contornou o interesse do seu discípulo e transferiu o foco da conversa para o mundo real. Desta forma, a questão dos mortos passou a ser a questão dos vivos. Evitou discutir ou explorar o que não fazia parte da vida atual e valorizou mais as consequências que trariam aos vivos face às perceções sobre a morte. Confúcio evita comentar a morte e os mortos, no entanto atribui-lhe muita importância. Ele disse: “O que é considerado de maior importância: as pessoas comuns, a comida, o luto e os sacrifícios.” ( Os Analectos, Capítulo XX-1) O conhecimento e atitude de Confúcio sobre a morte enraízam-se na sua visão sobre a observação dos ritos que, na sua opinião, todos os cavalheiros devem respeitar e seguir. Tsai Wo perguntou sobre o tempo de luto de três ____________________ 3 Se : um instrumento tradicional chinês, de vinte e cinco cordas, semelhante à cítara.
  • 47CONFÚCIOanos, queixando que até mesmo um ano era demais. Depois, quando partiu, o Mestre comentou: “Quão insensível é Yü (nome de Tsai Wo). Uma criança deixa o colo dos pais apenas quando tem três anos de idade. O luto de três anos é observado em todo o Império. Os pais de Yü não lhe deram três anos de amor?” (Os Analectos, Capítulo XVII-21) O Mestre Kong costuma ainda usar morte como elemento metafórico para relevar a importância da benevolência. Ele disse: “Em se tratando de cavalheiros determinados e homens de benevolência, é inconcebível que busquem permanecer vivos sacrificando a benevolência, mas pode acontecer que tenham de aceitar a morte para conseguir realizar a benevolência.” (Os Analectos, Capítulo XV-9) Conforme a doutrina de Confúcio, a morte não tem muita importância em comparação com a realização da benevolência. Ele disse: “Um Cavalheiro deve ser forte e resoluto, pois seu fardo é pesado e sua estrada, longa. Ele toma a benevolência como fardo. Isso não é pesado? Apenas com a morte a estrada chega ao fim. Isso não é longo percurso?”. (Os Analectos, Capítulo VIII-7) Resumindo, Confúcio coloca sempre a morte em posição secundária, por duas razões: primeiro, ele nunca falou do assunto diretamente; segundo, o emprego do conceito de morte era para a resolução de um problema no mundo real. Enfatizou a importância do luto e dos mortos, mas era para a observação dos ritos; falou frequentemente da morte em comparação com a realização da benevolência, porque pretendia posicionar a última acima da questão da sobrevivência e de tudo o resto. Confúcio também falou da imortalidade, que era espiritual e moral: “O cavalheiro detesta não deixar um nome quando parte”. (Os Analectos, Capítulo XV-20) 6 Muito provavelmente, o boneco é uma representação idealizada do António Marcos, ou do próprio Visconde de Villa Moura, na decadência monárquica. Na religião ocidental, sobretudo cristã, viver é uma preparação para morrer, o que, obviamente, se distingue de muitos dos pensamentos do confucionismo. Confúcio prioriza viver a morrer, com as doutrinas cujo objetivo era ensinar as gentes a viverem como cavalheiros, mesmo que o mundo em que vivessem não fosse perfeito, enquanto ____________________ 4 Significa que a sociedade estava num caos por causa da destruição do regime e da moralidade.
  • 48 OLÍVIO LU CHUNHUI“os ritos descambavam e a música entrava em colapso4 ”. Não o interessa a morte física, porque não ajuda nada na realidade. Preferia falar da morte espiritual, empregando comparações e metáforas para acentuar o valor da vida e da moralidade. Aquele era o trabalho dele e o que o preocupava. Repetia o boneco a frase: «Todas as horas ferem, a derradeira mata!...» Quer dizer, viver é sofrer e morrer é uma libertação. Não se sabe se Confúcio concordaria ou não com este ponto de vista. Talvez sim, mas não falou, porque não era importante. Ele era tão concentrado no seu ideal político e social que não tinha tempo para pensar além disso. Os valores do confucionismo têm influenciado muito os chineses. Raramente pensamos ou imaginamos o mundo para além da morte. Fazemos rituais em homenagem dos antepassados, queimamos papéis em forma de dinheiro diante dos túmulos e em algumas aldeias afastadas executam-se feitiçarias para chamar ou guiar os mortos. Mas tudo isto que fazemos é para nos acalmar, para homenagear os antepassados e para as necessidades da nossa cultura e tradição. O confucionismo não criou um mundo oposto ao nosso, e por isso, não passou a ser uma verdadeira religião. Referências bibliográficas Confúcio. (2012). Os analectos, tradução de: The analects. (C. Caroline & D. C. Lau, Eds.). RS: L&PM. Confúcio. (2012). Os Analectos, tradução do Giorgio Sinedino. São Paulo: Editora Unesp. Platão. (1972). Diálogos (Banquete, Fédon, Sofista e Político). (V. Civita, Ed.) (1st ed.). Porto Alegre; São Paulo: Globo S.A. Platão. A República. Visconde de Villa Moura. (1920). O Boneco. In A ÁGUIA (Revista Mensal de Literatura, Arte, Sciência, Filosofia e Crítica Social), Nº 99 e 100. . (2010). < > . ( ), 32(1). . —— . In (pp. 64–69). . (2003). “ ” . , 5(6). . (2015). . . . (2016). . . . (2011). . . . (2017). . , 32(6). . (2004). . ( ), 6(002). ( ) (2010). . .
  • 49CONFÚCIO CONFÚCIO NA CULTURA PORTUGUESA. SUBSÍDIOS PARA O SEU ESTUDO António Aresta Estudar sem reflectir é inútil, reflectir sem estudar é perigoso. Confúcio [“Ditos de Confúcio”, tradução de Daniel Carlier, edição Jornal Tribuna de Macau, 2008]
  • 50 ANTÓNIO ARESTAConfúcio
  • I A sabedoria e a ética prática de Confúcio1, considerado como o sábio dos sábios, estão presentes na cultura portuguesa, com uma insuspeitada transversalidade, sobretudo desde os alvores do século XVII, entradas pela mão dos jesuítas. A sinologia portuguesa e a sinologia de língua portuguesa, enquanto alargado corpus de conhecimento, não dispõem de um roteiro bibliográfico e historiográfico minimamente actualizado2, o que não é muito compreensível se tivermos em conta a sua secular antiguidade. O caso de Confúcio é paradigmático, como se observará nesta breve introdução. Mas é apenas no século XIX que a imprensa periódica3, os almanaques4, as enciclopédias5, os dicionários6, os livros 51CONFÚCIO____________________ 1 António Aresta, “Confúcio”, Jornal Tribuna de Macau, 22.11.2017. 2 Em diferentes momentos, tenho procurado fazer uma sistematização da história da sinologia portuguesa: António Aresta, “Os Estudos Sínicos no Panorama da História da Educação em Portugal”, Revista Administração,Nº 38, Vol. X, 1997, pp. 1045-1069.Como esta publicação é bilingue, a tradução chinesa está nas páginas 1177-1192; António Aresta, “A Sinologia Portuguesa, um esboço breve”, RC-Revista de Cultura [Instituto Cultural de Macau], Nº 32, II Série, 1997, pp. 9-18. Este estudo foi traduzido para chinês e para inglês, nas respectivas versões da RC-Revista de Cultura; António Aresta, “A Sinologia”, in Adalberto Dias de Carvalho (coord.), Dicionário de Filosofia da Educação, Porto Editora, 2006, pp. 347-348; António Aresta, “Sinologia Portuguesa: Caminhos e Veredas”, in Miguel Castelo-Branco (coord.), Portugal-China. 500 anos, ed. Biblioteca Nacional de Portugal/Babel, Lisboa 2014, pp. 275-279. 3 Para o caso de Macau, veja-se, Padre Manuel Teixeira, A Imprensa Portuguesa no Extremo Oriente, ed. Notícias de Macau, 1965, 2ª edição, Instituto Cultural de Macau, 1999; Daniel Pires, Dicionário Cronológico da Imprensa Periódica de Macau do Século XIX (1822-1900), ed. Instituto Cultural do Governo da R.A.E.Macau, 2015. O Jornal de Bellas Artes ou Mnemósine Lusitana. Redacção Patriótica. O número XXIII, de 1816, contém abundante informação sobre Macau e a China. A Revista Popular. Semanário de Literatura, Sciencia e Industria, cuja Redacção era assegurada por Joaquim Fradesso da Silveira, José Maria Latino Coelho, Francisco Pereira de Almeida e Augusto Gonçalves Lima, publicou no Nº 12 / 1849, o conto chinês “A Trança do Mandarim”, com evidentes ressonâncias confucianas. Na contemporaneidade, o jornal da Diocese de Macau, O Clarim, não perdia a oportunidade para marcar a sua posição doutrinária. Veja-se o interessante artigo de Tooshar Pandit, “Confúcio e Karl Marx frente a frente”, O Clarim, 14.02.1965. 4 Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro para 1857. Com 410 artigos e 106 gravuras, Lisboa, Typographia Universal, 1856, 391 pp.. 5 Na Encyclopedia Portugueza Illustrada, editada por Lemos & Cª, Successor, Porto, 1900-1909, publicada sob a direcção de Maximiano Lemos, III volume, surge uma informação abrangente sobre Confúcio e o confucionismo, destacando-se a seguinte ideia: “Todo o seu systema repouza sobre os deveres recíprocos dos homens, classificados por elle em relações entre principe e vassalo, pae e filhos, e entre concidadãos. O respeito aos pais, antepassados, ao nome, é o fundamento da família, e estes mesmos princípios aplica elle ao governo”. O Museu Literário, Útil e Divertido, Nº 5, Lisboa, na Impressão Régia, 1833, traz uma “Notícia do Império da China, segundo os mais modernos conhecimentos obtidos na Europa”, pp. 132-135. 6 Os dicionários eram uma importante fonte difusora de cultura, em termos práticos, generalistas e simples. Mas, frequentemente, misturavam os conceitos. Sobre Confúcio e o confucionismo. No Novo Diccionario da Língua Portuguesa, de Eduardo de Faria, Typographia Lisbonense, Lisboa, 1851, 2ª edição, lemos que Confúcio “ensinou uma philosophia toda prática”. Mas no Diccionario Popular (histórico, geográfico, mythologico, biográfico, artístico, bibliográfico e litterario), dirigido por Manoel Pinheiro Chagas, Typographia do Diario Illustrado, 3º volume, Lisboa, 1878, encontramos uma informação com mais detalhe. Confúcio “fundou uma escola meio philosophica, meio política, à qual a China deve essa civilização estacionária que ainda hoje ali impera. Essa escola não tem metaphysica, ocupa-se exclusivamente de economia social e de moral. Muitos consideram Confúcio como legislador, não o foi, foi apenas um philosopho e um moralista, mas a legislação chinesa toda se deriva da escola e do ensino de Confúcio, e foi ele que lhe deu a sua originalidade e o seu caracter imóvel”.
  • escolares7 ou outras obras de cultura geral8 espalham urbi et orbi concisos aforismos, um sugestivo cerimonial parenético ou suculentas máximas do pensador chinês, sobre quase todos os assuntos que tocavam a vida humana ou a governança da sociedade e os seus inimigos. Suspeita-se, por vezes, que tudo quanto é atribuído a Confúcio não seja realmente da sua lavra. A analogia com Sócrates, sobretudo com o Sócrates platónico estará sempre presente. Julgo que valeria a pena seguir o rasto da influência das suas ideias e dos seus ensinamentos, isto é, a recepção de Confúcio em Portugal, que continua por fazer, incluindo o inventário da multiplicidade das edições das obras9 firmadas pela multidão dos seus discípulos. Pela literatura de viagens, mas não só, ecoa uma ressonância dos seus pensamentos, de permeio com o fascínio pelo mistério sobre tudo quanto seja oriundo da grande China, que vamos encontrar, por exemplo, em “Algumas Coisas Sabidas da China”, provavelmente de 1562, da autoria de Galiote Pereira, no “Tratado em que se contam muito por extenso as Cousas da China” de Frei Gaspar da Cruz, de 1569 ou na “Relação da Grande Monarquia da China”10 do jesuíta Álvaro Semedo, escrita em 1637. Sem esquecer Tomé Pires ou Fernão Mendes Pinto. 52 ANTÓNIO ARESTA____________________ 7 A título de exemplo, João Felix Pereira, Compendio de Geographia, para uso da instrucção secundária, edição do autor, 10ª edição, Lisboa, 1877: “O grande philosopho Confucius foi contemporaneo de Salomão: seos escritos encerrão verdades mais sublimes do que as da philosophia de Pythagoras, Socrates e Platão”. E continua: “Debaixo do ponto de vista moral, diz-se, que os chins possuem as virtudes e os vícios do escravo, do fabricante e do negociante: reina um systema de tyrannia e de opressão, desde o soberano até ao rústico. As várias classes de mandarins não são melhores do que escravos de graduação superior, os quaes, por sua vez, oprimem, cruelmente o povo”, pp. 245 e 247. Ainda outro exemplo: Alberto Pimentel, Album de Ensino Universal. Livro de Instrução Popular, Lisboa, Officina Typographica de J. A. de Matos, 1879. Nas páginas 177/178, encontramos esta informação: “Religião de Confúcio: consiste num panteísmo filosófico e tem por chefe o imperador da China. É a religião dos homens letrados da China, de Annam e do Japão”. 8 Historia Universal. Primeira Parte. História Antiga, escrita em Francez pelo Abbade Millot e traduzida em Vulgar por J. J. B., Professor no Real Collegio de Alcobaça, 2ª edição, correcta e aumentada, Tomo Primeiro, Lisboa, na Typographia Rollandiana, 1801, 383 pp.. Sobre a China, pp. 90-98. A Confúcio, para além de divulgar algumas máximas, apresenta esta síntese: “A sua Filosofia consistia menos na especulação, do que na prática; razão porque deitou mais depressa Sábios, que Discursistas”, p. 97; Damião António de Lemos Faria e Castro, História Geral de Portugal e suas Conquistas, oferecida à Raínha Nossa Senhora D. Maria I, Lisboa, Na Typographia Rollandiana, Tomo XI, 1788. As informações sobre a China e sobre Confúcio, pp. 147-161. 9 Algumas traduções: Os Analectos, tradução de Maria de Fátima Tomás, Publicações Europa-América, 1982, 127 pp.; Quadras de Lu e Relação Auxiliar, tradução e notas de Joaquim Guerra SJ, Edição Jesuítas Portugueses, Macau, 1981/1983, 5 volumes; Quadrivolume de Confúcio, tradução e notas de Joaquim Guerra SJ, Edição Jesuítas Portugueses, Macau, 1990, 615 pp.; Conversações, M. Gonçalves de Azevedo, Ed. Estampa, 1991, 196 pp.; Ditos de Confúcio, tradução de Daniel J.L. Carlier, edição Jornal Tribuna de Macau, 2008, 119 pp.; As Quatro Obras: Discurso e Diálogo; Suprema Educação; Meio Constante, tradução do chinês, introdução e notas de Luís Gonzaga Gomes, Macau, Imprensa Nacional, 1945, 248 pp. 10 Na edição contemporânea de 1994, anotada e traduzida do italiano por Luís Gonzaga Gomes, com prefácios de Maria Edith da Silva, António Rodrigues Júnior e António Aresta, coeditada pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude/Fundação Macau, esta referência a Confúcio é significativa: “Este homem caiu, a todos os respeitos, nos tempos subsequentes, em tanta graça e apreço dos chineses e tão grande crédito alcançaram os livros que compôs e os ditos e as sentenças por ele deixados, que não somente o tem por santo, mestre e doutor do reino com o que dele se cita é estimado como coisa sagrada, além de existir, em todas as cidades do reino, templos, públicos, onde é reverenciado, com muitas cerimónias em dias marcados e, nos anos dos exames, uma das principais cerimónias é irem os novos graduados todos juntos prestar-lhe reverência e reconhecê-lo por mestre”, p. 103.
  • Mas, serão mesmo outras narrativas a terem o monopólio da atenção do público generalista11, sempre atento ao pormenor12 e às grandes sínteses culturais13 sobre o extremo oriente e em particular sobre a China. Para as elites, Confúcio chegava em latim14 mas as polémicas eram servidas na língua francesa15. Não é piedoso esconder a fragilidade do pensamento português nesta área particular. Nas querelas entre as ordens religiosas, evidenciam-se conhecimentos e informações muito interessantes e actualizadas: “Os Letrados da China, que são das suas pessoas mais nobres e estimadas, se ajuntam todos os anos nos Equinócios da Primavera e Outono, em uma Aula, que chamam Miao, dedicada ao mesmo Confúcio…”16. Até os textos 53CONFÚCIO____________________ 11 Eduardo Fernandes (Esculapio), Dois Anos de Troça. Gazetilhas publicadas em O Século (94-95). Revistas pelo autor e prefaciadas por António Campos Júnior, Lisboa, Empreza da História de Portugal, 1900, pp. 102 e 103. 12 Fialho d’Almeida, Pasquinadas: Jornal d’um Vagabundo, Porto, Livraria Civilização, 1890, pp. 238-244: “O sr. Coelho de Carvalho, que enviou da China a Cesário Verde o seu retrato de mandarim…”, com a explicação minuciosa das insígnias mandarínicas; Alberto d’Oliveira, Pombos-Correios (Notas Quotidianas), Coimbra, França Amado Editor, 1913, p. 321: “A nova China, ainda antes de nos mostrar que tem cabeça, anuncia-nos solenemente que já tem chapéu. Mudar de fato pareceu-lhe tão urgente como mudar de regímen”. Gomes Leal, A Morte do Rei Humberto e os Críticos do ‘Fim d’um Mundo’, Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1900, p. 17: “A China, a remota pátria dos mandarins e das sedas magníficas, dos xarões raros, e das pedrarias fabulosas, como visões de ópio, não quer ceder nenhuma das suas prerrogativas, nem ceder mais território algum à cobiça do comércio europeu?... Salafrários, chatins, safardanas, sarrafacais!... Desprezam, pois, estes letrados mariolas sábios, com uma teimosia revoltante de povos inferiores, habituados a uma hedionda rotina, herdada de Confúcio, toda a luz benéfica e imaterial dos povos civilizados do Ocidente, que tanto benefício levaram à velha Índia, que ela está hoje morrendo de fome, de peste, de anemia… e da alegria espiritual e ferruginosa da civilização!... Não se pode ser mais bárbaro!... Há enfim só uma frase: – é chinês!”. 13 Carlos José Caldeira, Apontamentos d’uma Viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa, Lisboa, Typographia de Castro & Irmão, 1852/3; Gregório Ribeiro, De Macau a Fuchau. Cartas a J.M. Pereira Rodrigues, Lisboa, Typographia Universal, 1866; Conde de Arnoso, Jornadas pelo Mundo: em caminho de Pekim, Porto, Magalhães & Moniz, 1895; Adolfo Loureiro, No Oriente. De Nápoles à China, Lisboa, Imprensa Nacional, 1896/7; José Morais Palha, Esboço Crítico da Civilização Chinesa, Macau, Typographia Mercantil, 1912; Alberto de Carvalho, Reminiscências do Oriente: apontamentos de viagem, Lisboa, Tipografia da Cooperativa Militar, 1914. 14 CONFUCIUS sinarum Philosophus sive scientia sinensis latine exposita, Ludovici Magni, Pariis, MDCLXXXVII, 563 pp.; Ad Virum Nobilem, de cultu CONFUCII Philosophi et Progenitorum apud Sinas, Antverpiae, MDCC, 57 pp.; Vera Sinensium Sententia de tabela Confucio & progenitoribus inscripta, cum ulteriore expositione & informatione de factis sinensibus controversis secundum PP. Societatis Jesu adversus novam allegationem textum Sinicorum factam presertim extractatibus PP. FF. Dominici Navarrette & Francisci Varo Dominicanorum, Anno MDCC, 468 pp. 15 Apologie des Dominicains Missionnaires de la Chine ou Reponse au livre du Père Le Tellier jesuite, intitulé, Défense des Nouveaux Chrétiens; Et à L’éclaircissement Du P. Le Gobien de la même Compagnie, Sur des honneurs que les chinois rendent à Confucius et aux Morts. Par un Religieux Docteur et Professeur de Theologie de L’Ordre de S. Dominique. Tome Premier. À Cologne. Chez Les Heritiers de Corneille d’Egmond, MDCC, 392 pp.; Relation du voyage fait à la Chine sur le vaisseau l’Amphitrite, en l’année 1698. Par le sieur Gio Ghirardini, peintre italien. A monseigneur le duc de Nevers, MDCC, 237 pp. Esta obra termina com uma “Lettre du Roy de Portugal au Cardinal Barberin Protecteur de cette Couronne”, datada de Lisboa, em 1699. Surpreendente é esta obra, L’Espion Chinois ou L’Envoyé Secret de la Cour de Pékin pour Examiner L’État Présent de L’Europe. Traduit du chinois, A Cologne, MDCCLXXXIII, em seis volumes. Obra sem menção de autor. O sexto volume contém abundantes referências a Portugal. 16 Resposta Compulsória à Carta Exhortativa, para que se retrate o seu Author das Calumnias que proferio contra os Reverendissimos Padres da Companhia de Jesus da Provincia de Portugal. E lhe dedica Francisco de Pina e de Mello, Moço Fidalgo da Casa Real e Academico da Academia Real de Historia Portugueza, Monte mor o Velho, a 26 de Junho de 1755, p. 60. No ano seguinte, este mesmo autor publica o Triumpho da Religião. Poema Épico-Polémico que À Sua Santidade do Papa Benedicto XIV dedica Francisco de Pina e de Mello, Moço Fidalgo da Casa de Sua Magestade e Academico da Academia Real da Historia Portugueza, Coimbra, na Officina de Antonio Simoens Ferreyra, Impressor da Universidade, Anno de 1756, 426 pp.
  • doutrinários faziam questão de evocar os feitos findos, no oriente longínquo, como se pode ler no comunicado aos portugueses, de 24 de Agosto de 1820, difundido pela Junta Provisional do Governo Supremo do Reino: “…espalhando pela Europa, espantada e invejosa, as preciosidades do Oriente e as riquezas de ambos os mundos”17. Quarenta anos depois, em 1860, na Apreciação Philosophica dos Descobrimentos Portugueses18, João Félix Pereira traça um severo juízo de valor associando “a mais torpe imoralidade” e a “sede do ouro” como as causas directas para a queda do “império oriental”. Em 1762 Confúcio é um dos temas principais no “Diálogo entre um Teólogo, um Filósofo, um Ermitão e um Soldado”19, que discorrem cordata e pedagogicamente sobre a moral, a geografia política e as ideias religiosas. O que se poderia aprender sem um rasgo de polémica, sem qualquer ousadia interrogativa ou afrontamento ideológico? Um livro popular, reconfortante para uma vida reflexiva simples e benevolente, era justamente a Vida y Pensamientos Morales de Confucio20 que desde 1802 conhecerá larga difusão nos meios cultos e esclarecidos portugueses, encontrando-se nas livrarias conventuais e nas bibliotecas dos Seminários. O estudo filosófico e pedagógico da moral21, da formação moral, foi uma preocupação constante nas escolas e no ensino particular e doméstico. José Ignacio de Andrade é um importante orientalista português do século XIX, hoje injustamente esquecido, e um grande divulgador das ideias de Confúcio. O seu livro, publicado em dois volumes, Cartas Escriptas da Índia e da China nos Annos de 1815 a 1835 por José Ignacio de Andrade a sua Mulher D. Maria Gertrudes de Andrade22, abre justamente com uma epístola de Francisco Martins Barros, professor de língua latina no Colégio de Nossa Senhora da Conceição:54 ANTÓNIO ARESTA____________________ 17 Collecção Geral e Curiosa de Todos os Documentos Officiais e Historicos Publicados por Ocasião da Regeneração de Portugal, desde 24 de Agosto, Lisboa, Typographia Rollandiana, 1820. 18 Lisboa, 1860, Typ. de José da Costa, p. 60. 19 Joaquim de Santa Rita, Academia dos Humildes e Ignorantes, Conferência XXVII, Tomo IV, Lisboa, 1762, Na Officina de Ignacio Nogueira Xistro, p. 212. 20 Traducidos del francês al castellano por D. Enrique Ataide y Portugal, Oficina de Aznar, Madrid, 1802. 21 Coleção e Escolha de Bons Ditos e Pensamentos Moraes, Politicos e Graciozos. Escriptos por***. Lisboa, Na Officina de Francisco Borges de Souza, Anno MDCCLXXIX, 471 pp.; Lições de Boa Moral, de Virtude e de Urbanidade. Compostas no idioma hespanhol por D. José de Urcullu e traduzidas para o portuguez da 3ª edição de Londres de 1828 por Francisco Freire de Carvalho, Lisboa, 3ª edição, Typographia Rollandiana, 1854, 246 pp. Com especial interesse para a moral confuciana, pp. 45-48; Outra obra importante: Pensées Morales de Confucius, recueillies et traduites du latin par M. Levesque, Paris, MDCCLXXXIII. Para além da introdução (pp. 7-62) são apresentados 230 pensamentos morais (pp. 63-175). 22 Lisboa, Imprensa Nacional, 1843. Conhecerá uma segunda edição em 1847. Esta obra foi reeditada sob o título Cartas Escriptas da Índia e da China, 2 volumes, introdução de Artur Teodoro de Matos, Livros do Oriente, Macau, 1998.
  • “……………….. De CONFÚCIO, philosopho sublime Mostras os dogmas, e a doutrina mostras, Que tantos evos tem regido a China. O vício não desculpas, se elle surge, Qual entre o flavo trigo e o joio inútil, Lá mesmo n’esse Império, que elogias.”23 Outro amigo de José Ignacio de Andrade, P. F. O. Figueiredo, insere este soneto: “Confúcio douto, que a moral ensina A reis, e a povos com saber profundo, Se hoje surgisse do sepulchro fundo, E lesse o que has escripto sobre a China; Se visse como o genio teu combina, Em philosopho, quanto abrange o mundo; Em ti notara com prazer jucundo Um discípulo da sua alta doutrina!”24 As ideias e os princípios morais e políticos de Confúcio estão omnipresentes e na “Carta L” José Ignacio de Andrade faz a difusão extensiva de umas dezenas de máximas, sem esquecer o pensamento de Mêncio. E a reflexão que faz é premonitória: “A nação chinesa, para suprir as instituições liberais, hoje em voga na Europa, tem os livros sagrados, respeitados como lei fundamental do estado: acham-se neles artigos mais vigorosos contra o despotismo, do que nas instituições mais democráticas da Europa e América; todavia, sucede na China o mesmo, que em outra qualquer parte: se o que empunha o ceptro do poder é do temperamento de Nero, só resta a opção dolorosa de morrer, ou matá-lo”25. Até onde terão chegado estas ideias de José Ignacio de Andrade? Folheando “O Panorama. Jornal Litterario e Instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis”, de 12 de Maio de 1838, podemos observar uma gravura, ‘A Criminosa Perante o Mandarim’, a encimar um artigo sobre a administração da justiça no Celeste Império. Aí, o façanhudo mandarim prelecionava 55CONFÚCIO____________________ 23 Idem, p. 25. 24 Idem, p. 29. 25 Idem, p. 280.
  • sob a égide de Confúcio. Nessa mesma publicação26 foi publicada a novela “O Feitor de Cantão”, cuja leitura é muito agradável e informativa. E, abrindo a popular “Encyclopedia das Famílias. Revista de Educação e Recreio”, no Nº 9927, de 1895, deparamos com uma sintética definição do confucionismo enquanto religião: “é um naturalismo, adoração de forças physicas, de caracter moral, tendo por base a benevolência; como regra, modelar o presente e o futuro no pretérito e a veneração pelos antepassados. Confúcio foi o seu fundador e teve por principal apóstolo o philosopho Mêncio. Domina entre os chineses”. Detectamos também a presença dos ensinamentos de Confúcio nas áreas mais díspares, desde a história de A Mulher Através dos Séculos, de Marques Gomes, publicada em 1878, até à dissertação inaugural apresentada, em 1901, à Escola Médico-Cirúrgica do Porto, sob o título, O Suicídio Livre em Face da Religião, da Moral e da Sociedade, assinada por José Ferreira Viegas. Júlio Verne, com o popular romance As Atribulações de um Chinês na China28, publicado em 1879, contribuiu para o adensar do fascínio pela milenar civilização chinesa. No ano seguinte, em 1880, aparece O Mandarim, de Eça de Queiroz, cujo personagem reflecte em voz alta, “eu não compreendia a língua, nem os costumes, nem os ritos, nem as leis, nem os sábios daquela raça”29, sintetizando assim grotescamente a ignorância nacional, não obstante a nota de fina ironia, “sou bacharel formado; portanto na China, como em Coimbra, sou um letrado!”30. O antigo cônsul de Espanha em Macau, Enrique Gaspar y Rimbau, publica em 1887 o pioneiro romance de ficção científica El Anacronópete. Viaje a China – Metempsicosis31, revestindo-se de especial interesse uma carta32 enviada de Macau, em 30 de Abril de 1879, onde discorre sobre o pensamento de Confúcio e de Mêncio, no contexto dos exames imperiais que conferiam a dignidade mandarínica. Confúcio é, ainda, um nome popular e prestigiado, nas escolas e nos meios mais cultos da sociedade, tido como uma fonte de sabedoria e um símbolo da virtude. Por exemplo, Duarte Leite (1864-1950), professor, diplomata e político, 56 ANTÓNIO ARESTA____________________ 26 O Panorama, Vol. IX, 1852, pp. 75-76, 86-88, 91-93, 98-100, 106-107, 119-120, 125-126 e 131-132. A novela não está assinada. 27 Página 213. A revista, era dirigida por João Romano Torres, abre com uma “Homenagem ao Genial Poeta João de Deus” e toda a colaboração não está assinada. Contudo, grande parte dessa colaboração poderá ser associada a Lucas Evangelista Torres e aos seus filhos João Romano, Manuel Lucas e Fernando Augusto. 28 A edição portuguesa sob a chancela da Livraria Bertrand, Lisboa, s/d, tradução de Manuel Maria de Mendonça Balsemão. 29 O Mandarim, 3ª edição, Porto, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1889, p. 152. 30 Idem, p. 90. 31 Biblioteca Arte y Letras, Barcelona, 1887. Escreve 11 ‘Cartas al Director de Las Provincias’, todas datadas de Macau, a primeira de 26 de Setembro de 1878 e a última de 8 de Dezembro de 1882. 32 Idem, pp. 269-282.
  • iniciou-se na Maçonaria em 1892, na loja maçónica ‘União Latina’, no Porto, sob o nome simbólico de ‘Confúcio’33. Historicamente tem sido recorrente a tentação de conciliar ou acentuar as convergências entre o cristianismo e o confucionismo, no quadro geral dos sistemas religiosos. Oliveira Martins na sua esforçada erudição34 também se debruçou sobre a moral confuciana: “Na China a reforma de Confúcio, fazendo abortar a evolução ulterior dessa mitologia pela pregação de uma moral extraída prematuramente do animismo primitivo, condenou a religião a um estado de precocidade caduca e à esterilidade consequente. Uma moral frequentemente digna do aplauso da sabedoria mais pura, veio assentar sobre uma concepção realisticamente selvagem do mundo ulterior. Dotado, pois, com uma moral prática civilizada, o chinês manteve uma mitologia primitiva, mostrando assim na esfera religiosa esse aspecto duplo de velhice e de infância, visível por tantos outros lados nas civilizações do extremo Oriente”. Em 1887, o reverendo John Ross35 lançou de novo uma vigorosa e sedutora campanha de harmonização de ideias e de princípios entre o cristianismo e o confucionismo, que parece ter sido muito bem sucedida. No Ocidente, o cristianismo parece ter absorvido e melhorado algumas ideias axiomáticas caras ao confucionismo, tais como a bondade, a amizade, a caridade, a hospitalidade ou a piedade, esvaziando e apagando o contexto ontológico original que poderia estar mais focado no refinamento, na conduta, na lealdade e na confiança. Sampaio Bruno publica O Brasil Mental em 1898 advertindo para um pormenor que parecia escapar aos mais atentos: “A religião positivista é, pois, exactamente como, na China, a doutrina religiosa de Kong-fu-tse (mestre Kong, Confúcio). É um naturalismo ético enxertado na religião política de Saint-Simon; como ali se funda na dos Tchow, entendendo por isto, com Tièle, a ordem de coisas estabelecida, verosimilmente, pelo príncipe Tchow-Kong, assaz diferenciada do culto popular antigo. Consoante aqui, diversa da metafísica cristã (idealista, do tipo alexandrino) e só aceitando, não a dogmática, porém a disciplina católica”36. Tem passado completamente despercebido o romance O Lobo da Madragoa37 publicado por Alberto Pimentel em 1904, onde se dá conta das venturas 57CONFÚCIO____________________ 33 Pedro Magalhães, Duarte Leite (1864-1950), Edição do Município de Lousada, 2014, p. 22. 34 O Systema dos Mythos Religiosos, Lisboa, Livraria Bertrand, 1882, p. 71. 35 The Chinese Recorder and Missionary Journal, Nº 1, Vol. XVIII, January, 1887. No ensaio, “Our Attitude towards Confucianism”, (pp. 1-11), esforça-se por explicar “… to show that Confucianism from un enemy can be converted into a friend helpful to Christian teaching”, p. 10. Na contemporaneidade, será Henrique Rios dos Santos SJ, a trilhar esse caminho com O Rosário Com a Igreja da China, edição da Fundação AIS/Apostolado da Oração, 2008, 127 pp. Seleccionou 35 Pensamentos de Confúcio, dizendo: “Oferecemos um pensamento de Confúcio (Kong Fu Zi) para cada mistério também, como um modo de dar a conhecer as pontes que se podem estabelecer entre a tradicional cultura chinesa e o cristianismo”, p. 6. 36 O Brasil Mental, prefácio de António Telmo, Lello Editores, 1997, p. 155. 37 Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1904.
  • e desventuras de uma chinesa de Cantão em Portugal, cujo comportamento divergia dos padrões traçados pela moral confuciana. Em 1909 José da Costa Nunes, futuro Bispo de Macau, Arcebispo de Goa e Cardeal, publicará 24 Cartas da China38, onde entre outros assuntos, disseca com profundidade os pressupostos teóricos do confucionismo. Essa designação ‘Cartas da China’ estava em voga. José Gomes da Silva, médico e naturalista que deixou obra em Macau, também escreveu as suas Cartas da China no jornal ‘O Comércio do Porto’39, contemporâneas das Cartas do Japão assinadas por Wenceslau de Moraes. E é numa das suas Cartas do Japão que Wenceslau de Moraes analisa com invulgar argúcia o legado de Confúcio: “A moral de Confúcio, toda ela bonomia e singeleza, incompatível com a guerra, com a luta, poderia talvez ter feito a felicidade de toda a China em peso; mas, para tanto, seria forçoso admitir o absurdo ou o impossível, isto é, ou que a China fosse o Mundo inteiro, ou que ela pudesse manter-se eternamente isolada dos outros povos. Confúcio não considerou os outros países, julgou-os insignificantes, acreditou no eterno isolamento da sua enorme pátria. E não teve o pressentimento, vago embora (mas quem há vinte e quatro séculos o tivera?...), das estupendas energias de certas forças naturais – o vapor, a electricidade, a resistência do metal … – e da capacidade inventiva e irrequieta dos cérebros do Ocidente. Dormia a China; ou pelo menos, deliciava-se na contemplação da Natureza; nas artes e nas letras; enquanto que as outras nações progrediam em ciência, armavam-se e mais tarde viriam afronta-la”40. Em 1915 o professor Camilo Pessanha, poeta simbolista e sinólogo, profere uma conferência41, em Macau, sobre a cultura chinesa e aborda inevitavelmente o legado de Confúcio deste modo: “Mas a verdade é que Foc-Sang salvando a obra de Confúcio, salvou, para transmitir à posteridade, todo o património intelectual do povo chinês. Confúcio foi principalmente um compilador. O conferente expôs, resumidamente, o objecto dos livros de Confúcio, um por um, mostrando como neles se encontram os antigos cantos, as antigas lendas, a velha história, as velhas leis, os velhos ritos e a velha moral do povo chinês. A propósito do Livro das Transformações, anotado por Confúcio e já velho de mais de mil anos quando foi anotado, deu o conferente uma ideia da antiga concepção chinesa, dualista, do Universo, e dos dois símbolos pelos quais essa concepção é ordinariamente 58 ANTÓNIO ARESTA____________________ 38 Publicadas por Tomás Bettencourt Cardoso sob o título Cartas da China, edição da Fundação Macau, 1999. 39 Este diário matutino da cidade do Porto publicava nas primeiras páginas, por exemplo em 1905, as Cartas: de África, da Alemanha, do Paraguai, da Índia, do Japão, da Andaluzia, do Brasil, da Inglaterra, de Itália, dos Açores, de França, de Cabo Verde, de Espanha, etc. Sempre assinadas por correspondentes portugueses locais. 40 Wenceslau de Moraes, Antologia, Selecção de Textos e Introdução de Armando Martins Janeira, Prefácio de Daniel Pires, Vega, 2ª edição, 1993, p. 401. 41 Transcrita inicialmente no jornal O Progresso, 21.03.1915. Reproduzida em Monsenhor Manuel Teixeira, Liceu de Macau, ed. Direcção dos Serviços de Educação, Macau, 3ª edição, 1986, p. 389.
  • representada: o ma-li-u e os oito kua – de que o conferente fez o esboço no quadro preto e explicou o sentido. Concluindo esta parte da sua exposição, disse o conferente que da própria natureza da obra de Confúcio, do seu duplo carácter de enciclopédia e de monumento étnico colectivo, resulta em grande parte o alto prestígio que ela tem disfrutado sempre, e continuará a disfrutar através dos séculos, entre o povo chinês. É e continuará a ser o livro sagrado da China, porque nela o povo chinês encontra, na sua expressão mais adequada, mais alta e mais pura, o seu próprio pensamento e o seu próprio sentimento – a própria alma chinesa”. Por estas palavras se infere o seu continuado estudo da cultura e da filosofia chinesas, que três anos antes já tinha confidenciado ao seu amigo Carlos Amaro42: “E qual outro poderia ser aqui senão estudar a língua chinesa, os costumes chineses, a arte chinesa? A solidão intelectual e moral nestes meios é absoluta”. Abrindo um parêntesis para mostrar o atraso da nossa historiografia filosófica. Perto do fim dos anos trinta M. Gonçalves da Costa43 publica um estudo pioneiro em língua portuguesa sobre a filosofia chinesa antiga, lamentando “o ostracismo a que nas escolas do Ocidente se votavam as ricas fontes da sabedoria Oriental, procedendo-se como se a investigação filosófica se esgotasse nos sistemas gregos e seus comentadores escolásticos católicos”44. O autor considera Confúcio como o “mestre que se tem de ouvir para que a China volte à sua tradição e ao seu significado no mundo”45. Mas, o confucionismo possui uma significação flutuante, vaga e imprecisa46, ora como sistema religioso, ora como padrão ético, num percurso paralelo que se confunde. Sebastião Rodolfo Dalgado47 nota que o “confucianismo é o nome que os europeus dão à religião ou, antes, ao naturalismo ético, estabelecido na China por Confúcio, Kung-fu-tze, no século VI antes de Cristo”. Essa ambiguidade, longe 59CONFÚCIO____________________ 42 Carta enviada de Macau em 21 de Setembro de 1912, em Daniel Pires, Camilo Pessanha: Correspondência, dedicatórias e outros textos, ed. Biblioteca Nacional de Portugal/Editora Unicamp, Lisboa/Campinas, 2012, p. 186. 43 Filosofia Chinesa Antiga: da ética à metafísica, edição do autor, 51 pp., 1980. Este estudo data de 1937 e foi apresentado no Instituto Beato Miguel de Carvalho como tese de licenciatura em Filosofia, tendo sido publicado na Revista Brotéria em 1939. O autor refere a amizade com Domingos Tang e o auxílio deste para elucidar algumas dúvidas. Sobre Domingos Tang, ver, Os Insondáveis Caminhos de Deus. Memórias de D. Domingos Tang SJ, Arcebispo de Cantão, 1951-1981, Editorial A.O., Braga, 1990. 44 Idem, p. 5. 45 Idem, p. 11. 46 Mesmo nas línguas estrangeiras: Dicionário da Língua Galega de Isaac Alonso Estravís, Sotelo Blanco Edicións, 1995, p. 390; Dizionario Italiano Sabatini Coletti, Giunti, 1997, p. 557; Le Grand Robert de la Langue Française, Le Robert, Paris, 1992, Tome II, p. 816; The Oxford English Dictionary, Clarendon Press, Oxford, 1998, Vol. III, p. 719; The Collins Concise Dictionary of the English Language, Collins, 1989, p. 235; Diccionario de la Lengua Española, Real Academia Española, 1984, Tomo I, p. 358; Enciclopedia del Idioma de Martín Alonso, Aguilar, Madrid, 1958, Tomo I, p. 1175. Uma excepção, pode ser encontrada em Grand Usuel Larousse, Larousse-Bordas, 1997, Vol. 2, p. 1706. 47 Glossário Luso-Asiático, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1919, vol. I, p. 303.
  • de se filiar numa ética da virtude, pode ser colocada ao serviço de poderosos argumentos conflituantes com as liberdades e com o sistema político de governação. Simon Leys48, que é o pseudónimo do sinólogo Pierre Rickmans, marcou o ponto fulcral dessa ambiguidade: “Com efeito, o confucionismo de Estado deformou o pensamento do Mestre para o adequar às necessidades do Príncipe; nesta ortodoxia oficial, faz-se um uso selectivo de todas as suas afirmações que prescrevem o respeito das autoridades, ao passo que outras noções, não menos essenciais mas potencialmente subversivas, são largamente escamoteadas – é o caso da obrigação de justiça que deve moderar o exercício do poder e, sobretudo, do dever moral dos intelectuais de criticar os erros do soberano e de se oporem aos seus abusos, mesmo à custa da própria vida. Como consequência destas manipulações ideológicas, o nome de Confúcio acabou por se ver estreitamente associado ao exercício milenar da tirania feudal. No século XX, para a elite progressista, a sua doutrina tornou-se sinónimo de obscurantismo e de opressão”. Também Bertrand Russell49 no seu já clássico The Problem of China, apontava alguns desvios à antiga pureza doutrinária. E durante a revolução cultural maoísta, outro dos extremos do totalitarismo ideológico, escreve Henry Kissinger50, os “estudantes universitários e professores revolucionários de Beijing desceram à aldeia natal de Confúcio, jurando pôr termo à influência do velho sábio na sociedade chinesa de uma vez por todas queimando livros antigos, esmagando placas comemorativas e arrasando os túmulos de Confúcio e dos seus descendentes”. Ana Cristina Alves51, sinóloga portuguesa contemporânea, actualiza essas perspectivas, advertindo que “o confucionismo perdeu força na China durante o século XX, com a implantação das primeira (1912) e segunda repúblicas (1949). Actualmente está de regresso à casa-mãe e veio incorporado no Socialismo Espiritual dos novos tempos reformistas”. A contribuição do génio romanesco de Agustina Bessa-Luís proporciona-nos esta síntese admirável em A Quinta-Essência52: “Ricci não podia ficar indiferente ao pensamento de Confúcio, um agnóstico desprendido de toda a metafísica, criador duma moral fundada na natureza do homem sem os recursos do mistério. Isto devia confundir Ricci, para quem as práticas religiosas pertencem ao lado secreto da mesma natureza humana. Possivelmente há muito de verdade na aproximação jesuíta do Cristo e de Confúcio, patente na fachada da igreja de S. Paulo. Não foi 60 ANTÓNIO ARESTA____________________ 48 Ensaios sobre a China, Livros Cotovia, 2005, p. 248. 49 “Apart from filial piety, confucianism was, in practice, mainly a code of civilized behavior, degenerating at times into an etiquette book”, London, George Allen & Unwin Ltd, 1922, p. 43. 50 Da China, Quetzal Editores, 2011, pp. 216-217. 51 A Sabedoria Chinesa, Casa das Letras, 2005, p. 23. 52 Lisboa, Guimarães Editores, 1999, p. 347.
  • um simples discurso habilidoso, mas alguma coisa mais séria. Kongzi, o Confúcio dos padres da Companhia, ensinava quatro coisas: a moral, as letras, a lealdade e a boa fé. Ele furtava-se ao erotismo que, no seu tempo, desfrutava dum prestígio poético que lhe conferia qualidade recreativa e encantadora. Era uma tertúlia de mestre e discípulos em que tanto um como os outros interrogam e respondem. A dialéctica da teoria e da praxis foi introduzida por Confúcio antes de Marx a ter introduzido como ideia nova. A técnica do mestre baseava-se na polidez, ou nos ritos; a civilização chinesa resultou desse enorme quadro de maneiras a que Ricci acabou por anuir”. Claro que os extremos se conciliam, como notava Benjamim Videira Pires SJ53 que também escreveu um interessante artigo, “A Face Oriental de Cristo”54 , onde observa que a “esperança que Confúcio pôs na bondade da natureza humana, encontramo-la cumprida no Deus que assumiu essa natureza humana e nos anunciou a paz como o bem essencial desta vida”. Mas, fiquemo-nos apenas pelos anos vinte do século passado, com dois autores ainda pouco conhecidos, um em Macau, Manuel da Silva Mendes, e o outro em Portugal, o Visconde de Villa-Moura, que se debruçaram sobre a vida e o legado de Confúcio. De modos bem diferentes, é claro. II Em Macau, Manuel da Silva Mendes (1867-1931)55, um dos representantes mais notáveis da intelligentzia portuguesa, professor, jurista e sinólogo cujos interesses intelectuais se centravam no taoísmo filosófico e na estética, tinha uma 61CONFÚCIO____________________ 53 Os Extremos Conciliam-se (transculturação em Macau), Instituto Cultural de Macau, 1988. 54 O Clarim, Ano XXV, Nº 33, 24.08.1972. 55 A mais recente e completa edição da Obra Completa de Manuel da Silva Mendes: Manuel da Silva Mendes: Memória e Pensamento, organização de António Aresta e Rogério Beltrão Coelho, Edição Livros do Oriente, 3 volumes [570 pp. + 539 pp. + 519 pp.], 2017/2018. Sobre o autor, ver António Aresta, “Manuel da Silva Mendes: um intelectual português em Macau”, in Manuel da Silva Mendes: Memória e Pensamento, Vol. I, 2017, pp. 41-112; Amadeu Gonçalves, “Manuel da Silva Mendes: Entre Vila Nova de Famalicão e Macau”, idem, pp. 15-39; Tiago Quadros, “Do charme discreto do habitar. A Vila Primavera, locus amoenus de Manuel da Silva Mendes”, idem, pp. 113-121; Ana Cristina Alves, “O Tao de Manuel da Silva Mendes: do Tao Político ao Tao Poético”, in Manuel da Silva Mendes: Memória e Pensamento, Vol. II, 2018, pp. 21-34; António Graça de Abreu, “Manuel da Silva Mendes e Camilo Pessanha, a inimizade inteligente”, idem, pp. 49-60; Aureliano Barata, “Manuel da Silva Mendes: um olhar sobre Macau e o seu ensino”, idem, pp. 61-80; António Conceição Júnior, “O legado artístico de Manuel da Silva Mendes”, idem, pp. 83-100; Jorge Morbey, “Manuel da Silva Mendes, o homem e a sua circunstância”, in Manuel da Silva Mendes: Memória e Pensamento, Vol. III, 2018, pp. 15-21; Ana Cristina Alves, “Seis fotografias aéreas sobre a vida e obra de Silva Mendes”, idem, pp. 23-28; Maria dos Anjos da Silva Mendes, “Memória da Bisneta”, idem, pp. 31-44; Erasto Santos Cruz, “Excerptos de Filosofia Taoista & Questões de Tradução”, pp. 91-127; Carlos Botão Alves, “O Oriente na Literatura Portuguesa: Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes”, idem, pp. 129-210; António Aresta, “Bibliografia de Manuel da Silva Mendes”, idem, pp. 489-499.
  • visão larga dos problemas, “a vida, para ser vida, tem de ser activa, contrariada, inquieta, difícil, penosa, agra mais tempo do que doce, fértil em surpresas, encaminhada a um ideal de irrealização certa. Quietismo, neste mundo sub-lunar, é biologicamente falando, como dizia o outro, sonolência, não te rales, deixa correr o marfim; moralmente, é resolução covarde de viver”56. Esta ressonância heideggeriana da vida inautêntica parece ser um caminho problemático ao conflituar com as possibilidades da liberdade, que no limite se posiciona como um ataque à formação do ethos. Publicou no jornal ‘O Macaense’, de 10 de Outubro de 1920, um pequeno artigo sobre ‘Confúcio’57, sintético mas de grande densidade especulativa e cultural. Adverte-nos Manuel da Silva Mendes, “não se leiam, porém, as obras do Sábio sem suficiente preparação”58. Porquê, perguntará o leitor curioso. Exactamente porque, “os tempos são tão recuados, tão diferentes das antigas as modernas linhas do pensamento, os antigos costumes e instituições estão tão longe dos modernos, é tudo tão diferente hoje do que era sob as antigas dinastias chinesas, que correm risco, sem que o leitor saiba transportar-se em mente a tão distantes tempos, os seus escritos de ficarem incompreendidos. Foi por isto que o Sábio, na Europa, durante séculos passou por ser meramente fundador de uma religião, a que se chamou confucionismo; religião que todavia, qua tali na China nunca existiu nem Confúcio jamais pregou”59. Na opinião de Manuel da Silva Mendes, o segredo da longevidade do legado de Confúcio, registado e difundido pelos seus discípulos, residiu na simplicidade contida neste pormenor: “ora, quanto os antigos sábios chineses ensinaram, pela mudança dos tempos, dos costumes, das instituições, se foi perdendo ou tornando obsoleto e seus nomes no olvido pouco a pouco foram caindo: só o de Confúcio, porque falou do coração humano, dos mais lídimos sentimentos da alma humana, daquilo que na Natureza não tem poder os séculos de alterar, ficou. E ficará”60. Manuel da Silva Mendes captou muito bem a essência61 da ética e da moral confucianas, mas afastou-se de uma praxis que subalternizava as liberdades. 62 ANTÓNIO ARESTA____________________ 56 A Pátria, 27.07.1927. Republicado em Manuel da Silva Mendes: Memória e Pensamento, organização de António Aresta e Rogério Beltrão Coelho, Edição Livros do Oriente, 2018, Vol. III, pp. 330-331. 57 Utilizo a nova edição, Manuel da Silva Mendes: Memória e Pensamento, organização de António Aresta e Rogério Beltrão Coelho, Edição Livros do Oriente, 2017, Vol. I, pp. 381-382. 58 Idem, p. 382. 59 Idem, p. 382. 60 Idem, p. 382. 61 Dentro desta abordagem, veja-se, Cheng-Tien-Hsi, China Moulded by Confucius. The chinese way in western light. Published under the áuspices of the London Institute of World Affairs, London, Stevens & Sons Limited, 1947; Guy S. Alitto, The Last Confucian: Liang Shu-ming and the Chinese dilemma of modernity, Berkeley, University of California Press, 1979.
  • III Em Portugal, o Visconde de Villa-Moura (1877-1935), publica na revista “A Águia”, propriedade e órgão da Renascença Portuguesa62, no Nº 99/100, de Março-Abril de 1920, o conto ‘O Boneco’63. A revista “A Águia” era uma importante publicação mensal de literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social, dirigida por António Carneiro e Álvaro Pinto. Ora, esse conto, ‘O Boneco’ é, nada mais, nada menos do que Confúcio. O Visconde de Villa-Moura, de seu nome completo, Bento de Oliveira Cardoso e Castro Guedes de Carvalho Lobo, nobilitado pelo Rei D. Carlos em 1900 com o título de Visconde, era formado em Direito pela Universidade de Coimbra, grande proprietário rural em Baião, no Douro, e autor de uma obra literária muito extensa e variada64, esteticamente acondicionada no decadentismo e politicamente muito próximo do integralismo lusitano. João Alves65, um dos seus primeiros estudiosos, defende que “António Nobre e Vila-Moura foram os criadores do decadentismo em Portugal”. Por sua vez, António Cândido Franco refere que a “sua obra, quando exalta o erotismo e pugna pelo amor livre, apresenta afinidade com a de Teixeira Gomes e procura as suas fontes gradas em Fialho, no Fialho das perversões rebeldes, a quem de resto dedicou um livro-estudo, Fialho de Almeida (1917), e em Camilo, o Camilo do amor pecaminoso e dos amantes penitentes, a quem também dedicou vários trabalhos, entre eles, Camilo Inédito (1913) e Fany Owen e Camilo (1917)”66. Bem diferente é a crítica de Óscar Lopes67 que não esconde o seu ferrete ideológico, comunista, quando aponta as questões “esteticistas e fascistas” ou o “sentido monarco-fascista e católico integrista” que julga ter encontrado em alguns dos seus livros. Amigo e correspondente de Fernando Pessoa, a obra do Visconde de Villa-Moura está por descobrir, por estudar, quiçá por reeditar. 63CONFÚCIO____________________ 62 Sobre a Renascença Portuguesa, ver Alfredo Ribeiro dos Santos, A Renascença Portuguesa: Um Movimento Cultural Portuense, prefácio de José Augusto Seabra, edição da Fundação Eng. António de Almeida, 1990, 285 pp.; Paulo Samuel, A Renascença Portuguesa. Um Perfil Documental, ed. Fundação Eng. António de Almeida, 1990, 397 pp.. 63 Todas as referências a este conto remetem para a publicação na Revista ‘A Águia’. 64 Por exemplo: A Moral na Religião e na Arte, 1906; A Vida Mental Portuguesa: psicologia e arte, 1909; Vida Literária e Política, 1911; Nova Sapho, 1912; Doentes da Beleza, 1913; Camilo Inédito, 1913; Boémios, 1914; António Nobre: seu génio e sua obra, 1915; Fialho de Almeida, 1916; Grandes de Portugal, 1916; As Cinzas de Camilo, 1917; Pão Vermelho: sombras da grande guerra, 1924; Cristo de Alcácer, 1924; Irmã das Árvores, 1924; Entre Mortos, 1928; O Pintor António Carneiro, 1931; Novos Mitos, 1934. 65 “Vila-Moura e o Decadentismo Português”, in PRISMA, Revista Trimestral de Filosofia, Ciência e Arte, [direcção de Aarão de Lacerda], Nº 4, 1937, pp. 202-207. 66 “Visconde de Vila-Moura”, in Fernando Cabral Martins, coordenação, Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, Editorial Caminho, 2008, pp. 896-897. 67 Entre Fialho e Nemésio. Estudos de Literatura Portuguesa Contemporânea, Vol. I, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987, pp. 417-420.
  • 64 ANTÓNIO ARESTAO conto de Villa-Moura, ‘O Boneco’, foi dedicado a António Cândido68, a águia do Marão, como lhe chamou Camilo Castelo Branco, e apresenta-nos a história de António Marcos, um burguês muito rico e misógino, que vivia com uma velha criada, Teresa, completamente isolado da mundanidade e que “estudava uma interpretação individualista do platonismo, que alterava num sentido mais aristocrático69”. Em casa “mandava o espírito de Platão, de Aristóteles, de Séneca, de criaturas, em que a Teresa nem por fumos sonhava, e … um boneco, um autêntico e precioso boneco, a figura de Confúcio, em fina porcelana70”. Com um remoque subtil aos colecionadores e a outros amantes da chinoiserie dizia que “a figura de Confúcio, que Marcos havia trazido de Saxe, e não directamente da China, era uma maravilha. Por ele tinha seguido pelo Elba até ao Báltico, para policiar o seu acondicionamento e jornada71”. Afinal ‘O Boneco’, Confúcio, era um relógio falante: “o Dr. Kong falava, não já para expor aos seus três mil discípulos a súmula do Ta-hio, mas sobre a pressão dum botão disfarçado em flor à fímbria da túnica, para cantar, numa voz metálica, a característica e impressionante voz dos surdos, aquela legenda do fatídico relógio de Colónia: Todas as horas ferem, a derradeira mata!...72”. Percebe-se que o autor manifestava algum incómodo por se perorar com muita frequência sobre Confúcio e seus ensinamentos, sem ler as suas obras e os comentários dos seus discípulos, porque as repetições se assemelhavam a transgressões no limite das deturpações. O relógio estava colocado numa estante e “arrumavam-se a seus pés, suas principais obras, o Ta-hio (Grande Estudo), o Tchung-yung (Fixidez do Meio) e o Lung-yu (Diálogos Morais) – flores exóticas da Filosofia, e que ali figuravam como outros tantos símbolos da alma recta e compungida do iluminado73”. Um dia, já muito doente, e sentindo a morte a aproximar-se, António Marcos chama a criada e manda queimar num braseiro todo o seu grande sistema filosófico, “uma interpretação individualista do platonismo, que alterava num sentido mais aristocrático”74, escrito em cadernos durante anos a fio, suspirando, “foi um passatempo!75”. A “Teresa, que andava como sonâmbula naquela tragédia ____________________ 68 António Cândido Ribeiro da Costa (1850-1922), natural de Amarante, formado em direito pela Universidade de Coimbra, grande orador, ministro, par do reino e presidente do parlamento. Integrou o célebre grupo dos ‘Vencidos da Vida’, com Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, entre outros. As suas obras principais são as seguintes: Princípios e Questões de Filosofia Política, 1878; Orações Fúnebres, 1880; Discursos e Conferências, 1890; Discursos Parlamentares, 1894. 69 A Águia, Nº 99-100, Março/Abril de 1920, p, 79. 70 Idem, p. 82. 71 Idem, p. 83. 72 Idem, p. 84. 73 Idem, p. 84. 74 Idem, p. 79. 75 Idem, p. 87.
  • da mais extravagante alquimia, em breve ateou fogo à papelada, que brilhava sobre os restos negros a espiguilha misteriosa e vermelha, logo morrente, da filosofia de António Marcos, e lhe levara uma vida a grafar”76. Entrega à criada um documento assinado por si, conferindo-lhe a posse de ‘O Boneco’.“por ele é teu o Chinês da sala grande! É o melhor traste da casa! Nunca o vendas! E se algum dia sentires miséria, antes o partas! Chover-te-á dos seus cacos a abundância!77”. Dito isto, morreu. Então, a velha Teresa, atormentada pela morte do patrão e apatetada pela insólita herança que lhe coube, “entrou na sala grande quase a correr, e sem dar conta da multidão de figuras, que, aquela hora, envoltas do fumo, pareciam igualmente partir, dirigiu-se ofegante, nervosamente agarrada à figura fria do Dr. Kong, para a câmara torva do Morto. Mas antes que chegasse junto do defunto, perto do qual pensara em pousá-lo, ao passar pela cruz de pau negro que, fronteira ao leito, se espalhava, a toda a altura da parede, embaraçou-se nas réguas do velho sinal, pelo que o pesado fardo lhe deslizou dos braços, desfazendo-se no chão, em cacos, por entre a chuva dos mais finos tinidos, à mistura do grito civilizado, amarelo, dalgumas centenas de esterlinas, que António Marcos havia confiado de suas entranhas para prover ao futuro da maquinal companheira de sempre78”. O humor camiliano está presente neste desfecho inesperado, onde uma pequena fortuna em libras de ouro, guardada nas entranhas de ‘O Boneco’, parece pulverizar os remorsos da velha ética confuciana. Esta exumação da dimensão sapiencial dos ensinamentos confucianos está em linha com uma modernidade pendurada num sistema de conceitos que mais tarde se irão alimentar de Marx, Nietzsche e Freud, na ressaca da erosão dos valores e dos poderes após o termo da primeira grande guerra. IV O Confúcio de Manuel da Silva Mendes e o Confúcio do Visconde de Villa-Moura, continuam a ser um e um só. Silva Mendes valoriza a inquietação do pensador e a sinceridade dos combates que travou para colocar em prática as suas ideias, o ser contra o ter. Este idealismo, profundamente ligado a um devir emocional, constrói uma ética e uma moral de pensamento e acção, dentro de uma realidade inexoravelmente maior do que o alcance da individualidade. A liberdade é a grandiosa energia, a substância 65CONFÚCIO____________________ 76 Idem, p. 87. 77 Idem, p. 87. 78 Idem, p. 88.
  • 66 ANTÓNIO ARESTAda vida em comunidade autêntica. Nas derivações históricas do confucionismo, a liberdade parece transformar-se numa espécie de exílio moral ou numa nota de rodapé da história dos povos. O Visconde de Villa-Moura, preocupado com o excesso amplificante da razão confuciana, introduz um jogo irónico no pathos do seu auditório, misturando o vil metal, o ouro, com a angústia e a solidão existenciais, porque, reflecte de si para si, “nas letras, como afinal em tudo, os ignorantes têm em menos estima o feitio do que o peso. São para o Pensamento, para a Ideia, o que o ourives estúpido é para o oiro lavrado. Fiam da balança o que ninguém pode fiar deles, do seu juízo, naturalmente muito reduzido em poder de selecção, em critério de escolha79”. Depois de ter lido O Mandarim, de Eça de Queiroz, encontrou na desconstrução de um símbolo da moda intelectual, Confúcio, o caminho para uma abordagem polissémica da consciência infeliz, de Hegel e de quase todo o idealismo alemão. É nesse referencial de melancolia que afirma80, “Eu leio Nietzsche como os estudantes de piano tocam escalas – por exercício”, terminando o conto sem devolver à velha criada o sentido da responsabilidade pela sua nova identidade. E é nesta incisão nietzcheana que se pode inscrever o seu erotismo misógino quando afirma, “amai o amor, não ameis exclusivamente alguém!”81 em contraponto com essa descrição com tantas estranhas referências: “a boca do Filósofo, de expressão fixa, fria como a boca da rocha, somente aberta ao fio branco e gelante da mais cristalina doutrina, jamais havia inspirado, em sua vida consciente, o perfume dum beijo; ignorando, de igual sorte, a alma dos lírios, chagas olorosas da crosta terrena, mudável ao sabor das estações, tal qual a pele das cobras, que em seus infinitos ninhos, aquela abriga!”82. Contudo, teremos de esperar vinte e três anos, por Agostinho da Silva que publica em 1943, uma breve e singela biografia, O Sábio Confúcio83, isto é, um Confúcio popular e acessível a todos, com uma cuidadosa aproximação a uma diferente espiritualidade. Era o regresso do Confúcio do povo, com ideias simples e eufóricas no indefinível sagrado/profano das argumentações, disponível para ser aprisionado pela retórica negra do poder político. ____________________ 79 Vida Literária e Política, Porto, Magalhães & Moniz Editores, 1911, pp. 97-98. 80 “Flores de Vidro”, in Contemporânea, Revista Mensal, Ano III, Nº 10, Março de 1924, p. 11. 81 A Águia, Nº 99-100, Março/Abril de 1920, p. 80. 82 Idem, p. 80. 83 Porto, Oficina de S. José, 1943, 29 pp.
  • 67CONFÚCIOANEXO Carta da Associação de Confúcio84 Aos Exmos. Srs. Directores em Ch’io-chao e Ch’un-chao De há muito que a montanha da Barra (Má-chu-kók) era tida como um lugar célebre. Os literatos compunham nela as suas odes e gravavam nas suas pedras, sem nunca isso lhes ser proibido por pessoa alguma. Por exemplo, Sai-u, em Chit-kóng, Pak-fá-chao, em Uai-chao, e em todos os distritos, prefeituras e províncias que tenham lugares por pouco célebres que sejam, jamais se proibiu que pessoas fossem passear e disfrutar das paisagens desses lugares e gravar poesias nas suas pedras. Isto são manifestações próprias de indivíduos de raça culta que, quando lhes vem inspiração, compõem as suas estrofes, deixando assim vestígios da sua passagem para os vindouros, e nunca ninguém lhes pôs qualquer embaraço. Daqui se vê que em todo o mundo se procede do mesmo modo, mesmo nas regiões as mais afastadas. Os sentimentos dos homens têm sido mesquinhos nestes últimos tempos mais próximos, resultando disso a depressão da doutrina mundial. Se não procurarmos expandir a doutrina de Confúcio, não poderemos efectuar a regeneração da humanidade. É isso o que nos preocupa constantemente. No ano cíclico Iam-sôt, a sede da Associação de Confúcio em Pekim, no intuito de expandir a doutrina de Confúcio, dirigiu uma carta à filial de Macau, convidando-a a que propagasse a mesma doutrina e gravasse uma lápide para esse fim, a fim de servir de recordação. Em vista disso, reunimo-nos em sessão (cópia de cuja acta vai junta) e, considerando que a montanha da Barra (Má-chu-kók) é um dos sítios aprazíveis de Macau e onde existem blocos e pedra imponentes, cheios de inscrições poéticas, resolvemos, no ano passado, contratar operários para, num desses blocos, gravar as letras Ch’eong-meng-k’óng-kao (que a doutrina de Confúcio se torne resplandescente), esculpindo-se também neles, para servir de recordação, os motivos que nos levaram a fazer isso e os nomes dos promotores. ____________________ 84 Publicada pelo Padre Manuel Teixeira no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau [do qual era Director e Editor], Ano e Volume LXXVII, Janeiro-Fevereiro de 1979, Nº 888/889, pp. 106-108.
  • Esses trabalhos ficaram concluídos em dois meses. O nosso fim único e exclusivo era ter um meio que fizesse constantemente lembrar a todos as doutrinas de Confúcio, tal qual o tambor e o sino servem para chamar a atenção dos seres viventes. Além disso, Confúcio é o mestre arquissecular dos chineses, e o seu nome, mesmo na Europa, é venerado grandemente pelos literatos de fama. Quando resolvemos mandar fazer a referida inscrição, não nos passou pela mente que havia de aparecer alguém que a fosse borrar. Não sabemos se esse acto foi feito com a vossa aprovação. No entanto, certos como estamos da vossa inteligência e cultura, não acreditamos, de maneira alguma que V. Exas. tivessem ordenado tal acto. A crença nas religiões é do livre arbítrio de cada qual, conforme está decretado na constituição do País. Não existe entre nós inimizade alguma. Além disso, nenhuma outra religião hostiliza as doutrinas de Confúcio. Ponhamos de parte o passado. Somos todos chineses e não devemos expor-nos ao ridículo dos estrangeiros. O dia 18 do corrente é o 2402º aniversário do falecimento de Confúcio. Com o fim de regularizar o nosso procedimento futuro, tencionamos restaurar a inscrição feita na pedra (da montanha da Barra) a fim de que a doutrina de Confúcio brilhe como o sol e a lua e possa incutir uma pequena parcela de rectidão no coração dos homens. Sabendo perfeitamente que V. Exas. têm sempre muito a peito tudo o que se passa no mundo e que são modelos dos seus concidadãos, pedimos-lhes que nos auxiliem a proteger essa pedra, prestando assim culto à doutrina de Confúcio. É-nos escusado chamar a atenção de V. Exas., pessoas inteligentes e cultas, para o facto de que a nossa associação é uma corporação pública, constituída por todos os chineses aqui estabelecidos, e não uma corporação particular, formada apenas por dois ou três indivíduos. É quanto temos a comunicar a V. Exas., rogando-lhes o favor duma resposta. Desejamos-lhes saúde. Acompanha esta uma cópia da acta da sessão. (a.a.) Ch’oi-men-hin e Chiong-san-nông. (selo) Filial da Associação de Confúcio de Macau. 9 da 4ª lua do ano 2475º do nascimento de Confúcio. Idêntica carta foi enviada a cada uma das prefeituras de Ch’io-chao-Cheong-chao e Ch’un-chao. Macau, Repartição do Expediente Sínico, 13 de Novembro de 1924.68 ANTÓNIO ARESTA
  • Confúcio
  • Livros publicados no âmbito da colecção SUMA ORIENTAL 1 – Timor – da guerra do Pacífico à desanexação Fernando Lima 2 – Liou She Shun – Plenipotenciário do Império da China – Viagem ao Brasil em 1909 Carlos Francisco Moura 3 – Macau 1937-45 – Os anos da Guerra João F. O. Botas 4 – Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje Alexandra Sofia Rangel 5 – Chineses e Chá no Brasil no início do Século XIX Carlos Francisco Moura 6 – Portugal e Indonésia – História do Relacionamento Político e Diplomático (1509-1974) Coordenação - Jorge Santos Alves 7 – Brasileiros nos Extremos Orientais do Império (Séculos XVI a XIX) Carlos Francisco Moura 8 – Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje - Edição Chinesa Alexandra Sofia Rangel 9 – Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente António Aresta 10 – China na Grande Guerra – A Conquista da Nova Identidade Internacional Luís Cunha 11 – Mao, China y Los ‘Otros’ Beatriz Hernández 12 – Joaquim Guerra S.J. (1908-1993) Releitura universalizante dos Clássicos Chineses Antonio José Bezerra de Menezes Jr 13 – Macau Confidencial João Guedes 14 – O Oriente na Literatura Portuguesa – Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes Carlos Miguel Botão Alves 15 – China’s Techno-Nationalism in the Global Era – Strategic Implications for Europe Luis Cunha 16 – Five Hundred Years of Macau Stuart Braga 17 – The Western Pioneers and their discovery of Macao J. M. Braga 18 – Da estada em Macau do Dr. Sun Yat Sen – interpretação do seu pensamento revolucionário Fok Kai Cheong 19 – Before the first Guangzhou uprising in 1895 – The Macau experience deciphering the revolutionary thoughts of Dr. Sun Yat Sen Fok Kai Cheong 20 – Instrumentos Musicais Chineses – Colecção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau/Lisboa Enio de Souza 21 – Para uma Literatura da Identidade Macaense – Autores/Actores Maria Barras Romana 22 – A Faixa e Rota chinesa: a convergência entre Terra e Mar Paulo Duarte
  • 23 – A China e a Revitalização das Antigas Rotas da Seda Novo Vetor do Comércio Mundial Coordenação – Fernanda Ilhéu e Leonor Janeiro 24 – Pioneers of Macao – the story of 14 Chinese who helped to make the city Mak O’Neil 25 – Macau – um diálogo de sucesso Fernando Lima 26 – Figuras de Jade II – Os Portugueses no Extremo Oriente António Aresta 27 – Dating à chinesa – A comercialização do casamento na China contemporânea Shenglan Zhou 28 – Pioneiros de Macau – a história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade Mark O’ Neill 29 – Filhos da terra – A comunidade macaense, ontem e hoje (2ª edição) Alexandra Sofia Rangel 30 – The New Silk Road and the Portuguese Speaking Countries in the New World Context Coordenação – Fernanda Ilhéu, Francisco Leandro e Paulo Duarte 31 – ... everyday is mine – The life of Pedro José Lobo Marco Lobo
  • Revisitar Confúcio, a partir de um conto escrito pelo Visconde de Villa Moura há cem anos, em 1920, na Revista A Águia, órgão da Renascença Portuguesa, é a proposta apresentada neste volume. Para além do conto original, assinado pelo Visconde de Villa Moura, apresentam-se três estudos complementares sobre o valor, a simbologia e a complexidade da herança cultural e filosófica do confucionismo.Confúcio está presente, com uma insuspeitada transversalidade, em vários sectores da cultura portuguesa. ISBN 978-989-54696-1-19 7 8 9 8 9 5 4 6 9 6 1 1
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