• 282019MacauMark O´NeillMacauPioneiros deA história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade
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  • Pioneiros de Macau A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidadeAutorMark O´NeillEditor Donal ScullyEditoraMacaulinkTraduçãoFernando CorreiaComposição e arranjo gráficoFernando ChanColecçãoSuma OrientalTiragem500 exemplaresImpressãoWelfare Printing, MacauISBN978-99965-59-31-0Macau, Maio de 2019Com o patrocínio da
  • Mark O´NeillMacauPioneiros deA história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade
  • ÍndiceCapítulo 1: Zheng Guan ‑ying 7Capítulo 2: Lou Kau 23Capítulo 3: Zhan Tian ‑you 37Capítulo 4: Sir Robert Ho Tung 53Capítulo 5: Dr Sun Yat ‑sen 73Capítulo 6: Kou Ho ‑ning 85Capítulo 7: Lou Lim Ieoc 99Capítulo 8: Leung Yan ‑ming 109Capítulo 9: Fu Tak Iam 117Capítulo 10: Wong Man ‑dat e Lo Sai ‑dong 131Capítulo 11: Xian Xinghai 137Capítulo 12: Florence Li Tim Oi 153Capítulo 13: Domingos Lam 171
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  • Zheng Guan ‑yingCapítulo 1
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  • Capítulo 1: Zheng Guan-ying9Reformador e escritor com grande influência sobre a sua geraçãoUm dos locais mais populares para quem visita Macau é a Casa do Mandarim, uma imponente mansão particular, constituída por um conjunto de quartos e de pátios, que ocupa uma área total de 4000 me-tros quadrados. Foi nesta casa que Zheng Guan-ying, um funcionário superior e homem de negócios da China, escreveu um dos mais influentes livros dos finais do século XIX. Um livro que moldou o pensamento de gerações de chineses.Em 1894, Zheng publicou os primeiros cinco capítulos do livro Palavras de advertência em tempos de prosperidade, a que se seguiram 22 outros capítulos ao longo dos seis anos seguintes. O livro é uma espé-cie de bíblia reformista, um documento de acusação de um grande país em decadência e um programa para alcançar a sua salvação: uma monar-quia constitucional, um novo sistema de exames e de educação, uma rede densa de estradas, caminhos-de-ferro e telégrafos, o estudo da ciência e da medicina ocidental. A obra, que analisa ainda a relação íntima entre o poderio militar de uma nação e a sua capacidade comercial, tornou-se imediatamente num sucesso.O imperador Guangxu (1871-1908) gostou tanto que deu instru-ções para que 2000 cópias fossem entregues aos seus ministros e a outros funcionários superiores. O livro ajudou o imperador a iniciar um vasto programa de reformas – incluindo muitas das defendidas na obra – em Junho de 1898.Zheng capturou o espírito do seu tempo e descreveu os sentimentos de milhares de intelectuais. Estes davam conta da humilhação sofrida pelo país, que já tinha sido uma nação poderosa, por outras nações que tinham uma fracção do seu tamanho e ficavam a milhares de quilóme-tros. O livro teve 20 edições e vendeu mais cópias do que qualquer outro título publicado na mesma altura. Entre os seus leitores encontravam-se Kang You-wei e Liang Qi-chao, dois dos dirigentes da Reforma dos 100 Dias (11 de Junho a 22 de Setembro de 1898), que lograram escapar da pena capital apenas porque fugiram para o Japão.Sun Yat-Sen, líder das forças revolucionárias que em 1911 conseguiram derrubar a dinastia Qing (1644-1912), adoptou muitas das ideias de Zheng quando elaborou os seus planos para uma república chinesa moderna.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade10Outro dos leitores foi Mao Zedong, fundador da República Popular da China. “Gostei muito deste livro”, escreveu Mao em 1936. “O autor era um velho reformista que pensava que a fraqueza da China se devia ao facto de não dispor dos mesmos instrumentos do Ocidente, ou seja, caminhos--de-ferro, telefones, telégrafos e barcos a vapor”. Após ter tomado o poder, Mao seguiu o conselho de Zheng, tendo feito da rápida industrialização da China uma das suas prioridades.A casa em Macau proporcionou a Zheng um refúgio para a reflexão e escrita, em simultâneo com uma vida pública recheada de desafios e retrocessos.A casa foi mandada construir em 1869 por seu pai, Zheng Wen-rui, um académico, intelectual e coleccionador de livros antigos, com a aju-da financeira do filho. A família de Zheng era originária de Xiangshan, actual município de Zhongshan, uma localidade fronteiriça a Macau. A colónia portuguesa era o destino favorito das pessoas abastadas e da elite intelectual de Zhongshan. Era, então, a cidade mais moderna da região, capaz de oferecer um nível de conforto e de exposição ao mundo exterior a que não tinham acesso no município. Além disso, o enclave português surgia como um santuário a todos quantos tinham caído em desgraça junto do governo imperial, em número cada vez maior nas décadas finais da sua existência. A casa era, à data, uma das maiores residências particulares existen-tes em Macau, com um complexo de pátios e com uma frente superior a 120 metros. A família Zheng residia em dois edifícios isolados com dois e três andares. Havia igualmente alojamento para os criados, com um andar, bem como jardins. Zheng Guan-ying e um seu irmão mais novo procederam à expansão da residência familiar depois de lá terem passado a viver. Não existe em Macau qualquer outra moradia para uma família com dimensão ou tipologia semelhante.Nascido numa família intelectualZheng nasceu a 24 de Julho de 1842 no bairro Yongmo de Sanxiang, concelho de Xiangshan, no seio de uma família intelectual. Seu pai, Zheng Wen-rui, nunca efectuou o exame de admissão à carreira pública, tendo
  • Capítulo 1: Zheng Guan-ying11trabalhado como professor na cidade de Sanxiang1. De toda a China, esta era a zona mais próxima de Macau e a mais aberta ao mundo exterior e, durante a parte final da dinastia Qing e do início do período republi-cano, a cidade produziu muitos empresários, escritores e diplomatas de distinção. Zheng era um deles. Tendo passado os primeiros anos na sua terra natal, quando tinha sete ou oito anos de idade a família mudou-se para Macau.Na sequência da Guerra do Ópio, os portos de Xangai e de Cantão abriram-se ao comércio externo. Fortunas foram amealhadas por aqueles que conseguiram envolver-se num novo tipo de negócio, ou seja, a im-portação de produtos estrangeiros e a exportação de produtos chineses. Uns tios e primos de Zheng tinha ido para Xangai para trabalhar nesta nova actividade, como compradores para empresas estrangeiras. Seu pai decidiu que o jovem teria um futuro melhor nos negócios do que em prosseguir os estudos tradicionais de um académico. Assim, em 1858, quando Guan-ying tinha 16 anos e não tinha ainda concluído os seus estudos, o seu pai enviou-o para Xangai para ir residir com o tio e trabalhar igualmente numa empresa comercial estrangeira. Isto representou para o jovem uma experiência inestimável. O jovem fica-va sentado no escritório de seu tio, escutando e assim aprendendo, dando ainda início aos estudos da língua inglesa. Em 1859, devido à recomen-dação efectuada por um seu familiar, foi trabalhar na Butterfiled & Swire (B&S), uma das mais importantes firmas comerciais britânicas da época. No Inverno desse ano efectuou a sua primeira viagem comercial até ao porto nortenho de Tianjin. A fim de melhorar o domínio da língua inglesa, matriculou-se no curso nocturno da Escola Anglo-Chinesa, que tinha sido montada por um missionário britânico. Em representação da empresa para a qual tra-balhava abriu sucursais nas províncias de Jiangxi e Fuzhou e estabeleceu numa nova empresa de navegação em regime de parceria. Data dessa altura o seu interesse pela política e economia ocidentais.A Butterfield & Swire, a empresa comercial do Extremo Oriente da John Swire and Sons (JS&S), foi uma das três empresas com base na par-ceria entre William Swire e R. S. Butterfield. O escritório de Xangai abriu a 1 de Janeiro de 1867 a fim de se ocupar dos carregamentos de têxteis 1. Actualmente corresponde à cidade de Zongshan.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade12para a China que tinham sido anteriormente consignados à Preston, Bruell & Co. Quase de imediato, as actividades da empresa expandi-ram-se com a aquisição da empresa de navegação Blue Funnel Line, de Alfred Holt. A empresa expandiu-se para a navegação, seguros e outras áreas, o que fez com que o negócio dos têxteis, que esteve na base da sua constituição, tenha acabado por ser abandonado.Ao longo do século foram abertas sucursais e agências estabelecidas em portos do Japão, ao longo do rio Yangtzé e ao longo da costa do país para sul, incluindo, em 1870, o escritório de Hong Kong, a quem foi concedido um estatuto semelhante ao de Xangai. A expansão também abrangeu o Sudeste Asiático, Austrália e as Filipinas até uma altura em que havia escritórios ou agentes da B&S na maior parte dos países do Extremo Oriente. Embora a parceria com Butterfield tenha sido dissolvida em 1868, a empresa manteve o seu nome original; novos parceiros foram admitidos por John Swire, muito particu-larmente depois de seu irmão se ter aposentado em 1876.A constituição da China MerchantsEm 1868, Zheng começou a negociar chá por conta própria e tor-nou-se sócio da empresa de transporte marítimo Gongzheng. Em 1872, foi nomeado superintendente da Yangzhou Baoji Salt Company, na província de Jiangsu. No ano seguinte, tornou-se num dos accionistas fundadores da Swire Shipping e accionista da China Merchants Steamships (CMS). Essa empresa tinha sido criada pelo governo Qing para concorrer com as empre-sas estrangeiras que dominavam os negócios de importação e exportação da China. A empresa mantém-se em actividade e a prosperar, tendo sede em Hong Kong e, na actualidade, é um grande conglomerado internacional. Em 1874, Zheng aceitou o cargo de gerente da Swire Shipping e estabeleceu sucursais e escritórios financeiros da firma em portos no rio Yangtzé e os negócios prosperaram.Além disso, diversificou os seus investimentos particulares, tendo colocado dinheiro na mina de carvão Kaiping, na província de Hebei, na companhia de papel de Xangai (Shanghai Paper) e na Shanghai Machinery and Textile Bureau. Tendo começado como comprador, era agora um capitalista. Zheng tinha um relacionamento próximo com Li
  • Capítulo 1: Zheng Guan-ying13Hong-zhang2 e outros líderes do “Movimento de Auto Fortalecimento da China”. Li era um alto funcionário do governo Qing e um dos prin-cipais defensores da modernização. Ele e aqueles que pensavam como ele queriam fomentar a capacidade industrial, técnica e militar do país, para permitir que a China competisse em igualdade de condições com as potências coloniais estrangeiras.Havia poucos homens na China com o curriculum vitae de Zheng. Tinha trabalhado numa posição elevada numa das firmas de comércio ex-terno que controlavam os negócios de importação e exportação da China. Isso permitiu-lhe entender os métodos ocidentais de gestão, de contabili-dade e de controlo tanto do pessoal como do dinheiro. O seu próprio país, a China, tinha poucas ou nenhumas empresas do mesmo tipo. A CMS foi constituída como um modelo, utilizando métodos de gestão ocidental. A empresa precisava de pessoas do tipo de Zheng para a gestão, uma vez que os funcionários governamentais não tinham nem os conhecimentos nem a experiência necessária. A carreira de Zheng pro-porcionara-lhe uma ampla gama de contactos nos mundos do funciona-lismo e dos negócios e tornara-o extremamente rico. Tinha uma família numerosa, com várias esposas e concubinas.Muitos de seus colegas reformadores foram educados em escolas e universidades estabelecidas por estrangeiros ou por missionários es-trangeiros e estudaram e trabalharam em países ocidentais. Zheng nunca viajou para o Ocidente. Os seus conhecimentos provieram-lhe da sua carreira profissional em Xangai que lhe proporcionou uma cultura de ne-gócios de mistura do Ocidente e da China, única no país naquela época. Outras influências foram a cultura de sua cidade natal em Xiangshan e o Taoísmo, de que era um crente e praticante fiel.Em 1880, o imperador Guangxu nomeou Zheng para gerir tanto o Shanghai Machinery and Weaving Bureau como o Departamento de Telégrafos de Xangai. No mesmo ano completou o livro A propósito de mudança, uma compilação de 36 ensaios com as suas ideias sobre reformas políticas e sociais e a sua defesa da concorrência no mercado, onde usou o termo shang zhan (商戰), que significa literalmente “guerra 2. Li Hong-zhang, marquês Suyi (também romanizado como Li Hung-chang) (15 Fevereiro 1823 – 7 de Novembro de 1901), foi um político, general e diplomata dos anos finais da dinastia Qing. Teve um papel de relevo na supressão de diversas revoltas e teve cargos de importância na corte imperial Qing, incluindo a de vice-rei de Zhili, Huguang e Liangguang.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade14comercial”. Em 1882, publicou uma versão abreviada do livro, que pre-tendia que chegasse aos mais elevados escalões de decisão do governo, incluindo a corte Qing e os funcionários superiores.Os ensaios defendiam o estudo da aprendizagem e dos métodos ocidentais e a tradução para o chinês de livros ocidentais sobre ciência, tecnologia, indústria e forças armadas. Também propôs a introdução da produção de máquinas, o desenvolvimento da indústria e do comércio, encorajou as empresas privadas a investirem na indústria, incluindo mi-nas, construção naval e linhas de caminhos-de-ferro.Manifestou a sua indignação com um sistema tributário que fa-vorecia injustamente as empresas estrangeiras na China em detrimen-to das nacionais. Propôs igualmente uma reforma política e um sistema constitucional de governo. Como muitos reformadores, Zeng via a Grã-Bretanha e o Japão como modelos a seguir, países que combinavam a monarquia com o governo representativo.Em 1882, deixou a empresa Swire depois de nela ter trabalhado durante mais de 20 anos, tendo concentrado as suas energias na CMS. Em face da concorrência feroz das companhias de navegação estrangei-ras, apoiadas por um sistema tributário que as favorecia, a CMS não se encontrava em boa situação. Zheng elaborou uma lista de 16 propostas para melhorar o desempenho, tendo-a apresentado a Li Hong-zhang. As propostas incluiam um sistema mais racional de contratação de pessoas, recompensas e penalidades por bons e maus desempenhos e medidas para cortar custos. Li aceitou o plano e Zheng colocou-o em prática. Assinou também um acordo com os dois maiores rivais da CMS - Swire e Jardine - para controlar os preços. O desempenho dos negócios e os lucros da CMS melhoraram. Em 1883, Li promoveu-o a director-executivo da CMS.Durante a guerra sino-francesa (1884-85), Zheng foi enviado pelo governo a Hanói, Saigão, Phnom Penh e Tailândia para recolher infor-mações e encorajar a população local a opor-se aos franceses. Quando os franceses atacaram Taiwan, foi para Hong Kong e fretou um navio para transportar tropas, mantimentos e munições para Taiwan. A guerra tinha em vista determinar quem controlaria o Vietname do Norte, se a China ou a França. O seu livro Viagens para Sul é um registo de memórias dessa jornada. Escreveu, ainda, outro livro, o Diário das Viagens Marítimas, sobre as viagens que efectuou ao sudeste da Ásia e ao sul da China.
  • Capítulo 1: Zheng Guan-ying15Ao abrigo do sistema confucionista tradicional, os funcionários me-nosprezavam os comerciantes, por mais ricos que estes fossem, por se-rem movidos apenas pelo lucro e terem uma baixa postura moral. Para melhorar o seu estatuto e obter uma audiência maior para suas ideias, Zheng teve, portanto, que obter um cargo oficial. Inicialmente fez isso, à semelhança de outros comerciantes ricos, comprando títulos oficiais. Mas, mais tarde, o governo concedeu-lhe títulos devido às suas contribui-ções para ajudas em situações de catástrofes e para os serviços públicos.Problemas financeirosEm 1885, problemas financeiros ocorreram nas suas empresas. Uma pessoa que devia uma grande soma de dinheiro fugiu e Zheng foi para Hong Kong para lidar com o problema. Aí ficou detido tendo demorado um ano para resolver a questão. Outra das suas empresas endividou-se. Zheng estava exausto com essas dificuldades e a sua família insistiu para que se retirasse da vida pública. Zeng seguiu esse conselho e mudou-se para Macau.Numa carta dirigida a um alto funcionário do governo Qing, jus-tificou-se: “Nos últimos anos, a minha vida tem sido muito difícil de suportar, com tantas coisas para fazer e muitas outras que não funcionam como eu desejava. Fui criticado pelos meus superiores e amigos por coi-sas que aconteceram fora do meu controlo e membros da minha família ficaram furiosos comigo. Pedem-me que abandone a vida pública e os meus apelos a uma autoridade superior não tiveram sucesso”.De empreendedor transforma-se em activista políticoAssim, Zheng voltou à Casa do Mandarim em Macau e dedicou a maior parte do seu tempo a escrever. Desenvolveu e enriqueceu as ideias expressas em A propósito de mudança. Longe da pressão intensa da admi-nistração quotidiana e das disputas políticas, conseguiu concentrar-se na escrita e transpor para o papel os seus pensamentos de maneira sistemática. O novo livro cobria política, economia, diplomacia, cultura e as-suntos militares e reflectia o que havia aprendido durante mais de três dé-cadas no governo e nos negócios. Em 1894, publicou os cinco primeiros
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade16capítulos do que se tornou na sua obra mais famosa: Palavras de adver-tência em tempos de prosperidade, tendo alterado o título de A propósito de mudança para dar uma sensação de maior urgência. O título estava cheio de ironia. A década de 1890 não foi de modo algum uma época de prosperidade para o império Qing. Em 1894, a China envolveu-se numa guerra com o Japão que resultou na derrota humilhante e na assinatura do Tratado de Shimonoseki, nos termos do qual cedeu Taiwan, os Pescadores e partes da província de Liaoning. A derrota enfureceu o público e levou muitos a protestar contra o governo Qing e o tratamento a que havia sido sujeito às mãos dos imperialistas estrangeiros. A derrota perante o Japão, um país com uma fracção dos recursos e da população da China, foi a prova mais vívida do declínio do país e da necessidade de uma refor-ma radical.O livro de Zheng resumia as suas experiências como empresário e como observador de uma dinastia decadente enfrentada por potências estrangeiras agressivas e equipadas com armas, tecnologias e sistemas políticos avançados. Defendia o desenvolvimento da economia e da in-dústria para fortalecer o país, uma reforma da política, o estabelecimen-to de um governo constitucional, um sistema educacional moderno e a promoção da ética. Zheng propôs, igualmente, a organização de uma Exposição Mundial, sugerindo Xangai como o local mais adequado, o que só aconteceu mais de um século depois, em 2010. Em 1895, Zheng publicou uma versão de 14 capítulos de sua obra-prima e, em 1900, uma versão revista com oito capítulos.Zheng alcançou o objectivo de ser lido pelas pessoas mais podero-sas da terra. Deng Hua-xi, o governador de Jiangsu e ele próprio um re-formador, recomendou fortemente a sua leitura ao imperador Guangxu. Este leu-o em 1895, ficou muito impressionado e gostou tanto que man-dou distribuir 2000 exemplares entre os seus ministros e outros altos funcionários. O livro ajudou-o a iniciar um vasto programa de reformas, incluindo muitas das que eram defendidas no livro de Zheng, em Junho de 1898. Este programa provou ser a última tentativa do governo Qing de se reformar. Conservadores, liderados pela imperatriz Cixi Taihou, opu-seram-se às reformas. Em 11 de Setembro de 1898, a imperatriz viúva
  • Capítulo 1: Zheng Guan-ying17organizou um golpe de Estado, forçou o imperador Guangxu a retirar-se e mandou executar seis dos principais defensores da reforma. Ficou co-nhecida como a Reforma dos Cem Dias.Não obstante este retrocesso, Zheng continuou a deter cargos im-portantes na China, incluindo em empresas de caminhos-de-ferro e de navegação. Em 1902, depois de um senhor-da-guerra ter assumido o con-trolo das empresas de navegação e de telegrafia de Xangai em que estava envolvido regressou à sua terra natal e a Macau. A partir dessa data dividiu o seu tempo entre Guangdong e Xangai, tanto como homem de negócios como escritor.À semelhança da maior parte dos chineses, a queda da dinastia Qing foi para ele motivo de regozijo. Mas ficou muito desapontado quando a revolução permitiu que muitos senhores-da-guerra tomassem o poder em diversas províncias da China. A partir dessa data dedicou os seus últimos anos de vida à educação. Zheng era presidente de uma escola pública fundada pela CMS em Xangai e director honorário da Escola Comercial de Xangai. Em Abril de 1921, aposentou-se do lugar de presidente da escola, tendo falecido em Maio de 1922 nos apartamentos da escola em Xangai. Um ano depois, os seus restos mortais foram transladados para Macau. Zheng deixou um acervo literário totalizando 1,5 milhões de caracteres.As diversas sortes da Casa do MandarimCom seis esposas e concubinas, Zheng deixou uma grande famí-lia. Poucos permaneceram em Macau, tendo a maior parte mudado para outras zonas da China e para o estrangeiro. Durante anos, a casa foi arrendada como alojamento barato para dezenas de famílias, apesar de ter uma infra-estrutura completamente incapaz de lidar com tantas pes-soas. Não tinha casas de banho modernas. Todas as manhãs, um homem chegava com uma carroça para remover os resíduos humanos. O forneci-mento de água corrente também era totalmente inadequado e as famílias tinham que usar cozinhas comunitárias.O número de residentes atingiu um pico durante a II Guerra Mundial, quando a população de Macau triplicou para 450 mil pessoas, devido aos refugiados que fugiram da guerra do continente e de Hong Kong.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade18Na década de 1990, o governo começou a considerar a questão da restauração da casa. Em 1992, foi incluído na lista do património cultural como um “edifício de interesse arquitectónico” nos termos da Lei do Património. Ao mesmo tempo, um promotor imobiliário local estava interessado no local. O promotor assinou acordos com muitos dos moradores para comprar as respectivas unidades e deu-lhes uma indemnização para se mudarem para outro lugar. O seu objectivo era adquirir todo o local e desenvolvê-lo. Durante este processo, muitos ob-jectos valiosos que havia na casa foram roubados. A partir de 1991, a administração portuguesa começou a negociar a compra da casa ao promotor imobiliário, mas sem sucesso.“Depois de ter começado a trabalhar no Instituto Cultural (IC), em 1996, desloquei-me ao local por diversas vezes e apercebi-me das con-dições existentes”, disse Cheong Cheok Kio, arquitecto que foi chefe do Departamento de Património Cultural do Instituto Cultural durante os trabalhos de restauração. “As condições que encontrei eram muito más. Alguns quartos não tinham telhado depois de terem sido danificados pelo fogo. Havia infiltrações e o gesso caíra das paredes. No início, não havia casas de banho, embora algumas tenham sido adicionadas mais tarde. Não era habitável”. Em 2001, o governo tomou a decisão de comprar o edifício ao em-preendedor em troca de um terreno em Nam Van, uma área nobre perto da orla marítima. Em 2005, a Casa do Mandarim, parte integrante do “Centro Histórico de Macau”, foi classificada como Património Mundial da UNESCO. O governo iniciou o trabalho de restauração em 2001 e es-perava concluí-lo até 2007, mas levou mais dois anos do que o previsto.A casa foi aberta ao público em Fevereiro de 2010, após oito anos de meticulosos trabalhos de restauração, que custaram 45 milhões de patacas. Faz parte de uma área de Macau que foi classificada, em 2005, como Património Mundial por aquela agência da Organização das Nações Unidas. “É a maior mansão ancestral bem preservada do estilo Lingnan (sul da China) nas áreas urbanas de Hong Kong, Cantão e Macau”, disse Chan Chak Seng, vice-director interino do Instituto Cultural, ao anunciar a inauguração. É um dos tesouros arquitectónicos da cidade. Combina ar-quitectura tradicional chinesa e elementos ocidentais, a mistura de culturas que define Macau. Incorpora duas habitações com pátio adjacentes, portas
  • Capítulo 1: Zheng Guan-ying19esculpidas, um jardim murado, colunas toscanas, tectos falsos, grandes ja-nelas e frescos elaborados que decoram as paredes interiores.“Oito anos não é muito tempo (para completar a renovação)”, disse Chan. “Trabalhos de renovação semelhantes em outros lugares podem levar duas ou três vezes esse período para serem concluídos”.Quando o Instituto Cultural iniciou o trabalho, mais de 300 pes-soas residiam no edifício e 80% da estrutura tinha sido danificada depois que a família se mudou na década de 1960 e decidiu arrendar o espaço. Foi um trabalho de oito anos de amor, durante o qual arquitectos e ar-tesãos trabalharam meticulosamente para fazer o edifício regressar à sua antiga glória. Quando começaram a trabalhar, era um pardieiro em risco de desmoronamento, com paredes com infiltrações, gesso a descascar-se e telhados partidos.“Trabalhámos passo a passo, como arqueólogos”, disse Cheong Cheok Kio. “Não conhecíamos o projecto original nem possuíamos regis-tos ou arquivos para trabalhar. Mas não poderíamos reconstruir o edifício como uma casa nova. Tínhamos de conservar o edifício antigo, mantendo a autenticidade e a integridade, respeitando os padrões da época”.Restauração meticulosaA restauração foi um trabalho de amor e de paciência. Mais de 80% da estrutura estava danificada. Os inquilinos retiraram objectos, acres-centaram tábuas e paredes e fizeram outras alterações.Cheong e sua equipa não tinham desenhos ou registos originais para trabalhar, nem conheciam os materiais de construção originais que não aqueles que recuperaram no local. Além disso, não havia muitos especialistas a quem poderiam pedir ajuda. Por isso, convidaram Cheng Jianjun, professora da Universidade de Ciências e Engenharia do Sul da China e especialista em casas chinesas em complexo, do mesmo período, em Guangdong, para conduzir um estudo da casa.“Também utilizámos a nossa experiência de restauro de outras ca-sas e também consultámos idosos que partilharam connosco as suas re-cordações do edifício”, disse Cheong. O projecto era como um trabalho de quebra-cabeças de arqueologia e de arquitectura.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade20A equipa começou sem um plano geral e trabalhou de sala em sala, construindo a sua compreensão à medida que avançavam. Esse processo originou um ritmo de trabalho lento. Os homens tiveram de remover as camadas de gesso com muito cuidado, usando pequenas facas, com medo de danificar os traços da construção original por debaixo, pois as marcas deixadas eram pistas importantes para construir uma imagem completa de como era a casa original. Esse tipo de procedimento ajudou a equipa a recuperar as escadas originais e as estruturas das paredes. Em certos lugares, como o altar na porta de entrada, encontraram 18 camadas de gesso e de tinta. Isso mostra o respeito que o proprietá-rio tinha pela tradição, revelado pelo trabalho repetitivo de restauração. O resultado foi que a restauração de um quarto podia demorar até seis meses.Numa grande sala de recepção, quando removiam uma parede de madeira que havia sido adicionada por um inquilino, os trabalhadores encontraram um fresco com uma história expressando a importância da piedade filial. Ao remover os pregos que juntavam as tábuas de madeira, foram obrigados a utilizar algodão a fim de não destruir o fresco. Esta restauração demorou seis meses. Não foi possível usar trabalhadores da construção civil actual para o projecto da Casa do Mandarim, mas apenas aqueles qualificados e ex-perientes nesse tipo de trabalho, encontrados em aldeias e cidades de Guangdong. Chegaram a ter 30 desses trabalhadores em simultâneo. “Os maiores desafios foram a estrutura geral e os pormenores”, disse Cheong. “Muitas coisas foram dadas como perdidas e o dano foi muito sério.”Abertura ao públicoA restauração ficou concluída em 2009, após oito anos de trabalho meticuloso. Com mais de 60 quartos e uma área total de 4000 metros quadrados, era a maior residência particular de Macau e tornou-se uma atracção turística popular. O dia 6 de Fevereiro de 2010 foi de orgulho para Cheong e para a sua equipa. O Chefe do Executivo, Chui Sai On, foi quem procedeu à abertura oficial do edifício ao público. Embora nenhum dos membros da família Zheng fizesse parte dos convidados, a primei-ra pessoa que se encontrava na longa fila de espera para entrar era um
  • Capítulo 1: Zheng Guan-ying21descendente, um homem na casa dos 50 que vivia nas proximidades. Foi presenteado com uma recordação. “A entrada é gratuita, porque queremos dar às pessoas a oportuni-dade de ver este tesouro cultural local”, disse Cheong. “É um processo educacional. Temos 10 mil visitantes por mês”.Inicialmente, a maioria dos visitantes era de Macau. Mais tarde, houve um número crescente de residentes de Hong Kong, representan-do até metade dos visitantes, bem como pessoas do continente, Taiwan, Japão e Coreia do Sul. Zheng Guan-ying é bem conhecido no mundo chinês, tanto no seu país como no estrangeiro e o facto de ele ter escrito o seu livro mais famoso na Casa do Mandarim é a maior atracção. O pa-vilhão de Macau na Exposição de Xangai, em 2010, explicou que Zheng foi a primeira pessoa a propor a realização do evento naquela cidade mais de um século antes.Experiência genuínaO que os visitantes encontram é um edifício restaurado que é no-tavelmente fiel ao original. A equipa instalou iluminação eléctrica, que é nova. Existem apenas dois aparelhos de ar-condicionado, um na sala de segurança com equipamentos de vigilância que devem ser mantidos em ambiente refrigerado e o outro na loja de recordações.“No Verão passado, um homem escreveu no livro dos visitantes que se sentia com muito calor durante a visita e queria ar-condiciona-do. Sentimos, no entanto, que as instalações modernas poderiam afectar demasiado a estética, mesmo que fossem o mais discreto possível. Os tectos altos e o controlo do fluxo de ar natural eram uma solução ar-quitectónica para as condições de tempo quente e eram adequados na época. Esperamos que as pessoas continuem a entender isso e apreciem a sabedoria da arquitectura chinesa”.“A experiência autêntica do património é obtida pelos nossos sen-tidos, não apenas pelo que vemos, mas também pelo que sentimos por dentro”, disse Cheong.Uma nova sala de recepção e casas-de-banho foram construídas na parte de trás, separados do prédio antigo. Ambas estão claramente se-paradas da estrutura original. “Usámos materiais originais o máximo
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade22possível. Nós não usamos produtos falsificados. Nós trabalhamos em espírito de harmonia.”As persianas são um bom exemplo. Os originais que ainda podiam ser usados foram mantidos, mas aqueles que se haviam deteriorado totalmente foram substituídos pelos artesãos por outros com um desenho similar. A entrada para o edifício principal é redonda. Antigos moradores disseram à equipa de Cheong que essa entrada, onde os visitantes des-ciam das liteiras, era moldada “como um buraco”. Os trabalhadores des-cobriram pedra curva no jardim e raciocinaram que isso formava a estru-tura original para o pórtico redondo que forma a designada porta da lua. A casa contém uma sala de exposição que descreve o processo de restauração e os métodos utilizados. Os oito anos de esforços produzi-ram uma notável reconstrução de uma grande e elegante casa do século XIX, que se tornou um dos tesouros de Macau.Para garantir que o edifício permaneça em boas condições, aqueles que o gerem permitem um máximo de 100 pessoas no interior a qualquer momento, com um máximo de 60 dentro da secção principal. A entrada é gratuita.O Instituto Cultural lançou uma página electrónica (http://www.wh.mo/mandarinhouse/pt) para informar as pessoas sobre o local his-tórico antes de o visitarem. Nas proximidades, foi criado um museu para exibir os documentos históricos de Zheng, uma vez que a Casa do Mandarim não tinha condições para exibi-los.FontesArquivos da Escola de Estudos Orientais e Africanos de Londres; Biografia Baidu de Zheng Guan-ying; Entrevistas com Chan Chak Seng e Cheong Cheok Kio, funcionários do Instituto Cultural; Material informativo disponibilizado pela Casa do Mandarim; Jornal Southern Metropolitan Daily (Cantão).
  • Lou KauCapítulo 2
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  • Capítulo 2: Lou Kau25O primeiro rei do jogo de Macau e um grande filantropoLou Kau foi um dos mais ricos comerciantes chineses de Macau na segunda metade do século XIX. Nascido numa família proeminente em Xinhui, província de Guangdong, mudou-se para Macau aos 14 anos de idade. O seu primeiro trabalho foi num cambista. Prosperou e abriu a sua própria casa de câmbios, bem como casas de ópio, tendo-se tornado na primeira pessoa a obter a concessão dos jogos de fortuna e azar. Também investiu em propriedades e em negócios de carne de porco e ficou muito rico. Tornou-se um representante da comunidade empresarial chinesa e da população chinesa de Macau e foi uma ponte entre eles e o governo colonial. Em 1888, tornou-se cidadão português e recebeu duas conde-corações do governo português. Era um filantropo generoso e foi um dos fundadores da Tong Sin Tong, a instituição de caridade mais importante da cidade, criada em 1892. Foi ainda director do Hospital Kiang Wu, o primeiro hospital moderno para a população chinesa. Contribuiu para ajudas de emergência e esteve envolvido na construção de escolas, quer em Macau, quer na sua aldeia natal. Em 1889, mandou construir uma mansão espaçosa no centro da cidade, que se tornou numa atracção turística. Numa ruela estreita do centro da cidade fica a Casa de Lou Kau, património da UNESCO, uma elegante mansão de dois andares com salas de recepção espaçosas, tectos altos e vitrais, tratando-se evidentemente da casa de um homem rico e importante. Nela, os visitantes podem observar uma combinação de arquitectura chinesa e ocidental e assistir a apresentações artísticas, como espectáculos de marionetas, recitais de música e exposições de caligrafia. Podem apreciar a arte do presente num cenário que os leva de volta ao passado.Mas a história de Lou teve um final trágico. Em 1897, ele e um grupo de associados pagaram uma quantia enorme pelo direito a uma licença de jogo de oito anos em Guangdong. Apenas três anos depois, o novo governador da província proibiu o jogo e recusou-se a compen-sar Lou pelos anos perdidos. De repente, ficou com dívidas enormes, que não conseguia pagar. Fez uma grande aposta e falhou. Em 11 de Novembro de 1906, aos 59 anos de idade, enforcou-se numa das vigas da sua espaçosa mansão. Foi enterrado num cemitério em Cantão, ao
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade26lado da sua primeira esposa. Em 1960, quando o governo se apropriou do terreno onde se localizava o cemitério, o seu corpo foi exumado e voltou a ser enterrado num cemitério em Macau, junto a outros mem-bros da sua família. Os primeiros anosLou Kau nasceu o terceiro dos quatro filhos duma família proemi-nente no concelho de Lubian em Xinhui, província de Guangdong, em 1848. O seu nome de nascimento era Lou Wa Sio, mas a sua alcunha era Lou Kau, porque os seus amigos pensavam que ele tinha uma natureza agressiva e combativa e assemelhava-se a um cão (“kau” é cão em canto-nês) pelo que dessa forma ficou a ser conhecido.Kau também significa “nove” e este foi o carácter usado para escre-ver o seu nome. Os Lous eram uma das quatro famílias mais proeminen-tes do concelho, tendo-se mudado para lá durante o reinado de um dos imperadores da dinastia Sung do Sul (1265-1274). Lou tinha dois irmãos mais velhos, mas ambos morreram quando eram jovens. Xinhui era uma área próspera, por fazer parte do delta do Rio das Pérolas bem como da sua proximidade a Macau e a Hong Kong. Em 1862, mudou-se para Macau em busca de melhores oportunida-des de trabalho e para melhorar a sua posição na vida. Foi um momento crucial na história da antiga colónia. Após a vitória sobre a China na primeira Guerra do Ópio (1839-1842), os britânicos estabeleceram um porto de águas profundas em Hong Kong, a apenas 50 quilómetros de distância. Macau perdeu o seu monopólio como o único porto para o comércio externo da China e não conseguia concorrer com o porto mais profundo e com melhores instalações de Hong Kong. A fim de obter uma fonte alternativa de receita para substituir as suas perdas comerciais, em 1847, o governo colonial legalizou o jogo. Outro negócio importante foi a exportação de mão-de-obra chinesa para a América Central e do Sul. O jovem Lou, um indivíduo baixo e corpulento de cabeça grande, era um homem de negócios capaz e ambicioso, ansioso por aproveitar qualquer oportunidade. O seu primeiro emprego foi numa casa de câmbios. Trabalhou ar-duamente e economizou dinheiro. Com as economias obtidas, abriu a
  • Capítulo 2: Lou Kau27casa de câmbios de Bou Hong. O negócio era bem gerido e, por isso, proporcionava um bom lucro. Envolveu-se, também, no negócio das car-nes, comprando porcos em Guangdong e vendendo a carne em Macau. Entendeu, no entanto, que a actividade financeira e as carnes não eram os sectores que geravam o maior lucro, mas sim o ópio e o jogo. Em 1882, obteve uma licença de jogo do governo colonial. Iniciou essa actividade na casa de um homem rico que ele converteu em casino proporcionando aos apostadores o jogo Fan Tan, uma das formas chi-nesas mais populares de jogo. O próximo foi um jogo chamado “Pombo Branco” (a lotaria do pombo) assim chamado porque os pássaros eram usados para enviar mensagens para a China com os nomes dos vence-dores. “Segundo a lenda, o jogo começou na dinastia Han (202 AC-220 DC) quando o governante de uma cidade sitiada teve de encontrar uma maneira de arrecadar dinheiro para sustentar o seu exército sem aumen-tar os impostos”, escreveu o reverendo Lobscheid de Hong Kong com base em documentos chineses. O governante escolheu 120 caracteres de um poema popular e fez subdivisões de oito caracteres cada. Os aposta-dores tinham de adivinhar os oito caracteres. Foi uma lotaria jogada com caracteres em vez de números.O jogo tornou-se popular em toda a China e os pombos foram usados para informar os felizes vencedores. Continua a ser jogado ac-tualmente em Macau, num formato modernizado, numa loja repleta de pessoas fronteira ao Hotel Lisboa.Em 1882, Lou comprou também uma licença para vender ópio. Ao abrigo do contrato que assinou com o governo, tinha o direito de vender ópio e operar casas Fan Tan na Taipa por um ano a partir de 1 de Maio de 1882. Qualquer outra pessoa que o fizesse estaria sujeita a pesadas multas e ao confisco do seu ópio, podia ler-se no contrato. Estes dois negócios proporcionaram-lhe a sua primeira fortuna. As suas opera-ções comerciais estenderam-se para fora de Macau e para a província de Guangdong. Registos oficiais mostram que, em 1882 e 1883, Lou pagou ao governo de Macau 8800 dólares de prata pelo monopólio de vender ópio e operar os casinos de Fan Tan na Taipa, uma ilha que é um dos dois concelhos3 de Macau. Em 1885, o preço subiu para 9320 dólares. Em 3. O Concelho das Ilhas era, juntamente com o Concelho de Macau, um dos dois concelhos existentes em Macau e abrangia as ilhas da Taipa e de Coloane.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade281885-1886, pagou 130 000 dólares pelo direito de administrar casinos de Fan Tan na península de Macau, então, como agora, a parte mais rica e mais densamente povoada do território. De 1886 a 1895, pagou 145 000 dólares por ano para continuar as operações de Fan Tan. Em Maio de 1888, tornou-se cidadão português.A casa de Lou KauLou Kau mandou construir a sua mansão em 1889. É uma casa de dois andares com características arquitectónicas similares à de uma casa típica de Xiguan4. Xiguan era um estilo de casa característico de Lingnan (sul da China), usado como residência familiar tradicional. Estas casas foram construídas em Cantão por famílias ricas e comerciantes no final da dinastia Qing e posteriormente copiadas em outras áreas. A man-são de Lou foi uma das primeiras grandes casas de Macau construídas num estilo totalmente chinês. A casa apresenta uma disposição simétrica, com o espaço organizado sob um plano ortogonal de três por três. Os dois pátios, alinhados com o eixo central do edifício, separam as três salas principais do piso térreo: o Vestíbulo, a Sala das Liteiras e a Sala Principal. Tal arranjo espacial revela a estrutura hierárquica tradicional e confucionista das famílias chinesas. No segundo andar, uma sala de culto e alguns quartos completam a estrutura. O Vestíbulo foi dedicado ao Deus da Porta. Quando eram recebidas visitas de oficiais de alta patente em liteira, estes entravam directamente na casa através do salão de entrada. As liteiras ficavam estacionadas a seguir à entrada, numa zona conhecida então como o Salão das Liteiras.O Sala Principal era uma sala usada para acolher convidados espe-ciais, constituindo o salão principal da casa. Um estúdio aberto, fronteado por um pequeno pátio, criava uma atmosfera elegante e agradável na casa.A Sala de Culto era o local mais sagrado da casa, onde se encon-travam as placas votivas da família Lou e dos seus deuses. Este quarto possui um belo friso decorativo e auspicioso de estilo chinês.A casa de Lou Kau constitui um tesouro de design de interiores. As paredes externas construídas em tijolo cinzento, as janelas decoradas 4. Estilo de casa originária do Cabo Xiguan, em Cheng Xi, actualmente distrito de Li Wan, foi posteriormente adoptado noutras regiões da China.
  • Capítulo 2: Lou Kau29com cascas de ostra e as janelas manzhou5, bem como as elegantes e auspiciosas esculturas em relevo e gesso, ou os ralos em forma de moeda de ouro, que se podem encontrar no pátio pequeno e noutras divisões, além de outras decorações delicadas, constituem aparatos nobres de uma família rica e poderosa.As janelas são feitas a partir de conchas de ostra apanhadas nos bai-xios existentes ao longo da costa, muito duradouras e permeáveis à luz. O design combina persianas de estilo ocidental, casca de ostra, vidro colorido e esculturas chinesas em gesso, numa fusão de estilos chinês e ocidental.Os tijolos do altar têm motivos gravados, como o dos três carac-teres chineses Fu, Lu e Shou (literalmente boa fortuna, prosperidade e longevidade). Esses motivos foram esculpiados à mão e revestidos com lacre dourado sobre os tijolos cinzentos, os quais possuem um acaba-mento requintado, exibindo representações de flores, pássaros, moedas, entre outras.Numa parede encontra-se uma escultura em gesso e pintura de um grou de crista vermelha, que representa a longevidade e a boa saúde para a família. Numa outra parede, existe outra escultura em gesso onde, no centro do quiosque, existe um vaso que representa a paz, simbolizando as peónias que se encontram dentro do vaso a riqueza. À luz do sol, o design da escultura cria uma perspectiva interessante através do efeito reflector dos fragmentos quebrados do interior de uma garrafa termos, embutidos na superfície do vaso.Embora a casa estivesse no centro da cidade, foi construída para proporcionar o máximo de privacidade à família, sendo igualmente bem iluminada e ventilada. Devolvendo à sociedadeNa sua qualidade de homem rico, Lou passou a estar activo em mui-tos sectores da sociedade. O seu sucesso fez de Lou uma pessoa rica e proeminente. Lou ganhou o respeito do governo colonial, que o consi-derava como um representante da população chinesa. Em Abril de 1891, Nicholas Alexandrovich, filho do czar da Rússia, deveria visitar Macau. O 5. Janelas manzhou são janelas de vidro que foram importadas do estrangeiro no final da dinastia Qing e que ganharam popularidade entre os nobres manchus (manzhou), ficando assim conhecidas por janelas manzhou.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade30governo criou uma comissão para o receber. Designou Lou como o chefe da delegação chinesa para o evento, que começou a organizar uma cerimó-nia de boas-vindas. O czar havido decidido que tal viagem era necessária para a educação do jovem que o sucederia como imperador de todas as Rússias. Deixou o seu país a 23 de Outubro de 1890, seguindo para Viena, Áustria e depois para Trieste, Itália. A extensão total da viagem foi de 51 mil quilómetros, por via férrea e marítima. O jovem foi à Tailândia, a Singapura e a Nanjing, na China. De Nanjing seguiu para o Japão, onde foi alvo de uma tentativa fracassada de assassínio. No final, acabou por nunca viajar para Macau, mas a nomeação de Lou foi um sinal do seu estatuto elevado que lhe era conferido pelas autoridades coloniais.Lou envolveu-se cada vez mais em assuntos públicos, especialmente em instituições de caridade que tinham como objectivo ajudar a popu-lação local da cidade. Com 45 outros empresários chineses, pediu ao governo para estabelecer a Tong Sin Tong6, uma instituição de caridade para servir a população local. O governo anunciou a aprovação do pro-jecto em Janeiro de 1893. Esse foi um marco na história da cidade. Desde então, tem sido uma de suas mais importantes instituições de caridade, ajudando os po-bres, necessitados e refugiados com alimentos, medicamentos, educação e outras formas de ajuda. Desde então, continuou a captar recursos de empresários como Lou. Também fez doações generosas para o Hospital Kiang Wu7, a primeira instituição desse tipo criada para atender a popu-lação chinesa da colónia, na qual tanto ele como o seu filho mais velho, Lou Lim Ieoc, serviram como seu presidente. Para além das doações ao hospital, Lou doou dinheiro para a criação de escolas e distribuição de arroz para os pobres.Lou criou uma comissão de ajuda humanitária para ajudar as vítimas de desastres no norte da China. Em Abril de 1895, uma praga 6. O nome da instituição Tong Sin Tong (Tongshan Tang) significa “Sala de Bondosos Unidos”, em conformidade com o seu princípio “Unidos, socorrer o mundo e Bondosos, receber toda a gente”. Trata-se de uma instituição que fornece assistência social a todas as pessoas, independentemente da sua nacionalidade ou religião (in DITEMA – Dicionário Temático de Macau, Volume IV).7. Kiang Wu significa em tradução literal “Lago do Espelho”, designação que poderá estar ligada à reflexão da luz sobre as águas da baía da Praia Grande. Na pedra inaugural encontra-se uma inscrição que refere a data de 28 de Outubro de 1871 como tendo sido o início da construção do hospital (in DITEMA – Dicionário Temático de Macau, Volume II).
  • Capítulo 2: Lou Kau31varreu Macau. A comunidade montou uma grande tenda na Taipa para as vítimas e Lou Kau foi o doador mais generoso. No Inverno de 1898, um incêndio grave varreu uma área residencial da cidade, cau-sou muitas mortes e incendiou as casas de muitos moradores. Muitas organizações cívicas deram um passo em frente para ajudar, incluindo Lou, que doou 3000 taéis para construir 100 tendas para os desabri-gados usarem e se protegerem do frio. Mais tarde, deu dinheiro para construir novas casas, as quais vendeu aos residentes por um terço do seu valor de mercado. Construiu escolas na sua aldeia natal e em Macau, incluindo uma para os filhos de pescadores, a única do género na província de Guangdong. Em 1890 e 1894, Lou recebeu condeco-rações do rei de Portugal pelas suas contribuições para a sociedade de Macau e, em 1898, uma outra do imperador chinês.Como outros chineses ricos do seu tempo, Lou tinha várias es-posas. Narrativas históricas dão números diferentes, sendo o maior número de 10 esposas, com 17 filhos e 16 filhas. Possuía mais de uma dúzia de propriedades onde as esposas moravam. Uma morava na mansão que os visitantes podem visitar hoje. As suas esposas e os criados, nas diferentes casas, não sabiam quando ele viria, mas tinham de estar preparados para a sua chegada a qualquer momento. No final do século XIX, Lou estava no seu apogeu. Era o homem mais rico de Macau, com uma grande família, altamente respeitado na sociedade e consultado pelo governador da colónia. Quando deixou a sua casa em Xinhui, 40 anos antes, não poderia ter imaginado tanta boa sorte.A reviravolta do destino devido a novas medidas decididas pelas autoridades chinesas de GuangdongMas acontecimentos na sua terra natal, em Guangdong, transfor-mariam essa felicidade em tragédia. O jogo no continente era diferente daquele que era praticado em Macau. O governo colonial definiu o jogo, juntamente com o ópio, como uma das suas principais fontes de receita, protegeu os operadores e estava pouco preocupado com o impacto nega-tivo sobre os chineses, que representavam a grande maioria dos clientes de ambas as actividades.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade32O governo de Guangdong e outras províncias da China adopta-ram uma visão mais ambígua. Sabiam que o jogo era endémico para os chineses e, legal ou não, as pessoas apostavam. Se fosse legal, o Estado obtinha receitas, que eram muito necessárias para equipar as forças armadas a fim de repelir invasores estrangeiros. Mas as autori-dades também sabiam que o jogo era uma maldição que virava a espo-sa contra o marido e filhos contra seus pais, destruía famílias e levava as empresas à ruína financeira. Bem viam o seu efeito devastador no tecido da sociedade.Em 1897, o governo de Guangdong convidou os operadores a concorrerem a uma franquia de jogos de azar em regime de monopó-lio. Para Lou, este era um mercado muito maior do que o de Macau. A província tinha, então, uma população de mais de 30 milhões, con-tra cerca de 75 mil na colónia. Montou uma empresa chamada Hong Feng, com nove investidores de Cantão, Hong Kong e Macau e regis-tou um capital de 720 mil taéis de ouro. Fez uma oferta de um milhão de dólares e, em 18 de Maio daquele ano, ganhou a franquia por oito anos. O governo exigiu que a operadora pagasse a taxa de franquia pelo período total, que chegava a três milhões de dólares. Esta era uma quantia enorme naquela época, mas Lou e seus sócios acredita-vam que era melhor pagar adiantado, pois os futuros governadores não seriam capazes de elevar a taxa anual arbitrariamente.As coisas não correram bem para a Hong Feng. O governo não agiu contra os operadores ilegais que continuaram a operar os res-pectivos casinos e não pagavam impostos às autoridades. Portanto, a Hong Feng não desfrutou de um verdadeiro monopólio, tendo-se os operadores ilegais apropriado de parte do negócio.Mais azar com a proibição de jogar imposta em Guangdong e em GuangxiO pior aconteceu em 1900, quando Li Hongzhang, um dos mais altos funcionários do governo Qing, chegou a Cantão e disse que o pe-ríodo de franquias de oito anos era muito longo. Isso deu a deixa para Cen Chunxuan, vice-rei de Guangdong e Guangxi e um feroz opositor do jogo, afirmar que o caos social ameaçava a província e que o jogo
  • Capítulo 2: Lou Kau33era a principal causa. Apoiado por outros funcionários, anunciou uma proibição e recusou-se a devolver a taxa paga pela Hong Feng. Pior, aumentou o total que Lou teve de pagar para 4,75 milhões de dólares de prata, incluindo juros e pagamentos por efectuar. Enfrentando a ruína financeira, Lou pediu ajuda ao governo português, alegando que era um dos seus cidadãos que merecia ajuda, em reconhecimento de tudo o que tinha feito pela colónia.As negociações continuaram durante o Verão de 1904. Numa reunião ocorrida em Setembro, Cen surpreendeu a sua contraparte portuguesa mostrando documentos que datavam de 1898, ou seja, 10 anos depois de Lou ter adoptado a cidadania portuguesa, que mostra-vam que ele havia desistido e voltado a ser chinês. “De acordo com nossa lei, Lou não poderia voltar a ser um português. Ele só pode ter uma nacionalidade”, anunciou Cen, triunfante. “Isso não tem nada a ver convosco. Este é um assunto interno chinês.” O lado português nada conseguiu fazer para o ajudar.Cen tinha outra má vontade contra Lou, pois este ajudara um funcionário corrupto a fugir para Macau. Sob forte pressão de Pequim, o governo colonial devolveu-o em 23 de Junho de 1904. Assim, para o governo do continente, Lou teve dois registos negros contra ele, o que fez com que fosse mais difícil encontrar ajuda e apoio. Tinha, ago-ra, dívidas maiores do que os seus bens consideráveis. Sem ajuda do governo colonial, tentou contrair empréstimos junto de comerciantes estrangeiros e chineses em Hong Kong e Macau. Mas como iria ele pagar os empréstimos?Desesperado com as dívidas e a feroz hostilidade de Cen e seus partidários, Lou não viu saída. A 11 de Novembro de 1906, passou uma corda por cima de uma viga na sua casa principal, a mansão, e suicidou-se. Tinha 59 anos. Na tradição chinesa, se uma pessoa comete suicídio, a sua acção anula as dívidas que tinha, pelo que os credores devem assumir o prejuízo e deixar a família do falecido em paz. Lou foi enterrado num cemitério em Cantão ao lado de sua primeira es-posa, mas em 1960, o governo da cidade apropriou-se do terreno e os seus restos mortais foram exumados e enviados para Macau, onde foram enterrados numa sepultura familiar no cemitério de São Miguel Arcanjo.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade34Filho assume os negócios da famíliaCoube ao seu filho mais velho, Lou Lim Ieoc8, então com 28 anos, assumir o negócio da família. Seguiu os passos do pai, conduzindo as operações de jogo em Macau e dividindo as suas actividades entre um teatro e sala de espectáculos, comércio da prata e de produtos farmacêu-ticos e uma loja de penhores. Lou Lim Ieoc morreu em 17 de Junho de 1927. Três anos mais tarde, a franquia de jogos de fortuna e azar da fa-mília Lou expirou e foi posta a concurso público. Outra empresa obteve a concessão pelos seis anos seguintes, mas em 1937, uma terceira firma ganhou a franquia e fez a sua fortuna durante a II Guerra Mundial, quando Macau se tornou um refúgio para os ricos de Hong Kong e da China continental. Como Portugal se manteve neutro durante a guerra, Macau era a única grande cidade do sul da China não ocupada pelos militares japoneses.A perda de franquia trouxe o declínio da família Lou, que teve de vender algumas casas e arrendar outras, incluindo a mansão, que era muitas vezes arrendada a vários inquilinos em simultâneo, tendo chegado a sê-lo a 20 famílias.A falta de manutenção deixou as suas marcas, até que o título de propriedade foi adquirido pelo governo na década de 1960. Encontrava-se em mau estado e muitas alterações foram feitas na casa e alguns dos quartos foram demolidos. A fim de preservá-la, o governo de Macau realojou os inquilinos e contratou especialistas para empreender uma restauração meticulosa. A partir de Julho de 2002, o Instituto Cultural iniciou o trabalho de restauração e a casa foi aberta ao público em mea-dos de 2005.“Em 2005, o Centro Histórico de Macau foi inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO”, disse o guia oficial da Casa de Lou Kau. “A casa de Lou Kau é um dos locais históricos da lista e apresen-ta o estilo arquitectónico tradicional chinês de Lingnan. Partilha o re-conhecimento da UNESCO com outros locais históricos de Macau, que representam uma fusão única de culturas chinesas e ocidentais”. Após a renovação, a casa serviu de palco para muitas actividades, incluindo tea-tro, exposições de floricultura e recitais de música chinesa. A casa serve 8. Sobre Lou Lim Ieoc consulte o capítulo 7
  • Capítulo 2: Lou Kau35ainda de palco para a realização de actuações artísticas e de produção de artesanato por artistas de renome da China continental que ali exibem a sua habilidade e trabalho e permite que turistas e residentes locais experi-mentem a riqueza das relíquias culturais e actividades artísticas de Macau.Os chineses vêem isso como expressão de um ditado popular fu wu san dai que significa “a riqueza não dura mais do que três gerações”. Por outras palavras, a primeira geração faz fortuna, a segunda gasta-a e a terceira recomeça do nada. Descendentes de Lou Kau vivem em Macau, alguns dos quais são comerciantes de artigos de desporto. Mantêm-se, no entanto, discretos e evitam a comunicação social, pois alguns sentem-se mesmo desconfortáveis com o seu famoso antepassado, que obteve a sua fortuna a partir de dois dos maiores vícios dos chineses, o jogo e o ópio.FontesDocumento oficial da Casa de Lou Kau, “Jardim Lou Lim Ieoc e a família Lou”, por Zheng De-hui e Peng Hai-ling, Departamento de Actividades Recreativas e Culturais, Instituto de Assuntos Cívicos e Municipais, Governo da Região Administrativa Especial de Macau, Novembro de 2010; Edição para o estrangeiro do Diário do Povo, 6/7/2006.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade36
  • Zhan Tian ‑youCapítulo 3
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade38
  • Capítulo 3: Zhan Tian-you39O “pai” dos caminhos-de-ferro da ChinaZhan Tian-you é conhecido como o “pai dos caminhos-de-ferro da China”. Zhan foi o engenheiro-chefe responsável pela primeira linha ferroviária construída na China sem assistência externa, a li-nha de Pequim a Kalgan (actual Zhangjiakou) na província de Hebei. Durante uma carreira que durou 31 anos, projectou e construiu 14 li-nhas em toda a China e estabeleceu os padrões para a rede ferroviária, padrões esses que foram seguidos em todo o país. Zhan foi o primeiro chinês a licenciar-se como engenheiro ferroviário nos Estados Unidos, na Universidade de Yale. Foi um dos 120 jovens chineses que atraves-saram o Oceano Pacífico para estudar e foi um dos dois únicos que se formaram, antes que o governo Qing os mandasse regressar. Zhan é homenageado hoje com estátuas e um museu, bem como através das suas antigas residências, em Cantão e em Wuhan. Em 1885, em Macau, casou-se com uma senhora local. A sua filha e os netos vive-ram por muito tempo na cidade e a família preservou muitos objectos da sua vida, incluindo um presente precioso que lhe foi doado pela imperatriz Cixi Taihou.Primeiros anosZhan nasceu a 26 de Abril de 1861 no município de Nanhai, agora parte da cidade de Cantão, na província de Guangdong. A sua família mudou-se do município de Wuyuan, na província de Anhui, para Cantão, na década de 1760, em busca de oportunidades de ne-gócios. Eram comerciantes de chá que enfrentavam tempos difíceis. Zhan iniciou a sua educação numa escola particular. Era esperto e in-teligente, com interesse em muitos assuntos, especialmente máquinas e costumava usar barro para fazer modelos de máquinas. Certa vez, contra as ordens de seus pais, pegou num relógio da família, desmon-tou-o e voltou a montá-lo. O seu pai ficou encantado ao ver a sua mente inquisitiva e aspirou a que seu filho conseguisse ultrapassar as dificuldades que a família enfrentava.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade40Rumando aos EUAEm 1872, foi escolhido para ser um dos 120 jovens chineses en-viados para os Estados Unidos para estudar. Essa decisão do governo Qing de educar algumas crianças nos Estados Unidos foi um marco na história chinesa. Foi o resultado de anos de pressão por parte de Yung Wing, um natural de Xiangshan (agora Zhongshan), que teve a sorte de ganhar um lugar na Universidade de Yale, onde se formou em literatu-ra inglesa, em 1854. Foi o primeiro licenciado chinês daquela famosa universidade. Após o seu regresso à China, no começo do ano seguinte, Yung de-dicou a sua vida à modernização de um país que ele achava muito feudal e atrasado em comparação com o lugar onde estudara. Uma das melho-res formas de ultrapassar essa realidade, argumentava, seria dar a outros jovens chineses a oportunidade de que ele tinha desfrutado. Educados no exterior, seriam capazes de aprender línguas estrangeiras, ciências, tecnologia e técnicas que possibilitaram que países do Ocidente e, poste-riormente, o Japão, avançassem tão rapidamente. Todos os dias, observava na China as vantagens que esses avanços haviam dado às empresas e às pessoas estrangeiras na educação, medici-na, ciência, indústria e comércio. Em 1863, Yung encontrou um patrono em Zeng Guo-fan, vice-rei de Jiangsu, Jiangxi e Anhui, e o general que desempenhara o importante papel de derrotar a revolta de Taiping. Zeng persuadiu Yung a desistir de seu lucrativo trabalho no sector privado a fim de fazer parte do governo. Zeng enviou-o para Nova Iorque, onde comprou máquinas de uma empresa em Fitchburg, Massachusetts, que se tornou parte de uma oficina mecânica no Arsenal de Jiangnan, em Xangai, a primeira fábrica de armas da China. Yung também criou um Departamento de Tradução, que nos 10 anos seguintes traduziu mais de 100 obras, incluindo a “Lei de Contratos” de Parson, um livro de leis inglesas e livros sobre geografia e indústria. Em 1868, Zeng enviou ao governo quatro propostas e numa delas propunha que 120 jovens, divididos em quatro grupos de 30, fossem estudar para os Estados Unidos. Os estudantes deviam ter idades entre os 12 e os 14 anos e disporiam de 15 anos para concluir os estudos. Para Zeng, o es-quema deveria continuar indefinidamente.
  • Capítulo 3: Zhan Tian-you41No Inverno de 1870, o governo aceitou a proposta e reservou 1,5 milhões de dólares para a sua execução. Concordou com Zeng que a China tinha falta de pessoas formadas em artes e ciências modernas. Como resultado, muitos cargos importantes no governo, tais como a ad-ministração dos fortes, navios de guerra, forças militares e alfândegas da China, eram assegurados por estrangeiros. O país precisava de mão-de-obra qualificada. O governo estabeleceu uma Comissão Educativa Chinesa que pagaria as propinas e restantes cus-tos associados à formação bem como as despesas diárias dos alunos. Em troca, estabeleceu várias condições: ao concluir os estudos, os estudantes deviam regressar à China e trabalhar para o governo, não deviam cortar as tranças, converter-se ao cristianismo ou ter casos amorosos. O governo decidiu enviar estudantes entre as idades de 12 e 15 anos, que seriam sujeitos a um exame e passariam um ano numa escola preparatória em Xangai antes de irem para o estrangeiro. Os seus pais e responsáveis tiveram de assinar um documento dizendo que haviam concordado em deixá-los ir por 15 anos. Yung teve grande dificuldade em encontrar pais que estivessem nes-sa disposição, pois não queriam mandar os seus filhos jovens para um país remoto e desconhecido. A maioria dos chineses não tinha noção do que eram os Estados Unidos e deixá-los ir por 15 anos seria como aban-doná-los. Nenhuma família de posição ou com riqueza se inscreveria. As famílias mais receptivas foram as de Guangdong, a única pro-víncia da China que há muito tempo tinha contactos com o mundo ex-terior. Durante muitas décadas, os seus naturais viajaram para o Sudeste Asiático e América do Norte e do Sul para fazer negócios ou migrar e possuíam uma melhor compreensão dos benefícios desse esquema. Dos 120 estudantes que foram para os EUA, 84 eram de Guangdong, incluin-do 39 do município natal de Yung, Xiangshan. Este município enviou mais migrantes para o estrangeiro do que qualquer outro na China.Os pais de Zhan pertenciam a esse pequeno grupo de pessoas dispostas a enviar os seus filhos para o estrangeiro. Eles foram persuadidos por um amigo de Xiangshan que se mudara para Macau para fazer negócios e que argumentou que tal educação beneficiaria o seu jovem filho. Mais do que outros chineses, as pessoas de Xiangshan entendiam os benefícios de uma educação ocidental, mesmo que isso significasse separação por muitos anos.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade42Então, o jovem Tian-you foi em primeiro lugar para Xangai para entrar na escola preparatória. Mais tarde, aos 11 anos, partiu com o primeiro grupo de 30 estudantes, em 11 de Agosto de 1872. Os jovens sentiam uma mistura de medo, solidão e excitação. Era a primeira vez que saíam da China e não tinham ideia do estranho e distante país para o qual estavam a ir.A viver com uma família americanaDepois de chegar à Califórnia, o grupo apanhou o caminho-de-fer-ro Trans-Pacífico para Nova Inglaterra. Os rapazes falavam pouco inglês e não conseguiam comunicar com as pessoas ao seu redor. Yung estabe-leceu a sua base em Hartford, Connecticut. Decidiu então, à semelhança do que havia feito 30 anos antes, que os alunos adaptar-se-iam melhor à vida americana e aprenderiam inglês mais rapidamente se ficassem a resi-dir com famílias locais. Decidiu, igualmente, que dois dos jovens chineses deveriam ficar juntos na mesma casa. Um total de 137 famílias ofereceu--se para aceitar os jovens chineses – médicos, membros do clero, advo-gados e professores. Os anfitriões tratavam-nos como membros da sua própria família, comendo com eles e levando-os à igreja aos domingos. Zhan ficou com um homem chamado Luther Hopkins Northrop e sua esposa, na sua casa na Henry A. Street, New Haven, Connecticut. Northrop era o director do Instituto Seaside de West Haven. No início, foi muito difícil para Zhan e para os outros jovens. O úni-co inglês que sabiam era o que haviam aprendido na escola preparatória de Xangai. Zhan entregou-se a essa tarefa, memorizando novas palavras em inglês todos os dias e praticando-as com os colegas na escola. Zhan frequentou o Instituto Seaside de 1873 a 1875, depois a Hillhouse High School e a Hopkins Grammar School, ambas as escolas em New Haven. Em 1878, ficou no primeiro lugar da sua turma e em segundo lugar na escola. Jogou ainda nos “Orientals”, a equipa de beisebol da escola.Graças às suas excelentes notas, em Setembro de 1878 ingressou na Sheffield Scientific School, na Universidade de Yale. O curso que seguiu era Engenharia Civil, com especialização em construção de caminhos-de--ferro. No seu primeiro ano escolar recebeu um prémio de Matemática e em 1881 concluiu o bacharelato.
  • Capítulo 3: Zhan Tian-you43Zhan utilizou da melhor forma o tempo que passou nos EUA. Leu muitos livros fora do tema da sua licenciatura, em particular livros sobre democracia e modernização. Gostava de actividades desportivas, espe-cialmente natação, hóquei no gelo, ténis e beisebol. À semelhança dos outros estudantes chineses, era obrigado a manter o seu rabicho. Então, quando participavam em competições, os espectadores americanos fica-vam surpreendidos ao ver as tranças a voar ao vento.Yung ficou muito feliz com o progresso de Tian-you e dos outros jovens a seu cargo. “Quando os jovens chegaram à Nova Inglaterra, o peso pesado da repressão e da supressão foi retirado das suas mentes, exultaram com a sua nova liberdade e pularam de alegria. Não admira que tenham praticado desportos com entusiasmo e prazer”, escreveu.Forçados a regressarTian-you teve sorte. Foi um dos dois únicos alunos, dos 120, a licen-ciar-se na universidade. Em 1881, o governo decidiu pôr termo ao progra-ma e ordenou a todos os alunos que voltassem para casa, independente-mente de terem ou não concluído os estudos. A quase totalidade não o tinha conseguido. O que fez o governo mudar de ideia foram os relatórios de Wu Zi-deng, um comissário que fora enviado a Hartford para acompanhar o programa. Ele descobriu que muitos alunos haviam cortado as suas tranças, usavam roupas ocidentais e passavam pouco tempo a estudar o confucio-nismo e os ritos tradicionais. Alguns até se haviam convertido ao cristianis-mo, algo expressamente proibido no documento que seus pais assinaram. Concluiu então que os jovens estavam a perder as suas características chi-nesas e a ficar americanizados. Os superiores de Wu aprovaram a sua visão do assunto e ordenaram o regresso dos estudantes. Os conservadores da corte imperial haviam vencido os reformadores que apoiavam o programa.Esta situação significava que, quando Zhan e os seus colegas re-gressassem a Xangai, não seriam tratados como membros de uma nova elite, como seus pais esperavam, mas com suspeita. Em vez de serem enviados para trabalhar em instituições nas quais poderiam aplicar os conhecimentos que haviam adquirido, foram enviados como tradutores ou oficiais da nova Marinha Imperial. Zhan foi enviado para a Academia Naval de Fuzhou, parte do primeiro estaleiro naval moderno na China.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade44Em Julho de 1882, concluiu a instrução militar e foi seleciona-do para um curso de formação como aspirante no Yang Wu, o navio almirante da Armada do Sul. De Outubro de 1884 a Julho de 1888, foi professor de línguas estrangeiras no Instituto de Estudos Gerais de Guangdong e na afiliada Escola Náutica de Guangdong. Em 1885, o governo de Guangdong e Guangxi nomeou-o para rea-lizar o primeiro levantamento chinês do litoral de Guangdong para fins de defesa naval. Participou na guerra sino-francesa de 1884-1885, gran-de parte da qual foi travada no mar. Zhan deve ter-se questionado por que gastara tanto tempo e energia a aprender engenharia ferroviária nos Estados Unidos.Uma das razões prendeu-se com o facto da construção de caminhos--de-ferro ser, ainda, um tema muito controverso na China. Em 1876, um empresário britânico construiu a primeira linha do país, o caminho--de-ferro de Wusong, nos arredores de Xangai. Opondo-se fortemente à ideia, o governo comprou-a a um preço elevado, desmantelou-a e enviou os carris para Taiwan. Muitos na corte, incluindo a imperatriz, acredi-tavam que as máquinas a vapor perturbavam quer os espíritos de seus ancestrais, quer os dragões que viviam debaixo do solo e que isso teria consequências terríveis. Em 1881, com a aprovação do governo, uma linha de 11 quilóme-tros foi construída para transportar carvão de uma mina em Tangshan, na província de Hebei. Foi construída sob a direcção do engenheiro civil bri-tânico Claude Kinder, na bitola padrão internacional de 1435 mm, para que pudesse ser transformada numa linha comvencional. Mas o governo ordenou que apenas os burros, não os motores a vapor, pudessem puxar os carros de carvão, já que estes não perturbariam os espíritos debaixo da terra. Quando o fizeram, os empregados estrangeiros riram-se com des-prezo e escárnio e questionaram se era assim que a China se tornaria um estado moderno e produziria aço e navios de guerra. Os gestores da mina aceitaram uma proposta de Kinder para construir uma locomotiva de 100 toneladas, a que chamaram “O Foguetão da China”, usando sucata da mina, mas o projecto tinha que ser efectuado em completo sigilo. A locomotiva entrou ao serviço em 9 de Junho de 1881. Foi um momento histórico, uma máquina a vapor chinesa estava a puxar carvão na primeira linha de caminho-de-ferro de bitola padrão do país. Quando
  • Capítulo 3: Zhan Tian-you45a notícia chegou ao Palácio Imperial, houve tumulto. O Palácio ordenou a proibição da locomotiva a vapor, dizendo que os seus movimentos e o fumo negro estavam a pertubar os antepassados imperiais nos seus tú-mulos. Mas o gerente da mina de carvão persistiu, pois não queria voltar a utilizar jumentos. Sabia que tinha o apoio de reformistas na corte e, finalmente, o tribunal suspendeu a proibição.Com esse pano de fundo pouco auspicioso, não é assim tão sur-preendente que Zhan tenha tido de esperar tanto tempo para exercer a sua profissão, respeitada e bem paga no Ocidente, mas ainda controversa no seu próprio país.Em 27 de Março de 1887, em Macau, casou-se com Tan Ju-zhen. Tinha 26 anos e a jovem 19. O casamento teve a bênção de ambas as famílias, que acabou por ser um casamento feliz, com cinco filhos e três filhas. Foi a família Tan quem ajudou a persuadir os seus pais a enviar Zhan para os Estados Unidos.Engenheiro ferroviário, finalmenteFoi somente em 1888 que Zhan conseguiu finalmente realizar o seu sonho de exercer a profissão de engenheiro e usar os conhecimentos que lhe tinham exigido muito estudo na Universidade de Yale. Foi contratado pelo mesmo Claude Kinder como engenheiro de uma linha para ligar o porto de Tianjin com as minas de carvão em Tangshan. Um seu ex-colega da universidade nos EUA que estava a trabalhar em Pequim colocou-o em contacto com Kinder e este contratou-o como ajudante de engenheiro da Companhia Ferroviária Chinesa, cujo nome foi mais tarde alterado para Caminho-de-Ferro Imperial do Norte da China. Foi de imediato promovido a engenheiro e posteriormente a enge-nheiro distrital. A linha em que trabalhou foi mais tarde ampliada para ligar Pequim a Shenyang, uma das mais importantes linhas da China. Zhang passou um total de 12 anos neste projecto. Uma das novidades que introduziu foi a utilização de caixões pneumáticos debaixo de água para a construção dos pilares no rio Luan, em 1894. Foi a primeira vez que tal técnica foi utilizada na China. A ponte tinha 640 metros, à época a mais extensa da China. De 1898 a 1901, foi engenheiro residente da Caminho-de-Ferro Imperial do Norte da China, tendo trabalhado em
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade46linhas no Norte e no Nordeste da China. De 1901 a 1902, foi engenheiro da linha Pingli na província de Jiangsu.Em 1902, o governo decidiu construir uma linha especial para a imperatriz Cixi Taihou, para que ela pudesse com facilidade visitar os túmulos de seus antepassados. Kinder foi a escolha original para liderar o projecto, mas os franceses opuseram-se. Então, Zhan recebeu a tarefa de construir a linha de 37 quilómetros de extensão, tendo coseguido concluir o projecto em quatro meses, dois meses antes do prazo e dentro do orçamento. Zhan sabia que a linha tinha pouco va-lor comercial, mas era muito importante para o futuro dos caminhos--de-ferro na China. A aprovação imperial foi essencial para expandir a rede nacional. Quando viajou de comboio, a imperatriz viúva ficou encantada. Convocou Zhan para uma audiência e presenteou-o com pérolas e jóias. Zhan guardou uma dessas peças e deu as restantes aos seus colegas.Marco nos caminhos-de-ferro da ChinaEm 1905, o governo Qing decidiu construir uma linha de caminho--de-ferro para ligar Pequim a Kalgan, uma importante cidade comercial situada a 209 quilómetros a Norte. Devido à sua importância estratégica, o governo decidiu que este seria um empreendimento somente chinês, no qual nenhum engenheiro estrangeiro, capital estrangeiro ou dívi-da incorrida a credores estrangeiros seria incluído. Zhan foi nomeado engenheiro-chefe. Essa decisão foi uma grande decepção para a Grã-Bretanha e para a Rússia czarista, pois ambos desejavam obter o contrato para a linha. Zhan reconheceu imediatamente a importância do projecto e escreveu numa carta à sra. Northrop, em casa de quem tinha permanecido en-quanto estudante, em New Haven: “Se o projecto Pequim-Zhangjiakou se revelasse um fracasso, não seria apenas o meu infortúnio, mas também a infelicidade de todos os engenheiros chineses e uma grande perda para a China. Antes e mesmo depois de eu ter assumido o projecto, muitos es-trangeiros declararam que os engenheiros chineses nunca seriam capazes de lidar com as montanhas e as grutas entre Pequim e Zhangjiakou, mas estou certo de que consigo ser bem-sucedido”.
  • Capítulo 3: Zhan Tian-you47De facto, não era um projecto simples. Enquanto os primeiros 83 quilómetros percorriam planícies, foi posteriormente necessário encon-trar um caminho através das montanhas com 550 metros de altura. Zhan começou as pesquisas no Verão de 1905 e a construção da primeira sec-ção de 83 quilómetros iniciou-se no Outono. Após a conclusão destes trabalhos, a região sofreu as piores cheias dos últimos 40 anos e o talude foi levado pelas águas. Zhan viu-se forçado a gastar 32 mil libras ester-linas em reparações, que consistiram na construção de grandes muros de contenção e 17 grandes túneis de escoamento de águas. Este troço tinha 21 pontes em aço e betão, a mais longa das quais com 90 metros e cinco vãos. Enquanto os vãos mais compridos foram produzidos na Inglaterra, o resto do material em aço para a ponte foi produzido na China, bem como todas as outras estruturas em aço.Depois de completar este troço sobre as planícies, Zhan enfrentou o desfiladeiro de Nankou. Projectou uma linha em zigue-zague ascen-dente, a fim de negociar o gradiente íngreme. Mas algumas zonas eram demasiado íngremes, pelo que foi necessário construir quatro túneis, com 21 quilómetros de comprimento. Um dos túneis foi furado através de calcário, os outros três através de granito sólido. O mais longo, de 1100 metros, ficava 19 metros abaixo da Grande Muralha e constituiu a mais longa e complexa construção de túneis realizada na China. Demorou um ano a ser construído, tendo as suas paredes sido revestidas com betão. Um total de 489 mil metros cúbicos foram escavados para a cons-trução, metade dos quais rocha sólida. A linha era curva e inclinada. Para puxar carruagens através deste troço difícil, Zhan teve que se socorrer do estrangeiro e encomendar três locomotivas da North British Locomotive Company. As locomotivas foram colocadas na estação de Nankou, no sopé do desfiladeiro, de onde levavam as carruagens até Qing Long Qiao, um percurso de 21 quilómetros, em duas horas. A partir desse local, loco-motivas mais pequenas puxavam as composições até Kalgan.A linha era comparável, em bitola e design, às construídas em países estrangeiros. A construção começou em Agosto de 1905 e foi concluída em Julho de 1909, abaixo do orçamento e dois anos antes do previsto. O custo foi bastante reduzido por não empregar engenheiros estrangei-ros, cujos salários e subsídios eram várias vezes superiores aos pagos aos chineses. Durante esse período de quatro anos, a construção da linha
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade48Pequim-Kalgan era a prioridade de Zhan, mas também trabalhou como consultor em outras linhas, em Sichuan e Nanjing.Em 1909, foi promovido a vice-ministro adjunto do Ministério dos Correios e Comunicações. Em 1910, foi convidado para participar no Congresso Internacional de Caminhos-de-Ferro na Bélgica, mas prova-velmente não pôde estar presente devido à sua pesada carga de trabalho.A revolução Xinhai e uma promoçãoNos meses que antecederam a revolução Xinhai de Outubro de 1911, as coisas haviam-se tornado cada vez mais caóticas em Cantão, onde Zhan residia. Mercadores ricos fugiram para a segurança de Hong Kong. Entre os funcionários de Zhan na companhia ferroviária, muitos tinham a mesma ideia e amigos aconselharam Zhan a ir-se embora. Mas ele convocou uma reunião com os gerentes e disse que estava determina-do em ficar. “Quem quiser ir-se embora pode fazê-lo, mas tem de encon-trar alguém que o substitua e garanta a continuidade do serviço”. Graças à sua liderança, nenhum dos gerentes saiu. Durante o período revolucionário, o Departamento de Caminhos-de-Ferro de Cantão manteve os serviços normais. Mas, nas áreas vizinhas, muitos gerentes fugiram e os serviços foram severamente interrompidos.Após a revolução Xinhai de 1911, o novo governo nomeou-o en-genheiro-chefe da linha Guangdong-Wuhan. Zhan construiu linhas entre Cantão e Shaoguan e entre Wuchang e Changsha e completou o planea-mento da linha entre Wuhan e Sichuan. De 1912 a 1918, foi director dos caminhos-de-ferro de Sichuan-Hankou-Cantão, com sede em Hankou. Em 1913, foi nomeado director técnico do Ministério dos Transportes, permitindo-lhe introduzir normas nacionais para linhas em toda a China. Estas incluíam a bitola padrão e as junções Janney. Nesse ano, criou o Instituto Chinês de Engenheiros e tornou-se o seu primeiro presidente, tendo sido reeleito cinco vezes. Em 1909, tornou-se membro da Sociedade Americana de Engenheiros e, em 1911, passou a ser um membro asso-ciado do Instituto de Engenheiros Civis da Grã-Bretanha. Em ambos os casos, foi o primeiro chinês a receber tal distinção. Em 1916, a Universidade de Hong Kong concedeu-lhe um doutora-mento “honoris causa” em Direito. Em Fevereiro de 1919, representou
  • Capítulo 3: Zhan Tian-you49a China na direcção técnica da Comissão Ferroviária Inter-Aliado nas negociações sobre o controlo dos Caminhos-de-Ferro Orientais Trans-Siberianos e Chineses (Chinese Eastern Railway - CER) depois da Primeira Guerra Mundial, tendo viajado para Harbin, na China, e Vladivostok, na Rússia, para participar nas reuniões. O objectivo da de-legação chinesa era tentar assumir o controlo do CER. A linha ia de Chita, na Sibéria, passando por Heilongjiang e sua capital, Harbin, até ao porto de Vladivostok, no Oceano Pacífico. Inaugurada em 1901, foi construída pela Rússia czarista, que desde então assumiu a sua gestão. Na altura em que essas reuniões tiveram lugar fazia muito frio e Zhan padecia de excesso de trabalho, de uma doença cardíaca e de um problema estomacal. A 20 de Abril regressou a Hankou, tendo sido in-ternado no hospital no dia seguinte. O seu estado de saúde agravou-se, tendo falecido a 22 de Abril de 1919, aos 58 anos de idade. O seu tes-tamento estipulava que pretendia ser enterrado num subúrbio da região ocidental de Pequim. Os seus colegas efectuaram uma série de cerimó-nias em sua memória em diversas cidades da China, incluindo Pequim, Hankou, Xangai e Tianjin.Homenagens e estátuasA 24 de Abril de 1922, o governo ergueu uma estátua de bronze na estação ferroviária de Qinglongqiao, com uma inscrição homenageando os seus feitos, dado ter sido neste local que logrou o seu maior feito enquanto engenheiro. Em 1987, um museu em sua homenagem abriu ao público em Badaling, na Grande Muralha. Em Outubro de 2005, no centésimo aniversário do início da construção da linha de caminho-de--ferro, o governo de Zhangjiakou inaugurou uma estátua sua na estação ferroviária sul da cidade. A Universidade de Transportes de Pequim tem igualmente uma estátua sua. Um filme biográfico estreou-se em 2000.Os visitantes de Cantão podem visitar a sua antiga residência na Rua Enning, no bairro de Liwan. É uma casa típica do final da dinastia Qing e início do período republicano. A casa contém móveis antigos, como uma antiga mesa quadrada chinesa, bancos e cadeira de dormir. Numa das pa-redes há um dístico que diz: “Viver com simplicidade tendo os seres celestes como companheiros. Possuir um carácter inflexível que é raro no mundo
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade50real”. Este dístico foi um presente de um de seus amigos. A casa-museu tem uma boa colecção de pertences de Zhan, incluindo um carril em aço da linha Pequim-Zhangjiakou, o sino em cobre usado na linha Pequim-Zhangjiakou, uma caixa em aço para amostra, o equipamento de desenho, caderno e prato de tinta, bem como o currículo que ele próprio elaborou e uma cópia de um conjunto de instruções formulado por Yuan Shikai, Presidente da República da China de 10 de Março de 1912 a 1 de Janeiro de 1916. Os materiais históricos são divididos em três categorias: os prove-nientes da sua primeira residência em Cantão e dos estudos no estran-geiro; os reunidos após o seu regresso do estrangeiro e o início da im-portação de tecnologia moderna e, por último, algum do equipamento utilizado para a construção das linhas de caminho-de-ferro e protecção da soberania nacional no decurso da construção. Os interessados podem igualmente visitar a casa de Zhan construída em Hankou em 1912. Trata-se de uma casa com dois pisos construída com madeira e tijolo ao estilo ocidental. Em Junho de 2001, o Conselho de Estado qualificou o edifício como um Local Cultural Nacional Prioritário.Uma esposa de MacauEm 1889, casou-se, em Macau, com Tan Ju-zhen, a quarta filha de Tang Bocun. O casal teve oito filhos. Estes nasceram em cinco lugares diferentes, incluindo Cantão, Shanhaiguan, Jinzhou e Pequim, reflectindo os diferentes locais para onde foi enviado no decurso do seu trabalho nos caminhos-de-ferro. A saúde de Ju-zhen não era boa, pois sofria de uma doença num pulmão que muitas vezes a obrigava a ficar acamada, além de que tossia sangue. O tratamento médico foi incapaz de melhorar significativamen-te o seu estado, pelo que não conseguia dar muita atenção ao marido. Amigos propuseram-lhe que arranjasse uma concubina, mas ele recusou, dizendo que desejava permanecer leal à sua esposa amada. Entre os mem-bros ricos e de alto nível da sociedade de Cantão, era comum arranjar uma concubina. Um comerciante rico tinha mais de 50 e o reformador Kang You-wei tinha seis. Zhan ganhava 1000 taéis de prata por mês em salário e subsídios. Dispunha, por isso, dos meios financeiros para arran-jar uma concubina, mas não o faria.
  • Capítulo 3: Zhan Tian-you51Zhan era um tenista capaz. Ao lado da casa da família, em Hankou, mandou construir um campo de ténis, onde costumava jogar com os seus filhos. Zhan gostava muito de crisântemos, o segundo carácter do nome de sua esposa, e mantinha-os em casa. Também gostava de aves domésti-cas. Após a sua morte, a sua esposa mudou-se da casa na concessão russa de Hankou para Pequim. A sua saúde não melhorou, tendo morrido em 1926, aos 59 anos. Foi sepultada ao lado do seu marido num cemitério de um subúrbio no oeste de Pequim.O seu primeiro filho, Zhan Wen-guang, estudou engenharia mecâ-nica no Tri-State College, em Indiana, Estados Unidos. O seu segundo fi-lho, Zhan Wen-cong, seguiu os passos do pai tendo frequentado a Escola Científica Sheffield, para estudar engenharia civil. Licenciou-se em 1918 e, após ter regressado à China, exerceu a sua profissão de engenheiro e foi director em várias linhas de caminho-de-ferro cuja construção seu pai havia dirigido.FontesBiografia Baidu de Zhan Tian-you, “China Educational Mission Connections”; Jornal Global Times, “Histórias antigas de Macau”, editado por Song Fu-lin e publicado pela em-presa de Macau Songshan Study Publishing em 2009; Maravilhas ferroviárias do mundo, página electrónica do Partido Comunista da China.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade52
  • Sir Robert Ho TungCapítulo 4
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade54
  • Capítulo 4: Sir Robert Ho Tung55Um milionário euro-asiático deixa um grande legado em Macau e em Hong KongNo centro histórico de Macau encontra-se um elegante edifício amarelo de três andares com janelas arqueadas e uma fachada de arcada. Está rodeado por um amplo jardim, com relvados, passeios e árvores com mais de 100 anos de idade.Esta é a Biblioteca Sir Robert Ho Tung, a maior da cidade, conten-do 100 mil volumes, incluindo um tesouro de 5000 clássicos chineses antigos. É a única biblioteca em Hong Kong e Macau que tem um jardim tão espaçoso, com mais de 1500 metros quadrados. O edifício é um dos muitos legados deixados nas duas cidades por um homem notável: Sir Robert Ho Tung. Euro-asiático, nascido em Dezembro de 1862, tornou-se o homem mais rico de Hong Kong e foi o primeiro não-europeu a viver numa zona da colónia anteriormente re-servada aos europeus. Foi condecorado por muitos governos pelas suas obras de caridade e educativas.Robert Ho Tung foi um dos compradores (intermediário entre os exportadores de produtos chineses e as empresas estrangeiras que os ad-quiriam) de maior sucesso. Na realidade, foi um dos primeiros empresá-rios internacionais de Hong Kong, investindo em muitas cidades fora da colónia e viajando frequentemente para a Europa e a América do Norte.Conhecia membros da família real e do governo britânico. Numa digressão pela Europa, em 1932, conheceu o presidente francês Albert Lebrun e o presidente alemão Paul von Hindenburg. Como o governo colonial de Hong Kong pouco fazia pela popula-ção chinesa, coube a Ho Tung e outros comerciantes pagar a construção de escolas, hospitais e outras instalações de bem-estar social. Esta tra-dição de filantropia empresarial continuou em Hong Kong até aos dias de hoje.Também não negligenciou o seu país, tendo apoiado o doutor Sun Yat-sen na sua revolução contra a dinastia Qing. Um dia envergava o uniforme de cerimónia para receber um funcionário da dinastia Qing e no dia seguinte estava a contribuir monetariamente para a causa revolu-cionária. Foi também amigo dos reformadores Kang You-wei e Chiang Kai-shek, duas das figuras mais importantes da China moderna.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade56Infância e educaçãoHo Tung nasceu a 22 de Dezembro de 1862 na Rua D’Aguilar, em Hong Kong. Seu pai era Charles Henry Maurice Bosman, de ascendência holandesa e judaica. A sua mãe era Sze Tai, uma chinesa de Baoan, hoje Shenzhen, na província de Guangdong. Foi o primeiro filho da família, a que se seguiram mais três irmãs e quatro irmãos. O seu pai era um comerciante que tinha a sua própria empresa, a Bosman and Company. Foi também sócio do Hong Kong Hotel, inaugu-rado em 1868, e director da Hong Kong and Whampoa Dock Company. Mas, por volta de 1870, Charles Bosman abandonou a sua esposa e filhos e foi para Inglaterra, ao que parece por estar falido. Foi um golpe terrível para a sua família, ao deixá-los sem o apoio financeiro e emocional ao qual se haviam acostumado. Robert e o seu primeiro irmão Ho Fook tiveram de ir para a rua à procura de pregos e de sucata metálica, que depois vendiam a um sucateiro. Com o dinheiro conse-guido compravam comida. O nome Bosman era pronunciado pelos locais como Bo-se-man e quando passado para caracteres chineses era escrito como Ho Sze-man. Quando muito mais tarde viajava, Robert Ho transportava sempre con-sigo um certificado assinado pelo governador de Hong Kong atestando que seu pai era holandês.Os dois jovens tiveram, então, um acaso de sorte ao conheceram o dr. Frederick Stewart, o escocês que era director da Escola Central, a pri-meira escola secundária pública em Hong Kong, actualmente conhecida como Queens College. Stewart gostou dos dois rapazes e convidou-os a frequentar a escola. Os dois não poderiam ter encontrado um patrono melhor. Aos 25 anos de idade, Stewart chegou a Hong Kong em Fevereiro de 1862 para assumir o cargo de director da Escola Central bem como de inspector de todas as escolas públicas. Em Junho de 1865, foi nomeado primeiro director do Departamento de Educação do governo, sendo considerado o pai da educação na antiga colónia, porque introduziu um modelo ocidental de ensino. Caso raro entre os funcionários britânicos, falava cantonês fluentemente, o que lhe dava uma proximidade com os chineses que os seus colegas estrangeiros não gostavam.
  • Capítulo 4: Sir Robert Ho Tung57Robert e três de seus irmãos foram para a escola central. O seu neto, Robert H.N. Ho, escreveu que Stewart era o “Pai Natal” de seu avô. “Sempre que havia despesas escolares suspeito que era Stewart quem as pagava”, de acordo com a história oficial da família. “Por que acho eu isso? Quando Stewart morreu em Hong Kong (em 1889), meu avô, então um homem rico, ajudou nas despesas de enterro e escreveu uma mensa-gem em sua lápide. Ele gostava mesmo de Stewart. Todos os Natais e Páscoas, os membros da família Ho vão-se curvar perante o túmulo de Stewart no cemitério protestante em Happy Valley. Sir Robert Ho Tung começa com Frederick Stewart”.A Escola Central era pouco comum em muitos aspectos. Em pri-meiro lugar aceitava estudantes de todas as nacionalidades. Em segundo lugar, era bilingue, com quatro horas de aprendizagem em inglês e qua-tro em chinês todos os dias. Para Robert e seus irmãos, nenhuma escola melhor poderia ser imaginada. Deu-lhes formação para os dois mundos, chinês e ocidental, em que viveriam e prosperariam. As outras escolas não aceitavam os filhos de pais chineses e o ensino era apenas em inglês, a língua oficial da colónia. Apesar da generosidade de Stewart, Robert tinha de ter cuidado com os gastos. A sua mãe dava--lhe diariamente três centavos de um dólar de Hong Kong para o almo-ço, mas apenas gastava dois centavos na refeição e poupava o terceiro. Robert e os seus dois irmãos eram excelentes alunos. Concluiu os estudos em 1878, com a idade de 16 anos. Ho Tung concorreu a um lugar de amanuense no escritório de Cantão da Alfândega Marítima Imperial Chinesa, sob o comando do inspector-geral Sir Robert Hart. Muitos outros candidatos surgiram para um emprego que era estável e oferecia bons salários. Apesar de ser o can-didato mais jovem, Robert conseguiu o lugar. O seu salário era de 30 dó-lares por mês. Mas só trabalhou na alfândega durante dois anos, pois as suas capacidades exigiam algo mais interessante do que um trabalho de escritório. Em 1880 apresentou a demissão e foi trabalhar como compra-dor assistente da Jardine, Matheson & Co, a maior empresa comercial de Hong Kong. Este era um ambiente mais adequado para as suas capacida-des de negócios, as línguas que dominava e a capacidade de viver nos dois mundos, tanto chinês como ocidental. Tendo começado como intérprete e assistente, progrediu rapidamente na empresa.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade58Vida familiarEm 2 de Dezembro de 1881, casou-se com Margaret Sau Ying Mak, então com 16 anos. À semelhança de Robert, também era euro-asiática, filha de Hector Coll Maclean, que trabalhou com ele na Jardines e da sua esposa chinesa. Nos três anos seguintes, revelou as suas capacidades para os negó-cios. Em 1883, assumiu a gestão de duas empresas participadas do grupo Jardine, a Hong Kong Fire Company e a Canton Insurance Company, tendo sido bem-sucedido. No ano seguinte intermediou a compra de uma empresa de açúcar para o grupo Jardine, tendo conseguido um preço mais baixo, poupando dessa forma muito dinheiro. Na sequência deste negócio recebeu uma comissão de 20 mil dólares de Hong Kong, mon-tante que partilhou com o seu cunhado e com colegas. Constituiu, então, a sua própria empresa, Ho Tong & Company e foi muito bem-sucedido tanto a negociar em nome próprio como em negócios de transporte ma-rítimo e imobiliários. O seu neto Robert H.N. Ho explicou como Robert fazia negócios. “Sempre me disse: Quando se fazem negócios é necessário olhar para a outra pessoa e perceber se nela se pode confiar. Era necessário fazer um juízo da outra pessoa, dado ser muito difícil nessa altura averiguar o seu valor verdadeiro. Aparentemente o meu avô foi muito bem-sucedido nessa arte... Como é que aprendeu a ajuizar as pessoas de forma tão correcta? Penso tratar-se de algo inato. Era muito astuto e fazia sempre a pergunta certa sobre uma pessoa... Outra das suas características era o facto de estar sempre a sorrir e a elogiar os outros. Dizia bom dia mesmo a um mendigo na rua. Tinha uma reputação muito boa”.Em 1885, o seu irmão mais novo obteve uma bolsa de estudos para estudar engenharia numa prestigiada universidade no Reino Unido. Adoptou o nome Walter Bosman e exerceu a sua profissão no estrangei-ro. Em 1890, Robert tornou-se o principal comprador da Jardine’s. No ano seguinte, foi nomeado Juiz de Paz.Robert não conseguiu ter filhos com sua esposa Margaret Sau Ying Mak. Por volta de 1889, o casal adoptou Ho Sai Wing, o filho mais velho de seu irmão Ho Kook. Em 1891, tomou Chow Yee Man como concubina para tentar ter filhos. Em 1892, visitou Londres pela primeira
  • Capítulo 4: Sir Robert Ho Tung59vez e pode ter conhecido o seu pai, então um cidadão britânico natura-lizado. Seu neto Robert H.N. Ho recorda-se do seguinte: “As minhas recordações do pai do meu avô, Bosman, são vagas. Disseram-me que se encontrou com ele em Inglaterra numa das viagens que efectuou com Margaret. Mas não posso comprovar essa afirmação. E o meu avô nunca, nunca, falou comigo sobre seu pai. Nunca. Ninguém se atrevia a fazer perguntas sobre o assunto”.Em 1893, Ho tornou-se membro da Câmara Geral de Comércio de Hong Kong, cargo que ocupou pelo resto de sua vida. Nesse ano sofreu uma grave crise de pneumonia e quase morreu. Ainda não tinha filhos, nem com Margaret nem com sua concubina. Assim, em 1895, com o acordo de Margaret, casou-se com a sua prima em primeiro grau, Clara Lin Lok Cheung. Viajou com ela durante nove meses no Japão e nos Estados Unidos. Costumava usar o nome Bosman quando viajava, por conveniência. Em 1896, sua mãe, a Senhora Sze, faleceu e, a partir desse momento, transportava consigo um retrato da sua mãe, mesmo quando viajava. Em 1897, Clara deu à luz a primeira filha de Robert, a quem foi dado o nome Victoria Jubilee. Deu-lhe um total de três filhos e sete filhas. Budista devota, encorajou-o a envolver-se no trabalho de caridade que ocupou uma parte importante de sua vida posterior. Foi ela que estabele-ceu em Hong Kong a primeira escola para o ensino do budismo.Liderando a comunidade chinesaAlém de suas actividades comerciais, Robert passou a desempe-nhar um papel crescente como líder da comunidade chinesa. Hong Kong era uma cidade colonial, na qual estrangeiros, especialmente bri-tânicos, desfrutavam de direitos e privilégios negados aos chineses. Em 1895, Ho organizou uma petição para protestar contra os discrimina-tórios “Regulamentos de Luz e Passagem” que os chineses tinham de respeitar quando saíam à noite. Começou, também, a sua actividade de filantropo, algo que prosseguiu pelo resto de sua vida. Seu neto recorda: “Uma coisa que meu avô me ensinou tanto em inglês como em chinês e que se tornou no lema de família: ‘É preciso aprender a dar antes de receber’. Insistia nisso, após o que começava a recordar como tinha obtido a sua fortuna”.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade60Foi o fundador e primeiro presidente do Clube Chinês, que organi-zou em resposta ao Clube de Hong Kong, o clube social de maior prestí-gio na colónia que havia sido criado em 1846 e que só admitia homens britânicos. O novo clube foi criado em 1897 por líderes comunitários chineses e recebeu chineses e euro-asiáticos. No mesmo ano, obteve um terreno para o Cemitério Chiu Yuen para os euro-asiáticos, no Monte Davis, e trasladou o túmulo de sua mãe para lá. Em 1898, tornou-se presidente do Hospital Tung Wah, uma das instituições médicas mais importantes da cidade, em cujo conselho permaneceria durante décadas.A aquisição de terrenos passou a ser o seu negócio principal. Em 1899 comprou diversos lotes de terreno na Central pelo valor de 435 mil dólares de Hong Kong, a transacção de montante mais elevado ocorrida até então. O seu neto Robert H.N. Ho recorda-se: “O meu avô utilizou todo o dinheiro que conseguia poupar, depois de sustentar a família, para comprar terrenos. Não desperdiçava o dinheiro e este foi outro dos seus ensinamentos, viver sempre de acordo com as suas posses, nunca gastar demasiado dinheiro. Manter-se discreto, como dizemos hoje em dia”.Em 1900, tomou uma decisão importante, demitindo-se do cargo de chefe de compras da Jardine’s para dedicar-se por completo à sua própria empresa. Seu irmão, Ho Fook, assumiu o posto deixado vago na Jardine’s. Tinha dois motivos: um era a sua fraca saúde e o outro era que, apesar de ter apenas 38 anos, havia construído uma rede tão grande de ligações nos mundos chinês e ocidental como comprador, que era capaz de prosperar por conta própria. Era já um dos homens mais ricos de Hong Kong, com uma fortuna pessoal de mais de 2 milhões de dólares de Hong Kong. Em 1902, com outros membros de um “sindicato da China”, tornou-se um dos princi-pais accionistas do Hong Kong Telegraph, um jornal de língua inglesa. Em 1914, foi um dos fundadores do Banco Tai Yau.Em 1902, doou dinheiro ao governo para a construção de uma es-cola em Kowloon, que viria a ser conhecida como Escola Britânica de Kowloon ou Escola Britânica Central. A sua ideia era abrir uma escola semelhante àquela onde tinha estudado, aberta a pessoas de todas as nacionalidades. Mas o governo não respeitou o seu desejo e a escola King George V, que foi construída com o dinheiro que havia doado, era reservada a estudantes europeus.
  • Capítulo 4: Sir Robert Ho Tung61Em 1906, Ho Tung e sua família tornaram-se os primeiros não--europeus autorizados a viver no Pico, o bairro mais caro e mais con-fortável de Hong Kong, à semelhança da actualidade. Anteriormente, estava apenas reservado aos europeus. Ho adquiriu três casas de um andar através de um amigo europeu. O processo de aquisição por alguém que não era europeu era tão complexo que precisava ser apro-vado na Grã-Bretanha. A sua segunda esposa, Clara, disse que a lo-calização, na montanha com vista para a área urbana e o porto, seria melhor para a saúde de seus filhos. Para minimizar o conflito entre suas mulheres, colocou as suas duas esposas e a sua concubina e res-pectivas famílias em casas separadas. Mas ele próprio continuou a viver a maior parte do tempo em Idlewild, uma espaçosa residência nos Mid-Levels.Em 1910, ficou gravemente doente por excesso de trabalho e exaus-tão. O seu peso reduziu-se para menos de 27 quilogramas, tendo ficado acamado durante mais de um ano. Clara cuidou dele durante a crise, tra-tando dele noite e dia e recitando as escrituras budistas. Graças aos seus cuidados, recuperou da doença e viveu durante mais 46 anos.Viajando pelo mundoHo Tung viajou muito pela China, Sudeste da Ásia, Europa e América do Norte, viagens que duravam vários meses uma vez que, à época, os navios de passageiros eram a principal forma de transpor-te. Utilizou essas viagens para explorar negócios, construir a sua rede pessoal e fazer turismo. Levou consigo membros de sua família, a sua primeira esposa para os países ocidentais e sua segunda esposa para a China, assim como seus filhos, para lhes mostrar a vida fora de Hong Kong e permitir que eles melhorassem o seu inglês. Em 1908, visitou os Estados Unidos, usando o nome H.T. Bosman. Mas foi ameaçado de deportação por se fazer acompanhar de duas esposas. Clara regressou a casa, tendo então sido autorizado a permanecer com Margaret em São Francisco, cidade onde recebeu tratamento médico.Em Dezembro de 1929, Clara iniciou uma visita de quatro meses a locais budistas na Índia, Birmânia, Tailândia e Malásia, numa época
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade62em que era pouco comum que um homem permitisse que a sua esposa e filhos viajassem sozinhos. Em 1932, visitou Londres com Margaret no âmbito de uma Lua de Mel Dourada na Europa. Nessa viagem utilizou um Zeppelin para juntamente com sua filha Irene apreciar a capital britânica. No ano seguinte, deslocou-se a Londres para a Conferência Económica Mundial. Durante a sua estada foi sujeito a uma interven-ção cirúrgica ao sistema digestivo tendo efectuado a sua convalescença na Europa.Três mundosUma das características de Ho foi a sua capacidade de operar sem esforço em três mundos diferentes: Hong Kong, China continental e Ocidente. Tinha redes pessoais e comerciais em todos estes três mundos e sabia como mantê-las. Manteve boas relações com a Grã-Bretanha, o poder colonial e o governo nacionalista da China. Em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, doou ao exército britânico 50 mil dólares de Hong Kong para a compra de dois aviões militares e ambulâncias para o esforço de guerra. No ano seguinte, o rei britânico George V fez dele Cavaleiro, uma das primeiras pessoas nascidas em Hong Kong a receber esse título. Em 1924, participou na exposição do Império Britânico em Londres juntamente com Margaret, onde serviu na quali-dade de comissário honorário. O par conheceu a rainha Mary, esposa do rei George V.Em 1915, fez uma doação em dinheiro para Faculdade de Medicina da Universidade de Hong Kong. No ano seguinte foi um dos primeiros cinco homenageados com um doutoramento honoris causa, título que lhe foi atribuído no decurso da primeira reunião magna da universidade. Em 1920, fundou uma Associação dos Antigos Estudantes da escola que frequentou, conhecida à época por Queen’s College.Em 1914, recebeu a “Ordem de Terceira Classe da Colheita Excelente”, a primeira de várias honrarias que lhe foram atribuídas pelo governo nacionalista. Era um patriota chinês, uma pessoa activa na ten-tativa de trazer paz e unidade ao país. Em 1923, Ho Tung conheceu o Dr. Sun Yat-sen, em Hong Kong, quando este fez um famoso discurso na universidade da cidade. Foi o filho de Ho, Edward, então presidente da
  • Capítulo 4: Sir Robert Ho Tung63União dos Estudantes da Universidade, que fez o discurso de boas-vindas antes do discurso do Dr. Sun. Nesse mesmo ano, tentou organizar uma conferência para reunir os diferentes senhores da guerra na China para discutir a paz. Não foi bem-sucedido nesse seu esforço. Esta foi a obser-vação de seu neto, Robert H.N. Ho: “na época dos senhores da guer-ra, meu avô achou que poderia conversar com os mais poderosos para unir a China. Atendendo ao facto de residir em Hong Kong e ser uma pessoa não envolvida no conflito, pensou que poderia ser o pacificador. Era também suficientemente rico para ser reconhecido por esses senhores da guerra porque eles precisavam de dinheiro para comprar munições e mantimentos. Achava que estava numa posição suficientemente forte para pôr termo aos conflitos e unir a China. Mas quem seria o líder? Nenhum deles conseguia chegar a um consenso. Por isso falhou, princi-palmente por causa de interesses diferentes”. Ho também incluiu entre os seus amigos Kang You-wei, que defen-dia reformas não-violentas durante a dinastia Qing e Chiang Kai-shek, presidente da China durante a era nacionalista.Em 1929, tentou novamente organizar uma conferência para aca-bar com as hostilidades entre as facções rivais na China. Em 1931, ru-mou a Xangai e a Pequim, onde conheceu Zhang Xue-liang, o senhor da guerra que controlava a Manchúria, as três províncias do Nordeste. Seu filho, Robert Shai Li, actuou como intérprete, pois Ho não falava bem o mandarim. Em 18 de Setembro, os três estavam presentes num espectá-culo de ópera para angariar fundos para caridade, quando os militares japoneses desencadearam a sua operação para tomar a Manchúria. O marechal Zhang perdeu o seu reino.Em 1936, Ho organizou uma festa em Idlewild, a sua casa em Hong Kong, para comemorar o 50.º aniversário do Presidente Chiang Kai-shek. Fez então uma doação para a aquisição de um avião para o governo nacionalista e, em troca, recebeu uma grande fotografia do pre-sidente. Também conheceu Sun Fo, filho do Dr. Sun Yat-sen, em Hong Kong. Em Maio do ano seguinte, foi a Nanjing, a capital, para uma expo-sição industrial e para discutir investimentos, onde conheceu o Presidente Chiang e doou dinheiro para causas nacionalistas. Entretanto, a sua mu-lher Clara tornou-se uma figura importante em organizações de ajuda humanitária para mulheres em Hong Kong.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade64Império empresarial em expansãoNo século XX, os interesses comerciais de Ho expandiram-se bas-tante, tendo passado a ser director de muitas empresas, incluindo o Hong Kong & Shanghai Bank, Hong Kong Electric, Hong Kong Tram e Hong Kong Land. A sua própria empresa efectuou operações comerciais e in-vestiu em navios de guerra e propriedades. Efectuou grandes investimen-tos em Xangai, Qingdao e Manchúria, além de Hong Kong e Macau. Em 1922, mediou uma greve envolvendo 30 mil marinheiros chi-neses de Hong Kong e de Cantão. O sindicato dos marinheiros havia convocado uma greve para protestar contra a recusa das empresas de navegação de aumentar os salários e aproximá-los dos salários dos ma-rinheiros não-chineses. A greve começou em Janeiro de 1922 e interrom-peu de forma significativa o transporte de alimentos para Hong Kong. O governo colonial declarou a greve ilegal. Com grandes interesses nos sectores dos transportes e do comér-cio, Ho Tung foi seriamente afectado pela greve. Juntamente com ou-tros comerciantes desempenhou um papel importante na mediação entre o sindicato, as companhias de navegação e o governo, o que ajudou a pôr termo à greve em 6 de Março, após 53 dias. Mas os marinheiros mais tarde acusaram-no, bem como ao governo, de não honrar as pro-messas assumidas. O sindicato apresentou o caso junto da Organização Internacional do Trabalho, mas sem sucesso.Em 1925, as cidades de Hong Kong e Cantão foram severamente atingidas por uma greve geral. Foi uma greve e boicote que ocorreu em ambas as cidades de Junho de 1925 a Outubro de 1926. Começou como uma resposta aos incidentes de tiroteio, em 30 de Maio, em Xangai, quando manifestantes chineses foram mortos por polícias chineses e sikh sob o comando britânico. Ho era um dos alvos da ira dos grevistas, mas esteve ausente de Hong Kong durante grande parte do ano.Em 1928, adquiriu um jornal de Hong Kong, que se encontrava em dificuldades financeiras, o Industrial and Commercial Daily, e inverteu a situação através de um investimento de capital e uma reestruturação.Em 5 de Janeiro de 1938, a sua esposa Clara faleceu. Nesse mesmo mês, o seu irmão mais novo, Walter Bosman, voltou a Hong Kong após uma ausência de 53 anos.
  • Capítulo 4: Sir Robert Ho Tung65Escapando aos japonesesEm Janeiro de 1941, para comemorar o centésimo aniversário da colónia, uma estação de rádio convidou-o a apresentar as suas reflexões sobre a sua experiência de vida para as transmissões do Centenary Talks.Em 2 de Dezembro daquele ano, mais de mil pessoas reuniram-se no Hong Kong Hotel para celebrar as bodas de diamante de Ho e Margaret. Tratou-se, até à data, da maior recepção do género alguma vez realizada no hotel. O governador de Hong Kong, Sir Mark Young, propôs o brinde e o governador de Macau, Gabriel Teixeira, também esteve presente. Os convidados presentearam a família com um broche com dois pêssegos dourados a simbolizar a longevidade. Toda a família foi convidada e par-ticipou deste importante evento, mas havia um notável ausente, o filho de Ho, Robert Shai Lai, um oficial do Exército Nacionalista Chinês. Em 4 de Dezembro, Ho Tung apanhou um barco rumo a Macau alegando que queria recuperar das comemorações do aniversário. A casa, número 3 do Largo de Santo Agostinho, foi mandada construir em 1894 por Carolina Antónia da Cunha, esposa de um alto funcionário colonial. Passou por vários proprietários antes de Ho comprá-la em 1918 por 16 mil patacas para sua residência de Verão. Então, como agora, ocupava um local privilegiado, perto do Seminário de São José e da Igreja de Santo Agostinho, uma área que faz actualmente parte do Património Mundial de Macau. Três dias depois de Ho ter partido para Macau, os militares japoneses atacaram Hong Kong, tendo o governador britânico rendido no dia de Natal.O seu neto, Robert H.N. Ho, acredita que Ho Tung foi para Macau porque tinha conhecimento prévio do ataque japonês, provavelmente graças a uma informação que lhe foi transmitida pelo filho que não este-ve presente na recepção.“O meu avô convocou todos os parentes para regressarem a fim de comemorarem o aniversário. Assim, todos eles o fizeram excepto meu pai (Robert Shai Lai). Os meus avós ficaram extremamente abor-recidos porque um dos filhos não iria comparecer. Mais tarde, desco-briu-se que meu pai sabia exactamente quando o ataque japonês iria ter lugar, dado estar nessa altura a cooperar com os serviços britâni-cos de informações. Todos os quadros superiores do governo chinês
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade66sabiam, mas ele não podia transmitir essa informação. Limitou-se sim-plesmente a não comparecer. Depois da celebração, pouco antes do início da guerra, o meu avô disse que estava cansado e queria ir para Macau descansar. Essa é a história. Agora, todos nós fazemos a mesma pergunta. Por que razão teria de ir para Macau para descansar? Será que tinha conhecimento do que se ia passar? E a única pessoa que lhe poderia ter dito era meu pai”.Ho Tung fez uma escolha sábia. Macau era a única cidade no leste da Ásia que não estava sob ocupação militar japonesa e permaneceria assim até ao final da guerra em 15 de Agosto de 1945. Ho Tung des-frutou de uma liberdade e conforto material que não teria em Hong Kong ou em qualquer outra cidade, sob controlo japonês. Como era um cidadão tão proeminente, os japoneses queriam que ele regressasse a Hong Kong. O neto Robert H.N. Ho recordou: “Os japoneses foram a Macau pedir-lhe para voltar. Mas o meu avô disse simplesmente que estava doente. Tentaram, mas ele não quis ir”. Depois da sua chegada a Macau, Ho Tung tinha pouco dinheiro. “Teve de pedir dinheiro empres-tado a um velho amigo, Kou Ho Neng, que administrava a concessão do jogo naqueles dias. Kou era, na época, um homem importante em Macau e ele e meu avô já eram amigos. É claro que meu avô mais tarde pagou tudo”. Ho Tung passou todo o período da guerra em reclusão na sua casa em Macau.Em 1944, sua esposa Margaret recebeu o baptismo cristão. Faleceu nesse mesmo ano em Hong Kong e foi enterrada no cemitério protestante de Happy Valley.Regresso TriunfalApós a rendição japonesa em 15 de Agosto de 1945, as autoridades britânicas em Hong Kong estavam ansiosas para persuadir Ho Tung a regressar o mais depressa possível. A sua presença iria tranquilizar os mi-lhares de indivíduos de Hong Kong que se haviam refugiado no continen-te ou em outro lugar na tentativa de escapar aos japoneses. A mensagem seria a seguinte: se Ho Tung tinha voltado, então o regresso a Hong Kong era seguro para todos que o fizessem. Ho Tung seria também um símbolo do regresso do domínio britânico, numa época em que era incerto se os
  • Capítulo 4: Sir Robert Ho Tung67britânicos seriam capazes de retomar o controlo dessa importante coló-nia. O governo nacionalista exigiria a sua devolução?O seu neto, Robert H.N. Ho, recordou: “O comandante militar britânico, o almirante Cecil Harcourt, ligou para o meu avô em Macau e disse: ‘Eu vou buscá-lo’. O navio que o iria buscar atracaria no Cais da Rainha e haveria uma cerimónia para que as pessoas de Hong Kong soubessem que ele tinha regressado. Nessa altura era o Senhor Hong Kong. Meu avô concordou” e a cerimónia que se veio a realizar foi um momento importante na reconquista britânica do controlo da cidade.Após o seu regresso, a primeira coisa que Ho Tung fez foi visitar o túmulo da sua esposa Margaret no cemitério protestante. Pediu, então, ao governo britânico que lhe desse o título honorário de Dama. Em 1948, doou 1 milhão de dólares de Hong Kong à Universidade de Hong Kong para o albergue feminino Lady Ho Tung Hall, em memória de sua espo-sa. Apesar de sua idade avançada, Ho concentrou-se nos seus negócios, que tinham estado parados devido a quatro anos de guerra. Procurou igualmente obter compensação pelos prejuízos que tinha sofrido.Em 1946, as autoridades coloniais realizaram uma cerimónia no Palácio do Governo para receber de volta o governador Sir Mark Young, o homem que se havia rendido aos japoneses no dia de Natal de 1941. Ho Tung redigiu a mensagem de boas-vindas, para agradecer a Sir Mark o seu discurso durante a recepção de aniversário em Dezembro de 1941.Em 1949, os negócios de Ho Tung sofreram um duro golpe quando a República Popular foi estabelecida e todos os seus bens imobiliários em Xangai foram confiscados. “Muitas pessoas não sabiam que a sua carteira de propriedades em Xangai era ainda maior do que em Hong Kong”, lem-brou seu neto Robert H.N. Ho. “Perdeu tudo após o Partido Comunista ter tomado o poder e limitou-se a apagar da sua contabilidade todos esses activos. Tudo o que restou foi Hong Kong”. Ho Tung permaneceu activo no seu trabalho. “Sempre foi um homem muito ocupado, tinha um tele-fone ao lado da cama e um telefone ao lado da cadeira. Estava sempre pronto para negociar, mesmo quando tinha 90 anos. Estava sempre muito atento. Devo comprar aquilo? Devo vender aquilo?”. Em 1949, quando tinha 86 anos, fez uma volta ao mundo. Nessa viagem encontrou-se com o escritor irlandês George Bernard Shaw e com o Presidente francês Vincent Auriol. Em 1955 recebeu uma segunda
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade68condecoração que lhe foi atribuída pela rainha Isabel II, tendo passado a ser Cavaleiro do Império Britânico. Nessa ocasião deslocou-se a Londres tendo participado na cerimónia realizada no Palácio de Buckingham numa cadeira de rodas.Cavaleiro da caridadeNos seus últimos anos de vida, Ho Tung dedicou muito do seu tempo e dinheiro à caridade e à educação. Foi um dos fundadores da Universidade de Hong Kong e director dos Hospitais Tung Wah e Po Leung Kuk. O primeiro hospital de Tung Wah foi fundado em 1870, oferecendo serviços médicos chineses gratuitos aos doentes e pobres. Dois outros hospitais foram construídos em 1911 e 1929, tendo a instituição passado a ser a mais importante organização de caridade em Hong Kong. Dispõe actualmente de 2670 camas em cinco hospitais, 2000 centros de serviços e uma facturação anual de 4,7 mil milhões de dólares de Hong Kong.Fundado em Novembro de 1878, o Po Leung Kuk assumiu-se como o maior fornecedor não-governamental de serviços sociais de Hong Kong. Ho Tung também doou para o Hospital Kiang Wu e para o centro budista Bao Jue Yi Xue, em Macau. A sua esposa, uma budista devota, doou generosamente a instituições de caridade budistas.Em reconhecimento do seu trabalho de caridade e educativo, Ho Tung recebeu condecorações de muitos governos, incluindo Grã-Bretanha, China, Portugal, França, Alemanha e Itália. Em 1915, foi condecorado pelo rei George V da Grã-Bretanha e de novo em 1955. Recebeu uma condecoração do governo português em 1952.FalecimentoHo Tung faleceu aos 93 anos em Idlewild, a sua mansão na Rua Seymour, em Hong Kong, a 26 de Abril de 1956, tendo sido enterrado ao lado de sua esposa Margaret no cemitério protestante em Happy Valley. No seu testamento, deixou instruções para a manutenção permanente da sua sepultura e da de Margaret, bem como de seu ex-director Frederick Stewart e de seu sogro, Hector Maclean.
  • Capítulo 4: Sir Robert Ho Tung69Também deixou um legado de 500 mil dólares de Hong Kong para estabelecer o fundo de caridade Sir Robert Ho Tung. Devido ao facto de ter sido sabiamente investido, o legado permite apoiar cerca de 200 projectos por ano com uma contribuição de 10 milhões de dólares de Hong Kong. Os beneficiários do fundo incluem o Grupo de Hospitais Tung Wah, Po Leung Kuk, a Cruz Vermelha de Hong Kong, o Exército de Salvação, a Sociedade de Hong Kong para a Prevenção da Crueldade contra os Animais e a Associação de Planeamento Familiar.Poucos homens deixaram um legado tão rico em Hong Kong e Macau. Este legado é tanto físico quanto espiritual. É físico em termos das propriedades que ele deixou, as suas muitas doações e da fundação de caridade bem como a sua grande família. Seu irmão Ho Fook teve 13 filhos, dos quais cinco trabalhavam como compradores para empresas estrangeiras. Um dos seus netos é Stanley Ho, o magnata do casino de Macau e das ligações marítimas entre Macau e Hong Kong. Outro ir-mão, Ho Kom-tong, tinha 12 esposas e mais de 30 filhos. Uma delas era a mãe da estrela de Kung Fu, Bruce Lee. A antiga casa de Ho Kom-tong, Kom Tong Hall, em Mid-Levels, abriga agora o Museu Dr. Sun Yat-sen.Em Hong Kong, muitas escolas e edifícios receberam o seu nome, incluindo o Lady Ho Tung Hall da Universidade de Hong Kong, a Escola Secundária Ho Tung e o templo budista Tung Lin Kok-yuen.Biblioteca em MacauA biblioteca foi o seu maior presente para Macau. Após a sua morte em Abril de 1956, deixou a casa em legado ao governo de Macau para nela ser instalada uma biblioteca chinesa, bem como uma doação de 25 mil dó-lares de Hong Kong para a aquisição de livros. A casa foi inaugurada ofi-cialmente como biblioteca pública em 1 de Agosto de 1958, com 3000 vo-lumes. Após a transferência da soberania para a China, a 20 de Dezembro de 1999, o governo da Região Administrativa Especial de Macau investiu 10 milhões de patacas numa nova estrutura nas traseiras da casa, para armazenar mais livros e garantir todos os atributos de uma biblioteca mo-derna. Entrou em funcionamento a 13 de Novembro de 2006.Agora, a biblioteca possui 3195 metros quadrados de área, 1583 metros quadrados de jardim e 544 lugares para trabalhar. Possui mais de
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade70100 mil livros e está equipada com instalações modernas, incluindo uma sala multimédia, espaço para exposições, computadores com acesso à Internet em banda larga e salas de música e cinema.Atrai cerca de 1000 pessoas por dia, das quais metade lê os livros ali existentes, incluindo muitos estudantes de escolas próximas. No fim--de-semana, todas as mesas de leitura estão cheias. O principal tesouro da biblioteca é um conjunto de 5000 livros chineses antigos, dos quais Ho Tung fora um ávido coleccionador. “Era um homem de cultura e foi adquirindo esses livros durante um longo período de tempo”, dis-se Gary Ngai, presidente da Associação de Macau para a Promoção do Intercâmbio entre a região da Ásia-Pacífico e a América Latina. Ngai era um alto funcionário do Instituto Cultural, órgão que decidiu construir a extensão para a biblioteca.“Outras pessoas compraram esses livros e depois de os ler ven-deram-nos. Ho Tung não precisava do dinheiro, pelo que os guardou. Existem poucas bibliotecas no continente com uma colecção tão grande de livros antigos. Os Guardas Vermelhos destruíram muitos desses livros durante a Revolução Cultural. Estudiosos do continente vêm ver a biblio-teca e manifestam a sua admiração”.O governo fez um investimento substancial num sistema de refri-geração para controlar a humidade na biblioteca e evitar que os livros antigos fiquem danificados, pois Macau tem um clima quente e húmido. Em 2018, a colecção da biblioteca concentra-se em livros antigos e in-clui por volta de 4000 livros antigos chineses, juntamente com 110 000 volumes mais recentes que cobrem Literatura, História, Filosofia, Arte e Arquitectura. Também possui mais de 4200 materiais multimedia, além de quase 60 jornais e 530 revistas.Há uma sensação bucólica na biblioteca, com o local cercado por plantas e fontes de água e água corrente ao fundo. No meio do Largo de Santo Agostinho, depois de passar pela entrada principal, há uma área ao ar livre, com uma série de mesas cercadas por vegetação, acolhendo quem procura um local mais descontraído.Tang Mei Lin, chefe do novo Departamento de Gestão de Bibliotecas Públicas, ex-directora da Biblioteca Central de Macau, disse que o prédio era o local preferido para aqueles que moram ou trabalham nas proxi-midades ou para aqueles interessados em assuntos culturais. “Durante a
  • Capítulo 4: Sir Robert Ho Tung71semana, estudantes que estão por perto vêm até aqui ou mesmo pessoas de meia-idade. Durante a hora do almoço, as pessoas que trabalham nas proximidades também aqui vêm. Nos fins de semana, vêm os jovens que têm interesse em cultura”, afirmou, enfatizando que é um dos locais fa-voritos dos residentes locais devido ao passado histórico. “Também os turistas vêm visitar a biblioteca”. Aos fins-de-semana a biblioteca é muito procurada, quer pela sua área exterior, quer pelos eventos culturais que aí se realizam. “Nós or-ganizamos muitos eventos, já que temos aqui mais espaço para que isso aconteça”. Os outros legados de Ho Tung em Macau são duas instituições que receberam o seu nome: um jardim de infância e a Escola Primária Oficial Luso-chinesa “Sir Robert Ho Tung”, que foi criada em 1951. Localizada na Estrada da Vitória, tem mais de 500 estudantes e 40 professores. O legado de Ho Tung foi espiritual na medida do seu próprio exem-plo, pois foi o primeiro euro-asiático a estabelecer um império comercial e a passar a fazer parte da classe dominante de Hong Kong. Movia-se confortavelmente nos três mundos em que nasceu, ou seja, em Hong Kong, com a elite britânica e no continente. Poucas pessoas conseguiram isso. “Era um diplomata na sociedade civil”, disse Ngai e “uma ponte en-tre a China e o Ocidente e estava igualmente à vontade nos rituais estritos do governo Qing e da aristocracia britânica”.FontesA fonte principal para este capítulo foi a biografia de Sir Robert Ho Tung publicada pela Fundação da Família de Robert H.N. Ho, a quem endereçamos os nossos agradecimentos.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade72
  • Dr Sun Yat ‑senCapítulo 5
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade74
  • Capítulo 5: Dr Sun Yat-sen75Macau desempenhou papel fundamental na vida do Dr. Sun Yat-senMacau desempenhou papel fundamental na vida do Dr. Sun Yat-sen, o pai da revolução da China em 1911, que pôs fim a mais de 2000 anos de domínio imperial e estabeleceu a primeira república democrática da Ásia. Foi a cidade onde seu pai trabalhou durante muitos anos, onde ini-ciou a sua prática médica e onde um jornalista português salvou a sua vida, abrigando-o da prisão após uma insurreição fracassada. Foi tam-bém a cidade onde a sua família viveu por muitos anos após a revolução. Essa residência é agora a “Casa Memorial do Dr. Sun Yat-sen”. A cidade também tem um parque com o seu nome.“A experiência de viver em Hong Kong e Macau foi fundamental para o pensamento de Sun”, disse Ye Chun, historiador em Hong Kong. “Um homem da China rural viu duas sociedades que eram ordeiras e bem administradas. Isso fez com que ele perguntasse por que razão não po-diam os chineses cuidar dos seus próprios assuntos”. A cidade recorda-se dele de muitas maneiras. Em Novembro de 2016, foi inaugurado um museu numa das duas clínicas/farmácias, onde praticou a sua profissão de médico. O Instituto Cultural despendeu cinco anos numa restauração meticulosa do edifício.Um rapaz da aldeiaEm 1849, o pai de Sun, Sun Dacheng, veio para Macau e trabalhou como sapateiro durante 16 anos numa sapataria, ao fim dos quais deci-diu regressar à sua terra natal de Cuiheng, 37 quilómetros para norte, para se casar com a senhora Yang. O seu filho, Sun Yat-sen, nasceu em 12 de Novembro de 1866. A aldeia ficava no município de Xiangshan, nome alterado para Zhongshan, em 1925, em homenagem a Sun Yat-sen, pois também era conhecido como Sun Zhongshan. O concelho, na província de Guangdong, faz fronteira com Macau.Em 1879, mãe e filho passaram por Macau a caminho de Hong Kong, onde embarcaram num navio britânico, a vapor, rumo ao Havai. Foi aí que viveu com o seu irmão, 15 anos mais velho, que ali havia chegado como operário e se havia tornado num comerciante próspe-ro. No Havai, Sun aprendeu inglês a partir do zero e estudou na escola
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade76secundária. Em 1885, regressou à sua terra natal para se casar com Lu Mu-zhen, a filha de um comerciante chinês no Havai, um casamento or-ganizado pelas duas famílias, como era habitual na época.Mudou-se então para Hong Kong para estudar no que hoje é a Escola Diocesana Masculina, uma das mais famosas da colónia, e mais tarde designada por Queen’s College. Os resultados excelentes que ob-teve nos exames permitiram que estudasse medicina no que se tornou a escola de medicina da Universidade de Hong Kong. Sun foi um dos dois primeiros licenciados chineses, em 1892. Foi numa igreja existente na zona de Mid-Levels que, apesar das ob-jecções de seu irmão, recebeu o baptismo. Sun costumava rezar na igreja que ficava na Rua Caine e que ainda hoje é um lugar de culto. Durante a sua permanência de Hong Kong, deslocou-se com frequência a Macau para visitar o seu amigo Yang He-ling. Com um grupo de associados, os dois discutiam intensamente como reformar a China.De médico ao exílioEm Setembro de 1892, mudou-se para Macau, onde se tornou o pri-meiro chinês a praticar medicina ocidental. Trabalhou no Hospital Kiang Wu, criado em 1871 como o primeiro hospital sem fins lucrativos esta-belecido por e para os chineses. Oferecia medicina tradicional chinesa (MTC) e não tinha instalações para tratamentos ou intervenções cirúrgi-cas ocidentais. Naquela época, os médicos chineses de Macau praticavam a medicina tradicional, pois muitos chineses viam a medicina ocidental com medo e cepticismo: o que esses homens de bata branca faziam com suas facas e agulhas afiadas cheias de líquido?O hospital concedeu a Sun um empréstimo de 1440 patacas para abrir duas clínicas, uma no número 80 da Rua das Estalagens, onde po-dia prescrever medicamentos ocidentais e chineses e a outra no número 14 do Largo do Senado. Todos os dias Sun tinha uma agenda muito preenchida: das 7h às 9h da manhã na Rua das Estalagens, das 10h às 12h no Kiang Wu e das 13h às 15h no número 14 do Largo do Senado. Depois das 15, fazia visitas ao domicílio para verificar como iam os seus doentes. Foi em Macau que Sun iniciou a sua prática médica e foi o pri-meiro médico chinês na cidade a vender medicamentos ocidentais.
  • Capítulo 5: Dr Sun Yat-sen77Em Macau prosseguiu a actividade revolucionária que havia ini-ciado em Hong Kong, com a realização de reuniões e a publicação de folhetos contra a decadência e a corrupção do governo Qing. Um desses folhetos foi publicado num jornal de Macau em 1890. Em Hong Kong, fez amizade com um impressor português chama-do Francisco Hermenegildo Fernandes, que era receptivo às suas ideias. Fernandes era tradutor do Supremo Tribunal de Hong Kong e tornou-se um grande defensor das ideias de Sun. Em 1892, Fernandes regressou a Macau e fundou o jornal Echo Macaense, que era impresso em chinês e português. Apesar da sensibilidade do assunto, Fernandes publicou arti-gos de e sobre Sun e anúncios para a sua farmácia. Publicou igualmen-te artigos da autoria de Sun promovendo reformas políticas, bem como notícias do seu trabalho médico. O jornal era vendido em Xiangshan, Cantão, Hong Kong, Fuzhou e Xiamen, além de Macau.Embora Sun fosse um médico capaz e competente, a sua maior mis-são na vida era reformar a China. Na década de 1890, Sun escreveu um longo artigo a Li Hong-zhang, um dos mais altos funcionários do governo Qing e líder do “Movimento de auto-fortalecimento”, que visa-va modernizar o país. O artigo definia as reformas que Sun considerava necessárias para mudar a China e confrontar as potências ocidentais, mas Li não o dignificou com uma resposta. Este foi um momento crítico para Sun, pois acreditando que o governo não se iria reformar, concluiu que a revolução violenta era o único caminho a seguir.A família de Fernandes vivia em Macau há gerações. Foi a Fernandes quem Sun solicitou que pedisse em seu nome uma licença para praticar em Macau, mas a sua carreira como médico foi de curta duração, tendo posto termo à actividade em Setembro de 1893. Sun havia decidido que a sua missão na vida não era tratar os doentes, mas liderar uma revolução. Ao mesmo tempo que exercia a sua profissão, reunia-se com os seus asso-ciados em Macau e na província de Guangdong para planear a revolução. Tal facto chamou a atenção do governo Qing, que começou a pressionar as autoridades de Macau. Essa pressão tornou-se intolerável depois de uma revolta incitada por Sun e seus compatriotas em Cantão, em Outubro de 1895. A revolta fracassou, uma vez que o governo tinha beneficiado de uma denúncia prévia e Sun foi incluido numa lista de pessoas procuradas, facto que levou o governo de Hong Kong a proibir a sua entrada na cidade.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade78Foi nesse momento que Fernandes prestou outro grande serviço. Primeiro, o seu jornal Echo Macaense publicou um artigo de Sun expli-cando a justificação para a revolta. Depois, Fernandes escondeu-o en-quanto era procurado, usando amigos e ligações para o enviar de barco, às escondidas, primeiro para Hong Kong e depois para o Japão. Como sinal de gratidão por salvar a sua vida, Sun ofereceu posteriormente ao amigo o seu equipamento médico e os objectos de uso diário, agora em exposição na Casa Memorial do Dr. Sun Yat-sen em Macau. Quando se tornou presidente, no final de 1911, Fernandes enviou-lhe uma carta de parabéns, em inglês. O seu amigo Fernandes está agora enterrado no cemitério São Miguel Arcanjo, em Macau.Sun foi forçado a fechar a sua clínica e sair de Macau. Passou os 17 anos seguintes no exílio, no Japão, Europa, Estados Unidos, Vietname e Tailândia. Espalhou as suas ideias entre as comunidades e estudantes chineses no exterior, planeou revoltas a partir da sua residência e anga-riou dinheiro para financiá-las. Durante esse período, Hong Kong foi a sua base mais importante em solo chinês, com a a maior parte das suas actividades a decorrerem nos bairros Central e Ocidental.A revolução é bem-sucedidaApós numerosas revoltas fracassadas, os revolucionários finalmente tiveram êxito quando um exército Qing se revoltou em Wuhan em 10 de Outubro de 1911, levando à queda da dinastia Qing. A 19 de Dezembro, representantes de 17 províncias elegeram Sun para actuar como presi-dente provisório da República da China. Mas apenas ocupou o cargo por três meses, tendo sido forçado a deixá-lo para Yuan Shi-kai, o mais poderoso comandante militar da China, em Abril de 1912.Regresso a MacauApós a revolução, Sun regressou a Macau apenas duas vezes. A primeira, em Maio de 1912, foi para ver seus amigos e apoiantes, a con-vite de empresários chineses. Ficou, então, hospedado em casa de Lou Lim Ioec no que então se chamava Yiu Yuen, agora o Jardim Lou Lim Ioec. Durante esta visita, também se encontrou com membros do Clube
  • Capítulo 5: Dr Sun Yat-sen79Militar de Macau. A segunda, em 1913, foi para ver sua filha e conhecer Chen Jiong-ming. Acabou por ser a sua última visita à cidade. Morreu de cancro de fígado em Pequim em 12 de Março de 1925, aos 59 anos. No dia 29 de Março de 1925, 20 mil pessoas em Macau - um quinto da população - compareceram no Hospital Kiang Wu para uma cerimónia em sua memória.Residência familiarEnquanto o próprio Sun teve pouco contacto com Macau depois da revolução, a cidade teve grande importância como local de residência da sua família. Em 1886, aos 20 anos, Sun teve um casamento arranjado com Lu Muzhen, uma rapariga de sua aldeia natal, que lhe deu um filho e duas filhas. Em 1913 mudou-se para Macau com o seu filho e as duas filhas e com o seu irmão Sun Mei, que entrou no mundo dos negócios e organizou uma associação de pescadores. Sun Mei morreu em Macau em 1915, aos 60 anos.Em 1915, Sun casou-se com a sua secretária Soong Ching-ling, apesar da forte oposição de seu pai e dos pedidos de Lu para aceitá-la como concu-bina, em vez de esposa, para manter o seu estatuto e reputação. Enquanto cristã, Soong insistiu que Sun só poderia ter uma mulher pelo que para se poder casar com ela tinha em primeiro lugar de se divorciar de Lu. Naquela época, muitos chineses ricos e proeminentes mantinham concubinas, muitas vezes várias, que era uma situação legal e socialmente aceite. Depois do casamento, Sun comprou uma casa em Macau para Lu e para as crianças. Após a sua morte, Lu continuou a viver em Macau com os seus três filhos e netos. Em 1931, uma explosão num depósito de munições do exército9 existente nas proximidades destruiu a casa. Uma nova residência de três andares foi então construída, em parte com o dinheiro da indemnização do governo e complementada com dinheiro de seu filho Sun Ke e do irmão de Sun no Havai.Com aquele capital reunido, a família construiu o edifício espaçoso de três andares que os visitantes encontram hoje. É inteiramente ociden-tal, com pavimentos de madeira, grandes móveis de madeira e grandes 9. Na madrugada do dia 13 de Agosto de 1931, às 5:35, uma explosão no paiol da Flora provocou a morte e ferimentos a várias pessoas e destruiu e danificou um grande número de casas nos bairros mais próximos.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade80roupeiros. A grande casa de banho tem um autoclismo, uma grande banheira e azulejos verdes. Os visitantes podem observar o mobiliário da residência como, ainda, os diversos instrumentos cirúrgicos usados por Sun. Cercado por casas de um andar era, à época, o maior edifício do bairro. Era uma casa familiar agitada e barulhenta, sempre ao som dos netos e dos seus colegas de escola. Lu era uma baptista devota e dedicou muito do seu tempo à igreja e à caridade. Sun Ke tornou-se um alto funcionário do governo nacionalista e regressou a Macau em 1947 para celebrar o 80.º aniversário da sua mãe. Mais tarde, viveu na França, nos Estados Unidos e em Taiwan, onde morreu em 1973. Macau desempenhou um papel importante como refúgio seguro para Lu e para a sua família. Para Sun, era um lugar onde ele poderia deixar a sua primeira família, longe de Pequim, Nanjing e outras cidades da China, onde lutava pela revolução. A presença de Lu perto dele teria sido um constrangimento e algo que Soong não teria tolerado.Em 1958, o edifício foi restaurado e designado Casa Memorial do Dr. Sun Yat-sen. Desde então, tornou-se um dos locais mais populares de Macau, onde os visitantes poderão ver, à entrada da residência, uma está-tua de corpo inteiro, em bronze, de Sun Yat-sen, esculpida pelo seu amigo japonês Umeya Shokichi, em 1934. É uma das quatro estátuas desse tipo, encontrando-se duas em Cantão e uma em Nanjing. O edifício é propriedade de um fundo registado em Singapura, deti-do pelas autoridades em Taiwan. As fotografias evocam as memórias da vida extraordinária de Sun, metade chinesa e metade ocidental, o seu iti-nerário pela Ásia, Europa e Estados Unidos em busca de apoio e fundos. Revelam as imagens da nova república, com Sun e os outros ministros, cheios de esperança e optimismo. Mas senhores da guerra, facciosismo, ganância e intervenção estrangeira impediram o crescimento do estado moderno e constitucional que Sun imaginava. Quando faleceu era um homem desapontado, não tendo os seus sonhos sido realizados.Macau recorda-o também com a atribuição do seu nome a um par-que, duas ruas e um salão. Três estátuas de corpo inteiro existem na cidade, uma delas no átrio do Hospital Kiang Wu. O parque é um dos 43 parques Sun Yat-sen existentes no mundo e abrange uma área de 17,3 hectares, tornando-se o maior parque da cidade.
  • Capítulo 5: Dr Sun Yat-sen81Mais de 80 anos após a sua morte, Sun mantém um enorme prestígio entre os chineses, tanto na China como no estrangeiro. É um dos poucos líderes políticos respeitados pelos partidos comunista e nacionalista e um símbolo de unidade entre eles. Ambos se referem a ele como “Guofu”, pai da nação. As suas odisseias pelo mundo, o seu domínio do inglês e uma in-tensa curiosidade permitiram-lhe aprender muitos dos melhores valores dos países que visitou e incorporá-los aos Três Princípios do Povo, a sua ideolo-gia para guiar a China. Sun costumava dizer que o discurso de Gettysburg do presidente dos EUA, Abraham Lincoln, exortando ao “governo do povo, pelo povo, para o povo” foi a inspiração para essa ideologia. Os três princípios são o nacionalismo, o poder do povo e o sustento das pessoas.Recordando o Dr. SunEm 2011, por ocasião do centésimo aniversário da revolução Xinhai, Macau organizou muitas actividades para recordar o Dr. Sun. Essas actividades incluíram uma peça de teatro, um concerto, visitas a locais ligados ao Dr. Sun, um seminário frequentado por uma das suas netas e uma exposição no Museu de Macau. “Não importa sob que ângulo são vistos, tanto o Dr. Sun Yat-sen como a revolução de 1911 por ele iniciada parecem ter uma relação mui-to próxima com Macau”, diz a introdução à exposição de Ung Vai Meng, então presidente do Instituto Cultural de Macau. “Foi a partir daqui que o jovem Sun embarcou na sua jornada para o mundo exterior. Macau foi também o primeiro lugar onde começou a praticar medicina e o próprio solo em que desenvolveu as suas ideias revolucionárias. Macau é consi-derada a base estratégica onde planeou e organizou a república chinesa, e o abrigou quando em perigo. Assim, pode-se dizer que Macau foi a segunda casa do Dr. Sun Yat-sen e da sua família”.A exposição continha uma grande variedade de objectos relaciona-dos com Sun, emprestados de museus e colecções particulares em Macau, Xangai, Shenzhen, Cantão, Taipé e Hong Kong. Esses objectos incluíam cartas, artigos, fotografias, medalhas, recordações em porcelana e um filme sobre a sua vida. Lilian Chan, pesquisadora do Museu de Macau e um dos elementos da equipa que organizou a exposição, disse que a mesma demorou 12
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade82meses a ser preparada. “A nossa atenção estava centrada nas ligações de Sun a Macau. Muitas cidades chinesas realizaram exposições sobre Sun, pelo que foi difícil encontrar material novo. A nossa ideia era ‘deixar a história falar, deixar a verdade falar’”. Chan e os seus colegas foram a diferentes cidades do mundo chinês em busca de exposições. “Todo o mundo estava disposto a doar. Muitos não pediram um depósito, apenas o custo de transporte e seguro. Alguns museus exigiram um pequeno depósito para cobrir os custos administra-tivos. O mais difícil era encontrar artigos, especialmente novos. Havia muitas exposições em preparação, pelo que era difícil pedir emprestado. Mas, um pouco mais tarde, muitos moradores locais manifestaram-se interessados em emprestar coisas. Eu fiquei muito comovida. Havia mui-tas pessoas entusiasmadas e os museus no continente eram muito coope-rantes. Mais de metade dos objectos expostos não tinha sido vista antes. Agradeço aos expositores e coleccionadores particulares a sua ajuda”. Os recursos de Macau foram também muito importantes, incluin-do o Instituto Cultural, os arquivos históricos, a Biblioteca Central, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, o Hospital Kiang Wu e os coleccionadores particulares. “Encontrámos uma senhora de cem anos de idade, Chan Yuet-san, que vive em Macau e conheceu o Dr. Sun na sua juventude em Kobe. O seu pai era um revolucionário que tinha ido lá para apoiá-lo”.O papel de Macau na revoluçãoLilian Chan disse que Macau desempenhou um papel importante na revolução. “Tinha um estatuto que protegia os revolucionários, era como um santuário. Os governos da China e de Guangdong costumavam pedir ao governo de Macau que prendesse os revolucionários. O governo de Macau atribuía a tarefa à polícia chinesa. Mas esses agentes tinham atitu-des diferentes. Alguns apoiavam a revolução e outros ficavam com medo dos que nela participavam, pelo que não faziam tudo ao seu alcance para descobrir revolucionários, nem contavam a verdade. Na realidade, não faziam o seu trabalho. Isso proporcionou um espaço para os revolucio-nários se esconderem. O governo de Macau não apoiou os revolucioná-rios, mas fazia vista grossa. Um dos beneficiários foi Chen Jiong-ming. O
  • Capítulo 5: Dr Sun Yat-sen83governo disse que ele não estava aqui quando na realidade deveria estar. Não sei por quanto tempo ele ficou”.Natural de Haifeng, em Guangdong, Chen era advogado e membro da legislatura da dinastia Qing que se revoltou contra o governo. Mais tarde foi nomeado comandante do exército de Guangdong e, após a re-volução, governador da província.Clínica de Sun restauradaEm Novembro de 2016, para assinalar o 150.º aniversário de Sun Yat-sen, o Instituto Cultural inaugurou uma das suas duas clínicas/far-mácia10 em Macau, que restaurou meticulosamente. Durante os 16 meses aqui passados, depois de completar os estudos médicos em Hong Kong, em 1892, Sun abriu as duas clínicas onde tratava doentes com medicina ocidental e chinesa.Uma das duas, restaurada à sua condição original, foi aberta ao público em Novembro, após cinco anos de trabalho. “Foi uma das pri-meiras clínicas em Macau aberta por um chinês que vendia medicamen-tos ocidentais e servia como uma clínica médica ocidental”, diz Leong Wai Man, chefe do Departamento de Património Cultural do Instituto Cultural. “Tem um grande significado na história da medicina em Macau. A clínica também é valiosa como testemunho da sua vida profissional an-tes da sua missão como revolucionário”.A clínica está localizada no número 80 da Rua das Estalagens. A en-trada é gratuita e a restauração inclui uma exposição sobre a vida de Sun. A estrutura compreende 525 metros quadrados de área construída em 188 metros quadrados de terreno. Foi construída antes de 1892 num movimen-tado bairro residencial e comercial chinês. A clínica passou a ser o mais re-cente de vários locais da cidade oficialmente relacionados com Sun Yat-sen.Ultrapassando muitas dificuldades“O projecto custou 13 milhões de patacas”, afirmou Leong. “O governo adquiriu o local em 2011. O nosso princípio de restauração foi usar materiais originais, que não eram fáceis de encontrar”. 10. Farmácia Chong Sai, na Rua das Estalagens. A outra clínica situava-se no Largo do Senado.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade84O principal desafio a vencer prendia-se com o estado do prédio ori-ginal, que se havia deteriorado enormemente nos 120 anos desde a saída de Sun de Macau. Serviu como loja de sedas, depois uma loja de produtos eléctricos e, finalmente, um armazém.“Tivemos muito trabalho”, disse Leong. “Primeiro, tivemos de re-parar o telhado para estabilizar a estrutura. Muitos dos tijolos tinham-se desmoronado”. Esse tipo particular de tijolo antigo já não era produzido, pelo que foi necessário ir a locais onde havia prédios a ser demolidos a fim de salvar os materiais. Uma situação semelhante ocorreu com as telhas. Técnicos de restauração qualificados também foram contratados para voltar a pintar o interior na sua forma original. Durante a renova-ção da parte traseira do edifício, uma grande quantidade de pedra em bruto e lodo foi descoberta. Depois da escavação, os arqueólogos deter-minaram que estes faziam parte das primeiras ponte-cais de Macau. Este trabalho arqueológico causou um atraso grande na restauração. “A base da estrutura estava perto da água, então a fundação estava fraca”, disse Leong. “Tivemos de tudo fazer para evitar que o sal subisse através das paredes e causasse deterioração. O trabalho de engenharia foi muito difícil. É uma estrutura estreita, com prédios de cada lado e não há acesso lateral”, acrescentou.Cada andar da clínica é composto por secções frontal e traseira. Um elevador, casa-de-banho e escada na secção traseira foram instalados para benefício do público.A farmácia recentemente restaurada é uma adição importante ao legado de Sun em Macau. É outro local de paragem obrigatória para aqueles que cá vêm para refazer os passos do pai da revolução chinesa.FontesDeland Leong Wai Man, chefe do Departamento de Herança Cultural do Instituto CulturalExposição no Museu de Macau sobre o 100.º aniversário da Revolução Xinhai, em 2011; Lilian Chan, pesquisadora do Museu de Macau.
  • Kou Ho ‑ningCapítulo 6
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade86
  • Capítulo 6: Kou Ho-ning87De patrão do jogo a rei da indústria de penhoresKou Ho-ning foi um dos empresários mais ricos e proeminentes de Macau na primeira metade do século XX. Em conjunto com Fu Tak Iam, controlou a empresa Tai Heng que deteve a concessão de jogos de fortu-na e azar de 1937 a 1961. Administrou uma cadeia de casas de penhores em Macau e Hong Kong e foi chamado de “Rei das Casas de Penhores”. Administrava, igualmente, as salas de ópio.Após a sua morte, o governo de Macau atribuiu o seu nome a uma rua, em reconhecimento das suas muitas contribuições para a caridade. A Rua Comendador Kou Ho Neng é uma das poucas ruas de Macau com o nome de um chinês. Em Hong Kong, existe uma escola primária com o seu nome, que pertence ao grupo do Hospital Tung Wah e está localizada na freguesia de Kwai Ching. Kou Ho-ning investiu muito do seu dinheiro em propriedades em Macau e Hong Kong e deixou uma grande fortuna aos seus descendentes.Nascido na pobrezaKou nasceu em 1875 numa família pobre na cidade de Shaxi, em Panyu, na província de Guangdong. Aos cinco anos de idade perdeu o pai, tendo a sua família caído ainda mais na pobreza. Aos sete anos, in-gressou numa escola particular. Mas a família era tão pobre que ele teve que recorrer à mendicidade e à venda de livros para pagar as propinas escolares. Estudou o tempo suficiente para aprender alguns caracteres chineses, mas a família ficou sem dinheiro e viu-se obrigada a pôr termo à sua educação formal. Começou então a vender fruta, peixe e camarão e a tocar música nas ruas para fazer algum dinheiro.Aos 16 anos saiu de casa rumo a Hong Kong em busca de trabalho. Ganhava três dólares por mês. Um ano mais tarde, com as poupanças conseguidas, foi para Nanhai onde abriu uma pequena loja. Através de uma gestão inteligente e de muito trabalho a loja cresceu em dimensão. O negócio levava-o a todos os locais de Guangdong bem como a Hong Kong e Macau. Concluiu, então, que o negócio de entretenimento em Macau era o mais lucrativo, conseguindo-se um grande lucro com um pequeno investimento.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade88Por isso, vendeu a sua loja em Nanhai e mudou-se para Macau em 1911. Colocou todo o seu dinheiro num casino de fantan sob o nome de Companhia Tak Seng, na Rua da Caldeira. Graças à sua boa gestão e tra-balho duro, floresceu e tornou-se o melhor da cidade. As coisas acontece-ram como Kou havia previsto: enriqueceu com um investimento modesto e usou parte do dinheiro para investir num novo negócio, no negócio de penhores. Abriu filiais em Macau e Hong Kong e tornou-se conhecido como o “rei das casas de penhores”.Em 1914, com nove outros accionistas, constituiu a sociedade Sap Iau Tong. Foi-lhe concedida uma licença para o comércio de ópio em Macau e fundou uma empresa chamada Companhia Iau Seng para ge-rir o negócio. Este negócio também floresceu, tendo ficado muito rico. Constituiu, então, a Tong An Shipping Company, que ligava Macau, Hong Kong e portos na província de Guangdong. Estabeleceu também a casa bancária Fu Heng, tendo passado a ser o homem mais rico de Macau.Concessão de jogoApós 20 anos em Macau, apercebeu-se de que o maior negócio de todos era o monopólio da concessão de jogo atribuída pelo governo co-lonial. A primeira empresa a vencer o concurso foi a Hou Heng, que ganhou uma concessão de seis anos, em 1930, ao concordar em pagar ao governo 1,4 milhões de patacas por ano. Kou procurou ganhar a con-cessão quando a de Hou Heng expirasse e montou uma nova empresa, a Tai Heng, com Fu Tak Iam11, outro profissional do ramo de apostas. Obtiveram o contrato seguinte, a começar em 1937, ultrapassando a Hou Heng e oferecendo pagar ao governo 1,8 milhões de patacas anuais. Melhor ainda, a concessão durou 24 anos e foi o dinheiro de Kou que permitiu que a Tai Heng vencesse a licitação. Fu estava encarregado de operar os casinos. Foi uma grande aposta dos dois homens.Os militares japoneses ocuparam a Manchúria e passaram a controlar territórios do norte da China. A maioria das pessoas esperava uma guerra total. O que significaria isso para a economia do país e o fornecimento de clientes para as mesas de jogos de Macau? Os japoneses pretendiam ocupar 11. Queira ler o capítulo 9 sobre Fu Tak Iam para mais pormenores sobre a história da Tai Heng e o capítulo 12 sobre Florence Li para mais pormenores sobre a II Guerra Mundial em Macau.
  • Capítulo 6: Kou Ho-ning89também Macau? Se o fizessem, certamente assumiriam o negócio mais lu-crativo da cidade. Kou e Fu estavam dispostos a apostar no facto de que a guerra estaria longe e que Macau não cairia tão depressa. O seu instinto provou ser extremamente preciso e sua aposta teve um sucesso espectacular.Instalaram a sua sede no Hotel Central, edifício de seis andares na Avenida de Almeida Ribeiro. Era, então, o único hotel em Macau com ele-vador. Três dos andares inferiores estavam destinados ao casino. Nos anda-res superiores havia casas de chá, restaurantes, um cinema e entretenimento de todos os tipos, além dos quartos do hotel. A empresa acrescentou novas formas ocidentais de jogo, incluindo blackjack e bacará. Como o hotel es-tava sempre cheio os sete dias por semana, Kou e Fu propuseram aumentar a área útil com a adição de mais cinco andares e renomeá-lo como “Novo Hotel Central”. Para isso convidaram um famoso arquitecto de Hong Kong para projectar a expansão do edifício, mas o governo de Macau recusou--se a aprovar o plano, considerando o projecto demasiado perigoso. Kou, Fu e o arquitecto não aceitaram essa decisão, argumentando que usariam materiais especialmente leves para os andares superiores. Recorreram da sentença para um tribunal português, que decidiu a seu favor. Este caso só fez com que o hotel ficasse mais famoso e atraisse mais visitantes.Tempos de guerraEm 1937, o Japão lançou um ataque total à China e, no final de 1938, havia capturado a capital Nanjing, Xangai, Pequim, Cantão e grandes áreas do Sul e do Leste, incluindo a maior parte da província de Guangdong. Mas o exército japonês não atacou nem Hong Kong nem Macau, pois nessa altura não estava disposto a confrontar as potências coloniais europeias que controlavam as duas cidades. A população e os governos das duas cidades esperavam ansiosamen-te pelo próximo passo, pois ambos os governos sabiam que não tinham forças para resistir à máquina militar mais poderosa do Leste Asiático e que os seus países não poderiam e não estavam dispostos a enviar reforços substanciais. Com a invasão da Polónia por Hitler, em 1 de Setembro de 1939, a guerra começou na Europa. Os governos da Grã-Bretanha e de Portugal estavam a lutar pela sua própria sobrevivência e tinham poucos recursos disponíveis para as pequenas colónias do outro lado do mundo.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade90Então, em 28 de Abril de 1940, um navio de guerra japonês cheio de soldados armados parou no porto de Macau e os soldados desembar-caram. Todos na cidade ficaram sem respiração, tomados pelo medo e pela ansiedade. Era esta a tão esperada invasão? O comércio e os bancos fecharam as portas. Os soldados portugueses, com armas prontas, mon-taram guarda para proteger o centro da cidade. Esperava-se que o tiro-teio começasse a qualquer momento, mas então o inesperado aconteceu: os soldados japoneses visitaram várias lojas para fazer compras e foram espreitar os casinos de fantan da Tai Heng. Marcharam então de regresso ao porto, embarcaram no navio e partiram.Em Dezembro do ano seguinte, os militares japoneses atacaram Hong Kong e o governador britânico rendeu-se no dia de Natal. Macau tornou-se a única cidade do leste da Ásia que não estava sob ocupação japonesa. Assim permaneceu pelos próximos três anos e oito meses. Por que é que isso aconteceu?Existem múltiplas explicações possíveis. Uma delas é que mais de um milhão de japoneses viviam no Brasil, uma antiga colónia portugue-sa. Ora, Brasil e Portugal desfrutavam de excelentes relações na época. Lisboa advertiu Tóquio que, se ocupasse Macau, os japoneses corriam o risco de serem expulsos do país onde se haviam instalado. Outra foi fi-nanceira. Naquela época, o Japão enfrentava um boicote económico dos EUA, da Grã-Bretanha e de seus aliados, não podendo com eles negociar. Como poderia usar a grande quantidade de dólares de Hong Kong que adquirira com a invasão da colónia britânica? Deixando Macau em si-tuação neutral, significava que o comércio normal poderia ser realizado na colónia, onde poderiam usar dólares de Hong Kong para comprar os materiais estratégicos de que precisavam para a guerra. Um terceiro fac-tor foi a mesma razão pela qual a Alemanha nazi não invadiu Portugal. Como Macau, o país não tinha matérias-primas ou fábricas essenciais, que Adolf Hitler precisava para o esforço de guerra. Mas o que precisava era de um país neutro onde pudesse reunir informações sobre os seus inimigos e conduzir o comércio e que pudesse servir como um local para negociações secretas, se necessário.Foi o que aconteceu em Macau em 1940. O ataque militar japo-nês contra a China foi bem-sucedido na conquista de enormes áreas de território e na instalação de um governo fantoche em Nanjing, liderado
  • Capítulo 6: Kou Ho-ning91por Wang Jing-wei, além do governo de Manchukuo, nas três provín-cias do Nordeste. Mas o governo nacionalista do presidente Chiang Kai-shek não se ren-dera e transferira a capital para a cidade de Chongqing, no Sudoeste, conti-nuando a resistir ao invasor. Este não era o plano dos estrategas militares em Tóquio, que queriam um acordo de paz que lhes permitisse levar homens, maquinaria e aviões para outros teatros de guerra. Em vez disso, tinham milhões de homens e equipamento enterrados na China, com um custo enor-me. O Japão queria um acordo de paz com Chiang Kai-shek que acabasse com a guerra na China. Em Março de 1940, os serviços de informações do Japão mantiveram negociações secretas em Hong Kong com um represen-tante de Dai Li, chefe da polícia secreta de Chiang. As reuniões demoraram quatro dias, tendo os participantes decidido realizar o próximo encontro em Macau, que consideravam um lugar mais seguro.O encontro teve lugar a 6 de Junho de 1940 em Macau, numa zona remota da cidade com poucos habitantes, numa sala subterrânea de um prédio vazio. Do lado chinês, três representantes, dois oficiais de patente elevada de Chongqing e um da polícia secreta. No lado japonês, havia também três representantes, também muito importantes, um do quar-tel-general militar em Tóquio e dois do exército que ocupava a China, além de um tradutor. Chegaram a Macau num barco de passageiros e, para evitar atenções, ficaram em hotéis diferentes. As três sessões de con-versações iniciaram-se às 21 horas e duraram até as primeiras horas da manhã seguinte. A primeira coisa que os seis tinham de fazer era provar ao interlocutor que eram quem diziam ser. Os japoneses usaram palavras de código conhecidas apenas pelos envolvidos nas conversações. O lado chinês produziu um documento secreto assinado pelo próprio Presidente Chiang, que autorizou a realização das negociações e, em suas palavras, “resolver questões entre a China e o Japão”. Durante as negociações, o lado chinês concordou em assinar com o Japão um acordo, denominado “Acordo anti-comunista sino-japonês”. Mas os chineses disseram que lhes era impossível reconhecer o estado fantoche de Manchukuo e o exér-cito japonês que ocupava a China. Três dias mais tarde as negociações ficaram concluídas, tendo as partes acordado em encontros posteriores. Mas, por razões diversas, tal nunca veio a acontecer e o plano do Japão para acabar com a guerra resultou em fracasso.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade92CaridadeA queda de Hong Kong em Dezembro de 1941 originou uma crise em Macau. A população triplicou para mais de 450 mil pessoas, a mais elevada população da sua história, quando milhares de refugiados che-garam de Hong Kong e do continente para escapar à ocupação japonesa. Nos capítulos de Florence Li e Fu Tak Iam descrevemos em porme-nor o que aconteceu durante esse período traumático. Tanto o governo como a sociedade civil mobilizaram todos os seus recursos para ajudar os refugiados e Kou Ho-ning teve, durante a guerra, um importante papel como filantropo. No lado chinês, as duas principais instituições envolvidas neste tra-balho de socorro foram o Hospital Kiang Wu e a Tong Sin Tong, uma instituição de caridade criada em 1892. Sendo uma das pessoas mais ricas de Macau, Kou esteve intimamen-te envolvido com ambas, como doador e director. Nunca na história da cidade as duas instituições foram mais importantes. Houve uma escassez de alimentos e no mercado negro, os preços dos alimentos dispararam. As pessoas não podiam comer arroz, mas apenas canja, uma mistura de água e arroz. Comiam o que conseguiam encontrar, incluindo o milho miúdo com que o exército japonês alimentava os seus cavalos.Diariamente formava-se uma grande bicha à porta da sede da Tong Sin Tong, na esperança de obter alimentos. Face à crise, Kou, em conjunto com outros empresários ricos, doou generosamente para comprar comida, roupas de Inverno e remédios para os refugiados. Kou deslocava-se pessoalmente ao local de distribuição para ele pró-prio inspeccionar a canja, onde mergulhava um par de pauzinhos nos grandes barris. Se os pauzinhos repousassem à superfície, isso signifi-cava que a canja era espessa e apta para comer. Mas, se os pauzinhos fossem ao fundo, isso significava que era pouco espessa e carecia de qualidade nutritiva. “Como pode essa canja matar a fome?”, dizia Kou. Uma fotografia da época mostra Kou - envergando uma camisa branca e um chapéu de palha - a testar a canja. Em 1941, fundou a farmácia da Tong Sin Tong e doou uma de suas propriedades para as instalações. Serviu no conselho do Hospital Kiang Wu, na Tong Sin Tong e na Cruz Vermelha de Macau e deu grandes somas para
  • Capítulo 6: Kou Ho-ning93as três instituições. Foi, ainda, presidente da Associação Comercial Chinesa de Macau e prestou igualmente ajuda humanitária e financeira na construção de escolas no continente.A sua generosidade durante o período da II Guerra Mundial foi uma das razões para as diversas homenagens públicas que recebeu uma vez terminado o conflito. Ao longo de sua vida recebeu quatro dessas homenagens, o maior número alguma vez recebido por um chinês de Macau. A 15 de Setembro de 1951 foi homenageado pela Cruz Vermelha Portuguesa e em 28 de Junho de 1952 recebeu uma condecoração que lhe foi atribuída pelo governo de Portugal.Rei das casas de penhoresKou tinha três negócios principais - o ópio, a concessão do jogo e as ca-sas de penhores. Destes três, o que o tornou mais famoso foi o terceiro, sendo conhecido em Macau e Hong Kong como o “Rei das Casas de Penhores”. A sua casa de penhores chamava-se Tak Seng On, que abriu em 1917 e que se tornou na maior da cidade, a poucos metros do Hotel Central, na Avenida Almeida Ribeiro. Ostentava um armazém de granito de oito andares repleto de ouro, jóias e pedras preciosas. Kou expandiu o negócio para uma cadeia de casas de penhores tanto em Macau como em Hong Kong. As casas de penhores têm uma história de 450 anos em Macau. Durante os 80 anos desde o final da dinastia Qing até aos anos 1960, as casas de penhores desempenharam um papel inestimável: um “banco” para os pobres e para a classe média e um lugar para os ricos guardarem os seus objectos de valor.Os bancos destinavam-se apenas para o governo, as grandes em-presas e os ricos. “Naquela época, a casa de penhores desempenhava um papel importante na economia. Não havia bancos nem caixas de aforro. Os ricos deixavam os seus bens aqui por razões de segurança. As pessoas confiavam e respeitavam as casas de penhores”, disse Leung Wa, o cai-xa-chefe da Tak Seng On, quando fechou em 1993. O edifício é actual-mente um museu, onde os visitantes podem ouvir uma gravação de uma entrevista com Leung. No seu auge, as casas de penhores, que somavam quase 100, estavam concentradas no principal bairro comercial da cida-de, à semelhança dos bancos da actualidade.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade94“Agora mudaram-se para a área próxima aos casinos. Não há mais casas de penhores tradicionais”, disse Leung. “Uma coisa que eu nunca posso esquecer é que as pessoas levavam os seus filhos à loja. Naquela época, a qualidade do atendimento médico era ruim e os pais temiam que seus filhos não crescessem fortes e saudáveis. Tinham uma crença su-persticiosa relativamente a casas de penhores. Permitíamos que a criança entrasse e andasse por ali, fazendo com que a loja se lhe desse saúde e riquezas no futuro. Então os pais dar-nos-iam um envelope vermelho ou lai-si (com dinheiro) para nos agradecer”. Leung e seus colegas lidavam com todos os tipos de mercadorias. Os mais pobres traziam o que tinham, nomeadamente, sobretudos, casa-cos, roupas, sapatos, cobertores, bolsas de couro, máquinas de costura e ferramentas de trabalho. Poderiam deixá-los por um período máximo de seis meses, com uma extensão de um mês. Se não os reivindicassem, eram levados para lojas de segunda mão e vendidos.Em Dezembro de 1903, o governo de Macau emitiu regulamentos para padronizar a indústria de penhores, que foi dividida em três cate-gorias: Tong, On e Ngat. A Tong fazia os contratos mais longos, até três anos, e cobrava os juros mais baixos. Os contratos On eram feitos até dois anos, com taxa mais alta, e a Ngat fazia contratos de curto prazo, com a maior taxa.A II Guerra Mundial foi um período de crescimento para a indús-tria. A população triplicou para 450 mil pessoas, com uma enxurrada de refugiados do continente e de Hong Kong. Tudo faltava e o custo dos produtos básicos subia. Não havia instituições financeiras a que as pessoas pudessem recorrer e apenas nas casas de penhores podiam pedir dinheiro emprestado, o que acontecia com as dezenas de milhares de refugiados que não tinham acesso à ajuda de familiares, parentes ou às redes tradicionais a quem normalmente se dirigiam quando precisavam de um empréstimo.Um emprego numa casa de penhores em Macau era altamente de-sejável e aberto apenas àqueles com uma boa recomendação. Aqueles que conseguiam entrar ficavam lá toda a vida. No continente, as casas de penhores tinham uma história de mais de 1500 anos. Eram lugares onde as pessoas podiam levar todos os tipos de mercadorias para penho-rar e receber dinheiro em troca. As lojas cobravam uma taxa de juro e
  • Capítulo 6: Kou Ho-ning95davam aos clientes um período fixo para recuperar o artigo. Se as pessoas regressassem dentro do período estabelecido teriam apenas de pagar o montante recebido acrescido dos juros, posto o que receberiam o artigo penhorado. Se o não fizessem, perderiam o artigo em questão que era vendido pela loja de penhores.A profissão exigia que aqueles que nela trabalhavam tivessem um conhecimento íntimo dos bens que negociavam. Numa questão de se-gundos, o caixa precisava avaliar o valor do artigo à sua frente e que valor conseguiria obter no mercado de segunda mão. Teria igualmente de negociar com os clientes para obter um bom preço. Os funcionários das casas de penhores precisavam de anos de experiência antes de receberem o trabalho de caixa. A responsabilidade de negociar com os clientes e avaliar o valor dos bens que estavam a ser oferecidos exigia muita expe-riência. Em Macau, o primeiro registo de uma casa de penhores surge em 1557, logo após a chegada dos portugueses. Servia funcionários, solda-dos e a população em geral.O estilo e o design das casas de penhores espelhavam os do conti-nente. Na Tak Seng On, o balcão estava posicionado num plano superior ao do cliente mais alto. Tal posicionamento visava garantir que o cliente tivesse de olhar para o caixa de baixo para cima e assim sentir-se numa posição inferior. Além disso, colocava o caixa numa posição negocial mais forte, permitindo que conseguisse um preço mais baixo. Um sepa-rador de cor vermelha em frente ao balcão da loja escondia o cliente da rua, para que os transeuntes não o vissem. Visitar uma casa de penhores era um sinal de dívida e vergonha, que ninguém queria que os outros soubessem. O balcão estava equipado com uma lupa, que o caixa usava para examinar relógios, jóias, jade e outros artigos preciosos e avaliar o seu valor. Tinha ainda um instrumento para medir os diamantes. O caixa tinha um livro para registar cada artigo entregue, juntamente com a data, o proprietário e o valor pago. O cliente recebia uma cautela de penhor que continha essa informação. Em seguida, um outro funcionário embru-lhava o artigo, ao qual anexava a descrição do seu conteúdo. Na pare-de havia um aviso alertando os funcionários para que não comprassem mercadorias para si próprios, sendo a pena associada a demissão. O risco deste tipo de informação privilegiada era muito elevado.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade96Por razões de segurança, os clientes não eram autorizados a passar para além do espaço onde se encontrava o balcão. Todo o recinto da loja era-lhes vedado e uma porta com barras de aço bloqueava a sua entrada. A única excepção aplicava-se aos clientes ricos que eram autorizados a entrar e a quem lhes era dado um assento ao lado do caixa, um sinal do seu estatuto superior. Eram um tipo diferente de clientes, pois não recorriam à casa de penhores por necessidade de empréstimos, mas como um lugar para guardar objectos de valor. Consideravam que valia a pena pagar os juros mensais, em comparação com o risco de manter os bens em casa, onde poderiam ser roubados. Actualmente, essas pessoas guar-dariam os mesmos artigos no cofre de um banco.Nas traseiras da loja, separado por um beco estreito, ficava o arma-zém de oito andares onde as mercadorias eram guardadas. Este armazém estava entre os edifícios mais robustos da cidade, construídos para resis-tir a incêndios, inundações e roubos. Os armazéns das casas de penhores eram construídos com fundações de granito, grossas paredes de tijolos e placas de aço e cada andar tinha caixilhos de granito e quatro estreitas janelas. No andar térreo, havia cofres que continham artigos preciosos como ouro e jóias. Bens menos valiosos eram armazenados em prateleiras de madeira, cuidadosamente embrulhados e etiquetados. Os funcionários comiam e dormiam na casa de penhores e raramente saíam, dissuadindo assim os ladrões que quisessem roubar os tesouros do depósito. As taxas de juros mensais chegavam a 11%, dependendo do artigo e do cliente.Para muitos chineses, o relato mais memorável de uma casa de penhores é o conto “Apelo às armas” publicado em 1923 por Lu Xun, um dos romancistas mais famosos do país na primeira metade do século XX. A partir do momento em que seu pai fica gravemente doente, o autor é forçado a penhorar muitas das posses da família para comprar remédios. “Na casa de penhores, o balcão era duas vezes mais alto do que eu. Entreguei roupas e jóias e obtive dinheiro emprestado com uma sensação de humilhação. Depois fui à farmácia e comprei remédios num balcão com a mesma altura do que eu, para meu pai que estava doente há muito tempo”.Muitas pessoas desprezavam as casas de penhores por se aprovei-tarem das pessoas mais necessitadas para obterem mercadorias a preços
  • Capítulo 6: Kou Ho-ning97baixos. O balcão alto era um símbolo dessa desigualdade entre o caixa e o cliente, entre a riqueza do penhorista e a pobreza dos seus clientes. O novo governo comunista, após 1949, considerou as lojas como “explo-radoras do povo” e encerrou a actividade penhorista.Fora do continente, a indústria de penhores declinou por outras razões, nomeadamente com o estabelecimento de um sector bancário moderno que atendesse a um público amplo e não apenas aos ricos, com o uso generalizado de cartões de crédito e, por último, o forne-cimento de assistência social por parte do governo que veio substituir muitas das funções das casas de penhores. Em Macau, uma após outra fechou, incluindo a Tak Seng On, em 1993. Aquelas que se mantiveram em funcionamento, agrupadas à volta dos casinos da cidade, desempenham um papel mais limitado, fornecendo crédito instantâneo aos jogadores que ficam sem dinheiro. Em 2000, os proprietários do edifício Tak Seng On quiseram vendê--lo. Pouco disposto a ver esta importante parte da história da cidade desaparecer, o governo interveio e gastou 1,4 milhões de patacas para restaurar a casa. O edifício abriu oficialmente como um museu em 21 de Março de 2003 e agora é visitado por 5000 pessoas por mês. O pa-vilhão de Macau na Expo Mundial de Xangai de 2010 incluiu uma ré-plica da Tak Seng On, um símbolo do seu valor na memória colectiva.As lojas de penhores que existem actualmente em Macau ofe-recem principalmente contratos de curto prazo com taxas de juros elevadas. Encontram-se localizadas nas ruas mais próximas dos prin-cipais casinos. Os seus principais clientes são os jogadores que pre-cisam de dinheiro rapidamente e penhoram relógios, jóias, brincos, canetas de marca e outros artigos de valor elevado. Algumas dessas lojas funcionam 24 horas por dia, para fornecer o melhor serviço a todos os jogadores, diurnos e nocturnos. A variedade de produtos a penhorar é limitada, pois roupas, móveis ou utensílios domésticos não são aceites, como no passado. Actualmente, os penhoristas apenas aceitam produtos para os quais existe um mercado de segunda mão. Muitas das actuais casas de penhores possuem uma filial em Hong Kong, onde os clientes podem resgatar o seu artigo depois de penho-rado em Macau.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade98Casa em MacauEm 1916, Kou comprou uma elegante mansão de três andares no número 165 da Rua do Campo, propriedade de um macaense, que pas-sou a usar como a sua residência familiar principal. Após a compra man-dou fazer algumas alterações para que a casa tivesse tanto estilo chinês como ocidental.Quando uma empresa cinematográfica norte-americana chegou a filmar exteriores em Macau, Clark Gable ficou num quarto de hóspedes do segundo andar. Actualmente, o edifício é um imóvel classificado12, embora não esteja aberto ao público e constitui um excelente exemplo da mistura de arquitectura ocidental e chinesa que é característica de Macau. Não dista mais do que cinco minutos a pé do Largo do Senado, no centro da cidade e encontra-se incluído na iniciativa “Traços de Comerciantes Chineses Famosos em Macau”, patrocionada pelo Instituto para os Assuntos Municipais. DiversificaçãoTal como o seu parceiro Fu Tak Iam, Kou investiu em diferentes sec-tores, tanto em Macau como no exterior, nomeadamente em proprieda-des e transportes. Em 1939, comprou um prédio no bairro de Wanchai, em Hong Kong e, após o final da II Guerra Mundial, comprou outras propriedades nos bairros de Central e Wanchai, também em Hong Kong.Faleceu em 1955 na sua casa em Hong Kong, aos 77 anos de idade. Após a sua morte, dois dos seus filhos assumiram a administração dos substanciais activos familiares.12. Edifício de interesse arquitectónico, representativo do cruzamento cultural entre o Oriente e o Ocidente.FontesRevelando 500 anos de Macau, pela Divisão de Informação da Asia Television, publicado pela Asia Television e Ming Pao; Histórias da Velha Macau, editadas por Li Fu-lin, publi-cadas pela Editora de Estudos Sungshan de Macau
  • Lou Lim IeocCapítulo 7
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade100
  • Capítulo 7: Lou Lim Ieoc101Um jardim recorda um empresário e filantropoUm pouco antes das seis horas da manhã e ainda com dia escuro, uma pequena multidão de idosos reúne-se junto ao portão do jardim mais famoso de Macau. Quando as portas se abrem, entram, alinham-se em ordem e começam os seus exercícios matinais. Bem-vindo ao Jardim de Lou Lim Ieoc, o único jardim em Hong Kong e Macau construído ao estilo de Suzhou, uma extravagância de árvores, pequenos lagos, pa-vilhões, esculturas em pedra e pequenos passeios. É um oásis de tran-quilidade entre uma floresta de prédios altos e o incessante ruído de automóveis e motorizadas. Lou era o filho mais velho de Lou Kau13 e o homem que herdou o império de negócios de seu pai e a liderança da família após a sua mor-te, em Novembro de 1906. O jovem tinha apenas 28 anos. Continuou a dirigir as operações de jogo e ópio em Macau e ramificou as activi-dades para uma sala de espectáculos, comércio da prata e de produtos farmacêuticos e lojas de penhores. Era um dos principais accionistas da Nanyang Tobacco Company e do Bao Xiang Bank. Foi o primeiro presi-dente da Associação Comercial Chinesa de Macau, quando esta foi cria-da em 1913.Lou Lim Ieoc continuou o legado de seu pai como figura pública e representante da comunidade chinesa. Foi igualmente um grande filan-tropo, dando generosamente ao Hospital Kiang Wu, onde desempenhou funções de administrador durante quatro anos. Montou uma escola con-fucionista para fornecer educação aos mais pobres nos níveis primário e secundário e serviu como seu presidente. À semelhança de seu pai, re-cebeu condecorações dos governos chinês e português. A sua educação académica e realizações superaram as de seu pai.O seu maior legado à cidade é o jardim de Lou Lim Ieoc. O local onde está implantado era uma área de hortas que seu pai, Lou Kau, havia comprado em 1870. Contratou especialistas para transformá-lo no único jardim ao estilo de Suzhou. É a maior e mais usada área de espaços ver-des no centro da cidade e é também o maior jardim particular e o mais espectacular. A construção começou em 1904 e ficou concluída apenas em 1925. Continha a casa da família Lou.13. Ver o Capítulo 2
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade102Lou Lim Ieoc faleceu a 17 de Junho de 1927, aos 49 anos de idade. Mais de mil pessoas estiveram presentes no funeral, que teve lugar no Cemitério Nuvem Branca, em Cantão.Os primeiros anosLou nasceu em 1878 em Xinhui, cidade natal de seu pai na provín-cia de Guangdong. Era o mais velho dos 17 filhos que Lou Kau teve com suas 10 esposas e concubinas. Frequentou uma escola particular da cida-de e, após ter concluído os estudos, mudou-se para Macau para trabalhar nos negócios do pai.Após a morte do pai, assumiu as operações de jogo e ópio. Diversificou as suas actividades para muitos sectores da economia, tendo--se tornado um dos principais accionistas da Nanyang Tobacco Company e do Banco Bao Xiang. Os seus interesses comerciais incluíam uma far-mácia, uma casa de penhores e o Teatro Qing Ping. Estava igualmente envolvido no desenvolvimento imobiliário e, em 1918 e 1925, arrendou dois terrenos devolutos longe da zona habitacional e desenvolveu-os. Foi um dos sete fundadores da Associação Comercial Chinesa de Macau, cuja presidência assumiu em 1913. Nesse mesmo ano fundou o jornal Macau Tongbao (Jornal de Macau), que era vendido em Hong Kong e na província de Guangdong, bem como em Macau. O jornal publicava notícias das três regiões, bem como de Pequim e Xangai, incluindo histó-rias sobre diferentes formas de jogo, como corridas de cavalos e “pombos brancos”. O jornal tinha colunistas e editoriais.O governo colonial considerava-o, à semelhança de seu pai, como um representante da comunidade chinesa. Lou serviu na assembleia le-gislativa da colónia. Em 1923, o governo criou uma comissão para pres-tar-lhe assessoria sobre políticas relativas à população chinesa e Lou era um dos membros. Tinha um amplo círculo de amigos e conhecidos que incluíam não apenas funcionários do governo de Macau, mas também pessoas de diferentes círculos em Xangai e Hong Kong, bem como em Macau. Construiu sobre o sucesso de seu pai, expandindo e ampliando o âmbito dos negócios e tinha uma rede de contactos sem comparação com as de todos os outros residentes de Macau.
  • Capítulo 7: Lou Lim Ieoc103Sun Yat-senLou Lim Ieoc era um defensor do Dr. Sun Yat-sen e da sua revolu-ção. Quando o Dr. Sun visitou Macau em 1912 e 1913, Lou recebeu-o na sua casa particular situada no jardim. A primeira visita foi especialmente comovente. Após o sucesso da revolução Xinhai em Outubro de 1911, o Dr. Sun havia sido eleito o primeiro presidente da República da China, em 29 de Dezembro de 1911. Tanto ele como o seu primeiro-ministro, Tang Shao-yi, eram naturais de Xiangshan (agora Zhongshan), o muncí-pio de Guangdong que faz fronteira com Macau. Contudo, Sun Yat-sen apenas permaneceu no cargo três meses. Em Abril de 1912, foi forçado a renunciar a favor de Yuan Shi-kai, o líder militar que controlava o Exército Beiyang que, à época, era a força militar mais forte da China. O novo governo não tinha forças militares próprias. A renúncia constituiu um grave revés, quer para Sun pessoal-mente, como para todos que desejavam construir uma nova república. Yuan era um senhor da guerra, que se declararia imperador em 1916. Em Maio, Sun foi para Hong Kong e depois para Macau. Existe uma fotografia famosa da sua visita à casa de Lou, que está pendurada num dos edifícios do actual jardim. Sun sentiu-se encorajado ao encon-trar tantos apoiantes naquele lugar, pessoas que lhe deram a força ne-cessária para continuar a sua luta para implementar a revolução que ele havia imaginado. Lou Lim Ieoc também conhecia muitos dos companheiros revolu-cionários de Sun Yat-sen e um dos seus irmãos, Lou I Ieoc, estava bastan-te mais envolvido na revolução. Em 1901, quando o Dr. Sun trabalhava como médico no Hospital Kiang Wu em Macau, Lou conheceu-o e foi por ele influenciado.Em 1902, Lou foi para o Japão para estudar, onde decidiu envolver--se na causa revolucionária. Em 1906, para prosseguir os seus estudos, foi para a Inglaterra. Depois de regressar a Macau, participou em acti-vidades do movimento Tong Meng Hui de Sun. Encorajou fortemente as pessoas a cortar as suas tranças, que constituía um símbolo de leal-dade ao governo Qing e que exigia que todos os homens usassem uma. Organizou então uma sessão de corte de tranças no Teatro Qing Ping, que pertencia à família Lou.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade104Nas ruas de Macau distribuiu folhetos revolucionários, mas as suas actividades atraíram a ira do governador de Guangdong e Guangxi, que emitiu um mandado de captura em seu nome. Os seus serviços foram reconhecidos após o sucesso da revolução. Em 1915, foi escolhido para representante da segunda assembleia nacional do novo governo. Foi uma pessoa muito activa em obras de caridade em Macau, incluindo actividades para reduzir a taxa de mortalidade entre mulhe-res e recém-nascidos.FilantropiaÀ semelhança de seu pai, Lou Lim Ieoc era um filantropo activo. Com vários parceiros, fundou a Escola Confucionista de Macau, que aceitava crianças de famílias pobres. Elaborou o estatuto orgânico da escola e foi seu director. A escola produziu um grande número de pes-soas com talento. Foi director do Hospital Kiang Wu em quatro anos diferentes: 1913, 1919, 1921 e 1923 e também doou dinheiro para solucionar casos de fome na província de Guangdong. Em 1913, mon-tou uma organização para administrar escolas na sua cidade natal para crianças pobres. Recebeu condecorações do governo Qing bem como duas outras do governo português, em 1913 e 1925, pelas suas obras de caridade. Em 1915, também recebeu uma condecoração do então presidente da China Li Yuan-hong pelas suas contribuições em obras de caridade.MorteA sua morte chegou cedo e de forma inesperada. Em Junho de 1927, a caminho de Hong Kong, adoeceu devido à temperatura elevada. Regressou a Macau para tratamento hospitalar, mas em vão. Morreu em 17 de Junho de 1927, com apenas 49 anos. As bandeiras de Macau foram colocadas a meia haste e o seu funeral foi um assunto importante, assis-tido por mais de 1000 pessoas, incluindo o governador de Macau e a sua esposa e muitos outros dignitários. O cortejo seguiu o caixão até ao cais, de onde foi levado de navio pelo rio das Pérolas até ao cemitério Nuvem Branca, em Cantão, onde foi enterrado ao lado de outros membros de
  • Capítulo 7: Lou Lim Ieoc105sua família. Um rico empresário de Cantão, amigo íntimo da família, pagou a construção de um túmulo elaborado. O túmulo é agora um local cultural protegido pelo governo da cidade de Cantão.Lou Lim Ieoc deixou uma grande família. Um relato atribui-lhe nove esposas e concubinas e oito filhos. Mas os membros da sua fa-mília não tinham a sua visão para os negócios nem a sua rede de contactos. Três anos após a sua morte, a família perdeu a franquia do jogo e entrou em declínio. Outros empresários chineses substituíram a família Lou como líderes da comunidade e intermediários do governo colonial.Jardim – Uma obra de duas décadasO jardim que ostenta o seu nome foi construído num terreno adqui-rido nas várzeas do Tap Seac. Lou Kau adquiriu a propriedade em 1870 para fazer um jardim particular. Mais tarde, Lou Lim Ieoc convidou Liu Ji-liu e Liu Xianlian, dois especialistas de Xiangshan (agora Zhongshan), para projectar um jardim ao estilo dos de Suzhou, por ele apelidado de Yu Yuan (Jardim Yu)14. O complexo, jardim e residência, começou a ser construído em 1904 e ficou concluído em 1925, não tendo a família Lou poupado nas despesas. É o maior jardim particular construído em Macau e o mais espectacular. O jardim era chamado de “Jardim de Lou” e “Jardim de Lou, o Nono”. No seu interior havia dois edifícios, um a residência de um andar para a família e o outro o antigo pavilhão Iong Sam Tóng.O desenho do jardim baseou-se nos 200 jardins particulares cons-truídos em Suzhou, província de Jiangsu, entre os séculos XI e XIX, e foi elaborado por artistas e especialistas, sobretudo na montagem de pe-dras. As características do design são paisagens construídas que copiam cenários naturais de rochas, colinas e rios com pavilhões e pagodes cui-dadosamente colocados. A UNESCO classificou-os como Património da Humanidade, chamando-os de “a forma mais refinada de arte de jardim”, com estética elegante e subtil. O resultado é o oposto dos extensos relvados e canteiros de flores preferidos pelos ricos e nobres da Europa: um labirinto de caminhos estreitos, salgueiros-chorões de 14. Yu Yuan, literalmente “Jardim das Delícias”
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade106grande porte, elegantes pavilhões, lagos com lótus e, em toda parte, esculturas em rocha15.“Os chineses gostam de pedras e de árvores”, disse Wong Lam-ming, um professor que costuma visitar o jardim. “Esta é a sua ideia de beleza. O parque é muito usado hoje em dia. O seu tamanho ac-tual é metade do que costumava ser quando a família Lou lá vivia. “Os visitantes obtêm uma visão do passado quando visitam o pavi-lhão Iong Sam Tóng, perto da entrada. Este foi construído como uma sala espaçosa para a família Lou receber visitantes e abriga agora uma excelente colecção de 290 objectos familiares doados ao governo em 2009, objectos que pertenciam a Lou I Ieoc, um irmão mais novo de Lou Lim Ieoc.A reunião mais famosa ocorrida no jardim teve lugar em Maio de 1912, quando da primeira visita do Dr. Sun Yat-sen a Macau após a revo-lução Xinhai em Outubro do ano anterior. O Dr. Sun acabara de deixar o cargo de Presidente da República da China depois de apenas três meses no cargo, após ter sido expulso pelo senhor da guerra Yuan Shi-kai. Foi uma grande decepção para o próprio Dr. Sun e para aqueles que espe-ravam um novo Estado republicano. Lou Lim Ieoc e seu irmão eram-lhe próximos e apoiaram-no durante a sua luta revolucionária. A família convidou mais de 100 amigos de Sun, chineses e portugueses, incluindo o governador e líderes religiosos. Sun agradeceu aos irmãos todo apoio que lhe foi prestado. No pavilhão Iong Sam Tóng encontra-se uma fotografia desta reunião, bem como uma gravação da voz do Dr. Sun.Durante a guerra anti-japonesa de 1937-1945, a escola Pui Ching mudou-se de Cantão para Macau. Arrendou o pavilhão como biblioteca, sendo as aulas dadas no jardim. Após o final da guerra, a escola voltou a Cantão e parte do jardim foi usado por uma escola primária e secun-dária. Em 1952, Ho Yin, um dos cidadãos mais proeminentes de Macau, adquiriu o jardim e permitiu que duas escolas secundárias continuassem a usar algumas áreas. Em 1972, doou o parque - ou vendeu-o a um preço baixo - ao governo. Metade do parque foi entregue à escola Pui Ching de Macau, cujos edifícios e campos desportivos estão agora do outro lado da cerca. A outra escola secundária mudou-se para um local diferente.15. No lago do jardim encontra-se uma montagem de pedras simbolizando a deusa Kun Iam ou Guan Yin.
  • Capítulo 7: Lou Lim Ieoc107O jardim foi aberto ao público em 28 de Setembro de 1974. Com 1,78 hectares, era agora menos de metade do tamanho do original Yu Yuan. Foi decidido que o jardim receberia o nome de Lou Lim Ieoc, de-vido às suas muitas contribuições para a sociedade de Macau. Em 1992, foi seleccionado como uma das oito principais atracções de Macau. O pavilhão de Iong Sam Tóng foi usado como sala de aula pela Escola Primária Leng Nam e, mais tarde, foi transformado na sala de espécimes de fauna e flora do Leal Senado e nos escritórios e armazéns de departa-mentos governamentais. Em 2010, o governo fez uma reconstrução em grande escala do pavilhão para restaurá-lo à sua forma original. Actualmente, o pavilhão abriga a exposição permanente da vida da família Lou. Num canto do jardim encontra-se a Casa Cultural do Chá de Macau, que ostenta uma área de 1076 metros quadrados, sendo o primeiro museu de Macau de-dicado ao tema do chá.Local popularLogo ao nascer do sol, o parque enche-se de pessoas, algumas rea-lizam Tai Chi e outras acompanham exercícios conduzidos por um pro-fessor. Há pessoas que trazem os seus potes com chá e que o bebem em chávenas minúsculas e, há alguns anos, havia os apreciadores de pássaros que os levavam nas suas gaiolas para apanharem o ar da manhã. Por vol-ta das nove horas, a atmosfera enche-se com o som da ópera cantonesa que provém de dois dos pavilhões.“O parque é muito popular entre os moradores da zona, especial-mente aqueles que estão aposentados”, disse Leung Yung-sing, comendo um pão doce ao fazer uma breve paragem a caminho de uma loja nas proximidades. “As pessoas usam-no para se exercitar, cantar, tricotar e relaxar. Quão diferente é da época em que foi construído para apenas uma única família”.Leung estava sentado em frente a uma casa de um andar pintada de amarelo com colunas clássicas que costumava ser a casa da família Lou que deu o nome ao jardim. Tem chão de madeira e, na frente, um longo corredor de madeira que dá para um grande lago. Era aí que, há um século, os membros da família Lou costumavam sentar-se durante
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade108as longas noites de Verão e apreciar a sua grande propriedade. Nessa época, não havia arranha-céus para bloquear a vista nem o barulho dos automóveis, mas apenas o barulho dos cascos dos cavalos nas pedras da calçada e a respiração dos condutores de riquexós enquanto puxavam os seus clientes abastados.Uma fotografia existente no pavilhão captura Lou Lim Ieoc no auge da sua fama em Macau. Datada de 1925, mostra Lou no jardim a receber homenagens em reconhecimento das suas contribuições para a socieda-de. Encontra-se sentado no meio de um grupo de mais de 100 pessoas, incluindo o governador, líderes religiosos e os outros cidadãos mais im-portantes da colónia, portugueses e chineses. Todos estão vestidos com os seus melhores trajes e Lou Lim Ieoc está orgulhoso e feliz. Lou Lim Ieoc morreu em 1927. Actualmente, apenas o nome do jardim e os objectos exposto no pavilhão recordam aos visitantes a ri-queza e fama da família Lou. A sua casa tornou-se num espaço para a realização de exposições. O professor Wong descreveu os sentimentos da maioria dos chineses com o ditado popular: “A riqueza não sobrevive a três gerações.”FontesBiografia de Lou Lim Ieoc na página electrónica do governo da cidade de Cantão; Departamento de Actividades Culturais e Recreativas, Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, governo da Região Administrativa Especial de Macau, Novembro de 2010; Biografia de Lou Lim Ieoc disponível no motor de busca Baidu; O jardim de Lou Lim Ieoc e a família Lou, por Zheng De-hui and Peng Hai-ling.
  • Leung Yan ‑mingCapítulo 8
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade110
  • Capítulo 8: Leung Yan-ming111Professor pioneiro assassinado pelas suas actividades contra o JapãoLeung Yan-ming foi um pioneiro da educação moderna em Macau, um activista político e líder do movimento anti-japonês durante a II Guerra Mundial. Foi por essa razão que ele foi morto a tiro perto da sua escola na véspera de Natal do ano de 1942, provavelmente por agentes japoneses.Actualmente, Leung é recordado como um herói da guerra anti--japonesa, bem como alguém que desenvolveu a educação para alunos do ensino básico e secundário, bem como para o público em geral. Foi também um poeta e calígrafo bem-sucedido, que dedicou 33 anos de sua vida à educação em Macau.Primeiros anosLeung nasceu em 1885 em Xinhui, na província de Guangdong, e estudou na Escola Normal de Nanhai e na Escola Normal de Alto Nível de Guangdong, duas das principais instituições educacionais de Cantão naquela época. Foi um período de agitação revolucionária, em que os cantonenses desempenharam um papel de liderança. Uma das áreas de maior mudan-ça foi a educação, onde os reformadores queriam introduzir o ensino de matemática, ciências, geografia e outros assuntos modernos para substi-tuir o aprendizado de clássicos chineses que havia sido a base da educa-ção durante muitos séculos. Em 1905, a dinastia Qing aboliu o sistema de exame imperial que se baseava no conhecimento dos clássicos chineses e do estilo literário. Esta abolição criou condições no sentido de encontrar uma nova forma de educação para equipar os jovens para o mundo moderno. O jovem Leung envolveu-se nesse movimento para dar a sua própria contribuição para melhorar a escolaridade das crianças da China.Em 1909, seu pai Leung Tai-cho decidiu transferir toda a família de Cantão para Macau. Nesse ano, o jovem Leung montou uma nova escola no segundo andar de um prédio no centro da cidade, a que chamou de Sun Sat (崇實學校), que significa “respeito” e “honestidade”.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade112Em 1910, através do convite que lhe foi endereçado por dois dos membros do movimento, aderiu ao Tong Meng Hui, um movimento clandestino revolucionário liderado pelo Dr. Sun Yat-sen, que foi o pre-cursor do Partido Nacionalista (Kuomintang). Foi fundado em Agosto de 1905, em Tóquio, por Sun Yat-sen e associados como uma sociedade secreta e movimento de resistência clandestina que visava derrubar a di-nastia Qing.Em Abril de 1911, com outros membros do Tong Meng Hui, orga-nizou o corte de tranças na escola. Sob o governo Qing, todos os homens tinham de usar uma trança e a sua remoção era um sinal de deslealdade, algo popular entre os revolucionários, mas que poderia dar azo a uma punição severa. Muitos dos que cortaram as suas tranças mantinham uma de reserva para usar em ocasiões oficiais.Em Outubro daquele ano, um levantamento militar em Wuhan desencadeou a Revolução Xinhai e a queda da dinastia Qing. Leung fez o que pôde para ajudar nas revoltas que culminaram no fim do regime imperial.Uma escola em crescimentoSob a sua liderança, a escola desenvolveu-se rapidamente, com aulas desde a instrução primária até ao ensino secundário médio. Encomendou a construção de um edifício com três andares para a escola e para os estudantes na zona de Nan Van. A escola passou a ser uma das mais conhecidas da cidade.Leung organizou o escutismo e preparou os seus estudantes para o prosseguimento dos estudos no continente. Pretendeu sempre que os alunos acompanhassem o que estava a acontecer no resto da China e não fossem apenas um posto avançado isolado num canto do Sudeste. Com este objectivo, acrescentou treino militar no ensino médio. Em Cantão encomendou um lote de espingardas falsas para o treino, que planeava dar aos alunos para praticar. Mas o governo português opôs-se forte-mente, porque não permitia treino militar fora do seu controlo. Leung foi forçado a abandonar o plano, mas mais de uma centena do lote de espingardas foi colocada em prateleiras em ambos os lados da sala prin-cipal da escola. A escola ficou famosa pelas espingardas.
  • Capítulo 8: Leung Yan-ming113Em 1920, Leung e um grupo de associados fundaram a Associação de Educação de Macau16, para promover a unidade e o desenvolvimento do ensino chinês na cidade. É a instituição mais antiga da cidade dedicada à educação e cultura. Naquele ano, Leung e seus associados fundaram uma escola para fornecer educação gratuita. Em 1927, fundou uma se-gunda, a Escola Livre Kiangwu. Ambas tinham por objectivo dar forma-ção a pessoas que não tinham tido a oportunidade de receber educação.Durante mais de 30 anos, Leung trabalhou no sector da educação, procurando promovê-la e muitos dos diplomados pela sua escola desem-penharam papéis de destaque na vida de Macau.PolíticaPara Leung, o ensino e o trabalho político faziam parte da mesma luta para fortalecer e modernizar a China.Em 1915, juntamente com outras pessoas, organizou uma associa-ção com o objectivo de “boicotar produtos japoneses e salvar a nação”. Esta decisão visava protestar contra as 21 exigências apresentadas, em Janeiro desse ano, por Tóquio ao governo da República da China, com apenas quatro anos. Essas exigências alargariam enormemente o contro-lo japonês da Manchúria com impacto na economia chinesa.O povo da China respondeu com um boicote nacional aos produtos japoneses tendo as exportações para a China caído 40%. A pressão da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos forçou Tóquio a abandonar um con-junto de exigências, mas a 25 de Maio de 1915 Tóquio assinou um tra-tado com Pequim que lhe concedia muitas das exigências apresentadas.Durante as férias escolares, Leung organizou estudantes e professo-res para se deslocarem a lugares próximos da escola e participarem em actividades para promover o boicote.Em 1921, ele e outros membros da Associação de Educação encon-traram-se com Sun Yat-sen em Cantão, que os encorajou a reunirem todos os sectores da sociedade de Macau e a promoverem negócios patrióticos.Em 1922, Leung liderou uma manifestação de mais de 3000 pro-fessores e estudantes para protestar contra a vergonha nacional de o país 16. Criada em 1920 com a designação de Associação de Educação de Macau, cujo registo veio a ser autorizado em 1923 pelo governo português de Macau.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade114estar nas mãos dos japoneses e de outras potências estrangeiras e exigir uma refundacão nacional. Em 1925, presidiu a uma reunião de 20 mil pessoas numa cerimónia para lamentar a morte do Dr. Sun Yat-sen.Leung desempenhou um papel proeminente no trabalho da filial do Kuomintang na cidade, servindo como membro da sua comissão per-manente e participando em reuniões como deputado das suas filiais de Zhongshan e Guangdong. Foi também vice-presidente do Hospital Kiang Wu, um alto funcionário da instituição de caridade da cidade, Tong Sin Tong, e membro da comissão da Associação de Educação da China.A luta contra o JapãoApós o Japão ter iniciado a guerra contra a China em Julho de 1937, Leung lançou-se à luta. Para arrecadar dinheiro para o esforço da guerra, os seus alunos procediam ao peditório para depois colocarem as moedas de cobre nas caixas de colecta que se encontravam em cada sala de aula. Assim, conseguiu angariar fundos para tratar soldados do Kuomintang feridos e incapacitados na guerra, especialmente na campa-nha Songhu de 1937.Ocorrida próximo de Xangai, entre Agosto e Novembro de 1937, esta foi uma das maiores batalhas da II Guerra Mundial. Um total de 250 mil chineses e 40 mil japoneses foram mortos e os historiadores chamam--na de “Estalinegrado no Yangtzé”.Leung fez uma campanha apaixonada para consciencializar o públi-co sobre a guerra. A sua proeminência no movimento anti-japonês chamou a atenção de seus espiões em Macau e Leung recebeu ameaças de morte.A sua importância aumentou após os japoneses terem capturado Hong Kong em Dezembro de 1941. O governo concentrou as suas activi-dades junto dos chineses ultramarinos em Macau, o único lugar no leste da Ásia que não estava sob controlo japonês. Leung trabalhou clandes-tinamente para registar as actividades do Japão e seus colaboradores e transmitia-as ao governo em Chongqing, para onde a capital havia sido transferida após a queda de Nanjing, em 1937.Para os japoneses, Leung tornara-se muito perigoso e, por isso, de-cidiram assassiná-lo. Tal ocorreu na véspera de Natal de 1942, quando Leung regressava à escola à noite e um agente matou-o. Tinha, então, 57
  • Capítulo 8: Leung Yan-ming115anos. O seu funeral foi presenciado por mais de 1000 pessoas. O cortejo fúnebre passou pelo consulado japonês17, onde os enlutados expressa-ram a sua raiva e protesto. Nesse mesmo mês, Lin Zhuo-fu, dirigente do Kuomintang em Hong Kong e Macau e director da Escola Secundária Zhongshan, foi igualmente morto a tiro. Ninguém foi preso pelo assassínio. Acredita-se que os assassinos eram agentes de Tóquio que os mataram devido às suas actividades anti--japonesas. O governo português, que procurava manter a neutralidade, não se atreveu a confrontar o Japão e, portanto, não conduziu uma in-vestigação rigorosa.Após a morte de Leung, o governo central de Chongqing enviou um telegrama elogiando-o como “o primeiro entre os chineses ultramarinos a viver em Macau, que morreu pelo seu país”. Foi, então, designado como mártir.Em Setembro de 1945, após o fim da guerra, uma colecção das suas obras foi publicada em Macau. Leung foi um poeta e calígrafo bem-su-cedido que, em 1927, tinha criado com alguns amigos uma sociedade de poesia que publicou os seus trabalhos.Com um novo director, a escola que havia fundado continuou a operar até 1961.No dia 3 de Setembro de 2014, funcionários dos Serviços de Educação de Macau reuniram-se com professores e alunos para recordar aqueles que na cidade deram as suas vidas durante a guerra anti-japone-sa. Isto é o que o registo oficial da reunião dizia sobre Leung:“Presidente da Associação de Educação de Macau e director da Escola Secundária Sun Sat, Leung Yan-ming promoveu entre professores e estudan-tes a campanha contra o Japão e a favor do patriotismo desde o movimento de 4 de Maio de 1919. Durante mais de 10 anos, liderou resolutamente as actividades contra o Japão. Em 24 de Dezembro de 1942 foi assassinado, em Macau, por agentes japoneses. Leung foi um mártir destemido”.17. O consulado, acreditado em Macau em 1940, ficava situado numa mansão perto do Tap Seac (in Cronologia da História de Macau, Volume III).FontesHistórias antigas de Macau, editadas por Li Fu-lin, publicadas pela Macao Songshan Study Publishing Company, Março de 2009
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  • Fu Tak IamCapítulo 9
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  • Capítulo 9: Fu Tak Iam119Uma vida cheia de acção de um magnata dos casinosFu Tak Iam foi um dos primeiros magnatas dos casinos em Macau. A sua empresa obteve a concessão de jogo de 1937 a 1961. No ano seguinte à sua morte, em 1960, os seus herdeiros apresentaram uma proposta ao novo concurso, mas o governo colonial decidiu ou-torgá-lo a um novo consórcio liderado por Stanley Ho. A concessão de mais de 24 anos permitiu que a sua família se tornasse muito rica. Os seus membros investiram em imóveis, transporte, comércio e outros sectores em Hong Kong e Macau e continuam ricos. Fu doou muito dinheiro para boas causas. Em 2007, o seu neto Adrian Fu criou uma fundação com o seu nome para continuar o legado de filantropia de seu avô.O próprio Fu teve uma vida digna de um filme de Hollywood. Nasceu em 1894 no seio de uma família pobre no município de Nanhai, em Guangdong. Fugindo de uma seca, foi com seu pai para Hong Kong, onde trabalhou na indústria naval. Desde jovem, mostrou-se interes-sado pelos jogos de fortuna e azar e jogava regularmente. Em Hong Kong cumpriu 10 meses de prisão por ter estado envolvido numa briga. Regressou então à província de Guangdong, onde iniciou a sua activi-dade no jogo. Mais tarde juntou-se a Kou Ho-ning18, um dos empre-sários mais ricos de Macau, para formar uma empresa chamada Tai Heng. Ganhou a concessão do jogo em Janeiro de 1937 e manteve-a nos 24 anos seguintes.Durante a II Guerra Mundial, Macau foi a única cidade da Ásia Oriental que não se encontrava sob ocupação japonesa. Os negócios nos hotéis e casinos controlados pela Tai Heng cresceram muito porque atraíram japoneses abastados e bem relacionados, chineses e estrangeiros que tinham poucos lugares para gastar o seu dinheiro. Após a II Guerra Mundial, o Supremo Tribunal de Guangdong condenou-o à morte por ter colaborado com os japoneses durante a II Guerra Mundial. Durante a guerra civil chinesa, Fu apelou para outro tribunal, que o considerou inocente. Para garantir que a sentença deste segundo julgamento fosse bem conhecida em Macau e Hong Kong, mandou colocar anúncios nos jornais locais com o novo veredicto.18. Sobre Kou Ho-ning ver o Capítulo 6.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade120Em 10 de Fevereiro de 1945, Fu foi sequestrado enquanto fuma-va ópio num dos templos de Macau. Uma quantia enorme foi paga depois da sua família ter recebido dos captores um pedaço de uma das suas orelhas.Fu investiu os grandes lucros da indústria do jogo no sector imo-biliário, entretenimento, transporte, construção, cinemas e comércio em Macau e Hong Kong. Em 1950, enviou alguns de seus filhos para Hong Kong para administrar os negócios locais. Em 1952, comprou um terreno na Central, onde mais tarde foi construído o Hotel Furama, que se tornou um marco devido à sua localização com vista para o Victoria Harbour. Fu passou a ser uma pessoa com poder e riqueza e residia numa casa grande perto da do governador. Fu e o seu parceiro Kou Ho-ning eram alguns dos homens mais ricos de Macau e Hong Kong. Ambos tinham amigos de longa data e relações com os governos de Macau e de Portugal e as suas empresas empregavam milhares de pessoas na cidade.Foi conselheiro honorário da Associação Comercial de Macau, do Hospital Kiang Wu e da Tong Sin Tong e um importante contribuinte para causas de beneficência em Macau. Também fez doações para pro-jectos na sua aldeia natal em Guangdong.Faleceu em Hong Kong em Novembro de 1960, aos 66 anos de idade, tendo deixado 16 filhos e filhas. Kou Ho-ning, o outro principal accionista da empresa Tai Heng, morrera cinco anos antes. As mortes dos dois principais accionistas da Tai Heng tornaram mais fácil para o governo colonial conceder a concessão de jogos de fortuna e azar a uma empresa rival.Primeiros anosFu nasceu em 1894 numa família pobre na vila de Biyun, Xiqiao, província de Guangdong. O seu primeiro trabalho foi cortar relva nas co-linas ao redor de sua aldeia natal. Mudou-se para Cantão onde começou a cozinhar amendoins e a vendê-los nas ruas da cidade. Com o dinheiro obtido, criou uma empresa que fazia pequenos empréstimos às pessoas. Mais tarde, regressou à sua aldeia natal para ajudar os seus conterrâneos.Aos 19 anos saiu de casa para escapar a um período de seca e foi para Hong Kong em busca de trabalho. Fez biscates e trabalhou como
  • Capítulo 9: Fu Tak Iam121aprendiz em uma oficina de máquinas navais. Depois de uma discussão com outro homem, foi preso pela polícia e condenado a dez meses de prisão. Após a sua libertação, fez negócios em Guangxi e Guangdong e, através desses negócios, passou a conhecer muitos funcionários e pessoas ricas. Dessa forma obteve a sua primeira fortuna, o que lhe proporcionou os meios para regressar a Hong Kong e desfrutar de restaurantes e clubes nocturnos de alta classe.Em 1930, tentou ganhar a concessão de jogo em Macau, mas foi derrotado por uma empresa chamada Hou Heng, gerida por um grupo de investidores. Em troca de um pagamento anual de 1,4 milhões de patacas, o governo concedeu à Hou Heng uma concessão em regime de monopólio para operar todos os jogos em Macau. A Hou Heng foi a primeira empresa a receber esse direito. O casino, juntamente com o Hotel Presidente19, ficava na Avenida Almeida Ribeiro, no centro da cidade. Este foi inaugurado em Junho de 1928 e foi o primeiro hotel da cidade equipado com um elevador. Tinha seis andares e era o edifício mais alto de Macau. Em 1932, a empresa introduziu na cidade as corridas de galgos. Um dos investidores era Fok Chi Ting, um rico magnata do jogo da província de Guangdong que tam-bém foi presidente do Banco de Guangdong e fundador do Banco Kang Nian de Hong Kong. Embora Fu fosse um concorrente, Fok gostava do jovem. Os dois homens associaram-se e juntos montaram casinos em Cantão e Shenzhen, em 1935. Os negócios eram tão bons que as receitas do jogo em Macau, não muito distante de Shenzhen, começaram a cair.Fu mantinha-se atento ao jogo em Macau, onde a receita era maior do que nas cidades do continente. Pretendendo concorrer à concessão, quando a franquia de Hou Heng terminasse no final de 1936, Fu vendeu o seu casino em Shenzhen e transferiu o dinheiro para Macau. Percebeu que precisava de um parceiro poderoso e escolheu Kou Ho-ning, um dos homens mais ricos de Macau e alguém activo na indústria do jogo há mais de 30 anos, especialmente no fan tan. Kou era, ainda, proprietário de uma série de casas de penhores. Os dois homens montaram a empre-sa Tai Heng e apresentaram uma proposta pela concessão, oferecendo 19. Inaugurado a 22 de Junho de 1928, adopta a designação de Grand Central Hotel a partir de 1930.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade122ao governo um pagamento anual de 1,8 milhões de patacas. O governo decidiu aceitar a oferta e não renovar a concessão de Hou Heng, que foi assumida pela Tai Heng em Janeiro de 1937. Uma vez que havia perdido a concessão, a Hou Heng não necessitava mais do Hotel Presidente, que foi vendido à Tai Heng. Os novos proprietários alteraram-lhe o nome para Grand Central Hotel. Inauguraram, então, o que designaram por “Complexo de Acompanhamento Feminino e Entretenimento Tai Heng”, com um casino e outras formas de entretenimento. Os novos proprietários introduziram muitos tipos ocidentais de jo-gos de casino, incluindo o baccarat, que é de actualmente o jogo mais popular em Macau. Modernizaram e redecoraram o casino e passaram a oferecer espectáculos gratuitos de ópera chinesa, além de bebidas, fruta, cigarros e snacks. O hotel incluía restaurantes e pistas de dança, além do casino. Se solicitado pelos seus clientes, comprava passagens de barco para que regressassem a Hong Kong e ou a cidades do continente. Foi Kou Ho-ning quem forneceu o capital, enquanto Fu cuidava das opera-ções. Além disso, a empresa Tai Heng tinha dois outros casinos e admi-nistrava vários tipos diferentes de apostas em outros locais da cidade.A empresa foi ajudada pela decisão do governo nacionalista no con-tinente, em 1938, de proibir o jogo no país, o que fez com que Macau e Hong Kong fossem as duas únicas cidades da China onde o jogo estava legalizado.Em Março de 1941, foi inaugurado um hotel rival que pretendia competir com o Central. Era o Grande Hotel20 de nove andares, um in-vestimento conjunto do presidente do Banco de Cantão, Fok Bo Choi, e de seu primo Ng Ting Wai. Tinha um restaurante ocidental e um bar no primeiro andar, um salão de dança no segundo andar e um restaurante chinês no terceiro andar; os quartos do hotel ocupavam os restantes an-dares. Era o hotel mais alto de Macau e oferecia um design mais inovador e instalações modernas. Para não ficar para trás, a Tai Heng investiu mais dinheiro e acrescentou cinco andares ao Central, aumentando o número para 11 e tornando-o mais alto do que o Grande Hotel.20. Inaugurado a 7 de Março de 1941 com a designação de Grande Hotel (ou Kuoc Chai). Foi um acontecimento importante tendo o Governador de Macau juntamente com Sir Robert Ho Tung cortado a fita. Sir Robert veio de Hong Kong num barco alugado expressamente para o efeito (in Cronologia da História de Macau. Volume III).
  • Capítulo 9: Fu Tak Iam123Guerra - Maldição e BênçãoEm Dezembro de 1941, os militares japoneses capturaram Hong Kong aos britânicos e poderiam ter ocupado Macau sem dificuldade, mas decidiram não o fazer. Isso fez com que Macau fosse a única cidade no leste da Ásia que não estava sob controlo japonês. Tal facto teve um efei-to dramático na cidade, para o bem e para o mal.Tornou-se o local de acolhimento para milhares de refugiados, vin-dos de Hong Kong e do continente, que queriam viver fora do controlo dos militares japoneses. Nos seus 400 anos de história, Macau nunca en-frentara uma crise tão grande. Após a queda de Hong Kong, a sua popu-lação triplicou de 150 mil para quase 500 mil pessoas, pois os japoneses encorajaram a saída de Hong Kong, para reduzir o número de pessoas que tinham de alimentar. Ao longo da sua história, Macau nunca tinha tido uma população tão elevada.Os japoneses impuseram um bloqueio marítimo e a colónia tinha de sobreviver com os seus próprios recursos e os mantimentos que vinham da província de Guangdong, que por sua vez estava a sofrer com os estragos da guerra e da ocupação. Os refugiados afortunados ficaram com amigos ou com familiares ou encontraram lugares em casas, hospitais, escolas, clubes e igrejas. Quando estes ficaram cheios, aqueles que vieram a seguir tiveram de viver nas ruas e depender da caridade para a sua sobrevivência. O povo de Macau estendeu as suas boas-vindas tradicionais e as instituições de assistência social, leigas e religiosas, chinesas e estrangei-ras, faziam o possível para alimentar e vestir os sem-tecto com cozinhas e distribuição de pão, arroz, roupas e cobertores. Os refugiados incluíam mulheres, crianças e jovens que possuíam apenas o que podiam carregar, bem como estrangeiros ricos e chineses que se mudaram para Macau como um refúgio seguro, trazendo dinheiro, habilitações e contactos. O governo criou campos de refugiados na ilha da Taipa.A maior dor de cabeça para o governo foi a falta de comida. Com um bloqueio marítimo, a única fonte de abastecimento era o continente. Os militares e comerciantes japoneses armazenavam mantimentos, au-mentando os preços e forçando a maioria das pessoas a viver em estado de semi-inanição. O governo usou toda a receita proveniente dos impos-tos sobre jogos de fortuna e azar para apoiar os refugiados e desviou
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade124outros recursos para as organizações de assistência e caridade. A socieda-de civil fez um esforço sem precedentes para alimentar, vestir e abrigar os refugiados. Mas os números eram muito grandes. Durante a guerra, esti-ma-se que 50 mil pessoas tenham morrido de fome, frio, malária, cólera e outras doenças. Todos os dias, os Serviços de Saúde organizavam pessoal que percorria as ruas com veículos para recolher os corpos e despejá-los numa vala comum na Taipa.Expansão para a Tai HengMas o que era uma maldição para a cidade como um todo era uma bênção para a Tai Heng e para os envolvidos nas indústrias de hotelaria, restauração e entretenimento. Como era o único lugar no sul da China que não estava em guerra, os restaurantes, casinos, antros de ópio e bor-déis expandiram os seus negócios e atraíam aqueles que estavam a lucrar com a guerra, como criminosos, soldados e oficiais japoneses e empresá-rios que trabalhavam com eles. O maior beneficiado foi o Hotel Central da Tai Heng. Os seus casi-nos, bares sofisticados, pistas de dança e restaurantes eram frequentados por refugiados ricos, oficiais das forças armadas, funcionários públicos e empresários que lucravam com a guerra. A sua clientela também incluía pessoas ricas de Macau, Hong Kong e do continente, portugueses de ou-tras cidades da Ásia, empresários chineses e japoneses, oficiais e militares. Para aqueles com dinheiro para gastar, havia pouco mais a fazer e nenhum outro lugar para ir na cidade. Ir a Hong Kong, ao continente ou a outro lugar qualquer estava fora de questão. Durante a guerra, à semelhan-ça de outras pessoas abastadas, Fu doou dinheiro para ajudar os pobres.Uma grande quantidade de ouro, prata, platina e moeda estrangeira fluíram para a colónia. Enquadrado na guerra, o Japão atacou o governo chinês por meios económicos num esforço para forçá-lo a render-se. Para este fim, as empresas japonesas estabeleceram cerca de 50 parcerias com empresários de Hong Kong e de Macau para inundar o mercado chinês com produtos japoneses, drenar o país de moeda estrangeira e comprar matérias-primas necessárias para o esforço de guerra. Muitas dessas em-presas tinham escritórios em Macau e empregavam empresários locais. Altos funcionários do governo colonial detinham acções em algumas delas.
  • Capítulo 9: Fu Tak Iam125Há pouca informação pública disponível sobre as operações de ne-gócios de Fu durante a II Guerra Mundial. Como Portugal na Europa, Macau operava numa área “cinzenta”. Embora não fosse ocupado pelos japoneses, a sua polícia secreta, a Kempeitai, tinha um escritório em fun-cionamento na cidade. Publicou jornais pró-japoneses e organizou assas-sínios de importantes figuras anti-japonesas.Os oficiais e civis japoneses podiam entrar facilmente em Macau. Eram clientes importantes nos casinos e em outras lojas de apostas da Tai Heng, bem como os empresários chineses e de Macau que trabalhavam com eles. O que era “colaboração” e o que era negócio legítimo? Quem estava a trabalhar para quem? Em simultâneo, consulados de países oci-dentais em guerra com o Japão permaneceram abertos em Macau duran-te a II Guerra Mundial, com alguns dos seus nacionais a refugiarem-se na colónia. De Macau, alguns fugiram para a China Livre e juntaram-se ao esforço de guerra. Depois da II Guerra Mundial, muitos países ocupados da Europa e da Ásia enfrentaram o mesmo dilema de como lidar com o seu passa-do de guerra. A ocupação dividiu famílias, aldeias e muitas partes da sociedade. Muitos escolheram permanecer em silêncio, pois examinar o passado com muita atenção abriria cicatrizes e inimizades que levariam décadas para serem curadas.Tribunal de Guangdong condena Fu à morteDepois da II Guerra Mundial, um Supremo Tribunal na província de Guangdong condenou Fu à morte por colaboração com os japoneses durante o conflito. Durante a guerra civil chinesa, Fu apelou para outro tribunal, que o declarou inocente. Para garantir que o julgamento se tor-nasse bem conhecido em Macau e Hong Kong, mandou colocar anúncios nos jornais locais com a nova sentença. RaptoFu fumava ópio e costumava fazê-lo num templo da cidade. Em 10 de Fevereiro de 1945, estava a descansar no templo de Kun Iam quando bandidos invadiram o local e sequestraram-no. Os raptores escolheram
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade126bem a hora e o lugar já que, naquele momento, não estava acompanhado dos seus guarda-costas habituais nem tinha protecção e o templo encon-trava-se aberto, com fácil acesso ao público. Os sequestradores exigiram um resgate de nove milhões de patacas.Este foi um assunto muito sério para o governo Macau, pois Fu Tak Iam era uma das pessoas mais ricas e importantes da cidade. O governador pediu a Ho Yin, o mais proeminente chinês de Macau, que actuasse como intermediário. Ho Yin conseguiu persuadir os sequestra-dores a reduzir o seu pedido de resgate para 500 mil patacas, mas na noite anterior à troca o filho de Fu descobriu o local onde seu pai estava preso e informou a polícia. Esta foi de imediato ao local, mas encontra-ram-no vazio, pois os sequestradores tinham sido avisados. Furiosos, cortaram um pedaço da orelha direita de Fu e enviaram-na à sua família como um aviso, tendo regressado ao pedido inicial de nove milhões de patacas. Houve mais mediação, desta vez por Xin Ma Shi Zeng, uma famosa estrela de ópera cantonesa, e o número desceu novamente para 500 mil patacas. A família pagou essa quantia e os sequestradores li-bertaram-no. Mais tarde, a polícia prendeu Lei Peng Su, um ex-soldado do Exército Nacionalista, e acusou-o do sequestro. Um tribunal conde-nou-o a 18 anos de prisão.De regresso aos negóciosNão desanimado com o rapto, Fu regressou aos seus negócios, tendo investido na Tak Kee Shipping and Trading Co., que construiu o Cais 16 em 1948. Nesse ano, a embarcação Tai Loy começou a servir a rota Macau-Hong Kong a partir daquele cais, que Fu projectou como a mais moderna da rota. Além disso, era ainda proprietário de vários apartamentos na Avenida da Praia Grande e de quatro embarcações comerciais que navegavam entre Macau e os portos no delta do rio das Pérolas.Os negócios prosperaram depois de 1949, quando o novo governo da República Popular da China declarou ilegais todas as formas de jogo. Fu usou os lucros obtidos para criar várias empresas, tendo investido em entretenimento, transportes, construção, propriedades, cinemas e comér-cio em Macau e Hong Kong. O novo governo em Pequim proibiu os seus
  • Capítulo 9: Fu Tak Iam127cidadãos de irem a Macau para jogar e Hong Kong tornou-se o mercado mais importante para os casinos.Fu diversificou os seus investimentos em Hong Kong, talvez como resultado do sequestro. Em 1950, enviou alguns de seus filhos para a colónia inglesa para administrar os seus negócios. Em 1952, comprou o terreno na Central, onde mais tarde foi construído o Hotel Furama. Em 1956, comprou o edifício onde se localizava o Far East Bank da Swire Pacific.Fu tornou-se num indivíduo com poder e riqueza. Morava numa casa grande em Macau, perto da do governador, com duas grandes portas verdes e um grande jardim, no qual havia duas tabuletas dedicadas ao pai e à mãe. Nas duas décadas anteriores à sua morte, ele e o seu parceiro Kou Ho-ning eram dos homens mais ricos de Macau e Hong Kong. Ambos tinham amigos de longa data e relações com os governos de Macau e Portugal e as suas empresas empregavam milhares de pessoas na cidade.FilantropiaFu também era um filantropo. Foi conselheiro honorário da Associação Comercial Chinesa de Macau, do Hospital Kiang Wu e da Tong Sin Tong. Foi também um dos principais contribuintes para causas de caridade, cons-truindo escolas e ajudando os pobres do continente e doando dinheiro para o Kiang Wu, Tong Sin Tong e outras boas causas em Macau.Em 1927, mandou construir um jardim na sua aldeia natal para ho-menagear os seus antepassados. Em 1945, mandou construir um monu-mento em memória dos 800 moradores que morreram na guerra contra o Japão. Na década de 1950, mandou aí construir uma escola secundária para os chineses ultramarinos.A perda da concessãoA concessão da Tai Heng expirou em 31 de Dezembro de 1961. O governo de Macau levou-a a leilão através de um concurso público e os filhos de Fu apresentaram uma proposta. A sua concorrente era a recém--criada Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), fundada por Ip Hon, Terry Ip Tak Lei, Stanley Ho Hon San e Henry Fok.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade128O governador Silvério Marques tomou a decisão de conceder a concessão não à família Fu, mas ao novo concorrente. Houve várias razões para a sua decisão. Uma delas prendia-se com o facto de a STDM prometer fazer investimentos em Macau fora do sector do jogo, inclusi-ve em infra-estruturas, um novo serviço de transportes para Hong Kong e obras de caridade. Outra razão teve a ver com o facto da família Fu não ter investido tanto em Macau como o governo desejava. Um tercei-ro motivo relacionava-se com Stanley Ho, um dos membros do STDM, por ser casado com Clementina Ângela Leitão, portuguesa e filha do dr. Carlos de Melo Leitão, eminente advogado e notário público. Melo Leitão viveu na cidade durante muitos anos e tinha relações excelentes com sucessivas administrações portuguesas. Por último, após a morte de Fu e de Kou, os seus filhos não tinham nem a influência nem os contac-tos dos seus pais.“Fu é um homem famoso na história de Macau”, disse David Leung, um funcionário público reformado. “Não dizemos que o respeitamos, já que não dizemos que respeitamos Stanley Ho. Era uma pessoa de poder e riqueza, mas não há estátuas dele em Macau, enquanto Kou tem uma na Tong Sin Tong”.Mudança para Hong KongDepois de perder a concessão, a família Fu mudou-se para Hong Kong e administrou as suas propriedades e outros negócios que tinha na colónia. Em 1973, o filho mais velho abriu o Hotel Furama de 33 an-dares na Central, com uma vista panorâmica sobre o porto. As acções representativas do capital social do hotel foram admitidas à cotação em 1985.Fundação Fu Tak IamEm 2007, o seu neto Adrian H.C. Fu criou uma fundação com o nome de Fu Tak Iam, o que ocorreu após o falecimento de seu pai, Fu Yum Chiu, filho mais velho de Fu. Educado no Reino Unido e nos Estados Unidos, Adrian Fu é director executivo do KHI Holdings Group, uma empresa familiar com sede em Hong Kong que administra
  • Capítulo 9: Fu Tak Iam129uma carteira global de imóveis e outros investimentos diversificados. Foi também curador do World Wild Life Hong Kong entre 2000 e 2012.É desta forma que Adrian Fu descreve o estabelecimento da fun-dação: “Meu pai Fu Yum Chiu (Y.C. Fu) faleceu em Dezembro de 2005. Além de bens pessoais substanciais, deixou correspondência e objectos que coleccionou durante várias décadas. Através da análise deste conjunto de cartas e fotografias antigas, consegui lentamente re-constituir a sua vida adulta inicial”. “Em 1946, foi enviado a Hong Kong (de Macau) pelo meu avô Fu Tak Iam para criar um escritório na colónia inglesa. Inicialmente, o principal empreendimento era o transporte marítimo, embora mais tarde tenha sido encarregado da aquisição de propriedades e acções cotadas em bolsa. Meu avô escrevia-lhe uma carta por semana com instruções muito precisas sobre a melhor forma de estruturar essas transacções. Essa correspondência manteve-se durante 10 anos e uma carteira de activos foi sendo acumulada”.“Enquanto filho mais velho, o meu pai era ao mesmo tempo res-ponsável pelos irmãos que foram enviados para o estrangeiro para prosseguir os estudos. O seu pai foi o seu mentor até à sua morte em 1960, quando meu pai assumiu o papel de guardião dos bens da famí-lia. Isso continuaria até o momento em que os seus irmãos mais novos e seu filho estivessem preparados para se juntar a ele nos negócios da família, um percurso que meu avô havia organizado meticulosamente”.“O objectivo desta Fundação é continuar o trabalho do patriarca da família que criou o legado e o preservou. Penso igualmente que esta fundação é a melhor interpretação do amor e respeito que meu pai sentia pelo meu avô e uma ferramenta eficaz para comunicar a história da nossa família às gerações futuras”.A fundação continua a actividade filantrópica do avô de Adrian Fu. Os seus fundos provêm de uma dotação perpétua, sendo a funda-ção gerida por uma direcção profissional de sete membros com diferen-tes habilitações e que são apoiados por uma comissão de atribuição de subsídios, uma comissão de investimento e uma comissão de auditoria. Todos os anos, a Fundação faz doações a organizações sem fins lucrati-vos para apoiar projectos com impacto em Hong Kong, China e Macau. “Esses subsídios proporcionaram não apenas benefícios a longo prazo e
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade130uma nova esperança a pessoas com diversas necessidades, mas também ajudam a melhorar a qualidade de vida da sociedade no seu todo. A Fundação valoriza boas práticas em termos de avaliação de impacto, boa gestão e inovação”, pode ler-se na página electrónica da instituição.A página apresenta projectos de bem-estar social, ajuda de emer-gência, educação, saúde pública e particular, bem-estar animal, ambiente e conservação.FontesArtigo de Andreia Sofia Silva no jornal Hoje Macau; A indústria do jogo na Ásia Pacífico: Desenvolvimento, Operação e Impacto, por Kaye Sung Chon, Cathy Hc Hsu, Revista de Estudos Portugueses, Vol. 16, No.1; Página electrónica da Fundação Fu Tak Iam.
  • Wong Man ‑date Lo Sai ‑dong Capítulo 10
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  • Capítulo 10: Wong Man-dat e Lo Sai-dong133Pioneiros da fotografia em MacauWong Man-dat foi o primeiro fotógrafo profissional chinês em Macau. Na década de 1930, abriu um estúdio de três andares no centro da cidade e foi pioneiro no desenvolvimento da arte e popularização en-tre o público, tendo tido uma grande influência na profissão. Mais tarde, dedicou-se a escrever e trabalhar em educação.“Wong Man-dat era uma pessoa com grandes dotes artísticos”, disse Lee Yu-tin, um dos seus alunos que trabalha como fotógrafo em Macau há mais de 70 anos. “Ele gostava de desenvolver novas técnicas. Foi com ele que aprendi o poder e a atracção da fotografia”.Outro pioneiro foi Lo Sai-dong, que viveu em Macau apenas quatro anos, entre 1948 e 1952, antes de montar um estúdio em Moçambique, a convite do então governador. Também ele teve um grande impacto, tendo introduzido novas técnicas e apresentando a arte fotográfica a um público mais vasto.Hoje em dia as fotografias fazem parte do quotidiano. Os telemó-veis permitem-nos tirá-las a qualquer momento e enviá-las para amigos e familiares.Mas o mundo era bem diferente no início dos anos 30 do sécu-lo passado, quando a fotografia era ainda um passatempo apenas para pessoas abastadas. Para a grande maioria dos chineses, era algo fora do seu alcance.Os primeiros anosWong nasceu em Macau em 1901 numa família originária de Quanzhou, em Fujian. A família veio para Macau durante o reinado de Kang Xi (1661-1722) da dinastia Qing, fazendo dele a sétima geração da cidade.O seu avô era um homem rico que recuperou terras no Porto Interior para construir a Rua da Felicidade. Também construiu o Teatro Qing Ping e doou generosamente aos templos da cidade.Wong era filho único. O seu pai fazia negócios em Hong Kong e sua mãe era natural de Macau. Recebeu a sua educação inicial em Macau numa escola particular e depois estudou na escola primária Son Sat. Após
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade134a morte de sua mãe, mudou-se com seu pai para Hong Kong para viver e estudar no Wah Yan College, onde aprendeu inglês. Concluídos os estu-dos secundários fez o exame de admissão à Universidade de Hong Kong.Mas, após a morte do pai, não pôde continuar os estudos. Foi en-tão com um primo para o sudeste da Ásia, tendo trabalhado num negó-cio familiar de produtos alimentares em Singapura e em Kuala Lumpur, Malásia, antes de regressar a Macau. Durante esses anos, a fotografia era, fora das horas de trabalho, o seu passatempo preferido.Depois do seu regresso a Macau, dedicou-se aos negócios a tempo inteiro e, com um amigo, montou uma loja de fotografia. Mais tarde, juntamente com a sua esposa, abriu a “Fotografia Moderna”, num prédio de três andares na Avenida de Almeida Ribeiro. No andar térreo ficava a loja de venda a retalho, no segundo a câmara escura e mais um espaço de trabalho. No terceiro andar instalou um es-túdio para retratos. Wong era responsável pelo trabalho fotográfico e sua esposa encarregada do laboratório, da lavagem e da impressão.Os retratos constituíam a principal fonte do negócio. Como a ilu-minação interior não estava muito desenvolvida naquela época, Wong usava nesse estúdio luz natural através de uma claraboia no telhado.Nos anos 1930, a fotografia era, para a maioria dos habitantes de Macau, algo desconhecido. A cidade era pobre, com um padrão de vida mais baixo do que o de Hong Kong ou de Cantão. Foram estabeleci-dos estúdios fotográficos comerciais em grandes cidades como Xangai, Tianjin, Ningpo, Hangzhou, Cantão e Hong Kong, mas não em Macau.A fotografia chegou à China com os fotógrafos estrangeiros, já de-pois das Guerras do Ópio, e foi lentamente aceite pela sociedade chinesa, o que foi acelerado pelo desenvolvimento dos jornais que usavam ima-gens. A fotografia de retrato tornou-se então popular.Muitos dos primeiros clientes de Wong eram dançarinas e prostitu-tas que pretendiam tirar o retrato, para poderem mostrar uma imagem positiva de si mesmas.Wong foi inovador e criativo. Naquela época, a fotografia era a preto e branco, mas Wong começou a usar produtos químicos para intro-duzir cores, como azul, verde e vermelho.Usou quatro cores diferentes para um conjunto de quatro impres-sões da baía de Nam Van designadas por “Nascer do sol”, “Meio-dia”,
  • Capítulo 10: Wong Man-dat e Lo Sai-dong135“Tarde” e “Luar”. Entrou no primeiro concurso fotográfico realizado em Macau e ganhou o primeiro prémio.Quando se organizou um segundo concurso, este não foi devida-mente divulgado e Wong teve de lutar para poder participar, tendo aca-bado por seu aceite. Concorreu com uma fotografia com um mapa de Macau no centro e locais famosos da cidade à sua volta, o que constituiu um trabalho muito inovador.Um fotógrafo português obteve o primeiro prémio e Wong ficou em segundo lugar. Os Serviços de Economia imprimiram e publicaram o mapa com as fotografias de Wong. Este tirou fotografias dos principais locais da cidade, como as ruínas da Igreja de São Paulo, o Farol da Guia e as Portas do Cerco. Colocou então essas imagens na vitrine de sua loja, onde muitos os transeuntes as podiam apreciar. Segundo pioneiroOutro pioneiro da fotografia em Macau foi Lo Sai-dong. Nascido em Cantão, foi para Tóquio na década de 1930 para estudar fotografia num instituto técnico. Lo era uma das poucas pessoas no continente a efectuar estudos desse tipo no estrangeiro.Quando regressou, a guerra sino-japonesa tinha-se iniciado. Então, Lo e sua família mudaram-se para Saigão, no sul do Vietname, onde abriram um restaurante chinês. Após a vitória sobre o Japão, regressa-ram a Cantão, onde Lo abriu um estúdio fotográfico. Mas a guerra civil eclodiu entre o governo nacionalista e os comunistas. Assim, em 1948, ele e sua esposa mudaram-se para Macau, onde abriram um estúdio no centro da cidade.Para atrair clientes, tirou uma fotografia da cidade a partir da cape-la de Nossa Senhora da Penha. A maior alguma vez feita com 100 centí-metros de altura e 150 de largura que ele colocou na montra da sua loja. A imagem atraiu milhares de pessoas, incluindo o próprio governador e a seu negócio expandiu-se bem.Foi o primeiro fotógrafo de Macau a usar a máquina fotográfica Crown Graphic. O seu estúdio era o mais avançado da cidade na utiliza-ção de “slides” coloridos. Realizava todos os anos um concurso de beleza e tirava fotografias das concorrentes. Tal facto atraiu muitos clientes.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade136Também foi pioneiro na utilização da película Ektachrome e no “desenvolvimento de partículas”. Conheceu muitos escritores e artistas que o visitaram em Macau, tendo ajudado estes últimos a montar expo-sições. Lo introduziu em Macau todas as técnicas que tinha aprendido em Tóquio.Em 1952, aceitou o convite do governador para montar um estúdio fotográfico em Lourenço Marques, capital da então colónia portuguesa de Moçambique, com o objectivo de dar formação profissional à popula-ção da colónia. Não voltou a regressar a Macau.Embora tenha vivido na cidade apenas quatro anos, o seu talento e criatividade tiveram um grande impacto.Estes dois homens - Wong e Lo - foram os pais da fotografia em Macau.
  • Xian XinghaiCapítulo 11
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade138
  • Capítulo 11: Xian Xinghai139Filho de uma tancareira de Macau torna-se famoso compositor nacionalXian Xinghai nasceu num barco no porto de Macau com o qual a sua mãe ganhava a vida com o transporte de mercadorias entre Macau e Zhuhai. Conseguiu superar a pobreza e o preconceito de estudar música em Paris e escreveu a peça mais famosa da música chinesa durante a Guerra do Pacífico.Xian viveu uma vida curta, mas dramática, morrendo de doen-ça pulmonar num hospital de Moscovo, na Rússia, em Outubro de 1945, aos 40 anos de idade. Durante a sua breve vida, compôs duas sinfonias, um concerto para violino, uma ópera e cerca de 300 can-ções, incluindo a sua obra-prima, a Cantata do Rio Amarelo, em 1938. Esta cantata tornou-se o hino de batalha da China durante a guerra com o Japão e teve um impacto duradouro na música chinesa contemporânea.Xian é bem recordado em Macau. A Avenida Xian Xing Hai, em sua homenagem, atravessa a zona do NAPE (Novos Aterros do Porto Exterior), ao lado do Centro Cultural da cidade. O Instituto Cultural está a converter duas casas junto aos estúdios da Teledifusão de Macau, na Rua Francisco Xavier Pereira, num museu em sua me-mória. Uma das casas conterá a história de sua vida e realizações, enquanto a outra vai mostrar a história da China durante a sua vida, bem como a história de Macau de 1937 a 1945. O Instituto Cultural prevê que o museu fique concluído em 2019. Além disso, os Correios efectuaram uma emissão de selos em sua homenagem. No total, Xian compôs mais de 300 obras, publicou 35 artigos e teve um impacto enorme na música chinesa. Desde a sua morte, as suas obras foram amplamente executadas na China e, nos últimos anos, no Ocidente. Em Cantão, o Conservatório de Música Xinghai e a respectiva sala de concertos receberam o seu nome. Em Panyu, um subúrbio de Cantão, existe um parque com o seu nome. Filmes foram feitos sobre a sua vida, um deles uma produção conjunta entre a China e o Cazaquistão.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade140Primeiros anosXian nasceu em 13 de Junho de 1905 numa família de tancareiros no porto interior de Macau. Seu pai morreu antes de ele nascer, num aci-dente de barco em Hong Kong. Xian nasceu no pequeno barco que era o lar da família e aí morava com a mãe e o avô materno. A sua mãe ga-nhava uma ninharia com o transporte de alimentos e necessidades diárias entre Macau e Zhuhai, do outro lado do rio. Os tancareiros eram a classe mais baixa na estrutura social e quando Xian foi para a escola, foi ex-pulso porque não queriam pessoas de classe tão baixa no seu seio. Xian aprendeu os caracteres chineses com sua mãe, que os desenhava na areia da praia. Ela cantava as músicas de pescadores e foi esse o começo de sua educação musical. Xian costumava fazer entregas de alimentos nas casas dos portugueses e foi aí que ouviu música ocidental pela primeira vez. Quando o seu avô morreu numa colisão que destruiu o barco da fa-mília, mãe e filho mudaram-se para Singapura, onde ela encontrou traba-lho como empregada doméstica, com direito a alojamento. Através de um parente, obtiveram uma carta de apresentação para uma escola de chineses ultramarinos. Com bons professores, Xian aprendeu mandarim e música. Completou a escola primária e dois anos do ensino médio, antes de se mudar para uma escola em Cantão, que fazia parte da Universidade de Lingnan. Os seus professores perceberam o seu talento para a música, que se tinha torna-do na sua disciplina favorita. Em 1918, começou a aprender clarinete na es-cola da YMCA (Young Men’s Christian Association), anexa à universidade.Aprendizagem musical em Pequim, Xangai e ParisEm 1926, muda-se para Pequim para estudar música no Instituto Nacional de Música da Universidade de Pequim. Mas o instituto foi posteriormente encerrado por um senhor da guerra. Muda-se, então, em 1928 para Xangai para estudar violino e piano no Conservatório de Música da cidade, de onde é expulso por ter participado num movimento estudantil21. Procurou outro local para continuar a sua educação musical e escolheu Paris, embora não tivesse dinheiro para a viagem marítima, muito menos para as propinas mensais.21. É expulso do Conservatório devido ao seu envolvimento no movimento nacionalista estundantil de 1929.
  • Capítulo 11: Xian Xinghai141Com a ajuda de alguns parentes conseguiu um emprego num navio a vapor com destino a França, em 1929. Trabalhava na sala de máquinas, empurrando carvão para a fornalha, a fim de pagar a passagem. Quando chegou a Paris, ganhava a vida trabalhando em restaurantes chineses e, ao fazê-lo, aprendeu francês. A sua pobre-za e a vida itinerante haviam-no tornado forte e independente. Um estudante chinês apresentou-o a professores de música que o ensina-ram gratuitamente porque reconheceram o seu talento incomum. Foi ajudado por uma namorada parisiense que lhe ensinou francês e que o convidava para almoçar e jantar em sua casa. Foi nessa altura que começou a compor música.Em 1931, foi admitido no Conservatório de Paris – Conservatoire Superier de Musique - com uma bolsa para estudar composição com Vincent D’Indy e Paul Dukas, dois dos mais ilustres professores da épo-ca. Durante estes anos, a sua mãe continuou a trabalhar como empre-gada doméstica em Macau, Cantão e Xangai, esperando pacientemente que ele voltasse. Xian não admitia ficar na Europa, pretendendo regres-sar à China para se reunir à mãe e trabalhar para o país. E sempre disse que o professor mais importante na sua vida tinha sido a sua mãe. Em 1935, decide regressar à China, tendo conseguido um tra-balho como director do departamento de música de uma empresa cinematográfica em Xangai, então a maior e mais importante cida-de do Extremo Oriente e lar da maior indústria cinematográfica da Ásia. Esta nova situação proporcionou-lhe um bom salário e um es-tilo de vida que nunca poderia ter imaginado - uma casa grande na Concessão Francesa e, pela primeira vez, o seu próprio piano. Levou algum tempo para descobrir sua mãe, que foi viver com ele.Mas essa vida de riqueza e conforto não durou muito. Em Julho de 1937, o exército japonês iniciou a invasão em grande escala e ocupou Xangai de imediato, apesar de não ter ocupado a Concessão Francesa. Xian desempenhou um papel activo no trabalho de propa-ganda contra o Japão e escreveu canções anti-japonesas. Com medo de ser preso, fugiu para a cidade central de Wuhan, onde conheceu Zhou Enlai, um dos líderes do Partido Comunista. Zhou convidou-o para ir a Yanan, a base montanhosa do partido no noroeste da China. Xian concordou, tendo sua mãe permanecido em Xangai.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade142Demitido por patriotismoEm Yanan, trabalhou no departamento de música da Academia de Artes e Literatura Lu Xun, com um salário modesto. Em Novembro de 1938, casou-se com Qian Yun-ling em Yanan e o casal teve uma filha chamada Nina. O tempo em Yanan foi um período muito pro-dutivo em termos de composições musicais, incluindo a Cantata do Rio Amarelo. Foi inspirado por um poema escrito por Guang Weiran, um amigo de Xian que esteve na linha de frente e fez um trabalho de propaganda para apoiar as tropas comunistas que lutavam con-tra os japoneses. No início de 1939, Guang foi ferido e levado para Yanan para tratamento. Xian visitava o seu amigo no hospital, onde apesar dos ferimentos conseguiu compor um poema em cinco dias. Xian passou o poema a papel e, a partir de 26 de Março, começou a compor a música para o acompanhar. Depois de seis dias e seis noites de trabalho intenso numa gruta em Yanan, entre 26 e 31 de Março, concluiu a partitura. A cantata foi tocada pela primeira vez a 13 de Abril numa escola no Norte de Shaanxi, em conjunto com a orquestra da Academia Lu Xun e a banda de guerrilha militar. Mao Zedong escutou a interpretação pela primeira vez em 11 de Maio e convidou Xian para uma reunião. Pouco depois, Xian foi nomeado chefe do departamento de música da academia.A música foi gravada muito rapidamente e tornou-se a composição mais popular da guerra, como um hino nacional contra os japoneses. Era cantada por soldados enquanto marchavam para a frente de combate e por estudantes nas suas assembleias e reuniões no estrangeiro para apoiar a pátria. Foi uma época muito difícil para os chineses e eles precisavam de apoio psicológico, disse Xu Xin, pesquisador do Museu de Macau que escreveu o roteiro de um filme sobre o compositor.A próxima etapa de sua odisseia foi Moscovo. O Partido Comunista fizera um filme sobre o Oitavo Exército e precisava de música. Não ha-via instalações para isso em Yanan, então Xian levou a película para Moscovo para adicionar a música, acompanhado por um membro da companhia de filmes Yanan. Chegou a Moscovo no final de 1940 e ficou na Casa de Hóspedes Internacionais Número Três, na Rua Gorky, 36, como hóspede do Comintern (Internacional Comunista). Pediu um piano
  • Capítulo 11: Xian Xinghai143emprestado e começou a trabalhar na música para o filme. Começou en-tão a aprender russo e tornou-se amigo de compositores russos.Em 22 de Junho de 1941, a Wehrmacht invadiu a União Soviética e quase capturou Moscovo. Xian tornou-se num dos milhões de vítimas deste conflito brutal da II Guerra Mundial. Sem ser fluente no russo, não poderia participar do esforço de guerra e decidiu regressar a casa. Iniciou então a longa jornada de regresso, mas descobriu que a fronteira havia sido fechada por um senhor da guerra em Xinjiang. Xian perdeu o filme e acabou por ficar em Alma-Ata, capital da república socialista soviética Cazaque onde se refugiou. Ficava perto da fronteira com a China.A sua vida em Alma-Ata foi muito difícil. Xian viveu durante um ano na cave de um prédio de cinco andares e sobreviveu com os alimen-tos racionados que eram dados aos moradores durante a guerra. Não ti-nha família ou contactos na cidade. Um dia, em Junho de 1942, após um encontro casual, um músico russo convidou-o para sua casa e, após se ter inteirado da situação, providenciou que Xian ficasse no apartamento de sua irmã mais velha, onde as condições eram melhores.No Outono de 1943, quando o frio começou a fazer-se sentir, Xian perdeu a ração diária de 600 gramas de pão. Este foi o período mais difícil da guerra, quando tudo faltava. A sua condição física começou a deteriorar-se. Às vezes, colegas músicos convidavam-no para as suas casas para um prato de várias fatias de pão, sopa quente e uma tigela de milho e, após a refeição, conseguia dormir em frente a uma lareira.Apesar de todas estas privações, participou em espectáculos, man-teve contacto com colegas músicos e compôs novas peças, incluindo duas sinfonias e duas suítes para instrumentos de sopro e cordas. No início de 1944, foi para Kostanay, no norte da república do Cazaquistão, onde organizou uma banda que tocava em locais públicos. Foi bem-recebido, mas o Inverno duro, o trabalho árduo e a desnutrição afectaram a sua saúde. Vivia sozinho, sem ninguém para cuidar de si, mal conseguindo viver com rações diminutas.Na Primavera de 1945, durante uma visita a uma região monta-nhosa para espectáculos, Xian contraiu pneumonia. Por causa da má ali-mentação e das suas condições de vida, a sua saúde deteriorou-se. Apesar disso, continuou a compor música. Demorou três meses a conseguir a transferência para um hospital de qualidade em Moscovo, que ficava
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade144próximo do Kremlin e era utilizado por altos funcionários do partido, mas só conseguiu ir para lá após o final da II Guerra Mundial na Europa, em Maio de 1945. O tratamento chegou tarde demais para salvar a sua vida, tendo morrido de doença pulmonar no hospital a 30 de Outubro de 1945. Depois de ir para Moscovo em 1940, nunca mais voltou à China e nunca mais viu a sua mãe, a esposa e a filha, tendo vivido os últimos cinco anos da sua vida sozinho.No sudoeste de Alma-Ata existe uma rua com uma placa e uma estátua em sua memória, com dizeres em chinês, russo e cazaque. Após a sua morte, foi enterrado numa cerimónia pública nos arredores de Moscovo. Em 1983, a pedido de sua família, as suas cinzas foram levadas para a China e enterradas em Cantão.Recordações de Moscovo e de Alma-AtaZuo Zhenguan, um russo de origem chinesa, é o principal estudioso de Xian Xinghai na Rússia e no Cazaquistão, dois países onde o com-positor viveu. Zuo é um defensor entusiasta de um grande museu para Xian em Cantão. “Nas cidades russas, existem muitos museus dedicados a pessoas notáveis que nelas nasceram e cresceram. Xian é o orgulho de Cantão. De que forma poderia ser devidamente recordado? O governo local devia fornecer um terreno e construir um museu em sua homena-gem. Poderia usar exemplos estrangeiros e incorporar a música de Xian na construção”. “O que é patriotismo? Isso significa conhecer a sua própria história. Mas muitos chineses não conhecem a sua própria história e não conhe-cem Xian Xinghai nem a Cantata do Rio Amarelo, o que é muito triste”, disse Zuo.Durante a Revolução Cultural, Zuo deixou Xangai com a sua mãe russa e estabeleceu-se no que era então a União Soviética, onde vive desde então. Depois de estudar música na universidade, entrou para a Associação Russa de Compositores de Música (ARCM). No final da década de 1980, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China enviou uma carta ao governo soviético com dez perguntas sobre a vida de Xian no país. A asso-ciação confiou a Zuo a tarefa de responder às perguntas. Zuo seguiu, então os passos de Xian em Alma-Ata (Almaty) e Kostanay no Cazaquistão.
  • Capítulo 11: Xian Xinghai145Xian foi para lá no Verão de 1941, após a invasão nazi da União Soviética, cujo exército quase capturou Moscovo. Juntamente com mi-lhões de outras pessoas, Xian fugiu para o leste e refugiou-se em Alma-Ata, então capital da república socialista soviética Cazaque e agora a maior cidade do Cazaquistão. Em Alma-Ata, Zuo encontrou pessoas que conheceram Xian, incluindo a senhora idosa que o havia recebido no seu apartamento, que lhe contou como Xian havia vendido as roupas para arranjar dinheiro e sobre a doença que se transformou em tuber-culose pulmonar.Zuo disse que, ao longo dos anos, ajudou os produtores que es-tavam a fazer filmes sobre Xian. “Sinto que é muito estranho que não exista uma instituição oficial adequada que realize pesquisas aprofun-dadas sobre o compositor. Xian não era apenas um compositor, mas uma pessoa de grande significado para o socialismo na China. Para uma pessoa da sua estatura, deveria haver pelo menos em Cantão um museu de grande dimensão, mostrando a história da sua vida e suas composi-ções. Há muitos aspectos sobre a sua pessoa e a sua vida que deveriam ser pesquisados”. Recordado em filmeA vida de Xian inspirou um jovem estudante em Pequim, Xu Xin, a fazer um filme sobre o compositor. “O jovem Xinghai” estreou-se em Macau em Dezembro de 2009. A ideia surgiu-lhe em 1966, quando Xu era aluno da Academia de Cinema de Pequim, cujo vice-director era um famoso cineasta chamado Wu Yinxian. Durante a Revolução Cultural, Wu foi demitido do seu emprego e enviado para um local onde carregava carvão. Numa entrevista em 2010, Xu, pesquisador do Museu de Macau, disse: “Fui visitá-lo na sua casa e ele ficou encantado por ter um visitante. Wu contou como conheceu Xian Xinghai. Wu e Xian trabalharam juntos na indústria cinematográfica em Xangai e foram juntos para Yanan”.Wu descreveu-lhe uma noite em Yanan quando o Presidente Mao o convidou a ele e a Xian para jantar. Foi depois de Xian ter escrito a Cantata do Rio Amarelo, que o tornara famoso. “Mao perguntou-lhe quem tinha sido o professor que o havia formado e Xian respondeu que tinha sido a sua mãe. Wu afirma que isso deixou-lhe uma profunda
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade146impressão. Lembrei-me sempre dessa afirmação. Escutei a sua música e gostei muito, como todo mundo fez no continente. Ele representou uma era”, disse Xu. “A Cantata do Rio Amarelo era cantada pelos soldados enquanto marchavam para a frente, pelos estudantes nas suas assembleias e pelos chineses no estrangeiro se reuniam para apoiar a pátria. Foi uma época muito difícil para os chineses que precisavam de apoio psicológico”.Em 1982, Xu mudou-se de Pequim para Macau e tornou-se re-pórter no jornal Va Kio. Xu costumava entrevistar os pescadores no Porto Interior, onde Xian nasceu. “Quando conversei com eles, surgiu a ideia de um filme. Em 2004, propus a ideia a Li Qiankuan, presidente da Associação de Cinema da China, que conhecia a história de Xian e estava muito entusiasmado. Li decidiu dirigir o filme com sua esposa Xiao Guiyun”.A realização do filme envolveu um investimento de 18 milhões de yuans, dos quais a Fundação Macau forneceu a maior parte, 10 milhões de patacas, tendo ainda cinco empresas participado na produção. O filme cobriu os anos de infância de Xian, em Macau e em Singapura. Xu escre-veu um segundo e um terceiro guião, cobrindo os anos em França e em Xangai, e em Yanan e na União Soviética, respectivamente. A produtora optou por fazer o filme não em cantonês, o idioma nativo de Xian e sua mãe, mas em mandarim, porque o principal mercado para o filme estava no continente.Para o elenco, Li procurou em toda a China durante seis meses. Mais de 500 crianças fizeram o teste para o papel de Xian quando crian-ça. Li escolheu Su Jiahang de Pequim, que revelou talento para cantar e nadar, além de ser bonito. Para os anos de Xian em Singapura escolheu um adolescente de Xi’an e para o papel da mãe a actriz taiwanesa Vivian Hsu. O seu objectivo era terminá-lo até 2009, o 60.º aniversário da fun-dação da República Popular da China e o 10.º aniversário do regresso de Macau à China.A equipa rodou o filme em Macau, Zhuhai, Zhongshan, Cantão e na cidade cinematográfica de Nanhai. A edição foi feita em Macau em meados de Junho de 2009 e o filme ficou pronto no final desse ano. “O mais difícil foi recriar as condições de uma aldeia de pescadores há 100 anos, o que fizemos em Hengqin (em Zhuhai)”, disse Xu. A música
  • Capítulo 11: Xian Xinghai147para o filme foi escrita pelo compositor Nan Shu que trabalhou com a Orquestra Sinfónica da Juventude de Macau. Residente de Pequim, também compôs a música de Building the Nation, um filme feito pelo go-verno central para comemorar o 60.º aniversário da República Popular da China.“Macau teve um impacto profundo em Xian”, disse Xu. “Foi aí que aprendeu as canções de pescadores com a sua mãe e onde a sua educação musical se iniciou. Foi em Macau que ouviu pela primeira vez a música ocidental e teve as suas primeiras lições de violino. Foi o momento do seu despertar. A sua mãe ganhava a vida transportando produtos alimentares, tais como soja, no seu barco de Zhuhai para Macau. Ela gostava de cantar canções de pescadores, que ele apre-ciava. Mais tarde transcreveu-as e foi dessa forma que começou a sua educação musical. Um violinista local deu-lhe lições. Tinha um senti-mento profundo por Macau, que representava um período de desco-bertas”. Xu disse que a filha de Xian, Xian Nina, havia trabalhado na Biblioteca de Hangzhou e que já se tinha aposentado, mas que visita frequentemente Macau.Após a sua estreia em Macau, o filme foi exibido, em Hong Kong, em 2010, com o título The Star and the Sea. Foi lançado no continente em 2011 como Xing Hai.Filme no CazaquistãoEm Junho de 2017, a revista Variety dava notícia de uma parceria da China e do Cazaquistão para a realização de um novo filme sobre Xian. Composer - “compositor” - seria o primeiro filme a ser rodado ao abrigo de um acordo de co-produção recém-assinado entre os dois países. O acordo foi assinado, naquele mês, em Astana, a capital do Cazaquistão, pelo presidente da China, Xi Jinping, e pelo presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev. Nie Chenxi, ministro da Administração Estatal de Imprensa, Publicação, Rádio, Cinema e Televisão e o ministro da Cultura do Cazaquistão, Arystanbek Mukhamediuly, participaram numa cerimó-nia para marcar o início das filmagens.Realizado por Xierzati Yahefu, o filme acompanha a história de Xian, concentrando-se no período em que ficou retido no Cazaquistão e
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade148foi ajudado pelo compositor cazaque Bakhitzhan Baykadamov. Aí, Xian criou raízes e compôs algumas de suas obras mais famosas. O filme tem actores como Jun Hu, da China, e Berik Aitzhanov, do Cazaquistão. O filme é uma produção conjunta entre a chinesa Shinework Pictures e a Kazakhfilm JSC. Os produtores são Jonathan Jian Shen, Iris Wang, Kairbekov Bakhyt e Serik Zhubandykov. “A minha geração cresceu a ouvir as sinfonias apaixonadas e extre-mamente bonitas de Xian. Mas não sabíamos do vínculo tão profundo que tinha com o Cazaquistão”, disse o presidente da Shinework, Shen. “O que estamos a fazer é simbólico. Cineastas, realizadores e actores e actrizes conhecer-se-ão e farão amizade neste processo. Gostaria de ver mais intercâmbio cultural com a China”, disse Bakhyt, presidente do Kazakhfilm JSC.O drama biográfico narra os últimos anos de Xian (1940-45) em Almaty, a maior cidade do Cazaquistão, e Moscovo. O estúdio Shinework Pictures, com sede em Pequim, que trabalha principalmente em co-pro-duções com países envolvidos na iniciativa “Faixa e Rota”, juntou-se ao Kazakhfilm JSC, o maior estúdio do Cazaquistão, para co-produzir o filme. O elenco conta com Hu Jun no papel de Xian e o artista cazaque Berik Aitzhanov, no papel de Bakhitzhan Baykadamov, um famoso com-positor cazaque e um dos melhores amigos de Xian. O guião foi escrito por Su Xiaowei, e o filme será realizado pelo cineasta de etnia Uygur Xierzati Yahefu, da região autónoma de Xinjiang Uygur, que fez o filme biográfico de 2014, Amor Genuíno.Jonathan Shen, fundador da Shinework Pictures, disse que a ideia do filme surgiu após um discurso que Xi Jinping fez na Universidade Nazarbayev, em Astana, em Setembro de 2013. No discurso, Xi falou sobre Xian e isso levou Shen a efectuar uma pesquisa sobre o compostor. Shen, que também dirige o programa semanal de televisão World Film Report, destacou repórteres para estudar Xian. Através de entrevistas, incluindo reuniões com a sobrinha de Baykadamov e a filha de Xian, aprendeu mais sobre o músico e o seu trabalho.Xian ficou retido em Alma-Ata, sofrendo de pobreza e doença. Foi ajudado por Baykadamov, que lhe forneceu uma casa, apesar de não conhecer a sua verdadeira identidade, pois Xian usava na altura um pseudónimo. Xian desenvolveu uma espécie de relação pai-filha
  • Capítulo 11: Xian Xinghai149com a sobrinha de Baykadamov, à época na escola primária, que lhe ensinou a língua local. Falando sobre o filme, Shen disse: “Para elas (a sobrinha e a filha de Xian, ambas, actualmente, com cerca de 80 anos), Composer não é apenas um filme, mas também uma oportunidade para verem a pessoa que ambas amam profundamente no écran de cinema”. O filme, rodado em Alma-Ata, Moscovo e Yanan, na provín-cia de Shaanxi, noroeste da China, estreou-se a 13 de Junho de 2018, aniversário da filha de Xian.Hu, o actor que interpreta Xian, disse que aceitou o papel uma hora depois de ser convidado para actuar no filme. “É uma grande honra in-terpretar Xian. Eu nasci numa família de músicos e a sua Cantata do Rio Amarelo é uma das minhas composições favoritas”, disse o actor natural de Pequim, de 49 anos. Aitzhanov, conhecido por representar o presiden-te do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev, no êxito biográfico The Way of the Leader, disse que Xian e Baykadamov eram homens nobres que devotaram as suas vidas aos seus países.Duas avenidas em Alma-Ata receberam o nome de Xian e de Baykadamov antes da visita de Nazarbayev à China em 1998. Xian é reverenciado no Cazaquistão, pois algumas de suas obras mais influentes - Libertação da Nação, Guerra Sagrada e Vermelho em toda a extensão do rio - foram criadas durante os seus últimos anos na cidade.Selos em MacauXian foi recordado de muitas outras maneiras. Em Junho de 2015, os Correios de Macau emitiram um conjunto de quatro selos para come-morar o 110.º aniversário do seu nascimento, retratando quatro cenas da sua vida - o seu nascimento em Macau, estudos em Paris, o tempo como maestro em Yenan e o seu falecimento em Moscovo. Foram impressas 300 mil colecções.Em Setembro desse ano, realizou-se, em Macau, a “Semana Xian Xinghai”, que incluiu um concerto no auditório da Universidade de Macau, onde Choi Sown-le, pianista nascido em Macau, tocou uma composição de Xian com a Orquestra Filarmónica de Câmara de Hong Kong. Outros eventos incluíram uma exposição de fotografia, exibições de filmes e um documentário. Como parte do 29.º Festival
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade150Internacional de Música de Macau, em Outubro, a Orquestra Chinesa de Macau apresentou o Concerto Comemorativo de Xian Xinghai e Liu Tianhua22.Macau não foi caso único e outras cidades chinesas, incluindo Zhuhai, realizaram igualmente eventos comemorativos, assinalando não só o 110º aniversário de Xian, mas também o 70.º aniversário da vitória da China sobre o Japão.Construindo um museu em MacauEm Junho de 2016, o Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura de Macau, Alexis Tam Chon Weng, disse que o governo planeava trans-formar duas casas de estilo português num espaço em homenagem a Xian. Em Outubro de 2017, a directora dos Correios de Macau, Derby Lau Wai Meng, disse que iriam ser arrendadas as suas duas casas junto à Teledifusão de Macau, na Rua de Francisco Xavier Pereira, ao Instituto Cultural para nelas instalar o museu. As duas casas são propriedade dos Correios e as rendas seriam decididas após uma análise ao mercado de habitação no local. Actualmente, existem quatro locais dedicados a Xian Xinghai, in-cluindo um em Pequim, um em Panyu e um no conservatório de música em Cantão. Todos contêm fotografias da sua vida e composições suas, mas não há espaço para muitos dos objectos doados à China pelo gover-no russo, incluindo as partituras de composições que ele escreveu durante o tempo que passou no estrangeiro. Esses objectos estão guardados em armazém, não podendo ser vistos por ninguém. Deng Xilu, director do conservatório de música, referiu a realiza-ção de alguns seminários sobre Xian. Contudo, “a pesquisa sobre a sua vida parou e tal deve-se ao facto de não ter deixado muitos objectos pes-soais”. Mencionou, ainda, que o conservatório seria o lugar adequado para a instalação de um museu por causa de seu papel enquanto lugar de música e centro nacional de pesquisa sobre a vida e o trabalho de Xian. “Mas, onde quer que um novo museu seja construído, deve elevar a pesquisa sobre Xian a um novo nível e promover a divulgação da sua 22. Liu Tianhua (1895-1932) foi um músico e compositor chinês conhecido pelo seu trabalho inovador com o erhu (violino chinês de duas cordas).
  • Capítulo 11: Xian Xinghai151música. Precisamos de pessoas dispostas a assumir e desenvolver esse projecto, pois isso não se pode alcançar construíndo simplesmente um museu. Precisamos de um grupo de músicos e académicos que queiram fazer essa pesquisa”.O local ancestral de Xian do município de Lanhe tem uma socieda-de para o estudo de sua vida e obra e dois coros que tocam a sua música. Mas não tem planos para um grande museu.FontesEntrevista do autor a Xu Xin em Macau em Março de 2010; Página electrónica da China Central Television; China Daily, Culture and History magazine, Macauhub e revista Macao; Revista Variety.
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  • Florence Li Tim OiCapítulo 12
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade154
  • Capítulo 12: Florence Li Tim Oi155Primeira vigária da Comunhão Anglicana mundialFlorence Li Tim Oi tem um lugar de honra na história da Comunhão Anglicana mundial. Em Janeiro de 1944, passou a ser a primeira vigária ordenada pela sua congregação, por causa de serviço prestado à comuni-dade em Macau durante as horas mais sombrias da II Guerra Mundial. Mas, dois anos mais tarde, um responsável da diocese de Hong Kong persuadiu-a a que renunciasse à capacidade de oficiar. Foi apenas em 1971, ou seja, 25 anos depois, que foi autorizada a retomar o seu estatu-to na Comunhão Anglicana, quando duas outras mulheres foram feitas vigárias em Hong Kong.Florence escolheu permanecer no continente após 1949 e sofreu muito às mãos dos Guardas Vermelhos, não tendo sido autorizada a vol-tar para sua casa em Hong Kong até 1981. De lá, emigrou para Toronto, Canadá, onde faleceu em Fevereiro de 1992. Nunca reclamou da renúncia forçada nem do sofrimento que passou durante a Revolução Cultural. “Aprendi que Deus é um Deus vibrante, um Deus vivo”, escreveu. “Passei por tantos altos e baixos na minha vida para aprender a sua bondade, o seu amor. Com seu amor e bondade, tentei provar que existe um Deus vivo na minha vida, que Ele está realmente presente na minha vida interior.” Após a sua morte, o seu nome mantém-se vivo através de uma fun-dação criada com o objectivo de prestar ajuda a mulheres de países do Terceiro Mundo que pretendam servir a igreja, mas que não têm fundos para a educação de que precisam. Com sede na Inglaterra, esta funda-ção gastou mais de 900 mil libras esterlinas para apoiar mais de 430 “Filhas de Li Tim Oi” de 124 dioceses, em 14 províncias da Comunhão Anglicana, no Brasil, Fiji, Índia, Paquistão e 13 países de África.InfânciaLi nasceu em 5 de Maio de 1907 no bairro de Shek Pai Wan, em Hong Kong, numa família cristã devota. Seu pai chamava-a de Tim-Oi (“Muito amada”). Li tinha cinco irmãos e duas irmãs. O seu pai foi di-rector de uma escola primária oficial de língua inglesa durante mais de 30 anos. A sua mãe foi educada numa escola dirigida por freiras católicas e era especialista em bordados e cultura chinesa. O dr. Sun Yat-sen convidou
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade156várias vezes o sr. Li para se juntar ao seu movimento revolucionário para derrubar a dinastia Qing, mas ele recusava sempre, acreditando que uma revolução resultaria inevitavelmente em derramamento de sangue. Desde cedo, a jovem frequentou regularmente com a sua família os serviços religiosos numa igreja anglicana. Os seus pais também efectua-vam estudos bíblicos e prestavam culto em casa. A família não era tão próspera e inicialmente só podia dar educação secundária aos filhos e não às filhas. Li frequentou a escola do pai até aos 14 anos, mas não foi para a escola secundária antes de fazer os 21 anos. Os seus irmãos tinham prioridade. Em 1931, matriculou-se na Belilios Public School, uma esco-la para raparigas e concluiu os estudos em Janeiro de 1934, aos 27 anos. Foi nessa época, enquanto estudava na Belilios que se sentiu fascinada com a figura de Florence Nightingale, decidindo que quando fosse bapti-zada adoptaria Florence como o seu nome em inglês.O seu pai esperava que um dos seus cinco filhos se tornasse padre an-glicano, mas nenhum deles estava interessado. Florence cresceu nesta in-tensa atmosfera religiosa doméstica. Em 1931, quando tinha 24 anos, as-sistiu à ordenação de uma mulher britânica, Lucy Vincent, ao diaconado. Durante o culto, o bispo perguntou à congregação se alguma outra irmã queria dedicar-se ao serviço de Deus. Florence sentiu dentro de si o chama-mento e perguntava nas suas orações: “Sou digna do seu pedido?” Após esta ocorrência, sentiu dentro de si o chamamento do Todo-Poderoso.Depois de concluir os seus estudos na Belilios, foi trabalhar como professora numa escola primária para os filhos de pescadores pobres em Ap Lei Chau, na zona de Aberdeen, em Hong Kong. Nesse ano visitou o Colégio Teológico da União de Cantão, onde o seu director, o dr. John Kunkle, encorajou-a a estudar teologia nessa instituição. Após consul-tas com o seu pastor em Hong Kong, decidiu fazer esse curso, tendo apresentado a demissão da escola primária. Mas, como a sua família não podia pagar as proprinas na faculdade, a Igreja assumiu os custos. Durante o tempo que permaneceu na faculdade, o seu tutor para o Novo Testamento era um padre britânico chamado Geoffrey Allen. Mais tarde, Allen tornou-se Bispo no Egipto e, em seguida, director do Ripon Hall Theological College, em Oxford, e Bispo de Derby.Em Julho de 1937, os militares japoneses iniciaram a invasão da China. Em 12 de Outubro de 1938, as tropas japonesas desembarcaram na Baía
  • Capítulo 12: Florence Li Tim Oi157de Daya, 75 quilómetros a sudeste de Cantão, e sua força aérea começou a bombardear a cidade, capturando-a a 21 de Outubro. Aluna do colégio teológico, Florence viveu os horrores do bombardeio e do ataque japonês. Depois de um dos ataques, liderou uma equipa de estudantes para resgatar vítimas do ataque e ela própria escapou por pouco de se tornar uma vítima.Em 1938, formou-se na faculdade, tendo regressado a Hong Kong como trabalhadora leiga na Igreja de Todos os Santos, em Kowloon. Mas o seu regresso foi uma jornada perigosa, pois teve que passar por áreas de Guangdong ocupadas pelo exército japonês para chegar a Hong Kong. Em 22 de Maio de 1941 - Dia da Ascensão - foi ordenada pelo Bispo de Hong Kong como diácona na Catedral Anglicana de St. John, em Hong Kong. Em 7 de Dezembro daquele ano, a força aérea japonesa atacou a base naval dos EUA em Pearl Harbor, dando início à Guerra do Pacífico. Depois de uma rápida invasão, os militares japoneses capturaram Hong Kong, cujo governador se rendeu em 25 de Dezembro. A única cidade no leste da Ásia que o Japão não ocupou foi Macau, porque Portugal manteve-se neutro durante a guerra. Por essa razão, tornou-se um refúgio para milhares de refugiados, vindos de Hong Kong e do continente, que queriam viver fora do controlo dos militares japoneses. A guerra deu um duro golpe nas igrejas cristãs, pois os pastores que pertenciam a países em guerra com o Japão foram presos como cida-dãos de “nações inimigas” e colocados em campos de detenção. Muitos pastores chineses foram recrutados para o exército, mas as necessida-des da comunidade da igreja e do público como um todo aumentaram muito por causa da guerra. As mulheres da igreja, como Florence Li, foram essenciais neste momento crítico da história. Em 1940, o Bispo de Hong Kong pediu-lhe que fosse para Macau ajudar a igreja a lidar com a situação de emergência que se vivia na colónia portuguesa.O calvário de MacauNos seus 400 anos de história, Macau nunca tinha enfrentado tal crise. Após a queda de Hong Kong, a sua população triplicou de 150 mil pessoas para quase 500 mil. Ao longo da sua história, Macau nunca teve de suportar tantas pessoas.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade158Os japoneses impuseram um bloqueio marítimo e a colónia tinha de sobreviver com os seus próprios recursos e mantimentos trazidos da província de Guangdong, que por sua vez sofria com os estragos da guerra e da ocupação. Os refugiados mais afortunados ficaram com amigos e familiares ou encontraram alojamento em casas par-ticulares, hospitais, escolas, clubes e igrejas. Quando estes ficaram cheios, aqueles que se seguiram tiveram de viver nas ruas e depender da caridade para a sua sobrevivência. A população de Macau alargou as suas boas-vindas tradicionais e as instituições de assistência social, leigas e religiosas, chinesas e estrangeiras, faziam o possível para ali-mentar e vestir os sem-tecto, com distribuição de pão, arroz, roupas e cobertores. Os refugiados incluíam mulheres e crianças que possuíam apenas o que podiam carregar, bem como estrangeiros ricos e chineses que se mudaram para Macau como um refúgio seguro, trazendo dinhei-ro, habilitações e contactos. Tudo isso significou bons negócios para os hotéis, restaurantes, pousadas e casinos da cidade. O Hotel Bela Vista aceitou portugueses residentes no estrangeiro, nomeadamente de Xangai, e o governo criou campos de refugiados na ilha da Taipa.Uma semana após a queda de Hong Kong, o governo de Macau emitiu cupões para os moradores comprarem cereais. Em Fevereiro de 1942, quando os preços dos bens de consumo diário começaram a subir, permitiu que alguns terrenos na zona urbana fossem culti-vados para produzir alimentos. O Japão poderia ter tomado conta de Macau, mas embora interferisse repetidamente na administração interna de Macau, optou por não ocupar a cidade, talvez porque o seu aliado alemão tivesse decidido respeitar a neutralidade de Portugal e do seu império. Ou porque temia represálias contra as centenas de milhares de residentes de etnia japonesa no Brasil.Em Fevereiro de 1942, os militares japoneses tomaram a outra colónia asiática de Portugal, o actual país Timor-Leste, enquanto se preparavam para atacar a Austrália. As suas tropas puderam entrar em Macau com pouco protesto do governo, mas os consulados da Inglaterra, Holanda, França e Estados Unidos permaneceram abertos e puderam arvorar as suas bandeiras nacionais.Gabriel Teixeira, governador de Outubro de 1940 a Agosto de
  • Capítulo 12: Florence Li Tim Oi159194623 tudo fez para evitar incidentes com os japoneses e manter o que restava de sua autoridade. Proibiu actividades anti-japonesas, permitiu que navios japoneses atracassem e suas tropas transitassem para o vizinho município de Zhongshan. O chefe da polícia secreta japonesa em Macau instalou o seu quartel-general numa casa na Avenida Horta e Costa, onde organizou os assassínios de cidadãos proeminentes na luta anti-japonesa e criou dois jornais como órgãos de propaganda para o seu governo.A maior dor de cabeça para o governo foi a falta de géneros ali-mentícios que, devido ao bloqueio marítimo, tinha como única fonte de abastecimento o continente. Os militares japoneses e os comerciantes que trabalhavam com eles armazenavam mantimentos, aumentando os pre-ços e forçando a maioria das pessoas a viver em estado de semi-inanição. O governo usou toda a receita proveniente dos impostos sobre jogos de fortuna e azar para apoiar os refugiados e desviou outros recursos para organizações de assistência e caridade. A sociedade civil fez um esforço sem precedentes para alimentar, vestir e abrigar os refugiados.Mas os números eram muito grandes. Durante a guerra, estima-se que 50 mil pessoas tenham morrido de fome, frio, malária, cólera e outras doen-ças. Todos os dias, os Serviços de Saúde organizavam turnos cujo pessoal percorria as ruas com veículos para a recolhe dos corpos que eram depois despejados no “túmulo das 10 mil pessoas” na Taipa. As ruas eram regular-mente pulverizadas com produtos químicos para evitar a propagação de epi-demias. Algumas pessoas venderam os seus filhos em troca de comida. “O Inverno de 1942 foi o pior”, disse Chan Su-weng, presidente da Sociedade Histórica de Macau. “Diariamente eram recolhidos 400 cadáveres”.Ao mesmo tempo, como era o único lugar no sul da China que não estava em guerra, os seus restaurantes, casinos, antros de ópio e bordéis ex-plodiram, atraindo aqueles que estavam a lucrar com a guerra, como bandi-dos, soldados e oficiais japoneses e empresários que com eles colaboravam. Uma grande quantidade de ouro, prata, platina e moeda estran-geira fluíu para a colónia. Como parte da estratégia de guerra, o Japão pretendia atacar o governo chinês por meios económicos e forçá-lo a render-se. Para este efeito, as empresas japonesas estabeleceram cerca de 23. Gabriel Maurício Teixeira foi governador de Macau de Outubro de 1940 a Agosto de 1946. Foi reconduzido em 1944, mas o desfecho da guerra antecipou o seu regresso a Portugal. Foi então nomeado Encarregado do Governo Samuel da Conceição Vieira que, a 1 de Setembro de 1947, é substituído pelo então empossado governador Albano Rodrigues de Oliveira.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade16050 parcerias com empresários de Hong Kong e de Macau para inundar o mercado chinês com produtos japoneses, deixando o país sem moeda estrangeira, bem como para comprar matérias-primas necessárias para o esforço de guerra. Muitas dessas empresas tinham escritórios em Macau e empregavam empresários locais. Altos funcionários do governo colo-nial detinham acções em alguns delas.Florence encontrou-se de repente no meio deste mundo trágico. “Enquanto caminhava para a igreja, ia atrás dos homens que tinham o trabalho de recolher os corpos e colocá-los numa grande caixa de madei-ra para levá-los para o cemitério. Eles colocavam-nos uns em cima dos outros como sardinhas,” escreveu. Enquanto mulher solteira, Florence trabalhou o melhor que pôde. A sua primeira responsabilidade era ser-vir os membros da congregação da Capela Morrison, muitos deles refu-giados. Liderou os serviços na igreja, em chinês e em inglês. Trabalhou também numa escola para raparigas e ajudou e cuidou dos necessitados. Muitos refugiados viviam na rua, em locais públicos, procurando alimen-tos e roupas. Nesse local de sofrimento, empenhou todo o seu espírito em cuidados e amor, tendo trabalhado como enfermeira e ajudado os refu-giados a obter comida e alojamento e a enterrar os seus mortos. Arranjou crédito para uma mulher sem posses que precisava de um caixão para enterrar o seu marido. Um dos refugiados escreveu sobre ela: “Éramos refugiados da China, meus pais e oito filhos, quatro rapazes e quatro raparigas. Conseguimos encontrar um quarto e este permaneceu a nossa casa durante quatro anos. Após a morte de nosso pai, uma jovem chinesa visitou-nos e apresentou-se como Miss Li. Explicou que era diaconisa e encarregada da Igreja Anglicana, conhecida como a Capela Morrison. Juntámo-nos à sua congregação e, com os meus irmãos e irmãs, também me associei ao coro. Lembro-me que também havia uma escola domi-nical muito frequentada. Nessa época, a vida em Macau não era fácil. Tinhamos falta de comida e, por vezes, éramos incapazes de encontrar qualquer coisa. Miss Li visitou-nos e conseguiu trazer-nos um pouco de arroz e feijão e pudemos fazer sopa. Visitava também outras pessoas que precisavam de ajuda”. Depois da guerra, dois desses irmãos inspirados em Florence tornaram-se padres na África do Sul.O governo não tinha recursos nem pessoal para cuidar desse exér-cito de refugiados, por isso grande parte do fardo recaiu sobre as igrejas
  • Capítulo 12: Florence Li Tim Oi161e associações civis em Macau, que fizeram o seu melhor para ajudar os necessitados. Instituições de assistência social, leigas e religiosas, chinesas e estrangeiras, alimentavam e vestiam os refugiados com refeitórios e dis-tribuições de pão, arroz, roupas e cobertores. O Hospital Kiang Wu e a associação Tung Sin Tong davam arroz e sopa aos famintos. O preço do arroz passou de 0,08 patacas por jin (0,5 kg) para 1,2 patacas em 1942 e 2,7 patacas em 1945.A ordenação de FlorenceComo nenhum sacerdote podia fazer a viagem a partir de Hong Kong, o bispo assistente autorizou-a a presidir à Santa Comunhão durante dois anos. O número de fiéis na Capela Morrison aumentou rapidamente.O bispo de Hong Kong, Ronald Hall, estava nos Estados Unidos quando a cidade caiu. Voltou a trabalhar no que restou da sua dio-cese na capital nacionalista de Chongqing, na província de Sichuan, no Sudoeste. De lá acompanhou de perto o trabalho de Florence e, em 1943, realizou uma série de três encontros numa grande escola secun-dária em Macau. Como resultado, 72 raparigas solicitaram preparação para receber o baptismo. “Nenhum outro pastor teve ainda essa expe-riência na Igreja Anglicana no Sul da China”, escreveu o bispo. “Mas ela não é apenas uma evangelista; Florence é uma pastora calma, com-petente e compreensiva”. O trabalho de Florence impressionou-o tanto que decidiu ordená-la como vigária, de forma a honrar o seu trabalho e a regularizar a sua situação. “Estava simplesmente a confirmar o que o Espírito Santo já havia ordenado”, disse mais tarde. Enviou-lhe uma mensagem: “Se ousar a encontrar-se comigo, é bom que seja ordenada vigária e tenha direito a trabalhar”. De acordo com os regulamentos da Igreja Anglicana, um sacerdote deve ser ordenado pessoalmente por um bispo, não podendo sê-lo por carta ou telegrama. A decisão do bis-po Hall foi histórica. Desde a sua fundação no século XVI, só haviam sido ordenados homens como vigários. A posição mais elevada que as mulheres podiam assumir era a de diaconisa. Mas o bispo Hall decidiu que, durante as condições extremamente difíceis que prevaleciam em Macau, Florence mostrara qualidades excepcionais que mereciam a sua ordenação sacerdotal.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade162Em tempos normais, a ordenação de um sacerdote é um evento alegre planeado com meses de antecedência. A família e os amigos do novo candidato reúnem-se na igreja e celebram o evento com o bispo. Há música, canto e uma refeição comemorativa, mas as condições em 1944 eram tudo menos normais. O bispo Hall estava em Chongqing e Florence residia em Macau e o exército japonês ocupava o território na China continental em torno da colónia portuguesa. O Bispo escolheu a casa de um pastor na cidade de Zhaoqing, na província de Guangdong, como local de encontro. Reunirem-se aí envolveria que ambos tivessem de atravessar território controlado pelos japoneses sem serem presos ou detidos. O Bispo sugeriu a data de 25 de Janeiro de 1944. Para Florence, isso significava uma jornada perigosa de 250 quilómetros, deixando o território neutro de Macau e atravessando territórios con-trolados pelo inimigo. Com a ajuda da congregação, Florence partiu e foi a pé e de bicicleta, de barcaça e de cadeirinha. A viagem demorou uma semana. Tinha recebido antecipadamente os nomes de famílias cristãs e outros lugares de refúgio no caminho. Também para o Bispo Hall a viagem não foi mais fácil, tendo seguido de barco, de carro e a pé. Os dois chegaram à casa do reverendo Lai Kei Cheong com uma diferença de meia hora um do outro. Florence recorda: “Ajoelhámos-nos imediatamente, na sala de estar do pastor Lai, para agradecer a Deus”. Os dois conversaram e rezaram juntos durante vários dias. O Bispo fez muitas perguntas sobre o seu trabalho e chamamento, mas não mencionou o facto de ela ser mulher. Para Florence “as questões mais complexas da ordenação de mulheres estavam longe de minha mente quando entrei na pequena igreja. Eu estava a ser obediente à vontade de Deus”. Em frente de uma congregação de 100 pessoas, o Bispo ordenou Florence na igreja anglicana de Zhaoqing, após o que se reuniram num almoço comemorativo. Florence foi a primeira vigária da Comunhão Anglicana na sua história de quase 500 anos. A decisão do bispo Hall foi contra a tradição da igreja mundial na época, contra a sua compreensão da vontade de Deus. As mulheres eram considera-das, mesmo pelos teólogos cristãos, impuras, contaminadas pelo cor-rimento menstrual e até mesmo pelo parto. Alguns anglicanos ainda mantêm, actualmente, essa visão, apesar de haver mulheres padres a servir a igreja em muitos países do mundo.
  • Capítulo 12: Florence Li Tim Oi163Imediatamente após a ordenação, Florence regressou a Macau, através de uma rota mais segura, para retomar as suas funções. As con-dições de fome e escassez continuavam e os seus serviços eram desespera-damente necessários, para proporcionar conforto, tanto material quanto espiritual, aos moradores e aos refugiados. Ao longo da guerra, Macau foi uma fonte de comunicação vital para o mundo exterior. Os rádios de ondas curtas continuaram a funcionar, assim como o único cabo subma-rino internacional acessível, ligando a colónia a Lisboa e a Londres. Em Agosto de 1943, os japoneses atacaram e capturaram um navio de carga britânico, o Sian, atracado em Macau, matando 20 elementos de sua tripulação, por suspeita de transporte de armas para o exército chinês. Em Fevereiro de 1944, o governador proibiu o uso do dinheiro chinês e ordenou que os residentes usassem apenas a moeda emitida pelo Banco Nacional Ultramarino. Em Janeiro, Março e Abril de 194524, bombar-deiros norte-americanos realizaram três ataques aéreos aos depósitos de combustível25 existentes no Porto Exterior, que suspeitavam de fornecer combustível às tropas japonesas. Cinco pessoas morreram e um museu naval26 foi destruído.Muitos cidadãos britânicos fugiram para Macau e no final da guer-ra havia 9000. O consulado britânico permaneceu aberto durante a guerra, apoiando o Grupo de Ajuda do Exército Britânico (BAAG), uma organização para-militar para as forças britânicas e aliadas no Sul da China, que reuniu informações militares e facilitou a fuga de prisionei-ros de guerra mantidos pelos japoneses. Foi organizado pelo australiano Lindsay Ride, professor de fisiologia na Universidade de Hong Kong, que foi capturado durante a batalha de Hong Kong, mas escapou do campo de prisioneiros de guerra de Sham Shui Po.O pesadelo só terminou após a rendição do Japão em 15 de Agosto de 1945, tendo o governo declarado três dias de feriado. Mais de 100 mil pessoas participaram nas celebrações, apesar da trovoada e da chuva torrencial. Os refugiados, chineses e estrangeiros, puderam finalmente regressar aos seus lugares de origem. Em Setembro de 1945, um mês após 24. Respectivamente a 16 de Janeiro, a 5 de Março e a 7 de Abril.25. Depósitos existentes no extinto Centro de Aviação Naval de Macau. Foi igualmente bombardeada a fortaleza de D. Maria que ficou danificada.26. Antigo Museu Marítimo de Macau que estava abrigado no hangar de aviação.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade164o fim da guerra, o padre PJ McCarthy, um jesuíta colocado em Macau, escreveu um artigo de jornal dizendo que, durante o conflito, Macau ti-nha sido fiel ao seu nome - “Cidade do Santo Nome de Deus”.A perda da sua licençaFlorence manteve-se como vigária por um período inferior a três anos. Foi convocada a Hong Kong onde lhe disseram que ou teria que desistir do título ou Ronald Hall teria de renunciar ao bispado. Para pro-tegê-lo, renunciou à sua licença, mas manteve as suas ordens sacerdotais, para que pudesse prosseguir a sua missão. Comunicou ao Bispo Hall que não precisava da designação de vigária para fazer o trabalho da igreja. Outros poderiam ter deixado a igreja em desgosto e desapontamen-to com essa rejeição, mas Florence aceitou-a de boa fé e não permitiu que a desviasse de sua missão vitalícia de ser serva da igreja e de seu povo. Em 1948, a Conferência de Lambeth - o órgão de governo da Comunhão Anglicana - recusou-se a aceitar que as mulheres pudessem ser ordena-das sacerdotes. Analizando actualmente, é difícil entender o pensamento daqueles que votaram contra esse princípio em Lambeth, em 1948. Não tiveram em consideração as condições de fome, doença, miséria - e, em alguns casos, canibalismo - em Macau durante a II Guerra Mundial? Não pensaram e não avaliaram os trabalhos que ela tinha tido na tentativa de cuidar de milhares de refugiados com recursos limitados? De onde retirou ela a força para continuar esse trabalho? Além disso, a ordenação foi realizada no devido procedimento estabelecido pela igreja, com um de seus bispos a ter tomado a decisão após profunda reflexão e oração. Foi apenas em Novembro de 1971 que a situação de Florence foi restabe-lecida, após uma decisão, nesse ano, tomada pelo Sínodo de Hong Kong e Macau para permitir a ordenação de mulheres, a primeira província anglicana a fazê-lo. Em 28 de Novembro daquele ano, o Bispo Gilbert Baker ordenou duas mulheres, Jane Hwang e Joyce M. Bennett, em Hong Kong, tendo a ordenação de Florence sido reposta nessa mesma ocasião.Em 1947, Florence foi enviada para uma paróquia em Hepu, um bairro da cidade de Beihai, em Guangxi, Sudoeste da China, onde ficou encarregada da igreja anglicana de São Barnabé que, tal como muitos ou-tros lugares na China, precisava de grandes obras de reconstrução após
  • Capítulo 12: Florence Li Tim Oi165os estragos da II Guerra Mundial. Em 1948, foi enviada aos Estados Unidos para um período de estudo e reflexão. Em 1949, regressou a Hepu, onde construiu uma maternidade, um jardim de infância e uma escola primária. Um dos objectivos da materni-dade era ajudar as meninas recém-nascidas que poderiam ser sufocadas até a morte após o nascimento, pois os pais queriam um rapaz que pudes-se trabalhar nos campos e manter o nome da família e não uma “menina inútil” que deixasse a família quando se casasse.Um segundo calvárioFlorence acabara de escapar do calvário da II Guerra Mundial quando um segundo estava prestes a começar. Quando o novo governo chinês assu-miu o poder em 1949, ela optou por não regressar a Hong Kong, mas perma-necer no continente onde, no início, as autoridades toleraram o cristianismo. Em 1951, Florence foi para a Universidade de Yanjing, em Pequim, para estudos superiores de teologia. Em 1953 e 1954, trabalhou como pro-fessora no Union Theological College de Cantão, onde também estava en-carregada do dormitório feminino e ajudava na igreja anglicana da cidade.O pesadelo começou em 1958, com o início do Grande Salto em Frente. Com outros professores e sacerdotes, Florence foi enviada para o distrito de Jianggao, para uma área semi-montanhosa na província de Guangdong, onde cultivavam terras improdutivas, criavam gado, coelhos, galinhas e pei-xes em viveiros aquáticos. Em 1961, professores e sacerdotes, juntamente com outros não-comunistas, foram levados para a Escola de Socialismo de Sanyuanli, para a “reforma do pensamento através do socialismo”, tendo a situação piorado com a eclosão da Revolução Cultural, em 1966.Os protestantes de Cantão receberam ordens para construir uma fábrica de produtos químicos, na qual Florence foi forçada a trabalhar. O seu trabalho inicial incluía dobrar tubos de papel para produtos farma-cêuticos, mas três meses mais tarde foi seleccionada para colocar cera em papel. Em 25 de Agosto de 1966, os Guardas Vermelhos irromperam na sua casa, espancaram-na e removeram todos os objectos mais valiosos. Regressaram posteriormente e por diversas vezes para saquear o que ti-nha sobrado. Florence foi alvo destas acções devido às suas ligações com os “colonialistas britânicos” e o seu papel como membro do clero.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade166O prédio de apartamentos das alunas pelas quais ela era responsável foi transformado em prisão. Com as cabeças rapadas, os religiosos foram ali mantidos. Os Guardas Vermelhos queimaram as Bíblias e outros livros reli-giosos de Florence e dos outros sacerdotes e ordenaram-lhes que cortassem as suas vestes sacerdotais. Em Julho de 1974, deixou de trabalhar na fábrica de produtos químicos por estar a sofrer de um problema ocular grave. “Não me atrevia a relacionar-me com aqueles que eu sabia que eram cristãos, para não lhes causar problemas”, disse ela ao escritor do folheto sobre a sua pessoa elaborado pela Fundação Li Tim-Oi. Sujeita a lavagens ao cérebro, considerou seriamente o suicídio, mas o Espírito Santo recordou-a do seu sacerdócio e do seu compromisso de servir a Deus durante toda a vida. O pesadelo de 21 anos terminou finalmente em 1979, após o fim da Revolução Cultural e o lançamento da política de “porta aberta e reforma”. Foram anos muito difíceis para ela e para todos os religiosos profissionais e Florence precisara de toda a sua força interior e da sua fé para sobreviver. Como quase todas as pessoas na China durante esse período, foi proibida de sair do país, até mesmo para ir a sua casa, a Hong Kong. Aceitou a sua situação e o seu sofrimento com uma extraor-dinária sensação de perdão. Finalmente, após mais de 20 anos, as portas das igrejas reabriram e Li envolveu-se activamente na Igreja de Zion, em Cantão, que retomou os serviços em Setembro de 1979, na qual mais de 1000 pessoas juntaram-se para o primeiro serviço religioso. Foi também professora de inglês, pois havia uma escassez crítica de tais professores, uma vez que as universidades haviam sido fechadas durante a maior par-te do período da Revolução Cultural.Em Novembro de 1971, sem que disso tivesse tido conhecimento, foi reintegrada como vigária pelo Bispo de Hong Kong e Macau, como descrevemos acima. A Igreja levou 25 anos para reconhecer o seu erro.Em 1981, foi autorizada a visitar Hong Kong para se juntar à sua família. Mas precisava abdicar de todas as suas economias bem como a sua pensão. Assim, doou o seu dinheiro a boas causas na China. A pedido da família, pediu um visto ao Canadá para se reunir com outros membros da família que haviam para lá emigrado. Em Novembro de 1982, mu-dou-se para o Canadá e neste país serviu como vigária assistente na Igreja Anglicana de São Mateus e São João, em Toronto, que tem serviços em inglês e em chinês. Em 1983, tornou-se residente permanente do Canadá.
  • Capítulo 12: Florence Li Tim Oi167Reconhecimento, por fimOs Sínodos anglicanos em outros países seguiram o exemplo de Hong Kong e Macau. Em 1974, três bispos episcopais (anglicanos) aposentados ordenaram 11 mulheres em Filadélfia, nos EUA. A Igreja Anglicana do Canadá seguiu o exemplo em Novembro de 1976 e, em seguida, a da Nova Zelândia em 1977. Em 1983, a Igreja Anglicana do Quénia ordenou a sua primeira vigária. Li comentou: “O cristianismo foi um presente do Ocidente ao Oriente. A ordenação de mulheres pare-ce ser um presente do hemisfério oriental para o hemisfério ocidental”. A Igreja de Inglaterra, a pátria do anglicanismo, não as ordenou até 1994. Continua a ser uma questão controversa para uma minoria dos seus membros.Após Florence se ter estabelecido no Canadá, a igreja fez grandes esforços para mostrar o seu reconhecimento pela sua vida de sofrimento e lealdade. Em 14 de Janeiro de 1984, participou numa missa na Catedral de São João, em Toronto, para marcar o 40.º aniversário de sua orde-nação. Durante o serviço, ela recordou o ocorrido em 1946, quando os conservadores da igreja exigiram que ela renunciasse ao seu ministério. “Senti uma grande pressão e obstáculos”, disse. “Mas confiava no con-solo e na força de Deus e era capaz de permanecer fiel à igreja por muitos anos e continuar a trabalhar no seu seio”. Florence foi premiada com um Doutoramento de Divindade27 pelo Trinity College, em Toronto.Também em Janeiro de desse ano, foi convidada para visitar Londres, onde participou numa cerimónia na Abadia de Westminster para celebrar o 40.º aniversário de seu sacerdócio. Foi recebida pes-soalmente por Robert Runcie, o então Arcebispo de Cantuária, na sua residência oficial, em Lambeth Palace. Naquela época, Runcie ti-nha dúvidas sobre se as mulheres deveriam ser ordenadas, mas de-pois de conhecê-la, disse ao arcebispo canadiano Ted Scott. “Quem sou eu para dizer quem Deus pode ou não pode chamar?” Em 1988, participou na Conferência de Lambeth, uma reunião dos Bispos da Comunhão de todo o mundo. Um filme do seu trabalho na China foi estreado na Conferência.27. Um Doutoramento de Divindade é um título honorário que é atribuído a pessoas que dedicaram as suas vidas a objectivos teológicos ou à melhoria da comunidade em que se inserem.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade168Em Maio de 1987, o padre de São Mateus e São João em Toronto realizou um serviço de acção de graças para assinalar o 80.º aniversário de Florence e proceder à consagração de uma capela lateral da igreja com o seu nome. No mesmo ano, o Seminário Teológico Geral de Nova Iorque concedeu-lhe um Doutoramento da Divindade; a sua irmã Rita Lee Chui acompanhou-a a Nova Iorque para a cerimónia.Em 1987, a convite do bispo local, regressou pela primeira vez à sua paróquia em Hepu, Guangxi, aos 80 anos, para fazer um filme sobre a sua vida. Foi um momento comovente para ela e para os membros da congregação.Últimos anosFlorence passou os últimos anos da sua vida em Toronto, servindo a sua paróquia e encorajando a aceitação de mulheres no sacerdócio. A sua irmã Rita mudou-se de Genebra, na Suíça, onde morava, para Toronto, para cuidar dela.Depois do Natal de 1990, teve uma queda em casa e feriu grave-mente a coluna vertebral. Amigos que a visitaram no hospital recordam que, poucos minutos depois, Flotence perguntava pelas suas famílias e contava piadas. Não reclamou e suportou sua dor pacientemente.Faleceu em 26 de Fevereiro de 1992 na sua casa em Toronto, aos 84 anos. No dia 2 de Março, uma igreja anglicana chinesa no bairro oriental da cidade realizou um serviço em sua memória. Foi enterrada em Toronto e sua irmã Rita doou os seus arquivos ao Renison University College, em Waterloo, Ontário. Florence escreveu: “Aprendi que Deus é um Deus vibrante, um Deus vivo. Passei por tantos altos e baixos na minha vida para aprender sobre a Sua bondade, o Seu amor. Com o Seu amor e bondade tentei provar que existe um Deus vivo na minha vida, que Ele faz efectivamente parte da minha vida interior”.Entrevistado num programa de televisão, o arcebispo Ted Scott afirmou que Florence “nunca foi amarga, nunca nutriu qualquer ressentimento contra aqueles que lhe causaram sofrimento, pois possuía os recursos para perdoar tudo o que lhe havia sido feito”. Florence afirmara: “Sou apenas um vaso de barro com o tesouro de Deus dentro de mim”. A sua única preocupação era com os outros,
  • Capítulo 12: Florence Li Tim Oi169principalmente com as mulheres, que estas fossem valorizadas pela Igreja e pela sociedade.Em 2003, a Igreja Episcopal dos EUA fixou o dia 24 de Janeiro como o dia de festa de Li em Festas Menores e Jejuns, fundamentado na véspera de sua ordenação. Em 2007, o centenário de seu nascimento foi celebrado na Igreja de Inglaterra e em outros lugares. A Igreja Episcopal de São Jorge, em Dayton, Ohio, homenageou-a consagrando uma janela do edifício em sua honra, enaltecendo o facto de ter mantido a sua fé cristã numa China maoísta. Florence também foi homenageada com janelas na Capela da Igreja Anglicana do Bom Pastor, em Chautauqua, Nova York, e na Escola Feminina de São Paulo, em Brocklandville, Maryland. Num fri-so na igreja de São Gregório de Nissa, em São Francisco, Florence dança com Eleanor Roosevelt. Em 2009, a sua irmã Rita fez com que uma janela na Igreja Chinesa de São João, representando a Anunciação, fosse consa-grada em sua memória. Em Londres, a igreja de St. Martin-in-the-Fields possuiu dois memoriais sobre a sua figura, um altar dedicado ao Jubileu de Ouro do seu sacerdócio e um ícone pelo seu Jubileu de Diamante. Uma sala de reuniões foi, também, baptizada com o seu nome, o mesmo acon-tecendo na nova sede da Church Mission Society, em Oxford.Uma fundação com o seu nomeApós a morte de Li, a sua irmã Rita Lee-Chui avançou com a cria-ção da Fundação Li Tim Oi (LTOF), que tem por principal objectivo prestar ajuda a mulheres anglicanas, em países em vias de desenvolvi-mento, que pretendam servir a igreja, mas sem recursos para financia-rem os seus estudos.À semelhança de sua irmã, Rita tinha uma carreira notável. Nasceu em 1915, oito anos depois de Florence, obteve um mestrado na Universidade de Liverpool e tornou-se na primeira mulher chinesa a tra-balhar para a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Manteve-se nesse trabalho durante quase toda a sua vida, vivendo em Genebra.Rita falava muitas línguas, assim como vários dialectos chineses. Provavelmente, foi a sua experiência na OIT que a motivou a iniciar a Fundação, pois sabia, em primeira mão, que os trabalhadores, especial-mente as mulheres, precisam de formação para realizar o seu potencial.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade170Para começar a Fundação, Rita fez uma doação inicial e continuou a dar dinheiro ao longo dos restantes 22 anos da sua vida. Morreu em Março de 2016, aos 101 anos, e foi enterrada ao lado de sua irmã, em Toronto. A Fundação foi oficialmente lançada em 1994, no dia do Jubileu de Ouro da ordenação de Florence pelo Arcebispo Donald Coggan na Igreja St. Martin-in-the-Fields, em Londres. A fundação tinha sede na antiga resi-dência do Bispo Geoffrey Allen que, em Cantão, foi seu tutor.Durante um quarto de século, a fundação ajudou mais de 430 mulheres de 124 dioceses em 14 províncias da Comunhão Anglicana. Aquelas mulheres eram originárias dos seguintes países: Quénia ocupa o primeiro lugar com 171, Uganda 82, Tanzânia 53 e Sudão 46. Há outras no Ruanda, República Democrática do Congo, Burundi, Gana, Paquistão, Índia, África do Sul, Lesoto, Madagáscar, Brasil e Fiji. Mais de um terço dessas mulheres já foi ou virá a ser ordenada, tendo outras recebido formação para diferentes cargos nas respectivas dioceses. Até à data, a Fundação gastou 900 mil libras esterlinas nessa actividade. A fundação fornece os recursos financeiros necessários para a for-mação das mulheres no seu próprio país, permitindo-lhes assim mante-rem-se no seu ambiente, mais propício para os seus estudos do que irem para o estrangeiro. Também para a própria igreja local é mais vantajo-so, permitindo que os curadores prestem ajuda a muitas mais mulheres. Uma das primeiras alunas foi Edidah Mujinya, que se tornou presidente provincial da União das Mães do Uganda, e agora é vice-reitora de uma universidade recém-criada com mais de 1000 alunos. FontesDicionário biográfico da Cristandade da China.
  • Domingos LamCapítulo 13
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade172
  • Capítulo 13: Domingos Lam173Domingos Lam, o primeiro Bispo chinês de Macau em mais de 400 anosDomingos Lam Ka Tseung foi o primeiro bispo católico chinês de Macau. A igreja criou a diocese em 1576, a primeira no Extremo Oriente. Em Outubro de 1988, Lam tornou-se o primeiro bispo chinês de Macau, depois de 412 anos de bispos portugueses. Lam foi o 22.º bispo da dio-cese de Macau e liderou-a no período de transição da colónia portuguesa para o seu regresso à China, em 1999. Aposentou-se em Junho de 2003 e faleceu em Julho de 2009.Durante os 15 anos como líder da igreja, recebeu quatro condecora-ções do governo português. Em 2002, o governo da Região Administrativa Especial de Macau concedeu-lhe a Medalha de Honra da Flor de Lótus Dourada pelas suas realizações pessoais e contribuições para a socieda-de. Durante o seu período no cargo, aumentou o número de centros de oração e salões paroquiais, para fortalecer a rede de paróquias. Também supervisionou o crescimento de instituições culturais, para aumentar a influência da igreja na cidade. Mas, durante o seu mandato, não houve uma única ordenação local para o sacerdócio e, então, a diocese teve que confiar em padres estrangeiros para preencher o vazio.“Lam era um homem da situação”, disse o padre Luís Sequeira, re-sidente em Macau desde 1976 e ex-superior dos jesuítas. “Era inteligente, tinha um relacionamento social óptimo e era aceite nos círculos políticos. Misturava-se com portugueses e chineses, tendo aceitado de uma forma profunda a identidade de Macau. Assumiu o passado e a sua tradição portuguesa. Falava português fluentemente, bem como chinês, embora nunca tenha vivido ou estudado em Portugal”.“Era um homem de estudo e de leitura. Jornalista, gostava da impren-sa e dos livros. Escreveu um livro sobre a diocese, fez uma síntese da vida de Macau e preparou o futuro”, afirmou em entrevista o padre Luís Sequeira.Primeiros anosLam nasceu em 9 de Abril de 1928 em Hong Kong. Quando tinha quatro anos, mudou-se com a família para Macau, onde frequentou a escola primária do Colégio Dom Bosco. Após a conclusão desses estudos, ingressou
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade174no Seminário de São José. Formou-se em Filosofia e Teologia, em Macau, em 1953, e foi ordenado nesse ano. Posteriormente ensinou no seminário e na Escola Secundária de São José, de que foi director. De 1955 a 1959, foi editor do jornal O Clarim28, semanário católico de Macau. De 1959 a 1962, serviu como pároco na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na ilha da Taipa, e foi também director da Escola Dom João Paulino, em 1959. Durante os seus estudos e na vida quotidiana Lam dominava o português, embora nun-ca tivesse ido a Portugal para estudar ou viver. O padre Luís Sequeira referiu que o segundo marido da mãe de Lam era português. “Lam respeitava-o muito e costumava visitá-lo”, esclarecendo que “moravam em São Lázaro”.De 1962 a 1973, Lam foi padre da igreja de São José em Singapura. Ao mesmo tempo, editou o Rally Monthly, uma publicação em inglês da igreja de Singapura. Por quatro vezes foi o director financeiro da diocese de Singapura. Então, em 1973, regressou a Macau.Diocese de MacauEm 1571, foi fundado em Macau um colégio jesuíta29. Estabelecida em 23 de Janeiro de 1576, a Diocese de Macau30 foi a primeira diocese ca-tólica do Extremo Oriente e foi criada a pedido da Casa Real de Portugal. A Diocese foi o centro de formação e de partida das operações missioná-rias no Extremo Oriente e das suas congregações religiosas. Foi responsá-vel pela evangelização de uma vasta área, incluindo China, Japão, Coreia, Sião (actual Tailândia), Camboja, Tongking e Conchinchina (norte e sul do Vietname), com uma população total de 500 milhões de pessoas. Em Outubro de 1696, a igreja estabeleceu nove “vicariatos apostólicos” (dio-ceses) para a China - Fujian, Zhejiang, Jiangxi, Guangxi e Guangdong, Tonking, Yunnan, Sichuan, Hubei e Hunan e Shanxi e Shaanxi.28. Em 2 de Maio de 1948 tem início a publicação do periódico O Clarim, administrado pela Diocese de Macau. Semanal de 1948 a 1952, bissemanal de 1952 a 1983, e de novo semanal a partir de 1983. Teve como suplemento a revista mensal O Clarim, cuja publicação foi interrompida entre Junho de 1955 e Janeiro de 1956 (in Cronologia da História de Macau, Volume III).29. Denominava-se “Casa da Companhia de Jesus”, onde já desde 1571 se ensinava a ler e a escrever, bem como a língua latina. Passou a denominar-se “Colégio dos Jesuítas”, em 1594 (in Cronologia da História de Macau, Volume I).30 O Papa Gregório XIII, pela bula Super Specula Militantis Eclesiae, erigiu o bispado português de Macau (a 23 de Janeiro de 1576).
  • Capítulo 13: Domingos Lam175Nos quatro séculos seguintes, a diocese de Macau esteve activa em muitas áreas, na religião, na educação, na caridade e em serviços sociais. Estabeleceu a Santa Casa da Misericórdia, o Hospital São Rafael (no edifício do actual consulado português), o leprosário de São Lázaro e 60 escolas e centros de educação que agora têm 40 mil estudantes. Hoje tem seis paróquias e três quase-paróquias, mais de 20 igrejas e capelas, 30 mil fiéis e 350 padres e freiras.O primeiro Bispo de Macau foi D. Melchior Nunes Carneiro Leitão, um português, que se aposentou-se em 1581 e morreu dois anos mais tarde. Foi enterrado na igreja de São Paulo, tendo os seus restos mortais sido pos-teriormente transferidos para a catedral da cidade. Nos quatro séculos se-guintes, o bispo de Macau foi sempre um português, apesar da aproximação da transferência para a China e de um número crescente de crentes chineses. Antes do golpe de Estado militar em 1974, Portugal era um país colonial e conservador. As suas colónias eram geridas por portugueses, com uma representação muito limitada da população local. Sequeira dis-se que, antes de 1974, um padre africano só se tornaria bispo se fosse excepcional. “Essa era a mentalidade. Foi só depois de 1974 que Angola e Moçambique tiveram bispos locais. A evolução chegou devagar”.Durante a II Guerra Mundial, o bispo de Macau foi D. João de Deus Ramalho, um jesuíta, que serviu entre 1942 e 1954. O Bispo D. Domingos Lam, num livro da sua autoria sobre os Bispos de Macau, escreveu o se-guinte sobre o Bispo Ramalho: “cuidou muito dos refugiados das regiões vizinhas e deu abrigo aos padres e freiras que fugiram para Macau. Também mandou construir conventos, montou algumas organizações de serviço so-cial, reconstruiu o seminário, desenvolveu o Colégio de São José e comprou uma casa na Rua da Praia Grande para funcionar como Escola Normal do Colégio.” Em 1954 renunciou ao cargo e aposentou-se em Portugal.Lam regressa a MacauDe 1973 a 1976, Lam foi reitor do Seminário de São José em Macau. Em 1976, outro sacerdote português assumiu a função de bispo de Macau: D. Arquimínio Rodrigues da Costa, natural dos Açores, que chegou a Macau em 1938. Foi consagrado na catedral a 25 de Março de 1976. A co-munidade católica era constituída por um terço de chineses e dois terços de
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade176portugueses e macaenses. O novo bispo percebeu que havia chegado a hora de mudar e que precisava preparar um sucessor chinês. Decidiu, então, que Domingos Lam era a melhor escolha. Em 1976, o Papa nomeou Lam como Vigário Geral da Arquidiocese em Macau. No dia 26 de Maio de 1987, foi nomeado Bispo Coadjutor de Macau e sucedeu a D. Arquimínio Rodrigues da Costa, o último bispo português, em 6 de Outubro de 1988.O padre Luís Sequeira afirmou que, durante a transição, o bispo tinha de ser chinês. “A igreja precisava de um chinês com compreeensão de duas culturas. Lam era inteligente com um bom sentido de adminis-tração. Estava bem familiarizado com os lados português e chinês, tinha boas relações com o governador e era muito equilibrado e respeitador”. Nos anos que antecederam a transferência da soberania, muitos católicos partiram, portugueses, macaenses e chineses. Foram para Portugal, EUA, Canadá, Austrália e outros países, acompanhados de suas famílias. Essas pessoas foram substituídas nas igrejas em parte por filipinos que vieram trabalhar para Macau nos casinos, hotéis, lojas e restaurantes e por no-vos migrantes do continente.Lam foi o único representante religioso convidado a contribuir para a elaboração da Lei Básica de Macau. Foi membro votante da Comissão de Elaboração da Lei Básica de Macau de 1988 a 1993. Dos 90 membros da Comissão Consultiva da Lei Básica de Macau, 20 eram católicos. Não foi uma tarefa fácil. O Vaticano não tinha, e ainda não tem, relações com o governo da China, por causa de divergências sobre a nomeação de bis-pos, o tratamento da igreja “clandestina” e outras questões. Felizmente, estes conflitos não existiam em Macau, pelo que as negociações foram mais simples. O governo central prometeu que, depois de 1999, a igreja em Macau poderia funcionar como anteriormente, incluindo a gestão das suas escolas, centros sociais e outras instituições. O que veio na rea-lidade a acontecer. A igreja de Macau não pode entrar no continente e evangelizar a sua população, mas é permitido pregar para aqueles que se mudaram para a Região Administrativa Especial.O padre Sequeira refere que o Bispo D. Domingos Lam preparou me-ticulosamente a entrega, que teve lugar à meia-noite de 20 de Dezembro de 1999. “Celebrou uma Missa de Acção de Graças no dia 19 de Dezembro. No dia seguinte celebrou uma Missa de Bênção e convidou o novo Chefe do Executivo, Edmund Ho, para estar presente, que aceitou o convite, tendo
  • Capítulo 13: Domingos Lam177sido aplaudido por todos. Ho não era católico, mas foi um belo gesto”. Sequeira disse que Edmund Ho e Domingos Lam partilhavam um mesmo sentido de equilíbrio na compreensão de Macau, em particular o sentimento de harmonia entre elemento português / latino e o chinês. “Nunca houve ten-são”, o que era necessário nos anos anteriores e posteriores à transferência.Trabalho como BispoNa sua história da Diocese de Macau, o Bispo D. Domingos Lam descreve deste modo o seu tempo no cargo:“Após a posse, recebeu grande apoio de diferentes congregações e do governo. Optou por grandes obras, tendo mandado renovar e construir escolas, seminários, igrejas, o gabinete do bispo, o Centro de Convenções em Coloane e instalaçoes para a prestação de serviços sociais a fim de prosseguir na evangelização de Macau. Tinha servido como mis-sionário em Singapura durante 12 anos e era uma pessoa muito activa nos meios culturais de Macau.”Para o padre Sequeira o Bispo Lam tinha as suas forças e fraque-zas. “Tentou actualizar a estrutura da diocese. Tinha as ordens religiosas legalmente reconhecidas e todos os terrenos e edifícios registados. Um exemplo disso foi a doação oficial da Igreja de São Domingos à diocese após ter sido alvo de obras de renovação. Foi o governador quem entre-gou a chave ao bispo. Em termos legais, isso precisava ser actualizado. Após a revolução de 1910, o governo português tinha assumido o con-trolo das igrejas. Essa era a visão do bispo Lam, para colocar as coisas em ordem”.Na nota necrológica do bispo após o seu falecimento em Julho de 2009, O Clarim, o jornal católico de Macau, disse que Lam tinha con-tribuído muito e conduzido a igreja através do processo de transferência para a China. Para além das seis paróquias existentes, construiu mais três sub-paróquias para responder ao crescimento de Macau. Afirmava, ainda, que o bispo mantinha relações estreitas com o governo português e desen-volvera um bom relacionamento da igreja de Macau com igrejas chinesas em diferentes lugares. Desempenhara o papel de ponte, permitindo à igre-ja em Macau ter boas relações com o governo chinês e servir os crentes no continente. Antes da transferência, muitos crentes portugueses deixaram
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade178Macau e o Bispo Lam teve de superar esse desafio. Lam teve de encorajar os crentes a manterem a sua fé durante a entrega. Durante o seu tempo no cargo, construiu muitos centros de reunião, museus dentro das igrejas, para fazer de Macau um local de encontro para a igreja asiática e desen-volvê-la como um lugar para o turismo religioso, ligando-a à sua história.Contudo, para o padre Sequeira a fraqueza de Lam era o trabalho inadequado com jovens, escolas e famílias. “Lam era fraco na dimensão pas-toral”, disse. Não houve nenhum novo sacerdote ordenado em Macau desde 1992, o que significa que a idade média dos padres locais tem vindo a au-mentar de ano para ano. “Não há sacerdotes locais em número suficiente”, disse o padre. O vazio foi preenchido por padres estrangeiros”. As ordens religiosas vieram para Macau para ajudar nas paróquias. Padres mais jovens estão a trabalhar como missionários, mas devem falar cantonês e até manda-rim. Vieram da Europa e da América Latina, de Timor-Leste e da Coreia do Sul. Há também padres filipinos para ajudar a comunidade filipina”.Solicitado a descrever a personalidade do Bispo Lam, Sequeira disse: “Era exuberante, extrovertido, um pouco expansivo demais. Gostava de conversar e conhecer pessoas. Era muito sensível aos necessitados e dava muito sem falar. Era generoso e gentil com as pessoas, terno e bondoso ... E gostava de escrever artigos para jornais. Era muito sensível à história, gosta-va de música, incluindo o órgão, que ele mesmo tocava na Casa do Bispo”.Lam serviu como bispo até 20 de Junho de 2003 e como bispo emérito depois disso. Foi assessor de muitas associações civis em Macau. Em 1990, recebeu uma condecoração do governo português. Em 1996, fundou o Instituto Inter-Universitário de Macau para formar mestrandos e doutorandos. Também fez parte do conselho da Universidade da Ásia Oriental - actual Universidade de Macau - de 1981 a 1991.Em 1990, recebeu uma condecoração da Ordem do Infante Dom Henrique do presidente português. Em 1999, recebeu uma outra conde-coração que lhe foi atribuída pelo Presidente Jorge Sampaio.AposentaçãoAposentou-se em 30 de Junho de 2003, aos 75 anos. A lei canónica exige que os bispos solicitem a aposentação quando atingirem essa idade. O pedido que apresentou foi aceite pelo papa João Paulo II, tendo sido
  • Capítulo 13: Domingos Lam179sucedido pelo bispo D. José Lai Hung-seng, o primeiro bispo da cidade a nascer em Macau. Em 30 de Junho, o novo bispo ofereceu um jantar na Casa do Bispo para todos os sacerdotes diocesanos e representantes de to-dos os religiosos e religiosas de Macau. O novo bispo elogiou o bispo Lam por ter reforçado o reconhecimento que a Igreja Católica tem em Macau, promovendo o ensino superior e apoiando a caridade, bem como ter servi-do na Comissão de Elaboração da Lei Básica. Elogiou, igualmente, o Bispo Lam pelo carácter pluralista da diocese que serviu os refugiados de Timor-Leste bem como trabalhadores filipinos e os católicos chineses locais, tendo igualmente evangelizado novos migrantes da China continental. O novo bispo também falou da grave falta de padres na diocese. “A maioria dos padres está a envelhecer e nenhum candidato local surge no horizonte. A ordenação mais recente do sacerdócio diocesano foi em 1992.”Falando alguns dias mais tarde, o Bispo Lam disse à UCA News que o envelhecimento dos padres locais e a falta de novos candidatos ao sacer-dócio era o maior problema enfrentado pelo seu sucessor. “A reserva dos sacerdotes naturais de Macau está quase esgotada e o novo bispo não pode resolver o problema sozinho. Em Maio de 2003, havia 20 sacerdotes dio-cesanos e 52 sacerdotes religiosos servindo os 30 mil católicos de Macau”, disse ele. “A sociedade e a economia de Macau oferecem à Igreja um am-biente estável para o desenvolvimento. O novo bispo será muito bem rece-bido se puder gerar as vocações do sacerdócio, mas a Igreja local desapa-recerá se ele o não conseguir”. Disse ainda que, após a sua aposentação, permaneceria em Macau. “Até o final de 2003 terminarei uma tradução chinesa de um livro que escrevi originalmente em português sobre 30 anos de história da igreja de Macau. Como homem de literatura, sou obrigado a apontar os problemas de Macau e oferecer apoio com dados estatísticos”.O bispo Lai garantiu que ajudaria a Igreja a continuar os seus mi-nistérios em educação, serviços sociais, juventude, vocação do sacerdócio e especialmente formação de leigos. “Pretendo fazer parte do Seminário de São José, um centro de formação de leigos, até porque não tem semi-naristas e não é bem utilizado. Espero que o fortalecimento da formação sistemática dos leigos permita que estes ocupem mais cargos adminis-trativos na diocese, libertando assim o clero e os religiosos para os seus deveres pastorais. Convidarei todas as congregações religiosas de Macau a cooperarem mais estreitamente com a diocese”.
  • Pioneiros de Macau: A história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidade180FalecimentoEm Março de 2009 adoeceu e foi-lhe diagnosticado um cancro no estômago em fase terminal. Em 11 de Maio deu entrada no hospital. Faleceu em 27 de Julho, aos 81 anos de idade, rodeado por membros de sua família e por muitos outros religiosos. Uma missa fúnebre foi reali-zada em 31 de Julho na Sé Catedral, ou Igreja da Natividade de Nossa Senhora, tendo sido enterrado no cemitério de São Miguel Arcanjo.O padre João Evangelista Lau Him-sang, sacerdote da catedral, descreveu o Bispo Lam como “uma pessoa influenciada pela cultura por-tuguesa e pela educação ocidental, permitindo-lhe tornar-se uma ponte entre a igreja e a sociedade chinesa” em Macau.RecordadoEm Novembro de 2012, a Escola de São Paulo, uma escola dioce-sana católica, inaugurou o um novo edifício em memória do Bispo D. Domingos Lam. O director Alejandro Salcedo referiu, então, que “um novo edifício escolar não acontece por acaso. São necessários meses de planeamento e de organização, optimismo e perseverança e, infelizmen-te, alguma frustração também”. Agradece à Direcção dos Serviços de Educação e à Fundação Macau pelas doações de 56,796 milhões e 37,66 milhões de patacas, respectivamente, em financiamento. “Devo dizer que, sem o seu financiamento, este projecto não teria nunca sido concluído”. O novo edifício inclui cinco andares, com salas para os alunos mais jovens da secção do jardim de infância, bem como para os alunos do en-sino secundário. Estas incluem laboratórios, salas comunitárias, onde os alunos podem fazer os trabalhos de casa nos seus “tablets”.A Escola de São Paulo é uma escola diocesana gerida pelos padres dominicanos que, segundo Salcedo, proporciona “a bela experiência de uma educação católica”. Explicou que a escola estava empenhada em proporcionar um “ensino e aprendizado modernos para o Século XXI” e que certamente beneficiaria com as instalações disponíveis no novo edifí-cio. “Estamos orgulhosos do nosso passado, mas é uma obrigação para nós separarmos-nos dele e embarcarmos numa nova dimensão educacio-nal. A Escola de São Paulo é bem conhecida pela imersão da tecnologia
  • Capítulo 13: Domingos Lam181nos seus programas educacionais. No entanto, para nós, a educação centrada ou não na tecnologia não é a questão. A verdadeira questão e o verdadeiro objectivo para nós é utilizar o poder da tecnologia para enfrentar os desafios do Século XXI e tornar a educação relevante, que dê reposta e seja eficaz para qualquer pessoa, em qualquer lugar, a qualquer momento”.Explicando porque deram o nome do Bispo Lam ao edifício, Salcedo disse: “O Bispo D. Domingos Lam era único. Convivi muito com ele e, se tivesse que descrevê-lo, diria que era um asceta, alegre, sábio, activamen-te envolvido com o bem-estar físico e espiritual de seu povo, sendo ainda um professor dedicado e eficaz. O Bispo Lam gostava muito da Escola de São Paulo. Em muitas ocasiões, costumava aparecer ou telefonar só para saber como estávamos”. O Chefe do Executivo, Chui Sai On, parti-cipou na cerimónia e, após a inauguração, o então secretário de Assuntos Sociais e Cultura, Cheong U, e o director da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Leong Lai, visitaram as novas instalações.FontesArtigos no O Clarim, o jornal oficial da comunidade católica de Macau; Breve história dos Bispos da Diocese de Macau”, pelo Bispo D. Domingos Lam; Entrevista com o padre Luís Sequeira.
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  • MacauA história de 14 chineses que ajudaram a construir a cidadeMacau foi o primeiro entreposto europeu na Ásia Oriental, um encontro de civilizações com mais de 450 anos de história. Durante esse período de tempo, muitas pessoas notáveis deixaram a sua marca nesta cidade histórica. Este livro faz o perfil de 14 dessas pessoas - o “pai” dos caminhos-de-ferro da China, o primeiro bispo católico chinês, dois magnatas do jogo bem-sucedidos, o compositor do hino de guerra da China durante o conflito com o Japão, um euro-asiático que foi um dos compradores mais bem sucedidos da sua geração e a primeira vigária da Igreja Anglicana que socorreu centenas de refugiados durante a II Guerra Mundial. Através das suas vidas, o leitor pode obter uma compreensão pormenorizada da história de Macau e dos seus períodos dramáticos de riqueza e de pobreza.
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