• ANTÓNIO ARESTAOS PORTUGUESESNO EXTREMO ORIENTEFIGURAS DE JADE II262018
  • FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • ANTÓNIO ARESTA FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE262018
  • FICHA TÉCNICA: Editor: Instituto Internacional de Macau Título: Figuras de Jade II – os Portugueses no Extremo Oriente Autor: António Aresta Design gráfico e paginação: Maisimagem II Colecção: Suma Oriental Tiragem: 500 exemplares Impressão: Gráfica ACD Print ISBN: 978-989-54193-6-4 Depósito Legal: 450322/18 Lisboa, Dezembro 2018Apoio
  • FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTEÍNDICE | Estudos do Autor sobre Macau 6 Prefácio 7 Duas palavras 17 Alberto Alecrim 19 Alice Vieira 22 Ana Maria Amaro 26 António Conceição Júnior 29 António Manuel Couto Viana 33 António Nascimento Leitão 38 Bocage (Manuel Maria Barbosa du Bocage) 41 Conde de Arnoso 44 Eduardo de Azambuja Martins 48 Énio Ramalho 52 Ferreira de Castro 58 João de Araújo Correia 61 João de Castro e Moura 64 João Paulino de Azevedo e Castro 68 José de Abreu 72 José Agostinho de Macedo 75 José Augusto Seabra 78 José Barbosa Leão 81 José Gomes da Silva 85 Leonel Alves 87 Leonel Barros 90 Luís Gonzaga Gomes 94 Manuel Antunes Amor 96 Manuel Teixeira 100 Maria do Céu Saraiva Jorge 102 Miguel Torga 106 Pedro Gastão Mesnier 109 Pedro Nolasco da Silva I 113 Pedro Nolasco da Silva II 117 Rogério Peres Claro 119 Túlio Lopes Tomaz 123 Vicente Blasco Ibáñez 127 Visconde do Botelho 131
  • 6 ANTÓNIO ARESTAEstudos do Autor sobre Macau A Educação Cívico-Política em Macau, 1989; A Inovação Curricular no Ensino da Filosofia em Macau, 1993; Camilo Pessanha, Professor no Liceu de Macau, 1994; O Poder Político e a Língua Portuguesa em Macau [1770-1968]: um relance legislativo, 1995; Manuel da Silva Mendes e a poética do taoísmo, 1995; O Neo-Confucionismo na Educação Portuguesa: Pedro Nolasco da Silva na História da Educação em Macau, 1996; Os Estudos Sínicos no Panorama da História da Educação em Por tugal, 1997; José Miranda e Lima: Professor Régio e Moralista, 1997; Falar Português: subsídio para a história do ensino e da difusão da língua portuguesa em Macau [1960-1968], 1997; Monsenhor Manuel Teixeira e a História da Educação em Macau, 1998; Benjamim Videira Pires, um educador português em Macau, 1999; A Educação Portuguesa no Extremo Oriente, 1999; Joaquim Afonso Gonçalves, Professor e Sinólogo, 2000; O Professor Luís Gonzaga Gomes e a divulgação pedagógica da cultura chinesa, 2001; Manuel da Silva Mendes, Professor e Homem de Cultura, 2002; Álvaro Semedo e os exames na China Imperial, 2010; A Professora Graciete Batalha, 2010; Camilo Pessanha, 2011; Cinco Figuras do Diálogo Luso-Chinês em Macau, 2012; Figuras de Jade: os Portugueses no Extremo Oriente, 2014; Álvaro Semedo, 2015; D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau [1976-1988], 2016; Macau Histórico e Cultural, 2016; Manuel da Silva Mendes, 2017; O Pensamento Moral de Leôncio Ferreira, 2017. Obras traduzidas para a língua chinesa Educadores Portugueses em Macau, 2013; D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau [1976-1988], 2017. Em Colaboração Camões e a Memória do Oriente, 1995; Arquivos do Entendimento: uma visão cultural da história de Macau, 1996; Documentos para a História da Educação em Macau, 3 volumes, 1996/98; Liceu de Macau: genealogia de uma Escola, 1996; O Ensino da Língua Portuguesa em Hongkong, 1997; Imagens Vividas: o Quotidiano da Educação em Macau, 1997; Padre António Vieira, uma presença no futuro, 1997; O Senado: Fontes Documentais para a História do Leal Senado, 1998; Macau, uma história cultural, 2.ª edição, 2009; Manuel da Silva Mendes: memória e pensamento, 3 volumes, 2017/18. Organização, Prefácio e Notas Relação da Grande Monarquia da China, de Álvaro Semedo, 1994; Amplificação do Santo Decreto, do Imperador Yongzheng, 1995; O Livro da Via e da Virtude, de Lao Tse, 1995; A Instrução Pública em Macau, de Manuel da Silva Mendes, 1996; Macau, um Município com História, de Luís Gonzaga Gomes, 1997; Meditações, de Leôncio Ferreira, 1997; O Senado da Câmara de Macau, de Charles Boxer, 1997; O Clássico Trimétrico, 1997; Os Exames na China Imperial, de Abílio Basto, 1998; A Escola Tamagnini Barbosa, 1998; Timor e Outros Escritos, de João Gomes Ferreira, 2009. Prefácios Carlos Francisco Moura, Luís Gonzaga Gomes e uma Produtiva Cooperação Cultural Macau-Portugal-Brasil, 2014; António José Bezerra de Menezes Jr, Joaquim Guerra SJ [1908-1993]. Releitura Universalizante dos Clássicos Chineses, 2015; António Conceição Júnior, Quotidianos, 2018.
  • 7FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE PREFÁCIO | ’Quando eu penso em um homem sábio, seus méritos parecem ser como o jade’. Livro dos Versos Já nos habituámos a considerar, há muito, António Aresta como um expert, um perito em matérias do Oriente e Extremo-oriente e, por isso, não nos surpreendemos com a qualidade, a diversidade, e a apurada selecção dos autores incluídos nesta sua Antologia, fruto de longos e árduos anos de pesquisa. Constatamos isso também ao consultar o seu vasto currículo, neste preciso caso, sobre Macau, a sua História, a sua cultura nas suas mais diversas facetas; as muitas personalidades por ele selecionadas… um sem número de trabalhos já concretizados e com muito sucesso. O simbolismo do título desta obra, Figuras de Jade, eximiamente escolhido, reitera a afirmação do primeiro parágrafo, pois, o jade é a pedra das pedras, a preciosa, por excelência, para qualquer chinês pelas suas múltiplas virtudes, onze, desde os tempos de Confúcio (551-479 a.C), mostrando o valor espiritual desta pedra já na China Antiga1. E o provérbio chinês reclama ainda esse valor ao dizer: «O ouro tem um preço; o jade é inestimável». Por isso, foi a pedra dos imperadores, associado também ao poder e prestígio; mas, também, a dos templos dos budas, do Templo do Céu, dos guardiões de pedra… E ela, assim, tem um incontestável significado histórico, cultural e humano. De jade são, de facto, por tudo o que se disse, as trinta e três figuras escolhidas por António Aresta como constatarão, posteriormente, na vossa leitura e são elas: Alberto Alecrim, Alice Vieira, Ana Maria Amaro, António Conceição Júnior, António Manuel Couto Viana, António ________________ 1 Cf., Página eletrónica do Museu de Arte de Macau; Citação de Chan Hou Seng, Director do Museu –http://www.mam.gov.mo/oldmam/showcontent.asp?item_id=20121213010200&lc=2

  • 8 Nascimento Leitão, Bocage, Conde de Arnoso, Eduardo de Azambuja Martins, Énio Ramalho, Ferreira de Castro, João de Araújo Correia, João de Castro e Moura, João Paulino de Azevedo e Castro, José de Abreu, José Agostinho de Macedo, José Augusto Seabra, José Barbosa Leão, José Gomes da Silva, Leonel Alves, Leonel Barros, Luís Gonzaga Gomes, Manuel Amor, Monsenhor Manuel Teixeira, Maria do Céu Saraiva Jorge, Miguel Torga, Pedro Gastão Mesnier, Pedro Nolasco da Silva, Rogério Peres Claro, Túlio Lopes Tomaz, Visconde de Botelho. António Aresta incluiu um único estrangeiro na sua Antologia, Vicente Blasco Ibáñez e, ao lerem, verão a pertinência desta escolha. O leitor depara-se, assim, com um amplo leque de personalidades do século XVIII ao XXI. A. Aresta irá ajudar-nos a recuperar a história desta terra através das diversas acções destes autores, e dos seus muitos olhares e perspectivas nas mais variadas vertentes; do papel que tiveram na construção de uma História, de uma identidade. Com António Aresta conhecemos mais profundamente a vida e a obra destas figuras de Jade, algumas delas desconhecidas ou esquecidas, mas sempre valorosas, independentemente da área que representam; a da literatura, da religião, da educação, da medicina, das forças militares, da história… Mas não só pois o seu Autor ainda coloca dúvidas, interrogações, com as quais não deixa adormecer ninguém; faz propostas de publicação de textos vitais adormecidos em bibliotecas ou colecções privadas, numa contínua luta, sem tréguas, para recuperação, lato sensu, da História de Macau. E para nós é, também, um estímulo para a leitura daqueles textos. Por tudo o que se disse regozijamo-nos com esta Antologia que vai dar visibilidade a muitos pois, cada um, à sua maneira, com a sua especialidade ou especificidade deixa uma marca indelével na história de Macau. Começamos por um conhecido grupo dos escritores, poetas, aventureiros que sobre Macau escreveram, embora tenha havido outras personalidades que, de entre as muitas funções exercidas, também se dedicaram à escrita; deixamo-los para mais tarde. Tentámos seguir uma linha cronológica agrupando os autores por séculos, os do XVIII, os do XIX, os do XX, e os do XXI – que, deste modo, nos realçará a visão destes escritores relativamente a Macau; por outro lado isto também fará sobressair, mais facilmente, as diferenças entre eles; a sua criatividade, o seu engenho, por vezes, adequados às circunstâncias; o modo como viveram, pensaram ou escreveram sobre o Território. E, de acordo com a nossa leitura é também necessário ter em conta que há autores que nunca estiveram no Território; há-os de passagem por diversos motivos, por exemplo, em viagem, para outros locais do Oriente ou os convidados pelo governo em funções profissionais ou em missão diplomática, e, por aí adiante. E este aspecto é deveras importante por causa das representações, das imagens que nos transmitiram de Macau nos mais diversos campos; ou ainda pelo modo como foram ‘construindo’ este Território nos seus
  • textos dependendo, evidentemente, da cultura de cada um, da sensibilidade; do seu espírito crítico. Estes aspectos constituirão fonte de reflexão para todos os leitores sejam eles peritos ou não nestas áreas. Iniciamos a nossa apresentação com o polémico setecentista José Agostinho de Macedo (1761-1831). Deixa-nos um poema épico sobre O Oriente sem nunca ter estado na China ou Macau, mas invoca-as por motivos patrióticos, pretendendo com este texto recuperar as glórias passadas portuguesas, mas não só; utiliza-o na luta contra as ideias republicanas que abominava. António Aresta dá-nos muito bem a dimensão da vida e da obra deste escritor e recorda o rival de J.A. de Macedo, Bocage (1765-1805), um outro setecentista. Relata-nos, na sua Antologia, a breve, mas peculiar estadia deste, em Macau e Cantão, de passagem para outros destinos, onde compôs uma elegia fúnebre a D. José e não só. Dedica ele uns poemas a este Território que aqui podem ser lidos. Passa A. Aresta para o século XIX com o Conde de Arnoso (1855-1911), escritor deveras importante, e muito bem quisto. Ao Conde devemos um curiosíssimo livro Jornadas pelo mundo: I Em caminho de Pequim: II Em Pequim sobre Macau e a China sendo fruto da sua viagem realizada com funções diplomáticas nestes territórios. O interesse do público de várias épocas por esta obra não se prende só ao exotismo, mas também às muitas e variadas informações históricas, geográficas, culturais, resultantes de aturada pesquisa do autor nestas áreas e acrescentadas apenas no livro. Parte desses textos tinham já sido, primeiramente, publicados na imprensa periódica macaense e posteriormente na portuguesa. A. Aresta recorda, através de excertos, várias passagens das Jornadas aguçando, e bem, o interesse por esta leitura. Vicente Blasco Ibáñez (1867-1928), o não menos célebre narrador de viagens, escreve em «Viagem por Macau» esta sua visita a este Território deixando este registo num dos seus quatro preciosos volumes de viagens. Esta permaneceria esquecida caso A. Aresta lhe não tivesse dado a visibilidade merecida. Vale muito a pena ler alguns dos excertos incluídos nesta Antologia, dedicados à China e a Macau, por nos revelarem uma época dificílima para aqueles territórios, mas também as reflexões de natureza política e ainda imagens dos estrangeiros que por aqueles sítios andavam. A muita informação dada e os comentários pertinentes são de homem experiente e culto. O nosso ilustríssimo Ferreira de Castro (1898-1974), tal como o anterior, passou por Macau e também pesquisou antes de escrever. Como nos diz A. Aresta mostra nos seus textos, «os traços de portugalidade encontrados; a perplexidade perante certos factos presenciados»2 no Território; constata a necessidade de mudança, deixando-se seduzir, ao mesmo tempo, pelo exotismo do território que descreve. Podem os leitores ler aqui alguns fragmentos. Do seu livro A Volta ao Mundo foi retirado o 9FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE________________ 2 As citações incluídas em todo este Prefácio são retiradas dos textos de A. Aresta ou dos autores da Antologia.
  • importante capítulo «Macau e a China». Este foi publicado separadamente, em português e chinês, por deliberação de António Aresta e a Celina Veiga de Oliveira, outra estudiosa de Macau, para «poder ser lido e conhecido pelas novas gerações». Passamos para um outro escritor não menos genial, mas infelizmente pouco conhecido, João de Araújo Correia (1899-1985). Não esteve em Macau, mas isso também não foi impedimento, como em outros casos já referidos, para escrever três histórias sobre vivências neste território invocando Camilo Pessanha, nas suas palavras, o célebre «poeta desterrado em Macau». A. Aresta deslinda esta história de escritores. Os seus comentários e observações fazem-nos perceber o modo como J. de Araújo Correia construiu as suas narrativas. Leia o leitor este texto e logo descobrirá. O açoriano José Honorato Gago da Câmara de Medeiros (1906-1979), 3º Visconde do Botelho, era um homem do regime de Salazar e, na sua vida, exerceu diversos e importantes cargos que nos dá conta numa das suas obras publicadas. Também colaborou intensamente na imprensa periódica, mas é o artigo «Mensagens Chinesas», editorial do Diário Popular, que mais nos interessa por ser uma reacção à leitura da entrevista de Chu En Lai ao Times, em 1972. Reflecte o Visconde sobre as relações luso-chinesas e conclui: «não são, talvez, os interesses materiais que levam a China a manter uma atitude inalterável relativamente a Portugal. Deve tratar-se antes de uma questão de ética. Matéria de princípios» e a este propósito pensa nas questões da descolonização. O leitor poderá ainda ler no excerto da página dedicada ao Visconde uma descrição sobre Macau sobre ela tecendo alguns pertinentes comentários. Câmara de Medeiros pertence ao grupo dos que esteve, em Macau, apenas de passagem, mas tão impressionado ficou com esta visita que lhe dedicou algumas importantes páginas. É em 1963 que, saindo de Hong-Kong, é recebido pelo Governador de Macau, entre outras importantes individualidades do Território como «Roque Choi, […] secretário de Ho Yin, o homem mais rico e poderoso de Macau, chefe da ‘colónia’ chinesa». E concluímos com A. Aresta «parece-nos importante estudar, reavaliar e recuperar o pensamento estratégico do Visconde do Botelho sobre a China e as relações diplomáticas luso-chinesas, sobretudo os desafios da tolerância que nos deixou. O seu depoimento e as suas reflexões não devem ser negligenciados no âmbito da sinologia portuguesa contemporânea». Miguel Torga (1907-1995) chega a Macau, em 1987, e da sua passagem nos lega uma pertinente e invulgar visão do Território, dos seus habitantes, da língua e cultura, sempre munido da sua lente política. Vale a pena consultar O Senhor Ventura, traduzido para chinês, bem como os excertos do Diário, referentes a Macau. António Aresta situa-nos muito bem o escritor nesta visita e nas múltiplas actividades que teve, bem como das muitas pessoas que conheceu. Vale a pena tomar conhecimento da vida agitada do Comendador José de Abreu (1914-2002), 10
  • figura desconhecida de muitos, brilhantemente ligado à indústria portuguesa, entre outras importantes funções que desempenhou e que o Aresta nos dá a conhecer. Homem muito viajado regista as suas impressões de viagem aos confins da Ásia em Do Ocidente da Europa aos Confins da Ásia, 1969. É um «importante contributo para a construção da imagem externa de Macau, no contexto largo da fenomenologia da viagem» como nos assegura A. Aresta. Deixa ainda curiais registos de Macau do final da década de 60, alguns patrióticos, muitos com uma visão positiva, importantes para o entendimento da visão deste homem ligado ao Estado Novo. Podem ser lidos aqui alguns excertos. Seguem-se dois macaenses, e, para os juntar, atropelámos um pouco as datas, que se notabilizaram no seu próprio Território, o primeiro, Énio Ramalho (1916-2013) distinguiu-se em múltiplas áreas tanto na literatura como na investigação; na tradução; na docência; na música e pintura sendo ainda «ensaiador e director da primeira tuna académica […] e [dirigindo ainda] os ensaios do teatro». É interessante tomar conhecimento, através de A. Aresta, de outros aspectos académicos, em Lisboa, e da publicação da sua Tese de Licenciatura e de alguns contos, bem como livros de carácter didáctico. É referido, ainda, a sua importante obra de carácter antropológico. Foram incluídos alguns interessantes excertos, mas muito mais há para ler sobre este macaense. A professora Maria do Céu Saraiva Jorge (1919-2007), apesar de ser lisboeta, é descendente de uma velha família macaense, estabelecida, em Macau, desde o século XVIII. Muito bem-sucedida como docente escreveu ainda diversos artigos, alguns deles, dedicados a Macau e à China. Deixa o livro Macau que eu conheci. Anos 20 e 30 e nele refere também a vida do Avô, o célebre tradutor, José Vicente Jorge, grande estudioso de Macau, para além de outros registos também preciosos como a sua vivência no Território. A. Aresta introduz-nos a reveladores excertos da obra dela. Por Caminhos Solitários é obra de Leonel Alves (1921-1982), um poeta de Macau. Além dos leitores poderem ler aqui excertos do seu livro têm ainda à sua disposição comentários e uma análise de A. Aresta para melhor conhecer o poeta. António Manuel Couto Viana (1923-2010) tem obra literária vasta e bem conhecida, mas talvez o convite para realizar uma série de actividades culturais, em Macau, e as tarefas concretizadas o sejam menos; e muitas são as referidas por A. Aresta. Deixa, na verdade, algumas obras sobre o Oriente que vale a pena ler e reflectir. O Autor desta Antologia comenta o poema «Velho de Novo» e a carta em verso recebida por M.C. Viana do Monsenhor Moreira das Neves, aqui inseridos. José Augusto Seabra (1937-2004), conhecido de todos, opositor a Salazar, tem uma biografia muito rica que pode ser consultada na página que lhe é dedicada assim como parte da sua extensa bibliografia. A sua ligação a Macau é «Mais cultural do que política, mas ambas construídas pelo imperativo categórico do patriotismo e da lealdade» reflexão de A. Aresta. Visita como outros 11FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Macau e na qualidade de Ministro da Educação trabalha com o Governador e com o Secretário-Adjunto para a Educação, Jorge Rangel, sobre alguns «problemas estruturais da educação» em Macau. Podem ser encontradas algumas das suas publicações em Macau, assim como deixou rasto, por exemplo, na Revista de Cultura, de Macau. A bem conhecida jornalista e escritora infanto-juvenil Alice Vieira (1943-) deixou-se inebriar pelo Oriente através da leitura de obras de bons investigadores e autores macaenses ou não. E, nesta decisão, seguiu tantos outros que sobre Macau escreveram legando-nos várias histórias de Macau como «As mãos de Lam Seng, Macau: da Lenda à história, O templo da promessa … Reflecte sobre importantes questões como a presença dos portugueses em Macau, ou seja a História deste Território, desde 1685; a problemática da identidade, matéria de estudo sempre actual, entre outros assuntos, para gozo e instrução dos seus jovens leitores. António Conceição Júnior, escritor, pintor, gravador, fotógrafo, criador de moda «é um dos vultos marcantes da identidade cultural portuguesa contemporânea de Macau». Da sua múltipla actividade destacamos dois cargos, o de Director do Museu Luís de Camões e dos Serviços Culturais de Macau. Mas é uma figura complexa. Ele próprio se desvenda em vários artigos na imprensa recuperando memórias sociais e culturais. É importante ler o seu livro Conversas do Chá e do Café (2011) e também as notas de A. Aresta sobre esta tão multifacetada «personagem» e sobre a sua obra, reflexo de múltiplas leituras e experiências. Entramos agora no grupo dos missionários, dos religiosos escolhidos por A. Aresta e é muito importante a investigação feita por este Autor. É, na verdade, sempre didáctico estudar a obra destes homens, homens das Sete Partidas, muito conhecedores dos sítios em que viveram e sobre eles escreveram. Começamos por João de Castro e Moura (1804-1868). Chega a Macau, em 1825, num conturbadíssimo período político, o Liberalismo, mas sofre igualmente múltiplos outros desassossegos e complicações inerentes à sua actividade na China amplamente explicado por A. Aresta. Após dezassete anos de missionação neste país, também eles bem difíceis, regressa à diocese de Macau, em 1847, onde apenas permanece três anos. Partirá para Timor até 1853. Aresta introduz pertinentes excertos de textos de biógrafos sobre o trabalho destes homens que reflectem sobre a sua situação e questionam em alguns aspectos o papel da igreja e dos missionários. Castro Moura regressa a Portugal sendo nomeado, em 1862, bispo do Porto. Foi sócio da Academia das Ciências de Lisboa e teve lugar na Câmara dos Pares, logo a partir de 1863. O padre e teólogo açoriano João Paulino de Azevedo e Castro (1852-1918) foi nomeado Bispo de Macau (1902). Desenvolveu sempre múltipla e importante actividade cultural quer nos Açores onde criou o Museu de História Natural e dirigiu o importante Boletim Eclesiástico dos Açores. Funda o Boletim do Governo Eclesiástico da Diocese de Macau «imprescindível repositório para se compreender Macau, nas 12
  • suas vertentes religiosa, diplomática, histórica ou educacional, incluindo um apreciável acervo de fotografias» Tem importantes publicações sobre esta zona e sobre a China. Os excertos escolhidos por A. Aresta da sua obra e as reflexões que sobre ele faz, dão-nos a dimensão da extrema importância deste autor. Leia o leitor Les Lazaristes Portugais en Chine, 1913; ou Os bens das missões portuguesas na China, 1917. Para quem lá viveu mais recentemente não pode esquecer o tão saudoso Monsenhor Manuel Teixeira (1912-2003) das figuras mais conhecidas e populares de Macau onde viveu 60 anos; «uma figura icónica no seio da comunidade portuguesa de Macau» pelo seu temperamento, pelas suas múltiplas actividades intelectuais e pela vasta obra deixada. E, a este propósito, Aresta coloca, mais uma vez, pertinentes perguntas sobre o esquecimento do acervo documental do Monsenhor e dá sugestões para o retirar do olvido e da invisibilidade a que foi votado. E enumera: a bibliografa do Monsenhor não foi fixada, assim como não se reeditou parte da sua obra. Isso não entende nem A. Aresta nem ninguém. Aresta reproduz, ainda, uma interessante memória sobre Anne Marx, descendente de Karl Marx e o Monsenhor, registo em que este faz apreciações que se prendem sobre a ficção e a realidade, texto esse publicado em O Clarim, de Macau. Leia aqui este tão interessante texto, revelador também de uma época. Passamos agora ao grupo dos sinólogos de Macau a quem tanto devemos como nos demonstra A. Aresta. E assim se seguem alguns deles… Não há especialista de Macau que não conheça o erudito, Pedro Nolasco da Silva (1842-1912), um Filho da Terra. Merece, este sinólogo, uma menção honrosa não só pelos cruciais cargos exercidos nesta terra, mas também pelo seu interesse ligado à educação, ao ensino que o levou através dos seus estudos a fazer propostas de mudança nestas áreas, lutando também pelo estudo da língua chinesa no Liceu de Macau (Ver Carta inédita), enfim construindo simultaneamente, como outros, a história da educação de Macau. A tradução do chinês do importante tratado de filosofia moral e política, A Amplificação do Santo Decreto dá a dimensão dos seus dotes. Leia o leitor os excertos e o comentário feito pelo nosso filósofo a propósito de Nolasco da Silva e não se arrependerá. O inesgotável trabalho de um outro não menos célebre macaense, o professor Luís Gonzaga Gomes (1907-1976) é também ele deveras conhecido por todos os investigadores da história e cultura macaense e chinesa, de entre outras áreas a que também se dedicou. Incansável tradutor de inúmeras obras chinesas dedicou-se igualmente à linguística e à lexicologia cantonense e portuguesa publicando muito nesta e em outras áreas. Os depoimentos de um outro erudito e estudioso de Macau, Leonel Zilhão Ayres da Silva Barros (1924-2011), homem polifacetado, são muito interessantes por desfilarem uma série de personalidades bem conhecidas de todos os macaenses. Exerceu várias profissões e todas elas em áreas completamente díspares: ora agiu 13FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • como tradutor nos cinemas Nam Van, Capitol e Império, ora como professor, desenhador e ilustrador, naturalista e biólogo… Para além disso, fez parte da banda do Hotel Estoril… etc… Deixou ainda uma série de importantes textos sobre “Macau – Coisas da Terra e do Céu”, 1999; “Macau – Templos, Lendas e Rituais”, 2003; “Macau – Memórias Náuticas”, 2003; “Tradições Populares”, 2004; “Homens Ilustres e Benfeitores de Macau”, 2007; “Igrejas de Macau e Cerimónias Religiosas”, 2010. Mas Macau – Coisas da Terra e do Céu «é realmente icónico no panorama da sinologia popular portuguesa» nos confirma o Autor desta Antologia que muito aqui disserta sobre a sua obra. Por tudo o que fez recebeu a Medalha de Mérito Cultural em 1995. A antropóloga, sinóloga e igualmente docente Ana Maria Amaro (1929-2015), deixa, para além de muita obra científica, imensas publicações sobre os costumes, hábitos, a literatura tradicional, a identidade cultural dos macaenses; a cultura chinesa ...um infindável manancial que vale a pena conhecer ou revisitar; é o caso da sua Tese de Doutoramento A medicina popular em Macau, inexaurível fonte de conhecimentos. A sua actividade científica é prolífera a vários níveis como nos prova o Autor desta Antologia. Ao reunir outros professores desta Antologia não podemos esquecer o erudito e muito viajado Pedro Gastão Mesnier (1846-1886), um aventureiro, qual Mendes Pinto, segundo alguns, sendo também considerado pelos seus pares um grande intelectual. Foi professor de física e química na escola militar de matemática de Goa e de Ciências e de Física no Real Seminário de S. José, em Macau. Foi também Secretário particular do Governador de Macau (1872-74). Da sua viagem por estas longínquas terras é aconselhável ler a página que A. Aresta dedica a Mesnier e às muitas informações e comentários sobre a sua vida e obra. De entre outros textos, aconselha ele a leitura de um artigo sobre «A vida em Macau há cerca de cem anos». Publica ainda Os fumadores de ópio, «memória cáustica de um vício e também de uma administração»; O idílio, O Japão, esta muito recomendada pelos seus colegas de ofício Oitocentistas e ainda veio a lume um Ensaio de filosofia antropológica e A odisseia camoniana fora artigos em jornais. Foi co-autor de um importante relatório sobre a emigração dos cules. Uns anos mais tarde parte para Macau, em 1912, o professor Manuel Antunes Amor (1881-1940) em Comissão de Serviço como Superintendente das Escolas Municipais e aqui se radica. E esta terra mudaria graças ao seu espírito inovador e aos conhecimentos que tinha da sua área. Faz diversos relatórios, estudos e projectos para Macau. Estes incluíam modificações a nível do ensino e da própria concepção de escola. Não preparada para isto, a imprensa critica-o. Tem diversas publicações e colaboração na imprensa periódica. Foi também operador cinematográfico sempre vocacionado para a escola. Vale a pena ler o excerto incluído por Aresta que nos dá a conhecer os seus trabalhos. Uma outra personalidade igualmente muito interessada pela educação e que destacamos 14
  • pelo trabalho desenvolvido, em Macau, é Rogério Peres Claro (1921-2015), professor do ensino técnico. Era um homem do regime de Salazar e exerceu muitos outros cargos para além dos a seguir mencionados. Chefia a complexa Direcção dos Serviços de Educação e Cultura de Macau entre 1979 e 1982 e sobre estas áreas publica um estudo sobre A Administração Escolar em Macau, 1979/1982, por todos considerado um incontestável documento. É fulcral ler todos os comentários de A. Aresta na página dedicada a este professor sobre as suas múltiplas e intrincadas actividades que implicavam opções diversas e controversas em diversos domínios, alguns nada teóricos. Por outro lado, fazia parte dos seus objectivos e responsabilidades fazer tudo para a manutenção da língua portuguesa no Território. Desejava que esta «fosse muito além da promoção do ensino da nossa língua nas escolas particulares» de Macau. Deixa vasta obra, muita dela, saída em Portugal. Não podemos esquecer outras personalidades de Macau, tão diferentes deste grupo. Por isso, é muito importante saber e seguir a história do Capitão Eduardo de Azambuja Martins (1877-1966), comandante da 1.ª Companhia do Corpo de Polícia de Macau e das suas actividades, em Macau, por se ter destacado na luta contra os piratas em Coloane. O leitor poderá ler uma série de interessantes excertos sobre esta situação, bem como depoimentos concretos sobre o que lá se passou. Pelo seu incomum trajecto nesta área lhe deram louvores e Medalhas. Publicou diversos estudos, alguns sobre Macau e também sobre Coloane. Como nos diz A. Aresta «o seu pensamento sobre Macau e China (…) deveras interessante, denotando informação e cultura». Tem uma longa bibliografia. Para além deste militar há dois médicos que também se celebrizaram no Território. Do primeiro, o coronel médico José Gomes da Silva (1853-1905), integra A. Aresta no seu texto, uma importante carta dirigida a Afonso Costa que nos revela, entre outras coisas, o seu nobre carácter. De entre as muitas actividades exercidas chefiou os Serviços de Saúde de Macau e Timor e ainda teve tempo para publicar a República de Macau. Ao seu vasto «legado intelectual e científico» merecia ser dada mais atenção. O segundo, António Nascimento Leitão (1879-1958), militar médico e filantropo, esteve em funções em Macau e Timor recebendo pelo desempenho das suas actividades uma série de louvores e Medalhas. É de registar o relato enviado de Macau a D. Carlos sobre o seu imenso desagrado relativamente à sua especialidade neste Território. É interessante ler o excerto aqui colocado como o é também saber que proferiu conferências deixando extensa obra de carácter científico, alguma sobre Macau. Conta histórias sobre a sua actividade e que os excertos documentam. Terminamos este trabalho com Alberto Alecrim (1932-2016) figura sui generis, intemporal, cujas histórias poderiam ser enquadradas na literatura oral. Devido à sua vivência tão entranhada, peculiar e rica, em Macau, onde conheceu 15FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • mais de meio mundo e à sua extraordinária maneira de contar histórias de experiências mil, arquivo vivo do Território, tornou-se uma lenda. Aresta relata aqui muitas dessas histórias e aspectos curiosos da sua biografia. É, na verdade, uma curiosa «personagem», quase de ficção, que aportou, em Macau, nos anos sessenta do século passado. Felizmente Alecrim registou na Revista de Macau «algumas memórias da identidade portuguesa no Território. Resgatou a glória da gente simples, abnegada e trabalhadora que ajudou a moldar o respeito pelos portugueses» assim como o fez na imprensa macaense. O seu artigo «‘Tascas portuguesas em Macau’, onde a fusão de saberes, sabores e amizades mais evidenciou o que fomos, o que valemos e o que somos...» […] [é]uma lição de antropologia cultural». Aresta considera-o «um filósofo de um quotidiano que amava e que por vezes se poderia tornar insuportável pelos mistérios orientais que lhe eram inerentes». E, assim, através destes textos de A. Aresta pudemos detectar a riqueza, as virtudes, a beleza, as cores, os veios de cada uma destas preciosas 33 pedras das Figuras de Jade, qual oculto tesouro de Macau. Encaminhou-nos António por um longo e didáctico percurso, enriquecedor e estimulante, que contará com um público culto e deveras diversificado como convém, e, por certo, muito interessado e curioso em descobrir estas jóias. Ana Costa Lopes Universidade Católica Portuguesa 16
  • 17FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE DUAS PALAVRAS | Este segundo volume das Figuras de Jade, à semelhança do primeiro volume editado em 2014, é um singelo roteiro de afinidades, saberes e sensibilidades dos portugueses, ou estrangeiros com ligações à cultura portuguesa, no extremo oriente. Agrupa um conjunto de trinta e três pequenos ensaios publicados no Jornal Tribuna de Macau, um histórico título da imprensa de língua portuguesa de Macau com uma grande sensibilidade para estas questões. Figuras de Jade simbolizam igualmente uma valoração das histórias de vida de um conjunto de personalidades, umas mais conhecidas do que outras, mas todas deveras importantes porque cada qual com a sua sabedoria e protagonismo intrínseco. Com elas poderemos esboçar uma reavaliação da história cultural de Macau em todas as suas dimensões, visto que lutar contra o esquecimento é um vero exercício de pedagogia e de liberdade. São vozes que contam histórias e que interrogam o destino. De Macau. Uma palavra final de reconhecimento pela acção do Instituto Internacional de Macau. Com uma notável visão estratégica, diplomática e de equilíbrio, tem sabido posicionar Macau no centro das relações internacionais da China com o grande mosaico da lusofonia. António Aresta
  • ALBERTO ALECRIM Recordo Alberto Alecrim (1932-2016), portuense do Bonfim, como uma lenda viva na arte de ser português em Macau, um homem culto que prezava o diálogo acima de todas as diferenças ou crispações, sempre com um chiste malandro e elegante para cada situação. E elas eram tantas. Tendo chegado a Macau no amanhecer da década de sessenta, Alberto Alecrim era um filósofo de um quotidiano que amava e que por vezes se poderia tornar insuportável pelos mistérios orientais que lhe eram inerentes. Conheci-o da forma mais improvável, nos idos de 1987. Num fim de Agosto deambulava, meio perdido e sem destino, na rua do Campo, talvez o segundo dia em Macau, quando vejo uma pessoa a abrir uma porta de vidro, a dizer-me, “ó compatriota, venha cá para dentro!”. Era o Alberto Alecrim, que eu não conhecia de lado algum, a puxar-me para o interior da velha e centenária tasca, a “Vencedora”, propriedade de chineses amigos da fusão de sabores e dos vinhos portugueses. Na sua mesa lá estavam o padre Lancelote, o comissário Meira e outro graduado da PSP cujo nome infelizmente não me recordo. Eram os catedráticos de um Macau que só encontrei nos romances de Henrique de Senna Fernandes, Rodrigo Leal de Carvalho ou Maria Ondina Braga. Recebi o meu quinhão de “chá da Escócia” com umas pedritas de gelo a boiar, para aguentar o clima, e cavaqueamos. Foi a primeira vez que ouvi falar das especificidades de Macau. Riram-se imenso quando lhes disse que estava apreensivo sobre o ensino da filosofia aos alunos chineses e portugueses no Liceu, por causa das enormes debilidades no domínio da língua portuguesa. Olhe, leia Lao Tse e não se preocupe, era o sábio conselho do padre Lancelote. E ainda hoje, décadas volvidas, continuo a ler e a aprender com Lao Tse. O que eles falavam era mesmo um mundo novo para mim. Dissertavam sobre 1987 e o que por aí viria: governador demissionário, bispo resignatário e uma misteriosa declaração conjunta. Enfim, uma incomum angústia colectiva, qual síndrome da 19FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • descolonização. Todos eles falavam no doutor Carlos d’Assumpção como um esteio da comunidade portuguesa, naqueles tempos de deriva. Fixei esse nome, também desconhecido para mim. Rolaram os meses e os anos e passamos a falar com a cordialidade de amigos. Ouvi muitas histórias, com a ‘guerra do chau min’ nos píncaros tragi-cómicos das suas narrativas, por vezes no trajecto comum que fazíamos, eu morava no Tap Seac, no Tung Hei Kok, e o Alberto Alecrim seguia um pouco mais em frente até ao Hoi Fu. Dois ténues pontos de fricção, ele do Sporting e eu do FC Porto, que ao tempo estava imparável. Goa era realmente um caso à parte na sua vida, “os que viveram nestas terras de encanto, onde brotaram nomes de vulto que deram novas luzes ao mundo, jamais podem olvidar o dia mais escaldante: modesto ensaio da invasão levada a cabo pelas forças indianas em 18 de Dezembro de 1961”. Assistiu e resistiu como pôde à invasão e esteve preso num campo de concentração criado para os portugueses. Escreveu uma interessante memória, na Revista Macau, em 1988, “A História que não foi contada. O 15 de Agosto de 1955 no ex-Estado da Índia Portuguesa”. Mas sabia muito mais, com muitos pormenores. O micro-cosmos de Macau mobilizava sempre a atenção daqueles que o escutavam: Luís Gonzaga Gomes, Stanley Ho, o padre Manuel Teixeira, Pedro Lobo, O Cheng Peng, Ma Man Kei, o governador Jaime Silvério Marques, Roque Choi, o governador Nobre de Carvalho, entre tantas outras figuras, eram evocados no meio de histórias saborosas, divertidas, curiosas e raramente acintosas. Contava, ainda, lances absolutamente inacreditáveis sobre a Rádio Macau, o Grande Prémio, algumas posturas municipais ou patéticos mal-entendidos para além da Porta do Cerco. Foi lamentável não terem sido escritas. Mas nem tudo se perdeu. Alberto Alecrim foi registando na Revista Macau, do Gabinete de Comunicação Social, algumas memórias da identidade portuguesa no Território. Resgatou a glória da gente simples, abnegada e trabalhadora que ajudou a moldar o respeito pelos portugueses. Por exemplo, a história do comissário António Francisco, “chegado a Macau em 1927, incorporado num contingente militar”, e por ocasião da segunda guerra mundial, já integrado na PSP, foi “várias vezes nomeado para se entender com o comando japonês sediado a poucas centenas de metros para além das Portas do Cerco”, tendo ainda prestado serviço na Ilha da Lapa e na Ilha da Montanha. Vereador do Leal Senado de Macau, a vida de António Francisco, na opinião de Alberto Alecrim, “dava para fazer um livro”. Ou a história de Bernardino da Silva Azevedo, conhecido por “Espanhol”, que chega a Macau em 1941 e “pouco depois tomava conhecimento de que o barco que o trouxe até ao Oriente tinha sido alvo de traiçoeiro torpedo lançado por um submarino alemão, algures no Índico”. Nos anos difíceis da guerra, “Bernardino 20 ANTÓNIO ARESTA
  • Azevedo recorda-se de ter comido carne humana, com o rótulo de saborosa costoleta, mas do engano só teve conhecimento quando as autoridades prenderam o proprietário e empregados do restaurante, ao tempo, instalado no rés-do-chão do Hotel Central”. Mas as histórias não ficaram por aqui. Mereceram atenção, em crónicas exemplarmente escritas, os trajectos de José Manuel Oliveira, da Polícia Marítima e Fiscal e exímio guitarrista, do professor Raúl Rosa Duque, de Fernando Correia Marques ou a importante obra salesiana do Colégio D. Bosco. Exemplar a todos os títulos, sobretudo como uma lição de antropologia cultural, é o artigo “Tascas portuguesas em Macau”, onde a fusão de saberes, sabores e amizades mais evidenciou o que fomos, o que valemos e o que somos. Esta faceta reflexiva de Alberto Alecrim ajuda-nos a reconstituir as vivências quotidianas de um Macau luso-chinês e sino-português, e sobre o qual há ainda poucos registos e escassos estudos. O que ele deixou espalhado na imprensa portuguesa de Macau, assinado ou sob pseudónimo, merecia e deveria ser reunido em volume. Não só para homenagear um homem bom, mas sobretudo um preito a uma “terra especial”, como ele tantas vezes dizia, que deve continuar a ser estudada para se manter viva na memória do tempo.21FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • ALICE VIEIRA No âmbito do certame literário ESCRITARIA, promovido pela Câmara Municipal de Penafiel, que decorre de 6 a 9 de Outubro, Alice Vieira é a escritora cuja obra será revisitada e celebrada, com “exposições, teatro de rua, conferências, música, momentos de leitura e lançamento de livros”. Recorde-se que nas oito edições anteriores do ESCRITARIA, foram homenageados Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge e Mário Cláudio. Nascida em 1943, licenciada em filologia germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa, Alice Vieira cedo enveredou pelo jornalismo e depois pela escrita. Autora com uma obra muito extensa e traduzida, onde se destacam os sucessos editoriais, “Rosa, Minha Irmã Rosa”, “A Espada do Rei Afonso”, “Chocolate à Chuva” ou “Graças e Desgraças na Côrte de El Rei Tadinho”. Várias vezes premiada, Alice Vieira também publicou para adultos “O Que Se Leva Desta Vida” e “O Livro da Avó Alice”. Macau e o imaginário oriental ocupam um espaço bastante importante na sua bibliografia, com os livros “Macau: da Lenda à História”, “As Mãos de Lam Seng”, “O Templo da Promessa”, “As Árvores que Ninguém Separa”, “O Que Sabem os Pássaros”, “Uma Voz do Fundo das Águas” ou “Um Estranho Barulho de Asas”. Poderemos esperar ainda mais alguns títulos dedicados ao cosmopolitismo multicultural de Macau? Na recta final da vigência da governação portuguesa de Macau surgiu em 1990 o livro “Macau: da Lenda à História”, escrito por Alice Vieira, jornalista e escritora. A obra foi editada pela Direcção dos Serviços de Educação/Livros do Oriente, tendo sido ilustrada pelo professor António Andrade e merecido uma enorme difusão. Na Nota do Editor, Rogério Beltrão Coelho realça “uma narrativa histórica que irá, decerto, sensibilizar a juventude”, o mesmo é dizer que o problema central 22 ANTÓNIO ARESTA
  • estava, como continua a estar, na erosão da memória que corrói a identidade. A nossa. E nada melhor do que uma escritora de mão cheia e especialmente dedicada ao difícil género infanto-juvenil para escrever uma história de Macau que se tornasse estimulante na sua acessibilidade. Baseada nos trabalhos de Luís Gonzaga Gomes e do Padre Manuel Teixeira, Alice Vieira constrói uma sedutora abordagem à história de Macau com um forte pendor literário e poético, cativando o leitor com o fascínio pelo mistério e pelo exótico. Abro um parêntesis para evocar Manuel Pinheiro Chagas (1842-1895) que há mais de um século escreveu a notável “História Alegre de Portugal”. Aqui o narrador era “um mestre de instrução primária” que em dez serões explicava o que “sucedeu nesta boa terra de Portugal”. O problema da identidade e da memória da história é, pelos vistos, recorrente nas gerações que se sucedem umas às outras, não ficando o sistema de ensino totalmente isento de responsabilidades. Manuel Pinheiro Chagas foi Ministro da Marinha e Ultramar no governo chefiado por Fontes Pereira de Melo, estando por isso ligado a alguns grandes empreendimentos de Macau. Noutra ocasião escreverei sobre esta figura. Alice Vieira lança esta questão para o leitor reflectir: “como foi que os portugueses, lá do seu máximo extremo ocidental da Europa, se encontraram um dia às portas da China, à entrada desse mundo proibido, de ressonâncias misteriosas, sonhos de sedas e brocados, ilusões de riqueza e glória?”. Evoca seguidamente os trabalhos e as fadigas de Jorge Álvares, S. Francisco Xavier, Fernão Peres de Andrade, Tomé Pires e Martim Coutinho, todos eles animados por diferentes propósitos, dizendo “mas de muitas e diversas maneiras se pode fazer o convívio entre os homens. Se as relações oficiais não existiam, isso não impediu que comerciantes e aventureiros fossem sempre fazendo pela vida… Esse foi, durante muitos anos, o pensamento de muitos. E porque assim o pensaram, assim foram orientando as suas vidas. E nesse espaço de vazio diplomático, nunca os portugueses deixaram de viajar frequentemente até à China”. Avalia com poucas ambiguidades e sem manipular as fontes a presença dos portugueses em Macau, criando e consolidando um capital de simpatia ao gosto do jovem leitor, que pode ficar empolgado com algumas cenas onde a audácia e a coragem andam de mãos dadas. Alice Vieira contorna muito bem a velha questão da origem de Macau, tão do agrado de alguma historiografia escolástica, oferecendo uma visão diplomática e consensual, afinal aquela que fez história. Por um lado, o reconhecimento oficial pelo decisivo auxílio prestado na luta contra os piratas que então controlavam o delta; pelo outro lado, “proibidos de, no seu país, fazerem comércio com o estrangeiro, os chineses podiam agora, naquele território cedido a Portugal, fazer negócio sem ir contra as leis determinadas pelo imperador”. A acrescer a isto, “os chineses demonstravam saber também que os portugueses eram, na altura, o único povo capaz de os ajudar no seu desenvolvimento comercial, uma vez que detinham 23FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • em suas mãos, todas as comunicações marítimas e comerciais entre a Europa e o Oriente, e mesmo entre as várias regiões do Extremo Oriente entre si”. Um pragmatismo exemplar, convenhamos. Alice Vieira informa o jovem leitor de outras particularidades, “até 1685 Macau vai ser a base única de todo o comércio estrangeiro com a China. Durante 130 anos os portugueses vão ser os seus únicos intermediários e transportadores. Para aumentar ainda mais a importância de Macau, em 1575 o Papa Gregório XIII estabelece a Diocese de Macau que tem, desde logo, jurisdição sobre a China, Japão e Coreia. Para além de centrar em si toda a responsabilidade do comércio, Macau passa também a ser o centro difusor da fé cristã”. Esta centralidade trouxe mais responsabilidades a Macau, suscitando igualmente alguma mal contida inveja em terras de Goa, onde se sentava o vice-Rei. Bem se percebe porquê. Depois, Macau “vai atravessar duas guerras mundiais, sendo de primordial importância o seu papel quando, na II Guerra Mundial, toda a China, incluindo a colónia britânica de Hong Kong, fica sob ocupação japonesa. São esses novos habitantes, esses estrangeiros que nela se acolhem procurando alguma tranquilidade em tempo de guerra, que acabam por se radicar em Macau, fazer parte dela, modificando-lhe, com o correr dos anos, a fisionomia, a arquitectura, a economia, os costumes, o ambiente”. Macau esteve à altura da sua história acolhendo largas dezenas de milhares de refugiados, proporcionando-lhes uma vida com sentido apesar dos horrores da guerra. A gente nova necessita de ter o registo ético e moral dessa vera hospitalidade. A desmesura da história do nosso passado nesta terra de utopia parece ser de improvável catalogação: “Durante 400 anos em Macau se cruzaram as mais variadas civilizações. Durante 400 anos Macau foi cobiçada, disputada, sofreu ingerências de uns e outros, mas, com alguns acidentes de percurso (fatais em tantos anos de convivência) sempre as relações entre Portugal e a China se caracterizaram por uma coexistência e convivência na base da paz e da amizade”. A história termina assim, com um lance poético, “E que A-Ma, a deusa, continue a velar pela sua baía”. E parece que continua atenta. Não olvidando outras obras icónicas, por exemplo “Macau, Terra de Lendas” de Hermengarda Marques Pinto, publicada sob a égide da Campanha Nacional de Educação de Adultos, em 1956 e que terá uma segunda edição em 1974, o certo é que Alice Vieira com o livro “Macau: da Lenda à História” abriu a estrada larga para outras ousadas tentativas de se escrever, na contemporaneidade, a história do Território, segundo o ponto de vista português, para um público juvenil e adolescente. Descobrimos, quiçá tardiamente, essa enorme lacuna pedagógica e cultural, não obstante Manuel da Silva Mendes, proeminente intelectual e professor no Liceu, considerar em 1915, um verdadeiro escândalo não existir uma história de 24 ANTÓNIO ARESTA
  • Macau. Em 1995 Beatriz Basto da Silva publica “A Minha Primeira História de Macau”. Nesse mesmo ano, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada também apresentam “Uma Aventura em Macau”, que já conhece a sexta edição. Em 1998 Ana Cristina Alves e Celina Veiga de Oliveira lançam “As Oito Cartas de Macau”. Leonel Barros, em 1999, edita “Macau, Coisas da Terra e do Céu”, um exemplar repositório da sinologia popular direcionado a todos os leitores. Como corolário destes esforços chegamos finalmente ao manual escolar, a “História de Macau e da China”, em três tomos (1º ciclo; 2º ciclo; 3º ciclo), publicada em 2010 pela Escola Portuguesa de Macau, da autoria de Clara Fernandes, Deolinda Santos, Maria del Carmen Machado e Pedro Xavier. O desafio, esse continua.25FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • ANA MARIA AMARO No prefácio ao livro “Portugueses das Sete Partidas”, Aquilino Ribeiro deixou as seguintes palavras: “A Ásia, cuja odisseia se venceu há quatro séculos, continua a ser o nosso exuberante teatro de maravilhas. Quanto mais se explora mais tem a oferecer-nos”. Com o desaparecimento da professora Ana Maria Amaro (1929-2015) ficamos todos mais sós nesse palco do teatro de maravilhas, de que nos falava o Mestre Aquilino. Quem mais teve essa capacidade epistemológica para cruzar saberes, saindo das pautas canónicas e do corpus hermeticum, para casar a etnologia com a botânica, a antropologia com a história, a sinologia com a literatura ou a biologia com a linguística? No passado recente, talvez só José Gomes da Silva e Almerindo Lessa. Chegou a Macau em 1957, acompanhando o marido, Fernando Amaro, aí colocado no cumprimento do serviço militar obrigatório e que foi ajudante de campo do Governador Jaime Silvério Marques e secretário do Governador Lopes dos Santos. Num escrito autobiográfico, “Histórias de Encanto e Desencanto”, Ana Maria Amaro recorda o seguinte: “Setembro de 1957. O tufão Glória varrera o mar próximo de Hong-Kong e Macau sentiu a sua força ficando vestida de destroços. Foi assim trajada, com os cabelos verdes das grandes árvores de gondão sobre os passeios, raízes emergentes de caldeiras desventradas mostrando terra nua, grandes lagos cobrindo as hortas dos aterros, madeiras velhas e mastros quebrados flutuando, arremessados pela ondulação sobre os paredões litorais, em destroços, que a cidade nos recebeu”. Mas, outros problemas se avizinhavam, não conhecendo a língua e os costumes sentiam-se “completamente estranhos e, pior do que isso, surdos-mudos e analfabetos. Foi uma história de desencanto a da nossa chegada a Macau, tal como de desencanto foi a história do nosso regresso. Mas, entre estas duas histórias, outras houve de encantamento e muitas delas passadas no Liceu”. 26 ANTÓNIO ARESTA
  • No Liceu de Macau, inicialmente no velho e charmoso edifício no Tap Seac e depois nas novas instalações no Porto Exterior, onde leccionou durante quinze anos, foi uma professora inesquecível para diversas gerações de alunos. Precursora da escola cultural, mobilizou a comunidade educativa para récitas, para o teatro, para o jornalismo, sobretudo para o experimentalismo científico em trabalhos de campo. Parecia que o conhecimento de Macau também entrava pelo currículo dentro. Graciete Batalha no seu diário “Bom Dia, S’Tora”, dizia que Ana Maria Amaro tinha “sem dúvida o génio das festas escolares e que costuma ensaiar com eles coisas engraçadíssimas”. Tinha duas licenciaturas, uma em Biologia e outra em Antropologia Cultural e Social para além do Curso de Ciências Pedagógicas, por isso leccionava Ciências Naturais e Geografia. A primeira aula ficou gravada na sua memória: “Lembro-me da minha estreia diante dos alunos, na sua maioria macaenses. Era um 5º Ano. A sala ficava ao fundo, no rés do chão e dava para um pátio ou quintal, para onde se abriam grandes portas envidraçadas. Vesti para a ocasião o meu vestido azul, embora já sem o plissado original que o tufão Glória desfizera e cujas bolas brancas anilara ligeiramente. Eu só tinha dois vestidos de verão. Aquele era o melhor. Com ele desembarcara. Olhei para os alunos, que se levantaram e que eu mandei sentar. Lembro-me do Júlio Branco, muito ruivo, da Maria Adelina Magalhães, da Ana Maria Silva e de tantos outros rostos bonitos e pares de olhos brilhantes, atentos, fixos em mim. Eu preparara bem a lição, que o director de ciclo me dissera ser a que continuava a matéria dada até ali. No entanto, sentia-me de certo modo angustiada, como a actriz principiante que então era, chamada pelo contra-regra para entrar em cena.(…) Tentava recordar as lições de pedagogia que estudara na Faculdade de Letras, à procura da resposta para como actuar. Optei por ser eu própria e deixar correr, ao sabor da maré, aquele meu barco cheio de esperança, onde punha à prova a minha capacidade de fazer aprender. Foi um encantamento o meu encontro com os alunos macaenses. Através deles, consegui encontrar o fio que me conduziu à identidade cultural dos filhos-da-terra e deixar-me conquistar, e ser conquistada, pelo inegável fascínio de Macau. Eu sentia-me bem no Liceu. Gostava dos alunos. Gostava de preparar as aulas e de tentar transmitir alguma coisa, de mim, àquele punhado de adolescentes que me eram confiados”. Precipitou-se então nesse abismo de conhecimentos sobre Macau e os seus costumes, sobre a identidade cultural dos macaenses e sobre a cultura chinesa, sublevando-se contra a indolência, a inércia e a indiferença. E o resultado foi uma imensa e multímoda obra, demonstrando que a macaulogia era assimilável aos olhos europeus e da qual deixo este registo sumário: “Relíquias Botânicas de Macau”, 1961; “Catálogo Provisório das Espécies Mais Comuns da Flora de Macau”, 1961; “Vendilhões Chineses de Macau”, 1966; “Alguns Aspectos do Artesanato em 27FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Macau”, 1967; “O Jardim de Lou Lim Ioc”, 1967; “Alguns Aspectos da Medicina Tradicional Chinesa”, 1972. Regressa a Portugal em 1972 para nunca mais retornar a Macau. Doutorou-se no Instituto de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, defendendo uma tese sobre “A Medicina Popular em Macau” (inacreditavelmente ainda não publicada), iniciando uma nova carreira docente da qual se jubilará como professora catedrática. Desenvolveu uma intensa actividade científica em torno de Macau e dos estudos chineses. Fundou o Fórum de Sinologia, o Centro de Estudos Chineses e presidiu ao Instituto Português de Sinologia. A obra desta fecunda etapa da sua vida é muito extensa, e da qual retenho os seguintes títulos: “Aguarelas de Macau: Cenas de Rua e Histórias de Vida”, 1998; “Estudos Sobre a China”, 1998-2006, 8 volumes; “O Mundo Chinês: um longo diálogo entre culturas”, 1998; “Das Cabanas de Palha às Torres de Betão: assim cresceu Macau”, 1998; “Filhos da Terra”, 1993; “Introdução da Medicina Ocidental em Macau e as Receitas de Segredo da Botica do Colégio de São Paulo”, 1992; “Três Jogos Populares de Macau: Chonca, Tabu, Bafá”, 1984; “O Traje da Mulher Macaense: da Saraça ao Dó das Nhonhonha de Macau”, 1989; “Adivinhas Populares de Macau”, 1975; “Jogos, Brinquedos e outras Diversões de Macau”, 1972. Seria muito importante, para a memória das gerações futuras, que fosse feito um roteiro biográfico e bibliográfico desse vulto cimeiro da macaulogia e da sinologia de matriz portuguesa que foi a professora Ana Maria Amaro. Vale a pena mencionar esta discreta faceta benemerente de Ana Maria Amaro. Após o falecimento do marido, Fernando Amaro, antigo professor de matemática no Liceu Gil Vicente, decide oferecer a sua valiosa biblioteca particular, constituída por milhares de volumes, com especial incidência sobre Macau, a China, o Oriente e África à Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, em Leiria, que justamente inaugurou a “Sala Fernando Amaro”, em 27 de Julho de 2013. Em arquivo ficaram importantes núcleos documentais [Liceu Infante D. Henrique; Liceu Central de Macau; Leal Senado; Consulado Geral de Portugal em Cantão; Comarca de Macau] susceptíveis de interessar aos investigadores de Macau. Um belo exemplo de amor à cultura, para louvar e imitar, se possível. Fernando Amaro também nos deixou alguns estudos sobre o Território, que nos cabe recordar: “Fundições e Fundidores Artilheiros Portugueses na Ásia e em África”, 1960; “História Militar de Macau”, 1961; “Achegas para a reconstituição histórica da fábrica jesuíta de São Paulo de Macau”, 1961. No termo dos “Filhos da Terra” Ana Maria Amaro colocou esta questão radical cujo sentido continua muito pertinente: “No final do século XX, que rumo seguirá a sociedade macaense e em que medida os macaenses conservarão os seus antigos padrões culturais hibridados?”. Parece que ainda é cedo para podermos responder.28 ANTÓNIO ARESTA
  • ANTÓNIO CONCEIÇÃO JÚNIOR António Conceição Júnior é um dos vultos marcantes da identidade cultural portuguesa contemporânea de Macau. No artigo “Tempo e Memória” desvenda com nitidez uma parte da sua genealogia social e cultural em torno do importante jornal “Notícias de Macau”, ainda à espera de ser digitalizado e estudado, incluindo a sua enorme e pioneira actividade editorial. Encontramos aí uma boa parte da aristocracia cultural de Macau, onde pontificava a sua Mãe, Deolinda da Conceição, uma jornalista e escritora com uma escrita de fina sensibilidade e originalidade. Mas dentro desse pequeno cosmos, não podemos esquecer Hermann Machado Monteiro, Domingos Rosa Duque, Raul da Rosa Duque, Adelino da Conceição, Mário de Abreu, o Major Cabreira Henriques, António Maria da Conceição, Patrício Guterres, entre outros, figuras que, com excepção de Luís Gonzaga Gomes, resvalaram injustamente para uma nota de rodapé da história social de Macau. O tempo das incertezas e das indiferenças em que vivemos não parece acolher uma hermenêutica que valorize os lances biográficos de grande elevação moral e educativa. António Conceição Júnior, espírito culto, informado e originalmente polifacetado, escritor, pintor, gravador, fotógrafo, criador de moda, dirigiu o Museu Luís de Camões e os Serviços Culturais do Leal Senado de Macau onde comissariou umas boas dezenas de grandes Exposições temporárias de arte ou de índole etno-antropológica, trazendo desse modo um invejável cosmopolitismo à cidade. Isso representa muito bem o exemplo vivo da partilha do sensível, na perspectiva estética que Jacques Rancière cunhou. A alma de artista está presente em todas as parcelas da sua vida, incluindo nas aulas de Religião e Moral, leccionadas pelo Padre Manuel Teixeira no Liceu de Macau, e onde recorda com um humor irreverente, “ele distribuía santinhos e eu caricaturas”. 29FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • A história cultural de Macau necessita de conhecimentos de fronteira e de reflexões que indaguem a complexidade da sua ideografia para se libertar de alguma egolatria dos descobrimentos e de uma aparente preciosa mineração de velharias escolásticas e bacocas, trazidas à boleia na Carreira das Índias. O legado intelectual de Manuel da Silva Mendes vai nesse sentido, lançando perguntas altissonantes que fazem tremer o poder político e abrindo-se a diversas paixões, em torno da arte, da filosofia ou da ética na governação da cidade, sempre com a liberdade como horizonte definitivo. Depois, como estamos num espaço luso-chinês ou sino-português, António Conceição Júnior tem a coragem de dizer, no importante volume “Conversas do Chá e do Café”, publicado em 2011, “Até hoje a leitura sobre a filosofia chinesa tem-se subordinado, pelo menos aqui na China, à perspectiva conceptual da metafísica tradicional do ocidente. Pouca importância parece dar-se à interpretação filosófica e histórica, numa perspectiva inteiramente chinesa do tempo”. Ora, o tempo em Santo Agostinho ou o tempo em Bergson rege-se por outros parâmetros de interioridade que não são compatíveis com os do mundo chinês. Parece que a nossa presença é superficial e que estamos enredados na contraditória angústia de nos perdermos, por entre sensações de madre-pérola, quase uma demissão do espírito perante uma outra poderosa metafísica do quotidiano. Notava o padre Benjamim Videira Pires que “Os Extremos Conciliam-se”, aliás o título de um dos seus grandes livros, publicado em 1988, mas todos sabemos quão intrincado e ambíguo é esse caminho que muitas vezes escapa ao narrador. Holderlin advertia-nos que a salvação andava sempre a par da perdição, fundando-se aí uma nova versão da antropologia da vulnerabilidade. Este livro é muito importante a vários níveis. Em primeiro lugar, como exercício de humildade e de modéstia: “Nem todos os textos nascem para a literatura, porque esse não é nem o seu objectivo nem a sua natureza. São textos operários, de obra. Servem sobretudo para revelar as insuficiências urbanas, oferecendo soluções e, assim, almejar para que a cidade melhor se qualifique”. É nesta plataforma transcendental que se iluminam os raciocínios, que se agitam as quimeras e se reciclam as vivências contraditórias. Em segundo lugar, é um exercício de cidadania corajosa, culta, actualizada e com um poder de contágio simpático. Poderá criar um discipulato numa terra arredia ao exercício da liberdade de expressão? Esta é, porventura, a melhor parcela da ‘escola’ Manuel da Silva Mendes em Macau: “Macau não tem disseminada, uma elite pensante em várias línguas (…) É o desenvolvimento do colectivo, da qualificação da cidade enquanto um todo habitado e habitável, que me impele à defesa da cidadania plena, da qualidade e critérios, que só podem existir quando se compreender, por via da cultura, que a economia tem de ser encarada como força criativa e não especulativa”. A legitimidade de uma soberania passa também pela 30 ANTÓNIO ARESTA
  • construção de novos conceitos referenciais. ‘A Domesticação do Ser’, de Peter Sloterdijk decalca esse caminho permitindo a fuga a verdades perigosamente iluminadas. Em terceiro lugar, é um livro de fronteira. Está desigualmente repartido entre a antropologia filosófica, a ciência política, a literatura de ideias e o pensamento urbano: “Pergunto-me quem terá construído o Teatro D. Pedro V, o estuque original do medalhão da fachada de S. Domingos, o Clube Militar? Quem construiu a bela biblioteca do velho Leal Senado? Os móveis de pau-rosa, de pau-preto ou de huang hua li, em estilo chinês ou ocidental, já não se fabricam em Macau. Também as gerações de mestres, outrora formados nas escolas salesianas, foram substituídos por curiosos sem preparação, seguindo os ditames corrompidos dos sifu. Tudo se vai tornando descartável. A cidade pede qualidade e tranquilidade, mas é-lhe exigida rapidez desvairada, e oferecido ruído, poluição e confusão, também esteticamente”. A estas preocupações confluem outras mais antigas, mas não menos metafísicas. Recordo as palavras de António Conceição Júnior no prefácio à quarta edição de “Cheong-Sam (A Cabaia)”, de Deolinda da Conceição: “Mesmo que nos ignorem, não deixamos de existir. Existir é a nossa força. Fomos e somos aqueles que legitimaram a presença portuguesa”. Esta reflexão eticamente perfeita, dentro dos limites do poder e da razão, deveria ter sido o virar de uma nova página do pensamento filosófico em Macau, sem qualquer descortesia para com outras tentativas. Mas ficou apenas como um bordão identitário a que alguns se agarram. A educação cívica não é apenas uma necessidade espiritual, é real, cultural, civilizacional e urbana: “Muita falta faz um Corpo de Fiscais Cívicos, com competências para prevenir comportamentos incivilizados, pejamentos, sujidade, e todo um tipo de transgressões que perturbem a ordem e se configurem no complemento do ensino a haver”, porque os problemas radicam nos pormenores: “É o resultado de uma escolaridade maioritariamente anacrónica, onde ninguém leu os Clássicos, originando uma visão estreita e retrógada, reprimida e, assim, despojada dos valores humanizantes que uma formação de âmbito mais alargado aos ensinamentos de Confúcio daria”. Quanto aos Clássicos, nunca é demais lembrar que Pedro Nolasco da Silva trouxe a “Amplificação do Santo Decreto”, Manuel da Silva Mendes apresentou Lao Tse e Chuang Tse e Luís Gonzaga Gomes o “Clássico da Piedade Filial”. Com que intencionalidade é que terão sido lidos? A dimensão trágica e irracional desponta em todo o lado, em todos os lugares, onde a vontade de poder parece estar contra os valores do espírito. Por isso, António Conceição Júnior nos diz: “Sobram palavras espalhadas pelo chão, desperdícios de vidas dos subúrbios de tantos lugares pintados de silêncios, tão óbvios quanto as omissões praticadas por gentes que vivem abertas dentro de aquários dourados, borbulhando intenções inconclusivas”. 31FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Convoco Agustina Bessa-Luís, no seu “Dicionário Imperfeito”, para fechar estas linhas: “A língua portuguesa, ferro de marcar ideias, como um rebanho solto no campo, deve ser usada como milagre e como sabedoria”. E foi exactamente isso que fez António Conceição Júnior. Na actualização do monumental “Delta Literário de Macau”, José Carlos Seabra Pereira terá de acomodar este novo afluente estético, pluridisciplinar, urbano e cosmopolita, que transcende como nenhum outro os limites da macaulogia tradicional.32 ANTÓNIO ARESTA
  • ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA Em Setembro de 1987 encontrava-me instalado na Pousada de Mong Ha, um edifício decadente e charmoso, inserido no perímetro do Forte homónimo. O velho Forte de Mong Ha estava votado a um desleixo atroz, misto de sanitário público e de local procurado para suicídios. Curiosamente, muitos anos volvidos, em 2002, em Maputo, tive a ocasião de conhecer na Escola Portuguesa de Moçambique dois homens que serviram na guarnição do Forte de Mong Ha, nos alvores da guerra do ultramar, integrados num batalhão de tropa landim, os senhores Almeida Sabão Marrengula e Ernesto Sitoe (este, boxeur, tendo realizado combates em Hong Kong). Tempos difíceis esses, com muita confusão nas cercanias da Porta do Cerco, pelo impacto que as tropas africanas causavam. Foi exactamente na Pousada de Mong Ha que conheci pessoalmente António Manuel Couto Viana, cuja obra literária e outros escritos há longa data me eram familiares. Encontrava-se ele no Território porque “recebeu do Instituto Cultural de Macau o honroso convite de se deslocar ao ainda português território oriental do rio das Pérolas, para estruturar-lhe toda a actividade teatral, quer portuguesa quer chinesa; de colaborar na criação de um Conservatório de Música, Dança e Teatro; ministrar um curso intensivo de arte dramática a quem, de expressão portuguesa, o pretendesse frequentar, e, finalmente, organizar o espectáculo de 10 de Junho de 1986, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. O poeta, também mestre de Teatro, aceitou, com prazer, as difíceis mas aliciantes incumbências”. Poeta, ensaísta, actor e encenador, conferencista, António Manuel Couto Viana foi uma personalidade marcante na cultura portuguesa contemporânea. A sua obra literária é vasta [por exemplo, O Avestruz Lírico, 1948; O Coração e 33FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • a Espada, 1953; Pátria Exausta, 1971; Coração Arquivista, 1977; Uma Vez uma Voz, 1983; O Senhor de Si, 1991; O Velho de Novo, 2004] e fruto da sua estadia em Macau entre 1986 e 1988, publicou ‘No Oriente do Oriente’ em 1987, ‘Até ao Longínquo China Navegou’, em 1991 e ‘O Poeta no Oriente do Oriente’, em 2007. Não me irei deter na apurada e culta sensibilidade com que interpretou Macau e a China, os homens, as lendas, o casario, a história, a gastronomia ou o quotidiano. Essa originalidade que inscrevo numa sinologia de matriz poética (cujo maior cultor na contemporaneidade foi J.J. Monteiro, injusta e incompreensivelmente esquecido), merece outro realce que, por ora, não cabe aqui e agora. O seu breve roteiro lírico de Macau é exemplar pelas afinidades que convoca: “E, agora, onde vais? É o sentimento que to exige. Vais, romeiro da poesia, à gruta onde a verdade da tradição viu Camões, tendo o jau a seu lado, imaginar, em reboadas de inspiração genial, inflamadas estrofes de Os Lusíadas. Ali, não tens palavras: só lágrimas de emoção. E elas não secam, enquanto visitas o lirismo de novos jardins, europeus e orientais, enlaçando estátuas e plácidos lagos, para mormurares versos de Camilo Pessanha, tão de Macau, escutando-lhes a música interior, exígua, discreta mas profunda”. Dado que vivemos imersos numa profunda crise de valores que é ao mesmo tempo uma crise de saberes e de poderes, permito-me transcrever este poema de António Manuel Couto Viana, publicado em ‘O Velho de Novo’, que nos interpela com alguma incomodidade: ‘Que Pátria? A juventude ignora O país que foi seu: De quem as velas, o sextante, a espada, a espora Que abalaram daqui p ra um novo céu; Quem fez de tanta terra sua filha; Quem, à orla da praia, ergueu padrão: Quem ao cabo, à baía, ao rio, à ilha, Deu um nome e um brazão. Quais os reis, com seu ceptro e seu escol, Que, num século d’oiro, governaram o mar. Hoje, a pátria dos jovens chama-se futebol, A droga, o sexo, a sida, a arte de furtar. 34 ANTÓNIO ARESTA
  • Os velhos que sabiam Portugal Vão descendo, sem dó, ao cemitério, Queimados pela fé e pela cal, A mistura com o sonho, a esperança, o ideal… Alguém ouviu falar em Quinto Império?’ As problemáticas presentes neste poema suscitam uma reflexão demorada e alargada aos mecanismos de transmissão de valores (a família), de saberes (a escola) e de poderes (a governação): parece-me importante apontar a ausência de elites cultas e esclarecidas ao nível do poder político; que a escola é uma conjugação irregular de competências e de indisciplina; e que a família ainda não se deu conta que já não sabe educar. Estamos a lançar uma escada para o abismo. Evidentemente que a ética da responsabilidade não nos permite rasurar a História, sequer ignorar o que fomos, o que somos, o que valemos ou o que podemos. António Manuel Couto Viana deixa-nos essa fortíssima mensagem, radical no argumento, emotiva na reacção, poética na formulação e sensível na idealidade metafísica que nos propõe. ‘Macau, eu conheci-a Numa mesa redonda, Juntando o Oriente ao Ocidente Lidavam, par a par, em cada dia; Ambas afeitas à onda Fecunda e activa do presente. Cansou a História De as ver entrelaçar raízes E sem ignorar-lhe um passado de glória Sonhou-lhes futuros mais felizes. Afastaram-se os dois da mesa. O Ocidente, a chorar, disse adeus à cidade. Levava uma bandeira portuguesa Junto ao peito, a escutar o pulsar da saudade’. 35FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Após o seu regresso de Macau, António Manuel Couto Viana recebe de Monsenhor Moreira das Neves uma carta em verso que merece ser republicada: ‘Bem-vindo sejas, caro Couto Viana, Porque é bom estar à tua beira! Somos um grupo que a amizade irmana Como à luz e ao calor de uma lareira. Disse, não sei quem foi, na China em brasa, Onde a saudade chega a ser martírio; Alguém deu-me dois pães. Saí de casa, Vendi um pão e fui comprar um lírio. Também diz Cristo a quantos se consomem Com juntar oiro, sem olhar aos Céus: Nem só de pão vive o homem Mas da palavra de Deus. Eis o que fazes ao fazer teus versos Como sempre fizeste e ainda fazes: Pões acima dos lucros mais diversos Um ramo de lilases. Viste em Macau cortejos de balões, Ao velho estilo exótico chinês. Mas, decerto, aprendeste com Camões A ser mais português. E foi desta maneira antiga e bela, Dando ao resto de tudo só desdém, Que ficaste mais alta e clara estrela De quem fez Portugal ir tão além. Por isso te abraçamos nesta hora De greves, de paixões e de quebranto, Enquanto a Pátria, dividida, chora, Como soldado erguendo ao sol a espada nua, Com o brio mais límpido e mais santo, Poeta, salva o sonho, continua 36 ANTÓNIO ARESTA
  • A salvar o futuro no teu canto! Esquece a febre e o ópio dos bazares, Esquece as lantejoulas dos quiosques E respira de novo os puros ares Dos nossos campos e dos nossos bosques. Regressa ao pão-de-ló das romarias, Torna a beber de um canjirão de vinho. Não há no mundo festas e alegrias Como as das tardes do teu verde Minho. Mas se o Minho é lá longe, tens Lisboa Com o seu rio e perto do seu mar. Nela o teu verbo é que melhor ressoa E é ela que te quer ouvir cantar’. 37FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • ANTÓNIO NASCIMENTO LEITÃO António Nascimento Leitão (1879-1958), natural de Aveiro, formado em Medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, onde apresentou em 1906 a tese “A Bacia Hidrográfica de Aveiro e a Salubridade Pública”, aporta ao Território em Julho de 1907, como alferes médico do Quadro de Saúde de Macau e Timor. E não gostou mesmo nada do que viu, como se depreende desta passagem de um requerimento, datado de Janeiro de 1908, que enviou ao Rei D. Carlos: “O facultativo que a má sorte mandou para este quadro no exercício da sua nobre profissão – profissão alcançada no fim da longa e íngreme carreira em que tantas energias e tempo se dispenderam – experimenta apenas desembarca o travo amargo do arrependimento e a comiseração obsequiosa dos outros funcionários. Vê fugir-lhe a esperança de remir encargos, a mocidade, a saúde e a oportunidade para melhores colocações; e se tenta resignar-se vê anuviar-se ainda mais o ar já turvo do descontentamento que paira sobre a classe. Como é sabido, é chinesa e em geral pobre a maioria da população de Macau. Na doença são os ‘mestres’, curandeiros chinas, que são chamados, o que além do manifesto detrimento para a classe médica, é ameaça grave para a colónia, sob o ponto de vista sanitário, porque a ignorância recebe com riso de mofa e descrença os preceitos da higiene. Nada, pois, tem a classe a esperar do pouco que resta da clínica civil, tão pouco que mal chega para um só, e esse mesmo prejudicado pela deslocação periódica para Timor. A vida em Macau está actualmente cara”. Este documento, quiçá precipitadamente escrito, foi salvo pelo zelo metódico do Padre Manuel Teixeira, indicia claramente o desânimo e o desapontamento que tinha invadido o espírito de António Nascimento Leitão, após a sua colocação no extremo oriente. Mas, como diz a sabedoria popular, o que não mata engorda, adaptou-se às especificidades de Macau, provavelmente através do convívio com dois outros médicos militares, o portuense José Gomes da Silva e o goês José Morais Palha. Entretanto, lecciona no Liceu como professor substituto 38 ANTÓNIO ARESTA
  • e no dia 25 de Fevereiro de 1909 profere uma conferência no Grémio Militar sobre “A sanidade de Macau: traços de higiene urbana e social”, publicada em livro nesse mesmo ano. Os seus interesses intelectuais e científicos não iriam ficar por aqui. Entretanto, a vida segue tumultuosa e propiciadora de enormes aprendizagens. Em 1910 integrou a expedição militar contra os piratas, na ilha de Coloane. Em 1913, já como capitão médico, tomou parte nas operações militares em Oekussi, Timor. No decurso de uma licença graciosa, frequenta em 1914, na Faculdade de Medicina de Paris uma especialização em radiologia. E o trabalho, esse intensifica-se. Colabora amiúde no Hospital Kiang Wu, torna-se médico particular do Bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro, continua a leccionar ocasionalmente no Liceu e é nomeado director do laboratório bacteriológico. Timor continua a ser uma escala frequente na sua vida profissional. A sua produção científica avoluma-se: “Tellurologie et Climatologie Médicales de Macao” (1921); “Macau, Estação Climática” (1922); “Desatinos dum adventício – a propósito de umas confissões feitas sem prévio exame de consciência” (1931) ou “Aveiro e a sua Laguna” (1944). Deixo propositadamente para o fim o “Relatório ao VIII Congresso da Far Eastern Association of Tropical Medicine”, que teve lugar em Bangkok, em Dezembro de 1930, e que foi publicado no Boletim Oficial, de Novembro de 1931. Para além da descrição minuciosa dos trabalhos e das visitas de estudo que realizou, António Nascimento Leitão, então tenente-coronel, apensou um interessante conjunto de fotografias, hoje com um inegável valor histórico e patrimonial. Menciona dois incidentes que, por serem gravosos para a imagem política e para o bom nome da governação portuguesa de Macau, não se coíbe de os relatar como um exemplo da pedagogia contra a ignorância. O primeiro incidente, “por ocasião da visita dos congressistas ao Asilo da Lepra dos subúrbios de Bangkok, ouvi dizer a uma Senhora que em Macau se viam leprosos pelas ruas, em crises epilépticas, agarrarem-se às pernas dos transeuntes. Essa Senhora, alemã, por sinal, e esposa de um delegado da Sociedade das Nações, encontrou ali logo em mim a defesa de Macau, mostrando-lhe como é a assistência pública nesta Colónia, que nem exclui os indigentes que diariamente vêm do interior da China, bastando uma simples guia da Polícia (nunca recusada) para lhes dar ingresso nos hospitais e direito até a tratamentos pelos raios X. Que estas facilidades não eram só para os chineses, mas também para os indivíduos de qualquer raça, religião ou nacionalidade. Que, pelo cargo que ocupo em Macau, lhe podia garantir que não havia epilépticos nem leprosos pelas ruas da Colónia. Esta Senhora, que a princípio falava com certa animação, virando-se para uns e para outros Congressistas, como que a informá-los do escândalo, não tardou, depois das minhas observações, a explicar que estaria equivocada – que teria sucedido em Cantão o que ela atribuía a Macau”. 39FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • O segundo incidente, “a uma outra Senhora, desta vez francesa, esposa de outro membro da Organização de Higiene da Sociedade das Nações, ouvi perguntar, num grupo de congressistas, o que faziam os Portugueses em Macau, pois se a Colónia já tinha sido restituída à China… Ficou muito surpreendida com as explicações que entendi dever dar-lhe”. Promovido a Coronel, António Nascimento Leitão passa à reserva e contra todas as expectativas decide regressar a Portugal. Afinal era quase uma vida inteira em Macau e em Timor que ficava para trás. Além de inúmeros louvores, era Comendador da Ordem Militar de Aviz, tinha a Medalha de Prata comemorativa das campanhas do Exército Português, a Medalha de Prata de Comportamento Exemplar e a Medalha de Prata de Bons Serviços. Sintetizou a sua vida desta forma simples: “Enfim, a minha vida de médico e funcionário é um livro aberto aos olhos de toda a gente. Tem já mais de 8000 folhas – tantas quantos os dias de profissão – todas elas feitas de trabalho honesto, escrupulosamente pautado pela probidade pessoal e pela moral profissional; todas elas limpas, sem rasuras, sem manchas nem passagens obscuras”. Mas este homem dos cem ofícios, como dizia o Padre Manuel Teixeira, voltaria a surpreender os seus contemporâneos com gestos de enorme generosidade e filantropia. Em Macau deixou um legado de vinte mil patacas/cento e dez contos, em dinheiro e acções, entregues ao Governador Albano Rodrigues de Oliveira, destinado às seguintes entidades: Casa de Beneficência; Hospital Kiang Wu; Leprosaria de Ka Ho em Coloane; Liceu Nacional de Macau (para premiar o aluno finalista com maior classificação); Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (para premiar o melhor aluno da Escola Comercial Pedro Nolasco, nas disciplinas de Ciências Físico-Químicas e Espécies Comerciais); Seminário de S. José (para premiar o melhor aluno na disciplina de Ciências Físico-Naturais); Hospital Conde de S. Januário (para premiar o melhor aluno do Curso de Enfermagem). Cabe perguntar, qual será a situação actual desse mesmo legado? Doou, ainda, ao Museu de Aveiro, em 1951, a sua colecção de arte oriental, cerca de meio milhar de peças (mobiliário, porcelanas, pinturas, livros, entre outras coisas) que, a partir de 1954 se inaugurou sob o nome “Secção Oriental Dr. António Nascimento Leitão”. O município de Aveiro inscreveu o seu nome na toponímia local reconhecendo a estatura humanista do benfeitor e o exemplo de uma vida incomum dedicada aos outros.40 ANTÓNIO ARESTA
  • BOCAGE (MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE) É sabido que Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), simplesmente Bocage, embarcou para a Índia, com destino a Damão, em 1786, a bordo da nau “Nossa Senhora da Vida, Santo António e Maria Madalena”, fazendo escala no Rio de Janeiro. Contra todas as expectativas, desertou e refugiou-se em Macau donde sairia para Lisboa em 1790, auxiliado por amigos, entre eles, Lázaro da Silva Ferreira, governador interino. O Padre Manuel Teixeira, emérito historiador de Macau, procurou com o seu raciocínio dedutivo registar a trajectória do poeta: “Presumimos que Bocage estivesse em Macau desde Setembro ou Outubro de 1789 a Março de 1790, em que partiu para Lisboa. A razão é simples. Ele compôs em Cantão uma elegia à morte do príncipe D. José. Ora este faleceu a 11-9-1788, mas a notícia só chegou a Macau a 15-9-1789 e a Cantão pela mesma altura”. Terá sido provavelmente essa aventura oriental que consolidou ainda mais o pendor boémio e aventureiro da personalidade marcante deste livre-pensador amante das liberdades. Não obstante a fugaz estadia de poucos meses, dedicou a Macau e a algumas personalidades uns quantos poemas, quase todos bem conhecidos e bastante bem contextualizados. Sobretudo este: Um governo sem mando, um bispo tal, de freiras virtuosas um covil, três conventos de frades, cinco mil, Nh’s e chins cristãos, que obram mal; Uma Sé que hoje existe tal e qual, catorze prebendados sem ceitil, muita pobreza, muita mulher vil, cem portugueses, tudo em um curral; 41FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • seis fortes, cem soldados, um tambor, três freguesias cujo ornato é pau, um vigário-geral sem promotor, dois colégios, um deles muito mau, um Senado que a tudo é superior, é quanto Portugal tem em Macau. De resto, é duvidoso associar Bocage a um infrene universo de anedotas, anedotas de todos os géneros, incluindo aquelas lendariamente eróticas e satíricas. As polémicas, sobretudo aquelas travadas com o seu inimigo roaz, o frade lagosta, José Agostinho de Macedo, a sua aventurosa errância oriental, o proselitismo generoso dos seus discípulos da Escola Elmanista ou o peso de uma tradição gulosa por situações extraordinárias e insólitas, terão contribuído para mitificar a sua personalidade, vincando a multidimensionalidade da sua vivência e exponenciando a sua genialidade, maestria poética, incluindo o improviso, terreno onde se revelou um temível contendor. Daniel Pires, na apresentação da 7ª edição das Anedotas do Bocage refere que “não é menos verdade que houve editores que, para ganharem dinheiro facilmente, instrumentalizaram o seu nome, optando pelo primarismo e pela obscenidade. Confundiram talvez conscientemente erotismo com pornografia, sensualidade com boçalidade, ironia subtil com sarcasmo”. Até ao 25 de Abril de 1974, Bocage polarizou as anedotas de cunho político porque a liberdade de expressão não existia, mutilando-se assim a sua vera dimensão poética. Do manancial de anedotas cuja autoria lhe é dada, Macau ocupa este lugar absolutamente marginal na sua criatividade: Nicolau Tolentino e Bocage tinham os pés muito grandes e sempre que se encontravam improvisavam epigramas um ao outro. Uma vez disse Tolentino a Bocage: Eram três juntas de bois E daqueles mais selectos A puxar pelos teus sapatos E os teus sapatos quietos. Bocage respondeu: Se o Padre Santo tivesse Um pé dos teus, Nicolau Podia, mesmo de Roma Dar beija-pé em Macau. 42 ANTÓNIO ARESTA
  • Pouco mais do que a veia cómica e vagamente anti-clerical se pode realçar neste improviso. Daniel Pires adiciona esta preciosa informação: “em Macau, faz parte do patois local a palavra bocagem que, sintomaticamente, significa anedota”. Cândido de Figueiredo registou no seu dicionário, em 1913, a palavra “bocagem” como sendo um termo brasileiro do sul que significa “palavreado”. A mesma origem? 43FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • CONDE DE ARNOSO Numa jubilosa carta de 1889, Eça de Queiroz agradecia reconhecidamente ao seu velho amigo Conde de Arnoso o presente que este lhe enviara, uma “sumptuosa cabaia”, perguntando com ironia, “onde tenho eu sobretudo a pança, para encher aquelas pregas amplas e mandarinais?”. Entretanto no mesmo ano a “Revista de Portugal”, dirigida por Eça, publicava um longo artigo do Conde de Arnoso intitulado “Excursão à grande muralha da China”, mais tarde incorporado num volume memorial. O Conde de Arnoso, de seu nome Bernardo Pinheiro Correia de Melo (1855-1911), também possuía o título de Visconde de Pindela, era secretário particular do Rei D. Carlos, general do exército e escritor que integrou o Grupo dos Vencidos da Vida, juntamente com Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, António Cândido, entre outros. Das suas obras destacam-se Azulejos, De Braço Dado, A Primeira Nuvem, O Suave Milagre ou Villa Viçosa. Era uma personalidade marcante no seu tempo, pertencendo ao círculo de apoio mais chegado à Casa Real, que serviu em diversas missões, algumas das quais no estrangeiro. Partiu para Pekim em 1887, como Secretário da missão chefiada pelo Conselheiro Tomás de Sousa Rosa, Governador de Macau entre 1883 e 1886, e que tinha como objectivo supremo concluir e assinar o Tratado Luso-Chinês, o que aconteceu em Dezembro de 1887. A nomeação de Tomás de Sousa Rosa na qualidade de “Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário em Missão Especial à Côrte de Pekin” gerou um pequeno incidente protocolar com o Governador de Macau, Firmino José da Costa, mas que não chegou a comprometer o sucesso da embaixada. O Conde de Arnoso escreveu o livro Jornadas pelo Mundo: I Em caminho de Pekim: II Em Pekin, que conheceria duas edições, ambas no Porto, uma em 1895 e a outra em 1916. A Sociedade Martins Sarmento, de Guimarães, a sua terra natal, 44 ANTÓNIO ARESTA
  • publicou em separata o pequeno capítulo “Macau”, do citado volume, perto do ocaso da administração portuguesa, em 1995. Estranha-se, contudo, a ausência de uma reedição integral porque é uma obra essencial para o conhecimento da China, oferecendo a visão cosmopolita de um aristocrata português na viragem do século e esteticamente inserido na Geração de 70. É uma perspectiva consistente, informada e pluridimensional sobre a China, reconhecidamente um dos mais importantes testemunhos portugueses no século XIX. Aqui daremos realce a alguns aspectos da sua estadia em Macau, que descreveu de uma forma especialmente patriótica mas sem perder o senso da realidade. A longa e aventurosa viagem começou no dia 22 de Maio de 1887, com a partida de Marselha seguindo para Port-Said, Adem, Colombo, Singapura, Saigão, Hong Kong, Macau, Xangai, Tien-Tsin e Pekin. Regista esta curiosidade, “desde que se entra a bordo dum destes paquetes, o oriente principia a invadir-nos. A maior parte dos criados são chinas, dum grande pitoresco, vestidos com as suas cabaias azuis e brancas”. Anota com um prazer minucioso todos os trajectos efectuados na viagem. Em Singapura, por exemplo, visitou a Escola da missão portuguesa, “causou-me estranheza não ter a missão uma classe em que se ensinasse a nossa língua. O cónego Pinto porém observou-nos que, além da falta de meios para pagar ao professor, os pais só desejam que os filhos aprendam o inglês, pois é só com o conhecimento dessa língua que podem encontrar trabalho nas casas e escritórios comerciais”. Ao aportar a Hong Kong, lá estava a canhoneira Rio Lima, e ao “ver tremular na ponta dum mastro a nossa querida bandeira, até parece, falaz ilusão, sentirmos dentro em nós, numa explosão de justo orgulho, a própria alma dos mais sublimados heróis da gloriosa epopeia portuguesa!”. De resto, “de tudo quanto temos visto por este vasto Oriente nada se pode comparar a Hong Kong”. Embarcados “na canhoneira Rio Lima, levantamos ferro do porto de Hong Kong, pelas oito horas da manhã do dia 23 de Junho, em direcção a Macau. Navegando contra vento e corrente, cinco horas levamos a percorrer as quarenta milhas que separam as duas cidades. Pela uma hora da tarde entravamos na rade em frente da Praia Grande. Com respeito e orgulho olhamos para essas águas, que foram sepultura dum antepassado nosso, Jorge Pinheiro de Lacerda, que pelejando ali pelos tempos da restauração da casa de Bragança, contra os holandeses”. No cais, o Governador, o Bispo, figuras gradas das comunidades portuguesa e chinesa, para receberem o anterior Governador e a sua comitiva. O Conde de Arnoso aponta no seu caderno: “recepção sincera e amiga, que dá a exacta medida de que é sempre possível, a quem se inspira no bem e na justiça, exercer o mando sem alhear simpatias e antes conquistando corações”. Emociona-se, ao “encontrar terra portuguesa, a mais de 3.600 léguas de distância da nossa querida pátria”, percorrendo o Território de lés a lés, anotando que na antiga horta da mitra “está 45FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • edificada a pequena mas elegante escola Príncipe D. Carlos, onde os chinas, com grande benefício para o prestígio do nosso domínio, aprendem o português”. Assiste a manobras militares, espreita com curiosidade uma casa de ópio, observa a lotaria do Vae-Seng, entra em igrejas e templos, visita a Gruta de Camões e afiança que “todo o português que visita Macau não pode esquecer o ir numa piedosa peregrinação à pedra do Amaral, do nome desse bravo e destemido governador, bárbara e traiçoeiramente assassinado pelos chinas”. Apercebe-se que no hospital chinês está sedeado o contrapoder: “É daqui que partem as representações dirigidas pela população china ao governador. Todos os governadores, depois de terem tomado posse, marcam dia para visitar este hospital, onde são recebidos por todo o sinédrio chinês. Pelas paredes leem-se sentenças esculpidas em mármore”. É também um “agradável passeio ao fim da tarde sair num barco da Praia Grande, entrar no porto interior por entre as lorchas com os castelos de proa muito elevados e pintados alguns com ornatos amarelos, vermelhos e dourados e quase todos armados com fantásticas peças de artilharia para se defenderem dos piratas chinas”. Recorda que “o concerto seguido dum baile no palácio do governo na noite de 25 de Junho foi uma festa brilhante”, tendo descoberto os dotes musicais “de maestro do dr. Gomes da Silva, que é ao mesmo tempo um médico e um botânico distintíssimo”. Diz que “a galeria de retratos dos governadores, devida a artistas chinas, é simplesmente detestável. Não se tem ideia do que são esses retratos. Pobres governadores!”. As mulheres de Macau não escaparam á sua observação: “se é certo que das senhoras de Macau se não pode dizer que sejam verdadeiras belezas, na estúpida e estreita acepção desta palavra, é certo também que nos encantam com a sua languida morbideza do seu triste olhar magoado. Toda a macaísta, sem excepção, pode dizer-se, tem as mãos e os pés bonitos. Sabem-no também, que na rua e principalmente aos domingos à saída da missa, mesmo aquelas que usam sempre o dó, e são muitas, encontram maneira de se envolverem nele por forma a deixar ver pé e mão, o que não é fácil. O dó é a velha e comprida mantilha portuguesa, que as macaístas conservam ainda usando-a com requintada elegância”. Um detalhe curioso sobre as louças, “mesmo a nós, que fomos educados no desperdício minhoto de ver comer os criados em fina louça de Cantão, nos choca ver por toda a parte graciosas porcelanas que não destoariam numa sala ao lado de velhas peças de Saxe”. Da persistência ou irredutibilidade dos costumes ficou este apontamento, “mesmo os chinas católicos tem uma grande repugnância em ser tratados por europeus. Nunca perdem inteiramente os prejuízos da sua religião. Dum china, que dizem ser optimo homem e católico, sabemos que preferiu ver morrer de parto a mulher, de quem de resto gostava muito, a consentir que um médico europeu lhe tocasse”. 46 ANTÓNIO ARESTA
  • No dia 28 de Junho embarcou a comitiva com destino a Xangai. Após quatro meses em Pequim, assinado o Tratado que entre outras coisas garantia a “perpétua ocupação e governo de Macau por Portugal” era o tempo de empreender o regresso, “deixavamos definitivamente a China, percorrendo o Japão e a América, com os olhos fitos neste pedaço de terra tão amado, a nossa querida pátria”. Para trás ficou um assombroso mundo descrito ao pormenor, dos bastidores diplomáticos do Tratado até às cenas da vida quotidiana que não cabe aqui desenvolver. Um toque de humor final, “de perna traçada e saboreando um charuto, um dos mandarins, tendo lobrigado o tecido de malha das minhas ceroulas, pediu-me que levantasse um pouco mais a calça para ver o que aquilo era! Satisfiz-lhe a curiosidade, e todos à uma se extasiaram diante de tão simples artigo de toilette”. Umas ceroulas entre o oriente e o ocidente.47FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • EDUARDO DE AZAMBUJA MARTINS O combate contra os piratas na Ilha de Coloane, em 1910 e a escassos meses da instauração do regime republicano em Portugal, tem sido glosado sob diversos modos e formas. Parece-me importante resgatar o depoimento do então Capitão Eduardo Augusto de Azambuja Martins (1877-1966), comandante da 1ª Companhia do Corpo de Polícia de Macau, onde esteve de 12 Novembro de 1909 até 11 de Outubro de 1911. O seu pensamento sobre Macau e sobre a China é deveras interessante, denotando informação e cultura. Dizia ironicamente que “Macau é uma cidade chinesa com mandarins portugueses”. Olhemos então um pouco para o trajecto militar incomum deste lisboeta que cursou o Real Colégio Militar e a Arma de Infantaria, que foi instrutor de esgrima e que era fluente na língua alemã, que esteve em Moçambique onde foi Governador de Inhambane, para além de ter sido membro da Comissão de História Militar, da Comissão dos Padrões da Grande Guerra ou Chefe do Estado Maior da GNR. Duas pequenas notas, ainda, sobre a sua carreira. Uma, o seu empenho “no ataque às hostes monárquicas” chefiadas por Paiva Couceiro. A outra, por ter sido destacado para acompanhar oficialmente a Lourenço Marques o general Von Deventer, comandante em chefe da Força Expedicionária Britânica à África Oriental. Em Macau, o Capitão Azambuja Martins fez parte das forças em operações na Ilha de Coloane, tomando parte nos combates. Recorde-se que foram raptadas 18 pessoas, adultos e crianças e o resgate pedido era de 35.000 patacas, uma soma elevadíssima em Julho de 1910. O covil dos piratas era a Ilha de Coloane, onde a administração portuguesa era írrita ou mesmo nula. O seu depoimento é significativo: “Em 1910, nós exercíamos o cargo de comandante da companhia europeia da polícia, com soldados europeus sem nenhuma preparação, mas que desempenhavam o serviço de polícia, representando a força militar, a qual raramente era chamada a intervir. A tradicional intuição portuguesa ajudava-nos a resolver as 48 ANTÓNIO ARESTA
  • questões exóticas. Todavia foi o caso excepcional do rapto das crianças chinesas pelos piratas em 1910, que ocasionou este curioso episódio de acção policial militar contra os piratas na ilha de Coloane, e o seu julgamento imediato pelas autoridades judiciais militares, com a maior simplicidade, sem as complicações internacionais que seriam de esperar com as autoridades chinesas. Assim se explica que a população chinesa de Macau não apresentasse qualquer reacção nacionalista perante esses acontecimentos, que poderiam assumir uma feição gravíssima. Felizmente, para nós, toda a questão foi resolvida como acção policial interna, coroada por esses julgamentos das autoridades, logo realizados com a maior tolerância possível, e sem qualquer intervenção das autoridades das autoridades chinesas”. Esta operação contra os piratas mobilizou uma força verdadeiramente multicultural chefiada pelos portugueses: “Sob o comando do major Magalhães, que assumiu o cargo de comandante militar, foi nomeada a companhia europeia do corpo de polícia, da qual eramos comandante, reforçada com um pelotão de soldados indianos e outro pelotão de soldados auxiliares chineses da segunda companhia, duas peças de montanha e uma secção de marinheiros europeus”. Os soldados landins, negros de Moçambique, só chegariam a Macau em 1911. Entretanto, o Governador Eduardo Marques faz publicar no Boletim Oficial do Governo da Província de Macau, de 12 de Julho de 1910, a Portaria Nº 103, onde, atenta a excepcional conjuntura, declarava “suspensas as garantias constitucionais em todos os territórios do concelho da Taipa e Coloane”. A imprensa portuguesa estava atenta, publicando os despachos noticiosos das agências Havas e Reuters, frequentemente exagerados e indutores de alarme social. Por exemplo, “A Capital”, diário republicano da noite, na edição de 14 de Julho, titulava na primeira página: “Macau em guerra. Os navios portugueses continuam a bombardear Coloane”. Adivinha-se o sobressalto na opinião pública. O Governador manda para Lisboa, em 14 de Julho, o telegrama seguinte: “Hoje duas horas da tarde fui procurado oficial marinha chinesa canhoneira Kiang Tai portador ofício assinado Wu King Yung comandante forças mar e terra chinesas imediações Coloane exprimindo satisfação Governo Chinês pelas medidas tomadas por este Governo na repressão pirataria e pondo minha disposição serviço navios e tropas sob suas ordens”. Por aqui se infere que as autoridades chinesas acompanharam o desenrolar da situação, confiando na prontidão operacional das forças portuguesas, assumindo-se como uma reserva estratégica. Noutro telegrama, expedido a 25 de Julho, o Governador Eduardo Marques reporta: “Águas vizinhas Coloane estacionam nove canhoneiras chinesas. Comandante forças chinesas veio hoje bordo canhoneira “Macau” pessoalmente reiterar agradecimento encarecendo serviço prestado à China e visitou crianças libertadas reconhecendo sete como roubadas da escola San Neng”. Com a tranquilidade restabelecida, Eduardo de Azambuja Martins reflecte: 49FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • “Em Macau, perante a enormidade da China, misteriosa e impenetrável, nós não podemos saber o que será o dia de amanhã; mas para nós portugueses, sobreleva a todos os deveres, aquele de manter a tradicional soberania portuguesa. É verdade que a Colónia vegeta há séculos, desde o advento da navegação a vapor, mas o Império Português deverá ter sempre esperança em melhores dias de prosperidade naquelas ricas paragens”. Nesse mesmo dia 25 de Julho, “A Capital” num artigo de fundo, intencionalmente colocado na primeira página, lança um balde de água fria: “Em Macau, os ministros desfazem, os soldados refazem”, terminando desta forma inusitadamente violenta, “a questão da delimitação modificou-se, porque os nossos soldados refizeram pela sua bravura, o que os nossos ministros tinham desfeito com a sua cobardia”. Era uma alusão muito explícita ao fracasso das Conferências de 1909, protagonizadas pelo Comissário Régio José Joaquim Machado e pelo Comissário Imperial Gao Erqian. Terminadas as operações militares, o Capitão Eduardo de Azambuja Martins recebe o seguinte louvor: “Louvado pela inteligência, zelo inexcedível, boa vontade e extraordinário bom senso com que desempenhou o cargo de chefe, interino, da Repartição Militar do Q. G. da Província de Macau, tendo sido sempre um dos mais valiosos cooperadores e auxiliares do Governo da Província”. O Rei D. Manuel II remeteu ao Governador de Macau o seguinte telegrama: “24-7-1910 – Bussaco – Governador de Macau – Tendo terminado com tanto brilho operações ilha Coloane envio-lhe minhas mais sinceras felicitações peço-lhe meu nome transmita forças de terra e mar sinceras felicitações terem mais uma vez mostrado no Extremo Oriente valor das armas portuguesas levantando assim nome de Portugal. Muito afectuosamente. – MANUEL REI”. Sem o saber, era a última mensagem que o Rei enviava para Macau. A República estava a chegar, o que realmente aconteceu com o telegrama do Ministro da Marinha, Azevedo Gomes, no dia 10 de Outubro. Como este pormenor ficou esquecido, foi preciso dizer no dia seguinte, que “a bandeira nacional encarnada e verde com tralha encarnada”. Parece lícito aventar a hipótese de a ilha de Coloane, e por arrastamento Macau e a Taipa, ter sido salva pela bem sucedida operação contra os piratas. Era a prova de vida da soberania portuguesa. O mesmo já não sucedeu com as Ilhas da Lapa, Dom João e Montanha, lentamente abandonadas a uma inércia metódica. Ainda assim, a Capitania dos Portos de Macau, em Julho de 1910, emitiu 247 licenças para as embarcações fundearem na Ilha da Lapa, ao mesmo tempo que assegurava a manutenção de “duas boias cónicas, vermelhas, entre a ponta sueste da Ilha da Lapa e a nordeste da Ilha de Dom João”. Eduardo de Azambuja Martins, a pensar na versatilidade que a aviação militar oferecia para a defesa do Território, notava que “possuímos, ao norte de Macau, um pequeno aeródromo que convém melhorar, sendo possível com fáceis aterros, constituir grandes pistas”. 50 ANTÓNIO ARESTA
  • A vida continuava o seu curso. O missionário e pároco de Coloane, António Morais Sarmento, foi nomeado em 18 de Julho de 1910, Chantre da Sé Catedral de Macau. No dia 25 de Agosto de 1910 tiveram lugar as “solenes exéquias na Sé Catedral desta cidade, sufragando a alma do falecido Coronel Vicente Nicolau de Mesquita”, o primeiro sinal da reabilitação pública e oficial da memória e do legado dessa importante figura. Eduardo de Azambuja Martins, a 27 de Setembro, profere uma conferência no Grémio Militar, sobre a Guerra Peninsular a propósito do Centenário da Batalha do Bussaco. Sempre atento, o jornal “A Verdade” pede a publicação integral da conferência “para elucidação das gentes e educação de muitos”. Olhando para os Editais, constata-se que o Conservador do Registo Predial servindo de Juiz de Direito de Macau, Camilo Pessanha, tinha muito trabalho no Tribunal Judicial de Macau, acumulando a leccionação da cadeira de História da China, no Instituto anexo ao Liceu de Macau, onde a Língua China era assegurada por Pedro Nolasco da Silva. Com o objectivo de se organizar uma força de reserva, Eduardo de Azambuja Martins é nomeado para integrar a comissão organizadora da Sociedade de Atiradores Civis de Macau. A Portaria nº 76, de 20 de Abril de 1911, assinada pelo Governador interino, Álvaro de Mello Machado, justifica esse objectivo: “Macau se bem que na sua história conte factos brilhantes para os seus milicianos, tem esquecido instituições como o Batalhão Nacional (1849 a 1898) ou o Corpo de Voluntários formado em 1900 ao passar a nuvem dos Boxers”. Este sobressalto cívico militarizado teve uma vida efémera. Eduardo de Azambuja Martins tem uma bibliografia extensa. Publicou os seguintes estudos dedicados a Macau, lamentavelmente esquecidos: “Confins Militares de Macau” (1910), “O Mais Antigo Clássico Militar” (1912), “Fastos Militares de Macau” (1926) , “Homenagem a Macau” (1949), “Coloane, Operações Militares Contra Piratas, 1910, Macau” (1951). Na sua folha de serviço estão averbados numerosos louvores. Entre as suas condecorações avultam a “Medalha de Prata de Comportamento Exemplar”, “Medalha Militar de Prata, da classe de valor militar, com palma dourada”, Medalha de Ouro comemorativa das campanhas do exército português, com a legenda ‘Moçambique 1914 a 1918’, Comendador da Ordem Militar de Aviz, Medalha Militar de Ouro, da classe de bons serviços, com palma dourada, Cruz Vermelha da Benemerência, Cruz de Guerra de 2ª classe, Grande Oficial da Ordem Militar de Aviz, Oficial da Ordem da Coroa da Bélgica e a Medalha da Vitória com estrela de prata. Passou à reserva em 1947 com a patente de coronel. 51FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • ÉNIO RAMALHO Énio da Conceição Ramalho (1916-2013) foi a todos os títulos uma figura intelectual singular, um macaense discreto, ora em Portugal, ora em Macau, com uma notabilíssima carreira no ensino liceal, na investigação, na criação literária e com largas investidas pela música ou pela pintura, paixões antigas de resto. Frequentou o ensino primário e o ensino liceal na sua terra natal, em Macau, e por causa da pequenez da urbe terá tido, com certeza, a oportunidade de se cruzar nas ruas com Camilo Pessanha, com D. José da Costa Nunes e com Manuel da Silva Mendes. Quando entrou no primeiro ano, o Liceu tinha pouco mais de 100 alunos e o Reitor era o professor Carlos Borges Delgado. Na ‘Revista Macau’, a propósito do centenário de Liceu, em 1993, Énio Ramalho assinou um pequeno artigo justamente intitulado, ‘Tudo começa no Liceu’ onde desfia as suas recordações: “Dirigia nesse tempo o Liceu o Dr. Borges Delgado, que durante anos deu à escola o melhor do seu esforço. Teve a virtude de condimentar a aridez da vida escolar, fomentando o gosto pela música, sendo ele mesmo, o ensaiador e director da primeira tuna académica do Liceu. Também introduziu, como actividade extra-curricular, a prática teatral. Era também o Reitor quem dirigia os ensaios, quer da tuna, quer do teatro, numa das salas do velho edifício do Liceu, situado junto ao campo de Tap Seac, onde aos domingos se disputavam os jogos de hóquei em campo”. O professor Camilo Pessanha era então uma figura lendária: “Aí, na escola, leccionou e foi escutado com admiração”. Estudou música na ‘Schola Cantorum’, que funcionava na Igreja de São Lourenço, sob a orientação do padre açoriano Mateus das Neves. Em 1935, com 19 anos de idade, inscreve-se no curso de Filologia Germânica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Poucos estudantes macaenses iam prosseguir os estudos em Portugal. Ele próprio frisa esse aspecto: “Só a partir de certa altura, por volta dos anos trinta, ou finais dos vinte, alguns estudantes mais 52 ANTÓNIO ARESTA
  • afoitos quiseram demandar estudos superiores, o que implicava uma longa viagem por mar, de mais de 30 dias, até à metrópole”. Macau, nesse ano de 1935, estava embalada na consolidação da sua identidade cultural, a começar pela comemoração do Dia de Camões. O Chefe da Repartição do Gabinete, Filipe Augusto do Ó Costa, faz publicar o programa: “Às 17.30 horas do dia 10 de Junho próximo prestar-se-á homenagem no Jardim de Camões ao imortal Poeta, glória da nacionalidade, devendo comparecer os alunos das Escolas portuguesas e chinesas com os respectivos professores e um pelotão de cada uma das unidades militares, aquarteladas nesta colónia, bem como contingentes das corporações militarizadas. Usarão da palavra os senhores capitão José da Cruz Ribeiro e Ung-Chi-Lim, professor da Escola Chinesa Secundária Song Sat”. Em Coimbra, Énio Ramalho conclui o curso com distinção, em 1939, apresentando uma tese sobre “Aldous Huxley – o intelectual perante os homens e a vida”, que será publicada na prestigiada revista ‘Biblos’ e editada em separata, em 1942, o que era uma segura indicação da sua originalidade e do seu valor. Recebe do Instituto Britânico o prémio para o melhor aluno do curso. Finaliza igualmente o Curso de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras de Coimbra. Após o estágio no Liceu Normal D. João III, em Coimbra, inicia uma longa carreira docente que o levará a Lisboa, a Viseu, a Macau e à Póvoa de Varzim. Em Macau foi Reitor do Liceu Nacional do Infante D. Henrique (1964-1967) e simultaneamente Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Educação. Deixo aqui assinaladas algumas das suas obras didácticas e pedagógicas que conheceram sucessivas edições: “Caderno de Gramática Inglesa” (1946); “Gramática de Língua Inglesa” (1958); “Gramática da Língua Inglesa para o 2º Ciclo dos Liceus” (1959); “Guia de Conversação Inglesa” (1959); “Dicionário Essencial Inglês-Português” (1961); “Estampas para as Aulas de Conversação de Francês e de Inglês” (1966); “English Student’s Book” (1973); “Dicionário Estrutural Estilístico e Sintáctico da Língua Portuguesa” (1985). Incursões literárias, poderemos encontrá-las em “A Princesinha na China” (1981) e “O Menino das Estrelas entre os Doutores” (1998). Neste volume de ficção futurista, cuja capa e contracapa reproduzem duas pinturas do autor, encontramos um subtil relance autobiográfico: “Tive um tio que era um excelente professor e possuía uma boa biblioteca, que deixou à viúva, com quem agora vivo. Muitas vezes eu ia às escondidas tirar um livro para dar uma espreitadela. Ele só tinha livros difíceis, sobre a educação, a sociologia, a política, e coisas do género. E ralhava-me, dizia que tais leituras só me faziam mal à cabeça. Mas eu gostava. Também havia livros sobre as naves inter-planetárias. Esses eram os meus preferidos”. Ficou inédito um anunciado livro dedicado à China. Escreveu um ensaio sobre “A Pintura Chinesa”, 53FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • publicado no Boletim do Instituto Luís de Camões, de Macau. Com muito interesse também, a conferência “O Valor Intrínseco da Palavra na Estruturação da Linguagem Poética”, proferida em 1998, e publicada em 2001 no livro “Reencontro com o Dr. Luís Amaro de Oliveira, o professor e o amigo”, uma excepcional e rara evocação, para o contexto mental português, de um grande professor do ensino liceal. Tradutor de William Shakespeare e de inúmeros outros autores, foi também este o modo que Énio Ramalho encontrou para aproximar culturas e povos e exercer um magistério cultural perante os seus concidadãos. E sobre a tradução deixou uma maturada reflexão: “Mas adaptar ideia e forma numa versão para outra língua só é possível, em parte, pois que para tanto há que deturpar a forma original, se não, também, a ideia. Quisemos, porém, fazer a experiência. Tentamos traduzir, para português, algumas composições poéticas da vetusta China, correndo mesmo o risco de desnudar a atmosfera poética do original. Não pudemos, por desconhecer a língua, ter acesso aos originais, pelo que nos servimos da tradução inglesa de Arthur Wally, da obra ‘Chinese Poems’. Na poesia da velha China intervém o elemento religioso, o popular, o aristocrático e o panteísta, este último reflectindo uma veneração dos fenómenos da natureza”. E pelo que aqui se vê, fará todo o sentido empreender um bosquejo bibliográfico dedicado a Énio Ramalho. Vou deter-me um pouco no seu pensamento antropológico, consubstanciado em duas outras publicações, injusta e misteriosamente esquecidas nas bibliografias e nas antologias sobre a história e a contemporaneidade de Macau. A primeira é “Macau, Lembrança Doutros Tempos…”, uma edição do Rotary Club de Viseu, sendo uma “Palestra proferida no Rotary Club de Viseu em 20-01-1951, em sessão dedicada ao Rotary Club de Macau”. Após uma inevitável contextualização histórica, em jeito de lição, recorre à memória emocional para relembrar a sua cidade, “ao longo da baía murada, rente ao mar, um cordão de velhas árvores copadas ensombrava a estrada marginal, ao mesmo tempo que dava mais côr à paisagem. Atrás, os edifícios alinhavam-se numa extensão de mais de um quilómetro: boas construções, casas limpas, brancas, arejadas; outras amarelas, côr de rosa. Predominavam os tons claros e alegres. No primeiro piso, longas arcadas com passeio interior ofereciam abrigo aos transeuntes em dias de chuva e calor; casas particulares, algumas lojas, uma ou outra repartição pública, um ou outro hotel e o Palácio do Governo. Percorre toda a baía um nunca acabar de construções, que se estendem gostosamente por sobre as águas mansas”. Esta vivida descrição terá provocado certamente nos seus ouvintes em 1951 o desejo de conhecer essa “fascinante e longínqua jóia do império português”. E como se caracterizava a comunidade portuguesa? Énio Ramalho apressa-se a responder: “A população portuguesa da colónia leva uma vida bem diferente da indígena: constituída quase na totalidade por famílias de funcionários, ela divide as suas horas entre os afazeres 54 ANTÓNIO ARESTA
  • da repartição e um ou outro passatempo habitual: reuniões familiares, partidas de ténis à tardinha, e, no verão, o mar. Há campos de jogos, onde os rapazes se alongam na prática do desporto. As crianças frequentam as escolas e o liceu, que conta cerca de 150 alunos. Há ainda uma escola secundária do comércio, um seminário, um colégio feminino dirigido por religiosas com numerosa frequência. O nível médio de instrução é elevado. De entre a população portuguesa natural da colónia não há um único analfabeto, e poucos são os que não tenham frequentado uma escola secundária. Há também uma escola luso-chinesa e inúmeras escolas chinesas, com uma população escolar de cerca de 30.000 jovens. Existe um jornal diário escrito em língua portuguesa e vários em língua chinesa. Uma guarnição militar metropolitana defende a cidade e encontra-se aquartelada em pontos estratégicos nas suas principais elevações”. Mas não deixa de reflectir em voz alta sobre as consequências da segunda guerra mundial na guerra civil chinesa, sobretudo no amanhecer do comunismo, com as óbvias consequências para Macau: “Metida entre duas guerras, a colónia viu subir assustadoramente os preços dos artigos, e mal se sabe ainda quando as coisas voltarão ao nível primitivo. Nuvens negras surgem no horizonte e são indício de novas tormentas. Os corações pulsam oprimidos pelo terror do que está para vir, pois a tempestade que agora ameaça os homens é outra. Dividem-se as hostes em cada campo, e as almas interrogam ansiosas: onde irá acabar tanta luta, tantos sacrifícios, tantas convulsões neste mundo atormentado? Mas a tempestade ruge mais forte para as bandas do Oriente, e Macau, pequena cidade multissecular reclinada sobre as águas mansas do rio, sente-se como todas as outras ameaçada. Pobre terra e pobre gente! Quatro séculos de luta pertinaz, de paciência, de coragem, de tacto diplomático, firmaram em terras do Oriente distante um cantinho de Portugal que hoje é nosso. Homens da minha terra! O espírito que através dos tempos vos tem ligado à Nação e mantido intacta a terra da Pátria no Oriente não permitirá que ela se perca”. Um optimismo muito cauteloso, dado o contexto regional, político e militar, absolutamente avassalador. A segunda publicação intitula-se “Coexistência Cultural”, uma edição do Centro de Informação e Turismo, de Macau, e resulta de uma “Palestra proferida pelo Reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, Dr. Énio Ramalho, no dia 11 de Maio de 1964, no Leal Senado da Câmara de Macau, por ocasião do encerramento da Semana do Ultramar”, inserida nas “comemorações do XL aniversário da Revolução Nacional”, cuja comissão provincial integrou as seguintes personalidades: presidente (governador da província, António Adriano Faria Lopes dos Santos), vice-presidente (Adolfo Adroaldo Jorge, presidente da comissão provincial da União Nacional), vogal (Armando da Mota Cerveira, comandante militar de Macau e presidente do Leal Senado), vogal (Francisco Martins, comandante da defesa marítima), vogal (Octávio Galvão de Figueiredo, comandante da PSP), vogal (Manuel 55FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Barnabé Lopes, chefe dos Serviços de Fazenda e Contabilidade), vogal (Énio da Conceição Ramalho, chefe dos Serviços de Educação), vogal (Joaquim Morais Alves, chefe de secção interino dos Serviços de Saúde e Assistência e presidente do Conselho Provincial de Educação Física). A complexa arte da coexistência foi sempre um dos segredos da sobrevivência de Macau, como Wu Zhiliang magistralmente demonstrou na sua tese de doutoramento. Estranhamente ou não, algumas questões que Énio Ramalho formulou permanecem intactas na sua radicalidade: “Mas, que povo é este que nos rodeia, como vive e como pensa, que costumes são os seus? Que interesses nos ligam, quais as lições a colher desta gente laboriosa, que nos concede as primícias do seu solo, nos empresta os braços para o desbravar, a excelência do seu espírito inventivo, os produtos do seu labor paciente – a troco duma administração multissecular que dá a este pedaço de terra aquele toque de lusitanidade, e aos seus costumes certo sentido cristão e europeu?”. O conhecimento do Outro, uma alteridade compreensiva, deverá ser uma construção feita em duas fases. Énio Ramalho desenvolve assim o seu pensamento: “Julgamos que a primeira tarefa a empreender é a de que as obras dos nossos poetas e escritores sejam traduzidos para a língua chinesa, uma vez que são em pequeníssimo número os chineses capazes de ler e entender a língua portuguesa; e não só a nossa literatura como a nossa arte em todas as suas facetas, e também a nossa história, todo o esforço criador na ciência da navegação e descoberta. Não pensamos que até agora se tenha feito qualquer tentativa séria nesse sentido. Na literatura, por exemplo, Camilo Pessanha, artista de rara sensibilidade que esculpiu em rimas de cristal muito das belezas e do exotismo da China, não é mais do que um desconhecido nesse país. De Camões, cuja obra merecia ser divulgada no Oriente, cremos que pouco mais conhecem além da velha gruta”. A coexistência cultural deve ir mais longe na sua reciprocidade: “A coexistência deverá significar não apenas a presença física de dois povos que ocupam o mesmo espaço geográfico, e que em tudo mais se mantém estranhos um ao outro; esses serão, quando muito, dois inquilinos do mesmo prédio, pagando em comum as obrigações relativas à conservação daquele. A verdadeira coexistência terá de significar qualquer coisa de mais profundo, com raízes na alma e no entendimento: há-de traduzir-se na aproximação e intercâmbio dos espíritos, a compreensão mútua, – o conhecimento recíproco de quanto diga respeito a cada um deles: a sua história, os seus usos e costumes, a sua arte, e o papel que a cada um coube adentro da missão civilizadora dos povos”. Este pensamento heterodoxo teve a virtualidade de reconhecer que na balança da coexistência luso-chinesa ou sino-portuguesa pesaram mais os afectos, as cumplicidades e os negócios, ao passo que a cultura em todas as suas facetas e a aprendizagem das línguas tiveram um peso pluma. 56 ANTÓNIO ARESTA
  • A exortação, “Povo da China! nós te saudamos ao cabo de 4 séculos de convívio fraterno”, sintetiza bem a sinceridade do autor que acreditava que a coexistência começava por este primeiro passo. Pouco tempo depois, em 1966, o Território é abalado pelo pequeno sismo ideológico conhecido por um-dois-três, com radicalismos e devastações. Macau, esse continuou porque a coexistência era uma realidade viva e mais poderosa do que as episódicas divergências. Fazendo o balanço do passado, não tem hesitações: “O Liceu foi, e tem sido, durante largos anos um agente modelador de mentalidades e foi, sem dúvida, a zona de confluência de duas culturas, a ocidental e a oriental. Teria por força de ser assim ser, dada a presença envolvente da China com a sua espiritualidade milenária a influenciar os seus vizinhos seculares – através da língua, do seu teatro tradicional, carregado de simbolismo, recheado de guerreiros lendários da antiga história pátria, e através da sua música, que diariamente espalha as cinco notas de caprichosa tessitura melódica pelos cafés e casas de pasto”. A arte da coexistência foi a magna lição de Énio Ramalho.57FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • FERREIRA DE CASTRO Neste ano de 2016 celebram-se os 100 anos de vida literária de José Maria Ferreira de Castro (1898-1974), um dos mais laureados escritores portugueses, com duas grandes exposições bibliográficas e documentais, uma na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, e a outra, na Fundação Eng.º António de Almeida, no Porto, coordenada por Paulo Samuel. Num tempo marcado pelo desleixo relativista, o muito que se faz parece pouco para resgatar tamanha obra do esquecimento. E Ferreira de Castro merece ser lido até pela constelação de valores morais que irradiam da sua obra. Evoco aqui Ferreira de Castro em virtude da sua passagem por Macau, no âmbito da grande viagem que empreendeu e que se transformou no livro “A Volta ao Mundo”. Nas suas palavras, “esta obra, escrita durante o mais violento drama que, até hoje, houve no mundo, foi começada em 1940 e concluída em 14 de Agosto de 1944, acabando de imprimir-se em Outubro do mesmo ano”. A edição mais popularizada, foi, curiosamente, uma edição luxuosa, com fotografias e gravuras de inegável qualidade gráfica, em grande formato, publicada em fascículos pela Empresa Nacional de Publicidade. Fez as delícias das famílias ávidas de uma literatura de viagens, escrita por um português, com uma narrativa poderosa que trazia o pulsar do mundo longínquo e misterioso para o conforto do lar. Observe-se o itinerário seguido por Ferreira de Castro: Lisboa-Gibraltar-Argélia-Sicília-Grécia-Turquia-Iraque(Mesopotâmia)-Índia-Birmânia-Península de Malaca-Borneu-Sião- Indochina-China-Japão-Honolulu-Estados Unidos da América. Uma grande aventura, sem sombra de dúvida. Ferreira de Castro já tinha publicado “Emigrantes” (1928), “A Selva” (1930), “Eternidade” (1933), “Terra Fria” (1934) e “A Tempestade” (1940). Estava traduzido para inglês, alemão, russo, francês, italiano, holandês e espanhol. Era um trabalhador incansável, dividindo a sua vida entre o jornalismo e a literatura. 58 ANTÓNIO ARESTA
  • Pareceu importante, ao autor destas linhas e a Celina Veiga de Oliveira, que o capítulo dedicado a Macau e à China pudesse ser editado autonomamente de “A Volta ao Mundo”. Para ser lido e conhecido pelas novas gerações, sobretudo em Macau. Apresentámos essa ideia a Joaquim Madeira de Carvalho, então Presidente da Câmara Municipal das Ilhas, que logo a agarrou com entusiasmo. Foi, no entanto, muito mais longe, porque providenciou uma versão chinesa que seria feita por Chau Heng Chon. Com a autorização expressa da Família de Ferreira de Castro, foi apresentada a obra sob o título, “Macau e a China”, um volume em português e outro volume na língua chinesa, por ocasião das comemorações do Dia das Ilhas, em 1998. Ferreira de Castro como experimentado repórter que era, preparou-se intelectualmente para conhecer Macau, essa “Cidade de Lilipute”, como então a apelidou. No seu espírito devem ter ficado a pairar algumas lembranças da I Exposição Colonial Portuguesa, organizada por Henrique Galvão, no Palácio de Cristal, no Porto, em 1934, e onde Macau se destacou pelo seu singular exotismo. Ferreira de Castro não se quedou pelas informações turísticas, consultou as obras de Charles Boxer, Jaime do Inso ou Francisco Monteiro. Suspeitando o que iria encontrar, mesmo assim não deixa de manifestar a sua perplexidade: “Dirigimo-nos, mais tarde, ao Hotel da Bela Vista, que espairece junto da colina da Senhora da Penha. Ao subirmos as suas escadas, vamos interrogando, em português, a quantos empregados vemos. Mas nenhum deles sabe a nossa língua. Verificamos, depois, que em toda a Macau se passa, geralmente, a mesma coisa”. Quase todos os relatos de viajantes insistem nessa desmoralizadora evidência, a escassa utilização da língua portuguesa, mas jamais referem as circunstâncias históricas desse contexto. Apesar de tudo, nota-se que é com muita satisfação que regista alguns traços de portugalidade: “Do lado oposto, velhas casas, velhos solares, janelas e varandas de Portugal, numa atmosfera lusitana de outrora. As flores, as cores das paredes, as vidraças em guilhotina, até a soledade e um certo silêncio do sol lembram as antigas vilas portuguesas. As próprias ruelas que grimpam pelas declividades acusam a pitoresca toponímia dos burgos lusíadas dos séculos idos: Beco da Agulha, Travessa dos Algibebes, Forte do Bom Parto, Rua das Amas, Pátio da Canja, Travessa do Enleio, Travessa das Saudades, dezenas de outras com igual sabor popular”. Contudo, olha para a comunidade chinesa com respeito e admiração: “O povo chinês extraordinariamente inteligente, mostra-se, na sua generalidade, portador de elevadas qualidades humanas”, não se esquecendo de mencionar que, “Na colónia de Macau vivem hoje 240.000 chineses, muitos deles refugiados de guerra, e cerca de 4.500 portugueses, dos quais três ou quatro centenares nascidos em Portugal”. 59FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Calcorreia com enlevo as ruas da cidade e detém-se por aqui: “Atravessamos os bairros novos e subimos a outra colina, a de Camões. No seu glauco sopé fecha-se um vetusto cemitério protestante, com as marmóreas sepulturas em forma de caixas quadrilongas. Nestas velhas tumbas encontram-se alguns dos primeiros europeus que morreram no Extremo Oriente, sobretudo alguns magnates ingleses da famigerada Companhia das Índias, senhores que foram de milhentas traficâncias e de fabulosas riquezas, agora em repouso e olvido entre as bravas ervas que crescem em derredor de seus mausoléus”. Vê o povo, sem preconceitos, quase dentro da estética neo-realista, “E os velhos sentados na soleira a verem-nos passar com a sua fatigada vista e muitos meninos chineses de olhos enviesados e cabeça redonda, que são os meninos mais bonitos do Mundo inteiro”. Deixa este recado, em jeito de raspanete, dirigido a alguns sectores de opinião que dão mostras de não serem isentos, “Tem-se clamado muito contra a imundície na China e os que o fazem parece esquecerem que na Europa há muita imundície igual. Tudo quanto vimos nestas pobres aldeias não é pior do muito que temos visto na maioria dos países latinos, incluindo o nosso, em todas as terras árabes e em outros centros de gordo turismo”. Acredita que as novas ideias irão mudar as mentalidades na China: “O progresso dos transportes, que viola hoje as profundidades onde se mantinha, como num reduto, o velho carácter chinês, e este espírito de insatisfação que, no nosso século, paira sobre o Mundo inteiro, impeliram a China a hospedar novas ideias e a transformar-se, de ano para ano, num ritmo que não conheceram os séculos anteriores”. Isso não será nada fácil, pois reconhece que “Novas e ásperas lutas, internas e externas, se travarão ainda, certamente, mas tudo sugere que delas a China sairá metamorfoseada”. Esta reflexão final merece ponderação: “Passamos a vida a desejar conhecer o Oriente e, quando, enfim, chegamos a certas regiões do Oriente, o nosso desejo é partir, para não sofrermos com as espantosas vicissitudes dos nossos semelhantes, para não assistirmos, num continente que os próprios elementos martirizam periodicamente, a uma vida que se caracteriza pelas mais trágicas expressões. A literatura exótica, muitas vezes bela como arte, tem sido quase sempre falsa como documento”. Esse desejo de compreender o mundo foi retomado, entre outros, por Hannah Arendt, que assumiu a responsabilidade de pensar com radicalidade essas situações-limite. Caro leitor, vale mesmo a pena ler ou reler “Macau e a China”, esse capítulo de “A Volta ao Mundo”. Talvez se abalance pela leitura de outras obras de Ferreira de Castro.60 ANTÓNIO ARESTA
  • JOÃO DE ARAÚJO CORREIA A propósito dos noventa anos do falecimento de Camilo Pessanha, parece-me interessante convocar algumas histórias e controvérsias que andam por aí perdidas ou arredadas da sua arquitectura biográfica. E como escrevia Guimarães Rosa, narrar é resistir. Evoco aqui João de Araújo Correia em virtude do seu interesse e admiração por Camilo Pessanha e pela sua família. Em diversos artigos publicados no suplemento literário do jornal “O Comércio do Porto” (outrora um grande jornal, fundado em 1854 e que cessou a publicação em 2005), na década de sessenta, ajudou a trazer uma enorme visibilidade a Camilo Pessanha, sobretudo a alguns aspectos mais negligenciados da sua biografia. Foram esses apontamentos recolhidos nos livros “Ecos do País” (1969), “Pó Levantado” (1974) e “Nuvens Singulares” (1975). De resto, “O Comércio do Porto”, dedicou a Macau uma invulgar atenção, tendo acolhido, por exemplo, as “Cartas da China”, informativas e polémicas, de José Gomes da Silva, que ainda permanecem desconhecidas. E sem esquecer a longa colaboração de Wenceslau de Moraes. João de Araújo Correia (1899-1985), natural da Régua, médico e escritor, considerado um dos grandes contistas portugueses contemporâneos, o “mestre de todos nós”, na expressão feliz de Aquilino Ribeiro é, infelizmente, uma figura literária bastante esquecida. Entre a sua vasta obra, destacam-se “Contos Bárbaros” (1939), “Três Meses de Inferno” (1947), “Montes Pintados” (1964), “Enfermaria do Idioma” (1971), “Uma Sombra Picada das Bexigas” (1973) ou “Pátria Pequena” (1977). Ferreira de Castro dizia que “João de Araújo Correia é um poderoso escritor. Um dos melhores contistas que tem tido a nossa língua”. Todas as informações sobre Pessanha, recolheu-as João de Araújo Correia de várias fontes, quase todas apertadas por laços de amizade. Desde logo, uma amiga do Porto, Sofia Agrebom, farmacêutica, professora no Liceu de Macau e directora 61FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • do jornal a “Verdade”, ela mesmo uma interessante figura a resgatar do olvido. Foi ela que lhe emprestou o exemplar da “Verdade”, de 2 de Junho de 1910, onde estava transcrito o essencial de uma conferência de Camilo Pessanha sobre a estética chinesa. João de Araújo Correia nota “que a folhinha de Macau resume sem a deturpar. Cinge-se à súmula que o poeta lhe forneceu. Mas, quantas vezes a súmula é roupa de franceses em mãos defeituosas. No céu esteja a “Verdade”, que não esfarrapou o extracto fornecido por Camilo Pessanha”. Recordar ainda que foi Miranda Guedes, conterrâneo da Régua e director das Obras Públicas de Macau, que fez a apresentação de Pessanha, no Grémio Militar, enfatizando “a maneira musical de segredar os versos, nunca esquecível por quem os ouviu”. Miranda Guedes era amigo de António José de Almeida e logo após a instauração do regime republicano em 1910, foi nomeado governador de S. Tomé e Príncipe. João de Araújo Correia privou muito de perto com o padre Jerónimo de Matos, amigo do Pai de Pessanha, que lhe confidenciou, “havias de ver as cartas que ele escrevia ao pai. Cartas maravilhosas”. E acrescenta, “recordo o padre Jerónimo e o fascínio que lhe produziam as cartas do poeta escritas a seu pai. Onde parará essa correspondência?”. Algumas dessas cartas foram preservadas e publicadas, mas, suspeita-se que a grande maioria se tenha perdido. As três pequenas histórias, narradas por João de Araújo Correia, ajudam a recortar melhor o perfil psicológico de Camilo Pessanha e a sua fulgurante inteligência, também o modus vivendi de Macau. As histórias valem o que valem, insiro-as no léxico da desconstrução, segundo a perspectiva cunhada por Jacques Derrida. O ethos de Camilo Pessanha e o pathos de Macau jamais estiveram em sintonia porque o sistema de valores e as tradições enraizadas foram vividas e pensadas com uma energética contraditória e desalinhada. A primeira história: “O poeta, desterrado em Macau, onde exerceu vários cargos propiciados pelo seu grau de bacharel em Direito, não podia ver na sua frente, modo de dizer, uma figura que por ali passava, certo cavalheiro que não era filho do Juiz Pessanha, isto é, que não era homem de carácter. De uma vez que o poeta, na Praia Grande, conversava com um grupo de amigos, entrou na roda o tal sujeito. Mas, não se demorou. Disse duas tretas e logo se despediu. Camilo Pessanha, com grande espanto do adjunto, correspondeu à despedida com uma zumbaia tão meticulosa, que varreu com a barba o chão da Praia Grande. Um dos amigos, chumbado com o disparate, murmurou: o doutor não gosta do rapaz, mas, quando ele se despediu… Réplica de Camilo Pessanha: está enganado, meu amigo. Quanto mais baixo é o indivíduo, mais baixo é o meu cumprimento”. A segunda história: “De outra vez, na mesma Praia Grande, que é uma avenida à beira mar, como a de Carreiros, aí na Foz, juntou-se o mesmo grupo. Daí a pouco, entrou nele um poetastro, um escritorelho ou literatelho. Entrou e saiu. 62 ANTÓNIO ARESTA
  • Pouco se demorou, mas, não foi sem rabo-leva. Pespegou-lho nas costas, em forma de epigrama, o Camilo Pessanha. Ia o mísero a dois passos, perguntou o poeta: querem ouvir? Não disseram que sim nem que não os amigos de Camilo Pessanha. Mas, viram-lhe sair da boca a seguinte quadra: Cabeça! Que desconsolo! Até faz pena dizê-lo! Por fora, nenhum cabelo! Por dentro, nenhum miolo!“ João de Araújo Correia acrescenta este incisivo comentário: “Teve Camilo Pessanha ocasião de poetar repentino, fluente, natural como se lhe assistisse, em Macau, a alma de Bocage. Esqueceu as preocupações crucificadoras do simbolismo. Se assim se pode dizer, esqueceu-se de si próprio para ser ele próprio, isto é, folha de vide ancestral, sem enxerto em pé estranho, sem pitada de enxofre nem sulfato”. Cabe perguntar, que destino levou essas poesias soltas e repentistas? A evocação de Camilo Pessanha fica assim rematada com esta terceira história: “Com este meu bilhete, quis render o meu culto de lamparina aldeã a um poeta que foi um grande artista. Pena é que a abolia congénita, o ar de Macau, o ópio e a saudade tenham roubado a tanta poesia a indispensável arquitectura física. Disse-me um natural de Macau, militar português há anos falecido: nos últimos tempos, o Camilo Pessanha, sempre deitado e a fumar ópio, até piolhos criou na barba. Se foi verdade ou mentira, vai por alma do capitão que ma contou. Piolhos verosímeis, foram vingança da natureza, sempre cruel com quem se esquece de lhe catar respeito”. O repto final: procure o leitor descobrir ou redescobrir a obra literária de João de Araújo Correia. Terá seguramente uma boa surpresa e poderá ficar melhor preparado para compreender o Portugal mental da segunda metade do século XX. 63FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • JOÃO DE CASTRO E MOURA João de França Castro e Moura (1804-1868), natural de S. Cosme, concelho de Gondomar, é outro português de têmpera que missionou na China. A sua formação foi repartida por Penafiel, onde estudou humanidades, latinidade e filosofia e pelo Porto, em cujo Seminário aprofunda retórica, francês e teologia. Como o seu destino final eram as Missões do Oriente, ingressa no Convento de Rilhafoles completando a sua formação no Seminário de S. José de Macau. Chega ao Território em 1825, após uma viagem de sete meses no ‘Vasco da Gama’, sob o comando do capitão Joaquim Ramos. Macau estava sob alguma tensão, mercê dos conflitos roazes entre os liberais e os conservadores, não obstante ter sido jurada a Carta Constitucional. Mas não se devia viver mal, de outro modo o jornal “A Abelha da China” não publicitaria, na edição de 22 de Maio de 1823, um anúncio de Anders Ljungstedt que colocava à venda os bons vinhos franceses, Chateaux Margaux e Medoc, para os interessados. O Bispo D. Frei Francisco Chacim sido nomeado presidente da junta governativa entre 1823 e 1825 e também entre 1827 e 1829, nesta segunda vez porque o governador havia resignado por motivos de saúde. Alguns sacerdotes foram encarcerados e exilados, como o sinólogo Joaquim Afonso Gonçalves, refugiado em Manila. Em 1828, o padre Borja compra a Ilha Verde, por duas mil patacas. Em virtude do falecimento do Bispo Chacim, João Moura foi enviado a Manila, em 1829, para receber as ordens de diácono e de presbítero. Regressa a Macau no ano seguinte para celebrar a missa nova na Igreja do Colégio de S. José. Estava preparado para o serviço missionário. No interior da China, como é evidente. Camilo de Oliveira, um dos seus biógrafos, refere que João Moura partiu por ordem do “Superior do Colégio para a província chinesa de Fokien, onde apenas se demorou um mês, pois ia sendo vítima das perseguições dos naturais, tendo de fugir para Chang-Hai, província de Kiang-Sou, um pouco ao Sul da foz do Kiang. Também não se 64 ANTÓNIO ARESTA
  • demorou muito tempo aqui, pois passou à diocese de Nankim, da mesma província de Kiang-Sou, onde foi investido no cargo de vigário geral por nomeação do seu Bispo D. Caetano Pereira, que também era administrador apostólico da diocese de Pekim. Convém observar que naquela região, banhada pelo rio Kiang e portanto paludosa e muito insalubre, D. João sofreu febres violentas que por muito tempo o retiveram no leito; por essa ocasião e por tal motivo recebeu ordem para retirar-se para a diocese de Pekim, o que fez no princípio de Novembro de 1833”. Os problemas de jurisdição territorial entre o Real Padroado Português e a Congregação da Propaganda Fide foram devastadores para o prestígio internacional da Igreja Católica e muito em particular para a posição do governo português. Em 1838 com o falecimento do Bispo de Nankim D. Caetano Pereira, que foi um dos últimos portugueses colocados no Tribunal das Matemáticas em Pequim, o Papa Gregório XVI publica o Breve “Multa proeclare” onde reduz o direito do padroado português do Oriente. A diocese de Pequim, diz outro biógrafo, “ficou sob o governo de João de França, mas não havia no Oriente nenhum bispo de Portugal sagrado. E o papa ainda desmembrou a Tartária da diocese de Pequim dando-a aos padres franceses. Em 1840, o papa nomeou João de França bispo titular de Claudiópolis e administrador apostólico da diocese de Pequim. O governo português recusou a licença para a sagração e apresentou o padre João de França bispo de Pequim em Novembro de 1841. Como não houvesse comunicações directas entre Macau e Pequim, só algum tempo depois todos estes factos chegaram ao conhecimento do sacerdote português. Escreveu então uma respeitosa carta ao pontífice em que dizia não poder sagrar-se bispo de Claudiópolis com menosprezo da sua apresentação como bispo de Pequim, pois assim perderia a qualidade, que muito queria, de cidadão português e a mitra de Pequim perderia o direito a certos rendimentos que tinha em Macau”. Mas só em finais de 1841, a Raínha D. Maria II consegue restabelecer a normalidade nas relações diplomáticas com o Vaticano, apresentando então João de França Castro e Moura como bispo de Pequim. Mas o Vaticano não aceitou perder a face neste conflito de interesses pelo que insistiu neste pormenor, se não aceitasse a sagração como bispo de Claudiópolis terminava a sua jurisdição sobre a diocese de Pequim. Para a Santa Sé, não seria de todo indiferente o novo desenho geopolítico decorrente da ocupação inglesa de Hong Kong e do Tratado de Nanquim, que acentuaram a decadência de Macau. Assim chegou ao termo a sua aventura missionária de dezassete anos na China. Apresenta-se de novo na diocese de Macau em 1847, depositando no Colégio de S. José “as alfaias de prata que trouxera de Pekim”. Em 1850 parte para Timor onde permanece até 1853. 65FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Um outro biógrafo, Carlos José Caldeira, conhecido orientalista e viajante, regista o seu conhecimento pessoal, “tive ocasião de conhecer este varão, cuja presença, realçada pelo grave trajo chinês que sempre usava, infundia respeito e estima. Deste modo não há hoje um único missionário português no interior da China, e apenas na diocese de Macau haverá uns cinco ou seis padres chinas, que dirigem algumas cristandades da província de Cantão, sob as instruções e jurisdição do bispo respectivo, e esses mesmos são guerreados pelos padres da Propaganda”. Mas, Carlos José Caldeira não poupa nas palavras e coloca o dedo na ferida: “A Igreja, em vez de se nacionalizar entre os indígenas, fica pelo contrário no meio deles como uma planta exótica, alimentada com o dinheiro estrangeiro e só dele dependente. Todos os missionários se queixam que, em lugar de receber alguns socorros dos indígenas, são considerados por estes como ovelhas, a quem todos se julgam com direito de arrancar a lã”. Seria este o entendimento dos chineses budistas e neoconfucianos? Regressa então a Portugal com esse ambíguo título de bispo eleito de Pequim. Em 1862 é nomeado bispo do Porto, sucedendo a D. António Moniz. Foi sócio da Academia das Ciências de Lisboa e desde 1863 tomou o seu lugar na Câmara dos Pares. O grande bibliófilo Inocêncio Francisco da Silva registou este seu único título impresso, “Discursos (1º e 2º) do exmº e rev. sr. bispo do Porto, pronunciados na camara dos dignos pares do reino em sessões de 11 e 28 de fevereiro de 1863”. É um opúsculo bastante raro, e dele se respiga a seguinte passagem: “Defenda o Governo, como é do seu dever, o Padroado real no Oriente ou no Ocidente; porém não venha dizer que esse Padroado, no Oriente, fundado nos três títulos canónicos – fundação, edificação e dotação – não pode ser abolido por uma Lei eclesiástica, ao mesmo tempo que afirma poderem os Padroados particulares, fundados nos mesmos títulos, ser, no Ocidente, e de facto foram, extintos não só por uma lei civil, mas pela mesma de novo criados e incorporados no Padroado real”. Os tempos eram, decididamente, outros marcados pela força dos imperialismos inglês, francês e americano. D. João Moura doou a sua valiosa biblioteca particular ao Seminário diocesano do Porto, que incluía numerosos manuscritos e livros raros. Mas, surpreendentemente, também ofereceu à Biblioteca Pública Municipal do Porto um manuscrito e uma caixa com vinte livros escritos na língua chinesa. O manuscrito é a “Breve Relação da propagação da religião cristã na China desde o século XVI até aos nossos dias”, estando apensados inúmeros documentos oriundos do Ministério da Marinha e Ultramar. O interesse é inegável. A caixa com livros, é uma “Colecção de livros chineses oferecidos a esta Real Biblioteca Portuense pelo Exm.º e Rev.º Sr. D. João da França Castro e Moura, Bispo 66 ANTÓNIO ARESTA
  • eleito de Pekin”. O biógrafo adicionou estas linhas ditadas pelo bom senso: “qualquer leitor que saiba a língua chinesa, prestará um alto serviço, se se encarregar da tradução destes históricos volumes”. Há mais de cem anos que se espera que se cumpra esse patriótico desígnio. Longos dias têm cem anos, diz o povo. 67FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • JOÃO PAULINO DE AZEVEDO E CASTRO Açoriano das Lajes do Pico, João Paulino de Azevedo e Castro (1852-1918), após o ensino primário, frequentou o Liceu da Horta e o Seminário de Coimbra, formando-se em Teologia pela Universidade da mesma cidade, em 1879. Regressado aos Açores, foi professor no Seminário Episcopal de Angra do Heroísmo, tendo aí criado o Museu de História Natural. Dirigiu o “Boletim Eclesiástico dos Açores” e em 1899 foi provido na dignidade de Cónego da Sé de Angra do Heroísmo. O Papa Leão XIII nomeia-o Bispo de Macau em 9 de Junho de 1902. Um facto curioso e inédito, a propósito da sua sagração: o recém nomeado Bispo de Angra do Heroísmo, que lhe conferia a posse, era D. José Manuel de Carvalho, nada mais nada menos do que o Bispo resignatário de Macau. Assume a Diocese de Macau em 1903, levando consigo como secretário particular o jovem seminarista José da Costa Nunes. Nesse mesmo ano funda o “Boletim do Governo Eclesiástico da Diocese de Macau” que “deve ser guardado com o devido recato para que não se suma nem deteriore pela acção da humidade ou dos vermes”. Como se sabe, essa publicação transformou-se num imprescindível repositório para se compreender Macau, nas suas vertentes religiosa, diplomática, histórica ou educacional, incluindo um apreciável acervo de fotografias. Visitou a enorme área que estava sob a jurisdição da Diocese de Macau, nomeadamente as Missões de Malaca e Singapura, Timor e Hainão. Da obra pastoral que publicou, destacam-se: a “Sentença de Reabilitação do Coronel Vicente Nicolau Mesquita no Foro Eclesiástico”, em 1910 (uma peça de retórica jurídica superiormente redigida e suportada por uma bibliografia actualizada, que evidenciou o valor intelectual do Bispo, e que teve o condão de ser pacificadora para larguíssimos sectores da comunidade que discordaram desde a primeira hora sobre o tratamento demasiado austero e indigno que tinha sido dado ao enterro do Coronel); “Les Lazaristes Portugais en Chine”, 1913; “Os Bens das Missões Portuguesas na China”, 1917, com uma segunda edição fac-similada em 68 ANTÓNIO ARESTA
  • 1995, organizada pelo Padre Tomás Bettencourt Cardoso que também reunirá os “Textos de D. João Paulino”, em dois volumes, editados pela Fundação Macau em 1997. D. João Paulino de Azevedo e Castro faleceu em Macau em 1918. É patrono de uma Escola e o seu nome está inscrito na toponímia local. A “Carta Pastoral sobre o Amor da Pátria e o Estudo da Língua Nacional” foi publicada em 1906, sendo reeditada noventa anos depois, em 1996, no primeiro volume dos “Documentos para a História da Educação em Macau”, que organizamos em parceria com Albina Santos Silva e Aureliano Barata, editado pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude. É importante sinalizar esse texto doutrinário marcado por valores específicos na sua etnicidade cultural, absolutamente único em toda a história cultural de Macau e que trouxe embaraços ao poder político, cujas preocupações culturais brilhavam pela ausência. A língua portuguesa era uma língua de poder, poder político e administrativo, mas escassamente falada pela população e ainda menos utilizada no mundo dos negócios. D. João Paulino de Azevedo e Castro repensou essas ambiguidades e contradições visto que era um humanista sensível ao estudo e à difusão das línguas portadoras de cultura. Em 1903 promove o ensino da língua inglesa no Seminário para os alunos chineses. O tétum e o galóli passam também a ser ministrados nesse estabelecimento de ensino, com a mesma dignidade curricular. Os estudos sínicos merecem-lhe atenção: “na aula da língua e literatura sínica, onde se instruíam além dos jovens destinados às missões, outros que exerceram com distinção os lugares de intérpretes do Leal Senado”. Recorda, ainda, como que a puxar pelos galões, que o Seminário “havia já em 1828 dado cinco alunos à Universidade de Coimbra, que com grande aproveitamento aí fizeram os seus estudos”. Mas, três anos após aportar a Macau parece terem sido bastantes para permitirem traçar um diagnóstico sobre o patriotismo e o cultivo da língua portuguesa, no seio da própria comunidade. A identidade cultural de Macau estava adormecida e na sua opinião, necessitava destes dois pré-requisitos para se afirmar e para se consolidar no quotidiano: “nos filhos desta gloriosa terra oriundos de famílias portuguesas se vai manifestando pronunciada tendência para não se instruírem no conhecimento da língua de seus pais, a pretexto de que têm necessidade de estudar outras que mais probabilidade oferecem de lhes granjearem uma posição social vantajosa, um meio de vida definido e rendoso; entendendo ser dever do Nosso múnus não ficar indiferente perante este facto, digno de ponderação pelo arrefecimento do amor pátrio que significa e pelas funestas consequências que pode ter”. O estudo da língua portuguesa e o cultivo do patriotismo afiguravam-se essenciais para a estruturação mental que D. João Paulino tinha construído de Macau. Vira então a sua atenção para “os mestres e pais de família”, lembrando-lhes 69FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • que o “amor da pátria é um dos sentimentos que lançam mais fundas raízes e mais se desenvolvem no coração do homem” e como bom observador e conhecedor da psicologia individual exorta-os para a educação da vontade, dizendo “tem que fazer guerra a si mesmo, às suas tendências desordenadas, domar a violência das paixões, privar-se às vezes do que é lícito a fim de habituar a vontade a dominar as faculdades inferiores, para que seja sempre a rainha e nunca a escrava delas”. Perora comovidamente sobre a língua portuguesa, “nós os portugueses temos a dita de possuir uma língua que faz inveja às nações civilizadas por ser uma das mais belas, mais suaves, mais ricas e mais perfeitas, por isso uma das mais adequadas à fixação e à expressão do pensamento em todas as suas multíplices variedades e modos”, convocando as obras de Camões, Vieira, Bernardes, Garrett ou Castilho para ilustrar o seu pensamento. Seria acompanhado nestes arroubos pós-românticos? Os “portugueses do extremo Oriente tem motivos de sobra para se interessarem pelo estudo da língua nacional. Ela foi a primeira das línguas faladas por povos civilizados que se ouviu pronunciar nestas remotas plagas!”. A pregação socorre-se da história antiga, oscilando entre o tom eufórico e proselitista: “Cristãos filhos de Portugal! Não reneguemos a nossa história, porque ela é deveras honrosa e de estrangeiros invejada e cobiçada. Nós fomos os que ensinamos às nações da Europa o caminho marítimo que conduz a este extremo Oriente; fomos nós o primeiro povo civilizado que abriu e manteve relações amigáveis com estes dois colossais impérios da China e do Japão!”. Recusando uma atrofia do pensamento e da acção, que conduziria ao imobilismo ou ao fatalismo, decide criar dois prémios, o “Prémio Rei de Portugal” e o “Prémio Raínha de Portugal”, cada qual dotado da quantia de $140,00, “como incentivo que estimule os jovens alunos e alunas dos colégios e escolas de Macau dependentes da nossa autoridade, a aplicarem-se com todo o amor de que são capazes ao estudo da língua portuguesa”. As Escolas envolvidas eram o Seminário de S. José, o Orfanato da Imaculada Conceição, a Escola de S. Francisco Xavier, a Casa de Beneficência e o Colégio de Santa Rosa de Lima. Um importante pormenor a reter: “estes prémios só poderão ser dados a alunos não europeus, pois que aos alunos europeus não faltam estímulos para se instruírem na língua da mãe pátria”. Nesse mesmo ano de 1906 o pequeno mundo de Macau também tinha outras polaridades. Camilo Pessanha encontra-se em Portugal para receber tratamento médico. O reitor do Liceu, Manuel da Silva Mendes, assina um Edital onde se informava, entre outras coisas, que a “propina de matrícula é de 2$875 por cada disciplina”. O Conselho Técnico das Obras Públicas, com o aval do Governador Martinho Montenegro, aprovou a “importância de 77$280 reis para as reparações do Paço Episcopal”. São publicados os estatutos do Clube “Iut-siong-kun-si”, cujo fim é “promover divertimentos para recreio dos seus sócios”. A síntese feliz deste tempo encontrámo-la numa carta de Wenceslau de Moraes, escrita de Kobe para 70 ANTÓNIO ARESTA
  • Alfredo Dias Branco, nesse mesmo ano de 1906: “A vida europeia em Macau é certamente chocha; mas a vida chinesa reserva-nos graciosas surpresas”. Nem mais nem menos. O Bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro, anos volvidos, desvenda um pouco da pedagogia e da didáctica da língua portuguesa, utilizada em Macau no Colégio de Santa Rosa de Lima: “Nos recreios, em que as meninas falam de ordinário mais em liberdade, é frequente ouvirem-se-lhes as defeituosas e incorrectas formas de dicção do dialecto local. Um pedaço de cartão em forma de língua pendente do pescoço sobre o peito, era indício de haver delinquido contra as regras da pronúncia ou da sintaxe! E ali estava a pobrezinha na berlinda, até que alguma das companheiras semelhantemente delinquisse e a fosse substituir no uso daquela insígnia. Daquela insígnia, sim, porque a tal ou qual humilhação em que incorria a culpada, era em certo modo compensada pelo autorizado cargo de policiar o juvenil ajuntamento e estar alerta, a ver qual a primeira em que caia em proferir um mal sonante – eu vai casa, minha não pode vai, eu não sabe – ou outros semelhantes aleijões gramaticais, para imediatamente lhe passar aquele duplamente significativo símbolo. Era uma engenhosa indústria que simultaneamente servia de inocente passatempo às educandas e lhes proporcionava proveitoso estímulo para se corrigirem e aperfeiçoarem”. É caso para se dizer, língua portuguesa língua de palmo! 71FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • JOSÉ DE ABREU Os viajantes ocasionais que cruzaram o Território de Macau em trânsito para outras paragens são aqueles que, por vezes, nos oferecem aforismos cintilantes ou reflexões muito interessantes porque animadas de um vivo pragmatismo. O Comendador José Gonçalves de Abreu (1914-2002), outrora figura proeminente da indústria portuguesa, fundador do complexo industrial “TABOPAN”, em Amarante, deslocou-se ao Japão em 1969, na sequência de um convite oficial formulado pela “Union of Japanese Scientists and Engineers”, para participar na Conferência Internacional do Controle de Qualidade, onde apresentou uma comunicação intitulada “A influência do controle de qualidade nas relações entre os povos e na cultura do mundo”. A longa viagem feita a bordo de um Boeing DC9 [Lisboa-Copenhaga-Alaska-Japão-Hongkong-Macau-Tailândia-Irão-Itália-Lisboa] foi devidamente registada num livro ilustrado, publicado em 1970, sob o título, “Do Ocidente da Europa aos Confins da Ásia (impressões duma viagem)”, prefaciado por Fernando Pires de Lima. É um importante contributo para a construção da imagem externa de Macau, no contexto largo da fenomenologia da viagem. Cingir-nos-emos ao lugar que Macau ocupou na memória da sua escrita, em 1969. O Comendador José de Abreu era um esclarecido homem do regime, do Estado Novo, [Presidente da Câmara Municipal de Amarante (1966-1974), Presidente da Comissão Concelhia do partido único, a Acção Nacional Popular, Presidente do Grémio Nacional das Indústrias de Madeira, fundador do Jornal Notícias de Amarante, entre outras actividades e interesses] e particularmente atento à imersão de portugalidade no Ultramar segundo a renovada doutrinação de Marcelo Caetano. Após a invasão de Goa e as três frentes de guerra no palco africano, a sensibilidade para os problemas das províncias remanescentes do império era muito acurada. A leitura do Jornal ‘Notícias de Macau’ deve tê-lo tranquilizado. Tudo parecia encarreirado. 72 ANTÓNIO ARESTA
  • Em 1969 o Território já se encontrava suficientemente regenerado dos desvarios ideológicos dos idos de 1966, sobre cujo histrionismo Graciete Batalha bem escreveu. O Ministro do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha, tinha dado o assentimento político ao início do projecto da ponte Macau-Taipa, uma obra icónica do Engenheiro Edgar Cardoso, que mais tarde tomaria o nome do então Governador José Nobre de Carvalho. A Imprensa Nacional de Macau colocava à venda, entre outros, esses inovadores cinco fascículos do “Método Português para Uso nas Escolas Chinesas” da autoria do Reverendo Chantre António Ngan e também os “Estatutos da Sociedade dos Amigos da Comunidade Luso-Brasileira de Macau”. No regresso do Japão, o Comendador José de Abreu faz escala em Hong Kong, para seguir para Macau. Da colónia britânica deixa este registo: “Estivemos em Hong Kong três dias, o suficiente para observar um pouco da vida excitante de negócios e contrabando que ocorre em todos os cantos e ruas desse grande Emporium comercial da Ásia. Ópio, contrabando, jogo e espionagem são, segundo o que nos disseram, o pão nosso de cada dia, naquelas paragens do misterioso oriente”. A grande expectativa era Macau, cuja história bem conhecia. A primeira impressão do Território não poderia ter sido mais encorajadora: “A cidade de Macau é uma preciosidade na margem do Rio das Pérolas, que atesta a presença de Portugal naquelas paragens de sonho que trouxe, há cerca de quinhentos anos, ao convívio do Ocidente. As suas ruas e avenidas tipicamente à moda portuguesa, banhadas por um sol quente e acolhedor, a que um mundo de transeuntes em mangas de camisa ou em lindos conjuntos, de largas calças e túnica preta, contrastavam com os trajes garridos dos turistas americanos, davam àquela paisagem a beleza das mais lindas capitais daquele lendário continente”. A representação espacial da cidade e da península logo conquistou o espírito do nosso viajante: “A cidade faz lembrar um presépio na sua configuração e de todos os lados de onde se veja, é uma preciosidade”. Mas o relacionamento das pessoas merece-lhe este comentário sagaz: “Ali, como em qualquer outra parte do nosso Ultramar pode ver-se a nossa forma de vida, plurirracial, em convívio fraterno com todas as raças e todas as cores de pele. Nos restaurantes, nos cafés, a passear pelas ruas, nas escolas, enfim por toda a parte, os portugueses não escolhem os seus pares ou os seus amigos, juntam-se na mais harmoniosa convivência, com todos os habitantes da cidade, quer sejam chineses, mestiços ou provenientes de qualquer outra parte do mundo. Somos assim e não temos que fazer qualquer esforço para sermos tal qual somos”. O balanço da sua estadia apresenta estes contornos surpreendentemente positivos tendo em consideração o contexto demográfico: “Durante a nossa permanência em Macau, procuramos ver tudo que a magnífica cidade possui de mais belo e representativo da vida cultural e recreativa portuguesa, dado que, estando tão longe da mãe Pátria, 73FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • com uma população de mais de 290 mil chineses e somente 10 mil portugueses seria lógico aceitar que pouco ou nada ali haveria a marcar a nossa permanência em tão pequena minoria. Pois ficamos deslumbrados com a satisfação com que o macaísta declina a sua identidade. Sou português, filho de pai português e de mãe chinesa; aqui nasci, sou português e prezo-me muito disso, não conheço ainda a Metrópole, mas tenho uma certa esperança de lá ir qualquer ocasião. Estudo a língua Pátria, frequento a escola portuguesa, falo chinês mas, cada dia, onde posso fazê-lo, isto é, logo que tenha quem fale a língua de Camões, é essa a língua que gosto de falar”. O registo afectivo do patriotismo parece ser deveras importante, sem descurar o esforço governativo da administração portuguesa: “A presença de Portugal está patente em todos os cantos da cidade. Escolas, repartições públicas, indicações de trânsito, enfim, tudo revela que ali é terra de Portugal, e quando entramos num estabelecimento chinês – praticamente todos são chineses – somos recebidos com visível agrado e dispensam-nos as maiores atenções”. E, para terminar, uma subtil observação ligada à soberania portuguesa, de resto pouco comum nos viajantes que demandaram Macau: “Também encontramos alguns militares que gostosamente ali prestam serviço. É uma alegria que se dá àqueles rapazes, alguns naturais da metrópole, que ali estão cumprindo serviço e que dão à cidade um ar de urbanismo e importância que nos enche de orgulho e satisfação”. A escassez do tempo da sua visita não permitiu contactos informais com alguns construtores da singularidade de Macau, por exemplo, o Leal Senado, elementos do Padroado Português do Oriente ou o Governador. A viagem, essa continuará rumo à Tailândia. Anos volvidos, em 1973, o comendador José de Abreu será deputado eleito para a Assembleia Nacional, na XI legislatura, cujo termo será marcado pela Revolução de 25 de Abril de 1974.74 ANTÓNIO ARESTA
  • JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO José Agostinho de Macedo (1761-1831), alentejano de Beja, foi uma figura muito complexa que encheu o seu tempo. Será difícil encontrar na história da literatura uma personalidade tão mal amada quanto esta, onde os juízos de valor ofuscam as suas qualidades literárias, estéticas ou as suas ideias filosóficas e políticas. De Teófilo Braga a Hernâni Cidade, também a modernidade tem malhado sem piedade no padre Lagosta, alcunha que lhe foi dada em virtude da cor avermelhada da sua face. Erudito, truculento, polemista de extremos, mulherengo, com uma vida desregrada que o conduzirá à expulsão da Ordem de Santo Agostinho, este frade temperamental tinha sido deputado às Cortes, censor literário, cronista do reino e defensor das ideias liberais que abandonará para patrocinar com firmeza o conservadorismo do Rei D. Miguel. A sua obra é muitíssimo extensa e dela retenho apenas estes títulos: “A Natureza”, 1806; “Sermão Contra o Filosofismo do Século XIX”, 1811; “Gama”, 1811; “Newton”, 1813; “Motim Literário”, 1811; “A Meditação”, 1813. Como polemista era temido, sendo lendária a sua inimizade roaz com Bocage, com Garrett e outros. O padre António Vieira também lhe mereceu pouca consideração como pregador. As suas obras visceralmente polémicas são estas: “A Tripa Virada”, 1823; “Os Burros”, 1827; “A Besta Esfolada”, 1828/29. Os virulentos folhetins de “A Besta Esfolada” eram dirigidos à Carta Constitucional e à nova ordem política e social que ela representava. No terceiro número do periódico semanal, “A Tripa Virada”, podemos ler este pensamento sensato: “Para governar os homens é preciso conhecer como os homens são, e não como em teorias filosóficas eles podiam ser”. José Agostinho de Macedo é considerado o precursor em Portugal do jornalismo sensacionalista, viveu num tempo atingido por várias finitudes que dilaceraram a estrutura ontológica da nação: as invasões francesas (1801-1814), a fuga da Côrte para o Brasil (1807-1821), a Revolução Liberal de 1820 e a guerra civil ou a independência do Brasil em 1825. Lutou 75FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • febrilmente contra as ideias da revolução francesa, afirmando “e porque não dizeis, que também a Filosofia despoja o entendimento humano da liberdade de pensar?”. Um homem de causas, como se vê. Dizia, parece que sem ironia, que “o verdadeiro sábio é o homem moral”. Mas é sobre “O Oriente”, publicado em 1814, que me irei deter. Inicialmente editado em 1811 sob o título “Gama: poema narrativo”, a nova versão denominada O Oriente: poema épico, conhecerá mais três edições, em 1827, em 1854 e em 1911. O livro foi concluído “depois de nove anos de assídua aplicação e estudo”, sendo o manuscrito autógrafo depositado na Biblioteca do Real Mosteiro de Alcobaça. Adquiri num alfarrabista a edição de 1854, publicada no Porto, encadernada e apresentando um estado impecável, sinal que foi estimada mas pouco lida. Anos depois, registo que bastantes títulos da obra de José Agostinho de Macedo estão disponíveis on line, com um acesso livre, por cortesia da Biblioteca Nacional Digital e ainda das bibliotecas das universidades de Oxford, Harvard, Toronto e Michigan. É reconfortante notar que os estrangeiros valorizam os clássicos portugueses, sobretudo aqueles que pouco lemos ou que nos esquecemos. “O Oriente” é um furacão épico e retórico sendo muito mal comparado com “Os Lusíadas”, e tal como ele, gizado em doze cantos, dizendo com clareza, “não imagines que eu intente profanar ou inquietar as cinzas, e menos ofuscar a glória de Luís de Camões”, e elegendo o almirante Vasco da Gama como a figura central. É claro que “O Oriente” tem objectivamente outras ambições: “será chamado Poema Nacional, não só pelo assunto em que se emprega, que é o que mais te enobrece e exalta entre todas as Nações da Terra; mas pelo amor da Pátria que em todo ele ressumbra como fogo que se não oculta, e tão generoso e nobre, que nem de ingratidões se queixa, nem se tem alimentado da mais ligeira esperança de galardão e recompensa; e que maior pode haver, que mostrar ao Mundo que és grande, e que nada tens feito até agora, que não seja grande, e que não seja Português?”. “O Oriente” poderá ser considerado como uma barreira mental e sanitária para impedir que as novas ideias da Europa se espalhem em Portugal. Mas, que ideias? Estas e terríveis, como se calcula: “igualizar, republicanizar, democratizar e fraternizar o Mundo”. Mas havia mais. O mito do império e o nostálgico desapontamento por a história de Portugal no Oriente não possuir o reconhecimento universal que deveria merecer, é incontornável na estrutura épica de “O Oriente”. Mas toda esta narratividade épica parece mesmo descontextualizada num tempo que acolherá o romantismo e outras preocupações políticas. Rodrigues Lapa diz-nos que “O Oriente” tem uma metrificação correcta mas é de leitura intragável. Sartre notava que era com os bons sentimentos que se fazia a má literatura. Por vezes parece ser o caso. 76 ANTÓNIO ARESTA
  • Prevenido contra os “farpões da inveja”, procura emular Camões, cantando uma epopeia histórica em moldes similares, com um brilho incontestavelmente diferente: “Ah! que eu vejo surgir do fundo abismo / Co’a sacra fome d’ouro, o Fanatismo!!”. Canta a grandeza de Portugal, “Sempre no Império Português é dia”, e olha para a China: “Rasgam-se as sombras do futuro, e vejo / Qu’aureo Ceptro t’entrega o acesso Oriente / Que tudo a teu Imperio a frente inclina / Qu’as raias tocas da soberba China”. No poema, a cidade de Macau não será esquecida: “Olha as portas da China, olha afamada / Macau, que exalça mercantil a frente”. Olhando mais além: “Irão, que assombro! as Lusitanas Quinas / Além dos Reinos dos astutos Chinas”. Reclama para Portugal esta glória: “A Europa livre dos grilhões, que teve / A paz, a liberdade ao Tejo deve”. Numa página auto-biográfica José Agostinho de Macedo escreveu que “fala sempre a verdade, dorme sem remorso de crime algum; ralha e ralhará sempre porque tem a mania de amar sinceramente este Reino”. “O Oriente” merece ser relido sem preconceitos porque sobreviveu às incompreensões estéticas, às tensões emocionais e aos solavancos das ideologias. E isso é extraordinário. Mas, será que chega?77FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • JOSÉ AUGUSTO SEABRA A Fundação Eng.º António de Almeida, no Porto, prestou no dia 27 de Março, uma homenagem a José Augusto Seabra, personalidade marcante da cultura portuguesa contemporânea. Guilherme de Oliveira Martins proferiu uma conferência, tendo o painel de testemunhos contado com a participação de Fernando-Aguiar Branco, Francisco Ribeiro da Silva, Manuel Ferreira Patrício, Francisco Laranjo, Luís Garcia Soto e a viúva, Norma Tasca. Foi, ainda, apresentada uma Exposição bíblio-iconográfica e documental dedicada a José Augusto Seabra, concebida e organizada por Paulo Samuel. José Augusto Seabra (1937-2004), cedo trilhou os caminhos da oposição ao Estado Novo. Estudante da Faculdade de Direito de Coimbra foi preso pela PIDE e posteriormente encarcerado, por dez meses, na Cadeia do Forte de Peniche. Estava assim aberta a via do exílio. Do livro de memórias, “De Exílio em Exílio. Resistências e Errâncias (1953-1963)”, publicado em 2004, primeiro e afinal único volume em virtude do falecimento do autor, retiro esta passagem emblemática: “A condição de exilado não é, nunca, meramente circunstancial. Se a expatriação, o desterro, a deportação ou o ostracismo dentro da própria pátria, com a sua dolorosa carga de exclusão forçada, constituem estados extremos de extracção iníqua e violenta às raízes de nascença, o exílio, esse, é a experiência radical da estrangeidade, só vivida por quantos, alguma vez, ressentiram a ausência nostálgica de ser, em qualquer tempo ou lugar. É dessa privação ontológica essencial que no exílio se trata”. Estabelecido em Paris, não obstante ter estado também exilado em Argel e em Moscovo, doutorou-se na Sorbonne apresentando uma tese sobre Fernando Pessoa, dirigida por Roland Barthes. Regressa a Portugal após a revolução de 25 de Abril de 1974. Filia-se no Partido Popular Democrático, é deputado na Assembleia Constituinte e na Assembleia da República, Ministro da Educação e Embaixador de Portugal na Unesco, na Índia, na Roménia e na Argentina. Professor na Faculdade 78 ANTÓNIO ARESTA
  • de Letras do Porto, tem igualmente uma notabilíssima intervenção cultural, destacando-se o lançamento do movimento “Nova Renascença”, cuja revista homónima marcou uma época. Nessa sessão de homenagem, Paulo Samuel apresentou o livro “Nova Renascença. Perfil e Identidade de uma Revista”, editado pela Fundação Eng.º António de Almeida, que vem chamar a atenção para a extraordinária trajectória desta publicação. A sua obra é muito extensa, repartindo-se pela poesia (A Vida Toda, 1961; Desmemória, 1977; O Anjo, 1980; Sombras de Nada, 1996; Antologia Pessoal, 2001; Sete Tangos Mentais, 2002) e pelo ensaio (Fernando Pessoa ou o Poetodrama, 1974; O Heterotexto Pessoano, 1985; O Coração do Texto, 1996; Rostos Europeus do Porto, 2002). Traduziu para a língua portuguesa diversos autores, como Roland Barthes, Alexander Soljenitzine, Leopold Senghor e Mallarmé. Gostaria de evocar, a traços largos, a sua ligação a Macau. Mais cultural do que política mas ambas construídas pelo imperativo categórico do patriotismo e da lealdade. Na qualidade de Ministro da Educação (1983-1985) do IX Governo Constitucional teve a ocasião de trabalhar com o Governador Vasco de Almeida e Costa e com Jorge Rangel, então Secretário-Adjunto para a Educação, Cultura e Turismo, construindo soluções para alguns problemas estruturais da Educação no Território. E outros serviços terá prestado, em governos subsequentes, nomeadamente quando foi Embaixador de Portugal na UNESCO, contribuindo para o sucesso da candidatura de Macau a Património Cultural da Humanidade. Algumas das suas obras foram publicadas no Território. Os “Poemas do Nome de Deus”, uma edição bilingue, traduzida por Lu Ping Yi, sob a chancela do Instituto Cultural de Macau, em 1990, abrem com esta cristalina inscrição: “De Macau neste livro se trata, sob o signo do Nome de Deus, não invocado em vão. É um livro de Amor, Terceira Pessoa da Trindade. Amor com todas as letras, elevado ao infinito, em rigor indizível: ‘perdida voz que de entre as mais se exila’, como escreveu Camilo Pessanha, a cujos manes o encomendo”. Na Revista de Cultura (Nº 11-12, 1990) deixou um luminoso ensaio, “Camilo Pessanha e as Miragens do Texto”. Também “O Caminho Íntimo para Índia”, publicado em parceria pela Lello Editores/Fundação Macau/Instituto Internacional de Macau, em 1999, apresenta estas credenciais: “Leva bem seladas as cartas íntimas do sonho, que recebeste de um povo incauto mas fiel, já curtido pelos naufrágios da história. E guarda nelas discretamente os poderes plenos, de nascença, servidos por uma lealdade subtil e sem tréguas. Só o destinatário misterioso as abrirá, quando as entregares assim, sereno, de mãos nuas”. Como Embaixador de Portugal na Roménia, promove o lançamento de um estudo de Mircea Eliade intitulado “Camões e Eminescu” (texto originalmente publicado na revista Vremea, Bucareste, 1943), traduzido por Anca Ferro, editado pela Fundação Macau e pelo Instituto Internacional de Macau, em 1999, para a feliz 79FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • ocorrência do “Colóquio de Homenagem a Luís de Camões”, da Organização Mundial de Poetas. O Cenáculo Luís Gonzaga Gomes, então oficiado por Luís Sá Cunha, promoveu uma sessão em sua homenagem, no Hotel Mandarim Oriental, onde teve a oportunidade de prelecionar sobre Fernando Pessoa e Camilo Pessanha. Lembrou na ocasião, a sempre presente cicatriz do exílio, conforme escreveu no prefácio ao “Caderno Poético de Camilo Pessanha”, editado pela Direcção dos Serviços de Educação, em 1986: “De que exílio longínquo e a que ‘país perdido’ ele assim retorna, através dos arquivos salvos de uma revolução cultural tumultuosa, nos escaninhos de uma gaveta cerrada, ressuscitando neste espólio miraculoso que espíritos sensíveis guardaram, protegeram, transmitiram, copiaram, recopiaram, enquanto outros o retiveram na memória auditiva, multiplicando-lhe as variantes, as incertezas, as indeterminações, as miragens, na sua potencialidade infinita?”. Nessa ocasião ofereci-lhe um exemplar da “Mensagem”, de Fernando Pessoa, uma rara edição “reservada para distribuição aos alunos do Liceu Nacional Infante D. Henrique”, publicada pela Imprensa Nacional de Macau em 1959, rubricada pelo Governador Jaime Silvério Marques. A edição “foi autorizada pela Família de Fernando Pessoa”, é deveras interessante em virtude deste pormenor: “As traduções em chinês das frases em itálico são da autoria do Professor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, Sr. Luís Gonzaga Gomes”.80 ANTÓNIO ARESTA
  • JOSÉ BARBOSA LEÃO José Barbosa Leão (1818-1888), natural de Parada de Todeia, concelho de Paredes, distrito do Porto, cujos 200 anos do seu nascimento passam discretamente num país de distraídos, foi uma personalidade cosmopolita com uma vida invulgar colocada ao serviço de grandes causas. Formado pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto, ingressa no Exército como Cirurgião servindo em várias unidades militares. Adere à rebelião da Patuleia em 1846 marchando para Lisboa integrando as forças do Conde das Antas. Contudo, estas foram derrotados pelas tropas do marechal Saldanha em Torres Vedras e José Barbosa Leão foi aprisionado e conduzido para a fragata ‘Diana’. O cárcere durará cerca de meio ano, até Junho de 1847, tendo sido libertado após a assinatura da Convenção de Gramido. Estava aberto o caminho para o exílio. Primeiro, o Brasil onde permanece um ano e meio. Depois o norte da Europa, a França e a Bélgica onde se especializa em medicina militar e presta provas de doutoramento na Faculdade de Medicina de Bruxelas. Regressa a Portugal em 1851 sendo reintegrado como Cirurgião-Mor do Exército. Em 1854 estava colocado no Batalhão de Caçadores Nº 8, sediado em Leiria. Por sua iniciativa foi instalado um hospital militar junto ao quartel, conforme o que tinha observado em Bruxelas. É em Leiria que aprofundará a sua consciência cívica e os seus interesses pela cultura popular e pela educação. Colabora no jornal ‘O Leiriense’ e assina [juntamente com D. António da Costa, António Rodrigues Cordeiro, Cândido Cau da Costa e Augusto Sousa Bastos] uma petição dirigida à Raínha e dela retenho este parágrafo: “… os países livres garantem hoje o direito da instrução a todas as classes e por que a gratuidade do ensino se acha em muitos deles constituída em dogma”. Ideias muito avançadas para o tempo. É em Leiria que começam a germinar outras duas utopias, a reforma pela ortografia sónica e o iberismo económico, que não cabe aqui desenvolver. Em seguida, teve duas experiências na administração colonial ultramarina ao mais alto nível. Entre 1856 e 1857 desempenha o cargo de secretário do 81FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Governador-Geral de Moçambique, Vasco Guedes de Carvalho e Menezes. Regressando a Portugal, funda com José Luciano o ‘Jornal do Porto’, um interessante periódico de natureza política e cultural. Escreveu aí importantes textos doutrinários. Em 1860 é nomeado secretário do Governador-Geral de Angola, Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, cargo que exercerá até 1863. Ainda hoje tem muito interesse ler a documentação de 1862 relativa à supressão do tráfico de escravos. Nos Relatórios Anuais desses Governadores, por ele coordenados e redigidos, podemos seguir os trabalhos administrativos e políticos em que esteve envolvido. Alarga os horizontes e viaja por Goa e Bombaim, visita Adem e o Egipto. Deslocou-se também a Cabo Verde e a S. Tomé e Príncipe. De novo em Portugal, funda com Teixeira de Vasconcelos o ‘Jornal de Lisboa’. É um homem fascinado pelo poder da imprensa. Tem colaboração assinada no ‘Jornal do Comércio’, no ‘Braz Tisana’ e no ‘Penafidelense’. O seu pensamento sobre a questão colonial era invulgarmente claro: “Disse o meu último adeus às colónias em 1867, dando por concluídas as minhas longas viagens nas quais se contavam duas voltas completas à roda de África. Ao desembarcar em Lisboa, lembrando-me de que 20 anos antes tinha embarcado no Porto saindo a primeira vez para fora da pátria, como me senti mudado quando comparei o meu modo de pensar nas duas épocas! Como eu apreciava diversamente as nossas cousas! Até 1847 eu só tinha examinado Portugal olhando para ele de dentro, à luz do fogo patriótico dos verdes anos; em 1867 tinha-o examinado olhando para ele de fora, e tinha experimentado como os de fora nos tratavam e consideravam, e os 20 anos decorridos tinham dado à razão bastante império sobre a paixão. Por isso, como me senti desiludido, triste e desanimado!”. É neste contexto de enorme clarividência que afirma: “Devemos às colónias a civilização e o progresso; é a obrigação que contraímos com a conquista. Paguemos pois a dívida, pondo à disposição delas gente que as saiba governar”. Porque, insiste, as colónias “não pedem nada à metrópole senão quem as saiba governar lá e cá”. Propõe a venda da Guiné e de Timor, visto que “não tinham futuro algum, que em lugar de proveito só nos dariam perda, a segunda de dinheiro e vidas, a primeira de vidas senão também de dinheiro”, e embora o “lirismo de certos poetas faça de Timor um paraíso e uma Califórnia possível”. E quem as compraria? “À Guiné competirão a França e a Inglaterra; e talvez mais alguém, a confederação da Alemanha do norte por exemplo. A Timor concorrerão todos os que não tem um ponto naquela parte da Oceania; e a Holanda que tem a outra metade da ilha, só no último caso deixará de cobrir o lanço”. Mas, Macau é incluída nesta operação de alienação porque representa um enorme problema moral e por lhe parecer que politicamente é insustentável. Prevê que esta proposta audaciosa “vai decerto levantar os clamores de meio mundo”, 82 ANTÓNIO ARESTA
  • Macau, “a Paris da China (em outro tempo), vendida!... E porque não? Macau não nos pede nada, é verdade; dá mesmo 32.000$000 anuais para o tesouro pagar os juros dum empréstimo que contraiu. Mas porque motivo o seu cofre está de ordinário assim cheio?”. José Barbosa Leão é expedito na resposta: “Sabe-o todo o mundo: é porque o seu comércio é um ninho de contrabandistas e o seu porto um valhacouto de piratas; é porque legalizando o jogo e organizando a escravatura branca com essa emigração de chins que a autoridade fiscaliza e protege, tiramos dessas fontes a máxima parte da receita da colónia”. Este pensamento ousado é de 1868, governava Macau o almirante António Sérgio de Sousa, cuja opinião não é conhecida. O ministro Rebelo da Silva promulga a nova Carta Orgânica das Províncias Ultramarinas, procurando estreitar e apertar todos os nós da rede ultramarina, em evidente contraciclo com as teses de José Barbosa Leão. Em face da enorme ameaça estrangeira sobre o império chinês, José Barbosa Leão reflecte: “Não está pois segura a prosperidade de Macau, pelo contrário: está-lo-á porém a conservação da colónia? Ninguém o pode dizer. Deixamos lá introduzir a influência francesa pelos jesuítas e irmãs da caridade; e os nossos ‘fieis aliados’, os ingleses, incitam como é público, os chineses contra nós. O governo chinês recusou-se a assinar o tratado com Portugal”. E continua o seu raciocínio: “Será isto pois garantia de conservação para a colónia do pobre pequeno reino do ocidente da Europa, cujo domínio o celeste império nunca reconheceu?”, terminando com esta nota de grande desânimo, “Saiba-se que Macau não representa para Portugal uma única memória verdadeiramente gloriosa”, não esquecendo que “praticamos ali o primeiro acto glorioso, a defesa do forte de Passaleão”. A solução para este problema seria a venda da colónia: “Ora, Macau há-de ser pretendidíssima; sem falar de mais ninguém, a França e os Estados-Unidos hão-de levar o lance até à maior altura”. Esta polémica proposta incendiou a política portuguesa, agitou o parlamento e a imprensa e abalou os fundamentos da monarquia constitucional. José Barbosa Leão, perante a legião dos seus inimigos, reiterou as suas ideias desta forma: “E agora perguntarei aos que aí se mostram tão cheios de patriotismo, tão ansiosos pelas grandezas e glórias de Portugal: vendidas aquelas três partículas, o nosso domínio colonial deixaria de ser grandioso? Deixaria de oferecer campo para se empregarem todos os recursos materiais e morais, que nos seja possível por em acção? De certo não: porque conservamos a Índia, o teatro das nossas maiores glórias; e na África austral ficam-nos um litoral extensíssimo e sertões infindos, de que poderemos formar no futuro um império gigante com um pé no Atlântico e outro no Oceano Índico”. Não era isto a antecipação do ‘mapa-côr-de-rosa’? Coloca um ponto final na sua argumentação: “se o domínio colonial não pode realmente viver sem os sacrifícios da metrópole, tem esta de abandoná-lo; porque será forçosamente a sua ruina. As colónias, como já indiquei, só devem reclamar bom 83FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • governo da parte da metrópole; e devem oferecer os recursos precisos a esse governo”. Estas propostas não vingaram e a História seguiu o caminho que nós hoje sabemos. José Barbosa Leão foi publicando uma obra invulgar, por exemplo: “Análise do Orçamento ou a Questão Financeira Resolvida”, 1868; “Considerações Sobre a Ortografia Portuguesa”, 1875; “Colecção de Estudos e Documentos a Favor da Reforma da Ortografia em Sentido Sónico”, 1878; “O Futuro de Portugal”, 1881. Há ainda um enorme conjunto de ensaios dispersos na imprensa a aguardar que possam ser reunidos em volume. Iberista convicto, José Barbosa Leão foi eleito deputado em 1879, representando o círculo de Luanda. Os seus coevos valorizaram as ideias e o percurso cívico e cultural deste erudito médico militar. Camilo Castelo Branco imortalizou o seu amigo num generoso parágrafo do seu livro “Cavar em Ruínas”, publicado em 1866. D. António da Costa, na “História da Instrução Popular em Portugal”, cuja 2ª edição é de 1900, cita José Barbosa Leão pelo seu trabalho pioneiro em Leiria. Cândido de Figueiredo nas “Figuras Literárias”, de 1906, dedica-lhe um honroso capítulo. E o seu irmão Manuel Barbosa Leão, cónego de Cedofeita, publica em 1889 as “Cartas e Publicações Relativas ao Falecido Dr. José Barbosa Leão”. Hoje, 200 anos depois, deveríamos fazer um pouco mais.84 ANTÓNIO ARESTA
  • JOSÉ GOMES DA SILVA A carta de José Gomes da Silva (1853-1905) que ora apresentamos, integra o espólio de Afonso Costa (1871-1937), protagonista maior do regime político republicano instaurado em 1910. Por ela se percebe melhor a trajectória política e cívica de José Gomes da Silva e o seu indefectível republicanismo. Natural do Porto, esta figura proeminente da comunidade portuguesa no Território, coronel médico que chefiou os Serviços de Saúde de Macau e Timor, músico, botânico, investigador e professor, andava seguramente ocupado com a preparação da representação de Macau na Exposição Universal de Paris de 1900, integrando a Comissão Organizadora para a qual tinha sido nomeado pelo Governador Eduardo Galhardo. Curiosamente, na véspera de escrever esta carta a Afonso Costa, o Conselho Governativo de Macau [que integrava o Bispo D. José Manuel Carvalho, o Juiz Albano Magalhães, o tenente-coronel Cyrillo Andrade e o Secretário Geral do Governo Alfredo Lello] nomeou o professor da 6ª cadeira, José Gomes da Silva, para Reitor do Liceu de Macau, cargo que exercerá, pela terceira vez, até 26 de Maio de 1903. Diga-se em abono da verdade que o legado intelectual e científico de José Gomes da Silva ainda não foi objecto de um estudo compreensivo. A sua obra continua por reeditar, com excepção de um título menor, “A República de Macau – história amena”, publicado pela editora Livros do Oriente, em 1994. O que empobrece a nossa visão da história cultural de Macau. Meu Exm.º Amigo Macau, 11-07-1900 Apresento-lhe meu filho Abeillard Gomes da Silva, de quem tive a oportunidade de falar-lhe aí. Vai cursar a faculdade de direito, o que quer dizer que se lhe torna indispensável a sua valiosa protecção. 85FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Diz-se que os melhores empenhos são os dos adversários políticos. As nossas ideias nunca foram adversas, por isso que militamos no mesmo campo, onde já militava meu pai, companheiro do Rodrigues de Freitas, como secretários ambos do grande Passos José. Mas as circunstâncias especiais em que me encontrei perante os eleitores do Porto levaram estes a colocarem o meu nome à frente de uma lista que combatia outra presidida pelo seu nome. Fomos portanto adversários. Felizmente fiquei vencido; mas ganhei um amigo, o que vale mais do que vencer uma eleição. Aí tem, pois, confiada à sua protecção o filho do seu adversário – ou do seu amigo, se prefere. Tenho por seguro que nada mais preciso acrescentar. Veja se descobre meio de eu lhe ser útil aqui no país das futilidades e das chinesices. Dê-me as suas ordens, que cumprirei com subido prazer. De V. Ex.ª amigo sincero, J. Gomes da Silva 86 ANTÓNIO ARESTA
  • LEONEL ALVES No exíguo grupo dos poetas de Macau, Leonel Alves (1921-1982) é porventura aquele que mais busca o recreio do espírito, as emoções pensadas, com grande bonomia reflexiva, na senda do que diziam os antigos, ‘primum vivere, deinde philosophare’, ou seja, primeiro é preciso viver e viver, só depois haverá condições para filosofar. A sua poesia encontra-se reunida no livro “Por Caminhos Solitários”, publicado em Macau no ano de 1983, um pequeno tesouro de pensamentos cuja ignição está na problematização e na meditação dos valores orientais e ocidentais pelo que mal se compreende que tenha passado despercebido e injustamente esquecido. Nesses caminhos solitários, telúricos e abertos à compreensão do Outro, nota-se uma receptividade comovida que é a marca de água da sua persona poética. Tal como José Joaquim Monteiro, Leonel Alves é uma figura muito importante na tradição da sinologia popular portuguesa. A raíz antropológica da poesia de Leonel Alves oscila entre o angelismo das ideias e uma sensibilidade errante, por vezes dolorosamente errante. Começa com a pergunta: “Sabem quem sou? / Meu pai era transmontano / Minha mãe china taoista / Eu cá sou, pois, euraseano / Cem por cento macaísta. / Meu sangue tem a bravura / Dos touros de Portugal, / Temperada co’a brandura / Do chinês meridional. / Meu peito é luso-chinês, / Meu génio sino-lusitano, / E toda a minha altivez / Sabe ter um trato lhano. / Tenho um pouco de Camões / E defeitos lusitanos / E nalgumas ocasiões / Pensamentos confucianos”. Os filhos da terra, o filho de Macau, ele mesmo, merece um poema, cujo recorte ou dimensão psicológica é notável: “Cabelos que se tornam sempre escuros / Olhos chineses e nariz ariano / Costas orientais, peito lusitano / Braços e pernas finos mas seguros. / Mentalidade mista. Tem dextreza / No manejo de objectos não pesados / Tem gosto por Pop Songs mas ouve fados / Coração chinês e alma portuguesa. / Casa com a chinesa por instinto / Vive de arroz e come bacalhau / 87FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Bebe café, não chá, e vinho tinto. / É mui bondoso quando não é mau / Por interesse escolhe o seu recinto / Eis o autêntico filho de Macau”. O tempo e a memória, no vero sentido bergsoniano, continuam a ser redescobertos, com uma candura que vibra em cada palavra e renasce em cada verso: “Passo pela casinha onde morreu / Meu saudoso pai e fico a meditar / Porque da velha Vila Pouca de Aguiar / P’ra aqui veio e aqui lutou e sofreu? / Passo pela casinha onde morreu / Minha santa mãe e pergunto a razão / Porque saira do seu berço Cantão / Para vir aqui onde só padeceu. / Encontraram-se as suas almas aqui, / Atraídas por um misterioso fado, / Sob cujo olhar também em Macau nasci”. Macau deixa de ser uma abstracção conceptual para se transformar numa rede de afeições, de afectos, de murmúrios e de diálogos. É no poema ‘Meditação’ que encontramos porventura uma das melhores projecções das atitudes éticas, uma ética para o ser, uma ética para o agir e uma ética dialógica: “Disse um budista que a meditação / Coloca o homem no centro do mundo / A pensar nos seus dois lados a fundo / Com a sua cabeça e coração. / Do lado esquerdo se perdoa o mal / Mostrando-se-lhe os bens da temperança / Assim se avivará mais a esperança / De levar o ódio pró que é racional. / Do lado destro se louva a bondade / Na esperança de que as suas raízes / Sejam a panaceia da maldade. / E, trazendo os dois lados, sem deslizes / Para bem junto do eixo da equidade / Os homens viverão então felizes”. No turbilhão da vida e da materialidade do quotidiano, impõe uma referência e um louvor a Confúcio, mestre da sabedoria: “Iluminaram os teus olhos claros / Os ásperos caminhos da Moral / P’ra que seguisse o teu povo um Ideal / Que tornasse o seu solo e lar mais caros / Confúcio! Quão confuso fiquei eu / Quando o acaso me quis dar tua luz / Tornando mais leve a pesada cruz / Que sem compaixão a sina me deu / Ao lar e às seculares Tradições / Exigias a mór fidelidade / Com repúdio total das vis paixões. / Mas o Mundo não deu continuidade / Ao teu Ideal de tantas gerações / E vive hoje em constante adversidade”. Não se esquece de pedagogicamente enfatizar, para os mais distraídos, “Disse Confúcio que a Sabedoria / Nasce quando se dá boa atenção / A tudo o que se vê no coração / Directamente e à luz clara do dia”. Os ensinamentos morais e éticos de Confúcio transformaram-se numa sabedoria intemporal e numa apologia do bem. Para todos. Ao pensar nos homens e na história das nações deixa vir ao de cima o seu fascínio pela História pátria: “Um Albuquerque, vivo e talentoso / Um Mascarenhas, de raro valor / Ou um Almeida, nobre e corajoso.” Associa a cada figura uma tábua de valores, fazendo-nos pensar no enlace patriótico e ideológico típico do ensino da história no passado, hoje infelizmente perdido porque vazio de sentidos. O poeta maior do século XVIII português, Manuel Maria Barbosa du Bocage, que também esteve em Macau, mereceu-lhe estes versos de uma franca admiração, 88 ANTÓNIO ARESTA
  • pontuada, no entanto, com alguma censura ao seu atribulado trajecto existencial: “Tinhas inspiração quási divina / Mas quiseste fazer-lhe injusto ultraje / E ficaste na História, ó Bocage / Como poeta brigão, boémio traquina. / Nasceste para ser outro Camões, / Pois teu estro também tinha engenho e arte, / Mas esbanja-los foste em toda a parte, / Com desprezo das tuas aptidões. / Brincaste com as Musas nas tabernas, / Bebendo com fadistas e foliões / Em noites que p’ra ti eram eternas. / Mas deixaste nos nossos corações / Melodias das mais doces e ternas, / Que inda soarão por muitas gerações”. Dificilmente se encontrará na sinologia popular portuguesa de Macau uma tão divertida quanto justiceira caracterização duma casa chinesa e respectivo ‘modus operandi’ social: “Junto à entrada está o deus-porteiro / Que não deixa entrar diabos e ladrões / E àquele que abra e saia dos portões / Assegura que volte são e inteiro / Na sala está o Buda folgazão / Enchendo a casa de luz e alegria / E p’ra que nunca falte o arroz do dia / Na cozinha está o deus do fogão. / Trabalha o patrão numa grande mesa / E entre ábacos e livros aos montões / Majestoso se ergue o deus da riqueza. / Na alcova está a deusa das paixões / Para dar ao casal toda a certeza / De dar ao seu lar novas gerações”. O livro “Por Caminhos Solitários” merece ser reeditado, se possível com a adição de poesias inéditas, porque a comunidade de Macau não deve ficar privada de poder apreciar a estética e o pensamento poético de Leonel Alves. Dizia o autor, “Se sou o que sou, dou graças / À China e a Portugal” e “Sempre sonhei ser um dia / Um bom sino-luso vate”.89FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • LEONEL BARROS Leonel Zilhão Ayres da Silva Barros (1924-2011), erudito discreto e devotado ao estudo de Macau, com um espírito polifacetado, acumulou ao longo da sua vida um saber enciclopédico que colocou ao serviço de diversas profissões: tradutor nos cinemas Nam Van, Capitol e Império; professor de educação física na Escola Primária Oficial e no Liceu de Macau; assistente de veterinário no Leal Senado e na Câmara Municipal das Ilhas; desenhador e ilustrador no Museu Marítimo de Macau e também no Museu de Macau; naturalista e biólogo. A paixão pela arte, pela música (integrou a banda do Hotel Estoril e foi baterista no grupo Six Rockers) ou pelo desporto (karaté e kart) fizeram de Leonel Barros uma figura popular no Território. Se tivesse havido ensino superior em Macau no seu tempo, que curso teria escolhido e que vida teria sido a sua? Foi aluno de Luís Gonzaga Gomes, na terceira classe do ensino primário, recordando-o nestes termos: “era um óptimo professor. Como ele falava chinês e nós pouco sabíamos, resolveu ele então falar em português; havia, devido a isso, uma maior compreensão, entre o professor e os alunos. Era um indivíduo muito solitário e não incomodava ninguém”. Mas na sua formação liceal, o professor mais marcante foi Fernando Lara Reis, justamente o mestre das artes: “Havia um professor de desenho, muito metódico, chamado Lara Reis, a quem recordo como amigo e não como professor. Quando pintávamos, dizia-nos que o pincel só se podia limpar com a língua e tentava convencer-nos que aquilo não matava ninguém. Não nos deixava lavar o pincel sem ser com a língua. Havia algumas meninas que se queixavam dizendo que não podiam, mas ele insistia dizendo: pode, pode, olhe que isso é bom. Quando eu estou a desenhar, limpo sempre o pincel com a língua. A culpa de proceder desta forma foi de Lara Reis”. Este depoimento prestado ao professor Fernando Costa Andrade foi inserido no volume “Memórias e Testemunhos”, também refere a curiosa 90 ANTÓNIO ARESTA
  • informalidade nas visitas à China: “Quando chegávamos às Portas do Cerco, vinha um polícia chinês e perguntava-nos quem era o chefe e o número total de visitantes a seguir. Não havia mais formalidades. Nós chamávamos a isso, em Macau, a contagem dos porcos quando vão ao matadouro. De regresso a gente chegava ao pé do chefe e ele perguntava se faltava alguém. Se não faltasse, mandava-nos seguir. Como veem, era facílimo entrar na China. Íamos passear e nadar em lagos naturais, onde havia quedas de água. Colhíamos também uma variedade enorme de insectos para fazer colecções que, infelizmente se foram perdendo com o tempo”. Entretanto tudo foi mudando, como sabemos. Cumpriu o serviço militar obrigatório em Macau em plena segunda guerra mundial, sentindo-se a inevitável pressão do expansionismo militar nipónico na China, em Hong Kong e nas cercanias de Macau. As suas narrações empolgadas e minuciosas desses tempos tumultuosos não ficaram, infelizmente, registadas para a memória futura. Leonel Barros colabora com regularidade na imprensa do Território, destacando-se os jornais “Notícias de Macau”, “O Clarim”, “Gazeta Macaense”, “Tribuna de Macau” e ainda na “Revista Macau”. Escreveu sobre as tradições, sobre a fauna e flora, sobre algumas particularidades da história de Macau, personalidades e costumes locais. Os seus livros eram frequentemente ilustrados com os seus desenhos e aguarelas. A sua bibliografia regista os seguintes títulos : “Guia Ilustrado de Cobras Venenosas de Macau e das Ilhas da Taipa e Coloane”, 1978; “Manual de Identificação das Aves de Macau: aves residentes e migradoras”, 1984; “Cozinha Caseira”, 1985; “Macau – Coisas da Terra e do Céu”, 1999; “Macau – Templos, Lendas e Rituais”, 2003; “Macau – Memórias Náuticas”, 2003; “Tradições Populares”, 2004; “Memórias do Oriente em Guerra – Macau”, 2006; “Homens Ilustres e Benfeitores de Macau”, 2007; “Igrejas de Macau e Cerimónias Religiosas”, 2010. Como se nota, é uma bibliografia invulgar. Há escritos dispersos que bem poderiam ser organizados em livro. Foi ainda autor de diversas colecções de selos, editados pelos Correios de Macau. O volume “Macau – Coisas da Terra e do Céu” é realmente icónico no panorama da sinologia popular portuguesa, resultando da aglutinação de cerca de meia centena de crónicas publicadas no Jornal Tribuna de Macau e editadas mais tarde sob a chancela da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude. Aí são desvendadas as tradições, os usos e os costumes do povo chinês, “Macau está enfeitada de contos e lendas chinesas, que são verdadeiras relíquias do passado”. Nota-se uma herança da pedagogia de divulgação cultural de Luís Gonzaga Gomes, seu antigo professor e também um fascínio pela arte narrativa de Jaime do Inso sobre Macau e a China. 91FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Lembra-nos, por exemplo, “A Festa do Bolo Lunar Bate Pau”. Em Macau “são as crianças que mais apreciam a festividade. Qualquer criança, seja ela filha dum rico ou pobre, traz consigo nesse dia a sua lanterna para iluminar a noite, passeando-se orgulhosamente pelas ruas, parques, jardins e praias. As lanternas aparecem em todas as formas que o artista consegue inventar e enchem-se as papelarias situadas na Rua dos Mercadores. São coelhos, fénix, borboletas, peixes, caranguejos, lagostas, macacos, frutas exóticas, etc. Em Macau existem várias casas onde o bolo bate-pau é confeccionado, sendo a mais conhecida a chamada In-Hor, estabelecimento antiquíssimo com duas entradas, sendo uma na Travessa do Soriano e outra na Rua dos Mercadores”. E não esquece uma outra particularidade muito interessante porque é reveladora dos traços psicológicos de um povo: “Em Macau, hoje mais do que nunca, é comum verem-se pelas ruas, arcadas e templos, uns indivíduos sobriamente vestidos sentados numa cadeira e tendo à sua frente uma pequena mesa sobre a qual se vê uma pequena estátua de um ídolo ou a imagem do Buda Sorridente, um receptáculo cilíndrico dentro do qual estão as hastes de bambú, t’chock-t’chim (o número de hastes varia entre sessenta a cem e tem cerca de metade do comprimento dum fai-chi) e a carapaça oca de um cágado contendo no interior, três sapecas. Todo aquele que desejar saber o seu futuro bastará sentar-se numa outra cadeira e combinar seguidamente com o adivinho o custo para as previsões que deseja saber. Os preços variam conforme as espécies de perguntas, fáceis ou difíceis de responder”. E para quem presenciou estas situações, pode confirmar que a demanda popular por estes serviços não era mesmo nada pequena. O ritmo frenético da vida de todos os dias fazia com que uma franja da população conhecesse imperfeitamente a sua cidade. Por exemplo, para chegar ao Templo do Deus dos Raios “é obrigatório ir-se pela Rua da Figueira”, um “templo que merece uma prolongada visita dos nossos leitores mais interessados pela outra Macau que está à disposição de todos, mas tantos fazem por ignorar…”. Sobre os meandros da história de Macau, recupera alguma interessante tradição oral que a historiografia tradicional esqueceu ou desvalorizou: “Existe em Macau uma rua conhecida por Rua da Praia do Manduco; pelo vocábulo manduco, é designada a rã (rana tigrina) em Macau. Noutros tempos existia nesse local, uma pedra banhada pelas águas do rio e que tinha o feitio de uma rã(…). Os pescadores tinham aquela pedra, como sendo uma coisa sagrada e quando a rã coaxava, era sinal de que iria haver mau tempo, e todos ficavam em terra. O governo de Macau, ignorando totalmente os veementes protestos da maioria da população chinesa, em especial os moradores da Praia do Manduco, mandou destruir essa tão famosa pedra histórica, para a abertura de arruamentos. Se hoje essa pedra ainda existisse seria um grande atractivo para os visitantes…”. Para além de compreender e explicar o significado profundo das crenças e das suas implicações culturais, Leonel Barros não 92 ANTÓNIO ARESTA
  • perde o ensejo para reafirmar a admirável convivência entre o povo português e o povo chinês: “No outro lado fica o Vá-Tou (patrono dos médicos e curandeiros) e a Deusa Kam-Fá, Flôr Dourada – protectora do sexo fraco. Kam-Fá arranja noivos trabalhadores e honestos às raparigas solteiras e modifica a índole dos maridos de fracos sentimentos, para alegria das mulheres casadas. Às mulheres grávidas destina um primogénito varão, de parto fácil e feliz. Marco centenário da devoção chinesa ao Soberano do Norte, este templo budista foi sempre respeitado pela tradicional tolerância portuguesa e é um testemunho da convivência dos dois povos com culturas tão distintas”. O Governo português de Macau reconheceu os seus inestimáveis serviços, atribuindo-lhe a Medalha de Mérito Cultural em 1995. Contudo, Leonel Barros não conseguiu cumprir um sonho. Visitar Portugal.93FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • LUÍS GONZAGA GOMES Luís Gonzaga Gomes (1907-1976) pensou a história da cultura em Macau dentro do flume luso-chinês e sino-português, e caso raro, abriu estes dois mundos um ao outro. Encaixou a flexível harmonia confuciana no nosso desordenado fluir heraclitiano: constrói a narrativa da história para sedimentar a memória, ao mesmo tempo que se embrenha na lexicografia e nas traduções, coloca ao dispor da comunidade, através da radiofonia, uma sensível educação estética para a música ou se entrega à escrita tumultuosa do jornalismo quotidiano. Na Escola, ensinava, escutava e escrevia no caderno diário das dúvidas o delicado problema das identidades. Trabalho quase monástico, com uma severa disciplina de pensamento e de investigação. Para os mais novos que apenas conhecem o nome de Luís Gonzaga Gomes numa placa toponímica de uma artéria da cidade, ou como patrono de uma Escola, se calhar nem isso, e também para os mais desatentos, é muito importante dizer-lhes onde e como é que ele gastou amorosamente a sua vida. Aponto estes seis caminhos, deixando outros por falta de espaço. O primeiro, tem a ver com a versão portuguesa dos clássicos chineses [O Clássico Trimétrico, 1944; O Clássico da Piedade Filial, 1944; As Quatro Obras, 1945; O Livro da Via e da Virtude de Láucio, 1952]; o segundo, com o estudo da cultura chinesa [O Sistema de Adopção na China, 1945; Contos Chineses, 1950; Lendas Chinesas de Macau, 1951; Chinesices, 1952; Festividades Chinesas, 1953; Arte Chinesa, 1954]; o terceiro, dedicado à história de Macau [Efemérides da História de Macau, 1954; Catálogo dos Manuscritos de Macau, 1960-66, 6 volumes; Páginas de História de Macau, 1966; Museu Luís de Camões, 1973; Bibliografia Macaense, 1973]; o quarto, sobre linguística e lexicografia [Vocabulário Cantonense-Português, 1941; Vocabulário Português-Cantonense, 1942; Vocabulário Português-Inglês-Cantonense, 1954; Noções Elementares de Língua Chinesa, 1958]; o quinto, as traduções para a língua portuguesa [Relação da Grande Monarquia da China, de Álvaro Semedo, 1956; Nova 94 ANTÓNIO ARESTA
  • Relação da China, de Gabriel de Magalhães, 1957]; o sexto, a traduções para a língua chinesa [História de Portugal, 1955; Os Lusíadas contados às Crianças e lembrados ao Povo, de João de Barros, 1972]. Trabalho insano, metódico e infinito até onde a vida deixou. Mas os trabalhos não ficaram por aqui. Antigo aluno de Manuel da Silva Mendes no Liceu de Macau, e seu admirador, recolhe a colaboração dispersa e organiza a “Nova Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes”, em três volumes, em 1963. Um pouco antes, em 1959, traduziu algumas partes da “Mensagem” de Fernando Pessoa, para a língua chinesa, numa “edição reservada para distribuição aos alunos do Liceu Nacional Infante D. Henrique” e “autorizada pela Família de Fernando Pessoa”. Todos esses exemplares foram rubricados pelo Governador Jaime Silvério Marques. Nesta contemporaneidade aparentemente tão pouco exigente ninguém apostou tanto como Luís Gonzaga Gomes na promoção real do bilinguismo. As suas propostas tinham um acurado e perspicaz sentido legislativo para que o ensino da língua chinesa, no interior do pequenino sistema educativo português de Macau, pudesse ter eficácia e sucesso. A batalha foi perdida porque os ventos sopravam noutra direcção. Recordo o testemunho de Maria Edith Silva, recolhido por Fernando da Costa Andrade no volume “Memórias e Testemunhos”: “Outro professor que me marcou foi Luís Gonzaga Gomes. Ele tinha sido meu professor de Inglês no 5º ano e entusiasmou-me a aprender Chinês como actividade extracurricular. Ele dizia que nós, os macaenses, dominávamos todo o chinês falado, mas não sabíamos ler nem escrever e que éramos analfabetos na nossa terra. Isso fez-me pensar e resolvi aprender chinês. Ele tinha razão, porque, apesar da educação portuguesa que nós tínhamos, o sangue que nos corria nas veias era chinês. ”Da vera imagem de Luís Gonzaga Gomes releva que “era excelente, muito boa pessoa, muito tolerante”. Túlio Lopes Tomaz, professor e antigo director dos Serviços de Educação, também na qualidade de amigo e admirador de Luís Gonzaga Gomes, colocou o dedo na ferida com estas palavras certeiras: “Outros com menos merecimento terão tido já, embora com sorte vária, os seus biógrafos, mas deste ficou ainda tanto para dizer que é caso para recomendar aos estudiosos que se apressem, antes que a memória dos Portugueses de Macau vá evanescendo, com as fatalidades do tempo que se escoa e dos conhecimentos que são função dele”. Sim, falta realmente uma biografia ou uma fotobiografia. Mas não só. A evocação substantiva de Luís Gonzaga Gomes, a propósito dos 40 anos da sua morte deveria passar pela realização de um Colóquio Internacional a ele inteiramente dedicado, para além de uma Biografia e do planeamento da edição da Obra Completa. Luís Gonzaga Gomes, o macaense universal, vale isso tudo e muito mais.95FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • MANUEL ANTUNES AMOR Manuel Antunes Amor (1881-1940), natural de Ferreira do Zêzere, esteve radicado em Macau entre 1919 e 1922, em comissão de serviço como Superintendente das Escolas Municipais. Diplomado pela Escola Normal de Leiria em 1902, começou a sua carreira como professor do ensino primário e desde cedo procurou reflectir sobre as metodologias do ensino e sobre as ideias pedagógicas em voga. Entre 1907 e 1909 estuda na Alemanha, com uma bolsa de estudo, tendo sido aluno de Wundt, um dos fundadores da psicologia experimental. Esta estadia foi determinante na sua carreira e no seu modo de pensar a educação e a prática do ensino. Regressa a Portugal e é nomeado Inspector do Ensino Primário. O seu percurso sofre outra inflexão, de 1912 a 1916 é professor de alemão e de desenho no Liceu Colonial em Cernache do Bonjardim. Em 1916 encontramo-lo na Índia Portuguesa como Inspector do Ensino Primário. O seu espírito abria-se à cosmovisão asiática, num deslumbramento cognitivo que procura levar para a sala de aula. Ainda mal refeito desse primeiro choque orientalista, o Leal Senado de Macau endereça-lhe o convite, em 7 de Julho de 1919, para ocupar o posto de Superintendente das Escolas Municipais, oferecendo um contrato de três anos e um vencimento mensal de 333 patacas. Manuel Antunes Amor, após o consentimento de José de Freitas Ribeiro, Governador Geral da Índia, decide aceitar a proposta e radica-se em Macau, um pequeno burgo com duas urbes distintas mas intercomunicantes. O Liceu tinha 37 alunos em 1919 e nos seus corredores cruzavam-se, entre outros, Manuel da Silva Mendes e Camilo Pessanha, sob o olhar do Reitor Mateus António de Lima. O padre José da Costa Nunes será escolhido para Bispo de Macau em 1920. O círculo eleitoral de Macau elegeu em 1919 Henrique Travassos Valdez para senador e Manuel Rocha para deputado. Um claro sinal de alguma instabilidade na condução dos destinos políticos da colónia nota-se na elevada rotação de governadores e governadores interinos em escassos três anos, 96 ANTÓNIO ARESTA
  • sucessivamente Artur Tamagnini Barbosa, Joaquim Augusto dos Santos, Henrique Correia da Silva, Alfredo Rodrigues Santos e Luís Magalhães Correia. Manuel Antunes Amor analisa o estado da instrução pública que estava sob a sua alçada, quer em termos administrativos quer em termos pedagógicos. Considera que é necessário reformular procedimentos, introduzir alguma modernidade na prática pedagógica bem como uma actualização na formação dos professores. No relatório sobre as escolas municipais, que apresenta em finais de 1919, nota a “falta que os alunos tem de intervalos de descanso ao ar livre, de hora a hora, recreios estes absolutamente necessários, quer para a disciplina, quer para a higiene escolar, isto é, não só para os alunos estarem sossegados e prestarem a devida atenção às lições, como ainda para não respirarem por longo tempo a atmosfera viciada da aula, cujo ar deve ser renovado, pelas janelas abertas, durante os intervalos de descanso”. Apresenta em 1920 o projecto de Regulamento do Ensino Primário Municipal de Macau e reformula o projecto da Escola Pedagógica, para a formação de professores, o embrião de uma futura escola normal do magistério primário. Estas ideias inovadoras causaram alguma incomodidade nos sectores mais conservadores que viram a sua rotina escolástica posta em causa. Desse susto inicial até à polémica na imprensa foi um caminho muito curto, tal como a velha questão das vaidades irritadas e irritantes. Os jornais O Liberal, A Verdade e O Macaense darão guarida a inúmeros ataques ad hominem contra Manuel Antunes Amor, acusando-o, por exemplo, de arrogante germanófilo, numa época em que tinha terminado a I Grande Guerra, com a assinatura do Tratado de Versalhes, em 1919. Por detrás desta campanha estava Constâncio José da Silva, advogado e jornalista que tinha começado a sua carreira como professor do ensino primário, cuja trajectória emocional e social era dada a grandes variações, no estilo e na forma, especialmente após o seu regresso de Xangai. Em termos científicos, a metodologia de Manuel Antunes Amor não era atacada ou hostilizada. Quando muito, incompreendida e olhada com desconfiança. Ele entrou por direito próprio na história da educação portuguesa por estes dois grandes e originais contributos: um, o método Amor para a iniciação à leitura e à escrita; o outro, o pioneirismo do valor educativo da utilização do cinema na sala de aula. Este período da história da educação em Macau, não obstante ter sido estudado por Aureliano Barata e Rui Simões, ainda nos reserva alguns desenvolvimentos que permanecem inéditos. Numa entrevista à revista Cinéfilo, de 5 de Julho de 1930, refere que “além de operador cinematográfico, prezo-me de ser também um apaixonado pelo cinema na escola, porquanto avalio bem, como pedagogista que sou, a alta importância do filme didáctico no ensino moderno”. Muito à clássica maneira portuguesa, tudo foi feito “sem auxilio pecuniário do governo, valendo-me apenas das minhas economias”. Toda esta actividade começou “primeiramente em Macau, e depois na 97FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Índia, filmei vários aspectos dessas nossas colónias, sendo os meus trabalhos exibidos nos cinemas locais. Em 1924, achando-me de licença na metrópole, exibi nalguns cinemas de Lisboa e Porto um documentário de Macau, o qual mostrava em Portugal, pela primeira vez, a vida animada e o progresso daquela nossa longínqua possessão”. Cabe perguntar, existirá ainda uma cópia dessa película? Contudo, a Cinemateca Nacional guarda uma cópia dos materiais do filme “Macau: Cidade Progressiva e Monumental”, de 1935, uns incríveis seis minutos de uma cidade viva e com um quotidiano tumultuoso [o leitor interessado pode aceder livremente a esse filme de Manuel Antunes Amor no sítio da cinemateca digital, www.cinemateca.pt]. Manuel Antunes Amor anuncia também que “já está pronto o filme intitulado Festas das Escolas de Nova Goa, pelo qual se pode fazer ideia do desenvolvimento da instrução na nossa Índia. (…) Durante a exibição dos filmes instrutivos e regionais, eu, como inspector, preleccionava, apontando na tela os pormenores dignos de nota. Durante a mudança das fitas nas bobinas do projector, corriam-se os estores de oleado preto e abriam-se as janelas para ventilar o salão. Nesse pequeno intervalo, as crianças espalhavam-se por outras salas, conversando, bebendo refrescos e ouvindo músicas portuguesas tocadas numa grafonola.(…) Mas a excursão dos alunos e professores à capital da província não se limitava à sessão cinematográfica na Repartição de Instrução Primária. Aproveitavam a oportunidade para, nesse dia, verem outras curiosidades, como as escolas, a galeria dos retratos dos vice-reis no Palácio do Governo, as oficinas das Obras Públicas, a Imprensa Nacional, a Biblioteca e Museu Vasco da Gama, o Hospital Central, a Fábrica do Gelo, os monumentos e jardins das praças públicas, etc.”. Como se nota, as sessões cinematográficas eram complementadas com actividades culturais que enriqueciam os estudantes e reforçavam simbolicamente a sua identidade. Fica, ainda, um recado: “parece que se tem ignorado ou se finge ignorar nas altas esferas governamentais da instrução que o cinema é um elemento poderoso da educação. Lamentável desleixo!”. Deixo o registo de algumas obras de Manuel Antunes Amor: Compêndio de Desenho, 1906; A Cartilha Moderna: método legográfico analítico-sintético, 1910; Manual de Estenografia-Caligrafia, 1910; O Ensino do Desenho na Escola Primária, 1914; A Revolução nas Escolas, 1925; Cruzada contra o Analfabetismo, 1930; Cartilha do Adulto ou Curso de Leitura e Escrita em 49 Lições: Método Amor, 1935. Deixou colaboração dispersa, de natureza pedagógica, em inúmeras publicações. Em 1922 regressa ao seu posto na Índia. Nesta outra fase da sua carreira torna-se um paladino das associações profissionais dos professores, de molde a poderem organizar a carreira e a fixarem os seus direitos e os seus deveres. Mas, parece não haver dúvida de que o tempo em que viveu em Macau foi muito importante a vários títulos. Assim, na conceituada revista A Ilustração 98 ANTÓNIO ARESTA
  • Portuguesa, de 21 de Abril de 1923, Manuel Antunes Amor assina um pequeno artigo, Macau, a cidade mais pitoresca do nosso domínio ultramarino, que pela sua importância aqui transcrevo na íntegra: “Quem não conhecer Macau de visu, não poderá fazer ideia das belezas naturais que ornam aquela nossa pérola do Extremo-Oriente. Gozando duma prosperidade, hoje inigualada por qualquer outra das nossas colónias, mercê dos milhões de patacas auferidos pelo Estado, com os monopólios do fabrico do ópio, do jogo do fan-tan, das lotarias do san-pio e p’u-pio, do sal, etc., Macau deslumbra o visitante, pela actividade fabril e comercial dos seus oitenta mil habitantes da raça chinesa, pela elegância e riqueza das construções, pela limpeza e boa conservação do pavimento das ruas, pelo cuidado com que são tratados os seus jardins, pelas belas perspectivas que os acidentes do terreno oferecem, e, finalmente, pelas grandiosas obras do porto de navegação oceânica, há pouco iniciadas por uma companhia holandeza. Para os chineses multi-milionários é lugar de repouso, gozo e segurança nos seus palácios encantadores. Para o viajante é a cidade rica de prazeres, o clima suave, a estância pitoresca, onde os dias passam velozes, sem que os seus olhos se fatiguem de ver. Para o militar e para o funcionário civil, se não for o Eldorado onde a árvore da pataca floresce e frutifica prodigamente, é, pelo menos, o sítio do Ultramar que, no clima e nos hábitos de vida dos coloniais, mais se irmana à Mãe-Pátria”. Escrever melhor em tão poucas palavras não parece ser possível. A acompanhar este breve artigo, uma foto do autor e dezoito fotografias de Macau, algumas delas muito curiosas. Se outro apoio político tivesse sido dispensado a Manuel Antunes Amor, teria este conseguido fazer uma verdadeira revolução no ensino primário em Macau segundo o paradigma da inovação e da modernidade? E que desenvolvimento teria o cinema e o cinema educativo em Macau? 99FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • MANUEL TEIXEIRA Monsenhor Manuel Teixeira [15.04.1912 – 15.09.2003], emérito historiador de Macau, publicou mais de uma centena de livros e escreveu caudalosamente na imprensa portuguesa de Macau. Assinou artigos sobre todas as parcelas da história de Macau, sobre a história da China, sobre a história dos portugueses no extremo oriente, sobre a biografia de grandes personagens. Mas, o género sobre o qual recaía a sua preferência era a história breve com uma explícita lição de moral. Vejamos este exemplo: Só Romances A senhora Anne Marx, descendente de Karl Marx, disse-me que me queria oferecer um livro como lembrança do seu marido, que falecera recentemente. Mostrou-me um armário de livros e disse-me que escolhesse. Eu desejava um livro sobre a história da Alemanha, onde eu vivia. Percorremos eu e ela os livros um por um: só apareciam romances. Depois de muito rebuscar, conseguimos descobrir o único livro que não era romance – Verbronnte Erde, de Paul Carrel, sobre os combates alemães entre o Volga e o Weichsel, na Rússia. E eu pus-me a pensar: só romances, porquê? É que o homem procura fugir da realidade para a irrealidade. A vida é árdua e cheia de mil cuidados. Procura-se então um mundo ideal e irreal, um mundo todo recheado do aperitivo masculino-feminino, onde a imaginação se refastele. Outrora era só no vinho que se afogavam as mágoas. Vino pellite curas, recomendava Horácio: Espantai os cuidados com vinho. Hoje, temos mais: os romances, as drogas, que sei eu? Os resultados, porém, são funestos. 100 ANTÓNIO ARESTA
  • Este texto de moral reflexiva, sobre a arte de viver, foi publicado no Jornal “O Clarim”, de 31 de Janeiro de 1974 [o director era o padre Américo Casado e o administrador o padre Eduardo Tavares], na coluna fixa intitulada “Pequenas Doses”. Recorde-se que o Jornal “O Clarim”, órgão da Diocese de Macau, formalmente propriedade de Juventude Católica de Macau, desde Maio de 1949, era uma publicação conservadora, militantemente anti-comunista e com grandes preocupações culturais. “O Clarim”, ainda em publicação, é um jornal incontornável para o conhecimento da história contemporânea de Macau. Mas, quinze anos após o falecimento de Monsenhor Manuel Teixeira, que ocorreu a 15 de Setembro de 2003, parece-me curial apresentar estas três inquietações em forma interrogativa. A primeira: onde está guardado e quem cuida do espólio documental de Monsenhor Manuel Teixeira? A segunda: porque motivo é que ainda não foi criada uma bolsa de investigação específica para se fixar a sua bibliografia, sobretudo o rastreio da sua colaboração na imprensa de matriz portuguesa de Macau? A terceira: não haverá necessidade de se fazer a reedição de algumas das suas obras, mesmo em suporte digital? Monsenhor Manuel Teixeira foi uma figura verdadeiramente icónica no seio da comunidade portuguesa de Macau. Viveu 75 anos no extremo oriente, 60 anos em Macau e 15 anos em Singapura. Lembrá-lo também significa preservar o seu legado, estudar o seu pensamento e dá-lo a ler aos contemporâneos. Que não o esqueceram. Por exemplo, José Teixeira publicou “Manuel Teixeira, de Menino a Monsenhor”, editado pelo Instituto Internacional de Macau, há poucos anos; também António Graça de Abreu lhe dedicou o poema “Com Monsenhor Manuel Teixeira em Freixo de Espada à Cinta”, inserido no seu novo livro “Lai Yong, Bernardo e Outros Poemas”, editado pela Lua de Marfim, em Julho de 2018. É bom, mas precisamos, claramente, de bastante mais. 101FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • MARIA DO CÉU SARAIVA JORGE “Macau que eu conheci. Anos 20 e 30”, de Maria do Céu Saraiva Jorge (1919-2007) é, a vários títulos, uma verdadeira preciosidade literária e memorial. Publicado em 2006, estranhamente em edição de autor, com o suporte do Instituto Internacional de Macau e da Fundação Jorge Álvares, encontrou nos seus antigos alunos do Liceu/Escola Secundária de Pedro Nunes, um decisivo e afectuoso apoio. No Prefácio, o antigo aluno e actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, registou o seguinte: “A sua publicação representa um contributo mais para a História de Macau sob administração portuguesa, um modo de preservar uma memória que só enriquece o comum património luso-chinês e, sobretudo, uma homenagem, em vida, a uma querida Professora e Amiga. A gratidão dos seus alunos não prescreve – é isso que significa a edição deste livro, volume escrito por uma pedagoga notável chamada Maria do Céu Saraiva Jorge”. O psiquiatra Daniel Sampaio, na sua “Última Lição”, de 2016, não se esqueceu de agradecer e recordar os seus grandes professores do Liceu Pedro Nunes, e entre eles cita a professora Maria do Céu. De facto, a professora Maria do Céu teve uma carreira docente distinta. Licenciada em filologia germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa, estagiou na Universidade de Nottingham e na secção portuguesa da BBC, em Londres. Leccionou em Faro, em Santarém, em Cascais e em Lisboa (Liceu Gil Vicente, Liceu Filipa de Lencastre e Liceu Pedro Nunes), tendo terminado a carreira na Inspecção. Orientadora de Estágio anos a fio, dedicou muito do seu tempo à investigação e à divulgação cultural. A sua “Gramática de Inglês” (1954) conheceu várias edições como “livro único”. William Shakespeare foi, contudo, a paixão que a acompanhou pela vida fora, tornando-se uma autoridade como estudiosa e uma referência como tradutora. Lembra-se de ter visto na bem nutrida biblioteca do seu Avô José Vicente Jorge, as obras completas de Shakespeare, de Camilo Castelo Branco e de outros 102 ANTÓNIO ARESTA
  • vultos da literatura portuguesa. Deixo aqui o registo de algumas das obras da professora Maria do Céu: “Reminiscências Shakespearianas no poema D. Branca, de Garrett” (1958); “Portugal em Shakespeare” (1963); “Shakespeare e Alexandre Herculano” (1964); “As primeiras referências a Shakespeare na Literatura Portuguesa” (1964); “Shakespeare e a literatura portuguesa posterior a Garrett e Herculano” (1965). Traduziu para a língua portuguesa “Os Sonetos” de Shakespeare (1962) e não ficou indiferente a Confúcio e à filosofia chinesa, tendo publicado “Kung, o Grande Mestre”, em 1959. De igual modo, procurou compreender Camilo Pessanha, com “Elementos para uma anotação interpretativa da Clepsidra de Camilo Pessanha”, em 1967. Figura entre os impulsionadores da instalação da Casa de Macau em Lisboa, criada em 1966, por sinal a única mulher em toda a galeria dos fundadores. “Macau que eu conheci. Anos 20 e 30” não é apenas um cruel exercício de nostalgia. É sobretudo a reconstrução metódica do ‘ethos’ português centrado na figura do Avô José Vicente Jorge, carinhosamente apelidado de “barão do pau preto” em virtude do “riquíssimo mobiliário e conteúdo artístico de sua casa, a casa-museu onde eu cresci”, e justamente por tudo o que ele representava em termos de carácter, de sabedoria e de prestígio. Em todo o livro há um multiforme e levezinho inventário de famílias que se visitam, se encontram, se divertem, se cruzam nos matrimónios, nas amizades, nas separações, nas festas, nas alegrias e nas tragédias: Matilde Jorge, Pedro Lobato, Carlos Estorninho, Artur Borges, Henrique Nolasco, Leopoldo Danilo Barreiros, Américo Jorge, Almeida Pinheiro, Alberto Conceição, Júlio Pancrácio, Bernardino de Senna Fernandes, Fernando Rodrigues, Pedro Lobo, Adolfo Jorge entre tantas outras figuras. Tudo girava em torno da “Macau portuguesa”, cultivando-se com elegância um bom relacionamento com todas as pessoas de outras nacionalidades, notando, “ainda bem que, pelo menos os chineses que nasceram na nossa antiga colónia enquanto ela esteve sob administração portuguesa, souberam absorver a nossa maneira de sentir”. Depois, é a rapariga que percorre de bicicleta as ruas e as avenidas de Macau, em busca do sentido de um tempo e de um espaço que sumiu na voragem do progresso mas que persiste na memória doce dos afectos. A comunidade chinesa parece invisível nessa reconfiguração visual em que decompõe o real. Fica zangada com algumas situações que faz questão de recordar, “esta rampa fazia uma curva ao centro, onde se erguia, voltado para o mar, o grande Hotel da Boa Vista, que tinha um nome bem apropriado à situação (acho que hoje se chama ‘da Bela Vista’). Ainda bem que não o deitaram abaixo para construir outro ‘Hotel Lisboa’, esse monstro que engoliu um grande bocado da linda Praia Grande que eu conheci”. 103FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • É muito interessante a memória de um certo Macau desportivo: “No campo da Caixa Escolar havia todos os dias treinos de ‘hockey’, dirigidos pelo Major Filipe do Ó Costa, grande entusiasta desta modalidade, que levou a equipa de Macau ganhar o campeonato da Ásia, em Singapura, no ano de 1933. Ainda tenho uma fotografia dessa rapaziada tirada na ocasião. Quase todos eram alunos do nosso liceu e meus amigos”. O desporto funcionou como um traço de união interclassista e de uma plena multiculturalidade. O Liceu, esse foi inesquecível, sobretudo com os professores Lara Reis e Ferreira de Castro. A evocação de Camilo Pessanha ocupa dois interessantes registos na sua memória e que, decerto, ajudarão a perceber melhor alguns aspectos da sua biografia. O primeiro, “havia ali perto uma travessa perpendicular à margem do estuário e onde morava o poeta Camilo Pessanha. Lembro-me de o ter visto muitas vezes por ali, ao fim da tarde, sentado na amurada da Praia Grande, muito pensativo, a olhar vagamente para muito longe, para além do mar, acompanhado do seu inseparável cãozinho branco, o ‘Arminho’”. O outro registo, “lembro-me perfeitamente de ter visto Camilo Pessanha ir procurar o meu Avô para lhe dar esclarecimentos sobre língua chinesa, idioma que ele estudava com muito interesse e no qual já se conseguia exprimir razoavelmente, em dialecto cantonense, que era o que então se falava exclusivamente em Macau (hoje fala-se lá também o ‘mandarim’, dialecto do norte e língua oficial da China). Recordo-me de ter sentido um certo medo, quando, em pequenina, Pessanha me dava um beijo no jardim do meu Avô, com as suas longas barbas, muito negras e ásperas e aqueles olhos, brilhantes e profundos, embora a sua atitude para com as crianças fosse sempre carinhosa”. Maria do Céu anota esta inédita situação que bem poderia ter mudado o panorama da história cultural de Macau: “Enfim, esta casa, que levou anos a formar, era a principal fonte de vida do meu querido Avô – e faço ideia de quanto lhe devia ter custado abandonar estas maravilhas para vir ter com os filhos a Portugal, principalmente com o meu tio Américo, que era o seu preferido e foi quem ficou com a maior parte da sua colecção. Antes de a abandonar, ainda o Pai Jorge teve a ideia de a vender ao Governo Português, por um preço simbólico, com a condição de que tudo se conservasse como estava, passando a casa a funcionar como um museu. Foi uma óptima ideia, mas esta proposta foi recusada pelos nossos governantes, do tempo do Dr. Salazar. Coitados, não podiam fazer ideia do que lá estava! Se o nosso Governo tivesse adquirido este museu, de certeza que ainda hoje os chineses se orgulhariam de o exibir, pois são um povo conservador e amante da arte do passado. Duvido mesmo que se encontre nos museus da China uma colecção tão variada e organizada com tão bom gosto e tão rigoroso critério histórico!”. E qual tinha sido a origem dessa preciosa colecção de obras de arte? “Esta relevante 104 ANTÓNIO ARESTA
  • personalidade foi Encarregado de Negócios em Pequim, quando lá não havia Embaixada de Portugal, cidade em que assistiu à deposição do sistema imperial e ao consequente assalto ao palácio do Imperador, circunstância que lhe proporcionou a aquisição de valiosíssimos objectos de arte chinesa, que então se vendiam ao desbarato”. Para a ideia da criação do museu vingar, era necessário o comprometimento activo e militante do Governador e de outras figuras gradas de Macau, portugueses e chineses, o que parece não ter acontecido. Macau perdeu um belo museu de artes decorativas que teria feito a imortalidade de José Vicente Jorge.105FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • MIGUEL TORGA Miguel Torga (1907/1995), que é o pseudónimo literário do médico Adolfo Correia da Rocha, visitou Macau em 1987, a convite do Governador Joaquim Pinto Machado, cumprindo finalmente “um desejo velho, constantemente frustrado, de conhecer ao natural terras e mares por onde em tempos temerariamente me aventurei na pessoa inventada do Senhor Ventura”. No “Senhor Ventura”, publicado em 1943, o estouvado Ventura dizia que “lá por um homem não aguentar aquela estopada de Macau, não se segue que lhe cortem as pernas”, tomando por isso o caminho de Pequim. Miguel Torga era um vulto cimeiro da literatura portuguesa, várias vezes premiado e em cuja extensa obra, sempre em edição de autor, se destacam os seguintes títulos, “Contos da Montanha” (1941), “Um Reino Maravilhoso” (1941), “Orfeu Rebelde” (1954), ou o “Diário”, iniciado em 1941 e que soma 16 volumes. E é no “Diário” que regista a sua meditada errância por Macau. Quando chega a Macau, esse “extremo oriente da inquietação”, Miguel Torga passa naturalmente ao lado de alguma turbulência política de matriz lusa que ciclicamente assolava o Território, cogitando de si para si, “o que eu tenho aprendido de Portugal longe das suas fronteiras!”. Era o cabeça de cartaz das icónicas cerimónias patrióticas do 10 de Junho, iniciadas pelo Governador Rodrigo José Rodrigues, nos idos de 1924. Folheando a imprensa portuguesa, terá olhado de soslaio para a notícia que dizia que o secretário adjunto Nuno Delerue tinha sido exonerado pelo Presidente Mário Soares, sem perceber que aí estava o princípio do fim da liderança governativa de Joaquim Pinto Machado. A angústia e a crispação que pairavam no ar tinham outra fonte e eram omnipresentes. O Governador tinha acompanhado o Primeiro Ministro Aníbal Cavaco Silva a Pequim para a assinatura solene da Declaração Conjunta Luso-Chinesa que traçaria o destino de Macau. Para além do Primeiro Ministro Zhao Ziyang, assistiram à cerimónia Deng Xiao Ping e o 106 ANTÓNIO ARESTA
  • Presidente Li Xiannian. Outras notícias eram provavelmente de leitura bem mais estimulante, por exemplo, aquela que relatava que um conjunto de personalidades que tanto fizeram pelo Território (Joaquim Morais Alves, Padre Mário Aquistapace, Padre Joaquim Guerra SJ, Padre Luiz Ruiz SJ, Padre Hércules Tiberi, Padre Benjamim Videira Pires SJ, Dr. Jorge Neto Valente e Coronel Mesquita Borges) tinham sido justamente distinguidas com a Medalha de Valor. Ou que o Governador cria a “Comissão para a Generalização do Bilinguismo na Administração”. Ou, ainda, que a Imprensa Oficial de Macau publicita a reedição dos seis fascículos do “Método de Português para uso nas Escolas Chinesas”, de Monsenhor António André Ngan, um sábio linguista e pedagogo cujo legado está injustamente esquecido. Saltava à vista o inevitável Padre Manuel Teixeira cuja opinião vigilante era talvez o melhor naco de prosa que a “Gazeta Macaense” oferecia aos seus descoroçoados leitores. Miguel Torga diz ao que vem: “Vou a Macau falar de Camões/Em nome dele, e por eles/Obreiros dum império de ilusões/Vou, como novo andarilho/Garantir ao futuro que Portugal/Terá sempre o tamanho universal/Da infinda inquietação de cada filho”. Mas, prudentemente realça que “evocar Camões em Macau tem, pelo menos, um perigo: o de parecer que se dá como certa a lenda de que ele pisou este chão. Era ponto assente na minha selecta da 4ª classe que aqui teria sido provedor-mor dos defuntos e ausentes, e até uma gravura celebrava a gruta, com um busto à entrada, onde o épico se refugiaria para dar largas à inspiração”. A conferência proferida no salão nobre do Leal Senado, no dia 9 de Junho, é assim rematada filosoficamente: “O difícil para cada português não é sê-lo; é compreender-se. Nunca soubemos olhar-nos a frio no espelho da vida. A paixão tolda-nos a vista. Daí a espécie de obscura inocência com que actuamos na História. A poder e a valer, nem sempre temos consciência do que podemos e valemos”. Em Novembro de 1987 essa conferência foi publicada em separata, com o título singelo “Camões”, na Gráfica de Coimbra, em edição de autor. O melhor ainda está para vir, porque parte com o espírito de um explorador aberto ao desconhecido: “Cruzo a cidade em todas as direcções, visito fortes, igrejas e casinos, meto-me numa lancha e espreito o porto interior, desembarco nas ilhas, percorro-as e regresso estonteado ao hotel. Nunca tinha tido uma experiência assim de caminhar tantas horas em levitação. Tudo nesta terra é simultaneamente natural e mágico, concreto e abstracto, imóvel e fugidio”. Os olhos do viajante recortam estes pormenores: “E lá vi a dança do dragão e o vira do Minho de mãos dadas no mesmo palco, a conciliação insólita da profundidade mítica com a superficialidade coreográfica”, produzindo uma das melhores sínteses fenomenológicas sobre o Território, “até o ar que aqui se respira tem qualquer coisa de perturbante, de opiado. Não estimula, enlanguesce. Miragem tangível, desafio à nossa razão, à nossa sensibilidade e ao nosso senso comum, Macau não é uma realidade que se apreenda 107FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • com nitidez. É como que um sonho confuso de Portugal”. Nem mais. Só um escritor como Torga era capaz de um adjectivo inesperado dentro de uma forma marcialmente descritiva e numa hermenêutica assumidamente literária. O seu pensamento contempla a verdade e a liberdade, ajudando a pensar Macau no quadro de uma ousada interioridade: “Faço o que posso para entender esta terra, mas não consigo. É tudo tão enigmático, tão movediço, tão ambíguo, tão labiríntico, que o tino perde-se a cada passo. Procura-se Portugal angustiadamente e não se encontra, apesar de as ruas terem nomes de figuras nacionais e de a estátua de Vasco da Gama se erguer a dois passos do hotel. Ninguém fala português, a população é chinesa, nos templos reza-se a deuses que não vem no catecismo. Um espírito que nos é alheio comanda todos os gestos e motiva todos os sorrisos. Os exóticos, no meio da uniformidade amarela somos nós”. Não resiste à sedução da China, pelo que faz uma pequena viagem a Cantão, e rapidamente chega à conclusão que a sua informação está muito desactualizada, “A China entorpecida e céptica que eu trazia na ideia, e a China desenvolta e confiada com que vim deparar. Uma, intemporal, a sonhar no sono da História; outra, temporal, acordada, de olhos postos na vida (…) até onde poderá ir esta força em movimento? Mil milhões de sábios indiferentes, transformados do pé para a mão num frenético e alucinante formigueiro de inquietações”. Hong Kong merece-lhe um comentário ríspido e enigmático ao mesmo tempo, “Enquanto que Hong-Kong é um desaforo capitalista, uma afronta colonial, que ofende o céu e a terra, Macau não passa de um discreto padrão aventureiro. E talvez não fizesse nenhum mal ao colosso chinês consentir que uma presença lusíada, ancorada à sua ilharga, continuasse a dar-lhe notícias líricas do Ocidente”. Antes de retornar a Portugal, pára inevitavelmente em Goa. O “velho Índico quebra a meus pés e respinga-me, a bramir não sei com que raiva antiga. Num misto de orgulho e desânimo, enfrento a solidão. E confesso-me às ondas. Sim, sou o descendente infeliz de uma raça heroica e absurda, que senhoreou o mundo, e anda agora por ele a cabo a matar saudades”. Em 1989 Miguel Torga recebe o Prémio Camões. Nesse mesmo ano o Instituto Cultural de Macau publica a edição chinesa de “O Senhor Ventura”, com a tradução de Cui Wei Xiao. No ano seguinte, a mesma instituição edita na língua chinesa “Portugal”, originalmente publicado em 1950, com a tradução de Wu Zhi Liang e Lu Ping Yi. Também a ‘Revista Macau’, em 1990, do Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau, então dirigida por Miguel Lemos, publicou os excertos do “Diário” referentes a Macau. Entretanto, novas traduções e antologias da sua obra fizeram com que os leitores chineses pudessem apreciar melhor este grande escritor português.108 ANTÓNIO ARESTA
  • PEDRO GASTÃO MESNIER Há um nítido desencontro de Pedro Gastão Mesnier (1846-1886) com as narrativas da história de Macau, de onde raramente emerge da obscuridade das notas de rodapé. Este sinal de injustiça e de infelicidade acompanhou-o ao longo da sua curta existência. Erudito e homem de acção cuja aura romântica o equiparava a um moderno Fernão Mendes Pinto, no entender de Manuel da Silva Gaio e dos seus amigos literatos de Coimbra, fugia decididamente aos cânones da sua época. Foi Alberto Pimentel quem chamou a atenção para a grandeza intelectual, moral e cívica, também para o perfil de aventureiro de Pedro Gastão Mesnier, escrevendo uma superlativa biografia, na primeira página do “Diário Ilustrado” de 12 de Maio de 1886, um grande artigo com cinco colunas e fotografia e que José Carvalho e Rêgo utiliza fartamente nas suas “Figuras d’Outros Tempos”. A ansiedade de conhecer o Oriente fê-lo embarcar para Moçambique e daqui para a Índia, onde “obtivera por influência de seu pai, um despacho para condutor das obras públicas de Goa”, tendo sido também “professor de física e química na escola militar de matemática de Goa”. Contudo, uma “revolta do exército indígena” e a ocupação do arsenal, foi a oportunidade soberana para Pedro Gastão Mesnier mostrar as suas qualidades em acção. Por incumbência do Visconde de S. Januário, Governador-Geral da Índia (1870-1871), cujo secretário era o poeta Tomás Ribeiro, foi encarregado de “apreender esses quatro canhões às proximidades de Hari-Bandar”. A missão foi bem sucedida, tendo “praticado actos de verdadeiro heroísmo”, relatados no “Times of India”. Publica em 1871 a “Viagem de S. Ex.ª o Sr. Visconde de Sam Januário, Governador Geral da Índia Portuguesa, às Praças do Norte : Bombaim, Damão, Diu, Praganã e Surrate”, inaugurando um estilo de crónica social, cultural e política que irá replicar aquando da sua estadia em Macau. Quando o Visconde de S. Januário é nomeado para o posto de Governador de Macau (1872-1874), Pedro Gastão Mesnier acompanha-o na qualidade de 109FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Secretário particular. Em Macau será redactor do “Boletim da Província de Macau e Timor” e professor de Ciências e de Física no Real Seminário de S. José. E a “Parte Não Oficial” do Boletim não tarda a reflectir as qualidades literárias do novo redactor. Interessa-se pela aprendizagem da língua chinesa, tendo tido lições com o sinólogo Eduardo Marques. Em 1873 acompanhou o Visconde de S. Januário, ministro plenipotenciário de Sua Majestade Fidelíssima na China, Japão e Sião ao Império do Japão, cujo itinerário foi meticulosamente publicado no “Boletim da Província de Macau e Timor”, a partir de 20 de Dezembro de 1873. Este texto foi reunido em volume por Aureliano Barata e Rui de Carvalho [“Itinerário de S. Ex.ª o Sr. Visconde de S. Januário de Macau ao Japão em 1873 pelo seu Secretário Pessoal Pedro G. Mesnier”, Fundação Macau, 2000], numa iniciativa meritória que procurava chamar a atenção para a obra deste ilustre orientalista. Os problemas com a emigração dos cules através do porto de Macau e as irritantes querelas jurisdicionais com os postos alfandegários chineses, consumiram boa parte da governação do Visconde de S. Januário. O importante relatório sobre a emigração dos cules teve Pedro Gastão Mesnier como co-autor e um dos seus grandes mentores. Num magnífico artigo, “A Vida em Macau há cerca de Cem Anos”, Luís Gonzaga Gomes anotou algumas das qualidades de Pedro Gastão Mesnier: “Findo o jantar iniciou-se a soirée, tocando Gastão Mesnier com o maestro Antinori, em dueto ao piano, a abertura da ópera ‘Gulherme Tell’, de Rossini.(…) reatou-se o serão com um quinteto de ópera ‘Ernani’, de Verdi, cantado por Belarmina de Carvalho e sua irmã Belarmina, D. José Navaro, Gastão Mesnier e o maestro Antinori”. Nesta festa, onde marcou presença o governador de Hong Kong, Sir Arthur Kennedy, Macau aparecia como uma terra cosmopolita, despreocupada em relação ao futuro e com sinais exteriores de uma enorme prosperidade. Em 17 de Outubro de 1874, Pedro Gastão Mesnier fez uma vibrante descrição do “temeroso tufão que assolou estas regiões, e que, em violência e destruições, muito excedeu a quantos são lembrados deste século e dos anteriores”. Como sempre sucede nas calamidades, os amigos do alheio estão atentos: “os piratas chinas, aproveitando esta anormal situação e a desolação geral da população, lançavam-se a roubar”. Este terrível tufão de 1874 marca simbolicamente o fim do mandato do Governador Visconde de S. Januário, ofuscando mesmo a grande obra do regime, o Hospital de S. Januário inaugurado, com toda a pompa, meio ano antes. Em Dezembro chegaria o coronel José Maria Lobo d’Ávila, o novo Governador, cujas primeiras iniciativas recaem no foro familiar: Joaquim Lobo d’Ávila é nomeado director da Alfândega de Dili e o alferes António Lobo d’Ávila é nomeado oficial às ordens do governador. E a 10 desse mês faz inserir no “Boletim da Província de Macau e Timor” este anúncio: “Tendo de partir brevemente para Portugal, Pedro 110 ANTÓNIO ARESTA
  • Gastão Mesnier, sumamente penhorado pelos muitos obséquios que tem recebido durante a sua estada nesta cidade, agradece e se despede por esta forma dos seus amigos em Macau, que não puder procurar pessoalmente, e oferece o seu préstimo”. Gentilezas antigas não prescrevem mas que a educação moderna negligenciou. A sua obra vai aparecendo. O “Idyllio” é publicitado pela Typographia Mercantil e custava 50 avos, em 1874. Outro livro, desse mesmo ano, “O Japão: estudos e impressões de viagem”, será muito bem recebido por Antero de Quental que escreveu na “Revista Ocidental”, “há muito tempo que em língua portuguesa se não publica relação de viagem tão interessante, tão cheia de novidade e ensino, como esta”. Antero informa-nos ainda que “os ingleses de Hong Kong, juízes competentes em tal matéria, dando ao livro do viajante português as honras de uma tradução, que apareceu na China Review, importante revista que se publica naquela cidade”. Em 1875 publica o “Ensaio de Philosophia Anthropologica”, na Imprensa da Universidade de Coimbra, realçando uma sensibilidade incomum na época pelas minorias étnicas: “Quando eu residi na China, fui dolorosamente comovido pelo terrível extermínio dos miau-tze, na província de Kuei-chau, pelos chineses. Ao mesmo tempo, Grant, nos Estados Unidos, exterminava os mohokes”. Em 1878 segue novamente como secretário do Visconde de S. Januário, numa missão diplomática na América do Sul que incluía a Argentina, a Bolívia, o Brasil, adoecendo gravemente no Paraguai. Regressa combalido a Lisboa, procurando na escrita e no jornalismo algum conforto e algum sentido para uma vida cada vez menos aventurosa. No “Jornal do Domingo”, uma grande publicação da capital, em cuja redacção estavam Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão e Serpa Pinto, Pedro Gastão Mesnier assina uma crónica regular. Entre os colaboradores encontramos Antero de Quental, Eça de Queiroz, Gomes Leal, António Feliciano de Castilho ou António Enes. É aqui que irá publicar algumas impressões de Macau. Os “Fumadores de Ópio” é uma memória cáustica de um vício e também de uma administração: “É na possessão portuguesa de Macau, possessão esta que tem vivido da escravatura, e vive hoje do jogo, em todo o resto do império ilícito, que há muita ocasião de observar a fundo a grande chaga chinesa: o uso do ópio. Encontra-se frequentemente nas ruas de Macau e Cantão, um homem lívido, delinhado, magríssimo, de andar incerto e cambaleante. Nos seus olhos encovados, cercados de negras olheiras, habitualmente amortecidos, de vez em quando fuzila um relâmpago sinistro que logo se extingue. Esse homem vagueia na cidade, impaciente pelo momento de entrar no colao, fatal palácio do demónio do ópio que o espera e lhe arranca miseravelmente os restos da condenada existência. Para ele não há família, não há carícias de mulher nem afagos de filhos; as altas máximas morais do grande Confúcio 111FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • são letra morta, os preceitos nobilíssimos de Buda já os olvidou, o ópio só agora o domina, e para ele faz as vezes de família, religião e consciência”. Publica ainda “A Odysseia Camoneana”, em 1880 e a “Consideração acerca do Tratado de Lourenço Marques e da conveniência de estabelecer nessa localidade a capital portuguesa dos domínios africanos”, em 1882. Faz conferências em Coimbra, em Lisboa e na sua cidade natal, o Porto. A doença fazia o seu caminho inexorável. Alberto Pimentel remata assim a sua evocação: “Valeram-lhe, na difícil situação em que a sua doença o colocara, três estadistas que se inspiravam no justo reconhecimento dos relevantes serviços que prestara à pátria: os srs. Anselmo Braancamp, António de Serpa e Hintze Ribeiro. E dois amigos dedicados, os srs. Visconde de S. Januário e Álvaro Cardoso, procuraram por todos os meios ao seu alcance minorar-lhe as atribulações do prematuro ocaso em que lentamente se afogou a sua generosa existência”. Era o fim de um atleta que “atravessou o Tejo a nado, a 12 de Agosto de 1875, desde o Terreiro do Paço até ao pontal de Cacilhas, em competição com o sr. Alfredo Ansur, que cansou a meio da travessia”. Quem sabe se Maria Helena do Carmo poderá utilizar a figura de Pedro Gastão Mesnier num dos seus excelentes trabalhos literários? 112 ANTÓNIO ARESTA
  • PEDRO NOLASCO DA SILVA I Há 115 anos a cultura portuguesa e em particular os estudos sinológicos foram inesperadamente enriquecidos com a tradução, feita em Macau no ano de 1903, por Pedro Nolasco da Silva, da “Amplificação do Santo Decreto” do Imperador Yongzheng (1678-1735). Recorde-se que o Rei D. João V tinha enviado uma embaixada à corte deste imperador, chefiada por Alexandre Meneses em 1725/28, com o intuito não só de manter e reforçar as relações diplomáticas, mas sobretudo para salvaguardar o estatuto de Macau e por arrastamento a defesa do padroado português e dos missionários, cuja acção nem sempre era compreendida e tolerada, quer pelos chineses, quer por outras congregações estrangeiras. E na relação dos presentes oferecidos à embaixada portuguesa, não consta esta obra singular. Se em Macau este clássico não passou de um manual escolar direccionado para o ensino e aprendizagem da língua chinesa, em Portugal praticamente ninguém soube dele ou deu valor à obra em si e é penoso constatar que essa desatenção chega aos dias de hoje. O que teriam cogitado Leonardo Coimbra, Fernando Pessoa ou Agostinho da Silva se tivessem lido a versão portuguesa deste clássico? Ou que ensinamentos dele teriam extraído políticos de raiz autoritária como Afonso Costa ou Salazar? Pedro Nolasco da Siva reconheceu que beneficiou de duas traduções da “Amplificação do Santo Decreto” e das respectivas metodologias de suporte. Uma das traduções ficou a dever-se a William Milne, missionário protestante que esteve em Macau em 1813, colega e amigo de Robert Morrinson, e que publicou o “Sacred Edit” em Londres, 1817, obra que conhecerá uma segunda edição em 1870. A outra tradução foi realizada por Alphonse Piry, destinada aos estudantes de línguas do Colégio de Pequim e editada em Xangai em 1879, sob a chancela da Inspecção-Geral das Alfândegas, então dirigida por Sir Robert Hart. A versão francesa de Piry, “Le Saint Edit”, constava do catálogo da fabulosa biblioteca do Dr. Lourenço 113FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Marques. A talhe de foice, diga-se que a Queen’s University, em Belfast, alberga a Piry Collection, onde há significativos registos documentais sobre Macau. A “Amplificação do Santo Decreto” é um dos grandes tratados de filosofia moral e política, bem representativo do pensamento chinês. Pedro Nolasco da Silva traça-lhe uma breve genealogia: “Em 1671, Kangshi, segundo imperador da actual dinastia tártara-manchú, publicou um decreto contendo 16 máximas, sendo cada uma escrita com 7 caracteres chineses; e em 1724, Yongzheng, filho e sucessor de Kangshi, publicou um comentário dessas 16 máximas, sob o título de Amplificação do Santo Decreto”. É um monumental exemplo vivo da ortodoxia neo-confuciana, com 16 Máximas de complexidade desigual, que orientavam o determinismo da nação, esterilizando as liberdades e o espírito criador. A 7ª Máxima, no sétimo parágrafo, diz textualmente o seguinte: “Os livros que não são obra dos santos (ou dos filósofos), e os rituais que não são canónicos, servem para agitar a plebe e perturbar os costumes. Estes livros surgem em multidão e tumultuosamente, tornando-se vermes roedores no seio do povo. Todos eles contêm princípios heterodoxos que devem ser repelidos e extirpados”. Por aqui se constata que “A Amplificação do Santo Decreto” é muitíssimo mais sofisticada do que as “Santas Instruções”, publicadas em 1587 mas verdadeiramente concebidas pelo Imperador Zhu Yuanzhang (1328-1398), acessíveis mercê do trabalho da escola sinológica francesa do extremo oriente. A opção de Pedro Nolasco da Silva (1842-1912) pela “Amplificação do Santo Decreto” não terá sido fruto do acaso. Homem culto e informado, trouxe para a educação portuguesa os valores axiais da ortodoxia neo-confuciana que eram de extrema utilidade para a compreensão dos quadros mentais que enformavam a conduta dos homens do império do meio. Na 10ª Máxima, parágrafo vigésimo, podemos ler esta extraordinária filosofia de uma mansinha condição humana: “Neste mundo sub-lunar, nenhuma profissão é desempenhada cabalmente com facilidade, mas também não há profissão que não possa ser bem desempenhada. Dedique-se cada um à sua profissão, e ela não poderá deixar de ser cabalmente desempenhada. Persista cada um nas suas resoluções, e elas não hão-de transviar. Não deveis mutuamente despedaçar e vexar uns aos outros. Não deveis ser preguiçosos e negligentes. Vale mais ter o hábito da diligência, do que ambicionar os prazeres do ócio. É melhor estar satisfeito com a sua condição humilde e simples, do que andar atarefado com um luxo desordenado”. E a Repartição Técnica do Expediente Sínico, que Pedro Nolasco da Silva chefiou de 1885 a 1892, era um organismo governamental especialmente vocacionado para a mediação linguística, diplomática, cultural e jurídica, entre a sociedade global e a administração. É, pois, compreensível que a instrução teórica dos intérpretes-tradutores fosse a mais abrangente possível dada a grande responsabilidade das funções que lhes estavam cometidas. Pedro 114 ANTÓNIO ARESTA
  • Nolasco da Silva dizia que “é este o livro que escolhemos para exercício de tradução, não só porque está escrito em estilo moderno, elegante e claro, mas também porque nele se contém um esboço interessante e instrutivo dos princípios da moral chinesa”. A elite da burocracia sínica de Macau aprendia com esta obra três coisas em simultâneo: os grandes traços da moral neo-confuciana, a língua chinesa e a língua portuguesa e a diplomacia linguística. Imagina-se a satisfação intelectual, emotivista e sinocêntrica dos mandarins e do Vice-Rei de Cantão quando tomaram conhecimento da difusão desta obra, com aparato bilingue, em Macau. Contudo, a “Amplificação do Santo Decreto”, enquanto manual didáctico, vem mostrar a largueza de horizontes da acção pedagógica e cultural de Pedro Nolasco da Silva, ele próprio envolvido no trabalho de algumas comissões governamentais que tinham por objectivo reformar a instrução pública. Quando as escolas oficiais, por circunstancialismos históricos bem conhecidos e importados do reino, pouco mais eram do que oficinas literárias e religiosas, que apoios ou que cooperação legislativa poderia ter o ensino institucionalizado da língua chinesa? A primeira subversão a este sistema, que repousava num anacronismo paralisante, veio da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, fundada em 1871 e ainda activa, da qual Pedro Nolasco da Silva foi um dos maiores impulsionadores. Esta estratégia de mudança procurava conciliar as expectativas educacionais com os ventos da história e com as motivações individuais. A primazia concedida ao ensino técnico e comercial não poderia descurar a formação integral do aluno e do cidadão. E a “Amplificação do Santo Decreto” poderia ser um bom motivo de reflexão porque era importante harmonizar os interesses políticos com os interesses dos cidadãos: esse objectivo seria seguramente alcançado quando fosse introduzida uma apreciação maior da mentalidade chinesa no interior dos programas de estudo, de uma forma mais cooperativa e eficaz. De resto, o fito pedagógico era direccionar a mente para a necessidade de estudar as qualidades da autoridade configurada hierarquicamente e dotada de uma rede formal de comunicação, enfatizando-se o valor da ortodoxia. Tudo isto é compreensível se nos lembrarmos que Macau teve uma longa história de fascinação dependente de dois arquétipos imperiais, o português e o chinês, e por isso criadores de identidades múltiplas. A “Amplificação do Santo Decreto” foi uma oportunidade para se reinteriorizarem os valores de hierarquia, de tolerância ou de obediência, como virtudes cardiais para que as mudanças conjunturais não trouxessem efeitos devastadores para a organização da sociedade. Na 6ª máxima, vigésimo parágrafo, pode ler-se: “Todos podem exortar-se mutuamente a praticar o bem. Todos podem corrigir as faltas uns dos outros. Acatai os usos e costumes, amai a justiça e esforçai-vos por ser homens de bem”. E não 115FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • restam dúvidas de que a lição foi assimilada, dentro da perspectiva ontologista dos valores. No interior da nossa matriz cultural e civilizacional, sinalize-se que Hobbes publica o “Leviatã” em 1651, Locke edita o “Ensaio sobre o Entendimento Humano” em 1689 e no mesmo ano do aparecimento da “Amplificação do Santo Decreto”, em 1724, nasce Kant. Convoco ainda Luís António Verney (1713-1792), esse mal amado estrangeirado, autor do “Verdadeiro Método de Estudar” (1746), que foi uma espécie de vendaval que desassossegou a tranquila escolástica do nosso País. O clássico de Yongzheng contém 16 máximas [moral; ética; nobreza; justiça; guerra; paz; trabalho; economia; carácter; cultura; povo; escolas; filosofia; literatura; política; psicologia]. O clássico de Verney contém 16 cartas [língua portuguesa; gramática latina; latinidade; grego e hebraico; retórica; filosofia; poesia; lógica; metafísica; física; ética; medicina; direito civil; teologia; direito canónico; regulamentação geral dos estudos]. São obras incomparáveis que trouxeram uma revolução mental, cada qual no seu país de origem. Se o clássico chinês legitima a autoridade com uma grande erosão da liberdade e da responsabilidade para chegar à perfectibilidade social, o clássico português procura a liberdade para construir a educabilidade do sujeito e a sua respectiva identidade. Uma observação final, para recordar o provérbio ‘no melhor pano cai a nódoa’. A editora Largebooks publicou em 2012 “O Santo Decreto (texto amplificado)”, que considero uma edição infeliz por quatro motivos: o primeiro, utiliza a versão de Pedro Nolasco da Silva, sem a referir e sem a citar, colocando o seu nome em caracteres muito pequenos e arrumado na ficha técnica, apenas como tradutor; o segundo, esta ‘nova’ edição está descontextualizada e expurgada das notas explicativas; o terceiro, ignora aparentemente a segunda edição fac-similada lançada pela Fundação Macau, que tive o privilégio de promover em 1995, aquando da presidência de António Rodrigues Júnior; em quarto lugar, como o texto digitalizado não foi revisto, há erros, omissões e falhas evidentes. Em suma, uma edição a evitar. Contudo, a “Amplificação do Santo Decreto” deve ser lida, na edição bilingue da Fundação Macau. E é também uma forma de evocar o grande legado intelectual de Pedro Nolasco da Silva e o seu trabalho em prol do entendimento luso-chinês e sino-português. 116 ANTÓNIO ARESTA
  • PEDRO NOLASCO DA SILVA II Divulgamos esta carta inédita que Pedro Nolasco da Silva (1842-1912) dirigiu, na qualidade de Presidente do Leal Senado a Martinho Queiroz Montenegro, Governador de Macau (1904-1906), no dia 13 de Outubro de 1904. Um texto que vem lançar alguma luz em certas áreas de penumbra na história da educação em Macau. Os involuntários protagonistas foram José Vicente Jorge, um proeminente sinólogo e colecionador de arte chinesa e Hesulino Fong, menos conhecido, mas igualmente um erudito sinólogo. “Exm.º Sr. Governador de Macau Em conformidade com o ofício de V. Ex.ª, nº 1284, de 8 do corrente, foram hoje apresentados ao Leal Senado, reunido em sessão, os requerimentos dos Srs. José Vicente Jorge e Hesulino Fong, professores da cadeira de língua sínica, anexada ao Liceu Nacional de Macau, pedindo aumento de vencimentos. O mesmo Leal Senado me encarrega de submeter à consideração de V. Ex.ª o seguinte: pela Portaria Provincial nº 92, de 7 de Outubro de 1903, foi extinto o Instituto Comercial e as suas cadeiras, incluindo a da língua sínica, foram anexadas ao Liceu Nacional de Macau e equiparadas às cadeiras do mesmo Liceu para todos os efeitos; portanto os professores dessas cadeiras deixaram de ser empregados municipais e se o Leal Senado continua a pagar-lhes os seus vencimentos é sob a forma de subsídio dado para manter o curso comercial anexado ao Liceu, da mesma maneira como o Leal Senado dá um subsídio para auxiliar o mesmo Liceu. Antes da extinção do Instituto Comercial, a orçamentação da cadeira de língua sínica era de setecentas patacas por ano, divididas entre dois professores, um português e outro chinês. A mesma quantia que pagaria o Leal Senado aos referidos dois professores a começar em 3 de Janeiro de 1905, em virtude do novo orçamento desse ano como parte do subsídio dado para manter o referido curso 117FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • comercial. Este subsídio é dado provisoriamente até que o governo da metrópole tome uma resolução sobre o assunto. Por isso não tendo o governo solicitado o aumento do subsídio, não podia o Leal Senado aumentar os vencimentos dos dois requerentes, visto que não sendo eles empregados municipais não tem o Leal Senado competência para fixar os seus vencimentos. É quanto cumpre o Leal Senado informar. Tenho a honra de devolver os dois requerimentos que foram enviados com o citado ofício. Deus guarde a V. Ex.ª. Pedro Nolasco da Silva, Presidente do Leal Senado”. A indefinição da rede pública de ensino e o conflito de jurisdição sobre as escolas, como se pode observar nesta carta, obrigava a um exercício permanente de diplomacia entre o Governador e o Leal Senado. É sintomático que tenha sido a cadeira de língua chinesa o elo mais fragilizado do precário sistema de ensino que então se procurava construir em Macau. A lenta afirmação do Liceu Nacional de Macau, com escassos 19 alunos, foi feita contra a concorrência, isto é, o Instituto Comercial, o Seminário de S. José e a Escola Comercial. Razão tinha, pois, Manuel da Silva Mendes quando dizia, muitos anos depois, que havia escolas a mais e organização a menos. Quer Martinho Queiroz Montenegro, quer Pedro Nolasco da Silva eram homens de cultura e com grande sensibilidade para os problemas da administração educativa. Martinho Queiroz Montenegro esteve ligado ao relançamento da Escola de Pilotagem e Pedro Nolasco da Silva foi Chefe do Expediente Sínico, um dos fundadores da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, escritor, patrono de escolas e de uma rua. Pedro Nolasco da Silva foi, utilizando uma feliz expressão de Monsenhor Manuel Teixeira, um dos vultos marcantes de Macau.118 ANTÓNIO ARESTA
  • ROGÉRIO PERES CLARO Em Outubro de 1979 desembarca em Macau Rogério Peres Claro (1921-2015), natural de Setúbal, para chefiar a Direcção dos Serviços de Educação e Cultura. Licenciado em filologia românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, professor do ensino técnico, colega e amigo de Sebastião da Gama, Rogério Peres Claro tinha um percurso cultural, político e educacional bastante diversificado que iria colocar ao serviço de Macau, sobretudo os seus dotes de inteligência, sabedoria e organização. Homem de grande lealdade ao regime do Estado Novo, Rogério Peres Claro foi dirigente da União Nacional, da Juventude Escolar Católica, da Mocidade Portuguesa, deputado à Assembleia Nacional [VII Legislatura, 1957-1961 ; IX Legislatura, 1965-1969; X Legislatura, 1969-1973] e Inspector Provincial de Educação em Moçambique [1970-1975]. Mas, acima de tudo, foi um homem de cultura, jornalista e director de jornais [“Distrito de Setúbal”, “A Voz de Estremoz”, “Revista Cetóbriga”], escritor, tradutor e editor. A sua obra é vasta e abrangente pelo que apenas destaco os seguintes títulos: “O Drama de Bocage” (1949); “Setúbal no Século XVIII – as informações paroquiais de 1758” (1957); “Eça de Queirós e a Europa – as ideias de Eça” (1958); “Cartas do Director aos Alunos e Alunas da Escola Industrial de Setúbal” (1972); “A Educação da Juventude Portuguesa” (1973); “Setúbal de há 100 anos: 1877” (1977); “António Gedeão, os caminhos do seu lirismo” (1983); “Versos do Cantador de Setúbal: António Maria Eusébio (O Calafate)” (1985); “Um Século de Ensino Técnico Profissional em Setúbal: da Escola de Desenho Industrial Princesa D. Amélia à Escola Secundária Sebastião da Gama, 1888-1988” (2000). Como se nota, mesmo fora da sala de aula, os professores são em regra construtores de saberes que colocam ao serviço da comunidade. Em Macau sucedeu a Túlio Lopes Tomaz na complexa administração educativa nesses anos charneira, de 1979 a 1982. Com base nos relatórios anuais 119FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • coligiu em 1997 o precioso volume “A Administração Escolar em Macau, 1979/1982”, publicado pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, na Colecção Educação Memórias, sob a égide do Grupo de Trabalho para o Estudo da História da Educação em Macau. Nenhum outro director dos Serviços de Educação produziu uma obra similar, o que deveras se lamenta, porque a breve trecho serão mesmo histórias perdidas, sofrível e lacunarmente reconstituídas através do sumário legislativo publicado no Boletim Oficial. O governador era o general Nuno Melo Egídio e o secretário-adjunto para os Assuntos Sociais e Cultura era José Mercier Marques, oriundo do gabinete de estudos e planeamento do Ministério da Educação e Investigação Científica então tutelado por Luís Veiga da Cunha. Recorda-nos Peres Claro que “estavam os Serviços da Educação atribuídos a uma Repartição, exiguamente instalada no 6º andar-C do edifício Ribeiro da Rua de Santa Clara, fronteiro ao Jardim de S. Francisco, com uma Secção de Actividades Circum-escolares numa acanhada dependência do 8º C. Transferira-se para ali em Janeiro de 1977, no nº 6 da Avenida da República”. A Repartição dos Serviços de Educação transforma-se em Direcção dos Serviços de Educação, através do Decreto-Lei nº 27-F/79/M, de 28 de Setembro e que em 1980 já era Direcção dos Serviços de Educação e Cultura. A “instalação dos Serviços, que se reconhecia imperiosa em novas dependências, só veio a ocorrer em fins de 1980, porque se pretendera aproveitar o ensejo para se recuperar um conjunto de moradias situadas na Av.ª Conselheiro Ferreira de Almeida, de característica arquitectura colonial portuguesa, integradas no conjunto urbanístico do Bairro de São Lázaro. Assim: Em Fevereiro de 1980 foi adjudicada por $907.058,60 a obra de adaptação da moradia nº 95, destinada a sede dos Serviços, com a promessa de estar concluída em Outubro do mesmo ano. Só esteve em Novembro”. Essas instalações foram as penúltimas, sob a administração portuguesa. A organização burocrática era razoavelmente complexa [repartição de ensino e cultura; repartição da juventude e desportos; conselho pedagógico; comissão de classificação de espectáculos; comissão de bolsas de estudo; conselho coordenador das actividades gimnodesportivas; conselho de arbitragem; conselho técnico e jurisdicional; liceu; escola preparatória; 4 escolas primárias; 1 escola infantil] tendo em consideração a dimensão da comunidade portuguesa. O governador Melo Egídio considerava prioritário “incrementar as actividades culturais, com relevância para o intercâmbio cultural traduzido na presença de valores nacionais, nomeadamente a expansão da Língua Portuguesa”, enfatizando que “uns querem a conservação de tudo. Outros querem a destruição de toda a cidade antiga, em prol do progresso. Esta Administração quer que Macau seja a imagem de Portugal no Oriente. Por isso condena extremos. Temos de encontrar 120 ANTÓNIO ARESTA
  • fórmulas intermédias que permitam integrar a história no dinamismo do progresso”. Ora a compreensível ambiguidade desta e de outras proposições não passou despercebida à imprensa portuguesa de Macau, sobretudo ao quinzenário ‘Confluência’, ao semanário ‘O Clarim’ ou ao ‘Diário de Macau’, que esgrimiram argumentos que anunciavam preocupações legítimas quanto à desnacionalização do Território e que por vezes se entretinham com polémicas sazonais para consumo exclusivo da nossa comunidade. Em Julho de 1978, o deputado Jorge Rangel apresenta, na Assembleia Legislativa, uma funda inquietação: “Não há ninguém no Território que não deseje saber o que está a ser feito com vista ao futuro, a razão de ser de algumas decisões tomadas, os custos envolvidos e até os erros porventura cometidos”. A política educativa parecia errática e sem visão de futuro, não colocando o ensino luso-chinês no topo das prioridades nas linhas de acção governativa. No 10 de Junho de 1979, o Secretário de Estado da Cultura, David Mourão-Ferreira, trouxe novas e mais acutilantes preocupações em termos de defesa do património e quanto à problemática da difusão da língua portuguesa. Era tarde demais, mas era uma posição moralmente confortável para o poder político. Também por esse tempo, em 1979, prosseguia o labor insano do padre Joaquim Guerra, SJ, que deu à estampa o monumental volume “O Livro dos Cantares”. Dois anos depois surge o primeiro volume das “Quadras de Lu e Relação Auxiliar”, concluído em 1983 com mais quatro volumes. Este esplendor no diálogo entre culturas nunca mais foi igualado ou compreendido e, paradoxalmente, passou quase despercebido numa contemporaneidade distraída. A escassez de falantes de língua portuguesa era uma pedra no sapato que sobremaneira incomodava os visitantes do mundo da lusofonia. O padre Videira Pires, SJ, escrevia em ‘O Clarim’, de 28 de Maio de 1981: “deteriora-se, a todos os níveis, a qualidade do português falado e escrito, apesar dos propósitos e esforços dos Serviços de Educação e Cultura em promover o ensino da nossa língua nas escolas particulares”. Peres Claro difunde a posição oficial: “é injusta a acusação que permanentemente se faz às sucessivas administrações de não terem expandido o uso da língua portuguesa, mas natural em quem, chegado a Macau, não consegue fazer-se entender em português no ponto de desembarque, nos transportes, nos hotéis, por vezes nos próprios Serviços. Injusta por desconhecimento dos esforços feitos, ao longo de muitos anos, para ensinar-se os rudimentos de uma língua totalmente estranha na sua estrutura a uma população que nunca lhe viu utilidade, nem no convívio limitado do vende-e-compra diário. Aliás o homem português sempre gostou mais de aprender do que ensinar”. Como sabemos, ambos tinham razão. 121FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Para abrir esse fechado mundo dos Serviços de Educação a toda a comunidade de Macau, Rogério Peres Claro lança um Boletim Informativo chamado ‘RUMO’, sob o lema, “educar não pode ser, nem é em Macau, privilégio de uns tantos, mas propósito de muitos e valiosos elementos, que nunca serão de mais”. Foram publicados doze números, com a respectiva versão chinesa, pelo que “constitui hoje um repositório circunstanciado de quanto e como se trabalhou na Educação em 1980 e 1981”. Realmente o muito que então se fez, hoje parece muito pouco e escasso. Por isso é necessário reconhecer esse esforço e o mérito desse trabalho até porque a “Direcção dos Serviços de Educação e Cultura teve perante si um teclado de tarefas que procurou tocar harmonicamente, embora sem os meios humanos suficientes para o fazer, com a vontade determinada de cumprir o que lhe fora cometido, para além da rotina do serviço”. Em 1981 o governador Melo Egídio é nomeado Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas. A 16 de Junho desse mesmo ano, toma posse como governador o Comandante Vasco de Almeida e Costa e sendo Jorge Rangel nomeado secretário-adjunto para a Educação, Cultura e Turismo. Rogério Peres Claro regressa a Portugal, aposentando-se em 1982. A Câmara Municipal de Setúbal distingue-o, em 1989, com a Medalha de Honra da cidade. Continua a manter uma vida cultural activa, colaborando com o Centro de Estudos Bocageanos, do qual foi um dos fundadores. Entretanto a sua energia é direcionada para a construção da sede da Associação de Solidariedade Social dos Professores, sedeada em Setúbal. Uma vida cheia que transbordou para a solidariedade e para a defesa da dignidade da profissão docente.122 ANTÓNIO ARESTA
  • TÚLIO LOPES TOMAZ Túlio Lopes Tomaz (1910-1995) chega a Macau em 1972 para, em comissão de serviço, chefiar a Repartição Provincial dos Serviços de Educação e em simultâneo exercer o cargo de Reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique. A anterior chefe da Repartição, Ricardina Rosa y Alberti, tinha sido colocada em Moçambique em Dezembro de 1971 e os Serviços foram interinamente assegurados por Fernanda da Mota Salvador, vice-Reitora do Liceu e Comissária Provincial da Mocidade Portuguesa Feminina. Ficava então encerrado o ciclo de instabilidade aberto com a demissão de António Maria da Conceição e João Ferreira Felício. Já no ocaso de uma longa e diversificada carreira, gozando de um grande prestígio intelectual e pedagógico, Túlio Lopes Tomaz marcou o tempo em que lhe foi dado viver em Macau. Licenciado em Ciências Físico-Químicas pela Universidade de Lisboa, Professor Metodólogo no Liceu Pedro Nunes, Inspector do Ensino Liceal, vogal da Junta Nacional de Educação, director dos Serviços de Instrução de Angola, trouxe uma enfâse científica na abordagem dos problemas educativos fruto de alguma experiência internacional. Em 1964 representa Portugal, com Rómulo de Carvalho e Fernando Almeida, no Colóquio Internacional de Sèvres, em França, dedicado ao ensino da Física, onde apresentam a tese “La Formation du Professeur de Physique”, mais tarde publicada na Revista Palestra, do Liceu Normal de Pedro Nunes. E como bolseiro do Instituto de Alta Cultura e do governo dos Estados Unidos estagia no Laboratório de Física Nuclear de Oak Ridge e mais tarde na Universidade de Wisconsin. O melhor dos dois mundos, vai alimentar a sua reflexão pedagógica e apontar os caminhos da inovação. Era um erudito humanista de formação científica. Autor em parceria com Alice Magalhães (opositora ao Estado Novo e reintegrada no ensino oficial após o 25 de Abril) de vários manuais escolares, sobretudo o “Compêndio de Química”, para o 7º ano liceal, livro único desde 1957. 123FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • E esse caminho da inovação começa logo em 1964 com o importante ensaio “O Professor e os Novos Auxiliares do Ensino” onde medita sobre “a plena euforia dos auxiliares técnico-didácticos. Começou-se à escala do auxiliar áudio-visual, desde o documento gráfico ou fotográfico até à fita animada; desde o disco ‘linguaphone’ até à fita gravada com os mais variados motivos; desde a rádio à TV educativa, e acabou-se, pelo menos a esta data, na fabulosa máquina de ensinar. A técnica ao serviço da educação, o progresso ao serviço da cultura, a universalização do ensino. Admirável! E tão admirável é, que o culto da máquina ameaça superar o concurso do mestre, e que aquilo que era dantes privilégio de poucos se pode estender hoje a milhões, a milhares de milhões, a toda a Humanidade! Temos portanto ao nosso serviço a Cultura, a Ciência, o Saber, enfim, condensados em belas estampas, galopando em imagens magníficas, fixas ou animadas, acariciando-nos os tímpanos por meio de vozes enfáticas, de musicalidade às vezes forçada, em comprimidos abeberados de sensacional”. Com sentido de humor diz-nos que “talvez até que cursos completos de Língua Pátria e de Matemáticas acabarão por se vender em latas, como quaisquer comodidades alimentares”, para de seguida enfatizar uma questão que lhe parece absolutamente central, “é na impossibilidade de estabelecer diálogo que claudicam os processos electrónicos de ensino”, recomendando que se deve utilizar a “Imaginação! a mais preciosa das qualidades indispensáveis ao professor e ao cientista – mais até do que ao fazedor de romances”. Túlio Lopes Tomaz integra-se bem na mundivivência de Macau, o que não terá sido indiferente a amizade com José dos Santos Ferreira (Adé) e com Luís Gonzaga Gomes. Escreverá, aliás, sobre essas duas figuras incontornáveis da cultura do Território, que muito apreciava. Reitor do Liceu entre 1972 e 1975 e Chefe dos Serviços de Educação de 1973 a 1979, desempenhando tantas outras tarefas, por inerência, como Presidente dos Júris de Exame de Estado na Escola do Magistério Primário. Apaixonado camonista, publica a conferência “Os Lusíadas e a Ciência do Renascimento”, em 1972. Em 1980 voltará ao tema, publicando “Tempo, Esperança e Mutações na Obra Camoniana”. A gestão quotidiana da administração educativa de matriz portuguesa era absorvente pela burocracia que era necessário alimentar. Em 1972, por exemplo, reconduz Jorge Neto Valente como professor eventual do 2º Grupo do Liceu e sob a sua proposta o Governador Nobre de Carvalho exara um louvor à Professora Maria Manuela Pimenta de Castro Machado. O Conselho Provincial de Educação Física era presidido por José Silveira Machado. A arquitectura política do Estado Novo estava a desmoronar-se o que acontece, finalmente, a 25 de Abril de 1974. Os ventos de mudança chegaram inevitavelmente à comunidade portuguesa de Macau. A 4 de Maio de 1974, o Governador Nobre de Carvalho “manda que seja nomeada uma Comissão Permanente encarregada de classificar, defender e propor a valorização e 124 ANTÓNIO ARESTA
  • conservação do património artístico da Província”, presidida por Túlio Lopes Tomaz, secretariada por Luís Gonzaga Gomes e integrando Francisco Figueira, José João Rodrigues do Rosário e Benjamim Videira Pires, SJ. Um ano depois esse importante trabalho foi concluído e publicado no Boletim Oficial. Como exercício puramente académico, recomenda-se que esse documento possa ser relido na actualidade para se averiguar o que se fez desse património artístico tão meticulosamente classificado. A turbulência ideológica da revolução portuguesa infiltra-se nos sítios mais insuspeitos. No dia 23 de Maio de 1975, o director-geral do ensino secundário, da Repartição de Ensino da Direcção-Geral de Educação do Ministério da Coordenação Interterritorial (a nova designação do Ministério do Ultramar), despacha para Macau uma Circular sobre a avaliação dos alunos, da qual retenho este suculento parágrafo: “A nossa escola ainda é burguesa? Se o é, não será só por haver nela professores burgueses, mas por muitos dos seus alunos serem também burgueses. Apesar de tudo, Marx, Lenine e até Staline frequentaram escolas burguesas. Sob este aspecto, o mecanismo grosseiro de certos sabotadores da Revolução Portuguesa só prova que não leram Lenine ou não o entenderam”. Palavras para quê? A 13 de Novembro de 1975 a Secretaria de Estado da Descolonização autoriza Túlio Lopes Tomaz a continuar ao serviço como Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Educação de Macau. Em Março de 1979, no termo da sua comissão, o Governador Garcia Leandro faz publicar o louvor, cuja parte substantiva transcrevo: “Apesar da sua idade, das limitações de meios humanos de alta capacidade nos serviços que dirige e das deficientes estrutura e processos existentes nos próprios serviços, foi incumbido, na linha definida pela actual Administração, de fazer lançar os Serviços de Educação do seu limitado campo de acção, ligado ao ensino em português, para a real e verdadeira missão de apoio, acompanhamento e coordenação de todo o ensino em Macau. Esta missão, considerada utópica ou impossível à partida, foi graças ao seu dinamismo, juventude de espírito, boas relações humanas e reconhecimento da sua capacidade e idoneidade pelos diferentes grupos de Escolas existentes em Macau, levada a bom termo com êxitos que se podem considerar notáveis nos objectivos que se pretendiam alcançar até final do ano de 1978”. Para além das indiscutíveis qualidades individuais de Túlio Lopes Tomaz, este louvor sinaliza a mais importante iniciativa da política educacional da administração do Governador Garcia Leandro, a abertura dos Serviços de Educação ao mundo escolar chinês de Macau. Parece coisa de pouca monta mas não o é. No seu livro de memórias, “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa, 1974-1979”, o general Garcia Leandro, refere com a sua habitual elegância o papel desempenhado pelo secretário-adjunto para os Assuntos Sociais e Cultura, Vítor Oliveira Santos e pelo director dos Serviços de Educação, Túlio Lopes Tomaz, nessa fase crucial da evolução do Território. 125FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Convidado pela Universidade da Ásia Oriental para dirigir o Colégio Politécnico, Túlio Lopes Tomaz encontrou aí a oportunidade perfeita para desfrutar mais uns anos de estadia em Macau, trabalhando e pensando na educação num quadro multicultural. Mas sempre com um espírito inquieto, actualizado, promotor da cultura portuguesa, dialogante e removedor de ideias cristalizadas. Foi assim que o conheci à mesa no Clube de Macau. Em 1985 publica no semanário “O Clarim” uma série de artigos, polémicos e frontais, de índole memorial, onde dá a conhecer o impacto da revolução portuguesa em Macau, especialmente no universo educativo. O seu último legado reflexivo deixou-o estampado na “Revista da Educação” (dirigida por Manuel Coelho da Silva, coordenada por Celina Veiga de Oliveira e com a direcção gráfica de Rui de Carvalho), uma publicação da Direcção dos Serviços de Educação, em 1986. Aí assina um estudo muito inovador, “Necessidade de Renovar a Escola”, do qual retiro estas três ideias luminosas que merecem uma atenta reflexão. A primeira, “Os tempos de lazer aumentam, mas o modo de os utilizar é cada vez mais desvirtuado e desumanizante. Já não se pode quase, durante esses tempos, fazer aquilo que nos pedem a nossa formação e os nossos interesses, mas sim aquilo que os meios de comunicação nos mandam fazer”; a segunda, “o objectivo da educação deve ser, fundamentalmente situar a pessoa no mundo que a cerca, e ensinar-lhe a aventura de descobrir. Foi essa aventura que tornou ímpar a acção dos portugueses ao contribuírem para o renascimento pós-medieval“; e a terceira, “quando refiro professores capazes de despertarem vocações não quero dizer que os alunos optem pela matéria que o professor ensina ou pela carreira de professor. A vocação subitamente adivinhada pelo estudante pode provir de uma sugestão do professor, de uma conversa até, à margem da rotina escolar. Sempre prezei, por isso, os professores capazes de porem a sua cultura ao serviço dos alunos, marginalmente, sobretudo quando as matérias ensinadas forem menos aliciantes”. Hoje, tantos anos volvidos notamos que estas inquietações continuam a acompanhar as derivas do pensamento educativo contemporâneo. Túlio Lopes Tomaz era comendador da Ordem do Infante D. Henrique e grande oficial da Ordem da Instrução Pública. A colaboração que deixou dispersa em publicações científicas e na imprensa merecia ser recenseada, quiçá reunida em volume.126 ANTÓNIO ARESTA
  • VICENTE BLASCO IBÁÑEZ Cumprem-se este ano os cento e cinquenta anos do nascimento de Vicente Blasco Ibáñez (1867-1928), grande escritor espanhol, com uma extensíssima bibliografia traduzida em vários idiomas e que foi uma das figuras de proa da famosa Geração de 98. Os seus ideais abertamente republicanos e democráticos conduziram-no ao cárcere e a dois exílios, um na Argentina e o outro em França. A adaptação ao cinema de algumas das suas obras trouxeram-lhe uma grande projecção internacional. Aproveita-se este pretexto para evocar e homenagear um escritor a quem Macau deve uma grande notoriedade junto de leitores cultos e cosmopolitas da hispanidade, mas não só, que fruíram de belas páginas sobre a história luso-chinesa. É consensual afirmar que uma das facetas mais criativas de Vicente Blasco Ibáñez está ancorada na literatura de viagens, onde avultam estes seus volumes: “En el País del Arte”, 1896, “Oriente”, 1907, “La Argentina y sus Grandezas”, 1910 e “La Vuelta al Mundo de un Novelista”, 1924/25. E é neste último volume (Libro I: Estados Unidos, Cuba, Panamá, Hawai, Japón, Corea, Manchuria; Libro II: China, Macao, HongKong, Filipinas, Java, Singapur, Birmania, Calcuta; Libro III: India, Ceilán, Sudán, Nubia, Egipto) que encontramos o relato das suas impressões da breve visita que efectuou a Macau então governada por Rodrigo José Rodrigues. Neste breve excurso evocativo das suas memórias sobre Macau, utilizamos a versão bilingue organizada por Cecília Jorge e Rogério Beltrão Coelho, inserida no quarto volume de “Viagem por Macau”, uma caixa com quatro volumes, melhor dizendo, uma caixa com um tesouro dentro, que são os fabulosos relatos dos inúmeros viajantes estrangeiros que cruzaram o território de Macau e que sem esta antologia estariam completamente perdidos ou esquecidos. Também o nosso conhecimento ficaria substancialmente mais pobre e a visibilidade de Macau muito mais ofuscada e reduzida. 127FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Vicente Blasco Ibáñez foca-se inicialmente nos graves problemas relativos á segurança nas viagens marítimas no sul da China: “Às primeiras horas da manhã, embarcamos para Macau. Vemos diante do navio numerosos grupos de chineses. Uma força da Polícia controla a sua marcha, um a um, sobre a passadeira que une o casco ao cais. Todos são revistados da cabeça aos pés, e só podem seguir em frente quando o agente indostânico ficar convencido de que não levam sequer o mais pequeno canivete”. Tudo isto era uma consequência do clima de pré-guerra civil que se vivia na China republicana, sobretudo pela ausência de um poder político reconhecido e forte, imperando nos mares um desbragado e infrene banditismo: “Antes de embarcar, tiramos os relógios e as jóias de uso quotidiano. Vem comigo duas senhoras, acompanhadas das suas criadas. Uma das referidas damas, muito formosa e elegante, nasceu em Bombaim, mas é filha de espanhol. É casada com Mr. Stephan, director do Hongkong and Shanghai Banking, a instituição financeira mais importante de todo o Extremo Oriente. O seu director faz parte, por direito próprio, do Conselho de governo de Hongkong, sendo de certo modo o seu ministro da Fazenda. A senhora de Stephan há muitos anos que desejava ir a Macau e nunca se decidiu a fazer a viagem com medo dos piratas. Prudência justificadíssima. Na realidade, não poderiam os bandidos do estuário imaginar um golpe mais frutuoso do que sequestrar a esposa do director do Hongkong and Shanghai Banking. Que resgate de milhares e milhares de libras esterlinas!...”. Esta observação é muito bem humorada e sem acinte eurocêntrico, escrita até com um certo trejeito de novelista, “Todos os membros do nosso grupo almoçaram num salão do convés superior, para evitar o atrito com as famílias que ocupam a sala de refeições da primeira classe. São pessoas bem educadas, mas o odor especial dos chineses torna-se intolerável a muitos olfactos europeus. Eles, pelo seu lado, declaram que expelimos um fedor a carne crua, digno da nossa condição de bárbaros. Fazer-nos comer aparte talvez seja também para que não vejamos os manjares favoritos destes passageiros”. Na amurada do navio finalmente divisam a silhueta do Território, “ao contornar o citado promontório aparece lentamente a velha e interessante cidade de Macau. Tem um aspecto multicolor e ligeiro, de povoação do Extremo Oriente, e ao mesmo tempo, uma estabilidade sólida que revela a origem dos seus fundadores. Os edifícios são, na maior parte, obras de alvenaria, e não de madeira, como nas outras cidades chinesas. A maioria tem um piso superior, com arcadas ou galerias cobertas, e, acima dos telhados, destacam-se os campanários das igrejas católicas. Macau, que foi inicialmente denominada ‘Cidade do Santo Nome de Deus na China’ e depois viu esse título substituído por ‘Macau’, de origem indígena, pareceria altamente exótica se fosse possível mudá-la, de repente, para as redondezas de Lisboa. Vista daqui, depois de termos visitado as principais cidades do litoral chinês, recorda-nos o antigo 128 ANTÓNIO ARESTA
  • Portugal e parece vir dela um bafo muito longínquo do nosso mundo”. Palavras sentidas de amigo, mas também palavras de um experimentado viajante habituado a ver os contrastes, as afinidades e os pormenores. Depois são “Guiados pelos ajudantes do governador, jovens de grande cultura intelectual, vamos conhecendo a cidade, pitoresca mistura de edifícios chineses e casarões portugueses do século XVII”. Entre esses ajudantes destaca-se o comandante Sebastião da Costa, homem da “Seara Nova”, grande investigador da cultura e história portuguesas, perseguido e exilado após o 28 de Maio de 1926. Sorte idêntica terá o governador. Regista ainda uma história curiosa com o paladar requintado:“O castelo guarda recordações do ataque dos holandeses no século XVII. Vemos, na sua capela, uma lápide sem nome que cobre os restos dos defensores de Macau. Como diz o Dr. Rodrigues, o culto ao soldado desconhecido, criado pela última guerra, foi inventado pelos defensores de Macau há mais de duzentos anos… Numa esplanada do castelo, obsequeiam-nos com um chá, acompanhado de abundantes alfajores e outros pastéis portugueses que fazem lembrar os da Andaluzia. Que panorama inesquecível!” O preito a Luís de Camões, cuja obra imortal bem conhecia, foi mesmo o verdadeiro motivo da sua viagem: ”No final, visitamos aquilo que é mais interessante para nós, o que nos trouxe a Macau devido à atracção da devoção literária. O governador mostra-nos o jardim onde está a gruta em cujo interior meditava e escrevia Camões, durante as horas mais quentes deste país quase tropical. O citado jardim tem um atractivo comparável ao dos móveis que começam a envelhecer. Nos seus alegretes e arvoredos misturam-se a melancolia dos antigos hortos chineses e a majestade dos jardins portugueses de Sintra”. Não embarcava em falsos moralismos quanto ao jogo e sobre a mais velha profissão do mundo, “Macau não goza da fama de ser um lugar de virtudes, mas não é por isso que se deve considerar pior que os outros portos do Extremo Oriente”. Para fechar a sua rápida estadia, “O governador Rodrigues obsequeia-nos com uma magnífica refeição no seu palácio. Admiro os salões desta residência, que não é velha mas começa a adquirir o encanto do que é antigo. Muitos dos seus móveis vêm de Cantão e têm mais de um século. Nos cantos, há grandes ânforas de porcelana multicolor, como as que fabricavam os chineses noutros tempos”. Estiveram presentes a família do governador e as famílias dos seus ajudantes. Cai assim por terra a repetida lenda sobre o encontro com Camilo Pessanha, que alguns cronistas descreveram com pormenorizada imaginação criadora. Não há menção alguma a Camilo Pessanha, o que é pena, incluindo nos volumes de Correspondência. Esta observação de um impenitente republicano mostra que as boas maneiras não possuem ideologia,“Vemo-nos tratados com a proverbial cortesia dos fidalgos portugueses”. 129FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • De resto, esquecido o cansaço e a pirataria, “Se me perguntarem qual a sensação mais profunda e duradoura da minha viagem à volta do mundo, talvez afirme que é a viagem de Macau a Hongkong, sobre um mar adormecido como uma lagoa, sob a cúpula duma noite esplendorosa, com o incentivo de avançar no mistério, rodeando perigos e quase ao nível das águas”. A memória, o legado e o estudo da sua obra estão bem entregue nas mãos da Fundación Vicente Blasco Ibáñez, da Casa-Museo Blasco Ibáñez, da Asociación Vicente Blasco Ibáñez ou da Revista de Estudios sobre Blasco Ibáñez. Seriamos nós capazes de fazer uma coisa similar, [pelo menos uma instituição], em Macau por Camilo Pessanha? Por Manuel da Silva Mendes? Por Luís Gonzaga Gomes? Por Henrique de Senna Fernandes?130 ANTÓNIO ARESTA
  • VISCONDE DO BOTELHO No impressivo livro de memórias “Um Açoriano no Mundo. Memórias Políticas”, publicado em dois volumes no ano de 1977, José Honorato Gago da Câmara de Medeiros (1906-1979), 3º Visconde do Botelho, traça uma larga e meticulosa panorâmica dos trabalhos da sua vida, uma vida activa em diversas frentes e ornada por múltiplos interesses. Açoriano e aristocrata, empresário e homem de elevado sentido patriótico e cultural, formou-se em engenharia pela Universidade de Gand com especializações em Paris e Londres. Privou com a elite do antigo regime ao mais alto nível, incluindo o Presidente do Conselho António de Oliveira Salazar, e entre outras funções, foi membro da Junta Nacional da Marinha Mercante, da Câmara Corporativa, Cônsul Geral da Nicarágua em Portugal ou Camareiro Secreto de Capa e Espada de Pio XII e de João XXIII. Esteve a um passo de ser nomeado Embaixador de Portugal no Vaticano, uma história que naturalmente não cabe neste espaço. Manteve uma assídua colaboração na imprensa, sobretudo no ‘Diário Popular’ e no ‘Diário de Notícias’. Da sua obra, destaco os títulos seguintes: “O Problema da Marinha Mercante”, 1934; “Contratos de Construção Naval”, 1948; “Quo Vadis, Ocidente?”, 1965; “Nato and the Indian Ocean”, 1972. Entre as suas condecorações avultam a comenda da Ordem Militar de Cristo e o grande oficialato da Ordem do Infante D. Henrique. Macau ocupa um lugar especial e simbólico nas suas memórias. A visita fugaz que fez ao Território em 1963 vem evidenciar não só as fragilidades e o crescente isolamento do regime do Estado Novo, mas sobretudo a possibilidade de se poder abrir uma nova frente diplomática com o regime chinês. E estes lances voluntaristas, por vezes mais ingénuos do que calculistas, arriscam-se por vezes a ficar na história e a deixar um lastro positivo. Recorde-se que as relações diplomáticas entre Portugal e a China foram cortadas em 1949, ano da fundação da República Popular. A governabilidade de Macau foi um continuado milagre de sobrevivência política, 131FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • diplomática, económica e social, procurando-se a harmonia dos opostos, no melhor sentido taoísta. Trinta anos depois, em 1979, as relações foram normalizadas. Em 1987 é assinada a Declaração Conjunta que acordou a transferência da administração em 1999. Demos curso à sua memória. Encontrava-se em Hong Kong quando “decidimos visitar Macau, o que aliás já estava previsto no nosso programa. Informamos disso o cônsul. E no dia seguinte fomos prevenidos de que seríamos hospedes do governador, ao tempo o coronel Lopes dos Santos, que eu não conhecia”. O cônsul de Portugal em Hong Kong, Eduardo Condé, disse-lhe então: “O senhor Visconde, ao desembarcar em Macau será esperado pelo oficial às ordens do governador e também por um chinês, o senhor Roque Choi, cavalheiro alto, falando fluentemente o português, secretário de Ho Yin, o homem mais rico e poderoso de Macau, chefe da ‘colónia’ chinesa, o que significa pelo menos uns 98 por cento da população, membro do Conselho do Governo macaísta e simultaneamente do Parlamento maoísta de Pequim. Vai convidá-lo para um almoço na sua residência. Peço-lhe o favor de logo aceitar. O Senhor Governador está ao corrente e vê isso com muito interesse”. A política e as relações bilaterais são construídas, como se sabe, com estas cortesias e afabilidades, sobretudo no Oriente: “Tudo se passou como fora previsto. O almoço realizou-se no dia seguinte ao da nossa chegada. Eram duas mesas redondas de catorze comensais cada. A única senhora presente, além de minha Mulher e de Gerty Foz, era a esposa de Ho Yin, lindamente vestida e com um riquíssimo colar de pérolas, a mais pequena das quais era maior que a única pérola do anel que minha Mulher pusera naquele dia. Aos brindes, foi-me fácil exaltar as centenárias e excelentes relações entre Portugal e a China, independentemente dos regimes políticos de cada um dos países. Adoramos Macau, nomeadamente o ambiente de harmonia, a bela paisagem e os numerosos edifícios de cunho português. Lopes dos Santos não podia ter sido mais amável”. Percebe-se uma discreta euforia, e “no último dia da nossa estada, Roque Choi informou-me de que, se quiséssemos ir a Pequim, tudo nos facilitaria e que até poderíamos conhecer ali alguns dirigentes políticos. Desejava aceitar o convite e um amigo nosso macaísta, o Dr. António Nolasco da Silva, ofereceu-se imediatamente para nos acompanhar, incitando-nos a empreender a viagem”. Questões de índole pessoal e familiar impediram essa viagem que seria histórica. A China, contudo, não lhe saía do pensamento, “pouco depois de chegar, publiquei no Diário de Notícias dois artigos sobre a China”. Meses depois encontra-se com “Franco Nogueira, nos começos de Fevereiro de 1964, durante um jantar por ele oferecido no Palácio das Necessidades”, onde lhe foi lançado o desafio “para ir numa missão à China”. A missão foi inopinada e misteriosamente cancelada: “Pensei que à sondagem feita pelo Governo português, Mao Tse Tung teria abanado as orelhas. Disseram-me, mais 132 ANTÓNIO ARESTA
  • tarde, que as diligências haviam sido estabelecidas através de Hong Kong. Afinal, vim a saber pelo livro de Jorge Jardim (‘Moçambique Terra Queimada’) que a missão fora cancelada por ‘violenta’ pressão dos Estados Unidos”. Em 29 de Novembro de 1972, após uma entrevista de Chu En Lai ao jornal ‘Times’, da capital inglesa, o Visconde do Botelho publica um importante editorial no ‘Diário Popular’, intitulado ‘Mensagens Chinesas’, que a Censura deixou passar, reflectindo e convocando a intelligentzia portuguesa para as mensagens, principalmente aquelas resguardadas pelo manto da retórica, do primeiro-ministro chinês. Aí o seu pensamento está mais claro e consequente: “não são, talvez, os interesses materiais que levam a China a manter uma atitude inalterável relativamente a Portugal. Deve tratar-se antes de uma questão de ética. Matéria de princípios. A União Soviética, esquecendo-se de que detém sob o seu domínio uma enorme província chinesa, tentou levar a China, por várias vezes, a atacar Macau. A China respondeu sempre que esta cidade não era uma colónia – que ela representa um caso à parte”. Para os seus leitores, descreve Macau deste modo sintético: “é uma cidade de 250 000 habitantes. A população vive feliz e em boa harmonia. A Administração portuguesa é feita em íntima colaboração com os chineses ali radicados. E o seu progresso tem-se acentuado bastante nos últimos anos”. As perguntas que formulou com uma espantosa acuidade ainda hoje nos fazem pensar: “Não poderia – digo poderia – ser altamente construtiva uma leal, franca e estreita colaboração luso-chinesa em todos os azimutes? Não tem ela actuado tão utilmente no campo restrito de Macau? Não constituiria uma opção de horizontes prometedores e vastos?”. As suas indagações continuaram no terreno da realpolitik: “Se a colaboração luso-chinesa deveria ir, a meu ver, para além do âmbito de Macau, onde seria ela então possível – e também oportuna – senão em Moçambique? Não teria sido mais hábil uma descolonização de Moçambique feita com o apoio, sem dúvida, do Ocidente mas, também, com a colaboração da China, povo de ideias largas, de lealdade e seriedade natas, que nunca põe pressa na execução de qualquer plano, preferindo a perfeição na morosidade à imperfeição na rapidez? E que, sem pretensões de domínio, apenas procuraria contribuir para que Moscovo não aumentasse a sua força no Índico. Respeito Mao Tse Tung, como poeta, político e guerreiro. Foi o grande unificador da China contemporânea, que se desagregava por sucessivas invasões estrangeiras a par de divisões internas”. Como se observa, parece-nos importante estudar, reavaliar e recuperar o pensamento estratégico do Visconde do Botelho sobre a China e as relações diplomáticas luso-chinesas, sobretudo os desafios da tolerância que nos deixou. O seu depoimento e as suas reflexões não devem ser negligenciadas no âmbito da sinologia portuguesa contemporânea. Muitas pessoas pensaram Macau fora de Macau. O Visconde do Botelho está nesse grupo.133FIGURAS DE JADE II OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE
  • Livros publicados no âmbito da colecção SUMA ORIENTAL 1 – Timor – da guerra do Pacífico à desanexação Fernando Lima 2 – Liou She Shun – Plenipotenciário do Império da China – Viagem ao Brasil em 1909 Carlos Francisco Moura 3 – Macau 1937-45 – Os anos da Guerra João F. O. Botas 4 – Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje Alexandra Sofia Rangel 5 – Chineses e Chá no Brasil no início do Século XIX Carlos Francisco Moura 6 – Portugal e Indonésia – História do Relacionamento Político e Diplomático (1509-1974) Coordenação - Jorge Santos Alves 7 – Brasileiros nos Extremos Orientais do Império (Séculos XVI a XIX) Carlos Francisco Moura 8 – Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje - Edição Chinesa Alexandra Sofia Rangel 9 – Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente António Aresta 10 – China na Grande Guerra – A Conquista da Nova Identidade Internacional Luís Cunha 11 – Mao, China y Los ‘Otros’ Beatriz Hernández 12 – Joaquim Guerra S.J. (1908-1993) Releitura universalizante dos Clássicos Chineses Antonio José Bezerra de Menezes Jr 13 – Macau Confidencial João Guedes 14 – O Oriente na Literatura Portuguesa – Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes Carlos Miguel Botão Alves 15 – China’s Techno-Nationalism in the Global Era – Strategic Implications for Europe Luis Cunha 16 – Five Hundred Years of Macau Stuart Braga 17 – The Western Pioneers and their discovery of Macao J. M. Braga 18 – Da estada em Macau do Dr. Sun Yat Sen – interpretação do seu pensamento revolucionário Fok Kai Cheong 19 – Before the first Guangzhou uprising in 1895 – The Macau experience deciphering the revolutionary thoughts of Dr. Sun Yat Sen Fok Kai Cheong 20 – Instrumentos Musicais Chineses – Colecção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau/Lisboa Enio de Souza 21 – Para uma Literatura da Identidade Macaense – Autores/Actores Maria Barras Romana 22 – A Faixa e Rota chinesa: a convergência entre Terra e Mar Paulo Duarte
  • 23 – A China e a Revitalização das Antigas Rotas da Seda Novo Vetor do Comércio Mundial Coordenação – Fernanda Ilhéu e Leonor Janeiro 24 – Pioneers of Macao – the story of 14 Chinese who helped to make the city Mak O’Neil 25 – Macau – um diálogo de sucesso Fernando Lima
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